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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O CADÁVER ALEGRE / Laurell K. Hamilton
O CADÁVER ALEGRE / Laurell K. Hamilton

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O CADÁVER ALEGRE

 

A casa de Harold Gaynor, resplandecente sob o sol de agosto, estava rodeada de uma grama verde intensa, elegantemente tachonado de árvores. Bert Vaughn, meu chefe, estacionou no cascalho do caminho, tão branca que parecia sal gema peneirada à mão. Eles aspersores, audíveis embora situados fora do campo visual, proporcionavam uma erva imaculada em metade da seca mais intensa que tinha sofrido Missouri nos vinte últimos anos. Mas não tinha ido falar com o proprietário das medidas de economia de água, mas sim de levantar mortos.

Não me refiro à ressurreição; a tão não chego. Refiro aos zombis: os cadáveres putrefatos e cambaleantes em plano A noite dos mortos viventes. Esses zombis. Embora a coisa não é tão espetacular como nos filmes de Hollywood; simplesmente, sou reanimadora. É um trabalho mais; há quem se dedica a vender.

Só fazia cinco anos que a reanimación tinha seu epígrafe de atividade econômica; antes era só uma maldição vergonhosa, uma experiência religiosa ou uma atração turística. E segue sendo-o em algumas zonas de Nova Orleans, mas aqui em São Louis é um negócio, e muito rentável, em grande medida graças a meu chefe. É um astucioso, um enganador e um cretino, mas vá se sabe ganhar dinheiro; algo muito útil para qualquer empresário.

Bert tinha sido jogador de futebol americano na universidade. Media um metro noventa e tinha uns ombros impressionantes, embora começava a criar barriga cervejeira. Um traje azul escuro feito a medida se encarregava de ocultá-la, mas por oitocentos dólares, já poderia ocultar uma manada de elefantes. Levava o cabelo loiro platino talhado ao um; quem me ia dizer que esse penteado voltaria a ficar de moda. Seu bronzeado de marinho dominguero lhe realçava o tom claro dos olhos e o cabelo.

Bert se ajustou a gravata de raias azuis e vermelhas, e se enxugou uma gota de suor da frente.

-Hão dito nas notícias que se está estudando a possibilidade de usar zombis nos campos poluídos de pesticidas. Poderia salvar vistas.

-Os zombis apodrecem, Bert. Não há maneira de evitá-lo, e os neurônios não lhes duram o suficiente para que sirvam de mão de obra.

-Era só uma idéia; o caso é que os mortos não têm direitos. -por agora.

Levantar mortos para usar os de escravos está mau. Está mau e ponto, mas nunca me fazem conta. Ao final, o Governo decidiu regulá-lo e organizou um comitê nacional, formado por reanimadores e outros peritos; os integrantes tinham que inspecionar as condições trabalhistas dos zombis de nossa zona.

Condições trabalhistas? Não se inteiravam de nada; os zombis não podem ter condições trabalhistas dignas, e se as tivessem nem se dariam conta. Pode que caminhem e até que falem, mas estão muito, muito mortos.

Bert me dedicou um sorriso indulgente, e contive o impulso de lhe largar um par de hóstias.

-Charles e você estão nesse comitê, não? -comentou-. o de visitar as empresas e ver como tratam aos zombis é uma publicidade cojonuda para o Reanimators, Inc.

-Não o faço por isso.

-Já sei: é uma dessas causas perdidas que tanto você gosta.

-Hijoputa prepotente -disse-lhe com um sorriso encantador.

-Verdade? -respondeu radiante.

Sacudi a cabeça; nunca consigo ganhar um duelo dialético, porque lhe dá três leites o que dele opine, sempre que seguir trabalhando em sua empresa.

Tinham-me vendido a jaqueta azul marinho como se fora do verão, mas era mentira; assim que me desci do carro, o suor me escorregou coluna abaixo. Bert se voltou para mim, entrecerrando os ojitos. Com uns olhos como os seus, os olhares de desconfiança saem sozinhas.

-Ainda leva a pistola -disse-me.

-A jaqueta a esconde; o senhor Gaynor não se dará nem conta.

O suor começava a formar atoleiros sob as correias da pistolera, e me dava a impressão de que a blusa de seda se estava liquidificando. Intento não usar pistolera de sovaco com roupa de seda, porque as correias a enrugam e se formam bolsas, mas eu gostava de ter à mão a Browning Hi-Power de 9 mm.

-Vamos, Anita, não acredito que a necessite para ir ver um cliente em plena tarde. -A voz do Bert tinha o tom condescendente que se usa com os meninos: "Vamos, bonita, sabe que o digo por seu bem".

Mas não o dizia por meu bem; o que não queria era espantar ao Gaynor. Tinha-nos mandado um cheque de cinco mil dólares... só por ir a sua casa a falar com ele. Sinal de que seria muito generoso se aceitávamos o caso, e Bert ficava tenro só de pensá-lo. A fim de contas, não lhe tocava reanimar o cadáver; tocava-me.

A pega era que, provavelmente, Bert tinha razão: não necessitaria a pistola em pleno dia. Provavelmente.

-De acordo, abre o porta-malas.

Bert abriu o bagageiro de seu quase flamejante Volto enquanto eu me tirava a jaqueta, e se situou diante de mim para que não me vissem da casa. Miúdo drama se se dessem conta de que guardava uma pistola no carro. E o que foram fazer? Fechar a cal e canto e pedir ajuda a gritos?

Enrolei as correias e deixei a pistolera no porta-malas impoluto, que tinha o aroma plasticoso e vagamente quimérico dos carros novos. Quando baixou o capô, fiquei parada como se pudesse seguir vendo a pistola.

-Vem ou o que? -perguntou.

-Ah, sim. -Não me fazia nenhuma graça ficar desarmada, fora qual fora o motivo. Suponho que era mau sinal. Bert me indicou por gestos que o seguisse.

Pus-se a andar cuidadosamente pelo cascalho com meus saltos negros. As mulheres podem escolher entre um montão de cores, mas os sapatos cômodos são coisa de homens.

Bert estava frente à porta e luzia já seu melhor sorriso profissional, lhe supurem de sinceridade e a jogo com o alarde de boa disposição de seus olhos cinza claro. Era uma máscara que podia ficar com a soltura de quem aciona um interruptor; se quisesse, poderia sorrir assim a alguém que lhe confessasse um parricídio..., sempre que estivesse disposto a pagar por reanimar o cadáver.

Quando se abriu a porta soube que Bert se equivocou ao me dizer que não necessitaria pistola. O tipo media pouco mais de metro setenta, mas levava um pólo laranja a ponto de arrebentar e uma jaqueta negra que parecia muito pequena; era como um inseto justo antes da muda, e dava a impressão de que as costuras cederiam assim que se movesse. Uns jeans negros lavados à pedra rodeavam a estreita cintura, como se o tivessem espremido antes de que se secasse a argila. Tinha o cabelo muito loiro. Olhou-nos em silencio com olhos vácuos, como os de um autômato, e estive a ponto de lhe dar uma patada na tíbia ao Bert quando vislumbrei uma capa de sovaco sob a jaqueta.

-Olá, sou Bert Vaughn. Minha colaboradora, Anita Blake. -Ou não tinha visto a pistola ou se fazia o sueco, mas o caso é que lhe dedicou um sorriso radiante-. Temos uma entrevista com o senhor Gaynor.

O guarda-costas, porque não podia ser outra coisa, separou-se da soleira. Bert o interpretou como um convite a passar, e eu o segui a contra gosto. Ao Gaynor lhe saía a massa pelas orelhas e possivelmente necessitasse guarda-costas. Pode que tivesse recebido ameaças, ou era um desses aos que gostam da ostentação e se rodeiam de gorilas, necessitem-nos ou não.

Mas também era possível que se tratasse de outra coisa, algo para o que fizessem falta arma, músculos e tipos de olhos mortos e inexpressivos. Não era um pensamento adulador.

O ar condicionado estava a batente, e o suor ficou pringoso imediatamente. Seguimos ao guarda-costas através de um grande saguão alargado com as paredes recubiertas de madeira escura de pinta muito caro. O estou acostumado a luzia um tapete de aspecto oriental, provavelmente tecida à mão.

Na parede da direita havia umas portas de madeira descomunais; o gorila as abriu e, de novo, fez-se a um lado enquanto cruzávamos a soleira. Passamos a uma biblioteca; fixo que ninguém se lido nenhum dos livros, mas enchiam as paredes de cima abaixo em estanterías escuras. Havia inclusive um segundo piso cheio de prateleiras, ao que se acessava por uma elegante escada curvada e estreita. Todos os volúmenes estavam encadernados e tinham um tamanho uniforme, e suas cores apagadas se combinavam formando um collage. Nem que dizer tem que os móveis estavam estofos em couro vermelho cravejado em bronze.

Um homem que estava junto à parede mais afastada sorriu ao nos ver entrar. Era corpulento e de cara rechoncha e afável, com dobro papada. Estava sentado em uma cadeira de rodas elétrica e tinha as pernas tampadas por uma manta de quadros.

-Senhor Vaughn, senhorita Blake, quanto lhes agradeço que tenham vindo. -A voz fazia jogo com a cara: era afável, puñeteramente amistosa.

Uma das poltronas de couro estava ocupado por um negro magro. Seguro que media mais de metro oitenta, embora era difícil calcular quanto: estava fundo no assento, com as pernas estiradas e os tornozelos cruzados; só as pernas já eram mais largas que eu. Olhava-me com os olhos marrons como se tivesse que me aprender de cor para um exame.

O guarda-costas loiro se apoiou em uma estantería, mas não podia cruzar-se de braços: faltava-lhe jaqueta e lhe sobravam músculos. Não é nada conveniente se apoiar na parede para fazer o duro se não se podem cruzar os braços: estraga o efeito.

-Já conheceram ao Tommy -disse Gaynor. Assinalou ao outro guarda-costas com um gesto e acrescentou-: Este é Bruno.

-Chama-te assim de verdade, ou é um apodo? -perguntei ao Bruno, olhando-o aos olhos.

-É meu nome. -mostrou-se ligeiramente incomodado-. por que? -perguntou-me ao ver que sorria.

-É que nunca tinha conhecido a um guarda-costas que se chamasse Bruno de verdade.

-supõe-se que isso tem graça?

Neguei com a cabeça. Não era culpa do pobre Bruno; é como ser garota e chamar-se Vênus. Todos os Brunos têm que ser guarda-costas; é de gaveta. Polícia, possivelmente? Nooo, era nome de mau. Voltei a sorrir.

Bruno se incorporou com um movimento que denotava força e flexibilidade. Não parecia ir armado, mas sua presença impunha. "Cuidado -dizia-. Perigo."

Suponho que não deveria ter sorrido.

-Anita, por favor -interrompeu Bert-. Sinto muito, senhor Gaynor, senhor... Bruno. A senhorita Blake tem um senso de humor algo particular.

-Não te desculpe em meu nome, Bert; eu não gosto. -Além disso, não sabia por que se incomodou; tampouco é que tivesse pensado em voz alta.

-Bom, bom -disse Gaynor-, não passa nada. Verdade, Bruno?

Bruno negou com a cabeça e me olhou, mais perplexo que zangado.

Bert me lançou um olhar assassino e se voltou, todos sorrisos, para o homem da cadeira de rodas.

-Enfim, senhor Gaynor, suponho que não andará demasiado de tempo, assim nos diga: quanto tempo faz que faleceu o zombi que deseja levantar?

-Assim eu gosto: direto ao grão. -Gaynor se interrompeu e ficou olhando para a porta, pela que entrava uma mulher.

Era alta, de pernas largas, loira, e tinha os olhos de cor azul safira. Levava um vestido, se é que podia chamar-lhe assim, rosado de uma malha sedosa que se atia a seu corpo ocultando o que impunha a decência, mas sem deixar muita margem à imaginação. Percorreu o tapete com os pés embutidos em uns sapatos de salto de agulha de cor rosa, perfeitamente consciente de estar monopolizando as olhadas masculinas.

Jogou a cabeça para trás e riu, mas não se ouviu nenhum som: seu rosto se iluminou, moveu os lábios e lhe cintilaram os olhos, mas tudo absolutamente silencio, como se lhe tivessem apagado o volume. apoiou-se com o quadril no Harold Gaynor e lhe aconteceu a mão pelos ombros. Lhe rodeou a cintura com um braço, com o que lhe subiu mais ainda a saia, se por acaso não fora já bastante curta.

Seria capaz de sentar-se com esse vestido sem montar um espetáculo? Nem de coña.

-Apresento ao Cicely -disse Gaynor. A garota ensinou ao Bert uns dentes profident, com essa risita tirada o som que o fazia faiscar os olhos. Quando me olhou , fraquejou-lhe o sorriso e lhe apagaram os olhos, mostrando um esforço de insegurança. Gaynor lhe deu uns tapinhas no quadril, e ela recuperou o sorriso e nos saudou com uma inclinação de cabeça-. Quero que levantem um cadáver de duzentos e oitenta e três anos.

Fiquei olhando-o alucinada; não sabia se se dava conta do que pedia.

-Bom -disse Bert-, quase trezentos anos; muitos para levantar um zombi. A maioria dos reanimadores seria incapaz, diretamente.

-Sou consciente disso -disse Gaynor-; por isso solicitei os serviços da senhorita Blake. Sei que ela pode fazê-lo.

-Anita? -Bert me olhou. Eu nunca tinha levantado um morto tão antigo.

-Sim que posso -pinjente. Bert e Gaynor intercambiaram um sorriso, agradados-. Mas não me dá a vontade.

Bert se voltou lentamente para mim; seu sorriso se esfumou. a do Gaynor, em troca, seguia em seu sítio. Os guarda-costas estavam imóveis, e Cicely me olhava com amabilidade inexpressiva.

-um milhão de dólares, senhorita Blake -disse Gaynor com sua voz suave e afável.

Vi que Bert tragava saliva e que agarrava com força os braços da poltrona. Não havia nada que a levantasse mais que o dinheiro; seguro que não lhe tinha íngreme mais em toda sua vida.

-Entende o que está pedindo, senhor Gaynor? -perguntei-lhe.

Gaynor assentiu.

-Eu subministrarei a cabra branca. -Sua voz não tinha perdido nem um ápice de amabilidade, e seguia sonriendo, mas os olhos lhe tinham escurecido. Estava inquieto, espectador.

-Vamos, Bert -pinjente me pondo em pé-. Partimo-nos.

Bert me agarrou do braço.

-Sente-se, Anita, por favor. -Fiquei lhe olhando a mão até que me soltou. Sua máscara de cordialidade se rachou, me deixando ver a cólera que sentia, mas em seguida recuperou a compostura-. É uma remuneração muito generosa.

-o de "cabra branca" é um eufemismo. refere-se a um sacrifício humano.

Meu chefe olhou ao Gaynor e voltou a me olhar a mim. Conhecia-me o suficiente para me acreditar, mas resistia.

-Não o entendo -disse ao fim.

-quanto mais antigo é o zombi, de maior envergadura é a morte necessária para levantá-lo -expliquei-. E quando aconteceram uns séculos, não vale nada que esteja por debaixo de um sacrifício humano.

Gaynor tinha deixado de sorrir e me olhava com gesto sombrio. Cicely seguia com cara amistosa, quase sorridente. Haveria um pouco de miolo detrás daqueles olhos tão azuis?

-Mas de verdade quer falar de assassinatos diante do Cicely? -perguntei-lhe.

Gaynor me brindou um sorriso exagerado. Mau sinal.

-Não entende uma palavra do que dizemos. É surda.

Fiquei olhando-o fixamente, e ele assentiu. Cicely me olhava confiada. Estávamos falando de sacrifícios humanos, e ela nem sequer se dava conta; se sabia ler os lábios, dissimulava-o muito bem. Suponho que até os deficientes, digo os incapacitados, podem freqüentar as más companhias, mas não me parecia bem.

-Não suporto às mulheres que tagarelam sem parar -disse Gaynor.

-Não trabalharia para você nem por todo o ouro do mundo -pinjente sacudindo a cabeça.

-E não poderia matar um montão de animais, em vez de um sozinho? -perguntou Bert. Como empresário será cojonudo, mas não tem nem pajolera ideia de reanimación.

-Não -pinjente olhando-o fixamente.

O seguia quietecito em sua poltrona. A perspectiva de deixar escapar um milhão de dólares lhe estaria dando retortijones, mas não lhe notava. Sempre tão competente nas negociações.

-Tem que haver alguma forma de arrumá-lo -disse com voz tranqüila e um sorriso profissional. Seguia tentando chegar a um acordo; não entendia do que ia todo aquilo.

-Conhecem alguém mais que possa reanimar um zombi desta idade? -perguntou Gaynor.

Bert me olhou, desviou o olhar para o chão e logo a levantou em direção ao Gaynor. O sorriso profissional tinha desaparecido; por fim lhe tinha entrado na cabeça que falávamos de assassinato. Pergunta-a era: importaria-lhe?

Sempre me tinha perguntado até onde era capaz de chegar meu chefe, e estava a ponto de averiguá-lo. Mas que eu não soubesse se ia rechaçar o encargo diz muito sobre ele.

-Não -disse Bert em voz muito baixa-. Não, suponho que eu tampouco posso ajudá-lo, senhor Gaynor.

-Se for questão de dinheiro, posso aumentar a oferta, senhorita Blake.

Um estremecimento percorreu os ombros do Bert, pobre. Mas o dissimulou bem: um ponto para ele.

-Não sou assassina a salário, senhor Gaynor -pinjente.

-Não é isso o que tenho entendido -soltou Tommy, o loiro. Olhei-o: seguia com os olhos vácuos, de autômato.

-Não me dedico a matar pessoas por dinheiro.

-dedica-se a matar vampiros por dinheiro.

-São mandamentos judiciais, e não o faço pelo dinheiro.

Tommy sacudiu a cabeça e se separou da parede.

-diz-se que gosta de trespassar vampiros -disse-... e que não tem reparos em matar a quem é para chegar até eles.

-Consta-me que matou a pessoas, senhorita Blake -disse Gaynor.

-Só em defesa própria. Nunca assassinei a ninguém.

-Acredito que já vai sendo hora de que nos partamos. -Bert se tinha posto em pé.

Bruno se levantou com um movimento fluido e ficou com os braços aos lados e as manazas médio fechadas. Seguro que era alguma postura de artes marciais. Tommy seguia de pé e se aberto a jaqueta para mostrar a pistola, como nos filmes do oeste. Era uma Magnum 357; isso fazia buracos muito grandes.

Fiquei plantada olhando-os; o que outra coisa podia fazer? Igual era capaz de me arrumar isso com o Bruno, mas Tommy ia armado, e eu não. Fim da discussão.

Tratavam-me como se fora muito perigoso. Com um e sessenta não imponho muito, mas basta levantando mortos e matar vampiros para que a gente o pense melhor. Às vezes me sentava mal que me tratassem como a um monstro, mas dadas as circunstâncias... podia-se aproveitar.

-De verdade criem que vim desarmada? -perguntei como quem não quer a coisa.

Bruno olhou ao Tommy, que fez uma ameaça de encolher-se de ombros.

-Não, não a revistei -disse. Quando o negro soltou um bufido, acrescentou-: Mas não leva pistola.

-Quer te apostar a vida? -perguntei sorridente enquanto jogava a mão para trás, lentamente; que pensassem que levava uma pistolera nas costas.

Tommy ficou tenso e flexionou os dedos junto à pistola. Se desencapava, morreríamos, mas estava disposta a voltar do outro mundo para atormentar ao Bert.

-Não há nenhuma necessidade de que mora ninguém, senhorita Blake -disse Gaynor.

-Certamente que não. -O nó que me tinha formado na garganta se desfez, e comecei a apartar a mão da arma imaginária. Tommy fez o próprio com a de verdade. Bem pelos dois.

Gaynor voltou a sorrir, como se fosse um Papai Noel bonachão e imberbe.

-Não faz falta dizer que não lhes serviria de nada informar à polícia.

-Não temos provas -pinjente assentindo-. E nem sequer nos há dito a quem quer levantar de entre os mortos, nem por que.

-Seria sua palavra contra a minha -acrescentou.

-E estou segura de que tem amigos influentes -disse com um sorriso.

-Pode está-lo. -Seu sorriso se acentuou, e lhe marcaram umas covinhas nas bochechas gordinhas.

Voltei-lhes as costas ao Tommy e a sua pistola. Bert me seguiu, e saímos ao sol abafadiço do verão. Bert parecia aturdido, e naquele momento quase me caía bem: alegrava-me saber que até ele tinha limites, que havia algo que não estava disposto a fazer nem por um milhão de dólares.

-A sério seriam capazes de nos matar? -Sua voz mostrava mais firmeza que seus olhos, ligeiramente aquosos. Que valente. Abriu o porta-malas sem necessidade de que o pedisse.

-Com o nome do Harold Gaynor na agenda e o ordenador? -Agarrei a pistolera e me pus isso-. Sem saber se lhe tínhamos mencionado a visita a alguém? -Neguei com a cabeça-. Muito arriscado.

-Então, por que lhes tem feito acreditar que foi armada? -Olhou aos olhos enquanto fazia a pergunta, e pela primeira vez detectei incerteza em seu olhar. O super-tacañón necessitava umas palavras de consolo, mas já não ficavam.

-Fácil, Bert: podia me equivocar.

A loja de vestidos de noiva estava no Saint Peters, justo depois da saída da 70 Oeste. chamava-se A Viagem da Donzela. Que bonito. Ficava entre uma pizzería e um salão de beleza chamado Escuridão Total, um local de janelas cegadas e perfiladas com néones de cor vermelha sangre, para gente a que gostasse de ir penteada e com as unhas arrumadas por um vampiro.

Só fazia dois anos que o vampirismo era legal nos Estados Unidos. Seguia sendo o único país que o tinha legalizado, mas não me olhem, que eu não votei a favor. Se até se montou um movimento pelo sufrágio vampírico. Por aquilo de "não ao pagamento de impostos sem direitos cidadãos" e toda a pesca.

Dois anos antes, se um vampiro se metia com alguém, ia eu, cravava-lhe uma estaca ao muito bode e fim da história. Mas agora tinha que solicitar uma ordem judicial de execução. Se não a tinha e me pilhavam, podiam me acusar de assassinato. Como sentia falta dos velhos tempos.

Na cristaleira havia um manequim loiro com suficiente encaixe branco para afogar-se nele. Os encaixes, as pérolas cultivadas e as lentejoulas nunca foram santo de minha devoção. As lentejoulas em particular. Tinha acompanhado duas vezes ao Catherine a escolher o vestido de noiva, mas não demorei para me dar conta de que não lhe serviria de grande ajuda: não havia nenhum que eu gostasse.

Catherine era uma grande amiga; se não, não teria ido ali nem de coña. Dizia-me que já trocaria de opinião quando me casasse. Mas a verdade é que duvido que apaixonar-se implique a perda do bom gosto. Que me peguem um tiro se algum dia me comprar um vestido com lentejoulas.

Tampouco teria cuidadoso duas vezes quão vestidos Catherine escolheu para as damas de honra; mas foi minha culpa, por não ter ido o dia da votação. Trabalhava muito e odiava ir às compras. Total, que terminaram me cravando cento e vinte dólares mais impostos por um vestido rosa de tafetán, que parecia saído de um baile de fim de curso.

Quando entrei no local não se ouvia nada mais que o runrún do ar condicionado. Os saltos me afundavam no carpete, de um cinza tão claro que quase parecia branco. A senhora Cassidy, encarregada-a, viu-me entrar. O sorriso lhe apagou durante um instante, mas a recuperou assim que conseguiu controlar-se. Que valente, a senhora Cassidy.

Devolvi-lhe o gesto, embora não me fazia nenhuma graça a hora que tinha por diante.

A senhora Cassidy andaria entre os quarenta e os cinqüenta. Era magra; tinha o cabelo de um vermelho tão escuro que quase parecia castanho, e o tinha recolhido com um coque ao Grace Kelly. ajustou-se os óculos de arreios dourada.

-Vejo que veio à última prova, senhorita Blake.

-Espero que de verdade seja a última -pinjente.

-Bom, estivemos nos ocupando do... problemilla. E acredito que demos com uma solução.

Atrás do mostrador havia uma pequena habitação cheia de trajes envoltos em plástico. A senhora Cassidy tirou o minha de entre duas vestidos rosa idênticos, o pendurou do braço e avançou para os provadores com as costas muito rígida, entrando em calor para a batalha iminente. Eu não precisava esquentar; sempre estava lista para o combate. Embora ter que discutir de trapitos com a senhora Cassidy era mil vezes pior que as ver-se com o Tommy e Bruno. Olhe que a coisa poderia ter terminado mau, mas por sorte não tinha passado a maiores. Gaynor me tinha tirado isso de cima. "De momento", havia dito.

O que teria querido dizer exatamente? Provavelmente, só isso. Eu tinha deixado ao Bert no escritório, ainda alterado pela experiência. Não estava acostumado à parte sórdida e violenta do negócio; do trabalho sujo nos encarregávamos Manny, Jamison, Charles e eu, os reanimadores do Reanimators, Inc. Bert ficava a salvo em seu agradável despacho e nos conectava os clientes e os problemas. Até aquele dia.

A senhora Cassidy pendurou o vestido do gancho de um provador e se afastou. antes de que eu entrasse se abriu a porta de outro provador, e saiu Kasey, a menina de oito anos que ia levar as flores nas bodas do Catherine. Tinha o cenho franzido. Sua mãe, ainda com traje de escritório, seguiu-a. Elizabeth Markowitz, que se empenhava em que a chamássemos Elsie, era alta, magra, moréia e de pele cítrica. E era advogada. Trabalhava com o Catherine, e também lhe tocava ser dama de honra.

Kasey parecia uma versão reduzida e suavizada de sua mãe.

-Olá, Anita. Verdade que estou ridícula com este vestido? -disse assim que me viu.

-Venha, Kasey -disse Elsie-, é um vestidito precioso. Esses volantitos rosa são muito fanfarrões.

Em minha opinião, mais que um vestido parecia uma petunia inflada de esteroides. Tirei-me a jaqueta e entrei no provador para evitar a tentação de abrir a bocaza.

-Essa pistola é de verdade? -perguntou Kasey.

Não me tinha dado conta de que ainda a levava.

-Sim -respondi.

-É polícia?

-Não.

-Kasey Markowitz, faz muitas perguntas. -Sua mãe a repreendeu enquanto me aproximava com um sorriso de esgotamento-. Sinto muito, Anita.

-Não passa nada -pinjente.

Uns minutos depois estava ascensão a uma plataforma e rodeada por um círculo de espelhos quase perfeito. Algo é algo: com os sapatos a jogo, rosa e de salto, o vestido tinha a longitude adequada. A pena é que também tinha umas mangas de farol minúsculas e deixava os ombros ao ar, assim que me viam quase todas as cicatrizes.

A mais recente era a do antebraço direito, que ainda não se curou de tudo e estava rosada. Mas não era mais que uma ferida de faca; algo pulcro e limpo em comparação com o resto. A do ombro esquerdo não estava mau: a um vampiro tinha dado de me morder e não soltar, como um cão com uma parte de carne, e me tinha partido a clavícula e o braço. Também tinha uma queimadura com forma de cruz no antebraço esquerdo. Os servos humanos de algum vampiro se haviam sentido imaginativos e me encontraram divertido fazer isso Não me fez nem pingo de graça.

Parecia a noiva do Frankenstein no baile de graduação. Vale, pode que não fora para tanto, mas à senhora Cassidy parecia terrível: estava convencida de que as cicatrizes foram distrair a atenção do vestido, a festa e a noiva. Catherine, a noiva em questão, não estava de acordo: acreditava que eu merecia participar de suas bodas, porque fomos muito boas amigas. E devíamos sê-lo, porque eu estava pagando uma fortuna para que me humilhassem em público.

A senhora Cassidy me deu umas luvas largas de cetim rosa. Embainhei-me isso até o final. Nunca me gostaram das luvas; quando os levo, tenho a impressão de que estou tocando o mundo através de uma cortina. Mas esses espantos brilhantes e rosados me cobriam os braços e ocultavam as cicatrizes. Vai, que pinta de menina boa. Já.

A mulher cavou a saia de raso e me olhou no espelho.

-Eu diria que vai funcionar. -endireitou-se para me olhar, dando-se golpecitos no carmim dos lábios com uma unha grafite-. Acredito que dei com algo para cobrir essa..., isto..., isso. -Fez uns gestos vagos em minha direção.

-A cicatriz da clavícula? -perguntei.

-Sim -respondeu, aliviada.

De repente caí na conta de que a senhora Cassidy não tinha pronunciado em nenhum momento a palavra cicatriz. Devia-lhe parecer suja ou grosseira. Olhei-me no círculo de espelhos e sorri, fazendo um verdadeiro esforço por conter as gargalhadas. Mas quando me tendeu uma massa de cintas rosa e flores de flor-de-laranja falsas me passaram as vontades de rir.

-O que é isso? -perguntei.

-Isto -disse, avançando para mim- é a solução de nosso problema.

-Vale, mas o que é?

-É uma gargantilha, um complemento.

-Tenho-me isso que pôr no pescoço?

-Sim.

-Nem de coña -pinjente, negando com a cabeça.

-Senhorita Blake, provei o possível e o impossível para ocultar essa... marca. Chapéus, penteados, cintas, presos de flores... -enumerou, levantando os braços em um muito sincero gesto de rendição-. Já não sei que mais fazer.

Acreditava-me isso. Respirei profundamente.

-Entendo-a, senhora Cassidy, de verdade. Sei que sou pior que um grão no culo.

-Jamais hei dito isso.

-Sei; por isso me toca dizê-lo . Mas isto é o repolho com laços mais espantoso que vi em minha vida.

-Se lhe ocorre algo melhor, senhorita Blake, sou toda ouvidos. -Fez o que fazem as pessoas elegantes em vez de cruzar-se de braços. O "complemento" lhe pendurava quase até a cintura.

-É enorme -protestei.

-Servirá para ocultar seu... cicatriz -disse por fim, apertando os lábios.

Quase me escapou um aplauso. A dona tinha conseguido dizer o palavrão. Me ocorria algo melhor que aquele despropósito? Pois não. Suspirei.

-Vale. ponha-me isso Quão mínimo posso fazer é ver como fica.

-Com exceção de se o cabelo, por favor -disse muito sorridente.

Obedeci, e me pôs a gargantilha. O encaixe picava; as cintas me faziam cócegas, e não me atrevia nem a me olhar ao espelho. Quando fiz de tripas coração, levantei a vista lentamente e me limitei a pôr uns olhos como pratos.

-É uma sorte que tenha o cabelo comprido -disse a senhora Cassidy-. Eu mesma o pentearei o dia das bodas para lhe dar o último toque à camuflagem.

A coisa que levava ao redor do pescoço era como um híbrido entre um colar de cão e um aceso de flores para a boneca maior do mundo. As cintas brotavam de meu pescoço como cogumelos depois da chuva. Era horripilante, e nenhum penteado poderia arrumá-lo. Mas, olhe você por onde, da cicatriz não ficava nem rastro. Tacham!

Sacudi a cabeça. O que podia dizer? A senhora Cassidy interpretou meu silêncio como uma capitulação. Mais quisesse. Menos mal que justo então soou o telefone e nos economizou outro desgosto.

-Volto em seguida, senhorita Blake.

afastou-se, cravando silenciosamente os saltos no carpete. Olhei-me nos espelhos. Tenho o cabelo negro e os olhos marrons, tão escuros que parecem negros. É a herança latina de minha mãe. A tez clara me vem do sangue germânico de meu pai. Assim que me maquio um pouco pareço uma boneca de porcelana. E com um vestido rosa inflado tenho um aspecto frágil, delicado e diminuto. Mierda.

As outras damas de honra mediam um metro setenta e cinco como mínimo. E até era possível que a algumas ficasse bem o vestido, mas sentiria saudades. Para cúmulo de maus, tínhamos que usar miriñaque. Estava-me entrando complexo de subproduto do que o vento se levou.

-Bom, bom, se estiver preciosa...

A senhora Cassidy havia tornado e me olhava sorridente.

-Pareço um merengue rosa.

A ela lhe apagou o sorriso e tragou saliva.

-Pelo visto, tampouco lhe gostou desta idéia -disse com a voz muito tensa.

Elsie Markowitz saiu dos provadores. Kasey ia detrás, com cara de poucos amigos. Não era para menos; entendia-a perfeitamente.

-Anita -disse Elsie-, está muito estupendo.

Ah. Muito estupendo, justo o que me faltava por ouvir.

-Obrigado.

-eu adoro a gargantilha. Sabe que todas vamos levar uma igual?

-Quanto o sinto -repliquei.

Franziu o cenho.

-me parece que vai muito bem com o vestido.

Tocou-me enrugar a frente.

-Não o dirá a sério.

-Por muito suposto que sim. -Elsie se tinha ficado a quadros-. O que acontece? Acaso você não gosta destes vestidos?

Decidi manter a boca fechada para não ofender a ninguém. Ao fim e ao cabo, o que outra coisa se pode esperar de uma mulher que tem um nome tão bonito como Elizabeth mas prefere que a chamem como a um caniche?

-Está completamente segura de que não fica nada mais que possamos usar de camuflagem, senhora Cassidy? -perguntei.

Ela assentiu. Uma vez, mas com firmeza.

Suspirei e sorriu. Tinha ganho, e sabia. Eu soube que estava derrotada assim que vi o vestido, mas já que me tocava perder, tinha que lhe fazer pagar o pato a alguém.

-Vale, rendo-me. Porei-me isso.

A senhora Cassidy sorriu encantada; Elsie sorriu a secas, e Kasey sorriu com cumplicidade. Levantei-me a saia até os joelhos e desci da plataforma. O miriñaque girou como um sino, e eu tive a sensação de ser o badajo.

Naquele momento soou o telefone, e a senhora Cassidy foi responder. Caminhava flutuando em uma nuvem: livrava-se de mim. Que major dita lhe podia pedir a uma tarde?

Eu fazia esforços desonestos por tirar a enorme saia através da porta da zona dos provadores quando me chamou.

-Senhorita Blake, é para você. Um inspetor de polícia, o sargento Storr.

-Vê, mamãe? -disse Kasey-. Já te disse que era poli.

Não dava explicações; fazia umas semanas, Elsie me tinha rogado discrição. Considerava que Kasey era muito pequena para ouvir falar de reanimadores, zombis e execuções de vampiros. E não seria porque os pirralhos de oito anos não soubessem o que era um vampiro; eram o acontecimento mediático da década.

Tratei de me levar o telefone ao ouvido, mas as putas flores não me deixavam. Sustentei o auricular entre o pescoço e o ombro, e estirei a mão para me desabotoar a gargantilha.

-Olá, Dolph. O que há?

-Pode vir à cena de um crime? -Sua voz era agradável, como a de um tenor.

-Que tipo de crime?

-Dos bestas.

Quando por fim consegui me tirar a coisa, me caiu o telefone.

-Está aí, Anita?

-Sim, é que tenho um problemilla de vestuário.

-O que?

-Nada, nada. por que quer que vá?

-Quem o tenha feito não é humano.

-Um vampiro?

-Você é a especialista. Por isso prefiro que devas jogue uma olhada.

-De acordo. me dê a direção, e saio para lá. -Ao lado do telefone havia uma caderneta de papel rosa claro com corazoncitos, e um boli com um Cupido de plástico na ponta-. Saint Charles -repeti, enquanto apontava-. Estou a um quarto de hora.

-Bem. -Pendurou sem despedir-se.

-até agora, Dolph -pinjente só para me sentir superior. Voltei para provador para me trocar.

Aquele dia me tinham devotado um milhão de dólares, só por matar a alguém e reanimar a um zombi. Depois tinha tido que ir provar me o vestido de dama de honra. E agora tocava um assassinato e, segundo Dolph, dos bestas. Joder com a tardecita.

"Dos bestas", havia dito Dolph. ficou-se mais que curto. Tudo estava cheio de sangue, como se tivessem orvalhado de pintura as paredes brancas. Um lençol carmesim ocultava a maior parte de um sofá esbranquiçado estampado com flores marrons e douradas. As pulcras janelas deixavam acontecer um retângulo de luz da tarde que dava ao sangue um tom vermelho cereja resplandecente.

O sangue de verdade tem uma cor mais viva que o que se vê no cinema e a televisão; em grandes quantidades é de um vermelho tomate muito intenso, mas se for mais escura fica melhor na tela. Toma realismo.

Só é vermelha, verdadeiramente vermelha, quando está fresca. Aquela já levava tempo ali e deveria haver-se apagado, mas o jogo de luzes a mantinha como nova.

Traguei saliva com dificuldade e respirei profundamente.

-Está-te pondo verde, Blake -disse uma voz quase em cima de mim. Dava um salto, e Zerbrowski riu-. Assustei-te?

-Não -menti.

O inspetor Zerbrowski media aproximadamente um e setenta e tinha o cabelo moreno encaracolado, algo grisalho. Uns óculos de massa lhe emolduravam os olhos marrons. Tinha o traje marrom enrugado, e uma mancha, provavelmente da comida, decorava-lhe a gravata amarela e marrom. Sorria-me, como sempre.

-Pilhei-te, Blake, reconhece-o. Nossa intrépida cazavampiros vai jogar a pota em cima das vítimas?

-Estão-lhe saindo bóias, né, Zerbrowski?

-Oooh, que desgosto. -levou-se as mãos ao peito e rebolou-. Não me diga que já não me deseja tanto como eu a ti.

-Curta o cilindro. Onde se colocou Dolph?

-No dormitório principal. -Elevou o olhar à clarabóia do teto abovedado-. Oxalá Katie e eu pudéssemos nos permitir uma casa assim.

-Sim, não está mau. -Olhei o sofá; o lençol se pegava ao que tivesse debaixo, como quando cai o suco e se deixa um trapo em cima. Havia algo que não encaixava. Então caí na conta: o vulto de debaixo não podia ser um corpo humano completo. Fora o que fora, faltavam-lhe partes.

A habitação começou a dar voltas, e apartei a vista, tragando saliva convulsivamente. Fazia meses que não me revolvia o estômago na cena de um crime. Pelo menos, o ar condicionado estava aceso; algo é algo: com abafado cheira pior ainda.

-Ouça, sério, precisa sair? -Zerbrowski me sujeitou pelo braço como se fora a me levar a porta.

-Estou bem, obrigado -voltei a mentir, olhando-o aos olhos, embora não o enganei. Não é que estivesse bem, mas agüentaria.

Soltou-me o braço e se apartou.

-eu adoro as garotas duras. -Saudou-me com ironia.

-Vete ao guano. -Não pude evitar sorrir.

-Ao final do corredor, abre a última porta da esquerda e verá o Dolph.

perdeu-se entre a multidão. Uma cena do crime é como um enxame: repleta de atividade frenética e gente apinhada. E não refiro aos curiosos, que ficam fora, a não ser aos policiais de uniforme e de patrício, aos técnicos, ao tipo da câmara de vídeo,.. Abri-me passo entre a multidão com a identificação plastificada na lapela da jaqueta azul marinho, para que os policiais soubessem que não me tinha coado e, de passagem, para que não se preocupassem à lombriga armada.

Enquanto superava o entupo que se formou junto a uma porta, em metade do corredor, captei umas poucas frases soltas. "Deus, quanta sangue." "Já encontraram o cadáver?" "Refere ao que fica dele?... Ainda não."

Abri-me passo entre dois policiais de uniforme, e um deles protestou. Encontrei um oco livre justo diante da última porta da esquerda; não sei como as teria arrumado Dolph, mas estava sozinho na habitação. Igual acabavam de sair outros.

Estava ajoelhado em metade de um carpete cor areia com as mãos gordinhas, embainhadas em luvas de látex, apoiadas nas coxas. Levava o cabelo negro tão curto que suas orelhas pareciam estadas %parado aos lados da cara redonda. ficou em pé à lombriga entrar. Media mais de dois metros e tinha a constituição de um lutador; de repente, a cama com dossel pareceu minúscula.

Dolph dirigia a Santa Compaña, a brigada policial de criação mais recente. Oficialmente se chamava Brigada Regional de Investigação Preternatural, ou simplesmente, BRIP. ocupava-se de todos os delitos relacionados com o sobrenatural, e nela acabavam todos os agentes problemáticos. Sabia perfeitamente por que tinham destinado ali ao Zerbrowski: tinha um senso de humor retorcido e desumano. Mas Dolph era o policial perfeito; suspeitava que lhe havia meio doido os cojones a alguém de acima, e não sentiria saudades que tivesse sido por excesso de zelo.

junto a ele, no tapete, havia outro vulto abafado com um lençol.

-Anita. -Sempre fala igual: economizando palavras.

-Dolph -respondi.

ajoelhou-se entre a cama e o lençol empapado de sangue.

-Preparada?

-Sei que o teu não é falar, mas te importaria me dizer o que se supõe que procuro?

-Quero saber o que vê, não que me diga o que eu te haja dito que veja. -Vindo do Dolph era todo um discurso.

-De acordo. Vamos lá.

Separou o lençol da coisa ensangüentada de debaixo. Olhei e voltei a olhar, mas só conseguia ver um montão de carne sanguinolenta. Poderia ser de vaca, de cavalo, de cervo..., mas humana? Impossível de tudo.

Meus olhos o registravam, mas meu cérebro se negava a processá-lo. Me acuclillé ao lado, com a saia recolhimento sob as coxas. O carpete fazia chof quando a pisava, como se lhe tivesse chovido em cima, mas eu sabia que não era chuva.

-Tem umas luvas de sobra? Deixei-me as coisas no escritório.

-Bolso direito da jaqueta. -Levantou as mãos; tinha as luvas manchadas de sangue-. Agarra-os você; minha mulher não suporta que lhe manche de sangue os trajes.

Sorri. Assombroso; às vezes, o senso de humor se volta obrigatório. Tive que estender os braços por cima dos restos para tirar um par de luvas de talha única. As luvas de látex têm um tato poeirento, e me dão a impressão de estar me pondo camisinhas nas mãos.

-Posso tocar sem medo de danificar provas?

-Sim.

Medi com dois dedos. Era consistente, como um corte de vitela. Até que notei as costelas sob a carne não caí na conta do que tinha estado vendo. Era uma parte de caixa torácica humana: a parte do ombro, com o osso branco à vista onde tinham arrancado o braço de coalho. Isso era tudo. Nada mais. Pu-me de pé tão depressa que me cambaleei. Mais chof no carpete.

De repente fazia um mormaço. Separei-me do despojo e me encontrei diante de um penteadeira, com o espelho tão cheio de sangue que parecia um mostruário de laca de unhas. Vermelha cereja, Carmesim de carnaval, Maçã caramelizada.

Fechei os olhos e contei até dez muito devagar. Quando os abri tive a impressão de que tinha baixado a temperatura. Então me dava conta de que havia um ventilador de teto aceso. Ah, sim, encontrava-me perfeitamente. A cazavampiros que não se arreda ante nada. E que mais.

Dolph não disse nada quando voltei a me ajoelhar junto a aquilo; nem sequer me olhou. Que grande tipo. Tentei examinar a carne com objetividade e ver o que tivesse que ver, mas já não resultava tão fácil. Era mais suportável quando não sabia a que parte do corpo correspondia. Não conseguia ver nada que não fossem os restos sanguinolentos, nem deixar de pensar que aquilo tinha sido um corpo humano. Tinha-o sido: aí estava a chave.

-Não vejo nada que indique o uso de armas, embora isso lhe poderá dizer isso o forense. -Alarguei a mão para voltar a tocá-lo, mas me detive-. Ajuda-me a levantá-lo para que possa ver a cavidade pulmonar? Ou o que dela fique...

Dolph soltou o lençol e me ajudou a inclinar os restos. Não havia nada debaixo das costelas; os órgãos tinham desaparecido. Tinha todo o aspecto de um costillar de vitela, com exceção da parte de acima, onde ficava uma parte de clavícula.

-De acordo -disse sem fôlego. Pu-me em pé, com as mãos ensangüentadas se separadas dos flancos-. Tampa-o, por favor.

O inspetor colocou o tecido de novo e se levantou.

-Que impressão tem?

-Violência. Muita violência. Uma força sobre-humana, como se tivessem esquartejado o cadáver com as mãos.

-por que com as mãos?

-Não há marcas de faca. -Tentei rir, mas me engasguei-. Quase diria que usaram uma serra de açougueiro, mas os ossos... -Sacudi a cabeça-. Isto não o têm feito com nada mecânico.

-Algo mais?

-Sim. Onde está o que falta?

-daqui, a segunda porta da esquerda.

-O resto do cadáver? -Voltava a fazer muito calor.

-Joga uma olhada e me diga o que vê.

-Coño, Dolph, já sei que você não gosta de influir nos peritos, mas não quero ir às cegas. -limitou-se a me olhar-. Pelo menos, me diga uma coisa.

-A ver. O que?

-É pior que isto?

Pareceu meditar a resposta.

-Não. E sim.

-Vete a mierda.

-Entenderá-o quando o vir.

Não queria entendê-lo. Ao Bert tinha encantado que a polícia me contratasse de assessora, e me havia dito que assim ampliaria minha experiência. Mas o único que se ampliou era a gama de meus pesadelos.

Dolph encabeçou a marcha para a seguinte câmara dos horrores. Em realidade, eu não queria ver o resto do cadáver; só queria ir a casa. Dolph ficou pensativo frente à porta fechada até que o alcancei. Na porta havia um coelho de cartão, como em Páscoa, e debaixo, um pôster em ponto de cruz: QUARTO DO BEBÊ.

-Dolph -disse em voz baixa. O ruído do salão chegava atenuado.

-Sim?

-Nada, nada.

Enchi-me os pulmões e soltei todo o ar. Podia fazê-lo. Podia fazê-lo. Virgem Santa, não queria fazê-lo. Rezei entre dentes enquanto a porta se abria para dentro. Há ocasiões nas que não se pode seguir adiante sem um pouco de inspiração divina, e suspeitava que estava ante uma delas.

A luz do sol entrava por uma janela pequena de cortinas brancas, com patitos e coelhinhos costurados nos borde. As paredes azul celeste estavam decoradas com recortes de animais. Não havia berço, a não ser uma dessas camas infantis com meia corrimão que não sei como se chamam.

Ali não havia tanto sangue, graças a Deus, para que logo digam que não atende os rogos. Mas em um retângulo de luz intensa de agosto havia um osito recubierto de sangue. Um olho de vidro redondo me olhava com surpresa do peluche condensado.

Ajoelhei-me junto a ele. O carpete não fez chof; não estava engordurada de sangue. Que leites pintava ali um osito cheio de sangue coagulado? Pelo resto, não parecia que houvesse mais sangre na habitação. O teriam colocado ali a propósito? Levantei o olhar e vi uma cômoda branca com mais coelhinhos pintados, e é que há gente que não se complica a vida com a decoração. O rastro de uma mão tinha ficado marcada nitidamente na superfície branca; aproximei-me engatinhando para calibrar seu tamanho. Tenho as mãos bastante pequenas, mais que a maioria das mulheres, mas a que tinha deixado o rastro era diminuto. Dois ou três anos, possivelmente quatro. Paredes azuis: provavelmente era um menino.

-Quantos anos tinha o menino?

-No dorso da foto do salão põe: "Benjamim Reynolds, três anos".

-Benjamim -sussurrei, olhando o rastro da mão ensangüentada-. Nesta habitação não há nenhum cadáver; aqui não mataram a ninguém.

-Não.

-por que queria que a visse? -perguntei-lhe do chão.

-Se não o vir tudo, sua opinião não serve de nada.

-vou ter pesadelos com esse puto osito.

-E eu.

Levantei-me e estive a ponto de me alisar a saia; não lhes fazem uma idéia da quantidade de vezes que me toco a roupa sem me dar conta e me engorduro isso de sangue. Mas aquele dia não.

-O do sofá do salão é o cadáver do menino? -perguntei rezando para que não fora assim.

-Não.

-Graças a Deus. É da mãe?

-Sim.

-E o menino?

-Não o encontramos. -Titubeou um momento e fez a pergunta-: Crie que o comeu inteiro?

-De forma que não fique nada que encontrar, quer dizer?

-Sim. -Tinha empalidecido. E suponho que eu também.

-É possível, mas nem sequer os nomuertos podem comer tanto. -Respirei profundamente-. Há algum indício de... regurgitação?

-Regurgitação. -Sorriu-. Bonita palavra. Não, não parece que o inseto tenha vomitado. Pelo menos, não por nada que tenhamos visto.

-Então, é provável que o menino esteja em algum lado.

-Poderia seguir vivo?

Levantei a vista para ele. Queria responder que sim, mas estava quase segura de que não, assim que fiquei em terra de ninguém:

-Nem idéia. -Dolph assentiu, e eu troquei de tema-. Agora toca o salão, não?

-Não.

Saiu da habitação sem dizer nada mais, e o segui; o que outra coisa podia fazer? Mas não me dava pressa. Se ia fazer de poli duro e lacônico, que esperasse.

Dobrei a esquina, seguindo suas costas largas, e atravessamos o salão até chegar à cozinha, onde uma porta trilho de cristal deixava ver a terraço. Havia cristais por toda parte, que cintilavam sob outro clarabóia. Era uma cozinha imaculada que parecia tirada de um anúncio, toda cheia de ladrilhos azuis e madeira clara.

-Que bonito -pinjente.

Vi gente no jardim; transladaram-se ao exterior. O sebe os ocultava da vista dos vizinhos curiosos, como tinha oculto ao assassino a noite anterior. Na cozinha só ficava um inspetor tomando notas junto à pia reluzente.

Dolph me indicou com um gesto que olhasse bem.

-Vale -pinjente-. Algo atravessou a porta de cristal. Teve que fazer muitíssimo ruído, e se ouviria embora estivesse posto o ar condicionado.

-Você crie?

-Algum vizinho ouviu algo?

-Ninguém o reconhece.

Assenti, pensativa.

-rompe-se o cristal. Alguém, provavelmente o homem, aparece a ver o que passou; há estereótipos sexistas que não revistam falhar.

-O que quer dizer? -perguntou Dolph.

-O valente caçador que protege a sua família.

-De acordo, saiu o homem. O que passou depois?

-Chega, vê o que entrou pela janela e avisa a gritos a sua mulher. Provavelmente lhe diz que parta. Que agarre ao menino e saia correndo.

-E por que não que chame à polícia?

-Não vi nenhum telefone no dormitório. -Assinalei com um gesto o da parede da cozinha e acrescentei-: Pode que este seja o único, e para chegar até ele terei que passar por cima do homem do saco.

-Segue.

Voltei-me para olhar o salão; de ali se via o sofá, talher pelo lençol.

-O intruso, fora o que fora, atacou ao homem e o deixou fora de jogo, mas não o matou.

-por que o diz?

-Isto é um exame ou o que? Quase não há sangre na cozinha; o comeu no dormitório, e não acredito que se dedicasse a levá-lo a rastros depois de matá-lo. Perseguiria-o até a habitação e o mataria ali.

-Não está mau. Quer inspecionar o salão?

A verdade é que não queria, mas não o disse em voz alta. Da mulher ficavam mais restos, e tinha o torso quase intacto. Tinham-lhe envolto as mãos em bolsas de papel, e tinham extraído amostras de debaixo das unhas. Esperava que servissem de ajuda. Os olhos do cadáver, muito abertos, estavam cravados no teto, e a jaqueta empapada do pijama se pegava ao lugar que tinha ocupado a cintura. Traguei saliva e levantei o objeto com o índice e o polegar.

A coluna vertebral resplandeceu ao sol, branca e úmida, pendurando como um cabo arrancado da tomada.

-Rasgaram-na, como ao... homem do dormitório.

-Como sabe que era um homem?

-Se não havia ninguém mais, tinha que ser o homem. Não tinham convidados, verdade?

-Não que saibamos -disse Dolph negando com a cabeça.

-Então é o homem, porque a mulher conserva as costelas e os braços. -Tentei conter a cólera de minha voz; Dolph não tinha a culpa-. Não trabalho na polícia, assim que te importaria deixar de me perguntar coisas que já sabe?

-De acordo -disse assentindo-. Às vezes me esquecimento de que não é um dos meninos.

-Obrigado, suponho.

-Já me entende.

-Sim, e até sei que é um completo, mas podemos seguir falando fora?

-Claro. -tirou-se as luvas ensangüentadas e os deixou em uma bolsa de lixo que havia na cozinha. Imitei-o.

O calor me capturou como um envoltório de plástico, mas fora me senti melhor, mais limpa. Enchi-me várias vezes os pulmões de ar quente e úmido. Ah, o verão.

-Mas não me equivoco ao supor que não foi nada humano, verdade? -disse o inspetor.

Havia dois agentes de uniforme que continham à multidão formada redemoinhos no jardim e a rua. Meninos, pais, adolescentes em bicicleta... Joder, miúdo circo.

-Não te equivoca. Fora o que fora, não sangrou ao atravessar o cristal.

-Já me fixei. O que significa isso?

-Há poucos nomuertos que sangrem.

-Quais sangram?

-Os zombis recentes, um pouco. Os vampiros são quão únicos podem sangrar quase tanto como uma pessoa.

-Então, não crie que fora um vampiro?

-Não. Além disso, comeu carne humana, e os vampiros não podem digerir nada sólido.

-Poderia ter sido um algul?

-Não há cemitérios suficientemente perto, e a casa não ficou tão mal. Os algules teriam destroçado os móveis, como animais selvagens.

-Um zombi?

Sacudi a cabeça.

-Não sei o que dizer. Os zombis devoradores de carne não são nada freqüentes, mas havê-los, há-os.

-Três casos documentados, não? Em todos eles, os zombis conservam mais tempo as características humanas e não apodrecem.

-Boa memória -disse com um sorriso-. E sim, isso: os zombis que comem carne não apodrecem, ou apodrecem mais devagar.

-São violentos?

-Não que se viu.

-E os zombis, em geral? -perguntou.

-Só se o ordenam.

-O que significa isso?

-Alguém que tenha suficiente poder é capaz de lhe pedir a um zombi que mate.

-E usar o de arma?

-Algo assim -confirmei.

-Quem poderia havê-lo feito?

-Bom, não estou muito segura de que tenha sido isso.

-Já, mas te ocorre alguém?

-Buf. Até eu poderia, mas eu não fui. E ninguém que conheça seria capaz de fazer nada assim.

-Isso o decidiremos nós -disse tirando a caderneta.

-De verdade quer que te dê nomes de meus amigos para que lhes pergunte se lhes deu de levantar um zombi e mandá-lo a matar a esta família?

-Sim.

-Isto é incrível -disse com um suspiro-. De acordo: Manny Rodríguez, Peter Burke Y... -Detive-me antes de pronunciar o terceiro nome.

-O que acontece?

-Nada, que acabo de me lembrar de que tenho que ir ao enterro do Burke, assim não te serve de suspeito.

Dolph me olhava sem dissimular sua desconfiança.

-Está segura de que não pode me dar mais nomeie?

-Avisarei-te se me ocorre alguém mais -soltei sem fraquejar, toda sinceridade. Nada por aqui, nada por lá.

-Isso espero.

-Faltaria mais.

Dolph sorriu e sacudiu a cabeça.

-A quem tenta proteger?

-A mim. -Olhou-me sentido saudades-. Digamos que não quero que ninguém se zangue comigo.

-Alguém concreto?

-Parece que vai chover.

-Joder, Anita, necessito sua ajuda.

-Já te ajudei.

-O nome.

-Tranqüilo. Espera a que faça umas averiguações e, se isso, já te direi algo.

-OH, que generosa. -Um tom avermelhado ia subindo pelo pescoço. Nunca tinha visto o Dolph zangado, mas algo me dizia que estava a ponto.

-O primeiro assassinato foi de um vagabundo; creímos que o tinham comido os algules enquanto dormia a Mona, porque estava perto de um cemitério. Caso fechado. -Sua voz ia subindo de tom pouco a pouco-. Depois encontramos a um casal jovem, no carro do menino. Tampouco os tinham carregado muito longe do cemitério; chamamos um exterminador e a um padre. Caso fechado. -Baixou a voz, mas era tensa, como se se estivesse tragando os gritos. Sua cólera era quase evidente-. E agora isto. foi a mesma besta, seja o que seja, mas não há um puto cemitério em vários quilômetros à redonda, assim não foram algules, e pode que se pôde evitar se te tivesse chamado com o primeiro caso ou o segundo. Já vou pilhando o truque a esta mierda sobrenatural e tenho mais experiência, mas não é suficiente. Nem de longe. -Tinha as mãos crispadas ao redor da caderneta.

-Nunca te tinha ouvido falar tanto.

Soltou uma risada entrecortada.

-Necessito o nome.

-Dominga Salvador. É a sacerdotisa vodun mais importante do Meio Oeste, mas se lhe manda à polícia não soltará objeto. Nem ela nem ninguém.

-E contigo sim que falariam?

-Sim.

-Vale, mas será melhor que me diga algo amanhã mesmo.

-Não sei se poderei consertar uma entrevista com tão pouca antecipação.

-Ou o faz você ou o faço eu.

-De acordo, de acordo, já verei como me monto isso.

-Obrigado, Anita. Pelo menos temos um sítio pelo que começar.

-Mas pode que não seja coisa de zombis; é só uma conjetura.

-O que poderia ser, se não?

-Bom, se houvesse sangre no cristal, eu diria que poderia ter sido um homem lobo.

-Cojonudo, justo o que necessitava: um cambiaformas descontrolado.

-Mas não havia sangue.

-Assim é mais provável que se trate de algum nomuerto.

-Exatamente.

-Bom, pois fala com essa tal Dominga e me diga algo quanto antes.

-À ordem, meu sargento.

Olhou-me com cara de poucos amigos e voltou para a casa. Melhor que entrasse ele; eu só queria me largar, me trocar de roupa e me preparar para levantar mortos. Aquela noite me esperavam três clientes, ou três futuros zombis.

O psiquiatra do Ellen Grisholm considerava que lhe viria bem enfrentar-se ao pai que tinha abusado dela de menina; o problema era que levava vários meses morto, assim que me tocava levantá-lo para que sua filha pudesse insultá-lo a gosto. Segundo o médico, seria uma liberação. Suponho que faz falta um doutorado para poder soltar essas gilipolleces.

As outras dois reanimaciones eram mais normalitas: uma disputa por um testamento e uma testemunha de cargo que tinha tido o mau gosto de sofrer um enfarte antes do julgamento. Ainda não estava muito claro que o testemunho de um zombi fora plausível ante um tribunal, mas estavam suficientemente se desesperados para tentá-lo, e dispostos a pagar por isso.

Fiquei plantada em metade da grama amarelada. Alegrava-me ver que a família não era viciada nos aspersores; miúdo esbanjamento de água. Igual até reciclavam as latas e os periódicos. Igual até eram cidadãos respeitosos com o meio ambiente. Ou pode que não.

Um agente de uniforme levantou o cordão policial para me deixar sair, e me meti no carro sem emprestar atenção aos curiosos. Era um Nova de um modelo recente; poderia me haver comprado algo melhor, mas para que? Tinha quatro rodas.

O volante estava ardendo, assim acendi o ar condicionado. O que havia dito ao Dolph da Dominga Salvador era certo: não falaria com a polícia nem bêbada. Mas não tinha procurado omitir seu nome por isso.

Se tentavam falar com ela, faria averiguações e descobriria que eu os tinha posto sobre sua pista. Era a sacerdotisa vodun mais capitalista que conhecia, e levantar um zombi assassino era só uma das muitas coisas que poderia fazer se lhe desse a vontade.

Francamente: há coisas que se podem penetrar pela janela em plena noite que são muito piores que um zombi. Eu tentava não me dar por inteirada dessa parte do negócio, mas Dominga era a criadora de quase todo o relacionado com ela. Certamente, não tinha nenhum interesse na encher o saco, assim teria que falar com ela ao dia seguinte. Era como conseguir uma entrevista com o chefe do vodu. A putada era que não a deixava muito contente: tinha-me mandado vários convites para que assistisse a suas cerimônias, e eu as tinha rechaçado com tanta amabilidade como tinha podido. Estava convencida de que não o fazia graça que fora cristã, e me tinha arrumado isso para não ter que vê-la cara a cara. Até então.

Tinha que lhe perguntar à sacerdotisa vodun mais capitalista dos Estados Unidos, e pode que de toda a América do Norte, se tinha levantado um zombi e se dava a casualidade de que esse zombi se dedicava a carregar-se gente por ordem dela. Mierda, que loucura. Esperava-me outro dia movidito.

Soou o despertador, e me pus a soltar tapas aos botões; mais tarde ou mais cedo daria com o de apagado. Mas ao final tive que me apoiar em um cotovelo e até abrir os olhos para desconectar a coisa, e fiquei olhando os números luminosos: as seis da manhã. Joder. Tinha chegado a casa às três.

por que o tinha posto às seis? Não tinha nem idéia; depois de três horas de sonho não estou acostumado a andar muito lúcida. Voltei a me tombar entre os lençóis calentitas, e estava a ponto de fechar os olhos quando me lembrei da Dominga Salvador.

Tínhamos ficado às sete; isso é madrugar e o resto são tolices. Liberei-me como pude dos lençóis e fiquei um momento sentada na cama. Salvo pelo zumbido do ar condicionado, reinava um silêncio sepulcral.

Levantei-me, pensando em ositos de peluche recubiertos de sangue.

Ao cabo de um quarto de hora já estava vestida. Sempre tomava banho ao voltar do trabalho, por tarde que fora; não suportava a idéia de me colocar entre os lençóis limpa engordurada de sangue de frango ressecada. Às vezes é de cabra, mas está acostumado a ser de frango.

Escolher o traje tinha tido o seu: não queria parecer desrespeitosa nem me torrar. Claro que não teria sido tão difícil se não tivesse intenção de levar pistola. me chamem paranóica, mas não estava disposta a sair de casa sem ela.

Os jeans desbotados, os meias três-quartos e as sapatilhas esportivas foram a parte fácil. Depois me pus uma pistolera de cintura com uma Firestar de 9 mm, substituía-a da Browning Hi-Power, que avulta muito para levá-la debaixo da calça.

Só faltava uma camisa que tampasse a pistola sem deixá-la inacessível, mas isso é mais difícil do que parece. Ao final me pus uma camiseta que chegava pouco além da cintura e dava umas voltas diante do espelho.

A pistola não se via, sempre que não levantasse os braços mais da conta. Por desgraça, a camiseta era de um rosa muito, muito claro. A verdade é que não alcanço a entender como me pôde dar de comprar a Pode que me tivessem agradável isso; isso esperava, porque a idéia de me haver gasto o dinheiro em algo rosa era mais do que podia suportar.

Ainda não tinha aberto as cortinas, e o piso estava em penumbra. Tinha encarregado expressamente umas cortinas muito entupidas, pois não sentia muita debilidade por ver a luz do dia. Acendi o abajur do aquário, e os peixes anjo subiram para a superfície, boqueando implorantes.

Os peixes não estão mal como animal doméstico. Não terá que tirá-los passear, lhes recolher a porcaria nem adestrá-los; basta limpando o aquário de vez em quando e lhes dar de comer, além de que lhes importa uma mierda a que hora volto.

O aroma do café recém feito encheu a casa, e me sentei à mesa da cozinha a tomar uma taça da Colômbia. Tirava-o do congelador e o moía justo antes de prepará-lo; não há outra forma de tomar café, embora se não haver mais remédio, me tomo como é.

Soou o timbre e peguei um salto, derramando o café. Nervosa eu? Deixei a Firestar na mesa da cozinha em vez de me levar isso à porta. Vêem? Não sou tão paranóica; só sou muito, muito prudente.

Joguei uma olhada pela mira e abri. Era Manny Rodríguez. Tira-me uns cinco centímetros, e tem uns cachos escuros intercalados de cãs que lhe emolduram uma cara enxuta e um bigode negro. Com seus cinqüenta e dois anos, não me importaria levar o de apóio em qualquer situação perigosa... menos em uma.

Estreitamo-nos a mão, como sempre. Tem um apertão firme e seco. Sorriu-me, me ensinando o contraste entre sua tez moréia e uns dentes blanquísimos.

-Cheira a café.

-Já sabe que não tomo o café da manhã outra coisa -pinjente lhe devolvendo o sorriso.

Entrou e fechei a porta com chave; a força do costume.

-Rosita diz que não te cuida. -Imitou a voz de recriminação de sua mulher, exagerando o acento mexicano, e acrescentou-: Não come nada; assim está de fraca. Pobrecilla, sem marido, nem sequer noivo... -Sorriu.

-Minha madrasta está de acordo com ela. A angústia pensar que acabarei feita uma solteirona.

-Quantos anos tem? Vinte e quatro, não?

-Sim.

-Não há quem entende às mulheres -disse sacudindo a cabeça.

-E eu o que sou? Um sanduíche de mortadela?

-Já sabe que não pretendia...

-Yaaa. Sou um dos meninos.

-No trabalho é melhor que nenhum menino.

-Sente-se e te encha de café essa bocaza antes de voltar a abri-la.

-Não te faça a ofendida; entende-me de sobra. -Olhou-me muito sério com seus olhos marrons.

-Entendo-te de sobra -disse sonriendo.

Agarrei uma taça da dúzia larga que guardo no armário da cozinha. Minhas favoritas estão penduradas de um pau com ganchos que tenho na encimera.

Manny bebeu um gole e ficou olhando a frase serigrafiada em negro de sua taça vermelha: SOU UMA ZORRA DESUMANA, MAS ME DÁ BEM. A risada lhe fez sair o café pelo nariz.

Eu bebi da minha, decorada com bebês pingüim com aspecto de peluche.

-Não o diga a ninguém, mas a mim a que mais eu gosto de é esta.

-por que não lhe leva isso ao escritório?

A última idéia peregrina do Bert tinha consistido em nos fazer levar nossas próprias taças; dizia que lhe davam um toque caseiro ao despacho. Eu tinha levado uma, decorada em dois tons de cinza, em que punha: É O TRABALHO SUJO, MAS ME TOCA FAZÊ-LO. Ao Bert não gostou e me fez levar isso a casa.

-É que eu gosto de lhe tocar os cojones ao chefe.

-Assim vais seguir levando taças ofensivas.

-Certamente -respondi sonriendo. Manny se limitou a sacudir a cabeça, e eu entrei em matéria-. Agradeço-te muito que me acompanhe a ver a Dominga.

-Não podia te deixar a sós com o diabo em pessoa -disse encolhendo-se de ombros.

Olhei-o um pouco preocupada; não sabia se o dizia a sério.

-Assim é como a chama sua mulher, não eu.

-Mas pensa ir armada no caso de. -Manny dirigiu o olhar para a pistola que tinha na mesa.

Olhei-o por cima do bordo da taça.

-No caso de.

-Se for necessário sair a tiros, não te servirá de nada; tem guarda-costas por toda parte.

-Não tenho intenção de lhe pegar um tiro a ninguém. Só vamos perguntar umas coisas.

-Desculpe, senhora Salvador -disse com gesto de mofa-, levantou algum zombi ultimamente?

-Vale já, Manny. Sim, faz-se um pouco violento...

-Violento? -Sacudiu a cabeça-. um pouco violento, diz. Se consegue encher o saco a Dominga Salvador, será bastante mais que um pouco violento.

-Não tem por que vir.

-Mas me pediste isso. -Mostrou esses dentes blanquísimos que lhe iluminavam toda a cara-. Não o pediste ao Charles nem ao Jamison, a não ser a mim, e isso foi o melhor completo que lhe podia fazer a um velho.

-Velho? Anda já.

-Bom, minha mulher não opina o mesmo. Rosita me tem proibido ir caçar vampiros contigo, mas não pode me impedir que trabalhe com zombis, ao menos por agora. -A surpresa me deveu notar na cara, porque acrescentou-: Sei que teve um bate-papo contigo faz dois anos, quando eu estava no hospital.

-Esteve a ponto de morrer.

-E quantos ossos te rompeu você?

-O que disse Rosita era razoável. Tem quatro filhos nos que pensar.

-E já não tenho idade para me dedicar a matar vampiros -disse com ironia, quase com amargura.

-Isso são panaquices.

-Mais quisesse. -Apurou o café-. Será melhor que vamos, se não querermos fazer esperar à dona.

-Deus nos libere.

-Amém.

Fiquei olhando-o enquanto enxaguava a taça na pia.

-Há algo que não saiba? -perguntei-lhe.

-Não.

Enxagüei minha taça sem lhe tirar os olhos de cima, com o cenho franzido.

-Manny?

-Por meus meninos que não há nada.

-Então, o que acontece?

-Sabe que praticava o vodun antes de que Rosita me convencesse para me converter ao cristianismo, não?

-Sim, e o que?

-Dominga Salvador não era só minha sacerdotisa. Era meu amante.

Fiquei parada olhando-o.

-Está de coña?

-Não brincaria nunca com algo assim -disse muito sério.

Encolhi-me de ombros; os gostos da gente em matéria de amantes nunca deixarão de me surpreender.

-E graças a isso conseguiste uma entrevista de um dia para outro. -Manny assentiu-. por que não me havia isso dito antes?

-Se por acaso te dava de ir sem mim.

-E tão terrível teria sido?

-É possível -disse me olhando com solenidade.

Agarrei a pistola da mesa e me guardei isso na capa. Oito balas; na Browning cabiam quatorze. Mas sejamos realistas: se necessitava mais de oito balas, não ia sair com vida. E Manny tampouco.

-Mierda -disse entre dentes.

-O que passa agora?

-Tenho a sensação de estar a ponto de me colocar na boca do lobo.

-Não vai muito desencaminhada.

De puta mãe. De putísima mãe. por que me metia nesses berenjenales? A imagem do osito ensangüentado de Benjamim Reynolds me foi à mente. Vale, sabia por que o fazia: se existia a possibilidade, por remota que fora, de que o menino seguisse vivo, seria capaz de baixar ao muito mesmo Inferno..., sempre que existisse a possibilidade de voltar. Mas não o disse em voz alta; possivelmente tampouco fora muito desencaminhada naquilo.

As casas do bairro eram antigas, dos anos quarenta ou os cinqüenta, com gramas mortas de sede e maciços de petunias, gerânios e algum que outra roseira que sobreviviam com muita dificuldade ao casaco das paredes. As ruas estavam podas e cuidadas, mas a uma maçã de distância poderiam matar a qualquer por levar uma jaqueta da cor que não toca.

As bandas se abstinham de atuar nas imediações da casa da senhora Salvador; até aos adolescentes com armas automáticas lhes dão medo as coisas que não se podem deter tiros, por boa pontaria que se tenha. As balas banhadas em prata lhes fazem pupa aos vampiros, mas não os matam. Sim que podem matar aos licántropos, mas não servem de nada contra os zombis. A esses, nem esquartejando-os: os membros cortados seguem reptando em detrás de sua presa. Vi-o, e não é muito agradável. Assim que as bandas não se metiam no território da Dominga: é uma zona de armistício permanente.

Se rumorea que uma banda de hispanos acreditou encontrar a forma de proteger-se contra os cinza-cinza... e segundo algumas versões, sua antigo líder segue no porão da Dominga e lhe faz algum recado de vez em quando. Uma boa advertência para qualquer delinqüente juvenil que queria bancar esperto.

Por isso a mim respeita, eu nunca a tinha visto levantar um zombi. Mas tampouco a tinha visto invocar às serpentes, e podia seguir passando sem isso.

A casa da Dominga Salvador tem dois pisos e um jardim enorme, de um quarto de hectare, com gerânios vermelhos que contrastam com as paredes caiadas. Vermelho e branco, sangue e osso; estava segura de que aos transeuntes não lhes escapava o simbolismo. A mim não, certamente.

Manny estacionou frente à garagem, detrás de um Empala cor nata que ocupava um dos dois lugares. A garagem estava pintada de branco, a jogo com a casa. Uma menina de uns cinco anos percorria a calçada com entusiasmo em seu triciclo, e havia um par de meninos algo majores sentados nos degraus do alpendre. Deixaram de jogar para nos olhar.

No alpendre, a suas costas, havia um homem com uma camiseta azul sem mangas e uma capa de sovaco em cima. Que discreto. Só lhe faltava um letreiro de néon que dissesse TIPO DURO.

A calçada tinha restos de giz: cruzes de cores claras e diagramas indecifráveis. Parecia um jogo infantil, mas era outra coisa: os devotos da senhora pintavam signos de adoração diante de sua casa. Também havia restos de velas, e a menina passava por cima com o triciclo, uma e outra vez. Sim, normalísimo.

Segui ao Manny pela grama ressecada, sob o olhar atento e inescrutável da menina. Manny se tirou os óculos de sol e lhe dedicou um sorriso ao homem.

-bom dia, Antonio -saudou-. Quanto tempo.

-Fui-contestó Antonio com voz baixa e huraña. Tinha os braços, muito morenos, cruzados em gesto despreocupado, mas a mão direita ficava muito perto da pistola.

Ocultei-me detrás do Manny para não ficar à vista e, como quem não quer a coisa, aproximei-me a mão à arma. Sempre preparada, como dizem os boy scout. Ou são os marinhe?

-Converteste-te em todo um hombretón -disse Manny.

-Diz minha avó que te deixe passar.

-É muito sábia -disse Manny.

-É a senhora -respondeu Antonio encolhendo-se de ombros, e se inclinou para me olhar-. A quem te trouxeste?

-Apresento a Anita Blake.

apartou-se para que eu pudesse me adiantar, e saí de detrás dele com uma mão na cintura, não por me fazer a fanfarrona, a não ser para ter a pistola ao alcance.

Antonio me olhou com uma expressão irada em seus olhos escuros, mas não fez nada, e tampouco impunha tanto como os gorilas do Harold Gaynor.

-Encantada-dije sonriendo.

Contemplou-me com desconfiança durante um momento e assentiu. Eu segui sonriendo, e ele começou a me imitar. Que bonito; acreditava que estava paquerando com ele. Por mim...

Disse algo em castelhano, e eu fiquei sonriendo e sacudindo a cabeça. Falava em voz baixa, e pela expressão de seus olhos e a curvatura de seus lábios, eu diria que me estava insinuando ou que me estava insultando. Manny ficou tenso, ruborizou-se e lhe disse algo entre dentes. Então foi Antonio o que ficou vermelho, e começou a aproximar a mão à pistola. Subi dois degraus e lhe agarrei as bonecas como se não me inteirasse da missa a média. Seus braços pareciam a ponto de saltar como uma mola.

Dediquei-lhe meu melhor sorriso, ele me olhou fugazmente, e a tensão se relaxou, mas não o soltei até que deixou cair o braço. Agarrou-me a mão para beijá-la e demorou um momento em apartar os lábios, sem deixar de olhar ao Manny cheio de cólera.

Antonio levava pistola, mas só era um aficionado, e os aficionados com pistola revistam acabar mortos. Saberia Dominga Salvador? Pode que em vodu fora a releche, mas me temo que não tinha nem idéia de armas nem das aptidões necessárias para as usar, e fossem as que fossem, Antonio não as tinha. Sim, claro, poderia matar a alguém sem pestanejar, mas pelos motivos incorretos, por motivos de aficionado. E já me contarão do que lhe serviria ao morto.

Guiou-me escada acima, sem me soltar a mão, mas era a esquerda, assim por mim podia ficar a todo o dia.

-Tenho que olhar se vão armados, Manuel.

-Sim, claro.

Manny subiu ao alpendre e Antonio deu um passo atrás, para manter a distância em caso de que o atacasse. Isso converteu suas costas em um branco perfeito para mim: um descuido que, em outras circunstâncias, poderia lhe ser mortal.

Apoiou ao Manny no corrimão, como nos registros policiais. Antonio sabia onde procurar, mas o revistou com ira, movendo as mãos muito e com brutalidade, como se o contato do corpo do Manny o encolerizasse. Era fácil de encher o saco, o amigo Antonio.

Mas não lhe ocorreu me revistar a mim. Muito mal.

Outro homem, que andaria pelos quarenta e muitos, apareceu depois da porta mosquiteira. Levava uma camiseta branca, e ainda por cima, uma camisa de quadros desabotoada e arregaçada ao máximo. O suor o perlaba a frente, e provavelmente levava uma pistola na cintura, por detrás. Tinha o cabelo negro, com uma mecha branca justa em cima da frente.

-por que demora tanto, Antonio? -Tinha a voz pastosa e falava com acento mexicano.

-Estava revistando-o.

-A senhora os está esperando.

Antonio se fez a um lado e voltou a ocupar seu posto no alpendre. Quando passei junto a ele me lançou um beijo, e vi que Manny ficava tenso, mas entramos na casa sem que ninguém se levasse um tiro. Estávamos em rajada.

O salão era espaçoso, com uma mesa de comilão a um lado e um piano ao outro. Perguntei-me quem o tocaria. Antonio? Naaa.

Atravessamos um corredor curto, seguindo ao homem, e chegamos a uma cozinha ampla, com o chão arlequinado iluminado pelo sol. A construção era antiga, mas os eletrodomésticos eram modernos. Uma dessas geladeiras de luxo com dispensador de gelo e água fria ocupava grande parte da parede do fundo, e todos os móveis eram amarelo claro: Trigo dourado, Bronze outonal... Essas coisas.

Sentada à mesa da cozinha havia uma mulher de pouco mais de sessenta anos, de rosto enxuto e moreno sulcado por inumeráveis enruga que denotavam bom aspecto, e cabelo blanquísimo recolhido em um coque. Tinha as costas muita erguida e as mãos, muito estreitas, entrelaçadas em cima da mesa. Seu aspecto era terrivelmente inofensivo, o de uma abuelita encantadora. Se só uma quarta parte do que tinha ouvido dela era verdade, sua camuflagem era o melhor do mundo.

Sorriu e separou as mãos. Manny se adiantou, agarrou-lhe uma e lhe beijou os nódulos.

-Me alegro de verte, Manuel -disse ela com voz agradável, de contralto, com um acento muito ligeiro.

-Igualmente. -Soltou-lhe a mão e se sentou frente a ela.

Eu seguia na porta, e Dominga me olhou.

-Bom, bom, Anita Blake. Assim por fim te deixa cair por aqui.

Aquilo me pilhou por surpresa. Olhei ao Manny, que me devolveu um gesto de incompreensão. Cojonudo: ele tampouco tinha nem idéia.

-Não sabia que tivesse tantas vontades de lombriga.

-ouvi falar muito de ti, garota. Contaram-me coisas muito interessantes. -Em seus olhos negros e sua cara sorridente havia um não sei o que não tinha nada de inofensivo.

-Manny? -perguntei.

-Eu não fui.

-Não, Manuel já não me conta nada; seu mujercita lhe tem proibido falar comigo. -Disse o último com acritud. Vá Por Deus: a sacerdotisa vodun mais capitalista do Meio Oeste se comportava como uma amante despeitada. O que nos faltava. Voltou para mim uns olhos encolerizados-. Todos os que se dedicam ao vodu vão à senhora Salvador mais tarde ou mais cedo.

-Eu não me dedico ao vodu.

Dominga riu, e as linhas de sua cara se acentuaram.

-Reanima mortos, zombis, e não te dedica ao vodu. Essa foi boa, garota. -Parecia verdadeiramente divertida. Eu, encantada de lhe haver alegrado o dia.

-Já te expliquei por que queríamos verte -interveio Manny-. Deixei muito claro... -Dominga o fez calar com um gesto.

-Sim, foi muito cuidadoso por telefone, Manuel.-inclinou-se para mim-. Deixou-me muito claro que não vinham para participar de nenhum de meus rituais pagãos. -Seu tom era tão ácido que raiava no corrosivo-. Vêem aqui, garota.

Tendeu-me uma mão, não as duas. Esperava que a beijasse, como tinha feito Manny? Nem que estivesse em presença da batata. Dava-me conta de que não queria tocá-la. Dominga não tinha feito nada mau, mas eu tinha os músculos dos ombros duros pela tensão. Tinha medo, e não sabia do que.

Dava um passo à frente e lhe agarrei a mão, sem saber o que fazer com ela. Tinha a pele cálida e seca. Atirou de minha mão, sem soltá-la, para me fazer sentar junto a ela, e disse em voz baixa e grave algo que não entendi.

-Sinto muito, não falo castelhano.

-Tem o cabelo negro como a asa de um corvo -disse me tocando a cabeça com a mão livre-. Isso vem do sul.

-Minha mãe era mexicana.

-Mas não entende sua língua.

Seguia me sujeitando a mão, e eu queria recuperá-la.

-Morreu quando eu era pequena, e me criou a família de meu pai.

-Já vejo.

Consegui me liberar e me senti melhor imediatamente. Aquela mulher não me tinha feito nada absolutamente; por que me punha tão nervosa? O homem da mecha branca se colocou atrás dela, com As mãos à vista. Eu tinha a porta traseira e a entrada da cozinha à vista, assim não podia haver ninguém me espreitando. Mas o pêlo de minha nuca se empenhava em manter-se arrepiado.

Olhei ao Manny, mas ele tinha os olhos cravados na Dominga e as mãos entrelaçadas em cima da mesa, tão apertadas que os nódulos lhe haviam posto brancos.

Era como estar em um festival de cinema estrangeiro sem subtítulos. Mais ou menos, adivinhava do que ia a coisa, mas não estava segura de nada. A pele de galinha me dizia que havia algum abracadabra em marcha, e a reação do Manny parecia indicar que o abracadabra tinha algo que ver com ele.

De repente relaxou os ombros, e a tensão de suas mãos se dissipou; era como se o tivessem liberado. Dominga sorriu, mostrando uns dentes blanquísimos.

-Poderia ter sido tão poderoso, coração...

-Mas não me interessava o poder -replicou Manny.

Fiquei olhando os de marco em marco, sem saber muito bem o que tinha passado. Tampouco estava segura de querer sabê-lo, e estava disposta a me acreditar isso de que a ignorância é uma bênção. Está acostumado a ser certo.

-E você, garota? -perguntou Dominga, voltando-se de repente para mim-. Quer poder? -A sensação da nuca me estendeu por todo o corpo; era como meter-se em um formigueiro. Mierda.

-Não. -Uma resposta clara e concisa. Possivelmente deveria as usar mais freqüentemente.

-Pode que não o queira, mas o terá.

Eu não gostei de um cabelo sua forma de dizê-lo. Era ridículo estar em uma cozinha ensolarada às sete e meia da manhã e ter medo, mas o tinha. Tanto que me encolhiam as tripas.

Olhou-me com uns olhos que só eram olhos; não havia neles nem um espiono da capacidade de sedução dos vampiros. Só eram olhos, mas... O pêlo da nuca tentou me baixar pela coluna, e me arrepiou a pele de todo o corpo, a pesar do calor abafadiço. Umedeci-me os lábios e olhei a Dominga Salvador.

Tinha-me arrojado um ataque mágico, para me pôr a prova. Não era a primeira vez que me acontecia um pouco parecido: às pessoas lhe fascina meu trabalho. Todo mundo está convencido de que faço magia, mas não é assim; me dão bem os mortos, que é distinto.

Olhei fixamente seus olhos quase negros e senti que ia para diante; era como cair sem mover-se. O mundo se cambaleou a meu redor, mas em seguida se estabilizou. Meu corpo despedia um fluxo de calor que avançava retorcendo-se para a anciã e, quando a alcançou, senti um pouco parecido a uma descarga elétrica.

-Joder! -Pu-me em pé, me esforçando por respirar.

-O que te passa, Anita? -Manny estava de pé e me tocava o braço.

-Não sei. Que demônios me tem feito?

-Você é a que tem feito algo, garota. -Dominga tinha empalidecido ligeiramente, e tinha a frente coberta de suor. O homem se separou da parede com as mãos aos lados, preparado para atuar-. Não se preocupe, Enzo, não passa nada -disse-lhe Dominga. Estava sem fôlego, como se tivesse estado correndo.

Segui de pé. Quão único queria era ir a casa.

-Não viemos a jogar, Dominga -disse Manny com a voz tinta de cólera e pode que medo. Eu compartilhava o último.

-Não é nenhum jogo, Manuel. É que esqueceste tudo o que te ensinei, tudo o que miste?

-Não esqueci nada, mas não a trouxe para que sofra nenhum dano.

-Que sofra ou não depende dela, coração.

Aquilo não me fez nem pingo de graça.

-Não a vejo muito disposta a nos ajudar; só a jogar gato e ao camundongo. E sabe o que? Este camundongo se larga. -Girei para partir, sem perder de vista ao Enzo. Ele não era nenhum aficionado.

-Não quer encontrar ao menino do que me falou Manny? Só tem três añitos e já está em mãos do bokor...

Parei-me em seco, tal como pretendia Dominga. Mierda.

-O que é um bokor?

-De verdade não sabe? -perguntou-me com um sorriso. Neguei com a cabeça, e seu sorriso se ampliou; estava encantada comigo-. Ponha a mão direita na mesa com a palma para cima, por favor.

-Se souber algo do menino, por que não me diz isso sem mais?

-Permite que te faça umas provas, e te ajudarei.

-Que provas são essas? -Esforcei-me por transmitir toda a desconfiança que sentia.

Dominga riu, com um som repentinamente alegre que encaixava com as rugas de sua cara. Os olhos lhe brilhavam de puro regozijo, e me temia que se estava rendo de mim.

-Vêem aqui, garota, que não vou fazer te danifico.

-Manny?

-Se fizer algo que possa te prejudicar, direi-lhe isso.

-Tenho entendido que é capaz de levantar três zombis por noite, uma noite atrás de outra. -Dominga me olha-a perplexa-. E isso que é uma novata.

-A ignorância é uma bênção.

-Sente-se, garota. Prometo-te que não te doerá.

"Não te doerá": a promessa de que se morava algo doloroso. Sentei-me.

-Qualquer atraso poderia lhe custar a vida. -Tentava apelar a seu lado bom. Como se o tivesse.

-De verdade crie que segue vivo? -perguntou inclinando-se para mim. Separei-me dela; não podia evitá-lo, mas tampouco podia lhe mentir. -Não.

-Então temos tempo, não te parece?

-Para que?

-A mão, garota, por favor. Depois responderei a suas perguntas.

Respirei profundamente e pus a mão direita na mesa, com a palma para cima. Dominga se fazia a misteriosa, e isso é algo que me repatea.

Tirou uma bolsita negra de debaixo da mesa, como se a tivesse tido no regaço todo o tempo. Como se o tivesse planejado. Manny olhou a bolsa como se algo repugnante fora a sair dela. Quase; Dominga Salvador tirou dela algo repugnante.

Era um cinza-cinza de plumas negras, partes de osso e uma pata de ave mumificada. Ao princípio me pareceu de frango, até que vi as fortes unhas negras; uma águia, um falcão ou um inseto parecido rondaria por aí com uma pata de pau.

Me imaginei me cravando as unhas daquilo, e me custou o inexprimível não me apartar, mas se limitou a me deixar o cinza-cinza na mão aberta. Só eram plumas, partes de osso e uma pata de rapaz seca. Não era repugnante nem doía; de fato, senti-me um pouco idiota.

Então notei o calor. A coisa se estava esquentando em cima de minha palma. Antes não estava quente.

-O que lhe está fazendo?

Dominga não respondeu. Olhei-a, mas ela tinha a vista cravada em minha mão, como um gato a ponto de soltar um zarpazo. Segui seu olhar. A garra se contraiu, distendeu-se e se voltou a contrair: estava-se movendo.

-Mierda! -Queria me levantar e me sacudir de cima aquele feto, mas fiquei sentadita. Com todos os cabelos do corpo de ponta e um nó na garganta, deixei que a coisa seguisse movendo-se-. De acordo -disse entre dentes-, já me tem feito a prova. Agora me tire isso da mão.

Dominga levantou a pata de ave com cuidado, tanto que me dava conta de que evitava me tocar, embora não soube a que se devia.

-Virgem Santa -resmunguei. Baixei a mão e apalpei a pistola que tinha escondida na calça; reconfortava-me saber que, no pior dos casos, podia lhe pegar um tiro antes de que me matasse de um susto-. Podemos ir ao grão de uma vez? -Falei com voz quase firme. Que maior.

-Tem-na feito mover-se. -Dominga embalava a pata com as mãos-. Assustaste-te, mas não te resultou estranho. por que?

O que podia dizer? Nada que queria lhe revelar.

-Tenho certa afinidade com os mortos. Me dão bem, igual à outros lhes dá bem ler a mente.

-Crie de verdade que a capacidade de levantar mortos é um truque de feira, como a telepatia?

Se alguma vez se tropeçou com um telépata de verdade, tomaria mais a sério. A sua maneira, davam tanto medo como ela.

-Reanimar mortos é um trabalho, nada mais.

-Isso me acredito quase tanto como você.

-Pois tente-o, porque é verdade.

-Não é a primeira vez que lhe fazem uma prova. -Aquilo era uma afirmação.

-Já o fez minha avó materna, mas não com isso. -Assinalei a pata, que seguia movendo-se como as mãos falsas que vendem nas lojas de artigos de brincadeira. Agora que não a tinha em cima, podia imaginar que funcionava a pilhas. Sim, claro.

-Praticava o vodun? -perguntou-me. Eu me limitei a assentir-. por que não estudou com ela?

-Tenho a capacidade inata de levantar mortos, mas isso não determina minha orientação religiosa.

-É cristã -disse como se fora um insulto.

-Já está bem. -Pu-me em pé-. Eu gostaria de dizer que foi um prazer, mas mentiria.

-Pergunta o que queira, garota.

-Como? -A mudança de tema tinha sido muito brusco.

-me pergunte o que seja que tenha vindo a me perguntar.

-Se disser que vai responder, é que vai responder -disse Manny. Não parecia muito contente.

Voltei a me sentar, decidida a me largar como me voltasse a insultar. Claro que se resultava certo que podia me ajudar... Ah, mierda, estava picando com a ceva da esperança, mas depois do que tinha visto na casa dos Reynolds, merecia a pena.

Quando cheguei tinha intenção de expor a pergunta com toda a delicadeza do mundo, mas a aquelas alturas importava um carajo.

-levantou algum zombi ultimamente?

-Vários -respondeu.

Vale. Duvidei antes de seguir perguntando; não me tirava da cabeça o movimento daquela costure na mão. Notei-me isso com a perna da calça da calça, como se a sensação fora pegajosa. O que era quão pior Podia me fazer se a ofendia? Melhor não sabê-lo.

-enviou a algum zombi a levar a cabo... uma vingança? -Ah, minha idéia da delicadeza. Estupendo.

-Não.

-Está segura?

-Se tivesse levantado da tumba a um assassino, lembraria-me -respondeu sonriendo.

-Para que um zombi mate não faz falta que tenha sido um assassino em vida.

-De verdade? -Elevou as sobrancelhas grisalhas-. Vejo que tem muita experiência em zombis que matam...

Contive o impulso de me encolher como uma colegiala a que tivessem pilhado em uma mentira.

-Só com um.

-Conta-me o

-Não -respondi cortante-. Eu não gosto de falar disso. -Era um pesadelo que não estava disposta a lhe revelar à senhora do vodun, assim decidi trocar de tema-. reanimei a vários assassinos, e não são mais violentos que os outros zombis.

-A quantos mortos levantaste que a tumba? -perguntou.

-Nem idéia. -Encolhi-me de ombros.

-Aproximadamente?

-Não sei. Centenas.

-Mil?

-Pode; não levo a conta.

-E a leva seu chefe, o do Reanimators, Inc.?

-Suponho que guarda arquivos de todos meus clientes.

-Eu gostaria de saber quantos foram exatamente -disse com um sorriso.

-Averiguarei-o se puder. -Não seria grave que soubesse.

-Que menina mais obediente. -ficou em pé-. E não, eu não levantei o zombi assassino que buscas, se isso for o que anda comendo cidadãos. -Sorriu, quase riu, como se tivesse brincadeira-. Mas conheço pessoas que não falariam contigo nem em pintura, pessoas que sim seriam capazes de fazer algo assim. Perguntarei-lhes; me dirão a verdade, e te direi o que averigúe, Anita.

Pronunciou meu nome corretamente, ao modo hispano. me soou quase como algo exótico.

-Muito obrigado, senhora Salvador.

-Mas vou pedir te um favor em troca.

-Do que se trata? -Jogava-me algo a que estava a ponto de ouvir algo desagradável.

-Quero que submeta a outra prova.

Fiquei olhando-a, esperando a que continuasse, mas não disse nada mais.

-Que tipo de prova?

-me acompanhe abaixo e lhe ensino isso -disse com voz melosa.

-Nem pensar, Dominga. -Manny se levantou-. Anita, nada que possa te dizer esta mulher justifica que lhe dê o que quer.

-Posso falar com pessoas e seres que não falariam com bons cristãos como vós. Com nenhum dos dois.

-Vamos, Anita, não necessitamos sua ajuda -disse Manny, dirigindo-se à porta.

Não o segui; ele não tinha visto a massacre nem tinha sonhado com ositos empapados de sangue. Eu sim, e não podia partir enquanto pensasse que me podia ajudar. Não era só por averiguar sim Benjamim Reynolds estava vivo ou morto; era porque essa coisa, fora o que fora, voltaria a matar, e me dava que tinha que ver com o vodu, um acampo do que não sabia muito. Necessitava ajuda, e depressa.

-Vamos -insistiu Manny, me atirando do braço.

-Que prova é essa?

Dominga sorriu triunfante. Sabia que me tinha no bolso, que não me partiria até que prometesse me ajudar. Mierda.

-Vamos ao porão; explicarei-lhe isso ali.

-Anita, não sabe o que está fazendo. -Manny me sujeitou o braço com insistência. Tinha razão, mas...

-Fica comigo para controlar, e não me deixe fazer nada que aduela, de acordo?

-Peça-te o que te peça aí abaixo, doerá. Pode que não fisicamente, mas doerá.

-À força enforcam. -Dava-lhe uns tapinhas na mão e sorri-. Não me passará nada.

-Não esteja tão segura.

O que podia lhe dizer? Provavelmente, Manny tinha razão. Mas me dava igual: estava disposta a fazer algo que me pedisse Dominga, dentro de uma ordem, se com isso podia deter a matança. O que fora com tal de não ver mais cadáveres ao meio comer.

-Vamos abaixo -disse Dominga sorridente.

-Posso falar a sós com a Anita, por favor? -perguntou Manny. Seguia me sujeitando o braço, cada vez mais tenso.

-Tem o resto deste precioso dia para falar com ela, Manuel, mas eu só tenho um momento. Se passar a prova, prometo ajudá-la tudo o que possa para apanhar ao assassino.

Era uma oferta muito tentadora: havia muita gente que lhe diria tudo o que quisesse por puro medo, e a polícia não tinha esse efeito. O medo a uma detenção não é tão bom incentivo como a possibilidade de que um zombi entre pela janela: não há cor.

Já tinham morrido quatro pessoas, possivelmente cinco, e de uma forma espantosa.

-Já hei dito que estou disposta a fazer a prova. Vamos.

Dominga rodeou a mesa e tocou o braço ao Manny, que saltou como se se queimou e me soltou.

-Não vai sofrer nenhum dano, Manuel. Dou-te minha palavra.

-Não confio em ti.

-Mas ela já se decidiu. -Dominga riu-. E eu não a obriguei.

-Para o caso... Extorquiste-a com a segurança de outros.

-Extorqui-te, garota? -perguntou voltando-se para mim.

-Sim -respondi.

-nota-se que é sua discípula, coração. É tão sincera e valente como você.

-É valente, mas não viu o que tem abaixo.

Queria perguntar o que havia no porão, mas me calei. Em realidade, preferia não sabê-lo. Já tinha recebido conselhos sobre mierdas sobrenaturais: "Não entre nessa habitação, ou o monstro te matará". E o caso é que está acostumado a haver monstros, e revistam tentar me matar, mas até agora fui mais rápida que eles, ou tive mais sorte. A seguir tentando-a, pois.

Me teria gostado de fazer caso ao Manny: a idéia de ir a casa era mais que apetecível, mas não podia ignorar a chamada do dever. Do dever e dos pesadelos. Não queria ver outra família massacrada.

Dominga saiu da habitação, seguida do Manny. Eu ia detrás, e Enzo fechava a marcha. Vá dia para um desfile.

A escada do porão era de madeira, muito levantada, e os degraus se curvavam a nosso passo. Mau cilindro. A luz do sol que entrava pela porta se perdia em uma escuridão total; parecia perder ímpeto e desvanecer-se, como se não tivesse poder naquela espécie de cova. Detive-me no limite da zona iluminada e olhei para baixo. Nem sequer distinguia a Dominga e ao Manny, mas tinham que estar justo diante de mim, não?

Enzo, o gorila, esperava detrás com paciência, sem me colocar pressa. Então, era eu quem decidia? Podia recolher os brinquedos e ir a casa?

-Manny... -pinjente.

Respondeu-me uma voz desde muito longe. Possivelmente fora um truque acústico da habitação. Ou possivelmente não.

-Estou aqui, Anita.

Tentei averiguar desde onde chegava, mas não via nada. Dava dois passos mais, às cegas, e me parei como se me tivesse dado contra uma parede. Cheirava a terra e a umidade, como quase todos os porões, mas também aparecia um aroma pútrido e agridoce: o fedor indescritível dos cadáveres. No alto da escada era tênue, mas estava segura de que iria piorando à medida que baixasse mais.

Minha avó tinha sido sacerdotisa vodun, mas seu humfo não cheirava a cadáveres; nessa religião, a fronteira entre o bem e o mal não estava tão definida como na wicca, o cristianismo ou o satanismo, mas existia, e Dominga Salvador a tinha cruzado. Sabia desde o começo, mas me seguia incomodando.

Segundo minha avó, eu era nigromante: mais, e de uma vez menos, que sacerdotisa vodun. Tinha afinidade com os mortos, com todos os mortos. Dizia que era difícil ser nigromante e praticar o vodu sem cair na tentação do mal, e ela mesma tinha fomentado meu cristianismo; queria-me tanto, e temia tanto por minha alma, que tinha animado a meu pai a me apartar do ramo materno de minha família.

E aí estava, baixando os degraus que conduziam às fauces da tentação. O que diria minha avó? Provavelmente, que me fora a casa, e não seria mau conselho: o nó que tinha na garganta opinava o mesmo.

acendeu-se uma luz ao pé da escada, uma lâmpada débil que me Pareceu mais luminosa que uma estrela. Pisquei; Dominga e Manny estavam justo debaixo, me olhando.

Luz. por que me senti melhor imediatamente? Já sei que é uma tolice, mas o que lhe vai fazer. Enzo fechou a porta a nossas costas. A penumbra dominava o ambiente, mas se via um corredor estreito com mais lâmpadas nuas.

Quase tinha terminado de baixar, e o aroma agridoce era mais intenso. Provei a respirar pela boca, mas só consegui me colocar a peste na garganta. O aroma da carne putrefata se pega ao paladar.

Dominga abriu a marcha entre as paredes de tijolo. Em alguns sítios havia retângulos de cimento pintado, como se tivessem murado portas. Ao parecer, havia habitações a intervalos regulares. por que as teriam cegado? por que teriam abafado as portas com cimento? O que haveria atrás delas?

Passei os dedos pelo cimento; a superfície era áspera e fria, e a pintura era recente, porque não estava descascada pela umidade. Perguntei-me o que haveria ao outro lado.

De repente me senti observada, e contive o impulso de me voltar para olhar ao Enzo. Estava segura de que se comportaria, mas também estava segura de que quão último deveria me preocupar era que me pegassem um tiro.

O ar era muito úmido e frio: a mãe de todos os porões. Havia três portas, duas à direita e uma à esquerda. Só eram portas, e uma delas tinha um cadeado novo e reluzente. Quando passamos junto a ela a ouvi chiar, como se um pouco muito grande se apoiou nela.

-O que há aí? -perguntei, me detendo.

Enzo também se deteve. Dominga e Manny tinham dobrado uma esquina, e nos tínhamos ficado sozinhos. Toquei a porta, que rangeu e se curvou como se um gato gigante se esfregou contra ela. De abaixo me chegou uma rajada de aroma que me saturou a boca e a garganta. Apartei-me enojada e traguei convulsivamente, mas o sabor me chegou até o estômago.

Costure-a do outro lado soltou um pouco parecido a um miado, mas não soube se era um som humano ou animal. Fora o que fora, era maior que uma pessoa e estava morto. Muito.

Tampei-me o nariz e a boca com a mão esquerda; preferia ter livre a direita, no caso de. Se por acaso aquilo atravessava a porta, por exemplo. Bale contra um morto vivente? Não serviriam de grande coisa, mas me tranqüilizava ter a arma à mão, embora só fora porque podia disparar ao Enzo se se atravessava. Embora... para que? Dava-me que se a porta cedia, ele correria tanto perigo como eu.

-Temos que seguir -disse.

Sua expressão não me revelava nada; nem que fôssemos pela rua para a loja da esquina. Parecia muito tranqüilo, e o odiei por isso. Quando estou aterrorizada, o que menos que não ser a única.

Olhei a porta da esquerda, que não tinha cadeado, e a abri. Tinha que averiguá-lo. Era uma cela de apenas três metros quadrados, com chão de cimento e paredes caiadas. Estava vazia, como se esperasse a seu seguinte ocupante. Enzo fechou de uma portada, e não protestei; não valia a pena. Se tinha que lombriga as com alguém que pesava o dobro que eu, mais me valia escolher um bom motivo, e uma habitação vazia não o era.

Enzo se apoiou na porta, e as lâmpadas lhe iluminaram o suor da cara.

-Não abra mais portas, senhorita. Podem-lhe acontecer coisas muito feias.

-De acordo. -Assenti. Tinha bastado uma cela desocupada para que ficasse a suar; menos mal que se assustava por algo. Mas por que essa habitação e não a outra, a da coisa pestilenta que miava? Ou seja.

-Temos que alcançar à senhora. -Fez um gesto com a mão, como o de um garçom que me indicasse uma mesa, e segui suas instruções. Aonde ia se não?

O corredor dava a uma sala retangular, com as paredes tão brancas como as da cela. O chão, também caiado, tinha desenhos riscados em negro e vermelho vivo. Eram verves: uns símbolos que se usam nos santuários para convocar aos louva, os deuses do vodun. São como as paredes que rodeiam o caminho que conduz ao altar; se me saía do caminho, danificaria o desenho, e não sabia se isso seria bom ou mau. Regra 369 para situações de magia desconhecida: em caso de dúvida, não toque nada.

Não toquei nada.

Ao fundo havia um montão de velas acesas, que enchiam as paredes de luz e calor. Dominga estava em metade da luz, da brancura, transbordante de maldade. Não havia outra forma de descrevê-la: era maligna, e a maldade gotejava a seu redor como uma escuridão fluída e evidente. A anciã inofensiva tinha sido substituída por uma criatura cheia de poder.

Manny estava a um lado, um pouco afastado e olhando-a. Desviou os olhos em minha direção, e vi que os deixava muito abertos. O altar estava justo detrás das costas reta da mulher, transbordante de cadáveres de animais que caíam dele e se amontoavam no chão: galos, cães, um leitão e duas cabras, além de vários vultos de cabelo e sangue seca que não pude identificar. Era como uma fonte densa e pringosa da que emanavam coisas mortas.

Os sacrifícios estavam frescos; não cheirava a podre. Topei-me com o olhar vidriosa de uma cabra. Odiava matar cabras; sempre me pareciam muito mais inteligentes que os galos. Ou igual era que me enterneciam mais.

À esquerda da pilha de oferendas havia uma mulher alta. Sua pele quase negra resplandecia à luz das velas, e parecia esculpida em madeira brilhante. Tinha o cabelo muito arrumado, pelos ombros; maçãs do rosto marcados, lábios grossos e uma maquiagem muita bem posta. Levava um vestido comprido de tecido sedoso da cor do sangue fresca, a jogo com o pintalabios.

À direita do altar havia uma zombi de cabelo castanho claro. O tinham penteado tanto que resplandecia, e lhe chegava quase pela cintura; era o único que parecia vivo nela. Tinha a pele cinzenta, e a carne lhe tinha contraído ao redor dos ossos. podia-se ver o movimento de seus músculos, fibrosos e ressecados, sob os restos decompostos da pele. Quase lhe tinha desaparecido o nariz, com o que parecia inacabada, e um vestido carmesim solto lhe cobria o corpo esquelético.

Até tinham tentado maquiá-la. Não havia maneira de lhe pintar os lábios retraídos, mas uma sombra lilás lhe rodeava os olhos saltados. Traguei saliva e me voltei para olhar à primeira mulher.

Também era uma zombi. Dos mais obtidos e melhor conservados que vi, mas por cuidado que fora seu aspecto, estava morta. Devolveu-me o olhar, e em seus olhos marrons perfeitos havia algo que nenhum zombi conserva muito tempo: a lembrança de quem e do que era, que normalmente se desvanece em uns dias, às vezes em umas horas. Mas aquela zombi tinha medo; era como uma dor que reluzia em seu olhar. Os olhos dos zombis não são assim.

Voltei-me para a zombi mais deteriorada. Também me olhava, com uns olhos protuberantes. Quase toda a carne que os rodeava tinha desaparecido, de modo que sua expressividade deixava bastante que desejar, mas mesmo assim conseguia parecer assustada. Cristo bendito.

Dominga fez um gesto com a cabeça, e Enzo me indicou que entrasse no círculo. Eu não queria.

-Que demônios é tudo isto? -perguntei a Dominga.

-Estou acostumada a que me tratem com mais educação -respondeu com um sorriso, quase uma risada.

-Pois desacostume-se. -Notei o fôlego do Enzo nas costas, e fiz todo o possível por não lhe emprestar atenção. Deixei a mão direita perto da pistola, como quem não quer a coisa e sem que se notassem minhas intenções. Não foi fácil, porque quando alguém faz o gesto de agarrar uma pistola parece que faz o gesto de agarrar uma pistola, mas ninguém se deu conta. Bem por mim-. O que lhes tem feito a esses dois zombis?

-Inspeciona-os você mesma, garota. Se for tão capitalista como dizem por aí, saberá responder a sua pergunta.

-E se não o averiguo?

-Será que não é tão capitalista como dizem -disse sorridente, mas seus olhos eram negros e inexpressivos como os de um tubarão..

-Esta é a prova?

-Pode.

Suspirei. A senhora do vodun queria comprovar se era uma garota dura. por que? Possivelmente porque sim. Possivelmente fora simplesmente uma zorra sádica ávida de poder; não parecia tão desatinado. Por outro lado, igual resultava que aquele teatro tinha uma finalidade, embora não me ocorria qual podia ser.

Olhei ao Manny, que se encolheu de ombros de forma quase imperceptível. Ele tampouco sabia do que ia aquilo. Estupendo.

Não me fazia graça seguir o jogo a Dominga, sobre tudo porque não conhecia as regras. As zombis seguiam me olhando com olhos que mostravam medo... e algo pior: esperança. Mierda. Os zombis não tinham esperança; não tinham nada. Estavam mortos. Aquelas não o estavam, e queria averiguar por que. Só esperava não ter que pagar cara a curiosidade.

Aproximei-me da Dominga, respeitando uma distância prudencial e olhando a de reojo. Enzo ficou detrás, bloqueando o caminho dos verves, tudo imponente e infranqueável. Mas eu sabia que poderia passar ao outro lado se me davam motivos, os suficientes para matá-lo. Esperava que não fossem tantos.

A zombi maltratada me olhava fixamente. Era alta; quase um metro oitenta. Uns pés esqueléticos apareciam sob o vestido vermelho. Tinha sido uma mulher esbelta, talvez até atrativa, mas vendo aqueles olhos saltados que se moviam nas conchas sem pálpebras... Um som úmido, como de sucção, acompanhava o movimento.

A primeira vez que o ouvi tinha vomitado: é o ruído que fazem os globos oculares contra a carne putrefata. Mas disso fazia quatro anos, e já não era nenhuma novata. A carne em decomposição não me revolvia o estômago; nem sequer me dava repelús. Normalmente.

Tinha os olhos de um marrom esverdeado, e a rodeava um aroma de perfume caro, com penugem e não muito penetrante, algo doce e floral que recordava os talco. Não bastava para ocultar o fedor. Enruguei o nariz e fechei a garganta; quando voltasse a cheirar aquele delicado perfume pensaria no aroma de cadáver. Mas tampouco era tão terrível; provavelmente não poderia pagá-lo.

O caso era que me olhava, e não parecia um cadáver, a não ser uma pessoa, com o caráter refletido nos olhos. Aos zombis os vejo como cadáveres, como capas vazias; pode que pareçam muito vivos ao sair da tumba, mas não os dura. A personalidade e a inteligência são o primeiro que se deteriora, e depois as segue o corpo, sempre por essa ordem. Deus não tem a crueldade de obrigar a ninguém a presenciar a decadência de seu próprio corpo. Algo tinha saído muito mal naquele caso.

Rodeei a Dominga Salvador me mantendo fora de seu alcance, embora não sabia por que. Estava quase segura de que não ia armada, mas representava um perigo que não tinha nada que ver com as facas nem as pistolas. Não queria que me roçasse, nem sequer por acidente.

A zombi da esquerda era perfeita: não mostrava nem rastro de deterioração, e tinha os olhos muito vivos, alerta. Virgem Santa, se até poderia passar por humana em qualquer sítio. E como me tinha dado conta de que não estava viva? Nem sequer sabia: não detectava nenhum dos indícios habituais, mas reconhecia a morte quando a tinha diante. De todas formas... Olhei-a, e suas facções perfeitas e escuras me devolveram o olhar. O medo surgia dela a fervuras.

O mesmo poder que me permitia levantar mortos me dizia que aquela mulher era uma zombi, por muito que a vista me dissesse o contrário. Assombroso. Se Dominga podia levantar zombis como esses, dava-me cem voltas.

Eu tenho que deixar acontecer três dias antes de levantar um cadáver, para que a alma tenha tempo de partir. A alma está acostumada ficar uns três dias perto do corpo, e enquanto segue presente não posso levantar uma mierda. Há quem diz que se os reanimadores levantassem os corpos com a alma intacta, estariam-nos ressuscitando. Já sabem, ressurreições de verdade da boa, como o que fez Jesus com o Lázaro. Eu não acabava de me tragar isso ou pode que fora consciente de minhas limitações.

Ao olhar a aquela zombi dava conta de que era distinta: seguia tendo alma, e a outra, também. Como? pode-se saber como cojones o tinha conseguido?

-A alma. Os corpos conservam a alma.

-Muito bem, garota.

Coloquei a sua esquerda, sem perder de vista ao Enzo.

-Como o tem feito?

-Capturando-a no momento em que pretendia sair.

-Isso não é explicação de nada -pinjente sacudindo a cabeça.

-Não sabe capturar almas em uma garrafa?

Almas engarrafadas? Estava de brincadeira? Mais quisesse.

-Não -respondi tentando não soar condescendente.

-Poderia te ensinar tantas coisas, Anita, tantas coisas...

-Não, obrigado -resolvi-. Assim capturou as almas, reanimou os corpos e lhes voltou a colocar a alma. -Era uma conjetura, mas soava verossímil.

-Muito, muito bem. Isso, exatamente. -Olhava-me com tanta intensidade que me fazia sentir incômoda; era como se me estivesse memorizando com seus olhos negros e vazios.

-Mas por que se está apodrecendo uma delas? Não se supõe que a alma impede a deterioração?

-Não é nenhuma hipótese; tenho provas.

Girei-me para o cadáver putrefato, que de novo me devolveu o olhar.

-Nesse caso, por que uma se está apodrecendo e a outra não? -Parecíamos dois nigromantes falando de batalho: "Então, você prefere levantar seus zombis com lua nova?".

-Posso colocar a alma no corpo e tirá-la sempre que quiser.

Aquilo sim que me deixou transpuesta, e me custou o meu impedir que a repugnância me deixasse também boquiaberta. A Dominga teria encantado ver que estava horrorizada, e não estava disposta a lhe dar a satisfação.

-A ver se o entendo -disse com meu melhor tom de profissional-. Colocou a alma no corpo, e não se apodreceu. Depois a tirou, para convertê-la em um zombi normal, e se apodreceu.

-Exatamente.

-E depois voltou a colocar a alma no corpo putrefato, e a zombi recuperou a consciencia e voltou para a vida. deteve-se a putrefação quando voltou a alma?

-Sim.

Mierda.

-Assim pode conservar essa zombi, nesse estado, todo o tempo que queira?

-Sim.

Mierda ao quadrado.

-E essa outra? -Assinalei como se estivéssemos em classe.

-Há quem pagaria uma fortuna por ela.

-Um momento. Fala de vendê-la como pulseira sexual?

-Pode.

-Mas... -A idéia era muito aterradora. Era uma zombi, o que significava que não precisava comer, dormir nem nada. podia-se deixar guardada no armário, como um brinquedo. Uma pulseira perfeitamente total-. São tão obedientes como os zombis normais, ou a alma lhes dá livre-arbítrio?

-Parecem ser muito obedientes.

-Possivelmente só lhe tenham medo -pinjente.

-Possivelmente -respondeu com um sorriso.

-Não pode manter a alma aprisionada indefinidamente.

-Ah, não posso?

-A alma deve seguir seu caminho.

-Para ir a esse céu ou a esse inferno que têm os cristãos?

-Sim -pinjente.

-Essas mulheres não eram nenhuma santas, garota. Entregaram-me isso seus próprios parentes, e pagaram para que as castigasse.

-cobrou por isso?

-Está proibido trastear com um cadáver sem permissão de sua família -disse.

Não sei se Dominga tinha intenção de me espantar; pode que não. Mas com uma só frase me tinha deixado claro que o que fazia era perfeitamente legal. Os mortos não tinham direitos, e as coisas como aquela faziam necessária uma legislação que protegesse aos zombis. Mierda.

-Ninguém merece acontecê-la eternidade encerrado em um cadáver -pinjente.

-poderia-se fazer com os condenados a morte, para que emprestassem um serviço à sociedade depois de morrer.

-Não. -Sacudi a cabeça-. Não, é imoral.

-criei zombis que não apodrecem. Os reanimadores, acredito que lhes chamam, levam anos detrás desse segredo. Eu o tenho descoberto, e seguro que poderei lhe tirar partido.

-É imoral. Pode que não conheça bem o vodu, mas acredito que nem sequer os seus admitiriam nada semelhante. Desde quando se pode manter uma alma em cautividad e não lhe permitir que se reúna com o louva?

Dominga se encolheu de ombros. De repente parecia cansada.

-Tinha a esperança de que me ajudasse. Juntas poderíamos levantar mais zombis muito mais depressa, e não imagina a quantidade de dinheiro que poderíamos ganhar.

-bateu na porta equivocada.

-Já vejo. Eu acreditava que como não é vodun note pareceria mau.

-Daria igual a o dissesse a um cristão, a um budista, a um muçulmano ou a quem lhe ocorra. Não lhe pareceria bem a ninguém.

-Talvez sim, talvez não. Por provar...

-Pelo menos, acabe com o sofrimento de seu primeiro experimento -pinjente olhando ao zombi putrefato.

-É uma amostra muito convincente, não crie? -replicou seguindo meu olhar.

-criou um zombi que não se apodrece. Vale. O resto é crueldade.

-Pareço-te cruel?

-Sim -pinjente.

-Manuel, te pareço cruel?

Manny me olhou enquanto respondia. Tentava me dizer algo, mas não soube o que.

-Sim, senhora. É uma crueldade.

-De verdade crie que sou cruel, Manuel? -perguntou Dominga voltando-se para ele. Sua cara e seus movimentos denotavam surpresa-. Eu, seu adorada amante?

-Sim -respondeu assentindo lentamente.

-Não te dava tanta pressa em me julgar faz uns anos, Manuel. mais de uma vez te encarregou de me sacrificar cabras brancas.

Voltei-me para o Manny. Foi como nos filmes, quando o protagonista tem uma revelação sobre outro personagem. Quando alguém descobre que um de seus melhores amigos participou de sacrifícios humanos deveria soar música e haver uma mudança de enquadramento. mais de uma vez, além disso. mais de uma vez.

-Manny? -Só consegui emitir um sussurro rouco. Para mim, aquilo era pior que o das zombis. Lá os desconhecidos com sua consciência; tratava-se do Manny, e não podia ser verdade-. Manny? -Fugiu meu olhar. Mau sinal.

-Não sabia, garota? Manny não te tinha falado de seu passado?

-Cale-se -pinjente.

-Era meu ajudante mais valioso. Faria algo por mim.

-Que se cale! -gritei. deteve-se, com as facções contraídas pela ira, e Enzo deu dois passos para o altar-. Basta. -Não sabia muito bem a quem o dizia-. Quero que o ele diga, não você.

Dominga seguia encolerizada, e Enzo se elevava sobre mim como uma avalanche a ponto de desencadear-se. A mulher lhe fez um gesto com a cabeça.

-Então pregúntaselo -disse-me.

-É verdade, Manny? Realizou sacrifícios humanos? -Seguia falando com normalidade, mas não sei como. Tinha o coração em um punho; tanto que me doía. Já não tinha medo, ao menos da Dominga. Tinha medo da verdade.

Manny levantou a cabeça, e o cabelo lhe caiu pela cara, lhe emoldurando uns olhos compungidos. Quase comovedor.

-É verdade, não? -Estava geada-. Me responda, joder -insisti com voz normal, tranqüila.

-Sim.

-Sim, o que? Realizou sacrifícios humanos?

Por fim me olhou. A ira o ajudava a enfrentar-se a meu olhar.

-Sim, sim!

-meu deus, Manny. -Fui eu quem apartou a vista-. Como pôde? -disse com um fio de voz, menos tranqüila que antes. Se não fora porque sei que é impossível, diria que estava ao bordo das lágrimas.

-Foi faz quase vinte anos, Anita. Era vodun e nigromante. Era muito devoto e adorava à senhora, ou isso acreditava.

Olhei-o. Sua expressão fez que me formasse um nó na garganta.

-Joder, Manny.

Não disse nada; ficou ali, com ar abatido. Não sabia como associar a imagem do Manny Rodríguez a de um homem capaz de sacrificar a cabra sem chifres. Ele era quem me tinha ajudado a ter clara a diferença entre o bem e o mal em meu trabalho, e se tinha negado a fazer muitas coisas que não eram nem a metade de terríveis que aquela. Não tinha nem pés nem cabeça.

-Agora não posso com isso -ouvi-me dizer em voz alta, embora não tinha sido minha intenção-. Muito bem, já soltou a bomba, senhora Salvador. Há dito que nos ajudaria, e submeti a sua prova, não? -Em caso de dúvida, melhor confrontar os desastres um a um.

-Queria te oferecer a oportunidade de me ajudar em meu novo negócio.

-As duas sabemos que não estou disposta -pinjente.

-É uma pena, Anita. Com um pouco de treinamento poderia ter tanto poder como eu.

De major queria ser como ela? Nem louca.

-Obrigado, mas estou muito bem como estou.

-De verdade? -perguntou-me depois de olhar ao Manny de reojo.

-Isso já o arrumaremos entre nós, senhora. Agora, quer me ajudar?

-Se te ajudar sem pedir nada em troca, ficará em dívida comigo.

-Prefiro intercambiar informação. -Não queria lhe dever favores.

-Crie que sabe algo que valha tanto como o esforço que me custará procurar a seu zombi assassino?

Meditei durante um momento.

-Sei que se está preparando uma legislação sobre os zombis, e logo terão direitos, e leis que os protejam. -Esperava que fora logo; tampouco era necessário lhe explicar que o projeto estava ainda em mantilhas.

-Assim terei que me dar pressa para vender os zombis que não apodrecem, porque logo será ilegal.

-Duvido que isso a incomode muito. O sacrifício humano também é ilegal.

-Já não faço essas coisas, Anita -disse com um pequeno sorriso-. tornei pelo bom caminho. -Não me traguei isso, e ela sabia. Ampliou o sorriso e acrescentou-: Quando partiu Manuel abandonei as práticas ímpias; como já não tinha que acessar a seus impulsos, converti-me em uma hermanita da caridade. -Sabia que eu não podia demonstrar nada.

-Dei-lhe uma informação muito valiosa. Pensa me ajudar ou não?

-Perguntarei a meus seguidores -disse assentindo, toda indulgente ela-. A ver se algum ouviu falar de seu zombi assassino.

-Nos vai ajudar, Manny? -Dava-me que a sacerdotisa se estava descojonando para seus adentros.

-Se a senhora disser que vai fazer algo, fará-o. Nesse sentido é de confiar.

-Encontrarei a seu assassino se tiver algo que ver com o vodun -disse.

-Vale. -Não lhe dava as obrigado porque me parecia mau. Queria chamá-la zorra e lhe colocar uma bala entre os olhos, mas também teria que me carregar ao Enzo, e como o ia explicar à polícia? Não tinha feito nada ilegal. Mierda-. Suponho que não tem sentido apelar a sua benevolência para que abandone esses planos demenciales de escravizar aos novos zombis melhorados.

-Garota, garota -disse sorridente-, vou ganhar mais dinheiro de que tenha sonhado nunca. Pode te negar a colaborar comigo, mas não me Pode impedir isso

-Eu não estaria tão segura -pinjente.

-O que vais fazer? Ir à polícia? Não infringi nenhuma lei, e só me matando poderia me deter -disse me olhando muito fixamente.

-Não me dê idéias.

-Não a desafie, Anita -disse Manny, colocando-se junto a mim.

Estava mais ou menos zangada com ele, assim a mierda os reparos.

-Deterei-a, senhora Salvador. Custe o que custar.

-Como tenta usar a nigromancia contra mim, será você quem mora.

Eu não tinha nem repajolera de nigromancia. Encolhi-me de ombros.

-Referia a um pouco mais vulgar, como uma bala.

Enzo entrou na zona do altar e se interpôs entre sua chefa e eu. Dominga o deteve.

-Não, Enzo, levantou-se com o pé esquerdo e está um pouco alterada. -Seguia rendo-se de mim com o olhar-. Não sabe nada da magia de verdade, e não pode me fazer danifico. E como se cria moralmente superior, nunca se rebaixaria a cometer um assassinato a sangue frio.

O pior era que tinha razão. Não poderia lhe pegar um tiro se não me ameaçava diretamente. Olhei para as zombis, que esperavam com a paciência dos mortos, embora por debaixo apareciam o medo, a esperança Y... Ah, mierda, a fronteira entre a vida e a morte se voltava cada vez mais imprecisa.

-Pelo menos ponha a descansar a seu primeiro experimento. Já demonstrou que pode colocar e tirar a alma a seu desejo; não a obrigue a presenciá-lo.

-Mas, Anita, já tenho comprador para ela.

-Virgem Santa! Não quererá dizer... um necrófilo.

-Os que sentem mais atração pela morte que você ou que eu pagariam uma cifra extraordinária por algo assim.

Ao melhor sim que poderia lhe pegar um tiro.

-É você uma filha de puta sem escrúpulos nem o menor sentido da ética.

-E você, garota, tem que aprender a respeitar a seus maiores.

-O respeito terá que ganhar o

-Parece-me, Anita Blake, que deveria entender por que a gente teme a escuridão. Encarregarei-me de que receba muito em breve uma visita em sua janela. Uma noite escura, quando estiver quase dormida em sua cama cômoda e segura, algo maligno entrará em sua habitação. Penso ganhar seu respeito, já que insiste tanto.

Deveria me haver assustado, mas não foi assim. Estava cheia o saco e queria ir a casa.

-Pode ir por aí assustando às pessoas, senhora, mas isso não a fará mais respeitável.

-Já veremos, Anita. me chame quando receber meu presente. Não demorará muito.

-Segue estando disposta a me ajudar a localizar ao zombi assassino?

-Hei dito que vou fazer o e o farei.

-Bem -pinjente-. Podemos ir já?

Dominga fez um gesto ao Enzo para que se situasse a seu lado.

-Certamente. Sal a te refugiar à luz do dia para poder seguir te fazendo a valente.

Dirigi-me ao caminho de verves, acompanhada do Manny. Não nos olhamos; estávamos muito ocupados observando à senhora e seus experimentos. Detive-me assim que pus um pé no corredor. Manny me roçou o braço, como se me tivesse lido a mente e queria me aconselhar que fechasse o pico. Não fiz conta.

-Pode que não seja capaz de assassiná-la a sangue frio, mas se me faz algo, pegarei-lhe um tiro a plena luz do dia.

-As ameaças não lhe servirão de nada, garota -respondeu.

-A ti tampouco, zorra -disse-lhe lhe dedicando um sorriso encantador.

O rosto da Dominga se contraiu de ira, e meu sorriso se aumentou.

-Não o diz a sério, senhora -intercedeu Manny-. Não pensa matá-la.

-Isso é certo, garota? -Sua voz era de uma vez amável e estremecedora.

Olhei ao Manny de reojo, com recriminação. Era uma boa ameaça, e não queria que me danificasse isso com o sentido comum nem com a verdade.

-Hei dito que te pegaria um tiro, não que te mataria, não é certo?

-Assim é.

Manny me agarrou do braço e começou a me arrastar para o corredor. Tinha-me agarrado o braço esquerdo, com o queime ficava livre o direito, o da pistola. Se por acaso as moscas.

Dominga não fez nenhum movimento, mas seus olhos negros me seguiram, irados, até que saímos ao corredor. Manny me arrastou até dobrar a esquina que dava ao lance das portas emparedadas. Escapei, E ficamos nos olhando durante um instante.

-O que há detrás dessas portas? -perguntei-lhe. Não sei. -Me deveu ver a dúvida na cara, porque acrescentou-: Asseguro-lhe isso, Anita, não sei. Faz vinte anos não havia nada disto.

Segui olhando-o, como se isso fora a trocar algo. Teria sido melhor que Dominga Salvador se guardou o segredo do Manny. Teria preferido não conhecê-lo-. Mas temos que sair daqui quanto antes.

A lâmpada que tínhamos em cima se apagou, como se a tivessem sufocado. Os dois olhamos para cima, mas não havia nada que ver. Me pôs a carne de galinha. A lâmpada de diante piscou, e também se apagou.

Manny tinha razão: tínhamos que nos partir quanto antes. Comecei a trotar para a escada, seguida por ele. A porta do cadeado brilhante se agitou, como se o ser que continha tentasse liberar-se. apagou-se outra lâmpada; a escuridão nos pisava nos talões. Quando alcançamos a escada íamos a toda velocidade, e só ficavam duas lâmpadas acesas.

Andávamos pela metade da escada quando ficamos às escuras. O mundo se voltou negro, e fiquei paralisada; resistia a me mover às cegas. Manny me roçou o braço, mas não o via. Poderia me tocar os olhos e não lombriga os dedos. Agarramo-nos da mão com força. Suas mãos não eram muito maiores que as minhas, mas o contato era quente e conhecido, e resultava do mais alentador.

Os rangidos da madeira ressonavam como disparos na escuridão, e o fedor da carne putrefata enchia a escada.

-Mierda! -O eco de minha voz ricocheteou na negrume que nos rodeava, e me arrependi de ter falado.

Algo grande saiu ao corredor, mas era impossível que fora tão grande como soava. O som úmido e viscoso avançava para a escada, ou isso me parecia.

Subi dois degraus a provas e não tive que incentivar ao Manny. Fomos subindo a tropicões, enquanto o som se fez mais rápido. A luz que passava por debaixo da porta era tão intensa que quase fazia danifico. Manny abriu de par em par, e os raios de sol nos cegaram momentaneamente.

detrás de nós, algo gritou quando o alcançou a luz. Foi um grito quase humano. Comecei a me voltar para olhar, mas Manny fechou de uma portada e negou com a cabeça.

-Não quer vê-lo, e eu tampouco.

Tinha razão. Mas então, por que sentia o impulso de abrir a porta e escrutinar a escuridão para contemplar uma massa pálida e relatório, uma visão de pesadelo? Fiquei olhando a porta fechada e o deixei estar.

-Crie que nos vai seguir? -perguntei.

-À luz do dia?

-Sim.

-Sentiria saudades, mas será melhor que não fiquemos averiguando-o.

Pareceu-me bem. O sol de agosto, quente e real, banhava o salão. O grito, a escuridão, os zombis... Todo aquilo parecia desconjurado sob o sol. Não acabava de me fazer à idéia de que houvesse monstros cambaleando-se por aí de boa manhã.

Abri a porta mosquiteira com calma e parcimônia, Aterrorizada eu? Ja. Mas aguçava tanto o ouvido que podia escutar minha própria circulação. Isso sim, sons que indicassem que nos seguia algo viscoso não captei nenhum.

Antonio seguia montando guarda no alpendre. Deveríamos advertir o da possibilidade de que uma criatura lovecraftiana saísse detrás de nós?

-Atiraste a zombi de abaixo? -perguntou Antonio. Não parecia necessitar advertência.

Manny fez ouvidos surdos ao comentário.

-Que lhe dêem -disse eu.

-Né! -protestou.

Continuei caminhando e baixei os degraus do alpendre. Manny seguia a meu lado, e Antonio não tirou a pistola para atar-se a tiros. O dia melhorava por momentos.

A menina do triciclo estava junto ao carro do Manny, e me olhou quando abri a porta do acompanhante. Estava muito moréia, e não acredito que tivesse mais de cinco anos. Devolvi o olhar de seus grandes olhos marrons.

Manny se sentou no assento do condutor, pôs o motor em marcha e nos partimos dali. A menina e eu seguimos nos olhando. Justo antes de que torcêssemos por uma travessa, começou a pedalar de novo pela calçada.

O ar condicionado alagou o carro rapidamente enquanto Manny conduzia. Naquelas ruas residenciais, quase todos os acessos das casas estavam vazios: a gente já tinha saído a trabalhar. Em alguns jardins havia meninos jogando, e de vez em quando se via uma mãe que os vigiava do alpendre, mas não vi nenhum pai. As coisas trocam, mas nem tanto. Um silêncio incômodo se interpunha entre nós.

Manny me olhou furtivamente pela extremidade do olho, e me apertei contra o assento do acompanhante. O cinturão me passava justo por cima da pistola.

-Bom -pinjente-, assim fez sacrifícios humanos.

Acredito que se encolheu.

-Quer que minta?

-Não, o que quero é não sabê-lo, viver feliz e ignorante.

-As coisas não funcionam assim, Anita.

-Suponho. -Ajustei o cinturão para deixar de me cravar a pistola. Que alívio. Se tudo tivesse tão fácil acerto...-. O que vamos fazer?

-Agora que sabe? -Olhou-me ao perguntá-lo, e eu assenti-. Não pensa me soltar um sermão e me chamar de tudo?

-Não acredito que sirva de grande coisa.

-Obrigado -disse, e essa vez me sustentou o olhar um pouco mais.

-Não hei dito que me dê igual, mas sim não penso me pôr a destrambelhar, pelo menos agora.

Adiantou a um grande carro branco cheio de adolescentes de pele cítrica. Levavam a música tão alta que até me tremeram as demola. O condutor tinha uma dessas caras plainas de maçãs do rosto marcados que pareciam saídas de um relevo asteca. Nossos olhos se cruzaram, e me lançou um beijo. Outros lhe riram a graça, e tive que resistir a tentação de lhe fazer um pente de prender cabelo; não terá que respirá-los.

Eles giraram à direita e nós seguimos reto. Menos mal.

Manny se deteve em um semáforo, detrás de dois carros. No cruzamento agarraríamos a 40 em direção oeste, e dali, a 270 até o Olive Alameda, onde torceríamos para agarrar o caminho de minha casa. Tínhamos três quartos de hora de viagem por diante. Normalmente não seria grave, mas naquele momento não gostava de estar com o Manny; necessitava um tempo para digerir as coisas, para decidir como me sentir.

-Por favor, Anita, me diga algo.

-A verdade é que não sei o que dizer. -Já. A verdade, isso que se supõe que se dizem os amigos-. Faz quatro anos que te conheço, cerâmica um bom tipo, um bom pai e um bom marido. Salvaste-me a vida, salvei-te a vida... Acreditava que te conhecia.

-Sigo sendo o mesmo.

-Ah, sim. -Olhei-o enquanto falava-. Manny Rodríguez, que nunca, em nenhuma circunstância, tomaria parte em um sacrifício humano.

-Disso faz vinte anos.

-O assassinato não prescreve.

-vais ir à polícia? -perguntou em voz muito baixa.

O semáforo ficou verde, e nos internamos no tráfico da manhã. Era tão denso como pode sê-lo em São Louis; não é que os carros fiquem parados, como em Los Angeles, mas me põe dos nervos avançar a tropicões. E aquela manhã, mais que nunca.

-A única prova que tenho é a palavra da Dominga Salvador, e eu não a consideraria uma testemunha muito confiável.

-E se pudesse demonstrá-lo?

-Não me dê mais corda. -Olhei pelo guichê. Íamos ao lado de um Miada prateado com a capota baixada, conduzido por um homem de cabelo grisalho que levava uma boina chamativa e umas luvas de carreiras. Ah, a crise dos quarenta-. Sabe Rosita?

-Suspeita-o, mas não está segura.

-Será que não quer sabê-lo.

-Provavelmente.

Girou a cabeça para me olhar, mas tínhamos um caminhão vermelho quase diante.

-Manny! -gritei a tempo para que freasse. Se não fora pelo cinturão, me teria tragado o salpicadero-. Por favor, conduz com cuidado.

concentrou-se no tráfico durante um segundo aproximadamente.

-O vais contar? -perguntou-me sem me olhar.

Sacudi a cabeça, mas me dava conta de que não me via.

-Acredito que não. Algo assim é melhor não sabê-lo, e não acredito que a pobre o suportasse.

-Deixaria-me e se levaria os meninos. -Não exagerava: Rosita era muito religiosa e se tomava muito a sério os mandamentos-. Já considera que ponho em perigo minha alma imortal por levantar mortos...

-Não tinha nenhum problema até que a Batata ameaçou excomungando aos reanimadores se não deixavam o trabalho.

-A Igreja é muito importante para a Rosita.

-E para mim, mas agora sou episcopaliana. Converti-me.

-Não é tão fácil -disse Manny.

Não o era, e sabia, mas cada qual tem que fazer o que tem que fazer.

-Pode me explicar por que fez sacrifícios humanos? Quero dizer, me pode dizer isso de forma que o entenda?

-Não -disse enquanto trocava ao sulco da esquerda, que parecia avançar um pouco mais depressa. Os carros deceleraron no ato; a lei do Murphy também se aplica ao tráfico.

-Nem sequer vais tentar o?

-Não há desculpa que valha. Tenho que carregar com isso; não fica outra.

Razão não lhe faltava.

-Isto trocará minha opinião sobre ti.

-Em que sentido?

-Ainda não sei. -Era verdade. Se tomávamos cuidado, podíamos seguir sendo sinceros-. Há algo mais que cria que deveria saber? Algo que possa soltar Dominga mais adiante?

-Nada que seja pior -respondeu sacudindo a cabeça.

-De acordo -pinjente.

-De acordo -repetiu-. Isso é tudo? Não pensa acribillarme a perguntas?

-Agora não, e pode que nunca. -De repente me dava conta de que parecia pó. Eram as nove e vinte e três da manhã, e já necessitava uma sesta. Esgotamento emocional-. Não sei o que opinará você, Manny, mas eu não tenho muito claro se isto afetará a nossa amizade e a nossa relação trabalhista, e ainda menos quanto ou como. Imagino que sim. Ah, mierda, eu o que sei.

-Vale. por que não falamos de algo menos complicado?

-Por exemplo?

-Te vai entrar pela janela um regalito da senhora, tal como há dito.

-Já imagino.

-por que a ameaçaste?

-Porque não a gole.

-Ah, cojonudo. Verdadeiramente cojonudo. Como não me terá ocorrido.

-Tenho a sã intenção de lhe parar os pés, assim que me pareceu adequado dizer-lhe

__Não te ensinei que alguma vez deve lhe ceder a iniciativa ao mau?

-Também me ensinou que os sacrifícios humanos são assassinatos.

-Isso foi um golpe baixo.

-Não sabe você bem.

-Terá que te manter em guarda. Enviará-te algo, embora não acredito que tente te fazer danifico; suponho que se conformará te assustando.

-Porque me tem feito confessar que não penso matá-la.

-Não, porque ela não acredita que pense matá-la. Está intrigada com seus poderes, e acredito que em lugar de acabar contigo, tentará te convencer.

-E me pôr a produzir em sua fábrica de zombis.

-Sim.

-Nem farta de vinho.

-A senhora não está acostumada a que lhe digam que não, Anita.

-É seu problema.

Manny me olhou de esguelha e voltou a concentrar-se no tráfico.

-Conseguirá convertê-lo no teu.

-O que lhe vamos fazer.

-Não deveria te confiar tanto.

-Não estou tão confiada, mas o que quer que faça? me jogar a chorar? Já verei o que faço se alguma asquerosidade me penetra pela janela.

-Não pode te enfrentar a ela. Nem imagina quão poderosa é.

-Assustou-me, e estou adequadamente impressionada. Se vir que não posso com o que me mande, sairei por patas. De acordo?

-Disso nada. Não sabe o que diz. Simplesmente, não tem nem a menor ideia.

-ouvi a coisa do corredor, e a cheirei. Claro que tenho medo, mas Dominga segue sendo humano, e seus poderes não a fazem imune às balas.

-Uma bala poderia matá-la, mas não detê-la.

-O que quer dizer?

-Se por exemplo, recebesse um tiro na cabeça ou no coração, e Parecesse morta, eu lhe faria quão mesmo aos vampiros: decapitá-la, lhe tirar o coração e queimar o cadáver.

Me olhou de esguelha. Não disse nada. Estávamos falando de matar a Dominga Salvador, uma mulher que se dedicava a capturar almas e as colocar em cadáveres. Era espantoso. E muito provavelmente, ela seria primeira em atacar; já me tinha prometido um regalito sobrenatural. Era um mau inseto e se dispunha a me atacar. lhe tender uma emboscada seria um assassinato? Sim. Faria-o de todas formas? Meditei-o durante um momento, lhe dando voltas, saboreando a idéia. Sim, poderia fazê-lo.

Deveria me haver sentido mal por ser capaz de planejar um assassinato, fora pelo motivo que fora, sem me alterar. Mas não me senti mau. Em certo modo me aliviava saber que se ela se passava da raia, eu também podia. Quem era eu para atirar a primeira pedra ao Manny por crímenes cometidos fazia vinte anos? Pergunto-me.

Era primeira hora da tarde. Manny me tinha deixado em casa sem dizer uma palavra; não me tinha perguntado se podia subir, e eu não o havia convidado. Seguia sem saber o que pensar dele, nem da Dominga Salvador, nem dos zombis com alma que não apodrecem. Decidi não pensar; o que precisava era fazer exercício. E olhe que sorte: tocava-me classe de judô.

Sou cinturão negro, coisa que sonha muito mais impressionante do que é em realidade. Não me desembrulho mal em um dojo com árbitros e regras, mas no mundo real, onde a maioria dos maus me tira cinqüenta quilogramas, confio mais em uma boa pistola.

Estava a ponto de abrir a porta quando soou o timbre. Deixei a um lado a avultada bolsa do ginásio e me pus nas pontas dos pés para jogar uma olhada.

Vi pela mira a imagem distorcida de um homem loiro de olhos claros que me soava vagamente. Era Tommy, o fornido gorila do Harold Gaynor. O dia não parava de melhorar.

Ia a classe pelas tardes, quer dizer, de dia, ao menos no verão. E como as coisas perigosas de verdade não saem até o anoitecer, não estava acostumado a levar pistola. Pu-me a pistolera de cintura e me tirei o pólo vermelho por cima das calças. A 9 mm de bolso se notava um pouco; se tivesse sabido que a necessitaria, me teria posto uns jeans mais folgados.

O timbre voltou a soar. Eu não me tinha incomodado em lhe dizer nada, mas a falta de resposta não pareceu desanimá-lo. Chamou pela terceira vez, e o dedo ficou pego ao timbre.

Respirei profundamente, abri a porta e olhei os olhos azul claro do Tommy. Seguiam vazios, mortos, perfeitamente inexpressivos. nasce-se com um olhar assim ou terá que praticar?

-O que quer? -perguntei-lhe.

-Não vais convidar me a passar? -perguntou torcendo o gesto.

-Não acredito.

Encolheu seus impressionantes ombros, e as correias da capa de sovaco lhe marcaram na jaqueta. Tinha que trocar de alfaiate.

A minha esquerda se abriu uma porta. Saiu uma mulher com um menino em braços, e nos viu quando deu a volta depois de fechar.

-Ah, olá -disse com um amplo sorriso.

-Olá -respondi.

Tommy saudou com um gesto. A mulher se voltou e se dirigiu à escada, lhe soltando grititos incongruentes ao menino.

-De verdade quer que façamos isto no patamar? -perguntou o guarda-costas.

-Estamos fazendo algo?

-Negócios. Dinheiro.

Olhei-o à cara, mas não tirei nada em claro. Consolei-me pensando que se Tommy tivesse pretendido me fazer danifico, provavelmente não se teria apresentado em minha casa. Provavelmente.

Retrocedi uns passos para abrir do todo a porta e tentar me manter fora de seu alcance enquanto ele entrava.

-Que limpo e recolhido -disse olhando a seu redor.

-Tenho criada. me diga o que quer, que tenho que sair.

-Trabalho ou prazer? -perguntou assinalando a bolsa de ginástica.

-Não é teu assunto.

Voltou a torcer o gesto, e me dava conta de que aquilo era sua versão de um sorriso.

-No carro tenho uma maleta cheia de dinheiro -disse-. Um milhão e médio. A metade agora e a outra metade quando levantar o zombi.

-Já dava minha resposta ao Gaynor -pinjente negando com a cabeça.

-Mas isso foi diante de seu chefe, e isto fica entre você e eu. Se aceitar, não se inteirará ninguém.

-Se me neguei não foi porque houvesse testemunhas, mas sim porque estou contra os sacrifícios humanos. -Senti que me formava um sorriso. Aquilo era ridículo. Então pensei no Manny. Bom, pode que não fora ridículo, mas não estava disposta a fazê-lo.

-Todo mundo tem seu preço. Qual é o teu? Seguro que podemos pagá-lo.

Não tinha mencionado ao Gaynor; eu tinha sido a única. O amigo Tommy era muito precavido, muito.

-Eu não tenho preço. Volta e explícaselo ao Harold Gaynor.

Seu rosto se escureceu, e lhe marcou uma ruga entre os olhos.

-Não sei a quem te refere.

-Deixa de panaquices, que não levo micro.

-Fixa você o preço, e o pagaremos.

-Que não há preço.

-Dois milhões livre de impostos -disse.

-Que zombi poderia valer dois milhões de dólares, Tommy? -perguntei a seu cenho franzido-. Que espera conseguir Gaynor para que saia a conta um investimento assim?

-Isso não precisa sabê-lo. -Tommy me olhava muito fixamente.

-Me imaginava. te largue, que não estou em venda.

Dava um passo atrás, para a porta, com intenção de acompanhá-lo, mas de repente saltou para diante, mais depressa do que parecia capaz, com os braços estendidos para me agarrar.

Tirei a Firestar e o apontei ao peito. deteve-se no ato, piscando com seus olhos vácuos. Seus manazas se converteram em punhos, e um rubor purpúreo lhe subiu pelo pescoço para a cara. Cólera.

-Nem te ocorra -disse-lhe sem levantar a voz.

-Zorra -cuspiu.

-Venha, Tommy, não te zangue. Mantén a calma, e os dois viveremos para ver outro precioso dia.

-Não te faria a valente se não tivesse isso. -Seus olhos apenas se desviaram um instante da pistola para me olhar.

Se pretendia que lhe propor um combate a murros, ia se levar uma decepção.

-Retrocede ou acabo contigo aqui mesmo, e nem todos os músculos do mundo lhe servirão de nada.

Algo pareceu agitar-se atrás de seus olhos mortos, e seu corpo se relaxou por completo. Respirou a fundo.

-De acordo, hoje te sai com a tua, mas se segue lhe causando desgostos a meu chefe, algum dia te pilharei sem pistola, e então veremos como é de dura.

Uma vocecita me dizia que lhe pegasse um tiro no ato. Tinha sabor de ciência certa que meu querido Tommy voltaria a me dar a vara, e não me fazia nenhuma graça, mas... Não me podia carregar isso só pela possibilidade de que voltasse para por mim; não bastava como motivo. Além disso, como o teria explicado à polícia?

-te largue, Tommy. -Abri a porta sem apartar a vista nem a pistola dele-. Te largue e lhe diga ao Gaynor que se segue me buscando as cócegas começarei a lhe devolver os guarda-costas em caixas de pinheiro.

As aletas do nariz do Tommy se abriram um pouco em resposta, e lhe incharam as veias do pescoço. Saiu ao patamar, e segui olhando-o, pistola em mão, até que desapareceu pela escada. Quando deixei de ouvir seus passos e supus que se partiu, embainhei a pistola, agarrei a bolsa do ginásio e saí para ir a judô. Não ia permitir que as interrupções me transtornassem o programa de exercícios; já me ia saltar a classe do dia seguinte por um enterro. Além disso, convinha-me me manter a tom, se por acaso Tommy conseguia chegar às mãos.

Odiou os enterros. Pelo menos, aquele não era de ninguém que me caísse especialmente bem em vida. Triste mas certo. Em vida, Peter Burke tinha sido um filho da maior puta, e não ia canonizar o só porque a houvesse palmado. Nunca entendi que a morte, sobre tudo se for violenta, possa converter aos bodes mais abjetos em muito belos pessoas.

E aí estava eu, a pleno sol de agosto, com meu vestidito negro e meus óculos escuros, contemplando aos enfermos. Tinham colocado um dossel sobre o ataúde, e havia flores, e cadeiras para os familiares. Perguntarão-lhes o que pintava eu ali, se me levava tão mal com o morto. O caso é que Peter Burke tinha sido reanimador. E não é que fora muito bom, mas como formamos um grupito reduzido e gregário, quando morre um, outros vão ao enterro. É uma regra sem mais exceção que a própria morte... Ou, tendo em conta a que nos dedicamos, pode que nem isso.

podem tomar medidas para evitar que um cadáver retorne em forma de vampiro. Mas os zombis são algo muito distinto, e só a incineração pode impedir que um reanimador os levante. O fogo é virtualmente quão único temem e respeitam os zombis.

Podíamos ter reanimado ao Peter para lhe perguntar quem lhe tinha pego um tiro, mas o tiro em questão tinha sido justo detrás da orelha... com uma bala explosiva de uma Magnum 357. Não se poderia encher uma caixa de fósforos com o que ficava de sua cabeça. Era possível levantá-lo, sim, mas não que falasse: até os zombis necessitam boca.

Manny estava a meu lado, e parecia incômodo com seu traje escuro. Rosita, sua mulher, estava muito erguida, com suas fortes mãos moréias obstinadas a uma bolsa de verniz negro. Minha madrasta a teria definido como uma mulher larga de ossos. A permanente, com o cabelo negro talhado por debaixo das orelhas, não lhe favorecia; deveria haver o deixado mais largo, para emoldurar o círculo perfeito de sua cara.

Charles Montgomery se abatia detrás de mim como uma montanha escura. Tem pinta de jogador de futebol americano, e quando franze o cenho, às pessoas lhe entram vontades de sair correndo. Parecerá um menino duro... mas já lhe custa o seu não deprimir-se com o sangue dos animais. E menos mal que tem pinta de negro temível, porque sua tolerância ao sofrimento é quase inexistente: chora com os filmes do Walt Disney e ainda não superou a morte da mãe do Bambi. Que tenro.

Caroline, sua mulher, estava no trabalho. Não tinha conseguido te trocar o turno a ninguém, mas ou seja se o tinha tentado. Não é má garota, mas nos olhe um pouco daquela maneira porque nos dedicamos por volta dos abracadabras. É enfermeira e se passa o dia rodeada de médicos, assim para ressarcir-se precisará olhar a alguém por cima do ombro.

Ao outro lado do ataúde, quase diante de tudo, estava Jamison Clarke, um homem alto e magro, e o único negro ruivo e de olhos verdes que conheci na vida. Fez-me um gesto de saudação, e o devolvi.

Todos os reanimadores do Reanimators, Inc. tínhamos assistido. Bert e Mary, nossa secretária de dia, ficaram-se nos escritórios. Só esperava que Bert não aceitasse nenhum trabalho que não pudéssemos ou não queríamos fazer; era um perigo não o ter vigiado.

O sol me castigava as costas como uma mão de ferro candente. Os homens não deixavam de toquetear-se a gravata. O aroma enjoativo dos cravos me saturava a garganta. Não é freqüente ver Ramos de cravos nas casas. As margaridas, as rosas e as açucenas têm usos mais alegres, mas os cravos e os gladíolos são flores de cemitério. Pelo menos, os largos caules de gladíolos não têm aroma.

Sob o dossel, na primeira fila de poltronas, havia uma mulher enfraquecida como uma boneca rota. Seus soluços eram tão estridentes que afogavam as palavras do padre. Eu estava atrás e logo que distinguia um murmúrio compassado.

Havia dois meninos agarrados da mão de um ancião. Seria seu avô? Estavam pálidos e ojerosos, e sua expressão denotava um conflito entre o medo e a tristeza. Sua mãe se desmoronou e não lhes servia de ajuda. Estava tão concentrada em sua dor que não pensava no de seus filhos, como se só sofresse ela. E que mais.

Eu tinha oito anos quando morreu minha mãe, e nunca tinha conseguido encher o vazio. Era uma dor que não desaparecia nunca, como se me tivesse ficado incompleta. aprende-se a suportá-lo e seguir adiante, mas continua aí.

Havia um homem sentado junto a ela, lhe acariciando as costas em círculos intermináveis. Tinha o cabelo curto e escuro, quase negro, muito cuidado, e era largo de ombros. de longe guardava um estranho parecido com o Peter Burke. Fantasmas à luz do sol.

O cemitério tinha muitas árvores, que arrojavam sombras cinzentas. Ao outro lado do caminho de cascalho havia dois homens que esperavam em silêncio: os coveiros. Tinham que terminar seu trabalho.

Olhei o ataúde e seu manto de cravos rosa. A um lado havia um montículo coberto pelo verde gritão da erva falsa. Era a terra que acabavam de tirar e que voltariam a jogar ao buraco.

Não se deve permitir que os enfermos vejam a terra argilosa que cairá sobre o ataúde lustroso. Pazadas de terra que ocultam a madeira e cobrem ao marido, ao pai, apanhando-o para sempre em uma caixa revestida de chumbo. Um bom ataúde impede o passado da água e os vermes, mas não detém a putrefação. Por muito que o cadáver do Peter Burke estivesse rodeado de raso, embora lhe tivessem posto gravata e o tivessem polido, seguia sendo um cadáver.

O final do enterro me pilhou distraída. A gente, aliviada, levantou-se o uníssono, e o homem de cabelo negro ajudou à desconsolada viúva a incorporar-se. Esteve a ponto de cair de bruces, e outro homem correu em sua ajuda. A mulher se cambaleou entre eles, arrastando os pés.

Voltou a cabeça, desajeitada, para olhar atrás, soltou um grito estremecedor e se equilibrou sobre o ataúde. Esmagou as flores e ficou a arranhar a madeira, procurando os fechamentos que mantinham a tampa em seu sítio.

Todos ficamos olhando aniquilados. Os dois meninos tinham os olhos muito abertos. Mierda.

-Que alguém a detenha -pinjente subindo muito a voz. A gente me olhou, mas me deu igual.

Abri-me passo a empurrões entre os assistentes que se desagregavam e as fileiras de cadeiras. O homem de cabelo negro tinha sujeito à mulher pelas mãos, e ela gritava e lutava no chão. O vestido negro lhe tinha subido até as coxas.

Levava uma combinação branca. O rímel lhe tinha deslocado por toda a cara como se fora sangre negra.

Plantei-me diante do homem que levava aos dois meninos. Estava paralisado olhando à mulher.

-Desculpe -pinjente. Não reagiu-. Desculpe. -Piscou e me olhou como se acabasse de aparecer ante ele-. Não seria melhor que os meninos não vissem isto?

-É minha filha -disse. Tinha a voz pastosa. Estaria colocado, ou era só pela angústia?

-Tem minhas condolências, mas deveria levar-se aos meninos ao carro. -A viúva tinha começado a soltar alaridos inarticulados. A menina estava tremendo-. Essa será sua filha, mas também tem que pensar em seus netos. Seja um bom avô e tire os daqui.

-Como se atreve? -A cólera lhe acendeu os olhos. Não parecia disposto a me escutar; sua dor não aceitava intromissões. O menino, o major, que teria uns cinco anos, olhava-me com uns olhos marrons enormes. Estava pálido como um fantasma-. Acredito que é você quem deveria ir-se.

-Tem razão. Toda a razão.

Rodeei a cena e saí atravessando a erva açoitada pelo calor do verão. Não podia ajudar a aqueles meninos, igual a ninguém me tinha ajudado . Mas eu tinha sobrevivido. E eles também sobreviveriam, provavelmente.

Manny e Rosita me esperavam. A mulher me abraçou.

-Te deves come no domingo depois de missa?

-Temo-me que não posso -respondi com um sorriso-, mas obrigado pelo convite.

-vai vir minha primo Albert. É engenheiro; uma boa partida.

-Não necessito nenhuma boa partida, Rosita.

-Vontades muito dinheiro para ser mulher -respondeu com um suspiro-. Por culpa disso não necessita um homem.

Encolhi-me de ombros. Se algum dia me casava, coisa que começava a duvidar, não seria por dinheiro, mas sim por amor. Mierda, é que esperava que aparecesse o amor de minha vida? Nem de coña.

-Temos que ir procurar a Tomam à creche -disse Manny, aparecendo por detrás de sua mulher com um sorriso de desculpa. Rosita lhe tirava quase trinta centímetros. Também era muito mais alta que eu.

-Saúdem o de minha parte -pinjente.

-Deveria dever comer -insistiu Rosita-. Albert é muito bonito.

-Obrigado por ter pensado em mim, mas acredito que acontecer.

-Vamos -disse Manny-. O menino nos espera.

Rosita se deixou arrastar ao carro, embora a contra gosto. Resultava-lhe ofensivo que eu tivesse vinte e quatro anos e não pensasse no matrimônio. Nisso coincidia com minha madrasta.

Não via o Charles por nenhum lado. Teria tornado correndo ao despacho a ver algum cliente. Ao princípio pensei que Jamison também se teria partido, mas estava me esperando na grama.

Seu traje era impecável: traje cruzado e gravata estreita cor burdeos, com toupeiras escuras, sujeita com um alfinete de ônix e prata. Sorriu-me, e isso era mau sinal.

ao redor de seus olhos esverdeados se estendia o vazio, como se lhe tivessem apagado a cor. Quando se chora um montão, a pele passa do vermelho intenso ao branco translúcido.

-Me alegro de que tenhamos vindo tantos -disse.

-Sei que foram amigos, Jamison. Sinto muito.

Assentiu e baixou a vista. Segui-a e vi que tinha uns óculos de sol entre as mãos. Depois me olhou fixamente, muito sério.

-A polícia não lhe há dito nada à família -comentou-. Pegam- um tiro ao Pete, e seus parentes não têm nem idéia do que passou.

Tinha vontades de lhe dizer que a polícia fazia todo o humanamente possível, porque era a verdade, mas se cometem muitos assassinatos em São Luis ao cabo do ano. Pisávamo-lhe nos talões a Washington DC na carreira pelo título de capital do crime dos Estados Unidos.

-Fazem o que podem, Jamison.

-E por que não nos mantêm informados? -Lhe crisparam as mãos, e ouvi o ruído do plástico ao romper-se. Ele não pareceu dar-se conta.

-Não sei.

-Você tem contatos na polícia. Não poderia tentar inteirar-se de algo?

Seu olhar era sincero, cheia de autêntica dor. Normalmente passava soberanamente do Jamison; a fim de contas, nem sequer me caía bem. Era um paquerador, um presunçoso e um tolerante de mierda que considerava os vampiros pessoas com presas. Mas aquele dia... Aquele dia parecia humano.

-O que quer que pergunte?

-Se fizerem progressos, se tiverem suspeitos... Essas coisas.

Eram perguntas vagas, mas importantes.

-Tentarei averiguar algo.

-Obrigado, Anita -disse emocionado-. Obrigado, de verdade. -Tendeu-me a mão e a aceitei. Então reparou nos óculos de sol roda-. Mierda, noventa e cinco dólares ao lixo.

Gastou-se essa pasta em uns óculos de sol? Tinha que ser uma brincadeira. Um grupo se estava afastando com a família, por fim, com a viúva rodeada de parentes bem-intencionados que a levavam virtualmente a rastros. Os meninos, com seu avô, fechavam a marcha. Ninguém faz caso dos bons conselhos.

Um homem se separou do grupo e nos aproximou. Era o que me tinha recordado ao Peter Burke. Media um e oitenta, aproximadamente, e tinha a pele bronzeada, um bigode negro e uma cavanhaque fina, quase de cabra. Era como um galã misterioso de cinema, mas havia algo em seus movimentos, ou talvez na mecha branca que tinha justo em cima da frente, que convidava a lhe adjudicar o papel de vilão.

-vai ajudar nos? -Sem preâmbulos. Sem saudações.

-Sim -respondeu Jamison-. Anita Blake, John Burke, o irmão do Peter.

Queria lhe perguntar se era o famoso John Burke, minha alma geme-a, o reanimador e matavampiros mais conhecido de Nova Orleans. Estreitamo-nos a mão. Seu apertão era forte, quase doloroso, como se queria comprovar minha reação. Não pigarreei, e me soltou. Igual não se deu conta de que apertava com muita força, mas o duvidava.

-Sinto muito o de seu irmão. -Dizia-o a sério. Alegrava-me de dizê-lo a sério.

-Obrigado por te oferecer a conseguir informação.

-Surpreende-me que não lhe tenha pedido à polícia de Nova Orleans que o pergunte.

-A polícia de Nova Orleans e eu temos certas desavenças. -Teve o detalhe de mostrar-se incômodo.

-De verdade? -perguntei com os olhos como pratos. Estava a par dos rumores, mas queria ouvir a verdade: sempre supera à ficção.

-Acusaram ao John de ter participado de assassinatos rituais -disse Jamison-. Só porque é sacerdote vodun.

-OH. -Vá. Pois era exatamente o que me tinha chegado por radio mochila-. Quanto tempo leva por aqui, John?

-Quase uma semana.

-De verdade?

-Peter levava dois dias desaparecido quando encontraram o... cadáver. -umedeceu-se os lábios, e seus olhos escuros enfocaram algo que havia detrás de mim. Teriam começado a trabalhar os coveiros? Voltei-me para olhar, mas a tumba seguia igual-. Agradeceremo-lhe muitíssimo qualquer ajuda que possa nos emprestar.

-Farei o que possa.

-Tenho que voltar para a casa. -Moveu os ombros para desentorpecer os músculos-. Minha cunhada o tomou muito mal.

Mordi-me a língua. Que maior. Mas havia uma coisa que não podia deixar passar.

-Pode te encarregar de seus sobrinhos? -voltou-se para me olhar com um cenho de perplexidade-. Quero dizer, mantê-los à margem das cenas acidentadas.

-Me tem feito um nó na garganta ao ver que se atirava sobre o ataúde -disse assentindo-. O que terão pensado os meninos?

Lhe alagaram os olhos, mas os manteve muito abertos para evitar que escapassem as lágrimas. Eu não sabia o que dizer. Não queria vê-lo chorar.

-Falarei com a polícia para averiguar o que puder, e quando tiver algo o direi ao Jamison.

John Burke assentiu lentamente. Seus olhos eram como um copo em que só a tensão superficial impede que se derrame a água.

Despedi-me do Jamison, fui ao carro e pus o ar condicionado a batente. Quando arranquei e me afastei, os dois homens seguiam ao sol, em metade da erva tostada.

Falaria com a polícia, a ver se averiguava algo. Mas além disso tinha outro nome para o Dolph: John Burke, o reanimador mais famoso de Nova Orleans, sacerdote vodun. me parecia um bom suspeito.

Quando coloquei a chave na fechadura estava soando o telefone. Gritei "Já vou, já vou", embora a verdade é que não sei por que tenho essa mania. Nem que pudessem me ouvir e esperar.

Abri de par em par e respondi ao quarto timbrazo.

-Sim?

-Anita?

-Olá, Dolph. -Me encolheu o estômago-. O que há?

-Acredito que encontramos ao menino -disse com voz inexpressiva.

-"Acredito"? Como que "acredito"?

-Tenho que lhe soletrar isso Soava cansado.

-Está como seus pais?

-Sim -respondeu, embora o minha não era uma pergunta.

-Virgem Santa. Quanto deixaram?

-Vêem vê-lo. Estamos no cemitério Burrell, conhece-o?

-Claro. trabalhei aí.

-Vêem assim que possa. Eu quero ir a casa e abraçar a minha mulher.

-Bem. Entendo-o. -Falava sozinha, porque Dolph já tinha pendurado. Fiquei olhando o telefone enquanto me passavam os calafrios. Não queria ir ver os restos de Benjamim Reynolds. Não queria saber nada. Enchi-me os pulmões e deixei escapar o ar lentamente.

Baixei o olhar: um vestido, meias negras e sapatos de salto. Não era uma indumentária adequada para a cena de um crime, mas demoraria muito em me trocar. Normalmente era a última a que chamavam, e quando eu terminava, recolhiam os trastes e se foram. Pu-me umas esportivas negras, para caminhar pela erva ensangüentada. Não há quem limpa as manchas de sangue dos sapatos de vestir.

Tinha a Browning Hi-Power, com sua capa e tudo, em cima da bolsa negra. Durante o enterro a tinha deixado no carro, porque não sabia onde escondê-la com o vestido. Já sei que na televisão se vêem muitas pistoleras de coxa, mas lhes diz algo a palavra arranhão?

Duvidei se deveria guardar a pistola de reposto na bolsa, mas decidi que não: como tudas as bolsas, ia equipado com um buraco negro portátil de série, assim seria inútil tentar tirar a arma a tempo.

Sim que levava uma adaga de prata em uma capa de coxa, sob a minissaia. Sentia-me como Kit Carson travestido, mas depois da simpática visita do Tommy não queria sair desarmada; não me fazia iluda em relação ao que aconteceria me pilhava em calcinhas. As armas brancas não são tão eficazes, mas sim melhores que ficar a gritar e espernear.

Ainda não me tinha visto obrigada a tirar rapidamente uma adaga oculta na coxa. Ficaria atirando a obsceno, suponho, mas passar um pouco de corte em troca de seguir com vida sai a conta, não?

 

O cemitério Burrell está no topo de uma colina. Tem algumas tumbas centenárias, com o alabastro liso e ilegível pela erosão, como as piruletas com relevo depois das chupar. A erva cresce indômita, tachonada por lápides que montam guarda com inapetência.

A um lado do cemitério há uma casa, onde vive o guardem, embora não tem grande coisa que guardar: o recinto leva cheio tantos anos que o último morto que enterraram nele poderia nos contar anedotas da Feira Mundial de 1904.

O caminho interior do cemitério desapareceu. Fica seu fantasma: uma franja de terreno onde a erva cresce mais baixa. A casa do guardem estava rodeada de carros de polícia, e também vi a caminhonete do depósito. Minha Nova não dava a talha; igual deveria lhe instalar antenas, ou um pôster que pusesse TELEZOMBI, embora suponha que Bert me montaria um número.

Tirei um macaco do porta-malas e me pus isso. Cobria-me do pescoço até os tornozelos, e como está acostumado a ocorrer, a entrepierna ficava à altura dos joelhos. Nunca entendi por que os fazem assim, mas pelo menos me cabia a saia. Em um princípio me tinha comprado os macacos para matar vampiros, mas o sangue é sangue, e além disso, os hierbajos me teriam deixado as meias feitas pedaço de carvão vegetal. Depois tirei um par de luvas de látex da caixa de cem unidades e, embelezada com minhas sapatilhas esportivas, já estava lista para ver os restos.

Os restos. Que asséptico soa.

Dolph se abatia como um vigia por cima de todos outros. Abri-me passo para ele, tentando não tropeçar com nenhum fragmento de lápide. Um vento tórrido agitou a erva. Estava suando a mares dentro do macaco.

O inspetor Clive Perry me aproximou, como se considerasse que necessitava escolta. Era uma das pessoas mais atentas que conhecia; gotejava uma cortesia mais própria de outros tempos. Era um cavalheiro no melhor sentido da palavra, e sou incapaz de imaginar o que teria feito para acabar na Santa Compaña.

Seu rosto negro e enxuto estava perlado de suor. Seguia com a jaqueta do traje, apesar de que estávamos a quase quarenta graus.

-Boa tarde, senhorita Blake.

-Boa tarde, inspetor Perry. -Olhei para a colina. Dolph e outros homens vagavam por aí, como se não soubessem o que fazer. Ninguém olhava para baixo-. Espera-me algo horripilante, não?

Sacudiu a cabeça.

-Segundo com que vara o MIDAS -respondeu.

-Viu os vídeos e as fotografias de sua casa?

-Sim.

-Isto é pior?

Aquela casa marcava um novo máximo em minha vara de medir. Até então, o mais horripilante que tinha visto era o resultado de que uma banda de vampiros de Los Angeles pretendesse instalar-se em São Luis: nossa respeitável comunidade vampírica os tinha tirado de no meio de machadada limpa, e suas extremidades seguiam arrastando-se por aí quando encontramos os cadáveres. Bem pensado, pode que o da casa dos Reynolds não fora pior. Pode que o tempo tivesse embaciado a outra lembrança.

-Aqui há menos sangue. -Titubeou-. Mas era um menino.

Assenti; não necessitava mais explicações. Não sabia por que, mas sempre era pior quando se tratava de um menino. Possivelmente se devesse ao instinto que nos leva a proteger aos cachorrinhos, ou a algum cilindro hormonal. Fora como fora, os casos com meninos eram assustadores. Fiquei olhando uma lápide branca que parecia de gelo médio fundido. Não queria subir; não queria ver o que houvesse ali acima.

Comecei a subir, seguida pelo inspetor Perry. Que valentes os dois.

Na erva havia um tecido que parecia uma loja de campanha de brinquedo. Dolph estava ao lado. Saudamo-nos, mas ninguém se ofereceu a apartá-la.

-É isto? -perguntei.

-Sim. -Dolph pareceu sacudir-se para armar-se de valor, ou possivelmente fora um estremecimento. agachou-se e agarrou uma esquina-. Preparada?

Não estava preparada. Queria lhe rogar que não me fizesse olhar, mas tinha a boca seca e notava o pulso no pescoço. Assenti.

O lençol se inchou e se deslocou, como uma cometa agitada por uma rajada de vento. Observei que a erva estava pisoteada, o que podia indicar uma resistência. Estaria vivo Benjamin Reynolds quando o arrastaram até ali? Seguro que não. Joder, esperava que não.

Tinham-lhe tirado o pijama, que tinha um estampado de personagens de desenhos animados, como quem descascamento um plátano. Tinha um bracito levantado junto à cabeça, como se estivesse dormindo, e os olhos fechados, de pestanas largas, reforçavam a impressão. Sua pele estava branca e imaculada, e sua boca entreabierta tinha os lábios muito marcados, com forma de coração. Deveria ter tido pior aspecto, muito pior.

A parte do pijama que lhe cobria as pernas tinha uma mancha marrom. Não queria saber como tinha morrido, mas a isso tinha ido. Vacilei, sobrevoando com os dedos o tecido rasgado, e me enchi os pulmões. Crasso engano: estava agachada sobre o cadáver em pleno mês de agosto, e o fedor foi como uma bofetada. Os mortos recentes cheiram a boca-de-lobo, sobre tudo se lhes têm aberto as tripas. Já sabia o que ia ver quando levantasse o pijama ensangüentado; me tinha anunciado isso o aroma.

Fiquei de joelhos uns minutos, me cobrindo o nariz com o braço e respirando lentamente pela boca, mas não serve de nada: quando se capta uma baforada, a pituitária não o esquece. O aroma me tinha encravado, e já não havia forma de dissipá-lo.

Depressa ou devagar? Deveria apartar o objeto de um puxão ou pouco a pouco? Desde uma vez. Dava um puxão, mas o pijama estava pego com sangue coagulado, e ao desprender-se fez um som pringoso.

Era como se o houvessem eviscerado com uma cazoleta gigante de servir gelado: não estavam nem o estômago nem os intestinos. Foi como se a luz do sol me afogasse, e tive que apoiar uma mão no chão para não cair.

Voltei a olhar a cara. Tinha o cabelo castanho claro, como sua mãe, e os cachos úmidos lhe emolduravam as bochechas. Baixei a vista de novo ao destroço do abdômen; do extremo do intestino magro gotejava um líquido denso e escuro.

Separei-me da cena, me sujeitando às lápides para manter o equilíbrio. Me teria ido correndo se tivesse estado segura de que não me ia cair, mas o céu se desabava sobre minha cabeça. Desmoronei-me em metade da erva e vomitei.

Não parei até que não ficou nada, até que o cemitério deixou de girar. Limpei-me a boca com a manga e me incorporei, me apoiando em uma lápide torcida.

Ninguém disse uma palavra quando voltei para o grupo. Tinham abafado o cadáver. O cadáver: tinha que vê-lo assim. Não devia pensar que tinha sido um menino; voltaria-me louca.

-E bem? -perguntou Dolph.

-Não leva muito tempo morto. Joder, foi esta manhã, pode que ao amanhecer. Estava vivo, e essa coisa o... -Elevei a vista e notei que os olhos me enchiam de lágrimas, mas não queria chorar: já tinha feito bastante ridículo por um dia. Respirei profundamente, com precaução, e soltei o ar. Não pensava chorar.

-Dava-te vinte e quatro horas para falar com essa tal Dominga Salvador -disse Dolph-. averiguaste algo?

-Diz que não sabe nada disto, e acredito.

-por que?

-Porque se queria matar a alguém não precisaria recorrer a métodos tão chamativos.

-O que quer dizer?

-Bastaria-lhe desejando sua morte.

-De verdade crie isso? -Dolph me olhava com os olhos muito abertos.

-É possível. -Encolhi-me de ombros-. Sim. Joder, eu o que sei. Essa tia acojona.

-Terei-o em conta -disse levantando uma sobrancelha.

-Mas tenho outro nome que acrescentar a sua lista.

-Quem?

-John Burke, de Nova Orleans. Estava faz um momento no enterro de seu irmão.

-Se só estiver de visita -disse Dolph enquanto o apontava na caderneta-, lhe teria dado tempo?

-Não me ocorre nenhum móvel, mas é outro que poderia fazê-lo se quisesse. Consulta com a polícia de Nova Orleans; acredito que ali é suspeito de assassinato.

-E como é que lhe permitiram viajar a outro estado?

-Não acredito que tenham provas. Pelo resto, Dominga Salvador diz que me vai ajudar. Prometeu-me que perguntará por aí e me avisará se se inteira de algo.

-depois de que me desse seu nome estive fazendo averiguações, e nunca ajuda a ninguém que não seja dos seus. Como conseguiste convencê-la para que colabore?

-Será por meu irresistível encanto pessoal -respondi me encolhendo de ombros. Dolph fez um gesto de contrariedade-. Ninguém tem feito nada ilegal, mas prefiro não falar do tema.

Não me pressionou. Bem por ele.

-me avise assim que saiba algo, Anita. Temos que deter esta costure antes de que volte a matar.

-Estou de acordo. -Olhei a meu redor-. Disse que as três primeiras vítimas estavam perto de um cemitério. Era este?

-Sim.

-Então, pode que aqui esteja parte da resposta.

-te explique.

-A maioria dos vampiros tem que voltar para seu ataúde antes do amanhecer. Os algules se ocultam em túneis, como se fossem toupeiras. Se tiver sido um vampiro ou um algul, eu diria que está por aqui esperando a que se faça de noite.

-Mas...

-Mas se for um zombi, a luz do sol não a afeta, nem precisa voltar para um ataúde. Poderia estar em qualquer sítio, mas é provável que saísse deste cemitério. Se o levantaram recorrendo ao vodu, pode que fiquem indícios do rito.

-Que indícios?

-Um verve de giz, desenhos ao redor de uma tumba, sangre seca, pode que os restos de uma fogueira... -Percorri com a vista a erva seca-. Mas eu não acenderia fogo em um sítio assim.

-E se não foi com vodu?

-Então seria um reanimador. Uma vez mais, terá que procurar sangue seca, e pode que um animal morto. Isso não deixa tantos indícios e é mais fácil de dissimular.

-Está segura de que é um zombi ou um pouco parecido? -perguntou.

-Não sei o que poderia ser se não. Acredito que devemos partir da base de que é um zombi; isso nos dá um sítio que inspecionar e algo que procurar.

-Mas se não ser um zombi, não temos nenhuma pista.

-Exatamente.

-Espero que tenha razão, Anita -disse com um sorriso forçado.

-Eu também.

-Se proceder daqui, pode averiguar de que tumba saiu?

-É possível.

-Possível?

-Sim, possível. A reanimación não é uma ciência exata. Às vezes posso captar os mortos clandestinamente, perceber a inquietação, saber quando morreram sem necessidade de olhar a lápide. Outras vezes não posso.

-Emprestaremo-lhe tanta ajuda como podemos.

-Tenho que esperar a que anochezca. Meus... poderes funcionam melhor de noite.

-Ainda faltam várias horas. Não pode fazer nada até então?

-Não -disse detrás pensá-lo um momento-. Sinto muito, mas não.

-De acordo. Voltará esta noite?

-Sim.

-A que hora? Mandarei a uns homens.

-Não sei quando vou vir, nem quanto vou demorar. Pode que me passe várias horas vagando por aqui sem encontrar nada.

-E também pode...

-Que me encontre com o inseto que procuramos.

-Necessitará reforços, no caso de.

-Já, mas as balas não lhe farão nada, nem que sejam de prata.

-Com o que poderíamos detê-lo?

-Com lança-chamas. Os exterminadores varrem com napalm os túneis infestados de algules.

-Não temos disso.

-me mande uma equipe de exterminadores.

-Boa idéia. -Apontou-o na caderneta.

-Necessito que me faça um favor -pinjente.

-O que? -perguntou elevando a vista.

-Ao Peter Burke o mataram de um tiro. Seu irmão me pediu que averigúe se a polícia tiver feito progressos.

-Sabe que não podemos facilitar essa informação.

-Já, mas pode me dizer algo que lhe possa contar ao John Burke. O suficiente para que possa seguir em contato com ele.

-Parece que faz bons miolos com todos os suspeitos.

-Sim.

-Verei se averiguar algo em Homicídios. Sabe em que jurisdição o encontraram?

-Não, mas posso me inteirar. Assim terei uma escusa para voltar a falar com o Burke.

-Diz que é suspeito de assassinato em Nova Orleans.

-Estraga.

-E que é possível que tenha feito isto. -Assinalou o lençol com a cabeça.

-Sim.

-Tenha muito cuidado, Anita.

-Sempre o tenho.

-me chame esta noite assim que possa. Não gosta de ter a meus homens cobrando horas extras cruzados de braços.

-Assim que possa. Para vir terei que cancelar três entrevistas de trabalho. -Ia dar outro desgosto ao Bert; por fim uma perspectiva agradável.

-por que não se comeu mais do menino? -perguntou Dolph.

-Nem idéia.

-Bom, vemo-nos esta noite.

-Saúda sua mulher de minha parte. Que tal vão os estudos?

-Já fica menos. Licenciará-se antes de que nosso filho pequeno seja engenheiro.

-Estupendo. -O vento voltou a agitar o lençol, e uma gota de suor me caiu pela frente. Não estava de humor para andar de bate-papo-. Até mais tarde -pinjente, e comecei a descer pelo pendente. Detive-me ao cabo de uns passos e me voltei-. Dolph?

-Sim?

-Se for um zombi, não se parece com nada que conheça, e pode que siga outras pautas. Pode que sim que se levante da tumba, como os vampiros. Se envias à equipe de exterminadores e aos policiais de reforço antes de que anochezca, possivelmente o pilhem despertando e possam capturá-lo.

-Parece-te provável?

-Não, só possível -pinjente.

-Não sei como vou justificar as horas extras, mas vale.

-Virei assim que possa.

-Pode haver algo mais importante que isto? -perguntou-me.

-Nada que queira saber -respondi com um sorriso.

-Faz a prova. -Neguei com a cabeça, e ele assentiu-. Esta noite assim que possa.

-Isso mesmo.

O inspetor Perry me acompanhou no caminho de volta, não sei se por educação ou por afastar do corpo do delito. Não sentia saudades.

-Que tal está sua mulher?

-Nosso primeiro filho nascerá dentro de um mês.

-Não sabia. -Olhei-o, sorridente-. Felicidades.

-Obrigado. -Sua expressão se escureceu, e um cenho lhe juntou as sobrancelhas-. Crie que conseguiremos encontrar a esse inseto antes de que volte a matar?

-Isso espero.

-Que probabilidades temos?

Não sabia se queria uma mentira piedosa ou a verdade. Optei pelo segundo.

-Não tenho nem a menor ideia. -Esperava que dissesse outra coisa. -Asseguro-te que eu também.

Podia haver algo mais importante que capturar ao monstro que tinha estripado a todos os membros de uma família? Pois não, certamente, mas ainda faltava tempo para que se fizesse de noite, e tinha outros problemas. Por exemplo, que Tommy iria ver o Gaynor para lhe dar minha resposta, e que não me parecia provável que Gaynor o deixasse correr. Necessitava informação; tinha que saber até onde estaria disposto a chegar. Um jornalista, isso: necessitava um jornalista. Tinha chegado o momento de recorrer ao Irving Griswold.

Irving tinha um desses cubículos de cores claras que fazem as vezes de despacho: não tinha teto nem porta, mas sim paredes. Seu metro sessenta já é suficiente motivo para que me caia bem: não estou acostumada a ver homens de minha estatura. Tinha uma tonsura que parecia o centro de uma margarida, e seu cabelo frito de cor castanha fazia as vezes de pétalas. Levava uma camisa branca arregaçada por cima dos cotovelos e se afrouxou a gravata. Com sua cara redonda de bochechas rosadas, parecia um querubim alopécico. Não tinha aspecto de homem lobo, mas o era. Nem sequer os licántropos se livram de ficar calvos.

Nenhum de seus companheiros do Saint Louis Post-Dispatch sabia que era um cambiaformas. É uma enfermidade, sim, e discriminar aos licántropos é ilegal, igual à os seropositivos, mas isso tampouco garante nada. Pode que a direção do periódico fora aberta de miras, mas eu estava com ele: mais vale curar-se em saúde.

Apareci na porta de seu cubículo e o vi sentado à mesa.

-O que há de novo, velha? -disse a modo de saudação.

-De verdade te crie gracioso, ou o faz por tocar os cojones?

-Sou muito gracioso -respondeu com um amplo sorriso-. Lhe pergunte a minha noiva.

-Nisso estava eu pensando.

-O que te conta, Blake? E por favor, não me diga que é uma dessas coisas que não posso publicar.

-Você gostaria que te desse uma primicia sobre a legislação que regula as atividades com zombis?

-Pode -respondeu entrecerrando os olhos-. O que quer em troca?

-Algo que não pode publicar, ao menos por agora.

-Temia-me isso. -Olhou-me com cara de recriminação-. Adiante.

-Necessito toda a informação que possa conseguir sobre o Harold Gaynor.

-Não me soa de nada. Deveria? -Tinha perdido o semblante risonho e estava muito concentrado: farejava uma reportagem.

-Não vejo por que -disse com precaução-. Pode me conseguir algo?

-Em troca do dos zombis?

-Levarei-te a todas as empresas que usam zombis. Pode ir com um fotógrafo, para que saque aos cadáveres trabalhando.

-Uma série de reportagens com imagens vagamente acidentadas. -Seus olhos se iluminaram-. E você entre os zombis, toda maqueada: a bela e a besta. Seguro que meu redator chefe compra.

-Já imagino, mas isso de posar...

-Né, a seu chefe adorará. A publicidade animará o negócio.

-E venderá periódicos.

-Certamente.

Irving ficou me olhando em silêncio. Não havia muito ruído de fundo; quase todo mundo se foi já, e o cubículo do Irving era um dos poucos que ficavam iluminados; ficou-se me esperando. De maneira que a imprensa não dorme alguma vez, né? Era meia tarde, e como nos descuidássemos, nossa única companhia seria o murmúrio do ar condicionado.

-vou ver se tivermos algo sobre o Harold Gaynor em máquina -disse Irving ao fim.

-Ficaste-te com o nome quando só o mencionei uma vez? -Sorri-. Não está mau.

-É que sou um profissional... -voltou-se para o ordenador com movimentos exagerados; ficou umas luvas imaginárias e se ajustou as imaginárias abas de um fraque.

-Deixa de panaquices. -Meu sorriso se ampliou.

-Não curve ao professor. -Pulsou umas quantas teclas, e a tela cobrou vida-. Sim, temo-lo. Vá se o temos; demoraria séculos em imprimir todo isso. -tornou-se para trás para me olhar. Mau cilindro-. Sabe o que? Quando o tiver tudo, com as fotos que haja, lhe farei chegar isso de mil amores.

-Qual é o truque?

-Truque? -levou-se a mão aberta ao peito, tudo ofendido-. É Por puro altruísmo.

-De acordo, envia-me isso a casa.

-E por que não ficamos no Dave o Morto?

-Isso está no bairro dos vampiros. Como é que agora vai por aí?

-Se rumorea que a cidade tem um novo amo, e quero conseguir a exclusiva. -Seu rosto angélico me olhava muito sério.

-Assim que te deixa cair pelo Dave o Morto para ver se pescas algo -pinjente sacudindo a cabeça.

-Em efeito.

-Não soltarão objeto. Parece humano.

-Obrigado pelo completo. Mas contigo sim que falam, Anita. Sabe quem é o novo amo? me pode apresentar isso E me conseguir uma entrevista?

-Irving, por favor, como se não tivesse já muitos problemas. Agora te vais pôr a aporrinhar ao rei dos vampiros?

-Assim é homem.

-Masculino genérico.

-Sabe algo, estou seguro.

-O que sei é que não te convém chamar a atenção. Os vampiros são perigosos, Irving.

-Tentam integrar-se na sociedade e querem receber um tratamento positivo nos meios de comunicação. Uma entrevista sobre seus planos para a comunidade vampírica, seus projetos a longo prazo... Seria muito profissional, sem piadas sobre cadáveres nem sensacionalismo: jornalismo do bom.

-Sim, já. E na capa, um titular estritamente jornalístico: "Declarações do amo dos vampiros de São Luis".

-Estaria muito bem.

-voltaste para esnifar tinta?

-Darei-te tudo o que temos sobre o Gaynor. Até fotos.

-Como sabe que têm fotos? -disse-lhe. Olhou-me com sua cara redonda e risonha adequadamente inescrutável-. Assim não te soava o nome, pedaço de...

-Por favor, Anita, te comporte. me consiga uma entrevista com o amo dos vampiros e te darei tudo o que queira.

-Não te vale com uma série de reportagens sobre os zombis? Fotos a toda cor de cadáveres putrefatos, Irving. Isso venderia muitos periódicos.

-E não posso entrevistar ao vampiro?

-Se tiver sorte, não.

-Mierda.

-Pensa me dar o expediente do Gaynor?

-Assim que o tenha -disse assentindo antes de me olhar-. Mas ficamos no Dave o Morto. Igual me dizem algo se virem que vou contigo.

-Igual não te deste conta de que te deixar ver com a Ejecutora não te ajudará a fazer miolos com os vampiros.

-Seguem te chamando assim?

-Entre outras coisas.

-De acordo. O expediente do Gaynor em troca de que me deixe te acompanhar a próxima vez que execute a um vampiro?

-Mais quisesse.

-Venha, Anita...

- Nem de coña.

-Vaaale -disse com um gesto de rendição-. Mas seria uma reportagem cojonudo.

-Não necessito publicidade, pelo menos dessa.

-O que você diga. Vemo-nos no Dave o Morto dentro de um par de horas?

-Que seja uma; prefiro não estar no Distrito quando anochezca.

-É que há alguém de por ali que lhe tenha jurada isso? Tampouco quero que corra perigo. -Sorriu-. Conseguiste-me umas quantas levadas, e eu não gostaria de te perder.

-Comove-me, mas não há ninguém que me tenha isso tão jurada, que eu saiba.

-Não parece muito segura.

Olhei-o tentada de lhe dizer que o novo amo dos vampiros me tinha mandado uma dúzia de rosas brancas e um convite para ir dançar, mas a tinha rechaçado. Que também me tinha deixado uma mensagem na secretária eletrônica, para me convidar a uma festa. E não lhe fiz nem caso. De momento, o amo dos vampiros me cortejava como se fora um cavalheiro de faz séculos, mas não podia durar. Jean-Claude não era dos que aceitavam a derrota.

Mas não o disse, claro. Melhor que não soubesse.

-Vemo-nos no Dave o Morto em uma hora. Tenho que passar por casa para me trocar.

-Agora que o diz, é a primeira vez que te vejo com vestido.

-Venho de um enterro.

-Por assuntos de trabalho ou pessoais?

-Pessoais.

-Nesse caso, sinto muito.

Encolhi-me de ombros.

-Como não me largue já, chegarei tarde. Muito obrigado, Irving.

-Não te estou fazendo nenhum favor. Me vais pagar isso com o dos zombis.

Suspirei. Já me via me pedindo que abraçasse aos pobres cadáveres. Mas terei que conseguir chamar a atenção sobre aquele assunto; quanta mais gente soubesse o que se fazia com os zombis, mais provável seria que se aprovasse o projeto de lei. Em realidade, era Irving quem me fazia o favor , mas não tinha por que inteirar-se.

Afastei-me pelos escritórios em penumbra e me despedi fazendo um gesto com a mão, sem olhar atrás. Queria me tirar o vestido e me pôr algo que me permitisse levar pistola. Se ia ao Villasangre, não estaria de mais.

A zona de São Luis onde se encontra Dave o Morto tem dois nomes: o oficial é a Borda, e o outro, Villasangre. É o último grito em bairros vampíricos, e toda uma atração. O vampirismo conseguiu converter São Luis na balance do turismo. Caberia esperar que se conformassem com as montanhas Ozak, que é o melhor sítio para pescar do país, ou com musicais dignos da Broadway, ou talvez com o Jardim Botânico, mas não. A verdade é que não há cor: nada lhes planta cara aos nomuertos. Até me custa...

O único visível nas janelas de cristal tinto do Dave o Morto são os anúncios de cerveja. A luz do entardecer cedia passo ao crepúsculo. Os vampiros não sairiam até que caísse a noite, assim tinha algo menos de duas horas. Mais que de sobra para entrar, jogar uma olhada ao expediente e sair... se tudo fosse como a seda. Ja.

Tinha-me posto umas calças curtas negros, um pólo azul marinho, umas esportivas negras com detalhes em azul, uns meias três-quartos brancos e negros, e um cinturão de couro negro. O cinturão me servia para ancorar a capa de sovaco. Também levava um blusão sem mangas, estampado em branco e azul, para ocultar a Browning Hi-Power que levava sob o braço esquerdo. Não estava mal o traje, mas o suor caía a jorros pelas costas. Muito calor para o blusão, mas com a Browning tinha treze balas asseguradas; e até quatorze, se fizesse a animalada de encher o carregador e deixar outra na antecâmara.

Ainda não havia para tanto, ou isso acreditava, mas no caso de me tinha guardado outro carregador no bolso. Já sei que aí se cheia de penugem, mas onde ia colocar o se não? Prometo que um dia destes me comprarei uma capa de luxo com cartucheira, mas todos os modelos que me tinha provado me davam complexo de bandoleiro, além de que os teriam que adaptar a meu tamanho.

Quase nunca levo carregador de reposto quando saio com a Browning. Sejamos realistas: se fizerem falta mais de treze balas, não há nada a fazer. O triste era que não tinha pego a munição extra pensando no Tommy, nem no Gaynor, a não ser no Jean-Claude: o amo dos vampiros da cidade. Não é que as balas banhadas em prata pudessem matá-lo, mas os disparos lhe doeriam, e cicatrizaria muito devagar, quase a ritmo de humano.

Queria estar fora do bairro antes do anoitecer porque preferia não me topar com o Jean-Claude. Estava segura de que não pretendia me fazer danifico, mas por boas que fossem suas intenções, já sabemos que o cortês não tira o valente. Tinha-me devotado a imortalidade sem o problema do vampirismo, mas ao parecer, o pacote incluía toda uma eternidade com ele. Era alto, pálido, bonito e mais sexy que um body de encaixe.

Tinha-lhe dado de me converter em seu sirva humana, mas não me dava a vontade ser a sirva de ninguém, nem sequer em troca da vida eterna, a juventude eterna e um ligeiro risco para a alma. O preço era muito alto, embora Jean-Claude não o visse assim. Levava a Browning se por acaso tinha que convencê-lo.

Quando entrei no bar fiquei às cegas. Esperei até que os olhos me acostumaram à escuridão, como nos filmes do oeste, quando o protagonista se para na porta do saloon e parece que inspeciona aos paroquianos. Sempre suspeitei que não é que esteja procurando o mau, mas sim tem as pupilas contraídas e não vê três em um burro. Mas ninguém lhe pega um tiro antes de que recupere a vista, nunca soube por que.

Eram as cinco e pico de uma quinta-feira, e quase todos os tamboretes e todas as mesas estavam ocupados. O bar bulia de executivos trajeados, tanto homens como mulheres. Algum cliente que outro levava botas de trabalho e um bronzeado que terminava no cotovelo, mas quase todos eram de classe média aspirando a alta: Dave o Morto se pôs de moda apesar dos esforços em sentido contrário.

Em cima parecia a hora feliz. Mierda. Os yupis tinham ido em manada com a esperança de ver um vampiro. Quando chegasse o momento já estariam entonadillos; ainda mais interessante, vai.

Irving estava sentado na esquina da barra, e me saudou a lombriga. Devolvi-lhe a saudação e comecei a me abrir passo para ele. Tive que fazer manobras para penetrar entre dois tipos com traje e me encarapitar ao tamborete com muito pouca elegância.

Irving me dedicou um sorriso radiante e se inclinou para me falar com ouvido. A marejada de conversações era tão intensa que não se distinguia uma palavra.

-Imaginará a quantidade de dragões que tive que abater para te reservar esse tamborete. -Notei o aroma do uísque em seu fôlego.

-Os dragões são uma mariconada; deveria provar com vampiros. -Abriu os olhos desmesuradamente, mas continuei sem lhe dar tempo a formular a pergunta; há gente que não tem senso de humor-. Era uma brincadeira. Além disso, por aqui não houve dragões nunca.

-Já sei.

-Sim, claro.

Bebeu um gole de uísque. O líquido amarelado resplandecia com a luz tênue.

Luther, o garçom e encarregado de dia, estava no outro extremo da barra vendo-lhe com um grupo de paroquianos transbordantes de alegria. Se tivessem estado um pouco mais contentes, teriam entrado em vírgula ali mesmo.

Luther é um tipo grande, não ao alto, a não ser ao largo, mas tem uma graxa tão sólida como os músculos. Sua pele é tão negra que tem reflexos morados, e a brasa do cigarro que sujeitava entre os lábios resplandeceu com um laranja intenso quando deu uma imersão. Não conheço ninguém a quem lhe dê melhor falar enquanto fuma.

Irving abriu a maleta de couro que tinha aos pés e tirou uma pasta de quatro dedos de grossura, sujeita com uma borracha gigante.

-Coño. me posso levar isso a casa?

-Tenho uma companheira que está escrevendo uma reportagem sobre homens de negócios que não são o que parecem -respondeu negando com a cabeça-. tive que lhe prometer a meu primogênito para que me deixasse me levar isto, mas o tenho que devolver amanhã.

Olhei a pilha de papéis e suspirei. O homem que tinha à direita esteve a ponto de me estampar o cotovelo na cara.

-Sinto muito, neném -balbuciou girando-se para mim-. Sorte que não te dei.

-Muita, sim -confirmei. Sorriu e se voltou para seu amigo, outro homem de negócios que ria estrepitosamente de alguma piada. Com álcool suficiente, tudo tem graça-. Aqui é impossível ler -disse ao Irving.

-Seguirei-te até onde queira -respondeu com um sorriso.

Luther se plantou diante de mim, tirou-se um charuto do pacote que sempre levava em cima e o acendeu com o que acabava de fumar-se. Depois aspirou profundamente e jogou a fumaça pelo nariz e a boca. Falando de dragões...

Apagou a bituca no cinzeiro que sempre levava de um lado a outro, como se fora um osito. Fuma como um carreteiro, sobram-lhe quilogramas por toda parte, e calculo que terá mais de cinqüenta anos, mas nunca fica doente. Deveriam contratar o de mascote em alguma tabacalera.

-Outro? -perguntou ao Irving.

-Vale.

Luther tirou uma garrafa de detrás da barra, preencheu o copo e lhe colocou um guardanapo limpa debaixo.

-O que te ponho, Anita?

-o de sempre.

Serve-me um suco de laranja disfarçado de chave de fenda. Sou abstêmia, mas o que pintava em um bar se não bebia?

-O amo me deu um recado para ti -disse enquanto limpava o mármore com um pano blanquísimo.

-O amo dos vampiros da cidade? -perguntou Irving emocionado. Farejava a notícia.

-O que quer? -perguntei sem o menor espiono de interesse.

-Quer falar contigo, sem falta. -Olhei ao Irving e voltei a olhar ao Luther, tentando lhe enviar a mensagem telepática de que fechasse a boca diante da imprensa. Não o captou-. Fez correr a voz -continuou-, e se alguém te vê, tem que te dar o recado.

Irving nos olhava como um cachorrinho nervoso.

-O que quer de ti o amo da cidade, Anita?

-Recebido -disse ao Luther.

-Não pensa ir ver o, verdade? -perguntou-me sacudindo a cabeça.

-Não.

-por que? -perguntou Irving.

-Não é teu assunto.

-E extraoficialmente?

-Tampouco.

-me escute, menina. -Luther me olhou muito sério-. Vete a vê-lo. Agora mesmo, todos os vampiros e os freaks têm que te dizer que o amo quer falar contigo. O seguinte será que se ofereçam a te acompanhar.

Bonito eufemismo para um seqüestro.

-Não tenho nada que lhe dizer.

-Vê com cuidado, não deixe que as coisas se desmamem -insistiu Luther-. Não perde nada por falar com ele.

Isso era o que ele acreditava.

-Pode ser.

No fundo, Luther tinha razão: teria que falar com o Jean-Claude mais tarde ou mais cedo, e seguro que mais tarde séria menos agradável.

-por que quer falar contigo? -perguntou Irving, com os olhos brilhantes como os de um pássaro que tivesse visto um verme.

Decidi contra-atacar com outra pergunta:

-Sua companheira não te deu nenhuma pista sobre as partes relevantes do expediente? Não posso me ler Guerra e Paz em uma noite.

-me diga o que saiba do amo e te dou as pistas que queira.

-Muitíssimas obrigado, Luther.

-Não pretendia açulá-lo -disse Luther, enquanto seu cigarro subia e baixava. Nunca entendi como o fazia; suponho que essa destreza labial só se adquire detrás anos de prática.

-Deixem de me tratar como se tivesse a puta peste bubônica, joder -disse Irving-. Só tento fazer meu trabalho.

Bebi um gole de suco de laranja e o olhei.

-Está-te metendo em camisas de onze varas... Não posso te dar informação sobre o amo, de verdade.

-Quererá dizer que não te dá a vontade.

-Pois não me dá a vontade -respondi me encolhendo de ombros-, e não me dá a vontade porque não posso.

-Isso é um raciocínio circular.

-Agüenta-te. -Terminei-me o suco, embora não gostava-. Me escute, Irving: tínhamos um trato. O expediente em troca dos artigos sobre os zombis. Se quer te jogar atrás, pois o que lhe vai fazer, mas me diga isso porque não tenho tempo para andar com tiras e afrouxa.

-Manterei-me fiel a minha palavra -disse com a voz mais afetada que lhe permitiu o ruído ambiental.

-Então me dê alguma pista de uma vez, que quero me largar daqui antes de que o amo dê comigo.

-Tem problemas, não? -De repente se havia posto sério.

-É possível. me jogue um cabo, por favor.

-Venha, lhe jogue um cabo -disse Luther.

Talvez fora o por favor, ou talvez, a presença imponente do Luther. Em qualquer caso, Irving assentiu.

-Segundo minha companheira, é inválido e vai em cadeira de rodas. -Não disse nada; não queria que soubesse o que me interessava-. E além gosta das deficientes.

-O que quer dizer? -perguntei recordando ao Cicely, a garota de olhar vazio.

-Cegas, paralíticas, mulheres com membros amputados... Costure pelo estilo.

-Surdas?

-Também seu tipo.

-por que? -Eu e minhas perguntas sagazes.

-Pode que seja para não sentir-se em inferioridade de condições pelo da cadeira de rodas. Minha companheira não sabe por que; só que tem essa fixação.

-Que mais te há dito?

-Que nunca o acusaram que nenhum delito, mas correm rumores muito bestas. suspeita-se que está relacionado com a máfia, mas ninguém tem provas.

-Algo mais?

-Uma ex-noiva o demandou para tentar lhe tirar uma pensão. Desapareceu.

-E já podemos dá-la por morta.

-Exato.

Soava verossímil. E se já lhes tinha encarregado ao Tommy e ao Bruno que matassem a alguém, não lhe custaria nada lhes dar a ordem pela segunda vez. Ou pode que a tivesse dado montões de vezes e não o tivessem pilhado nunca.

-O que faz para a máfia que lhe faça necessitar dois guarda-costas?

-Assim conheceste a seus especialistas em segurança... -O confirmei assentindo-. A minha companheira adoraria falar contigo -comentou.

-Não lhe haverá dito nada de mim, verdade?

-Por quem me tomaste? -Dedicou-me um sorriso radiante.

Deixei-o estar.

-Bom, e o que faz para a máfia?

-Suspeitamos que se encarrega de branquear dinheiro.

-Não têm nada concreto?

-Nada. -E não o fazia nenhuma graça.

Luther sacudiu a cabeça e jogou a cinza no cinzeiro. Caiu um pouco na barra, e a limpou com o pano.

-Não parece uma companhia muito recomendável -disse-me-. Eu em seu lugar me manteria longe dele.

Era um bom conselho, mas por desgraça...

-Não acredito que me deixe em paz.

-Não vou perguntar; não quero sabê-lo.

Vários clientes faziam gestos frenéticos para que os atendesse, e Luther se foi para eles. O espelho de detrás da barra me permitia controlar todo o bar, e até podia ver a porta sem me girar. Era prático e reconfortante.                                                      

-Eu sim que vou perguntar. Eu sim que quero sabê-lo -disse Irving. Quando viu que me limitava a negar com a cabeça, acrescentou-: Além disso sei uma coisa que você não sabe.

-E me interessa? -Assentiu com tanto ímpeto que lhe agitou o cabelo frito. Suspirei-. Venha, diga-me isso

-Você primeiro.

-Já te hei dito tudo o que pensava te dizer esta noite, Irving. -Tinha-me até os muito mesmos-. Tenho o expediente, mas se me pode economizar um pouco de tempo, asseguro-te que me virá de puta mãe.

-Joder, contigo não tem graça ficar em plano jornalista implacável. -Não, se ao final começaria a fazer panelas.

-Diga-me o de uma vez se não querer que me ponha violenta.

Soltou uma risita; suspeito que não o havia temado a sério. Bendita inocência.

-Tacham...

levou-se uma mão à costas, com um gesto de mago de feira, e tirou uma foto em branco e negro. Era de uma mulher de veintitantos anos, com o cabelo castanho, comprido e bem penteado, e a gomina justa para afiar as pontas. Era bonita, mas não a reconheci. Evidentemente, não era nenhum posado; sua expressão não parecia a de alguém que espera que lhe tirem uma foto.

-Quem é?

-Era a noiva do Gaynor até faz cinco meses.

-Tem alguma minusvalía? -Olhei aquele rosto atrativo de expressão franco; pela foto não se podia saber.

-É Wanda a Tragamillas. conseguiu converter em negócio sua cadeira de rodas. Há gente que a rifa.

-Sério? -Olhei-o sem poder evitar que os olhos me abrissem como pratos. Uma prostituta em cadeira de rodas... Muito estranho para mim. Sacudi a cabeça-. Vale. Onde posso encontrá-la?

-Nós também queremos ir.

-Por isso tinha a foto à parte.

-Wanda não soltará objeto se te apresentar sozinha. -Nem sequer teve o detalhe de simular vergonha.

-Já falou com sua companheira? -Irving franziu o cenho, e seus olhos perderam o brilho de triunfo. Sabia o que significava aquilo-. Não quer falar com a imprensa, verdade?

-Tem medo do Gaynor.

-Não é para menos.

-E por que esperas que conte a ti o que não nos conta ?

-Por meu irresistível encanto pessoal?

-Menos lobos, Blake.

-Que sítios freqüenta?

-Ah, mierda. -Irving apurou o uísque de um gole-. Trabalha em um putero que se chama O Gato Pardo.

Seria pela peli ou por aquilo de que de noite, todos os gatos...? Que engenhoso.

-Onde está?

Respondeu Luther, embora não o tinha visto voltar.

-Na rua principal do Tenderloin: Grand, esquina com a Vinte. Mas não deveria ir sozinha.

-Sou mayorcita.

-Sim, mas não o parece, e não acredito que goste de te atar a tiros com o primeiro mindundi que te coloque mão. Se for com alguém que imponha um pouco, todo isso que te economiza.

-Eu não iria sozinho, certamente -disse Irving encolhendo-se de ombros.

Não me fazia graça reconhecê-lo, mas tinham razão. Pode que seja uma matavampiros da hóstia, mas não nota a simples vista.

-De acordo, levarei-me ao Charles. Tem pinta de poder as ver-se sólito com uma equipe de futebol americano, embora seja um pedaço de pão.

-Pois não deixe que veja segundo que coisas-dijo Luther, rendo enquanto soltava a fumaça-, não seja que te deprima.

Pobre Charles; deprime-se uma vez em público, e a gente lhe pendura o sambenito.

-Manterei-o a salvo.

Deixei na barra mais dinheiro do necessário. Não é que Luther me tivesse dado muita informação, mas sempre me proporcionava dados muito úteis. Em qualquer caso, valiam muito mais do que lhe pagava, mas não se queixavam porque estava relacionada com a polícia. Dave o Morto tinha sido poli, mas seus superiores o jogaram por converter-se em nomuerto. Que gente mais suscetível. Ele se seguia fazendo o ofendido, mas em realidade queria dar uma mão, assim que me dava a informação , e eu transmitia a seus antigos companheiros o que me parecia.

Naquele momento, Dave apareceu pela porta de detrás da barra. Olhei as janelas escuras; não se notava nada, mas se o dono do bar estava em pé, já era de noite. Mierda. Tocava-me voltar para carro rodeada de vampiros. Pelo menos levava a pistola; algo é algo.

Dave é alto e corpulento, e o cabelo castanho lhe começava a clarear quando morreu. Não tinha seguido perdendo-o, mas tampouco o tinha recuperado. Dedicou-me um sorriso suficientemente amplo para que lhe visse as presas, e um murmúrio de nervosismo percorreu o bar. Os sussurros se estenderam como as ondas em um lago. Tinha aparecido um vampiro: começava o espetáculo.

Saudamo-nos com um apertão de mãos. a do Dave estava cálida, firme e seca, e ele estava rosado e alegre: já tinha comido. teria se deixado a vítima? com certeza que sim. Dave não era mau tipo para ser um nomuerto.

-Luther me diz muitas vezes que estiveste, mas sempre vem de dia. Me alegro de que te tenha ficado um pouco mais.

-A verdade é que tinha intenção de sair do bairro antes de que se fizesse de noite.

Franziu o cenho.

-Vai preparada? -perguntou-me.

Deixei-lhe entrever a pistola, e o metomentodo do Irving abriu os olhos desmesuradamente.

-Vai armada! -Pareceu que o dizia a gritos, mas não.

O bulício se converteu em um murmúrio de espera. Suficiente para que nos ouvissem os paroquianos, mas a isso tinham ido: a escutar aos vampiros, a lhes fazer confidências aos mortos.

-por que não o publica em capa? -pinjente baixando a voz.

-Sinto muito. -Irving se encolheu de ombros.

-Do que conhece nosso intrépido repórter? -perguntou Dave.

-Às vezes me ajuda a investigar.

-Vá, vá, investigar. -Sorriu sem que lhe vissem as presas; um truque que se aprendia com os anos-. Luther te deu o recado?

-Sim.

-vais ser lista ou tola?

Dave é um pouco besta, mas me cai bem de todas formas.

-Tola, provavelmente.

-Já sei que tem uma relação muito especial com o novo amo, mas não te confie. Segue sendo um professor vampiro, e sempre é perigoso joderlos. Não te busque uma confusão com ele.

-Isso é justamente o que pretendo evitar.

Dave sorriu tanto que lhe viram as presas.

-Mierda! Quer dizer que...? Naaa, o que quer é algo mais que jogar um bom pó.

Assim considerava que eu tinha um bom pó. Todo um detalhe por sua parte. Suponho.

-Sim -confirmei.

-Do que vai isto, Anita? -disse Irving. Muito boa pergunta. A conversação o tinha saltitando no tamborete.

-Não é teu assunto.

-Anita...

-Não seja pentelho, Irving.

-"Não seja pentelho"? Não tinha ouvido essa expressão desde que morreu minha avó.

-Pois deixa de me dar o coñazo -disse-lhe com firmeza, olhando-o aos olhos-. Você gosta mais assim?

-Só tento fazer meu trabalho -disse estendendo os braços em um gesto de rendição.

-Pois faz-o em outro sítio. -Desci-me do tamborete.

-deu instruções de te localizar -disse-me Dave-. Se algum vampiro atuar com excesso de zelo...

-Quer dizer que empregariam a força? -Assentiu-. Levo pistola, crucifixo e toda a pesca. Não se preocupe.

-Acompanho-te ao carro? -perguntou Dave.

-Obrigado mil -pinjente olhando-o aos olhos marrons e sonriendo-, mas posso me cuidar sozinha.

A verdade era que muitos vampiros estavam cheios o saco com o Dave por lhe facilitar informação ao inimigo. Eu era a Ejecutora, e se um vampiro se passava da raia, avisavam-me para que lhe parasse os pés. Com os nomuertos não havia cadeia perpétua nem hóstias: pena de morte ou nada. Os cárceres não eram para os vampiros.

Em Califórnia o tinham tentado, mas um professor vampiro lhes escapou, e se carregou a vinte e cinco pessoas em uma só noite. Não lhes chupou o sangue; só as matou. Suponho que o fechamento o tinha posto de mau humor. As portas e os guardas estavam talheres de crucifixos, mas o caso é que só funcionam se quem os leva acredita neles e, certamente, deixam de funcionar assim que um professor vampiro convence a alguém para que se os estorvo.

Para os vampiros, eu era o equivalente da cadeira elétrica e, que surpresa, não lhes caía muito bem.

-Eu a acompanho -disse Irving. Pagou suas taças e se levantou. Eu levava o carpetón debaixo do braço, e ao parecer, não estava disposto a perder o de vista. Cojonudo.

-Terá que te proteger a ti também -disse Dave.

Irving abriu a boca para responder, mas o pensou melhor. Podia lhes dizer que era licántropo, mas não queria que ninguém se inteirasse. esforçava-se muito, muito por parecer completamente humano.

-Está segura de que não quer que te acompanhe? -insistiu Dave.

Última oportunidade de ter escolta vampírica até o carro. estava-se oferecendo a me proteger do amo, mas não dava a talha; não levava nem dez anos morto.

-Alegra-me saber que se preocupa tanto por mim.

-Anda, comprido.

-te cuide -disse Luther.

Sorri aos dois e me voltei para partir do bar, do que se deu procuração um pouco parecido ao silêncio. Não acreditava que a gente tivesse pescado grande coisa de nosso bate-papo, mas tinha a impressão de que todo mundo me olhava. Contive o impulso de me voltar e dizer "Buuu!". Estou segura de que mais de um teria gritado.

Seria pela cicatriz em forma de cruz que tenho no braço. Só os vampiros têm marcas como essa, não? Saem quando a carne ímpia se marca com um crucifixo. A minha me tinham feito isso com um ferro candente, por encargo de um professor vampiro que já estava criando malvas. Tinha-lhe parecido gracioso. Ja.

Ou possivelmente fora só pelo Dave. Igual nem se fixou na cicatriz e me estava voltando paranóica. Levar-se bem com um vampiro respeitoso da lei levanta suspeitas. Mas a que vêem umas quantas cicatrizes estranhas se imaginam o pior. Mas tampouco é tão grave. As suspeitas são sões: ajudam a seguir com vida.

 

A escuridão sufocante se fechava a meu redor como um punho quente e pringoso. Uma luz deixava um atoleiro brilhante na calçada, como se jorrasse luz derretida. Todas as luzes são reproduções das de gás de fazia um século. São negras e estilizadas, mas não acabam de dar o pego. Como os disfarces: têm boa pinta, mas são muito cômodos para ser de verdade.

O céu era como uma presença escura sobre os altos edifícios de tijolo, mas as luzes mantinham a penumbra a raia, sujeitando a carpa de escuridão com postes de luz. Era de noite mas não o parecia.

Comecei a caminhar em direção ao estacionamento da rua Um. É quase impossível estacionar na Borda, e o turismo só piora o problema.

Os sapatos do Irving, de vestir, faziam tanto ruído que até produziam eco. Era um meio-fio de paralelepípedos, e como todo o bairro, estava ideada para os carros de cavalos. Um pesadelo para estacionar, mas claro, ficava bonito.

Minhas sapatilhas de esporte não faziam virtualmente nenhum som. Sentia-me como se estivesse tirando de passeio a um cachorrinho ruidoso. Quase todos os licántropos que conheço se movem com sigilo, mas Irving tinha mais de vira-lata pomposo que de homem lobo.

Pela rua havia casais e grupos pequenos que riam e conversavam estrepitosamente. Tinham ido ver vampiros em vivo e em direto... ou seria em morto e em direto? Turistas, fixo. Aficionados, olheiros. Jogaria-me algo a que eu tinha visto mais nomuertos que todos eles juntos, e não acertava a entender o que lhes resultava tão fascinante.

Já era noite fechada; Dolph e seus meninos estariam me esperando no cemitério Burrell, e tinha que ir. Que fazia com o expediente do Gaynor? E com o Irving? Às vezes tenho a agenda muito apertada.

Uma figura saiu de entre os edifícios em penumbra; não sei muito bem se nos estava esperando ou se foi por acaso, ou por arte de magia. Fiquei paralisada, como um coelho que vê aproximá-los faróis de um carro.

-O que te passa, Blake? -perguntou Irving.

Tendi-lhe o expediente e o aceitou, perplexo. Queria ter as mãos livres se por acaso necessitava a pistola, embora provavelmente não me faria falta. Provavelmente.

Jean-Claude, o amo dos vampiros da cidade, caminhou para nós com movimentos felinos, de bailarino, fluídos, cheios de energia e elegância contidas que podiam desencadear-se em um estalo de violência.

Não era tão alto; não chegaria ao metro oitenta. Levava uma camisa tão branca que resplandecia, solta e larga, de mangas largas que se franziam ao chegar a uns punhos rodeados de três botões. Por diante se fechava só com um cordão, à altura do pescoço. Não o tinha pacote, e o tecido branco emoldurava seu peito pálido e imberbe. A camisa se perdia na cintura de uns jeans negros ajustados; se não, penduraria-lhe como uma capa.

Tinha o cabelo muito negro e ligeiramente ondulado, e uns olhos, para quem se atrevesse a olhá-los, de um azul tão escuro que parecia negro, como diamantes escuros. Deteve-se um par de metros de nós, tão perto que podíamos distinguir a cicatriz em forma de cruz de seu peito, quão único manchava seu corpo perfeito. A parte que tinha visto, ao menos.

Minha cicatriz era o resultado de uma brincadeira pesada; a sua, do intento desesperado por parte de algum pobre diabo de escapar da morte. Perguntei-me se lhe teria servido de algo. Possivelmente, mas se a resposta era que não, preferia não sabê-lo.

-Olá, Jean-Claude -pinjente.

-boa noite, MA petite -respondeu com uma voz aveludada, carregada de matizes e vagamente impudica, como sim um simples intercâmbio de saudações fora para ele algo obsceno. Igual o era.

-Não me chame assim.

-Como quer. -Sorriu ligeiramente, sem deixar entrever as presas. Examinou ao Irving, que tomou cuidado de esquivar seus olhos. Nunca terá que olhar aos olhos a um vampiro, embora eu o olhava sem problemas. por que?-. Não apresenta a seu amigo?-Pronunciou a última palavra em voz baixa e um pouco ameaçadora.

-Irving Griswold, jornalista do Post-Dispatch. Está-me ajudando com uma investigação.

-Ah. -Rodeou ao Irving como se fora um objeto e estivesse inspecionando-o a fundo para decidir se o comprava.

Irving jogava olhadas furtivas de reojo, para tio perder de vista ao vampiro. Depois me olhou com os olhos muito abertos.

-O que passa aqui? -perguntou.

-Isso, Irving, o que acontece? -disse Jean-Claude.

-Deixa-o em paz.

-Como é que não vieste para ver-me, minha pequena reanimadora?

Aquele apelativo não era muito melhor que MA petite, mas enfim. Menos dá uma pedra.

-Tinha coisas que fazer -respondi. O olhar que apareceu em seu rosto foi quase de fúria, e eu não queria enfurecê-lo-. Pensava ir verte.

-Quando?

-Amanhã de noite.

-Esta noite. -Não foi nenhuma petição.

-Não posso.

-Claro que pode, MA petite. -Sua voz me atravessou a cabeça com um vento quente.

-Mas olhe que chega a ser exigente -protestei.

Jean-Claude pôs-se a rir, com um som prazenteiro e reverberante. Igual aos perfumes caros deixam rastro quando se vai quem os leva, a lembrança de sua risada permanecia um momento nos ouvidos. Não tinha conhecido a nenhum professor vampiro que tivesse melhor voz: cada qual destaca a sua maneira.

-E você, lhe exasperem -disse com um tom ainda tingido pela risada-. Não sei o que vou fazer contigo.

-Poderia me deixar em paz -respondi com absoluta seriedade. Era um de meus maiores desejos.

Seu rosto recuperou a circunspeção ao momento. Como se tivesse um interruptor: aceso, risonho; apagado, inescrutável.

-Tenho muitos seguidores que já sabem que é meu sirva humana, MA petite, e uma das coisas que tenho que fazer para consolidar meu poder é te controlar. -Já, e por seu tom, sentia-o um montão. Fraco consolo.

-Como que tem que me controlar? -Uma pontada de medo me encolheu o estômago. Se não matava a sustos, provocaria-me uma úlcera.

-É meu sirva humana e deveria começar a te comportar como tal.

-Não sou seu sirva.

-claro que sim, MA petite.

-Joder, Jean-Claude, me deixe em paz!

De repente estava a meu lado. Não o tinha visto mover-se, mas me nublou o cérebro sem esforço aparente. O sangue me formava redemoinhos na cabeça. Tentei dar um passo atrás, mas uma mão magra e pálida me agarrou do braço, justo por cima do cotovelo. Em lugar de me apartar, deveria ter tirado a pistola. Esperava sobreviver a aquele engano.

-Eu acreditava que as duas marcas vampíricas lhe impediam de dobrar minha vontade. -Falei sem perder a compostura; se tinha que morrer, o mínimo era manter a dignidade.

-Não posso te enfeitiçar com o olhar, e é mais difícil obnubilarte, mas com um pouco de esforço...

Rodeou-me o braço com os dedos, sem fazer força. Tive o bom julgamento de não tentar escapar: poderia me esmagar o braço sem despentear-se, ou me arrancar isso ou desmantelar um Toyota. Posto que não me considerava capaz de plantar cara ao Tommy se chegávamos às mãos, de me enfrentar ao Jean-Claude melhor nem falávamos.

-É o novo amo da cidade, verdade? -Era Irving. Acredito que nos tínhamos esquecido dele, mas ao parecer, ele não apreciava sua sorte.

Jean-Claude me apertou o braço ligeiramente, e se voltou para olhar ao homem lobo.

-Você é esse jornalista que pretendia me entrevistar.

-Sim. -Parecia nervoso, mas tampouco tanto; só havia um deixe de tensão em sua voz. Que valente e resolvido. Bem pelo Irving.

-Pode que te conceda a entrevista quando terminar de falar com esta encantada jovem.

-De verdade? -perguntou sem dissimular a surpresa. Olhou-me tudo sorridente-. eu adoraria. Faria algo por...

-Silêncio. -Foi um sussurro que ficou flutuando no ar. Irving se intimidou como por cura.

-Irving? -Tem graça que me preocupasse com ele quando era eu a que tinha um vampiro pendurado do braço, mas o que lhe vou fazer se for atenta.

-Estou bem -respondeu entre dentes-. Nunca havia sentido nada parecido.

-Nosso Jean-Claude é um caso único -pinjente olhando para ele.

-Segue com vontades de brincadeira, MA petite? -Voltava a me dirigir sua atenção. Ai.

Olhei seus olhos arrebatadores, mas só eram olhos: tinha-me outorgado o poder de resistir a eles.

-É uma forma de matar o tempo. pode-se saber o que quer?

-Sempre tão valorosa.

-Não acredito que te atreva a me fazer nada em plena rua, com testemunhas. Será o novo amo, mas também é prático e nunca arriscaria os negócios. te integrar na sociedade te impõe certas limitações.

-Só em público -disse em voz tão baixa que só o ouvi eu.

-Muito bem, mas estamos de acordo em que não te vais pôr violento aqui e agora. -Olhei-o-. Assim deixa de teatro e me diga que cojones quer.

Jean-Claude sorriu, com um muito ligeiro movimento dos lábios, mas me soltou o braço e se apartou.

-Pelo mesmo motivo, você não me pegaria um tiro em plena rua sem provocação.

Em minha opinião, tinha-me provocado de sobra, mas não seria fácil explicar-lhe à polícia.

-Não tenho nenhum interesse em que me acusem de assassinato, em efeito.

Seu sorriso se ampliou, embora seguiu sem ensinar as presas. Lhe dava melhor que a nenhum outro vampiro vivente... se é que se pode falar de vampiros viventes, que essa é outra.

-Não nos vamos fazer nada mau em público, então.

-Suponho que não. O que quer? Chego tarde a uma entrevista.

-Esta noite te toca levantar zombis ou matar vampiros?

-Nem o um nem o outro.

ficou me olhando, esperando a que acrescentasse algo, mas para que? encolheu-se de ombros, e até para esse gesto era elegante.

-É meu sirva humana, Anita. -Tinha-me chamado por meu nome; a coisa pintava mau.

-Anda já.

-Leva duas de minhas marcas -disse depois de um suspiro prolongado.

-Não por gosto.

-Se não tivesse compartilhado minha força contigo, teria morrido.

-Não me venha com frescuras de que me salvou a vida; pô-me as duas marcas sem me pedir permissão nem me dar explicações. Pode que com a primeira me salvasse, muito bem, mas com a segunda te salvou você, e não tive voz nem voto nenhuma das duas vezes.

-Outras duas marcas e será imortal; não envelhecerá, porque eu não envelheço, mas seguirá sendo humano, e poderá seguir levando crucifixos e indo a missa. Isso não põe sua alma em perigo. por que resiste?

-Como sabe quando está ou deixa de estar em perigo minha alma, se você já não tiver disso? Trocou a alma imortal por imortalidade terrestre. Mas eu sei que os vampiros podem morrer, e o que passará quando morrer? Aonde irá? Desvanecerá-te e já? Não: irá de cabeça ao Inferno, que é onde deveria estar.

-E crie que por ser meu sirva humana irá ao Inferno comigo?

-Nem sei nem quero sabê-lo.

-Ao resistir me põe em um compromisso, e não posso permitir que me considerem débil, MA petite. Temos que resolver isto de uma forma ou outra.

-Que tal se se esquece de mim?

-Não posso. É meu sirva humana e tem que começar a te comportar como tal.

-Não me pressione, Jean-Claude...

-Ou o que? vais matar me? Crie que poderia?

-Sim -respondi olhando-o fixamente.

-Sinto que me deseja, MA petite, igual a eu desejo a ti.

Encolhi-me de ombros; o que podia dizer?

-Simples desejo, nada do outro mundo. -Era mentira, mas bom.

-Não, MA petite. Significo algo mais para ti.

Estupendo.

-De verdade, chego tarde. A polícia me está esperando.

-Esta conversação não terminou ainda, MA petite.

Assenti; Jean-Claude tinha razão. Tinha tentado me fazer a sueca, mas não é fácil com um professor vampiro.

-Amanhã de noite?

-Onde?

Foi todo um detalhe por sua parte que não me ordenasse que fora a sua guarida. Perguntei-me onde seria melhor ficar. Queria que Charles me acompanhasse ao Tenderloin, e lhe tocava examinar as condições trabalhistas dos zombis em um clube da comédia. Seria um sítio tão bom como qualquer outro.

-Conhece O Cadáver Alegre?

Sorriu ensinando presa. Uma mulher de um grupo que passava perto deixou escapar um gritito.

-Sim.

-Parece-te bem às onze?

-Será um prazer. -Suas palavras me acariciaram como uma promessa. Mierda-. Espero-te em meu escritório.

-Um momento. Como que em seu escritório? -perguntei alarmada.

Seu sorriso se ampliou, e as presas refletiram a luz da luz.

-Claro. O Cadáver Alegre é meu. Estava convencido de que sabia.

-E uma franga.

-Estarei-te esperando.

Eu tinha eleito o sítio, assim não podia me jogar atrás. Joder.

-Vamos, Irving.

-Que fique; ainda não me entrevistou.

-Por favor, Jean-Claude, deixa-o em paz.

-Vou lhe dar o que quer, nem mais nem menos.

Eu não gostei de sua forma de dizê-lo.

-Que tramas?

-Eu, MA petite? por que crie que lance algo?

-Quero ficar, Anita -disse Irving.

-Não sabe onde te coloca.

-Sou jornalista e estou fazendo meu trabalho.

-me prometa que não lhe vais fazer mal -disse ao Jean-Claude.

-Tem minha palavra.

-Que não lhe vais fazer absolutamente nada mau.

-Não lhe vou fazer absolutamente nada mau.

Seu semblante estava tão inexpressivo que pareceu que os sorrisos tinham sido miragens. Tinha a imobilidade dos que levam muito tempo mortos: agradável à vista, mas tão desprovido de vida como um tecido. Olhei-lhe os olhos inescrutáveis e me estremeci. Mierda.

-Está seguro de que quer ficar ?

-Quero entrevistá-lo. -Assentiu.

-Está como uma cabra -pinjente sacudindo a cabeça.

-Sou um bom jornalista.

-... que está como uma cabra.

-Sei me cuidar, Anita.

Olhamo-nos durante uns segundos.

-De acordo, que te divirta. Deixa-me o expediente?

Irving baixou a vista. Lhe tinha esquecido.

-leve-me isso amanhã pela manhã, ou ao Madeline dá algo.

-Não se preocupe.

Coloquei-me a avultada pasta sob o braço esquerdo, tão solta como pude. Me impedia de tirar a pistola com comodidade, mas vivemos em um mundo imperfeito.

Tinha informação sobre o Gaynor e o nome de uma ex-recente. Uma mulher despeitada. Possivelmente queria falar comigo e me ajudasse a encontrar pistas. Claro que também podia me mandar ao guano; não seria a primeira vez.

Jean-Claude me olhava com aqueles olhos impávidos. Aspirei profundamente e soltei o ar pela boca. Já tinha bastante por uma noite.

-Até manhã -disse aos dois.

Girei e comecei a me afastar. Havia um grupo de turistas com câmaras, e uma delas me apontava.

-Como me tira uma foto, traga-te a câmara -disse com um sorriso.

-Só uma? -perguntou inseguro.

-Já viram o bastante. Venha, ao nosso, acabou-se o espetáculo.

Os turistas se dissiparam como a fumaça sacudida por um golpe de vento. Enquanto caminhava para o carro, olhei para trás e vi que se reagruparam ao redor do Jean-Claude e Irving. Bom, tinham razão: o espetáculo não tinha acabado ainda.

Irving já era mayorcito e queria a entrevista. Quem era eu para fazer de babá de um homem lobo feito? daria-se conta Jean-Claude de seu segredo? E se assim fora, isso trocaria algo? Que as arrumasse; eu já tinha bastante com o Harold Gaiynor, Dominga Salvador e um monstro que se lanchava aos cidadãos respeitáveis de São Luis. O que três rodas para um carro.

 

O céu noturno era uma terrina de líquido negro. As estrelas, nítidas como diamantes, davam-lhe uma aparência fria e dura, e a lua era uma composição resplandecente em tons de cinza e prata. Quando se vive na cidade se tende a esquecer quão escura é a noite, quão brilhante é a lua e quantas estrelas há.

No cemitério Burrell não havia luzes; não chegava mais luz artificial que o débil resplendor amarelo das janelas de uma casa longínqua. Eu estava no topo da colina, toda suarenta, embainhada no macaco e com as sapatilhas de esporte.

Já se tinham levado o cadáver do menino. Estaria no depósito, esperando a que o forense se encarregasse dele. Para mim já tinha passado; não tinha que voltar a vê-lo nunca, exceto em sonhos.

Dolph estava a meu lado. limitava-se a contemplar a erva e as lápides rotas, sem dizer uma palavra, em espera de que eu obrasse minha magia e me tirasse um coelho do chapéu. O ideal seria que aparecesse o coelho e nos carregássemos isso. O segundo melhor, que encontrássemos o buraco de que saía. Isso poderia nos dar alguma pista, porque de momento estávamos dando paus de cego.

Dois exterminadores nos seguiam de perto. O homem era baixo e corpulento, com o cabelo grisalho talhado ao um. Tinha pinta de treinador retirado, mas parecia acreditar que o lança-chamas que levava em bandoleira era um bichinho: não parava de acariciá-lo com suas mãos rechonchas.

A mulher não devia ter mais de vinte anos, e levava o cabelo loiro e liso recolhido em um acréscimo, com mechas soltas que lhe penduravam diante da cara. Não era muito mais alta que eu, e tinha uns olhos enormes com os que percorria a erva de lado a lado, como uma francotiradora disposta a passar à ação.

Esperava que não fora de gatilho fácil; não tinha nenhum interesse em que me devorasse um zombi assassino, mas tampouco gostava que me orvalhassem com napalm. A senhorita prefere morrer devorada ou abrasada? Não sei, me deixe ver se houver algo mais na carta...

A erva se agitava e sussurrava como as folhas das árvores em outono. Se usávamos um lança-chamas no cemitério, montaria-se uma boa, e não nos resultaria fácil escapar. Mas o fogo é quão único pode deter um zombi. Embora estava por ver que fora um zombi e não algo distinto, claro.

Sacudi a cabeça e pus-se a andar; as dúvidas não me foram levar a nenhum sítio. Nestes casos, mim máxima é: "te comporte como se soubesse o que faz".

Estou segura de que a senhora Salvador conheceria um rito ou um sacrifício que servisse para procurar a tumba de um zombi; sua forma de fazer essas coisas estava sujeita a mais normatiza que a minha. Por um lado, ela era capaz de encerrar almas em corpos putrefatos; por outro, eu tampouco tinha odiado nunca a ninguém tanto como para lhe fazer algo assim. Para matá-lo, sim, mas para apanhar sua alma e esperar a que lhe apodrecesse o corpo antes de voltar a ficar a Não, isso era pior que perverso; era o não vai mais da maldade. Terei que lhe parar os pés, mas como não me carregasse isso... Suspirei; era um problema do que já me encarregaria em outra ocasião.

Aporrinhava-me ter ao Dolph me pisando os talões. Voltei-me a olhar aos exterminadores. Seu trabalho consistia em matar o que fora, desde térmites até algules, mas os algules são carroñeros assustadiços, e eu não definiria assim ao inseto que procurávamos.

Os três caminhavam detrás de mim, e tinha a impressão de que faziam mais ruído que eu. Tentei me concentrar na busca, mas só conseguia ouvir seus passos e sentir o medo da mulher. Assim não há quem trabalha.

-Necessito mais espaço, Dolph-disse, me detendo.

-O que quer dizer?

-Fica a mais distancia. Estão-me desconcentrando.

-Então pode que estejamos muito longe para te ajudar.

-Se o zombi sair da terra e me ataca... -Encolhi-me de ombros-. O que ides fazer? Orvalhá-lo com napalm e me gratinar a mim de gorjeta?

-Segundo você, o fogo é quão único serve.

-E é certo, mas se o zombi engancha a alguém, lhes diga a seus meninos que não fritem também a esse alguém.

-Não podemos usar o napalm se o zombi os apanhar? -perguntou Dolph.

-Aí queria eu chegar.

-Podia havê-lo dito antes.

-Acabo de cair na conta.

-Cojonudo.

-Tem razão -disse com outro encolhimento ombros-, foi um descuido. E agora, lhes atrase e me deixem fazer meu trabalho. -Aproximei-me e baixei a voz, para que só me ouvisse ele-. Mantén vigiada à garota; está tão assustada que lhe pode dar de disparar às sombras.

-São exterminadores, não policiais nem matavampiros.

-Esta noite é possível que nossa vida dependa deles, assim não a perca de vista, vale?

voltou-se a olhá-los. O homem sorriu e saudou com a cabeça; a mulher ficou olhando com os olhos muito abertos. Seu medo se podia mastigar.

Tinha direito a estar acojonada, assim por que me incomodava tanto? Possivelmente porque tinha a impressão de que as mulheres deviam ser melhores que os homens: mais valentes, mais rápidas, mais o que fora. Não tínhamos mais remedeio se queríamos jogar em primeira.

Adiantei-me sozinha até que não pude ouvir nada mais que o som da erva, seco e lhe sussurrem, que parecia tentar me dizer algo com sua voz áspera. Era um som premente, como se a erva tivesse medo, embora miúda estupidez. A erva não sente uma mierda. Mas eu sim, e estava suando a mares. Estaria perto essa coisa? Estaria-me espreitando entre as moitas o monstro que podia converter a uma pessoa em um pedaço de carne crua?

Não. Os zombis não eram suficientemente preparados para espreitar a ninguém... Claro que este tinha sabido ocultar-se da polícia. Não estava mal para um cadáver; estava muito bem. Possivelmente não fora um zombi nem nada parecido. Por fim tinha encontrado algo que me assustava mais que os vampiros. A morte não me preocupava tanto, por aquilo de que sou cristã, mas a forma de morrer era outro cantar, e que comessem viva não estava em minha lista de preferências.

Quem ia pensar que eu teria medo de um zombi, fora do tipo que fora. Não deixava de ser irônico, mas tinha a boca muito seca para rir.

Como em todos os cemitérios, reinava uma espécie de calma desassossegada, como se os cadáveres estivessem contendo a respiração, mas a que esperavam? A que os ressuscitassem? Possivelmente, mas já tratei bastante com os mortos para acreditar que haja uma só resposta. Cada morto, igual a cada vivo, tem suas próprias expectativas.

Normalmente, a gente morre, vai ao Céu ou ao Inferno e isso é tudo. Mas em alguns casos, seja pelo motivo que seja, torcem-se as coisas. Os fantasmas, os espíritos inquietos, a violência, o mal e a simples confusão podem aprisionar os espíritos na terra. Não acredito que isso signifique que a alma fica apanhada; mas bem diria que perdura uma espécie de lembrança da alma, de sua essência.

Esperava que um espectro saísse da erva e se equilibrasse sobre mim, gritando? Não, ainda não tinha visto nenhum fantasma capaz de provocar danos físicos. Os demônios e alguns espíritos de lechuceros, mediante a magia negra, sim que podem provocá-los, mas os fantasmas não fazem nada.

Pelo menos podia me consolar com isso.

O terreno caiu em picado e perdi pé, mas sujeitei a uma lápide. A terra afundada significava que havia uma tumba sem assinalar. Subiu-me um comichão pela perna, uma espécie de eletricidade fantasmal. Apartei-me e fiquei sentada no chão.

-Tem-te feito mal, Anita? -gritou Dolph.

Voltei a vista; a erva me ocultava por completo.

-Estou bem -gritei.

Levantei-me com cuidado de não pisar na velha turaba. Fora quem fora seu ocupante, não estava satisfeito com sua morada: era uma zona ativa. Não se tratava de um fantasma nem de uma presença, mas algo havia. Era provável que em seus tempos tivesse sido um fantasma feito, mas se tinha ido debilitando. Os fantasmas se desfiam, como a roupa, e se vão partindo pouco a pouco aonde seja que partam.

A terra da tumba voltaria a nivelar-se, provavelmente antes de que me enterrassem ... se antes não me matava um zombi assassino, vamos. Ou um vampiro. Ou um humano de gatilho fácil. Bem pensado, era provável que a zona ativa durasse mais que eu.

Voltei a cabeça e vi que Dolph e os exterminadores estavam a uns vinte metros. Não era muito longe? Tinha-lhes pedido que não me soprassem no cangote, mas tampouco esperava que ficassem a tanta distância. Está visto que nunca estou contente.

zangariam-se se lhes pedia que se aproximassem mais? Provavelmente. Comecei a caminhar de novo, com cuidado de não pisar mais tumbas, mas não era fácil com a maioria das lápides ocultas pelas moitas. Quantas tumbas sem identificar, quanto abandono.

Poderia me passar toda a noite dando voltas sem rumo fixo. Acaso pensava que podia topar acidentalmente com a tumba adequada?

Suponho que sim. A esperança é o último que se perde, sobre tudo quando a alternativa é desumana.

Tanto os vampiros como os zombis foram antes seres humanos normais e correntes. E quase todos os licántropos também, embora às vezes nascem assim. Todos os monstros começam por ser normais, exceto eu, e não levantava mortos por vocação. Não é que um dia me plantasse no despacho de um assessor profissional e lhe dissesse: "Quero me dedicar a reanimar cadáveres". Nada tão fácil, nem de longe.

Sempre tive certa afinidade com a morte. Nada que tenha que ver com os mortos recentes; com as almas não me coloco, mas me dou conta assim que se vão. Posso senti-lo. Reí tudo o que queiram, mas sei.

De pequena tubo cão, como a maioria dos meninos. E como está acostumado a passar, morreu. Eu tinha treze anos. Enterramos ao Jenny no pátio traseiro. Uma semana depois despertei e a encontrei tombada a meu lado; sua densa pelagem negra estava talher de terra, e seus olhos marrons, mortos, seguiam todos meus movimentos, igual a quando a cadela estava viva.

Durante um momento pensei que nos tínhamos equivocado ao enterrá-la, mas a verdade é que reconheço a morte quando a vejo. Percebo-a, a saco da tumba. O que pensaria Dominga Salvador se soubesse isso? O zombi de um animal, nada menos, e levantado por acidente. Dá medo. É horripilante.

Judith, minha madrasta, não chegou a recuperar-se da impressão. É estranho que diga a alguém a que se dedica sua enteada. Quanto a meu pai... Bom, ele também prefere olhar para outro lado. Eu tentei fazer o mesmo durante um tempo, mas não havia maneira. Sem necessidade de entrar em detalhes, já sabem que nas estradas está acostumadas haver animais atropelados, não? Judith sabia melhor que ninguém, porque eu era como o flautista do Hamelin mas em macabro.

Ao final, meu pai me levou a conhecer minha avó materna. Não assusta tanto como Dominga Salvador, mas... digamos que é interessante. mostrou-se de acordo em que não deveriam me ensinar vodu, só o suficiente para manter os problemas a raia. "Basta com que a ensine a controlá-lo", havia dito meu pai.

E me ensinou. Quando já controlava minhas habilidades, meu pai me levou a casa, e não se voltou a mencionar o assunto, pelo menos diante de mim. Sempre me perguntei o que diria minha querida madrasta a minhas costas. Claro que a meu pai tampouco o fazia graça. Que coño, nem a mim.

Bert me recrutou assim que terminei os estudos, embora não tinha chegado a averiguar como se inteirou de minha existência. Ao princípio declinei a oferta, mas me oferecia tanto dinheiro... Pode que fora um ato de rebeldia, ou que ao final me desse conta de que os licenciados em biologia especializados no sobrenatural não contávamos com muitas saídas profissionais. Bom, em realidade me especializei em criaturas legendárias, que ficava quase igual de inadequado no currículo.

Era como especializar-se na antiga a Grécia ou em poesia romântica: interessante, e pode que divertido de estudar, mas para que demônios serve? Só para dedicar-se ao ensino, e de fato tinha intenção de me fazer professora universitária quando apareceu Bert e me ensinou a forma de tirar partido para meus dotes... E pelo menos posso afirmar que os estudos me servem de algo.

Nunca me perguntei de onde tinha tirado essas habilidades. Não era nenhum mistério: levava-as no sangue.

O caso é que ali estava, rodeada de tumbas. Respirei profundamente, e uma gota de suor me desceu pela cara. Enxuguei-me isso com o dorso da mão; suava como um porco, mas estava tremendo. Não por medo ao homem do saco, mas sim pelo que eu me dispunha & fazer.

Se fosse um músculo, moveria-o; se fosse uni idéia, pensaria-a; se fosse uma palavra mágica, diria-a. Mas não é nada parecido; é como se desaparecessem a pele e a roupa, como se as terminações nervosas ficassem ao ar. E a pesar do abafado da noite de agosto, tinha frio e a sensação de que o vento emanava de minha pele. Embora não é vento, porque ninguém mais o percebe nem sopra em habitações fechadas como nos filmes de terror. Nada chamativo; é algo silencioso, privado, só meu.

As rajadas geladas se dispersaram a meu redor, e soube que poderia explorar todas as tumbas que tivesse perto, em quase cinco metros à redonda. À medida que avançasse, o círculo avançaria comigo, sem deixar de procurar.

O que se sente quando se explora sob a terra, em busca de cadáveres? Não se parece com nenhuma percepção humana. A descrição mais ajustada que me ocorre é que tenho a impressão de que me saem uns dedos imateriais com os que posso atravessar a terra, embora tampouco é isso exatamente. parece-se, mas não.

Fazia anos que a umidade tinha desfeito o ataúde que tinha mais perto. Havia fragmentos de madeira e osso mesclados com terra: nada inteiro, tudo morto e inerte. A zona ativa, em troca, quase queimava, custodiando seus segredos. Não podia averiguar nada daquele ataúde, mas tampouco valia a pena investigá-lo: havia uma espécie de força vital apanhada na tumba morta, e ali seguiria até que se desvanecesse. Que mau cilindro.

Segui caminhando lentamente, rodeada pelo círculo invisível. Toquei ossos, ataúdes intactos, farrapos de vermelha nas tumbas mais recentes... Era um cemitério antigo, e não havia cadáveres em plena decomposição. A morte tinha alcançado a etapa pulcra.

Notei que me agarravam pelo tornozelo. Dava um salto e segui avançando sem baixar a vista; nunca terá que baixar a vista, aconteça o que acontecer. Vi, embora sem chegar a vê-lo, algo pálido e nebuloso, uns olhos exagerados e implorantes.

Um fantasma de verdade. Tinha-lhe pisado na tumba, e queria me demonstrar que não lhe tinha feito graça. Mas já vêem o que me impressiona que um fantasma me agarre o tornozelo; se não lhes faz nem caso, as mãos espectrais se desvanecem. O problemático é fixar-se neles: então é quando cobram forma física e podem causar problemas.

É uma máxima que se pode aplicar a quase todos os entes sobrenaturais: são mais inócuos quanto menos caso lhes faz. Claro que isto não se aplica aos demônios nem aos seres desse estilo. Tampouco aos vampiros, nem aos zombis, nem aos algules, nem aos licántropos, nem às bruxas... Bom, vale, o de fazer o sueco se aplica só aos fantasmas. Mas funciona.

As mãos me atiraram da perna da calça da calça, e notei que os dedos tentavam aferrar-se, como se o fantasma queria me usar para sair da tumba. Mierda, mierda, mierda. Tinha que seguir andando como se nada.

Ao final, os dedos se deram por vencidos. Alguns fantasmas parecem nos guardar rancor aos vivos, como se nos tivessem inveja. Embora não possam nos fazer danifico, acredito que nada lhes resulta mais divertido que nos dar sustos de morte.

Encontrei uma tumba vazia, coberta de erva alta. A madeira se estava desfazendo, mas não havia ossos. Não tinha nenhum cadáver. A terra estava seca e compacta pela falta de chuva, mas se notava que se removeram as moitas: havia raízes à vista, como se tivessem tentado arrancá-los. Ou possivelmente fora o rastro de algo que tinha saído da terra.

Pus a quatro patas ao lado. Apoiei as mãos na terra avermelhada e pude sentir o interior da tumba. É como passá-la língua pelos dentes: não se vê o que há, mas se percebe.

O cadáver não estava, mas o ataúde seguia em seu sítio: daí tinha saído um zombi, embora nada me garantia que fora o que procurávamos. Mesmo assim, era o único levantamento que tinha encontrado.

Olhei a meu redor. Custou-me usar só os olhos para examinar a erva; quase podia ver o que havia debaixo. Captava a tumba em algum lugar do cérebro que não recebe estímulos do nervo óptico. Meu campo de visão, o que via com os olhos, acabava em uma grade, a pouco menos de cinco metros. Tinha percorrido o cemitério inteiro? Era essa a única tumba vazia?

Incorporei-me e olhei a meu redor. Dolph e os dois exterminadores seguiam por ali, a uns trinta metros de distância. Trinta metros? Pois vá forma de me cobrir as costas.

Sim, tinha percorrido todo o cemitério. Distingui o lugar onde estava o fantasma bolinador, a zona ativa... A tumba mais recente ficava um pouco mais à frente. Já me sabia todo o cemitério, e me tinha informado de que mortos estavam inquietos... ou tinha inquietado eu. Tudo o que não estava completamente morto se pôs a dançar sobre a tumba: fantasmas esbranquiçados, luzes furiosas e agitadas.., Há formas e formas de levantar cadáveres.

Mas já se tranqüilizariam e seguiriam dormindo, se se pode chamar assim. Não era grave. Baixei a vista à tumba vazia. Não era grave?

Fiz-lhes um gesto ao Dolph e aos outros para que se aproximassem. Enquanto isso, tirei-me uma bolsa de plástico do bolso do macaco e meti nela um punhado de terra da tumba.

De repente, a luz da lua pareceu atenuar-se. Dolph estava a meu lado e a opacaba com sua presença.

-E bem? -perguntou.

-Desta tumba saiu um zombi -pinjente.

-É o zombi assassino?

-Não posso estar segura.

-Não sabe.

-Ainda não.

-E quando saberá?

-vou levar isto ao Evans, para que faça todo isso de toquetear e notar coisas.

-Evans? O vidente? -perguntou Dolph.

-Esse mesmo.

-É um inseto estranho.

-Pois sim, mas é bom.

-A polícia prescindiu que seus serviços.

-seu assunto -pinjente-. No Reanimators seguimos recorrendo a ele quando toca.

-Não confio no Evans -disse Dolph sacudindo a cabeça.

-E eu não confio em ninguém, assim que onde está o problema?

-te aponte um ponto -respondeu com um sorriso.

Meti em outra bolsa uns hierbajos, com cuidado de deixar as raízes intactas, e depois apartei as moitas da cabeceira da tumba. Não havia lápide. Mierda. Só ficava a base; tinham-na quebrado e se levaram os fragmentos. Já começamos.

-por que se terão carregado a lápide? -perguntou Dolph.

-O nome e as datas poderiam nos haver dado alguma pista sobre o motivo pelo que levantaram o zombi e sobre o que saiu mau.

-Mau?

-Haveria gente capaz de levantar um zombi e lhe ordenar que matasse a uma ou duas pessoas, mas não que organizasse uma massacre. Ninguém faria isso.

-Exceto um lunático.

-Isso não teve graça -pinjente olhando-o fixamente.

-Já.

Um maniaco que levantava mortos; um zombi assassino controlado por um psicopata... Cojonudo. E se o tinha feito uma vez...

-Olhe, Dolph, se fosse coisa de um lunático, poderia haver mais de um zombi.

-E segundo o louco que esteja, pode que não tenha pauta.

-Mierda.

-Isso mesmo.

Se não havia pauta, não havia motivo; se não havia motivo, possivelmente não fôssemos capazes de resolver o caso.

-Prefiro não pensar isso -pinjente.

-por que?

-Porque significaria que estamos perdidos. -Tirei a navalha que levava para esses casos e me pus a raspar os restos da lápide.

-É ilegal deteriorar tumbas -disse Dolph.

-Que pena.

Segui raspando e colocando as limagens em uma bolsa até que desprendi uma parte de pedra de bom tamanho. Depois me guardei as três bolsas nos bolsos, junto com a navalha.

-De verdade crie que Evans poderá tirar algo em claro de todo isso?

-Não sei. -Incorporei-me e joguei uma olhada. Os dois exterminadores guardavam as distâncias, para nos deixar falar em privado. O que educados-. Embora tenham destroçado a lápide, a tumba segue em seu sítio.

-Mas sem cadáver.

-Já, mas pode que o ataúde nos diga algo. Qualquer pista poderia ser útil.

-De acordo -disse assentindo-. Pedirei uma ordem de exumação.

-Não podemos nos pôr a cavar agora mesmo?

-Não, tenho que guardar as formas. -Olhou-me com dureza-. E não quero voltar e me encontrar com que me adiantaram; as provas não valeriam para nada se as tivessem manipulado.

-Provas? É que crie que isto vai chegar aos tribunais?

-Sim.

-Por favor, Dolph, o que temos que fazer é lhe parar os pés a esse zombi.

-Também quero pilhar aos hijoputas que o levantaram e apresentar cargos de assassinato contra eles.

Assenti. Estava de acordo com ele, mas me parecia muito pouco factível. Dolph era polícia e tinha que preocupar-se com a Lei; eu me preocupava com coisas mais singelas, como a sobrevivência.

-Se Evans descobrir algo útil, avisarei-te.

-De acordo.

-E não sei onde estará o inseto, mas sei onde não está.

-saiu que cemitério?

-Sim -pinjente.

-E estará matando a mais gente enquanto nós perseguimos fantasmas.

Gostou de lhe dar uns tapinhas no ombro e lhe assegurar que tudo ia bem, mas não me acreditava isso nem eu. Entendia-o perfeitamente, e em efeito, só estávamos perseguindo fantasmas. Embora aquela fora a tumba do zombi assassino, dar com ela não nos tinha servido para encontrá-lo, e tínhamos que encontrá-lo, apanhá-lo e acabar com ele. Pergunta-a do milhão era: conseguiríamo-lo antes de que lhe desse outra vez por comer? Não tinha a resposta. Mentira, sim que a tinha, mas eu não gostava: fora, em algum sítio, o zombi se estava pondo cego.

O camping de caravanas no que vive Evans está no Saint Charles, ao lado da auto-estrada 94: uma extensão enorme com casas rodantes por toda parte... embora de rodantes têm pouco, a verdade. Quando eu era pequena, havia quem enganchava a caravana à parte traseira do carro para ir-se de viagem; para isso estava. Agora há casas móveis que têm três ou quatro dormitórios e vários banhos, e para as mover faria falta um tráiler ou um tornado.

a do Evans era de um modelo antigo. Suponho que em caso necessário poderia enganchar a à parte traseira de uma caminhonete para levar-lhe Muito mais fácil que contratar um caminhão de mudanças, mas duvido que Evans chegue a mudar-se nunca. Se nem sequer saiu que sua caravana em um ano...

As janelas refulgiam ao sol, e um alpendre artesanal, com toldo e tudo, protegia a porta. Sabia que Evans estaria levantado; sempre estava levantado. A insônia parece algo inofensivo, mas o elevava à categoria de enfermidade.

havia me tornado a pôr o conjunto das calças curtas negros, e levava as três bolsas de amostras em uma riñonera; se me tivesse apresentado com elas à vista, ao Evans teria dado um ataque. Tinha que atuar com sutileza, como se passasse por ali, decidisse visitar um velho amigo e não pretendesse nada mais. Já.

Abri a mosquiteira e chamei. Silêncio, nem um movimento, nada. fui chamar outra vez, mas duvidei. E se Evans tinha conseguido jogar uma cabeçada por fim? Não tinha dormido em condições desde que o conhecia. Mierda. Seguia ali plantada, sem saber se seguir chamando, quando notei um olhar.

Subi a vista para a ventanita da porta e vi uma cara pálida que aparecia entre as cortinas. Os olhos azuis do Evans se cravavam em mim.

Saudei-o com a mão.

O rosto desapareceu; depois ouvi que tiravam o ferrolho, e se abriu a porta. Não havia nem rastro do Evans, só a porta aberta. Entrei. Evans estava escondido detrás.

apoiou-se na porta para fechá-la. Tinha a respiração agitada, como se tivesse estado correndo, e um cabelo amarelo como as jubas de uma faxineira lhe caía por um penhoar azul escuro. Tinha a cara coberta por uma barba avermelhada, descuidada.

 

-Como está? -perguntei. Evans se apoiou na porta com os olhos exagerados. Seguia respirando muito depressa. Estaria colocado?-. Como está? -repeti um pouco alarmada. Em caso de dúvida, troca a entonação.

-O que quer? -ofegou.

Tinha o palpito de que não ia tragar se o da visita de cortesia.

-Necessito sua ajuda.

-Não -disse sacudindo a cabeça.

-Nem sequer sabe o que quero.

-Não importa. -Seguiu sacudindo a cabeça.

-Posso me sentar? -Já que não funcionava o de abordá-lo diretamente, a ver se apelando a sua educação...

-Sim, claro. -Assentiu.

Olhei a meu redor. Estava segura de que havia um sofá debaixo das pilhas de periódicos, pratos de papel, taças médio enche e roupa suja; a mesita estava ocupada por um fóssil de pizza. O ar estava viciado.

Igual ficava histérico se começava a mover coisas. Seria capaz de me sentar na montanha sob a que supunha que estava o sofá sem provocar uma avalanche? Decidi tentá-lo. Com tal de conseguir sua ajuda, até me teria sentado nos restos da pizza embolorada.

Encarapitei a um montão de periódicos. Sem dúvida, debaixo havia algo grande e consistente, possivelmente o sofá de erras.

-Convida a um café?

-Não tenho taças podas -disse com um gesto de negação.

Acreditava-me isso. Seguia esmagado contra a porta, como se lhe desse medo aproximar-se, e tinha as mãos nos bolsos do penhoar.

-Podemos falar, simplesmente?

Sacudiu a cabeça, e o imitei. Vi que me olhava sentido saudades; igual ficava alguma neurônio.

-O que quer? -perguntou-me.

-Já lhe hei isso dito: que me ajude.

-Deixei-o.

-O que?

-Já sabe.

-Pois não, não sei. Conta-me isso?

-deixei que tocar coisas.

Pisquei. Era uma forma bastante estranha de expressá-lo. Então contemplei as pilhas de pratos sujos, de roupa... Pois não parecia que as houvessem meio doido.

-me deixe verte as mãos.

-Não -disse em voz alta e clara.

Pu-me em pé e me aproximei dele. Não me custou muito: abandonei-o entre a porta de entrada e a do dormitório.

-Insígnia me as mãos -ordenei-lhe.

Os olhos lhe encheram de lágrimas, que lhe escorregaram pelas bochechas quando piscou.

-me deixe em paz.

Tinha um nó na garganta. Virgem Santa, o que teria feito?

-Pode me ensinar as mãos pelas boas ou pelas más. -Contive o impulso de lhe tocar o braço; ia contra as normas.

pôs-se a se chorar, com soluço, soluços e tudo, mas tirou a mão esquerda do bolso. Estava pálida, ossuda Y... inteira. Soltei um suspiro de alívio. Obrigado, Meu deus.

-O que acreditava que tinha feito?

-Não pergunte. -Sacudi a cabeça.

Por fim me olhava de verdade; tinha conseguido captar sua atenção.

-Tampouco estou tão louco -disse.

ia dizer lhe que nem me tinha passado pela cabeça, mas não acreditei que penetrasse. Os dois sabíamos que tinha chegado a temer que se cortou as mãos para não ter que tocar nada mais. Pensar isso sim que era coisa de loucos, de loucos de atar. E ali estava eu, lhe pedindo ajuda para resolver um assassinato. Quem estava pior? Não respondam.

-A que vieste, Anita? -Ainda não lhe tinham secado as lágrimas e já falava com normalidade.

-Necessito que me ajude com um assassinato.

-Já te hei dito que o deixei.

-Uma vez me disse que não podia evitar ter visões, que não se podem desativar.

-Por isso não saio nunca. Se ficar aqui e não vejo ninguém, acabaram-se as visões.

-Não te acredito.

tirou-se do bolso um lenço branco e limpo, e agarrou o trinco com ele.

-Comprido.

-Hoje vi o cadáver de um menino de três anos ao que se comeram vivo.

Evans apoiou a cabeça na porta.

-Não me faça isto, por favor.

-Conheço outros videntes, mas nenhum te chega à sola dos sapatos. Necessito ao melhor. Necessito a ti.

-Não, por favor -disse esfregando a frente contra a porta.

Deveria lhe haver feito caso e me haver largado, mas fiquei. Fiquei detrás dele e esperei. Venha, velho amigo, arrisca a prudência por mim. A indômita reanimadora estava sendo implacável: o fim justifica os meios. E que mais.

Mas em certo modo, sim, só importava o resultado.

-Se não conseguir detê-lo, morrerá mais gente -pinjente.

-Dá-me igual.

-Não te acredito.

meteu-se o lenço no bolso e se voltou.

-O do menino é verdade, não?

-Sabe que não te mentiria.

-Sim, já. -umedeceu-se os lábios-. Dêem-me isso que tenha.

Tirei-me as bolsas da riñonera e abri a que continha os fragmentos de lápide. Por algum sítio tinha que começar.

Não me perguntou o que era; isso seria fazer armadilha. Nem sequer teria mencionado ao menino se não fora porque precisava convencê-lo. A culpa é uma ferramenta cojonuda.

Quando lhe joguei as partes maiores lhe tremeu a mão. Tive muito cuidado de não roçá-lo; não gostava de lhe revelar meus segredos. morreria de medo.

Agarrou com força a parte de pedra, e um estremecimento lhe percorreu a coluna. ficou muito tenso, com os olhos fechados, e entrou em transe.

-Um cemitério, uma tumba. -Girou a cabeça, como se tentasse escutar-. Erva alta. Calor. Sangue, está lubrificando a lápide de sangue. -Olhou a seu redor com os olhos fechados, mas não acredito que tivesse visto a caravana embora os deixasse abertos-. De onde sai esse sangue? -Não soube se devia responder-. Não, não! -Caiu para trás e se golpeou as costas com a porta-. Uma mulher que grita, que grita. Não, não! -Abriu os olhos desmesuradamente e lançou as partes de pedra tão longe como pôde-. Mataram-na, mataram-na! -tampou-se os olhos com os punhos-. OH, Meu deus, degolaram-na.

-Quais?

Sacudiu a cabeça, sem apartar as mãos da cara.

-Não sei.

-O que viu, Evans?

-Sangue. -Separou os braços para me olhar, sem deixar de cobrir o rosto-. Sangue por toda parte. Degolaram a uma mulher e lubrificaram a lápide com seu sangue.

Tinha outros dois objetos para que os examinasse, mas não me atrevia a pedir-lhe Embora não dizem que por pedir nada se perde?

-Quero que toque duas coisas mais.

-Nem pensar. -Retrocedeu para o dormitório-. Te largue. Vete de minha casa imediatamente.

-Que mais viu, Evans?

-Que vá!

-me diga algo da mulher. me ajude, Evans!

As costas lhe escorregou pela porta e ficou sentado no chão.

-Um bracelete. Levava um bracelete na mão esquerda. Amuletos pequenos: corações, um arco e uma flecha, notas musicais... -Sacudiu a cabeça e a afundou entre os braços-. Vete de uma vez.

Comecei a lhe dar as obrigado, mas não me pareceu apropriado. Pu-me a procurar a pedra, e a encontrei em uma taça de café que continha algo verde e orgânico no fundo. Recolhi-a, limpei-a com uns jeans que havia no chão e a voltei a jogar à bolsa, e depois me guardei isso tudo.

Olhei a meu redor; não queria deixá-lo em meio de tanta mierda. Possivelmente me sentisse culpado por me haver passado tanto com ele. Possivelmente.

-Muito obrigado, Evans. -Não levantou a vista-. Se mandar a uma criada, deixará que limpe isto?

-Não quero que ninguém venha aqui.

-A fatura a pagaria Reanimators. Estamos em dívida contigo. -Olhou-me sem dissimular a raiva-. Necessita ajuda, Evans, está-te desmoronando.

-te largue de uma puta vez de minha casa.

Cada palavra foi como um dardo envenenado. Nunca o tinha visto tão furioso. Tinha-o visto assustado, sim, mas nunca assim. O que podia dizer? Era sua casa.

Larguei-me e fiquei no alpendre desarrumado até que ouvi que fechava a porta a minhas costas. Tinha o que queria: informação. Assim por que me sentia tão mal? Porque lhe tinha imposto minha vontade a alguém que tinha um problema grave. Vale, era isso: culpabilidade, culpabilidade, culpabilidade.

Uma imagem me foi à mente: o lençol ensangüentado do sofá marrom. A coluna vertebral da senhora Reynolds, úmida, resplandecente à luz do sol.

Fui a meu carro e entrei nele. Se o que tinha feito ao Evans servia para salvar a uma família, valia a pena. Se com isso me liberava de voltar a ver um menino de três anos com os intestinos arrancados de coalho, seria capaz de pegar ao Evans com um taco de beisebol, ou de deixar que me pegasse .

Bem pensado, não era o que acabávamos de fazer?

No sonho era pequena, uma menina. Tinha o carro estrelado diante, onde o tinha estampado o outro carro, e parecia de papel de alumínio enrugado. A portinhola estava aberta. Entrei e reconheci a tapeçaria, tão clara que era quase branca, com uma mancha de líquido escuro, não muito grande. Aproximei a mão para tocá-la.

Me mancharam os dedos de vermelho. Nunca tinha visto tanto sangue. O pára-brisa tinha uma telaraña de gretas e estava curvado para fora, por onde minha mãe o tinha golpeado com a cara. Tinha saído despedida pela porta, e tinha morrido junto à estrada; por isso o assento não estava encharcado.

Fiquei me olhando os dedos, cheios de sangue. Em realidade deveria estar seca e ser só uma mancha, mas em meu sonho sempre estava fresca.

Naquela ocasião notava um aroma de carne putrefata. Havia algo que não encaixava. De repente me dava conta de que o aroma não formava parte do sonho; era de verdade.

Despertei imediatamente e olhei a meu redor na escuridão, com o coração em um punho. Minha mão procurou a Browning, que repousava em seu segundo lar, uma capa sujeita à cabeceira. Seu tato era firme, sólido e reconfortante. Fiquei sentada, com as costas apertada contra a cabeceira e a pistola na mão.

A luz da lua que penetrava entre as cortinas iluminou um corpo de homem, que não reagiu à pistola nem a meu movimento; seguiu arrastando os pés pelo carpete. Tinha tropeçado com minha coleção de pingüins de peluche, que se estendem como uma maré peluda sob a janela de meu dormitório, e tinha derrubado uns quantos, mas não parecia capaz de passar por cima, assim avançava entre eles com dificuldade, como se vadeasse um rio.

Sem deixar de mirá-lo, medi a mesinha com a outra mão e acendi o abajur. A luz me deslumbrou, e pisquei rapidamente para me adaptar. Quando me contraíram as pupilas vi que estava ante um zombi.

Em vida tinha sido um homem corpulento, e tinha uns ombros largos e musculosos. Tinha as mãos grandes e de aspecto forte. Lhe tinha secado um olho, que parecia uma ameixa passa, mas me olhava com o outro. Não havia nada em seu olhar: nem impaciência nem nervosismo nem crueldade; era o olhar vazio de um instrumento, e evidentemente, Dominga Salvador movia os fios. Seguro que lhe tinha dado a ordem de matar.

Se a senhora tinha levantado o zombi, eu não poderia desativá-lo. Não podia lhe ordenar que fizesse nada até que tivesse completo seu encargo. Depois de me matar seria dócil como um corderito morto, mas até então...

Bem pensado, melhor não esperar.

Tinha a Browning carregada com balas explosivas Glazer banhadas em prata. Fazem tais brechas que podem matar a um homem com apenas acertar no tronco, mas a um zombi daria igual a lhe faltasse médio peito; com coração ou sem ele, seguiria avançando. Se se der em um braço ou uma perna, a amputação é automática; claro que para isso faz falta pontaria.

O zombi não parecia ter pressa. Arrastava os pés entre os peluches cansados com a determinação dos mortos. Não é que tenham uma força sobre-humana, mas o de reservar energias não vai com eles. Quase qualquer ser humano poderia fazer uma façanha sobre-humana, como levantar um carro. Mas só uma vez, e a costa de rasgar-se músculos, se truncar várias cartilagens e parti-la coluna. O cérebro tem inhibidores que nos impedem de nos destroçar, mas nos zombis não funcionam. O cadáver poderia me esquartejar, embora de resulta ficasse igual de esquartejado. Certamente, se Dominga tivesse pretendido me matar de verdade, teria mandado um zombi mais fresco; aquele estava tão chateado que não me custaria esquivá-lo e chegar à porta. 0 não...

Assegurei a posição da pistola com a mão esquerda, sem apartar a direita de seu sítio: com o dedo no gatilho. Disparei, e a explosão encheu o dormitório com um ruído ensurdecedor. O zombi acusou o impacto, e seu braço direito se dispersou em uma chuva de carne e lascas de osso. Não sangrou; levava morto muito tempo.

Seguiu avançando.

Apontei ao outro braço. Agüenta a respiração, apura o gatilho... Justo no cotovelo; bem. Os dois braços foram serpenteando para a cama pelo carpete. Já podia esmiuçá-lo, que todos os pedacinhos seguiriam tentando me matar.

A perna direita, à altura do joelho. Embora não se a seccioné por completo, o zombi caiu de lado. Convexo de barriga para baixo, começou a empurrar-se com a perna boa. Pela outra lhe gotejava um líquido escuro de aroma nauseabundo.

Traguei saliva, e o aroma ficou na garganta. Puaj. Saí da cama pelo lado mais afastado da coisa, e a rodeei. O zombi soube no ato que me tinha movido e tentou girar para seguir deslocando-se para mim, impulsionando-se com sua única perna útil. Os braços começaram a reptar mais depressa, afundando os dedos no carpete. Disparei contra a perna que ficava desde menos do meio metro, e os fragmentos me engorduraram os pingüins. Mierda.

Os braços quase tinham chegado a meus pés descalços. Peguei dois tiros rápidos e destrocei as mãos contra o carpete branco. Os braços sem mãos se debateram, tentando me dar alcance.

Notei o roce de um tecido a minhas costas, um movimento na penumbra da sala; a porta estava aberta detrás de mim. Quando dava meia volta soube que era muito tarde.

Uns braços me sujeitaram contra um peito muito firme, e uns dedos me cravaram no braço direito, me esmagando a pistola contra o corpo. Apartei a cabeça para ocultar a cara e o pescoço depois do cabelo, e uns dentes me afundaram no ombro. Soltei um grito.

Tinha a cara apertada contra o zombi, que me seguia cravando os dedos. Me ia destroçar o braço. A pistola estava pinzada entre seu corpo e o meu, e os dentes não me soltavam o ombro, mas não se tratava de presas, mas sim de uma simples dentadura humana. Apesar de que a dor era insuportável, não me passaria nada grave se conseguia me liberar.

Apartei a cabeça e apertei o gatilho. Todo seu corpo se tornou para trás, e lhe desprendeu o braço esquerdo. Consegui escapar, com o braço do zombi ainda pendurado do meu. Os dedos não afrouxavam a presa.

Fiquei na porta do dormitório olhando o cadáver que tinha estado a ponto de acabar comigo. Era de um homem branco, de metro oitenta e cinco, com a constituição de um culturista, e não levava muito tempo morto: o ombro esmigalhado lhe sangrava. Os dedos me apertaram o braço com mais força; não me podia romper isso mas eu tampouco me podia tirar isso não tinha tempo.

Atacou com o outro braço estendido. Eu apontei com as duas mãos, com a impressão de me mover a câmara lenta. O braço que me me sujeitava tentou impedir isso como se seguisse conectado ao cérebro. Disparei duas vezes. O zombi se derrubou ao receber um tiro de soslaio na perna esquerda, mas já se aproximou mais da conta, e me arrastou ao cair.

Aterrissamos no chão, comigo debaixo. Consegui manter a Browning em alto e os braços livres. O peso do zombi me esmagava; não podia evitá-lo. O sangue lhe brilhava nos lábios. Disparei a quemarropa com os olhos fechados, não só porque não queria vê-lo, a não ser para evitar que me entrassem lascas de osso.

Quando voltei a olhar, da cabeça só ficavam uma parte de mandíbula e outro de crânio. A mão do braço que ficava avançou para meu pescoço, e a que eu tinha pendurada ajudava a seu corpo. Não podia disparar; não tinha o ângulo adequado.

Ouvi que um pouco pesado se arrastava detrás de mim. Decidi correr o risco de girar a cabeça e vi que o primeiro zombi me aproximava com a boca aberta; era o único com o que ainda era capaz de me fazer danifico.

Gritei e me voltei para o zombi que tinha em cima. Quase me tinha alcançado o pescoço com a mão, mas consegui me apartar e lhe pôr diante seu próprio braço seccionado, e o agarrou. Vá. Assim sem cérebro já não era tão preparado. Notei que o braço talhado sofria um espasmo, e os dedos que me sujeitavam se afrouxaram quando a carne arrebentou como um melão amadurecido, soltando sangue. Liberei-me, e o zombi seguiu esmagando seu próprio braço até lhe partir os ossos.

Ouvi aproximar-se do outro zombi. Virgem Santa.

-Polícia! Saiam com os braços em alto! -gritou uma voz de homem do corredor.

-Socorro! -Decidi que não era o momento adequado para me fazer a dura.

-O que está acontecendo aqui, senhorita?

Tinha ao primeiro zombi quase em cima; voltei a cabeça e virtualmente me dava de narizes com ele. Coloquei-lhe a Browning na boca aberta, e seus dentes rasparam o canhão. Apertei o gatilho.

De repente havia um policial na porta, recortado contra a escuridão. Visto do chão, era gigantesco. Cabelo castanho encaracolado, algo grisalho; bigode; pistola em mão.

-Joooder -disse. O segundo zombi soltou seu braço destroçado e tentou me alcançar de novo. O policial o sujeitou firmemente pelo cinturão e atirou dele com uma mão-. Tira a daqui!

Seu companheiro foi entrar no dormitório, mas não lhe dava tempo. Saí de debaixo do cadáver e corri ao salão a quatro patas; não fazia falta que me pedissem isso duas vezes. Ajudou-me a me incorporar, me sujeitando pelo braço direito. o da Browning.

Normalmente, qualquer policial teria começado por me ordenar que atirasse a pistola; às vezes é difícil discriminar quem é o mau, e qualquer pessoa armada o é até que demonstre o contrário. A presunção de inocência não funciona com armas de por meio.

Tirou-me a pistola, e o permiti. Sei como vão as coisas.

Ouvimos um disparo procedente do dormitório, e os dois demos um salto. O policial que me sujeitava teria minha idade, mas naquele momento me sentia como se tivesse um milhão de anos. Giramo-nos e vimos o primeiro polícia disparando ao zombi, que se tinha liberado e se pôs de pé. As balas o atrasavam, mas não o detinham.

-Vêem aqui, Brady -gritou.

O policial mais jovem desencapou e avançou um pouco, mas vacilou e ficou me olhando.

-Ajuda-o -disse-lhe.

Assentiu e começou a disparar contra o zombi. Os tiros ressonavam como trovões na habitação. Zumbiam-me os ouvidos, e o aroma da pólvora o impregnava tudo. Nas paredes surgiam mais e mais buracos, e o zombi continuava avançando. Só conseguiam incomodá-lo um pouco.

O problema da polícia é que não pode usar balas explosivas Glazer. Poucos agentes se topam com coisas sobrenaturais com tanta freqüência como eu; quase sempre estão perseguindo malfeitores humanos, e aos poderes factuais não faz nenhuma graça que lhe voe uma perna a um chouriço de três ao quarto só por ter disparado. Os policiais não devem carregar-se a quem tenta carregar-lhe a eles, não?

Assim tinham balas normais, pode que com um bañito para chapear a pílula, mas nada que pudesse lhe parar os pés a um nomuerto. Os polis se cobriam mutuamente: quando a gente disparava, o outro trocava o carregador. O zombi seguia avançando, com o braço que ficava estendido, me buscando a mim. Mierda.

-Usa minha pistola -pinjente-. Tem balas explosivas.

-Hei-te dito que a tirasse daqui, Brady -disse o primeiro polícia.

-Necessitava ajuda -protestou Brady.

-Não quero civis.

Huy. Tinha-me chamado civil.

Brady não voltou a questioná-lo; retrocedeu para mim, apontando ao zombi mas sem disparar.

-me acompanhe, senhorita, temos que sair daqui.

-me dê minha pistola -pinjente. Olhou-me e sacudiu a cabeça-. Trabalho na Brigada Regional de Investigação Preternatural. -Isso era verdade. Esperava que tomasse por polícia; isso era mentira, mas o guri se enredou ao atar os cabos e me devolveu a Browning-. Obrigado. -Avancei para o policial maior-. Estou na Santa Compaña.

-Pois faz algo -disse me olhando de reojo, sem deixar de apontar ao zombi.

Tinham aceso a luz da sala. Agora que ninguém lhe disparava, o zombi avançava a passo normal, como quem sai de passeio, embora sem cabeça e com um só braço. Até parecia mais vivaz; igual percebia minha proximidade.

Estava em melhores condicione que o primeiro zombi; podia aleijá-lo, mas não deixá-lo fora de combate. Enfim, algo é melhor que nada, assim disparei de novo contra a perna que já lhe havia meio doido. Tive mais tempo para apontar e lhe dava totalmente.

derrubou-se outra vez, mas seguiu avançando com muita rapidez, apoiando-se no braço e a outra perna; por fim ficava só uma. Comecei a sorrir e logo a rir, mas em seguida me passaram as vontades. Aproximei-me rodeando o sofá; depois do que lhe tinha visto fazer com seu próprio braço, não queria mais acidentes. Não gostava que me espachurrase nada.

Apareci detrás dele, e deu a volta mais depressa do que deveria para enfrentar-se me Tive que lhe dedicar dois disparos à outra perna. Já não recordava quantas balas tinha usado. Ficavam dois, uma ou nenhuma?

Senti-me como Harry o Sujo, com a diferença de que a meu adversário dava três leites quantas vezes tivesse disparado. Não lhe pode perguntar a um morto se se sentir afortunado.

Seguia arrastando-se, sem pernas nem nada; bastava-lhe com um braço. Disparei quase a bocajarro, e a mão estalou deixando uma flor carmesim no carpete branco. Seguiu avançando com a única ajuda do coto.

Voltei a apertar o gatilho, mas só soou um clique. Mierda.

-Não ficam balas -pinjente enquanto me afastava. A coisa ainda tentava me seguir.

O policial maior se aproximou e o sujeitou pelos tornozelos. Quando atirou dele para trás ficou com uma perna na mão.

-Joder! -Soltou a perna, que ficou a revolver-se, como uma serpente com a coluna partida.

Fiquei olhando o cadáver, que não retrocedia em seu empenho de me alcançar, embora com muita dificuldade. O policial o sujeitava em velo por uma perna, mas o zombi não deixava de tentá-lo. E seguiria tentando-o até que o incinerássemos ou até que Dominga Salvador lhe ordenasse algo distinto.

Na porta apareceram mais agentes de uniforme, que se equilibraram sobre o zombi esquartejado como abutres sobre um despojo, com a diferença de que se debatia e se esforçava por cumprir sua missão: acabar comigo. Menos mal que havia suficientes policiais para sujeitá-lo até que chegassem os do laboratório forense. Quando tivessem terminado de investigar os cadáveres, uma equipe de exterminadores os incineraria.

Antes os levavam a depósito para examiná-los, mas sempre escapavam trocitos, que se escondiam nos sítios mais insuspeitados. Ao final, a forense se negou a receber zombis que não estivessem mortos de tudo, e tanto os da ambulância como os técnicos do laboratório estavam de acordo com ela. Eu os entendia, mas o fogo tinha o inconveniente de que destrói as provas. Mau ou pior?

Eu estava na sala, a um lado. Com tudo aquela confusão se esqueceram de mim, e me parecia muito bem, porque não estava de humor para mais combate com zombis. De repente me dava conta de que só levava uma camiseta enorme e as calcinhas, e o sangue me pegava a camiseta ao corpo. Comecei a me aproximar do dormitório, acredito que com intenção de me pôr umas calças, mas o que vi no chão me fez parar em seco.

O primeiro zombi era como um inseto ao que lhe tivessem arrancado as patas: não podia mover-se, mas o tentava. Era um tronco que seguia tratando de cumprir suas ordens e me aniquilar.

Dominga Salvador tinha tentado me apagar do mapa. Dois zombis, e um deles como novo. Pretendia me matar. Aquela idéia ficou cravada no cérebro, como uma canção pegajosa. Tínhamos intercambiado ameaças, mas a que vinha tanta violência? me matar, nada menos. Não existiam recursos legais que me permitissem detê-la, e ela sabia, assim por que se tomava tantas moléstias para me eliminar?

Porque tinha algo que ocultar, talvez? Tinha-me dado sua palavra de que ela não tinha levantado o zombi assassino, mas possivelmente sua palavra não significasse nada. Era a única explicação possível: tinha que estar envolta. O teria levantado pessoalmente? Ou se não, saberia quem tinha sido? Disso nada; se não o tivesse levantado ela mesma, tampouco acredito que tivesse tentado me matar menos de quarenta e oito horas depois de nossa conversação, porque despertaria suspeitas. Dominga Salvador tinha levantado um zombi que lhe tinha ido das mãos; assim de fácil. Podia ser tudo quão malvada quisesse, mas tampouco era nenhuma psicopata, e não tinha sentido que se dedicasse a criar zombis assassinos para soltá-los por aí. Reina-a do vodu a tinha cagado soberanamente, e seria isso o que mais a incomodava, mais que as mortes ou uma possível acusação de assassinato. Não podia permitir que sua reputação ficasse em interdição.

Contemplei a habitação. Além dos restos sanguinolentos e fedidos, tinha todos os pingüins engordurados de sangue e outras sujeiras. Conseguiriam salvá-lo-los sofridos empregados de minha tinturaria? Com a roupa faziam maravilhas.

As balas explosivas não atravessam as paredes, e esse era outro dos motivos pelos que eu gostava. Não haveria me cubro graça acribillar aos vizinhos. As balas dos policiais eram mais perfurantes, e havia um montão de arenas perfeitos.

Era a primeira vez que me atacavam em casa, ao menos a essa escala. Deveria estar proibido; todo mundo tem direito a estar a salvo em sua própria cama. Seja seja sei, aos maus dão igual as proibições. Entre outras coisas, por isso são os maus.

Sabia quem tinha levantado o zombi; só me faltava demonstrá-lo. Havia sangue por toda parte; sangue e coisas piores. A verdade é que já ia acostumando ao aroma, mas era asqueroso, Todo o piso emprestava. Além disso, quase tudo era branco: as paredes, o carpete, o sofá, a poltrona... As manchas ressaltavam como feridas recentes, e os buracos de bala e o estuque rachado faziam jogo com o sangue.

Tinham-me destroçado a casa. Demonstraria que tinha sido Dominga, e depois, se tinha sorte, devolveria-lhe o favor.

-Onde as dão tomam -sussurrei, embora ninguém me escutava. Comecei a notar o sabor das lágrimas na garganta, misturado com o comichão de um grito incipiente. Não queria chorar, mas me parecia melhor que gritar.

Chegaram os enfermeiros. Uma deles era uma negra baixa, mais ou menos de minha idade.

-Vêem, carinho, vamos jogar te uma olhada -disse com voz amável, enquanto me afastava do açougue com delicadeza. Nem sequer me importou o apelativo. Estava desejando que me abraçassem e me consolassem. Necessitava-o desesperadamente, mas não via como consegui-lo-. Temos que ver quanto sangra antes de te levar a ambulância, carinho.

-O sangue não é minha -pinjente sacudindo a cabeça, com uma voz que parecia chegar de muito longe.

-O que?

Olhei-a, me esforçando por fixar a vista nela O acontecido começava a me afetar. Não é algo que me passe normalmente, mas uma noite tola a tem qualquer.

-O sangue não é minha. Tenho uma dentada ex o ombro, nada mais.

Por sua expressão vi que não me acreditava. Não podia culpá-la; o habitual, quando me vêem coberta de sangue, é que dêem é obvio que estou sangrando. Quase ninguém tem em conta que está tratando com uma mata-vampiros e levantamuertos dura como o aço.

As lágrimas ameaçavam voltando; mordiam-me as pálpebras. Meus pingüins estavam engordurados de sangue. As paredes e o carpete me suavam isso: podiam-se trocar. Mas tinha colecionado esses putos peluches durante anos. Deixei que a enfermeira me apartasse, enquanto as lágrimas me corriam pelas bochechas. Não estava chorando; só me lacrimejavam os olhos. Porque meus brinquedos estavam salpicados de partes de zombi. O que terá que agüentar.

Tinha estado em suficientes cenas do crime para saber o que esperar. Como quem está farto de ver um filme: podia dizer de carreirinha quem entrava, quem saía e a maioria dos diálogos. Mas aquela cena era distinta: era minha casa.

Era uma estupidez que encontrasse ofensivo que Dominga Salvador me atacasse em minha própria casa, mas é o que há, Não soube que existia a norma até que essa mulher a transgrediu: não atacará ao bom em sua própria casa. Mierda.

Pensava fazer o pagar com interesses. Já, eu e quantas como eu? Embora igual com ajuda da polícia...

A brisa agitava as cortinas da sala; um tiro tinha quebrado o cristal. Menos mal que tinha assinado um contrato de aluguel de dois anos; pelo menos demorariam um pouco em me jogar.

Dolph se aproximou da cozinha e se sentou em frente de mim. A mesa, com suas duas cadeiras de respaldo reto, apresentava um aspecto minúsculo com ele ali; era como se o enchesse tudo. Ou igual era que eu me sentia mais pequena que nunca aquela noite... ou aquela manhã. O que fora.

Olhei-me o relógio, mas tinha a esfera manchada com algo escuro e pringoso, e não pude ver a hora. Teria que limpá-lo. Voltei a colocar o braço debaixo da manta que me tinham dado os enfermeiros; tinha a pele mais fria do que correspondia, e nem sequer os planos de vingança me ajudavam a entrar em calor. Mais adiante jogaria fumaça, quando o encho o saco cobrasse força, mas de momento me alegrava de estar viva.

-Bom, Anita, o que passou?

Olhei para o salão. Estava quase vazio; já se tinham levado aos zombis. E os tinham incinerado na rua, nada menos: festa no bairro, um bonito espetáculo para toda a família.

-Importa-te que me troque de roupa antes de emprestar declaração? -Olhou-me durante um segundo ou assim e assentiu-, Estupendo.

Levantei-me bem envolta na manta, com as pontas cuidadosamente recolhidas. Não queria tropeçar; já tinha feito Distante o ridículo por uma noite.

-Necessitaremos a camiseta como prova -gritou Dolph.

-Vale -respondi sem me voltar.

Haviam talher as manchas mais gordas com lençóis, para não engordurá-los sapatos e encher de sangue todo o edifício. Que bonitos. O dormitório emprestava a podre, sangue estancado e cadáveres rançosos. Aquela noite já não seria capaz de dormir nele; há coisas que não faria nem eu.

Necessitava uma ducha, mas não acreditava que Dolph estivesse disposto a esperar tanto tempo, assim que me conformei agarrando uns jeans, uns meias três-quartos e uma camiseta limpa, e me levei isso tudo ao banho. Com a porta fechada virtualmente não chegava aroma. Ali não tinha passado nada.

Atirei ao chão a manta e a camiseta suja. Tinha o ombro enfaixado, na zona onde me tinha mordido o zombi; tinha tido sorte de que não me arrancasse um bocado. A enfermeira me disse que tinha que me vacinar contra o tétanos. Ninguém se converte em zombi por uma dentada, mas os mortos têm a boca cheia de bactérias. Embora o risco principal é de infecção, tampouco estava de mais tomar precauções.

Tinha os braços e as pernas cheios de sangre seca. Não me incomodei em me lavar; já tomaria banho depois para me limpar a fundo.

A camiseta, que me chegava quase pelos joelhos, tinha uma caricatura enorme do Arthur Conan Doyle olhando por uma grande lupa que lhe ampliava o olho desproporcionalmente. Contemplei-a no espelho do banho. Era suave, cálida e reconfortante. O último era imprescindível naquele momento.

A roupa que levava durante o ataque tinha ficado destroçada sem remédio, mas igual podia salvar algum pingüim. Deixei a banheira enchendo-se com água fria. Se funcionar com a roupa, com um pouco de sorte, funcionaria com os peluches.

Tirei umas sapatilhas esportivas de debaixo da cama, para não ter que pisar no sangue com os meias três-quartos. O calçado se inventou para casos como esse. Bom, pode que não especificamente para o sangue de zombi coagulada, mas é que é difícil pensar em tudo.

Dois pingüins se estavam pondo marrons, à medida que se secava o sangue. Levei-os correndo à banheira, mantive-os afundados até que se empaparam o suficiente para não flutuar e fechei o grifo. Já tinha as mãos mais limpa, mas não se podia dizer o mesmo da água: os peluches gotejavam sangue. Se conseguia limpar aqueles dois, outros seriam pão comido.

Sequei-me as mãos com a colcha; para que sujar nada mais.  

Sigmund, o pingüim com o que dormia às vezes, não se tinha engordurado muito; só tinha umas bolinhas na tripa branca. Algo é algo. Estive a ponto de levar me abraçado isso para ir emprestar declaração; supunha que Dolph não o diria a ninguém. Mas me limitei a apartar o das manchas mais gordas, no caso de. Ver esse inseto estúpido em uma esquina, a salvo, fez-me sentir melhor. Terá que estar mau.

Zerbrowski apartou a vista do aquário para me olhar.

-Nunca tinha visto peixes anjo deste tamanho. Não sei se lhe vão caber na frigideira...

-Deixa os peixes em paz -ladrei.

-Claro, só era uma idéia -respondeu sorridente.

Dolph estava na cozinha, sentado com as mãos entrelaçadas na mesa e o semblante inescrutável. Se o tinha alarmado que tivessem estado a ponto de me dar passaporte, não o exteriorizava. Claro que Dolph não exteriorizava nada nunca; o mais parecido a uma emoção que lhe tinha visto era precisamente sua reação com o assunto do zombi assassino e os civis destroçados.

-Quer um café? -perguntei-lhe.

-Sim.

-Eu também -disse Zerbrowski.

-Só se me pede isso por favor.

-Por favor -disse apoiando-se na parede. Tirei a bolsa da geladeira-. Guardas aí o café? -perguntou-me sentido saudades.

-É que alguma vez tomaste café de verdade?

-Não sei. Conta o solúvel?

-Bárbaros. -Sacudi a cabeça.

-Se tiverem terminado com os sarcasmos, podemos começar com a declaração? -A voz do Dolph não soava tão severo como suas palavras.

Sorri aos dois; que me crucifiquem se não me alegrava de vê-los. Embora devia estar pior do que imaginava se me alegrava de ver o Zerbrowski.

-Estava dormindo sem me colocar com ninguém quando despertei e vi um zombi ao lado da cama -expliquei enquanto colocava a medida exata de grãos de café no máquina de moer. Me tinha comprado isso negro para que fizesse jogo com a cafeteira.

-O que despertou? -perguntou Dolph.

Pulsei o botão do máquina de moer, e o aroma de café recém moído encheu a cozinha. Que maravilha.

-O aroma de cadáver.

-Amplia.

-Estava dormindo e me chegou um aroma de cadáver putrefato, mas não pegava com o sonho, e isso despertou.

-Que mais? -Tinha a caderneta e a caneta preparadas.

Concentrei-me em cada passo da preparação do café enquanto o contava tudo, incluídas minhas suspeitas sobre a senhora Salvador. Quando terminei de falar, o café começava a sair, enchendo o piso com esse aroma arrebatador.

-Assim crie que ela levantou o zombi que procuramos? -perguntou.

-Sim.

-Pode demonstrá-lo? -Olhava-me muito sério do outro lado da mesa.

-Não.

Respirou profundamente e fechou os olhos um momento.

-Estupendo. Cojonudo.

-Acredito que o café já parece -disse Zerbrowski. sentou-se no chão, com as costas apoiada na porta. Levantei-me e servi três taças.

-Se quiser açúcar ou nata, te sirva.

Deixei a nata, nata de verdade, na encimera, ao lado do de açúcar. Zerbrowski ficou um montão de açúcar e uma nuvem de nata; Dolph tomou sozinho. Assim me tomava eu quase sempre, mas aquela vez lhe joguei de tudo. Nata de verdade com café de verdade. Ñam, ñam.

-Se pudéssemos entrar na casa da Dominga, crie que conseguiria alguma prova?

-De algo as encontraria, mas do levantamento do zombi assassino... -Sacudi a cabeça-. Se foi obra dela e lhe saiu rã, terá destruído todas as provas, para que ninguém a relacione com o inseto.

-Quero empapelá-la por isso -disse Dolph.

-Eu também.

-Pode que volte a tentar te matar -disse Zerbrowski da porta, enquanto soprava o café para esfriá-lo.

-Não me diga.

-Crie que o tentará? -perguntou Dolph.

-É muito provável. Como cone entraram dois zombis em minha casa?

-Terão forçado a fechadura -disse Dolph-. Você crie que um zombi...?

-Não. Poderia arrancar a porta, mas não se entreteria em forçar a fechadura, nem que tivesse a capacidade motriz necessária.

-Assim que alguém lhes abriu a porta -disse Dolph.

-Isso parece -pinjente.

-Alguma idéia de quem pôde ser?

-Eu apostaria por algum de seus valentões. Seu neto Antonio, ou pode que Enzo, um tipo grande de quarenta e tantos que pode que seja seu guarda-costas. Não sei se sabem forçar fechaduras, mas o fariam. Embora eu descartaria ao Antonio.

-Mas como?

-Se tivesse deixado passar aos zombis, teria ficado olhando.

-Está segura?

-É desses -respondi me encolhendo de ombros-. Enzo faria seu trabalho e se largaria; sabe cumprir ordens. Mas o neto da Dominga, não.

Dolph assentiu.

-os de acima estão pressionando muito para que resolvamos o caso do zombi assassino. Acredito que poderia conseguir uma ordem de registro em quarenta e oito horas.

-É muito tempo.

-Sem mais prova que sua palavra, Anita. Jogo-me isso muito com isto.

-Está envolta, seguro. Não sei por que o lizo nem como lhe descontrolou o zombi, mas foi ela.

-Conseguirei a ordem.

-Há um agente que diz que te tem feito passar por polícia -disse Zerbrowski.

-Hei-lhe dito que trabalhava com vós; não lhe hei dito em nenhum momento que formasse parte da brigada.

-Já vejo. -Zerbrowski sorriu.

-Estará a salvo aqui esta noite? -perguntou-me Dolph.

-Suponho que sim. À senhora não interessa enfrentar-se às forças da ordem; às bruxas as tratam mais ou menos como aos vampiros: sentença de morte automática se se passarem ao lado escuro.

-Porque a gente lhes tem medo -disse Dolph.

-Porque há bruxas que podem sair de qualquer cárcere.

-E rainhas do vodu? -perguntou Zerbrowski.

-Não quero sabê-lo. -Sacudi a cabeça.

-Será melhor que vamos e lhe deixemos dormir um pouco -disse Dolph.

Tinha deixado a taça vazia na mesa. Zerbrowski não se acabou a sua, mas a deixou na encimera e seguiu ao Dolph. Acompanhei-os à porta.

-Avisarei-te quando tivermos a ordem de registro -disse Dolph.

-Pode conseguir que me ensinem os efeitos pessoais do Peter Burke?

-Para que?

-Só se pode perder o controle de um zombi até esse ponto de duas formas. A primeira, ser capaz de levantá-lo, mas não de controlá-lo, e Dominga pode controlar algo que levante. A segunda, que interfira alguém com um poder equivalente, como em uma espécie de desafio. -Olhei fixamente ao Dolph-. É possível que John Burke seja bastante capitalista para ter sido ele, e pode que lhe escape algo se lhe jogar uma mão e o levo a ver as coisas de seu irmão. Já sabe... se por acaso vê algo estranho e tal.

-Já conseguiste encher o saco a Dominga Salvador. Não é bastante para uma semana?

-Para toda uma vida -respondi-, mas se podemos ir fazendo algo enquanto esperamos a ordem judicial...

-De acordo -disse Dolph assentindo-. Chama o Burke amanhã pela manhã, fica com ele e me chame depois.

-Vale.

ficou um momento na soleira.

-Tome cuidado -disse-me.

-Sempre o tenho.

-Bonitos pingüins -disse Zerbrowski inclinando-se para mim. A seguir seguiu ao Dolph pelo corredor.

Sabia que quando voltasse a ver os da Santa Compaña, todos estariam a par de que coleciono pingüins de peluche. Meu segredo tinha saído à luz; Zerbrowski se encarregaria de propagá-lo aos quatro ventos. Pelo menos era um tipo previsível.

Alegrava-me de que algo o fora.

 

Sem lugar a dúvidas, os peluches não são submersíveis: os dois que tinha deixado a encharcamento se estragaram. Talvez com tira-manchas? O aroma era muito intenso, e não parecia que fora-se. Deixei uma mensagem urgente na secretária eletrônica da tinturaria, embora não dava muitos detalhes para não espantá-los.

Preparei uma bolsa de viagem com duas mudas, um pingüim com a tripa recém esfregada, o expediente do Harold Gaynor... e já. Também me levei as duas pistolas: a Firestar na capa de cintura e a Browning na de sovaco, oculta por um capa de chuva com munição de reserva nos bolsos. Só nas duas pistolas já levava vinte e dois balas, nada menos. por que não me sentia a salvo?

A diferença da maioria dos nomuertos, os zombis agüentam perfeitamente a luz do sol. Não lhes faz graça, mas tampouco os molesta muito. Dominga podia lhe ordenar a um zombi que matasse a qualquer hora, tão de dia como à luz da lua. Teria que havê-lo levantado de noite, mas se o planejava com tempo, podia enviá-lo detrás de mim de boa manhã. Uma sacerdotisa vodun com dotes de gestão de pessoal. Coisas mais surpreendentes me encontro.

Em realidade não acreditava que Dominga tivesse zombis de reposto preparados para equilibrar-se sobre mim, mas aquela manhã eu estava atirando a paranóica. E a paranóia suporta longevidade.

Saí ao corredor silencioso e olhei aos dois lados, como se fora a cruzar a rua. Nada: nenhum cadáver ambulante espreitando entre as sombras; só aqui a madrugadora. Não se ouvia nada mais que o ar condicionado; o normal nesse corredor. Chegava a casa ao amanhecer com suficiente freqüência para reconhecer aquela classe de silêncio. Fiquei pensativa um momento. Sabia que estava amanhecendo, não pelo relógio nem pela luz, mas sim porque sabia. Algum instinto que se teria afinado algum antepassado meu enquanto estava escondido em uma cova escura, desejando que saísse o sol.

Quase todo mundo teme à escuridão de forma difusa, por medo ao que não se vê. Eu levanto mortos e matei a mais de uma dúzia de vampiros; sei o que é o que não se vê, e me aterroriza. supõe-se que se teme ao desconhecido, mas horripilante que é a realidade, bendita seja a ignorância.

Sabia perfeitamente o que me teria passado se tivesse falhado a noite anterior, tivesse sido mais lenta ou tivesse tido pior pontaria. Dois anos atrás tinha havido três assassinatos, sem mais relação entre si que a causa da morte: esquartejamento produzido por zombis, embora não os tinham comido. Os zombis normais não comem; podem dar algum que outro bocado, mas não passam daí. A um homem tinham esmigalhado a garganta, mas por acidente; o zombi se limitou a morder onde lhe pilhava mais perto, e o matou à primeira por acaso.

Normalmente, os zombis rasgam a suas vítimas por qualquer sítio. Como um menino que fica a despedaçar insetos.

Levantar um zombi com o fim de usar o de arma homicida se castiga com a morte. O sistema judicial se acelerou bastante de um tempo a esta parte e não regula execuções, sobre tudo se o delito tem alguma relação com o sobrenatural. Já não queimam às bruxas; agora as eletrocutam.

Se conseguíamos provas, o Governo me economizaria o trabalho de tirar de no meio da Dominga Salvador. E ao John Burke, se demonstrávamos que tinha feito algo para que se desencaminhasse o zombi. O problema que têm os delitos sobrenaturais é que terá que demonstrá-los no tribunal, e não é freqüente que os membros do jurado estejam muito postos no relativo a feitiços e encantamentos. Bom, nem eu, mas me há meio doido falar de vampiros e zombis em vários julgamentos, e aprendi a dar explicações singelas e acrescentar tanta isca como me permito a defesa: aos jurados gosta dos detalhes acidentados. A maioria das declarações são terrivelmente aborrecidas ou horripilantes, e eu tento manter o interesse, por variar.

O estacionamento estava às escuras, e no firmamento ainda brilhavam as estrelas, embora atenuadas, como chamas afogadas pelo vento. O ar sabia a amanhecer; notava-o na língua. Pode que seja pelo de caçar vampiros, mas percebia as mudanças entre luz e escuridão melhor que quatro anos atrás. Não sempre tinha sido consciente do sabor do alvorada.

É obvio, quatro anos atrás tinha pesadelos muito menos interessantes. E é que assim é a vida: quem algo vontade, algo pagamento.

Quando me meti no carro disposta a me dirigir ao hotel mais próximo eram as cinco passadas. Não suportaria ficar em casa até que os da limpeza tirassem o aroma. E esperava que o conseguissem; a meu caseiro não faria graça que fora permanente.

Embora ainda lhe fariam menos graça os buracos de bala e a janela destroçada. Teria que pôr uma nova, e pode que até engessar e tudo. A verdade é que não sei como se tampam os buracos de bala; só esperava que não invalidassem legalmente meu contrato de aluguel.

A primeira luz aparecia pelo horizonte, no este. Era um resplendor que se estendia como a geada pela escuridão. A maioria da gente acredita que o amanhecer é tão vistoso como o pôr-do-sol, mas ao princípio é só esbranquiçado, totalmente incolor, como uma simples ausência de noite.

Havia um motel, mas tinha todas as habitações na planta baixa ou o primeiro piso, e algumas ficavam terrivelmente isoladas. Queria estar rodeada por uma multidão, de modo que me registrei no Stouffer Concourse. Não era nada barato, mas obrigaria aos zombis a agarrar o elevador, e duvido que o pestazo lhes permitisse passar desapercebidos. Além disso, o hotel tinha serviço de habitações incluso a aquelas horas inoportunas, e necessitava o serviço de habitações. Café, muito café.

O recepcionista pôs cara de "sou muito educado para dizer o que penso", mas no espelho do elevador pude me entreter durante vários pisos examinando meu reflexo. Tinha o cabelo condensado pelo sangue seca, e um reguero me passava junto à orelha e me caía até o pescoço. Não me tinha isso visto no espelho de casa; a impressão faz que se passem por cima essas coisas.

De todas formas, duvido que a expressão do recepcionista se devesse às manchas de sangue; se não se souber o que é, não se identifica. O problema era que estava branca como a neve, e embora tenha os olhos marrons, pareciam negros. Deixava-os muito abertos, obscurecidos Y... estranhos. Como se tivesse visto o lobo, surpreendida de estar viva. Pode ser. Seguia conmocionada, e por muito que acreditasse que tinha recuperado a compostura, minha expressão o desmentia. Quando me tranqüilizasse de verdade poderia dormir; até então leria o expediente do Gaynor.

A habitação tinha duas camas de matrimônio. Não necessitava tanto espaço, mas que cone. Tirei roupa limpa, deixei a Firestar na gaveta da mesita de noite e me levei a Browning ao banho. Se tomava cuidado e não punha a ducha muito forte, podia pendurar a pistolera do toallero e nem sequer se molharia. As pistolas modernas não revistam danificar-se com a umidade, sempre que se limpem depois, e a maioria até dispara debaixo da água.

Chamei o serviço de habitações envolta na toalha. Quase me tinha esquecido. Encarreguei uma cafeteira enche, açúcar e nata. Perguntaram-me se queria descafeinado, e respondi que não, obrigado. Que mania. Como quando os garçons me perguntam se quiser a Coca-cola light. Nunca lhes fazem essa pergunta aos homens, por formosos que estejam.

Podia me pôr até acima de cafeína e dormir como um bebê. Não me mantém acordada nem me põe nervosa; só melhora o sabor do café.

Que sim, que claro, que deixariam o carrinho na porta. Que nem sequer chamariam, e que me carregariam o café na conta. Disse-lhes que muito bem. Tinham meu número de cartão de crédito, e a todos adoram carregar coisas na conta dos clientes, enquanto o limite agüente.

Pus a cadeira de respaldo reto contra o pomo; se forçavam a porta, inteiraria-me. Provavelmente. Fechei o banho com fecho, e tinha uma pistola na ducha. Não me ocorreram mais medidas de segurança, mas não estava mau.

Não sei por que, mas quando estou nua me sinto mais indefesa. Prefiro me enfrentar aos maus com a roupa posta, embora suponha que acontece com todo mundo.

Com a vendagem da dentada no ombro, era todo um problema me lavar a cabeça, mas estava disposta a me tirar o sangue do cabelo a toda costa.

Arrumei-me isso com as botellitas de xampu e suavizante do hotel, que cheiravam como se supõe que deveriam cheirar as flores. Tinha o corpo pintalgado com crostas de sangue seca, e a água que caía pelo deságüe estava tinta de rosa.

Tive que gastar todo o xampu para conseguir que ficasse o cabelo limpo, e ao me esclarecer se empapou a vendagem. A dor era aguda e persistente; isso me recordaria a antitetânica.

Esfreguei-me o corpo com uma esponja e a minúscula pastilha de sabão. Quando já me tinha lavado a fundo e não podia estar mais poda, fiquei sob o jorro quente, deixando que a água me escorregasse por todo o corpo. A fim de contas, a vendagem já se estragou.

O que aconteceria não conseguíamos relacionar a Dominga com os zombis, se não encontrávamos provas? Ela voltaria a tentá-lo: tinha uma reputação que manter. Tinha-me mandado dois zombis, e eu tinha dado conta deles, embora com um pouco de ajuda da polícia. Seguro que tomava como uma afronta.

Tinha levantado um zombi que tinha escapado por completo a seu controle, e preferia que morreram inocentes a reconhecer seu engano. E preferia me matar a mim antes que arriscar-se a que a pusesse em evidência. Zorra vingativa.

Terei que detê-la. Se a ordem de registro não resolvia nada, teria que ser mais pragmática. A senhora tinha deixado claro que tinha que morrer uma das duas, e eu preferia que fora ela. Até estava disposta a fazer o necessário.

Abri os olhos e fechei o grifo. Não queria seguir pensando nisso. Estava planejando um assassinato, por muito que desde meu ponto de vista fora defesa própria. Não acredito que um jurado compartilhasse minha opinião; seria completamente difícil demonstrá-lo. Queria muitas coisas: que Dominga ficasse fora de circulação, ou no cárcere ou morto; seguir com vida; que não me encarcerassem nem me acusassem de assassinato; capturar ao zombi assassino antes de que voltasse a matar, embora não via como, e averiguar como encaixava John Burke naquela confusão.

Ah, e impedir que Harold Gaynor me obrigasse a realizar um sacrifício humano. Quase me esquecia isso.

Já. Uma semana movidita.

O café estava no corredor. Deixei a bandeja no chão da habitação, fechei com chave e voltei a colocar a cadeira contra o pomo. Depois me levei a bandeja a uma mesita, junto às janelas. A Browning já estava aí, nua; tinha deixado a capa na cama.

Abri as cortinas. Normalmente as teria deixado fechadas, mas gostava de ver a luz. A manhã tinha avançado, enchendo-o tudo de um resplendor difuso. O calor não tinha tido tempo de assentar-se e eliminar o afresco do amanhecer.

O café não estava mau, mas tampouco era para atirar foguetes. É obvio, o pior café do mundo teria sido maravilhoso. Bom, qualificar de maravilhoso o da delegacia de polícia teria sido passar-se, mas até isso era melhor que nada. Quando estava nervosa necessitava café. A outros dá pelo álcool.

Abri a pasta do Gaynor e me pus a ler. Às oito da manhã, bastante antes da hora a que estou acostumado a me levantar, já tinha lido todas as notas e examinado todas as fotos imprecisas. Sabia mais do que queria saber do Harold Gaynor, mas não tinha encontrado nenhum dado útil.

Gaynor estava relacionado com a máfia, mas não havia maneira de demonstrá-lo. Era o típico multimilionário que se feito a si mesmo. Bem por ele: podia pagar o milhão e médio que me tinha devotado Tommy. Não está mal que a gente seja capaz de confrontar seus pagamentos.

Não tinha tido mais família que sua mãe, falecida dez anos atrás. Ao parecer, seu pai tinha morrido antes de que ele nascesse, embora sua morte não constava em nenhum lado. Em realidade, sua vida tampouco.

Seria um filho ilegítimo cujos orígenes se dissimularam? Pode. Assim Gaynor era um bastardo no verdadeiro sentido do término. E o que? O que me incomodava era que o fora no outro sentido.

Apoiei a foto da Wanda a Tragamillas na cafeteira. Sorria, quase como se soubesse que a estavam fotografando, embora possivelmente fora fotogênica, simplesmente. Havia duas fotos dela com o Gaynor. Em uma estavam os dois sorridentes, agarrados da mão. Tommy empurrava a cadeira de rodas do Gaynor, e Bruno, a da Wanda, que olhava a seu noivo com um olhar que não me resultava desconhecida: de amor e adoração. Até eu tinha tido aquele olhar durante um tempo, na faculdade, mas ao final se supera.

A segunda foto era quase idêntica: Bruno e Tommy empurravam suas cadeiras. Mas não estavam agarrados da mão, e só sorria Bruno. Wanda parecia zangada. Cicely, a do cabelo loiro e os olhos vazios, ia andando junto ao Gaynor, e o levava da mão. Estraguem.

Assim Gaynor tinha estado com as duas durante uma temporada. por que se teria partido Wanda? Por ciúmes? A teria jogado Cicely? Ou igual Gaynor se cansou dela. Só havia uma forma de averiguá-lo: perguntar.

Fiquei olhando a foto em que saía Cicely, e a pus junto ao primeiro plano da Wanda sorridente. Uma jovem infeliz; uma amante despeitada. Se o ódio pesava mais que o medo, falaria do Gaynor comigo. Não seria tão idiota para falar com a imprensa, mas eu não pretendia divulgar nenhum secreto.

Eu queria conhecer os segredos do Gaynor, para evitar que me fizesse mal. Além disso, queria algo que apresentar à polícia.

Se conseguia colocá-lo no cárcere, Gaynor teria outras preocupações, e provavelmente se esqueceria da reanimadora cabezota. A não ser que averiguasse que tinha tido algo que ver com sua detenção. Não me convinha; tinha pinta de vingativo. Já sentia o fôlego da Dominga Salvador na nuca, e com isso tinha o bastante.

Fechei as cortinas e pedi que despertassem a meio-dia. Irving teria que esperar um pouco para recuperar o expediente. Eu lhe tinha conseguido a entrevista com o novo amo dos vampiros da cidade, embora tivesse sido sem querer, assim lhe pedir um pouco de paciência em troca tampouco era passar-se. E se não queria esperar, má sorte, porque eu ia à cama.

Quão último fiz antes de ir a dormir foi chamar casa do Peter Burke. Imaginava que John se alojaria ali. O telefone soou cinco vezes e saltou a secretária eletrônica.

-Sou Anita Blake. Acredito que tenho informação para o John Burke, sobre um assunto de que falamos na quinta-feira.

A mensagem não era muito clara, mas tampouco era plano de dizer: "Tenho informação sobre o assassinato de seu irmão". Muito melodramático, e de mau gosto.

Deixei o número do hotel e o de minha casa, no caso de. Provavelmente tinham desligado o timbre do telefone; eu o teria feito. A notícia tinha saído em capa porque Peter era reanimador, e não é muito freqüente que sejamos vítimas de simples ataques. Os reanimadores revistam ter mortes mais rebuscadas.

Quando me fora a casa deixaria o expediente do Gaynor em recepção. Não estava de humor para falar com o Irving da entrevista; não queria que me explicasse quão simpático era Jean-Claude nem quão interessantes eram seus projetos para a cidade. O amo vampiro teria tido muito cuidado de lhe dizer à imprensa algo que ficasse bem em capa, mas eu conhecia a verdade: os vampiros são monstruosos, como os zombis, ou pode que mais, porque os zombis não escolhem sê-lo.

Claro que Irving tinha eleito ficar com o Jean-Claude. Embora se não tivesse estado comigo, o amo não lhe teria feito nem caso. Provavelmente. Sentia-me responsável, por muito que o tivesse decidido ele. Estava esgotada, mas não poderia conciliar o sonho se não comprovava que não lhe tinha passado nada. E podia lhe dizer que o chamava porque lhe ia devolver o expediente com atraso.

Não sabia se estaria já de caminho ao trabalho, mas provei antes em sua casa. Respondeu ao primeiro timbrazo.

-Diga?

O nó que tinha na garganta se afrouxou.

-Olá, Irving, sou eu.

-A que devo a honra de que chame a estas horas da manhã, senhorita Blake? -Sua voz soava normal.

-Ontem à noite houve festa em minha casa. Importa-te que te devolva o expediente um pouco mais tarde?

-Que classe de festa? -Não tentou dissimular a curiosidade.

-Das que lhe interessam à polícia e a ti não.

-Temia-me isso. Te vais dormir agora?

-Sim.

-Suponho que lhe posso dar uma pausa a uma sofrida reanimadora. E até é possível que o entenda minha companheira.

-Obrigado, Irving.

-Você está bem?

Estive a isto de lhe dizer que nem de coña, mas preferi me fazer a louca.

-comportou-se bem Jean-Claude?

-Foi estupendo! -respondeu verdadeiramente entusiasmado e transbordante de satisfação-. É uma gozado entrevistá-lo. -ficou calado um momento-. Né! chamaste para te assegurar de que não me passou nada!

-Mais quisesse.

-Obrigado, Anita. É um detallazo. Mas foi muito civilizado, de verdade.

-Estupendo. Enfim, boa noite. Ou para ti, bom dia.

-Insuperáveis. O chefe está encantado com a entrevista em exclusiva ao amo da cidade.

Fez-me graça sua forma de pronunciar o cargo.

-Bom, já falaremos.

-Dorme um pouco, Blake. Chamarei-te amanhã ou passado pelo dos artigos dos zombis.

-Vale -pinjente. E penduramos.

Irving estava bem. Deveria me preocupar mais por mim e menos por outros.

Apaguei a luz e me acurruqué entre os lençóis, abraçada ao pingüim... e com a Browning Hi-Power debaixo do travesseiro. Não era tão fácil de alcançar como na pistolera de minha cama, mas menos dá uma pedra.

Não sei o que me resultava mais reconfortante, se o pingüim ou a pistola. Suponho que os dois, embora por motivos muito distintos.

Rezei minhas orações como uma menina boa, e roguei de todo coração não sonhar nada.

A empresa de limpeza teve um cancelamento e me fez um oco. Pela tarde, minha casa estava poda e cheirava de maravilha. Também tinham trocado o cristal quebrado, e os buracos de bala estavam pintados de branco, embora ficavam covinhas na parede. De todas formas, não tinha queixa.

John Burke não me havia devolvido a chamada. Igual me tinha passado de sutil; já lhe deixaria uma mensagem mais direta depois. Mas naquele momento tinha coisas melhores em que pensar.

Vesti-me para sair a fazer footing: umas calças curtas azul marinho com bordo branco, umas sapatilhas brancas com as costuras azul claro, uns meias três-quartos curtos e uma camiseta. As calças eram desses que têm um bolso interior com fechamento de velcro, e nele levava uma pistola de canhão curto, concretamente uma American: calibre 38 especial, de doze centímetros e duzentos gramas, quase como uma pluma.

O bolso fechado com velcro não era o melhor para desencapar depressa, e tratando-se de uma derringer de dois disparos, um escupitajo resultaria mais certeiro. Embora os homens do Gaynor não tinham intenção de me matar. Só queriam me ferir um poquito, e para isso teriam que aproximar-se e me dar tempo de tirar a pistola. Isso sim: depois de disparar duas vezes teria problemas.

Tinha tentado dar com a forma de levar uma 9 mm, mas não se pode correr e, de uma vez, ir armada até os dentes, Putas decisões.

Veronica Sims, mais conhecido como Ronnie, esperava-me no salão. Mede um e setenta e cinco, é loira e tem os olhos cinzas. Às vezes contratamos seus serviços de detetive no Reanimators, Inc., e fazemos exercício juntas ao menos duas vezes por semana, salvo se uma das duas está de viagem, ferida ou até o pescoço de vampiros. As duas últimas coisas ocorrem com mais freqüência da desejável.

Levava umas calças curtas moradas, abertos pelos lados, e uma camiseta em que punha: "Fora do cão, o livro é o melhor amigo do homem. Dentro do cão não há bastante luz para ler". Por algo somos amigas.

-Te senti falta de na quinta-feira no ginásio -disse-me-. Foi muito coñazo o enterro?

-Sim.

Não me pediu que elaborasse; sabe que os enterros não me fazem graça. A maioria da gente os odeia porque estão associados à morte; eu, por todo o cilindro melodramático.

Inclinou o corpo para o chão, com as pernas retas, para estirar-se. Sempre esquentamos em minha casa: melhor não fazer flexões em público com uma calça tão curta.

Imitei o movimento, e os músculos de minhas coxas protestaram. A pistola era incômoda, mas não muito grave.

-Só por curiosidade -disse Ronnie-, por que te parece necessário sair a correr armada?

-Sempre levo pistola -respondi.

-Se não me querer dizer isso não me diga isso -disse me olhando com cara de recriminação-, mas não me saia com panaquices.

-De acordo, de acordo. A verdade é que não é nenhum secreto.

-Nada de ameaças para evitar que recorra à polícia?

-Pois não.

-Vá, o que considerados.

-Já eu gostaria -pinjente enquanto me sentava no chão com as pernas abertas. Ronnie me imitou; parecia que íamos lançar nos uma bola-. Eu não os chamaria considerados precisamente. -Baixei o torso até que me toquei a coxa esquerda com a bochecha.

Pediu-me que o contasse e o contei. Quando terminei já estávamos listas para sair a correr.

-Joder, Anita. Zombis em sua casa, um milionário louco que pretende que realize sacrifícios humanos... -Olhou-me com intensidade-. É a única pessoa que conheço a que lhe acontecem coisas ainda mais estranhas que a mim.

-Muito obrigado.

Quando saímos, fechei a porta e me guardei as chaves no bolso, ao lado da pistola. Suponho que a raiariam, mas não ia correr com as chaves na mão, não?

-Quer que investigue ao Harold Gaynor? -perguntou-me Ronnie.

-Não está trabalhando em nada? -íamos descendo pela escada.

-Em três fraudes de seguros. Quase todo vigilância e fotografias. Me saem os hambúrgueres pelas orelhas.

-Pode tomar banho e te trocar em minha casa -disse sonriendo-, e depois saímos para jantar algo comestível.

-Sonha muito bem, mas não quererá fazer esperar ao Jean-Claude.

-Vete ao guano.

-Deveria te manter tão longe como pode dessa... coisa -disse encolhendo-se de ombros.

-Já sei. -Tocou-me me encolher de ombros-. Mas acessar a me vê-lo pareceu o menor dos males.

-O que outras opções tinha?

-Ficar com ele ou esperar cruzada de braços a que me seqüestrassem para me levar a sua presença.

-Cojonudo.

-Verdade?

Quando abri a porta dobro do portal, o calor me esbofeteou. Sair à rua era como entrar no Inferno. A sério pensávamos correr com aquele abafado?

Levantei a vista para olhar ao Ronnie. Tira-me quinze centímetros, quase todos de pernas. Sou capaz de lhe agüentar o ritmo quando corremos juntas, mas me toca me esforçar. É todo um exercício.

-Hoje quero fazer mais de seis quilômetros -pinjente.

-Tem o dia masoca? -Ronnie levava uma garrafa de água na mão; mais não podíamos nos preparar.

-Venha, seis quilômetros de forno -pinjente-. Vimos lá.

Começamos com passo lento mas firme. Normalmente corríamos algo menos de meia hora. O calor parecia condensar-se, e tinha a impressão de estar atravessando cortinas de ar ardente. O nível de umidade de São Luis está acostumado a estar ao redor do cem por cem; combinado com quase quarenta graus, é como o interior de uma panela expresso. São Luis no verão, bieeen!

Eu não gosto de fazer exercício, e nunca o faria se em troca só tirasse uns quadris estreitos e umas coxas firmes, mas o importante é ser capaz de correr mais que os maus: às vezes, tudo depende de quem corra mais. Embora igual deveria me dedicar a outra coisa. Não é que me queixe, mas com quarenta e oito quilogramas não vou sobrada de massa muscular.

Claro que na hora de enfrentar-se a um vampiro já se podem ter cem quilogramas de músculos; para o que servem. Até um nomuerto recente poderia esmagar um carro com uma mão atada à costas, assim não há sua tia. Tenho-o muito assumido.

Já levávamos perto de dois quilômetros. Sempre custa mais ao princípio; meu corpo está acostumado a demorar uns três quilômetros em convencer-se de que não me vai dissuadir dessa loucura.

Colocamo-nos por um bairro antigo, com montões de jardincitos cercados e casas dos anos cinqüenta, ou até do século XIX. Um armazém de mais de cento e cinqüenta anos, com fachada de tijolo gentil, marcava a metade do percurso: três quilômetros. Sentia-me relaxada e em forma com a impressão de que poderia seguir correndo indefinidamente com tal de que não fora muito depressa. Concentrava-me em manter o ritmo a pesar do calor; foi Ronnie quem se fixou no homem.

-Não é por te alarmar -disse-, mas o que faz aí esse tipo?

Elevei a vista. O edifício de tijolo terminava a uns quinze metros de nós, e tinha um olmo ao lado. Perto havia um homem. Não tentava ocultar-se, mas levava uma jaqueta vaqueira, e fazia muito calor para sair com jaqueta a não ser que se queria ocultar uma pistola.

-Quanto faz que o viu?

-Acaba de sair de atrás da árvore.

-Vamos dar a volta. -Outra vez a paranóia-. São três quilômetros, em qualquer caso.

Ronnie assentiu. Giramos e começamos a correr em sentido contrário. A nossas costas, o homem não gritou nem nos ordenou que nos detivéramos. Se é que às vezes me preocupo sem motivo.

Outro homem dobrou a esquina do armazém para a que nos dirigíamos. Seguimos correndo um pouco para ele, até que me voltei para olhar. O primeiro caminhava para nós como quem não quer a coisa. Tinha a jaqueta vaqueira desabotoada e se estava levando uma mão ao sovaco. Assim que meu receio era injustificado, né?

-Corre! -pinjente.

O segundo homem se tirou uma pistola do bolso.

Deixamos de correr. Naquele momento nos pareceu uma boa idéia.

-Bem -disse o tipo-. Não gostava de perseguir a ninguém com este calor e, a fim de contas, preferimos te pilhar com vida.

Levava uma automática do 22. É difícil matar a alguém com ela, mas é perfeita para ferir. Tinham-no bem pensado. Que yuyu.

Ronnie estava a meu lado, muito rígida. Contive o impulso de agarrar a da mão: não seria muito próprio de uma cazavampiros dura como o aço, verdade?

-O que querem? -perguntei.

-Assim está melhor. -Uma camiseta azul claro lhe continha a barriga cervejeira, que escapava por cima do cinturão, mas seus braços pareciam musculosos. Possivelmente estivesse gordo, mas estava segura de que suas hóstias doíam. Esperava não ter que comprová-lo.

Retrocedi para que a parede de tijolo ficasse a minhas costas. Ronnie me imitou. o da jaqueta vaqueira já estava chegando, com uma Beretta de 9 mm na mão. Isso sim que matava.

Olhei ao Ronnie e logo ao gordinho, que estava quase a seu lado. Depois olhei ao outro, que estava quase a meu lado. Voltei a olhar ao Ronnie, e seus olhos se aumentaram um pouco. umedeceu-se os lábios e se voltou para o valentão que lhe havia meio doido. o da Beretta era meu. Ao Ronnie tocava o da 22. Não há nada como saber delegar.

-O que querem? -voltei a dizer. Ódio me repetir.

-Que devas dê uma volta conosco, nada mais -respondeu o gordinho, sorridente.

Devolvi-lhe o sorriso e me voltei para o da jaqueta e sua muito solícita Beretta.

-Você não sabe falar?

-claro que sim. -Deu dois passos para mim, sem deixar de me apontar com pulso firme-. Falo de maravilha. -Roçou-me o cabelo com os dedos. Tinha a pistola muito perto; se apertava o gatilho, acabou-se. O tambor negro mate pareceu aumentar-se. Será uma ilusão óptica, mas quanto mais se olhe uma pistola, mais cresce... se se olhe do lado incorreto.

-Disso nada, Seymour -disse o gordinho-. Não nos podemos atirar isso nem matá-la, são as regras.

-Joder, Pete.

-Fica com a loira -disse Pete, o da barriga-. Ninguém há dito que não possamos nos divertir com ela.

Não olhei ao Ronnie, a não ser ao Seymour. Tinha que estar preparada se por acaso surgia alguma oportunidade, e olhar a cara que punha meu amiga ante a perspectiva de que a violassem não ia ajudar me muito.

-Já começamos com o falocentrismo, Ronnie -pinjente-. Tudo se reduz às gônadas.

-O que quer dizer com isso? -perguntou Seymour franzindo o cenho.

-Quero dizer que é gilipollas e tem o cérebro nos ovos -respondi com um sorriso encantador.

Deu-me uma bofetada que me fez me cambalear, mas mantive o equilíbrio. Seguia me apontando sem vacilar. Mierda. Grunhiu e voltou a me golpear, com o punho. Caí ao chão e fiquei um momento atirada na calçada, escutando o tamborilar do pulso nos ouvidos. A bofetada tinha doído, e o murro, mais.

Notei uma patada nas costelas.

-Deixem em paz! -gritou Ronnie.

Tombei-me e fingi que me retorcia de dor. Não foi muito difícil. Alarguei a mão para o bolso de velcro, enquanto Seymour apontava ao Ronnie com a Beretta, que lhe gritava. Pete a tinha sujeito pelos braços e tentava imobilizá-la. As coisas se estavam complicando. Assim eu gosto.

Pu-me de joelhos sem perder de vista as pernas do Seymour e lhe cravei a pistola nos ovos. ficou me olhando paralisado.

-te mova e teremos ovos mexidos -disse-lhe.

Ronnie afundou o cotovelo no plexo solar do gordinho, que se dobrou e se levou as mãos ao estômago. Ronnie escapou e lhe soltou um joelhada na cara. O sangue saiu a fervuras do nariz do gorila, que se cambaleou para trás. Investiu-o com um ombro na bochecha, impulsionando-se com todo o corpo, e o derrubou. Meu amiga tinha a 22 na mão.

Contive o impulso de gritar: "Assim se faz, Ronnie"; não soava suficientemente duro. Já a felicitaria depois.

-Seymour, lhe diga a seu amigo que fique quietecito, ou apuro o gatilho.

O valentão tragou saliva com tanto esforço que o ouvi.

-Não te mova, Pete -disse-. Vale?

Pete só nos olhou.

-Ronnie, por favor -pinjente-, agarra a pistola do Seymour, quer? Obrigado.

Seguia ajoelhada na calçada, com a pistola anã incrustada na entrepierna do tipo, que entregou a arma ao Ronnie sem resistir. O que lhes parece?

-Eu me encarrego deste, Anita -disse Ronnie. Não a olhei. Ela faria seu trabalho, e eu, o meu.

-Seymour, isto é uma 38 especial de dois disparos. pode-se carregar com diversos tipos de bala: 22, 44 e 357 Magnum. -Era mentira; a capacidade máxima do novo modelo ultraligero era de duas balas do 38, mas estava segura de que não se daria conta-. Se levar 44 ou 357, já te pode despedir de seus cositas. Se levar 22, pode que só lhe aduela muito, muito, muito. Por citar a um de meus ídolos, sente-se afortunado?

-O que quer? O que quer? -Falava com voz gritã pelo medo.

-Que me diga quem lhes contratou.

-Nada disso -disse sacudindo a cabeça-. Mataria-nos.

-Magnum 357. Sabe o buraco que faz isso?

-Não lhe diga nada -disse Pete.

-Se voltar a abrir a bocaza, lhe voe um joelho, quer, Ronnie? -pinjente.

-Será um prazer.

Não sabia se seria capaz de fazê-lo, nem se eu seria capaz de pedir-lhe Melhor não averiguá-lo.

-Começa a cantar agora mesmo, ou apuro o gatilho. -Cravei-lhe a pistola um pouco mais; isso deveu doer por si mesmo, porque Seymour começava a ficar nas pontas dos pés.

-Não, por favor.

-Quem lhes contratou?

-Bruno.

-É imbecil, Seymour? -disse Pete-. Nos vai matar.

-Ronnie, por favor, lhe pegue um tiro -pinjente.

-No joelho, não?

-Sim.

-Não prefere que lhe dê no cotovelo?

-Como quer.

-Estão como cabras -disse Seymour.

-Sim -pinjente-, e será melhor que o recorde. Que instruções lhes deu Bruno exatamente?

-Disse que lhes levássemos a um edifício do Grand com Washington. Que tínhamos que ir com as duas, embora podíamos lhe fazer o que fora à loira para conseguir que viesse.

-me dê a direção.

Obedeceu. Acredito que me teria dado o ingrediente secreto de seu molho favorito se o tivesse pedido.

-Se te plantar aí, Bruno saberá que lhe havemos isso dito -protestou Pete.

-Ronnie, por favor -pinjente.

-me pegue um tiro se quiser. Para o caso... Se lhes plantarem aí ou mandam à polícia, estamos mortos.

Olhei ao Pete. Parecia muito sincero. Eram os maus, mas...

-De acordo, não lhes delataremos.

-Não vamos chamar à polícia? -perguntou Ronnie.

-Para isso, acabaríamos antes lhes pegando um tiro aqui mesmo. Mas não vai fazer falta, verdade, Seymour?

-Não, claro que não.

-Quanto lhes ofereceu Bruno?

-Quatrocentos por cabeça.

-Não era suficiente.

-Já o vejo.

-Agora vou levantar me, Seymour, e de momento seguirá com os ovos em seu sítio, mas como volta a te aproximar do Ronnie ou a mim, direi ao Bruno que cantou.

-Mataria-nos, tia. Muito devagar.

-Isso. Assim vamos esquecer nos de tudo isto, de acordo? -Seymour assentia com veemência-. O que opina você, Pete?

-Não sou tão idiota. Bruno nos arrancaria o coração e nos faria comer isso. Não diremos nada. -Parecia furioso.

Pu-me em pé e me afastei do Seymour com cuidado. Ronnie seguiu apontando ao Pete com a Beretta. guardou-se a 22 no elástico da calça curta.

-Comprido daqui -pinjente.

Seymour estava pálido e talher de suor.

-Devolve-me a pistola? -Certamente, não era muito preparado.

-Não te passe -disse-lhe.

Pete se levantou. O sangue do nariz lhe tinha começado a secar.

-Vamos, Seymour -disse.

afastaram-se pela rua. Seymour ia curvado, como se não pudesse evitar protegê-los ovos.

Ronnie soltou todo o ar dos pulmões e se apoiou na parede. Seguia com a pistola na mão direita.

-Joder -disse.

-Sim.

Levou-me a mão à cara, onde Seymour me tinha golpeado. Doeu.

-Que tal está? -perguntou-me.

-Bem. -Em realidade tinha a impressão de que me tinha cansado meia cara, mas não me doeria menos por dizê-lo.

-Vamos ao edifício ao que pensavam nos levar?

-Não.

-por que?

-Conheço o Bruno, e já sei para quem trabalha e por que tentavam me seqüestrar. O que posso averiguar que valha duas vistas?

-Tem razão -disse detrás pensá-lo um momento-, mas não vais informar à polícia?

-Para que? As duas estamos bem, e nem Seymour nem Pete voltarão a meter-se conosco.

Ronnie se encolheu de ombros.

-Não queria que lhe voasse o joelho, não? Estávamos fazendo de poli bom e poli mau, verdade? -Olhava-me muito séria, me cravando os olhos cinzas sem pestanejar. Apartei a vista.

-vamos voltar andando. Já não gosta de correr.

-A mim tampouco. -Enquanto púnhamos-se a andar se tirou a camiseta da calça para ocultar a Beretta debaixo. Levava a 22 na mão, mas quase não se via-. Era um farol, não? Estava te fazendo a dura, não?

-Não sei.

-Anita!

-É a verdade. Não sei.

-Não me acreditará capaz de lhe pegar um tiro a alguém só para que se cale.

-Me alegro de que não o seja.

-De verdade lhe teria pego um tiro nos ovos ao outro? -ao longe se ouviam os gorjeios de um cardeal, que pareciam atenuar o abafado-. Me responda, Anita. Teria apertado o gatilho?

-Sim.

-Sim? -Sua surpresa era evidente.

-Sim.

-Joder. -Seguimos andando em silêncio um momento-. Que balas levava na pistola?

-Do 22.

-Lhe teria carregado isso.

-É provável -pinjente.

Vi que me olhava de esguelha enquanto caminhávamos. Era um olhar que já conhecia, uma mescla de espanto e admiração. Mas nunca a tinha visto na cara de um amigo. Doía. Mesmo assim, fomos jantar à Filha do Moleiro, no capelo do Saint Charles. O ambiente era agradável, e a comida, espetacular. como sempre.

Conversamos, rimo-nos e o passamos muito bem. Nenhuma das duas mencionou o incidente da tarde. Se fingíamos com suficiente afinco, igual conseguíamos apagá-lo.

Aquela noite, às dez e meia, cheguei ao bairro dos vampiros. Levava um pólo azul escuro, uns jeans e um capa de chuva vermelho, que ocultava a pistolera de sovaco e a Browning Hi-Power. Tinha atoleiros de suor sob os braços, mas era preferível a ir desarmada.

A festa daquela tarde tinha terminado bem, mas em parte porque tínhamos tido a sorte de que Seymour perdesse a calma e os golpes não me deixassem fora de combate. Tinha conseguido conter o inchaço a base de gelo, mas tinha o lado esquerdo da cara machucado e avermelhado, como se estivesse a ponto de florescer. Ainda não me havia arroxeado.

O Cadáver Alegre era uma das discotecas mais recentes do Distrito. Os vampiros são sexys, reconheço-o, mas alegres? Não acabo de vê-lo, embora me dá que a estranha era eu, porque a cauda para entrar dobrava a esquina.

Não me tinha ocorrido pensar que poderia necessitar um passe, uma reserva ou o que fora só para entrar. Mas um momento, conhecia chefe. Caminhei em paralelo à cauda, em direção à bilheteria. Quase todos os que esperavam eram jovens. Elas tinham vestido, e eles, roupa esportiva elegantoide, com algum que outro traje. Conversavam emocionados, com muito toqueteo e fazendo manitas. Protoparejas. Recordei os tempos em que eu também saía com homens, embora já fazia muito disso. Igual sairia mais se não estivesse sempre tão atada. Pode ser.

Adiantei a um quarteto que ia cita dobro. Um tipo protestou e lhe pedi perdão.

-Espere seu turno, senhora -disse-me a bilheteira franzindo o cenho.

Señoraaa?

-Não quero entrada; não vim a ver o espetáculo. fiquei com o Jean-Claude.

-Seguro que não é jornalista?

Jornalista? Respirei profundamente.

-Chame o Jean-Claude e lhe diga que veio Anita, de acordo? Se for jornalista, ele já saberá o que fazer, e se for quem digo, alegrará-se de que o tenha avisado. Não tem nada que perder.

-Não sei...

Tive que me esforçar para não lhe soltar um latido. girou-se no tamborete e abriu a parte superior de uma porta que tinha detrás. A bilheteria não era muito grande. Não ouvi o que dizia, mas demorou pouco em voltar-se para mim.

-De acordo, o encarregado diz que pode passar.

-Estupendo. -Subi os degraus, com o olhar assassino de toda a cauda cravada na nuca. A ninguém gosta que lhe penetrem, mas tinha recebido olhadas piores de verdadeiros profissionais, e tio me ia intimidar por uns meros aficionados.

O interior da discoteca estava escuro, como cabia esperar. Um tipo me pediu a entrada.

Fiquei olhando-o. Levava uma camiseta branca com a lenda: "O Cadáver Alegre, o último grito" e a caricatura de um vampiro com a boca aberta. Era grande e musculoso; só lhe faltava a palavra gorila tatuada na frente.

-A entrada -repetiu. Primeiro a bilheteira e logo o porteiro?

-O encarregado há dito que posso passar a ver o Jean-Claude.

-Willie -disse-, você a deixaste passar?

Voltei-me, e a minhas costas estava Willie McCoy. Sorri ao vê-lo, e me surpreendi de me alegrar. Não está acostumado a me fazer graça ver um morto.

Willie é baixinho e magro, e leva o cabelo negro penteado para trás. Estava muito escuro para que se visse a cor exata de seu traje, mas juraria que era vermelho tomate. Também levava uma camisa branca e uma grande gravata verde gritão. Tive que olhar duas vezes para me assegurar, mas sim, a gravata estava decorada com uma hawaiana fosforescente. Era o traje mais elegante que lhe tinha visto o Willie.

-Anita! Quanto me alegro de verte! -disse com um sorriso cheia de presas.

-O mesmo digo.

-De verdade?

-Sim.

Seu sorriso se ampliou, e os caninos lhe resplandeceram apesar da pouca luz. Não tinha morto nem um ano.

-Quanto faz que é o encarregado? -perguntei-lhe.

-ao redor de duas semanas.

-Felicidades.

Deu um passo para mim, e eu retrocedi por instinto. Não era nada pessoal, mas um vampiro é um vampiro, e melhor que não se aproximem muito. Por muito recente que fora, Willie já era capaz de hipnotizar com o olhar. Bom, pode que a mim não, mas os velhos costumes...

ficou cabisbaixo, e uma expressão, pode que de ofensa, cruzou seu rosto. Baixou a voz, mas não voltou a tentar aproximar-se. Quando estava vivo demorava mais em pilhar as coisas.

-Obrigado por me ajudar a última vez; ganhei o favor do chefe.

Parecia saído de um filme de gánsteres, mas assim é Willie.

-Me alegro de que Jean-Claude te trate bem.

-Certamente. É o melhor trabalho que tive na vida. E o chefe não é... -Subiu e baixou as mãos, procurando as palavras-. Já sabe, cruel.

Assenti; sabia. Podia jogar todas as pestes que quisesse do Jean-Claude, mas em comparação com a maioria dos amos de uma cidade era um corderito. Um corderito grande, perigoso e carnívoro, mas muito melhor que os outros.

-Agora está ocupado -acrescentou Willie-. Há dito que lhe déssemos uma mesa perto do cenário se chegava antes de que terminasse.

Justo o que estava desejando.

-Quanto fica? -perguntei em voz alta.

-Nem idéia -respondeu encolhendo-se de ombros.

-Vale. Esperarei um momento.

-Quer que lhe diga que se dê pressa? -Voltou a sorrir, ensinando as presas.

-Você crie?

-Bem pensado, não -disse com cara de querer tragar-se suas palavras.

-Tranqüilo. Se me cansar de esperar, o direi eu mesma.

-Seria capaz, verdade? -Me olhou de esguelha.

-Sim.

limitou-se a sacudir a cabeça enquanto me conduzia entre as mesas redondas. Todas estavam cheias de gente que ria, fazia dramalhões, bebia e se acariciava. A sensação de estar rodeada de vida densa e suarenta era lhe esmaguem.

Olhei ao Willie. teria se fixado? Lhe retorceriam as tripas pela fome com tanta humanidade ao redor? Quando saía do trabalho, sonharia despedaçando à multidão vociferante? Estive por perguntar-lhe mas Willie me caía tão bem como me pode cair um vampiro, e se a resposta era que sim, preferia não sabê-lo.

Havia uma mesa vazia, justo na primeira fila, com um cartão dobrado no que punha RESERVADA. Willie tentou me apartar a cadeira, mas lhe disse que não com um gesto. Não pelo cilindro da liberação da mulher, mas sim porque nunca tinha sabido o que fazer quando um homem me apartava a cadeira. me sentar e esperar a que ele a aproximasse da mesa comigo em cima? Que corte. Normalmente ficava vadiando diante da cadeira, até que o tipo me incrustava isso nas curvas. Ora.

-Quer tomar algo enquanto espera? -perguntou-me Willie.

-Uma Coca-cola.

-Não prefere algo mais forte?

Neguei com a cabeça.

Willie se afastou entre as mesas repletas. No cenário havia um homem magro de cabelo curto e escuro. Sua cara era quase uma caveira, mas sem dúvida era humano. Seu aspecto era fundamentalmente cômico, como o de um palhaço larguirucho. A seu lado havia um zombi que olhava à multidão sem vê-la.

Seus olhos seguiam sendo claros, humanos, mas não piscava. Era o olhar pétreo característica dos zombis. O público não emprestava muita atenção às piadas; quase todo mundo estava absorto no cadáver. Estava suficientemente deteriorado para dar medo, mas não se percebia o mau aroma, nem sequer na primeira fila. Bom truque.

-Ernie é o melhor companheiro de piso que tive na vida -dizia o humorista-. Não come muito, não me dá a brasa, não é dos que voltam para casa com uma garota e me pedem que me largue enquanto o passam bem... -Risadas nervosas do público; todos os olhos cravados no bom do Ernie-. Embora uma vez me danificaram umas chuletas de porco que tinha na geladeira, e ao Ernie adorar.

O zombi se girou, tão lentamente que quase resultou doloroso, para olhar ao humorista, que lhe devolveu o olhar e se encarou de novo para o público, sem deixar de sorrir. Mas Ernie seguia olhando-o a ele, que parecia incômodo. Nem aos mortos gosta de ser branco de brincadeiras; a verdade é que não o culpava.

De todas formas, tampouco tinha muita graça. O protagonista da atuação era o zombi. Bastante original, e de bastante mal gosto.

Willie voltou com meu refresco. Servia-me a bebida o encarregado, nada menos. É obvio, também me tinham reservado uma boa mesa. O vampiro deixou o copo na mesa, em cima de um desses posavasos inúteis de papel que imita encaixe.

-Passa-o bem -disse-me, e se voltou para partir, mas lhe rocei o braço. Arrependi-me no ato.

Era um braço sólido e real, mas foi como tocar madeira; não me ocorre outra forma de explicá-lo. Não transmitia sensação de movimento. Nada.

Baixei a mão lentamente, e graças às marcas do Jean-Claude, pude olhá-lo aos olhos. Eram marrons e transmitiam um pouco parecido à dor.

De repente podia ouvir meu próprio pulso, e tive que respirar profundamente para conter as palpitações. Mierda. Queria que Willie se fora. Apartei a vista dele e a cravei no copo. Pode que fora pelo ruído de fundo, mas não o ouvi partir.

Willie McCoy era o único vampiro ao que tinha conhecido de humano, e recordava como era em vida. Um chouriço de pouca subida, o menino dos recados dos peixes gordos. Possivelmente pensasse que se se fazia vampiro se converteria em peixe gordo, mas se equivocava: converteu-se em um dom ninguém nomuerto. Jean-Claude ou qualquer outro lhe daria ordens durante toda a eternidade. Pobre Willie.

Esfreguei-me contra a calça a mão com a que o havia meio doido. Queria me arrancar a sensação que tinha notado sob o novo traje vermelho tomate, mas não havia maneira. Tocar ao Jean-Claude era muito distinto. Claro que Jean-Claude quase parecia humano; com o tempo o conseguiam. Willie acabaria por aprender. Pobrecillo.

-Os zombis são melhores que os cães: vão procurar as sapatilhas, mas não terá que passeá-los. E se o pedisse, Ernie também se sentaria no chão e me daria a patinha.

O público se Rio, embora não sei muito bem por que. Não era uma risada de diversão; era mas bem de pasmo.

A típica risada de incredulidade nervosa.

O zombi avançava para o cômico quase a câmara lenta. Adiantou os dois braços, e revivi o ocorrido a noite anterior. Me fez um nó na garganta. Nisso não se equivocam os filmes: os zombis revistam atacar com os braços estendidos.

O humorista não se deu conta de que Ernie tinha decidido que já estava bem. Quando se levanta um zombi sem mais, sem lhe dar nenhuma ordem em concreto, está acostumado a adotar seu comportamento anterior: uma boa pessoa segue sendo-o até que seu cérebro se deteriora tanto que se desvanece qualquer rastro de personalidade. É muito estranho que um zombi mate se não lhe ordenou, mas de vez em quando cai a breva e se levanta um morto com tendências homicidas. A aquele homem estava a ponto de lhe tocar o prêmio.

O zombi caminhou para ele como um monstro do Frankenstein de segunda. Quando o humorista se deu conta por fim de que algo partia mau, deteve-se metade de uma piada e abriu os olhos desmesuradamente.

-Ernie... -Não pôde seguir falando; as mãos putrefatas se fecharam ao redor de sua garganta e começaram a apertar.

Durante um segundo me tentou a idéia de permitir que o zombi seguisse adiante; tenho convicções muito firmes no relativo à exploração dos mortos... Mas a estupidez não merece pagar-se com a morte. Se assim fora, o censo cairia em picado.

Pu-me em pé e olhei a meu redor para ver se alguém o deixava previsto. Willie subiu correndo ao cenário, rodeou a cintura do zombi com os braços e atirou. Conseguiu levantá-lo do chão, apesar de que era muito mais alto que ele, mas as mãos seguiam apertando.

O humorista caiu de joelhos, emitindo sons entrecortados, enquanto seu rosto passava do vermelho à arroxeado. O público ria, acreditando que formava parte do espetáculo. A verdade é que resultava muito mais divertido.

Subi ao cenário e me aproximei do Willie.

-Necessita ajuda? -disse-lhe ao ouvido.

Olhou-me, sem soltar a cintura do zombi. É provável que com sua força vampírica pudesse lhe haver arrancado os dedos um a um para salvar ao homem, mas a força não serve de nada se não se souber o que fazer com ela, e Willie não teve nunca muitas luzes. Por outro lado, possivelmente o zombi pudesse lhe esmagar a traquéia a sua vítima antes de ficar sem dedos. Melhor não averiguá-lo.

Embora o tipo me parecia detestável, não podia ficar cruzada de braços enquanto o matavam. De verdade, não podia.

-Basta -disse em voz baixa, junto ao zombi. Deixou de fazer força, mas continuou apertando. O comediante estava quase inconsciente-. Solta-o.

O zombi obedeceu, e o homem caiu inerte ao cenário. Willie abandonou sua resistência frenética e se alisou o traje vermelho. Seguia perfeitamente penteado; muita gomina para que um simples zombi lhe deslocasse um só cabelo.

-Obrigado -sussurrou. Depois se elevou em seu metro sessenta e disse-: Senhoras e senhores, Albert o Incrível e seu zombi de companhia.

O público parecia um pouco inseguro até então, mas começou a aplaudir. Quando Albert o Incrível se levantou e se aproximou do microfone, a ovação alagou a sala.

-Ernie opina que já vai sendo hora de voltar para casa -disse com voz cascata-. Muito obrigado a todos.

O público voltou a aplaudir, e o humorista abandonou o cenário. O zombi ficou, me olhando, esperando a que lhe desse instruções. Não sei por que os zombis não lhe fazem caso a todo mundo; me parece normalísimo que me obedeçam. Não sinto nenhum comichão nem nada especial; quando falo, os zombis fazem o que lhes digo. Como se fora um sargento.

-Vete com o Albert e segue suas ordens até novo aviso.

O zombi ficou me olhando um momento; depois se girou lentamente e partiu. O humorista já estava a salvo, mas preferia não dizer-lhe melhor que se acreditasse em perigo e me pedisse que pusesse a descansar ao zombi. Esse era o plano, e provavelmente o que queria o zombi.

Certamente, ao Ernie não parecia lhe gostar de ser objeto de brincadeiras em um número cômico, embora estrangular a quem se burlava dele era passar-se um pouco.

Willie me acompanhou quando voltei para minha mesa. Sentei-me e bebi um gole da Coca-cola. Ele se sentou diante de mim; parecia alterado, e suas mãos diminutas estavam trementes. Seria um vampiro, mas seguia sendo Willie McCoy. Perguntei-me quanto demoraria para perder o resto de sua personalidade. Dez anos? Vinte? Um século? Quanto demoraria o monstro em aniquilar ao homem?

Possivelmente demorasse menos, mas não era meu problema; eu não esperava presenciá-lo. Em realidade, não queria presenciá-lo.

-Nunca me gostaram dos zombis -comentou.

-Dão-lhe medo? -perguntei, observando-o com estranheza.

Lançou-me um olhar e baixou a vista à mesa.

-Não.

-Dão-lhe medo os zombis -proclamei com um sorriso-. Tem-lhes fobia.

-Não o diga a ninguém. -inclinou-se para diante, verdadeiramente atemorizado-. Por favor.

-A quem o ia dizer?

-Já sabe.

-Não sei do que me fala, Willie -pinjente sacudindo a cabeça.

-Do Chefe. -De verdade que ouvi a maiúscula.

-por que o ia dizer ao Jean-Claude?

Outro humorista tinha subido ao cenário. Apesar das risadas e o bulício, Willie seguia falando em sussurros.

-É seu sirva humana, queira ou não. Diz que quando falamos contigo falamos com ele.

Estávamos tão inclinados que me chegava seu fôlego. Cheirava a pastilhas de hortelã. Quase todos os vampiros cheiram a pastilhas de hortelã; não sei o que faziam antes de que se inventassem. Suponho que agüentar a halitosis com dignidade.

-Sabe de sobra que não sou seu sirva.

-Mas quer que o seja.

-Que Jean-Claude queira algo não significa que o vá conseguir -pinjente.

-Já sabe como é.

-Acredito que...

Tocou-me o braço, e nessa ocasião não me apartei. Estava muito enfrascada na conversação.

-trocou desde que morreu o ama. Agora é muito mais capitalista que quando o viu por última vez.

Me imaginava.

-E por que não quer que lhe diga que lhe dão medo os zombis?

-Porque o usaria para me castigar.

-Quer dizer que tortura às pessoas para controlá-la? -perguntei, olhando-o muito de perto. Assentiu-. Mierda.

-Não lhe dirá nada?

-Não, prometo-lhe isso.

Seu alívio foi tão evidente que lhe dava uns tapinhas na mão. Era uma mão normal; já não tinha o tato da madeira. por que? Não sabia, e suponho que se o tivesse perguntado, ele tampouco o teria sabido. Um dos mistérios da... morte.

-Obrigado.

-Não dizia que Jean-Claude é o melhor chefe que tiveste alguma vez?

-Sim -confirmou.

Aquilo sim que acojonaba. Se lhe parecia que alguém capaz de torturá-lo com seu pior temor era um bom tipo, como teria sido Nikolaos? Bom, já conhecia a resposta: era uma psicopata. A crueldade do Jean-Claude não era gratuita; não torturava a ninguém pelo prazer de vê-lo sofrer. Todo um adiantamento.

-Tenho que ir -disse levantando-se-. Obrigado por me ajudar com o zombi.

-foste muito valente, sabe?

Dedicou-me um breve sorriso, ensinando as presas, e de repente a apagou como quem aciona um interruptor.

-Não posso me permitir o luxo de não sê-lo.

Os vampiros são como as manadas de lobos: os fracos acabam dominados ou mortos, e não existe a opção do desterro. Willie ia subindo no escalão, e um indício de debilidade podia deter sua ascensão, ou algo pior. Tinha-me perguntado muitas vezes a que tinham medo os vampiros, e ante mim havia um que tinha medo dos zombis. Me teria parecido gracioso se não fora por seu olhar de temor.

O humorista do cenário era um vampiro recente. Tinha a pele blanquísima, os olhos negros como tições, umas gengivas pálidas e retraídas, e umas presas que teriam sido a inveja de qualquer pastor alemão. Nunca tinha visto um vampiro de aspecto tão monstruoso. Quase todos se esforçam por parecer humanos; aquele, justamente o contrário.

Não me tinha fixado na reação do público quando tinha saído a cena, mas todo mundo se descojonaba. Se as piadas sobre o zombi já eram maus, aqueles eram diretamente penosos. Na mesa do lado, uma mulher ria com tanta força que lhe saltavam as lágrimas.

-Fui a Nova Iorque, que dizem que é muito perigoso. E bom, tentou me atacar uma banda guia de ruas, mas não tinha nem meio bocado. -A gente se sujeitava a tripa como se lhe doesse.

Não o entendia. De verdade, não tinha a menor graça. Olhei a meu redor e vi que todos tinham a vista cravada no cenário, e o contemplavam com a devoção dos enfeitiçados.

Estava usando truques. Os vampiros são aficionados a eles, e os vi empregar para seduzir, ameaçar, aterrorizar e tudo de uma vez, mas era a primeira vez que via um vampiro obrigar às pessoas a rir.

Piores usos vi fazer dos poderes vampíricos. O cômico não tentava fazer machuco a ninguém, e aquela hipnose coletiva era inócua e provisória. Mas mesmo assim me parecia mau. O controle mental de uma multidão é uma das coisas mais horripilantes que podem fazer os vampiros sem que ninguém se inteire.

Eu me inteirava, e não me fazia nem pingo de graça. O vampiro não levava muito tempo morto, e nem sequer me teria afetado antes das marcas do Jean-Claude. Reanimar zombis proporciona certa imunidade contra outros nomuertos; é um dos motivos pelos que é freqüente que os reanimadores façam horas extras de cazavampiros. Jogamos com vantagem, por assim dizê-lo.

Tinha ficado com o Charles ali, mas não aparecia. E não é alguém que possa passar mais desapercebido que Godzilla em meio de Tóquio. Onde se teria metido? E já postos, quando se dignaria me receber Jean-Claude? Eram mais das onze; fazia falta ser um casulo displicente para me obrigar a ficar com ele e logo me fazer esperar.

Naquele momento, Charles entrou pela porta lhe oscilem que dava à zona da cozinha e atravessou o local em direção à saída. Sacudia a cabeça e lhe murmurava algo a um asiático baixinho que tinha que trotar para não lhe perder o passo.

Fiz-lhe um gesto, e Charles girou em minha direção.

-Minha cozinha está muito limpa -dizia o outro homem.

Charles murmurou algo que não alcancei para ouvir. O público enfeitiçado não se dava nem conta. Poderíamos ter disparado uma salva com vinte e um mosquetões e ninguém se teria precavido. Até que o vampiro humorista terminasse o número, ninguém ouviria nada mais.

-Nem que fora o ministro da Sanidade -dizia o homenzinho. Levava roupa de cozinheiro, embora retorcia o gorro entre as mãos, e seus olhos amendoados brilhavam de cólera.

Charles passa de um e oitenta e cinco, mas parece ainda mais alto. Seu corpo é um mazacote, dos ombros muito largos até os pés. Não acredito que tenha cintura; é uma montanha ambulante. Seus olhos, de um marrom imaculado, são da mesma cor que sua pele, muito escuros, e sua mão bastaria para me cobrir toda a cara.

A seu lado, o cozinheiro asiático parecia um cachorrinho zangado. Sujeitou ao Charles pelo braço. Não sei o que pretendia, mas meu amigo deixou de mover-se e baixou a vista para a mão inoportuna.

-Não me toque -disse muito devagar, com uma voz tão grave que quase fazia danifico.

O cozinheiro o soltou como se se queimou e deu um passo atrás. Charles só lhe tinha dedicado parte de seu famoso olhar. O tratamento completo pode fazer que um aspirante a assaltante peça socorro a gritos, mas naquela ocasião bastou com uma amostra.

-Minha cozinha está muito limpa -insistiu com voz mais contida.

-É ilegal ter zombis na zona onde se prepara a comida -disse Charles, negando com a cabeça-. As normas sanitárias prohíben que os cadáveres se aproximem dos mantimentos.

-Meu ajudante é um vampiro. Também está morto.

Charles me lançou um olhar de impotência; devolvi-lhe outra de compreensão. Eu tinha tido o mesmo bate-papo com um par de cozinheiros.

-Os vampiros já não se consideram mortos legalmente, senhor Kim. Os zombis, sim.

-Pois não o entendo.

-Os zombis apodrecem e transmitem enfermidades como qualquer outro cadáver. Que se movam não significa que não sejam uma fonte de infecções.

-Mas...

-Ou mantêm aos zombis fora da cozinha ou atamos o local. Entende isso?

-E terá que lhe explicar ao proprietário por que se fecha seu negócio -intervim, sonriéndoles aos dois.

O cozinheiro empalideceu um pouco. Que bonito.

-De... De acordo. Resolveremos.

-Muito bem -disse Charles.

O chef me lançou um olhar atemorizado e voltou para a cozinha. Tinha graça que Jean-Claude começasse a inspirar temor em tanta gente. antes de converter-se no chupasangres chefe tinha sido um dos vampiros mais civilizados. O poder corrompe.

Charles se sentou diante de mim. A mesa ficava pequena.

-recebi sua mensagem. O que acontece?

-Necessito que me acompanhe ao Tenderloin.

É difícil averiguar quando se ruboriza Charles, mas se agitou na cadeira.

-Que demônios te perdeu nesse bairro?

-Procuro uma pessoa que trabalha ali.

-Quem?

-Uma prostituta.

Voltou a mostrar sua inquietação. Era como ver uma montanha incomodada.

-Ao Caroline não vai fazer nenhuma graça.

-Pois não o diga.

-Já a conhece, e já sabe que não nos ocultamos nada.

Esforcei-me por manter a compostura. Se Charles queria lhe render contas a sua mulher de tudo o que fazia, era assunto dele. Não tinha por que permitir que Caroline o controlasse; o fazia porque lhe dava a vontade. Mas me dava mais desgosto que uma limpeza bocal.

-lhe diga que te atrasaste no trabalho e não te pedirá detalhes.

Ao Caroline parecia asqueroso nosso trabalho: decapitar galos, levantar zombis... Que sujeira.

-por que buscas a essa prostituta?

Passei por cima essa pergunta e respondi a que não me tinha feito. Quanto menos soubesse Charles sobre o Harold Gaynor, mais a salvo estaria.

-Só necessito a alguém com pinta ameaçadora; não quero ter que lhe pegar um tiro ao primeiro imbecil que se passe comigo. Vale?

-Vale -respondeu, assentindo-. Adula-me que me peça isso .

Dediquei-lhe um sorriso alentador. Em realidade, Manny era muito mais duro, e com ele me haveria sentido mais a salvo, mas lhe acontecia o que a mim: não acojonaba. Charles, sim. O que precisava era me atirar um farol, não levar reforços.

Olhei o relógio. Eram quase as doze; Jean-Claude me tinha tido uma hora esperando. Voltei-me e vi o Willie, que se aproximou imediatamente. Deveria usar meus poderes só para fazer o bem.

aproximou-se, mas não muito, e saudou o Charles com um gesto da cabeça. Charles lhe devolveu a saudação. Que estóicos.

-O que quer? -perguntou Willie.

-Está livre Jean-Claude, ou não?

-Sim, vinha a te buscar. Não sabia que tivesse companhia. -Olhou ao Charles.

-Trabalhamos juntos -expliquei.

-Outro reanimador? -perguntou Willie.

-Sim -disse Charles, impassível, com o olhar algo ameaçadora.

Willie assentiu impressionado.

-Tem que levantar zombis depois de ver o Jean-Claude?

-Sim. -Levantei-me e dirigi ao Charles em voz baixa, embora era provável que Willie me ouvisse. Até os mais recentes têm melhor ouvido que muitos cães-. Virei assim que possa.

-De acordo -disse-, mas tenho que voltar logo para casa.

Entendia-o; sua mulher o tinha curto maço. Embora Charles o tinha procurado, parecia me incomodar mais que a ele. Igual seguia solteira por isso: os compromissos não são o meu.

Segui ao Willie, e cruzamos uma porta que dava a um corredor curto. Assim que a porta se fechou a nossas costas, o som se atenuou, como em um sonho. A luz era deslumbrante em comparação com a escuridão do local. Pisquei para acostumar a vista. Willie estava rosado; não parecia vivo de tudo, mas sim bastante são para estar morto. Aquela noite tinha tido sua ração de sangue, possivelmente de um humano que o tinha permitido, possivelmente de um animal, possivelmente...

Na primeira porta da esquerda punha ENCARREGADO. Seria o despacho do Willie? Anda já.

Willie abriu e me convidou a entrar, mas não me acompanhou: olhou a mesa de reojo, retrocedeu e fechou a porta.

O tapete era claro, e as paredes, de um branco apagado. Na parede oposta havia uma grande mesa laqueada em negro, com um abajur negro brilhante que parecia formar parte do móvel. Na mesa havia uma pasta centrada cuidadosamente, nada mais. Nem papéis, nem clipes... Só Jean-Claude, na poltrona.

Seus dedos largos e pálidos se entrelaçavam em cima da pasta. Tinha o cabelo ondulado e os olhos azul escuro, e levava uma camisa branca com estranhos punhos abotoados. Estava sentado muito reto, imóvel como um quadro, atrativo como um sonho úmido... Mas não era real. Embora parecesse perfeito, eu conhecia a verdade.

Na parede da esquerda havia dois arquivos metálicos e um sofá de couro negro. Em cima havia um grande óleo, que representava uma cena de São Luis no século XVI, quando os colonizadores chegavam pelo rio em barcaças. Nem a luz outonal do quadro, nem os meninos que corriam e jogavam nele, encaixavam com o resto do despacho.

-É teu o quadro? -perguntei. Fez um breve assentimento-. Conheceu pintor?

Sorriu sem ensinar as presas; só arqueou os lábios de forma arrebatadora. Se houvesse revistas de modas para vampiros, Jean-Claude seria o menino de capa.

-Nem a mesa nem o sofá pegam com o resto -pinjente.

-Estou redecorando. -ficou me olhando em silêncio.

-Você foi quem queria lombriga, assim ao grão.

-Tem pressa? -Sua voz grave era como o tato do veludo na pele nua.

-Sim, e deixa de panaquices. O que quer?

Seu sorriso se ampliou ligeiramente, e até baixou a vista um momento, quase com acanhamento.

-É meu sirva humana, Anita. -Tinha-me chamado por meu nome: mau sinal.

-E lhe dê.

-Leva duas marcas; só ficam outras dois. -Seguia me olhando com gesto afável, em discordância com suas palavras.

-E o que?

-Anita... -interrompeu-se, levantou-se com um suspiro e rodeou a mesa-. Sabe no que consiste ser o amo da cidade?

apoiou-se na mesa, e a camisa lhe abriu para revelar uma parte de seu peito pálido que incluía um mamilo, pequeno e compacto. A marca em forma de cruz era uma afronta em um corpo tão perfeito.

Joder, que corte, tinha estado lhe olhando o peito. Elevei a vista e consegui não me pôr tinta. Que maior.

-Ser meu sirva humana tem outras vantagens, MA petite. -Seus olhos eram todos pupila, negros e tão profundos que tinha a impressão de que podia me afogar neles.

-Disso nada -pinjente sacudindo a cabeça.

-Não minta, MA petite, posso sentir seu desejo. -umedeceu-se os lábios-. Noto o sabor.

O que faltava. Como se discute com alguém que se dá conta dessas coisas? Muito fácil: melhor não lhe levar a contrária.

-De acordo, põe-me. Satisfeito?

-Sim -respondeu com um sorriso. Só foi ama palavra, mas me encheu o cérebro com sussurros que não tinha pronunciado, com promessas na escuridão.

-Há muitos homens que me põem, mas isso não significa que tenha que me deitar com eles.

Jean-Claude tinha a cara quase relaxada, e uns olhos que me arrastavam.

-O desejo intrascendente é fácil de superar. -levantou-se com um movimento felino-. Mas o nosso não é isso, MA petite. É algo mais.

Tinha palpitações, e não por medo. Não acredito que fora um truque vampírico; parecia-me real. Dizia que havia algo mais, e possivelmente tivesse razão.

-Basta -murmurei.

É obvio, não se deteve. Passou-me os dedos pela bochecha, logo que roçando-a, mas o suficiente para que sentisse sua pele. Apartei-me sem poder dissimular a respiração entrecortada. Podia fingir o que quisesse, mas ele notaria meu desconforto, assim para que?

Tinha a lembrança de seu roce na bochecha, e falei olhando ao chão.

-Pode que haja certas vantagens, e lhe agradeço isso, de verdade, mas não posso. Não penso fazê-lo.

Olhei-o aos olhos, e seu rosto estava vazio de toda expressão. Não havia nada. Era a mesma cara que um momento antes, mas o rastro de humanidade, de vida, tinha desaparecido.

As palpitações voltaram, mas já não tinham nada que ver com o sexo. Eram de medo.

-Como quer, minha pequena reanimadora. Dá igual a sejamos amantes ou não; em qualquer caso, é meu sirva humana.

-Nem pensar -pinjente.

-Pertence-me, Anita. Queira ou não, é minha.

-São estas coisas as que não entendo. Primeiro tenta me seduzir, e não negarei que tem sua parte agradável, mas quando vê que não funciona, recorre às ameaças.

-Não é nenhuma ameaça, MA petite. É a verdade.

-Nada disso. E deixa de uma puta vez o puto MA petite. -Arranquei-lhe um sorriso, mas não pretendia resultar divertida. A cólera substituiu ao aborrecimento. Eu gostava de estar zangada; era mais valente... e mais estúpida-. Que lhe follen.

-Isso já lhe ofereci isso.

Sua voz me agitou o interior, e notei que me ruborizava.

-Joder, Jean-Claude, vete a mierda.

-Temos que falar, MA petite. Sejamos amantes ou não, seja meu sirva ou não, temos que falar.

-Pois começa, porque não tenho toda a noite.

-Não me põe as coisas fáceis. -Suspirou.

-Se o que queria era isso, ter eleito a outra.

-Muito certo -disse assentindo-. Sente-se, por favor.

Voltou a apoiar-se na mesa, com os braços cruzados.

-Não tenho tanto tempo.

-Acreditava que estávamos de acordo em que devemos falar, MA petite -disse franzindo o cenho ligeiramente.

-Tínhamos ficado às onze. Você é quem esbanjou uma hora, não eu.

-Muito bem. -Seu sorriso era quase ácido-. Darei-te uma versão resumida.

-Vale.

-Sou o novo amo da cidade. Enquanto vivia Nikolaos tive que ocultar meus poderes para sobreviver, mas me deu muito bem: há quem não me considera suficientemente capitalista para o cargo, e você é um dos argumentos que esgrimem quando põem minha capacidade em interdição.

-Eu?

-Sua desobediência. Se nem sequer posso controlar a meu sirva humana, como vou controlar a todos os vampiros da cidade e os arredores?

-E o que quer de mim?

Dedicou-me um sorriso autêntico, com presas e tudo.

-Que seja meu sirva humana.

-Igual tem mais sorte na próxima reencarnação.

-Posso te fazer a terceira marca à força, Anita. -Não falava com tom ameaçador; limitava-se a constatar os fatos.

-Prefiro morrer antes que ser seu sirva.

Os professores vampiros cheiram a verdade. Saberia que falava a sério.

-por que?

Abri a boca para tentar explicar-lhe mas me pensei isso melhor: não o entenderia. Separavam-nos menos de dois metros, mas para o caso poderiam ter sido quilômetros, e com um abismo insondável no meio. Não havia maneira de tender uma ponte. Ele era um cadáver ambulante, e o que tivesse sido em vida tinha desaparecido. Era o amo vampiro da cidade, algo que nem sequer tinha nada que ver com os humanos.

-Se não ter mais remédio, matarei-te -pinjente.

-Diz-o a sério. -Havia surpresa em sua voz. Poucas garotas podem presumir de ter surpreso a um vampiro de vários séculos de idade.

-Sim.

-Não te entendo, MA petite.

-Já sei.

-E não pode fingir que é meu sirva?

O que pergunta mais estranha.

-O que quer dizer?

-me acompanhe a umas quantas reuniões e me apóie, com suas pistolas e sua fama.

-Quer ter à a Ejecutora de seu lado. -Olhei-o atônita durante uns instantes, enquanto digeria o verdadeiro alcance do que havia dito-. Acreditava que as duas marcas tinham sido acidentais, que não te ocorria nenhuma outra solução, mas pretendia me marcar desde o começo, verdade? -pinjente. limitou-se a sorrir-. Me responda, filho de puta.

-Não tinha nada em contra se surgia a oportunidade.

-Nada em contra! -Quase estava gritando-. Escolheu-me a sangue frio para me converter em seu sirva humana. por que?

-É a Ejecutora.

-O que quer dizer com isso?

-Tem mérito ser o vampiro que consiga te pôr a raia.

-Pois não o conseguiste.

-Se te levasse bem, outros acreditariam que sim. Basta com que você e eu saibamos que é mentira.

-Não vou seguir te o jogo, Jean-Claude. -Sacudi a cabeça.

-Não quer me ajudar?

-Muito perspicaz.

-Ofereço-te a imortalidade sem a carga do vampirismo. Estou-me oferecendo eu. Sabe quantas mulheres, ao longo dos anos, teriam sido capazes de fazer algo que lhes pedisse em troca disso?

-Um pó é um pó, Jean-Claude. Ninguém vale tanto.

-Os vampiros são distintos, MA petite -disse com um ligeiro sorriso-. Se não fosse tão cabezota o comprovaria pessoalmente.

Tive que apartar a vista de seus olhos. O olhar era muito íntima, muito carregada de possibilidades.

-Só quero uma coisa de ti -disse-lhe.

-E do que se trata, MA petite?

-Bom, não, quero duas coisas: em primeiro lugar, que deixe de me chamar assim, e em segundo lugar, que me libere, que apague essas putas marcas.

-Concedo-te a primeira petição, Anita.

-E a segunda?

-Não poderia fazê-lo embora quisesse.

-E de todas formas, tampouco quer.

-Em efeito.

-Manten afastado de mim, Jean-Claude. Não lhe aproxime isso ou te matarei.

-Não seria a primeira que o tenta.

-Quantos de outros tinham matado já a dezoito vampiros?

-Nenhum. -Lhe aumentaram ligeiramente os olhos-. Na Hungria havia um tipo que assegurava que tinha matado a cinco.

-E o que passou com ele?

-Degolei-o.

-A ver se entender isto, Jean-Claude: prefiro que me degüellen. Prefiro morrer tentando te matar antes que me dobrar a sua vontade. -Fiquei olhando-o, tentando averiguar se tinha entendido algo-. É que não vais responder?

-Já te ouvi, e sei que fala a sério. -De repente estava diante de mim. Não o tinha visto mover-se; nem sequer tinha percebido seu movimento de forma inconsciente. Simplesmente, em um instante o tinha em cima. Acredito que dava um coice-. De verdade poderia me matar?

Sua voz era como o tato da seda em uma ferida, suave embora ligeiramente dolorosa. Como o sexo. Sentia que me esfregava o crânio com veludo. Eu gostava, apesar de que estava acojonada. Mierda. Que ainda podia comigo? Nem pensar.

-Sim -pinjente olhando-o aos olhos azuis.

Disse-o a sério. Piscou uma só vez e deu um passo atrás.

-É a mulher mais obstinada que conheci em minha vida. -Era uma simples afirmação.

-É o melhor completo que me tem feito nunca.

ficou diante de mim, com as mãos aos lados, muito quieto. As serpentes e os pássaros também se podem ficar imóveis, mas até as serpentes transmitem certa sensação de vida, de espera, como uma mola preparada para saltar. A imobilidade do Jean-Claude não transmitia nada; era como se os olhos me enganassem e se desvaneceu. Como se não estivesse. Os mortos não fazem nenhum ruído.

-O que te passou na cara?

-Nada -menti, me levando a mão à bochecha machucada sem poder evitá-lo.

-Quem te pegou?

-O que pretende? lhe pegar você?

-Uma das vantagens de meu ser sirva é que meu amparo está incluído.

-Não necessito que me proteja, Jean-Claude.

-Pois se vê que te fez mal.

-E eu lhe cravei uma pistola nos ovos e o obriguei a me dizer tudo o que sabia.

-Que fez o que? -Sorriu.

-lhe cravar uma pistola nos ovos, vale?

Seus olhos começaram a faiscar, e a risada se estendeu por sua cara até lhe estalar entre os lábios. Soltou uma gargalhada a pleno pulmão.

Tinha uma risada doce como os caramelos, muito contagiosa. Se se pudesse engarrafar, estou segura de que a risada do Jean-Claude engordaria. Ou seria orgásmica.

-MA petite, MA petite, é absolutamente maravilhosa.

Fiquei olhando-o, enquanto sua risada evidente me rodeava. Tinha que partir: é impossível fazê-la dura quando se tem diante a alguém que ri assim. Mas o consegui, embora minha frase de despedida só intensificou as gargalhadas:

-E deixa de me chamar MA petite.

Voltei para ruído do local. Charles estava de pé ao lado da mesa, e já de longe notei que se sentia incômodo. A ver que mais tinha passado.

Estava retorcendo-as mãos, e tinha um gesto que quase parecia de dor. Um deus misericordioso lhe tinha dado aspecto duro, mas não podia ser mais brando. Se eu tivesse o tamanho e a força do Charles, asseguro-lhes que seria de cuidado. Que injusto, e que triste.

-O que acontece? -perguntei.

-chamei ao Caroline.

-E?

-A canguru está doente, e a chamaram que hospital, assim tenho que ficar com o Sam.

-Já vejo.

-Não pode esperar a manhã para ir ao Tenderloin? -Até seu aspecto de duro se esfumou. Neguei com a cabeça-. Não pretenderá ir sozinha, verdade?

Olhei ao gigantesco homem que se elevava ante mim e suspirei.

-Não posso esperar, Charles.

-Mas o Tenderloin... -Baixou a voz, como se a menção do bairro fora a atrair a um bando de fanfarrões e putas-. Não pode ir sozinha de noite.

-Em piores sítios estive. Não se preocupe.

-Não posso permitir que vá sozinha. Que Caroline procure outra canguru, ou que diga no hospital que não pode ir.

Sorriu ao dizê-lo. Sempre é agradável ajudar a um amigo. Mas Caroline o faria pagar, e o pior do caso era que já não gostava de ir com ele. Às vezes não basta com a pinta.

E se Gaynor se inteirava de que tinha interrogado a Wanda? E se acreditava que Charles tinha algo que ver? Não; tinha sido uma egoísta ao pretender que se arriscasse. Charles estava casado e tinha um filho de quatro anos.

Harold Gaynor o comeria com batatas. Não podia envolvê-lo. Era como um osito, muito grande e ansioso por agradar, mas não necessitava o apoio de um osito. Necessitava a alguém que fora capaz de agüentar o que lhe jogasse Gaynor.

Tive uma idéia.

-Vete a casa, Charles. Não irei sozinha, prometo-lhe isso.

Olhou-me com incerteza. Possivelmente não me acreditasse. Pois bom.

-Está segura? Não quero te deixar pendurada...

-Parte. Pedirei a outra pessoa que me acompanhe.

-A quem vais encontrar a estas horas?

-Não pergunte. Vete com seu filho.

Não parecia as ter todas consigo, mas era evidente que estava aliviado. Dava-lhe medo ir ao Tenderloin. Pode que a correia curta do Caroline fora o que ele queria e necessitava: uma desculpa para não fazer o que não queria fazer em realidade. Vá base para um matrimônio.

Mas bom. Se funcionar, não o toque.

Charles partiu desfazendo-se em desculpas, mas eu sabia que se alegrava de ir-se, e não me esqueceria.

Bati na porta do despacho.

-Adiante, Anita -ouvi depois de um momento de silêncio.

Como tinha sabido que era eu? Melhor não perguntar; não queria sabê-lo.

Jean-Claude parecia estar examinando um livro de contas de páginas amareladas e tinta esvaída. Dava a impressão de ter saído da época vitoriana.

-O que tenho feito para merecer a honra de duas visitas em uma noite? -perguntou.

De repente me senti gilipollas. depois de me dedicar a esquivá-lo, ia convidar o a que me acompanhasse a investigar? Mas dessa maneira mataria dois morcegos de um tiro: daria-lhe gosto ao Jean-Claude, porque de verdade que não gostava que se zangasse comigo, e se Gaynor tentava enfrentar-se a ele, dava-me que o vampiro tinha todas as de ganhar.

Era o que me tinha feito Jean-Claude umas semanas atrás: tinha-me eleito para que salvasse ao mundo vampírico, e me tinha feito me enfrentar a um monstro que já tinha matado a três professores vampiros. Supunha que eu teria as de ganhar contra Nikolaos e acertou, embora pelos cabelos.

Onde as dão tomam, assim que lhe dediquei um sorriso encantador. Era um prazer poder devolver os favores tão depressa.

-Importaria-te me acompanhar ao Tenderloin?

Piscou, com um gesto de surpresa digno de uma pessoa de verdade.

-Com que objeto?

-Tenho que interrogar a uma prostituta sobre um caso no que estou trabalhando, e necessito apoio.

-Apoio?

-Deveria ir com alguém de pinta mais ameaçadora que a minha, e você cumpre os requisitos.

-Assim quer me usar de guarda-costas -disse com um sorriso beatífica.

-Já me causaste muitos problemas, assim por uma vez poderia me fazer um favor.

O sorriso se desvaneceu.

-A que vem esta repentina mudança de opinião, MA petite?

-O tipo que me ia acompanhar teve que ir-se casa a ficar com seu filho.

-E se não ir?

-Irei sozinha.

-Ao Tenderloin?

-Sim -pinjente. De repente se encontrava de pé junto à mesa e caminhava para mim. Não o tinha visto levantar-se-. por que não deixa de fazer isso?

-A que te refere?

-Ao de me nublar a mente para que não veja que te move.

-Faço-o sempre que posso, MA petite, para demonstrar que ainda sou capaz.

-O que quer dizer com isso?

-Transmiti-te grande parte de meu poder quando te pus as marcas, assim pratico com os jueguecitos que ainda não me estão vedados. -Estava quase diante de mim-. Não quero que se esqueça de quem nem do que sou.

Fiquei olhando seus olhos azuis, azuis.

-Nunca me esquecimento de que é um cadáver ambulante, Jean-Claude.

Uma expressão que não soube interpretar lhe atravessou o rosto. Possivelmente fora de dor.

-Não, vejo em seus olhos que sabe o que sou. -Baixou a voz até convertê-la em um sussurro, embora sem nada de sedutor. Parecia humano-. Seus olhos são o espelho mais nítido que vi em minha vida, MA petite. Sempre que começo a me enganar, sempre que raspa sotaque levar pela fantasia de que estou vivo, basta-me te olhando para ver a verdade.

O que esperava que dissesse? Não pretenderia que passasse por cima seu vampirismo.

-E por que não me rehúyes?

-Pode que Nikolaos não se converteu no monstro que era se tivesse tido um espelho assim.

Fiquei olhando-o. Possivelmente tivesse razão. Aquilo quase convertia sua eleição de sirva humana em um ato de nobreza. Quase. Já, o que faltava. Agora ia começar a sentir lástima do puto amo da cidade? Nem farta de vinho.

Íamos ao Tenderloin. Cuidado, meninos maus: levava a amo de apoio. Era matar moscas a cañonazos, mas sempre foi uma de minhas especialidades.

No século XIX, o Tenderloin era o bairro chinês da Borda, mas ao igual a grande parte de São Luis, revalorizou-se. Se baixarem pela rua Washington, passam o teatro Fox, onde as companhias itinerantes representam musicais da Broadway, e seguem baixando até o final do centro de São Luis, ao oeste, chegarão ao cadáver ressuscitado do Tenderloin.

De noite, as ruas estão cheias de néones e tudo são luzes parpadeantes, vibrantes, de cores vivas. É como um carnaval pornográfico; só falta que instalem uma noria em um descampado. Poderiam vender algodão doce com forma de corpo nu, e os meninos ficariam a jogar enquanto papai visitava as outras atrações. Mamãe não teria por que inteirar-se.

Jean-Claude estava sentado a meu lado no carro. Tinha estado tão calado, todo o caminho, que tive que olhar o de reojo um par de vezes para me assegurar de que seguia ali. A gente faz meço. Não me refiro à conversação, aos arrotos nem a nada tão chamativo. Simplesmente, as pessoas não podem ficar sentadas em silêncio. revolvem-se e a roupa roça o assento; respiram e se ouça como tomam ar; umedecem-se os lábios e emitem um som baixo e úmido mas audível... Jean-Claude não fez nenhuma dessas coisas; nem sequer sei se chegaria a piscar. Ah, os mortos viventes.

Eu gosto do silêncio tanto como ao que mais; me tomo melhor que a maioria das mulheres e que muitos homens. Mas de repente sentia o impulso de enchê-lo, de falar só para ouvir algo. Era um desperdício de energia, mas o necessitava.

-Está aí, Jean-Claude? -Voltou o pescoço, com cabeça e tudo, e vi os néones refletidos em seus olhos, que pareciam espelhos escuros. Mierda-. Sei que sabe te fazer passar por humano melhor que quase qualquer vampiro, assim a que vem esta gilipollez sobrenatural?

-Gilipollez? -repetiu em voz baixa.

-Sim. por que fica tão misterioso?

-Misterioso? -Sua voz encheu o carro, como se a palavra tivesse outro significado.

-Já vale.

-Que vale?

-Vale de me responder com perguntas.

-Sinto muito, MA petite. -Piscou-. É que sinto a rua.

-Como que sente a rua?

Voltou a apoiar as costas e a cabeça no assento, e se levou uma mão ao estômago.

-Aqui há muita vida.

-Vida? -de repente era eu a que respondia com perguntas.

-Sim. Sinto às pessoas que vai de um lado a outro: criaturas que procuram desesperadamente amor, dor, compreensão, cobiça... Há muita cobiça por aqui, mas sobre tudo, amor e dor.

-A gente não vai de putas em busca de amor, a não ser em busca de sexo.

Voltou a cabeça e me cravou os olhos escuros.

-Muitas pessoas confundem o um com o outro.

Fiquei olhando a estrada. Me tinha arrepiado o pêlo.

-Hoje não tomaste sangue, verdade?

-Você é a perita em vampiros; você dirá. -Sua voz se converteu em um sussurro áspero.

-Já sabe que contigo me custa notá-lo.

-Muito obrigado pelo completo.

-Não te trouxe para caçar -disse com firmeza, pode que em voz mais alta do necessário. O som de meu pulso me enchia a cabeça.

-vais proibir me que cace?

Meditei a resposta enquanto dava outra volta em busca de um sítio onde estacionar. ia proibir lhe que caçasse? Sim, e ele sabia. Era uma pergunta com armadilha; o problema era que não sabia onde estava a armadilha.

-Agradeceria-te que não caçasse aqui esta noite.

-me dê um motivo, Anita.

Tinha-me chamado por meu nome sem que o pedisse. Sem dúvida, tramava algo.

-Trouxe-te eu, e se não fora por mim, não caçaria aqui.

-Sente-se culpado pela pessoa da que possa me alimentar esta noite?

-Chupar sangue à força é ilegal -pinjente.

-Certamente.

-E se castiga com a morte.

-De sua mão.

-Se cometer o delito neste estado, sim.

-Só são putas, fanfarrões, estelionatários... O que lhe importam, Anita?

Acredito que nunca me tinha chamado Anita duas vezes seguidas. Mau sinal. Um carro saiu de onde estava estacionado, a menos de uma maçã do Gato Pardo. Que sorte. Coloquei o Nova no oco. Não me dá muito bem estacionar em paralelo, mas por sorte, o veículo que se partiu media o dobro que o meu, e tinha sítio de sobra para manobrar.

depois de deixar o carro não muito longe do meio-fio, mas mais ou menos afastado do tráfico, apaguei o motor. Jean-Claude seguia apoiado no assento, me olhando.

-Tenho-te feito uma pergunta, MA petite. O que significa essa gente para ti?

Tirei-me o cinturão e me voltei para olhá-lo. Por algum jogo de luzes e sombras, quase todo seu corpo estava sumido na escuridão, mas uma franja de luz dourada lhe atravessava a cara, lhe ressaltando os maçãs do rosto. A ponta das presas lhe sobressaía entre os lábios, e os olhos lhe resplandeciam como se fossem de néon azul. Apartei-me e cravei a vista no volante.

-Não é nada pessoal, Jean-Claude, mas estão vivos. Caiam-me bem ou mau, ou embora me sejam indiferentes, ninguém tem direito a matá-los arbitrariamente.

-Assim que te aferra por volta de que a vida é sagrada?

-A isso e a que todos os seres humanos são especiais. Cada morte supõe a perda de algo muito valioso e insubstituível. -Uma vez dito aquilo, olhei-o.

-Sei que mataste, Anita. destruíste algo que te parece insubstituível.

-Eu também o sou, e ninguém tem direito a me matar a mim, tampouco.

incorporou-se com um movimento fluido, e deu a sensação de que a realidade se reagrupava a seu redor. Quase pude perceber o passado do tempo no carro, como uma explosão sônica procedente do interior de minha cabeça.

Jean-Claude estava diante de mim, com aspecto completamente humano. Sua pele pálida estava um pouco ruborizada, e seu cabelo negro ondulado, cuidadosamente penteado, convidava a afundar os dedos. Tinha os olhos azul escuro, simplesmente, sem nada excepcional salvo a cor. Em um instante se tornou a converter em humano.

-Virgem Santa -disse entre dentes.

-O que acontece, MA petite?

Sacudi a cabeça. Se lhe perguntava como o tinha feito, limitaria-se a sorrir.

-A que vêm tantas perguntas? -disse-lhe-. O que te importa minha opinião sobre a vida?

-É meu sirva humana. -Levantou a mão para deter meu protesto automático-. comecei o processo de te converter em meu sirva humana, e eu gostaria de te entender melhor.

-É que não pode... cheirar minhas emoções, como cheira as da gente da rua?

-Não, MA petite. Percebo seu desejo e pouco mais. Renunciei a te ler a mente quando te pus as marcas.

-Então, não sabe o que penso?

-Não.

Alegrava-me sabê-lo, mas se Jean-Claude não tinha por que me dizer isso a que se deveria sua confissão? Nunca dava nada em troca de nada; seguro que aquilo suportava alguma atadura que eu não sabia ver. Neguei com a cabeça.

-Só vieste a me servir de apoio, assim não lhe faça nada a ninguém se não lhe pedir isso, vale?

-Que não faça nada?

-Não lhe faça mal a ninguém a não ser que tente nos fazer machuco .

Assentiu com solenidade, mas me temo que por dentro se partia de risada. Olhe que lhe dar ordens ao amo da cidade... Sim, suponho que tinha graça.

Na rua havia muito ruído. Dos edifícios saía música, nunca a mesma canção, mas sempre a todo volume. Os pôsteres proclamavam GAROTAS, GAROTAS, GAROTAS, TOPLESS. Em um anúncio luminoso de letras de cor rosa punha FALA COM A MULHER NUA DE SEUS SONHOS. Uf.

Uma mulher negra, alta e esbelta, nos aproximou. Levava uma calça curta arroxeado, tão pequeno que parecia um tanga, e umas meias negras de ralo que lhe cobriam as pernas e as nádegas. Muito provocadora.

deteve-se entre os dois e olhou a um e outro.

-Quem é o ativo e quem o olheiro?

Jean-Claude e eu intercambiamos um olhar. Vi que sorria.

-Sinto muito, mas estamos procurando a Wanda -disse-lhe.

-Não conheço todo mundo, mas algo que faça essa tal Wanda, garanto-lhes que a posso fazer melhor.

ficou muito perto do Jean-Claude, quase roçando-o. Lhe agarrou a mão e a levou aos lábios, sem deixar de me olhar.

-Você é o ativo -disse a puta com voz rouca, sexy. Ou talvez era o efeito que tinha Jean-Claude nas mulheres. Ou seja.

O caso é que se acurrucó contra ele. Sua pele negra contrastava com a camisa de encaixe branco. Levava as unhas pintadas de cor pantera rosa.

-Perdoem que lhes interrompa -pinjente-, mas não tenho toda a noite.

-Então não é a esta a que buscas -disse Jean-Claude.

-Não.

Agarrou-a pelos braços, justo por cima dos cotovelos, e a apartou. Ela tentou voltar a aproximar-se e o agarrou, mas ele a manteve afastada sem esforço. Poderia ter mantido afastado um carro em marcha sem esforço.

-Contigo vou grátis -disse ela.

-O que lhe tem feito? -perguntei-lhe.

-Nada.

Não me acreditei isso.

-Não lhe tem feito nada e não quer te cobrar? -O sarcasmo é um de meus talentos naturais. Assegurei-me de que o percebesse.

-Estate quieta -disse Jean-Claude.

-Não te atreva a me dizer que...

A mulher se ficou imóvel. Deixou cair as mãos aos lados, inertes. Jean-Claude não falava comigo.

Soltou-a, mas ela seguiu sem mover-se. Rodeou-a como se fora uma socava e me agarrou do braço. O permiti. Fiquei olhando à prostituta, esperando a que se movesse.

Suas costas reta e quase nua se estremeceu, e afundou os ombros. Jogou a cabeça para trás e respirou profundamente.

Jean-Claude me agarrou do cotovelo e pôs-se a andar. A prostituta se voltou e nos olhou, mas não reagiu. Era como se não nos reconhecesse.

Traguei saliva com tanta força que me doeu. Separei-me do Jean-Claude, que não tentou me reter. Bem por ele.

Apertei-me contra uma cristaleira. Jean-Claude estava frente a mim, cabisbaixo.

-O que lhe tem feito?

-Nada, MA petite, já lhe hei isso dito.

-Não me chame assim. E não me minta, porque a vi.

Dois homens se detiveram junto a nós para olhar a cristaleira. Foram agarrados da mão. Voltei-me para a loja e me ruborizei: látegos, máscaras de couro, algemas acolchoadas e coisas cujo nome nem sequer conhecia. Um dos homens sussurrou algo ao ouvido do outro, que Rio. Viram-me olhar e nossos olhos se encontraram; apartei a vista rapidamente. Naquela zona, o contato visual era perigoso.

Estava vermelha como um tomate, e não me fazia nem pingo de graça. Os dois homens partiram, ainda da mão.

Jean-Claude olhava a cristaleira como se fora o mais normal do mundo, com absoluta naturalidade.

-O que lhe tem feito a essa mulher? -perguntei-lhe.

Seguia concentrado na cristaleira, embora não sei que artigo lhe teria chamado a atenção.

-foi um descuido por minha parte, MA... Anita. foi minha culpa.

-O que foi tua culpa?

-Meus poderes aumentam quando tenho perto a meu sirva humana. -Olhou-me fixamente-. Quando está a meu lado sou mais poderoso.

-Um momento! Quer dizer que sou como o gato negro das bruxas?

-Sim, um pouco parecido. -Inclinou a cabeça e me sorriu-. Não sabia que entendesse de bruxaria.

-Tive uma infância difícil. -Não estava disposta a trocar de tema-. Assim quando vou contigo te dá melhor enfeitiçar às pessoas com o olhar. Até tal ponto que enfeitiçaste a essa prostituta sem te dar conta -pinjente. Assentiu, e eu neguei com a cabeça-. Não te acredito.

encolheu-se de ombros com sua elegância habitual.

-Não me cria se não querer, mas é a verdade.

Não me queria acreditar isso porque se era certo, eu era seu sirva humana quisesse ou não, independentemente de minhas ações: bastava com minha presença. O suor me jorrava costas abaixo, mas tinha frio.

-Mierda.

-E que o diga.

-Não, agora não posso com isto, de verdade. -Olhei-o fixamente-. Sejam o que sejam esses poderes que nos damos mutuamente, manten controlados, vale?

-Tentarei-o.

-Não o tente, joder. Faz-o.

-É obvio, MA petite. -Seu sorriso foi tão ampla que lhe vi a ponta das presas.

Começava a notar o peso do pânico na boca do estômago. Fechei os punhos.

-Como volta a me chamar assim, não respondo.

Alargou os olhos ligeiramente, e seus lábios se arquearam. Dava-me conta de que estava esforçando-se por não rir. Ódio que encontrem divertidas minhas ameaças.

Tinha vontades de lhe partir a cara por tocacojones, por intrometido e porque me tinha assustado. Não sentia saudades; não era a primeira vez que sentia o impulso de recorrer à violência. Observei o regozijo que aparecia em seu rosto. Era um filho de puta condescendente, mas se as coisas ficavam feias entre nós, um dos dois morreria, e não descartava a possibilidade de que fora eu.

O humor desapareceu de sua cara, que ficou tersa, arrebatadora e arrogante.

-O que acontece, Anita? -perguntou em voz baixa, íntima. A pesar do bulício de ao redor, era uma voz que me arrastava. Miúdo dom.

-Não me encurrale, Jean-Claude; não te convém me deixar sem opções.

-Acredito que não te entendo.

-Se tiver que escolher entre você e eu, escolherei-me . Não se esqueça.

Olhou-me durante uns instantes, e depois piscou e assentiu.

-Sim, acredito-te, mas recorda, MA..., Anita, que se me faz mal, fará-te mal a ti. Eu poderia sobreviver a sua morte, mas está segura, amante de moi, de que você poderia sobreviver à minha?

Que demônios significaria isso de amante de moi? Melhor não perguntar.

-Maldito seja, Jean-Claude. Maldito seja.

-Isso, minha querida Anita, ocorreu muito antes de que nos conhecêssemos.

-O que quer dizer?

-Faz muito que sua querida igreja católica decretou que todos os vampiros são suicidas, assim já estamos malditos. -Olhava-me com absoluta inocência.

-Sou episcopaliana -repus sacudindo a cabeça-, mas suponho que dá igual.

pôs-se a rir, com um som que era como uma carícia sedosa na nuca: suave e agradável, mas estremecedor.

Separei-me dele e o deixei ante a cristaleira, para me perder em meio das putas, os fanfarrões e os clientes. Não havia ninguém naquela rua que pudesse ser tão perigoso como Jean-Claude. Tinha-o levado para que me protegesse, serei pardilla? Era ridículo. Obsceno, quase.

Me aproximou um guri que não devia ter mais de quinze anos. Levava um colete sem nada debaixo e uns jeans destroçados.

-Quer algo? -Era um pouco mais alto que eu e tinha os olhos azuis. detrás dele, outros dois meninos nos olhavam-. Não vêm muitas mulheres por aqui, sabe?

-Não sente saudades. -Joder, era um pirralho-. Estou procurando a Wanda a Tragamillas.

-Põem-lhe as aleijadas? -disse um menino-. Puaj.

Estava de acordo com ele, mas enfim.

-Sabem onde está? -Tirei um bilhete de vinte. Era muito pela informação, mas possivelmente lhe servisse para ir-se antes a casa. Igual se tinha vinte dólares extra poderia rechaçar a algum dos clientes que passavam devagar com o carro. Sim, claro, ia trocar lhe a vida com vinte dólares. E logo podia deter um escapamento nuclear com o dedo.

-Está na porta do Gato Pardo, na esquina.

-Obrigado. -Dava-lhe o bilhete; tinha as unhas sujas.

-Seguro que não gosta de um pouco de marcha?

Sua voz era insegura, como seu olhar. Vi de reojo que Jean-Claude avançava pela multidão. Buscava-me para me proteger. Voltei-me para o guri.

-Acredito que já tenho mais marcha da que necessito.

O menino franziu o cenho, desconcertado. Não era para menos; eu também o estava. O que se faz com um professor vampiro perseguidor? Boa pergunta. Lástima que não tivesse nenhuma boa resposta.

Wanda a Tragamillas era miúda e estava sentada em uma dessas cadeiras de rodas esportivas, como as que se usam nas carreiras. Levava luvas de esporte, e os músculos dos braços lhe esticavam sob a pele bronzeada quando girava as rodas. O cabelo comprido e castanho lhe caía em ondas, emoldurando uma cara atrativa e bem maquiada. Levava uma camiseta azul com um brilho metálico, sem prendedor. Uma saia larga com um par de capas de gaze multicolorido e umas botas altas muito elegantes lhe ocultavam as pernas. Avançava para nós a bom ritmo. Em comparação, quase todas as prostitutas e chaperas tinham um aspecto grosseiro, com roupa muito chamativa que ensinava um montão de carne; claro que com aquele calor não havia mais remédio. Suponho que se alguém ficasse um macaco de ralo, a polícia lhe jogaria em cima.

Jean-Claude se deteve meu lado e olhou o néon, que proclamava O GATO PARDO em um fúcsia deslumbrante. Que bom gosto.

Como se aproxima uma a uma prostituta, embora só seja para conversar? Não tinha nem idéia; cada dia se aprende algo novo. Fiquei em seu caminho, esperando a que chegasse. Levantou a vista e me pilhou observando-a; ao ver que não me apartava, olhou aos olhos e sorriu.

Jean-Claude me aproximou, e o sorriso da Wanda se ampliou. Sem dúvida, era um sorriso de "vêem comigo", como dizia minha avó paterna.

-Trabalha aqui? -perguntou-me Jean-Claude.

-Sim.

-E vai em cadeira de rodas?

-Já vê.

-Vá. -Não disse nada mais. Acredito que estava impressionado; bom é saber que podia impressionar-se.

Wanda deteve a cadeira com destreza e estirou o pescoço para nós, sorridente. Não lhe doía estirar-se assim?

-Olá -disse.

-Olá -respondi. Seguiu sonriendo, e eu segui olhando. por que me sentia incômoda de repente?-. Falaram-me que ti. -Ela assentiu-. É Wanda a Tragamillas, não?

De repente, seu sorriso se voltou autêntica. detrás de todos seus gestos complacentes mas afetados havia uma pessoa de carne e osso.

-Exatamente.

-Podemos falar?

-Claro. Têm habitação?

Como que se tínhamos habitação? Não se supunha que disso se encarregava ela?

-Não -pinjente. ficou me olhando. A mierda-. Só queremos falar contigo durante uma hora, pode que dois. Pagaremo-lhe sua tarifa. -Informou-me de quanto cobrava-. Cone! Que preços.

-Oferta e demanda -disse-me com um sorriso inocente-. A ver onde mais encontra isto. -passou-se as mãos pelas pernas, e eu, obediente, segui-as com o olhar. Joder, que desgosto.

-De acordo -pinjente, assentindo-. Trato feito.

O carregarei ao Bert: papel para a impressora, canetas de ponta fina, uma prostituta, pastas... Vêem? Nada fora do corrente.

Ao Bert ia encantar.

Levamo-nos a Wanda a meu piso, mas não tenho elevador, e dois lances de escadas não são fáceis de subir em cadeira de rodas. Jean-Claude agarrou a Wanda em braços e subiu diante de mim, a passo normal. Eu os seguia com a cadeira, embora mais devagar.

Pelo menos podia olhar ao Jean-Claude enquanto subia. O que lhe vai fazer; por muito vampiro que seja, tem um culo que não está nada mal.

Esperava-me no patamar, com a Wanda acurrucada entre os braços. Os dois me olharam com uma espécie de deferência inexpressiva.

Deixei a cadeira dobrada no carpete, e Jean-Claude me seguiu. A gaze da saia da Wanda sussurrava com cada movimento.

Apoiei-me a cadeira de rodas na perna, abri a porta e a empurrei de tudo, para deixar sítio ao Jean-Claude. A cadeira se dobrava para dentro, como os cochecitos de bebê, e lutei para voltar a montá-la. Tal como suspeitava, era mais fácil de pregar que de desdobrar.

Levantei o olhar e me encontrei com que Jean-Claude seguia na soleira. Wanda o olhava com o cenho franzido.

-O que acontece? -perguntei.

-É a primeira vez que venho a sua casa.

-E?

-Pois vá perita em vampiros. Vamos, Anita!

Ah.

-Tem permissão para entrar.

-É uma honra -disse com uma inclinação de cabeça.

Por fim consegui montar a cadeira, e Jean-Claude deixou a Wanda nela. Enquanto fechava a porta, a mulher se alisou a roupa.

Jean-Claude ficou de pé em metade da sala, olhando a seu redor. aproximou-se do calendário de pingüins que tinha na parede da cozinha e passou as páginas dos meses seguintes até que teve visto todas as imagens de aves rechonchas.

Queria lhe dizer que parasse, mas era inofensivo; nunca aponto nada no calendário. Não sei por que me incomodava tanto interesse.

Voltei-me para a prostituta que tinha na sala. Que noite mais estranha.

-Quer tomar algo? -perguntei-lhe; em caso de dúvida, melhor ser educada.

-Um vinho tinjo, se houver -disse Wanda.

-Sinto muito, mas não tenho nada com álcool. Café, Coca-cola com açúcar de verdade ou água: isso é tudo.

-Então, uma Coca-cola.

Tirei uma lata da geladeira.

-Quer copo?

Wanda negou com a cabeça.

Jean-Claude estava apoiado na parede, me olhando enquanto me deslocava pela cozinha.

-Eu tampouco necessito copo -disse em voz baixa.

-Não te faça o gracioso.

-Muito tarde.

Não pude evitar sorrir.

Meu sorriso pareceu agradá-lo, coisa que me incomodou. Se me fazia custa acima o ter perto. aproximou-se do aquário como quem não quer a coisa; estava examinando meu piso. Que estranho. Mas pelo menos nos deixava um pouco de intimidade.

-Mierda, é um vampiro -disse Wanda. Parecia alarmada, e isso me surpreendeu. Eu me dava conta sempre; para mim, a morte saltava à vista, por macaco que fora o cadáver.

-Não te tinha dado conta? -perguntei.

-Pois não; não vou de buscamuertos -disse, tensa. Seguia ao Jean-Claude com o olhar, apreensiva. Tinha medo.

-O que é isso? -Passei-lhe a bebida.

-Uma puta que trabalha com vampiros.

Buscamuertos, olhe você.

-Não te vai tocar.

Voltou para mim os olhos marrons e me olhou fixamente, como se tentasse me ler a mente para ver se lhe dizia a verdade.

Que acojone, meter-se em uma habitação com uns desconhecidos sem saber o que podem fazer. Terá que estar desesperado ou ser autodestructivo.

-Então, vamos fazer o você e eu? -perguntou-me sem deixar de me olhar.

Demorei um momento em cair na conta.

-Não. -Sacudi a cabeça-. Não, hei-te dito que só queria falar, e o dizia a sério. -Acredito que me tinha posto tinta.

Igual foi o rubor o que a convenceu, mas abriu a lata e bebeu um gole.

-Quer que fale de como me faço isso com outros enquanto você lhe faz isso com ele? -Assinalou com um gesto ao vampiro errante.

Jean-Claude estava diante do único quadro que tinha na habitação. Era moderno e pegava com a decoração: cinza, branco, negro e rosa claro. Era uma dessas imagens abstratas nas que, quanto mais se olham, mais forma tiram o chapéu.

-Só vamos falar; isso é tudo. Ninguém vai fazer nada com ninguém, de acordo?

-Você paga. -encolheu-se de ombros-. Você decide o que fazemos.

Aquela última frase fez que me encolhesse o estômago. Falava a sério: eu pagava, e ela faria o que eu quisesse. Algo? Parecia-me espantoso que se dissesse a sério algo assim. Bom, algo menos atirar-se a um vampiro, que até as putas têm seus limites.

Wanda me olhava sorridente. A mudança tinha sido espetacular: estava radiante e até lhe brilhavam os olhos. Recordou-me a cara risonha e muda do Cicely.

Ao grão.

-Tenho entendido que faz tempo foi a amante do Harold Gaynor. -Vai. Havendo lubrificante, para que os preliminares?

O sorriso da Wanda se desvaneceu, e a apreensão substituiu ao bom humor.

-Não conheço ninguém que se chame assim.

-Já começamos. -Eu seguia de pé, de modo que para me olhar, ela deveria torcer o pescoço em um ângulo quase doloroso. Bebeu um gole e sacudiu a cabeça sem levantar a vista-. Vamos, Wanda, sei que foi a garota do Gaynor. Não negue que o conhece, e seguiremos a partir daí.

Olhou-me brevemente e voltou a baixar a cabeça.

-Se quiser, faço-me isso contigo enquanto nos olhe o vampiro. Também posso lhes dizer guarradas aos dois. Mas o nome do Gaynor não me soa de nada.

Inclinei-me e apoiei as mãos nos braços da cadeira. Olhei-a desde muito perto.

-Não sou jornalista, e Gaynor não se inteirará nunca de que falaste comigo, a não ser que o você diga.

Seus olhos se aumentaram. Segui-os e vi que me tinha aberto o capa de chuva, deixando a pistola à vista. Estava-a pondo nervosa. Mierda.

-Fala comigo, Wanda -pinjente com suavidade, embora aquele tom se podia interpretar como uma ameaça.

-De onde saístes? Não são policiais nem jornalistas, e os assistentes sociais não vão armados. Quais são? -A última pergunta tinha um tintura de medo.

Jean-Claude saiu de meu dormitório. que faltava.

-Tem problemas, MA petite?

Não protestei pelo apelativo; era melhor que Wanda não soubesse que havia desavenças em nossas filas.

-pôs-se cabezota -pinjente.

Separei-me da cadeira, tirei-me o capa de chuva e o deixei na barra que dava à cozinha. Wanda ficou olhando a pistola, como me esperava.

Pode que eu não dê medo, mas a Browning é outro cantar.

Jean-Claude se colocou detrás dela e lhe pôs as mãos nos ombros. Wanda deu um coice como se se queimou, mas eu sabia que não lhe tinha feito mal. Embora igual teria sido melhor que o fizesse.

-Matará-me -disse Wanda.

Ultimamente havia muita gente que dizia isso do Gaynor.

-Não se inteirará nunca -assegurei-lhe.

Jean-Claude lhe acariciou o cabelo com a bochecha, sem deixar de massagear os ombros com delicadeza.

-E, minha querida coquette, esta noite não está aqui -disse-lhe ao ouvido- Estamos nós. -Acrescentou algo mais, em voz tão baixa que não o ouvi; só vi que movia os lábios.

Wanda sim que o ouviu; abriu os olhos desmesuradamente e ficou a tremer. Parecia que lhe estavam dando convulsões. As lágrimas apareceram nos olhos e lhe caíram pelas bochechas riscando uma curva elegante.

Vá mierda.

-Não, por favor. Não o permita -rogou-me aterrorizada, com um fio de voz.

Naquele momento odiei ao Jean-Claude, e me odiei . supõe-se que eu era dos bons, ou isso eu gostava de acreditar, e não estava disposta a renunciar a isso embora servisse a meus interesses. Se Wanda não queria falar, que não falasse, mas não queria atormentá-la.

-Aparta, Jean-Claude -pinjente.

-Noto o sabor de seu pânico -respondeu levantando a vista para mim-. É como um vinho especiado. -Tinha os olhos de um azul tão escuro que não lhe distinguiam as pupilas; parecia cego. E seguia sendo muito bonito enquanto abria a boca e tirava as presas.

Wanda seguia chorando e me olhando fixamente. Se tivesse visto o Jean-Claude, teria posto-se a gritar.

-Eu acreditava que te controlava melhor, Jean-Claude.

-Controlo-me perfeitamente... até que dito que já basta.

separou-se dela e ficou a percorrer a sala, ao outro lado do sofá, como um leopardo que passeia por sua jaula: violência contida que se podia liberar em qualquer momento. Não lhe via a cara, e não sabia se o fazia para acojonar a Wanda ou porque lhe saía assim.

Sacudi a cabeça. Não era momento de perguntar; possivelmente mais tarde. Possivelmente.

Ajoelhei-me diante da Wanda, que apertava a lata de refresco com tanta força que a estava dobrando. Nem a rocei; só me aproximei muito.

-Não vou permitir que te faça mal, de verdade. Harold Gaynor me está ameaçando, e por isso necessito a informação. -Olhava-me, mas estava concentrada no vampiro que tinha detrás. Lhe notava na tensão dos ombros: enquanto Jean-Claude seguisse na habitação, era impossível que Wanda se relaxasse. Garota lista-. Jean-Claude, Jean-Claude... -voltou-se para mim com toda naturalidade, e um sorriso lhe adornou os lábios. Era postiça; maldito seja. Será que quando alguém se converte em vampiro desperta a veia sádica?-. Vete um momento ao dormitório; quero falar a sós com a Wanda.

-A seu dormitório? Será um prazer, MA petite.

Dediquei-lhe um gesto de recriminação, mas não se alterou. Que surpresa. Em qualquer caso, foi da sala.

Wanda relaxou os músculos e deixou escapar um suspiro tremente.

-Promete-me que não lhe deixará me fazer nada?

-Certamente.

pôs-se a chorar, e fiquei olhando as lágrimas sem saber o que fazer. Nunca sei reagir quando alguém chora. supõe-se que tenho que abraçá-lo, lhe dar uns tapinhas, ou o que?

Optei por me sentar no chão, diante dela, e ficar esperando. Demorou um momento, mas ao final deixou de chorar e me olhou piscando. Lhe tinha deslocado a pintura dos olhos e tinha um aspecto necessitado que a fazia ainda mais atrativa. Senti o impulso de agarrá-la entre os braços, embalá-la como se fora uma menina e lhe sussurrar mentiras ao ouvido, lhe dizer que tudo ia sair bem.

Quando se fora de minha casa seguiria sendo puta e inválida; se isso for que as coisas saiam bem... Sacudi a cabeça, mais por mim que por ela.

-Trago-te um lenço de papel?

Ela assentiu.

Aproximei-me da encimera a agarrar a caixa de lenços de papel e a tendi. limpou-se a cara e se soou com suavidade, como toda uma dama.

-Podemos falar agora?

Assentiu, ainda piscando com freqüência, e bebeu um gole.

-Conhece o Harold Gaynor, verdade?

limitou-se a me olhar fixamente. Esperava que não se desmoronasse.

-Se o averiguar, matará-me. Não vou de buscamuertos, mas tampouco quero morrer.

-Ninguém quer. Fala comigo, por favor.

-De acordo: conheço o Harold -disse com um suspiro tremente.

-me fale dele.

Wanda ficou me olhando e entrecerró os olhos. Aos lados lhe formaram umas linhas que indicavam que era major do que me tinha parecido.

-Já mandou ao Bruno ou ao Tommy?

-Sim, Tommy veio recentemente.

-E o que passou?

-Que lhe tirei uma pistola.

-Essa? -perguntou com um fio de voz.

-Sim.

-O que fez para o encher o saco?

Tentei decidir se lhe dizia a verdade ou uma mentira. Nem o um nem o outro.

-Neguei-me a fazer uma coisa que me pedia.

-O que?

-Isso não importa. -Sacudi a cabeça.

-Não seria nada sexual; não está aleijada. -Pôs muita ênfase na última palavra-. Só gosta das deficientes. -Senti fisicamente a acritud de sua voz.

-Como o conheceu?

-Eu estava estudando na Universidade de Washington, e Gaynor fez uma doação por não sei o que.

-E te convidou a sair?

-Sim. -Falava em voz tão baixa que tive que me inclinar para ouvi-la.

-E o que passou?

-Os dois íamos em cadeira de rodas. Ele era rico, e tudo funcionava de maravilha. -Apertou os lábios como se se estivesse arrumando o carmim e tragou saliva.

-Quando começaram a torcê-las coisas? -perguntei.

-Me fui viver com ele e deixei a faculdade. Era... mais fácil que seguir estudando. Era o mais fácil de tudo. Não se cansava de estar comigo. -Voltou a baixar a vista-. Até que começou a gostar de um pouco mais de variedade na cama. Não pode mover as pernas, mas não perdeu a sensação. Eu não tenho. -Sua voz era apenas audível, e tive que me apoiar em seus joelhos-. Gostava de me fazer coisas nas pernas, embora eu não as notava, assim ao princípio não me parecia mau, mas... voltou-se cada vez mais doentio. -De repente levantou a cabeça e me olhou desde muito perto. Tinha os olhos muito abertos, transbordantes de lágrimas contidas-. Me fazia corte. Não me doía, mas isso é o de menos, verdade?

-Verdade -confirmei. Uma lágrima lhe escorregou pela bochecha, e lhe agarrei a mão. Ela me apertou os dedos-. Não passa nada, não passa nada. -pôs-se a chorar, e eu menti sem lhe soltar a mão-. Já passou, Wanda, já não pode te fazer danifico.

-Todo mundo me faz mal. Você foste fazer me danifico -replicou com uma acusação no olhar.

Era um pouco tarde para lhe explicar o do poli bom e o poli mau; de todas formas, não me teria acreditado.

-me fale do Gaynor.

-Trocou-me por uma surdo-muda.

-Cicely.

-Conhece-a? -Olhou-me surpreendida.

-De vista.

-Essa garota está como uma cabra -disse Wanda, sacudindo a cabeça-. Gosta de torturar; põe-a brincalhona. -ficou me olhando como se queria avaliar minha reação. Sentia saudades? Não.

-Harold se deitava com as duas de uma vez de tanto em tanto. A coisa sempre acabava em trio, e eu era quem saía pior parada. -Baixou a voz até convertê-la em um sussurro-. Ao Cicely gosta das facas. Lhe dá muito bem esfolar. -Voltou a fazer o gesto de quem se arruma o pintalabios-. Gaynor me mataria por te contar seus segredos de quarto.

-E conhece seus segredos de negócios?

-Não, asseguro-lhe isso. -Negou com a cabeça-. Sempre teve muito cuidado de me manter à margem. Ao princípio acreditava que era para evitar que me detiveram se o pilhavam a ele. -Baixou a vista-. Mais adiante me dava conta de que era porque, como pensava me trocar por outra, não queria que soubesse nada que pudesse usar contra ele quando me desse a patada.

Já não havia amargura nem cólera em sua voz; só uma tristeza oca. Teria preferido vê-la alterada e furiosa; o desespero muda transmitia uma dor incurável. Gaynor fazia algo pior que matá-la: tinha-a deixado com vida, mas tão paralisada por dentro como por fora.

-Tudo o que te posso contar é pessoal. Não te servirá de nada contra ele.

-Mas não todas essas coisas pessoais serão sexuais.

-Não te sigo.

-Segredos pessoais que não estejam relacionados com o sexo. Foi sua garota durante quase dois anos; suponho que falaria contigo de mais costure.

-Suponho... -Franziu o cenho, pensativa-. Às vezes falava de sua família.

-O que dizia?

-É filho de mãe solteira, e está obcecado com a família de seu pai biológico.

-Sabe que família era?

-Sim. Gente de linhagem. Sua mãe era uma puta a que seu pai tinha retirado. Tinha-a de amante, mas a abandonou quando ficou grávida.

Tinham-na tratado como Gaynor tratava a suas garotas. Freud se as engenha sempre para fazer ato de presença.

-Que família?

-Não me disse isso nunca. Provavelmente tinha medo de que me desse de chantageá-los ou fora a lhes revelar seus trapos sujos. Deseja desesperadamente fazer que se arrependam de não havê-lo acolhido na família. Acredito que se ganhou tanto dinheiro foi só para ser tão rico como eles.

-Se não te disse quem eram, como pode saber que o que dizia era verdade?

-Não faria essa pergunta se o tivesse ouvido. Fala deles com uma veemência... Odeia-os, e está empenhado em que seu dinheiro lhe corresponde por direito de nascimento.

-E como pensa consegui-lo? -perguntei.

-Pouco antes de que me fora, Harold tinha averiguado onde estavam enterrados uns antepassados deles, e falava de um tesouro. Um tesouro enterrado, lhe pode acreditar isso?

-Nas tumbas?

-Não. O dinheiro dessa família procede da pirataria. Seus antepassados se dedicavam a percorrer o Misisipi e abordar outros navios. Isso enchia de orgulho ao Gaynor, e de uma vez o tirava de gonzo. Tirava-o de gonzo que, já que todos eles descendem de putas e ladrões, desse-lhes de fazeros estirados precisamente com ele. -Olhava-me fixamente quando pronunciou as últimas palavras. Pode que se desse conta de que me começava a ocorrer uma idéia.

-Como esperava conseguir o tesouro a partir das tumbas?

-Disse que procuraria algum sacerdote vodun que levantasse seus ancestros, para averiguar onde se encontra o tesouro que leva séculos perdido.

-Ah -pinjente.

-Serviu-te que algo?

Assenti. Já entendia minha participação nos planos do Gaynor. O que seguia sem entender era por que me tinha eleito , por que não tinha recorrido a alguém de reputada má fama, como Dominga Salvador. Não faltava gente disposta a aceitar dinheiro para sacrificar uma cabra branca sem perder o sonho. por que queria lhe encarregar o trabalho a uma reanimadora notoriamente moralista?

-Mencionou o nome de algum sacerdote?

-Nada de nomes. -Negou com a cabeça-. Sempre é muito precavido com isso. E pela cara que põe, parece que te acabo de dizer algo útil...

-Acredito que é melhor que não saiba nada disto.

ficou me olhando durante comprido momento, e ao final assentiu.

-Suponho.

-Há algum sítio...? -Não terminei a frase. ia oferecer lhe um bilhete de avião ou ônibus aonde fora. A qualquer lugar onde não tivesse que vender-se, onde pudesse repor-se.

Pode que o captasse em minha expressão ou em meu silêncio. Rio de boa vontade. Não se supõe que as putas deveriam ter uma risada triste?

-Ao final vai resultar que tem vocação de assistente social. Pretende me salvar, verdade?

-Seria terrivelmente ingênua se te oferecesse um bilhete a casa ou algo assim?

-Terrivelmente. -Assentiu-. E por que quer me ajudar? Não é um homem nem você gosta das mulheres. por que foste oferecer te a me mandar a casa?

-Porque sou estúpida -pinjente me pondo de pé.

-Não me parece nenhuma estupidez. -Agarrou-me a mão e me apertou isso-. Mas não serviria de nada. Sou puta. Pelo menos, aqui conheço a cidade e às pessoas, e tenho clientes fixos. -Soltou-me a mão e se encolheu de ombros-. Não vai mau.

-Com um pouco de ajuda de seus amigos.

Sorriu, embora com um pouco de amargura.

-As putas não têm amigos.

-Não tem por que te dedicar a isto. Gaynor te converteu em puta, mas não é obrigatório que siga sendo-o.

Pela terceira vez na noite lhe umedeceram os olhos. Joder, aquela garota não tinha estômago para agüentar a rua. Ninguém o tem.

-me chame um táxi, vale? Não quero seguir falando.

O que podia fazer? Chamei uma agência de táxis e pedi um no que se pudesse subir em cadeira de rodas, tal como me disse Wanda. Permitiu que Jean-Claude a baixasse porque eu não podia com ela, mas estava muito rígida em seus braços. Deixamo-la na calçada, sentada na cadeira.

Esperei até que chegou o táxi e a levou. Jean-Claude ficou a meu lado, no círculo de luz dourada de diante de meu edifício. A luz cálida parecia lhe esclarecer a pele.

-Agora tenho que te deixar, MA petite. foi muito educativo, mas me acaba o tempo.

-Tem que comer, verdade?

-Me nota?

-um pouco.

-Deveria te chamar MA vérité, Anita. Sempre me diz a verdade.

-Isso é o que significa vérité? Verdade? -perguntei.

Assentiu.

Encontrava-me mau. Picajosa, mal-humorada, inquieta... Estava furiosa com o Harold Gaynor por ter convertido a Wanda em sua vítima; com a Wanda, por havê-lo permitido, e comigo, por não ser capaz de fazer nada. Estava de unhas com o mundo em geral. Para cúmulo de maus, já sabia o que queria Gaynor de mim, e isso não me fazia sentir melhor.

-Sempre existirão as vítimas, Anita. Não pode evitar que existam os depredadores e as presas.

-Não havíamos ficado de que já não pode me ler o pensamento?

-Mas sim a cara, e além te conheço.

Não me fazia graça que Jean-Claude soubesse tanto de mim, que estivesse tão familiarizado com minhas expressões.

-te largue, quer?

-Como deseja, MA petite.

E com as mesmas, partiu. Uma rajada de vento, e já não estava.

-Numerero -murmurei. Fiquei de pé na calçada e notei o sabor incipiente das lágrimas na garganta. por que queria chorar por uma puta a que acabava de conhecer? Ou era pela injustiça do mundo em geral?

Jean-Claude tinha razão: sempre haveria depredadores e presas. E eu me tinha esforçado muito para pertencer ao primeiro grupo. Era a Ejecutora. Então, por que me identificava sempre com as vítimas? E por que o desespero do olhar da Wanda me avivava o ódio para o Gaynor mais que nada me tivesse feito ?

Isso. por que?

Soou o telefone. Só movi os olhos, o justo para olhar o relógio: as sete menos quarto da manhã. Mierda. Segui tombada, e estava a ponto de voltar a dormir quando saltou a secretária eletrônica.

-Sou Dolph. encontramos outro. me chame à busca.

Procurei o telefone a provas e atirei o auricular. Recolhi-o.

-Olá, Dolph, estou aqui.

-Uma noite movida?

-Sim. O que acontece?

-Nosso amigo lhes agarrou o gosto às moradias unifamiliares. -Tinha a voz rouca pela falta de sonho.

-Virgem Santa. Não me diga que se carregou a outra família.

-Isso me temo. Pode sair?

Era uma pergunta estúpida, mas não o comentei. Me tinha cansado a alma aos pés. Não queria voltar a passar pelo da casa dos Reynolds; não acreditava que minha imaginação pudesse com isso.

-me dê a direção e vou para lá. -Deu-me isso-. Saint Peters? Não está muito longe do Saint Charles, mas mesmo assim...

-Mesmo assim, o que?

-É um trecho muito comprido se só o percorreu em busca de outra casa com jardim. Há montões muito mais perto, assim por que foi tão longe?

-Pergunta-me isso ? -Em sua voz havia um pouco parecido à risada-. Te passe pela cena do crime, minha querida perita em vodu, e busca a resposta.

-É tão horripilante como a última casa?

-Igual ou pior. Horripilante fica curto. -Seguia soando como se estivesse renda-se, mas sua voz tinha um matiz de amargura.

-Não é tua culpa -disse-lhe.

-Diga-lhe a meus superiores. Estão dos nervos e querem que rodem cabeças.

-conseguiste a ordem de registro?

-Terei-a a última hora da tarde.

-Em pleno fim de semana?

-Já te hei dito que estão dos nervos. Vêem quanto antes, Anita. Todos queremos ir a casa.

Pendurou o telefone, assim não me incomodei em me despedir.

Outro assassinato. Mierda, mierda, mierda e mais mierda. Vá forma de passar a manhã do sábado. Mas enfim, pelo menos foram dar a ordem de registro. O problema era que não sabia o que procurar; não tinha nada de perita em vodu. Igual deveria lhe pedir ao Manny que me acompanhasse, mas não gostava de ficar o a atiro a Dominga, não fora que lhe desse de negociar com a polícia e delatá-lo. O sacrifício humano não prescreve; ainda podiam condená-lo pelo que tinha feito, e aquela mulher era mais que capaz de trocar a meu amigo por sua vida e, indiretamente, me fazer sentir culpado. Sim, isso adoraria.

A luz da secretária eletrônica estava piscando. por que não me tinha fixado antes de ir a dormir? Encolhi-me de ombros; mistérios da vida. Pulsei o botão.

-Anita Blake? Sou John Burke. recebi sua mensagem. me chame, seja a hora que seja. Quero saber tudo o que possa me contar. -Deixou um número de telefone e pendurou.

Estupendo: uma cena de crime, uma excursão ao depósito de cadáveres e uma visita a Vudulandia, tudo em um só dia. Vai, outra vez com a agenda cheia de marrons, como a noite anterior e a anterior. Isso sim que era estar de rajada.

diante da casa havia um poli de uniforme jogando as batatas em um cubo de lixo elefantiásico. Mau sinal. Na calçada de em frente havia uma caminhonete de algum informativo. Pior sinal. Não sabia como as tinha hábil Dolph para manter apartados aos jornalistas até então. Os acontecimentos pediam a gritos titulares do estilo de "Os zombis massacram uma família" ou "Um zombi assassino em série anda solto". Virgem Santa, a que ia se montar.

os da televisão, com seu apresentador trajeado e com microfone, observaram-me enquanto caminhava para o cordão policial amarelo. Quando me pus a identificação no pescoço da camisa, todos os membros da equipe se aproximaram do uníssono. O policial que controlava o cordão os conteve, e avancei sem olhar atrás. Nunca terá que olhar atrás quando se tem aos jornalistas respirando no cangote, porque aproveitam para equilibrar-se.

-Senhorita Blake, por favor, umas declarações? -gritou o loiro do traje.

Não deixa de me fazer graça que me reconheçam, mas me fiz a sueca e segui andando com a cabeça encurvada.

Não há nada que se pareça mais a uma cena de crime que outra cena de crime, embora cada uma tem suas peculiaridades pesadillescas. A casa era bonita, de uma só planta. Eu estava em um dormitório, e um ventilador de teto girava lentamente com um ligeiro chiado, como se estivesse mal atarraxado por um lado.

Mais vale concentrar-se em alguma nimiedad, como a forma em que a luz atravessava as persianas, pintando as paredes a raias. Melhor não olhar o que havia na cama. Não queria olhá-lo; não queria vê-lo.

Mas não havia mais remédio. Tinha que examiná-lo, porque igual encontrava alguma pista. Já, e os porcos voam. Mesmo assim, a esperança é o último que se perde. Miúda zorra insidiosa, a esperança.

Um corpo humano contém algo mais de sete litros de sangue; por muita que se veja nos filmes, nunca é suficiente. Provem a derramar sete litros de leite no chão do dormitório, olhem a que se monta e multipliquem isso por... Não sei por quanto, mas havia muita sangue para ser de uma só pessoa. O tapete estava encharcado e até salpicava ao pisá-la, como o barro depois da chuva. antes de chegar à cama tinha tintas de vermelho as esportivas brancas.

Lição aprendida: para estas questões é melhor levar calçado negro.

O aroma se podia mastigar; menos mal que estava o ventilador. Era uma mescla de matadouro e letrina: sangue e mierda. É o aroma mais habitual de uma morte recente.

Os lençóis não cobriam só a cama, mas também grande parte do chão, a seu redor. Era como se tivessem atirado guardanapos de papel gigantes para recolher o maior atoleiro de suco de tomate do mundo. Estava segura de que debaixo havia montões de cachitos de cadáver; os vultos eram muito pequenos para que houvesse um corpo inteiro. Não havia nenhum suficientemente grande.

-Não me faça olhar, por favor -sussurrei na habitação vazia.

-Como?

Dava um salto e me encontrei com que tinha ao Dolph detrás.

-Deste-me um susto de morte.

-Para sustos, espera a ver o que há debaixo dos lençóis.

Não queria ver o que ocultavam tudo aqueles lençóis empapados de sangue. Já havia visto suficiente para toda a semana; duas noites atrás tinha ultrapassado minha taxa de casquería, e com acréscimo.

Dolph esperava na soleira. Não me tinha fixado até aquele momento em que tinha patas de galo. Além disso estava pálido e precisava barbear-se.

Todos necessitávamos algo. Mas antes tinha que olhar debaixo dos lençóis. Se ele tinha sido capaz, eu também. Sim, claro.

-Que venha alguém a nos ajudar a levantar os trapos -gritou Dolph, aparecendo ao corredor-. Quando Blake tenha examinado os restos poderão ir a casa. -Acredito que acrescentou isso porque ninguém se aproximou de ajudar; que estranho que não gostasse-. Zerbrowski, Perry, Merlioni, movam o culo.

-Olá, Blake -disse Zerbrowski ao entrar. Tinha umas olheiras que pareciam cardeais.

-Olá. Parece um asco.

-E você está fresca como uma rosa -respondeu exibindo um amplo sorriso.

-Certamente.

- Senhorita Blake! É um prazer voltar a verte -disse Perry.

Não pude evitar sorrir. Era o único polícia capaz de manter as formas até com restos sanguinolentos ao redor.

-O mesmo digo, inspetor Perry.

-Podemos seguir com isto, ou pensam lhes fugir juntos? -disse Merlioni. Era alto, embora não tanto como Dolph; claro que não existe ninguém tão alto como Dolph. Tinha o cabelo curto grisalho e encaracolado, com redemoinhos em cima das orelhas. Levava uma camisa branca de vestir arregaçada, e a gravata afrouxada. A pistola lhe formava um vulto a um lado da calça, como se levasse uma carteira repleta.

-Já que tem tanta pressa -disse-lhe Dolph-, levanta você o primeiro lençol.

-Vale. -Merlioni suspirou, aproximou-se de um lençol e se agachou-. Está preparada, niñata?

-Mais vale ser uma niñata que ser um espaguete -pinjente. Sorriu-. Venha, adiante.

-Começa o espetáculo. -Merlioni começou a levantar o lençol lentamente, para separar a do que ocultasse.

-lhe dê uma mão, Zerbrowski -disse Dolph.

Zerbrowski não protestou; devia estar cansado. Os dois homens levantaram o lençol de uma vez, com um movimento pringoso. A luz da manhã atravessou o lençol vermelho e avivou o tom do tapete, ou pode que a mostrasse tal como estava. Enquanto os homens sujeitavam o tecido, das esquinas caíam goterones, como se fossem grifos danificados. Era a primeira vez que via um lençol empapado de sangue. Quantas coisas novas em um só dia.

Esquadrinhei o tapete, tentando distinguir algo, mas só via um montículo de vultos pequenos. Ajoelhei-me, e o sangue me empapou os jeans. Estava fria. Suponho que teria sido pior que estivesse quente.

A parte maior, de superfície úmida e Lisa, mediria pouco mais de dez centímetros. Era rosa e tinha um aspecto são; um fragmento de intestino magro. Justo ao lado havia um pedaço mais pequeno. Examinei-o, mas quanto mais o olhava, menos capaz me sentia de identificá-lo. Poderia ter sido uma parte de carne de qualquer animal. Que coño, o intestino tampouco tinha por que ser humano. Mas o era; do contrário eu não estaria ali.

Dava-lhe um golpecito ao fragmento pequeno com o dedo enluvado Aquela vez me tinha acordado de levar luvas de látex; bem por mim. Era algo úmido, denso e sólido. Traguei saliva, mas isso não me ajudou a averiguar o que havia meio doido. As duas partes pareciam bocados cuspidos, as migalhas que tinham ficado na mesa. Virgem Santa.

-Seguinte -pinjente me pondo em pé. Tinha falado com voz normal e firme. Que maior.

Fizeram falta quatro homens para levantar o lençol que cobria a cama, um por cada esquina. Merlioni amaldiçoou e deixou cair a sua. O sangue lhe tinha gotejado pelo braço e lhe tinha chegado à camisa.

-Pobrecito, manchou-se -disse Zerbrowski.

-Pois sim, joder. Isto é um asco.

-Temo-me que a senhora da casa não teve tempo de limpar antes de sua visita, Merlioni -pinjente. Vi os restos da susodicha na cama, assim levantei o olhar para o Merlioni-. Ou é que o espaguete não pode com a boloñesa?

-Posso com tudo o que seja capaz de preparar com isto.

-Não acredito. -Franzi o cenho e sacudi a cabeça.

-Lhes ides pôr a apostar? -disse Zerbrowski.

Dolph não nos deteve, nem nos recordou que isso era a cena de um crime, não um pátio de colégio. Sabia que tínhamos que brincar para conservar a prudência. Não podia olhar aquilo sem me pôr irônica; voltaria-me louca. Os policiais têm um senso de humor bastante retorcido, mas não há mais remédio.

-Quanto? -perguntou Merlioni.

-Um jantar para dois no Tony's -propus.

Zerbrowski assobiou.

-Vai, que besta.

-me posso permitir isso pinjente-. Trato feito?

-Minha mulher e eu levamos séculos sem ir -disse Merlioni, me tendendo a mão ensangüentada. A estreitei. O sangue-frio ficou pega na luva e notei a umidade como se a tivesse na pele, embora era mentira. Os sentidos me enganavam: sabia que quando me tirasse as luvas teria as mãos secas, mas mesmo assim era arrepiante.

-Como e quando? -perguntou Merlioni.

-Aqui e agora.

-Feito.

Voltei a me centrar no açougue com ânimos renovados. Queria ganhar a aposta; não pensava dar a satisfação ao Merlioni. Assim podia me concentrar em algo distinto do que havia na cã.

Era a metade esquerda de uma caixa torácica, ainda com o peito em seu sítio. A senhora da casa? Tudo era de um vermelho escarlate intenso, como se o tivessem orvalhado com pintura brilhante, e custava distinguir os fragmentos. Também havia um braço esquerdo magro, de mulher.

Movi-lhe os dedos sem dificuldade. No anular levava uma aliança.

-Não tem rigor mortis. O que opina, Merlioni?

aproximou-se de olhar a mão. Não pensava ser menos, assim que ficou a toquetearla e lhe deu a volta pela boneca.

-Pode que lhe tenha passado. Já sabe que o rigor mortis não dura muito.

-Crie que transcorreram quase dois dias? -Neguei com a cabeça-. O sangue está muito fresca. Ainda não chegou o rigor mortis; morreu faz menos de oito horas.

-Não está mau, Blake -disse assentindo-. Mas o que me diz disto? -Cravou o dedo na caixa torácica com suficiente força para fazer tremer o peito.

Traguei saliva. Estava disposta a ganhar a aposta.

-Não sei. vamos ver; me ajude a lhe dar a volta. -Olhei-o à cara enquanto falava. Empalideceu um pouco? Pode.

-Vale.

Os outros três estavam a um lado, contemplando o espetáculo. Melhor para eles; era muito mais entretido que pensar naquilo como em um trabalho.

Demo-lhe a volta à caixa torácica. Procurei lhe deixar as partes com carne, confiando em que o tato da malha mamária fora distinta quando está fria e ensangüentada. Ao Merlioni trocou a cor; suponho que sim que é distinto.

O interior estava limpo e resplandecente, igual a no caso Reynolds. Deixamos cair o costillar à cama, e nos salpicou, embora a ele mais que a mim. Bem.

esfregou-se as salpicaduras, com cara de asco, mas só conseguiu manchar-se mais com o sangue das luvas. Fechou os olhos e respirou profundamente.

-Como está, Merlioni? -perguntei-. Se ficar nervoso, não faz falta que siga.

Olhou-me e me dedicou o sorriso menos amável do mundo.

-Você não o viu tudo, niñata. Eu sim.

-E também o há meio doido tudo?

-Não é necessário tocá-lo tudo. -Uma gota de suor lhe escorregava pela cara.

-Já veremos -pinjente me encolhendo de ombros. Na cama havia uma perna, e a julgar pelo pêlo e a sapatilha esportiva, era de homem. A cabeça do fêmur, arredondada, era de um branco resplandecente: o zombi tinha arrancado a perna, rasgando a carne sem romper os ossos-. Isso teve que doer um ovo -comentei.

-Crie que estava vivo?

-Sim. -Não estava segura; havia muita sangue para saber quem tinha morrido quando, mas Merlioni empalideceu um pouco mais.

O resto eram vísceras ensangüentadas, partes de carne e lascas de osso. Merlioni levantou um punhado e fingiu que me ia atirar isso.

-Agarra-o, Blake.

-Cone, isso não teve graça. -Tinha um nó na garganta.

-Mas puseste uma cara bastante graciosa.

-vais lançar o ou não? -Olhei-o fixamente-. Eu não gosto dos faróis.

ficou me olhando uns instantes; depois assentiu e jogou o punhado de vísceras em minha direção. Não riscaram um arco muito limpo, mas consegui as recolher. Tinham um tato úmido, pesado, flácido, pringoso e, em definitiva, repugnante. Como o fígado de cordeiro, mas ao besta.

Dolph soltou um grunhido de exasperação.

-Enquanto lhes dedicam a fazer asquerosidades, algum dos dois poderia me dizer algo útil?

Deixei as vísceras na cama.

-Certamente. O zombi entrou pela porta trilho, igual à última vez. Perseguiu o homem ou à mulher até aqui, os carregou aos dois... -Deixei de falar e fiquei paralisada.

Merlioni tinha na mão uma manta de bebê. Por algum motivo misterioso, uma esquina tinha ficado poda. O bordo estava forrado de raso rosa, e o desenho era de globos e palhaços. Do outro extremo gotejava sangue.

Fiquei olhando os globos diminutos e os palhaços que dançavam em círculos inúteis.

-Filho de puta -resmunguei.

-Diz-me ?

Sacudi a cabeça. Não queria tocar a manta. Mas alarguei a mão, e Merlioni as arrumou para que a parte ensangüentada me roçasse o braço nu.

-Espaguete filho de puta -disse entre dentes.

-Diz-me , zorra?

Assenti e tentei sorrir, mas não me saiu muito bem. Tínhamos que seguir fingindo que não passava nada, que podíamos com isso. Era uma obscenidade. Se não fora pela aposta, teria saído dali dando alaridos.

-Que idade tinha? -perguntei olhando a manta.

-Aí diante tem uma foto da família. Eu diria que três ou quatro meses.

Cheguei por fim ao outro lado da cama. Havia outro vulto coberto com um lençol, tão ensangüentado e pequeno como outros. Debaixo não podia haver nada inteiro.

"Esqueçamos a aposta; se não me obrigarem a olhar, convido-lhes a todos para jantar ao Tony'S. Mas não me façam levantar esse lençol, por favor."

Mas tinha que olhar, com aposta ou sem ela. Tinha que ver o que fora, assim para o caso, podia seguir tentando ganhar.

Devolvi- a manta ao Merlioni, que a agarrou e a deixou na cama com cuidado de não manchar a esquina limpa.

Ajoelhei-me junto ao lençol, e ele se ajoelhou ao outro lado. Olhamos aos olhos, nos desafiando a chegar até o final. Levantamos o lençol.

Só tampava duas coisas. Só dois. Me encolheu tanto o estômago que tive uma arcada. Tossi e estive a ponto de jogar a pota, mas a contive. Isso sim que foi uma façanha.

Supunha que o vulto sanguinolento seria o bebê, mas me equivocava. Era uma boneca, tão empapada que não sabia de que cor tinha o cabelo, mas era só uma boneca. Muita boneca para um bebê de quatro meses.

Também havia uma mão pequena, tão coberta de sangue como todo o resto. Era de uma menina, não de um bebê. Pus a mão em cima para comparar o tamanho. Três anos, pode que quatro. Aproximadamente da mesma idade que Benjamim Reynolds. Seria casualidade? Sim, provavelmente. Os zombis não eram tão seletivos.

-A mulher está dando de mamar ao bebê, por exemplo, quando ouvem um ruído. O marido se levanta ver o que acontece. O ruído despertou à menina, que sai de sua habitação. O marido vê o monstro, agarra à menina e vem correndo ao dormitório. O zombi os apanha a todos aqui e os carrega. -Falava em tom distante e tranqüilo. Joder.

Tentei limpar o sangue da mão. Levava um anel, como sua mãe, mas desses que saem das máquinas de chicletes.

-Viu o anel? -perguntei. Levantei a mão, fiz gesto de lançá-la e pinjente-: Agarra-a, Merlioni.

-Por Deus! -levantou-se e saiu disparado antes de que eu pudesse fazer nada, e chegou à porta a toda hóstia. Eu não pensava lhe lançar a mão, de verdade.

Pu-me a examiná-la, com a sensação de que ia agarrar me e me pedir que a levasse a dar um passeio. Deixei-a cair no carpete e salpicou, para variar.

Fazia um mormaço, e a habitação dava voltas lentamente. Pisquei e olhei ao Zerbrowski.

-ganhei a aposta?

-Anita Blake, a garota mais dura -disse assentindo-. Ganhaste-te uma velada de primeira no Tony's, a costa do Merlioni. Tenho entendido que preparam uns espaguetes de morte.

A menção da comida já foi muito.

-Onde está o quarto de banho?

-Pelo corredor, a terceira porta da esquerda -disse Dolph.

Corri ao serviço. Merlioni estava saindo, mas não tive tempo de saborear a vitória: as arcadas exigiam toda minha atenção.

Ajoelhei-me no chão e apoiei a frente no bordo frio da banheira. Já me encontrava melhor; menos mal que não tinha tido tempo para tomar o café da manhã.

Bateram na porta.

-O que? -perguntei.

-Sou Dolph. Posso entrar?

-Sim -disse depois de me pensar isso um pouco.

Entrou com uma manopla de banho na mão. Suponho que a tinha tirado do armário das toalhas. ficou me olhando um momento, sacudindo a cabeça; depois empapou a manopla no lavabo e me tendeu isso.

-Já sabe o que fazer com isto.

Obedeci. A água fria na cara e o pescoço era justo o que necessitava.

-Também deste uma ao Merlioni?

-Sim, está na cozinha. São um par de gilipollas, mas teve sua graça. -Acertei a sorrir fracamente. Dolph se sentou na tampa do váter-. Agora que deixaste que vacilar, observaste algo que nos possa servir?

-Há alguma testemunha esta vez? -perguntei sem me levantar.

-O vizinho ouviu ruídos ao amanhecer, mas não fez nada e foi se trabalhar. Conforme declarou, não queria envolver-se em uma disputa doméstica.

-Era a primeira vez que lhe chegava ruído de briga desta casa? -Levantei a cabeça. Dolph assentiu-. Joder, se tivesse chamado à polícia...

-Crie que teria trocado algo?

Meditei-o um momento.

-Pode que não para esta família, mas igual teríamos apanhado ao zombi.

-Já é tarde para lamentar-se.

-Pode que não. Isto é recente. O zombi se carregou a quatro pessoas e se tomou seu tempo para comer-lhe Não acredito que se desse muita pressa. Se ao amanhecer estava matando-os...

-Aonde quer chegar?

-Passa os laços a zona.

-Por?

-O zombi tem que estar perto. escondeu-se em algum sitio ao que se possa chegar andando, e estará esperando a que caia a noite.

-Não era que os zombis agüentam a luz do sol?

-Sim, mas não gostam. Para que um zombi saia de dia, terá que ordenar-lhe

-Assim estará no cemitério mais próximo.

-Ou não. Não são como os vampiros ou os algules; não necessitam um ataúde, nem sequer uma tumba. Simplesmente, resguardam-se da luz do sol.

-Então, onde procuramos?

-Em abrigos, garagens ou qualquer sítio que sirva para cobrir-se.

-Assim poderia estar na casa da árvore de qualquer menino -disse Dolph. Sorri. Alegrei-me de comprovar que ainda podia.

-Não acredito que um zombi suba a uma árvore se o pode evitar. Fixaste-te em que todas as casas de por aqui são talhas?

-Em um porão?

-Não é muito freqüente que a gente fuja para o porão -pinjente.

-Serviria de algo?

-Não sei. Normalmente, aos zombis não lhes dá muito bem subir ou baixar. Este é mais rápido e espabilado, mas... Suponho que refugiar-se em um porão só serviria para atrasá-lo um pouco. Se houvesse janelas, poderiam ter tirado os meninos. -Esfreguei-me a nuca com a manopla-. Escolhe casas de uma planta com ventanales. Pode que esteja perto de alguma.

-Segundo os criminologistas, é alto, de ao redor de um e noventa. É um homem branco, tremendamente forte.

-O último já sabíamos, e o outro não serve de grande coisa.

-Te ocorre algo melhor?

-Pois olhe, sim -respondi-. Lhes peça aos agentes mais altos que se afastem a pé em direções distintas durante uma hora e passa os laços o perímetro resultante.

-E logo touca registrar todos os abrigos e garagens?

-E qualquer outra proteção parecida.

-O que fazemos se o encontramos?

-Fritá-lo. Que venha uma equipe de exterminadores.

-Crie que atacará de dia? -perguntou Dolph.

-Se se vê encurralado, sim. É muito agressivo.

-Não me diga. Necessitaremos uma dúzia de equipes, ou mais. Não acredito que a delegacia de polícia esteja disposta a costeá-los. Além disso, teríamos que cobrir uma área muito ampla, e duvido que pudéssemos registrá-la inteira.

-Moverá-se quando oscurezca. Se estão preparados, encontrarão-o.

-De acordo, mas falas como se não fosses ajudar nos...

-Virei quando puder, mas John Burke me há devolvido a chamada.

-Vai ao depósito com ele?

-Sim, e a tempo para tentar utilizá-lo contra Dominga Salvador. Tenho a agenda bastante apertada.

-Bem. Necessita algo?

-Que nos deixem entrar no depósito.

-Arrumarei-o. De verdade crie que Burke pode nos ser útil?

-Não saberei se não o tento.

-O velho truque de "por provar", né? -disse com um sorriso.

-Exatamente.

-Venha, vete ao depósito de cadáveres com o rei do vodu, que nós pentearemos este puto bairro.

-Bom é saber que todos temos o dia planejado.

-Não se esqueça de que esta tarde vamos a casa de Salvador.

-Já, e esta noite há caçada de zombis.

-A ver se acabarmos hoje com toda esta mierda.

-Isso espero.

-Crie que o plano tem algo de mau? -Olhou-me com os olhos entrecerrados.

-Pode. Simplesmente, não existem os planos perfeitos.

Guardou silêncio durante um momento e se levantou.

-Eu gostaria que este o fora.

-Toma, e a mim.

O depósito de cadáveres do condado de São Luis é um edifício enorme. Lógico: todas as pessoas que morrem sem certificado médico acabam nele, por não mencionar a todos os assassinados. Nesta cidade, isso supõe um tráfico considerável.

Antes visitava o depósito com bastante freqüência, para lhes cravar uma estaca às possíveis vítimas de vampiros, não fora que se levantassem e se lanchassem aos empregados. Segundo a nova legislação, isso é assassinato. Terá que esperar a que se levantem, a não ser que tenham deixado um testamento no que digam expressamente que não querem voltar como vampiros. No meu sotaque instruções de acabar comigo se houver suspeitas de que me possam sair presas, e no caso de, peço que me incinerem. Tampouco gosta que me levantem como zombi, muito obrigado.

John Burke era tal como o recordava: alto, bonito e com pinta de menino mau. Era pela cavanhaque; só se vêem cavanhaques nos filmes de terror. Já sabem, essas nas que saem seitas estranhas que adoram ídolos com chifres.

O via um pouco desbotado ao redor dos olhos e a boca. É um sintoma de pesadumbre, inclusive quando se tem um tom de pele escuro. Enquanto entrávamos no depósito mantinha os lábios apertados, e tinha os ombros tensos, como se lhe doesse algo.

-Como o levam em casa de sua cunhada? -perguntei-lhe.

-Fatal. Deprimente.

Esperava que se estendesse, mas não disse nada mais, e tampouco perguntei. Se não queria falar disso, estava em seu direito.

Estávamos percorrendo um corredor vazio, suficientemente largo para colocar três macas. A guarita do guarda parecia um bunker, com suas metralhadoras e tudo, se por acaso a todos os mortos dava de levantar-se de uma vez e sair em busca da liberdade. Em São Luis não tinha passado nunca, mas havia precedentes em Kansas City. Embora por muito que uma metralhadora pudesse pulverizar a qualquer morto ambulante, não acredito que servisse de grande coisa se saíam em manada.

-Olá, Fred -disse-lhe ao guarda enquanto lhe ensinava a identificação-. Quanto tempo.

-Não me importaria que seguisse vindo freqüentemente. Esta semana se levantaram três e se foram a casa, lhe pode acreditar isso?

-Vampiros?

-O que se não? A este passo acabará por haver mais mortos que vivos nas ruas.

Não sabia o que dizer, assim não repliquei. Provavelmente tinha razão.

-viemos a ver os efeitos pessoais do Peter Burke. O sargento Rudolph Storr ficou de encarregar-se dos trâmites.

-Sim, têm permissão -disse enquanto consultava a agenda-. Pelo corredor da direita, a terceira porta da esquerda. A doutora Saville vos espera.

Levantei uma sobrancelha. Não era normal que a forense chefe fizesse recados para a polícia nem para ninguém, mas me limitei a assentir como se não me surpreendesse o trato preferencial.

-Obrigado, Fred. Vemo-nos a saída.

-Sim, vejo sair a muita gente. -Não parecia contente.

Minhas sapatilhas não turvavam o sonho dos mortos. John Burke também caminhava sem fazer ruído, embora não tinha pinta de levar calçado esportivo. Baixei a vista e comprovei que não me equivocava: levava sapatos de cordões com sola de borracha. Em qualquer caso, avançava em silêncio, como uma sombra.

O resto de seu traje encaixava com os sapatos: uma jaqueta de vestir, de um marrom tão escuro que quase parecia negra, uma camisa amarela clara e umas calças marrons engomadas com raia. Só lhe faltava a gravata para ter pinta de executivo. Sempre ia tão arrumado, ou era a roupa que tinha metido na mala para ir ao enterro de seu irmão? Não, no enterro levava um traje negro.

O depósito já é silencioso normalmente, mas os sábados pela manhã era sepulcral. É que as ambulâncias se dedicam a dar voltas, como os aviões que esperam pista, até uma hora decente? Sabia que os fins de semana havia mais assassinatos, mas sempre reinava a calma nas manhãs de sábados e domingos. Ou seja.

Fui contando as portas que passávamos à esquerda e chamei à terceira. Abri detrás ouvir um fraco "Adiante".

A doutora Enjoam Saville é uma mulher diminuta de cabelo moreno talhado justo por debaixo das orelhas, pele azeitonada, olhos muito escuros e maçãs do rosto marcados. É de ascendência grega e francesa, e lhe nota no aspecto ligeiramente exótico, embora sem passar-se. Sempre sentiu saudades que não estivesse casada; certamente, não era por falta de atrativo.

Seu único defeito era que fumava, e o aroma da fumaça a impregnava como um perfume acre.

-Me alegro de voltar a verte, Anita. -adiantou-se com um sorriso e a mão tendida.

-O mesmo digo. -Estreitei-lhe a mão, sonriendo eu também-. Isso é o que viemos a ver?

Estávamos em uma sala de autópsias pequena, e havia várias bolsas de plástico na mesa de aço inoxidável.

-Sim.

Fiquei olhando-a. Não saberia o que queria, mas algum motivo haveria para que estivesse ali. Não tinha suficiente confiança para perguntar-lhe diretamente, e era melhor que não a ofendesse se queria que seguissem me deixando entrar no depósito. Sempre com problemas.

-Apresento ao John Burke, o irmão do falecido.

Enjoam arqueou as sobrancelhas para ouvi-lo.

-Meus mais sentido pêsames, senhor Burke.

-Obrigado. -John lhe estreitou a mão, mas tinha a vista cravada nas bolsas de plástico. Não era momento para emprestar atenção às médicos atrativas nem às normas de urbanidade. Tinha ido examinar os efeitos pessoais de seu irmão em busca de pistas que pudessem conduzir a seu assassino, e tomava muito a sério.

Se não tinha nada que ver com a Dominga Salvador, devia-lhe uma desculpa muito gorda, mas como ia surrupiar lhe nada com a forense revoando por aí? E como ia pedir a ela um pouco de intimidade? A fim de contas, estávamos em seu depósito.

-Tenho que estar aqui para me assegurar de que não se manipulam as provas -explicou-. Ultimamente vieram uns quantos jornalistas muito entusiastas.

-Mas não somos jornalistas -protestei.

-Nem funcionários. -encolheu-se de ombros-. Segundo as novas normas, nenhum civil pode examinar provas de assassinato sem supervisão.

-Agradeço-te que te tenha encarregado pessoalmente, Enjoam.

-Estava aqui de todas formas -disse com um sorriso-. E posto que foste ter companhia, tenho suposto que me preferiria .

Tinha razão, mas o que pensavam que íamos fazer? Roubar um cadáver? Se me desse por aí, me podia levar isso a todos dançando a conga.

Possivelmente fora por isso pelo que terei que me fiscalizar. Possivelmente.

-Sinto interromper-disse John-, mas podemos seguir com isto?

Olhei-o à cara. Seguia sendo bonito, mas tinha a pele tensa ao redor da boca e os olhos, como se tivesse emagrecido. Senti uma pontada de culpa.

-Claro, perdoa.

-Rogo-lhe que nos desculpe, senhor Burke -disse Enjoam.

Tirou uma caixa de luvas. Ela e eu nos pusemos isso em um momento mas John tinha menos prática e demorou mais. Quando terminei de ajudá-lo sorriu, e sua cara trocou por completo. De repente estava resplandecente e arrebatador, e já não parecia o mau do filme.

A forense abriu a primeira bolsa. Continha a roupa.

-Não -disse John-, não há nada que me soe. A verdade é que não sei que roupa tinha meu irmão. Levávamos... Levávamos dois anos sem nos ver. -O tom de culpabilidade de suas últimas palavras me deixou mau sabor de boca.

-Pois vamos examinar os outros objetos -disse Enjoam com um sorriso radiante. Ao parecer, não tinha muitas ocasiões de ficar sedutora.

Abriu uma bolsa muito mais pequena e a esvaziou com delicadeza na superfície chapeada. Continha um pente, uma moeda de dez centavos, dois de um centavo, o resguardo de uma entrada de cinema e um cinza-cinza.

Era uma cinta de linho vermelho e negro, com dentes humanos entrelaçados. Também tinha ossos pendurando do bordo.

-São falanges humanas? -perguntei.

-Sim -disse John com voz fica. Estava muito alterado, como se dentro de sua cabeça estivesse ocorrendo algo espantoso.

Certamente, o objeto era horripilante, mas não terminava de entender aquela reação. Aproximei-me e o movi com o dedo. No centro tinha pele seca entretecida, e o que me tinha parecido fio negro era cabelo.

-Cabelo, dente, ossos e pele humanos -disse em voz baixa.

-Sim -repetiu John.

-Sabe mais que eu de vodu. O que significa?

-Alguém morreu para que se fabricasse este amuleto.

-Está seguro?

-Crie que diria algo assim se acreditasse que existe outra possibilidade? -disse encolerizado e me olhando com desprezo-. Crie que me faz graça me inteirar de que meu irmão participou de um sacrifício humano?

-Teve que estar presente? Não poderia havê-lo comprado depois?

-Não! -Foi um grito contido com muita dificuldade. separou-se de nós e nos deu as costas, com a respiração agitada.

Esperei um pouco para que se acalmasse e lhe perguntei o que tinha que lhe perguntar.

-Para que serve este cinza-cinza?

Quando se voltou tinha recuperado bastante a compostura, embora seus olhos seguiam delatando tensão.

-Para que um nigromante pouco capitalista consiga levantar mortos antigos, extraindo o poder de outro nigromante muito mais forte.

-O que é isso de extrair o poder?

-Este amuleto contém parte do poder de alguém que tem muitíssimo. Peter teve que pagar uma fortuna por ele, para poder levantar mais mortos, e mais antigos. Joder, como pôde fazer algo assim?

-Quanto poder terá que ter para ser capaz de compartilhá-lo assim?

-Um montão.

-Existe alguma forma de dar com a pessoa que o fez?

-Não o entende, Anita. Aqui há uma parte do poder dessa outra pessoa; forma parte de sua alma. Para fazer algo assim, um nigromante deveria estar desesperado ou ser muito avaro. É impossível que Peter pudesse permitir-lhe

-pode-se averiguar a quem pertence?

-Sim. Se o puser perto do verdadeiro dono desse poder, arrastará-se para ele. A alma tenta recompor-se.

-Serviria como prova em um julgamento?

-Se conseguir que o entenda o jurado, suponho que sim. -Deu um passo para mim-. Sabe quem o fez?

-Tenho minhas suspeitas.

-me diga quem foi.

-Farei algo melhor: conseguirei que nos acompanhe a registrar sua casa.

Um sorriso amargo lhe brotou nos lábios.

-Começa a cair muito bem, Anita.

-Deixa os cumpridos para outro momento.

-O que significa isto? -perguntou Enjoam. Tinha dado a volta ao amuleto, e entre o cabelo e os ossos se via uma peça dourada. Representava uma chave de sol.

O que havia dito Evans ao tocar os fragmentos de lápide? Tinham degolado a uma mulher que levava um bracelete com notas musicais, corações... Fiquei olhando o cinza-cinza e senti vertigem. De repente, tudo cobrava sentido. Dominga Salvador não tinha levantado o zombi assassino, mas sim tinha ajudado ao Peter Burke a levantá-lo. Mas precisava estar segura. Em poucas horas estaríamos chamando a sua porta para tentar resolver o caso.

-Eles trouxeram para uma mulher mais ou menos de uma vez que ao Peter Burke? -perguntei.

-Estou segura de que nos trouxeram para várias -disse Enjoam com um sorriso.

-Uma mulher degolada.

ficou me olhando fixamente até que reagiu.

-vou olhar no ordenador.

-Podemos nos levar isto?

-por que?

-Porque se não me equivoco, essa mulher levava um bracelete de amuletos com um arco, uma flecha e corazoncitos, e isto vem desse bracelete.

Observei a chave de sol à luz. O ouro brilhava alegremente, como se não soubesse que sua proprietária tinha morrido.

antes de adotar nenhum outra cor, os mortos ficam cinzas. Bom, se um cadáver tiver perdido muito sangue, pode ficar esbranquiçado ou azulado, mas assim que começa a deteriorar-se, sem ter começado ainda a apodrecer-se, adquire um tom cinzento.

A mulher estava cinza. Tinham-lhe limpo e fechado a ferida do pescoço, e parecia que lhe tinha saído uma boca gigante debaixo do queixo.

A doutora Saville lhe jogou a cabeça para trás com naturalidade.

-O corte foi muito profundo. O seccionó vários músculos do pescoço e a artéria carótida; morreu quase imediatamente.

-Obra de profissionais -pinjente.

-Sim. Quem degolasse a esta mulher sabia o que se fazia. Com freqüência, os cortes no pescoço não são mortais ou demoram para matar.

-Querem dizer que meu irmão tinha prática? -perguntou John Burke.

-Não sei. -Dirigi-me a Enjoam-. Tem seus efeitos pessoais?

-Sim, aqui estão. -Abriu uma bolsa muito mais pequena e a esvaziou em uma mesa. O bracelete de amuletos dourados refletia a luz dos fluorescentes.

Colhi-a com a mão enluvada. Tinha um arco com sua flecha, um par de notas musicais e dois corações entrelaçados. Encaixava com a descrição do Evans.

-Como sabia o desta mulher e seu bracelete?-perguntou-me John Burke.

-Levei-lhe umas provas a um vidente, que reviveu o momento em que a degolaram.

-O que tem que ver isto com o Peter?

-Acredito que uma sacerdotisa vodun lhe encarregou que levantasse um zombi, mas escapou a seu controle e ficou a matar gente. Assim que a sacerdotisa matou ao Peter para proteger-se.

-Quem é?

-Não tenho provas, a não ser que este cinza-cinza a delate.

-Uma visão e um amuleto vodu. -John sacudiu a cabeça-. Não será fácil convencer a um jurado.

-Já sei; por isso necessitamos mais provas.

A doutora Saville escutava atentamente nossa conversação, sem dizer nada.

-Um nome, Anita -insistiu John-. Me dê um nome.

-Só se me promete que não atará nada até que a lei tenha tido ocasião de atuar. Se enguiço a via judicial, já se verá o que se faz.

-Tem minha palavra.

Observei-o durante um momento. Seus olhos escuros me devolveram o olhar, firmes e seguros... Mas estou segura de que era capaz de mentir com a consciência limpa.

-Não confio na palavra de ninguém. -Segui olhando-o, mas não se encolheu. Suponho que meu olhar de garota dura como o aço já não é o que era, ou pode que pretendesse manter a promessa. Passa às vezes-. De acordo, aceitarei a tua. Que não tenha que me arrepender.

-Não te arrependerá, mas me dê o nome.

Voltei-me para a forense.

-nos desculpe, Enjoam, mas quanto menos saiba disto, menos possibilidades terá de que lhe entre um zombi pela janela. -Era um exagero, mais ou menos, mas teve efeito. Pôs cara de ir protestar, mas ao final assentiu.

-De acordo, mas eu adoraria me inteirar do resto da história quando me puder contar isso

-Se puder, contarei-lhe isso.

Voltou a assentir, fechou o compartimento da desconhecida e se dirigiu à porta.

-Pega um grito quando terminar; tenho trabalho -disse antes de fechar.

Não se levou a bolsa de provas. Suponho que confiava em mim. Ou em nós?

-Dominga Salvador -pinjente.

John respirou profundamente.

-ouvi falar dela. Se o que se diz é certo, é feita da pele do diabo.

-É certo.

-Conhece-a?

-Sim, por desgraça. -Eu não gostava da expressão do homem-. Prometeste-me que não te vingaria.

-A polícia não poderá fazer nada contra ela; é muito capitalista.

-Acredito que podemos apresentar cargos oficialmente.

-Mas não está segura.

O que podia dizer? Ele tinha razão.

-Estou quase segura.

-Com isso não basta. Falamos do assassinato de meu irmão.

-Esse zombi matou a um montão de gente; seu irmão não é a única vítima em tudo isto. Eu também quero lhe parar os pés, mas a deteremos legalmente e irá ajuízo.

-Há outras formas de lhe parar os pés.

-Se não conseguir nada sem nos saltar a legalidade, usa o vodu se quiser, mas não me diga isso.

-Não te incomoda que recorra à magia negra? -perguntou sentido saudades.

-Essa mulher já tentou me matar uma vez, e não acredito que se deu por vencida.

-sobreviveste a um ataque da senhora? -Sua surpresa ia em aumento. Eu não gostava.

-Sei me cuidar.

-Não o duvido. -Sorriu-. Parece molesta. Resulta-te ofensivo que me surpreenda, né?

-te guarde suas conclusões, vale?

-Se tiver sobrevivido a um enfrentamento direto com o que fora que te mandou Dominga Salvador, possivelmente deveria emprestar ouvidos certas coisas que contam sobre ti. A Ejecutora, a reanimadora que pode levantar qualquer cadáver por antigo que seja...

-Não estou segura de que o último seja certo, mas certamente, intento seguir com vida.

-Se Dominga Salvador quer verte morta, não te resultará fácil.

-Já. Resulta-me difícil de cojones.

-Pois vamos adiantar nos.

-Legalmente.

-Como pode ser tão ingênua?

-A oferta de te levar a registrar sua casa segue em pé.

-Está segura de que pode conseguir que me deixem passar?

-Quase.

Seus olhos brilhavam com uma espécie de luz escura, como um resplendor negro. Sorriu com os lábios apertados, sem um espiono de humor. Jogo-me o pescoço a que estava ideando torturas para a Dominga Salvador, e que as fantasias lhe pareciam muito satisfatórias.

Sua expressão me pôs a carne de galinha. Esperava que John não pusesse nunca essa cara pensando em mim; algo me dizia que seria um inimigo temível. Quase tão temível como Dominga Salvador, embora tê-la a ela de inimizade seguia sendo mais aterrador.

Dominga Salvador estava em uma poltrona da sala, sorridente. A menina a que tinha visto a outra vez com o triciclo estava sentada no regaço de sua avó, relaxada como um gatinho. Havia dois meninos algo majores aos pés da Dominga. O paradigma da sorte familiar; me dava vontade de vomitar.

Claro que por muito que fora a sacerdotisa vodun mais perigosa que tinha conhecido em minha vida, também era avó. A gente, pelo general, pode-se definir de várias formas. Hitler era um grande amante dos cães.

-É obvio que pode realizar o registro, sargento. Como se estivesse em sua casa -disse com voz melíflua, como se nos estivesse oferecendo uma limonada ou um chá gelado.

John Burke e eu ficamos a um lado enquanto os policiais faziam seu trabalho. Dominga conseguia que se sentissem parvos por albergar suspeitas: só era uma viejecita encantadora. E que mais.

Antonio e Enzo também estavam a um lado. Não acabavam de encaixar na imagem de sorte caseira, mas era evidente que Dominga queria testemunhas. Ou possivelmente era que não descartava um tiroteio.

-Entende as possíveis conseqüências deste registro, senhora Salvador? -perguntou Dolph.

-Não há nenhuma conseqüência possível porque não tenho nada que ocultar. -Luzia um sorriso encantador. Maldita zorra.

-Anita, senhor Burke... -disse Dolph. Adiantamo-nos como impulsionados por uma mola, o que não era desatinado de tudo. Um policial alto tinha a câmara de vídeo preparada-. Acredito que já conhece a senhorita Blake.

-Sim, tive o prazer -disse Dominga. Mantinha as aparências com a frieza de um peixe.

-Apresento ao John Burke -acrescentou Dolph.

Os olhos da Dominga se aumentaram ligeiramente; a primeira greta em sua fachada perfeita. Teria ouvido falar dele? Tinha-a alarmado ouvir seu nome? Isso esperava.

-Encantada de conhecê-lo por fim, senhor Burke -disse assim que se recompôs.

-Sempre é agradável conhecer um correligionário -disse ele.

Dominga inclinou ligeiramente a cabeça. Pelo menos não fingia completa inocência: tinha reconhecido que era sacerdotisa vodun. Menos dá uma pedra; era uma obscenidade que a avó do vodu se fizesse a Santa.

-Adiante, Anita -disse Dolph. Nem preparativos nem leites: a saco. Assim era Dolph.

Tirei-me uma bolsa de plástico do bolso, Dominga me olhou sentida saudades. Quando viu o cinza-cinza que continha, ficou de pedra, com a cara como uma máscara. Depois esboçou um sorriso.

-O que é isso?

-Vamos, senhora -disse John-, não se faça a parva. Sabe perfeitamente.

-Sei que é um amuleto, claro, mas é que agora a polícia se dedica a ameaçar às anciãs com o vodu?

-Se funcionar... -pinjente.

-Anita! -disse Dolph.

-Sinto muito.

Olhei ao John, que assentiu. Pus o cinza-cinza no tapete, a um par de metros da Dominga Salvador. Não tinha mais remedeio que confiar no John com aquilo. Tinha chamado ao Manny para comprová-lo, mas não as tinha todas comigo. Se funcionava, se o admitiam como prova no julgamento e se conseguíamos fazer o entender ao jurado, possivelmente serviria de algo. Muitas alternativas.

O amuleto ficou imóvel um momento, e depois, os ossos começaram a mover-se como se os tivesse agitado um dedo invisível.

Dominga baixou a sua neta da cadeira de balanço, mandou aos meninos com o Enzo e ficou esperando. Seguia com seu sonrisita, mas parecia bastante mais intranqüila.

O bracelete começou a arrastar-se para ela, como uma lesma, movendo músculos que não tinha. Me arrepiou o pêlo de todo o corpo.

-Está gravando isto, Bobby? -perguntou Dolph.

-Sim -respondeu o poli da câmara-. Cone, não acabo de me acreditar isso mas o tenho.

-Rogo-lhe que não utilize esse vocabulário diante dos meninos -disse Dominga.

-Perdoe, senhora.

-Está perdoado. -Seguia exercendo de perfeita anfitriã enquanto aquela costure reptaba para ela. Não andava escassa de sangue-frio, isso terá que reconhecê-lo.

Mas Antonio era outro cantar: separou-se da parede e se aproximou da cinza-cinza com intenção de agarrá-lo.

-Não o toque -disse Dolph.

-Estão assustando a minha avó com seus truques.

-Não o toque -repetiu Dolph, ficando em pé e enchendo a habitação. De repente, Antonio parecia diminuto e indefeso.

-Por favor, estão-a assustando. -Mas era ele quem estava pálido e com a cara perlada de suor. por que tinha tanto medo? O não era quem corria perigo de acabar no cárcere.

-Volte para seu sítio -disse Dolph-, ou prefere que o algememos?

-Não. -Negou com a cabeça-. De acordo. -Voltou para seu sítio, sem deixar de olhar a Dominga com apreensão. Quando sua avó lhe devolveu o olhar, a cólera foi evidente. Os olhos negros da mulher resplandeceram com uma ira que lhe deformou a cara. O que tinha passado para que se tirasse a máscara de semelhante maneira? A que se devia todo aquilo?

O cinza-cinza seguiu avançando trabalhosamente até chegar a ela, e se acurrucó a seus pés e começou a esfregar-se como um gato em busca de bajulações.

Dominga fez como que não o via.

-Não quer recuperar seu poder perdido? -perguntou-lhe John.

-A que se refere? -Já se tinha sobreposto e parecia verdadeiramente perplexa. Joder, que boa era-. Você é um sacerdote vodun muito poderoso, e faz isto para me inculpar.

-Se você não quiser o amuleto, me fico eu -disse John-, e então sim que serei capitalista de verdade. O mais capitalista do país.

Notei sua força pela primeira vez, como um formigamento na pele, um vento mágico que me punha os cabelos de ponta. Tinha começado a considerá-lo um tipo normal, ou tão normal como pudesse ser qualquer de nós. Grande engano.

Dominga se limitou a sacudir a cabeça.

John se adiantou, ajoelhou-se e recolheu o cinza-cinza lhe serpenteiem. Seu poder o acompanhava como uma mão invisível.

-Não! -Dominga o recolheu e o embalou em suas mãos.

-Então, reconhece que pertence a você? -perguntou John, olhando-a sorridente-. Do contrário, posso ficar o e lhe dar o uso que considere oportuno. Estava entre os efeitos pessoais de meu irmão, de modo que me pertence legalmente, não é assim, sargento Storr?

-Certamente -disse Dolph.

-Disso nada.

-Posso ficar o e me ficarei se não olhe a essa câmara e reconhece que o fez você.

-Arrependerá-se -disse Dominga com expressão venenosa.

-E você de ter matado a meu irmão.

-Muito bem. -A sacerdotisa olhou à câmara-. Eu fiz este amuleto, mas não reconheço nada mais. Foi um encargo de seu irmão, e isso é tudo.

-Teve que realizar um sacrifício humano para fazer isto -disse John.

-O amuleto é meu -disse Dominga, sacudindo a cabeça-. O fiz a seu irmão e já está. Têm isto, mas não têm nada mais.

-Perdoa, mas... -Antonio tentou intervir. Estava pálido, compungido e muito, muito assustado.

-Fecha o pico! -espetou sua avó.

-Zerbrowski, te leve a nosso amigo à cozinha e tomada lhe declaração -disse Dolph.

Dominga ficou em pé de um salto.

-Insensato, estúpido! lhes diga algo mais e farei que te apodreça a língua na boca!

-Tira o daqui, Zerbrowski.

O policial se levou ao Antonio, que parecia estar ao bordo das lágrimas. Tive a sensação de que lhe tinham encomendado a responsabilidade de recuperar o cinza-cinza, mas não o tinha conseguido e ia pagar seu engano. A polícia era o menor de seus problemas. Eu em seu lugar faria o possível para que minha avó estivesse entre grades antes de que acabasse o dia; eu não gostaria que voltasse a ter à mão seus trastes de vodu. Nunca.

-Agora vamos realizar o registro, senhora Salvador.

-Como desejo, sargento. Não vão encontrar nada -disse com toda a calma do mundo.

-Nem sequer detrás das portas? -perguntei.

-Não sei de que portas falas, Anita, mas aqui não encontrarão nada que não seja legal Y... saudável. -Conseguiu que a última palavra soasse obscena.

Dolph me olhou, e me encolhi de ombros. Dominga parecia terrivelmente segura.

-De acordo, meninos, vamos revolver isto, -Todos os policiais, tanto os de uniforme como os inspetores, ficaram em marcha. Comecei a seguir ao Dolph, mas me deteve.

-Não, Anita. Burke e você ficam aqui.

-por que?

-Porque são civis.

-Assim agora sou uma civil? E quando estava percorrendo o cemitério contigo?

-Se tivesse podido fazê-lo algum de meus, tampouco lhe teria permitido isso a ti.

-permitir-me isso

-Já me entende -disse franzindo o cenho.

-Parece-me que não.

-Pode que seja uma garota dura, e até que seja tão boa como cria, mas não é polícia e isto é trabalho policial, assim, por uma vez, fica na sala com os civis. Quando tivermos terminado poderá baixar a identificar ao homem do saco.

-Não me faça favores, Dolph.

-Quem ia dizer que é das que fazem panelas.

-Não estou fazendo panelas.

-Então, está choramingando?

-Curta o cilindro. Já deixaste clara sua postura. Fico aqui, mas não tem por que me gostar de.

-Quase sempre está até o pescoço de mierda; deveria te alegrar de ficar à margem por uma vez. -Dito aquilo, dirigiu-se ao porão.

A verdade era que não gostava de voltar a baixar a aquele porão escuro, e muito menos, ver a criatura que tinha açoitado ao Manny escada acima. Entretanto... Sentia-me marginada. E Dolph tinha razão: estava fazendo panelas. Cojonudo.

John Burke e eu nos sentamos no sofá. Dominga seguiu na cadeira de balanço em que estava quando entramos. Enzo se tinha levado aos meninos a jogar, e parecia aliviado. Não era para menos; eu tinha estado a ponto de me oferecer a acompanhá-los. Algo era melhor que ficar ali esperando a que se ouvissem os primeiros gritos.

Se o monstro, e aquela palavra era quão única fazia honra aos ruídos que tínhamos ouvido, estava ali abaixo, haveria gritos. À polícia lhe dava muito bem conter aos maus, sempre que estes fossem humano. Em certo modo, tudo era muito mais fácil quando nos deixavam esses marrons aos peritos, a um grupo reduzido de justiceiros que mantínhamos a raia o sobrenatural: cravávamos estacas aos vampiros, púnhamos a descansar aos zombis, queimávamos às bruxas... Embora seja mais que provável que uns anos atrás me houvesse meio doido que me queimassem : ponha a levantar mortos lá pela década de 1950.

Sem dúvida, o que eu fazia era magia. antes de que todo isso saísse à luz, o sobrenatural era algo que terei que destruir por simples defesa própria. Eram tempos mais fáceis. Mas depois, a polícia tinha tido que começar a tratar com zombis, vampiros e algum demônio que outro. Os demônios lhe davam especialmente mal; claro que a quem não?

Dominga me olhava da cadeira de balanço. Os dois policiais uniformizados que tinham ficado na sala estavam como revestem está-los policiais: de pé, com cara inexpressiva e pinta de aborrecidos, mas alerta: o aborrecimento era só aparente. Os policiais sempre o viam tudo; salários do ofício.

A sacerdotisa não lhes emprestava atenção. Nem sequer olhava ao John Burke, que era o mais parecido que tinha a um homólogo. Tinha-lhe dado de cravar a vista precisamente em mim.

-Algum problema? -Olhei-a aos olhos negros.

Os policiais se voltaram para nós, e John se moveu.

-O que acontece? -perguntou.

-Está-me olhando.

-Penso fazer muito mais que te olhar, garota. -Sua voz se fez grave, e o pêlo de minha nuca ameaçou fugindo camiseta abaixo.

-Uma ameaça -disse sonriendo-. Não acredito que possa voltar a fazer machuco a ninguém.

-Refere a isto. -Levantou o amuleto, que se retorceu entre seus dedos como se lhe tivesse gostado que lhe emprestasse atenção. Dominga o apertou com força e o tampou completamente com a mão, para ocultar os fúteis intentos que fazia de aproximar-se mais a ela. Seguiu me olhando fixamente enquanto se levava a mão ao peito.

De repente, o ar parecia denso. Custava-me respirar, e tinha a pele de galinha.

-Detenham-na! -disse John, ficando em pé.

O policial que estava mais perto vacilou durante um instante, mas foi suficiente. Quando lhe abriu os dedos, Dominga tinha a mão vazia.

-Um jogo de mãos? Não me esperava algo tão inculto.

-Não foi prestidigitação. -John tinha empalidecido e falava com voz tremente. deixou-se cair no sofá como um saco de batatas. O poder parecia havê-lo abandonado, e seu cansaço era patente.

-O que passou? -perguntei-. O que tem feito?

-Tem que devolver o amuleto, senhora -disse o policial.

-Não posso.

-Que demônios tem feito, John?

-Algo que não deveria ser capaz de fazer.

Começava a entender como se sentia Dolph por ter que recorrer para mim para conseguir informação: era como arrancar um molar.

-O que tem feito? -insisti.

-Absorver o poder para recuperá-lo.

-O que significa isso?

-Que seu corpo absorveu o cinza-cinza, é que não o nota?

O ar já era mais respirável, mas seguia mais denso que de costume, e tinha todos os cabelos de ponta.

-notei algo, mas sigo sem entendê-lo.

-Absorveu-o e restituiu sua alma sem cerimônias, sem ajuda dos louva. Não encontraremos nem rastro; não deixou provas.

-Assim que o vídeo é tudo o que temos? -perguntei. John assentiu-. Se sabia que podia fazer isto, por que não o há dito antes? Podíamos lhe haver tirado o amuleto.

-Não sabia. É impossível sem a cerimônia adequada.

-Mas o conseguiu.

-Já sei, Anita, já sei. -Pela primeira vez parecia assustado, coisa que não lhe agraciava precisamente os rasgos. depois de ter percebido todo o poder que emanava, o medo me parecia desconjurado, mas não por isso deixava de estar presente.

Estremeci-me. A vista da Dominga seguia cravada em mim.

-Que miras? -perguntei, cada vez mais incômoda.

-A uma mulher morta -disse em voz baixa.

-Falar é fácil, senhora. -Sacudi a cabeça-. As ameaças não significam nada.

-Não a provoque, Anita -disse John, me pondo a mão no ombro-. Se tiver podido fazer isso com tanta facilidade, quem sabe de que mais será capaz.

-Não vai fazer nada mais. -O policial já estava farto-. Faça um só movimento em falso, senhora, e lhe pego um tiro.

-por que ameaça a uma pobre anciã?

-E não fale.

-Uma vez me vi com uma bruxa que podia enfeitiçar com a voz -disse o outro policial.

Os dois tinham a mão perto da pistola. É curiosa a forma em que a magia altera as percepções da gente. Enquanto acreditavam que a sacerdotisa precisava realizar cerimônias com sacrifícios humanos não estavam preocupados, mas tinha bastado com um truque para que a considerassem perigosa. Eu o tinha sabido desde o começo.                                            

Dominga ficou quieta e em silencio sob o atento olhar dos policiais, e de repente caí na conta de que me tinha distraído com o que acabava de presenciar. Não me tinha fixado, mas ainda não tinha chegado nem um grito do porão. Não se ouvia nada.

Seria que o monstro os tinha carregado a todos tão depressa que não tinham tido tempo nem de disparar? Nem de coña. Mesmo assim, tinha o estômago encolhido, e o suor me escorregava pela coluna.

"Seguem inteiros?"

-Há dito algo? -perguntou John.

-Só estava pensando -pinjente enquanto negava com a cabeça.

-Ah. -Assentiu como se fora o mais normal do mundo.

Quando Dolph entrou na sala, não pude deduzir nada por sua expressão. Joder com o estoicismo.

-Bom, o que têm? -perguntei.

-Nada.

-Como que nada?

-Limpou-o tudo. Vimos as habitações das que me falou. Uma delas estava fechada por dentro, mas a temos aberto. Tinham-na esfregado e tem pintura fresca. -Levantou uma mão manchada de branco-. Muito, muito fresca.

-Não é possível que não fique nada. O que tem que as portas muradas?

-Parece que as tornaram a abrir, porque só há habitações recém pintadas. Tudo empresta a limpador com aroma de pinheiro e a pintura. Não há cadáveres, não há zombis... Não há nada.

-Tem que ser uma brincadeira -pinjente olhando-o muito fixamente.

-Sim, por isso me rio tanto.

Levantei-me e me pus diante da Dominga.

-Quem te avisou?

limitou-se a me olhar fixamente, sonriendo. Gostava de lhe apagar o sorriso de uma hóstia; sabia que depois me sentiria muito melhor.

-Anita -disse Dolph-, aparta.

Pode que minha expressão de cólera fora muito descarada, ou pode que os punhos apertados lhe dessem a pista. Estava tremendo de ira e por outro motivo: se Dominga não ia ao cárcere, poderia voltar a tentar me matar aquela noite. E todas as noites seguintes.

-Não têm nada, garota. -Sorriu como se pudesse me ler a mente-. Jogaste-lhes isso tudo a uma mão e iam de farol. -O pior era que tinha razão.

-Nem lhe aproxime isso -disse-lhe.

-Não tenho a menor intenção. Não é necessário.

-Sua última sorpresita não te saiu muito bem. Sigo aqui.

-Eu não tenho feito nada, mas estou segura de que pode te encontrar com coisas piores.

-Mierda! -voltei-me para o Dolph-. Já não ficam opções?

-Temos o amuleto, mas isso é tudo. -Me deveu notar algo na cara, porque me tocou o braço-. O que acontece?

-absorveu o amuleto. Já não está.

Dolph se encheu de ar os pulmões, esvaziou-os e se apartou.

-Joder, joder, joder. Como?

-Que lhe explique isso John -pinjente me encolhendo de ombros-, porque eu tampouco o entendo muito bem.

Eu não gosto de reconhecer que não sei algo; sempre me incomodou passar por ignorante. Mas o que lhe vai fazer: não se pode ser perito em tudo. Tinha-me esforçado muito para me manter separada do vodu, e para que me tinha servido? Para ficar como um pasmarote enquanto via uma sacerdotisa vodun tramar minha morte... Uma morte atirando a desagradável, para mais gestos.

Enfim, de perdidos ao rio. Voltei a me aproximar dela, olhei-a fixamente e sorri. Seu sorriso fraquejou um pouco, coisa que fez que a minha se ampliasse.

-Alguém te deu o sopro, e leva dois dias limpando esta ratoeira. -Inclinei-me sobre ela, com as mãos nos braços da cadeira de balanço, de forma que fiquei a pouca distância de sua cara-. Teve que derrubar paredes e te desprender de todas suas criações, ou as destruir. Teve que limpar e caiar seu santuário, seu humfo. Já não estão os verves, nem os animais sacrificados... depois de ter acontecido tanto tempo acumulando poder, pouco a pouco, gota de sangue a gota de sangue, vais ter que voltar a começar. Terá que reconstrui-lo tudo. -O olhar de seus olhos negros me estremeceu, mas me deu igual-. Embora já não tem idade para tanta reconstrução. tiveste que destruir muitos de seus brinquedos? Onde os enterraste?

-te gabe quanto queira, garota, mas alguma noite te encontrará com o que fica.

-por que esperar? Faz o que seja agora mesmo, à luz do dia. Ou é que te dá medo te enfrentar a mim?

pôs-se a rir, com um som tão quente e amistoso que me sobressaltou. Incorporei-me de repente e quase saltei para trás.

-Crie-me tão idiota para te atacar diante da polícia? Por favor!

-Tinha que tentá-lo.

-Deveria ter aceito a oferta de colaborar comigo. Poderíamos nos haver feito ricas.

-Quão único poderíamos fazer é nos matar mutuamente.

-Porque assim seja. Se o que quer é guerra,..

-Não a declarei eu.

Dominga assentiu e voltou a sorrir.

Zerbrowski saiu da cozinha, e parecia muito animado. Ao parecer tinha passado algo bom.

-O neto acaba de cantar.

Todos os olhos da habitação se voltaram para ele.

-O que há dito? -perguntou Dolph.

-Que o cinza-cinza se fez com um sacrifício humano, e que tinha instruções de recuperá-lo depois de matar ao Peter Burke, por ordem de sua avó, mas passou gente fazendo footing e não se atreveu a ficar a registrá-lo. Tem-lhe tanto medo -disse assinalando a Dominga com um gesto- que quer vê-la entre grades. Está aterrorizado pelo que possa lhe fazer por ter tornado sem o amuleto.

O amuleto que já não tínhamos. Mas tínhamos o vídeo e a confissão do Antonio. As perspectivas começavam a melhorar.

Voltei a olhar a Dominga Salvador, que tinha um aspecto pavoroso. Parecia ter crescido, emanava dignidade, e seus olhos negros resplandeciam com uma luz interior. Estava tão perto dela que notava seu poder na pele, mas não era nada que não se pudesse remediar com uma boa fogueira. Fritariam-na na cadeira elétrica, e depois queimariam o cadáver e pulverizariam suas cinzas em um cruzamento de caminhos.

-Temo-lhe -disse em voz baixa. Cuspiu-me, e a saliva, que me deu na mão, queimou-me como se fora ácido-. Mierda!

-Como volto a fazer isso lhe pegaremos um tiro, e todo isso que se economizarão os contribuintes. -Dolph tinha desencapado.

Saí em busca do quarto de banho para me lavar a mão. Me tinha formado uma ampola. Virgem Santa, essa mulher podia provocar queimaduras de segundo grau com um escupitajo.

Alegrava-me de que Antonio se derrubou. Alegrava-me de que fossem encerrar a, e de que fora a morrer. Melhor ela que eu.

Riverridge era uma urbanização moderna, ou o que é o mesmo, só tinha três modelos de moradia. de vez em quando se viam fileiras de até quatro casas idênticas, como bolachas na bandeja do forno. Não havia nenhum rio à vista, e o terreno era plano.

A casa que ocupava o centro da zona que estava registrando a polícia era igual à dos vizinhos, embora de outra cor. A casa da massacre, como a chamavam nos informativos, era cinza e tinha os portinhas brancos; a que se livrou era azul, também com portinhas brancos. Tanto tanto uns como outros eram decorativos: não se fechavam de verdade. A arquitetura moderna está cheia de armadilhas: balaustradas sem balcão, cobertos bicudos que anunciam a presença de uma água-furtada inexistente, alpendres tão estreitos que terá que sentar-se em fila... Quase se sente falta da arquitetura vitoriana; pode que fora muito ostentosa, mas as coisas cumpriam sua função.

Tinham evacuado toda a urbanização, e Dolph não tinha tido mais remedeio que falar com a imprensa. É uma putada, mas não se pode esvaziar uma zona do tamanho de uma cidade pequena sem fazer declarações. Tinha saltado a lebre, e os zombis assassinos já estavam em boca de todos. Ai.

O sol se afundava em muito tons escarlate e alaranjados, como se tivessem melado o céu com duas pinturas de cera derretidas. Não ficava nem um abrigo, nem uma garagem, nem um porão, nenhuma casa de árvore, nenhuma barraco de cão, nem nada parecido sem registrar, mas seguíamos sem encontrar nada.

Os jornalistas zumbiam como um enxame ao redor da zona passada os laços. Se não encontrávamos nenhum zombi depois de evacuar a centenas de pessoas e registrar seus pertences sem ordem judicial, nos teríamos metido em uma confusão.

Mas estava ali. Sabia que estava ali. Bom, estava quase segura.

John Burke estava ao lado de um desses cubos de lixo gigantes. Tinha-me surpreso que Dolph lhe permitisse apontar-se à caça do zombi, mas como dizia o inspetor, necessitávamos tanta ajuda que não podíamos rechaçar a de ninguém.

-Onde está o inseto, Anita? -perguntou-me Dolph.

Me teria gostado de lhe dar uma resposta que lhe arrancasse um comentário admirativo em plano "Meu deus