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Se o Reichsleiter Martin Bormann, chefe da Chancelaria do Partido Nazista e secretário de Adolf Hitler, o homem mais poderoso da Alemanha depois do Führer, realmente escapou do bunker do Führer em Berlim nas primeiras horas de 2 de maio de 1945 ou morreu tentando atravessar a ponte Weidendammer, tem sido sempre matéria de conjetura. Josef Stalin acreditava que ele estivesse vivo; Jacob Glas, motorista de Bormann, jura que o viu em Munique depois da guerra; e Eichmann disse aos israelenses que ele ainda estava vivo em 1960. Simon Wiesenthal, o maior dos caçadores de nazistas, sempre insistiu em que ele estava vivo, e depois teve o espanhol que serviu nas SS que afirmou: Bormann deixou a Noruega num U-boat rumo à América do Sul bem no fim da guerra...
BERLIM • BUNKER DE HITLER
30 DE ABRIL DE 1945
A cidade parecia estar em chamas, qual inferno na Terra, o chão estremecia com o explodir das bombas e a fumaça pairava na alvorada como uma cortina negra. Os russos já tinham assumido formalmente o controle da parte oriental de Berlim, e os refugiados, transportando todos os haveres que conseguiam, avançavam pela Wilhelmstrasse, perto da Chancelaria do Reich, na esperança de chegar de algum modo à parte ocidental e aos americanos.
Berlim estava condenada — todo mundo sabia —, e o pânico era terrível. Nas proximidades da Chancelaria, um grupo de SS detinha todos que estivessem fardados. A menos que conseguissem justificar sua presença ali, eram imediatamente acusados de deserção e enforcados. Um morteiro zuniu, disparado ao acaso pela artilharia russa. Ouviram-se gritos de aflição e as pessoas se dispersaram.
A própria Chancelaria fora atingida e desfigurada pelo bombardeio, mas nas profundezas da terra, protegidos por trinta metros de concreto, o Führer e seu estado-maior continuavam a trabalhar num mundo subterrâneo autossuficiente que se mantinha ainda em contato, via rádio, com o exterior. Os outrora magníficos jardins da Chancelaria eram agora um caos de árvores desenraizadas e ocasionais crateras de morteiro. Apenas uma bênção: a atividade aérea era escassa — a chuva intensa limpara, por ora, o céu de aviões.
O homem que caminhava por aquele jardim destroçado parecia estranhamente indiferente ao que se passava, nem sequer pestanejando quando um novo morteiro aterrissou do outro lado da Chancelaria. Quando a chuva aumentou de intensidade, limitou-se a levantar a gola, acendeu um cigarro e continuou a andar. Não era muito alto, tinha ombros fortes e feições grosseiras. Teria passado despercebido num grupo de operários ou estivadores — nada de distintivo, nada de notório. Nele tudo era banal, desde o puído sobretudo, comprido, pelos tornozelos, até o boné deformado.
E, no entanto, esse homem era o Reichsleiter Martin Bormann, o homem mais poderoso da Alemanha depois de Hitler. A grande maioria do povo alemão nunca tinha ouvido falar dele, e menos ainda o teria reconhecido se o visse. Bormann optara deliberadamente pelo anonimato, limitando-se a exercer seu poder a partir das sombras. Mas agora estava tudo acabado, e aquele era o fim último das coisas.
Um cabo SS saiu do bunker e bateu continência.
— Herr Reichsleiter, o Führer solicita sua presença no gabinete.
— Vou já.
Quando Bormann bateu na porta do gabinete e entrou, o Führer estava sentado atrás da escrivaninha analisando mapas com uma lupa. Ergueu o olhar.
— Ah, Bormann, é você. Não temos muito tempo. Os malditos russos não demoram, mas não me me encontrarão esperando. Vou me suicidar.
— Esperava que reconsiderasse, que fugisse para a Baviera.
— Não. Já decidi. Mas você, meu amigo, tem uma tarefa a cumprir.
Hitler se levantou e contornou a mesa em passo arrastado. Tinha o rosto encovado e as mãos tremiam quando pegou as de Bormann. E, no entanto, ainda se sentia sua força. Bormann se comoveu.
— Tudo o que quiser, mein Führer.
— Sabia que podia contar com você. — Tornou a se arrastar até a cadeira. — A Kamaradenwerk. Eis sua função, velar pela sobrevivência do nacional-socialismo.
Hitler se inclinou e de sob a escrivaninha tirou uma pasta estranha, de um prateado baço. Bormann reparou na insígnia da Kriegsmarine gravada no canto superior direito.
Hitler a abriu.
— O que está aqui dentro vai a se revelar útil a seu tempo. — Pegou uma capa de couro. — Detalhes de contas numeradas em vários países da América do Sul e nos Estados Unidos. Em todos esses lugares temos amigos que apenas aguardam notícias suas.
— Algo mais, meu Führer?
Hitler pegou um arquivo grande.
— Chamo de Livro Azul. Contém os nomes de vários representantes das classes altas britânicas que simpatizam com nossa causa. Também alguns amigos americanos. E por último, mas não menos importante... — Estendeu outro envelope. — Abra-o.
O papel era de uma tal qualidade que quase parecia pergaminho. Fora redigido em inglês em julho de 1940 no Estoril, em Portugal, e era dirigido ao Führer. A assinatura era de Sua Alteza Real o Duque de Windsor. Que concordava em ascender ao trono da Grã-Bretanha na eventualidade de uma invasão alemã bem-sucedida.
— O Protocolo Windsor — limitou-se Hitler a dizer.
— Isso é verdade? — perguntou Bormann, estupefato.
— Himmler juraria pessoalmente por isto. Ele instruiu os agentes destacados em Portugal na época a abordarem o duque.
Ou disse que tinha instruído, pensou Bormann. Aquele animalzinho manhoso sempre tinha sido capaz de tudo e mais alguma coisa.
O Führer tornou a arrumar os papéis na pasta.
— Estas pastas fazem parte do equipamento normal de todos os comandantes de submarino. Completamente herméticas, à prova de água e fogo. — Ele a deslizou pela escrivaninha. — Agora é sua.
— Há uma questão, meu Führer — disse Bormann, após uma pausa. — Como saio daqui? Estamos cercados.
— É muito simples. Sai de avião, decolando da Avenida Leste-Oeste. Falei pessoalmente com o comandante da base da Luftwaffe em Rechlin. — Hitler relanceou o olhar por um papel que tinha na mesa. — Um tal capitão Neumann ofereceu-se como voluntário para voar até aqui à noite e aguarda neste momento suas ordens naquela garagem grande na casa de Goebbels, perto da Porta de Brandemburgo. Vai levá-lo até Rechlin e reabastecer para um voo direto até Bergen, Noruega. Você segue viagem de submarino até a Venezuela, onde faz escala. Aqui estão todos os detalhes. — Entregou-lhe um envelope. — Vai encontrar também aí dentro minha autorização pessoal e vários passaportes falsos.
— Parto então esta noite? — perguntou Bormann.
— Não. Parte em uma hora — replicou Hitler calmamente. — Graças à chuva torrencial e às nuvens baixas, não há neste momento patrulhamento aéreo. O capitão Neumann acha que pode surpreendê-los por completo, e eu concordo. Tenho plena confiança de que será bem-sucedido.
Diante daquilo, não havia argumento possível, e Bormann assentiu.
— Com certeza, meu Führer.
— Nesse caso, só mais uma coisa — disse Hitler. — Há uma pessoa ali no quarto. Vá chamá-la.
O homem com quem Bormann se deparou envergava uniforme de tenente-general das SS. Havia nele algo de familiar e, por alguma razão, Bormann se sentiu extremamente perturbado.
— Meu Führer — disse o homem, e fez a saudação nazista para Hitler.
— Notou a semelhança, Bormann? — perguntou Hitler.
Foi então que Bormann percebeu por que se sentira tão desconfortável. Não havia dúvida — o general se parecia realmente com ele.
— O general Strasser tomará seu lugar aqui — disse Hitler. — Ficará nos bastidores até que se dê a debandada geral. Na confusão da partida, é muito pouco provável que alguém repare. — Virou-se para Strasser. — Pode fazer isso pelo seu Führer?
— De todo coração — disse Strasser.
— Ótimo. Nesse caso, agora vão trocar de uniforme. Podem usar meu quarto. — Contornou a mesa e tomou as mãos de Bormann nas suas. — Prefiro me despedir já, meu velho amigo. Não voltaremos a nos ver.
Apesar da sua natureza cínica, Bormann ficou incrivelmente emocionado.
— Serei bem-sucedido, meu Führer. Tem minha palavra.
Precisamente meia hora mais tarde, Bormann deixava o bunker, com um pesado sobretudo de couro por cima do uniforme das SS, levando uma bolsa de viagem militar que tinha dentro a pasta. Num dos bolsos, uma pistola Mauser com silenciador. Contornou o Tiergarten — dando-se conta de que havia gente por toda parte, principalmente refugiados —, atravessou a Porta de Brandemburgo e depressa chegou à casa de Goebbels. A casa estava danificada, mas o vasto edifício da garagem parecia intacto. Bormann abriu cautelosamente a pequena porta. Lá dentro estava escuro, e uma voz gritou: — Alto.
As luzes se acenderam, e Bormann se deparou com um jovem em uniforme de capitão da Luftwaffe, em pé junto à parede, pistola na mão. No meio da garagem vazia, um pequeno avião de reconhecimento Fieseler Storch.
— Capitão Neumann?
— General Strasser? — O jovem ficou aliviado e guardou a pistola no coldre. — Estou esperando os russos desde que cheguei.
— Acha que temos chance de decolar?
O jovem sorriu.
— Costuma ter sorte, general?
— Sempre.
— Ótimo. Atravessaremos a rua até a Porta de Brandemburgo. Daí, decolo no sentido da Coluna da Vitória. Coisa que eles não esperam, já que o vento sopra na direção errada.
— E isso não é perigoso? — perguntou Bormann.
— Sem dúvida.
O Storch roncou rua abaixo, dispersando refugiados atônitos à sua frente, e de súbito estavam no ar. Bormann não notou um disparo sequer do solo.
A chuva caía copiosamente.
— Deve ser um homem com sorte, Herr Reichsleiter — disse o piloto.
Bormann voltou-se bruscamente para ele.
— Do que foi que me chamou?
— Lamento ter dito o que não devia — disse Neumann —, mas conheci-o há tempos numa cerimônia de condecorações em Berlim.
Bormann deixou a coisa passar.
— Não se preocupe.
A segunda parte da viagem foi particularmente difícil, cruzando em direção à costa oeste da Dinamarca e atravessando o Skagerrak para o norte. Quando chegaram à base de Bergen, estava escuro como breu e frio, muito frio — granizo misturado com chuva. Um controlador de pista guiou-os com uma lanterna em cada mão até o local de estacionamento, depois se afastou. Bormann reparou num Kübelwagen que avançava para eles. Parou do lado contrário ao dos aviões estacionados, que eram vários. Neumann desligou o motor.
— Deixe que eu levo a bolsa.
Bormann desceu, e Neumann devolveu a bolsa.
— Foi pena ter me reconhecido — disse Bormann, e, tirando a Mauser do bolso, matou-o com um tiro na cabeça.
O homem junto ao Kübelwagen era um oficial da Marinha.
— General Strasser?
— Exatamente — disse Bormann.
— Korvettenkapitän Paul Friemel. — Friemel esboçou uma continência. — Comandante do U180.
Bormann jogou a bolsa no banco de trás do Kübelwagen e instalou-se no lugar do passageiro. Quando o outro tomou seu lugar ao volante, o Reichsleiter perguntou: — Está pronto para se fazer ao mar?
— Sem dúvida, general.
— Ótimo. Nesse caso, largamos imediatamente.
— Às ordens, general — respondeu Friemel, e arrancou.
Bormann respirou fundo: sentia o cheiro de maresia no ar.
Acendeu um cigarro e recostou-se no banco, olhando as estrelas e recordando Berlim como um mero pesadelo.
1
1992
Pouco antes da meia-noite começou a chover quando Dillon estacionou o Mercedes na beira da estrada, acendeu a luz interna e verificou o mapa. Klagenfurt ficara trinta quilômetros atrás, o que significava que a fronteira com a Iugoslávia devia estar muito perto agora. Havia uma placa de trânsito alguns metros adiante e ele pegou uma lanterna no porta-luvas, saiu do carro e caminhou em sua direção, assobiando baixinho, um homem pequeno, pouco mais de um metro e sessenta e cinco ou seis, cabelos quase brancos de tão louros. Usava uma velha jaqueta de couro preta, cachecol branco no pescoço e jeans escuro. A placa mostrava que a entrada para Fehring ficava à direita, cinco quilômetros adiante. Ele não demonstrou emoção, simplesmente tirou um cigarro de uma cigarreira de prata, acendeu-o com um isqueiro Zippo antigo e voltou para o carro.
Chovia muito agora na estrada mal pavimentada, com altas montanhas à direita. Ele ligou o rádio e ouviu um pouco de música noturna, ocasionalmente assobiando a melodia até chegar ao portão à esquerda e diminuir a velocidade para ler a placa. Precisava muito de uma nova camada de tinta, mas a inscrição era clara o suficiente. FEHRING AERO CLUB. Entrou pelos portões e seguiu uma trilha, cambaleando pelos buracos até avistar abaixo o campo de aviação.
Apagou os faróis e fez uma pausa. O local tinha um aspecto miserável, dois hangares, três cabanas e um vacilante simulacro de torre de controle, mas havia luz saindo de um dos hangares e das janelas da última cabana. Ficou em ponto morto, soltou o freio e deixou o Mercedes descer a colina silenciosamente, parando do outro lado da pista em relação aos hangares. Ficou sentado pensando nas coisas por um momento, depois tirou uma Walther PPK e luvas de couro preto da pasta de documentos ao lado dele. Verificou a Walther, enfiou-a na cintura, pôs as luvas e começou a atravessar a pista sob a chuva.
O hangar era velho, mas o avião que estava lá dentro, um turbo-hélice bimotor Cessna 441 Conquest, tinha muito bom aspecto. Em cima de uma escada, um mecânico de macacão trabalhava no motor de bombordo. A porta da cabine estava aberta, e dois homens desciam a escada.
— Acabamos, Dr. Wegner — gritou um deles em alemão.
Um homem de barba saiu do pequeno escritório num canto do hangar.
— Está bem, podem ir. — Enquanto os outros se afastavam, ele perguntou ao mecânico: — Algum problema, Tomic?
— Nada de grave, Herr Doctor, só afinação.
— O que não serve de nada, a não ser que esse tal Dillon apareça — comentou outro homem, de japona de marinheiro, que entrava nesse momento.
— Consta que ele é incapaz de resistir a um desafio — disse Wegner.
— Um mercenário — continuou o jovem. — É a isso que estamos reduzidos. Ao tipo de homem que mata por dinheiro.
— Tem criança morrendo do lado de lá da fronteira — observou Wegner. — Elas precisam do que está neste avião. Para isso, eu contrataria o próprio diabo.
— O que, provavelmente, terá que fazer mesmo.
— Isso não foi gentil — gritou Dillon em excelente alemão. — Nada gentil mesmo. — E saiu das sombras no fim do hangar.
O homem mais jovem colocou a mão no bolso e a Walther de Dillon apareceu logo em sua mão. — Visão total, filho, visão total.
Dillon se adiantou, virou o jovem e retirou uma pistola Mauser do bolso direito. — Mas olha isso agora! Não se pode confiar em uma só alma hoje em dia.
— Mr. Dillon? Sean Dillon? — inquiriu Wegner em inglês.
— Assim me chamam. — Dillon colocou a Mauser no bolso da calça, pegou a cigarreira com uma só mão, a outra ainda segurando a Walther, e conseguiu tirar um cigarro. — E quem seria você, meu velho? — Seu linguajar tinha um tom áspero só encontrado no Ulster, não na República da Irlanda.
— Dr. Hans Wegner, da International Drug Relief, a assistência internacional de medicamentos, e este é Klaus Schmidt, do nosso escritório em Viena. Ele arranjou o avião para nós.
— É mesmo? Isso pesa a seu favor. — Dillon tirou a Mauser do bolso e a devolveu. — Fazer o bem é muito bom, mas brincar com armas sem saber usar é um jogo marcado.
O jovem corou, pegou a Mauser e a colocou no bolso, e Wegner disse suavemente: — Herr Schmidt fez duas viagens por terra com suprimentos médicos.
— Então, por que não faz desta vez? — perguntou Dillon.
— Esta região da Croácia está atualmente em disputa — disse Schmidt. — Há intensos combates entre sérvios, muçulmanos e croatas.
— Compreendo. Portanto, cabe a mim conseguir por ar o que você não consegue por estrada?
— Mr. Dillon, daqui até Sabac são quase duzentos quilômetros, e o corredor aéreo continua aberto. Este avião atinge mais de quatrocentos e oitenta quilômetros por hora. Estará lá em vinte minutos.
Dillon soltou uma gargalhada.
— É óbvio que não entende nada de aviões. — Percebeu que o mecânico sorria do alto da escada. — Ah, então fala inglês, meu velho.
— Um pouco.
— Tomic é croata — esclareceu o Dr. Wegner.
Dillon olhou para cima.
— E qual é sua opinião?
— Estive na Força Aérea — disse Tomic. — Conheço Sabac. É uma pista de emergência, embora o asfalto seja de boa qualidade.
— E o voo?
— Bem, se você for apenas um piloto particular que está aqui para fazer algum bem neste mundo perverso, não vai durar trinta quilômetros.
Dillon disse suavemente: — Digamos que raramente tenha feito alguma coisa boa na vida e não seja esse tipo de piloto. Como é o terreno?
— Montanhoso em parte, densamente arborizado e a previsão do tempo é uma desgraça, verifiquei eu mesmo, mas não é só isso, a força aérea continua a patrulhar a área regularmente.
— Caças MiG? — perguntou Dillon.
— Isso mesmo. — Tomic deu um tapa na asa do Conquest. — Um bom avião, mas não é páreo para um MiG. — Sacudiu a cabeça. — Mas talvez você sinta atração pela morte.
— Basta, Tomic — disse Wegner, furioso.
— Ah, já houve quem me dissesse isso. — Dillon riu. — Mas vamos em frente. Melhor dar uma olhada nos mapas de navegação.
— Nossa gente em Viena deixou bem claro: seu serviço é puramente voluntário — disse Wegner ao entrarem no escritório. — Precisamos de todo dinheiro que conseguimos angariar para os medicamentos e o apoio médico.
— Entendido — disse Dillon.
— Quando parte? — perguntou Wegner.
— Antes do alvorecer. É a melhor hora e a mais calma. Espero que a chuva continue.
— Por que isso? — perguntou Schmidt, francamente curioso. — Não compreendo. Um homem como você! — Ele se corrigiu depressa. — Quero dizer, conhecemos um pouco de seu passado
— Ah, é? Bem, como disse o bom doutor, acho difícil resistir a um desafio.
— E arrisca a vida por isso?
— Ah, sem dúvida, e já ia esquecendo. — Dillon sorriu, e sua expressão mudou totalmente, tornando-se de calorosa simpatia. — Sou o último dos grandes aventureiros. Agora, deixe-me ser um bom rapaz e ver aonde vou. — Ele se inclinou sobre os mapas e começou a examiná-los atentamente.
Pouco antes das cinco, Dillon estava na entrada do hangar com Wegner e Schmidt e olhou lá para fora. A escuridão continuava impenetrável.
O homem mais velho disse: — Você realmente pode decolar num tempo desses?
— O problema é pousar, não decolar. — Dillon gritou para Tomic: — Como vão as coisas?
Tomic saiu da cabine, saltou para o chão e veio na direção deles limpando as mãos num pano. — Tudo em perfeita ordem — respondeu.
Dillon ofereceu-lhe um cigarro e apontou o céu. — E isto?
Tomic olhou para a escuridão. — Vai piorar antes de melhorar, e você encontrará névoa de solo por lá, especialmente sobre a floresta, anote minhas palavras.
— Ah, bem, então é melhor não perder tempo, como dizia o ladrão ao carrasco. — Dillon encaminhou-se para o Conquest, subiu a escada e examinou o interior. Estava cheio de compridos caixotes verde-oliva com letreiros em inglês: ROYAL ARMY MEDICAL CORPS1.
Schmidt foi ao seu encontro.
— Temos fornecedores peculiares.
— Bem se pode dizer. O que tem dentro?
— Veja com seus olhos. — Schmidt soltou os fechos do caixote mais próximo e retirou uma folha de papel parafinado, deixando à vista caixas e caixas de ampolas de morfina. — Do lado de lá da fronteira, Mr. Dillon, eles têm por vezes de segurar as crianças quando as operam, devido à falta de anestésico. Isso tem se revelado um substituto extremamente eficaz.
— Acredito — assentiu Dillon. — Agora, volte a fechar e eu vou andando.
Schmidt obedeceu, depois saltou para o chão. Enquanto Dillon recolhia a escada, Wegner disse: — Deus o acompanhe, Mr. Dillon.
— É possível — Dillon disse. — Seria provavelmente a primeira vez que faço uma coisa que Ele aprovaria — respondeu Dillon, e fechou a porta.
Ele se acomodou no assento do piloto, ligou o motor de bombordo e depois o de estibordo. O mapa estava ao lado dele no outro banco, mas ele já o tinha memorizado. Parou no pátio já fora do hangar, a chuva escorrendo de seu para-brisa, fez uma verificação completa da cabine de comando, prendeu o cinto e taxiou até o fim da pista, virando contra o vento. Olhou para os três homens parados na entrada do hangar, ergueu o polegar e começou a avançar, o rugido do motor aumentando à medida que aumentava a potência. Em um ou dois segundos ele desapareceu, o som dos motores já diminuindo.
Wegner passou a mão no rosto. — Deus, como estou cansado. — Ele se virou para Tomic. — Ele tem alguma chance?
Tomic encolheu os ombros. — Que homem, aquele. Quem sabe?
— Vamos tomar um café. Temos muito que esperar.
Tomic disse: — Vou num minuto. Quero só limpar minhas ferramentas.
Foram para o último prédio. Ele os observou até que entrassem antes de se virar e cruzar rapidamente para o escritório. Pegou o telefone e discou uma longa série de números. Como o bom médico havia dito, o sistema telefônico ainda funcionava surpreendentemente bem.
Quando uma voz atendeu, ele falou em servo-croata. — Aqui é Tomic, chame o major Branko.
A resposta veio num instante. — Major Branko.
— Tomic. Estou no campo de aviação de Fehring e tenho tráfego para você. Cessna Conquest acaba de decolar. Destino: Sabac. Eis sua frequência de rádio.
— O piloto é alguém que conheçamos?
— Chama-se Dillon, Sean Dillon. Irlandês, creio. Homem pequeno, cabelo muito claro, uns trinta anos, eu diria. Não parece tanto. Belo sorriso, mas os olhos contam uma história diferente.
— Vou pedir que o verifiquem na Central de Inteligência, mas você se saiu bem, Tomic. Bom trabalho. Daremos a ele uma calorosa recepção.
Tomic recolocou o fone no gancho. Pegou um maço dos fortes cigarros macedônios que fumava e acendeu um. Uma pena, Dillon. Ele gostou do irlandês, mas a vida era assim. E ele começou a guardar suas ferramentas metodicamente.
Dillon já estava em dificuldades — nuvens densas e turbulências de nevoeiro lhe permitiam apenas uma visão intermitente dos pinheirais que sobrevoava.
— E que diabos você está fazendo aqui, meu velho? — ele se perguntou suavemente. — O que está tentando provar?
Pegou um cigarro, acendeu-o e uma voz falou em seus fones de ouvido em inglês com forte sotaque. — Bom dia, Sr. Dillon, bem-vindo à Iugoslávia.
O caça subiu para estibordo, não muito distante, as estrelas vermelhas na fuselagem bem claras: um MiG 21, o antigo Fishbed, provavelmente o jato soviético mais amplamente distribuído aos aliados de Moscou. Desatualizado atualmente, mas nada que tranquilizasse Dillon.
O piloto do MiG falou novamente. — Curso um-dois-quatro, Sr. Dillon. Chegaremos a um castelo muito pitoresco na orla da floresta, o nome é Kivo, quartel-general da inteligência nesta área. Há uma pista de pouso lá e estão esperando você. Podem providenciar até um café da manhã inglês completo.
— Irlandês — Dillon corrigiu alegremente. — Um café da manhã irlandês completo, e quem sou eu para recusar uma oferta assim? Um-dois-quatro, então.
manobrou para o novo curso, subindo para seiscentos metros quando o tempo clareou um pouco, assobiando baixinho para si mesmo. Prisões sérvias não eram recomendáveis, não se as histórias que chegavam à Europa Ocidental fossem mesmo que parcialmente verdadeiras... mas, nas circunstâncias, parecia não haver escolha e então, três quilômetros depois, na orla da floresta ao lado de um rio, ele viu Kivo, um castelo de contos de fadas com torres e ameias, cercado por um fosso, a pista de pouso bem visível ao lado dele.
— O que acha? — O piloto do MiG perguntou. — Bonito, não é?
— Direto de uma história dos Irmãos Grimm — Dillon respondeu. — Só falta um ogro.
— Oh, nós temos isso também, Sr. Dillon. Agora, desça bem comportado e eu direi adeus.
Dillon olhou para baixo, viu uma coluna de soldados se movendo para a beira da pista de pouso, precedida por um jipe, e suspirou. Disse em seu microfone: — Eu gostaria de dizer que tem sido uma vida boa, mas há aqueles dias difíceis, como esta manhã, por exemplo. Quer dizer, por que eu saí da cama?
Ele ergueu de volta o controle e aumentou a potência, subindo rápido, e o piloto do MiG reagiu com raiva. — Dillon, faça o que mando ou vou explodir você.
Dillon o ignorou, nivelando a cinco mil, procurando no céu algum sinal, e o MiG, já em sua cauda, veio por trás e disparou. O Conquest balançou quando o projétil rasgou as duas asas.
— Dillon, não seja idiota! — o piloto gritou.
— Ah, mas sempre fui.
Dillon descia rápido, nivelando-se seiscentos metros acima da borda da floresta, ciente de veículos se movendo na direção do castelo. O MiG agiu novamente, agora disparando suas metralhadoras, e o para-brisa do Conquest se desintegrou, vento e chuva entrando ruidosamente. Dillon ficou sentado ali, as mãos firmes na coluna de controle, sangue no rosto de uma lasca de vidro.
— Agora então — ele disse em seu microfone — vamos ver o quanto você é bom.
Baixou o nariz e foi direto para baixo, a floresta de pinheiros esperando abaixo, e o MiG atrás dele, atirando novamente. O Conquest resistia, e o motor de bombordo morria quando Dillon nivelou a quatrocentos; atrás dele, o MiG, sem tempo para arremeter na velocidade em vinha, mergulhou na floresta e virou uma bola de fogo.
Dillon, ajustando o melhor que pôde para voar com um único motor, perdeu potência e caiu mais. Havia uma clareira à frente e à esquerda. Tentou inclinar para ela, e já estava perdendo altura enquanto arrancava as copas dos pinheiros. Cortou o combustível instantaneamente e se preparou para o impacto. No fim, foram os pinheiros que o salvaram, retardando tanto seu progresso que quando ele atingiu a clareira para o pouso de barriga já não estava realmente tão rápido.
O Conquest quicou duas vezes e parou com um estremecimento. Dillon soltou o conto, pulou para fora do banco e abriu a porta num instante. Saiu de cabeça, rolando na chuva, logo ficou em pé e saiu correndo, o tornozelo direito torcido de modo que caiu de cara novamente. Ele se levantou e foi mancando o mais rápido que pôde, mas o Conquest não pegou fogo, simplesmente se agachou na chuva como se estivesse cansado.
Uma espessa fumaça preta acima das árvores saía do MiG em chamas e então soldados apareceram do outro lado da clareira. Um jipe vinha atrás deles, e Dillon pôde ver um oficial em pé vestindo sobretudo de inverno, estilo russo, com gola de pele. Mais soldados apareceram, alguns deles com dobermans, todos latindo alto e lutando contra as coleiras.
Foi o suficiente. Dillon tentou mancar até as árvores, mas sua perna cedeu. Uma voz em um megafone gritou em inglês: — Vamos, Sr. Dillon, seja sensato, não quer que eu solte os cães em cima de você.
Dillon se equilibrou, mancou até a árvore mais próxima e se encostou nela. Acendeu um cigarro, o último na cigarreira de prata. A fumaça tinha um gosto bom, pois mordeu o fundo de sua garganta. Ele esperou.
Eles estavam agora num semicírculo, soldados em túnicas largas, armas apontadas, os cães uivando. O jipe ??parou e o oficial, um major, levantou-se e olhou para ele, um homem bonito de uns trinta anos, rosto moreno e sombrio.
— Então, Sr. Dillon, fez tudo isso e ficou inteiro — disse em inglês perfeito. — Eu o felicito. Meu nome, aliás, é Branko, John Branko. Minha mãe é inglesa, devo dizer. Mora em Hampstead.
— Não me diga. — Dillon sorriu. — Um bando desesperado de patifes você tem aqui, major, mas Cead míle fáilte de qualquer maneira.
— E o que isso significa, Sr. Dillon?
— Oh, isso é irlandês para cem mil boas-vindas.
— Que sentimento encantador. — Branko se virou e falou em servo-croata com um sargento grande e de aparência brutal sentado atrás dele segurando um rifle de assalto AK. O sargento sorriu, saltou para o chão e avançou sobre Dillon.
O major Branko disse: — Permita-me apresentá-lo ao meu sargento Zekan. Acabei de dizer a ele para lhe oferecer cem mil boas-vindas à Iugoslávia, ou à Sérvia, como preferimos dizer agora.
Dillon sabia o que estava por vir, mas não havia nada que pudesse fazer. A coronha do AK acertou-o no lado esquerdo, levando o ar enquanto ele tombava. O sargento ergueu um joelho na sua cara. A última coisa que Dillon se lembrou foi dos cachorros latindo, as risadas, e então só havia escuridão.
Quando o sargento Zekan levava Dillon pelo corredor, alguém gritou ao longe e ouviu-se o som de golpes pesados. Dillon hesitou, mas o sargento não demonstrou emoção, simplesmente colocou a mão entre as omoplatas do irlandês e o empurrou para um lance de escada de pedra e o incentivou a subir. Havia uma porta de carvalho no alto com dobradiças de ferro. Zekan abriu e o empurrou.
O cômodo interno tinha vigas de carvalho, paredes de granito e tapeçarias penduradas aqui e ali. Uma tora queimava em uma lareira aberta, dois dobermanns esparramados na frente dela. Branko estava sentado atrás de uma grande mesa lendo um arquivo e bebendo de um copo de cristal, uma garrafa no balde de gelo ao lado. Ele ergueu os olhos e sorriu, depois pegou a garrafa e encheu outro copo.
— Champanhe Krug, Sr. Dillon, sua escolha preferida, segundo eu soube.
— Há algo que você não saiba sobre mim? — perguntou Dillon.
— Não muito. — Branko ergueu o arquivo e o largou na mesa. — As organizações de inteligência da maioria dos países têm o hábito útil de frequentemente cooperar umas com as outras, mesmo quando seus países não o fazem. Sente-se e tome uma bebida. Você se sentirá melhor.
Dillon se sentou e aceitou a taça que Branko lhe estendia. Esvaziou-a de uma só vez, Branko sorriu e tirou um cigarro de um maço de Rothmans, jogando-o para o outro.
— Fique à vontade. — Estendeu a mão e encheu o copo de Dillon. — Prefiro o non-vintage, não é melhor?
— É a mistura de uvas — disse Dillon e acendeu o cigarro.
— Desculpe o pequeno toque de violência lá na floresta — disse Branko. — Só um show para agradar meus rapazes. Afinal, você nos custou um MiG e levamos dois anos para treinar um piloto. Eu sei, também sou piloto.
— É mesmo? — disse Dillon.
— Sim, Cranwell, cortesia de sua Força Aérea Real Britânica.
— Minha não — Dillon disse a ele.
— Mas você nasceu no Ulster, segundo consta. Belfast, não é? E Belfast, pelo que sei, é parte da Grã-Bretanha e não da República da Irlanda.
— Um ponto discutível — Dillon disse. — Digamos que eu seja irlandês e deixamos por isso mesmo. — Ele tomou um pouco mais de champanhe. — Quem me entregou? Wegner ou Schmidt? — Franziu a testa. — Não, claro que não. Apenas benfeitores. Tomic. Seria Tomic, estou certo?
— Um bom sérvio. Mas como é que um homem como você se mete nisso?
— Quer dizer que não sabe?
— Vou ser honesto, eu sabia apenas que viria, nada mais.
— Eu estava em Viena por uns dias, gozando os prazeres da ópera. Sou fã de Mozart. No primeiro intervalo, dei de cara no bar com um homem com quem fiz negócios. Ele contou que foi abordado por uma organização que precisava de ajuda, mas tinha poucos recursos.
Branko acenou com a cabeça.
— Ah, agora entendo. Uma boa ação num mundo malvado, como dizia Shakespeare? Todas aquelas pobres criancinhas chorando por ajuda? Tão cruéis, os sérvios!
— Não há dúvida, tem o dom da palavra, major.
— Uma mudança radical para um homem como você, acredito. — Branko abriu o arquivo. — Sean Dillon, nascido em Belfast, foi morar em Londres quando era menino, filho de pai viúvo. Estudante da Royal Academy of Dramatic Art aos dezoito anos, chegou a atuar no National Theatre. Seu pai voltou a Belfast em 1971 e foi morto por paraquedistas britânicos.
— Você é bem informado.
— Alistou-se no IRA Provisório, recebeu treinamento na Líbia por cortesia do coronel Khadaffi e nunca voltou atrás. — Branko virou a página. — Acabou rompendo com o IRA. Desacordo sobre estratégias.
— Uma cambada de velhinhas.
— Beirute, OLP, até a KGB. Não há dúvida de que acredita em distribuição de serviços. — Subitamente, Branko riu de espanto. — O ataque submarino a duas canhoneiras palestinas em Beirute em 1990... foi você o responsável? Mas aquilo foi atribuído aos israelenses.
— Cobro preços bem razoáveis — comentou Dillon.
— Fluente em alemão, espanhol e francês, ah, e irlandês.
— Não devemos esquecer isso.
— Árabe razoável, italiano e russo. — Branko fechou o arquivo. — É verdade que você foi responsável pelo ataque de morteiro ao nº 10 de Downing Street durante a Guerra do Golfo, quando o primeiro-ministro britânico, John Major, estava reunido com o gabinete de guerra?
— Mas eu lá pareço capaz de fazer uma coisa dessas?
Branko se recostou e olhou para ele, sério. — Como você se vê, meu amigo? Uma arma de aluguel como num velho faroeste, cavalgando até a cidade para limpar as coisas sozinho?
— Para ser honesto, major, eu nunca penso nisso.
— E ainda assim aceitou uma missão como esta para um bando de amadores bem-intencionados e sem remuneração?
— Todos cometemos erros.
— Não há dúvida de que cometeu um, meu amigo. Aquelas caixas no avião. Ampolas de morfina em cima, mísseis Stinger embaixo.
— Jesus! — Dillon não conseguiu evitar uma gargalhada. — Essa agora, quem teria imaginado.
— Dizem que você é um gênio representando, que pode mudar totalmente a si mesmo, tornar-se outra pessoa com um olhar, um gesto.”
— Não, isso era Laurence Olivier. — Dillon sorriu.
— E em vinte anos, nunca viu o interior de uma cela.
— Verdade.
— Não mais, meu amigo. — Branko abriu uma gaveta, tirou um pacote de duzentos cigarros Rothmans e jogou para Dillon. — Vai precisar disso. — Ele olhou para Zekan e disse em servo-croata: — Leve-o para a cela.
Dillon sentiu a mão do sargento em seu ombro puxando-o para cima e empurrando-o para a porta. Quando Zekan a abria, Branko disse: — Mais uma coisa, Sr. Dillon. O pelotão de fuzilamento opera aqui quase todas as manhãs. Espero que não fique desencorajado.
— Ah, sei — Dillon disse. — Limpeza étnica, não é assim que vocês chamam?
— O motivo é bem mais simples. Nós apenas ficamos sem espaço. Durma bem.
Subiram um lance de degraus de pedra, Zekan empurrando Dillon. Em frente a uma porta de carvalho, tirou do bolso uma chave e a destrancou. Inclinou a cabeça e ficou de lado para Dillon entrar. O quarto era bem grande. Havia um beliche do exército num canto, mesa e cadeira, livros numa estante e, incrivelmente, um banheiro antigo, além de um cubículo num canto. Dillon foi até a janela e espiou através das grades o pátio vinte e cinco metros abaixo e a floresta de pinheiros ao longe.
Ele se virou. “Este deve ser um dos seus melhores quartos. Qual é o truque? — Então percebeu que estava perdendo tempo, pois o sargento não sabia inglês.
Como se o entendesse perfeitamente, Zekan sorriu, mostrando dentes ruins, pegou a cigarreira de prata de Dillon e o isqueiro Zippo de um bolso e colocou-os cuidadosamente sobre a mesa. Retirou-se, fechando a porta, e a chave chacoalhou na fechadura.
Dillon foi até a janela e experimentou as barras, mas elas pareciam firmes. Muito longe, de qualquer maneira. Abriu um maço de Rothmans e acendeu um cigarro. Uma coisa era certa. Branko estava sendo excessivamente gentil, devia haver um motivo para isso. Deitou-se na cama, fumando seu cigarro, olhando para o teto e pensando nisso.
Em 1972, ciente do efeito crescente do terrorismo em tão numerosos aspectos da vida, tanto a nível político quanto a nível acional, o primeiro-ministro britânico de então ordenou a constituição de uma pequena unidade de informação de elite, com o nome de código Grupo Quatro. Cabia-lhe resolver todas as questões relacionadas a terrorismo e subversão nas Ilhas Britânicas. Conhecido amargamente nos círculos de inteligência convencionais como o exército particular do primeiro-ministro, devia fidelidade apenas ao titular de Downing Street.
O brigadeiro Charles Ferguson chefiava o Grupo Quatro desde sua criação. Tinha escritório no Ministério da Defesa, de frente para a Horse Guards Avenue, e ainda estava trabalhando em sua mesa, às nove da noite, quando alguém bateu na porta.
— Entre. — Ferguson se levantou e foi até a janela: era corpulento, queixo duplo e cabelos grisalhos desalinhados, num terno largo e deformado.
Enquanto olhava para a chuva para os lados do Tâmisa e do Victoria Embankment, a porta se abriu atrás dele. O inspetor Jack Lane, o homem que entrou, estava no fim da casa dos trinta, vestia terno de tweed e usava óculos. Após alguma negociação, Ferguson o tomara de empréstimo do Special Branch da Scotland Yard para lhe servir de assistente pessoal.
— Tem alguma coisa para mim, Jack?
— Rotina, sobretudo, sir. Diz-se que o diretor-geral do Serviço de Segurança continua descontente com a recusa do primeiro-ministro em abolir o estatuto especial do Grupo Quatro.
— Santo Deus, será que essa gente nunca desiste? Concordei em mantê-los informados na base do estritamente necessário e de manter contato com Simon Carter, o diretor-adjunto, e com aquele parlamentar de título rebuscado, ministro extra do Home Office.
— Sir Francis Pamer. Ministro Júnior2 do Home Office.
— Exatamente. Pois bem, será essa a cooperação a que terão direito. Mais alguma coisa?
Lane sorriu.
— Na realidade, guardei o melhor para o fim. Dillon, Sean Dillon?
Ferguson se virou.
— O que há com ele?
— Recebi uma informação dos nossos contatos na Iugoslávia. Dillon caiu de avião esta manhã, supostamente transportando auxílio médico, só que afinal eram mísseis Stinger. Detido em Kivo. Está tudo aqui. — Estendeu uma folha de papel.
Ferguson estudou-a e acenou com a cabeça, satisfeito.
— Vinte anos, e o safado nunca viu o interior de uma cela de prisão.
— Pois bem, está agora dentro de uma. Fiz esse relatório para o caso de querer dar uma olhada.
— E por que eu quereria? Não adianta de nada agora. Sabe como são os sérvios, Jack. Pode colocá-lo no arquivo de cartas devolvidas. Oh, você pode ir para casa agora.
— Boa noite, sir.
Lane saiu e Ferguson foi até o armário de bebidas e serviu-se de um grande uísque. — Este é em sua homenagem, Dillon — ele disse suavemente. — E pode engolir essa, seu bastardo. — Ferguson tomou seu uísque, voltou para sua mesa e começou a trabalhar novamente.
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1 Corpo Médico do Exército Real (britânico).
2 Na prática, os ministros geralmente têm um ministro júnior para representar seu departamento na Câmara dos Lordes.
2
A leste de Porto Rico, no Caribe, estão as Ilhas Virgens, em parte sob domínio britânico, como Tortola e Virgin Gorda. Do outro lado da água estão St. Croix, St. Thomas e St. John, orgulhosamente americanas desde 1917, quando os Estados Unidos compraram as três do governo dinamarquês por vinte e cinco milhões de dólares.
St. John é conhecida por ter sido descoberta por Colombo em sua segunda viagem ao Novo Mundo, em 1493, e é provavelmente a ilha mais idílica de todo o Caribe, mas não naquela noite, em que uma tempestade tropical, a cauda do furacão Able, varria a cidade velha de Cruz Bay, agitando os barcos ancorados no porto, martelando os telhados, o céu explodindo em trovões.
Para Bob Carney, profundamente adormecido em sua casa de Chocolate Hole, do outro lado da baía de Great Cruz, era o som de armas distantes. Ele se mexeu durante o sono, e de repente era o mesmo velho sonho, os morteiros caindo por toda parte, sacudindo o chão, os gritos dos feridos e moribundos. Ele perdeu o capacete, se jogou no chão, os braços protegendo a cabeça. Nem percebeu que havia sido atingido, só depois, quando o ataque diminuiu e ele se sentou. Sentiu dor nos braços e nas pernas por causa dos estilhaços, sangue nas mãos. E então, quando a fumaça se dissipou, viu que outro fuzileiro estava sentado contra uma árvore, as duas pernas cortadas acima dos joelhos. Ele estava tremendo, tinha uma mão estendida como que implorando ajuda, Carney gritou de horror e se sentou ereto na cama, agora acordado agora.
O mesmo pesadelo de sempre, o Vietnã, e isso foi há muito tempo. Acendeu a luz da cabeceira e consultou o relógio. Apenas duas e meia. Suspirou e se levantou, esticando-se por um momento, então caminhou pela casa escura até a cozinha, acendeu a luz e pegou uma cerveja na geladeira.
Muito bronzeado, tinha o cabelo louro desbotado devido à exposição regular à água do mar e ao sol. Com um metro e setenta e três, tinha corpo de atleta, o que não era de surpreender num homem que tinha sido capitão de navio e era agora instrutor de mergulho profissional. Quarenta e quatro anos, mas a maioria das pessoas teria tirado sete ou oito anos dessa conta.
Atravessou a sala de estar e abriu uma janela para a varanda. A chuva escorria do telhado, e os relâmpagos ribombavam ao longe, sobre o mar. Bebeu um pouco da cerveja, depois pousou a lata e fechou a janela. Melhor tentar dormir mais um pouco. Ia levar um grupo de mergulhadores recreativos de Caneel Bay às nove e meia, o que significava que, como de costume, precisava estar alerta, além de toda a experiência.
Ao passar pela sala, parou para olhar a foto emoldurada de sua mulher, Karye, e das crianças, o menino Walker e a pequena Wallis. Haviam partido para a Flórida no dia anterior para férias com os avós, o que o deixaria solteiro por um mês. Ele sorriu ironicamente, sabendo o quanto sentiria falta deles, e voltou para a cama.
Ao mesmo tempo, em sua casa de Cruz Bay em Gallows Point, Henry Baker estava sentado em seu escritório lendo à luz de um abajur. Ele tinha a porta da varanda aberta porque gostava da chuva e do cheiro do mar. Aquele cheiro o empolgava, levava-o de volta à juventude e a seus dois anos de serviço na Marinha durante a Guerra da Coreia. Era primeiro-tenente, condecorado com a Estrela de Bronze, e podia ter seguido carreira. Na verdade, queriam isso mesmo dele, mas havia a editora da família em Nova York a considerar, as responsabilidades e a garota com quem prometera se casar.
Não tinha sido uma vida ruim, considerando tudo. Não teve filhos, mas foi feliz com a mulher, até que um câncer a levara aos cinquenta anos. A partir daí, perdera o interesse pela empresa, e de bom grado aceitara uma proposta de compra que o deixara podre de rico e sem interesses aos cinquenta e oito anos.
Uma viagem a St. John foi sua salvação. Ficou em Caneel Bay, o fabuloso Rock Resort em sua península particular ao norte de Cruz Bay. Lá Bob Carney o apresentou ao mergulho e isso se tornou uma obsessão. Vendeu sua casa nos Hamptons e se mudara para St, John. Sua vida aos sessenta e três era totalmente satisfatória, embora Jenny tivesse também alguma coisa a ver com isso.
Estendeu a mão para a fotografia dela. Jenny Grant — vinte e cinco anos, uma expressão calma, olhos enormes, cabelo preto curto preto e no entanto havia uma certa apreensão naquele olhar, como se esperasse o pior — o que não era surpreendente ao se lembrar do primeiro encontro dos dois em Miami. Tentara seduzi-lo em um estacionamento, seu corpo tremendo pela falta das drogas de que precisava. Ela desmaiou, Baker a levara para o hospital, pagara sua recuperação, dera-lhe a mão, porque não tinha mais ninguém. Era a história de sempre. Órfã, foi criada por uma tia que a expulsou de casa aos dezesseis anos. Com voz razoável, conseguia viver cantando em bares. Depois, o homem errado apressou sua queda.
Ele levou para St. John para ver o que o mar e o sol podiam fazer. O arranjo funcionou, e em bases estritamente platônicas. Ele era o pai que ela nunca conheceu, ela era a filha que ele não teve. Investiu num café e bar para ela na orla de Cruz Bay que batizou de Jenny's Place. Virou um grande sucesso. A vida não podia ser melhor e ele sempre esperando. Foi nesse momento que ele ouviu o jipe subindo lá fora, a porta da varanda se abrindo e ela entrou rindo com a capa de chuva nos ombros. Ela o beijou na bochecha.
— Santo Deus, aquilo lá fora parece um dilúvio.
— Vai clarear de manhã, você vai ver. — Ele pegou a mão dela. — Noite boa??
— Muito. — Ela assentiu. — Turistas de Caneel e do Hyatt. Puxa, mas estou cansada.
— Eu iria para a cama se fosse você, são quase três horas.
— Tem certeza de que não se importa?
— Claro que não. Vou mergulhar de manhã, mas devo voltar antes do meio-dia. Se eu sentir sua falta, desço ao café para almoçar.
— Só queria que não mergulhasse sozinho.
— Jenny, sou um mergulhador de recreio. Não preciso de descompressão, porque não passo dos limites, exatamente como Bob Carney me ensinou. E nunca mergulho sem meu computador Marathon, você sabe disso.
— Também sei que sempre que você mergulha há uma chance de algum tipo de doença de descompressão.
— Verdade, mas muito pequena. — Apertou a mão dela. — Agora, pare de se preocupar e vá para a cama.
Jenny o beijou na cabeça e saiu. Ele levou o livro para o sofá junto à janela e estendeu-se confortavelmente. Logo seus olhos se fechavam e o livro escorregava para o chão.
Acordou em sobressalto. A luz irrompia pelas venezianas. Ficou deitado um tempo, depois levantou-se e foi até a varanda. Já era madrugada, a alvorada irrompia no horizonte, mas estranhamente quieto, o mar estava extraordinariamente calmo, algo a ver com a passagem do furacão. Perfeito para mergulhar, absolutamente perfeito.
Ele se sentia alegre e animado ao mesmo tempo. Correu para a cozinha, colocou a chaleira no fogo e fez uma pilha de sanduíches de queijo, enquanto a água fervia. Encheu uma garrafa térmica com café, colocou-a em uma sacola com os sanduíches e tirou sua velha japona de trás da porta.
Deixou o jipe para Jenny e desceu para o porto. Ainda estava tudo muito quieto, não havia muita gente por perto, um cachorro latia ao longe. Entrou em seu bote inflável no cais, impulsionou-o e ligou o motor de popa, abrindo caminho através dos barcos até chegar ao seu, o Rhoda, que tinha o nome da mulher, um Sport Fisherman de trinta e cinco pés com ponte voadora. Subiu a bordo, amarrando o bote em uma longa corda, e verificou o convés. Tinha quatro tanques de ar em seus suportes; ele os aprontara no dia anterior. Abriu a tampa do armário do convés e verificou seu equipamento: traje de mergulho de borracha e náilon que raramente usava, preferindo o mais leve, laranja e azul. Barbatanas, máscara, outra sobressalente, porque as lentes eram correcionais de acordo com a prescrição de seus olhos, dois coletes de flutuação, luvas, reguladores de ar e seu computador Marathon.
— Treinamento Carney — disse baixinho —, nunca deixe nada ao acaso.
Deu a volta para a proa e se soltou da boia, depois subiu a escada para ponte e ligou os motores. Eles rugiram para a vida e ele tirou o Rhoda do porto rumo ao mar aberto com um prazer consciente.
Havia todos os seus mergulhos favoritos para escolher, Cow & Calf, Carval Rock, Congo Cay ou Eagle Shoal se quisesse uma viagem mais longa. Tinha dado de cara lá com um tubarão-limão apenas na semana anterior, mas o mar estava tão calmo que ele simplesmente foi em frente. Sempre havia o Frenchman's Cap, um ótimo mergulho, mas ele continuou para o sul, empurrando o Rhoda até 15 nós, tomando um café, comendo um sanduíche. O sol estava alto agora, o mar no azul mais perfeito, os picos das ilhas ao redor, uma visão incrivelmente bela. Nada podia ser melhor.
— Meu Deus — ele disse alto —, que privilégio estar aqui.... Que diabos eu estava fazendo com minha vida todos esses anos?
Caiu numa espécie de devaneio, meditando sobre as coisas, e se passaram uns bons trinta minutos antes que verificasse sua posição.
— Cristo — disse ele —, já devo estar a umas doze milhas da costa.
Que ficava perto do limite das coisas... e daquele lugar incrível onde tudo simplesmente desaparecia e mergulhava seiscentos metros até as profundezas, exceto pelo Thunder Point, o ponto do trovão que, ele sabia, ficava em algum lugar por ali. Mas ninguém mergulhava lá, nem mesmo Carney: era o recife mais perigoso da região. Correntes fortes, um pesadelo de fissuras e canais. Carney lhe contara isso anos antes, a partir da descrição feita por um velho mergulhador. Cento e oitenta pés de um lado, depois a crista do recife a setenta e dois mil pés do outro. O velho tinha encontrado problemas graves, conseguira voltar à superfície, e nunca mais tentara. De qualquer modo, poucas pessoas sabiam onde ficava, e o mar lá fora era geralmente tão turbulento que isso por si só era suficiente para manter qualquer um afastado. Mas não hoje. Era um espelho. Baker nunca tinha visto nada parecido. Uma súbita excitação tomou conta dele. Ligou o medidor, procurando o fundo, acelerando os motores, e então viu as linhas amarelas na tela preta.
Desligou o motor e ficou à deriva, verificando a leitura de profundidade até ter certeza de que estava acima da crista do recife, a vinte metros, então foi à proa e lançou a âncora. Logo sentiu a mordida adequada. Estava incrivelmente alegre enquanto tirava a roupa, vestia o traje de mergulho de náilon laranja e azul e rapidamente montava seu equipamento. Prendeu o computador de mergulho Marathon ao tubo do manômetro de pressão e envergou o colete, a garrafa. Prendeu ao cinto de chumbo um saco de mergulho com uma lanterna, caso encontrasse algo interessante para examinar. Colocou as luvas de mergulho, sentou-se na plataforma da popa e calçou as nadadeiras. Cuspiu na máscara, enxaguou, ajustou-a ao rosto, depois simplesmente se jogou na água.
Estava incrivelmente claro e azul. Ele nadou até a linha da âncora, parou e começou a descer. A sensação de flutuar no espaço era, como sempre, incrível, um mundo silencioso e privado, luz do sol no início, desaparecendo conforme descia.
O recife que a âncora fisgara era uma floresta de coral e algas marinhas, peixes de todas as formas imagináveis e, de repente, uma barracuda de pelo menos um metro e meio de comprimento atraiu sua visão e parou, virando-se ameaçadoramente em sua direção, o que não incomodou Baker minimamente: barracudas raramente eram ameaça.
Ele verificou seu computador de mergulho. Não apenas indicava a profundidade, mas também informava quanto tempo lhe restava em segurança, alterando os dados segundo as circunstâncias. Estava a 20 metros e se dirigiu para o lado esquerdo, onde o recife caía para mais de cinquenta. Ultrapassou a borda, mudou de ideia e subiu novamente. Foi incrível como a mudança de 10 para 15 metros reduziram seu tempo seguro no fundo.
Havia uma corrente razoavelmente forte, podia senti-la empurrando-o para o lado. Imaginou como seria quando as condições do mar fossem ruins, mas ele decidiu que nada o impediria de olhar para a grande queda. A borda do recife ali era claramente definida. Segurou a ponta de coral e espiou para baixo do penhasco: uma grande abóbada azul que se estendia até o infinito. Ele avançou, desceu a vinte e cinco metros e começou a percorrê-la longitudinalmente.
Foi interessante. Ele notou uma quantidade considerável de danos aos corais, com grandes seções obviamente arrancadas, provavelmente um resultado do furacão recente, embora em falhas geológicas os tremores de terra também sejam comuns. Mais à frente havia uma grande saliência, como se um enorme naco tivesse sido arrancado, e havia algo lá, empoleirado na saliência, parte pairando sobre ela. Baker então se aproximou com cautela.
Foi então que sentiu não apenas a maior emoção de sua carreira de mergulhador, mas o maior choque de uma longa vida. O que estava pousado na saliência, em parte suspenso sobre o abismo de seiscentos metros, era um submarino.
Durante seu serviço na Marinha, Baker havia feito um curso de treinamento em submarino quando baseado nas Filipinas. Não é grande coisa, apenas parte do treinamento geral, mas ele se lembrou das palestras, dos filmes de treinamento que tiveram que assistir, principalmente da Segunda Guerra Mundial, e ele reconheceu o que estava vendo instantaneamente. Era um submarino tipo VII, de longe a embarcação mais comum da Kriegsmarine alemã: sua configuração era inconfundível. A torre de comando estava incrustada de vegetação marinha, mas quando ele se aproximou conseguiu discernir o número na lateral — 180. Os periscópios da sala de ataque e controle ainda estavam intactos e havia um snorkel1. Ele se lembrou de ter ouvido que os alemães haviam introduzido gradualmente esse dispositivo, à medida que a guerra avançava, o que permitia ao barco navegar sob a água com muito mais rapidez porque podia usar a força de seus motores a diesel. Aproximadamente dois terços do U-boat descansavam de popa na saliência, a proa se projetou no vazio.
Ele desceu até o alto da torre de comando e se agarrou ao corrimão da ponte. Atrás, via-se a plataforma elevada do canhão de 20mm, e na proa ficava a artilharia de convés, incrustada de esponjas e corais de cores diversas. O navio se tornara um habitat, como todos os destroços marinhos, e ao longo da lateral nadavam peixes — lúcios de cauda amarela, anjos-do-mar, sargentos e muitos outros. Verificou o computador: vinte minutos, no máximo, antes de precisar subir.
A estibordo, viu instantaneamente qual tinha sido o problema do U-boat: um grande rasgo irregular de uns cinco metros de comprimento no casco abaixo da torre do comando. Os pobres coitados devem ter caído como uma pedra, pensou. Ele desceu, agarrando-se a uma borda denteada incrustada de coral, e olhou a sala de controle. Estava escuro e sombrio lá dentro, peixes prateados em nuvens; ele tirou a lanterna da bolsa de mergulho e iluminou o interior. As hastes do periscópio eram claramente visíveis, incrustadas como tudo mais, mas o resto era uma confusão de metal retorcido, fios e tubos. Checou seu computador, viu que tinha quinze minutos, hesitou e enfim entrou.
As portas à prova d'água à ré e à vante estavam fechadas, mas essa era a prática padrão quando as coisas iam mal. Tentou destravar a roda da escotilha dianteira, mas ela estava imóvel e irremediavelmente corroída. Havia garrafas de oxigênio, até mesmo um cinto com algum tipo de munição, e a coisa mais patética de tudo: alguns ossos humanos no sedimento do chão. Incrível que houvesse qualquer vestígio depois de tantos anos.
De repente, ele sentiu frio. Era como um intruso que não deveria estar ali. Ele se virou para ir embora e sua luz iluminou uma alça no canto, muito parecida com a alça de uma mala. Estendeu a mão para pegar a coisa, o sedimento se mexeu e ele se viu segurando uma pequena maleta de algum tipo de metal, incrustada como todo o resto. Era o suficiente e ele saiu pela fenda no casco, subiu pela borda do recife e foi em busca da âncora.
E com cinco minutos de sobra. Idiota, disse a si mesmo, arriscando-se assim, e seguiu as regras, um pé por segundo, uma mão deslizando linha acima, a pasta na outra, deixando a corrente a seis metros para nadar sob o barco e subir à superfície pela popa.
Empurrou a pasta para bordo e depois se livrou do equipamento, o que sempre era a pior parte. Você está ficando velho, Henry, disse a si mesmo enquanto subia a escada e se virava para largar o colete e o tanque a bordo.
Ele era treinado para fazer tudo em sequência, guardando o tanque e o equipamento, a rotina normal. Enxugou-se com a toalha, vestiu jeans e camiseta, o tempo todo ignorando a pasta. Abriu a garrafa térmica, serviu um pouco de café, depois foi se sentar- numa cadeira giratória da popa, enfim olhando para a pasta incrustada de coral.
A incrustação era mais superficial. Pegou uma escova de aço e aplicou-a vigorosamente, percebendo imediatamente que a caixa era de alumínio. Quando a superfície clareou, a águia e a suástica da Kriegsmarine alemã foram reveladas, gravadas no canto superior direito. Os fechos subiram com facilidade, mas a tampa permaneceu obstinadamente fechada, obviamente trancada, o que o deixou sem escolha. Encontrou uma grande chave de fenda, forçou-a logo acima da fechadura e conseguiu abrir a tampa em poucos instantes. O interior estava totalmente seco, e o conteúdo eram algumas fotos e vários envelopes amarrados com elástico. Havia também um grande diário em couro marroquino vermelho estampado com a insígnia da Kriegsmarine em ouro.
As fotos eram de uma jovem e duas meninas. Havia uma data no verso de uma delas no início de um parágrafo escrito à mão em alemão, 8 de agosto de 1944. O resto não fazia sentido para ele, pois não falava a língua. Havia também um instantâneo desbotado de um homem em uniforme naval. Aparentava trinta anos e usava uma série de medalhas, incluindo a Cruz de Cavaleiro no pescoço. Alguém especial, um verdadeiro ás, pelo jeito.
O diário também estava em alemão. A primeira entrada era de 30 de abril de 1945, e ele reconheceu o nome, Bergen, sabia que era um porto na Noruega. Na folha de rosto, outra entrada que ele entendeu. Korvettenkapitän Paul Friemel, U180, obviamente o capitão e proprietário deste diário.
Baker folheou as páginas, frustrado pela incapacidade de decifrar nada daquilo. Havia vinte e sete assentos, por vezes uma página inteira por dia. Outras vezes, havia anotações para indicar a posição, e Baker entendeu que a viagem levara o submarino ao Atlântico e depois para o sul, para o Caribe.
Estranhou que a entrada final fosse datada de 28 de maio de 1945, e isso não fazia muito sentido. Henry Baker tinha dezesseis anos quando a guerra na Europa terminou, e ele recordou os acontecimentos daqueles dias com uma clareza surpreendente. Os russos chegaram a Berlim, reduzindo a cidade a um inferno na terra, e Adolf Hitler, escondido no bunker da Chancelaria do Reich, cometeu suicídio em 1º de maio às 22h30, junto com sua esposa de apenas algumas horas, Eva Braun. Esse foi o fim efetivo do Terceiro Reich e a capitulação logo se seguiu. Se foi assim, que diabos o U180 estava fazendo nas Ilhas Virgens com um registro final datado de 28 de maio?
Se ao menos soubesse falar alemão... e a coisa ainda mais frustrante era que não conhecia ninguém em St. John que soubesse. Por outro lado, gostaria de compartilhar esse segredo? Uma coisa era certa: se soubessem do submarino e de seu paradeiro, o local seria invadido em poucos dias.
Folheou uma vez mais as páginas e um nome chamou sua atenção: Reichsleiter Martin Bormann. A excitação de Baker era intensa. Martin Bormann, chefe da Chancelaria do Partido Nazista e Secretário do Führer. Ele escapou do bunker ou morreu em Berlim? Quantos livros haviam sido escritos sobre isso? Virou a página ao acaso e outro nome lhe surgiu: duque de Windsor.
Baker ficou sentado olhando a página, a garganta seca, e então fechou com muito cuidado o diário e o colocou de volta na caixa com a carta e as fotos. Fechou a tampa, guardou a caixa na casa do leme e ligou os motores. Então puxou a âncora.
Fosse o que fosse, era coisa pesada, tinha que ser. Ele encontrara um submarino que afundou nas Ilhas Virgens três semanas após o fim da guerra na Europa, um diário privado mantido pelo capitão que mencionava o homem mais poderoso da Alemanha nazista depois de Hitler, e o duque de Windsor.
— Meu Deus, no que me meti? — ele murmurou.
Ele poderia ir às autoridades, claro, à Guarda Costeira, por exemplo, mas era sua descoberta, eis o problema, e ele relutava em renunciar a isso. Mas que diabos fazer depois, e então a ideia surgiu e ele riu alto.
— Garth Travers, é claro — e acelerou a toda velocidade, de volta para St. John.
Em 1951, enquanto tenente da Marinha americana, Baker fora destacado como oficial de ligação para um contratorpedeiro da Royal Navy britânica. Ele e Garth Travers, oficial de artilharia, tinham constituído uma sólida amizade. Travers teve uma carreira brilhante. Reformara-se como contra-almirante. Desde então, escrevera vários livros sobre aspectos navais da Segunda Guerra Mundial e traduzira uma obra alemã sobre a Kriegsmarine. Era ele o homem certo, não havia dúvida.
Perto da costa de St. John, Baker avistou outro barco de pesca esportiva — o Sea Raider, de Bob Carney — que se aproximava rapidamente. O barco reduziu, virando na sua direção, e Baker também. Havia quatro pessoas na popa em trajes de mergulho.
— Bom dia, Henry — gritou Bob Carney da ponte. — Por onde andou?
— French Cap. — Baker não gostava de mentir a um amigo, mas não tinha alternativa. — Condições ótimas. Um espelho.
— Ótimo. — Carney sorriu e acenou. — Cuide-se, Henry.
O Sea Raider se afastou e Baker avançou com força total para Cruz Bay.
Quando ele chegou em casa, soube imediatamente que Jenny não estava lá porque o jipe havia sumido. Consultou o relógio. Dez horas. Deve ter acontecido algo para tirá-la de casa. Na cozinha, pegou uma cerveja na geladeira e foi para o escritório, carregando a pasta. Colocou-a na mesa, puxou seu arquivo de telefones e o folheou enquanto bebia a cerveja. Encontrou logo o que estava procurando e olhou o relógio novamente. Dez e dez, o que significava três e dez da tarde em Londres. Pegou o telefone e discou.
Em Londres, chovia. A chuva batucava nas janelas da casa da Lord North Street, e Garth Travers estava sentado numa cadeira junto à lareira em seu escritório, de paredes forradas de estantes, lendo o Times. Quando o telefone tocou, fez uma careta, mas levantou-se e foi até a mesa.
— Quem fala?
— Garth? Aqui é Henry, Henry Baker.
Travers se sentou.
— Bom Deus, Henry, meu velho traste. Está em Londres?
— Não, em St. John.
— Parece estar na sala ao lado.
— Estou com um problema, Garth. Pensei que talvez possa me ajudar. Descobri um submarino alemão.
— Descobriu o quê?
— Um honesto submarino de Deus, aqui nas Virgins, em um recife a cerca de 25 metros de profundidade. Um oitenta é o número da torre de comando. É um tipo VII.
O próprio Travers ficou extremamente entusiasmado.
— Não vou perguntar se você esteve bebendo. Mas por que cargas d'água ninguém o descobriu antes?
— Garth, temos centenas de naufrágios nessas águas, não conhecemos nem a metade. Está em um lugar ruim, muito perigoso. Ninguém vai lá. Está meio pousado numa saliência da rocha que ou me engano muito, ou estava protegida por uma protuberância. Vi danos recentes na face do rochedo. Há muitos danos recentes na face do penhasco. Acaba de passar um furacão por aqui.
— E em que condições está?
— Há um rombo no casco e consegui entrar na sala de comando. Encontrei lá uma pasta de alumínio à prova d'água.
— Com uma insígnia da Kriegsmarine?
— Exatamente!
— Era parte do equipamento, à prova de fogo e de água e esse tipo de coisa. O número era 180? Espere um instante. Comprei um livro que menciona todos os submarinos armados pela Kriegsmarine.
— Okay.
Baker esperou pacientemente até Travers voltar.
— Temos um problema, meu velho. Tem certeza de que era Tipo VII?
— Absoluta.
— Bem, o 180 era um Tipo IX, enviado da França para o Japão em agosto de 44. Afundou no golfo de Biscaia.
— Ah, é? Pois então o que me diz disto: encontrei o diário pessoal de um tal Korvettenkapitän Paul Friemel dentro da pasta, e a última entrada tem a data de 28 de maio de 1945.
— Mas o dia da vitória na Europa é 8 de maio — disse Travers.
— Exatamente, então o que temos aqui? Um submarino alemão com um número falso que afunda nas Virgens três semanas depois do fim da maldita guerra.
— Não há dúvida de que é intrigante — comentou Travers.
— E ainda não ouviu a melhor parte, velho amigo. Lembra daquela história sobre a fuga de Martin Bormann de Berlim?
— Claro que lembro.
— Bem, eu não sei alemão, mas com certeza posso ler o nome dele e está bem aqui no diário, e outra pequena bomba para você: o do duque de Windsor também.
Travers afrouxou a gravata e respirou fundo. — Henry, meu filho, preciso ver esse diário.
— Sim, foi o que pensei — disse Baker. — Há um voo noturno da British Airways saindo de Antígua por volta das oito, hora daqui. Eu poderia fazer isso. Da última vez, chegamos ao London Gatwick às nove da manhã. Talvez você possa me oferecer um café da manhã tardio.
— Estou ansioso por isso — disse Travers e recolocou o receptor no gancho.
A Professional Association of Diving Instructors, da qual Henry era membro certificado, tem regulamentos rígidos sobre voos pós-mergulho. Ele verificou seu livro de regras e descobriu que devia esperar pelo menos quatro horas após um mergulho não descompressivo a 25 metros. Isso deu a ele muita margem de manobra, especialmente se não voasse para Antígua até a tarde, que era exatamente o que pretendia.
Primeiro, ele ligou para a British Airways em San Juan. Sim, eles tinham vaga na primeira classe no voo 252, saindo de Antígua às 20h10. Fez a reserva e deu a eles o número de um de seus Gold Cards. Em seguida, ligou para a Carib Aviation em Antígua, uma empresa de táxi aéreo que havia usado antes. Sim, ficariam felizes em aceitar o charter. Enviariam um de seus Partenavias a St. Thomas no início da tarde. Se partissem de volta a Antígua às quatro e meia, estariam lá por volta das seis, o mais tardar.
Ele se recostou, pensando sobre isso. Reservaria um táxi aquático até Charlotte Amalie, a principal cidade de St. Thomas. Quarenta minutos, isso é tudo que levaria, quinze no máximo de táxi para o aeroporto. Muito tempo para fazer as malas e se preparar, mas primeiro ele precisava ver Jenny.
A beira-mar estava agitada em Cruz Bay, uma pitoresca vilazinha encantadora, com seu eterno ar de leve decadência, ao jeito da maioria dos portos do Caribe. Baker se apaixonou pelo lugar na primeira vez que o viu. Era tudo o que esperava. Ele costumava brincar que só faltava Humphrey Bogart em boné de marinheiro e jeans comandando um barco local em missões misteriosas.
O Jenny's Place ficava um pouco afastado da estrada logo antes de Mongoose Junction. Havia degraus até a varanda, um letreiro de néon acima da porta. Dentro era fresco e sombreado, dois grandes ventiladores girando no teto baixo. Havia reservados nas paredes, mesas com tampo de mármore espalhadas no piso de ladrilhos pretos e brancos. Bancos altos cercavam o longo balcão de mogno, garrafas em prateleiras de vidro na parede espelhada atrás. Um homem negro grande e bonito de cabelos grisalhos estava polindo copos: Billy Jones, o barman. Tinha cicatrizes ao redor dos olhos e o nariz levemente achatado dos lutadores profissionais. Sua mulher, Mary, era a gerente.
Ele sorriu. — Olá, Sr. Henry, procurando Jenny?
— Correto.
— Foi à orla com Mary escolher os peixes para esta noite. Não devem demorar. Posso lhe servir algo?
— Só um café, Billy, vou tomar lá fora.
Sentou-se na varanda, numa cadeira de bambu, tomando o café, tão absorto em seus pensamentos que não reparou na aproximação de Jenny.
— Já voltou — disse ela, subindo a escada. Usava camiseta e jeans, a figura muito esguia. Franziu a testa. — Algum problema?
— Tenho que ir a Londres — respondeu ele.
— A Londres? Quando?
— Esta tarde.
A testa dela franziu ainda mais. Sentou-se a seu lado.
— O que houve, Henry?
— Aconteceu uma coisa quando estava mergulhando esta manhã, uma coisa incrível. Descobri um naufrágio a vinte e cinco metros de profundidade.
— Que loucura. — Agora, Jenny estava zangada. — Mergulhar a essa profundidade sozinho e na sua idade. Onde foi?
Embora não fosse uma mergulhadora séria, ela descia ocasionalmente e conhecia a maioria dos locais. Ele hesitou. Sabia que ela ficaria zangada ao saber que ele mergulhara em um lugar como Thunder Point e certamente ele confiava nela. Queria apenas manter a localização do submarino em segredo, pelo menos até ter falado com Travers.
— Só posso dizer, Jenny, que descobri um submarino alemão de 1945.
O olhos dela se arregalaram. — Meu Deus!
— Consegui entrar lá. Achei uma pasta, uma coisa de alumínio. À prova d'água. Encontrei o diário do capitão dentro. Está em alemão, que não consigo ler, mas havia alguns nomes que reconheci.
— Por exemplo?
— Martin Bormann e duque de Windsor.
Jenny parecia ligeiramente desorientada.
— Henry, o que está acontecendo?
— É isso que eu gostaria de saber. — Pegou a mão dela. — Lembra daquele meu amigo inglês, o contra-almirante Travers?
— O da Guerra da Coreia? Claro, você me apresentou em Miami quando ele esteve lá de passagem.
— Telefonei para ele há pouco. Ele tem todo tipo de registros sobre a Kriegsmarine. Verificou o navio para mim. Na torre de comando está pintado 180, mas o 180 era um submarino de tipo diferente que naufragou no golfo de Biscaia em 1944.
Confusa, Jenny sacudiu a cabeça.
— O que isso quer dizer?
— Há anos que circularam histórias sobre Bormann, publicaram-se dúzias de livros, todos eles dizendo que ele não tinha morrido em Berlim, que tinha sobrevivido. Teve gente que o viu, ou dizia que o viu, na América do Sul.
— E o duque de Windsor?
— Quem sabe? — Baker sacudu a cabeça. — Só sei que isso pode ser importante e eu descobri o submarino, Jenny, eu, Henry Baker. Jesus, não sei o que está no diário, mas talvez mude a história.
Levantou-se, foi até a grade, segurando-a com as duas mãos. Jenny nunca o vira tão entusiasmado. Levantou-se também, pôs a mão no ombro dele e perguntou:
— Quer que vá com você?
— Não é preciso. Volto em dois dias. Quatro no máximo.
— Ótimo. — Ela conseguiu dar um sorriso. — Nesse caso, melhor voltar para casa, eu o ajudo a fazer as malas.
Seu voo na Carib Aviation Partenavia transcorreu sem problemas, exceto por fortes ventos contrários que os atrasaram um pouco, de modo que o pouso foi mais tardio do que o previsto, por volta das seis e meia. Quando passou pela alfândega, pegou sua bagagem e seguiu para o balcão da British Airways, eram sete horas. Passou pela segurança até a sala de embarque e o voo foi chamado dez minutos depois.
O serviço na primeira classe da British Airways foi impecável como sempre. Levou a pasta do Korvettenkapitän Friemel para a cabine com ele e, depois de aceitar uma taça de champanhe da aeromoça, abriu-a e folheou-a por um tempo não apenas o diário, mas as fotos e as cartas. Tudo estranho, porque não entendia uma palavra. Foi a foto do oficial da Kriegsmarine que realmente o intrigou, presumivelmente o próprio Friemel, o rosto do inimigo... só que Baker não se sentia assim. Mas marinheiros de todas as nações, mesmo na guerra, tendiam a ter uma grande consideração entre si. Afinal, o mar é que era seu inimigo comum.
Fechou a pasta e guardou-a no armário acima quando a decolagem foi anunciada e passou o tempo lendo um ou dois jornais de Londres, que eram muitos. A refeição foi servida logo após a decolagem e, depois da retirada, a aeromoça o lembrou da pequena tela de vídeo em frente a ele e lhe ofereceu um folheto com longa lista de vídeos disponíveis.
Baker o folheou. Isso pelo menos ajudaria a passar o tempo, e então ele estremeceu um pouco, como se alguém tivesse passado por cima de seu túmulo. Tinha ouvido falar de um filme, um filme alemão, Das Boot, O barco, que segundo todos os relatos, era uma história angustiante da vida em um submarino no pior momento da guerra.
Pediu um grande uísque. A tripulação fechava as persianas das janelas para que os passageiros pudessem dormir se quisessem. Baker inseriu o vídeo, colocou os fones de ouvido e ficou sentado na penumbra, assistindo. Pediu outro uísque depois de vinte minutos e continuou assistindo. Era um dos filmes mais perturbadores que ele já tinha visto.
Uma hora foi o suficiente. Desligou, inclinou seu assento para trás e ficou lá, olhando através da escuridão, pensando no Korvettenkapitän Paul Friemel e no U180 e naquele desfecho final em Thunder Point, perguntando-se o que tinha dado errado. Depois de um tempo, dormiu.
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1 Um snorkel de submarino é um dispositivo que permite que a embarcação continue submersa com os motores operando enquanto renova o oxigênio. Desenvolvido por engenheiros holandeses, foi amplamente utilizado em U-boats alemães no último ano da Segunda Guerra Mundial.
3
Eram 10 horas quando se ouviu a campainha da porta na casa da Lord North Street. Garth Travers atendeu pessoalmente e se deparou com Henry Baker sob a chuva, a pasta numa das mãos e uma mala de viagem na outra. Ele não estava de capa de chuva, a gola do casaco levantada.
— Meu caro amigo — disse Travers —, pelo amor de Deus, entre antes que se afogue. — Ele se virou enquanto fechava a porta. — Vai ficar aqui, claro?
— Se for possível, velho amigo.
— É bom ouvir de novo essa descrição de mim — Travers disse a ele. — Mostro seu quarto mais tarde. Vamos arranjar um café da manhã para você. É folga da minha governanta, então vai ser no estilo da Marinha.
— Café seria bom no momento — disse Baker.
Eles foram para a cozinha, grande e confortável, e Travers pôs a chaleira no fogo. Baker colocou a pasta na mesa.
— Aqui está ela.
— Fascinante. — Travers examinou a insígnia e ergueu os olhos. — Posso?
— É para isso que estou aqui.
Travers abriu a pasta. Examinou as cartas rapidamente.
— Devem ser lembranças, pelo aspecto. Várias datadas de 1943 e 44. Todas da esposa, ao que parece. — Voltou a atenção para as fotos. — Portador da Cruz de Cavaleiro? Deve ter sido um rapaz e tanto. — Ele olhou para as fotos da mulher e das duas meninas e leu o parágrafo escrito à mão no verso de uma delas. — Oh céus.
— O que foi? — Baker perguntou.
— Está escrito: “Minha querida esposa Lottie e minhas filhas, Ilse e Marie, mortas em um bombardeio em Hamburgo, 8 de agosto de 1944.”
— Bom Deus! — Baker disse.
— Posso checar isso facilmente. Tenho um livro que lista todos os ganhadores da Cruz de Cavaleiro. Era o maior prêmio por bravura dos alemães. Você faz o café e eu procuro.
Travers saiu e Baker encontrou xícaras, uma lata de leite instantâneo, e acabava de servir o café quando Travers voltou com o livro. Ele se sentou em frente a Baker e pegou seu café.
— Aqui estamos. “Paul Friemel, Korvettenkapitän, ingressou na Marinha alemã como cadete após dois anos estudando medicina em Heidelberg”. — Travers acompanhava. — “Excelente recorde em submarinos. Cruz de Cavaleiro em julho de quarenta e quatro por afundar um cruzador italiano.” Eles já estavam do nosso lado, claro. Depois disso, foi designado para tarefas em terra em Kiel. — Ele fez uma careta. — Oh, meu amigo, mistérios se acumulam sobre mistérios. Diz aqui que ele foi morto num bombardeio em Kiel em abril de 1945.
— Uma ova que foi — disse Baker.
Travers pegou o diário e abriu na primeira página. — Bela caligrafia e perfeitamente legível. — Folheou as páginas. — Algumas entradas são bem curtas. Não deve haver mais de trinta páginas.
— Pelo que me lembro, seu alemão é fluente — comentou Baker.
— Como um nativo, meu velho. Minha avó materna era de Munique. Eis o que farei: vou traduzir imediatamente no meu processador de texto. Não deve levar mais de uma hora e meia. Tome seu café da manhã. Há presunto e ovos no refrigerador, perdão, na geladeira para vocês, a lata do pão está ali. Quando tiver acabado, venha ao meu escritório.
Saiu, e Baker, aliviado por tudo estar em boas mãos, distraiu-se preparando o desjejum. Enquanto comia, leu o exemplar do Times da manhã. Uma hora depois, arrumou tudo e foi para o escritório.
Travers estava diante da máquina olhando a tela, os dedos batucando no teclado, o diário aberto, apoiado em um pequeno púlpito à direita, com uma expressão de grande concentração.
Baker disse alegremente: — Como vai indo?
— Agora não, meu velho, por favor.
Baker deu de ombros, sentou-se perto do fogo e pegou uma revista. Estava tudo quieto, ouvia apenas o som do processador, exceto quando Travers disse de repente:
— Meu Deus! — e, minutos depois: — Não, não consigo acreditar.
— Pelo amor de Deus, o que é, Garth? — Baker exigiu.
— Em um minuto, meu velho, está quase.
Baker se sentou de novo. Estava nervoso, mas um tempinho depois Travers se levantou com um suspiro.
— Acabei. Vou imprimir.
— Diz alguma coisa interessante?
— Interessante? — Travers riu asperamente. — Isso é para dizer o mínimo. Em primeiro lugar, devo deixar claro que não é o diário de bordo oficial; é essencialmente um relato particular das circunstâncias peculiares que cercam sua viagem final. Talvez ele estivesse tentando se cobrir de alguma forma, quem sabe, mas é bem sensacional. A questão é: o que vamos fazer a respeito?
— Que diabos você quer dizer?
— Veja por si mesmo. Vou fazer mais café — disse Travers. Quando a impressora parou, juntou as folhas e entregou a Baker, que se instalou na cadeira junto à lareira e começou a ler.
Bergen, Noruega, 30 de abril de 1945. Eu, Paul Friemel, inicio esta narrativa mais pela estranheza da missão que me cabe cumprir do que qualquer outra coisa. Deixamos Kiel há dois dias neste mesmo navio, designado por U-180, número de um navio abatido. Meu comando é na verdade uma nave danificada por um bombardeio enquanto estava sendo construída em Kiel em 1943. Pelo que sei, estamos carregando o número de um navio morto. Minhas ordens do almirante Doenitz são explícitas. Meu passageiro chegará esta noite de Berlim, embora eu ache isso difícil de engolir. Ele trará uma ordem direta do próprio Führer. Saberei nosso destino com ele.
Havia um espaço aqui no diário e, em seguida, outra anotação para a noite do mesmo dia.
Recebi ordens para seguir para o campo de aviação, onde um Fieseler Storch pousou. Após alguns minutos, apareceu um oficial em uniforme de general das SS e perguntou se eu era o Korvettenkapitän Friemel. Ele não se identificou de forma alguma, embora naquela altura eu sentisse que já o tinha visto antes. Quando chegamos ao cais, ele me puxou para um lado antes de embarcar e me entregou um envelope lacrado. Quando o abri, descobri que continha ordens do próprio Führer, que havia sido mencionada na ordem pessoal do almirante Doenitz para mim. Dizia o seguinte:
O Reichsleiter Martin Bormann age por minha autoridade numa questão essencial para a continuidade do Terceiro Reich. O senhor se colocará sob sua autoridade direta, nunca esquecendo o juramento solene a seu Führer como oficial da Kriegsmarine, e acatará suas ordens em todas as situações.
Lembro-me agora de ter visto Bormann certa vez em uma função estatal em Berlim em 1942. Poucas pessoas reconheceriam o homem, pois de todos os nossos líderes, eu concluiria que ele é o menos conhecido. Ele é menor do que eu imaginava, com feições ásperas e braços compridos demais. Francamente, se fosse visto com roupas de trabalho, poderíamos imaginá-lo um estivador ou operário. O Reichsleiter perguntou se eu aceitava sua autoridade, o que, tendo poucas opções, concordei em fazer. Ele me instruiu, no que diz respeito a meus oficiais e à tripulação, para ser conhecido como general Strasser.
1º de maio 1945. Embora a área dos oficiais seja a mais espaçosa a bordo, nela só cabem três pessoas, com um beliche preso. Eu a reservei para mim e dei ao Reichsleiter o camarote do comandante, a bombordo e a ré do que seria a sala de oficiais. É o único lugar privativo que temos, embora apenas uma cortina de feltro separe seus aposentos da sala dos oficiais. Ao deixar Bergen na maré da noite, o Reichsleiter se reuniu a mim na ponte e me informou que nosso destino era a Venezuela.
2 de maio 1945. Como o barco está equipado com um snorkel, posso cumprir uma viagem inteiramente subaquática, embora tema que isso não seja possível com o clima pesado do Atlântico Norte. Estabeleci um curso através dos estreitos Islândia-Faroes e, assim que tivermos invadido o Atlântico, revisarei a situação.
3 de maio 1945. Recebemos de Bergen por rádio a surpreendente notícia de que o Führer morreu no dia 1º de maio lutando bravamente à frente de nossas forças em Berlim, na tentativa de negar a vitória dos russos. Transmiti a notícia melancólica ao Reichsleiter, que a aceitou com o que achei ser uma calma surpreendente. Ele então me instruiu a passar a notícia à tripulação, enfatizando que a guerra continuaria. Uma hora depois, recebemos a notícia de que o almirante Doenitz havia estabelecido um governo provisório em Schleswig-Holstein. Duvido que possa durar muito com os russos em Berlim e os americanos e britânicos do outro lado do Reno.
Baker estava mais do que fascinado a esta altura e rapidamente leu várias páginas que, naquela fase, estavam principalmente relacionadas ao progresso do navio.
5 de maio 1945. Recebemos uma ordem do comando de U-boat para que todos os submarinos no mar observem cessar-fogo a partir desta manhã às 8h. A ordem é voltar ao porto. Discuti isso com o Reichsleiter em seus aposentos, que apontou que tinha autoridade do Führer para continuar e me perguntou se eu questionava isso. Achei difícil responder e ele sugeriu que eu considerasse a situação por um ou dois dias.
8 de maio 1945. Recebemos esta noite a mensagem que eu estava esperando. Capitulação total ao inimigo. A Alemanha estava derrotada. Encontrei novamente o Reichsleiter em seus aposentos e, enquanto discutia a situação, recebi mensagem cifrada de Bergen me instruindo a retornar ou prosseguir viagem como ordenado. O Reichsleiter agarrou-se a isso e exigiu minha obediência, insistindo em seu direito de falar com a tripulação pelo intercomunicador. Revelou sua identidade e a questão de sua autoridade em nome do Führer. Ressaltou que nada mais havia para nenhum de nós na Alemanha e que amigos os esperavam na Venezuela. Uma vida nova para quem quisesse, a possibilidade de regressar à Alemanha para quem quisesse. Era difícil argumentar contra seu raciocínio e, de modo geral, minha tripulação e meus oficiais aceitaram.
12 de maio 1945. Continuamos para o sul e neste dia recebemos um sinal geral da Marinha canadense na Nova Escócia para qualquer submarino ainda no mar, exigindo que relatássemos a situação exata, subíssemos à superfície e procedêssemos sob bandeira negra. O não cumprimento dessa regra, aparentemente, nos condenava a sermos considerados piratas e sujeitos a um ataque imediato. O Reichsleiter mostrou pouca preocupação com esta notícia.
15 de maio 1945. O dispositivo snorkel é, em essência, um tubo de ar levantado acima da superfície enquanto navegamos na profundidade de periscópio. Desta forma, podemos operar nossos motores a diesel debaixo d'água sem gastar nossas baterias. Descobri problemas consideráveis ??com o dispositivo, pois se o mar está agitado e nada é mais agitado do que o Atlântico, a tampa do tubo se fecha. Quando isso acontece, os motores continuam aspirando ar, o que significa uma queda instantânea da pressão no barco e isso causa enormes problemas para a tripulação. Tivemos três casos de rompimento de tímpano, mas o procedimento com o auxílio do snorkel torna difícil sermos detectados pelo ar.
17 de maio 1945. Estamos tão longe no Atlântico que sinto que nosso risco de detecção pelo ar é mínimo e decidi a partir de hoje prosseguir pela superfície. Escavamos os mares pesados ??do Atlântico, continuamente lavados, e nossas chances de encontrar alguém nessas latitudes são mínimas.
20 de maio 1945. O Reichsleiter se manteve sozinho durante grande parte da viagem, exceto para comer com os oficiais, preferindo permanecer em seu beliche e ler. Hoje ele perguntou se poderia me acompanhar quando eu estivesse cumprindo meu turno. Ele chegou à ponte com equipamento para mau tempo quando estávamos navegando em ondas de quinze e vinte pés e gostou muito da experiência.
21 de maio 1945. Uma noite extraordinária para mim. O Reichsleiter apareceu no jantar obviamente embriagado. Mais tarde, ele me convidou para seus aposentos, onde tirou uma garrafa de uísque escocês de uma de suas caixas e insistiu em que eu bebesse também. Ele bebeu à vontade, falando muito sobre o Führer e os últimos dias no bunker em Berlim. Quando perguntei como ele havia escapado, ele me disse que haviam usado a Avenida Leste-Oeste, no centro de Berlim, como pista de pouso para aeronaves leves. Nessa altura, ele terminou o uísque, tirou uma mochila de baixo do beliche e a abriu. Pegou uma pasta de capitão da Kriegsmarine de alumínio como a minha e a colocou na cama, em seguida, encontrou uma nova garrafa de uísque.
A essa altura, ele estava muito bêbado e me contou sobre seu último encontro com o Führer, que o encarregara do sagrado dever de dar continuidade ao futuro do Terceiro Reich. Ele disse que uma organização chamada Linha Odessa havia sido criada anos antes pela SS para fornecer uma linha de fuga, em caso de derrota temporária, para os oficiais da SS e outras unidades essenciais para a continuação da luta.
Em seguida, ele falou da Kamaradenwerk, Ação entre Camaradas, uma organização criada para dar continuidade às ideias nacional-socialistas após a guerra. Centenas de milhões foram desviados para Suíça, América do Sul e outros lugares e amigos em todos os países, no mais alto nível de governo. Pegou sua pasta de alumínio do beliche, abriu-a e tirou um arquivo. Ele o chamou de Livro Azul. Disse que era a lista de muitos membros da aristocracia inglesa, muitos membros do Parlamento inglês, que haviam apoiado secretamente o Führer nos anos 1930, e também muitos americanos. Ele então retirou um papel de um envelope amarelo e o desdobrou diante de mim. Disse que era o Protocolo Windsor, um acordo secreto com o Führer assinado pelo Duque de Windsor enquanto residia no Estoril em Portugal em 1940, após a queda da França. Ali ele concordava em subir ao trono da Inglaterra novamente após uma invasão alemã bem-sucedida. Perguntei-lhe qual o valor que esse documento poderia ter e como ele tinha certeza de que era genuíno. Ele ficou extremamente zangado e me disse que, de qualquer forma, havia pessoas em sua lista do Livro Azul que fariam de tudo para evitar a exposição e que seu próprio futuro estava garantido. Eu perguntei a ele naquele momento se tinha certeza e ele riu e disse que se pode sempre confiar em um cavalheiro inglês. A essa altura, ele estava tão bêbado que tive de ajudá-lo a subir na cama. Adormeceu instantaneamente e examinei o conteúdo da pasta. Os nomes em sua lista do Livro Azul não significavam nada para mim, mas o Protocolo Windsor parecia bem genuíno. A única outra coisa na pasta era uma lista de contas bancárias numeradas e o pedido do Führer. Guardei tudo, fechei a pasta e coloquei debaixo do beliche com sua outra bagagem.
Baker parou neste ponto, largou o diário, levantou-se e foi até a janela, quando Garth Travers reapareceu.
Travers disse: — Aqui, mais café para sua leitura. Terminou?
— Acabo de ler o que Bormann disse a ele em 21 de maio.
— O melhor ainda está por vir, meu velho, eu volto — e Travers saiu novamente.
25 de maio 1945. Quinhentas milhas ao norte de Porto Rico. Pensei em usar a Passagem Anegada através das ilhas Leeward para o Mar do Caribe, um caminho livre até a costa venezuelana a partir de lá.
26 de maio 1945. O Reichsleiter me chamou aos seus aposentos e informou que era necessário fazer uma escala antes de chegar ao nosso destino e pediu para ver a carta das ilhas Virgens. A ilha que ele indicou é pequena, Samson Cay, a sudeste de St. John nas ilhas Virgens americanas, mas em águas soberanas britânicas, algumas milhas ao sul da ilha Norman, nas ilhas Virgens britânicas. Ele não me deu nenhuma indicação do motivo para desejar parar ali.
27 de maio 1945. Emergimos ao largo de Samson Cay às 21h. Uma noite escura com lua crescente. Algumas luzes observadas na costa. O Reichsleiter pediu que fosse colocado em terra em um dos botes infláveis, e providenciei para que o suboficial Schroeder o levasse. Antes de partir, ele me chamou a seus aposentos e me disse que esperava encontrar amigos em terra, mas, como precaução para que algo não desse errado, não estava levando nada de importante com ele. Indicou especialmente a pasta que deixou sob o beliche e me entregou um envelope lacrado que, segundo ele, continha detalhes de meu destino na Venezuela se algo desse errado, e o nome do homem a quem eu deveria entregar a pasta. Ele me disse para mandar Schroeder de volta para buscá-lo às duas horas e que se ele não estivesse na praia eu deveria temer o pior e ir embora. Ele vestiu roupas civis e deixou seu uniforme.
Travers voltou naquele momento. — Ainda não acabou?
Estou na entrada final.”
O almirante foi até o armário de bebidas e serviu uísque em dois copos. — Beba isso — disse ele, passando um copo a Baker. — Você vai precisar.
28 de maio 1945. Meia-noite. Acabo de voltar da ponte e percebi uma imobilidade incrível em tudo, nada natural, diferente de tudo que já experimentei antes. Relâmpagos ao longe, no horizonte, e trovões distantes. Escrevo na mesa de cartas enquanto espero as informações meteorológicas do oficial de rádio...
Há um espaço aqui e algumas linhas rabiscadas apressadamente.
Informação via rádio de St. Thomas indica furacão em rápida aproximação. Precisamos ir para águas profundas e submergir para sobreviver. O Reichsleiter terá que se virar sozinho.
— Só que não sobreviveram, os pobres-diabos — disse Travers quando Baker levantou os olhos. — O furacão os pegou enquanto ainda estavam vulneráveis. Deve ter aberto o rombo no recife onde você o encontrou.
— Receio que sim — disse Baker. — Depois, presumo, a corrente deve tê-lo arrastado para aquela rocha por baixo da saliência.
— Onde permaneceu todos esses anos. Estranho que ninguém o tenha descoberto antes.
— Na verdade, não — disse Baker. — É um local ruim. Ninguém vai lá. É muito longe para quem mergulha para se divertir e é muito perigoso. Outra coisa, se furacão recente não tivesse quebrado a saliência, eu poderia muito bem tê-lo perdido.
— Você ainda não me deu a localização — protestou Travers.
— Sim, bem, isso é problema meu — disse Baker.
Travers sorriu.
— Compreendo, meu velho, mas não posso deixar de chamar atenção para o fato de que esta batata é muito quente.
— Aonde diabos você quer chegar?
— Número um, parece que, depois de todos os rumores e especulações por quase cinquenta anos, temos uma prova positiva de que Martin Bormann escapou de Berlim.
— E então? — Baker disse.
— Mais que isso! Há a lista do Livro Azul com os simpatizantes de Hitler aqui na Inglaterra, não apenas a nobreza, mas membros do Parlamento, além dos nomes de conterrâneos seus. Pior ainda, este Protocolo Windsor.
— O que você quer dizer? — Baker perguntou.
— De acordo com o diário, Bormann guardou tudo num estojo de sobrevivência semelhante a este. — Ele bateu na pasta de alumínio. — E ele o deixou sob o beliche nos aposentos do comandante. Agora, apenas considere. De acordo com a anotação final de Friemel, ele estava na mesa de cartas da sala de controle escrevendo no diário quando recebeu o relatório final de rádio sobre o furacão. Ele enfia o diário na pasta e tranca, apenas um segundo para fazer isso, então vai cuidar da emergência. Isso explicaria por que você encontrou a pasta na sala de controle.
— Vou concordar com isso — Baker disse.
— Não, você está perdendo o ponto real, que a pasta sobreviveu.
— Mas, de novo, aonde você quer chegar?
— Essas coisas foram construídas para sobrevivência, o que significa que é quase certo que Bormann ainda está nos aposentos do comandante com o Livro Azul, o Protocolo Windsor e a ordem pessoal de Hitler sobre Bormann. Mesmo depois de todos esses anos, os fatos contidos nesses documentos causariam um escândalo, Henry, especialmente essa coisa Windsor.
— Eu não gostaria de provocar esse tipo de problema — Baker disse.
— Acredito em você, eu o conheço o suficiente para isso, mas e se outra pessoa encontrar o submarino?
— Eu já disse, ninguém vai lá.
— Você também disse que achava que uma saliência havia sido arrancada, revelando o submarino. Quer dizer, alguém pode mergulhar lá, Henry, assim como você.
— As condições estavam excepcionalmente calmas — disse Baker. — É um lugar ruim, Garth, ninguém vai lá, eu sei, acredite em mim. Outra coisa, o diário diz que o compartimento do comandante fica atrás da sala de oficiais, a bombordo. Não se pode lá entrar. A escotilha de vante está tão corroída que soldou.
— Está certo. Já vi um submarino tipo VII. A Marinha teve um ou dois que assumiu após guerra. A cabine do capitão fica em frente às salas de rádio e som. Acesso rápido à sala de controle. Esse era o ponto.
— Sim, bem, meu ponto é que não se pode entrar lá. A escotilha da frente está fechada para valer.
— Bem, era esperado. Se estivessem com problemas, ele teria ordenado que todas as escotilhas estanques do barco fossem fechadas. Procedimento padrão.
— Tentei girar a roda. Corroída como o inferno. A porta é sólida. Não há como entrar lá.
— Sempre há um jeito, Henry, você sabe disso. — Travers ficou sentado, a testa franzida, então disse: — Olha, eu gostaria de mostrar o diário a um amigo meu.
— De quem estamos falando?
— Do brigadeiro Charles Ferguson. Nós nos conhecemos há anos. Ele pode ter algumas ideias.
— O que o faz tão especial?
— Ele trabalha com inteligência. Comanda uma unidade antiterrorista altamente especializada, responsável apenas perante o primeiro-ministro, e esta é uma informação privilegiada, a propósito.
— Nem imaginaria que esta era exatamente a área dele — disse Baker.
— Deixe-me mostrar o diário a ele, meu velho — Travers disse suavemente. — Ver o que ele acha.
— Está bem — disse Baker. — Mas a localização continua meu pequeno segredo.
— Claro. Pode vir comigo, se quiser.
— Não. Acho que vou tomar um banho e talvez dar um passeio. Foi uma viagem longa. Posso encontrá-lo mais tarde, se você achar necessário.
— Como quiser — disse Travers. — Bom, deixo você à vontade aqui. Sabe onde está tudo.
Baker saiu e Travers procurou o número de telefone pessoal de Ferguson no Ministério da Defesa e falou com ele imediatamente. — Charles, aqui é Garth Travers.
— Meu caro rapaz, não vejo você há anos.
Travers foi direto ao ponto. — Eu acho que você deveria me ver o mais rápido possível, Charles. Um documento surpreendente chegou a minhas mãos.
Ferguson permaneceu urbano como sempre. — Realmente? Bem, devemos fazer algo sobre isso. Você já foi ao meu apartamento na Cavendish Square?
— Claro que já.
— Vejo você lá em trinta minutos.
Na elegante sala de seu apartamento na Cavendish Square, Ferguson lia, sentado no sofá em frente à lareira, com Travers diante dele. A porta se abriu e o mordomo de Ferguson, Kim, um ex-cabo Ghurka, entrou imaculado em sua jaqueta branca como a neve e serviu chá. Ele se retirou silenciosamente, Ferguson pegou sua xícara e continuou lendo. Por fim, largou a xícara e se recostou.
— Que bizarro, não?
— Então, acredita?
— No diário? Santo Deus, se acredito. Enfim, obviamente você responde por seu amigo Baker. Não é um trapaceiro ou coisa que o valha?
— Evidentemente que não. Estivemos juntos na Guerra da Coreia. Era presidente de uma editora respeitada até alguns anos atrás. É também multimilionário.
— E não revela a localização?
— Oh, isso é bem compreensível. Parece ter voltado à infância com essa espantosa descoberta. — Travers sorriu. — Vai acabar nos contando. Então, o que acha? Sei que não é propriamente sua área.
— Aí é que você se engana, Garth. Acho que é perfeitamente em minha área, Garth, porque trabalho para o primeiro-ministro e acho que ele deveria ver isto.
— Há uma questão. Se Bormann desembarcou nessa tal Samson Cay, teria que haver uma razão. Isto é, quem diabos ele ia encontrar?
— Talvez o plano fosse alguém ir buscá-lo, um barco rápido e uma viagem noturna, sabe como é. Quer dizer, ele provavelmente deixou a pasta a bordo por precaução até saber que estava tudo certo. Mas podemos descobrir facilmente. Vou colocar nisso meu assistente, detetive inspetor Lane. Investigação de rotina. — Ele recolocou as folhas do diário de volta no envelope. — Me dê um momento. Vou mandar meu motorista dar uma volta com isso até Downing Street. Estritamente reservado ao primeiro-ministro, e verei quando ele pode nos receber.
Dirigiu-se ao escritório. Travers preparou outra xícara de chá e foi até a janela, atravessando a sala, impaciente, e olhou lá para fora. Continuava a chover — um dia perfeitamente desgraçado.
Quando se virou, Ferguson estava de volta.
— Só pode ser às duas, mas vai dar uma olhada no pacote quando chegar. Você e eu, meu velho, vamos almoçar no Garrick. Disse a Lane que estaríamos lá.
— Clima de guarda-chuva — disse Travers. — Como eu detesto isso.
— Um gim duplo com tônica vai fazer maravilhas, meu velho. — Ferguson o conduziu para fora.
No Garrick, comeram filé e torta de rim, sentados frente a frente na sala de jantar, e tomaram café no bar, onde Jack Lane os encontrou.
— Ah, aqui está você, Jack. Descobriu alguma coisa? — perguntou Ferguson.
— Nada de especial, sir. Samson Cay é propriedade de um grupo hoteleiro americano chamado Samson Cay Holding. Têm hotéis em Las Vegas, Los Angeles e na Florida, mas Samson Cay parece ser o porta-estandarte. Trouxe um folheto deles. Refúgio exclusivo de milionários.
Ele examinaram o folheto, com as fotos usuais de praias brancas, palmeiras, chalés em cenário idílico.
— Jardim do Éden de acordo com isso — disse Ferguson. — Têm até pista de pouso para aeronaves leves, pelo que vejo.
— E um cassino, sir.
— Os cassinos não devem ser muito grandes — observou Travers. — Só atendem até cem pessoas.
— Não são esses números que contam, meu velho — disse Ferguson. — É a quantidade de dinheiro na mesa. E durante a guerra, Jack?
— Sempre existiu uma espécie de hotel. Nessa época, era propriedade de uma família americana de nome Herbert. Samson Cay fica nas ilhas Virgens Britânicas, sob administração de Tortola, no que se refere a leis, alfândega etc. Segundo os arquivos públicos, durante a guerra o hotel ficou vazio. Pescadores de Tortola iam lá ocasionalmente, uma dupla de caseiros, mais nada.
— Não ajuda muito, mas obrigado, Jack, fez um bom trabalho. — Ajudaria mais se eu soubesse do que se trata, sir.
— Mais tarde, Jack, mais tarde. Vá e faça da Grã-Bretanha um lugar mais seguro para se viver.
Lane partiu com um sorriso largo e Ferguson se voltou para Travers.
— Muito bem, meu velho, Downing Street está à nossa espera.
O primeiro-ministro estava em sua mesa, quando um funcionário os anunciou. Levantou-se e cumprimentou-os.
— Brigadeiro.
— Primeiro-ministro — disse Ferguson. — Posso apresentar-lhe o contra-almirante Travers?
— Claro. Queiram sentar-se, senhores. — O primeiro-ministro voltou a se sentar. — É incrível, este caso.
— Um eufemismo, primeiro-ministro — respondeu Ferguson.
— Fez muito bem em trazê-lo à minha atenção. O aspecto real é que me preocupa mais. — O telefone tocou. Ele atendeu, ouviu e disse: — Mande-os subir. — Ao colocar o fone no gancho, ele disse: — Sei que teve problemas com os serviços de segurança, brigadeiro, mas acho que este é um daqueles casos em que devemos honrar nosso acordo de mantê-los informados sobre qualquer coisa de interesse mútuo. Você se lembra de que concordou em manter contato com o diretor-adjunto, Simon Carter, e Sir Francis Pamer?
— Sim, primeiro-ministro.
— Depois de ler o diário, mandei chamá-los. Estavam lá embaixo analisando. Vêm subindo agora.
Logo a porta se abriu e o funcionário anunciou os dois homens. Simon Carter andava pela casa dos cinquenta. Era um homem baixo, de cabelo já completamente branco. Sir Francis Pamer tinha quarenta e sete anos, alto e elegante num terno de flanela azul, gravata dos Guards, graças a três anos nos Grenadiers, e tinha um ligeiro sorriso permanente no canto da boca, num tique que Ferguson achava extremamente irritante.
Houve troca de cumprimentos e em seguida se sentaram.
— Então, senhores? — inquiriu o primeiro-ministro.
— Partindo do princípio de que não se trata de um trote — disse Pamer —, é fascinante.
— Explicaria muitas coisas sobre a lenda de Bormann — interpôs Simon Carter. — Arthur Axmann, o líder da Juventude Hitlerista, disse ter visto o cadáver de Bormann estendido na Estação de Lehrter, em Berlim. Após a fuga do bunker.
— Neste momento, tudo leva a crer que o que ele viu foi alguém parecido com Bormann — disse Travers.
— É verdade — concordou Carter. — O fato de Bormann estar nesse submarino explicaria os numerosos testemunhos de que tinha sido visto na América do Sul.
— Antes de ser executado, Eichmann disse aos israelenses que Bormann estava vivo — acrescentou Pamer. — Por que mentiria quando confrontado com a morte?
— Muito bem, senhores — disse o primeiro-ministro —, mas, francamente, acho que a questão de saber se Martin Bormann sobreviveu à guerra ou não é de interesse puramente acadêmico. Mudaria um pouco a história e os jornais ganhariam algum dinheiro.
— E um pouco mais com a lista do Livro Azul que é mencionada. Membros do Parlamento e da nobreza. — Carter estremeceu. — A mente embaralha.
— Meu caro Simon — Pamer disse a ele —, antes da guerra havia muita gente que achava aspectos da mensagem de Hitler bem atraentes. Também há nomes de Washington nessa lista.
— Sim, bem, seus filhos e netos não agradeceriam se seus nomes fossem mencionados. Mas que diabos Bormann estava fazendo nessa tal Samson Cay?
— Há um resort lá agora, um daqueles refúgios de ricos — disse Ferguson. — Na guerra havia um hotel, mas estava fechado. Verificamos os registros públicos em Tortola. Propriedade de uma família americana chamada Herbert.
— O que você acha, Bormann estava atrás de que, lá? — perguntou Pamer.
— Só podemos supor, mas minha teoria é mais ou menos assim — disse Ferguson: — Ele provavelmente pretendia deixar o U180 seguir sozinho para a Venezuela. Arrisco que ele ia esperar alguém e Samson Cay era o ponto de encontro. Deixou a pasta por precaução, caso algo desse errado. Afinal, deu instruções a Friemel se algo acontecesse com ele.
— Um belo escândalo, eu concordo, senhores, essa coisa toda, mas imaginem o furor que causaria se soubessem que o duque de Windsor assinou um acordo com Hitler — disse o primeiro-ministro.
— Pessoalmente, acho mais do que provável que o chamado Protocolo Windsor seja uma fraude — Pamer disse.
— Pode ser, mas os jornais teriam um dia de glória e, francamente, a Família Real teve mais do que sua cota de escândalo no ano passado — respondeu o primeiro-ministro.
Houve silêncio e Ferguson disse gentilmente: — Está sugerindo que tentemos recuperar a maleta de Bormann antes que qualquer outra pessoa o faça, primeiro-ministro?
— Sim, parece a coisa sensata a fazer. Acha que poderia cuidar disso, brigadeiro?
Mas Simon Carter protestou: — Devo recordar-lhe, primeiro-ministro, que este submarino está em águas territoriais dos EUA.
— Bem, não acho que precisamos envolver nossos primos americanos — disse Ferguson. — Eles teriam direitos totais sobre o naufrágio e o conteúdo. Imagine o que ganhariam com o Protocolo Windsor num leilão.
Carter tentou novamente. — Eu realmente devo protestar, primeiro-ministro. A missão do Grupo Quatro é combater terrorismo e subversão.
O primeiro-ministro levantou a mão. — Exatamente, e posso pensar em poucas coisas mais subversivas para os interesses da nação do que a publicação deste Protocolo Windsor. Brigadeiro, trace um plano, faça o que for preciso e o mais rápido possível. Mantenha-me informado e também ao diretor-adjunto e Sir Francis.
— Então, o assunto está inteiramente em minhas mãos? — Ferguson perguntou.
— Tem total autoridade. Faça o que tiver que fazer. — O primeiro-ministro se levantou. — E agora terão que me desculpar, senhores. Tenho uma agenda carregada.
Desceram os quatro até os portões de segurança, onde Downing Street encontrava Whitehall, e pararam na calçada.
— Com os diabos, Ferguson, você dá sempre um jeito de conseguir o que quer — disse Carter. — Agora cuide de nos manter informados. Vamos, Francis. — E se afastou em grandes passadas.
Francis Pamer sorriu.
— Não leve a sério, brigadeiro, o único problema é que ele odeia você. Boa caça — e ele correu atrás de Carter.
Travers e Ferguson caminharam por Whitehall à procura de um táxi e Travers disse: — Por que Carter não gosta de você?
— Porque eu tive sucesso com muita frequência onde ele falhou e porque estou fora do sistema, respondendo apenas ao primeiro-ministro. Carter não aguenta isso.
— Pamer parece um cara bem decente.”
— Assim dizem.
— Ele é casado, suponho?
— Na verdade, não. Aparentemente, muito procurado pelas mulheres. Um dos baronetes mais antigos da Inglaterra. Acredito que ele seja o décimo segundo ou décimo terceiro. Tem uma casa maravilhosa em Hampshire. A mãe dele mora lá.
— Então, qual é a conexão dele com questões de inteligência?
— O primeiro-ministro fez dele um meio ministro no Home Office. Ministro extra, acredito que seja o título dele. Uma espécie de solucionador itinerante de problemas. Contanto que ele e Carter fiquem longe de mim, estou muito satisfeito.
— E Henry Baker, acha que ele vai contar onde está o U180?
— Claro que vai, ele precisa. — Ferguson viu um táxi e acenou. — Vamos, vamos enfrentá-lo agora.
Depois do banho, Baker estendera-se um bocado em cima da cama e adormecera ferrado. Quando finalmente acordou, passava pouco das 2. Apressou-se a vestir-se e desceu.
Não havia sinal de Travers, e ainda chovia com intensidade quando abriu a porta da rua. Apesar disso, decidiu dar uma volta. Vestiu uma velha capa que achou no armário, pegou um guarda-chuva e desceu a escada. Sentia-se bem; afinal, a chuva sempre o fazia se sentir bem, e continuava empolgado com o rumo que as coisas tinham tomado. Virou para Millbank e parou para observar o Victoria Tower Gardens e o Tâmisa.
Em St. John, por razões obscuras, as pessoas dirigem do lado esquerdo da rua, como na Inglaterra, e ainda assim, naquela tarde chuvosa de Londres, Henry Baker fez o que a maioria dos americanos faria antes de atravessar. Ele olhou para a esquerda e deu um passo direto para o caminho de um ônibus da London Transport vindo da direita. O Hospital Westminster era bem perto, uma ambulância chegou em minutos. Não que isso importasse, pois ele estava morto quando chegaram ao pronto-socorro.
4
Em St. John, passava um pouco das 10 da manhã quando Jenny Grant entrou no café. Billy, que varria o chão, ergueu o olhar e esboçou um sorriso. Mary Jones surgiu no fundo do bar.
— Telefone no escritório, Jenny. É de Londres, Inglaterra.
Jenny sorriu instantaneamente.
— Henry?
— Não, querida. É uma mulher. Vou arranjar um café para você.
Jenny passou por ela e entrou, e Mary pôs água na máquina do café. Ouviu-se um grito estridente vindo do escritório. Alarmados, Mary e Billy correram para lá.
Jenny estava sentada atrás da escrivaninha com um ar aturdido, segurando o telefone na mão.
— O que foi, querida? Conte aqui para a Mary.
— É uma agente falando da Scotland Yard — suspirou Jenny. — Henry morreu. Morreu num acidente de trânsito. — Desatou a chorar descontroladamente.
Faltava pouco para as cinco. Travers esperava no saguão do necrotério, na Cromwell Road. Logo Ferguson entrava em passo rápido.
— Desculpe deixá-lo esperando, Garth, mas precisam fazer autopsia e isso só é possível com uma identificação formal.
— Falei com a moça com quem Henry vivia, Jenny Grant. Ela ficou muito abalada, mas deve chegar amanhã.
— Está bem, mas não quero esperar. Consegui uma ordem do tribunal autorizando você a fazer a identificação. — Ferguson tirou um papel do bolso do casaco. — Portanto, vamos a isso.
Nessa hora, surgiu um funcionário de uniforme. — Um dos senhores é o brigadeiro Ferguson?
— Sou eu.
— O professor Manning está esperando. Por aqui, por favor.
Havia quatro mesas de aço inoxidável. O corpo de Baker estava deitado na mais próxima. Um homem alto e magro com jaleco de cirurgião os esperava.
— Olá, Sam. Obrigado por vir — disse Ferguson. — Apresento Garth Travers.
Sam Manning cumprimentou os dois. — Podemos prosseguir, Charles? Tenho ingressos para o Covent Garden.
Ferguson pegou uma caneta e colocou o formulário na ponta da mesa.
— O contra-almirante Travers identifica formalmente este homem como sendo Henry Baker, cidadão americano residente em St. John, nas ilhas Virgens Americanas?
— Identifico.
— Assine aqui.
Travers assinou, e Ferguson entregou o formulário a Manning.
— Aqui está. É isso, Sam, nós o deixamos com você. — E fazendo sinal a Travers, dirigiu-se para a porta.
Ferguson fechou a divisória de vidro em seu Daimler para que o motorista não ouvisse a conversa.
— Foi um choque — disse Travers. — Ainda não me adaptei bem ao que aconteceu.
— Ficamos numa situação interessante — comentou Ferguson.
— Como assim?
— A localização do U-180. Será que morreu com ele?
— Claro — disse Travers. — Já tinha esquecido.
— Por outro lado, talvez a tal garota com quem ele vivia saiba.
— E se não souber?
— Nesse caso, terei terei que pensar em algo.
— Eu me pergunto o que Carter pensará de tudo isso."
Ferguson gemeu. — Suponho que seja melhor atualizá-lo. Mantenha o cara feliz. — ELE Pegou o telefone do carro e ligou para o inspetor Lane.
Precisamente ao mesmo tempo, Francis Pamer, tendo feito uma viagem muito rápida de Londres em seu Porsche Cabriolet para sua casa de campo em Hatherley Court, Hampshire, estava subindo a grande escadaria para os aposentos da mãe no primeiro andar. A casa estava na família há quinhentos anos e ele sempre a visitava com prazer consciente, mas não agora. Havia coisas mais importantes em sua mente.
Quando ele bateu na porta do quarto e entrou, encontrou a mãe apoiada na magnífica cama de dossel, uma enfermeira uniformizada sentada ao lado dela. Ela tinha oitenta e cinco anos, era muito velha e frágil e estava deitada de olhos fechados.
A enfermeira se levantou. — Sir Francis. Não o esperávamos.
— Eu sei. Como ela está?
— Nada bem, senhor. O médico esteve aqui mais cedo. Disse que pode ser na próxima semana ou em três meses.
— Pode fazer um intervalo. Quero conversar um pouco com ela.
A enfermeira saiu. Pamer sentou-se na cama e pegou a mão da mãe. Ela abriu os olhos.
— Como está, minha querida? — perguntou ele.
— Francis, que adorável surpresa. — A voz de Lady Pamer estava muito sumida.
— Tinha negócios aqui perto, mãe, por isso pensei em vir vê-la.
— Foi simpático de sua parte, meu querido.
— Estive conversando sobre Samson Cay hoje. — Pamer se levantou e acendeu um cigarro.
— Oh, está pensando em tirar férias, querido? Se você for e aquele simpático Sr. Santiago estiver lá, dê-lhe meus cumprimentos.
— Claro. Foi sua mãe que trouxe Samson Cay para a família? Não estou enganado, estou?
— Foi, sim, querido. Presente de casamento do pai dela, George Herbert.
— Fale-me de novo da guerra, mãe — pediu ele. — E sobre Samson Cay.
— Bem, o hotel ficou vazio durante a maior parte da guerra. Era pequeno então, claro, apenas um lugarzinho em estilo colonial.
— E quando você foi para lá? Você nunca falou disso e eu era muito novo para lembrar.
— Março de 1945. Você tinha nascido em julho de 44, e aqueles terríveis foguetes alemães não paravam de cair sobre Londres. V1s e V2s. Seu pai estava fora do exército na época e servia no governo do Sr. Churchill como ministro júnior, assim como você, querido. Ele estava preocupado com a continuação dos ataques a Londres, então conseguiu passagens para nós dois em um navio para Porto Rico. Seguimos para Samson Cay de lá. Agora eu me lembro. Era o início de abril quando chegamos. Saímos de Tortola de barco. Havia um senhor e a esposa, negros. Muito simpáticos. Jackson, era esse o nome deles. May e Joseph Jackson.
A voz dela sumiu. Ele voltou a se sentar na cama e pegou a mão dela novamente. — Alguém nos visitou, mãe? Consegue se lembrar disso?
— Visitas? — Ela abriu os olhos. — Só Mr. Strasser. Um homem encantador. Seu pai disse que ele poderia aparecer. E apareceu uma noite. Disse que o tinham trazido num barco de pesca de Tortola, e então veio o furacão. Aconteceu na mesma noite. Terrível. Ficamos dois dias no porão. Eu segurei você o tempo todo, e o Sr. Strasser era muito bom. Um homem tão bom.
— O que aconteceu depois?
— Ele ficou um bom tempo conosco. Até junho, eu acho, e então seu pai chegou.
— E Strasser?
— Ele foi embora depois disso. Tinha negócios na América do Sul e a guerra na Europa acabou, claro, então voltamos para a Inglaterra. O Sr. Churchill havia perdido a eleição e seu pai não estava mais no Parlamento, então morávamos aqui, querido. As fazendas foram uma grande decepção.
Ela estava divagando um pouco. Pamer disse: — Uma vez você me disse que meu pai serviu nas trincheiras com Sir Oswald Mosley na Primeira Guerra Mundial.
— Isso é verdade, querido, eram grandes amigos.
— Lembra-se das camisas pretas de Mosley, mãe, do Partido Fascista Britânico? Meu pai tinha alguma ligação com aquilo?
— Céus, não. Pobre Oswald. Ele costumava passar fins de semana aqui. Eles o prenderam no início da guerra. Disseram que era pró-alemão. Ridículo. Ele era um cavalheiro. — A voz sumiu, mas logo ficou mais forte. — Passamos tempos tão difíceis... Sabe Deus como mantivemos você em Eton. Que sorte todos nós tivemos quando seu pai conheceu Mr. Santiago. As coisas magníficas que eles fizeram juntos em Samson Cay... Dizem que agora é o melhor resort do Caribe. Eu adoraria visitar novamente, realmente adoraria.
Seus olhos se fecharam e Pamer a cobriu. — Durma agora, mãe, vai lhe fazer bem.
Fechou a porta com cuidado, desceu ao andar de baixo, dirigindo-se à biblioteca, e preparou um uísque. O teor do diário o chocara além das medidas, mas a verdade estava agora clara. Seu pai, membro do Parlamento britânico, funcionário da ativa, um homem do governo, tinha ligações com o Partido Nazista, um dos que esperavam ansiosamente uma invasão alemã em 1940. O envolvimento deve ter sido considerável. Todo o negócio com Martin Bormann e Samson Cay era prova disso.
O sangue gelou em suas veias. Pôs-se a perambular pela sala, olhando para os retratos dos antepassados. Quinhentos anos, uma das famílias mais antigas da Inglaterra, e ele era um ministro júnior agora, tinha todas as perspectivas de progresso, mas se Ferguson conseguisse recuperar a pasta de Bormann do submarino, ele estaria acabado. Não há razão para duvidar de que o nome de seu pai estaria na lista do Livro Azul de simpatizantes nazistas. O escândalo acabaria com ele. Não apenas teria que dizer adeus a qualquer chance de um alto cargo no governo, mas também teria que renunciar a sua cadeira no Parlamento. Em seguida viriam os clubes. Ele estremeceu. Não dava para pensar, mas o que fazer?
A resposta era surpreendentemente simples. Max — Max Santiago. Max saberia. Correu para o escritório, procurou o número do resort em Samson Cay, telefonou e perguntou por Carlos Prieto, o gerente geral.
— Carlos? Aqui é Francis Pamer.
— Sir Francis, que prazer. Em que posso servi-lo? Vem nos visitar em breve?
— Espero que sim. Ouça, Carlos, preciso falar urgentemente com o señor Santiago. Sabe, por acaso, onde ele está?
— Com certeza. No Ritz de Paris. Negócios, pelo que sei. Volta a Porto Rico em três dias.
— Deus lhe pague, Carlos. — Pamer nunca sentira tamanho alívio. Pediu à telefonista uma ligação para o Ritz de Paris e olhou o relógio: cinco e meia. Esperou impacientemente até que ouviu o recepcionista do Ritz, e imediatamente perguntou por Santiago.
— Esteja aí, esteja aí — ele murmurava.
— Fala Santiago — atendeu uma voz em francês. — Quem é?
— Graças a Deus. Max, é Francis. Preciso vê-lo. Surgiram problemas, problemas muito graves. Preciso de sua ajuda.
— Tenha calma, Francis, tenha calma. Onde você está?
— Em Hatherley Court.
— Consegue estar em Gatwick às seis e meia hora daí?
— Creio que sim.
— Ótimo. Terei lá um jatinho esperando. Jantamos juntos, e você pode me contar tudo.
O telefone deu um estalido, Santiago tinha desligado. Pamer pegou o passaporte na mesa e um talão de cheques de viagem. Então subiu a escada, abriu a porta do quarto da mãe e olhou. Ela estava dormindo. Ele fechou a porta suavemente e desceu. O telefone tocou, e ele correu para atender. Simon Carter estava na linha. — Aí está você. Tenho procurado você em toda parte. Baker está morto. Acabei de saber por Ferguson.
— Santo Deus — Pamer disse e então teve um pensamento. — E a localização do U-180 morreu com ele?
— Bom, certamente não contou a Travers, mas parece que a namorada, uma tal Jenny Grant, chega amanhã de avião. Ferguson espera que ela saiba. Seja como for, mantenho-o informado.
Pamer saiu carrancudo do escritório, e encontrou a enfermeira no corredor rumo à cozinha. — De saída, Sir Francis?
— Assunto urgente do governo, Nellie, transmita meu amor a ela.
Ele saiu da mansão, entrou no Porsche e foi embora.
Na casa de Garth Travers, na Lord North Street, Ferguson e o almirante acabavam de revistar a mala de Baker.
— Você não esperava encontrar a localização desse tal recife escondida entre as roupas dele, não é? — perguntou Travers.
— Coisas estranhas acontecem — disse Ferguson. — Acredite.
Foram até o escritório, e Ferguson olhou de relance para a pasta de alumínio. — É isso, não é?
— Sim — Travers disse.
— Vamos dar uma olhada.
O almirante a abriu. Ferguson examinou a carta, as fotos e deu uma olhada no diário.
— Você copiou daqui para o seu processador de texto, presumo?
— Ah, sim. Digitei a tradução diretamente.
— Tem algum disquete no computador?
— Sim.
— Tire o disquete e guarde na pasta, assim como qualquer outra cópia que tiver.
— Francamente, Charles, isso é um pouco demais depois de tudo o que fiz, e de qualquer forma era propriedade de Baker, no sentido jurídico do termo.
— Pois deixou de ser.
Resmungando, Travers obedeceu. — E agora o que acontece?
— Nada demais. Encontro essa jovem amanhã e vejo o que ela tem a dizer.
— E depois?
— Eu realmente não sei, mas, obviamente, não será da sua conta de agora em diante.
— Achei que você fosse dizer isso.
Ferguson deu um tapa no ombro dele. — Deixe pra lá, me encontre no Piano Bar do Dorchester às oito. Vamos tomar uma bebida. — Ele saiu pela porta da frente, desceu a escada e entrou no banco traseiro do Daimler que o esperava.
Quando o jato Citation decolou da pista de Gatwick, Francis Pamer pegou um uísque na caixa do bar pensando em Max Santiago. Era cubano, ele sabia disso, uma das famílias de proprietários de terras expulsas por Castro em 1959. O nome Max veio da mãe, que era alemã. Que ele tinha dinheiro era óbvio, porque quando ele fechou o acordo com o velho Joseph Pamer para desenvolver o Samson Cay Resort em 1970 ele já controlava vários hotéis. Quantos anos teria agora, sessenta e sete ou oito? Tudo o que Francis Pamer sabia com certeza era que sempre teve um pouco de medo dele, mas isso não importava agora. Santiago saberia o que fazer e isso é que contava. Ele terminou seu uísque e voltou a ler o Financial Times até que o Citation pousou no aeroporto Le Bourget, em Paris, meia hora depois.
Santiago estava no terraço de sua magnífica suíte no Ritz, um homem impressionantemente alto de terno escuro e gravata, o cabelo ainda bem preto apesar da idade. Tinha um rosto calmo e imperioso, a aparência de quem é acostumado a fazer tudo de seu jeito, olhos escuros e vigilantes.
Virou-se quando a camareira abriu a porta para Pamer.
— Meu caro Francis, que alegria vê-lo. — Ergueu a mão. — Uma taça de champanhe, você está precisando, posso ver isso. — Seu inglês era irrepreensível.
— Pode dizer isso de novo — disse Pamer e aceitou o copo de cristal com gratidão.
— Agora venha, sente-se e conte-me qual é o problema.
Eles se sentaram, um de cada lado do fogo. Pamer disse: — Não sei por onde começar.
— Do início, naturalmente.
Então, Pamer fez exatamente isso.
Quando ele acabou, Santiago ficou sentado um tempo sem dizer uma palavra.
Pamer disse: — O que você acha?
— Lamentável, para dizer o mínimo.
— Eu sei. Quer dizer, se esse negócio vazar, Bormann na ilha, minha mãe, meu pai... — disse Pamer.
— Ah, sua mãe não fazia a menor ideia de quem era Bormann. Seu pai sim, claro.
— Perdão? — Pamer ficou pasmo.
— Seu pai, o querido Joseph, foi fascista a vida toda, Francis, e meu pai também, e um grande amigo do general Franco. Pessoas assim eram, como posso dizer, conectadas? Seu pai tinha ligações muito fortes com a Alemanha nazista antes da guerra, mas muitos membros do establishment inglês também tinham, e por que não? Que pessoa sensata gostaria de ver um bando de comunistas assumir o controle? Veja o que fizeram com minha Cuba.
— Você está dizendo que sabia que meu pai tinha essa ligação com Martin Bormann?
— Está dizendo que sabia que meu pai tinha essa ligação com Martin Bormann?
— Claro. Meu pai, em Cuba, também estava envolvido. A Kamaradenwerk, a organização instituída para tomar conta do movimento na eventualidade de uma derrota na Europa, era, continua sendo uma rede de nível mundial. Seu pai e o meu eram apenas duas engrenagens da máquina.
— Não acredito.
— Francis, como acha que seu pai manteve Hatherley Court? E você em Eton? E três anos nos Grenadier Guards, de onde acha que saiu o dinheiro? Seu pai nem mesmo tinha o salário de membro do parlamento depois que perdeu seu assento.
— Para o maldito Partido Trabalhista — disse Pamer com amargura.
— Claro, mas com o passar dos anos ele teve permissão para, digamos, ajudar em certos negócios. Quando minha própria família deixou Cuba por causa daquele animal, o Castro, puseram fundos a nossa disposição nos Estados Unidos. Construí a rede de hotéis, consegui entrar em certas formas ilegais, mas lucrativas, do tráfico.
Pamer sempre suspeitou de algum tipo de envolvimento de Santiago com drogas e seu sangue gelou. — Olha, não quero saber sobre isso.
— Ouça, eu não quero saber disso.
— Mas gosta de gastar o dinheiro, Francis. — Santiago sorriu pela primeira vez. — O projeto de Samson Cay nos serviu muito bem. Uma capa maravilhosa, um playground para os muito ricos e, atrás dessa fachada, perfeito para a realização de certos negócios.
— E se alguém investigasse?
— Por que o fariam? Samson Holding é, como o nome indica, uma holding. Como uma boneca russa, Francis, uma empresa dentro da outra, e o nome Pamer não aparece em nenhum dos painéis. E você teria que recuar muito no tempo para encontrar o nome Santiago.
— Mas a família da minha avó era a proprietária original!
— Os Herberts? Isso foi há muito tempo, Francis. Olhe, o nome de sua mãe era Vail, o nome de solteira de sua mãe era Herbert, admito, mas duvido que alguma ligação pudesse ser feita. Você mencionou que Ferguson checou os registros públicos de Tortola, que informaram que o hotel estava desocupado durante a guerra.
— Sim, eu me pergunto como cometeram esse erro...
— Bem simples. Um funcionário quase quarenta anos depois olha o arquivo e vê uma anotação de que o hotel esteve desocupado no período, o que realmente aconteceu, Francis. Sua mãe não apareceu com você até abril de quarenta e cinco, apenas quatro ou cinco semanas antes do fim da guerra. De todo modo, não tem importância. Vou mandar meu pessoal verificar o escritório de registros em Tortola. Se houver algo lá, nós removemos.
— Você pode fazer isso? — Pamer disse horrorizado.
— Posso fazer qualquer coisa, Francis. Agora, esse contra-almirante Travers, qual é o endereço dele?
— Lord North Street.
— Ótimo. Vou mandar alguém lhe fazer uma visita, embora, pelo que conheço de Ferguson, ele já não deve mais o diário.
— Seu pessoal vai ser discreto? Quero dizer, não queremos um escândalo.
— É exatamente isso que você vai ter se não formos os primeiros a pôr a mão nessa coisa. Vou mandar meus homens investigarem a tal garota, qual é o nome dela?
— Jenny Grant.
— Mandarei verificar os voos para ver quando ela chega. Simples assim. Deve estar num voo de Porto Rico ou Antígua.
— E depois?
Santiago sorriu. — Bem, precisamos torcer para que ela possa nos dizer algo, não é?
Pamer se sentiu mal. — Olha, Max, eles não vão machucá-la nem nada, vão?
— Pobre Francis, que criatura covarde é você. — Santiago o empurrou para porta e a abriu. — Me espere no bar. Tenho ligações para fazer, depois jantamos. — Ele o empurrou para o corredor e fechou a porta.
O Piano Bar do Dorchester estava concorrido quando Garth Travers entrou, e de Ferguson nem sinal. O garçom arranjou uma mesa de canto e ele pediu um gim-tônica e descontraiu. Ferguson chegou quinze minutos depois e foi ao seu encontro.
— Vamos melhorar isso — disse o brigadeiro e pediu duas taças de champanhe. — Amo esse lugar. — Ele olhou para o teto espelhado. — Extraordinário, e aquele cara ao piano toca nosso tipo de música, não é?
— O que é outra maneira de dizer que estamos progredindo — disse Travers. — Você está de bom humor. Aconteceu alguma coisa? ”
— Aconteceu. Lane consultou a British Airways. Jenny Grant vem no voo 252, que parte de Antígua às 20h10 hora local, chegando a Gatwick às nove e cinco da manhã.
— Pobre garota — comentou Travers.
— Vai convidá-la para ficar em sua casa?
— Evidentemente.
— Calculei isso — assentiu Ferguson. — Dadas as circunstâncias, acho que seria melhor ir buscá-la. Meu motorista levará o Daimler a sua casa às sete e meia.
— Perfeito. Quer vê-la imediatamente?
— Oh, não. Dê-lhe tempo de se refazer. Posso vê-la mais tarde. — Ferguson hesitou. — Há uma grande possibilidade de que ela queira ver o corpo.
— Ainda está no necrotério?
— Não, na funerária que usamos em assuntos do departamento. Cox & Son, na Cromwell Road. Se ela pedir, leve-a lá, são bons sujeitos. — Ele acenou para um garçom e pediu mais duas taças de champanhe, e Travers disse:
— E o submarino, o diário, toda essa coisa? Devo contar algo a ela?
— Não. Deixe isso comigo. — Ferguson sorriu. — Agora, acabe isso e eu o convido para jantar.
E em Antígua, ao subir as escadas para o compartimento da primeira classe, Jenny Grant sentiu como se estivesse se mexendo em câmera lenta. A aeromoça que a cumprimentou alegremente tinha o instinto que vem do treinamento e da experiência que lhe disse que algo estava errado.
Ela a levou para seu assento e a ajudou a se acomodar.
— Gostaria de uma bebida? Champanhe, café?
— Na verdade eu gostaria de um conhaque. Um grande — Jenny disse a ela.
A aeromoça voltou imediatamente. Havia preocupação em seu rosto agora.
— Ouça, há algo errado? Posso ajudar?
— Na verdade, não — disse Jenny. — Acabo de perder o melhor amigo que já tive em acidente de trânsito em Londres, é por isso que estou indo.
A jovem assentiu com simpatia.
— Não há ninguém a seu lado, apenas seis na cabine nesta viagem, ninguém para incomodá-la. — Ela apertou o ombro de Jenny. — Qualquer coisa que precisar, é só me avisar.
— Provavelmente vou tentar dormir durante toda a viagem.
— Provavelmente a melhor coisa para você.
A aeromoça foi embora e Jenny se recostou, bebendo seu conhaque e pensando em Henry, toda a gentileza, todo o apoio. Salvou a vida dela, essa era a verdade, e o estranho é que, por mais que tentasse, por algum motivo ela não conseguia se lembrar do rosto dele com clareza e as lágrimas brotaram de seus olhos, lentas e amargas.
O Daimler chegou pouco antes das 7h30. Travers deixou um bilhete explicando a situação para a governanta, Mrs. Mishra, uma senhora indiana cujo marido mantinha uma loja de esquina não muito longe, desceu correndo a escada para a limusine de Ferguson e foi embora, passando por uma van da British Telecom estacionada no fim da rua. A van avançou e estacionou diante da casa.
Um técnico de telefonia em macacão oficial saiu com uma caixa de ferramentas na mão. Ele tinha o nome Smith impresso no bolso esquerdo. Seguiu pelo caminho de lajes que levava aos fundos da casa e ao pátio traseiro. Subiu os degraus até a porta da cozinha, quebrou o vidro com a mão enluvada, alcançou o trinco e abriu. Um momento depois, estava abrindo a porta da frente e outro engenheiro de telecomunicações saiu da van e se juntou a ele. O nome no bolso do macacão era Johnson.
Uma vez dentro de casa, vasculharam meticulosamente o escritório do almirante, revistando tudo quanto era gaveta, tirando os livros das estantes, procurando indícios de um cofre, que não encontraram.
— Tempo perdido — acabou por dizer Smith. — Não está aqui. Vá abrir a van
Desligou da tomada o processador de texto do almirante e o levou para a traseira da van.
— O que mais?
— Veja se há alguma televisão ou vídeo na sala de estar — disse ele, já novamente dentro de casa. — Depois, leve esta máquina de escrever.
Johnson fez o que ele mandava. Quando voltou, Smith estava atarraxando a cabeça do receptor do telefone.
— Colocou uma escuta no telefone?
— Por que não? Podemos ouvir algo a nosso favor.
— Isso é sensato? Quero dizer, essa gente, pessoal da Inteligência, eles não são uma porcaria.
— Olhe, para todos os efeitos, isso é apenas um arrombamento — Smith disse a ele. — De qualquer forma, o Sr. Santiago quer resultados e com ele não se brinca, acredite em mim. Agora vamos nessa.
A Sra. Mishra, governanta do almirante, normalmente não chegava até as nove, mas o fato de que teve folga no dia anterior significava que havia roupa para lavar, então ela decidiu começar cedo. Ao dobrar a esquina da Lord North Street e caminhar para a casa, um sobretudo sobre o sári para se proteger do frio da manhã, viu os dois homens saindo da casa. Ela correu até eles.
— Algum problema?
Eles se viraram para ela. Smith disse urbanamente: — Não que eu saiba. Quem é você, querida?
— Sra. Mishra, a governanta.
— Problema com um dos telefones. Já cuidamos disso. Vai descobrir que está tudo bem agora.
Eles entraram na van, Johnson ao volante, e foram embora.
Johnson disse: — Que azar.
— Nada demais. Ela é indiana, não é? Somos apenas mais um par de rostos brancos para ela.
Smith acendeu um cigarro e recostou-se, apreciando a vista do rio enquanto eles viravam para Millbank.
Inicialmente a governanta nada percebeu de estranho, porque a porta do escritório estava encostada. Entrou na cozinha, pôs a bolsa em cima da mesa e reparou no bilhete do almirante. Enquanto lia, sentiu uma corrente de ar, virou-se e viu o vidro da porta quebrado.
— Oh, meu Deus! — exclamou, horrorizada.
Foi ver a sala de estar e imediatamente deu por falta da falta da televisão e do vídeo. O estado do escritório confirmou seus temores, e ela ligou imediatamente para a polícia.
Travers reconheceu Jenny Grant de imediato quando ela apareceu no saguão de chegadas de Gatwick, empurrando sua mala num carrinho. Vestia casaco três quartos de tweed sobre blusa branca e jeans. Ela parecia cansada e tensa, círculos escuros sob os olhos.
— Jenny? — disse ele. — Lembra-se de mim? Garth Travers?
— Claro que lembro, almirante. — Ela tentou sorrir, mas não conseguiu.
Ele pôs o braço de leve em seus ombros. — Está com um ar exausto, minha querida. Venha, tenho um carro esperando.
O motorista colocou a bagagem dela no porta-malas do Daimler enquanto se sentavam no banco traseiro. Ele disse: — Espero que você fique comigo, naturalmente, se estiver tudo bem...
— É muito gentil. Vai me fazer um favor? — Ela estava quase implorando. — Vai me contar exatamente o que aconteceu?
— Pelo que as testemunhas disseram à polícia, ele simplesmente olhou para o lado errado e entrou na frente de um ônibus.
— Que jeito estúpido de morrer. — Havia uma espécie de raiva em sua voz agora. — Quer dizer, aqui temos um homem de 63 anos que insistia em mergulhar todos os dias, às vezes a 40 metros em condições perigosas, e tinha que morrer de uma forma tão estúpida e trivial.
— Eu sei. A vida é uma piada de mau gosto às vezes. Aceita um cigarro?
— Na verdade, sim. Parei há seis meses, comecei de novo no avião ontem à noite. — Ela pegou um do maço que ele oferecia e aceitou o fogo. — Há algo mais que eu aceitaria, almirante, e antes de qualquer outra coisa.
— O que seria?
— Vê-lo — ela disse simplesmente.
— Imaginei que pediria — Garth Travers disse. — É para lá que estamos indo agora.
A funerária era agradável, considerando o que era. A sala de espera era forrada de madeira e estava repleta de flores. Apareceu um homem de idade em terno e gravata pretos.
— Posso ajudá-los?
— Mr. Cox? Sou o almirante Travers e esta é Miss Grant. Creio que nos esperava.
— Sem dúvida — murmurou ele. — Queiram me seguir.
Havia várias salas ao longo de um corredor, com portas deslizantes abertas revelando caixões sobre cavaletes e flores por toda parte, seu cheiro quase insuportável. O Sr. Cox guiou-os até o sala certa. O caixão era bem simples, feito de mogno.
— Como não recebi instruções, fiz o melhor que pude — disse Cox. — Os acessórios são de plástico dourado, pois presumi que a intenção seria a cremação.”
Ele deslizou a tampa e retirou a gaze do rosto. Henry Baker parecia muito calmo na morte, olhos fechados, rosto pálido. Jenny tocou seu rosto, desalojando ligeiramente a gaze.
Cox reorganizou cuidadosamente a gaze. — Eu não o faria, senhorita.
Ela ficou confusa e Travers disse: — Ele foi autopsiado, minha querida, teve que ser, com morte em via pública é uma exigência legal. Há uma audiência do inquérito marcada para depois de amanhã.
Ela assentiu. — Não importa mais, ele se foi. Podemos sair, por favor?
No carro, ele deu a ela outro cigarro. — Você está bem?
— Absolutamente. — Ela sorriu de repente. — Era um cara incrível, almirante, não é assim que se diz na Inglaterra? O homem mais querido e gentil que já conheci. — Ela respirou fundo. — Para onde agora?
— Minha casa em Lord North Street. Você provavelmente gostaria de um banho, descansar um pouco, essas coisas.
— Sim seria ótimo. — Ela se recostou e fechou os olhos.
A surpresa na Lord North Street foi o carro da polícia. Travers correu escada acima, com Jenny atrás. Entrou no vestíbulo, deparou-se com o caos no escritório, seguiu o som das vozes e achou sua governanta e uma jovem policial na cozinha.
— Ah, almirante — lamuriou-se Mrs. Mishra quando ele entrou. — Uma coisa tão terrível. Roubaram muitas coisas. A televisão, seu processador de texto e a máquina de escrever. O escritório está uma bagunça, mas eu vi os nomes deles no macacão.
Almirante Travers? — a policial disse. — Roubo típico durante o dia, infelizmente, senhor. Conseguiram acesso por aquela porta.
Ela indicou o buraco no vidro. Travers disse: — O maldito porco.
— Os malditos porcos — exclamou Travers. — Suponho que não haja grande chance de pegá-los.
— Duvido, almirante. Francamente, duvido.
— Eles estavam numa van da Telecom — disse Mrs. Mishra. — Técnicos de telefonia. Eu os vi saindo. Imagine uma coisa dessas.
— Uma manobra comum, sir — disse a policial — para se passar por algum tipo de trabalhador. Agora, se eu pudesse recolher os detalhes do que falta...
— Sim, claro, apenas me dê um momento. — Ele se virou para Jenny. — Desculpe por isso. Mrs. Mishra, esta é Miss Grant. Ela vai ficar um tempo. Diga ao motorista para trazer a mala dela. E mostre o quarto a ela.
Mrs. Mishra levou Jenny da cozinha e Travers disse à policial: — Há uma chance de que isso possa ser mais do que aparenta, policial. Vou só fazer uma ligação e volto logo.
— Smith e Johnson — disse Ferguson. — Essa é boa.
— Parece um arrombamento comum, brigadeiro — disse Lane. — Tem todos os indícios. Só levaram portáteis que podem se converter em dinheiro rápido. A TV, o vídeo...
— Bem sofisticados, eu diria, tendo sua própria van da Telecom.
— Provavelmente roubada, sir. Faremos uma verificação.
— Foi uma sorte eu ficado com o diário e o disquete da tradução que Travers fez, se eles estivessem procurando algo mais importante do que TVs.
— Acha que pode ter sido isso, sir?
— Tudo o que sei é que há muito tempo aprendi a suspeitar de coincidências, Jack. Quero dizer, com que frequência Garth Travers sai de casa às sete e meia da manhã? Eles devem ter visto ele sair.
— E acha que pegar esses objetos comuns foi cortina de fumaça?
— Possivelmente.
— Mas como saberiam da existência do diário, sir?
— Sim, bem, este é o ponto interessante. — Ferguson franziu a testa. — Tive uma ideia, Jack. Vá para a Lord North Street. Chame algum de seus velhos amigos do Special Branch, alguém especializado em dispositivos de escuta, para fazer uma varredura.
— Acha realmente...?
— Eu não acho nada, Jack, estou apenas considerando todas as opções. Agora vá.
Lane saiu e Ferguson pegou o telefone, ligou para a Lord North Street e falou com Travers. — Como está sua hóspede?
— Bem. Suportando muito bem.
Ferguson olhou o relógio. — Traga-a a minha casa na Cavendish Square por volta de meio-dia e meia. Vamos conversar, mas não diga uma palavra por enquanto. Deixe tudo comigo.
— Pode confiar em mim.
Travers desligou o telefone e foi para a sala, onde Jenny se sentou perto do fogo tomando café. — Desculpe tudo isso — disse ele — uma ótima apresentação.
— Não é sua culpa.
Ele se sentou. — Em breve sairemos para almoçar, mas antes gostaria de apresentá-la a um velho amigo meu, o brigadeiro Charles Ferguson.
Ela era uma jovem astuta e sentiu algo imediatamente. — Ele conhecia Henry?
— Não diretamente."
— Mas tem algo a ver com Henry?
Ele estendeu a mão e deu um tapinha na mão dela. — Tudo a seu tempo, minha querida, apenas confie em mim.
Santiago ainda estava em sua suíte no Ritz quando o homem que se autodenominava Smith telefonou de Londres.
— Nada, chefe, com certeza nada como você descreveu.
— Não é surpresa, mas valia a pena conferir — disse Santiago. — Um bom trabalho limpo, espero.
— Claro, chefe, só fiz parecer comum. Grampeei o telefone, apenas no caso de você querer ouvir.
— Você fez o quê? — Santiago sentia uma raiva fria. — Eu avisei a você, há gente da Inteligência envolvida nesse caso, o tipo de gente que verifica tudo.
— Desculpe, pensei que estava fazendo a coisa certa.
— Não importa, agora é tarde demais. Deixe de lado qualquer outra coisa que tiver no momento e espere notícias minhas — e Santiago desligou o telefone.
Na sala de estar da Cavendish Square, Jenny estava sentada perto da lareira, de frente para Ferguson, e Travers acompanhava a conversa em pé, junto á janela.
— Compreende então, Miss Grant — disse Ferguson —, que é preciso haver um inquérito judicial depois de amanhã.
— E depois posso ficar com o corpo?
— Bem, isso é realmente um assunto para os parentes mais próximos. — Ela abriu a bolsa e tirou um papel, que desdobrou e passou a ele. — Henry começou a mergulhar a sério há cerca de um ano.
— Velho para isso, eu teria pensado — disse Ferguson.
— Sim, bem, ele quase cometeu um erro um dia. Ficou sem ar a quinze metros. Oh, ele veio à tona bem, mas imediatamente foi ao advogado e pediu que redigisse essa procuração em meu nome.
Ferguson deu uma olhada. — Isso parece muito claro. Vou enviar ao responsável pelo inquérito. — Ele se inclinou ao lado do sofá e pegou a pasta de alumínio de Friemel. — Você já viu isto antes?
Ela parecia confusa. — Não.
— Ou isto? — Ele abriu a pasta e tirou o diário.
— Não nunca. — Ela franziu o cenho. — O que é?
Ferguson disse: — Mr. Baker lhe contou por que veio a Londres?
Ela olhou para ele, então se virou para olhar Travers, e se virou de volta. — Por que acha que ele veio, brigadeiro?
— Porque ele descobriu os destroços de um submarino alemão em algum lugar perto de St. John, Miss Grant. Ele lhe contou?
Jenny Grant respirou fundo. — Sim, brigadeiro, ele me contou. Ele disse que estava mergulhando e que descobriu um submarino e uma maleta.
— Esta maleta — ele disse — com este diário dentro. O que mais ele disse?
— Bem, estava em alemão, que ele não entendia, mas reconheceu o nome Martin Bormann e... — Ela fez uma pausa.
Ferguson disse gentilmente: — E...?
— ... do duque de Windsor — disse ela sem muita convicção. — Olhe, eu sei que parece loucura, mas...
— Nem um pouco louco, minha querida. E onde Mr. Baker encontrou este submarino?
— Não faço ideia. Ele não quis me dizer.
Houve uma pausa enquanto Ferguson olhava para Travers. Ele suspirou. — Você está absolutamente certa disso, Miss Grant?
— Claro que sim. Ele disse que não queria me contar por enquanto. Estava muito animado com sua descoberta. — Ela fez outra pausa, franzindo a testa. — Olhe, o que está tentando me dizer, brigadeiro? O que está acontecendo? Isso tem algo a ver com a morte de Henry?
— Não, de jeito nenhum — ele disse suavemente e acenou para Travers.
O almirante disse: — Jenny, a morte do pobre Henry foi um acidente completo. Temos muitas testemunhas. Ele entrou no caminho de um ônibus da London Transport. O motorista era um cockney de sessenta anos que ganhou a Medalha Militar na Guerra da Coreia em 1952 como soldado de infantaria. Apenas um acidente, Jenny.
— Então, não tem ideia de onde fica o submarino? — Ferguson perguntou novamente.
— É importante?
— Sim, pode ser.
Ela encolheu os ombros. — Eu honestamente não sei. Se você quer minha opinião, teria que ser em algum lugar distante.
— Distante? O que quer dizer?
— A maioria dos locais de mergulho que os turistas usam em St. Thomas e St. John está a uma distância razoável. Há muitos naufrágios ao redor, mas a ideia de que um submarino alemão permaneceu desconhecido desde o fim da guerra... — ela sacudiu a cabeça —, isso é um absurdo. Só poderia acontecer em algum lugar remoto e distante.
— Mais para dentro do mar.
— Correto.
— E você não tem ideia de onde?
— Não, não sou uma grande mergulhadora, receio. Você precisaria consultar um especialista.
— E existe tal pessoa?
— Oh, claro, Bob Carney.
Ferguson pegou sua caneta e fez uma anotação. — Bob Carney? E quem seria ele?
— Ele tem a concessão de esportes aquáticos do Caneel Bay Resort. Quer dizer, ele passa a maior parte do tempo ensinando turistas a mergulhar, mas é um mergulhador de verdade e bem famoso. Trabalhava nos campos de petróleo no Golfo do México, trabalho de salvamento e tudo isso. Escreveram matérias em revistas sobre ele.
— Realmente? — Ferguson disse. — Então é o melhor mergulhador das Ilhas Virgens?
— De todo o Caribe, brigadeiro — disse ela.
— Realmente. — Ferguson olhou para Travers e se levantou. — Bom. Muito obrigado por sua cooperação, Miss Grant. Compreendo que não seja um bom momento, mas você deve comer. Talvez me permita levar você e o almirante Travers para um jantar esta noite.
Ela hesitou e então disse: — É muita gentileza sua.
— De modo nenhum. Mandarei meu carro buscá-los às sete e meia. — Ele os levou até a porta. — Tenham cuidado. — Ele acenou com a cabeça para o almirante. — Entrarei em contato, Garth.
Meia hora depois, Ferguson tomava uma xícara de chá, absorto em seus pensamentos, quando Lane chegou. O inspetor deixou cair um aparelho de escuta de metal preto em cima da mesa de café. — Tinha razão, sir. Deixaram este pequeno canalha no telefone do escritório.
— Com que então — disse ele, pegando o dispositivo — a trama se adensa.
— Olhe, sir, Baker sabia do diário porque o encontrou, a garota sabia porque ele contou, o almirante sabia, você sabe, o primeiro-ministro tem uma cópia, o vice-diretor sabe, Sir Francis Pamer sabe. — Ele fez uma pausa. — Mas quem sabia dele a ponto de arrombar a casa do almirante Travers?
— Está omitindo você mesmo, Jack.
— Sim, sir, mas quem diabos sabia e se daria ao trabalho de derrubar o apartamento do almirante?
— Lá vem você de novo, Jack, com seu jargão policial. — Ferguson suspirou. — É como uma teia de aranha. Muitas linhas de comunicação entre todas as pessoas que você mencionou. Deus sabe quantas.
— Então, o que vai fazer, sir? Quer dizer, nem sabemos onde está o maldito submarino. Além disso, temos todo tipo de trabalho sujo acontecendo por baixo das coisas. Roubo, grampeamento ilegal de telefone...
— Você está certo, Jack, a coisa toda assume uma dimensão totalmente nova.
— Talvez fosse melhor pôr a Inteligência nisso.
— Não acho, mas vou telefonar para Simon Carter e Sir Francis e contar que a garota não sabe o local.
— E depois?
— Não tenho certeza. Temos que mandar alguém lá que procure para nós.
— Alguém que entenda de mergulho?
— É uma ideia, mas se tem tanta tramoia em ação, alguém que seja um vilão tão grande quanto o inimigo. — Ferguson fez uma pausa. — Correção... pior que o inimigo.
— Sir? — Lane parecia confuso.
Ferguson de repente começou a rir desamparadamente. — Meu caro Jack, a vida não é deliciosa às vezes? Eu simplesmente passo anos fazendo com que alguém que eu definitivamente detesto seja preso, a porta de sua cela cela bem trancada e de repente descubro que ele é exatamente o que eu preciso na situação presente.
— Não estou entendendo, sir.
— Vai entender logo, Jack. Já esteve na Iugoslávia?
— Não, sir.
— Bem, uma nova experiência para você. Partimos ao amanhecer. Mande preparar o Learjet. Diga ao almirante Travers que preciso adiar o jantar com ele e a jovem.
— E o destino, sir?
— A pista aérea do Kivo Castle, Jack. Diga-lhes que esclareçam tudo com o Alto Comando Sérvio. Não acho que eles sejam um problema.
5
Dillon cochilava em sua cama em Kivo quando o som de um avião circulando no alto o acordou. Ficou um momento ouvindo, atento à mudança nos sons do motor, que indicava que um pouso estava prestes a ser feito. Um jato, pelo som. Foi até a janela gradeada e olhou para fora. Estava chovendo forte e viu um Learjet sair de uma nuvem baixa e se aproximar da pista de pouso. Aterrissou perfeitamente e depois taxiou em frente, e pôde ver que não tinha marca alguma na fuselagem. Desapareceu de vista e ele foi fumar um cigarro, perguntando-se quem poderia ser.
Uma voz de comando aos gritos ergueu-se no ar, vinda lá de baixo, do pátio, e ouviu-se o crepitar de um tiro de rifle. Ele voltou para a janela, mas só conseguia ver parte do pátio abaixo. Um ou dois soldados apareceram e as risadas começaram a subir, provavelmente o general limpando as celas novamente, e ele se perguntou quantos pobres desgraçados acabariam encostados na parede desta vez. Houve mais risadas e então um caminhão do exército cruzou sua linha de visão e desapareceu.
— Desta vez você está numa boa encrenca, meu velho — murmurou. — Numa grande encrenca. — Ele foi se deitar e terminar o cigarro pensando naquilo.
Em Paris, Santiago ia saindo de sua suíte para o almoço quando o telefone tocou. Era Francis Pamer. — Liguei antes, mas você estava fora — Pamer disse a ele.
— Negócios, Francis, é por isso que estou aqui. O que tem para mim?
— Carter ligou. Falou com Ferguson. Ele disse que a garota não sabe a localização do submarino. Disse que Baker contou a ela sobre a descoberta antes de partir, mas que não disse onde a maldita coisa está.
— Ferguson acredita nela?
— Aparentemente — Pamer disse. — Pelo menos foi a impressão que Carter teve.
— E o que Ferguson está fazendo agora?
— Não sei. Acabou de dizer a Carter que o manteria informado.
— E quanto à garota? Onde ela está hospedada? — Santiago perguntou.
— Com o almirante Travers na Lord North Street. Amanhã é o inquérito judicial. Assim que terminar, Ferguson concordou que ela pode levar o corpo.
— Entendo — disse Santiago.
— O que acha, Max?
— Em relação à garota? Não sei. Pode estar dizendo a verdade. Por outro lado, pode estar mentindo, e só há um meio de descobrir.
— O que quer dizer?
— Ora, interrogando-a convenientemente, claro. Um pouco de persuasão faz maravilhas.
— Pelo amor de Deus, Max... — começou Pamer, e Santiago o interrompeu.
— Faça apenas o que for necessário, mantenha-me informado sobre os planos de Ferguson e eu cuido da garota. Eu pretendia voltar a Porto Rico amanhã, mas fico mais um ou dois dias aqui. Nesse ínterim, falo com meu pessoal em San Juan, mando que preparem o Maria Blanco para o mar. No momento em que soubermos com certeza que Ferguson pretende algum tipo de operação nas Virgens, vou até Samson Cay e uso-o como base.
Pamer disse: — Cristo, Max, não sei como me situar nessa coisa. Se vier a público, estou acabado.
— Mas não virá, Francis, porque vou cuidar para que não venha. Sempre esperei ver você no governo. É muito útil ter um amigo ministro no gabinete britânico. Não tenho intenção de permitir que isso não aconteça, então não se preocupe. ”
Santiago desligou o telefone, pensou um pouco, depois o pegou novamente e ligou para sua casa em San Juan, na ilha de Porto Rico.
Dillon estava lendo um livro, a cabeça apoiada no travesseiro, quando a chave chacoalhou na fechadura, a porta se abriu e o major Branko entrou.
— Ah, aqui está você — disse ele.
Dillon continuou deitado.
— E onde haveria de estar?
— Isso soou um pouco amargo — disse Branko a ele. — Afinal, você ainda está conosco. Motivo para uma certa gratidão, eu diria. ”
— O que você quer? — perguntou Dillon.
— Trago-lhe uma visita. Não é propriamente um velho amigo, mas, se fosse você, ouviria o que ele tem a dizer.
Desviou-se para o lado, e Ferguson entrou, seguido por Jack Lane.
Branko saiu, fechando a porta atrás de si.
— Nossa, Dillon, mas você está no riacho sem remo, hein? — Ferguson espanou a única cadeira com seu chapéu e se sentou. — Nunca estivemos cara a cara antes, mas imagino que você saiba quem sou?
— O maldito brigadeiro Charles Ferguson — Dillon disse. — Chefe do Grupo Quatro.
— E este é o inspetor Jack Lane, meu assistente por empréstimo do Special Branch da Scotland Yard, portanto ele não gosta de você.
A expressão de Lane era de pedra, encostado na parede, os braços cruzados, e Dillon disse: — Isso é verdade?
— Olhe para ele, Jack — continuou Ferguson. — O grande Sean Dillon, soldado do IRA nos velhos tempos, mestre assassino, melhor do que Carlos, o Chacal, segundo alguns.
— Estou olhando, sir, e vejo apenas mais um matador.
— Ah, mas este é especial, Jack... o homem das mil caras. Podia ter sido outro Lawrence Olivier se não fosse esta queda pelas armas. Ele pode mudar diante de seus olhos. Imagine, planejou sua tentativa de explodir o primeiro-ministro e o gabinete de guerra no número dez durante a Guerra do Golfo, coisa que ninguém sabe melhor do que você, Jack. Diabos, Dillon, naquela você nos deu muito trabalho.
— É um prazer.
— Mas agora está atrás das grades — disse Lane.
Ferguson assentiu.
— Vinte anos, Jack, vinte anos sem conseguirmos pôr a mão nele, e onde ele acaba? — Ele olhou em volta. — Você deve ter perdido a cabeça, Dillon. Suprimentos médicos para pacientes e moribundos? Você?!
— Todos temos dias ruins.
— E também mísseis Stinger, o que quer dizer que não tinha verificado a carga convenientemente. Deve estar perdendo o jeito.
— Tudo bem, o show acabou — interpôs Dillon. — O que vocês querem?
Ferguson se levantou e foi até a janela.
— Estão atirando em croatas lá no pátio. Nós ouvimos enquanto saíamos da pista. Estavam retirando os corpos de caminhão quando entramos. — Ele se virou. — Será sua vez numa dessas belas manhãs, Dillon. A menos que você seja sensato, claro.
Dillon pegou um cigarro de um dos maços de Rothmans e o acendeu com seu Zippo. — Quer dizer que tenho escolha? — perguntou calmamente.
— Pode-se dizer que sim. — Ferguson se sentou novamente. — Você atira muito bem, Dillon, pilota aviões, fala várias línguas, mas estou interessado no momento é naquele trabalho subaquático que fez para os israelenses. Foi você, não foi, quem explodiu aqueles barcos da OLP ao largo de Beirute?
— Vem perguntar a mim? — Dillon respondeu, soando muito irlandês.
— Oh, pelo amor de Deus, sir, vamos deixar o bastardo apodrecer — disse Lane.
— Vamos lá, cara, não seja estúpido. Foi você ou não foi? — Ferguson exigiu.
— Como sempre, foi — Dillon disse.
— Bom. Agora, eis a situação. Tenho um trabalho que exige um homem com seus talentos peculiares.
— Ele se refere a um vigarista — Lane acrescentou.
Ferguson o ignorou. — Não tenho certeza do que está acontecendo exatamente no momento, mas pode exigir um homem que possa cuidar de si mesmo se as coisas ficarem difíceis. O que tenho certeza é que isso exigiria, no momento certo, consideráveis habilidades de mergulho.
— E onde isso aconteceria?
— Ilhas Virgens Americanas. — Ferguson se levantou. — A escolha é sua, Dillon. Você pode ficar aqui e levar um tiro ou pode sair agora e voar de volta para Londres no Learjet que temos na pista com o inspetor e eu.
— E o que o major Branko tem a dizer sobre isso?
— Nenhum problema aí. Bom garoto. A mãe mora em Hampstead. Está cheio dessa bagunça iugoslava, e quem pode culpá-lo? Vou providenciar asilo político para ele na Inglaterra.
Dillon disse: — Não há nada que você não possa fazer?
— Não que eu possa pensar.
Dillon hesitou. — Sou um homem com a cabeça a prêmio lá no Reino Unido, você sabe disso.
— Totalmente apagado, tem minha palavra, o que deixa nosso inspetor Lane aqui enojado, mas é assim que as coisas são. Claro, também significa que você terá que fazer exatamente o que lhe for dito.
— Claro. — Dillon pegou sua jaqueta de aviador e vestiu. — Sob seu comando.
— Achei que você seria sensato. Agora vamos sair deste lugar nojento. — Ferguson bateu na porta com sua bengala Malacca.
Dillon acabou de ler o diário e o fechou. Lane cochilava, a cabeça num travesseiro. Ferguson estava sentado do outro lado do corredor. O irlandês estendeu a mão para a caixa do bar e encheu de uísque um copo de plástico.
— Muito interessante — Dillon disse.
— Isso é tudo que tem a dizer?
O irlandês pegou a caixa do bar, encontrou uma miniatura de uísque, despejou em um dos copos de plástico e adicionou água. — O que espera que eu diga? Tudo bem, a morte de Henry Baker foi lamentável, mas ele morreu feliz, por Deus. Encontrar o U180 deve ter sido a maior coisa que já aconteceu na vida dele.
— Você acha?
— O sonho de todo mergulhador, brigadeiro, é encontrar um naufrágio que nunca foi descoberto antes, de preferência recheado de dobrões espanhóis, mas se você não pode ter isso, o naufrágio por si só serve.
— Realmente.
— Você nunca mergulhou? — Dillon riu. — Uma pergunta boba. É um outro mundo lá embaixo, um sentimento especial, nada é parecido. — Ele engoliu um pouco do uísque. — Então essa mulher que você mencionou, essa Jenny Grant, ela disse que ele não contou a ela onde o submarino está?
— Certo.
— Você acredita nela?
Ferguson suspirou. — Temo que sim. Normalmente eu não acredito em ninguém, mas há algo nela, algo especial.
— Se apaixonar por um rosto bonito na velhice... — Dillon disse. — É sempre um erro, isso.
— Não seja idiota, Dillon! — O brigadeiro foi brusco. — Ela é só uma garota legal que tem algo especial, é tudo o que quero dizer. Vai poder julgar por si mesmo. Vamos jantar com ela e Garth Travers esta noite.
— Tudo bem. — Dillon assentiu. — Se ela não sabe onde está, o que espera de mim?
— Vá para as Ilhas Virgens e encontre o submarino, é o que espero que você faça, Dillon. Não é uma grande dificuldade, asseguro. Visitei St. John anos atrás. Lugar adorável.
— De férias?
— Você não estará de férias, apenas fingindo. Vai ganhar seu sustento.
— Brigadeiro — Dillon disse pacientemente —, o mar é um inferno de grande. Você tem ideia de como é difícil localizar um navio lá embaixo? Mesmo em águas caribenhas, com boa visibilidade, você pode deixar de vê-lo a cem metros.
— Você vai pensar em algo, você sempre consegue, Dillon, não é esse o seu talento especial?
— Jesus, mas você tem uma fé tocante em mim. Tudo bem, vamos ao que interessa. A morte de Baker. Tem certeza de que foi acidente?
— Absolutamente, sem dúvida. Muitas testemunhas. Ele simplesmente olhou para o lado errado e entrou na frente do ônibus. O motorista, devo acrescentar, é irrepreensível.
— Tudo bem, então e o assalto à casa do almirante Travers, a escuta no telefone?
Ferguson assentiu. — Ali tem cheiro de peixe podre. Todas as características de um arrombamento oportunista, mas a escuta diz o contrário.
— Quem seria?
— Só Deus sabe, Dillon, mas todos os meus instintos me dizem que alguém lá fora não está tramando nada de bom.
— Mas o quê? — disse Dillon. — Essa é a questão.
— Tenho certeza de que você vai descobrir.
— Então, quando quer que eu vá para as Virgins?
— Não tenho certeza. Dois ou três dias, veremos. — Ferguson colocou um travesseiro atrás da cabeça.
— E onde eu fico enquanto estou em Londres? — Dillon perguntou.
— Vou providenciar para que você fique com o almirante Travers na Lord North Street. No momento, pode ganhar seu sustento ficando de olho na garota — Ferguson disse a ele. — Agora, cale a boca, seja um bom garoto, preciso de um pingo de sono.
Ele cruzou os braços e fechou os olhos. Dillon terminou seu uísque e se recostou, pensando.
— Ah, Dillon, só mais uma coisa — murmurou Ferguson.
— O que é?
— Sabe o Dr. Wegner e aquele jovem idiota, Klaus Schmidt, com quem você tratou em Fehring? Amadores bem-intencionados. Mas o homem que você encontrou em Viena e que o colocou em contato com eles, lembra do Farben? Ele armou para cima de você a meu pedido. Depois combinei com um cara que trabalha para mim que vendesse você aos sérvios.
- Acredite ou não, brigadeiro, mas algo parecido me ocorreu. Presumo que os mísseis Stinger foram ideia sua...
— Queria ver você atrás das grades, sabe? — disse Ferguson. — Se eu não podia te pegar de um modo... — Ele encolheu os ombros. — Veja bem, o caso atual nada tem a ver com aquilo. Para sua sorte, a situação surgiu.
— Ou você teria me deixado apodrecer.
— Na verdade não. Eles teriam atirado em você mais cedo ou mais tarde.
— Ah, bem, o que isso importa agora? — disse Dillon. — Você pode dizer que saiu tudo pela culatra. — E ele fechou os olhos e cochilou.
Na Lord North Street, pouco antes das seis, ainda chovia enquanto Dillon, sentado na cozinha, observava Jenny Grant fazendo chá. Acabara de lhe ser apresentado, já que Ferguson estava fechado no escritório com Travers.
Ela se virou e sorriu. — Gostaria de uma torrada ou algo assim?
— Na verdade, não. Se importa se eu fumar?
— De modo algum. — Ela se ocupou com as coisas do chá. — É irlandês, mas tem um sotaque diferente.
— Irlanda do Norte — explicou ele. — O que você chamaria de Ulster e outros de os seis condados.
— A terra do IRA?
— Exato — disse calmamente.
Ela serviu o chá. — E você está fazendo exatamente o que aqui, Sr. Dillon? Estou enganada ao presumir que o brigadeiro quer que você fique de olho em mim?
— E por que você presume isso?
Ela se sentou e tomou um gole de chá. — Porque parece esse tipo de homem.
— E como você reconhece esse tipo de homem, Miss Grant?
— Jenny — disse ela. — Conheci homens de todo tipo, Mr. Dillon, em geral do tipo errado. — Ela pensou por um momento. — Henry me livrou disso tudo. — Olhou para cima, e seus olhos estavam brilhantes. — E agora ele se foi.
— Mais chá? — Ele estendeu a mão para o bule. — E o que você faz em St. John?
Ela respirou fundo e se esforçou para se controlar. — Tenho um café e bar chamado Jenny's Place. Você deveria visitar algum dia.
— Sabe de uma coisa? — Dillon sorriu. — Posso muito bem aceitar esse convite — e ele bebeu um pouco mais de seu chá.
No escritório, Travers estava horrorizado. — Meu Deus, Charles, IRA? Estou realmente chocado.
— Pode ficar chocado o quanto quiser, Garth, mas preciso do pequeno canalha. Odeio admitir, mas ele é muito, muito bom. Tenho a intenção de enviá-lo a St. John assim que estiver tudo resolvido. Nesse ínterim, ele pode ficar aqui e agir como seu assistente, apenas no caso de algo desagradável acontecer.
— Tudo bem... — disse Travers relutantemente.
— Se a garota perguntar, ele vai dizer a ela que é um mergulhador que eu trouxe para ajudar com essa coisa.
— Você acha que ela vai acreditar nisso? Ela é uma jovem muito inteligente.
— Não vejo por que não. Ele é mergulhador, entre outras coisas. — Ferguson se levantou. — A propósito, o homem do meu departamento que substituiu a escuta no seu telefone, deu-lhe um celular, não foi?
— Sim.
Eles foram para a cozinha. Ferguson disse: — Certo, vocês dois, estou indo. Todos nos encontraremos para jantar às oito. O River Room no Savoy, acho. — Ele se virou para Dillon. — Está bom para você?
Dillon disse: — Isso é coisa para paletó e gravata, e estou aqui com a roupa do corpo.
— Tudo bem, Dillon, você pode ir às compras amanhã — Ferguson disse, cansado. E para Travers: — Que bom que você é do tamanho dele, Garth. Deve ter um blazer, tenho certeza. Até logo.
A porta da frente bateu atrás dele e Dillon sorriu.
— Sempre com pressa, esse homem.
Travers disse relutantemente: — Tudo bem, é melhor você vir comigo e eu vou mostrar onde vai dormir e encontrar algo para você vestir.
Ele foi saindo, Dillon piscou para Jenny e o seguiu.
Não muito longe dali, o falso técnico de telefone que se autodenominava Smith entrou em um beco onde uma velha van estava estacionada e bateu na porta traseira. Johnson abriu e Smith entrou. Havia equipamento de gravação e um receptor.
— Alguma coisa? — Smith perguntou.
— Nem uma coisa sequer. Está ligado o dia todo. Governanta encomendando mantimentos, pedindo um técnico para a máquina de lavar... O almirante ligou para a Biblioteca de Londres e encomendou um livro, ligou para o clube sobre um evento no mês que vem. Um pouco chata, a coisa toda. E você?
— Estava vigiando a casa e Ferguson apareceu.
— Tem certeza de que era ele?
— Oh, sim, definitivamente ele. As fotos que o Sr. Santiago forneceu são muito boas. Ele trouxe um cara com ele.
— Alguma ideia de quem seja?
— Não. Cabelo curto muito claro, jaqueta de couro preta. Ele ficou, Ferguson foi embora.
— O que fazemos agora?
— Deixe o gravador ligado. Posso fazer uma varredura pela manhã e ouvir o que houver de interessante. Vou cuidar da casa enquanto você descansa. Se eles saírem, sigo-os e aviso a você pelo telefone do carro.
— Tudo bem — disse Johnson. — Falo com você mais tarde.
Eles saíram da van, ele a trancou e cada um tomou seu rumo.
Ferguson ainda não havia chegado quando o almirante, Dillon e Jenny chegaram ao River Room. O maître os conduziu à mesa.
— Suponho que podemos tomar algo — sugeriu Travers.
Dillon disse:
— Uma garrafa de Krug, non-vintage. — Ele sorriu para Travers. — Prefiro o mix de uvas.
— Ah, você prefere, não é mesmo? — Travers disse secamente.
— Sim. — Dillon ofereceu um cigarro a Jenny. Ela estava vestindo blusa branca simples e saia preta. — Você está muito bem. — Sua voz havia mudado e, no momento, ele era o perfeito cavalheiro inglês, com o sotaque certo e tudo.
— Você é o mesmo por cinco minutos seguidos que sejam? — perguntou ela.
— Jesus, isso não seria um tédio? Vamos dançar. — Estendeu a mão e a conduziu à pista de dança.
— Saiba que também não está nada mal — observou ela.
— O blazer serve, mas acho a gravata da Royal Navy um pouco fora de propósito.
— Ah, entendo. Não gosta de instituições?
— Não é verdade. A primeira vez que vim ao River Room pertencia a uma instituição célebre, a Royal Academy of Dramatic Art.
— Está brincando? — disse Jenny.
— Não. Frequentei-a durante um ano e me ofereceram trabalho no National Theatre. Participei de A Dama do Mar, de Ibsen. Eu era Lyngstrand.
— E depois?
— Ah, compromissos de família. Tive que ir para a Irlanda.
— Que pena! O que tem feito ultimamente?
Por uma vez, ele disse a verdade.
— Estava fazendo transporte aéreo de medicamentos para a Iugoslávia.
— Ah, é piloto!
— Parte do tempo. Já fui muita coisa: rei, capitão, soldado, ladrão. E mergulhador.
— Mergulhador? Sério? Não está me gozando?
— Não, por que o faria?
Ela se inclinou para trás enquanto eles circulavam o salão. — Sabe, tenho um pressentimento estranho sobre você.
— O que você quer dizer?
— Bem, pode parecer loucura, mas se alguém me pedisse para especular s seu respeito, por alguma razão totalmente ilógica eu diria que era soldado.
O sorriso de Dillon saiu ligeiramente torto.
— O que me entregou?
— Então tenho razão. — Ela estava deliciada consigo mesma. — Já foi soldado.
— Suponho que se possa dizer que sim.
A música parou. Levou-a de novo para a mesa e pediu licença. — Vou ver que marcas de cigarro eles têm no bar.
— Ouça, não há sentido em se envolver muito com ele, querida — disse Travers enquanto ele se afastava. — Não é do seu tipo.
— Oh, almirante, não seja um esnobe antiquado. — Ela acendeu um cigarro. — Eu o acho muito simpático. Faz transporte aéreo de medicamentos para a Iugoslávia e já foi soldado.
— Soldado do maldito IRA — bufou Travers.
— Não está falando sério — disse ela, franzindo a testa.
— Um cara infame — disse Travers. — Pior que Carlos. Estão atrás dele há anos em toda parte. A única razão de estar aqui é porque Charles fez um acordo com ele. Vai para St. John, encontrar o submarino. Aparentemente, o maldito também é mergulhador.
— Não posso acreditar.
Ao sair do bar, Dillon encontrou Ferguson, que vinha entrando, e foram juntos para a mesa.
— Está linda, minha querida — cumprimentou Ferguson. — A propósito, o inquérito judicial é amanhã às dez e meia. Não há necessidade de você ir porque Garth aqui fez a identificação formal.
— Mas prefiro estar lá... — disse Jenny.
— Tudo bem, se prefere assim.
— Quando posso tratar da cremação?
— É o que você quer?
— As cinzas dele, sim — disse ela calmamente. — Não pretendo fazer cerimônia religiosa. Henry era ateu.
— Realmente? — Ferguson encolheu os ombros. — Bem, se quiser usar nosso pessoal, pode ser imediatamente, suponho.
— Amanhã à tarde?
— Suponho que sim.
— Ótimo. Se pudesse tratar disso, ficaria muito agradecida. Se for fazer os pedidos, gostaria de começar com caviar, um filé ao ponto e uma salada.
— Tudo isso? — Ferguson disse.
— Chama-se celebrar a vida. — Ela pegou a mão de Dillon. — E eu gostaria de dançar novamente. — Ela sorriu. — Não é sempre que tenho a chance de dançar foxtrote com um guerrilheiro do IRA.
Não havia mais de cinco ou seis pessoas na pequena sala de painéis de carvalho do Tribunal de Westminster na manhã seguinte. Jenny estava sentada na primeira fila com Travers e Ferguson, e Dillon ficou em pé lá atrás, perto do porteiro, mais uma vez em sua jaqueta de aviador. Houve uma breve pausa enquanto alguém lá na frente recebia documentos do escrivão do tribunal. Nisso, Smith e Johnson entraram e se sentaram em um banco no lado oposto ao de Dillon. Ambos estavam vestidos de forma respeitável, de paletó e gravata, mas um olhar foi o bastante para Dillon. Vinte anos de ilegalidade lhe deram instinto para aquelas coisas.
— Todos de pé. O juiz de Sua Majestade — gritou o meirinho.
O velho juiz tinha o cabelo muito branco e vestia terno cinza. Jenny ficou surpresa. Ela esperava togas.1 Ele abriu o arquivo diante dele. — Este é um caso incomum e tomei nota dos fatos apresentados e decidi que, em consequência, a presença de um júri não é necessária. O brigadeiro Charles Ferguson está no tribunal?
Ferguson se levantou.
— Estou, sir.
— Apresentou uma notificação de tipo D acerca deste caso em nome do Ministério da Defesa, e este tribunal aceita que deve haver razões para isso, que afetam a segurança nacional. Aceito a ordem e farei com que conste do processo. Que fique também claro para qualquer representante da imprensa aqui presente que a informação de detalhes relativos a qualquer caso que esteja ao abrigo de uma notificação de tipo D é crime punível com prisão.
— Obrigado, sir. — Ferguson se sentou.
— Dado que as declarações das testemunhas prestadas à polícia parecem perfeitamente claras, só preciso da identificação oficial do defunto para poder encerrar este caso.
Travers avançou até o estrado, e o juiz passou os olhos pelos documentos.
— É o contra-almirante Garth Travers, que fez a identificação oficial? — Travers assentiu. — Miss Jenny Grant está no tribunal? — Jenny se levantou, acanhada, e o juiz disse: — Tenho uma procuração em seu nome. Deseja reclamar o corpo?
— Sim, sir.
— Que assim seja e que fique registrado. O escrivão redigirá a autorização necessária. Apresento-lhe as condolências do tribunal, Miss Grant.
— Obrigada.
Quando ela se sentou, o meirinho gritou: — Todos de pé. O juiz de Sua Majestade.
Todos se levantaram, e o juiz saiu.
— Tudo bem, querida?
— Tudo bem.
— Vamos — ele disse. — Charles vai receber o mandado. Logo nos alcança. — Eles passaram por Dillon e saíram
Smith e Johnson se levantaram e saíram em fila com as outras pessoas, enquanto Ferguson ficava com o escrivão do tribunal.
Estava ensolarado lá fora e, no entanto, Jenny estremeceu ligeiramente e levantou a gola do casaco. — Está frio.
Você provavelmente precisa de uma bebida quente — Travers disse, preocupado.
Dillon esperava na escada e Ferguson foi até ele. Smith estava um pouco mais à frente, no ponto de ônibus, pegando um cigarro que Johnson acendeu.
— Conhece aqueles dois? — perguntou Dillon ao brigadeiro.
— Deveria? — inquiriu ele.
Nesse momento, o ônibus parou, Smith e Johnson entraram e ele arrancou.
— Sempre confiei na minha intuição, brigadeiro, e ela me diz que temos ali uma boa dupla de bandidos. O que estariam fazendo no tribunal?
— É possível que tenha razão. Por outro lado, há muita gente que assiste a todo tipo de sessão de tribunal por mero passatempo.
— É mesmo?
O Daimler parou e Lane foi ao encontro deles. — Tudo certo no inquérito, brigadeiro?
— Sim, Jack. — Ferguson entregou-lhe a ordem do tribunal. — Dê isto ao velho Cox. Diga-lhe que gostaríamos que a cremação fosse esta tarde. — Olhou Jenny de relance. — As três, está bem?
Mais pálida do que nunca, Jenny assentiu.
— Sem dúvida.
Ferguson voltou-se para Lane.
— Ferguson se virou para Lane. — Você ouviu. A propósito, havia dois homens no tribunal. Dillon suspeitou deles.
— Como ele pode saber? — Lane perguntou, ignorando o irlandês. — Estavam de chapéu preto?
— Jesus, ouviram o homem? — disse Dillon. — Que senso de humor...
Lane fez uma careta, tirou um envelope do bolso e estendeu-o a Ferguson. — Conforme ordenou, sir.
— Entregue a ele então.
Depositou-o na mão de Dillon. — É muito mais do que ele merece.
— Então, o que temos aqui? — perguntou Dillon.
— Você precisa de roupa, não precisa? — interpôs Ferguson. — Aí dentro tem um cartão de crédito e mil libras.
Dillon segurou o bonito pedaço de plástico. Era um American Express Platinum Card em seu próprio nome. — Jesus, Maria, José, isso não é um pouco exagerado, mesmo para você, brigadeiro?
— Não deixe que isso suba à sua cabeça. É tudo parte de uma nova persona que estou criando para você. Será informado no momento certo.
— Ótimo — disse Dillon. — Nesse caso, vou às compras.
— E não se esqueça de umas duas malas, Dillon — disse Ferguson. — Vai precisar delas. Roupas leves, está calor nesta época do ano, e se não for muito problema, tente parecer um cavalheiro.
— Espere por mim. — Jenny se virou para Travers. — Vou com Dillon. Ajuda a passar o tempo. Vejo você em casa, almirante.
Ela desceu os degraus e correu atrás de Dillon.
— O que acha? — Travers perguntou.
— Oh, ela tem estofo, essa garota, vai se sair bem — disse Ferguson. — Agora vamos andando. — E foram para o carro.
Enquanto o Daimler seguia por Whitehall rumo ao Ministério da Defesa, o telefone do carro tocou. Lane, no banco dobrável, de costas para o chofer, respondeu, depois olhou para Ferguson com a mão no fone.
— O diretor-adjunto do SIS,2 brigadeiro. Ele diz que gostaria de saber como as coisas vão indo. Quer saber se pode encontrá-lo e a Sir Francis no Parlamento. Chá da tarde no Terrace.
— A cremação é às três — disse Ferguson.
— Você não precisa estar lá — Travers disse a ele. — Eu cuido disso.
— Mas eu gostaria de ir — disse Ferguson. — É a coisa civilizada a fazer. A menina precisa do nosso apoio. — Disse a Lane: — Entre quatro e meia e cinco. É o melhor que posso fazer.
Lane confirmou e Travers disse: — Muito decente da sua parte, Charles.
— Eu, decente? — Ferguson parecia positivamente perverso. — Vou levar Dillon junto e apresentá-lo. Imagine só, Sean Dillon, o Carlos do nosso tempo, no Terrace das Houses of Parliament. Mal posso esperar para ver a cara de Simon Carter — e ele começou a rir desbragadamente.
Dillon e Jenny foram ao Harrods. — Tente parecer um cavalheiro, foi o que o homem disse — ele lembrou. — O que você sugere?
— Um terno decente para uso geral, flanela cinza talvez, e um blazer. Um belo paletó de linho e calça, realmente fica quente em St. John nesta época do ano, muito quente.
— Estou sob seu comando — assegurou ele.
Acabaram no bar do andar de cima, com duas sacolas cheios de compras — um terno cinza e um blazer, um paletó de linho, calças e camisas. Dillon pediu duas taças de champanhe e sanduíches de salmão defumado.
— Você gosta de champanhe — comentou Jenny.
Ele sorriu.
— Como disse há tempos um grande homem, só há duas coisas na vida que nunca nos deixam mal: champanhe e ovos mexidos.
— Isso é ridículo. Ovos mexidos secam depressa e perdem qualidade. Seja como for, e as pessoas? Não se pode confiar nelas?
— Nunca tive grande oportunidade de descobrir. Minha mãe morreu quando nasci, e eu era o primogênito, por isso não tenho irmãos.
— Não se referiu a seu pai.
— Foi morto em 71 em Belfast, no fogo cruzado de um tiroteio. Mortalmente atingido por uma patrulha do exército britânico.
— Por isso se alistou no IRA.
— Mais ou menos.
— Armas e bombas, achou que era essa a resposta?
— Houve um grande irlandês chamado Michael Collins, que liderou a luta pela libertação irlandesa no início dos anos vinte. Seu ditado favorito era algo que Lenin disse uma vez: “O objetivo do terrorismo é aterrorizar, é a única maneira de um país pequeno poder enfrentar uma grande nação e ter alguma chance de vencer”.
— Tem que haver um jeito melhor — disse ela. — As pessoas, essencialmente, são decentes. Como Henry, por exemplo. Eu era uma vagabunda, Dillon, uma drogada que batia as ruas de Miami, e qualquer homem podia me ter desde que pagasse o preço. Então, apareceu Henry Baker, um homem íntegro e carinhoso. Ajudou-me a me reabilitar, levou-me para St. John para viver com ele, montou meu negócio. — Estava à beira das lágrimas. — E nunca me pediu nada em troca, nunca pôs a mão em mim, Dillon. Não é estranho?
Boa parte de uma vida vivida em fuga e desafiando a sorte deixara a Dillon pouco tempo para as mulheres. Elas estavam lá ocasionalmente para satisfazer um desejo, mas não mais do que isso, e ele nunca pretendeu o contrário. Mas agora, ali sentado diante de Jenny Grant, sentia uma espécie de calor e uma ternura que eram novos para ele. Jesus, Sean, não se apaixone por ela, agora seja um bom menino, ele pensou, mas segurou a mão dela.
— Isso vai passar, querida. Tudo acaba passando, é a única coisa certa nesta velha porcaria de vida. Agora, coma seu sanduíche. Vai lhe fazer bem.
O crematório ficava em Hampstead, uma construção de tijolos vermelhos razoavelmente funcional, rodeada por um parque agradável. Havia canteiros de rosas e outras flores de todos os tipos. O Daimler chegou com Dillon sentado na frente ao lado do motorista, e Ferguson, Travers e a garota atrás. O velho Sr. Cox os esperava no alto da escada, como sempre, discretamente vestido de preto.
— Como dispensaram os serviços, já mandei recolher o caixão — disse ele a Ferguson. — Presumivelmente, a jovem gostaria de uma olhada final?
— Obrigada — disse Jenny.
Eles o seguiram, Travers com a mão no braço de Jenny, Ferguson e Dillon fechando a retaguarda. A capela era muito simples, algumas fileiras de cadeiras, um púlpito, uma cruz na parede. O caixão estava em um estrado coberto de veludo apontando para uma seção da parede com cortinas. A música tocava fracamente, em algum gravador escondido, algo anódino e sombrio. Tudo muito deprimente.
— Gostaria de ver o falecido novamente? — o Sr. Cox perguntou a Jenny.
— Não, obrigada. Só queria dizer adeus. Deixe-o ir agora.
Ela estava com os olhos totalmente secos quando Cox apertou um botão em uma caixa na parede e o caixão rolou para a frente, as cortinas se abrindo e ele então desaparecendo.
— O que está acontecendo ali? — ela perguntou.
— É a sala da fornalha. — Cox parecia envergonhado. — Os fornos.
— Quando posso ter as cinzas?
— Mais tarde. Quais seriam suas necessidades nesse quesito? Algumas pessoas preferem espalhar as cinzas em nosso belo jardim, mas temos um columbário onde a urna pode ser exposta com uma placa adequada.
— Não, vou levá-la comigo.
— Isso não será possível no momento. Leva algum tempo, infelizmente.
Travers disse: — Talvez possam entregar a urna em minha casa na Lord North Street.
Cox disse: — Claro. — Ele se virou para Jenny. — Presumo que estará voando de volta para o Caribe, Miss Grant. Fornecemos um recipiente adequado.
— Obrigada. Podemos ir agora? — ela perguntou a Ferguson.
Travers e Jenny entraram no Daimler. Dillon parou no alto da escada. Havia um carro estacionado na rua, e Smith do lado de fora olhava para eles.
Dillon reconheceu-o imediatamente. Nesse instante, Smith entrou e o carro arrancou às pressas.
— Um dos caras que vi no tribunal estava ali agora mesmo — comunicou Dillon a Ferguson quando ele saiu do prédio. — Acaba de sair.
— Sério? Pegou a placa?
— Não deu pra ver, pelo ângulo em que o carro estava. Era um Renault azul, acho. Você não parece muito preocupado!
— Por que estaria? Tenho você comigo, não tenho? Agora entre no carro, seja um bom menino. — Enquanto se afastavam, Ferguson deu uma palmadinha amistosa na mão de Jenny. — Sente-se bem, minha querida?
— Sim, estou bem. Não se preocupe.
— Tenho pensado... — continuou ele. — Se Henry não contou a você localização do submarino, lembra de mais alguém com quem ele possa ter falado?
— Não. Se não disse a mim, então não disse a ninguém.
— Algum outro mergulhador, talvez? Quero dizer, ele deve ter amigos que mergulham também...
— Bem, há sempre Bob Carney — disse ela —, o mergulhador que já mencionei. Ele conhece as ilhas Virgens como a palma da mão.
— Portanto, se alguém pode ajudar, o mais provável é que seja ele?
— Creio que sim, mas aquilo lá é muita água!
O Daimler virou na Lord North Street e parou. Travers foi o primeiro a sair e estendeu a mão para Jenny.
— Dillon e eu temos trabalho a fazer — disse Ferguson. — Nos vemos depois.
Dillon se virou, surpreso.
— O que vem a ser isso?
— Tenho hora marcada com o diretor-adjunto do SIS, Simon Carter, e um ministro júnior chamado Sir Francis Pamer, no Terrace do Parlamento. Devo mantê-los informados sobre meus planos e achei que seria divertido levar você junto. Afinal, Dillon, Simon Carter está tentando pôr as mãos em você há anos.
— Santa mãe de Deus, é um homem perverso, brigadeiro — disse Dillon.
Ferguson pegou o telefone do carro e ligou para Lane, no ministério.
— Jack, um americano chamado Bob Carney, residente em St. John, atualmente mergulhador. Tudo o que conseguir. Talvez a CIA possa ajudar.
Ele desligou o telefone e Dillon disse: — O que está fazendo agora, sua raposa velha?
Mas Ferguson não respondeu, simplesmente cruzou as mãos sobre o estômago e fechou os olhos.
________________
1 Tais inquéritos são conduzidos por Coroners, detentores de cargos judiciais, e não exatamente juízes. São independentes, nomeados diretamente pela Coroa. Têm qualificações e experiência notórias como advogado, médico ou, às vezes, ambos. Cada área tem um Juiz Sênior.
2 Secret Intelligence Service.
6
A House of Commons tem sido algumas vezes citada como o clube mais exclusivo de Londres, principalmente pelas amenidades que, junto com a câmara alta, a Câmara dos Lordes, incluem 26 restaurantes e bares, cada um fornecendo comida e bebida subsidiadas.
Sempre há fila para entrar, supervisionada por policiais, composta não só de turistas, mas também de eleitores para ver seus deputados e todos têm que esperar sua vez, não importa quem, o que explica por que Ferguson e Dillon estavam na fila, avançando lentamente.
— Você pelo menos está com ar respeitável — comentou Ferguson, apreciando o blazer bem cortado e a calça de flanela cinza do irlandês.
— Graças a seu cartão Amex — disse Dillon. — Fui tratado como um milionário na Harrods.
— É mesmo? — disse Ferguson secamente. — Percebe que está com uma gravata da Guard's Brigade?
— Claro, não queria deixá-lo mal, brigadeiro. Seu regimento não era o Grenadiers?
— Insolente! — devolveu Ferguson quando chegavam à entrada, controlada não por guardas comuns, mas por policiais muito grandes cuja eficiência nunca era posta em dúvida.
O brigadeiro apresentou seu cartão de segurança declarou sua empresa e apresentou seu cartão de segurança.
— Maravilhoso — Dillon disse. — Todos pareciam ter uns dois metros e dez de altura, exatamente como os policiais costumavam ser.
Eles foram para o saguão central, onde pessoas com hora marcada esperavam para ver seu parlamentar, um local muito movimentado, e Ferguson seguiu em frente, através de outro corredor. Descendo mais escadas, finalmente o tortuoso caminho chegava à entrada para o Terraço com vista para o Tamisa.
Novamente havia muita gente, alguns de copo na mão saboreando uma bebida. A Ponte de Westminster à esquerda, o Embankment na outra margem do rio. Uma fileira de altos postes, de estilo vitoriano, alinhava-se ao longo do parapeito.
O carpete no chão era verde, mas de repente mudava para vermelho, uma linha distinta marcando a diferença.
— Por que a mudança de cor? — perguntou Dillon.
— Tudo dos Commons é verde — disse Ferguson. — Os tapetes, o couro das cadeiras. Vermelho é a cor da Câmara dos Lordes. Essa parte do Terrace é dos Lords.
— Jesus, mas vocês ingleses amam sua distinção de classe, brigadeiro.
— Lá estão eles. Comporte-se, seja um bom menino — disse Ferguson, enquanto Dillon acendia um cigarro com seu Zippo.
— Farei meu melhor — disse Dillon, enquanto Simon Carter se aproximava com Sir Francis Pamer.
— Aqui está você, Charles — disse Carter. — Estávamos à sua procura.
— Há muita gente, isso parece um mercado atualmente — observou Pamer. — E então, o que há, brigadeiro? Qual é o ponto da situação?
— Bem, vamos sentar e eu conto. Dillon aqui será nosso homem em campo.
— Tudo bem — disse Pamer. — O que preferem, chá da tarde?
— Um drinque seria mais do meu gosto — disse Ferguson. — E estou sem tempo.
Eles encontraram lugares num canto. Pamer e Carter pediram gim-tônica, Ferguson, scotch.
Dillon sorriu com charme total para o garçom. — Queria um irlandês com água, Bushmills se tiver.
Ele havia enfatizado deliberadamente seu sotaque do Ulster e Carter franziu a testa.
— Dillon, você disse? Acho que não nos encontramos antes.
— Não — Dillon disse amavelmente —, embora não por falta de tentativas de sua parte, Sr. Carter. Sean Dillon.
O rosto de Carter estava agora muito pálido e ele se virou para Ferguson. — Isso é algum tipo de piada?
— Não que eu saiba.
— Sean Dillon? Ele é quem eu penso que seja?
— Como sempre foi.
Carter o ignorou. — E você traz um canalha maldito como este, aqui neste lugar em particular, Ferguson? Um homem que o serviço de Inteligência têm caçado há anos.
— Pode ser — disse Ferguson calmamente. — Mas está trabalhando para o Grupo Quatro agora, tudo sob minha autoridade, então vamos em frente, certo?
Quando o garçom trouxe as bebidas, Carter fervia.
— Você foi longe demais, Ferguson — disse ele logo que o garçom desapareceu.
— Sim, estão sempre me dizendo isso. Mas vamos ao trabalho. Para resumir o que se passou, houve um assalto na Lord North Street, que pode ou não ter sido genuíno. Com efeito, descobrimos um aparelho de escuta no telefone, que indica uma oposição. Tem agentes seus no caso?
— Evidentemente que não. Do contrário, teria contado.
— Interessante. Quando estávamos no tribunal para o inquérito sobre Baker, esta manhã, Dillon reparou em dois homens que lhe deram o que pensar. Voltou a ver um deles mais tarde no crematório.
Carter carregou o cenho. — Mas quem poderia ser?
— Quem sabe? Mais uma razão para ter Dillon no caso. A garota insiste em que não sabe a localização do submarino.
— Você acredita? — interveio Pamer.
— Eu acredito — disse Dillon. — Ela não é do tipo que mente.
— E você saberia, claro — comentou Carter com azedume.
Dillon encolheu os ombros. — Por que ela mentiria? Qual seria o ponto?
— Mas ela deve saber algo — disse Pamer. — No mínimo dos mínimos, alguma pista.
— Quem sabe? — disse Ferguson. — No momento, temos que partir do princípio de que não sabe.
— Então, o que vem a seguir? — perguntou Carter.
— Dillon segue para St. John e começa a investigar lá. A garota se referiu a um mergulhador, um homem chamado Bob Carney, amigo íntimo de Henry Baker. Ao que parece, ele conhece a região como a palma da mão. Ela pode fazer as devidas apresentações e convencê-lo a ajudar.
— Mas não há certeza alguma de que ele consiga encontrar — observou Pamer.
— Só nos resta tentar, não é verdade? — Ferguson olhou para o relógio. — Temos que ir andando.
Levantou-se e foi na frente. Pararam junto ao muro na ponta do terraço.
— Então, isso é tudo? — perguntou Carter.
— É — disse Ferguson. — Dillon e a garota partem amanhã ou depois.
— Não posso dizer que gosto disso.
— Ninguém pediu que goste. — Fez sinal a Dillon. — Vamos andando.
Ele se afastou e Dillon sorriu para os dois com todo o seu considerável charme. — Foi um prazer sincero, mas tem uma coisa, Sr. Carter. — Ele se inclinou sobre o parapeito e olhou para as águas escuras do Tâmisa. — Eu diria que são apenas uns quatro metros, talvez menos na maré cheia. Toda aquela segurança na porta da frente e nada aqui. Eu pensaria sobre isso se fosse você.
— O rio tem correnteza de dois nós — disse Pamer. — Não que eu saiba nadar, mas deve ser o suficiente para manter os lobos à distância.
Quando Dillon se afastou, Carter disse: — Eu me arrepio só de pensar neste patife por aqui em liberdade. Ferguson deve estar doido.
Pamer disse: — Sim, entendo você, mas o que acha da garota? Acredita nela?
— Não tenho certeza — disse Carter. — E Dillon tem razão. Por que ela mentiria?
— Então, não avançamos?
— Eu não diria isso. Ela conhece a área, conhecia Baker intimamente, o tipo de lugares a que ele ia e assim por diante. Mesmo que ela não saiba a localização real, ela pode ser capaz de descobrir com ajuda desse tal Carney, o mergulhador.
— E Dillon, claro.
— Sim, bem, eu prefiro esquecê-lo e, dadas as circunstâncias, eu bem poderia tomar mais um drinque. — Carter se virou e voltou para o bar.
Em sua suíte em Paris, Max Santiago ouviu pacientemente enquanto Pamer lhe contava os detalhes da reunião no Terrace.
— Incrível — disse ele quando Pamer terminou. — Se este Dillon é o tipo de homem que você descreve, seria um oponente formidável.
— Mas e a garota?
— Não sei, Francis, vamos ter que ver. Entrarei em contato.
Ele desligou o telefone momentaneamente, pegou-o novamente e ligou para Smith em Londres e quando ele atendeu, disse exatamente o que queria que ele fizesse.
Passava das seis, e Dillon estava no escritório lendo o jornal da tarde quando tocaram a campainha. Ele foi à porta, abriu-a e se deparou com o velho Mr. Cox segurando uma caixa de papelão.
— Miss Grant está?
— Sim, vou chamá-la.
— Não há necessidade. — Cox entregou a caixa. — As cinzas. Estão dentro de uma urna para viagem. Meus respeitos a Miss Grant.
Dillon fechou a porta. O almirante tinha ido ao clube para um evento, mas ela estava na cozinha. Dillon a chamou e Jenny apareceu. O irlandês mostrou-lhe a caixa.
— Mr. Cox veio estregar isto.
Deu meia volta, entrou no escritório e pousou a caixa em cima da mesa. Ela estava a seu lado, olhando para a caixa, depois abriu-a cuidadosamente e tirou uma urna de metal escuro. Não era realmente uma urna, apenas uma caixa quadrada em metal escuro e um fecho segurando a tampa. Uma placa de latão dizia: HENRY BAKER 1929-1992.
Deixou-se cair numa cadeira e começou a chorar, angustiada.
— Tudo reduzido a isso, alguns gramas de cinzas numa caixa de metal.
Dillon pôs as mãos nos ombros dela por um momento. — Deixe sair apenas, vai ser bom. Vou fazer um café para você — e foi para a cozinha.
Ela ficou ali um momento e foi como se não pudesse respirar. Tinha que sair, precisava de ar. Ela se levantou, foi até o corredor, tirou o velho sobretudo do almirante do suporte e o vestiu. Quando abriu a porta, começou a chover. Ela correu pela calçada e Smith, sentado na van com Johnson, viu-a passar pela entrada do beco.
— Perfeito — disse ele. — Vamos lá — e foi atrás dela, com Johnson em seus calcanhares.
Dillon veio pelo corredor até o escritório, a xícara de café na mão, e percebeu primeiro o silêncio. Entrou no escritório, largou a xícara e voltou para o corredor.
— Jenny? — chamou ele, depois reparou que a porta estava entreaberta.
— Pelo amor de Deus — ele disse. Vestiu a jaqueta de aviador e saiu. Dela, nem sinal, a rua deserta. Tinha que adivinhar; virou à esquerda correu pela calçada na direção da Great Peter Street.
Chovia muito forte agora e ele parou na esquina por um momento, olhando para a esquerda e depois para a direita, e a viu no final, onde a rua encontrava Millbank. Ela esperava uma brecha no tráfego, viu sua chance e disparou para os Jardins da Torre Victoria, perto do rio, e Dillon também viu outra coisa, Smith e Johnson atravessando a rua atrás dela. À distância, ele realmente não os reconheceu, mas bastava vê-los. Praguejou selvagemente e começou a correr.
Estava quase escuro quando Jenny cruzou para o lado da rua que dava para o Tâmisa. Havia uma lâmpada a cada seis metros, a chuva caindo em um jato prateado através das luzes amareladas, e um cargueiro navegava rio abaixo, com suas luzes de navegação verdes e vermelhas. Ela respirou fundo algumas vezes para se acalmar e se sentiu melhor. Foi nesse momento que sentiu um movimento atrás dela, virou-se e encontrou Smith e Johnson parados ali.
Percebeu imediatamente que estava em apuros.
— O que vocês querem? — perguntou ela, e começou a se afastar cautelosamente.
— Não é preciso entrar em pânico, querida — disse Smith. — Só queremos ter uma conversinha, algumas respostas.
Jenny se virou para correr e Johnson avançou para ela como um raio, agarrando seus braços e a empurrando para trás de encontro ao parapeito.
— Jenny, não é? — ele perguntou, e quando ela tentou lutar desesperadamente, ele sorriu. — Gosto disso, faça mais.
— Pare — Smith disse a ele. — Só consegue pensar no que tem nas calças? — Johnson se afastou, mas deu a volta para segurá-la por trás e Smith disse: — Agora, sobre este submarino nas Ilhas Virgens. Você realmente não espera que acreditemos que você não sabe onde está?
Ela se debateu. — Vamos — interveio Johnson —, responda ao homem ou leva um tabefe.
— Ponham a moça no chão — disse uma voz. — Afinal, não se sabe por onde vocês andam. Ela pode pegar alguma doença.
O Zippo de Dillon reluziu enquanto ele acendia o cigarro que pendia do canto da boca. O irlandês avançou, e Smith foi ao encontro dele.
— Se quer encrenca, vai ter, baixinho. — Smith desferiu um possante soco.
Dillon se esquivou e, agarrando o pulso dele, torceu-o de tal forma que Smith gritou de dor, caindo sobre um joelho. Dillon usou o punho num golpe de martelo de tremenda força no braço esticado, quebrando-o. Smith soltou novo grito e caiu de lado.
Johnson disse: — Seu pequeno bastardo.
Ele empurrou Jenny para o lado e tirou uma automática do bolso esquerdo da capa de chuva. Dillon se moveu rápido, bloqueando o braço dele para o lado, e o único tiro que Johnson disparou foi para o chão. Ao mesmo tempo, o irlandês deu uma rasteira no outro, e virando o corpo, esticou a perna soltou o calcanhar com tanta força que fraturou duas costelas de Johnson, que caiu se contorcendo em agonia. Dillon pegou a automática. Era uma velha Beretta italiana, calibre pequeno, tipo .22.
— Arma de mulher — disse Dillon —, mas vai dar conta do recado. — Ele se agachou ao lado de Johnson. — Para quem você trabalha, filho?
— Não diga uma palavra — gritou Smith.
— Quem disse que eu ia dizer? — Johnson cuspiu na cara de Dillon. — Foda-se.
— Como quiser. — Dillon girou-o encostou o cano da arma na parte de trás do joelho e atirou. Johnson soltou um grito terrível.
— Quer o mesmo no outro?
— Não — gemeu ele. — Trabalhamos para Max Santiago.
— Sério? — disse Dillon. — E onde posso encontrá-lo?
— Mora em Porto Rico, mas está em Paris.
— E foram vocês que fizeram o trabalho na Lord North Street?
— Fomos.
— Bom garoto. Viu como foi fácil?
— Inseto estúpido — disse Smith a Johnson. — Cavou sua própria sepultura.
Dillon jogou a pistola no Tâmisa. — Eu diria que ele foi muito sensato. O Hospital de Westminster não fica longe daqui, é um pronto-socorro de primeira classe e gratuito, mesmo para animais como você, graças ao Serviço Nacional de Saúde.
Virou-se e viu Jenny olhando para ele, abismada. Pegou o braço dela.
— Venha, querida, vamos para casa.
Enquanto eles se afastavam, Smith gritou: — Vou te pegar por isso, Dillon.
— Não, não vai — Dillon disse. — Vai lhe servir de experiência e vai torcer para que Max Santiago sinta o mesmo.
Deixaram os jardins e pararam na calçada por causa do trânsito. — Você está bem? — perguntou Dillon.
— Que tipo de homem é você para fazer aquilo, Sean Dillon?
— Eles teriam feito pior com você, amor. — Pegou a mão dela e atravessaram a rua correndo.
Quando chegaram em casa, ela subiu direto; Dillon foi à cozinha e colocou a chaleira no fogo, pensando nas coisas enquanto esperava que a água fervesse. Max Santiago? Um progresso de fato, algo para Ferguson enfiar os dentes. Ele percebeu que Jenny descia a escada e entrava no escritório, fez o café e colocou as xícaras em uma bandeja. E percebeu que ela estava ao telefone.
— British Airways? Qual é o último voo desta noite para Paris? Nove e meia? Pode reservar um lugar? Grant, Jennifer Grant.
Desligou e se virou quando Dillon entrou. Ele colocou a bandeja na mesa. — Bancando a detetive?
— Já não aguento mais. Não entendo o que está havendo. Ferguson, você e agora aqueles homens, aquela arma. Seja como for, eu ia embora mesmo, mas vou já, enquanto posso.
— Para Paris? — perguntou ele. — Eu a ouvi ao telefone.
— É só uma escala. Há alguém a quem quero entregar isto. — Pegou a caixa que continha as cinzas. — A irmã de Henry.
— Irmã? — Dillon franziu a testa.
— Sou provavelmente a única pessoa que sabe que ele tinha uma irmã. Há razões especiais para isso, então não me pergunte, e não me pergunte para onde vou depois de Paris.
— Entendo.
Ela olhou de relance para o relógio.
— Sete horas. Consigo chegar a tempo, mas não diga nada a Ferguson antes de eu partir. Ajude-me, Dillon, por favor.
— Então não perca tempo falando disso — disse ele. — Vá pegar suas malas agora e eu chamo um táxi.
— Vai mesmo, Dillon, honestamente?
— Vou levá-la pessoalmente.
Ela saiu às pressas. Dillon suspirou e disse num murmúrio: — Idiota, o que deu em você? — E pegou o telefone.
Estava tudo muito quieto na sala de espera da pequena clínica particular na Farsley Street. Smith, sentado numa poltrona, tinha o braço direito engessado preso a uma tipoia. A meia hora após seu encontro com Dillon tinha sido um pesadelo. Eles não podiam ir a um hospital público porque isso significaria a polícia, então ele teve que pegar a van no beco perto da Lord North Street, de onde dirigiu com uma mão até Victoria Tower Gardens, para então pegar Johnson. A viagem para a Farsley Street fora ainda pior. Naquele momento, o Dr. Shah saiu da sala de cirurgia — era um pequeno paquistanês grisalho de barrete e jaleco verdes.
— Como ele está? — perguntou Smith.
— Tão bem quanto possível, tendo uma rótula espatifada. Vai mancar o resto da vida.
— O porco irlandês — murmurou Smith.
— Vocês não conseguem deixar de se meter em encrencas, hein? Mr. Santiago sabe disso?
Smith ficou assustado.
— Isso não tem nada a ver com ele.
— Achei que sim, só isso. Ele me ligou de Paris no outro dia a negócios, então eu sabia que ele estava por perto.
— Não, não é assunto dele não. — Levantou-se. — Vou para casa. Volto amanhã.
Shah viu-o transpor a porta da rua, depois dirigiu-se ao escritório. Ele sempre acreditou em se proteger. Pegou o telefone e ligou para Santiago, em Paris.
O tráfego naquela hora da noite já estava calmo e eles chegaram a Heathrow às oito horas. Jenny pegou sua passagem no balcão de reservas e foi fazer o check-in do voo. Ela entregou a mala, mas ficou com a urna de viagem. Parecia mais bem disposta.
— Tempo para um drinque?
— Por que não?
Esperou no canto do bar até que ele voltou com um uísque irlandês e uma taça de vinho branco. — Vejo que se sente melhor — observou Dillon.
— É bom estar novamente em movimento, fugir de tudo isso. O que vai dizer a Ferguson?
— Nada em relação a você até amanhã de manhã.
— Vai contar a ele que fui para Paris?
— Não faz diferença, ele descobriria em cinco minutos verificando os embarques pela British Airways no computador.
— Sem problema, a essa altura já estarei bem longe. E você?
— Próxima parada, St. John. Amanhã ou depois.
— Vá ver Bob Carney. Diga-lhe que é da minha parte e apresente-se a Billy e Mary Jones. Cuidam do bar enquanto estou fora.
— E você? — perguntou ele. — Quando volta?
— Francamente, não sei. Em alguns dias, uma semana. Logo vejo como me sinto. Vou procurá-lo, se você ainda estiver em St. John.
— Não sei onde vou me hospedar.
— É fácil descobrir uma pessoa em St. John.
O voo foi anunciado e eles terminaram suas bebidas, desceram ao saguão e ele a acompanhou até a entrada de segurança.
— Peço desculpas se lhe criei problemas com o brigadeiro — disse ela.
— É um prazer — tranquilizou-a ele.
— Você é um cara fantástico, Dillon. — Deu-lhe um beijo no rosto. — Assustador, admito, mas é bom ter você do meu lado.
Dillon viu-a partir, depois se virou e foi até a fileira de telefones mais próxima, tirou um cartão com os números de telefone que Ferguson lhe dera e ligou para o número da Cavendish Square. Kim atendeu ao telefone e informou que o brigadeiro jantava no Garrick Club. Dillon agradeceu, saiu e pegou o primeiro táxi da fila.
— Londres — disse ele. — Garrick Club. Sabe onde fica?
— Certamente, chefe. — O motorista examinou a camisa de gola aberta de Dillon pelo espelho retrovisor. — Mas vai perder seu tempo lá, chefe, vestido assim. Não vão deixar você entrar. Só de paletó e gravata. Sócios e convidados apenas.
— Vamos ver, não é? — Dillon disse a ele. — Apenas me leve lá.
Quando chegaram ao Garrick, o motorista parou no meio-fio e se virou. — Devo esperar, chefe?
— Por que não? Volto logo se o que você diz for verdade.
Dillon subiu os degraus e o porteiro uniformizado foi muito educado.
— Posso ajudar, sir?
Dillon usou seu melhor sotaque de escola pública.
— Procuro o brigadeiro Charles Ferguson. Disseram que ele estava jantando aqui esta noite. Preciso vê-lo com urgência.
— Receio não poder permitir que suba, sir. Precisaria de paletó e gravata, mas se quiser esperar aqui, enviarei uma mensagem ao brigadeiro. Qual seria seu nome, sir?
— Dillon.
O porteiro pegou o telefone e falou com alguém e depois esperou algum tempo.
— Ele vem vê-lo diretamente, sir.
Dillon avançou pelo corredor, admirando a grande escadaria, as pinturas a óleo que cobriam as paredes. Ferguson apareceu lá em cima, olhou para ele da balaustrada e desceu a escada.
— Que diabos você quer, Dillon? Estou na metade do meu jantar.
— Oh, Jesus, honorável senhor — Dillon entrou sem esforço no papel do irlandês. — É tão bom que tenha vindo me ver, um grande homem como você neste lugar tão elegante.
O porteiro pareceu alarmado e Ferguson pegou Dillon pelo braço e o arrastou para fora. — Pare de bancar o idiota, meu bife já deve estar totalmente arruinado.
— Na sua idade carne vermelha faz mal. — Dillon acendeu um cigarro, o Zippo brilhando. — Descobri quem é a oposição.
— Meu Deus, quem?
— Um nome, é tudo que tenho. Santiago, Max Santiago. Mora em Porto Rico, mas está em Paris. A propósito, eles também fizeram o arrombamento.
— Como você descobriu isso?”
— Tive um entrevero com nossos dois amigos do tribunal.
— Entendo. Espero que não tenha matado ninguém...
— E eu faria uma coisa dessas, brigadeiro? Bem, deixo o assunto com você, vou me deitar cedo.
Ele desceu os degraus até o táxi e entrou.
— Eu avisei, chefe — disse o taxista.
— Oh, bem — Dillon disse —, não se pode ganhar todas. Leve-me para a Lord North Street. — Ele se recostou e olhou para a cena noturna de Londres.
Jack Lane, recentemente divorciado, vivia sozinho num apartamento nas proximidades de Hampstead. Aquecia uma pizza congelada no micro-ondas quando o telefone tocou, e ficou aborrecido.
— Jack? É Ferguson. Dillon teve um pega com aqueles dois caras suspeitos do tribunal. Trabalham para um tal Max Santiago, de Porto Rico, ultimamente em Paris.
— Isso é tudo, sir?
— É o suficiente. Vá para o escritório. Veja se a inteligência francesa tem alguma coisa sobre ele, então tente a CIA, o FBI, qualquer um em que você possa pensar. Ele deve estar no computador de alguém. Conseguiu alguma coisa desse tal Bob Carney, o mergulhador?
— Sim, senhor, homem interessante em mais de um aspecto.
— Certo, você pode me informar pela manhã, mas comece a trabalhar nessa coisa de Santiago agora. Cinco horas mais cedo nos Estados Unidos, lembre-se.
— Vou tentar, sir.
Lane desligou com um suspiro. Abriu o micro-ondas e olhou com desgosto para a pizza. Ah, paciência, não tinha nada melhor para fazer mesmo e podia pegar um peixe com fritas a caminho do escritório.
Em seu apartamento, Smith estava se sentindo muito mal. O braço doía demais e ele já estava no segundo uísque bem servido quando o telefone tocou.
— Tem alguma coisa para mim? — perguntou Santiago.
— Ainda não, Mr. Santiago. — Smith tentou desesperadamente arranjar algo para dizer. — Talvez amanhã.
— Shah me telefonou. Johnson levou um tiro e você está com o braço quebrado. Parece que você mencionou um “porco irlandês”. Presumivelmente, Sean Dillon?
— Sim, Mr. Santiago, tivemos uma briga com ele. Pegamos a garota, entende, mas ele conseguiu saltar sobre nós. Estava armado.
— Não me diga! — comentou Santiago secamente. — E o que você disse quando ele perguntou quem era seu chefe?
— Eu? Absolutamente nada. Foi Johnson que... — Smith se calou.
— Continue, conte-me o pior.
— Certo, Mr. Santiago, o estúpido deu seu nome a Dillon.
Houve silêncio por um momento e então Santiago disse: — Estou desapontado com você, meu amigo, muito desapontado. — E a linha ficou muda.
Smith sabia o que aquilo significava. Mais assustado do que já tinha ficado na vida, fez a mala com uma só mão e foi buscar as mil libras que guardava num açucareiro para qualquer eventualidade. Em dois minutos estava se afastando na van. Uma velha amiga em Aberdeen, que sempre teve uma queda por ele, lhe daria abrigo. Escócia, eis para onde devia ir. O mais longe possível de Johnson.
Na casa de repouso, Shah estava sentado atrás de sua mesa, o telefone no ouvido. Depois de um tempo, ele o largou, suspirou profundamente e saiu. Entrou na pequena farmácia ao lado da sala de cirurgia, pegou uma seringa e a encheu com um frasco que tirou do armário de remédios. Quando ele abriu a porta no fim do corredor, Johnson estava dormindo, ligado ao soro.
Shah ficou olhando para ele um momento, depois descobriu seu antebraço esquerdo e inseriu a agulha. Johnson inspirou profundamente umas cinco vezes, depois parou completamente.
Verificou os sinais vitais, não encontrou nenhum e saiu. Parou na recepção, pegou o telefone e discou. Uma voz disse:
— Deepdene Funeral Service. Como podemos ajudar?
— Aqui é Shah. Tenho uma retirada para você.
— Está pronta?
— Sim.
— Estaremos aí em meia hora.
— Obrigado.
Shah recolocou o fone no gancho e voltou para o escritório, cantarolando baixinho.
Eram quase onze horas quando Travers voltou à Lord North Street e encontrou Dillon lendo no escritório.
— Jennifer foi para a cama? — Travers perguntou.
— Mais de uma hora atrás. Ela estava muito cansada.
— Não surpreende, já passou por muita coisa aquela garota. Quer uma bebida antes de dormir, Dillon? Não posso oferecer um irlandês, mas um bom single malt, talvez?
— Por mim tudo bem.
Travers serviu dois copos, deu-lhe um e sentou-se do lado oposto.
— Tintim. O que está lendo?
— Epíteto — Dillon ergueu o livro. — Filósofo grego da Escola Estoica.
— Sei quem ele era, Dillon — Travers disse pacientemente. — Estou apenas surpreso que você saiba.
— Ele diz aqui que uma vida não posta à prova não vale a pena ser vivida. Concorda, almirante?
— Contanto que não signifique bombardear inocentes em nome de alguma causa sagrada ou atirar nas pessoas pelas costas, então acho que sim.
— Deus o perdoe, almirante, jamais plantei uma bomba desse jeito nem atirei em ninguém pelas costas na minha vida.
— Deus me perdoe, de fato, Dillon, porque por alguma razão obscura estou inclinado a acreditar em você. — Travers engoliu seu uísque e se levantou. — Boa noite para você — disse, e saiu.
As coisas tinham andado melhor do que Smith esperava e ele logo pegou o jeito de manobrar o volante com uma só mão, apenas os dedos da mão direita tocando a parte inferior do volante. A chuva não estava ajudando, claro, e depois de Watford ele perdeu uma saída para a autoestrada e se viu em uma longa pista escura, nenhum outro veículo à vista.
Então, faróis piscaram atrás dele e um veículo em alta velocidade começou a ultrapassá-lo. Era um grande caminhão preto, e Smith praguejou, morto de medo, sabendo o que era aquilo. Manobrou freneticamente o volante. O caminhão deu uma guinada, jogando-o de lado e, sem ter para onde ir, a van saiu da estrada, quebrou uma cerca e capotou duas vezes ao descer uma encosta de vinte metros. A van parou, toda amassada e Smith, caído de lado na cabine, ainda consciente, sentiu o cheiro da gasolina escoando do tanque aberto. Ouviu os passos de alguém descendo a encosta e se aproximando.
— Ajude-me — Smith gemeu —, estou aqui.
Alguém riscou um fósforo. Foi a última coisa de que teve consciência antes do horror final, o fósforo lançado em cima dele através da escuridão e depois a bola de fogo.
7
No aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, era quase meia-noite quando Jenny Grant pegou sua mala e saiu rapidamente para o saguão, encontrando uma locadora da Avis.
— Ainda estão abertos, graças a Deus — disse ela, enquanto pegava passaporte e carteira de motorista.
— Mas é claro — respondeu em inglês a jovem de plantão. — Sempre esperamos a chegada final do dia, mesmo quando há atraso. Por quanto tempo vai precisar do carro, mademoiselle?
— Talvez uma semana. Não tenho certeza, mas volto aqui.
— Tudo bem.
A garota se ocupou com a papelada e tirou uma impressão de seu cartão de crédito. — Siga-me e eu a levo ao carro.
Dez minutos depois, Jenny estava saindo do aeroporto, sentada ao volante de um Citroën rumo oeste, com destino à Normandia. A urna estava no banco do passageiro ao lado dela. Ela a tocou levemente, então se acomodou para se concentrar na direção. Tinha um longo caminho a percorrer, provavelmente teria que dirigir durante a noite, mas isso não importava porque Londres e os terríveis acontecimentos dos últimos dias haviam ficado para trás e ela estava livre.
Dillon se levantou cedo, estava na cozinha preparando bacon e ovos às sete e meia quando Travers entrou em seu roupão.
— Cheira bem — disse o almirante. — Jenny já acordou?
— Bem, para ser honesto, almirante, ela já não está por aqui faz algum tempo. — Dillon despejou água fervente em um bule de porcelana. — Aqui está, uma boa xícara de chá.
— Esqueça isso, do que está falando?
— Bem, tome seu chá como um bom rapaz e eu conto. Tudo começou quando ela ficou triste e saiu para uma caminhada.
Dillon atacou seu bacon e ovos enquanto relatava os eventos da noite anterior. Quando ele terminou, o almirante apenas ficou ali sentado, de testa franzida.
— Você toma muitas decisões além de sua alçada, Dillon.
— Ela aguentou o suficiente, almirante — Dillon disse a ele. — Foi só isso e não vi razão nenhuma para impedi-la.
— E ela não quis dizer para onde estava indo?
— Primeira parada em Paris, é tudo o que sei. Depois disso, algum lugar desconhecido para ver a irmã de Baker. Ela está levando as cinzas dele para ela, óbvio.
— Sim, suponho que sim. — Travers suspirou fundo. — Vou ter que contar a Ferguson. Ele não vai gostar, não vai gostar nem um pouco.
— Bem, já é hora de ele descobrir que o mundo é injusto — Dillon disse, e abriu o jornal da manhã.
Travers suspirou profundamente de novo, desistiu de discutir, foi para o escritório e sentou-se à escrivaninha. Só então ele relutantemente pegou o telefone.
Pouco depois das nove, Jenny Grant freou o carro alugado em frente ao Convento das Pequenas Irmãs da Piedade na aldeia de Briac, a oito quilômetros de Baieux, na Normandia. Guiara toda a noite e estava completamente exausta. Os portões de ferro estavam abertos. Ela entrou e estacionou o carro num caminho circular diante do magnífico edifício antigo. Uma jovem noviça, de avental branco de trabalho sobre as vestes, limpava o cascalho.
Jenny saiu com a urna na mão.
— Gostaria de falar com a madre superiora. É urgente. Vim de muito longe.
— Creio que está na capela — disse a jovem num inglês perfeito. — Vamos ver, sim?
Conduziu-a por agradáveis jardins até uma capelinha, separada do edifício principal. A porta rangeu quando se abriu. Era um lugar de sombras, uma imagem da Virgem Maria flutuando à luz de velas, e o cheiro de incenso era insuportável. A jovem noviça sussurrou algo no ouvido da freira ajoelhada em oração perto do altar e depois voltou.
— A Madre já vem.
A noviça saiu, e Jenny ficou à espera. Logo depois, a madre superiora fez o sinal da cruz, levantou-se e foi até ela. Era uma mulher alta, que aparentava uns cinquenta anos, com expressão de suave serenidade.
— Em que posso ajudá-la?
— Irmã Maria Baker?
— Exatamente. — Parecia confusa. — Eu a conheço, querida?
— Meu nome é Jenny, Jenny Grant. Henry disse que falou de mim.
— Mas é claro! — A Irmã Maria Baker sorriu, depois fez um ar preocupado. — Alguma coisa está errada, posso sentir. O que houve?
— Henry morreu há poucos dias num acidente em Londres. — Jenny estendeu a urna. — Trouxe-lhe as cinzas dele.
— Oh, minha querida. — A Irmã Maria tinha o sofrimento estampado no rosto e fez o sinal da cruz. — Que descanse em paz. Foi muito amável da sua parte.
— Sim, mas não foi só isso. Não sei para onde me virar. Aconteceram tantas coisas tão horríveis!
Jenny se desfez em lágrimas e sentou-se no banco mais próximo.
A Irmã Maria pôs a mão na cabeça dela. — O que foi? Conte, minha querida.
Quando Jenny terminou, parecia haver um enorme silêncio na capela.
— É mistério sobre mistério, aqui — disse a Irmã Maria. — Só uma coisa é certa: a infeliz descoberta desse submarino é de uma importância crucial para muita gente. Mas chega disso agora.
— Eu sei — disse Jenny. — E preciso voltar para St. John, ao menos para ajudar Sean Dillon. Ele é um homem mau, irmã, eu sei disso. Mas foi bom para mim, não é estranho?
— Não realmente... — A irmã Maria Baker a ajudou a se levantar. — Suspeito que o Sr. Dillon não esteja mais tão seguro do que defendia. Mas tudo isso pode esperar, minha querida. Precisa de uns dias de descanso, um tempo para refletir, e isso são ordens do médico. Eu sou médica, você sabe, somos uma ordem de enfermagem. Agora, vamos encontrar um quarto para você. — e elas saíram juntas, deixando a capela em silêncio.
Quando Dillon e Travers se apresentaram no apartamento da Cavendish Square, pouco antes do meio-dia, Ferguson estava sentado em frente à lareira passando os olhos num arquivo. Jack Lane estava em pé junto à janela, olhando para fora.
Dillon disse: — Deus salve todos aqui.
Ferguson ergueu os olhos friamente. — Muito divertido, Dillon.
— Bem, a resposta correta é Deus os salve bondosamente — disse Dillon —, mas vamos deixar passar.
— Que diabo de jogo foi esse seu?
Ferguson olhou friamente para cima.
— Ela queria ir embora, brigadeiro. Estava cheia, só isso. O ataque daqueles dois gorilas foi a gota d'água.
— E você simplesmente concordou com ela.
— Não com ela, com as necessidades dela, brigadeiro. — Dillon acendeu um cigarro. — Ela disse que queria ver a irmã de Baker e me implorou para não perguntar onde seria. Disse que tem razões especiais que ela não queria divulgar.
— Você estaria interessado em saber que Lane fez uma verificação e não consegue encontrar menção alguma a uma irmã de Baker?
— Jenny disse que provavelmente é a única pessoa no mundo a saber que ele tinha uma irmã. Algum segredo sombrio de família, talvez.
— Então, ela voou para Paris e partiu para Deus sabe onde?
Lane o interrompeu.
— Andamos investigando no Charles de Gaulle. Ela alugou um carro no quiosque da Avis.
— E depois disso, quem diabos sabe? — Ferguson estava com uma raiva fria.
Dillon disse: — É como eu disse, ela ela estava cheia.
— Mas nós precisamos dela, caramba.
— Ela vai voltar para St. John quando estiver pronta. Até lá, vamos gerenciando. — Dillon encolheu os ombros. — Não se pode ter tudo na vida, nem mesmo você.
Ferguson ficou olhando para ele, completamente furioso.
— Pelo menos temos uma espécie de pista — disse então. — Conte, Jack.
— Max Santiago é o motor de um grupo hoteleiro dos Estados Unidos, sede em Porto Rico: Flórida, Las Vegas, vários outros locais — disse Lane. — Uns quantos cassinos.
— Verdade?
— Sim, minha primeira parada foi com o FBI e o arquivo vermelho deles é altamente ilegal. Lista pessoas que não podem ser acusadas de crime algum.
— E por que Santiago estaria nele?
— Prováveis ligações com o cartel da droga colombiano.
— Sério? — Dillon sorriu. — O cachorro!
— Fica pior. A Samson Cay Holding Company, registrada nos EUA e na Suíça, tivemos que procurar em três companhias associadas até achar o nome de Santiago.
— Samson Cay? — Dillon inclinou-se para a frente. — Aí temos uma coisa muito interessante. Uma relação direta. Mas por quê?
— Santiago tem sessenta e três anos — explicou Lane. — Antiga família aristocrática de Cuba. O pai era general e muito envolvido com Batista. A família escapou por um triz em 1959, quando Castro tomou o poder. Conseguiram asilo político nos Estados Unidos e por fim cidadania, mas, segundo o FBI, tinham pouco mais do que as roupas do corpo.
— Compreendo — disse Dillon. — Então, como é que o bom velho Max criou uma cadeia de hotéis avaliada em milhões? O esquema da droga é muito mais recente.
— A resposta é que ninguém sabe.
Travers estava sentado ouvindo tudo isso, parecendo confuso. — Mas então qual é a conexão? Samson Cay e U180, Martin Bormann, todas essas coisas?
— Bem, o arquivo do FBI me levou à CIA — disse Lane. — Também está no computador deles, mas por um motivo diferente. Aparentemente, o pai de Santiago era grande amigo do General Franco da Espanha, um fascista absolutamente raivoso.
— O que pode ser a ligação com 1945, o fim da guerra na Europa e Martin Bormann — disse Ferguson.
Dillon concordou. — Entendo agora. A Kamaradenwerk, ação entre camaradas.
O brigadeiro assentiu.
— Pode ser. — O brigadeiro concordou. — É mais do que provável. Santiago e o pai chegam à América completamente lisos e, no entanto, conseguem pôr a mão nos vultosos meios necessários para se estabelecerem como hoteleiros. Sabemos que o Partido Nazista transferiu milhões mundo afora para a continuidade de sua obra. — Encolheu os ombros. — Tudo conjeturas, mas fazem sentido.
— Exceto numa coisa — disse Dillon.
— O quê?
— Como Santiago soube que Baker descobriu o U-180? E como soube da vinda dele a Londres, de sua estada na casa do almirante, da Jenny, de mim? Ele parece singularmente bem informado, brigadeiro.
— Devo dizer que Dillon tem um ponto aí — Travers disse.
Ferguson disse: — O ponto é bem aceito e vamos encontrar a resposta no tempo certo, mas por ora só nos resta prosseguir com o trabalho. Você parte para o Caribe amanhã.
— Como planejado? — perguntou Dillon.
— Exato. British Airways para Antígua, depois St. John.
Dillon disse: — Acha provável que Max Santiago apareça lá? Ele meteu a mão em tudo até agora.
— Isso teremos que ver.
— Como eu disse — Lane interrompeu: — Ele tem casa em Porto Rico e isso é muito conveniente para negócios nas Ilhas Virgens. Aparentemente, ele tem um daqueles iates multimilionários. — Ele olhou no arquivo. — Chama-se Maria Blanco. Capitão e tripulação de seis.
— Se ele aparecer, você tem apenas que fazer o melhor que puder — disse Ferguson. — É para isso que vai estar lá. Terá seu cartão Platinum e cheques de viagem de vinte e cinco mil dólares. Sua cobertura é bem simples. Você é um ricaço irlandês.
— Deus nos salve, eu nem sabia que existia tal coisa.
— Não seja idiota, Dillon. Você é um ricaço irlandês, empresário de Cork. Eletrônicos em geral, computadores etc. Providenciamos um toque especial para você. Quando chegar a Antígua, um hidroavião o espera. Sabe pilotar um hidroavião, presumo.
— Posso pilotar um Jumbo se for preciso, brigadeiro, mas você sabe disso.
— Eu sei. Que avião você disse que era, Jack?
— Um Cessna 206, sir. — Lane falou com Dillon: — Aparentemente ele tem flutuadores e pneus, e você pode pousar em terra ou na água.
— Conheço o modelo — respondeu Dillon. — Já pilotei.
— O centro das coisas em St. John é uma cidade chamada Cruz Bay — continuou o inspetor. — Há um serviço de hidroavião comercial por lá, então há uma rampa no porto, instalações, essas coisas.
Ferguson passou-lhe uma pasta.
— A seção de documentos deixaria você orgulhoso. Dois passaportes, irlandês e britânico, em seu nome. Tendo nascido em Belfast, você tem direito a isso. Licença de piloto comercial C.A.A. com qualificação de hidroavião.
— Vocês pensam em tudo — Dillon disse.
— Também estão aí passagens e cheques de viagem. Fica instalado em Caneel Bay, um dos melhores resorts do mundo. Já estive lá. É um paraíso numa península particular nas proximidades de Cruz Bay.
Dillon abriu o arquivo e olhou alguns folhetos. — Situado em sua própria península particular, sete praias, três restaurantes — ele leu em voz alta. — Parece meu tipo de lugar.
— É o tipo de lugar de qualquer um — disse Ferguson. — Os dois melhores chalés são 7E e 7D. Embaixadores ficam lá, Dillon, estrelas de cinema. Eu acredito que Kissinger esteve no 7E uma vez. Também Harry Truman.
— Estou impressionado — disse Dillon.
— Tudo vai ajudar na sua imagem.
— Só uma coisa — disse Lane. — É tradição antiga não haver telefones nas casas. Há telefones públicos espalhados por lá, mas combinamos que você tenha um telefone portátil. Eles o entregarão quando fizer o check-in.
— Portanto, chego lá — assentiu Dillon. — E depois, o que faço?
— Isso é com você — respondeu Ferguson. — Esperávamos que a garota estivesse lá para ajudar, mas graças a sua galanteria equivocada, isso não está acontecendo no momento. No entanto, sugiro que contate esse tal mergulhador, Bob Carney. Ele é dono de uma empresa chamada Paradise Watersports, no próprio resort. Tem um folheto aí.
— Ele ensina turistas a mergulhar — disse Lane.
Dillon deu uma olhada no folheto, bem elaborado, com belas fotos subaquáticas, mas a mais interessante era a do próprio capitão Bob Carney, sentado ao volante de um barco, bonito, bronzeado e muito em forma.
— Jesus — Dillon disse. — Se quisessem um ator para interpretar esse sujeito, teriam dificuldade em encontrar alguém tão adequado.
Ferguson disse: — Um homem interessante, esse Carney. Conte a ele, Jack.
Lane abriu outra pasta.
— Nasceu no Mississippi em 48, mas passou a maior parte da juventude em Atlanta. Esposa, Karye, um menino de oito anos, Walker, uma menina de cinco, Wallis. Um ano na Universidade do Mississippi, depois marines no Vietnã. Fez dois períodos, em sessenta e oito e sessenta e nove.
— Sempre ouvi dizer que foi uma época ruim — disse Dillon.
— No fim do serviço estava com o 2º Grupo de Ações Combinadas. Foi ferido, recebeu dois Purple Hearts, a Cruz Vietnamita de Coragem e foi indicado à Bronze Star, que se perdeu nos canais.
— Foi aí que ele começou a mergulhar?
— Não no começo. Ele foi para a Georgia State University, cortesia do Corpo de Fuzileiros Navais, e se formou em Filosofia. Depois fez um ano de Oceanografia.
— Algo mais?
Lane consultou o arquivo. — Tem licença de capitão até mil e seiscentas toneladas, comandou cargueiros no golfo do México, também soldador e mergulhador nas plataformas de petróleo. Foi para St. John em setenta e nove. — Lane fechou o arquivo.
— Aí tem seu homem — disse Ferguson. — Precisa trazê-lo para o nosso lado, Dillon. Ofereça qualquer coisa, dinheiro não é problema, dentro do razoável, claro.
Dillon sorriu. — Estou surpreso com você, brigadeiro. Dinheiro nunca está em primeiro lugar na lista de homens como Carney.
— Pode ser... — Suspirou e se levantou. — É isso então, vejo você antes da partida. A que horas é o avião dele, Jack?
— Nove horas, sir, chega a Antígua logo após duas da tarde.
— Então certamente não o verei. Suponho que devemos nos despedir com estilo. Traga Travers ao Garrick para jantar às sete e meia. Mas agora precisa me dar licença.
— Um coração de ouro, não é mesmo? — Dillon disse ao almirante quando chegaram à calçada.
— Nunca teria pensado em descrevê-lo dessa maneira — disse Travers e ergueu o guarda-chuva para um táxi que passava.
Uma hora depois, Ferguson encontrou Simon Carter no confortável bar de uma taverna chamada St. George, não muito longe do escritório. Pediu um gim-tônica. — Achei melhor atualizá-lo — disse ele. — Muita coisa aconteceu.
— Conte — disse Carter.
Foi o que Ferguson fez, o ataque a Jenny por Smith e Johnson, Santiago, o voo de Jenny, tudo. Quando ele terminou, Carter ficou sentado, pensando.
— Essa coisa com Santiago... isso é muito interessante. Seu camarada Lane pode ter um ponto, o ângulo fascista, o general Franco e tudo mais.
— Certamente tem a ver, mas Dillon está certo. Nada disso explica como Santiago parece estar tão bem informado.
— Então, o que você pretende fazer com ele?
— Não há nada que eu possa fazer oficialmente — disse Ferguson. — É um cidadão americano, um empresário multimilionário e, aos olhos do mundo, muito respeitado. Quer dizer, essas coisas nos arquivos do FBI e da CIA são confidenciais.
— E há o fato de que não queremos envolver os americanos de forma alguma — ressaltou Carter.
— Deus me livre, a última coisa que queremos.
— Então, estamos nas mãos de Dillon — disse o diretor-adjunto.
— Eu sei e não gosto nem um pouco. — Ferguson se levantou. — Você repassa a Pamer em que pé estamos.
— Claro — Carter disse. — Talvez esse cara, Carney, o mergulhador, possa dar uma pista a Dillon.
— Eu o manterei informado — disse Ferguson e saiu.
Em Paris, Santiago, que ia a um jantar de gala na embaixada americana, ajeitava a gravata no espelho quando o telefone tocou. Era Pamer, e Santiago ouviu enquanto ele o atualizava.
— Parece que eles sabem seu nome, Max. — Pamer estava muito agitado. — E tudo graças àqueles malditos homens que estavam trabalhando para você.
— Esqueça-os — disse Santiago. — São notícia de ontem.
— O que isso significa?
— Não seja idiota, Francis, você é um menino crescido agora. Tente agir como um.
Pamer ficou horrorizado.
— Tudo bem, Max, mas o que vamos fazer?
— Eles não podem colocar um dedo em mim, Francis, eu sou um cidadão americano e eles não vão querer incluir o governo americano nisso. Na verdade, Ferguson está agindo de forma muito ilegal ao enviar Dillon para operar no território soberano de outro país. O U-boat está em águas americanas, lembra?
— Então o que você vai fazer?
— Vou voar para Porto Rico de manhã, depois navegar até Samson Cay e operar de lá. Dillon deve se hospedar no Hyatt ou no Caneel Bay se usar um hotel, e um simples telefonema confirmará isso. Suspeito de Caneel Bay se ele deseja cultivar o mergulhador, este Carney.
— Suponho que sim.
— Uma pena sobre a garota. Ela vai aparecer eventualmente, e ainda sinto que ela pode ser a chave disso. Ela poderia saber mais do que imagina.
— Esperemos.
— Para o seu bem em particular, espero que sim, Francis.
Devidamente ataviado em seu blazer e gravata dos Guards, Dillon seguiu Travers pela imponente escadaria do Garrick Club até o bar, onde Ferguson os esperava.
— Ah, ei-los! Achei que podíamos tomar um pouco de champanhe, Dillon, só para lhe desejar bon voyage. Você prefere Krug, se bem me lembro.
Sentaram-se no canto da sala, e o barman levou-lhes a garrafa, abriu-a, encheu as taças e se retirou. Ferguson tirou um envelope do bolso e o estendeu.
— Só para o caso de as coisas darem errado, tem aqui o nome de um contato em Charlotte Amalie, a principal povoação de St. Thomas. É o que podemos chamar de revendedor de hardware.
— Hardware? — Travers parecia confuso. — Por que diabos ele precisaria de hardware?
Dillon meteu o envelope no bolso.
— Você um sujeito encantador, almirante, e que assim se conserve por muito tempo.
Ferguson brindou a Dillon.
— Boa sorte, meu amigo. Vai precisar. — Esvaziou a taça. — Agora vamos comer.
Algo em seu olhar dizia a Dillon que havia algo mais, muito mais, mas se levantou obedientemente e os seguiu para fora do bar.
E em Briac, no Convento das Pequenas Irmãs da Piedade, Jenny estava sozinha no banco de trás da capela, descansando os braços no encosto do banco à frente, olhando para a luz bruxuleante das velas no altar e meditando. A porta rangeu e entrou a irmã Maria Baker.
— Aqui está você. Já devia estar na cama.
— Eu sei, irmã, mas estava inquieta e queria pensar em algumas coisas.
A irmã se sentou ao lado dela.
— Como o quê?
— Como Dillon, por exemplo. Ele fez coisas terríveis. Foi do IRA, para começar, e quando aqueles homens me atacaram, na noite passada — ela sentiu um calafrio —, foi de uma frieza tão cruel, tão insensível, e no entanto, para mim, foi tão compreensivo.
— E então?
Jenny virou-se para ela.
— Eu não sou uma boa cristã. Na verdade, quando Henry me encontrou, era uma enorme pecadora. Mas eu quero realmente compreender Deus, sinceramente quero.
— Então, qual o problema?
— Por que Deus permite a violência e o homicídio? Por que ele permite a violência em Dillon?
— É a coisa mais simples de responder, minha criança. O que Deus faz é permitir o livre-arbítrio. Dá a todos nós uma opção de escolha. A você, a mim e aos Dillons deste mundo.
— Talvez — suspirou Jenny. — Mas vou ter que voltar a St. John, não só para ajudar Dillon, mas também, de certa forma, por Henry.
— Por que esse sentimento tão forte?
— Porque Henry não me disse realmente onde descobriu o tal submarino alemão, o que significa que o segredo deve ter morrido com ele. E, no entanto, eu tenho a nítida sensação de que não morreu, de que a informação está em St. John, mas não consigo raciocinar. As coisas não me ocorrem.
Estava novamente angustiada e a Irmã Maria disse: — Já chega. Precisa dormir. Uns dias de descanso operam maravilhas. Depois, vai se lembrar do que agora não lhe ocorre, garanto. Agora vamos pôr você na cama.
Pegou-a pela mão e a conduziu para fora.
O Daimler de Ferguson pegou Dillon às sete e meia da manhã seguinte para levá-lo a Gatwick e Travers insistiu em acompanhá-lo. A viagem para fora da cidade àquela hora da manhã, com todo o tráfego pesado indo na direção oposta, foi relativamente rápida, e Dillon estava pronto para passar pelo controle de passaportes e a segurança às oito e meia.
— Já chamaram o voo, pelo que vejo — disse Travers.
— Assim parece.
— Olhe aqui, Dillon — Travers disse, todo sem jeito. — Nós nunca seremos camaradas de verdade, você e eu, quero dizer, o IRA e todas essas coisas, mas quero agradecer o que fez pela garota. Eu gostava dela... gosto muito dela.
— Eu também.
Travers apertou a mão de Dillon.
— Tenha cuidado, esse Santiago soa como má notícia.
— Vou tentar, almirante.
— Outra coisa. — Travers parecia mais estranho do que nunca. — Charles Ferguson é um amigo querido, mas também é o velho idiota mais tortuoso que já conheci na vida. Tenha cuidado desse lado também.
— Vou ter, almirante, eu vou — Dillon disse.
Ele ficou olhando o almirante se afastar, então se virou e passou para o embarque.
Um bom homem, pensou enquanto o Jumbo decolava e subia constantemente, um homem decente, mas ninguém é tolo e ele estava certo; havia algo mais em tudo aquilo além da superfície das coisas, nada podia ser mais certo, e Ferguson sabia o que era. Velho tortuoso. Uma descrição adequada.
— Ah, bem, eu posso ser tão tortuoso quanto — Dillon murmurou, e aceitou a taça de champanhe que a aeromoça oferecia.
8
Graças ao vento a favor, o voo para Antígua levou pouco mais de oito horas, e quando aterrissou ainda não eram duas da tarde, hora local. Estava calor, muito calor, especialmente em comparação a Londres. Dillon se sentia animado e dirigiu-se em grandes passadas para o edifício do aeroporto, na frente de todo mundo. Ao chegar na entrada, viu uma jovem de uniforme azul-claro segurando um cartaz com seu nome.
Ele parou diante dela. — Sou Dillon.
Ela sorriu.
— Sou Judy, Mr. Dillon. Acompanho-a à imigração e daí em diante, e depois o levo a seu avião.
— É da agência de viagens?
— Exatamente. Há formulários a preencher, mas podemos tratar disso enquanto esperamos a bagagem.
Vinte minutos depois, ela o levava para o outro lado da pista em um ônibus de cortesia, um engenheiro chamado Tony de macacão branco sentado ao lado dela. O Cessna estava alinhado com vários aviões particulares, ligeiramente incongruentes por conta dos flutuadores, as rodas se projetando abaixo deles.
— Não deve lhe dar nenhum problema — disse Tony enquanto acomodava as duas malas de Dillon. — Voa tão doce como uma noz. É claro que muitas pessoas ficam nervosas em voar pelas ilhas com um único motor, mas a beleza desse bebê é que você sempre pode descer na água.
— Ou algo assim — Dillon brincou.
Tony riu e indicou um ponto na cabine. “Há um diário de bordo listando todas as ilhas, seus campos de aviação e cartas. Nosso piloto-chefe marcou seu curso daqui até Cruz Bay em St. John. Muito direto. Umas duzentas e cinquenta milhas. Demora em torno de uma hora e meia. — Ele olhou o relógio. — Você deve estar lá por volta das quatro e meia.
— É território americano, mas a alfândega e a imigração estão esperando você na rampa de Cruz Bay. Quando estiver perto, ligue para St. Thomas e eles avisarão que você está chegando. Ah, e haverá um jipe ??esperando. — Judy sorriu. — Acho que é tudo.
— Obrigado de coração. — Dillon deu a ela aquele sorriso especial com charme total e a beijou na bochecha. — Judy, você foi ótima. — E apertou a mão de Tony. — Muito obrigado.
Um momento depois, estava no banco do piloto, fechando a porta. Prendeu o cinto de segurança, ajustou os fones de ouvido, ligou o motor e chamou a torre. Um pequeno avião estava pousando e a torre disse a ele para esperar. Quando o liberaram, taxiou até o fim da pista e fez uma breve pausa até o sinal de partida. Dillon então aumentou a potência, disparou pela pista e puxou o manche exatamente no momento certo, o Cessna subindo sem esforço sobre o mar azul.
Uma hora mais tarde, Max Santiago aterrissava em San Juan, onde passou pela alfândega acompanhado por um funcionário do aeroporto, e dirigiu-se para o carro. Seu motorista, Algaro, aguardava com o Mercedes preto.
— Bons olhos o vejam, Algaro — disse Santiago. — Tudo preparado, como pedi?
— Sim, señor. Separei as roupas habituais e levei esta manhã para o Maria Blanco. O capitão Serra está esperando.
— Ótimo.
Algaro não parecia muito grande, mas era muito forte. Um metro e setenta e três, o cabelo cortado tão curto que quase parecia careca, uma cicatriz que ia do olho direito até a boca. E totalmente devotado a Santiago, que, prodigalizando doações a funcionários corruptos, safara-o da prisão perpétua por esfaquear até a morte uma jovem prostituta.
A bagagem chegou naquele momento e enquanto os carregadores a arrumavam, Santiago disse:
— Bem, não precisa me levar para casa. Vou direto para o barco.
— Como quiser, señor. Partiram, entraram no trânsito da estrada principal e Algaro disse: — O capitão Serra avisou que você pediu dois mergulhadores para a tripulação. Está resolvido.
— Excelente.
Santiago pegou o jornal local, que havia sido deixado no banco para ele, e o abriu. Algaro observou Santiago pelo espelho.
— Algum problema, señor?
Santiago riu.
— Parece um animal que sempre fareja os problemas, Algaro.
— Pois se é para isso que me paga...
— Certo. — Santiago abriu a cigarreira de ouro e acendeu um cigarro. — Há um problema, sim, meu amigo, um problema chamado Dillon.
— Posso saber quem é, señor?
— Por que não? Provavelmente, vou ter... como direi?... que tratar dele, portanto ouça com atenção. Este homem é bom, muito bom.
Era uma tarde perfeita, apenas uma nuvem aqui e ali no imenso céu azul, enquanto Dillon sobrevoava as ilhas a cinco mil pés. Puro prazer, o mar lá embaixo mudando constantemente de cor — ora verde, ora azul —, um barco de vez em quando, os recifes e areais perfeitamente visíveis daquela altitude. Ele passou pelas ilhas Nevis e St. Kitts, fez escala no aeroporto local e logo estava de novo no alto, agora sobre a minúscula ilha holandesa de Saba. Com o forte vento de cauda, fez um bom tempo, melhor do que esperava, encontrando St. Croix a bombordo no horizonte, não mais do que uma hora depois de deixar Antígua.
Em seguida, a espinha dorsal das Virgens ergueu-se da névoa de calor para saudá-lo: St. Thomas a bombordo, o corpo menor de St. John a estibordo, Tortola na cauda. Examinou o mapa e viu Peter Island abaixo de Tortola e a leste de St. John, Norman Island ao sul e mais abaixo, Samson Cay.
Dillon ligou para o aeroporto de St. Thomas e notificou sua aproximação. O controlador disse: — Liberado para pousar em Cruz Bay. Aguarde os funcionários da alfândega e da imigração lá.
Dillon desceu, virando para estibordo, encontrou Samson Cay sem dificuldade e a cruzou a mil pés. Havia um porto pontilhado de iates, um cais, chalés e um bloco de hotéis agrupados entre as palmeiras da praia. A pista de pouso ficava ao norte, sem torre de controle, apenas uma biruta num poste. Havia gente na praia lá embaixo. Alguns se levantaram e acenaram. Ele balançou as asas e continuou voando, viu Cruz Bay quinze minutos depois e fez um pouso perfeito no mar, fora do porto.
Entrou no porto e encontrou a rampa sem dificuldade. Havia vários funcionários uniformizados parados ali. Taxiou, baixou as rodas e subiu a rampa, desligando o motor. Um dos homens da alfândega colocou dois blocos atrás dos pneus.
Dillon desceu.
— Lafayette, estamos aqui.1
Todos riram cordialmente e o pessoal da imigração conferiu seu passaporte, perfeitamente contente com o irlandês, enquanto os funcionários da alfândega examinavam a bagagem. Tudo era doçura e luz e todos partiram com mútuas expressões de boa vontade.
Enquanto se afastavam, uma jovem de uniforme, desta vez em rosa-vivo, que esperava pacientemente ao lado, avançou.
— Estou com seu jipe ??aqui como solicitado, Sr. Dillon. Se puder assinar e me mostrar sua habilitação, pode ir embora.
— Você é muito gentil — disse Dillon, colocando suas malas no banco de trás. Enquanto ele assinava, ela disse:
— Lamento não termos um jipe com marcha automática no momento. Posso conseguir amanhã, teremos uma devolução.
— Não, obrigado, prefiro estar no comando. — Ele sorriu. — Posso deixar você em algum lugar?
— Isso é muito legal de sua parte.
Ela entrou ao lado dele e foram embora. Cerca de trezentos metros adiante, quando chegaram à estrada, ela disse: — Aqui está bom.
Havia um belo conjunto de prédios em frente.
— O que é isso? — ele perguntou.
— Mongoose Junction, nossa versão de shopping center, mas muito mais agradável. Há também um superbar e alguns restaurantes excelentes.
— Virei dar uma olhada algum dia.
Ela saiu. — Vire à esquerda, siga a estrada principal. Caneel Bay fica a poucos quilômetros de distância. Há um estacionamento para residentes. De lá, é uma curta caminhada até a recepção.
— Agradeço sua ajuda — Dillon disse, e foi embora.
O Maria Blanco custara a Santiago dois milhões de dólares e era seu brinquedo preferido. Tinha, evidentemente, tudo o que se possa conceber de luxo e precisava de um capitão com tripulação de cinco ou seis marinheiros.
Santiago estava sentado no convés superior saboreando o sol e uma xícara de um café excelente, com Algaro em pé atrás dele. Na frente estava sentado o capitão, Julian Serra, um homem corpulento, barba preta, de uniforme. Como a maior parte dos empregados, Serra trabalhava para Santiago há anos, tendo participado com frequência de atividades altamente duvidosas.
— Portanto, está vendo, meu caro Serra, temos com um problema em mãos. Dillon vai provavelmente abordar esse tal mergulhador, Bob Carney, quando chegar a St. John.
— Destroços são difíceis de encontrar, señor — disse Serra. — Peritos me contam tê-los perdido por uma questão de metros. Não é fácil. Há muita água ali.
— Concordo — respondeu Santiago. — Ainda assim, acho que a garota deve ter uma resposta, mas pode demorar a voltar. Antes, surpreenderemos Mr. Dillon tanto quanto possível. — Sorriu para Algaro. — Acha que consegue cuidar disso?
— Com prazer, señor — replicou Algaro.
— Ótimo. — Santiago se virou para Serra. — E quanto à tripulação?
— Guerra de imediato. Solona e Mujica, como sempre, e dois bons mergulhadores, como pediu: Javier Noval e Vicente Pinto.
— São de confiança?
— Sí, señor. Absolutamente.
— E somos esperados em Samson Cay?
— Sí, señor, falei com Prieto pessoalmente. Vai querer ficar lá?
— Acho que sim. Podemos talvez lançar âncora na Paradise Beach de Caneel, claro. Vou pensar sobre isso.
Santiago acabou o café.
— Certo. Então, vamos nos mexer.
Dillon gostou de Caneel logo de início. Estacionou o jipe ??e, carregando suas malas, seguiu o caminho. Havia um magnífico restaurante circular em um penhasco acima dele, as laterais abertas. Abaixo, as ruínas de um engenho de açúcar dos tempos da velha plantation. A vegetação era exuberante, palmeiras por toda parte. Ele notou uma loja de presentes à esquerda. Mais importante: a loja menor ao lado dizia Paradise Watersports, de Carney. Ele se lembrou de ter visto o nome no folheto e foi dar uma olhada. Como esperava, havia roupas de mergulho de vários tipos, mas a porta estava trancada e ele continuou para a recepção.
Havia três ou quatro pessoas esperando atendimento, ele largou as malas e voltou para fora. Um bar aberto muito grande tinha um enorme telhado em forma de celeiro, necessidade vital nos climas em que chuvas fortes e instantâneas são comuns.
Além estava Caneel Bay. Viam-se na doca barcos de vários tipos. Junto a outro restaurante, uma simpática praia delimitada por palmeiras, hóspedes gozando ainda o sol na tranquilidade do fim de tarde, dois ou três praticantes de windsurf ao largo. Dillon olhou o relógio. Eram quase cinco e meia e ele começou a se virar para voltar à recepção quando viu um barco chegando.
Era um Sport Fisherman de 35 pés com ponte voadora, elegante e branca, mas o que intrigou Dillon foi a dúzia de tanques de ar empilhada em suportes na popa; quatro pessoas no convés colocavam equipamentos em bolsas de mergulho. Carney estava na ponte voadora, manejando o volante, em jeans e pés descalços, nu da cintura para cima, muito bronzeado, os cabelos louros descoloridos pelo sol. Dillon o reconheceu pela foto no folheto.
O nome do barco era Sea Raider e se deslocava para a ponta do cais. Um dos alunos de mergulho lançou uma corda, Dillon a pegou e habilmente amarrou na popa, então foi até a proa, onde o barco batia nas defesas, pegou o outro cabo e o prendeu.
Dillon acendeu um cigarro, seu Zippo piscando, Carney desligou os motores e desceu a escada.
— Obrigado — ele disse.
Dillon respondeu: — Foi um prazer, Capitão Carney. — Virou-se e foi embora.
Uma recepcionista levou-o até sua cabana num pequeno ônibus. — Toda a península é particular — disse ela enquanto seguiam por uma estrada estreita. — Temos sete praias e, como pode notar, a maioria dos chalés está agrupada ao redor delas.
— Só vi dois restaurantes até agora — comentou.
— Sim, Sugar Mill e Beach Terrace. Há um terceiro no fim da península, Turtle Bay, que é mais formal. Você sabe, terno e gravata. É maravilhoso para uma bebida à noite. Você olha para fora da Windward Passage e vê dezenas de pequenas ilhas, Carval Rock, Whistling Cay. Muito mais longe verá Jost Van Dyke e Tortola, que estão nas British Virgins.
— Parece idílico — disse ele. Ela freou em um círculo ao lado de um prédio de dois andares, de telhado plano, cercado de árvores e arbustos de todo tipo.
— Aqui estamos, Chalé Sete.
Havia degraus até o nível superior.
— Não é tudo um só, então? — perguntou Dillon.
Ela abriu a porta para um pequeno vestíbulo. — As pessoas às vezes alugam tudo, mas está dividido em duas unidades. 7D e 7E.
Ela destrancou a 7D e entrou na frente. Havia um banheiro excelente, uma área de bar com geladeira. O quarto com sala de estar era enorme e muito bem decorado, com piso de ladrilhos, cadeiras confortáveis e um sofá, venezianas nas janelas, dois ventiladores enormes girando no teto.
— Gostou? — perguntou ela.
— Eu diria que sim. — Dillon assentiu com a cabeça para a enorme cama. — Jesus, mas o cara precisa ser corredor olímpico para pegar a esposa naquela coisa.
Ela riu e abriu a porta dupla que dava para o grande terraço. Havia um declive gramado, árvores e uma pequena praia lá embaixo. Três ou quatro iates de grande porte estavam ancorados a certa distância da costa.
— Paradise Beach — disse ela. Havia outra praia bem à direita, com uma fileira de chalés.
— E aquele lugar lá? — ele perguntou.
— Scott Beach e Turtle Bay, um pouco mais adiante. Pode caminhar até lá em quinze minutos, embora haja um serviço de ônibus de cortesia com paradas espalhadas pelo terreno.
Bateram na porta, e ela foi supervisionar o empregado que deixava a bagagem.
— Bem, acho que é tudo.
— Havia a questão de um telefone — disse Dillon. — Sei que não existem nos chalés, eu entendo.
— Mas que coisa, eu estava esquecendo disso.
Ela abriu a bolsa de transporte e tirou um telefone celular, além de uma bateria sobressalente e um carregador. Colocou tudo na mesa de centro. — Seu número e as instruções estão aí. — Ela riu. — Agora espero que realmente seja tudo.
Dillon abriu a porta para ela. — Você foi muito gentil, obrigado.
— Ah, mais uma coisa, nosso gerente geral, Mr. Nicholson, pede desculpas por não estar aqui para cumprimentá-lo. Ele tinha negócios em St. Thomas.
— Está tudo bem. Tenho certeza de que nos encontraremos mais tarde.
— Acho que ele também é irlandês — ela disse, e saiu.
Dillon abriu a geladeira do bar, descobrindo todo tipo de bebida que se pode imaginar, incluindo duas meias garrafas de champanhe. Ele abriu uma delas, serviu uma taça, depois foi para o terraço e ficou olhando a água.
— Bem, meu velho, isso vai demorar — ele disse suavemente e bebeu o champanhe com prazer consciente.
No fim, o brilho da água acabou sendo tentador demais, e, entrando, Dillon desfez as malas e procurou seu short de banho. Logo se lançava gramado abaixo até a pequena praia. A água estava incrivelmente morna e muito clara. Ele avançou e começou a nadar, ouviu um espadanar repentino à direita e uma enorme tartaruga apareceu, olhou para ele com curiosidade e depois se afastou calmamente.
Dillon riu alto de puro prazer, então nadou preguiçosamente na direção dos iates ancorados, virando depois de uns cinquenta metros para nadar de volta.
Atrás dele, o Maria Blanco contornava a ponta de Caneel Bay e lançava âncora a cerca de trezentos metros de distância.
Santiago mudou de ideia sobre Samson Cay depois que o capitão Serra lhe trouxe uma mensagem da sala de rádio. Um telefonema de bordo para terra confirmara que Dillon tinha chegado a Caneel Bay. — Ele reservou o Chalé 7 — disse Serra.
— Interessante — disse Santiago. — É a melhor acomodação do resort. — Ele pensou sobre isso, batendo os dedos na mesa, e tomou sua decisão. — Conheço bem, tem vista para a Paradise Beach. Ancoramos lá, Serra, pelo menos esta noite.
— Como quiser, señor.
Serra voltou para a ponte e Algaro, que estava na amurada, serviu a Santiago mais café.
— Quero que vá a terra esta noite — disse Santiago a Algaro. — Veja o que Dillon está armando. Se sair, siga-o.
— Arranjo algum problema para ele? — perguntou Algaro, esperançoso.
— Algo leve, Algaro. — Santiago sorriu. — Nada demais.
— Com prazer, señor.
Dillon não estava com disposição para nada muito formal, e vestia camisa leve de algodão branca e calça de linho creme, ambas Armani, enquanto caminhava pela escuridão da noite em direção a Caneel Beach. Levava uma pequena lanterna num bolso, fornecida pela administração para ajudar nas passagens escuras. Fazia uma noite tão gloriosa que ele não precisou dela. O Restaurante Terrace já estava bem cheio, mas ele sabia que os americanos gostavam de jantar cedo. Descontou um cheque de viagem de quinhentos dólares na recepção e tentou o bar.
Ele não compartilhava o gosto caribenho pelos ponches de rum e drinques de frutas, e se contentou com um antiquado coquetel de vodca e martini, que a amável garçonete trouxe para ele rapidamente. Um grupo de músicos se instalava no pequeno coreto e, do outro lado do mar, ele podia ver as luzes de St. Thomas. Era realmente muito agradável, fácil demais esquecer que tinha um trabalho a fazer. Suspirou, terminou sua bebida, assinou e foi até o restaurante, onde se apresentou ao maître e se sentou.
O menu era tentador. Pediu vieiras grelhadas, salada Caesar, seguida de cauda de lagosta caribenha. Nada de Krug, mas uma meia garrafa de Veuve Clicquot muito aceitável completava o quadro.
Terminou por volta das nove e foi à recepção. Algaro estava sentado numa poltrona de couro lendo o New York Times. A funcionária de serviço era a mesma que o levara à cabana. Sorriu-lhe.
— Está tudo bem, Mr. Dillon?
— Perfeito. Diga-me uma coisa, conhece um bar chamado Jenny's Place?
— Claro que conheço. Fica à beira-mar, imediatamente depois de Mongoose Junction, no caminho para a cidade.
Ele agradeceu e se afastou, e, caminhando ao longo do cais, acendeu um cigarro. Algaro saiu atrás dele pelo estacionamento, até um Land Rover.
Felipe Guerra, o imediato do Maria Blanco, estava ao volante.
Algaro entrou e Guerra disse: — Encontrou?
— Estava perto dele. Perguntou sobre aquele bar, Jenny's Place. Sabe qual é? Em Cruz Bay.
— Certo.
— Vamos dar uma olhada. Parece que ele pretende fazer uma visita ao lugar.
— Talvez possamos torná-la mais interessante para ele — disse Guerra e arrancou.
Dillon passou pelo centro comercial Mongoose Junction, localizou o Jenny's Place, deu a volta e estacionou. Caminhou na noite quente ao longo do porto, subiu a escada, deu uma olhada no letreiro de néon vermelho e entrou. O lado do café estava cheio, Mary Jones anotava os pedidos enquanto duas garçonetes, uma branca, a outra negra, agitavam-se em frenesi tentando servir a todos. O bar também estava cheio, embora Billy Jones parecesse não ter dificuldade em se virar sozinho.
Descobriu um banco vago no balcão e esperou até que Billy Jones estivesse disponível.
— Uísque irlandês, qualquer um, com água.
Dillon reparou em Bob Carney, sentado na outra ponta do longo balcão. Carney falava com alguns homens com ares de marinheiros.
Billy trouxe-lhe o uísque, e Dillon disse: — Billy Jones?
— E você quem é? — perguntou o outro, apreensivo.
— O nome é Dillon, Sean Dillon. Estou instalado em Caneel. Jenny disse que viesse cumprimentá-lo.
— Jenny? — Billy franziu a testa. — Quando esteve com Miss Jenny?
— Em Londres. Fui com ela à cremação de Henry Baker.
— Foi? — Billy chamou Jenny. — Mulher, venha até aqui. — Ela terminou de anotar um pedido, então se aproximou. — Minha mulher, Mary. Conte-lhe o que acaba de me dizer.
— Estive com Jenny em Londres. — Dillon estendeu a mão. — Sean Dillon. Estive no enterro, não que houvesse muito a fazer. Ela disse que ele era ateu, por isso nos limitamos a comparecer à cremação.
Mary se benzeu.
— Que Deus o tenha em paz, mas na realidade ele pensava assim mesmo. E Jenny, o que é feito dela? Onde está?
— Está abalada. Disse que Baker tinha uma irmã.
Mary franziu a testa e olhou para o marido. — Nunca soubemos disso. Tem certeza, mister?
— Oh, sim, ele tinha uma irmã morando na França. Jenny não quis dizer onde, simplesmente voou de Londres para Paris. Queria levar as cinzas para a irmã.
— E quando ela vai voltar?
— Tudo o que ela disse foi que precisava de alguns dias para aceitar a morte, essas coisas. Como aconteceu de eu estar vindo aqui, ela me pediu para dizer olá.
— E eu agradeço — disse Mary. — Temos estado tão preocupados! — Um cliente chamou de uma das mesas. — Tenho que ir. Volto logo.
Ela se afastou em passo rápido, e Billy sorriu.
— Eu também, mas nos vemos depois. Fique à vontade, homem, fique à vontade.
Foi servir três clientes que protestavam. Dillon saboreou seu uísque e olhou em volta. Algaro e Guerra estavam num compartimento de canto. Não olharam para ele, aparentemente conversando. Os olhos de Dillon mal se detiveram, e, no entanto, ele reconheceu Algaro da recepção do Caneel — o cabelo escovinha, a cara de poucos amigos, a cicatriz.
— Judas Iscariotes de volta à vida — murmurou Dillon. — Qual é seu jogo, meu velho?, pensou, já que aprendera à própria custa a não acreditar em coincidências.
Os dois homens com quem Carney conversava haviam saído e ele estava sozinho agora, o banquinho ao lado dele vazio. Dillon terminou sua bebida e foi até ele. — Importa-se se eu me sentar?
O bronzeado intensificava o azul dos olhos dele.
— Deveria me importar?
— Dillon, Sean Dillon. — O irlandês içou-se para o banco. — Estou instalado em Caneel, Chalé 7. Jenny Grant disse que o procurasse.
— Conhece Jenny?
— Estive com ela em Londres — disse Dillon. — Seu amigo Henry Baker morreu lá num acidente.
— Ouvi falar — disse Carney.
— Jenny estava lá para o inquérito e o funeral. — Dillon acenou com a cabeça para Billy Jones, que se aproximou. — Vou querer outro irlandês. Dê ao capitão Carney o que ele quiser.
— Vou tomar uma cerveja — disse Carney. — Jenny o enterrou em Londres?
— Não — Dillon disse a ele. — Cremou. Ele tinha uma irmã na França.
— Nunca soube disso.
— Jenny me disse que poucas pessoas sabiam. Parece que ele preferia assim. Ela quis levar as cinzas para a irmã. A última vez que a vi, voava para Paris. Disse que estaria de volta em alguns dias.
Billy trouxe o uísque e a cerveja e Carney disse: — Então você está aqui de férias?
— Certo. Cheguei esta tarde.
— Você seria o cara que veio no hidroavião Cessna?
— Sim, voei de Antígua — Dillon concordou.
— De férias?
— Mais ou menos isso. — Dillon acendeu um cigarro. — Estou interessado em fazer um pouco de mergulho e Jenny disse que você é o melhor.
— Foi simpático da parte dela.
— Ela disse que você ensinou ao Henry.
— Isso é verdade — Carney concordou. — Henry era um bom mergulhador, tolo, mas ainda assim muito bom.
— Por que diz tolo?
— Nunca vale a pena mergulhar sozinho, você deve sempre ter um amigo com você. Henry nunca me ouvia. Ele simplesmente se levantava e mergulhava quando queria, e isso não é bom quando se mergulha regularmente. Acidentes podem acontecer, não importa o quanto você planeje bem as coisas. — Carney bebeu mais um pouco de cerveja e olhou diretamente para Dillon. — Pois então, eu diria que você é o tipo de homem que sabe disso, Sr. Dillon.
Ele tinha o sotaque lento e fácil do sul-americano, como se tudo o que dissesse fosse cuidadosamente considerado.
Dillon disse: — Bem, no fim foi um acidente que o matou em Londres. Olhou para o lado errado e desceu da calçada na frente de um ônibus de Londres. Estava morto em um segundo.
Carney disse calmamente: — Conhece o velho ditado árabe? Todos têm um compromisso em Samarra. Você escapa da morte em um lugar, ela vai encontrá-lo em outro. Pelo menos para Henry foi rápido.
— Uma consideração extremamente filosófica — Dillon disse a ele.
Carney sorriu. — Sou um sujeito extremamente filosófico, Sr. Dillon. Tive duas passagens pelo Vietnã. Tudo é bônus desde então. Então, quer mergulhar?
— Certo.
— E você é bom?
— Eu me viro. Mas estou sempre disposto a aprender.
— Muito bem. Eu o verei no cais de Caneel às nove da manhã.
— Vou precisar de equipamento.
— Não há problema. Eu abro a loja.
— Ótimo. — Dillon hesitou. — Diga-me uma coisa. Está vendo os caras sentados no reservado do canto? Por acaso sabe quem são?
— Sei — disse Carney. — Trabalham num grande iate, de um sujeito chamado Santiago. Está normalmente fundeado em Samson Cay, no lado britânico. O mais novo é o imediato, Guerra. O outro é um filho da mãe chamado Algaro.
— Por que diz isso?
— Quase matou um pescador do lado de fora de um dos bares daqui há uns nove meses. Teve sorte de escapar sem pena de prisão. Cobraram dele uma multa muito pesada, mas seu chefe pagou, pelo que ouvi. É o tipo de gente a evitar por aqui.
— Certamente vou me lembrar disso. — Dillon se levantou. — Então, até amanhã. — E saiu.
Billy foi até ele. — Quer outra cerveja, Bob?
— O que eu preciso é de algo para comer, minha mulher estando fora e tudo mais — disse Carney. — O que você achou dele?
— Dillon? Ele disse que estava em Londres com Jenny. Aconteceu de estar vindo aqui e ela disse a ele para nos procurar.
— Bem, com certeza foi uma coincidência e tanto.
Carney pegou seu copo e notou que Algaro e Guerra se levantaram e saíram. Ele quase foi atrás deles, mas que diabos, não era problema dele, fosse o que fosse, e em todo caso Dillon parecia perfeitamente capaz de cuidar de si mesmo, ele tinha certeza disso mais do que tudo na vida.
Dillon dirigiu para fora de Cruz Bay, reduzindo a marcha para subir a colina íngreme da cidade, pensando em Carney. Gostou dele imediatamente, homem calmo e quieto com enorme força interior, mas então, lembrando de seu passado, isso fazia sentido.
Ele avançou se lembrando de que em St. John o lado certo da estrada era o esquerdo, como na Inglaterra. De repente percebeu os faróis atrás dele, aproximando-se muito rápido. Esperava ser ultrapassado, não foi, e quando o veículo atrás colou em sua traseira viu que estava em apuros. Reconheceu o carro como um Land Rover pelo espelho retrovisor e um instante antes de baterem nele pisou forte no acelerador e se afastou tão rápido que passou direto pela entrada para Caneel Bay.
O Land Rover era mais rápido e subitamente estava a seu lado. Dillon captou um breve vislumbre do rosto de Algaro, e então o Land Rover guinou para cima do jipe e ele saiu da estrada para o mato.
Dillon saiu do carro e ficou atrás de uma árvore. O Land Rover parou e houve silêncio por um momento. De repente, uma escopeta rugiu, as balas cortando os galhos acima dele. Novo silêncio e depois risos. Uma voz disse: — Bem-vindo a St. John, Sr. Dillon — e o Land Rover foi embora.
Dillon esperou até que o som diminuísse na noite, então voltou para o jipe, engatou a tração nas quatro rodas, deu ré na encosta para a estrada e dirigiu de volta para a entrada de Caneel.
Em Londres eram três e meia da manhã quando o telefone tocou na cabeceira da cama de Charles Ferguson. O brigadeiro acordou no mesmo instante e estendeu a mão.
— Ferguson.
Dillon estava no terraço com uma bebida numa mão e o celular na outra.
— Sou eu — disse ele. — Telefonando das tranquilas ilhas Virgens, que não são assim tão tranquilas.
— Pelo amor de Deus, Dillon, sabe que horas são?
— Sei. Hora de fazer algumas perguntas e, espero, de obter respostas. Dois gorilas acabam de me jogar para fora da estrada, meu velho, e adivinhe quem eram? Tripulantes do iate de Santiago, o Maria Blanco. Deram um tiro de escopeta na minha direção.
Ferguson se sentou.
— Tem certeza?
— Claro que tenho. — Dillon não estava especialmente zangado, mas fingiu estar. — Ouça, quero saber o que está havendo. Só estou neste maldito lugar há algumas horas e eles já me conhecem pelo nome. Diria que estavam me esperando. Como isso é possível, brigadeiro?
— Não sei — respondeu Ferguson. — É tudo o que posso dizer por enquanto. Já está instalado?
— Brigadeiro, estou com uma vontade insana de rir — Dillon disse a ele. — Mas sim, estou instalado, a casa é ótima, a vista sublime e vou mergulhar com Bob Carney pela manhã.
— Bom, vá em frente então, e tome cuidado.
— Tomar cuidado? É tudo o que tem a dizer?
— Pare de choramingar, Dillon — Ferguson disse a ele. — Escolhi você para o trabalho exatamente por esse tipo de coisa. Você ainda está inteiro, certo?
— Por pouco.
— Estão tentando assustá-lo, só isso.
— Só isso, diz ele.
— Deixe comigo. Ligo depois. — Ferguson desligou e ficou ali deitado, pensando naquilo. Logo depois dormia novamente.
Dillon foi para o pequeno bar. Havia saquinhos de chá e café. Ferveu a água e optou por uma xícara de chá, levando-a para o terraço. Ficou olhando para a baía e os barcos, alguns deles ainda iluminados. Ele estava mais convencido do que nunca de que alguma coisa estava errada, e ele não tinha gostado do tiro. Fez com que se sentisse nu. Claro, havia uma resposta para aquilo, uma visita ao endereço em St. Thomas que Ferguson lhe dera, o especialista em hardware. Podia ir lá à tarde, depois do mergulho com Carney.
No momento em que Algaro e Guerra voltaram ao Maria Blanco, reportaram-se a Santiago. O chefe disse, depois de escutar: — Vocês agiram bem.
Algaro disse: — Ele não fará nada, não é, señor, ir à polícia, quero dizer?
— Claro que não, ele não quer que as autoridades saibam por que ele está aqui, essa é a beleza da coisa. Esse U-boat está em águas americanas, então legalmente a descoberta deveria ser informada à Guarda Costeira, mas essa é a última coisa que Dillon e este brigadeiro Ferguson querem.
Algaro disse: — Entendo.
— Vão para a cama agora — disse Santiago.
Algaro partiu e Santiago foi para a amurada. Podia ver uma luz no Chalé Sete. Naquele momento ela se apagou. — Durma bem, Sr. Dillon — ele disse suavemente, virou-se e desceu.
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1 O coronel Charles Egbert Stanton (1858-1933) disse essa frase num discurso em Paris em 4 de julho de 1917, no túmulo do herói da Revolução Francesa e da independência americana, o Marquês de Lafayette, numa garantia de apoio dos americanos ao povo francês na Primeira Guerra Mundial. A famosa citação é às vezes erroneamente atribuída ao general John J. Pershing, de quem Stanton era ajudante.
9
Eram nove da manhã seguinte quando Ferguson chegou a Downing Street. Um funcionário conduziu-o ao andar de cima e levou-o ao gabinete, onde o primeiro-ministro assinava documentos um atrás dos outro. Ele levantou os olhos.
— Ah, ei-lo, brigadeiro. O diretor-adjunto e Sir Francis não me largam por causa dessa coisa das ilhas Virgens. É verdade que contratou esse tal Dillon?
— Sim.
— Um homem com aquela ficha? Pode me dizer por quê?
— Ele é o homem certo para aquele trabalho. Acredite que não acho nada admirável no passado de Dillon, primeiro-ministro. O trabalho dele há alguns anos para o IRA é conhecido, embora nada tenha sido provado contra ele. O mesmo se aplica a sua atuação no cenário internacional. Ele é uma arma de aluguel, primeiro-ministro. Até os israelenses o usaram quando lhes convinha.
— Não posso dizer que isso me agrade.
— Se quiser, posso mandá-lo voltar.
— Mas prefere não...
— É o homem certo para esse trabalho em particular. Para ser franco, é um trabalho sujo, e desde nossa última conversa ficou claro que as pessoas com quem ele terá de lidar jogam realmente muito duro.
— Entendo. — O primeiro-ministro suspirou. — Muito bem, brigadeiro, deixo a seu critério, mas tente fazer as pazes com Carter.
— Tentarei, primeiro-ministro — disse Ferguson, e se retirou.
Jack Lane o esperava no Daimler.
— Afinal, o que era? — perguntou, enquanto se afastavam.
Ferguson contou. — Ele tem uma certa razão, evidentemente.
— Conhece minha opinião. Sempre fui contra. Não confiaria minimamente no Dillon.
— Há uma coisa interessante no Dillon: ele sempre foi conhecido por ter um certo senso de honra. Quando dá sua palavra, mantém-na, e espera que os outros façam o mesmo.
— Acho difícil de acreditar, sir.
— Sim, imagino que a maioria ache.
Ferguson pegou o telefone do carro e ligou para o escritório de Carter. Estava na Câmara dos Comuns, com Pamer.
— Mande imediatamente um recado para eles — disse Ferguson à secretária. — Preciso ver os dois com urgência. Vou estar no Terrace dentro de quinze minutos. — Desligou e se virou para Lane: — Pode vir comigo, Jack, você nunca esteve lá, esteve?
— O que está havendo, sir?
— Espere e verá, Jack, espere e verá.
A chuva fustigava o Tâmisa numa garoa miúda, deixando o Terrace vazio. Ferguson estava no parapeito segurando um grande guarda-chuva de golfista, e Lane se abrigava ali com ele.
— Isso não o enche de uma sensação de majestade e admiração, Jack, a Mãe dos Parlamentos e todo esse tipo de coisa? — Ferguson perguntou.
— Não com a chuva no meu cangote, sir.
— Ah, aí estão vocês.
Viraram-se e viram Carter na entrada do Terrace. Abriu um guarda-chuva preto e foi até eles, acompanhado de Pamer.
— Não está aconchegante isso aqui? — comentou Ferguson.
— Não estou com disposição para suas tentativas débeis de humor, Ferguson, agora o que você quer? — Carter exigiu.
— Acabo de falar com o PM. Sei que você andou fazendo queixinhas outra vez, meu velho. Não lhe serviu de nada. Ele disse para ir em frente e usar meu julgamento.
Carter estava furioso, mas conseguiu se controlar e olhou de soslaio para Lane.
— Quem é ele?
— Inspetor Lane, cedido pelo Special Branch.
— É contra o regulamento. Você não pode fazer isso.
— Pode ser, mas eu não sou marinheiro do seu navio. Eu mesmo comando o meu, e já que tenho pouco tempo, vamos ao trabalho. Dillon chegou a St. John por volta das cinco da tarde horário de ontem. Foi atacado por dois tripulantes do barco de Santiago, o Maria Blanco, que tiraram seu jipe da estrada e atiraram nele de escopeta.
— Meu Deus! — disse Pamer, horrorizado.
— Ele está bem? — perguntou Carter, de cenho carregado.
— Está. É uma bola de borracha, o nosso Dillon, sempre ricocheteia. Pessoalmente, acho que eles estavam experimentando, apenas incomodando. Claro que o interessante é: como eles sabiam quem ele era e como sabiam que estava lá?
— Olhe aqui — começou Pamer —, espero que não esteja sugerindo qualquer falha de segurança da nossa parte.
— Cale-se, Francis — disse Carter. — Ele tem razão. Esse tal Santiago está bem informado demais. — Virou-se para Ferguson. — O que vai fazer em relação a isso?
— Na verdade, estava pensando numas curtas férias — respondeu o brigadeiro. — Sabe como é, sol, mar e areia, palmeiras ondulantes...
Carter assentiu com um aceno de cabeça.
— Me mantém informado?
— Claro, meu velho. — Ferguson sorriu. — Vamos, Jack. Temos muito a fazer.
No caminho de volta para o ministério, Ferguson disse a seu motorista para parar ao lado de uma van-lanchonete no Victoria Embankment.
— Este homem faz a melhor xícara de chá de Londres, Jack.
O proprietário o cumprimentou como um velho amigo.
— Dia péssimo, brigadeiro.
— Foi pior no Hook, Fred — disse o brigadeiro e caminhou com sua xícara de chá até a beira do Tâmisa. Quando Lane recebeu sua xícara, ele disse a Fred:
— O que ele quis dizer com Hook, um gancho?
— Era um lugar muito ruim, pior posição da Coreia inteira. Tantos cadáveres que cada vez que você cavava outra trincheira, braços e pernas saíam.
— Você conhecia o brigadeiro, então?
— Conhecia? Eu era sargento de pelotão quando ele era segundo-tenente. Ele ganhou sua primeira Cruz Militar me carregando nas costas sob fogo. — Fred sorriu. — É por isso que nunca cobro o chá dele.
Lane, impressionado, juntou-se a Ferguson e se apoiou no parapeito sob o guarda-chuva.
— Tem um fã bem ali, sir.
— Fred? Contos de velhos soldados. Não dê ouvidos. Vou precisar do Learjet. Voo direto para St. Thomas, deve ser possível.
— Acredito que sim, com esses novos tanques que a RAF desenvolveu. Estenderam o alcance para pelo menos quatro mil milhas, sir.
— Aí está, então. — Ferguson olhou o relógio. — Pouco depois das dez. Quero aquele Learjet pronto para deixar Gatwick o mais tardar à uma, Jack. Alta prioridade. Considerando a diferença de fuso horário, posso estar em St. Thomas em algum momento entre cinco e seis no horário deles.
— Quer que vá junto, brigadeiro?
— Não. Você vai ter que aguentar o barco.
— Vai precisar de alojamento. Eu trato disso.
— Reservei quarto no tal Caneel quando fiz a reserva de Dillon — replicou Ferguson.
— Quer dizer que esperava que acontecesse o que aconteceu?
— Qualquer coisa do tipo.
— Brigadeiro — disse Lane, exasperado —, o que está acontecendo realmente?
— Quando você descobrir, Jack, conte-me.
Santiago acordou cedo, deu um mergulho e estava na mesa da popa do Maria Blanco, saboreando seu café sob o sol matinal, quando Algaro lhe levou o telefone.
— É Sir Francis — disse ele.
— Aqui está uma manhã magnífica — disse Santiago. — Como está Londres?
— Fria e úmida. Estou prestes a comer um lanche e depois passar a tarde inteira em intermináveis reuniões do Comitê. Olha, Max, Carter foi ao primeiro-ministro e tentou chutar Ferguson por empregar Dillon.
— Não imaginava que Carter fosse tão estúpido. Ferguson conseguiu apoio, claro.
— Sim, o PM o apoiou ao máximo. Mais preocupante, Ferguson pediu outra reunião comigo e Carter, e nos disse que Dillon havia sido atacado em sua primeira noite em St. John. Que diabos foi isso?
— Minha gente só deu um pequeno aperto nele, Francis. No fim das contas, como você mesmo deixou claro, ele sabe da minha existência.
— Sim, mas Ferguson agora quer saber como você sabia quem era Dillon e que estava em St. John. Disse que você está bem informado demais.
— Ele sugeriu que desconfia de onde estou obtendo informação?
— Não. Mas disse que ia encontrar Dillon em St. John.
— Ah, é? Isso vai ser interessante. Quero muito encontrá-lo.
Pamer disse, um desespero genuíno brotando de suas palavras: — Porra, Max, eles sabem do seu envolvimento. Quanto tempo até que saibam do meu?
— Você não está no conselho de administração de nenhuma empresa, Francis, e nem seu pai. Nenhuma menção ao nome Pamer em parte alguma, e o melhor de todo esse caso é que é uma guerra particular. Como eu já disse, Ferguson não quer que as autoridades americanas participem disso. Somos como dois cachorros brigando pelo mesmo osso.
— Mesmo assim, estou preocupado — disse Pamer. — O que faço?
— Mantenha-me informado, Francis, e controle os nervos. É só o que pode fazer.
Santiago desligou e Algaro disse: — Mais café, señor?
Santiago sacudiu a cabeça. — O brigadeiro Ferguson está chegando.
— Aqui a Caneel? — Algaro sorriu. — E o que gostaria que eu fizesse sobre isso, señor?
— Oh, vou pensar em algo — disse Santiago e voltou a seu café. — Nesse ínterim, vamos descobrir o que nosso amigo Dillon está fazendo esta manhã.
Guerra foi até Caneel Beach num bote de borracha com um dos mergulhadores, Javier Noval. Ziguezaguearam entre outras embarcações de pequeno porte que se encontravam na doca e aportaram no cais. Estavam de short, camiseta e óculos escuros — dois autênticos turistas. Pararam entre outras pequenas embarcações no cais, Guerra desligou o motor de popa e Noval amarrou. Naquele momento, Dillon apareceu no fim do cais. Usava agasalho de treino preto e carregava um par de toalhas.
— É ele — disse Guerra a Noval. — Vá em frente. Vou ficar fora de vista, caso ele se lembre de mim da noite passada.
Bob Carney carregava garrafas de ar comprimido para o convés de um pequeno barco de mergulho de cerca de oito metros. Viu Dillon, acenou e foi ao encontro dele. Passaram por Noval, que parou para acender um cigarro perto o bastante para ouvir o que diziam.
Carney disse: — Vai precisar de algumas coisas. Vamos até a loja de mergulho.
Eles se afastaram. Noval esperou e depois os seguiu.
Havia uma grande variedade de equipamentos. Dillon escolheu um traje preto e verde com três quartos de comprimento em náilon acolchoado, nada muito pesado, máscara, nadadeiras e luvas. — Você já experimentou um destes? — Carney abriu uma caixa. — Um computador de mergulho Marathon. A maravilha da atualidade. Leituras automáticas de profundidade, tempo embaixo d'água, tempo seguro restante. Até diz quanto tempo você deve esperar para subir.
— Isso é perfeito para mim — Dillon disse a ele. — Sempre fui péssimo em aritmética mental.
Carney detalhou a conta. — Vou colocar tudo na sua conta do hotel.
Dillon assinou. — Então, o que você planejou?
— Oh, nada muito extenuante, você verá. — Carney sorriu. — Vamos indo — e ele abriu caminho para a saída.
Meia hora depois, Noval voltou para o bote.
— O outro se chama Carney — disse ele a Guerra. — É ele que tem a concessão de mergulho aqui. Paradise Watersports.
— Então eles vão mergulhar? — Guerra perguntou.
— Acho que vão. Pelo menos Dillon estava na loja com ele comprando equipamento. — Olhou para cima. — Lá vêm eles.
Dillon e Carney passaram pelo cais e entraram no barco de mergulho. Carney ligou o motor e saíram para a baía, abrindo caminho entre as embarcações ancoradas.
Guerra disse: — Não tem nome naquele barco.
— Privateer é o nome — Noval disse. — Perguntei a um dos guardas da praia. Olha, tenho feito a maior parte dos meus mergulhos em Porto Rico, mas já ouvi falar desse Carney. Ele é importante.
— É melhor contar a Santiago — disse Guerra.
Guerra ligou o motor de popa e eles se afastaram.
O barco de mergulho, Privateer ou Corsário, voava a vinte nós sobre o mar agitado. Dillon se agarrava firmemente.
— Tem tendência a enjoar? — perguntou Carney.
— Que eu saiba, não — gritou Dillon, sobrepondo-se ao barulho do motor.
— Ótimo, porque isso vai piorar antes de melhorar.
As vagas avançavam imponentes, longas e abruptas, e o Privateer subia nelas e mergulhava do outro lado. Dillon se manteve firme, admirando a paisagem incrível, os picos das ilhas ao redor. E então eles se aproximaram de uma ilhota e entraram nas águas mais calmas de uma baía.
— Congo Cay — disse Carney. — Um belo local de mergulho. — Ele soltou o ferro. — De oito a trinta metros. Muito pouca corrente. Se não quiser ir muito fundo, pode se manter sobre o recife.
— Parece o tipo de lugar a que você leva os novatos — disse Dillon.
— O tempo todo — Carney disse, calmamente. Dillon entrou em seu equipamento rapidamente e prendeu um cinto de peso em volta da cintura. Carney já havia prendido os tanques nos coletes infláveis e ajudou Dillon com o dele, sentado na lateral do barco. Dillon calçou as luvas.
Carney disse: — Vejo você na âncora.
Dillon assentiu com um aceno de cabeça, colocou a máscara, certificou-se de que o ar afluía sem dificuldade ao bocal e deixou-se cair de costas na água. Flutuou por baixo da quilha do barco até avistar a corrente da âncora e a seguiu até o fundo.
Ele parou com a mão na âncora e procurou Carney, descendo para se juntar a ele através de um enorme cardume de peixes prateados. Naquele momento, algo extraordinário aconteceu. Um tubarão negro de recife, de cerca de três metros de comprimento, saiu disparado da escuridão, espalhando nuvens de peixes à frente; desviou-se de Carney e desapareceu tão rápido quanto havia surgido.
Carney fez sinal de OK com o indicador e o polegar. Dillon respondeu da mesma forma e o seguiu ao longo do recife. Havia esponjas tubulares de um amarelo brilhante em toda parte e, quando eles ultrapassaram a borda, viram esponjas laranjas presas às faces da rocha. Os afloramentos de coral eram multicoloridos e muito bonitos, e em um ponto Carney parou, apontando, e Dillon viu uma enorme arraia jamanta passar à distância, asas ondulando em câmera lenta.
Foi um mergulho calmo, agradável, mas sem nada de especial, e meia hora depois Dillon seguia Carney corrente acima, logo chegando à tona. Carney se içou com a facilidade da experiência, pela borda de popa, puxando em seguida seu equipamento. Dillon subiu logo a seguir.
Carney se ocupou prendendo novos tanques nos coletes e foi puxar a âncora. Dillon colocou uma toalha nos ombros e acendeu um cigarro.
— O tubarão do recife — disse ele. — Acontece com frequência?
— Na verdade, não — disse Carney.
— O bastante para causar ataque cardíaco em algumas pessoas.
— Eu mergulho há anos — disse Carney a ele — e nunca achei os tubarões um problema.
— Nem mesmo um grande branco?
— Com que frequência se vê um desses? Não, só tubarões-lixa em geral e eles não são problema. Por aqui há tubarões de recife de vez em quando ou tubarões-limão. Claro, eles podem ser um problema, mas quase nunca. Somos grandes e eles são grandes e só querem ficar fora do caminho. E então, gostou do mergulho?
— Foi legal — disse Dillon, encolhendo os ombros, e acendeu um cigarro.
— O que quer dizer que gostaria de um pouco mais de excitação. — Carney ligou o motor. — Muito bem, vamos a um dos meus mergulhos para gente crescida.
Passaram por acaso na frente do Maria Blanco, que continuava ancorado ao largo de Paradise Beach. Guerra, na ponte de comando, perscrutava a área com binóculos, e reconheceu o barco.
— Largaram âncora — disse ele ao capitão Serra — e içaram a bandeira de mergulho.
Serra folheou um guia dos locais de mergulho das ilhas Virgens.
— Carval Rock — informou. — É onde estão mergulhando.
Algaro entrou e segurou a porta para Santiago, de blazer azul e boné de capitão, com a pala guarnecida em dourado. — O que está havendo?
Serra entregou-lhe os binóculos.
— Carney e Dillon estão mergulhando ali — apontou Serra.
— Não pode ser o local, pode? — perguntou Santiago.
— Nem pensar — respondeu Serra. — Milhares de pessoas mergulham ali.
— Não importa — disse Santiago. — Baixe a lancha e vamos dar uma olhada. Veremos do que são capazes esses seus dois mergulhadores, Noval e Pinto.
— Muito bem, señor, vou fazer a coisa andar —, e Serra saiu, Guerra atrás.
Algaro disse: — Devo ir também, señor?
— Por que não? — disse Santiago. — Mesmo que Dillon o veja, não importa. Ele sabe que você existe.
O rochedo era magnífico, erguendo-se de um mar muito turbulento, pássaros de todos os tipos empoleirados na crista, gaivotas descendo em câmera lenta no vento forte.
— Carval Rock — disse Carney. — Classificado como mergulho avançado. Desce a uns oitenta pés. Do outro lado há o naufrágio de um Cessna que caiu anos atrás. Há ravinas agradáveis, fissuras, um ou dois túneis curtos e maravilhosos penhascos de rocha e coral. O problema é a corrente forte. Causada pelo movimento das marés em Pillsbury Sound.
— Forte quanto? — Dillon perguntou, enquanto prendia seu cinto de lastro.
— Um ou dois nós é bem comum. Acima de dois nós é muito difícil. — Ele olhou e balançou a cabeça. — E eu diria que hoje são três nós.
Dillon ergueu o tanque e o vestiu. — Parece que pode ser interessante.
— O enterro é seu.
Carney vestiu seu equipamento. Dillon debruçou-se para lavar a máscara e viu uma lancha branca se aproximar.
— Temos companhia.
Carney se virou para ver.
— Duvido. Nenhum professor de mergulho que eu conheça traria os alunos para mergulhar aqui hoje. Devem ir para um lugar mais fácil.
As ondas estavam enormes agora, o Privateer subindo e descendo na linha da âncora. Dillon saltou da amurada, fez uma pausa para verificar seu suprimento de ar e começou a descer para o que parecia ser embaixo uma floresta densa. Parou no fundo, esperando até que Carney o alcançasse. Ele acenou e se virou para a rocha. Dillon o seguiu, surpreso com a força da corrente que o empurrava. Foi quando percebeu uma corrente de bolhas brancas à sua esquerda e viu uma âncora descer.
Na lancha, Santiago sentou-se na casa do leme enquanto Serra ia até a proa e largava a âncora. Algaro ajudava Noval e Pinto com o equipamento de mergulho.
Serra disse finalmente: — Estão prontos para ir, señor, quais são suas ordens?
— Diga para darem uma olhada — disse Santiago. — Sem problemas. Deixem Carney e Dillon em paz.
— Certo, señor.
Os dois mergulhadores estavam sentados juntos a bombordo. Serra acenou com a cabeça e juntos eles caíram de costas na água.
Dillon seguiu Carney com dificuldade crescente, devido à força da corrente entre rochas e corais, por um canal profundo que conduzia ao outro lado das rochas. A força era tremenda e Carney estava de barriga para baixo, impulsionando-se com as mãos enluvadas, agarrando um apoio atrás do outro. Dillon em seus calcanhares, as nadadeiras do outro menos de dois metros à frente.
Havia uma espécie de soleira ou passagem. Carney ficou imóvel ali um tempo, depois a transpôs, e Dillon teve o mesmo problema, uma espécie de parede de pressão. Agarrado às rochas, avançava com lentidão agonizante, centímetro a centímetro, e de repente viu-se do outro lado, em outro mundo.
A superfície estava quinze metros acima e diante do paredão ele foi jogado em meio a um cardume de atuns. Havia peixes de todas as cores, bonitos, cavalas e barracudas, algumas com mais de metro e meio de comprimento. Dillon se virou e viu Noval e Pinto tentando transpor a fenda. Noval quase conseguiu, depois se soltou e foi empurrado de encontro a Pinto, ambos desaparecendo do outro lado.
Carney avançou, e Dillon o seguiu até os vinte e cinco metros; foram então apanhados pela corrente num violento redemoinho de três nós que os arrastou na vertical ao longo da parede rochosa. Foram cercados por nuvens de peixes prateados pairando no espaço — o sonho dos sonhos. Dillon nunca se sentira tão entusiasmado. Pareceu durar para sempre, e então a corrente abrandou e Carney começou a usar suas nadadeiras para escalar.
Dillon verificou seu computador e ficou surpreso ao descobrir que estiveram embaixo por vinte e cinco minutos. Começaram a se afastar da rocha, apenas uns dois metros acima da floresta do fundo do mar, e chegaram a uma corrente de âncora. Carney parou para examiná-la, virou-se e sacudiu negativamente a cabeça, nadando para a esquerda até finalmente ver sua própria âncora. Eles subiram lentamente, chegando à superfície pela quilha.
Carney debruçou-se sobre a amurada para pegar a garrafa de Dillon, e o irlandês se içou para bordo.
— Absolutamente maravilhoso!
Carney sorriu.
— Não foi ruim, hein?
Virou-se e fitou a lancha ancorada a bombordo, que balançava no mar agitado.
— O que terá acontecido aos dois mergulhadores? — interrogou Dillon.
— Não conseguiram atravessar, suponho. — A lancha girou sobre si mesma, mostrando o painel da popa. — É a lancha do Maria Blanco — acrescentou Carney.
— Sério? — Dillon observava-a junto à borda. Imediatamente reconheceu Algaro. Depois, Santiago saiu da casa do leme. — Quem é o cara de blazer e boné? — inquiriu Dillon.
Carney dirigiu o olhar para a lancha.
— É o dono, Max Santiago. Já o vi umas duas vezes em St. John.
Num impulso, Dillon levantou o braço e acenou. Santiago retribuiu o cumprimento, e nesse momento Noval e Pinto apareceram à tona.
— Está na hora de irmos para casa — disse Carney.
E foi para a popa subir a âncora.
— Onde é que o Maria Blanco ancora quando está por aqui? — perguntou Dillon no caminho de volta. — Caneel Bay?
— Mais provavelmente ao largo de Paradise Beach.
— Seria possível ir lá espreitar?
Carney fitou-o, depois desviou o olhar.
— Por que não? Você é quem paga.
Dillon pegou a garrafa de água na geladeira, bebeu um longo gole, passou a Carney e acendeu um cigarro. Carney bebeu um pouco e devolveu.
— Você já mergulhou antes, Sr. Dillon.
— E isso é um fato — Dillon concordou.
Chegados a Paradise, Carney desacelerou e o Privateer se aproximou do Maria Blanco.
— Lá está ele — disse Carney.
Dois tripulantes que trabalhavam no convés olharam com indiferença quando eles passaram.
— Aquela coisa deve ter feito um certo buraco na carteira de Santiago — disse Dillon. — Eu diria uns dois milhões.
— Pelo menos — assentiu Carney.
Carney deu toda força à vante e rumou para Caneel Beach. Dillon acendeu um cigarro e se encostou na parede da ponte de comando.
— Há muitos destroços interessantes por aqui?
— Alguns. Há um velho cargueiro ao largo de Buck Island que é um conhecido local de mergulho, e o General Rodgers, que a Guarda Costeira afundou.
— Não. Eu estava pensando em algo mais interessante. Isto é, seria possível haver um destroço num recife ao largo que nunca tivesse sido descoberto?
Carney reduziu, entrando na baía.
— Tudo é possível. O mar é grande.
— Portanto, pode haver algo esperando para ser descoberto?
O Privateer parou ao lado do cais. Dillon pegou o cabo de popa e amarrou. Fez o mesmo com o da proa quando Carney desligou o motor, então voltou a bordo e vestiu seu agasalho.
Carney se inclinou no volante olhando para ele.
— Sr. Dillon, eu não sei o que está acontecendo aqui. Tudo o que sei com certeza é que você é um grande mergulhador, e isso eu admiro. O que toda essa conversa sobre naufrágios significa eu não sei e não quero saber, pois gosto da minha vida tranquila, mas vou lhe dar um conselho. Seu interesse em Max Santiago...
— Sim? — Dillon disse, continuando a guardar seu equipamento de mergulho na bolsa.
— ...pode ser prejudicial à saúde. Ouvi coisas sobre ele que não são boas, muitas pessoas poderiam lhe contar o mesmo. A maneira como ele ganha dinheiro, por exemplo.
— Hotelaria, pelo que ouvi — Dillon sorriu.
— Há outras maneiras, que envolvem pequenos aviões ou lanchas rápidas à noite para a Flórida, mas que diabos, você é um homem adulto. — Carney foi para o convés. — Vai querer mergulhar comigo de novo?
— Pode contar com isso. Tenho negócios em St. Thomas esta tarde. Como chegar lá?
Carney apontou para o outro lado do cais, de onde uma lancha muito grande estava saindo. — É a balsa do resort. Eles fazem ida e volta durante o dia, mas acho que você perdeu esta.
— Droga! — disse Dillon.
— Sr. Dillon, chegou a Cruz Bay em seu próprio hidroavião, e a recepção, que me mantém informado sobre essas coisas, me diz que você paga com um American Express Platinum Card.
— O que posso dizer, você me pegou — Dillon disse a ele amigavelmente.
— Táxis aquáticos são caros, mas não para um homem com seus meios. A recepção pode chamar um para você.
— Obrigado. — Dillon saltou para o cais e fez uma pausa. — Talvez eu pudesse lhe pagar uma bebida esta noite. Vai estar no Jenny's Place?
— Diabos, estou lá todas as noites — disse Carney —, senão morro de fome. Minha mulher e meus filhos estão de férias.
— Vejo você lá então — disse Dillon, e foi embora pelo cais rumo à recepção.
O táxi aquático tinha bancos para uma dúzia de passageiros, mas ele era o único. A tripulação consistia de uma mulher com boné e jeans, que se sentou ao volante e pilotou para St. Thomas a uma velocidade considerável. Era barulhento, sem muita chance para conversa, o que agradava a Dillon. Ficou sentado fumando e pensando em como iam as coisas até o momento, em Algaro, Max Santiago e o Maria Blanco. Ele conhecia Santiago, mas Santiago também o conhecia, isso era um fato e ainda não havia sido explicado. Percebeu quase que um toque de camaradagem na maneira como Santiago acenou de volta para ele no mar. De Carney ele gostava. Na verdade, gostava de tudo nele. Conhecia seu negócio, mas sentiu nele poder e autoridade real. Um exemplo notável de homem tranquilo que não valia a pena pressionar.
— Aqui estamos nós — a piloto do táxi aquático gritou por cima do ombro, e Dillon viu que chegavam a Charlotte Amalie.
Charlotte Amalie, em St. Thomas, era um povoado e tanto, fervilhante de atividade. Do outro lado do porto estavam ancorados dois transatlânticos de cruzeiro. A beira-mar era margeada de edifícios brancos e em tons pastel — havia toda espécie de lojas e restaurantes. Ele seguiu por uma alameda chamada Drake's Passage, com lojas coloridas que ofereciam de tudo, de roupas de grife a ouro e joias, pois este era um porto livre. Chegou à rua principal. Consultou o endereço que Ferguson lhe dera e foi até um ponto de táxi.
— Pode me levar à Cane Street? — perguntou ao primeiro motorista.
— Não posso aceitar seu dinheiro, cara — disse o motorista amigavelmente. — Apenas vire na próxima esquina para a Back Street. A Cane é a terceira à esquerda.
Dillon agradeceu e seguiu. Fazia calor, muito calor, as calçadas apinhadas, o tráfego avançando lentamente pelas ruas estreitas, mas a Cane Street estava calma e sombreada quando Dillon a alcançou. A casa que procurava ficava no fim da da rua, e era de madeira, pintada de branco com telhado vermelho. Havia um minúsculo jardim na frente e degraus que levavam a uma varanda na qual um homem negro de cabelos grisalhos estava sentado num balanço lendo jornal.
Quando Dillon se aproximou, o velho levantou os olhos.
— Posso ajudá-lo?
— Procuro Earl Stacey — disse Dillon.
— Não veio estragar meu dia com alguma conta, veio?
— Ferguson disse para procurá-lo.
O homem sorriu e tirou os óculos.
— Estava esperando você. Vamos entrando. — E foi na frente.
— Vivo sozinho desde que minha mulher morreu, no ano passado. — Lá dentro, Stacey abriu uma porta, acendeu a luz e desceu uma escada de madeira para o porão. Havia prateleiras até o teto, muitas latas de tinta empilhadas. Stacey estendeu a mão e soltou um ferrolho, abrindo um bloco de prateleiras, como uma porta, e deixando entrever outra divisão.
— Entre para a minha sala de visitas. Vamos lá saber o que você quer, homem.
Havia toda espécie de armamento, rifles, submetralhadoras, caixas de munição.
— Parece Natal para mim — Dillon disse.
— Basta dizer o que quer, cara, e Ferguson paga a conta, esse foi o acordo.
— Rifle primeiro — Dillon disse. — Armalite, talvez. Gosto de coronha dobrável.
— Faço melhor, tenho aqui um rifle de assalto AK com coronha dobrável, disparo automático se quiser, pente de trinta cartuchos.
Ele pegou a arma no suporte e a entregou.
— Sim, vai servir muito bem — Dillon disse. — Vou levar com dois pentes extras. Agora preciso de uma pistola, Walther PPK de preferência com silenciador Carswell. Dois pentes extras para ela também.
— Também tenho.
Stacey abriu uma gaveta muito grande sob um banco na parede. Dentro havia uma variedade de pistolas. Ele selecionou uma Walther e a passou a Dillon.
— Algo mais?
Havia um coldre de plástico de aparência barata com a coronha de uma pistola espetada para fora e Dillon ficou intrigado.
— O que é isso?
— É um ás na manga. — Stacey o pegou. — Essa tira de metal atrás é um ímã. Cole-o embaixo de qualquer lugar e, contanto que seja de metal, ele se manterá firme. A arma não parece muito, ponto dois-dois belga, semiautomática, sete tiros, mas eu coloquei balas de ponta oca. Elas fragmentam ossos.
— Eu levo — disse Dillon. — Mais uma coisa. Por acaso você teria explosivos C4?
— Do tipo que as equipes de resgate usam em missões subaquáticas?
— Exatamente.
— Não, mas tenho algo tão bom quanto, Semtex. Já ouviu falar?
— Oh, sim — Dillon disse. — Creio que você pode dizer que sou familiarizado com Semtex. Um dos produtos de maior sucesso da Tchecoslováquia.
— A arma favorita do terrorista. — Stacey tirou uma caixa da prateleira. — Os palestinos, o IRA, todos aqueles gatos usam essas coisas. Você vai usar debaixo d'água sozinho?
— Só abrir um rombo em um navio naufragado.
— Então vai precisar de detonadores, uma unidade de controle remoto, ou talvez lápis químicos. Eles funcionam muito bem. Só precisa quebrar a tampa. Leve alguns de dez minutos e alguns de trinta. — Ele reuniu todos os itens. — É só?
— Óculos de visão noturna seriam úteis e um par de binóculos.
— Também posso cuidar disso. — Ele abriu outra gaveta. — Aí está.
A visão noturna era pequena, mas poderosa, estendendo-se se necessário como um telescópio. Os binóculos eram Zeiss, tamanho de bolso.
— Excelente — Dillon disse.
Stacey pegou uma mochila verde-oliva, abriu o zíper, colocou o rifle de assalto AK primeiro e depois as outras coisas. Fechou o zíper e saiu na frente, apagando a luz e empurrando a prateleira de volta para o lugar. Dillon o seguiu pela escada do porão e saiu para a varanda.
Stacey entregou a bolsa a ele. — Sr. Dillon, tenho a impressão de que pretende iniciar a Terceira Guerra Mundial.
— Talvez consiga um armistício — Dillon disse. — Quem sabe?
— Desejo-lhe sorte, meu amigo. Vou enviar a fatura para Ferguson.
Stacey se sentou, colocou os óculos de leitura e pegou seu jornal. Dillon saiu pelo pequeno jardim e iniciou a volta para o porto.
Dillon seguia pela orla rumo ao ponto dos táxis aquáticos quando viu que a balsa de Caneel estava chegando, e logo estendiam uma prancha até o cais. O capitão estava no alto quando Dillon subiu.
— Está hospedado em Caneel, sir?
— Sim, certamente.
— Largaremos logo. Parece que está chegando alguém do aeroporto.
Dillon foi para a cabine principal, colocou a bolsa em um banco e aceitou o ponche de rum que um dos tripulantes lhe oferecia. Olhou pela janela e viu um grande ônibus se aproximar com um único passageiro, e foi se sentar para saborear seu ponche. Um tripulante entrou e colocou duas malas num canto. Ouviu-se a prancha de embarque sendo retirada, o comandante entrou na casa do leme e ligou os motores. Dillon olhou o relógio. Eram cinco e meia. Colocou seu copo de plástico na mesa, acendeu um cigarro e percebeu que alguém desabava ao lado dele.
— Que prazer encontrá-lo, querido rapaz — disse Charles Ferguson. — Calor dos diabos, hein?
10
Dillon deu um mergulho rápido em Paradise Beach, ciente de que o Maria Blanco continuava ancorado lá fora. Depois, voltou para a cabana, tomou banho e vestiu calça de linho azul-escuro e camiseta branca. Saiu, atravessou o vestíbulo e bateu na porta do 7E.
— Entre — gritou Ferguson.
Dillon entrou. A configuração da suíte era semelhante à sua, o banheiro um pouco maior, assim como o outro cômodo. Ferguson, com calça de flanela cinza e camisa Turnbull & Asser branca, estava em frente ao espelho amarrando a gravata dos Guards em um primoroso nó Windsor.
— Ah, aí está você — disse ele. Vestiu um blazer azul marinho. — Como estou, querido rapaz?
— Como um anúncio da Gieves & Hawkes, o maldito cavalheiro inglês no exterior.
— Só porque você é irlandês não significa que precisa se sentir inferior o tempo todo — Ferguson disse a ele. — Algumas pessoas muito razoáveis eram irlandesas, Dillon, minha mãe, por exemplo, sem falar no duque de Wellington.
— Que disse que só porque um homem nasceu num estábulo não significa que ele seja um cavalo — Dillon apontou.
— Meu Deus, ele disse isso? Muito infeliz. — Ferguson pegou um chapéu panamá e uma bengala Malacca com cabo de prata.
— Nunca reparei que precisasse de bengala — comentou Dillon.
— Comprei durante a Guerra da Coreia. Forte como aço porque tem um núcleo de aço com peso de chumbo na ponta. Ah, e aqui está um dispositivo bem interessante. — Girou o castão e da ponta saltou um punhal de aço de vinte e cinco centímetros.
— Muito interessante — observou Dillon.
— Bem, estamos em terreno desconhecido. Chamo isso de meu matador de porcos. — Um clique e Ferguson empurrou o punhal de volta. — Agora, você vai me oferecer uma bebida rápida antes de sairmos, não é?
Dillon tinha negociado um suprimento de Krug com o serviço de quarto, e várias meias garrafas repousavam em uma caixa de gelo. Ele encheu dois copos e foi ao encontro de Ferguson no terraço, pegando os binóculos Zeiss no caminho.
— Aquele grande iate é o Maria Blanco.
— Sério?
Dillon lhe passou os binóculos e o brigadeiro deu uma olhada.
— Uma espécie de pequeno palácio flutuante, eu diria.
— Assim parece.
Ferguson segurava os binóculos diante dos olhos. — Quando jovem, fui oficial subalterno na Guerra da Coreia. Um ano de inferno absoluto. Prestei serviço em uma posição chamada The Hook. Tipo Primeira Guerra Mundial. Quilômetros de trincheiras, arame farpado, campos minados e milhares de chineses tentando entrar. Eles costumavam nos vigiar e nós os vigiávamos. Era como um jogo, um jogo particularmente desagradável, que explodia em violência de vez em quando. — Ele suspirou e baixou os binóculos. — De que diabos estou falando, Dillon?
— Oh, eu diria que você está percorrendo o longo caminho até o pub para me dizer que suspeita que Santiago esteja olhando para cá também.
— Algo parecido. Diga-me quão longe as coisas foram, e não deixe nada de fora, nem uma única maldita coisa.
Quando Dillon terminou, encheu o copo do brigadeiro enquanto Ferguson ficava sentado pensando em tudo.
— Na sua opinião, qual deve ser o próximo passo? — perguntou Dillon.
— Bom, agora que você já se equipou no Stacey, suponho que esteja ansioso pelo confronto, um tiroteio no OK Corral?
— Apenas tomei precauções — disse Dillon. — E, obviamente, preciso do Semtex para abrir um rombo no U-boat.
— Se o encontrarmos — interpôs Ferguson. — Da garota, nem sinal.
— Ela vai acabar voltando. Até lá, gostaria de levar as coisas adiante com Carney. Ele é realmente indispensável ao nosso lado.
— Mas como devemos abordá-lo? Você não acha que uma oferta em dinheiro ajudaria...
— Acho que não. Ou muito me engano, ou Carney é o tipo de homem que só faz uma coisa se realmente quiser, ou se a considerar justa.
— Oh, sorte! — suspirou Ferguson. — Deus me livre dos românticos deste mundo. — Olhou para o relógio. — Comida, Dillon, eis do que preciso agora. Aonde vamos comer?
— Podíamos subir até o Turtle Bay. É mais formal, pelo que me disseram, mas excelente. Acabei de reservar uma mesa.
— Então, ótimo. E veja se enfia um paletó, santo Deus. Não quero que as pessoas pensem que estou jantando com um vagabundo de praia.
Lá fora, na escuridão crescente de Caneel Bay, um bote inflável encostou no barco de pesca esportiva de Carney, o Sea Raider. Algaro subiu a bordo, transpondo a amurada, e entrou na ponte de comando. Tirou uma caixinha eletrônica do bolso, estendeu a mão por baixo do painel de instrumentos até detectar metal e colocou ali a caixa, presa pelo ímã.
Num instante, estava de volta.
— Agora, o Privateer — disse ele.
Serra deu a volta e dirigiu-se ao barco de mergulho.
Num terno de linho branco, Max Santiago estava sentado no bar de Caneel Bay tomando uma bebida de menta quando Algaro entrou.
— Foi tudo bem? — perguntou Santiago.
— Perfeitamente. Coloquei o rastreador nos dois barcos. Podemos segui-los aonde forem sem sermos vistos. Ferguson chegou logo depois das seis. Dillon reservou mesa para dois no Turtle Bay Dining Room.
— Ótimo — disse Santiago. — Talvez fosse divertido ir até lá.
O capitão Serra entrou.
— Mais alguma ordem, señor?
— Se Dillon fizer como ontem, vai ao Jenny's Place — comentou Santiago. — Provavelmente dou uma passada lá eu mesmo.
— Então, levo a lancha para Cruz Bay?
Santiago sorriu. — Tenho uma ideia melhor. Volte para o Maria Blanco, pegue alguns homens e leve-os a Cruz. Eles podem beber por minha conta, soltar um pouco as energias, se você me entende.
— Perfeitamente, señor.
Serra sorriu e saiu.
No Convento das Pequenas Irmãs da Piedade passava já da meia-noite, e Jenny Grant não conseguia dormir. Ela se levantou, encontrou seus cigarros, acendeu um e foi se sentar no banco acolchoado da janela olhando a chuva forte. Ela podia ver a luz ainda acesa no escritório da Irmã Maria Baker, que parecia nunca parar de trabalhar. Estranho como Henry sempre manteve a existência da irmã em segredo, pensou. Era como se ele de alguma forma tivesse vergonha dela, da coisa religiosa. Ele nunca foi capaz de lidar com isso.
Jenny se sentia muito melhor do que na chegada, infinitamente mais descansada e ao mesmo tempo inquieta. Ela se perguntou o que estaria acontecendo em St. John e como Dillon estaria se saindo. Ela gostava de Dillon, essa era a simples verdade, apesar de tudo em sua formação que ela desaprovava completamente. Por outro lado, ele foi bom, gentil, atencioso e compreensivo com ela.
Voltou para a cama, apagou a luz, cochilou e teve um sonho meio acordada, meio dormindo, o submarino em águas sombrias e Henry mergulhando lá. Querido Henry. Tão idiota mergulhar ali em primeiro lugar, um local perigoso, incomum, aonde as pessoas normalmente não vão. Era bem o estilo de Henry.
Acordou imediatamente.
— Oh, meu Deus, é claro! É tão óbvio! — disse em voz alta, no escuro.
Ela saiu da cama e foi até a janela. A luz ainda estava acesa no escritório da Madre Superiora. Ela se vestiu rapidamente com jeans e suéter, correu pelo pátio sob a chuva e bateu na porta.
Ao entrar, encontrou a irmã Maria Baker sentada atrás de sua mesa, trabalhando. Ela ergueu os olhos, surpresa. — Ora, Jenny, o que houve? Não consegue dormir?
— Vou embora amanhã, irmã, só queria que você soubesse. Estou voltando para St. John.
— Tão cedo, Jenny? Mas por quê?
— Sabe o submarino que Henry encontrou e Dillon está procurando? Acho que posso encontrar para ele. Só me ocorreu agora, quando estava quase dormindo.
Ferguson estava sentado no terraço de Turtle Bay fitando as ilhas ao longe. Pareciam recortes negros projetados contra o céu manchado de laranja, enquanto o sol ia descendo.
— É verdadeiramente extraordinário — comentou ele, dando um gole num ponche de fruta.
— O sol morrendo suntuosamente — murmurou Dillon.
As cigarras cantavam incessantemente, pássaros noturnos chamavam uns aos outros. Ele se levantou e foi até a beira do terraço e Ferguson disse: — Santo Deus, você tem uma queda literária, querido menino.
Dillon acendeu um cigarro, o Zippo flamejou. — Para ser franco, sou um gênio literário, brigadeiro. Representei Hamlet na Royal Academy. Ainda sei a maior parte do texto. — Sua voz mudou subitamente para uma notável imitação da de Marlon Brando. — Eu podia ter sido alguém. Podia ter sido um contendor.
— Deixe de sentimentalismos comigo nesta fase da sua vida, Dillon. Nunca vale a pena olhar para trás. Tenho certeza de que sabe disso.
Santiago entrou pelas arcadas, com Algaro em seu encalço. Percorreu o terraço com o olhar, avistou Dillon e Ferguson e se aproximou.
— Mr. Dillon? Max Santiago.
— Eu sei quem é, señor — replicou Dillon em excelente castelhano.
Santiago pareceu surpreso.
— Felicito-o, señor — respondeu ele na mesma língua. — Uma tal fluência é rara num estrangeiro. É um prazer vê-lo em Caneel Bay, brigadeiro — acrescentou em inglês. — Bom jantar, senhores — e foi embora, seguido por Algaro.
— Ele sabe quem você é, sabia que estava aqui — disse Dillon.
— Percebi isso. — Ferguson se levantou. — Vamos jantar. Estou morrendo de fome.
O serviço era bom, a comida era excelente, e Ferguson apreciou tudo. Começaram por escalopes de peixe grelhados com molho de pimenta vermelha e açafrão, seguidos de salada César e faisão recheado. Ferguson, o guardanapo preso no colarinho, devorou tudo, depois mandou vir chá.
— Para ser sincero, querido menino, eu realmente prefiro a comida de casa, mas é preciso fazer um esforço.
— O cavalheiro inglês no exterior de novo? — Dillon brincou.
— Ferguson, nem preciso dizer, é o mais escocês dos nomes escoceses, Dillon, e como eu disse a você, minha mãe era irlandesa.
— Sim, mas Eton, Sandhurst e os Grenadier Guards bagunçaram tudo um pouco.
Ferguson serviu mais Cristal. — Garrafa adorável. Você pode ver através. Muito incomum.
— O próprio tsar Nikolas a desenhou — Dillon comentou. — Disse que queria ver o champanhe.
— Extraordinário. Nunca soube disso.
— De nada adiantou quando os bolcheviques o assassinaram.
— Estou feliz por você dizer assassinaram, Dillon, ainda há alguma esperança para você. O que o amigo Santiago está fazendo?
— Jantando no jardim atrás de você. O ghoul com ele, aliás, se chama Algaro. Ele deve ser seu guardião. Ele é que me tirou da estrada e disparou de escopeta.
— Ah, querido, não podemos deixar isso passar. — Ferguson pediu chá ao garçom em vez de café. — O que você sugere como nosso próximo movimento? Santiago está obviamente pressionando e pretende que saibamos disso.
— Acho que preciso falar com Carney. Se alguém pode ter alguma ideia de onde esteja aquele submarino, seria ele.
— Isso não é apenas primorosamente gramatical, meu caro, faz sentido. Você sabe onde ele pode estar?
— Sim, sei.
— Excelente. — Ferguson se levantou e pegou o panamá e a bengala Malacca. — Então, vamos andando.
Dillon dirigiu até o estacionamento de Mongoose Junction, desligou o motor e tirou a semiautomática belga do bolso do paletó.
— Que diabo é isso?
— Um ás na manga. Vou deixá-la sob o painel.
— Para mim parece uma arma de mulher.
— E, como a maioria das mulheres, dá conta do recado, brigadeiro, então não seja sexista.
Dillon prendeu o coldre sob o painel. — OK, vamos ver se podemos encontrar Carney.
Percorreram a mureta até o Jenny's Place. Estava quase vazio quando eles entraram, Billy Jones trabalhando no bar, Mary e uma garçonete cuidando do jantar. Havia apenas quatro mesas ocupadas e Carney estava sentado em uma delas.
O capitão Serra e três de seus homens estavam num compartimento de canto. Dillon reconheceu Guerra da primeira noite, embora o fato de Guerra ter dito É ele em espanhol e todos terem parado de falar fosse confirmação suficiente.
— Olá a todos. — Mary Jones se aproximou e Dillon sorriu.
— Vamos nos sentar com Carney. Champanhe, a que tiver!
— Duas taças — Ferguson levantou seu panamá polidamente.
Mary segurou o braço dele, seus dentes brilhando em um sorriso encantado. — Gosto deste homem. Onde você o encontrou? Amo cavalheiros.
Billy se inclinou no balcão. — Largue-o, mulher.
— Não é culpa dele — disse Dillon. — É um brigadeiro. Todo aquele treinamento militar.
— Um brigadeiro-general! — Os olhos dela se arregalaram.
— Bem, sim, isso existe no seu exército — disse Ferguson sem graça.
— Então vá se sentar com Bob Carney, querido. Mary vai cuidar de você agora.
Um filé com fritas acabava de chegar à mesa de Carney, que tomava cerveja.
— Mr. Dillon — disse, quando se aproximaram.
— Um amigo meu, o brigadeiro Charles Ferguson — apresentou Dillon. — Podemos lhe fazer companhia?
Carney sorriu. — Estou impressionado, mas devo avisá-lo, brigadeiro, de que só cheguei a cabo, e dos marines.
— Grenadier Guards — Ferguson disse a ele —, espero que você não se importe.
— Diabos, não, acho que nós, garotos das unidades de elite, temos que ficar juntos. Sentem-se. — Quando cada um puxou uma cadeira, ele voltou a seu filé e disse a Dillon: — Já esteve no exército, Dillon?
— Não exatamente — Dillon disse a ele.
— Diabos, não há nada de exato nisso, não que se ouça falar muito do exército irlandês, a não ser que eles parecem passar a maior parte do tempo lutando pelas Nações Unidas em Beirute ou Angola ou algum lugar assim. Claro, existe o outro lado, o IRA. — Ele parou de cortar o filé por um momento e continuou: — Mas não, isso não seria possível, seria, Dillon?
Ele sorriu e Ferguson disse: — Meu caro amigo, seja razoável, que diabos o IRA estaria fazendo aqui? E, o que é mais importante, o que eu estaria?
— Não sei disso, brigadeiro. O que sei é que o Dillon aqui é um mistério para mim e um mistério é como palavras cruzadas. Só preciso resolver.
Santiago entrou, seguido de Algaro, e Serra e os outros se levantaram. — Temos companhia — disse Dillon a Ferguson.
O brigadeiro se virou para olhar.
— Oh, Deus. — comentou.
Bob Carney empurrou seu prato. — Só para poupá-lo de mais perguntas, Santiago você conhece e aquele canalha do Algaro. O de barba é o capitão do Maria Blanco, Serra. Os outros são tripulantes.
Billy Jones trouxe uma garrafa de Pol Roger dentro de um balde de gelo, abriu-a e depois dirigiu-se ao reservado para receber o pedido de Santiago. Dillon serviu o champanhe, ergueu o copo e disse algo em irlandês.
— Que diabos você está dizendo, Dillon? — interpelou-o Carney.
— É irlandês, a língua dos reis. Um brinde muito antigo: Que o vento sopre sempre a seu favor. Adequado para um comandante. Afinal, você tem carta de capitão de alto mar, entre outras coisas, não tem?
Carney franziu a testa, virando-se depois para Ferguson.
— Vamos lá ver se eu consigo encaixar as coisas. Ele trabalha para você?
— Por assim dizer.
Nesse momento, ouviu-se uma voz de mulher protestando: — Não faça isso, por favor!
A garçonete que servia as bebidas na mesa de Santiago era uma menina pequena, bem bonita, cabelo louro preso em uma trança nas costas. Era muito jovem, muito vulnerável. Algaro estava passando a mão em suas nádegas e começava a descer por uma perna.
— Odeio ver isso — disse Carney e seu rosto estava duro.
Dillon disse: — Não poderia concordar mais. Dizer que ele veio do estábulo seria um insulto aos cavalos.
A garota se afastou, a tripulação rindo, e Santiago olhou em volta, seus olhos encontrando os de Dillon. Ele sorriu, virou-se e sussurrou algo para Algaro, que assentiu e se levantou.
— Bem, vamos manter nossas cabeças frias — disse Ferguson.
Algaro foi até o bar e se sentou num banco vazio. Quando a garota passou, ele pôs o braço na cintura dela e sussurrou em seu ouvido. Ela ficou com o rosto vermelho, quase chorando.
— Deixe-me em paz — disse ela, e lutou para se libertar.
Dillon olhou para o lado. Santiago ergueu a taça e brindou, com um meio sorriso no rosto, enquanto Algaro enfiava a mão sob a saia dela.
Billy Jones estava servindo do outro lado do bar e se virou para ver o que estava acontecendo. Carney se levantou, pegou o copo e foi até o bar. Segurou a garota pelos ombros e a afastou, então despejou o que restava de sua cerveja na virilha de Algaro.
— Desculpe — ele disse —, não vi você aí. — E voltou para a mesa.
Todos pararam de falar, e Dillon tirou a garrafa do balde de gelo e tornou a encher o copo do brigadeiro. Algaro se levantou e olhou para a calça molhada sem acreditar no que via.
— Seu vermezinho — bradou Algaro. — Vou quebrar seu braço por isso.
Avançou para a mesa em passo rápido, e Carney se virou, preparando-se para se defender. Mas foi Dillon quem atacou primeiro. Virando a garrafa de champanhe ao contrário, bateu com ela na lateral do crânio de Algaro não uma, mas duas vezes, a garrafa se estilhaçando, champanhe para todos os lados. Algaro se levantou, apoiando as mãos na ponta da mesa, e Dillon, ainda sentado, chutou de lado a rótula dele. Algaro gritou e caiu de lado. Ficou ali por um momento, depois forçou-se a se apoiar em um joelho.
De um salto, Dillon lançou um joelho no rosto desprotegido. — Você nunca aprendeu a se deitar, não é?
Os outros tripulantes do Maria Blanco já estavam em pé, um deles ia pegando uma cadeira, e Billy Jones contornou depressa o bar, um taco de beisebol na mão. — Pode largar ou chamo a polícia — disse. — Ele pediu, ele conseguiu. Basta levá-lo daqui.
Eles pararam de repente, não tanto por causa de Billy, mas por Santiago, que disse em espanhol: — Sem problema, peguem Algaro e vão embora.
O Capitão Serra acenou com a cabeça. Guerra, o imediato, e Pinto foram ajudar Algaro a se levantar. Ele parecia atordoado, sangue no rosto, e o levaram para fora, seguido pelos outros. Santiago se levantou, ergueu o copo, esvaziou-o e saiu.
A conversa recomeçou e Mary trouxe vassoura e pá para recolher o vidro. Billy disse a Dillon: — Não fui rápido o suficiente. Agradeço a vocês, pessoal. Que tal outra garrafa de champanhe por conta da casa?
— Estou fora, Billy — disse Carney. — Coloque a refeição na minha conta. Estou ficando velho demais para esse tipo de emoção. Vou para casa dormir. — Ele levantou-se. — Brigadeiro, foi muito interessante.
— Gostaria de mergulhar de manhã — disse Dillon, enquanto ele se encaminhava para a porta. — Está disponível?
— Nove e meia. Na doca — respondeu Carney, e saiu.
Seu jipe estava no estacionamento de Mongoose Junction. Ele caminhou pensando no que havia acontecido e estava destrancando a porta quando uma mão agarrou seu ombro. Quando ele se virou, Guerra o socou na boca.
— Agora, seu bastardo, vamos te ensinar a ter modos.
Serra estava a um ou dois metros de distância apoiando Algaro, Santiago ao lado deles. Guerra e os outros dois tripulantes chegaram rápido. Carney se esquivou do primeiro golpe e deu um soco no estômago dele, meio girando, dando em Pinto um golpe de cotovelo no rosto e então eles todos o atacaram, prendendo seus braços. Algaro se aproximou.
— Agora, nós... — disse ele.
Foi nesse preciso momento que Dillon e Ferguson, depois de recusarem o champanhe, dobraram a esquina. O irlandês viu a cena e partiu correndo, derrubou Algaro, que levantava um pé para o rosto de Carney, socou o homem mais próximo na mandíbula, e quando o capitão Serra chegou para ajudar os companheiros, o que desequilibraria a relação de forças, Dillon e Carney já estavam preparados para se defender, o jipe às costas, braços erguidos, esperando. Houve um tiro repentino, o som explodindo no ar da noite. Todos ficaram imóveis. E viram Ferguson parado ao lado do jipe de Dillon. Ele tinha a semiautomática belga na mão.
— Agora vamos parar de brincar de idiotas, não vamos? — ele disse.
Houve uma pausa e Santiago disse em espanhol: — De volta à lancha.
A tripulação se afastou de má vontade, Serra e Guerra apoiando Algaro, que ainda parecia atordoado.
— Uma outra hora, brigadeiro — disse Santiago em inglês e os seguiu.
Carney enxugou o sangue da boca com um lenço. — Alguém pode me dizer que diabos está acontecendo?
— Sim, precisamos conversar, capitão Carney — disse Ferguson energicamente. — E quanto mais cedo, melhor.
— OK, desisto. — Carney sorriu tristemente. — Sigam-me até minha casa. Não é muito longe.
— É a coisa mais estranha que já ouvi — disse Carney.
— Mas você admite que seja verdade? — Ferguson perguntou. — Tenho uma cópia da tradução do diário na minha pasta em Caneel, e ficaria feliz se você a lesse.
— A coisa do submarino é perfeitamente possível — disse Carney. — Eles andaram nessas águas durante a Segunda Guerra Mundial, é fato conhecido, e há moradores que contam histórias de como costumavam desembarcar à noite. — Ele sacudiu a cabeça. — Hitler no bunker, Martin Bormann... li todos aqueles livros, e é um pensamento interessante: se Bormann desembarcou em Samson Cay e não afundou com o submarino, isso explicaria todos aqueles avistamentos dele na América do Sul no pós-guerra. — Deixe-me pegar uma carta. — Carney saiu e voltou com um mapa, que desenrolou. Era das ilhas Virgens, de St. Thomas até Virgin Gorda. — Aqui Samson Cay, ao sul da ilha Norman nas Virgens Britânicas. Se o furacão deu a volta, o que às vezes acontece, e veio da direção leste, o U-boat definitivamente seria levado para algum lugar a sudoeste de St. John.
— Terminando onde? — Ferguson disse.
— Nenhum lugar normal. Quero dizer, nenhum lugar em que as pessoas mergulhem regularmente, e vou lhe contar outra coisa: teria que estar a menos de trinta metros.
— O que o faz dizer isso? — perguntou Dillon.
— Henry era um mergulhador recreativo, o que significa que nenhuma descompressão é necessária se se seguem as tabelas. Quarenta metros é o máximo absoluto para esse tipo de mergulho esportivo, e nessa profundidade ele só podia se dar ao luxo de ficar dez minutos no fundo antes de voltar à superfície. Para examinar o submarino e encontrar o diário... — Carney sacudiu a cabeça. — Simplesmente não seria possível, e Henry tinha sessenta e três anos. Ele conhecia suas limitações.
— Nesse caso, está dizendo que...? — perguntou Dillon.
— Para descobrir os destroços, entrar, vasculhar e descobrir esse tal diário... — Carney encolheu os ombros — ... eu diria que ele esteve uma meia hora no fundo, então sua profundidade seria provavelmente de vinte e cinco metros ou coisa assim. Ora, professores de mergulho passam a vida levando turistas a essas profundidades. É por isso que o naufrágio tem que estar num local bem pouco usual.
— Deve ter alguma ideia — interveio Ferguson.
— Na manhã seguinte ao temporal, Henry saiu tão cedo que estava de volta na hora em que eu saía com um grupo. Cruzamos e nos falamos.
— O que ele disse?
— Perguntei por onde tinha andado. Ele disse French Cap. E que estava um espelho por lá.
— Então é isso — disse Ferguson. — Seria isso?
Carney sacudiu a cabeça — Vou muito ao French Cap, é um magnífico local de mergulho, as águas são particularmente claras. Na verdade, levei meus clientes lá depois de encontrar Henry naquela manhã e ele estava certo, parecia um lago. Visibilidade espetacular. — Sacudiu a cabeça de novo. — Não, se os destroços estivessem lá já teriam sido descobertos.
— Consegue imaginar mais algum local?
Carney franziu a testa.
— Há South Drop, mais adiante.
— Você mergulha lá? — Ferguson perguntou.
— Ocasionalmente. O problema é que se o mar estiver agitado, é uma viagem longa e desconfortável, mas poderia ser um local assim, uma longa escarpa descendo até os cinquenta metros de um lado e seiscentos do outro.
— Podemos ir lá dar uma olhada? — Ferguson perguntou.
Carney sacudiu a cabeça e examinou o mapa novamente. — Não sei...
Ferguson disse: — Eu pagaria bem, capitão Carney.
— Não é isso — disse Carney. — A rigor, essa coisa está nas águas territoriais dos Estados Unidos.
— Apenas ouça, por favor — disse Ferguson. — Não estamos fazendo nada de errado aqui. Há documentos no U180, ou assim acreditamos, que podem causar preocupação ao meu governo. Tudo o que queremos fazer é recuperá-los o mais rápido possível e sem danos.
— E Santiago, onde ele se encaixa?
— Anda obviamente atrás da mesma coisa — disse Ferguson. — Por que, não sei ainda, mas vou descobrir, prometo.
— Você gosta de cinema, Carney — disse Dillon. — Santiago e seu bando são os bandidos do filme, os mafiosos.
— E eu sou um dos mocinhos? — Carney soltou uma gargalhada. — Bem, vão dando o fora e me deixem dormir. Nos vemos às nove e meia.
Santiago, parado na popa do Maria Blanco, viu as luzes que se acendiam nas duas seções do chalé 7.
— Então eles estão de volta — disse a Serra, que estava a seu lado.
— Agora que estão em contato com Carney, podem se movimentar amanhã mesmo.
— Você pode segui-los na lancha, seja qual for o barco em que estiverem, graças aos sensores, a uma distância discreta, claro.
— Devo levar os mergulhadores?
— Se quiser, mas eu duvido que adiante. Carney não sabe onde fica o U180, Serra, estou convencido disso. Eles pediram sugestões, só isso. Leve o guia de locais de mergulho. Se eles mergulharem em algum lugar mencionado no guia, pode apostar que é perda de tempo. — Santiago sacudiu a cabeça. — Francamente, estou inclinado a achar que a garota tem a resposta. Temos apenas que esperar que volte. A propósito, se encontrássemos o submarino e precisássemos abrir caminho, Noval e Pinto saberiam como?
— Certamente, señor, temos explosivo C4 a bordo e todo o equipamento de detonação necessário.
— Excelente — disse Santiago. — Desejo-lhe sorte amanhã, então. Boa noite, capitão.
Serra foi embora e Algaro saiu da escuridão. — Posso ir junto amanhã?
— Ah, vingança, é? — Santiago riu. — E por que não? Aproveite enquanto pode, Algaro — e ele ainda ria ao descer para o salão.
11
Estava uma bela manhã quando Dillon e Ferguson desceram até o cais. Nenhum sinal de gente por perto, e o Privateer rumava para o mar com quatro pessoas sentadas na popa.
— Talvez tenhamos entendido errado — Dillon observou.
— Duvido — disse Ferguson. — Não esse tipo de cara.
Naquele momento, Carney surgiu na ponta do cais e veio na direção deles empurrando um carrinho cheio de tanques de ar.
— Bom dia — gritou ele.
— Pensei que você tivesse nos deixado para trás — Dillon disse, olhando o Privateer.
— Diabos, não, é um dos meus ajudantes levando mergulhadores para Little St. James. Pensei em usar o Sea Raider hoje porque teremos muito mar para fazer. É bom marinheiro, brigadeiro? — perguntou ele a Ferguson.
— Meu querido chapa, acabo de passar por uma loja para comprar excelentes comprimidos de enjoo, dos quais tomei não um, mas dois.
Ferguson subiu para a ponte de comando e se sentou com solitário aparato numa das cadeiras rotativas, enquanto Dillon ajudava Carney com as garrafas de oxigênio. Concluída a tarefa, Carney se reuniu a Ferguson e ligou os motores. Quando se afastaram do cais, Dillon entrou na cabine. Enfiara seu equipamento de mergulho na mochila militar verde-oliva. No fundo, estavam o rifle de assalto AK e a semiautomática belga. Dillon tateou sob o painel de instrumentos até achar metal e fixou ali o coldre magnético com a arma.
Depois, subiu e se juntou aos outros.
— Qual é o nosso rumo?
— Praticamente, sul, passando o estreito Pillsbury, depois sudoeste, para French Cap. — Carney sorriu para Ferguson quando o barco começou a levantar com as ondas rumo ao largo. — Sente-se bem, brigadeiro?
— Quando não me sentir eu aviso. Presumo que tenha pensado na eventualidade de ser seguido pelos nossos amigos do Maria Blanco.
— Estou procurando, mas por enquanto não vi nada. Certamente não há sinal nem do próprio Maria Blanco, mas devem usar a lancha branca que vimos em Carval Rock. É um bom barco. Faz uns vinte e cinco ou vinte e seis nós. Não consigo muito mais do que vinte com este aqui. — Ele se virou para Dillon: — Há binóculos no armário, se quiser ficar de olho.
Dillon os pegou, focalizou e verificou a popa. Havia vários iates e uma pequena balsa de veículos com caminhões a bordo que fazia a travessia de St. Thomas, mas nenhuma lancha. — Nem sinal — disse ele.
— Ué... acho estranho — observou Ferguson.
— Você se preocupa demais, brigadeiro — disse Carney. — Agora vamos sair daqui — e ele empurrou o acelerador para a frente e levou o Sea Raider mais depressa para o mar aberto.
A lancha estava lá, claro, só que uma boa milha mais atrás, com Serra ao leme, seu olhar ocasionalmente virando para a tela escura com uma bolha de luz mostrando o Sea Raider. Algaro postava-se ao lado dele, Noval e Pinto ocupados com o equipamento de mergulho na popa. Algaro não parecia bem. Tinha um olho roxo e a boca inchada.
— Não há perigo de perdê-los? — perguntou Algaro.
— De maneira nenhuma — disse Serra. — Quer ver? — Ouvia-se um ping-ping regular e monótono vindo do painel à frente. Quando Serra virou o leme, o ritmo do som aumentou, parecendo enlouquecer. — Vê? Ele avisa quando saímos do rastro.
— Bom.
— Como se sente? — Serra perguntou.
— Bem, vamos colocar desta forma: vou me sentir muito melhor quando acabar com esses bastardos — disse Algaro —, particularmente Dillon. — Ele se virou e foi se juntar aos outros.
A água subia em ondas longas e pesadas enquanto eles chegavam ao Cap Cay francês. Dillon foi até a proa para baixar a âncora enquanto Carney manobrava o barco, inclinando-se sob o toldo azul da ponte para dar-lhe instruções.
— Aqui embaixo está o que chamamos de Pinnacle — disse ele. — Seu topo tem uns 13 metros de inclinação. É nesse espaço que estamos tentando jogar a âncora. — Depois de um tempo, ele avisou. — É isso, conseguimos — e desligou os motores.
— O que vamos fazer? — Dillon perguntou enquanto fechava o zíper da roupa de mergulho.
— Não podemos fazer muito — disse Carney enquanto prendia o cinto de lastro. — Há uns vinte e oito metros no máximo, variando até quinze. Podemos fazer uma curva à direita ao redor da base rochosa e da área geral do recife. A visibilidade é incrível. Você não encontrará melhor em lugar nenhum. É por isso que não acredito que este seja o lugar certo. Aquele submarino já teria sido avistado antes. A propósito, acho que você pegou minhas luvas de mergulho por engano ontem e eu peguei as suas. — Ele vasculhou a mochila de Dillon e encontrou o rifle. — Querido Deus — disse ele, tirando-o da bolsa. — O que é isso?
— Precaução — Dillon disse, enquanto enfiava suas nadadeiras.
— Um AK-47 é consideravelmente mais do que isso — Carney desdobrou a coronha e verificou.
— Gostaria de lembrar, Sr. Carney, que nossos amigos deram o primeiro tiro — disse Ferguson. — Está familiarizado com essa arma?
— Estive no Vietnã, brigadeiro. Usei um de verdade. Eles produzem um som realmente feio e diferente. Espero nunca mais ouvir novamente.
Carney devolveu o AK à sacola e terminou de colocar seu equipamento de mergulho. Pisou desajeitadamente na plataforma de mergulho com suas nadadeiras e se virou. — Vejo você lá embaixo — disse ele a Dillon, então inseriu seu bocal e caiu para trás.
Serra os observava a quatrocentos metros de distância através de um velho binóculo. Noval e Pinto estavam prontos em seus trajes de mergulho. Algaro disse: — O que eles estão fazendo?
— Ancoraram, Dillon e Carney mergulharam. Há apenas o brigadeiro no convés.
— O que quer que façamos? — perguntou Noval.
— Vou passar muito rápido, mas sem ancorar. Vocês vão mergulhar de surpresa sobre eles, então estejam prontos.
Ele acelerou a lancha até 25 nós e, conforme ela avançava, Noval e Pinto colocaram o resto do equipamento.
Carney não tinha exagerado. Havia todas as cores de coral, esponjas de todos os formatos, peixes de todos os tipos, mas a visibilidade é que era incrível, a água tingida de um azul profundo se estendendo até uma espécie de infinito. Dillon seguia Carney e algumas arraias flutuavam pela encosta arenosa.
Mas Carney também estava certo sobre o submarino. Dificilmente poderia estar em um local como este. Dillon nadou ao longo do recife e pela base da rocha até que finalmente Carney se virou e abriu os braços. Dillon entendeu o gesto, deu meia-volta e viu Noval e Pinto bem na frente, talvez uns seis metros mais acima. Ele e Carney ficaram flutuando, observando-os, e então o americano fez um gesto para a frente e liderou o caminho de volta à linha da âncora. Pararam ali, olharam para cima e viram a quilha da lancha se movendo em um amplo círculo. Carney começou a subir a corrente e Dillon o seguiu, finalmente chegando à superfície pela popa.
— Quando eles chegaram? — Dillon perguntou a Ferguson enquanto tirava o traje.
— Uns dez minutos depois que vocês caíram. A lancha veio numa velocidade infernal, não baixou a âncora, simplesmente jogou dois mergulhadores pela popa.
— Nós os vimos. — Dillon tirou seu equipamento e olhou para a lancha. — Lá está Serra, o capitão, e nosso velho amigo Algaro nos olhando carrancudo.
— Eles fizeram um ótimo trabalho nos seguindo, é preciso reconhecer — disse Carney. — De qualquer forma, vamos andando.
— Ainda vamos tentar o tal South Drop? — perguntou Dillon.
— Estou no jogo, se você estiver. Levante a âncora.
Noval e Pinto emergiram ao lado da lancha e se ergueram enquanto Dillon subia na proa e começava a puxar a âncora, mas ela não veio.
— Vou ligar o motor e tentar movê-la — disse Carney.
Não fez diferença. — Continua presa.
— OK — Carney concordou. — Um de nós tem que descer e soltá-la.
— Bem, obviamente sou eu. — Dillon pegou traje e tanque. — Precisamos de você para lidar com o barco.
Ferguson disse: — Você ainda tem ar suficiente nessa coisa?
Dillon verificou. — Quinhentos. É o bastante.
— Sua vez, brigadeiro — disse Carney. — Puxe a âncora no momento em que estiver livre e tente não criar uma hérnia.
— Farei meu melhor, querido rapaz.
— Uma coisa, Dillon — Carney chamou. — Você não terá a linha da âncora para subir e há uma corrente de um a dois nós, então provavelmente vai emergir bem longe do barco. Basta inflar seu colete e vou buscá-lo.
Quando Dillon entrou na água pela popa, Algaro disse: — O que está acontecendo?
— Provavelmente a âncora ficou presa — disse Noval.
Dillon tinha alcançado a âncora naquele exato momento. Estava firmemente presa em uma fenda profunda. Acima dele, Carney operava o barco com a potência mínima do motor e, quando a corda afrouxou, Dillon puxou a âncora. Ele foi arrastado sobre o coral por um momento, mas depois conseguiu soltá-la. Tentou seguir a âncora, ciente da correnteza que o afastava e não lutou, simplesmente flutuou lentamente e voltou à superfície. Estava a uns cinquenta metros do Sea Raider e inflou seu colete, que o ergueu acima das pesadas ondas.
O brigadeiro tinha acabado de puxar a âncora para bordo e Noval foi o primeiro a avistar Dillon. — Ali está ele.
— Maravilhoso. — Algaro empurrou Serra para o lado e assumiu o volante. — Vou mostrar a ele.
Ligou o motor, jogou a lancha sobre Dillon, que nadou freneticamente para o lado, mal conseguindo evitá-la. Carney gritou um aviso, girando o Sea Raider de proa, Ferguson quase caindo ao mar. Dillon estava com a mão esquerda levantada, segurando o tubo que lhe permitia expelir o ar do colete de flutuação. A lancha deu nova guinada, empurrando-o para o lado.
Algaro, rindo como um maníaco, o som das risadas claro através da água, fazia um amplo círculo para atacar novamente. O brigadeiro tirou o AK da mochila e estava lutando com ele quando Carney desceu a escada, as mãos escorregando no parapeito. — Eu sei como essas coisas funcionam, você não, brigadeiro.
Colocou no automático e atirou na lancha. Serra agora estava lutando com Algaro, Noval e Pinto caídos no convés. Carney disparou outra rajada cuidadosa que abriu alguns rasgos na proa. Nessa altura, Dillon havia desaparecido e Serra assumiu o comando. Ele fez uma curva ampla e partiu a toda velocidade.
Ferguson examinou a área ansiosamente. — Foram embora?
Dillon emergiu a alguma distância, Carney largou o AK, foi para a casa do leme inferior e levou o barco na direção do irlandês. Dillon subiu pela popa e Carney voltou correndo para tirá-lo do colete e do tanque.
— Jesus, mas isso foi animado — Dillon disse quando alcançou o convés. — O que aconteceu?
— Algaro decidiu acabar com você — disse o brigadeiro.
Dillon pegou uma toalha e viu o AK.
— Pensei ter ouvido um pequeno tiroteio. — Ele olhou para Carney. — Você?
— Diabos, eles me deixaram louco — disse Carney.
— Você ainda quer experimentar South Drop?
— Por que não?
Ferguson olhou para a lancha, cada vez menor.
— Não acho que eles pretendam nos incomodar novamente.
— Não é provável. — Carney apontou para o sul. — A tempestade vem chegando e isso é bom, porque eu sei para onde estou indo e eles não — e subiu a escada para a ponte.
A lancha diminuiu a oitocentos metros de distância. Serra ergueu os binóculos e viu o Sea Raider desaparecer na cortina de chuva e névoa. Ele verificou a tela. — Estão indo para o sul.
— Para onde? Tem ideia? — perguntou Algaro.
Serra tirou o guia de locais de mergulho da prateleira, abriu-o e examinou o mapa.
— O único local assinalado aqui ao largo chama-se South Drop. — Folheou o manual. — Estamos aqui. Há uma plataforma de uns vinte metros, cerca de cento e sessenta de um lado e do outro uma queda até o fundo. Talvez seiscentos metros.
— Poderia ser o ponto?
— Duvido. O próprio fato de estar no manual significa que mergulham lá com frequência razoável.
Noval disse: — Isso funciona de um jeito simples. Os mestres de mergulho só levam clientes lá com bom tempo. A viagem é muito longa e difícil, as pessoas ficam enjoadas. — Ele encolheu os ombros. — Portanto, num lugar como South Drop não se mergulha com tanta frequência, mas o capitão Serra está certo. O fato de estar no manual torna muito improvável que o U-boat esteja lá. Alguém o teria notado anos atrás.
— E essa é a opinião de um profissional — disse Serra. — Acho que o señor Santiago tem razão. Carney não sabe de nada. Ele apenas os está levando a um ou dois lugares distantes por falta de algo melhor para fazer. O señor Santiago acha que a garota é nossa única chance, então é uma questão de esperar seu retorno.
— Eu ainda gostaria de dar uma lição naqueles porcos — disse Algaro.
— E levar tiro de novo...
Pinto estava lendo o trecho do guia sobre South Drop.
— Parece um bom local de mergulho — disse ele a Noval —, menos por uma coisa, Aqui diz que foram avistados tubarões nos recifes.
— São perigosos? — perguntou Algaro.
— Depende da situação. Se forem agitados, podem virar uma verdadeira ameaça.
Algaro sorriu maliciosamente.
— Ainda temos aquela coisa fedorenta que vocês usaram ontem quando foram pescar? — perguntou ele a Noval.
— Está falando da isca que usamos? — Noval se virou para Pinto: — Sobrou alguma?
Pinto foi até a popa, encontrou um grande balde de plástico e tirou a tampa. O cheiro era terrível. Havia todo tipo de peixe cortado ali, misturado com intestinos, carne podre e óleo.
— Aposto que os tubarões gostariam disso — disse Algaro. — E os atrairia num raio de milhas em volta.
Noval fez um ar horrorizado.
— Ficariam doidos.
— Ótimo. Então, faremos o seguinte — Algaro virou-se para Serra: — Quando eles pararem, damos tempo para que mergulhem. Depois, avançamos a toda a velocidade, despejamos esse nojo pela borda e vamos embora.
Serra parecia preocupado. — Sim mas...
— Não quero ouvir nenhum mas. Esperamos que desçam, chegamos muito rápido, jogamos essa merda e caímos fora. — Tinha um sorriso de completa felicidade. — Com um pouco de sorte, talvez Dillon acabe sem uma perna.
O Sea Raider estava fundeado, balançando na ondulação agitada. O vento rodopiava, trazendo uma cortina de chuva e neblina. Ferguson, na cabine, observava os outros se preparando. Carney abriu o armário do convés e tirou um tubo comprido com uma alça na ponta.
— Isso é o que chamam de arpão submarino? — Ferguson perguntou.
— Não, é uma arma de fogo. — Carney abriu uma caixa de munição. — Chamamos de powerhead. Algumas pessoas usam um cartucho de espingarda. Eu prefiro um .45ACP. Deslize-o na câmara traseira aqui, feche-a bem e pronto. Há um pino de disparo na base. Quando eu o empurro contra o alvo, o cartucho é disparado, a bala passa, mas os gases abrem um buraco do tamanho da sua mão.
— E boa noite, Viena. — Dillon vestiu seu colete. — Você vai pescar desta vez?
— Não exatamente. Quando estive aqui da última vez, havia tubarões de recife por perto e um deles ficou meio agitado. Estou apenas sendo cauteloso.
Dillon foi o primeiro a descer. Na âncora, virou-se e viu Carney se aproximar com a pistola elétrica na mão esquerda. Ele acenou e avançou ao longo do recife, detendo-se à beira de uma grande escarpa. Acenou novamente e se virou para cruzar o recife para o lado mais raso. Havia uma arraia-águia passando em câmera lenta ao longe e de repente um tubarão de recife cruzou seu caminho, passando não muito longe deles. Carney fez um gesto de indiferença e Dillon o seguiu.
Dando-se conta de que o vento trazia chuva, Ferguson refugiou-se na cabine, procurou a garrafa térmica e se serviu de uma caneca de café. Achou que ouviu alguma coisa — um ruído surdo —, dirigiu-se à popa e ficou na escuta. De repente, um ronco súbito. Era Serra acelerando a lancha ao máximo e irrompendo da cortina de chuva. Ferguson praguejou e correu para a mochila, dando-se conta de que os homens despejavam um balde na água. Quando empunhou a AK, eles já tinham desaparecido na chuva.
Dillon percebeu que alguma coisa acontecia lá em cima na superfície, olhou e era a quilha da lancha avançando a grande velocidade. Em seguida, viu a isca caindo. Uma barracuda se precipitou como um raio sobre um pedaço de carne. O irlandês sentiu um puxão no tornozelo, olhou para baixo e viu Carney acenando para que descesse. Quando Dillon chegou junto a ele, o americano estava esticado contra o fundo. Mais acima, as águas se agitaram, e um tubarão arremeteu como um torpedo.
Imitando Carney, Dillon se deitou de costas, e olhava para cima quando outro tubarão veio na mesma direção, mandíbulas abertas. Então, para seu horror, um terceiro atacou como um relâmpago. Pareciam lutar entre si e um deles mordeu a barracuda, abocanhando todo o seu corpo, deixando apenas a cabeça flutuando.
Carney se virou para Dillon, apontou a corrente da âncora, do outro lado da falha, e fez sinal para que se movesse junto ao fundo. Um tubarão passou por ele em rasante, com um ímpeto tremendo, deu a volta e atacou de novo. Carney, que estava acima dele, já perto do cabo, disparou a pistola elétrica.
Ouviu-se uma explosão: o tubarão se afastou, vacilante, deixando um rastro de sangue. Outros dois o cercaram e logo um deles arremeteu. Mais ou menos no meio da corrente, Dillon viu o outro começar a retalhar o ferido. O sangue na água parecia uma nuvem. Dillon subiu à tona ao lado de Carney e içou-se para bordo.
Sentou-se no convés, rindo nervosamente.
— É frequente isso acontecer?
— Há uma primeira vez para tudo. — Carney tirou a garrafa de oxigênio. — Nunca tinham feito isso comigo. — E se virando para Ferguson: — Presumo que tenha sido a lancha. O desgraçado deve ter se aproximado em baixa potência e depois acelerado no último minuto.
— Foi exatamente isso. Quando peguei a AK, já tinham desaparecido — disse Ferguson.
Carney se enxugou e vestiu uma camiseta. — Gostaria de saber como eles conseguiram nos seguir, especialmente nessa chuva e com essa neblina. — E foi cuidar da âncora.
— Eu devia ter avisado, brigadeiro — observou Dillon. — Tenho aquela carta na manga guardada aqui embaixo. Talvez tivesse chegado a ela mais depressa.
Passou a mão por baixo do painel de instrumentos para procurar a pistola e seus dedos tocaram o aparelho de escuta. Desprendeu-o e o colocou na palma da mão.
— Ah, bem — disse Ferguson —, então caímos na magia eletrônica, não é?
— Que diabos você tem aí? — Carney perguntou, voltando da proa.
Dillon mostrou. — Preso num ímã sob o painel de instrumentos. Fomos sabotados, meu velho. Não admira que tenha sido tão fácil nos seguir. Provavelmente, fizeram o mesmo no Privateer, caso o usássemos.
— Ela ficou perto da costa esta manhã.
— Exatamente, caso contrário eles ficariam confusos.
Carney balançou a cabeça. — Sabe, acho que tenho realmente que fazer alguma coisa em relação a essa gente — e ele subiu a escada para a ponte.
No caminho de volta para St. John, outra rajada de chuva varrendo a água. A lancha ia bem na frente. Quando acostou, Serra e Algaro subiram a escada do Maria Blanco. Santiago estava sob o toldo da coberta de popa.
— Parece satisfeito, Algaro — disse ele. — Andou matando gente outra vez?
— Espero que sim. — Algaro relatou os acontecimentos da manhã.
Santiago sacudiu a cabeça.
— Duvido que Dillon tenha sofrido algum problema permanente. E esse tal de Carney conhece muito seu negócio. — Soltou um suspiro. — Não há nada a fazer até a garota voltar. Vamos para Samson Cay, Serra. Estou cansado desse lugar. Informe ao Prieto da nossa chegada e telefone a um de seus amigos pescadores de Cruz Bay. Quando a garota chegar, quero ser informado imediatamente.
A rajada foi violenta, levando a chuva à frente em uma cortina pesada, mas tendo um curioso efeito de alisamento na superfície do mar. Carney desligou os motores, desceu a escada e se reuniu a Ferguson e Dillon na cabine do convés.
— Melhor esperar passar. Não vai durar muito. — Ele sorriu. — Normalmente eu não trago álcool, mas esta é uma empreitada especial.
Ele abriu a geladeira de plástico e trouxe três latas de cerveja.
— Aceito com gratidão. — Ferguson tirou a lingueta e bebeu um pouco. — Deus, mas isso é bom.
— Há momentos em que uma cerveja gelada é a única coisa — disse Carney. — Uma vez no Vietnã eu estava numa unidade que foi muito maltratada. Na verdade, ainda tenho fragmentos nos braços e nas pernas, mas muito pequenos para valer a pena pinçar. Sentei-me em uma caixa na chuva, comendo um sanduíche enquanto um cara me costurava e ele estava sem morfina. Eu estava tão feliz por estar vivo que não senti nada. Então alguém me deu uma lata de cerveja, cerveja quente, veja bem.
— E nada nunca teve um gosto tão bom? — disse Dillon.
— Até que a fumaça se dissipou e eu vi um cara encostado numa árvore sem as duas pernas. — Carney balançou a cabeça. — Deus, como passei a odiar aquela guerra. Depois de cumprir meu tempo, fui para a Georgia com os marines. Quando Nixon chegou e a polícia apareceu para espancar os manifestantes antiguerra, todos nós, veteranos, vestíamos camisetas brancas com nossas medalhas penduradas para envergonhá-los.
Ele riu e Ferguson disse: “O Hook na Coreia era exatamente assim. Mais corpos do que se podia contar, inferno absoluto, e você acaba se perguntando o que estava fazendo ali.
— Heidegger disse uma vez que para uma vida autêntica é necessário o confronto decisivo com a morte — disse Dillon.
Carney riu asperamente. — Conheço a obra de Heidegger, me formei em Filosofia na Georgia State e vou te contar uma coisa. Aposto que Heidegger estava atrás da mesa do escritório quando escreveu isso.
Ferguson riu. — Bem colocado.
— Enfim, Dillon, o que você sabe sobre isso? Qual foi sua guerra? — Carney perguntou.
Dillon disse calmamente: — Estive em guerra a minha vida inteira. — Ele se levantou, acendeu um cigarro e subiu a escada para a ponte.
Carney disse: — Ei, espere um minuto, brigadeiro, aquela discussão que tivemos sobre o exército irlandês no Jenny's Place, quando fiz o comentário sobre o IRA... é isso que ele é, um daqueles pistoleiros?
— Ele costumava ser, embora gostem de ser chamados de soldados do Exército Republicano Irlandês. O pai foi morto acidentalmente em fogo cruzado por soldados britânicos em Belfast quando ele era bem jovem, então ele se juntou à gloriosa causa.
— E agora?
— Tenho a impressão de que a simpatia dele pela gloriosa causa diminuiu um pouco. Vamos ser educados, dizer que ele se tornou uma espécie de mercenário e deixar por isso mesmo.
— Eu diria que é desperdício de um bom homem.
— É a vida dele — disse Ferguson.
— Suponho que sim. — Carney se levantou. — Está limpando agora. É melhor irmos.
Subiu a escada para a ponte. Dillon não disse uma palavra, simplesmente ficou sentado na cadeira giratória, fumando, e Carney ligou os motores, levando o Sea Raider no rumo de St. John.
Uns dez minutos depois, um grande iate a motor se aproximava em alta velocidade. Carney percebeu que era o Maria Blanco.
— Olha o maldito — disse ele. — Nosso querido amigo Santiago deve estar de partida para Samson Cay.
Ferguson subiu para a ponte. Carney aproximou de tal forma o barco que foi possível ver Santiago na popa com Algaro.
— Tenham um belo dia — cumprimentou Carney, debruçado sobre a amurada, e Ferguson ergueu seu panamá.
Santiago levantou o copo para eles.
— O que foi que eu disse, seu idiota? — perguntou ele a Algaro. — Provavelmente, os tubarões se saíram pior.
Nesse momento, Serra se aproximou com o telefone portátil.
— Uma chamada de Londres, señor: é Sir Francis.
— Francis — disse Santiago —, como vai?
— Queria saber se já descobriu alguma coisa.
— Não, mas não tem que se preocupar. Está tudo sob controle.
— Acaba de me ocorrer uma coisa. Não sei por que não pensei nisso antes. Os caseiros do antigo hotel de Samson Cay eram um casal negro de Tortola, May e Joseph Jackson. Ela morreu há alguns anos, mas ele ainda está lá.
— Sei... — disse Santiago.
— O que quero dizer é que ele estava lá quando Bormann... Percebe aonde quero chegar? Peço desculpas, devia ter pensado nisso antes.
— Lá isso devia, Francis, mas não tem importância. Vou cuidar disso.
Santiago desligou e se virou para Algaro. — Outro trabalho para você, mas sem pressa. Estou indo me deitar. Me chame quando chegarmos.
Mais tarde, Dillon estava deitado numa espreguiçadeira na varanda do chalé quando Ferguson apareceu.
— Acabo de me lembrar de uma coisa — disse o brigadeiro. — Esse tal refúgio de milionários em Samson Cay... talvez fosse divertido ir jantar lá. Confrontar a raposa em sua toca.
— Por mim, acho bom — disse Dillon. — Podemos ir de avião, se quiser. Eles têm uma pista. Passei por cima dela na vinda para cá, e o Cessna pousa tão facilmente em terra como na água.
— Talvez consigamos convencer Carney a ir conosco. Ligue do celular para a recepção, pergunte o nome do gerente e pegue o número.
O que Dillon fez, anotando os detalhes rapidamente. — Pronto, é Carlos Prieto.
Em dois minutos, Ferguson estava falando com o gerente.
— Aqui é o brigadeiro Charles Ferguson. Estou hospedado em Caneel. Um de meus amigos tem um hidroavião aqui e pensamos que seria divertido voar esta noite e jantar com vocês. É um plano de dupla finalidade. Podemos usar sua pista de pouso. Seríamos três.
— Lamento, brigadeiro, mas a sala de jantar é reservada aos hóspedes.
— Que pena. Não me agrada em nada desiludir Mr. Santiago.
— Mr. Santiago está à sua espera?
— Confirme com ele.
— Um instante, brigadeiro.
Prieto ligou para o Maria Blanco, pois Santiago sempre preferia ficar a bordo quando em Samson Cay. — Lamento incomodá-lo, mas o nome Ferguson significa algo para o senhor?
— Brigadeiro Charles Ferguson?
— Ele está ao telefone de Caneel. Deseja vir de hidroavião, eles são três, para o jantar.
Santiago riu alto. — Excelente, Prieto, maravilhoso, não perderia por nada neste mundo.
Prieto voltou a falar com Ferguson. — Estamos ansiosos para vê-lo, brigadeiro. A que horas podemos esperá-los?
— Entre seis e meia e sete.
— Excelente. — Ferguson estendeu o celular para Dillon. — Diga a Carney para nos encontrar às seis no Jenny's Place com a melhor fatiota que tiver. Tomamos um coquetel e voamos para Samson Cay. Deve ser uma alegre noite — ele disse, e saiu.
12
Eram sete da noite quando Jenny Grant chegou ao aeroporto Charles de Gaulle, em Paris. Devolveu o carro alugado, foi ao balcão da British Airways e fez reserva no primeiro voo para Londres. Era tarde demais para a conexão de Antígua naquele dia, mas havia lugar vago às nove da manhã seguinte num voo de Gatwick com chegada prevista às duas da tarde, e eles até reservaram sua ida para St. Thomas em um dos aviões do serviço interinsular da Liat. Com sorte, estaria em St. John no início da noite.
Esperou as passagens e fez check-in imediato no voo para Londres para poder se livrar da bagagem. Num bar do aeroporto, pediu uma taça de vinho. Melhor passar a noite num hotel de Gatwick, pensou. Sentiu-se bem pela primeira vez desde a notícia da morte de Henry, até animada, e mal podia esperar para voltar a St. John e saber se tinha razão. Comprou um cartão telefônico num quiosque, encontrou um telefone e ligou para o Jenny's Place em Cruz Bay. Foi Billy Jones quem atendeu.
— Billy? Sou eu, Jenny.
— My goodness, Miss Jenny, onde está?
— Paris. No aeroporto. São quase sete e meia da noite aqui. Volto amanhã, Billy, via Antígua, depois Liat para St. Thomas. Nos vemos por volta das seis.
— Que bom, Miss Jenny. Mary vai ficar muito contente.
— Billy, esteve aí um homem chamado Sean Dillon? Eu disse a ele para procurar você.
— Veio, veio sim. Tem andado por aí de barco com Bob Carney; ele e um tal brigadeiro Ferguson. Na verdade, acabo de falar com Bob e ele disse que os três vão se encontrar aqui às seis.
— Ótimo. Dê um recado meu a Dillon. Diga que estou de volta porque acho que talvez saiba onde ele está.
— Ele quem? — perguntou Billy.
— Não importa. Apenas diga isso a ele. É muito importante.
Ela desligou o telefone, pegou sua bagagem de mão e ainda cheia de entusiasmo e alegria passou pela segurança para o salão internacional.
Ferguson e Dillon estacionaram o jipe em Mongoose Junction e caminharam até o Jenny's Place. Com blazer e gravata dos Guards, o panamá no ângulo adequado, o brigadeiro parecia impressionante. Dillon usava terno de seda azul-marinho e camisa branca abotoada no pescoço. Quando entraram no Jenny's Place, o bar já estava cheio com o movimento do início da noite. Bob Carney, encostado no bar vestindo calça branca de linho e camisa azul, seu blazer no banquinho ao lado, virou-se e assobiou.
— Mas é um verdadeiro desfile de modas. Graças a Deus que eu me vesti.
— Bem, vamos encontrar o diabo cara a cara, por assim dizer. — Ferguson colocou sua bengala Malacca no balcão. — Nessas circunstâncias, acho que devemos fazer um esforço. Champanhe, estalajadeiro — disse ele a Billy.
— Calculei que quereriam isso. Tenho aqui mesmo à mão uma garrafa de Pol Roger geladinha. — Tirou-a de baixo do balcão. — Agora, a surpresa que estou guardando.
— E que surpresa é essa? — perguntou Carney.
— Miss Jenny telefonou da França, de Paris. Está vindo para casa. Deve estar de volta amanhã a esta hora. — Billy fez saltar a rolha com o polegar.
— Isso é maravilhoso — disse Carney.
Billy encheu três copos. — Deu-me um recado especial para Mr. Dillon.
— Oh, e qual seria? — Dillon perguntou.
— Ela disse que é importante. Ela disse para lhe dizer que está voltando porque acha que talvez saiba onde ele está. Isso faz algum sentido para você? Porque com certeza não faz nenhum para mim.
— Todo o sentido do mundo.
Ferguson ergueu o copo e brindou aos demais. — Para as mulheres em geral, senhores, e para Jenny Grant em particular. Maravilhoso. — Ele esvaziou o copo. — Bom, vamos à luta. — Ele se virou e abriu caminho para fora do bar.
Atrás deles, o pescador barbudo que estava na ponta do balcão se levantou e saiu. Foi até o telefone público que ficava à beira-mar, tirou do bolso um papel com o telefone que Serra lhe dera e ligou para o Maria Blanco. Santiago estava em seu camarote se preparando para o jantar quando Serra entrou esbaforido, com o telefone na mão.
— Céus, o que houve? — perguntou.
— Meu informante acabou de ouvir Dillon e seus amigos conversando com Jones, o bartender do Jenny's. Aparentemente ela ligou de Paris, estará em St. John amanhã à noite.
— Interessante — comentou Santiago.
— E isso não é tudo, señor. Ao que parece, mandou um recado a Dillon dizendo que talvez saiba onde ele está.
Santiago ficou muito pálido e pegou o telefone.
— Aqui é Santiago. Agora, repita sua história para mim. — Ele ouviu e disse por fim: — Bom trabalho, meu amigo. Será recompensado por isso. Mantenha os olhos abertos.
Ele devolveu o telefone a Serra. — Viu só, tudo vem àquele que espera — e se virou para o espelho.
Ferguson, Dillon e Carney cruzaram Mongoose e seguiram até Lind Point, rumo à rampa do hidroavião. Ferguson disse: — É bem conveniente ter uma rampa aqui, e todas essas coisas.
— Na verdade, temos um serviço regular de hidroavião — disse Carney. — Quando está operando, pode-se voar para St. Thomas ou St. Croix, até mesmo direto para San Juan de Porto Rico.
Chegaram ao Cessna e Dillon deu uma volta de inspeção geral, depois afastou os blocos das rodas. Abriu a porta traseira. — OK, amigos, podem subir.
Ferguson foi o primeiro, seguido por Carney. Dillon abriu a outra porta, subiu para o banco do piloto, trancou a porta e prendeu o cinto de segurança. Soltou os freios e o avião rolou pela rampa para a água e derivou na correnteza.
Ferguson olhou para a baía sob a luz fraca. — Bela noite, mas estive pensando. Voltaremos na escuridão.
— Não, hoje é lua cheia, brigadeiro — disse Carney a ele.
— Verifiquei a previsão do tempo — Dillon acrescentou. — Noite clara e nítida, condições perfeitas. O voo não deve demorar mais de quinze minutos. Cintos de segurança colocados, coletes salva-vidas sob o assento.
Dillon ligou o motor, que tossiu e a hélice girou. Taxiou para fora do porto, verificou se não havia tráfego de barcos e virou contra o vento. Flutuaram no ar e começaram a subir, nivelando a 300 metros. Passaram pela extremidade sul de St. John, depois Reef Bay e finalmente Ram Head, antes de partirem para o mar em direção à Ilha Norman, Samson Cay uns seis quilômetros ao sul. Foi um voo sem incidentes, e exatamente quinze minutos após deixar Cruz Bay ele estava fazendo sua primeira passagem sobre a ilha. O Maria Blanco estava no porto abaixo, a trezentos metros da costa, e havia vários iates, algumas pessoas ainda na praia aproveitando o pôr-do-sol.
— Um refúgio para gente realmente rica — disse Bob Carney.
— É mesmo? — Ferguson disse, impressionado. — Bem, espero que façam uma comida decente, é só nisso que estou interessado.
Carlos Prieto saiu pela porta da recepção e olhou para o céu quando o Cessna passou lá em cima. Junto à escada estava uma velha van Ford com um negro já idoso encostado nela.
— Chegaram, Joseph — disse Prieto —, vá buscá-los na pista e traga-os para cá.
— É para já. — Joseph instalou-se ao volante e arrancou. Quando Prieto deu meia-volta para entrar, apareceu Algaro.
— Ah, aí está você. Estava à sua procura. Conhece algum velho chamado Jackson, Joseph Jackson?
— Sim, claro, é o motorista daquela van que acaba de arrancar para a pista. Precisa dele?
— Nada urgente — disse Algaro, e voltou para dentro.
Dillon desceu, executando uma aterrissagem perfeita, virou contra o vento e desligou o motor.
— Nada mal, Dillon — comentou Ferguson. — Você sabe pilotar um avião, posso garantir isso a você.
— Não faz ideia de como isso me deixa feliz — brincou Dillon.
Saíram todos, e Joseph Jackson foi ao encontro deles.
— O carro está bem ali adiante, senhores. Levo-os ao restaurante. Sou Joseph Jackson. Tudo que quiserem é só dizer. Ando por esta ilha há mais tempo do que qualquer outra pessoa.
— Ah, sim? — perguntou Ferguson. — Por acaso estava aqui durante a guerra? Ouvi dizer que não havia ninguém.
— Não é bem assim — contradisse Jackson. — Havia aqui um velho hotel que pertencia a uma família americana, os Herberts. Durante a guerra, ficou desocupado, mas minha mulher e eu olhávamos as coisas.
Tinham chegado à van quando Ferguson perguntou: — Herbert, você disse? Eram os donos?
— O pai de Miss Herbert deu o hotel de presente quando ela se casou com um tal Mr. Vail. — Jackson abriu a porta, Carney sentou no banco da frente, Dillon e Ferguson atrás. — Ela depois teve uma filha. — Era óbvio que o velhote estava se exibindo.
— Então, Miss Herbert se tornou Mrs. Vail, teve uma filha chamada Miss Vail? — disse Dillon enquanto entravam na van.
Jackson ligou o motor e continuou a tagarelar enquanto se afastavam.
— Só que Miss Vail depois se tornou Lady Pamer. O que acham disso? Uma autêntica aristocrata inglesa, como nos filmes.
— Desligue esse motor! — Ferguson ordenou.
Jackson pareceu confuso e freou. — Foi alguma coisa que eu disse?
Bob Carney esticou a mão e girou a chave.
Ferguson disse: — Miss Vail tornou-se Lady Pamer, tem certeza?
— Eu a conhecia, não conhecia? Ela veio para cá no fim da guerra com seu bebê, o pequeno Francis. Isso deve ter sido em abril de quarenta e cinco.
Fez-se um silêncio pesado.
Dillon disse: — Havia mais alguém aqui nessa época?
— Um cavalheiro alemão chamado Strasser. Ele apareceu uma noite. Acho que ele conseguiu um barco de pesca para deixá-lo em Tortola, mas Lady Pamer, ela o estava esperando...
— E Sir Joseph?
— Ele veio da Inglaterra em junho. O Sr. Strasser, ele seguiu em frente. Os Pamers partiram e voltaram para a Inglaterra depois disso. Sir Joseph costumava voltar, mas isso só enquanto o resort era construído.
— E Sir Francis Pamer? — Ferguson perguntou.
— O pequeno Francis? — Jackson riu. — Ele cresceu muito bem. Eu o vi aqui muitas vezes. Podemos ir agora, senhores?
— Claro — disse Ferguson.
Jackson arrancou, Dillon acendeu um cigarro e ninguém disse uma palavra até chegarem à entrada principal. Ferguson pegou sua carteira, extraiu uma nota de dez libras e a entregou a Jackson. — Meus agradecimentos.
— Eu que agradeço — Jackson disse a ele. — Estarei pronto, senhores, quando quiserem voltar.
Pararam os três embaixo da escada.
— Bem, agora já sabemos como Santiago é tão bem informado — comentou Dillon.
— Deus nos céus! — exclamou Ferguson. — Um ministro da Coroa e uma das mais antigas famílias da Inglaterra!
— Muita gente achava que Hitler tinha as ideias certas nos anos 1930 — disse Dillon. — Tudo se encaixa, brigadeiro. E quanto a Carter?
— O Serviço Secreto Britânico teve a infelicidade de empregar o bom e velho Kim Philby, Burgess, MacLean, todos trabalhando para a KGB, e nos entregaram rio abaixo aos comunistas sem um momento de hesitação. Desde então, houve Blunt, rumores de um quinto homem, um sexto... — Ferguson suspirou. — Embora não me importe nem um pouco com Simon Carter, devo dizer que acredito que ele seja um patriota antiquado e tão honesto quanto o dia é longo.
Carlos Prieto apareceu no alto da escada. — Brigadeiro Ferguson, que prazer. O señor Santiago os espera no bar. Ele acaba de chegar do Maria Blanco. Ele prefere ficar a bordo aqui em Samson Cay.
O bar estava cheio dos ricos e dos bons, como seria de esperar em um lugar assim. As pessoas tendiam a ser mais velhas do que mais jovens, os homens especialmente, principalmente os americanos, obviamente perto do fim de sua vida profissional. Preponderavam calças de falso xadrez escocês inchadas sobre barrigas amplas, smokings brancos.
— Deus me salve — disse Dillon —, nunca vi tanto homem junto parecendo maestro de bandinha de baile.
Ferguson riu alto e Santiago, que estava sentado em um reservado ao lado do balcão, com Algaro em frente a ele, virou-se para olhar. Ele se levantou e estendeu a mão urbanamente. — Meu caro brigadeiro Ferguson, é um prazer.
— Señor Santiago — Ferguson disse formalmente. — Há muito que espero esta reunião. — Ele apontou brevemente para Algaro com sua bengala Malacca. — Mas realmente precisamos desta criatura por perto? Quero dizer, ele não pode sair e alimentar os peixes ou algo assim?
Algaro parecia querer matá-lo na hora, mas Santiago riu alto. — Pobre Algaro, ele requer um certo hábito, receio.
— O diabinho — disse Dillon, sacudindo um dedo para Algaro. — Agora, seja um bom cachorrinho e vá chupar um osso ou algo assim.
Santiago se dirigiu a ele em castelhano. — Sua hora vai chegar, saia e faça o que eu disse.
— Ora, então aqui estamos nós — disse Ferguson, quando Algaro saiu. — E agora?
— Um pouco de champanhe, talvez, um jantar agradável? — Santiago acenou a Prieto, que estalou os dedos para um garçom que segurava um balde de gelo com uma garrafa de Krug. — Podemos ser civilizados, não é verdade?
— Não é verdade? — Dillon verificou o rótulo. — Oitenta e três. Nada mal, señor.
— Eu me curvo ao seu julgamento. — O garçom encheu os copos, e Santiago ergueu o dele. — A você, Brigadeiro Ferguson, aos campos de jogo de Eton e ao sucesso contínuo do Grupo Quatro.
— Você é bem informado — disse o brigadeiro.
— E à sua, capitão Carney, um cidadão verdadeiramente notável: herói de guerra, capitão de alto mar e lendário mergulhador. Quem diabos eles podem chamar para interpretar você num filme?
— Suponho que eu mesmo — Carney disse.
— E Mr. Dillon, o que posso dizer de um homem que por único rival só teve Carlos, o Chacal?
— Quer dizer que sabe tudo a nosso respeito — disse Ferguson. — Muito impressionante. Deve precisar desesperadamente do que está no U-boat.
— Ponhamos as cartas na mesa, brigadeiro. Você quer o que ainda deve estar nos aposentos do capitão, a pasta de Bormann contendo a autorização pessoal do Führer, o Livro Azul e o Protocolo Windsor.
Houve uma pausa e foi Carney quem falou: — Interessante, você não o chamou de Hitler, você disse do Führer.
O rosto de Santiago endureceu. — Um grande homem, um grande homem que teve uma visão do mundo como devia ser, não como acabou.
— É mesmo? — Ferguson comentou. — Eu sempre entendi que, se você contar judeus, ciganos, russos e mortos na guerra de vários países, cerca de 25 milhões de pessoas morreram para provar que ele estava errado.
— Nós dois queremos a mesma coisa, você e eu — disse Santiago. — O conteúdo daquela pasta. Você não quer que caia em mãos erradas. O velho escândalo que afetaria tantas pessoas, o Duque de Windsor, a Família Real no centro da tempestade novamente. A mídia teria um dia daqueles. Como eu disse, ambos queremos a mesma coisa. Também não quero que tudo aquilo venha a público.
— Quer dizer que a obra continua — disse Ferguson. — Os Kamaraden? Quantos nomes estão nessa lista, nomes famosos, nomes antigos que prosperaram desde a guerra à custa do dinheiro nazista?
— Jesus — Dillon disse. — Isso faz a máfia parecer uma cervejinha.
— Vamos lá — disse Santiago —, isso importa tanto assim, depois de todos esses anos? — Bebeu mais um pouco do seu champanhe.
— Com certeza deve importar para você ou para seus amigos íntimos — disse Carney —, caso contrário, por que teria todo esse trabalho?
— Mas é importante, Sr. Carney — disse Ferguson. — Essa é a questão. Se a rede continuou por todos esses anos, se envolve filhos, netos, pessoas em cargos importantes, políticos, por exemplo... — Ele tomou um pouco mais de champanhe. — Imagine, como eu disse, alguém em posto bem alto no governo. Como isso seria útil e, depois de tantos anos, o tamanho do escândalo, que pode derrubar tudo em torno.
Santiago acenou para o garçom servir mais champanhe. — Achei que você fosse sensato, mas vejo que não. Não preciso de você, brigadeiro, ou de você, Sr. Carney. Tenho meus próprios mergulhadores.
— Encontrar não basta — disse Carney. — Tem que entrar naquela lata e isso requer expertise.
— Tenho mergulhadores, Sr. Carney, um amplo estoque de C4, é esse o nome do explosivo? Só emprego pessoas que sabem o que estão fazendo. — Ele sorriu. — Mas isso não está nos levando a lugar algum. — Ele se levantou. — Ao menos podemos comer como homens civilizados. Por favor, senhores, façam-me companhia.
A van parou ao lado da pista de aterrissagem. Algaro estava sentado no banco atrás de Joseph Jackson.
— Era aqui que queria vir?
— Acho que sim — disse Algaro. — Aquela gente do avião, o que achou deles?
— Senhores simpáticos — disse Jackson.
— Não. O que eu quero saber é se fizeram perguntas.
Jackson começou a se sentir pouco à vontade.
— A que tipo de perguntas se refere, mister?
— Vamos colocar deste modo: vocês conversaram. Eles falaram, você falou. Sobre o quê?
— Bem, o senhor inglês... estava interessado nos velhos tempos. Eu contei que fui caseiro aqui para os Herberts durante a Segunda Guerra com minha mulher.
— E o que mais contou?
— Nada, juro! — Agora, Jackson estava assustado.
Algaro segurou a nuca dele e apertou.
— Conte!
Jackson tentou se libertar.
— Nada demais, só falei dos Pamers.
— Pamers?
— Sim, Lady Pamer, e como ela veio para cá no fim da guerra.
— Conte — disse Algaro, dando tapinhas no rosto do velho. — Conte tudo. Está tudo bem, diga a verdade.
O que Jackson fez e quando terminou, Algaro disse: — Pronto, não foi tão ruim, foi? — Passou um braço pelo pescoço do homem, pôs a outra mão sobre a cabeça dele e torceu, quebrando seu pescoço com tanta facilidade que o velho morreu em um segundo. Algaro abriu a porta e empurrou o corpo para fora, deixando a cabeça bem embaixo do carro, junto à roda de trás. Puxou uma faca e esvaziou o pneu, levantou o carro com o macaco e tirou a roda. Quando chutou o macaco, a traseira da van caiu em cima de Jackson. Algaro tirou o pneu sobressalente e o colocou no chão.
Depois, encaminhou-se para o Cessna e ficou parado ali algum tempo, olhando.
O jantar foi excelente: Asas de frango à West India com Rockefort, sopa de mariscos seguida de pargo assado. Ninguém pediu sobremesa e Santiago disse: — Café?
— Prefiro chá — Dillon disse.
— Você é tão irlandês.
— Era o que eu podia pagar quando menino.
— O mesmo para mim — disse Ferguson e, naquele momento, Algaro apareceu na porta.
— Precisam me desculpar, senhores. — Santiago se levantou e foi ao encontro de Algaro. — O que foi?
— Descobri Jackson, era o velho tolo do táxi.
— E o que houve?
Algaro contou resumidamente.
— Mas agora nossos amigos sabem que Sir Francis está envolvido.
— Isso não faz diferença nenhuma, señor. Sabemos que a garota volta amanhã. Sabemos que ela acredita saber onde está o submarino. Quem precisa deles agora?
— Algaro — disse Santiago —, o que você fez?
Quando Santiago voltou para a mesa, Ferguson se levantou.
— Magnífico jantar, Santiago, mas realmente precisamos ir andando.
— Que pena. Foi uma experiência muito agradável.
— Foi, não foi? A propósito, tenho aqui dois presentes para você. — Ferguson tirou os sensores de escuta do bolso e pôs em cima da mesa. — São seus, eu acho. Meus cumprimentos a Sir Francis da próxima vez que se falarem, ou posso eu mesmo dar a ele os seus.
— Que forma elegante de dizer as coisas — disse Santiago, e se sentou.
Quando chegaram à entrada principal, depararam-se com um Prieto de ar exaltado.
— Peço desculpas, senhores. Não faço ideia do que aconteceu com o táxi.
— Não tem importância — disse Ferguson. — Estaremos lá a pé em cinco minutos. Boa noite. O jantar estava magnífico.
Foi Carney quem reparou primeiro na van junto à pista.
— O que houve ali? — disse ele, e gritou: — Jackson?
Não teve resposta. Aproximaram-se e imediatamente deram com o corpo.
— Pobre diabo — disse Carney. — O macaco deve ter cedido.
— Incrível coincidência — observou Ferguson.
Dillon assentiu.
— Ele nos conta sobre Pamer e pimba: morre.
— Espere um minuto — objetou Carney. — Quer dizer, se Santiago sabia da existência do velho, por que deixar para agora? Ele teria se livrado dele muito antes disso.
— Não se ele não soubesse que Jackson existia — Ferguson disse.
Dillon concordou. — Até alguém lhe contar. Alguém que o vem alimentando com todas as informações de que precisava.
— Refere-se a esse tal Pamer? — perguntou Carney.
— Sim. Não é perfeitamente horripilante? — perguntou Ferguson. — Só mostra que não se pode confiar em ninguém hoje em dia. Vamos embora.
Subiu com Carney no Cessna. Dillon pegou uma lanterna e fez uma inspeção externa.
— Parece estar tudo em ordem.
— Não creio que Santiago queira nos matar por enquanto — opinou Ferguson. — Todas aquelas brincadeiras de mau gosto têm sido uma provocação, mas ele ainda precisa de nós para chegar ao submarino. Portanto, andando, Dillon, bom companheiro.
Dillon girou a chave. O motor se animou com um ronco. Ele verificou os manômetros.
— Combustível e pressão de óleo parecem bem. Aqui vamos nós
Percorreu a pista com o Cessna e elevou-se na noite, virando para o mar alto.
Estava uma noite magnífica, as estrelas reluziam no céu, e lá embaixo o mar e as ilhas eram banhados pela intensa brancura do luar. St. John assomava lá adiante. Cruzaram Ram Head, movendo-se ao longo da costa sul, e foi então que aconteceu — o motor falhou, engasgou e começou a ratear.
— O que há? — perguntou Ferguson.
Dillon verificou os instrumentos e examinou a pressão do óleo.
— Estamos com problemas — disse ele. — Ponham os coletes salva-vidas.
Carney ajudou o brigadeiro a entrar no seu. — Mas com certeza o objetivo dessa coisa é que você não precisa se espatifar, você pode pousar no mar — disse Ferguson.
— Essa é a teoria — Dillon disse.
O motor morreu totalmente e a hélice parou.
Estavam a novecentos pés e Dillon comandou o avião num mergulho íngreme.
— Temos Reef Bay bem em frente — disse Carney.
— Certo — assentiu Dillon. — Agora, vai acontecer o seguinte: se tivermos sorte, vamos simplesmente deslizar e pousar na água. Se as ondas estiverem muito fortes, podemos começar a virar, então pulem imediatamente. Qual é a profundidade lá embaixo, Carney?
— Umas sete braças.
— Certo, há uma terceira alternativa, brigadeiro, que é afundar direto.
— Você acabou de fazer a minha noite — Ferguson disse.
— Se isso acontecer, confie em Carney, ele cuidará de você, mas de forma alguma perca tempo tentando abrir a porta enquanto estivermos afundando. Ela vai ficar fechada até assentarmos e a água encontrar seu caminho para dentro e equalizar a pressão.
— Muito obrigado — disse Ferguson.
— Certo, e aqui vamos.
A superfície da baía estava bem perto agora e não parecia muito encapelada. Dillon fez uma aproximação para o que parecia uma aterrissagem perfeita, mas imediatamente alguma coisa deu errado. O avião tropeçou para a frente, depois embicou e mergulhou de nariz para baixo.
A água parecia vidro negro. Já estavam completamente submersos e continuavam a afundar, tendo ainda muito ar na cabine.
Dillon sentiu a água subindo pelos tornozelos e de súbito chegar ao peito, e as luzes do painel de instrumentos se apagaram.
— Deus nos ajude! — gritou Ferguson.
— Já soltei seu cinto — disse Carney. — Prepare-se para sair a qualquer momento.
O Cessna, ainda de nariz, pousou naquele instante num trecho de areia clara do fundo da baía, balançou um pouco, depois assentou de lado. Os raios da lua cheia penetravam no mar, e, olhando pela janela da carlinga quando a água já chegava a seu pescoço, Dillon ficou surpreso com o alcance visual de que dispunha.
— Respire fundo, brigadeiro — ouviu Carney dizendo. — Vou abrir a porta agora. Apenas deslize para fora. Vamos subir juntos.
Ele mesmo respirou fundo, abriu sua porta, estendeu a mão para o suporte da asa e içou-se para fora. Viu Carney agarrando a manga do brigadeiro, tomou impulso, apoiando os pés na asa, e começou a subir.
Acreditava-se que subir muito rápido sem expelir o ar lentamente no caminho implicava o risco de rompimento dos pulmões, mas numa situação como esta não havia tempo para sutilezas e Dillon flutuou, os raios do luar filtrando-se pela água límpida, ciente de que Carney e o brigadeiro estavam à esquerda, acima dele. Tudo parecia decorrer em câmera lenta, como se, curiosamente, se passasse num sonho, e então Dillon irrompeu à tona e inalou profundamente o ar salgado.
Carney e Ferguson flutuavam a alguns metros de distância. Dillon nadou para eles.
— Tudo bem?
— Dillon — disse Ferguson, ofegante —, devo-lhe um jantar. Devo um jantar aos dois.
— Dessa não vai escapar — disse Dillon. — Pode ser outra vez no Garrick.
— Onde você quiser. Agora, acha que podemos dar o fora daqui?
Deram meia volta e nadaram para a praia, Carney e Dillon um de cada lado do velho brigadeiro. Arrastaram-se para fora da água e se sentaram na areia para se recuperar.
— Há uma casa relativamente perto daqui — disse Carney. — Conheço bem os donos. Eles nos levarão ao povoado.
— E o avião? — perguntou Ferguson, exausto.
— Há uma boa empresa de resgate em St. Thomas. Ligo esta noite para a casa do dono — disse Carney. Ele se virou para Dillon. — O que aconteceu?
— A pressão do óleo enlouqueceu e foi isso que parou o motor.
— Devo dizer que sua amerrissagem deixou muito a desejar — observou Ferguson.
— A amerrissagem foi boa — disse Dillon. — As coisas só azedaram no último instante, e tem que haver uma razão para isso. Quero dizer, uma coisa dar errado é lamentável, duas é altamente suspeito.
— Será interessante saber o que o pessoal do resgate vai encontrar — comentou Carney.
Quando eles começaram a cruzar a praia, Dillon disse: — Lembra-se de eu dizer lá em Samson quando verifiquei o avião que achava que ele não queria nos matar por enquanto, brigadeiro?
— Sim... — perguntou Ferguson. — O que quer dizer?
— Bem, acho que ele acaba de tentar.
O homem que Carney conhecia na casa próxima levou-os de caminhão até Mongoose, onde seguiram caminhos separados, Carney prometendo cuidar do resgate do avião e apresentar um relatório a eles na manhã seguinte.
De volta ao chalé em Caneel, Dillon tomou um banho quente, ficando embaixo do chuveiro por algum tempo pensando nas coisas. Finalmente, serviu-se de uma taça de champanhe e foi até o terraço na noite quente.
Ouviu sua porta abrir e Ferguson entrar. — Ah, aí está você. — Ele também estava de robe e tinha uma toalha em volta do pescoço. — Vou tomar um copo disso, querido menino, e também usar o telefone. Que horas são?
— Acaba de dar meia-noite.
— Cinco da manhã em Londres. É hora de acordar — e Ferguson discou o número do apartamento do detetive inspetor Jack Lane.
Lane acordou resmungando, acendeu a luz da cabeceira e pegou o telefone.
— Lane falando.
— Sou eu, Jack — disse Ferguson. — Ainda estamos na cama?
— Pelo amor de Deus, sir, são cinco da manhã.
— Que importância tem isso? Tenho trabalho para você. Descobri como Santiago conseguia estar tão bem informado.
— Sério, sir? — Lane agora estava acordando.
— Acreditaria se eu dissesse Sir Francis Pamer?
— Santo Deus. — Lane se sentou. — Mas por quê?
Ferguson fez um breve relato do que tinha acontecido, culminando na queda do avião.
— É difícil de acreditar...
— Não é? De qualquer forma, dedique-se à família Pamer, Jack. De onde veio o dinheiro de Sir Joseph? Como Sir Francis consegue viver como um príncipe? Use as fontes habituais.
— E quanto ao diretor-adjunto, sir, devo informá-lo de alguma forma?
— Simon Carter? — Ferguson riu alto. — Ele vai subir no telhado. Levaria pelo menos uma semana para acreditar nisso.
— Muito bem, brigadeiro. Vou pôr as coisas para andar imediatamente.
— Isso já está feito — disse Ferguson a Dillon.
— Estive pensando — disse Dillon. — Você estava certo antes ao achar que Santiago ainda não estaria pronto para nos matar porque precisava de nós. Então, presumindo que o acidente não foi acidente, eu me pergunto, o que mudou?
— Não tenho ideia, querido menino, mas tenho certeza de que vamos descobrir. — Apertou novamente as teclas do celular. — Ah, Samson Cay Resort? Mr. Prieto, por favor.
Um momento depois, uma voz disse: — Prieto falando.
— Aqui é Charles Ferguson, de Caneel. Tivemos uma noite magnífica, um jantar excelente. Agradeça por mim a Mr. Santiago.
— Claro, brigadeiro, gentileza sua telefonar.
Ferguson desligou. — Isso fará com que o bastardo pare para pensar. Dê-me outra gota de champanhe, querido menino, então vou para a minha cama.
Dillon encheu seu copo. — Não antes de me dizer uma coisa.
Ferguson engoliu metade do champanhe. — E o que seria?
— Desde o início você sabia que viria a St. John, antes mesmo de eu chegar aqui e de se tornar óbvio que Santiago tinha conhecimento de quem eu era e por que vim para cá.
— O que significa que...
— Que sabia que Pamer estava por trás de alguma coisa antes de eu sair de Londres.
— É verdade — admitiu Ferguson. — Só não tinha provas.
— Mas como soube?
— Por eliminação, querido menino. Afinal, quem sabia do caso? Henry Baker, a garota, o almirante Travers, eu, Jack Lane, você e o primeiro-ministro. Todos automaticamente excluídos.
— Restavam apenas Carter e Pamer.
— Parece um show burlesco antigo, não é? Carter, como já lhe disse, é de uma total honestidade.
— Sobrava o bom Sir Francis.
— Exatamente, e isso parecia absurdo. Como eu disse antes, um baronete, uma das famílias mais antigas da Inglaterra, um ministro do governo... — Ele terminou seu champanhe e pôs o copo na mesa. — Mas, como creio que disse tempos atrás o grande Sherlock Holmes: quando se esgotam todas as possibilidades, o impossível é a resposta. — Ele sorriu. — Boa noite, querido menino, vejo você de manhã
13
Na manhã seguinte, Santiago tomou banho de mar, depois se sentou sob o toldo na popa, meditativo, para tomar café com torradas. Algaro esperava pacientemente junto à amurada.
— Pergunto-me o que terá dado errado — disse Santiago. — Afinal de contas, não combina com você cometer um erro assim, Algaro.
— Sei o que faço e fiz o necessário, señor, acredite.
Naquele momento o capitão Serra se apresentou. — Acabo de receber uma ligação do meu informante em Cruz Bay, señor. Parece que ontem à noite o Cessna caiu em Reef Bay, isso fica na costa sul de St. John. Resgataram a aeronave a 12 metros no fundo. Ferguson, Carney e Dillon, todos sobreviveram.
— Malditos sejam no inferno! — Algaro disse com raiva.
— Em breve. — Santiago ficou sentado ali, carrancudo.
— Alguma ordem, señor?
— Sim. — Santiago se virou para Algaro. — Depois do almoço, vá a St. John de lancha com Guerra. A garota deve chegar por volta das seis.
— Devemos trazê-la para cá?
— Isso não será necessário. Descubra o que ela sabe, tenho certeza de que não está além de sua capacidade.
Tudo era malícia no sorriso de Algaro. — Às ordens, señor — e ele se retirou.
Serra esperou pacientemente enquanto Santiago servia mais café. — Quanto tempo de lancha até Cruz Bay? — Santiago perguntou.
— Dependendo do tempo, duas horas, duas horas e meia, señor.
— Quase o mesmo tempo que o Maria Blanco?
— Sim, señor.
Santiago assentiu. — Posso querer voltar para Paradise hoje à noite. Não tenho certeza. Depende dos eventos. Em todo caso, ligue para Sir Francis em Londres.
Demorou vinte minutos, mas Serra localizou Pamer numa festa no Hotel Dorchester.
— Max, como estão as coisas? — perguntou Pamer.
— Conseguimos localizar Jackson, o velho de que você falou. Que memória! Lembrava-se de 1945 no mais ínfimo detalhe.
— Oh, não! — bradou Pamer.
Santiago, que nunca viu sentido em não enfrentar os fatos de qualquer situação, continuou: — Felizmente, ele teve um acidente e partiu desta para melhor.
— Por favor, Max, não quero saber disso.
— Não seja tolo, Francis. Não é hora de fraqueza. O velho Jackson contou tudo o que sabia a Ferguson. O que é bem lamentável.
— Ferguson sabe? — Pamer ficou em estado de choque. — Da minha mãe e do meu pai, de Samson Cay, de Martin Bormann?
— Temo que sim.
— Mas o que você vai fazer?
— Livrar-me dele, obviamente. Assim como de Dillon e Carney. A garota chega esta noite e tenho a informação de que ela sabe onde está o submarino. Depois disso, não terá mais utilidade, claro.
— Não, pelo amor de Deus — implorou Pamer com um arrepio súbito. — Acabo de pensar numa coisa. Esta manhã minha secretária perguntou se havia algo errado com minhas finanças. Quando eu perguntei por que, ela disse que notou um rastreamento sendo executado por computador. Eu não achei nada de especial. Afinal, quando se é ministro, fazem essas verificações para nossa própria proteção.
— Certo. Descubra imediatamente a fonte e me informe. — Santiago devolveu o telefone a Serra. — Sabe, Serra — disse ele —, é para mim um constante motivo de surpresa a frequência com que me envolvo com gente estúpida.
Quando Ferguson e Dillon chegaram a Reef Bay no jipe de Carney, puderam ver o Cessna já fora da água, suspenso na ponta de um guindaste na popa do rebocador de resgate. Havia três homens no convés em trajes de mergulho e um de boné, camiseta e jeans. Carney assobiou, o homem se virou, acenou, entrou num bote inflável ao lado do barco, ligou o motor de popa e apontou para a costa.
Ele apareceu na praia segurando a bengala Malacca de Ferguson e disse a Carney: — Isso pertence a alguém?
Ferguson estendeu a mão para pegá-la. — Estou profundamente agradecido a você. Significa muito para mim.
Carney os apresentou. — Qual é o veredicto? Ou ainda não houve tempo?
— Que nada, já foi aberto e fechado — disse o capitão do rebocador. — Ele falou com Dillon. — Bob disse que seu medidor de pressão do óleo enlouqueceu.
— É verdade.
— Não é surpresa. A tampa estourou. Uma pressão assim só é gerada quando há uma quantidade substancial de água no óleo. Conforme o motor esquenta, a água se transforma em vapor e pronto.
— Não é um pouco estranho tanta água no óleo? — perguntou Carney.
— Não me compete dizer. O certo é que algum vândalo pretendia lhes fazer mal: usaram um machado nos flutuadores. Por isso é que a amerrissagem deu errado. — Sacudiu a cabeça — Vocês tiveram muita sorte. — Ele entrou no bote inflável e voltou para o barco de resgate.
Eles se sentaram em uma mesa no Jenny's Place e Mary Jones lhes trouxe sopa e pão francês. Billy serviu cerveja gelada, e sacudiu a cabeça. — Vocês devem ser gente boa... Quer dizer, nem deveriam estar aqui...
Ele se afastou e Dillon disse: — Então você estava errado, brigadeiro, ele tentou nos matar. Por quê?
— Talvez tenha algo a ver com o que o velho Jackson contou — Carney disse.
— Sim, pode ser, mas ainda estou surpreso — disse Ferguson. — Achava que ainda tínhamos nossa utilidade.
— Bem, saberemos com certeza quando Jenny chegar — Carney disse.
— Espero que sim. — O brigadeiro ergueu o braço. — Vamos querer mais cerveja, estalajadeiro, está realmente excelente.
Pamer ligou para Santiago quando já escurecia em Londres.
— Não podia ser pior — disse ele. — Aquele rastreio de computador foi autorizado pelo inspetor Lane, assistente de Ferguson no momento, em empréstimo temporário do Special Branch da Scotland Yard. É uma verificação do histórico financeiro da minha família, Max. Estou acabado.
— Não seja idiota. Mantenha a calma. Ferguson acaba de descobrir sua implicação, está apenas cavando.
— Mas e se ele falou com Carter ou com o primeiro-ministro?
— Você já saberia. Ferguson não abriu o jogo. Ele vem cuidando disso muito reservadamente e vai continuar assim.
— E quanto a Lane?
— Eu mando alguém cuidar do Lane.
— Pelo amor de Deus, não faça isso — murmurou Pamer. — Não suporto mais morte nenhuma.
— Tente agir como homem de vez em quando — disse Santiago. — E você tem um consolo. Com a pasta recuperada, o Protocolo Windsor vai se revelar muito útil em suas mãos. Deve haver muita gente que daria tudo para esconder o envolvimento dos pais ou dos avós no Livro Azul. — Soltou uma gargalhada. — Não se preocupe, Francis. Ainda vamos nos divertir muito com isso.
Recolocou o telefone no gancho, pensou um pouco, depois o pegou novamente e discou outro número de Londres. Falou em espanhol. — Aqui é Santiago. Tenho uma grande eliminação para você, que deve ser realizada esta noite. Um detetive inspetor Jack Lane, Special Branch. Tenho certeza que pode encontrar o endereço. — Ele devolveu o telefone a Algaro. — E agora, meu amigo, acho que é hora de você e Guerra partirem para St. John.
Eram cinco e meia quando Jenny entrou no ferry para Cruz Bay. Até o Jenny's Place eram apenas algumas centenas de metros à beira-mar, e quando ela chegou já tinha gente no balcão, Billy Jones atendendo. Ele saiu para cumprimentá-la.
— Viva, Miss Jenny! Que bom vê-la de volta.
— Olá, Billy! Mary está aqui?
— Com certeza. Na cozinha, acertando as coisas para esta noite. Vá até lá.
— Vou num momento. Falou com Dillon? Deu meu recado a ele?
— Claro que dei. Ele, aquele amigo dele e Bob Carney têm agido estranhamente nos últimos dias. Não sei o que está acontecendo, mas algo com certeza está errado.
— Então, Dillon e o brigadeiro Ferguson ainda estão em Caneel?
— Com certeza estão. Quer entrar em contato com eles?
— O mais breve possível.
— Bem, você sabe que eles não têm telefone nos chalés de Caneel, mas Dillon tem um celular e me deixou o número. — Foi até atrás do balcão e abriu a caixa registradora. — Aqui está.
Mary transpunha nesse momento a porta da cozinha e ficou parada.
— Jenny, voltou! — Deu-lhe um beijo e a abraçou. — Está com péssimo aspecto, querida. O que andou fazendo?
Jenny sorriu.
— Nada demais. — Jenny deu um sorriso cansado. — Apenas atravessei metade da França dirigindo, peguei um avião para Londres, outro para Antígua, um terceiro para St. Thomas... Nunca me senti tão cansada na vida.
— Precisa comer, tomar um banho quente e ter uma noite de sono.
— Isso é uma ótima ideia, Mary, mas eu tenho o que fazer. Aceitaria um cafezinho no escritório. Preciso dar um telefonema.
Algaro e Guerra tinham conseguido o endereço de Jenny Grant em Gallows Point através do informante de Guerra em Cruz Bay. Já tinham feito uma visita ao local, embora Algaro tenha decidido contra uma entrada forçada na hora. Voltaram ao cais, assistiram à chegada do ferry e ao desembarque dos vinte passageiros, dos quais apenas cinco eram brancos, três dos quais homens. Como a outra mulher tinha pelo menos sessenta anos, não restava dúvida quanto à identidade da mais nova, que trazia malas. Seguiram-na a uma distância discreta e a viram entrar no café.
— Agora, o que fazemos? — perguntou Guerra.
— Esperamos — disse Algaro. — Mais cedo ou mais tarde ela vai para casa.
Guerra encolheu os ombros, acendeu um cigarro e foram ambos se sentar num banco.
Dillon estava nadando em Paradise. Tinha deixado o celular com a toalha em uma poltrona na praia. Ouviu o telefone tocar e nadou o mais rápido que pôde até a toalha.
— Dillon falando.
— É Jenny.
— Onde você está?
— No bar, acabo de chegar. Como vão as coisas?
— Bem, digamos que estão animadas e deixamos por isso mesmo. Havia gente me esperando no momento em que cheguei aqui, Jenny, o tipo errado de gente. Um homem chamado Santiago foi responsável pelo assalto na Lord North Street e por aqueles dois bandidos que tentaram pular em você no Tâmisa. Ele está por aqui em um iate chamado Maria Blanco, nos causando o máximo possível de problemas.
— Por quê?
— Ele quer a pasta do Bormann. Simples assim.
— Mas como ele sabe da existência do U-boat?
— Houve um vazamento de informações em Londres, alguém ligado à Inteligência. Você tinha razão sobre Carney. Grande cara, mas não foi capaz de encontrar uma solução. Você realmente acha que pode ajudar, Jenny?
— É apenas uma ideia, tão simples que tenho medo de contar, então vamos deixar até nos encontrarmos. — Ela olhou o relógio. — São seis horas. Eu gostaria de um banho quente com todos os acompanhamentos. Digamos que nos encontramos aqui às sete e meia. E traga Bob.
— Tudo bem.
Dillon desligou, se enxugou, depois ligou para a casa de Carney em Chocolate Hole. Demorou um pouco até ele responder.
— É Dillon.
— Eu estava no banho.
— Estamos no negócio, Jenny me telefonou do bar. Ela acabou de chegar.
— Ela disse onde fica?
— Não, continua misteriosa. Quer nos ver no bar às sete e meia.
— Estarei lá.
Dillon desligou e depois subiu apressado a encosta até a cabana para contar a Ferguson.
Quando Jenny saiu do escritório, Mary estava conversando com o marido. — Você ainda parece um fim de semana ruim, querida — disse ela.
— Eu sei. Vou andando até em casa tomar um banho e vestir roupas limpas, depois volto. Combinei de encontrar Dillon, o brigadeiro Ferguson e Bob Carney aqui às sete e meia.
— Você não vai andando a lugar nenhum, querida. Billy, leve-a no jipe, verifique a casa. Certifique-se de que está tudo em ordem e traga-a de volta quando ela estiver pronta. Vou tirar a jovem Annie da cozinha para cuidar do bar enquanto você estiver fora.
— Não há necessidade disso, Mary — Jenny disse a ela.
— Está decidido. Não adianta argumentar, garota. Agora vão.
Quando Jenny saiu do bar, Billy Jones a acompanhou, levando a mala. Algaro e Guerra os seguiram até Mongoose Junction, quando entraram num jipe e partiram.
— Aposto que ele vai levá-la em casa — disse Guerra.
Algaro assentiu.
— Vamos andando a pé. Não é longe. Quando chegarmos, ele já deve ter ido embora. Aí nós a pegamos.
— Não há sinal de Dillon nem dos outros dois, o que significa que ela ainda não teve chance de falar com eles.
— Talvez nunca venha a ter — comentou Algaro, sorridente.
Guerra parou e lambeu os lábios nervosamente.
— Olha, não quero me envolver em nada assim, não com uma mulher. É má sorte.
— Cale a boca e faça o que digo — disse Algaro. — Agora vamos andando.
No Ministério da Defesa, pouco antes da meia-noite, ainda havia luz nas janelas do escritório de Ferguson, que davam para a Horse Guards Avenue. Jack Lane concluiu a leitura preliminar dos dados do computador, e que leitura interessante! Mas já fizera o bastante para uma noite. Enfiou-os na pasta, guardou-a na gaveta com fechadura de segredo, apagou as luzes, pegou a capa e desceu.
Saiu pela porta da Horse Guards Avenue e seguiu pela calçada. O jovem sentado ao volante de um Jaguar roubado, do outro lado da rua, examinou a foto com uma lanterna. Usava óculos e uma capa de chuva sobre um elegante terno azul, parecia totalmente comum.
Ele ligou o motor, observou Lane atravessar a rua e seguir pela Whitehall Court. Lane, cansado e ainda pensando no caso Pamer, olhou casualmente para a direita, percebeu o Jaguar, mas tinha tempo de sobra para atravessar. Ouvindo o ronco repentino do motor, deu meia-volta, tarde demais. O Jaguar o acertou com tanta força que ele foi arremessado violentamente para o lado. Lane ficou ali, tentando se levantar, ciente de que o Jaguar estava dando ré. O para-choque traseiro fraturou seu crânio, matando-o instantaneamente, e o carro passou por cima de seu corpo.
O jovem desceu para verificar se o inspetor estava morto. A rua estava vazia, apenas a chuva caía quando ele voltou para o Jaguar, desviou do corpo de Lane e foi embora. Cinco minutos depois, largou o Jaguar numa rua lateral da Strand e saiu andando rapidamente.
Em Gallows Point, Jenny tomou um banho demorado e lavou a cabeça, enquanto lá embaixo Billy varria o varanda. Algaro e Guerra observavam dos arbustos próximos.
— Diabos, por que ele não vai embora? — bradou Algaro.
Logo depois, Jenny apareceu na varanda. Vestia calça clara de linho e blusa de manga curta. Estava com um ar fresco e descontraído.
— Agora está melhor — disse Billy.
— Estou. Na verdade, sinto-me humana outra vez. Agora, vamos, Billy.
Entraram no jipe e se afastaram, e os dois homens saíram para a estrada de terra.
— E agora? — perguntou Guerra.
— Nós a pegamos depois — disse Algaro. — Por enquanto, vamos ao bar.
Estava quase escuro quando Bob Carney entrou no Jenny's Place e a encontrou servindo atrás do balcão com Billy. Ela se aproximou, cumprimentou-o calorosamente com um beijo e o puxou para uma mesa.
— É bom ver você, Jenny. — Ele segurou a mão dela. — Eu realmente senti muito sobre Henry. Sei o que ele significava para você.
— Ele era um bom homem, Bob, um homem decente e gentil.
— Eu o vi naquela última manhã — Carney disse a ela — entrando quando eu estava saindo com um grupo de mergulho. Ele deve ter saído bem cedo. Perguntei a ele onde tinha estado, e ele me disse, “French Cap”. — Ele sacudiu a cabeça. — Não é verdade, Jenny. Dillon e eu checamos o French Cap, até demos uma olhada no South Drop.
— Pois é, são locais que as pessoas visitam. Aquele submarino não podia ter ficado ali todos esses anos sem que alguém o visse.
Foi nesse momento que Dillon e Ferguson entraram. Viram Carney e Jenny imediatamente e se aproximaram. Ferguson levantou seu panamá.
— Miss Grant.
Ela estendeu a mão. Dillon a apertou por muito tempo, e verificou-se um certo embaraço entre eles.
— Deu tudo certo na França?
— Tudo. Estive com a irmã de Henry. Peço desculpas por ter sido tão misteriosa. A verdade é que ela é freira. Pequenas Irmãs da Piedade.
— Não fazia ideia — disse Carney.
— Não, Henry nunca falava dela, ele era ateu, achava que ela estava se enterrando ali para nada. Isso levou os dois à ruptura. — Jenny respirou fundo. — Temos assuntos para discutir.
Billy apareceu naquele momento. — Posso trazer alguma bebida para vocês?
— Mais tarde, Billy — ela disse. — Temos negócios para discutir antes.
Ele foi embora e Ferguson disse:
— É verdade — disse Ferguson. — Somos todos ouvidos.
— Sim, Jenny. — Carney já estava animado. — Onde está o U-180?
— A resposta curta é: não sei — limitou-se ela a dizer.
Uma certa consternação surgiu na expressão de Ferguson. — Não sabe? Mas eu estava crente que você sabia...
Dillon o deteve, pondo a mão em seu braço.
— Dê-lhe uma chance.
— Coloquemos as coisas nestes termos: eu acho que talvez saiba onde é possível encontrar essa informação. — Jenny se virou para Carney. — O Rhoda ainda está fundeado no porto, Bob. Você nos leva até lá?
— Claro, Jenny. — Carney se levantou.
— O Rhoda? — perguntou Ferguson.
— O barco de Henry, o que ele usou naquele dia — explicou Carney. — Bem, vamos andando.
Desceram a escada para a estrada e percorreram o paredão até o cais. Algaro e Guerra viram quando subiram num bote. Carney se sentou na popa, ligou o motor e se dirigiram para o porto.
— E agora? — Guerra perguntou.
— Apenas esperamos — Algaro respondeu.
Carney acendeu a luz da cabine e todos eles se apertaram lá dentro.
— Bem, Miss Grant — disse Ferguson —, estamos todos aqui, portanto, o que tem a nos dizer?
— É só uma ideia. — Jenny se virou para Carney. — O que muitos mergulhadores fazem depois de um mergulho, Bob?
— Refere-se à verificação do equipamento...
— Algo mais elementar. Estou pensando nos detalhes do mergulho.
— Claro — disse Carney.
— Aonde diabos ela quer chegar? — perguntou Ferguson.
— Acho que já entendi — disse Dillon. — Assim como os capitães, muitos mergulhadores escrevem diários. Com todos os detalhes de cada mergulho. É uma prática comum.
— Henry era muito meticuloso nisso — Jenny disse. — Era a primeira coisa que fazia, depois de se enxugar. Sempre o guardava aqui. — Ela abriu o pequeno armário junto à roda do leme e imediatamente o encontrou. Tinha capa vermelha. Estendeu-o a Dillon. — Tenho medo de estar enganada. Leia você.
Dillon virou as páginas e leu a última.
— Diz que ele mergulhou a vinte e cinco, vinte e sete metros, num lugar chamado Thunder Point.
— Thunder Point? — exclamou Carney. — Nunca teria passado pela minha cabeça. Na de ninguém.
— O último registro diz o seguinte: “Lúcios de cauda amarela, anjos-do-mar, carpas douradas e um submarino alemão do Tipo VII, o U-180, numa saliência da parede leste.”
— Graças a Deus — disse Jenny. — Eu tinha razão.
Houve um silêncio profundo quando Dillon fechou o diário e Ferguson disse: — Agora eu realmente gostaria daquele drinque.
Algaro e Guerra viram o grupo voltar. Algaro disse: — Ela contou algo a eles, tenho certeza. Você fica aqui de olho enquanto eu vou ao telefone passar o relatório.
Lá dentro, eles se sentaram na mesma mesa e, quando Billy veio anotar os pedidos, Ferguson disse: — Desta vez, champanhe está definitivamente na ordem do dia. — Ele esfregou as mãos. — Agora vamos realmente ao que importa.
— Você pareceu surpreso, quero dizer, com a localização, esse Thunder Point. — disse Dillon, dirigindo-se a Carney. — Por quê?
— Thunder Point, o cabo do trovão, fica a umas doze milhas da costa. Longe de quase tudo. Nunca mergulhei lá. Ninguém mergulha, é o recife mais perigoso desta parte do mundo. É um inferno chegar lá e quando se chega, a corrente é tremenda, pode levá-lo em qualquer direção.
— Como você sabe de tudo isso se nunca mergulhou lá? — perguntou Dillon.
— Havia aqui anos atrás um antigo mergulhador, o velho Tom Poole. Ele agora está morto. Mergulhava por conta própria. Contou que por acaso foi bem longe e percebeu que o mar estava mais calmo do que o normal. Pelo que ele disse, é um pouco como South Drop. Um recife de vinte metros, uns cinquenta metros de um lado e seiscentos do outro. Embora o tempo não estivesse muito ruim, o velho quase perdeu a vida. Nunca mais tentou.
— Por que ele não viu o submarino? — Ferguson perguntou.
— Talvez ele não tenha ido tão longe, talvez tenha mudado de posição desde aquela época. A única coisa que sabemos com certeza é que está lá porque Henry o encontrou — disse Carney.
— Eu só me pergunto por que ele tentou um mergulho desses — disse Jenny.
— Sabe como Henry era — Carney disse. — Sempre mergulhando sozinho quando não devia, e naquela manhã, depois do furacão, o mar ficou mais calmo do que nunca. Acho que ele navegava de pura alegria, quando percebeu onde estava, e viu que as condições eram excepcionais. Nessas circunstâncias, ele deve ter largado o ferro naquele recife e passado logo para o outro lado.
— Bem, de acordo com o contra-almirante Travers — disse Dillon —, e ele falou longamente com Baker, Bormann estava usando a cabine do capitão, exceto que não era realmente uma cabine. Tinha apenas uma cortina. Fica a bombordo, em frente ao rádio e à sala de som, bem na dianteira. A ideia era ter acesso instantâneo à sala de controle.
— Isso parece razoavelmente simples para mim — disse Carney.
— Sim, mas o único acesso é pela escotilha estanque a vante e Baker disse a Travers que estava corroída até o inferno, realmente solidificada.
— Bem — comentou Carney —, então temos que arrebentar com ela. Com C4, segundo disse Santiago quando estivemos em Samson.
— Estou na sua frente nisso — Dillon disse a ele. — Não consegui C4, mas arranjei Semtex e lápis-detonadores químicos — disse Dillon.
— Será que você não pensou em alguma coisa? — Carney perguntou ironicamente.
— Espero que não.
— Então, quando vamos? — perguntou Ferguson.
— Isso é com Carney — disse Dillon. — O perito é ele.
Carney acenou, ligeiramente abstraído. — Estive pensando nisso. — Sacudiu a cabeça novamente. — A meu ver, queremos entrar e sair antes de Santiago saber o que está acontecendo.
— Faz sentido — concordou Ferguson.
— Santiago já não pode nos seguir porque nos livramos dos sensores nos dois barcos. Podíamos capitalizar saindo por volta de meia-noite, encobertos pela escuridão. A aurora é entre cinco e cinco e meia. Mergulharíamos na primeira luz do amanhecer.
— Parece bom para mim — disse Dillon.
— Certo. Deixei o Sea Raider em Caneel Bay, então vamos partir de lá. Você vai precisar pegar o Semtex que mencionou. Posso pegar alguma coisa extra de que precisarmos na loja de mergulho.
— Mas não agora — Ferguson disse a ele. — Agora nós comemos. Toda essa emoção me deu um grande apetite.
Algaro e Guerra estavam à espreita quando eles voltaram para o bar. Começou a chover, e eles se abrigaram embaixo de uma árvore.
— Mãe de Deus, isso vai levar a noite toda? — perguntou Guerra.
— Vai levar o tempo necessário — disse Algaro.
Lá dentro, eles jantaram o melhor ensopado de Mary, depois pargo grelhado, e estavam no café quando o celular de Dillon tocou. Ele atendeu e passou a Ferguson. — É para você. Alguém do Special Branch em Londres.
O brigadeiro pegou o telefone. — Ferguson falando. — Ele ouviu e de repente ficou muito pálido, seus ombros caíram. — Só um momento — disse, em tom cansado, e se levantou. — Desculpem, já volto — e saiu.
— Que diabos foi isso? — Carney perguntou.
— Bem, seja o que for, não é bom — disse Dillon.
Ferguson voltou naquele momento e se sentou.
— Jack Lane, meu assistente, está morto.
— Oh, não — disse Jenny.
— Atropelamento e fuga por volta da meia-noite. Estava trabalhando até tarde. A polícia encontrou o carro abandonado numa rua lateral da Strand. Sangue por toda parte. Roubado, claro.
— Mais uma notável coincidência — comentou Dillon. — Começa a investigar Pamer e num piscar de olhos morre numa rua de Londres.
Foi a primeira vez que ele viu uma raiva genuína na expressão de Ferguson. Algo faiscou nos olhos do brigadeiro. — Isso não me escapou, Dillon. Essa conta será paga por inteiro, acredite.
Respirou fundo e se levantou. — Vamos andando. Vem conosco, minha querida?
— Acho que não — respondeu Jenny. — Esse tipo de passeio de barco é a última coisa que preciso depois do que encarei. Mas vou até Caneel vê-los sair. Vão andando, eu os sigo no meu jipe. Só quero dar uma palavrinha com Mary.
Dirigiu-se à cozinha, e Dillon acenou para Billy, que estava na outra ponta do bar.
— Você e Mary poderiam passar a noite com Jenny?
— Acha que pode haver algum problema?
— Problemas demais para podermos relaxar — Ferguson disse a ele.
Dillon tirou a semiautomática belga do bolso. — Fique com isto.
— Está feio assim? — perguntou Billy.
— Muito feio.
— Nesse caso, isto é melhor. — Billy tirou um Colt automático .45 de baixo do balcão.
Dillon guardou de novo a pistola no bolso. — Ótimo. Tenha cuidado. Até amanhã.
Na cozinha, Mary trabalhava no fogão. — O que está fazendo agora, garota?
— Preciso ir até Caneel, Mary, Bob Carney está levando os outros para um mergulho especial. Quero vê-los partir.
— Você devia estar na cama.
— Eu sei. Vou em breve.
Ela saiu pelo bar e desceu correndo a escada. Algaro disse: — Lá está ela. Vamos atrás.
Mas Jenny logo alcançou Ferguson, Dillon e Carney em Mongoose Junction. Algaro e Guerra observaram enquanto sua presa entrava em seu jipe, Carney a seu lado, e seguia Dillon e Ferguson para fora do estacionamento.
— Tudo bem — disse Algaro. — Vamos atrás deles — e correram para seu próprio veículo.
No chalé, Dillon pegou a mochila militar verde-oliva e a esvaziou: o Semtex, os detonadores, a AK, a Walther e o respectivo silenciador. Ferguson entrou quando ele terminava de se vestir: calça, botas de camurça e suéter pesado. Dillon guardou tudo de volta na mochila.
— Vamos para a guerra outra vez? — perguntou.
— Espero muito que não. Carney e eu já vamos ter diversão suficiente só com o mergulho, mas se precisar, sabe onde encontrar tudo.
— Acha que conseguem?
— Logo veremos. — Dillon encontrou seu material de treino. — Sinto muito pelo Lane, brigadeiro.
— Eu também. — Ferguson tinha uma expressão triste. — Mas não perdem por esperar, Dillon, prometo. Bem, mãos à obra.
Caminhavam para a porta quando Dillon parou e abriu o armário do bar. Pegou meia garrafa de conhaque e jogou-a na sacola. — Puramente medicinal — disse ele. — Vai estar muito frio lá embaixo a essa hora.
Carney levara o Sea Raider para para a ponta do cais. Jenny estava sentada num banco olhando o barco, enquanto o capitão verificava as garrafas de ar. No bar acima, um trio tocava no terraço, música e risos flutuando sobre a água no ar noturno. Ferguson subiu a bordo e Dillon lhe passou a mochila.
Ele se virou para Jenny. — Você está bem?
— Tudo bem — disse ela.
— Não falta muito agora — Dillon afirmou. — Como disse algum poeta, “todas as dúvidas resolvidas, toda a paixão dispendida”.
— E depois, o que vai fazer? — ela perguntou.
Dillon a beijou brevemente no rosto. — Jesus, garota, não pode deixar um homem sequer recobrar o fôlego? — Tirou a semiautomática do bolso. — Meta isso na bolsa e não me diga que não sabe o que fazer com ela. Puxe a trava de segurança, aponte e atire.
Ela aceitou com relutância.
— Acha que é necessário?
— Nunca se sabe. Santiago já se antecipou a nós vezes demais. Billy e Mary vão passar a noite com você.
— Você pensa em tudo, não pensa?
— Tento pensar. Seria preciso um homem daqueles bem valentões para se meter com Billy.
Subiu a bordo.
— Solte as amarras para nós, Jenny — gritou Carney da ponte.
Ele ligou os motores, ela soltou o cabo da popa e entregou a Dillon, depois fez o mesmo com o da proa. O barco começou a se afastar.
— Tenha cuidado, minha querida — gritou Ferguson.
Jenny acenou, enquanto o Sea Raider se dirigia para o mar. Dillon olhou para trás e a viu em pé junto ao poste de luz na beira do cais. Depois, ela deu meia volta e se afastou.
Ela passou pelo bar e pela loja e começou a subir o acesso ao Sugar Mill Restaurant para chegar ao estacionamento. Algaro e Guerra agora a seguiam.
— O que devemos fazer? — Guerra sussurrou.
— Ela vai voltar para casa mais cedo ou mais tarde — disse Algaro. — É o melhor lugar para lidar com ela, tudo tranquilo, e nem mesmo precisamos segui-la.
Jenny entrou em seu jipe, ligou o motor e eles esperaram até que ela fosse embora antes de voltar a seu carro.
Ainda havia gente no bar quando ela entrou, e Mary ajudava uma empregada a levantar as mesas. Billy foi até Jenny.
— Então, partiram? — perguntou ele.
— É verdade.
— Vai nos contar o que eles procuram, Miss Jenny? Não há dúvida de que todo mundo vem agindo de forma misteriosa.
— Talvez um desses dias, Billy, mas por enquanto não. — E soltou um bocejo.
— Não a perturbe com perguntas tolas. Ela precisa dormir. — Mary se virou para Jenny. — Mr. Dillon pediu para passarmos a noite em sua casa e é isso que vamos fazer.
— Está bem — respondeu Jenny. — Vou indo então.
— Devia esperar que fechássemos. São cinco minutos — disse Billy.
Ela abriu a bolsa e tirou a semiautomática belga.
— Tenho esta coisa, Billy, e sei como usar. Vou ficar bem, vejo vocês logo.
Tinha estacionado bem em frente à escada. Deslizou para trás do volante, ligou o motor e foi embora, tão cansada que por um momento esqueceu dos faróis. As ruas estavam razoavelmente silenciosas agora enquanto ela dirigia para Gallows Point e em cinco minutos estava em casa. Estacionou na garagem, subiu os degraus, encontrou a chave e destrancou a porta da frente. Acendeu a luz da varanda e entrou.
Deus, estava cansada, mais cansada do que nunca, e subiu a escada cansada, abriu a porta do quarto e acendeu a luz. Estava quente, muito quente apesar do ventilador de teto, e ela foi até as portas de vidro que davam para a varanda e as abriu. Sentiu alguns pingos fortes de chuva e depois caiu uma tempestade repentina, o tipo de coisa que acontecia à noite nessa época do ano. Ficou parada um momento, curtindo o frescor, então se virou e encontrou Algaro e Guerra parados dentro da sala.
Era como se estivesse sonhando, mas aquela cara horrenda, o cabelo raspado e a cicatriz do olho até a boca lhe diziam que não. Ele riu de repente e disse a Guerra em espanhol: — Isso pode ser interessante.
E Jenny, apesar do cansaço, surpreendeu a si mesma ao sair correndo para a porta, passando por eles. Quase conseguiu, mas Guerra agarrou seu pulso direito e a fez dar a volta. Algaro socou-a violentamente no rosto, depois jogou-a na cama. Jenny tentou tirar a arma da bolsa. Algaro a arrancou da mão dela, virou-a de rosto para baixo e torceu seu braço para cima. A dor foi terrível e ela soltou um grito.
— Está gostando, hein? — Algaro estava se divertindo e jogou a arma longe. — Vamos experimentar mais.
E nessa hora Jenny sentiu a pior dor de sua vida, e gritou a plenos pulmões. Algaro virou-a para cima, tornou a esbofeteá-la com violência e puxou do bolso um canivete. Quando ele fez saltar a lâmina, Jenny reparou que era uma navalha.
— Agora, vou lhe fazer algumas perguntas. — Passou a lâmina no rosto dela e espetou até tirar sangue. — Se se recusar a responder, corto seu nariz, e isso é só para começar.
Ela era apenas um ser humano e estava completamente aterrorizada.
— Qualquer coisa — suplicou.
— Ótimo. Onde podemos encontrar os destroços do U-180?
— Em Thunder Point — sussurrou ela.
— E onde seria isso?
— Está no mapa. Dez ou doze milhas ao sul de St. John. É tudo o que sei.
— Dillon, o brigadeiro e Carney, nós os vimos saindo do cais em Caneel Bay. Eles foram para Thunder Point mergulhar atrás do submarino, certo? — Ela hesitou e ele a esbofeteou novamente. — É isso?
— Sim — ela disse. — Vão mergulhar ao amanhecer.
Ele deu um tapinha no rosto dela, fechou a faca e se virou para Guerra. — Tranque a porta.
Guerra parecia confuso. — Por quê?
— Eu disse para trancar, idiota. — Algaro passou por ele e fechou a porta, girando a chave. Ele se virou e seu sorriso era a coisa mais cruel que Jenny já vira. — Você não disse qualquer coisa? — e ele começou a tirar o casaco.
Ela gritou de novo, agora totalmente histérica, levantou-se de um salto e se atirou de ponta-cabeça através das janelas francesas abertas para a varanda. Em pânico total, bateu na grade e caiu, mergulhando na chuva forte até o jardim embaixo.
Guerra se ajoelhou ao lado dela na chuva e sentiu o pulso. Balançou a cabeça. — Ela parece morta para mim.
— Deixa pra lá — disse Algaro. — Assim vai parecer um acidente. Agora vamos embora.
O som do motor do jipe desapareceu na noite e Jenny ficou lá, a chuva caindo em seu rosto. Cinco minutos depois, Billy e Mary Jones chegaram em seu jipe e a encontraram caída.
— Meu Deus. — Mary caiu de joelhos e tocou o rosto de Jenny. — Ela está fria como gelo.
— Parece que caiu da varanda — disse Billy.
Naquele momento Jenny gemeu e mexeu ligeiramente a cabeça. Mary disse: — Graças a Deus, ela está viva. Você a carrega para dentro e eu chamo o médico — e ela subiu correndo os degraus da casa.
14
Algaro falou com Santiago de um telefone público na orla. Santiago ouviu atentamente o que ele tinha a dizer. — Então a garota está morta? É lamentável.
— Sem problemas — disse Algaro. — Apenas um acidente, é o que vai parecer. O que acontece agora?
— Fique onde está e me ligue de volta em cinco minutos.
Santiago pousou o telefone.
— Thunder Point — disse ele a Serra. — Dez ou doze milhas ao sul de St. John.
— Temos que analisar a carta, señor. — Santiago o seguiu até a ponte, e Serra acendeu a luz sobre a mesa de mapas. — Ah, sim, aqui está.
Santiago passou os olhos pelo mapa, franzindo ligeiramente a testa.
— Dillon e companhia estão a caminho. Conseguiríamos alcançá-los se partirmos agora?
— Duvido, señor, e é mar aberto lá: eles avistariam o Maria Blanco a milhas.
— Entendo — disse Santiago — e, como aprendemos no outro dia, eles estão armados. —Ele examinou o mapa novamente e sacudiu a cabeça. — Não, acho que vamos deixá-los fazer todo o trabalho por nós. Se tiverem sucesso, isso os fará se sentirem bem. Voltam a St. John felizes, talvez até um pouco desprevenidos, porque vão achar que ganharam o jogo.
— E então, señor?
— Vamos cair em cima deles quando retornarem a Caneel, possivelmente no chalé. Veremos.
— Então, quais são suas ordens?
— Navegamos de volta a St. John e ancoramos em Paradise Beach outra vez. — O telefone tocou na sala de rádio. — Deve ser Algaro ligando de volta — e Santiago foi atender.
Algaro repôs o fone no gancho e disse a Guerra: — Eles vão deixar aqueles bastardos fazerem o trabalho todo. Vamos pra cima deles quando voltarem.
— O que, só você e eu?
— Não, idiota, o Maria Blanco está voltando a Paradise Beach. Vamos encontrá-los lá. Voltamos à lancha e tentamos dormir um pouco.
A cabeça de Jenny, recostada no travesseiro, estava de lado. Continuava muito pálida e nem se mexeu quando o médico lhe deu uma injeção.
— O que acha, doutor? — perguntou Mary.
Ele balançou a cabeça. — Não é possível fazer um diagnóstico adequado nesta fase. O fato de ela não ter recuperado a consciência não é necessariamente ruim. Não há sinais evidentes de ossos quebrados, mas fissuras são sempre possíveis. Veremos como ela está pela manhã. Esperançosamente, terá recuperado a consciência. Balançou a cabeça de novo. — Foi uma queda grande. Vou transferi-la para o Hospital St. Thomas. Podemos fazer radiografias lá. Vai ficar com ela esta noite?
— Eu e Billy não arredaremos pé daqui — disse Mary.
— Ótimo. À menor alteração, me liguem.
Billy o acompanhou até a saída e voltou para o quarto. — Posso trazer alguma coisa para você, querida?
— Não, vá se deitar, Billy, vou apenas ficam aqui sentada com ela — disse Mary.
— Está bem.
Billy saiu e Mary colocou uma cadeira ao lado da cama, sentou-se e segurou a mão de Jenny. — Você vai ficar bem, baby — disse ela suavemente. — Vai ficar muito bem. Mary está aqui.
Por volta das três eles entraram numa área de tempestade violenta, a chuva se insinuando por baixo do toldo da ponte, picando seus rostos como alfinete. Carney desligou o motor.
— É melhor irmos lá para baixo um tempo. Aliás, cairia bem um intervalo para o café.
Dillon o seguiu até a cabine do convés, onde Ferguson estava estendido em um dos bancos, a cabeça apoiada na mochila. Ele bocejou e se sentou. — Algum problema?
O Sea Raider balançou para bombordo, fustigado pelo vento e pela chuva. — Apenas uma tempestade — disse Carney. — Vai durar meia hora. Podemos fazer uma pausa para o café.
— Uma ideia esplêndida.
Dillon encontrou a garrafa térmica e algumas canecas e Carney abriu uma caixa de plástico contendo sanduíches de presunto e queijo. Eles ficaram sentados em silêncio amigável por um tempo comendo, a chuva batendo no telhado.
— Talvez seja a hora de discutirmos como fazer a coisa — disse Carney a Dillon. — Para um mergulho sem descompressão a vinte e cinco metros, podemos ficar lá quarenta minutos.
— E um segundo mergulho não seria problema...
Ferguson disse: — Não entendo os detalhes técnicos, podem explicar?
— O ar que respiramos se compõe de oxigênio e nitrogênio — explicou Carney. — Quando mergulhamos, a pressão faz com que o nitrogênio seja absorvido pelos tecidos orgânicos. Quanto maior a profundidade, maior absorção. Se ficarmos lá embaixo tempo demais ou viermos à superfície depressa demais, ele pode formar bolhas nos vasos sanguíneos e nos tecidos, o que é perigoso.
— E como se pode evitar isso?
— Em primeiro lugar, limitando o tempo que ficamos lá, principalmente no primeiro mergulho. Da segunda vez, podemos precisar de uma parada de segurança a cinco metros, para descomprimir lentamente.
— E como é isso? — Ferguson perguntou.
— Subimos a essa profundidade e apenas ficamos lá um tempo, descomprimindo lentamente.
— Quanto tempo?
— Depende.
Dillon acendeu um cigarro, fazendo cintilar o Zippo.
— Vamos ter mesmo que correr para encontrar o diabo do submarino.
— E colocar a carga no primeiro mergulho — completou Carney.
— Baker disse que ele estava caído numa saliência da parede leste.
Carney assentiu.
— Acho que é o lado da grande queda, então não perderemos tempo indo a outros pontos. — Ele engoliu o café e se levantou. — Se tivermos sorte, descemos direto, entramos na sala de controle e colocamos aquele Semtex... — Ele sorriu. — Diabos, podemos entrar como flechas, sair e subir em vinte minutos.
— O que faria uma grande diferença para o segundo mergulho — disse Dillon.
— Sem dúvida. — A chuva tinha parado. O mar estava calmo de novo, e Carney olhou o relógio. — Hora de ir andando, senhores. — E tornou a subir a escada de acesso à ponte.
Em Londres, eram nove da manhã e Francis Pamer estava terminando um delicioso café com ovos mexidos e bacon que sua governanta havia preparado quando o telefone tocou. Ele atendeu. — Pamer.
— Simon Carter.
— Bom dia, Simon — disse Pamer —, alguma palavra de Ferguson?
— Não, mas aconteceu algo bem chocante que afeta Ferguson.
— O que foi?
— Conhece o assistente dele, aquele que ele pegou emprestado do Special Branch, detetive inspetor Lane?
Pamer quase engasgou com o pedaço de torrada que estava comendo. — Sim, claro que sim — ele conseguiu dizer.
— Foi morto ontem à noite quando saía do trabalho, por volta de meia-noite. Atropelamento e fuga. Carro aparentemente roubado, que a polícia encontrou.
— Que terrível!
— O fato é que o Special Branch não está muito feliz com isso. Parece que o relatório médico preliminar indica que ele foi atingido duas vezes. Claro, isso pode simplesmente significar que o motorista entrou em pânico e deu ré ou algo assim. Por outro lado, Lane mandou muitos homens para a prisão. Muitos devem guardar rancor dele.
— Entendo — disse Pamer. — Então, o Special Branch está investigando?
— Claro, você sabe como fica a polícia quando um dos seus é atingido. Livre para o almoço, Francis?
— Sim — disse Pamer. — Mas teria que ser na House. Estou participando do debate sobre a crise na Croácia.
— Tudo bem. Vejo você lá às 12h30.
Pamer desligou o telefone com a mão trêmula, e olhou o relógio. Não fazia sentido ligar para Santiago agora, seriam quatro da manhã lá. Isso teria que esperar. Ele empurrou para longe o prato com o resto do café da manhã, de repente enjoado. A verdade é que ele nunca tinha ficado tão assustado em sua vida.
Bem mais para o leste, o sol estava nascendo enquanto o Sea Raider se arrastava em direção a Thunder Point, Carney verificando o medidor de profundidade. — Lá está — disse ele ao ver as linhas amarelas na tela preta. — Vá para a âncora — disse a Dillon. — Preciso manobrar um pouco para você acertar com ela naquela crista a vinte metros.
Havia uma forte ondulação, e o barco, com os motores desacelerados, mal se mantinha no lugar. Dillon sentiu o ferro bater satisfatoriamente, avisou a Carney e o americano desligou os motores. O capitão desceu da ponte e olhou o mar.
— Há uma corrente danada aqui. Pode ter pelo menos três nós.
Ferguson disse: — A água parece excepcionalmente clara. Posso ver até o recife.
— É porque estamos muito longe do continente — disse Carney. — Significa que há poucas partículas de matéria na água. Na verdade, isso me dá uma ideia.
— Qual? — perguntou Dillon.
Carney tirou o jeans e a camiseta. — Esta água é tão clara que vou dar um passeio a menos de três metros, localizar a beira do penhasco. Se tiver sorte e a água lá embaixo for tão clara quanto parece, posso conseguir localizar o submarino.
Ele fechou o zíper do traje de mergulho e Dillon o ajudou a colocar o tanque. — Não quer uma linha?
Carney balançou a cabeça. — Acho que não.
Carney colocou a máscara, sentou-se no banco de popa do barco e deixou-se cair para trás. A água estava tão clara que eles puderam acompanhar seu progresso por um bom tempo.
— Qual é o objetivo de tudo isso? — Ferguson perguntou.
— Bem, essa profundidade tão rasa não terá efeito no mergulho mais tarde. Isso pode economizar tempo, e tempo é crucial neste caso, brigadeiro. Se abusarmos muito, simplesmente não poderemos mergulhar novamente, talvez por muitas horas.
Carney emergiu a cem metros de distância e acenou com os braços. Ferguson pegou os velhos binóculos e focalizou. — Ele está acenando.
— Aqui!
Dillon ligou os motores e os deixou em ponto morto. — Tente levantar a âncora, brigadeiro, farei o possível para lhe dar um pouco de movimento.
Ferguson deu a volta para a proa e começou a trabalhar, enquanto Dillon tentava lhe dar folga. Finalmente, funcionou, o brigadeiro gritou em triunfo e puxou o braço. Dillon acelerou na direção de Carney.
Quando chegaram ao lado dele, o americano gritou: — Largue o ferro aqui mesmo.
Ferguson obedeceu, Dillon desligou o motor, Carney nadou até a plataforma de mergulho e subiu a bordo.
— Tudo claro como nunca vi — ele disse. — Estamos bem em cima da saliência — disse ele. — Houve muitos danos aos corais recentemente, talvez por causa do furacão, mas eu juro que posso ver alguma coisa se projetando da saliência.
— Tem certeza? — Ferguson inquiriu.
— Diabos, nada é certo nessa vida, brigadeiro, mas se for o submarino podemos descer direto e estar lá em questão de minutos. Pode fazer toda a diferença. Agora, vamos ver o que você tem naquela mochila, Dillon.
Dillon pegou o Semtex. — Funciona melhor se for enrolado em uma corda e colocado em torno do círculo externo da escotilha.
— Você é que sabe, não é? — Carney observou.
— Já usei isso antes — disse Dillon.
— OK, vamos dar uma olhada nesses lápis de detonação. — Dillon os passou a ele e Carney os examinou. — São bons. Já usei uma vez. De dez ou trinta minutos. Usaremos um de dez.
Dillon já estava em seu traje de mergulho e cortou um pedaço grande do bloco de Semtex. Primeiro o amassou, depois o enrolou em várias salsichas compridas. Colocou tudo em sua bolsa de mergulho, com os lápis detonadores.
— Estou pronto quando você estiver.
Carney o ajudou com a garrafa e, em seguida, entregou-lhe um holofote subaquático. — Vejo você na âncora e lembre-se, Dillon, a velocidade é tudo e esteja preparado para essa corrente.
Dillon acenou com a cabeça e fez o que Carney tinha feito, simplesmente se sentou na borda e deixou-se cair para trás.
A água era de uma extraordinária transparência e muito azul. Lá embaixo, a crista do penhasco estava coberta de coral e esponjas em tons difusos de laranja. Enquanto Dillon esperava junto à âncora, passou um cardume de barracudas, e havia alguns lúcios por cima.
A corrente era forte, tão forte que, quando ele se agarrou à linha da âncora, ficou esticado na horizontal. Carney apareceu flutuando e acenou. Dillon foi atrás dele, verificando o computador de mergulho. Aos vinte metros, seguiu-o ao longo da saliência, olhando a imensidão azul lá embaixo, e viu à esquerda a grande mancha escura que destruíra o coral e a massa do U-boat, cuja proa emergia da saliência rochosa.
Desceram até a torre de comando e baixaram até o rombo de cinco metros no casco. Dillon ficou em sustentação enquanto Carney entrava e verificou seu computador de mergulho: haviam deixado o Sea Raider sete minutos antes. Acendeu a lanterna e entrou atrás do americano.
Carney estava agachado junto à escotilha circular de vante, tentando, sem êxito, girar a roda de abertura. Dillon abriu o saco de mergulho, tirou o Semtex e entregou-lhe um rolo. Juntos cumpriram a tarefa, encarregando-se Dillon da parte de cima da escotilha e Carney da parte de baixo, comprimindo o plástico até completar o círculo. Carney estendeu a mão enluvada, e Dillon entregou-lhe dois paus de detonação. Carney partiu o primeiro e introduziu-o no Semtex na parte de cima. Imediatamente surgiu uma pequena espiral de bolhas. Fez o mesmo embaixo.
Dillon olhou para o computador: dezessete minutos. Carney acenou chamando e o irlandês saiu através da fenda, elevou-se até a borda do penhasco e foi direto para a âncora. Subiu corrente acima, com Carney no encalço.
Quando largaram a linha da âncora, a quatro metros, e se moveram sob a quilha da popa, Dillon verificou o computador novamente. Vinte e um minutos. Tirou a jaqueta e subiu para a plataforma.
— Encontraram? — perguntou Ferguson.
— Exatamente como Carney disse — disse Dillon. — Entramos num pé e saímos no outro. Tudo em vinte minutos, nem mais. Vinte minutos!
Carney substituía as garrafas de ar vazias por novas.
— Doce Jesus, nunca vi nada assim. Mergulho há vinte anos ou mais e preciso dizer, nunca vi nada que supere isso.
Dillon acendeu um cigarro.
— Morra de inveja, Santiago.
Subitamente, a superfície do mar subiu, esparramando água. A espuma irrompeu em círculos concêntricos divergentes por sobre a ondulação. Ficaram os três observando junto à amurada até a agitação diminuir.
Finalmente, Carney disse: — É isso. Vamos andando.
Eles colocaram o equipamento de mergulho novamente.
Dillon disse: — O que acontece agora? Quero dizer, quanto tempo?
— Se tivermos sorte e encontrarmos o que queremos imediatamente, não haverá problema. A dianteira do submarino estava selada esses anos todos. — Carney apertou o cinto de peso. — Isso deve significar nenhum lodo, poucos detritos. Restos mortais terão se dissolvido anos atrás, exceto por alguns ossos. Em outras palavras, deve estar relativamente claro. — Ele se sentou na borda e calçou as nadadeiras. — Se eu achar que devemos parar no caminho de volta, vou apenas sinalizar e aguentamos firme por lá.
Dillon seguiu-o na descida, dando-se conta de um movimento estranho na água, como de ondas de choque, que antes não acontecia. Carney ficou em suspensão na saliência da falésia, e quando Dillon chegou junto dele, percebeu o problema. A explosão levantara a popa do submarino. A proa, que sobressaía sobre o abismo de seiscentos metros, estava caindo.
Eles se agarraram à grade da torre e Dillon sentiu logo o navio se mexer. Se a popa subisse mais alguns centímetros, o U-180 resvalaria para o esquecimento. Dillon não conseguia aceitar isso.
Virou-se para descer, mas deu-se conta de que a mão de Carney o retinha. Conseguiu se desvencilhar e, nadando para a fenda do casco, impeliu-se para o interior da sala de controle. Estava tudo um caos devido aos efeitos da explosão. Acendeu a lanterna e avistou o buraco rasgado no lugar onde estivera a tampa da escotilha.
Lá dentro estava escuro, muito mais escuro do que ele esperava. Acendeu a lanterna e, ao se impulsionar através do rombo, percebeu um estranho rangido, como se alguma criatura viva gemesse de dor. Sentiu o barco balançando. Tarde demais para recuar agora e sua própria teimosia se recusava a ceder.
A sala de rádio e a cabine de som ficavam à direita; os alojamentos do comandante, do lado oposto. Havia um armário de metal, uma porta pendente, a estrutura de um beliche. Percorreu o aposento com o feixe da lanterna e a viu, caída num canto, coberta de sedimento — uma pasta metálica.
Passou a mão por cima, um tênue reflexo prateado brilhou. Nesse momento, o chão se inclinou alarmantemente e tudo pareceu se deslocar. Dillon foi jogado contra a divisória, largando a pasta. Agarrou-a de novo e começou a passar pela escotilha. Sua jaqueta ficou presa e ele parou, lutando freneticamente, sentindo o barco se inclinar ainda mais. E então Carney estava na frente dele, esticando a mão para libertá-lo.
O americano se virou e nadou para o rombo no casco, Dillon atrás dele, o barco inteiro se inclinando agora, deslizando, gemendo, metal raspando na rocha. Carney passou, Dillon passou atrás, e ambos ficaram pairando na borda do penhasco. Quando se viraram para olhar, a grande massa em forma de baleia do U-boat deslizou pela borda e mergulhou no vazio.
Carney fez sinal de OK, Dillon respondeu, então o seguiu até a crista depois até a linha da âncora. Checou seu computador. Mais vinte minutos, o que era bom, e ele subiu lentamente. Mas Carney não queria arriscar. A cinco metros ele parou e olhou para baixo. Dillon entendeu e concordou com a cabeça, parou ao lado dele e levantou a pasta com a mão direita. Percebeu que Carney sorria.
Ficaram lá cinco minutos, então emergiram na popa para encontrar Ferguson debruçado sobre o mar, ansioso. — Querido Deus, achei que o fim do mundo havia chegado — disse ele.
Guardaram o equipamento, deixaram tudo em ordem. Carney vestiu jeans e camiseta, Dillon enfiou a roupa de treino. Ferguson pegou a garrafa térmica, serviu café e acrescentou conhaque da meia garrafa.
— O mar inteiro entrou em erupção — disse ele. — Nunca vi nada assim. Um tipo de fervura. O que aconteceu?
— O submarino estava assentado numa saliência, brigadeiro, como sabe — disse Carney. — A força da explosão fez com que ele começasse a se mexer.
— Bom Deus!
Carney tomou um pouco do café. — Cristo, como isso é bom. Então, este idiota aqui decidiu que ia entrar no rombo assim mesmo.
— Sempre suspeitei de que você fosse um idiota, Dillon — Ferguson disse a ele.
— Peguei a pasta, não peguei? Estava no canto do camarote, no chão, e então todo o maldito barco começou a escorregar, me arrastando junto porque fiquei preso na escotilha.
— E o que aconteceu?
— Um idiota louco e impetuoso chamado Bob Carney decidiu ir atrás de mim e me puxou.
Carney olhou pela borda, ainda com a xícara na mão.
— Uma longa, longa queda. Foi a última vez que alguém viu o U-boat. É como se nunca tivesse existido.
— Ah, mas existiu sim — disse Ferguson. — E nós temos isso aqui para provar. — E ergueu a pasta.
A pasta não tinha muita sedimentação agarrada. Carney pegou uma pequena escova de aço do kit de ferramentas e uma toalha velha. A superfície ficou surpreendentemente limpa, a insígnia Kriegsmarine claramente gravada no canto direito. Carney levantou os dois fechos e tentou abrir a tampa. Ela não se moveu.
— Devo forçar, brigadeiro?
— Vá em frente — Ferguson disse, seu rosto pálido de excitação. Carney fez força com a lâmina da faca na fechadura. Ouviu-se um estalido e a pasta se abriu.
Naquele momento começou a chover. Ferguson fechou a tampa, levou-a para a cabine do convés, sentou-se com ela sobre os joelhos e abriu.
Os documentos estavam em envelopes fechados. Ferguson abriu o primeiro, tirou uma carta e passou-a a Dillon.
— Meu alemão é um pouco rústico. O especialista em línguas é você.
Dillon leu em voz alta as ordens pessoais de Martin Bormann. — “Do Líder e Chanceler do Estado. O Reichsleiter Martin Bormann está agindo sob minhas ordens pessoais em um assunto da maior importância para o Estado. Ele responde apenas a mim. Todo o pessoal, militar ou civil, sem distinção de patente, o ajudará da maneira que ele achar conveniente.” Dillon a devolveu. — Está assinada por Adolf Hitler.
— Sério? — Ferguson dobrou-a novamente e colocou de volta no envelope. — Deve valer alguns milhares num leilão da Christie's. — Ele estendeu um envelope grande. — Tente este.
Dillon o abriu e tirou de dentro um volumoso arquivo. Folheou algumas páginas.
— Isto deve ser o Livro Azul, uma lista alfabética de nomes, endereços, um parágrafo embaixo de cada nome, um breve resumo do indivíduo.
— Veja se Pamer está aí.
Dillon verificou rapidamente.
— Está. “Major, Sir Joseph Pamer, Military Cross, membro do Parlamento. Hatherley Court, Hampshire”. Há um endereço em Mayfair. O comentário diz que é associado a Sir Oswald Mosley, politicamente idôneo e totalmente dedicado ao nacional-socialismo.
— É mesmo? — Ferguson disse secamente.
Dillon olhou várias outras páginas e assobiou baixinho. — Jesus, brigadeiro, sei que não passo de um pequeno campônio irlandês, mas alguns nomes aqui nem você acreditaria. A nata da Inglaterra. Alguns americanos também.
Ferguson pegou o arquivo, deu uma olhada em algumas quantas páginas com expressão grave.
— Quem teria imaginado? — Pegou outro envelope. — Agora este.
Continha diversos documentos, e Dillon deu uma passada rápida.
— São dados de contas bancárias numeradas na Suíça, em vários países da América do Sul e nos Estados Unidos. — Ele os devolveu. — Algo mais?
— Só este. — Ferguson passou o último documento. — E sabemos o que deve ser: o Protocolo Windsor.
Era uma carta, escrita em inglês num papel de qualidade, quase pergaminho. Dillon a leu. — Escrita numa villa do Estoril em Portugal em julho de 1940, dirigida a Hitler. A assinatura ao fundo parece ser do Duque de Windsor.
— E o que diz? — Carney perguntou.
— O duque diz que muitos já morreram em ambos os lados, a guerra não tem sentido e deve ser encerrada o mais rápido possível. Ele concorda em assumir o trono no caso de uma invasão alemã bem-sucedida.
— Meu Deus! — Carney disse. — Se isso é autêntico, é dinamite.
— Exatamente. — Ferguson voltou a enfiar a carta no respectivo envelope. — Se for autêntico. Os nazistas eram mestres consumados em falsificação. — Mas seu rosto estava triste ao fechar a pasta.
— E agora? — perguntou Carney.
— Voltamos para St. John, Dillon e eu fazemos as malas e depois Londres. Tenho um Learjet esperando em St. Thomas. — Ele ergueu a pasta e sorriu tristemente. — O primeiro-ministro é um homem que gosta de ouvir as más notícias sem perda de tempo.
O Maria Blanco lançou âncora no meio da manhã ao largo de Paradise Beach. Algaro e Guerra foram imediatamente para lá na lancha. Sentado em sua enorme escrivaninha, Santiago escutou a recapitulação dos acontecimentos da noite anterior, depois disse a Serra:
— Qual é sua opinião, capitão?
— Aquilo fica longe, señor, e na volta estarão sempre contra o vento. De qualquer maneira, eu diria que devem estar de volta muito em breve, talvez antes do meio-dia.
— Então, o que fazemos? — perguntou Algaro. — Pegamos todos esta noite?
Santiago sacudiu a cabeça.
— Não. Segundo minhas informações, Ferguson tem um Learjet pronto para decolar em St. Thomas. Temos que agir em cima do acontecimento. Você e Guerra vão para terra num dos botes, vestidos de turistas. Deixam o barco perto do chalé sete. Serra dará um walkie-talkie a cada um para que possam se comunicar. Algaro fica nas proximidades do chalé.
— E eu, señor? — perguntou Guerra.
— Você vai até Caneel Beach, e quando o barco de Carney chegar, avise a Algaro. Ferguson e Dillon têm forçosamente que ir à cabana fazer as malas. É então que atacam. Quando estiverem de volta, partimos logo daqui. Lembrem-se, a pasta é perfeitamente identificável, é de alumínio.
— Regressamos a San Juan, señor? — perguntou Serra.
— Não — disse Santiago. — Samson Cay. Quero ter tempo para pensar na próxima jogada. O conteúdo daquela pasta pode dar a minha vida um sentido completamente novo, Serra. — Abriu uma gaveta da direita, que continha várias pistolas. Escolheu uma Browning High Power e empurrou-a para Algaro. — Não me deixe mal.
— Não vou deixar — disse Algaro. — Se eles tiverem a mala, vamos trazê-la.
— Oh, claro que a têm. — Santiago sorriu. — Tenho plena confiança no nosso amigo Dillon. A sorte dele é boa.
Quando o Sea Raider passou por todos os iates atracados até o cais em Caneel Bay, o sol estava alto no céu. Havia surfistas na baía e a praia estava lotada de adoradores do sol. Guerra era um deles, sentado em uma espreguiçadeira com camisa florida e bermuda, óculos escuros protegendo os olhos. Viu Dillon pular no cais para prender as amarras. Ele voltou a bordo e saiu de novo com a bolsa verde-oliva na mão. Ferguson o seguia carregando uma pasta, Carney a seu lado.
O chapéu de Guerra, com a aba para baixo, escondia parcialmente seu rosto. Ele ajustou os óculos escuros e saiu da praia para o caminho do cais, que alcançou quase ao mesmo tempo que os três homens. Naquele momento, uma jovem recepcionista saiu correndo do saguão da recepção. — Oh, capitão Carney, vi você entrando. Há uma mensagem urgente para você.
— E o que é? — Carney perguntou.
— Billy Jones avisa que Jenny Grant teve um acidente na noite passada. Caiu da varanda em casa. Ainda está lá. Vão transferi-la logo para o Hospital de St. Thomas.
— Meu Deus! — exclamou Carney, e acenou para a garota. — OK, obrigado, vou cuidar disso.
— Mais um acidente — disse Dillon em tom azedo, e entregou a mochila a Ferguson. — Vou vê-la.
— Claro, querido menino — replicou Ferguson. — Enquanto isso, volto ao chalé, tomo um banho, faço as malas, essas coisas.
— Vejo você depois. — Dillon virou-se para Carney. — Você vem?
— Certo como o inferno que eu vou — replicou Carney, e se afastaram para o carro estacionado ali perto.
Com a bolsa na mão direita e a pasta na esquerda, Ferguson seguiu pelo caminho dos chalés de frente para a baía de Caneel. Guerra parou atrás de uns arbustos e do walkie-talkie ligou para Algaro, que, sentado na praia de Paradise, atendeu imediatamente.
— Sim, ouço você.
— Ferguson a caminho, sozinho. Os outros foram ver a garota.
— Foram o quê? — Algaro ficou abalado, mas depressa se recompôs. — Está bem, me encontre embaixo da cabana.
Guerra desligou e se virou. Pôde ver Ferguson algumas centenas de metros adiante e correu atrás dele.
Ferguson colocou a pasta na cama e tirou o suéter. Devia estar satisfeito, pensou, mas tinha acontecido tanta coisa... Joseph Jackson, pobre velhote, que nunca tinha feito mal a ninguém na vida, e Jack... Ele suspirou, abriu a porta do bar e encontrou uma miniatura de uísque. Derramou em um copo, adicionou água e bebeu lentamente. Jack Lane, o melhor policial com quem ele já havia trabalhado. E agora Jenny Grant. O suposto acidente dela foi além da coincidência. Santiago tinha muito a responder. Pegou a pasta da cama e colocou-a ao lado da pequena escrivaninha, verificou se a porta da frente estava trancada, foi ao banheiro e abriu o chuveiro.
Guerra e Algaro entraram no vestíbulo. Guerra tentou abrir a porta com cuidado. Sacudiu a cabeça: — Trancada.
Algaro fez cara feia e saiu para o jardim, descendo os degraus. Estava tudo muito quieto, sem ninguém por perto, e o jardim ao redor da casa era muito exuberante, protegendo grande parte da visão. Acima de suas cabeças, um grande terraço se projetava. Havia um caminho, alguns degraus, um muro baixo, uma pequena árvore ao lado.
— É fácil — disse Algaro. — Suba este muro, agarre-se à árvore e vai conseguir chegar ao parapeito. — Entregou-lhe a Browning. — Leve isto. Espero na porta.
Guerra chegava ao terraço em questão de segundos. As venezianas estavam fechadas, mas ele conseguiu espiar através das ripas estreitas. Nenhum sinal de Ferguson. Com muito cuidado, experimentou a maçaneta da porta do terraço, que se abriu. Ele pegou a Browning, ciente dos ruídos do chuveiro, olhou em volta, não viu sinal da pasta. Foi até a porta externa e a abriu.
Algaro entrou e pegou a Browning dele. — Ele está no chuveiro, não é?
— Sim, mas não encontro a pasta — sussurrou Guerra.
Mas Algaro a viu. Foi até a escrivaninha e a pegou com ar de triunfo.
— É isso. — Pegou a Browning. — Vamos.
Quando se viravam para a porta, Ferguson surgiu do banheiro, de roupão. A surpresa se estampou em seu rosto, mas não perdeu fôlego com palavras, atirou-se pura e simplesmente sobre eles. Algaro o atingiu na têmpora com a Browning e, quando Ferguson caiu sobre um joelho, arremessou-o de lado contra a parede.
— Vamos! — gritou, e correu porta afora.
Ferguson conseguiu se levantar, tonto, a cabeça doendo como o inferno. Cambaleou pela sala, abriu a porta do terraço e saiu a tempo de ver Algaro e Guerra correndo para a prainha no pé da encosta gramada. Empurraram o bote inflável para a água, ligaram o motor de popa e saíram. Só então Ferguson, olhando para cima, percebeu que o Maria Blanco estava ancorado ali.
Ele nunca se sentiu tão impotente na vida, nunca sentiu tanta raiva. Foi ao banheiro, colocou uma toalha úmida na cabeça, encontrou os binóculos e focalizou o iate. Viu Algaro e Guerra subindo a escada e correndo pela popa até Santiago, que estava sentado sob o toldo, o capitão Serra a seu lado. Algaro colocou a pasta na mesa. Santiago pôs as mãos nela, depois falou com Serra. O capitão se afastou e foi para a ponte. Um momento depois, estavam içando âncora e o Maria Blanco começou a se mover.
E então uma coisa estranha aconteceu. Como se percebesse que estava sendo observado, Santiago ergueu a pasta com uma das mãos, acenou com a outra e entrou no salão.
Foi Billy quem abriu a porta da casa em Gallows Point para Dillon e Carney.
— Estou realmente feliz por vê-los — disse ele.
— Como ela está? — perguntou Carney.
— Não está lá muito bem. Parece que caiu da varanda. Mary e eu a encontramos quando chegamos do bar. Mary vai para St. Thomas com ela.
— O médico quer que ela faça exames. Virão buscá-la em uma hora — disse Mary.
— Ela consegue falar? — perguntou Dillon enquanto subiam as escadas.
— Falou há cerca de uma hora. Perguntou por você, Mr. Dillon, mas não disse grande coisa. Vou fazer café enquanto vocês estão com ela. Vamos, Billy — disse ela ao marido, e eles saíram.
— O rosto ficou em muito mau estado — observou Carney.
— Eu sei — disse Dillon num tom severo. — E não ficou assim por acidente. Se ela tivesse caído de cara de uma altura daquelas, teria ficado completamente desfigurada. — Pegou sua mão e ela abriu os olhos.
— Dillon?
— Exatamente, Jenny.
— Desculpe, Dillon, desculpe deixá-los mal.
— Não deixou, Jenny. Descobrimos o submarino. Carney e eu mergulhamos.
Carney inclinou-se sobre ela.
— Sério mesmo, Jenny — disse Carney. — Abrimos um buraco nele e encontramos a pasta de Bormann.
Ela não sabia propriamente o que estava dizendo, mas prosseguiu: — Eu contei, Dillon, eu contei que vocês tinham ido para Thunder Point.
— Contou a quem, Jenny?
— Ao homem da cicatriz, da cicatriz grande. — Apertou a mão dele. — Ele me machucou muito. Ninguém nunca me machucou assim. — Fechou os olhos e deslizou novamente para a inconsciência.
— Algaro — disse Carney.
Quando Dillon se virou, a raiva em sua expressão parecia uma criatura viva.
— Ele é um homem morto que caminha, Algaro, eu lhe dou minha palavra. — Passou raspando em Carney e saiu.
A porta da frente estava aberta, Billy sentado nos degraus e Mary servindo café. — Quer um pouco?
— Um pequeno — Dillon disse.
— Como ela está?
— Dormiu de novo — Carney disse, saindo para a varanda.
Dillon fez sinal para ele e foram para a outra ponta da varanda. — Vamos examinar a situação. Foi provavelmente por volta da meia-noite que Algaro apertou Jenny e descobriu que tínhamos ido para Thunder Point.
— E então?
— Nenhum sinal da oposição, nem lá nem na volta. Max Santiago parece o tipo de homem que simplesmente desiste a esta altura?
— De jeito nenhum — disse Carney.
— Concordo. Acho muito mais provável que ele tenha decidido tentar nos livrar da maleta de Bormann na primeira oportunidade.
— Exatamente o que eu estava pensando.
— Certo — Dillon engoliu seu café e colocou a xícara na mesa. — Vamos voltar depressa para Caneel. Você verifica a área geral de Caneel Beach, o bar, o cais e eu procuro Ferguson. Nos encontramos no bar mais tarde.
Eles voltaram para perto de Mary e Billy. — Vocês já vão? — Mary perguntou.
— Precisamos — Dillon disse. — E vocês?
— Billy vai resolver as coisas no bar, eu vou para St. Thomas com Jenny.
— Diga a ela que vou vê-la — Dillon pediu. — Não esqueça — e ele desceu correndo a escada seguido por Carney.
Quando Dillon martelou a porta do 7E, ela foi aberta por Ferguson apertando uma bolsa de gelo na cabeça.
— O que aconteceu? — Dillon quis saber.
— Algaro aconteceu. Estava no chuveiro, essa porta estava trancada. Deus sabe como ele entrou, mas eu saí do banheiro e lá estava ele com outro homem. Fiz meu melhor, Dillon, mas o bastardo tinha uma Browning. Bateu na minha cabeça.
— Deixe-me ver — Dillon o examinou. — Podia ser pior.
— Eles tinham um bote inflável na praia e partiram para o Maria Blanco. Estava ancorado aí na frente.
Dillon puxou as venezianas de uma janela.
— Bem, não mais.
— Eu me pergunto para onde ele foi... de volta para San Juan, talvez? — Ferguson fez uma careta. — Eu peguei os binóculos e os vi na popa, vi Algaro entregar a pasta a ele. Ele parecia saber que eu estava assistindo. Levantou a pasta e acenou. —Ferguson fez outra careta. — Bastardo atrevido.
— Eu disse a Carney que o veríamos no bar — disse Dillon. — Vamos, é melhor darmos logo as más notícias e decidir o que fazer.
No canto mais escuro do bar, Ferguson e Dillon dividiam uma mesa. O brigadeiro estava saboreando um grande uísque com gelo, enquanto Dillon se contentava com água Evian e um cigarro. Carney logo se reuniu a eles e chamou a garçonete: — Só uma cerveja gelada.
— O que aconteceu?
— Falei com um amigo que estava pescando. O Maria Blanco passou por ele rumo ao sudeste, o que significa que devem estar indo para Samson Cay.
Dillon riu com gosto. — Certo, seu bastardo, peguei você.
— Que diabos quer dizer? — Ferguson perguntou.
— O Maria Blanco estará ancorado ao largo de Samson esta noite e, se você se lembra, o gerente Prieto nos disse que Santiago sempre fica a bordo. É simples. Entramos sob a proteção da escuridão e pego a pasta de volta, se Carney nos levar lá no Sea Raider, claro.
— Tente me impedir — Carney disse a ele.
Ferguson balançou a cabeça. — Você não desiste facilmente, não é, Dillon?
Dillon serviu-se de um pouco mais de água e ergueu o copo.
— Nunca vi razão para isso.
15
A noite caía enquanto Dillon e Ferguson esperavam sentados no cais de Caneel, o irlandês fumando um cigarro, a mochila militar verde-oliva no chão entre eles.
— Acho que é ele chegando — disse Ferguson, e apontou. Dillon viu o Sea Raider vindo do mar, negociando sua passagem lentamente entre os iates ancorados. Ainda havia gente na praia, algumas pessoas nadando ao sol da tarde, as risadas flutuando na água.
Ferguson disse: — Pelo que sei de Santiago, ele estaria pronto para repelir hóspedes. Você realmente acha que pode fazer isso?
— Tudo é possível, brigadeiro. — Dillon encolheu os ombros. — Você não precisa vir, sabe disso. Eu entenderia.
— Vou ignorar o insulto desta vez — disse Ferguson friamente —, mas nunca mais diga algo assim para mim, Dillon.
Dillon sorriu. — Anime-se, brigadeiro. Não tenho intenção de morrer num lugar chamado Samson Cay. Afinal, tenho um jantar no Garrick Club para cobrar novamente de você.
Ele se levantou e foi até a borda do cais enquanto o Sea Raider entrava. Acenou para Carney, pulou para bordo, pegou as amarras e jogou uma para o brigadeiro. Carney desligou os motores e desceu a escada enquanto eles terminavam de amarrar.
— Já reabasteci, então está tudo em ordem. Podemos sair quando quiserem.
— Muito bem. — Ferguson passou a mochila a Dillon, que a levou para a cabine do convés.
Naquele momento, a recepcionista do hotel reapareceu no cais. — Acabo de receber um telefonema de Mary Jones do Hospital St. Thomas, Sr. Dillon. Ela pede que ligue de volta.
Carney disse: — Vou com você.
O brigadeiro concordou. — Espero aqui de dedos cruzados.
Dillon e Carney desceram para o cais.
Mary disse: — Ela vai ficar bem, mas fizeram as radiografias. Acharam o que eles chamam de fratura do crânio na linha do couro cabeludo, mas o especialista disse que não é nada que um bom tratamento não cure.
— Ótimo — Dillon disse. — Não se esqueça de dizer a ela que vou vê-la.
Carney estava encostado na entrada da cabine telefônica, o rosto ansioso. — Fratura do crânio na linha do couro cabeludo — Dillon disse a ele enquanto desligava. — Mas ela vai ficar bem.
— Ah, isso é bom — disse Carney enquanto caminhavam de volta para o cais.
— É uma maneira de colocar as coisas — disse Dillon. — Outra é que Santiago e Algaro têm muito a pagar, sem falar daquele desgraçado do Pamer.
Ferguson saiu da cabine quando eles chegaram. — Boas notícias?
— Podia ser pior — Dillon disse e contou a ele.
— Graças a Deus! — Ferguson respirou fundo. — Tudo bem, então é melhor irmos andando.
Carney disse: — Claro, mas gostaria de saber como vamos lidar com essa situação. Mesmo no escuro, só podemos nos aproximar sem sermos vistos até certo ponto.
— Acho que a forma mais inteligente seria uma abordagem subaquática — disse Dillon. — Só que em relação a isso não há nós, Carney. Uma vez comentamos que você era um dos mocinhos. Santiago e seu bando são os bandidos e isso é o que sou. Também sou um cara mau. Pergunte ao brigadeiro, ele pode contar. É por isso que ele me contratou para este trabalho em primeiro lugar. É como eu ganho meu sustento e é um caso para um homem só.
— Olhe aqui — disse Carney —, eu posso segurar minha ponta.
— Sei disso e você tem medalhas para provar. O brigadeiro me mostrou sua ficha, mas no Vietnã era diferente. Você estava preso em uma guerra horrível que não era da sua conta. Suponho que você estivesse apenas tentando se manter vivo.
— E consegui. Estou aqui, não estou?
— Lembra quando você e o brigadeiro estavam trocando histórias de guerra sobre o Vietnã e a Coreia e você me perguntou o que eu sabia sobre a guerra e eu disse que estive em guerra a vida toda?
— E daí?
— Na idade em que devia estar levando garotas para dançar eu estava lutando o tipo de guerra em que o campo de batalha eram telhados e becos, fugindo dos paraquedistas britânicos numa dança pelos esgotos de Falls Road em Belfast, perseguido pelo SAS através de South Armagh... e eles são os melhores.
— O que você está tentando dizer? — Carney perguntou.
— Que quando eu transpuser a amurada do Maria Blanco para recuperar aquela pasta vou matar qualquer um que atravesse meu caminho. — Dillon encolheu os ombros. — Como eu disse, posso fazer isso sem hesitar, porque sou um cara mau. Não acho que você possa, e agradeço a Deus por isso.
Houve silêncio. Carney se virou para Ferguson, que concordou. — Temo que ele esteja certo.
— Tudo bem — disse Carney relutantemente. — Fazemos assim: vou o mais perto que pudermos do Maria Blanco e largo a âncora, depois levo você o resto do caminho no bote inflável do Privateer. — Dillon tentou falar e Carney o interrompeu. — Não, é assim que vai ser. Tenho um bote no Privateer. Podemos pegá-lo no caminho.
— Tudo bem — Dillon disse. — Será do seu jeito.
— E eu subo, Dillon, se algo der errado, eu subo.
— A cavalo, tocando clarim? — Dillon riu. — O Sul se levantará novamente? Vocês nunca conseguiram chegar a um acordo com a derrota da Guerra Civil.
— Não houve Guerra Civil. — Carney foi para a ponte. — Você deve estar se referindo à guerra pela independência da Confederação. Agora vamos nos mexer.
Ele ligou os motores, Dillon foi até a doca e desamarrou os cabos. Um momento depois, eles estavam navegando para a baía.
O Maria Blanco estava ancorado na baía de Samson Cay e Santiago estava sentado no salão lendo os documentos da pasta de Bormann pela terceira vez. Ele nunca tinha visto nada tão fascinante em sua vida. O Livro Azul era o mais interessante. Todos aqueles membros do Parlamento, pares do reino, gente das mais altas posições na sociedade, que tinham apoiado, embora secretamente, a causa do nacional-socialismo. Na Inglaterra da grande depressão, com cerca de quatro milhões de desempregados, muitos teriam olhado para a Alemanha e pensado que Hitler tinha as ideias certas.
Ele se levantou, foi até o bar e serviu um copo de xerez seco, depois voltou à escrivaninha, pegou o telefone e falou com a sala de rádio. — Ligue para Sir Francis Pamer em Londres.
Pamer estava sozinho em seu escritório na House of Commons quando o telefone tocou.
— Francis? É Max.
Pamer ficou imediatamente atento. — Aconteceu alguma coisa?
— Pode-se dizer que sim. Consegui, Francis, está bem aqui na minha mesa, a pasta de Bormann, e o Korvettenkapitän Paul Friemel estava certo. O Reichsleiter não estava apenas se pavoneando por estar bêbado. Está tudo aqui, Francis. Ordens de Hitler para ele, detalhes de contas bancárias numeradas, o Protocolo Windsor. Agora, é um documento de aparência impressionante. Se eles forjaram isso, só posso dizer que fizeram um bom trabalho.
— Meu Deus! — disse Pamer.
— E o Livro Azul, Francis, absolutamente fascinante. Nomes tão famosos e um pequeno parágrafo de fundo para cada um. Aqui está um interessante. Vou ler para você. Major, Sir Joseph Pamer, Cruz Militar, Membro do Parlamento, Hatherley Court, Hampshire, associado de Sir Oswald Mosley, politicamente correto, totalmente comprometido com a causa do Nacional-Socialismo.
— Não... — Pamer gemeu e um suor repentino brotou em seu rosto. — Não consigo acreditar.
— Eu me pergunto o que sua Associação Conservadora local pensaria disso... Ainda assim, está tudo bem quando acaba bem, como dizem. Que bom que eu tenho isso e mais ninguém.
— Você vai destruir, claro... — disse Pamer. — Quero dizer, vai destruir toda essa maldita porcaria...?
— Deixe comigo, Francis, cuidarei de tudo — disse Santiago. — Como sempre faço. Entrarei em contato em breve.
Ele desligou o telefone e começou a rir, e ainda estava rindo quando o capitão Serra entrou.
— Alguma ordem, señor?
Santiago consultou o relógio. Passava um pouco das sete.
— Sim, vou à terra por algumas horas e jantar no restaurante.
— Muito bem, señor.
— E certifique-se de que o convés seja vigiado esta noite, Serra. Só para o caso de nossos amigos resolverem nos fazer uma visita.
— Não se preocupe, señor. Vou tomar todas as precauções.
— Ótimo. — Santiago pegou a pasta. — Prepare a lancha.
O Sea Raider se aproximou de Samson Cay sub-repticiamente pelo leste, do outro lado do cabo em relação ao resort. Carney desligou os motores e desceu da ponte, enquanto Dillon largava ferro. Carney consultou o relógio.
— Dez horas. Quando você vai?
— Talvez daqui a uma hora. Veremos. — Dillon entrou na cabine, abriu a mochila, pegou o rifle AK47 e passou a Ferguson. — Pelo sim, pelo não.
— Esperemos que o não. — Ferguson o deixou em cima do banco.
Dillon então pegou a Walther, examinou-a e a enfiou no saco de mergulho juntamente com o silenciador Carswell. O que restava do Semtex também foi para o saco, além de dois lápis detonadores, os de trinta minutos.
— Você está realmente indo para a guerra — Ferguson disse.
— Pode acreditar. — Dillon colocou a visão noturna na bolsa também.
Carney disse: — Vou levá-lo o mais perto que puder no inflável e espero vê-lo na volta.
— Boa. — Dillon sorriu. — Pegue a garrafa térmica, brigadeiro, e vamos tomar um café. Depois, hora da ação.
Santiago teve um excelente jantar, começando com caviar, seguido de filé mignon grelhado com corações de alcachofra, regado a Chateau Palmer 1966. Autoindulgência deliberada porque se sentia no topo do mundo. Ele gostava que as coisas dessem certo e o caso Bormann tinha dado muito certo. Foi como um jogo maravilhoso. As informações contidas nos documentos eram tão surpreendentes que as possibilidades eram infinitas.
Pediu um charuto, cubano, claro, como nos velhos tempos, que aquele maluco do Castro estragara. Prieto trouxe para ele um Romeu e Julieta, aparou a ponta e esquentou para ele.
— A refeição foi satisfatória, señor Santiago?
— A refeição foi maravilhosa, Prieto. — Santiago deu um tapinha em seu ombro. — Vejo você amanha. — Ele se levantou, pegou a pasta Bormann do chão ao lado da mesa e caminhou até a porta. Algaro estava esperando. — Vamos voltar para o iate agora, Algaro.
— Como quiser, señor.
Santiago desceu a escada e caminhou pelo cais até a lancha, saboreando a noite, o aroma de seu charuto. Sim, a vida realmente podia ser muito boa.
Carney contornou o cabo devagar com o bote inflável, seu ruído reduzido a um murmúrio na noite. Havia iates dispersos pela baía e umas poucas embarcações menores. Fundeado a trezentos metros da costa, o Maria Blanco era de longe o maior.
Carney desligou o motor e ajustou os remos nas forquetas.
— O resto do caminho é no braço — disse ele. — Talvez consiga levá-lo até uns cinquenta metros sem ser avistado.
— Perfeito.
Dillon já tinha colocado o colete e a garrafa de ar e um gorro de mergulho de náilon preto. Tirou a Walther do saco de mergulho, atarraxou o silenciador e enfiou-a por dentro do colete.
— É melhor rezar para que ela não falhe — disse Carney enquanto remava. — A água provoca estranhos efeitos nas armas.
— Com a Walther não há problema — disse Dillon. — É um Rolls-Royce.
Não conseguiam ver um ao outro, os respectivos rostos eram uma mancha difusa no escuro.
— Você gosta mesmo desse tipo de coisa? — perguntou Carney.
— Não estou certo de que gostar seja propriamente a palavra.
— Conheci homens assim no Vietnã. Principalmente Special Forces. Não paravam de receber missões difíceis, e acontecia uma coisa estranha: acabavam querendo mais. Nunca era o bastante. É isso que você sente, Dillon?
— Há um poema de Browning — Dillon disse a ele. — Algo sobre nosso interesse de estar no limite perigoso das coisas. Quando eu era jovem e tolo naqueles primeiros dias com o IRA e o SAS me caçando até no inferno por toda South Armagh, eu também descobri uma coisa engraçada. Amei aquilo mais do que qualquer coisa que já conheci. Eu vivi mais em um dia, realmente vivi, do que em um ano em Londres.
— Entendo. É como um tipo de droga, mas só há uma forma de acabar: de costas numa sarjeta de Belfast.
— Oh, não se preocupe com isso — disse Dillon. — Esse tempo acabou. Nunca vou voltar àquilo.
Carney fez uma pausa, fungando.
— Acho que sinto cheiro de fumaça de charuto.
Eles flutuaram na escuridão e a lancha de Santiago emergiu de entre dois iates, movendo-se sob a luz para a escada de aço do Maria Blanco. Serra estava no convés olhando para cima. Guerra desceu para pegar o cabo e Santiago, fumando um charuto cubano, subiu ao convés seguido por Algaro.
— Parece que leva uma pasta — observou Carney.
Dillon colocou o visor de infravermelho.
— Tem razão. Provavelmente, tem medo de perdê-la de vista.
— E agora? — perguntou Carney.
— Esperamos que se acomodem.
Santiago e Serra desceram da ponte para o convés principal. Guerra e Solona estavam na parte inferior da escada, cada um armado com um rifle M16. Algaro ficou perto da grade.
— Duas horas de vigia, quatro de descanso. Faremos um rodízio à noite e deixaremos as luzes de segurança acesas.
— Isso parece mais do que adequado — disse Santiago. — Boa noite, capitão.
Ele foi até o salão e Algaro o seguiu. — Ainda precisa mais de mim esta noite, señor?
— Acho que não, Algaro, pode ir para a cama.
Algaro se retirou, Santiago pôs a pasta na mesa, tirou o paletó e foi pegar um conhaque. Voltou para a escrivaninha, sentou-se e se recostou, saboreando seu conhaque e apenas olhando a pasta. Finalmente, como sabia que faria, ele a abriu e começou a examinar os documentos novamente.
Dillon focou o visor de infravermelho e distinguiu Solona entre as sombras junto ao salva-vidas da proa. Na popa, Guerra estava sentado sob o toldo fumando um cigarro, o rifle em cima da mesa.
Dillon estendeu o visor a Carney.
— É todo seu. Vou indo.
Deixou-se cair para trás, mergulhou a cerca de três metros e meio de profundidade e se aproximou do iate. Veio à tona junto à popa da lancha, amarrada na escada. Subitamente, Solona apareceu lá em cima, na plataforma. Dillon submergiu quando ele começou a descer. Solona parou no meio da escada e acendeu um cigarro, o fósforo tremeluzindo. Dillon emergiu, tirou a Walther do colete e esticou o braço.
— Aqui — sussurrou ele em espanhol. Solona ergueu a cabeça, e a Walther, com seu silenciador, pegou-o no meio dos olhos. Solona caiu de lado, escorregou pelo corrimão e afundou três metros na água.
Seu mergulho quase não fez barulho, mas Guerra se levantou.
— Ei, Solona, éres tu?
— Sí — sibilou Dillon. — No hay problema.
Ouviu Guerra percorrer o convés lá em cima. Submergiu e nadou até a proa. Enfiou a Walther no traje de mergulho, depois tirou o colete e a garrafa de ar, prendeu-os na corrente da âncora e içou-se, deslizando para dentro do barco.
Deitado em seu beliche, Algaro vestia apenas short devido ao calor sufocante. Tinha a vigia aberta e ouviu Guerra chamar Solona. Ouviu também a resposta de Dillon.
Guerra tornou a chamar em voz baixa: — Solona, onde está?
Algaro pegou o revólver e saiu.
Guerra chamou novamente: — Onde você está, Solona? — e foi para o convés dianteiro, o M16 pronto.
— Aqui, amigo — disse Dillon, e quando Guerra se virou, alvejou-o duas vezes no coração, atirando-o contra a antepara.
Dillon avançou cautelosamente. Não ouviu barulho algum, mas de súbito deu-se conta do cano de um revólver encostado em seu pescoço. — Agora, seu bastardo, te peguei. — Algaro esticou o braço e pegou sua Walther. — Então, esta é a arma de um verdadeiro profissional? Gosto disso. Na verdade, gosto tanto que vou ficar com ela. — E jogou seu próprio revólver por cima da grade. — Vire-se. Vou lhe dar dois tiros no bucho, que é para levar muito tempo até morrer.
Bob Carney, observando os eventos através do visor noturno, tinha acompanhado a aproximação de Algaro, e nunca se sentiu tão frustrado com a incapacidade de fazer algo a respeito. E nunca se sentiu tão incerto sobre o que aconteceu depois, porque foi tudo muito rápido.
Dillon se virou, seu braço esquerdo varrendo o direito de Algaro para o lado, a Walther descarregando no convés. Dillon o agarrou. — Se vai fazer, não fale, faça. — Eles lutaram por um momento, sentindo a força um do outro. — Por que não pede ajuda?
— Porque vou te matar com minhas próprias mãos — disse Algaro, os dentes cerrados. — Para meu próprio prazer.
— Você é bom em bater em meninas, não é? — disse Dillon. — Como se sai com um homem?
Algaro rodopiou, exercendo toda a sua força, e empurrou Dillon para trás de encontro à amurada de proa. Dillon se deixou cair sobre a borda, arrastando Algaro junto; o mar era seu território, não dele.
Ao mergulharem, Algaro começou a se debater, e Dillon agarrou-o bem, puxando-o para baixo, sentindo a corrente da âncora nas costas. Agarrou-se a ela com uma mão e passou um antebraço pela garganta de Algaro. A princípio, Algaro se debateu com extrema violência, batendo os pés, mas depressa perdeu forças. Por fim, imobilizou-se.
Com os pulmões quase arrebentando, Dillon soltou o cinto de pesos. Colocou-o em volta do pescoço de Algaro, prendendo-o à corrente da âncora.
Veio à tona e aspirou grandes golfadas de ar. Ocorreu-lhe então que Carney devia estar observando pelo visor noturno, virou-se e acenou. Depois, içou-se de novo corrente acima.
Manteve-se encoberto pelas sombras, avançando convés afora até chegar ao salão. Olhou pela vigia e viu Santiago sentado na mesa, com a pasta aberta, lendo. Dillon se agachou, depois se decidiu. Tirou o Semtex da bolsa de mergulho, introduziu nele dois detonadores de trinta minutos e jogou-o por um dos ventiladores da casa das máquinas, depois olhou de novo pela vigia.
Santiago tornou a guardar os documentos na pasta, fechou-a e entrou no camarote. Dillon abriu a porta do salão, correu até a mesa e enquanto pegava a pasta, Santiago voltou.
O grito que soltou foi como um gemido de angústia.
— Não!
Dillon correu para a porta.
Santiago abriu a gaveta da mesa, pegou um Smith & Wesson e atirou sem mirar. Agora, o iate todo estava acordando. Serra saiu do camarote atrás da ponte, arma em punho.
— O que houve? — perguntou ele.
— Pegue-o! — gritou Santiago. — É Dillon.
Dillon correu para a popa e pulou a amurada. Mergulhou o mais fundo que conseguiu, mas a pasta tornava as coisas difíceis. Voltou à tona, percebendo que atiravam nele, e nadou para a escuridão. No fim, Carney é que o salvou, emergindo da noite com um ronco e jogando-lhe um cabo.
— Agarre-se, vamos cair fora daqui — gritou, e, acelerando, demandou a cumplicidade da escuridão.
— Guerra está morto — disse Serra. — O corpo ainda está aqui, mas não há sinal de Solona nem de Algaro.
— Não importa — disse Santiago. — Dillon e Carney não fizeram o caminho todo de St. John até aqui naquele bote. O barco de Carney deve estar por perto.
— É verdade — disse Serra — e eles vão levantar âncora e partir imediatamente.
— E no momento em que eles se moverem, você os verá no seu radar, certo? Quero dizer, não há nenhum outro barco saindo de Samson Cay a esta hora.
— Verdade, señor.
— Então, levante âncora.
Serra apertou o botão do guincho elétrico. O motor começou a zumbir. Santiago disse: — E agora, o que é isso?
Os três tripulantes que sobraram, Pinto, Noval e Mujica, estavam no convés de proa e Serra se inclinou sobre a grade da ponte. — A corrente da âncora está travando. Verifiquem o que está havendo.
Mujica se inclinou sobre a proa e gritou. — É Algaro. Está amarrado à corrente.
Santiago e Serra desceram a escada e correram para a proa, olhando por cima da amurada. Algaro pendia da corrente da âncora com o cinto de pesos em volta do pescoço.
— Mãe de Deus! — bradou Santiago. — Puxem-no, idiotas! Vamos sair daqui já — disse ele a Serra.
— Não se preocupe, señor — Serra disse a ele. — Somos mais rápidos do que eles. Não há como voltarem para St. John sem que os alcancemos — e ele subiu para a ponte enquanto Noval e Mujica puxavam o corpo de Algaro para a plataforma da corrente.
Em Shunt Bay, quando o bote inflável acostou no Sea Raider, irrompendo da escuridão, Ferguson debruçou-se ansiosamente na popa.
— O que houve? — perguntou ele.
Dillon jogou-lhe a pasta.
— Houve isto. — Subiu para a plataforma de mergulho, amarrou firmemente o cabo do bote, depois dirigiu-se à proa e recolheu a âncora. Carney subira já para a ponte de comando.
Ferguson foi até ele.
— Como foi?
— Ele não faz prisioneiros, isso eu lhe garanto — respondeu Carney, ligando os motores. — Vamos embora daqui. Não temos tempo algum a perder.
O Sea Raider sulcou as águas noite adentro, com um vento refrescante de quatro a cinco nós. Ferguson estava sentado na cadeira rotativa, e Dillon encostado na amurada, ao lado de Carney.
— Eles são mais rápidos do que nós, como sabe — observou Carney. — E ele não vai desistir de nos perseguir.
— Eu sei — disse Dillon. — Ele não gosta de perder.
Foi Ferguson quem primeiro avistou o Maria Blanco.
— Há uma luz lá ao fundo. Tenho certeza.
Carney olhou em volta. — Certo, não pode ser mais ninguém.
Dillon levantou o visor noturno.
— Sim, é o Maria Blanco.
— Não há dúvida de que eles têm um bom radar naquela coisa — observou Carney. — É impossível despistá-lo.
— Ah, é sim — disse Dillon. — Não pare.
Serra, na ponte do Maria Blanco, levou os binóculos noturnos aos olhos.
— Achei — disse ele, passando o visor para Santiago.
Santiago focou e viu o contorno do Sea Raider. — Certo, seus bastardos. — Ele se inclinou sobre a grade da ponte e olhou para Mujica, Noval e Pinto, que esperavam no convés de proa, segurando rifles M16. — Já os vimos. Preparem-se.
Serra aumentou a velocidade, fazendo o Maria Blanco cavalgar a crista das ondas.
— Agora é que vamos ver, Dillon — murmurou Santiago.
Quando a explosão ocorreu, foi fulminante, arrancando o fundo do iate. Foi tão catastrófica que Santiago, Serra e os três sobreviventes da tripulação nem tiveram tempo de perceber alguma coisa, enquanto seu mundo se desintegrava. O Maria Blanco se ergueu no ar e em seguida mergulhou sob as ondas.
A primeira coisa que viram da ponte de comando do Sea Raider foi um intenso clarão de fogo cor de laranja e depois de um ou dois segundos, ouviram a explosão ressoando pelo mar. E então o fogo desapareceu, extinguindo-se, devolvendo a escuridão. Carney desligou o motor.
Estava tudo muito quieto. Ferguson disse: — Um longo caminho para baixo.
Dillon olhou pelo visor noturno. — O U180 foi mais longe. — Guardou o visor no armário sob o painel de instrumentos. — Ele disse que carregavam explosivos, lembra?
Carney disse: — Devemos voltar, talvez haja sobreviventes.
— Você realmente acha isso depois daquilo? — Dillon disse suavemente. — St. John é por ali.
Carney ligou os motores. Dillon desceu a escada para a cabine do convés. Tirou o traje de mergulho, vestiu o moletom, encontrou um maço de cigarros e foi para a amurada.
Ferguson se juntou a ele. — Meu Deus... — ele disse suavemente.
— Não acho que Ele tenha muito a ver com tudo isso, brigadeiro — disse Dillon e acendeu um cigarro, o Zippo brilhando.
Passava das 10 da manhã seguinte quando uma enfermeira os levou ao quarto particular do Hospital St. Thomas. Jenny estava recostada nos travesseiros, a cabeça envolta em ataduras. Conseguiu esboçar um sorriso.
— Meus três mosqueteiros.
Bob Carney pegou a mão dela.
— Como está?
— Metade do tempo nem percebo que estou aqui.
— Vai passar, minha querida — disse Ferguson. — Tive uma conversa com o médico de serviço. Você tem uma ligeira fratura do crânio. Nada que um bom tratamento não cure. O que precisar é só pedir. Está tudo tratado.
— Obrigada, brigadeiro. — Virou-se para Dillon e fitou-o sem falar.
— Depois volto aqui, querida — disse Carney. — Cuide-se.
Ele olhou para Ferguson, que assentiu, e os dois saíram.
Dillon se sentou na beira da cama e segurou a mão dela.
— Está com péssimo aspecto.
— Eu sei. E você, como está? Como foi tudo?
— Eu estou ótimo. O brigadeiro tem o Learjet esperando no aeroporto. Vamos levar a pasta de Bormann para Londres.
— Dito assim, parece que foi fácil.
— Podia ter sido pior. Não se preocupe mais, Jenny. Não há motivo. Santiago e os amigos, aquele animal do Algaro... nunca mais voltarão a incomodá-la.
— Tem certeza disso?
— Como se eu mesmo tivesse fechado o caixão deles — respondeu ele friamente.
Apareceu uma espécie de dor na expressão dela. Fechou os olhos brevemente e os reabriu. — As pessoas não mudam, não é?
— Sou como sou, Jenny — ele disse simplesmente. — Mas você já sabia.
— Será que volto a vê-lo?
— Acho pouco provável. — Beijou a mão dela, levantou-se, foi para a porta e a abriu.
— Dillon — chamou ela.
Ele se virou.
— Sim, Jenny?
— Deus abençoe e tome conta de você.
Carney acompanhou-os ao Learjet. Um dos dois pilotos ajudou a arrumar as malas, enquanto Dillon, Ferguson e Carney esperavam embaixo. O brigadeiro levantou a pasta.
— Obrigado por isso, capitão Carney. Se alguma vez precisar de ajuda ou eu puder retribuir... — Apertaram as mãos. — Cuide-se, meu amigo. — E subiu a escada.
— E agora, o que acontece? — perguntou Carney. — Em Londres, quero dizer.
— Isso depende do primeiro-ministro — disse Dillon. — Depende do que ele queira fazer com os documentos.
— Foi tudo há muito tempo — disse Carney.
— Este é um ponto de vista legítimo.
Carney hesitou.
— E esse tal Pamer, o que vai ser dele?
— Na realidade, não tinha pensado nisso — respondeu Dillon calmamente.
— Ah, tinha sim. — Carney sacudiu a cabeça. — Deus o ajude, Dillon, porque você nunca vai mudar. — E virando costas, afastou-se pela pista.
Dillon foi ao encontro de Ferguson.
— Um bom homem — disse Ferguson.
— O melhor — assentiu Dillon.
O copiloto subiu, fechou a porta e foi se juntar ao colega na cabine. Depois de um tempo, os motores dispararam e eles avançaram. Logo ganhavam altitude sobre o mar.
Ferguson olhou para fora. — St. John ali.
— Sim — Dillon disse.
Ferguson suspirou. — Acho que devemos discutir o que acontecerá quando voltarmos.
— Agora não, brigadeiro. — Dillon fechou os olhos. — Estou cansado. Vamos deixar para mais tarde.
A casa em Chocolate Hole nunca pareceu tão vazia quando Bob Carney entrou. Ele andou ligeiramente sem rumo de cômodo em cômodo, depois foi até a cozinha e pegou uma cerveja na geladeira. Quando ia para a sala, o telefone tocou.
Era sua mulher, Karye. — Oi, querido, como você está?
— Estou bem, muito bem. E as crianças?
— Oh, animadas como sempre. Sentem sua falta. Esta é uma chamada impulsiva. Estamos em um posto de gasolina perto de Orlando. Parei para abastecer.
— Estou muito ansioso pela sua volta.
— Não vai demorar muito agora — disse ela. — Sei que tem sido solitário para você. Aconteceu alguma coisa interessante?
Um sorriso lento se espalhou pelo rosto de Carney e ele respirou fundo. — Não que eu possa me lembrar. Mesma velha rotina.
— Tchau, querido, tenho que ir.
Ele desligou o telefone, bebeu um pouco de sua cerveja e foi para a varanda. Era uma tarde bonita e clara e ele podia ver as ilhas do outro lado de Pillsbury Sound e além. Um longo caminho, mas não tanto quanto o que Max Santiago havia percorrido.
16
Faltava pouco para as seis da tarde seguinte no escritório de Ferguson no Ministério da Defesa e Simon Carter estava sentado do outro lado da mesa, pálido e abalado, quando Ferguson terminou de falar.
— Então, o que se faz do bom Sir Francis? — perguntou Ferguson. — Um ministro da Coroa se comportando não só de forma desonrosa, como de um modo que só pode ser descrito como criminoso.
Em pé, junto à janela, Dillon acendeu um cigarro.
— Ele tem que estar presente? — perguntou Carter.
— Ninguém sabe mais deste caso do que Dillon.
Carter pegou o Livro Azul, largou-o e abriu o Protocolo Windsor.
— Não posso acreditar que isto seja autêntico.
— Isto pode não ser, mas o resto é. — Ferguson estendeu a mão para pegar os documentos, recolocou-os na pasta e a fechou. — O primeiro-ministro vai nos receber em Downing Street às oito. Naturalmente, não convidei Sir Francis. Encontro você lá.
Carter se levantou. — Muito bem.
Ele foi até a porta e estava pegando a maçaneta quando Ferguson disse: — Ah, e Carter...
— Sim?
— Não faça nada idiota como ligar para Pamer. Eu ficaria bem longe disso se fosse você.
O rosto de Carter cedeu, ele se virou, cansado, e saiu.
Dez minutos depois, Sir Francis Pamer arrumava sua mesa na Câmara dos Comuns antes de sair ao fim do dia quando o telefone tocou.
— Pamer falando — disse ele.
— Charles Ferguson.
— Ah, está de volta, brigadeiro — murmurou Pamer, circunspecto.
— Precisamos nos encontrar.
— Esta noite é impossível. Tenho um compromisso importantíssimo: jantar com o prefeito de Londres. Não posso faltar.
— Max Santiago morreu — comentou Ferguson. — E eu tenho aqui, em cima da minha escrivaninha, a pasta de Bormann. O Livro Azul é uma leitura muito interessante, sabe? Seu pai é citado na página dezoito.
— Oh, meu Deus... — Pamer desabou na cadeira.
— Eu não falaria com Simon Carter sobre isso se fosse você — disse Ferguson. — Não seria realmente vantajoso.
— Claro que não, como preferir. — Pamer hesitou. — Você não falou com o primeiro-ministro, então?
— Não, achei melhor ver você primeiro.
— Fico muito grato, brigadeiro, tenho certeza de que podemos pensar em algo.
— Conhece o cais de Charing Cross?
— Claro.
— Um dos barcos do rio, o Queen of Denmark, sai de lá às seis e quarenta e cinco. Eu o encontro a bordo. Vai precisar de um guarda-chuva, a propósito, está chovendo muito forte.
Ferguson desligou o telefone e se virou para Dillon, que ainda estava em pé perto da janela. — É isso então.
— Como ele soou? — perguntou Dillon.
— Apavorado. — Ferguson se levantou, foi até o antiquado cabide que mantinha no canto e tirou o sobretudo, do tipo conhecido pelos oficiais dos Guards como British warm, e vestiu-o. — Mas tinha que estar mesmo, pobrezinho.
— Não espere de mim simpatia alguma por ele. — Dillon pegou a pasta da mesa. — Vamos, vamos em frente — e ele abriu a porta para a saída.
Quando Pamer chegou ao cais de Charing Cross, o nevoeiro era tão denso que mal se conseguia ver a outra margem do Tâmisa. Comprou a passagem no alto da prancha. O Queen of Denmark estava programado para passar pelo Píer de Westminster e, por fim, pelo Píer Cadogan no Chelsea Embankment. Uma viagem popular nas belas noites de verão, mas com tanta chuva havia poucos passageiros.
Pamer deu uma olhada no salão inferior, onde havia meia dúzia de passageiros e uma escada para o salão superior, onde encontrou apenas duas senhoras idosas conversando em sussurros. Abriu uma porta de vidro, saiu e olhou para baixo. Havia alguém parado na amurada da popa segurando um guarda-chuva sobre a cabeça. Ele voltou para dentro, desceu a escada e saiu para o convés, abrindo o guarda-chuva para se proteger do temporal.
— É você, Ferguson?
Avançou, hesitante, a mão na coronha da pistola que levava no bolso da capa. O Queen of Denmark começava a se afastar do cais, e o nevoeiro subia em torvelinho da superfície da água. Não havia janelas traseiras no salão de cima. Estavam sozinhos.
Ferguson voltou as costas para a amurada.
— Ah, aqui está você. — Levantou a pasta. — O primeiro-ministro vai dar uma olhada nela às oito.
— Por favor, Ferguson — implorou Pamer —, não me faça isso. Não tenho culpa de que meu pai fosse fascista.
— Tem toda razão. Também não tem culpa de que a imensa fortuna de seu pai no pós-guerra tenha origem na colaboração dele com o movimento nazista. Posso mesmo desculpar a facilidade com que você tem recebido o substancial rendimento da Samson Cay Holding, dinheiro produzido principalmente pelas duvidosas empresas de Max Santiago.
— Ouça aqui... — começou Pamer.
— Não se dê ao trabalho de negar. Eu pedi a Jack Lane para investigar o passado financeiro de sua família, sem perceber que estava assinando sua sentença de morte, claro. Ele conseguiu avançar bem, antes de morrer, ou eu deveria dizer antes de ser assassinado? Encontrei hoje o que ele descobriu.
— Nada disso foi culpa minha — bradou Pamer, descontrolado. — A culpa foi toda do meu pai e de sua adoração por Hitler. Eu tinha que pensar no nome da minha família, Ferguson, na minha posição no governo.
— É muito egoísta de sua parte, mas compreensível — concedeu Ferguson. — O que eu não posso perdoar é o fato de você ter dado a Santiago toda informação possível. Você me vendeu, vendeu Dillon, pondo nossa vida em perigo. Jennifer Grant está neste momento no hospital.
— Eu não sabia de nada disso, juro.
— Ah, foi tudo engendrado por Santiago, disso pode estar certo. Mas estou falando é de responsabilidades. Em Samson Cay, o pobre do velho Joseph Jackson foi brutalmente assassinado logo depois de ter falado comigo. Ora, como Santiago soube da existência dele? Você contou.
— Você não pode provar. Não pode provar nada. — Pamer respirou fundo e encolheu os ombros. — No que diz respeito aos interesses comerciais da minha família, isso era um negócio do meu pai, não meu. Se você insistir nessa coisa, eu alego ignorância dos fatos. A única coisa que lhe resta é o Livro Azul. Dificilmente seria minha culpa.
Ferguson solhou para o rio.
— Como já disse, eu seria capaz de compreender seu pânico, um velho nome manchado, sua carreira política ameaçada; mas as agressões à garota, a morte do velhote, a morte a sangue-frio do inspetor Lane... dessas acusações você é tão culpado quanto os executantes.
— Prove — bradou Pamer.
— Adeus, Sir Francis — disse Ferguson, e se afastou.
Pamer tremia. Tinha esquecido completamente a arma que tinha no bolso. Já era tarde demais para ideias temerárias, como aliviar Ferguson da pasta sob ameaça da arma. Vasculhou desajeitadamente os bolsos à procura da cigarreira, pôs um cigarro na boca e tentou encontrar o isqueiro.
Ouviram-se passos quase imperceptíveis, e o Zippo de Dillon emitiu uma chama.
— Aqui está.
O olhos de Pamer se arregalaram de medo.
— Dillon, o que você quer?
— Só uma palavrinha. — Dillon envolveu os ombros de Pamer com o braço e o encostou na amurada da popa.
— Da primeira vez que o vi na House of Commons, fiz uma alusão irônica ao rio, e você disse que não sabia nadar. É verdade?
— Sim, é verdade. — Os olhos de Pamer se arregalaram mais quando ele entendeu. Sacou a arma do bolso, mas Dillon agarrou seu pulso direito, batendo com ele na borda, e Pamer deixou a pistola cair na água.
— Obrigado. Acabou de facilitar as coisas — disse Dillon.
Virou Pamer e, pondo a mão com força entre as omoplatas dele, agarrou-o pelos tornozelos e o levantou por cima da amurada. O guarda-chuva flutuou, o cabo para cima. Pamer apareceu à tona e ergueu um braço. Deu um grito estrangulado antes de afundar novamente e a névoa girou sobre o Tamisa, cobrindo tudo.
Cinco minutos depois, o Queen of Denmark aportou no cais de Westminster. Ferguson foi o primeiro a descer e esperou Dillon embaixo de uma árvore.
— Resolvido?
— Acho que se pode dizer que sim — disse Dillon.
— Bom. Tenho meu compromisso em Downing Street agora. Posso ir andando daqui. Vejo você na Cavendish Square, e conto o que aconteceu.
Dillon o observou partir, então se afastou na direção oposta, desaparecendo na névoa e na chuva.
Ferguson chegou a Downing Street quinze minutos antes da hora marcada. Alguém pegou seu casaco e seu guarda-chuva, e um assessor do primeiro-ministro desceu a escada.
— Ah, brigadeiro, já chegou.
— Receio estar um pouco adiantado.
— Sem problema. O Primeiro-Ministro gostaria de analisar pessoalmente o material. É isso?
— É. — Ferguson entregou-lhe a pasta.
— Fique à vontade. Ele não demora muito.
Ferguson se sentou no saguão, sentindo frio. Teve um arrepio.
— Estamos sem aquecimento central, brigadeiro — disse o contínuo junto à porta. — Os operários começaram ontem a instalar os novos sistemas de segurança. Tivemos que acender a lareira no gabinete do primeiro-ministro.
Bateram na porta. O contínuo abriu e Carter entrou.
— Brigadeiro — cumprimentou ele formalmente.
O contínuo recebeu o sobretudo e o guarda-chuva e nessa hora reapareceu o secretário.
— Por favor, senhores, por aqui.
O primeiro-ministro estava com a pasta aberta na mesa. Lia o Livro Azul e ergueu brevemente os olhos.
— Sentem-se, senhores. É só um instante.
A lenha ardia intensamente atrás da grade. O silêncio era completo, apenas quebrado pelo batucar das rajadas de chuva na janela. O primeiro-ministro enfim se recostou na cadeira e olhou para eles.
— Alguns nomes do Livro Azul são perfeitamente incríveis. Sir Joseph Pamer, por exemplo, na página dezoito. Suponho que seja por isso que não solicitou a presença de Sir Francis, brigadeiro.
— Achei que seria inadequada nas circunstâncias, primeiro-ministro, e Sir Francis concordou.
Carter fitou-o penetrantemente.
— Então, informou-o da presença do pai no livro?
— Informei, sim, primeiro-ministro.
— Fico grato pela delicadeza de Sir Francis. Por outro lado, o fato de o pai ter sido um fascista todos aqueles anos não é propriamente culpa dele. Os filhos não podem expiar os pecados dos pais. A menos que tenha mais alguma coisa para me contar, brigadeiro?...
Da expressão dele transparecia uma estranha dureza, como se estivesse de algum modo desafiando Ferguson.
— Não, primeiro-ministro — disse firmemente o brigadeiro.
— Ótimo. Chegamos agora ao Protocolo Windsor. Consideram isso autêntico?
— Não é possível ter certeza — respondeu Carter. — Os nazistas produziram falsificações notáveis durante a guerra, disso não resta dúvida.
— É sabido que o duque tinha esperança num rápido termo da guerra — observou Ferguson. — Não quero com isso sugerir de modo algum que ele fosse desleal, mas lamentava profundamente a perda de vidas de ambos os lados.
— Seja como for, os jornais sensacionalistas teriam o dia ganho com isso, e as consequências para a família real seriam catastróficas — disse o primeiro-ministro.
— Vejo que trouxe o diário de Friemel e a tradução, conforme lhe pedi. São as únicas cópias que existem?
— É tudo — garantiu Ferguson.
— Ótimo. — O primeiro-ministro empilhou os documentos, levantou-se e foi até a lareira. Começou pelo Protocolo Windsor, que pôs em cima das achas em brasa. — Águas passadas, senhores, já lá se vai muito tempo.
O protocolo flamejou, encaracolado em cinzas. Seguiram-se a ordem de Hitler, as listas bancárias, o Livro Azul e, por fim, o diário.
— Isso nunca aconteceu, senhores — disse ele, virando-se —, nada disso.
— Uma decisão sensata — comentou Carter com um ligeiro sorriso.
— Dito isto, parece que a ideia de recorrer aos serviços desse tal Dillon deu certo, brigadeiro?
— Chegamos a um desfecho positivo devido aos esforços dele, primeiro-ministro.
O primeiro-ministro contornou a escrivaninha para se despedir e sorriu.
— Estou certo de que é uma história interessante. Vai me contar um dia desses, brigadeiro, mas agora terão que me desculpar.
Como que por encanto, a porta se abriu suavemente atrás deles e apareceu o funcionário para acompanhá-los à saída.
No saguão, o contínuo ajudou-os com os sobretudos.
— Uma conclusão satisfatória, eu diria — observou Carter.
— Você acha, não é? — disse Ferguson.
Quando o contínuo ia abrir a porta, o assessor irrompeu no hall.
— Acabamos de receber um telefonema extremamente penoso da polícia marítima, senhores. Recuperaram há pouco do Tâmisa o corpo de Sir Francis Pamer.
Carter ficou estupefato.
— Muito triste — disse Ferguson. — Obrigado por nos informar. — E saiu, abrindo o guarda-chuva e avançando Downing Street afora em direção a Whitehall.
Caminhava muito depressa, quase junto aos portões da segurança quando Carter o alcançou e o segurou pelo braço.
— O que foi que você disse a Pamer, Ferguson? Quero saber.
— Comuniquei-lhe os fatos, lembrando o papel que ele desempenhou neste caso. Só me resta concluir que ele decidiu escolher a saída mais honrosa.
— Muito conveniente.
— É, não é? — Estavam agora na calçada de Whitehall. — Quer dividir um táxi?
— Vá para o diabo, Ferguson — disse Carter, e se afastou.
Ferguson ficou ali um tempo, a chuva tamborilando em seu chapéu, até que um táxi preto parou junto no meio-fio.
— Quer um táxi, patrão? — perguntou em cockney o taxista, com um boné enfiado até os olhos.
— Muito obrigado. — Ferguson entrou, e o táxi arrancou. Dillon tirou o boné e sorriu pelo espelho retrovisor.
— Como foi?
— Você roubou essa coisa? — perguntou Ferguson.
— Não. É de um amigo meu.
— Londrino-irlandês, aposto.
— Claro. Na verdade, nem é registrado como táxi funcional, mas como todos presumem que seja, é ótimo para estacionar. E então, o primeiro-ministro?
— Jogou tudo na lareira, disse que eram águas passadas e até foi caridoso com Francis Pamer.
— Informou-o de tudo?
— Não vi necessidade.
— E como Carter aceitou a coisa?
— Bem mal. Estávamos de saída, e o gabinete recebeu a informação de que a polícia marítima recuperou o corpo de Pamer.
— E Carter acha que ele se suicidou por causa da sua pressão?
— O que ele acha não sei e nem me interessa. A única coisa que me preocupa é a competência de Carter. Ele me odeia de tal maneira que isso tolda seu discernimento. Fixou-se tanto, por exemplo, na menção a Sir Joseph Pamer na página dezoito do Livro Azul que lhe escapou o cavalheiro da página cinquenta e um.
— E quem era ele?
— Um sargento do Exército da Primeira Guerra Mundial, gravemente ferido no Somme, sem pensão, desempregado nos anos 20 e compreensivelmente revoltado contra o sistema, que veio a ser secretário-geral de um importante sindicato. Morreu há cerca de dez anos.
— E de quem estamos falando?
— Do tio materno do primeiro-ministro.
— O quê? Mãe de Deus! — Dillon disse. — E acha que ele sabia? Refiro-me ao primeiro-ministro.
— Que eu sei? Sabia, ora. — Ferguson acenou com a cabeça. — Mas, como ele disse, são águas passadas, e, seja como for, a prova virou fumaça. Motivo pelo qual eu agora posso lhe contar, Dillon. Depois dos seus esforços neste caso, acho que tem o direito de saber.
— Muito conveniente, devo dizer — observou Dillon.
— Não. Ele fez bem. Os filhos não podem expiar os pecados dos pais. Pamer era diferente. Para onde vamos, a propósito?
— Para sua casa, suponho — disse Dillon.
Ferguson abriu um pouco a janela e deixou entrar a chuva.
— Estive pensando, Dillon. Meu serviço está atualmente sob enorme pressão. Além do habitual, apanhamos com a questão iugoslava e com a coisa dos neonazistas em Berlim e na Alemanha Oriental. O fato de ter perdido Jack Lane me deixa um pouco manco.
— Compreendo — disse Dillon.
Ferguson inclinou-se para a frente.
— O trabalho que tenho em mente cai como uma luva em você. Pense no assunto, Dillon.
Dillon girou o volante, inverteu o sentido da marcha e arrancou na direção contrária. Ferguson foi jogado para trás.
— O que está fazendo, meu Deus do céu?
Dillon sorriu para o retrovisor.
— Tinha falado num jantar no Garrick Club, não tinha?
Jack Higgins
O melhor da literatura para todos os gostos e idades