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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O Brilho de Sua Luz / Danielle Stel
O Brilho de Sua Luz / Danielle Stel

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O Brilho de Sua Luz

 

Este não é um livro fácil de escrever, mas há muito para dizer, nas minhas palavras e nas do meu filho. E por mais doloroso que isso possa ser, vale a pena fazê-lo, se servir de ajuda para alguém.  E difícil encerrar um ser, um ser muito especial, uma alma, um sorriso, um rapaz, um enorme talento, um coração imenso, uma criança, um homem, numa série de páginas. Porém, tenho de tentar, por ele, por mim, por vós. E tenho a esperança de que, Ao fazê-lo, compreendereis quem é que ele foi, e o que significava para aqueles que o conheciam. Esta é a história de um rapaz extraordinário, com um espírito brilhante, um coração de ouro e uma alma torturada. É a história de uma doença, uma luta pela vida, uma corrida contra a morte. Para mim, porém, ainda é cedo. Ele faleceu há pouco tempo. Ainda sinto uma dor no coração. Os dias parecem intermináveis. Ainda choro Ao ouvir o seu nome. Entro no quarto dele e ainda sinto o seu cheiro familiar. As suas palavras ainda ecoam nos meus ouvidos. Ainda há poucos dias, há poucas semanas, ele estava vivo... há tão pouco tempo, e todavia está morto. Ainda me é impossível digerir ou entender a situação. Ainda me custa aceitar. Olho para as suas fotografias, e não consigo imaginar que toda aquela vida, aquele amor, aquela energia desapareceram. Mas será que aquele rosto divertido e gracioso, aquele sorriso radioso, o coração que conheci melhor que o meu, o melhor amigo que ele se tornou para mim, desapareceram realmente? Eles só vivem na memória? Mesmo agora, isso está para além dos limites da minha compreensão, e, por vezes, para além daquilo que é suportável. Como é que tudo aconteceu? Como é que o perdemos? Como é possível termos-lhe dedicado tanto esforço, tanto carinho, tanto amor, e mesmo assim tê-lo perdido? Se só o amor o tivesse conseguido manter vivo, ele teria chegado aos trezentos anos. Mas, por vezes, mesmo amando do fundo do coração, da alma, do espírito, não é suficiente. Infelizmente, não foi suficiente para Nick.

Se tivesse três desejos, um seria que ele nunca tivesse sofrido de doença mental, o outro seria naturalmente que ele estivesse vivo, mas o terceiro seria que alguém me tivesse informado, num dado momento, que a sua doença - psicose maníaco-depressiva - poderia matá-lo. Talvez isso tenha acontecido. Talvez me tenham dito de uma forma subtil. Talvez a inferência estivesse aí, e eu não quisesse saber. Mas ouvi com atenção tudo o que me disseram Ao longo dos anos, analisei todas as doenças, e segui todos os conselhos, o melhor que sabia e as forças permitiam. Por aquilo que me lembro, ninguém me disse nada. Pelo menos, abertamente. E era uma informação que eu esperava desesperadamente. Não estou certa de que teríamos feito as coisas de modo diferente, mas, pelo menos, eu teria sabido, teria sido avisada de qual poderia ser o pior cenário.

A doença matou-o com a mesma certeza que um cancro o teria feito. Quem me dera ter sabido, ter sido avisada, de como era grande o risco. Talvez tivesse ficado mais bem preparada para aquilo que viria a acontecer mais tarde. Não sei se nas mentes das pessoas é evidente que a psicose maníaco-depressiva é potencialmente fatal. Nem sempre, certamente, mas na maioria dos casos. Suicídio e acidentes parecem ser as maiores causas de morte para os maníaco-depressivos. Nem são casos raros. Se me tivessem dito que ele sofria de um cancro num órgão importante, teria ficado a saber que o risco era grande. Talvez tivesse compreendido que a sua vida poderia ser curta e que as consequências poderiam ser trágicas. Estou certa que teria lutado exactamente com o mesmo empenho, durante o mesmo tempo, com a mesma perspicácia, mas teria ficado mais bem preparada para o que veio mais tarde. A derrota talvez não tivesse sido tão chocante, embora fosse igualmente devastadora.

O propósito deste livro é prestar homenagem a Nick e àquilo que ele conseguiu durante a sua curta existência. Nick era um ser humano extraordinário, alegre e inteligente, com uma percepção extraordinariamente profunda e astuta dele próprio e dos outros. Encarava a vida com coragem, desenvoltura, paixão e humor. Fazia tudo «em grande», melhor e com mais empenho. Amava com ardor, ria muito, e fazia-nos rir, chorar, e tentava salvar-se desesperadamente. Nenhum daqueles que o conheciam podia ficar insensível à sua dor. Era impossível conhecê-lo e não lhe dar importância. Ele fazia com que gostássemos, sentíssemos e quiséssemos ser como ele. Era muito grande. Era o maior.

Escrevi este livro para lhe prestar homenagem e para o recordar. Mas tive ainda um outro propósito ao fazê-lo. Quero partilhar a história, a dor, a coragem, o amor, e aquilo que aprendi ao passar por isso. Quero que a vida de Nick não seja apenas uma terna recordação para nós, mas uma dádiva para os outros. Há muito a aprender aqui, não só acerca de uma vida, mas acerca de uma doença que aflige entre dois e três milhões de americanos, um terço dos quais, crê-se, morrem dela, possivelmente dois terços. E uma estatística aterradora. As estatísticas são algo «brandas» na questão das vítimas, porque geralmente a morte é atribuída a outras causas: por exemplo, mais a «overdose acidental» do que a suicídio, que é determinado mais pela efectiva quantidade de substâncias fatais ingeridas do que por uma razão clara.

E discutível se aqueles que morreram poderiam ter sido salvos, ou se aqueles que irão morrer o poderão ser. Então, e aqueles que viverão e que ainda vivem? Como é que os ajudamos? Que podemos fazer? Infelizmente, ninguém, e certamente nem eu, tem as respostas mágicas para resolver o problema. Há uma série de opções, soluções e formas de encarar a questão. Mas, primeiro, temos de analisar o problema. Temos de compreender aquilo com que estamos a lidar, para sabermos que mais do que uma simples dor de barriga, trata-se aqui de um cancro de fígado. Temos de entender que o que estamos a enfrentar é sério, importante... e potencialmente fatal.

Algures por aí, em apartamentos, casas, hospitais, em empregos e vidas vulgares, e não apenas em enfermarias psiquiátricas, estão pessoas a enfrentar uma luta terrível dentro delas. E junto a elas há pessoas que sabem e que as adoram. Gostaria de aqui estender os meus braços, e oferecer esperança e as realidades com que vivemos. Quero fazer a diferença. A minha esperança é que alguém seja capaz de aproveitar o que aprendemos, e que salve uma vida. Talvez possais fazer a diferença, embora eu não tivesse conseguido. Se é verdade que um terço dos maníaco-depressivos morrem desta doença, e das suas sequelas, então dois terços viverão. Dois terços podem ser ajudados, e podem viver uma existência útil. E, se possível, gostaria que a história e a vida de Nick os ajudassem, os servissem, e que aprendessem com os nossos erros e as nossas vitórias.

As maiores lições que aprendi foram a coragem, o amor, a energia, a ingenuidade e a persistência. Nunca desistimos, nunca desviámos a cabeça para o lado, nunca nos virámos contra ele, nunca o abandonámos, até ele nos deixar, porque já não conseguia manter a luta por muito mais tempo. Não só lhe foi feita a ressuscitação cardiopulmonar quando tentou suicidar-se, como tentámos manter a sua alma viva de todas as maneiras possíveis, de modo a continuar a luta ao nosso lado. E a verdadeira vitória para ele, e para nós, foi o facto de lhe termos dado uma qualidade de vida que ele de outro modo nunca teria tido. Conseguiu prosseguir a carreira naquilo que adorava: a música. Conseguiu vitórias que só algumas pessoas conseguem, com o dobro da sua idade, ou com uma vivência muito maior. Conhecia o prazer e a emoção do sucesso, além de também conhecer melhor que ninguém o preço que pagou por isso. Tinha amigos, uma vida, uma família, uma carreira, divertimento, alegria e tristeza. Passou os últimos anos de vida com surpreendente graciosidade, apesar das deficiências com que nasceu. E ficámos extremamente orgulhosos dele, como homem, músico e ser humano. Era um jovem brilhante e talentoso que carregava uma doença. Mas a doença não o impediu de ser quem era, nem nos impediu de o amar como ele era.

Em retrospectiva, penso que foi uma das melhores prendas que lhe demos. A aceitação de como ele era e o amor incondicional. Aos nossos olhos, pelo menos, a doença era apenas uma das suas facetas, não era ele como um todo. Escusado será dizer que é extremamente difícil amar alguém com psicose maníaco-depressiva. Há alturas em que vos apetece chorar, dias em que pensais que já não conseguis fazer nada, semanas em que não fazeis a diferença e quem vos dera podê-la ter feito, momentos em que vos apetece virar as costas. O problema é deles, não é vosso, e todavia ele torna-se vosso se amardes a pessoa que sofre da doença. Não tendes outra escolha. Tendes de ficar junto deles. Fostes apanhados numa armadilha, da mesma forma que o doente certamente o foi. E, por vezes, detestareis essa armadilha, detestareis aquilo que ela faz à vossa vida, aos vossos dias, ao vosso equilíbrio mental. Mas, detesteis ou não, estais lá, e custe o que custar, tendes de fazer o vosso melhor.

Só vos posso contar o que fizemos, o que tentámos, o que resultou e o que falhou. Podeis aprender com o que tentámos atingir, e desenvolver melhores caminhos que resultem convosco. Experimentámos um sem-número de coisas, e algum do tempo passámo-lo sentados. Não existem livros de regras, nem manuais, nem folhas de instruções, nem normas. Só tendes de tactear o caminho no escuro e fazer o melhor que puderdes. Não conseguis fazer mais que isso. E se tiverdes muita sorte, o que estiverdes a fazer resultará. Se não tiverdes, não resultará, e então tentareis outra coisa. Tentareis tudo o que puderdes até ao fim, e então a única coisa que vos restará é saberdes as dificuldades que sentistes. Nick sabia. Nick sabia as dificuldades que sentíamos para ajudá-lo, e ele também tentava ultrapassá-las. rRespeitava-nos bastante por isso. Nutríamos um grande amor um pelo outro porque tínhamos passado por muita coisa juntos. Éramos efectivamente muito parecidos, mais do que aquilo que pensámos durante muitos anos. Ele acabou por me dizer isso. Fez-me rir. Fez-me sorrir. Não era apenas o meu filho, mas o meu melhor amigo. Estou a escrever este livro por ele, para o homenagear, e para ajudar aqueles que precisam de saber o que aprendemos, o que fizemos, o que deveríamos ou não ter feito. E se isso ajudar alguém, então é porque vale a pena reviver tudo, e partilhar as alegrias e a agonia de Nick. Não faço isto para o expor, ou para me expor, mas para vos ajudar.

Voltaria a fazer tudo de novo? Sem dúvida. De imediato. Não trocaria estes dezanove anos por nada deste mundo. Não renunciaria à dor, ao tormento, à pura frustração ou à tristeza ocasional, porque a alegria e a felicidade estavam sempre presentes. Não havia nada melhor na vida do que saber que as coisas estavam a correr-lhe bem. Não perderia um instante dos que passei com ele. Ensinou-me mais acerca do amor, da alegria, da coragem, do amor pela vida, da maravilhosa imoderação do que algo ou alguém me ensinará alguma vez. Ofereceu-me as dádivas de amor, compaixão, compreensão, aceitação, tolerância e paciência, envoltas em gargalhadas, vindas do fundo do coração.O amor é para ser partilhado, a dor para ser aliviada. Se eu puder partilhar a vossa dor, e aliviá-la com o amor de Nick partilhado por todos nós, então a vida dele será uma nova dádiva, desta vez não só para mim e a sua família, mas também para vós.Foi Nick que fez com que valesse a pena lutar por tudo isto. Fê-lo por nós, e por ele próprio, e nós por ele. Foi uma dança de amor do princípio ao fim. Foi uma vida que valeu a pena viver, independentemente das dificuldades e desafios. Penso que ele concordaria com isso. Não tenho a menor dúvida. Não sinto qualquer arrependimento, por mais duro que tivesse sido. Não teria dispensado um segundo dos que passei com ele. E o que aconteceu no fim foi o seu destino. Como diz a canção: «Destino... dança comigo, meu destino.» E como era doce a música. O seu som perdurará eternamente, tal como Nick, e o nosso amor por ele.Ele foi uma dádiva inestimável. Ensinou-me tudo o que merecia a pena saber acerca da vida e do amor. Que Deus o abençoe e o guarde, e sorria com ele, até nos voltarmos a encontrar. E que Deus te ampare na tua viagem.

 

                                                                    Danielle Stell

 

 

          

  

A VIAGEM COMEÇA

Conheci o pai de Nick no dia do seu trigésimo primeiro aniversário, num dia soalheiro de Junho. Bill era inteligente, estava empregado e tinha um ar de Jean-Paul Belmondo. Era extremamente atraente, culto, bem-educado, muito inteligente, provinha de uma família respeitável e tinha uns pais formidáveis. Possuía tudo para ter uma boa vida, mas também tinha um passado cheio de altos e baixos. Era algo a que ele se referia superficialmente, sem se deter em pormenores.

Era produto de uma educação jesuíta, frequentara a universidade, jogara futebol, e formou-se em Psicologia pouco depois de nos conhecermos. Na sua juventude, metera-se nas drogas, mas há muito que as abandonara. Quando nos conhecemos, nem se drogava nem bebia. Nem pouco mais ou menos. Fiquei impressionada com isso, pois eu não bebia na altura, e nem agora bebo, e toda a minha vida me tenho mantido afastada das drogas e das pessoas que as consomem.

Há algumas coisas que ainda desconheço acerca dele, outras, esqueci, ou talvez tenha preferido perdê-las algures. Confesso que durante duas décadas só passou alguns momentos na minha vida. Mas agora, ao rever todos os instantes da vida de Nick, e os dias que lhe deram origem, ao escolher as fotografias e ao mergulhar no passado, relembro coisas que há muito preferira esquecer. As suas muitas qualidades. O seu charme. A atracção que exercia nas mulheres. Não partilhámos as nossas vidas durante muito tempo, mas deixou-me uma impressão indelével. E quando os nossos caminhos se cruzaram de novo por causa de Nick, voltei a aperceber-me da boa pessoa que ele era, e ainda é. De certa forma, a pessoa que ele é agora não só restaurou a minha fé nele, como em mim mesma. Aos trinta e um anos, era um homem calmo, adorava a vida ao ar livre, adorava pescar, e era um pouco tímido. Possuía muitas qualidades, algumas das quais vi em Nick mais tarde. Tinha a sorte de ter o apoio de pais dedicados, que achavam que ele não poderia fazer nada de errado, e, tal como eu, era filho único. Não faço ideia se as coisas teriam alguma vez resultado entre nós em condições normais.

É difícil de dizer. Carregava fardos que eu não conhecia, e sofria com os seus próprios demónios. Não sei se o gene maníaco-depressivo veio dalgum ramo da sua árvore genealógica, ou da minha, não há maneira de saber isso. E a única evidência de algo estranho do lado de Bill foi o seu vício pelas drogas, que só descobri mais tarde.

Sempre acreditei que em muitos casos, se não mesmo em todos, o vício da droga é efectivamente uma questão de automedicação das pessoas, embora não saiba se isso foi o caso de Bill. Não sei se alguém sabe como é que estas coisas acontecem, ou por que razão.

Soube pouca coisa da sua história nesses primeiros dias depois de nos conhecermos, e se calhar não fui suficientemente inteligente ou sofisticada para compreender tudo o que via. Já havíamos sido casados anteriormente, e eu tinha uma filha de nove anos do primeiro casamento, a minha filha mais velha, Beatrix. Sei agora quais devem ter sido as minhas esperanças ou suspeitas então: Bill era um homem recto e carinhoso. A vida levara-o a atravessar uma profunda agonia, mas a alma conseguira, de certa forma, sobreviver; acredito que seja uma boa pessoa e, desde a morte de Nick, tornámo-nos amigos.

Começámos a namorar nesse Verão e, seis semanas depois de nos conhecermos, fiquei grávida, o que, escusado será dizer, foi uma surpresa. Não importa agora discutir se foi ou não o momento adequado. Ainda era extremamente jovem na altura, tendo casado aos dezoito anos a primeira vez. Mas já tinha idade suficiente para saber o que fazia. Em retrospectiva, mais tarde, um pouco mais madura e mais reticente relativamente a mim mesma, interroguei-me se, secretamente, desejara outro filho. Ou talvez tivesse sido apenas o destino. De qualquer forma, a percepção do que acontecera atingiu-nos como uma bomba. Nenhum de nós estava preparado para pensar em casamento, e seguiram-se então um ou dois meses traumatizantes, enquanto agonizávamos a pensar no que fazer.

Pelo que me lembro, Bill foi bastante correcto relativamente ao problema, embora compreensivelmente desalentado. Numa relação de seis semanas, a gravidez é uma coisa de que não se está à espera. Do ponto de vista religioso, opunha-me a fazer um aborto, embora, admito, tenha ponderado a hipótese, atendendo às circunstâncias. Vivia sozinha, sem qualquer intenção de casar com Bill, tinha uma criança para sustentar e ainda não ganhava por aí além. Sustentar um bebé ia ser um grande desafio, e não pedi nem esperei que Bill o fizesse, nem ele tinha condições para o fazer, na altura.

Isso pôs-me perante um dilema moral e social. Vivia num mundo em que uma criança nascida fora dos laços do matrimónio não seria bem vista. E para complicar ainda mais as coisas, embora não tivéssemos vivido juntos durante muitos anos, ainda não tinha sido pronunciada a sentença do meu divórcio anterior. Por isso, mesmo que eu e Bill quiséssemos casar imediatamente, não poderíamos. Além disso, estava preocupada com o exemplo que daria à minha filha, e com o que ela pensaria depois. A falta de discernimento que demonstrei então não é um exemplo que eu queira dar a qualquer um dos meus filhos, mesmo agora.

No entanto, apesar dos problemas óbvios, resolvi ir em frente e ter o bebé. Bill e eu concordámos em viver separados, mas continuar a vermo-nos. Tínhamos a esperança de que as coisas entre nós dessem certo, mas não era de modo nenhum uma certeza. Já nessa altura me apercebi de problemas na relação, e Bill e eu éramos muito diferentes. Não contei aos meus pais, que viviam a quatro mil e oitocentos quilómetros de distância. Via-os raramente, e sabia que uma notícia deste género iria, compreensivelmente, ser encarada com horror. Eu vinha de um mundo em que bebés acidentais, ou filhos ilegítimos, não eram recebidos calorosamente. Os meus pais, e particularmente o meu pai, não iam ficar contentes. Nem eu. Foi um sério esforço, e sei que, dessa altura em diante, a minha vida ia ser ainda mais dura do que tinha sido até aí. Eu ganhava a vida, mas as coisas estavam difíceis, e quase todas as pessoas que conhecia iam ficar chocadas. Imaginei-me uma pária social, provavelmente sozinha até ao resto da vida, sem marido e com dois filhos para sustentar. Se vasculhar nas lembranças desse tempo, lembro-me com extrema facilidade que fiquei com um medo de morte, e completamente baralhada. Mas senti que tinha de dar o melhor de mim, pelo bem da minha filha e do meu filho por nascer. Por aquilo que me era dado ver, tinha à minha frente uma estrada solitária, longa e difícil.

Miraculosamente, a poucos dias de tomar a decisão de ter o bebé, ofereceram-me um projecto de escrita que cobriria, literalmente até ao último penny, aquilo que eu imaginava que custaria ter o bebé: médicos, fraldas, hospital, roupa. A quantia que me foi oferecida era exactamente aquilo de que precisava para me orientar. Foi um obstáculo que ultrapassei, mas sabia que muitos mais se seguiriam. Tinha cerca de sete livros escritos na altura, mas só dois tinham vendido. Ganhava a vida a escrever anúncios, a fazer traduções, a ensinar inglês e escrita criativa, e até em empregos ocasionais em lojas. O novo projecto significava que poderia escrever a tempo inteiro. Um grande milagre para mim, na altura.

O obstáculo seguinte a ser ultrapassado foi o ter de dizer à minha filha que ia ter um bebé, um dilema moral que me trazia em agonia, um exemplo excepcional do «faz o que eu digo, não faças o que eu faço». Não queria que ela cometesse os mesmos erros quando crescesse (e não cometeu). Uma pessoa deve apaixonar-se, casar e depois ter um filho, e não engravidar, manter-se solteira e envolver-se com alguém que mal se conhece e que só se vê de tempos a tempos. Era o que eu não queria para ela, ou para mim. E, nessa altura, julgo que Bill e eu compreendemos que a nossa ligação não era a mais perfeita. Ele tinha outros prazeres na vida, dos quais eu não sabia ainda nada, tínhamos interesses e vidas diferentes. Se tivéssemos namorado, sem a pressão de um bebé, o romance já teria provavelmente fracassado, e a tensão nervosa teria sido certamente menor. Com um bebé prestes a nascer, sentíamos uma grande pressão sobre nós, quer individual quer conjuntamente. Foram tempos muito difíceis.

A minha filha foi extraordinária e, em vez de demonstrar choque, desaprovação ou embaraço perante a confissão dolorosamente sincera que lhe fiz, abraçou a novidade com emoção, entusiasmo, de braços abertos. Estava exultante. Sempre desejara um irmão, e sentia uma embaraçante felicidade por este ir ser «o nosso bebé», e não o termos de partilhar com mais ninguém. Foi, efectivamente, uma forma optimista de encarar a situação, e deixou-me imensamente feliz. Criou um laço estreito entre nós que nunca diminuiu. Mesmo aos nove anos, ela nunca me criticou e deu-me sempre um infinito apoio.

Curiosamente, o problema da hereditariedade nunca me passou pela cabeça nessa altura. Não sei se era eu que era apenas uma ingénua, ou se estávamos simplesmente numa época em que as pessoas não se preocupavam muito com isso. Nunca me deu para perguntar com ar sério: «Quem é este homem? Quem é o pai do meu bebé?» Via o bebé como uma entidade separada de cada um de nós. Mas mesmo que tivesse percebido perfeitamente a potencial bomba-relógio da hereditariedade, não teria feito as coisas de maneira diferente. Sentia que não tinha qualquer alternativa que não fosse ter a criança e desenvencilhar-me o melhor que pudesse depois.

Nos meses que se seguiram, Bill e eu encontrámo-nos regularmente e, quando fiz seis meses de gravidez, ele resolveu mudar-se para minha casa para ver se resultava. Concordei, embora ficasse nervosa com o facto, mas tive a impressão de que isso se ficou a dever mais ao bebé. Falávamos vagamente de casamento, embora não acredite que nos tivéssemos casado se não estivesse grávida. (Nessa altura, os meus pais ainda não sabiam que estava grávida, e receava dar-lhes a notícia.)

Porém, alguns dias depois da mudança, Bill começou a afastar-se. Desaparecia durante horas e dias, comportava-se de forma estranha quando voltava, e parecia algo diferente daquilo que era quando nos conhecemos. Não era violento ou agressivo, era sobretudo esquivo. OO seu aspecto passou de impecável para desalinhado, e as suas desaparições tornaram-se mais frequentes e prolongadas. Eu não sabia onde é que ele estava, nem com quem, nem o que andava a fazer. Às vezes, chegava a casa à uma ou duas da manhã e voltava a sair ainda antes de eu me levantar. A sua vida era mais que nunca um mistério para mim. Assim como as suas desaparições. Aliás, como quase tudo nele era. A coisa mais importante que eu sabia acerca de Bill era que ia ter um filho seu. O que não sabia, e não compreendia, era que ele voltara discretamente ao consumo de drogas, e eu não fazia a menor ideia. Como estava pouco familiarizada com esse mundo, não reconhecia os sinais.

Estava eu com sete meses de gravidez, quando Bill apanhou hepatite, o que complicou ainda mais a vida a mim e a Beatrix. Tratei dele até recuperar. Passado algum tempo, quando se pôs novamente de pé, as desaparições recomeçaram, e teve um acidente quando conduzia o meu carro. Foi nessa altura que compreendi finalmente o que acontecera, e o tipo de caos que as drogas estavam a causar à vida de Bill, e causariam à minha, se deixasse que isso acontecesse. Era um dilema terrível. Era um mundo que eu não queria para mim nem para os meus filhos.

Estava então com oito meses de gravidez, e finalmente falei do bebé aos meus pais por telefone. Instalou-se um silêncio interninável, uma pausa que durou uma eternidade, e depois a voz gélida do meu pai. Ele só queria uma coisa: que nos casássemos. Era impossível explicar-lhe que se passavam dias em que não punha a vista em cima de Bill e que, quando isso acontecia, ele passava por minha casa como um comboio expresso. Eu mal tinha tempo de lhe dizer «olá» antes de ele voltar a sair, sem nunca discutir a questão do casamento. E como poderia eu casar com alguém na situação de Bill? Por um lado, eu queria legitimar a criança, por outro, estava aterrada com os problemas que viria a encontrar. Não contei à minha família a história de Bill com as drogas. Por fim, apesar das reservas que tinha, pareceu-me não haver alternativa a não ser casar. A sentença do divórcio anterior foi entretanto pronunciada, e o casamento foi efectivamente uma opção. Infelizmente, foi um período de muita ansiedade, e não um período que relembre com ternura.

Bill andou desaparecido a maior parte do tempo e nunca se disponibilizou para comprar o anel ou para tratar da licença de casamento. Acabámos por casar com uma «licença especial». E como resultado das suas desaparições e do stress por aquilo que estava a acontecer, tive literalmente um ataque de histeria quando ele finalmente apareceu na noite antes do casamento. Casámo-nos no dia seguinte, numa pequena cerimónia, e almoçámos com amigos num restaurante. Nessa noite, Bill voltou a desaparecer. Faltava uma semana para a data prevista para o parto. A única consolação foi o meu pai ficar aliviado por termos casado, e eu tinha a esperança de que as coisas com Bill estabilizassem na devida altura.

Foram tempos de pesadelo. A minha filha ficou com o pai durante duas semanas até o bebé nascer, e eu fiquei sozinha a maior parte do tempo. Por qualquer razão, Bill reapareceu na noite antes de o bebé nascer. Passou a noite comigo, levou-me até ao hospital, esperou algum tempo e depois desapareceu outra vez. Êstava com pior aspecto que eu quando se foi embora. Seriamente viciado na altura, ele tinha de cuidar das suas próprias necessidades. Fiquei sozinha com uma amiga durante as longas horas de trabalho de parto, enquanto Bill entrava e saía.

Durante as doze horas seguintes, o tempo que durou o trabalho de parto, Bill reapareceu e voltou a desaparecer. Infelizmente, também o meu obstetra desapareceu. Foi chamado para uma emergência e deixou-me ao cuidado dos seus colegas, enquanto o destino me punha perante uma situação impossível, alguns artifícios cruéis e um torturante trabalho de parto. A criança pesava mais de quatro quilos e meio, e eu sou uma pessoa de pequena estatura. Em termos concretos, o bebé estava entalado, o que me propiciou uma experiência de proporções tão horríveis que me provocou problemas temporários de coração, pulmões, asma e uma série de outras complicações. Suportei dores terríveis durante doze horas, entregue a internos e a diferentes equipas de enfermeiras e médicos que não me conheciam.

Para mim, seria um verdadeiro milagre eu e o bebé não morrermos. Uma cesariana de emergência foi finalmente realizada pelo meu próprio médico, doze horas depois de eu chegar ao hospital. E fiquei surpreendida por ter sobrevivido. Foi o parto mais difícil que alguma vez tive, principalmente devido ao tamanho da criança.

A coisa mais extraordinária que aconteceu no parto, e de que toda a gente falava, foi o facto de o bebé ter chorado quando fizeram a primeira incisão, o que é muito raro. A mim, pareceu-me um sinal de felicidade, uma ânsia de vida, e um bom presságio. Era o primeiro de Maio, um dia para festejar.

O bebé, um rapaz, com quatro quilos e meio, era tão grande que foi posto numa incubadora, pois, segundo parece, por vezes, os bebés grandes são débeis. Ele parecia-me enorme, com olhos muito grandes e cabelos escuros. Parecia já ter seis meses e era tão bonito que valeram a pena todas as dores por que passei. Conquistou o meu coração desde o momento em que pousei os olhos nele. Parecia perfeito em todos os aspectos. E fiquei tão satisfeita por ele não ter sofrido nada no parto que estava mais que disposta a ignorar o facto deste ter sido doloroso e traumático. É possível que o longo trabalho de parto possa ter provocado alguns danos neurológicos e dificuldades de aprendizagem, que descobrimos mais tarde. Mas não há maneira de sabermos isso. Os problemas que Nicholas viria a ter mais tarde eram, em grande parte, genéticos, julgamos nós, mas os sugeridos danos neurológicos e as dificuldades de aprendizagem podem ter sido causados ou agravados pelo trauma do nascimento. Nunca foi uma linha de pensamento que seguíssemos ou censurássemos alguém por seguir mais tarde. Estávamos mais preocupados com o facto de ele ser maníaco-depressivo. Mas, naquela altura, quem imaginava o que viria mais tarde? A única coisa que sabia, e com que me preocupava, era que este bebé há muito esperado chegara finalmente, e parecia um querubim nos meus braços. Estava agradecida por ter sobrevivido e por levar o meu filho para casa comigo. A sua chegada fora extraordinariamente traumática, mas valera a pena.

Bill apareceu horas mais tarde para nos levar para casa e, como era de prever, desapareceu de novo uma hora depois. Chorei bastante. Beatrix chegou a casa e ficou instantaneamente apaixonada pelo irmão. O meu pai faleceu dez dias depois, sem nunca ter visto o bebé, mas aliviado por eu estar finalmente casada. Chamei o meu advogado no dia a seguir ao parto e tentei anular o casamento, ou, pelo menos, iniciar o processo de divórcio, mas deixei de falar no assunto durante algum tempo, acabando mais tarde por avançar com o processo, depois de os problemas se tornarem demasiados para mim.

Bill apareceu e desapareceu durante um breve período depois de Nick nascer. Fez uma tentativa frustrada de desintoxicação, quando o filho tinha quatro semanas, e outra mais tarde. A sua vitória final sobre as drogas levou muitos anos a ser alcançada, e Nick e eu já há muito que estávamos fora da vida dele quando a alcançou.

O que se seguiu ao nascimento de Nick, para Bill, foi uma queda de dezanove anos num abismo do qual só saiu depois da morte de Nick. Desapareceu das nossas vidas tão depressa como entrara. Não importa se eram boas ou não as suas intenções, e eu creio que eram, só que a força da sua dependência era tão poderosa que não conseguia dominá-la; era como uma onda gigantesca que quase o afogou, e que, felizmente para ele, acabou por não o fazer.

No fim, foi mais triste para ele do que para nós, porque acabámos por conseguir reconstituir as nossas vidas. E foi tanto o que perdeu. Perdeu tudo, uma vida inteira. Nunca conheceu o filho, embora regressasse depois da morte de Nick, de boa saúde de novo, e em recuperação, para oferecer um pouco de amizade e conforto tanto a mim como aos irmãos de Nick. E eu estou-lhe muito grata pelo apoio que me deu.

Na altura Beatrix e eu ficámos sozinhas com Nicholas, uma dádiva miraculosa nas nossas vidas. Ele era uma criança saudável, gordinha, feliz, bonita e adorada. Bill fora à sua vida. Beatrix e eu ficámos sozinhas, com o «nosso» bebé, o nosso amado Nicky. Era o bebé mais feliz, mais gordinho e mais doce que alguma vez víramos.

 

«SOU INCRÍVEL!»

Pouco depois do nascimento de Nick, acordei da anestesia da cesariana, e uma enfermeira perguntou-me se já vira o bebé, e eu abanei a cabeça. «Não viu?», indagou, parecendo pasmada, e como se eu estivesse a preparar-me para uma grande surpresa, rematou: «Vai ver quando o vir!» Falou da mesma maneira que as pessoas falam de uma estrela de cinema que está a regressar de um lugar qualquer, que toda a gente está ansiosa por ver. Lançou-me um sorriso, desapareceu apressadamente, voltou minutos depois com um bebé agasalhado nos braços e pousou-o suavemente nos meus, enquanto eu o mirava maravilhada.

Nunca esquecerei a sua pura beleza, a emoção que senti, aquela carinha delicada, e os enormes olhos fixos nos meus. Parecia a criança perfeita, e era tão grande que mais parecia ter meses de idade em vez de horas. E no primeiro instante que olhei para ele, apercebi-me de que já nada me doía. Abracei-o carinhosamente quando ele fechou os olhos e aconcheguei-o para que adormecesse nos meus braços, grata por ele ser meu. Nunca sentira tanta felicidade nem tanta sorte na vida.

Nicky era o tipo de bebé que as pessoas paravam para admirar para onde quer que se fosse. Era tão grande, tão bonito e tinha um ar tão saudável que as pessoas viam-se obrigadas a parar e a fazer perguntas acerca dele. E quando Beatrix e eu empurrávamos o carrinho, fazíamo-lo com muito orgulho. Levávamo-lo para toda a parte, às compras, à mercearia, à igreja, e até ia à escola, onde era um enorme sucesso com as raparigas do quarto ano.

Tinha um apetite devorador desde o princípio, e eu estava determinada a amamentá-lo. O pediatra chamava-lhe na brincadeira «o tubarão», não havia nada que o satisfizesse, e quanto mais leite bebia, mais queria. Era insaciável, e, ao fim de duas semanas, deixei de lhe dar mama. Foi uma batalha que não consegui ganhar. Pusemo-lo a leite em pó, e mesmo esse parecia não o satisfazer, e tivemos de lhe misturar farinha ao fim dos primeiros dias. Comia sem parar, e quando já tinha algumas semanas de idade, abri mais o buraco de uma tetina e pus farinha num biberão. Por uma qualquer razão desconhecida, toda a gente me dizia que era uma má ideia, mas era a única maneira de o satisfazer e de o pôr a dormir. Comia com voracidade, o que, por mais estranho que possa parecer, foi típico dele durante a maior parte da sua vida. Era como se os «reguladores» do seu «tanque de combustível» não fizessem o registo de forma correcta, e ele próprio nunca soubesse quando é que estava cheio. Já rapaz, mais tarde, às vezes comia até se sentir maldisposto (que era a face maníaca dele). De qualquer forma, ele consumia aquilo que comia. Embora fosse gorducho quando era bebé, e extremamente roliço no seu primeiro ano, logo que começou a andar por todo o lado, tornou-se nervoso e magro, e assim ficou durante toda a sua vida. Mas em bebé, Nick era enorme.Ria e sorria muito, dormia menos do que aquilo que eu achava que devia, e acordava sempre à noite, uma vez, às vezes duas, para comer. Parecia um pequeno Buda quando começou a sentar-se, a rir e a gargalhar, e sempre ansioso para andar de um lado para o outro, a explorar o mundo que o rodeava.Ele não era só o «meu» bebé, era também o de Beatrix. Ela é que o vestia, o sentava entre as suas bonecas e brincava com ele durante horas juntamente com as suas amigas. E à noite, quando acordava, mal tinha tempo de chorar antes de eu e Beatrix nos precipitarmos para o seu quarto, separadamente, e às vezes empancávamos uma na outra, meio endorminhadas, ao entrar. E discutíamos por instantes sobre de quem era a vez de tomar conta dele. Era a luz das nossas vidas, e eu adorava tê-lo ao colo, numa cadeira de balouço, enquanto lhe dava o biberão, ou lhe cantava depois de o tomar, enquanto olhava pela janela para a Lua no céu negro. Eram noites maravilhosas, horas preciosas, momentos de solidão e ternura, o tipo de coisas de que são feitas as recordações, e tenho muitas. Costumava ficar assim sentada durante horas, a sentir o calor dele apertado contra mim, a cabeça tombada sobre o meu ombro quando adormecia, os bracitos rechonchudos à volta do pescoço.Os primeiros meses pareceram passar a correr, e eu andava numa roda-viva com ele. Aos seis meses, já se sentava e ria constantemente; parecia uma criança de um ano. Dava a impressão de estar a fazer uma espécie de corrida, gatinhava por todo o lado, e parecia desesperado para andar. Comprámos um andarilho, um pequeno assento com um tabuleiro redondo em toda a volta sobre rodinhas, que lhe permitia tocar o chão com as pontas dos dedos dos pés e mover-se livremente. Mal o pusemos no andarilho, desatou a andar por todo o lado e foi o caos completo. Ia que nem um raio de uma ponta à outra da casa, a atenção fixa perigosamente nas escadas (pusemos cancelas!), passando a toda a velocidade por todos os quartos. A sua maior proeza era ir contra a mesa da cozinha, que eu punha primorosamente de quando em quando. Agarrava numa ponta da toalha e puxava-a, fugindo a toda a velocidade no seu andarilho, e levandoa toalha e tudo o que estava em cima dela com ele. O barulho de tudo a cair no chão divertia-o, muito mais do que a mim.

Nicky era uma criança que nos fazia rir. Tínhamos de sorrir ao olhar para ele, e olhava-me sempre como se me quisesse dizer algo, e conseguiu-o por volta dos sete ou oito meses. Falava com ele em espanhol a maior parte do tempo, tal como Romelia, a minha governanta guatemalteca. Ela adorava-o e tagarelava com ele durante horas. Beatrix falava-lhe em inglês, e Romelia e eu falávamos-lhe em espanhol, contra o conselho de toda a gente. Disseram-me que dar uma educação bilingue a uma criança, especialmente um rapaz, atrasaria enormemente a fala. Avisaram-me que ele poderia não dizer nada inteligível durante anos. Mas esse não seria o caso de Nick. Nada o detia.

Nick explodiu para a vida de um modo que era típico nele, e começou a falar ao mesmo tempo que começou a andar. Deu os seus primeiros passos aos oito meses, perambulando perigosamente pela casa, e, praticamente ao mesmo tempo, começou a falar. E de um modo inteligente, pelo menos para ele, dizia palavras em inglês para Beatrix, e em espanhol para Rome e para mim. Conhecendo Nick como conheci mais tarde, isso fazia sentido. Falar duas línguas não provocou nenhum atraso no seu desenvolvimento. E nunca mais parou um minuto a partir daí. Corria por toda a casa, explorando o seu mundo, já livre do andarilho, a palrar sem parar, conforme lhe dava na veneta, em inglês ou em espanhol.

Com um ano de idade, já construía frases, o que era extraordinário para toda a gente, embora eu saiba agora que foi um primeiro sinal de perigo. Se bem que nem todos os bebés que começam a falar cedo se tornem maníaco-depressivos, a maioria dos maníacodepressivos começam efectivamente a falar cedo. Tal como ele. Mas eu na altura não sabia nada desses sintomas e estava compreensivelmente orgulhosa dele. As pessoas falavam-lhe, depois viravam-se para mim e diziam: «Ele é incrível!» Elas diziam isto tantas vezes que acho que ele ficou confuso e pensava que era o seu nome.

Quando o levava no carrinho de bebé, como ainda fazia, e as pessoas paravam para o admirar, ele começava a falar-lhes, e quando elas lhe perguntavam o nome, ele esboçava um largo sorriso e respondia: «Sou Incrível!» E era, sem qualquer sombra de dúvida. Tínhamos longas conversas enquanto eu empurrava o carrinho, e estou certa de que, se as pessoas me vissem a curta distância, pensariam que eu estava maluca, a conversar com uma criança da forma que o fazia. Mas ele adorava tagarelar comigo.

Havia muitas coisas que Nick adorava: a irmã, os brinquedos, andar no carrinho e música. Tinha gostos musicais engraçados para uma criança, e desenvolveu uma paixão pela música disco, que na altura ainda estava na moda, e eu também gostava. A sua canção favorita era I Will Survive, da Gloria Gaynor, e dançava sem parar quando eu punha discos no meu quarto. Conhecia aqueles que gostava e dava-mos imperiosamente: «Este, mamã!» A nossa primeira discussão séria surgiu enquanto planeávamos o seu primeiro aniversário, quando ele anunciou que queria um palhaço e música disco, estranhos pedidos para uma criança de um ano, embora parecesse mais ter dois ou três, com o seu corte de cabelo «à holandês», que eu própria lhe fizera, e uma excelente coordenação que lhe permitia mover-se com facilidade. Também adorava escrever na minha máquina de escrever.

As coisas de que ele gostava eram invulgares para uma criança da sua idade, mas ainda mais invulgar era o facto de ele as conseguir articular e mesmo defender o seu ponto de vista. Tentei explicar-lhe que o palhaço não era uma grande ideia, porque muitos dos seus amigos da sua idade tinham medo deles e não se sentiriam tão atraídos pela música disco como ele. Eu imaginara uma festa com bebés nascidos na mesma altura, a irmã, naturalmente, alguns amigos meus e talvez Bill.

No entanto, Nicky e eu discutimos veementemente os planos do primeiro aniversário. Ele queria pôr a tocar o meu disco da Gloria Gaynor. E acabou por o pôr, e deixámos o palhaço para outro ano.

Ele era extraordinariamente precoce para uma criança da sua idade, e uma excelente companhia, embora continuássemos a discordar da sua escolha musical. Certa noite, pus a tocar um disco que ele não gostava, o que o exasperou. Queria que eu o tirasse e pusesse outro e, porque não o fiz, como já ia a caminho do banho e andava a correr nu pelo quarto, parou e fez chichi para cima da aparelhagem com um ar de gozo estampado no rosto. Ele marcou o seu ponto, e eu desatei a rir perante a afronta. Foi uma coisa à Nicky.

O outro ultimato que ele me deu naquela altura teve a ver com o berço onde dormia. Não quis dormir mais nele quando completou exactamente um ano, e fez uma enorme birra com isso. Queria dormir na velha cama de casal que eu pusera no seu quarto, onde eu dormia quando ele precisava ou quando estava doente. Mas eu sentia-me mais descansada com ele a dormir no berço. Como tinha começado a andar cedo, era extremamente independente nas suas perambulações pela casa, e eu tinha medo de que, se o deixasse a dormir numa cama, ele fizesse travessuras durante a noite ou antes de eu acordar de manhã. Já naquela altura Nick não dormia muito. Acordava frequentemente a altas horas da noite, muito antes do alvorecer. O berço era uma fonte de conforto e segurança para mim, se não mesmo para ele. Mas, como viria a acontecer ao longo de toda a sua vida, Nick era tudo menos fácil de convencer quando se lhe metia uma coisa na cabeça. E começou uma batalha nocturna. Ele resolveu-a de forma muito simples, tomando balanço como um atleta olímpico numa competição de salto em comprimento ou de salto à vara, e atirava-se com desenvoltura por sobre a parte lateral do berço, depois sentava-se todo contente no chão do seu quarto, a ganhar fôlego por instantes antes de se precipitar para fora do quarto. Mais que tudo, eu tinha medo que ele partisse o pescoço ao saltar do berço, mas ele era tão grande e tão forte que aquilo era uma façanha fácil para ele. E levou a dele avante, naturalmente.

Deixou o berço e, com um ano de idade, mudou-se para a sua cama, e eu, pelo seguro, pus uma protecção para bebés à porta do quarto dele, que se provou não ser um grande obstáculo. Aprendeu rapidamente a desmontá-la, com a mesma facilidade com que eu a montei, e, tal como receara antes de ele abandonar o berço, começou a vaguear pela casa durante a noite, e muitas vezes, de manhã, dava com ele na minha cama.

Depois da batalha por causa do berço, este era o «segundo assalto». Ele entendia a cama apenas como um porto de escala, um local de descanso antes de tomar a minha cama, que era o objectivo que ele tinha em mente. Queria dormir comigo no meu quarto.

Desta vez, porém, fui firme com ele. Tinha de dormir na sua própria cama. E assim foi. Seguiram-se meses de batalhas e longas noites em claro. «Vai para a tua cama, Nicky», dizia-lhe eu com firmeza. E ele lá ia, com ar cabisbaixo. Ficava na cama entre dois e cinco minutos, depois voltava, a suplicar que o deixasse dormir comigo. Eu tinha uma cama enorme que não partilhava com ninguém, e deve ter-lhe parecido ridículo que eu não estivesse disposta a partilhá-la com ele, e que seria egoísmo da minha parte. Só que eu poderia querer partilhar a minha cama com alguém mais adulto, um dia, e não achava que fosse boa ideia habituar-me a deixá-lo dormir comigo.

Ele perdeu o ponto. Acabámos por chegar a um «compromisso», isto é, Nick ganhava, mas deixava-me salvar a face indo para a cama, mesmo que não fosse para dormir, na sua cama, e deixando-me ir decorosamente para a minha dormir. Nunca mais discutiu comigo, nem me acordou para perguntar se podia vir para a minha cama. Limitava-se a meter-se sorrateiramente ao meu lado na cama, enquanto eu dormia, e quando eu acordava de manhã, lá estava ele, a sorrir para mim. Foi bom para os dois, julgo, e a verdade é que eu adorava tê-lo comigo. Adorava estar com ele, perto dele, abraçá-lo, e atirar-lhe framboesas à barriga e sentir os cabelos sedosos cortados à tigela no meu queixo. Era uma criança deliciosa, irresistível, cheia de alegria, amor e ideias luminosas. Com um ano e meio, ou para ser mais precisa, bem antes disso, era evidente que ele era extremamente brilhante, e com o tempo começámos a suspeitar que ele tinha um QI de proporções impressionantes. Fazia coisas que era suposto não saber e dizia coisas que nenhum rapaz de dezoito anos dizia. Dizia coisas que faziam sentido, divertidas, e toda a gente o estimava. Nick era adorado por todos, especialmente por Beatrix e por mim. Havia uma coisa nele que me preocupava. Nunca dormia, pelo menos o suficiente. Muito antes de fazer dois anos, cheguei à conclusão de que não lhe poderia dar uma palmada. Se o fizesse, significava que ele ficaria a pé toda a noite, até muito depois de eu me ir deitar, e eu trabalhava até altas horas. Mas não parecia precisar de dormir muito. Outro sinal de aviso. Os maníaco-depressivos não dormem à noite, e com o tempo isso tornou-se o infortúnio da sua existência que o haveria de perseguir até ao resto da sua vida. Mas, naquela idade, ninguém entendia isso como algo invulgar. Eu achava que era uma característica dele. Era naturalmente diferente da irmã. Com a idade dele, ela dormia durante horas todas as tardes, por volta dos seis anos. Mas não Nick. Ele parecia precisar incrivelmente de pouco sono. À noite, adormecia depois de mim, e acordava antes do alvorecer, abrindo-me os olhos e espreitando para dentro deles, enquanto eu resmungava qualquer coisa. «Já estás acordada, mamã?». «Já», murmurava eu. A Rua Sésamo tomou-se um instrumento vital na manutenção da minha sanidade mental. Falava com ele durante umas horas, à espera que o programa começasse, e depois deixava-o cair em frente do televisor, de modo que eu conseguia dormir mais um pouco. Dormir o suficiente, mesmo em adulto, era um desafio para Nicky.

Houve outro sinal de aviso, embora não seja sempre uma indicação de perigo: as suas reacções à medicação. Costumávamos ir para uma casa alugada numa praia próxima, mas, para lá chegar, tínhamos de fazer uma estrada insuportavelmente tortuosa, e Nicky enjoava sempre. Experimentei todos os trajectos possíveis, curtos, longos, a estrada da montanha, a estrada tortuosa mais próxima da praia. Nada resultava; finalmente decidi dar-lhe Dramamine e tentar lá chegar o mais depressa que podia. Parecia ser a única solução.

O pediatra avisou-me que o medicamento pô-lo-ia muito provavelmente a dormir, e pô-lo-ia pela certa, mas disse que não faria qualquer mal a Nick, por isso fiz a experiência um fim-de-semana, antes de partirmos para a praia. E em vez de o pôr a dormir, transformou-o num estonteante dervixel mesmo à minha frente. Ficou a carburar a uns 240 quilómetros por hora, falava o mais rápido que podia, e amarinhava praticamente pelas paredes acima. O medicamento teve o efeito exactamente oposto do descrito, e fiquei preocupada. Quando chamei o médico, foi-me dito que isso às vezes acontecia. E voltou a acontecer, mais tarde, com um medicamento de venda livre para crianças desta idade com constipação/gripe. A mesma coisa. Em vez de ficar calmo, Nick ficou inacreditavelmente acelerado. Chama-se a isto reacção paradoxal, e é mais uma característica de pessoas que sofrem de psicose maníaco-depressiva. Essa reacção com alguns medicamentos acompanhou-o durante a maior parte da sua vida. Muitos dos medicamentos para a constipação, - dariam sonolência a qualquer pessoa, excitavam Nick. O café, durante anos, até começar a tomar medicamentos para o equilíbrio quase o punha a dormir. Eu tinha extremo cuidado com os medicamentos que lhe dava, e, escusado será dizer, deixei de lhe dar o Dramamine e acabei com a casa de praia.

Nick tinha uma personalidade forte e ideias extremamente definidas. Como muitas crianças da sua idade, detestava andar vestido, adorava andar a correr todo nu. Tenho um montão de fotografias dele, com o seu rabito nu virado para mim enquanto brincava em cima da minha cama ou a correr pelo quarto. Por outro lado, tal como acontecia com as crianças que começavam a dar os primeiros passos, detestava que alguém o vestisse ou lhe mudasse de roupa. Era uma das raras coisas que o faziam chorar furiosamente. Ouvia-se a milhas. Havia qualquer coisa de angustiante com o, vestir ou o mudar de roupa. E cada vez com mais frequência, mesmo ao ano e meio, e certamente por volta dos dois, ele tinha opiniões firmes acerca da roupa que ia vestir. «Não vou vestir isso!», dizia ele com ar irado. Aos doze ou catorze ou quinze, ou mesmo aos sete, isso parece ser compreensível. Mas aos dezoito meses, parecia ridículo estar a discutir com Nicky por causa de umas jardineiras de veludo azul-pálido. E quando ele dizia «Não visto isso!», não vestia mesmo.

Geralmente, eu vestia Beatrix e Nick da mesma forma, com roupas condizentes. Ela era uma criança impecável, e vestia quase tudo o que eu escolhia. O mesmo não acontecia com Nick. Cada peça de roupa era motivo para uma grande negociação. Eu ainda vivia um período um pouco precário do ponto de vista financeiro, embora as coisas estivessem lentamente a melhorar com os meus escritos. Mas adorava comprar roupa para os dois, às vezes com desenhos de girafas, flores ou coelhos da Páscoa. Nick olhava para elas com horror. «Queres que vista isso, com uma girafa?!!!», gritava-me ele, horrorizado, com um ar de pessoa que se sente profundamente insultada. Eu pedia-lhe para me fazer a vontade, e a maioria das vezes fazia, mas só depois de debatermos o assunto durante uma hora com a mais arrebatada paixão. Nick teve ideias definidas acerca de tudo, muito cedo, as roupas entre elas, e não tinha vergonha de me dizer o que pensava sobre qualquer assunto.

Com ano e meio, Nick era uma pessoa completa, com opiniões, gostos, desejos, peculiaridades e hábitos algo entrincheirados. Não havia qualquer dúvida de que ele era extraordinário, mas também era muito diferente. Diferente das crianças das outras pessoas, diferente até da própria irmã. Era mais esperto que ninguém, mais brilhante, mais rápido, possuía mais energia do que qualquer outra criança que eu alguma vez vira, e tinha um modo de me olhar que me fazia pensar que ele era um homem adulto no corpo de uma criança. Parecia estar constamtemente a olhar para mim, como que procurando as pistas de um mistério, e quando os seus olhos encontravam os meus, via uma pessoa sábia neles. E embora às vezes me sentisse encantada, e sentisse contínuo orgulho nele por ser tão extraordinário e tão brilhante, havia também alturas em que isso me preocupava.

Lembro-me de uma vaga sensação de mal-estar quando olhei para ele um dia. Envergava um pijama felpudo amarelo com pés, estava com um ar adorável, mas havia algo no seu olhar que me preocupou terrivelmente quando os nossos olhos se encontraram, e pela primeira vez, aos dezoito meses, interroguei-me se não haveria algum problema com ele, já que era tão diferente das outras crianças. Senti-me culpada por me atrever a pensar nisso, e assustei-me. Quando expus o problema ao pediatra pouco tempo depois, ele sossegou-me. Nick era apenas uma criança extraordinariamente brilhante, com muita atenção centrada nele, o que parecia explicar muitas coisas. Além disso, como é que se podia ser tão inteligente, tão esperto, tão brilhante? Em retrospectiva, é fácil ver que em muitos aspectos ele tinha os sintomas clássicos do «distúrbio de défice de atenção». Mas, na altura, nem os médicos viam isso com clareza. Disseram-me que 90 por cento das crianças que manifestam os mesmos comportamentos de Nick deixam de os ter, o que faz com que os pediatras e os psiquiatras tenham relutância em fazer esse diagnóstico. Muitas das crianças deixam de os ter. Nick não. Eu própria achava ridículo preocupar-me com ele.

Nicky era invulgarmente inteligente e extremamente avançado, e com aquele tipo de inteligência era de esperar alguns comportamentos estranhos e algumas coisas que eram diferentes. Senti-me ridícula e ingrata por pôr em questão dons como os de Nick, e, aliviada, deixei de pensar no assunto. Que problema poderia haver com uma criança como Nick?

 

CASANOVA

Sair com alguém, com Nick em casa, era um pesadelo. Há muito que ele ocupava grande parte do meu tempo, e juntamente com Beatrix eram o ponto focal da minha existência. Entre o trabalho e os meus filhos, eu não tinha tempo, nem energia, para sair com alguém, nem sequer interesse. Finalmente, comecei a arranjar espaço na minha vida para outras pessoas. Bili partira há muito, e eu passara por um período difícil a tomar conta de Beatrix e Nick sozinha. Estava disposta a arranjar um companheiro na minha vida, mesmo que apenas numa base ocasional.

Porém, Nick tinha-me por sua conta, completamente apaixonado por mim e Beatrix, e não via qualquer necessidade particular de. ter um estranho por perto. E fez-me saber isso em termos precisos.

Aos dois anos, Nick articulava bastante bem as palavras, tanto em espanhol como em inglês. Ficou bilingue durante toda a vida, e falávamos muitas vezes em espanhol. O francês é a minha língua materna, e tentei acrescentá-la ao repertório de Nick, particularmente porque Beatrix e eu falávamos mais francês que inglês. Ela passara os seus Verões em França, durante toda a vida, com a família, falava com fluência, e era mais cómodo para mim falar-lhe em francês. Mas mesmo sendo uma criança pequena, Nick detestava francês e recusava-se a aprendê-lo ou a falá-lo. Ao longo da vida, gozava comigo quando eu o falava, exagerando na pronúncia e fazendo uma imitação algaraviada. Eu metia-me com ele porque ele tinha um sotaque espanhol quando me imitava em francês. Ele resolveu cedo a questão: fossem quais fossem as minhas origens, era uma língua ridícula e recusou-se terminantemente a aprendê-la ou a deixar-me falá-la à vontade quando estava perto.

No entanto, fosse qual fosse a língua que os meus pretendentes falassem, ele levava a melhor sobre eles com facilidade, e dava um espectáculo interminável. Eu contratava baby-sitters para ele e Beatrix quando saía à noite, e tinha uma governanta salvadorenha, Lucy, que chegou pouco depois do primeiro aniversário de Nick. Ainda está comigo e adorava Nick. Eu esperava que as baby-sitters pusessem as crianças na cama a uma hora decente. A minha esperança quando regressava a casa era encontrar Nick enroscado como um querubim na sua cama. Eu olhá-lo-ia com ar temo da entrada. Era uma autêntica fantasia que não tinha qualquer relação com a realidade durante os meus anos de saídas especiais. Quando eu chegava a casa, Beatrix dormia profundamente, a baby-sitter dormitava em frente do televisor, e Nick estava à minha espera e dava um pulo para a porta no momento em que ouvia a chave a rodar na fechadura. Confesso que o coração quase deixou de bater mais de uma vez, quando abria a porta cautelosamente e o encontrava a olhar para mim com ar de maçarico, um brilho perverso nos olhos e a olhar apreciativamente para o meu acompanhante, que não fazia qualquer ideia do que Nick lhe reservava.

Mandava Nick para a cama, e geralmente tinha de ser eu a levá-lo e a aconchegá-lo, admoestando-o para não sair de lá. Depois, acordava a baby-sitter, pagava-lhe e acompanhava-a até à porta, enquanto o meu insuspeito acompanhante tomava uma bebida. Depois de me despedir da baby-sitter, Nick reaparecia com o seu pijama com pés, e oferecia-se para mostrar os brinquedos ao meu acompanhante, embora ele geralmente desse ao convite um tom sofisticado e atraente. A um amigo que era conhecedor de armas raras, Nick ofereceu-se para lhe mostrar a sua colecção de armas, e o meu acompanhante achou-o tão irresistível e adorável que desapareceu pelas escadas acima de mãos dadas com Nick, enquanto eu sperava no sofá, a rezar para que Nick o libertasse o mais depressa possível, mas naturalmente isso não acontecia. Quando Nick o deixava finalmente vir para baixo, tal como a baby-sitter, eu estava a dormir profundamente em frente do televisor, e já era uma hora ou duas da manhã. A maioria das vezes, os meus acompanhantes achavam-no encantador. Às vezes, ele irritava-me mesmo, e quase podia jurar que ele o fazia de propósito.

A minha vida amorosa, com Nick em casa, era inexistente. Ele nunca ia dormir, era impossível mantê-lo na cama, agia como se os homens da minha vida estivessem a visitá-lo a ele e não a mim, e às vezes acho que tinha razão. Aqueles com quem continuo a manter relações de amizade ainda recordam ternamente as longas conversas nocturnas com Nick.

Nick também estava absolutamente enamorado das mulheres. E tal como eu já achara anteriormente, parecia um homem adulto num corpo de criança. A sua paixão por mulheres bonitas era extrema. Ele tocava, abraçava, fazia festas, e quem é que suspeitaria que uma criança de dois anos tivesse outros intentos que não o de ser carinhoso? Eu suspeitava. Conhecia-o melhor. Mesmo com dois anos, Nick era um Dom Juan em formação.

Ele costumava espreitar a minha governanta, gatinhava para baixo da saia dela e dava-lhe palmadinhas no rabo, depois ria provocadoramente. Era o riso que o denunciava. Fazia-me lembrar o meu pai, que também era um verdadeiro Casanova, e a minha avó queixara-se de que ele, já em criança, andara atrás de mulheres bonitas. Tal como Nick.

Quando o levava à casa de gelados vizinha a comprar um cone, ficava invariavelmente na fila com um ar inocente, procurava uma boa posição e apalpava o rabo de uma mulher. Certa vez, deixei-o ir comprar o gelado com um amigo, que voltou com um ar um pouco envergonhado, enquanto Nick babava com ar inocente o fato-macaco de gelado de chocolate e hortelã-pimenta. Aparentemente, ele dera a apalpadela do costume, e a mulher da sua escolha virara-se enfurecida, pensando que o homem que acompanhava Nick é que a apalpara, e descompusera-o aos gritos. Ele ficou de tal modo embaraçado que nem sequer tentou acusar o verdadeiro perpetrador do crime: Mr. Nick. Quem é que acreditaria que fora uma criança de dois anos a fazer aquilo?

E quando íamos para a casa de praia que ainda alugávamos naquela altura, ele sugeria alegremente que fôssemos para a praia «dar abraços às senhoras». Adorava mulheres! Sempre adorou! Era uma situação que, com o tempo, piorou em vez de melhorar. Era infinitamente fascinante, dava vontade de abraçar, era adorável, e as mulheres rodearam-no durante toda a sua vida. Era irresistível, tinha um encanto inocente e um magnetismo tal que as mulheres se sentiam atraídas por ele do mesmo modo que as abelhas são atraídas pelo mel. Tenho de admitir que 'muitas das vezes isso me divertia. (É muito diferente ser mãe de um filho do que de uma filha.)

Ele costumava contar-me histórias interessantes quando era pequeno. As vezes, passava horas a falar de coisas. Dávamos passeios, íamos até ao parque, ou então ficávamos sentados na pequena varanda do quarto dele ou no jardim. Foi durante uma dessas conversas que, um dia, ele olhou para mim com ar pensativo e começou o que ia a dizer-me com: «Quando eu era grande ... » Depois, continuou e contou-me uma longa história. Não consegui evitar perguntar-lhe o que é que ele queria dizer com aquilo. «Que queres dizer com "quando tu foste grande"?»

Pareceu-me estranho, e até um pouco misterioso, uma criança dizer aquilo, e fiquei enervada, mas ele explicou com um ar pensativo, como se tentasse lembrar algo.

«Eu fui grande há muito tempo, e agora sou outra vez pequeno. Mas quando era grande ... » E prosseguiu, enquanto eu o observava, e depois olhou-me de forma estranha. «Eu estava aqui antes», disse calmamente, «e era grande.» Parecia certamente uma coisa estranha, e não o questionei mais. Aquilo deixou-me bastante incomodada, tinha tocado em coisas que eu não queria saber. Mas nunca esqueci. Não sei se estava a divagar com o seu ar pensativo e inteligente, se estava a falar de uma fantasia, ou se havia algo mais que isso. Porém, eu não estava, nem estou, preparada para o saber.

Em contraste com a sua extrema inteligência e precocidade, havia, naturalmente, também a sua faceta de criança. Era amoroso, adorável, afectuoso e muito carinhoso. Era uma criança deliciosa e, aos dois anos, Beatrix e eu adorávamo-lo mais que nunca. Ele sentia necessidade de companhia masculina nalgumas ocasiões, e aproveitava alguns dos homens com quem eu saía para falar ou brincar, mas nunca mantinha uma ligação séria com nenhum, tal como eu. Nicky gostava de me ter a mim e Beatrix só para si. Tinha um pequeno mundo que rodava quase exclusivamente à sua volta. Dois anos e pouco depois do seu nascimento, continuava a ser a dádiva que era desde o início. Beatrix e eu considerávamo-lo uma enorme bênção nas nossas vidas, e quando não era eu a mimá-lo, a beijá-lo, a acariciá-lo e a dar-lhe carinho, era ela, ou Lucy, a minha governanta. Nicky tinha o seu pequeno harém, e todas o adorávamos.

Foi difícil habituar Nicky a ir à casa de banho. Do mesmo modo que aprendeu tudo rapidamente, parecia achar essa ideia chata e não lhe dava a mínima atenção. Aos dois anos e meio, ainda fazia chichi na cama à noite, e também faria na minha, só que eu punha-lhe fraldas. Embora fizesse no bacio durante o dia, fazia da mesma maneira que eu e a irmã fazíamos. Não havia nenhum homem na minha vida que o conseguisse ensinar de outra maneira. E como era incapaz de lhe ensinar uma técnica que eu nunca adquiri, comprei-lhe uma coisa chamada «alvos flutuantes»: pequenos alvos de papel e naves espaciais que flutuavam na sanita. Nick tinha de lhes acertar e de os afundar. Deram muito bom resultado, e apesar de não haver nenhum homem na casa, Nick aprendeu bem a lição. Ainda tenho alguns guardados algures num armário, e sorrio quando os vejo. Era um jogo engraçado, mas ensinou-lhe aquilo que ele precisava de saber, e fazia-o rir e gritar de alegria enquanto o jogava.

Tinha uma paixão absoluta por certas coisas. Ficava obcecado com um brinquedo, uma personagem ou um filme. Foi a Rua Sésamo. durante uns tempos, pouco depois tornou-se o Homem-Aranha. Vivia para o Homem-Aranha, e tinha de fazer tudo como ele. Usava pijamas do Homem-Aranha para ir para a cama, sapatilhas do Homem-Aranha para ir para o parque, T-shirts do Homem-Aranha, bebia por uma chávena do Homem-Aranha, comia em pratos do Homem-Aranha e, naturalmente, tinha um boneco do Homem-Aranha... bolo de aniversário do Homem-Aranha... tudo do Homem-Aranha. E passava o tempo todo a fingir que era o Homem-Aranha. Foi uma paixão que se prolongou durante muito tempo, até que o substituiu por uma nova obsessão. Depois do Homem-Aranha veio A Guerra das Estrelas, e dez milhões de figurinhas de acção que coleccionou durante anos.

Nick adorava jogos em que conseguisse fantasiar, onde pudesse ser a personagem central e inventar coisas. Preferia isso de longe aos jogos em grupo, onde tinha de seguir regras e submeter-se à forma de jogar de outra pessoa. Uma coisa desse género aborrecia-o instantaneamente e não dava qualquer atenção. Mais tarde, quando nos apercebemos das suas dificuldades de aprendizagem, que eram difíceis de imaginar naquela altura, interroguei-me se, pelo facto de ele não conseguir efectivamente seguir regras e instruções, pura e simplesmente não as ignoraria. A sua vida de fantasia era rica.

Tal como quando era mais novo, Nick possuía ideias muito definidas quando tinha dois anos e meio e, se não queria fazer alguma coisa, era difícil convencê-lo. Ficava agressivo, zangado e teimoso. Se não gostava de algo que se planeava fazer, era quase impossível conseguir que aceitasse a ideia. Era difícil levá-lo a alguns sítios, porque, se não gostava do que estava a acontecer, fazia-nos a vida um inferno. Às vezes, isso preocupava-me. Era fácil dizer que estava mimado, que era o que o pediatra dizia quando eu falava nisso. Nick era tão teimoso nalgumas ocasiões que me deixava apreensiva.

O pediatra era uma pessoa experiente e inteligente, e reconheço agora que muitas destas primeiras diferenças surgiam com pouca importância. Pareciam todas tão triviais e relativamente normais! Só posteriormente é que conseguimos ver ao que conduziram. Ao princípio, é muito fácil não dar importância a essas coisas, aligeirá-las ou até explicá-las. Mas já nessa altura eu tinha a torturante sensação de que Nick era diferente, e de tempos a tempos ganhava coragem para dizer isso a um amigo. Era sempre reconfortante para mim quando os sinais de aviso que eu referia eram explicados. Mas, apesar das explicações aceitáveis, a torturante sensação de mal-estar mantinha-se. Só esperava estar enganada, e que ele fosse tão normal como eu queria que ele fosse.

Nick vivia num mundo em que ele era o constante centro de atenção. Duas mulheres e uma rapariga apaixonadas por ele. Não se vislumbrava um homem regular que tivesse mão firme nele, não na verdadeira acepção da palavra, mas que usasse uma voz severa de vez em quando e o impressionasse um pouco. Todas as suas venetas eram ordens para nós, e adorava-o tanto e achava-o tão único e maravilhoso que estava completamente dominada pelo seu feitiço, tal como todos os que o conheciam. Ainda era «incrível!» aos dois anos e meio, e toda a gente que o conhecia dizia isso. Era fácil dizer que estava mimado, e os ocasionais acessos «difíceis» eram facilmente atribuídos ao facto de ser extremamente amado por demasiadas mulheres e não ter a figura do pai no seu mundo.

Por volta dessa altura, John Traina entrou romanticamente na minha vida. Era um homem bonito, elegante, fogoso, que me deslumbrou com a sua simpatia, boa aparência, charme e sofisticação, e por quem me apaixonei profundamente. Tinha-se separado há pouco, depois de um casamento de dezasseis anos. Era muito sociável, muito mais que eu, tinha dois rapazes pequenos, e durante o casamento foi obviamente um bom pai para eles, como eu verificara durante anos enquanto éramos simples amigos. Eu estivera sozinha durante muito tempo, e a minha vida fora uma luta. Os meus casamentos anteriores tinham sido decepcionantes. As minhas recentes incursões no mundo do namoro eram esporádicas e não tiveram qualquer significado para mim. Mas depois do trauma que tivera com Bill, depois de tocar, se bem que perifericamente, um mundo que me assustava, o mundo são e elegante de John parecia ser um lugar seguro e maravilhoso para mim. Era o Príncipe Encantado com que sonhara.

John arrebatou-me completamente e, depois de namorarmos durante seis semanas, pediu-me em casamento, no Dia de São Valentim. Não nos conhecemos tão bem como devíamos ter conhecido, e acabámos por pagar um preço por isso. Mas, durante longos anos, partilhámos um mundo seguro e feliz, onde os sonhos pareciam tornar-se realidade.

Foi também muito importante para mim o facto de ele parecer gostar dos meus filhos, e eu adorava os seus dois filhos, Trevor e Todd, que conhecera durante anos através da minha filha, e que tinham vindo brincar muitas vezes com Beatrix e Nicky, Formavam um quarteto perfeito. Era uma família recém-formada, e eu adorava o facto de John querer mais filhos. Eu também queria.

John parecia gostar muito de Nick, embora expressasse cautelosamente uma ou duas vezes que Nicky não era uma criança fácil, o que na altura era atenuar a verdade dos factos. Lembro-me de certa vez, quando namorávamos, que John nos levou a passear de cabriolé no cais e Nick fez uma birra tremenda. John esforçava-se por agradar-lhe, mas Nick protestava de tal maneira que fiquei envergonhada. Tive vontade de lhe pôr a mão na boca para abafar as coisas horríveis que ele estava a dizer. Pensei que nunca mais veria John, mas fiquei aliviada quando vi que ele parecia não estar atrapalhado com a situação. Nick não nos facilitava as coisas. Sentindo que a nossa relação era séria, Nicky tinha uma grande desconfiança relativamente a ele, e não ficava embaraçado de dizer o que muito bem queria quando bem entendia.

Foi um romance turbulento. Seis semanas depois de começarmos a sair, ficámos noivos, e casámos exactamente quatro meses depois. Fomos para o casamento com grandes esperanças e sonhos de amor. John parecia ser o protector que eu há muito esperava. Ansiava por uma vida longa e feliz com ele, rodeada pelos nossos filhos. Era evidente que o casamento seria bom para mim, bom para os meus filhos e, esperava, também bom para os filhos de John. Eu estava louca por eles, pois eram suficientemente simpáticos para me receberem de braços abertos. E Nicky estava mais que intrigado com a perspectiva de ter dois irmãos. Do seu mundo todo feminino, ele estava prestes a ser catapultado para uma família autêntica, com dois irmãos e um pai. Parecia que todos os meus sonhos se tinham tornado realidade, e estava feliz por todos nós. A vida dera a volta finalmente. O destino acabara por nos sorrir. E Nicky tinha um novo pai.

Logo após o casamento, John e eu fomos passar uns dias a Nova Iorque, onde ambos tínhamos negócios. Chamei-lhe na brincadeira uma «lua-de-negócios», e encarei-a com alguma ansiedade. Era a primeira vez na vida de Nick que eu me separava dele, e senti um aperto no coração ao fazê-lo. Estava um pouco preocupada com a eventualidade de ficar dividida entre John e os meus filhos. Durante toda a sua vida, eles tinham sido o objecto de todo o meu amor, responsabilidade e interesse. Nunca partilhara a vida com ninguém que fosse um rival dos meus afectos, e não estava muito segura de como é que as coisas iriam funcionar, ou do que os meus filhos achariam, particularmente Nicky. Estava tão acostumada a devotar-me a ele, e à irmã, que sabia que ia ter de me adaptar (e eles também) a ter um marido com quem partilhar a vida. E, em deferência a isso, planeámos gozar a nossa lua-de-mel cinco semanas depois e levar os três filhos mais velhos connosco para a Europa. íamos deixar Nicky em casa, e fiquei preocupada com isso.

Curiosamente, como veio a acontecer, nunca fomos gozar a lua-de-mel. Adoeci pouco antes de partirmos, e suspeitava-se que eu sofria de apendicite. Convencido de que me recomporia e de que era uma coisa sem importância, John partiu para a lua-de-mel com os três filhos mais velhos e sugeriu que eu fosse ter com eles mais tarde, o que nunca aconteceu. Em vez disso, fiquei em casa com Nicky, o que era, de alguma forma, um alívio, porque detestava deixá-lo, embora ficasse desapontada por não me juntar aos outros. Já para não falar no facto de eles terem ido gozar a minha lua-de-mel, e eu não. Fiquei em casa com Nicky.

Pouco antes de eles partirem, Nicky apareceu no nosso quarto certa manhã, só com a fralda, ensopada em chichi. Tinha então três anos. Descalço, as mãos nas ancas, olhou para John com ar de descontentamento e disse: «Mister Traina, fique a saber que eu a quero só para mim.» Nick era, já então, e sempre o foi, honesto consigo mesmo. Não havia mal-entendidos com ele. E depois de olhar com ar furioso para o seu novo pai, deu meia volta para sair do quarto, lançou um olhar fulminante a John e fechou a porta firmemente atrás de si, enquanto fazíamos um esforço enorme para não sorrir.

 

IRMÃOS E OUTRAS ALTERAÇõES

Com a exactidão possível neste tipo de coisas, posso dizer com grande margem de segurança, e muitas vezes pensei no assunto, que concebemos Samantha na semana que se seguiu ao casamento. O mal-estar que me afastou da lua-de-mel veio-se a verificar não ser apendicite, mas Samantha. Embora esperássemos algum tempo para contar às crianças, ficámos bastante contentes. Não foi um acidente, queríamos ter um filho, e John ansiava por uma rapariga.

Muito pouco tempo depois de nos termos casado, para minha surpresa, o pai de Nick apareceu e quis ver Nicky. Fiquei preocupada com o seu contínuo estilo de vida e com os efeitos que isso poderia ter sobre Nicky.

Ao mesmo tempo, soube que Nick era, por uma razão misteriosa, extremamente atreito a infecções fortuitas. Se alguém lá em casa apanhava uma constipação, ele apanhava uma maior, ou pior ainda, uma pneumonia. Se se cortava, apanhava uma infecção. Nunca ninguém soube porquê, mas, durante toda a sua vida, ele foi extremamente atreito a todos os tipos de infecções. E pensámos na eventualidade do seu sistema imunitário não ser perfeito. Perante isso, fiquei fora de mim ao pensar que ele recebia a visita de alguém que era um viciado em drogas. E muito mais fora de mim fiquei ao imaginar Bill a levá-lo a qualquer lado. Na minha opinião, ele não estava em condições de fazer isso.

Grávida de Samantha, e extremamente preocupada com Nick, fomos para o tribunal, e o tribunal mostrou-se compreensivo em relação às minhas preocupações. Concordaram em deixar que Bill visitasse Nick, mas na nossa casa, e sob a minha supervisão. E, para ser franca, isso não me dava nenhum prazer. Bill veio visitar Nick uma série de vezes e, quando o fazia, víamos que ele ainda não tinha resolvido os seus problemas. Era uma situação muito desagradável. O seu reaparecimento não me pareceu ser um complemento feliz para a vida de Nick, e fiquei preocupada com o facto de ele poder confundi-lo. Nessa altura, Nick estava extremamente ligado a John.

Porém, ao mesmo tempo, reparei que Nick parecia andar sempre muito agitado, um pouco hiperactivo, e estava extremamente desgostoso com o bebé. O olhar ganhou subitamente uma espécie de brilho perverso, como que para provar que ele era meu e eu lhe pertencia, e nada iria intrometer-se entre nós. Tentei sossegá-lo, mas acho que não o convenci.

Foi uma altura difícil para Nick. Mudara muita coisa na sua vida em pouco tempo. Tinha um novo padrasto, dois novos irmãos a quem teria de adaptar-se, uma casa nova, um novo bebé que vinha a caminho, que ele encarava como uma grande ameaça, como muitas crianças de três anos teriam encarado, e o seu pai biológico entrara de novo na sua vida, muito embora lhe fosse completamente estranho. Se estivesse no lugar de Nick, ter-me-ia interrogado: «Quem são todas estas pessoas?»

John era extremamente cuidadoso e gentil com Nick, e respeitava a relação que eu mantinha com ele. Mais tarde, ele disse que não quisera intrometer-se porque sabia, e era fácil de ver, que Nicky ficaria muito ressentido. Aos olhos de Nicky, eu pertencia-lhe exclusivamente, e não queria partilhar-me nem com John, nem com os rapazes, nem com o bebé que estava prestes a nascer. Muitas vezes me senti dividida entre duas facções: Nick e Os Outros. Passava muito tempo com Nick, mas ele continuava insaciável, querendo mais de mim do que aquilo que eu tinha para dar, como que para me obrigar a provar-lhe quanto o amava. E amava-o mais que nunca, mas agora havia outras pessoas na minha vida e na dele.

Tomámos uma decisão importante no que diz respeito à nossa família, e resolvemos que iríamos educá-los como uma só família: irmãos e irmãs. Muito simples. Nem meio-irmão, nem madrasta, nem padrasto, fosse lá o que fosse. Eles eram os nossos filhos, sem distinções de quem viera com quem, ou de qual era o grau de parentesco (e assim se manteve até hoje, não só connosco, mas com eles). As crianças eram suficientemente jovens e gostavam umas das outras para fazer isso. Beatrix, Trevor e Todd eram bons amigos há já alguns anos. E os rapazes eram maravilhosos com Nicky, aceitando-o como seu irmão desde o primeiro dia.

Quando nos casámos, Beatrix, Trevor e Todd tinham respectivamente treze, doze e onze anos de idade. Não negámos as suas outras relações: com o pai de Beatrix e com a mãe dos rapazes. O pai de Beatrix visitava-nos muitas vezes, conhecera John na juventude, haviam passado os Verões no mesmo sítio e John namorara uma das irmãs dele. Havia uma grande intimidade. No que dizia respeito às crianças, elas formavam uma unidade. Era reconfortante para Beatrix, penso eu, porque o pai vivia a quatro mil e oitocentos quilómetros de distância, e na Europa o resto do tempo, não estando disponível todos os dias, e os rapazes dividiam o seu tempo entre nós e a mãe. Nesses dias, e durante muito tempo, mas mesmo muito, todos se sentiam muito felizes. Até Nicky. Embora fosse o mais difícil de contentar e aquele que parecia ter mais dificuldades em adaptar-se.

As visitas de Bill acabaram em breve. Desapareceu novamente das nossas vidas, mas deixava mensagens para Nick no atendedor automático, fingindo ser o Drácula. Isso tinha tanto de assustador como de fascinante para Nick. E ficou obcecado pelo Drácula, tal como estivera anteriormente pelo Homem-Aranha, falando dele constantemente, não do seu pai, mas de Drácula. E ao mesmo tempo, começou a fazer desenhos horríveis de pessoas a matarem-se umas às outras, espadas espetadas e sangue a pingar dos membros. Era um grande contraste com os desenhos de qualquer outra criança que alguma vez conhecera. Não acho que isso tivesse alguma coisa a ver com as visitas do pai, mas os temas dos desenhos preocupavam-me. Discuti o assunto com um psiquiatra, que apenas me disse que ele tinha uma imaginação prodigiosa e que não via qualquer sintoma de algum problema. Mas sempre que ele fazia um desses desenhos, e fazia-o com muita frequência, ficava assustada. Pu-los em álbuns para os mostrar a outro psiquiatra e, uma vez mais, foi-me dito que não tinha nada que me preocupar.

Duas semanas depois de Nick fazer quatro anos, Samantha nasceu. E Nick ficou lívido de cólera, exasperado, sentia-se traído, e estava furioso comigo e com o bebé, de uma forma desmesurada. Ultrapassava a rivalidade entre irmãos e aproximava-se de algo que me fazia lembrar The Bad Seed. Estava constantemente preocupada com ele, e fiquei aborrecida por ele ter tantos ciúmes de Samantha.

Os desenhos pioraram, tornaram-se mais abundantes e mais negros. Há mais de um ano que não fazia desenhos com cores alegres. Só cores escuras. Tenho centenas deles. Continuava a fazer chichi na cama todas as noites, e estava mais difícil que nunca. Passava a maior parte do tempo encolerizado, depois o Sol descobria-se por entre as nuvens, e ficava subitamente terno e amoroso, por instantes, até outra tempestade se abater. Era uma criança colérica a maior parte do tempo, com quem era cada vez mais difícil de lidar em casa. Contudo, no infantário diziam que ele era delicado, inteligente e encantador, surpreendentemente adulto (não era nenhuma surpresa para mim, sempre o fora), e ainda encantava todos os que o conheciam. Nicky era sempre incrivelmente carismático e sedutor.

Eram as pessoas que viviam com ele que suportavam a maior parte da sua cólera. Eu era extremamente bem sucedida na altura, escrevendo de noite e passando o tempo com os meus filhos de dia. A minha vida era uma corrida constante a ir levar e a buscar as crianças à escola, de actividades extra-escolares e de passeios com as crianças mais velhas. Adorava estar com elas.

Quatro meses depois de Samantha nascer, fiquei novamente grávida, mas ainda não dissera às crianças, quando a perdi dois meses e meio depois. E voltei a engravidar, desta vez de Victoria, menos de duas semanas depois de ter abortado. Toda a minha atenção continuava centrada nas crianças, como estivera durante anos, só que lia via mais. Trabalhava durante a noite, enquanto John e as crianças dormiam, e nunca falávamos muito acerca disso.

Por essa altura, Bill voltou a aparecer, uma vez mais a exigir o seu direito à visita. Voltámos ao tribunal, com base no insucesso da última série de visitas, no seu carácter esporádico e nos efeitos negativos que tinham tido sobre Nicky. Desta vez, o tribunal estabeleceu que a visita se realizasse num estabelecimento psiquiátrico com a presença de um adulto.

Nick chorava frequentemente e pedia para não ir. Parecia traumatizado com todo o processo. Não foram tempos fáceis para Nicky e, durante esse tempo, o tribunal exigiu que Nick fosse observado por um psiquiatra para avaliar o seu estado, e também o mandámos observar por um da nossa confiança, para uma avaliação independente do que as visitas lhe estavam a fazer. Mas a ideia dominante na altura era a de que os pais biológicos, independentemente dos danos que possam provocar, são vitais para o bem-estar de uma criança.

E este pareceu-me ser um momento adequado para mostrar os intermináveis álbuns que eu tinha dos terríveis desenhos negros de Nicky, mas ninguém se mostrou impressionado com eles. Estava profundamente preocupada e convencida de que havia algo de errado com eles, e possivelmente algum problema com Nicky. Aos quatro anos, ainda fazia chichi na cama, passava a maior parte do tempo colérico, com terríveis ciúmes de Samantha e aborrecido com as visitas forçadas de Bill. De vez em quando, fazia cocó na banheira. Uma vez na almofada. E,

doutra vez, besuntou a parede com ele. Tudo isso era indicativo, estou certa, de um qualquer problema muito profundo. Eu continuava a acreditar que havia algum problema com Nick, não devido a forças exteriores, mas devido a algo profundo dentro dele. Mas os psiquiatras deram-me a mesma resposta acerca do seu brilhantismo, do seu génio, de eu o mimar, e agora o trauma dos novos irmãos. Não cheguei a conclusão nenhuma. Os álbuns voltaram para o armário. Não haviam impressionado ninguém. Mas eu estava constantemente preocupada com ele. Sentia-me torturada por dentro, a sensação de que algo estava mal e ninguém ouvia.

As visitas de Bill pararam novamente. Fora uma situação difícil para Nick, que primeiro não queria ir e depois parecia ficar aborrecido por ter de ir ver Bill. E quando, por uma razão qualquer, Bill deixou de aparecer, como algumas vezes acontecia, Nicky chegava a casa com a sensação de que fizera alguma coisa que o aborrecera. Ficava preocupada por Nick se sentir rejeitado, ansioso e culpado nessas circunstâncias. Mas, quando Bill desapareceu desta vez, não voltou a aparecer. Desapareceu para os mistérios da sua própria vida e não voltou a entrar na de Nick. As visitas acabaram para sempre. E por maior que a perda possa ter sido para cada um deles, a um nível psicológico profundo, fiquei aliviada para bem de Nick. Eu achava que as visitas eram demasiado traumáticas para ele.

Nick tinha cinco anos e meio quando Victoria nasceu. Tive um parto fácil desta vez (o único), passei só uma noite no hospital e vim para casa com ela na manhã seguinte. Nick sofreu um forte ataque de asma nessa noite, e teve de ser levado para o hospital. Não era o primeiro que tinha (tenho asma, tal como cinco dos meus sete filhos), embora nunca tivesse tido um daquelas proporções. Não gostava de Victoria, mas, com o passar do tempo, ignorou-a. O seu ódio e ressentimento estavam centrados em Samantha a maior parte do tempo.

Era uma criança colérica, vingativa e ressentida. Era compreensível que tivesse ciúmes de Samantha e de Victoria, e estivesse aborrecido com o novo desaparecimento de Bill, mas, apesar dessas possíveis causas para a aparente beligerância, as suas reacções pareciam desmesuradas. Estava constantemente a acalmá-lo e a desculpá-lo, tentando melhorar-lhe as coisas. Adorava-o tanto que detestava vê-lo assim infeliz. Nick resistia aos esforços de toda a gente para o levar a passear. Geralmente, eu era a única pessoa que conseguia tirá-lo de detrás das suas muralhas, e muitas vezes também se zangava comigo. Afinal de contas, eu era a traidora que trouxera para casa os novos bebés. Mas, por mais colérico que andasse, continuava profundamente ligado a mim.

Eu protegia-o extremamente, estava sempre a desculpá-lo e a defendê-lo, e ele sabia bem. Nick confiava em mim, mesmo quando estava zangado comigo. Olhando para trás, era como se houvesse uma dor latente dentro de mim, uma dor que ele não sabia como acalmar ou tratar. Não era uma criança fácil de amar ou lidar. Quando pensávamos que o tínhamos na mão e que havíamos ganho a sua confiança, ele virava-se contra nós. Também fazia isso comigo, mas nunca entendi isso como uma questão pessoal; sempre consegui ver algo para além disso. Já nessa altura eu suspeitava que havia algo que o corroía, algo que estava para além dos motivos evidentes para a sua cólera. Eu já sabia então, aos quatro anos, e até mesmo aos cinco, que havia algum problema com ele, mas não sabia como lhe chamar e, sempre que o tentava fazer, sentia que ninguém me dava ouvidos.

Falei com um dos psiquiatras que o viu, mas disse-me que ele estava bem; a única coisa de que precisava era de disciplina. Mas eu sabia que era mais do que isso. Tal como Nicky, sentia-me cercada de muralhas de silêncio, aprisionada por aquilo que eu achava ser ignorância da parte das pessoas. Talvez o facto de saber, ver e sentir o problema me tenha ligado mais a Nicky. Só nós sabíamos o fogo profundo que já começara a consumi-lo.

Apesar de tudo, nasceu outra irmã, Vanessa, quando Nick tinha seis anos e meio. Porém, ele pareceu ficar indiferente com esta. Continuava a atormentar Samantha. Foi um ódio que perdurou durante vários anos, como um fogo eterno, até que, subitamente, transformou-se num amor da mesma intensidade vários anos mais tarde, quando tinha doze ou treze anos, e ela se tornou a irmã a quem estava mais ligado. Adoravam-se. Em cada instante da sua vida, Sam idolatrava-o, adorava-o e ele amava-a tanto como ela a ele. Ter-me-ia sentido mais confortada naqueles primeiros anos se soubesse o que iria florescer entre eles: um elo de confiança, lealdade e paixão que ultrapassava todos os outros. Seis meses mais tarde, quando Nick tinha sete anos, voltámos ao tribunal, desta vez para anular os direitos de paternidade de Bill, de modo a que John o pudesse adoptar. Era uma coisa que Nick queria, tal como nós todos. O julgamento começou no dia do sétimo aniversário de Nick. Bill já não via Nick há vários anos, e nunca pediram a Nicky para comparecer no tribunal, felizmente. E o tribunal decidiu que Bill o abandonara anos antes; anularam os seus direitos de paternidade e John adoptou Nicky. Deve ter sido uma ocasião triste para Bill. Não falámos. Eu detestava o que ele fizera com a sua vida, e nessa altura ainda me sentia traída por ele. Ele parecia estar a anos-luz de mim.Fizemos uma festa de adopção para Nick, em casa, com um grande número de amigos nossos, e Nicky parecia contente por ter sido adoptado. Os mais velhos estavam a par da situação, mas Nick disse que não queria que os mais novos soubessem que John não era o seu pai verdadeiro. Ele fora efectivamente o pai com quem Nick crescera, e Nick não queria ser diferente dos outros. E durante vários anos depois disso, a adopção de Nick por John foi mantida em segredo dos seus irmãos mais novos. Era importante para ele, e respeitámos o seu desejo relativamente ao assunto.No entanto, apesar da sua evidente felicidade com a adopção, continuava a fazer algumas coisas muito estranhas e a ser difícil de lidar: chichi na cama acabara quando tinha seis anos, ia bem na escola, mas era uma criança colérica e difícil, que destruía os brinquedos constantemente e parecia estar sempre a nadar contra a corrente. Nunca se mostrava de acordo com o que se passava à sua volta ou com o que as outras pessoas faziam. Se íamos sair, ele queria ficar em casa. Se íamos ficar em casa, queria sair. Não tinha qualquer interesse em jogos normais, só em jogos de guerra, em brinquedos que lhe permitissem usar a imaginação, e os sangrentos desenhos a negro continuavam.Não consigo encontrar a razão ou o incidente que levou a isso, mas quando estivemos no Havai, de férias com a família, quando Nick tinha sete anos, lembro-me de olhar para ele e pensar que a situação era desesperada. Eu tinha a clara sensação de que ele estava profundamente perturbado, apesar de muitas vezes dar a impressão, a mim e especialmente aos outros, de ser urna criança normal. Mas eu sabia no meu íntimo que havia algum problema com ele, e receava que as coisas não se alterassem. Não fazia absolutamente nenhuma ideia de como o ajudar, ou de como modificar ou melhorar a situação.

E eu era ainda, naquela altura, a única pessoa que via o problema. Os meus esforços para o expor ao pediatra ou mesmo na escola, e para arranjar ajuda da parte deles, tinham sido infrutíferos. Eles aparentemente não viam qualquer problema. Só eu o via. Embora John me tivesse dito que tinha os mesmos receios que eu, mas tinha medo de os expressar.

Um irmão, Maxx, nasceu quando Nick tinha oito anos e meio, e nesta altura, Nick estava umas vezes contente, outras, ameaçador e ciumento. Tinha um rival, um irmão mais novo, embora mais tarde tivesse um imenso orgulho nele.

A paixão de Nick, na altura, era o basebol. Jogava-o, via-o, vivia-o e respirava-o, e começou de uma maneira obsessiva a fazer registos onde inventava jogos de basebol imaginários, com cada partida registada em elaborado pormenor, com a lista de todos os jogadores e das suas respectivas fichas estatísticas. Chegou a descrever pormenorizadamente um campeonato de basebol imaginário. Os registos, que ainda guardo, são extraordinários e brilhantes; há montões deles.

Nessa altura era também um apaixonado pela música, mas já o era desde os cinco anos. Ouvia a mesma música e adorava as mesmas bandas que os seus irmãos mais velhos adoravam, e ia muitas vezes ter com os amigos deles e fazia-lhes perguntas acerca das bandas que eles ouviam. Ao princípio, pensavam que ele estava a gozar, depois viam que ele falava a sério e sabia do que estava a falar. Era um profundo conhecedor da música deles. Foi a sua paixão de toda a vida, e que nunca se esvaneceu ou diminuiu. Era o que ele mais adorava, e aquilo em que era o melhor, embora fosse também um escritor talentoso, e eu disse muitas vezes, nos últimos anos, que ele escrevia melhor do que eu. O seu sentido do ritmo e a maneira de desfiar uma história eram requintados.

E quando a dança break se tomou a sua paixão, ele horrorizava os seus irmãos mais velhos dançando de forma hábil diante dos amigos deles. Tinha então seis anos. E conquistou a assistência no dia em que Trevor fez dezasseis anos. Também gostava de namoriscar as namoradas deles, que o achavam adorável e engraçado, o que compreensivelmente irritava muitas vezes os irmãos.

O último bebé, Zara, nasceu quando Nick tinha onze anos, e desta vez Nick ficou encantado. Já tinha idade suficiente para gostar dela e para não se sentir ameaçado (nessa altura ele ainda atormentava Samantha).

Nick, porém, estava a começar a revelar-se. A dor que o consumira por dentro durante anos estava a começar a manifestar-se com mais clareza. Parecia ainda mais difícil de controlar e de lidar. Destruía as coisas no seu quarto, embora nunca magoasse ninguém intencionalmente. Às vezes, brincava com as crianças mais novas com demasiada violência, mas nunca lhes batia nem magoava. Mas o que estava a ver cada vez mais nele preocupava-me constantemente. Estar com ele era como tentar acalmar um tornado. Num instante, estava impossível, no instante seguinte já estava gentil e terno. E apesar do facto de ele exigir mais energia e cuidados do que os outros oito irmãos todos juntos, eu sentia um elo inseparável que me ligava a ele e uma necessidade constante de o proteger. Sabia instintivamente que ninguém mais o compreendia como eu, nem percebia o sofrimento em que ele estava mergulhado. Era como uma semente que eu sabia ter tomado proporções assustadoras, e continuava a crescer, oculta, descontrolada, abandonada, e não havia nada que a detivesse. Era como um dragão enfurecido dentro dele, e o meu maior receio era que o devorasse.

Todavia, aparentemente ninguém conseguia ver o problema. Ele continuava a passar com distinção na escola, apesar de ainda ninguém ter conhecimento das suas dificuldades de aprendizagem, que ainda passavam despercebidas. O seu Q1 era tão elevado que o levava para além dos seus limites, e ele conseguia compensar isso como poucos.

Todos nós enfrentámos um desafio nesse ano, quando John teve um acidente quase fatal em casa: uma queda que quase o levou à morte. Todas as crianças ficaram assustadas e perturbadas, tal como eu. Nick ficou particularmente abalado com o facto e com medo de que ele morresse; recomeçou a fazer chichi na cama, a fazer cocó na banheira, embora apenas durante um curto espaço de tempo.

Porém, a sua perturbação passou algo despercebida porque os outros também se encontravam perturbados, até os mais velhos que estavam quase ou já na casa dos vinte. Mas Nick parecia estar em autêntico pânico. Depois acalmou, quando John ficou melhor, só que aos onze anos, ele comportava-se pior que nunca, e sempre contra a corrente.

Quando lhe disseram para vestir calças escuras e uma camisa clara para a festa de Natal da escola, vestiu calças de caqui e uma camisola de gola alta preta, e eu obriguei-o a sair do palco e a mudar-se. Outras pessoas achavam as suas «ideias independentes» divertidas, mas eu não. Eu sabia que elas eram um sinal de algo muito mais profundo e muito mais perturbador. Até hoje, não entendo por que razão é que as outras pessoas não viram isso. E difícil investigar por que motivo é que não o fizeram. Talvez não quisessem, ou não pudessem, ou estivessem assustadas. Mas eu sabia... oh, meu Deus, como eu sabia... e tão assustada que estava por ele. Mesmo nessa altura, no meu coração, apesar de todos os filhos que tinha, ele era o meu bebé... o único que eu sabia que sofria... e que precisava de mim de forma diferente dos outros. Teria feito qualquer coisa para o proteger, para mudar o curso dos acontecimentos, para o aliviar da dor e do dragão, com amor.. Porém, mesmo nessa altura, não consegui. E o dragão que o devorava lentamente estava a ficar maior.

 

SEXTO ANO:

OS DEMÓNIOS COMEÇAM A MOSTRAR-SE

Nick estava com onze anos e tinha uma nova paixão: a sua prancha de skate, embora a paixão principal na sua vida, o seu verdadeiro amor, fosse sempre a música. Parecia conhecer todos os conjuntos, as músicas e músicos do planeta, e impressionava toda a gente, sobretudo os amigos dos seus irmãos mais velhos, com os seus conhecimentos. E para uma criança da sua idade, tinha um gosto bastante sofisticado relativamente à cena rock. Estava familiarizado com todas as novas bandas, além das já conhecidas. Ao princípio, quando as pessoas entendidas no assunto falavam com ele, ficavam sempre a pensar que ele estava a «armar-se». Mas não estava. Ele sabia do assunto, geralmente muito mais que elas.

Aos onze anos, há muito que andava louco por uma amiga minha, Jo Schuman, que estava igualmente enamorada por ele. Ela era uma das poucas pessoas, e certamente a única no mundo, que conhecia tanto da cena musical como ele, pois o primo era fundador e director de uma importante empresa discográfica. Jo costumava levá-lo como convidado especial aos concertos importantes, e levava-o sempre para os bastidores com ela. Jo era uma das estrelas mais cintilantes no universo de Nick, e nutriram uma adoração um pelo outro desde o momento em que se conheceram até ao momento em que ele nos deixou.

Mas juntamente com o seu verdadeiro amor, a música, havia sempre uma compulsão suplementar: os seus imaginários (e autênticos) jogos de basebol. Ele jogava, e era muito bom jogador. Também coleccionava coisas memoráveis do basebol e, como tudo aquilo que ele adorava, tornou-se uma obsessão. Recolheu vasto material, e, como sempre, tinha conhecimentos muito adultos e sofisticados, acabando por reunir uma colecção notável de bilhetes, tacos assinados e bolas de basebol. Ao princípio, eram o Homem-Aranha e A Guerra das Estrelas. Agora eram as pranchas de skate. Ia andar de skate horas a fio, e andava constantemente a aperfeiçoar a sua prancha, comprando acessórios e fazendo-lhe alterações. Na nossa casa de campo em Napa, construiu sozinho uma enorme rampa de skate e colocou-a o mais inconvenientemente possível na entrada para os carros. O mundo de Nick girava sobretudo à sua volta e, no sexto ano, tornara-se extraordinariamente individualista, parecendo não ter qualquer interesse particular nas necessidades ou problemas de outras pessoas. O mundo de Nick girava exclusivamente à sua volta. Não era uma característica cativante, não o ajudando a dar-se com as outras pessoas. Na família, parecia passar por cima de toda a gente para conseguir os seus intentos. Era extraordinariamente obsessivo.

Aos onze anos, quando Nick estava no sexto ano, passei tempos mais difíceis que nunca com ele, e andava constantemente preocupada. Havia sempre uma torturante preocupação com ele. Não era como as outras crianças da sua idade, desse eu as desculpas que desse. Era mais brilhante, mais rápido, mais difícil, mais barulhento, mais intratável quando muito bem entendia, noutras ocasiões, mais doce. Tudo em Nick era de extremos, como se as cores com que pintava a vida fossem mais vivas e finas do que as de todos os outros. Era determinado quando queria fazer ou ter alguma coisa, e impiedoso nas tentativas para o conseguir.

Não posso fingir agora qualquer tipo de discernimento ou omnisciência mágicos. A única coisa que sabia era que Nick tinha problemas, e eu sentia uma dor constante dentro de mim, uma espécie de radar ou sonhar que me dizia que ele não estava bem. Mas não sabia como expor o problema. Continuava a indagar discretamente na escola, de tempos a tempos, se achavam que ele tinha algum problema. Ele ia bem e, sempre que eu sugeria que havia algum problema com ele, sentia que olhavam para mim como se fosse louca. Não viam as coisas que ele partia, nem os ataques de fúria que pareciam estar a piorar, nem tinham de lidar com o seu comportamento frequentemente obsessivo.

Não posso dizer agora que sabia tudo o que estava a acontecer. Não sabia. Não acordei um dia, bati com a mão na cabeça e disse: «Oh, meu Deus, evidentemente, o meu bebé é maníaco-depressivo.» Naquela altura, não sabia nada. O que eu sentia era que havia algum problema com ele, mas não conseguia dizer o quê, e o que desejava mais que tudo era que ele conseguisse ultrapassar o problema. Eu acho, do fundo do coração, que também tinha a esperança de que ninguém alguma vez desse com o problema. Uma vez que toda a gente insistia em dizer que ele era apenas brilhante e difícil, eu rezava para que as pessoas continuassem a vê-lo assim eternamente. Não queria que achassem que havia alguma coisa séria com ele, embora intimamente também fosse dessa opinião. Nem sequer ao meu marido disse. Não disse a ninguém. Tornou-se o meu segredo e, sempre que necessário, dava inúmeras desculpas por ele. «Está cansado, está constipado, isto é difícil para ele, as irmãs chateiam-no, os irmãos mais velhos têm ciúmes dele e não o compreendem.» Havia muitas maneiras de explicar o seu comportamento, mas apenas uma teria sido correcta; porém, estava encoberta por toda a nossa ignorância, pelas minhas orações que não a viam, e por aquilo que eu achava ser a contínua cegueira dos profissionais que a poderiam ter visto.

Nem o pediatra nem a escola me disseram que viam algo fora do normal em Nick, e mais tarde, durante muito tempo, fiquei ressentida com a escola por causa disso. Mas depois perdoei-lhes, porque, mesmo que tivéssemos sabido, julgo que nada poderíamos ter feito. A única coisa que poderíamos ter feito era dar-lhe medicamentos, que talvez lhe tivessem limado algumas arestas, tornando-o mais sociável, mas não o teriam curado.

Uma das coisas que provocou uma grande excitação em Nick nessa altura foi um concurso de playback, que se realizava na escola todos os anos, em Fevereiro. Era um grande acontecimento para todos os miúdos, mas muitos deles iam para as provas de selecção sem nada preparado, arranjavam uns amigos e discutiam durante meia hora acerca de qual a canção que fingiriam cantar. E quando o concurso propriamente dito chegava, eles tinham uma actuação em palco desastrada, andavam atabalhoadamente de um lado para o outro, faziam constantes fifias, mas tinham um ar doce e acriançado durante a actuação. Nick não era assim.

Para Nick, este era o seu momento de brilhar, a sua hora de glória, a sua tentativa para conquistar a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos. Começava a preparar-se meses antes, todos os dias, seleccionando cuidadosamente a sua «banda», escolhendo as canções, ensaiando-as regularmente, e, por fim, vasculhando os meus armários à procura de cabeleiras e roupa. As minhas botas de vaqueiro desapareceram, assim com as minhas T-shirts de lantejoulas que nunca vestia mas que tinha guardadas, um velho casaco de discoteca que também usou quando se vestiu de Prince, uma vez, na Noite das Bruxas (Prince foi outra das suas muitas obsessões, tal como acontecera com Michael Jackson anteriormente, The Police, Sting, Nirvana, Guns and Roses e um sem-número de outros). Para o concurso de playback, ele distribuía as cabeleiras que eu tinha mas nunca usava, e evidentemente quando voltavam para as minhas mãos estavam irreconhecíveis. Eu costumava resmungar: «Por que razão é que tens de fornecer guarda-roupa e cabeleiras para metade do sexto ano?» Mas Nick só vivia para o concurso de playback. Era a sua oportunidade de ser uma «verdadeira» estrela de rock durante algumas horas. E quando actuava, deixava toda a gente deslumbrada.

Utilizava luzes, instrumentos genuínos, e quando a sua «banda» passava das provas de selecção para o concurso propriamente dito, era como ver uma autêntica banda de rock a actuar num concerto a sério. Deixava toda a gente de respiração suspensa, e, naturalmente, após meses de trabalho afincado, em geral ganhava. Era um primeiro vislumbre da pessoa em que viria a tornar-se, mais tarde, na cena musical, do modo afincado com que trabalharia, da criatividade que teria, do modo firme como conduziria os outros músicos (por mais jovens e inexperientes que fossem) com quem trabalhava.- Nick era brilhante, e esses concursos de playback eram apenas um pequeníssimo vislumbre do futuro, a forma como se contorcia, se abanava e hipnotizava a assistência, mergulhando do palco para cima da multidão, dando pulos, e imitando todos os pequenos traços da banda que procurava igualar. Conseguia pôr-me o coração a cantar. Por muito que me queixasse do que ele fez às cabeleiras e às minhas botas de vaqueiro favoritas, sabia que tinha valido a pena. Adorava o que ele fazia. Quando o via com uma das minhas cabeleiras postas divertia-me pensar que, com o penteado certo, ele ficaria bastante parecido comigo. A maior parte das vezes achava-o parecido com o pai. A verdade era que ele não se parecia com nenhum de nós, parecia-se consigo próprio. Era um rapaz extremamente bonito, mesmo como criança. A acção que exercia nas mulheres continuou a crescer com o decorrer dos anos, nunca diminuiu. Elas adoravam-no!

Ainda era bastante atlético, embora o sexto ano possa ter sido o fim, ou melhor, o princípio do fim. Era um bom jogador de basebol e ténis, e um nadador poderoso e gracioso, mas começou a achar que as actividades ao ar livre não eram «fixes», e preferia ficar sentado no quarto a ouvir música, tanto no campo, aos fins-de-semana, como em casa. Na verdade, apercebi-me mais tarde, isto não tinha nada a ver com o ser «fixe», ele estava a tomar-se um solitário.

Escreveu bastafite nesses dias, contos assustadoramente sofisticados que mostravam sempre uma percepção adulta das coisas subtis. Tinha um estilo elegante, um comando firme da linguagem e um extraordinário sentido do ritmo. Eu costumava ler o que ele escrevia, escutava a cadência, sentia o violento pulsar da força da sua prosa, e sentia-o conduzir-me ao sabor da sua vontade. Tinha um estilo forte, inato, natural, uma dádiva que lhe era tão natural que nem dava por isso. Adorava escrever, mas preferia a música, e nunca pensava muito na escrita. As histórias eram geralmente violentas, e tinham sempre um traço sombrio.

Mais tarde, quando os seus demónios começaram a tomar conta de si, ele explicou-me muito simplesmente, um dia, que não conseguia concentrar-se mais em longos trechos de escrita (os seus primeiros contos eram muito longos), e era melhor para ele escrever trechos curtos e letras de canções. Estes eram a dimensão da sua capacidade de concentração na escrita, nessa altura, e serviam de qualquer forma os seus propósitos. E tal como os seus primeiros contos, algumas das suas letras eram brilhantes, perspicazes, perceptívas e inteligentes. Passei uma vista de olhos por alguns dos seus contos no outro dia, enquanto passeava o olhar pelo seu quarto, e fiquei s uma vez espantada com a sua qualidade. E juntamente com os contos, escrevia um sem-número de diários. Nunca os invadi, nunca os li, até agora, salvo um que lhe «pedi emprestado» quando ele tinha catorze anos e eu estava profundamente preocupada com ele, e queria ver o grau de gravidade do problema que ele enfrentava. As respostas encontradas foram profundamente perturbadoras.

Aos onze anos, por aquilo que leio nos diários agora, estava ainda em muito boa forma, embora colérico a maior parte do tempo. Mas, no sexto ano, podíamos atribuir a culpa das queixas e comportamentos estranhos dele ao súbito aumento de hormonas. Assim como a um montão de coisas: manchas solares, televisão, maus pais, irmãos irritantes. Se quisermos encontrar desculpas para o seu comportamento estranho, se nos esforçarmos, podemos encontrá-las sempre.

Havia uma coisa muito estranha no seu comportamento então. A nossa reserva de Tylenol em casa começou a baixar rapidamente. Eu encontrava frascos vazios ou embalagens de comprimidos abertas por todo o lado e, com mais frequência que nunca, os frascos vazios de Tylenol apareciam no seu quarto. Ele fingia sempre surpresa e inocência quando os encontrava e, mesmo quando já era crescido e falávamos abertamente destas coisas, ele negava o «vício» do Tylenol que eu achava que ele apanhara. Nick era quase sempre sincero acerca das coisas, extraordinariamente sincero, e mesmo sendo um miúdo admitia coisas que outros não admitiriam. Mais tarde, nunca escondia a verdade, e contava-me algumas coisas com uma franqueza tal que me fazia estremecer. Mas nunca admitiu o vício do Tylenol, embora tenha a certeza de que o tomava. Penso que estava a começar a não se sentir bem na sua pele, e começava a procurar alívio em todo o lado onde o poderia encontrar. Não era uma substância perigosa; por isso, embora estivesse preocupada e o questionasse constantemente acerca das provas que encontrava, não entrei em pânico. Mas fechámos a sete chaves o Tylenol e todos os outros medicamentos, de modo a vedar-lhe o acesso a eles.

seu passo seguinte para a automedicação foi o Sudafed. O meu marido tomava-o para a sinusite. Tínhamos a maior parte dos medicamentos fechados à chave, por causa dos mais novos, mas John tinha sempre alguns Sudafed nos bolsos. E descobri os pequenos invólucros espalhados no quarto de Nick. Quando o questionava acerca disso, limitava-se a responder que tinha tido uma constipação ou uma dor de cabeça, não negava tê-lo tomado. Eu própria sou alérgica ao medicamento e, juntamente com uma reacção adversa, ele quase me faz saltar a pele do corpo. Muitas pessoas dirão que o medicamento os excita, mas Nick tinha certamente as suas reacções paradoxais à medicação; por isso, aquilo que excitaria muitas pessoas acalmá-lo-ia a ele. Penso que o Sudafed lhe fazia isso, e foi a sua primeira tentativa desajeitada para acalmar os demónios. Já nessa altura eles não deveriam ser fáceis de silenciar, a julgar pelos perturbadores registos no seu diário.

Como sempre, estava preocupada com ele, e o Tylenol e Sudafed que ele estava obviamente a tomar em quantidades bastante apreciáveis alarmou-me. Eu costumava ir a um médico e pedi-lhe para ver Nicky. Nick achou a ideia uma parvoíce, e opôs-se a ela ao princípio, mas acabou por concordar em falar com ele, e ia lá uma ou duas vezes por semana. Nick achava-o «porreiro» porque gostava de basebol. Estou certa de que falavam sobre mais coisas e, embora o meu médico não acabasse com todos os meus receios, disse que não via nenhum problema obscuro com Nicky. Era um rapaz invulgar, com percepções extraordinariamente claras acerca dos adultos e das pessoas que o cercavam, não obstante certas perspectivas não muito tolerantes às vezes, mas era brilhante e perceptivo. Ainda tinha ciúmes de Samantha, e atribuíamos alguns dos seus actos a rivalidade entre irmãos e ao facto de ele ser quase, ou talvez fosse mesmo, um génio. Nicky era apenas Nicky. Como é que se poderia descrevê-lo? Não havia certamente ninguém como ele. Nem no meu mundo, nem no de muitas outras pessoas.Mesmo quando fugiu, Nicky fez-me rir, embora no exacto momento em que isso aconteceu eu não tenha achado piada nenhuma.

Pedira-lhe para trocar de sapatos para um evento familiar qualquer, e Nick recusou-se a fazê-lo. Naquela altura, dava-lhe um prazer tremendo em ser oposição, e uma das melhores maneiras de o ser era com a roupa. Nunca queria vestir-se apropriadamente para qualquer ocasião; no entanto, quando finalmente o convencia, ficava soberbo. Mas fazê-lo vestir de maneira adequada para a escola era uma batalha de proporções olímpicas. Era sempre uma guerra todas as manhãs quando discutíamos por causa duma camisa, dum par de calças, do cabelo, dos sapatos, e ele insistia em vestir uma coisa totalmente inadequada, às vezes, penso eu, apenas para me ver reagir. O comportamento em si não era invulgar, mas o grau era. Acabava, naturalmente, por aparecer com um aspecto angélico e impecável, e ninguém teria imaginado a agonia que fora para o conseguir.

Somos uma família bastante conservadora. Quando Nicky era mais pequeno, eu adorava vestir as crianças com roupas bonitas, as crianças mais velhas sempre tiveram um aspecto bastante arranjado, e o meu marido era então um homem extremamente conservador e elegantemente vestido. Do que Nick gostava mais era de nos chocar. Eu tentava manter o sentido de humor e a racionalidade, enquanto lhe dava espaço para ser ele próprio, mas às vezes experimentava-me a tal ponto que tinha de lhe gritar para o pôr na linha, e então vestia-se sem qualquer problema. Era mais do que pôr-me a prova, mas naturalmente não valia a pena apanhar uma úlcera por isso. A maior parte das vezes, era a minha perspectiva que prevalecia, mas procurava manter-me firme. Sentia que ele, como toda a gente no conforto do nosso pequeno mundo, devia conformar-se com certos padrões. Nick não era dessa opinião.

Assim, no dia em questão, o dia da famosa fuga, ele devia vestir um blazer, calças de flanela cinzentas, uma gravata e sapatos decentes para ir a uma festa familiar. Apareceu com uma vestimenta extravagante e ténis coçados. A minha mãe e a minha madrasta estavam de visita, não consigo recordar qual era a ocasião, mas íamos a um dos eventos familiares solenes que tanto o aborreciam. Pouco a pouco, peça a peça, discutimos toda a sua vestimenta. Concordou com tudo, libertou-se de todas as inadequadas peças de roupa como se fossem reféns, de má vontade, mas fê-lo. À excepção dos sapatos. Não os queria mudar. E confesso que gritei com ele finalmente. Levava-me a isso às vezes, embora nunca lhe levantasse a mão, nem ele a mim ou a outra pessoa qualquer. Nick não era violento, mas refilão. Bastante! E quando queria, extremamente insultuoso. Conseguia irritar um adulto mais depressa do que qualquer miúdo que eu alguma vez vira, e geralmente punha os adultos lavados em lágrimas com a sua língua afiada e a capacidade para a usar.

A questão dos sapatos manteve-se. Não iria calçar outros. E eu não iria ceder desta vez. Atrasou toda a gente, como muitas vezes fazia. Sentia que estavam todos a olhar para mim de soslaio, com o habitual ar acusatório, como que perguntando: «Não consegues fazer nada dele?» O facto era que conseguia, às vezes, mas só se Nick estivesse receptivo a isso. Caso contrário, não tinha sorte nenhuma. Podíamos ceder de boa vontade ou passar os dois dias seguintes a discutir com ele. Nick não cedia em nada facilmente ou de boa vontade, a menos que quisesse, e, se queria, fazia-nos pagar por isso, com uma atitude e uma veemência que nos levava a desejar, em primeiro lugar, nunca termos entrado na disputa.

Subi ao seu quarto para ver se ele trocara de sapatos, mas tinha desaparecido. E, instantaneamente, senti que desta vez havia algo de diferente. Não sei como soube, mas soube. Nick fugira, mas o engraçado era que calçara uns sapatos decentes para o fazer. Os ténis coçados tinham sido deixados no meio do quarto como uma mensagem. Ele fizera efectivamente aquilo que nós queríamos que ele fizesse, mas ia mostrar-nos. Retribuição.

Procurámo-lo por todo o lado, enquanto eu entrava em pânico. Ele era, afinal de contas, um miúdo de onze anos, e devido à minha fama, então, as crianças não podiam ir a lado nenhum sozinhas. Não fazia a menor ideia de onde o procurar, mas espalhámo-nos e batemos as redondezas à procura dele. Telefonei para o 911 e comuniquei o seu desaparecimento. Um simpático polícia veio até minha casa com bastante rapidez, enquanto eu retorcia as mãos e chorava, sentindo-me naturalmente culpada de ter feito uma tempestade por causa de um par de ténis. Então, e só Deus sabe porquê, olhei pela janela.

Vivíamos defronte de um parque que tinha quase a área de quatro quarteirões, e aí, do outro lado da rua, estava Nick, sentado, com um pequeno saco castanho, a comer donuts e Hostess Twinkies. Estava com um ar bastante despreocupado, levemente divertido, e encontrava-se elegantemente vestido, não só de camisa, gravata, blazer e sapatos decentes, mas também envergava o seu extravagante impermeável, pois estava frio. Parecia um pequeno banqueiro ou advogado, sentado no parque a almoçar, acabado de sair do escritório. Mais tarde, ri-me disso, mas na altura fiquei lívida. Estávamos todos aflitos, tínhamos corrido todos os lugares durante uma hora. A minha mãe estava horrorizada com o pouco controlo que eu tinha sobre os meus filhos e não hesitou em dizer-me isso. «Isto acontece sempre? Com que frequência é que ele faz isto? Devias pô-lo num reformatório.» Obrigada, mamã. A minha mãe é da velha escola e bastante severa. Pelo menos, achava que as crianças deviam ser vistas e não ouvidas e comportarem-se da maneira que costumavam, ou da maneira que eu queria que elas se comportassem. Mas, com o tempo, tal como fez com todos nós, Nick ensinou-lhe que as coisas com ele eram diferentes, e ela apaixonou-se pelas loucas cores do cabelo, as roupas rebeldes e até pelo brinco no nariz, porque sabia quem estava por trás. Era difícil resistir-lhe.

Fui ter com o meu pequeno renegado, acompanhada pelo polícia, que lhe deu um valente responso e ameaçou levá-lo para um reformatório como fugitivo. Nicky levantou os olhos para ele com ar inocente, pôs-se de pé respeitosamente, pediu desculpa, apertou-lhe a mão e ofereceu-lhe um donut. Quem é que podia resistir-lhe? Agradeceu ao polícia, parecendo bastante calmo, levámo-lo para casa e demos-lhe o sermão. Tinha-nos pregado um enorme susto. Finalmente, horas depois, todos nós, com os cabelos em desalinho e ar desalentado, enquanto Nick aparentava um ar calmo, frio, muito senhor de si e perfeitamente vestido, saímos para a nossa festa familiar. Foi uma das únicas duas vezes que ele fugiu, e a outra foi muito mais séria que esta. Fugir não era uma coisa que Nicky fizesse. Mantinha a sua posição, e ficava perto de casa. Os laços do nosso amor por ele, e o dele por nós, mantinham-no sempre perto.

 

SÉTIMO ANO:

EM LENTO DECLÍNIO

Como se pode ver agora, algumas coisas que Nick fazia eram invulgares, mas nenhuma delas era tão extrema que se pudesse apontar um dedo e dizer «Ah! Há um problema grave com este rapaz!», e depois diagnosticá-lo. Algumas das suas travessuras eram de facto muito engraçadas, outras não tanto. Notava-se algumas vezes uma certa rudeza nele que me deixava profundamente perturbada, mas mesmo isso era algo que se poderia explicar em virtude da sua idade, e certamente outros apressar-se-iam a dizer que o choque de ficar com cinco novos irmãos noutros tantos anos, ou a minha crescente fama eram situações que se lhe tornaram difíceis de tolerar. Talvez me incline mais para a primeira.

Eu tinha o cuidado de manter a minha carreira afastada das crianças, todas as minhas actividades diárias estavam centradas à volta delas, e a escrita era algo que fazia à noite, e raramente discutia com alguém. Não dava entrevistas nem fazia viagens publicitárias. Era uma mãe perfeitamente normal, e era assim que queria ser e assim me mantive. Não havia qualquer dúvida de que deixar de ser o bebé, a estrela, o foco de toda a atenção, para ser o quarto num grupo de nove, era desgastante para ele. Ainda detestava Sam nessa altura, e exprimia isso alto e bom som. Ela tinha então oito anos, ele doze, e eu estava bastante preocupada com o dano que ele provocava à auto-estima dela. Ele estava constantemente a criticá-la, e às vezes com bastante crueldade. Era uma tarefa extremamente difícil protegê-la da manifesta rudeza da parte dele. Era uma das muitas coisas que me preocupava profundamente. Mais por Samantha do que por Nicky. Todavia, talvez devido à súbita e radical mudança de atitude relativamente a ela e por a adorar tanto, ela parece ter escapado incólume. Porém, o sétimo ano foi o início de uma longa, ao princípio lenta, espiral descendente para Nicky. Pela primeira vez na sua vida, começou a dar nas vistas na escola. E, acreditem, eles repararam nisso. A criança sobre a qual eu andara discretamente a obter informações durante cerca de sete anos na mesma escola, e até no infantário antes  disso, a criança que eu acabava por lhes sugerir abertamente que não era «normal» - e que me tinham asseverado ser maravilhosa -,  subitamente começou a ser uma grande dor de cabeça para eles.

Comecei a receber telefonemas da escola e, no sétimo ano, Nick ensinou-me uma nova arte, em que iria especializar-me durante os restantes anos de escola. A da bajulação. Acrescentei-a ao meu repertório de proezas e virtudes maternais. Inventava qualquer coisa para manter Nick na escola, e depois esperava que ele mudasse. Mas os telefonemas tornaram-se mais frequentes. Era «respondão» e faltava abertamente ao respeito aos professores. Não fazia o trabalho regularmente e permitia-se liberdades de comportamento e atitude que eles viam com desagrado. Nick já não estava a «encaixar-se bem», e eles já não o achavam adorável, inteligente ou engraçado. De repente, passaram a responsabilidade para mim e começaram a referir que o seu comportamento era inaceitável e muito «diferente». Não era novidade para mim, mas pareciam estar alarmados e escandalizados, e esperavam que eu o mudasse, e que desse conta do descontentamento deles a Nicky. Nick achou isso extraordinariamente divertido. Nada o assustava.

A única coisa que o impressionou foi quando o ameaçaram de não participar no concurso de playback desse ano, o que o deixou em pânico e o acalmou durante uns tempos, até ao concurso. Mas, mais que tudo, eu estava ciente de que ele andava fora dos eixos na sua vida escolar. Estava a começar a ultrapassar os limites do quadro que eles pintavam.

E o que piorou ainda mais as coisas para ele foi o facto de haver um novo director na escola que, compreensivelmente, não queria que Nick arranjasse problemas. Atormentar os professores parecia ser o divertimento predilecto de Nick, e não demonstrava nenhum interesse em fazer qualquer concessão ao director. Tentei explicar-lhe que ali quem tinha de brilhar era o director, não ele. «A casa, as regras e os berlindes eram dele», e o director não era obrigado a aturá-lo se não quisesse. Mas tal como acontecia com outras coisas, próprias da sua idade e da sua maneira de ser, Nick achava que era invencível. Como disse acerca de si, num dos seus diários, um registo que escreveu mais tarde: «Eu achava-me fascinante. Julgava-me capaz de tudo porque era especial.» Escreveu isto quando tinha doze anos e andava no sétimo ano. E era especial. Para mim, certamente que era, mas não necessariamente para os de fora, e Nick parecia não compreender isso. O director da escola chamava-me uma vez por semana, ou uma semana ou outra, mas sentia que, sempre que aparecia na escola, estavam à espera que eu apresentasse desculpas por ele, o que eu fazia, embora não possa dizer que era uma coisa que francamente me desse muito prazer. Eles também estavam à espera que eu mudasse o seu comportamento, o que, por mais tentativas que fizesse, não conseguia.

Tentei explicar-lhes que Nick era diferente, que não era um miúdo normal, com ideias e comportamentos normais. Mesmo na minha própria família, ele não se encaixava nas normas ou nas regras em que todos nós vivíamos. Nick era inegavelmente diferente, e as regras que eu estabelecera tão uniformemente aos seus três irmãos mais velhos eram praticamente impossíveis de aplicar a Nicky. Ele não se conformava com elas e, mais importante ainda, eu começava a suspeitar que ele não conseguia. Ele era diferente e especial.

A escola recomendou um novo médico, ao qual fomos imediatamente, e que tratou logo de investigar os motivos de Nick agir da maneira que agia. O médico dirigiu a atenção para nós e para a família, mas os sinais evidentes da doença de Nick ainda não se tinham manifestado. Acho que era ainda muito cedo para a diagnosticar.

Nick era como um cigarro aceso atirado para a erva seca na orla de uma floresta estival. Era um fogo florestal à espera de ser visto, e, enquanto as chamas começavam a devorá-lo, nenhum de nós o conseguia ainda ver.

As coisas começaram a ficar seriamente perigosas para Nick nesse ano. Começou a experimentar drogas. Outros experimentaram-nas na mesma idade, e conseguiram sair, mas, como em tudo o que fazia, Nick meteu-se nelas com uma certa paixão maníaca. Bebia um pouco e fumava marijuana, e juntamente com um grupo de amigos, em finais do ano lectivo, experimentou ácido (LSD). Isso ter-me-ia aterrorizado, tivesse eu sabido. Contou-me vários meses mais tarde. Nick era geralmente bastante franco, e mesmo quando não contava as coisas voluntariamente, se eu própria as descobria e o questionava acerca delas, ele prontificava-se quase sempre a contálas. Mas, quando isso aconteceu, não fazia ideia do que ele andava a fazer. Só descobri mais tarde, quando me contou.

Também penso que ele se tornou sexualmente activo no sétimo ano, e andava com raparigas um pouco mais velhas que ele, pois achava que isso lhe permitiria ir um pouco mais longe com elas. E a julgar pelas longas listas de nomes nos seus diários, as várias classificações que lhes atribuía, e as coisas que dizia que elas faziam com ele, a serem verdade, não se enganava a esse respeito.

Dispus-me a abordar frontalmente essa questão com ele. Fiz-lhe várias palestras acerca da importância de se ser responsável, de não se magoar os sentimentos das pessoas, de não se ser fortuito no sexo e só se dormir com pessoas de quem se goste, o que, é preciso que se diga, fez-me sentir melhor, mas Nicky deve ter rido a bandeiras despregadas com as minhas noções românticas. Era um jovem apanhado em plena explosão hormonal, e que gostava de desfrutar de tudo aquilo que pudesse levar. Mas, pelo menos, foi delicado enquanto me escutava e foi condescendente comigo. Também estabeleci a regra na nossa farmácia de que ele poderia comprar medicamentos profilácticos sempre que quisesse, mas nada mais. E se ele fizesse isso, prometia não lhe fazer perguntas, e não fazia mesmo. Praticarsexo seguro parecia-me mais importante do que crivá-lo de perguntas,e ele acatou a mensagem e passou a usar preservativos.O sétimo ano foi assim o advento do sexo e das drogas, e a portapara o perigo começou a abrir-se. Era um rapaz bonito, admirado por todos, tanto pela sua propensão a ser provocador, correr riscos e comportar-se da forma que queria, como pela sua beleza e charme.Nick era o rapaz com que toda a gente queria parecer-se ou, pelo menos, estar. Nesse ano, foi convidado para ser modelo.Trabalhou um pouco como modelo, e o sucesso não lhe subiu à cabeça. Penso que ele achava a actividade chata, e começou a pensar em fazer representação. Foi a algumas entrevistas em Los Angeles, a que o meu marido o levou, e ficaram apaixonados por ele nas audições, mas as  minhas determinações eram firmes. Ele só poderia ir para Los Angeles para actuar durante as férias da escola ou aos fins-de- semana, o que fazia com que fosse muito difícil para eles utilizarem-no. E ficou furioso comigo por isso. Esteve numa dessas audições próximo do final do ano lectivo, a fazer testes para um papel num espectáculo de televisão previsto para esse  Verão. E estava ainda no avião, de regresso de Los Angeles, acompanhado de John, quando aconteceu uma tragédia terrível. Um grupo de amigos seus fora a uma festa a casa de um amigo. Entre eles, encontrava-se todo o grupo de melhores amigos de Nick, os rapazes com quem  andava na escola e as raparigas de quem gostava mais. As festas mistas começaram nesse ano, e entre as raparigas estava uma  pequena deslumbrante com quem andara no infantário e de quem era íntimo. Era a sua amiga mais chegada, e no primeiro ano escrevera para um projecto da escola: «Quero casar com a minha na  morada quando for grande. Trabalharemos juntos como actriz e cantor.» O  que ele escreveu encontra-se ainda emoldurado na parede do meu escritório, onde tem estado desde que o escreveu. Chamava-se Sarah, e era uma beleza. Já não eram «namorada e namorado» na altura, mas  grandes amigos na verdadeira acepção da palavra, e confidentes. Telefonavam-se todos os dias e todas as noites, falando de  quem gostava de quem, arranjando namoros para os amigos e entregando-se a pequenas intrigas e romances que eram próprios da sua idade. Ao que parece, o grupo chegara à festa um pouco cedo de mais. «Não estava lá ninguém», explicou Nick mais tarde, por aquilo que os amigos lhe contaram, o que significava que o pessoal «fixe» ainda lá não estava. Por isso, resolveram atravessar a rua, ir até à marina, e ficar por lá um bocado e depois voltar para a festa. Era uma prática, pelo menos pelas minhas regras, que estava estritamente proibida. Não se ia a lado nenhum desde que se estivesse numa festa, não se saía para lado nenhum, e nunca deixava os miúdos sair quando vinham a minha  casa. Não queria ser responsável por aquilo que lhes acontecesse quando não podia estar a vê-los, e esta política era sobretudo para  o bem deles. Fosse por que razão fosse, o grupo «fixe» de amigos de Nick saiu da  festa.

Os miúdos atravessaram Marina Boulevard, que é uma rua larga e perigosa que,  neste caso, ao pôr do Sol, conduzia veículos a grande velocidade para a Ponte  Golden Gate. Lembro-me de passar por lá a várias horas do dia, sendo o pôr do  Sol uma delas, o sol a bater-nos nos olhos de tal maneira que é impossível ver  qualquer perigo que venha na nossa direcção. Talvez isso tenha acontecido ao  condutor que atingiu Sarah. Nunca ouvi os pormenores precisos do impacte, e  também não aguentaria ouvi-los.

O grupo, ao que parece, partiu-se em dois, com metade deles a atravessar na  passadeira, como lhes tinham ensinado desde que eram crianças pequenas, e a  outra metade a preferir não o fazer. Sarah estava entre estes últimos, com os  seus longos cabelos louros a esvoaçar, os enormes olhos, o rosto angelical, as  pernas longas e graciosas em toda a beleza dos seus treze anos. A visão do  condutor foi supostamente ofuscada por um camião que passava, e os miúdos devem  ter aparecido, como um bando de pássaros, a atravessar inesperada e  perigosamente a rua. Uma das outras raparigas foi apanhada de raspão pelo carro que atingiu Sarah em cheio e a projectou por cima do pára-brisas. Os pormenores do resultado são tudo menos agradáveis.

Sarah ficou internada no hospital com um grave traumatismo craniano e vários ferimentos, durante uma semana. Todos aqueles que a conheciam ficaram perplexos e destroçados. Foi uma tragédia que tocou toda a gente profundamente, e nenhum dos miúdos sabia como lidar com a situação. Para muitos foi um choque, do qual nunca mais recuperariam completamente. E Nick encontrava-se entre eles. Estava menos preparado do que os outros para lidar com a situação e, durante anos, rodeou-se de fotografias e coisas que ela lhe oferecera. Sonhava com ela, pensava nela, escrevia para e sobre ela, estava obcecado por ela. Deve haver pelo menos cinquenta registos angustiantes e pungentes sobre ela nos seus diários, até ao período da escola secundária. Nunca a esqueceu, e nunca ultrapassou a perda dela. Era a sua melhor amiga e amava-a com toda a paixão e devoção da infância.

Ele soube da notícia na manhã seguinte, quando o levei a jogar basebol. Primeiro, dei um certo desconto, pois pensei que fosse um daqueles exagerados rumores que os miúdos passam de boca em boca e que aumentam de proporções de cada vez que são contados. Não consegui acreditar, as coisas assim tão terríveis não aconteciam. Mas aconteciam. Abandonámos o jogo, e Nick insistiu em ir ao hospital, apesar das minhas reservas. Ela estava em coma, desde a noite anterior, os longos cabelos louros tinham sido cortados, e eu não queria que ele a visse assim. Sentia que estava demasiado fragilizado para enfrentar a situação, e quis protegê-lo. Durante a semana seguinte, ele manteve-se junto dela, e não consegui afastá-lo de lá. Tal como ele, os outros miúdos juntavam-se no hospital, à espera de um milagre que nunca chegou. Uma semana depois de ter sofrido o acidente, Sarah faleceu, e foi provavelmente o acontecimento mais devastador na vida de Nicky. O tempo parecia ter parado para ele e para os outros. Acho que qualquer deles só recuperou ao fim de muito tempo. Perder Sarah atirou Nick para uma espiral de depressão e, nos seus diários, ele falava constantemente em querer morrer e em estar com Sarah.

Tal como os miúdos, também eu não consegui digerir a injustiça que aquela morte. Era injusto, e um choque terrível e cruel para os pais. E um daqueles mistérios que não se consegue resolver, para o qual não se encontram respostas, apenas se tem de aceitá-lo e continuar em frente. Mas não foi tarefa fácil para Nicky Ainda há fotografias dela no quarto dele. E talvez haja agora uma pequena consolação ao pensarmos que ele a encontrou. Imagino-os a correr livres de novo, juntos, a incrível beleza de ambos a deslumbrar toda a gente no Céu. Ela era uma criança de ouro e, tal como Nick sentiu durante o resto da sua vida, também eu ainda sinto a falta dela.

 

OITAVO ANO:

O INÍCIO DO DESASTRE

Os Verões eram sempre difíceis para Nick. Tínhamos uma casa no vale de Napa, onde passávamos o Verão inteiro com as crianças. Mas Nick precisava mais do que aquilo. Era aborrecido para ele. De facto, costumávamos brincar com isso às vezes, porque eu também não gostava. Como Nick disse bastante mais tarde, tínhamos muito em comum: odiávamos insectos, pó e natureza. Tal como Nick, eu achava Napa incrivelmente aborrecida. Mas, mesmo não conseguindo escapar-lhe, porque John adorava-a muito, tentei encontrar outras opções para Nicky.

Experimentámos três colónias de férias, em anos diferentes, e, como um dos directores da colónia disse, aquilo era mais uma aventura para mim do que para ele. Como de costume, mantinha-me ocupada. Dirigiu as suas capacidades ficcionais para as cartas que escrevia para casa, contando-me histórias horripilantes de acidentes, abuso, tormento e tortura. Eu estava ao telefone de cinco em cinco minutos, para indagar da veracidade das histórias e para me certificar do bem-estar dele. Ele apavorava-me. Também detestava a colónia e achava que aquilo era a melhor maneira de me convencer a não o mandar de novo, até que finalmente me convenceu.

No entanto, da mesma forma que detestava a colónia, adorava o Havai. Era um paraíso para ele. Costumávamos ficar numa luxuosa estância balnear, que não só era divertida para nós como era um refúgio para as crianças de todas as idades. Até os nossos filhos mais velhos adoravam, e ainda adoram. Nós continuamos a ir para lá, e todos adoramos, tal como Nicky adorava. Mas apresentava desafios e perigos para ele que não apresentava para os outros. Um dos primeiros sinais da doença de Nick, que piorou consideravelmente com o passar dos anos e que só era controlada a custo pela medicação, mais tarde, era a sua falta de controlo dos impulsos. É típico, sei agora, do «distúrbio de défice de atenção». Se lhe vinha alguma ideia à cabeça, punha-a em prática de imediato, para gozo dos seus amigos, e para nosso horror. Se a bandeira da praia estava vermelha (indicando marés perigosas) e lhe apetecia nadar, nadava, sem se preocupar com o potencial perigo. Se lhe apetecia fazer equilibrismo na borda da varanda, achava uma boa ideia, e fazia. E o Havai oferecia-lhe uma miríade de oportunidades para tentar proezas audaciosas e conhecer novas pessoas. Apesar da nossa constante vigilância, fumava marijuana, embebedava-se com os amigos e percorria a praia incessantemente à procura de mulheres.

Apesar das minhas queixas e do constante controlo, aos doze e treze anos queria andar com os de dezassete e dezoito, e mentalmente tinha mais em comum com eles do que com os da sua idade. Aos onze anos, os seus amigos, lá, tinham dezasseis. Entre os treze e os dezanove, saía com raparigas na casa dos vinte, e às vezes até com as mães dos seus amigos. E muito para meu desgosto, achavam-no sedutor e divertido. Era tão encantador, tão inteligente, tão cheio de graça, com tanta vontade de viver no limite, e ao mesmo tempo tão afável e tão amoroso... Que mulher é que conseguia resistir-lhe? Poucas, pelo que me era dado observar. Se é que alguma.

Tentei andar de olho em cima dele, especialmente no Havai, mas não era tarefa fácil, e toda a família o controlava, o vigiava, e ocasionalmente arranjava desculpas para ele. Certa noite, quando fui a um cocktail, a mãe de uma rapariga de dezanove anos disse-me que era «uma pena aquilo que acontecera ao Nicky». Disse isso com um ar tão terno que fiquei logo desconfiada. Ele tinha então doze anos, e eu sabia que ele andara a rondar a sua filha de dezanove anos, que ficava sensacional de biquíni. «Pena?», perguntei eu com ar inocente, à espera do que viria a seguir. Conhecendo Nick, sabia que não seria coisa boa. E, como de costume, não me desapontou.

«A doença.» Fiz um silencioso sinal afirmativo com a cabeça, mastigando com ar inocente os acepipes, perguntando-me se ele lhes contara que tinha leucemia e que tinha de deixar descendência antes de morrer na manhã seguinte... era a única coisa que o salvaria. Era extremamente criativo, especialmente quando à caça de favores sexuais. «Os seus problemas glandulares ... », prosseguiu a mulher, enquanto eu continuava a dizer que sim com a cabeça. Tenho de admitir que às vezes me divertia com as suas palhaçadas. Era mesmo engraçado.

«Oh, os seus problemas glandulares», concordei, curiosa por saber com que é que ele viera desta vez. «Sim, é isso. Preocupamo-nos bastante com ele.» Não era mentira nenhuma, mas as suas glândulas eram o que menos me preocupava. «Explicou-nos como a doença retardou o crescimento quando tinha doze anos. Mas é um rapaz tão maravilhoso e tão bem-parecido. Não parece ter vinte e um anos, mas, logo que falamos com ele, apercebemo-nos da sua idade. Que filho extraordinário a senhora tem; deve ter muito orgulho nele.» Ahhh... sssim... de facto. inte e um. Boa, Nick. Discuti isso com ele quando voltei à sala, e disse-lhe que ele desta vez estava a ir longe de mais. Vinte e um? Tem dó, Nick.

«Vá lá, mamã», disse ele, mais com ar de cinco anos do que de doze, e muito menos de vinte e um, por mais entusiasmado que estivesse pela moça de dezanove anos, de biquíni. «Seja boazinha, não lhes diga.» Fiz um acordo com ele de não o desmascarar desde que ele não se excedesse. Eu cumpri a minha parte do acordo, mas não sei se ele cumpriu a dele. Chegou-lhes a dizer em que universidade é que andava. Mas, conhecendo Nick como eu conhecia, ele era bem capaz de lhes dizer que estava em Harvard. Oh, Nicky!

Nick passou para o oitavo ano calmamente. Andava triste. Todos andavam. Por causa de Sarah. Em Setembro, quatro meses depois da sua morte, nenhum deles pareceu ter recuperado. E o ano não lhe corria muito bem. Parecia andar deprimido. Nick falava de Sarah constantemente. E mesmo os outros pareciam mais tristes do que de costume. Não pareciam saber como controlar a dor ou a perda que sentiam tão profundamente. Nick continuava a ir ao mesmo médico, mas nada de dramático surgira. Os sinais evidentes da sua psicose maníaco-depressiva ainda estavam a aguardar nos bastidores. Embora eu saiba, desde aí, que as hormonas da adolescência podem começar a trazer à luz os primeiros sinais de doença mental.

Porém, o que me preocupava era que nada estava efectivamente:, a ajudar Nicky, e eu não sabia como ajudá-lo. As coisas na escola não lhe corriam bem, os telefonemas a queixarem-se da sua atitude, do seu comportamento e da sua falta de seriedade no trabalho eram cada vez mais frequentes. Estava constantemente a ser vigiado, e o director começara a ameaçá-lo com a expulsão se não se emendasse. Eu estava farta e sentia-me impotente. Tive incessantes conversas com Nicky, até enjoar, para bem dos dois, mas eu não tinha as ferramentas nem a perícia de que precisava para o ajudar.

As festas do oitavo ano foram mais desregradas nesse ano. Muitos dos rapazes pareciam estar descontrolados, e as raparigas que tinham sido colegas de Sarah ainda choravam a sua morte.

Nick estava apaixonado por uma das melhores amigas de Sarah na altura, e falavam constantemente dela. Tal como Nick, Sarah era uma daquelas moças que tocavam as pessoas profundamente, e de quem todos ainda falavam. A sua perda era uma ferida que ainda não sarara, e era fácil de ver que os melhores amigos dela ainda estavam com problemas em lidar com a situação.

De acordo com os seus diários, Nick continuava a consumir marijuana e a beber, aos treze anos, e, quando descobri por acaso, não fiquei nada contente com isso. Senti-me extremamente perturbada. Era esperto suficiente para nunca me deixar apanhá-lo; porém, quando ouvi certas coisas, fui direitinha ter com ele e armei uma discussão dos diabos. Ele foi franco comigo, o que nalgumas ocasiões piorava as coisas, noutras melhorava.

Os registos nos diários, durante todo esse Inverno, foram inquietantes. Tivesse-os eu visto e estou certa de que entraria em pânico, mas não me apercebi da extensão da sua depressão, embora soubesse a tristeza que ele sentia por Sarah.

Começou a isolar-se, a ficar no quarto o tempo todo, a evitar a família, o que nunca é bom sinal. Mas era cada vez mais difícil fazê-lo agir de outra forma, e estava em plena revolta dos treze anos. Eu tornara-me sua inimiga, pelo menos durante parte do tempo, embora me ficasse grato quando eu ia à escola defendê-lo. Era sempre meigo quando me agradecia por isso, mas estava constantemente metido em sarilhos, as notas estavam a baixar, e encontrava-se a meio caminho da entrada para a escola secundária.

Nick continuava laboriosamente a escrever diários, mas, no meu afã de respeitar a sua privacidade, nunca os li. Ao lê-los agora, ele fala de estar só, triste, assustado e envergonhado às vezes. Nas suas próprias palavras, diz: «Estou sempre deprimido... Estou sempre só... Sinto que não pertenço a lado nenhum. Sou um solitário, em grupos de pessoas, sinto que não me encaixo. Sinto-me muito triste.» Fala de se sentir extremamente infeliz, isolado, de ter a auto-estima por baixo. Censura-se, com treze anos, por ser egocêntrico, e é muito duro consigo próprio. E depois diz: «Custa-me amar outras pessoas.» E repete sem cessar: «Sinto saudades da Sarah... Ela era minha melhor amiga... Amo-a tanto que não quero viver sem ela.»

Em Janeiro de 1992, com treze anos, escreveu:

"Não vejo que outra coisa é que o futuro me pode reservar senão sofrimento. Sinto muitas saudades da Sarah. O propósito da vida para mim acabou. Estou a pensar em suicidar-me.» É a primeira referência a suicídio nestes diários. Sinto o coração estremecer ao ler isto.

Em Fevereiro, escreveu novamente: «Só me apetece acabar com tudo.» Fala em ter saudades de Sarah e de estar «morto de preocupação». Começou então a escrever cartas a Sarah, nos seus diários, contando-lhe como estava só e infeliz. No final, escrevia: «Reserva um lugar para mim. Vou ter contigo muito em breve.» Dizia que já tentara uma vez o suicídio, com soníferos, o que pode não ter passado de conversa. Se o tivesse tentado, eu teria sabido.

Contudo, duas semanas mais tarde, ele escreve que tentou matar-se com um saco de lixo atado na cabeça, depois mudou de ideias e tirou-o. E os registos acerca de Sarah continuam.

Em finais de Fevereiro de 1992 (ainda com treze anos), escreve: «Quem me dera morrer, e tudo se acabaria. Amo a vida e toda a gente menos a mim.»

Em Março, escreve que está a ponderar de novo a hipótese de se suicidar e, novamente em Abril, diz: «Vou suicidar-me muito em breve», e depois fica extremamente introspectivo. «Estou muito deprimido. Talvez seja maníaco-depressivo. Estou-me nas tintas para a vida. Todos me detestam, e eu detesto toda a gente.»

Foi obviamente uma época de pesadelo para ele, e, embora eu estivesse ciente de que ele estava profundamente infeliz e a afastar-se de nós, não sabia a profundeza do seu desespero, nem sabia como pará-lo. Quando falei ao médico da desesperada infelicidade em que eu achava que Nick se encontrava, pareceu-me não ficar tão preocupado como eu estava, ou talvez não o demonstrasse. Parecia estar mais interessado em falar do meu trabalho, da minha fama e dos meus outros filhos. Eu sentia que Nick estava em crise, e mais ninguém parecia ver isso.

Nesse Outono, mudáramo-nos para uma casa grande, e o quarto de Nick ficava mesmo por cima do meu escritório e do meu quarto. Ouvia-o a deambular à noite, a todas as horas, e eu ia ter com ele. Parecia nunca dormir e estava com um ar desesperadamente infeliz. Sentia-me impotente. Sugeri que o médico receitasse alguma medicação a Nick, mas ele não concordou comigo. Nick ainda era jovem para tomar o tipo de drogas que eu estava a sugerir. Pensei em mudar de médicos, mas receava que mudar de médicos de novo não fosse a melhor coisa para ele. E o médico a que ele ia era extremamente respeitado.

E as coisas também não iam muito bem na minha vida. O meu êxito atingira finalmente proporções tais, com o sucesso de alguns filmes de televisão que eu fizera acrescentado ao dos meus livros, que merecera finalmente a atenção dos tablóides. Iam fazer uma grande reportagem a meu respeito, tinham desenterrado tudo aquilo que eu fizera, e uma série de coisas que não fizera.

Tiveram um trabalhão a arranjar algo de sensacional do meu primeiro casamento. Foi um casamento calmo e salutar. Estivemos casados quase nove anos, ele era um banqueiro francês e oriundo de 1 uma ilustre e respeitável família de banqueiros franceses. A nossa vida fora circunspecta e o divórcio tratado com honra. Mas os dois «erros» próprios da juventude que cometi depois disso foram publicitados por todo o mundo em grandes parangonas. O primeiro «erro» foi o meu breve segundo casamento com um homem com quem vivi apenas alguns meses, quando eu estava na casa dos vinte. Foi condenado por violação e mandado para a prisão. Foi um choque para mim. Eu era jovem e inocente, e embora tivesse contado a John, não era algo com que estivesse contente ou de que me orgulhasse. A experiência fora extremamente traumática para mim. E o facto de ter sido publicada nos tablóides para que todos lessem trouxe-me lembranças de um período angustiante para mim, e os relatos foram exagerados e distorcidos, o que tomou as coisas ainda mais humilhantes. A segunda reportagem que eles publicaram foi da minha gravidez e subsequente breve casamento com o pai de Nick, mais uma vez apresentada de forma sensacionalista. E Nick ficou tão perturbado como eu quando a leu.

As reportagens deram de mim uma imagem terrível, eu e a minha família fomos humilhados, o meu marido sentiu-se embaraçado, embora ele soubesse dos dois casamentos e eu não tivesse segredos para ele. Mas foi um período que eu achei angustiante, tal como os meus filhos. Apesar da calma vida familiar que levava, e que há anos tinha, o preço da celebridade chegara finalmente a casa para nos atormentar. Embora algumas das histórias fossem imprecisas, preferi agir com discrição e não dizer nada, apesar de estar de coração despedaçado por causa do escândalo em que eu me tornara, aos olhos dos amigos, do meu marido e dos meus filhos. Dizer que estava destroçada pelas reportagens nos tablóides era estar a ser modesta. Sentia-me quase destruída pela forma como estava a ser retratada e humilhada publicamente pelas reportagens e programas televisivos sensacionalistas.

No meio de tudo isto, Bill (o pai de Nick) fora entrevistado nos tablóides e aparecera na televisão, a falar de mim (tal como fizera o meu segundo marido, ainda na prisão). E Nick, que tinha fortes sentimentos de lealdade para com aqueles que amava, ficou desesperado para fazer algo para me defender. Perguntou-me como é que poderia encontrar Bill para o «repreender» de estar a falar de mim, e eu respondi-lhe que francamente não sabia, mas sabia o nome dos pais de Bill. Telefonou-lhes então para deixar um recado a Bill, dizendo-lhes o que pensava dele. A falta de controlo dos impulsos de Nick estava à vista, assim como o seu bom coração e a sua compaixão. Sei que ele detestava ver-me destroçada como estava nessa altura.

Logo que recebeu o recado de Nick, Bill deve ter-lhe telefonado, embora não saiba ao certo. Sei pelos diários de Nick que se encontraram uma vez por breves instantes, embora não saiba como é que ele conseguiu sem eu saber.

Foi um período difícil para todos nós, particularmente para Nick, que estava preocupado com os artigos dos tablóides, porque se referiam a ele, ao julgamento que extinguiu os direitos de paternidade de Bill e determinou a sua adopção por John. Aos treze anos, Nick continuava a não querer que os irmãos mais novos soubessem que John não era o seu pai natural. De facto, nós ajustámos a nossa data de casamento quando discutimos o assunto, para satisfazer os desejos de Nick e o «legalizar». Quando John o adoptou, o Estado passou-lhe uma nova certidão de nascimento, não a nosso pedido, mas como eles sempre fazem, com John referido como pai, dando a impressão de estarmos juntos na altura do nascimento de Nick. Mas também originava uma situação caricata para ele, pois a data do nosso casamento foi três anos depois do seu nascimento, o que uma vez mais dava a impressão de ele ser «ilegítimo». Outra coisa que o tribunal fez automaticamente, não a nosso pedido, foi selar todo o processo de adopção, para sua própria protecção. Era um procedimento que nos disseram que seguiam sem excepção no estado da Califórnia.

Contudo, não havia nada que pudesse fazer para silenciar os tablóides, e apesar das muitas distorções e crueldades por eles publicadas, incessantemente, meses a fio, recusei-me a processá-los. Achei que ao processá-los pioraria as coisas para todos nós, e preferi sofrer com dignidade e em silêncio. Pareceu-me o melhor caminho, mas significava que ninguém alguma vez saberia a verdade, ou a minha versão dos acontecimentos.

Algumas revistas e outros jornais nacionais deitaram então mais lenha para a fogueira, pegando nos artigos já publicados e voltando a publicá-los, enquanto os tablóides continuavam a atormentar-nos. Foi um período difícil para mim, e Nick andava revoltado com tudo aquilo. O seu sentimento de angústia, tal como o nosso, aumentou a sua depressão.

O auge foi atingido em Maio, quando Nick foi a um baile, poucas semanas depois de acabar a escola, e presenciou a cena de um rapaz a passar droga a outro. A escola referiu com bastante clareza que Nick não participara no incidente, mas fora apenas mero observador, e o baile não era patrocinado pela escola, apesar de terem estritas regras de comportamento dentro e fora do campus. Fora uma «conduta imprópria de um cavalheiro», etc. Por ver o que se passara, deixando que o facto acontecesse e não o denunciando, e também porque ele era um espinho para eles há dois anos, expulsaram-no, semanas antes de concluir o curso. Fiquei de coração despedaçado. Estivera na escola durante nove anos e agora era expulso a tão pouco tempo do final do curso. Mas estavam no seu direito de o fazer.

Nick ficou em estado de choque e nós ficámos destroçados. Isso não podia acontecer. Suplicámos, apelámos, fizemos promessas, rebaixámo-nos. Não obtivemos qualquer ajuda. Não iriam permitir que Nick acabasse o ano e o curso. Tinham de respeitar os seus regulamentos e manter os seus padrões, e Nick compreendia isso. O único acordo a que conseguimos chegar com eles foi o de lhe arranjarmos explicadores e eles darem-lhe o diploma; porém, como sinal da inflexibilidade deles na questão, ele não seria autorizado a assistir à cerimónia de entrega dos diplomas. E foi engraçado, pois acho que senti mais esse choque do que Nicky. Ele era mais filosófico do que eu nessa questão e, apenas para que ficasse registado, pedi-lhes que me enviassem uma carta oficial a atestar que Nick fora um mero observador, não um participante, no incidente. Vários rapazes foram expulsos juntamente com ele. Foi um enorme sinal de aviso para potenciais malfeitores no futuro.

Assim, Nick ficou em casa, e eu andei numa roda-viva à procura de explicadores, de modo a que ele pudesse acabar o ano lectivo. Realizou um bom trabalho, e todos os explicadores ficaram impressionados com ele. Recebeu o seu diploma, como prometido, mas não pôde assistir à cerinónia de entrega dos diplomas, o que me deixou de coração despedaçado, já para não falar no dele, depois de nove anos de escola. Mas houve maiores consequências com que tivemos de nos haver. Uma após outra, as escolas que o tinham aceite para o ensino secundário acabaram por lhe recusar a matrícula. Nick não tinha escola secundária para onde ir. Mais rebaixamento, mais súplicas. Telefonei a toda a gente que conhecia, para todas as direcções de todas as escolas de que conseguia lembrar-me, e finalmente descobri um internato que estava disposto a aceitá-lo. Foi um milagre, e fiquei grata a toda a gente que me ajudou.

Nick parecia mais calmo depois da lição que recebera, mas continuava deprimido, o que era compreensível. Mas gostava da ideia do internato para onde ia mais do que eu. Não gosto muito do conceito de internatos, e acho que esses anos a meio da adolescência são os mais importantes para se estar em casa no seio da família. Eu quero ver o que os meus filhos vão fazer entre os catorze e os dezoito anos e ter alguma influência nas suas decisões. Logo que atinjam a idade de irem para a faculdade, espero que estejam prontos para entrar no mundo sem mim. Mas antes disso, não interessa as dores de cabeça que me possam dar, só quero estar perto deles.

No caso de Nick, porém, não tínhamos outra opção. Não havia uma única escola na cidade que estivesse disposta a recebê-lo. A expulsão do oitavo ano não era uma vantagem. A sua única opção foi o internato que descobri. Fiquei-lhes imensamente grata por o terem aceite.

Mandei-o visitar amigos na Alemanha durante duas semanas para o tirar da sua rotina e onde pudesse estar com melhor disposição.

Em Agosto, estava tudo preparado para a sua grande aventura. Tal como na maioria dos internatos, deixaram-no levar tudo menos o seu alojamento.

Comprámos roupa de cama e mesa, toalhas, uma aparelhagem, um computador, uma bicicleta, um frigorífico, posters emoldurados, um quadro de avisos, emalámos as suas bugigangas favoritas para se lembrar de casa, e levou, naturalmente, meia dúzia de fotografias emolduradas de Sarah. Eu estava a começar a achar que iria fazer-lhe bem estar fora. Ele precisava de uma nova vida, um novo impulso e um novo meio ambiente. Os quartos dele na nossa casa da cidade e na do campo tinham-se tornado templos dedicados a Sarah. E ainda continuava a enfrentar a aura de desgraça, que se abatera sobre ele com a sua expulsão da escola. Eu estava feliz por ele ir iniciar uma vida nova, e fiquei francamente excitada.

Partimos à hora prevista, alugámos uma furgoneta para levar todos os seus novos pertences e as suas coisas de valor, passámos um dia a instalá-lo, a pôr as coisas em ordem, a fazer a cama, a instalar o computador, e deixámo-lo lá, com uma grande dose de esperança e um pouco de ansiedade. Ia dar-se bem, disse para comigo. Era como outro miúdo qualquer que ia para a escola, asseverei para as minhas vozes interiores. Deixa de te preocupares. Mas como é que poderia não o fazer? Preocupara-me com ele toda a sua vida, estivera ao seu lado, rira com ele, chorara por ele, arranjara desculpas para ele. Ao deixá-lo, a única coisa em que pensava era nas saudades que iria sentir. Era como deitar a voar um pássaro que amáramos, que alimentarámos e de que cuidáramos. A única coisa que poderia desejar era que voasse em segurança e bem, e que os falcões que pairavam sempre sobre ele não o apanhassem.

 

ELE ENTRA EM COLAPSO

A estada de Nick no internato foi assustadoramente breve, e o que veio logo a seguir foi profundamente perturbador. Eu não tinha tido qualquer notícia de problemas lá, e dez dias depois de ele ter chegado, com a sua caravana de cigano cheia de pertences, telefonaram-me. Foram francos, e tinham razão. Disseram que havia algum problema muito sério com ele, e que deixá-lo ali era um convite ao desastre. Não queriam que ele tivesse outra expulsão no seu cadastro, mas estavam absolutamente certos de que, se ele ficasse, meter-se-ia em apuros. «Ele não é capaz de se manter aqui», disseram. «Precisa de tratamento.» Eu sabia disso, mas eles eram os primeiros a dizê-lo. Não sabiam exactamente qual era o problema, mas sabiam que era alguma coisa. Não conseguia seguir os regulamentos, não era tanto o «não seguir» mas mais o «não conseguir seguir», o que também não era novidade para mim. Não havia malícia nas coisas que fazia ou não fazia, só não conseguia acompanhar a música, e, às vezes, para encobrir esse facto, fingia que não queria. Mas eles aperceberam-se disso.

Sentiram que havia algum problema com ele, notaram a sua falta de controlo dos impulsos e as loucuras que fazia, e eu sabia tão bem quanto eles que tínhamos de fazer alguma coisa. O problema era que não sabia o que fazer ou quem poderia ajudar-me. Apesar dos seus esforços, senti que os dois psiquiatras que ele consultara não lhe tinham dado grande ajuda, por melhores intenções que tivessem. Ele não estava a aproveitar as oportunidades, em especial esta última. Eu estava sem saber onde ir a seguir, ou o que fazer. Mas era evidente que Nick já não era capaz de funcionar num ambiente normal. Já não conseguia agir segundo os regulamentos. Estava lentamente a perder a capacidade de se controlar, e eu sabia que tinha de lhe refrear o ímpeto antes que isso o destruísse.

Telefonei uma vez mais a toda a gente de que me lembrava, consegui o nome de um conselheiro que lidava com crianças difíceis e recomendava escolas para elas, e soluções pouco ortodoxas. Perfeito. Exactamente aquilo de que precisávamos. Telefonei-lhe e marquei uma consulta para a manhã seguinte. Pedi a uma pessoa que me fôsse buscar Nick ao aeroporto, com as suas montanhas de coisas, enquanto eu fazia os telefonemas. Ele estava sentado, quando entrei na sala de estar, o mais calmamente que consegui, para o ver.

Estava determinada a não perder a calma. Não servia de nada, e sabia que ele devia estar a sentir-se rejeitado por o terem feito sair do internato. A única coisa que queria fazer era ajudá-lo.

Porém, apanhei um choque quando entrei na sala. Ele estava sentado em frente de um canteiro de fetos que eu lá tinha, e vi de imediato que ele rapara a cabeça. A única coisa que via era o seu rosto, e o sorriso largo e envergonhado que ele esboçava quando sabia que fizera uma coisa que não devia.

«Fiz merda outra vez, mamã», disse ele com ar desamparado, quando me aproximei para o beijar. «Não, não fizeste nada. Não foste expulso. Eles disseram que não era o sítio ideal para ti. Não terias sido feliz lá, Nick», disse eu, e apanhei outro susto quando ele se levantou para me abraçar. Ele não tinha rapado a cabeça, os fetos tinham-no camuflado. Quando se pôs de pé, vi que tinha pintado o cabelo exactamente da mesma tonalidade de verde dos fetos. Fez um largo sorriso quando eu reparei. «Gostas?», perguntou num tom esperançoso. «Sim, claro. Adoro.» E foi o princípio de Nick e das suas cores de cabelo exóticas. Mudámos do verde para o azul e do azul outra vez para verde, da safira para turquesa e desta para louro, para uma mistura flamejante de tons vermelhos e alourados, e finalmente para preto-azeviche, que lhe ficava bem e que eu gostava. Eu diria que a seguir à sua paixão pela música estava a sua obsessão pela cor de cabelo. Nunca mais vi a cor de cabelo natural, mas, para vos dizer a verdade, ao fim de pouco tempo, habituei-me e já não teria reconhecido a sua cor de cabelo natural se a visse. Mas o verde era certamente diferente. (Sou conservadora por natureza, e não sou o género de pessoa que acha o cabelo verde «engraçado». Mas desde há muito que eu aderira à ideia de que os meus padrões e os do resto do mundo não eram os de Nick.)

Ele estava triste por ter deixado o internato. Conhecera pessoas lá de que gostava, fizera alguns amigos, e dizia que ia ter saudades. Prometi-lhe uma solução melhor, e prometi a mim mesma que ia descobrir uma escola na cidade. Ele provara que não se dava num internato, e eles não conseguiam dar-se com ele. E, de qualquer forma, tínhamos de o ajudar a tratar dos seus problemas, das suas depressões, da sua falta de controlo dos impulsos. Eu não sabia então que ele estivera a pensar em suicídio durante os últimos nove meses, senão teria ficado em pânico. Da forma que as coisas estavam, sentia-me extremamente preocupada.

Nick foi bem recebido no seio da família, e estavam todos contentes por vê-lo. Animou aquela noite, e na manhã seguinte, bastante cedo (para desgosto de Nick), encontrámo-nos com o conselheiro que prometera arranjar uma escola para ele. Nick nunca ficava contente com  encontros matinais. Durante toda a sua vida, ele estivera a pé até altas horas da noite e tivera problemas em adormecer. E nunca estava no seu melhor de manhã.

O conselheiro fez duas sugestões, ambas inaceitáveis, e Nick e eu ficámos destroçados com aquilo que ele dizia. Lera o material que eu tinha da antiga escola de Nick e conhecia-o pela sua reputação. (Telefonara a alguns amigos que, ao que parece, deram lá aulas.) Também falara para o internato que Nick acabara de deixar e disse sem delongas ou artifícios que nenhuma escola aceitaria Nick. Segundo ele, tínhamos duas hipóteses. Uma era uma escola no Utali, ou no Nevada, ou no Colorado, ou num sítio que era, ou soava, a prisão para crianças. Era um sítio fechado, com as comunicações com o exterior cortadas, eu não poderia visitá-lo durante um ano. Não havia fuga possível, nem férias, nem telefonemas, nem contacto com o mundo exterior. Nick pareceu ir rebentar num pranto quando o conselheiro lhe disse que eles pô-lo-iam na linha enquanto o diabo esfregaria um olho e que era disso que ele precisava. Havia uma escola semelhante a esta, na Califórnia do Sul, que estava também fora de questão, mas ele não a recomendava. A sua segunda sugestão era bem conhecida na Europa, onde Nick ficaria durante dois ou quatro anos, e mais uma vez encarcerado, embora num local muito mais aprazível. Estava cheio de filhos de famílias ricas que não sabiam o que fazer com os seus filhos problemáticos. Assim, mandavam-nos para lá para que alguém tratasse dos problemas deles. Nenhuma das sugestões fazia o meu estilo. Eu não tinha intenção de o encarcerar, de me ver livre dele. Queria ajudá-lo, em casa, perto de mim, custasse o que custasse.

Assegurei a Nick que isso não iria acontecer-lhe, ele não iria para lado nenhum, e eu mantê-lo-ia em casa e arranjar-lhe-ia um explicador se fosse necessário. E disse-o ao conselheiro, que continuava a tentar convencer-me daquelas duas opções. Disse-lhe que ele estava a perder tempo e pedi-lhe para meditar de novo. Precisávamos de uma escola diurna para Nick, perto de casa, mas asseverou-me de que não seria uma coisa fácil. Levaria tempo, disse ele, enquanto eu fazia um gesto de concordância com a cabeça.

Ao fim de alguns dias, ele apareceu com uma sugestão interessante. Disse que precisava de tempo para encontrar uma escola que estivesse disposta a aceitar Nick, mas tinha outra opção para manter Nick ocupado, entretanto. Era um programa ao ar livre, baseado no «Rumo ao Exterior», mas especialmente destinado a crianças que tinham qualquer tipo de distúrbios ou problemas. E, tenho de admitir, fiquei intrigada. Tinha algumas reservas e queria ter a certeza de que era seguro, mas ele assegurou-me de que conhecia outras crianças que tinham entrado no programa, e achava que era o sítio perfeito para pôr Nick durante três semanas, para o manter ocupado, e reconstruir a sua auto-estima, enquanto em casa procurávamos uma escola para ele e preparávamos tudo para que entrasse nela logo que completasse o programa ao ar livre.

O programa fazia sentido, certamente, e tinha algumas vantagens efectivas; a única coisa de que não gostei foi o facto de ele me confidenciar que o elemento «surpresa» era uma parte essencial do programa. Segundo ele, Nick não devia ser avisado nem estar preparado, especialmente porque muitos miúdos fogem quando deparam com uma coisa muito diferente e assustadora. Não achava que fosse um medo efectivo, pois Nick nunca fugira para lado nenhum, excepto três anos antes, quando fora sentar-se num banco do parque a comer um Hostess Twinkie. Não gostava da ideia de surpreender Nick, ou de o assustar. Soava a traição.

Finalmente, o conselheiro convenceu-me, mas eu deveria ter-me informado melhor das coisas. Conhecia o meu filho, e raramente, se é que alguma vez, deixava outras pessoas interferirem com a integridade que partilhávamos, mas Nick estava inegavelmente com o estado de espírito muito por baixo, sentia-se de rastos, e deixei o conselheiro convencer-me de que ele poderia fugir se nós lhe contássemos. O homem do programa ao ar livre apareceu, com um ar de carrasco, de madrugada, alguns dias depois. Parecia ter uns dois metros quando o mandei entrar na porta principal às seis da manhã, descalça e de roupão. E parecia ter o dobro do tamanho de Nicky. Nicky, tinha então catorze anos e, se as coisas tivessem corrido bem no internato, estaria no primeiro ano do secundário. Em vez disso, era um rapaz ensonado, de cabelos desgrenhados, às seis da manhã. (Mandara-o mudar a cor do cabelo de verde para algo que se assemelhasse a castanho-claro, a sua cor natural, e, acreditem, não foi fácil. O cabeleireiro que fez a mudança ainda fala disso.) Mas, quando vi o rosto de Nick, o coração quase que parou. Estava horrível. Quem era este estranho que estava no seu quarto? Apeteceu-me de repente ir em seu socorro, mas sabia que não devia. Pelo menos, tinham-me dito para não o fazer. John e eu conversáramos em pormenor sobre o assunto, eu dera-lhe conta de todas as minhas dúvidas, mas resolvêramos que isso talvez fosse a melhor coisa para ele. E eram só quatro semanas, não era uma vida. Eu estava consciente do facto de que protegera demasiado Nick, e isto parecia uma boa altura de o soltar um pouco. Mas senti-me um monstro, quando o homem explicou a Nick que iam apanhar o avião para ir para o programa ao ar livre. Nick parecia que me queria matar, e não o censuro por isso. Se alguém aparecesse no meu quarto, às seis da manhã, a ameaçar levar-me para o meio de arbustos, algures, eu acho que pegava numa arma e lhe dava um tiro. Nick parecia fascinado com esta ideia. Mas não com o programa sobre o qual o homem dissertava. O sujeito estava com um ar de quem, se Nicky não gostasse da ideia, o ia arrastar da cama, pôr ao ombro e levar. Nick não discutiu com ele.

Saíram de casa meia hora depois. Tentei dar um beijo de despedida a Nick e ele não me beijou, sendo a primeira vez que tal fazia, e voltei para dentro de casa, a chorar. Tinha a sensação de o ter atraiçoado, e talvez até de o pôr em perigo. Nunca me sentira tão de rastos em toda a minha vida, ou tão só, ou tão preocupada com ele. Pusera-o positivamente nas mãos de estranhos. E se eles não fossem de confiança? E se alguma coisa lhe acontecesse? Não valia a pena estar a pensar nisso, mas era só no que pensava.O homem que o acompanhava deixou-o telefonar-me do aeroporto, e Nick disse-me o quanto me odiava e que monstro eu era por aquilo que lhe fizera. Não discordava inteiramente dele, mas disse-lhe que estava a tentar fazer qualquer coisa para o bem dele. Contudo, ainda estava furioso e desligou-me o telefone na cara.Durante as três semanas seguintes, os dias eram intermináveis. Havia lá um conselheiro que parecia mais um alpinista, mas era simpático, inteligente e gentil. Ele parecia ter um afecto genuíno por Nick quando me telefonou. Foi a primeira vez em toda a vida de Nick que ficámos sem nos comunicarmos, o que foi uma agonia para mim. Sonhava com ele à noite, aterrorizada com a ideia de que alguma coisa ruim lhe pudesse acontecer. Mas, de tantos em tantos dias, o seu conselheiro telefonava-me e assegurava-me de que ele estava bem e a portar-se bem, e que seria uma nova pessoa quando chegasse a casa. Eu gostava da antiga pessoa, mas também sabia que ele tinha de mudar as coisas, de começar a sentir-se bem consigo próprio, de controlar a sua vida, custasse o que custasse.No entanto, fiquei completamente destroçada quando, perto do final do programa, o conselheiro me disse que tinha de começar a pensar numa escola para Nick e, embora ele se tivesse portado bem, o conselheiro sentia que ainda não conseguia viver em casa. Precisava de ser colocado numa «escola especial» durante um ano ou dois, até tratar os seus «problemas», fossem eles quais fossem. Sabíamos certamente uma coisa: tinha uma enorme dificuldade em controlar os impulsos e, à medida que o tempo avançava, os problemas de concentração aumentavam. ainda acreditava que poderíamos tratá-lo em casa, e tudo dentro de mim me dizia que mandá-lo para fora tinha sido um erro. Ainda era o meu bebé. E todas as escolas que o conselheiro recomendou ficavam longe de casa. Ser-nos-ia difícil visitá-lo. Tinha cinco crianças pequenas para tratar em casa, e as escolas que ele sugeria não estavam, de facto, ansiosas que recebesse visitas. Referiu até um dos locais que o primeiro conselheiro recomendara, aquele que soava a prisão para crianças. Nick não era um miúdo mau, lembrei-o, era um miúdo doente. Mas o conselheiro insistiu que isso não fazia diferença, ele já não conseguia viver em casa com a família, precisava de mais «estrutura» para se controlar. Dava a impressão que iam construir uma barreira de arame farpado à volta de Nicky.Assim, enquanto Nick lutava com a porcaria, os insectos e a natureza que ele sempre detestara tão desesperadamente, pus-me a tentar descobrir novamente uma escola. Até aí, apesar dos esforços, o conselheiro na cidade ainda não encontrara nada. Um médico que eu conhecia surgiu finalmente com o que parecia uma sugestão viável. Era um pequeno internato para crianças problemáticas, numa cidade de que nunca ouvira falar. Podíamos visitá-lo aos fins-de-semana, e ele poderia vir a casa de vez em quando, se se portasse bem. O médico teceu-lhe elogios, um dos seus amigos mais chegados conhecia a escola e adorava-a. Falei com o amigo do médico que conhecia a escola e não gostei do que ouvi. Dava a impressão de ser outra prisão para crianças, um lugar para onde as pessoas mandavam os filhos porque não tinham mão neles e não queriam chatear-se, ou não conseguiam mesmo dominá-los, por uma razão ou outra. O amigo do médico tinha um filho que era violento e que o atacara em inúmeras ocasiões. Isto estava a grande distância de Nicky. Nick era uma alma perturbada, que virava a sua fúria contra si próprio ou para as suas coisas, nunca fisicamente para cima de outra pessoa. Mas também era evidente que fossem quais fossem os esforços que eu tivesse feito até aí não tinham sido bem sucedidos. Por isso resolvi tentar. Eles tinham conselheiros que viviam na escola e um psiquiatra para trabalhar com os miúdos diariamente. Apesar das minhas reservas, parecia perfeito.

Entretanto, Nick estava a acabar o seu programa ao ar livre, e deixaram-me falar com ele ao telefone poucos dias antes de voltar para casa. Fizera até um «solo», que era andar um ou dois dias sozinho no meio da natureza, durante os quais foi observado por uma questão de segurança, embora não soubesse. Aprendera primeiros socorros e respiração cardiopulmonar, e salvara outro rapaz que se perdera. Parecia estar óptimo, e toda a mágoa que aquilo causara a mim e a ele parecia ter valido a pena. Estava cheio de esperança e confiante de que a sua vida entrara nos carris. Só queria voltar para casa para o provar. Então, tive de lhe dar a notícia de que ia para um internato para crianças especiais. Senti-me como um carrasco a dizer-lhe, e quase o matei. Chorou, suplicou, jurou que se portaria bem em qualquer escola para onde eu o mandasse, mas que não o enviasse para longe outra vez. Chorei tanto como ele, mas pedi-lhe que tentasse. Depois de me informar acerca da escola por telefone, tive um forte ataque de gripe e queria ir ver a escola com os meus próprios olhos, mas John ofereceu-se para ir. A maioria das vezes, eu era o «homem da casa» para todas as soluções criativas que arranjava para Nicky, mas desta vez John ofereceu-se para ver a escola e certificar-se de que era boa. Foi lá e voltou para dizer que era boa para ele. John esperava, tal como eu, que Nick gostasse. Nick devia estar em casa daí a dois dias, e íamos esperá-lo ao aeroporto, passar umas horas com ele lá, e depois mandá-lo para a escola que escolhêramos. Decidíramos, por recomendação do conselheiro do programa de ar livre, que, se o deixássemos vir a casa mesmo por poucas horas, um dia ou dois, seria extremamente difícil para ele voltar a sair; por isso, partiria para a escola directamente do aeroporto, depois de almoçarmos com ele.

Os últimos dias de espera para ver Nick pareciam intermináveis. Não via o momento de o tocar, abraçar, beijar, sentir, cheirar. Ele era a cria que eu perdera algures na selva, e estava desesperada por a encontrar. Fosse por causa do modo como a nossa vida começara, fosse porque ele tinha deficiências que eu sentia mais do que via, fosse simplesmente porque havia um elo especial que nos unia ou fôssemos muito parecidos em muitos aspectos, sempre tive uma ligação visceral com Nicky. Era como se fizesse parte de mim e, sempre que ia para longe de mim, era doloroso. Nunca perdi esse elo com ele, nunca se esvaneceu ao longo dos anos, antes se fortaleceu. Tenho um elo semelhante com os meus outros filhos, e sou a pessoa mais feliz do mundo quando estou perto deles, mas, como são saudáveis, consigo libertá-los com mais facilidade, pelo menos durante um curto espaço de tempo, quando tenho de o fazer. Com Nick, foi sempre muito mais difícil.

Escrevi-lhe esta carta nos últimos dias do programa de ar livre, e descobri-a recentemente entre os papéis dele.

Terça-feira, 13 de Outubro de 1992 Meu querido Nicky,

As palavras revolvem-se na minha cabeça, no meu coração, na minha língua... Estou morta por te ver!!! Mil milhões de biliões de vezes tenho pensado em todos os tipos de ideias e mensagens, e coisas absurdas para ti, desde que partiste. Pensei em fazer um diário para contar as vezes que as pessoas dizem que têm saudades tuas (os números são muito elevados para os contar). Continuo a tentar que o meu coração chegue ao teu, e acabei por decidir pensar em ti em silêncio. Este silêncio imposto entre nós tem sido quase impossível; como uma leoa enjaulada, tenho andado de um lado para o outro nesta casa, a horas incríveis, interminavelmente, a sofrer, a deambular, com saudades tuas, contigo alojado no coração e no espírito, como uma porta que não se fecha, impossível fechar-te por um simples momento. Nenhum homem alguma vez saberá o estranho mas poderoso elo que a mulher mantém com o seu filho. Era a ânsia, o desejo de te ver, a necessidade de ver o teu rosto, de te tocar, de te tomar nos braços e de saber que estavas bem. (Sinto-me literalmente mal se às vezes estiver longe de Zara ou de Maxx. Há a necessidade de ver se eles estão bem, se estão em segurança, de saber que eles estão perto.) E tu estás preso ao meu coração da mesma maneira que eles, um elo inseparável que, graças a Deus, nunca sentirás como eu porque tens de crescer e ter a tua vida, mas esses elos levam muito, muito tempo a consolidar-se.

Adoro-te. Adoro-te muito. E que saudades eu tenho sentido!!!!! Tenho ido ao teu quarto milhares de vezes por dia. Dar um toque no tapete, num candeeiro ou numa almofada tem sido de extrema importância, o posicionamento exacto das tuas revistas tornou-se vital, como se fosses lê-las a qualquer momento.

Nunca saberei exactamente aquilo por que passaste, a dor na alma, o medo, o excruciante processo de crescimento, de mudança, de aprendizagem de coisas que são dolorosas para todos nós. Todos nós temos os nossos demónios com quem lutamos, e as outras pessoas nunca saberão como isso é difícil. Eu acho que sei. Eu quero saber Tentarei de todo o coração, mas se às vezes falhar, se não conseguir compreender, por favor, por favor, diz-me, mostra-me, o melhor que puderes, e perdoa-me se parecer estúpida. Tentarei não o ser E se há coisas que preciso de saber, para melhorar a nossa relação, diz-me também. Tentarei, Nicky, tentarei mesmo. Prometo. E um processo de crescimento para nós todos.

Fizeste a coisa mais difícil, mais corajosa, nas últimas três semanas e meia - vinte e quatro dias. Queres saber quantas horas ou segundos? Estou certa de que consigo contá-los. Mas estou certa de que tu, querido, os contaste. Só estando aí é que se pode saber o que é estar aí. Como posso eu ser justa e imaginar, enquanto estou deitada num confortável sofá, o que é estar numa situação de sobrevivência, não só lutando por um pedaço de comida, ou algum conforto, mas tentando reajustar a noção de sobrevivência emocional. Imagino o que deves ter enfrentado, mais emocionalmente do quefisicamente, Nicky. E estou tão orgulhosa do que fizeste aí!

Nunca saberás a força e a dor que foram necessárias para te mandar para aí, e só te posso dizer que a única coisa que me levou a mandar-te para aí foi o meu desespero. Tudo indicava que estavas num caminho desastroso, e eu não fazia ideia de como te deter É como ver alguém a afogar-se, atiraríamos o banco de um piano se tivesse mesmo que ser, para salvar essa pessoa... O meu único receio era de que a cura fosse pior do que a doença, e, se a opção foi boa, então fomos todos abençoados pela sorte. Não posso reclamar grande sabedoria aqui. Agarrei-me àquilo que na altura me pareceu ser mais correcto, mas isso aterrorizou-me.

Como disse ao papá, se tudo der certo, mandar-te para aí foi a coisa mais corajosa que alguma vez fiz, e que tu fizeste!! Se alguma coisa correr mal, nunca me perdoarei. Andei em grande agonia, e penso que o pior de tudo foi o silêncio. Não trocámos qualquer palavra nos primeiros dez dias, e a minha fértil imaginação criou cenários horríveis que fariam empalidecer o próprio Stephen King. Graças a Deus que estás bem, e que achas que valeu a pena.

Sei que a reentrada deve ser difícil para ti. Deves ter meditado bastante, deves ter pensado muito em ti, na tua vida e naqueles que te rodeiam... a minha médica lembrou-se uma vez, há muito tempo, que embora eu tivesse trabalhado com afinco e percorrido um longo caminho, os outros na minha vida não tinham chegado a lado nenhum. Ela lembrou-me para não esperar muito daqueles que me rodeiam. Não tinham mudado. Eu tinha. Às vezes, é uma espécie de choque. Além disso, acabaste de nascer para a vida e já chegaste onde chegaste, todos nós temos de nos sentir uns simplórios e pequeninos ao lado do teu talento. Alguns ficarão impressionados, alguns não saberão, alguns não se importarão, alguns não ficarão impressionados, e alguns ficarão à espera que faças mais. Tem de ser frustrante. Tenta ser paciente. Dá constantemente palmadinhas nas tuas costas por aquilo que fizeste, e continua a subir a montanha. Descobrirás, querido, como fazemos na vida, que nunca se está completamente «lá», só quando o trabalho está realizado e podes descansar por instantes é que a vida proporciona outro desafio. Muitos são uma porcaria, alguns valem a pena, mas é assim que são as coisas. Tens de enfrentar os desafios e resolver os problemas. Descobriste ferramentas maravilhosas dentro de ti para o fazeres. Continua a usá-las, não pares, vai em frente!!! Agora estás no caminho certo, e nós reconhecemos e agradecemos-te isso a cem por cento.

Sei . que i . r para um internato algo restritivo é decepcionante, mas isso também faz parte da vida. Não somos nós que fazemos as regras, nem tu, nem o papá, nem eu. Sabemos onde estás e o que tens feito. Mas agora tens de dar os passos no mundo. E irás dá-los. Este lugar pareceu-me bastante razoável. Se te portares bem, e mantiveres os níveis elevados de trabalho, terás os privilégios e as liberdades. Caso contrário, não vamos falar de San Quentin agora. Eu não teria conseguido viver numa dessas escolas, que felizmente não precisas. Por favor, mantém esse rumo. Eu não suportaria estar numa escola como aquela, isto é, as escolas de correcção. (Não como esta - esta é boa.) E acredito verdadeiramente que este seja um pequeno passo para a maturidade e a liberdade. Mas também é uma rede protectora. Seria uma pena deitares fora todo o trabalho que tens realizado, num dia mau, ou num momento de fraqueza.

Não acho que isto seja assim tão mau, e vais dizer-me se estou enganada. Mas tenho a sensação de que vai ser muito divertido. Não o teria feito se achasse que era mau. Pensa nisso como uma parte interessante da tua vida, uma parte deste novo crescimento, é uma ponte de um ponto bom para o seguinte, e uma parte da viagem. Ajudar-te-á a chegar onde quiseres ir E quanto melhor trabalhares, mais depressa lá chegarás. Penso que um dia olharás para trás, para tudo isto, e verás a sorte que tiveste em aprender tanto tão cedo. Muitas, muitas pessoas cometem erros a vida inteira, ou uma grande parte dela. Muitas só compreendem o que tu tens quando são muito mais velhas. Esta visão, esta mudança, este processo de aprendizagem, é uma verdadeira dádiva, das pessoas que te ajudaram a fazer tudo aquilo que fizeste, mas também de ti próprio estás a fazer isto por ti, Nick. Não tenho palavras para dizer o orgulho que eu e o papá sentimos.

Não encaro esta escola como um acto punitivo, e quero que saibas isso. Não acho que seja. Penso que é um marco daquilo que queres na vida: liberdade, lar, bons valores, uma vida boa e também uma boa escola. Tenho de te dizer, gostaria que pusesses as ideias no lugar Não gosto de internatos. Nunca gostei. E nunca gostarei. Gostaria de te ter em casa, a fazer chili na cozinha, e eu a pedir-te continuamente para limpares o quarto. A emoção da tua presença era uma coisa que todos nós gostaríamos de ter aqui eternamente. A única coisa que todos nós queremos, eu, o papá e os teus irmãos, é que consigas atingir o ponto na vida que te permita voltar para casa. Sei que pensas qqe estás pronto, mas as escolas, naturalmente, ainda não sabem. E normal. Não conseguem ver dentro da tua cabeça. Não sabem como ela está limpa. Se eles conseguissem ligar-te a uma luz especial e o nariz ficasse verde, seria muito mais simples. Mas desta maneira, eles precisam de algum tempo, algumas provas, alguns anos lectivos, um comportamento razoável. Faz sentido, e já tens idade suficiente para saber isso.

Além disso, para te ter em casa, ainda um pouco vacilante, seria assustador para ti e para nós, por isso, talvez isto dê resultado. Vai levar algum tempo aos teus amigos, e ao mundo em geral, a compreender que é com um novo Nick que estão a lidar. Alguns vão ligar-te ao velho Nick, e um grande fardo que terás de carregar é teres de provar isso constantemente. Podes sentir-te muito melhor na escola. As coisas começarão a dar certo. Se teres sido expulso da última escola te catapultou para um lugar onde física e emocionalmente, como escreveste, «a tua vida pudesse ser salva», então esse breve encontro com a última escola foi a melhor coisa que alguma vez te aconteceu. (E se quiseres ir para um internato mais tarde, podes ir, eu adoraria ter-te em casa, mas é contigo.)

Vou chatear-te com mais uma pequena peça de filosofia. Um dito da minha igreja: «O Amor Divino sempre satisfez e sempre satisfará todas as necessidades humanas.» As palavras-chave para mim sempre foram «sempre», «todas» e «humanas». O dito não diz que o Amor Divino satisfará as nossas necessidades às vezes. Fala em todas as necessidades, sempre... e fala em «humanas», não em sublimes, espirituais ou religiosas. O Amor Divino sempre satisfez e sempre satisfará todas as necessidades humanas. Acho isto bastante reconfortante às vezes, talvez também aches.

A única coisa importante em tudo isto é o quanto te amamos. O resto é acessório. Às vezes, a vida tem coisas acessórias. Mas o que importa mesmo é que nós te amamos... Oh, quanto te amamos!!!

Talvez tenha sido pedir muito aos catorze anos, mas amadureceste nestas últimas três semanas, e depois com a idade vais percebendo que todas as coisas passam, nada difícil ou desagradável dura eternamente. Espero que gostes da nova escola, que a aches fora do normal mas engraçada, que aches uma «curte» estar a estudar com apenas quarenta miúdos, sentados debaixo de uma árvore, ou seja do que for Eles vão fazer grandes passeios de esqui e fabulosas férias de Primavera no estrangeiro todos os anos. Espero que gostes, talvez não seja como o programa de ar livre, mas é um tempo precioso da tua vida. (Não é o desafio gigantesco que o programa de ar livre foi. Decorre ao ritmo da vida real.) Espero que gostes, e espero que aches divertido, mas se se vier a verificar ser chato, ou mesmo irritante às vezes, tenta manter as aparências. Isto não é até ao resto da vida, ou mesmo até ao resto do ensino secundário. Tem a duração que deve ter e nada mais. Amadurece, aprende, tira partido do programa. Mas não deixes de ser quem és. Encara isto como um cruzeiro; chegarás em breve ao teu destino, por isso descontrai-te. Nenhuma escola, nenhum lugar, nenhuma pessoa, nada é perfeito. Como o Alex Raley costumava dizer: «Encontra o bem e louva-o!» (A comida tem de ser melhor do que aquela onde tu estás.) E, acredita, as dificuldades na minha vida têm-me feito apreciar todo o conforto, todos os em regos, todos os momentos de saúde, todas as crianças bonitas de olhos brilhantes, todos os momentos felizes. Apreciarás mais tudo isto agora por causa do que aprendeste onde estás.

E fica a saber o quanto te agradeço aquilo que conseguiste aí. Não vou dizer que não fizeste grandes coisas... mas a vida é uma cordilheira, não é apenas uma montanha... é como os cinturões de karaté... chegaste a uma daquelas cores intermédias, mas ainda não chegaste ao negro... estás quase lá.

Adoro-te, querido. Vou para a cama, e quando acordar, são só mais umas horas até te ver Um milhão de vezes por dia tentei imaginar o que estavas afazer, se a dormir, se a comer, se a andar, se a pensar.. Naquela noite ficaste acordado toda ou quase toda a noite. Senti-te no meu coração durante toda a noite. Espero que estejas a dormir agora. Deve ser emocionante e assustador sair daí para regressar

Estou farta de viver segundo as regras das outras pessoas, por ti e por nós. Aprende algumas boas regras sozinho, para que todos possamos ser livres de novo, meu amor A vida é um processo de crescimento, e cresce tanto... minha pequenina e doce árvore, que Deus te ame e proteja sempre, sei que Ele o fará, e que saibas sempre o quanto te amo.

Com todo o meu coração e alma, querido Nick.. com todo o meu amor,

A tua mamã

P S. Adorei o teu telefonema e todas as coisas maravilhosas que disseste, das saudades e do amor que tens por nós!!! Adoro-te!!! M.

E quando me sentei, cheia de saudades, à espera dele, ele escreveu no seu diário (escreveu estes registos enquanto estava no p grama ao ar livre, num pequeno bloco de notas que levava para todo lado consigo, e que encontrei quando vasculhei os seus diários pois de o termos perdido. Tinha catorze anos quando escreveu isto Tenho duas identidades. Essencialmente, uma é boa, a outra má. Neste preciso momento, só quero decidir qual é que quero e sê-la. Há ainda uma terceira identidade: a impaciente que quer que eu decida.

Primeira identidade: Quero ir para casa para junto da minha família, ser bom, ser carinhoso e amado. Sei que sou capaz de fazer isso, se decidir que quero realmente. Acredito que consigo.

 Segunda identidade: Quero que me mandem para uma escola quero ter o meu dinheiro, droga e partir. Festa o resto da vida semnunca olhar para trás, e morrer antes dos vinte e cinco. Mas, pelomenos, ter-me-ei divertido.  A minha missão:"Quero ser capaz de mudar as vidas das outras pessoas e ser honesto, digno de confiança e carinhoso. Tudo aquilo que tiver dfazer, quero fazê-lo sozinho. Quando chegar a altura, a única pessoa que pode estragar a minha missão sou eu! Seja qual for a loucura, sou aquele que se permite ser louco.

Quem vou ser:

Quero ser forte. Estou a praticar agora. Não quero viver à sombra do meu pai. Quero ser eu. Quero ser honesto, quero saber o quê está certo e o que está errado, mas fazer as coisas certas. Quero mostrar os meus verdadeiros sentimentos de amor e carinho à minha família, e quero fazer parte dela. Não quero estar a viver disfarçado. Quero que as pessoas vejam o novo e verdadeiro eu, não o quero esconder mais. Quero que as pessoas saibam que podem acreditar e confiar em mim, por isso tenho de ser menos respondão. Quero ser bom. Quero ser o Nick.

Não gosto de magoar as pessoas. Se o fizer inadvertidamente, seguem-se sempre enormes vagas de culpa. E se por acaso for de propósito, sinto sempre uma sensação horrível, por isso faço-o o menos possível.

O que eu quero é ser encarado como uma pessoa em quem se pode confiar e responsável. Quero sentir-me feliz comigo próprio e que os outros se sintam felizes comigo. Quero saber que completei algo de desafiador e dar a minha palavra de que mudei. Já não quero ser a pessoa que era. Andava infeliz e já não acreditava na minha própria palavra. Só quero a felicidade e o respeito de mim próprio e dos outros depois de acabar o que começar Tenho sentimentos incontroláveis relativamente à minha mãe. Adoro-a tanto. Eu digo-lhe mas não sei se ela sabe mesmo. Se a magoo, a culpa magoa-me cinco vezes mais. Detesto isso. Não sei como mostrar ou dizer-lhe o que sinto. Quando lhe digo, sabe bem ter-lhe dito, mas depois, se faço algo que inadvertida ou mesmo propositadamente a magoa, sinto vontade de me recriminar O meu amor por ela é incondicional, tal como o dela por mim, mas não sei se ela efectivamente sabe. Espero que saiba. Oxalá que este programa me dê a coragem para lhe dizer e ser capaz de manter a minha palavra.

Vejo um rapaz confuso Está zangado, mas não muito. Está triste... de certo modo.

Sofre... acho.Ama-me... espero. Precisa de mim... mas não consegue ou não quer admitir Não me compreende... talvez eu não o compreenda. Tenta mostrar-me como se sente, vejo-o lutar.. mas não consegue. Vejo um rapaz que já viu muita coisa. Mas como disse, ainda é um rapaz.

Se morresse hoje, não ficaria propriamente triste. Ficaria mais desapontado. Estou a fazer este programa para tentar dar uma volta à minha vida, e tenho o apoio dos meus amigos e da minha família. Este é o passo final e o mais difícil na escada que leva a uma vida normal e decente. Se morresse a meio da subida, seria um desapontamento. Ficaria naturalmente triste por não me ter despedido da minha família, e dizer-lhes que os adoro, ou de não ter tido hipóteses de dizer aos meus amigos o que verdadeiramente sinto por eles. Quando morrer quero ser lembrado como uma pessoa forte que i capaz de modificar a vida deles sem ameaças nem reprimendas, de livre vontade. Quero ser lembrado pela pessoa que quero ser, não pela pessoa que era.

Sou uma pessoa muito versátil, mas a minha personalidade básica é a de alguém que se preocupa.

 Quando penso num amigo verdadeiro, penso em alguém que se preocupa realmente comigo. Alguém que faria sacrifícios por mim, tal como eu faria por ele. Alguém de confiança, alguém com quem partilho opiniões, alguém que não me abandonará se eu tiver em baixo (lealdade). Um amigo verdadeiro é alguém que não nos vira as costas, aconteça o que acontecer Alguém que não me poria em risco e me manteria fora dos problemas, tal como eu faria por ele. NADA me faria desacreditar essas qualidades num amigo, E também julgo que nunca perdemos um amigo verdadeiro, a menos que tenhamos feito algo que viole o que ele espera de nós como amigos.Sou uma pessoa do género «as minhas regras para mim, as minhas regras para ti». Só espero tanto de um amigo porque faria tudo o que referi atrás, e mais ainda.

Duas coisas retive no espírito ao ler estes registos de Nick hoje.. Uma é que ele estava doente, tinha uma doença violenta que estava a começar a dominá-lo. Era um miúdo bom com uma doença má. E muitas vezes miúdos e pessoas como ele são tratados como miúdos maus e punidos por aquilo que não conseguem evitar. Lutei desesperadamente por Nicky. Nunca quis que ele fosse castigado por estar doente. A culpa não era dele. A responsabilidade era minha e recusei-me a virar as costas ao problema durante toda a sua vida. Detesto os lugares em que enclausuram estas pessoas, colocando-as longe da vista, punindo-as pelas suas peculiaridades e provando-lhes que ninguém as ama, afinal de contas. Sempre acreditei que dando amor suficiente a Nicky mudaria as coisas, o ajudaria, ou talvez até o curasse. Talvez não o tenha curado, mas nunca por um instante na sua vida ele alguma vez duvidou que era amado. Foi a minha dádiva, a única dádiva que eu tinha para lhe oferecer.A outra coisa que me tocou quando li os diários foi o facto de ele ter tantos amigos, óptimos amigos, amigos que estavam ao lado dele e aos quais foi leal toda a sua vida. Os amigos que vi no final, e que ainda vejo na minha mesa de jantar, são aqueles com quem ele cresceu, com quem andou no infantário, e aqueles que ele foi arranjando ao longo da vida. Muitos deles nunca deixaram a sua vida. E juntou-lhes, ao longo dos anos, pessoas especiais que se cruzaram no seu caminho. Ele era um bom amigo, e os amigos adoravam-no. Embora se isolasse por vezes, nunca os perdia de vista, e eles telefonavam-lhe e incentivavam-no quando estava triste. Nunca o abandonaram. Seja como for, Nick saiu do avião, vindo do programa ao ar livre, com um aspecto saudável e feliz, e alto. Contou-nos tudo enquanto comia uma pizza no restaurante do aeroporto, e conversámos durante umas horas antes de partir para a escola. Estava nervoso, mas estava disposto a tentar. Prometi-lhe que se a escola não fosse boa, ou adequada para ele, o tiraria de lá. John recordou-me que, mesmo que ele não gostasse, tinha de ficar. Não havia mais nenhum lugar para o pôr. Não lhe respondi, mas eu sabia que tinha dado a minha palavra a Nicky de que, se não fosse um sítio agradável, ele não tinha de lá ficar. E tínhamos prometido visitá-lo no fim-de-semana.Não tive notícias dele durante toda a semana porque sabia que ele não podia telefonar e, no domingo, foi toda a família visitá-lo e todos ficaram muito excitados por verem Nicky. Chegámos e, como prometido, a escola era pequena, e era atraente. Os rapazes viviam em dormitórios, e havia uma espécie de recepção. Mas os «professores» pareciam seguranças de um bar, e os estudantes tinham um olhar frio. Pareciam abandonados, desesperados, e olhavam-nos como sobreviventes de um campo de concentração que haviam perdido o apego à vida. Éramos as únicas visitas naquele dia e, quando vi Nick, senti um aperto no coração. Quando olhei para ele, vi pânico no seu olhar. Puxou-me à parte e disse que aquilo era horrível. O director não vivia no campus como dissera que vivia, os monitores eram duros com os miúdos, e, na maioria, os estudantes tinham tanto de violentos como de loucos, e não havia nenhum psiquiatra, ao contrário do que nos tinham dito.

«Tenho medo, mamã», disse ele, e não consegui evitar a recordação dos intermináveis contos de espancamentos, ataques e tortura, quando esteve numa colónia de férias, apenas para se divertir e ver se eu o tirava de lá, mas eu sabia que isto era diferente. Nick rogava-me ajuda. E quando olhei para ele, verifiquei que estava a ser honesto comigo. Conversámos durante alguns instantes e, quando saímos do seu dormitório, vi excrementos humanos nas escadas. Sabia indubitavelmente que ele estava a contar-me a verdade, e não podia deixá-lo ali. Eu disse qualquer coisa a John, que disse que devíamos experimentar durante uns tempos, pelo menos até termos alternativas para ele. E foi com grande tristeza que beijei Nick, me despedi e saí com os meus outros filhos. Raramente sentira com tanta força que traíra alguém que amava. Passei toda a noite a andar de um lado para o outro, mal dormi e, quando John acordou, disse-lhe o que ia fazer. Ele tinha razão, não havia alternativas para Nick, mas não era desculpa para o deixar num sítio daqueles. Telefonei novamente para o conselheiro, para me ajudar a encontrar uma escola para ele; admitiu que talvez tivesse uma, mas ainda não falara com a escola. Eu não queria saber. Se tivesse de ser, eu própria o ensinaria. Mas não ia deixá-lo ali.Telefonei para a escola onde ele estava e disse-lhes que o ia tirar de lá. A primeira reacção foi dizerem-me que não poderia reaver o dinheiro da propina. Ele estivera lá durante exactamente cinco dias. Sabia que o tinha de tirar de lá. Devia-lhe isso. Disse-lhes para ficarem com o dinheiro, apenas para me devolverem o meu filho. Pedi-lhes que o pusessem num avião nessa manhã, e nessa tarde ele estava em casa com um sorriso do tamanho do Texas. De todas as coisas que fiz na vida, absurdas e inteligentes, boas e más, trazer Nick para casa foi possivelmente uma das melhores coisas que alguma vez fiz. Restaurou a fé em mim mesma, a minha capacidade de fazer o que é correcto fazer, seja o que for, e mostrou a Nick que poderia confiar em mim, que estava a falar a sério, e que cumpriria sempre aquilo que lhe prometesse. Nunca me abraçara assim na minha vida, e nunca o amei tanto. Foi um momento perfeito de fé, confiança e amor. E nunca me arrependi, nem por instantes, de tê-lo tirado de lá e trazido para casa. Era o melhor que se poderia fazer por ele, e eu sabia isso.

Muitos anos depois, fui contactada por um advogado, que me disse que a escola encerrara. As crianças tinham alegadamente sofrido abusos e maus tratos, e havia um processo em tribunal. Anos antes, já houvera processos contra as pessoas que dirigiam a escola. Estupidamente, queriam que eu testemunhasse por eles, que dissesse que era uma boa escola, e ouviram aquilo que não esqueceriam tão cedo. Disse-lhes que seria, de boa vontade, testemunha de acusação, antes de desligarem, e nunca mais ouvi falar deles depois desse telefonema. Eu tivera razão em relação ao lugar, mas, mesmo sem esse telefonema, já sabia disso muito antes.

Penso que Nick passou a confiar em mim totalmente depois de o tirar daquela escola, e sabia, sem qualquer dúvida, que, a partir daquele momento, nunca mais o mandaria para longe, nem para um lugar em que não confiássemos, ou que não achássemos bom, nem para nenhum lugar se o conseguíssemos ter em casa. Fiz uma promessa a mim e a ele de fazer tudo o que pudesse por- ele. Não o queria fechado longe de mim, nas mãos de outras pessoas. íamos encontrar uma solução para ele, e íamos fazê-la resultar, custasse o que custasse. E julgo que em grande parte, durante o resto da sua vida, o melhor que pude fazer sem o pôr em risco às vezes, cumpri o prometido.

 

DEMóNIOS

Uma vez que tirámos Nick da última escola, tivemos de começar tudo de novo. Onde é que íamos pô-lo? E como é que íamos ajudá-lo? Devo ter feito um milhar de telefonemas, e tentei todos os expedientes por ele. Precisávamos de uma escola, e depressa. Mas, à parte isso, precisávamos de um novo psiquiatra e de um sistema de apoio competente. Telefonei a amigos, a conselheiros, a escolas, a médicos, a psiquiatras, a toda a gente de que me lembrava.

A primeira coisa que fiz foi arranjar um novo psiquiatra, altamente recomendado, mais uma vez. Disse que tinha tempo e concordou em aceitar Nick.

A seguir, a escola. Telefonei novamente ao conselheiro, e ele recomendou-me uma pequena escola noutro município. Significava que Nick tinha de ir e vir todos os dias, mas era um problema facilmente ultrapassável. Nick, John e eu fomos vê-la. Parecia ser boa, dirigida por pessoas simpáticas com boas ideias, e ficaram desejosos de ficar com ele. Tínhamos de arranjar uma carta de recomendação da antiga escola, mas isso foi fácil de obter, e ao fim de um dia ou dois foi aceite.

Tínhamos assim uma escola e um psiquiatra, mas eu sabia que precisávamos de mais do que isso, e um pediatra que eu conhecia falou-me de um novo programa destinado a crianças toxicodependentes que era supostamente dirigido por algumas pessoas muito interessantes. Expliquei-lhe que não precisávamos de um programa de tratamento da toxicodependência para Nick, mas ele achava que valia a pena falar com eles, caso pudessem sugerir um grupo de apoio para Nicky.

Assim, convenci Nick a acompanhar-me quando fui falar-lhes. Ele não queria, mas pedi-lhe para me fazer a vontade. Se bem me lembro, acho que o subornei. Ou com um filme que ele queria ver, ou com qualquer coisa como um jantar num restaurante chinês. Naquela altura, eu não era superior ao suborno. Eu teria experimentado o vodu se isso ajudasse Nick. Se mais não fosse, Nick sempre me obrigou a ser criativa. Fomos a este programa de tratamento da toxicodependência falar com uma mulher que já contactara pelo telefone. Parecia ser uma pessoa jovem, enérgica e entusiasta, e gostei do modo como me respondeu quando lhe falei dos recentes problemas de Nick. Não lhe disse que suspeitava que o meu filho tinha problemas mentais, só disse que ele tinha sido expulso de duas escolas, ou melhor, expulsão de uma e pedido para sair de outra. Falei-lhe do programa de ar livre que ele completara, e ficou impressionada. Também lhe falei da escola horrível donde acabara de o tirar. E por tudo o que ela dissera, estava ansiosa por conhecê-la. Nick nem por isso.

Ouviu o walkman durante todo o caminho, tinha um ar aborrecido e disse-me que não queria ficar muito tempo. Era um dia frio de finais de Outubro e, durante a viagem, pensei em todas as argolas por onde Nick tivera de saltar e em todas as mudanças a que ele tivera de se ajustar desde o Verão anterior. Sabia que tinha sido muito duro para ele, mas, desde que o tirara da última escola, parecia relativamente alegre e esperava pela sua nova escola.

Aguardámos alguns minutos numa sala de espera nas instalações do programa de tratamento da toxicodependência. Era uma casa de tamanho aceitável, com as doze fases do programa em realce numa parede, e uma mão-cheia de adolescentes a entrar e a sair enquanto aguardávamos. Então, a mulher com quem tínhamos marcado a entrevista apareceu. Era jovem e bonita, tinha longos cabelos louro-escuros, enormes olhos verdes, e chamava-se Julie. Lembro-me de que envergava um comprido vestido às flores e ostentava um sorriso afável, quando me apertou a mão e se apresentou a Nick. Instantaneamente, senti que gostava dela. Nem sequer sei porquê, só que ela parecia inteligente, perspicaz e afável, pareceu perceber tudo o que nós estávamos a dizer-lhe e estava interessada em Nick.

Falámos-lhe da nova escola e do novo psiquiatra. A ideia era proporcionar um novo começo a Nick, e não estávamos muito certos da razão por que viéramos, nem do que queríamos dela. Mas uma coisa eu sabia com absoluta certeza cinco minutos depois da entrevista começar: eu queria esta mulher na vida de Nick. Senti-me imediatamente atraída por ela. E havia algo que me dizia que ela podia ser importante. Naquela altura, ainda eu mal sabia o quanto ela viria a significar para mim e para Nick. Como poderia eu saber que ela se tomaria minha irmã, minha companheira na sobrevivência de Nick, e uma amiga para a vida toda?

Decidimos que o melhor seria ele vir visitá-la uma vez por semana para aconselhamento, apenas para reforçar aquilo que ele estava a fazer com o psiquiatra. Não fazia sentido colocá-lo no programa de tratamento da toxicodependência, mas eu gostava do que ela tinha para oferecer: o entusiasmo, a esperança, a vida que ela irradiava. Estava disposta a recebê-lo uma vez por semana como doente particular, obtendo autorização da parte dos responsáveis do programa para o fazer.

Nem ela nem eu sabíamos exactamente qual seria a sua utilidade mas eu gostava tanto dela, e admirava a sua abertura e honestidade e a facilidade com que lidava com Nick, que queria que ele se encontrasse com ela. E Nick estava igualmente entusiasmado com ela. Tal como eu, ele gostava realmente dela. Era como que uma tradutora entre o mundo da psiquiatria e o modo como Nick a aplicava na vida real. Era também uma formidável tradutora entre a ansiedade as necessidades adolescentes de Nick e as minhas ideias mais conservadoras.

Toda a perícia de Julie, como ela nos explicou, situava-se nA área da dependência química, mas o seu verdadeiro talento era o d compreender os adolescentes. Gostava deles e de trabalhar com eles. Adolescentes problemáticos eram a sua especialidade, geralmente envolvendo drogas, mas nem sempre. Também lidava com problemas comportamentais, que pareciam aplicar-se a Nick. Ela disse que estivera na recuperação durante perto de dez anos, e que estava no aconselhamento de adolescentes durante a maior parte do tempo, desde então. Pareceu-me ter queda para isso, mas também nos fez saber que, embora tivesse anos de experiência, não tinha feito nenhum estágio formal. Mas por aquilo que pude ver, e pelo modo perspicaz com que lidava com Nick, isso, não tinha qualquer importância para mim.

Era directora do programa de adolescentes no local onde nos encontrámos, e anteriormente fora directora de um outro programa bem conhecido de tratamento da toxicodependência. E disse a Nick que ela própria tivera experiência com drogas na sua juventude. Mas, mais que tudo, parecia capaz de ouvir Nick e traduzir aquilo que ele dizia em sentimentos e necessidades racionais. Era como se compreendesse não só as necessidades e receios dele como também a sua linguagem, o que eu às vezes não conseguia.

Só tinham passado ainda alguns dias desde o seu regresso, mas eu estava imensamente revigorada com os recursos que descobríramos e, pela primeira vez, senti-me optimista com as perspectivas, tal como Nick. Ele estava efectivamente entusiasmado com o que estava a fazer. Se tivéssemos sorte, íamos ajudá-lo a dar uma volta na sua vida. Aos catorze anos, seria uma autêntica proeza, e finalmente sentia-me esperançosa relativamente ao seu futuro, pela primeira vez desde há muito tempo.

A vida de Nick foi um pouco uma corrida de estafetas depois disso: atravessava uma ponte para a escola, voltava a atravessá-la para ir ao psiquiatra várias vezes por semana, e depois atravessava outra ponte uma vez por semana para ir ver Julie. Tinha sorte se chegasse a casa por volta da hora do jantar a maioria dos dias, mas parecia gostar do que estava a fazer. Pelo menos por agora.

Contudo, ao fim de um mês ou dois, já tinha pequenos desentendimentos com os órgãos dirigentes da escola. Eles tinham um complicado sistema disciplinar que exigia que o aluno fizesse pontos, ou castigava-o quando perdia pontos. E Nick parecia ter muitas dificuldades em cumpri-lo. De novo o problema dos regulamentos. Mas ele esforçava-se, e eles não se queixavam. Julie parecia estar a ajudá-lo, ele gostava de ir ter com ela, mas o verdadeiro desapontamento foi o psiquiatra que lhe havíamos arranjado. Eu tinha a sensação de que ele nutria pouco interesse, ou simpatia, por Nick. E a única coisa que ele dizia era que Nick era um menino mimado, e os seus problemas eram de reduzida importância. Por seu turno, Nick detestava-o, e descrevia-o como «um idiota». Pensei em mudar novamente de psiquiatra, mas já tinha esgotado todos os recursos que conhecia, e Nick parecia relutante relativamente à psiquiatria. Estava a começar a achar que era impossível descobrir o psiquiatra certo para ele. Durante esse período, Julie parecia satisfazer-lhe muitas das suas necessidades.

Nick continuou com este status quo durante alguns meses; ao princípio, ia bem na escola, por fim, as coisas começaram lentamente a derrapar. Estava a ficar novamente deprimido com tudo e a meter-se nas drogas de quando em quando. Encontrei um pequeno recipiente vazio de gás hilariante no seu quarto, o que me deixou em pânico, e a escola achava que ele usara um na escola, durante o intervalo, embora Nick o negasse veementemente. E, desta vez, acreditei na escola, e não em Nick.

Ao ler os seus diários agora, sei que durante esse Inverno, antes de fazer os quinze, em várias ocasiões, ele experimentou uma verdadeira «paraferriália» de drogas para libertar o espírito, tudo desde a marijuana ao LSD, aos «cogumelos», ao Ecstasy, ao speed. Julgo que ele deve ter tomado uma razoável quantidade de marijuana, o que provavelmente só o deprimiu ainda mais.

Estava a «isolar-se» no seu quarto novamente, afastando-se da família, e, embora não tivesse quaisquer problemas sérios na escola, também não estava feliz. A única coisa que parecia ajudá-lo, era ir ter com Julie.

Eu não sabia do consumo de drogas na altura, embora estivesse de olho em cima dele. Julgo que também experimentou cocaína. Não estava viciado em nada, mas estava a automedicar-se. Também me disseram na altura que problemas parecidos aos dele, acompanhados de depressão profunda, pioravam excepcionalmente durante a adolescência. O constante aumento de hormonas no seu sistema seria um desafio cada vez maior se ele efectivamente tivesse sérios problemas mentais. Mas naquela altura ninguém confirmara, ou sequer admitira, o facto de ele ter problemas sérios. Era constantemente definido como um rapaz muito inteligente, mimado, que estava a passar um mau bocado com a adolescência. A única coisa que eu agora queria era que eu e os profissionais que tinham dito aquelas coisas tivéssemos visto os seus diários. Ter-nos-iam dado pistas importantes de que precisávamos. Mas eu tinha um respeito demasiado grande pela sua privacidade para os ler.

Julie abandonou o programa em que ele estava inscrito, na Primavera, e começou a visitar doentes particulares nas suas casas, a ajudar adolescentes que tinham problemas comportamentais na escola ou com os pais, e pedi-lhe para ver Nick em casa. Ele estava a ficar cada vez mais difícil de controlar, mais isolado, mais deprimido, mais beligerante e mais hostil. Conseguir que ele viesse jantar à noite era um martírio diário, e, quando vinha, era capaz de aparecer em roupa interior ou envolto na colcha da cama. Pura e simplesmente, estava a começar a agir com uma certa dose de loucura. Mesmo Julie dizia que ele estava diferente, e mais difícil do que os outros doentes com quem ela lidava, mas isso não parecia assustá-la. Era incansavelmente criativa, aparecendo com soluções para tornar a vida mais agradável a Nicky. Parecia arranjar sempre maneira de comunicar com ele, mesmo quando nós não conseguíamos. Tinha um talento excepcional. Conseguia chegar a Nick quando mais ninguém conseguia.

Falei com a minha médica acerca de Nick, pois ele era uma constante preocupação para mim, e ela disse-me uma coisa que mais ninguém disse. Referiu que, embora nunca o tivesse visto, suspeitava que ele estivesse de facto mentalmente doente num grau avançado, possivelmente esquizofrenia ou psicose maníaco-depressiva, o que me chocou, e expressou grande surpresa por o seu próprio médico não ter demonstrado grande preocupação com ele. Ao princípio, resisti ao que me estava a dizer, e insisti que era normal, o que eu sabia que não era, mas o que ela estava a dizer era aterrador.

Também me disse que, quando deixasse de ter expectativas normais acerca dele e o tratasse como «o nosso maluquinho do sótão», as coisas correriam melhor, ou pelo menos seriam mais realistas. Ele tinha catorze anos e a ideia de que estava de facto mentalmente doente, e talvez até com uma certa gravidade, deixava-me aterrorizada e dilacerava-me o coração, mas não podia negar. Ela tinha razão naquilo que dizia. Que diferença fazia se ele vinha jantar? De facto, seria mais fácil para todos nós se ele não viesse. A hora do jantar tinha-se tornado um pesadelo, ele discutia por tudo e por nada, insultava toda a gente, peidava-se, arrotava, dizia graçolas, gritava com quem lhe apetecia, e estava constantemente obcecado com coisas que queria fazer a meses de distância, como qual o concerto a que poderia ir daí a três meses e quem o levaria. Tornava a conversação impossível, e as outras crianças nunca podiam dizer nada. Tentei estabelecer regras que não permitissem estragar a refeição a toda a gente, mas eram mais regras que ele não conseguia ou não queria seguir. Era doloroso vê-lo assim. Começara a ter um ar desleixado, recusava-se a pentear ou a escovar o cabelo, e parecia ter prazer em torturar toda a gente, a mim em especial, arranjando discussões e insultos dia e noite, especialmente à hora das refeições.

Numa questão de meses, apesar de tudo o que estávamos a tentar fazer por ele, parecia ter perdido tanto o controlo como o respeito por si próprio, e mergulhara descontroladamente numa depressão abismal. Mas, pela primeira vez na vida, estava a ser abusivo e agressivo. Tinha catorze anos e estava apaixonado por uma rapariga três anos mais velha do que ele, e dizia insistentemente que iam casar-se. A sua vida era um súbito emaranhado de comportamentos irracionais de proporções monumentais.Julie começou a vê-lo uma ou duas vezes em casa e, à medida que o fim do ano lectivo e o aniversário dos quinze anos se aproximavam, passou a vir diariamente. Não teria conseguido sobreviver sem ela. A sua calma influência, a sua perspicácia e as suas palavras sábias não só tornaram a vida dele mais suportável como também a nossa. Ela era como uma intérprete entre facções antagónicas. Às vezes, ela tratava dos mais pequenos problemas da vida diária, como tomar duche ou calçar os sapatos. Outras vezes, tratava de assuntos de muito maior dimensão. Além disso, como todos os pais que lidam com filhos problemáticos, John e eu tínhamos opiniões divergentes às vezes, e a angústia de lidar com Nick de minuto a minuto, dia após dia, originou uma tensão quase inevitável no nosso casamento. As vezes, Nick estava no nosso quarto às duas, três e quatro da manhã, a discutir algo trivial, e Julie não estava ali para nos ajudar. Era cansativo, doloroso e triste para todos os envolvidos. O comportamento de Nick na altura estava a pôr toda a gente debaixo de tensão, embora nos esforçássemos por lidar com ele separadamente e não deixássemos que ele estragasse as crianças mais novas. Mas era sempre impossível, e não era certamente fácil. Particularmente nesses dias, viver com Nick era realmente um pesadelo, e John e eu estávamos preocupados. Havia tantas coisas e tantos aspectos para pensar e que nos preocupavam: o seu bem-estar físico, a sua vida académica, o seu comportamento em casa, o exemplo que ele dava, negativo ou positivo e, além disso, o grande receio de que o que estava a alimentar a sua insubordinação era efectivamente algo muito mais perturbador do que a adolescência. Toda a minha atenção estava centrada em Nick numa base diária, e estava sempre à procura de tempo para passar com as outras crianças. Ter Julie ali ao pé de mim para conversar com Nick deu-me o tempo de que precisava para lhes dar atenção.Havia dias em que me apetecia deitar no chão a chorar, ou em que pensava que ia dar em maluca. O pior era que eu não sabia como ajudá-lo. A paciência e a razão causavam pouca ou nenhuma impressão em Nick, as ameaças e as consequências não o faziam vacilar. Tentámos firmar contratos com ele, que discutia durante horas, com negociações intermináveis, que acabava por assinar, e quebrava minutos ou horas mais tarde. Os contratos não tinham valor.

Eu receava que o tempo que estava a passar no psiquiatra estivesse a ter pouco efeito sobre ele, e ainda ninguém sugerira qualquer medicação. Quando eu disse ao médico de Nick o que a minha médica dissera, acerca do facto de Nick poder estar seriamente doente, tive a sensação de que ele ainda não estava preparado para chegar àquela conclusão e, afinal de contas, ele conhecia melhor Nick. Em vez disso, sugeriu que ele firmasse outro contrato. Eu poderia ter forrado as paredes com os que já havíamos firmado com ele, e sabia então que eram inúteis. Não interessa se eram aceitáveis no momento em que os firmávamos, ou se eram viáveis: ele nunca os cumpria. Nem por um dia, ou um minuto. Era como se os acordos que estabelecíamos com ele se evaporassem no instante em que nós os firmávamos. Não tinham qualquer valor para si.

Sei agora que os seus diários ter-nos-iam dito tudo isso, aos seus médicos, naturalmente, se os pudéssemos ter visto. A chave estava aí, mas estava na posse de Nick. Só ele sabia a extensão do seu tormento e não contava a ninguém. O que nós víamos era um rapaz profundamente perturbado, hostil, agressivo, triste, amedrontado, acordado metade da noite, e que vagueava pela casa de cabelos desgrenhados, enrolado na colcha da cama, dormindo, por vezes, no chão. Todavia, ninguém com quem eu falava parecia partilhar as minhas preocupações.

Estes registos são de um diário a que ele chamou «Rapaz-Macaco», que era um nome que ele dava a si próprio. Alguns dos registos são incoerentes. Outros, a maioria deles, são bastante brilhantes, especialmente para um rapaz de catorze anos.

«Demónios»

Os demónios entram-me na cabeça aos pontapés, às piruetas e a rir Os sentidos estão mortos. Encolho-me. Soltam risadas e beliscam-me, as unhas a espetarem-se-me na carne. Contorço-me, apetece-me vomitar, sai-me uma golfada de sangue, sinto-me morrer Pendurado neste gancho não é tarefa fácil, baloiço de um lado para o outro, sou torturado, na ilusão da grande evasão. Não vejo mais nada para além da parede de aço verde, que espreita por sobre as pilhas de destruição deixadas pelos meus algozes...

Este diário está cheio de histórias acerca de Sarah, a amiga que morrera há quase dois anos, no sétimo ano. Mas ainda sentia imensas saudades dela, e ansiava estar com ela.

E mais adiante... no seu inferno particular, onde ele se devia sentir muito só. Sinto o coração a despedaçar-se ao ler o que ele escreveu:

~ O cheiro a carne queimada invade-me as narinas. Estou aqui sentado, de cabeça baixa, sonolento, a coçar-me. Eles estão a falar Tudo é suave e indistinto. OS olhos desfocados, baços, os punhos a baterem-me, os rostos vermelhos. Dizem-me: «Tu és mau. Tens sido um menino mau.» Não me sinto assim. Não sou mau. Não sou louco. Só quero que todos se calem e me deixem em paz. Quero ser terno, estar à vontade, sentir-me vivo. Só que não consigo encontrar esse lugar. Esse pequeno lugar tranquilo para descansar «Entra, fica um pouco, tira o chapéu, os sapatos, põe-te à vontade.» Quero sentir-me desejado, abraçado, observado. Quero que me digam que sou bonito. Sou perfeito. Mas nunca me dizem essas coisas. É a batalha infindável para chegar onde quero estar, longe de toda a gente, a espreguiçar-me na sala fumarenta da misantropia. Só quero tirar as botas, os pés a descansar em cima da mesa do café. Quero sentir-me assim eternamente, longe das coisas más, das pessoas mesquinhas, da interminável rotina cheia de pessoas com ar sombrio a sofrer, velhas e tacanhas, a abarrotar de ressentimentos, e com um ódio visceral por coisas diferentes delas próprias. Não gosto delas. Todas olham para mim com um ar de gozo, riem-se nas minhas costas, apontam-me a dedo. Fazem-me sofrer e sentir-me indesejado. Odeio isso.

 

Mais registos de diário:

«Dor»

Estou farto e cansado! Faço sempre o melhor que posso. Faço o que tenho afazer Não interessa se me faz chorar e se me magoa cá dentro. Ninguém sabe como me sinto. Ninguém vê o esforço. Esforço-me até ficar a suar, a chorar, a tremer Sinto uma fúria e um ódio tão grandes que deixo de ver Começa tudo a andar à volta. Agarro-me à corda que me puxará para a salvação, mas cada centímetro que trepo, alguém baixa mais a corda, rindo-se das minhas lágrimas, do meu suor, do meu sangue. Mete-me nojo. Não vale a pena o esforço. Sinto-me aliviado quando largo a corda. Ponho-me de pé, escovo a roupa, limpo o sangue da cara. E depois vou-me embora. Deixo as vossas gargalhadas, o vosso gozo. Todo o esforço não tem sentido. E como tentar caminhar numa parede. E o vosso ódio sem sentido ainda me atiça, fuja para onde fugir para me ver livre dele. Não consigo correr, movam-se as minhas pernas o mais depressa que se moverem. Não consigo esconder-me por mais sujo que fique. Isto é tudo um jogo para vocês, um truque para ver até onde conseguem empurrar-me. Estou acima da linha agora. A minha vida é o vosso jogo.

 

«Força»

Já alguma vez experimentaram pôr os braços à vossa volta para imaginar que alguém vos está a abraçar? Já alguma vez imaginaram poder falar com eles e pegar-lhes nas mãos? Já alguma vez sentiram que eram feios e inúteis e tentaram descobrir os vossos defeitos, olhando para o espelho durante dias a fio? Já alguma vez se riram disso? Já alguma vez se sentiram estranhos e estrangeiros? Já alguma vez foram postos de parte e fodidos, queimados e violados dentro das vossas cabeças? Não conseguiram perceber o que eles queriam. Não conseguiram descobrir o que precisavam. Já alguma vez esconderam a vossa sensibilidade, os vossos sentimentos verdadeiros, porque receavam ser espezinhados? Bom, eu já. Eu já fiz tudo isso. Já passei por isso. Ainda estou a passar Faço companhia a mim próprio e tento imaginar alguém a amar o meu corpo torturado de corpo e alma. Tenho de ser forte para o fazer Tenho de cerrar os punhos e os dentes, fingir ser puro e fazer o que tenho a fazer, apesar das consequências. Apesar da dor e do fogo que me arde no peito, preciso de controlar os sentimentos e lidar com a situação. Nada de comida, de gargalhadas, de aplausos, apenas sobrevivência. Apenas o esqueleto de dentes podres e suado que me guia e assusta a merda com que tenho de lidar Tenho de descobrir o meu último vício e levá-lo para a última página, para poder partir com um estoiro monumental.

 Sou apenas um rapaz colérico. Não sou um imbecil. Sento-me neste parapeito e deixo que a chuva me molhe as costas. Não seio nde irei daqui. De todas as vezes que me inclino para a frente, o alcatrão negro cai dos meus lábios. Os pulmões param de respirar e o estômago enche-se de sangue. Quando morrer, também me transformarei em pó. Deitarei o meu papagaio a voar e correrei pela vastidão dos campos. Terei amigos. Terei uma família. Já sofri o bastante nesta vida. Estou cansado de tentar escapar de tudo, cansado de ter de  escapar de tudo. Tenho de fazer como as outras pessoas, e a uni . ca coisa que quero é não ficar cheio de ódio atroz e nojento que me apodrece as entranhas.

 

«Explodir»

Normal é mau, equilíbrio é merda. Quero ser colérico, cruel, andar sem camisa, suar, gritar a plenos pulmões e arranhar a minha própria pele o resto da minha vida. Quero rolar em cima da carpete suja, as sirenes a deflagrarem por cima de mim, esfrangalhando o ar Quero estar zangado e só, quero odiar o mundo, odiar os meus pais, odiar-me a mim. Não quero ter de telefonar a ninguém, e ter de fingir que estou feliz, ter de fingir tudo o que não sou. Não aguento mais. Quero atirar-me para dentro da máquina e emaranhar-me nas minhas próprias entranhas, e lá ficar, a arquejar, a ser violento e aos berros. E o que sempre sonhei fazer, o que sempre quis fazer É uma coisa muito simples. Mas não ma deixam fazer Prendem-me os braços e riem-se maldosamente das minhas racionalizações. Perguntam-me porque faço as coisas que faço, porque sou um rapaz tão perverso, porque sou tão mau. Mas não tenho 'resposta. Apenas tento deitar abaixo a muralha da psicose deles ,e acho que vou explodir se não conseguir fugir, se não conseguir saltar para o outro lado, para gritar, para sentir o meu coração a pulsar, para o seguir Eles agarram-me o coração, espremem-no, comprimem-no e repetem sem cessar que vou melhorar Estou a ser curado. Não consigo ver nada através da água e dos dragões vermelhos que se apinham na minha cabeça, e que as minhas pálpebras inchadas mal contêm. Tenho de fugir deles, de procurar refúgio. Porque não se vão embora? Julgo que já não é assim tão simples.

 

«Adorável feio mundo brutal»

Porque é que estou sempre tão confuso, infeliz e colérico? Que se passa na minha cabeça que faz com que tudo pareça tão distorcido e disparatado? Ou é tudo assim tão feio e tão mau? Não pode ser As pessoas dizem que não. Mas, se não for, porque é que há sangue no chão, sangue nas paredes, sangue nas minhas mãos? O sexo é violento, a dor é silenciosa. Estou no meio do furacão com um amontoado de cadáveres e bocados de corpos a voar à minha volta. E não posso mover-me porque tenho medo de ser apanhado no remoinho chamado sanidade.

Já alguma vez observaram os casais na rua? Quando são jovens, dão as mãos para não poderem matar-se. Quando são velhos dão as mãos para não caírem.

Quando estou apaixonado é como um cubo de gelo a deixar o seu rasto de entorpecimento atrás. Sinto-me enjoado mas contente, nervoso mas excitado. É o último sentimento de medo e esperança combinados. Quando estou apaixonado é como mãos frias a tocarem-me. É agradável mas aterrador Sinto desconforto embora esteja sentado numa fofa nuvem cor-de-rosa, sinto-me só.

 

«Controlo»

A maldita luz do Sol trespassa as paredes da minha cela, fecho os olhos, não preciso do seu calor nem da sua luz curativa. Quero ficar aqui na escuridão, pálido, a arquejar, a sangrar, com o desejo de escapar para a realidade, mas não encontro nada. A minha alma está vazia. Sinto-me fraco, oco, só. Rezo para o negro céu vazio à noite e peço ao Ser que os meus pais me disseram que vai salvar-me, mas não vai . conseguir Não há nenhum Deus que me guarde, nenhum Céu que esteja à espera da minha chegada. Choro para o abismo ecoante e debato-me na escuridão, os punhos à procura desesperadamente de ar. Quem me dera bater em algo para saber quenão estava sozinho aqui dentro. Mas estou. Nenhum lugar para onde ir, nada para ver. Estou fechado na minha prisão, como um animal, e começo a sentir-me um. A única coisa que sei é que tenho de suportar o sufocamento das noites aqui, no meu quarto,sozinho.

 

«Sonho»

Um sonho despenhou-se na minha cabeça esta tarde. Deixou-me o crânio fracturado, o espírito desfeito, o coração dilacerado. Sei que posso consertá-lo, mas deve ser tão difícil como deixá-lo escorrer por entre os meus dedos. Isso faz-me chorar e sei que não posso deixar que isso aconteça. Não posso fugir da luz que me custou tanto a atingir. Não quero viver mais na escuridão. Tenho muito a perder. Tenho mais coisas boas e felizes na minha vida do que alguma vez tivera ou imaginaria que teria. Já não tenho as armas Para afugentar   a realidade. Não posso afastar-me mais dela, e não sei sequer se alguma vez vou querer Quero a felicidade mais que tudo e descobri novas ferramentas para me ajudarem a encontrar Preciso de pôr a minha vida a funcionar e só posso conseguir isso se me esforçar Sei que consigo, e sei como é assustador porem-me a fazer qualquer coisa. Estou certo de que consigo. Tenho amor a segurar a minha mão direita e ela está a ajudar-me a chegar à vida com a esquerda. Ela é aquilo de que preciso para me ajudar a tornar-me forte de novo. Já não quero ter medo e ser fraco, Fi a luz, e quero tentar lá chegar rapidamente.

Este diário, embora extremamente frio e angustiante, parece acabar numa nota de esperança, enquanto ele ainda tinha catorze anos. Mas não havia qualquer dúvida nas nossas cabeças de que ele estava a ficar cada vez mais doente. Os demónios que reinavan dentro dele estavam a pouco e pouco a ficar descontrolados. Julie e eu passávamos horas a falar sobre isso, tentando descobrir meios de o tornar «normal».

Estava a ter cada vez mais problemas na escola, à medida que o ano lectivo se aproximava do fim, e fazia quinze anos. Eles telefonaram finalmente e disseram-nos que ele necessitava de tratamento antes de regressar no Outono. Julie e eu ficámos preocupadas, tal como John, e ela tratou de saber o que se passava. Ele estava a tomar drogas na altura, embora não muito a sério, mas obviamente ainda à procura de alívio. Um programa de tratamento da toxicodependência não era adequado para ele, um hospital psiquiátrico parecia-me demasiado cruel, e o seu psiquiatra não concordaria com isso. Não vivendo com Nick, não conseguia ver o problema tão claramente como nós. Procurei informar-me acerca de um programa ou hospital para Nick, mas o psiquiatra parecia não sentir que os problemas de Nick fossem suficientemente graves para justificar o internamento.

Fui a uma sessão com Nick e o seu psiquiatra, nessa Primavera, e a única coisa que Nick fez foi sentar-se e insultar o homen, enquanto o médico falava pacientemente com ele. Mas eu via facilmente que Nick não tinha nenhum respeito ou afecto por ele. Do ponto de vista médico-psiquiátrico, parecia que não íamos chegar a lado nenhum. Este era o terceiro psiquiatra de Nick em quatro anos, e Nick não tinha qualquer interesse em cooperar no seu tratamento.

Julie parecia ser a única que obtivera alguns resultados com Nick, embora fosse a primeira a admitir que tinha pouca ou nenhuma experiência no campo das doenças mentais. A sua especialidade era na área do abuso de drogas e dos problemas da adolescência, mas adorava Nick e queria fazer tudo o que pudesse para o ajudar. O mundo dos doentes mentais era novo para ela. A beleza disso era que ela não tinha quaisquer preconceitos. Estava disposta a experimentar tudo para o ajudar, tal como eu. Mas era evidente para nós, se não mesmo para outras pessoas, que Nick estava doente mentalmente, quer o seu "problema" tivesse ou não nome. Juloie estava disposta a aprender com a experiência, talcomo nós, mas estava a ficar claro para todos que os problemas que perturbavam Nick eram do foro mental, havia vários buracos psiquiátricos nele, que nós nos esforçávamos desesperadamente por preencher, só os três, John, Julie e eu, sem a ajuda de mais ninguém. Era como tentar evitar que Nick sangrasse até à morte. Cortara uma artéria algures, no fundo da sua alma, e a única coisa que sabíamos era que tínhamos de descobri-la e laqueá-la de novo. Rapidamente. Antes que ela o matasse.

 

PROGRAMAS, AVALIAÇõES E FINALMENTE A MEDICAÇÃO. UMA PEQUENA ESPERANÇA EMERGE POR FIM.

Pouco antes de Nick acabar o seu primeiro ano do ensino secundário, Julie recomendou um hospital com um programa para adolescentes, noutro estado, durante uma breve estada, no Verão, para ir ao encontro dos desejos da escola e ajudá-lo. Ele acabara de fazer quinze anos, e não tínhamos a certeza se um hospital era inteiramente adequado para ele, pois o principal foco de atenção deles era a dependência química. Estes recursos eram os que Julie conhecia melhor, e ela ainda sentia que havia meios para que Nick os usasse. Achámos que não lhe faria qualquer mal, pois haveria psiquiatras perto para falar com ele. Não sabíamos que mais poderíamos fazer, e o local tinha, uma excelente reputação.

Tínhamos de fazer alguma coisa, sabíamos disso, e parecia que o seu psiquiatra ainda não estava tão desesperado como nós. Dizia que não conhecia nada que pudesse recomendar para tratamento de Nick, embora todos reconhecêssemos o facto de Nick estar a afundarse cada vez mais na depressão, e havia até alturas em que ele já não dizia coisa com coisa. Vejo isso com mais clareza quando leio os seus diários.

Nick concordou em ir para o hospital a título de experiência, embora não estivesse muito entusiasmado com o facto. Mas a escola solicitara que ele tivesse algum tipo de ajuda antes de regressar no Outono; não tinha muito por onde escolher. E o psiquiatra de Nick aprovava o local para onde estávamos a planear mandá-lo.

Nick quase perdeu o avião quando se fechou na casa de banho pouco antes de partir. Dizia que havia uma coisa que tinha de fazer antes de sair de casa, mas comecei a ficar em pânico quando alguém disse que ele tinha ido à casa de banho, com luvas de borracha calçadas. Bati à porta, ameaçando mandá-la deitar abaixo. Tinha a premonição de que estava alguma coisa horrível a acontecer ali dentro. E, quando ele finalmente abriu a porta e o vi, concluí que não me enganara totalmente. Encostou-se à porta, a rir para mim, com tinta azul a escorrer pelo pescoço e pelas faces. O cabelo ainda estava húmido, e a tinta estava espalhada por todo o lado, por cima dele, no chão...

«É uma cor nova. É turquesa. Que tal achas, mamã?» Parecia um miúdo que acabara de fazer a sua primeira pintura com o dedo no infantário. Era difícil não o adorar ou não desculpar as loucuras que fazia. «Não gostas?» Sim, mais do que a própria vida, Nick. Apressei-o para que não perdesse o avião.

Julie acompanhava-o para o hospital onde ele era suposto ficar durante um mês. Eu ia para Napa com os miúdos, e quando ele estivesse despachado do hospital ia ter connosco lá.

Esperava, ingenuamente, apesar da minha experiência, que fosse uma permanência tranquila desta vez. Ele faria os seus trinta dias, telefonaria de tempos a tempos, contar-nos-ia como é que as coisas estavam a correr e voltaria melhor do que partira. Julie planeava passar a primeira semana com ele, pelo menos, deixá-lo lá quando se sentisse à vontade, e depois regressar para a última semana e trazê-lo para casa.

Mas eu conhecia bem Nick para não estar a sonhar que as coisas decorreriam calmamente. Eu devia estar maluca para pensar que isso poderia acontecer. As coisas correram bem nos primeiros dias, como mostram os seus registos no diário. Pelo menos, estava lúcido.

Se fores uma pessoa boa, os outros devem ser simpáticos para ti. Se fores um parvo, mereces ser tratado da mesma maneira. Tento tratar as pessoas com respeito, mesmo que não goste delas, por isso recebo o mesmo. Se todavia não forem simpáticas, então as parvas são elas, não tu. Eu penso que isto é especialmente importante porque não podes efectivamente evitar ninguém. Especialmente os membros do teu grupo porque tens de lidar com eles constantemente. É uma boa prática para o futuro porque em situações de trabalho não podes implicar com as pessoas a torto e a direito e esperar que elas sejam porreiras contigo.

1. Admiro a honestidade, a lealdade, a simpatia, a generosidade, a criatividade, a sensibilidade e a força. Não a força física, mas admiro as pessoas que enfrentam situações difíceis, e se tornam pessoas mais informadas e inteligentes por causa disso.

2. Admiro a minha mãe porque trabalhou para ter aquilo que tem. Começou pobre e passou por períodos muito duros, mas saiu mais fortalecida, em vez de ficar amargurada. É uma pessoa muito simpática, carinhosa, generosa e honesta. Consegue expressar os seus sentimentos e é extremamente leal à família.

Porém, alguma coisa correu mal ao fim dos primeiros dias, e as coisas começaram a ficar fora de controlo. É possível ver isso nos registos do diário. Ele diz que acha que é maníaco-depressivo e louco, e depois escreve sobre a morte, o sangue, a dor, os excrementos, tudo isso em imagens carregadas de raiva. E escreve então:

Caí na armadilha da adolescência. Fiquei aturdido com a viagem através do espremedor Estou sujo. Estou caído no chão. Sou um mapa, uma imagem de regressão. Sou a criatura mais desprezível no ciclo da evolução. Sou porcaria. Sou ódio. Sou guerra.

Sem dúvida, ele não estava bem naquela altura, e não sei o que aconteceu entretanto para o perturbar.

Começou a insultar os conselheiros, recusava-se a cumprir os regulamentos, não ia à terapia de grupo e, depois, talvez espicaçado por coisas ditas nas sessões, segundo Julie, decidiu que nos detestava, e anunciou que nunca mais voltaria para casa. Ao que parece, alguém lhe falara no fardo que devia ser para ele ter uma mãe famosa, sugeriram-lhe que eu talvez nunca estivesse com ele, ou que talvez ele tivesse sido despachado para que eu pudesse ficar livre para prosseguir a minha própria vida. Nick correu com a bola que lhe atiraram e correu desvairadamente com ela. Tentava marcar ponto, mas não fazia ideia para que equipa, e, depois de uma ou duas semanas ali, estava desnorteado. Odiava-nos, odiava-me, odiava John e odiava Julie. Odiava toda a gente e, quando lhe perguntava se se sentia «abusado» por nós, dizia que sim. E disseram-lhe que podia ficar sob a custódia do tribunal se quisesse.

Quando Julie voltou ao hospital, viu o estado em que ele estava. Completamente confuso e muito maníaco, assustado e firmemente decidido a ficar sob a custódia do tribunal, embora não soubesse ao certo por que razão é que chegara àquela conclusão. Ela disse-nos que tínhamos de trazê-lo para casa e depressa, antes de ficar ainda mais confuso, e o hospital concordou. Ele sentira demasiada pressão sobre si, e não conseguiu lidar com ela. Havia algo nele que se alterara, e Julie dizia que ele mal sabia quem era ou onde estava. Mas complicara extraordinariamente a situação, ao pedir para ficar sob a custódia do tribunal. Finalmente, telefonei a um advogado, que conhecia alguém numa cidade perto do hospital. O amigo do meu advogado telefonou para o hospital, e Nick ficou tão confuso e tão difícil que o hospital também achou que ele tinha de vir para casa, para junto de nós. Ficara enervado, em pânico, confuso e não conseguia controlar-se. A especialidade deles não era lidar com psicóticos, era lidar com miúdos toxicodependentes. Os problemas de Nick pareciam-lhes de muito maior dimensão, tal como a nós.

Queriam tanto mandar Nick embora como nós o queríamos em casa. Estivera lá durante exactamente duas semanas, e, embora estivesse deprimido quando saíra de casa, estava funcional. Agora parecia completamente louco e descontrolado.

Julie pediu-nos para lhe mandar um guarda-costas para a ajudar a trazê-lo para casa. Nick estava em tal estado que ela ficou nervosa com a eventualidade de ele poder fugir ou entrar em pânico durante o voo. E mandámos-lhe uma pessoa muito simpática para a trazer e a Nick para casa. Mas logo que chegaram ao aeroporto, depois de saírem do hospital, ela telefonou. Já o acalmara bastante. o que nos preocupava era que ele vinha tão descontrolado como estivera no hospital. Não parecia estar em estado de vir para casa, e encontrávamo-nos, uma vez mais, perante o problema do que fazer com ele quando saísse do avião. Precisava de estar internado num sítio onde pudesse calmamente restabelecer-se. Telefonei ao seu psiquiatra, que não se lembrava de nenhum lugar apropriado para o pôr. Nick não era perigoso para ele ou para outra pessoa, não se dava bem com hospitais e, de acordo com o médico, ainda não precisava de medicação. Como era habitual na altura, sentia-me extremamente angustiada. E era evidente para mim que Nick estava demasiado doente para vir directamente para casa. Eu não conseguiria tratar dele sozinha, e também tinha de pensar nas outras crianças.

Encontrei-me com Nick quando saiu do avião, com um grau razoável de agitação. Dissera-me ao telefone que me odiara bastante na semana anterior, que não entendia como é que eu fora capaz de o abandonar, que me interessava pouco por ele, e a única coisa em que eu estava interessada era na minha carreira e na minha fama. Ele já não estava racional e parecia culpar-me de todos os seus problemas.

Teria sido inútil tentar discutir com ele ao telefone durante a estada no hospital, para lhe recordar quanto tempo passava com ele e com as outras crianças. Nick tornara-se um emprego a tempo inteiro para mim. Eu estava constantemente a entrar em contacto com a escola, com o psiquiatra e a conversar com Julie acerca dele. Não havia horas suficientes no dia para lhe devotar, dedicava tempo de qualidade às outras crianças, trabalhava noite adentro em programas de televisão e livros. Mal dormia. Andava sempre numa roda-viva. Sempre a desculpar-me por chegar atrasada, ou a passar horas ao telefone, a tentar descobrir novos recursos para Nick. Era uma vida cheia de desafios, mas talvez Nick não estivesse inteiramente ciente disso. Ele não sabia quantas horas por dia eu levava a tentar ajudá-lo. Só sabia que não gostava da vida, como a maioria dos adolescentes. Como muitos miúdos da sua idade, ele era extremamente egocêntrico, e exigia muita atenção e tempo de toda a gente, particularmente da minha parte.

Porém, à espera dele no aeroporto, no dia cinco de Julho de 1993, todos os meus problemas pareceram desaparecer quando vi Nick, tal como acontecera quando ele nasceu. Só via aquele sorriso, aqueles olhos e aquele rosto que tanto amava. E quando ele me viu, sorriu-me e veio a correr dar-me um enorme abraço. A primeira coisa que me disse foi: «Adoro-te, mamã.» Depois, lançou-me aquele olhar tímido que eu tão bem conhecia e acrescentou: «Não sei porque sou tão louco por ti. Acho que fiquei confuso. Mas já não estou louco. Agora está tudo bem.» Eu sabia que era o momento em que o via, mas também sabia que ele tinha posto o dedo na consciência. Ele ficou confuso lá. Ou pura e simplesmente o tratamento deles não resultara com ele, ou alguma coisa na terapia de grupo pusera demasiada tensão sobre si, embora eles não tivessem culpa disso. Era difícil imaginar o que acontecera, mas certamente que não lhe fizera nenhum bem. Os nossos objectivos para ele não tinham sido atingidos. Estava pior do que quando fora para lá, mais deprimido, embora aliviado por me ver. Talvez fosse apenas um agravamento natural da sua doença, e pudesse ter acontecido em qualquer outro lugar. O regulador da bomba-relógio da sua doença estava constantemente ligado.

Mas ainda necessitava de ajuda, e Julie arranjara uma solução temporária inextremis. Nesta altura, temos de perceber que ainda não sabíamos o que se passava com Nick. Fosse o que fosse que o estivesse a fazer sofrer, e era obviamente bastante, constituía ainda um mistério para nós. Ainda ninguém nos fizera um diagnóstico correcto do seu problema nem encontrara uma solução que resultasse.

A nossa táctica de jogo naquele dia era pô-lo num programa onde Julie conhecia várias pessoas que o dirigiam. Ela telefonara-lhes a pedir ajuda, e eles estavam dispostos a aceitá-lo, e ele poderia ir directamente do aeroporto, o que era uma dádiva divina. Era outro programa de tratamento da toxicodependência, o que não era completamente adequado para ele, pois os seus problemas eram mais psiquiátricos do que relacionados com droga, mas ele não parecia estar preparado para um hospital psiquiátrico nessa altura, e nós não conhecíamos ninguém que conseguisse interná-lo num. Precisávamos de um sítio onde o colocássemos até ele recuperar parte do seu equilíbrio. E, embora soubéssemos que os programas de tratamento da toxicodependência não resolveriam o problema de Nick, a única opção eram os recursos que Julie conseguia arranjar. Ele não estava suficientemente funcional para estar em casa. Até aí, nenhum médico achara que um hospital psiquiátrico era adequado para ele, e acreditávamos que a única coisa que Julie podia fazer era ajudar-nos a metê-lo em programas de tratamento da toxicodependência onde era conhecida, por mais limitados que fossem os benefícios para Nicky. Ainda procurávamos soluções às cegas. E ainda não compreendêramos que os tratamentos da toxicodependência, onde ele não se encaixava e não conseguia funcionar de forma correcta, só o confundiam ainda mais. Mas não tínhamos mais nenhum sítio para onde nos voltarmos.

Quando vimos o programa, levámo-lo lá nesse dia, mas eu não estava segura de ser o sítio certo para ele. Tinha quase a certeza de que não. Era um pequeno edifício sem estufa, sem jardim, sem qualquer espaço para ele se exercitar. Mas sentíamos que não tínhamos alternativa. Embora ele estivesse mais calmo do que estivera alguns dias antes, ainda parecia muito confuso e baralhado para o levarmos para casa para junto das outras crianças. Esperávamos mantê-lo ali durante algumas semanas, e desta vez chegámos a acordo sem negociação. Ele sabia que não estava bem para vir para casa. Mas não gostou das instalações quando as viu. A única coisa que poderia fazer era prometer-lhe que o traria para casa logo que pudesse. E eu sabia que ele acreditava que eu faria isso. Dera-lhe a minha palavra, e ele sabia que eu cumpria o que prometia.O que não discutimos, embora o devêssemos ter feito, foi a forma como as pessoas do programa reagiriam a mim. Fiquei subitamente perante uma dicotomia agora familiar. Se, por um lado, ficaram aparentemente impressionados pela minha fama e toda a gente quisesse autógrafos quando chegámos, por outro, também pareceram reservados. Julie conhecia muitas pessoas lá, e escolhera o programa, e eles tinham concordado, numa posição não oficial, que ela poderia tomar parte no tratamento de Nick. Tinha a vantagem do saber e da experiência, e conhecia-o melhor do que eu. Um dos problemas de Nick nos programas de tratamento da toxicodependência era que enquanto os outros miúdos começavam a normalizar e a encontrar de novo o equilíbrio, sem drogas, Nick parecia piorar e funcionava menos bem do que os outros nos confins dos regulamentos e estrutura deles. Ele era efectivamente menos funcional do que eles, muito menos do que parecia. Era fácil esperar muito dele, e sermos enganados pelo afecto que mostrava. Era brilhante, doce, engraçado, e toda a gente que o conhecia tornava-se vítima do seu charme. Ao princípio, mostrava-se geralmente mais «normal» do que realmente era.

Ao fim de pouco tempo, eles tentaram aplicar-lhe alguns dos seus regulamentos, relativamente às responsabilidades, participação nas sessões de terapia de grupo e forma de vestir. E Nick recusou-se, ou foi incapaz de os cumprir. Ao mesmo tempo, o programa decidiu prescindir da ajuda de Julie no tratamento de Nick. Quando telefonei para ele, estava incontactável, e eles mostraram-se muito pouco cooperantes connosco. Senti que tinha de fazer um esforço supremo para provar que éramos pessoas vulgares e não estávamos à espera de tratamento especial. Mas uma coisa se tornava evidente para nós, e finalmente para eles: quanto mais rígidos fossem os regulamentos para Nick, menos ele era capaz de funcionar, até deixar de funcionar por completo. O problema da sua atitude era pequeno se comparado ao estado mental em que se encontrava. Não causou problemas desta vez. Não pediu para ficar sob a custódia do tribunal. Mas era evidente, ao fim de alguns dias, que não era capaz de cumprir os regulamentos e fazer o que eles queriam. Fora-se abaixo de tal maneira no mês anterior, perante tudo aquilo que dele exigiram, que a única coisa que conseguia fazer era fechar-se emocionalmente e ficar na cama, a dormir. Dava a impressão de que estavam a exigir demasiado dele, e ele estava lentamente a tornar-se um vegetal, a perder o contacto com o mundo, a perder a garra, a perder a vontade de viver, embora a culpa não fosse deles. A reacção devia fazer parte da doença.

Depois de horas intermináveis ao telefone, a discutir a situação em que nos encontrávamos, Julie e eu tomámos a decisão de o tirarmos do programa e trazê-lo para casa. As nossas tentativas de tratamento para ele nesse Verão tinham falhado redondamente, e até o fizeram regredir. Parecia mais desequilibrado que nunca. Levei-o para Napa comigo, tomei conta dele, apapariquei-o e lisonjeei-o o melhor que pude. Mas, durante muito tempo, não consegui quaisquer resultados. Ele estava em profunda depressão, da qual eu e Julie não conseguíamos tirá-lo. Ela vinha vê-lo todos os dias, e às vezes sentava-se na cozinha e chorava depois de o er. Doía-nos vê-lo naquele sofrimento. Dificilmente conseguíamos que ele saísse do quarto, ou da cama, e achámos então que era a altura para tomarmos medidas drásticas. Por sugestão de Julie, telefonei ao psiquiatra a que Nick fora durante todo o ano, e dissemos-lhe que Nick precisava de ser medicado, e rapidamente. Ele retorquiu dizendo que não podia receitar qualquer medicação sem a avaliação do seu estado ser feita, e queria recomendar uma pessoa para a fazer. Deu-me o nome de um psiquiatra que poderia fazer a avaliação do seu estado, e fiquei nervosa. Queria que ele desse a Nick a medicação que achávamos que ele precisava desesperadamente, sem esperar mais tempo. Tomei nota do nome do médico que ele me deu e, sem esperar nem mais um minuto, telefonei-lhe.O médico cujo nome me tinha sido dado para fazer a avaliação levou um dia ou dois a responder ao meu telefonema, enquanto eu e Julie estávamos cada vez mais frenéticas. E Nick cada vez mais deprimido. Tinha quinze anos, e estava tão deprimido que mal conseguia funcionar. Mas quando expliquei a situação ao psiquiatra, ele prometeu ajudar-nos. Disse que faria a avaliação o mais depressa que pudesse e, se achasse que fosse necessário, pediria ao psiquiatra para prescrever alguma medicação. Apenas, primeiro, tinha de fazer a avaliação. Não queria ser apressado ou descuidado. Todavia, eu estava preocupada com a demora e com o que isso poderia significar para Nicky.Nick estava tão deprimido que não saía da cama. Eu sentia que a vida de Nick estava na corda bamba, e a leitura dos registos do diário dessa altura confirma isso. Acreditava verdadeiramente que Nicky estava a perder a esperança, e Julie e eu tínhamos medo do que ele poderia fazer.Foi um período difícil. O psiquiatra disse-me que a avaliação levaria várias sessões, e com grande, grande esforço, convenci Nick a sair da cama e a ir à península falar com o médico. Estava disposto a falar com o novo médico, o que era um milagre, mas nessa altura até ele já devia saber da gravidade do seu estado. Não havia nada de maníaco com ele, só depressão. Fiquei aliviada por ele gostar do médico e cooperar nos testes. Depois de irmos a uma sessão, o médico deu-me a notícia de que não poderia acabar a avaliação, poisia viajar. Apresentou as suas mais sinceras desculpas, mas não podia fazer nada. Disse-me que suspeitava, a partir dos testes que já administrara, que Nick talvez fosse atipicamente maníaco-depressivo, mas não queria fazer um diagnóstico prematuro. Tinha primeiro de acabar os testes. Além disso, disse, num tom paciente, era muito raro um rapaz de quinze anos ser maníaco-depressivo, e não estava muito seguro de Nick dever ser medicado. Não queria precipitar-se ou ser presunçoso na sua avaliação. Mas eu queria que ele se despachasse.

Quando telefonei ao psiquiatra que o recomendou, para apressar as coisas, descobri que também estava ausente da cidade. Não havia nada que pudéssemos fazer a não ser esperar. Pedi medicamentos, entretanto, para tirar Nick daquele estado até ao médico voltar. Prozac. Valium. Aspirina. Rolaids. Qualquer coisa. Para dar um pouco de descanso a este miúdo. Mas o psiquiatra disse-nos que teríamos de ser pacientes, e Nick tinha de esperar que a avaliação estivesse completa.

Foi um período de terrível frustração. Sou uma pessoa capaz, equilibrada, racional, inteligente, determinada e competente, com amplos fundos à minha disposição, recursos óptimos e uma capacidade para pôr as coisas nos carris rapidamente. Se eu não consegui fazer com que as coisas acontecessem para Nick e arranjar ajuda para ele, estremeço só de pensar o que acontece às pessoas que são demasiado tímidas ou estão demasiado assustadas para falar, pessoas que não sabem como proceder, ou que não têm uma pessoa como Julie para as ajudar. Ela confirmou tudo aquilo em que eu pensara durante anos acerca do estado em que Nick se encontrava e deu-me coragem para continuar a lutar. Mas que acontece às pessoas que não têm uma Julie nas suas vidas, que não conseguem nenhuma confirmação? A única coisa que vos posso dizer é que, dado o que sei agora, se acreditam que alguém a vosso cargo sofre de psicose maníaco-depressiva, ou de doença semelhante, e sentem que não vos estão a dar a ajuda de que necessitam, não fiquem à espera, não desesperem, não sejam pacientes, tentem outra pessoa. Aproveitem tudo o que puderem para os ajudar. Há muitos médicos por aí, alguns bons, alguns maus, alguns preguiçosos, alguns estúpidos, alguns que se preocupam, outros que não, e alguns que vos ajudarão e serão importantes. Têm direito àquilo de que precisam, de alguém que trate do vosso ente amado e que vos ajude. Façam tudo o que puderem para descobrir pessoas que vos ajudem. Não parem de tentar, de perguntar, de suplicar. É extremamente importante encontrar um bom médico e têm direito a isso. Sigam sempre os vossos instintos. Conhecem melhor o doente que eles.

Não me perguntem como, mas conseguimos aguentar um mês, e voltámos ao mesmo psiquiatra. Acabara a avaliação, finalmente. Disse-nos que iria fazer um resumo dos resultados, e depois dar-nos-ia a conclusão por escrito. Achei que isso levaria mais alguns dias. Não achava que Nick pudesse esperar mais tempo.

Nick voltara entretanto a pôr-se de pé, mas não estava em grande forma. A única coisa que o salvara fora Julie, com a sua ajuda carinhosa, firme, devotada e constante. Recusou-se a baixar os braços, e tentou tudo o que podia para o incentivar e lhe dar a esperança de que acabaríamos por conseguir ajudá-lo. Até Nick sentia então que precisava de medicação. E estava disposto a experimentá-la, se conseguíssemos arranjar alguém que lha desse.

Encontrava-se capaz de voltar para a escola e, para minha surpresa e nosso prazer colectivo, estava bastante bem para fundar uma banda. Encorajá-lo a fazer isso era uma das ferramentas de Julie para o incentivar. Não estava numa forma excepcional, mas as coisas estavam a melhorar. Pôs à banda o nome muito pouco atraente de «Shanker», mas proporcionava-lhe o pequeno prazer que ele tinha na vida. E reviveu a sua antiga paixão pela música. Mas, quando não estava na escola, ou a ensaiar com a banda, ficava ou sentado em cima do sofá a ver televisão no escuro, ou na cama, a dormir. Sinais clássicos de depressão. E eu estava a ficar com uma forte sensação de que uma espécie de desespero letal estava a instalar-se. Com receio de que pudesse levar a um desastre, telefonei várias vezes ao médico que estava a fazer a avaliação. Ainda não acabara o relatório, mas prometeu que acabaria «em breve». Por recomendação urgente de Julie, pedi novamente medicação para Nick, que me foi recusada. E quando tentei que Nick voltasse para o psiquiatra a que fora durante o ano lectivo anterior, Nick recusou-se a voltar. Todavia, gostava do médico que fizera a avaliação, por isso voltei-me para ele à procura de ajuda. E ele concordou em ver Nick várias vezes por semana. Mas não lhe daria medicação até a avaliação estar acabada. Não sei do que é que ele estava à espera, mas sentia-me como se estivesse à espera de que os três Reis Magos montados em camelos aparecessem vindos do Oriente atrás de uma estrela, carregados de Prozac.

Do que me lembro melhor do Outono de 1993, quando Nick tinha quinze anos, foi de que estava com medo de entrar no quarto dele. Sentia tão intensamente o desespero de Nick (e quem o poderia culpar? Ninguém parecia estar a ajudá-lo, estávamos apenas a pôr-lhe pensos rápidos em cima das feridas fatais) que cada vez que chegava à porta do quarto, ficava aterrada com o que encontraria quando entrasse. Receava que ele se suicidasse antes que nós pudéssemos ajudá-lo. Finalmente, disse candidamente ao médico que um destes dias encontraríamos Nick pendurado no cinto do roupão, e que diria ele então? Quanto é que ele diria que lamentava? O que é que custava a alguém ajudá-lo e dar-lhe a medicação que eu achava que ele obviamente necessitava?

Não estou certa se foi esse comentário que o espicaçou, mas, ao fim de uma ou duas semanas, ele deu-nos finalmente o relatório. E quando o médico se encontrou comigo e com John, tinha um ar sombrio. Falou acerca do facto de Nick ter problemas de aprendizagem e que «os seus comportamentos eram sugestivos de uma qualidade hipomaníaca que pode apontar para uma variante de um distúrbio afectivo bipolar». Pela primeira vez, a possibilidade de Nick ser bipolar, mesmo atipicamente, fora aventada. E embora não o escrevesse no relatório, creio que ele achava que Nick tinha DDA («distúrbio de défice de atenção») e tinha possivelmente instintos suicidas. Falou acerca de um componente depressivo significativo para a experiência corrente de Nick, embora não parecesse acreditar que Nick estivesse a sofrer de depressão grave. Mas estava disposto a recomendar medicação. Aleluia! O único milagre, no que me dizia respeito, era que Nick ainda estava vivo para a tomar.

Deu-lhe um medicamento da família do Prozac, e ajudou um pouco, mas, na minha opinião, não o suficiente. Continuava deprimido a maior parte do tempo, embora já não em elevado grau. Mas ainda havia muito a melhorar.

Uma canção que Nick escreveu para a sua banda, Shanker, conta como ele se sentia a altura.

Estou completamente só

Estou completamente só

O céu é branco

A dor é profunda

E quero ficar pedrada

Estou completamente só.

Destino, meu destino

Dança comigo, dança comigo, destino

Destino, meu destino

Não tenho fuga possível

A minha mãe lamenta-se, desliga o telefone,

Ela não gosta do meu tom.

A mamã pode ter

E o papá pode ter

Mas Deus abençoa a criança que tem o seu

Deus abençoa a criança que tem o seu

Mostraram-me o meu coração de pedra

Toquei-lhe com os meus ossos partidos

Amor não posso ter

O pai que não terei

A criança foi deixada completamente só

Deixaram-me aqui completamente só

Destino, meu destino

Dança comigo, dança comigo, destino

Destino, meu destino

Não tenho fuga possível...

 

É uma melodia bonita, com um som fúnebre. Fiquei quase de coração despedaçado a  primeira vez que a ouvi. Foi um Inverno duro para Nick, e a medicação não o ajudava o suficiente, mas pelo menos sempre era alguma coisa. Foi um período duro para todos nós. Soubera que havia duas biografias minhas não autorizadas planeadas para esse Verão, o que me perturbou imenso. Também nos tinham dito recentemente que um dos biógrafos obtivera a informação do registo de adopção de Nick. Todas as crianças no estado da Califórnia tinham o direito de terem os seus processos de adopção sob sigilo. De facto, isso é automático. Nunca o solicitáramos, mas, tal como fazem para todas as crianças, tinham os registos de adopção de Nick sob sigilo, quando John o adoptou aos sete anos.

Porém, o biógrafo ameaçava referir isso no livro, e Nick ficou extremamente perturbado com isso. Particularmente no seu estado muito depressivo, ele não queria que ninguém soubesse que era adoptado, especialmente os seus irmãos mais novos. A seu pedido, continuávamos a esconder essa informação deles, de modo a não sentirem que ele era «diferente» deles. Era categórico acerca dessa questão. John foi para tribunal tentar proteger o sigilo da adopção de Nick. Era apenas o que queríamos, para proteger Nick, e os direitos que ele tinha em virtude de ser menor e ter sido adoptado no estado da Califórnia. O que nos preocupava era que isso significava tudo para Nicky, e como estava tão fragilizado não queríamos que as biografias o fragilizassem ainda mais.

Os jornais anunciavam que nós estávamos a tentar evitar a saída do livro, processando o biógrafo, mas não estávamos. John foi para tribunal e perdeu. O juiz determinou que, devido à minha fama, o direito de Nick à privacidade, e para manter a sua adopção sob sigilo, estivera sujeito a preempção. O nosso advogado ficou furioso e Nick destroçado. Tínhamos direito a apelação, mas Nick não estava em condições de lidar com o problema, ou aparecer em tribunal, como provavelmente teria de suceder. Desistimos do processo, e Nick ficou amargamente desapontado. Porém, as biografias, naquela altura, eram as menores das nossas preocupações.

Nick estava a comportar-se de forma estranha na escola durante os meses de Setembro, Outubro e Novembro. Andava calmo e parecia alegre, mas não fazia os trabalhos, e a sua falta de controlo dos impulsos estava a tornar-se um problema sério, e cada vez mais difícil de explicar aos professores. Certo dia, depois de dizer que estava aborrecido, encaminhou-se calmamente para o professor diante da turma e, sem malícia, nem explicação, mas apenas com uma mão indolente, despejou uma lata de soda para o sapato do professor, regressando depois ao seu lugar com a lata vazia. O professor ficou horrorizado, e comecei a receber frenéticos telefonemas da escola. Magoava-me dizer isto, mas era óbvio que Nick tinha de ser tratado como uma criança com «carências especiais». Já não conseguia funcionar numa escola normal, numa base normal. Iam ter de aceitá-lo como deficiente mental, se ficassem com ele. E não estavam preparados nem equipados para isso.

Na semana antes do Dia de Acção de Graças, telefonaram-me e disseram-me que tinha de o tirar da escola. Aguentara-se lá exactamente um ano. Mas agora era altura para uma nova escola. Nick e eu visitáramos uma escola meses antes, e havíamo-la achado um pouco fora do vulgar, mas agora era perfeita para ele.

Fui falar com o director da nova escola, contei-lhe a situação e não lhe escondi nada. Estava disposto a aceitar Nick e a tratar os seus problemas. Dei a novidade a Nick, que ficou entusiasmado. Adorara a escola quando a víramos. Era pequena, informal, e o director era inteligente e criativo, e surpreendentemente nada receoso dos problemas de Nick.

Nick começou a escola em Dezembro, e as coisas correram calmamente pelo menos durante um ou dois meses. Mas era indubitável que Nick estava cada vez mais doente. E Julie resolveu fazer uma expedição exploratória. Ainda vinha cá a casa todos os dias, para trabalhar com Nick, e ele continuava a ir ao psiquiatra que fizera a avaliação, embora os progressos parecessem lentos.

O que Julie queria explorar eram os hospitais psiquiátricos onde pudéssemos pôr Nick se fôssemos obrigados a isso, durante um curto espaço de tempo, se ele se fosse abaixo completamente, se ficasse com instintos suicidas de novo, um sítio onde, pelo menos, lhe pudessem fazer uma avaliação completa do seu estado e explorar a questão da psicose maníaco-depressiva. Eu estava desapontada com a avaliação que o psiquiatra lhe fizera nesse Verão e achava que ele fizera muito pouco.

Ao mesmo tempo, John sugeriu um famoso hospital psiquiátrico no Cansas. Discutimos a questão da sua hospitalização durante um longo período, ou mesmo permanente. John achava que poderia ser uma ajuda, pois era indiscutivelmente difícil manter Nick em casa. Mas eu nem sequer punha a questão de o mandar para longe durante um longo período de tempo, a menos que sentisse que tínhamos de o fazer. Prometera a Nick que nunca lhe faria isso e, desde que ele fosse capaz de funcionar enquanto estivesse a viver em casa, tencionava manter a minha promessa. Além disso, sentia fortemente que uma das coisas que Nick mais gostava era da família. Se o «mandássemos embora» para um lugar daqueles, não haveria possibilidade de o visitarmos com regularidade. Eu tinha crianças pequenas em casa e não era prático para nós começarmos a ir e vir todos os dias para o Cansas para o ver. Era um óptimo lugar, e John achava que podia ajudar Nick. Mas eu não queria que ele nos deixasse. Nunca falámos disso a Nick, senão teria entrado em pânico. Ele não queria estar longe de mim, de John, de Julie e dos irmãos nem por um minuto.

Nick teve um pouco de descanso então, estava a tomar a medicação, a assentar na sua nova escola, e teve uma inesperada oportunidade que eu pensei que pudesse dar uma ajuda à sua auto-estima e ao seu ânimo. Havia ocasiões em que eu ainda esperava que forças exteriores dessem uma ajuda. Porém, tal como acontece com todos os maníaco-depressivos, as forças que os conduzem, ou os afogam, são internas. Mas, pelo menos, esta experiência proporcionou-lhe um momento positivo. Naquela altura passava um programa na televisão, que era um programa de notícias para crianças, escrito, produzido e apresentado por miúdos com supervisão de adultos. Depois de uma entrevista inicial, Nick foi contratado como um dos seus «repórteres» principais. Foi uma oportunidade maravilhosa, e uma coisa divertida de fazer, e durante uns tempos ele adorou.

Entrevistou adolescentes com sida, artistas com tatuagens e alguém numa casa de piercings. Fez uma reportagem no Haight sobre gazeteiros, entrevistando miúdos e comentando depois as entrevistas. Havia momentos sérios no programa, e outros de absoluta loucura. E com a sua personalidade e a sua boa aparência, Nick era perfeito para o papel. Durante uns tempos, saiu-se bem e estava nas boas graças de toda a gente. Todos nós gostámos particularmente do programa que ele fez sobre o Halloween, a Noite das Bruxas. Entrevistou as lojas de fantasias sobre as fantasias mais quentes esse ano, e fez toda a entrevista com um ar sério e uma enorme saia de ballet cor-de-rosa. Ele adorava dar espectáculo e nós adorávamos vê-lo.

Porém, o problema que o liquidou finalmente, e acabou a sua breve carreira na televisão, foi a sua habitual nemesis: o controlo dos impulsos. Começou a ser respondão e a dificultar as tarefas que lhe davam, discutiu com o produtor e o director mais do que uma vez acerca da questão dos assuntos. Acabou por sair do elenco um dia, e disse-lhes que a entrevista que ele devia ir fazer era «demasiado estúpida». Mas eu acho, em retrospectiva, que o que estava a acontecer-lhe era que ele já não conseguia suportar a pressão. Independentemente de ser divertido às vezes, ou de se sair bem, não conseguia manter o desempenho. Saíu do elenco nesse dia e declarou que nunca mais queria fazer aquilo. Mas, tal como em todas as coisas que ele «não fazia», era sempre mais uma questão de «não conseguir fazer» do que «não fazer». Foi um desapontamento a sua saída do programa, porque parecera uma coisa boa para ele. Nick tivera já o mesmo problema quando fora modelo, quando se recusou a vestir as roupas que lhe deram e desistiu.

Enquanto Nick acabava a sua efémera carreira na televisão, Julie passara três semanas a viajar pelo país, de um lado para o outro, à procura de hospitais para ele, para ver se conseguíamos descobrir um lugar extraordinário, onde pudessem ajudá-lo de acordo com as suas necessidades. Finalmente, descobriu um. Era num sítio a que eu poderia chegar com bastante facilidade, a minha mãe e a minha madrasta podiam também ir visitá-lo, e, mesmo que tivesse de lá ficar durante um curto período de tempo, Julie poderia deixar a sua família e ficar com ele.Eles estavam dispostos a fazer uma avaliação em Fevereiro, numa semana, durante as férias de Nick, e eles dar-nos-iam as sugestões que pudessem sobre o modo de ajudar Nicky. Era uma coisa a que tínhamos de agarrar-nos, e conseguimos convencer Nick a ir. Não ficou entusiasmado, mas prometemos-lhe que seria só durante uma semana, e uma coisa que ele sabia era que podia acreditar em nós.

Ele foi, ansioso, mas também devia estar nervoso, porque mais tarde descobrimos que tomou uma quantidade enorme de Valium, naturalmente sem dizer nada a ninguém, uma hora antes de lá chegar. Mas, apesar disso, eles conseguiram fazer a avaliação. Chegou mais depressa às nossas mãos do que a primeira e enumerava uma quantidade incrível de problemas mentais e psicológicos, mas, confundindo ainda mais a situação, não descobriram qualquer evidência de psicose maníaco-depressiva ou de DDA.

Voltou para casa exactamente ao fim de uma semana, tal como lhe havíamos prometido. E não fora tão mau como ele receara. Contudo, também não nos trouxe grandes novidades. A única coisa que tínhamos depois da semana que ele lá passou eram mais questões sobre os distúrbios, mas nenhumas respostas.

 

PARA CIMA E PARA BAIXO, PARA CIMA E PARA BAIXO. MELHOR, PIOR, MELHOR. COMO UM BALOUÇO. E, FINALMENTE, UM DIAGNóSTICO

Quando Nick regressou da semana que havia passado no hospital, voltou à nova escola que já frequentava há dois meses, e Julie apareceu com outro milagre. Arranjara um novo psiquiatra para Nick. Eu estaria perdida sem ela. A vida com Nick, sem Julie para lidar com ele, para nos explicar, para nos confortar, para o confortar a ele, e aparecer com uma torrente de ideias novas e nos ajudar a implementá-las, não seria mais que um pesadelo. Por vezes, ela fazia-me lembrar Anne Sullivan, que trouxe esperança, vida, linguagem e alegria à vida de Helen Keller. Julie era verdadeiramente uma obreira de milagres e como tal, e devido ao seu enorme coração, estar-lhe-ei eternamente grata, mais do que aquilo que alguma vez poderei aqui dizer. Não sei que Parcas cruzaram os nossos caminhos naquele dia ventoso de Outubro quando Nick tinha catorze anos, mas uma vez na vida sabiam o que estavam a fazer.

Antes de Julie descobrir o psiquiatra que nos recomendou, telefonei a todas as pessoas de que me consegui lembrar para encontrar um. Elas começavam a habituar-se aos meus telefonemas, fazendo-lhes perguntas acerca de médicos, psiquiatras, escolas e hospitais. Eu era a mulher dos sete instrumentos, tocando a mesma melodia durante mais anos do que gostaria de me lembrar. Mas consegui uma meia dúzia de nomes desta vez, na zona da baía, e ouvi uma série de desculpas dizendo a razão por que não podiam atender-nos. Muitos eram amáveis, mas não estavam a aceitar novos doentes. Mas eu sabia que tinha de arranjar alguém rapidamente. Sentia que o médico a que Nick ia nos últimos seis meses não estava a fazer muitos progressos e Nick estava desiludido con ele, tal como eu. Recentemente, ao relatar algo incorrecto que Nick fizera, senti-me desanimada, e ele perguntou-me se eu alguma vez tinha dito «não» a Nick. Claro que tinha, mas a pergunta fez-me sentir que ele não tinha a noção da gravidade da situação. Não, não, Nicky, não fiques deprimido e não te sentes no quarto às escuras durante três dias seguidos... não, não Parcas: Três divindades da mitologia romana que presidiam ao nascimento, ao casamento e à morte dos homens. (N. do T) vagueies pela casa toda a noite e não adormeças no chão num sítio qualquer, embrulhado na colcha... não, não, Nick, não desças para jantar meio nu. E pelo amor de Deus, não, não, não fiques com essa expressão de quem quer suicidar-se, nem fiques tão deprimido e torturado de angústia que, cada vez que te vejo, sinto o coração despedaçado. A questão que às vezes era difícil de entender era que Nick não era um simples problema disciplinar. Havia alturas, muitas delas, em que ele era praticamente incapaz de funcionar. Os trabalhos mais simples eram demasiado para ele. Não conseguia executar tarefas, ou ter responsabilidades. Não conseguia alimentar um animal, lembrar-se de vazar o seu cesto dos papéis, fechar a porta do frigorífico às quatro da manhã, de modo a que tudo o que estivesse lá dentro não se transformasse em papa, e fazer a cama estava totalmente fora de questão. Ele simplesmente não conseguia. Não era só preguiçoso, era disfuncional. E a sua falta de controlo dos impulsos fazia com que fosse cada vez mais difícil realizar essas tarefas. E quanto mais velho estava, mais isso se tornava evidente. Quando tinha quinze anos, a irmã de seis era mais capaz do que ele, e oferecia-se até para o ajudar. O leque de tarefas era tão reduzido que pedir-lhe para puxar o autoclismo era uma tarefa importante. Dava graças a Deus sempre que ele a realizava. E o assustador era que juntamente com a total irresponsabilidade existia igualmente uma alarmante falta de consciência. Era capaz de deixar uma coisa altamente inflamável encostada a uma lâmpada, ou deixar uma vela bamboleante a arder com o pavio quase em baixo, ou deixar uma criança pendurada na janela. Era perigoso para si próprio por causa disso e, inadvertidamente, para os outros. Mas para responder à questão do médico, SIM, eu já dissera não a Nicky, e não ganhara nada com isso. Marquei consultas com quatro novos psiquiatras para ver o que eu achava deles, antes de sobrecarregar Nick com a mesma tarefa. Queria fazer uma filtragem, porque pessoas novas, coisas novas, lugares novos e desafios novos faziam-no ficar visivelmente nervoso. De facto, Nick não se dava bem com o stress ou um estímulo excessivo de qualquer género. Nunca mais poderia viajar connosco. A nossa família, com todos os seus miúdos, animais de estimação, pessoal, visitas, e as correrias normais de um grupo de crianças de um lado para o outro, parecia deixá-lo extremamente ansioso. Enquanto todos nós estávamos habituados a isso, quanto mais velho ele estava, menos era capaz de lidar com os estímulos e a confusão. Para lhe aliviar o stress, fiz o trabalho de campo de entrevistar novos psiquiatras. E a única coisa em que pensava, enquanto ia de um psiquiatra para outro, era numa cena do filme Quem Chamou a Cegonha?, onde Diane Keaton. entrevista ambas. Cada uma era pior que a anterior, desde mulheres religiosas até outras a que só lhes faltava o chicote e usarem roupa de cabedal. Os psiquiatras que visitei não eram tão exóticos, mas alguns eram igualmente  engraçados.

Gostei particularmente de um que disse que achava que toda a família devia fazer a terapia, assim como o resto dos familiares, tias, tios, avós. Olhei para ele com ar divertido e expliquei-lhe que a nossa família consistia efectivamente em onze pessoas, as mais novas das quais tinham seis, sete e oito anos, e as outras um pouco mais velhas, e dificilmente eram responsáveis pelos problemas de Nick. E se íamos pôr «o resto dos familiares» na terapia, isso acarretaria que mais nove pessoas teriam de voar para aqui desde sítios longínquos como Londres, Nova Iorque e Tóquio. A perspectiva dessa situação não pareceu preocupá-lo. No total, ele teria de interrogar vinte e duas pessoas antes de ter conhecimentos suficientes para se dedicar aos problemas de Nick. E disse tudo isto com ar sério.

Outro parecia tão deprimido que me senti deprimida ao falar com ele, e não acho que Nick gostasse dele. Os bons (reconheço) não estavam a aceitar novos doentes, os mais excêntricos pareciam ter montes de tempo para Nick, e não conseguia compreender porquê, mas não me sentia à vontade com eles.

Contudo, o homem que Julie descobriu parecia ser óptimo, O Dr. Seifried era inteligente, sensível, prático e racional. Numa relação médicodoente com um rapaz tão perturbado como Nick, pelo menos um deles tinha de estar são, e no momento não parecia ser Nick. Falámos longamente ao telefone pela primeira vez, e ele disse-me que parecia haver uma questão química com Nick, e que provavelmente a família tinha pouco ou nada a ver com isso, dado o que sabia acerca de nós. Não tinha nenhum interesse em examinar o resto dos miúdos, John, eu, os pássaros, os cães ou o coelho de Maxx. Centrou a sua atenção inteiramente em Nick e afirmou que problemas como os dele geralmente não são causados pela família ou pelo meio ambiente em que vivem, «De facto», disse, para meu deleite e minha surpresa, «se for uma questão química, mesmo eu não posso fazer grande coisa por ele. O que provavelmente precisa, primeiro que tudo, é de medicação adequada.» Aleluia! Tive vontade de gritar ao ouvir isto, ou mesmo de beijá-lo. Eu sabia há já um ano que a medicação adequada para ele era a questão crucial.

Nick começou a ter sessões com o médico quando voltou do hospital, e ele via Nick com frequência, antes de começar a vir visitar-me. Gostei dele no instante em que o conheci. Tinha um rosto feliz e inteligente, olhos afáveis, um sorriso fácil e um grande sentido de humor. Era incrivelmente inteligente, extraordinariamente prático, e era evidente que sabia o que estava a fazer. E, ainda mais importante do que isso, nas sessões que teve com Nick, Nick gostou realmente dele: um verdadeiro bónus.

Não era de meias-palavras quando discutia os problemas de Nick comigo. Lera todo o material que tínhamos, a primeira avaliação, a segunda, realizada no último hospital, os relatórios da escola, e colocava-me montes de questões pertinentes. O seu diagnóstico foi bastante objectivo. Acreditava que Nick sofria de «distúrbio de défice de atenção» e doença depressiva, e havia a possibilidade de ele ter leves lesões neurológicas. Havia também a hipótese de a sua experiência com drogas, nos últimos três anos, poder ter causado lesões suplementares. Existia também a possibilidade, como já nos haviam dito anteriormente, de Nick ser atipicamente maníaco-depressivo, o que dificultara o diagnóstico. Ao que parece, os adolescentes com esta doença são mais difíceis de diagnosticar do que os adultos, podendo ter sido essa a razão de o seu psiquiatra anterior ter ficado hesitante relativamente ao diagnóstico. Outra coisa que me preocupara durante anos eram os comentários de amigos bem-intencionados que diziam que Nick era apenas um «adolescente normal» ou um rapaz «espirituoso». Os meus esforços para dar conta da gravidade da situação em que ele se encontrava eram menosprezados, o que me fazia sentir perdida e só.

Tive uma sensação de assoberbante alívio durante cerca de vinte segundos enquanto ouvia o Dr. Seifiried. As suspeições que eu tivera durante a maior parte da vida dele estavam correctas. Havia na verdade algo de errado com Nicky. Algo de grande gravidade. Mas não fora a minha imaginação. Ele estava efectivamente em apuros. Porém, era um alívio ouvir outro ser humano dizê-lo com franqueza e confirmar os meus receios. Todavia, o alívio e a excitação que eu sentia foram instantaneamente varridos por uma sensação de pânico: «Oh, merda... agora, o que é que fazemos por ele?» Era uma questão importante, e não tinha uma resposta fácil.

Como suspeitara desde o principio, o médico disse que era essencialmente uma questão de reajustamento químico. Tinha tudo a ver com a medicação de Nick, se era boa, como é que ele reagia a ela, e descobrir a correcta. Afinal, não tinha nada a ver com a educação que eu e John lhe déramos, nem com o facto de «dizer-lhe não», nem com a assinatura de contratos. Em grande parte, tinha a ver com químicos e medicamentos para equilibrar o sistema nervoso de Nick. Também receberia tratamento psiquiátrico, naturalmente, para tentar conversar com ele, para o manter equilibrado e tentar lidar com o seu fraco controlo de impulsos, embora isso também fosse de origem química. A única coisa que queríamos era ajudá-lo a levar a vida mais normal e feliz possível. Mas o mais importante de tudo para ele, o essencial, eram os medicamentos.

«Como é que descobrimos os medicamentos correctos?», perguntei, com alguma inocência, à espera de que houvesse uma pílula mágica para esse efeito. Para Nick, ainda não tinham sido uma solução adequada. Os medicamentos que ele tomara não lhe tinham feito grande coisa.

«E uma boa questão», respondeu o médico. «Colocando a questão do ponto de vista científico», disse ele com um sorriso, «de agora  em diante, vamos atirar várias setas contra uma parede esperamos que algumas fiquem espetadas. É um método muito rudimentar mas é a melhor coisa que podemos fazer. O Nick vai ter de ser paciente.» A paciência não era um dos atributos de Nick, nem meu, mas parecia que não tínhamos muito por onde escolher. O que ajudava era que o médico parecia franco e objectivo. Gostava mais dele do que esperara. Dera-me alívio, conforto, fundamentação, objectividade, esperança para Nick, e todo um novo conjunto de problemas para enfrentar. Tentei falar acerca das implicações a longo prazo da doença de Nick, mas o médico achou que era muito cedo para fazer isso. Havia muitas coisas a averiguar primeiro, e Nickainda era muito jovem. Segundo ele, era muito pouco comum diagnosticar-se com segurança a psicose maníaco-depressiva aos quinze anos, daí a razão por que todos os médicos a que fôramos tiveram tanta relutância a fazer esse diagnóstico. Os diagnósticos incorrectos podem ser feitos dessa maneira, e concluir que ele era maníaco-depressivo seria um acto de extrema responsabilidade. Era ainda mais impressionante quando se pensa que, provavelmente, ele já o era desde os doze ou treze anos. Como veio a verificar-se, foi uma declaração muito precoce da doença, e, como geralmente se manifesta aos vinte e poucos anos, não consegui deixar de pensar como seria para Nick quando chegasse àquela idade. Com uma desvantagem de dez anos relativamente à maioria das pessoas que manifesta doença mental, ele ficaria muito pior, conseguiríamos deter a doença, ou, pelo menos ensiná-lo a viver com ela com os medicamentos apropriados? O médico de quem eu gostava tanto disse-me que não havia uma maneira de saber, mas tinha uma sensação vagamente desconfortante de que ele não estava muito optimista. Já ouvira bastante para um dia, e apesar da minha familiaridade com os problemas de Nick, e o a sentira ao ouvir darem-lhes um nome, sentia-me tonta com a gravidade do veredicto.Como viria a acontecer frequentemente nos quatro ano seguintes, eu comparava o problema de Nick com a diabetes juvenil, que é geralmente mais grave do que a diabetes que se declara em adulto. Mas é uma doença que requer constante e conscienciosa administração de medicamentos para manter o doente vivo e a funcionar. Não é uma coisa que se possa fazer inadvertidamente, é uma doença que pode ameaçar a vida, como era a de Nick, e é também muito mais grave quando se manifesta precocemente em crianças. Ao pensar nisso, perguntei ao médico que tipo de medicamentos é que Nick iria tomar, mas ele ainda não tinha a certeza. Não queria receitar-lhe uma coisa tão forte como o lítio. Não estava absolutamente convencido de que era a altura adequada para lho receitar e tomar lítio na idade de Nick apresentava um enorme risco para ele, particularmente um desafio potencial aos seus rins. Nick ia ter de viver com a sua doença a vida inteira. E ia ficar dependente de medicamentos até ao resto da vida. Não havia cura para a doença de Nick, especialmente se, entretanto, ele se transformasse num maníaco-depressivo típico. A única coisa que eu não entendia na altura era a rapidez com que a depressão maníaco-depressiva podia ser fatal. Não fazia ideia da elevada taxa de suicídio entre as pessoas que sofriam daquela doença. Disseram-me informalmente que 60 por cento dos maníaco-depressivos tentam o suicídio e 30 por cento são bem sucedidos. Tivesse eu sabido isso na altura e ficaria em pânico, embora não esteja certa de que fizesse algo de diferente. Já fazíamos tudo o que podíamos por ele. Eu achava que íamos lutar pela qualidade da sua vida. Não sabia que íamos lutar pela sobrevivência, nem da elevada probabilidade de não ganharmos aquela batalha.

Uma coisa de que estava segura, quando ouvi o que o Dr. Seifried disse, era que não sentia nenhum estigma ligado aos problemas de Nick. Sentia tristeza por ele, e pelo fardo que carregava, e alívio por ter pelo menos uma ideia ligeiramente melhor do que fazer. Mas não tinha vergonha dele ou de nós. Sentia-me mais protectora que nunca, e grata por termos chegado onde chegámos e termos descoberto um médico que, acreditava, o ajudaria.

O medicamento que o médico queria experimentar em Nick era o Prozac, e, se ele se desse bem, iríamos tentar juntar-lhe outro medicamento mais tarde, ou mesmo vários, mas o médico ainda não determinara quais. Esperávamos que o Prozac o ajudasse a debelar a depressão. Como o médico dissera, era um jogo de risco que tínhamos de aprender a jogar, por tentativas. E uma coisa em que concordáramos era que não íamos discutir o assunto com Nicky, ele não estava preparado para ouvir, encontrava-se ainda demasiado fragilizado. A única coisa que precisava de saber, por agora, era que íamos trocar a sua actual medicação por Prozac.

Ao princípio, ele pareceu dar-se bem com o novo medicamento. Gostava bastante do novo psiquiatra, achava-o «fixe». Gostava da nova escola, e o seu estado de espírito parecia melhor, provavelmente devido a uma série de factores. Julie ainda o visitava em casa cinco vezes por semana, e aos fins-de-semana se houvesse uma crise. Uma crise podia significar uma discussão por causa de um concerto a que ele queria assistir, ou o facto de não escovar ou pentear o cabelo há meses. Decidira fazer caracóis, o que, com os seus finos cabelos sedosos, foi um desafio cultural. Parecia um semabrigo, mas estava feliz. Era um problema, mas era o menor dos seus problemas. Estava mais preocupada com o que estava debaixo do cabelo do que com a forma como ele o penteava. Posso dizer agora que havia alturas em que ele me punha doida com o seu aspecto desleixado. Eu ainda tinha padrões muito mundanos, embora Nick me tivesse ensinado muitas coisas acerca de «normas» e «padrões». E às vezes parecia-me adorável nas suas  vestimentas bizarras.

Quando chegou a Primavera, parecia melhor, embora às vezes ainda estivesse deprimido, ainda mantivesse um comportamento difícil a maior parte do tempo e ainda continuasse a não conseguir dormir à noite. Vagueava pela casa como um hamster num tambor rotativo, o que, sei agora, era típico de uma pessoa maníaco-depressiva. É característico da doença trocar o dia pela noite e vice-versa, o que significava ficar muitas vezes acordado até às quatro ou cinco horas da manhã e estar num estado quase comatoso quando o tentávamos acordar de manhã. Não acrescentáramos mais nenhum medicamento. O médico queria avançar lentamente, mas estava preparado para isso se necessário. Eu sentia que trabalhar com o Dr. Seifried era completamente diferente de trabalhar com os outros psiquiatras. Estava sempre disponível, extremamente interessado em Nick, e mostrava-se consciente e compreensivo em relação aos desafios que estávamos a enfrentar. Eu tinha uma lista de números de telefone para ele, que cobria uma página inteira da minha agenda, inclusive o da irmã e dos pais, no Ohio. E quando lhe telefonava, respondia aos meus telefonemas ao fim de algumas horas ou mesmo minutos.

A dose correcta de medicamentos que Nick tomava era um problema constante, que nos fez perder algum tempo até sentirmos ter atingido o equilíbrio correcto entre a dose excessiva, que o deixava extremamente excitado, e a dose reduzida, que não lhe dava qualquer ajuda e o deixava deprimido e letárgico. Estava claramente menos agressivo e extraordinariamente menos infeliz do que estivera. Pode não ter sido a solução perfeita, mas estava a ajudar.

Demonstrando grande optimismo, Julie e eu decidimos que Nick precisava de algo para fazer no Verão. Não era bom para ele aborrecer-se em Napa. Não era suficientemente maduro, nem demonstrava confiança, nem se encontrava ainda em condições de arranjar um trabalho de Verão, era extremamente inconstante e quase tão responsável como um miúdo de dez ou onze anos. Assim, embora fizesse os dezasseis em Maio, um trabalho de Verão estava fora de questão. Mas andar a vaguear por Napa, isolado dos amigos, sem nada que fazer, era capaz de o deprimir. Começámos então uma busca de um programa de Verão que fosse bom para ele e o mantivesse ocupado.

Como de costume, Julie atirou-se ao projecto com o zelo habitual, e arranjou um milhão de sugestões. O problema era que Nick era difícil de colocar. E mesmo debaixo de medicação, não era fácil lidar com ele. O seu controlo dos impulsos era ainda insignificante, e fazia quase tudo o que lhe viesse à cabeça, se lhe agradasse a ideia. Semanas antes, quando visitava Julie, decidira sair e dar um passeio, e fê-lo na auto-estrada, completamente indiferente ao potencial perigo. Não tinha o verdadeiro sentido do risco para si próprio, e o Dr. Seifried explicara que a percepção que Nick tinha da dor era provavelmente um pouco imperfeita, não devido aos medicamentos que estava a tomar, mas como resultado do DDA e possível depressão maníaco-depressiva. Já nos provara isso, quando resolveu certa noite, sozinho no quarto, que não gostava do cabelo, e pegara primeiro numa tesoura, depois numa navalha de barba para, desbastando-o, fazer, achava ele, um corte de cabelo caseiro. Mas o corte caseiro não saiu bem, segundo ele, o que não era surpresa. Por isso, decidiu rapá-lo totalmente e, ao fazer isso, golpeou a cabeça em cerca de cem sítios. Apareceu no meu quarto, com o sangue a escorrer do rosto, e dava a impressão de ter sido esfaqueado. Estava lavado em lágrimas, não por causa dos ferimentos que causara, mas porque não gostava do cabelo. E eu chorei com ele, pois cortava-me o coração ver a gravidade do seu estado. Usou um chapéu durante semanas para esconder as crostas das feridas. Isso demonstrava, mais uma vez, que ele era potencialmente um perigo para si próprio, se não mesmo para os outros. E com uma imperfeita percepção da dor, ele era capaz de cortar um dedo, ou parte dele, enquanto cortava pão para fazer uma sanduíche. As pessoas com «distúrbio, de défice de atençâo», aparentemente, nem sempre dão por se ferirem, e continuam a fazer o que estão a fazer. Tinha de estar constantemente debaixo de observação, o que mais uma vez tornava um verdadeiro ,desafio descobrir o programa de Verão correcto para ele.

O problema era descobrir uma colónia de férias para miúdos normais, que fosse capaz de tomar a responsabilidade de lhe administrar a medicação. Não podia perder uma toma, como um diabético. Mas, quando falámos para as colónias, uma após outra, disseram-nos que não estavam equipadas nem preparadas para lidar com uma situação de alto risco como a de Nicky. O que eliminou qualquer tipo de programa para miúdos normais. Pensámos no projecto denominado Rumo ao Exterior, por sugestão de John, mas explicaram-nos que um rapaz como Nick não só se poria a si próprio em perigo como aos outros rapazes que pudessem confiar nele. Tratava-se de um óptimo miúdo, mas não era possível esconder o facto de não se poder confiar nele.

O que nos deixou apenas programas para crianças com distúrbios, e havia muitos desses. Mas descobrimos rapidamente que eram frequentados por crianças ou adolescentes com distúrbios muito mais manifestos do que os de Nick. Aparentemente, Nicky era mais funcional do que eles. O que nos deixava, uma vez mais, sem nenhum lugar.

Até que descobrimos o que Julie, John e eu considerámos o programa perfeito. Fomos mais que criativos. Olhando para trás, nem sei como conseguimos. Só quando comecei a escrever este livro, a rever os registos e arquivos, a recordar-me das coisas, é que eu me dei conta de quantas coisas tentámos. Quantos esquemas bizarros, e outros não tão bizarros, inventámos para o ajudar.

Desta vez, porém, ela conseguira descobrir uma colónia destinada crianças com «carencias especiais». Parecia centrar-se sobretudo em crianças que haviam consumido drogas, mas diziam que também lá havia alguns outros miúdos como Nick. Por isso, parecia ser uma escolha adequada. Era só para rapazes, e seria uma experiência saudável e dura, mas Julie e eu conseguimos convencê-lo de que gostaria, embora, como Nick costumava dizer, ele detestasse a natureza. Era uma estada de quatro semanas, e eu ia tentar levar as crianças mais novas de férias durante o tempo em que Nick estivesse ausente. Infelizmente, não havia nenhuma hipótese de ele ir ter connosco. Não conseguia acompanhar-nos, há anos que não o fazia, e até ele sabia disso.

Não quero com tudo isto transmitir-vos a imagem de Nick sentado no quarto, de olhar vazio e a chorar durante todos estes anos. Pelo contrário, aparentemente, para a maioria das pessoas, ele parecia um adolescente normal, obstinado, com manias bizarras e desleixado. Possuía opiniões sobre tudo, que defendia com veemência, por mais impopulares que fossem, tinha amigos, e cada vez mais conhecimentos de música. Mas o facto é que por trás daquele cenário cuidadosamente pintado, escondia-se uma multidão de demónios. Nick sabia disso, e nós também, tal como Julie e os seus médicos, mas mais ninguém. Ele encobria-o bem, durante curtos períodos, a maior parte do tempo e muitas pessoas julgavam apenas que ele era difícil. Afinal de contas, era um adolescente, não era? E a sua mente brilhante, a sua boa aparência e o seu charme seduziam-nas. Mas, para aqueles que estavam próximos dele, não havia qualquer dúvida acerca da sua doença. E nas raras ocasiões em que eu confiava as minhas preocupações a amigos íntimos, eles não me levavam a sério e diziam que todos os adolescentes eram difíceis, e Nick não era muito diferente. Porém, Nick era muito diferente, e nós sabíamo-lo. Não conhecia outro adolescente que exigisse uma equipa de pessoas para o vestir, limpar e salvar de cortar um dedo quando fazia uma sanduíche. Nenhum outro adolescente acharia um grande desafio ligar ou desligar a luz, fechar a porta do frigorífico ou puxar o autoclismo. Nenhum outro adolescente ficava acordado toda a noite, torturado pelos seus próprios demónios. Mas Nick encobria isso o melhor que podia, e nós fazíamos o resto por ele, e ajudávamo-lo a parecer «normal», custasse o que custasse.

De facto, nessa Primavera, tomámos uma decisão importante, para manter a nossa sanidade. A ideia foi minha desta vez, e tivemos de a vender a Nick, mas provou ser uma das coisas que tornou a sua doença suportável para nós, e deu-me alguma paz de espírito. No final de contas, Nick não só aderiu à ideia, como até gostava dela. Decidimos contratar assistentes para ele.

Quando as crianças eram pequenas, e efectivamente até hoje, um dos presentes que ofereci a mim mesma na nossa casa de Verão, onde tínhamos uma enorme piscina ao ar livre, foi contratar nadadores-salvadores. Com seis crianças pequenas e três adolescentes, eu estava constantemente preocupada com possíveis acidentes na piscina e que alguém se afogasse. Ter jovens universitários durante o Verão a vigiar atentamente os miúdos na piscina deu-me paz de espírito que não tinha preço. Além disso, nove miúdos não são só nove miúdos. Nove miúdos são nove miúdos mais dez amigos. Num qualquer dia em Napa, havia quinze a vinte miúdos na piscina, e os nadadores-salvadores eram essenciais. Os assistentes para Nick eram. o mesmo conceito para mim, alguém para ter os olhos em cima dele a toda a hora, ver se estava em segurança e levá-lo a qualquer sítio. Como todos os miúdos da sua idade, precisava bastante dos serviços de um motorista, mas também precisava de maior supervisão do que o meu filho de seis anos. Não adiantava esconder o facto de que precisávamos de estar constantemente a vigiar Nick. Fazer isso, ao mesmo tempo que se dava atenção as necessidades das outras crianças, era um desafio constante. Eu achava que os assistentes podiam ser de extrema importância para nós. Ele tinha de ser levado para o duche, tinha de ter alguém que o ajudasse a lavar o cabelo, a ministrar-lhe os medicamentos, fazer as coisas habituais que se têm de fazer com uma criança, como dizer-lhe para limpar o quarto (palavras ocas para Nick), e fazer-lhe os trabalhos de casa. Um assistente seria uma dádiva de Deus. Embora levasse algum tempo a convencer Nick e a encontrar um. Julie começou as entrevistas. Tentámos arranjar pessoas já com experiência com miúdos problemáticos, e, por falta de um lugar melhor para os procurar, Julie começou a contactar os seus velhos recursos e a falar com pessoas que trabalharam com ela em programas de tratamento da toxicodependência com adolescentes. Os problemas eram diferentes aqui, mas alguns estavam dispostos a experimentar uma nova rotina e um conjunto diferente de problemas. Muitos deles estavam extremamente optimistas relativamente à tarefa que tinham pela frente, pensando que iam mudar as coisas para Nick, pois ele era apenas um adolescente com uns parafusos a menos. Mais uma vez, como geralmente parecia um indivíduo bastante funcional, ele muitas vezes enganava as pessoas, fazendo-as acreditar que era. E depois virava-se contra elas, opondo-se-lhes fortemente, insultando-as violentamente ou comportando-se como uma criança de cinco anos, Para um homem (e uma mulher, por fim), julgo que não estavam preparados para a tarefa, mas a maioria tinha bom coração, tinha desejo de aprender e era devotada a Nicky.Algumas pessoas adaptaram-se com rapidez à tarefa e ganharam rapidamente afeição por Nick, outras nunca conseguiram e saíram após uma breve estada, e levámos algum tempo a compreender do que é que nós e Nick realmente precisávamos. Nos quatro anos em que tivemos assistentes para Nick, houve pessoas excepcionalmente maravilhosas com ele, que ele adorava, e que vieram efectivamente a adorá-lo. Para mim, ter um assistente com Nick tornava a vida mais fácil, com menos stress, e dava mais segurança a Nicky. Não tinha de me preocupar tanto com ele. Sabia que Nick estava em boas mãos quando havia alguém de confiança com ele, e, logo que aderia à ideia, Nick gostava deles. Eles faziam exactamente o que eu lhe prometera que eles fariam, levavam-no onde queria ir, dedicavam-lhe constante atenção, era o foco central da atenção deles, e ele adorava isso quando era mais novo. Dizia aos amigos que eles eram guarda-costas, o que fazia  sentir-se importante.

Mais tarde, quando ficámos mais peritos a satisfazer as necessidades de Nick, e mais conscientes delas, contratámos assistentes psiquiátricos para trabalhar com Nick. Havia sempre duas pessoas que trabalhavam com Nick, em dias e turnos alternados, e substitutos quando necessário. Trabalhavam com ele sete dias por semana, horas a fio, e eram inseparáveis de Nick. Os dois últimos homens que trabalharam com ele afeiçoaram-se particularmente a nós, e a ele, e ainda hoje é visível o quanto o adoravam. Paul trabalhou com ele durante mais de três anos, e Cody durante bem mais do que um ano. É raro encontrar dois homens como Paul e Cody, e Nick via-os quase como irmãos mais velhos.

Os seus assistentes passavam mais tempo com ele do que qualquer outra pessoa, e acompanhavam-no de catorze a vinte e quatro horas por dia, dependendo do seu programa e das suas necessidades do momento. Era seguramente mais tempo do que aquele que passavam com os seus companheiros, esposas, amigos, ou com os próprios filhos. E, por mais adorável que Nick fosse, não era sempre fácil estar com ele. Havia uma energia nele. Uma espécie de urgência que significava que tudo tinha de acontecer «agora» com ele, o mais rapidamente possível, logo no momento em que a ideia lhe vinha à cabeça. Tinha ideias imprecisas do tempo, de modo que uma coisa que tivesse acontecido horas, ou mesmo dias antes, parecia-lhe já ter acontecido há anos. E uma coisa no futuro distante tinha de acontecer logo naquele instante.

A casa de Julie ficava a bem mais de uma hora da minha, uma hora e meia em horas de ponta, e, quando ele viajava entre a casa dela e a minha, ele e o seu assistente teriam de levar isso em linha de conta. Paul diz agora que nos três anos em que o conduziu de um lado para o outro, Nick dizia sempre que a viagem demorava menos de vinte minutos. Como resultado, arrastava interminavelmente a discussão sobre o assunto, depois ria-se e dizia: «Diz à minha mãe que houve um acidente na ponte, Paul. Não faz mal.» Compreendo agora, olhando para trás à luz disso, que, se tivessem acontecido tantos acidentes naquela ponte como ele dizia, teria havido mais baixas do que na Guerra da Coreia, mas os seus atrasos nunca pareceram preocupar Nicky. Entrava sempre de rompante com um enorme sorriso nos lábios, dava-me um beijo e abraçava-me, e desculpava-seHavia um cativante encanto de criança em Nick, mais que nunca nos últimos anos. Adorava estar junto das pessoas que amava, tanto física como emocionalmente. Seguia-me por todo o lado, feliz por estar comigo, fazia o mesmo com Julie, e adorava aparecer com os seus assistentes atrás. Paul diz agora que quando saía a fazer alguma coisa, e deixava Nick com Julie ou comigo, arranjava instantaneamente uma página no seu beeper, invariavelmente seguida pelo código «911 », para indicar que era uma emergência. Dadas as coisas que podiam acontecer com Nick, telefonava imediatamente para ver o que acontecera, só para ouvir a voz alegre de Nick dizer-lhe: «Olá, Pauly. Que aconteceu? Só queria saber como estavas.» Era difícil zangarmo-nos com Nick por coisas como aquela. Havia algo na forma como as fazia que tocava o coração. Era a sua maneira de dizer: «Olá... preciso de ti... adoro-te ... » Ele também achava fácil dizer essas coisas, mas tinha uma maneira de nos tocar que nos fazia sentir que éramos importantes para ele. E os homens que cuidavam de Nick, e iam para todo o lado com ele, eram muito importantes para ele. Especialmente no caso de Cody e Paul: ele admirava-os, respeitava-os e adorava-os genuinamente. E era evidente na altura tal como agora, que eles o adoravam realmente. E ele sabia bem.

Nalguns aspectos, estes homens conheciam-no melhor do que outra pessoa qualquer. Eles viam os seus pontos fracos, as suas fraquezas, os seus medos, as suas forças, os seus momentos de irreflexão. Cody conta outra história, da generosidade de Nick. Ao que parece, quando se cruzavam com um sem-abrigo na rua, Nick parava, e em vez de lhe dar dinheiro, dava-lhe um maço de cigarros. E se não tinha nenhum consigo, ia comprar um. Nick era generoso para alguém carente, e também o era para os amigos, oferecendo-lhes as suas coisas favoritas sem hesitar, ou comprando-lhes amáveis presentes, tal como fazia com os irmãos ou comigo. Adorava oferecer presentes às pessoas (tal como eu).

A tarefa dos assistentes tornou-se particularmente difícil durante os anos em que Nick andava em digressão com a banda. Estes homens, que tinham vindo cuidar dele e ministrar-lhe a medicação, encontraram-se subitamente dentro de ensurdecedoras salas de concertos, com luzes a acender e a apagar, no meio de uma multidão de corpos quentes, suados e cheios de tatuagens, a ver Nicky cantar, a ajudar Nick, os técnicos e os membros da banda a montar e a desmontar o equipamento no palco, ou sentados dentro de uma furgoneta durante quinze horas com nove adolescentes a andar de uma cidade para outra a dar concertos. Para fazerem isso, prescindiram das suas famílias, dos fins-de-semana, das férias, e provavelmente ficaram com problemas auditivos por causa da música de Nick, mas ele adorava-os por isso. Com Nick a vida estava sempre cheia de surpresas, Uma das coisas que os seus assistentes faziam era irem com ele a sessões de tratamento da toxicodependência em doze fases. As drogas não eram o principal problema de Nick. O seu maior desafio na vida era aprender a viver e a lidar com a psicose maníaco-depressiva. Mas quando se sentia em baixo ou descontrolado, ou não adequadamente protegido pelos medicamentos que estava a tomar, as drogas eram sempre uma tentação. A ida a essas sessões protegiam-no de uma tentação que pudesse complicar com os seus problemas e interferir com os medicamentos que estava a tomar. Nick sabia que tinha de se manter afastado do álcool e das drogas. E para termos a certeza disso, fazíamos análises diárias à urina, e descompúnhamo-lo quando as análises acusavam, o que não acontecia muitas vezes. Mas, quando dizíamos que ele não estava metido nas drogas, estávamos seguros de que não estava por causa das análises.

O que me assustava nessa altura eram as histórias que ele contava sobre as suas hospitalizações. Embora fosse geralmente franco connosco, não se coibia de contar histórias mirabolantes ao mundo exterior quando elas lhe serviam um propósito, ou engrandeciam a sua imagem. Quando esteve num hospital psiquiátrico, contou aos amigos que estivera a fazer reabilitação, ou pior, na cadeia. Porque achava que isso o tornava mais interessante. E quando eu o repreendia por isso, ria-se e dizia: «Tem calma, mamã.» Aprendi a ter calma ao longo dos anos. Muita. Muito mais calma do que alguma vez pensara vir a ter. Nick deu-me muitas lições.

Porém, fossem quais fossem as suas primeiras opiniões acerca das drogas, e por mais «fixes» que elas fossem, poucos anos antes de fazer vinte anos, ganhou-lhes uma forte aversão. Não só para si, como para os seus irmãos mais novos. Tornou-se o que os miúdos chamam «certinho», ou seja, alguém que se opõe fortemente às drogas, ao álcool e ao sexo. De qualquer forma, de três coisas, conseguiu vencer duas. E nós incitávamo-lo para fazer o mesmo ao resto. A única altura em que tomou drogas nos últimos anos de vida foi quando tentou suicidar-se. Noutras alturas, se bebia uma cerveja ou dava umas passas num charro, caíamos sobre ele e púnhamo-lo no hospital para ajustar os medicamentos, e avisávamo-lo do risco que ele estava a correr com a saúde e o seu delicado equilíbrio. Mas nos últimos anos, nunca tivemos de fazer isso. Ele controlava-se a si próprio, e tinha opiniões muito - claras e racionais sobre o assunto. E, como Julie referiu, não há muito tempo, não foi uma luta fácil para Nick, por causa da sua doença e dos desafios que esta lhe apresentava, a luta para se manter limpo e para não se deixar cair na tentação de uma fuga para o consumo de drogas ilícitas foi mais difícil do que se pode imaginar. Foi uma autêntica vitória para ele, e de que merecidamente se orgulhava.

Era, pois, esta a situação de Nick na Primavera em que fazia dezasseis anos. Tomava Prozac, ia à escola, tinha dois assistentes em turnos alternados para tomar conta dele em Junho foi para a colônia de Verão para «rapazes especiais». Estava um pouco desconfiado, mas apenas porque não morria de amores pela vida ao ar livre, e teria preferido ficar em casa e ido a concertos. Acabara de se juntar a uma banda chamada Link 8O, e estava entusiasmado por tocar com eles. Andava ansioso por voltar para a cidade para ter a oportunidade de tocar e ensaiar com eles. Mas convencemo-lo de que a experiência ao ar livre far-lhe-ia bem, embora me picasse com isso. Eu detestava a vida ao ar livre tanto como ele.

Julie levou-o para a colónia com um fornecimento de medicamentos para quatro semanas, todos os nossos números de telefone, inclusive o meu na Europa, enquanto eu viajava com John e os miúdos, e uma longa lista de instruções do médico de Nick. Ficou tudo em ordem quando John e eu voámos para Paris com os miúdos. Foi uma viagem especial para mim, pois passei grande parte da minha infância e da minha adolescência ali. Já lá não ia há anos, e estava morta por mostrar as marcas da minha infância aos meus filhos. Só tinha pena de que Nick não pudesse lá estar. Mas talvez um dia...

Recebi o primeiro telefonema dele poucos dias depois de chegarmos a Paris. Estava a meio da noite e parecia em pânico. Fora esperar de mais que tudo corresse calmamente, e agora eu estava a nove mil quilómetros de distância, a comer crepes e a andar de metro com os miúdos.

«Que se passa?», perguntei, tentando parecer natural. Mas eu sentia o nervosismo na sua voz. Suspeitei que parte dele fosse psicológico, porque nunca saíra de casa antes, e Nick gostava de saber que me tinha junto dele. Sentia ansiedade pela separação, o que não era habitual num rapaz da sua idade, mas o psiquiatra dissera que isso se devia não só à doença, mas também porque eu nunca o deixara. «Como estás, querido?», indaguei, esperando acalmá-lo com o tom da minha voz. Não gostara que o deixassem, e pela primeira vez em vários anos não me tinha a mim, nem John, nem Julie, nem os seus assistentes. Mas com dezasseis anos de idade, esperávamos que estivesse preparado para isso, todavia, ao ouvi-lo, duvidei que estivesse. ,

«Não estão a dar-me os medicamentos, mamã, e estou a ficar louco.» Parecia ansioso, e era raro nele chamar-se «louco», ou admitir que precisava desesperadamente de medicamentos. Supus por instantes que ele estava a fazer toda aquela encenação para o trazermos para casa, como acontecera com as suas velhas histórias sobre tortura e tormento, quando era uma criança de dez anos e achava que eu precisava de alguma emoção.

«Tens a certeza?» Fiquei preocupada, mas não quis que ele se apercebesse disso.

«Claro que tenho a certeza.» Pareceu sentir-se insultado com a pergunta.

«Vou telefonar à Julie», prometi.

«Quero voltar para casa, mamã.» Parecia um miúdo de cinco anos e destroçava-me o coração com este tom de voz.

Eu sei, querido. Tem mais um pouco de paciência», encorajei-o. «Estaremos em casa dentro de pouco tempo.»

«Tira-me daqui... eles não vão dar-me os medicamentos.» Nick estava prestes a chorar ao dizer isto. «Vão dar, vão», prometi. «Vou telefonar à Julie.» Julie, a solucionadora de todas as crises e problemas. Julie, que há muito tivera de deixar os seus doentes particulares porque Nick era um projecto a tempo inteiro. Que diabo teria eu feito sem ela? Implorei a Nick para ter calma, e telefonei a Julie imediatamente embora fosse muito tarde para ela, mas nunca se queixou de telefonemas a meio da noite, em caso de crise. Tal como eu, ela achava improvável que eles não estivessem a dar a medicação a Nick, mas, quando lhes telefonou, disseram-lhe que ele tinha de se responsabilizar por tomar os seus medicamentos, e tinha de informar a sala de medicação às sete da manhã ou eles não lhe dariam os medicamentos.

Ficámos ambas em pânico quando ouvimos aquilo. Estávamos à espera que a colónia desse os medicamentos a Nick, e não que ele Fôsse responsável por eles, o que não conseguiria. E Nick devia estar a sentir-se mais em pânico que nós, e desesperado, porque, ao que parece, entrou no armazém dos medicamentos da enfermaria nessa noite e tomou qualquer coisa. Só Deus sabe o quê, para acalmar a ansiedade, e eles ficaram furiosos. Mas ir à sala de medicação às sete da manhã todos os dias era de mais para ele.

No dia seguinte, o telefone tocou quando íamos a sair do nosso quarto do hotel em Paris para apanhar um avião para Londres. Eram Duas da manhã para Nick e ele estava frenético. «Vou sair daqui, mamã. Não posso cá ficar. Ainda não me deram os medicamentos.» Merda. Era o Dia do Pai nos Estados Unidos. Encontrava-me a nove mil quilómetros de distância, e estávamos prestes a perder o avião para Londres. Mas também não o podia abandonar, e eu sabia, pelo tom de voz, que estava desesperado e assustado. E, sem os medicamentos, o seu controlo dos impulsos devia estar a um nível muito baixo. Só Deus sabia o que ele faria para aliviar a situação E a única coisa que eu podia fazer era falar-lhe calmamente.

«Nick, não podes vir-te embora. Só mais um dia. Dá-me só mais um dia. Vou mandar a Julie ter contigo amanhã.» A providencial Julie. De novo metida num avião para ir salvar Nick. Era uma pena a colónia não ter resultado. Teria sido tão bom dar-lhe uma experiência normal para variar. Foi aborrecido e decepcionante. "Não posso esperar" disse Nick num tom decidido.«Podes, sim. Só até amanhã. Não posso pedir isso à Julie no Dia do Pai. Ela vai buscar-te amanhã, e eu não tardo a estar em casa. Podes ficar com ela até eu chegar.» Nick já passara alguns fins-de-semana com ela quando os assistentes precisavam de uma folga, e eu sabia que ele gostava de lá estar. «Olha, telefono-te dentro de ... », fiz um cálculo rápido, «três horas, de Londres. Não saias daí.»

«Mamã, vou sair daqui.»

«Não vais, não, Nick.» Tentei dar um tom mais de firmeza do que de pânico. «Vais ficar aí sentado até alguém te ir aí buscar. Vinte e quatro horas. Prometo.» E com aquilo, alguém interrompeu a conversa. Conseguia ouvir em fundo que alguém na colónia o descobrira ao telefone e estava a admoestá-lo por estar a telefonar à mãe na Califórnia.

«Não estou», disse Nick com franqueza. E eu sabia o que ele queria dizer. Eu não estava na Califórnia. Estava em Paris. Ele estava a telefonar do gabinete do director. Nicky nunca tinha vergonha de fazer o que sentia que tinha de fazer, para conseguir o que queria. E desta vez não fugia à regra.

«Nick, telefono-te dentro de três horas. Prometo.» Desliguei então, e mal tivemos tempo para apanhar o avião para Londres. E no instante em que entrei no quarto de hotel, aí, o telefone tocou. Era Nick. Seguira cuidadosamente o nosso itinerário, e fiquei contente por ele o fazer, dada a situação em que ele se encontrava.

«Estás bem?», perguntei-lhe. A voz pareceu-me melhor quando atendi o telefone. Estava obviamente mais calmo, o que me deixava m . reconfortada. «Sim, estou bem.» E então, de súbito, fiquei curiosa. Ele parecia estar demasiado agitado. Talvez até um pouco maníaco. Mas sem os medicamentos, isso não me surpreendia.

«Onde estás, Nick?», indaguei calmamente.

«Numa cabina telefónica na auto-estrada.» Fizera o que dissera. Saíra da colónia a meio da noite, duas semanas sem medicamentos, e estava num lugar qualquer, na auto-estrada. O meu maior receio era que ele apanhasse uma boleia de um camionista, e desaparecesse para sempre. Embora não o desse a entender, estava fora de mim.

Perguntei-lhe se voltaria para a colónia, apenas para me fazer a vontade, mas ele estava decidido e eu sabia que aquilo não me levaria a lado nenhum. Ele estava para lá do racional nessa altura, e a sua falta de controlo dos impulsos levara-o longe de mais para voltar. Tinha de pensar noutras opções. «O que há por perto, Nick? Vês alguma coisa? Uma cidade?» Eu estava a procurar às cegas, quando John passou perto de mim com uma expressão preocupada. Era inegável que com Nick havia sempre um drama. Nunca havia um dia fácil ou umas férias descontraídas. E agora, como habitualmente, todo o meu ser estava centrado em Nicky. «Há um motel», respondeu tranquilamente. «Onde?» «Do outro lado da rua.» Já percorrera uma longa distância na auto-estrada, o que me pôs o coração a bater mais depressa. «Como é que se chama?» Ele disse-me e anotei o nome. «Muito bem, agora quero que me ouças, Nick, e estou a falar a sério. Vai para o motel e arranja um quarto. Telefona-me se precisares, e eu dou-lhes o número de um cartão de crédito como garantia. Vai para o quarto e não saias de lá. Mando alguém ter contigo logo que possa, mas quero que me prometas que não vais para lado nenhum, ou vais estar num GRANDE sarilho.» Tentei dar-lhe a impressão de que estava a falar a sério, mais preocupada que assustada. Não conseguia imaginar quem é que iria mandar para ali buscá-lo.

«Posso pedir pizza?» Parecia satisfeito com o plano. Mais satisfeito do que eu, mas pelo menos havia um motel para ele ir. «Claro. Pede aquilo que quiseres. Telefono-te quando souber quem é que vai buscar-te. E, lembra-te, não saias daí! «Está bem, mamã. Adoro-te.» Parecia novamente mais contente. Um miúdo louco, mas como o amava! «Também. te adoro, Nick.»

Todos os planos da tarde com os miúdos foram pela janela fora, enquanto voltava a pegar no telefone. Mas estávamos habituados a isso. John levou-os a dar uma volta sem mim. «A mamã tem de cuidar do Nicky.» Quantas vezes ouvira eu aquilo? Vezes sem conta. Mas era aquela a realidade da minha vida, da dele, e da deles, e da de John. Não havia opções fáceis. Eu estava sempre a decepcionar alguém por cuidar dele. Mas haviam crescido com isso e compreendiam, pelo menos eu esperava que sim.

Telefonei a Julie e pu-la a par da situação. Ficou tão em pânico como eu, mas era o Dia do Pai e não podia deixar o marido e os filhos.

A seguir, telefonei a Camilla, a nossa ama de há muitos anos,..' que ficara em casa, misericordiosamente, e não viera na viagem. Agora sei porquê. Afinal, havia um Deus. Telefonei-lhe, encontrei-a em casa e contei-lhe o que se passara. Telefonou-me cinco minutos depois. Se ela se dirigisse para o aeroporto como uma louca, e não se preocupasse em fazer as malas, conseguiria apanhar dois aviões de ligação e estar com ele dentro de cinco horas. Se conseguíssemos mantê-lo no quarto do motel durante aquele tempo, ele ficaria nas mãos carinhosas e competentes dela. Eu sabia que ele ficava em segurança daí a cinco horas. Ela poderia avaliar a situação lá e trazê-lo calmamente para casa, para Julie.

«Vai!», disse eu, e ela saiu disparada, sem sequer levar uma muda de roupa consigo, nem uma escova de dentes, como referiu mais tarde.

Telefonei para Nick, disse-lhe que Camilla estava a caminho e ameacei-o se ele saísse do quarto do motel, e ele prometeu que não sairia. Parecia satisfeito, disse que estava a ver televisão e pedirapizza para o pequeno-almoço. óptimo. Com os nervos que estava nem sequer almocei, e agora tinha de sobreviver a cinco horas de ansiedade até que Camilla lá chegasse. Telefonei a Julie e contei-lhe o que estava a acontecer, e também ficou aliviada. Depois, com a esperança de que tudo estivesse debaixo de controlo como ia estar, telefonei para a colónia donde Nick saíra. Queria ver o que é que eles iriam dizer-me. Já telefonara para casa a confirmar, e não me tinham deixado qualquer recado. Também tinham o meu itinerário, mas também não me telefonaram para Londres.

Quando atenderam, pedi para falar com Nick e responderam-me que ele estava ocupado.

«A sério? O que é que está a fazer?», perguntei com voz doce.

«A andar a cavalo», responderam, mentindo.

«Que maravilha!» Nick detestava cavalos. «Quando é que ele volta?»

«Daqui a pouco», responderam vagamente, parecendo nervosos. Estavam a mentir, e ainda não me tinham telefonado para me dizerem que ele desaparecera.

Telefonei de novo nessa tarde para minha casa, de manhã para eles, e continuavam a dizer que ele estava nas suas actividades. Ao terceiro telefonema, revelei o que se passava. Disseram que tinham estado a tentar contactar-me durante todo o dia em casa e no hotel, o que era uma autêntica mentira, e eu disse-lhes isso. Perguntei-lhes se sabiam onde é que ele estava, mas acabaram por admitir que não sabiam. E, quando lhes perguntei se já tinham telefonado ao xerife a comunicar que um adolescente com distúrbios emocionais tinha desaparecido, responderam que não, mas que «iam telefonar». Fiquei lívida. Daquilo que sabia, achava que eles tinham posto a vida do meu filho em risco, primeiro que tudo, e sobretudo ao não lhe darem a medicação de que ele estava dependente para se manter equilibrado, e que tinham a obrigação de lha dar. Eles não conseguiram arranjar nenhuma desculpa para me apaziguar. Que teriam feito se tivessem perdido realmente o meu filho, especialmente no estado em que ele estava, e lhe tivesse acontecido algo? Disse que lhes telefonaria quando o descobríssemos, mas queria esperar até que Camilla chegasse lá, porque não queria que o levassem para a colónia agora. Não tinha confiança neles.

Pouco depois, Camilla telefonou. Tinha-o em segurança, e estava no motel com ele. Ele parecia estar satisfeito, e pedira quatrocentos e oitenta dólares de pizza, o que confirmava o que eu pensara, quando achava que ele parecia maníaco. Também comprara um charuto, e estava a fumá-lo quando Camilla entrara no quarto.

O resto do que Camilla me contara era típico de Julie. Camilla fora a correr para o avião, como prometera, e depois mudou de avião para ir ter com Nicky. Era um pequeno avião e não se incomodara a olhar em redor quando se sentou. Estava distraída e a pensar em Nick. Quando saiu do segundo avião, viu um rosto familiar a sair do avião atrás de si. Era Julie. Com ou sem Dia do Pai, Julie ficara extremamente preocupada com Nick e acabara por deixar a família para estar com ele. Apanhara um voo diferente para fazer a mesma ligação de Camilla, mas nenhuma delas se vira quando entraram no avião.

Foram juntas para o motel, e, quando entraram no quarto e viram Nick a fumar um charuto, ele riu-se ao vê-las.

O resto que elas me contaram ao telefone foi muito menos divertido. Nick contara-lhes quase de imediato que se sentia completamente desequilibrado, e, pela primeira vez, disse a Julie que queria e precisava de ir para um hospital até ficar «normal». Ficara demasiado tempo sem tomar medicamentos, e ele sabia disso. Foi a primeira vez que pediu para ser hospitalizado, o que me preocupou e impressionou. Contou a Julie que se sentia de rastos e que estava assustado. Mas, pelo menos, estava em segurança, e ela e Camilla estavam junto dele.

Telefonei para a colónia a dizer que ele estava em segurança, e depois para o médico de Nick, que concordou que hospitalizá-lo era uma boa ideia nessas circunstâncias. Quando falei a Julie, ela sugeriu o hospital que lhe fizera a avaliação quatro meses antes, pois ficara bem impressionada com eles. E o Dr. Seiffied prometeu ir vê-lo. O meu telefonema seguinte foi para o director do hospital, que prometeu arranjar uma cama para ele logo que o levássemos para lá.

Eu passara o dia inteiro ao telefone. As crianças e John tinham regressado do seu passeio, e eu ainda estava demasiado aturdida para falar com eles. Tinha de pôr Nick noutro avião com Julie e Camilla, que haviam concordado em levá-lo para o hospital. Fiquei imensamente aliviada por elas estarem com ele, embora me sentisse culpada por não estar lá.

Entretanto, nem Camilla nem Julie tinham roupa com elas, nem Nick, que deixara tudo na colónia, e eles tinham prometido enviar-nos as suas coisas.

Estavam num avião duas horas mais tarde. Como de costume, conseguíramos uma vitória esforçada, mas eu estava com os nervos esfrangalhados depois de desligar o telefone. Já decidira que iríamos buscar Nick quando regressássemos da Europa. Pelo menos, ele estaria em segurança agora. Entretanto, Julie ia ficar num hotel perto do hospital. Mas sabíamos que, dentro de uma ou duas semanas, iríamos tê-lo de novo nos carris com o Prozac.

Pousei finalmente o telefone e fui ter com os meus outros filhos. Às vezes era difícil estar alegre para eles. O fardo que eu carregava não era pequeno, e eles sabiam disso. Mesmo quando não lhes dizia o que estava a acontecer, eles quase sempre sentiam o que se passava. Especialmente Sannie, que tinha então doze anos. A guerra entre Nick e Sammie acabara há muito. Ela adorava-o. Dedicava-se completamente a ele e protegia-o bastante.

Ao ver o meu rosto, interrogou-me imediatamente. «Passa-se alguma coisa com o Nick, não passa?» Admiti que sim, mas asseverei-lhe que ele ia para uni hospital durante uns dias, e voltaria para casa em breve. Mas vi nos seus olhos como estava preocupada com ele, tal corno todos nós.

Ficou zangada por eu o pôr num hospital, e encarava isso como uma espécie de punição que eu arranjara para ele. Ela sabia quanto é que ele detestava estar em programas ou hospitais. E sempre que estava, ela via isso como uma autêntica traição da minha parte, mais do que uma segurança. Expliquei-lhe que ele queria ir para o hospital desta vez, o que ela achou incrível. Ao passar por acaso, Victoria, que tinha apenas onze anos, foi muito maispragmática relativamente ao assunto. Enquanto Sam me repreendeu por «trancá-lo» Victori olhou para ela e encolheu os ombros.

«Vá lá, Sam, ele está doente sabes isso. Ele precisa.» Todos sabiam isso. Tinham crescido com a situação. Aceitaram Nick pelo que ele era, e muito embora às vezes tornasse as suas vidas difíceis, especialmente quando tomava muito do meu tempo, eles adoravam-no, e, felizmente, ele sabia isso.

 

UM VERÃO LONGO E DIFíCIL

O final da viagem para a Europa correu bem. Os miúdos divertiram-se, e eu e John também. Mas os relatórios que eu recebia do hospital onde Nick estava não eram bons. Aquilo que havíamos previsto como sendo uma estada curta estava a prolongar-se. Eles achavam que Nick necessitava de internamento e beneficiaria ficando por tempo indeterminado, talvez todo o Verão ou mais. E Nick sentia-se extremamente infeliz por causa disso.

Eu não sabia para que lado me voltar. Ele parecia aborrecido, mas os médicos garantiam-me que podiam ajudá-lo. Já tinha falado com o director do hospital e gostara dele, e ao princípio os conselheiros e os médicos que ele lá tinha pareciam interessados nele. Mas, passados poucos dias, o director ausentou-se para gozar um mês de férias, e os conselheiros começavam a parecer sentir-se frustrados e hostis. Quanto mais tempo lá passava, menos Nick cooperava com eles. Parecia zangado e agressivo e eles estavam a tocar a nossa velha e familiar melodia, cuja letra eu sabia demasiado bem. Criança célebre, abandonada e mimada, e mãe indiferente. óptimo. Mas era inegável que Nick não se encontrava bem. Mesmo com a medicação, parecia piorar em vez de melhorar. Não tinha a certeza se era por causa de estar no hospital ou se estava realmente a piorar, do ponto de vista psiquiátrico. O Dr. Seifried foi vê-lo conforme prometera e concordou que Nick ainda não estava em condições de ir para casa. E mais uma vez, assim que ficou internado, Nick começou a ficar menos funcional e a cooperar menos que nunca.

John e eu fomos vê-lo no caminho de regresso a casa, e não gostei do que vi. Estava com um ar cansado e pálido e parecia irracional e desesperado. Queria vir para casa comigo, mas dava a impressão de estar demasiado magoado para conseguirmos lidar com ele. Necessitava de se acalmar de novo antes de o poder trazer para casa, independentemente de desejar muito libertá-lo. E tentei, em vão, explicar-lhe isso. Ele pensou que eu estava a abandoná-lo ali, e receou que eu o deixasse lá para sempre.

O problema que o hospital tinha com Nick era que ele não se encaixava em lado nenhum. Era demasiado inteligente e demasiado sofisticado para estar com os miúdos da sua idade, que se encontravam lá por variadíssimas razões. Mas quando o puseram com os adultos, apesar de ele interagir socialmente bem com eles, e em grupos de terapia, não tinha efectivamente nada em comum com eles. As suas experiências de vida eram muito diferentes. Ele não estava a lidar com filhos, esposa e emprego, aos quais não soubesse fazer frente. Ele fazia o que queria dos adolescentes e de alguns conselheiros. E, como habitualmente, criou violência à sua volta. Mais uma vez, mostrou-se incapaz de seguir os regulamentos, ignorou as proibições de fumar e pegou fogo ao tapete do quarto, queimou uma parede inteira ao pôr um clip numa tomada ao tentar fazer algo exótico e extremamente perigoso com ele para acender um cigarro. Felizmente não se magoou. Mas já estavam todos bastante fartos dele quando o vi. O Dr. Seifried queria tentar medicamentos novos, mas ainda não o haviam feito e Nick disse que não queria.

Tudo o que eu podia fazer era insistir para que ele cooperasse, acalmá-lo o melhor que podia e prometer-lhe que o levaria para casa assim que ele pudesse viajar. E era verdade. Não tinha qualquer intenção de o enfiar num hospital qualquer indefinidamente, a não ser que pudessem provar-me que o podiam ajudar. Prometeram é claro, mas ainda não existia nenhuma prova disso. De facto, ele parecia bastante pior, mais irracional e agitado do que da última vez que o vira. Mas também não estava a tomar medicamentos há duas semanas, e eu sabia que isso o deitava a baixo. Tudo o que podíamos fazer era esperar e ver o que acontecia.

Deixei Nick deprimido e fui para casa com John e as crianças. No entanto, ainda estava preocupada. Não tinha a certeza se Nick estava com uma «ressaca» momentânea, uma enorme irritação por estar sem Prozac há duas semanas, ou se a doença havia evoluído. Ninguém parecia saber. Tínhamos que ver como as coisas progrediam, mas eu estava desanimada.

Uma vez em casa, Nick telefonava-me várias vezes ao dia, sempre.com uma invectiva por eu o ter abandonado, ou para me dizer o quanto me detestava por isso e que eu o traíra. Ele tinha a certeza que nós lhe mentíamos e que o havíamos abandonado. Nem Julie conseguia acalmá-lo. A única coisa que parecia ajudar eram as visitas da minha mãe, que percorria distâncias consideráveis para o ver e, apesar dos rigores da viagem, chegava de vestido de seda e pérolas. Imaculada como era o seu hábito, enquanto Nick se sentava de cabelos desgrenhados a jogar Scrabble com ela. Mas quanto mais tempo ele ficava, mais perdia o controlo da sua sanidade e mais difícil era trazê-lo para casa. Era um círculo vicioso do qual não havia escapatória possível no momento.

Ao ler as notas do seu diário durante a sua estada no hospital, compreendo mais uma vez a perturbação em que ele se encontrava e o desespero que deve ter sentido. Parte-se-me o coração ao lê-las.

Foram escritas em Julho de 1994, quando tinha 16 anos. Estava bastante doente na altura, muito atormentado, mas suficientemente lúcido para escrever no diário.

 

«O quarto silencioso»

Enjaulado, trancado, um animal a cuspir e a guinchar, menos são que um roedor infestado de raiva, a espumar da boca. Bato com a cabeça nas paredes, ando aos círculos, tecto branco, um colchão no meio do quarto, despido e singular Fá-lo parecer ainda mais vazio. De joelhos, grito para as paredes espessas para me salvarem. Rezo para o céu vazio que não consigo vislumbrar e para o Deus sem sentido que não o habita para me aliviar o sofrimento, para me tratar, para me curar, para me salvar Nenhuma resposta. Sento-me no canto, as mãos a tapar-me a visão desta insípida realidade, desta horrível realidade donde não consigo fugir Estou só, a cabeça caída, enclausurado na minha jaula de madeira e plástico. A única luz entra pelo quadrado de vidro no meio da porta coberta de rede para me tirar qualquer esperança de fuga. Eles acham que eu me posso ferir Olho para o espelho de plástico e vejo um rapaz com ar esgazeado. É assim que eles me vigiam, se certificam que estou reduzido a nada, grito por ajuda, peço a salvação que eles oferecem, mas não cederei. Isto nunca acabará, aconteça o que acontecer.

A estabilidade mental atingiu o seu ponto crítico, todos os meus sentidos estão contaminados. Nunca sairei deste inferno. Tudo questiona a minha saúde mental. Faz-me perder o controlo. Não posso confiar em mim. Se alguém me ouve, chama-me à razão, mas dão meia volta e deixam-me a falar sozinho. A ansiedade põe-me nervoso e frustrado, por isso perco a cabeça ou bato com ela na parede. O isolamento e a cólera impedem a minha recuperação, não me deixam ficar curado.

A confusão põe-me fora de mim e desespera-me. Todo o meu mundo é feito de desilusão e compaixão, nada mais que uma miragem, transparente, inexistente. Procuro tocar na minha alma, mas ela desapareceu. Perdi-a algures. Sou um rapazito assustado e não sei para onde fugir As pernas do rapazito não me levam muito mais longe. Estou fraco quando sempre pensei que tinha força. Os pés estão no ar, a cabeça está no chão. A realidade pôs-me a andar à roda. Pensei que podia levantar-me, mas não havia nada mais que isso e interroguei-me... onde está  meu espírito?... Pensei que sabia o que era ser homem, mas agora sei que não sabia. Os segredos a ganhar pó, a apodrecerem, a ficarem reduzidos a cinza nas traseiras da minha cabeça, e agora os esqueletos estão a ganhar vida no meu armário.

Neste mesmo diário ele fala dos seus amigos e da rapariga por quem está apaixonado. Também fala de estar doente e louco, e pela primeira vez muitos dos seus registos são completamente incoerentes e irracionais, muito diferentes dos outros. Porém, alguns são brilhantes.

 

«Numa Scooter»

A confusão puxa-me em qualquer direcção. A raiva atira-me túlipas à cara e o céu recusa-se a partir-se para que o meu ego se sinta bem. Como suportarei isto? Como é que o meu corpo se aguentará na viagem? Mordo os lábios, agarro-me à colcha da cama. Corro, corro, corro, produto escarrado do ventre do nosso pai, enveneno o leite da mãe e faço com que as crianças chorem com a infecção. Sangro dos olhos, bato os braços no ar rarefeito, arranho o peito, tento ver se o coração dentro de mim ainda bate, ou se ainda existe um coração dentro de mim. Acham que estou louco? Fui empurrado, metido à força dentro de uma caixa estreita e rotulado. Estou LOUCO e foi este lugar que me pôs assim. Era normal antes de vir para aqui, depois tiraram-me a minha realidade, atiraram-na para o misturador e liquefizeram todos os meus bens mentais. Eles fazem outros iguais a mim todos os dias, drenando-nos como se fossem uma fábrica. E julgo que, de certa forma, são.

 

«Necessidade»

Eu preciso. Eu quero. Quero sentir-me em paz e que a minha alma descanse. Não quero que esta raiva cheia de pus me consuma noite e dia, que esta raiva, este túmulo vazio onde me meto dia e noite... E uma solidão quando não nos conhecemos a nós próprios. Sinto-me oco. Sinto-me fraco. Só quero encher-me de sentimentos e felicidade. Não desta raiva, desta desgraça que apodrece nas minhas entranhas há anos. Como é que posso curar-me? Como posso arranjar uma maneira de tirar este cancro dentro de mim? Quero que chova lentamente para fazer desaparecer o medo e a asquerosidade de dentro de mim. Quero que a raiva e o ressentimento desapareçam. Como posso estar em paz? Eu quero. Eu preciso. Preciso. Preciso...

 

«Canalhas»

Por que razão é que ele está a dizer aquelas coisas? Por que razão e que uma tal blasfémia passa pelos lábios de um homem educado? Tenho um coração, tenho uma alma, consigo amar, faço amor. Sou amado. Ele faz-me sentir um inútil, um sacana sem sentimentos, desprezado, sem alma, e nada disso é verdade. Ao fim de cinco minutos a abanar a cabeça, ele conclui que não sou nada, que me reduzo a nada, e que sou uma concha frágil de um ser humano. Será que ele acredita nessas palavras? Será que ele acha que sou eu? Bom, eu não. Que se foda! Ele não me conhece de lado  nenhum. Quem é ele para fazer tais julgamentos, para infligir essas palavras contundentes em alguém que ele nem sequer conhece?

é-me superior e eu não posso dizer-lhe que está enganado, que se vá foder, e limito-me a ficar sentado, mudo, a dizer que sim com a cabeça, a confirmar todas as suas cruéis suposições. Filho da puta. Nem sequer me conhece, e também não se interessa por conhecer Consigo amar Amo muitas pessoas. E consigo fazer com que as pessoas se sintam amadas. Valho alguma coisa. Sou boa pessoa. Há muito tempo que não me lembro de alguém me ter feito sentir assim tão na merda. Todas as suas acusações são cruéis, injustas e falsas, e todas as suas falsas verdades nenhuma delas é verdadeira. Tenho uma alma e um coração, e sei como usá-los. Ele fez-me sentir tão reles, tão inútil e tão merecedor depena. É por isso que estou aqui * Para me deitarem abaixo, para me dizerem que não sou nada, que nunca serei nada? Sim, parece ser uma óptima ideia, vamos pedir a verdadeiros profissionais que me censurem, que posso eu fazer? Nada, porque a palavra dele vale tanto como a palavra. de Deus. Quem acreditará em mim? Se ele diz que estou fodido para a vida, merda, estou fodido para a vida. Ele é um PROFISSIONAL. Canalha. Ele não sabe. Senta-se no seu consultório, lê os relatórios e faz com que as pessoas se sintam inúteis, faz-nos sentir iguais a merda. Talvez isso O faça sentir melhor Talvez seja ele que não tem coração, nem alma, e está-se borrifando para quem magoa. Bom, tenho sentimentos, e é pena que se estejam cagando para eles.

 

«Indecisões»

Que está a acontecer? Para onde estou a ir? Sento-me no silêncio da minha cela. O silêncio é tanto que me aflige. Os tímpanos vibram e doem, pedem som, pedem o doce conforto que se pode encontrar noutra voz humana. A raiva aparece e desaparece tão depressa como aparece. A confusão é a única coisa presente que me faz constante companhia, a confusão e a agitação a corroerem-me o espírito. A levarem-me à loucura. Onde acabará esta estrada, aonde é que ela me levará? Que está a acontecer? Não sei. Talvez não queira saber, talvez a resposta seja tão infernal como a indecisão, o abismo escuro e desconhecido em que vagueio neste instante. Assisti ao nascer do Sol esta manhã. Vi-o lançar os seus curativos raios sobre os pássaros chilreantes e as árvores ondulantes na brisa da manhã. Um veado surgiu de dentro do bosque e comeu calmamente a erva húmida diante de mim. Esta visão fez-me sentir indescritivelmente bem. Fiquei cheio de uma paz, uma paz que eu quis que confortasse a minha alma. Mas não confortou. Ainda sofro.

 

«Cansado»

Estou cansado de estar oprimido, de estar preso. Sinto-me um hamster a correr no meu pequeno tambor, a despender toda a minha energia, mas sem ir a lado nenhum. Estou farto e cansado da luta, da batalha, de espernear e chorar continuamente. Mas eles não deixarão de me provocar Eles não deixarão de me confortar com liberdade e amor porque gostam de me ver lutar Gostam que a minha raiva expluda porque sabem que eu não posso ganhar, e nunca serei capaz de os derrotar porque são muito fortes. Humilham-me e põem-me de rastos continuamente, irritando-me e magoando-me. Mas não se importam e eu também começo a não me importar Nada me pode deter agora porque já me estou nas tintas. Estou a enlouquecer neste lugar, estou a ser levado para o meu fim. Já não aguento mais. Eles desumanizam-me porque me querem ver destroçado, querem ver-me a chorar Filhos da puta. Matava-os a todos se pudesse. Que se fodam! Nunca baixarei os braços. Nunca.

 

«Finalmente»

A verdade explodiu dentro de mim para tomar conta da minha merda, para o fazer, para me tornar o melhor possível. Nem mais mentiras, nem mais merda. Nem mais sacanices. Vou finalmente fazer o Caminho! Sinto-me tão leve, o fardo dos meus segredos tirado do meu peito, a minha verdade e o desejo a ecoarem-me na cabeça. Vou fazê-lo mesmo, vou fazer o meu melhor com verdade e honestidade. Sei que o posso fazer, e estou assustado, mas a alegria dominará o resto de mim, tomou finalmente o controlo, e sei que verdadeira e honestamente o Posso fazer Só preciso de ser verdadeiro, ser autêntico, fazer efectivamente tudo o que disse que quero fazer Sempre fui fodido, não interessa quais foram as consequências. Agora quero ser honesto e bom, apesar das consequências. Sinto-o no meu coração, estou de volta. Não me interessa quem me lixa, quem está furioso. Estou-me marimbando. Estou a fazer isto por mim, para melhorar e me sentir bem comigo mesmo. NADA ME DETÉRÁ. Nada a não ser o meu ego e a minha subserviência. Não quero saber mais o que é que as pessoas dizem ou pensam, mas vou fazêlo. Os meus sonhos virão finalmente para a luz, e poderei fazer o que eles realmente são, quem eu realmente sou. Pode ser duro, mas que se foda! Estou finalmente preparado para caminhar por sobre a linha que as minhas palavras pintaram, a linha da verdade, da felicidade, do bem, do auto-respeito e do amor Eu quero isso, eu quero isso, com todas as forças do meu ser, com todos os meus poros. A respiração parece diferente. Fui mais sincero nos últimos vinte minutos do que fui nos últimos seis meses! Aqui estou, cheguei ao primeiro degrau e estou preparado para morder o lábio, fechar os olhos e correr pela escadaria acima. Eu consigo!!!

 

«Esquece essa merda»

Isto é tão estúpido e confuso. Tento fazer tento ser sincero e ser tudo o que puder ser e sou atacado. Assalto verbal vindo de todos os lados. Põem-me de novo na minhajaula, gritam comigo, dizem-me que sou mentiroso, que não sei o que está certo e o que está errado, A única

coisa que tentei não foi ser sincero e ver o que tinha? Que se foda essa merda! Não tenho mais nada a não ser dor Ser repreendido não é a minha ideia de um primeiro prémio para um primeiro degrau. Sinto-me tão só, com tantas saudades de casa. Porquê isto? Sou um simples alienado, e ninguém dá nada por mim. Querem manter-me na escuridão. Fico menos perturbado assim. Justo e honesto, certo? Não vale a pena, todos os meus esforços são em vão. Deixaram-me destroçado e louco, sem ligações com o mundo. Tenho saudades da minha família, da minha miúda. Todos pensam que estou doente. Eles estão cheios de porcaria. Que essa merda!

Prometeram-me no hospital que fariam tudo para ajudar Nick a melhorar, tratamento, terapia, medicação. Mas, cada vez que falava com ele, parecia mais deprimido, e acabou por se fechar cada vez mais, deixando de falar com todas as pessoas. Não conseguia seguir os regulamentos deles, não estavam a fazer nada por ele e tudo o que queria era vir para casa. Deixou de cooperar totalmente e a solução deles para isso era enchê-lo com Thorazine, pô-lo no «quarto silencioso» e deixá-lo dormir a maior parte do tempo.

Descobri isso porque cada vez que lhe telefonava diziam-me que ele estava «a fazer uma sesta». Quantas «sestas» se podem fazer durante o dia? Telefonava quatro ou cinco vezes por dia e ele estava sempre a dormir. Mais uma vez, senti que o havia traído. Tentáramos algo que não só não o ajudara, mas que ainda o tinha posto pior. E nem sequer tinham experimentado os novos medicamentos.

Os conselheiros insistiam para que o deixássemos lá. Julie, o médico de Nick e eu falámos sobre o assunto, e rapidamente chegámos a uma decisão. Mais uma vez, a experiência havia sido decepcionante e o Dr. Seiffied concordou que não fazia sentido tê-lo lá mais tempo. Não estava a ajudar. Estava a agravar a situação.  Era altura de o trazer para casa, não importando em que condições estava ou a que ponto havia chegado. Na minha opinião, ele não devia estar num hospital, inconsciente com Thorazine, longe da família e de casa. Devia estar connosco. Tomaríamos conta dele. Telefonei-lhe novamente nessa tarde e exigi que o acordassem. Parecia embriagado quando atendeu o telefone, mas não teve problemas em perceber o que lhe disse. «Vens para casa, querido.» Havia lágrimas nos meus olhos quando lhe disse. «Vou?» Quase que o conseguia ver a sorrir assim que lhe disse. «Quando?» «Amanhã.»

Nick soltou um grito de alegria. Parecia mais são agora que  durante semanas. Estivera lá trinta e nove dias. Dias desperdiçados, a maioria dos quais passados no «quarto silencioso», porque eles já não sabiam o que fazer com ele. Foi como se enjaulassem um lindo animal ferido. Eu só esperava que as suas asas partidas tivessem sarado o suficiente para que pudesse voar novamente. Tivera sete semanas muito duras.

Deram-lhe mais uma injecção antes de ele sair. Ao que parece, ele voltou a acender um cigarro na manhã em que era suposto vir embora. Desta vez, conseguiu não incendiar a parede nem o tapete. Não fizera estrago algum, mas infringira os regulamentos. Chamaram Julie no hotel e disseram-lhe que ele só poderia ir para casa no outro dia. Ele teria de passar o dia no «quarto silencioso» para remir o facto de ter infringido os regulamentos, o que era compreensível, mas que nos aborreceu. Estávamos ansiosos por o levar para casa.

Ela telefonou-me, furiosa, e eu concordei com ela. Telefonei para o hospital e disse-lhes para terem a mala dele pronta dentro de uma hora. Eles começaram por se opor, mas acho que sabiam que eu estava a falar a sério. Não iriam deter-nos. Não tinham feito nada por ele a não ser fechá-lo num quarto, como um carro numa garagem. Estávamos fartos. E agora, o meu filho vinha para casa, e nada iria detê-lo.

Puseram-no no «quarto silencioso» a aguardar que Julie chegasse. Eles fizeram valer o seu ponto de vista até à última, mas ele já não se importava. Sabia que ia ajuda a caminho. O pesadelo acabara.

 

«Confuso de novo»

Oh, bom, os erros do último minuto. Pelo menos, ainda tenho de ir para casa. Vibro de entusiasmo, de expectativa por aquilo que virá a seguir Não vejo a hora de entrar no avião. E um sofrimento estar aqui no «quarto silencioso» até me ir embora. Detesto este lugar e não vejo a hora de partir Não quero perder esse momento. Quero sair. Eles estão todos tão preocupados em dizer-me que vou falhar, que não vou conseguir, que a minha recaída já começou. Que se fodam bem! Conheço-me melhor do que outra pessoa qualquer e sei que vou conseguir Quem me dera que as pessoas acreditassem em mim e não deturpassem as coisas. Fumei no quarto porque me apetecia um cigarro, não por ter qualquer desejo secreto de cá ficar, ou por ser um maldito piromaníaco. Preciso de ir para casa. Preciso de normalidade. Preciso de equilíbrio. Preciso de ter a minha vida de volta. Também era tudo o que queríamos para ele. E tudo por que podíamos ansiar.

 

UM NOVO LAR PARA NICKY

Nick veio ficar connosco em Napa, quando voltou para casa no dia vinte e nove de  Julho e, pela primeira vez, ficou feliz por estar' ali. Depois de cinco semanas e meia no hospital, até Napa lhe parecia óptimo. Estava algo agitado e ansioso, e não tão bem como quando se fora embora, mas parecia melhor do que parecera ao telefone. Acho que estava perturbado com a experiência. Ainda me parecia longe de estar bem.

Tocou com a banda algumas vezes e acabou por cansar-se de Napa; por isso, deixámo-lo ir passar uns dias a casa de Julie. Porém, ela telefonou-me, em pânico, pouco depois de ele ter chegado. El enganara-a e fugira. Era a primeira vez para ele, não contando com a ocasião em que se sentou no parque, a rir-se de nós e a comer donuts quando não quis trocar de ténis. Mas desta vez era a sério, era mais velho e estava mais doente. Encontrava-se suficientemente desequilibrado para que o seu desaparecimento fosse uma verdadeira preocupação para nós. Já para não falar no facto de não ter levado os medicamentos com ele, naturalmente, e sabíamos que não tardaria a ficar de rastos.

Tentando controlar o pânico, telefonei para um tenente da polícia que eu conhecia, e Julie telefonou a todos os seus amigos, procurando descobrir para onde é que ele fora. Esta era literalmente a única vez que ele fugira, e era difícil imaginar para onde é que tinha ido.

Saíra do hospital há exactamente duas semanas e meia, e estava obviamente ainda confuso e com comportamentos estranhos. Mas, ao fim de algumas horas, Julie descobrira onde é que ele se encontrava. Estava com uma rapariga que ele conhecia. Mandámos dois polícias para lá, e os pais dela tentaram fingir que ele não estava lá. Télefonei-lhes e expliquei-lhes a situação. Não tive outra alternativa senão dizer-lhes que ele estava doente. Dois minutos depois, deixaram entrar os polícias. E lá estava Nick.

Telefonei ao psiquiatra de Nick, e conversámos acerca do que tínhamos a fazer. Era evidente que Nick estava debilitado, e sugeriu que o puséssemos num pequeno hospital onde ele punha os doentes, em East Bay. As instalações não eram luxuosas, mas ele ficaria confortável e em segurança, e o médico vê-lo-ia todos os dias. Cortava-me o coração fechá-lo outra vez num hospital, mas, se ele ia começar a fugir, tínhamos um problema maior nas mãos do que alguma vez tivéramos. Era perigoso para ele desaparecer, e ainda para mais sem tomar os medicamentos. John e eu fomos a São Francisco e levámo-lo calmamente para East Bay. Não perguntou para onde é que estávamos a levá-lo. Acho que estava aterrado. Telefonou a amigos e procurou mostrar-se despreocupado. Julie foi ter connosco ao hospital, e o médico de Nick já lá estava. Era um lugar pequeno, limpo, bem tratado, parecia um hotel acolhedor. Nick nem sequer discutiu connosco desta vez, nem perguntou quanto tempo ia ficar. Chorei quando preenchi os papéis e subi para lhe dar um beijo de despedida. Não me olhou nos olhos, e pareceu abatido quando virou as costas. Custava-me ver o que estava a acontecer-lhe. Evidentemente, o que estávamos a fazer não parecia ajudá-lo, e a medicação não era suficientemente forte, mas que outras opções tínhamos senão pô-lo novamente no hospital? Especialmente se ele ia fugir.

A única coisa que me confortou foi o próprio hospital. Era impecável e o pessoal simpático. Ele tinha um quarto decente e confortável, e havia uma piscina que ele poderia utilizar. Senti no meu coração que ele estaria em segurança e seria bem tratado. Gostei particularmente das enfermeiras e dos médicos, todos eles me pareceram pessoas excepcionalmente simpáticas e carinhosas.

Mas na viagem de regresso a Napa, tinha o coração destroçado. Era difícil imaginá-lo novamente bem. E à medida que o Verão se aproximava do fim, Nick estava cada vez pior. Eu ia de Napa vê-lo duas ou três vezes por semana. Levava duas horas e meia com muito trânsito e um calor abrasador. Trazia-lhe pizza ou costeletas, e sentávamo-nos num quarto fechado à chave. Ele estava furioso comigo. Bastante furioso. Gritava comigo, atirou com uma cadeira contra a parede, nunca me tocou, nem atirou nada contra mim, mas de todas as vezes que eu o ia estava furioso. Era como um animal enjaulado sem poder ir para lado nenhum. Não só estava a perder a sanidade mental, como estava a perder tanto o controlo como a esperança. Era doloroso imaginar o seu futuro naquela altura.

E depois de escutar o quanto ele me odiava durante duas horas, voltava para outras três horas de caminho até Napa. As duas viagens e a visita levavam o dia todo. E como sempre acontecia com Nick, afastou-me dos meus outros filhos, e nesse Verão comecei a ver que estava a ser um preço elevado para o resto da família. E com a preocupação com Nick, comecei a ir-me abaixo. Estava exausta e desanimada. Era difícil estar optimista com a situação dele. Em retrospectiva, com todo um espectro de anos para escolher, penso que o fim desse Verão, quando ele tinha dezasseis anos, foi o mais deprimente de todos. Do ponto de vista psiquiátrico, estava mais perturbado que nunca, ou que alguma vez viria a estar. E ao vê-lo furioso, a praguejar, a ameaçar-me e a acusar-me quando o via, era pouco provável que ele alguma vez viesse a ter de novo uma vida normal. Começava a recear que ele ficasse hospitalizado para sempre, e durante muito tempo não se vislumbrou a mínima esperança.

As viagens para o visitar pareciam intermináveis, as perspectivas eram desanimadoras, e o meu casamento com John começava também a ir abaixo. Penso que estávamos ambos desanimados com a pouca esperança que víamos para Nick, e talvez como as pessoas fazem quando se sentem impotentes, com razão ou sem razão, culpam-se a elas próprias ou culpam os parceiros. Eu estava constantemente a telefonar para o hospital, para Julie ou para os médicos, a visitá-lo várias vezes por semana, aborrecida por não poder passar mais tempo com os outros miúdos e por Nick não melhorar. E talvez John achasse que eu passava demasiado tempo fora e andava demasiado perturbada. Não sei ao certo o que ele sentia, não falávamos muito nisso. A única coisa que sabíamos era que não éramos felizes. Os últimos anos não tinham sido fáceis, com os tablóides, as biografias não autorizadas, a tratar de Nick e preocupada com ele, além das tensões normais de qualquer casamento. E como bónus, um talk show de uma rádio local começara a fazer comentários depreciativos a meu respeito. Era uma coisa mais para me entristecer e para acrescentar às minhas mágoas.

O Dia do Trabalho passou num ápice. Os miúdos voltaram para a escola, e eu continuei a visitar Nicky. Pelo menos, em finais de Setembro, o estado de espírito de Nick melhorara um pouco, e estava menos agressivo do que antes.

Fizera os trabalhos da escola no hospital e estava a par da matéria. Mas apesar de estar a tomar novamente Prozac, e de parecer um pouco mais alegre, ainda me parecia em estado precário. Depois de seis semanas no hospital desta vez, voltou para casa no dia um de Outubro, e, com excepção de duas semanas em Agosto entre hospitais, estivera hospitalizado durante três meses e meio, um ror de tempo. Era evidente que o seu estado se deteriorara nos últimos meses, e cuidar dele era agora uma tarefa a tempo inteiro. Ficava facilmente perturbado, explosivo, ansioso e reservado, e zangava-se comigo frequentemente. A vida na nossa casa transformou-se num inferno vivo. Não só para mim e para John, mas também para os miúdos, e, até para o próprio Nick. Ele piorara consideravelmente e pensei que, se ia ser este o rumo da nossa vida, as crianças iam ser sacrificadas a ele. Já não havia maneira de termos uma noite tranquila, uma hora de silêncio, um jantar calmo, ou mesmo cinco minutos de sossego com Nick em casa. O seu volume fora posto demasiado alto, e parecia que ainda ia ficar mais alto.

Falei com o médico acerca disso, Julie estava constantemente em casa, e ao fim de um mês fez uma sugestão que era um anátema para mim, e que mudaria certamente as nossas vidas, a dela, a da família dela e a de Nick. Ao princípio, rejeitei a ideia. Nunca consideraria aquilo que ela dissera.  A sugestão era que Nick fosse viver com a família dela, o que seria um enorme sacríficio para ela e uma terrível perda para mim.

Julie tinha dois filhos. Serena, que tinha oito anos na altura, e um filho, Chris, que tinha quatro. Discutira o assunto com o marido, Bill, que estava disposto a dar-lhe uma oportunidade. Não sei se ele sabia o que nos tinham oferecido. Se Nick fosse viver com eles, eu sabia muito bem que eles não teriam mais nenhum momento de paz, nem privacidade, nem tranquilidade. E a casa deles era muito mais pequena do que a minha. Não haveria nenhuma maneira de lhes escapar por um só instante. Mesmo em minha casa, Nick parecia ocupar todas as nesgas de espaço, e eu sabia que ele mudaria completamente as suas vidas. Os meus filhos vinham jantar com um ar de angústia nos rostos, sabendo que todas as horas de jantar eram um fórum. para Nick arranjar uma crise e se exibir.

Porém, embora Bill e Julie estivessem dispostos a ficar com ele, eu estava resolvida a não prescindir do meu filho. Esta era a sua casa, nós éramos a sua família, eu era a sua mãe, e estava sempre pronta a fazer qualquer coisa por ele, com ele perto de mim, até ao dia da minha morte. Mandá-lo para outra casa era como uma derrota total. Mas o que me fez considerar a questão foram as crianças. Sabia que se Nick ficasse ainda pior, ou ficasse no estado em que estava, haveria muito pouco de mim que restaria para eles. Já não tinha tempo suficiente para lhes dedicar. Andava demasiado ocupada a andar atrás de Nick, a discutir com ele e a tentar estar em catorze lugares ao mesmo tempo para me certificar de que estava em segurança. Era praticamente impossível viver com Nick, e agora, quando andava levantado a noite inteira, passava pelo nosso quarto e discutia comigo durante horas. Sobre concertos, planos, o cabelo, os amigos, o cão, a comida, o quarto... qualquer coisa que lhe viesse à cabeça. E quando não estava a atacar-me verbalmente como um louco, ficava com ar sombrio no seu quarto, e eu ficava aterrorizada com o que ele poderia fazer. A situação era horrível. Sabia que, se não o conseguia ajudar, deveria dar às crianças mais do que este pesadelo. Não as poderia sacrificar a ele. Até essa altura, eu estivera convencida de que conseguiria dividir-me entre Nick e as crianças. Mas, embora não fosse por sua culpa, ele estava a tornar as coisas cada vez mais impossíveis para mim, e eu sabia que elas estavam a ficar em segundo plano e que, enquanto ele estivesse ali, sempre ficariam. Por mais que me cortasse o coração, o tempo viera tomar uma decisão: elas ou ele. Não tinha a intenção de o abandonar, ou de «desistir dele», mas viver com ele debaixo do mesmo tecto a tempo inteiro tornara-se um pesadelo do qual nenhum de nós conseguia acordar. As crianças, sobretudo, estavam a pagar um preço elevado por viver com ele. E o meu casamento com John fora prejudicado, embora não lhe possa imputar as culpas pela sua dissolução. Foi uma decisão a que cheguei com alguma angústia. E no meu espírito, foi talvez a pior coisa que alguma vez fizera. Chorava antes de adormecer todas as noites (quando Nick saía do meu quarto a altas horas da noite). Não queria deixá-lo ir. Queria acompanhá-lo todos os instantes do dia. Prometera-lhe isso a primeira vez que pousara o olhar nele, e ao mandá-lo agora para outra pessoa, especialmente nas condições em que se encontrava, pareceu-me ser um enorme erro.Discuti isto com o meu médico e com o de Nick, e toda a gente sentia que seria o melhor para ele, se não mesmo para mim. A nossa casa era demasiado grande para se exercer uma boa vigilância, mesmo com dois assistentes a andarem atrás dele, e a turbulência normal de uma família buliçosa parecia pô-lo mais ansioso do que dar-lhe tranquilidade. Pelo menos, poderíamos tentar, imploravam-me. Mas chorava sempre que pensava nisso. Aos meus olhos, se o deixasse ir para outra casa, eu estava a perdê-lo. Sentia como se ele tivesse dois e não dezasseis anos, e, de certa forma, era a idade que tinha. Ainda era o meu bebé.Mandar Nick viver para outra casa é uma das poucas coisas de que me arrependo na vida. E embora a experiência resultasse maravilhosamente, e ele se sentisse feliz, carreguei um sentimento de culpa durante anos. Por alguma razão, falei com ele sobre o assunto antes de morrer. Com as lágrimas a escorrerem-me pelo rosto, pedi-lhe perdão e disse-lhe o quanto me desgostou tê-lo magoado. Ele tomou-me nos braços, e disse-me que fora a melhor coisa e que me adorava muito. Julgo que falava a sério. Fiquei tão aliviada por lhe ter dito, por saber que lhe tinha dito e que ele não me recriminara por isso, que me senti de certa forma mais livre. Ele chamava-lhes «a equipa de cuidados maternos» e o seu grande amor pelos Campbell foi evidente durante os anos em que viveu com eles.Foi urna combinação que resultou bem. Os Campbell eram extremamente generosos nos seus sacríficios por ele. Foram eles que acabaram por evitar que vivesse numa instituição. Possibilitaram que Nick crescesse feliz e tivesse uma vida de acordo com as suas necessidades, e que as crianças crescessem sem a pressão de viverem com a doença do irmão todos os dias. Só resultou devido à enorme capacidade de Julie para lhe dar carinho, a sua generosidade de espírito e a sua constante cortesia ao respeitar-me enquanto mãe de Nick. Nunca tentou tomar o meu lugar, usurpar o meu papel ou proceder com deslealdade comigo ou com ele. Considerou-me mãe dele desde o primeiro ao último dia, e desenvolvemos uma profunda amizade e respeito uma pela outra, que agora o transcende. Era realmente uma «equipa de cuidados maternos», como dizia Nick. Ele dizia que um dia devíamos escrever um livro acerca disso, e talvez este cumpra o objectivo. Às vezes ríamos do facto de serem precisas duas mães para tratar dele. Quando ele estava comigo, eu telefonava-lhe com a voz alterada a queixar-me de alguma maluquice que ele fizera, e Julie acalmava-me. Quando Nick estava com ela, telefonava-me cinco vezes ao dia, com voz histérica, a dizer-me que ele a punha maluca. Mas, fosse como fosse, encontrámos o equilíbrio perfeito que era bom para ele e para nós. Era um malabarismo de proporções hercúlias. Mas todas as nossas decisões eram tomadas em conjunto. Formávamos uma frente unida, em todos os aspectos, e quando discordávamos acerca de algo, o que era raro, tratávamos de chegar a um compromisso. Ensinámos muito uma à outra sobre a arte dos cuidados maternos. Aprendi novas técnicas com Julie, e ela aprendeu velhas comigo. Tornei-a mais conservadora às vezes, e ela ensinou-me a dar-lhe independência, auto-respeito e a liberdade.

Partilhámo-lo ao princípio, e passámos várias noites em casa, como se de uma custódia conjunta se tratasse. Mas, por fim, ele gostava de ficar em casa dela o tempo todo. A verdade é que a nossa casa e a sua constante actividade punham-no demasiado nervoso. Havia demasiadas pessoas, demasiados miúdos, demasiados cães, demasiada confusão para ele. Sentia-se melhor em casa de Julie, embora viesse a casa frequentemente durante o dia, e à noite para jantar e para estar com os seus irmãos e irmãs. E passava a noite nas férias e no Natal.

Se soubesse que ele ia dar-se tão bem, eu teria chorado muito menos no dia em que se foi embora. Teve muita sorte com o facto de existirem duas mulheres a cuidar dele e a amá-lo tão profundamente. A «equipa da cuidados maternos» que inventámos, e que se manteve em acção durante três anos, foi uma solução brilhante para Nicky. Todos nós beneficiámos com ela de uma maneira ou de outra, especialmente Nick. E sei, por tu do o que disse, o quanto a orou a «equipa», e Julie, até ao fim. Nós formávamos uma grande dupla.

 

Sua «equipa de mães».

As palavras de Julie a meu respeito dizem tudo aquilo que eu sinto por ela:

1, Queria partilhar algumas das minhas ideias e sentimentos acerca de Nick e Danielle. Primeiro, e mais importante que tudo, quero deixar claro que não teria conseguido lidar com Nick sem o completo e constante apoio de Danielle. Danielle é efectivamente uma mulher espantosa. Ensinou-me muita coisa sobre como ser uma boa mãe e afazer as coisas deforma correcta. Em vez de escolher o caminho mais fácil. Antes de Nick vir viver comigo, muitas pessoas aconselharam-me a pô-lo numa instituição psiquiátrica. Ele falhara a todos os programas em que o puséramos. Fora expulso de todas as escolas que encontráramos. Os assistentes domiciliários que tentáramos tinham falhado, e Nick estava completamente fora de controlo. Teria sido muito fácil confiá-lo a uma instituição psiquiátrica, e acredito sinceramente que ela fizera os possíveis para o ajudar Mas em vez disso, deixou-o vir viver comigo. Danielle nunca baixou os braços. E embora ele vivesse em minha casa, ela estava literalmente envolvida em todas as decisões que tinham a ver com Nick. Não me lembro de nenhuma ocasião em que não obtive apoio da parte dela. Se Nick queria fazer alguma coisa e eu não o deixava, andava atrás de mim pela casa a discutir durante horas. Quase de duas em duas horas eu telefonava, desesperada, a queixar-me que ele ia pôr-me maluca. E ela continuava a discutir com ele durante as horas seguintes. Nessa altura, eu já tinha o meu segundo fôlego. Então, tomava conta do turno seguinte. Fico espantada com algumas das coisas que conseguimos com Nick. Mas julgo que isso se deveu efectivamente ao apoio que demos uma à outra. Acordáramos que se uma de nós se sentisse suficientemente convencida de alguma coisa, a outra apoiá-la-ia, independentemente daquilo que sentisse, e depois a ideia era apresentada a Nick como sendo das duas. Assim, Nick não conseguiria dividir-nos e conquistar-nos.

Nick tinha um espírito incrível e conseguia convencer-se a si e convencer qualquer pessoa de qualquer coisa. Quando penso nas histórias que ele nos contava para justificar as suas acções, fico de boca aberta de espanto, e, mais do que isso, era o facto de levar as pessoas a acreditar nelas. Imagino as histórias bizarras que ele contava a meu respeito. Certa vez, durante uma estada num hospital, convencera o pessoal de que a única razão por que lá estava era porque eu partira o maxilar e estava irritadiça. O facto de ter sido expulso da escola não tinha absolutamente nada a ver com isso. Noutra ocasião, convencera o seu grupo e o seu conselheiro de que a mãe tivera uma dor de cabeça e por isso o obrigara a cortar os cabelos. O facto de o segurança do hotel o ter trazido para o quarto por roubar, conduzir e destruir um carrinho do golfe era uma coisa insignificante. Escusado será dizer, os primeiros anos com Nick foram um desafio.

Não sei que força trouxe Danielle e Nick ao meu gabinete naquele dia. Mas acredito que foi o destino, que estávamos destinadas a encontrarmo-nos, para nos ajudarmos a tornar pessoas melhores e mais sãs. E no final, penso que recebemos tanto quanto demos. Adorei Nicholas e admirei a maneira como ele se bateu todos os dias para ser feliz. E o esforço que ele fazia para pôr as suas defesas em baixo e deixar-nos entrar Colocávamos um tijolo de cada vez, e às vezes deixava-nos colocar três, depois ficávamos perplexas com a sua vulnerabilidade e tirávamos seis. Aprendemos a ver Nick como uma pessoa e não como um problema comportamental, e creio que foi quando começou a acreditar que tinha valorerta vez, ele fizera algo de errado e não podia sair Mas estava à espera de ir a este concerto. Esta situação repetira-se durante cerca de um ano: sempre que Nick queria fazer alguma coisa, arranjava problemas antes e não tinha autorização para ir Assim, sentia-se perseguido e a odiar o mundo, e nós sentíamo-nos tristes e frustradas por ele. Como tal, desta vez, resolvemos respeitar a sua vontade de ir a este espectáculo não ligando ao que ele fizera. Disse-lhe que o íamos deixar ir Perguntou-me porquê e nós apenas lhe respondemos que sabíamos que isso era muito importante para ele. Depois, as coisas começaram a mudar lentamente. Nick começou a explicar que era muito mais difícil controlar os seus impulsos do que dizer que «se estava nas tintas». Comecei a dar-lhe pequenos exercícios para tentar fazer Lembro-me de um que consistia no seguinte: sempre que Nick fazia algo de mal, em vez de telefonar à mãe a pedir-lhe

desculpa e a dizer-lhe que estava muito triste por a ter magoado, ele acabava sempre por a descompor Por isso, telefonávamos-lhe e ligávamos o intercomunicador, de modo a que eu pudesse ouvir a conversa e escrevia o que ele devia dizer E o espantoso é que ele dizia exactamente o que eu escrevia. Foi quando me apercebi de que Nick queria realmente fazer e dizer as coisas certas, mas não sabia como. Por dentro, ele sentia-se desadaptado deste mundo. O seu controlo dos impulsos era tão fraco que muitas vezes fazia e dizia coisas ignóbeis. Depois sentia-se tão mal e tinha uma capacidade tão limitada para sentir e dominar o sofrimento que se convencia de que a culpa era de toda a gente menos sua. E as suas justificações eram boas. Felizmente para mim, Deus dera-me um cérebro não só tão bom como o dele, mas também tão rápido.

Debatíamos durante horas as coisas mais simples, e, ao fim de algum tempo, ele começava a escutar e a aprender E eu escutava e aprendia. E Danielle escutava e aprendia. E começámos a tornar-nos as pessoas que queríamos ser, e ajudávamo-nos uns aos outros. Nick ensinava-me ortografia e a usar a gramática de forma correcta. Danielle ensinava-lhe como amar e ser capaz de distinguir um amigo e um inimigo. Eu ensinei-lhe a pensar mais com o coração do que com a cabeça. Nick ensinou à mãe que às vezes não há respostas para as perguntas. Se tivesse de fazer tudo outra vez, faria tudo de novo e provavelmente da mesma maneira. Danielle e Nick desbravaram-me o caminho. Embora no dia em que Nick morreu, e durante alguns meses, não saber como prosseguir Fiquei paralisada com a perda. A pouco e pouco, fui-me apercebendo que amar e confiar deforma tão completa, e ser amada e merecer a confiança de outrem deforma tão completa, é uma dádiva que só surge uma vez em várias vidas. Enquanto o sofrimento é temporário, o amor é permanente. Adoro-te, Danielle, e obrigada por teres partilhado o teu filho, o teu amor incondicional e, sobretudo, por me teres ensinado verdadeiro significado de integridade.

 

FINALMENTE UM MILAGRE

Enquanto eu procurava psiquiatras e novas soluções para Nick, percorria quilómetros sem fim para o visitar nos hospitais e Julie aprendia como viver com ele, contratava os assistentes e dobrava a sua roupa, John, por vezes, providenciava algo ainda mais importante. Como mãe, lido com o prático e o concreto. Compro sapatos para os miúdos, levo-os ao dentista e ao médico, vejo-os no ballet, faço sanduíches de manteiga de amendoim e compro-lhes brinquedos novos quando os velhos se partem. Estou sempre- disponível para eles

E o que lhes ofereço vem do fundo do coração.

A verdadeira força de John é, às vezes, mais esotérica. Persegue as ideias até que elas se tomem reais, estuda artigos cuidadosamente e descobre novas drogas e novos tratamentos para aquilo que nos aflige. Persegue farmacologistas, informa-se sobre novos medicamentos, e aparece com ideias bastante bizarras. Como todas as pessoas que vivem juntas, muitas vezes ignorava-o. Por vezes, é difícil concentrarmo-nos numa cura nova para a malária, que, de qualquer modo, ninguém no momento possui, quando tenho de comprar uma coleira nova para o cão e não consigo encontrar a outra sapatilha de Zara.

Mas John é um autêntico cão de caça relativamente às coisas que o intrigam. Poucos meses antes de Nick morrer, John visitou um psicofarmacologista em Stanford, e não só descobriu um efeito secundário em dois medicamentos que estava a tomar, se misturado com um terceiro, como também investigou alguns novos para Nicky. Infelizmente, nunca teve oportunidade de os experimentar.

Pouco tempo depois de Nick se ter mudado para casa de Julie, ouvimos falar de um médico na UCLA, que se especializara em psicose maníaco-depressiva e «distúrbio de défice de atenção». Discutimos a questão com o Dr. Seifried, que nos encorajou a visitá-lo. Julgo que o próprio médico em LA sofria de I)DA e parecia ser brilhante nos dois assuntos. Na verdade, ele mudaria a qualidade de vida de Nick para sempre. Sem a consulta ao médico na UCLA, acredito que a vida de Nick teria um fim trágico muito mais rapidamente do que teve.

Enviaram-nos um questionário de cem páginas para preenchermos sobre Nick. Preenchi-o porque era a única pessoa que possuía mais informações. Existia uma enorme quantidade de perguntas sobre a minha gravidez, do parto e dos primeiros anos de vida de Nick, alguns dos quais eu até já esquecera. Também necessitavam de outras informações e referi as densas fichas médicas que tínhamos dele. Naquela altura, os registos médicos de Nick pareciam a lista telefónica de Nova Iorque. Com o questionário na mão, totalmente preenchido, John e Julie foram para Los Angeles com Nick e o encontro correu muito bem. O médico não perdeu tempo, reviu as nossas respostas às suas perguntas e, depois de ter falado com Nick, passou urna receita de lítio. Disse que acreditava que Nick fosse maníaco-depressivo. Era o primeiro diagnóstico preciso que tínhamos. Disse que se o lítio não fosse adequado para Nick, não lhe faria nada. Se, por outro lado, fosse a solução correcta, veríamos um milagre dentro de três a quatro semanas. Os seus níveis sanguíneos teriam de ser verificados primeiro, a fim de determinar a dose correcta para ele. Parecia um pouco complicado quando me contaram, mas valia a pena tentar, apesar de um potencial risco para os rins. Mas naquela altura achávamos que já não tínhamos outra escolha. Eram os rins ou a vida.

O lítio merecia, pelo menos, uma tentativa e, para melhorar a sua qualidade de vida, estava disposta a arriscar os seus rins. Não lhe serviriam de muito se se suicidasse ou acabasse num estabelecimento hospitalar. Isso ainda parecia ser uma possibilidade e eu estava disposta a fazer tudo para a evitar.

Nick começou a tomar o medicamento em Novembro, um ano após ter iniciado a sua primeira medicação. E podia continuar com o Prozac e com o lítio. O médico em Los Angeles achava que era efectivamente a combinação ideal, e o Dr. Seifried concordava com ele. Era completamente a favor de experimentar o lítio em Nick e concordou com o diagnóstico do médico de Los Angeles. Nick começava então a parecer realmente um maníaco-depressivo.

O lítio permitia-lhe sentir-se e acreditar que era normal. Mas a perspectiva de o tomar e encarar o facto de que tinha uma doença deve ter sido imensamente traumático para ele. Na noite em que voltou de Los Angeles com a receita na mão, foi calmamente para o quarto e depois anunciou que se ia atirar do telhado. Felizmente conseguimos acalmá-lo rapidamente. Mas depois de um dia bastante agradável em Los Angeles, foi aquela a sua reacção imediata. Mais uma vez, recordou-nos o quanto necessitava de ajuda. A partir daquele dia, não houve mais conversas de suicídio na sua vida quotidiana, ou nos seus diários.

Nick estava nervoso quanto a tomar lítio, mas apesar disso submeteu-se a constantes análises ao sangue. Uma ou duas vezes, disse que era uma ideia tola, e insistiu que não necessitava. Percebemos que, como ele negava ser maníaco-depressivo, o lítio seria o teste final. Se funcionasse com ele, provaria o enorme desequilíbrio químico de que há muito suspeitávamos. Era a etapa final de uma caça às bruxas sem fim. E, tentando fingir que não era tão importante para nós como o era na realidade, todos nós voltámos às nossas obrigações. Era difícil não olhar para Nick como se ele fosse um laboratório de experiências, e ele deve ter-se sentido sob constante vigilância, o que era verdade. Voltou para a escola, visitando-nos em casa frequentemente e divertindo-se a tocar com a banda a que ainda pertencia, os Link 8O.Os resultados três semanas mais tarde eram inegáveis. Nick era uma pessoa diferente. Feliz, bem-disposto, são, equilibrado, calmo e conseguindo notas altas na escola. O milagre realizara-se. A ideia fora brilhante. Como sou alérgica à penicilina, que põe em risco a minha vida, nunca pensei nela como a droga milagreira que todas as pessoas dizem que é. Mas não existia dúvida alguma na minha mente acerca do lítio. Para Nick era uma droga milagrosa. A nossa longa busca à procura de ajuda havia dado lucros. Resultara! Ajudara-o! Tornara-se o remédio milagroso para nós e para ele, e assim começou uma nova vida para Nicky. Depois do que o vi fazer por Nick, louvá-lo-ei sempre. Ao princípio, fê-lo sentir-se um pouco enjoado, mas recuperou. Tínhamos de equilibrar o barco, ajustar as doses, mas deu-lhe a oportunidade de ter uma vida que de outro modo nunca teria tido. Proporcionou-lhe normalidade e a hipótese de uma vida produtiva, da qual ele tirou todas as vantagens daí para a frente. E não lhe afectou os rins de modo algum.

A solução para fazer a droga resultar com ele estava no delicado acto de equilíbrio que se tomou mantê-la nos níveis certos. Era um constante acto de malabarismo, do qual tínhamos consciência. Nunca deixámos cair as bolas. Sem a medicação, ou menos que a dose certa, um deslize, e só um, poder-se-ia tornar fatal, se ele se tornasse fatalmente deprimido e tentasse o suicídio. Durante três anos, tornou reais os sonhos de Nick e os nossos acerca dele. Deu-lhe vida, tanto como o sangue, o oxigénio ou as batidas do coração. Sem ela, nunca poderíamos tê-lo ajudado. Com ela, ele tinha uma vida a sério.

Voltou por três vezes ao hospital no ano seguinte, durante cinco dias ou uma semana de cada vez, para ajustar a medicação. Tendo em conta o tempo que estivera internado no ano e meio anterior, era realmente um milagre. O hospital para onde voltou era o mais pequeno e o mais simpático em East Bay. Estava confortável, nunca pôs objecções, e eu gostava porque sabia que ele estava seguro e era bem tratado.

Certa vez, também durante este período, Nick conseguiu passar algumas horas de uma tarde com o pai biológico. Bill passou pela escola, e não sei se foi um acaso ou um encontro previamente combinado. Passaram uma hora ou duas juntos, e acho que Nick ficou perplexo com o ar destroçado de Bill devido à sua vida de droga. E após aquela tarde, eles não mais tornaram a encontrar-se. Nunca mais. Nick satisfizera a sua curiosidade e estava pronto para continuar a sua vida. Tomar lítio permitia a Nick prosseguir com uma vida normal. Ia à escola e concentrava-se na sua música. Durante todo esse ano, dedicou-se à banda. Sabia que era importante para ele, mas não fazia ideia do talento que ele tinha. Comecei a ouvir rumores de que eles eram bons e de que a banda estava a ter êxito.

Mas o melhor e o pior do lítio era dar-lhe a sensação de estar normal. O perigo aí é o que acontece à maioria dos maníaco-depressivos que tomam lítio. Numa dada altura decidem que estão óptimos, aparentemente curados e já não precisam mais dele. Quando isso se dá, o acidente acontece, tão certo como o Sol nascer todas as manhãs. Nick tomou-o durante quase dois anos sem o por em causa, o que lhe proporcionou bastante tempo para apreciar a vida e a sua música. Eu estava deliciada com ele. Todos nós estávamos.

 

MÚSICA, MúSICA, MúSICA!

Quando vi Nick a tocar com os Link 8O pela primeira vez fiquei absolutamente perplexa. Tinha um talento, uma presença em palco, uma energia e um carisma tais que fiquei sem fôlego quando o vi. Como confidenciei a uma amiga, senti-me como a mãe do Mick Jagger. Era uma excitação incrível!

Ele falara imenso da banda, mas era bastante modesto acerca dos seus talentos. Não sei se alguma vez compreendeu como era dotado. Andava tão atarefado a escrever as letras, a ensaiar e a actuar, como a organizar e a fazer publicidade à banda. Tratou de todas as marcações durante bastante tempo, até contratarem um empresário, arranjou obras de arte, fez panfletos, arranjou artigos para vender nos seus espectáculos, agendou as digressões e telefonou para o país inteiro para os promover. Tinha realmente um grande talento, e estava disposto a trabalhar tanto quanto fosse necessário, para o vender. Agora ainda compreendo melhor o enorme respeito que ele granjeou na área da música.

«A amizade entre mim e Nick nasceu num espectáculo Link 8O Subincision, no Clube Cocodrie, em São Francisco. Ouvíramos falar bastante um do outro e víramo-nos de passagem, mas nunca nos conhecêramos até àquela tarde. Depois de ter visto os Link 8O actuar, sugeri um espectáculo com o meu grupo, The White Trash Debutantes, por isso trocámos os números de telefone. Não nos falámos durante três semanas. lembro-me bem, era uma hora da manhã e estava quase a adormecer quando o telefone tocou. Era Nick a telefonar por causa de um espectáculo. A minha primeira reacção foi perguntar-lhe se sabia que horas eram e pedir-lhe para voltar a ligar-me de manhã. Antes que eu tivesse tempo de esboçar o que quer que fosse, estávamos embrenhados numa animada conversa que durou quase uma hora. Nick era cativante e um lutador. Tinha grandes planos para a banda e, sobretudo, tinha a habilidade para os pôr em prática. Bem mais de setenta e cinco por cento das pessoas que se conhecem na indústria musical são preguiçosas, e era reconfortante conhecer um indivíduo novo com tal energia e actividade. O nosso espectáculo nunca teve lugar por causa de uma briga que houve no clube na semana anterior, que obrigou ao seu cancelamento. No entanto, a nossa amizade cresceu. A sua inocência infantil era muito cativante. Apesar de ter acabado de fazer dezassete anos, achei que tinha muita sensatez para a sua idade. Tentou compreender pessoas de todas as classes sociais e ajudou muitas vezes os desfavorecidos quando não era fácil fazê-lo. Talvez porque ele sofrera alguma da mesma dor na sua vida. Nick trouxera as suas próprias lutas para a música, para que todos as partilhassem. Estou certo que era uma forma de terapia. Quando subia ao palco, trazia com ele todas as frustrações para ajudar a tornar o espectáculo mais excitante e louco. No entanto, o que achei mais memorável nas suas actuações era o modo humilde como agradecia ao público. Queria tanto organizar a sua vida, fazer a mãe orgulhar-se dele e ter sucesso no seu verdadeiro amor: a Música.

Vou sentir a falta do Nicky, não só devido ao seu dom para a música, mas pelas vezes que falámos sobre os altos e baixos que a vida nos traz. Tinha sempre um ombro amigo para mim, e eu também para ele. Nick tinha tantos planos para a sua banda nova, KnowIedge. Nick Traina era uma pessoa muito especial, que tocou todos aqueles que conheceu. Irei sentir muito a sua falta.»

Ginger Coyote White Trash Debutantes

O empresário de Nick escreveu acerca dele:

«Nick era muito mais do que um punk sem direito a voto. Abraçóu a beleza, a arte, a poesia e a boa vontade tão prontamente como a fúria, a dor e a malícia. A intensidade do seu raio de acção era inspiradora, e eu desejara que nos tivéssemos tornado amigos para toda a vida e sócios na sua descoberta pessoal e musical de si próprio e d~ vida. Sinto a sua falta e penso nele muitas vezes. Estou furioso com ele por ter lixado tudo e por me ter enganado a mim e a todos o que gostavam dele e do tempo passado com ele. Tenho sonhado c ele - encontrado com ele, se quiserem - assim como tenho e outras pessoas que deixaram este mundo antes de mim. Parecia - realmente bem, como se os demónios tivessem ido descançar para que a sua alma esteja em paz.»

 

 Steve Ozark

Empresário, Ozark Talent

 

 Myk Malin do Burnt Ramen. Studio dirigiu uma gravação onde cantava, no final de 1995, quando tinha dezassete anos, e contou-me numa carta como ele ainda era difícil na altura. Dizia que  Nick se sentira inseguro nas improvisações, apesar de as ter feito.  Depois continua: «A vez seguinte que vi Nick foi em Maio de 97. Ele ouvira umas coisas feitas no estúdio que eram boas e queria voltar para gravar mais duas canções. A minha impressão de Nick alterou-se completamente, pois daquela vez ele estava seguro de si e extremamente simpático.» Gravaram dois cover tunes e Nick ofere ceu-lhe uma cópia do CD mais recente dos Link 8O, Seventeen Rea sons, e uma sweatshirt deles. Myk perguntou a Nick se poderia utili zar duas das suas canções para uma compilação chamada Rame Core, Nick concordou e prometeu voltar rapidamente para fazer mais algumas gravações. Myk fala do enorme impacte que Nick causou e diz que gostaria de ter podido ajudá-lo.

«Na ordem da natureza, é difícil dizer o que faz de uma pessoa um ser único. Mas é a poesia enraivecida da sua vida curta que causou em mim uma grande impressão.» Fiquei profundamente comovida com a sua carta.

Uma recordação de Nick que sempre amarei é aquela em que fui vê-lo a um clube pequeno cheio de fumo, luzes e miúdos de aspecto bizarro, muitos deles vestidos à punk rockers. Havia imensos cabelos com as cores do arco-íris, e eu senti-me como se tivesse cem anos, enquanto esperava que ele aparecesse, e via toda a gente muito agitada. Existia uma aura de tensão expectante. Estava nervosa por o ir ver tocar finalmente e pensei que seria divertido, mas não tinha expectativas especiais e não estava, de modo nenhum, preparada para o que vi quando a banda entrou em palco, ou para o frenesim do público que gostava tanto dele.

A banda de Nick entrou, afinou os instrumentos, verificou os microfones e, em segundos, explodiu de vida à minha frente. Apesar de não ser muito imparcial na minha avaliação, Nick foi sensacional. Não estava minimamente preparada para o seu profissionalismo, para o poder da música, para a sua voz, a sua presença em palco ou para a qualidade da sua actuação. Nick pulava e saltava, rodopiava, como um bumerangue que explode no ar. Adorei!

Nos intervalos, disse ao público que eu estava lá e que, se não tivesse sido eu e tudo o que tinha feito, ele não estaria ali. Os meus olhos encheram-se de lágrimas quando ele disse aquilo. E deliciou-me ver o público delirar com ele. Estendiam os braços, gritavam, cantavam com ele, pediam mais. Depois da actuação, foi cercado por pequenos grupos. Vê-lo foi uma experiência incrível e fiquei enormemente impressionada pelo seu poder e magnetismo como músico. Não existia qualquer dúvida no meu espírito, quando compreendi algo pela primeira vez, que Nick iria muito, muito longe como estrela de rock.

Mais tarde, ele veio ao meu encontro e contei-lhe como ficara impressionada. A nossa amiga Jo Schuman estava comigo e, mesmo com a sua vasta experiência na cena musical, estava tão impressionada como eu. Eu sentia um imenso orgulho nele, e Nick, a escorrer suor, pôs o seu braço à minha volta, enquanto as raparigas gritavam para se aproximarem dele. Foi um momento inesquecível na minha vida. Um dos momentos que eu sempre guardarei. Os seus amigos disseram-me que, mesmo que eu não estivesse entre o público, ele dedicava-me sempre uma canção em cada uma das suas actuações Depois disso, vi-o num clube nocturno maior. Atraiu um público mais duro e mais velho, e havia espaço para uma multidão maior. A assistência parecia indiferente quando ele subiu ao palco com um ar nervoso, pelo menos aos olhos experientes da mãe. Começo um pouco a medo, e em poucos minutos repetiu-se o mesmo. Pegar numa enorme sala cheia de estranhos e tornara-a um mar de pessoas a contorcer-se, aos gritos, a dançar, aos berros. Nick era mágico em palco.

Adorava ir vê-lo. Adorava o que ele fazia, como aparecia vestido quando actuava, e, quando voltava ao pequeno clube para tornar a vê-lo, olhava para ele de soslaio ao longe, a tentar fingir que eu era uma estranha. O que via era um jovem extremamente atraente, e fiquei espantada ao perceber que ele era muito sexy. Era musculado bem constituído, e compreendia por que razão é que as rapariga gritavam quando o viam. Tinha tanto charme, um sorriso estonteante, os braços pareciam tocar na multidão e puxá-la para si. Tinha um carisma incrível. E, à parte isto, tinha verdadeiro talento. Possuía uma grande voz e as letras que cantava, quando se conseguia perceber as palavras, estavam muito bem escritas. Fiquei tão orgulhosa e diverti-me imenso a ir aos concertos. O melhor é que nos orgulhávamos um do outro.

O meu filho e eu tínhamos muita sorte. Cedo descobrimos as nossas paixões. Eu tinha mais ou menos a idade dele, dezanove, quando escrevi o meu primeiro livro. E agora ele estava disposto a dar tudo por tudo para conseguir o que queria, e divertia-se enquanto o fazia. Não havia nada no mundo que gostasse tanto como a sua música e a sua banda.

Um dos melhores amigos de Nick era outro jovem músico na cena musical, talvez o seu melhor amigo, Sam Ewing. Nick e todos os outros chamavam-lhe Sammy the Mick, e ele e Nick costumavam exibir-se antes, durante e depois dos concertos de Nick. Ele fala da paixão imparável que Nick tinha pela sua música e de como ele adorava cantar. Eram como dois garotos a brincar e a divertir-se, mas, por mais loucuras que Nick fizesse, nada o conseguia parar quando estava a cantar.

«Tentei sempre sabotar Nick quando ele estava em palco. Pregava-lhe rasteiras, atirava-lhe coisas e empurrava-o para fora do palco. Uma vez bateu com força no chão. Saltei e levantei-o no ar. Queria gritar, mas Nick continuou a cantar. Afastei-me dele e continuou a cantar. Rodei a perna e desequilibrei-o. Caiu de joelhos ainda a cantar. Baixei-me para o levantar e ele despiu-me a camisa. Saltei por cima dele e lutámos. Durante todo o tempo, Nick cantou a plenos pulmões. Agarrei numa garrafa de água e despejei-lha por cima da cabeça. Ele fez o mesmo. A multidão inteira estava em delírio. E com isto tudo, Nick não parou de cantar! »

Nem todas as suas actuações nem as suas palhaçadas foram tão duras como aquela, mas os dois divertiram-se imenso. Sammy foi nalgumas das suas pequenas digressões e aturou Nick, especialmente se estava em baixo ou extremamente cansado, após uma série de espectáculos e concertos. Sammy the Mick estava sempre presente para o alegrar e para o animar. Os dois tinham tatuagens idênticas com a palavra irmãos. Ele adorava-as. Outra paixão louca.

Nick ofereceu um bolo de aniversário a Sammy, após a sua actuação no Clube Cocodrie e deu-lho no palco. Inevitavelmente, transformou-se numa luta com comida. Existiam mil e uma histórias com Nick e com Sammy. Namoriscavam juntos com as raparigas, cantavam juntos e geralmente faziam disparates, um provocando o outro para se comportarem como crianças loucas e felizes. Sammy the Mick veio connosco para o Havai naquele ano, e ele e Nick pareciam meninos de coro nos seus fatos cinzentos no Dia de Acção de Graças. Eram os melhores amigos, cheios de alegria, e o meu coração sempre se animou ao vê-lo juntos.

Nick não só cantava como também dirigia a banda, quando tinha dezoito anos, marcando-lhes digressões por todo o estado. Tratou da publicidade e organizou um vídeo. Fez tudo isto entre actuações e ensaios constantes. Sempre nos respeitámos, mas agora sentíamos mais do que admiração um pelo outro, tínhamos algo em comum. Ambos trabalhávamos em áreas criativas que amávamos.

Adorava falar do seu trabalho com ele, pois ele levava-o muito 'a sério e eu sabia que iria longe com ele, porque estava disposto a entregar-se-lhe de alma e coração. Não poderia ser de outro modo. Era a sua paixão. Era a sua razão de viver. Desde os tempos dos concursos de playback na escola. Tornara-se de repente um caso sério. Estava no caminho para se tornar uma estrela de rock.

Penso que um dos seus melhores momentos, e a minha recordação preferida, foi a sua última Primavera passada connosco; antes de partir em digressão, o seu pequeno irmão Maxx entrou no concurso de playback na escola, a mesma que Nick frequentara, e a banda que imitou foi Link 8O. Samantha vestiu-o de modo a parecer-se com Nick, pintou-lhe o cabelo de preto como o dele, pôs-lhe gel, e Victoria pintou cuidadosamente tatuagens idênticas às de Nick. Foi uma emoção, mesmo para mim, ver um filho no palco, imitando o outro com tanta competência. Nick simplesmente adorou. Observou-o, fascinado, com o sorriso de orelha a orelha e animou-o do lugar onde estava. Trouxera consigo o resto da banda e Maxx estava delirante por o ter ali. Era um daqueles momentos perfeitos que sempre recordarei com carinho. Nunca esquecerei o sorriso de Nick enquanto via Maxx, ou o olhar de adoração deste para o seu irmão mais velho. Nick era o seu herói e ele adorava Maxx.

A relação de Nick com todos os seus irmãos era óptima. Fossem quais fossem as discussões que teve com os irmãos mais novos nos primeiros anos, quando amadureceu e estava sob o efeito do lítio' transformou-se num irmão mais velho querido, protector e muito consciencioso. Sentia uma afinidade especial com Maxx, talvez por serem rapazes e autografou-lhe um poster no décimo primeiro aniversário de Maxx, que dizia: «Para o Trairia mais fixe depois de mim, com amor do irmão mais velho, Nick Maxx idolatrava-o, a sua qualidade de «fixe», a sua música, o seu humor para a brincadeira. Nick nunca perdeu o seu espírito brincalhão acriançado, mas, com o passar dos anos, acrescentou-lhe sabedoria, perspicácia, sensibilidade e compaixão, que juntara à sua própria alma ao longo de anos de intenso sofrimento e lutas. Tinha muito para dar a todos e não hesitava em o fazer, mas por cima das várias camadas da sua alma e do seu espírito havia uma cobertura espessa de. puro espírito de diversão. Adorava arreliar as irmãs e brincar com elas, admirava-as muitíssimo, e no último ano olhou para elas, estupefacto, e depois falou comigo em privado, sentindo-se, como eu me sinto às vezes, atordoado e velho. «Como é que elas cresceram tanto e ficaram tão bonitas?», perguntava-me ele em sussurro depois de elas saírem da sala. Era louco por elas, adorava a irmã mais nova, Zara, e protegia-as ferozmente a todas, especialmente Sammie.

Nick e Sam partilharam sempre uma relação mágica. Uma ligação expressa ou tácita que, quando estavam juntos, relegava todas as outras para segundo plano. Ela teria feito qualquer coisa por ele, qualquer coisa para o proteger. Eu sabia, ao vê-los ao longo dos anos, que a sua relação era profunda. Eram como gémeos siameses. E embora ela se revoltasse contra a ideia de que poderia haver algo de «errado» com Nick, penso que ela própria sabia, e queria fazer qualquer coisa para evitar que ele ficasse magoado. Mais do que tudo, ele confiava nela, e ela nele. Ela foi talvez quem sofreu mais com o que veio a acontecer mais tarde. Embora saiba bastante bem o que toda a família sofreu quando o perdemos, às vezes receio que Sam fosse quem mais sofreu. Mas a dor ou o sofrimento não são mensuráveis, quem sou eu para aferir o que os outros sofreram? Sei que todos os seus irmãos sentiram a sua perda como algo irreparável, tal como eu. Beatrix sentiu certamente a mesma agonia que sentimos. Ele foi, durante toda a sua vida, o seu irmão bebé, o bebé que nasceu para ser dela. Tal como Sam, ela protegeu-o vigorosamente, e utilizou os seus conhecimentos psiquiátricos para o ajudar quando era necessário.

Nos últimos dois anos, quando passava férias ocasionais com uns amigos, Beatrix substituía-me sempre, assumindo decisões responsáveis e tomando conta dele o melhor que podia. Hospitalizou-ouma vez, quando ele deixara de dar ouvidos às pessoas e parara de tomar o lítio durante uns tempos. Ela tinha uma maneira meiga e persuasora, e ele respeitava-a e adorava-a. E ficou particularmente orgulhoso por ter tido uma quota-parte no casamento dela. As relações de Nick na família eram geralmente fortes e, em grande parte, muito boas.

Depois de Nick partir, em luta com a sua agonia, Beatrix escreveu isto sobre o modo como se sentia:

Lágrimas

Estou afogar-me nas minhas lágrimas. Arrasto-me penosamente por entre a névoa dos dias com medo da noite. Sou prisioneira dos meus pesadelos e das trevas. O crepúsculo é o lembrete diário de que o pesadelo está vivo e bem vivo. Não tenho fuga possível.  coração grita de agonia. Não há remissão, nada pode ajudar-me.  Não há bálsamo para as feridas porque elas são tão profundas. Escrevo e a minha busca por segurança é infrutífera. Por todo o lado para onde olhe vejo outros a chorar por ti. Eles flagelam-se. Eras o meu Sol, a minha alegria. O teu sorriso era a minha esperança. Não sei como viver sem ti. Tenho trinta mas sinto o fardo de alguém de cem. A minha alma está velha. Corro de um lado para o outro freneticamente porque a alternativa é tão  tentadora. Receio a indulgência de ficar na minha cama, o meu ninho. No sonho roguei-te para ficares. Os teus olhos dançavam, o teu sorriso abraçou-me. Imploro para te trazerem de volta. As tuas palavras «tu sabes» ecoaram sempre que pedi. «Tu sabes» significava «não posso ficar». Esforcei-me por manter o sorriso na tua mão, o teu cheiro, o teu toque. A ideia de acordar sem ti no Natal é devastadora. Não há Pai Natal. Levanto-me cedo para expulsar os demónios. Em vez de paz, tenho gritado ao longo de quilómetros, em muitas cidades. Estou tão cansada e esta viagem parece-me interminável. Não procuro ajuda. Lutar é algo que não me é familiar.  Deixaste um abismo e eu estou presa por um fio. Estou curiosa, por isso espreito  para o abismo. Não dou nada por certo. Até respirar me custa. A asma é uma ditadora frequente. Muitas vezes ouço os meus angustiantes murmúrios antes de os sentir. * som lancinante trespassa a música do meu walkman. * minha angústia rebenta.  Sinto um nó na garganta. Respiro com dificuldade. Estar imóvel não me dá  qualquer conforto. Sinto-me desconfortável na minha própria pele. Sou uma caracoleta sem casca. Tento refugiar-me na segurança do esconderijo.

Nick também tinha uma forte ligação com Trevor e Todd, os seus irmãos mais velhos. São os dois filhos mais velhos de John, mas o nosso plano de educarmos as crianças como uma família tivera êxito e boa aceitação desde o princípio. Nick nunca se sentiu menos que um irmão completo de Trevor e Todd, nem eles relativamente a ele. Diferente de Beatrix, Trevor é provavelmente o membro mais «respeitável» da família, um cidadão sério, um jovem homem de negócios, conservador por natureza, embora sempre disposto a gozar o prazer de uma boa gargalhada e cheio de graça. Nick disse sempre que ele era «perfeito», «fixe» (o último cumprimento de Nick) e muito «decente e simpático». Adorava e respeitava Trevor, gostava de estar com ele e iam ao cinema e a concertos juntos. Mas vê-los juntos sempre me fez sorrir. Não se conseguiria encontrar dois homens na terra tão diferentes. Um com o seu ar de radical, de mod, de funky, de punk, de brinco na orelha e no nariz; o outro, com um ar de um anúncio de Ralph Lauren. Eram dois rapazes simpáticos, mas, com dez anos entre eles e diferentes interesses e paixões, viviam em dois mundos diferentes. Trevor construiu um site na Internet para Nick e a banda, o qual, infelizmente, nunca teve tempo de ver a luz do dia antes de Nick nos deixar.

Nick tinha mais coisas em comum com Todd, embora tivesse o' mesmo grau de adoração pelos dois. Mas Todd era aparentemente «mais fixe», vivia em Los Angeles, e como jovem produtor cinematográfico à procura de fama estava mais familiarizado com os caprichos do mundo musical de Nick. Durante anos, partilharam os mesmos gostos musicais, riram-se das mesmas coisas, e Todd também era de alguns excessos, embora nove anos mais velho do que Nick, e acompanhava-o nas travessuras. Tinham o mesmo gosto por farras como eu, riam-se das mesmas piadas, e gostavam das mesmas raparigas. Eram almas gémeas em muitas coisas. E tal como todos nós, quando perdeu Nick, Todd sentiu como se tivesse perdido um pedaço do seu coração e de si próprio.

Todd e Nick tinham admiração um pelo outro, compreendiam-se um ao outro e eram muito chegados. A coisa favorita de Nick no mundo, e o último prazer para ele, foi visitar Todd em Los Angeles. Todd chegou a permitir que o resto da banda ficasse em sua casa nas breves digressões a Los Angeles. Tinha orgulho em Nick, como todos nós, e o seu elogio de Nick dizia tudo: «Tenho orgulho em dizer que o Nick se tornou a pessoa que quis ser. Ele disse-nos o quanto nos amava. O Nick era uma pessoa forte. O Nick era uma pessoa carinhosa, bondosa, talentosa, verdadeira, íntegra, completamente realizada, que fez girar a vida à sua volta. Tornou-se a pessoa que quis ser. Foi um sucesso. Terei de dizer que Nick Traina foi um dos maiores sucessos a que alguma vez assisti.»

E no seu túmulo, ele pôs algo que tocou o meu coração e a minha alma, e certamente que a de Nick, e dizia tudo: «Querido Nick. Tu foste a minha sombra. Tu foste o meu companheiro. Tornaste-te uma inspiração. Estou tão feliz pelos tempos que partilhámos. Tu serás sempre o meu mano. Sentirei muito a tua falta. Amor, Todd.»

Quando tinha dezanove anos, Todd tinha uma pequenina raposa púrpura tatuada na anca, que ninguém conhecia. Era num ponto que ninguém conseguia ver. Mas Nick viu-a, e achou ter sido a coisa «mais fixe» que alguma vez vira e esperava fazer o mesmo um dia. Mas como era timbre de Nick, pegou na bola (neste caso, na tatuagem) e correu com ela o campo todo. Nick não fazia as coisas em meios-termos ou subtilmente. Quando fazia as coisas, nós dávamos por elas. As tatuagens foram feitas a traço grosso, com cores berrantes e de enormes dimensões. Nick «correu o campo todo» com as tatuagens. Para ele, não havia raposas pequeninas que mal se viam! (A agora famosa tatuagem de Todd é ainda uma lenda na família. Ouvi falar muito dela, mas nunca a vi, e duvido que alguma vez a veja!)

Nick fez a sua primeira tatuagem quando tinha dezassete anos, e foi um trauma para todos nós. Eu detestei, e Nick também a detestou depois de a fazer. Concordou em retirá-la, e foi o que fez, embora o processo deva ter sido doloroso. Fez uma segunda tatuagem, e também a retirou, para me fazer a vontade. Mas, na terceira tatuagem, desisti. Até os braços acabaram por ficar cobertos delas. Nesse último Verão, ele tinha a palavra «Traina» escrita em letra gótica ao longo das omoplatas. E, por último, fez uma inscrição no peito que dizia em tom profético: «Só Deus Pode Julgar-me.» Detesto tatuagens, mas nele não ficavam de todo mal. Era muito bem-parecido e ligava com a sua pessoa em palco. Nas últimas actuações que vi dele, cantou em tronco nu, enquanto as tatuagens dançavam, os músculos ondulavam e o seu corpo resplandecia. O que ele fazia eracansativo, mas nunca parecia cansado quando o fazia. Dava a impressão de que poderia continuar eternamente.

Com dezassete anos, Nick pôs dois singles no mercado, e tinha dezoito anos quando saiu o seu primeiro CD. Eu tinha um imenso orgulho nele. Fez várias gravações, e também era convidado para participar nas gravações de outros artistas. Ele era bom, muito bom, e os outros músicos e artistas com quem trabalhava sabiam disso. E as letras que escrevia tinham sempre uma mensagem que o público gostava. Havia canções acerca da fraternidade, da unidade, contra a violência e o racismo, para os jovens eclipsarem os velhos, e mesmo algumas sobre mim e o pai. Os miúdos adoravam as suas canções e, embora eu nem sempre as conseguisse decifrar, ele parecia sabê-las de cor quando as cantava:

 

Tempo

Passo todo o meu tempo à espera De que vás descobrir outro caminho E não me mandes calar Pois tenho muito para dizer. Se vives para estar sempre feliz Então não sabes o que se passa. E quem me dera ter mais tempo Pois a vida é demasiado curta para não ligarmos. Consumido pela separação Julgas que isso não acontece. Mas só quando te aplicares Conseguirás ver as mentiras. Todos te dirão alguma coisa E quem conhece quem faz sentido Mas para admitir efectivamente Que não sabes nada E um esforço enorme Não percas a vida de vista E faz sempre o que for correcto... E saboreia cada minuto que Deus te der Não desistas sem lutares.

 

Costumava

Não serve de nada atacares-me Pois já estou perdido Esta vida não passa de uma batalha Que já combati. Todos os dias em que faço uma vênia Rendo-me a mim próprio. Costumava ser tão forte Costumava não precisar de ajuda Costumava ser um rapaz Transformei-me num homem

Mas nem sequer estou a viver Não sei o que sou. Uma vida gasta a morrer Não é uma vida. Ao atravessar esta  vida Ao atravessar este inferno vivo Não pode durar muito mais tempo Perdi  tudo  o que cheguei a ter. Sei que poderia ser pior. Mas mesmo assim é péssimo. de  Spacey

... Queria ficar um segredo, Como caminhar nas trevas, Se ninguém te conhece, ninguém se interessa Por isso ninguém te parte o coração. Em sonhos entreabertos vejo-me a mim E estou de pé Mas todo o meu tempo é passado sentado Estou sempre meio adormecido. Este mundo não guarda nada dentro de si Morreu quando eu nasci. Eu costumava ter um objectivo Mas não há nada por que valha a pena ter um... de Ha Ha Há este mundo está num tal caos patético e triste Por isso enquanto faço o bem E devo ser feliz agora Não consigo imaginar como é a felicidade. E assim tudo acabará Da mesma forma que começar Morrerei sem nada. Nunca ganharei.

Julie disse uma vez que as suas canções eram a sua nota de suicídio, e muitas delas exprimiam as suas mágoas. Mas havia muitas mais enérgicas, agressivas e rebeldes. Escreveu muitas canções e, mais tarde, escreveu canções mais alegres e positivas com a sua nova banda, Knowledge.

Adorava andar em digressão. Era uma aventura para ele. Adorava as pessoas que conhecia, os clubes onde actuava. Adorava tudo na cena musical. Era como se tivesse crescido para ser exactamente quem ele queria. E eu adorava ver isso nele, aquele prazer roufenho e a pura alegria que vinham do facto de fazer uma coisa que adorava. Podia tocar, saltar, dançar, gritar, berrar e cantar durante horas. É como quando me sento à máquina de escrever à noite. Não há dia nem noite demasiado longo, nem muito cansativo, logo que eu me ponho a escrever. E Nick sentia exactamente o mesmo logo que se punha a cantar.

Fiquei impressionada com o facto de ele conseguir que a sua actividade não interferisse com as suas obrigações escolares. E ia bastante bem na escola para onde fora desde que estava no segundo ano. Mas acho que foi um alívio para ele quando foi posto em regime de «estudo independente», quando estava no último ano. Isso proporcionava-lhe mais tempo para praticar e ensaiar, para arranjar' digressões para os fins-de-semana e, de tempos a tempos, para fazer os trabalhos de casa.

Nick encarou a sua passagem para o regime de «estudo independente» como uma bênção, mas isso surgiu devido a uma série de razões. Em primeiro lugar, ficava a pé até altas horas da noite e estava cansado de manhã quando chegava à escola. Havia um sofá na entrada da escola, e ele não tinha problema nenhum em deitar-se aí e ressonar ruidosamente. Não impressionava os professores com o seu entusiasmo pelas matérias. E, quando apertado pelo sono, chegava a adormecer nas aulas. O director telefonava-me de tempos a tempos para discutir o problema. Nick não tinha papas na língua, mas era muito popular, e seguia razoavelmente bem nos estudos, porém continuava a ser o mesmo Nick. A maior parte do tempo, ele fazia o que queria e, tanto quanto podiam, eram condescendentes com ele.

O incidente final que os levou a expulsá-lo das aulas foi um pouco mais delicado, mas penso que os convenceu de que ele era demasiado independente e excêntrico para eles o terem na sala de aula. Ele discordou com algo que alguém disse e, na brincadeira, baixou as calças diante de todos. Telefonaram-me de imediato e, mais tarde, discuti o assunto com Nicky. E fi-lo com ar sério. Ele, por outro lado, com ar divertido disse-me: «Tem calma, mammã.» Não. Desta vez não estava «a ter calma», disse-lhe. Fiquei triste com o sucedido, e disse-lhe que era um comportamento impróprio.

«Toda a gente faz isso na escola, mamã!», insistiu, com aquele seu enorme sorriso de gozo, que era diferente do sorriso sedutor, ou do sorriso deslumbrante do artista. Mas discuti com ele, ninguém fazia aquilo, e foi por causa disso que me telefonaram da escola.

Eles achavam que ele tinha ultrapassado as marcas. Todavia, estavam dispostos a mantê-lo como aluno, desde que fizesse os exames e entregasse os trabalhos. Nick mostrou-se encantado com o que ficara estabelecido. Nunca mais baixou as calças em lado nenhum que eu saiba, excepto uma vez, num baile de caloiros, em que tocou, na escola de Samantha, quando tinha dezoito anos. Fiquei furiosa, e Samantha deve ter ficado envergonhada. Mas ela adorava-o tanto e era uma tão grande admiradora sua que pôs uma pedra sobre o assunto e disse que toda a gente achou engraçado. Era novamente a velha batalha de Nick com o controlo dos impulsos. Agora e sempre. E nunca baixou as calças em palco. Mas estou certa de que os seus admiradores, especialmente os grupinhos que o seguiam para todo o lado, teriam adorado!

A carreira de Nick era uma coisa de que me orgulhava muito. Fez um excelente trabalho em pouco tempo, e os Link 8O saíram-se extraordinariamente bem, atendendo a que eram todos muito novos e tinham muito pouca experiência quando se juntaram. E fiquei particularmente orgulhosa ao ir à Europa, quando Nick fez a sua grande digressão, entrei numa loja de música em Londres e vi CDs de Nick... É o meu filho, tive vontade de dizer a toda a gente na loja... Olhem, é uma estrela! É o meu bebé! Fizera um belo trabalho. Era, uma estrela-cadente. Um raio resplandecente que cruzou o céu do mundo da música. Um cometa. E pudesse ele ficar assim, no céu imenso, a cantar eternamente o que lhe ia no coração.

 

DOIS TIROS DE AVISO SOARAM NO SILÊNCIO

John e eu chocámos a família profundamente quando nos separámos no Verão de 1995. Nick tinha dezassete anos. Na realidade, separámo-nos em Agosto, mas só dissemos às crianças em Setembro. Tentámos encontrar a altura exacta para lhes dar a notícia. Mas, como com qualquer notícia má, não existe nenhuma.

As crianças ficaram especialmente abaladas por ela, uma vez que tínhamos sido bastante discretos acerca das nossas divergências. As coisas entre nós estavam tensas e muitas vezes frias há três anos, e talvez as crianças já estivessem tão habituadas a isso que pensassem que iríamos viver assim para sempre. Por vezes, até eu.

Achei que o dia em que lhes demos a notícia foi o pior dia da minha vida. Mas, para meu desgosto, viríamos a ter pior.

Durante o fim-de-semana do Dia do Trabalho, dissemos às crianças que íamos separar-nos, que era só o que íamos fazer de momento. Ficámos todos devastados. Era o fim de um sonho para mim e para John, o final de uma época de segurança e magia para as crianças. Foi-nos difícil chegar lá. John e eu não tomámos a decisão de ânimo leve.

Quando contámos a Nick, ele pareceu não dar grande importância ao facto. Ficou perfeitamente calmo e pareceu não ficar minimamente afectado, ao contrário de odos os outros. Mas, dois dias mais tarde, começou a comportar-se de modo estranho e assim continuou durante semanas, até que o pusemos no hospital durante duas semanas, em Outubro. Ele não tinha estabilidade para lidar com aquilo. Mas nós também não estávamos a lidar muito bem com a situação. Foi um Inverno violento, um ano duro. Contudo, no final, tanto quanto as nossas capacidades permitiram, todos nos adaptámos. John e eu ainda fizemos um esforço para manter a comunicação e até passámos tempo juntos com as crianças, especialmente nas férias. Mas foi uma época difícil para todos, tanto para Nick como para os outros. Uma vez mentalizado, lidou com a situação tão bem como todos os outros.

O único ponto de referência de que me lembro daquele ano foi em Dezembro, quando eu efectivamente disse em voz alta a um grupo de amigos, à mesa do jantar, que Nick era maníaco-depressivo. Não eram amigos íntimos e foi a primeira vez que admiti o facto em público. Senti como se fosse um momento importante e disse a mim própria, e a eles, que o amava como ele era, estava orgulhosa dele de qualquer modo e aceitava o destino que nos tinha calhado. As pessoas a quem disse, a princípio, ficaram caladas, depois fizeram algumas perguntas sobre o assunto. Lembro-me que a minha voz tremia quando respondi. Mas, para mim, foi um primeiro passo. Era o início da minha abertura relativamente aos problemas de Nick e de não os esconder mais. Proporcionou-me a oportunidade de dizer como me sentia orgulhosa dele. Nessa altura, ele trabalhava arduamente na sua música e estava a dar-se lindamente com o lítio. Ainda o considero a droga milagrosa que o teria salvo. E, mesmo hoje, mantenho a mesma opinião.

Fez dezoito anos em Maio de 96, e para ele foi um acontecimento importante. Talvez demasiado. Simbolizava liberdade e a idade adulta. Foi como se ele estivesse à espera que disparassem canhões no primeiro de Maio e que todos o vissem de modo diferente. Mas, é óbvio, não o fizeram. Ainda precisava de pessoas a cuidarem dele, de Julie para o controlar, de consultar frequentemente o psiquiatra e de tomar medicamentos. Penso que, algures num canto secreto da sua mente, ele esperara que os problemas desaparecessem, como que por magia, assim como a sua doença. Mas, apesar de ter feito dezoito anos, ainda se encontrava confinado às mesmas limitações e não estava satisfeito com isso.

Começou a ameaçar sair da casa de Julie, onde estivera quase dois anos, e, de repente, recusou fazer coisas que se esperava que fizesse, ou que sabia que tinha de fazer. «Agora tenho dezoito anos, não podem obrigar-me!» Quando dizia isto, parecia ter cinco. Começou a haver muitas discussões a partir da altura do seu aniversário. Queria que tudo fosse diferente para ele, e não era. Não podia ser. Era emocionalmente jovem para a sua idade e continuava com um péssimo controlo dos impulsos, que só os medicamentos conseguiam dominar ligeiramente. Mas continuava sempre pronto a fazer algo irresponsável. Mesmo para um miúdo em os problemas dele, dezoito anos não é, geralmente, sinónimo de autonomia total. Nick estava saturado de serem os outros a ditar-lhe as regras e a ter de viver de acordo com elas.

Nos hospitais psiquiátricos onde ficava esporadicamente, havia funcionários que  explicavam os direitos a pessoas como Nick e lhes diziam que eles tinham o direito de escolher. A escolha que Nick fez em Setembro foi parar de tomar o lítio, e, na realidade, não podíamos obrigá-lo. Pelo menos oficialmente, ele agora era um adulto.

Tentámos dar-lhe independência de outras maneiras. Terminara a escola secundária em Junho, e ia continuar os estudos numa faculdade local, facto que nos deixou orgulhosos. Julie e a família tinham acabado de se mudar, no Outono, para uma casa que servia perfeitamente as necessidades deles e as nossas. Era grande, confortável para a família dela, com um quarto para Nick, se ele precisasse, e com uma pequena casa independente, onde Nick poderia viver à vontade, enquanto se mantinha suficientemente perto para estar em segurança. Nick poderia lá dormir se estivesse em boa forma e a portar-se bem, e ele adorava-a. Apesar disso, ele achava que precisava de se afirmar mais como adulto. Recusou terminantemente tomar a sua medicação, e todos sabíamos que era só uma questão de tempo antes que os efeitos pudessem fazer-se sentir. Só não sabíamos que forma assumiriam. Nenhuma lisonja, sedução ou mesmo ameaças o levavam a tomá-la. Dizia que se sentia óptimo, o lítio curara-o e já não precisava de o tomar. Era o comportamento típico de um maníaco-depressivo. Muitos deles, de vez em quando, param de tomar os medicamentos, normalmente porque se sentem tão normais com o lítio que se convencem de que o problema que os levou a isso desapareceu. Nick não era diferente, mas, à medida que os dias e as semanas passavam, tornou-se cada vez mais difícil e impossível lidar com ele. Era como um comboio expresso inclinado de modo perigoso para fora da linha, e eu estava desesperadamente preocupada com o que iria acontecer. Mas tinha uma viagem inadiável de alguns dias a Inglaterra, onde recebi vários telefonemas frenéticos de Julie. Nick precisava de ser hospitalizado, mas não concordava. Agora que tinha dezoito anos, também não tinha de fazer aquilo. Não tínhamos mais o direito de o internar quando achávamos que ele necessitava, ou se a medicação precisava de ser ajustada. Ele tinha de concordar em ir e, é claro, não concordava. Quanto mais necessitava, mais recusava. Era um sistema louco. Desta vez, a minha filha Beatrix foi a casa de Julie e passou algumas horas com Nick, tentando convencê-lo a ir para o hospital. Devem ter passado um mau bocado com ele, e telefonaram-me várias vezes nessa noite. Finalmente, acabou por ir e, dois dias mais tarde, saiu furioso. Regressei nessa noite e fui vê-lo assim que cheguei. Era óbvio que ele necessitava de ajuda. Sem a medicação, estava a ficar descontroladamente maníaco e todos nós sabíamos que se seguiria uma depressão esmagadora. Falei com o psiquiatra no dia seguinte, mas tínhamos as mãos atadas. Não conseguiríamos provar que ele era um perigo para si próprio. Nunca o fora, na realidade, e não o era de certeza para mais ninguém. Não era, de modo algum, agressivo, estava apenas a comportar-se de uma maneira louca. Viver com ele deve ter feito Julie trepar às paredes. Viver com alguém numa fase maníaco-depressiva é como passar as férias dentro de uma trituradora. Definitivamente, não é fácil. Eu tinha particular consciência disso quando ele me ligou duas semanas mais tarde, de casa de Julie, às quatro da manhã. Por acaso, eu estava a trabalhar, o que, até para mim, não era normal, mas estava a terminar um projecto. Nick queria saber se podia trazer alguém para jantar na semana seguinte. Garanti-lhe que sim. Depois disso, ligou-me de meia em meia hora para confirmar. Era simpático e adorável ao telefone, mas era uma dor imensa ouvi-lo. Telefonei-lhe no dia seguinte com uma ideia que poderia ou não resultar. Mas estava pronta a tentar fosse o que fosse para o convencer a tomar a medicação.

Perguntei-lhe, de um modo bastante deselegante, se queria alguma coisa. Se o suborno resultasse, então tudo bem. Tínhamos de fazê-lo voltar a tomar o lítio e o Prozac. Pensou durante um longo minuto e depois disse que sim, que havia uma coisa que queria.

«Voltas a tomar o lítio se eu ta der?»

«Está bem», disse ele de pronto. Contive a respiração a pensar no que seria. Por vezes, esquecíamo-nos de como Nick era infantil, especialmente sem a medicação.

 

«O que é?»

«T-shirts para a banda.» Era isso? Só isso? Estava disposto a tomar o lítio novamente por causa de T-shirts para a banda? Quase que gritei, tão aliviada estava. Telefonei ao médico depois de desligar, mas, por alguma razão, ele decidiu esperar até segunda-feira. Era algo funcional e prático, talvez estivesse relacionado com testes, análises ao sangue ou esperasse por resultados, mas Nick já não tomava os medicamentos há seis semanas e o médico achava por bem esperar mais alguns dias, até passar o fim-de-semana, e concordei com ele. Ele não parecia correr nenhum perigo especial. Estava só irritável, hipersensível e magoado. E se Julie conseguisse aguentar a situação mais três dias, eu também aguentaria.

Nesse fin-de-semana fui para Los Angeles com Tom, o homem com quem eu saía, já há mais de um ano, o único depois da separação. Nick gostava imenso dele e os dois criaram um laço instantâneo, tipicamente à moda de Nick. Nick ou gostava de alguém ou não, e tinha um sexto sentido acerca das pessoas. Gostara de Tom assim que se conheceram. Tom é franco, generoso, inteligente, honrado, e Nick pressentiu tudo isto nele. Estava sempre a dizer-me que gostava muito dele e a pressionar-me para fazer mais qualquer coisa.

Divertimo-nos imenso nesse fim-de-semana em Los Angeles, apesar de eu estar em contacto constante com Nick e Julie. Nick parecia estar a aguentar-se e todos nós estávamos ansiosos para ele voltar à medicação na segunda-feira. Mas, entretanto, Tom e eu passáramos uns dias óptimos em Los Angeles com amigos, e pela primeira vez falou a sério acerca do futuro. Também falámos muito sobre Nick. Tom estava tão preocupado com o facto de Nick não tomar os medicamentos como eu. Falávamos sempre dele, e Tom mostrava-se sempre preocupado com a sua doença desde que o conhecera. Gostava muito de Nick e perguntava sempre por ele.

Ainda me sentia feliz com o fim-de-semana quando chegámos a casa. Na manhã de segunda-feira, o meu mundo desmoronou-se instantaneamente quando Julie me telefonou a gritar que Nick estava morto. Os paramédicos estavam a tentar reanimá-lo. Estava histérica, sem fôlego, aterrorizada e com as mãos a tremer, quando liguei a John. Segundos mais tarde, telefonei a Tom para lhe contar. Ficou tão destroçado como eu. Seguiu-se o que me pareceu um milhar de telefonemas.

Os paramédicos tinham conseguido reanimar o coração, mas tiveram de o fazer mais duas vezes no caminho para o hospital. Era óbvio que ele tomara uma overdose de qualquer coisa, mas ninguém parecia saber o quê ou porque, ou como acontecera. Julie estava a aspirar o pó quando teve uma sensação repentina e estranha, e foi ver Nick na sua casa. Os paramédicos disseram mais tarde que, apesar de ele ter estado inconsciente várias horas, o coração devia ter parado no momento em que ela lá chegou. Foi um momento de pânico total para todos nós. John e eu arrancámos para o hospital minutos mais tarde. Tom também se ofereceu para vir, mas era uma situação demasiado constrangedora e prometi telefonar-lhe. Durante. todo o trajecto ao longo da baía, rezei para que Nick estivesse vivo quando lá chegasse. Eu praticamente não dizia coisa com coisa.

Quando entrei no hospital, a correr, o estado de Nick era crítico. Julie estava à minha espera e, alguns minutos depois, chegou o psiquiatra de Nick, e Camilla juntou-se um pouco mais tarde. Eu estava no inferno, aterrada por poder perder Nick.

O máximo que conseguimos perceber foi que a falta do lítio fizera-se finalmente sentir, e ele tentara suicidar-se. Usara heroína e uma mistura desconhecida de drogas e venenos para o fazer.

Beatrix. juntou-se-nos no hospital pouco depois de eu ter chegado, e Nick não dizia coisa com coisa e estava com olhar esgazeado na sala de urgências de um hospital para traumatizados, para onde o haviam trazido. Avisaram-me imediatamente que ele estava em situação extremamente crítica, e, mesmo que sobrevivesse, sofreria, provavelmente, de danos cerebrais. Não reconhecia nada nem ninguém, tinha os olhos abertos, mas parecia não ver nada, não conseguia falar, agitava violentamente os braços e soltava urros terríveis. É um som que nunca mais esquecerei, uma espécie de gemidos monstruosos, e não consegui evitar perguntar a mim mesma se Nick ficaria assim para toda a vida, se sobrevivesse. Mas o que me veio imediatamente à cabeça foram todas aquelas coisas que se dizem quando não se está a encarar uma situação como esta, como seja dizer-se que não se quer que o filho sobreviva se ficar com deficiências mentais. Não me importava que ele ficasse um vegetal até ao resto da vida, não queria perdê-lo. Não me interessava o que era preciso para o manter vivo, mas queria mantê-lo. Não queria perdê-lo. I Estava absolutamente certa disso.

Nick manteve-se em estado crítico durante horas. E eles diziam, que, para ele sobreviver, mesmo ficando moderadamente funcional, teria de recuperar rapidamente. Quatro ou cinco horas mais tarde, não havia quaisquer sinais de melhoras. Saí uma ou duas vezes, para chorar e telefonar a Tom. Mas não havia muito a dizer. A situação parecia irremediável.

Toda a equipa médica ainda se encontrava à roda dele, mas não estava a conseguir quaisquer resultados.

Finalmente, enquanto Nick continuava a gemer e a não ter consciência do lugar onde se encontrava, sentei-me a seu lado. Na altura, já estávamos ali há oito horas. Peguei-lhe na mão, pu-la na minha e comecei a falar com ele, sem me importar se ele estava a ouvir ou não. Julie também tentava falar com ele de tempos a tempos, gritando-lhe para sair daquele estado, para olhar para nós, para nos ouvir. Toda a situação fora traumática para ela, pois fizera-lhe ressuscitação cardiopulmonar para o manter vivo até os paramédicos chegarem. Ela salvara-o. Eu estava perfeitamente consciente do que lhe devia. A vida do meu filho naquela altura ainda estava periclitante.

Falei ininterruptamente com Nick durante uma hora, sentada próximo do seu ouvido e a dizer-lhe vezes sem conta o muito que o amava, que eu estava ali e que estava à espera dele. John e Beatrix estavam perto, com ar impotente, a ver.

«Vá lá, Nick... estou aqui... abre os olhos... olha para mim... é a mamã... adoro-te, Nicky ... » Foi um rosário interminável de palavras, e durante muito tempo pareceu não ter dado resultado, mas eu estava convencida de que algures, no buraco escuro onde caíra, ele me ouviria. Eu estava quase a desistir quando ele se virou para mim com o olhar esgazeado, gemeu horrivelmente durante um minuto, depois franziu os lábios, tentando pronunciar algo. Não sei se conseguia ver-me.

«Mmmmmaaaammmm a a a a», disse ele, e pus-me de pé e soltei um grito. Foi um som terrível, mas ele dissera «mamã». Era como estar a arrancá-lo das garras da morte, e continuei a falar com ele, as palavras tinham surtido efeito. Tinha a sensação de o ter tirado do abismo onde ele caíra.

Horas mais tarde, mudaram-no para a Unidade de Cuidados Intensivos, e já dizia algumas coisas com nexo, mas nada era ainda seguro. Eles só tinham uma vaga ideia dos venenos e das drogas que ele ingerira. E uma melhor imagem das lesões que ele sofrera. O fígado, os rins, o baço tinham sido atingidos, ficara surdo, talvez temporariamente, talvez não, e as pernas estavam paralisadas. As capacidades motoras nos braços estavam afectadas, assim como a visão, e talvez o coração. E ainda não estavam bem certos dos danos provocados no cérebro.

Mas, quando finalmente o deixei nessa noite, eles achavam que ele iria sobreviver, embora ainda não estivesse completamente fora de perigo, e não o estaria durante vários dias. Fui para casa durante algumas horas, para junto dos meus outros filhos, e expliquei-lhes o que acontecera. Todos ficaram preocupadíssimos com ele.

Revezávamo-nos no hospital, John ficava até eu voltar, e Julie, Camilla e eu concordámos em fazer turnos de oito horas junto dele durante o tempo que fosse necessário. E Beatrix ia lá estar sempre que possível, quando não estivesse a trabalhar.

No dia seguinte, as coisas tinham melhorado, mas só ligeiramente. Estavam a fazer-lhe um milhar de análises, e Paul, seu assistente, estava sentado ao lado da cama e chorava como uma criança. Todos nós chorávamos. O meu filho adorado estava às portas da morte e não me saía da cabeça o que o pusera nesta situação.

A semana seguinte foi um autêntico pesadelo, mas ele melhorava de dia para dia. Andava da Unidade de Cuidados Intensivos de Neurologia para a Unidade de Cuidados Intensivos de Doenças Coronárias e desta para a Unidade de Cuidados Intensivos de Urologia e, a certa altura, enquanto o levavam de uma unidade para outra, para exames e uma observação mais pormenorizada, Nick olhou-me com aquele enorme sorriso que eu adorava tanto e disse: «Porque é que não me deixam no parque de estacionamento para que eu possa fumar um cigarro?» Muito engraçado. Apetecia-me abaná-lo por aquilo que fizera, e fazê-lo jurar que nunca mais me deixaria. O pensamento do que estivera muito próximo de acontecer fez-me estremecer.

Nick admitiu que se sentira deprimido e farto e que agira sem pensar, e o neurologista pusera-o novamente a lítio e Prozac poucas horas depois de dar entrada no hospital.

Três dias depois era a Noite das Bruxas, e eu arranjei um monte de decorações para o seu quarto, uma T-shirt bizarra e bolinhos de chocolate e laranja. Ele adorava aquela festa e eu não queria que a perdesse. Mal eu sabia que seria a última. Pus uma cabeleira e um fato de bruxa para o divertir.

Mas teve sorte desta vez. No final da semana, ainda não sentia as pernas, mas conseguia andar, de forma algo atabalhoada; tinham chegado à conclusão de que o coração estava bom, a audição voltara, o resto ainda estava uma confusão, mas já estava fora de perigo.

 Eu ia ao hospital duas vezes por dia, e andava numa roda-vivaentre Nick e as outras crianças. Foi uma experiência chocante para todos nós, que nos deixou meio revoltados e meio histéricos com oque Nick fizera e que quase conseguira realizar. Penso que estávamos todos a sofrer os efeitos das emoções. As crianças mais pequenas, particularmente, estavam bastante abaladas.

Nick ficou no hospital durante oito dias; no final da semana,, muito responsavelmente, pediram-nos para o transferir para ouhospital. Disseram-nos que não estavam equipados para o ajudar no campo psiquiátrico, que o hospital não tinha condições para o proteger. Receavam que ele voltasse a tentar o suicídio, o que me parecia um absurdo. Estava certa de que ele aprendera a lição. Estava extremamente afável, parecia feliz por estar vivo, e talvez o lítio já estivesse a dar uma pequena ajuda, ou, pelo menos, o Prozac. Os amigos visitavam-no e parecia estar com uma excelente disposição. Nós, especialmente Julie e eu, estávamos exaustas, arrasadas. Nunca em toda a minha vida passara por algo tão avassalador. Mas, por milagre, eles começavam a pensar que ele poderia recuperar completamente. As funções cerebrais já estavam garantidas, e não ficara com sequelas permanentes, o que era realmente um milagre. Os únicos, problemas confirmados que persistiam eram uma disfunção hepática e o facto de as pernas estarem parcialmente paralisadas. Mas eles diziam que elas podiam ficar assim durante seis meses ou mais. Ia ter de fazer terapia para as recuperar. O pessoal do hospital fora extraordinário com ele, e fiquei-lhes imensamente grata. Havia tantas pessoas a quem agradecer. Julie, os paramédicos que tinham continuado a ressuscitação cardiopulmonar, o pessoal da sala de urgências, o pessoal dos cuidados intensivos, um neurologista maravilhoso que se interessou por Nick, e uma psiquiatra extraordinária que ficou com o número de Nick a primeira vez que o viu. Foi ela que sugeriu que o transferíssemos, e rapidamente. E, mais que não fosse para lhes fazer a vontade, foi o que fiz. Oito dias depois de ele chegar, Nick foi de ambulância para um hospital na cidade com unidade psiquiátrica. Foi colocado num quarto com vigilância contra tentativas de suicídio, e pude facilmente visitá-lo, sem passar a ponte ou andar na hora de ponta duas vezes por dia. Fiquei com a vida mais facilitada e tinha mais tempo em casa para as outras crianças. Comecei finalmente a ficar mais descontraída, sabendo que ele estava em boas mãos, e já não tinha de me preocupar com ele. A única coisa que tínhamos de fazer era pô-lo a andar, na verdadeira acepção da palavra, dar um olhinho ao fígado e dar-lhe lítio suficiente para o acalmar. Comparado com o que tínhamos passado, parecia ser uma tarefa fácil, e todos os minutos do dia eu dava graças por ele estar ainda connosco.

Quando o mudámos, ele estava não só bem-disposto mas também algo agitado. Os amigos visitavam-no, e eu fechei de algun modo os olhos aos sinais de perigo, embora eu não seja de subestimar as coisas. Mas considerei o que acontecera uma aberração, porque ele não estava a tomar lítio na altura. Sabia que era improvável que isso voltasse a acontecer. Todavia, o que subestimei completamente, ou nunca me informaram, foi o facto de a sua doença ser letal. Na minha opinião, isso era uma coisa que poderia fazê-lo sentir-se infeliz toda a vida, mas não era algo que pudesse matá-lo. Não' entendi essa mensagem. Ao que se supõe, sessenta por cento dos maníaco-depressivos tentam o suicídio, e trinta por cento têm êxito. Não sei se a estatística

está correcta mas, se estiver, é impressionante. Nunca me passou pela cabeça que Nick tinha trinta por cento de hipóteses de morrer da sua doença, ou teria ficado ainda mais em pânico.

Naquelas circunstâncias, escrevi-lhe um poema, em que eu lhe dizia o que sentia em relação àquilo que ele fizera. Dizia tudo, e Nick andava sempre com ele na carteira e dizia que o adorava.

 

PARA NICK

porque te adoro

Não entraste na minha vida calmamente, sem decisão nem confusão, entraste como uma surpresa, uma pessoa e um evento eu tinha de decidir quanto eu queria. Lutei, querendo-te, sem te conhecer, sem estar segura de ti nem de mim própria, nem de como te ter. Mas, todavia, escolhi-te, sem fazer ideia de como te dar abrigo ou te vestir. Ninguém para me ajudar, Ninguém para partilhar, Ninguém para cuidar, só eu e Beatrix. Tu eras nosso então. E mesmo então, não chegavas a casa calmamente. Em vez de uma melancia escondida no meu vestido.

Parecias sete, fizeste as pessoas sorrir e rir enquanto Beatrix e eu esperávamos por ti, e depois apareceste, inquieto,  com o máximo de alarido que conseguiste fazer, entrando de rompante no meu mundo  enquanto dávamos as mãos, e eu prometia-te uma eternidade de amor e protecção.  Tu comias por doze, e eu amava-te por duzentos, minha dádiva imaculada, meu  filho mais amado, mais engraçado, mais bonito, estavas tão ansioso por fazer parte das coisas falaste-me, e contaste-me tudo muito antes de o deveres fazer. saiu tudo com bastante calma e começaste a usar os meus chapéus e as minhas pérolas, a dançar disco e a adorar palhaços e a trazer-me no coração, enquanto corrias o mundo ainda de macacão. eras dono da minha cama, do meu coração, da minha vida, usavas camisolas de gola alta pretas na escola, em vez de brancas e aprendias a dizer e a soletrar tudo na perfeição, mas da frente para trás, fazias-me rir, fazias-me chorar, fazias aviões com o meu coração, e tu e eu sempre soubemos que tu eras uma pessoa especial. muito especial, muito inteligente, muito omnisciente e muito cega, vias o mundo com extrema clareza absolutamente, e tu e eu conhecíamos as almas os corações e as ideias um do outro, enquanto dentro de ti ardia um fogo que quase te consumia. e através dos teus Olhos, vi as tuas horas mais difíceis e as luzes mais resplandecentes e sóis-poentes brilhantes, enfrentámos tempestades, e ficámos de mãos dadas à chuva, e eu prometia-te que sempre estaria a teu lado. mas ontem, Meu amado filho escondeste-te de mim num lugar onde, por instantes, disseste a ti próprio que eu não poderia descobrir-te, escondido como uma vez te escondeste em criança, debaixo da minha cama, dentro da minha cabeça, atrás das cortinas, e dentro de caixas, tão seguro, mas mesmo muito seguro que desta vez ninguém te descobriria. eles telefonaram para me dizer que estavas morto, que tinhas sido ceifado do meu coração, da minha cabeça, que tinhas partido para um lugar onde ninguém te pudesse descobrir. pensaste esconderes-te lá  durante uma hora,  um dia,  procuraste luzes  brancas,  foste brincar,  tentaste libertar-te das agonias que te cercam, mas eu, conhecendo os lugares onde te escondes, que  sempre serás o meu filho, sabia que, se eles me deixassem poderia descobrir-te corri pelas trevas  encharcada pela chuva, sabendo apenas como sofres, e descobri-te ali escondido,  uma pequenina bola negra de terror e silêncio, não havia nada nos teus olhos,  nenhuma vitória, nenhum prémio, e mesmo então, meu amor, não podias fugir -  calmamente  não deixarei.  não deixarei  que te escondas,  não deixarei  que fujas, ou que morras. cheguei ao fundo  desse poço escuro onde caíras ontem e agarrei-te.  não haverá vida para viver  quando partires, nem risos,  nem sorrisos,  nenhuma dor é maior do que esta. mas a escolha foi tua  desta vez,  não minha, estendi a minha mão para  ti  uma vez mais  e não te deixarei  partir. ficaste imóvel  em equilíbrio  durante tanto tempo, a decidir que caminho tomar, Sabia da tua angústia Sentia a tua dorconheço infinitamente os terrores que ardem dentro de ti e depois lentamente, a custo, quase imperceptivelmente voltaste-te, olhaste para  mim e viste-me, e disseste mamâ... e muito lentamente, sempre com muita  lentidão, rastejaste pela montanha acima e agora aqui estás, à beira do  precipício, ainda em equilíbrio àbeirinha, ainda aqui, ainda meu, ainda a sofrer o último nascer do Sol que nunca mais vinha, a hora final a não ser desta vez, a tua mão na minha de novo, eu nunca te deixarei partir calmamente, voltarei a trazer-te de volta outra vez, nunca me esquecerei da tua dor, nunca te deixarei fugir para as trevas. não irás como vieste nunca mais faças isto outra vez. tens de ficar agora, quanto mais não seja porque te amo.

Logo que Nick foi transferido para o novo hospital, procur acalmar-me, e esperava passar um fim-de-semana com os meus lhos. Tom e eu fomos visitar Nick na quinta-feira à noite, e Tom obrigou Nick a jurar, por qualquer coisa que ele tivesse de mais sagrado, que nunca mais voltaria a fazer aquilo. Nick fez a jura, e parecia que estava a falar a sério. Também encontrámos Tom no hospital, e sentámo-nos os quatro a conversar durante um bocado. See que Beatrix e Trevor também o tinham ido visitar. Pedi a Samantha que lhe trouxesse comida. Ele detestava a comida do hospital, mas parecia estar confortável e satisfeito. Sam, em especial, estava ansiosa por vê-lo. Tinha-nos assustado a todos, e era como se cada um de nós precisasse de lhe tocar e vê-lo, para nos certificarmos de que ainda estava connosco.

Tom e eu passámos uma noite magnífica com os miúdos, na sexta-feira, e ele tinha o braço à minha volta quando o telefone tocou Era do hospital, e apressaram-se a dizer-me que Nick tentara de novo o suicídio, mas tinham-no salvo. Descobriram 'e«quase de imediato, desta vez tiveram de fazer três tentativas de reanimação de coração, mas já achavam que estava fora de perigo quando me telefonaram. Acontecera tudo muito rapidamente. E achavam que ele tomara uma overdose de drogas que amigos lhe haviam trazido. «Amigos.» Não considero amigo uma pessoa que traz drogas a um rapaz com problemas mentais e que se encontra num estabelecimento psiquiátrico sob vigilância contra tentativas de suicídio. Fiquei demasiado perplexa para reagir ao princípio, mas Tom pareceu aflito Contei-lhe o que acontecera, e pouco depois foi-se embora. Tambén estava cansado, e queria ir para casa e descansar um pouco. Estávamos todos arrasados.

Ele achava que eu devia ir ao hospital nessa noite, mas, depois de ele sair, acabei por não ir. Estava demasiado zangada com Nick para ir. Sabia que ele estava fora de perigo e não queria vê-lo. Não conseguia. E não havia nada que pudesse evitar essa sensação. El estava em segurança. Estava vivo, e eu precisava de algum tempo para compreender melhor o que acontecera. Falei com Julie ao telefone, e telefonei para o Dr. Seifried. Mas era evidente que os demónios que dominavam Nick eram mais fortes do que ele. Eu estava de coração despedaçado quando fui para a cama nessa noite, porén mais uma vez grata por ele ter sobrevivido. Mas começava a interrogar-me sobre quantas vezes mais é que ia ter de ficar grata depois de Nick desafiar o destino.

Adormeci, demasiado exausta para me despir, e fui ver Nick d( manhã. Ele estava com um aspecto horrível. O seu sistema recebeu outro choque enorme. As pernas estavam piores, e ter o coração reanimado por três vezes depois de ele ter parado deixara-o com mau aspecto. Estava com um ar quase transparente e bastante zonzo, Sentia-me preocupada quando cheguei a casa, profundamente perturbada pela volta que a vida de Nick parecia estar a levar. Tentara dizer-lhe nessa tarde, em vão, que ele nos ia levar todos nós com ele. Se ele se afundasse, nós, como passageiros num navio, iríamos ao fundo com ele. Os laços que partilhávamos, a unidade que formávamos enquanto família, estavam irrevogavelmente ligados a ele e a todos nós. Falámos sobre isso, e sei que ele sentia alguns remorsos, mas não estou certa de ter entendido realmente o que lhe disse. Recordei-lhe que, quanto mais não fosse, despedaçaria o coração de Samantha, já para não falar do meu e o de todos nós, se fosse avante com a sua ideia de se suicidar. Nenhum de nós voltaria a ser o mesmo sem ele.

Quando Tom chegou nessa noite, era evidente que ele também estivera a pensar seriamente em determinadas questões. Precisava de fazer uma pausa na relação e de tempo para aclarar as coisas na cabeça. Apercebera-se subitamente do que o esperava, se ficássemos juntos. E fiquei destroçada com a conclusão a que ele chegara; porém, mesmo no meio do meu desapontamento, não conseguia recriminá-lo. Nick tentara matar-se por duas vezes em dez dias. Isso deve ter feito com que Tom pensasse no que seria a sua vida se algum dia nos casássemos. Estou certa de que era uma perspectiva assustadora. E era-o, mesmo para mim, conhecendo a fragilidade de Nick e a facilidade com que a tragédia poderia atingir-nos. Eu compreendia, mas, pela primeira vez na vida dele, eu estava zangada com Nick. Pela primeira vez, a doença e as manifestações desta custaram-me efectivamente alguém que adorava profundamente. E durante os sete dias seguintes, fiquei dividida entre a angústia e o ressentimento.

Nick sentiu isso quando o visitei a seguir, embora eu não tenha dito nada, mas estava triste, e éramos tão chegados que ele se apercebeu disso. Perguntou-me o que é que eu tinha, e eu dei-lhe uma resposta vaga, depois perguntou-me por Tom, e olhou-me nos olhos, e percebeu o que se passara ainda antes de eu lhe dizer. Eu não tinha de o fazer. Ele compreendia. Achava que era a reação de Tom ao seu último drama. Tentei fazer alguma luz sobre o assunto e dizer que voltaria tudo ao normal, mas foi Nick quem efectivamente me confortou, dizendo-me que Tom era um tipo porreiro e que voltaria. Não estava tão segura como ele, mas isso foi uma oportunidade para falarmos sobre Nick de novo, e o que ele estava a fazer a todos nós. Suponho que naquela altura eu não entendia completamente que ele não tinha alternativa. Eu sentia que era uma decisão que ele estava a tomar coerentemente, o que decerto não era. Tivemos uma boa conversa, um bom choro e um abraço enorme, e tentei explicar-lhe noamente que ic a completamente destroçada sem ele. Quem me dera que ele tivesse entendido isso, e poderia ter feito qualquer coisa esse respeito, mas não conseguiu entender.

Nick tinha razão acerca do Tom. O seu «período de reflexão» ou quase três semanas, três longas semanas, e voltou com desculpas e um maior discemimento, na noite anterior ao Dia de Acção de Graças. Concordámos em fazer uma coisa de cada vez, e não fazer planos para o futuro. Tive muita coisa para ficar grata àquele ano, não só pelo regresso de Tom, mas também pela sobrevivência de Nick. Ele saiu do hospital no dia anterior ao Dia de Acção de Graças, e voltou para casa de Julie, ficando debaixo de apertada vigilância.

Todos os meus filhos estiveram comigo no Dia de Acção de Graças, tal como John, pois ainda partilhávamos as férias com as crianças. Nick e o seu amigo «Sammy the Mick» chegaram a horas do jantar, bem aprumados, de fato e gravata. Foi um Dia de Acção de Graças que nunca esquecerei, cheio de alegria, graça e gratidão por todas as coisas na vida realmente importantes.

E quando nos sentámos para comer o peru, olhei silenciosamente para Nick e fiz as minhas orações, rezando para que nunca mais voltasse a acontecer e para que ele nunca nos deixasse. Quis acreditar de todo o coração que ele não nos deixaria. Foi o seu último Dia de Acção de Graças.

 

TERCEIRO AVISO

Nick tinha-nos apanhado desprevenidos com a sua segunda tentativa de suicídio.  Foi uma experiência que eu teria preferido não ter passado, mas, pondo a sua vida em perigo pela segunda vez, dera-nos o direito legal de o hospitalizar sempre que sentíamos que ele precisava de o ser, ou se deixava de tomar os medicamentos. Porque ao fazer isso, ele punha a sua vida em risco, como já provara amplamente. Nunca teríamos de esperar de novo seis meses depois de ele parar de tomar lítio. Poderíamos pô-lo no hospital no primeiro dia em que deixasse de o tomar. Sem discussões nem explicações.

Podíamos fazer isso ao abrigo do chamado 5150, um estatuto de saúde pública que nos permitiria suspender os seus direitos e mantê-lo no hospital durante três dias, e depois passaríamos para um 5250, que nos daria até duas semanas, e assim por diante. Discutíramos até a possibilidade de um processo de tutoria, mas também haveria desvantagens com isso, e decidíramos contra.

Com os seus níveis de lítio novamente elevados, Nick parecia uma pessoa normal. Estava a trabalhar afincadamente com a banda, já a pé, e com uma disposição relativamente boa. Não se lembrava da hedionda experiência que todos partilháramos no hospital. Assustara toda a gente, menos a si próprio. E voltara ao trabalho como habitualmente com os Link 8O.

No Natal, andava a saltitar novamente por todo o lado, no papel de estrela de rock. O meu romance entrara novamente nos carris. As crianças estavam de novo calmas, e parecia que estava tudo a correr bem. Embora eu agora tivesse uma constante sensação subjacente de nervosismo relativamente a Nicky. Mostrara-nos do que era capaz sem a medicação. Mas agora tínhamos o direito legal de o forçar a tomá-la se precisássemos. Porém, ele já não fazia quaisquer objecções a isso, e tomava-a como era suposto fazer.

Em Janeiro, fez uma pequena digressão até Los Angeles com a ',banda e andava ocupado a dar concertos. Eu começara finalmente a relaxar de novo. O último pesadelo estava a dois meses e meio de distância. Então, recebi um telefonema de madrugada de Julie. Ele tentara o suicídio novamente, desta vez em casa dela, mesmo por baixo do nariz dela, com os filhos perto. Encheu-se calmamente de drogas durante a noite, mas a altas horas, e perto dela, na casa principal, para ter a certeza de que ela o encontraria. Era um apelo de ajuda. Ela reanimara-o outra vez, e ele estava acordado e a mexer-se quando os paramédicos chegaram. Nick voltou para o mesmo hospital, para a ala psiquiátrica, mas desta vez Julie e eu concordámos em dizer só a John. Era altura de acabar com o drama e tratar dos problemas efectivos.

Verificou-se que os níveis de lítio estavam baixos, tal como o seu estado de espírito, mas apenas ligeiramente. O bastante para o levar a tentar matar-se de novo. Mas, apesar do nosso voto de silêncio desta vez, sabíamos a gravidade da situação. Falei aos médicos não só da tutoria mas também do seu, internamento. Custou-me imenso fazer isso, mas ele precisava de mais supervisão do que aquela que lhe podíamos dar. Falei com vários advogados e um amigo juiz acerca do processo de tutoria. Infelizmente, o tribunal indicaria um tutor, outra pessoa que ão eu, ou o próprio tribunal desempenharia essa função. O meu maior receio era se o tribunal decidisse que Nick era perigoso, para si próprio e não para mais ninguem, ou apenas problemático, ou até louco; então, eu já não poderia decidir o que fazer para o ajudar. Eu perderia a autonomia completa se Nick ficasse sob tutela, e ele poderia até acabar numa instituição estatal, e nós não conseguiríamos tirá-lo de lá. Era uma questão para pensar, e guardei segredo. Precisava de tomar uma decisão, e só a discuti com John e Julie.

Entretanto, o estado de Nick piorava com extrema rapidez, e ele parecia enganadoramente normal. Discutimos a hipótese de ele ficar hospitalizado durante um longo período de tempo, e referimos-lhes que Nick não era como as outras pessoas que estão em estabelecimentos hospitalares. Estava funcional e tinha uma carreira de sucesso com a banda. Era um crime tê-lo trancado, mas o hospital psiquiátrico disse que ele era menos funcional do que parecia. Era difícil acreditar nisso. Depois de discutirmos longamente o assunto com os dois psiquiatras e o conselho legal, decidimo-nos contra a tutoria, e duas semanas mais tarde mandaram-no para casa de Julie.

O psiquiatra do hospital disse que se o conseguíssemos manter vivo até aos trinta, teríamos boas hipóteses de o manter vivo para toda a sua vida normal. Suicídios, «acidentais» ou de outro género, eram comuns em jovens com pouco menos de vinte anos ou de vinte e poucos anos. Faltavam «só» doze anos a Nick, e pareciam várias vidas. Mas Nick pareceu «perceber» desta vez. Todos tivemos uma conversa com ele, e tentámos apelar a tudo, desde a razão à consciência. E parecia triste quando perguntou ao médico quanto tempo é que teria de ficar debaixo de medicação. Penso que sabia a resposta para a pergunta antes de a fazer.

«Sempre», disse ele simplesmente, e Nick fez que sim com a cabeça. Estava finalmente a encarar o facto de ser maníaco-depressivo para sempre. Era um comprimido amargo de engolir. E comparámos isso a diabetes. Também lhe dissemos que se ele se esquecesse ou se se recusasse a tomar um simples comprimido, nós seríamos obrigados a pô-lo no hospital durante muito tempo. Três tentativas em três meses era aterrador. E eu estava aterrorizada.

Antes de ele deixar o hospital, escrevi a Nick esta carta. Ele escrevera-me uma carta a pedir-me desculpa e a objectar por estar no hospital, e, como sempre, tentei apelar ao coração e à razão, com a minha.

 

Noite de quinta-feira - 3O de Janeiro de 1997

Meu querido Nick,

A tua carta hoje tocou-me profundamente, e amo-te tanto que não encontro palavras para exprimir o que sinto. É maravilhoso que me estendas a mão, para partilhar os teus sentimentos comigo, e para me pedires desculpa pela preocupação que me causaste. Mas quero que saibas, agora e sempre, que sinto um enorme orgulho de ti, como és, como ser humano. Ficarei muito, muito, muito orgulhosa de ti se tiveres êxito com a tua música, e eu acho que tens um enorme talento - mas isso é apenas um «extra» - estou orgulhosa de ti neste preciso minuto, sem teres realizado nada de espectacular no mundo, porque eu acho que és uma pessoa maravilhosa, muito especial, sempre o foste, sempre o serás, e és neste momento, neste preciso minuto.

A tristeza e a preocupação que vês nos meus olhos às vezes, como dizias, é que eu preocupo-me de verdade contigo, e fico triste quando estás triste, e sei que esta situação neste momento é muito difícil para ti. Fico triste quando penso que quase escapaste por entre os nossos dedos. Fico triste quando não estás feliz com o rumo que a tua vida leva, da mesma forma que ficas triste por mim quando eu estou menos feliz com o rumo da minha. Mas o «desapontamento» que vês não é desapontamento contigo, nunca foi, nem é. Não me desapontaste. Estendeste a mão e tocaste a minha própria alma. Tens um jeito maravilhoso para isso, vês-me sempre tal como sou. De todas as pessoas que me rodeiam, ao longo dos períodos difíceis que tive nos últimos dois anos, és aquela que mais me tocou e confortou, que mais me aqueceu o coração. Quero que saibas isso!!!

O desapontamento que vês às vezes, não é contigo, e nunca foi (gabo-te constantemente), mas mais com o estado da minha vida no momento. Passei muitos anos a construir algo, muitas coisas, a nossa família, a minha carreira, a minha vida com o papá. E, no momento, tenho a impressão que resvalei pela colina abaixo e estou de rabo no chão no sopé. Mas espero ter aprendido a lição, e me agarre de novo à escada e volte a subir por ela acima. O desapontamento que vês tem a ver com o que aconteceu com a minha vida, em relação ao meu casamento, com a dor que sinto quando a imprensa malha em mim, e com a sensação de impotência que sinto ao não poder ajudar-te mais do que aquilo que posso. Mas não estou desapontada contigo.

Porém, a vida é assim às vezes, caímos com o rabo no chão, resvalamos pela colina abaixo de uma maneira ou de outra, e voltamos a subir Estou mais optimista em relação à vida. Vejo novamente alguns raios de sol nos cumes da montanha, não só para mim, mas para ti. E de mãos dadas, com as pessoas que amamos, e que nos amam, e com os nossos amigos, e com um niquinho de sorte, voltamos a levantar a cabeça, depois de a vida nos ter deitado ao chão. Deste-me mais vezes a mão do que pensas. E a minha mão está sempre aqui para ti. Estarei sempre pronta a ajudar-te, querido, e quando a vida for triste para ti, por maior que sejas, por mais idade que tenhas, por mais rabugento ou lixado ou desapontado que estejas, podes sempre gatinhar para o meu colo e aí ficares.

Há algumas coisas que temos de fazer sozinhos, aquele primeiro salto de fé por cima do abismo que parece que nos vai engolir - temos de fazer isso sozinhos, temos de ter fé suficiente para tentarmos - da mesma forma que tens de ter fé em ti próprio, e numa força (positiva) mais forte do que tu. Mas para além daquele pequeníssimo (e, muitas vezes, aparentemente colossal) primeiro salto para fora do buraco, há pessoas que podem apanhar-te, amar-te, estar junto a ti, tal como eu, Julie, os teus amigos e a tua família, Estamos todos aqui a torcer por ti, querido... e, sobretudo, eu.

Obrigada por te preocupares com o modo como me sinto, e por todas as coisas maravilhosas que fazes. Podes não te sentir maravilhoso neste momento, mas és maravilhoso.

Quem me dera só te dar o que de melhor há na vida. Espero que a tua música te traga toda a alegria, a emoção e a satisfação que mereces, quer te tornes ou não uma estrela pública, serás sempre uma estrela para mim, e já o és. És uma estrela enquanto ser humano, doce Nick. E és mais resplandecente do que aquilo que imaginas.

 Por isso, refresca as ideias na cabeça, sorri, e fica a saber queés a alegria da minha vida - não um desapontamento. Só queroque estejas em segurança, bem e feliz - e, quando te metemos num quarto de tempos a tempos para te manter em segurança, é um pouco como quando fechamos uma jóia num cofre para que nada lhe aconteça. Pode não «a usar» a jóia, nem melhorar a sua qualidade, mas evita que ela desapareça, e mantém-na em segurança. E uma coisa estúpida  para se fazer com uma pessoa, mas és uma jóia para mim. Não suportaria perder-te - e, se achas que estou triste às vezes, não imaginas a tristeza que eu sentiria se alguma coisa terrível te acontecesse. Nem quero pensar Por isso, mantém-te em segurança, sê corajoso, sai de dentro do buraco, mesmo que seja com passinhos de bebé, dá os saltos de fé que puderes, que eu aqui estou, com os meus braços esticados para ti, o meu coração sempre teu... e mais amor do que aquele que consigo exprimir por palavras.

Mesmo nas piores circunstâncias, há sempre uma pequenina coisa que pode fazer-nos felizes. Agarra-a e guarda-a. Tu tens sido essa pequenina coisa... talvez o meu amor por ti possa iluminar o teu canto escuro de vez em quando. Temo-nos um ao outro, e também muito, muito mais do que isso.

Sorri, meu amor.. e tem orgulho de quem és, como eu tenho de ti!!! (A Guerra das Estrelas está outra vez em exibição amanhã.. talvez possamos ir ver o filme pelos velhos tempos. «Que a Força esteja contigo», sabes bem que está!!)

Toma cuidado, meu querido - muito, muito cuidado!

Adoro-te com todo o meu coração, Mamã

Daí em diante, depois de deixar o hospital, o meu coração parava sempre que o telefone tocava. Penso que sabia o que estava para vir Porém, depois desta última tentativa, Nick parecia melhor que nunca. Pela primeira vez na sua vida, parecia aceitar o facto e as responsabilidades da sua doença. Verificávamos os níveis de lítio semanalmente para nos certificarmos de que ele se encontrava bem. A banda ia de vento em popa, ele fazia CDs, vídeos e pequenas digressões. Vinha a casa sempre que tinha tempo e andava com óptima disposição. E estava com um aspecto fantástico. Até veio de férias com a família para o Havai pela primeira vez em anos. E confortou-me o coração vê-lo a jogar com as crianças. Sammy the Mick e Julie vieram com ele para o vigiar.

Divertimo-nos imenso com Nick, enquanto ele cabriolava pela praia, nadava com o seu amigo «Sammy the Mick» e nos filmava a todos. Era uma companhia estupenda, e eu e os miúdos adorávamos tê-lo perto de nós. Foram as nossas férias favoritas com ele, e tiveram mais significado para nós porque ele já não vinha connosco para férias há muito tempo. Até esse ano, ele não estivera em condições de viajar.

Também estávamos a controlar os seus níveis de lítio e Prozac. Enquanto a maioria das pessoas verificava os seus níveis de três a quatro meses, no máximo, nós verificávamos os de Nick semanalmente, porque os medicamentos nem sempre eram absorvidos uniformemente, e conseguíamos detectar a mais ligeira descida, e corrigi-la,  verificando os seus níveis com mais frequência. Foi uma coisa com que eu insistira em Janeiro, para a minha própria paz de espírito. E Nick concordou prontamente. Ia a dois psiquiatras, o mesmo a que ele ia há vários anos, o Dr. Seifried, de quem todos gostávamos muito, e um do hospital, como alternativa. Também estivera num programa psiquiátrico para doentes externos durante dois meses, mas o tempo entre as digressões, concertos e ensaios já escasseava. Os Link 8O estavam a subir, e Nick adorava. Sentia o doce aroma do êxito. Estava indubitavelmente a chegar.

Tinham andado numa digressão de dez semanas pelo país nesse Verão, e falava-se de uma digressão à Europa no Outono, e possivelmente uma ao Japão depois do Natal. Era uma sobrecarga, mas ele parecia dar conta do recado, e adorava tanto a sua actividade, desde que estivesse bem, que não fazia qualquer sentido prejudicá-la. E Julie e eu vigiávamo-lo de perto, assim como os seus assistentes. Às vezes, chegava a ir a sessões de tratamento da toxicodependência em doze fases, para tentar reforçar a sua determinação de nunca tomar drogas, se por alguma razão os níveis de lítio baixavam e sentia desconforto, e queria sentir o conforto que elas lhe davam. Nós fazíamos o nosso papel, mas ele também estava a fazer o seu, e estava a dar resultado. Aparentava um aspecto magnífico.

1 E estávamos todos à espera do casamento de Beatrix. Era daí a um mês, e todos os irmãos iriam estar presentes. As raparigas iam ser as damas de honor, Maxx ia levar o anel, e Nick, Trevor e Todd iam ser as testemunhas. Houvera alguma discussão acerca do facto de Nick estar à altura da função, mas à luz do aspecto que ele aparentava, o controlo que ele tinha sobre si e a sua carreira, parecia uma parvoíce haver motivos para preocupação. A única coisa de que falámos, meio a brincar, foi se ele se chatearia de estar no altar com as outras testemunhas e se deixaria que a sua falta de controlo dos impulsos tomasse conta dele. Mas, dada a forma como ele estava a comportar-se ultimamente, isso parecia improvável.

Dava a sensação de finalmente se ter tornado um homem carinhoso e responsável, que até aceitava de bom grado as responsabilidades da sua doença. Estava a dar boa conta do recado, a tomar os medicamentos e, pela primeira vez até, quando não se sentia bem, dizia a Julie, e ela e o psiquiatra de Nick ajustavam a medicação. Haviam passado três meses desde a sua última tentativa de se suicidar, e isso parecia ser a coisa que estava mais longe da sua cabeça agora. Apresentava-se com muito bom aspecto, subitamente mais maduro, bem sucedido e muito feliz. E nunca estivéramos tão próximo um do outro.

De facto, passámos uns tempos tão bons no Havai que começámos a almoçar os dois todas as semanas, e passávamos sempre um bom bocado. Quanto mais velho ele estava, mais arecidos ficávamos. Éramos igualmente sensíveis, compassivos, generosos, imprudentes, e ingénuos às vezes, tínhamos corações moles, raciocínios rápidos e o mesmo sentido de humor. A vida fora dura em várias ocasiões para nós os dois, e sabíamos dar-lhe o valor quando as coisas estavam fáceis. Mas, melhor que tudo, havia um poderoso elo que nos unia.

Eu achava que podia falar com ele acerca de qualquer coisa e de tudo. Confiei-lhe coisas que me preocupavam na família, problemas que eu tinha com John, o meu trabalho, e até a minha vida amorosa. Ainda estava louco por Tom e feliz por mim por as coisas estarem a correr bem. E avisava-o das ratoeiras da fama, certa de que um dia ele teria de as encarar. Ficava perplexo com as pessoas que já o invejavam e ao mesmo tempo procuravam aproveitar-se dele. Tínhamos muitos conhecimentos para oferecer um ao outro. Víamos as coisas do mesmo ponto de vista, o que nos divertia. Ele era profundamente perspicaz a fazer juízos das pessoas. Era extraordinário como éramos tão chegados. Como ele era compreensivo e inteligente! E, sobretudo, eu ficava sempre tão sensibilizada por ele se preocupar tanto comigo, me apreciar, e querer que eu me sentisse feliz. Nunca teria imaginado isto anos antes, mas ele fizera-se um homem que eu amava, respeitava, e sabia que podia contar com ele, uma raridade na minha vida. E ele sabia que eu estava sempre perto dele, e sempre estaria. Contávamos estar sempre perto um do outro e nunca causarmos nenhuma decepção um ao outro. Nick era alguém com quem eu podia contar e às vezes até para me apoiar, o que me deixava deliciada. Era uma dádiva rara que ele me ofereceu, que eu muito estimava.

Almoçávamos juntos mais ou menos uma vez por semana, mais vezes quando podíamos, e, entre ensaios e compromissos, ele passava por casa, sentava-se no meu escritório e conversávamos. Troçávamos das pessoas de que não gostávamos, ou que se levavam demasiado a sério, contávamos anedotas, e havia sempre uma certa inocência em nós, confiávamos nas pessoas, «não o suficiente, demasiado», como dizia Nick. Tínhamos tantas coisas em comum, coisas que não só adorávamos como admirávamos um no outro.

Depois do casamento, as nossas vidas iam ter rumos diferentes durante uns tempos. Eu ia passar seis semanas com os miúdos na Europa, Nick ia estar em digressão durante dez semanas, e andava extremamente excitado com isso. Eu estava feliz por ele, e nem sequer andava preocupada. Os seus assistentes iam com ele, como sempre faziam, e Julie voava todas as semanas para onde quer que ele fosse para lhe dar uma espreitadela. Já combinara com alguns hospitais que ficavam na rota da digressão para fazerem as análises aos níveis de lítio de Nick. Pensáramos em tudo, e ele estava embrenhado na sua música. Nunca parecera estar em melhor forma, mais são e mais forte. E, no final de Maio, todos voltámos as nossas atenções para o casamento de Beatrix. Havia um jantar de ensaio na noite anterior, farra à farta, o que encantava Nicky. Beatrix estava linda num vestido de cetim cor de alfazema, e Nick estava sensacional de fato preto. Fizera um corte de cabelo espectacular, os cabelos eram pretos e lustrosos, estava com um ar muito elegante. Divertimo-nos imenso, e, no dia seguinte, posámos todos para as fotografias antes do casamento. Nick estava incrível de smoking novo.

O seu comportamento na cerimónia foi exemplar. Não havia sinais da falta de controlo dos impulsos, e, como prometera, levou-me pelo braço ao longo da nave da catedral com um ar muito circunspecto. Quando começámos a andar, deu-me uma palmadinha na mão e o coração derreteu-se-me quando me disse que me adorava muito. Há uma fotografia maravilhosa tirada exactamente nesse momento. Lembro-me de quando a tiraram.

Disse-lhe que também o adorava, e que todos os filhos são dádivas para a sua mãe, mas ele não fora apenas uma dádiva para mim, ele fora algo mais especial porque fora uma dádiva tantas vezes. «Tens de ser bom para ti próprio agora, Nick», disse eu em voz baixa. «Adoro-te», murmurei. Estava nervosa enquanto caminhava ao longo da nave, e ele sabia bem, e deu-me uma palmadinha na mão. E então disse outra vez que me adorava, beijou-me, deixou-me no meu lugar e encaminhou-se para o altar para se juntar às outras testemunhas. Nunca me parecera tão bem como naquele momento.

Dançou comigo uma série de vezes nessa noite, mas manteve a sua habitual reputação de Casanova. No final da festa, deixou a recepção com uma das mulheres mais bonitas que lá se encontravam. Ela tinha trinta anos e um ar espectacular, especialmente pelo braço de Nick, quando deixaram a festa com Cody a servir de motorista. Nick nunca aprendera a conduzir, nunca quis, e sabia que não era uma coisa para si. Não precisava, pois havia sempre alguém com ele. E os problemas de Nick com o controlo dos impulsos teriam sido letais na auto-estrada.

,Foi um casamento bonito, e um dos melhores acontecimentos das nossas vidas. Foi maravilhoso ver a família toda reunida. Estavam todos muito elegantes, divertimo-nos imenso e ficámos felizes por Beatrix.

Duas semanas mais tarde, depois de outro dos nossos almoços que rimos a tarde toda, Nick partiu em digressão com a banda, e crianças e eu partimos para a Europa. Prometi telefonar-lhe da Europa para a carrinha. Iria ser mais fácil ele contactar-me do que eu a ele. Eu ia para Paris, Sul de França, Londres e um fim-de-semana numa casa rural em Inglaterra. Nick ia atravessar o país, de pois voltava, fazendo grande sucesso com o seu público e angariando mais admiradores. Estava, portanto, entusiasmado com a digressão, e eu sentia-me feliz por ele. Sabia que ia ser um grande Verão.

 

VERÃO DESASTROSO

Pouco antes de partir para a digressão, magoou-se nas costas. Tinha um disco intervertebral inflamado, que o preocupava, dados os desafios atléticos do seu desempenho em palco. Ele saltava e contorcia-se, coisas que não são fáceis de fazer quando as costas estão doridas. De qualquer modo, ele achava que a digressão estava marcada e eles não viajariam mais do que quatro ou cinco horas por dia. Mas as noções de Nick relativamente ao tempo nunca eram perfeitas. Como veio a verificar-se, eles tinham entre doze e quinze horas de condução diariamente entre as cidades onde iam tocar. Sentado numa carrinha superlotada, com mais nove tipos, durante quinze horas por dia, ia ser duro, e ele tinha a noção disso. Disse-lhe para pôr gelo nas costas e para se deitar sempre que possível. E como não queria complicar a sua química, não queria tomar medicamentos para as dores, mas dizia que as dores nas costas, por vezes, eram excruciantes.

Os aspectos musicais e de desempenho da digressão começaram por correr bem, mas os rapazes eram jovens, e as tensões entre eles eram inevitáveis. Fechados numa carrinha superlotada, durante uma dúzia de horas por dia, muitas vezes arrasados depois de espectáculos a altas horas da noite e poucas horas de sono, começavam a discutir, o que não era surpresa para ninguém. A digressão foi muito mais dura do que aquilo que esperavam. Mas Nick achava que era importante para o futuro da banda e pressionou-os a continuar. Às vezes, quando não gostavam do que estava a acontecer, deitavam-lhe as culpas, porque era ele que dirigia a banda e era ele o responsável por tudo o que eles. faziam, e todos eles, inclusive Nick, mostravam com veemência os seus desgostos e os seus desconfortos.

Soube mais tarde, da boca de Julie, como as queixas dos outros rapazes o perturbavam. Isso levava-o a achar que eles não gostavam dele nem dos seus incansáveis esforços. Nick sentia que a responsabilidade da banda repousava quase inteiramente sobre os seus ombros. E como era ele que organizava tudo, que trabalhava com os empresários e as salas de concertos, que fazia intermináveis telefonemas, que escrevia as canções, que as interpretava e que organizava os ensaios, não se enganava.

Agora, em retrospectiva, é mais fácil ver que havia a possibilidade de a digressão ser desastrosa para Nick. Mas, na altura, parecia ser importante para todos nós deixá-lo fazê-la. Fazer a digressão com a banda significava tudo para ele, era o culminar de todo o seu trabalho, e era o que a banda precisava de fazer, se queria ter sucesso. Nick saíra da faculdade sete meses antes, porque sentia que estar numa banda potencialmente bem sucedida era uma oportunidade que poderia não voltar a surgir, e achava que poderia sempre voltar para a faculdade mais tarde. Dois dos elementos da banda também tinham saído da faculdade, e um outro saíra da escola secundária para passar para o regime de «estudo independente». Todos tinham feito grandes sacríficios, e haviam-se entregue de alma e coração ao projecto. Para eles, a digressão do Verão era apenas um começo. Há um ano que planeavam a digressão. Onze semanas nesse Verão, possivelmente a Europa no Outono, se a digressão nos Estados Unidos corresse bem, e o Japão depois do Natal. Tinham muita coisa dependente dela, e ia ser um campo experimental para os Link 8O.

O meu coração estremecia um pouco quando imaginava Nick em digressão, tal como o de Julie, mas todos sabíamos o muito que significava para ele. E, se não o tivéssemos deixado fazê-la, ele poderia deixar-nos e fazê-la de qualquer forma, sem a nossa bênção e protecção. Estávamos encorajados pelo facto de estar com um aspecto mais saudável que nunca. Parecia ser a altura ideal para a fazer. Por isso, planeámo-la da melhor maneira que pudemos para proteger a sua saúde. Cody e Paul, os seus assistentes, estabeleceram um complexo programa para o acompanhar na digressão. Julie planeava ir ter com eles uma vez por semana, viajar com eles durante vários dias, e certificar-se de que Nick estava a aguentar as pressões físicas e psicológicas. Pensámos, quando partiram em Junho, que tínhamos uma cobertura perfeita. Julie até tinha uma lista de hospitais que ficavam na rota da digressão, aonde ele seria levado para lhe serem feitas as análises dos seus níveis de lítio.

Geralmente, era Julie que lutava pela independência dele. Foi ela quem o encorajara a cultivar a sua paixão pela banda, enquanto eu estava sempre um pouco mais hesitante, mais cautelosa, mais céptica e mais preocupada. Mas ela compreendia ainda melhor do que eu como era importante para ele ter a sensação de realização pessoal e de liberdade. Se tivesse podido, eu tê-lo-ia mantido embrulhado em algodão durante toda a sua vida. Ele era «o meu bebé». E eu sabia que ela tinha razão em, pelo menos, lhe dar a ilusão de independência. Se ele ia viver com uma doença durante toda a sua vida, o objectivo para todos nós era ajudá-lo a levar uma vida normal, ou tão normal quanto possível. E a digressão ajudava-o em parte a conseguir isso. E, sobretudo, era o que Nick queria tão desesperadamente, e aquilo por que trabalhara com tanto afinco. Mas Julie tinha alguns receios desta vez, estava mais ansiosa do que eu. Eu era a única que estava certa de que ele iria conseguir. E, como habitualmente, procurámos o equilíbrio. Tínhamos os mesmos géneros de conversa acerca da pequena casa de Nick.

Eu achava que ele precisava de ser observado mais de perto do que poderia ser numa casa independente, a dormir sozinho. Os seus assistentes deixavam-no a altas horas da noite e só voltavam de manhã. Mas Julie achava que ele precisava de privacidade e liberdade. Precisava de se sentir um adulto. Estava tão cercado, tão protegido e tão vigiado que era opressivo para ele às vezes, e raro para nós conseguirmos dar-lhe a ilusão de ser adulto. A pequena casa independente, a poucos centímetros da porta principal dela, ajudava a cultivar essa ilusão. E ele adorava-a. Às vezes ela tinha razão acerca do que queria para ele, e às vezes eu tinha de desistir daquilo que Nick chamava a minha «paranóia». Tentara o suicídio uma vez lá, na sua pequena casa, mas também o tentara na casa de Julie. E no quarto trancado de um hospital. Por isso, ambas tínhamos razão, ele precisava de ter a sensação de liberdade, e precisava também de ser vigiado. Com Nicky, havia sempre uma linha ténue entre as coisas, havia sempre um acto de equilibrismo no arame.

Contudo, fora Julie quem sempre o apoiara na sua carreira musical, mesmo quando eu não o apoiava. Nos primeiros tempos, dei pouca atenção a isso, pensando que era um capricho passageiro, e receando que isso o arrastasse para um meio que era repugnante e que ele não conseguiria controlar. Mas Julie tinha absoluta razão nessa questão. Foi a força da vida que o manteve activo, que o trouxe aos seus melhores anos, e pela qual ele viveu. Fiquei sempre agradecida por ter sido a ideia dela a prevalecer, e a de Nicky.

Em qualquer caso, quando ele partiu nesse Verão em digressão, penso que Julie e eu tínhamos sentimentos opostos e algumas reservas. Mas desta vez fiquei quase completamente convencida de que ele conseguiria levá-la avante. E, quando partiu, Julie também partiu. Nick nunca estivera melhor.

Cody entrava em contacto comigo várias vezes por dia, e contava-nos que estava tudo a correr bem, embora os rapazes se queixassem do calor, da carrinha, da comida, das longas viagens, dos habituais desconfortos de uma digressão. Nada nos parecia estranho para nenhum de nós. Mas, dez dias depois de iniciar a viagem, Julie telefonou-me para a Europa. Já faláramos várias vezes antes disso, e contactávamos uma com a outra uma vez por dia, se não mesmo mais vezes. Era raro passar um dia, mesmo quando ele estava em casa, sem trocarmos vários telefonemas entre nós, ou para confirmar que as coisas iam bem, ou para fazer ajustamentos, ou para ir lá a casa quando havia algum desajuste.

Quando Julie telefonou desta vez, mostrou-se preocupada. Nick parecia andar enervado, e estava chateado por alguns dos elementos da banda se queixarem da forma como as coisas estavam a correr.

Mas surpreendeu-me ao dizer-me que achava que a digressão era de mais para ele, e falou da eventualidade de a cancelar e o trazer para casa. Todavia, quando perguntei se algo específico lhe acontecera para ela se sentir daquela maneira, pareceu-me ser mais uma sensação de preocupação da parte dela. E eu confiava nos seus instintos.

No dia seguinte, Nick comunicara-lhe efectivamente que estava enervado e deprimido, ele próprio estava a começar a achar que não conseguiria levar a digressão até ao fim. E, ao escutá-la, fiquei preocupada. Mas também sabia como os seus estados de espírito eram inconstantes. Ele era perfeitamente capaz de dizer que queria sair num minuto, e bater-se para ficar, cinco minutos depois. De qualquer forma, eu achava que, se o trouxéssemos para casa, todo o impacte do que isso significava para o seu início de carreira atingi-lo-ia mais tarde, e poderia acabar por destruí-lo. Desta vez, eu era a única pessoa que achava que ele devia prosseguir a digressão, e acreditava que a conseguiria levar até ao fim. Estava com receio de que, se ele abandonasse a digressão, se sentisse um falhado e um inválido para sempre. Era difícil avaliar os potenciais riscos de qualquer das duas decisões.

Ele pedira-lhe para se ir encontrar com eles uns dias mais cedo do que o planeado, e disse-lhe que ia dizer à banda que os ia deixar. Julie apanhou um avião para se encontrar com ele nessa noite. Mas antes que o fizesse, obrigou Nick a prometer que não diria nada aos outros membros da banda acerca das suas ideias de os deixar até ela chegar. E, naturalmente, Nick prometeu. Ela queria ajudá-lo a dar-lhes a notícia, se é que ele estava a falar a sério.

Porém, a inevitável falta de controlo dos impulsos tornou a promessa, como muitas que ele fazia, inútil. Antes de o avião dela descolar, ele tomara as rédeas do problema. E em vez de lhes revelar a sua doença, coisa que nunca fez, guardou isso como um segredo que nunca partilhou com ninguém. Em vez disso, disse-lhes que estava farto deles, já não gostava deles e que se ia embora. E, previsivelmente, eles ficaram irados. Julie planeara discutir o assunto calmamente com Nick e, se necessário, ajudá-lo a encontrar uma saída diplomática e airosa. Ele teria tido a desculpa perfeita. Como a sua primeira tentativa de suicídio nove meses antes fora tão devastadora do ponto de vista físico, ele precisava de fazer contínuos exames, tendo-se posto até a questão, pouco antes de partir para a digressão, de ele ter ficado com o coração afectado, e feito por isso exames regulares até ao dia anterior, estando programada a realização de novo exame durante a digressão. Até aí, os exames tinham estado normais, mas Julie planeava anunciar que ele tinha um problema com o coração, se Nick quisesse ter uma saída airosa. Mas ele nunca lhe deu a hipótese de fazer isso. Em vez disso, insultou toda a gente, enfureceu-os, e, quando Julie chegou, os rapazes estavam em rotura completa há oito horas e diziam que Nick era um cobarde por querer abandoná-los. Não entendiam as suas razões, e ele respondia com críticas e insultos.

O problema era que Nick não queria que ninguém soubesse da sua psicose maníaco-depressiva e da sua gravidade. Os rapazes com quem ele trabalhava não faziam a mínima ideia da luta diária em que ele estava envolvido, dos fortes medicamentos que estava a tomar e da sua grande dependência deles, ou que Cody e Paul eram assistentes psiquiátricos. Dizia a toda a gente que eles eram guarda-costas, contratados pela sua famosa e superprotectora mãe. E não sei o que é que eles pensavam de Julie.

Julie encontrou-os em acalorada discussão quando chegou, e Nick confessou-lhe em privado que não soubera o que nem como lhes dizer, ou como lidar com a sua sensação de fracasso. Era a primeira vez que ele admitia efectivamente isso quando não se sentia bem, ou que pedira ajuda. E, depois das três tentativas de suicídio dos meses antes, parecia ser um passo importante tomar a responsabilidade do controlo da sua doença. Sabendo que ele estava de facto perturbado e a falar em ir para casa, Julie achou que o melhor era ele fazer isso.

No entanto, sem Nick, não haveria digressão, nem banda, nem futuro imediato para os Link 8O. Ele era a figura central, o cantor, a estrela, o íman que atraía multidões, os caçadores de talentos, os agentes de publicidade, os representantes das grandes empresas discográficas. Eles não poderiam prosseguir sem ele naquela altura, e sabiam disso.

Porém, Nick estava ainda mais profundamente deprimido pelo que eles estavam a dizer dele, e ele e Julie conversaram finalmente acerca do que deveria fazer. Estava profundamente ferido pelo que os outros lhe tinham dito, mas, por outro lado, abordara muito mal a situação. Ao dizer-lhes que eram idiotas e que os detestava, dificilmente iria ganhar o apoio e admiração deles, e muito menos a sua compaixão. E eles não sabiam nada da sua doença. Estava a agir como um menino mimado, para encobrir os seus medos, e eles estavam compreensivelmente chateados com ele.

Julie pediu a alguém que o acalmasse durante a noite, e no dia seguinte, quando Nick estava a dormir, ela passou cinco horas a falar com os outros rapazes a tentar-lhes explicar a situação. Ela sabia que era a altura de revelar a doença de Nick. E falou-lhes da psicose maníaco-depressiva de Nick. Mas, compreensivelmente, as implicações, a gravidade da doença e os riscos potencialmente desastrosos para ele estavam para além daquilo que eles conseguiam entender. E quem podia censurar? Se nós, depois de anos a lidar com ele, não entendíamos completamente como é que a doença poderia ser letal para ele, como é que eles podiam? Porém, apesar do desejo de Nick em manter a ilusão de normalidade, ela disse-lhes que, se Nick perdesse o controlo da situação, era possível que ele tomasse drogas para aliviar o sofrimento, ou pior, tentasse novamente o suicídio. Era um fardo impressionante. E suspeito que eles achavam que Julie estava paranóica e a exagerar para o desculpar. Eles eram adolescentes e ingénuos, e ela estava a descrever-lhes uma doença que, para muitas pessoas, é efémera e confusa. Queriam que ele ficasse, apesar de tudo, achando que lhes devia isso, e prometeram-lhe telefonar se Nick parecesse perturbado ou estivesse com algum problema. Por fim, o compromisso que Julie lhes propôs, e depois a Nick, era eles fazerem uma pausa de duas a três semanas, para ela poder levá-lo para casa, observá-lo, ajustar a medicação, se necessário, e dar-lhe oportunidade de reconquistar o equilíbrio e a boa disposição. Mas eles ficaram pouco entusiasmados com a sugestão, e os empresários, mais do que provavelmente, não tolerariam uma interrupção de duas ou três semanas na digressão. Custara-lhes dinheiro e arruinaria o nome da banda. Quando Nick se levantou, Julie convencera-os a dizer a Nick o quanto o apreciavam, o que fizeram. Ao ouvir isto, Nick anunciou que decidira que queria ficar e continuar a digressão. Julie ainda tinha algumas reservas e disse-lhe que devia seguir os seus instintos e que, se fosse de mais para ele ficar, não o deveria fazer. Mas a posição de Nick invertera-se completamente nas vinte e quatro horas anteriores. Disse a Julie que, se ela o obrigasse a ir com ela, fugiria, a sério desta vez. Nada o iria obrigar a partir. Ia fazer a digressão, desse por onde desse. Recusava-se terminantemente a ir para casa com Julie. Eu falava com Julie de tantas em tantas horas, e ela finalmente resolveu ficar perto dele a vigiá-lo. E aquilo que ela não gostou, nem eu, foi o facto de os rapazes terem sido tão inflexíveis, fossem quais fossem os riscos para Nicky. Queriam que ficasse não por desrespeito para com ele, mas porque não compreendiam o risco para ele, e precisavam muito dele. Não acho que qualquer de nós, nem mesmo Julie ou eu própria, nem sequer os psiquiatras de Nick, tivéssemos noção da sobrecarga que a digressão seria para ele psicologicamente, ou as revelações que ele teria de encarar relativamente aos seus próprios limites, que viriam a acabar por destruí-lo. Se eu me tivesse apercebido do eventual risco para Nick, ele nunca teria ido fazer a digressão. Depois de tudo o que tínhamos realizado até àquela altura para o manter em segurança, por que razão é que corremos o risco? Não o devíamos ter feito. Assim, Julie ficou e viajou com eles durante algum tempo, de olho em Nick, e a boa disposição dele melhorou de novo. Andavam num frenesim com o trabalho da banda, os rigores da estrada e a excitação dos concertos. A digressão estava a correr bem, e era um rito de passagem que todos eles sabiam que tinham de passar se alguma vez queriam atingir o êxito. E quando os deixou, Julie estava segura,  tal como eu, de ele ter entrado outra vez nos carris, estar calmo e determinado a continuar a digressão. Mas também não havia qualquer dúvida nos nossos espíritos de que continuava frágil. Ele prometera a Julie antes de ela partir que, se ficasse deprimido outra vez, deixaria efectivamente a digressão, e não poria em risco o seu bem-estar por mais tempo.

Não estava então com a sua habitual disposição efervescente, mas também não parecia particularmente deprimido, e com os outros membros da banda estava a sair-se cada vez melhor. Agora, em retrospectiva, vemos que ele estava menos sociável do que habitualmente, mais fechado e, sempre que tinham algum tempo nas cidades onde ficavam, Nick mostrava-se mais ansioso por ficar no motel a descansar do que a divertir-se com os outros. Mas também estava cansado e, pouco tempo depois de Julie partir, fracturou o pé durante uma actuação em palco. Ela foi ter com ele de novo e o pé foi tratado por um ortopedista de Nasliville. Um homem incrivelmente simpático, o Dr. Greg White, de quem Nick ficou amigo. Nick mantinha contactos com ele, encontrámo-nos depois disso e ficámos amigos Era tão simpático e diligente como Nick mo descrevera quando me falou dele. E arranjou um aparelho de gesso a Nick, de forma a ele poder continuar a actuar.

Julie também mandara analisar os seus níveis de lítio quando esteve na digressão com ele, e, até então, estava tudo normal. Durante toda a digressão, eu telefonava a Nick para a carrinha e ele parecia estar bem e feliz por se encontrar em digressão. E, de quase todas as cidades onde paravam, mandava-me postais engraçados, a agradecer-me por tê-lo deixado fazer a digressão com a banda e por apoiá-lo naquilo que ele estava a fazer. Guardei a maioria dos postais que ele me enviou e emoldurei-os. Eram muito à Nicky.

No seu jeito inimitável, Nick também levou o seu sentido de humor para a digressão. E, apesar do início vacilante e do pé partido, conseguiu sair-se praticamente incólume. Era difícil manter Nick em baixo durante tanto tempo, mesmo quando estava cansado e comprimido numa carrinha com mais nove pessoas. Havia oito elementos da banda, Cody a conduzir, Nick e o seu querido amigo Stony.

Certo dia, Nick encontrou um bocado de cartão numa das suas paragens, e escreveu nele uma mensagem que achava que os ia divertir. Desenhou o contorno de dois pares de mamas e escreveu «MOSTRA-NOS AS TUAS MAMAS!», em grandes parangonas. A mensagem era indubitavelmente pouco refinada e potencialmente ofensiva. Mas à boa maneira de Nick, ele achava que lhes ia proporcionar horas de divertimento, e não se enganou.

Segundo Cody, ele costumava sorrir para as mulheres que passavam por eles nos carros, dizia-lhes adeus, fazia caretas, ria, apontava e geralmente cativava-as. E quando elas lhe achavam graça, fazia os possíveis para as atrair de dentro da carrinha que seguia ao lado do carro delas, pegava então no letreiro e exibia-o na janela. Elas deviam ficar perplexas, algumas talvez chateadas, mas o que espantava Cody - e provavelmente também os outros - é que uma série de mulheres que liam o letreiro faziam efectivamente aquilo que ele pedia. Resultava! Cody e eu concordámos, quando ele me falou disso, que, se alguém tentasse fazer isso, acabaria provavelmente na cadeia, ou as mulheres teriam ficado furiosas. Embora algumas provavelmente tivessem ficado, outras aparentemente teriam achado a brincadeira engraçada e Nick atraente. O suficiente para ele fazer o que queria e rir o máximo que podia. Não havia malícia em Nick, nenhum intento maligno, nada de ligeiramente sórdido. Havia um traço de criança nele, desde o início até ao fim. Uma inocência e uma ingenuidade que nos faziam ter vontade de rir e de o abraçar.

O letreiro acabou por chegar até casa e, divertida com ele, emoldurei-o. É um artefacto da digressão, típico dele, e põe-me de certa forma bem-disposta. Encontra-se agora pendurado nas escadas que dão para o seu quarto, logo abaixo do microfone, que eu também emoldurei. Fazem-me sorrir, tal como a história fez quando Cody me contou.

As coisas correram bem durante uns tempos, e ele parecia-me bem quando lhe telefonava. Apanhava-o a dormir na carrinha entre cidades, sabe Deus onde, de que ninguém nunca ouvira falar. Mas era óbvio. que estava a adorar a digressão. Estavam todos cansados, a conduzir horas intermináveis por zonas desconhecidas, mas ele gostava das pessoas que encontravam, dos espectáculos que faziam e estava constantemente entusiasmado. Dizia que as costas estavam melhor, embora eu não consiga imaginar porquê, enroscado dentro de uma carrinha o dia todo, e aos saltos em cima de um palco a noite toda. Era uma terapia que qualquer médico dificilmente lhe teria recomendado. Mas era bastante jovem para conseguir ultrapassar isso, apesar da sua doença. Eu, pelo menos, achava.

Julie também estava satisfeita por as coisas estarem a correr bem. Viajava uma vez por semana para passar vários dias com ele, como prometido, embora na altura não fosse coisa fácil para ela. Descobrira que estava grávida e não contara a Nick. Mas sabia como era importante para si estar com ele; como tal, sentisse-se como se sentisse, e muitas vezes sentia-se mal, apanhava o avião para ir ter com ele. Alugava um carro e levava-o consigo, de modo a poderem conversar e poder ver realmente como é que ele estava.

O que ela me relatava era reconfortante, embora uma das coisas que nos preocupava fosse a possibilidade de, dadas as longas horas de viagem, a falta de sono e os irregulares padrões de alimentação, o lítio não ser absorvido uniformemente, mas, até então, não víramos quaisquer problemas. E as suas análises semanais do nível de lítio estavam normais.

Nick queixava-se, de tempos a tempos, do aparelho de gesso que usava, e eu entrava com ele.

«Estás, a cair aos bocados!», dizia eu, e ele ria-se. «Pois estou!» Parecia que estava a vê-lo a dizer isto, e questionava-me acerca da minha vida amorosa, que estava bem no momento. Tom e eu estivéramos a falar novamente dos planos para o futuro, quando partimos para a Europa.

Eu levara as crianças para Londres e Paris, e estávamos no Sul de França, quando tudo acabou com Tom. Foi um daqueles momentos em que os planetas colidem, e todas as nossas estrelas da sorte vão pelo cano abaixo. Pelo menos a minha foi. Tom e eu estivéramos a viajar em continentes separados durante dois meses e, quando nos voltámos a encontrar, as coisas estavam dessincronizadas e, subitamente, tornaram-se difíceis. Em retrospectiva, podemos encontrar muitas razões para as coisas terem acontecido. Na verdade, nós nunca sabemos exactamente quem é que acende o rastilho ao dinamite, mas ele acende, e o dinamite destrói a nossa relação, mesmo fora de água. Ele deixou subitamente o Sul de França, em pânico por causa das complicações da minha vida, convencido de que a relação era irrecuperável e que estava tudo acabado entre nós. Não concordei com as razões que ele apresentou, mas convenceu-me indiscutivelmente que, para ele pelo menos, estava tudo acabado.

Voltei para Paris, de coração destroçado, e chorei em todos os nossos lugares favoritos. Foi indubitavelmente um grande choque e, juntamente com o nosso romance e aquilo que eu esperara que seria o nosso futuro, o meu Verão acabou. Voltei para Nova Iorque com os miúdos, e depois para casa, para os entregar a John para irem passar o seu tempo de férias com ele, e eu fiquei em casa a lamber as feridas. O resto dos planos de férias que eu tinha com Tom foram cancelados, mas, por enquanto, não disse nada a Nicky.

Nick passou por Nova Iorque, e a minha mãe e uma amiga dela foram vê-lo actuar. Sorrio, ao imaginar a cena, e quem me dera ter podido ver. A minha mãe de vestido de seda, como de costume, e pérolas, entre admiradores de Nick e um milhar de punk rockers. Ela adorou o espectáculo e o neto. Agora que estava a ter êxito, as suas extravagâncias, como sejam pintar o cabelo, os brincos nas orelhas, o brinco no nariz e as tatuagens, pareciam mais acessórios do que ofensas. E Nick nunca teve um ar hard-core. Tinha um estilo natural e uma elegância que lhe davam um ar mod, o que só realçava o seu aspecto.

Eles fizeram uma pausa de uma semana em Nova Iorque, e Nick apanhou uma forte constipação. Julie esteve lá, e a amiga dele Thea veio fazer-lhe companhia, e Nick passou um bom bocado, mas sentia-se bastante mal. Pu-lo num hotel decente, desta vez, e ele escreveu-me e telefonou-me vezes sem conta a agradecer-me. Os confortos que outrora lhe pareciam vulgares eram agora profundamente apreciados e não tinham preço.

Também aproveitou o tempo em Nova Iorque para levar a banda a visitar um famoso advogado do mundo da música, que ficou impressionado com eles e aceitou representá-los. Mas foi depois de Nova Iorque que as coisas começaram a ficar amargas para Nick. Estava cansado, ainda estava constipado, e as pressões da digressão estavam a começar a desgastá-lo, até que começou a entrar lentamente na depressão. Estivera oito semanas em digressão, e tinha mais três antes de acabarem. Mais do que tudo, ele parecia cansado. Mas eu acho que o que estava por baixo da fadiga e da tensão era a percepção de um facto que ele confessou a Julie. Ele sabia sem dúvida que, se não conseguisse fazer a digressão e aguentar os rigores dessa vida, os seus esforços para construir uma carreira na música seriam infrutíferos. Era uma coisa que tinha de fazer se queria ter êxito. E o que descobrira em quase oito semanas de digressão fora que ele sentia que não conseguia. Tinha-se aguentado de forma extraordinária, mas o seu estado de espírito estava a afundar-se lentamente. Tal como os outros, estava exausto. Mas, ao contrário deles, levava a cabo uma batalha constante contra as suas próprias limitações. O equilíbrio era demasiado delicado para si, e chegou a confidenciar a Cody e a Julie, nessas últimas semanas de digressão, que chegara a pensar que não conseguiria. A digressão exigiu demasiado dele, e as tensões desse estilo de vida custaram-lhe um preço demasiado elevado. Começara uma batalha diária contra a depressão. E chegou a dizer a Cody que não achava que conseguisse fazer nova digressão. Era demasiado para si, e sabia-o. Isso em Nick traduziu-se na sensação de falhanço absoluto e numa depressão avassaladora.Nick já não conseguia ver-se a fazer a digressão europeia ou no Japão. E, se não podia fazer a digressão, não podia tocar, não podia viver. Sem ser capaz de fazer aquilo que queria fazer no mundo da música, a vida não tinha valor. Era um pássaro com asas partidas e ele tinha noção disso. Era precisamente a conclusão por que nós todos tínhamos rezado a que ele nunca chegasse. Queríamos que a digressão fosse uma vitória para ele, mas, nessas últimas semanas arrasantes, começou a ter reflexos negativos nele. Todavia, ainda insistia que conseguia acabá-la e, não querendo deprimi-lo mais, concordámos em deixá-lo. Julie voou para casa nos últimos dias da digressão. Andava maldisposta por causa da gravidez, mas Nick ainda não sabia a novidade. Ela estivera com ele durante semanas, a conduzir quinze horas de carro por dia, a andar por salas de concertos e clubes nocturnos, e a ter conversas intermináveis com Nicky. Mas ela e eu concordáramos que, de momento, a gravidez tinha de se manter em segredo. A mudança sempre perturbou Nick. Ele precisava tanto do tempo e da atenção dela que a chegada de uma nova criança ia representar uma ameaça efectiva para si. Queríamo-lo de novo em casa, descansado, com a cabeça no lugar, antes de lhe dizer. E, como de costume, ela sacrificou-se a si e sacrificou a saúde, pelo bem-estar dele. Passara todo o Verão a andar de um lado para o outro para estar com ele, e sofrendo os rigores da digressão quase tanto como ele. Eu estava tão preocupada com Nick como com Julie. E na noite antes de Nick voltar para casa, ela perdeu o bebé, o que foi devastador para ela. Mas, mesmo naquela altura, os pensamentos tiveram de se virar instantaneamente para Nicky. Não tinha tempo para recuperar.

A banda viajou para o Midwest depois de Nova Iorque, e, embora Nick parecesse estar bem, efectivamente não estava. Saiu com a banda uma noite, embebedou-se e fumou erva, o que foi potencialmente desastroso para si, e ele sabia-o bem. Os rapazes da banda telefonaram imediatamente a Paul, assistente de Nick, para o motel, e contaram-lhe o que acontecera, como haviam prometido que fariam,, se Nick fizesse alguma coisa que não devesse. Paul foi buscá-lo e, quando voltaram ao motel, Nick telefonou para Julie. Estava em pânico com aquilo que fizera, sabendo que, com ele, isso era um sinal de que estava a desintegrar-se, e sabia-o bem. Ela perguntou-lhe se queria voltar para casa, e ele respondeu-lhe que fazia o que quer que ela quisesse, o que, conhecendo Nick, significava que ele queria dar o fora. O facto de ter fumado erva e bebido foi a sua maneira de dizer que já não conseguia aguentar, todos nós sabíamos isso, e Nicky também.

«E se eu te disser para vires para casa, Nick?», perguntou Julie. «Irei», disse ele num tom triste. Sem qualquer discussão. Sabia que a digressão acabara. Mas, mais do que isso, sabia que ela tinha muito maiores implicações para si. Conhecia melhor que ninguém os seus pontos fracos e as suas limitações.

Nick sabia que tinha de ir para casa, de se recompor, mas também sabia que o seu acordo com a banda era que, se ele tivesse de abandonar a digressão, em qualquer altura, eles despedi-lo-iam. Fora esse o seu acordo com eles e, sabendo isso, para se poupar ao embaraço de ser despedido, disse-lhes que tinha de ir para casa e que ia deixar os Link 8O. Eles não discutiram com ele. Estavam exaustos com a digressão e fartos dos problemas de Nick. Cortaram com ele. Nick ficou destroçado pelo facto de a sua relação amorosa de três anos com os Link 8O ter chegado ao fim. Estava há nove semanas e meia em digressão com eles, a passar por todas as dificuldades, a percorrer o país, e estavam quase a acabar. Restavam-lhe menos de duas semanas de digressão e, sem Nick, teria de ser cancelada. Ficaram furiosos por ele abandonar a banda. A sensação de derrota de Nick era total.

Nick deixou-os calmamente, e apanhou um avião em Minneapolis. Julie foi ter com ele quando chegou e trouxe-o directamente para minha casa. Estávamos mortos por nos vermos, e eu estava desesperadamente preocupada com ele. Apoiei de todo o coração a sua decisão de deixar a digressão. O facto de se ter permitido beber, sabendo o mal que lhe causaria e sendo algo anormal nele, dizia-me o estado deplorável em que ele indubitavelmente estava. E fiquei ainda mais preocupada quando o vi. Perdera peso na digressão, estava magro, pálido e cansado, ainda usava um aparelho de gesso no pé, e parecia estar ferido de morte. Apesar de nove semanas e meia de sucesso, o facto de não poder acabar a digressão fazia-o sentir-se um falhado. E o facto de ter desistido e de eles não o terem tentado demover, depois de tudo o que ele fizera pela banda durante três anos, quase lhe despedaçou o coração. De facto, eu acho que ele deve ter ficado mesmo destroçado. Durante os últimos dez dias de digressão, Nick era como um combatente de joelhos, não fora de combate, mas a ir-se abaixo lentamente, e ele tinha noção disso. E, quando chegou a casa finalmente, sentia-se abatido. Tinha tudo corrido mal naquelas últimas duas semanas, e fora demasiado tarde para parar.

Em retrospectiva, é fácil para todos nós dizermos que ele nunca deveria ter feito a digressão, e eu culpo-me a mim própria por tê-la deixado fazer. Todavia, não o ter deixado fazer a digressão teria sido um choque de proporções de tal modo catastróficas que teria ficado deprimido. Teria sido uma maneira de lhe dizer que era um inválido e que nunca conseguiria realizar o sonho por que tanto trabalhara. O que eu desejava era que ele fosse capaz de fazer a digressão porque era o que mais queria. Era o que todos nós queríamos, e tínhamos muitas esperanças depositadas nele, não maiores do que as dele. Eu encarava a digressão mais como um vitória para ele do que como uma derrota, e fora uma experiência extraordinária para todos eles, mas o facto de ter de abandonar a banda pusera-o em pânico. A banda fora tudo aquilo por que ele vivera e trabalhara.

Embora eu desejasse que eles tivessem encarado a saída prematura de Nick de maneira diferente, e não tivessem tomado uma posição dura relativamente ao facto, de certa forma, não posso censurá-los. Estavam fartos dele. Independentemente do talento que tinha, trouxe muitos problemas com ele. Não havia qualquer forma de eles perceberem a magnitude da sua doença, especialmente com Nick a fazer todos os possíveis para a encobrir. Não queria que soubessem da gravidade da sua doença, e eles não sabiam. Além disso, pedir-lhes, na idade deles, para compreenderem a complexidade do seu estado teria sido pedir-lhes de mais. A esperança de Nick, e a minha, era que eles reconsiderassem quando chegassem a casa e lhe pedissem para voltar para a banda. Estava certa de que o fariam quando chegassem a casa e estivessem menos enervados e mais descansados. De momento, eu suspeitava, tal como Nick, que estavam a ser irracionais e se encontravam exaustos.

Eu referi-lhe que eles estavam tão cansados como ele, e que, se puséssemos dentro de uma carrinha nove pessoas, de qualquer idade, de qualquer tipo, ao fim de nove semanas e meia sem dormir e de trabalho esgotante, coisa que os concertos eram, matar-se-ian, muito provavelmente, umas às outras. Estava certa de que quando voltassem, tudo seria esquecido.

«E se eles não me aceitarem de novo, mamã?», perguntou-me, quase a chorar, com ar de pânico.

«Eles vão aceitar-te», prometi. Tinha a certeza que sim. Achava que só se fossem estúpidos é que não o aceitariam. E, mais uma vez, senti um grande amor por ele.

Falámos no assunto durante bastante tempo nessa noite; finalmente, quis saber da viagem à Europa. E, como de costume, perguntou-me por Tom. Não lhe quis dizer que a viagem correra mal, ou que acabáramos tudo. Ainda esperava que a ferida cicatrizasse, e, ainda era cedo, tinham-se passado apenas algumas semanas desde que ele me deixara. Eu achava que Nick já tinha problemas que lhe chegassem. Era curioso que Nick se tornara meu confidente, e ocasionalmente meu conselheiro. Agora era altura de pensar nele, e não no meu romance desfeito, embora eu estivesse a sofrer bastante. Mas consegui encobrir o facto e fingir boa disposição. Estava muito mais preocupada com os seus problemas. A vida dele estava sempre na corda bamba, a minha não.

Abraçámo-nos e rimo-nos um pouco, mas, a maior parte do tempo, estava com um ar abatido. Disse-lhe para ir para casa e meter-se na cama. Foi o que ele fez durante três semanas. No dia seguinte, estava tão deprimido que nem sequer conseguia mexer-se. Ficou na cama durante dias e semanas, a dormir, e cada dia que passava aproximava-se mais da destruição. Estávamos desesperadamente preocupados com ele. Tentámos levá-lo ao hospital, mas não queria ir desta vez, e do hospital disseram que não havia nenhuma razão legal para o obrigar. Estava deprimido mas não estava em perigo grave.

Os elementos da banda nunca lhe telefonaram quando regressaram, nunca lhe pediram para voltar. Apareceram em casa de Julie sem avisarem, e queriam o equipamento, que ainda estava na nossa carrinha. Nicky ficou tão destroçado que se recusou a descer e ficou no quarto a chorar. Julie e eu fizemos o mesmo quando falámos sobre o assunto. Não havia nenhuma maneira de o proteger disso. Estava desesperado, ferido, abatido. Ele deitara-os abaixo e eles puseram-no a andar. Era a consequência natural das suas acções e da sua doença. Aqueles que o amavam estavam desesperados com medo dele. Era o maior desafio que ele alguma vez enfrentara, especialmente dada a sua doença. E continuava a afundar-se cada vez mais.

Para Nick, o sonho acabara. E a única coisa que todos poderíamos fazer era puxá-lo para o futuro. Julie começou a falar com ele acerca da possibilidade de fundar uma nova banda. Ao princípio, Nick não queria ouvir falar no assunto, mas ao fim de algum tempo a ideia começou a intrigá-lo. Julie continuava a lembrar-lhe que ele era capaz. Como de costume, ela era a pessoa que preservava a sua vida, a sua salvadora, a força motriz que não o deixaria afundar, por mais que ele quisesse.

Sabendo que estava deprimido, em vez de esperar que ele se levantasse para lhe dar os medicamentos, começou a levantar-se e a dar-lhos às cinco da manhã, levantando-lhe apenas ligeiramente a cabeça, na esperança de que eles estariam a fazer efeito na altura em que ele acordasse várias horas mais tarde. Creio que isso ajudou um pouco, mas mesmo esse gesto atencioso não foi suficiente para fazer a magia que era necessária.

Era indubitável que Nick estava devastado e deprimido por perder a banda. Mas uma coisa igualmente perigosa lhe acontecera na digressão e que eu só mais tarde é que compreenderia. Nick estivera frente a frente com as suas próprias limitações e fraquezas durante a digressão. Cody e Julie achavam que ele compreendera claramente que nunca seria capaz de suportar indefinidamente aquele estilo de vida. Embora tivesse talento para se tornar uma superestrela um dia, do ponto de vista emocional era extremamente duro para ele, extremamente exigente, extremamente cansativo, e ele sabia que tinha de mostrar as suas capacidades e levá-las para além dos limites. O seu êxito como músico dependeria da sua capacidade de fazer muitas digressões e de as aguentar. Não ser capaz de fazer isso, para ele, significava nunca ser capaz de fazer o que realmente tinha de fazer. Foi a percepção de uma realidade cruciante. Nick vira finalmente que nunca se libertaria das correntes que o cercavam. Era uma águia orgulhosa, com as asas partidas, destinada a não levantar voo. Ter de encarar esse facto, e aquilo que ele nunca seria ou que nunca teria, foi talvez o que o matou. Sabendo que não poderia alcançar os seus sonhos, nada lhe restava por que viver. Julie nem sequer estava certa, nem Nick, de que os medicamentos de que ele estava totalmente dependente o aguentariam durante toda a vida. Ele não falou nada a nenhum de nós dos seus receios, mas Cody e Julie achavam que estava mais consciente das suas limitações.

Miraculosamente, no meio do estado de grande sofrimento, os seus amigos mantiveram-se junto dele. Sammy the Mick, Max, com quem ele crescera, e um rapaz chamado Chuck, que Nick conhecera na cena musical há algum tempo. Ele estava com os chamados «Creeps», e tinham tocado juntos. Chuck veio ficar na pequena casa de Nick, para estar com ele dia e noite, e começaram a escrever música juntos. Mas Nick dormia então em casa de Julie. Não estava emcondições de dormir sozinho na sua pequena casa.

E no meio de tudo isso, em Agosto, foi o meu aniversário. E, apesardas nossas divergências, Tom ofereceu-me uma espectacular festade aniversário. Todas as minhas pessoas favoritas estavam lá, rostosdo meu passado e do meu presente, até a minha melhor amiga doprimeiro ano viera de avião de Nova Iorque para a festa. Os meus filhos também lá estavam e tinham mantido segredo. Os balões condiziam misteriosamente com o meu vestido, um toque de atenção que eu nem sonhava. Correu tudo na perfeição. Foi uma noite mágica, o único ponto alto num Verão que de outro modo teria sido desastroso, mas adorei. E o único rosto que faltou foi o de Nick. Soube depois que Tom fizera tudo o que pudera para o trazer para a festa, mas apesar do seu mútuo afecto e do amor de Nick por mim, Tom não conseguiu demovê-lo. Ainda nem sequer saíra da cama. Estava em casa há apenas uma semana. Escalar o Evereste teria sido mais fácil para ele. Julie também não veio. Ficou em casa para vigiar Nicky. Ele estava lentamente a sair dos eixos, o suficiente para se tornar difícil às vezes. Mas a sua frustração e a sua dor eram tão grandes que às vezes tornava-se petulante. Uma semana depois da festa de aniversário que Tom me ofereceu, no meu verdadeiro dia de aniversário, quando eu me aprontava para me sentar para um almoço preparado pelos meus filhos mais novos, ele telefonou e anunciou que se ia mudar de casa de Julie, saindo naquele preciso momento. Estava farto da «bazófia dela». Raramente fazia acusações como aquela. Já crescera o suficiente para não se comportar daquela maneira, mas estava a começar a ficar maníaco. E vinha-se embora.

Desta vez não discuti, não o tentei convencer, não o lisonjeei. Só lhe disse que tinha de lá ficar e só isso. Também lhe disse que nunca lhe pedira nada, mas desta vez eu estava a «pedir-lhe» para ficar, para se acalmar antes de discutir comigo, e sentei-me à mesa com as crianças, tentando não me preocupar com ele.

Iamos todos jantar fora nessa noite, a um dos nossos restaurantes favoritos. E Nick ia encontrar-se connosco. Ele parecia estar bem, finalmente, pelo menos eu achava que estava. Mas, nessa noite, telefonou pouco antes do jantar, novamente deprimido, e disse que não podia ir. Estava demasiado deprimido para se mexer, e eu disse-lhe que compreendia. E compreendia. Só queria que ele estivesse bem. Teria sido a melhor prenda de aniversário de todas. Nessa noite, depois de voltarmos do restaurante, ele enviou-me uma bonita carta por fax. É a última que recebi dele. Uma de muitas que ele me escreveu, mas possivelmente a melhor e a mais simpática. Guardá-la-ei para sempre como um tesouro, e li-a tantas vezes para preencher estes dias vazios que quase a decorei. Ela provavelmente dar-me-á mais alento para toda a vida, porque as coisas que ele disse reconhecem quem eu sou, quem eu fui para ele, e ele para mim, e dão-me coragem. Lembrar-me-á sempre o grande miúdo, o grande filho e o grande ser humano que Nick foi. E a sua prenda final, juntamente com o seu amor, foi para me lembrar do grande ser humano que ele achava que eu sou. E sabia bem ouvir isso. Foi a última prenda de Nick, e muito doce.

 

1418197 23:41 Querida mamã,

Ainda é o dia do teu aniversário e espero que tenhas passado um bom bocado ao jantar Não consigo dizer-te quanta pena tenho por não estar aí contigo neste momento. Sei que estarás graciosa como sempre, e fico com a consciência menos pesada por me teres dito que «a melhor prenda de aniversário que me podes dar é voltar a entrar no caminho certo», etc. Se estás a falar a sério ou não, o facto é que ainda tenho as ideias baralhadas e estou sentado do outro lado da baía no dia do teu aniversário. Eu deveria estar aí contigo, bem de saúde, a divertir-me. Não sei quantas vezes tenho de dizer que lamento, mas vou dizê-lo outra vez. Estou certo de que estás tão farta de ouvir isso, tal como eu de dizer Adoro-te tanto e quero muito que sintas orgulho de mim. Estive baralhado e fora de mim durante tanto tempo que por instantes todos pensaram, que era o meu eu verdadeiro. Todos julgaram que eu estava louco. As vezes, até eu. Amadureci tanto no último ano, especialmente nos últimos sete meses, que quase me sinto uma nova pessoa. Como se o verdadeiro eu que foi enterrado debaixo de toda aquela porcaria fosse finalmente desenterrado. A Julie assistiu. Os meus amigos assistiram. Sei que também assististe. Deixaste de andar tão nervosa à minha volta, e deixámos que cada um de nós entrasse na vida do outro mais que nunca. Não sei se foi inconsciente ou não, mas pareceu-me que baixaste a guarda que tiveste levantada durante tanto tempo. Tu viste o eu verdadeiro, desobstruído, que estivera dissimulado por tanta perturbação durante anos. Desfrutaste novamente da minha companhia. Ansiava ver-te. Não discutimos. Telefonámos um ao outro para ver como é que estávamos.

Eu sei que não, mas sinto-me como se tivesse deitado tudo a perder. Receio que penses que estou outra vez a ser um louco desprezível e vais afastar-te outra vez. Não que te censure por isso. Quem é que quer um louco desprezível perto de si? E quando digo que «vais afastar-te», não quero dizer que vais abandonar-me. Só receio que esta intimidade que temos partilhado, devida em boa parte ao bom estado de saúde em que tenho estado, esmoreça. Sei que me adoras imenso, e que eu te adoro imenso, e mesmo que me tratasses como uma porcaria, me chamasses nomes, me roubasses, me mentisses e eu acabasse em estabelecimentos de saúde, eu  ainda O adoraria. Tenho feito todas aquelas coisas a ti e a mi . m próprio, e ,mesmo assim estás ao meu lado a cem por cento. Sei que o nosso amor um pelo outro é totalmente incondicional. Não há nada que e possas fazer que me faça virar-te as costas. Tens demonstrado isso com firmeza porque já fiz de tudo e tu continuas aí. Mas, apesar disso, sei que te tenho deixado em baixo, quer admitas ou não. E por isso peço-te perdão.

Durante boa parte dos últimos sete anos tenho sido um enorme do que tens  carregado às costas, e agora, lentamente, as coisas parecem estar a melhorar Só não quero que me deixes. Não vou chatear-te nem vou chatear-me a mim a dizer que «tenho uma doença, não consigo fazer nada», porque já estás farta de ouvir Tudo bem, tenho uma doença, terei sempre uma obsessão impulsiva, mas julgo que consigo levar esta coisa de vencida porque ambos conhecemos pessoas que a combatem com êxito diariamente, mas nem tu, nem Deus, nem a Julie vão curar-me. Tem de vir de dentro de mim. Estou tão farto de toda esta porcaria. Já enjoa. Mas não há nenhum culpado a não ser eu. Há três semanas eu estava no cume do mundo. Estava são, calmo, sentia-me óptimo. Estava com óptimo aspecto, estava numa banda de êxito, passeava pelo país, bla, bla, bla. Agora, pareço um monte de merda. Sinto-me ainda mais na merda. Não tenho banda. Sei que não é o caso, mas sinto-me um frustrado. Sei que tenho um milhão de oportunidades e sei que tenho um milhão de oportunidades de poder voltar a ficar calmo e a ter êxito, mas agora, neste preciso minuto, sinto-me um monte de merda. E a culpa é toda minha.

Não estou a tentar que sintas pena de mim. Consigo fazer isso pelos dois. Só estou a tentar exprimir-te tudo o que sinto por ti. Uma prenda de aniversário, hem? Esta carta vai provavelmente acabar por ser lida como as divagações de um louco, e, se for, tenho muita pena. O meu cérebro está muito bem agora, com remorsos e esperanças e um milhar de outros pensamentos e sensações que nem sequer consigo verbalizar Estou a tentar deixar-te entrar. Também bebi muito café, por isso estou com um raciocínio duas vezes mais rápido do que o normal.

Sabes que não me importava quem é que ia ser magoado, nunca me importei. Estava-me puramente nas tintas. Ia-me embora hoje e depois telefonaste-me a dizer que nunca me pediras nada na vida, mas estavas a pedir-me para não me ir embora. Nem sequer esperaste que eu gaguejasse uma resposta, disseste o que tinhas a dizer e despediste-te. Bom, não me fui embora. Não sei se isso significa alguma coisa, se eras tu ou Deus-ou eu a desistir, mas estou farto de te magoar Estou farto de me magoar a mim próprio. Amo-te tanto e queria tanto estar aí esta noite, mesmo depois de querer ir-me embora e decidir ficar Mesmo assim, ainda pus a hipótese de me ir embora. Estava na merda, envergonhado, doente e triste, mas não queria desapontar-te.

Acabei por achar que ficarias mais desapontada com uma rendição aborrecida, triste e desagradável do Nick que amas do que com um Nick ausente, por isso fiquei em casa. E sabes uma coisa? Sabia que entenderias. Deve ter custado um pouco, mas sabia que entenderias. Eu acho pessoalmente que a razão por que me compreendes muitas vezes, à parte o facto de seres minha mãe, é porque também és um pouco louca. Talvez louca num, plano diferente, mais elevado, mas igualmente um pouco lunática. E por isso que a Julie me compreende. Ela é louca! No bom sentido, naturalmente. Não podes ser tão fantasticamente brilhante como nós somos sem desapertares alguns parafusos. O cérebro humano simplesmente não consegue fazer todo esse trabalho.

Penso que tu e a Julie deviam escrever um livro sobre cuidados maternos. Podiam vestir-se de lutadoras de equipas de cuidados maternos para a fotografia da capa. Merda. Lá estou eu a divagar Nunca consigo articular exactamente o que quero dizer, por isso acabo por parecer um atrasado mental. Desculpa. Adoro-te. Nós, os filhos Traina, somos as pessoas mais sortudas do mundo por termos uma mãe como tu. Eu em especial. Acho que nunca ninguém teve confiança em mim como tu tens. Um dia, eu mostro-te. Prometo. Vou dar-te mais orgulho do que alguma vez pensaste poder ter Mais orgulho do que aquele que tenho por ti. Estou orgulhoso do teu êxito. Estou orgulhoso pela forma como tens lidado com todas as dificuldades. Estou orgulhoso pela forma como diriges aquela família. Estou orgulhoso pela mãe maravilhosa que és (para os teus filhos e para o pessoal). Estou orgulhoso por ser teu filho.

Sou efectivamente filho da minha mãe. Muito de quem sou, de bom e de mau, veio de ti. Temos mais em comum do que aquilo que alguém pensaria. Ambos gostamos de pequenos cães rafeiros. Ambos gostamos de ovos mexidos. Ambos fumamos demasiado. Ambos somos românticos. Ambos temos espíritos que conseguem mover montanhas. Somos perfeccionistas. Temos corações maiores do que o céu. Ambos rimos quando estamos frustrados. Ambos temos o sentido da moda. Coleccionamos sapatos. A nossa generosidade não tem limites. Confiamos muito, mas não o suficiente. Ambos queremos casar com toda a gente por quem nos apaixonamos. Detestamos a Natureza (insectos, sujidade, etc.). Temos tanta coisa em comum.

 Espero que consigas compreender alguma coisa disto. És livre de corrigir qualquer erro de ortografia ou de pontuação, ou dessa porcaria da gramática, porque sei que está tudo cada vez pior. Agora o teu dia. de aniversário já passou e desculpa tê-lo perdido. O meu coração esteve presente, embora o meu corpo não estivesse. Feliz aniversário.

Amor sempre,

 Nick

 

Respondi a Nick imediatamente por fax nessa noite, dizendo-lhe de novo que tinha muito orgulho nele e que o adorava muito. Mas nem Julie nem eu conseguimos encontrar a carta mais tarde.

A única coisa que mantinha Nick activo nesses últimos e desagradáveis dias de Agosto era a esperança de fundar uma nova banda, com Chuck. Estava a começar a aproveitar a faúlha que Julie lhe dera, e ela continuava a abanar as brasas,  enquanto, dia e noite, ele e Chuck escreviam as letras e a música. Escreviam a pessoas que conheciam, arranjaram outros músicos, e em finais de Agosto tinham efectivamente algo preparado. Era como ver um puro-sangue ferido a pôr-se lentamente de pé, um pouco trémulo ao princípio, mas orgulhoso, alto e gracioso. E logo que ganhasse velocidade, como sempre, ele começaria a correr. Fez as reservas, reservou tempo num estúdio de gravação e alugou um pequeno estúdio para os ensaios.

Tal como tinha feito com os Link 8O, Nick conduzia os elementos da banda de forma impiedosa. Estava a recuperar o tempo perdido agora, e o material que ele e Chuck tinham reunido era excelente. Eu gostava das canções e da música ainda mais do que as antigas. E toda a gente que os ouvia gostava deles. Chamou «Kriowledge» à nova banda.

Ele era extraordinário, e deram o seu primeiro concerto no dia trinta de Agosto. Estava nervoso antes de arrancarem, e já tinham começado a fazer a sua primeira gravação para um novo W. Foi uma grande noite para ele, uma noite de esperança e novos sonhos. e, finalmente, de vingança. Os Link 8O vieram ver a concorrencia e, depois do espectáculo, pediram a Nick para regressar. Foi um momento que deveria ter vindo mais cedo, mas esteve destinado a não vir. Nick agradeceu-lhes e recusou. Ele nunca andava para trás, ele lançava-se para a frente a grande velocidade.

Uma das canções que tocou com os KnowIedge nessa noite foi sobre a sua experiência com os Link 8O, e encheu-me de orgulho. Ele era um homem dos diabos, e, como tinha feito antes, ensinou-me muitas coisas, sobre a coragem, a esperança, a fé em si próprio e o amor. Se Nick conseguiu levantar a cabeça de novo, com todos os obstáculos com que deparou e que teve de ultrapassar, então eu também conseguia, qualquer pessoa conseguia. Que direito tinha eu de, me lamentar, se Nick conseguia. E, oh meu Deus, como eu o adorava por isso! Estava tão orgulhosa dele, e ainda estou. Estarei sempre.

Ainda de pé

Agora que foi dito e feito

Tombado em nome do prazer

Sei que não sou o único

Mas ainda estou completamente só.

Ignoraste os meus tempos de necessidade

Riste-te da ideia de me ajudares.

Julgo que pensaste que eu estaria bem

Quando eu era o único no topo.

Agora recuso-me a viver num buraco

Mas não há muito tempo

Desperdiçava eu ideias com a cabeça fechada.

O coração morto

A alma destroçada.

Adiaste a tragédia para outro dia.

Bem, meu amigo, esse dia é hoje.

Bati no chão de mãos estendidas.

E agora vejo que não éreis meus amigos

Porque aqueles que me ajudaram Estiveram sempre comigo Por isso acho que... Acho que me enganei. Podes dar as voltas que deres. Não importa quem tinha razão. Estou aqui novamente de pé E agora conheço os meus verdadeiros amigos Portanto no final No final mais uma vez, saí-me bem. No final... No final mais uma vez, saí-me bem. Saí-me bem.

Saiu-se com certeza. Ele estava óptimo, e novamente activo. No dia um de Setembro, Nick estava de pé e a correr.

 

OVOS MEXIDOS A MEIA-NOITE

Os primeiros dias de Setembro foram de muito trabalho para Nick. Andava constantemente a correr, a telefonar a pessoas, a combinar coisas, a organizar, a escrever, a gravar, a ensaiar. Era como se sentisse que tinha de recuperar o tempo perdido. A meio de Setembro, tinham completado as gravações, e de uma forma tão profissional que ainda hoje estamos a comercializá-las para importantes em Em meados de Setembro ele tinha uma banda, um monte de canções e contratos de apresentação. Era algo que nunca se tinha ouvido. Mas tipicamente à Nick. Os KnowIedge pareciam-me ainda melhores do que os Link 8O. Para os meus ouvidos, era um som mais maduro, e agora até conseguia ouvir as palavras. Mas o melhor de tudo era que Nick estava extremamente feliz. Estava novamente Como sempre, Nick fazia-me sentir como fazendo parte da banda. Aparecia muitas vezes a altas horas da noite, depois dos ensaios, perto da meia-noite, e geralmente trazia alguns ou todos os elementos da banda consigo. E pedia-me para lhes fazer ovos mexidos. Adorava a maneira como eu os fazia, leves e suculentos, tirados do lume na altura certa, com queijo gratinado. Conseguia comer uma dúzia de ovos e incitava os outros a comer. Quando eles não acabavam o que tinham nos pratos, ele também comia os deles, ao mesmo tempo que lhes dizia que eu era uma grande cozinheira. Não o quis desapontar dizendo-lhe que ele era o único ser humano no planeta que tinha essa opinião. Também adorava as minhas fatias douradas e os meus tacos. Mas os ovos mexidos eram o seu prato favorito. Às vezes, quando estava em casa, íamos para a cozinha a altas horas da noite, e eu cozinhava para ele. Tentei sempre dar-lhe a sensação de que estivera toda a noite à espera de fazer aquilo. E, de certa maneira, era verdade, era uma oportunidade para falarmos e para partilharmos algo. Era quando ele sempre baixava a sua guarda e partilhava os seus problemas. Nem sequer consigo imaginar fazer ovos mexidos agora sem pensar em Nick. De facto desde que partiu, o coração não me tem permitido fazê-los Sei que ao fazê-los me faria chorar. Daria tudo neste mundo para os fazer para ele outra vez, para partilhar um daqueles momentos com ele. Não farei ovos mexidos tão cedo. Não sei sequer se agora conseguiria fazê-los.

Lembro-me particularmente de certa noite, quando ele apareceu com meia dúzia de amigos, depois de um ensaio com a nova banda. Conduzia-os com firmeza, queria chegar longe, e sabia que tinham capacidade para isso. Eu fizera ovos mexidos, como habitualmente, e um grupo de miúdos com ar de ralé sentou-se à volta da minha mesa da cozinha, com tatuagens, uma miscelânea de brincos, cabelos bizarros, pareciam estar todos num jantar de filme de terror, e estavam acompanhados pelos meus pequenos cães de raça aos seus pés, a discutir as virtudes dos toiros de lide. Algo na incongruência da conversa deixou-me histericamente divertida. Fiquei com eles a rir. Sentia-me como se estivesse a dirigir um parque de caravanas para músicos jovens. Era isto que eu queria e adorava. Tudo isto fazia parte de Nicky, e significava tanto para mim que ele o partilhasse comigo, querendo incluir-me. Nunca esquecerei a emoção quando ele apresentava «a minha mãe... ali... um aplauso para ela»... do palco num concerto. Fazia-me rir timidamente.

Fosse como fosse, ele andava ocupado nesses dias. E eu também. Os miúdos voltaram para a escola, e eu estava a organizar a minha vida. Tinham-se passado pouco mais de dois meses desde que Tom me deixara, e ainda estava triste. Mas estava a tentar levantar a cabeça e fazer o melhor que pudesse para ultrapassar a situação, tal como Nick fizera. Fora um Verão longo e difícil, e estava feliz por ele ter acabado.

Nick e eu encontrámo-nos para almoçar algumas vezes, mas ele não tinha muito tempo, e devíamos encontrar-nos para almoçar em meados de Setembro. Estávamos a dezanove de Setembro, eu tinha uma agenda apertada porque ia sair com uns amigos nessa noite e queria ir arranjar o cabelo, o que parecia frívolo, mas fazia parte da nova imagem que eu estava a criar de mim e da nova vida que estava pronta a iniciar. Telefonou tarde nessa manhã, dormira até tarde, estava preguiçoso em relação ao almoço, mas algo na sua voz chamou a minha atenção.

Parecia-me triste, ou calado, ou só, qualquer coisa, ou talvez apenas ensonado. Perguntei-lhe se estava bem e se se sentia só ou triste, e ele riu-se, disse que não e para deixar de me preocupar com ele. Ele viera comer ovos mexidos algumas noites antes, por isso eu vira-o. Mas estava muito preguiçoso para vir almoçar à baía. Prontifiquei-me a cancelar os meus planos para a tarde, mas ele disse para não o fazer. Prometeu vir almoçar comigo e os miúdos no domingo. Era uma tradição que ele quase sempre seguia. Costumava vir jantar ao domingo à noite, e mais frequentemente se tinha tempo. Mas nas últimas semanas estivera muito ocupado. Acabara de dar os últimos retoques na gravação no estúdio dois dias antes, e ia dar um concerto nessa noite, na sexta-feira.

Descobri, mais tarde, que ele tinha um encontro nessa tarde com uma mulher que vira nas páginas centrais de uma revista que comprara. Almoçou com ela, e fiquei feliz por isso. Disséramos tudo o que tínhamos a dizer. Fiquei contente por ele se ter divertido, e aparentemente estava louco por aquela mulher. Era o seu primeiro encontro, e foi um êxito. Marcaram novo encontro para a noite seguinte, e depois disso escreveu-me uma longa carta.Nick também fizera alguns convites a John recentemente, contara-me ele no nosso último almoço. Tinham boas relações, mas não eram muito chegados, e não se viam há uns tempos. Ambos tinham vidas muito ocupadas, e Nick fora sempre mais chegado a mim do que ao pai, mas falava de John com carinho, e combinara um almoço com ele para a semana seguinte. Era uma coisa que não faziam com muita frequência, pois Nick achava que o pai era uma pessoa de conversa difícil. Não era por falta de amor de parte a parte, só que estávamos mais acostumados a abrir as nossas almas um com o outro. Talvez tivéssemos mais em comum, e os nossos estilos fossem semelhantes, na forma como nos abríamos com as pessoas. Os homens parecem abrirem-se raramente uns com os outros. Eu era mais um elemento das suas lutas diárias. E, por vezes, ao falar com Nick, ao ouvi-lo, era como olhar-me ao espelho, com mais uns retoques de pintura e algumas rugas. Mas havia uma grande semelhança de espírito.

Em qualquer caso, não nos encontrámos nessa tarde. Ele saiu com a mulher da revista, e eu fui arranjar o cabelo.Nessa noite, cheguei cedo do jantar, e fui para a cama, mas descobri que não conseguia dormir, o que não era normal em mim. Geralmente adormeço poucos segundos depois de a minha cabeça pousar na almofada. Mas, nessa noite, dei voltas e mais voltas, levantei-me e finalmente tomei um banho. Voltei para a cama às quatro e meia da manhã, e adormeci finalmente às cinco. Nick e eu devemos ter ido para a cama nessa noite exactamente à mesma hora, por aquilo que consegui apurar mais tarde. Eu parecia que estava a senti-lo perto de mim, como parte integrante da minha alma, atormentado, perturbado. Nunca soube por que razão é que não consegui dormir nessa noite, mas estou certa de que uma parte instintiva de mim sabia que ele estava com problemas. Estava a pensar nele quando adormeci. E o telefone tocou às nove horas da manhã seguinte. Era Julie.Não chorou. Não gritou. A voz parecia perfeitamente normal. A única coisa que ela disse foi o meu nome num tom monótono.«Danielle.» Acho que já sabia antes de ela me dizer. «Ele está morto.» As palavras saíram-me da boca antes de poder detê-las.«Sim. Está morto.» Ela pareceu perplexa por eu o saber, mas não sabia.

«Estás a gozar», foi a única coisa que consegui dizer. «Estás a gozar.. só podes estar a gozar.. ele não está morto... estás a gozar.» Não consegui deixar de repetir as mesmas palavras vezes sem conta. Devo ter-lhas repetido umas cem vezes, sem parar, como uma máquina que não conseguia parar de cuspir todos os parafusos e porcas, que estava a ficar avariada, a ficar sem conserto... estás a gozar.. estás a gozar.. estás a gozar..

«Ele está morto!!», gritou ela finalmente. «E NÃO estou a gozar.» E contou-me de rajada o que acontecera. Tomara uma overdose de morfina. Tinham-no encontrado de joelhos no quarto, a cabeça tombada sobre a cama, a agulha a seu lado. Morrera instantaneamente, disseram eles. Mas Julie sabia o que eu sabia. Nick tinha conhecimento de que já por três vezes tivera uma reacção anafiláctica à mesma substância, e tinham-lhe dito que, se a injectasse de novo, morreria sem sombra de dúvida. Por aquilo que Julie calculava, ele injectara duas a cinco vezes mais a quantidade que tomara antes. Queria ter a certeza desta vez. E teve-a. Paul deixara-o às quatro e meia da manhã, na mesma altura em que eu me metia na cama nessa noite, depois do banho. Pela primeira vez, Julie fora sair à noite, para ir a uma missa da meia-noite em Santa Cruz. Nick sabia que desta vez não estaria lá ninguém para o deter. O marido de Julie, Bill, iria dar-lhe uma espreitadela na manhã seguinte, entre as seis e as sete, e deu, e foi quando o encontrou. Nick sabia que não estava ninguém para o deter ou para o salvar. Estava completamente só desta vez, a injectar a substância que ele sabia que o mataria e na quantidade suficiente que lhe dava a certeza de conseguir os seus intentos. Era um método de suicídio a que os especialistas chamavam «Nas mãos do Destino», como a «roleta russa». O objectivo era esse, mas ele desafiara mais uma vez o destino para o levar ou para o salvar. E desta vez ele levara-o.

Não fazia sentido porque as coisas estavam a correr-lhe bem, e andava tão feliz. O concerto correra brilhantemente na noite anterior. Será que dissimulara a depressão ou fora um acto de loucura? Mas fosse o que fosse que ele tivesse feito, por mais charme que tivesse, por mais talentoso, por mais bonito, por mais amado, por mais desesperadamente que o tenhamos tentado salvar de si próprio, o que era facto era que morrera. Ele certificara-se desta vez. Não havia, e nunca haverá, maneira de sabermos se ele queria mesmo suicidar-se desta vez, ou apenas deitar as preocupações para trás das costas e desafiar os limites, um jogo de roleta russa como nenhum outro. Ou será que ele queria mesmo suicidar-se? Talvez a doença o tivesse vencido finalmente, isso e o facto de ter sido forçado a encarar as suas próprias limitações enquanto estivera em digressão e abandonara os Link 8O. Mas andava tão entusiasmado ultimamente com a sua nova banda, os KnowIedge. Que acontecera nessa última noite? Que lhe terá passado pela cabeça? Em que estaria a pensar? Desespero ou loucura? Nunca saberemos, e só posso fazer suposições. MM soube recentemente que os maníaco-depressivos raramente se suicidam quando se encontram em profundas depressões. Eles só o fazem quando se sentem melhor, estão ligeiramente maníacos e têm a força para o fazer.

Não deixou nenhuma nota, nenhuma pista relativa ao que correr mal. Telefonara a uma dúzia de amigos entre as três e as quatro manhã, na altura em que eu me sentia agitada. Poderia ter-me telefonado, mas ele também sabia que eu poderia aperceber-me e tentaria detê-lo. E não queria que o detivessem desta vez. Providenciou que nem Julie, nem eu, nem Paul, nem sequer o seu amigo Samm the Mick estivessem perto dele para o deter. Pousei lentamente o auscultador, ao mesmo tempo que me senti afogar num mar de soluços. E, sem motivo, corri pelas escadas abaixo... abaixo... abaixo... a soluçar.. em direcção a lado nenhum... A minhas próprias palavras a ecoarem-me na cabeça vezes sem conta.. estás a gozar?... estás a gozar?... Desta vez, Deus estava. Acham que fora tão resplandecente, que iluminara a minha vida durante tanto tempo, extinguira-se subitamente em silêncio. Nem sequer m apercebia da escuridão que começava a envolver-me.

 

Cavaleiro do abismo

Ao caminhares tão perto do abismo, desafias o destino que aterroriza todos aqueles que te observam, adoras o arfar da multidão,  bramido no ar,  terror que causas, o furor que provocas, a histeria aumenta, o pânico, a tensão, o terror, ele cairá? ele atrever-se-á? ele importar-se-á? ele morrerá? ele viverá? conseguirá? são? salvo? ou ensanguentado? andas perto do abismo, desafias o abismo, zombas  do destino pões em risco os nossos corações e a tua vida, e a que preço glória? rapaz perdido pobre rapaz perdido vagueias interminavelmente no labirinto de tua própria  criação,  a tremer de fúria,  terror, ira, andas às voltas a tentar apontar Os dedos Para as sombras no nevoeiro, querendo que os fantasmas fiquem com a culpa, mas apenas o teu nome ecoa na escuridão. Amamos-te

 

Estamos aqui na escuridão, à tua espera, as mãos estendidas a tentarem apanhar-te a tentarem abraçar-te, a apanhar-te do galho quando ele partir, tentando poupar-te intermináveis dores de coração, debates-te, e gritas, a pensar que estás a cair, a chamar desesperado, mas estamos aqui, Nick, nós preocupamo-nos, nós apanhar-te-emos. estaremos lá. amamos-te.

 

UM MAR DE ROSAS AMARELAS

Algures, naqueles primeiros minutos depois do telefonema de Julie, telefonei a três amigos íntimos e, numa dada altura dessa manhã, sei que vieram. Eles eram amigos de Nick e meus, Jo Schuman, Kathy Jewett e Beverly Dreyfous. As minhas amigas Victoria Leonard e Nancy Montgomery vieram mais tarde. O resto é uma névoa de rostos, sons, lembranças agonizantes, um sofrimento intenso e lágrimas constantes. Sentia-me como se o coração tivesse sido cortado ao meio com uma faca. Nem sequer conseguia começar a conceber o que acontecera e o que significaria para mim quando tomasse perfeita consciência da realidade. A perspectiva da sua morte, a ténue realidade era tão horrorosa que me estava a pôr à beira da loucura. Mas, pelo bem dos meus filhos, tinha pelo menos de fingir estar a pensar racionalmente e no que tinha de fazer por eles. Tinha de pensar neles agora.

Telefonei a John com as mãos a tremer depois de telefonar a Julie, e ficou tão perplexo que disse muito pouca coisa. Perguntei-lhe se queria vir dizer às crianças comigo, mas achou que era melhor se eu fizesse isso antes de ele chegar. Estava no campo, e levaria algum tempo a chegar. Prometeu vir logo que fechasse a casa em Napa, e conseguisse chegar à cidade para estar connosco. Acho que Nick teria querido que fosse eu a contar aos irmãos. Mas eu não conseguia suportar a ideia do que tinha de fazer agora. A única coisa para que conseguia olhar era para os pequeníssimos passos que tinha de dar, para toda a agonia que tinha pela frente. Não conseguia ver nada para além disso. Só sabia, quando os meus três amigos chegaram, e não me lembro como é que eles chegaram, ou porquê, que tinha de contar aos meus filhos. De momento, aquelas três mulheres, Julie, Bill, John e eu eram as únicas pessoas que sabiam o que acontecera. Eu sabia que se as crianças vissem rostos chorosos à volta delas, babysitters, governantas, todos os que tinham estado comigo durante uma ou duas décadas, as crianças saberiam instantaneamente que a tragédia nos batera à porta. Alternadamente histérica e calma, sentia-me um zumbi, mas tinha de pensar neles agora. Não ern Nick. Mas nos irmãos. O resto teria de esperar para mais tarde.

Duas das crianças tinham passado a noite em casa de amigos, e tinha de as trazer para casa sem levantar suspeitas. Telefonei-lhes e disse-lhes que tinham de vir almoçar em casa. Ficaram "osas por as forçar a vir para casa e interromper a brincadeira. Eu ripostei que queria almoçar com elas, e elas queixaram-se amargamente disso. Entretanto, eu sabia que tinha de esconder das outras.

Já passava do meio-dia quando consegui reunir as cinco crianças. Zara, a mais nova, ia fazer dez anos daí a uma semana. Maxx, onze, Vânessa, doze, Victoria fizera catorze há apenas duas semanas, e Sammie, quinze. Idades dificeis para suportar uma perda tão grande como esta. E o meu maior receio era com Sam, que era unha com carne com Nick. Ela adorava-o, ele era o seu herói. Ele era um herói para todos nós, e para todos aqueles que o conheciam. Ele tinha conseguido tanta coisa, tantas vitórias, depois da vida dura que passara. Nick não era um derrotado, mas um vencedor.

Há uma pequena sala de estar contígua ao meu quarto, uma sala soalheira com uma vista bonita e mobiliário com flores amarelas. Esperei por eles lá, onde fazemos sempre as reuniões familiares, por causa do seu tamanho e do seu ar acolhedor. Estavam com ares chateados quando entraram. Eu tinha sido prepotente, estragando-lhes o sábado, e disseram-me isso. Eu estava prestes a estragar-lho de vez, e a desferir-lhes um soco que eles nunca mais esqueceriam na vida. Sentia-me como um carrasco, a pensar neles e não em mim. E riram-se quando lhes pedi para se disporem em círculo e darem as mãos. Era uma coisa que nunca fizera, mas não consegui lembrar-me de outra maneira para fazer o que tinha a fazer. Queria que as nossas mãos se tocassem, estivessem apertadas umas nas outras com força, que formassem, um elo indivisível, para que nos lembrássemos que, mesmo com esta desgraça, o círculo do nosso amor nunca seria quebrado. E Nick estaria nele, como sempre estivera, e sempre estaria.

Gracejaram comigo e chamaram-lhe abraço em grupo. Alguém disse que era uma coisa sem graça, mas quando viram o meu rosto, os meus olhos, devem ter imaginado o que se passara, e ficaram subitamente assustados. Com razão. Falei rapidamente, dizendo-lhes que lhes ia contar uma coisa terrível, tão horrível que nunca mais a esqueceriam, e esperava nunca mais ter de lhes contar algo tão terrível. Os olhos de Sam cruzaram-se com os meus, a poucos centímetros de distância, e, quando olhei para os dela, comecei a chorar, e ela perguntou-me numa voz vacilante: «Que aconteceu?»

«Foi o Nick ... », respondi. «O quê... porquê ... » Os olhos aterrorizados das crianças dirigiram-se de imediato para os meus e fui directa ao assunto. «Deixou-nos», disse eu com a voz embargada. «Que queres dizer com "deixou-nos"?», indagou Sam, em pânico.

«Deixou-nos... deixou-nos... adoro-vos... adoro-vos a todos... tal como o adorei... ele morreu esta manhã.» Não havia outra maneira de lhes dizer, outra maneira melhor de lhes desferir um soco mortal como aquele. E como se tivesse espetado uma faca em cinco corações, começaram a chorar em uníssono, um som que nunca esquecerei... prolongado, hediondo, gritos uivantes de dor, ao mesmo tempo que soluçávamos e nos abraçávamos uns aos outros. Nunca esquecerei aquele soco mortal que lhes dei. Sabia que qualquer coisa que fizesse desse momento para a frente nunca seria esquecido, teria influência na vida de cada um e na forma como ultrapassassem o problema. Era um fardo impressionante.

Chorámos durante bastante tempo, e disse-lhes que o que quer que fizessem agora, o modo como queriam encarar isto era escolha deles... se queriam amigos com eles, se precisavam de sair, se queriam ficar sozinhos ou comigo... o que quer que fizessem, precisassem ou quisessem era justo e razoável (desde que não fosse perigoso para eles). Mas referi-lhes que não havia uma maneira correcta de lidar com a situação, e a única coisa que lhes pedi foi para serem carinhosos uns com os outros.

Daí em diante, moviam-se como um corpo uno, indo de sala para sala, a chorar, a soluçar, a falar, agarrados e abraçados uns aos outros. Eu estava tão destroçada como eles, incapaz de entender e assimilar a situação.

A família soube da notícia rapidamente, e por todo o lado à minha volta havia um mar de gente a soluçar. O resto do dia foi uma névoa de rostos, lágrimas e tragédia. As pessoas entravam e saíam. Tive de fazer planos e tomar decisões. De súbito, estávamos a falar do funeral, e parecia-me um absurdo... a gravata dele... a camisa dele... a prancha de skate... o cão dele, talvez... os medicamentos dele... os assistentes dele... qualquer coisa dele... mas o funeral dele? Era uma loucura. Mesmo agora, custa a acreditar.

O bispo veio falar comigo. A única coisa que fiz foi chorar. Marcámos o dia para o funeral. John chegou e fez os telefonemas por mim. Passei os olhos por listas de pessoas, não falei com ninguém, vi se as crianças estavam bem, tomei decisões. Telefonei a Julie. A sua casa, a sua vida, o seu coração e os seus filhos estavam tão destroçados como os meus. Ela era a sua outra mãe. A equipa de cuidados maternos acabara por falhar. Ele tinha-se escapulido por entre os nossos dedos, embora a culpa não fosse nossa. Ele fizera-o sozinho, como um rapaz crescido, um adulto. Perdêramo-lo. Ainda não conseguia assimilar a situação, nem o que significava para o nosso futuro.

Eu sabia que queria música no seu funeral. As canções de que ele gostava. As suas próprias canções. John ainda fazia tentativas frenéticas para contactar os filhos mais velhos, até que os encontrou finalmente. Ainda faltava avisar Beatrix e o marido. Aúnica coisa que sabia era que estavam em Lake Tahoe a passar o fim-de-semana. Pela primeira e única vez em toda a sua vida, ela esquecera-se de me deixar um número de telefone. E não tinha maneira de entrar em contacto com ela. A única coisa que podia fazer era esperar que ela me telefonasse.

Convidei Julie para vir jantar com toda a sua família, e disse-lhe quanto a adorava, quanto é que ela dera a mim e a Nick. Ela tinha receio de que eu a culpasse. Como poderia eu fazer tal coisa? Ela dera-lhe a sua vida, o seu lar, abrira-lhe o coração em todos os aspectos. Durante cinco anos, ela dera-lhe o que nenhum outro ser humano poderia ter. Não há nenhuma maneira de eu poder esquecer-me disso, nunca o esquecerei.

As pessoas foram contactadas, as flores chegaram, apareceram os rostos. É tudo uma névoa agora. Eu entrava e saía dos quartos dos meus filhos. Soluçava a maior parte do tempo, como ainda o faço agora. Fui-me sentar no seu quarto e não conseguia acreditar. Sentia como se ele pudesse chegar a casa a qualquer momento. Isto foi um truque, uma brincadeira. Ele estava a gozar. Estava tudo tão errado, tão louco. Como poderia eu viver desse dia em diante?

E então, de repente, alguém me pôs um auscultador na mão, e ouvi uma voz familiar. Era Tom. Alguém lhe telefonara. Disse que vinha a caminho. E ao fim de alguns minutos, ele estava comigo, a abraçar-me, uma presença poderosa, uma força forte para me apoiar. Eu não estava certa se ele viera por simples simpatia, ou por algo mais, por Nick, por mim ou por ele próprio, e talvez ele também não soubesse nessa altura. Talvez tenha sentido apenas que tinha de lá estar. Mas fossem quais fossem as suas razões, fiquei grata pela sua presença. Na semana seguinte, nunca me deixou. E tivesse o que tivesse feito anteriormente, tivesse o que tivesse acontecido que o assustou, por mais sofrimento que ele me tivesse causado quando me deixou, isso já não importava. Ele esteve ao meu lado quando era importante estar, quando eu precisava mais dele, tal como Nick sempre dizia que ele estaria. E sei que Nick lhe teria ficado grato, tal como eu. Parece que ainda o estou a ouvir: «Cuida, da minha mãe.» E cuidou, Nick, melhor que ninguém. Fez esquecer todo o sofrimento do Verão anterior. Foi a única coisa que me deu alento para continuar a viver. E tinha de fazer o que podia para ajudar os outros que contavam que eu fosse forte. Todos contavam comigo para enfrentar a situação. Desta vez, achava que não seria capaz, mas sabia que tinha de conseguir de qualquer forma.

Decidimo-nos por rosas amarelas para o funeral. Telefonei à minha sobrinha Sasha, em Nova Iorque, e pedi-lhe para vir e cantar a Ave Maria, como fizera no casamento de Beatrix. Nick teria gostado de saber que ela vinha cantar para ele, pois era louco por ela.

Escutámos gravações das canções dele para escolhermos uma para passar no funeral. As outras pessoas faziam telefonemas. Telefonei à melhor amiga da minha mãe, em Nova Iorque, e pedi-lhe para lhe dar a notícia pessoalmente. Pedi a John para telefonar aos pai de Bill. Tinham o direito de saber, tal como ele, estivesse onde estivesse. Nick era filho dele. Eu queria que ele soubesse o que acontecer a. E John foi gentil e simpático quando ele telefonou. E ainda à tínhamos conseguido contactar Beatrix.

Havia vinte pessoas ou mais na minha mesa nessa noite, e e olhava com ar vazio para os rostos familiares. A minha editora e marido, Carole e Richard Baron, também lá estavam, e Lucy, que tomara conta de Nick e o adorara durante dezoito anos, o psiquiatra de Nick, Dr. Seiffied, Julie, o marido, Bill, e os filhos, que estava tão destroçados como nós. Os meus amigos, a minha assistente Heather, e Tom, e sete dos meus filhos estavam ali. Os únicos que faltavam eram Nick e Beatrix. E embora lhe tivesse pedido para fica John fora para casa por algumas horas para readquirir a compostura Acho que ele não se sentia à vontade com Tom ali, embora, depois de dois anos na minha vida, fosse já uma figura familiar.

Beatrix telefonou finalmente quando acabámos o jantar. Acho que não comi. Li a carta de aniversário de Nick à mesa. E quando fale com Beatrix ao telefone, ela disse que me telefonara apenas para dizer que me adorava muito. Era injusto recompensar o seu gesto carinhoso com tanto sofrimento, mas não podia esperar para lhe dizer A imprensa estivera a telefonar todo o dia, e queria que ela soubesse antes de ouvir no noticiário e visse nos jornais. Os seus gritos fizeram-se ouvir dentro do carro, os mesmos gritos que os irmãos mais novos tinham soltado. Era um som familiar. Mas para Beatrix era talvez ainda pior. Tínhamos perdido o «nosso» bebé. Ela disse que viria imediatamente, e estaria em casa daí a poucas horas. Chorámos todos sem parar. Era um autêntico pesadelo, do qual eu sabia que nunca acordaríamos, tal como Nick acabara por escolher, fossem quais fossem as suas razões.

No dia seguinte, fomos à casa funerária escolher o caixão, John acompanhou-me, com as minhas duas amigas leais Kathy e Jo, a minha assistente Heather e Beatrix. Sem sequer me perguntar, todo o meu pessoal optara por trabalhar no fim-de-semana. Todo o pessoal da editora veio ajudar a fazer os «preparativos», um termo que eu sempre detestara. E ver os caixões naquela sala abismal, na cave da casa fumerária, era uma visão tão macabra que mal me contive. Escolhemos um lugar e um caixão para ele, e em casa escolhemos um fato. Era importante encontrar a gravata certa, os sapatos certos e mandar passar o fato. Era um absurdo as coisas a que nos apegávamos. Os sapatos dele estavam todos espalhados pelo meu quarto de vestir, de modo a poder escolher os sapatos certos. Levei dias a arrumá-los, como se, se os deixasse ali, ele voltasse para os calçar ou para ele próprio os arrumar.

Na segunda-feira, fui ao cemitério, e vi aquilo que eles referiam como a «propriedade» dele. John e Beatrix foram comigo, e, enquanto as pessoas no cemitério me diziam que também adoravam muito Nick, comecei a sentir náuseas. Só por milagre é que não desmaiei. Eu parecia um pequeno melro triste, vestida com roupas que começavam a ficar-me largas. Não comera, e não me importava se nunca mais o fizesse. Para quê comer? Nick partira.

Fomos todos à casa fumerária pela primeira vez nessa noite, com as crianças e os amigos íntimos, e eu tinha de resolver se o queria ver. Queria. Queria abraçá-lo, tê-lo nos meus braços, embalá-lo para dormir como fazia quando ele era bebé, abraçá-lo pela última vez. Mas eu receava que, se visse a realidade, isso pudesse matar-me pela certa; como tal, sentindo-me culpada por isso, não o fiz. Os meus três filhos mais velhos viram e ficaram completamente destroçados. Julie também o fez e mais umas quantas pessoas. Os soluços que vinham desse quarto quase me aniquilavam.

Na terça-feira, chegaram centenas de pessoas, enquanto nós estávamos sentados junto do caixão fechado, coberto por um manto de rosas amarelas. As crianças estavam lá e soluçavam, John, Julie e a respectiva família, os rostos familiares das pessoas que eu conhecia. Algumas encontravam-se entre a multidão, mas eu acho que estava tão profundamente chocada que mal me lembro. Sei que Tom esteve sempre lá comigo, a apoiar-me, a cumprimentar os amigos e a chorar ao meu lado. Ele também adorava Nick. Todos o adorávamos. Tom voltou então para a minha vida, o que teria agradado a Nicky. Talvez seja a sua última dádiva, reunir-nos de novo, que era o que ele queria.

Fiquei perplexa, a determinada altura, na casa funerária, ao levantar os olhos e ver Bill ali presente, com ar hesitante, com os pais. Estava com boa aparência, e na mesma em muitos aspectos. Estava de fato completo, e vi instantaneamente que estava de boa saúde, parecia ter corrigido o rumo da sua vida. E, ao olhar para ele, só consegui pensar. no elo que Nick fora entre nós. Haviam-se passado quase vinte anos, todavia, a dádiva que ele me dera há tanto tempo fora uma das maiores da minha existência. Encaminhei-me para ele, abraçámo-nos, e disse-lhe o quanto lamentava, e fomos juntos até junto do caixão. E o que outrora fora amor, depois desapontamento, fundiu-se num sentimento de pesar, e a pouco e pouco tornou-se amizade, o vínculo que Nick nos oferecera e que nos deixara no final.

Havia tanta coisa que eu queria contar-lhe sobre Nick. Devia-lhe 'tanto, e ele perdera tudo. O seu estilo de vida e os seus demónios tinham-no afastado de nós, e agora a maré tinha-o feito dar à costa, demasiado tarde para Nick, ou para ele próprio, e a única coisa que eu conseguia sentir era compaixão e tristeza por ele, e gratidão por ele ter sobrevivido e ter voltado.

Bill contou-me que, por acaso, entrara num programa de tratamento no mês anterior, e deixara de consumir drogas pela prineira vez em vinte anos, e planeara vir visitar Nicky. Foi uma crueldade do destino o facto de Nick nos ter deixado antes de ele o conseguir fazer.

Vi-o no dia seguinte, nas escadas da catedral, de um dos lados escadaria, com os pais e um amigo, enquanto eu aguardava que caixão e aqueles que pegavam nas borlas subissem as escadas. Abracei-o de novo, sem palavras desta vez. Agora, falamos com muita frequência e encontramo-nos de tempos a tempos. Ele ficou a conhecer Nick através de nós, e tornámo-nos bons amigos. Espero que Nick seja um anjo-da-guarda para ele e o guarde. Uma tragédia é suficiente. Ele mostrou-se extremamente gentil e curou uma velha feri da. Mas, sobretudo, deu-me uma grande dádiva que foi Nicky. Ficar-lhe-ei eternamente grata por isso, e desejo-lhe muita felicidade.

O funeral foi bonito, numa catedral admirável, encontravam-se mil e cem pessoas lá. Os amigos de Nick e os meus, músicos que o conheciam da cena musical, os meus editores, a nossa família e amigos. Trevor e Todd pegavam nas borlas do caixão juntamente com Bill Campbell, os dois assistentes de Nick, Cody e Paul, e dois dos amigos de Nick, Max Leavitt e Sam Ewing (Sammy the Mick), e o seu grande amigo Stony. O irmãozito de Nick, Maxx, acompanhava-os, e enquanto eles transportavam Nick para o altar, eu caminhava lentamente atrás dele, sozinha. Quatro meses antes, ele levara-me pela nave da catedral no casamento de Beatrix, e eu dissera-lhe o quanto o amava. Ele estivera lá por mim, e agora eu estava ali por ele. Eu levava um dos animais com que ele dormira durante toda a vida, um pequeno boneco peludo chamado Gizmo. Ele está agora em cima da minha secretária, juntamente com o outro, um pequeno cordeiro branco a que Nick chamava Lambie. (Pus cópias deles, que guardara ao longo dos anos, dentro do caixão, e fiquei com os velhos.)

A minha sobrinha Sasha cantou a «Ave Maria», passámos uma das canções de Nick, «I Am Ali Alone», que destroçou toda a gente, e Trevor, Todd, Beatrix e Max Leavitt fizeram os elogios fúnebres, enquanto as crianças, eu e mil e cem pessoas soluçavam.

No final, Vai Diamond cantou «Wind Beneath My Wings» de Beaches, que dizia tudo aquilo que eu sentia por ele. «Sabes que és o meu herói?... Fui aquele que teve toda a glória, enquanto foste aquele que tiveste toda a força ... » E por todo o lado para onde olhava via um mar de rosas amarelas. De agora em diante, as rosas amarelas lembrar-me-ão sempre Nicky.

Quando saímos da catedral e descemos as escadas atrás de Nick, virei-me quando cheguei ao fundo das escadas, e, ao olhar para cima, vi mais de um milhar de rostos, enquanto as pessoas se mantinham imóveis, sem moverem um cabelo, em silêncio, em pose de respeito, fila após fila, como estátuas, a acompanhar-nos na dor, ao mesmo tempo que os sinos tocavam na torre.

Trezentas pessoas vieram até minha casa depois do funeral, e depois quase tudo terminou. Tínhamos de o sepultar no dia seguinte ou, pelo menos, de o deixar no cemitério. Ficara acordada durante toda a noite na véspera, mas veio-me uma ideia à cabeça por volta das seis da manhã. Já não suportava ver os meus filhos vestidos nos seus tristes fatos pretos, e sabia que eles já tinham sofrido o bastante. As formalidades já não interessavam. Só iam estar a família e uma mão-cheia de amigos na capela do cemitério. Telefonei a toda a gente ao raiar da aurora e disse-lhes que íamos celebrar o «Dia do Mau Gosto» em honra de Nicky. Uma vez que ele tivera o mau gosto de nos deixar nestes apuros, tínhamo-nos de nos vestir de forma embaraçosa para ele. A verdade era que ele teria adorado a ideia. Era o seu estilo de humor, e eu ia fazer isso para ajudar as crianças.

Todos se apresentaram com as piores roupas que eu alguma vez vira, lantejoulas, camisas com gravatas coloridas, botas de combate às flores e óculos à estrela de rock. John excedeu-se com um fato Versace, e embora eu não tenha vestido nada a não ser preto desde a morte, vesti algo colorido nesse dia. Os miúdos adoraram. Um amigo músico tocou músicas de espectáculos e coisas da Rua Sésamo, havia rosas de cores vivas na pequena capela, dois padres rezaram uma rápida oração, e no exterior uma frota de motociclistas da polícia aguardava o séquito. O mayor autorizara um desfile de automóveis, para manter a imprensa afastada. Não havia olhos secos entre os polícias quando lhes apertei a mão antes de entrarmos na capela.

Acho que tínhamos de nos despedir de Nick ai, mas não consigo perceber porquê. Não o deixei ali. Trouxe-o comigo no meu coração. Ele estará sempre junto de mim num milhar de formas. Ele faz parte da fibra do meu ser. Não o posso perder, não o posso afastar de mim, não o posso trair. Ele pertence-me, como eu pertenço a ele, por causa dos corações que oferecemos um ao outro, os anos, as lágrimas, as derrotas, as alegrias imensas que partilhámos. Não posso perder isso, não posso perdê-lo. Nunca.

 Mas amar Nick não era ser-se perdedor. Era ser-se ganhador. Era ter esperança e acreditar, tentar, descobrir novas avenidas e correr por elas abaixo, e depois tentar outras quando essas falhavam. Nick deu-me muitas lições importantes, a de como amar, a principal de entre elas. Como dar o coração até ele se despedaçar, ou até morrer mos, venha o que vier primeiro. As lições que Nick me ensinou eram demasiado valiosas para as esquecer, ou para as pôr de parte, ou para me distanciar delas.

Como é a minha vida agora sem ele? As vezes, parece intoleravelmente vazia. Ele deixou um buraco no meu coração do tamanho do Texas. Maior que isso. Muito maior. Do tamanho de Nicky.

Ainda não consigo acreditar que ele partiu. Faço coisas para preencher os dias e as noites, às vezes freneticamente, às vezes calmamente. Folheio álbuns e olho para as fotografias. Mando fazer cópias para outros membros da família. Organizei os seus vídeos, li todos os seus diários. Telefonei ao advogado, em Nova Iorque, para tratar da saída do seu último disco. Eu tenho estado a trabalhar neste livro. E organizei um concerto de homenagem com as bandas que ele adorava, e uma fundação.

Quero que a sua memória viva eternamente. Quero que as pessoas se lembrem dele, que o conheçam, que o amem, que saibam a importância que teve para mim, o quanto eu o amava, o quanto ele me amava, o quanto todos nos amávamos. Quero que elas conheçam a pessoa extraordinária que ele era, o quanto ria, a alegria que nos trazia, o talento que tinha, como era brilhante e carinhoso. Será que isso preencherá a falta? Duvido. Acho que nunca preencherá. Haverá um buraco no meu coração para sempre, como um donut. Os anos que eu lhe dei, com tanta paixão e energia, eram dele, e levou-os consigo. Não há nada que possa ou alguma vez venha a substituí-los.

Tenho mais oito filhos maravilhosos para amar e cuidar, e para me fazerem companhia, cada um deles tão infinitamente precioso como Nick. A minha vida pertence-lhes agora, como sempre pertenceu. E sei, ou pelo menos espero, que com o tempo venhamos a rir outra vez, a viver de novo. Tenho esperança de que venham a acontecer-nos coisas maravilhosas, e, quando elas acontecerem, sei que vou querer contar isso a Nick, e terei mais saudades dele do que nunca. É um ciclo de saudades por ele que não será facilmente quebrado. Nick tornou-se não só meu filho, mas também o meu melhor amigo. A sua vida não foi apenas uma luz radiosa para todos nós, mas um símbolo de amor e esperança para todos aqueles que o amaram e para todos aqueles que o conheceram.

O seu quarto ainda está intacto. Tenho-o arrumado como se ele viesse para casa outra vez. Não suporto a ideia de o desmanchar, ou de me desfazer das suas coisas, embora talvez um dia o façamos. Mas prefiro pensar que ele estará ali para sempre. Não fui visitar a sua pequena casa em casa de Julie. Seria um sofrimento extremo, pelo menos por agora. Irei lá na devida altura. Tal como faço aqui, Julie arruma-a e senta-se lá calmamente às vezes. É a casa, o quarto, o lugar onde morreu. Uma lembrança e uma visão que não consigo suportar. Alguém disse numa das cartas de condolências que um dia pensaremos nele como alguém que viveu, não como alguém que morreu. E gosto disso. Ele teve uma vida boa, árdua, com um amor, uma paixão e uma emoção infinitos. A vida para ele era um longo concerto, cheio de saltos, barulho, luzes e música. É isso que Nick foi e que continuará a ser.

Para todos os que cá ficámos, lembramo-nos, pensamos nele, falamos dele, cada vez com mais alegria à medida que o tempo for passando. Há histórias intermináveis dele. E sem ele, agora, alguns dias são melhores do que outros. É difícil acreditar que ele partiu. Às vezes, por instantes, ainda me esqueço, ou quero esquecer. Outros sonham com ele e pensam que o vêem. Eu sempre tive a sensação de o ter perto de mim. Não tenho experiência com estas coisas, e não consigo afirmar se ele está efectivamente perto, a ver-me, ou se é apenas o forte desejo de o ver. Gostaria de pensar que ele consegue ver-nos, que está de facto perto, e que agora está em paz. Espero, sobretudo, que ele esteja feliz. Ele merece, como nós todos.

Isto tem sido infinitamente difícil para nós, mais difícil ainda descobrir uma bênção nisto, uma dádiva, uma vitória; porém, elas estão lá, se estivermos dispostos a vê-las. A sua vida acabou por ser uma vitória, ele conseguiu tanta coisa em tão pouco tempo, e foi uma dádiva para tantos. Deu-nos muita coisa. Deu tudo o que tinha.

De alguma forma, a maior dádiva de Nick para mim era a de me dar forças. Ao perdê-lo, tive de encarar os meus piores receios e o meu maior demónio. Era a perda que eu receava mais em toda a minha vida, e que Nick me fez encarar com a coragem que ele sempre esperava de mim. Ele não me deu outra hipótese que não a de viver com a sua decisão, o risco que correu, a escolha que fez, e aceitá-la. Ainda a combato às vezes, e nos dias maus, choro por não conseguir. Mas consigo, tenho de conseguir, tal como ele. Não posso escapar ao sofrimento, nem à perda, nem às lembranças, nem ao facto de ter saudades insuportáveis dele às vezes. Tenho de aprender a viver com isso, e tornar as nossas vidas não só boas, mas perfeitas de novo.

A alegria voltará outra vez, e tem vindo de várias formas, com o tempo, e através das pessoas que amamos e que nos amam, e das crianças. Partilharemos novamente ocasiões felizes, e temo-nos uns aos outros. Estamos a começar a rir de novo, e vejo as crianças a sorrir. E os Campbell terão novo bebé um ano depois de Nick morrer. A esperança tem chegado a cada um de nós, de diferentes maneiras, como as dádivas finais de Nick. A Primavera virá, e muitos Verões, e haverá férias sem ele, e então recordaremos com clareza quando ele estava connosco. Mas as recordações persistem, o doce perfume de tudo o que ele trouxe. Ele deixou a cada um de nós algo, um presente, um sonho, uma recordação, um pouco mais de coragem do que tínhamos antes, um sonho maior que poderíamos ter tido sem ele.

A vida é acerca de sonhos, esperanças e coragem. A coragem para continuar, mesmo depois de aqueles que amamos nos terem deixado. E nos nossos corações, Nick não morreu. Ele continua a dançar, tão radiante como sempre, a sorrir, a rir, a cantar. Uma estrela-cadente que guardaremos como um tesouro e que recordaremos para sempre. Ele deu-me alegria suficiente para dez vidas. Essa nunca irá abandonar-me.

Amo-te, Nick. Obrigada, e que Deus te abençoe. Voltaremos a encontrar-nos um dia.

Não desistas

Quando acho que já não consigo Que fiquei desapontado demasiadas vezes Um da minha banda põe o braço à minha volta e diz que se eu não desistir, então sentir-me-ei bem. Às vezes na vida, tenho-me saído tão bem Passo algum tempo no topo. Também já estive de rastos Desmoralizado e destroçado. É assim que as coisas são. Nunca se pode esperar mais, Metade do tempo estás a ganhar, E o resto estás no chão. Este mundo está tão cheio de beleza como está de ódio, É assim que as coisas são, Algumas coisas nunca mudarão. Centra-te no positivo, e usa a cabeça. Nunca desistas, e sentir-te-ás bem. Alguns gostam de drogas, e alguns gostam de lutar. A negatividade inspirou algures todas as noites. Tens de dar exemplos para os fracos de espírito. Não pares de espalhar o saber até ao fim da vida. Tantas pessoas odiosas, muitas são loucas. Podes ter de pagar um tributo por isso, quando a vida fica reorganizada. E o facto provado de que consegues o que dás, e podes chocar no modo como a tua vida é vivida.

Nick Traina

 

                                                                                            Danielle Stel

 

 

                      

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