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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O ASSALTO / Daniel Silva
O ASSALTO / Daniel Silva

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

No dia 18 de outubro de 1969, a Natividade com São Francisco e São Lourenço de Caravaggio desapareceu do Oratorio di San Lorenzo, em Palermo, na Sicília. A Natividade, como é habitualmente conhecida, é uma das últimas grandes obras-primas de Caravaggio, pintada em 1609 quando o autor andava fugido à justiça, procurado pelas autoridades papais por ter matado um homem numa luta de espadas. Há já mais de quatro décadas que esse retábulo é o quadro roubado mais procurado do mundo e, no entanto, o seu paradeiro exato, inclusive o seu destino, permanece um mistério. Até agora…

 

 

 

 

Tudo começou com um acidente, mas era invariavelmente isso que acontecia quando estava em causa Julian Isherwood. Com efeito, a sua reputação em matéria de loucuras e infortúnios estava tão incontestavelmente consagrada que o mundo da arte londrino, se tivesse tido conhecimento do caso, o que não sucedeu, não teria esperado outra coisa. Segundo as palavras de um espirituoso do departamento dos Velhos Mestres da Sotheby’s, Isherwood era o santo padroeiro das causas perdidas, um autêntico equilibrista com tendência para estratagemas cuidadosamente planeados que terminavam em ruínas, muitas vezes sem que tivesse qualquer culpa. Consequentemente, era ao mesmo tempo alvo de admiração e de pena, característica rara num homem da sua posição. Julian Isherwood tornava a vida um pouco menos entediante. E, por causa disso, a gente fina de Londres adorava-o.

 

A sua galeria ficava no canto mais distante do pátio quadrangular e de chão empedrado conhecido como Mason’s Yard, ocupando três andares de um armazém a dar de si e que pertencera em tempos à Fortnum & Mason. De um lado, ficavam os escritórios londrinos de uma transportadora grega de pouca monta; do outro, um pub que tinha como clientela estafetas bonitas que andavam de motorizada. Muitos anos atrás, antes de as vagas sucessivas de dinheiro árabe e russo terem inundado o mercado imobiliário londrino, a galeria estava localizada na chique New Bond Street, ou New Bondstrasse, como era conhecida no ramo. A seguir, vieram as marcas do género Hermès, Burberry, Chanel e Cartier, forçando Isherwood e outros como ele — negociantes independentes e especializados em quadros dos Velhos Mestres de categoria museológica — a procurar refúgio em St. James’s.

 

Não tinha sido a primeira vez que Isherwood fora obrigado a exilar-se. Nascido em Paris, nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, e o único filho do célebre negociante de arte Samuel Isakowitz, tinha sido levado para os Pirenéus a seguir à invasão germânica, entrando depois clandestinamente no Reino Unido. A infância parisiense e a linhagem judia eram apenas duas peças de um passado complexo que Isherwood mantinha em segredo do resto do mundo da arte londrino, famoso pela maledicência. Tanto quanto se sabia, era inglês até à medula — tão inglês como o lanche ajantarado e os dentes podres, como gostava de dizer. Era o incomparável Julian Isherwood, Julie para os amigos, Julian Sumarento para os parceiros nos ocasionais crimes de bebida e Sua Santidade para os historiadores de arte e os curadores que recorriam rotineiramente ao seu olho infalível. Era tão leal como o dia era comprido, confiava nas pessoas em demasia, era impecavelmente bem-educado e não tinha verdadeiros inimigos, um feito singular tendo em conta que passara duas vidas inteiras a navegar nas águas traiçoeiras do mundo da arte. Acima de tudo, Julian Isherwood era um homem decente — e nos tempos que corriam, não havia muita decência, em Londres ou em qualquer outro sítio.

 

A Isherwood Fine Arts estava organizada verticalmente: armazéns a abarrotar no rés do chão, escritórios no primeiro andar e uma sala de exposições formal no segundo. Considerada por muitos a mais gloriosa de toda a Londres, a sala de exposições era uma réplica exata da famosa galeria parisiense de Paul Rosenberg, onde Isherwood tinha passado muitas horas felizes durante a infância, várias vezes na companhia de Picasso em pessoa. A zona dos escritórios era um labirinto dickensiano atafulhado até ao cimo de catálogos e monografias amarelecidos. Para lá chegar, os visitantes tinham de passar por duas portas de vidro protegidas, a primeira à saída de Mason’s Yard e a segunda no topo de umas escadas estreitas com uma alcatifa castanha manchada. A seguir, encontrariam Maggie, uma loira de olhar sonolento que não sabia distinguir um Ticiano de papel higiénico. Em tempos, Isherwood fizera uma completa figura de parvo ao tentar seduzi-la e, não lhe restando outra alternativa, acabou por contratá-la como rececionista. Naquele momento, estava a lixar as unhas enquanto o telefone que tinha na secretária ia tocando sem que o atendessem.

 

— Importas-te de atender, Mags? — perguntou Isherwood com benevolência.

 

— Para quê? — respondeu ela, sem ponta de ironia na voz.

 

— Pode ser importante.

 

Revirou os olhos e depois levantou o auscultador com um ar ofendido para o encostar ao ouvido e ronronar:

 

— Isherwood Fine Arts.

 

Passados uns segundos, desligou sem dizer mais uma palavra e recomeçou a tratar das unhas.

 

— E então? — perguntou Isherwood.

 

— Não havia ninguém na linha.

 

— Faz-me um favor, querida, e vê de que número estavam a ligar.

 

— Vão ligar outra vez.

 

Franzindo o sobrolho, Isherwood retomou a avaliação silenciosa do quadro que se encontrava em cima do cavalete forrado a baeta, a meio da sala — uma representação de Cristo a surgir diante de Maria Madalena, provavelmente da autoria de um seguidor de Francesco Albani e que Isherwood, pouco tempo antes, tinha sacado por uma ninharia de uma herdade no Berkshire. O quadro, tal como o próprio Isherwood, estava a precisar urgentemente de restauro. Atingira a idade a que os gestores de bens chamam o outono da vida. Mas não era um outono dourado, pensou sorumbaticamente. Era um outono tardio, com o vento cortante como uma faca e as iluminações de Natal a brilharem ao longo da Oxford Street. Ainda assim, com o fato feito à mão em Savile Row e os fartos caracóis grisalhos, revelava-se uma figura elegante mesmo que precária, um visual que descrevia como depravação dignificada. Naquela fase da vida, não podia almejar a mais nada.

 

— Pensava que um russo qualquer horroroso ia passar cá às quatro para ver um quadro — disse Isherwood de repente, continuando a perscrutar a tela gasta.

 

— O russo horroroso cancelou.

 

— Quando?

 

— Hoje de manhã.

 

— Porquê?

 

— Não disse.

 

— E porque não me avisaste?

 

— Avisei.

 

— Que disparate.

 

— Deves ter-te esquecido, Julian. Anda a acontecer-te muita coisa ultimamente.

 

Isherwood lançou um olhar fulminante a Maggie, ao mesmo tempo que se interrogava como era possível ter-se sentido atraído por uma criatura tão repugnante. A seguir, sem mais nenhum compromisso agendado e claramente sem nada melhor para fazer, enfiou o sobretudo e marchou até ao Green’s Restaurant and Oyster Bar, dando assim início a uma sucessão de acontecimentos que o levaria a mais outra calamidade na qual não tinha responsabilidade. Eram quatro e vinte da tarde. Era um bocadinho cedo para a multidão habitual e o bar estava vazio, tirando Simon Mendenhall, o principal leiloeiro da Christie’s, permanentemente bronzeado. Mendenhall desempenhara em tempos um papel involuntário numa operação conjunta dos serviços secretos israelitas e americanos com o objetivo de penetrar numa rede terrorista jihadista que andava a bombardear a Europa Ocidental a torto e a direito. Isherwood estava ciente disso porque também tinha desempenhado um papel menos importante na operação. Isherwood não era espião. Era ajudante de espiões, e de um em especial.

 

— Julie! — exclamou Mendenhall. Depois, com a voz de cama que reservava para os licitadores relutantes, acrescentou: — Estás com um aspeto absolutamente maravilhoso. Perdeste peso? Foste a algum spa dos carotes? Há por aí rapariga nova? Qual é o teu segredo?

 

— Sancerre — respondeu Isherwood antes de se instalar na mesa habitual ao lado da janela com vista para a Duke Street.

 

E foi aí sentado que pediu uma garrafa desse vinho, brutalmente frio, já que um copo não iria chegar. Passado pouco tempo, Mendenhall foi-se embora com o habitual floreado e Isherwood ficou sozinho com os próprios pensamentos e a bebida, uma combinação perigosa para um homem de idade avançada e com a carreira em completa marcha-atrás.

 

Mas a porta lá acabou por se abrir e da rua molhada e a escurecer brotaram dois curadores da National Gallery. Depois veio uma pessoa importante da Tate, seguida de uma delegação da Bonhams encabeçada por Jeremy Crabbe, o diretor, adepto de roupa de tweed, do departamento dos Velhos Mestres da leiloeira. Logo atrás, chegou Roddy Hutchinson, amplamente considerado o negociante com menos escrúpulos de toda a Londres. A sua chegada era um mau presságio, pois para onde quer que Roddy fosse, o barrigudo Oliver Dimbleby também apareceria de certeza. Conforme se esperava, entrou no bar a bambolear-se passados uns minutos, com toda a discrição de um apito de comboio à meia-noite. Isherwood pegou no telemóvel e fingiu que estava a ter uma conversa urgente, mas Oliver não se deixou enganar. Avançou diretamente para a mesa — como um cão de caça a aproximar-se cada vez mais de uma raposa, recordaria Isherwood mais tarde — e instalou o volumoso traseiro na cadeira desocupada.

 

— Domaine Daniel Chotard — disse num tom de aprovação, tirando a garrafa de vinho do balde com gelo. — Não digo que não.

 

Usava um fato azul à anos oitenta, que se ajustava à sua constituição corpulenta como a pele de uma salsicha, e grandes botões de punho de ouro do tamanho de xelins. Tinha faces redondas e rosadas; os olhos azuis brilhavam com uma intensidade que davam a entender que dormia bem à noite. Oliver Dimbleby era um pecador do mais alto calibre, mas a consciência não o incomodava.

 

— Não leves isto a mal, Julie — disse ao servir-se de uma dose generosa do vinho de Isherwood —, mas pareces um monte de roupa suja.

 

— Não foi isso que o Simon Mendenhall disse.

 

— O Simon ganha a vida a convencer as outras pessoas a gastarem dinheiro. Eu, por outro lado, só digo a verdade nua e crua, mesmo quando ela dói.

 

Dimbleby fixou o olhar em Isherwood com uma expressão de preocupação sincera.

 

— Oh, não olhes para mim dessa maneira, Oliver.

 

— Qual maneira?

 

— Como se estivesses a tentar lembrar-te de qualquer coisa simpática para dizer antes de o médico desligar a máquina.

 

— Já te olhaste ao espelho ultimamente?

 

— Hoje em dia, ando a tentar evitar os espelhos.

 

— Já percebi porquê.

 

Dimbleby despejou mais um pouco de vinho no copo.

 

— Queres que te arranje mais alguma coisa, Oliver? Um bocadinho de caviar?

 

— Não retribuo sempre?

 

— Não, Oliver, não retribuis. Aliás, se andasse a contar, coisa que não ando, já me estavas a dever vários milhares de libras.

 

Dimbleby ignorou o comentário.

 

— O que se passa, Julian? O que te anda a apoquentar desta vez?

 

— Neste preciso momento, és tu, Oliver.

 

— É aquela rapariga, não é, Julie? É por isso que andas em baixo. Como é que ela se chamava mesmo?

 

— Cassandra — respondeu Isherwood para a janela.

 

— Partiu-te o coração, não foi?

 

— Partem-mo sempre.

 

Dimbleby sorriu.

 

— A tua capacidade para o amor é assombrosa. O que eu não dava para me apaixonar só uma vez que fosse.

 

— És o maior mulherengo que eu conheço, Oliver.

 

— Ser mulherengo tem muito pouco que ver com estar apaixonado. Adoro as mulheres, as mulheres todas. E é aí que reside o problema.

 

Isherwood pôs-se a olhar para a rua. Tinha começado a chover outra vez, mesmo a tempo da hora de ponta ao final da tarde.

 

— Vendeste algum quadro ultimamente? — perguntou Dimbleby.

 

— Vários, por acaso.

 

— Não ouvi falar de nada.

 

— Porque as vendas foram privadas.

 

— Tretas — respondeu Oliver, com um risinho trocista. — Há meses que já não vendes nada. Mas isso não te impediu de adquirir stock novo, pois não? Quantos quadros tens guardados naquele teu armazém? Davam para encher um museu e ainda sobravam uns milhares. E estão todos queimadíssimos, mortos e enterrados, como se costuma dizer.

 

A única reação de Isherwood foi coçar o cóccix. Tinha substituído uma tosse demoníaca e era agora o que mais o incomodava fisicamente. Pôs-se a pensar que sempre era melhor. Dores nas costas não causavam mossa aos vizinhos.

 

— A minha proposta continua de pé — estava a dizer Dimbleby.

 

— E qual proposta?

 

— Então, Julie. Não me obrigues a dizê-lo com todas as letras.

 

Isherwood rodou a cabeça ligeiramente e fitou a cara rechonchuda e infantil de Dimbleby.

 

— Não estás a falar outra vez em comprar a minha galeria, pois não?

 

— Estou preparado para ser mais do que generoso. Ofereço-te um preço justo pela pequena parte da tua coleção que é possível vender e sirvo-me do resto para aquecer o prédio.

 

— É muito caridoso da tua parte — respondeu Isherwood sardonicamente —, mas tenho outros planos para a galeria.

 

— Realistas?

 

Isherwood ficou calado.

 

— Muito bem — disse Dimbleby. — Se não me deixas ficar com esse verdadeiro destroço a que chamas galeria, pelo menos deixa-me fazer outra coisa para te ajudar a arrancar do teu atual Período Azul.

 

— Não quero nenhuma das tuas raparigas, Oliver.

 

— Não estou a falar de rapariga nenhuma. Estou a falar de uma viagem agradável para te ajudar a esquecer os problemas.

 

— Onde?

 

— Lago Como. Com as despesas todas pagas. Bilhete de avião em classe executiva. Duas noites numa suíte de luxo do Villa d’Este.

 

— E o que tenho eu de fazer em troca?

 

— Um pequeno favor.

 

— Pequeno, como?

 

Dimbleby serviu-se de mais outro copo de vinho e contou o resto a Isherwood.

 

Segundo parecia, Oliver Dimbleby tinha conhecido há pouco tempo um inglês expatriado que colecionava sofregamente, mas sem o auxílio de um conselheiro artístico experimentado que o orientasse. Além do mais, as finanças do inglês pelos vistos já não eram o que tinham sido em tempos, o que obrigava a que parte das suas posses fosse vendida rapidamente. Dimbleby aceitara dar uma vista de olhos discreta à coleção, mas agora que a viagem se avizinhava, não conseguia enfrentar a perspetiva de entrar noutro avião. Ou assim dizia. Isherwood suspeitava que os verdadeiros motivos de Dimbleby para recuar na decisão de viajar fossem outros, já que Oliver Dimbleby era a personificação dos motivos ulteriores.

 

Ainda assim, havia qualquer coisa na ideia de uma viagem inesperada que atraía Isherwood, pelo que, apesar de saber que provavelmente não o devia fazer, aceitou a proposta de imediato. Nessa noite, fez as malas com pouca roupa e, às nove da manhã seguinte, estava a instalar-se no lugar em classe executiva no voo 576 da British Airways, com ligação direta ao Aeroporto de Malpensa, em Milão. Bebeu apenas um único copo de vinho durante o voo — para bem do coração, disse a si próprio — e, ao meio-dia e meia, ao entrar para um Mercedes alugado, estava na plena posse das suas capacidades. Fez a viagem de carro para norte, em direção ao lago Como, sem auxílio de qualquer mapa ou instrumento de orientação. Sendo um historiador de arte altamente conceituado cuja especialização eram os pintores venezianos, Isherwood tinha viajado inúmeras vezes até Itália para percorrer igrejas e museus. Ainda assim, nunca deixava passar uma possibilidade de lá voltar, sobretudo quando era outra pessoa a pagar as despesas. Julian Isherwood era francês por nascimento e inglês por via da educação, mas dentro do peito escavado batia-lhe o coração romântico e indisciplinado de um italiano.

 

O inglês expatriado das finanças progressivamente diminutas estava à espera de Isherwood às duas. Vivia em grande estilo, de acordo com o e-mail redigido à pressa por Dimbleby, na ponta sudoeste do lago, perto da cidade de Laglio. Isherwood chegou uns minutos mais cedo e deu com o portão imponente aberto, pronto a recebê-lo. Do outro lado, estendia-se um caminho de entrada acabado de pavimentar, que o levou com graciosidade a um pátio de cascalho. Estacionou ao lado do cais privado da villa e dirigiu-se para a porta da rua, passando por estátuas cheias de bolor. Quando tocou à campainha, ninguém apareceu. Isherwood confirmou que horas eram antes de tocar à campainha uma segunda vez. O resultado foi o mesmo.

 

Nesse momento, o mais sensato que Isherwood poderia ter feito seria voltar para o carro alugado e sair de Como o mais depressa possível. Em vez disso, experimentou o trinco e, infelizmente, viu que a porta não estava trancada. Abriu-a uns centímetros, gritou um cumprimento para o interior às escuras e depois avançou de forma titubeante para o majestoso átrio de entrada. Reparou de imediato na poça de sangue no chão de mármore, nos dois pés descalços suspensos no ar e na cara inchada, de um azul muito escuro, a olhar para baixo. Isherwood sentiu os joelhos a ceder e viu o chão erguer-se para o receber. Ficou ali ajoelhado um instante até a vaga de náusea lhe passar. A seguir, levantou-se, cambaleante, e, com a mão a tapar a boca, saiu da villa aos tropeções, em direção ao carro. E ainda que na altura não tivesse dado conta, ia amaldiçoando o nome do atarracado Oliver Dimbleby a cada passo.

 

Ao início da manhã seguinte, Veneza perdeu mais uma escaramuça na guerra antiga que travava com o mar. As águas das cheias levaram todo o tipo de criaturas marinhas para dentro do átrio do Hotel Cipriani e inundaram o Harry’s Bar. Turistas dinamarqueses foram tomar um banho matinal na Piazza San Marco; havia mesas e cadeiras do Caffè Florian a bater repetidamente nos degraus da basílica, como se fossem destroços de um transatlântico de luxo afundado. Por uma vez, não havia pombos em lado nenhum. A maioria tinha fugido sensatamente da cidade submersa, à procura de terra seca.

 

No entanto, havia partes de Veneza em que a acqua alta era mais um incómodo do que uma calamidade. Com efeito, o restaurador conseguiu dar com um arquipélago de terra razoavelmente seca que se prolongava da porta do seu apartamento no sestiere de Cannaregio até Dorsoduro, na extremidade sul da cidade. O restaurador não tinha nascido em Veneza, mas conhecia-lhe as ruelas e praças melhor do que a maioria dos nativos. Estudara o ofício em Veneza, amara e fizera luto em Veneza e, uma vez, quando era conhecido por outro nome que não o dele, fora obrigado pelos inimigos a fugir de Veneza. Agora, depois de uma longa ausência, regressara à sua adorada cidade de água e quadros, a única cidade onde tinha sequer sentido qualquer coisa minimamente parecida com contentamento. Mas paz, não; para o restaurador, a paz era apenas o período entre a última guerra e a seguinte. Era efémera, uma falsidade. Os poetas e as viúvas sonhavam com ela, mas homens como o restaurador nunca se permitiam ser seduzidos pela noção de que a paz até poderia ser possível.

 

Parou num quiosque para ver se estava a ser seguido e depois continuou no mesmo sentido. Tinha uma estatura abaixo da média — talvez um metro e setenta e dois, mas não mais do que isso — e o físico delgado de um ciclista. A cara era comprida, com um queixo estreito, maçãs do rosto largas e um nariz fino que parecia ter sido esculpido em madeira. Os olhos que espreitavam por baixo da aba da boina eram de um verde invulgar; o cabelo, da cor da cinza nas têmporas. Trazia um oleado e umas botas impermeáveis, mas não um chapéu para se proteger da chuva constante. Por hábito, em público, nunca se deixava ficar preso a qualquer objeto que pudesse dificultar o movimento rápido das mãos.

 

Entrou em Dorsoduro, o ponto mais elevado da cidade, e dirigiu-se para a Igreja de San Sebastiano. A entrada principal estava fechada a sete chaves e havia um aviso com aspeto oficial a explicar que o edifício ia ficar fechado ao público até ao outono seguinte. O restaurador aproximou-se de uma porta mais pequena no lado direito da igreja e abriu-a com uma chave-mestra pesada. Uma lufada de ar fresco vinda do interior acariciou-lhe a face. Fumo de velas, incenso e bolor velho: havia qualquer coisa no cheiro que lhe recordava a morte. Fechou a porta depois de entrar, esquivou-se de uma pia batismal cheia de água benta e avançou.

 

A nave estava às escuras e não havia bancos. O restaurador caminhou em silêncio pelas pedras lisas e gastas pelo tempo, atravessando discretamente o portão aberto do gradeamento do altar. Tinham tirado a mesa eucarística ornamentada para a limpar; no lugar desta, erguia-se um andaime de alumínio de nove metros. O restaurador trepou-o com a agilidade de um gato doméstico e passou para o outro lado de uma capa de lona, mais uma vez discretamente, entrando na plataforma onde estava a trabalhar. O material encontrava-se precisamente como o tinha deixado na noite anterior: frascos com produtos químicos, algodão hidrófilo, umas quantas cavilhas de madeira, uma lupa, dois candeeiros com potentes lâmpadas de halogéneo e uma aparelhagem portátil manchada de tinta. O retábulo — Virgem e o Menino em Glória com Santos, de Paolo Veronese — também se encontrava como o tinha deixado. Era apenas um de vários quadros notáveis que Veronese produzira para a igreja entre 1556 e 1565. A tumba dele, com um busto de mármore sombrio, ficava do lado esquerdo do presbitério. Naqueles momentos, quando a igreja estava vazia e às escuras, o restaurador quase conseguia sentir o fantasma de Veronese a observá-lo a trabalhar.

 

O restaurador acendeu os candeeiros e deixou-se ficar parado diante do retábulo durante um longo momento. No cimo, estavam Maria e o Menino Jesus, sentados em cima de nuvens de glória e rodeados por anjos músicos. Por baixo, olhando para cima em êxtase, encontrava-se um grupo de santos, incluindo o santo padroeiro da igreja, Sebastião, que Veronese representou em martírio. Ao longo das três semanas anteriores, o restaurador tinha estado a retirar meticulosamente o verniz rachado e amarelecido com uma mistura cuidadosamente calibrada de acetona, acetato metílico e essências minerais. Conforme gostava de explicar, retirar o verniz de um quadro barroco não era a mesma coisa que desmontar uma mobília; era mais parecido com esfregar o convés de um porta-aviões com uma escova de dentes. Primeiro tinha de preparar uma mecha com o algodão hidrófilo e uma cavilha de madeira. Depois de humedecer a mecha com o solvente, aplicava-a na superfície da tela e girava-a com delicadeza para que a tinta não lascasse ainda mais. Cada mecha era capaz de limpar cerca de seis centímetros quadrados do quadro até ficar demasiado suja para se poder continuar a utilizar. À noite, quando não estava a sonhar com sangue e fogo, o restaurador estava a retirar verniz amarelecido de uma tela do tamanho da Piazza San Marco.

 

Mais uma semana, pensou, e a seguir estaria pronto para passar à segunda fase do restauro, retocando as partes da tela em que a tinta original de Veronese tinha lascado. As figuras de Maria e do Menino Jesus não tinham sofrido praticamente danos, mas o restaurador descobrira grande deterioração no topo e na parte de baixo da tela. Se tudo corresse conforme planeado, terminaria o restauro quando a mulher estivesse a entrar nas últimas semanas da gravidez. Se tudo corresse conforme planeado, pensou outra vez.

 

Introduziu um CD da ópera La Bohème na aparelhagem e, passado um momento, o santuário encheu-se das notas iniciais de Non sono in vena. Ao mesmo tempo que Rodolfo e Mimi se estavam a apaixonar num estúdio minúsculo numas águas-furtadas parisienses, o restaurador encontrava-se sozinho diante do Veronese, a retirar meticulosamente a sujidade da superfície e o verniz amarelecido. Foi trabalhando sem parar e a um ritmo tranquilo — molhar, girar, deitar fora… molhar, girar, deitar fora — até a plataforma ficar cheia de bolas acres de algodão sujo. Veronese tinha aperfeiçoado fórmulas para tintas que não esmoreciam com os anos; e à medida que o restaurador ia retirando cada porção diminuta de verniz castanho cor de tabaco, as cores por baixo brilhavam intensamente. Quase parecia que o mestre tinha aplicado a tinta na tela apenas na véspera e não há quatro séculos e meio.

 

O restaurador teve a igreja por conta dele mais duas horas. Às dez, ouviu o barulho de botas a atravessar o chão de pedra da nave. As botas pertenciam a Adrianna Zinetti, limpadora de altares e sedutora de homens. Depois veio Lorenzo Vasari, um talentoso restaurador de frescos que ressuscitara quase sozinho a Última Ceia de Leonardo. A seguir, foi a vez do arrastar de pés conspiratório de Antonio Politi, que, para grande irritação do próprio, tinha ficado incumbido dos painéis do teto e não do retábulo principal. Consequentemente, passava os dias deitado de costas como um Miguel ngelo dos tempos modernos, lançando olhares ferozes e rancorosos à plataforma tapada do restaurador, bem lá no alto, por cima do coro.

 

Não era a primeira vez que o restaurador e os outros membros da equipa trabalhavam juntos. Vários anos antes, tinham realizado restauros importantes na Igreja de San Giovanni Crisostomo, em Cannaregio, e, primeiro, na Igreja de San Zaccaria, em Castello. Na altura, pensavam que o restaurador era o brilhante mas ciosamente reservado Mario Delvecchio. Viriam a descobrir mais tarde, juntamente com o resto do mundo, que se tratava do lendário agente dos serviços secretos e assassino israelita chamado Gabriel Allon. Adrianna Zinetti e Lorenzo Vasari tinham sido capazes de perdoar Gabriel pelo logro, mas Antonio Politi, não. Quando era jovem, acusara uma vez Mario Delvecchio de ser um terrorista e achava que Gabriel Allon também o era. Em segredo, desconfiava que era por causa de Gabriel que passava os dias nos confins superiores da nave, deitado de costas e completamente torto, isolado de qualquer contacto humano, com solvente e tinta a pingarem-lhe na cara. Os painéis ilustravam a história da rainha Ester. Com certeza que, dizia Politi a quem quer que o quisesse ouvir, não era coincidência.

 

Na verdade, Gabriel não tivera nada que ver com essa decisão; tinha sido tomada por Francesco Tiepolo, proprietário da empresa de restauro mais destacada do Veneto e diretor do projeto de San Sebastiano. Uma figura que lembrava um urso, com uma intricada barba grisalha e preta, Tiepolo era um homem de paixões e apetites gigantescos, capaz de grande raiva e de ainda maior amor. Quando avançou até ao centro da nave, vinha vestido, como de costume, com uma camisa larga parecida com uma túnica e trazia um lenço de seda atado ao pescoço. Pela roupa, mais parecia estar a dirigir a construção da igreja e não a sua renovação.

 

Tiepolo parou por uns instantes para admirar Adrianna Zinetti, com quem tinha tido em tempos um caso que era um dos segredos mais mal guardados de Veneza. A seguir, trepou o andaime de Gabriel e avançou pela abertura na capa de lona. A plataforma de madeira pareceu ceder com o seu enorme peso.

 

— Cuidado, Francesco — avisou Gabriel, franzindo o sobrolho. — O chão do altar é de mármore e ainda é uma queda grande.

 

— Que queres dizer com isso?

 

— Quero dizer que talvez valesse a pena emagreceres alguns quilos. Estás a começar a desenvolver a tua própria força gravitacional.

 

— E de que me servia perder peso? Podia emagrecer vinte quilos que continuava a ser gordo.

 

O italiano avançou um passo e examinou o retábulo espreitando por cima do ombro de Gabriel.

 

— Muito bem — disse, fingindo admiração. — Se continuares a este ritmo, acabas a tempo do primeiro aniversário dos teus filhos.

 

— Posso fazê-lo rapidamente — respondeu Gabriel — ou posso fazê-lo bem.

 

— As duas coisas não se excluem mutuamente, sabes? Aqui em Itália, os nossos restauradores trabalham rapidamente. Mas tu, não — acrescentou Tiepolo. — Mesmo quando andavas a fingir que eras um de nós, sempre foste muito lento.

 

Gabriel preparou uma mecha nova, humedeceu-a com o solvente e girou-a sobre o tronco de São Sebastião, trespassado por flechas. Tiepolo observou-o com atenção durante um momento; a seguir, preparou ele próprio uma mecha e começou a passá-la pelo ombro do santo. O verniz amarelecido dissolveu-se de imediato, deixando ver a tinta imaculada de Veronese.

 

— A mistura do teu solvente é perfeita — disse Tiepolo.

 

— É sempre — respondeu Gabriel.

 

— O que usas?

 

— É segredo.

 

— Contigo tem de ser sempre tudo um segredo?

 

Ao ver que Gabriel não iria responder, Tiepolo olhou para os frascos com os produtos químicos.

 

— Quanto acetato metílico usaste?

 

— Precisamente a quantidade certa.

 

Tiepolo fez uma careta.

 

— Não te arranjei trabalho quando a tua mulher resolveu que queria passar a gravidez em Veneza?

 

— Arranjaste, Francesco.

 

— E não te pago muito mais do que pago aos outros — sussurrou —, apesar de andares sempre a desaparecer de cada vez que os teus amos precisam dos teus serviços?

 

— Sempre foste muito generoso.

 

— Então porque não me queres dizer qual é a fórmula do teu solvente?

 

— Porque o Veronese tinha a fórmula secreta dele e eu tenho a minha.

 

Tiepolo agitou a mão gigantesca, num gesto de desprezo. Depois deitou fora a mecha suja e preparou uma nova.

 

— A chefe de redação do New York Times em Roma ligou-me ontem à noite — disse, como quem não queria a coisa. — Está interessada em escrever um artigo sobre o restauro para a secção de arte de domingo. Quer vir cá sexta para dar uma vista de olhos.

 

— Se não te importares, Francesco, acho que vou tirar o dia na sexta.

 

— Logo vi que ias dizer isso — respondeu Tiepolo, olhando de soslaio para Gabriel. — Nem sequer te sentes tentado?

 

— A quê?

 

— A mostrar ao mundo o verdadeiro Gabriel Allon. O Gabriel Allon que cuida das obras dos grandes mestres. O Gabriel Allon que é capaz de pintar como um anjo.

 

— Só falo com jornalistas em último recurso. E nunca me ia passar pela cabeça falar com um sobre mim.

 

— Tens tido uma vida interessante.

 

— Isso é dizer pouco.

 

— Se calhar, está na altura de saíres de trás desse véu.

 

— E a seguir?

 

— Podes passar o resto dos teus dias aqui em Veneza connosco. No fundo, sempre foste veneziano, Gabriel.

 

— É tentador.

 

— Mas…?

 

Pela expressão que fez, Gabriel deixou bem claro que não pretendia falar mais do assunto. E depois, voltando-se para a tela, perguntou:

 

— Recebeste mais algum telefonema de que eu deva ter conhecimento?

 

— Só um — respondeu Tiepolo. — O general Ferrari dos Carabinieri vem cá à cidade mais ao fim da manhã. E queria dar-te uma palavrinha em privado.

 

Gabriel virou-se bruscamente e olhou para Tiepolo.

 

— Para falar de quê?

 

— Não disse. O general é bem melhor a fazer perguntas do que a responder a elas.

 

Tiepolo escrutinou Gabriel durante um momento.

 

— Não fazia ideia de que tu e o general eram amigos.

 

— E não somos.

 

— Então como o conheces?

 

— Pediu-me um favor uma vez e a minha única opção foi aceitar.

 

Tiepolo fez questão de mostrar que estava a ponderar o que tinha ouvido.

 

— Deve ter sido aquela questão há uns anos no Vaticano, aquela rapariga que caiu da cúpula da Basílica. Se bem me lembro, estavas a restaurar-lhes o Caravaggio na altura em que isso aconteceu.

 

— Ai estava?

 

— O rumor era esse.

 

— Não devias prestar atenção aos rumores, Francesco. Estão quase sempre errados.

 

— A não ser que tenham que ver contigo — respondeu Tiepolo, com um sorriso.

 

Gabriel deixou que o comentário ecoasse até ao coro sem resposta. A seguir, retomou o trabalho. Uns instantes antes, estava a servir-se da mão direita. Agora estava a servir-se da esquerda, com a mesma destreza.

 

— És como o Ticiano — disse Tiepolo, observando-o. — És um sol entre estrelas pequenas.

 

— Se não me deixares em paz, o sol nunca mais vai acabar este quadro.

 

Tiepolo não se mexeu.

 

— Tens a certeza de que não és ele? — perguntou passado um momento.

 

— Quem?

 

— O Mario Delvecchio.

 

— O Mario morreu, Francesco. O Mario nunca existiu.

 

O quartel regional dos Carabinieri, a polícia militar nacional italiana, ficava no sestiere de Castello, não muito longe do Campo San Zaccaria. O general Cesare Ferrari saiu do edifício à uma em ponto. Tinha abandonado o uniforme azul com as várias medalhas e insígnias e trazia antes um fato de executivo. Estava a agarrar com força uma pasta de aço inoxidável com uma mão. A outra, à qual faltavam dois dedos, tinha-a enfiada no bolso de um sobretudo de corte elegante. Tirou de lá a mão durante o tempo necessário para a estender a Gabriel. Fez um sorriso breve e formal. Como de costume, não teve influência no olho direito prostético. Até Gabriel tinha dificuldade em aguentar aquela mirada inerte e inflexível. Era como estar a ser examinado pelo olho que tudo vê de um Deus impiedoso.

 

— Está com bom aspeto — disse o general Ferrari. — Dá para ver que estar de volta a Veneza lhe faz bem.

 

— E como sabia o senhor que eu aqui estava?

 

O segundo sorriso do general durou pouco mais do que o primeiro.

 

— Há muito pouca coisa que se passa em Itália que eu não saiba, sobretudo no que diz respeito a si.

 

— E como é que o senhor sabia? — perguntou Gabriel outra vez.

 

— Quando pediu autorização aos nossos serviços secretos para regressar a Veneza, eles transmitiram essa informação para todos os ministérios e organismos policiais. E um desses sítios foi o palazzo.

 

O palazzo a que o general se estava a referir dava para a Piazza di Sant’Ignazio, no centro da Roma antiga. Acolhia a Divisão de Defesa do Património Cultural, mais conhecida como Brigada de Arte. O general Ferrari era o comandante. E tinha razão numa coisa, pensou Gabriel. Havia muito pouca coisa que se passasse em Itália de que o general não soubesse.

 

Filho de professores da região empobrecida da Campânia, Ferrari era considerado há muito um dos agentes policiais mais competentes e bem-sucedidos de Itália. Durante os anos setenta do século XX, uma época de mortíferos atentados terroristas em Itália, ajudou a neutralizar as Brigadas Vermelhas comunistas. A seguir, ao longo das guerras da Máfia nos anos oitenta, foi comandante da divisão de Nápoles, infestada pela Camorra. Era um cargo tão perigoso que a mulher e as três filhas de Ferrari foram forçadas a viver vinte e quatro horas sob proteção. O próprio Ferrari foi alvo de variadíssimos atentados, incluindo a bomba numa carta que lhe levou o olho e dois dedos.

 

A nomeação para a Brigada de Arte era supostamente uma recompensa por uma carreira longa e ilustre. Pensou-se que Ferrari se limitaria a seguir as pisadas do seu apagado antecessor, que iria andar a tratar de papelada, a fazer longos almoços em Roma e que, de vez em quando, encontraria um ou dois dos quadros dignos de museus que todos os anos eram roubados em Itália. Em vez disso, começou de imediato a modernizar uma unidade em tempos eficaz e que se tinha deixado atrofiar com a idade e a negligência. Poucos dias depois de chegar, despediu metade do pessoal e reabasteceu rapidamente as fileiras com agentes jovens e agressivos, que até sabiam alguma coisa de arte. As ordens que lhes deu foram simples. Não estava muito interessado nos mânfios de rua que roubavam de quando em vez arte; queria apanhar o peixe graúdo, os chefes que punham o material roubado no mercado. Não demorou muito até que a nova abordagem trouxesse dividendos. Mais de uma dúzia de ladrões importantes foi parar atrás das grades e, apesar de continuarem espantosamente elevadas, as estatísticas dos roubos de arte estavam a começar a melhorar.

 

— Então o que o traz a Veneza? — perguntou Gabriel enquanto ia levando o general pelo meio dos lagos temporários do Campo San Zaccaria.

 

— Tinha questões a tratar no Norte, mais propriamente no lago Como.

 

— Roubaram alguma coisa?

 

— Não — respondeu o general. — Assassinaram uma pessoa.

 

— E desde quando é que a Brigada de Arte se interessa por cadáveres?

 

— Desde que o falecido tem ligações ao mundo da arte.

 

Gabriel parou e virou-se para olhar de frente o general.

 

— Ainda não respondeu à minha pergunta — disse. — Porque veio a Veneza?

 

— Por causa de si, claro.

 

— E o que tem um cadáver em Como que ver comigo?

 

— A pessoa que o descobriu.

 

O general estava outra vez a sorrir, mas tinha o olho prostético a olhar fixa e inexpressivamente para o vazio. Era o olho de um homem que sabia tudo, pensou Gabriel. Um homem que não estava disposto a admitir recusas.

 

Entraram na igreja pela entrada principal à saída do campo e digiram-se para o famoso retábulo de San Zaccaria da autoria de Bellini. Um grupo de turistas estava parado diante dele enquanto um guia discursava empoladamente sobre o mais recente restauro do quadro, sem saber que o homem que o tinha realizado o estava a ouvir. Até o general Ferrari pareceu achar piada, embora passado um momento a sua mirada monocular começasse a vaguear. O Bellini era a obra mais importante de San Zaccaria, mas a igreja também possuía vários outros quadros de renome, incluindo obras de Tintoretto, Palma Vecchio e Van Dyke. Era apenas um exemplo do que levava os Carabinieri a ter uma unidade dedicada de detetives de arte. A Itália fora abençoada com duas coisas em abundância: arte e criminosos profissionais. Muita da arte, tal como a arte daquela igreja, estava mal protegida. E muitos dos criminosos estavam determinados em roubá-la toda.

 

Do outro lado da nave, ficava uma pequena capela, onde se encontrava a cripta do padroeiro e uma tela da autoria de um pintor veneziano de pouca monta que ninguém se dava ao trabalho de limpar há mais de um século. O general Ferrari sentou-se num dos bancos, abriu a pasta de metal e tirou de lá um dossiê. A seguir, tirou do dossiê uma fotografia de 20 centímetros por 25 centímetros, que passou a Gabriel. Mostrava um homem a entrar na terceira idade, suspenso de um candelabro pelos pulsos. Pela imagem, não se percebia ao certo qual tinha sido a causa da morte, mas era evidente que o homem fora selvaticamente torturado. A cara estava toda desfeita, inchada e ensanguentada, e tinham-lhe sido arrancados vários pedaços de pele e carne do tronco.

 

— Quem era ele? — perguntou Gabriel.

 

— Chamava-se James Bradshaw, mais conhecido como Jack. Era um súbdito britânico, mas passava a maior parte do tempo em Como, tal como vários milhares de compatriotas.

 

O general fez uma pausa, com ar pensativo.

 

— Parece que os britânicos já não gostam muito de viver no próprio país, não é?

 

— É.

 

— E porque será?

 

— Tem de lhes perguntar.

 

Gabriel olhou para a fotografia e estremeceu.

 

— Era casado?

 

— Não.

 

— Divorciado?

 

— Também não.

 

— Cara-metade?

 

— Parece que não.

 

Gabriel devolveu a fotografia ao general e perguntou-lhe o que fazia Jack Bradshaw na vida.

 

— Dizia que era consultor.

 

— De que tipo?

 

— Trabalhou durante muitos anos no Médio Oriente como diplomata. Depois reformou-se cedo e foi trabalhar por conta própria. Pelos vistos, aconselhava empresas britânicas que queriam entrar no mundo árabe. Devia ser bastante bom no que fazia — acrescentou o general — porque a villa dele era das mais caras naquela parte do lago. E também lá tinha uma coleção bastante impressionante de arte e antiguidades italianas.

 

— O que explica o interesse da Brigada de Arte na morte dele.

 

— Em parte — respondeu o general. — Afinal de contas, não é crime nenhum ter uma boa coleção.

 

— A não ser que essa coleção seja adquirida à revelia da lei italiana.

 

— Você está sempre um passo à frente de toda a gente, não é, Allon?

 

O general olhou para o quadro escurecido pendurado na parede da capela.

 

— Porque não o limparam no último restauro?

 

— Não havia dinheiro que chegasse.

 

— O verniz está praticamente opaco.

 

O general fez uma pausa e depois acrescentou:

 

— Tal e qual como o Jack Bradshaw.

 

— Que descanse em paz.

 

— Não é muito provável, depois de uma morte daquelas.

 

Ferrari olhou para Gabriel e perguntou:

 

— Já teve ocasião de estar perante o seu próprio fim?

 

— Infelizmente, já tive várias. Mas se não se importa, preferia falar dos hábitos de colecionador do Jack Bradshaw.

 

— O falecido senhor Bradshaw tinha a reputação de adquirir quadros que não estavam propriamente à venda.

 

— Quadros roubados?

 

— Essas palavras são suas, meu amigo. Não são minhas.

 

— Andavam a vigiá-lo?

 

— Digamos que a Brigada de Arte acompanhava as atividades dele o melhor que podia.

 

— Como?

 

— Das maneiras habituais — respondeu o general evasivamente.

 

— Imagino que os seus homens estejam a fazer um inventário completo e minucioso da coleção dele.

 

— Neste preciso momento.

 

— E?

 

— Até agora, não encontraram nada que estivesse na nossa base de dados de obras desaparecidas ou roubadas.

 

— Então imagino que o senhor vá ter de retirar todas as coisas desagradáveis que disse do Jack Bradshaw.

 

— Só porque não há provas, não quer dizer que não seja verdade.

 

— Falou como um verdadeiro polícia italiano.

 

Pela expressão do general Ferrari, era evidente que tinha interpretado o comentário de Gabriel como um elogio. Passado um momento, disse:

 

— Ouviam-se outras coisas sobre o falecido Jack Bradshaw.

 

— Que género de coisas?

 

— Que não era só um colecionador privado, que estava envolvido na exportação ilegal de quadros e outras obras de arte a partir de território italiano.

 

O general baixou a voz e acrescentou:

 

— O que explica por que razão o seu amigo Julian Isherwood está num sarilho bem grande.

 

— O Julian Isherwood não trabalha com arte contrabandeada.

 

O general não se deu ao trabalho de responder. Na opinião dele, os negociantes de arte eram todos culpados de alguma coisa.

 

— E onde é que ele está? — perguntou Gabriel.

 

— Detive-o.

 

— E acusaram-no de alguma coisa?

 

— Ainda não.

 

— De acordo com a lei italiana, não podem detê-lo por mais de quarenta e oito horas sem ser apresentado a um juiz.

 

— Encontraram-no ao pé de um cadáver. Hei de pensar em qualquer coisa.

 

— O senhor sabe que o Julian não teve nada que ver com a morte do Bradshaw.

 

— Não se preocupe — respondeu o general. — De momento, não faço tenções de recomendar que ele seja acusado. Mas se viesse a público que o seu amigo se ia encontrar com um contrabandista conhecido, a carreira dele acabava. Sabe, Allon, no mundo da arte, a perceção corresponde à realidade.

 

— E o que tenho eu de fazer para o nome do Julian não aparecer nos jornais?

 

O general não respondeu logo; estava a estudar a fotografia do cadáver de Jack Bradshaw.

 

— Porque acha que o torturaram antes de o matarem? — perguntou por fim.

 

— Se calhar, devia-lhes dinheiro.

 

— Se calhar — concordou o general. — Ou, se calhar, tinha qualquer coisa que os assassinos queriam, qualquer coisa mais valiosa.

 

— Ia dizer-me o que eu tenho de fazer para salvar o meu amigo.

 

— Descobrir quem matou o Jack Bradshaw. E descobrir do que andavam à procura.

 

— E se eu recusar?

 

— O mundo da arte londrino vai ser inundado de rumores desagradáveis.

 

— O senhor é um chantagista reles, general Ferrari.

 

— Chantagem é uma palavra feia.

 

— Pois é — respondeu Gabriel. — Mas, no mundo da arte, a perceção corresponde à realidade.

 

Gabriel conhecia um bom restaurante não muito longe da igreja, numa esquina sossegada de Castello onde os turistas raramente se aventuravam. O general Ferrari pediu grandes quantidades de comida; Gabriel passou o tempo a remexer no que tinha no prato e a bebericar um copo de água mineral com limão.

 

— Não tem fome? — perguntou o general.

 

— Estava com esperanças de passar mais umas horas com o meu Veronese hoje à tarde.

 

— Então é melhor comer qualquer coisa. Vai precisar de força.

 

— Não é assim que funciona.

 

— Não come quando está a fazer um restauro?

 

— Café e um bocado de pão.

 

— Que tipo de dieta é essa?

 

— Das que me deixam concentrar.

 

— Não admira que seja tão magro.

 

O general Ferrari dirigiu-se para o carrinho das entradas e voltou a encher o prato. Não havia mais ninguém no restaurante, só lá estavam o dono e a filha, uma morena bonita com doze ou treze anos. A criança era espantosamente parecida com a filha de Abu Jihad, o número dois da OLP, que Gabriel, num fim de tarde quente de primavera, em 1988, assassinara na villa deste em Tunes. O assassínio tinha sido levado a cabo no escritório de Abu Jihad, no primeiro andar, onde este estava a ver vídeos da intifada palestiniana. A rapariga assistira a tudo: dois tiros no peito que o imobilizaram, dois tiros fatais na cabeça, tudo ao som da música da revolta árabe. Gabriel já não se conseguia lembrar da máscara de morte de Abu Jihad, mas o retrato da rapariga, serena mas a fervilhar de raiva, ocupava um lugar de destaque nas salas de exposição da sua memória. Quando o general se sentou novamente, Gabriel tapou o rosto dela com uma camada de tinta obliterante. Inclinou-se sobre a mesa e perguntou:

 

— Porquê eu?

 

— E porque não?

 

— Quer que eu comece pelas razões óbvias?

 

— Se isso o fizer sentir melhor.

 

— Não sou da polícia italiana. Aliás, sou uma coisa bem diferente.

 

— Mas já tem um longo passado aqui em Itália.

 

— E nem todo é agradável.

 

— É verdade — concordou o general. — Mas, pelo caminho, foi fazendo contactos importantes. Tem amigos em lugares de destaque, como o Vaticano. E, talvez mais importante ainda, também tem amigos em lugares clandestinos. Conhece o país de uma ponta a outra e está casado com uma italiana. É praticamente um de nós.

 

— A minha mulher já não é italiana.

 

— E que língua falam em casa?

 

— Italiano — admitiu Gabriel.

 

— Mesmo quando estão em Israel?

 

Gabriel assentiu com a cabeça.

 

— Não é preciso dizer mais nada.

 

O general calou-se, com um ar pensativo.

 

— Isto é capaz de o surpreender — disse por fim —, mas quando um quadro desaparece ou fazem mal a alguém, costumo saber bastante bem quem é o responsável. Temos mais de cem informadores ao nosso serviço e já vigiámos mais telefones e endereços de e-mail do que a NSA. Quando acontece alguma coisa na parte criminosa do mundo da arte, há sempre conversa. Como vocês costumam dizer no ramo do contraterrorismo, os nós começam a piscar.

 

— E desta vez?

 

— O silêncio é ensurdecedor.

 

— E o que acha que isso quer dizer?

 

— Quer dizer que, com toda a probabilidade, os homens que mataram o Jack Bradshaw não são italianos.

 

— E tem alguma ideia de onde possam ser?

 

— Não — respondeu o general, abanando a cabeça lentamente —, mas o nível da violência preocupa-me. Já vi muitos cadáveres na minha carreira, mas este era diferente. As coisas que fizeram ao Jack Bradshaw foram… — A voz sumiu-se. Depois, lá concluiu: — Medievais.

 

— E agora quer que eu me meta com eles.

 

— Parece-me ser um homem que sabe cuidar de si.

 

Gabriel ignorou o comentário.

 

— A minha mulher está grávida. Não posso de maneira nenhuma deixá-la sozinha.

 

— Nós tomamos bem conta dela. — Baixou a voz e acrescentou: — Já estamos a fazê-lo.

 

— É bom saber que o governo italiano nos anda a espiar.

 

— Não estava à espera de outra coisa, pois não?

 

— Claro que não.

 

— Também me pareceu que não. Além disso, Allon, é para o seu bem. Tem imensos inimigos.

 

— E agora o senhor quer que eu faça mais um.

 

O general pousou o garfo e olhou pela janela contemplativamente, à maneira do doge Leonardo Loredan.

 

— É meio irónico — soltou passado um momento.

 

— O quê?

 

— Que um homem como você tenha decidido ir viver num gueto.

 

— Não vivo mesmo no gueto.

 

— É quase a mesma coisa — respondeu o general.

 

— É um bairro simpático, o mais simpático de Veneza, se quer saber a minha opinião.

 

— Está cheio de fantasmas.

 

Gabriel olhou de relance para a rapariga.

 

— Não acredito em fantasmas.

 

O general passou ao de leve com o guardanapo pelo canto da boca, com uma expressão de ceticismo.

 

— E como iria isto funcionar? — perguntou Gabriel.

 

— Considere-se um dos meus informadores.

 

— Ou seja?

 

— Penetre nas profundezas do mundo da arte e descubra quem matou o Jack Bradshaw. Eu trato do resto.

 

— E se eu não descobrir nada?

 

— Estou convicto de que vai descobrir.

 

— Isso soa-me a uma ameaça.

 

— Ai sim?

 

O general não disse mais nada. Gabriel soltou um suspiro profundo.

 

— Vou precisar de umas coisas.

 

— Como por exemplo?

 

— O habitual — respondeu Gabriel. — Registos telefónicos, cartões de crédito, e-mails, históricos de navegação na Internet e uma cópia do disco rígido dele.

 

O general indicou a pasta com a cabeça.

 

— Está ali tudo — disse —, mais todos os rumores desagradáveis que fomos ouvindo acerca dele.

 

— E também vou precisar de dar uma vista de olhos à villa e à coleção dele.

 

— Dou-lhe uma cópia do inventário quando o tivermos terminado.

 

— Não quero nenhum inventário. Quero ver os quadros.

 

— Feito — respondeu o general. — Mais alguma coisa?

 

— Suponho que alguém devia avisar o Francesco Tiepolo de que vou estar uns dias fora de Veneza.

 

— E avisar a sua mulher também.

 

— Sim — disse Gabriel, num tom distante.

 

— Talvez seja melhor dividirmos o mal pelas aldeias. Eu aviso o Francesco e você avisa a sua mulher.

 

— E não há por acaso nenhuma hipótese de podermos fazer isso ao contrário?

 

— Receio bem que não.

 

O general levantou a mão direita, aquela a que faltavam os dois dedos.

 

— Já sofri que chegue.

 

E só restava tratar de Julian Isherwood. Afinal, tinha sido detido no quartel regional dos Carabinieri, num espaço sem janelas que não era bem uma cela mas também não era uma sala de espera. A entrega aconteceu na Ponte della Paglia, a pouca distância da Ponte dos Suspiros. O general não parecia nada descontente por se ver livre do prisioneiro. Deixou-se ficar na ponte, com a mão estropiada enfiada no bolso do casaco e o olho prostético a observar sem pestanejar, enquanto Gabriel e Isherwood percorriam o Molo San Marco até entrarem no Harry’s Bar. Isherwood bebeu dois Bellinis de rajada, ao passo que Gabriel tratou discretamente dos preparativos para a viagem de Julian. Havia um voo da British Airways que saía de Veneza às seis da tarde e chegava a Heathrow pouco depois das sete.

 

— O que me dá tempo mais do que suficiente — disse Isherwood num tom sorumbático — para assassinar o Oliver Dimbleby e me enfiar na cama antes do News at Ten.

 

— Como teu representante informal neste assunto — respondeu Gabriel —, recomendo-te que não o faças.

 

— Achas que devia esperar até de manhã para matar o Oliver?

 

Gabriel sorriu contra vontade.

 

— O general aceitou generosamente manter o teu nome fora disto — disse. — Se fosse a ti, não dizia nada em Londres sobre o teu pequeno atrito com as autoridades italianas.

 

— Não foi suficientemente pequeno — respondeu Isherwood. — Não sou como tu, querido. Não estou habituado a passar as noites na cadeia. E podes crer que não estou habituado a dar com cadáveres. Meu Deus, devias tê-lo visto. Fizeram-no num autêntico filete.

 

— Mais uma razão para não dizeres nada quando chegares a casa — retorquiu Gabriel. — A última coisa que vais querer é que os assassinos do Jack Bradshaw leiam o teu nome nos jornais.

 

Isherwood mordeu o lábio e assentiu com a cabeça lentamente, em sinal de concordância.

 

— Pelos vistos, o general achava que o Bradshaw andava a traficar quadros roubados — disse passado um momento. — E, pelos vistos, também achava que eu andava a fazer negócios com ele. Apertou bem comigo.

 

— E andavas, Julian?

 

— A fazer negócios com o Jack Bradshaw?

 

Gabriel assentiu com a cabeça.

 

— Isso nem merece resposta.

 

— Tinha de perguntar.

 

— Já fiz muitas coisas impróprias na minha carreira, normalmente a teu mando. Mas nunca, e é mesmo nunca, vendi um quadro que soubesse que tinha sido roubado.

 

— Então e um quadro contrabandeado?

 

— Define contrabandeado — respondeu Isherwood, com um sorriso travesso.

 

— E o Oliver?

 

— Estás a perguntar se o Oliver Dimbleby anda a vender quadros roubados?

 

— Parece que sim.

 

Isherwood teve de pensar um pouco antes de responder.

 

— Para mim, não há muita coisa que eu ache que o Oliver Dimbleby não seja capaz de fazer — disse por fim. — Mas não, não acredito que ande metido com quadros roubados. Aquilo não passou de azar e de mau sentido de oportunidade.

 

Isherwood fez sinal ao empregado e pediu outro Bellini. Estava finalmente a começar a descontrair.

 

— Tenho de admitir — disse — que eras de longe a última pessoa do mundo que eu estava à espera de ver hoje.

 

— O sentimento é mútuo, Julian.

 

— Presumo que tu e o general se conheçam.

 

— Já trocámos cartões de visita.

 

— É uma das criaturas mais desagradáveis que já conheci.

 

— Não é assim tão mau quando o conhecemos melhor.

 

— E o que sabe ele da nossa relação?

 

— Sabe que somos amigos e que já restaurei vários quadros para ti. E se tivesse de dar um palpite — acrescentou Gabriel —, o mais provável é que saiba das tuas ligações à Avenida Rei Saul.

 

A Avenida Rei Saul era a morada dos serviços secretos de Israel. A agência tinha um nome comprido e deliberadamente enganador que tinha muito pouco que ver com a verdadeira natureza do seu trabalho. Quem lá trabalhava referia-se a ela simplesmente como o Departamento e nada mais. E Julian Isherwood também. Fazia parte dos sayanim, uma rede global de ajudantes voluntários. Eram os banqueiros quem fornecia dinheiro aos agentes do Departamento em casos de emergência; os médicos que tratavam deles em segredo quando estavam feridos; os hoteleiros que os hospedavam sob nomes falsos e os funcionários das agências de aluguer de automóveis que lhes providenciavam veículos impossíveis de localizar. Isherwood fora recrutado em meados da década de setenta, durante uma vaga de atentados terroristas palestinianos a alvos israelitas na Europa. Tinha apenas uma missão — ajudar na construção e manutenção do disfarce operacional de um jovem restaurador de arte e assassino chamado Gabriel Allon.

 

— Calculo que a minha libertação não tenha sido de borla — disse Isherwood.

 

— Pois não — respondeu Gabriel. — Aliás, até custou bastante.

 

— E quanto custou?

 

Gabriel contou-lhe.

 

— Lá se vai o teu período sabático em Veneza — disse Isherwood. — Parece que estraguei tudo.

 

— É o mínimo que posso fazer por ti, Julian. Devo-te imensa coisa.

 

Isherwood sorriu saudosamente.

 

— Há quanto tempo já nos conhecemos? — perguntou.

 

— Há uma centena de anos.

 

— E agora vais ser pai outra vez, e logo a dobrar. Nunca pensei estar cá para ver esse dia.

 

— Nem eu.

 

Isherwood olhou para Gabriel.

 

— Não pareces muito entusiasmado com a perspetiva de ir ter filhos.

 

— Não sejas ridículo.

 

— Mas…?

 

— Estou velho, Julian. — Gabriel parou por uns instantes e, a seguir, acrescentou: — Se calhar, demasiado velho para estar a começar outra família.

 

— A vida tratou-te bastante mal, meu rapaz. Tens direito a um bocadinho de felicidade na tua senilidade. Mas tenho de reconhecer que te invejo. Estás casado com uma rapariga linda que te vai dar dois filhos lindos. Quem me dera estar no teu lugar.

 

— Tem cuidado com o que desejas.

 

Isherwood bebeu o Bellini devagar, mas não disse nada.

 

— Ainda não é tarde demais, sabes?

 

— Para ter filhos? — perguntou, incrédulo.

 

— Para encontrares uma pessoa com quem passar o resto da vida.

 

— Lamento dizê-lo, mas acho que já passei o meu prazo de validade — respondeu Isherwood. — Neste momento, já me casei com a galeria.

 

— Vende a galeria — disse Gabriel. — Reforma-te e vai viver para uma villa no sul de França.

 

— Dava em maluco numa semana.

 

Saíram do bar e andaram uns passos até ao Grande Canal. Um vistoso táxi aquático de madeira reluzia encostado à doca apinhada. Isherwood parecia relutante em entrar nele.

 

— Se fosse a ti — disse-lhe Gabriel —, ia-me embora da cidade antes que o general mude de ideias.

 

— Um conselho sensato — respondeu Isherwood. — Posso dar-te um? — Gabriel ficou calado. — Diz ao general para arranjar outra pessoa.

 

— Lamento muito, mas já é demasiado tarde para isso.

 

— Então tem cuidado contigo. E não te armes em herói outra vez. Tens muito por que viver.

 

— Vais perder o avião, Julian.

 

Isherwood entrou a cambalear no táxi. Quando este se começou a afastar lentamente da doca, virou-se para Gabriel e gritou:

 

— O que digo ao Oliver?

 

— De alguma coisa te vais lembrar.

 

— Sim — retorquiu Isherwood. — Lembro-me sempre.

 

Enfiou-se na cabina e desapareceu.

 

Gabriel foi trabalhando no Veronese até as janelas da nave se escurecerem com o crepúsculo. Ligou do telefonino para Francesco Tiepolo e deu-lhe a notícia de que tinha de tratar de um assunto muito privado para o general Cesare Ferrari dos Carabinieri. Não entrou em pormenores.

 

— Quanto tempo vais estar fora? — perguntou Tiepolo.

 

— Um ou dois dias — respondeu Gabriel. — Se calhar, um mês.

 

— E o que digo aos outros?

 

— Diz-lhes que eu morri. Isso vai animar o Antonio.

 

Gabriel arrumou a plataforma de trabalho com mais cuidado do que o costume e saiu para o final de tarde frio. Seguiu o percurso habitual em direção a norte, passando por San Paolo e Cannaregio, até chegar a uma ponte de ferro, a única ponte de ferro em toda a cidade de Veneza. Na Idade Média, havia um portão no centro da ponte e, à noite, um guarda cristão ficava de vigia para que quem estava preso do outro lado não pudesse fugir. Naquele momento, a única coisa que a ponte tinha era uma gaivota que lançou um olhar feroz e malévolo a Gabriel quando este passou por ela devagar.

 

Entrou num sottoportego às escuras. No final da passagem, uma ampla praça abriu-se diante dele, o Campo di Ghetto Nuovo, o coração do gueto antigo de Veneza. Atravessou a praça e parou à porta do número 2899. Uma pequena placa de bronze indicava COMUNITÀ EBRAICA DI VENEZIA: Comunidade Judaica de Veneza. Tocou à campainha e depois, por instinto, desviou a cara da câmara de segurança.

 

— Em que o posso ajudar? — perguntou em italiano uma voz feminina familiar.

 

— Sou eu.

 

— Eu, quem?

 

— Abre a porta, Chiara.

 

Ouviu-se o besouro da porta e um ferrolho a abrir-se com um estalido. Gabriel entrou num corredor exíguo e percorreu-o até chegar a outra porta, que se abriu automaticamente quando ele se aproximou. Dava para um pequeno gabinete, onde Chiara estava sentada recatadamente atrás de uma secretária arrumada. Trazia uma camisola branca como a neve, leggings castanho-claros e botas de cabedal. O cabelo castanho-arruivado revolto caía-lhe pelos ombros, em cima de um lenço de seda que Gabriel tinha comprado na ilha da Córsega. Resistiu ao impulso de lhe beijar a boca grande. Não achava que fosse apropriado exprimir afeto físico pela rececionista do rabi principal de Veneza, mesmo que a rececionista por acaso também fosse a filha dedicada do rabi.

 

Chiara estava prestes a interpelá-lo quando foi interrompida pelo toque do telefone. Gabriel sentou-se na borda da secretária e ficou a ouvi-la a lidar com uma pequena crise que afetava uma comunidade de crentes cada vez mais diminuta. Assombrosamente, parecia a mesma rapariga que conhecera, dez anos antes, quando tinha ido falar com o rabi Jacob Zolli para lhe pedir informações sobre o destino dos judeus italianos durante a Segunda Guerra Mundial. Na altura, Gabriel não sabia que Chiara era agente dos serviços secretos israelitas nem que recebera da Avenida Rei Saul a missão de o proteger durante o restauro do retábulo de San Zaccaria. Ficou a saber quem ela era na realidade pouco tempo depois, em Roma, a seguir a um incidente com tiros e a polícia italiana. Sozinho num apartamento seguro com Chiara, sem poder de lá sair, Gabriel quis desesperadamente tocar-lhe. Esperou até o caso ficar resolvido e terem regressado a Veneza. Foi lá que, numa casa no Canal de Cannaregio, fizeram amor pela primeira vez, numa cama preparada com lençóis lavados. Foi como fazer amor com uma figura pintada pela mão de Veronese.

 

No dia em que se conheceram, Chiara tinha-lhe oferecido café. Agora, ela já não bebia café, só água e sumos de fruta, que estava sempre a bebericar de uma garrafa de plástico. Era o único sinal visível de que, após uma longa luta com a infertilidade, estava finalmente grávida de gémeos. Tinha jurado não resistir ao inevitável aumento de peso com dietas e exercício, que considerava ser mais uma obsessão infligida ao mundo pelos americanos. Chiara era veneziana de alma e coração e os Venezianos não se punham a esbracejar em geringonças para o treino de cárdio nem a levantar objetos pesados para ganhar músculo. Comiam e bebiam bem, faziam amor e, quando precisavam de um bocadinho de exercício, passeavam pela areia do Lido ou iam até à Zaterre comer um gelado.

 

Desligou o telefone e fixou o olhar brincalhão nele. Os olhos dela eram cor de caramelo e salpicados de dourado, uma combinação que Gabriel nunca tinha sido capaz de reproduzir com exatidão num quadro. Naquele momento, brilhavam intensamente. Estava feliz, pensou ele, mais feliz do que já a tinha visto. De repente, não teve coragem de lhe dizer que o general Ferrari lhe aparecera inesperadamente e estragara tudo.

 

— Como te sentes? — perguntou.

 

Ela revirou os olhos e deu um gole na garrafa de água de plástico.

 

— Disse alguma coisa que não devia?

 

— Não tens de me estar sempre a perguntar como me sinto.

 

— Quero que saibas que estou preocupado contigo.

 

— Eu sei que estás preocupado, querido. Mas não tenho nenhuma doença terminal. Estou só grávida.

 

— E o que te devia perguntar?

 

— Devias perguntar-me o que quero para jantar.

 

— Estou esfomeado — disse ele.

 

— E eu estou sempre esfomeada.

 

— Queres ir comer fora?

 

— Por acaso, até me apetece cozinhar.

 

— E achas que consegues?

 

— Gabriel!

 

Ela começou a arrumar escusadamente os papéis que tinha em cima da secretária. Não era bom sinal. Chiara punha-se sempre a arrumar coisas quando se irritava.

 

— Como foi o trabalho? — perguntou.

 

— Um fartote de emoções.

 

— Não me digas que estás farto do Veronese?

 

— Andar a tirar verniz sujo não é a parte mais recompensadora de um restauro.

 

— Não houve surpresas?

 

— Com o restauro?

 

— Em geral — respondeu ela.

 

Era uma pergunta estranha.

 

— A Adrianna Zinetti veio trabalhar vestida como o Groucho Marx — retorquiu Gabriel —, mas de resto foi um dia normal na Igreja de San Sebastiano.

 

Chiara franziu o sobrolho. Abriu uma gaveta com a biqueira da bota e enfiou uns papéis distraidamente num dossiê de manilha. Não seria surpresa para Gabriel se esses papéis não tivessem nada que ver com os que já estavam no dossiê.

 

— Estás preocupada com alguma coisa? — perguntou.

 

— Não me vais perguntar outra vez como me sinto, pois não?

 

— Nunca me passaria pela cabeça.

 

Ela fechou a gaveta com mais força do que a necessária.

 

— Passei pela igreja à hora de almoço para te fazer uma surpresa — disse passado um momento —, mas não estavas lá. O Francesco disse que tinhas tido uma visita. Disse que não sabia quem era.

 

— E claro que percebeste que o Francesco estava a mentir.

 

— Não era preciso ser um agente dos serviços secretos experimentado para perceber isso.

 

— Continua — disse Gabriel.

 

— Liguei para o Centro de Operações para saber se andava por cá alguém da Avenida Rei Saul, mas no Centro de Operações disseram-me que não andava ninguém à tua procura.

 

— Sempre é uma novidade.

 

— Quem foi ter contigo hoje, Gabriel?

 

— Isto já começa a parecer um interrogatório.

 

— Quem foi? — perguntou ela de novo.

 

Gabriel levantou a mão direita e depois baixou dois dedos.

 

— O general Ferrari?

 

Gabriel assentiu com a cabeça. Chiara pôs-se a olhar fixamente para a secretária, como se estivesse à procura de qualquer coisa fora do lugar.

 

— Como te sentes? — perguntou Gabriel em voz baixa.

 

— Sinto-me ótima — respondeu ela, sem levantar os olhos. — Mas se me perguntares isso mais uma vez…

 

Era verdade que Gabriel e Chiara não viviam realmente no gueto antigo de Veneza. O apartamento que tinham arrendado ficava no primeiro andar de um velho palazzo deteriorado, numa esquina sossegada de Cannaregio onde os judeus nunca tinham sido proibidos de entrar. De um lado, havia uma praça tranquila; do outro, um canal onde a Avenida Rei Saul mantinha um pequeno e rápido barco, para o caso de Gabriel precisar de fugir de Veneza pela segunda vez na lendária carreira. Telavive tinha boas razões para não descurar a segurança dele; após muitos anos de resistência, Gabriel aceitara ser o próximo chefe do Departamento. Faltava um ano para iniciar o mandato. Daí em diante, todos os momentos da sua vida seriam dedicados à proteção do Estado de Israel daqueles que o queriam destruir. Acabar-se-iam os restauros ou as estadas prolongadas em Veneza com a linda e jovem mulher — pelo menos, sem um exército de guarda-costas a vigiá-los.

 

O apartamento tinha sido equipado com um sistema de segurança sofisticado, que chilreou de forma amena quando Gabriel abriu a porta. Depois de entrar, tirou a rolha de uma garrafa de Bardolino e sentou-se ao balcão da cozinha, a ouvir o noticiário da BBC, enquanto Chiara preparava uma travessa de bruschetta. Um painel da ONU previra um aquecimento global apocalíptico, uma bomba explodira num carro e matara quarenta pessoas num bairro xiita de Bagdade, e o presidente sírio, o carniceiro de Damasco, utilizara uma vez mais armas químicas contra o próprio povo. Chiara fez uma careta e desligou o rádio. A seguir, olhou desejosamente para a garrafa de vinho aberta. Gabriel tinha pena dela. Chiara sempre gostara de beber Bardolino na primavera.

 

— Não lhes vai fazer mal se deres só um gole — disse.

 

— A minha mãe nunca tocou em vinho quando estava grávida de mim.

 

— E vê lá como saíste.

 

— Perfeita em todos os aspetos.

 

Sorriu e pousou a bruschetta defronte de Gabriel. Este escolheu duas fatias — uma com azeitonas cortadas e a outra com feijão branco e alecrim — e serviu-se do Bardolino. Chiara descascou uma cebola e, com uns quantos golpes rápidos com a faca, transformou-a num monte de cubos brancos perfeitos.

 

— É melhor teres cuidado — disse Gabriel, observando-a — ou ainda ficas como o general.

 

— Não me dês ideias.

 

— O que querias que eu lhe dissesse, Chiara?

 

— Podias ter-lhe dito a verdade.

 

— Que versão da verdade?

 

— Falta-te um ano para fazeres o teu juramento, querido. Depois disso, vais estar a mando do primeiro-ministro e a segurança do Estado vai passar a ser tua responsabilidade. A tua vida vai ser uma reunião interminável, intervalada com uma ou outra crise.

 

— E é por isso que recusei o cargo várias vezes antes de acabar por aceitá-lo.

 

— Mas agora é teu. E isto é a tua última oportunidade de descansar como bem mereces antes de voltarmos para Israel.

 

— Tentei explicar isso ao general sem entrar nos pormenores sórdidos todos. Foi nessa altura que ele ameaçou deixar o Julian a apodrecer numa cela italiana.

 

— Ele não tinha nada para usar contra o Julian. Estava a fazer bluff.

 

— Talvez — reconheceu Gabriel. — Mas e se um jornalista britânico empreendedor qualquer resolvesse vasculhar um bocadinho o passado do Julian? E se esse mesmo jornalista empreendedor acabasse por descobrir que ele era um ativo do Departamento? Eu nunca me ia perdoar se tivesse deixado que ele fosse arrastado pela lama. Esteve sempre presente quando precisei dele.

 

— Lembras-te daquela vez em que lhe pediste para tomar conta do gato daquele desertor russo?

 

— Como me podia esquecer? Não fazia ideia que o Julian fosse alérgico aos gatos. Passou um mês a coçar-se.

 

Chiara sorriu. Pôs a cebola numa caçarola de metal pesada, com azeite e manteiga, cortou uma cenoura rapidamente e juntou-a também.

 

— O que estás a fazer?

 

— É um prato de carne aqui da zona chamado calandraca.

 

— E onde aprendeste a fazer isso?

 

Chiara levantou os olhos para o teto, como que a querer dizer que tal conhecimento se encontrava no ar e na água de Itália. Não estava longe da verdade.

 

— E o que posso fazer para ajudar? — perguntou Gabriel.

 

— Podes parar de estar sempre em cima de mim.

 

Gabriel levou a travessa de bruschetta e o vinho para a pequena sala de estar. Antes de se sentar no sofá, tirou a pistola do cós das calças e pousou-a com cuidado na mesinha de apoio, em cima de uma pilha de revistas lustrosas que falavam de gravidezes e partos. A pistola era uma Beretta de 9 milímetros e tinha o punho de madeira de nogueira manchado de tinta: um salpico de Ticiano, um bocadinho de Bellini, uma gota de Raphael e de Tintoretto. Não tardaria muito para deixar de andar armado; andariam outros com armas em nome dele. Interrogou-se qual seria a sensação de andar pelo mundo desarmado. Seria uma coisa parecida, achou, com sair de casa sem vestir umas calças. Havia homens que usavam gravata quando iam para o emprego. Gabriel Allon andava com uma pistola.

 

— Continuo sem perceber por que razão o general precisa que sejas tu a descobrir quem matou o Jack Bradshaw — gritou Chiara da cozinha.

 

— Pelos vistos, acha que eles andavam à procura de alguma coisa — respondeu Gabriel, folheando uma das revistas. — E gostava que eu a descobrisse primeiro.

 

— À procura de quê?

 

— Não entrou em pormenores, mas desconfio que saiba mais do que diz saber.

 

— Costuma ser o caso.

 

Chiara pôs cubos de vitela passados por farinha na caçarola e, em pouco tempo, o apartamento encheu-se com o odor da carne a tostar. A seguir, juntou um bocado de molho de tomate, vinho branco e especiarias, que mediu com a palma da mão. Gabriel ficou a ver as luzes de presença de um barco que se deslocava lentamente pelas águas negras do canal. A seguir, com cautela, disse a Chiara que estava a pensar partir para o lago Como logo de manhãzinha.

 

— E quando voltas? — perguntou ela.

 

— Depende.

 

— De quê?

 

— Do que encontrar na villa do Jack Bradshaw.

 

Chiara estava a cortar batatas numa tábua de madeira. Por causa disso, a afirmação de que pretendia acompanhar Gabriel mal se ouviu com o barulho da faca. Gabriel desviou os olhos da janela e fitou-a com uma expressão de reprovação.

 

— O que se passa? — perguntou ela passado um momento.

 

— Não vais a lado nenhum — respondeu ele sem levantar a voz.

 

— É o lago Como. O que pode acontecer?

 

— Queres que te dê alguns exemplos?

 

Chiara ficou calada. Gabriel voltou-se e pôs-se a ver outra vez o barco a subir o canal, mas tinha os pensamentos repletos de imagens de uma carreira longa e turbulenta. Era uma carreira que, estranhamente, se desenrolara em alguns dos locais mais glamorosos da Europa. Tinha matado em Cannes e Saint-Tropez e lutado pela vida nas ruas de Roma e nas montanhas da Suíça. E em tempos, muitos anos antes, perdera a mulher e o filho devido a uma bomba que fez explodir um carro numa rua pitoresca do elegante Primeiro Distrito de Viena. Não, pensou naquele momento, Chiara não o iria acompanhar até ao lago Como. Deixá-la-ia ali em Veneza, ao cuidado da família e sob a proteção da polícia italiana. E que Deus acudisse o general se este permitisse que lhe acontecesse alguma coisa.

 

Ela estava a cantar baixinho, uma daquelas tontas canções pop italianas que tanto adorava. Juntou as batatas cortadas à caçarola, baixou o lume e depois foi ter com Gabriel à sala de estar. O dossiê do general Ferrari sobre Jack Bradshaw estava em cima da mesinha de apoio, ao lado da Beretta. Esticou-se para pegar nele, mas Gabriel impediu-a; não queria que ela visse como os assassinos de Jack Bradshaw lhe tinham estropiado o corpo. Chiara pousou a cabeça no ombro dele. O cabelo dela cheirava a baunilha.

 

— Quanto tempo achas que a calandraca vai demorar? — perguntou Gabriel.

 

— Mais ou menos uma hora.

 

— Não consigo esperar tanto.

 

— Come outra bruschetta.

 

Foi o que fez. E Chiara também. A seguir, levou o copo de Bardolino ao nariz, mas não bebeu nada.

 

— Não lhes vai fazer mal se deres só um golezinho pequeno.

 

Chiara voltou a pousar o copo de vinho na mesa e pousou a mão sobre o ventre. Gabriel pôs a mão ao lado da dela e, por um instante, achou que conseguia detetar o leve palpitar, digno de um colibri, dos corações de dois fetos. São meus, pensou, abraçando-os com força. E que Deus acuda quem lhes tentar alguma vez fazer mal.

 

Na manhã seguinte, os habitantes do Reino Unido acordaram com a notícia de que um compatriota, o empresário expatriado James «Jack» Bradshaw tinha sido encontrado, brutalmente assassinado, na sua villa com vista para o lago Como. As autoridades italianas falaram em roubo como possível motivo, apesar de não haver provas de que alguma coisa tivesse sido sequer levada. O nome do general Ferrari não apareceu nas reportagens; e também ninguém referiu que Julian Isherwood, o famoso negociante de arte londrino, tinha descoberto o cadáver. Os jornais esforçaram-se todos ao máximo para encontrar alguém que tivesse qualquer coisa simpática para dizer de Bradshaw. O Times conseguiu desencantar um antigo colega do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que o descreveu como «um ótimo funcionário», mas, tirando isso, a vida de Bradshaw não parecia ser merecedora de elogios. A fotografia que apareceu na BBC dava ideia de ter no mínimo vinte anos. Mostrava um homem que não gostava que lhe tirassem fotos.

 

Havia outro facto crucial que não foi referido na cobertura noticiosa do homicídio de Jack Bradshaw: Gabriel Allon, o filho lendário mas desavindo dos serviços secretos israelitas, tinha sido contratado discretamente pela Brigada de Arte para investigar o assunto. E essa investigação teve início às sete e meia, altura em que introduziu uma pen de alta capacidade no notebook. A pen tinha-lhe sido dada pelo general Ferrari e continha o que se encontrava no computador pessoal de Jack Bradshaw. A maior parte dos documentos tinha que ver com a empresa dele, a Meridian Global Consulting Group — um nome curioso, pensou Gabriel, já que a Meridian não aparentava ter mais funcionários. A pen tinha mais de vinte mil documentos. Além disso, havia milhares de números de telefone e de endereços de correio eletrónico que precisavam de ser verificados e cruzados. Era demasiado material para Gabriel examinar sozinho. Precisava de um ajudante, um investigador talentoso que soubesse alguma coisa de questões criminais e, de preferência, de arte italiana.

 

— Eu? — perguntou Chiara, incrédula.

 

— Tens alguma ideia melhor?

 

— Queres mesmo que te responda a isso?

 

Gabriel não disse nada. Percebeu que havia qualquer coisa naquela ideia que agradava a Chiara. Era dada por natureza a resolver quebra-cabeças e problemas.

 

— Era mais fácil se eu pudesse pedir para verificarem os números de telefone e os e-mails nos computadores da Avenida Rei Saul — disse ela depois de pensar um momento.

 

— Evidentemente — retorquiu Gabriel. — Mas a última coisa que eu quero é dizer ao Departamento que estou a investigar um caso para os italianos.

 

— Vão acabar por descobrir. Descobrem sempre.

 

Gabriel copiou os ficheiros de Bradshaw para o disco rígido do notebook e ficou com a pen. A seguir, pôs numa maleta de fim de semana duas mudas de roupa e outras tantas identidades enquanto Chiara tomava um duche e se vestia para ir trabalhar. Acompanhou-a até ao gueto e, à porta do centro comunitário, pôs-lhe a mão no abdómen uma última vez. Quando se foi embora, não pôde deixar de reparar no jovem e belo italiano que estava a beber café no café kosher. Telefonou para o palazzo, em Roma, para falar com o general Ferrari. O general confirmou que o jovem italiano era um agente dos Carabinieri especialista em proteção pessoal.

 

— E não podia ter arranjado uma pessoa para tomar conta da minha mulher que não parecesse uma estrela de cinema?

 

— Não me diga que o grande Gabriel Allon está com ciúmes.

 

— Certifique-se só que não lhe acontece nada. Está a ouvir?

 

— Só tenho um olho — respondeu o general —, mas ainda tenho os dois ouvidos e funcionam bastante bem.

 

Tal como muitos venezianos, temporários ou não, Gabriel tinha um carro, um Volkswagen grande, guardado numa garagem perto da Piazzale Roma. Atravessou a passagem pelo meio da água até terra e dirigiu-se para a autostrada. Quando o trânsito começou a diminuir, carregou no acelerador e ficou a ver o ponteiro do velocímetro a aproximar-se dos cem. Durante várias semanas, tinha andado a passear-se e a viver a vida a passo de caracol. De repente, o roncar de um motor de combustão interna passou a ser um prazer secreto. Levou o carro até ao limite e viu as planícies do Veneto a passarem-lhe a correr pela janela, num borrão verde e castanho-claro que o satisfez.

 

Avançou para oeste a toda a velocidade, passando por Pádua, Verona e Bérgamo, e chegou aos arrabaldes de Milão trinta minutos mais cedo do que tinha previsto. De lá, seguiu para norte para Como; e depois percorreu a margem sinuosa do lago até atingir o portão da villa de Jack Bradshaw. Viu através das grades um carro dos Carabinieri sem matrícula estacionado no pátio de entrada. Ligou para Roma para falar com o general, disse-lhe onde estava e a seguir interrompeu rapidamente a ligação. Passados trinta segundos, o portão abriu-se.

 

Gabriel meteu a primeira e avançou lentamente pelo caminho de entrada íngreme, em direção à casa de um homem que tivera uma vida resumida numa única frase vazia. Um ótimo funcionário… Só tinha a certeza de uma coisa: Jack Bradshaw, diplomata reformado, consultor de empresas em atividade no Médio Oriente e colecionador de arte italiana, tinha feito da mentira a sua profissão. E sabia isso porque também ele era um mentiroso. Por isso, ao sair do carro, sentiu uma certa afinidade com o homem cuja vida estava prestes a pilhar. Não vinha como inimigo mas como amigo, o implemento perfeito para um trabalho desagradável. Depois da morte não há segredos, pensou, atravessando o pátio. E se houvesse algum segredo escondido naquela linda villa junto ao lago, iria descobri-lo.

 

Um carabiniere à paisana estava à espera à entrada. Disse que se chamava Lucca — sem apelido nem posto, apenas Lucca — e limitou-se a passar a Gabriel umas luvas de borracha e umas proteções de plástico para os sapatos. Gabriel pô-las de bom grado. Naquela altura da vida, a última coisa que queria era deixar o ADN em mais uma cena do crime em Itália.

 

— Tem uma hora — disse-lhe o carabiniere. — E eu vou consigo.

 

— Demoro o tempo que for preciso — retorquiu Gabriel. — E você vai ficar aí bem quietinho.

 

Vendo que o polícia não lhe ia responder, Gabriel calçou as luvas e enfiou as proteções para os sapatos antes de entrar na villa. A primeira coisa em que reparou foi no sangue. Era difícil não o fazer; todo o chão de pedra da entrada estava cheio dele e completamente preto. Interrogou-se por que razão o assassínio teria acontecido ali e não numa zona mais isolada da casa. Era possível que Bradshaw tivesse confrontado os assassinos depois de lhe terem arrombado a residência, mas não havia sinais de terem forçado a entrada, nem na porta nem no portão. A explicação mais lógica era que Bradshaw deixara entrar os agressores. Conhecia-os, pensou Gabriel. E, de forma imprudente, tinha confiado suficientemente neles para os receber em casa.

 

Da entrada, Gabriel passou para o salão. Estava mobilado de forma elegante, com sofás e cadeiras forrados a seda, e adornado com mesas e candeeiros caros e todo o género de pequenos objetos valiosos. Uma das paredes encontrava-se exclusivamente ocupada por janelas grandes com vista para o lago; nas outras, estavam expostos quadros da autoria de Velhos Mestres italianos. A maior parte correspondia a obras de devoção pouco importantes ou retratos produzidos em série por tarefeiros ou seguidores de pintores famosos de Veneza e Florença. No entanto, havia um capriccio arquitetónico romano que era claramente da autoria de Giovanni Paolo Panini. Gabriel lambeu a ponta do dedo enluvado e arrastou-a sobre a superfície. Tal como os outros quadros expostos no salão, o Panini estava a precisar urgentemente de um bom restauro.

 

Gabriel limpou a sujidade que cobria a superfície na perna das calças de ganga e dirigiu-se para uma escrivaninha antiga. Nela, estavam duas fotografias de Jack Bradshaw em tempos mais felizes. Na primeira, encontrava-se diante da Grande Pirâmide de Gizé, com uma pueril madeixa de cabelo a cair-lhe sobre a cara, repleta de esperança e futuro. A segunda tinha como pano de fundo a cidade antiga de Petra, na Jordânia. Tinha sido tirada, imaginou Gabriel, na altura em que Bradshaw trabalhava na embaixada britânica em Amã. Tinha um ar mais velho, mais duro, talvez mais sábio. O Médio Oriente era assim. Transformava a esperança em desespero e os idealistas em maquiavélicos.

 

Gabriel abriu a gaveta da escrivaninha e, não encontrando lá dentro nada que lhe interessasse, passou em revista o registo de chamadas não atendidas do telefone. Havia um número, 6215845, que aparecia várias vezes — cinco vezes antes de Bradshaw morrer e duas depois. Gabriel levantou o auscultador, carregou na tecla de marcação automática e, passados uns segundos, ouviu o toque longínquo de um telefone. Depois de vários toques, seguiu-se uma série de cliques e chocalhos a indicar que a pessoa do outro lado da linha tinha atendido a chamada e desligara rapidamente. Gabriel voltou a marcar o número e o resultado foi o mesmo. Mas quando experimentou ligar uma terceira vez, surgiu na linha uma voz masculina que disse em italiano:

 

— Está a falar com o padre Marco. Em que posso ajudá-lo?

 

Gabriel pousou o auscultador delicadamente sem dizer nada. Ao lado do telefone, estava um bloco de apontamentos. Arrancou a primeira página, anotou o número de telefone na página seguinte e enfiou as duas no bolso do casaco. Depois, subiu as escadas.

 

Havia quadros a revestir ambos os lados de um amplo corredor central e a cobrir as paredes de dois quartos, tirando isso, vazios. Bradshaw utilizava um terceiro quarto como arrecadação. Várias dezenas de quadros, alguns emoldurados e outros nos respetivos suportes, encontravam-se encostados às paredes como cadeiras desdobráveis no final de uma receção com catering. Os quadros eram quase todos de origem italiana, mas também havia várias obras de artistas alemães, flamengos e holandeses. Uma delas, um quadro de género com lavadeiras a trabalhar num pátio, provavelmente da autoria de um imitador de Willem Kalf, parecia ter sido restaurado não há muito tempo. Gabriel perguntou a si mesmo o que teria levado Bradshaw a resolver restaurar o quadro enquanto outros da coleção, alguns mais valiosos, definhavam sob camadas de verniz amarelecido — e por que razão, ao tê-lo feito, o deixara encostado a uma parede de uma arrecadação.

 

Do outro lado do átrio central, ficavam o quarto e o escritório de Bradshaw. Gabriel inspecionou-os rapidamente, com a meticulosidade de um homem que sabia esconder coisas. No quarto, oculto por baixo de uma pilha gatsbyesca de camisas coloridas, descobriu um envelope de manilha amarrotado e recheado com vários milhares de euros que, por uma razão ou outra, tinha escapado à atenção dos homens do general Ferrari. No escritório, encontrou dossiês a abarrotar de documentos comerciais, bem como uma impressionante coleção de monografias e catálogos. E também descobriu documentação que dava a entender que a Meridian Global Consulting tinha alugado uma caixa-forte no Freeport de Genebra. Interrogou-se se esses documentos também teriam escapado à atenção dos homens do general.

 

Gabriel enfiou a documentação relativa ao Freeport no bolso do casaco e atravessou o corredor para voltar a entrar no quarto que Bradshaw utilizava como arrecadação. As três lavadeiras holandesas continuavam a labutar no pátio de pedras arredondadas, sem consciência de que ele ali estava. Pôs-se de cócoras diante da tela e examinou as pinceladas com atenção. Era evidente que tinha sido um imitador a pintar o quadro, pois faltava-lhe qualquer vestígio de confiança ou espontaneidade. De facto, na opinião experiente de Gabriel, possuía uma qualidade mecânica, como se o artista não tivesse tirado os olhos do original enquanto ia trabalhando. E, se calhar, não tinha tirado mesmo.

 

Gabriel desceu as escadas e, perante o olhar vigilante do carabiniere, tirou uma lanterna ultravioleta da maleta de fim de semana. Se a apontassem para a tela de um Velho Mestre num quarto às escuras, a lanterna revelaria a amplitude do último restauro fazendo os retoques surgir como manchas pretas. Normalmente, um quadro de um Velho Mestre holandês daquele período teria sofrido danos menores ou moderados, o que queria dizer que os retoques — ou reconstrução, como eram conhecidos no ramo — surgiriam como salpicos pretos.

 

Gabriel regressou ao quarto no primeiro andar da villa, fechou a porta e correu as persianas por completo. Acendeu a lanterna ultravioleta e apontou-a para o quadro. As três lavadeiras holandesas deixaram de se ver. A tela inteira ficou preta como carvão.

 

Numa empresa de produtos químicos que ficava num bairro industrial de Como, Gabriel comprou acetona, álcool, água destilada, uns óculos, uma proveta e uma máscara protetora. Depois, parou numa loja de material de artes e ofícios, no centro da cidade, onde comprou cavilhas de madeira e um pacote de algodão hidrófilo. Ao voltar para a villa junto ao lago, deparou com o carabiniere à espera, à entrada, com luvas e proteções para os sapatos novas. Desta vez, o italiano não abriu o bico sobre nenhum limite de uma hora. Percebeu que Gabriel se iria demorar.

 

— Não vai contaminar nada, pois não?

 

— Só os pulmões — respondeu Gabriel.

 

Lá em cima, tirou a tela da moldura, pousou-a em cima de uma cadeira sem braços e iluminou-lhe a superfície com o máximo de luz possível. Depois misturou, na mesma medida, acetona, álcool e água destilada na proveta e preparou uma mecha com uma cavilha e um bocado de algodão. Trabalhando depressa, retirou o verniz e a reconstrução mais recentes de um pequeno retângulo — com cerca de cinco centímetros por dois centímetros e meio — no canto inferior esquerdo da tela. Os restauradores chamavam a essa técnica «abrir uma janela». Habitualmente, fazia-se isso para testar a força e a eficácia da mistura de um solvente. Mas, naquele caso, Gabriel estava a abrir uma janela para remover as camadas à superfície do quadro e poder ver o que se encontrava por baixo. O que descobriu foram as pregas opulentas de uma peça de roupa carmesim. Era óbvio que havia um quadro intacto por baixo das três lavadeiras holandesas no pátio — um quadro que, na opinião de Gabriel, tinha sido produzido por um verdadeiro Velho Mestre de considerável talento.

 

Abriu rapidamente mais três janelas, uma na parte inferior direita da tela e outras duas no topo. Na parte inferior direita, encontrou mais tecido, mais escuro e menos nítido; mas, no topo, no lado direito, a tela era praticamente preta. No lado esquerdo, encontrou um arco romano amarelo-torrado que parecia fazer parte de um fundo arquitetónico. As quatro janelas abertas permitiram-lhe ter uma noção geral do modo como as figuras se encontravam dispostas na tela. E, mais importante, diziam-lhe que, com toda a probabilidade, o quadro era da autoria de um italiano e não de um artista das escolas holandesa ou flamenga.

 

Gabriel abriu uma quinta janela uns quantos centímetros abaixo do arco romano e descobriu a cabeça de um homem a ficar careca. Expandindo-a, encontrou a cana do nariz e um olho que fitava diretamente quem o estava a observar. Abriu uma janela alguns centímetros mais à direita e descobriu a testa pálida e luminosa de uma jovem. Também expandiu essa janela e deu com dois olhos a olhar para baixo. Um nariz comprido surgiu depois, seguido de uns lábios vermelhos pequenos e de um queixo delicado. Foi então que, passado mais um minuto de trabalho, Gabriel viu a mão estendida de uma criança. Um homem, uma mulher, uma criança… Gabriel analisou a mão da criança — em específico, a maneira como o polegar e o indicador tocavam no queixo da mulher. A pose era-lhe familiar. E as pinceladas também.

 

Atravessou o vestíbulo, entrou no escritório de Jack Bradshaw, ligou o computador e foi consultar o sítio eletrónico do Registo de Perdas de Arte, a maior base de dados privada do mundo em matéria de obras de arte roubadas, desaparecidas e saqueadas. Após carregar em algumas teclas, surgiu no ecrã a fotografia de um quadro — o mesmo quadro que naquele preciso momento se encontrava em cima de uma cadeira, no quarto em frente. Por baixo da foto aparecia uma curta descrição:

 

A Sagrada Família, óleo sobre tela, Parmigianino (1503-1540), roubado de um laboratório de restauro no histórico hospital romano Santo Spirito, em 31 de julho de 2004.

 

Há mais de uma década que a Brigada de Arte procurava esse quadro desaparecido. E agora Gabriel encontrara-o, na villa de um inglês morto, escondido por baixo de uma cópia de um quadro holandês de Willem Kalf. Começou a marcar o número do general Ferrari, mas deteve-se. Onde havia um, pensou, com certeza haveria outros. Levantou-se da secretária do morto e pôs-se à procura.

 

Descobriu na arrecadação mais dois quadros que, ao serem sujeitos à luz ultravioleta, se revelaram completamente pretos. Um era uma cena costeira da Escola Holandesa reminiscente da obra de Simon de Vlieger; o outro era um vaso de flores que aparentava ser uma cópia da autoria do artista vienense Johann Baptist Drechsler. Gabriel começou a abrir janelas.

 

Molhar, girar, deitar fora…

 

Uma árvore inchada com um céu pintalgado de nuvens em fundo, as pregas de uma saia a espraiar-se num prado, o flanco nu de uma mulher corpulenta…

 

Molhar, girar, deitar fora…

 

Um pedaço de verde-azulado a servir de pano de fundo, uma blusa com motivos florais, um olho grande e ensonado por cima de uma bochecha rosada…

 

Gabriel reconheceu os dois quadros. Sentou-se ao computador e regressou ao sítio eletrónico do Registo de Perdas de Arte. Após carregar em mais umas teclas, surgiu no ecrã a fotografia de um quadro:

 

Raparigas no Campo, óleo sobre tela, Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), 41,6 centímetros × 50,8 centímetros, desaparecido desde 13 de março de 1981, do Musée de Bagnols-sur-Cèze, em Gard, França. Valor atual estimado: desconhecido.

 

Mais umas teclas premidas, outro quadro, outra história de um objeto perdido:

 

Retrato de Uma Mulher, óleo sobre tela, Gustav Klimt (1862-1918), 82,8 centímetrtos × 54,8 centímetros, desaparecido desde 18 de fevereiro de 1997, da Galleria Ricci Oddi, em Piacenza, Itália. Valor atual estimado: 4 milhões de dólares.

 

Gabriel pôs o Renoir e o Klimt ao lado do Parmigianino, fotografou-os com o telemóvel e enviou a imagem rapidamente para o palazzo. O general Ferrari telefonou-lhe passados trinta segundos. Vinha ajuda a caminho.

 

Gabriel levou os três quadros para o rés do chão e pousou-os em cima de um dos sofás do salão. Parmigianino, Renoir, Klimt… Três quadros desaparecidos de três preeminentes artistas, todos escondidos por baixo de cópias de obras menores. Mesmo assim, as cópias eram de uma qualidade extremamente elevada. Tinham sido feitas por um mestre falsificador, pensou Gabriel. Talvez até por um restaurador. Mas porquê dar-se ao trabalho de encomendar uma cópia para esconder uma obra roubada? Era evidente que Jack Bradshaw estava ligado a uma rede sofisticada que trabalhava com arte roubada e contrabandeada. Onde havia três, pensou Gabriel, olhando para os quadros, teria de haver mais. Muitos mais.

 

Pegou numa das fotografias do jovem Jack Bradshaw. O currículo dele parecia uma coisa saída de um tempo perdido. Formado em Eton e Oxford, fluente em árabe e persa, tinha sido posto no mundo para cumprir as ordens de um império outrora poderoso e que entrara num declínio terminal. Talvez tivesse sido um diplomata vulgar, um funcionário que emitia vistos, que carimbava passaportes, que escrevia cabogramas ponderados que ninguém se dava ao trabalho de ler. Ou talvez tivesse sido uma coisa completamente diferente. Gabriel conhecia um homem em Londres que era capaz de dar corpo ao currículo dubiamente escasso. Mas a verdade não chegaria sem preço. No ramo da espionagem, a verdade raramente o fazia.

 

Gabriel pousou a fotografia e serviu-se do telemóvel para reservar um lugar no voo da manhã seguinte para Heathrow. Depois pegou na folha onde tinha escrito o número tirado do registo de chamadas do telefone de Bradshaw.

 

6215845…

 

Está a falar com o Padre Marco. Em que posso ajudá-lo ?

 

Marcou o número novamente, mas desta vez tocou sem que ninguém atendesse. A seguir, com relutância, comunicou-o por via segura ao Centro de Operações da Avenida Rei Saul e pediu que fizessem uma verificação de rotina. A resposta chegou passados dez minutos: 6215845 era um número que não vinha na lista telefónica e que correspondia ao presbitério da Igreja de San Giovanni Evangelista, em Brienno, que ficava a poucos quilómetros de distância, continuando a subir pelo lago.

 

Gabriel pegou na primeira folha que tinha encontrado no bloco de apontamentos de Jack Bradshaw na noite em que este fora assassinado. Inclinando-a para o candeeiro, estudou as marcas que tinham sido deixadas pela caneta de tinta permanente de Bradshaw. Tirou um lápis da gaveta de cima da secretária e passou a ponta suavemente sobre a superfície até emergir um padrão de linhas. Era quase tudo uma salgalhada impenetrável: o número 4, o número 8, as letras C, V e O. Mas, no fundo da página, havia uma única palavra claramente visível.

 

Samir…

 

A estrada chamava-se Paradise, mas era um paraíso perdido: blocos em ruínas de habitações sociais em tijoleira vermelha, um pedaço de relva pisada, um parque infantil sem crianças onde um carrossel girava lentamente ao sabor do vento. Gabriel deixou-se ficar ali apenas o tempo suficiente para ter a certeza de que ninguém o seguia. Tapou as orelhas com a gola do casaco e tremeu. A primavera ainda não tinha chegado a Londres. A seguir ao parque infantil, havia uma passagem que dava para a Clapham Road. Gabriel virou para a esquerda e avançou, sob as luzes intensas do trânsito, até à estação de metro de Stockwell. Depois de virar mais uma vez, chegou a uma rua sossegada, com uma fila de casas do pós-Segunda Guerra Mundial cobertas de fuligem. O número 8 tinha uma vedação preta e torta de ferro forjado e um jardinzinho em cimento apenas com um caixote azul real para lixo reciclável a servir de decoração. Gabriel levantou a tampa, viu que o caixote estava vazio e subiu os três degraus até à porta da rua. Um letreiro avisava para não incomodar, fosse por que motivo fosse. Ignorando-o, Gabriel encostou o polegar ao botão da campainha — dois toques rápidos e um terceiro mais prolongado, tal como lhe tinham dito.

 

— Senhor Baker — disse o homem que surgiu à porta. — Que bom ter podido aparecer. O meu nome é Davies. Estou ao seu dispor.

 

Gabriel entrou na casa e esperou que a porta se fechasse antes de se voltar para ficar de frente para o homem que lhe abrira a porta. Tinha cabelo claro e fino e o rosto inocente de um vigário rural. Não se chamava Davies. Chamava-se Nigel Whitcombe.

 

— Para que é este secretismo todo? — perguntou Gabriel. — Não vou desertar. Só preciso de dar uma palavrinha ao chefe.

 

— Os serviços secretos britânicos não veem com bons olhos que se usem os nomes verdadeiros nas casas seguras. Davies é o meu nome profissional.

 

— Fica no ouvido — disse Gabriel.

 

— Fui eu quem o escolheu. Sempre gostei dos Kinks.

 

— E quem é o Baker?

 

— O Baker és tu — respondeu Whitcombe sem ponta de ironia na voz.

 

Gabriel entrou na pequena sala de estar. Estava mobilada com todo o encanto de um átrio das partidas de um aeroporto.

 

— Não podiam ter arranjado uma casa segura em Mayfair ou Chelsea?

 

— Já não havia imóveis disponíveis no West End. Além disso, este fica mais perto de Vauxhall Cross.

 

Vauxhall Cross era o quartel-general dos serviços secretos britânicos, também conhecidos como MI6. Em tempos, os serviços tinham funcionado num edifício manhoso, na Broadway, e o diretor-geral dava apenas pelo nome C. Mas, atualmente, os espiões trabalhavam num dos marcos mais vistosos de Londres e o nome do chefe aparecia com regularidade na imprensa. Gabriel preferia os velhos costumes. Em questões de serviços secretos, tal como de arte, era por natureza tradicionalista.

 

— E será que hoje em dia os serviços secretos britânicos autorizam a que haja café nas casas seguras? — perguntou.

 

— Café a sério, não — respondeu Whitcombe, com um sorriso. — Mas é capaz de haver um frasco de Nescafé na despensa.

 

Gabriel encolheu os ombros, como que a querer dizer que se podia arranjar pior do que Nescafé, e seguiu Whitcombe até à exígua cozinha. Dava a ideia de pertencer a um homem que se tinha separado há pouco tempo e acalentava esperanças de uma reconciliação rápida. Havia de facto um recipiente com Nescafé e também uma lata de Twinings que parecia já lá estar desde a altura em que Edward Heath fora primeiro-ministro. Whitcombe encheu a chaleira elétrica de água enquanto Gabriel vasculhava os armários à procura de uma caneca. Havia duas, uma com o logótipo dos Jogos Olímpicos de Londres e a outra com a cara da rainha. Quando Gabriel escolheu a caneca com a rainha, Whitcombe sorriu.

 

— Não fazia ideia de que eras um admirador de Sua Majestade.

 

— Tem bom gosto em arte.

 

— Pode dar-se ao luxo disso.

 

Whitcombe lançou esse comentário não como uma crítica mas tão-somente como a observação de um facto. Era assim que ele era: cuidadoso, astuto, opaco como uma parede de betão. Iniciara a carreira no MI5, onde tinha feito o tirocínio quanto a operações colaborando com Gabriel contra um oligarca e traficante de armas russo chamado Ivan Kharkov. Pouco tempo depois, passara a ser o principal ajudante de campo e moço de recados confidenciais de Graham Seymour, o diretor-adjunto do MI5. Seymour tinha sido recentemente nomeado o novo chefe do MI6, uma decisão que surpreendeu toda a gente no ramo dos serviços secretos menos Gabriel. Atualmente, Whitcombe servia o seu amo com esse mesmo estatuto, o que explicava a presença dele na casa segura de Stockwell. Pôs umas colheradas de Nescafé na caneca e ficou a ver o vapor a subir pelo bico da chaleira.

 

— Como anda a vida no número 6? — perguntou Gabriel.

 

— Quando lá chegámos, houve imensa desconfiança por parte das tropas. Suponho que tivessem direito a sentir-se desconfortáveis. Afinal de contas, estávamos a vir do outro lado do rio, de um serviço rival.

 

— Mas o Graham não era propriamente um completo estranho. O pai foi uma lenda do MI6. Foi praticamente criado dentro do serviço.

 

— E isso foi uma das razões para as preocupações terem terminado todas cedo.

 

Whitcombe tirou um pequeno tablet do bolso do peito do fato e olhou para o ecrã.

 

— Ele está mesmo a chegar. Consegues tratar do café sozinho?

 

— Despejo a água e depois remexo, certo?

 

Whitcombe foi-se embora. Gabriel preparou o café e foi para a sala de estar. Quando lá entrou, viu uma figura alta com um fato de um cinzento muito escuro que lhe assentava perfeitamente e uma gravata azul às riscas. Tinha uma cara de ossos delicados e uniforme; o cabelo possuía um forte matiz prateado que o fazia parecer um modelo que poderia aparecer em anúncios a bugigangas dispendiosas mas inúteis. Estava a segurar com a mão esquerda um telemóvel, colado ao ouvido. Estendeu distraidamente a direita a Gabriel. Tinha um aperto de mão firme, confiante e de duração apropriada. Era uma arma desleal quando utilizada contra adversários inferiores. Mostrava que andara nas melhores escolas, que era membro dos melhores clubes e que era bom em jogos de cavalheiros como o ténis e o golfe, tudo coisas que por acaso eram verdade. Graham Seymour era uma relíquia do glorioso passado britânico, um filho das classes dirigentes que tinha sido criado, educado e programado para chefiar. Uns meses antes, cansado após vários anos a tentar proteger a pátria britânica das forças do extremismo islâmico, confidenciara a Gabriel que planeava deixar o mundo dos serviços secretos para se reformar e ir viver para a villa que tinha em Portugal. E agora, inesperadamente, tinham-lhe sido dadas as chaves do antigo serviço do pai. Gabriel sentiu-se subitamente culpado por ter vindo a Londres. Estava prestes a entregar a Seymour a primeira crise potencial dele no MI6.

 

Seymour murmurou umas palavras para o telemóvel, interrompeu a ligação e passou-o a Nigel Whitcombe. Virou-se para Gabriel e pôs-se a olhar para ele com curiosidade durante um momento.

 

— Tendo em conta o nosso longo passado juntos — disse Seymour por fim —, estou um bocadinho relutante em perguntar-te o que te traz por cá. Mas imagino que não tenha outra opção.

 

Gabriel respondeu contando a Seymour uma pequena parte da verdade — que tinha vindo a Londres por estar a investigar o homicídio de um inglês expatriado que vivia em Itália.

 

— E esse inglês expatriado tem nome? — perguntou Seymour.

 

— James Bradshaw — respondeu Gabriel. Parou por uns instantes, antes de acrescentar: — Mas os amigos tratavam-no por Jack.

 

A cara de Seymour permaneceu uma máscara inexpressiva.

 

— Acho que li qualquer coisa acerca disso nos jornais — disse. — Tinha sido do Ministério dos Negócios Estrangeiros, não tinha? Fez consultoria no Médio Oriente. Foi assassinado na villa dele em Como. Pelos vistos, foi uma coisa bastante desagradável.

 

— Pois foi — concordou Gabriel.

 

— E o que tem isso que ver comigo?

 

— O Jack Bradshaw não era diplomata nenhum, pois não, Graham? Era do MI6. Era um espião.

 

Seymour conseguiu manter a compostura por mais um instante. Depois semicerrou os olhos e perguntou:

 

— Que mais tens?

 

— Três quadros roubados, uma caixa-forte no Freeport de Genebra e um tipo chamado Samir.

 

— Só isso?

 

Seymour abanou a cabeça devagar e voltou-se para Whitcombe.

 

— Cancela os meus compromissos para o resto da tarde, Nigel. E arranja-nos qualquer coisa para beber. Vamos ficar aqui um bocado.

 

Whitcombe saiu para ir buscar os ingredientes para um gim tónico enquanto Gabriel e Graham Seymour se instalavam na salinha de estar sem graça. Gabriel perguntou aos seus botões que destroços dos serviços secretos teriam passado por aquele sítio antes dele. Um desertor do KGB disposto a vender a alma por trinta peças de prata do Ocidente? Um cientista nuclear iraquiano com uma pasta cheia de mentiras? Um agente duplo jihadista que afirmava saber quando e onde seria a próxima superprodução da Al-Qaeda? Olhou para a parede por cima da lareira elétrica e viu dois cavaleiros de casaco vermelho a conduzir as montadas por um verde prado inglês. A seguir, espreitou pela janela e viu um anjo de porte majestoso no relvado do jardim a escurecer, entregue a uma vigília solitária. Graham Seymour não parecia estar ciente do que o rodeava. Contemplava as mãos, como se tentasse decidir por onde começar o relato. Não se deu ao trabalho de delinear as regras básicas, pois não era necessário tal aviso. Gabriel e Seymour eram tão próximos como podiam ser dois espiões de serviços adversários, o que queria dizer que só desconfiavam um bocadinho um do outro.

 

— Os italianos sabem que estás aqui? — perguntou Seymour por fim.

 

Gabriel abanou a cabeça.

 

— Então e o Departamento?

 

— Não lhes disse que vinha, mas isso não quer dizer que não estejam a vigiar cada passo que eu dou.

 

— Agradeço a tua sinceridade.

 

— Sou sempre sincero contigo, Graham.

 

— Pelo menos, quando isso te convém.

 

Gabriel não se deu ao trabalho de retorquir. Preferiu ficar a ouvir com atenção enquanto Seymour, com uma voz transtornada, de quem preferiria estar a falar de outros assuntos, relatava a curta vida e carreira de James «Jack» Bradshaw. Tratava-se de território familiar para um homem como Seymour, pois também tinha vivido uma versão da vida de Bradshaw. Eram ambos produtos de famílias de classe média razoavelmente felizes, tinham sido ambos enviados para escolas privadas dispendiosas mas frias e ambos tinham entrado em universidades de elite, embora Seymour tivesse estado em Cambridge e Bradshaw tivesse ido parar a Oxford. Foi lá que, quando ainda estava a tirar a licenciatura, chamara a atenção de um professor que fazia parte do Corpo Docente de Estudos Orientais. O professor era na verdade um caça-talentos ao serviço do MI6. E Graham Seymour também o conhecia.

 

— O caça-talentos era o teu pai? — perguntou Gabriel.

 

Seymour assentiu com a cabeça.

 

— Já estava no crepúsculo da carreira. Estava demasiado gasto para servir para grande coisa no terreno e se havia coisa que não queria era trabalhar no quartel-general. Por isso, mandaram-no para Oxford e disseram-lhe para estar atento a potenciais recrutas. Um dos primeiros alunos em que reparou foi o Jack Bradshaw. Era difícil não reparar no Jack — acrescentou Seymour depressa. — Era um meteoro. Mas, mais importante, era sedutor, tinha um talento natural para o logro e não possuía escrúpulos nem princípios.

 

— Por outras palavras, tinha tudo o que era preciso para ser um espião perfeito.

 

— Na melhor tradição inglesa — acrescentou Seymour, com um sorriso irónico.

 

E foi assim que, prosseguiu, Jack Bradshaw se lançara no mesmo percurso que tantos outros haviam antes trilhado — um percurso que levava dos tranquilos pátios quadrangulares de Cambridge e Oxford à porta protegida por código dos serviços secretos britânicos. Corria o ano de 1985 quando lá chegou. A Guerra Fria aproximava-se do fim e o MI6 ainda continuava à procura de uma razão que justificasse a sua existência após ter sido destruído de dentro por Kim Philby e os restantes membros da rede de espionagem de Cambridge. Bradshaw passara dois anos no programa de formação do MI6 e depois partira para o Cairo para realizar o estágio. Tornou-se especialista em extremismo islâmico e vaticinou com exatidão o nascimento de uma rede terrorista jihadista internacional encabeçada por veteranos da Guerra do Afeganistão. A seguir, foi para Amã, onde criou fortes laços com o chefe do GID, os todo-poderosos serviços secretos e de segurança da Jordânia. Passado pouco tempo, Jack Bradshaw era considerado o principal agente de campo do MI6 no Médio Oriente. Pressupôs que seria o próximo chefe de divisão, mas o cargo foi atribuído a um rival que o despachou de imediato para Beirute, uma das colocações mais perigosas e ingratas da região.

 

— E foi aí — disse Seymour — que começaram os problemas.

 

— Que género de problemas?

 

— Os do costume — respondeu Seymour. — Começou a beber de mais e a trabalhar de menos. E também passou a ter-se em grande conta. Começou a achar que era o tipo mais esperto onde quer que estivesse e que os superiores em Londres eram uns autênticos incompetentes. Senão, como se podia explicar que não lhe tivessem dado a promoção quando era claramente o candidato mais qualificado para o cargo? A seguir, conheceu uma mulher chamada Nicole Devereaux e a situação foi de mal a pior.

 

— Quem era ela?

 

— Uma fotógrafa dos quadros da AFP, a agência noticiosa francesa. Conhecia Beirute melhor do que a maioria dos rivais porque estava casada com um empresário libanês chamado Ali Rashid.

 

— E como conheceu o Bradshaw? — perguntou Gabriel.

 

— Num convívio de sexta à noite na embaixada britânica: jornalistas de segunda, diplomatas e espiões a trocarem mexericos e histórias tenebrosas de Beirute com cerveja morna e aperitivos secos a acompanhar.

 

— E tiveram um caso?

 

— Bastante tórrido, diga-se de passagem. Segundo consta, o Bradshaw estava apaixonado por ela. Os rumores começaram a circular, claro, e, passado pouco tempo, chegaram aos ouvidos do rezident do KBG na embaixada soviética. Que conseguiu tirar umas fotografias da Nicole no quarto do Bradshaw. E depois avançou.

 

— Um recrutamento?

 

— É uma maneira de pôr a coisa — respondeu Seymour. — Na realidade, foi chantagem à moda antiga, pura e dura.

 

— A especialidade do KGB.

 

— E também tua.

 

Gabriel não fez caso do comentário e perguntou em que tinha consistido a abordagem.

 

— O rezident apresentou ao Bradshaw uma escolha simples — explicou Seymour. — Podia passar a trabalhar como agente a soldo do KGB ou então os russos entregavam discretamente ao marido as fotos da Nicole Devereaux em flagrante delito.

 

— E presumo que o Ali Rashid não teria reagido lá muito bem à notícia de que a mulher estava a ter um caso com um espião britânico.

 

— O Rashid era um homem perigoso. — Seymour fez uma pausa, antes de acrescentar: — E um homem com contactos.

 

— Que espécie de contactos?

 

— Com os serviços secretos sírios.

 

— Então o Bradshaw estava com medo que o Rashid a fosse matar?

 

— E com boas razões. Escusado será dizer que aceitou colaborar.

 

— E o que lhes deu?

 

— Os nomes do pessoal do MI6, as operações em curso, informações valiosas sobre as políticas britânicas na região. Em resumo, as nossas estratégias todas para o Médio Oriente.

 

— E como é que vocês souberam?

 

— Não fomos nós — respondeu Seymour. — Os americanos descobriram que o Bradshaw tinha uma conta bancária na Suíça com meio milhão de dólares. Comunicaram-nos essa informação com grande pompa e circunstância, numa reunião bastante horrenda em Langley.

 

— E porque não prenderam o Bradshaw?

 

— És um homem experimentado — respondeu Seymour. — Diz-me tu.

 

— Porque isso teria dado azo a um escândalo que o MI6 não se podia dar ao luxo de enfrentar naquela altura.

 

Seymour tocou no nariz.

 

— Até deixaram ficar o dinheiro na conta suíça porque não conseguiram descobrir maneira de o apreender sem levantar um alerta. É bem possível que tenha sido o paraquedas dourado mais lucrativo da história do MI6. — Seymour abanou a cabeça lentamente. — Não foi propriamente o nosso melhor momento.

 

— E o que aconteceu ao Bradshaw depois de sair do MI6?

 

— Andou uns meses por Beirute a lamber as feridas e depois voltou para a Europa e criou uma empresa de consultoria. Para que conste — acrescentou Seymour —, os serviços secretos britânicos nunca tiveram grande opinião da Meridian Global Consulting Group.

 

— E sabiam que o Bradshaw andava metido em arte roubada?

 

— Desconfiávamos que andasse envolvido em empreendimentos que não fossem propriamente legais, mas a maior parte do tempo assobiámos para o ar e esperámos que as coisas corressem pelo melhor.

 

— E quando souberam que ele tinha sido assassinado em Itália?

 

— Agarrámo-nos à ficção de que era diplomata. Mas o Ministério dos Negócios Estrangeiros deixou bem claro que o ia renegar ao primeiro sinal de problemas. — Seymour parou por uns instantes e depois perguntou: — Ficou a faltar alguma coisa?

 

— O que aconteceu à Nicole Devereaux?

 

— Segundo parece, alguém falou do caso ao marido. Desapareceu uma noite depois de sair da redação da AFP. Encontraram o corpo dela passados uns dias, no vale de Bekaa.

 

— Foi o Rashid quem a matou?

 

— Não — respondeu Seymour. — Os sírios fizeram-no por ele. Divertiram-se um bocadinho com ela antes de a pendurarem num candeeiro e lhe cortarem a garganta. Foi tudo bastante horrível. Mas suponho que isso fosse de esperar. Afinal de contas — acrescentou num tom sorumbático —, eram sírios.

 

— Pergunto a mim mesmo se terá sido coincidência — disse Gabriel.

 

— O quê?

 

— Que matassem o Jack Bradshaw precisamente da mesma maneira.

 

A única reação de Seymour foi olhar atentamente para o relógio, com ar de quem estava atrasado para um compromisso a que preferia faltar.

 

— A Helen está à minha espera para jantar — afirmou com profunda falta de entusiasmo. — Infelizmente, agora anda com o bichinho das Áfricas. Não tenho a certeza, mas sou capaz de ter comido cabra a semana passada.

 

— És um felizardo, Graham.

 

— A Helen diz a mesma coisa. O meu médico é que não tem assim tanta certeza.

 

Seymour pousou a bebida e levantou-se. Gabriel não se mexeu.

 

— Imagino que me queiras fazer mais uma pergunta — disse Seymour.

 

— Duas, por acaso.

 

— Estou a ouvir.

 

— Achas que há alguma hipótese de eu poder dar uma olhadela ao dossiê do Bradshaw?

 

— Próxima pergunta.

 

— Quem é o Samir?

 

— Apelido?

 

— Ainda estou a tentar descobrir.

 

Seymour olhou para o teto.

 

— Há um Samir que tem uma merceariazinha ao virar da esquina do meu apartamento. É membro devoto da Irmandade Muçulmana e acha que o Reino Unido devia ser governado pela sharia. — Olhou para Gabriel e sorriu. — Tirando isso, é um tipo bastante simpático.

 

A embaixada israelita ficava do outro lado do Tamisa, numa esquina sossegada de Kensington, logo a seguir à High Street. Gabriel entrou discretamente no edifício pelas traseiras, por uma porta não identificada, e desceu as escadas até ao conjunto de salas revestido a chumbo e reservado para o Departamento. O chefe de base não estava lá, apenas um jovem funcionário pouco importante chamado Noah, que se levantou com um salto quando o futuro diretor lhe entrou pela porta dentro sem aviso. Gabriel dirigiu-se para o centro de comunicações seguras — no léxico do Departamento, chamavam-lhe o Santo dos Santos — e enviou de lá uma mensagem para a Avenida Rei Saul a pedir acesso a eventuais ficheiros relativos a um empresário libanês chamado Ali Rashid. Não se incomodou em explicar a razão do pedido. O cargo que se avizinhava tinha os seus privilégios.

 

Passaram vinte minutos até o ficheiro ser transmitido pela ligação segura — tempo suficiente, calculou Gabriel, para que o atual chefe do Departamento aprovasse essa comunicação. Era curto, com cerca de mil palavras, e estava escrito no estilo conciso que se exigia aos analistas do Departamento. Referia que Ali Rashid era um conhecido ativo dos serviços secretos sírios, que funcionava como tesoureiro de uma grande rede síria no Líbano e que tinha morrido quando uma bomba fez explodir um carro na capital libanesa, em 2011, sendo a autoria do atentado desconhecida. No fim do ficheiro, vinha o código numérico de seis dígitos do agente responsável. Gabriel reconheceu-o; a analista em causa já tinha sido a maior especialista do Departamento em questões relacionadas com a Síria e o Partido Baath. Nos tempos que corriam, era conhecida por outro motivo. Era a mulher do quase ex-chefe.

 

Tal como a maior parte dos postos avançados do Departamento espalhados pelo mundo, a Base de Londres incluía um pequeno quarto para alturas de crise. Gabriel conhecia bem o quarto, pois já lá tinha ficado várias vezes. Estendeu-se na desconfortável cama individual e tentou adormecer, mas era escusado; o caso não lhe saía da cabeça. Um espião britânico cheio de futuro e que se tinha tresmalhado, um ativo dos serviços secretos sírios que fora feito em pedacinhos com a explosão de uma bomba num carro, três quadros roubados que estavam escondidos debaixo de falsificações de elevada qualidade, uma caixa-forte no Freeport de Genebra… As possibilidades, pensou Gabriel, eram infinitas. Era escusado estar a tentar forçar as peças naquele momento. Precisava de abrir mais uma janela — uma janela para o comércio mundial de quadros roubados — e para isso precisava da ajuda de um mestre ladrão de arte.

 

E foi assim que ficou deitado na pequena cama dura, sem conseguir adormecer, a braços com recordações e pensamentos voltados para o futuro, até às seis da manhã. Depois de tomar um duche e mudar de roupa, saiu da embaixada quando ainda era de noite e apanhou o metro até à estação de St. Pancras. Partia um Eurostar para Paris às sete e meia; comprou uma série de jornais antes de embarcar e acabou de os ler no momento em que comboio parou na Gare du Nord. Lá fora, uma fila de táxis molhados aguardava sob um céu de um cinzento metalizado. Gabriel passou por eles depressa e esteve uma hora a percorrer as ruas movimentadas à volta da estação até ter a certeza de que não estava a ser seguido. Depois dirigiu-se para o oitavo arrondissement, a caminho de uma rua chamada Rue de Miromesnil.

 

No mundo dos serviços secretos, tal como na vida, às vezes é necessário lidar com indivíduos que têm tudo menos as mãos limpas. A melhor maneira de apanhar um terrorista era utilizar outro como fonte de informações. E o mesmo se aplicava, concluiu Gabriel, quando se estava a tentar apanhar um ladrão. O que explicava por que razão, às 9h55, se encontrava sentado junto à janela, numa brasserie bastante boa da Rue de Miromesnil, com um exemplar do Le Monde aberto diante dele e um café crème a escaldar encostado ao cotovelo. Às 9h58, reparou numa figura de sobretudo e chapéu a avançar energicamente pelo passeio, como quem vem do Palácio do Eliseu. Essa figura entrou numa pequena loja chamada Antiquités Scientifiques às dez em ponto, acendeu as luzes e passou o letreiro na montra de FERMÉ para OUVERT. Se havia coisa que se podia dizer de Maurice Durand, pensou Gabriel, sorrindo, é que era uma pessoa de hábitos certos. Terminou o café e atravessou a rua deserta até à entrada da loja. Quando carregou nele, o intercomunicador berrou como uma criança inconsolável. Passaram vinte segundos sem que a porta se abrisse. Foi então que o ferrolho deu de si com um baque inóspito e Gabriel entrou discretamente.

 

A pequena sala de exposições, tal como o próprio Durand, era um modelo de ordem e precisão. Microscópios e barómetros antigos encontravam-se dispostos nas prateleiras, em filas meticulosas, com os acessórios em bronze a reluzirem como os botões da túnica de um soldado; máquinas fotográficas e telescópios espreitavam cegamente para o passado. No centro da sala, estava um globo terrestre, preço disponível mediante solicitação. Durand estava com a pequeníssima mão direita pousada em cima da Ásia Menor. Tinha um fato escuro, uma gravata de um dourado muito intenso e o sorriso mais falso que Gabriel já vira. A careca reluzia com a luz do teto. Os olhos pequenos fitavam o que tinham à frente com a atenção de um terrier.

 

— Como vai o negócio? — perguntou Gabriel cordialmente.

 

Durand aproximou-se dos aparelhos fotográficos e pegou numa máquina dos inícios do século XX, com uma lente em bronze fabricada pela Poulenc, em Paris.

 

— Vou enviar esta peça para um colecionador australiano — informou. — Seiscentos euros. É menos do que eu estava à espera, mas o tipo não se deixou levar.

 

— Não é esse negócio, Maurice.

 

Durand ficou calado.

 

— Você e os seus homens saíram-se com um belo golpe o mês passado em Munique — disse Gabriel. — Um retrato do El Greco desaparece da Alte Pinakothek e nunca mais ninguém o viu ou ouviu falar dele. Não houve pedido de resgate. Nem indicações da polícia alemã de que esteja perto de desvendar o caso. Só silêncio e um espaço vazio na parede de um museu onde dantes estava pendurada uma obra-prima.

 

— Não me pergunta sobre o meu negócio — retorquiu Durand — e eu não lhe pergunto sobre o seu. São as regras da nossa relação.

 

— Onde está o El Greco, Maurice?

 

— Está em Buenos Aires, nas mãos de um dos meus melhores clientes. Tem um fraco — acrescentou Durand —, um apetite insaciável que só eu posso satisfazer.

 

— E qual é?

 

— Gosta de ter o que não se pode ter.

 

Durand voltou a pousar a máquina fotográfica na prateleira da vitrina.

 

— Imagino que isto não seja uma visita de carácter social. — Gabriel abanou a cabeça. — E o que quer desta vez?

 

— Informações.

 

— Sobre o quê?

 

— Um inglês que morreu chamado Jack Bradshaw. — O rosto de Durand manteve-se inexpressivo. — Imagino que o conhecesse, certo? — perguntou Gabriel.

 

— Só a sua reputação.

 

— E faz ideia de quem o retalhou aos pedacinhos?

 

— Não — respondeu Durand, abanando a cabeça lentamente. — Mas sou capaz de lhe poder indicar a direção certa.

 

Gabriel foi até à montra e mudou o letreiro de OUVERT para FERMÉ. Durand soltou um suspiro profundo e vestiu o sobretudo.

 

Eram dos pares mais improváveis que se poderiam encontrar em Paris naquela manhã gelada de primavera, o ladrão de arte e o agente dos serviços secretos, a percorrerem lado a lado as ruas do oitavo arrondissement. Meticuloso em tudo o que fazia, Maurice Durand começou por um breve apanhado sobre a indústria da arte roubada. Todos os anos, milhares de quadros e outros objets d’art desapareciam de museus, galerias, instituições públicas e casas. As estimativas quanto a valores chegavam a atingir os seis mil milhões de dólares, fazendo dos crimes relacionados com a arte a quarta atividade ilícita mais lucrativa do mundo, só atrás do tráfico de droga, da lavagem de dinheiro e do tráfico de armas. E Maurice Durand era responsável por grande parte da mesma. Recorrendo a um conjunto de ladrões profissionais estabelecidos em Marselha, tinha executado alguns dos maiores roubos de arte da história. Já não se considerava um mero ladrão de arte. Era um empresário à escala global, uma espécie de mediador, que se especializava na aquisição discreta de quadros que não se encontravam propriamente à venda.

 

— Na minha modesta opinião — continuou, sem ponta de modéstia na voz —, há quatro tipos de ladrões de arte. O primeiro é o que anda à caça de emoções, o amante de arte que rouba para obter uma coisa que nunca poderia comprar. Lembro-me, por exemplo, do Stéphane Breitwieser. — Olhou de soslaio para Gabriel. — Conhece o nome?

 

— O Breitwieser era o empregado de mesa que roubou mais de mil milhões de dólares de arte para a coleção dele.

 

— Incluindo a Sibila de Cleves de Lucas Cranach, o Velho. Depois de o prenderem, a mãe cortou os quadros aos bocadinhos e deitou-os fora com o lixo. — O francês abanou a cabeça, em sinal de desaprovação. — Estou longe de ser perfeito, mas nunca destruí um quadro. — Olhou outra vez de soslaio para Gabriel. — Mesmo quando o devia ter feito.

 

— E a segunda categoria?

 

— O falhado incompetente. Rouba um quadro, não sabe o que lhe fazer e entra em pânico. Às vezes, ainda consegue receber qualquer coisa a título de resgate ou recompensa. Mas, na maioria dos casos, é apanhado. Com toda a franqueza — acrescentou Durand —, não posso com ele. Dá mau nome às pessoas como eu.

 

— Profissionais que executam roubos por encomenda?

 

Durand assentiu com a cabeça. Estavam a caminhar pela Avenue Matignon. Passaram os escritórios da Christie’s e viraram para os Campos Elíseos. As pernadas dos castanheiros estavam despidas, com o céu cinzento em pano de fundo.

 

— Nas forças policiais, há quem insista que eu não existo — prosseguiu Durand. — Acham que sou uma fantasia, uma ilusão que se quer que seja realidade. Não percebem que há gente extremamente rica no mundo que anseia por adquirir grandes obras de arte e não se importa que sejam ou não roubadas. Aliás, há pessoas que querem uma obra-prima por ser roubada.

 

— E qual é a quarta categoria?

 

— O crime organizado. São todos muito bons a roubar quadros, mas não são assim tão bons no que toca a pô-los no mercado. — Durand fez uma pausa e depois acrescentou: — E era aí que o Jack Bradshaw entrava. Funcionava como intermediário entre os ladrões e os compradores… um recetador de luxo, se assim se puder dizer. E era bom no que fazia.

 

— E que género de compradores?

 

— De vez em quando, vendia diretamente aos colecionadores — respondeu Durand. — Mas, na maioria dos casos, fazia os quadros passar por uma rede de negociantes europeus.

 

— Onde?

 

— Paris, Bruxelas e Amesterdão são sítios ótimos para descarregar arte roubada. Mas as leis de propriedade e de privacidade da Suíça continuam a fazer dela uma meca para se pôr bens roubados no mercado.

 

Atravessaram a Place de la Concorde e entraram no Jardim das Tulherias. À esquerda, ficava o Jeu de Paume, o pequeno museu que os nazis tinham utilizado como centro de triagem quando estavam a pilhar a arte existente em França. Durand parecia estar a fazer propositadamente um esforço para não olhar para lá.

 

— O seu amigo Jack Bradshaw andava metido numa atividade perigosa — disse. — Tinha de lidar com gente que recorre rapidamente à violência quando as coisas não correm de feição. Os gangues sérvios são particularmente ativos na Europa Ocidental. E os russos também. É possível que o Bradshaw fosse morto por causa de um negócio que deu para o torto. Ou…

 

A voz de Durand sumiu-se.

 

— Ou o quê?

 

Durand hesitou antes de responder.

 

— Ouviam-se rumores — disse por fim. — Mas nada de concreto, atenção. Eram só especulações com conhecimento de causa.

 

— Que género de especulações?

 

— Que o Bradshaw estava a tentar adquirir uma grande quantidade de quadros no mercado negro para uma só pessoa.

 

— E sabe o nome dessa pessoa?

 

— Não.

 

— Está a dizer-me a verdade, Maurice?

 

— Isto se calhar vai surpreendê-lo — respondeu Durand —, mas quando se está a adquirir uma coleção de quadros roubados, não se anuncia por norma o que se está a fazer.

 

— Continue.

 

— E também se ouviam rumores de outro tipo relacionados com o Bradshaw, rumores de que andava a servir de mediador num negócio relativo a uma obra-prima. — Durand olhou em redor de forma quase impercetível antes de prosseguir. Foi um comportamento digno de um espião profissional, pensou Gabriel. — Uma obra-prima que está desaparecida há várias décadas.

 

— E sabe qual era o quadro?

 

— Claro. E você também o conhece. — Durand parou e voltou-se para Gabriel. — Era uma cena da Natividade pintada por um artista barroco já no final da carreira. Chamava-se Michelangelo Merisi, mas a maioria das pessoas conhece-o pelo nome da aldeia da família, perto de Milão.

 

Gabriel lembrou-se das três letras que tinha descoberto no bloco de apontamentos de Bradshaw: C… V… O…

 

As letras não eram aleatórias.

 

Eram do nome Caravaggio.

 

Dois séculos depois de morrer, estava praticamente esquecido. Os seus quadros ganhavam pó nos armazéns de galerias e museus, muitos erroneamente atribuídos, com as figuras iluminadas de forma impressionante a caírem lentamente no vazio dos respetivos e característicos fundos negros. Por fim, em 1951, o célebre historiador de arte italiano Roberto Longhi reuniu as obras que se conheciam do autor e mostrou-as ao mundo no Palazzo Reale, em Milão. A maioria das pessoas que visitou essa extraordinária exposição nunca tinha ouvido falar de Caravaggio.

 

Os pormenores do início da sua vida são, na melhor das hipóteses, vagos, linhas ténues a carvão numa tela de resto vazia. Nasceu no dia 29 de setembro de 1571, provavelmente em Milão, onde o pai era um pedreiro e arquiteto de sucesso. No verão de 1576, a peste regressou à cidade. Quando finalmente se esbateu, um quinto da diocese milanesa tinha falecido, incluindo o pai, o avô e o tio de Caravaggio. Em 1584, com treze anos, entrou para o ateliê de Simone Peterzano, um monótono mas competente maneirista que dizia ter sido discípulo de Ticiano. O contrato que celebraram, e que sobreviveu até aos tempos atuais, obrigava Caravaggio a treinar dia e noite durante um período de quatro anos. Não se sabe se o cumpriu, nem se chegou sequer a terminar essa aprendizagem. Claramente, a obra frouxa e inerte de Peterzano pouca influência teve nele.

 

Como quase tudo relacionado com ele, as circunstâncias exatas à volta da saída de Caravaggio de Milão perderam-se no tempo e encontram-se envolvidas em mistério. Há registos que indicam que a mãe morreu em 1590 e que ele recebeu, do modesto património dela, uma herança no valor de cem scudi de ouro. Passado um ano, o dinheiro já desaparecera. E não há em lado nenhum qualquer indicação de que o jovem volátil que tivera formação como artista chegasse a tocar com algum pincel numa tela nos últimos tempos que passou em Milão. Segundo parece, estava demasiado ocupado com outros interesses. Giovanni Pietro Bellori, autor de uma das primeiras biografias dele, sugere que Caravaggio teve de fugir da cidade, talvez após um incidente relacionado com uma prostituta e uma navalha ou talvez após o assassínio de um amigo. Viajou para leste, para Veneza, escreveu Bellori, onde se deixou fascinar pela paleta de Giorgione. No outono de 1592, partiu para Roma.

 

É daí em diante que se começa a conhecer melhor a vida de Caravaggio. Como toda a gente que vinha do Norte, entrou na cidade pelos portões do Porto del Popolo e dirigiu-se para o bairro dos artistas, um labirinto de ruas imundas à volta do Campo Marzio. De acordo com o pintor Baglione, viveu com um artista siciliano, embora outro dos seus biógrafos iniciais, um médico que conheceu Caravaggio em Roma, deixasse registado que ele se instalou em casa de um padre que o obrigava a tratar da casa e só lhe dava verduras para comer. Caravaggio chamava ao padre Monsignor Insalata e saiu de casa dele passados poucos meses. Viveu pelo menos em dez lugares diferentes durante os primeiros anos em Roma, incluindo no ateliê de Giuseppe Cesari, onde dormia num colchão de palha. Calcorreava as ruas com umas meias pretas esfarrapadas e uma capa igualmente preta e puída. O cabelo preto apresentava-se completamente desgrenhado.

 

Cesari só deixava Caravaggio pintar flores e frutos, as tarefas de menor importância possível para um aprendiz num ateliê. Aborrecido e convencido de um talento superior, começou a produzir os seus próprios quadros. Vendeu alguns nas ruelas em redor da Piazza Navona. Mas houve um quadro, um retrato luminoso de um rapazinho romano abastado a ser enganado às cartas por um par de batoteiros profissionais, que foi vendido a um negociante que tinha uma loja em frente ao palazzo ocupado pelo cardeal Francesco del Monte. A transação iria alterar por completo o rumo da vida de Caravaggio, pois o cardeal, um conhecedor e patrono das artes, era grande admirador do quadro e comprou-o por uns quantos scudi. Passado pouco tempo, adquiriu um segundo quadro de Caravaggio, que representava uma vidente sorridente a roubar o anel a um rapazinho romano enquanto lhe lia a palma da mão. A determinada altura, os dois homens conheceram-se, apesar de não ser claro de quem terá partido a iniciativa. O cardeal ofereceu ao jovem artista comida, roupa, alojamento e um estúdio no palazzo. Tudo o que pedia a Caravaggio era que pintasse. Caravaggio, na altura com apenas vinte e quatro anos, aceitou a proposta do cardeal. Foi uma das poucas decisões sensatas que tomou na vida.

 

Depois de se instalar nos aposentos no palazzo, Caravaggio produziu várias obras para o cardeal e respetivo círculo de amigos ricos, incluindo O Flautista, Os Músicos, Baco, Marta e Maria Madalena e São Francisco de Assis em Êxtase. Foi então que, em 1599, recebeu a primeira encomenda de carácter público: duas telas que representassem cenas da vida de São Mateus para a Capela Contarelli, na Igreja de San Luigi dei Francesi. Ainda que controversos, esses quadros tornaram de imediato Caravaggio o artista mais procurado de Roma. Seguiram-se rapidamente outras encomendas, incluindo A Crucificação de São Pedro e A Conversão de São Paulo para a Capela Cerasi da Igreja de Santa Maria del Popolo, A Ceia em Emaús, São João Baptista, A Traição de Cristo, A Dúvida de São Tomé e O Sacrifício de Isaac. Mas nem todas as obras que assinou foram bem recebidas depois de entregues. A Virgem e o Menino com Santa Ana foi retirada da Basílica de São Pedro por, ao que parece, a hierarquia eclesiástica não aprovar o amplo decote de Maria. O retrato dela, de pernas à mostra na Morte da Virgem, foi considerado tão ofensivo que a igreja que lhe tinha feito a encomenda, a Santa Maria della Scala, em Trastevere, se recusou a aceitá-lo. Rubens considerou-o uma das melhores obras de Caravaggio e ajudou-o a encontrar comprador.

 

O êxito como pintor não trouxe calma à vida pessoal de Caravaggio — com efeito, continuou tão caótica e violenta como sempre. Foi preso por andar com uma espada, sem licença, no Campo Marzio. Enfiou um prato com alcachofras na cara de um empregado, na Osteria del Moro. Passou pela cadeia por atirar pedras aos sbirri, a polícia papal, na Via dei Greci. Esse incidente com as pedras aconteceu às nove e meia de uma noite de outubro de 1604. Por essa altura, Caravaggio vivia sozinho numa casa arrendada, tendo por única companhia Cecco, o seu aprendiz e modelo ocasional. O seu aspeto físico deteriorara-se; já era outra vez a figura desleixada e com roupa preta esfarrapada que costumava vender os quadros na rua. E apesar de ter muitas encomendas, ia trabalhando intermitentemente. Não se sabe bem como, mas conseguiu produzir um retábulo monumental chamado A Deposição de Cristo. Segundo a opinião geral, era o melhor quadro dele.

 

Houve mais altercações com as autoridades — só em 1605, o seu nome aparece nos registos da polícia de Roma cinco vezes —, mas nenhuma foi mais grave do que o incidente que ocorreu a 28 de maio de 1606. Era domingo e, como de costume, Caravaggio dirigiu-se para os campos da Via della Pallacorda para ir jogar ténis. Foi lá que deparou com Ranuccio Tomassoni, um lutador de rua e um rival na disputa dos afetos de uma jovem e linda cortesã que tinha posado para vários quadros de Caravaggio. Houve uma troca de palavras e ambos puxaram das espadas. Os pormenores da escaramuça não são claros, mas Tomassoni acabou estendido no chão, com uma ferida profunda na parte superior da coxa. Morreu pouco tempo depois e, à noite, Caravaggio já era alvo de uma caça ao homem por toda a cidade. Procurado por homicídio, crime que só tinha um castigo possível, fugiu para os montes Albanos. Nunca mais voltaria a ver Roma.

 

Partiu para sul, em direção a Nápoles, onde a reputação de grande pintor o precedia, não obstante o homicídio. Deixou lá As Sete Obras de Misericórdia antes de seguir de barco para Malta. Foi admitido nos Cavaleiros de Malta, uma honra dispendiosa pela qual pagou em quadros, e viveu como nobre durante um curto espaço de tempo. Foi então que uma luta com outro membro da ordem o levou a passar mais uma temporada na prisão. Conseguiu escapar e fugir para a Sicília, onde, de acordo com todas as informações, deu mostras de estar louco e transtornado, dormindo com um punhal ao lado. Ainda assim, foi capaz de continuar a pintar. Em Siracusa, deixou O Enterro de Santa Lúcia. Em Messina, produziu dois quadros monumentais: A Ressurreição de Lázaro e o lancinante A Adoração dos Pastores. E para o Oratorio di San Lorenzo, em Palermo, pintou a Natividade com São Francisco e São Lourenço. Trezentos e cinquenta e nove anos depois, na noite de 18 de outubro de 1969, dois homens entraram na capela por uma janela e arrancaram a tela da moldura. Uma cópia desse quadro estava pendurada por trás da secretária do general Cesare Ferrari, no palazzo de Roma. Era o alvo número um da Brigada de Arte.

 

— Desconfio que o general já saiba da ligação entre o Caravaggio e o Jack Bradshaw — disse Maurice Durand. — Isso explicaria por que razão insistiu tanto consigo para que aceitasse o caso.

 

— Conhece bem o general — respondeu Gabriel.

 

— Nem por isso — retorquiu o francês. — Mas é verdade que já estive com ele uma vez.

 

— Onde?

 

— Aqui em Paris, num simpósio sobre crimes relacionados com a arte. O general fazia parte de um dos painéis.

 

— E você?

 

— Estava a assistir.

 

— A que título?

 

— Como negociante de antiguidades valiosas, claro.

 

Durand sorriu.

 

— O general pareceu-me ser um tipo sério, muito capaz. Há já muito tempo que não roubo nenhum quadro em Itália.

 

Estavam a percorrer um trilho de gravilha na allée centrale. As nuvens cor de chumbo tinham sugado toda a cor dos jardins. Era mais parecido com Sisley do que com Monet.

 

— E será possível? — perguntou Gabriel.

 

— Que o Caravaggio esteja mesmo prestes a ser adquirido?

 

Gabriel assentiu com a cabeça. Durand pareceu estar a ponderar muito bem a questão antes de responder.

 

— Já ouvi as histórias todas — disse por fim. — Que o colecionador que encomendou o roubo se recusou a aceitar o quadro por estar tão danificado depois de o arrancarem da moldura. Que os chefes da Máfia siciliana costumavam exibi-lo nas reuniões como uma espécie de troféu. Que tinha sido destruído numa inundação. Que fora comido por ratazanas. Mas também já ouvi rumores — acrescentou — de que já esteve para ser adquirido.

 

— E quanto acha que ia valer no mercado negro?

 

— Os quadros que o Caravaggio assinou enquanto andava em fuga não possuem a profundidade das grandes obras que realizou em Roma. Ainda assim — acrescentou Durand —, um Caravaggio é um Caravaggio.

 

— Quanto, Maurice?

 

— A prática diz-nos que um quadro roubado conserva dez por cento do valor original no mercado negro. Se o Caravaggio valesse cinquenta milhões no mercado aberto, sujo ia render cinco milhões.

 

— Não existe mercado aberto para um Caravaggio.

 

— O que quer dizer que é verdadeiramente um objeto único. Neste mundo, há homens capazes de pagar quase o que for preciso por uma coisa dessas.

 

— E você conseguiria vendê-lo?

 

— Com um único telefonema.

 

Chegaram ao lago dos barcos, onde havia várias pequenas embarcações à vela a navegar as águas minúsculas e agitadas pela tempestade. Gabriel parou junto à margem e explicou como tinha descoberto três quadros roubados — um Parmigianino, um Renoir e um Klimt — escondidos por baixo de cópias de obras menores, na villa de Jack Bradshaw, no lago Como. Enquanto observava os barcos, Durand foi assentindo com a cabeça pensativamente.

 

— Parece-me que os estavam a preparar para serem transportados e vendidos.

 

— E porquê pintar por cima deles?

 

— Para poderem ser vendidos legalmente. — Durand fez uma pausa e depois acrescentou: — Vendidos legalmente como obras de menor valor, claro.

 

— E quando as vendas fossem finalizadas?

 

— Uma pessoa como você seria contratada para retirar as imagens que serviam de capa e preparar os quadros para poderem ser pendurados.

 

Um par de turistas, duas raparigas, estava a posar para uma fotografia, do outro lado do lago dos barcos. Gabriel agarrou no cotovelo de Durand e conduziu-o em direção à Pirâmide do Louvre.

 

— Quem pintou essas falsificações era bom — disse. — Suficientemente bom para ser capaz de me enganar numa primeira impressão.

 

— Não faltam por aí muitos artistas talentosos dispostos a vender os serviços a pessoas como eu, que labutam na parte suja do ramo.

 

O francês olhou para Gabriel e perguntou:

 

— Já teve ocasião de falsificar algum quadro?

 

— Sou capaz de já ter falsificado um Cassatt em tempos.

 

— Por uma causa meritória, não tenho dúvidas.

 

Continuaram a caminhar, com a gravilha a estalar-lhes por baixo dos pés.

 

— E o Maurice? Já precisou dos serviços de algum falsificador?

 

— Estamos a entrar em território sensível — avisou Durand.

 

— Nós os dois já passámos essa fronteira há muito tempo.

 

Chegaram à Place du Carrousel, viraram à direita e seguiram para o rio.

 

— Sempre que tal é possível — disse Durand —, prefiro criar a ilusão de que um quadro roubado não foi realmente roubado.

 

— Deixa ficar uma cópia.

 

— Chamamos-lhes trabalhos de substituição.

 

— E quantos estão expostos nos museus e casas por essa Europa fora?

 

— Prefiro não dizer.

 

— Continue, Maurice.

 

— Há um homem que me trata de tudo. E esse falsificador chama-se Yves Morel.

 

— E onde é que ele estudou?

 

— Na École Nationale des Beaux-Arts de Lyon.

 

— Mas que prestigiante — retorquiu Gabriel. — E porque não se tornou artista?

 

— Tentou. Mas as coisas não correram conforme planeado.

 

— E por isso resolveu vingar-se do mundo da arte passando a falsificador?

 

— Qualquer coisa desse género.

 

— Muito nobre.

 

— Quem tem telhados de vidro…

 

— E a vossa relação é exclusiva?

 

— Quem me dera que fosse, mas não lhe consigo dar trabalho que chegue. De vez em quando, aceita encomendas de outros clientes. E um desses clientes era o agora falecido recetador chamado Jack Bradshaw.

 

Gabriel parou e voltou-se para Durand.

 

— E é por isso que sabe tanta coisa sobre as atividades do Bradshaw — disse. — Andavam a utilizar os serviços do mesmo falsificador.

 

— Era tudo bastante caravaggesco — respondeu Durand, assentindo com a cabeça.

 

— E onde é que o Morel trabalhava para o Bradshaw?

 

— Numa divisão do Freeport de Genebra. O Bradshaw tinha uma galeria de arte bastante singular lá. O Yves chamava-lhe a galeria dos desaparecidos.

 

— E onde está ele agora?

 

— Aqui em Paris.

 

— Onde, Maurice?

 

Durand tirou a mão do bolso do sobretudo e indicou que o falsificador poderia ser encontrado algures perto da Basílica do Sacré-Coeur. Entraram no metro, o ladrão de arte e o agente dos serviços secretos, e seguiram para Montmartre.

 

Yves Morel vivia num prédio de apartamentos na Rue Ravignon. Quando Durand carregou no botão do intercomunicador, ninguém atendeu.

 

— Deve andar pela Place du Tertre.

 

— A fazer o quê?

 

— A vender cópias de quadros impressionistas famosos aos turistas, para as autoridades fiscais francesas julgarem que ele ganha a vida de forma legal.

 

Foram até à praça, uma confusão de cafés com esplanada e artistas de rua junto da basílica, mas Morel não se encontrava no sítio habitual. A seguir, experimentaram o bar preferido dele, na Rue de Norvins, mas também não havia sinal de Morel por lá. Ligaram-lhe para o telemóvel, mas a chamada não foi atendida.

 

— Merde — soltou Durand baixinho, voltando a enfiar o telemóvel no bolso do sobretudo.

 

— E agora?

 

— Tenho a chave do apartamento dele.

 

— Porquê?

 

— De vez em quando, deixa umas coisas no estúdio para eu as ir lá buscar.

 

— Parece ser um tipo que confia nos outros.

 

— Ao contrário do que se costuma pensar — respondeu Durand —, há mesmo honra entre os ladrões.

 

Voltaram para o prédio de apartamentos e tentaram o intercomunicador uma segunda vez. Como ninguém atendeu, Durand sacou um molho de chaves do bolso e serviu-se de uma para abrir a porta. Utilizou a mesma chave para abrir a porta do apartamento de Morel. Foram recebidos pela escuridão. Durand carregou num interruptor na parede e acendeu a luz, iluminando um grande espaço aberto que funcionava em simultâneo como estúdio e espaço de habitação. Gabriel aproximou-se de um cavalete, que tinha em cima uma cópia inacabada de uma paisagem da autoria de Pierre Bonnard.

 

— E isto também é para vender aos turistas na Place du Tertre?

 

— Isso é para mim.

 

— E é para quê?

 

— Use a imaginação.

 

Gabriel examinou o quadro com mais atenção.

 

— Se tivesse de dar um palpite — atirou —, diria que pretende pendurá-lo no Musée des Beaux-Arts de Nice.

 

— Tem bom olho.

 

Gabriel virou costas ao cavalete e foi até à grande mesa de trabalho retangular que se encontrava no meio do estúdio. Tinha uma lona com manchas de tinta a tapá-la. Por baixo, estava um objeto com cerca de dois metros de comprimento e sessenta centímetros de largura.

 

— O Morel é escultor?

 

— Não.

 

— Então o que está debaixo da lona?

 

— Não sei, mas é melhor ver.

 

Gabriel levantou a ponta da lona e espreitou lá para dentro.

 

— E então? — perguntou Durand.

 

— Lamento dizê-lo, mas vai ter de arranjar outra pessoa para acabar o Bonnard, Maurice.

 

— Deixe-me vê-lo.

 

Gabriel puxou a lona para trás.

 

— Merde — soltou Durand baixinho.

 

O general Ferrari estava à espera junto à muralha da fortaleza antiga de San Remo, às duas da tarde do dia seguinte. Usava um fato de executivo, um sobretudo de lã e óculos escuros que lhe escondiam o olho prostético que tudo via. Com roupa de ganga e cabedal, Gabriel parecia o irmão mais novo e atormentado, aquele que tinha tomado todas as decisões erradas na vida e precisava uma vez mais de dinheiro. Enquanto iam caminhando pelo cais sujo, informou o general do que descobrira, embora tivesse tido o cuidado de não divulgar as fontes. O general não pareceu surpreendido com nada do que estava a ouvir.

 

— Só se esqueceu de referir uma coisa — disse.

 

— E qual foi?

 

— Que o Jack Bradshaw não era diplomata. Era espião.

 

— E como é que o senhor sabia?

 

— Toda a gente no ramo sabia do passado do Bradshaw. Era uma das razões para ele ser tão bom no que fazia. Mas não se preocupe — acrescentou o general —, não lhe vou dificultar as coisas com os seus amigos de Londres. Só quero o meu Caravaggio.

 

Saíram do cais e subiram a encosta da colina em direção ao centro da cidade. Gabriel interrogou-se por que razão alguém havia de querer passar férias ali. A cidade lembrava-lhe uma mulher que já tinha sido bonita a preparar-se para que lhe pintassem o retrato.

 

— O senhor enganou-me — disse ele.

 

— Nada disso — respondeu o general.

 

— Então como descreveria o que se passou?

 

— Omiti-lhe determinados factos para não influenciar a sua investigação.

 

— E sabia que o Caravaggio estava prestes a ser adquirido quando me pediu para investigar a morte do Bradshaw?

 

— Já tinha ouvido rumores nesse sentido.

 

— E também já tinha ouvido rumores sobre um colecionador que anda a comprar arte roubada a torto e a direito?

 

O general assentiu com a cabeça.

 

— E quem é ele?

 

— Não faço a mínima ideia.

 

— E desta vez está a dizer-me a verdade?

 

O general pôs a mão boa em cima do coração.

 

— Não sei a identidade da pessoa que anda a comprar todas as peças de arte a que consegue deitar a mão. E também não sei quem está por trás do assassínio do Jack Bradshaw. — Fez uma pausa e depois acrescentou: — Mas suspeito que se trate da mesmíssima pessoa.

 

— E porque mataram o Bradshaw?

 

— Imagino que tivesse deixado de ser útil.

 

— Por já ter entregado o Caravaggio?

 

O general assentiu com a cabeça de forma evasiva.

 

— Então porque o torturaram primeiro?

 

— Se calhar, quem o matou queria saber um nome.

 

— Yves Morel?

 

— O Bradshaw deve ter recorrido ao Morel para pôr o quadro em condições antes de poder ser vendido.

 

Olhou para Gabriel com um ar sério e perguntou:

 

— Como o mataram?

 

— Partiram-lhe o pescoço. Deu ideia de ter sido um corte transversal completo da medula.

 

O general fez uma cara feia.

 

— Silencioso e sem derramar sangue.

 

— E muito profissional.

 

— E o que fez você ao pobre diabo?

 

— Vão tratar dele — respondeu Gabriel em voz baixa.

 

— Quem?

 

— É melhor o senhor não saber os pormenores.

 

O general abanou a cabeça lentamente. Tinha acabado de se tornar cúmplice de um crime grave. Não era a primeira vez.

 

— Esperemos — disse, passado um momento — que a polícia francesa nunca descubra que você esteve no apartamento do Morel. Tendo em conta o seu historial, são capazes de ficar com a ideia errada.

 

— Pois — respondeu Gabriel sorumbaticamente —, esperemos que não.

 

Viraram para a Via Roma. Reverberava com o zunido de uma centena de motorizadas. Quando voltou a falar, Gabriel teve de levantar a voz para que o general o ouvisse.

 

— Quem foi a última pessoa a tê-lo? — perguntou.

 

— O Caravaggio? — Gabriel assentiu com a cabeça. — Nem eu tenho a certeza — admitiu o general. — Sempre que prendemos um mafioso, por mais insignificante que seja, ele oferece-se para nos dar informações sobre o paradeiro da Natividade a troco de uma pena de prisão reduzida. Escusado será dizer que já desperdiçámos inúmeras horas de trabalho a perseguir pistas falsas.

 

— Pensava que o senhor tinha estado quase a encontrá-lo há uns anos.

 

— Também eu, mas escapou-se-me por entre os dedos. Já estava a começar a pensar que nunca mais ia ter outra oportunidade para o recuperar. — Sorriu contra vontade. — E agora isto.

 

— Se o quadro tiver sido vendido, o mais provável é já não estar em Itália.

 

— Concordo. Mas, segundo a minha experiência — acrescentou o general — a melhor altura para encontrar um quadro roubado é logo a seguir a ter mudado de mãos. Só que temos de ser rápidos. Caso contrário, somos capazes de ter de esperar mais quarenta e cinco anos.

 

— Temos? — O general parou, mas não disse nada. — O meu envolvimento neste caso — afirmou Gabriel por cima do zumbido do trânsito — terminou oficialmente.

 

— Comprometeu-se a descobrir quem matou o Jack Bradshaw para que o nome do seu amigo não saísse nos jornais. Na minha opinião, ainda não completou a sua tarefa.

 

— Já lhe dei uma pista importante, para não falar em três quadros roubados.

 

— Mas não o quadro que eu quero. — Tirou os óculos e fitou Gabriel com a sua mirada monocular. — O seu envolvimento neste caso não terminou, Allon. Aliás, ainda agora começou.

 

Foram para um pequeno bar com vista para a marina. Estava vazio, com exceção de dois rapazes que se iam queixando do triste estado da economia. Nos tempos que corriam, era um cenário comum em Itália. Não havia empregos, não havia perspetivas, não havia futuro — apenas as lindas recordações do passado que o general e a equipa da Brigada de Arte tinham jurado proteger. Pediu um café e uma sanduíche e depois levou Gabriel para uma mesa lá fora, sob o sol frio.

 

— Sinceramente — disse quando ficaram outra vez a sós —, nem sei como consegue pensar sequer em abandonar o caso nesta altura. Era a mesma coisa que deixar um quadro por acabar.

 

— O meu quadro por acabar está em Veneza — respondeu Gabriel — e a minha mulher grávida também.

 

— O seu Veronese não corre perigo. E a sua mulher também não.

 

Gabriel olhou para um caixote do lixo a transbordar na borda da marina e abanou a cabeça. Os antigos romanos tinham inventado o aquecimento central, mas, algures pelo caminho, os descendentes deles tinham-se esquecido de como se deitava fora o lixo.

 

— Encontrar esse quadro pode demorar meses — disse.

 

— Não temos meses. Diria que temos, no máximo, umas semanas.

 

— Então suponho que era melhor o senhor general e os seus homens começarem a mexer-se.

 

O general abanou a cabeça lentamente.

 

— Nós somos bons a pôr telefones sob escuta e a fazer acordos com escumalha mafiosa. Mas não fazemos bem operações clandestinas, sobretudo fora de Itália. Preciso de quem atire um isco para dentro das águas do mercado da arte roubada e veja se conseguimos tentar o Senhor Peixe Graúdo a fazer outra aquisição. Ele anda por aí algures. Só precisamos de descobrir qualquer coisa que lhe interesse.

 

— Não se descobrem obras-primas que custem uma série de milhões de dólares. Roubam-se.

 

— Em grande estilo — acrescentou o general. — O que quer dizer que não devia ser qualquer coisa saída de uma casa ou de uma galeria privada.

 

— Tem noção do que está a dizer?

 

— Por acaso, até tenho.

 

O general fez um sorriso conspiratório.

 

— A maior parte das operações clandestinas implica enviar um falso comprador para o terreno. Mas a sua vai ser diferente. Você vai fazer passar-se por um ladrão que tem uma tela roubada para vender. E o quadro tem de ser verdadeiro.

 

— Então porque não me deixa pedir à Galeria Borghese que me empreste qualquer coisa bonita?

 

— O museu nunca iria na conversa. Além disso — acrescentou o general —, o quadro não pode vir de Itália. Caso contrário, quem tiver o Caravaggio pode desconfiar que eu estou envolvido.

 

— Nunca vai poder acusar ninguém depois de uma coisa destas.

 

— Acusar está em segundo lugar na minha lista de prioridades. Quero é recuperar esse Caravaggio.

 

O general calou-se de repente. Gabriel teve de reconhecer que estava intrigado com a ideia.

 

— Não posso de maneira nenhuma ser eu o protagonista da operação — disse passado um momento. — A minha cara é demasiado conhecida.

 

— Então suponho que vá ter de arranjar um bom ator para interpretar esse papel. E se fosse a si, também contratava uns capangas. O submundo pode ser um lugar perigoso.

 

— Não me diga. — O general ficou calado. — Os capangas não saem baratos — disse Gabriel. Nem os ladrões competentes.

 

— E não pode pedir ao seu serviço que lhe empreste uns quantos?

 

— Capangas ou ladrões?

 

— As duas coisas.

 

— Impossível.

 

— E de quanto dinheiro precisa?

 

Gabriel fez questão de mostrar que estava a ponderar bem a resposta.

 

— Dois milhões, no mínimo dos mínimos.

 

— Sou capaz de ter um milhão na lata de café debaixo da secretária.

 

— Aceito.

 

— Por acaso — retorquiu o general, sorrindo —, o dinheiro até está numa pasta dentro da bagageira do meu carro. E também tenho uma cópia do dossiê do caso Caravaggio. Assim já fica com alguma coisa para ler enquanto espera que o Senhor Peixe Graúdo venha à superfície.

 

— E se ele não morder o isco?

 

— Suponho que você terá de roubar outra coisa qualquer — respondeu o general, encolhendo os ombros. — É o que é maravilhoso quando se roubam obras-primas. Na verdade, não é mesmo nada difícil.

 

Conforme prometido, o dinheiro estava dentro da bagageira do carro oficial do general — um milhão de euros em notas já muito usadas, cuja origem o general não quis especificar. Gabriel pôs a pasta em cima do banco do passageiro do seu carro e arrancou sem dizer mais uma palavra. À saída de San Remo, já finalizara o esboço preparatório da operação para recuperar o Caravaggio perdido. Tinha financiamento e acesso ao ladrão de arte mais bem-sucedido do mundo. Agora, só precisava de uma pessoa para lhe introduzir um quadro roubado no mercado. Não podia ser um amador. Precisava de um agente experiente que tivesse sido treinado nas artes negras do logro. Uma pessoa que se sentisse à vontade ao pé de criminosos. Uma pessoa que soubesse cuidar de si própria se as coisas se tornassem violentas. Gabriel conhecia precisamente um homem assim, do outro lado do mar, na ilha da Córsega. Era um bocadinho como Maurice Durand, um antigo adversário que agora era um cúmplice, mas as semelhanças terminavam aí.

 

Já era perto da meia-noite quando o ferry atracou no porto de Calvi, não sendo propriamente horas para uma visita de carácter social na Córsega, e por isso Gabriel deu entrada num hotel próximo do terminal para ir dormir. De manhã, tomou o pequeno-almoço num pequeno café junto ao cais; depois entrou para o carro e seguiu pela costa ocidental escarpada. Durante algum tempo, a chuva teimou em cair, mas as nuvens foram desaparecendo gradualmente e o mar passou da cor do granito para turquesa. Gabriel parou na povoação de Porto para comprar duas garrafas de rosé corso gelado e depois dirigiu-se para o interior por uma estrada estreita revestida de ambos os lados por olivais e conjuntos de pinheiros-larícios. O ar cheirava à macchia — a densa vegetação rasteira composta por alecrim, esteva e alfazema que cobria grande parte da ilha — e foi vendo nas aldeias muitas mulheres vestidas da cabeça aos pés com o preto da viuvez, sinal de que a vendetta lhes tinha levado algum homem da família. Outrora, essas mulheres talvez tivessem apontado para ele da forma como os corsos fazem para afastar os efeitos do occhju, o mau-olhado, mas agora evitavam fitá-lo durante muito tempo. Sabiam que era amigo de Don Anton Orsati, e os amigos do don podiam viajar para todo o lado na Córsega sem medo de represálias.

 

Ao longo de mais de dois séculos que o clã Orsati estava associado a duas coisas na ilha da Córsega: azeite e morte. O azeite vinha dos olivais que cresciam com vigor nas suas vastas propriedades; a morte surgia às mãos dos assassinos a seu soldo. Os Orsati matavam em nome dos que não o conseguiam fazer por conta própria: os notáveis que eram demasiado melindrosos para sujar as mãos; as mulheres que não tinham nenhum homem na família para o fazer em nome delas. Ninguém sabia quantos corsos tinham morrido às mãos dos assassinos a soldo dos Orsati, muito menos os próprios Orsati, mas, segundo o que se dizia na região, o número já ia nos milhares. E até poderia ser bem mais elevado não fosse pelo rigoroso processo de escrutínio do clã. Os Orsati atuavam de acordo com um código severo. Recusavam-se a levar a cabo um assassínio sem estarem convencidos de que a pessoa que viera ter com eles tinha sido de facto lesada e que era necessária uma vingança com derramamento de sangue.

 

No entanto, isso mudou com Don Anton Orsati. Quando assumiu o comando da família, as autoridades francesas já tinham conseguido erradicar as rixas e a vendetta em praticamente toda a ilha, a não ser nas áreas mais isoladas, restando poucos corsos a precisar dos serviços dos taddunaghiu. Com a procura local em declínio acentuado, Orsati não tivera outra escolha senão procurar oportunidades noutro sítio — nomeadamente, do outro lado do mar, na Europa continental. Agora, aceitava quase todas as ofertas de trabalho que lhe passavam pela secretária, por mais desagradáveis que fossem, e os assassinos a seu soldo eram considerados os mais seguros e profissionais do continente. Na verdade, Gabriel era apenas uma de duas pessoas a já ter sobrevivido a um assassínio por contrato às mãos da família Orsati.

 

Don Anton Orsati vivia nas montanhas, no centro da ilha, rodeado por muralhas de macchia e grupos de guarda-costas. Havia dois de vigia junto ao portão. Quando viram Gabriel, afastaram-se e convidaram-no a entrar. Uma estrada de terra batida fê-lo atravessar um olival que poderia ter sido pintado por Van Gogh e conduziu-o ao pátio de entrada de gravilha da gigantesca villa do don. À porta, havia mais guarda-costas à espera. Revistaram à pressa o que Gabriel trazia e depois um deles, um assassino moreno e de cara afilada que parecia ter uns vinte anos, levou-o ao escritório do don, no andar de cima. Era uma divisão espaçosa, com mobília corsa rústica e uma varanda com vista para o vale privado do don. A madeira da macchia crepitava na lareira de pedra. Enchia o ar com um perfume de alecrim e salva.

 

No meio do escritório, encontrava-se a grande secretária de madeira de carvalho onde o don trabalhava. Em cima dela, estavam uma garrafa decorativa de azeite Orsati, um telefone que ele raramente utilizava e um livro-mestre encadernado a pele que continha os segredos da sua singular atividade. Os taddunaghiu eram todos funcionários da Orsati Olive Oil Company e os homicídios que levavam a cabo eram registados como encomendas de produtos, o que queria dizer que, no mundo de Orsati, o azeite e o sangue corriam juntos num único e homogéneo empreendimento. Os assassinos eram todos de ascendência corsa, menos um. Devido à sua extensa formação, encarregava-se apenas das missões mais difíceis. E também funcionava como diretor de vendas para o lucrativo mercado da Europa Central.

 

Tendo em conta os padrões corsos, o don era um homem grande, com quase dois metros de altura e espadaúdo. Usava calças largas, sandálias de cabedal empoeiradas e uma camisa branca engomada que a mulher lhe passava a ferro todas as manhãs e depois outra vez à tarde quando ele acordava da sesta. Tinha cabelo e olhos pretos. Quando Gabriel lhe apertou a mão, parecia ter sido esculpida em pedra.

 

— Seja bem-vindo de novo à Córsega — disse Orsati ao aceitar as duas garrafas de rosé que Gabriel lhe trouxera. — Eu sabia que não ia conseguir ficar muito tempo longe daqui. Não leve isto a mal, Gabriel, mas sempre achei que tinha um bocadinho de sangue corso nessas veias.

 

— Posso assegurar-lhe, Don Orsati, que não é esse o caso.

 

— Não importa. Já é praticamente um de nós. — Baixou a voz e acrescentou: — Os homens que matam em conjunto criam um laço que não pode ser desfeito.

 

— Isso é mais um dos seus provérbios corsos?

 

— Os nossos provérbios são sagrados e exatos, o que por si só também é um provérbio. — Sorriu. — Não devia estar em Veneza com a sua mulher?

 

— E estava — respondeu Gabriel.

 

— Então o que o traz à Córsega? Negócios ou lazer?

 

— Negócios, lamento dizê-lo.

 

— E o que se passa desta vez?

 

— Um favor.

 

— Outro? — Gabriel assentiu com a cabeça. — Aqui na Córsega — disse o don, franzindo o sobrolho em sinal de reprovação —, acreditamos que o destino de um homem fica escrito logo à nascença. E você, meu amigo, parece estar fadado a estar sempre a resolver problemas para os outros.

 

— Há destinos piores, Don Orsati.

 

— O céu ajuda quem se ajuda a si mesmo.

 

— Mas que caridoso — retorquiu Gabriel.

 

— A caridade é para os padres e para os tontos. — Olhou para a pasta que Gabriel trazia na mão. — O que traz aí?

 

— Um milhão de euros em notas usadas.

 

— E onde arranjou isso?

 

— Foi um amigo em Roma.

 

— Italiano? — Gabriel assentiu com a cabeça. — No final de muitos desastres — afirmou Don Orsati soturnamente —, está sempre um italiano.

 

— Por acaso, sou casado com uma italiana.

 

— E é por isso que acendo muitas velas por si. — Gabriel tentou mas não conseguiu suprimir um sorriso. — E como é que ela está? — perguntou o don.

 

— Pelos vistos, irrito-a até mais não. Tirando isso, está bastante bem.

 

— É da gravidez — retorquiu o don, assentindo com a cabeça pensativamente. — Assim que as crianças nascerem, vai ser tudo diferente.

 

— Em que sentido?

 

— Vai ser como se você não existisse. — O corso olhou outra vez para a pasta. — Porque anda por aí com um milhão de euros em notas usadas?

 

— Pediram-me para encontrar uma coisa valiosa e vai ser preciso bastante dinheiro para a recuperar.

 

— Outra rapariga desaparecida? — perguntou o don.

 

— Não — respondeu Gabriel. — Isto.

 

Gabriel entregou a Orsati uma fotografia de uma moldura vazia exposta sobre o altar do Oratorio di San Lorenzo. Uma expressão de reconhecimento passou como um relâmpago pelas feições pesadas do corso.

 

— A Natividade? — perguntou.

 

— Nunca tinha percebido que era um homem dado às artes, Don Orsati.

 

— E não sou — admitiu ele —, mas tenho seguido esse caso com atenção ao longo dos anos.

 

— Por alguma razão especial?

 

— Por acaso, estava em Palermo na noite em que o Caravaggio foi roubado. Aliás — acrescentou Don Orsati, com um sorriso —, até tenho quase a certeza de que fui eu quem descobriu que ele tinha desaparecido.

 

Na varanda com vista para o vale, Don Anton Orsati relatou que, no final do verão de 1969, tinha aparecido na Córsega um empresário siciliano chamado Renato Francona. O siciliano queria vingar a filha linda e nova, assassinada umas semanas antes por Sandro di Luca, um membro importante da Cosa Nostra. Don Carlu Orsati, na altura o chefe do clã Orsati, não quis tomar parte nisso. Mas o filho, um talentoso assassino chamado Anton, acabou por convencer o pai a deixá-lo levar a cabo o contrato. Na noite em questão, correu tudo conforme planeado, exceto o tempo, que fez com que fosse impossível sair de Palermo. Sem nada melhor para fazer, o jovem Anton pôs-se à procura de uma igreja para ir confessar os pecados. E a igreja em que entrou foi o Oratorio di San Lorenzo.

 

— E foi precisamente isto — disse Orsati, mostrando a fotografia da moldura vazia — que eu vi nessa noite. Como poderá calcular, não informei a polícia do roubo.

 

— E o que aconteceu ao Renato Francona?

 

— A Cosa Nostra matou-o umas semanas depois.

 

— Deram por adquirido que ele estava por trás do assassínio do Di Luca?

 

Orsati assentiu com a cabeça ponderosamente.

 

— Mas pelo menos morreu com honra.

 

— Porquê?

 

— Porque vingou o assassínio da filha.

 

— E depois ainda perguntam por que razão a Sicília não é a grande potência económica e intelectual do Mediterrâneo.

 

— Não é a cantar que se ganha dinheiro — retorquiu o don.

 

— E onde quer chegar com isso?

 

— Há já várias gerações que a vendetta tem aguentado o negócio desta família — respondeu o don. — E o assassínio do Sandro di Luca veio provar que éramos capazes de atuar fora da Córsega sem sermos detetados. O meu pai foi sempre contra isso até morrer. Mas quando ele nos deixou transformei o negócio da família numa coisa universal.

 

— Se não estivermos a crescer, estamos a morrer.

 

— Isso é algum provérbio judeu?

 

— É capaz — respondeu Gabriel.

 

A mesa estava posta, para um almoço corso tradicional de comida com condimentos da macchia. Gabriel serviu-se dos legumes e dos queijos, mas ignorou a salsicha.

 

— É kosher — disse o don, enfiando várias garfadas de carne no prato de Gabriel.

 

— Não sabia que havia rabis na Córsega.

 

— Imensos — assegurou-lhe o don.

 

Gabriel pôs a salsicha de parte e perguntou ao don se continuava a ir à igreja depois de acabar com uma vida.

 

— Se fizesse isso — respondeu o corso —, passava mais tempo de joelhos do que uma lavadeira. Além do mais, nesta altura já estou para lá da redenção. Deus pode fazer o que quiser comigo.

 

— Adorava ver a conversa entre si e Deus.

 

— Que a possamos ter com um almoço corso a acompanhar.

 

Orsati sorriu e encheu novamente o copo de Gabriel com rosé.

 

— Vou contar-lhe um segredo — disse, voltando a pousar a garrafa no meio da mesa. — A maioria das pessoas que matamos merece morrer. À sua pequena maneira, o clã Orsati tem feito do mundo um lugar muito melhor.

 

— E também ia achar isso se me tivessem matado?

 

— Não seja tonto — respondeu o don. — Deixá-lo ficar vivo foi a minha melhor decisão.

 

— Se bem me lembro, Don Orsati, o senhor não teve nada que ver com a decisão de não me matarem. Aliás — acrescentou Gabriel com contundência —, até se mostrou resolutamente contra.

 

— Até eu, o infalível Don Anton Orsati, me engano de vez em quando, embora nunca tenha feito nada tão idiota como aceitar encontrar um Caravaggio para os italianos.

 

— Não tive propriamente grande escolha na matéria.

 

— É uma ideia condenada à partida.

 

— A minha especialidade.

 

— Há mais de quarenta anos que os Carabinieri andam à procura desse quadro e nunca o conseguiram encontrar. Na minha opinião, o mais provável é que já tenha sido destruído há muito tempo.

 

— Não é isso que se diz por aí.

 

— E o que tem ouvido dizer?

 

Gabriel respondeu à pergunta revelando ao don as mesmas informações que revelara ao general Ferrari, em San Remo. A seguir, explicou-lhe o plano que tinha para recuperar o quadro. O don ficou claramente intrigado.

 

— E o que tem isso que ver com os Orsati? — perguntou.

 

— Preciso de lhe pedir que me empreste um dos seus homens.

 

— Alguém em específico?

 

— O diretor de vendas para a Europa Central.

 

— Mas que surpresa. — Gabriel ficou calado. — E se eu concordar?

 

— Uma mão lava a outra — respondeu Gabriel — e as duas lavam a cara.

 

O don sorriu.

 

— Afinal de contas, se calhar você é mesmo corso.

 

Gabriel contemplou o vale e sorriu também.

 

— Não tenho essa sorte, Don Orsati.

 

Afinal, o homem de quem Gabriel precisava para encontrar o Caravaggio tinha saído da ilha em negócios. Don Orsati não quis esclarecer se esses negócios diziam respeito a azeite ou sangue, disse apenas que ele iria regressar dentro de dois dias, três, no máximo. Deu a Gabriel uma pistola Tanfoglio e as chaves da villa que ficava no vale seguinte e onde iria esperar pelo homem. Gabriel conhecia bem a villa. Ficara lá com Chiara a seguir à última operação e tinha sido lá, na varanda pintalgada pelo sol, que soubera que ela estava grávida dos filhos dele. A casa só tinha um problema; para lá chegar, Gabriel precisava de passar pelas três oliveiras antigas junto às quais o malfadado bode de Don Casabianca, com as cores de um palomino, fazia a sua vigia eterna, desafiando todos aqueles que se atrevessem a invadir-lhe o território. O bode velho era, em geral, uma criatura malévola, mas parecia reservar um ódio especial em relação a Gabriel, com quem tivera inúmeros confrontos pejados de ameaças e insultos de parte a parte. No final do almoço, Don Orsati prometeu interceder a favor de Gabriel junto de Don Casabianca.

 

— Pode ser que ele possa chamar a fera à razão — acrescentou o don, num tom cético.

 

— Ou pode ser que possa transformar o bode numa carteira e num par de sapatos.

 

— Não se ponha com ideias — avisou o don. — Se tocar num pelo que seja da cabeça desse bode miserável, vai haver uma rixa.

 

— Então e se ele desaparecer simplesmente?

 

— A macchia não tem olhos — avisou o don de novo —, mas vê tudo.

 

Depois de dizer isso, desceu as escadas com Gabriel e acompanhou-o até ao carro. Gabriel seguiu a estrada para o interior, até esta passar a terra batida, e depois continuou nela um bocadinho mais; e quando chegou à curva apertada à esquerda, viu o bode de Don Casabianca atado a uma das três oliveiras antigas, com uma expressão de humilhação no focinho grisalho. Gabriel baixou o vidro da janela e, em italiano, lançou ao bode uma série de insultos relacionados com o aspeto do animal, os antepassados deste e a indignidade da situação em que se encontrava. A seguir, rindo-se, subiu a encosta da colina, em direção à villa.

 

Era pequena e arrumada, com um telhado de telhas vermelhas e janelas grandes que davam para o vale. Quando Gabriel entrou, percebeu de imediato que ele e Chiara tinham sido as últimas pessoas a lá ficar. O caderno de esboços dele estava em cima da mesinha de apoio, na sala de estar, e encontrou no frigorífico uma garrafa por abrir de Chablis que lhe tinha sido oferecida pelo ausente diretor de vendas de Don Orsati para a Europa Central. Já as prateleiras da despensa estavam vazias. Gabriel abriu as portas duplas para deixar entrar a brisa da tarde e sentou-se na varanda, a analisar o dossiê Caravaggio do general, até que o frio o obrigou a voltar para dentro. Por essa altura, passavam poucos minutos das quatro e o Sol parecia equilibrar-se sobre a orla do vale. Tomou um duche rápido, vestiu roupa lavada e foi de carro até à aldeia para fazer umas compras antes de as lojas fecharem.

 

Já havia uma povoação naquele canto isolado da Córsega desde os dias tenebrosos que se seguiram à queda do Império Romano, quando os vândalos devastaram a costa de forma tão implacável que os habitantes da ilha não tiveram outra escolha senão fugir para as colinas para sobreviver. Uma única rua antiga prolongava-se sinuosamente pelo meio de chalés e prédios de apartamentos até ir dar a uma ampla praça, no ponto mais alto da aldeia. Em três dos lados, havia lojas e cafés, e, no quarto, ficava a igreja antiga. Gabriel descobriu um lugar para estacionar e começou a dirigir-se para o mercado, mas decidiu que primeiro precisava de se fortificar com um café. Entrou num dos cafés e sentou-se a uma mesa onde podia ver os homens a jogar boules na praça, à luz de um candeeiro de ferro. Um dos homens reconheceu Gabriel como amigo de Don Orsati e convidou-o a participar no jogo. Gabriel fingiu que tinha o ombro dorido e, em francês, respondeu que preferia continuar como espectador. Não disse nada sobre o facto de ter de ir às compras. Na Córsega, eram as mulheres que ainda se encarregavam disso.

 

Foi nesse preciso momento que os sinos da igreja bateram as cinco horas da tarde. Passados uns minutos, a pesada porta de madeira abriu-se e um padre com uma sotaina preta surgiu diante das escadas da igreja. Ficou ali parado, a sorrir de modo benévolo, enquanto vários paroquianos, sobretudo velhas, avançavam em fila indiana para a praça. Uma das mulheres, após dar as boas-noites ao padre com um aceno de cabeça distraído, parou de repente, como se apenas ela estivesse consciente da existência de perigo. A seguir, recomeçou a andar e desapareceu pela entrada de uma casinha torta adjacente à reitoria.

 

Gabriel pediu outro café. Depois mudou de ideias e acabou por pedir um copo de vinho tinto. O crepúsculo já não passava de uma recordação; as luzes brilhavam vivamente nas lojas e nas janelas da casinha torta ao lado da reitoria. Um rapaz de dez anos com longos cabelos encaracolados estava agora à porta, que se encontrava apenas uns centímetros aberta. Uma mão pequena e pálida emergiu dessa brecha, segurando um papel azul. O rapaz agarrou no papel e atravessou a praça com ele, até ao café, onde o pousou na mesa de Gabriel, junto ao copo de vinho tinto.

 

— O que se passa desta vez? — perguntou Gabriel.

 

— Ela não disse — respondeu o rapaz. — Nunca diz.

 

Gabriel deu umas moedas ao rapaz para ir comprar um doce e foi bebendo o vinho ao mesmo tempo que a noite caía em definitivo sobre a praça. Por fim, pegou no papel e leu a única linha que lá tinha sido escrita:

 

Posso ajudar-te a encontrar o que procuras.

 

Gabriel sorriu, enfiou o bilhete no bolso e deixou-se ficar sentado a beber o que restava do vinho. Depois levantou-se e atravessou a praça.

 

Estava à espera para o receber à entrada de casa, com um xaile à volta dos ombros delicados. Os olhos dela eram dois poços negros sem fundo; a cara era branca como farinha de padeiro. Lançou-lhe um olhar desconfiado e só depois lhe estendeu a mão. Estava quente e não pesava nada. Apertá-la era como segurar uma ave canora com cuidado.

 

— Sê bem-vindo de regresso à Córsega — disse.

 

— Como sabia que eu tinha voltado?

 

— Eu sei tudo.

 

— Então diga-me como eu cá cheguei.

 

— Não me insultes.

 

O ceticismo de Gabriel era um fingimento. Há muito que abandonara quaisquer dúvidas sobre a capacidade da velha para vislumbrar tanto o passado como o futuro. Ela apertou-lhe a mão com força e fechou os olhos.

 

— Estavas a viver na cidade da água com a tua mulher e a trabalhar numa igreja onde um grande pintor está enterrado. Sentias-te feliz, verdadeiramente feliz, pela primeira vez na vida. E foi então que uma criatura de um só olho apareceu vinda de Roma e…

 

— Muito bem — interrompeu Gabriel. — Já provou o que queria.

 

Largou a mão de Gabriel e apontou para a pequena mesa de madeira na sala de visitas. Em cima dela, estavam um prato raso com água e uma vasilha de azeite. Eram os instrumentos do ofício da mulher. A velha era uma signadora. Os corsos acreditavam que ela tinha o poder de curar quem estivesse infetado com o occhju, o mau-olhado. Em tempos, Gabriel desconfiara que ela não passava de uma simples ilusionista, mas há muito que já não era esse o caso.

 

— Senta-te — disse ela.

 

— Não — respondeu Gabriel.

 

— Porquê?

 

— Porque nós não acreditamos nessas coisas.

 

— Os israelitas?

 

— Sim — respondeu ele. — Os israelitas.

 

— Mas já fizeste isto.

 

— Porque me falou de coisas do meu passado, coisas que não podia minimamente saber.

 

— E por isso tiveste curiosidade, foi?

 

— Suponho que sim.

 

— E agora já não tens curiosidade?

 

A mulher sentou-se à mesa no lugar habitual e acendeu uma vela. Após um instante de hesitação, Gabriel sentou-se à frente dela. Empurrou a vasilha de azeite para o meio da mesa e cruzou as mãos obstinadamente. A velha fechou os olhos.

 

— A criatura de um só olho pediu-te para encontrares uma coisa por ela, certo?

 

— Certo — respondeu Gabriel.

 

— É um quadro, não é? Uma obra de um louco, de um assassino. Levaram-na de uma pequena igreja há muitos anos, numa ilha do outro lado do mar.

 

— Foi o Don Orsati quem lhe contou isso?

 

A velha abriu os olhos.

 

— Nunca falei com o don deste assunto.

 

— Continue.

 

— O quadro foi roubado por homens do mesmo género que o don, só que muito piores. Trataram-no muito mal. Ficou praticamente destruído.

 

— Mas o quadro ainda sobrevive?

 

— Sim — respondeu ela, assentindo com a cabeça devagar —, ainda sobrevive.

 

— E onde está agora?

 

— Perto.

 

— Perto de quê?

 

— Não está ao meu alcance dizer-te isso. Mas se realizares o teste do azeite e da água — acrescentou, olhando de relance para o meio da mesa —, talvez te possa ajudar. — Gabriel não se mexeu. — De que tens medo? — perguntou a velha.

 

— Da senhora — respondeu Gabriel com sinceridade.

 

— Tens a força de Deus. Porque havias de ter medo de uma pessoa débil e velha como eu?

 

— Porque a senhora também tem poderes.

 

— Poderes de visão — retorquiu ela. — Mas poderes terrenos, não.

 

— A capacidade para ver o futuro é uma grande mais-valia.

 

— Sobretudo para uma pessoa que tenha uma atividade como a tua.

 

— É verdade — concordou Gabriel, com um sorriso.

 

— Então porque não realizas o teste do azeite e da água? — Gabriel ficou calado. — Já perdeste muitas coisas — disse a velha, num tom afável. — Uma mulher, um filho, a tua mãe. Mas os teus dias de sofrimento já ficaram para trás.

 

— Os meus inimigos nunca vão tentar matar a minha mulher?

 

— Não lhe vai acontecer nada, nem a ela nem aos teus filhos.

 

A velha apontou com a cabeça para a vasilha de azeite. Desta vez, Gabriel molhou o indicador no azeite e deixou que caíssem três gotas na água. Segundo as leis da física, o azeite deveria ter-se acumulado num único glóbulo. Em vez disso, despedaçou-se num sem-número de gotículas e, passado pouco tempo, já não havia vestígio dele.

 

— Estás infetado com o occhju — declarou a velha com grande seriedade. — O melhor que tens a fazer é deixar-me expulsá-lo do teu organismo.

 

— Prefiro tomar duas aspirinas.

 

A velha espreitou para dentro do prato da água com o azeite.

 

— O quadro de que andas à procura é uma representação do Menino Jesus, não é assim?

 

— É.

 

— É bastante curioso que um homem como tu ande à procura do Nosso Senhor e Salvador.

 

Uma vez mais, baixou os olhos na direção do prato com a água e o azeite.

 

— O quadro já saiu da ilha do outro lado do mar. Está com um aspeto diferente do que tinha antes.

 

— Em que sentido?

 

— Foi restaurado. O homem que fez esse trabalho já morreu. Mas isso já tu sabes.

 

— Um dia ainda vai ter de me mostrar como faz isso.

 

— Não é coisa que se possa ensinar. É uma dádiva de Deus.

 

— E onde está o quadro agora?

 

— Não te consigo dizer.

 

— E quem o tem?

 

— Está para lá dos meus poderes dar-te o nome dele. A mulher pode ajudar-te a encontrá-lo.

 

— Qual mulher?

 

— Não te consigo dizer. Mas não deixes que lhe aconteça nada, senão perdes tudo.

 

A cabeça da velha tombou-lhe para o ombro; a profecia tinha-a esgotado. Gabriel enfiou várias notas por baixo do prato com a água e o azeite.

 

— Tenho mais uma coisa para te dizer antes de ires embora — anunciou a velha quando Gabriel se levantou.

 

— E o que é?

 

— A tua mulher já não está na cidade da água.

 

— E quando aconteceu isso? — perguntou Gabriel.

 

— Quando estavas com a criatura de um só olho na cidade perto do mar.

 

— E onde está ela agora?

 

— Está à tua espera — respondeu a velha — na cidade da luz.

 

— Mais alguma coisa?

 

— Sim — disse ela, com as pálpebras cerradas. — Já não resta muito tempo de vida ao velho. Faz as pazes com ele antes que seja tarde demais.

 

A mulher tinha razão pelo menos numa coisa; segundo parecia, Chiara já não estava de facto em Veneza. Quando Gabriel lhe ligou para o telemóvel, tiveram uma conversa curta e ela disse-lhe que se estava a sentir bem e que estava outra vez a chover. Gabriel foi ver rapidamente como estava o tempo em Veneza e viu que os últimos dias tinham sido de sol. Quando telefonou para o apartamento, ninguém atendeu, e o pai, o inescrutável rabi Zolli, parecia ter uma lista de desculpas convenientes para explicar por que razão a filha não se encontrava no gabinete. Tinha ido às compras, tinha ido à livraria do gueto, tinha ido visitar os velhos ao lar. «Eu digo-lhe para ela te ligar mal volte.» Shalom, Gabriel. Gabriel interrogou-se se o bonito guarda-costas do general estaria envolvido no desaparecimento de Chiara ou se também teria sido enganado. Suspeitou que fosse esse o caso. Chiara estava mais bem treinada e era mais experiente do que qualquer monte de músculos dos Carabinieri.

 

Gabriel foi à aldeia duas vezes nos dois dias, primeiro de manhã, para o pão e para o café, e depois à tarde, para um copo de vinho no café perto do jogo de boules. Em ambos os casos, viu a signadora a sair da igreja depois da missa. No primeiro dia, ela ignorou-o. Mas, no segundo, o rapaz dos cabelos encaracolados apareceu-lhe à frente da mesa, com mais um bilhete. Pelos vistos, o homem de quem Gabriel estava à espera iria chegar de ferry a Calvi no dia seguinte. Gabriel ligou a Don Orsati, que confirmou ser verdade.

 

— Como sabia? — perguntou o don.

 

— A macchia não tem olhos — respondeu Gabriel cripticamente, interrompendo a ligação.

 

Passou a manhã seguinte a dar os últimos retoques no plano que tinha concebido para encontrar o Caravaggio desaparecido. Depois, ao meio-dia, foi a pé até às três oliveiras antigas e soltou o bode de Don Casabianca, libertando-o da corda que o prendia. Uma hora mais tarde, viu um Renault amolgado com porta traseira a subir pelo vale numa nuvem de poeira. Quando o carro se aproximou das três oliveiras antigas, o bode velho pôs-se à frente dele, em ar de desafio. Ouviu-se o som de uma buzina e, pouco tempo depois, o vale ecoou com insultos grosseiros e ameaças de violência indescritível. Gabriel entrou na cozinha e abriu o Chablis. O Inglês tinha regressado à Córsega.

 

Não era todos os dias que se tinha oportunidade de apertar a mão a um morto, mas foi precisamente isso que aconteceu, dois minutos mais tarde, quando Christopher Keller entrou pela porta da villa. De acordo com os registos militares britânicos, tinha morrido em janeiro de 1991, durante a primeira Guerra do Golfo, quando o esquadrão Sabre dos Serviços Aéreos Especiais a que pertencia foi vítima de um ataque aéreo das forças da Coligação, num caso trágico de fogo amigo. Os pais, dois médicos respeitados da Harley Street, choraram a morte do filho herói em público, ainda que em privado tivessem dito um ao outro que tal nunca teria ocorrido se ele tivesse continuado em Cambridge em vez de desaparecer de um dia para o outro para se alistar no exército. Até hoje, continuavam sem saber que o filho tinha sido o único sobrevivente do ataque sofrido pelo esquadrão. Tal como não sabiam que, após sair do Iraque disfarçado de árabe, atravessara a Europa até à Córsega, onde tinha sido recebido de braços abertos por Don Anton Orsati. Gabriel perdoara Keller por em tempos o ter tentado matar. Mas não conseguia admitir que o Inglês tivesse deixado que os pais envelhecessem a pensar que o seu único filho morrera.

 

Keller estava com bom aspeto para um morto. Os seus olhos eram azuis e límpidos, o cabelo cortado à escovinha estava descolorado, praticamente branco, do mar e do sol, e tinha uma pele lisa e muito bronzeada. Vestia uma camisa formal branca, com o colarinho aberto, e um fato de executivo já gasto de tanto viajar. Quando tirou o casaco, deixou à vista o físico mortífero. Em Keller, desde os ombros poderosos aos antebraços musculados, tudo parecia ter sido expressamente concebido com o propósito de matar. Atirou o casaco para as costas de uma cadeira e olhou de soslaio para a pistola Tanfoglio que se encontrava em cima da mesinha de apoio, ao lado do dossiê Caravaggio do general.

 

— Isso é meu — disse ele, referindo-se à pistola.

 

— Agora já não é.

 

Keller aproximou-se da garrafa aberta de Chablis e serviu-se de um copo.

 

— Que tal foi a tua viagem? — perguntou Gabriel.

 

— Um êxito.

 

— Estava com medo que fosses dizer isso.

 

— É melhor do que a alternativa.

 

— Que tipo de trabalho foi?

 

— Fui entregar comida e medicamentos a viúvas e órfãos.

 

— Onde?

 

— Varsóvia.

 

— A minha cidade preferida.

 

— Meu Deus, mas que espelunca! E o tempo nesta altura do ano é ótimo.

 

— O que foste lá fazer realmente, Christopher?

 

— Tratar de um problema para um banqueiro privado suíço.

 

— Que género de problema?

 

— Um problema russo.

 

— E esse russo tinha nome?

 

— Chamemos-lhe Igor.

 

— E o Igor era bom rapaz?

 

— Nem de perto, nem de longe.

 

— Da mafiya?

 

— Até à medula.

 

— Imagino que o Igor da mafiya tenha confiado dinheiro ao banqueiro privado suíço.

 

— Imenso dinheiro — confirmou Keller. — Mas não estava contente com os juros que andava a ganhar com os investimentos. Disse ao banqueiro suíço para melhorar o desempenho. Caso contrário, ia matar o banqueiro, a mulher, os filhos e o cão.

 

— E o banqueiro suíço foi pedir ajuda ao Don Orsati.

 

— Que outra opção é que ele tinha?

 

— E o que aconteceu ao russo?

 

— Sofreu um percalço a seguir a uma reunião com um potencial parceiro de negócios. Não te vou maçar com os pormenores.

 

— E o dinheiro dele?

 

— Uma parte foi transferida para uma conta nas mãos da Orsati Olive Oil Company. O resto continua na Suíça. Sabes como são aqueles banqueiros suíços — acrescentou Keller. — Não gostam de se separar do dinheiro.

 

O Inglês sentou-se no sofá, abriu o dossiê Caravaggio do general e tirou de lá a fotografia da moldura vazia do Oratorio di San Lorenzo.

 

— Que pena — soltou, abanando a cabeça. — Aqueles sacanas sicilianos não respeitam nada.

 

— E o Don Orsati já te disse que tinha sido ele a descobrir que o quadro fora roubado?

 

— É capaz de ter mencionado isso uma noite, depois de o manancial de provérbios corsos se esgotar. É uma pena que ele não tenha aparecido no oratorio uns minutos mais cedo — acrescentou Keller. — Talvez conseguisse impedir que os ladrões roubassem o quadro.

 

— Ou talvez os ladrões o tivessem matado antes de abandonarem a igreja.

 

— Estás a subestimar o don.

 

— Nunca.

 

Keller voltou a pôr a fotografia no dossiê.

 

— E o que tem isto que ver comigo?

 

— Os Carabinieri contrataram-me para recuperar o quadro. Preciso da tua ajuda.

 

— Que tipo de ajuda?

 

— Nada de especial — respondeu Gabriel. — Só preciso que roubes uma obra-prima de valor inestimável e a vendas a um homem que já matou duas pessoas em menos de uma semana.

 

— Mais nada? — Keller sorriu. — Estava com medo que me fosses pedir para fazer uma coisa difícil.

 

Gabriel contou-lhe a história inteira, começando pela visita infeliz de Julian Isherwood ao lago Como e terminando na proposta pouco ortodoxa do general Ferrari para recuperar o quadro desaparecido mais cobiçado do mundo. Keller não se mexeu uma única vez, com os antebraços apoiados nos joelhos e as mãos cruzadas, como um penitente relutante. A capacidade que tinha para ficar completamente imóvel durante longos períodos de tempo chegava a enervar até mesmo Gabriel. Quando estava ao serviço do SAS na Irlanda do Norte, Keller tinha-se especializado em observações minuciosas, uma técnica de vigilância perigosa que o obrigara a passar várias semanas em esconderijos apertados como sótãos e palheiros. E também se tinha infiltrado no Exército Republicano Irlandês, fazendo passar-se por um católico de Belfast Ocidental, e era por isso que Gabriel estava convencido de que Keller podia desempenhar o papel de um ladrão de arte com um quadro roubado de que se queria desfazer. No entanto, o Inglês não tinha assim tanta certeza.

 

— Não é isso que eu faço — disse depois de Gabriel terminar a explicação. — Observo pessoas, mato pessoas, rebento com coisas. Mas não roubo quadros. E não os vendo no mercado negro.

 

— Se és capaz de te fazer passar por um católico das urbanizações de Ballymurphy, então também és capaz de te fazer passar por um mânfio de East London. Se a memória não me falha — acrescentou Gabriel —, tens bastante jeito para os sotaques.

 

— É verdade — reconheceu Keller. — Mas sei muito pouco de arte.

 

— Como a maioria dos ladrões. E é por isso que são ladrões em vez de curadores ou historiadores de arte. Mas não te preocupes, Keller. Vais ter-me a segredar-te ao ouvido.

 

— Nem imaginas como estou ansioso por isso.

 

Gabriel não disse nada.

 

— Então e os italianos? — perguntou Keller.

 

— O que têm?

 

— Sou um assassino profissional que, é sabido, já exerceu o ofício em território italiano em determinadas ocasiões. Não vou poder lá voltar se o teu amigo dos Carabinieri vier a descobrir que andei a colaborar contigo.

 

— O general nunca vai saber que estiveste envolvido nisto.

 

— Como podes ter a certeza?

 

— Porque ele não quer saber.

 

Keller não pareceu convencido. Acendeu um cigarro e soprou pensativamente uma nuvem de fumo para o teto.

 

— Tem mesmo de ser? — perguntou Gabriel.

 

— Isto ajuda-me a pensar.

 

— E a mim faz-me ter dificuldade em respirar.

 

— Tens a certeza de que és mesmo israelita?

 

— Pelos vistos, o don acha que sou um corso encapotado.

 

— Impossível —— retorquiu Keller. — Um corso nunca ia aceitar encontrar um quadro que anda desaparecido há mais de quarenta anos, muito menos para o raio de um italiano.

 

Gabriel entrou na cozinha, tirou um pires do armário e pousou-o à frente de Keller. O Inglês deu uma última baforada no cigarro e depois apagou-o, calcando-o.

 

— E quanto a dinheiro? — Gabriel falou a Keller da pasta com um milhão de euros que o general lhe tinha dado. — Um milhão não te vai levar longe.

 

— E tens por aí alguns trocos?

 

— Sou capaz de ter um dinheirito para as despesas que me sobrou do assassínio de Varsóvia.

 

— Quanto?

 

— Uns quinhentos ou seiscentos.

 

— Isso é muito generoso da tua parte, Christopher.

 

— Esse dinheiro é meu.

 

— O que são quinhentos ou seiscentos euros entre amigos?

 

— Imenso dinheiro.

 

Keller soltou um longo suspiro.

 

— Continuo sem ter a certeza se vou ser capaz de me safar com isto.

 

— Safar com o quê?

 

— Fingir que sou ladrão de arte.

 

— Matas pessoas a troco de dinheiro — respondeu Gabriel. — Não me parece que vá ser muito difícil.

 

Vestir Christopher Keller de modo que desempenhasse o papel de um ladrão de arte internacional revelou-se a parte mais fácil da preparação dele, pois no guarda-fatos da villa havia uma vasta seleção de roupa perfeita para qualquer ocasião ou assassínio. Havia o Keller boémio errante, o Keller da elite do jet set e o Keller amante do ar livre e montanhista. E havia até o Keller padre católico apostólico romano, que incluía um breviário e um conjunto de viagem para celebrar missas. Gabriel acabou por escolher o género de roupa que Keller vestia habitualmente — camisas formais brancas, fatos escuros feitos por medida e mocassins elegantes. Para servir de acessório à imagem do Inglês, optou por vários fios e pulseiras de ouro, um vistoso relógio suíço, óculos com lentes azuis e uma cabeleira loira com uma abundante madeixa sobre a testa. Keller juntou o próprio passaporte britânico falso e os cartões de crédito em nome de Peter Rutledge. Gabriel achou que soava um bocadinho de mais à classe alta para um criminoso do East End, mas não importava. No mundo da arte, ninguém iria chegar a saber o nome do ladrão.

 

Reuniram-se no exíguo escritório dos fundos das Antiquités Scientifiques, às onze horas da manhã seguinte: o ladrão de arte, o assassino profissional e o antigo e futuro agente dos serviços secretos israelitas. O agente explicou rapidamente ao ladrão de arte como tencionava encontrar o retábulo de Caravaggio há muito desaparecido. Tal como já tinha acontecido com o assassino, o ladrão ficou, no mínimo, desconfiado.

 

— Eu roubo quadros — realçou, num tom de voz cansado. — Não os encontro por conta da polícia. Aliás, faço todos os possíveis para evitar a polícia por completo.

 

— Os italianos nunca vão saber que esteve envolvido nisto.

 

— Isso é o que você diz.

 

— É preciso recordar-lhe que o homem que adquiriu o Caravaggio matou o seu amigo e sócio?

 

— Não, Monsieur Allon, não é preciso.

 

O intercomunicador berrou. Maurice Durand ignorou-o.

 

— E o que ia precisar que eu fizesse?

 

— Precisava que me roubasse uma coisa a que nenhum colecionador sem escrúpulos possa resistir.

 

— E depois?

 

— Quando as profundezas do mundo da arte começarem a encher-se de rumores de que esse quadro está em Paris, preciso que indique o caminho certo aos abutres.

 

Durand olhou para Keller.

 

— Em direção a ele?

 

Gabriel assentiu com a cabeça.

 

— E porque vão os abutres achar que o quadro está em Paris?

 

— Porque eu lhes vou dizer que está.

 

— Pensa mesmo em tudo, não é, Monsieur Allon?

 

— A melhor maneira de ganhar num jogo de probabilidades é retirar as probabilidades da equação.

 

— Vou tentar não me esquecer disso.

 

Durand olhou outra vez para Keller e perguntou:

 

— O que sabe ele do negócio de arte roubada?

 

— Nada — admitiu Gabriel. — Mas aprende depressa.

 

— E como ganha a vida?

 

— Toma conta de viúvas e órfãos.

 

— Pois — respondeu Durand ceticamente. — E eu sou o presidente da França.

 

Passaram o resto do dia a definir os pormenores da operação. Quando a noite caiu sobre o oitavo arrondissement, Monsieur Durand mudou o letreiro de OUVERT para FERMÉ e saíram em fila indiana para a Rue de Miromesnil. O ladrão de arte dirigiu-se para a brasserie em frente, para o copo de vinho tinto que bebia todas as noites, o assassino apanhou um táxi para um hotel na Rue de Rivoli e o antigo e futuro agente dos serviços secretos israelitas foi a pé para um apartamento seguro do Departamento, com vista para a Pont Marie. Viu dois agentes dos serviços de segurança dentro de um carro estacionado à entrada do prédio; e quando entrou no apartamento, sentiu o aroma a comida e ouviu Chiara a cantar baixinho sozinha. Beijou-a nos lábios e levou-a para o quarto. Não lhe perguntou como se sentia. Não lhe perguntou absolutamente nada.

 

— Tens noção — disse ela mais tarde — que foi a primeira vez que fizemos amor desde que descobri que estava grávida?

 

— Foi?

 

— Quando uma pessoa com a tua inteligência se arma em parva, isso não é lá muito eficaz, Gabriel.

 

Ele enrolou-lhe uma madeixa do cabelo na ponta do dedo, mas não disse nada. Ela tinha o queixo apoiado no esterno dele. O brilho dos candeeiros de Paris conferia-lhe um tom dourado à pele.

 

— Porque só fizeste amor comigo agora? E não me digas que tens andado ocupado — acrescentou rapidamente —, porque isso nunca te impediu. — Ele soltou-lhe o cabelo, mas não respondeu. — Estavas com medo que pudesse acontecer qualquer coisa e a gravidez corresse outra vez mal? Foi por isso?

 

— Sim — respondeu ele —, imagino que tenha sido.

 

— E o que te fez mudar de ideias?

 

— Passei uns momentos com uma velha na ilha da Córsega.

 

— E o que te disse ela?

 

— Que não te ia acontecer nada a ti nem às crianças.

 

— E acreditaste?

 

— Ela primeiro pôs-se a aquecer dizendo-me várias coisas que não podia minimamente saber. E depois disse-me que já não estavas em Veneza.

 

— E contou-te que eu estava em Paris?

 

— Com todas as letras, não.

 

— Estava a contar surpreender-te.

 

— E como sabias onde eu estava?

 

— O que achas?

 

— Ligaste para a Avenida Rei Saul.

 

— Por acaso, ligaram-me da Avenida Rei Saul.

 

— Porquê?

 

— Porque o Uzi queria saber por que razão andavas metido com um tipo como o Maurice Durand. Obviamente, aproveitei logo a oportunidade.

 

— E como te escapaste ao guarda-costas do general?

 

— Ao Matteo? Não custou nada.

 

— Não fazia ideia de que vocês se tratavam pelo nome próprio.

 

— Ajudou-me muito enquanto estiveste longe. E não me perguntou uma única vez como é que eu me sentia.

 

— Não vou voltar a cometer esse erro.

 

Chiara beijou Gabriel nos lábios e perguntou-lhe por que razão tinha renovado a relação com o ladrão de arte mais bem-sucedido do mundo. Gabriel contou-lhe tudo.

 

— Agora percebo por que motivo o general Ferrari estava tão ansioso por te ter a investigar a morte do Bradshaw.

 

— Ele sempre soube que o Bradshaw era corrupto — retorquiu Gabriel. — E também já tinha ouvido rumores de que as impressões digitais do tipo estavam no Caravaggio.

 

— Se calhar, isso é capaz de explicar uma coisa estranha que descobri nos registos de faturação da Meridian Global Consulting Group.

 

— E o que foi?

 

— Nos últimos doze meses, a Meridian trabalhou imenso para uma coisa chamada LXR Investments of Luxembourg.

 

— E o que é isso?

 

— É difícil dizer. A LXR é, no mínimo, uma empresa bastante opaca.

 

Gabriel agarrou noutra madeixa do cabelo de Chiara e perguntou-lhe que mais tinha descoberto nos despojos eletrónicos de Jack Bradshaw.

 

— Nas últimas semanas antes de morrer, ele enviou vários e-mails para uma conta do Gmail com um nome de utilizador criado automaticamente.

 

— E de que falaram?

 

— De casamentos, de festas, do tempo… das coisas todas habituais de que as pessoas falam quando estão a falar na verdade de outra coisa.

 

— E tens ideia de onde é que esse amigo por correspondência escreve?

 

— De cibercafés em Bruxelas, Antuérpia e Amesterdão.

 

— Pois claro.

 

Chiara virou-se de barriga para cima. Gabriel pousou-lhe a mão no abdómen. A chuva tamborilava suavemente na janela.

 

— Em que estás a pensar? — perguntou ela passado um momento.

 

— Estava a pensar se era mesmo verdade ou se não passava da minha imaginação.

 

— O quê?

 

— Não tem importância.

 

Ela não insistiu.

 

— Suponho que vou ter de dizer qualquer coisa ao Uzi — avançou Chiara.

 

— Suponho que sim.

 

— E o que lhe digo?

 

— A verdade — respondeu Gabriel. — Diz-lhe que eu vou roubar um quadro que vale duzentos milhões de dólares e ver se o consigo vender ao Senhor Peixe Graúdo.

 

— Qual é o teu próximo passo?

 

— Tenho de ir a Londres espalhar um rumor desagradável.

 

— E a seguir?

 

— Vou para Marselha concretizar esse rumor desagradável.

 

Na manhã seguinte, Gabriel telefonou para a Isherwood Fine Arts enquanto atravessava Leicester Square. Pediu para se encontrar com Isherwood fora da galeria e longe dos botecos habituais do mundo da arte em St. James’s. Isherwood propôs o Lido Café Bar, no Hyde Park. Ninguém do mundo da arte, explicou, poria os pés lá.

 

Chegou uns minutos depois da uma, com roupa para andar no campo: um casaco de tweed e sapatos impermeáveis. Parecia bem menos ressacado do que costumava ao início da tarde.

 

— Longe de mim estar a querer protestar — disse Gabriel ao apertar a mão a Isherwood —, mas a tua secretária deixou-me praticamente dez minutos pendurado e só depois me pôs a falar contigo.

 

— Então até tiveste sorte.

 

— Quando é que a despedes, Julian?

 

— Não posso.

 

— Porquê?

 

— É possível que ainda esteja apaixonado por ela.

 

— Ela maltrata-te.

 

— Eu sei — respondeu Isherwood, sorrindo. — Se ao menos andássemos a dormir um com o outro. Assim seria perfeito.

 

Sentaram-se a uma mesa com vista para a Serpentine Gallery. Isherwood fez uma careta quando olhou para a ementa.

 

— Não é bem o Wiltons, pois não?

 

— Não te vai matar, Julian.

 

Isherwood não pareceu convencido. Pediu uma sanduíche de gambas e um copo de vinho branco para a tensão. Gabriel pediu chá e um scone. Quando ficaram outra vez a sós, contou a Isherwood tudo o que se tinha passado desde que saíra de Veneza. E depois contou-lhe o que planeava fazer a seguir.

 

— Mas que maroto — disse Isherwood baixinho. — Mas que grande maroto.

 

— A ideia foi do general.

 

— O tipo é um sacana retorcido, não é?

 

— Por isso é que é tão bom a fazer o que faz.

 

— E tem mesmo de ser. Mas, como diretor do Comité para a Proteção da Arte — acrescentou Isherwood, num tom formal —, seria negligente da minha parte não objetar contra um aspeto da vossa operação bastante inteligente.

 

— Não há outra maneira, Julian.

 

— E se o quadro ficar danificado durante o roubo?

 

— Tenho a certeza de que sou capaz de arranjar quem o restaure.

 

— Não te armes em despreocupado. Não te fica bem.

 

Um silêncio pesado instalou-se entre ambos.

 

— Vai valer a pena se eu conseguir recuperar aquele Caravaggio — disse Gabriel por fim.

 

— Se — retorquiu Isherwood ceticamente.

 

Soltou um suspiro profundo.

 

— Desculpa ter-te metido no meio disto tudo. E só de pensar que nada disto tinha acontecido se não fosse o raio do Oliver Dimbleby.

 

— Por acaso, até engendrei uma maneira de o Oliver expiar os pecados.

 

— Não estás a pensar arranjar forma de te servir dele, pois não?

 

Gabriel assentiu lentamente com a cabeça.

 

— Mas, desta vez, o Oliver nem vai perceber.

 

— Bem jogado — respondeu Isherwood. — Porque o Oliver Dimbleby tem uma das maiores bocas de todo o mundo da arte.

 

— Exato.

 

— E em que estás a pensar?

 

Gabriel contou-lhe. Isherwood fez um sorriso malicioso.

 

— Mas que maroto — disse. — Mas que grande maroto.

 

Quando terminaram de almoçar, Gabriel já tinha conseguido convencer Isherwood da eficácia do plano. Ultimaram os pormenores que faltavam enquanto atravessavam o Hyde Park e depois cada um seguiu o seu caminho pelas ruas movimentadas de Piccadilly. Isherwood voltou para a galeria, em Mason’s Yard; Gabriel dirigiu-se para a estação de St. Pancras, onde apanhou um Eurostar que saía ao final da tarde para Paris. À noite, no apartamento seguro com vista para a Pont Marie, fez amor com Chiara pela segunda vez desde que tinha sabido que ela estava grávida dos filhos dele.

 

De manhã, tomaram o pequeno-almoço num café perto do Louvre. A seguir, depois de acompanhar Chiara até ao apartamento seguro, apanhou um táxi para a Gare de Lyon. Embarcou às nove num comboio com destino a Marselha e, às 12h45, estava a descer as escadas da Gare Saint-Charles. Foi parar ao início do Boulevard d’Athènes, que seguiu até La Canebière, a ampla rua comercial que ia do centro da cidade até ao Velho Porto. Os barcos de pesca tinham regressado dos trajetos matinais; havia criaturas marinhas de toda a espécie espalhadas sobre mesas de metal, ao longo do lado leste do porto. Atrás de uma delas, encontrava-se um homem de cabelo grisalho, com uma camisola de lã esfarrapada e um avental de borracha. Gabriel parou por breves instantes para inspecionar o que o homem tinha apanhado. Depois foi até à esquina da ponta sul do porto e entrou para o lugar do passageiro de um Renault amolgado. Sentado ao volante, com uma beata a arder-lhe entre as pontas dos dedos, estava Christopher Keller.

 

— Tem mesmo de ser? — perguntou Gabriel, com aborrecimento.

 

Keller apagou o cigarro, calcando-o, e acendeu outro de imediato.

 

— Mal posso crer que estamos outra vez aqui.

 

— Onde?

 

— Em Marselha — respondeu Keller. — Foi aqui que começámos a procurar a rapariga inglesa.

 

— E foi aqui que mataste uma pessoa escusadamente — acrescentou Gabriel num tom soturno.

 

— Não vamos entrar outra vez em litígio por causa desse assunto.

 

— Isso é uma palavra bastante cara para um ladrão de arte, Christopher.

 

— Não achas que é uma coincidência estarmos sentados no mesmo carro, do mesmo lado do Velho Porto?

 

— Não.

 

— Então porquê?

 

— Porque é em Marselha que os criminosos estão.

 

— Como ele.

 

Keller indicou com a cabeça o homem da camisola de lã esfarrapada que estava atrás da mesa com peixe, na ponta do porto.

 

— Conhece-lo?

 

— Toda a gente do ramo conhece o Pascal Rameau. Ele e o respetivo bando são os melhores ladrões da Côte d’Azur. Roubam tudo. Correu o rumor de que uma vez tentaram roubar a Torre Eiffel.

 

— E o que aconteceu?

 

— O comprador voltou atrás; pelo menos, é assim que o Pascal gosta de contar a história.

 

— Já lidaste alguma vez com ele?

 

— Ele não precisa de gente como eu.

 

— Ou seja?

 

— O Pascal tem tudo muito bem na mão.

 

Keller exalou uma nuvem de fumo de cigarro.

 

— Então o Maurice faz uma encomenda e o Pascal entrega a mercadoria, é assim que funciona?

 

— Tal e qual a Amazon.

 

— O que é a Amazon?

 

— Tens de sair um bocadinho mais do teu vale, Christopher. O mundo mudou desde que morreste.

 

Keller ficou calado. Gabriel desviou o olhar de Pascal Rameau para o bairro acidentado de Marselha próximo da basílica. Passaram-lhe repentinamente imagens do passado pela cabeça: a porta de um imponente prédio de apartamentos no Boulevard Saint-Rémy, um homem a atravessar depressa as sombras frescas da manhã, uma rapariga árabe de olhos castanhos e impiedosos parada no cimo de umas escadas de pedra. Peço desculpa, monsieur. Perdeu-se? Piscou os olhos para afastar essas recordações e enfiou a mão no bolso do casaco para tirar de lá o telemóvel, mas deteve-se. Estava uma equipa de segurança à entrada do apartamento seguro em Paris. Não lhe ia acontecer nada.

 

— Passa-se alguma coisa? — perguntou Keller.

 

— Não — respondeu Gabriel. — Está tudo bem.

 

— Tens a certeza?

 

Gabriel pôs-se a olhar novamente para Pascal Rameau. Keller sorriu.

 

— É um bocadinho estranho, não achas?

 

— O quê?

 

— Que um homem como tu possa estar associado a um ladrão de arte.

 

— Ou a um assassino profissional — acrescentou Gabriel.

 

— E o que quer isso dizer?

 

— Quer dizer que a vida é complicada, Christopher.

 

— A quem o dizes.

 

Keller calcou o cigarro e começou a acender outro.

 

— Por favor — disse Gabriel baixinho.

 

Keller voltou a enfiar o cigarro no maço com o dedo.

 

— Quanto tempo ainda vamos ter de esperar?

 

Gabriel olhou para o relógio.

 

— Vinte e oito minutos.

 

— Como podes ser assim tão exato?

 

— Porque o comboio dele chega a Saint-Charles à uma e trinta e quatro. E ele vai demorar doze minutos a andar da estação até ao porto.

 

— E se parar pelo caminho?

 

— Não para — respondeu Gabriel. — Monsieur Durand é muito certinho.

 

— Se é assim tão certinho, então porque estamos outra vez em Marselha?

 

— Porque ele anda com um milhão de euros que pertence aos Carabinieri e quero ter a certeza de que o dinheiro vai parar ao sítio certo.

 

— Ao bolso do Pascal Rameau. — Gabriel não disse nada. — É um bocadinho estranho, não achas?

 

— A vida é complicada, Christopher.

 

Keller acendeu um cigarro.

 

— A quem o dizes.

 

Eram 13h45 quando o viram a descer a encosta de La Canebière, o que queria dizer que estava adiantado um minuto em relação ao previsto. Trazia um fato de burel antracite e um elegante chapéu de veludo com uma fita e segurava na mão direita uma pasta com um milhão de euros em notas lá dentro. Aproximou-se dos pescadores e foi percorrendo as mesas devagar até se encontrar diante de Pascal Rameau. Houve uma troca de palavras, seguida de um exame diligente aos produtos para aquilatar da frescura destes, e, por fim, chegou-se a uma escolha. Durand entregou uma única nota, agarrou num saco de plástico cheio de lulas e seguiu para o lado sul do porto. Um instante depois, passou por Gabriel e Keller sem olhar sequer para eles.

 

— E para onde vai ele agora?

 

— Para um barco chamado Mistral.

 

— E de quem é o barco?

 

— Do René Monjean.

 

Keller arqueou a sobrancelha.

 

— E como conheces o Monjean?

 

— Isso é uma outra história para uma outra altura.

 

Naquele momento, Durand já estava a avançar por uma doca flutuante, no meio das várias filas de barcos de recreio brancos. Tal como Gabriel previra, subiu a bordo de um iate a motor chamado Mistral e enfiou-se no camarote. Esteve lá dentro dezassete minutos exatos e quando saiu já não trazia a pasta nem as lulas. Passou pelo Renault amolgado de Keller e começou a fazer o percurso para a estação de comboios.

 

— Parabéns, Christopher.

 

— Pelo quê?

 

— És neste momento o orgulhoso proprietário de uma obra-prima do Van Gogh que vale duzentos milhões de dólares.

 

— Ainda não.

 

— O Maurice Durand é muito certinho — respondeu Gabriel. — E o René Monjean também.

 

Ao longo dos nove dias que se seguiram, o mundo da arte foi girando sem problemas sobre o seu eixo dourado, ditosamente sem consciência da bomba-relógio que fazia tiquetaque no seu seio. Almoçou bem, bebeu até altas horas da noite, deslizou sem preocupações pelas pistas de Aspen e de St. Moritz, aproveitando a última neve boa da época. E foi então que, na terceira sexta-feira de abril, acordou com a notícia de que uma calamidade tinha atingido o Rijksmuseum Vincent van Gogh, em Amesterdão. Girassóis, óleo sobre tela, 95 centímetros por 73 centímetros, desaparecera.

 

A técnica utilizada pelos ladrões não fez justiça à beleza sublime do alvo. Preferiram o cacete em vez do florete, a rapidez em vez da furtividade. Mais tarde, o chefe do departamento da polícia de Amesterdão chamar-lhe-ia o melhor exemplo de «roubo-relâmpago» que já tinha visto, embora tivesse o cuidado de não revelar demasiados pormenores, para não correr o risco de estar a facilitar a vida ao próximo bando de ladrões que quisesse surripiar outra obra de arte icónica e insubstituível. Só dava graças por uma coisa: os ladrões não tinham utilizado uma navalha para retirar a tela da moldura. Aliás, explicou, tinham tratado o quadro com uma ternura que raiava a reverência. No entanto, vários especialistas no campo da proteção de arte viram um sinal preocupante nesse tratamento cuidadoso da tela. Para eles, deixava entender que tinha sido um roubo encomendado e executado por criminosos profissionais altamente competentes. Um detetive de arte reformado da Scotland Yard mostrou-se cético em relação às perspetivas de o quadro ser recuperado com êxito. Com toda a probabilidade, afirmou, os Girassóis estavam agora expostos no museu das obras desaparecidas e o público nunca mais os voltaria a ver.

 

O diretor-geral do Rijksmuseum fez uma declaração aos meios de comunicação, no sentido de suplicar que o quadro fosse devolvido são e salvo. E quando tal não surtiu efeito nos ladrões, ofereceu uma recompensa substancial, obrigando a polícia holandesa a desperdiçar inúmeras horas atrás de embustes e pistas falsas. O presidente da câmara de Amesterdão, um radical empedernido, achou que era necessária uma manifestação. Passados três dias, várias centenas de ativistas de toda a espécie convergiram para a Museumplein a fim de exigir que os ladrões devolvessem o quadro sem danos. E também exortaram ao tratamento ético dos animais, ao fim do aquecimento global, à legalização de todos os estupefacientes recreativos, ao encerramento do centro de detenções americano de Guantánamo Bay e ao fim da ocupação da Margem Ocidental e da Faixa de Gaza. Ninguém foi preso e toda a gente se divertiu, sobretudo os que tiraram proveito da canábis e dos preservativos gratuitos. Até os jornais holandeses mais liberais acharam que a manifestação tinha sido inútil. «Se isto é o melhor que conseguimos fazer», escreveu-se num editorial, «então devíamos preparar-nos para o dia em que as paredes dos nossos melhores museus estejam vazias.»

 

Contudo, nos bastidores, a polícia holandesa encontrava-se envolvida numa tentativa bastante mais tradicional para recuperar aquela que era, possivelmente, a obra mais famosa de Van Gogh. Falaram com os bufos, puseram os telefones sob escuta e vigiaram os endereços de e-mail de conhecidos ladrões e vigiaram as galerias de Amesterdão e Roterdão suspeitas de negociarem mercadoria roubada. Mas quando passou mais uma semana sem haver progressos, decidiram abrir um canal para os congéneres das forças policiais europeias. Os belgas puseram-nos numa caça aos gambozinos que só terminou em Lisboa, ao passo que os franceses pouco mais fizeram do que desejar-lhes boa sorte. A pista mais intrigante de origem estrangeira veio do general Cesare Ferrari, da Brigada de Arte, que afirmou ter ouvido o rumor de que a mafiya russa orquestrara o roubo. Os holandeses solicitaram informações ao Kremlin. Os russos não se deram ao trabalho de responder.

 

Por essa altura, já era início de maio e a polícia holandesa não possuía uma única pista substancial acerca do paradeiro do quadro. Publicamente, o chefe prometeu redobrar esforços. Em privado, reconheceu que, salvo intervenção divina, o mais provável era o Van Gogh se ter perdido para sempre. No interior do museu, tinham pendurado um pano preto no lugar do quadro. Um colunista britânico implorou com sarcasmo ao diretor do museu para reforçar a segurança. Caso contrário, disse espirituosamente, os ladrões também iriam roubar o pano.

 

Em Londres, houve quem achasse que essa coluna tinha sido de mau gosto, mas o mundo da arte encolheu maioritariamente os ombros e seguiu em frente. Os importantes leilões dos Velhos Mestres aproximavam-se a toda a velocidade e tudo indicava que essa temporada iria ser a mais lucrativa em muitos anos. Havia quadros para ver, clientes para entreter e estratégias de licitação para congeminar. Julian Isherwood não parava quieto. Nessa quarta-feira, foi visto na sala de vendas da Bonhams, agarrado a uma paisagem de um rio em estilo italiano atribuída ao círculo de Agostino Buonamico. No dia seguinte, estava a almoçar profusamente no Dorchester, com um turco expatriado e de fundos aparentemente ilimitados. Depois, na sexta-feira, ficou até tarde na Christie’s para cumprir as diligências devidas em relação a um São João Baptista do século XVIII, da Escola Bolonhesa. Por isso mesmo, o balcão do Green’s já estava completamente cheio quando lá chegou. Parou por uns instantes para dar uma palavrinha em privado a Jeremy Crabbe e depois instalou-se na mesa habitual, com a garrafa de Sancerre habitual. O barrigudo Oliver Dimbleby estava a meter-se descaradamente com Amanda Clifton, a nova e apetitosa diretora do departamento de Arte Impressionista e Moderna da Sotheby’s. Enfiou-lhe na mão um dos seus cartões de visita dourados, soprou um beijo na direção de Simon Mendenhall e dirigiu-se para a mesa de Isherwood.

 

— Meu querido Julie — disse ao mesmo tempo que se deixava cair na cadeira desocupada —, conta-me qualquer coisa absolutamente escandalosa. Um rumor maroto. Um mexericozinho malicioso. Qualquer coisa que me dê direito a ir jantar fora durante o resto da semana.

 

Isherwood sorriu, despejou um pouco de vinho no copo vazio de Oliver e começou a fazer-lhe ganhar a noite.

 

— Paris? A sério?

 

Isherwood assentiu com a cabeça de modo conspiratório.

 

— E quem disse isso?

 

— Não posso mesmo dizer.

 

— Então, querido? Estás a falar comigo. Tenho mais segredos sujos do que o MI6.

 

— E é por isso que não te vou dizer nem mais uma palavra sobre o assunto.

 

Dimbleby pareceu verdadeiramente ofendido, coisa que, até àquele momento, Isherwood julgara impossível.

 

— A minha fonte está ligada à cena da arte parisiense. Não posso revelar mais do que isso.

 

— Bom, já é de facto uma revelação. Pensava que me ias dizer que era subchefe de cozinha no Maxim’s.

 

Isherwood ficou calado.

 

— E está dentro do ramo ou é consumidor de arte?

 

— Dentro do ramo.

 

— Negociante?

 

— Usa a imaginação.

 

— E viu mesmo o Van Gogh?

 

— A minha fonte nunca ia pôr os pés numa sala onde estivesse um quadro roubado — respondeu Isherwood, com a dose perfeita de ironia moralista na voz. — Mas recebeu informações fidedignas de que vários negociantes e colecionadores de má fama já viram polaroides.

 

— Não sabiam que ainda existiam.

 

— O quê?

 

— Polaroides.

 

— Pelos vistos, ainda.

 

— E porque utilizaram uma polaroide?

 

— Não deixam nenhuma pegada digital que a polícia possa localizar.

 

— É bom saber isso — respondeu Dimbleby, olhando de soslaio para o traseiro de Amanda Clifton. — E quem está a vendê-lo?

 

— De acordo com o que se ouve por aí, é um inglês sem nome.

 

— Um inglês? Mas que canalha.

 

— Chocante — concordou Isherwood.

 

— E quanto está ele a pedir?

 

— Dez milhões.

 

— Por um raio de um Van Gogh? Isso é uma pechincha.

 

— Exato.

 

— Não se vai aguentar muito tempo, a um preço desses. Há de aparecer alguém que o vai abocanhar e guardar a sete chaves para sempre.

 

— Por acaso, a minha fonte até acha que o inglês pode estar a braços com uma luta entre pretendentes.

 

— E é por isso — disse Dimbleby, num tom repentinamente sério — que não tens outra escolha senão ir à polícia.

 

— Não posso.

 

— Então porquê?

 

— Porque tenho de proteger a minha fonte.

 

— Estás profissionalmente obrigado a dizer à polícia. E moralmente também.

 

— Adoro quando me dás lições sobre moralidade, Oliver.

 

— Não é preciso levarmos as coisas para o campo pessoal, Julie. Só estava a tentar fazer-te um favor.

 

— Como quando me arranjaste uma viagem com as despesas todas pagas para o lago Como?

 

— Vamos ter outra vez a mesma conversa?

 

— Ainda tenho pesadelos com o corpo dele pendurado no raio daquele candelabro. Parecia uma coisa pintada pelo…

 

A voz de Isherwood sumiu-se. Dimbleby franziu o sobrolho pensativamente.

 

— Por quem?

 

— Não interessa.

 

— E chegaram a descobrir quem o matou?

 

— A quem?

 

— Ao Jack Bradshaw, meu parvalhão.

 

— Penso que terá sido o mordomo.

 

Dimbleby sorriu.

 

— Mas não te esqueças, Oliver, tudo o que eu te disse acerca de o Van Gogh estar em Paris fica entre nous.

 

— A minha boca é um túmulo.

 

— Jura-me, Oliver.

 

— Dou-te a minha palavra de honra — respondeu Dimbleby.

 

A seguir, depois de terminar a bebida, contou a toda a gente que ali estava.

 

No dia seguinte, à hora de almoço, não se falava de outra coisa no Wilton’s. E dali o burburinho deslocou-se para a National Gallery, depois para a Tate e, por fim, para a Courtauld Gallery, que ainda estava a lamber as feridas provocadas pelo roubo do Autorretrato com Orelha Cortada de Van Gogh. Na Christie’s, Simon Mendenhall contou a toda a gente; na Sotheby’s, Amanda Clifton fez o mesmo. Até o normalmente taciturno Jeremy Crabbe não foi capaz de ficar calado. Pôs tudo num e-mail tagarela que enviou para uma pessoa do escritório nova-iorquino da Bonhams e, passado pouco tempo, a coisa já andava circular pelas galerias de Midtown e do Upper East Side. Nicholas Lovegrove, consultor de arte ao serviço dos extremamente ricos, segredou-a ao ouvido de uma repórter do New York Times, mas a repórter já tinha ouvido isso de outra pessoa. Ligou ao chefe da polícia holandesa, que também já tinha ouvido o mesmo.

 

O holandês telefonou para o homólogo parisiense, que não levou aquilo muito a sério. Ainda assim, a polícia francesa começou a procurar um inglês acabado de entrar na meia-idade, bem constituído, loiro, de óculos com lentes azuis e um ligeiro sotaque cockney. Encontrou vários, embora nenhum fosse afinal ladrão de arte. Entre os que foram apanhados nessa operação, encontrava-se o sobrinho do ministro do Interior britânico, que tinha um sotaque londrino snobe, mas não propriamente cockney. O ministro do Interior ligou ao homólogo francês a protestar e o sobrinho foi libertado discretamente.

 

No entanto, havia um aspeto desse rumor que era inapelavelmente verdade: Girassóis, óleo sobre tela, 95 centímetros por 73 centímetros, estava realmente em Paris. Tinha lá chegado na manhã seguinte a ter desaparecido, dentro da bagageira de um grande Mercedes. Primeiro foi para as Antiquités Scientifiques, onde, enrolado em papel vegetal para o proteger, passou duas noites descansadas num armário com temperatura controlada. A seguir, foi levado em mão para o apartamento seguro do Departamento com vista para a Pont Marie. Gabriel instalou rapidamente o quadro num novo suporte e pô-lo em cima de um cavalete, no estúdio improvisado que tinha preparado no quarto vago. Nessa noite, enquanto Chiara cozinhava, fechou a porta com fita adesiva para impedir que a superfície ficasse contaminada. E quando foram dormir, o quadro foi dormir com eles, banhado pelo brilho amarelo dos candeeiros ao longo do Sena.

 

De manhã, Gabriel foi a uma pequena galeria perto dos Jardins do Luxemburgo, onde, fazendo-se passar por alemão, comprou um quadro de uma rua parisiense da autoria de um impressionista de terceira categoria que utilizava o mesmo tipo de tela que Van Gogh. Quando regressou ao apartamento, removeu o quadro recorrendo a uma mistura de solvente poderosa e, a seguir, tirou a tela do suporte. Após cortar a tela até às dimensões adequadas, pô-la no mesmo género de suporte em que pusera os Girassóis, um suporte que media 95 centímetros por 73 centímetros. Depois aplicou um novo fundo na tela. Passadas doze horas, já com o fundo seco, preparou a paleta com amarelo de cromo e ocre amarelo e começou a pintar.

 

Trabalhou como Van Gogh trabalharia, velozmente, alla prima, e com um toque de loucura. Por vezes, sentiu que tinha Van Gogh a espreitar-lhe sobre o ombro, de cachimbo na mão, a guiar-lhe cada pincelada. Noutras, conseguia vê-lo no estúdio da Casa Amarela de Arles, apressando-se para captar a beleza dos girassóis na tela antes que estes murchassem e morressem. Foi em agosto de 1888 que Van Gogh produziu os seus primeiros estudos de girassóis em Arles; pendurou-os no andar de cima, no quarto vago onde Paul Gauguin, com muitas dúvidas, se instalaria em finais de outubro. O dominador Gauguin e o suplicante Vincent pintaram juntos durante o resto do outono, trabalhando muitas vezes lado a lado nos campos em redor de Arles, mas eram propensos a discussões violentas sobre Deus e arte. Uma delas ocorreu na tarde de 23 de dezembro. Após confrontar Gauguin com uma navalha, Vincent tinha ido ao bordel da Rue du Bout d’Aeles e cortara uma parte da orelha esquerda. Duas semanas mais tarde, depois de ter tido alta do hospital, voltou para a Casa Amarela, sozinho e com a orelha ligada, e produziu três repetições estarrecedoras dos girassóis que tinha pintado para o quarto de Gauguin. Ainda não há muito tempo, um desses quadros estivera exposto no Rijksmuseum Vincent van Gogh, em Amesterdão.

 

Provavelmente, Van Gogh tinha pintado os Girassóis de Amesterdão numa questão de horas, tal como pintara os antecessores no mês de agosto do ano anterior. Contudo, Gabriel precisou de três dias para produzir aquilo a que chamaria mais tarde a versão de Paris. Com a inclusão da característica assinatura de Van Gogh no vaso, a falsificação era idêntica ao original em todos os pormenores menos um: não apresentava falhas, a fina rede de rachas que aparece na superfície dos quadros com o tempo. Para que surgissem falhas rapidamente, Gabriel tirou a tela do suporte e enfiou-a num forno aquecido a 175 graus durante trinta minutos. A seguir, depois de a tela esfriar, esticou-a bem com as duas mãos e arrastou-a por cima da borda da mesa da sala de jantar, primeiro na horizontal e depois verticalmente. E com isso surgiram de imediato falhas. Voltou a instalar a tela no suporte, aplicou-lhe uma camada de verniz e deixou-a ao lado da original. Chiara não foi capaz de as distinguir. Nem Maurice Durand.

 

— Nunca imaginei que fosse possível — disse o francês.

 

— O quê?

 

— Que houvesse alguém tão bom como o Yves Morel.

 

Passou delicadamente com o dedo pelas pinceladas impasto de Gabriel.

 

— É como se o próprio Van Gogh o tivesse pintado.

 

— O objetivo é esse, Maurice.

 

— Mas não é assim tão fácil de alcançar, mesmo para um restaurador profissional.

 

— Que técnica utilizou para produzir as falhas?

 

Gabriel explicou-lhe.

 

— O método do Van Meegeren. Muito eficaz, desde que não se queime o quadro.

 

Durand desviou o olhar da falsificação de Gabriel para o original de Van Gogh.

 

— Não se ponha com ideias, Maurice. Isso vai voltar para Amesterdão mal deixemos de precisar dele.

 

— E sabe quanto é que eu era capaz de conseguir por ele?

 

— Dez milhões.

 

— Vinte, no mínimo.

 

— Mas não o roubou, Maurice. Foi roubado por um inglês loiro e de óculos com lentes azuis.

 

— Um conhecido meu acha que até já esteve com ele.

 

— Espero que não o tenha convencido que isso não é verdade.

 

— Nem pensar — respondeu Durand. — O submundo do ramo acha que o seu amigo tem o quadro e que já começou a negociar com vários compradores potenciais. Não vai demorar muito até que você-sabe-quem entre na luta.

 

— Se calhar, ele precisa de um bocadinho de encorajamento.

 

— De que tipo?

 

— Um aviso atempado antes que a licitação termine. Acha que consegue fazer isso, Maurice?

 

— Com um único telefonema.

 

Havia um aspeto do caso que andava a atormentar Gabriel desde o início: as salas secretas de Jack Bradshaw no Freeport de Genebra. Em regra, um empresário recorria aos serviços únicos do Freeport por querer evitar ser tributado ou por estar a esconder qualquer coisa. Gabriel desconfiava que as razões de Bradshaw se inserissem na segunda categoria. Mas como entrar lá dentro sem um mandado judicial nem a companhia da polícia? O Freeport não era o género de lugar que se pudesse arrombar com uma gazua e um sorriso confiante. Gabriel iria precisar de um aliado, de uma pessoa com poder para abrir discretamente qualquer porta na Suíça. E conhecia um homem assim. Teriam de chegar a um acordo, fazer uma combinação secreta. Seria complicado, mas a verdade é que as questões relacionadas com a Suíça o eram normalmente.

 

O contacto inicial foi breve e pouco prometedor. Gabriel telefonou para o escritório do homem, em Berna, e explicou-lhe de forma bastante incompleta do que precisava e porquê. Compreensivelmente, o homem de Berna não ficou muito impressionado, embora parecesse intrigado.

 

— E onde estás agora? — perguntou.

 

— Na Sibéria.

 

— E quando consegues estar em Genebra?

 

— Posso apanhar o próximo comboio.

 

— Não sabia que havia comboios da Sibéria para Genebra.

 

— Por acaso, passa por Paris.

 

— Dá sinal quando chegares. Vou ver o que posso fazer.

 

— Não me vou pôr a fazer uma viagem até Genebra sem ter garantias.

 

— Se queres garantias, telefona a um banqueiro suíço. Mas se queres dar uma olhadela ao que há naquelas salas, vais ter de fazer as coisas à minha maneira. E nem penses em aproximar-te sequer do Freeport sem mim — acrescentou o homem de Berna. — Se fizeres isso, vais passar muitíssimo tempo na Suíça.

 

Gabriel preferiria que lhe dessem melhores probabilidades antes de viajar, mas achou que aquele momento era tão bom como qualquer outro. Com a cópia do Van Gogh terminada, a parte parisiense da operação já pouco mais era do que um jogo de espera. Podia passar o dia a olhar para o telefone ou podia aproveitar esse intervalo de atividade de forma mais produtiva. Acabou por ser Chiara a decidir por ele. Guardou os dois quadros no armário do quarto, fechando-os à chave, apressou-se até à Gare de Lyon e apanhou o TGV das nove. O comboio chegou a Genebra poucos minutos depois do meio-dia. Gabriel ligou para Berna de um telefone público no átrio das bilheteiras.

 

— Onde estás? — perguntou o homem.

 

Gabriel disse-lhe a verdade.

 

— Vou ver o que posso fazer.

 

A estação de comboios ficava numa parte de Genebra que parecia um duro quartier de uma cidade francesa. Gabriel dirigiu-se para o lago e atravessou a Pont du Mont Blanc, até à Margem Sul. Comeu uma piza no Jardim Inglês, sem pressa nenhuma, e depois percorreu as ruas escurecidas da Cidade Velha do século XVI. Às quatro da tarde, o ar já estava frio devido à noite que se aproximava. Com os pés doridos e cansado de esperar, Gabriel ligou pela terceira vez ao homem de Berna, mas ninguém atendeu. Passados dez minutos, quando estava a passar pelos bancos e pelas lojas de luxo da Rue du Rhône, telefonou-lhe novamente. Desta feita, o homem atendeu.

 

— Chama-me antiquado — disse Gabriel —, mas não aprecio mesmo nada quando as pessoas me deixam pendurado.

 

— Nunca te prometi nada.

 

— Podia ter ficado em Paris.

 

— Teria sido uma pena. Genebra é um encanto, nesta altura do ano. E terias perdido a oportunidade de dar uma olhadela ao que há no Freeport.

 

— E estás a contar deixar-me ficar à espera muito mais tempo?

 

— Podemos tratar já disso, se quiseres.

 

— Onde estás?

 

— Vira-te.

 

Gabriel fez o que lhe disseram.

 

— Sacana.

 

Chamava-se Christoph Bittel — pelo menos, era esse o nome que utilizara da última e única vez que se tinham cruzado. Trabalhava, ou pelo menos assim o dissera na altura, para a divisão de contraterrorismo do NDB, os fiáveis serviços secretos e de segurança interna suíços. Era magro e pálido, com uma testa grande que lhe dava um ar, que até tinha alguma razão de ser, extremamente inteligente. Quando estendeu a mão, por cima da caixa de velocidades de um grande carro alemão desportivo, parecia que ela tinha acabado de ser expurgada de bactérias.

 

— Sê bem-vindo de novo a Genebra — disse Bittel ao entrar com o carro devagar no meio do trânsito. — Foi simpático teres feito reserva, sempre é uma novidade.

 

— Os meus tempos das operações não autorizadas na Suíça já terminaram. Agora somos parceiros, lembras-te, Bittel?

 

— É melhor não nos entusiasmarmos, Allon. Não vamos querer dar cabo da diversão.

 

Bittel pôs uns óculos escuros grandes que lhe davam às feições um ar de louva-a-deus. Conduzia bem, mas com cuidado, como se tivesse contrabando dentro da bagageira e estivesse a tentar evitar encontros com as autoridades.

 

— Como podes calcular — disse passado um momento —, os nossos agentes e ministros mais importantes já passaram muitas horas interessantes a ouvir a tua confissão.

 

— Não foi uma confissão.

 

— Então como descrevias o que se passou?

 

— Fiz-te um relatório exaustivo das minhas atividades em território suíço — respondeu Gabriel. — E, em troca, aceitaste não me enfiar na cadeia para o resto da vida.

 

— Coisa que merecias. — Bittel abanou a cabeça lentamente enquanto guiava. — Assassínios, roubos, raptos, uma operação de contraterrorismo no cantão de Uri que deixou vários membros da Al-Qaeda mortos. Estou a esquecer-me de alguma coisa?

 

— Uma vez, também chantageei um dos vossos empresários mais destacados para poder ter acesso à cadeia de fornecimento nuclear do Irão.

 

— Ah, pois. Como me pude esquecer do Martin Landesmann?

 

— Foi uma das minhas melhores.

 

— E agora queres ter acesso a um armazém no Freeport de Genebra sem um mandado judicial?

 

— Com certeza que tens algum amigo no Freeport disposto a deixar-te dar de vez em quando uma espreitadela extrajudicial à mercadoria.

 

— Com certeza — reconheceu Bittel. — Mas, por norma, gosto de saber o que vou lá encontrar antes de arrombar o cadeado.

 

— Quadros, Bittel. Vamos encontrar lá quadros.

 

— Quadros roubados?

 

Gabriel assentiu com a cabeça.

 

— E o que acontece se o dono descobrir que estivemos lá dentro?

 

— O dono está morto. Não se vai queixar.

 

— Os armazéns do Freeport estão registados no nome da empresa do Bradshaw. E a empresa continua viva.

 

— A empresa é uma fachada.

 

— Estamos na Suíça, Allon. As empresas de fachada são o que nos mantém em atividade.

 

O semáforo à frente deles passou de verde para amarelo. Bittel tinha mais do que tempo para atravessar o cruzamento. Em vez disso, preferiu tirar o pé do acelerador e fazer o carro parar suavemente.

 

— Ainda não me disseste do que se trata — disse, depenicando o punho das mudanças.

 

— E com boas razões.

 

— E se eu te conseguir pôr lá dentro? O que ganho com isso?

 

— Se eu tiver razão — respondeu Gabriel —, um dia tu e os teus amigos do NDB vão poder anunciar que recuperaram várias obras de arte há muito desaparecidas.

 

— Arte roubada no Freeport de Genebra. Não é propriamente uma grande jogada, do ponto de vista das relações públicas, para a Confederação.

 

— Não se pode ter tudo, Bittel.

 

O semáforo mudou. Bittel levantou o pé do travão e acelerou devagar, como se estivesse a tentar poupar combustível.

 

— Entramos, damos uma vista de olhos e depois vamos embora. E tudo o que estiver na caixa-forte fica na caixa-forte. Estamos entendidos?

 

— Como queiras. — Bittel avançou com o carro em silêncio, sorrindo. — Onde está a piada? — perguntou Gabriel.

 

— Acho que gosto do novo Allon.

 

— Nem imaginas como isso é importante para mim, Bittel. Mas podes ir um bocadinho mais depressa? Gostava de chegar ao Freeport sem ser de manhã.

 

Vislumbraram-no uns minutos mais tarde, uma fila de edifícios brancos e anónimos, com um letreiro vermelho no cimo que dizia PORTS FRANCS. No século XIX, não passava praticamente de um celeiro onde os produtos agrícolas a caminho do mercado eram guardados. Atualmente, era um repositório seguro e livre de impostos onde os super-ricos de todo o mundo escondiam toda a espécie de tesouros: barras de ouro, joias, vinho vintage, automóveis e, claro, arte. Ninguém sabia ao certo qual a quantidade de grande arte existente no mundo que se encontrava no interior das caixas-fortes do Freeport de Genebra, mas julgava-se ser suficiente para criar vários grandes museus. Grande parte dela nunca voltaria a ver a luz do dia; e se chegasse a mudar de mãos, isso aconteceria em privado. Não era arte para ser vista e apreciada. Era arte como mercadoria, arte como proteção contra tempos incertos.

 

Apesar da vasta riqueza contida dentro do Freeport, as medidas de segurança possuíam típica discrição suíça. A vedação em redor do porto funcionava mais como desencorajamento do que como barreira e o portão que Bittel atravessou com o carro demorava a fechar-se. Mas, em todos os edifícios, havia câmaras de vídeo por tudo o que era sítio e, uns segundos depois de lá chegarem, um agente alfandegário apareceu junto a uma porta, com um bloco de notas com mola numa mão e um rádio na outra. Bittel saiu do carro e disse umas palavras ao funcionário, num francês fluente. O homem da alfândega voltou para o gabinete e, passado um momento, surgiu uma morena bem-feita, com uma saia e uma blusa justas. Entregou uma chave a Bittel e apontou para a ponta mais distante do complexo.

 

— Presumo que o tal amigo seja ela — disse Gabriel quando Bittel voltou a entrar no carro.

 

— A nossa relação é estritamente profissional.

 

— Tenho muita pena.

 

No Freeport, as moradas eram uma combinação do edifício, do corredor e da porta da caixa-forte. Bittel estacionou à frente do Edifício 4 e entrou seguido de Gabriel. Da entrada, estendia-se um corredor de portas aparentemente interminável. Uma estava aberta. Ao espreitar lá para dentro, Gabriel viu um homem pequeno e de óculos sentado a uma mesa chinesa em madeira lacada, com um telefone colado ao ouvido. A caixa-forte tinha sido transformada numa galeria de arte.

 

— Várias empresas de Genebra mudaram-se para o Freeport nos últimos anos — explicou Bittel. — A renda é mais barata do que na Rue du Rhône e os clientes parecem gostar da reputação que o Freeport tem quanto a maquinações secretas.

 

— Que é bem merecida.

 

— Agora já não.

 

— É o que vamos ver.

 

Entraram numa escadaria e subiram até ao segundo andar. A caixa-forte de Bradshaw ficava no corredor 12, por trás de uma porta de metal cinzenta com o número 24. Bittel hesitou antes de introduzir a chave.

 

— Não vai explodir, pois não?

 

— Boa pergunta.

 

— Isso não tem piada.

 

Bittel abriu a porta, ligou o interruptor e praguejou baixinho. Havia quadros por todo o lado — quadros emoldurados, quadros em cavaletes, quadros enrolados como carpetes num bazar persa. Gabriel desenrolou um no chão para que Bittel o visse. Era uma representação de um chalé no cimo de um penhasco junto ao mar repleto de resplandecentes plantas silvestres.

 

— Monet? — perguntou Bittel.

 

Gabriel assentiu com a cabeça.

 

— Foi roubado de um museu polaco há coisa de uns vinte anos.

 

Desenrolou outro quadro: uma mulher com um leque.

 

— Se não me engano — disse Bittel —, isso é um Modigliani.

 

— E não te enganas mesmo. Foi um dos quadros que foram levados do Museu de Arte Moderna de Paris, em 2010.

 

— O roubo do século. Lembro-me bem.

 

Bittel seguiu Gabriel por uma porta que dava para a sala interior da caixa-forte. Estavam lá dois grandes cavaletes, uma lâmpada de halogéneo, frascos com solvente e médium, recipientes de pigmentos, pincéis, uma paleta já com muito uso e um catálogo da Christie’s do leilão londrino dos Velhos Mestres de 2004. Estava aberto numa página que mostrava uma crucificação atribuída a um seguidor de Guido Reni, executada de forma competente mas desinspirada e que nem sequer valia o prémio do vendedor.

 

Gabriel fechou o catálogo e olhou em redor da caixa-forte. Era o ateliê secreto de um mestre falsificador, pensou, na galeria de arte das obras desaparecidas. Mas era evidente que Yves Morel tinha feito mais do que falsificar quadros naquela sala; também fizera um pouco de restauro. Gabriel pegou na paleta e passou a ponta do dedo pelos restos de tinta que ainda havia na superfície. Ocre, dourado e carmesim: as cores da Natividade.

 

— O que é? — perguntou Bittel.

 

— Uma prova de vida.

 

— Do que estás a falar?

 

— Esteve aqui — respondeu Gabriel. — Existe.

 

Nas duas salas da caixa-forte, havia cento e quarenta e sete quadros — impressionistas, modernos, dos Velhos Mestres —, mas nenhum era um Caravaggio. Gabriel fotografou todas as telas servindo-se da câmara do telemóvel. As únicas duas outras coisas que se encontravam na caixa-forte eram uma secretária e um pequeno cofre no chão — demasiado pequeno, pensou Gabriel, para caber lá um retábulo italiano de dois metros por dois metros e meio. Verificou as gavetas da secretária, mas estavam vazias. A seguir, pôs-se de cócoras diante do cofre e rodou a tranca entre o polegar e o indicador. Duas voltas para a direita, duas voltas para a esquerda.

 

— Em que estás a pensar?

 

— Estava a pensar quanto tempo ias levar a ter cá um serralheiro.

 

Bittel fez um sorriso triste.

 

— Talvez da próxima vez.

 

Sim, pensou Gabriel. Da próxima vez.

 

Voltaram para a estação de comboios, apanhando o que era supostamente a hora de ponta de Genebra. Ao atravessarem a Pont du Mont-Blanc, Bittel pressionou Gabriel para que este lhe fizesse um relato mais completo do caso. E quando as perguntas que lhe apresentou não suscitaram resposta, insistiu na necessidade de uma notificação prévia caso o itinerário de Gabriel incluísse mais uma visita à Suíça. Gabriel aceitou de imediato, ainda que ambos tivessem noção de que se tratava de uma promessa que não passava disso mesmo.

 

— A determinada altura — disse Bittel —, vamos ter de fazer uma limpeza àquela caixa-forte e devolver aqueles quadros aos legítimos proprietários.

 

— A determinada altura — concordou Gabriel.

 

— Quando?

 

— Não tenho maneira de te responder a isso.

 

— Digo-te que tens um mês. Depois disso, vou ter de comunicar o assunto à Polícia Federal.

 

— Se fizeres isso — respondeu Gabriel —, a coisa vai rebentar na imprensa e a Suíça vai ficar com mais outro olho negro.

 

— Já estamos habituados.

 

— E nós também.

 

Chegaram à estação a tempo de Gabriel apanhar o comboio das quatro e meia para Paris. Quando lá chegou, já estava escuro; entrou para um táxi que estava à espera e indicou ao taxista uma morada a uma pequena distância do apartamento seguro. Mas no momento em que o táxi entrou na rua, Gabriel sentiu o telemóvel a vibrar. Atendeu a chamada, ficou a ouvir em silêncio durante um momento e depois interrompeu a ligação.

 

— Mudança de planos — disse ao taxista.

 

— Para onde?

 

— Para a Rue de Miromesnil.

 

— Como queira.

 

Gabriel enfiou o telefone no bolso e sorriu. Iam a jogo, pensou. Iam sem dúvida a jogo.

 

Inicialmente, Marcel Durand tentou fazer valer-se de um privilégio de confidencialidade em relação à identidade de quem tinha telefonado. Mas, ao ser pressionado, admitiu ter sido Jonas Fischer, um industrial rico e conhecido colecionador de Munique que recorria com regularidade aos serviços singulares de Monsieur Durand. Herr Fischer deixou logo à partida bem claro que não era ele quem estava interessado no Van Gogh, mas estava a interceder em nome de um conhecido, também colecionador, que, por razões óbvias, não podia identificar. Segundo parecia, esse segundo colecionador já tinha enviado um representante para Paris, com base em certos rumores que andavam a percorrer o mundo da arte. Herr Fischer gostaria de saber se Durand não poderia indicar a direção certa ao representante.

 

— E o que lhe disse? — perguntou Gabriel.

 

— Disse-lhe que desconhecia o paradeiro do Van Gogh, mas que ia fazer uns telefonemas.

 

— E se acabar por conseguir ajudar em alguma coisa?

 

— Disseram-me para ligar diretamente ao representante.

 

— Que imagino não tenha nome.

 

— Só um número de telefone — respondeu Durand.

 

— Mas que profissional.

 

— Foi exatamente isso que achei.

 

Estavam no pequeno escritório nas traseiras da loja de Durand. Gabriel estava encostado à porta; Durand, sentado à secretariazinha dickensiana. No mata-borrão que tinha à frente, estava um microscópio em bronze, dos finais do século XIX, fabricado pela Vérick, em Paris.

 

— E é dele que andamos à procura? — perguntou Gabriel.

 

— Um homem como Herr Fischer só estaria ligado a um colecionador importante. E também deu a entender que o amigo tinha feito uma série de aquisições igualmente importantes nos últimos tempos.

 

— E alguma dessas aquisições foi um Caravaggio?

 

— Não perguntei.

 

— Se calhar, foi melhor não o ter feito.

 

— Se calhar — concordou Durand.

 

De repente, ficaram os dois em silêncio.

 

— E então? — perguntou o francês.

 

— Diga-lhe para estar amanhã no pátio de entrada da Saint-Germain-des-Prés, às duas da tarde, perto da porta vermelha. Diga-lhe para levar o telefone, mas nada de pistolas. E, faça o que fizer, não se ponha com conversas. Diga-lhe só o que ele tem de fazer e depois desligue.

 

Durand levantou o auscultador do telefone e marcou o número.

 

Saíram da loja cinco minutos mais tarde, o ladrão de arte e o antigo e futuro agente dos serviços secretos israelitas, e despediram-se praticamente sem dizerem mais uma palavra nem olharem um para o outro. O ladrão de arte foi para a brasserie em frente; o agente, para a embaixada israelita, no número 3 da Rue Rabelais. Entrou no prédio pela porta dos fundos, desceu para o centro de comunicações seguras e telefonou para o chefe da Divisão de Logística, a divisão que geria as propriedades seguras do Departamento. Explicou que precisava de um sítio perto de Paris, mas isolado, preferencialmente a norte. Não precisava de ser nada majestoso, acrescentou. Não estava a pensar dar nenhuma festa.

 

— Lamento — respondeu o chefe da Divisão de Logística. — Posso autorizá-lo a ficar numa propriedade existente, mas não posso adquirir uma nova sem aprovação vinda do último andar.

 

— Se calhar, não estava a ouvir quando eu lhe disse como me chamava.

 

— E o que digo ao Uzi?

 

— Nada, claro.

 

— E para quando precisa disso?

 

— Para ontem.

 

Às nove da manhã seguinte, a Divisão de Logística já tinha comprado uma pitoresca quinta de férias na região francesa da Picardia, logo à saída da aldeia de Andeville. Uma sebe imponente ocultava a entrada e da extremidade do bonito jardim de trás estendia-se uma miscelânea de terrenos de lavoura planos. Gabriel e Chiara chegaram lá ao meio-dia e esconderam os dois Van Gogh na adega. Depois Gabriel seguiu de imediato de carro para Paris. Deixou o automóvel num parque de estacionamento perto da estação de metro de Odéon e percorreu a pé o boulevard a caminho da Place Saint-Germain-des-Prés. Num canto da movimentada praça, ficava um café chamado Le Bonaparte. Sentado a uma mesa virada para a rua, encontrava-se Christopher Keller. Gabriel cumprimentou-o em francês e sentou-se ao lado dele. Olhou para o relógio. Eram 13h55. Pediu um café e fitou a porta vermelha da igreja.

 

Não foi difícil identificá-lo; nessa tarde perfeita de primavera, com o sol a brilhar intensamente num céu sem nuvens e um vento suave a soprar pelas ruas apinhadas de gente, era a única pessoa que tinha vindo sozinha à igreja. Era de estatura mediana, com quase um metro e oitenta, e bem constituído. Tinha movimentos fluidos e decididos — como os de um futebolista, pensou Gabriel, ou de um soldado de elite. Usava um casaco desportivo castanho-claro e fino, uma camisa branca e calças cinzentas de gabardina. Um chapéu de palha tapava-lhe a cara; uns óculos escuros escondiam-lhe os olhos. Aproximou-se da porta vermelha e fingiu que estava a consultar um guia turístico. Estavam duas raparigas, uma de calções e a outra com um vestido caicai, sentadas nas escadas, com as pernas nuas esticadas. Foi evidente que houve qualquer coisa no homem que as fez sentirem-se desconfortáveis. Ficaram ali sentadas mais um momento e depois levantaram-se e atravessaram a praça.

 

— O que achas? — perguntou Keller.

 

— Acho que é o nosso rapaz.

 

O empregado trouxe o café de Gabriel. Este pôs-lhe açúcar e mexeu-o pensativamente enquanto observava o homem parado ao lado da porta vermelha da igreja.

 

— Não lhe vais ligar?

 

— Ainda não são duas, Christopher.

 

— Vai dar ao mesmo.

 

— É melhor não parecer muito ansioso. Não te esqueças que já temos um comprador fisgado. O nosso amigo ali ao fundo já levantou o cartão de licitação bem tarde.

 

Gabriel deixou-se ficar sentado à mesa até o relógio no campanário da igreja indicar que já passavam dois minutos das duas. Foi então que se levantou e entrou no café. Estava vazio, tirando os empregados. Aproximou-se da janela, sacou o telemóvel do bolso do casaco e marcou o número. Passados uns segundos, o homem parado à frente da igreja atendeu.

 

— Bonjour.

 

— Não precisa de falar francês só por estarmos em Paris.

 

— Prefiro francês, se não se importa.

 

Até podia preferir francês, pensou Gabriel, mas não era a língua-mãe dele. Já não fingia que olhava para o guia. Estava a inspecionar a praça, à procura de um homem com um telemóvel encostado ao ouvido.

 

— Veio sozinho? — perguntou Gabriel.

 

— Como me está a ver neste preciso momento, já sabe que a resposta é sim.

 

— Estou a ver um homem parado no sítio onde devia estar, mas não sei se ele veio sozinho.

 

— Veio.

 

— E alguém o seguiu?

 

— Não.

 

— Como pode ter a certeza?

 

— Tenho.

 

— E como o devo tratar?

 

— Pode tratar-me por Sam.

 

— Sam?

 

— Sim, Sam.

 

— Trouxe alguma pistola, Sam?

 

— Não.

 

— Tire o casaco.

 

— Porquê?

 

— Quero ver se está alguma coisa debaixo dele que não devia lá estar.

 

— Isto é mesmo necessário?

 

— Quer ver o quadro ou não?

 

O homem pousou o guia e o telefone nas escadas, despiu o casaco e pendurou-o no braço. A seguir, voltou a pegar no telefone e perguntou:

 

— Satisfeito?

 

— Dê meia-volta para ficar virado para a igreja.

 

O homem rodou cerca de quarenta e cinco graus.

 

— Mais.

 

Outros quarenta e cinco.

 

— Muito bem.

 

O homem regressou à posição original e perguntou:

 

— E agora?

 

— Vai dar um passeio.

 

— Não me apetece dar nenhum passeio.

 

— Não se preocupe, Sam. Não vai ser um passeio grande.

 

— E onde quer que eu vá?

 

— Quero que siga pelo boulevard, em direção ao Quartier Latin. Sabe o caminho para o Quartier Latin, Sam?

 

— Claro que sim.

 

— Conhece bem Paris?

 

— Muito bem.

 

— Não olhe por cima do ombro nem faça paragens. E não se sirva do telefone. Senão, é capaz de não ouvir a minha próxima chamada.

 

Gabriel interrompeu a ligação e voltou para o pé de Keller.

 

— E então? — perguntou o Inglês.

 

— Acho que acabámos de encontrar o Samir. E acho que é um profissional.

 

— E sempre vamos a jogo?

 

— Já vamos saber não tarda nada.

 

Do outro lado da praça, Sam estava a vestir o casaco desportivo. Enfiou o telemóvel no bolso do peito, largou o guia num caixote do lixo e depois dirigiu-se para o Boulevard Saint-Germain. Se virasse à direita, seguiria na direção dos Invalides; se virasse à esquerda, seguiria para o Quartier Latin. Hesitou um momento e depois virou à esquerda. Gabriel contou devagar até vinte antes de se levantar e começar a segui-lo.

 

Quando mais não fosse, era capaz de cumprir ordens. Seguiu em linha reta pelo boulevard, passando pelas lojas e os cafés apinhados de gente, sem parar nem espreitar por cima do ombro uma única vez. Isso permitiu a Gabriel concentrar-se na sua tarefa principal, que era a contravigilância. Não viu nada que indicasse que Sam tivesse um cúmplice. E também não parecia que estivesse a ser seguido pela polícia francesa. Estava limpo, pensou Gabriel. Tão limpo como um comprador de arte roubada podia estar.

 

Passados dez minutos a andar a bom ritmo, Sam estava a aproximar-se do ponto em que o boulevard ia dar ao Sena. Meio quarteirão atrás dele, Gabriel sacou o telemóvel do bolso e ligou-lhe. Uma vez mais, Sam atendeu de imediato, como o mesmo bonjour cordial.

 

— Vire à esquerda para a Rue du Cardinal Lemoine e siga-a até ao Sena. Atravesse a ponte para a Île Saint-Louis e depois continue sempre a andar até voltar a ter notícias minhas.

 

— Ainda falta muito?

 

— Já não, Sam. Está quase lá.

 

Sam virou conforme lhe tinham ordenado e atravessou a Pont de la Tournelle para a pequena ilha no meio do Sena. Uma série de cais pitorescos sucedia-se ao longo do perímetro da ilha, mas havia apenas uma rua, a Rue Saint-Louis en l’Île, que a percorria por inteiro. Pelo telefone, Gabriel disse a Sam para virar outra vez à esquerda.

 

— Ainda falta muito?

 

— Só mais um bocadinho, Sam. E não olhe por cima do ombro.

 

Era uma rua estreita, com turistas a deambularem sem rumo, à frente das montras das lojas. Na ponta ocidental, ficava uma gelataria, e, ao lado desta, uma brasserie com ótima vista para Notre-Dame. Gabriel ligou para Sam e transmitiu-lhe as últimas ordens.

 

— E quanto tempo tenciona deixar-me à espera?

 

— Lamento dizê-lo, mas não vou almoçar consigo, Sam. Sou só um mero empregado.

 

Gabriel interrompeu a ligação sem dizer mais uma palavra e ficou a ver Sam entrar na brasserie. Um empregado de mesa cumprimentou-o e apontou com a mão para uma mesa no passeio ocupada por um inglês loiro e de óculos com lentes azuis. O inglês levantou-se e, com um sorriso, estendeu-lhe a mão. «Reg», ouviu-o Gabriel dizer enquanto virava a esquina. «Reg Bartholomew. E você deve ser o Sam.»

 

— Gostava de começar esta conversa, senhor Bartholomew, dando-lhe os meus parabéns. O senhor e os seus amigos realizaram uma operação impressionante em Amesterdão.

 

— E como sabe que não fiz isso sozinho?

 

— Não é o género de coisa que se faça sozinho. Com certeza que teve ajuda — acrescentou Sam. — Como aquele seu amigo que falou ao telefone comigo. Ele fala francês muito bem, mas não é francês, pois não?

 

— E que diferença é que isso faz?

 

— Uma pessoa gosta de saber minimamente com quem está a negociar.

 

— Isto não é o Harrods, meu caro.

 

Sam perscrutou a rua com a languidez de um turista que tinha visitado demasiados museus demasiado depressa.

 

— Ele anda algures por aqui, não anda?

 

— Não faço ideia.

 

— E há mais gente?

 

— Muito mais.

 

— E, mesmo assim, pediram-me para vir sozinho.

 

— É o vendedor quem manda no mercado.

 

— Já ouvi dizer.

 

Sam recomeçou a examinar a rua. Continuava com o chapéu de palha e os óculos escuros postos, o que lhe deixava apenas a metade inferior da cara visível. Tinha a barba muito bem feita e estava perfumado com critério. As maçãs do rosto eram altas e proeminentes, o queixo, recortado, os dentes, sem irregularidades e branquíssimos. Não tinha cicatrizes nem tatuagens nas mãos. Não trazia anéis nos dedos nem pulseiras nos pulsos, só um grande Rolex de ouro para indicar que era um homem de posses. Possuía os maneirismos refinados de um árabe de boas famílias, mas com um lado mais duro.

 

— E também já ouvi dizer outras coisas — continuou Sam passado um momento. — As pessoas que já viram a mercadoria dizem que conseguiu tirá-la de Amesterdão com o mínimo de danos.

 

— Nenhuns, na verdade.

 

— E também já ouvi dizer que há polaroides.

 

— E onde ouviu isso?

 

Sam fez um sorriso desagradável.

 

— Isto vai demorar muito mais tempo do que é necessário se insistir em prosseguir com estes jogos, senhor Bartholomew.

 

— Uma pessoa gosta de saber minimamente com quem está a negociar — respondeu Keller mordazmente.

 

— Está a pedir-me informações sobre o homem que eu represento, senhor Bartholomew?

 

— Nem me passaria pela cabeça tal coisa.

 

Seguiu-se um silêncio.

 

— O meu cliente é um homem de negócios — disse Sam por fim. — Bastante bem-sucedido, muito rico. E também é um amante das artes. Coleciona imenso, mas tal como acontece com vários colecionadores importantes, encontra-se frustrado com o facto de já só haver à venda muitíssimo poucos quadros bons. Anda interessado em adquirir um Van Gogh há muitos anos. E o senhor tem neste momento um que é muitíssimo bom. O meu cliente gostava de ficar com ele.

 

— Tal como muitas outras pessoas. — Isso não pareceu afetar Sam. — Então e o senhor? — perguntou passado um momento. — Porque não me fala um bocadinho de si?

 

— Ganho a vida a roubar quadros.

 

— E é inglês?

 

— Receio bem que sim.

 

— Sempre gostei dos ingleses.

 

— Não vou levar isso a mal.

 

Surgiu um empregado, que entregou uma ementa a cada um. Sam pediu uma garrafa de água mineral; Keller, um copo de vinho que não fazia tenções de beber.

 

— Deixe-me esclarecer-lhe desde já uma coisa — disse ele quando voltaram a ficar a sós. — Não estou interessado em drogas, armas, raparigas ou num condomínio em Boca Raton, na Florida. Só quero saber de dinheiro vivo.

 

— E de quanto dinheiro estamos a falar, senhor Bartholomew?

 

— Tenho uma oferta de vinte milhões em cima da mesa.

 

— De que sabor?

 

— Euros.

 

— E é uma oferta firme?

 

— Adiei a venda para me encontrar consigo.

 

— Mas que lisonjeador. E porque havia de fazer uma coisa dessas?

 

— Porque ouvi dizer que o seu cliente, seja ele quem for, é um homem com bolsos fundos.

 

— Muito fundos.

 

Outro sorriso, só ligeiramente mais agradável do que o primeiro.

 

— Então e como prosseguimos, senhor Bartholomew?

 

— Preciso de saber se está interessado ou não em bater a oferta que está em cima da mesa.

 

— Estou.

 

— Por quanto?

 

— Imagino que lhe podia oferecer qualquer coisa insignificante, como por exemplo mais quinhentos mil, mas o meu cliente não gosta de leilões.

 

Fez uma pausa e a seguir perguntou:

 

— Vinte e cinco milhões chegam para tirar o quadro de cima da mesa?

 

— Chegam com certeza, Sam.

 

— Ótimo — retorquiu ele. — Então, talvez seja boa altura para me mostrar as polaroides.

 

As polaroides estavam no porta-luvas de um Mercedes alugado que se encontrava estacionado numa rua sossegada por trás de Notre-Dame. Keller e Sam foram até lá e entraram para o carro, com Keller a sentar-se ao volante e Sam no lugar do passageiro. Keller revistou-o rápida mas minuciosamente e só depois abriu o porta-luvas para sacar de lá as fotografias. Ao todo, eram quatro — uma de corpo inteiro e três de pormenor. Sam passou-as em revista com uma expressão cética.

 

— Parece um bocadinho o Van Gogh que está pendurado em cima da cama do meu quarto de hotel.

 

— Mas não é.

 

Fez uma cara que mostrava que não estava convencido.

 

— O quadro que está nesta fotografia pode ser uma cópia. E o senhor pode ser um vigarista espertalhão que anda a tentar aproveitar-se do roubo de Amesterdão.

 

— Tire os óculos escuros e veja melhor, Sam.

 

— E é o que pretendo fazer.

 

Devolveu as fotos a Keller.

 

— Preciso de ver isso ao vivo e não em fotografias.

 

— Não estou à frente de nenhum museu, Sam.

 

— Ou seja?

 

— Não posso mostrar o Van Gogh a toda a gente que o queira ver. Preciso de saber se quer mesmo adquiri-lo ou não.

 

— Já lhe ofereci vinte e cinco milhões de euros em dinheiro vivo por ele.

 

— Oferecer vinte e cinco milhões é fácil, Sam. Passá-los para a mão de outra pessoa é que já é bastante diferente.

 

— O meu cliente é um homem extraordinariamente rico.

 

— Então tenho a certeza de que não o mandou para Paris de mãos a abanar.

 

Keller voltou a guardar as fotografias no porta-luvas e fechou-o com força.

 

— É assim que funciona o seu esquema? Diz que só mostra o quadro se vir primeiro o dinheiro e depois rouba-o?

 

— Se eu tivesse algum esquema, você e o seu cliente já teriam ouvido falar disso.

 

Sam não teve resposta para dar.

 

— Não consigo arranjar mais do que dez mil em dinheiro vivo assim tão em cima da hora.

 

— Vou precisar de ver um milhão.

 

Sam soltou um risinho trocista, como que a querer dizer que um milhão estava fora de questão.

 

— Se quer ver um Van Gogh por menos de um milhão — disse Keller —, pode ir ao Louvre ou ao Musée d’Orsay. Mas se quer ver o meu Van Gogh, vai ter de me mostrar o dinheiro.

 

— Não é seguro andar pelas ruas de Paris com essas quantias.

 

— Algo me diz que você sabe muito bem tomar conta de si.

 

Sam soltou um suspiro de capitulação.

 

— Onde e quando?

 

— Saint-Germain-des-Prés, amanhã às duas da tarde. Sem amigos. Nem pistolas.

 

Sam saiu do carro sem dizer mais uma palavra e foi-se embora.

 

Atravessou o Sena para a Margem Direita e percorreu a Rue de Rivoli, passando pela ala norte do Louvre, em direção ao Jardim das Tulherias. Passou grande parte do tempo ao telefone e, por duas vezes, executou dois exemplos rudimentares das artes do ofício da espionagem para perceber se o estavam a seguir. Ainda assim, não pareceu reparar que Gabriel se encontrava cinquenta metros atrás dele.

 

Antes de chegar ao Jeu de Paume, cortou para a Rue Saint-Honoré e entrou numa loja de luxo que vendia dispendiosos produtos de cabedal para homem. Saiu de lá passados dez minutos, com uma nova pasta que levou até uma sucursal do HSBC Private Bank, no Boulevard Haussmann. Esteve lá dentro vinte e dois minutos certos e, quando voltou a aparecer, a pasta parecia mais pesada do que quando tinha entrado. Seguiu rapidamente para a Place de la Concorde e depois atravessou a entrada imponente do Hôtel de Crillon. Assistindo ao longe a tudo, Gabriel sorriu. Para o representante do Senhor Peixe Graúdo, só do bom e do melhor. Quando se começou a ir embora, ligou a Keller para lhe dar as novidades. Iam a jogo, disse-lhe. Iam sem dúvida a jogo.

 

Às duas da tarde do dia seguinte, estava parado à frente da porta vermelha da igreja, com o chapéu e os óculos escuros no devido sítio e a nova pasta bem segura na mão direita. Gabriel esperou cinco minutos antes de lhe telefonar.

 

— Você outra vez — disse Sam num tom sorumbático.

 

— Infelizmente, sim.

 

— E agora?

 

— Damos mais outro passeio.

 

— E desta vez para onde?

 

— Siga a Rue Bonaparte até à Place Saint-Sulpice. As mesmas regras da outra vez. Não faça paragens nem olhe por cima do ombro. E nada de telefonemas.

 

— E até onde está a pensar fazer-me andar desta vez?

 

Gabriel desligou sem dizer mais nada. Do outro lado da movimentada praça, Sam começou a andar. Gabriel contou devagar até vinte e depois seguiu-o.

 

Deixou Sam chegar ao Jardim do Luxemburgo e só depois lhe voltou a ligar. Daí, seguiram para sudoeste, na Rue de Vaugirard, e depois para norte, no Boulevard Raspail, até à entrada do Hôtel Lutetia. Keller estava no bar, sentado a uma mesa, a ler o Telegraph. Sam sentou-se ao lado dele, conforme lhe tinham ordenado.

 

— Como se portou ele desta vez? — perguntou Keller.

 

— Tão minucioso como sempre.

 

— Não quer beber nada?

 

— Não bebo.

 

— Mas que pena.

 

Keller dobrou o jornal.

 

— É melhor tirar os óculos, Sam. Senão, a gerência ainda é capaz de ficar com uma ideia errada de si.

 

Sam fez o que Keller lhe sugeriu. Tinha olhos castanho-claros e grandes. Com a cara à mostra, tornava-se uma figura muito menos ameaçadora.

 

— E agora o chapéu — continuou Keller. — Um cavalheiro não anda de chapéu na cabeça no bar do Lutetia.

 

Sam tirou o chapéu de palha, deixando ver um cabelo farto, castanho mas não preto, já um bocadinho grisalho na zona das orelhas. Se era árabe, não era da Península nem do Golfo. Keller olhou para a pasta.

 

— Trouxe o dinheiro?

 

— Um milhão, exatamente como pediu.

 

— Deixe-me dar uma espreitadelazinha. Mas com cuidado — acrescentou Keller. — Tem uma câmara de vigilância por cima do ombro direito.

 

Sam pousou a pasta em cima da mesa, destrancou-a e abriu a tampa uns centímetros, apenas o suficiente para que Keller visse de relance as filas bem arrumadas de notas de cem euros.

 

— Feche-a — disse Keller em voz baixa.

 

Sam fechou e trancou a pasta.

 

— Satisfeito? — perguntou.

 

— Ainda não.

 

Keller pôs-se de pé.

 

— Para onde vamos agora?

 

— Para o meu quarto.

 

— E vai lá estar mais alguém?

 

— Só vamos lá estar nós os dois, Sam. Muito romântico.

 

Sam levantou-se e pegou na pasta.

 

— Acho que é importante esclarecer bem uma coisa antes de subirmos.

 

— O quê, Sam?

 

— Se me acontecer alguma coisa, ou ao dinheiro do meu cliente, o senhor e o seu amigo vão acabar em muito mau estado. — Pôs os óculos e sorriu. — Só para não haver mal-entendidos, meu caro.

 

No vestíbulo do quarto, longe dos olhos indiscretos das câmaras de vigilância do hotel, Keller revistou Sam, à procura de armas ou de aparelhos de escuta. Ao não encontrar nada a que pudesse objetar, pousou a pasta ao fundo da cama e destrancou-a. A seguir, tirou três maços de notas e, de cada maço, uma única nota. Examinou-as uma a uma com uma lupa de profissional; depois, na casa de banho às escuras, sujeitou-as ao crivo da lanterna ultravioleta de Gabriel. As fitas de segurança brilharam a uma luz verde-limão; as notas eram verdadeiras. Voltou a pôr as notas nos maços e os maços na pasta. Depois fechou-a e, com a cabeça, indicou que estavam prontos para dar o passo seguinte.

 

— Quando? — perguntou Sam.

 

— Amanhã à noite.

 

— Tenho uma ideia melhor — retorquiu ele. — Fazemos isso hoje à noite. Caso contrário, não há negócio.

 

Maurice Durand tinha-lhes dito para contarem com uma coisa desse género — um estratagemazinho tático, uma revolta de trazer por casa, que permitiria a Sam pensar que era ele, e não Keller, quem comandava as negociações. Keller protestou levemente, mas Sam manteve-se firme. Queria estar à frente do Van Gogh antes da meia-noite; se não estivesse, ele e os vinte e cinco milhões de euros desapareceriam. O que não deixou a Keller outra opção senão aceder à vontade do adversário. Fê-lo com um sorriso de quem concede algo, como se a mudança de planos pouco mais fosse do que um mero inconveniente. A seguir, estabeleceu rapidamente as regras para a inspeção a ocorrer naquela noite. Sam podia tocar no quadro, cheirá-lo ou fazer amor com ele. Mas não o podia fotografar em circunstância alguma.

 

— Onde e quando? — perguntou Sam.

 

— Ligamos-lhe às nove para lhe explicar como vamos proceder.

 

— Ótimo.

 

— E onde está hospedado?

 

— Sabe perfeitamente onde estou hospedado, senhor Bartholomew. Vou estar no átrio do Crillon às nove da noite, sem amigos nem pistolas. E diga ao seu amigo para desta vez não me deixar à espera.

 

Saiu do hotel passados dez minutos, já com o chapéu e os óculos escuros, e foi a pé até ao HSBC Private Bank, no Boulevard Haussmann, onde, presumivelmente, terá voltado a guardar o milhão de euros no cofre de segurança do cliente. A seguir, dirigiu-se, novamente a pé, para o Musée d’Orsay e passou lá duas horas a estudar os quadros de um tal Vincent van Gogh. Quando saiu do museu, já eram quase seis. Comeu uma refeição ligeira num bistro dos Campos Elíseos e depois voltou para o quarto no Crillon. Conforme prometera, às nove em ponto estava no átrio do hotel, com calças cinzentas, um pulôver preto e um casaco de cabedal. Gabriel sabia-o por estar a cerca de um metro de distância, no bar do átrio. Esperou até serem nove e dois e ligou para o número de Sam.

 

— Sabe andar no metro de Paris?

 

— Claro que sim.

 

— Vá até à estação de Concorde e apanhe o Número Doze para Marx Dormoy. O senhor Bartholomew vai estar lá à sua espera.

 

Sam saiu do átrio. Gabriel deixou-se ficar mais cinco minutos no bar. Depois pediu ao arrumador de carros do hotel para ir buscar o dele e seguiu para a quinta na Picardia.

 

A estação de Marx Dormoy ficava no oitavo arrondissement, na Rue de la Chapelle. Keller estava estacionado em frente, a fumar um cigarro, quando Sam surgiu ao cimo das escadas. Aproximou-se do carro e entrou discretamente para o lugar do passageiro sem dizer uma palavra.

 

— Onde está o seu telemóvel? — perguntou Keller.

 

Sam sacou-o do bolso do casaco e mostrou-o a Keller.

 

— Desligue-o e tire-lhe o cartão SIM.

 

Sam fez o que lhe disseram. Keller meteu a primeira e avançou devagar para o meio do trânsito noturno.

 

Deixou que Sam continuasse sentado no lugar do passageiro até saírem dos subúrbios a norte. Foi então que, no meio de um arvoredo perto da cidadezinha de Ézanville, lhe ordenou que entrasse para a bagageira. Fez a longa viagem para norte, até à Picardia, acrescentando-lhe pelo menos uma hora. Por isso mesmo, já era quase meia-noite quando virou para o caminho de entrada da quinta. Quando Sam saiu da bagageira, reparou na silhueta de um homem parado, ao luar, no extremo da propriedade.

 

— Presumo que aquele seja o seu sócio.

 

Keller não respondeu. Preferiu levá-lo para dentro da quinta, pela porta das traseiras, para depois descerem as escadas para a adega. Encostado a uma parede, iluminado por uma simples lâmpada pendurada num fio, estavam os Girassóis, óleo sobre tela, 95 centímetros por 73 centímetros, da autoria de Vincent van Gogh. Sam ficou diante do quadro durante longos instantes sem dizer nada. Keller pôs-se ao lado dele.

 

— E então? — acabou por perguntar.

 

— Só um momento, senhor Bartholomew. Só um momento.

 

Por fim, avançou e pegou no quadro pelas barras verticais do suporte, virando-o para examinar as marcas do museu na parte de trás da tela. A seguir, olhou para as margens do quadro e fez uma careta.

 

— Há algum problema? — perguntou Keller.

 

— O Vincent era conhecido pela forma descuidada como tratava os quadros. Veja só — acrescentou, voltando as margens do suporte para Keller. — Deixou as impressões digitais por todo o lado.

 

Sam sorriu, aproximou o quadro da luz e passou vários minutos a examinar as pinceladas com atenção. Depois colocou-o outra vez na posição original e recuou para o escrutinar a uma distância maior. Desta vez, Keller não lhe interrompeu o silêncio.

 

— Espetacular — disse passado um momento.

 

— E autêntico — acrescentou Keller.

 

— É possível. Ou então é possível que seja obra de um falsificador extremamente talentoso.

 

— Mas não é.

 

— Vou precisar de efetuar um teste simples para ter a certeza, uma análise às lascas da tinta. Se a tinta for autêntica, temos negócio. Se não for, nunca mais vai ter notícias minhas e fica à vontade para impingir o quadro a um comprador menos sofisticado.

 

— E quanto tempo é que isso vai demorar?

 

— Setenta e duas horas.

 

— Tem quarenta e oito.

 

— Não admito que me apressem, senhor Bartholomew. Nem o meu cliente o fará.

 

Keller hesitou antes de assentir com a cabeça uma vez. Servindo-se de um bisturi para cirurgias, Sam tirou habilidosamente duas lascas minúsculas de tinta do quadro — uma do canto inferior direito e a outro do canto inferior esquerdo — e depositou-as num frasquinho de vidro. Enfiou o frasquinho no bolso do casaco e, com Keller logo atrás, subiu as escadas. Lá fora, a figura em silhueta continuava parada no extremo da propriedade.

 

— Vou chegar a conhecer o seu sócio? — perguntou Sam.

 

— Não o aconselharia — respondeu Keller.

 

— Porquê?

 

— Porque seria a última cara que veria na vida.

 

Sam franziu o sobrolho e entrou para a bagageira do Mercedes. Keller fechou a porta com força e levou-o outra vez para Paris.

 

Eram todos agentes experimentados, cada um à sua maneira singular, mas mais tarde diriam que os três dias que se seguiram passaram à velocidade de um rio bloqueado pelo gelo. O habitual autodomínio de Gabriel abandonou-o. Tinha engendrado o roubo de um dos quadros mais famosos do mundo como parte de um estratagema para encontrar outro; e, no entanto, nada disso serviria para alguma coisa se o homem chamado Sam desistisse do negócio. Apenas Maurice Durand, talvez o principal especialista do mundo inteiro no comércio ilícito de arte, se mantinha confiante. Segundo a experiência dele, os colecionadores sem escrúpulos como o Senhor Peixe Graúdo raramente renunciavam a uma oportunidade de adquirir um Van Gogh. Com certeza que, afirmou, o fascínio dos Girassóis seria demasiado poderoso para se poder resistir. Ao não ser que Gabriel se tivesse enganado e mostrasse a falsificação a Sam, coisa que não tinha acontecido; a análise às lascas da tinta seria positiva e o negócio avançaria.

 

Na eventualidade de Sam desistir, tinham uma outra opção; podiam segui-lo e tentar determinar a identidade do cliente, o homem da grande fortuna, que estava preparado para pagar 25 milhões de euros por uma obra de arte roubada. Era apenas uma das razões que tinham levado Gabriel e Keller, dois dos agentes mais experimentados do mundo inteiro a seguir pessoas, a monitorizar cada passo de Sam durante os três dias em que estiveram à espera. Vigiaram-no de manhã, enquanto trilhava os caminhos para peões das Tulherias, à tarde, enquanto visitava as atrações turísticas a bem do disfarce, e à noite, enquanto jantava, sempre sozinho, na zona dos Campos Elíseos. A sensação que transmitia era de disciplina. A determinada altura da vida, concordaram Keller e Gabriel, Sam tinha feito parte da irmandade secreta dos espiões. Ou talvez, pensaram, ainda fizesse.

 

Na manhã do terceiro dia, deu-lhes a todos um pequeno susto quando não foi dar o passeio habitual. O sobressalto aumentou às quatro da tarde quando o viram sair do Crillon com duas malas grandes e entrar para o banco de trás de uma limusina. Mas essa preocupação desvaneceu-se depressa quando a limusina o levou até ao HSBC Private Bank, no Boulevard Haussmann. Passados trinta minutos, já tinha voltado para o quarto. Havia apenas duas possibilidades, explicou Keller. Sam executara o assalto mais discreto de sempre a um banco ou então tinha acabado de retirar uma grande quantia de dinheiro de um cofre de segurança. Keller desconfiava que fosse o segundo caso. E Gabriel também. Por isso mesmo, o suspense foi mínimo quando chegou finalmente a altura de telefonar a Sam para saber a resposta dele. Keller fez as honras. Terminada a chamada, olhou para Gabriel e sorriu.

 

— Podemos nunca vir a encontrar o Caravaggio — disse —, mas estamos prestes a receber vinte e cinco milhões de euros dos bolsos do Senhor Peixe Graúdo.

 

Mas havia uma condição: Sam reservou-se o direito de escolher a hora e o sítio para a troca do dinheiro pela mercadoria. A hora, disse, seria às onze e meia da noite do dia seguinte. O sítio seria um armazém em Chelles, uma comuna sem graça a leste de Paris. Keller foi para lá de carro de manhã, ao mesmo tempo que o resto do norte de França se deslocava em catadupa para o centro da cidade. O armazém ficava onde Sam tinha dito, na Avenue François Mitterrand, mesmo em frente a um concessionário da Renault. Um letreiro já gasto dizia EUROTRANZ, embora não houvesse qualquer indicação do tipo de serviços que a empresa prestava de facto. Havia pombos a voar para dentro e fora do edifício, pelas janelas partidas; uma savana de ervas daninhas florescia atrás das grades da vedação de ferro. Keller saiu do carro e examinou o portão automático. Já há muito tempo que ninguém o abria.

 

Passou uma hora a fazer um reconhecimento de rotina das ruas à volta do armazém e depois seguiu para norte, para a quinta em Andeville. Quando lá chegou, deu com Gabriel e Chiara a descansarem no jardim banhado pelo sol. Os dois Van Gogh estavam encostados à parede da sala de estar.

 

— Continuo sem perceber como os consegues distinguir — disse Keller.

 

— É bastante evidente, não achas?

 

— Não, não acho.

 

Gabriel inclinou a cabeça para o quadro da direita.

 

— Tens a certeza?

 

— Aquilo são as minhas impressões digitais ali de lado, nas barras do suporte, e não as do Vincent. E depois há isto.

 

Gabriel ligou o BlackBerry que lhe tinha sido dado pelo Departamento e segurou-o junto ao canto superior direito da tela. O ecrã pôs-se a piscar com uma luz vermelha, dando conta da presença de um transmissor escondido.

 

— Tens a certeza do alcance? — perguntou Keller.

 

— Voltei a testá-lo hoje de manhã. É tão fiável como um relógio suíço num raio de dez quilómetros.

 

Keller olhou para o Van Gogh verdadeiro.

 

— É uma pena que ninguém se tenha lembrado de pôr nenhum transmissor naquele.

 

— Pois é — retorquiu Gabriel num tom distante.

 

— E quanto tempo tencionas ficar com ele?

 

— Nem mais um dia do que for necessário.

 

— E quem vai tomar conta dele enquanto andamos atrás da falsificação?

 

— Tinha esperanças de o deixar na embaixada de Paris — respondeu Gabriel —, mas o chefe de base não lhe quer nem tocar. Por isso, tive de tomar outras providências.

 

— Que género de providências?

 

Quando Gabriel lhe respondeu, Keller abanou a cabeça lentamente.

 

— É um bocadinho estranho, não achas?

 

— A vida é complicada, Christopher.

 

Keller sorriu.

 

— A quem o dizes.

 

Saíram pela última vez da pitoresca quinta às oito da noite. A cópia dos Girassóis ia na bagageira do Mercedes de Keller; o Van Gogh autêntico ia na de Gabriel. Entregou-o a Maurice Durand na loja deste, na Rue de Miromesnil. A seguir, deixou Chiara no apartamento seguro com vista para a Pont Marie e partiu para a comuna de Chelles.

 

Chegou lá uns minutos antes das onze e dirigiu-se para o armazém da Avenue François Mitterrand. Ficava numa parte da cidade onde havia pouca vida nas ruas quando caía à noite. Contornou a propriedade duas vezes, à procura de sinais de vigilância ou de qualquer coisa que indicasse que Keller estivesse prestes a cair numa armadilha. Ao não encontrar nada de anormal, foi à procura de um posto de observação adequado onde um homem sentado sozinho não fosse atrair a atenção da polícia. A única opção era um parque sem vegetação onde uma dezena de skaters durões da zona estavam a beber cerveja. Num dos lados do parque, havia uma fila de bancos iluminada por candeeiros amarelos. Gabriel estacionou o carro na rua e sentou-se no banco mais perto da entrada da Eurotranz. Os durões olharam-no com perplexidade durante um momento e depois recomeçaram a discutir os assuntos prementes daquele dia. Gabriel deu uma olhadela ao relógio. Eram onze e cinco. A seguir, consultou o BlackBerry. O sinal ainda não tinha entrado no raio de ação.

 

Quando olhou outra vez para cima, viu os faróis de um carro na avenida. Era um pequeno Citroën vermelho, que passou em grande velocidade à frente da entrada da Eurotranz e continuou a todo o gás pelo exterior do parque, deixando atrás de si o pulsar de um exemplo de hip-hop francês. A seguir vinha outro carro, um BMW preto, tão limpo que parecia acabadinho de lavar propositadamente para o efeito. Parou junto ao portão e o condutor saiu cá para fora. Era impossível ver-lhe a cara na escuridão, mas tanto quanto a constituição como quanto a movimentos era o sósia de Sam.

 

Carregou com o indicador nuns quantos botões do teclado automático, com a confiança de um homem que já sabia a combinação há muito tempo. Depois sentou-se de novo ao volante, ficou à espera que o portão se abrisse e entrou na propriedade. Parou para aguardar que o portão se fechasse e dirigiu-se para a entrada do armazém. Uma vez mais, saiu do carro e carregou nos botões do teclado de segurança com uma rapidez que indiciava um conhecimento profundo. Quando a porta se abriu, entrou com o carro lentamente e desapareceu de vista.

 

No parquezinho sem vegetação, a chegada de um automóvel de luxo ao armazém abandonado, na Avenue François Mitterrand, passou despercebida a toda a gente, com exceção do homem já perto da terceira idade que estava sentado sozinho. O homem olhou para o relógio e viu que eram 23h08. Depois olhou para o BlackBerry. A luzinha vermelha estava a piscar e a aproximar-se dele.

 

Keller chegou às onze e meia em ponto. Ligou para o telemóvel de Sam e o portão abriu-se. Um pedaço de asfalto esburacado estendia-se à frente dele, deserto e às escuras. Atravessou-o a pouca velocidade e, seguindo as instruções de Sam, entrou com o carro no armazém, lenta e cuidadosamente. Na outra ponta de um espaço do tamanho de um campo de futebol, brilhavam as luzes de presença de um BMW. Keller conseguiu distinguir a figura de um homem encostado ao capô, com um telefone colado ao ouvido e duas malas grandes aos pés. Não havia mais ninguém à vista.

 

— Pare aí — disse Sam.

 

Keller pisou o travão.

 

— Desligue o motor e apague os faróis.

 

Keller fez o que lhe mandaram.

 

— Saia do carro e deixe-se ficar onde eu o consiga ver.

 

Keller saiu do carro devagar e pôs-se à frente do capô. Sam esticou o braço para dentro do BMW e acendeu os faróis.

 

— Tire o casaco.

 

— Isto é mesmo necessário?

 

— Quer o dinheiro ou não?

 

Keller despiu o casaco e atirou-o para cima do capô do carro.

 

— Dê meia-volta para ficar virado para o carro.

 

Keller hesitou e depois ficou de costas para Sam.

 

— Muito bem.

 

Keller rodou lentamente até ficar outra vez virado para Sam.

 

— Onde está o quadro?

 

— Na bagageira.

 

— Tire-o de lá e ponha-o aí no chão, uns seis metros à frente do carro.

 

Keller abriu a bagageira utilizando o fecho interior e tirou de lá o quadro. Estava embalado numa capa protetora de papel vegetal e escondido dentro de um saco do lixo de tamanho industrial. Pousou-o no chão de betão do armazém, vinte passos à frente do Mercedes, e ficou à espera que Sam lhe desse a próxima instrução.

 

— Volte para o carro — disse a voz da outra ponta do armazém.

 

— Nem pensar — respondeu Keller para o brilho intenso dos faróis de Sam.

 

Seguiu-se um breve impasse. Foi então que Sam avançou, iluminado pela luz. Parou a cerca de um metro de Keller, olhou para baixo e fez uma careta.

 

— Preciso de o ver mais uma vez.

 

— Então sugiro que lhe tire o plástico. Mas tenha cuidado, Sam. Se acontecer alguma coisa a esse quadro, vou considerá-lo responsável.

 

Sam pôs-se de cócoras e tirou a tela do saco. A seguir, voltou o quadro para os faróis do carro e semicerrou os olhos para examinar melhor as pinceladas e a assinatura.

 

— E então? — perguntou Keller.

 

Sam olhou para as impressões digitais nas margens das barras do suporte e depois para as marcas do museu na parte de trás.

 

— Só um momento — disse em voz baixa. — Só um momento.

 

O carro de Keller saiu do armazém às 23h40. Quando chegou ao portão, este já estava aberto. Virou à direita e passou em grande velocidade à frente do banco onde Gabriel se encontrava sentado. Gabriel ignorou-o; estava a observar as luzes traseiras de um BMW a afastarem-se ao longo da Avenue François Mitterrand. Olhou para o BlackBerry e sorriu. Estavam em ação, pensou. Estavam sem dúvida em ação.

 

A luzinha vermelha do sinal ia piscando com a regularidade de uma pulsação. Foi deslizando pelo que faltava dos subúrbios parisienses e depois acelerou para leste, na A4, em direção a Reims. Gabriel seguiu-a à distância de um quilómetro e Keller fez o mesmo em relação a Gabriel. Falaram ao telefone uma única vez, uma conversa curta na qual Keller confirmou que o negócio se realizara sem problemas. Sam tinha o quadro; e Keller tinha o dinheiro de Sam. Estava escondido na bagageira do carro, dentro do saco do lixo que Gabriel utilizara para embrulhar a cópia dos Girassóis. Só lá não estava um maço de notas de cem euros, que se encontrava enfiado no bolso do casaco de Keller.

 

— E porque tens isso no bolso? — perguntou Gabriel.

 

— Dinheiro para a gasolina — respondeu Keller.

 

Cento e vinte quilómetros separavam os subúrbios a leste de Paris e Reims, uma distância que Sam percorreu em pouco mais de uma hora. Logo depois da cidade, a luzinha vermelha parou de repente na A4. Gabriel encurtou distâncias rapidamente e viu Sam a encher o depósito de gasolina numa estação de serviço da autoestrada. Ligou de imediato a Keller e disse-lhe para parar; depois, ficou à espera que Sam regressasse outra vez à A4. Passados uns momentos, os três carros já tinham retomado a formação original: Sam à frente, Gabriel a segui-lo à distância de um quilómetro e Keller a fazer o mesmo em relação a Gabriel.

 

Depois de Reims, continuaram mais para leste, passando por Verdun e Metz. A seguir, a A4 virou para sul e levou-os até Estrasburgo, a capital da região francesa da Alsácia e sede do Parlamento Europeu. Nos arredores da cidade, corriam as águas verde-acinzentadas do Reno. Uns minutos a seguir ao pôr do Sol, 25 milhões de euros em dinheiro vivo e uma cópia de uma obra-prima de Vincent van Gogh roubada entraram despercebidos na Alemanha.

 

A primeira cidade do lado alemão da fronteira era Kehl e depois de Kehl ficava a autoestrada A5. Sam seguiu-a até Karlsruhe; depois virou para a A8 e dirigiu-se para Estugarda. Quando chegou aos subúrbios a sudeste da cidade, apanhou o pior da hora de ponta matinal. Entrou na cidade a passo de caracol, pela Hauptstätterstrasse, e avançou a caminho de Stuttgart-Mitte, um bairro agradável de escritórios e lojas no coração da metrópole em expansão. Gabriel ficou com a sensação de que Sam se estava a aproximar do destino e, por isso, encurtou distâncias até ficarem separados por umas centenas de metros apenas. E foi então que aconteceu a coisa com que ele menos contava.

 

A luzinha vermelha a piscar sumiu-se do ecrã.

 

De acordo com o BlackBerry de Gabriel, o sinal transmitiu o último impulso eletrónico no número 8 da Böheimstrasse. A morada correspondia a um hotel de estuque cinzento que parecia ter sido importado de Berlim Oriental, nos tempos mais negros da Guerra Fria. Nas traseiras do hotel, acessível por uma ruela, ficava um parque de estacionamento público. O BMW encontrava-se no piso de baixo da garagem, num canto onde a luz do teto tinha sido partida. Sam estava esparramado sobre o volante, de olhos bem abertos, com o sangue e os miolos espalhados pelo para-brisas. E os Girassóis, óleo sobre tela, 95 centímetros por 73 centímetros, da autoria de Gabriel Allon, tinha desaparecido.

 

Saíram de Estugarda pelo mesmo percurso que tinham feito antes e entraram novamente em França, em Estrasburgo. Keller seguiu para a Córsega; Gabriel, para Genebra. Chegou a meio da tarde e telefonou de imediato para Christoph Bittel, de uma cabina telefónica junto ao lago. O polícia secreto não pareceu muito satisfeito por voltar a ter notícias dele tão depressa. E ficou ainda menos satisfeito quando Gabriel lhe explicou por que razão tinha regressado a Genebra.

 

— Está fora de questão — disse.

 

— Então suponho que vou ter de contar ao mundo que encontrei aqueles quadros todos naquela caixa-forte.

 

— Lá se vai o novo Gabriel Allon.

 

— A que horas devo contar contigo, Bittel?

 

— Vou ver o que posso fazer.

 

Bittel demorou uma hora a arrumar a secretária, no quartel-general do NDB, e mais duas a fazer a viagem de carro de Berna até Genebra. Gabriel estava à espera dele, numa esquina movimentada da Rue du Rhône. Passavam poucos minutos das seis. Executivos suíços todos aperaltados saíam em catadupa de elegantes prédios de escritórios; raparigas bonitas e estrangeiros bem-postos afluíam para dentro dos cafés reluzentes. Era tudo muito ordeiro. Até os assassinos em massa se comportavam quando vinham a Genebra.

 

— Ias explicar-me por que razão eu te devia abrir aquele cofre — disse Bittel ao voltar a entrar no trânsito do final da tarde, com a habitual cautela excessiva.

 

— Porque a operação que estou a fazer encontrou um obstáculo e, neste momento, não tenho mais ninguém a quem recorrer.

 

— Que tipo de obstáculo?

 

— Um cadáver.

 

— Onde? — Gabriel hesitou. — Onde? — perguntou Bittel de novo.

 

— Em Estugarda — respondeu Gabriel.

 

— Imagino que tenha sido aquele árabe que apanhou um tiro na cabeça hoje de manhã, no centro da cidade, não foi?

 

— Quem disse que ele era árabe?

 

— O BfV.

 

O BfV era o serviço de segurança interna alemão. Mantinha relações estreitas com os seus irmãos alemânicos de Berna.

 

— O que sabem eles dele? — perguntou Gabriel.

 

— Praticamente nada, e foi por isso que nos contactaram. Parece que os assassinos lhe levaram a carteira depois de lhe terem espetado o tiro.

 

— E não foi só isso que levaram.

 

— Foste responsável pela morte dele?

 

— Não tenho a certeza.

 

— Deixa-me pôr-te as coisas desta maneira, Allon: encostaste-lhe uma pistola à cabeça e carregaste no gatilho?

 

— Não sejas ridículo.

 

— Não é uma pergunta tão descabida quanto isso. Afinal de contas, até já tens um historialzinho no que toca a cadáveres em território europeu.

 

Gabriel não disse nada.

 

— E sabes como se chamava o homem que estava dentro do carro?

 

— Disse que se chamava Sam, mas tenho um pressentimento de que o nome verdadeiro era Samir.

 

— E o apelido?

 

— Não cheguei a apanhá-lo.

 

— Passaporte?

 

— Falava francês muito bem. Se tivesse de arriscar um palpite, era do Levante.

 

— Do Líbano?

 

— Se calhar. Ou, talvez, da Síria.

 

— E porque o mataram?

 

— Não tenho a certeza.

 

— És capaz de fazer melhor do que isso, Allon.

 

— É possível que ele tivesse em mãos um quadro muito parecido com os Girassóis do Vincent van Gogh.

 

— O que foi roubado de Amesterdão?

 

— Pedido emprestado — respondeu Gabriel.

 

— E quem pintou a falsificação?

 

— Eu.

 

— E por que razão o Sam a tinha?

 

— Vendi-lha por vinte e cinco milhões de euros.

 

Bittel praguejou entre dentes.

 

— Tu é que perguntaste, Bittel.

 

— E onde está o quadro?

 

— Qual quadro?

 

— O Van Gogh verdadeiro — disparou Bittel.

 

— Em boas mãos.

 

— E o dinheiro?

 

— Em mãos ainda melhores.

 

— E porque roubaste um Van Gogh e vendeste uma cópia a um árabe chamado Sam?

 

— Porque ando à procura de um Caravaggio.

 

— Para quem?

 

— Para os italianos.

 

— E porque anda um agente dos serviços secretos israelitas à procura de um quadro para os italianos?

 

— Porque tem dificuldades em dizer que não às pessoas.

 

— E se eu conseguir que tenhas acesso àquele cofre? O que esperas encontrar lá?

 

— Para te ser sincero, Bittel, não faço a mínima ideia.

 

Bittel soltou um suspiro profundo e pegou no telemóvel.

 

Fez dois telefonemas rápidos, um a seguir ao outro. O primeiro foi para a amiga bem-feita do Freeport. O segundo, para um serralheiro que de vez em quando fazia favores ao NDB na zona de Genebra. A mulher estava à espera ao portão quando lá chegaram; o serralheiro apareceu passada uma hora. Chamava-se Zimmer. Tinha uma cara redonda e afável e o olhar vítreo de um animal empalhado. A mão era tão fria e delicada que Gabriel a largou de imediato, com medo de a magoar.

 

Trazia com ele um pesado estojo retangular de cabedal preto, que segurou com firmeza ao atravessar, atrás de Bittel e Gabriel, a porta exterior da caixa-forte de Jack Bradshaw. Se tinha noção de que os quadros ali estavam, não deu qualquer indicação disso; só tinha olhos para o pequeno cofre no chão, ao lado da secretária. Fora construído por um fabricante alemão de Colónia. Zimmer estava a fazer uma careta, como se estivesse a contar encontrar qualquer coisa que lhe fosse dar um pouco mais de luta.

 

Tal como o restaurador, o serralheiro não gostava de ter pessoas a observá-lo a trabalhar. Por isso mesmo, Gabriel e Bittel foram obrigados a não sair da sala interior da caixa-forte que Yves Morel tinha utilizado como estúdio clandestino. Ficaram sentados no chão, com as costas coladas à parede e as pernas esticadas. Pelos sons que irradiavam da porta aberta, era evidente que Zimmer estava a utilizar uma técnica conhecida como perfuração do ponto fraco. O ar cheirava a metal quente. Lembrava a Gabriel o cheiro de uma pistola acabada de disparar. Olhou para o relógio e franziu o sobrolho.

 

— Quanto tempo é que isto vai demorar? — perguntou.

 

— Há cofres que são mais fáceis do que outros.

 

— É por isso que eu sempre preferi uma carga de explosivos plásticos no sítio certo. O Semtex é um ótimo nivelador.

 

Bittel sacou do telefone e passou em revista os e-mails que tinha recebido; Gabriel foi depenicando distraidamente a tinta da paleta de Yves Morel; ocre, dourado e carmesim… Por fim, uma hora depois de Zimmer ter começado a trabalhar, ouviu-se um forte baque metálico vindo da sala ao lado. O serralheiro surgiu à entrada, segurando o estojo em cabedal preto com firmeza, e assentiu com a cabeça uma vez para Bittel.

 

— Acho que sei como se sai daqui — disse.

 

E desapareceu.

 

Gabriel e Bittel levantaram-se e entraram na sala ao lado. O cofre tinha a porta ligeiramente entreaberta, dois ou três centímetros, não mais do que isso. Gabriel tentou agarrá-la, mas Bittel impediu-o.

 

— Eu trato disso.

 

Fez sinal para Gabriel se afastar. Depois abriu a porta do cofre e espreitou lá para dentro. Estava vazio, tirando um envelope branco do tamanho de uma carta. Bittel pegou nele e leu o nome escrito à frente.

 

— O que é isso? — perguntou Gabriel.

 

— Parece ser uma carta.

 

— Para quem?

 

Bittel mostrou-a a Gabriel e respondeu:

 

— Para ti.

 

Era mais um memorando do que uma carta, um relatório de campo pós-ação escrito por um espião caído em desgraça e de consciência pesada por culpa da traição. Gabriel leu-o duas vezes, a primeira enquanto ainda estava dentro da caixa-forte de Jack Bradshaw e a segunda sentado no átrio das partidas do Aeroporto Internacional de Genebra. Chamaram os passageiros para o voo dele poucos minutos depois das nove horas, primeiro em francês, depois, em inglês e, finalmente, em hebraico. O som da língua-mãe acelerou-lhe a pulsação. Enfiou a carta discretamente na maleta de fim de semana, levantou-se e embarcou no avião.

 

O prédio de apartamentos que ficava na ponta da Avenida Rei Saul era pardacento, indistinto e, melhor do que tudo o resto, anónimo. Não havia nenhuma insígnia pendurada por cima da porta de entrada, nenhum letreiro em bronze a proclamar quem ocupava o edifício. Na verdade, não havia absolutamente nada que sugerisse que se tratava do quartel-general de um dos serviços secretos mais temidos e respeitados do mundo. No entanto, um exame mais atento da estrutura teria revelado a existência de um edifício dentro de outro edifício, com o seu próprio abastecimento de energia, a sua própria canalização de água e de esgotos e o seu próprio sistema de comunicações seguro. Os funcionários traziam duas chaves: uma abria uma porta não identificada no átrio de entrada, a outra fazia funcionar o elevador. Quem cometesse o pecado imperdoável de perder uma ou ambas as chaves era desterrado para o deserto da Judeia, sem que ninguém o voltasse a ver ou a ter notícias dele.

 

Havia funcionários que eram demasiado importantes, ou cujo trabalho era demasiado confidencial, para aparecerem no átrio de entrada. Entravam no edifício secretamente, pela garagem subterrânea, conforme Gabriel fez trinta minutos após o voo dele de Genebra ter aterrado no Aeroporto Ben-Gurion. A comitiva que o acompanhava incluía um veículo a rebentar pelas costuras com uma equipa de segurança fortemente armada. Calculou que se tratasse de um sinal do que o aguardava no futuro.

 

Dois dos seguranças entraram com ele no elevador, que o levou a todo o gás para o último andar do edifício. Depois do vestíbulo, atravessou uma porta protegida por código que o deixou numa antessala onde uma mulher de trinta e muitos anos se encontrava sentada a uma secretária moderna, com uma superfície preta reluzente. A secretária só tinha um candeeiro e um telefone com multilinhas seguro; a mulher tinha pernas muito compridas e bronzeadas. Na Avenida Rei Saul era conhecida como Cúpula de Ferro, devido à capacidade sem igual para recusar os pedidos indesejados para falar com o chefe. O seu nome verdadeiro era Orit.

 

— Está numa reunião — disse, olhando de soslaio para a luzinha vermelha a brilhar por cima da impressionante porta dupla do chefe. — Sente-se. Não vai demorar muito.

 

— E ele sabe que eu aqui estou?

 

— Sabe, sim.

 

Gabriel sentou-se no que era muito possivelmente o sofá mais desconfortável de Israel inteiro e fitou a luzinha vermelha que brilhava intensamente por cima da porta. A seguir, olhou para Orit, que lhe sorriu pouco à vontade.

 

— Quer que lhe traga alguma coisa? — perguntou.

 

— Um aríete — respondeu Gabriel.

 

Por fim, a luz lá acabou por passar do vermelho para verde. Gabriel levantou-se depressa e entrou discretamente no gabinete, ao mesmo tempo que os participantes da recém-terminada reunião saíam em fila por uma segunda porta. Reconheceu dois. Um era Rimona Stern, chefe da equipa do Departamento que se dedicava ao programa nuclear iraniano. O outro era Mikhail Abramov, um agente de campo e pistoleiro que já tinha trabalhado de perto com Gabriel numa série de operações de extrema importância. O fato que trazia indiciava uma promoção recente.

 

Quando a porta se fechou, Gabriel virou-se lentamente e ficou de frente para a outra única pessoa que se encontrava no gabinete. O homem estava ao lado de uma secretária grande de vidro fumado, segurando um dossiê aberto. Trazia um fato cinzento que parecia ser um número abaixo do dele e uma camisa branca, com um colarinho alto, muito na moda, que lhe fazia parecer ter a cabeça aparafusada aos ombros poderosos. Tinha óculos pequenos e sem armação, do género dos usados pelos empresários alemães que querem parecer jovens e estilosos. O cabelo, ou o que restava dele, era escasso e grisalho.

 

— Desde quando o Mikhail vai a reuniões no gabinete do chefe? — perguntou Gabriel.

 

— Desde que eu o promovi — respondeu Uzi Navot.

 

— A quê?

 

— Chefe adjunto das Operações Especiais.

 

Navot baixou o dossiê e fez um sorriso falso.

 

— Importas-te que faça mudanças quanto ao pessoal, Gabriel? Afinal de contas, ainda tenho mais um ano como chefe.

 

— Eu tinha planos para ele.

 

— Que tipo de planos?

 

— Por acaso, até o ia pôr à frente das Operações Especiais.

 

— O Mikhail? Ainda não está preparado, nem por sombras.

 

— Vai safar-se lindamente, desde que tenha um organizador de operações experiente a espreitar-lhe por cima do ombro.

 

— Uma pessoa como tu? — Gabriel ficou calado. — Então e em relação a mim? — perguntou Navot. — Já decidiste o que vais fazer?

 

— Depende inteiramente de ti.

 

— É óbvio que não.

 

Navot deixou cair o dossiê em cima da secretária e carregou num botão do painel de comando que fez as persianas começarem a descer lentamente sobre as janelas à prova de bala que iam do chão até ao teto. Ficou ali em silêncio durante um momento, aprisionado por grades de sombra. Gabriel teve um vislumbre de um retrato pouco agradável do seu próprio futuro, um homem cinzento numa jaula cinzenta.

 

— Tenho de admitir — soltou Navot — que tenho imensa inveja de ti. O Egito está a entrar numa guerra civil, a Al-Qaeda domina uma extensão de território que vai de Fallujah até ao Mediterrâneo e um dos conflitos mais sangrentos dos tempos modernos está em plena ebulição na nossa fronteira norte. E, mesmo assim, ainda tens tempo para andar atrás de uma obra-prima roubada para o governo italiano.

 

— A ideia não foi minha, Uzi.

 

— Ao menos, podias ter tido a cortesia de pedir a minha aprovação quando o homem dos Carabinieri veio ter contigo.

 

— E ter-ma-ias dado?

 

— Claro que não.

 

Navot passou lentamente pela comprida mesa de reuniões, a caminho da confortável zona de estar. Havia imagens de estações televisivas do mundo inteiro a passar sem som nos monitores de vídeo na parede; e havia jornais do mundo inteiro meticulosamente dispostos em cima da mesinha de apoio.

 

— Ultimamente, a polícia tem andado bastante ocupada na Europa — disse ele. — Um britânico expatriado assassinado no lago Como, uma obra-prima do Van Gogh roubada e agora isto.

 

Pegou num exemplar do Die Welt e mostrou-o a Gabriel.

 

— Um árabe morto no meio de Estugarda. Três acontecimentos sem ligação aparente, mas com uma coisa em comum. — Navot deixou cair o jornal em cima da mesinha. — Gabriel Allon, o futuro chefe dos serviços secretos israelitas.

 

— Duas coisas, por acaso.

 

— E qual é a segunda?

 

— A LXR Investments of Luxembourg.

 

— E quem é o dono da LXR?

 

— O pior homem do mundo.

 

— E esse tipo está na folha de pagamentos do Departamento?

 

— Não, Uzi — respondeu Gabriel, com um sorriso. — Ainda não.

 

Navot conhecia os pormenores gerais da busca de Gabriel do Caravaggio desaparecido, pois tinha-a acompanhado à distância: reservas de avião, despesas com cartões de crédito, travessias de fronteiras, pedidos de propriedades seguras, relatos nas notícias de uma obra-prima que se sumira. Naquele momento, sentado no gabinete que em breve seria seu, Gabriel completou-lhe o quadro, começando com a convocatória efetuada pelo general Ferrari, em Veneza, e terminando com a morte de um homem chamado Sam, em Estugarda — um homem que tinha acabado de pagar vinte e cinco milhões de euros pelos Girassóis, óleo sobre tela, 95 centímetros por 73 centímetros, da autoria de Gabriel Allon. A seguir, mostrou as três páginas da carta que Jack Bradshaw lhe tinha deixado no Freeport de Genebra.

 

— O nome verdadeiro do Sam era Samir Basara. O Bradshaw conheceu-o quando estava a trabalhar em Beirute. O Samir era o protótipo do fura-vidas. Drogas, armas, raparigas, todas as coisas que tornavam a vida interessante num sítio como Beirute, nos anos oitenta. Só que afinal o Samir não era realmente libanês. O Samir era da Síria e estava a trabalhar para os serviços secretos sírios.

 

— E ainda estava a trabalhar para eles quando o mataram?

 

— Completamente — respondeu Gabriel.

 

— A fazer o quê?

 

— A comprar arte roubada.

 

— Ao Jack Bradshaw?

 

Gabriel assentiu com a cabeça.

 

— O Samir e o Bradshaw reativaram a relação deles há catorze meses num almoço em Milão. O Samir tinha uma proposta de negócio. Disse que tinha um cliente, um empresário rico do Médio Oriente, que estava interessado em adquirir quadros. Passadas umas semanas, o Bradshaw recorreu aos contactos que tinha nos cantos escuros do mundo da arte para conseguir um Rembrandt e um Monet, que por acaso tinham sido roubados. Mas isso não incomodou o Samir. Aliás, até gostou bastante. Deu ao Bradshaw cinco milhões de dólares e disse-lhe para arranjar mais.

 

— E como pagava os quadros?

 

— Enviava o dinheiro para a empresa do Bradshaw por via de uma coisa chamada LXR Investments of Luxembourg.

 

— E quem é o dono da LXR Investments?

 

— Já lá vou chegar — respondeu Gabriel.

 

— E por que razão o Sam queria quadros roubados?

 

— Também já lá vou chegar. — Gabriel olhou para a carta. — Foi nesta altura que o Jack Bradshaw começou a comprar coisas a torto e a direito para o novo cliente ricaço… uns quantos Renoir, um Matisse, um Corot que tinha sido roubado do Montreal Museum of Fine Arts, em 1972. E também adquiriu vários quadros italianos importantes que não eram para ter saído do país. Mas, mesmo assim, o Samir não estava satisfeito. Disse que o cliente queria uma coisa grande. E foi então que o Bradshaw sugeriu o santo graal dos quadros desaparecidos.

 

— O Caravaggio?

 

Gabriel assentiu com a cabeça.

 

— E onde estava?

 

— Continuava na Sicília, nas mãos da Cosa Nostra. O Bradshaw foi a Palermo tratar do negócio. Passados aqueles anos todos, os mafiosi até ficaram contentes por se livrarem do quadro. O Bradshaw fê-lo entrar clandestinamente na Suíça, no meio de um carregamento de carpetes. Escusado será dizer que o retábulo não estava em lá grande estado quando chegou. Ficou com cinco milhões de euros do Samir como sinal e contratou um falsificador francês para pôr a Natividade outra vez apresentável. Mas aconteceu uma coisa antes de poder finalizar a venda.

 

— E o que foi?

 

— Descobriu quem estava a comprar realmente os quadros.

 

— E quem era?

 

Antes de responder, Gabriel voltou a uma pergunta que Navot tinha feito uns minutos antes. Por que razão estava o cliente rico de Samir Basara à procura de quadros roubados? Para responder a isso, Gabriel explicou-lhe primeiro as quatro categorias fundamentais de ladrões de arte: o amante de arte sem dinheiro, o falhado incompetente, o profissional e o membro do crime organizado. Este último, afirmou, era responsável pela maior parte dos roubos mais importantes. Por vezes, tinha um comprador à espera, mas era frequente os quadros roubados acabarem por ser utilizados como uma forma de dinheiro do submundo, cheques de viagem para a classe criminosa. Um Monet, por exemplo, podia servir de garantia para um carregamento de armas russas; um Picasso, para heroína turca. Mais tarde ou mais cedo, alguma das pessoas por quem o quadro ia passando acabaria por resolver receber o dinheiro a que tinha direito, normalmente com a ajuda de um recetador com conhecimentos como Jack Bradshaw. Um quadro no valor de 200 milhões de dólares no mercado legal valeria 20 milhões no mercado negro. Vinte milhões que nunca poderiam ser localizados, acrescentou Gabriel. Vinte milhões que nunca poderiam ser congelados pelos governos dos Estados Unidos e da União Europeia.

 

— Estás a ver onde quero chegar com isto, Uzi?

 

— E quem é ele? — perguntou Uzi de novo.

 

— É um homem que tem presidido a uma guerra civil bastante desagradável, um homem que tem recorrido sistematicamente à tortura, fogo de artilharia indiscriminado e ataques com armas químicas contra o próprio povo. Viu o Hosni Mubarak ser enfiado numa jaula e o Muammar Khadafi linchado por uma populaça sedenta de sangue. Por isso, anda preocupado com o que lhe poderá acontecer se for derrubado, razão pela qual pediu ao Samir Basara para preparar um pequeno pé-de-meia para ele e para a família.

 

— Estás a dizer que o Jack Bradshaw andava a vender quadros roubados ao presidente da Síria?

 

Gabriel olhou para as imagens que passavam nos monitores de vídeo na parede de Navot. O regime tinha acabado de bombardear um bairro de Damasco nas mãos dos rebeldes. O número de mortos era incalculável.

 

— O presidente sírio e o clã dele têm uma fortuna de milhares de milhões — disse Navot.

 

— É verdade — respondeu Gabriel. — Mas os americanos e a União Europeia andam a congelar os ativos dele e os dos assessores mais próximos onde quer que os encontrem. Até a Suíça já congelou ativos sírios no valor de centenas de milhões.

 

— Mas a maior parte dessa fortuna continua por aí algures.

 

— Por enquanto — retorquiu Gabriel.

 

— E porque não barras de ouro ou cofres-fortes cheios de dinheiro? Porquê quadros?

 

— Imagino que ele também tenha ouro e dinheiro. Afinal de contas, como qualquer consultor para investimento te dirá, a diversidade é a chave para o êxito a longo prazo. Mas se fosse eu que estivesse a aconselhar o presidente sírio — acrescentou Gabriel —, dizia-lhe para investir em ativos fáceis de esconder e de transportar.

 

— Quadros? — perguntou Navot.

 

Gabriel assentiu com a cabeça.

 

— Se comprar um quadro no mercado negro por cinco milhões, pode vendê-lo mais ou menos pelo mesmo preço, descontando as comissões para o intermediário, claro. É um preço bastante pequeno a pagar por dezenas de milhões em dinheiro impossível de localizar.

 

— Muito engenhoso.

 

— Nunca ninguém os acusou de serem estúpidos, só impiedosos e brutais.

 

— E quem matou o Samir Basara?

 

— Se tivesse de arriscar um palpite, diria que foi uma pessoa que o conhecia. — Gabriel fez uma pausa e depois acrescentou: — Uma pessoa que estava sentada no banco de trás do carro quando carregou no gatilho.

 

— Uma pessoa dos serviços secretos sírios?

 

— É assim que costuma funcionar.

 

— E porque o mataram?

 

— Se calhar, sabia demasiado. Ou, se calhar, estavam zangados com ele.

 

— Porquê?

 

— Por ter deixado que o Jack Bradshaw descobrisse demasiadas coisas sobre as finanças pessoais da família do presidente.

 

— E o que sabia ele?

 

Gabriel mostrou a carta e respondeu:

 

— Imenso, Uzi.

 

— E o que achas que o Bradshaw fez ao Caravaggio?

 

— Deve tê-lo levado para a villa dele no lago Como — respondeu Gabriel. — E depois pediu ao Oliver Dimbleby para ir ter com ele a Itália para dar uma vista de olhos à coleção. Era uma artimanha, uma operação inteligente concebida por um antigo espião britânico. O que ele queria realmente era que o Oliver transmitisse uma mensagem ao Julian Isherwood, que por seu turno a ia transmitir a mim. Mas não correu conforme planeado. O Oliver acabou por pedir ao Julian para ir a Como. E quando ele lá chegou, o Bradshaw já estava morto.

 

— E o Caravaggio tinha desaparecido?

 

Gabriel assentiu com a cabeça.

 

— E por que razão o Bradshaw te queria falar a ti da ligação com o presidente sírio?

 

— Imagino que achasse que eu ia tratar do assunto com discrição.

 

— Ou seja?

 

— Que não ia dizer à polícia britânica nem italiana que ele era contrabandista e recetador — respondeu Gabriel. — Tinha esperanças de se encontrar comigo cara a cara. Mas deu-se ao cuidado de pôr tudo o que sabia por escrito e de o guardar no Freeport.

 

— Com uma série de quadros roubados?

 

Gabriel assentiu mais uma vez.

 

— E porque mudou de ideias de repente? Porque não aceitou o dinheiro manchado de sangue do presidente e se contentou com isso?

 

— Nicole Devereaux.

 

Navot semicerrou os olhos pensativamente.

 

— Porque é que esse nome me diz qualquer coisa?

 

— Era a fotógrafa da AFP que foi raptada e morta em Beirute, nos anos oitenta — respondeu Gabriel. Contou o resto da história a Navot: o caso amoroso, o recrutamento pelo KGB, o meio milhão numa conta bancária suíça. — O Bradshaw nunca se perdoou pela morte da Nicole — acrescentou. — E não há dúvida de que nunca perdoou o regime sírio por a ter matado.

 

Navot ficou calado durante um momento.

 

— O teu amigo Jack Bradshaw fez muitas coisas parvas na vida — disse por fim. — Mas a coisa mais estúpida que fez foi aceitar cinco milhões de euros da família do presidente sírio por um quadro que não chegou a entregar. Só há uma coisa que a família detesta mais do que a deslealdade e que são as pessoas que lhe tentam ficar com o dinheiro. — Navot olhava as imagens que se iam desenrolando nos monitores de vídeo na parede. — Se queres saber a minha opinião — disse ele —, todo este exercício de depravação humana tem que ver precisamente com isso. Cento e cinquenta mil mortos e milhões de desalojados. E para quê? Por que razão a família do presidente se está a tentar aguentar com unhas e dentes? Porque andam a matar a uma escala industrial? Pela fé? Pelo ideal sírio? Não existe ideal sírio. Com toda a sinceridade, já não existe Síria. E, mesmo assim, a matança continua, por uma só razão apenas.

 

— Dinheiro — disse Gabriel. — Navot assentiu com a cabeça lentamente. — Pareces ter conhecimentos especiais sobre a situação na Síria, Uzi.

 

— Por acaso, sou casado com a principal especialista do país em assuntos relacionados com a Síria e o movimento Baath. — Fez uma pausa antes de acrescentar: — Mas a verdade é que já sabias isso.

 

Navot levantou-se, aproximou-se do aparador e serviu-se de uma chávena de café do termos de êmbolo. Gabriel reparou que não havia nata nem biscoitos de manteiga vienenses, duas coisas a que Navot era incapaz de resistir. Agora, bebia café simples, sem outro acompanhamento que não uma pastilha de adoçante branca, que disparou de um distribuidor automático de plástico para dentro da chávena.

 

— Desde quando pões cianeto no café, Uzi?

 

— A Bella anda a tentar desmamar-me do açúcar. E a seguir é a cafeína.

 

— Nem consigo imaginar tentarmos fazer este trabalho sem cafeína.

 

— Não tarda muito vais ver como é.

 

Navot sorriu contra vontade e voltou a sentar-se. Gabriel estava a olhar para os monitores de vídeo. O corpo de uma criança — rapaz ou rapariga, era impossível perceber — estava a ser retirado dos escombros. Uma mulher chorava. Um homem com barba gritava por vingança.

 

— E de quanto estamos a falar? — perguntou.

 

— Dinheiro?

 

Gabriel assentiu com a cabeça.

 

— Dez mil milhões é o valor que costuma ser atirado pelos jornais — respondeu Navot —, mas nós achamos que esse valor é na verdade muito mais alto. E está tudo nas mãos do Kemel al-Farouk. — Olhou para Gabriel de soslaio e perguntou: — Conheces o nome?

 

— A Síria não é o meu pelouro, Uzi.

 

— Não tarda muito vai ser. — Outro sorriso ténue antes de prosseguir: — O Kemel não faz verdadeiramente parte da família do presidente, mas passou a vida inteira a trabalhar para ela. Começou como guarda-costas do pai do presidente. No final dos anos setenta, o Kemel levou um tiro pelo velho e o pai do presidente nunca se esqueceu disso. Deu ao Kemel um cargo importante na Mukhabarat, onde ele ganhou a reputação de ser um interrogador feroz dos prisioneiros políticos. Costumava pregar os membros da Irmandade Muçulmana à parede só para se divertir.

 

— E onde está ele agora?

 

— O cargo oficial dele é ministro adjunto dos Negócios Estrangeiros mas, em muitos aspetos, é ele quem manda no país e na guerra. O presidente nunca decide nada sem falar primeiro com o Kemel. E, talvez mais importante ainda, é o Kemel quem toma conta do dinheiro. Empatou parte da fortuna em Moscovo e Teerão, mas nunca na vida ia confiar tudo aos russos e aos iranianos. Achamos que tem alguém a trabalhar para ele na Europa Ocidental, a esconder o máximo de ativos possível. O que não sabemos — ressalvou Navot — é quem essa pessoa é nem onde anda a esconder o dinheiro.

 

— Graças ao Jack Bradshaw, já sabemos que uma parte está na LXR Investments. E agora podemos utilizar a LXR como janela para o resto dos ativos da família.

 

— E a seguir? — Gabriel ficou calado. Navot ficou a ver mais um corpo a ser retirado dos escombros em Damasco. — Para os israelitas, é difícil ver cenas destas — disse passado um momento. — Sentimo-nos incomodados. Traz-nos más recordações. O nosso instinto natural é matar o monstro antes que o monstro possa fazer mais mal. Mas o Departamento e as Forças de Defesa de Israel concluíram que, para já, é melhor deixar o monstro onde está, já que a alternativa podia ser pior. E os americanos e os europeus chegaram à mesma conclusão, apesar de todas as conversas otimistas sobre a negociação de um acordo. Ninguém quer que a Síria caia nas mãos da Al-Qaeda, mas é isso que vai acontecer se a família do presidente desaparecer.

 

— Grande parte da Síria já é dominada pela Al-Qaeda.

 

— É verdade — concordou Navot. — E o contágio está a espalhar-se. Há umas semanas, uma delegação de chefes dos serviços secretos europeus foi a Damasco com uma lista dos cidadãos muçulmanos dos respetivos países que viajaram para a Síria para se juntarem à jihad. Podia ter-lhes dado mais uns nomes, mas não me convidaram para a festa.

 

— Que grande surpresa.

 

— Provavelmente, até foi melhor eu não ter ido. Da última vez que estive em Damasco, viajei com um nome diferente.

 

— De quem?

 

— Do Vincent Laffont.

 

— O escritor de viagens? — Navot assentiu com a cabeça. — Sempre foi um dos meus preferidos — disse Gabriel.

 

— E meu também. — Navot pousou a chávena de café na mesinha. — O Departamento nunca teve pruridos em cometer um crime ou outro para ajudar uma operação que era moral e justa. Mas se entrarmos a matar no sistema bancário internacional, as repercussões podem ser desastrosas.

 

— A família do presidente sírio não conseguiu esses ativos de forma honesta, Uzi. Há já duas gerações que andam a saquear a economia.

 

— Mas isso não quer dizer que os possamos simplesmente roubar.

 

— Pois não — respondeu Gabriel, fingindo contrição. — Isso seria errado.

 

— Então o que estás a sugerir?

 

— Congelamo-los.

 

— Como?

 

Gabriel sorriu e respondeu:

 

— À maneira do Departamento.

 

— Então e os nossos amigos em Langley? — perguntou Navot depois de Gabriel terminar a explicação.

 

— O que tem?

 

— Não podemos iniciar uma operação destas sem o apoio da CIA.

 

— Se dissermos à CIA, a CIA vai dizer à Casa Branca. E depois vai aparecer na primeira página do New York Times.

 

Navot sorriu.

 

— Agora só precisamos da aprovação do primeiro-ministro e do dinheiro para executar a operação.

 

— Já temos dinheiro, Uzi. Uma data dele.

 

— Os vinte e cinco milhões que fizeste com a venda do Van Gogh falso?

 

Gabriel assentiu com a cabeça.

 

— A beleza desta operação é essa — disse. — É autofinanciada.

 

— E onde está o dinheiro agora?

 

— É capaz de estar na bagageira do carro do Christopher Keller.

 

— Na Córsega.

 

— Receio bem que sim.

 

— Vou mandar um bodel ir buscá-lo.

 

— O grande Don Orsati não lida com correios, Uzi. Ia achar isso tremendamente insultuoso.

 

— Então o que sugeres?

 

— Vou eu buscar o dinheiro mal tenha a operação em andamento, embora seja possível que tenha de lá deixar ficar um pequeno tributo ao don.

 

— Pequeno, como?

 

— Dois milhões devem deixá-lo satisfeito.

 

— Isso é bastante dinheiro.

 

— Uma mão lava a outra e as duas lavam a cara.

 

— Isso é algum provérbio judeu?

 

— É capaz, Uzi.

 

Já só faltava por isso tratar da composição da equipa para a operação de Gabriel. Rimona Stern e Mikhail Abramov eram indispensáveis, afirmou. E o mesmo se aplicava a Dina Sarid, Yossi Gavish e Yaakov Rossman.

 

— Está fora de questão levares o Yaakov numa altura destas — opôs-se Navot.

 

— E porquê?

 

— Porque é o Yaakov quem anda a seguir os mísseis e as outras guloseimazinhas todas que andam a passar dos sírios para os amigos deles do Hezbollah.

 

— O Yaakov consegue fazer mais do que uma coisa ao mesmo tempo.

 

— E mais quem?

 

— Preciso do Eli Lavon.

 

— Ele ainda anda a escavar por baixo da Muralha Ocidental.

 

— Amanhã à tarde, já vai estar a escavar outra coisa.

 

— E é só?

 

— Não — respondeu Gabriel. — Preciso de mais outra pessoa para fazer uma operação destas.

 

— De quem?

 

— Da principal especialista do país em assuntos relacionados com a Síria e o movimento Baath.

 

Navot sorriu.

 

— Se calhar, é melhor levares um par de guarda-costas, só para jogar pelo seguro.

 

Os Navot viviam na ponta leste de Petah Tikva, numa rua sossegada onde as casas se encontravam escondidas atrás de muros de betão e buganvílias. Ao lado do portão metálico, havia um intercomunicador que fez barulho sem que ninguém atendesse quando Gabriel carregou no botão. Ficou a olhar diretamente para a objetiva da câmara de segurança e voltou a carregar no botão. Desta vez, ouviu-se a voz de uma mulher pelo intercomunicador.

 

— Quem é?

 

— Sou eu, Bella. Abre o portão.

 

Seguiu-se mais um silêncio, quinze segundos, talvez mais, e só depois o trinco se abriu com um baque. Quando o portão cedeu, surgiu a casa, uma estrutura cubista com janelas grandes com proteção antiestilhaços e uma antena de comunicações seguras a sair do telhado. Bella estava à sombra do pórtico, de braços cruzados, numa postura defensiva. Trazia calças de seda brancas e uma blusa amarela presa com um cinto à cintura esbelta. Parecia ter acabado de pintar e arranjar o cabelo escuro. Segundo os rumores que se ouviam no Departamento, tinha todas as manhãs uma marcação no salão mais exclusivo de Telavive.

 

— É preciso teres muita lata para aparecer nesta casa, Gabriel.

 

— Vá lá, Bella. Vamos tentar ser educados.

 

Ela deixou-se ficar no mesmo sítio mais um momento e depois afastou-se e convidou-o a entrar, fazendo um gesto de indiferença com a mão. Tinha decorado as divisões como tinha decorado o marido: cinzentas, vistosas, modernas. Gabriel seguiu-a, atravessando a cozinha de cromados muito brilhantes e granito preto envernizado e entrando no terraço das traseiras, onde um almoço israelita ligeiro o esperava. A mesa estava à sombra, mas o sol brilhava intensamente no jardim. Era só laguinhos e fontes gorgolejantes. Gabriel lembrou-se subitamente de que Bella sempre tinha adorado o Japão.

 

— Adoro a maneira como arranjaste este sítio, Bella.

 

— Senta-te — foi a única resposta dela.

 

Gabriel sentou-se numa cadeira de jardim almofadada. Serviu-lhe um copo alto de sumo de citrinos e pousou-o com decoro à frente dele.

 

— Já pensaste onde vais viver com a Chiara quando passares a ser o chefe? — perguntou.

 

Gabriel não conseguiu perceber se a pergunta era sincera ou maliciosa. Resolveu responder com franqueza.

 

— A Chiara acha que precisamos de viver perto da Avenida Rei Saul — disse —, mas eu preferia ficar em Jerusalém.

 

— Ainda é uma distância grande.

 

— Não sou eu quem vai guiar. — A cara dela retesou-se. — Desculpa, Bella. Isto não saiu como eu queria.

 

Ela não respondeu de forma direta.

 

— Na verdade, nunca gostei de estar em Jerusalém. Está um bocadinho perto demais de Deus para o meu gosto. Gosto de estar aqui, no meu suburbiozinho secular.

 

Instalou-se silêncio entre ambos. Sabiam bem por que razão Gabriel preferia Jerusalém a Telavive.

 

— Desculpa nunca te ter chegado a enviar a ti e à Chiara um cartão por causa da gravidez. — Conseguiu esboçar um sorriso. — Deus sabe como vocês os dois merecem um pouco de felicidade depois de tudo aquilo por que já passaram.

 

Gabriel assentiu com a cabeça e murmurou qualquer coisa apropriada. Bella nunca enviara nenhum cartão, pensou, por estar demasiado zangada para isso. Tinha uma veia rancorosa. Era uma das suas qualidades mais enternecedoras.

 

— Acho que devíamos falar, Bella.

 

— Pensava que era o que estávamos a fazer.

 

— Falar a sério — retorquiu ele.

 

— Se calhar, era melhor comportarmo-nos como as personagens de um daqueles mistérios de sala de estar que dão na BBC. Senão, ainda sou capaz de dizer alguma coisa de que depois me vou arrepender.

 

— Há uma razão para esses programas nunca se passarem em Israel. Nós não falamos dessa maneira.

 

— Se calhar, devíamos.

 

Pegou num prato e começou a enchê-lo de comida para Gabriel.

 

— Não tenho fome, Bella.

 

Largou o prato em cima da mesa.

 

— Estou zangada contigo, raios partam!

 

— Já tinha ficado com essa impressão.

 

— Porque estás a roubar o lugar ao Uzi?

 

— Não estou.

 

— Então o que chamas a isso?

 

— Não tive escolha na matéria.

 

— Podias ter-lhes dito que não.

 

— E tentei. Mas não funcionou.

 

— Devias ter tentado mais.

 

— Não tive culpa, Bella.

 

— Eu sei, Gabriel. Tu nunca tens culpa de nada. — Olhou para as fontezinhas do jardim. Pareceram acalmá-la momentaneamente. — Nunca me vou esquecer da primeira vez que te vi — disse por fim. — Estavas a atravessar sozinho um corredor dentro da Avenida Rei Saul, pouco depois de Tunes. Tinhas exatamente o mesmo aspeto que tens agora, esses olhos verdes, essas têmporas grisalhas. Eras como um anjo, o anjo da vingança de Israel. Toda a gente te adorava. O Uzi venerava-te.

 

— Não exageremos, Bella.

 

Foi como se não o tivesse ouvido.

 

— E depois aconteceu Viena — recomeçou passado um momento. — Foi um cataclismo, um desastre de proporções bíblicas.

 

— Já todos perdemos gente de quem gostávamos, Bella. Já todos sofremos.

 

— É verdade, Gabriel. Mas Viena foi diferente. Nunca mais foste o mesmo depois de Viena. Nenhum de nós foi.

 

Fez uma pausa, antes de acrescentar:

 

— Sobretudo o Shamron.

 

Gabriel acompanhou o olhar de Bella, em direção ao brilho ofuscante do jardim, mas, por um momento, viu-se a atravessar o pátio da Academia de Artes e Design de Bezalel, em Jerusalém. No mês de setembro de 1972, poucos dias depois do assassínio de onze atletas e treinadores israelitas nas Olimpíadas de Munique. De repente surgiu aparentemente do nada um homem que parecia uma pequena barra de ferro, com uns óculos pretos horrendos e dentes que lembravam uma armadilha de aço. O homem não disse como se chamava, já que tal não era necessário. Era aquele de quem se falava apenas em sussurros.

 

Era quem roubara os segredos que levaram à vitória-relâmpago de Israel na Guerra dos Seis Dias. Quem arrancara Adolf Eichmann, o diretor-geral do Holocausto, de uma esquina na Argentina.

 

Shamron…

 

— O Ari acha-se responsável pelo que te aconteceu em Viena — estava a dizer Bella. — E também nunca se perdoou realmente por isso. A seguir, tratou-te como um filho. Deixou-te sair e entrar consoante te apetecesse. Mas nunca perdeu as esperanças de que um dia regressasses a casa para assumir o comando do Departamento que ele tanto adora.

 

— E sabes quantas vezes eu recusei esse cargo?

 

— As suficientes para que o Shamron acabasse por oferecê-lo ao Uzi. Ficou com o cargo como prémio de consolação.

 

— Por acaso, até fui eu quem sugeriu que o Uzi passasse a ser o chefe.

 

— Como se o cargo fosse teu para o atribuíres. — Fez um sorriso amargo. — E o Uzi nunca te disse que eu o aconselhei a não aceitar o cargo?

 

— Não, Bella. Nunca me falou disso.

 

— Eu sempre soube que isto ia acabar assim. Devias ter saído de cena com graciosidade e ficado na Europa. Mas o que foste fazer? Introduziste um carregamento de centrifugadoras sabotadas na cadeia de fornecimento nuclear do Irão e destruíste quatro instalações secretas de enriquecimento de urânio.

 

— Essa operação foi feita durante o mandato do Uzi.

 

— Mas era a tua operação. Na Avenida Rei Saul, toda a gente sabe que a operação era tua, e o mesmo vale para a Rua Kaplan.

 

A Rua Kaplan era onde ficava o gabinete do primeiro-ministro. A julgar por todas as informações disponíveis, Bella visitava-o com imensa frequência. Gabriel sempre desconfiara que a influência dela na Avenida Rei Saul não se esgotava na mobília do gabinete do marido.

 

— O Uzi tem sido um bom chefe — disse ela. — O raio de um ótimo chefe. Só teve um defeito. Era não seres tu, Gabriel. E nunca o vai ser. E, por causa disso, estão a descartá-lo.

 

— Se eu tiver alguma coisa a dizer na matéria, não.

 

— Não fizeste já que chegue?

 

Ouviu-se um telefone tocar dentro de casa. Bella não manifestou interesse em ir atender.

 

— Porque vieste cá? — perguntou.

 

— Quero falar contigo do futuro do Uzi.

 

— Graças a ti, não tem nenhum.

 

— Bella…

 

Não se deixou suavizar, tão cedo, não.

 

— Se tens alguma coisa a dizer sobre o futuro do Uzi, se calhar o melhor é falares com ele.

 

— Achei que ia ser mais produtivo se passasse por cima dele.

 

— Não me tentes lisonjear, Gabriel.

 

— Nem em sonhos.

 

Bateu com a unha do indicador no tampo da mesa. Tinha uma camada nova de verniz.

 

— Ele falou-me da conversa que vocês tiveram em Londres quando andavam à procura daquela rapariga que tinha sido raptada. Escusado será dizer que não achei grande coisa da tua proposta.

 

— E porque não?

 

— Porque não há nenhum precedente para isso. Mal o mandato de um chefe termina, esse chefe desaparece noite dentro e nunca mais se volta a ouvir falar dele.

 

— Diz isso ao Shamron.

 

— O Shamron é diferente.

 

— E eu também.

 

— E o que estás a propor ao certo?

 

— Que comandemos o Departamento em conjunto. Eu passo a ser o chefe e o Uzi torna-se meu adjunto.

 

— Isso nunca vai funcionar.

 

— Porquê?

 

— Porque vai dar a impressão de que não estás à altura do cargo.

 

— Ninguém acha isso.

 

— As aparências importam.

 

— Deves estar a confundir-me com outra pessoa, Bella.

 

— Com quem?

 

— Com uma pessoa que se importa com as aparências.

 

— E se ele aceitar?

 

— Fica com um gabinete ao lado do meu. E vai estar envolvido em todas as decisões-chave, em todas as operações importantes.

 

— E em relação ao ordenado?

 

— Fica com o ordenado completo, já para não falar do carro nem da equipa de segurança.

 

— Porquê? — perguntou ela. — Porque estás a fazer isto?

 

— Porque preciso dele, Bella. — Fez uma pausa e depois acrescentou: — E de ti também.

 

— De mim?

 

— Quero que voltes para o Departamento.

 

— Quando?

 

— Amanhã de manhã, às dez. O Uzi e eu vamos executar uma operação contra os sírios. E precisamos da tua ajuda.

 

— Que género de operação?

 

Quando Gabriel lhe explicou, ela fez um sorriso triste.

 

— É uma pena que o Uzi nunca tenha pensado nisso — disse. — Se calhar, ainda podia ser o chefe.

 

Passaram a hora seguinte no jardim de Bella, a negociar os termos do regresso dela à Avenida Rei Saul. Depois, foi com ele lá fora e acompanhou-o até ao banco de trás do carro oficial dele.

 

— Fica-te bem — disse, com a porta do carro ainda aberta.

 

— O quê, Bella?

 

Ela sorriu e disse:

 

— Até amanhã de manhã, Gabriel.

 

Deu meia-volta e desapareceu. Um guarda-costas fechou a porta do carro; e outro entrou para o lugar do passageiro. Gabriel deu conta subitamente de que não estava armado. Ficou ali sentado um momento a pensar para onde devia ir a seguir. Depois espreitou para o retrovisor e deu ao motorista uma morada em Jerusalém Ocidental. Tinha de resolver mais um assunto desagradável antes de voltar para casa. Tinha de dizer a um fantasma que ia ser pai outra vez.

 

O minúsculo caminho de entrada circular do Hospital Psiquiátrico do Monte Herzl vibrou sob o peso da coluna de três carros de Gabriel. Saiu do banco de trás da limusina e, depois de dizer umas palavras secas ao chefe da equipa de segurança, entrou sozinho no hospital. No átrio, à espera dele, estava um médico barbudo, com ar de rabi, de cinquenta e muitos anos. Estava a fazer um sorriso simpático, apesar de, como de costume, ter sido avisado em cima da hora de que Gabriel vinha a caminho. Estendeu-lhe a mão e observou a agitação na entrada normalmente sossegada da instalação mais privada de Israel para pacientes mentais de longa data.

 

— Parece que a sua vida está prestes a mudar outra vez — disse o médico.

 

— De várias maneiras — respondeu Gabriel.

 

— Para melhor, espero.

 

Gabriel assentiu. Depois, contou ao médico acerca da gravidez. O médico sorriu, mas apenas por breves instantes. Tinha testemunhado o longo conflito de Gabriel sobre a decisão de voltar ou não a casar. Sabia que, para ele, a paternidade seria uma faca de dois gumes.

 

— E ainda por cima gémeos. Bom — acrescentou o médico, lembrando-se de sorrir outra vez —, não há dúvida de que você…

 

— Preciso de lhe contar — disse Gabriel, interrompendo-o. — Já adiei isso muito tempo.

 

— Não é necessário.

 

— É.

 

— Ela não vai perceber, tudo, não.

 

— Eu sei.

 

O médico sabia que não valia a pena insistir no assunto.

 

— Se calhar, é melhor eu ficar consigo — disse. — Para seu bem e para o dela.

 

— Obrigado — respondeu Gabriel —, mas tenho de fazer isto sozinho.

 

Sem mais uma palavra, o médico deu meia-volta e levou Gabriel por um corredor em calcário de Jerusalém, até uma sala de convívio onde alguns doentes olhavam inexpressivamente para uma televisão. Havia duas grandes janelas com vista para um jardim murado. Lá fora, estava uma mulher sentada sozinha, à sombra de um pinheiro-manso, imóvel como uma lápide.

 

— Como é que ela anda? — perguntou Gabriel.

 

— Tem saudades suas. Há muito tempo que já não a vem ver.

 

— É difícil.

 

— Compreendo.

 

Deixaram-se ficar à janela durante um momento, sem falarem nem se mexerem.

 

— Há uma coisa que devia saber — disse o médico por fim. — Ela nunca deixou de o amar, mesmo depois do divórcio.

 

— E isso é para me fazer sentir melhor?

 

— Não — respondeu o médico. — Mas você merece saber a verdade.