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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O BURRICO LÚCIO / Léo Vaz
O BURRICO LÚCIO / Léo Vaz

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O BURRICO LÚCIO

 

IMAGINE-SE um Anatole France que vivesse num dos primeiros séculos da presente era, com a mente igualmente recheada de toda cultura, científica, filosófica e literária do tempo; de juízo crítico acerado e malicioso; de índole humorística e risonha, a que não escapasse nenhum ridículo dos homens e das suas instituições e superstições; e ainda de um espírito desabusado e irreverente, que encarasse os sistemas religiosos e filosóficos como outros tantos sintomas da perplexidade do homem diante do universo e de si mesmo; e que, divertindo-se imensamente com tudo isso, buscasse divertir ou advertir também aos outros; — e ter-se-á provavelmente uma aproximada idéia de Luciano.

Samosata, capital da província de Comagena, na Síria helenística, então recentemente incorporada ao Império Romano, foi onde nasceu esse tardio rebento do gênio e da cultura da velha Grécia.

De pais pobres, e tão obscuros que sequer os nomes se lhes conhecem, assim que rematou seus primários estudos viu-se o pequeno Luciano metido na tenda de um escultor, seu tio, a fim de aprender dele o mesmo ofício. Aí a sua carreira começou mal: a primeira coisa que fez foi quebrar uma placa de mármore que o parente o encarregara de polir; e como seqüência de semelhante estréia, recebeu do tio uma surra mestra, que para sempre lhe esfriou o entusiasmo que acaso tivesse pela escultura. E foi em soluços e com o traseiro a arder das correadas, que o rapazinho voltou a casa e foi contar tudo à mamãe.

Esta, que pelo feito bem merece a simpatia de quantos, em criança, já se viram em tais assados, consolou-o com toda ternura, encartou nos xingos e nas pragas que o filho lhe endereçava ao irmão, e persuadiu ao marido que não mais mandasse o menino a semelhante escola. Excelente, amável e admirável criatura!

E eis aí como, deixando o escopro e o camartelo, de tão desastrado agouro, ficou Luciano livre e desimpedido para dedicar-se à carreira que realmente o cativava, que era a das letras e da filosofia. E como eram alicerce de tal currículo a retórica e a dialética, logo entrou ele a pleitar, com auspicioso êxito, nos tribunais, para isso fixando-se, ao que parece, na então florescente Antioquia.

Mas a profissão de advogado não era o seu ideal. As chicanas, as tricas, as mentiras, a impudência, os berros, as lutas, as trapaças, a que recorriam normalmente os seus colegas, logo o enojaram; e ele deixou o foro e pôs-se a correr mundo. Adotando a prática dos sofistas, muito em voga ainda em sua época, começou a viajar, dando aqui e ali improvisadas conferências, que pela graça, finura e originalidade, logo lhe atraíram numerosa e generosa audiência.

Poderá, à primeira vista, causar admiração que já naquele tempo andassem oradores, ou conferencistas, de cidade em cidade, dando tais recitas. Mas atentando-se a que outro meio mais fácil não havia, de comunicação do pensamento, senão pela palavra oral, ver-se-á que isso devia ser uma prática naturalíssima: o livro, veículo da palavra escrita, então penosamente manuscrito em custoso pergaminho, constituía por isso mesmo verdadeiro objeto de luxo, raro e caro, que dificilmente podia chegar às mãos de qualquer um; de sorte que as turbas gregas, ou helenizadas, onde quer que soubessem de um orador capaz de as entreter com arte, subtileza, ou novidade, a ele corriam, afinadas e escorvadas por mais de cinco séculos de intenso treino cultural.

Ora, todos os dotes capazes de seduzir e cativar tão arguto e traquejado auditório encontravam-se excepcionalmente reunidos em Luciano. Os escritos que dele nos chegaram através de quase dois mil anos de avanços, recuos, paradas, desvios e extravios na marcha da civilização, e de mudanças, alterações, perversões e obliterações no gosto e no critério das apreciações estéticas, têm ainda hoje tal sabor e frescura, e causam um tal deleite intelectual, que não admira que a divulgação deles, pela boca do autor, perante auditórios da Grécia, de Roma, da Macedônia, da Anatólia, das Gálias, de Alexandria, e outras partes, proporcionasse a Luciano a grande fortuna, e maior fama, que a seu respeito a História consigna.

E que nunca foi confundido com os sofistas vulgares, sem talento e sem caráter, que vagamundeavam por todos os quadrantes do Império, provam-no as amizades ilustres que mereceu, entre as quais a de Marco Aurélio, que o presenteou com honrosa prebenda na administração do Egito, em que ele veio a morrer, em avançada idade, rodeado do respeito e da admiração dos contemporâneos.

Da obra de Luciano, autênticas ou a ele veementemente atribuídas, constam escritos de vários gêneros: contos, novelas, tratados (que se chamariam, hoje, ensaios) paródias, sátiras, a maior parte em forma de diálogos à maneira e no estilo dos de Platão. Em todos sente o leitor a mesma veia cômica, a mesma graça, a mesma ironia, o mesmo senso da medida e das proporções, a mesma independência de espírito, e, no dizer dos entendidos, a mesma simplicidade e pureza de estilo, que os realçam ao nível dos do fundador da Academia.

Muitos deles foram, em várias épocas, tomados por modelo por outros autores, de maior ou menor renome, como Rabelais, Cervantes, Cyrano de Bergerac, Boccacio, Swift, etc. E nos primeiros séculos do Cristianismo não hesitaram os padres e doutores da Igreja em servir-se das sátiras do samosatense aos deuses e lendas da mitologia, para minar com elas os alicerces, ainda renitentes, do Paganismo.

 

A novela "Lúcio, ou o Asno", cuja autoria alguns críticos negam seja de Luciano, mas a maioria lhe atribui com mui persuasivos argumentos, não será, evidentemente, de sua original inventiva. Trata-se de uma velha história que, como os "contos milesianos", corria de boca em boca, e que muitos autores não se dedignaram de tomar como tema de uma narrativa própria, vestindo-a com o estilo peculiar de cada um, e dando-lhe esta ou aquela intenção, segundo o seu temperamento ou doutrina.

Assim, consta que uma versão muito vizinha da de Luciano se deve a certo Lúcio de Patras, escritor e poeta pouco anterior ao samosatense; mas bem mais conhecida é a que corre sob o nome de "Asno de Ouro", do seu contemporâneo Apuleio, que se serviu do reconto para fins doutrinários e apologéticos, como platonizante sacerdote e apóstolo, por sinal que bem cacetinho, que era.

É portanto muito verossímil que também Luciano dela se aproveitasse, contando-a a seu modo, pois o "Asno" que lhe é atribuído conserva, mesmo através de traduções em línguas modernas, todo característico sabor das produções indiscutidamente lucianescas.

Na feitura da presente adaptação do "Burrico Lúcio", serviu de texto a reputada tradução francesa que consta das "Obras completas de Luciano", de Eugène Talbot, cuja "Introdução" também principalmente serviu para a redação desta notícia.

 

UMA SURPRESA

ATÉ por volta dos dezessete anos eu sempre residira com a família em Patras, onde éramos gente influente e respeitada. Nem pensava que jamais houvesse de deixar essa boa terra, quando um belo dia meu pai me chamou e disse:

— Lúcio, escolha o cavalo que prefere, avise o Milon, que o acompanhará na viagem, e preparem-se para partir amanhã cedo para Hipata... Se não for alguém cobrá-lo pessoalmente, aquele malandro do Hiparco não me paga o que deve...

E foi assim que certa madrugada, com os alforges bem providos de roupas e comidas, eu e o criado Milon saímos da Acaia para a Tessália.

Para quem, como eu, nunca andara mais de cem estádios longe de casa, tal viagem parecia uma verdadeira aventura: enfim eu ia correr mundo, com criado e cavalos por minha conta e risco, guiando-me pela minha própria cabeça, como gente grande...

E mal sabia que de fato ia ao encontro das mais extraordinárias e estranhas aventuras que alguém tenha passado nesta vida.


PRIMEIRA VIAGEM

CAMINHAMOS vários dias, pousando em estalagens, ou, quando não encontrávamos nenhuma por perto, deitando-nos nos arreios, à beira da estrada, sob a luz amiga das estrelas. Até que afinal, ao nos aproximar da cidade que buscávamos, fomos, certa tarde, alcançados por outros viajantes que para ali também rumavam. E como dissessem que eram moradores dali mesmo, perguntei se conheciam por acaso um tal Hiparco, com quem, a mandado de meu pai, vinha eu tratar certo negócio.

— Hiparco? — disse um deles, voltando-se para os companheiros. — Ora vejam vocês que pergunta! Haverá em Hipata quem não conheça semelhante bisca? Se o conheço!... È um sujeito riquíssimo, mas tão avarento, que podendo morar num palácio, com cinqüenta escravos e um ecônomo, vive, com a mulher, e uma única servente, numa das casas mais modestas da cidade. Aí passa os dias e grande parte das noites a contar e recontar o seu dinheiro e a vigiar o esconderijo dele, de medo que o furtem...

Nisso íamos entrando na cidade; e logo o mesmo viajante que me informara, mostrando-me um sobradinho velho e desleixado, acrescentou:

— É aí que mora o tal que vocês procuram. Sejam felizes, e até outra vista!...

— Muito obrigado! — disse eu. — E que Hermes lhes seja propício...

Um dos viajantes, porém, deixando que os outros se afastassem, chegou junto de mim e falou baixinho:

— Olhe, rapaz, muito cuidado com a gente que mora nessa casa! O velho é exatamente como disse o meu amigo: um usurário que prefere morrer a separar-se de uma dracma. Mas a mulher ainda é pior: é uma feiticeira conhecida, a cujas artes e malícias pouca gente escapa. Portanto, toda cautela é pouca!

Assim nos despedimos; e logo me encaminhei à casa indicada, a cuja porta apeamos e batemos. Uma criadinha, por sinal que bem bonita, veio abrir, e perguntou quem éramos e o que queríamos. Disse-lhe que era Lúcio, filho de Demétrio, de Patras, de quem trazia recado para o patrão acerca de umas contas.

A moça fechou de novo a porta, dizendo que ia avisar o velho. Pouco depois torna a abrir e convida-nos a entrar, que o patrão está ansioso por me ver.


HIPARCO E SUA MULHER

ENTRAMOS. E enquanto Milon levava os animais à estrebaria, subi atrás da criada ao primeiro andar, onde logo me achei diante de um velhote, de ar simpático e acolhedor, reclinado num diva, juntamente com a mulher. Era a hora da merenda, e diante deles havia uma mesa muito bem sortida, mostrando que a refeição fora fina e farta, ao contrário das informações que momentos antes me haviam dado.

A única coisa, porém, que em parte abonava a má-língua dos informantes, era o jeito da mulher de Hiparco: magra, encolhida, de cabelos ralos, duros e escorridos, olhos pequeninos e fugidios, ladeando um narigão recurvo e agudo que nem bico de coruja, a tal criatura dava a impressão de ser mesmo uma bruxa das mais autênticas e perigosas deste mundo.

Mas o velho não me deu tempo para mais demorado exame: limpando os lábios e os bigodes nas costas da mão, assim que me viu começou a declamar:

— Salve, ó mais ditoso de todos os jovens, tu que tens por pai o ilustre Demétrio, o melhor dos gregos, excelente amigo, que nunca saiu do meu coração e a quem sou grato por me haver enviado o filho amado, cuja luminosa presença traz honra e lustre a esta minha modesta mas honrada choupana...!

E durante largo tempo continuou na mesma arenga, dando-me a entender que bem sabia por que viera eu ali, a mandado de meu pai. Que ficasse porém sossegado, que depois de descansar alguns dias, como seu hóspede querido, havia de regressar com a minha missão cabalmente cumprida. Havia muito — dizia ele — aguardava ensejo de remeter a Patras os siclos que a meu pai devia; mas não confiando em quaisquer mensageiros, tinha vindo protelando o envio muito contra o seu desejo e costume. Que mandaria sacrificar um cabrito a Apoio, por ter procedido assim, porquanto daí resultará o ficar conhecendo tão digno herdeiro de seu velho e dileto amigo, cuja presença naquela mísera choupana, etc. etc. etc.

Durante todo esse discurso eu não tirara os olhos da mesa, pois com o tardio da hora e a fadiga da viagem, estava, como se costuma dizer, com o estômago nas costas. Até que o velhote, não podendo disfarçar por mais tempo, disse a Palestra, a criadinha, que me chegasse um sofá; e acenando que me recostasse, convidou-me a jantar.

Matada a fome, a mesma Palestra arrecadou a minha bagagem e conduziu-me à alcova do sótão, que no dizer de Hiparco era o quarto melhor da casa e por isso reservado aos hóspedes mais dignos. Quanto ao pagem, que o encaminhasse a uma estalagem da vizinhança, com a recomendação de que o tratassem como se fora da sua própria casa. E desejando-me uma boa-noite, pediu licença para recolher-se, com a mulher, aos seus próprios aposentos.


CONJETURAS

A SÓS no sótão, enquanto me despia e lavava para a dormida, não pude deixar de dizer comigo mesmo: — A mulher talvez seja tudo quanto dizem: não tem cara de boa coisa; durante todo o tempo que estive na sala não abriu o bico de suindara e não fez mais do que devorar-me com os olhos, como se eu fosse um apetitoso pardal. Mas o homem não me parece assim tão mau como o pintam... Tão amável, tão pródigo de elogios e de cortesias! Ou será tudo plano para me engambelar, pois decerto não pretende devolver a meu pai um único óbolo da dívida...

Fosse lá o que fosse, a verdade é que eu estava muito contente com a situação; porque além de ser a primeira vez que andava sozinho por terras distantes, como um verdadeiro homem, sempre tivera o mais vivo desejo de ver de perto aquela província, famosa não só pelos seus queijos, como pelos seus bruxos e feiticeiros, cujas façanhas e poderes ocultos eram comentados e temidos nos mais remotos recantos de toda a Grécia. E eis que por um acaso singular viera eu cair justamente no ninho de uma bruxa! Ali, com jeito, discrição e tato, por certo teria ocasião de ver coisas mirabolantes, para contar aos meus embasbacados conterrâneos, quando voltasse.

Com esses pensamentos estirei-me no leito e imediatamente dormi como uma pedra.


ENCONTRO INESPERADO

AO dia seguinte, muito cedo, pulei da cama, vesti-me, e saí a dar um giro e assuntar a cidade.

Sempre preocupado com a idéia de conhecer um feiticeiro ou taumaturgo, que me fizesse presenciar a alguma das muitas maravilhas que a fama lhes atribui, umas de arrepiar o cabelo, outras de derrubar o queixo, lá fui perambulando à toa, pelas praças de Hipata, a mirar uma coisa e outra, como todo basbaque que pela primeira vez visita terra estranha.

Vagueia daqui, vagueia dali, eis senão quando sou abordado por um escravo, que me diz, de um jeito seu tanto ou quanto misterioso:

— Senhor, se é Lúcio, filho de Demétrio, de Patras, minha dona pede-lhe que vá falar com ela assim que possa.

Surpreendido com o caso, pois me supunha absolutamente desconhecido em cidade tão remota, olhei para uma liteira que estava parada a poucos passos, na rua, e nela vi uma mulher, que parecia ainda jovem e amistosamente me sorria. Devia ser pessoa de elevada posição, e de não menos altas posses, pois além de quatro escravos que levavam aos ombros o palanquim, vinha acompanhada de outros, de ambos os sexos, uns abrindo caminho, adiante, outros guardando a retaguarda, e duas rente a liteira, de um e outro lado.

Aproximei-me, e antes que pudesse abrir a boca, a simpática senhora foi dizendo:

— Vejo que não me enganei: é mesmo o meu sobrinho Lúcio...

E diante do meu ar espantado:

— É isso mesmo: eu, Andrômaca, e Clóris, tua mãe, somos primas, em grau distante é certo; mas queremo-nos como irmãs. Há muito que não nos vemos, mas a tua fisionomia não me deixou dúvida: tens os mesmos traços, os mesmos olhos, a mesma boca que ela; não havia engano possível.. . Mas que bons ventos te trouxeram a Hipata? Onde é que estás hospedado? Por que tua mãe não te encaminhou para minha casa? Decerto não sabe que resido aqui... Mas diz-me onde apeas-te, que eu lá mando buscar a bagagem...

Agradeci, como era meu dever, todos aqueles oferecimentos, que tinham bem a marca de sinceros e espontâneos; manifestei minha satisfação em encontrar e travar relações com tão boa tia, a quem minha mãe sempre se referia com afeto e bondade; mas fiz-lhe ver que, tendo sido tão bem acolhido por Hiparco, não convinha fosse procurar outra hospedagem, com o que ele bem podia melindrar-se. Prometi porém fazer-lhe visitas freqüentes. Que se soubesse que tinha na cidade uma tia tão bonita e simpática, decerto não teria ido bater a outra porta.


UMA TIA LINDA, POR UMA FEIA BRUXA

TUDO o que dissera era, no fundo, verdadeiro; mas o que eu não queria, de fato, era deixar o ninho da bruxa, onde esperava poder assistir a alguma sessão de alta feitiçaria, o que nem por sombras poderia esperar que acontecesse na casa de tia Andrômaca.

— Tem razão — concordou ela, afinal. — Faz pouco tempo que vim residir aqui, e ainda não tive meio de avisar disso tua mãe... Mas como é mesmo a tua história: então estás aboletado em casa de Hiparco, o usurário?

— Estou, a negócios de meu pai... Mas por que todo mundo aqui se espanta de semelhante hospedagem? Será a primeira vez que ele recebe alguém?...

— É que... ele propriamente, não será tão ruim como dizem: é um agiota que arranca o couro e o cabelo de quem lhe cai nas unhas; mas gosta da boa vida, e consta que em sua casa come do bom e do melhor, embora sejam festins solitários, sem convivas, nem músicos, nem flores, nem dançarinas. Pelo menos é o que ouço dizer... Mas a mulher é que é o perigo! Jovem, belo e simpático como és, se ela se lembra de se enamorar de ti, estás perdido! Não há moços que escapem de seus truques e artimanhas. E quando não correspondem aos seus agrados, a velha coroca dizem que fica uma fera, e em três tempos dá com o coitado na terra dos pés juntos. É o que tenho ouvido dizer...

Despedi-me da boa tia, ponderando que talvez fossem mais as vozes do que as nozes. Em todo caso, estivesse descansada: eu teria todo cuidado, e ao primeiro sinal de perigo da parte da horrível hospedeira, correria a pedir-lhe o seu conselho.

A verdade é que a informação de tia Andrômaca deixara-me contentíssimo. Pois eu, que daria tudo por ver uma feiticeira de perto e assistir a uma bruxaria em regra, com todos ff e rr, via-me exatamente de portas adentro com uma delas, e das mais pintadas! Se era mesmo verdade o que diziam, seria apenas uma questão de tempo para poder satisfazer a minha velha e cada vez mais aguda curiosidade.

Mas como podia eu me arranjar para apanhar uma velha feiticeira em flagrante?... Nisso vem-me à mente uma idéia luminosa: Palestra! Seria ela quem me iria proporcionar o desejado espetáculo.

Então decidi começar a namorar, imediatamente a bela criadinha, pois ela deveria estar a par de todos os tenebrosos segredos da patroa. E no primeiro bazar que vi, comprei um bracelete, uns brincos, um xale de seda e um pote de cosmético; com o que voltei, quase correndo, a casa.


REVELAÇÕES DE PALESTRA

DURANTE o almoço escutei pachorrentamente as retumbantes e intermináveis tiradas de Hiparco. Era evidente que ele tinha um plano qualquer para ir-me enchendo os ouvidos de conversa mole, até deparar o meio mais cômodo de me devolver ao lar paterno de mãos vazias.

Mas enquanto o velho falava sem descanso nem alívio, pus-me a observar furtivamente a mulher, a ver se descobria algum indício da terrível fama que dela corria na cidade.

Como já observara na véspera, o aspecto exterior, o ar, as feições, o jeito, o modo de olhar, tudo nela era bem esquisito e mesmo impressionante. As mãos pareciam garras de abutre, e os olhos e a bicanca completavam a sua perfeita semelhança com ave de rapina. Encolhida no diva a comer, com gestos bruscos, e uns tiques nervosos nos ombros, mais parecia uma galinha depenada a ciscar no terreiro, que uma criatura humana a alimentar-se.

Mas não passava disso. Todo interesse que na véspera a minha presença parecera despertar-lhe, desvanecera: a velha nem sequer me via; tinha o olhar esquivo e vago, como se seu espírito estivesse a mil léguas dali. Assim, os perigos que tia Andrômaca antevira para a minha mocidade e inexperiência, nada disso parecia existir. Por esse lado, pensava eu, podia estar descansado.

Finda a refeição, cada qual se recolheu ao seu quarto para a sesta do costume. Eu, porém, foi só para fingir: uma vez no sótão, deixei passar o tempo necessário a que o casal de velhos ferrasse a sua soneca, e logo desci outra vez, ficando no limiar da escada, atrás de uma cortina, a observar o que na sala pudesse acontecer.

Não tardou que Palestra aparecesse para remover os restos do almoço, dobrar a toalha, que guardou numa arca, e arrumar os sofás nos seus lugares. E quando ia retirar-se para a cozinha, sai do meu esconderijo e barrei-lhe os passos. Ela deu um gritinho de espanto, mas imediatamente pôs-se a rir, como quem achasse a aparição a coisa mais natural do mundo.

Mostrando-lhe então as prendas que trouxera do bazar, logo vi, pelo brilho dos seus olhos, que elas lhe interessavam vivamente.

— Que acha? — perguntei.

— Lindas! — respondeu ela. — É para a sua namorada, não?

— É para você!

— Para mim?!... Ah! menino, não gosto que caçoem comigo. Por que é que o senhor havia de me fazer um presente desses?...

— Por dois motivos: em primeiro lugar porque é muito bonita e eu estou apaixonado por você; em segundo, porque desejo que você me faça um servicinho.

— E que espécie de serviço será esse?... Se não me vai trazer alguma complicação, estou às ordens; mas...

Os olhos de Palestra não despregavam das jóias que eu lhe pusera numa das mãos, enquanto com a outra ela palpava o xale com que lhe envolvera o pescoço. Era evidente que eu acertara com o caminho que lhe ia direitinho ao coração.

— Qual é o serviço? — insistiu ela, visivelmente interessada no negócio.

— Primeiro, quero que me diga uma coisa: é verdade que sua patroa é feiticeira?

Palestra, que decerto não contava com semelhante pergunta, ficou um momento assustada e confusa, sem responder. Depois, olhando para todos os cantos da sala, a fim de ver se ninguém estaria espiando, chegou bem perto de mim e perguntou, muito baixinho:

— Como é que ficou sabendo disso?

— Ouvi dizer, por aí. Mas então é verdade mesmo?...

— Verdadíssima! — sussurrou ela. — É a maior e pior bruxa de todas estas redondezas.

— E o marido sabe disso?

— Acho que sabe muito bem; mas finge que não. É outro que é bom não confiar nele. É o mais desalmado usurário que existe em toda a Tessália. Por uma jóia de ouro ou prata que lhe traga um necessitado, ele não dá mais que a décima parte do valor; e ainda cobra um juro tão caro, que quase nunca o coitado pode mais resgatar o empenho. Muitos têm ainda que trazer outras coisas para garantir os juros atrasados; e alguns se embrulham de tal modo, que acabam vendidos em leilão, como escravos, para saciar a cobiça desse malvado. Creio mesmo que ele se vale dos feitiços da velha para ainda conseguir clientes. Com a fama que tem...

— Mas, então, a patroa?...

— É bruxa, sim senhor.

— E você já viu alguma das bruxarias que ela faz?

— Se vi! De uma feita, quando o velho andou de viagem durante vários meses, a cada lua cheia ela dava aqui mesmo, nesta sala, um dos seus festins, que o senhor nem queira saber!...

— Como é que era, hein?!

— Imagine!... Ela esperava que eu subisse para o sótão, pois é lá o meu quarto quando não há hóspedes; e a coisa só começava quando ela supunha que eu já estava ferrada no sono. Mas eu, oh!... — e a moça puxou a pálpebra inferior direita, com o indicador — desde os primeiros dias tinha percebido que havia alguma marosca pela casa: era um tal de queimar folhas secas, raízes, óleos; uma defumação da casa inteira com galhos de arruda, de murta, e de outras plantas ainda mais fedorentas, que a gente quase morria sufocada. Mas eu, que não estava com vontade nenhuma de dormir, quando chegava meia-noite pulava da cama, devagarinho, e vinha espreitar detrás da cortina, exatamente como o senhor fez há pouco. E via tudo...

— Mas tudo o que, criatura?

— Espere, rapaz! Que impaciência! O melhor é subirmos ao sótão; lá podemos conversar à vontade.

— Isso!


A MACUMBA

SUBIMOS. E sentados à beira do leito, enquanto eu lhe alisava os cabelos, Palestra continuou contando:

— Primeiro de tudo a velha punha bem no meio da sala um tripé; depois acendia em cima dele um braseiro, que ela arejava com um abano de folhas de lótus; quando as brasas estavam bem acesas, sem fazer mais fumaça, ela ia buscar no quarto uma porção de estojos e de potes, de feitios esquisitos, e dispunha tudo num tamborete, ! perto; depois ia tirando das caixinhas e j dos bocais, ora umas folhas, ora umas j raízes, ora uns pós, pretos, vermelhos ou amarelos, ora uns líquidos também de várias cores; e à medida que ia atirando nas brasas, sucessivamente, cada uma daquelas drogas, e a sala ia se enchendo de uma fumarada espessa e fedida, ela ia rezando umas rezas em língua estranha, creio que egípcia...

— E daí?...

— Daí, quando a sala estava mesmo preta de fumaça, e a fedentina quase me dava vertigem atrás da cortina, a velha começava uma espécie de dança macabra em roda do tripé, com trejeitos horríveis do corpo e carantonhas ainda mais terríveis, tudo entremeado ora de gritos selvagens, ora de gemidos lancinantes, como se alguém lhe estivesse enfiando um longo punhal pela barriga a dentro... Depois parava, e outra vez era a lengalenga da reza, monótona, cadenciada, enigmática, enervante. Não consegui decorar a maior parte dessas orações, mas uma frase me ficou, que volta e meia a velha repetia; era assim: — "Anda, polikanda, sherlokanda, sketimana méia, alep, shatanalep, sherlonka, anda!" — E outra vez, o horrível bailado...

"Depois de mais de uma hora dessa agonia, começavam a ouvir-se, vindos como de todos os cantos da casa: do sótão, do pátio inferior, da cozinha, do quarto da velha, da rua, da horta, de toda parte, uns uivos horrorosos, como se cem cães danados estivessem sendo lentamente estrangulados.

Nessa hora eu quase estragava tudo, pois tremia tanto, no meu cantinho, que os dentes me doíam de tanto baterem uns nos outros, como se eu estivesse com a terça. A velha então erguia os braços para o teto, contorcendo as mãos; revirava os olhos, vermelhos como duas brasas, e numa voz rouca, que dava medo, continuava evocando: "Shatan! Ishtar! Adone! Sherlonka!" e outros nomes, cada qual mais bárbaro, com o que os uivos iam também crescendo e aproximando. Eu estava que nem uma estátua de pedra, no meu canto; um suor frio corria pelo meu corpo como se estivesse saindo de uma tina de banho; e se não fosse a vontade de ver o negócio até o fim, acho que não agüentava e me deixava cair desmaiada no chão.

— Mas, depois?...

— Daí, ouvi um ruído de asas do lado do quintal, e logo pousou no peitoril da janela um bicharoco monstruoso, meio gente, meio águia, meio coruja: uma harpia em carne e osso! O bicho olhou para um lado, olhou para outro, e depois saltou para o

meio da sala, num pulo mole e surdo, sem o menor ruído. Mas assim que tocou o chão não era o mesmo: era uma velha, mais feia, mais esquelética, mais desdentada, mais encardida e horrorosa ainda do que Lâmia...

— Do que quem?...

— Do que Lâmia... Ah! É verdade: Lâmia é como se chama nossa velha, que pelo nome não perca!


A MACUMBA

(continuação)

MAS, como ia dizendo — continuou Palestra — a outra bruxa foi recebida por Lâmia com todas as honras, como se se tratasse da mais nobre princesa:

"— Salve, linda Cassiopéia! Seja bem-vinda neste nosso ninho de amor!..."

"A outra deu uma risada roufenha, engrolada como o grasnar de um corvo, e as duas se abraçaram e deram beijos nas faces uma da outra, como duas pombinhas... Nisso, outra vez o mesmo ruído lá fora; mas desta feita foram duas as harpias que chegaram; e com os mesmos trejeitos e esgares da primeira, saltaram para dentro, virando imediatamente outras tantas megeras repugnantes. Trocaram os mesmos cumprimentos e momices, e depois sentaram-se em tamboretes, formando uma cruz, com o tripé no centro. E as quatro juntas começaram as rezas, os gritos, os gemidos, lançando de vez em quando no braseiro pitadas ou gotas das drogas dos potes e escrínios da nossa velha. Com isso encheu-se de novo a sala de uma densa e negra fumarada, de um cheiro ainda mais intolerável.

"Por fim, quando voltou o ar a clarear um pouco, a patroa foi até um canto da sala, ergueu um ladrilho do chão, e voltou com um cofre de bronze, apertado com as duas mãos, contra o peito, como uma preciosidade. Chegando junto das outras, abriu a caixa e de dentro dela cada uma das bruxas tirou uma pitada de um pó vermelho que nem zarcão, que lançaram, todas ao mesmo tempo, sobre as brasas, recitando uma imprecação numa língua ainda mais bárbara. Subiu então do braseiro, até o teto, uma labareda esverdeada, a cujo clarão os rostos das velhas pareciam quatro caveiras que acabassem de fugir do cemitério. Nesse instante, alguém bateu à porta. — É o patrão, pensei eu, e agora é que vai haver coisa, quando ele der com essas quatro sujeitas em plena função! — Mas não foi nada disso: as velhas tiraram imediatamente do seio uns frascos cheios de óleo, untaram sofregamente o corpo com ele, e virando outra vez harpias, saíram pela mesma janela, voando na escuridão, como um bando de morcegos. Eu corri à janela, e ainda pude ver as quatro sumindo no horizonte. Atrás delas, porém, ia uma coisa preta, um animal estranho, que cabriolava que nem bode, mas era do tamanho pelo menos de um camelo...

— E foi tudo?...

— Nessa noite, foi. Mas eu tenho visto outras coisas...

— Por exemplo?...

— O que já vi mais de uma vez é a patroa transformar-se em vampiro e sair pela janela afora, altas horas da noite.

— E aonde é que ela vai?

— Não sei... Provavelmente vai reunir-se com as outras, na casa de alguma delas. Dizem que quando ninguém vai atrapalhar a sessão, elas atraem com suas rezas e encantamentos, algum belo rapaz, como o senhor; e quando ele chega, põem-se a abraçá-lo e a beijá-lo... Mas a cada beijo que dão arrancam um pedaço de pele e carne, e pela ferida vão chupando o sangue do coitado, até que não fica uma gota sequer nele. Contudo as bruxas não deixam que ele morra no lugar, não: com as suas artes, obrigam o moço a sair e ir andando, de olhos parados e corpo duro, como um boneco. Até que, topando nalgum tropeço pelo caminho, o desgraçado cai, para nunca mais se levantar: está morto!

Eu não estava acreditando em tudo que Palestra ia dizendo: muita coisa devia ser inventiva de sua própria imaginação. Mas como toda gente diz que as bruxas fazem mesmo das suas, e a minha curiosidade tinha aumentado enormemente, perguntei:

— E quando será a próxima vez?

— Não sei... — disse ela. — Mas se amanhã o patrão, como é seu costume, for cear com o único amigo que tem em Hipata, outro usurário igual ou pior do que ele, é quase certo que Lâmia também saia para uma das suas festinhas...

— Pois se você der um jeito para eu assistir à sua transformação em harpia, os anéis, os braceletes, o xale, e outros presentes que ainda pretendo comprar, são seus.

— Não sei... — respondeu Palestra. — Não garanto que possa; mas vou fazer uma forcinha...


LÂMIA TAMBÉM SAI

NO outro dia Hiparco declarou que ia jantar fora, e instou comigo para que fosse com ele:

— Quero apresentar ao meu amigo o jovem, belo, ilustre e nobre hóspede com que a munificência de Zeus Olímpico brindou o meu tugúrio modesto mas honrado...

E lá veio a mesma ladainha de elogios descabelados, em que eu, meu pai, meus parentes, meus conterrâneos de Patras, éramos postos todos nos cornos da lua. Mas debaixo daquele palavreado, que eu já sabia de cor, logo percebi que o convite era só para constar: o homem estava era doido para que eu não aceitasse. Por isso, assim que eu dei a primeira desculpa, dizendo que não conhecia o anfitrião, nem fora por ele convidado, e que preferia ficar repousando aquela tarde em casa, ele logo chamou Palestra e deu-lhe ordem que me levasse a ceia ao sótão. E invocando todos os moradores do Empíreo, para que me proporcionassem uma noite serena e povoada de belos sonhos, como competia a tão glorioso filho da ilustre Patras, etc. etc. etc. etc, retirou-se lépido e lampeiro como quem acabasse de escapar de uma grave ameaça.

E foi exatamente o que também se deu comigo. Livre da prebenda de ir jantar na companhia de dois sovinas, subi ao meu quarto e estirei-me na cama, ansioso por que a noite logo chegasse, e com ela a possibilidade de ver enfim o que tanto desejava.

Logo depois, quando me foi servir a ceia no sótão, conforme a ordem de Hiparco, Palestra avisou-me que estivesse de prontidão, pois assim que acabasse de escurecer de todo ela viria buscar-me para assistir aos tenebrosos bruxedos da patroa.

Com esse aviso as asas do tempo pareceram-me que estavam atacadas de reumatismo: as horas levavam séculos para passar; e a todo momento eu entreabria a porta, a ver se a moça não viria subindo. Pelo pequeno postigo que havia no sótão, à guisa de janela, eu via porém que o sol já descambara atrás dos montes, e que logo seria de uma vez noite fechada. Até que afinal, cansado da minha própria impaciência, caí num cochilo forte, do qual somente acordei ao sentir alguém entrar no quarto.

Era Palestra que enfim chegava. Sem acender a lâmpada, em plena escuridão, tomou-me a mão e foi guiando-me pela escada abaixo, até a sala; e daí, por outros cômodos da casa, até um corredor para o qual dava uma porta do quarto dos patrões.

Por uma frincha de madeira coava-se uma tênue réstia de luz, e eu logo compreendi que dali é que eu devia espiar, se quisesse ver mesmo alguma coisa. Mas primeiro Palestra encostou o rosto à porta, e só depois de certificar-se de que era o momento propício, me fez sinal para que fizesse o mesmo.

Assim, por minha vez, vi o que se ia passando no interior do quarto: a medonha velha estava inteiramente nua, diante de uma lâmpada de três mechas, acesa bem no centro do pavimento. Apurando o ouvido, vi que estava recitando uma daquelas invocações secretas de que tanto me falara a criadinha.

Passados alguns instantes, ela abriu um pequeno escrínio de estanho, dentro do qual havia uma meia dúzia de frascos ordenadamente alinhados em duas fileiras. Então, escandindo as sílabas de uma frase mágica, e a cada uma batendo com o indicador no tampo de um dos frascos, sucessivamente, disse:

— "Alki kataski lix tetrax damnameneus aision!"

Deteve-se no pote que calhara à ultima sílaba, retirou-o do cofre, pô-lo no chão ao lado da lâmpada, e continuou:

— "Bedy zaps chthon plectron Sphinx Knasxbi chlypes phlegmon dropis!!"

Destampando então o frasco, dele derramou na palma da canhota um óleo grosso e cinzento, com o qual começou a untar o corpo, da cabeça aos pés. Sempre engrolando a mesma reza em língua estranha, de vez em quando renovava a provisão de óleo, a fim de não deixar sem unto uma polegada que fosse, da epiderme.

Logo começou a metamorfose: o corpo da velha foi diminuindo, diminuindo, até ficar do tamanho de uma anã; ao mesmo tempo ia-se cobrindo de penas, ao passo que os pés se transformavam em garras de gavião, os olhos e o nariz em bico e óculos de coruja, e finalmente os braços em um par de asas como as de uma imensa galinhola. De sorte que dentro em pouco ela mais parecia um grande e estranho pássaro do que um ente humano, tal o seu horrendo e repulsivo aspecto. Nisso, dando uns grasnados rascantes, de mocho, correu aos pulinhos, em direção à janela, e ruflando as asas e sacudindo as penas, saiu pelo espaço afora, tomando uma direção que, do ponto onde eu me achava, não era possível determinar.


UMA IDÉIA EXTRAVAGANTE

O QUE acabara de ver parecia-me tão extraordinário e incrível, que comecei a beliscar meu próprio rosto, e os braços a fim de verificar se não estaria dormindo e aquilo não passava de um horrível pesadelo. Mas logo Palestra empurrou a porta; e entrando no quarto vimos a lâmpada, que continuava acesa, e o cofre dos mágicos ungüentos que a velha ali deixara.

Então veio-me à cabeça uma idéia extravagante: estava em minhas mãos transformar-me também em pássaro, e ir pelos ares, atrás da velhota, a ver o que ela e as outras estariam fazendo. Que rol de coisas maravilhosas não teria eu, depois, para contar à boa gente de Patras, quando lá voltasse!

Pedi portanto a Palestra que me Ungisse com o conteúdo daqueles frascos, como fizera a bruxa, pois o demônio da curiosidade me dava um desejo louco de tentar a temerária experiência.

A moça não queria de maneira alguma atender-me:

— Não senhor. Nessa coisa eu não me meto: de repente viro bruxa também; e não quero saber de histórias...

— Boba! Quem vai virar ave sou eu. Você não corre risco nenhum. Quando a velha voltar você diz que me viu entrar no quarto dela, e que depois sumi. O resto é cá comigo. . .

E tanto pedi, tanto roguei, tanto insisti que ela acabou por aceder. Além disso na sua cara eu estava vendo que ela sentia uma curiosidade, igual à minha, de experimentar a coisa...

Tomando pois um dos frascos do escrínio, e mandando que me despisse, começou Palestra a untar-me com óleo o corpo todo, enquanto ia recitando uma fórmula mágica, que disse pertencer ao repertório da bruxa:

— Gaudo stazi salphenio casbu gorphus barbas as bulphiro aphrodizontes!

E quando eu já estava bem enlambuzado, desde os pés até a cabeça, começou também a minha muda.


FATAL ENGANO DE PALESTRA

MAS, ai de mim! Em lugar de penas, de asas, de garras e de bico, o que começou a aparecer no meu corpo era coisa muito diferente: um grosso e tosco rabo foi crescendo no fim da minha coluna vertebral, com pêlos ralos e duros, na extremidade; minha cabeça cresceu e alongou-se; minhas orelhas engrossaram e empinaram para cima, cobertas de pêlo rude; meu, dedos e minhas unhas colaram-se umas à. outras, nos pés e nas mãos, transformando-se em perfeitos cascos de cavalgadura; os braços e as pernas igualmente se espessaram e alargaram, cobrindo-se de uma pelagem curta e lisa; assim todo o resto do corpo, tudo foi tomando o feitio de um animal muito conhecido e útil, mas que não prima, segundo a fama, por mui grande inteligência ; e afinal o pescoço também se alongou e encorpou, cobrindo-se na parte superior de uma crina cerrada e áspera, com o que ficou tristemente completa a minha caracterização.

Então, querendo dar um passo para me aproximar de Palestra, a fim de que ela me acudisse, se porventura ainda fosse tempo, perdi o equilíbrio e caí de quatro, no chão, sentindo que essa era a postura natural que daí em diante me cumpria. E achando-me entre a lâmpada e a parede, constatei com horror, pela minha sombra, que no muro se estampava, que me transformara, não em águia, nem sequer em corvo ou abutre, como pretendia, mas num autêntico e lamentabilíssimo jumento!!

Diante disso, tentei censurar amargamente a Palestra seu sórdido procedimento, pois estava certo de que a desavergonhada criadinha trocara, de propósito, os frascos da bruxa, a fim de me pregar aquela peça indigna e humilhante. Eu, que a tratara tão bem, e a presenteara, era então aquela a paga que merecia!.. .

Mas em vez de me saírem da boca essas e outras palavras de magoado ressentimento, o que os meus próprios ouvidos escutaram foi um zurro rouco e triste, que a mim mesmo me cortou o coração. Então, estendendo a beiçorra diante do rosto da rapariga, sacudi vagarosamente a minha asinina cabeça, numa lamentação muda, mas a meu sentir, bastante expressiva.

Palestra, que desde que começara a minha transformação ficara visivelmente confusa e aflita, compreendeu decerto os meus sentimentos; e levando as mãos ao rosto desandou a chorar como uma criança. E entre lágrimas e soluços pôs-se a examinar os frascos do cofre, exclamando em seguida:

— Ah! Desgraçada de mim! Infeliz, desastrada, estúpida, imbecil, idiota, sarambé, tantã!!... Antes nunca tivesse nascido, para não vir agora cometer um erro tão cretino destes! Veja: com a pressa, peguei um frasco errado, e toda nossa desgraça veio daí?... Que calamidade!

De fato, investigando também o escrínio, logo percebi que fora exatamente esse o engano: em vez de tirar o frasco que a velha usara, ela tomara outro, que estava a par dele, mas cujo conteúdo não era de virtude harpiana, mas asnática!

E a rapariga continuava a lamentar-se e a prantear e a berrar como uma bezerra desmamada. Isso me comovia um pouco e desfazia minhas primeiras suspeitas acerca das suas verdadeiras intenções. Mas a verdade é que tais lágrimas e gemidos bem pouco contribuíam para me melhorar a situação: com lágrimas ou sem elas, eu continuava burro, o que como condição zoológica, na minha opinião, deixava assaz a desejar...

De repente, porém, batendo com a palma da mão na testa, a moça exclamou:

— Que dois tontos que nós somos! Não tenha susto, querido: agora é que lembrei o remédio para isto: pétalas de rosas!...

E como eu fizesse com o olhar e as orelhas um ar de interrogação, ela explicou:

— Assim que você comer um punhado de folhas de rosas, imediatamente desaparece o burro e você volta a ser gente, como antes...

Embora a notícia me fosse das mais alvissareiras, não deixei de notar a mudança de tratamento que Palestra adotara; antes de virar burro eu era "o senhor", "meu senhor", etc; agora, de quatro patas e a abanar o rabo, passara a "você", como qualquer lacaio... E confie alguém em mulheres!...

Mas enquanto eu fazia essas reflexões, por sinal que bem fúteis em semelhantes circunstâncias, Palestra prosseguia:

— Tenha um pouco de paciência, portanto, e assim que começar a clarear o dia, corro ao mercado, compro uma boa braçada de rosas, e logo você ficará desemburrado...

E dizendo isso, de lágrimas já secas e certo sorriso malicioso nos lábios, ela começou a passar carinhosamente as mãos pelas minhas orelhas, pelo meu lombo, e pela cola, como quem, no fundo, estivesse achando certa graça na minha jumêntica figura!

Mas mulher é isso mesmo...

 

MINHA PRIMEIRA NOITE DE BURRÓIDE

NÃO havia dúvida: todo meu aspecto exterior, feições, gestos e meneios eram de burrico. E embora no quarto não houvesse nenhum espelho assaz amplo para me ver de corpo inteiro, eu bem sentia, por dentro e por fora do corpo, que a minha pessoa física estava completamente azemolada.

Quanto ao espírito, porém, eu continuava gente: pensava, sentia, olhava, ouvia e entendia, exatamente como o Lúcio de meia hora antes! Só o que não podia era falar: cada vez que tentava fazê-lo, em vez das frases e palavras que pretendia emitir, o que me saía era a fala característica dos burros:

— Hi-han! Hi-han! Hi-han! Hi-han!... Han!... Han!...

No meio dessas e outras tristonhas constatações, Palestra, que afinal recobrara seu habitual bom senso e serenidade, disse, abraçando-me a cabeça e beijando-me o focinho:

— Agora, meu bem, não podemos ficar aqui, todo tempo, neste quarto: quando começar a apontar a aurora, a velha volta, e vendo o que fizemos é muito capaz de armar uma das suas e impedir que você venha a ser outra vez gente. Portanto vou levá-lo lá embaixo, à estrebaria, junto dos outros animais, onde ninguém dará pela sua presença. E quando eu voltar do mercado, tudo entrará enfim nos eixos...

Não pude deixar de reconhecer que o que ela dizia tinha todo cabimento. Ficar ali no quarto da bruxa por mais tempo só nos podia complicar a situação; e eu de complicações já estava regularmente servido... Assim, acompanhando a moça escada abaixo, até o pátio, dirigi-me à estrebaria onde estavam o meu cavalo e o de Mílon, em companhia de outro burro, de verdade, que devia ser a montaria habitual de Hiparco.

Ao verem-me chegar, meus novos colegas pensaram decerto que eu era um concorrente, indesejável, à aveia e ao feno que estavam mastigando; e assim, abaixando as cabeças e sacudindo as ancas, foi com três pares de coices, bem sincronizados, que manifestaram o regozijo que minha vinda lhes causava.

Ante uma recepção tão eloqüente, mas de uma retórica tão diversa da de Hiparco, cautelosamente retirei-me ao canto mais afastado do estábulo, a fim de significar aos novos companheiros que não trazia a mínima tenção de lhes perturbar a merenda. E percebendo decerto tais disposições, os três confrades se aquietaram, deixando-me cavalinamente em paz.

Pus-me então a refletir nas lamentáveis conseqüências da minha leviandade: por ter querido ver bruxedos e feitiçarias, de que não tiraria proveito algum, eis-me ali, transformado em vil animalejo, e como tal exposto ao ataque de algum lobo faminto e atrevido, ou outra e tão carniceira fera, que num instante me reduzisse o canastro a frangalhos, como é péssimo costume delas, sem atender a que toda minha semelhança com quadrúpedes, vivos ou mortos, não passava de mera coincidência!...


UMA DESGRAÇA NUNCA VEM SÔ...

ENTRETANTO mal sabia eu que bem outro era o terrível transe que realmente me aguardava.

Avançada a noite, reinava o mais profundo silêncio na casa, na rua e nas adjacências. O cansaço começava a invadir-me o corpo e o sono a pesar-me nas pálpebras. Então, amontoando com as patas um pouco de feno seco, no meu canto da estrebaria, ali me deitei, todo encolhido, para tirar uma pestana até que Palestra me viesse com as rosas redentoras. As outras cavalgaduras olharam-me com certo ar espantadiço, pois não é costume dos da raça dormir assim deitados; mas eu não liguei para elas e me aconcheguei no canto como se ainda fosse um bebezinho.

Nisso ouve-se um barulho infernal, como se estivessem querendo arrombar a porta da estrebaria, que Palestra tivera a cautela de fechar a dois cadeados, depois que ali me recolhera. E de fato um dos batentes cedeu e caiu para dentro, arrastando na queda todo o resto da cancela.

À fraca luz das estrelas distingui então dois vultos, que entraram na estrebaria e logo passaram o cabresto aos três animais que estavam junto à manjedoura, conduzindo-os imediatamente para o meio do pátio. Voltando em seguida, deram comigo, e então um deles disse:

— Este jumento, deitado assim, deve estar doente; não vale a pena levar conosco um tal trambolho...

— Doente? — redargüiu o outro — Estes bichos são muito malandros, e às vezes fingem de doentes para não trabalhar. Vamos ver...

E vindo para o meu lado, desandou a dar-me tantos pontapés e bordoadas com um grosso bastão que trazia, que eu, para me defender, logo me levantei e assestei-lhe um par de coices capaz de o mandar em três tempos para os quintos de Plutão. Mas o homem devia ser prático em lidar com animais: abaixando o corpo, desviou-se do golpe em tempo, de forma que as minhas duas patas passaram-lhe raspando por cima da cabeça. E com um pulo de lado, quando eu voltei a pousar os pés no chão já ele me estava passando um tento pelo pescoço; e dando uma laçada em torno do focinho, apertava-me com tanta força que eu fiquei imobilizado pela dor.

— Viste que tal o teu doentinho? — disse ele ao companheiro. — Burrico é a pior casta de animais que existe: se não fosse a força que têm, seria melhor matar um por um, até acabar com a raça...

Diante de tais argumentos achei melhor mudar de tática, e documente fui reunir-me no pátio, às outras alimárias.


ENTRE LADRÕES

ALI chegando vi que outros sujeitos estavam carregando os meus cavalos, e o outro burro, com as baixelas e alfaias que tinham trazido da casa. Eram salteadores, que informados decerto da ausência dos donos, tinham vindo saquear a residência do usurário. E pela quantidade de objetos amontoados, pelo número de saquinhos de couro, que continham os ciclos de prata e os talentos de ouro de Hiparco, já amarrados nos lombos das três cavalgaduras, logo vi que a colheita tinha sido das mais ricas.

Quanto a mim, puseram-me também uma cangalha às costas, e nela foram atulhando tudo quanto ainda restava a carregar: trípodes, cofres, candelabros, e outros trastes, tudo de bronze; de maneira que quando terminaram o serviço eu quase não podia me suster nas pernas, tal o peso da carga que me tocara.

Quando afinal se aprontavam para sair à rua, um dos ladrões chegou-se ao que parecia ser o chefe, e perguntou:

— E a moça que ficou lá em cima, amordaçada?...

Compreendi que se tratava de Palestra, e tive um calafrio ao pensar no que teriam feito aqueles bandidos à bela criadinha. Mas o chefe respondeu:

— Que fique onde está: o primeiro decurião que entrar na casa logo a soltará; e ela há de dar-se por muito feliz em ir logo para o poder de outros donos...

Sossegado ao ver que ela apenas fora amordaçada e amarrada, disse mentalmente, um adeus à boa amiga, e voltei a encarar o meu triste destino.

Já porém os bandidos nos iam tangendo para a rua, e ali, montando nos seus próprios ginetes, obrigaram-nos, a chicote e bordoadas, a trotar pela rua acima, até sairmos da cidade.

E assim, por um caminho áspero e pedregoso, fomo-nos distanciando de Hipata, para o lado das montanhas, detrás das quais começava a surgir, como enorme bandeja de prata, o pálido disco da lua cheia. Meus companheiros cavalares iam trotando na frente, como era natural e fácil a criaturas que nunca tinham feito na vida outra coisa. Mas a mim, que pela primeira vez tinha de andar de quatro, e com uma carga pesadíssima no lombo, aquela caminhada era-me um suplício. E só mesmo o pavor das chibatas e dos porretes daqueles desalmados, que me fustigavam sem descanso, é que me animava e dava forças para estugar o passo e acompanhar os outros. Assim mesmo, sentindo os pedregulhos pontiagudos a machucar-me a polpa dos cascos, e sucumbindo ao peso da cangalha sobrecarregada, mais de uma vez tropecei e caí, sempre com uma vaga esperança de que os bandidos, para não se atrasarem na fugida, repartissem parte da minha carga com os outros animais, aliviando-me assim um pouco. Mas os ladrões não concordaram com a minha idéia, e a cada tombo que eu levava obrigavam-me a levantar com uma pancadaria de criar bicho.

Até que, a quedas tantas, o chefe chegou junto de mim e disse.

— Este raio de burrico não presta mesmo para nada; vamos repartir a carga pelos outros animais, e dar logo cabo dele de uma vez: cortem-lhe a goela e atirem o corpo nesse precipício, que para outra coisa não presta um bicho ruim como este.

E já um dos bandidos tirava do cinto uma enorme faca, e com o dedo palpava-lhe o fio e a ponta, pronto para executar a sentença. Eu então, fazendo das tripas coração, ergui-me de relance, e pus-me a trotar com desusado garbo e eficiência.

— Até parece que o bicho entendeu a ordem, chefe: veja só como galopa!

E todos desandaram a rir, à minha custa.

Indignado, eu quis invocar a proteção suprema, e esquecendo que não passava de um pobre asno, exclamei:

— Ó César!...

Mas como o que me saiu dos gorgomilos foi um zurro lamentoso, as gargalhadas dos meus carrascos redobraram.

De sorte que, vendo que tudo me saía às avessas, resolvi resignar-me provisoriamente a curtir, calado e obediente, a minha desgraça.


FUGA MALOGRADA

ATÉ que, começando o dia a clarear, tendo já subido e descido vários morros, e posto regular distância entre o nosso bando e a cidade, chegamos por fim a uma estalagem. Pela recepção que nos fez o dono da bodega logo vi que ele era amigo ou companheiro dos bandidos: acolheu-os com grande alegria, convidou-os a descansar, dizendo que ia mandar preparar um almoço condigno de tais heróis.

Quanto a nós outros, pobres bestas de carga, mandou que o criado nos levasse à estrebaria e nos servisse ração dupla de centeio e cevada, pois logo à primeira vista avaliara o excessivo do peso que vínhamos carregando. Aliviados da carga, meus companheiros logo se espojaram no chão, rolando numa e noutra ilharga, para cocar o couro, onde as correias e retrancas tinham deixado fundas marcas doloridas. Depois do que, chegaram-se à manjedoura e puseram-se a comer com um apetite de fazer inveja a um dalmata. Eu porém, pouco afeito a semelhante cardápio, estava condenado a morrer de fome, apesar de tão abundante comida ao alcance do focinho.

Espreitei então para o terreiro e vi que não havia ali ninguém, pois todo mundo entrara na estalagem, para onde os ladrões tinham levado as canastras, os sacos e as trouxas, toda a fortuna, não pequena, de Hiparco, que havíamos trazido.

Criando coragem, saí para o pátio, e logo avistei, atrás da casa, um cercado, onde havia uma porção de canteiros de legumes e hortaliças, verdes e gotejantes de orvalho, além de uns arbustos que, assim de longe, me pareciam roseiras. Sem pensar em mais nada, dei uma corrida, saltei a cerca, entrei na horta, e pus-me a comer à grande: pepinos, ervilhas, alfaces, couves, repolhos, tudo fui mandando para o bucho, pois fazia doze horas que eu jantara pela última vez, na grandíloqua companhia de Hiparco. As rosas, deixara-as por último, como sobremesa que me havia de restituir à forma humana e libertar-me do jugo daqueles bandidos.

Mas quando, afinal, saciada a fome velha, me dirigi ao roseiral, tive uma decepção: não eram rosas, verdadeiramente, mas uma espécie de louro selvagem, de pétalas ásperas e amargas, que depois de comidas não tiveram nenhum efeito mágico na minha jumental figura; antes transtornaram-me o estômago e quase me fizeram destripar o mico e pôr a perder toda a preciosa comezaina!

Vai daí surgiu o hortelão, que logo viu o estrago que eu fizera em seus canteiros; e avistando-me afinal no fundo do cercado, não teve mais dúvidas acerca de quem seria o culpado. Arrancando então um pau grosso e cheio de nós, que servira de arrimo às ervilhas, investiu para mim e desandou-me às cacetadas, gritando que me havia de matar, para ensinar-me a respeitar a propriedade alheia.

— Toma, desgraçado! — bradava ele enquanto me desancava. — Meu senhor vai-me pôr três dias no ergástulo, por tua causa. Mas enquanto isso os corvos e os abutres estarão banqueteando-se em tua carcaça, miserável!...

Vendo que o que dizia o escravo enfurecido não era apenas promessa fiada, mas que ele parecia disposto mesmo a me acabar com a vida, perdi toda a calma e discernimento e arrumei-lhe uma valente patada nos queixos, que o pobre homem caiu estatelado no chão, como morto. Em seguida voltei ao estábulo, a fim de fazer ali, inocentemente a digestão do almoço que tão violentamente tivera de pagar.

Antes de atingir, porém, a estrebaria, ouvi um berreiro na horta. Era o raio do hortelão que recobrara os sentidos e estava a atroar o mundo como um possesso. Então achei melhor fugir, e em vez de entrar no estábulo, desandei a correr pela estrada, na direção da montanha, disposto a ir procurar noutros sítios uma outra vida, ou destino menos duro.

Mas o danado do escravo continuava a pôr a boca no mundo, dizendo aos que logo surgiram à porta da casa que soltassem contra mim os cães, que eu era um ladrão desavergonhado, que além de lhe dar cabo da horta ainda o quisera assassinar a coices. Imediatamente vi que haviam desatrelado contra mim uma malta de rafeiros, grandes, fortes, dentuços e bravios cães pastores, acostumados a farejar lobos e ursos e a desentocar e imobilizar reses extraviadas. Considerando todas essas desvantagens, adiei para outra e melhor ocasião a fuga, e de cabeça baixa e orelhas murchas voltei à estrebaria. Com isso os cães, aquietados, foram de novo postos nas correntes; mas eu não escapei de uma nova tunda, desta vez pelas mãos do dono da casa, que para vingar as suas couves e o seu escravo, me moeu o corpo a pancadas, deixando-me, por minha vez, mais morto do que vivo.


PROSSEGUE A VIAGEM

PASSARAM-SE alguns dias, durante os quais eu fui descansando da viagem e habituando-me, para não morrer de inanição, a esmoer a aveia e o centeio da manjedoura, em companhia dos outros burros e cavalos, tendo por sobremesa apenas uns molhos de feno, que aos poucos aprendi a mastigar e engolir, como gostosamente faziam os meus pobres companheiros.

Até que certa manhã os ladrões resolveram prosseguir. Separaram então, de propósito, os mais pesados cestos e canastros, que puseram nas minhas costas, deixando para as outras bestas os volumes mais leves, os sacripantas!

E partimos.

Entretanto eu ia indignado com a injusta repartição da carga. E esquecendo a experiência que já tivera, matutava se não seria melhor deixar-me cair no chão e ali ficar, insensível às pancadas, até que os bandidos desanimassem, passassem a carga para o lombo dos parceiros, e me deixassem estendido à beira do caminho, mesmo exposto aos lobos e aos abutres, que não tardariam a farejar-me. Esse projeto me parecia perfeitamente razoável, embora poucos dias antes já o tivesse experimentado, com as mais lamentáveis conseqüências. Ê que os jumentos são os bichos mais teimosos deste mundo, e a minha forma corporal já estava começando, decerto, a influir na inteligência...

Mas justamente enquanto eu ia arquitetando esse plano, parece que algum providencial demônio entendeu de sugerir a mesmíssima idéia ao outro burro. De sorte que antes que eu me resolvesse a levá-lo a prática, ele abateu-se estrondosamente na estrada, a todo o cumprimento do corpo. Imediatamente os ladrões caíram-lhe em cima, às bordoadas, aos chuços e às chicotadas, tentando pô-lo novamente em pé. Tudo foi porém inútil: o coitado parecia insensível e indiferente ao que lhe desse e viesse: pauladas, lambadas, pontapés, cutucões com a ponta das espadas, berros, apóstrofes, xingos e imprecações, a nada ligava ele a mínima importância, continuando ali no chão, estatelado. Os homens agarraram-no então, uns pelas orelhas, outros pelas pernas, outros pelo rabo, e a muito custo o soergueram um bocadinho, do solo; mas assim que o largaram, o burro tornou a cair, como um corpo inanimado e inerte.

Vendo que nada conseguiam, os homens consultaram-se entre si, e afinal resolveram não perder mais tempo com o caso: distribuíram a carga do bicho pelos nossos lombos já superlotados, e arrastando pela cauda o pobre companheiro até a borda de um precipício, aí lhe vararam o peito com uma adaga e o arrojaram despenhadeiro abaixo.

Diante disso, perdi para sempre a idéia de apresentar a mesma comédia àqueles malditos salteadores; e supercarregado como ficara, tratei de acompanhar o trote das outras bestas, até que o céu me proporcionasse outra saída. E se não desanimei completamente, é que sempre me afagava a esperança de encontrar de repente uma roseira, cujas flores me restituíssem afinal ao primitivo aspecto.

 

NA CAVERNA DE ARQUILESTES

ALIÁS, escutando as conversas dos ladrões que iam ao nosso lado, compreendi que nos íamos aproximando do termo da viagem, e que talvez antes do anoitecer chegássemos ao antro em que moravam.

Apertando, pois, o passo, logo à tardinha chegamos a uma esplanada ou terreiro, que havia na encosta da montanha. No extremo dessa clareira, na parede do morro que subia coberto de arbustos e cipós retorcidos, abria-se uma fenda enorme entre duas rochas, formando como que uma porta, por onde podiam entrar, folgadamente, homens, cavalos e burros carregados.

E foi o que fizemos logo todos, homens e animais, uns atrás dos outros. Enfiando-nos assim numa espécie de túnel, ao cabo, de uns dez passos desembocamos numa caverna imensa, que era onde se açoitavam os ladrões, nos intervalos entre as suas sortidas, e onde guardavam o produto das rapinas.

Dentro dessa caverna, ao pé de um fogão feito de pedras toscas, onde ardiam umas grandes toras de lenha, estava uma velha sentada, esperando, enquanto grandes caldeirões, dependurados em correntes cravadas no teto da gruta, pendiam sobre o fogo, cozinhando.

E enquanto os ladrões nos descarregavam e iam arrumando a bagagem aos lados da caverna, Arquilestes, seu chefe, chegou-se à velha e perguntou que é que havia para o jantar.

— Está quase pronto: — disse ela — cabrito guisado, lentilhas com entrecosto de porco, frango assado, ovos cozidos, frutas, passas, azeitonas, vinho...

— Bravo! — disseram os homens. — Esta horrenda velha, quando não está bêbada que nem uma cabra, sabe o seu ofício como ninguém.

Todos se despiram então, e chegando perto de um enorme tacho de cobre que bafejava sobre o fogo, embeberam umas esponjas na água, e assim, à falta de outras termas, lavaram os corpos empoeirados. Perfumaram-se depois com óleos e essências, e por fim vestiram roupa limpa, que a velha fora buscar a uma grande arca embutida na parede da gruta. E deitando-se em pelegos e tapetes ao redor de uma grande laje, começaram logo a comer, com invejável apetite, das iguarias que a desgrenhada cozinheira ia trazendo. Depois acomodando-se junto às paredes do antro, para onde levaram as mesmas peles e almofadas, logo caíram num sono pesado, roncando todos ao mesmo tempo, mas cada qual em tom diverso, de forma que o conjunto resultava numa impagável sinfonia.

Para nós, bichos, havia, na outra extremidade da caverna, uma grande manjedoura, que um dos homens foi encher de cevada, enquanto outro desatava um fardo avantajado, de feno, como regia recompensa aos nossos trabalhos.

Mas eu, assim que percebi que todos, inclusive o chefe e a megera, estavam também roncando, e que a luz do fogão ia quase morrendo, fui farejar furtivamente a laje; e encontrando ainda muitos restos da merenda, tratei de encher a pança com aqueles alimentos, mais de acordo com o meu velho paladar. E só depois de bem comido e melhor bebido é que voltei junto dos outros, para a dormida.

Ao dia seguinte, já bem avançada a manhã, começaram os ladrões a despertar, entrando cada qual a arrumar os seus pertences nos desvãos e recônditos da caverna. Abrindo também eu os olhos, pus-me a estudar a situação, a fim de ver como e quando poderia livrar-me da muar e incômoda personalidade a que o desastrado engano de Palestra me sujeitara.

O antro era de extensão extraordinária; e ouvindo as vozes do capitão e dos outros homens, que não estavam no compartimento em que nos achávamos, percebi que certas frestas da rocha eram como portas ou corredores, que levariam a outras grutas, como se aquilo fosse uma imensa casa subterrânea, onde poderia esconder-se e abrigar-se muito maior número de bandidos do que aquele com o qual eu viera.

Pouco depois um deles veio buscar-nos, e tangendo-nos para a entrada, soltou-nos na esplanada, a fim de respirarmos ao ar livre e lambiscar as ralas ervas que brotavam pelas gretas da penedia. Meus pobres companheiros logo se puseram a pastar; eu de minha parte, ainda bem restaurado com o regabofe da véspera, fingi que ia fazendo outro tanto, mas de fato o que queria era estudar o terreno e procurar alguma ansa de recobrar o meu antigo jeito.

Antes porém que eu tivesse encontrado alguma fila útil, eis que um bando de cavaleiros e bestas de cargas desemboca na clareira, dirigindo-se para a entrada da gruta. Logo começam a descarregar os animais, enquanto Arquilestes, vindo de dentro, os interrogava e cumprimentava, ao ver os ricos despojos que traziam.

Era, evidentemente, outro bando da mesma quadrilha, que voltava de alguma feliz expedição latrocínea. Das cangalhas desciam cofres abarrotados de moedas, vasos de bronze e prata, panos de seda, e roupas finas em quantidade, que foram transportando para o interior da toca.

Depois, fazendo entrar também as cavalgaduras, passaram certo tempo quietos, a fazer, decerto, como os da véspera, as suas abluções.

Mas passada uma meia hora comecei a ouvir risos, vozes, cantorias e imprecações, pelo que deduzi que estariam também a banquetear-se, e que o vinho já devia estar subindo-lhes à cabeça. A algazarra, dentro da caverna, era tão grande, os gritos e as gargalhadas tão altos e repetidos, que aquilo parecia a verdadeira moradia de Trofônio.


A JOVEM RAPTADA

ASSIM passamos todo aquele dia, tosquiando o escasso capim que encontrávamos e bebendo de uma vasca de pedra, onde de tempos em tempos um dos homens vinha encher uma grande ânfora de água. Ao anoitecer fomos recolhidos ao interior da gruta e postos à manjedoura, como se fizera antes. E eu usei o mesmo truque, altas horas da noite, para aproveitar as sobras da ceia e lastrear as tripas com comida de gente.

Enquanto isso, sem nada mais fazer senão comer de noite e espairecer de dia, no terreiro, fui-me refazendo das fadigas, começando a deitar corpo e a engordar, a olhos vistos.

De tal maneira que os próprios ladrões não deixaram de reparar, dizendo um deles, ao passar por mim e batendo-me amigavelmente com a mão na anca:

— Está gostando da boa vida, heim? Mas essa mamata vai acabar...

Inconscientemente arreganhei os beiços, achando graça na simplicidade do homem, que nem por sombras poderia imaginar que eu o entendera. Mas ele, vendo pelo meu focinho e pela expressão dos olhos, que eu estava rindo à sua custa, recuou espantado e foi-se safando, fazendo figas para o meu lado, como se tivesse acordado de algum mau sonho...

Resolvi então ter mais cuidado na conduta, a fim de não despertar a perigosa atenção daquela gente grosseira e supersticiosa: não fossem eles, suspeitando em mim algum caráter infernal, resolver, pelo sim ou pelo não, dar-me cabo do canastro!...

Passado porém algum tempo, um dia, bem cedinho, saíram todos os ladrões para uma das suas. Mas dessa feita só levavam os cavalos em que montavam, deixando no antro a mim e aos outros burros, que não serviam de sela, mas somente como cargueiros. Por isso fiquei logo muito curioso, a conjeturar que espécie de golpe iriam aqueles bandidos praticar, pois era evidente que não saíam para assaltar casas nem fazendas. Qual seria então o objeto da sortida?...

Enquanto cismava nessas coisas, continuava sempre a parafusar no modo de escapolir dali e voltar para o meio de gente mais civilizada. A princípio supus que apenas ficara na caverna a velha, a qual não seria difícil pôr fora de combate mediante um coice bem aplicado. Depois, o resto seria por minha conta e risco...

Mas a minha má sorte dispusera as coisas do outro modo: os ladrões tinham deixado, para nos guardar, um moço, de espada à cinta, à entrada da clareira, como um Cérbero. De sorte que nem eu nem a velha podíamos pôr o nariz meio perto da saída, que não viesse o raio do rapaz para nos obrigar, desembainhando a espada, a retroceder.

Assim, mais uma vez ficavam os meus planos de libertação, adiados!...

Três dias depois lá estavam novamente de regresso os bandidos. Como eu previra, não traziam ouro nem prata, nem prendas de qualquer espécie, como era seu costume. Traziam era uma jovem, muito bonita, e demonstrando boa educação e procedência, que se debatia, chorava e lamentava-se, implorando aos deuses que a devolvessem aos parentes e ao seu noivo bem-amado. Ao chefe dos ladrões dizia que lhe restituísse a liberdade, que por Zeus jurava que o pai lhe daria o resgate que exigisse.

Mas os bandidos não lhe davam ouvidos. Depuseram-na, de pés e mãos atados, sobre um tapete, no mais fundo da caverna, encarregaram a velha de cuidar dela como se fosse a própria filha de Arquilestes. Que os seus parentes já tinham sido avisados, e por isso, se realmente a estimavam, logo mandariam o resgate para sua libertação. Portanto, o melhor era ficar boazinha, e esperar; que nada adiantava chorar nem deblaterar, pois com isso não conseguiria nada, senão ficar menos bonita, de olhos e nariz vermelhos...

Contudo a pobre moça não se consolava, e continuava a chorar e a soluçar tão desesperadamente, que eu também, junto da manjedoura, ensopei a aveia e a cevada dos companheiros com muitas lágrimas amargas.

Por seu lado os ladrões tinham-se posto ao redor da laje; e entregavam-se ao regabofe do costume, comendo, bebendo, cantando e vociferando, como um bando de endemoninhados.

Nisso um esculca veio avisar o chefe de que na manhã seguinte um mercador fenício, riquíssimo, devia passar por certa estrada próxima, levando consigo fabulosa quantidade de dinheiro e pedras preciosas.

 

A TOCAIA

IMEDIATAMENTE todos se levantam e começam a aprontar-se para a expedição. Põem-me cangalhas a mim, e também aos outros burros e cavalos de carga, e em plena noite estão de saída pela montanha abaixo.

Logo alcançávamos a tal estrada que o espia mencionara, e então os ladrões, escondendo os animais atrás de moitas e de rochedos, puseram-se de tocaia para o golpe.

Não tardou em surgir, na volta do caminho, a caravana do tiriense. E quando ela atingiu o ponto onde estavam os bandidos, estes, surgindo de ambos os lados da estrada, caíram em cima dos servos e almocreves do mercador, os quais trataram de defender-se, corajosamente, com as armas que levavam. Mas os outros eram em número muito superior, e assim por mais valentes que fossem os viajantes, em pouco tempo foram vencidos e trucidados, sem escapar um só para ir contar a história. E como, na refrega, tivessem saído mortos ou estropiados alguns dos animais do assaltado, os ladrões transferiram para os nossos lombos os alforjes e canastras pejados de ouro e pedrarias que pudéssemos transportar, deixando o resto em esconderijos, que disfarçaram e marcaram, a fim de o virem arrecadar mais tarde.

E lá fomos para a caverna, outra vez. Eu ia espicaçado pelo chuço do homem que me guiava, pois todos tinham pressa de afastar-se do lugar do assalto. De uma hora para outra — diziam — podia surgir gente, ou mesmo algum destacamento de legionários, os quais seria perigoso enfrentar.

Íamos pois tropicando, ladeira acima, quando uma lasca de pedra, ponteaguda, me penetrou na palma do casco, produzindo-me um ferimento fundo. Comecei então a mancar, na esperança, teimosa e vã de que os ladrões afinal teriam pena de mim e me aliviariam de uma parte da carga. Mas um deles, ao contrário, o mesmo que já uma vez propusera a minha morte, vendo que eu dava mostras de não poder mais caminhar, disse aos camaradas:

— Este burrico não vale a metade da aveia que come. Até quando haveremos de aturar semelhante peste?...

— É mesmo — anuiu um outro. — Devíamos atirá-lo num despenhadeiro, em holocausto a Hermes, nosso padroeiro, pelo bom sucesso das nossas últimas empresas...

A essas palavras todos os que estavam perto se entusiasmaram, e prometeram executar a idéia assim que nos abeirássemos do primeiro precipício. Diante disso, como já me acontecera antes, esqueci a dor e a manqueira, e saí num belo galope, até passar à frente da comitiva, como se me tivessem brotado nas ilhargas as asas do próprio Pégaso. Com o que os bandidos se divertiram enormemente, dando gostosas gargalhadas.

— Esse malandro — disse um deles — não é a primeira vez que compreende o que a gente diz. Um dia destes eu disse uma piada perto dele, e ninguém me tira da cabeça que o maroto entendeu: vocês precisavam ver a cara de riso que ele me fez!...

— É o burro mais velhaco e sem-vergonha que eu tenho visto — acudiu o outro.

— Deve ter aprendido com o antigo dono, que dizem que é o mais completo patife de Hipata...

— Claro! O que não se parece com o dono, é roubado...

— Sim!... Ele se parece com muito companheiro do nosso bando, e foi bem roubadinho, entretanto...

Com essas e outras conversas, sempre a meu respeito, chegamos finalmente aos pagos. Os homens descarregaram os animais, lavaram-se e puseram-se à mesa como sempre, deixando para tarde da noite a busca do resto da fortuna do fenício.

— Desta vez — disse um deles — vamos dar uma folga ao burrinho: estive examinando-lhe os cascos e verifiquei que tem num deles uma ferida feia. Também, para trazer o que lá escondemos, as outras bestas bastam perfeitamente.

Os outros concordaram; não porém sem comentar a súbita piedade do colega ante os meus sofrimentos:

— Bem dizem que quem se parece anda junto: o Pé-Queimado, que é a maior pinta que temos cá no bando, nunca se importou com animal nenhum, por melhor que fosse: não tem inclinação para isso; no entanto, assim que percebeu a malandragem desse burrico, vejam como se interessa: até parece que o bicho é filho dele!...

— É mesmo: até risada diz que o burro dá quando ele lhe conta uma anedota!...

E as gargalhadas recomeçaram, como se a piada fosse o cúmulo do chiste.

Como quer que fosse, eu exultava com a perspectiva de ficar algum tempo sozinho, apenas com a velha e a moça, pois assim talvez viesse a descobrir um jeito de dar o fora naquela detestável companhia.

 

FUJO COM A MOÇA

LOGO que anoiteceu começaram os ladrões a preparar-se para a partida. Arrearam os cavalos de montaria e as bestas de carga, que tinham levado ao terreiro; mas a mim deixaram ficar na caverna, deitado num monte de feno. E quando a noite fechou de vez, lá se foram todos pela estrada abaixo.

Estava escuro quando os bandidos nos deixaram; mas logo a lua surgiu atrás de um morro e a sua luz tudo parecia estar envolto numa poeira prateada. Saí então à esplanada, e pus-me a olhar para as montanhas e os vales que se estendiam a perder de vista.

— Idiota! — pensava eu. — Por que hei de ficar aqui por mais tempo, até que num dia de mau humor algum destes brutamontes me dê cabo da pele e arroje o meu cadáver para pasto das hienas e dos corvos? Coragem, seu Lúcio! A noite já vai alta e a lua é favorável. Os bandidos estão longe. Ê agora ou nunca!

Feitas estas reflexões, decidi tentar o golpe imediatamente.

Deitei pois a correr em direção à estrada; mas o cabo do cabresto, que era comprido e ia-se arrastando pelo chão, desastradamente enfiou-se no vão de duas pedras e ficou preso como se alguém ali o tivesse cuidadosamente amarrado; e todos os meus esforços para desprendê-lo ou arrebentá-lo foram vãos.

De sorte que parecia que uma sina má ainda daquela vez pretendia me embargar os passos! Pois o demônio da velha, assim que ouvira o tropel dos meus cascos no terreiro, saíra também da gruta, a ver o que seria; e percebendo decerto o meu intento, chegou-se onde eu estava e procurou desprender a correia das pedras, certamente para em seguida reconduzir-me à prisão. Mas também ela não o conseguiu, de maneira que ficamos ali os dois: a megera a forcejar na correia, e eu à espera de que ela a desprendesse para dar um repelão com a cabeça e por minha vez arrancar-lhe o tento das mãos.

Ouvindo porém as pragas e palavrões que a velha proferia por não poder desembaraçar o meu cabresto, surgiu também a moça à entrada da caverna; e então a outra gritou-lhe que não ficasse ali como uma pamonha, mas fosse ajudá-lo no que ela estava fazendo.

Ao apreciar porém, a cena, a jovem percebeu num relance que era aquela a oportunidade que os deuses lhe ofereciam para que também se libertasse. Veio pois correndo onde estávamos; mas em vez de ajudar a velha a soltar das pedras a correia, de um salto encarapitou-se nas minhas costas; e segurando-se com uma das mãos à minha crina, com a outra empurrou para a frente a cabeçada do cabresto, passando-ma por cima das orelhas.

Assim me quedei imediatamente solto e livre, enquanto a megera, que previra o truque, procurava como último recurso, agarrar-me e deter-me pelo rabo. Mas eu não tive dúvidas, e com um coice das duas patas juntas logo prostrei a malvada no chão, estatelada, com os queixos em pandarecos e o sangue a escorrer pelos cantos da bocarra.

 

MARCHA A RÉ

NO primeiro instante, vendo a velha a retorcer-se no solo, dando urros de dor e xingando céus e terra, fiquei meio apalermado, sem pensar no que havia de fazer. A moça porém, que não era nada tola, batendo-me com a mão na tábua do pescoço, e incitando-me com os calcanhares, logo me fez compreender que devíamos aproveitar a ocasião sem perda de tempo, e pirar quanto antes.

Então saí num desabalado galope, como se durante toda a minha vida não tivesse feito outra coisa senão puxar quadrigas na arena. Mas olhando para trás, antes de entrar na vereda, vi a velha sentada, bracejando e vociferando em nossa direção, como uma possessa. Mas nós seguimos o caminho, montanha abaixo, passando como um corisco entre arbustos, cardos, barrancos e penedias.

— Vamos, amiguinho — ia-me dizendo a valente jovem, agarrada de unhas e dentes ao meu cangote — se me levas sã e salva até a casa dos meus pais, dar-te-ei o prêmio que bem mereces: ficarás livre como uma andorinha, com bom feno e fartura de cevada, sem nunca mais teres de trabalhar!

Admirado de que a moça agüentasse o meu galope, montada em pêlo, sem freio nem rédeas, eu não diminuía porém a vertigem da carreira, tão ansioso quando ela por livrar-me do cativeiro daqueles bandidos.

E assim fomos avançando, até que atingimos o ponto em que o carreiro da montanha desembocava na estrada. Então sustive a marcha e estaquei, pois não sabia qual dos dois rumos era o que levaria a moça aos seus penates. Ela, porém, parece que estava na mesma dúvida, pois também não se decidia por nenhuma das direções. Eu, impaciente, ia tomar por uma delas, ao acaso, quando na curva do caminho surge um bando de gente armada e acompanhada de alguns cargueiros que iam pela arreata.

Assim que os viu, a moça deu um grito, aterrorizada. E com excelentes motivos: pois ao clarão da lua, eu também incontinenti constatei que a turma não era outra senão a dos odiosos inimigos, que voltavam da excursão com o resto da rapina da véspera.

Logo eles nos rodearam, e passando-me à cabeça outro cabresto, começaram a dirigir chufas à pobre rapariga, sem esquecer de me incluir também na festa:

— Ora, viva! Onde é que vão os dois pombinhos, com tanta pressa? Por que não esperaram que nascesse o dia, para viajarem sem maior perigo?... Não tiveram medo de topar aí pela serra algum licântropo ou vampiro, desses que comem gente?...

E com essas e outras iguais amabilidades, fizeram-me virar de bordo, obrigando-me a retomar o caminho da caverna com a minha bela amazona às costas.

Comecei então a mancar, porque com a galopada o casco machucado se pusera a doer terrivelmente. Mas os ladrões, assim que o notaram, voltaram as suas piadas também comigo:

— Então, agora, mancando, hein?... Mas quando pensavas escapar com a bela ninfa nas costelas, ias lépido e ligeiro como uma lebre!...

E a pancadaria do costume choveu nas minhas ancas, que foi uma barbaridade.

 

HORRÍVEL PROPOSTA

ANTES de romper o dia chegávamos novamente à caverna. E assim que desembocamos no terreiro vimos um corpo magro que balouçava ao vento, pendurado ao galho de um cipreste. Era a velha, que prevendo decerto a raiva dos ladrões, quando voltassem e dessem pela fuga da moça, se enforcara pelas próprias mãos, a fim de evitar outro e pior fim.

Os bandidos gabaram, do seu ponto de vista deles, o brio da velhota; e desatando a corda que a suspendia ao galho, arrastaram o corpo até a beira de uma rocha, e dali, dando-lhe uns balanços, atiraram-no a uma grota funda e cheia de espinhos, lá embaixo.

Então, exasperados com a perda da cozinheira que até então os servira, e para impedir que a moça repetisse outra vez a tentativa de escape, puseram-lhe algemas nos pés, prendendo-a com uma corrente a uma argola embutida na parede da gruta.

E arranjando eles mesmos um magro almoço, enquanto bebiam vastos copázios de vinho, puseram-se a discutir acerca do destino que haviam de dar à prisioneira.

— Os parentes dela — disse em primeiro lugar Arquilestes — não corresponderam ao aviso que lhe mandamos. Nem o resgate veio, nem o nosso companheiro até agora apareceu. É capaz de ter sido aprisionado, se é que não nos atraiçoou, a troco de uma boa propina; e mais dia menos dia é muito homem de surgir por aqui, guiando uma centúria. Tudo isso por causa dessa sujeitinha!

— Isso mesmo — acudiu um outro. — Temos que enterrar o nosso tesouro nalgum lugar distante, e afastar-nos destas bandas por algum tempo. Porque a verdade, como diz o Chefe, é que o nosso emissário não dá sinal de vida, e isso não anuncia nada de bom para nós...

— Está tudo muito claro — disse um terceiro. — E se o resgate não veio até agora, é mais do que tempo de darmos um fim ao raio da moça, causa destes nossos contratempos. Por isso proponho que a lancemos no precipício, no mesmo ponto em que caiu a nossa caseira, de cuja morte também é ela a responsável.

Estavam quase todos os bandidos de acordo com o horrendo projeto, quando um deles, magro, cabeludo, e feio como um fauno velho, achou que devia dar também o seu palpite:

— Nada disso, amigos. Devemos arranjar um castigo que abranja os dois criminosos: a moça, que quis fugir, e o burro, que a quis ajudar. Esse é outro, que só nos tem dado despesas, sem fazer nada que preste. É um mandrião que não merece o que come, e sempre nos está armando baldas. O que temos a fazer, portanto, é degolar o bicho, tirar-lhe o couro, costurar a moça dentro e deixar os dois um dia inteiro ao sol: com o calor o couro irá encolhendo, e ela, sufocada, irá morrendo aos poucos. Deixaremos então a moça na sua casca, no meio do terreiro, até que os lobos e os abutres, no faro da carniça, venham fazer a última limpeza.

Vivos aplausos e aclamações acolheram o odiento discurso do velhote. E ficou resolvido que logo ao dia seguinte se daria execução à sentença.

Com o que, cada qual estendeu no chão o seu pelego ou alcatifa, preparando-se para dormir e antegozando o espetáculo raro que para todos iria proporcionar nosso suplício.

 

RESGATE INESPERADO

NEM se pode imaginar que espécie de noite foi aquela para mim. Não havia mais dúvidas: a terrível Atropos estava já de tesoura em punho, pronta para cortar-me o mofino pavio da existência!

Eu jazia também, perto da moça, amarrado a uma argola da parede por um cabo de couro trançado fortíssimo; além disso, tinha peias nas quatro patas, que me tolhiam qualquer tentativa de locomoção.

E ao ouvir os soluços e suspiros desconsolados da jovem, que escutara os projetos daqueles celerados, mais aumentava a minha aflição, ao ver que o nosso triste fim se aproximava cada vez mais, à medida que avançava a noite. E mais uma vez amaldiçoava Palestra, cuja estultice, ou talvez malícia, me havia posto naquela triste conjuntura, sem me lembrar de que a origem de toda minha desgraça estava na infeliz e párvoa curiosidade com que me metera em altas feitiçarias. — Agora — pensava eu — tenho que morrer miseravelmente; e em vez de ser enterrado junto dos avós, como um homem de bem, num sepulcro decente, eu é que vou servir de sarcófago a esta pobre rapariga, vítima inocente da selvageria destes bandidos! Oh! miséria das misérias!!. ..

Estava eu assim nesses pensamentos, enquanto a corja dos ladrões executava, a dormir, a sinfonia habitual de roncos, resfolegos e assobios, quando um tropel de gente varejou pela caverna adentro. Era uma companhia de soldados, que decerto tinham surpreendido e liquidado as sentinelas dos ladrões no terreiro e à entrada da gruta, antes que eles tivessem tido tempo de dar o alarme.

Uma vez dentro, à luz dos archotes que a chusma de peões levava, foram trucidando um por um os bandidos que encontravam. Estes, tontos de sono e ainda meio bêbedos da orgia que tinham feito à ceia, não chegavam a perceber muito bem o que estava acontecendo: ao erguer-se e cocar os olhos, cegados pela luz das tochas, eram atravessados pelos gládios dos milicianos; e assim, em lugar de uma luta armada contra terríveis bandidos, o que houve foi uma execução a ferro frio, como se todos aqueles facínoras não passassem de uma manada de suínos.

O único que procurou defender-se, de espada em punho, foi Arquilestes, que ouvindo o rumor de soldados, viera da gruta contígua a ver o que havia. Mas por valente que fosse, e decidido a fazer pagar caro a vida, viu-se logo rodeado por tantos adversários, que, encostado ao muro da caverna, nada mais podia fazer senão parar os golpes que todos, quase ao mesmo tempo, lhe desfechavam. Até que um soldado, indo lá fora apanhar uma lança, voltou com ela, e assim, fora do alcance da espada do bandido, atravessou-lhe o ferro pelos peitos, prostrando-o no solo, agonizante.

Enquanto tudo isso se passava, um moço alto, esbelto e bem trajado, que entrara atrás dos soldados, já se acercara do lugar onde nos achávamos, eu e a linda prisioneira; e auxiliado pelos servos, com limas e tenazes procedia à libertação dela, que o abraçava e beijava, banhando-lhe o rosto com lágrimas de comoção. Era por certo o noivo, que tendo peitado o emissário dos ladrões, conseguira afinal das autoridades uma escolta e viera libertar a bem-amada e expurgar toda a região daquela malta de bandidos que havia anos a infestava.

 

RISONHA PERSPECTIVA

POSTA em liberdade a minha companheira, eu também fui desprendido da argola que me retinha, assim como das peias que me travavam as patas. E como a fome me devorava as entranhas, pois após a nossa volta forçada à caverna ninguém se lembrara de me dar comida, aproveitei a desatenção geral, e passando ao recanto que servia de cozinha, ali fui restaurando as forças com os restos que havia no fundo das panelas e caldeirões. Esquadrinhados todos os recônditos da caverna, atrás de algum bandido que porventura houvesse conseguido esconder-se, o centurião da tropa mandou proceder à arrecadação de tudo quando os ladrões tinham ali acumulado, durante anos e anos de assaltos e rapinas. E como começava a clarear o dia, mandou que levassem a rica presa à esplanada para se fazer a distribuição pelos cargueiros que deviam conduzir tudo à cidade.

Desejoso de respirar o ar fresco da madrugada, eu também me encaminhei para o terreiro, onde, esquecendo a minha muar figura, fiquei parado a certa distância, a inspecionar a faina. Mas vendo-me ali todo lampeiro, a lamber os beiços e abanar o rabo, um dos escravos pensou decerto que eu era realmente burro de carga, e passando-me na cabeça um cabresto, logo se aprestou a escanchar-me no lombo uma cangalha.

Nisso a moça, que enlaçada ao noivo também apreciava o serviço, reparou de quem se tratava; e correndo a mim, abraçou-me pelo pescoço, exclamando:

— Não! Por favor! Este burrinho não quero que carregue nada! É meu amigo, meu protegido, e eu lhe prometi que nunca mais ele haveria de trabalhar...

Centurião, noivo, servos e soldados, todos pararam por um momento o trabalho, e olhando uns para os outros, espantados, davam mostras de surpresa e comiseração ante o que viam. — Com certeza a moça perdeu a razão — pensavam eles.

O que não era de admirar, tendo ficado tantos dias longe dos seus, à mercê de um bando de miseráveis que já a haviam condenado à morte, conforme ela mesma a todos informara. O centurião chegou mesmo a pôr a mão no ombro do rapaz, enquanto o indicador da outra apontava à própria fonte, torcendo o punho para um lado e para outro, a significar que a coitada não devia estar muito bem da bola.

Ela porém compreendeu num átimo o que ele estava imaginando, e assim sorrindo para o noivo, explicou:

— Não estou doida, não, senhores. É que ontem, quando os ladrões nos deixaram sozinhos aqui, com uma velha que era a minha carcereira, este pobre jumentinho quase conseguiu que eu fugisse...

E contou-lhes então, tintim por tintim, todos os pormenores da nossa malograda fuga, mostrando por fim o galho do cipreste onde a velha se enforcara.

Então todos começaram a olhar-me com interesse, e o moço disse:

— Bem, se a coisa é essa, não há dúvida: fique o seu protegido descansado: seguirá conosco escoteiro, sem carga nem freio, como você deseja. E chegando a casa, soltá-lo-emos no piquete, para que viva, durma, coma e beba, na mais que merecida aposentadoria.

— Obrigado, meu bem. Mas eu quero pedir outro favor: em lugar de voltar naquele cavalo, que estou vendo ali, destinado especialmente para a minha montaria, quero ir montada no jerico, que tão bem se comportou comigo ontem. Será o último serviço dele, antes de ir descansar...

— Mas, filhinha, então você há de trocar a andadura cômoda e macia de um ótimo cavalo, pelo trote, de um jumento, que não compreende coisa alguma desse seu gesto? Aposto que ele preferia ir à solta, em pêlo, sem peso nenhum no lombo, como baldoso burrico que é.. .

— Qual o quê! — respondeu a jovem. — Aposto que ele está ouvindo e entendendo tudo quanto estamos dizendo. Veja só como abana as orelhas... E a expressão dos seus olhos! Este burrico não é como qualquer um, garanto...

— Pois então seja como você quer — anuiu finalmente o moço.

Assim, terminados os preparativos, e arrojados no despenhadeiro os corpos dos bandidos, cujas armas e cinturões foram devidamente arrecadados, pôs-se a comitiva em marcha, enveredando, atalho abaixo, em demanda da estrada que nos levaria a terra pacífica e civilizada.

Eu ia trotando, prazenteiro, com a bela noivinha às costas; ao passo que o rapaz, para não se apartar dela, ia escarranchado noutro jumento, a seu lado, quase arrastando as sandálias no chão, mas assim mesmo muito divertido com a extravagância.

 

DE VOLTA AO LAR

DEPOIS de um dia e meio de caminho, pelas exclamações de alegria que ia dando a minha gentil amazona, percebi que estávamos chegando. E sem poder sofrear a própria alegria, desandei também a ornear, desabotinadamente.

Já na véspera ali chegara o mensageiro que o noivo mandara adiante, com as novas do feliz sucesso da expedição. Assim, aos meus zurros, os camponeses deixavam o trabalho e corriam à beira da estrada a ver o que significava tão descompassado ruído; e verificando que eram os senhores que chegavam, juntavam-se à comitiva, e entre vivas e aclamações iam-nos acompanhando até a cidade, onde fomos recebidos pelo pretor e todo o demais povo, com as mais ruidosas manifestações de júbilo.

Dentre a turba logo se distinguiu um grupo, que era o pai da moça, cercado dos parentes, filhos, clientes, agregados e escravos, todos delirando de alegria por ver afinal de volta, sã e salva, a senhorita, a quem todos queriam muito. Foi cena que arrancou lágrimas de emoção aos meus olhos de burrico, o ver o velho abraçar a filha, cobrindo-lhe de beijos os cabelos, sem poder pronunciar uma única palavra, tão cerrado era o nó que lhe tolhia a garganta.

Então, para não ficar atrás naquela porfia de alvíssaras e de regozijos, eu avancei para o grupo de pai e filha, e chegando perto, ergui a cabeça, alonguei o focinho, e soltei o mais atroante zurro de jumento que jamais se ouviu no mundo, e de que até hoje os que o ouviram se recordam. Pela primeira vez, porém, a minha oratória surtiu um efeito salutar: achando uma graça infinita naquela minha atroadora intrometência, todos caíram numa imensa gargalhada, retorcendo-se de riso até sentirem lacrimejar os olhos. Com isso dissipou-se um pouco da emoção que a todos trazia suspensos, e pai e filha e todo mundo pôde enfim recobrar a fala, e trocar uns com os outros as suas impressões.

Assim, enquanto o rapaz, o centurião e o pretor, com seus acólitos, iam à Pretória, acompanhados dos soldados e dos cargueiros, a proceder, de acordo com a lei, ao seqüestro do tesouro dos ladrões, a moça, montando-me outra vez, e acompanhada do pai e de toda a família, tomou o rumo da fazenda onde todos residiam.

Ali chegando, não esqueceu a boa rapariga a sua promessa. Recordando os maus momentos e piores aventuras que tínhamos passado e sofrido juntos, ela não admitiu que me sujeitassem a nenhuma espécie de trabalho, por mais leve que fosse. E pondo-me numa estrebaria especial e só para mim, rodeada de um pastinho de capim cheiroso e verdejante, mandava todos os dias encher-me a manjedoura de centeio e de cevada, e de outras forragens, em quantidade suficiente para fazer estourar de gordo qualquer outro paquiderme.

Então mais uma vez lamentei que Palestra, em lugar de me haver transformado em burro, não mo tivesse feito em cão. Estava eu ali, muito bem instalado na vida, se fosse verdadeiramente um burro; mas na realidade sentia-me exilado do convívio dos a quem continuava a considerar meus semelhantes. Enquanto isso, via com inveja uma porção de perros, bem-aventurados, a entrar e a sair livremente pela casa, assistindo a todas as refeições comuns, ou aos festins, e aí enchendo a barriga com toda sorte de quitutes e petisqueiras que os convivas lhes deixavam. Ao passo que eu estava condenado a matar a fome com aqueles grãos crus, duros, sem sal nem molho, nem gosto, e a comer capim sem óleo nem pimenta, o que não dá certamente a melhor salada. E a moça — a quem eu arriscara a carcaça e a vida por salvar dos bandidos — a pensar que o seu amiguinho não poderia desejar mais nada!

E com todos esses inconvenientes, eu bem previa que aquela mesma e relativa felicidade não podia deixar de ter um fim, pois a experiência da vida me ensinara que se não há mal que sempre dure, também não há bem que não se acabe...

Como era de prever, apesar da vagabundagem em que vivia, com a vegetariana dieta a que estava condenado pus-me a emagrecer e definhar a olhos vistos.

Diante disso o fazendeiro, a quem a filha dissera toda a afeição e gratidão que tinha por mim, achou que eu estava sofrendo era de solidão e falta de exercício, pois passara dos mais rudes trabalhos a completa ociosidade. Chamou então um servo e ordenou que me levasse e soltasse na invernada das éguas, que do ponto de vista estritamente cavalino era o mais invejável pasto da fazenda.

— Hão de ver como ali em pouco tempo ele engorda! — disse o bom velho, sem suspeitar que estava era lavrando a minha sentença de morte.

De fato, mal me vi no meio da potrancada, logo senti todos os inconvenientes da nova situação: os garanhões, cuidando que eu tivesse alguma intenção indiscreta quanto às suas caras metades, não me davam um instante de sossego, correndo-me a coices e dentadas, mal me viam aproximar, inocentemente, de alguma égüinha. Assim andava eu o mais do tempo escondido pelas moitas, condenado a viver de capim puro e água, sem ter ao menos a tranqüilidade e paz de espírito que desfrutava antes, na estrebaria.

Decididamente a felicidade neste mundo é uma coisa muito relativa, mesmo para um burro...

 

VOLTAS QUE O MUNDO DÁ

PELO visto estava eu condenado de uma vez a não ter sossego nem ventura na minha asnática existência: fossem bandidos que me escravizassem, ou seres mais benignos, que me quisessem afagar, tudo afinal saía errado e eu me sentia infeliz de qualquer jeito.

Aquela moça, por exemplo, que se me dizia tão grata e amiga, logo depois de chegada à fazenda casara como seu salvador e com ele fora morar a outras terras. No mofino jumento, que um dia arriscara o couro para libertá-la, nunca mais pensou, decerto, enlevada como devia andar, na sua lua-de-mel. Assim, lá fiquei eu, na invernada, esquecido dos deuses e dos homens, e exposto aos coices e às dentadas de mais de meia dúzia de cavalões ciumentos.

Por essas e por outras é que eu digo e repito: — Vá alguém fiar-se em juras e promessas do belo sexo!...

Mas donde menos se espera, daí é que vêm as surpresas. De certo modo foi à cobiça e maldade de um servo, que devo o haver mudado, de repente, de fadário.

Foi o caso que aquele mesmo sujeitinho a quem o fazendeiro incumbira de me levar às éguas, vendo que ninguém me aproveitava em nenhum serviço, resolveu apossar-se de mim em benefício próprio, com a maior sem-cerimônia deste mundo.

Para isso deixou passar algum tempo, até certificar-se de que realmente ninguém mais se lembrava do pobre burrico que viera com a moça. E uma noite foi à invernada, e não tardando a descobrir onde eu me achava, passou-me uma correia nas fuças, e levou-me sorrateiramente à sua casa. Aí, entregou-me a Milótris, sua mulher, dizendo que o patrão me dera a eles de presente, e que portanto tratasse de utilizar meus préstimos como achasse conveniente.

Ouvindo isso a mulher bateu as mãos de contente, e logo no dia seguinte, tirando da atafona do moinho o escravo que ali diariamente trabalhava, atrelou-me em seu lugar, a fim de o aproveitar melhor em outros serviços.

Assim, por prêmio de todos os meus heróicos feitos e façanhas, contra manhosos usurários e facinorosos salteadores, eis-me miseravelmente reduzido ao degradante ofício de mover uma almanjarra, para moer a farinha de um casal de salafrários! Oh! Zeus Ctézios, que tortuosos e inescrutáveis são os decretos da tua justiça!!

Mas como tudo neste mundo tem o seu direito e o seu avesso, dentro em pouco comecei a entrever algumas vantagens na tramóia do desavergonhado servo. É que aos cuidados de Milótris estava a moagem de toda a farinha consumida na fazenda; e como digna esposa de tal marido, ela deixava de entregar ao senhor uma boa parte do produto, com a qual fabricava pães, broas e bolos de mel, que clandestinamente mandava vender ao mercado.

Inteirando-me de tal procedimento, que julguei indigno, indecoroso e desprezível, tratei de tirar partido dele para variar e melhorar de regime, que continuava a constar de feno áspero e alguma aveia mofada e cheia de caruncho, imprestável para outro uso.

Ora, Milótris, não suspeitando que dentro de seu pobre asno morava uma alma humana, que humanamente sentia e raciocinava, costumava deixar em tabuleiros, na casa do moinho, toda a quitanda que tirava do forno, enquanto ia lá dentro tratar de outras providências. Eu aproveitava então a oportunidade, e metendo o dente em tudo quanto me ficava ao alcance do focinho, ia enchendo o bucho com a gostosa comesaina. E quando me remordia a consciência por tal procedimento, eu a adormecia lembrando-lhe certo provérbio que rima ladrão com cem anos de perdão...

Às vezes parece que a mulher, dando por falta de alguns bolos mais vistosos, suspeitava alguma coisa, e me olhava, desconfiada. Mas eu continuava a rodar o moinho, no monótono e desesperante ritmo de sempre, com uma cara tão inexpressiva e triste, que logo a convencia da minha mais que imaculada inocência. E então, não havendo ninguém mais a quem atribuir o desfalque, ela repreendia e castigava o escravo, certa de que não podia ter sido outro o larápio. No que aliás não errava muito, pois mais de uma vez o vi, julgando-se a sós na moenda, avançar na quitanda sem o menor resquício de vergonha, como perfeito patife que era.

 

VIDA DE LENHADOR

O MAIS duro serviço que porém me davam era ir ao cume de um alto e remoto morro, a buscar lenha. O caminho era apenas um trilho entre macegas e rochedos, coberto de cascalho e pedregulho que me maltratavam as patas de maneira horrível.

Calóforo, o rapazola que me conduzia, era a mais rematada encarnação do mal que jamais pisou neste planeta: sua maior e mais constante preocupação era escarafunchar na cachola os mais engenhosos meios de judiar de mim. Montado no meu lombo, por mais que trotasse, e mesmo galopasse, ladeira acima, o pequeno sacripanta não cessava de meter-me o rêlho, dando freqüentemente, com o cabo, bordoadas cruéis e sempre no mesmo sítio da minha pobre anca, do que resultou dolorosa chaga, que as moscas e varejeiras me tornavam ainda mais insuportável. De volta, vinha ele a pé atrás de mim; mas isso não me era nenhum alívio, pois o malvado carregava-me a cangalha com tal quantidade de feixes, que eu quase sucumbia ao excessivo peso dela. E se por acaso, aos trancos do caminho, a carga ficava torta e desequilibrada, ameaçando cair e se esparramar no chão, o desalmado, em lugar de arriá-la e arrumá-la de novo, catava grossas pedras, que acrescentava ao lado mais maneiro, para com esse contrapeso restabelecer o balanço! Assim me impunha o capeta uma carga extra, que somada à primitiva seria suficiente para estafar um elefante. E o pior para mim era saber que boa parte dela era absolutamente inútil!

Mas isso não era tudo: o caminho, no sopé do morro, transpunha alguns córregos; e como não havia pontes, o diabrete, para não molhar as pernas, encarapitava, nesses momentos, na minha garupa, para a travessia; e uma vez na outra margem, fingia-se de distraído e nunca se resolvia a descer dali!

Às vezes, sem nenhuma razão, apenas para divertir-se, o demoninho arrancava à beira do atalho um pé de urtiga e mo amarrava ao rabo; de sorte que a cada passo que eu dava, sentia entre as pernas os espinhos e queimaduras da amaldiçoada planta. Um perfeito carrasco, o bandidinho!

E além de carrasco, ladrão: ao passarmos, de volta, pelas herdades que beiravam a estrada, ele ia vendendo às mulheres dos sitiantes alguns feixes de lenha, embolsando para si o fruto dessas transações. E ao chegar a casa, como Milótris estranhasse a vinda de tão pouca lenha, ele deitava a culpa em mim, dizendo que eu era um mandrião, que com alguns feixes a mais me deitava no chão e não levantava nem a poder de pancadas. E para testemunhar o que dizia, mostrava o sinal da sua pancadaria no meu corpo. Ela dava-lhe todo crédito, e determinava que voltássemos no dia seguinte à serra, a lenhar de novo!

 

AS CRUELDADES DE CALÓFORO

ORA, um dia perdi a paciência e estendi o malvado rapazola no meio do caminho, com um coice bem na boca do estômago. Mas para o meu próprio mal o fiz: Calóforo criou ainda mais ódio em mim e suas invenções perversas redobraram.

Pouco tempo depois os moleiros encarregaram-no de levar à aldeia próxima uns fardos de estopa. Os olhos do rapaz fuzilaram de alegria ao receber a ordem. Foi correndo buscar-me, e pondo-me a cangalha, nela amontoou todos os fardos, cuja quantidade e peso davam para dois bons cargueiros; e tão cuidadosamente os amarrou, que eu logo desconfiei que o tratante devia estar-me armando alguma.

E estava, mesmo: no momento de sairmos, correu à cozinha, de onde voltou com uma acha acesa, que ocultou o melhor que pôde à vista dos circunstantes. E quando estávamos a certa distância da casa, enfiou o tição no meio da estopa, a qual imediatamente pegou fogo.

Daí a uns momentos estava eu transformado numa imensa e semovente tocha, e por mais pinotes, trancos e corcovos que desse não conseguia desvencilhar-me de tão sinistra carga. Não fora à toa que o carrasco tivera tamanho cuidado na amarração!

Estava, pois, condenado a morrer assado, suplício que só se aplica a criminosos da pior espécie.

Desesperado, não sabia o que fazer, quando reparei que a certa distância do caminho havia um brejo. Corri então como uma lebre e meti-me no pântano até as orelhas, virando-me e revirando, num e noutro costado, a fim de mergulhar no lodo toda a estopa chamejante.

Assim escapei, por um triz, de uma morte abominável, embora a troco de novas e não menores torturas. Porque a estopa, ao apagar-se, encharcara-se de água, de sorte que quando consegui afinal sair

do brejo, o peso que levava tinha aumentado umas três ou quatro vezes. Em todo caso, tropeçando e caindo a cada passo, enfim chegamos ao destino.

Mas aí o safardana disse ao destinatário da carga que eu é que me aproximara, teimosamente, de uma fogueira que havia à beira do caminho, e que ele tivera um trabalhão incrível para apagar, com a água de um boeiro, a estopa que se incendiara!... E a mesma história, enfeitada ainda com novos pormenores de sua inventiva, conta o maroto aos patrões, quando voltamos para casa, levando, em lugar do dinheiro, o resto da estopa sapecada e umedecida.

No outro dia, mandado à serra para lenhar, o maroto arrumou-me, como de costume, uma carga esmagadora; e em vez de voltar direito ao moinho, tomou outro atalho, por onde fomos ter à casa de um camponês distante, a quem vendeu a lenha toda. De volta, disse aos patrões que eu era um bicho endemoninhado, que em vez de levar a carga sossegadamente, como me competia, me pusera a pinotear, a morder, a escoucinhar, sem motivo nenhum, até esparramar pela estrada todos os feixes, soltos e desfeitos. Com o que ele, coitadinho, perdera todo o seu trabalho!...

Irritado com a coisa, e ainda com a lembrança do negócio da estopa, em que perdera mais de vinte dracmas, o moleiro ficou fulo de raiva, e sem medir as palavras disse ao rapaz que na manhã seguinte me passasse uma faca na goela, reservasse para ele o couro, e distribuísse a carne entre os outros escravos do serviço!

 

O MOTIM

SE bem o recomendou o irado moleiro, melhor o entendeu o pequeno facínora. Ao dia seguinte, logo de manhãzinha, prendeu-me pelo cabresto a um mourão, no terreiro, e bem junto de mim pôs-se a afiar duas grandes facas de cozinha, cujas lâminas brilhavam sinistramente ao sol. E de vez em quando parava na amolação, para correr a polpa do polegar pelo gume das facas; e não as julgando ainda suficientemente afiadas, voltava a passá-las de novo no rebolo, amorosa, delicada e deliciada-mente.

Assim esteve uma boa parte da manhã, protelando e antegozando o meu suplício. Enquanto isso eu ruminava comigo mesmo algum truque, ou golpe, com que mais uma vez lograsse escapar à sanha da Nemesis fatídica.

Lá pelas tantas, porém, surge um escravo da casa grande, a dizer aos do moinho que tinha chegado a hora: — Então ou nunca!

— A hora de que? — perguntaram os outros, juntando-se imediatamente em volta do gazeteiro.

— De ficarmos livres! — respondeu ele. — De fugirmos daqui para bem longe, e mudar de vida, minha gente!

— Mas que raio de história é essa? — perguntou o moleiro.

— É isso mesmo: não vê que o patrão, a mulher, a filha e o genro embarcaram um dia destes para Delfos a cumprir uma promessa. No meio da viagem morreram todos num naufrágio. E como não ficou nenhum herdeiro conhecido, vai ser tudo posto em hasta pública: fazenda, escravos, animais de serviço, gado, colheitas, etc. Quem maior lance fizer no leilão será o nosso novo dono; e quem pode lá saber se não será pior peste do que o velho?...

E acrescentou que assim que na fazenda se soubera da situação, todos os escravos instantaneamente se consideraram desde logo livres e senhores dos seus narizes: incontinenti haviam assassinado o ecônomo, o capataz e o feitor, saqueado a fazenda, tratando depois cada qual de por-se ao fresco o mais depressa que podia.

Ouvindo isso, todos ali desandaram também, cada um por seu lado, a saquear o que encontrava, na ânsia de não encetar a fuga de mãos abanando. E o mensageiro, vendo-me preso ao palanque, desamarrou num átimo o cabresto, saltou-me no lombo, e agarrado à cernelha, tocou-me a toda a brida para a sua casa. Ali chegando deitou-me uns arreios, arrumou neles a mulher e os filhos, e reunindo outros animais já carregados com o que lhe coubera no saque, botou-se com essa tropa pela estrada afora, sem olhar para trás.

Embora sobrecarregado como sempre, e lamentando a triste sorte da minha bela companheira de cativeiro entre os ladrões, saí trotando prazenteiramente, pois no meio de toda aquela tragédia, de mortes, revoltas e piratarias, o que eu via bem claro é que só a esse preço escapava à Parca imiga, que mais uma vez quase me agarrara pela cola. E minha satisfação era ainda maior ao perceber que o demônio do Calóforo lá ficara, entretido com a revolta, o saque, e outras patifarias que decerto cuidava poder então cometer impunemente.

Assim viajamos várias noites, acampando para descansar, e principalmente para nos esconder, durante o dia. Ao cabo do que, chegamos afinal a uma cidade, que perguntando e indagando de uns e de outros, soubemos que se tratava de Beroe, na Macedônia. Meu novo dono achou que devíamos parar aí e descansar alguns dias, até que pudesse trocar por metal sonante as jóias e objetos valiosos que na fazenda roubara.

 

VENDIDOS EM LEILÃO

ALGUNS dias depois éramos levados, eu e as outras alimárias, a uma grande praça, onde havia muita gente que parecia à nossa espera. Nessa multidão logo notei que predominavam os do campo: lavradores, ecônomos e feitores, das estâncias vizinhas, com certeza. E compreendi também que íamos ser postos em leilão. Nosso detentor não desejava perder mais tempo em negociar-nos um a um, em morosos regateios; ansiava por ver-se logo livre de todo trambolho, para mais facilmente alcançar o litoral, e embarcar para Dardânia, onde esperava estabelecer-se e passar o resto da vida em branca nuvem.

Logo um pregoeiro, de voz estentórica, subiu a um tablado, e apontando com o dedo a tropa, pôs-nos todos em oferta, gabando a beleza e garbo dos cavalos, a corpulência e a saúde das éguas, a resistência e força dos jumentos, e a raça, o pêlo, a idade, a índole, o talento e outras mirabolantes prendas, com que nenhum dos meus pobres companheiros jamais tinha sequer sonhado.

Os interessados não se deixavam porém levar por tais lorotas; metiam-se no meio da tropa, examinavam direta e detidamente os animais: erguiam-lhes as pálpebras, arreganhavam-lhes os dentes, levantavam-lhes os rabos, palpavam-lhes o cedenho, os lombos, as canelas e os machinhos; soerguiam-lhes as patas para inspecionar os cascos; depois recuavam para melhor apreciar o conjunto, a ver se nenhum seria por acaso náfego, selado ou corcovado; tudo examinando e avaliando, enfim, como perfeitos e desconfiados sabedores do ofício.

Somente depois disso é que se decidiam a fazer, por este ou aquele animal, um lance. O pregoeiro ia então ouvindo as ofertas, e anotando-as com os nomes dos postulantes, numa taboinha. E quando a cavalgadura alcançava um lance que ninguém cobria, batia com o couto da vara no tablado, dando-a por arrematada pelo derradeiro ofertante. Este desatava então um nó na faixa que lhe cingia a cintura, tirava daí uns pares de moedas de prata, e alguns cobres, e contando e recontando tudo, entregava-o ao leiloeiro; o qual por sua vez contava e conferia, e achando-o certo, entregava ao outro a égua ou o cavalo, ou o burrico, conforme fosse o caso. E passava a apregoar o animal seguinte:

— Quanto me dão por este nobre hipomedonte, digno de puxar o carro de Hélios?

E a coisa recomeçava, oferta sobre oferta, até ultimar-se a venda.

 

NOVO DONO, NOVO DESTINO

ASSIM, dentro de cerca de uma hora tinham sido arrematados, por outros tantos sujeitos, todos os meus quadrupepedais colegas; e eu fiquei sozinho. Por mais que o leiloeiro se esgoelasse a exaltar as minhas qualidades físicas, morais e estéticas, e ainda outras muitas minhas excelências, ninguém propunha sequer um óbolo para tornar-se meu proprietário. Minha machucadura no casco, meus ferimentos na anca, as queimaduras e pisaduras em vários sítios de minha pobre carcaça, e além de tudo as costelas, as vértebras, e outros ossos que indiscretamente se revelavam debaixo do pelame, atestando a magreza a que me reduzira ultimamente a rude vida, eram tudo eloqüente desmentido às profissionais hipérboles e metáforas do pregoeiro. Ninguém, evidentemente, queria arriscar o seu rico dinheirinho trocando-o por uma alimária estropiada e esquálida, que parecia prestes a dar com o rabo na cerca.

E quanto mais se esfalfava o leiloeiro em descobrir em mim miríficas qualidades corporais, além de outras, de espírito, de coração e estirpe, mais redobravam as gargalhadas e os remoques dos papalvos que ainda se ali quedavam, aparentemente curiosos por ver o que seria feito, afinal, de mim.

— É um poleiro de corvo... — dizia um. — Não vale a primeira ração de farelo que lhe derem.

— Pelos dentes — acudia um outro — deve ter mais de vinte anos: não tem portanto mais que um mês de vida, se chegar a tanto...

— Está tão velho e estragado, que nem de graça eu ficaria com ele — acrescentava um terceiro.

Eu, humilhado e triste, ali ia ficando, a cismar, como aqueles basbaques, em qual seria o meu destino se não aparecesse mesmo ninguém que me quisesse. Estávamos em província meio bárbara, e não era impossível que algum hiperbóreo devoto, vendo que ninguém por mim se interessava, oferecesse meia dracma para levar-me ao templo dos seus deuses, e aí sacrificar-me a Apoio, como é o estúpido costume de tal gente...

Finalmente, depois que quase todos os curiosos haviam abandonado a praça, achei-me a sós com o leiloeiro. Este parecia irritado a meu respeito, pois por minha causa não podia ir logo para casa, tratar de outros negócios. Do que eu não augurava nada de bom quanto ao futuro.

Nisso surge um velhote, de cara cínica e velhaco aspecto, que pousando-me a mão na cernelha, perguntou:

— É para vender, este cadáver ambulante?

— É — respondeu secamente o pregoeiro.

— Quanto é que quer por ele?

— Não sei: aos interessados é que compete fazer oferta; se ninguém cobrir o lance, fica com o semovente...

— Ofereço dois óbolos; que tal?

— Complete meia dracma e o bicho é seu. Vale muito mais...

O velho tirou da cinta uma bolsa, e catando entre muita moeda de prata, e algumas de ouro, um par de cobres, estendeu-o ao pregoeiro, em pagamento. E dando uma risadinha debochada, indagou:

— Então é meu o burro?

— É — respondeu o outro. — E muito respeito com ele: dizem que descende em linha reta do rei Midas...

— Então vem a calhar para o que eu quero — rematou o outro.

E foi assim que mais uma vez mudei de dono e de destino.

 

A SERVIÇO DE CIBELE

FILEBOS era o nome do sujeito que me arrematara. O qual ao chegar a casa, numa das saídas da cidade, pôs-se a gritar com toda a força dos bofes:

— Olá, meninos! Venham ver o servo que acabo de comprar para vocês! Um belo escravo da Capadócia!...

Os tais meninos eram uma súcia de rapazolas, com os quais andava Filebos de um lugar para outro, a exibir e a explorar uma imagem de Cibele, a Dea Syriaca, de quem se dizia sacerdote. Exibindo-a nas cidades, nas vilas, e povoados, colhiam farta messe de esmolas, em dinheiro ou em espécie, com o que viviam à tripa forra, sem trabalhos nem cuidados.

Quando numa localidade começavam a escassear as oferendas dos devotos, punham a imagem num andor, e levavam-na estrada afora, cantando, dançando e tangendo címbalos ao redor dela. E iam parando nas herdades e estâncias, onde nunca faltava quem os acolhesse e agasalhasse, à larga, em atenção à deusa.

Ao ouvir que o velho lhes trazia um servo de Capadócia, pensaram os marotos que se tratava de algum escravo daquela província, sem se lembrarem de que essa região é justamente famosa pela excelência dos jumentos que exporta. Assim, ao ver que o servo anunciado não passava de um jerico pelado, estropiado e manco, ficaram furiosos e começaram a xingar Filebos de todos os nomes feios que tinham na memória, nesse capítulo mui rica. Até que um deles, mais gracioso, impondo silêncio aos outros disse, em tom grave e circunspecto:

— Mais respeito, rapaziada: não vêem vocês que o velho encontrou afinal o próprio pai, de cuja pessoa e destino não havia notícia certa? Vejam só como se parecem! Devemos venerar uma tal prova de filial amor...

Com o que a raiva dos rapazes descaiu para uma grande troça.

Mas o velho não se deu por achado. Deixando-me aos cuidados dos meninos, afastou-se outra vez para a cidade, de onde daí a pouco voltava trazendo nos ombros uma velha cangalha. E entrando na casa, pôs-se a consertá-la e adaptá-la, de forma que apresentasse, na parte de cima, elevada a certa altura, uma espécie de taboleiro, ou plataforma, onde a imagem de Cibele pudesse ficar seguramente fixada.

Entre esse taboleiro e a cangalha, propriamente, ficava um espaço quadrado, ou caixão, que o velho guarneceu com panos de seda, aos quatro lados, dando-lhe o jeito de uma rica e vistosa peanha.

Vendo esse arranjo, os outros começaram a mudar de tom, porque logo adivinharam que eu os iria substituir daí por diante, no mister de transportar a imagem, o que até então era tarefa deles, em turnos de quatro em quatro.

O que o velhote não demorou a perceber, conforme se via no risinho irônico que que lhe aflorava à boca desdentada, enquanto ultimava aos aprestos da cangalha.

Logo ao dia seguinte preparam-se todos, desde cedo, para a partida. A cidade, ao que parece, já lhes tinha dado o máximo de rendimento, e não valia a pena perderem ali mais tempo.

Puseram-me nas costas o tal arreio, e com correias disfarçadas sob guirlandas de folhagens, firmaram em cima dele a imagem que me competia transportar.

E com as danças, os cantos e os timbaleios do costume, deixamos a cidade e saímos a vaguear estrada afora.

 

MINHA PRIMEIRA ATUAÇÃO

ASSIM fomos andando, colhendo aqui e ali, de algum viajante mais beato, alguma moedinha, ou dádivas de roupas e alimentos, dos campônios que acudiam das suas lavouras, ao verem-nos passar.

Ao cabo de algum caminho, chegamos a um povoado, onde Filebos resolveu fazer breve estadia. Buscamos assim a praça principal da vila, onde eu me detive com a deusa às costas. Os mariolas puseram-se então a dançar e a cantar, ao som de suas flautas, címbalos e adufes, numa melopéia rítmica, monótona e estridente, que não tardou em reunir em torno de nós uma turba de devotos e curiosos.

E quando a multidão se tornou bem numerosa, iniciou-se de vez a função. Enquanto os das flautas, tímpanos e pandeiros continuavam com a música, os outros metragirtes começaram a simular o delírio sagrado. Uns atiravam ao chão as suas mitras, derreavam para trás a cabeça, retorcendo o pescoço, mordendo a língua, e estertorando e grunhindo como possessos; outros golpeavam as próprias pernas, os braços e o ventre, com espadas, até parecerem inteiramente cobertos de sangue; outros, enfim, caíam catalépticos, e firmados apenas com o occiput e os pés no solo, formavam com o corpo um arco em que vinha encarapitar-se um colega, dando-lhe trancos aparentemente capazes de deslombar um touro. E com essas e quejandas pantomimas, despertavam a admiração e a reverência do povinho, certo, este, de que estava a presenciar uma autêntica e indubitável manifestação divina.

Durante esse tempo Filebos conservava-se a meu lado, em atitude hierática e solene, pronunciando a meia voz uma sucessão de litanias em que o nome fenício de Cibele vinha freqüentemente repetido. Mas quando julgou que a coisa chegara ao ponto favorável, com os assistentes imóveis, de olhos arregalados e de boca aberta, tomou de uma salva, e deitando ao ombro uma bissaca, saiu a recolher as dádivas.

Logo começaram a retinir na bandeja as moedas, e a engolfarem-se no alforje os punhados de figos, de passas e de azeitonas, e os bolos, as broas e pães de centeio, além de algum pato, coelho, abóbora, pepino, couve, repolho e outras que tais ofertas. E com tristeza eu vi que a bissaca recolhia também mancheias de cevada e aveia, evidentemente doadas em minha intenção...

E quanto mais tiniam as moedas na salva, e engordavam as bolsas do sapicuá, mais crescia o sagrado transe ou frenesi dos nossos coribantes.

Durou o espetáculo bem mais de duas horas. Afinal, dispersada quase toda a turba, e despedidos os últimos devotos, voltou Filebos, sorridentemente carregado; e soerguendo uma das sanefas da peanha, esvaziou no interior o farto conteúdo do alforge.

Por onde vi que mesmo entrando em tão sagrado serviço, não escapara eu de todo à sina de cargueiro... — Em todo caso — pensei — se a coisa não for muito além disto, ainda é esta a melhor vida que tenho tido desde que virei burrico!...

 

QUEM ANDA COM MANCO

NESSE teor me foi então correndo a vida, mais ou menos docemente. O trabalho de teóforo, que eu fazia, era relativamente leve, e nunca andávamos maior distância que de uma aldeia a outra. Aparentemente Filebos e seus acólitos não tinham muita pressa; a noção de tempo e espaço lhes era absolutamente alheia ou desdenhável.

Dormíamos ordinariamente todos juntos, sempre nalguma casa ou tenda isolada, nas cercanias dos povoados. E como depois das orgias, a que de portas adentro os meus parceiros se entregavam, comendo e bebendo desbragadamente do produto da sua indústria, todos caíam numa profunda e uníssona camoeca, dormindo e roncando como uns porcos, sempre se me deparava algum jeitinho de encher também o pandulho com os restos do regabofe. Devorava os bolos, os figos, as olivas, os nacos de peixe ou de carneiro, que haviam sobejado, e ainda ajudava a enxugar as ânforas de vinho que os farsantes não houvessem de todo esvaziado.

Como se vê, parecia que Tique finalmente se cansara de perseguir-me e resolvera abrir uma fase nova em minha asinina existência.

Com o que, comecei a restaurar as forças, a deitar corpo e a criar untos, amaciando-se-me de tal sorte o couro e alisando o pêlo, que em pouco tempo eu parecia inteiramente outro.

E não sem dar nas vistas dos biltres meus comparsas, que logo se puseram a notar:

— Vejam só o maroto deste bucéfalo: quando veio não passava de um feixe de ossos dentro de um odre roto e escalavrado: agora que nos acompanha em nossa pia peregrinação, em pouco tempo tornou-se nédio, brilhante e luzidio como um melro! Que outro melhor sinal de que Cibele nos é propícia e aprova a santa penitência em que andamos?...

— É verdade — acudiu um deles. — Tanto mais que este malandro, que apenas nos livrou da maçada de carregar o andor, parece viver de brisas: quase não toca na forragem que lhe damos, quando é certo que a essa espécie de alimária não há cevada, nem aveia, nem feno que lhe chegue: um único burrico come por dois ou três cavalos...

— E é mesmo! — concordaram todos. — Nunca se viu tão singular jejuador como esse!...

Essas e outras semelhantes considerações dos indiscretos raparigos puseram-me de orelha, como se costuma dizer, em pé: se eles desconfiam da marosca e põem espiões a vigiar-me, lá se me vai por água abaixo toda a minha providencial pitança...

Então tratei de tomar umas tantas providências. Lembrei-me daqueles debochados de Roma, de quem se diz que quando estão a arrebentar de cheios, nos banquetes, afastam-se a um adequado sítio, e metendo o dedo na goela, provocam a regurgitação do já comido, a fim de volverem ao festim com a capacidade ingurgitava renovada. E todas as noites, antes de regalar-me com a apetecida petisqueira, engolia, sem mastigar punhados e punhados de aveia e cevada, até diminuir-lhes visivelmente o monte. Depois ia ao recanto que os meliantes destinavam a semelhante préstimo, e sem maior esforço restituía ao monturo todo o cereal repugnadamente absorvido. E só então, descansadamente, é que me entregava ao costumeiro bródio.

 

UM "HI-HAN!" INTEMPESTIVO

ESTÁVAMOS um belo dia em certa aldeia, onde a féria de óbulos e oferendas fora das mais pingues. Vai daí, entendem os meliantes de convidar alguns jovens camponeses para um festim, que, diziam, iam celebrar àquela noite em honra de Cibele. O que fizeram apesar dos protestos de Filebos, que pelos modos não antevia nada de bom em semelhantes cortesias:

— Meninos — dizia o velhote — mais de uma vez já tenho dito que não convém trazer gente profana ao nosso operto. Cada vez que vocês não me obedecem nessa regra, sai encrenca!...

Mas os "meninos" fizeram ouvido de mercador às prudentes palavras do corifeu, e à noite a casa ficou cheia de rapazes e raparigas, ansiosos pela festa.

E como era de esperar, dentro em pouco tempo os vapores do vinho entraram a fazer o seu ofício, degenerando a ceia numa farra das mais desbragadas deste mundo. A algazarra era infernal. Os gestos e as atitudes daquele bando de estróinas iam-se tornando cada vez mais indecentes. E as frases, os ditos, os berros e as imprecações, capazes de enrubescer a um fauno.

A toda essa bacanal eu assistia, indignado, do meu canto. E mais ainda ao ver que o mesmo Filebos, perdendo a compostura e o escrúpulo que pouco antes afetara, entrara também na dança e era um dos mais salientes e desavergonhados da indecorosa sarabanda.

Assim, esquecendo mais uma vez minha mofina condição de asno, em dado momento entendi de manifestar a minha abominação, exclamando a plenos pulmões:

— Ó Zeus poderoso e pacientíssimo! Onde tens teus raios, que não fulminas imediatamente toda esta corja de birbantes?!...

Mas de novo aconteceu o que doutras vezes sucedera: em lugar do meu protesto, o que se ouviu foi um zurro altíssimo e clangoroso, que reboou pela sala, pela casa e pelos arredores, pondo de pé, surpreendidos e aterrorizados, todos os partícipes da desbragada súcia.

E quando todos iam caindo em si, do susto, e já alguns começavam a rir por ver de onde e de quem partira discurso tão inesperado, ouve-se na rua uma grande gritaria, a que logo se segue um bater atroador à porta.

De novo os meliantes ficam mudos, a olhar uns para os outros, espantados. Mas desta feita logo viram que o caso era bem mais sério do que antes. Impacientes por não lhes ir ninguém abrir a porta, os de fora tinham metido nela os ombros, deitando-a abaixo fragorosamente. E sem maiores cerimônias irromperam na sala do festim, onde o espetáculo que viram os encheu de indignação ainda maior.

Era um grupo de campônios dos arredores, que andavam à cata do jumento de um deles, que sumira. Iam passando pela casa exatamente no instante em que eu invocava os raios de Vulcano para os nossos valdevinos; e ouvindo o meu altissonante orneio, logo pensaram que o orneante fosse o que buscavam. Assim tinham vindo bater à nossa casa; mas vendo que ninguém lhes acudia, e atentando aos ecos da algazarra que ia dentro, arrombaram a porta sem maior delonga.

Ante a cena, porém, que ali se lhes deparava, logo esqueceram o burro procurado: é que todos eles tinham concorrido, pouco antes, com suas dádivas, que cuidavam ser em honra e glória de uma deusa, e agora estavam vendo em que tal glória e honra consistiam. Mas o que lhes pareceu o cúmulo da infâmia foi ver, entre aqueles jovens, ébrios e descompostos, este a um filho, aquele a uma filha, aquele outro a uma irmã, e assim por diante.

Então ficaram furibundos, e agarrando cada qual pelo gasnete o seu parente, levando-os a pescoções e bofetadas, para fora, anunciaram a Fibelos que assim que amanhecesse iriam denunciar-nos ao pretor, como ímpios, sacrílegos, prevaricadores e corruptores da juventude.

— Fiquem aí, curtindo o seu pifão, até que os meirinhos venham para os meter no xilindró!...

 

COMO SEMPRE, EU PAGO O PATO

ASSIM que os camponeses se retiraram, tanto Filebos como seus pupilos imediatamente sararam da carraspana. Num instante o susto e o medo dissiparam-lhe das cabeças os eflúvios da vinhaça. E como se de antemão tudo estivesse combinado, todos se aprontaram para pôr o pé na estrada quanto antes.

Atiraram-me às costas a cangalha com a deusa, ajuntaram o que puderam de toda a tralha que andava esparramada pela casa: mantimentos, roupas, armas e instrumentos, e enchendo-me a peanha com o que coube nela, saíram comigo da aldeia, em plena escuridão, a fim de que quando chegassem os meirinhos já estivéssemos bem longe.

E por caminhos e atalhos distantes das estradas principais, fomos trotando todo o resto da noite, de sorte que ao raiar o dia e empinar o sol, achávamo-nos razoavelmente fora do alcance do "inimigo".

Então, parando para descansar ao desembocar o carreiro numa estrada, puseram-se os farsantes a comentar os últimos sucessos, chegando em breve à conclusão de que o responsável por todo aquele desaguisado fora eu.

— Foi esse burro quem nos estragou a festa, o maldito!...

— É mesmo: se esse salafrário não desse para zurrar tão fora de propósito, nunca aquela gente se lembraria de nos vir perturbar a festa!...

— É preciso dar uma lição nesse maroto, para que ele aprenda a respeitar nossos mistérios...

— Exatamente; nem devemos perder mais um minuto para decidir: tem que ser já...

Arriando-me então a cangalha, e o tapete que me servia de baixeiro, depuseram a imagem à beira do caminho e amarraram-me ao tronco de uma árvore seca que havia perto. E uns fazendo látegos das correias, outros armados de cacetes que andaram catando pelas redondezas, deram-me uma tunda de mestre, sem se incomodarem com meus gemidos e corcovos de protesto.

E provavelmente ter-me-iam matado a bordoadas, numa diamastigose verdadeiramente espartana, se afinal Filebos, lembrando decerto as dracmas que dera em pagamento ao leiloeiro, não pusesse cobro à fúria daqueles assassinos:

— Chega, meninos! — gritou o velho. — Se matam o burrinho terão de carregar de novo a deusa no andor, como antes!...

Então, caindo em si, acharam os malvados que já tinham feito o bastante para minha emenda, e aos poucos foram amainando a surra.

E ali fiquei eu, derreado no chão, mais morto do que vivo, a matutar que novos tormentos e misérias ainda me reservaria a adversa Fortuna!

 

NOVO E TERRIBILÍSSIMO PERIGO

MAL refeito ainda daquela flagelação, fizeram-me os malandros levantar, a pontapés e cutucões de faca, pois iam prosseguir viagem.

Com a deusa e a cangalha novamente às costas, lá fui eu, com os meliantes, a trotar pelo caminho, apesar de não ter no corpo um osso, uma junta ou um músculo que não estivesse agudamente dolorido.

Mas ao entardecer de tão mal-aventurado dia chegamos à estância de um rico lavrador, que nos acolheu com muitas honras e agrados, por ser sua mulher especial devota de Cibele. Agasalhou em casa o velho e os rapazes, como hóspedes merecedores da mais alta. consideração; e a mim mandou-me alojar numa tulha ou despensa, junto à cozinha, da qual ficava separada por uma taipa que não chegava até o teto. Um burro de verdade não teria nenhuma razão de queixa: o quarto era abrigado, e no chão, junto à parede, havia uma dose de forragem capaz de abarrotar o bucho a meia dúzia de esfaimadíssimos jumentos.

O diabo, porém, era o perfume que por cima da taipa me chegava da cozinha: guisados, pastéis, assados, bolos, peixes, patos, galinhas, de tudo me vinha até o nariz um cheirinho ao mesmo tempo delicioso e cruel. E eu que desde a véspera não comera nada, e ainda caminhara e apanhara tanto!

Com água na boca, pus-me então a escutar a conversa do casal de cozinheiros, que do outro lado andavam de um lado para outro, atarefados. E logo comecei a sentir um certo frio nos bofes, ao perceber que o objeto das conversas daqueles servos, que pareciam aflitos e desesperados, não era outro senão este pobre seu criado!

Pelo que ouvi, e deduzi, o lavrador tinha recebido aquele dia, de um vizinho amigo, um pernil de asno montes, que ele caçara. Recebido tão apetitoso presente, entregara-o ao cozinheiro, recomendando-lhe que o fizesse assado ao forno, que era como ele mais gostava do pitéu.

Por desgraça, à nossa chegada à estância, o casal acorrera a ver-nos, com os outros servos, descuidando o pernil que lá ficara assando. De volta à cozinha sentiram, com terror, um forte cheiro de queimado; e correndo a abrir o forno, viram que o precioso pernil estava reduzido a um fumegante punhado de carvão!...

Pensando na ira do amo ao saber da coisa, e mais ainda no castigo que pelo desleixo o aguardava, o cozinheiro pusera-se a andar, desatinado, de um lado para outro, imprecando e blasfemando os deuses, como responsáveis pela sua desgraça.

— O raio desses sujeitos, com o seu burrico e a sua Cibele, é que me fizeram esquecer a obrigação e puseram-me neste apuro...

Ao ouvir falar em burrico a cozinheira deu uma palmada na testa, e exclamou:

— Burrico!... Olhe, é a própria Deusa que nos está. mostrando a salvação. Você vai ao quartinho aí ao lado, pega o jumento que os foliões trouxeram, leva-o ao pé do morro, entre os rochedos, e mata-o imediatamente; tira um pernil para substituir o queimado, enterra o resto num buraco, e volta ainda em tempo para prepararmos de novo o assado. Carne de burro, selvagem ou não, tudo deve ter o mesmo gosto...

Ouvi então o estalar de um beijo: era o miserável do cozinheiro que assim aplaudia e agradecia a idéia, na qual via a sua única saída!

— E quando derem pela falta do animal — ajuntou a peste da mulher — cuidarão que fugiu, e irão procurá-lo pela estrada...

 

HOSPITALIDADE INTERROMPIDA

CRIANDO alma nova, o cozinheiro não demorou a aparecer à porta da minha estrebaria, com um cabresto na mão, e, a aparecer no cinto, o mal-agourento cabo de uma faca.

Sem saber ainda muito bem o que havia de fazer para mais uma vez despistar a Parca ingrata, deixei que o homem se acercasse de mim, a fim de que a porta do quartinho ficasse bem desimpedida. E quando ele ia erguendo o cabresto para mo pôr na cara, apliquei o meu método costumeiro: dei um prisco para o lado, arrumei-lhe nas ventas um valente par de coices, e saí voando pela porta afora. E uma vez no terreiro, corri para a porta principal da casa e entrei por ela, até à sala, onde o estancieiro principiava a ceia, em companhia de Filebos e seus mocinhos.

Mas no terror em que ia, vendo a morte ainda nas ancas, não reparei no que fazia, e fui derrubando tudo o que encontrava: mesas, trípodes, candelabros, deixando tudo em pandarecos, como se por ali tivesse passado um terremoto.

Assim eu escapava a um perigo eminentíssimo, para logo cair noutro talvez pior. Pois tanto o dono da casa, como os servos, julgando que eu houvesse enlouquecido, logo correram a munir-se de espadas, lanças e forcados, prontos para me dar cabo da pele incontinenti.

Percebendo o novo risco que corria, enveredei por uma porta e entrei no aposento que estava preparado para a dormida dos meus donos. Estes, ainda meio espantados com o caso, fecharam e trancaram imediatamente a porta, deixando-me ali outra vez preso, sem saber o que me poderia afinal acontecer.

Aconteceu que o fazendeiro julgou que eu fosse um burro amestrado, treinado especialmente para fazer semelhantes estrepolias, a fim de dar aso ao velho e aos rapazes para, na confusão, subtrair os objetos de valor que nas unhas lhes caíssem. Certo deste truque, ficou naturalmente furioso com os hóspedes, aos quais intimou que não ficassem mais um momento sequer em sua casa:

— E sumam imediatamente destas redondezas, antes que eu mude de idéia e lhes faça pagar ainda mais caro o atrevimento!. ..

Rapazes e velhote não esperaram segundo convite: arrumaram-me o andor nas costas e, tocando-me por diante, foram saindo cabisbaixos em demanda de outros pagos onde o Destino se mostrasse menos atro.

Mas ao passar pela cozinha dei uma espiada de soslaio para dentro, e pareceu-me que vi, pendurado de uma trave, um vulto de homem, a sacolejar nos derradeiros estremeções da morte; seria o cozinheiro, que desesperado da vida, resolvera acabar com ela? Se assim foi, que os lobos e as hienas lhe dêem condigna tumba aos ossos!

 

TANTO VAI O POTE À FONTE...

A RAPOSA perde, como diz o provérbio, o pêlo, mas não perde a manha...

Pouco depois desses sucessos chegamos a outro porém mais importante povoado. No ponto mais elevado dele havia, consagrado a divindade local, um templo, que por informações que logo colheu, soube Filebos que era mui suntuoso, rico e procurado por peregrinos.

Usando então de suas lábias, convenceu o nosso velhote aos habitantes de que não deviam deixar Cibele recolhida à casa de um simples cidadão, mas depô-la, para passar a noite, no próprio templo da outra deusa, com a qual teria, segundo contrita-mente ele afirmava, tais ou quais laços de parentesco. O que foi adotado e aceito, sem suspeita nem malícia, pela simplória gente.

Retirou-se então o ídolo, com cangalha e tudo, dos meus lombos, e em grande procissão levaram-no ao templo, onde ficou depositado ao lado da deusa autóctone. Quanto a nós outros, deram-nos por moradia uma excelente casa, onde passamos vários - dias regalados, enquanto as espórtulas e oferendas não davam mostras de diminuição.

De dia, trazida a imagem para a praça, aí os teóforos davam ao povo o espetáculo das suas danças e ritos sanguinários; enquanto a salva e a bissaca de Filebos várias vezes se enchiam.

Até que, chegado o dia de seguirmos viagem, todo o povo da vila se dirige ao templo, e formando um cortejo ainda mais imponente do que à vinda, conduz a deusa até à nossa casa, com muitas mostras de devoção e respeito.

Beijados então os pés da estátua pelo último devoto, e recolhida a última dracma de esmola, dali partimos, com grande séquito, até certa distância do povoado. E depois das derradeiras despedidas, seguimos nosso caminho em demanda de outras paragens.

Mal tínhamos porém andado uns dois estádios, quando vimos atrás de nós uma turba de gente a correr e a gritar, num alarido. Aproximando-se cada vez mais o bando, logo pelo reluzir dos capacetes distinguimos, dentre os demais sujeitos, um bom número de legionários, cujas intenções não seriam, decerto, muito amigas.

Dentro em pouco, ei-los todos que nos cercam e agarram o velhote e os coribantes pela goela, imobilizando-os. O que já nem era mais preciso, pois o medo os deixara frios e paralisados, incapazes de mover sequer um dedo...

Então, enquanto um dos soldados me segurava pela arreata, o decurião deu uma vistoria em regra na charola. E dentro em pouco foi retirando da peanha um rol de coisas de que eu nunca tivera a mínima notícia: vasos e bandejas de prata, estatuetas de bronze, de ouro, ou de marfim; ex-votos de idênticos cabedais; retábulos e alfaias de variado feitio e serventia; e ainda um cofre, cheio até a boca de moedas, o que tudo, somado, perfazia um tesouro capaz de assegurar a Filebos e seus acólitos uma existência ociosa e regalada por mais cem anos que vivessem.

Só então compreendi o motivo que levara o velhote a insistir tanto em fazer da nossa deusa hóspede da outra: a pretexto de dar-lhe guarda durante a noite, ele tivera permissão para entrar no templo; e uma vez ali, não perdera tempo ao fazer todo aquele servicinho.

Postos imediatamente a ferros, ante os insultos indignados daquela pia gente, lá tiveram Filebos e seus sequazes que voltar pelo mesmo caminho, para irem celebrar os seus recônditos mistérios, desta vez entre as quatro paredes de um calabouço.

E desde esse momento nunca mais os vi, nem soube deles; presumo que, depois de açoitados em público, tenham sido mandados às galés, ou enforcados, como adequado prêmio às suas trapaças e senvergonhices.

 

NOVAMENTE NA ATAFONA

NO dia seguinte fui a leilão, pela segunda vez na vida, juntamente com outros pertences confiscados aos tunantes.

Desta feita, porém, a vida boa e a pouca fadiga do oficio de teóforo tinham-me dado um aspecto muito outro: eu era um burrinho gordo, robusto, de pêlo fino e lustroso, que em nada absolutamente se parecia com o mofino "poleiro de corvo" de outrora. Por isso não foram precisos ao pregoeiro grandes esforços para achar quem me quisesse: quatro ou cinco pessoas, das muitas que assistiam ao leilão, logo por mim se interessaram; de sorte que os lances pela minha posse foram sucedendo-se numa porfia que em breve elevou as ofertas acima de quarenta dracmas. Finalmente ninguém cobrindo a última, de quarenta e sete, o pregoeiro deu com o taco no assoalho, e eu fui adjudicado ao último ofertante.

Este era um liberto, que nos arredores da vila exercia o ofício de padeiro. O qual, escarranchado em cima de mim, imediatamente se pôs a caminho de casa, por uma série de becos e sendas pedregosas.

Lá chegando, levou-me logo ao moinho, onde se me depara uma dúzia de pobres alimárias, com a pele sobre os ossos, que punham em movimento uma série de moendas, tudo envolvido em densas nuvens de farinha. Eram os meus futuros companheiros, cujo mísero destino eu ia desde esse momento partilhar.

Nesse dia, porém, foi-me permitido descansar. Mas no dia seguinte puseram-me uma venda nos olhos, atrelaram-me a uma das muitas atafonas e obrigaram-me a retomar aquele eterno giro, sem remissão nem apelo, que eu já tão intimamente conhecera.

Eu bem sabia o que um burro tem de fazer nessas condições; mas na esperança de ser aproveitado em algum serviço menos enervante, fingi-me de caloiro no ofício, e deixei-me ficar, parado e imóvel, como uma estátua. Os escravos que vigiavam a moagem procuraram incitar-me com berros e palmadas na anca; mas eu, na santa ilusão de que eles afinal desistiriam, conservei-me quieto.

Como quase sempre me acontecia, foi um cálculo, esse, que me saiu completamente ao revés: os camaradas perderam afinal a paciência, e indo buscar algures alguns látegos, logo me puseram por diante a chicotadas. Entrei então a girar, rápido e solerte, como um velho azenheiro, e ainda tive de ouvir, sem protestos, as chufas e deboches daqueles brutamontes, que se divertiam à grande com o meu súbito aprendizado.

 

UMA BRIGA DESASTRADA

NÃO sei, hoje, quantos meses passei nessa agonia. E obrigado a matar a fome com alimentos que nos repugnavam, a mim e aos meus pobres companheiros, logo tornei a emagrecer e a mirrar, e a pôr-me tão mofino e estropiado, que parecia prestes a esticar as canelas, como se costuma dizer.

Vendo-me o dono assim tão aniquilado, e a fim de não perder de todo o dinheiro que por mim pagara, vendeu-me por algumas dracmas a um hortelão amigo seu, chamado Laerte.

Nesta nova fase as coisas melhoraram, para mim, um bocadinho: apenas trabalhava pela manhã, com a fresca, quando o patrão me carregava com cestos e mais cestos de verduras, que levava ao mercado. Vendida a quitanda, encarapitava-se-me no espinhaço, e volvíamos a casa. Então, enquanto ele se punha a capinar e a afofar a terra, a mondar e regar as plantas, eu ficava a pastar num piquete, melancólica mas sossegadamente até à seguinte madrugada.

Comparada com outras que eu já passara, aquela vidinha até que não era das piores: trabalho, pouco, e, para variar a dieta, algumas verduras que eu conseguia surrupiar na horta, às ocultas do meu dono. Mas o inverno vinha aproximando-se, e o hortelão, não tendo sequer uma coberta para si mesmo, muito menos cuidava de saber se eu passava as noites bem ou mal encapotado. Sem falar nos caminhos cobertos de lama gelada e escorregadia, e na escassez de produtos em que nessa estação ficava a horta.

Em todo caso o pobre homem, que no fundo não era mau sujeito, nem por isso era muito mais feliz do que eu. Ao contrário: eu, na minha aparência de asno, tinha apenas os aborrecimentos relativos à minha alma, que ainda teimava em continuar humana; ao passo que ele, sob a forma de gente, tinha todos os encargos, as responsabilidades, as obrigações e as amofinações decorrentes dessa condição, sem poder deixar de trabalhar o dia inteiro, como um verdadeiro burro de carga, para poder sustentar pobremente a mulher e uma recua de crianças que lhe enchiam a cabana.

Ora, um dia, quando íamos à cidade, como de costume, um soldado que topamos no caminho faz parar o hortelão e pergunta:

— Onde é que vai esta estrada? Não sei se Laerte estava de veneta aquele dia, ou se era habitualmente espremedor de graças; o certo é que, em lugar de responder como toda gente faz, dando a informação pedida, entendeu de dizer:

— A estrada não vai a lugar nenhum: está parada; os que nela andam é que vão a esta ou àquela parte...

O soldado era romano, e como tal não muito afeito às áticas ironias. Achando que era um desaforo responder-lhe, um mísero camponês, daquela forma, fica branco de raiva e aplica no hortelão violentíssimo sopapo. Laerte cambaleia uns momentos; mas recuperando afinal o aprumo, dá no outro uma rasteira, estendendo-o no chão, de corpo inteiro; então cai-lhe em cima a socos e pontapés, sem pensar nas conseqüências. E só depois de algum tempo, tendo-o surrado a valer, e vendo que o outro não reagia, é que reparou que o homem estava inanimado: ao cair, batera com a nuca numa pedra e perdera os sentidos! Assustado, por julgá-lo morto, o hortelão trepa imediatamente no meu cangote e toca para a cidade num galope furioso, semeando pelo caminho as alfaces, os pepinos, os melões, as couves, e demais artigos do nosso habitual comércio.

 

UMA APARIÇÃO INDISCRETA

CHEGANDO à cidade, não quis Laerte ir para o mercado, onde podia ser reconhecido e denunciado imediatamente; foi pois procurar um ferreiro seu amigo, a quem contou todo o sucedido, pedindo-lhe que o acudisse.

O outro, depois de matutar uns momentos, resolve esconder o hortelão numa adega oculta e abandonada, no porão da casa, até ver em que paravam as modas; o que foi feito sem perda de um momento.

Restava porém uma testemunha ou cúmplice do crime, que era eu; e a minha presença era francamente comprometedora, pois toda a gente que ia ao mercado estava acostumada a ver o burro e hortelão juntos. E quando dessem com o soldado morto e vissem pela estrada os ingredientes que na fuga tínhamos vindo esparramando, logo haveriam de suspeitar quem estaria envolvido na pendência.

Então o ferreiro chamou os dois filhos, e atando os meus quatro pés num feixe, com sólidas correias, içaram-me a uma corda, passada numa roldana, até acima do telhado, onde havia uma açotéia. Depois, por uma janelinha, recolheram-me ali, desamarraram-me as pernas, e deixaram-me a um canto, com uma certa provisão de capim, para ir-me entretendo.

E já era tempo: o tal soldado, voltando a si do desmaio, fora direito à caserna, onde contara, a seu modo, a agressão de que se dizia vítima. Tomando as dores do companheiro, os outros milicianos saíram à cata do hortelão, que não podia ainda ter saído da cidade.

Indaga daqui, indaga dali, não tardaram em ficar sabendo que o maior amigo do hortelão era Sóstenes, o ferreiro.

Assim, mal me tinham os três rapazes encerrado na açotéia, eis que se forma diante da casa um grande ajuntamento, pois os soldados, onde iam passando, e interrogando, iam despertando a curiosidade dos basbaques, que logo se juntavam ao bando a ver como o caso acabaria.

Acompanhados do meirinho, que tinham trazido, os da milícia varejaram a casa e a tenda do ferreiro, em busca do meu dono. Mas ou porque a entrada da adega estivesse muito bem disfarçada, ou porque não tivessem reparado na tal janelinha do sótão, o fato é que por mais que houvessem rebuscado e remexido, não deram nem com o dono nem com o burro.

Por isso, saindo outra vez à rua, puseram-se a discutir, soldados e meirinhos; aqueles afirmavam que o hortelão estava na casa, e que deviam dar nova busca, mais rigorosa, ou prender os moradores, no caso dela de novo resultar baldada; ao passo que o beleguim declarava que a diligência ali havia de ser dada por feita, e que cumpria ir procurar o fugitivo alhures.

Palavra puxa palavra, a discussão vai-se acalorando e as vozes elevando-se, degenerando a coisa numa algazarra infernal; Os populares, cujo número viera crescendo à medida que a gritaria aumentava, começavam também a dar o seu palpite, no que eram repelidos com apóstrofes e insultos dos dois lados. E com os protestos de uns, os berros de outros, as objurgatórias daqueloutros, tudo afinal resultará no mais perfeito pandemônio.

Eu, cansado da carreira e dos tratos da polé a que estivera submetido por salvar meu dono, tinha-me estirado a um canto da água-furtada, a tirar uma pestana. Mas o desabotinado vozerio, embaixo, logo me pôs desperto, que o barulho era de molde a acordar até um defunto. Movido então pela maldita curiosidade, e esquecida, como sempre, a minha eventual jumência, candidamente assomei à janelinha, a ver o que era aquilo.

Mal pusera porém as orelhas e o focinho de fora, e uma gritaria ainda maior se levantou, sincronizada com uma gargalhada homérica da multidão: ao ver-me, os soldados, furibundos por terem sido bigodeados, redobraram seus impropérios; e o povinho, divertido com o logro, e principalmente com a minha aparição em tão inesperada altura, desandara naquela ruidosa hilaridade; e por último os da casa, indignados por terem sido apanhados em flagrante, dirigiam-me injúrias em altos brados, votando-me às mais profundas do tenebroso Tártaro.

Daí é que nasceu o ditado, que corre em toda a Grécia:

 

       Casa de burro à janela,

       Figa com ela!

 

De novo varejam a casa, e ameaçam levar presos todos os que nela moram: ferreiro, filhos, e escravos. Diante de semelhante perspectiva, um destes dá com a língua nos dentes e então os soldados e o meirinho vão encontrar o pobre hortelão, hirto de frio e de medo, no fundo da adega.

 

CASTOR E PÓLUX

ASSIM foi o meu pobre Laerte dar com os ossos na cadeia, e dele nunca mais tive notícia. Quanto a mim, os juizes me atribuíram, como compensação de injúrias e danos, ao tal soldado, que logo tratou de me passar a cobre; o que não tardou em fazer, vendendo-me por vinte dracmas atenienses.

Meu novo dono era escravo de um homem muito rico de Tessalonica, que como se sabe é uma das maiores cidades macedônicas. Para lá me levou ele dias depois, carregado de coisas que viera comprar na terra do malogrado Laerte, a mandado de seu senhor.

Chegando aos novos pagos, verifiquei que tal escravo, mais um irmão seu, eram os cozinheiros da casa: um, chamado Castor, preparava os guisados, os peixes, a caça e outras viandas de todo gênero; ao passo que o mano, Pólux, lidava com os pães, os bolos de mel, as empadas, e demais pastelaria. Moravam ambos juntos, e tinham estabelecido entre si a comunidade de bens: o que um ganhava nalgum biscate extra, pertencia igualmente ao outro, e vice-versa.

De sorte que eu pela primeira vez tive dois donos ao mesmo tempo, pois passei a pertencer em codomínio àqueles Dióscuros de forno e fogão.

Ora, como escravos que eram, não dispunham os irmãos de estrebaria própria, onde me alojassem; e não querendo pôr-me na casa, a fim de que os outros servos não passassem a valer-se abusivamente dos meus préstimos, instalaram-me no mesmo aposento onde moravam, o que não deixou de ter, para mim, certa importância.

Lidando na cozinha, os irmãos todas as noites levavam para o quarto, como era natural, os restos da comida dos patrões. E à noite, findo o serviço, punham-se à mesa e regalavam-se, de portas adentro, em cotidianas bambochatas.

Antes da ceia, porém, costumavam ir ao banho com os outros serviçais da casa,

e então deixavam-me fechado no quarto, diante de toda aquela comedoria, sem a menor suspeita do que assim podia acontecer. Porque é claro que eu, que havia tanto tempo não provava comida feita ao fogo, mal eles se ausentavam, tratava de aproveitar a ocasião. Só mandava, entretanto, para o bucho, o que havia em maior abundância, respeitando os manjares mais finos, cuja falta poderia dar na vista.

 

BRIGAM OS DIÓSCUROS

A PRINCIPIO tudo correu bem: tal era a quantidade de iguarias que deixavam, que nenhum reparava no desfalque. Aproveitando essa distração, achei que estava sendo por demais escrupuloso, e passei a manducar também dos pratos mais gostosos.

Então creio que os manos começaram a notar a diferença; e naturalmente cada qual entrou a suspeitar do outro. E não tardou que chegassem quase a vias de fato em conseqüência dessa desconfiança.

Um dia Castor esperou que o irmão entrasse, e mal o viu, desembuchou:

— Olhe aqui, seu Pólux, nós não combinamos, desde que entramos no serviço da cozinha, que tudo entre nós seria dos dois?

— Claro... E por que cargas dágua vem agora você com essa pergunta?

— Por que cargas dágua, hein? Não se faça de tolo: por que é que, assim que sai da terma, vem você logo correndo para casa, se não é para chegar bem antes de mim?

— O quê?! Eu é que pergunto o que é que você estava fazendo aqui antes que eu chegasse?...

— Sim, hoje eu vim mais depressa, justamente para apurar certas coisas.

— Muito bem; e o que foi que apurou o nosso Árgus?

— Apurei que você já esteve aqui antes de mim, para devorar sozinho aquele pernil quase inteiro, de cabrito, que eu hoje trouxe, e que era para nós dois!

Pólux olhou para o prato onde eu deixara apenas o osso quase nu, do pernil, e explodiu:

— Ah! É assim? Que gracinha! O maroto vem aqui, enche o pandulho com o que há de melhor, e depois pretende me acusar, para tirar o corpo!... Sim, senhor! Não se pode mais ter confiança em ninguém neste mundo!...

— Não se faça de sonso, que esse lero-lero eu não engulo... O que quero saber é por que todo esse esganamento que deu em você ultimamente: ontem foi aquele lombo de porco, do qual eu não vi nem mais o cheiro; outro dia, aquela posta de badejo, que quando eu cheguei tinha virado sorvete; e agora este pernil...

— Ah! meu irmãozinho! E aquela torta de tartaruga, quase pelo meio, que eu trouxe anteontem, e da qual você não me deixou mais do que uns tarecos secos?... E aqueles pastéis de estorninho, mais de uma dúzia, que eu trouxe outro dia, e não alcancei senão dois?

— Olha, Pólux, o que eu devia fazer era rachar-te a cara, sem nenhuma discussão, para não seres, além de ladrão, tão cínico. .. E se não te fui mais cedo às fuças, foi por causa do mordomo, que nos meteria os dois no ergástulo, nos tiraria da cozinha e nos poria a trabalhar na roça, por castigo. Mas agora estou por aqui; estou farto do teu egoísmo e sem-vergonhice; vamos desmanchar o trato, e viver cada um para o seu lado: quem não se parece não se ajunta!...

O pasteleiro, que a essa altura também já estava roxo de raiva, de repente franziu a testa e disse:

— Castor, você jura que não tem sido você que tem quebrado o nosso trato?

— Então você ainda quer me convencer quê?...

— Calma, rapaz, calma! É verdade que eu estava ultimamente desconfiado de você, desde que comecei a notar a falta de certas coisas que eu trago: mas agora você me diz que do seu quinhão também tem sumido coisas... Então há alguém que anda nos roubando enquanto estamos fora.

— Mas como, se deixamos e encontramos sempre o quarto bem trancado?

— Aí é que a porca torce o rabo; mas em vez de continuarmos desconfiando um do outro, devemos primeiro pôr tudo em pratos limpos...

 

COM A BOCA NA BOTIJA

EU, no meu canto, ouvi toda aquela altercação, abanando o rabo, a fingir que roía um punhado de feno, inocente como o mais mouco dos jumentos. Mas vendo que a coisa ia caminhando mal, tratei de sofrear a gulodice, e por alguns dias fiquei engolindo em seco, sem tocar em nenhum dos pitéus que Pólux e Castor me deixavam mesmo embaixo das ventas. É que eu previa que os irmãos, em vez de ir ao banho e voltar logo para a ceia, deviam andar rondando o quarto, a espiar por alguma fresta, a fim de descobrir quem seria o tertius que lhes entrara, sem convites, na irmandade.

E nem queiram saber qual era o meu suplício: varado de fome, diante de uma mesa sortida com um cardápio digno de Luculo, e obrigado a comer com os olhos e lamber com a testa, como se costuma dizer, sem sequer poder chegar perto, para aspirar-lhe pelo menos o cheirinho!

Afinal o que tinha de acontecer aconteceu: após duas semanas dessa penitência, os irmãos deixaram, certa tarde, bem à mostra, sobre a mesa, uma terrina, quase cheia, de sardinhas de escabeche. Parece que os malvados adivinharam que eu me pêlo por tal prato! Se não fossem sardinhas, e logo de escabeche, talvez eu houvesse resistido... Mas eram; e o aroma que se exalava da fatal terrina começou a encher o quarto a me fazer cócegas nas ventas.

Então entreguei os pontos: meio hesitante, como quem não quer, dei uma volta pelo quarto, espiando com o rabo dos olhos a terrina; depois cheguei mais perto, e esticando o focinho, dei uma fungada. Baco, que perfume! As sardinhas — haveria bem umas trinta, de mais de um palmo cada uma — nadavam em vinagre, com reflexos mais lindos do que se estivessem vivas! Diante de tal pitéu, o mais ferrenho espartano teria certamente sucumbido! ...

Então eu, que de espartano muito pouco tinha, sucumbi: sem pensar em mais nada, enfiei o focinho na terrina, e fui abocanhando, sôfrego, de duas em duas, de três em três, todos os esplêndidos peixotes; e agarrando pedaços de pão com os dentes, ensopava-os no molho, entre cada dois bocados. Se os imortais provassem algum dia um tal escabeche, decerto perderiam todo o gosto da ambrosia...

Esgotada a terrina, quando estava ainda lambendo os beiços, com delícia, ouço do lado de fora o ruído de alegres gargalhadas. Imediatamente abre-se a porta e entram os dois manos, com as mãos nas ilhargas, a morrer de riso. Por uma frincha da porta eles tinham estado à espreita, e assistido de princípio a fim à minha cena. E embora admirados do fenômeno que era um burro comer cibo de gente, o a que sobretudo atentavam era o lado cômico da coisa. E continuavam a rir a bandeiras despregadas, de olhos lacrimejantes, a olhar para a minha figura.

Apanhado assim de sopetão, eu ficara meio atarantado, sem saber o que havia de fazer. E para fazer alguma coisa, fui recuando de mansinho, até o meu canto, onde comecei a mastigar um punhado de feno, seco e insoso, como se ainda adiantasse o fingimento.

— Já vai tarde, seu malandro... — disse Pólux. — Agora já sabemos quem era o ratão que andava por aqui!...

— Nada de cerimônias — disse-me o outro — abanque-se; venha dar a honra de cear também conosco!...

E aproximando-se de mim, foram-me empurrando para o lado da mesa, chegando um tamborete para eu me sentar, por debique:

— Faça o favor... O hóspede, por mais insignificante que seja, em primeiro lugar...

 

“ALEA JACTA EST”

AS coisas tinham chegado assim a um ponto, de onde já era impossível recuar. Minha extravagância gastronômica fora constatada pelos dois escravos, e não tardaria a ser conhecida de toda gente da casa e mesmo da cidade.

Assim pensando, resolvi arriscar a última cartada; e aderindo às ironias dos Dioscuros, coloquei polidamente o meu traseiro no tamborete, ao lado dos divas em que eles se recostaram, e com equivalente cortesia descansei os cascos dianteiros na borda da mesa, como hóspede bem criado, que espera o momento próprio para servir-se.

De novo caíram os dois servos na gargalhada, de mistura com tal ou qual espanto ao verem os meus modos e atitudes.

— Deve ser um burro amestrado — disse Pólux — que fugiu do dono e veio dar com os costados aqui em casa...

— É: — respondeu Castor — há animais que aprendem coisas do arco-da-velha. Mas ensinar um burro a comer comida de sal, é coisa meia dura de engolir...

— Também pode ser que este bicho seja algum homem, que um deus irritado transformou em asno. No tempo de dantes havia muito disso.

— Seja lá o que for, o que estou vendo é que estamos com a fortuna feita: ou o Patrão quer ficar com o burro para si, e nós, em troca, pedimos a nossa liberdade; ou saímos a exibi-lo pelo mundo, e então ganhamos o necessário para a alforria, e ainda ficamos ricos, depois de libertados.

Entrementes iam eles pondo à minha frente ora um guisado, ora uma empada, ou cabidela; e eu, com invejável apetite, devorando.

Nisso um escravo da casa, ao passar pela porta, que ficara meio aberta, lobriga a cena que nós três oferecíamos. Chama então, por aceno, os outros, de forma que daí a pouco entra meia dúzia deles, todos boquiabertos diante do que viam. Castor e Pólux contam-lhes então o sucedido, e novas gargalhadas reboam por toda aquela ala de moradia.

Ouvindo tal alvoroço, vem afinal o próprio Diocles, o patrão, a ver do que se trata. E ao ser-lhe explicado o caso, põe-se a rir também, mandando que me sirvam mais alguma coisa, que quer ver como é que faço. Põem-me então à frente um alguidar cheio de salada. Mas eu já tinha comido tanto aquela noite, que apenas belisquei algumas folhas, enfarado. Vendo isso, disse ele:

— Se já comeu tanto como dizem, deve estar agora com sede. Verificaram se também bebe como gente?

Imediatamente trazem-me outra tigela grande, e nela despejam todo o vinho de uma ânfora. Eu então olhei para Diocles com jeito expressivo, fiz-lhe uma reverência com a cabeça, e abanando as orelhas em sinal de satisfação, mergulhei os beiços na malga e chuchurriei até a última gota que nela havia.

Diante disso houve um coro de exclamações e aplausos, a cujo ruído todo o restante do pessoal da casa veio saber o que era. A mulher, os filhos, e as filhas, parentes e apaniguados, e todos os escravos, queriam entrar no quarto já apinhado de gente, para ver a maravilha. Mas eu, farto de tanto comer, e meio atordoado da vinhaça, deitei-me, na presença deles, num dos divas, e pus-me a dormitar, de pança cheia, como fazem os requintados, nos simpósios. Com o que os que não me puderam ver comer não ficaram menos espantados e divertidos, pois era manifesto que debaixo da figura de burro, que era a minha, devia haver muito de humano.

— Amanhã — disse por fim o patrão — tenho vários amigos ao jantar. Deixem portanto o burrinho o dia inteiro sem comer, a fim de que na hora. eu o possa mostrar, com bastante apetite, aos hóspedes.

 

MINHA EXIBIÇÃO

NO dia seguinte, quando o jantar já ia chegando ao fim, fui solenemente introduzido no aposento. Diocles tinha anunciado aos convivas que lhes estava reservada para essa hora uma surpresa; mas pelas exclamações e olhares espantados da maioria deles, percebia-se que a minha aparição ultrapassara toda expectativa. Esperavam certamente alguma bailarina, jovem e formosa, ou um acrobata, ou algum gimnosofista exótico, que com suas danças, suas pelóticas ou suas taumaturgias, lhes oferecesse um espetáculo mais ou menos fora do comum. Mas vendo entrar, em lugar de uma pessoa, um burro, ficaram intrigados extraordinariamente.

Estando tudo combinado de antemão, mandou o mordomo colocar no meio da sala outra mesa, coberta de iguarias das mais finas e variadas; e junto dela um diva com muitas almofadas, como se se tratasse de algum personagem retardatário, mas importante, a quem se devesse a maior consideração. Então Castor, que me introduzira, apontou-me a mesa, e com um aceno de cabeça convidou-me a tomar o assento. Eu, encartando na comédia, adiantei-me, com ar majestoso, e recostei-me no sofá, como o faria o mais acabado sibarita.

Nessa altura os convidados já se tinham levantado, vindo formar um círculo ao redor de mim. E os risos e os comentários revelavam o agrado e a admiração que os meus talentos já em todos despertavam.

Fazendo o papel de copeiros, Castor e Pólux foram pondo à minha frente os pratos, cada qual mais extravagante como comida de burrico. Começaram por uma sopa de andorinhas, que eu sorvi até à metade, pois bem sabia que não era de bom tom ir até o fundo do prato, como um esfaimado; seguiu-se um faisão assado, com molho de alho e mostarda, que eu devorei em grande parte, como sujeito bem educado, que faz a honra devida ao anfitrião; depois veio um pastelão de trutas com aspargos, que degluti com equivalente cortesia. E entre um pitéu e outro, Pólux enchia a malga de prata que estava à minha esquerda, e eu, metendo delicadamente o focinho nela, sorvia o vinho, cerrando as pálpebras, como um consumado membro da báquica confraria. E assim até a sobremesa, que eram maçãs cozidas em mel, com passas de Corinto, tâmaras da Anatólia e figos açucarados, de Cirene.

Findo o cardápio, Castor apresentou-me uma toalha de linho, alvíssima, e eu nela esfreguei duas ou três vezes o focinho, para limpar os beiços.

Então os aplausos, os risos e as exclamações, que, durante toda a minha refeição não tinham cessado, chegaram ao auge; um a um, todos os convivas cumprimentavam Diocles pela estupenda maravilha que tinha em casa. E todos quiseram saber de onde eu viera, de quem me havia ele comprado, quem é que me amestrara, etc, etc.

Mandou então Diocles que Castor e Pólux relatassem o que sabiam, o que eles fizeram, até os últimos pormenores, orgulhosos que estavam, perante os demais servos, de serem os meus principais descobridores.

E a narrativa dos cozinheiros teve também o dom de suscitar o interesse geral e muita hilaridade, principalmente quando eles se referiram às mútuas suspeitas que quase os tinham levado a pugilato.

Um dos convidados propôs então aos outros que se cotizassem, e reunindo quantia suficiente, indenizassem Diocles a fim de que ele libertasse os Dióscuros.

Mas não querendo ficar atrás no capítulo da magnanimidade, ele concedeu-lhes ali mesmo, gratuitamente, a alforria, com a condição de que eu ficasse para sempre na casa, como seu liberto também.

O que tudo foi feito, e celebrado com muitas libações, por todos os convivas, parentes e agregados da família.

 

A CAMINHO DE CORINTO

CHEGADAS as coisas a esse pé, entregou-me Diocles à guarda dos dois novos libertos, recomendando-lhes que tratassem de desenvolver ao máximo as minhas prendas, amestrando-me em tudo quanto» a seu ver, mais extraordinário pudesse parecer num burro. Assim começaram eles a ensinar-me a andar somente com as patas traseiras, a dançar ao som da citara e da flauta, a recostar-me numa cátedra, a responder "sim" ou "não" às perguntas que me fizessem, e outras que tais artes, que eu aliás faria perfeitamente sem precisar de mestres.

Eu, porém, documente obedecia, aparentando o melhor aproveitamento de tal ensino, a fim de não suscitar neles e nos outros, maiores e inoportunas desconfianças.

Mas mesmo com essas precauções minha fama logo encheu toda a cidade; e dentro de alguns dias ninguém falava noutra coisa. A casa de Diocles vivia cheia de curiosos, que queriam verificar com os próprios olhos se era mesmo verdade o que de mim contavam.

Ora, aconteceu que o Procônsul de Corinto tivera aviso de que o César estava prestes a chegar à sua província, numa excursão que andava a fazer por todo o Império. E devendo hospedá-lo em sua sede, tratou de preparar em grande estilo as festas e cerimônias com que lhe competia honrar o soberano. Despachou, pois, a todos os recantos da Grécia, do Ponto, da Síria e do Egito, agentes seus, que descobrissem e engajassem os melhores músicos, dançarinos, gladiadores, mimos, malabaristas, corredores, domadores de feras, condutores de quadrigas, e quejandos profissionais do circo e do teatro, para condignamente celebrar, com o povo de sua jurisdição, a augusta presença.

Chegando um desses delegados a Tessalonica, a primeira coisa de que ficou sabendo foi a minha fama, e por isso desejou ver-me de perto. Ao que Diocles não teve dúvida em anuir, interessado que estava em fazer também o seu cartaz entre os de Roma.

Tão maravilhado ficou o agente, que não quis saber de outros artistas. Ordenou a Diocles que imediatamente se aprontasse para ir com ele apresentar-me ao Procônsul, pois tinha certeza de que somente com o achado de uma raridade tão estranha como eu, já ultrapassara tudo quanto ele pudesse desejar.

Eis-me, pois, novamente, acompanhado pelo agente, por Diocles e pelos dois libertos, a caminho do Istmo.

Como arreame condigno de tão ilustre cavalgadura, puseram-me nas costas uma albarda carmesim, bordada a ouro e presa debaixo da barriga por um par de fivelas do mesmo metal; além disso, um rabicho e um peitoral, de couro da Cítia, tudo pregueado com tachas douradas e guarnecido de guizos e cincerros de prata, que tiniam e tilintavam, ao tranco do meu trote, numa música que todos achavam deliciosa.

De sorte que onde quer que passasse a comitiva, havia à beira da estrada bom número de curiosos, atraídos pela Fama, que por toda parte já trombeteara a minha celebridade.

Assim nossa entrada em Corinto foi como um verdadeiro triunfo. Um correio, despachado adiante, já levara ao Procônsul a notícia do meu achado, de maneira que tanto essa alta autoridade, como as mais miúdas, e todo o povo da cidade, estavam extramuros, à nossa espera.

O olhar que o Procônsul me lançou ao ser-lhe apresentado, confesso que não foi dos mais acolhedores. Pelas notícias que tivera, não sei que idéia teria ele concebido a meu respeito; mas não tenho a mínima dúvida de que, ao ver que eu parecia um burrico como qualquer outro, bem grande foi a decepção que teve.

 

EXAME VESTIBULAR

ENTRETANTO, chegados ao palácio, imediatamente tratou o agente de dar ao Procônsul uma amostra dos meus talentos. Assim, logo à primeira refeição do dia, a que concorriam muitos dignitários, funcionários, cidadãos, amigos, e parasitas, foi disposta na sala uma mesa para mim, com o competente diva e respectivas almofadas.

E quando o almoço ia já quase no fim, pela mão de Castor e Pólux dei entrada no salão, numa indumentária ainda mais vistosa e rica do que a com que viajara.

Sem que ninguém mo ordenasse, encaminhei-me para diante do Procônsul, e aí, dobrando os joelhos, fiz-lhe com a cabeça um rol de reverências, como competia a tamanha personagem. Depois, erguendo-me nas duas patas traseiras, saudei à esquerda e à direita os outros convivas, como a gente também importante, mas não tanto. E só então me dirigi ao meu diva, onde me recostei, apoiado num dos cotovelos, como sujeito bem habituado aos protocolos.

A uma exclamação que por fim o Procônsul não soube conter, os convivas explodiram também em aplausos, maravilhados que estavam, todos, com o meu singular comportamento. E eu, erguendo-me das almofadas, agradeci com a cabeça para um lado e para outro, como fazem, no circo, os acrobatas.

Seguiu-se a exibição das minhas faculdades gastronômicas. De caso pensado havia o Procônsul dado ordens para que só me fossem servidas iguarias caras, condimentadas com mostarda, canela, alho, murta e outras ainda mais exóticas espécies, de par com vinhos fortes e licores raros, a fim de que na minha mesa nada houvesse que não fosse absolutamente estranho ao regime habitual dos muares.

Para aguçar-me o apetite tinham-me os Dióscuros deixado desde a véspera sem comer, o que, com a fadiga da viagem, dera-me uma fome arquicanina. Comecei então a jantar com a melhor disposição deste mundo, devorando conscientemente quanto me punham pela frente, tudo entremeado de largas talagadas de bom vinho.

Depois de bem comido e melhor bebido, Castor me fez dançar uma pírrica ao som de pífaros e pandeiros, o que redobrou a admiração e curiosidade dos circunstantes. E praticadas mais algumas das minhas artes, o próprio Procônsul se levantou para cumprimentar a Diocles pela posse de tão inusitado artista.

Estava eu, portanto, aprovado com distinção naquele primeiro exame, e definitivamente arrolado para figurar no anfiteatro, na augusta presença do César.

Fui alojado, com Castor e Pólux, numa das dependências do palácio, e aí levamos uma vida regalada, à espera do dia do espetáculo.

Escravos vários se sucediam no meu trato: uns para pentear-me o rabo e o sedenho, outro para raspar-me e alisar-me o pêlo, este para aparar-me e polir-me os cascos, aquele para limpar-me as orelhas, as ventas e o focinho; e assim por diante, como se eu fosse uma linda e caprichosa cortesã. Veio até um ferrador, especialmente convocado, que me pregou nas patas dois pares de ferraduras de bronze, com cravos de prata, a fim de que eu comparecesse ao circo condignamente embotinado.

 

CONJETURAS TENEBROSAS

A CERCA de um mês depois chegou a Corinto o César.

Pelos comentários de Castor e Pólux, e dos demais servos postos a meu serviço, soube que a cidade se desmanchara em mesuras e salamaleques diante do poderoso Senhor do Mundo. Receberam-no como se fosse um deus extraviado do Olimpo, que lhes tivesse vindo fazer visita. Oradores, poetas, músicos, filósofos e sofistas celebraram e exaltaram a augusta personalidade com todo o talento e imaginação que tinham. E a bajulação foi a tal ponto, que às pressas mandaram fazer-lhe, por um escultor, a estátua, a fim de solenemente proceder-se à sua apoteose no próprio templo de Hélios, patrono da cidade.

E como era praxe obrigatória em semelhantes ocasiões, organizou-se em honra de César um grande e extraordinário espetáculo no anfiteatro. Artistas e mimos de todos os gêneros e de todos os recantos do Império e do mundo estavam contratados e escalados para exibir diante do Imperador os seus talentos. Seria um espetáculo como nunca em Corinto houvera outro, e, ao que diziam os bairristas, coisa que mesmo em Roma teria tido o maior sucesso.

Por toda parte da cidade havia grandes taboletas em que era anunciada a função. E a todos os lugares e províncias se haviam despachado arautos, a fazer igual anúncio e a concitar os povos a que concorressem à cidade, a fim de que o Imperador tivesse no anfiteatro uma homenagem à altura.

Mas tanto nesses cartazes, como nos bandos de arautos, a parte que a mim se referia era, de longe, a mais saliente. Destacando dos demais números anunciados, uns e outros afirmavam que o espetáculo ia marcar época na história devido às proezas e ao talento do

 

         BURRICO SÁBIO

         O maior assombro de todos os tempos.

         O jumento que come, bebe, dança e se

         comporta como o mais perfeito cortesão.

         A Maravilha das maravilhas.

         Verdadeira fábrica de gargalhadas.

         Ver para crer!

 

Com tamanha propaganda dos meus feitos e capacidades, era do povo ficar na dúvida se o maior acontecimento seria a presença do César na cidade, ou o meu aparecimento no anfiteatro...

Até os meus cornacas acabaram por ficar apreensivos:

— Será que o raio do burro compreende a importância da festa?... — indagou Pólux ao companheiro.

— Como assim? — retrucou Castor, franzindo a testa.

— Imagine se na hora H o demônio do bicho amua, ou esquece todas as habilidades, e dá para zurrar e escoicear indecentemente, como um burrico qualquer, diante do Imperador, do Procônsul, de todo o povo!...

— Vira essa boca para lá! Nem é bom pensar em semelhante coisa! Como afinal o burro não passa de um animal, sem consciência, na melhor das hipóteses nós é que haveríamos de pagar o pato, e, olha!...

E fez um gesto de passar uma lâmina afiada pelo pescoço, indicando o triste suplício que os esperava, caso eu fizesse, rio circo, um tal fiasco.

— Em todo o caso — disse ele — vamos fazer uma promessa a Apolo Délfico, a quem antigamente se sacrificavam burros. ..

Eu não deixei de sorrir, cá comigo, à idéia de semelhante hipótese. Seria uma boa peça a pregar a Diocles, ao Procônsul e ao Imperador, se na minha hora, em vez de imitar os gestos, as atitudes e os hábitos dos homens, eu desse para arremedar a postura, e o comportamento de um asno autêntico! Que crise, que complicação, que angu-de-caroço não haveria em tal caso: o Imperador, furioso; o Procônsul, indignado, Diocles, desesperado; os meus dois libertos, aprontando-se para morrer ignominiosamente!...

Mas se a conjetura era assim tão prometedora, contudo não deixava de ter o seu reverso: quem me garantia que no meio da encrenca não iria eu também na onda, como primeiro e direto responsável pela coisa?...

Pelo sim e pelo não, o melhor era eu ficar quietinho e desempenhar o meu papel, conscienciosamente, até o fim. Granjeada a simpatia ou o interesse do Imperador, ou quando menos do Procônsul, talvez a sorte começasse enfim a se me mostrar menos madrasta...

 

ÚLTIMOS PREPARATIVOS

COM esses propósitos mais sensatos na mioleira, aguardei pachorrentamente o dia do espetáculo, decidido a dar o máximo do meu asinino estro.

Afinal, certa madrugada, o mimopompo veio ter com os Dioscuros, e depois de trocarem algumas palavras, tomaram-me pela arreata e conduziram-me em direção ao circo. Apesar de ainda estar um tanto escuro, os que nos encontravam, vendo-me o vulto, logo desconfiavam da minha identidade; e punham-se a acompanhar-nos, interessadíssimos. De sorte que ao chegarmos ao anfiteatro, em cujas dependências fora reservado para mim um dos melhores camarins, íamos escoltados por um verdadeiro cortejo de curiosos.

— Será o tal burrinho?... — indagava um.

— Claro! Não há outro número asnático no programa...

— Mas assim, em pêlo, e com o cabresto, como qualquer azêmola de lavrador?!...

— Ora! É para despistar, não está vendo...

Os guardas, porém, abriram a porta e fizeram-me entrar, obrigando o zé-povinho a ficar, com os seus comentários, do lado de fora.

No camarim já me aguardava numerosa turba de serviçais: barbeiros, peruqueiros, pedicuros, odontônomos, alfaiates, clamideiros e outros que tais artífices, os quais logo se puseram a cuidar da minha tualéte e maquilage, a fim de que eu aparecesse perante o Imperador na melhor forma compatível com a minha quadrupedal figura.

Como ficara sendo praxe ultimamente, nada de comida nem bebida naquelas longas horas preliminares; de sorte que eu já estava sentindo a barriga a dar horas, com a língua seca e o cuspo grosso, de sede. Mas como a paciência é a máxima virtude dos estóicos, e dos burros, resignadamente me submeti aos cuidados dos meus embelezadores, e quedei esperando que passasse o tempo.

Não sei ao certo quantas horas fiquei ali, enquanto me alisavam o pêlo, me frisavam a cola e a crina, me bruniam os cascos, me escovavam os dentes, me alimpavam as orelhas, as narinas, e outros orifícios, como a uma outra Frinéia que daí a pouco houvesse de enfrentar novos e mais ferrenhos juizes. Até que a horas tantas, que não deviam ter sido poucas, comecei a ouvir aplausos, aclamações, berros, assobios, com uivos de feras de permeio, donde concluí que o espetáculo havia principiado.

Meu número figurava porém quase no fim do programa, de maneira que tive de esperar ainda um bom pedaço, antes que me chegasse a vez. E o estômago a roncar, cada vez mais imperiosamente!...

Um contra-regra veio avisar, afinal, que nos preparássemos, pois daí a pouco teríamos de entrar em cena.

— E o espetáculo, que tal? — perguntou-lhe um dos que cuidavam de mim.

— Muito bom, muito bonito, muito variado ... Mas o povo está ansioso por ver o burro. Nos intervalos, enquanto se varre e se recompõe a arena, não cessam de gritar, os das gerais: — "Nós queremos: Burrico! Nós queremos: Burrico!! Nós queremos: Burrico!!!" — Escutem só...

E de fato, apurando as orelhas, ouvimos o eco de um berreiro, sincopado e epiléptico, que plenamente confirmava o que dizia o homem.

 

NO ANFITEATRO

CHEGOU afinal a minha hora, e fomos, eu mais os dois libertos, para a arena. No meio dela tinham disposto uma mesa, com uma toalha finíssima de linho, e ao lado um sofá, com muitos coxins, para as minhas exibições manducativas. Num aparador, a certa distância, toda sorte de iguarias, cada qual mais alheia à dieta natural dos burros, ao lado de ânforas e bilhas que certamente conteriam vinhos e licores igualmente extravagantes para a goela de uma cavalgadura.

À minha entrada levantou-se um alarido ensurdecedor de aplausos da enorme multidão, que como de costume já de saída me rendia um preito, ainda antes que eu lhe desse a menor amostra da minha arte. Donde concluí que os empresários tinham feito conscienciosamente a propaganda.

Eu trajava uma albarda de púrpura, bordada e franjada de ouro, com cabeçada, fivelas e peitoral reluzentes de metais caros. Da cabeçada e demais arreames pendiam guizos e cincerros de prata, ainda mais ricos e harmoniosos do que os que trouxera de Tessalonica. E da testeira surgia um feixe de plumas, que ondulavam majestosamente ao meu mínimo movimento. Decididamente, desde o tempo de Artaxerxes ninguém jamais vira outro sátrapa tão soberba e pròdigamente indumentado.

Sem que ninguém me encomendasse o sermão, imediatamente me dirigi à frente da tribuna onde estava o César, com seus áulicos, atrás dos quais percebi a grenha ruiva e crespa do Procônsul, que mesmo com a sua coroazinha de louro, nem por isso deixara de ser posto no lugar que lhe competia, atrás das togas e diademas dos mais validos.

Chegado a distância conveniente, dobrei os joelhos em terra, e fiz três séries de mesuras profundíssimas ao Imperador, o qual não pôde conter uma gostosa gargalhada, diante do que via. Então, ante o augusto exemplo, o mundo pareceu que vinha abaixo, tal a estrondosa hilaridade que encheu o circo, desde as tribunas até os últimos e elevados degraus das arquibancadas.

Após essas devidas reverências, fez-me Castor executar, de pé apenas nos cascos traseiros, vários gêneros de dança, desde a guerreira pírrica, até a cordax e a calabis, com todos os ademanes, trejeitos e gaifonas com que o costumam fazer os mais deslavados bailarins. Depois reproduzi, na mesma postura, a sarabanda dos que acompanham o carro de Dionísio, com os gestos, saltos, contorsões, priscos e estrebuchos de tais bacantes.

O povo delirou de entusiasmo e os arcos e muros do teatro retumbaram à vibração dos aplausos e aclamações.

Em seguida um arauto, de voz mais tonitroante que Heródoros, começou a me fazer perguntas, a fim de revelar a minha intelectual capacidade. A primeira das quais foi esta:

— Quem te trouxe a Corinto, a fim de te exibir ante a divindade augusta de César?

Eu percorri com os olhos todo o anfiteatro, e vendo numa tribuna lateral a ri-sonha figura de Diocles, dirigi-me para o seu lado, e chegando perto estendi em sua direção o beiço, como se o estivesse apontando com o dedo.

Estrondosos e ainda mais prolongados foram os urros admirativos da multidão, a essa e demais respostas que adequadamente fui dando a cada pergunta do estentor.

Por fim levou-me Pólux à mesa; e ao aproximar-me, ouvi o arauto que bradava:

— O Procônsul ordena que te ponhas a mesa e comas pelo estilo dórico!...

Dirigi-me então a um banco reforçado e sem encosto, que estava do outro lado da mesa, e sentei-me nele ao modo espartano. A turba porém protestou:

— Abaixo Esparta! Fora com os dóricos! Há de ser ao modo jônico!!

Eu, que também nunca fora muito com a cara dos lacônicos, fingi hesitar uns momentos, e rodeei a mesa, indo recostar-me no diva, entre as almofadas, abanando as orelhas em sinal de satisfação.

É impossível exprimir a tempestade de aplausos e de vivas com que o povo acolheu meu gesto. Só posso dizer que, com o apetite que me varava as tripas, pareceu-me que aquela turba pretendia levar mais de uma hora no berreiro.

E o mesmo alarido e estrondo prosseguiram enquanto eu fui saboreando os quitutes sucessivos que me eram apresentados; e ainda mais quando, entre um prato e outro, piscava um olho a Pólux, apontando-lhe com o focinho a malga, a fim de que ele ma tornasse a encher de vinho.

Enfim, multipliquem por cem mil o êxito que eu obtivera dias antes em casa do Procônsul, e terão uma aproximada idéia do sucesso que logrei no circo. Pois essas e outras mostras dos meus talentos já se prolongavam por mais de duas horas, e entretanto a multidão não dava sinal de cansaço. Depois de cada sorte, pedia, aos berros, outras e outras, como se estivesse disposta a passar ali o resto da tarde e a noite toda!

 

A METAMORFOSE

E ALI ficaríamos nós, a satisfazer as exigências da multidão, sem saber até quando a coisa iria, se Zeus, paternal e amigo, não se dignasse a pôr enfim um termo ao espetáculo e às minhas asininas desventuras.

Foi caso que um dos servos que de quando em quando procediam à limpeza e recomposição da pista, varrendo-a, passando-lhe o ancinho, e esparzindo flores pelo chão, assomou de repente na arena, trazendo à cabeça um grande cesto de rosas. Imediatamente lembrei-me do que dissera Palestra acerca do único meio de eu recobrar à forma humana, e vinha a ser o comer pétalas de tais flores; o que, em todas as minhas variadas andanças e aventuras, jamais me havia sido possível.

Então, sem pensar em mais nada, sem atender a Imperador, nem a Procônsul, nem ao público, dei um salto do diva e voei para onde estava o escravo; este, tomado de surpresa e de susto, deixou cair o cesto e esgueirou-se pela mesma portinhola por onde entrara. Eu, sem ligar ao homem, que escapolia, entrei a devorar as preciosas pétalas salvadoras.

O povo, cuidando que aquilo fosse outra proeza especial minha, pois nem os homens nem os burros jamais se alimentaram de flores, pôs-se incontinenti mudo e quedo, à espera do que ia suceder.

E foi então que dei causa à maior de todas as maravilhas: porque à medida que ia engolindo as mimosas flores perfumadas, meu corpo de jumento se foi modificando: as grandes orelhas peludas foram diminuindo, bem como a cabeçorra, que foi minguando e arredondando pouco a pouco reassumindo as feições humanas de outrora; enquanto isso o corpo também se fora transformando, tornando-se mais esguio; o couro, adelgaçando, clareando e derrubando o pêlo, tomava a cor, a maciez e o aspecto da pele humana; as pernas e os braços volviam ao feitio antigo, ao passo que os cascos se dividiam, adelgaçavam-se e voltavam a ser mãos e pés, com seus dedos, suas unhas e sua epiderme de gente.

Recuperando então o uso dos braços e das mãos, desvencilhei-me da albarda, do rabicho, do peitoral e do plumífero cabresto, ressurgindo afinal — pelo menos assim o imaginava — no antigo porte e aprumo de rapaz esbelto e bem apessoado.

O sol, porém, já descambava, e quando ia dar graças aos deuses pela minha redenção, vi, pela sombra que se estirava na arena, que do malfadado jumento ainda me sobrava alguma coisa: o rabo!

Corado de vergonha, como se fosse minha a culpa, passei a mão pelo traseiro e verifiquei que a cola tosca e áspera do asno que tinha sido até pouco antes, persistia, renitente e ridícula, pendente do fim da minha espinha dorsal; e inconscientemente, com o hábito jumental adquirido, o maldito rabo abanava de um lado para outro, como se ornasse ainda a velha anca do burrico!

O público, que até então assistira, em suspenso, a toda a minha metamorfose, à vista daquele apêndice, indecente e afrontoso, que teimava em me enfeitar o sua, começou a rir incoercivelmente, a princípio com certa discrição, depois mais alto, e afinal, contaminando-se uns aos outros, numa hilaridade generalizada e retumbante, e sobretudo humilhantíssima para mim, que ali estava, no meio do anfiteatro, exposto a todos os olhares.

Desesperado, lembrando-me do rifão de que o rabo é sempre o mais difícil de esfolar, voltei de novo ao cesto e pus-me a engurgitar sofregamente o que nele ainda restava de pétalas cheirosas. Sem escolher, como antes, apenas as tenras partes das flores, fui comendo tudo: pétalas, pecíolos, cálices, talos, folhas, e até os próprios espinhos, sem maiores luxos. De vez em quando dava uma espiadela à sombra, mas o maldito rabo sempre ali, impertérrito! Em todo caso, pareceu-me, numa dessas inspeções, que a sombra se mostrava mais delgada e curta do que a princípio Então, apalpando com a mão, percebi que de fato a cauda se reduzira a menos da metade, tanto na espessura como no comprimento. E vendo que ainda havia no fundo do cesto e ao redor, no chão, alguns bons punhados de pétalas, apanhei-as como último recurso, e engoli-as, sem mesmo mastigar.

Nesse instante, um clamor de admiração e de entusiasmo subiu aos ares, do anfiteatro inteiro; e eu, voltando-me um pouco, vi, estendida a meus pés, ressequida e hirsuta como uma múmia, a cauda fatídica que finalmente se decidira a desprender-se!

Uff!...

 

O JUÍZO DE CÉSAR

NESSA altura, ante a inesperada e estranha maravilha a que presenciara, a multidão começou a mudar de sentimentos. Enquanto uma parte continuava a aplaudir-me e aclamar-me com entusiasmo cada vez maior, outra entrou a berrar que me prendessem, que me matassem, que eu não podia deixar de ser um maligno e perigosíssimo feiticeiro, que usava de minhas artes e poderes demoníacos para transformar-me em burro ou em outros bichos, para assim exercer mais livremente os mais detestáveis malefícios. Outros declaravam, estarrecidos, que aquilo era um sinal de péssimo agouro, e que o mínimo que deviam esperar seria o fim do mundo! Mas nisso o Imperador levantou-se na sua tribuna. E no meio do silêncio profundo que logo se estabeleceu, assim falou o César:

— Não é costume dos romanos, nem por certo o será dos gregos, condenar a quem quer que seja, sem prévio julgamento. Antes de tomar qualquer decisão acerca do estranho caso deste homem, ordeno que ele fale e produza os argumentos que porventura tenha em sua defesa.

Uma nova torrente de aplausos acolheu as palavras do soberano, embora muitas mulheres ainda cobrissem o rosto com os véus e fizessem figas em minha direção. Então eu me adiantei até à tribuna imperial, alcei o braço, como manda o latino protocolo, e declarei:

— Ave, César, predileto dos Deuses, segurança do Mundo, e particular e honrosa providência dos helenos! Não sou nenhum estrangeiro, nem muito menos taumaturgo ou mago, nem tenho pacto com exóticas ou ctônicas deidades, para debaixo de proteicas aparências exercer o mal e prejudicar o próximo. Sou filho de Demétrio, de Patras, chamo-me Lúcio, e tenho um irmão que da tua estirpe ilustre tomou o nome, para si, de Caio. Este é autor de livros de histórias e de várias outras obras que lograram certa estima e aceitação na Grécia. Há alguns anos, cuja conta não sou capaz de estatuir, indo a Hipata, a negócios de meu pai, em castigo de minha curiosidade uma bruxa ali transformou-me em asno...

A estas palavras o Procônsul levantou-se, e fazendo profunda vênia ao Imperador, cortou-me em meio o discurso:

— Permite, ó César, que eu interrompa as declarações deste mancebo, pois um dever de consciência me obriga a fazer-me seu advogado. Creio absolutamente na verdade de tudo quanto ele acaba de afirmar. Antes que a tua magnanimidade me confiasse, há dois anos, o proconsulado da Acaia, em que atualmente procuro servir à tua divindade e ao Império, fui procurador naquela província, cuja sede é Hipata. Durante a minha administração deu-se um fato, diversamente apreciado por uns e por outros, mas cujo epílogo agora vejo revelado no maravilhoso sucesso a que acabamos de assistir. Foi o caso que um velho usurário da cidade, chamado Hiparco, teve uma noite sua casa assaltada por ladrões, estando ele ausente, bem como a mulher, cuja reputação naquela cidade era a de uma bruxa da pior espécie. Quase toda a gente acreditou na conivência de um rapaz, que dias antes se hospedara na casa, dizendo-se enviado de um comanditário de Hiparco, e que na realidade seria apenas um comparsa dos bandidos, encarregado de iludir os donos e lhes franquear a casa, facilitando o assalto. Poucos deram crédito às declarações de uma jovem escrava, que afirmou, e posta em tormento confirmou, que o moço fora transformado em burro e levado pelos ladrões, com outros animais que se achavam na estrebaria, antes que ela pudesse dar-lhe a comer folhas de rosas, com que ele volvesse à forma humana. À falta de provas e de indícios mais certeiros para uma decisão, acredito que o processo até hoje deva ter ficado em suspenso. ..

A multidão, embasbacada, aguardava a decisão que devia dar o Imperador ao meu surpreendente caso. E essa foi esta:

— Louvando-me no testemunho do mui prestante e amado Procônsul desta Província, em nome do Senado e do Povo Romano, declaro livre e isento de toda a culpa o burric... isto é, o mancebo que aí está em nossa presença, e ordeno que assim seja ele havido e tratado por todas as autoridades, patrícios, cavaleiros e povo, desta como das demais províncias do Império. Vale!

Um delírio de aclamações coroou a sentença do César. E enquanto, a mandado do Procônsul, um escravo me vestia uma túnica de linho, e outro me punha nos pés umas sandálias, eu repetia a terceira reverência ao César, a quem Palas acabava de inspirar tão memorável e justo juízo.

E despedindo-me da multidão, e agradecendo os aplausos que ela ainda me fazia, deixei o anfiteatro e saí a procurar, em Corinto, alguém que me proporcionasse os meios e a oportunidade de regressar à minha terra.

 

SEGREDO

ASSIM, pouco depois estava novamente em Patras, onde meus pais, meus irmãos, e meus amigos, durante vários anos me haviam dado e chorado por morto.

Como minha família era antiga e considerada na cidade, em breve estava eu investido em alto posto da administração e da judicatura, acatado, benquisto e prestigiado por todos, conterrâneos e forasteiros.

Mas cá entre nós, que ninguém nos ouve: às vezes me vem uma tal saudade dos meus tempos de burrico...

Não vão porém dizer isso por aí, hein!

 

                                                                                Léo Vaz  

 

                      

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