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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O CADÁVER DE TRAITORS GATE / Anne Perry
O CADÁVER DE TRAITORS GATE / Anne Perry

 

 

                                                                                                                                   

  

 

 

 

 

Uma emocionante trama que fará as delícias dos seguidores do detetive de Londres vitoriano.

Em plena partilha das apreciadas riquezas do continente africano, uma série de estranhos assassinatos põem ao inspetor Pitt e a sua infatigável esposa Charlotte sobre a pista do misterioso Círculo Interior, do qual se está filtrando informação para uma potência inimiga.

Um carismático ministro, diferentes personagens que estão a favor ou contra a exploração da África, uma esposa crítica com as idéias colonialistas de seu marido... Em conjunto, uma emocionante trama que fará as delícias dos seguidores do íntimo e incansável detetive da Londres vitoriana.

A autora recria como ninguém o ambiente de corrupção e hipocrisia da Inglaterra de finais do século XIX.

 

 

 

 

Pitt se acomodou no banco de madeira e se dispôs a contemplar com profundo prazer como desaparecia o sol atrás da velha macieira que havia no meio do jardim e como dourava por uns momentos a folhagem da árvore.

Mal estavam na nova casa há algumas semanas, mas com a sensação de familiaridade que lhes proporcionava, mais parecia que estavam retornando a ela em lugar de instalar-se pela primeira vez. Eram pequenos detalhes: o reflexo da luz sobre o muro de pedra que delimitava o jardim, as folhas das árvores e o aroma da erva úmida sob os ramos.

Começava a anoitecer e havia muitas traças revoando sem rumo naquele entardecer de começos de maio, com um ar cada vez mais afresco à medida que o sol ia caindo. Charlotte andava por algum lugar da casa, certamente deitando as crianças no piso de cima.

Confiava em que ela tivesse pensado já no jantar. Estava faminto, o que não deixou de lhe produzir certo assombro, sobre tudo tendo em conta que em todo o dia não tinha feito mais que desfrutar do sábado em casa.

Mas uma das vantagens de ter sido promovido à superintendente depois da aposentadoria do Micah Drummond era precisamente essa, a de ter mais tempo.

Claro que por outro lado também tinha mais responsabilidades, além de que, por pouco que gostasse, agora se via com muita freqüência atrás de uma mesa no Bowl Street em lugar de andar por aí fora investigando.

Acomodou-se um pouco melhor no banco e cruzou as pernas, sem dar-se realmente conta de que estava sorrindo. Usava roupa velha, mais adequada para os trabalhos do jardim com os quais andava ocupado todo o dia, embora de forma muito relaxada.

A suas costas, a porta envidraçada que dava ao jardim se abriu e se fechou com um estalo.

-Senhor...

Era Gracie, a jovem criada que haviam trazido com eles e que agora se sentia importante e cheia de satisfação por ter a suas ordens uma mulher para esfregar e fazer a lavagem de roupa durante cinco dias à semana e a um menino para trabalhar no jardim durante três. Não estava mal ter a tanta gente sob seu mando.

Sua promoção coincidia com a do Pitt, e se sentia muito orgulhosa disso.

—Sim, Gracie?—perguntou Pitt sem levantar-se.

—Há um cavalheiro que quer vê-lo, senhor; um tal Matthew Desmond.

Por um momento, Pitt ficou aturdido, sem mover um só músculo. Logo se levantou e se voltou para olhá-la.

—Mas disse Matthew Desmond? —repetiu como se não conseguisse acreditar.

—Sim, senhor—respondeu ela surpreendida—. Fiz mal deixando-o entrar?

—Não, é claro que não. Onde está?

—No saguão, senhor. Ofereci-lhe uma xícara de chá, mas recusou. Parece muito preocupado por algo, senhor.

—Bem—disse distraidamente, enquanto ia a caminho da porta envidraçada, que depois abriu para acessar à sala de estar. Ali tudo tinha adquirido um curioso tom dourado pelos últimos raios de sol, apesar de serem os móveis verdes e branco. —Obrigado— acrescentou dirigindo-se à Gracie por cima do ombro. Foi receber a visita com o coração acelerado e a boca surpreendentemente seca pela ansiedade e um sentimento não isento de certa culpa.

Por um momento se sentiu cheio de dúvidas, com uma mescla confusa de lembranças que emergiam do mais profundo da memória. Pitt tinha crescido no campo, na propriedade dos Desmond, onde seu pai era o guarda-florestal. Então só era um menino, assim como o próprio filho de Sir Arthur, um ano menor que ele. Ante a necessidade de que Matthew Desmond tivesse a alguém com quem brincar naquele enorme e formosa propriedade, a Sir Arthur pareceu o mais natural do mundo recorrer ao filho do guarda-florestal. E assim foi como os dois forjaram uma boa amizade desde o começo, que com o tempo se prolongou inclusive à época de estudos.

Sir Arthur decidiu ocupar-se também da educação daquele outro menino para ter com quem comparar as melhoras de seu próprio filho, compartilhando as mesmas aulas e competindo com ele.

Inclusive quando o pai do Pitt caiu em desgraça acusado injustamente de caça furtiva (não nas propriedades de Sir Arthur, mas nas de seu vizinho), a família pôde continuar vivendo na propriedade, ocupando vários cômodos nas dependências da criadagem e até permitiram que Pitt continuasse sua educação enquanto sua mãe trabalhava na cozinha.

Mas fazia já quinze anos que Pitt partira e pelo menos dez desde que tinha visto por última vez à Sir Arthur ou ao Matthew. Ficou por um momento ante a porta do vestíbulo com a mão na maçaneta; já não era só a culpa o que alimentava sua inquietação, mas um mau pressentimento.

Finalmente abriu a porta e entrou.

Matthew se voltou do aparador da lareira, junto à qual ficara esperando. Tinha mudado pouco: continuava igualmente alto e fraco, quase enxuto, com um rosto alongado, de feições irregulares e propensas à risada, embora agora não parecesse muito disposto a ela e apresentava um semblante de olheiras e bastante preocupado.

—Olá, Thomas — disse dissimulando sua impaciência, aproximando-se do Pitt e lhe estendendo a mão.

Pitt lhe estreitou a mão com força, lhe olhando nos olhos em busca de respostas.

Os rastros da dor eram tão evidentes que seria tão ofensivo como ridículo fingir não os ter visto.

—O que acontece?—perguntou Pitt pressentindo qual ia ser a resposta por muito que não gostasse desta.

—É meu pai — sentenciou Matthew laconicamente.—Morreu ontem.

Pitt não estava preparado para sentir aquela dor que agora lhe transbordava. Não tinha visto Arthur Desmond desde que se casara e tivera crianças. Só lhe tinha escrito para lhe comunicar todas aquelas coisas e agora se sentia só, como se lhe tivessem arrancado as raízes de coalho.

Seu passado, aquele que parecia que nunca ia mudar, de repente tinha desaparecido. E isso que nunca deixou de sonhar com sua volta a ele. Ao princípio, tinha preferido manter-se afastado de tudo por orgulho.

Só voltaria quando pudesse demonstrar que o filho do guarda-florestal tinha prosperado na vida com êxito e com honra. É claro, isso lhe levou muito mais tempo do que em sua ingenuidade tinha imaginado. Os anos foram passando e cada vez se fez mais difícil cortar essa distância que se impôs. E agora, sem prévio aviso, tudo lhe parecia mais impossível que nunca.

—Sinto muito—respondeu.

Matthew tentou um sorriso, como querendo lhe agradecer essas palavras, mas mal pôde esboça-la. Seguia com a angústia desenhada no rosto.

—Obrigado por ter—me dito — continuou Pitt. —Foi uma gentileza de sua parte. —Também era mais do que merecia, por isso se ruborizou envergonhado.

Matthew fez um dramalhão de rechaço ante aquela reação.

—Morreu — começou a dizer, e depois engoliu em seco e respirou fundo olhando fixamente ao Pitt—, morreu no clube, aqui em Londres.

Pitt estava a ponto de voltar a dizer que o sentia muito, mas se deu conta de que era inútil e preferiu calar.

—De uma overdose de láudano — continuou Matthew, procurando os olhos do Pitt em busca de compreensão, de alguma resposta que pudesse mitigar aquela dor.

—Láudano? —repetiu Pitt para assegurar-se de que tinha ouvido bem—. Por quê? Estava doente? Padecia talvez de...?

—Não!—interrompeu-lhe Matthew—. Não estava doente. Tinha setenta anos, mas gozava de boa saúde e era muito otimista. Não lhe acontecia nada – exclamou como zangado e ficando à defensiva.

—Então por que tomava láudano? —Como bom polícia, Pitt não se resignou a deixar de procurar a lógica daquele assunto apesar de seus sentimentos e os do próprio Matthew.

—Não tomava!—disse Matthew em tom desesperado—. Esse é o problema! Agora todos dizem que já era velho, que estava perdendo suas faculdades e que tomou uma overdose porque já não sabia o que fazia. —Lançava faíscas pelos olhos e parecia disposto a saltar sobre o Pitt no caso de que não lhe acreditasse.

Pitt visualizou a figura do Arthur Desmond tal e como o recordava: alto e sempre elegante, mas dessa maneira tão informal própria de quem está seguro de si mesmo e da naturalidade que possui, embora dê a sensação de aparente descuido.

A roupa que usava nem sempre combinava como devia; por muito que contasse com um valete, sempre conseguia escolher algo para que não fosse o que lhe aconselhavam. Mas aí radicava sua grande dignidade, quão mesmo no bom humor de seu rosto alongado e vigilante, algo que ninguém percebia já que sob nenhum aspecto queria chamar a atenção. Tinha sido um homem muito individualista, às vezes inclusive excêntrico, mas sempre com um sentido comum tão fora do normal, e tão compreensivo com as debilidades humanas, que teria sido a última pessoa no mundo em recorrer ao láudano. Claro que, se houvesse feito isso, teria sido perfeitamente capaz de tomar uma dose dupla por distração.

Mas não teria sido suficiente uma para enviá-lo diretamente para dormir?

Pitt recordava vagamente os largos períodos de insônia que Sir Arthur padecia fazia já trinta anos, quando Pitt ficava no salão de noite sendo menino. Sir Arthur se levantava da cama e começava a dar voltas na biblioteca até que achava um livro interessante, depois se sentava em uma das velhas poltronas de couro até que ficava adormecido com o livro aberto no regaço.

Matthew esperava uma reação do Pitt e permaneceu olhando-o fixamente com uma raiva cada vez maior.

—Mas quem diz isso?—perguntou Pitt.

Matthew ficou desconcertado. Não era precisamente a pergunta que esperava.

—Pois o médico, os sócios do clube.

—Que clube?

—OH, receio que não estou sendo muito claro, não é? O pai morreu no Morton Clube, a última hora da tarde.

—Pela tarde? E não de noite? —Pitt estava surpreso de verdade e não tinha por que fingir.

—Não! Esse é o problema, Thomas! —exclamou Matthew com impaciência—. Agora todos dizem que estava louco e que sofria uma espécie de demência senil. E não é verdade. É falso! O pai era o homem mais judicioso do mundo. Além disso, que eu saiba tampouco bebia conhaque. Só muito de vez em quando.

—E o que tem que ver o conhaque com tudo isto?

Matthew afundou os ombros e mostrou expressão de estar esgotado e completamente aturdido.

-sente-se indicou Pitt—. Já vejo que há mais coisas que ainda não me contou. Quer comer algo? Não tem bom aspecto.

Matthew esboçou um pálido sorriso.

—Não quero comer nada. E agora, deixa de preocupar-se por mim e me escute.

Pitt obedeceu e se sentou frente a ele.

Matthew se sentou ocupando só a borda da cadeira, inclinado para frente e incapaz de relaxar.

—Como já lhe disse, o pai morreu ontem. Achava-se no clube, estava quase toda a tarde ali. Quando o garçom foi dizer lhe à hora para saber se queria jantar algo, acharam—no em sua poltrona-disse Matthew com uma careta de dor—. Dizem que tinha bebido muito brandy, talvez muito, e acreditaram que ficara adormecido. Por isso ninguém o tinha incomodado antes.

Pitt não se atreveu a lhe interromper, mas começou a sentir uma grande tristeza pelo que já se imaginava que ia seguir.

—Naturalmente, quando quiseram falar com ele já estava morto – sentenciou Matthew com tom desolador. O esforço que fazia para que não lhe tremesse a voz era tão evidente, que, se tivesse tratado de outra pessoa, Pitt se teria sentido muito perturbado. E o que agora escutava era o eco de seus próprios sentimentos.

Não havia nada que perguntar. Não era um assassinato; nem sequer era um fato que fosse tão difícil de compreender. Tratava-se simplesmente de uma morte repentina, possivelmente mais do que costuma ser habitual, e por isso a impressão era mais forte. Olhando-o com um pouco mais de frieza, não era mais que uma perda dessas que cedo ou tarde sofre todo mundo.

—Sinto muito—disse Pitt quase em um sussurro.

—Não o entende! —exclamou Matthew com uma expressão que voltava a ser de raiva, e lhe lançou um olhar acusador. Depois aspirou profundamente e soltou o ar com um suspiro—. Verá: o pai pertencia a uma espécie de sociedade benéfica, ou pelo menos isso dizia ele, que leva a cabo muitas obras de caridade — começou a dizer Matthew, mas em seguida agitou a mão no ar como afastando aquela idéia—. Se lhe for franco, a verdade é que não sei do que se trata. Nunca me disse.

Pitt sentiu um calafrio, como se lhe tivessem delatado por algo.

—O Círculo Interior — disse com as palavras lhe chiando entre os dentes.

Matthew ficou gelado.

—Sabia! E por que você sabia e eu não?—perguntou ofendido, como assim Pitt tivesse traído sua confiança.

Procedente do piso de cima, ouviu-se um estrépito seguido de uns passos correndo, mas nenhum dos dois prestou atenção.

—Só é uma hipótese — respondeu Pitt com um sorriso que acabou em careta—. É uma organização que conheço um pouco.

Matthew endureceu a expressão do rosto, como se uma porta acabasse de fechar-se de repente ante sua própria ingenuidade, tornando—o desconfiado e deixando de ser o amigo, quase o irmão, que até agora tinha sido.

—Você também pertence a ela? Não, perdoa. É uma pergunta estúpida. Embora assim fosse, não me diria. Por isso sabe o do pai. E levavam todos estes anos sendo membros dessa organização? por que nunca me disse nada?

—Não, eu não pertenço a ela — respondeu Pitt asperamente—. Conheço—a há pouco e por motivos de trabalho.

Levei a julgamento alguns de seus membros e detive a outros por estar implicados em assuntos de fraude, suborno e assassinato.

Provavelmente sei muito mais que você sobre eles, sobretudo como são perigosos.

Charlotte falava no corredor com uma das crianças e deixou de ouvir o ruído de passos.

Matthew permaneceu em silêncio, com uma agitação interior que se refletia na expressão dos olhos e nas feições cansadas e vulneráveis do rosto. Ainda não se tinha recuperado do golpe; continuava sem acostumar-se à idéia de que seu pai tinha morrido.

Mal podia conter a dor, como a sensação de repentina solidão, de remorso e também de certa culpa, embora nem ele mesmo fosse consciente disso. Agora pensava em tudo o que não tinha feito com ele e no que nunca chegou a lhe dizer. Estava esgotado e retorcido além pela raiva que lhe consumia.

Primeiro se havia sentido decepcionado com respeito ao Pitt, talvez inclusive traído, para logo passar a um imenso alívio e outra vez à mesma sensação de culpa por ter duvidado dele.

Não era o momento de pedir desculpas. Matthew estava a ponto de derrubar-se.

Pitt lhe estendeu a mão.

Matthew a estreitou com tal força que os dedos perderam por um instante sua cor.

Pitt deixou que se desafogasse e depois quis voltar para assunto principal.

—Por que mencionou o Círculo Interior?

Matthew fez um esforço e começou a falar com mais tranqüilidade, embora continuasse inclinado para frente, com os cotovelos nos joelhos e as mãos segurando o queixo.

—O pai colaborava unicamente para as obras de caridade até recentemente, um ano ou dois, quando lhe promoveram de cargo na organização. Mais por acaso que por vontade, suponho.

E começou à saber muitas coisas deles, a que outras atividades se dedicavam e quem eram alguns de seus membros—disse franzindo o sobrecenho—. Sobre tudo no concernente a África.

—África?—perguntou Pitt desconcertado.

—Sim, especialmente Zambezia. É uma zona onde agora se está explorando muito. É uma história muito longa. Sabe algo?

—Não tenho nem a menor ideia.

—Bem, já imaginará que há muito dinheiro no meio e sobre tudo a possibilidade de fazer-se imensamente rico. Ouro, diamantes e terras, claro. Mas também há outras questões como a obra missionária, o comércio e a política externa.

—E o que tem que ver o Círculo Interior com tudo isto?

Matthew fez cara triste.

—Com o poder. Sempre tem que ver com o poder e com a partilha das riquezas. Em qualquer caso, o pai começou a dar-se conta de como influíam os membros do Círculo Interior na política do governo, e na Companhia Sul—Africana, sempre em benefício próprio e sem ter em conta o bem—estar dos africanos, nem o respeito pelos interesses britânicos. Preocupou-se tanto que começou a falar do tema.

—A outros membros de seu entorno?—perguntou Pitt temendo—o que Matthew estava a ponto de responder.

—Não... A qualquer um que estivesse disposto a escutá-lo — respondeu erguendo os olhos como querendo perguntar algo, e viu a resposta desenhada no rosto do Pitt—. Acredito que o assassinaram — sentenciou em voz baixa.

Fez-se um silêncio tão intenso que até podia ouvir o relógio que havia sobre a cornija da lareira. Fora, na rua, além das janelas fechadas, alguém gritou e a resposta lhe chegou desde muito longe, em algum jardim meio iluminado pela luz azulada do crepúsculo.

Pitt não rechaçou a idéia. O Círculo Interior era perfeitamente capaz de fazer algo assim em caso necessário. Podia duvidar-se de algo menos de sua capacidade e determinação por pura necessidade.

—O que dizia exatamente sobre eles?

—Então acredita no que estou dizendo?—perguntou Matthew—. Não parece que surpreenda—o o fato de que alguns membros destacados da aristocracia britânica, quão mesmos constituem a classe governante, os cavalheiros mais honoráveis do país, estejam dispostos a cometer um assassinato só porque alguém os critica em público.

—Acredito que já superei a primeira impressão de surpresa e estupor quando comecei a conhecer o Círculo Interior e seus propósitos e códigos de conduta — respondeu Pitt—. Tenho certeza de que não demorarei para voltar a sentir a raiva e o insulto que já conheço, mas de momento prefiro me limitar a compreender os fatos tal como são. O que é o que dizia Sir Arthur para que o Círculo Interior decidisse arriscar-se a assassiná-lo?

Pela primeira vez Matthew se reclinou na poltrona cruzando as pernas, embora sem afastar os olhos do Pitt.

—Criticava sua moral em geral—disse com mais serenidade—. O modo como se juram ajudar-se uns aos outros em segredo por cima daqueles que não pertençam ao Círculo, o que inclui a quase todos nós. E o fazem nos negócios, bancos, política e sociedade, embora este último é o que mais difícil lhes resulta. –E acrescentou torcendo um sorriso: — Além disso têm umas leis não escritas pelas quais decidem a quem aceitam e a quem não. E nada pode impedi—lo. A gente pode obrigar a um cavalheiro a ser amável porque lhe deve dinheiro, mas não conseguirá que se considere dos seus por muito elevada que seja essa dívida e embora nisso vá à vida.

—Nem sequer o via como algo curioso, nem tampouco quis procurar as palavras que definem essa qualidade tão intangível que faz que um cavalheiro se sinta tão seguro de si mesmo. Nada tinha que ver com a inteligência, nem com o êxito, nem com o dinheiro ou com um título de nobreza.

A pessoa podia ter todas estas coisas e entretanto não encaixar com esses critérios tão invisíveis. Matthew tinha nascido precisamente para isso e sabia, mas tomava como quem sabe montar a cavalo ou cantar sem desafinar: uns podem, e outros não.

—O que inclui a muitos cavalheiros —comentou Pitt em tom áspero, recordando outros casos nos quais se relacionara muito a seu desgosto com o Círculo.

—Isso é mais ou menos o que dizia o pai—disse Matthew mostrando-se de acordo e olhando ao Pitt com maior intensidade—. E se referia sobre tudo à África e ao modo em que estão controlando os bancos, cujos interesses controlam os investimentos dedicados à exploração e à colonização.

Agora vão da mão políticos que decidem se se empreende uma campanha para dominar o território desde a Cidade do Cabo até o Cairo ou se fazem concessões aos alemães para concentrar-se unicamente no sul. —Matthew deu de ombros em um gesto de aborrecimento—.

Como sempre, o ministro do Exterior anda revoando por toda parte dizendo uma coisa e ocultando suas verdadeiras intenções. Eu mesmo trabalho no Ministério de Assuntos Exteriores e lhe asseguro que sigo sem saber o que quer exatamente. Temos o ministério cheio de missionários, médicos, exploradores, aventureiros, busca vidas e alemães — disse mordendo o lábio em um gesto de tristeza—. Para não falar dos reis e príncipes guerreiros nativos a quem ao fim e ao cabo pertence à terra, até que a arrebatamos com qualquer tratado, claro. E se não o fazemos nós, farão-o os alemães.

—E o Círculo Interior?—perguntou Pitt impaciente.

—Movendo os fios sem que ninguém o veja—replicou Matthew—. Recorrendo a velhas lealdades em segredo, interferindo com sigilo e levando todos os benefícios.

Isso é o que dizia o pai. —Matthew se reclinou um pouco mais na poltrona e começou a dar mostras de serenar-se um pouco. Embora talvez já estava tão cansado que não podia manter-se erguido por mais tempo—. O que mais lhe incomodava era o secretismo que envolvia tudo. Fazer uma obra de caridade de forma anônima está bem e é algo perfeitamente honorável.

Os dois seguiam alheios aos ruídos que vinham do corredor do piso superior.

—A princípio ele acreditou que a missão da sociedade era essa e não outra — continuou Matthew—. Um punhado de gente se juntava para saber em que lugar se necessitava ajuda sem procurar nenhum benefício nisso, mas com meios suficientes para que sua intervenção resultasse mais que significativa.

Orfanatos, hospitais para indigentes, subvenções para investigar segundo que enfermidades, asilos para velhos soldados, já sabe, coisas assim. E o problema veio quando recentemente descobriu o que havia detrás de todo isso –disse mordendo outra vez o lábio como se pedisse desculpas por isso—. Acredito que o pai era um ingênuo. Você e eu nos teríamos dado conta de todo muito antes, mas está claro que pelo bem de muita gente julgou oportuno não me dizer nada.

Pitt lembrou-se do que já sabia sobre o Círculo Interior.

—Quer dizer que em nenhum momento lhe advertiram que aqueles comentários não eram convenientes ou, dito de outra maneira, que não gostavam absolutamente?

—Naturalmente! Claro que sim! Fizeram—no da forma mais cavalheiresca e discreta do mundo, mas não acredito que conseguisse entender de tudo. Jamais lhe tinha passado pela cabeça que no fundo fossem a sério—disse Matthew levantando as sobrancelhas e deixando que seus olhos castanhos parecessem divertidos ante a idéia e ao mesmo tempo doídos amargamente por ela.

Pitt sentiu de repente um grande respeito por ele e se deu conta do alcance de sua determinação, não só para limpar o nome de seu pai de qualquer suspeita de corrupção, mas também possivelmente para vinga-lo.

—Matthew — começou inclinando-se para frente.

-se for me dizer que o deixo correr, será melhor que economize saliva — interrompeu—o Matthew com decisão.

—Eu... —Isso era precisamente o que Pitt ia pedir lhe. Desconcertou-lhe que adivinhasse com tanta facilidade suas intenções—. Nem sequer sabe quem são — indicou—. Pelo menos, antes de fazer algo pense nisso muito bem — aconselhou em um tom que lhe pareceu pouco convincente e mais que previsível.

Matthew sorriu.

—Pobre Thomas, sempre fazendo de irmão maior. Já não somos crianças, sabe? Que seja um ano mais velho que eu não lhe dá nenhuma autoridade sobre mim. Nunca a teve, nem então nem agora. Claro que tomarei cuidado! Sei muito bem que nada posso fazer contra o Círculo e que é como uma hidra: corta-lhe uma cabeça, e lhe crescem duas mais—disse endurecendo a expressão do rosto.

Mas vou demonstrar que o pai estava em seu são julgamento, embora me custe à vida — sentenciou olhando fixamente ao Pitt sem pestanejar—. Se permitirmos que digam essas coisas sobre um homem como o pai, se não nos importar que o matem para fazê-lo calar nem que logo o desacreditem dizendo que estava louco, o que fica? No que nos convertemos? Que direito teremos a reivindicar nossa honra?

—Nenhum—respondeu Pitt com tristeza—. Mas é preciso algo mais que honra para ganhar esta batalha; necessitamos uma boa estratégia e armas bem afiadas — e acrescentou com uma careta: — embora talvez neste caso seria mais apropriada uma colher longa.

Matthew ergueu as sobrancelhas.

—Para jantar com o diabo? Sim, bem dito. você tem alguma, Thomas? Quer se unir a mim na batalha?

—É claro que sim—disse quase sem pensar; um instante depois lhe vieram à mente os perigos e as responsabilidades que aquilo implicava, mas já era muito tarde.

E, embora tivesse pensado bem nisso sopesando cada risco, teria tomado a mesma decisão. Embora talvez se teria economizado aquela sensação de angústia, ou teria compreendido melhor o alcance do risco que podiam correr e teria calculado com mais objetividade a margem de êxito que podiam esperar de sua atuação. Em qualquer caso, não teria feito mais que perder o tempo.

Matthew por fim se relaxou um pouco, apoiou a cabeça na toalha do espaldar da poltrona e sorriu. A expressão de cansaço e derrota já não era tão entristecedora. Agora quase recordava ao jovem que Pitt tinha conhecido tempo atrás, o mesmo com o que tinha compartilhado sonhos e aventuras.

Os dois tinham compartilhado um espírito rebelde e pletórico de vitalidade, sonhando com viagens impossíveis ao Amazonas e descobrimentos nas tumbas dos faraós, mas sempre com essa mansidão infantil apoiada em uma distinção elementar e caseira sobre o bem e o mal; sendo crianças, a pior maldade que podiam conceber era o roubo ou a simples violência. Ainda não conheciam a corrupção, a frustração, a manipulação e a traição. Que inocentes lhes pareciam agora aqueles meninos de então.

—Houve algumas advertências—disse Matthew de repente—. Então não soube distingui-las, mas agora me dou conta. Sempre que ocorreram, eu me achava em Londres e o pai me contava isso.

—Mas que tipo de advertências? —quis saber Pitt.

—Bom, não estou muito seguro da primeira — disse Matthew enrugando o rosto—.

Tal como o pai me contou isso, tudo passou-se quando quis fazer uma viagem na ferrovia subterrânea. Desceu as escadas que conduziam à plataforma e se dispôs a esperar a chegada do trem — E aqui Matthew se deteve de repente e perguntou ao Pitt—: esteve alguma vez em algum desses lugares?

—Claro, vou muito frequentemente. —Pitt reconstruiu em sua mente os corredores cavernosos, as longas estações onde o túnel se alongava para dar capacidade à plataforma onde o trem se detinha, o ruído infernal que fazia a máquina saindo da escuridão do túnel com um rugido até que se detinha na estação. Logo as portas que se abriam e a multidão saindo como a pressão. E outras pessoas que esperavam para subir ao trem antes que se fechassem as portas e de que aquele artefato com forma de verme voltasse a introduzir-se na escuridão.

—Então já conhece o estrondo que há e os empurrões e cotoveladas que se dão as pessoas—continuou Matthew—. Pois bem, o pai se achava perto da borda da plataforma e justo quando já se ouvia a chegada do trem, sentiu um empurrão muito forte nas costas que o impulsionou para frente até quase cair às vias, o que teria ocasionado sua morte. —A voz do Matthew se tornou mais grave, com um tom de agressividade contida—. Mas alguém o pegou a tempo e puxou—o para trás quando o trem já estava entrando na plataforma.

O pai me disse que se voltou para agradecer a quem o tinha ajudado, mas não pôde identificar à pessoa em questão, a seu salvador, ou quem sabe se seu atacante. Todo mundo andava muito ocupado em subir ao trem e ninguém lhe prestou atenção.

—Estava certo de que alguém o tinha empurrado?

—Absolutamente—disse Matthew e esperou que Pitt desse alguma amostra de ceticismo.

Pitt assentiu com a cabeça de uma forma quase imperceptível. Se se tratasse de outra pessoa, alguém a quem ele conhecesse menos, talvez tivesse duvidado de tudo aquilo, mas, a não ser que Arthur Desmond tivesse mudado até o extremo de tornar-se irreconhecível, era certamente a última pessoa do mundo em chegar a acreditar que alguém estivesse perseguindo—o.

Para ele todo mundo era bom, até que algo lhe obrigasse a pensar o contrário, e então se sentia surpreso e triste, sempre disposto a duvidar de seu próprio juízo sobre aquela pessoa e feliz de descobrir que efetivamente se equivocava.

—E a segunda advertência?—perguntou Pitt.

—A segunda tem que ver com um cavalo — respondeu Matthew—. Nunca me contou os detalhes — começou a dizer inclinando-se outra vez para frente e enrugando o cenho—. Tudo o que sei me disse depois o cavalariço, quando voltei para casa. Ao que parece, o pai se achava montando a cavalo pelo povoado quando um idiota se cruzou inesperada e rapidamente com a montaria desenfreada, agitando os braços e com o chicote na mão. Ao cruzarem os cavalos, o pai se viu empurrado contra o muro que rodeia o vicariato e viu como o outro cavaleiro o dava um terrível golpe com o chicote me seu cavalo.

Com o pobre animal aterrorizado, é claro o pai caiu ao chão. —Matthew suspirou muito devagar sem afastar o olhar do Pitt—. É possível que fosse um acidente, que aquele homem estivesse bêbado ou que fosse um completo imbecil, mas o pai não acreditou assim, nem eu tampouco.

—Não — corroborou Pitt com uma careta—. Nem eu. Era um cavaleiro excelente e certamente não era capaz de imaginar algo parecido de ninguém.

De repente, Matthew lhe mostrou um sorriso franco e generoso com o qual pareceu rejuvenescer.

—É o melhor que ouvi dizer dele em várias semanas. Por Deus bendito, tomara lhe ouvissem seus amigos. Agora ninguém se atreve a falar bem dele, nem sequer a reconhecer que estava em seu são julgamento, sem lhes importar o fato de que talvez tivesse razão no que dizia, Thomas—perguntou com uma voz quebrada pela dor—, o pai não estava louco, verdade que não? Era o homem mais sensato, honrado e bom que houve no mundo.

—Claro que sim— afirmou Pitt lentamente e com total sinceridade—. Asseguro-lhe que a loucura nada tem que ver com isto. Sei muito bem que o Círculo Interior castiga a todo aquele que o traia. Já o vi antes.

Às vezes recorrem ao descrédito social ou à ruína econômica e nem sempre ao assassinato, embora este último tampouco seja algo estranho para eles. Se não puderam intimidá—lo, e fica claro que não o conseguiram, não restou outra saída que o assassinato. Não podiam arruiná—lo economicamente porque seu pai não gostava das apostas nem tampouco especulava com o dinheiro. Tampouco podiam desacreditá—lo em sociedade porque não devia nenhum favor a ninguém, jamais procurou um cargo oficial nem confabulou com outras pessoas e se havia algo que lhe importasse nesta vida, certamente não era entrar no Tribunal Supremo ou fazer vida social em Londres.

A posição de que gozava no lugar onde vivia era inatacável, inclusive para o Círculo Interior. De modo que não tinham outra alternativa que matá-lo; era a única forma de ter calado para sempre.

—E depois desonram sua memória tirando crédito a tudo o que disse – afirmou Matthew com raiva e dor lhe escurecendo o rosto—. Não o permitirei, Thomas! Não o permitirei!

Alguém bateu na porta do salão saguão onde se achavam. Pitt voltou a dar-se conta de onde estava e de que fora já quase tinha anoitecido. Ainda não tinha jantado e Charlotte devia estar perguntando-se quem tinha vindo a visita-los e por que se colocaram no salão saguão com a porta fechada e sem prévia apresentação, ou por que não convidava para jantar à visita.

Matthew o olhou com expectativa e Pitt se surpreendeu ao ver uma careta de nervosismo lhe cruzando o rosto, como se não estivesse seguro do que fazer.

—Venha—disse Pitt levantando-se e dispondo-se a abrir a porta. Achou-se ao Charlotte com rosto de curiosidade e certa inquietação. Tinha terminado de ler um conto às crianças e pelo ligeiro rubor das faces e a desordem do cabelo, recolhido distraidamente com um alfinete, Pitt adivinhou que vinha da cozinha.

Já tinha esquecido que tinha fome—. Charlotte, apresento ao Matthew Desmond. –Era absurdo que não se conhecessem. Com ninguém mais tinha tido uma relação tão próxima como com o Matthew, excetuando a sua mãe, e às vezes inclusive mais que com sua mãe. Agora era Charlotte quem mais lhe importava no mundo e ninguém podia substituí-la.

Jamais a levou ao Brackley para que conhecesse seu antigo lar, nem para lhe apresentar a aqueles que tinham sido mais que uma família para ele.

Sua mãe tinha morrido quando ele tinha dezoito anos, mas isso não justificava uma ruptura tão radical.

—Encantada de conhecê-lo, Senhor Desmond — disse Charlotte com uma calma e uma segurança que Pitt atribuiu a sua educação mais que a qualquer sentimento interior. Logo adivinhou certa insegurança em seu olhar e compreendeu por que dava um passo e se aproximava de seu marido.

—É um prazer, senhora Pitt — respondeu Matthew sem poder dissimular sua surpresa ao ver que ela respondia com desafio a seu olhar. Nesse breve instante, depois de ter intercambiado simplesmente uma frase e um olhar, os dois souberam exatamente ante quem estavam, quais eram e que lugar ocupava cada um na sociedade—. Lamento muitíssimo esta intrusão, senhora Pitt—continuou Matthew—. Foi uma desconsideração por minha parte. Vim ver o Thomas para lhe comunicar a morte de meu pai e temo que esqueci as mais elementares normas de educação. Aceite minhas desculpas, por favor.

Charlotte olhou de esguelha a seu marido entre a surpresa e a compreensão, e depois se dirigiu ao Matthew:

—Desculpe a mim, senhor Desmond. Deve estar muito afetado. Há algo que possamos fazer por você? Quer que Thomas lhe acompanhe até o Brackley?

Matthew sorriu.

—Bom, senhora, em realidade vim pedir ao Thomas que averigue o que aconteceu com meu pai, e me prometeu que fará o que possa.

Charlotte tomou fôlego para dizer algo mais, mas logo se deu conta de que talvez não ia ser muito oportuna e preferiu calar.

—Quer jantar algo, senhor Desmond? Já suponho que não terá muita fome, mas lhe convém comer algo ou se sentirá pior.

—Sim—respondeu Matthew, lhe dando a razão—. É verdade.

Ela se fixou na dor e no cansaço que refletiam o rosto do Matthew e hesitou antes de tomar uma decisão, mas não era próprio dela andar-se com afetação.

—E por que não fica esta noite, Senhor Desmond? Acredite-me se lhe disser que estaremos encantados. Além disso, seria você o primeiro a passar a noite nesta casa depois da mudança. Se houver algo que necessite e que não leve consigo, Thomas poderá prestar-lhe sem problemas.

Matthew não teve que pensar duas vezes.

—Obrigado — respondeu imediatamente—. Prefiro a voltar agora para casa.

—Thomas lhe mostrará seu quarto e fará que Gracie o prepare tudo. O jantar estará pronto em dez minutos — disse ela, dando meia volta e retirando-se para a cozinha não sem antes dirigir um rápido olhar a seu marido.

Matthew permaneceu um instante no vestíbulo olhando também ao Pitt.

Em sua expressão podia ler a mescla de sentimentos que lhe passavam pela cabeça: surpresa, compreensão, lembranças do passado, as longas conversas, todos os sonhos compartilhados sendo crianças e a brecha que o tempo tinha aberto entre aquela época e o tempo presente. Não era preciso nenhuma explicação.

O jantar foi leve: frango frio, verdura e de sobremesa um sorvete de fruta. Não é que tivesse muita importância, mas Pitt agradeceu que a visita do Matthew se produzisse depois de sua promoção e não antes, quando só teriam podido lhe oferecer o sabido guisado de cordeiro com batatas, ou peixe, e pão com manteiga.

Falaram pouco e só de temas triviais, como o que tinham pensado fazer no jardim, o que iriam plantar, se todas as árvores frutíferas rendiam iguais ou que problemas traziam se não se podavam. Foi um bate—papo para encher o silêncio, longe de qualquer tento para fingir que tudo ia bem.

Charlotte sabia tão bem como Pitt que a dor requer seu próprio tempo, que, à força de querer evita-lo recorrendo a outros temas, o único que se consegue é aumenta-la, porque parece que lhe tira importância, como se a perda que se sofre não importasse.

Matthew se retirou logo a seu quarto, deixando a Charlotte e ao Pitt na saleta decorada em tons verdes e brancos. Chamá-la salão teria sido muito pretensioso, mas o certo é que tinha um encanto tão especial e se respirava tanta tranquilidade que servia perfeitamente para tal propósito.

—O que aconteceu?—perguntou Charlotte depois de esperar que Matthew tivesse subido as escadas para que não escutasse nada—. O que tem de estranho na morte de Sir Arthur?

Pouco a pouco, com mais dificuldade do que tinha imaginado, começou a lhe contar tudo o que Matthew lhe havia dito sobre Sir Arthur e o Círculo Interior, as advertências que segundo ele tinha recebido seu pai e por último sua morte por overdose de láudano no Morton Clube.

Ela escutava sem interrompê-lo e sem deixar tampouco de olhá-lo nos olhos.

Pitt se perguntou se a dor e a sensação de culpa que sentia por dentro se estavam tornando evidentes nos olhos de sua mulher. Nem sequer estava seguro de querer que ela soubesse.

Não era fácil sofrer tudo aquilo em silêncio, mas por nada do mundo queria que Charlotte o visse como ele se estava vendo a si mesmo, como alguém desconsiderado e insensível, depois de tantos anos de ausência, ao carinho que tinha recebido no passado.

Quão único agora podia fazer era devolver uma parte muito pequena dessa dívida tratando de restituir o bom nome de Sir Arthur por culpa de uma desonra que certamente não merecia.

Pode ser que ela notasse algo, mas, em qualquer caso, preferiu não dizer nada.

Charlotte podia ser a pessoa com menos tato do mundo, mas quando se tratava de alguém a quem de verdade queria, então, por amor era capaz de guardar como ninguém qualquer segredo e abster-se de emitir julgamentos.

—O do láudano é absurdo, me acredite—disse ele em tom grave—. Mas embora assim fosse, seja qual for o motivo neste momento o desconhecemos e o que não vou permitir é que se diga que perdeu o juízo. É... É algo indigno.

-sei—disse ela tomando a mão—. Não fala dele muito frequentemente, mas sei muito bem que lhe tinha muito afeto. Seria injusto que agora não o defendesse — disse com um olhar cheio de preocupação, e de repente não se sentiu muito segura de como devia reagir—, mas, Thomas...

—O que?

—Não deixe que a emoção...—começou a dizer escolhendo as palavras e omitindo qualquer referência a aquele sentimento de culpa, embora ele soubesse muito bem que ela já se dera conta de que assim era como efetivamente se sentia—. Não deixe que a emoção o cegue para se colocar neste assunto sem a devida prudência e preparação. Não são inimigos que possa tomar à ligeira nem seus métodos de luta são limpos.

Não lhe darão uma segunda oportunidade por muito aflito que esteja nem por muito que a lealdade lhe dê coragem nem o motive. Assim que saibam que está disposto a lutar contra eles, farão todo o possível para que caia nesses mesmos enganos.

Sei que nunca esquecerá a morte de Sir Arthur e que por esta razão, só pensará em derrota-los, mas tampouco esqueça o modo como acabaram matando—o, como conseguiram o que se propuseram e com que crueldade.

Charlotte estremeceu e começou a sentir-se cada vez mais preocupada, como se se tivesse assustado ante suas próprias palavras.

-se forem capazes de fazer isso com um dos seus, pensa no que farão com um inimigo como você — disse ela, e por um momento pareceu que ia acrescentar algo mais, talvez uma súplica para que pensasse duas vezes, para que sopesasse as possibilidades de conseguir algum triunfo, mas preferiu calar, possivelmente porque pensou que naquele momento não ia servir de nada.

Thomas sabia que ela era incapaz de enganá-la em algo, não tinha caráter nem temperamento para isso, e o mais certo é que estivesse aprendendo a ter um pouco de tato.

—Tenho que fazê-lo — disse ele pausadamente, respondendo à pergunta que ela não se atreveu a formular—. A alternativa é inaceitável.

Ela continuou sem dizer nada, mas agora lhe pegava a mão com mais força e permaneceu um bom momento sentada junto a ele.

Pela manhã Matthew se levantou tarde, de modo que Charlotte e Thomas já estavam tomando o café da manhã quando desceu à sala de refeições. Jemima e Daniel já estavam vestidos e Gracie os tinha levado ao colégio. Era esta uma nova tarefa que a enchia de satisfação, e caminhava radiante toda ela, com apenas um metro e meio de altura, sorrindo com amabilidade às pessoas que já conhecia ou a que tinha desejos de chegar a conhecer.

Charlotte suspeitava que no caminho de volta se entretivesse um momento com o ajudante do açougueiro, mas não lhe dava nenhuma importância.

Parecia um bom menino. Charlotte inclusive tinha chegado a passar pelo açougue em algumas ocasiões para lhe dar uma olhada e averiguar como era.

Matthew parecia mais descansado, mas ainda lhe notavam as olheiras, grandes e escuras; levava o espesso cabelo castanho com o risco no meio, mas parecia pouco arrumado e mal talhado, provavelmente como consequência de haver-se penteado com pressa e despreocupação.

Houve o costumeiro intercâmbio de saudações e Charlotte lhe ofereceu bacon, ovos, rins e pão torrado com geléia. Depois lhe encheu a taça de chá e Matthew comprovou como lhe queimava na boca ao bebê—lo, pois ainda estava muito quente.

Ao cabo de um momento de amistoso silêncio, Charlotte se desculpou e se retirou à cozinha a seus afazeres domésticos. Matthew aproveitou o momento e ergueu o olhar para o Pitt.

—Há algo mais que deveria lhe contar — disse com a boca cheia.

—O que?

—Corresponde-lhe como funcionário do governo — afirmou, e tomou outro gole de chá, esta vez com mais cuidado—. E a mim também.

—Refere-se ao Foreign Office?—perguntou Pitt surpreso.

—Sim, trata-se da África — disse franzindo o sobrecenho em um esforço de concentração—. Não sei se está informado dos tratados que assinamos, Não?

Bom, tampouco importa muito para o que lhe vou dizer. O certo é que chegamos a um acordo com a Alemanha faz quatro anos, em 1886, e esperamos assinar outro este mesmo verão. Claro que a situação mudou desde que Bismarck perdeu poder e desde que o jovem kaiser começou a dominar tudo.

Tem a seu lado a esse miserável do Carl Peters, que é ardiloso como uma raposa. Enquanto isso, Salisbury continua sem tomar uma decisão sobre o que quer fazer, e isso não facilita as coisas.

A metade de nós acredita que ainda aspira à dominação britânica de um corredor que uma Cidade do Cabo com o Cairo. A outra metade acredita que se esquecerá do assunto por resultar muito caro e complicado.

—Complicado?—perguntou Pitt desconcertado.

—Sim — respondeu Matthew agarrando outra torrada—. Para começar, recordo-lhe que entre a colônia da África do Sul e o Egito sob a dominação britânica há quase cinco mil quilômetros de distância. Isso implica tomar Suam, Equatoria (agora em mãos de um escorregadio cliente chamado Emín Baixem) e abrir um corredor ao oeste da África Oriental alemã: algo nada simples tendo em conta como estão as coisas. —Matthew lançou ao Pitt um severo olhar para comprovar que lhe estava seguindo.

Para ilustrar melhor o que lhe estava contando, começou a riscar linhas com o dedo sobre a mesa da cozinha—. Toda a zona que há ao norte do Transvaal, e isso inclui Zambezia e os territórios que há entre Angola e Mozambique, ainda estão em poder dos chefes nativos.

—Dou—me conta—disse Pitt vagamente—. E que alternativa há?

—Uma rota desde o Cairo até o Calabar—replicou Matthew, mordendo a torrada—, ou do Níger até o Nilo, como prefere. Isso implica atravessar o lago Chad e subir para o oeste tocando quase o Senegal, e logo tomar aos franceses Dahomey e Costa de Marfim.

—Uma guerra? —exclamou Pitt entre desconfiado e apavorado.

—Não, não; é claro que não — se apressou a esclarecer Matthew—. Seria em troca da Gambia.

—Ah, já vejo.

—Não, não vê nada. Ainda não. Ainda fica a questão da África Oriental alemã, onde agora há muitos problemas com levantamentos e várias matanças, e também Heligoland…

—Como disse? —Agora Pitt estava imerso na confusão total.

—Heligoland —repetiu Matthew com a boca cheia.

—Eu achava que Heligoland estava no mar do Norte. Ainda recordo quando nos ensinou isso Tarbet. Agora me inteiro de que está em alguma parte da África.

—E efetivamente está no mar do Norte, como nos disse Tarbet. —Tarbet tinha sido o tutor do Matthew quando era menino, e portanto também o do Pitt—. Trata-se de um lugar estratégico, ideal para que uma base naval bloqueie os principais portos alemães do Rin—explicou Matthew—.

Poderíamos ceder Heligoland aos alemães em troca de alguma de suas posses na África. Acredite-me se te disser que estariam encantados de fazê-lo desde que o negociarmos bem.

—Mas como se podem ter tantos problemas e tão complicados-disse Pitt sorrindo com ironia—. E além disso, para que quer que a polícia intervenha nisto? Não temos nenhuma autoridade na África, nem sequer no Heligoland.

—Mas sim a têm em Londres. E em Londres está o Ministério de Colônias, e também a embaixada alemã.

—Vá! —Apesar de si mesmo, agora sim via mais claro e começou a temer o pior.

E também a Companhia da sul—africana do Império Britânico –continuou Matthew—, e todos os bancos que financiam a exploradores e missionários, para não falar dos aventureiros, os que procuram aventuras e os que querem dinheiro.

—De acordo — concedeu Pitt—. Mas o que tem isso que ver com o que estamos falando?

O brilho do olhar risonho do Matthew desapareceu por completo e ficou muito sério.

—Porque há muitas informações do Ministério de Colônias que se estão filtrando à embaixada alemã, Thomas. Sabemos por que os alemães estão à corrente de todas nossas intenções, e isso é algo que não deveria estar acontecendo. Às vezes se inteiram de coisas inclusive antes que as saibamos no Foreign Office.

De momento, não parece que isto tenha provocado nenhum dano, mas poderia condicionar muito gravemente nossas possibilidades de êxito de cara a qualquer tratado com eles.

—Está—me dizendo que alguém do Ministério de Colônias está passando informação à embaixada alemã?

—Não vejo outra explicação possível.

—Mas que tipo de informação? Não é possível que se inteirem por outra fonte? Estou certo de que terão agentes na África Oriental, não?

-se soubesse algo mais sobre como funcionam os assuntos relacionados com a África não me faria esta pergunta—disse Matthew dando de ombros—.

Qualquer informe que se recebe é completamente diferente do anterior, e muitas das informações que contêm são suscetíveis de uma dúzia de interpretações, sobretudo no que concerne a chefes e príncipes nativos. O que os alemães sabem é precisamente a versão do Ministério de Colônias.

—Informação sobre o que, por exemplo?

Matthew bebeu o chá que restava na xícara.

—Pelo que sabemos, de momento se trata basicamente de informe sobre depósitos minerais e sobre tratados de intercâmbio entre diferentes feições e os chefes nativos. Sobretudo um da Zambezia chamado Lobengula. Fizemos todo o possível para que os alemães não estejam à corrente das negociações que já iniciamos neste assunto.

—Estão?

—É difícil saber, mas temo que sim.

Pitt bebeu seu chá, serviu-se de um pouco mais e pegou outra torrada. Adorava a geléia feita em casa; Charlotte a preparava com uma intensidade tal de sabor que ao toma-la parecia que a cabeça se enchia toda dela. Já se tinha dado conta de que ao Matthew também gostava.

—Então têm um traidor no Ministério de Colônias—disse muito devagar—. Quem mais está à corrente do que me contou?

—Meu imediato superior e o ministro, Lorde Salisbury.

—Ninguém mais?

Matthew esbugalhou os olhos.

—Pelo amor de Deus! É claro que não. Não nos parece conveniente que todo mundo se inteire de que no Ministério de Colônias há um espião. Nem tampouco queremos que o espião em questão saiba que já conhecemos sua existência. Temos que solucionar o assunto antes que cause um problema grave, e ainda então terá que manter isso em segredo.

—Eu não posso intervir sem a devida autorização — argumentou Pitt.

Matthew franziu o cenho.

—Eu mesmo lhe darei a autorização por escrito, se assim o quiser. Achava que lhe tinham promovido a superintendente. Para que quer mais autoridade do que já tem?

—É para o delegado, sobretudo se for interrogar ao pessoal do Ministério de Colônias—respondeu Pitt.

—Ah, claro; ele a necessitará.

—Acha que tudo isto tem algo que ver com o outro assunto?

Matthew enrugou as sobrancelhas por um momento e logo pareceu compreender a que se estava referindo.

—Meu Deus, espero que não! O Círculo Interior sempre cai muito baixo, mas nem me tinha ocorrido que pudesse estar envolvido em um assunto de traição como é o caso que nos ocupa. Não. Pelo que sei e pelo que o pai me disse, os interesses do Círculo Interior dependem de que Grã—Bretanha mantenha toda sua riqueza e poder na medida do possível. Qualquer perda britânica na África supõe também a sua. Uma coisa é que nos eles roubem, e outra muito distinta que o façam os alemães — disse sorrindo amargamente ante aquela ironia—. Por que o pergunta? Acha que há membros do Círculo Interior dentro do Ministério de Colônias?

—Provavelmente; o que lhe asseguro é que estão dentro da polícia, embora não sei em que nível.

—Possivelmente ao nível de um delegado?—perguntou Matthew.

Pitt terminou de comer a última torrada com geléia.

—É possível. Mas eu me refiro ao status que possam ocupar dentro do Círculo Interior. Não há nenhuma relação entre os dois e isso é o que faz que seja tão perigosos.

—Não o compreendo.

—Imagina que essa pessoa ostenta um grande poder político ou econômico — começou a explicar Pitt—; que é um recém—chegado ao Círculo e que débito certo grau de obediência a outro membro do Círculo que aparentemente não é nada importante no mundo. Nunca sabe de onde se exerce o verdadeiro poder.

—Mas então...—começou a dizer Matthew e logo baixou o tom da voz até que se fez inaudível e lançou a seu amigo um olhar de perplexidade. Isso explicaria muitos dos estranhos descobrimentos que temos feito — disse retomando a frase—. Uma rede de lealdades soterradas que funciona ao contrário do que parece, com uma dependência e uma força que vai além dos membros conhecidos do Círculo. — Matthew empalideceu e crispou os músculos do rosto—. Meu Deus, é terrível.

Jamais o teria imaginado. Não estranho que o pai estivesse tão angustiado. Sei muito bem por que estava zangado, mas nunca entendi por que se sentia tão impotente, ou pelo menos até este extremo. —Aqui se deteve e guardou silêncio, até que de repente decidiu prosseguir—: Mas por muito difícil que seja, tenho que tenta-lo. Não posso permitir que tudo fique assim.

Pitt não disse nada.

—Sinto—o—disse Matthew mordendo o lábio—. Não estava tentando me dissuadir, não é? Estou um pouco assustado de mim mesmo. Em qualquer caso, se ocupará do assunto das filtrações do Ministério de Colônias, não?

—É claro. Assim que chegue ao Bow Street. Suponho que se encarregará de que o Foreign Office solicite oficialmente a investigação, não é? Posso usar seu nome?

—Sim, claro — disse Matthew e logo colocou a mão em um bolso e extraiu um envelope que entregou ao Pitt—. Aqui tem a autorização por escrito. E, Thomas, obrigado.

—Pitt não soube o que dizer. Tirar importância ao gesto podia interpretar-se como que tampouco lhe importava sua amizade de forma que tudo ficasse em uma simples amostra de educação.

—O que vai fazer agora?—perguntou Pitt mudando de tema.

Matthew parecia realmente esgotado; a noite anterior, se é que algo tinha adormecido, certamente lhe tinha proporcionado um descanso muito superficial. Matthew deixou o guardanapo a um lado e se levantou.

—Tenho muitos assuntos pendentes. Citaram—me — começou a dizer tomando fôlego— depois de amanhã para a investigação judicial.

—Estarei ali.

—Obrigado.

—E o enterro?

—Dois dias depois. Em seis. Virá, verdade? Será no Brackley, claro. Enterraremo-lo no panteão familiar.

—Naturalmente que irei—disse Pitt, e também se levantou—. Aonde vai agora? Volta para casa?

—Não, não; a citação é aqui em Londres. Ainda tenho coisas que fazer.

—Tem alguém que...? Já sabe que pode voltar aqui quando quiser.

—Matthew sorriu.

—Obrigado, mas o melhor é que vá ver Harriet. Eu — começou a dizer com certo embaraço. Pitt esperou.

—Acabo de me comprometer em matrimônio — prosseguiu Matthew com um ligeiro rubor nas faces.

—Parabéns!—disse Pitt sentindo—o de verdade. Teria se alegrado igualmente em qualquer outro momento, mas agora tinha a sorte de contar com alguém que pudesse apoiá-lo e com quem compartilhar aqueles momentos tão difíceis—. Claro que tem que ir vê-la e lhe contar o que passou antes de que se inteire pelos jornais ou de que alguém o diga.

Matthew o olhou com expressão de recriminação.

—Thomas! Ela não lê os jornais!

Com um dramalhão, Pitt se deu conta de que acabava de dar uma gafe com respeito a uma convenção social. As mulheres não liam os jornais, excetuando as circulares da família real e as páginas de moda. Ele se tinha acostumado à Charlotte e a sua irmã, Emily, quem, desde que abandonou o lar paterno jamais aceitou restrição alguma sobre o que devia ler ou não. Até o próprio Lorde Ashworth, o primeiro marido de Emily, não teve mais remédio que ceder ante aquele insólito capricho.

—É claro. O que em realidade queria dizer é que alguém que leia o jornal pode chegar a comentar o disse desculpando-se—. Não acredito que seja a maneira mais apropriada de inteirar-se de tudo. Tenho certeza de que fará todo o possível para ajuda-lo no que possa.

—Sim, Eu...—começou Matthew dando de ombros—. É uma crueldade que me sinta tão feliz neste momento.

—Tolices! —cortou-lhe Pitt—. Sir Arthur seria o primeiro em lhe desejar todo o consolo que possa achar, e toda a felicidade também. Não acredito que seja necessário que eu lhe recorde isso. Deve sabê-lo por si mesmo, a não ser que tenha esquecido por completo a classe de homem que era. —Resultava estranho e doloroso falar dele no passado, e de repente, sem esperar, voltou a sentir-se cheio de dor.

Matthew devia estar sentindo algo parecido porque estava completamente pálido.

-sei. Mas eu... Ainda... Não posso. Em qualquer caso, irei vê-la. É uma mulher maravilhosa, Thomas. Você gostará. É a filha do Ransley Soames, do Tesouro.

—Outra vez parabéns! —exclamou Pitt lhe estendendo a mão em um gesto automático.

Matthew a estreitou e esboçou um sorriso.

—E agora será melhor que vamos —sugeriu Pitt—. Eu ao Bowl Street e você ao Ministério de Colônias.

—De acordo, mas antes queria me despedir da senhora Pitt e lhe agradecer por sua hospitalidade. Tomara... Tomara a tivesse apresentado ao pai, Thomas. Teria gostado muito...—disse engolindo em seco e afastando-se ligeiramente para dissimular aquela repentina perda de autocontrole.

-sei — concedeu Pitt emocionado—. É uma das muitas coisas das que me arrependo.—Abandonou a sala com discrição para deixar que Matthew se sobrepusesse a sós e subiu para procurar Charlotte.

Ao chegar à delegacia de polícia do Bowl Street teve a sorte de achar ali ao delegado Giles Farnsworth. Acudia só de vez em quando por estar ao comando de uma zona grandemente ampla; em qualquer caso, nunca costumava chegar àquelas horas. Pitt sabia que só podia chegar a ver-se com ele depois de um considerável esforço.

—Ah, bom dia, Pitt—lhe saudou Farnsworth energicamente. Era um homem bonito e de uma educação impecável, com o cabelo liso e brilhante, o rosto perfeitamente barbeado e uns olhos de um cinza azulado pelos quais se adivinhava uma grande equanimidade—. Chegou você no melhor momento. Mau assunto o roubo de ontem à noite no Great Wild Street. Levaram os diamantes de Lady Warburton.

Ainda não temos a relação completa das jóias roubadas, mas Sir Robert a terá lista antes do meio—dia. É um caso muito feio. Você ocupe-se pessoalmente, Sim?

Prometi a Sir Robert que o poria em mãos de meu melhor homem—disse sem incomodar-se sequer em esperar a resposta do Pitt. Tratava-se de uma ordem, não de uma sugestão.

Quando Micah Drummond teve que aposentar-se, recomendou que seu posto o ocupasse Pitt e o fez com tal ardor que Farnsworth não teve mais remédio que aceita-lo, embora com muitas reservas. A diferença do Drummond, Pitt não era um cavalheiro, nem tinha experiência alguma em um posto de mando, nem sequer como oficial no exército, algo que Drummond, por certo, também tinha feito.

Farnsworth costumava trabalhar com subordinados da mesma posição social do Drummond no cargo de superintendente. Entendiam-se à perfeição, conheciam as regras que os homens de categoria inferior desconhecem por completo, e se sentiam muito cômodos em sua afinidade.

Pitt jamais poderia equiparar-se socialmente com o Farnsworth e nunca existiria algo parecido à amizade entre os dois. O fato de que Drummond considerasse o Pitt como um amigo não deixava de ser um desses enganos inexplicáveis que inclusive os cavalheiros costumam cometer de vez em quando.

Mas sempre que ocorria isto, era porque se tratava de alguém com experiência e conhecimentos em algo sobre o qual podiam assessorá-los, como a criação de cavalos de raça, ou o desenho de um enorme jardim com toda classe de plantas e canteiros para cultivar boj ou lavanda, ou possivelmente algum brilhante mecanismo para construir fontes e cascatas. Pitt jamais tinha conhecido a alguém com semelhante desajuizado com respeito a um subordinado mais jovem.

-senhor Farnsworth — disse Pitt quando o outro já estava saindo pela porta.

—Sim? —Farnsworth estava surpreso.

—Naturalmente me ocuparei dos diamantes de Lady Warburton se assim o quiser, mas preferiria que pusesse ao Tellman em meu lugar para que assim possa me ocupar de um assunto no Ministério de Colônias, aonde me informaram que alguém está filtrando informações muito importantes relacionadas com nossos interesses na África.

—Como? —Farnsworth estava consternado. Girou sobre os calcanhares e olhou fixamente ao Pitt—. Não sei nada disso! Por que não me informou imediatamente? Ontem estive localizável todo o dia, e anteontem também. Teria me encontrado facilmente se houvesse tentado. Aqui dispõe de um telefone. Já vai sendo hora de que instale um em sua própria casa.

Terá que ficar em dia, Pitt. Estes inventos modernos servem para que os usemos todos, e não só para que se entretenham um momento quem tem mais dinheiro e imaginação que bom senso. Mas o que lhe passa? É você muito antiquado. Muito obstinado!

—Faz só uma hora e meia que o soube — replicou Pitt com satisfação—. Justo antes de sair de minha casa. Tampouco me parece um assunto muito adequado para tratar por telefone; em qualquer caso, convém saber que tenho telefone.

—E se não é um assunto muito adequado para tratar por telefone, me diga então como se inteirou? —quis saber Farnsworth em um tom igualmente satisfeito e irônico—. Se o que queria era a maior discrição possível, talvez devesse ter ido primeiro ao Ministério de Colônias para estar mais seguro antes de vir aqui.

Tão convencido está de que essa informação que se filtra é tão importante? Talvez, levado por um excesso de zelo esqueceu que não tem os suficientes elementos de julgamento para discernir a gravidade dessa informação tal como sugere. Possivelmente se trate de um equívoco.

Pitt sorriu e colocou as mãos nos bolsos.

—Um funcionário do Foreign Office veio ver—me—respondeu— seguindo instruções de Lorde Salisbury, e me pediu oficialmente que investigasse o assunto. A informação de que estamos falando se filtrou à embaixada alemã, razão pela qual já estão à corrente de quase tudo. Como vê, não se trata de que uns simples papéis tenham passado de um lado ao outro.

Farnsworth estava boquiaberto, mas Pitt não lhe permitiu falar.

—Os alemães conhecem perfeitamente muitas de nossas intenções com respeito às posses da África Oriental, da Zambeze e do possível corredor britânico que una Cairo com Cidade do Cabo.

Claro que se os diamantes de Lady Warburton são tão importantes...

—Ao diabo com Lady Warburton e seus diamantes! —estalou Farnsworth—. Tellman se ocupará disso. —E acrescentou com uma expressão de rancor deslocando as impecáveis feições de seu rosto—: Antes disse que enviaria a meu melhor homem, mas não hei dito quem. Não vá pensar agora que isso depende do cargo que se tem. Vá imediatamente ao Ministério de Colônias. Dedique-se a isso em corpo e alma, Pitt. Não quero que se dedique a nenhum outro assunto até que isto esteja resolvido. Compreendeu—me? E pelo amor de Deus, homem, seja discreto!

Pitt sorriu.

—Sim, senhor Farnsworth. De fato isso é o que ia fazer até que surgiu o assunto de Lady Warburton.

Farnsworth lhe lançou um olhar feroz, mas não respondeu nada.

Pitt abriu a porta. Farnsworth saiu. Pitt o seguiu e chamou o sargento de guarda ordenando que fossem procurar ao inspetor Tellman.

 

Pitt pôs-se a caminhar pelo Bowl Street em direção ao Strand, e uma vez ali parou um cabriolé e deu instruções ao cocheiro para que o levasse ao Ministério de Colônias, na esquina do Whitehall com o Downing Street.

O cocheiro o olhou ligeiramente surpreso, mas depois de um instante de vacilação, apressou ao cavalo e se incorporou à maré de trânsito que se movia para o oeste.

Pitt dedicou o trajeto a repassar mentalmente o que lhe tinha contado Matthew e a pensar na maneira em que ia confrontar o assunto assim que chegasse ao Whitehall.

Já tinha lido a carta de autorização do Matthew e as breves indicações e detalhes que continha, mas pouco ou nada se deduzia por seu conteúdo da natureza ou grau de dificuldade que ia achar no momento de solicitar cooperação.

O cabriolé avançava devagar, detendo-se cada vez que se metia na confusão de carruagens, carruagens, carruagens e ônibus procedentes do Strand e do Wellington Street onde Pitt o tinha tomado. Pouco a pouco cruzaram Northampton Street, Bedford Street, King William Street e Duncannon Street até dar com a Charing Cross.

Todo mundo tinha pressa e pedia preferência. Os cocheiros gritavam uns aos outros. As rodas de um brougham[1] e de uma carruagem fúnebre ficaram travadas, provocando uma obstrução ainda maior. De um carruagem pesado, dois jovens tentavam abrir caminho a gritos e um vendedor de fruta e verdura estava brigando com outro que vendia bolos.

Passaram quinze minutos até que a carruagem do Pitt pôde por fim virar à esquerda para entrar pelo Whitehall e dirigir-se até o Downing Street, aonde se deteve. Ali mesmo se aproximou o policial que montava guarda para lhe perguntar o que queria.

—Sou o superintendente Pitt e vou ao Ministério de Colônias — lhe anunciou mostrando seu cartão.

O cocheiro abriu os olhos picado pela curiosidade.

—A suas ordens, senhor. —O agente o saudou de forma impecável e ficou firme. — Não o tinha reconhecido, senhor.

Pitt pagou ao cocheiro e se dirigiu para as escadas plenamente consciente de que não era uma pessoa da qual pudesse dizer-se que era impecável, sobretudo na maneira de vestir, a diferença dos funcionários e diplomatas. Estes, com seus elegantes fraques de colarinho de dupla ponta e as calças listadas, iam e vinham passando ante ele com seu guarda—chuva fechado, por muito que naquele primeiro dia de maio fizesse um tempo esplêndido.

—Sim, cavalheiro?—perguntou-lhe um jovem no mesmo momento em que entrou no edifício—.

Posso lhe ajudar em algo?

Pitt voltou a mostrar o cartão que lhe creditava como superintendente, embora ele mesmo reconhecia que seu aspecto exterior não encaixava muito com o cargo.

Como sempre, levava o cabelo muito longo, de forma que os cachos apareciam sob o chapéu e caíam em desordem sobre o pescoço. Tinha que reconhecer que a jaqueta era boa, mas com aquela mania de colocar toda classe de coisas nos bolsos a roupa já se deformara; além disso, não usava colarinho duro nem de dupla ponta e a gravata mais parecia um capricho alheio ao traje que outra coisa.

—Sim, por favor — respondeu imediatamente—. Desejaria tratar um assunto muito confidencial com o funcionário de maior status que haja disponível.

—Concederei-lhe uma entrevista — respondeu o jovem sem alterar-se—. Talvez iria bem depois de amanhã? Esse dia poderia lhe atender Senhor Aylmer. Além disso, tenho certeza de que estará encantado de falar com você. É o ajudante do senhor Chancellor. É um homem muito bem informado.

Pitt já conhecia o nome do Linus Chancellor, Secretário de Estado para os assuntos coloniais, assim como qualquer outro cidadão de Londres. Era um dos políticos mais brilhantes e com mais futuro e não eram poucos os que afirmavam que cedo ou tarde acabaria presidindo o governo.

—Não, impossível — disse sem perder a compostura e olhando ao jovem nos olhos até ver neles um vislumbre de ofensa e estupefação—. Se trata de um assunto extremamente urgente que terá que atender o antes possível. Também é confidencial, de modo que não posso lhe dizer do que se trata. Venho a pedido do Foreign Office. Pode consultá—lo com Lorde Salisbury se assim o desejar. De momento, prefiro esperar ao senhor Chancellor.

O jovem engoliu em seco sem saber muito bem o que devia fazer e olhou ao Pitt com desagrado.

—Sim, senhor, informarei ao escritório do senhor Chancellor e lhe trarei sua resposta. —Voltou a olhar o cartão do Pitt e desapareceu escada acima.

O jovem demorou para voltar quase um quarto de hora, espera que Pitt julgou insultante.

-se tiver a amabilidade de me acompanhar, senhor — disse o jovem friamente.

Girou sobre seus calcanhares e lhe guiou pelas escadas até dar com uma porta de mogno, a qual bateu com os dedos, e da que logo se afastou para deixá—lo entrar.

Linus Chancellor rondava os quarenta e era um homem dinâmico, com a fronte larga e o cabelo escuro caindo sobre as sobrancelhas, o nariz proeminente e uma boca grande que prodigalizava senso de humor, agilidade mental e força de vontade.

Transmitia seu encanto pessoal de forma espontânea, quase sem propor-lhe e sua facilidade de palavra lhe permitia dizer esse tipo de coisas que outros tentam e nunca conseguem dizer. Era magro, de estatura considerável e imaculado em sua maneira de vestir.

—Bom dia, superintendente Pitt — disse levantando-se de uma poltrona situada atrás de uma magnífica escrivaninha e lhe oferecendo a mão. Pitt a estreitou e sentiu seu apertão firme e decidido—. Me informou que tem uma mensagem urgente e confidencial —e dizendo isto, com um movimento da mão convidou—o a sentar-se em outra poltrona enquanto ele também tomava assento—. Será melhor que comece. Disponho só de dez minutos até minha próxima entrevista. Temo que não posso lhe dedicar mais tempo. Tenho que despachar no Número Dez.

Não necessitava mais explicações. Se a entrevista era com o primeiro—ministro, tal como tinha dado a entender, não podia permitir-se nenhum atraso, por muito importante que fosse o que Pitt tinha que lhe dizer.

Além disso, tinha servido de contundente afirmação sobre a importância de seu cargo e de seu próprio tempo. Não estava disposto a que Pitt o subestimasse.

Pitt se sentou na poltrona de madeira esculpida e estofado em couro que lhe tinha indicado e começou a falar.

—Matthew Desmond, do Foreign Office, informou—me esta manhã que certa informação concernente às negociações que o Ministério de Colônias está levando a cabo sobre a exploração e o comércio na África, concretamente na Zambeze, caiu em mãos da embaixada alemã.

Não era preciso que acrescentasse nada mais. Chancellor lhe estava prestando toda sua atenção.

—Pelo que sei, só o senhor Desmond, seu imediato superior e Lorde Salisbury estão à corrente da situação — continuou Pitt—. Devo solicitar sua autorização para poder investigar desde este ministério.

—Claro, é claro. Imediatamente. Isto é muito grave — disse abandonando o tom de amável afetação de antes e falando com uma determinação que não deixava lugar a equívocos—. E se pode saber a que classe de informação se está referindo? Disse o senhor Desmond? Está seguro de que realmente sabe do que se trata?

—Desconheço os detalhes—respondeu Pitt—. Suspeito que tem algo que ver com os direitos de exploração de minerais e com os tratados que fazemos com os chefes nativos.

Chancellor pôs um semblante sombrio e apertou com força os lábios.

—Isto poderia ser muito grave. Nosso futuro na África depende em grande parte disso. Suponho que já o terá dito o senhor Desmond, não? Claro, como não.

Quero lhe pedir que me tenha informado, Senhor Pitt. Pessoalmente. Também espero que tenha investigado a possibilidade de que essa informação tenha chegado aos alemães através de sua própria gente—disse sem abrigar a menor esperança sobre o que acabava de dizer, só por pura formalidade—. Não esqueça que dispõem de muitos exploradores, aventureiros e soldados na África Oriental, especialmente ao longo da costa de Zanzíbar.

Não quero aborrecê—lo com os detalhes de seus tratados com o sultão do Zanzíbar, com levantamentos de povoados inteiros nem com episódios de violência. me acredita se lhe disser que sua presença na zona é mais que considerável.

—Não pude averiguá—lo por minha conta, mas é o primeiro que perguntei ao Senhor Desmond — respondeu Pitt—. E me assegurou que não, sobre tudo pelo detalhado da informação e porque é exatamente a mesma versão que temos nós em umas questões suscetíveis de muitas interpretações.

—Ah— disse Chancellor assentindo com a cabeça—. Nesse caso, supõe você que se trata de uma traição, senhor Pitt. E talvez a um nível muito alto. Diga—me então o que se propõe fazer.

—A única coisa que posso fazer é investigar a todo aquele que tenha tido acesso à informação que se filtrou. Suponho que não estaremos falando de muitas pessoas.

—Certamente que não. O senhor Thorne é o responsável por assuntos africanos. Comece com ele. E agora terá que me perdoar, superintendente; chamarei o Fairbrass para que o acompanhe até a saída.

Às quatro e quinze desta tarde terei um momento livre. Agradeceria-lhe que me informasse de qualquer avanço que se produziu na investigação ou de sua impressão pessoal sobre o caso.

—Sim, senhor. —Pitt se levantou e quase ao mesmo tempo o fez Chancellor. Um jovem, certamente o tal Fairbrass, apareceu ante a porta e depois de escutar umas breves instruções por parte do Chancellor, conduziu ao Pitt ao longo de vários corredores elegantes até chegar a um grande escritório magnificamente mobiliado como aquele do qual vinha.

Havia uma placa na porta com o nome do Jeremiah Thorne; Fairbrass devia sentir um temor tão reverencial por Thorne que nem sequer se incomodou em informar ao Pitt de quem era. Bateu com prudência e esperou para escutar a resposta; só então virou o trinco e entrou.

-senhor Thorne, tenho aqui a um tal superintendente Pitt, do Bowl Street, acredito. O senhor Chancellor me pediu que o acompanhasse até seu escritório . —E dito isto, deteve-se bruscamente, ao dar-se conta de que não sabia nada mais. Retirou-se para trás e empurrou um pouco mais a porta para que Pitt pudesse entrar.

A primeira vista, Jeremiah Thorne não parecia muito diferente de seu superior político, embora havia uma diferença no porte que se notava em seguida, embora fosse igualmente indefinível. Estava sentado atrás de sua escrivaninha, mas também parecia muito alto. Tinha os olhos separados, o cabelo moreno, espesso e bem penteado, assim como uma boca ampla e generosa. Era um funcionário do Estado, não um político, apesar de que a diferença entre uma coisa e outra era muito sutil para tê—la em conta.

O aprumo com o que atuava tinha sua raiz na segurança da qual levava gozando desde há várias gerações, em sentir-se como o poder oculto detrás dos que pugnavam por um ministério, e cujo posto dependia da boa opinião de outros.

—Como está você, superintendente?—perguntou em um tom de pretendido interesse—. Entre, entre. O que posso fazer por você? Possivelmente algum delito colonial que seja do interesse de nossa polícia metropolitana?—disse sorrindo—. E encargo na África, suponho, porque se não, não o teriam enviado a este escritório.

—Não, senhor Thorne — disse Pitt entrando na sala e sentando-se na poltrona que lhe indicava. Esperou que Fairbrass fechasse a porta e se afastasse pelo corredor—. Receio que o delito se cometeu quase com toda certeza aqui, no Ministério de Colônias —afirmou respondendo à pergunta—. Se se comprovar que existe o delito, o senhor Chancellor me autorizou a investigá—lo.

Queria lhe fazer algumas perguntas, senhor. Desculpe-me se lhe roubo seu tempo, mas é muito importante.

Thorne se reclinou na poltrona e cruzou os braços.

—Nesse caso, comece quando quiser, superintendente. Poderá me dizer de que delito se trata?

Pitt não quis responder diretamente. Jeremiah Thorne conhecia pelo privilégio de seu cargo quase toda a informação concernente ao Ministério de Colônias. Não havia por que descartar a possibilidade de que ele mesmo fosse o traidor, por muito pouco provável que parecesse que alguém tão importante pudesse sê—lo. Outra possibilidade era que por descuido tivesse advertido ao traidor por não acreditá—lo capaz de ser um agente duplo, ou de que o tivesse alertado por pura inexperiência na hora de suspeitar de um de seus próprios colegas.

Mas se aquele homem era tão ingênuo para não compreender o propósito do interrogatório, então era um incompetente que não merecia ocupar tão alta responsabilidade.

—Preferiria não dar detalhes até ter certeza de que efetivamente se produziu o delito—disse Pitt de modo evasivo—. Queria que me dissesse algo de seus principais colaboradores.

Thorne o olhou desconcertado, mas se notava que o estava tomando com bastante humor, como querendo dissimular qualquer inquietação, se é que esta existia.

—Para qualquer assunto relacionado com a África sempre informo imediatamente ao Garston Aylmer, o ajudante do Chancellor—disse com tranqüilidade—. É uma pessoa excelente e uma mente privilegiada. Saiu de Cambridge com honra, mas já imagino que o que menos lhe interessa dele é seu expediente acadêmico — disse erguendo um ombro apenas um centímetro—. Não, claro que não. Veio ao Ministério de Colônias diretamente da universidade. Fará isso uns quatorze ou quinze anos.

—Então terá já perto de quarenta, não?—interrompeu-lhe Pitt.

—Trinta e seis, acredito. É um homem excepcional, superintendente. Licenciou-se aos vinte e três—disse, e por um momento pareceu que ia acrescentar algo mais e que tinha decidido não fazê-lo. Esperou pacientemente a que Pitt continuasse.

—Em que especialidade, senhor?

—Oh, clássicas.

—Já vejo.

—Me parece que não. —Os olhos do Thorne voltavam a sorrir com um brilho que mais parecia uma risada contida—. É muito bom em sua especialidade e sabe muito de história. Vive no Newington, em uma casita de sua propriedade.

—Está casado?

—Não, não o está.

Mas não deixava de ser curioso que vivesse em um lugar como Newington, situado ao sul do rio, do outro lado da ponte do Westminster e ao leste do Lambeth.

Não estava longe do Whitehall, mas não era muito adequado para um homem com um cargo tão importante e certamente muito ambicioso. Pitt o tinha imaginado vivendo no Mayfair ou em Belgrave, ou talvez na Chelsea.

—E que planos tem para seu futuro, senhor Thorne?—perguntou—. É possível que o promovam? —Agora havia certa malícia na voz do Thomas, embora fosse muito difícil adivinhar no que pensava.

—Suponho que sim. Com o tempo poderia ocupar meu posto, embora também é possível que chegue a dirigir qualquer outro departamento do Ministério de Colônias. Acredito que seu maior interesse está na Índia e o Longínquo Oriente.

—Superintendente, de verdade tem algo que ver isto com esse delito que tanto o preocupa? Aylmer é um homem honrado do qual jamais ouvi nem a menor inconveniência, e muito menos algo que lhe desonra. Nem sequer acredito que bebe.

Havia muito mais perguntas que fazer, por exemplo, sobre sua situação econômica ou sua reputação pessoal, mas Pitt não ia insistir com o Thorne. Aquilo ia ser exatamente tão difícil como tinha esperado, e não gostava. Mas, por outro lado, Matthew tampouco ia realizar alguma acusação se não estivesse seguro de sua existência. Alguém da seção africana do Ministério de Colônias estava filtrando informação à embaixada alemã.

—Quem mais, senhor Thorne?—perguntou em voz bem alta.

—Quem mais? Peter Arundell. Encarrega-se dos assuntos relacionados com o Egito e o Suam—respondeu Thorne. Logo seguiu uma descrição mais ou menos detalhada e Pitt esperou que terminasse. Não queria delatar seu interesse específico pela Zambeze. Gostaria de confiar no Thorne, mas esse era um luxo que não podia permitir-se.

—E? —atalhou Pitt em um momento em que Thorne pareceu hesitar.

Thorne franziu o cenho, mas seguiu com a descrição de outros responsáveis pelas demais zonas do continente africano, incluindo o Ian Hathaway, ao cargo do Mashonaland e Matabeleland, duas regiões que, unidas, formavam Zambeze.

—De todos nossos colaboradores, é o que tem mais experiência, embora seja um homem modesto—disse Thorne com calma, olhando fixamente ao Pitt da mesma cômoda postura com a que se instalara na poltrona—. Deve ter uns cinqüenta anos. Faz muito tempo ficou viúvo. Suponho que sua mulher morreu sendo bastante jovem e nunca se tornou a casar. Tem um filho no exército colonial, em Suam, e outro está em missões, mas não recordo onde.

O pai do Hathaway tinha um cargo importante na Igreja; era arquidiácono ou um pouco parecido. Era do oeste, do Somerset ou Dorset, acredito. Hathaway vive ao sul do Lambeth, justa em frente da ponte Vauxhall.

Devo reconhecer que sei muito pouco de sua situação econômica. É uma pessoa muito ciumenta de sua intimidade, muito modesta, mas é simpático e sempre tem uma palavra amável para todo mundo.

—Bem, obrigado. —Não era um começo muito promissor, mas teria sido esperar muito ter algum dado decisivo naquela fase da investigação. Agora não estava muito seguro se perguntava ao Thorne se podia lhe dar detalhes sobre o caminho que seguia a informação dentro do edifício, ou se talvez devia lhe ocultar a natureza do delito e investigar primeiro as vidas do Aylmer, Hathaway e Thorne com a esperança de achar qualquer debilidade ou engano neles de que pudesse extrair-se alguma conseqüência.

—E isso é tudo, superintendente—disse Thorne rompendo o silêncio—. Além dos que já mencionei, só ficam empregados de escritório, mensageiros e secretários de categoria inferior. Se não me disser que tipo de infração está investigando, embora só seja uma indicação de caráter geral, dificilmente poderei lhe ajudar mais. —Não se tratava de uma queixa, mas sim de uma observação e Thorne seguia com a ligeira careta de ironia no rosto.

Pitt quis experimentar evitando dar uma resposta clara.

—Ao que parece, há alguma informação que não foi parar a boas mãos e é possível que tenha saído deste ministério.

—Ah — disse Thorne sem fazer expressão de espanto que tinha posto Chancellor. Em realidade, nem sequer parecia muito surpreso—. Devo entender que se trata de uma informação de caráter econômico, ou pelo menos que graças a ela se possa obter um benefício econômico? Temo que esse risco é inevitável em um lugar de tão grandes oportunidades como é agora a África.

O continente negro—continuou, torcendo a boca— foi um foco de atração para oportunistas, mas também para os que querem estabelecer-se, colonizar, explorar, caçar grandes animais ou salvar as almas dos nativos e estender o cristianismo ali onde reina a ignorância e impor a lei e a civilização do Império Britânico aos povos pagãos.

A experiência tinha saído mau, mas para Pitt já ia bem que o assunto ficasse flutuando no ar.

—Em qualquer caso, terá que fazer o possível para impedir – acrescentou muito sério.

—É claro — corroborou Thorne—. Conte com toda a colaboração que eu possa lhe dar, mas temo que não sei nem por onde começar. Seria muito duro acreditar que qualquer das pessoas que lhe mencionei é capaz de cair tão baixo, mas talvez possam lhe dizer algo que lhe ajude ou seja quem é o culpado. Já falarei com eles a respeito. —E acrescentou voltando a inclinar-se—: Obrigado por vir a mim primeiro, superintendente. Foi muito considerado de sua parte.

—Absolutamente – respondeu Pitt sem lhe dar importância—. Acredito que começarei por averiguar que caminho segue a informação em geral, embora não seja de tipo econômico, e assim saberei exatamente quem tem acesso reservado a ela.

—Parece—me excelente — disse Thorne, levantando-se, o qual indicava que dava a entrevista por terminada—. Incomodaria—o ter a alguém a seu lado para lhe guiar pelos canais do sistema? Ou prefere fazê-lo só? Receio que ignoro por completo os procedimentos da polícia.

-se pudesse prescindir de alguém, economizaria—me muitíssimo tempo.

—É claro. —Thorne estendeu a mão e puxou um cordão com luxuosos adornos que tinha junto à escrivaninha e ao cabo de um instante se apresentou um jovem procedente do escritório do lado—. OH, Wainwright—disse, como se tivesse aparecido por acaso—. Este é o superintendente Pitt, da polícia do Bowl Street, e tem que realizar algumas investigações. Trata-se de algo muito confidencial.

Rogo-lhe que o acompanhe aonde ele o solicite e que lhe mostre o procedimento habitual que segue a informação que recebemos da África, ou que trate da África, embora proceda de outra fonte. Ao que parece, produziu-se uma irregularidade –disse pondo uma delicada ênfase na palavra, mas sem dar nenhuma explicação—. Convém que ninguém saiba exatamente o que está fazendo você nem quem é o senhor Pitt.

—Sim, senhor — respondeu Wainwright um pouco surpreso, mas como aspirante a bom funcionário do Estado, nem sequer deixou que seu rosto delatasse a menor reação, e muito menos se atreveu a dar uma opinião. E dirigindo-se ao Pitt, disse-lhe—: Como está, senhor? Se tiver a amabilidade de me acompanhar, mostrarei-lhe os diferentes tipos de informação que recebemos e o que ocorre a partir do momento em que chega.

Pitt agradeceu a Thorne e seguiu ao Wainwright. O resto do dia o passou inteirando-se meticulosamente de como se recebia a informação desde todas as fontes possíveis, quem a enviava, onde se armazenava, como se transmitia e quem tinha acesso reservado a ela. Por volta das três e meia já tinha comprovado por si mesmo que os detalhes que lhe tinha dado Matthew Desmond estavam parcialmente ao alcance de muitas pessoas, mas a totalidade da mesma passava só pelas mãos de uns poucos: Garston Aylmer, Ian Hathaway, Peter Arundell, um tal Robert Leicester e o próprio Thorne.

Entretanto, preferiu não informar sobre isto ao Chancellor quando retornou a seu escritório às quatro e quinze e o achou disponível tal e como lhe tinha prometido.

Simplesmente lhe comunicou que lhe tinham dado toda a ajuda possível e que já tinha claro por onde começar.

—Mas chegou a alguma conclusão?—apressou-se a perguntar Chancellor, aguçando o olhar e com o semblante grave—. Continua sem abrigar a menor duvida de que temos um traidor que está passando informação ao kaiser?

—Essa conclusão não é minha, mas sim do Foreign Office — replicou Pitt—. Mas parece que é a única possibilidade que pode explicar os fatos.

—Isto é muito desagradável –disse o Chancellor com o olhar perdido além do Pitt, torcendo a boca e enrugando o cenho—. Não me importa enfrentar qualquer inimigo cara a cara, mas ser traído por um dos seus é uma das piores experiências que pode suportar um homem. Detesto aos traidores mais que a qualquer outra coisa no mundo. —E lançou um rápido olhar ao Pitt, com seus olhos azuis e penetrantes—. Gosta de literatura clássica, senhor Pitt?

Era uma pergunta de todo absurda, mas Pitt comprovou com agrado que Chancellor não sabia absolutamente nada de sua educação. Era como se estivesse falando com o Micah Drummond, ou inclusive com o Farnsworth. Terei que agradecer ao Arthur Desmond que tivesse ajudado tanto ao filho de seu guarda-florestal para que este engano fosse possível.

—Não, senhor. Conheço Shakespeare e os grandes poetas, mas não sei nada dos gregos—respondeu Pitt com toda a dignidade que pôde.

—Eu me referia mais a Dante — disse Chancellor—. Em sua descida aos infernos, faz uma classificação de todos os pecados segundo sua gravidade. Os traidores ocupam o último círculo do inferno, mais à frente inclusive que os culpados de cometer violência, roubo, luxúria ou qualquer outra depravação do corpo ou do espírito. Segundo ele, é o pior pecado que a humanidade pode conceber, sobretudo porque implica um ultraje à razão e à consciência, dons que Deus nos outorgou.

Dante condena aos traidores à solidão perpétua, agarrados para sempre a um gelo eterno.

Terrível castigo, senhor Pitt, não lhe parece? Mas adequado à ofensa.

Pitt sentiu um calafrio e depois uma clareza quase iluminadora.

—Sim—disse—. Sim, talvez é o pior dos pecados, trair a confiança, e suponho que a eterna solidão não é tanto um castigo, como a conclusão lógica de quem assim se comporta. É a pessoa mesmo quem escolhe esse inferno, se assim o preferir.

—Vejo que temos muito em comum, senhor Pitt –disse o Chancellor lhe oferecendo o melhor de seus sorrisos, em um gesto de afeto e de intensa e quase luminosa candura—. Talvez não existe nada de importância mais que isso. Terá que solucionar este miserável assunto. Enquanto não o consigamos, será uma sombra que tudo obscurecerá—sentenciou mordendo o lábio e sacudindo a cabeça—. O pior é que até que não se esclareça, este assunto envenenará qualquer relação. A gente acaba suspeitando sem justificação alguma de outros que são perfeitamente inocentes. Muitas amizades se rompem por menos. Por minha parte, reconheço que não olharia a uma pessoa da mesma maneira se chegar a saber que fui capaz de suspeitar algo assim dela. —E acrescentou olhando fixamente ao Pitt—: Mas é minha obrigação não pôr a ninguém fora de suspeita. Não posso fazê-lo. É um crime abominável! —Por um momento, esboçou um amargo sorriso—. Se dá conta do dano que já causou pelo simples fato de existir?

Inclinou-se para frente e adquiriu um semblante grave.

—Olhe, Pitt, não podemos nos permitir o luxo de andar com vaguedades. Queria que fosse de outra maneira, mas conheço este ministério muito bem para não me dar conta de que, por desgraça, só pode tratar-se de alguém com uma autoridade considerável, e isso significa provavelmente Aylmer, Hathaway, Arundell, Leicester ou inclusive, Deus não o queira, o próprio Thorne.

Será muito difícil que chegue a descobrir quem é removendo papéis por aqui. —Chancellor começou a tamborilar os dedos na escrivaninha quase de forma imperceptível—. Mas não vai ser tão fácil. Terá você que conhecer muito bem a cada um, estabelecer uma pauta de comportamento, descobrir um defeito, por pequeno que este seja, uma debilidade. Mas para isso terá que conhecer sua vida privada. —E aqui se deteve olhando ao Pitt com exasperação—. Vamos, homem, não se surpreenda. Não sou nenhum idiota!

Pitt notou como lhe avermelhavam as faces. Não tinha tomado ao Chancellor como tolo, nem por nada parecido, mas não esperava tanta franqueza por sua parte, nem tampouco aquela percepção das conseqüências que implicava a investigação.

Chancellor se apressou a sorrir.

—Desculpe-me. Fui muito franco. Mas o que digo é verdade. Deve você conhecê-los todos em sociedade. Quer você vir à recepção que a duquesa do Marlborough dá esta noite? Posso lhe conseguir um convite sem nenhum problema.

Pitt hesitou só um instante.

—Já sei que, dito assim, tão de repente, parece absurdo – prosseguiu Chancellor—, mas a história não espera a ninguém e nosso tratado com a Alemanha está a ponto de fechar-se.

—É claro —aceitou Pitt. Chancellor tinha razão. Era uma situação ideal para fazer uma idéia daqueles homens com mais elementos de julgamento—. É uma idéia estupenda. Muito obrigado por sua ajuda, senhor.

—Irão você e sua mulher? Porque está casado, não é?

—Sim, claro.

—Excelente. Meu criado lhes levará o convite por volta das seis. O endereço?

Pitt o deu, feliz de que fosse o da nova casa, e ao cabo de um momento partiu. Se devia ir a uma recepção no Marlborough House em umas horas, tinha um montão de coisas de que ocupar-se, e nem diga Charlotte. Naquele momento, sua irmã Emily, a quem costumava pedir emprestado algum vestido para os atos sociais, foi outra vez de viagem a Itália.

A seu marido, Jack, acabavam de nomear membro do Parlamento, e como o Parlamento fechava no verão, os dois tinham decidido ir de viagem. Isso significava que não iriam poder lhe pedir nada.

Charlotte teria que tentá—lo com Lady Vespasia Cumming—Gould, tia avó do Emily por seu primeiro matrimônio com Lorde Ashworth.

—O que?—perguntou Charlotte como se não conseguisse acreditar. — Esta noite? Impossível! Mas se já são quase cinco! —exclamou na cozinha sustentando uns pratos.

—Já sei que fica pouco tempo, mas—respondeu Pitt. Só então começou a dar-se conta da confusão em que se colocara.

—Pouco tempo!—disse Charlotte erguendo a voz quase em um grito e deixando os pratos com certo estrépito—. É preciso uma semana para preparar algo assim. Thomas, mas você sabe quem é a duquesa do Marlborough? Até é possível que vá alguém da família real! Ali somente haverá gente importante, muito importante. —E de repente mudou a rosto de espanto pela de uma irreprimível curiosidade—. Por Deus bendito, de onde tirou um convite para a recepção da duquesa do Marlborough? Em Londres há gente capaz de cometer qualquer delito por conseguir algo assim—disse, e acrescentou sem poder reprimir um sorriso—: Não me diga que alguém o fez.

Thomas também sentiu vontade de pôr-se a rir ante aquele absurdo. Era muito difícil de acreditar para ser verdade. Talvez não devesse mencionar-lhe que tratava-se de um assunto muito confidencial, mas sempre tinha confiado nela, claro que nunca até então se ocupara de um caso que fosse assunto de estado.

Charlotte se deu conta de sua hesitação.

—Sim! —exclamou ela arregalando os olhos sem saber se soltava ou não uma gargalhada.

—Não, não—se apressou a esclarecer Pitt—. É algo muito mais sério que isso.

—Mas não estava ocupando-se da morte de Sir Arthur?—perguntou em seguida—. Que relação há entre isto e a duquesa do Marlborough? E embora a houvesse, ninguém vai lhe dar um convite por muito que o peça. Nem sequer Tia Vespasia pode fazê-lo. —tratava-se do mais elevado do poder social.

Vespasia tinha sido a mulher mais bela de seu tempo, não só por seus traços clássicos e por seu delicioso bom gosto, mas também por sua graça natural, seu engenho e sua elegância extraordinária.Ainda agora, apesar de ser octogenária, continuava sendo uma autêntica beleza.

Havia agudizado seu engenho porque estava segura de sua posição social, e lhe importava muito pouco o que alguém pensasse dela sempre que estivesse tranqüila com sua própria consciência.

Aderia-se a causas que muito poucos se atreviam a defender, decidia sem olhar quem ou o que gostava ou desagradava e se entretinha com uns passatempos capazes de atemorizar até as mais jovens e prudentes das mulheres. Apesar de tudo, nem sequer ela podia conseguir um convite às recepções da duquesa do Marlborough em tão pouco tempo e para outra pessoa.

—Sim, estou—me ocupando da morte de Sir Arthur — respondeu Pitt sem faltar exatamente à verdade. Thomas a seguiu enquanto ela se entregava a uma atividade frenética, saindo ao corredor e dirigindo-se para as escadas.

Mas também estou trabalhando em outro assunto que Matthew me encarregou esta manhã e também tem que ver com Sir Arthur—disse Pitt por detrás dela—, e é por isso que esta noite vamos a casa da duquesa do Marlborough. O convite vem do Linus Chancellor, do Ministério de Colônias.

Charlotte se deteve no patamar da escada.

—Linus Chancellor? Soa—me algo. Acredito que é um homem encantador e muito inteligente, ou pelo menos isso dizem. Até é possível que um dia chegue a primeiro—ministro, não?

Thomas sorriu, mas não deixou que ela se desse conta enquanto a seguia até o dormitório. Charlotte já não se movia nos círculos sociais onde as pessoas falavam dos mais destacados políticos, como costumava fazer antes de surpreender a próprios e estranhos casando-se com um policial, o qual implicava uma drástica redução de suas possibilidades econômicas e sociais.

—Ela mudou de expressão.

—Não é assim? Não é um homem encantador?

—Sim, muito e eu diria que muito inteligente também. Mas quem te falou dele?

—Emily — respondeu ela abrindo o armário da roupa de par em par—. Jack encontrou-se com ele em várias ocasiões. Mas também mamãe — disse, e em seguida caiu na conta do que podia deduzir-se dessas palavras—. Está bem, só duas pessoas. Mas você o conheceu hoje, não é? Por que?

Thomas só hesitou um instante.

—É algo muito confidencial. Um assunto de estado. Nem sequer aos que interrogo dou os detalhes da investigação. Alguém do Ministério de Colônias está passando informação a quem não deveria.

Charlotte se virou e o olhou fixamente nos olhos.

—Quer dizer que há um traidor no Ministério de Colônias, não? É terrível! E por que não me diz assim claro em vez de dar tantas voltas? Thomas, está se tornando muito pomposo.

—Bom, eu...—começou horrorizado. Detestava a pomposidade. Engoliu em seco e disse—: encontrou algo que pôr ou não?

—É claro que sim—respondeu com os olhos muito abertos, como se aquela fosse a única resposta possível.

—O que?

Charlotte fechou o armário.

—Ainda não sei. Me deixe pensar um pouco. Emily não está, mas Tia Vespasia sim. E tem telefone. Talvez posso chamá—la e lhe pedir conselho. Sim, isso é o que farei. —E sem esperar comentário algum, Charlotte passou por diante dele como uma ventania, desceu as escadas até chegar ao vestíbulo, onde tinham o telefone, e desprendeu o aparelho. Estava muito longe de dominar o aparelho, de modo que necessitou vários minutos até conseguir fazer a chamada. Naturalmente, primeiro falou com a criada e teve que esperar um pouco.

—Tia Vespasia — disse quase sem fôlego quando por fim ouviu a voz da Vespasia—. Thomas está investigando um assunto muito importante do que nada posso te dizer porque não me disse nada; quão único sei é que de repente nos convidaram esta noite a uma recepção em casa da duquesa do Marlborough.

Houve um instante de ligeira hesitação e surpresa ao outro lado do telefone, mas Tia Vespasia era uma mulher muito bem educada para permitir uma reação além da justa e adequada.

—De verdade? Seria muito grave que a duquesa do Marlborough visse alterados seus planos. No que posso ajudá—la, querida? Porque para isso me chamou, não é verdade?

—Sim. —Uma confiança como aquela teria sido pouco menos que desconcertante em outra pessoa, mas Vespasia e Charlotte tinham uma relação de mútua franqueza à margem de qualquer tipo de cumprimento—. A verdade é que não sei o que pôr —confessou Charlotte—. É a primeira vez que vou a um lugar tão... tão formal. E embora soubesse, já sabe que nenhum de meus vestidos serviria para a ocasião.

Vespasia era mais magra que Charlotte, mas de similar estatura, e tampouco seria a primeira vez que lhe emprestava um vestido. O salário de qualquer policial com a posição que Pitt tinha antes de ser promovido não dava para que uma esposa pudesse ter o vestuário adequado à temporada da alta sociedade londrina, claro que tampouco tinham por que convidá—la a participar dela.

—Já lhe acharei algo adequado e farei que um criado lhe leve isso a casa—disse Vespasia com generosidade—. E não se preocupe pela hora. Não é de boa educação chegar muito cedo. Às dez e meia seria perfeito. Servirão o jantar à meia—noite. Terá que chegar entre trinta e noventa minutos depois da hora que figura no convite, que, se não me equivoco, será às onze. É uma recepção de etiqueta — disse, e não acrescentou que a hora antes se dedicava ao recebimento dos convidados mais íntimos. Esperava que Charlotte já soubesse.

—Muito obrigada — disse Charlotte. E só depois de pendurar o telefone se deu conta de que se Vespasia sabia à hora do convite era porque ela mesma tinha um.

Uma vez chegado o vestido, pareceu-lhe o mais bonito que jamais tinha visto. Era de cor verde azul escuro, longo, com uma manga de gaze transparente e muito finas miçangas decorando o pescoço e os ombros. As anquinhas eram estreitas e muito vistosas, recolhidas em um laço de tecido dourado combinada com outra da mesma cor que o vestido, embora de um tom tão escuro que mais parecia negro.

Com o objeto vinha um par de elegantes sapatos a jogo. Olhando-o, Charlotte não podia evitar pensar em mares exóticos, em água profunda e em formosos amanheceres na praia. Se uma vez posto, aquele vestido lhe sentava a metade de bem de como se sentia, ia ser a inveja de todas as mulheres.

De fato, quando por fim a pôde ver baixando majestosamente as escadas, muito tempo depois do que tinha anunciado (porque não achava umas forquilhas para o cabelo imprescindíveis para lhe dar o toque final), Gracie ficou pasmada. Esbugalhou os olhos e as crianças ficaram olhando de baixo, sentados em cócoras e também com expressão de assombro.

Inclusive Pitt ficou um pouco surpreso. Levava tempo passeando pelo hall com impaciência e assim que ouviu que ela descia, voltou-se e então a viu.

—OH! —exclamou ele sem saber o que dizer. Tinha esquecido quão elegante era sua mulher, com aquele cabelo castanho avermelhado e aquela pele branca e cálida.

Com a emoção os olhos tinham adquirido tal brilho e cor que a faziam de uma beleza quase perfeita—. Está...!—disse como voltando a si mas sem querer terminar a frase. Não era o momento de esbanjar cumprimentos por muito que os merecesse—. Está muito bem —acabou por dizer, o qual era imensamente menos do que queria expressar. Em realidade se sentia transbordado ante sua presença física, com uma emoção quase de estranheza, como se lhe acabassem de apresentar aquela mulher.

Charlotte o olhou com certa indecisão e preferiu não dizer nada.

Ele tinha alugado uma carruagem para a noite. Não era aquele um acontecimento para chegar em um simples cabriolé. Em primeiro lugar porque em um espaço tão pequeno se teria amarrotado o vestido do Charlotte, ou para ser mais exatos, o vestido da Vespasia, e em segundo lugar porque o teria delatado como alguém de condição inferior e distinta da de outros, o que era muito mais importante.

Na entrada, o bulício de carruagens era considerável, inclusive na rua adjacente, enquanto dúzias de pessoas chegavam à hora que já Vespasia tinha anunciado como adequada e conveniente. O casal subiu as escadas quase varrida pela gente que acessava ao grande vestíbulo do que se acessava ao salão.

Em seguida se viram rodeados por um redemoinho de saias, de risadas nervosas, um pouco aborrecidas por elevadas, e de vozes que falavam mais alto do que o normal em uma forçada demonstração de confiança para quem tinham ao lado, fingindo ignorar a outros.

A luz dos lustres se refletia em diademas, alfinetes, colares, brincos, braceletes e anéis. Os homens levavam faixas de cor vermelha e púrpura segundo a ordem a que pertenciam e no peito luziam medalhas que brilhavam em contraste com o branco e o negro do traje de gala.

Assim que chegaram em cima e entraram nas salas de recepção, foram anunciados por um mordomo de expressão imperturbável a quem não parecia importar nem o nome nem a posição social da pessoa que anunciava.

O fato de não ter ouvido falar nunca do senhor e a senhora Thomas Pitt, não parecia lhe causar impressão alguma, nem no gesto do rosto, nem no tom de voz nem na mais mínima piscada.

Pitt estava muito mais nervoso que Charlotte. Tinham educado ela para saber como comportar-se nesse tipo de reuniões sociais, por muito que a categoria desta fosse superior a qualquer outra. De repente, Pitt sentiu como se o colarinho duro lhe estivesse cortando o queixo e nem sequer se atreveu a voltar a cabeça.

Charlotte tinha insistido em que cortasse o cabelo e até ele mesmo reconhecia não ter passado pelas mãos de um barbeiro digno deste nome desde há muitos anos.

Levava postas botas de grande qualidade, presente do Jack, mas seu traje negro não podia comparar-se nem de longe com os que via a seu redor, e além disso estava seguro de que seus interlocutores chegavam à mesma conclusão que ele só olhando-o com um mínimo de atenção no momento de convidá—lo a seguir uma conversa qualquer.

Os primeiros quinze minutos passaram indo de um grupo a outro, cuidando de ser o mais superficial possível, sentindo um ridículo cada vez maior e absolutamente convencidos de que havia outras formas muito melhores de perder o tempo, embora só fosse na cama e dormindo, preparando-se para as fadigas e obrigações do dia seguinte.

E depois, por fim Pitt viu o Linus Chancellor acompanhado de uma mulher extraordinariamente bela. Era mais alta do que o normal, quase da mesma estatura que o próprio Chancellor. Era magra, mas bem proporcionada e com uns ombros e uns braços muito bonitos, e apesar de sua altura não caminhava encurvada nem parecia disposta a dissimulá—la. Permanecia com a cabeça erguida e as costas retas. Usava um vestido que ia da cor nata à rosa, favorecendo sua compleição morena e seu rosto alongado e de grandes olhos.

—Quem é essa mulher? —murmurou Charlotte—. Que mulher tão interessante, certamente muito mais que qualquer das que há aqui. Não lhe parece especial?

—Não sei quem é; talvez a esposa do Chancellor—respondeu Pitt em um tom apenas audível, consciente de que qualquer um podia estar escutando—o.

—OH! Esse que está a seu lado é Linus Chancellor? Que elegante! Não acha?

Pitt olhou a sua mulher com curiosidade. A verdade é que nem sequer parara para pensar na possível elegância do Chancellor, nem se era um homem atraente para as mulheres. Só se fixara no vigor e na originalidade de suas feições, no estranho ângulo que formavam nariz e mandíbula e na força de vontade que sugeriam, assim como em seus olhos pequenos e na total segurança de seus gestos. Ele o via como um político e de repente duvidou sobre sua capacidade para julgar a um homem por seu aspecto.

—Bom, suponho que sim—disse cada vez mais convencido disso.

Charlotte voltou a olhar à mulher e viu como nesse momento ela posava uma mão no braço do Chancellor, mas sem chegar a ser inoportuna —não era uma afirmação de propriedade—, discretamente, em um gesto que denotava orgulho e afeto. Era ela quem se aproximava dele e não o contrário.

-se está casado, deve ser sua mulher—disse Charlotte absolutamente convencida do que dizia—. Ela jamais faria isso em público se não fosse sua esposa ou não estivesse a ponto de sê—lo.

—E o que é o que está fazendo?

Charlotte sorriu e fez exatamente o mesmo, deslizando sua mão pelo braço do Pitt e aproximando-se um pouco mais a ele.

—Ainda está apaixonada por ele—disse em um sussurro.

Pitt sabia que perdera algo, mas também sabia que de uma forma ou outra aquilo significava um cumprimento.

O tema ficou atrasado ao Charlotte ver aproximar-se um dos homens mais feios que jamais tinha visto. De todas as descrições possíveis, talvez a mais caridosa houvesse dito unicamente que não havia rastro de rancor em seu rosto, nem tampouco de mau gênio. Era mais baixo que ela, embora Charlotte fosse mais alta do normal para uma mulher.

Era de constituição obesa, com os braços e os ombros gordos e uma papada que dava à rosto uma estranha forma, como se este começasse entre a abundante mata de cabelo e seguisse com os olhos, de cor castanha, sob umas sobrancelhas nada normais, e diretamente terminasse nos ombros. Apesar de tudo, não se tratava de um aspecto desagradável, e além disso falava com uma voz muito bonita e cheia de personalidade.

—Boa noite, senhor Pitt. Que alegria vê-lo por aqui — disse, e esperou amavelmente que apresentasse à Charlotte.

—Boa noite, Senhor Aylmer — respondeu Pitt e disse voltando-se para Charlotte—: Te apresento ao senhor Garston Aylmer, do Ministério de Colônias.

—Como está, senhora Pitt?—disse Aylmer com uma ligeira inclinação, um gesto de distinção que fez com toda a naturalidade do mundo. E ficou olhando com expressão de interesse—. Espero que desfrutem da noite, embora a verdade é que se alguém ficar mais tempo do necessário, estas noites acabam fazendo-se bastante tediosas.

Aqui se dizem sempre as mesmas coisas, e me acreditem se lhes disser que muito poucas vezes significam algo —e acrescentou com um sorriso que lhe iluminou o rosto—: Mas como é a primeira vez que nos encontramos , talvez encontramos algo novo e diferente para nos contar e nos divertimos um pouco.

—Eu quero me divertir um pouco — respondeu Charlotte imediatamente—. Asseguro-lhe que não me interessa absolutamente falar do tempo, nem tampouco mexericar sobre quem comeu com quem ou a quem viu em companhia de tal ou qual pessoa.

—A mim tampouco —coincidiu Aylmer—. Claro que a semana que vem já será diferente, e já não digamos a seguinte. Bem, e do que poderíamos falar?

Pitt se alegrou de ficar à margem da conversa. Deu um passo para trás, desculpou-se em um tom quase inaudível e se dirigiu para onde se achavam Linus Chancellor e a mulher que o acompanhava.

—Pois não sei. Algo do que não saiba absolutamente nada, por exemplo – disse Charlotte com um sorriso—. Assim poderá você me dizer o que queira e eu não poderei discutir nada, pois não saberei se estiver você ou não certo.

—Que idéia tão sensacional! —exclamou seu interlocutor acolhendo a proposta com entusiasmo—. Vamos ver, me diga que coisas não saiba absolutamente nada, senhora Pitt—disse a seguir, lhe oferecendo o braço.

—OH, são tantas — respondeu ela aceitando—, claro que a maioria não me interessam absolutamente, daí que nem sequer me tenha incomodado em saber algo delas. Mas imagino que também deve haver algumas apaixonantes –acrescentou enquanto se dirigiam para a escada que levava ao terraço—. Por que não me conta um pouco da África? Já que trabalha no Ministério de Colônias, tenho certeza que saberá imensamente mais que eu sobre o tema.

—OH, é claro—respondeu com um amplo sorriso—. Embora já lhe advirto, que só poderei lhe contar coisas trágicas ou violentas, ou ambas de uma vez se assim o preferir.

—Quando alguém luta por algum motivo sempre há algo que já tem um valor — argumentou ela—. De outro modo, já não se lutaria. Suponho que tudo deve ser muito diferente da Inglaterra, não? Vi quadros, gravuras e coisas assim sobre selvas e planícies intermináveis com todo tipo de animais imagináveis. E também árvores muito curiosas que parece que tenham sido cortadas por cima, como se tivessem querido igualá—las.

—São acácias—respondeu—. Sim, sem dúvida é muito diferente da Inglaterra. Odeio ter que reconhecê-lo, senhora Pitt, porque isso me despoja de qualquer interesse que possa ter minha conversa, mas a verdade é que nunca estive ali.

Conheço muitas das coisas que ali passam, mas sempre me chegam de segunda mão. Não lhe parece vergonhoso?

Charlotte o olhou um segundo antes de estar absolutamente convencida de que ia poder continuar desfrutando da conversa. Dizer que estava paquerando com ela teria sido um exagero, mas ficava claro que se achava a gosto com as mulheres e que lhe agradava sua companhia.

—Talvez não haja uma diferença apreciável entre o que vem de segunda ou terceira mão—respondeu ela enquanto deixavam atrás a um grupo de homens que conversavam com a maior gravidade do mundo—. Além disso, não tem mais que descrever as coisas; já lhe disse que não tenho forma de saber se está ou não certo.

Assim conte o que quiser, mas seja muito gráfico, embora tenha que inventar. Me conte muitas anedotas—lhe desafiou—. Me fale da Zambeze, do ouro e os diamantes, e também do doutor Livingstone e do senhor Stanley, e dos alemães.

—Por Deus bendito —exclamou ele, alarmado—. De todos eles?

—De todos os que possa —tranqüilizou—o ela.

Nesse momento se aproximou um criado com uma bandeja de prata cheia de taças de champanha.

—Bom, para começar, que nós saibamos os diamantes estão na África do Sul — respondeu Aylmer tomando uma taça e oferecendo-lhe a ela e logo outra para ele—, mas é muito possível que haja grandes quantidades de ouro em Zambeze. Ali restam muitas ruínas de uma antiga civilização em uma cidade chamada Zimbabue, e só agora começamos a calcular a enorme fortuna que poderia haver ali.

Não é preciso dizer que isso é precisamente o que interessa aos alemães, e muito provavelmente a alguém mais. —Aylmer ia olhando—a com seus olhos castanhos, sabendo que ela não seria capaz de distinguir se o que contava era a sério ou era uma simples invenção para entretê—la.

—E é propriedade da Grã—Bretanha, não?—perguntou tomando um gole da taça.

—Não—respondeu Aylmer afastando a um passa do criado—. Ainda não.

—Mas o será, não é?

—Ah, essa é uma pergunta muito importante a que de momento não tenho resposta—disse dirigindo—a para as escadas.

—Mas se a tivesse, seria uma questão do mais absoluto segredo – acrescentou ela.

—É claro que sim. —Aylmer sorriu e seguiu lhe contando coisas sobre o Cecil Rhodes e suas aventuras e façanhas na África do Sul, o Rand e JOhannesburgo, e sobre o descobrimento da mina de diamantes do Kimberley, até que se viu interrompido por um jovem com o nariz muito largo e uns gestos muito efusivos que não deixou de pedir desculpas ante um Aylmer visivelmente aborrecido.

Charlotte se viu momentaneamente sozinha.

Passeou o olhar a seu redor para ver quem podia reconhecer das fotografias do London Ilustrated News. Divisou a um homem de ar majestoso com umas costeletas exuberantes e barba frisada, com a luz dos lustres brilhando em uma generosa calva e um olhar triste de sabujo esquadrinhando a sala. Charlotte pensou que talvez se tratava de Lorde Salisbury, o ministro dos Assuntos Exteriores, mas não estava segura. Não era o mesmo uma fotografia em tons cinzas que uma pessoa de carne e osso.

Linus Chancellor falava com um homem que não parecia muito diferente dele a primeira vista, embora sem a mesma ambição de suas feições nem tampouco seu gênio. Os dois estavam concentrados em sua conversa, quase alheios ao revôo de saias e ao reflexo das luzes ou ao barulho de vozes que os rodeavam. Junto ao outro homem e de costas voltadas, como se estivesse esperando—o, havia uma mulher que chamava poderosamente a atenção pela confiança e a inteligência que irradiava.

Claro que também chamava a atenção como feia. O nariz lhe nascia tão acima, que, vista de perfil, parecia uma prolongação da fronte. Tinha o queixo um pouco curto, os olhos muito separados, muito grandes e com a extremidade caindo para baixo. Era um rosto muito extraordinário, imponente e, por que não dizê—lo, algo aterrador.

Ia magnificamente bem vestida, mas se ficava tão perplexo ante aquele rosto, que o resto carecia de importância.

Charlotte trocou umas quantas palavras tão amáveis como superficiais com um casal empenhado em falar com todo mundo. Um homem com o cabelo castanho avermelhado lhe abordou com efusivas amostras de admiração e ao cabo de um momento voltou a ficar sozinha, o que não a preocupava absolutamente; não esquecia que Pitt estava ali para investigar um caso concreto.

Uma mulher de aspecto pálido e delicado que devia ter sua mesma idade permanecia de pé a uns poucos metros dela, tendo um penteado elaboradíssimo e um vestido de tom pastel adornado com toda classe de contas e pérolas. Lançou um discreto olhar ao Charlotte por cima do leque e se voltou para o bonito jovem que tinha ao lado.

—Deve ser do campo, pobrezinha.

—Ah, sim?—disse o jovem surpreso—. Conhece—a? —E fez gesto de dirigir-se ao Charlotte com expressão de cordialidade.

A mulher abriu os olhos com exagero.

—É claro que não. Por favor, Gerald! Como vou conhecer uma mulher assim? Só disse que deve ser do campo. Que cor tão pouco afortunada!—disse retendo o Gerald pelo braço.

—Pois me parece muito bonito — respondeu detendo-se—. É um mogno muito diferente.

—Não me refiro ao cabelo. Eu falo da cor do rosto. Está claro que não é uma leiteira, porque nesse caso não estaria aqui, mas tem aspecto de havê-lo sido.

Quase me atrevo a dizer que trabalha como empregada de cavalariças ou algo assim—disse enrugando ligeiramente o nariz—. É uma mulher robusta e isso não é nada elegante. Além disso, estou certa de que nem sequer se deu conta.

Pobrezinha, que mais dá.

—Por que será que sempre anda se compadecendo de outros, querida? –disse Gerald torcendo a boca em uma careta — essa recriminação é uma de suas grandes virtudes: a sensibilidade que mostra com o próximo.

A mulher lhe lançou um rápido olhar com a vaga suspeita de que algo havia naquele homem que não conseguia entender muito bem, e decidiu retirar-se para falar com uma viscondessa que conhecia.

Gerald olhou ao Charlotte com olhos de aberta admiração por ela e seguiu obediente a sua companheira.

Charlotte sorriu e foi procurar ao Pitt.

Pelo caminho viu a tia avó Vespasia ao outro lado do salão, com um vestido de cetim cinza e um ar de grande senhora, com o brilho de seus grandes olhos prateados e o cabelo branco lhe adornando a cabeça com mais elegância e distinção que muitos dos diademas que reluziam a seu redor.

Enquanto Charlotte a olhava, Vespasia lhe deu um pestanejo lento e deliberado e continuou a conversa.

Ainda demorou vários minutos para achar Pitt. Tinha saído do salão principal de recepções com seus resplandecentes lustres para passar a uma sala mais tranqüila, a que se acessava por uns degraus, e ali estava conversando com o homem que se parecia com o Linus Chancellor e com a extraordinária mulher que o acompanhava.

Charlotte não sabia se aproximava-se ou não por medo a lhes interromper, mas a mulher ergueu a vista e seus olhos se encontraram com um interesse mútuo e repentino que quase expressava familiaridade.

O homem seguiu o olhar da mulher e Pitt também se voltou.

-senhor Jeremiah Thorne, do Ministério de Colônias —anunciou Pitt com tranqüilidade— e senhora Thorne. Queria lhes apresentar minha mulher.

—Como está, senhora Pitt?—disse a senhora Thorne imediatamente—. Interessa-lhe a África? Espero que não. Não imagina o que me estou aborrecendo. Por favor, me acompanhe e falemos de outra coisa. Qualquer tema servirá, mas que não seja a Índia, que vista de longe é quase o mesmo.

—Christabel…—disse Thorne alarmado, mas Charlotte em seguida compreendeu pelo tom um pouco fingido que talvez já estava acostumado a aquela maneira de comportar-se e que no fundo tampouco lhe incomodava.

—Sim, querido—respondeu ela distraidamente—. Quero falar com a senhora Pitt. Já acharemos algum tema que nos distraia, algo tão sério e transcendental como a salvação do corpo e da alma, ou tão superficial como nos pôr a criticar o que tem vestido todo mundo e começar a supor que respeitável dama de idade indefinível está procurando a que desventurado jovem para casá—lo com sua filha.

Thorne tentou queixar-se ao mesmo tempo que esboçava um sorriso, o que não deixava de ser uma amostra de profundo afeto e em seguida voltou para sua conversa com Pitt.

Charlotte seguiu ao Christabel Thorne com mais curiosidade que outra coisa; aquilo prometia uma conversa diferente e nada aborrecida.

-se vier tão freqüentemente como eu a este tipo de festas, não duvido que as achará tão desesperadamente aborrecidas como eu –sentenciou Christabel com um sorriso. Tinha uns olhos grandes e penetrantes, por isso Charlotte pensou que ante ela qualquer alma tímida ficaria paralisada, ou quando muito começaria a gaguejar qualquer incoerência.

—É a primeira vez que venho a uma—se justificou Charlotte. Era a única forma de defender-se ante a presunção de qualquer um, sobretudo para que não a pusessem em evidência—. Desde que me casei, não fui a nenhuma reunião social mais que quando foi estritamente necessário — e aqui se deteve. Não era questão de confessar que só saía quando Pitt tinha um caso entre mãos. Teria sido muito ingênuo de sua parte inclusive naquela ocasião.

—Ah, sim? —Christabel levantou as sobrancelhas ainda mais com uma expressão que não dissimulava seu interesse. Charlotte seguia indecisa—. Continue, continue — insistiu Christabel. Não o fazia com malícia, só lhe consumia a curiosidade.

Charlotte se deu por vencida. Compreendeu que sua interlocutora não lhe ia perdoar uma mentira, por pequena que fosse, e como Thorne já conhecia a profissão do Pitt, deu por sentado que Christabel também sabia.

—Bom, de vez em quando acompanho a meu marido em seus assuntos – disse por fim esboçando um sorriso—. Como é policial, pode ir a muitos lugares que....

—É maravilhoso!—interrompeu—a Christabel—. Mas, por favor, querida, não tem que explicar nada mais. Tudo está muito claro e perfeitamente justificado. Está aqui porque o convidaram para que investigue esse lamentável assunto sobre a África e as informações que alguém está filtrando—disse com expressão de satisfação—. As pessoas fazem coisas muito feias por cobiça, bom pelo menos alguns. —E acrescentou olhando ao Charlotte—: Não se espante, querida. Acabo de escutar meu marido falando sobre o tema.

Quem não tenha previsto essa possibilidade é um ingênuo. Onde quer que haja uma fortuna para conseguir, nunca faltará quem recorre à mentira para tirar vantagem. O estranho é que alguém tenha tido a coragem e a decisão de comunicar à polícia. E isso é algo que aplaudo. O problema, insisto, é que estas reuniões são muito aborrecidas, sobretudo porque são muito poucos os que de verdade dizem o que pensam.

Um criado se deteve junto a elas com mais taças de champanha. Christabel rechaçou o oferecimento com um simples gesto, que Charlotte imitou logo.

-se de verdade quer conhecer alguém interessante—continuou Christabel— e sabe Deus por que está aqui, me acompanhe e apresentarei ao Nobby Gunne. –E em seguida se voltou encabeçando a marcha dando por sentado que sua interlocutora aceitava—. É uma mulher maravilhosa. Esteve no rio Congo a bordo de uma canoa, ou pelo menos em algo parecido. Ou possivelmente foi no Níger, ou no Limpopo. Tanto dá. Em algum lugar da África onde ninguém tinha estado antes.

-disse Nobby Gunne?—perguntou Charlotte surpreendida.

—Sim, estranho nome, não é? Acredito que é uma abreviatura da Zenobia, o qual é quase tão estranho como o outro.

—Conheço—a! —exclamou Charlotte rapidamente—. Tem uns cinqüenta anos, não é assim? O cabelo escuro e um rosto curioso, e embora não a possa considerar muito bonita, tem muita personalidade e certamente não é nada desagradável.

Um grupo de jovens passaram ante elas, sufocando um risinho e olhando—as por cima de seus leques.

—Sim, efetivamente. Que descrição tão exata!—disse Christabel com expressão de satisfação—. Algo me diz que gosta muito dela.

—Assim é.

—E se não é uma rabugice de minha parte, posso saber como é que a esposa de um policial conhece uma exploradora africana como Nobby Gunne?

—É a irmã de minha tia avó por afinidade — começou a dizer Charlotte, e não teve mais remédio que rir ante a confusão do que acabava de dizer—. A verdade é que quero muito a minha tia avó Vespasia e vou vê—la sempre que posso.

Achavam-se as duas ao pé da escada, roçando as flores de um vaso de barro.

Christabel recolheu a saia em gesto rápido e automático.

—Vespasia?—perguntou com curiosidade—. Outro nome bem curioso. Sua tia não será por acaso Lady Vespasia Cumming—Gould, não é?

—Sim, a própria. Também a conhece?

—Por desgraça, só de nome. Mas isso me bastou para sentir por ela um grande respeito—disse com ar de certa ironia—. Sei que trabalhou muito para levar a cabo algumas reforma sociais, sobretudo com as leis de assistência pública, e também com as de educação.

—Sim, recordo—o. Minha irmã a ajudou muito. Fizemos tudo o que pudemos.

—Não me diga que se renderam! —exclamou em um tom que era mais de desafio que de pergunta.

—Simplesmente mudamos o enfoque da questão—disse Charlotte enfrentando seu olhar—. Agora, ao marido de Emily acabam de nomeá—lo membro do Parlamento.

Por minha parte, procuro colaborar com meu marido nos casos que investiga contra qualquer tipo de injustiça, e dos que naturalmente nada posso comentar—disse consciente de que não podia mencionar ao Círculo Interior por muita confiança que lhe inspirasse uma pessoa—. Além disso, tia Vespasia continua sua luta contra a injustiça, embora neste momento não poderia precisar qual.

—Não foi minha intenção ofendê—la-se desculpou Christabel com certa efusividade.

Charlotte sorriu.

—Sim, foi—o. Você dá por sentado que tudo isto é um jogo para mim, algo que me tem entretida e que além disso me faz sentir bem, para logo abandoná—lo ante o primeiro fracasso.

—Tem razão—disse Christabel com um deslumbrante sorriso—. Já me diz Jeremiah que me obcecam as boas causas e que por isso perco o sentido da proporção. Bom, mas quer que vamos saudar a Zenobia Gunne? Está aí mesmo, ao final das escadas.

—É claro que sim —aceitou Charlotte e seguiu o olhar do Christabel até localizar a uma mulher muito morena com um vestido verde que estava de pé frente à saída de um dos balcões vendo passar às pessoas com cara de muito pouco interesse.

Charlotte a reconheceu em seguida. Conheceram-se na época dos assassinatos da ponte do Westminster, quando Florence Ivory lutava denodadamente para conseguir o direito de voto das mulheres. Claro que a possibilidade de que obtivera algum êxito neste sentido era mais que remota, mas Charlotte simpatizava com aquela causa, sobretudo depois de ver as piores injustiças que se davam com a lei vigente.

—Juntas defendemos o sufrágio feminino—acrescentou enquanto seguia ao Christabel escada acima.

—Por Deus bendito! —exclamou Christabel detendo-se e voltando-se para ela— Que idéias tão modernas tem você!—acrescentou com admiração— E que pouco realistas!

—E você? Há algo que defenda? —desafiou-lhe Charlotte.

Christabel riu, mas não pôde dissimular a emoção de seu rosto.

—Sim, mas é tão pouco realista como a sua-respondeu—. Sabe você o que é uma "solteirona" na linguagem corrente?

—Algo que não é "habitual", possivelmente?—perguntou Charlotte, conseguir compreendê—lo muito bem.

—Absolutamente. Cada vez o é mais—disse Christabel sem lhe importar o fato de que se achavam nas escadas e de que a gente passava junto a elas—. A solteirona é a mulher que não está casada com nenhum homem, e portanto, é a mulher que sobra, a que está desamparada porque não tem a um homem a quem cuidar. Bem, pois eu gostaria que essas "solteironas" fossem capazes de educar-se a si mesmas e de trabalhar em uma profissão assim como fazem os homens; que pudessem manter-se por sua conta e que ocupassem o lugar que lhes corresponde na sociedade com dignidade e orgulho.

—Santo céu! —exclamou Charlotte maravilhada ante aquela coragem. Era uma idéia maravilhosa—. Tem razão!

O rosto de Christabel ficou escurecido por um gesto de mau humor.

—O homem normal e comum não é mais preparado nem mais forte que uma mulher qualquer, e é claro muito menos valente—sentenciou com autêntica aversão pelo tema—. Não irá repetir essa idéia de que as mulheres são incapazes de pensar e de ter filhos, verdade? Essa idéia a inventaram alguns homens que têm medo de que os desafiemos em seus trabalhos e até de que os superemos. É uma mentira! Uma infâmia e uma estupidez!

Charlotte não sabia se punha-se a rir ou assustava-se, em qualquer caso a idéia era emocionante.

—E como vai conseguir isso? —quis saber afastando-se um pouco do meio para que passasse uma senhora de consideráveis proporções.

—Com a educação—respondeu Christabel com uma contundência que Charlotte reconheceu como autêntica. Naquele momento se encheu de admiração por ela e sentiu como despertava seu instinto de amparo ante uma causa tão vulnerável e perdida como aquela—. Educação para as mulheres, para que adquiram conhecimentos e acreditem em si mesmas—continuou Christabel—. E educação para os homens, para que saibam dar às mulheres uma oportunidade. Isso será o mais difícil.

—Para isso será preciso muito dinheiro—disse Charlotte.

Mas não pôde responder porque tinham chegado quase ao mesmo nível da Zenobia Gunne, quem além disso já as via aproximar-se. Iluminou-se o rosto de satisfação ao ver Christabel Thorne, e só depois de uma ligeira vacilação reconheceu também ao Charlotte. Nesse momento também recordou muito divertida que Charlotte nem sempre era tão sincera como devia com respeito a sua identidade.

No passado, e só por ajudar ao Pitt, fingia não ter nada que ver com a polícia, e inclusive se fazia chamar por seu nome de solteira.

Nobby se dirigiu ao Christabel.

—Que alegria voltar a vê—la, senhora Thorne! Estou convencida de que conheço quem a acompanha, mas como passou tanto tempo, não estou muito segura de poder recordar seu nome. Peço-lhe desculpas.

Charlotte sorriu, mas com sentida cordialidade; Nobby Gunne sempre lhe tinha sido muito simpática e aquela indireta lhe fez muita graça.

—Charlotte Pitt-respondeu muito afável—. Como se encontra, senhorita Gunne?Vejo que goza de uma saúde excelente.

—Assim é—respondeu Nobby, e a verdade é que parecia mais feliz e mais jovem que quando Charlotte a tinha visto anos atrás.

Estiveram conversando um tempo sobre vários temas, tratando por cima alguns assuntos políticos e sociais de especial interesse. A conversa se viu interrompida quando de repente um homem jovem e ágil com a pele muito bronzeada topou com as costas do Nobby em uma tentativa de escapar de uma jovem que ia sufocando um risinho.

Voltou-se para desculpar-se por sua estupidez: tinha o nariz curvo, a boca um pouco grande e o cabelo loiro em franca retirada, face ao que mostrava um homem imponente e muito inteligente.

—Desculpe-me, por favor—disse com rigidez enquanto lhe ruborizavam as faces ossudas—. Espero não havê—la machucado.

—Absolutamente—respondeu Nobby sorrindo de modo aprazivel. — Além disso, tendo em conta de quem estava fugindo, sua precipitação é mais que compreensível.

O jovem ainda se ruborizou mais.

—OH, me notou tanto?

—Eu teria feito o mesmo em seu lugar—respondeu ela olhando-o nos olhos.

—Então já temos algo em comum —agradeceu a modo de cumprimento, mas sem que ficasse claro pelo tom se queria ir mais longe ou só ser amável.

—Meu nome é Zenobia Gunne—disse ela apresentando-se.

Ele esbugalhou os olhos e de repente seu interesse por ela se fez evidente.

—Não será você Nobby Gunne?

—Assim me chamam meus amigos—disse em um tom que deixava bem claro que ainda não o contava entre eles.

—Sou Peter Kreisler —anunciou, erguido como se fora um soldado—. Eu também passei muito tempo na África e aprendi a amá—la.

Agora o interesse era mútuo. Apresentou-o a Charlotte e a Christabel por pura formalidade e reatou a conversa.

—Ah, sim? E em que parte da África esteve? —quis saber ela.

—Em Zanzíbar, Mashonaland, Matabeleland—respondeu ele.

—Eu estive no oeste-respondeu ela—. Sobretudo na região do Congo, embora também percorri o Níger.

—Nesse caso terá tido que tratar com o Leopoldo rei dos belgas—disse com o rosto inexpressivo.

Nobby respondeu com a mesma prudência.

—Só por cima. Só porque sou uma mulher me olha de outra maneira, não como ao senhor Stanley, por exemplo.

Até Charlotte tinha ouvido falar do passeio triunfal do Henry Mirton Stanley por Londres fazia mais ou menos uma semana, quando em 26 de abril percorreu o caminho que há entre a estação da Charing Cross e Piccadilly Circus.

A multidão aclamou seu nome até o infinito. Era o explorador que despertava mais admiração, tinha merecido duas medalhas de ouro da Royal Geographic Society, era amigo do príncipe de Gales e convidado habitual da própria rainha.

—Mas isso não é tão mau, me acredite —comentou Kreisler com um sorriso amargo—. Assim, pelo menos a você não pedirá como tem fez a ele que encabece um exército de vinte mil canibais congoleses para derrotar ao Mad Mahdi e conquistar o Suam para a Bélgica.

Nobby não conseguia acreditar Sua expressão era de tal incredulidade que até era cômica.

Christabel parecia muito surpreendida e Charlotte por uma vez ficou muda.

—Não pode estar falando a sério! —exclamou Nobby quase em um grito.

—Também me parece uma brincadeira—disse Kreisler com uma careta de humor—. Mas acredito que Leopoldo não opina o mesmo.

Inteirou-se de que os canibais do Congo são excelentes guerreiros, assim não duvidou em fazer algo que surpreenda ao mundo para que se saiba quem é ele.

—Dessa maneira, certamente vai conseguir —assentiu Nobby—. Não quero imaginar como seria uma guerra dessas proporções! Vinte mil canibais contra as hordas do Mad Mahdi. OH, Deus meu, pobre a África—se lamentou deixando ver uma expressão de verdadeira pena a pesar do tom irônico e de brincadeira com o que falavam. Bastava vê—la para saber que era perfeitamente consciente da tragédia humana que tudo aquilo implicava.

Depois da apresentação de rigor, o certo é que Kreisler virtualmente tinha feito caso omisso do Charlotte e Christabel. De vez em quando olhava—as para não ser mal educado, mas todo seu interesse estava em Nobby, a quem a via cada vez mais entusiasmada com seu interlocutor.

—Mas a autêntica tragédia da África não é esta—sentenciou amargamente—. Leopoldo é um visionário, e eu diria que um lunático também, mas não supõe nenhum perigo realmente grave. Para começar, é muito pouco provável que convença aos canibais para que abandonem a selva. Por outro lado, não estranharia que Stanley ficasse na Europa aconteça o que acontecer.

—Como? Stanley não voltará para a África?—perguntou Nobby surpreendida—. Pelo que sei, viveu ali estes últimos três anos e depois esteve no Cairo umas três semanas. Mas eu achava que, depois de descansar um pouco, voltaria. A África é sua vida! Além disso, acredito que o rei Leopoldo o tratou como a um irmão em sua última visita a Bruxelas, não é assim?

—OH, sim-respondeu Kreisler rapidamente—. Eu inclusive diria mais. A princípio o rei o recebeu com certa indiferença e tratava ao Stanley com bastante descortesia, mas agora é o herói de todo o mundo, penduram-lhe mais medalhas que espinhos a um ouriço e se dirigem a ele como se fosse de sangue real.

Todo mundo anda muito agitado com as notícias que chegam da África Central, de modo que Stanley não tem mais que mostrar a cabeça para que a gente o aclame até ficar afônica. Agora o rei desfruta com o reflexo de sua glória—disse Kreisler com um brilho especial em seus olhos azuis, uma mescla de risada e dor ao mesmo tempo.

Nobby voltou para a questão mais importante.

—E por que razão não vai voltar Stanley à África? Já partiu da Bélgica. Agora já não poderá dizer-se que o rei o retém.

—Não, não é por isso—disse Kreisler—. Se apaixonou pelo Dolly Tennant.

—Dolly Tennant? Disse Dolly Tennant? —Nobby não dava crédito ao que acabava de ouvir—. A que organiza tantas festas de sociedade? A pintora?

—A própria —confirmou Kreisler—. Ela mudou muito. Já não ri dele. E não só isso, parece que ela tampouco o olha com maus olhos. Como mudam as coisas.

—Céu santo, sim que mudam! —exclamou ela.

A conversa ficou interrompida porque nesse momento lhes uniram Linus Chancellor e a mulher alta que Charlotte observara antes. Vista agora de perto, chamava inclusive mais a atenção. Tinha uma expressão curiosamente vulnerável e sensível, mas não lhe tirava um ápice da força que transmitia.

Não era, portanto, um sinal de debilidade, mas um indício de que sentia a dor com mais intensidade do que o habitual. Aquele rosto era o de uma pessoa capaz de entregar-se em corpo e alma a todo aquilo que empreendesse. Não havia nenhuma prevenção nela, nem sinal algum de não estar disposta a correr o risco que fosse.

Fizeram-se as apresentações de rigor e, tal como tinha suposto Charlotte, era a mulher do Chancellor.

Chancellor e Kreisler pareciam conhecer-se, pelo menos de nome.

—Faz muito que retornou da a África?—perguntou Chancellor amavelmente.

—Faz dois meses—respondeu Kreisler—. Mas antes estive em Bruxelas e Amberes.

—OH. —O rosto do Chancellor se suavizou com um sorriso—. Por causa de Stanley, talvez?

—Por acaso, sim.

Parecia que aquilo fazia muita graça ao Chancellor. Provavelmente já conhecia as intenções do rei Leopoldo de conquistar Suam. Sem dúvida seus agentes o tinham tão bem informado como Kreisler.

Talvez o próprio Kreisler fosse um deles. Ao Charlotte lhe ocorreu pensar que muito provavelmente o era.

Christabel Thorne reatou a conversa olhando primeiro ao Kreisler e depois a Chancellor.

—Comentou—nos o senhor Kreisler que conhece melhor o leste da África que os novos territórios da Zambeze. E estava a ponto de nos contar por que a verdadeira tragédia da África não está no oeste, nem em Suam, mas em algum momento mudamos de tema e não pôde nos dar mais explicações. Tinha algo que ver com as esperanças pessoais do Stanley.

—Com respeito à África?—perguntou rapidamente Susannah Chancellor—. Achava que o rei dos belgas estava construindo uma ferrovia.

—E assim é—respondeu Christabel—, mas eu referia a suas intenções amorosas.

—Ah, Dolly Tennant!

—Isso ouvimos.

—Mas não supõe tragédia alguma para a África —murmurou Chancellor—. Antes será um alívio.

Charlotte pensou que talvez não sabia nada do Leopoldo e os canibais.

Mas à Susannah interessava muito o tema e olhou ao Kreisler com o semblante muito sério.

—Então, qual é segundo você a tragédia da África, senhor Kreisler? Ainda não nos disse isso.

Se, como indica a senhorita Gunne, sua preocupação pelo tema é tão grande, é porque deve ser algo importante.

—Assim é, senhora Chancellor, mas por desgraça isso não me dá nenhum poder para mudar o curso dos acontecimentos. O que tenha que passar acontecerá por muito que tente o contrário.

—O que tem que acontecer? —insistiu ela.

—Cecil Rhodes e seus colonos começarão a subir do Cabo até Zambeze—respondeu olhando—a com intensidade—. E um após o outro, os príncipes nativos assinarão tratados que não só não compreenderão, mas também tampouco os respeitarão. Colonizaremos a terra e mataremos a todo aquele que se rebele contra nós, e só Deus sabe quantas matanças e submissões veremos.

A não ser, claro, que os alemães nos expulsem dali dirigindo-se para o oeste desde Zanzíbar, em cujo caso o resultado será o mesmo, ou possivelmente pior se nos atermos ao que já aconteceu anteriormente.

—Bobagens!—disse Chancellor com bom humor—. Se nos estabelecermos no Mashonaland e Matabeleland poderemos explorar os recursos naturais em benefício de todos, de brancos e africanos por igual. Nós lhes levaremos remédios, educação, comércio, leis civilizadas e um código de sociedade que proteja aos fracos tanto como aos fortes. Mais que a tragédia da África, eu falaria da construção da África.

Kreisler endureceu o olhar, mas só o dirigiu brevemente ao Chancellor e em seguida se voltou para Susannah. Ela o tinha estado escutando muito atenta, e embora não estivesse muito de acordo com o que dizia, sua ansiedade crescia cada vez mais.

—Mas antes não dizia o mesmo—disse ela franzindo o cenho e olhando ao Chancellor, que lhe deu um sorriso cheio de afeto mas não isento de certa recriminação.

—As pessoas mudam de opinião, querida, e retificar é de sábios—disse dando um pouco de ombros—. Agora sei muito mais coisas das que sabia faz três ou quatro anos. Europa inteira vai colonizar a África, tanto se nós o fazemos como se não.

Pelo menos o farão a França, Bélgica e Alemanha. Além disso, o sultão da Turquia é teoricamente senhor do Khedive do Egito, com tudo o que isso significa para o Nilo, e portanto também para Suam e Equatoria.

—Isso não significa absolutamente nada—disse Kreisler bruscamente—. O Nilo segue seu curso em direção norte. Surpreenderia—me que na Equatoria tivessem ouvido falar alguma vez do Egito.

—Eu penso no futuro, Senhor Kreisler, não no passado—disse Chancellor sem dar mostras de inquietação alguma—. Quando os grandes rios da África se converterem nas vias de comunicação comercial do mundo. Chegará o dia em que poderemos levar de navio o ouro, os diamantes, as madeiras exóticas, o marfim e as peles da África por esses grandes rios com a mesma facilidade com que transportamos carvão e trigo pelo canal fluvial do Manchester.

—Ou do Reno—disse Susannah pensativa.

—Como prefiro—concedeu Chancellor—. Ou do Danubio, ou de qualquer outro grande rio no que possa pensar.

—Mas na Europa sempre estamos metidos em uma guerra—continuou Susannah—. Por culpa da terra, da religião ou por um montão de coisas mais.

Chancellor a olhou sorrindo.

—Mas, querida, na África se passa exatamente o mesmo. Os chefes das tribos sempre estão em guerra uns com outros. Essa é uma das razões pelas que sempre fracassamos em nosso intento de acabar com a escravidão. Temos muito que ganhar e muito pouco que perder.

—Nós talvez sim—disse Kreisler agriamente—, mas o que me diz dos africanos?

—Eles também—respondeu Chancellor—. Tiraremos eles das páginas de história e os poremos em pleno século XIX.

—Nisso estava pensando eu precisamente—respondeu Susannah, não muito convencida do que havia dito seu marido—. Uma mudança tão brusca como esta não se consegue sem pagar um preço muito alto.

Alguém pensou em que talvez não gostem de nossa maneira de fazer as coisas? Estamos obrigando—os sem ter em conta o que eles pensam.

Uma faísca de intensidade e até de emoção brilhou nos olhos do Kreisler por um instante, até que ele mesmo a ocultou, quase deliberadamente, com a mesma rapidez com a que tinha aparecido.

—Mas se os africanos nem sequer são capazes de compreender do que estamos falando—disse Chancellor ironicamente— dificilmente poderão formar uma opinião própria.

—Então estamos decidindo por eles —indicou ela.

—Naturalmente.

—Não tenho muita certeza de que tenhamos direito a fazê-lo.

Chancellor adquiriu um semblante entre surpreso e zombador, mas preferiu morder a língua.

Por muito comprometedoras que fossem as idéias de sua mulher, por nada do mundo queria pô—la em evidência em público.

Apesar daquela pequena discussão, ficou claro que sua confiança nela estava acima de tudo.

Nobby Gunne seguia sem afastar os olhos do Kreisler e Christabel Thorne ia olhando a todos por turnos.

—O outro dia ouvi o que disse Sir Arthur Desmond—continuou Susannah sacudindo ligeiramente a cabeça.

Charlotte apertou com tal força a taça de champanha vazia, que pouco faltou para que lhe quebrasse na mão.

—Desmond?—perguntou Chancellor franzindo o cenho.

—Do Foreign Office—acrescentouela—. Que eu saiba, trabalhava ali, mas não sei se o deixou. Estava muito preocupado pela exploração da África. Dizia que não íamos ser capazes de fazê-lo com dignidade.

Chancellor posou suas mãos sobre as dela com muito tato.

—Querida, lamento ter que lhe dizer isto, mas Sir Arthur Desmond morreu faz um par de dias, e me parece que por sua própria mão. Não acredito que seja uma fonte muito confiável—disse convenientemente triste.

—Não foi um suicídio! —explodiu Charlotte antes de pensar se era prudente dizer aquilo ou, pelo menos, se lhe convinha para seus propósitos. Nesse momento só via o rosto descomposto do Matthew, sua angústia e o carinho que Pitt tinha demonstrado com um homem ao qual o tinha unido uma grande amizade—. Foi um acidente!—acrescentouem sua defesa.

—Peço-lhe desculpas—disse Chancellor—. Queria dizer que, tanto se foi um descuido como se foi premeditado, foi ele mesmo quem provocou a fatal situação. Por desgraça, acredito que estava perdendo suas faculdades mentais —e acrescentou voltando-se outra vez para sua mulher—: Pensar nos africanos como nobres selvagens e esperar que o sigam sendo até o fim dos tempos é uma ingenuidade que não nos podemos permitir.

Sir Arthur era um bom homem, mas também um ingênuo. Será graças a nós, ou graças a outros, mas a África acabará se abrindo ao mundo, e pelo bem da África e de Grã—Bretanha, o melhor é que nós sejamos quem o faça.

—Não seria mais conveniente para a África que todos nos puséssemos de acordo para protegê—la e deixá—la tal qual está?—perguntou Kreisler com uma aparente inocência desmentida por sua expressão e a dureza da voz.

—Para os caçadores e aventureiros como você?—perguntou Chancellor levantando as sobrancelhas—. O que você quer é que se converta em uma espécie de enorme pátio de recreio para exploradores sem o necessário intermédio da lei e civilização.

—Eu não sou um caçador, senhor Chancellor, nem tampouco um aventureiro ao serviço de alguém—replicou Kreisler—. Sou um explorador, aceito-o, mas quando abandono um lugar, deixo às pessoas e a sua terra tal qual os encontrei.

Compartilho absolutamente a inquietação da senhora Chancellor. Acaso temos direito a decidir por outros?

—Não só temos o direito, senhor Kreisler—respondeu Chancellor com toda a convicção do mundo—, mas também a obrigação de fazê-lo quando esses outros dos quais você fala carecem do conhecimento e capacidade para fazê-lo por si mesmos.

Kreisler permaneceu em silêncio. Já havia dito o que pensava, de modo que preferiu olhar ao Susannah com solicitude.

—Não sei vocês, mas eu tenho vontade de jantar algo—disse Christabel aproveitando o silêncio que se fizera, e dirigindo-se ao Kreisler, acrescentou—: Senhor Kreisler, como está você em inferioridade numérica, não tenho mais remédio que lhe pedir que nos ofereça os dois braços para nos acompanhar abaixo. Senhorita Gunne, importa-lhe que as duas compartilhemos ao senhor Kreisler?

Só havia uma resposta possível e Nobby a deu com um sorriso cheia de encanto.

—Claro que não. Será um prazer. Senhor Kreisler?

Kreisler ofereceu ambos os braços e acompanhou ao Christabel e Nobby para jantar.

Linus Chancellor fez o mesmo com o Charlotte e Susannah, e juntos desceram pela grande escadaria, ao pé da qual Charlotte em seguida reconheceu ao Pitt, que estava conversando com um homem de aspecto muito tranqüilo e sereno, bastante calvo, e de uns cinqüenta anos.

Tinha os olhos redondos e de uma cor azul céu, o nariz muito largo e um ar aprazível, como se guardasse algum íntimo segredo que o enchia de satisfação.

Pitt o apresentou como Ian Hathaway, também do Ministério de Colônias, e quando começou a falar, Charlotte teve a impressão de que já conhecia o timbre daquela voz de dicção tão impecável.

Charlotte agradeceu ao Linus Chancellor e à Susannah e se viu acompanhada por dois homens enquanto se aproximava da mesa que continha todos os manjares imagináveis de um jantar frio: bolos, carne, peixe, caça, conservas de gelatina, massas de todas classes, e infinidade de gelados, sorvetes, geléias e pasteizinhos , todo isso repartido entre taças, flores, candelabros e talheres de prata. A conversa se fez mais esporádica e certamente muito mais trivial.

Vespasia despertou tarde na manhã seguinte, mas estava radiante de felicidade.

Tinha desfrutado da recepção mais que outras vezes. Tinha sido um acontecimento que havia lhe trazido à memória as boas lembranças de seu esplendor juvenil, quando despertava a admiração de todos os homens que se cruzavam por seu caminho, quando podia passar noites inteiras dançando para depois levantar-se muito cedo e montar a cavalo pelo Rotten Row e voltar para casa com o sangue lhe palpitando nas veias disposta a enfrentar um novo dia e a todas as causas e intrigas que trazia.

Ainda estava sentada preguiçosamente na cama e tomando o café da manhã, muito satisfeita de si mesma, quando entrou a criada para lhe anunciar que Eustace March tinha vindo visitála.

—Por Deus bendito! Mas que horas são?—perguntou.

— Dez e quinze, milady.

—E o que quererá Eustace a estas horas da manhã? Terá perdido o relógio?

Eustace March era seu genro; era viúvo de sua filha caçula, Olivia, que lhe tinha dado muitos filhos e tinha morrido muito jovem. Aquele matrimônio tinha sido de escolha própria, algo que Vespasia jamais tinha chegado a compreender, sobretudo porque não conseguia gostar de Eustace.

Era o mais oposto a ela de todos os pontos de vista. Mas era Olivia quem se casara com ele, e até onde era possível julgar pelas aparências, aquele homem tinha feito feliz a sua filha.

—Digo-lhe que espere, milady? Ou lhe anuncio que não estará disponível em todo o dia e que terá que voltar em outro momento?

—OH, não. Se pode esperar, lhe diga que descerei em meia hora.

—Sim, milady—disse a criada, e se retirou obedientemente para dar o recado à criada e para que esta o comunicasse ao Eustace.

Vespasia acabou o chá e afastou a bandeja do café da manhã. Necessitava pelo menos meia hora para preparar-se convenientemente para o dia.

Entrou na sala de estar, de ambiente fresco e espaçoso, e viu o Eustace de pé junto à janela e olhando o jardim. Era um homem forte e corpulento que acreditava fervorosamente na saúde como uma virtude fundamental para qualquer cristão, e que devia ir acompanhada do bom juízo, quer dizer, com o justo equilíbrio em todas as coisas.

Gostava das longas caminhadas ao ar livre, as janelas abertas sem ter em conta o tempo que podia fazer, os banhos de água fria, comer bem e fazer esporte como qualidade indispensável em um homem.

Assim que ouviu Vespasia, voltou-se com um sorriso. Tinha o cabelo mais grisalho que quando o tinha visto a última vez, e com umas entradas cada vez mais visíveis, mas mostrava como sempre uma boa cor de rosto e um olhar resoluto.

—Bom dia, sogra. Como está? Espero que bem—disse bastante animado e com expressão de ter muita vontade de lhe contar algo. Transbordava entusiasmo e Vespasia começou a temer que lhe ia retorcer a mão em um apertão.

—Bom dia, Eustace. Sim, encontro—me muito bem, obrigada.

— Tem certeza? Levantou-se um pouco tarde e já sabe que madrugar é bom. É mais são para a circulação. Um bom passeio lhe dará forças para algo.

—Sim, para voltar a me colocar na cama—replicou ela com ironia—. Não voltei para casa até as três da madrugada. Estive na recepção da duquesa do Marlborough. Passei isso muito bem—disse, e se sentou em sua poltrona preferida—. E a que devo o prazer de sua visita, Eustace? Algo me diz que não veio a interessar-se só por minha saúde, não é? Porque nesse caso, uma carta teria sido suficiente.

Por favor, sente-se. Está um pouco inquieto e até o vejo capaz de sair por essa porta e ao mesmo tempo me dizer o que veio me contar.

Eustace obedeceu, mas se sentou na beira da poltrona, como se o fato de relaxar supusera para ele um esforço inconcebível.

—Faz tempo que não vinha vê—la, sogra. Vim, sobretudo, para retificar este esquecimento e para saber como está. Alegra—me vê—la tão bem.

—Bobagens—disse ela sorrindo—. Quer me dizer algo e o tem na ponta da língua. Do que se trata?

—De nada em concreto, me acredite —repetiu ele—. Ainda anda metida na defesa de reformas sociais?—perguntou reclinando-se por fim na poltrona e cruzando as mãos à altura do estômago.

A Vespasia irritaram suas maneiras, mas talvez se tratava de uma impressão do passado mais que do presente. Tinha sido aquela arrogância e insensibilidade que tinha desencadeado em parte a tragédia de toda a família no Cardington Crescent.

Só depois do ocorrido começou a ser consciente de sua responsabilidade, o que fez que durante um tempo se sentisse aturdido e envergonhado, mas durou pouco e não demorou para recuperar a exaltação de sempre, assim como a total convicção de ter sempre razão em suas crenças e opiniões.

Como quase toda a gente que goza de boa saúde e uma intensa energia psíquica, tinha uma especial capacidade para esquecer o passado e viver o presente.

Apesar de tudo, havia nele certo ar protetor, como o de um benévolo professor de escola.

—Também gosto sempre de voltar a ver as velhas amizades—respondeu ela friamente. O que não lhe disse é que entre elas se achava sobretudo Thelonius Quade, juiz do tribunal supremo e uns vinte anos mais jovem que ela, um de seus mais ardentes admiradores de tão apaixonado que tinha estado dela no passado.

Aquela amizade, uma vez recuperada, converteu-se em algo cada vez mais precioso. Mas não era algo que estivesse disposta a compartilhar com o Eustace—.

Também sempre gostei dos casos do Thomas Pitt—acrescentouela com sinceridade, embora já sabia que isso não iria gostar Eustace. Além de que não era muito aceitável do ponto de vista social que ela mesma se relacionasse com a polícia, aquela menção só servia para que ele recordasse o passado, com um sentimento de angústia e muito provavelmente até de culpa.

—Não sei se isso é muito conveniente, sogra—sentenciou franzindo o cenho—.

Sobretudo podendo fazer outras coisas muito mais dignas. Nunca me preocuparam muito suas excentricidades, mas —e aqui se deteve porque Vespasia o estava fulminando com o olhar e o resto da frase estava morrendo antes de poder pronunciar.

—Você sempre tão amável—disse com tom glacial.

—O que queria dizer é que...

-sei muito bem o que queria dizer, Eustace. Esta conversa é de todo desnecessária. Sempre sei o que vai dizer e você já conhece qual vai ser minha resposta. Não aprova minha amizade com o Charlotte e Thomas, e muito menos que os ajude de vez em quando. Mas não tenho a menor intenção de deixar de fazê-lo e além disso não acredito que seja um assunto de sua incumbência—disse ela esboçando um sorriso—. O que lhe parece se mudarmos de assunto? Posso saber que muito digna causa tem em mente que necessite de minha intervenção?

—Bom, agora que o diz—começou a dizer recuperando a compostura quase imediatamente. De todas suas qualidades, esta era a que mais admirava nele, mas também a que mais a incomodava. Era como um desses joão—bobo com que brincam as crianças: por muito que se golpeiem sempre recuperam a posição vertical.

O rosto do Eustace voltou a iluminar-se de entusiasmo.

—Recentemente me aceitaram como membro de uma organização muito seleta—disse com impaciência—. É claro seus fins são beneficientes e muito louváveis.

Vespasia esperou, procurando não perder um só detalhe do que ele dizia. Ao fim e ao cabo, havia centenas de sociedades em Londres, e a maioria com propósitos mais que plausíveis.

Eustace cruzou as pernas com cara de total satisfação. Tinha os olhos bastante redondos e de uma cor cinza castanha que brilhavam cheios de entusiasmo.

—Como todos os sócios são gente de muitas posses e em mais de um caso gozam de um poder muito considerável na comunidade, no mundo das finanças ou do governo, são muitas as coisas que se podem conseguir. Até trocar as leis, se o propõem—disse erguendo o tom de voz com o vigor de seu convencimento.

Podem conseguir enormes quantidades de dinheiro para ajudar aos pobres, aos desprotegidos, aos que sofrem injustiças, enfermidades ou qualquer outro tipo de desgraças. É muito emocionante, sogra. É um privilégio que me tenham aceito.

—Felicidades.

—Obrigado.

—Soa muito respeitável. Crie que deveria pertencer a essa sociedade?Poderia me propor você?

Vespasia observou seu rosto com diversão. Eustace tinha ficado com a boca aberta e em seus olhos se podia ler a mais absoluta confusão. Ele começou a pensar que talvez estava sendo vítima de uma brincadeira de muito pouco gosto, claro que nunca tinha compreendido muito bem o senso de humor da Vespasia.

Ela esperou, olhando-o sem pestanejar.

—Querida sogra, não conheço sociedade alguma digna deste nome que aceite mulheres. Mas isso certamente já sabe, não é?

—E por que não? —quis saber ela—. Me sobra o dinheiro, não tenho marido a quem obedecer e sou tão capaz como qualquer outro de fazer o bem.

—Mas não se trata disso! —protestou ele.

—Ah, então do que se trata?

—Como diz?

—Perguntei-lhe do que se trata —repetiu ela.

A casualidade quis que Eustace se salvasse de ter que justificar o que para ele era uma convicção sobre a natureza do universo fora de toda dúvida e é claro de toda explicação. A criada acabava de entrar anunciando a chegada da senhora Pitt.

—OH, Meu deus, obrigado, Effie—disse Vespasia com amabilidade—. Não me tinha dado conta de que era tão tarde. Por favor, lhe diga que entre. — E dirigindo-se ao Eustace, acrescentou—: Charlotte vai acompanhar-me a dar cartões à duquesa do Marlborough.

—Charlotte? —exclamou Eustace pasmado—. Com a duquesa do Marlborough? Mas que disparate, querida sogra! Isso não é para ela! Sabe Deus o que pode chegar a fazer ou a dizer. Será uma brincadeira, verdade?

—Estou falando muito a sério. Desde a última vez que o viu, Thomas foi promovido. Agora é superintendente.

—Por mim que seja o inspetor em chefe do Scotland Yard! —exclamou Eustace—. Como pode permitir que Charlotte a acompanhe a visitar a duquesa do Marlborough?

—Não vamos de visita—replicou Vespasia pacientemente—. Só vamos deixar-lhe nossos cartões; sabe tão bem como eu que é costume fazê-lo depois de uma festa como a de ontem. É assim como devemos lhe mostrar nosso agradecimento.

—Devemos? Não me diga que Charlotte também esteve ali! —exclamou sem sair de sua perplexidade.

—Sim.

Naquele momento se abriu a porta e entrou Charlotte. Assim que viu o Eustace March em sua rosto se refletiram toda sorte de sentimentos contrapostos —surpresa, raiva, acanhamento— mas nenhum tão forte como o de curiosidade.

A reação do Eustace foi muito mais simples. Em seu rosto não havia nada mais que puro e simples embaraço. Ficou em pé ruborizado.

—É um prazer voltar a vê—la, senhora Pitt. Como se encontra?

—Bom dia, senhor March-disse ela engolindo em seco e dando um passo para diante.

Vespasia podia imaginar o que estava recordando Charlotte, certamente o ridículo episódio da cama. A julgar pela cor das faces do Eustace, o mais provável é que ele também estivesse pensando no mesmo.

—Encontro—me muito bem, obrigado—acrescentou ela—. E estou certa de que você também. —Ao dizer aquilo, o mais seguro é que se estivesse recordando das janelas que sempre tinha abertas em sua casa do Cardington Crescent, quando, por muito frias que fossem as manhãs, o vento se metia no salão deixando—o a uma temperatura quase insuportável e todo mundo, com a única exceção do Eustace, ficava a tiritar de frio ante o café da manhã.

—Eu sempre, senhora Pitt—disse Eustace com energia—. Tenho essa sorte.

—Eustace me estava contando a sorte que teve ao ingressar em uma sociedade excelente—disse Vespasia indicando ao Charlotte onde sentar-se.

—Ah… sim—disse Eustace—. Se dedica a obras de caridade e a influir na sociedade para seu próprio bem.

—Felicidades—disse Charlotte com sinceridade—. Deve se sentir muito satisfeito. A verdade é que, desgraçadamente, é preciso coisas assim.

—É verdade—disse ele voltando a sentar-se com cara de estar mais tranqüilo.

Agora voltava a tratar um tema que obviamente lhe enchia de satisfação—. É verdade, senhora Pitt. É muito gratificante sentir que alguém pode unir-se a outros homens de igual espírito e dedicação com o mesmo propósito e assim poder atuar com verdadeira força.

—E como se chama esta sociedade? —quis saber Charlotte inocentemente.

—Ah, querida amiga, receio que não posso dizer mais—disse sacudindo levemente a cabeça enquanto esboçava um sorriso—. Nossos objetivos e propósitos são de domínio público, mas a sociedade em si é anônima.

—Quer dizer que é secreta?—perguntou Charlotte abertamente.

—Bom—começou a dizer ele desconcertado ante aquela pergunta—. Não sei se é a palavra mais adequada. Poderia dar uma idéia equivocada do que realmente é.

Em qualquer caso, é anônima. Ao fim e ao cabo, não é assim como Nosso Senhor nos pediu que façamos o bem?—disse voltando a sorrir—. "Não deixe que sua mão direita saiba o que faz a esquerda."

—E está seguro de que o Senhor se referia a uma sociedade secreta? — perguntou Charlotte muito séria e olhando-o fixamente nos olhos.

Eustace lhe devolveu o olhar como se aquilo o tivesse incomodado. Ele já sabia que Charlotte não se carcterizava precisamente por seu tato, mas depois de tanto tempo quase o tinha esquecido.

Não era de boa educação pôr em evidencia a uma pessoa, e ela não desperdiçava nunca a ocasião de fazê-lo. Poucas mulheres conhecia com aquela falta de luzes da qual Charlotte costumava fazer demonstração.

—Eu prefiro a palavra "discreta"—sentenciou por fim—. Não vejo nada mau no fato de que os homens colaborem uns com outros para ajudar aos mais necessitados. Em realidade, eu diria que é uma causa muito nobre. Que eu saiba, o Senhor nunca elogiou a incompetência, senhora Pitt.

Charlotte lhe deu um sorriso inesperado e inocente.

—Estou certa de que tem razão, senhor March. Esperar o reconhecimento público por uma obra de caridade é despojá—la de qualquer sentido de virtude que possa ter. Inclusive seria melhor que entre vocês só se conhecessem uns poucos, só os membros do mesmo círculo. Deste modo seriam discretos por partida dupla, não?

—Círculo?—disse ele, empalidecendo por momentos, o qual supôs todo um contraste tendo em conta quão curtido tinha o rosto, acostumado ao sol e ao vento.

—Não lhe parece apropriada a palavra?—perguntou Charlotte abrindo os olhos.

—Eu, bom...

—Não se preocupe—disse ela sacudindo a mão. Tampouco havia necessidade de pressioná—lo mais. A resposta estava clara. Eustace tinha ingressado no Círculo Interior em um gesto de inocência, inclusive de ingenuidade, como já tinham feito tantos outros antes dele: Micah Drummond e Sir Arthur Desmond, por citar só a dois. Micah Drummond o tinha deixado e até agora seguia com vida. Arthur Desmond, em troca, não tinha tido tanta sorte.

Charlotte dirigiu o olhar para a Vespasia.

Esta tinha o semblante grave e estendeu a mão ao Eustace sem levantar-se.

—Espero que sua ajuda Sirva para fazer o bem, Eustace—disse sem afetação—. Obrigado por vir contar-nos. Quer esperar um pouco e ficar a almoçar? Charlotte e eu não demoraremos para voltar.

—Obrigado, querida sogra, mas tenho outras visitas que fazer—respondeu declinando o oferecimento, ao mesmo tempo que se levantava e lhe dava uma pequena inclinação que depois repetiu com Charlotte—. Foi um prazer voltar a vê—la, senhora Pitt. Que passem um bom dia—acrescentou, e sem mais, partiu da sala.

Charlotte olhou a Vespasia e nenhuma das duas quis dizer nada.

 

A investigação judicial sobre a morte do Arthur Desmond tinha lugar em Londres, pois era ali onde havia falecido.

Sentado em uma das tribunas da sala de julgamentos, Pitt tinha a triste certeza de que outra das razões para que se celebrasse ali era que assim o Círculo Interior poderia exercer um maior controle da vista.

Se tivesse se realizado no Brackley, onde conheciam e respeitavam ao finado e a sua família desde há três séculos, a especial consideração que tivesse tido o caso talvez teria superado inclusive ao poder do Círculo.

E nisso pensava sentado junto ao Matthew, que aquela manhã não tinha cara de ter adormecido muito bem, esperando os dois que se iniciasse a vista entre um murmúrio de vozes que pediam silêncio de forma antecipada. A sala estava cheia, e o público se ia amontoando e empurrando para poder cruzar a soleira da estreita porta e atravessar depois o corredor com arcos para poder acessar a sala principal.

O rumor se ia apagando à medida que a gente se sentava, de frente ao estrado e a mesa onde um funcionário com uma toga negra devia tomar nota de tudo com uma pena que já tinha preparada; do outro lado se achava a tribuna de testemunhas.

Pitt tinha uma estranha sensação de irrealidade. Estava muito nervoso para que a cabeça, funcionasse-lhe com a clareza a que estava acostumado em ocasiões como aquela. Já tinha perdido a conta da quantidade de vezes que tinha assistido.

Podia contar pelo menos quinze ou vinte homens com um semblante muito grave e vestidos quase com roupa de luto e sentados um junto a outro esperando que os chamassem para dar seu testemunho.

A maioria tinha um ar de segurança e confiança próprias de quem goza de uma boa posição econômica e social. Pensou que talvez eram peritos profissionais de alguma classe ou possivelmente membros do clube que tinham estado pressentes a tarde da morte de Sir Arthur. Também havia um homem uns anos mais jovem e bastante nervoso que não se vestia tão bem e que muito provavelmente era um dos garçons do clube que lhe tinha servido o conhaque.

O juiz não oferecia um aspecto muito adequado para a função que representava.

Era difícil imaginar alguém mais corpulento e cheio de vitalidade. Era alto, com o cabelo de cor loiro avermelhado e um rosto corado e jovial.

—Vejamos—disse em tom animado assim que terminaram os preâmbulos—. Mau assunto. Quanto o sinto. Agora tentemos esclarecer o antes possível com a maior diligencia e prontidão. Diligência e prontidão; é o melhor para fazer mais suportável a pena. Minhas condolências para a família—disse passeando o olhar pela sala até que viu o Matthew.

Pitt se perguntou se já se conheciam ou se lhe bastava um simples golpe de vista para reconhecer em seguida a aflição—.

—Começamos? Bem, bem. Escutemos a primeira testemunha deste terrível assunto. Por favor, meirinho, mande—o chamar.

O meirinho chamou obedientemente ao garçom do clube, quem, tal como tinha suposto Pitt, era o que levava a jaqueta menos cara e quem dava amostras de maior inquietação. Parecia transbordado e com medo a cometer um engano e ao igual à roupa e a voz, também seus gestos eram simples e tímidos.

Estava esmagado ante a majestosidade da lei, inclusive a aquele nível, e sobre tudo tratando—se de um caso de morte. Subiu à tribuna de testemunhas com os olhos arregalados e semblante pálido.

—Não tema nada, bom homem—lhe disse o juiz amavelmente—. Não há por que ter medo. Você não fez nada de mau, não é? Verdade que não matou a pobre vítima?—perguntou com um sorriso.

O garçom estava apavorado. Durante um breve instante de autêntico pânico, chegou a pensar que o juiz falava a sério.

—Nãnão, não, senhoria!

—Bem—disse o juiz com satisfação—. Nesse caso tranqüilize-se, nos diga a verdade e já verá como tudo vai bem. Nos diga como se chama e a que se dedica. O que tem que dizer sobre o caso que nos ocupa? Fale!

—Chamo—me Horace Guyler, senhoria. Sou garçom no Morton Clube. Fui eu quem achou ao pobre Sir Arthur. Quero dizer que todos já sabíamos onde estava, mas...

—Entendi—o perfeitamente—disse o juiz para animá—lo. Você descobriu o cadáver. E não me chame "senhoria". Só sou um juiz de primeira instância. Dirija-se a mim dizendo "senhor juiz" e será suficiente. Continue. Talvez deveria começar pela chegada de Sir Arthur ao clube. A que hora foi isso? Quando o viu você? Que aspecto tinha? Como se comportava? Responda uma a uma a cada pergunta.

Horace Guyler estava confuso. Já tinha esquecido a primeira pergunta, e é claro a segunda.

—A chegada de Sir Arthur—lhe recordou o juiz.

—Ah, sim, senhor juiz. Bom, chegou justo depois de comer, como às três e quinze ou algo assim.

Naquele momento seu aspecto me pareceu perfeitamente normal, claro que agora me dou conta de que por dentro devia sentir-se muito mal. Refiro—me a que certamente estava muito deprimido.

—Deve nos dizer o que viu naquele momento, senhor Guyler, não o que agora pense. Disse-lhe algo Sir Arthur? O que fez? Como se comportou? Você pode recordá—lo? Só passaram cinco dias.

—Que eu recorde, senhor juiz, simplesmente me deu boa tarde, como sempre.

Era um cavalheiro muito atento comigo. Não como outros. E logo se dirigiu ao salão verde, sentou-se e ficou a ler o jornal. Acredito que era o Time.

Produziu-se um ligeiro murmúrio de aprovação na sala.

—Pediu-lhe algo de beber, senhor Guyler?

—A princípio não, senhor juiz. Uma meia hora mais tarde me pediu uma taça grande de conhaque. Do melhor Napoleão, disse—me.

—E você o serviu.

—OH, claro, senhor juiz, claro que o fiz —reconheceu Guyler com tristeza—. Claro que então eu não sabia que estava deprimido e que não era ele mesmo. Sim me parecia isso. Estava muito tranqüilo lendo o jornal e comentando em voz alta as notícias que não gostava.

—Acredita que podia estar zangado ou deprimido por isso?

—Absolutamente —afirmou Guyler negando com a cabeça—. Só lia, assim como outros muitos cavalheiros do clube. Preocupavam-lhe as notícias, claro, como bom cavalheiro que era. Quero dizer que quanto mais importante é um cavalheiro, mais se preocupa com as notícias que lê. Além disso, Sir Arthur teve um cargo no Foreign Office.

O juiz adquiriu um semblante circunspeto.

—Sobre algum tema em particular que você saiba?

—Não, não o conhecia tanto para poder sabê—lo. Além disso, tinha que servir a outros cavalheiros.

—Claro. E diz você que só tomou um conhaque?

—Não, senhor juiz. Temo que tomou muitos mais. Não recordo exatamente quantos, mas pelo menos seis ou sete. E algum deles era de meia garrafa. Mas eu não sabia que estava mau, se não, não os teria servido! —exclamou com remorsos, como se ele fosse o responsável pelo acontecido, e embora não fosse mais que um empregado do clube, como tal tampouco podia negar-se a servir o que um membro pedia.

—E você acha que Sir Arthur se comportou em todo momento como era habitual nele?—perguntou o juiz franzindo o cenho.

—Sim, senhor juiz, pelo que a mim respeita sim.

—Ah. A que hora lhe serviu a última taça de conhaque? Recorda—o?

—Às seis e meia.

—Recorda—o você muito bem.

—Sim, senhor juiz. Um cavalheiro me pediu que avisasse a essa hora porque tinha um jantar. Por isso me lembro.

A sala estava em completo silêncio.

—E quando voltou a ver Sir Arthur?

—Bom, como ia e vinha servindo e fazendo recados, passei várias vezes junto a ele, mas quase nem me chamou a atenção porque parecia adormecido. Não sabe como lamento não ter feito nada por ele então—disse sentindo—o muito, sem atrever-se a levantar o olhar e ruborizado pela vergonha.

—Você não é o responsável pelo acontecido—disse o juiz com amabilidade, mas com o semblante grave—. Embora você se deu conta de que não estava bem e teria chamado a um médico, certamente ninguém teria podido fazer já nada por ele.

Nesse momento se ouviu um murmúrio generalizado na sala. Junto ao Pitt, Matthew se revolveu em seu assento.

—Era um homem muito bom—disse o garçom com tristeza e olhando ao juiz com um brilho de esperança.

—Estou certo disso —comentou o juiz, sem querer aprofundar nessa questão.

— A que hora foi falar com ele e se deu conta de que estava morto?

Guyler respirou fundo.

—Bom, primeiro passei a seu lado e, como já hei dito, pensei que estava dormindo. Às vezes os cavalheiros bebem muito conhaque em uma tarde e ficam adormecidos e depois custa um pouco despertá—los.

—Estou certo disso, mas que hora era, senhor Guyler?

-seria às sete e meia. Pensei que se queria jantar, o melhor era lhe reservar uma mesa.

—E o que fez então?

Durante o quarto de hora que levava, ninguém se tinha movido e os ruídos tinham sido apenas perceptíveis, o chiado dos bancos ao trocar de postura ou o ranger das saias das duas ou três mulheres que se achavam ali. O que agora se ouvia era um suspiro generalizado.

-disse-lhe algo e não me respondeu—replicou Guyler, com o olhar fixo à frente e sabendo que todo mundo estava olhando-o. O funcionário do tribunal seguia apontando ao detalhe tudo o que dizia—. Assim voltei a lhe falar, mais alto, e seguia sem mover-se. Foi então quando me dei conta de que...—disse tomando fôlego e suspirando depois.

E começou a ficar muito nervoso ante a lembrança daquela morte. Tinha medo. Aquilo não era algo que alguém esperasse achar em uma situação normal.

O juiz esperava pacientemente. O que Guyler sentia o tinha visto já em centenas de rostos como a seu.

Pitt continuava olhando com uma sensação de estar alheio a tudo e começou a sentir-se angustiado e só, como se lhe tivessem arrancado de repente do lugar onde toda sua vida se sentira seguro.

Era do Arthur Desmond de quem estavam falando com aquela frieza. Era absurdo pensar que em algo podia lhes importar, que pudessem falar dele com a voz entrecortada ou emocionada pelo carinho que sentiam, como de fato estava sentindo ele.

Pitt não se atreveu a olhar ao Matthew. Queria que aquilo acabasse quanto antes, sair a caminhar tão depressa quanto pudesse com a chuva e o vento lhe dando no rosto, seguro de sentir-se mais acompanhado assim em meio de toda aquela gente.

Mas tinha que ficar. O dever e a compaixão obrigavam a isso.

—Ao final, decidi despertá—lo—continuou Guyler levantando o queixo—. Com suavidade. Tinha má cara e não o ouvia respirar. Os cavalheiros que ficam adormecidos depois de tomar muito conhaque geralmente têm uma respiração muito forte.

—Quer dizer que roncam?

—Pois… sim, senhor juiz.

Ouviram-se umas tímidas risadas entre o público que em seguida cessaram.

—Por que não começa com o que de verdade importa? —exclamou Matthew indignado.

—Já o fará—respondeu Pitt em voz baixa.

—Foi então que me dei conta de que algo ia mal—prosseguiu Guyler, olhando fixamente à sala, e não por vaidade a não ser para recordar-se a si mesmo onde estava e para que se dispersassem as imagens da sala do clube e do que ali lhe tinha acontecido.

—Do que estava doente ou morto? —quis saber o juiz.

—Sim, senhor juiz. Fui procurar ao diretor e ele chamou o médico.

—Obrigado, senhor Guyler. Isso é tudo. Obrigado por sua declaração.

Guyler partiu aliviado e o diretor do clube ocupou em seu lugar a tribuna de testemunhas. Era um homem grande e corpulento com um rosto simpático e um olho desviado muito desconcertante, porque era impossível saber se estava olhando alguém ou não.

Declarou ter sido chamado pelo garçom e que quando viu Sir Arthur, efetivamente já estava morto. Logo mandou chamar o mesmo médico que sempre vinha quando algum cavalheiro se achava indisposto, o qual, desgraçadamente, acontecia de vez em quando.

A idade média dos sócios era de pelo menos cinqüenta e cinco anos, mas muitos deles eram muito mais idosos. O médico confirmou o falecimento sem duvidar.

O juiz lhe agradeceu por sua declaração e o deixou partir.

—É inútil!—disse Matthew entre dentes. inclinou-se para frente e pôs a cabeça entre as mãos—. Tudo isto não serve de nada! Vai ficar impune, Thomas! Morte por overdose acidental de um velho que não sabia o que fazia nem o que dizia!

—E o que esperava disto? Algo diferente?—perguntou-lhe Thomas com toda a tranqüilidade de que era capaz.

—Não—respondeu Matthew em tom de derrota.

Pitt sabia que aquilo ia fazê-lo sofrer , mas não estava preparado para a dor que lhe produzia ver a angústia do Matthew. Queria consolá—lo e não sabia como.

A seguinte testemunha foi o médico, um homem fleumático e expedito. Talvez fosse sua maneira de enfrentar casos como aquele de comoção com resultado de morte.

Pitt viu a cara de desagrado que punha Matthew, quem se estava deixando levar pelos sentimentos, mas não era o momento de tentar explicar-lhe algo tão irrelevante. Não tinha nada que ver com o que estava sentindo.

O juiz agradeceu ao médico sua colaboração e o despediu para que entrasse em seu lugar o primeiro dos sócios do clube que tinham estado naquela sala à tarde da morte de Sir Arthur. tratava-se de um homem de idade considerável, com umas enormes costeletas brancas e uma generosa e reluzente calva.

—General Anstruther—disse o juiz com a maior seriedade—. Seria amável de nos contar o que viu exatamente e, se o estimar necessário, poderia nos dar detalhes que conheça sobre a saúde física e mental de Sir Arthur?

Matthew levantou a vista com expressão de desafio. O juiz o olhou por um instante e o rosto do Matthew se contraiu, mas seguiu calado.

O general Anstruther limpou a garganta ruidosamente e começou a falar.

—Bom menino, Arthur Desmond. Sempre o pensei. Estava se fazendo velho, como todos nós, claro. Começava a esquecer-se das coisas. Mas é normal.

—Naquela tarde, general—lhe insistiu o juiz—. Como qualificaria você seu comportamento? Lhe via talvez...?—começou a dizer sem achar a palavra— … distraído?

—Né... —Anstruther hesitou e parecia muito incômodo.

Matthew estava rígido, com os olhos cravados no rosto do Anstruther.

—Realmente é necessário tudo isto? —quis saber o general olhando ao juiz com total reprovação—. Maldita seja! Está morto! Que mais terá que saber? Lhe enterremos e guardemos uma boa lembrança dele. Era um bom homem.

—Ninguém o duvida, general—disse o juiz com calma—. Mas não estamos falando disso. O que queremos é averiguar como morreu exatamente. É o que a lei nos pede. As circunstâncias que rodeiam sua morte não são habituais e o Morton Clube deseja limpar qualquer dúvida sobre uma possível imprudência ou negligência.

—Por Deus bendito! —exclamou Anstruther indignado—. A quem ocorreu semelhante tolice? O pobre Desmond não estava bem e só estava um pouco ofuscado. Tomou muito láudano com o conhaque. Foi um simples acidente. Não há mais que dizer.

Matthew se levantou bruscamente.

—Não estava ofuscado!—disse em voz alta.

Todo mundo o olhou com expressão de surpresa e certa vergonha alheia. Manifestar esse tipo de emoções em público não era bem visto, e menos em um lugar como aquele.

—Todos compreendemos sua inquietação, Sir Matthew—disse o juiz—. Mas lhe rogo que se contenha um pouco. Não permitirei nenhuma afirmação que não tenha a devida justificação nesta sala—sentenciou, e voltando para a testemunha, disse—: E agora, general Anstruther, nos diga por que razão afirma que Sir Arthur estava ofuscado. Rogo-lhe que seja o mais concreto possível.

Anstruther franziu os lábios visivelmente aborrecido. Não gostava nada de responder à pergunta. Dirigiu o olhar ao banco que tinha ante ele e disse:

—Sir Arthur... né... se esquecia do que dizia—respondeu—. Repetia as coisas a si mesmo, sabe? confundia-se com tudo e dizia coisas absurdas sobre a África. Acredito que não compreendia muito bem o que lhe dizíamos.

Matthew voltou a levantar-se antes de que Pitt pudesse impedi—lo.

—Diz isso, porque não estava de acordo com você! —exclamou desafiante.

—Sir Matthew! —advertiu-lhe o juiz—. Não vou permitir mais interrupções. Todos compreendemos a dor que sente, mas nossa paciência tem um limite.

Esta investigação vai levar se a cabo com a ordem e a correção devidos, respeitando a verdade e a dignidade que o caso merece. Tenho certeza de que você será o primeiro interessado em que assim seja.

Matthew fez gesto de dizer algo, possivelmente para pedir desculpas, mas o juiz ergueu a mão para indicar que calasse.

Matthew voltou a sentar-se para maior alívio do Pitt.

—General, rogo-lhe que seja tão amável de nos explicar exatamente a que se refere—disse o juiz dirigindo-se ao Anstruther—. É certo que Sir Arthur e você não estavam de acordo em alguns assuntos? O que lhe faz chegar à conclusão de que seu raciocínio mental era confuso?

As faces do Anstruther se ruborizaram, e o contraste com as costeletas brancas se fez ainda maior.

—Dizia coisas absurdas sobre conspirações secretas encaminhadas à conquista da Equatoria ou algo assim—disse voltando a olhar à frente e logo retirando a vista—. Fazia umas acusações absolutamente desatinadas.

O pobre se contradizia cada vez que falava. É terrível, começar a perder o sentido de... Deus sabe, de todas suas convicções, ali onde a gente depositou sua confiança e sua decência, o que o faz estar entre os seus e onde radicam os valores nos que alguém acreditou toda sua vida.

—Quer dizer você que Sir Arthur tinha mudado de forma substancial com respeito à pessoa que era até fazia pouco tempo?

—Rogo-lhe que não me obrigue a dizê—lo! —insistiu Anstruther indignado—. Enterremo—lo em paz, e com ele, também suas últimas desgraças. Esqueçamos este disparate e recordemo—lo como era faz mais ou menos um ano.

Matthew soltou um gemido tão alto que não só o ouviu Pitt, mas também o homem que estava sentado junto a este. O homem lhe dirigiu um olhar de recriminação, ruborizou-se ante a inconveniência daquele desafogo e logo olhou a outro lado.

—Obrigado, general—disse o juiz com tranqüilidade—. Acredito que já nos disse o suficiente para que façamos uma idéia. Pode retirar-se.

Anstruther tirou um lenço branco, soou-se o nariz com violência e abandonou a tribuna sem olhar a ninguém.

O seguinte era o honorável William Osbome, quem afirmou muitas das coisas que havia dito Anstruther, acrescentando só um ou dois exemplos do comportamento estranho e irracional do Arthur Desmond, mas sem mencionar a África.

Era um homem mais tranqüilo e sereno, e embora utilizasse palavras que expressavam certo pesar, em sua maneira de falar não havia o menor indício de sentimentos, salvo o de uma ligeira impaciência.

Matthew o olhava de forma implacável e com profundo desagrado, cada vez mais perplexo em sua própria dor. Era mais que possível que tanto Anstruther como Osbome fossem membros do Círculo Interior. Em seu foro interno, Pitt resistia a reconhecê-lo, mas também era possível que Arthur Desmond se expressasse de forma algo irracional e que suas opiniões obedecessem mais à paixão que à comprovação dos fatos.

Sempre tinha sido muito individualista, inclusive algo excêntrico. Era possível que com a idade se foi afastando cada vez mais da realidade.

A seguir subiu à tribuna outro membro do clube, um homem magro e de pele cítrica; tinha além disso um relógio de ouro com o que seus dedos brincavam sem cessar, como se aquilo lhe proporcionasse algum alívio.

O homem repetiu exatamente o que já havia dito Osbome, recorrendo de vez em quando às mesmas expressões para descrever o que segundo ele não podia ser outra coisa que a perda paulatina de suas faculdades para pensar e raciocinar.

O juiz escutou a declaração sem interrompê—lo e logo decidiu postergar a vista até depois do almoço. Tinha começado às dez e já eram mais de doze.

Pitt e Matthew saíram juntos a brilhante luz do dia. Matthew caminhou um momento em silêncio, imerso em seus próprios pensamentos. Um homem lhe deu um empurrão ao passar a seu lado e ele não se deu conta.

—Suponho que não podia esperar outra coisa—disse por fim ao dobrar a esquina, e se dispunha a seguir caminhando quando Pitt o pegou pelo braço—. O que acontece?—perguntou.

—Vamos aí em frente—respondeu Pitt lhe assinalando um pôster onde se anunciava uma taverna, a do Bull Inn.

—Não tenho fome—replicou Matthew com impaciência.

—Tem que comer algo—lhe ordenou Pitt enquanto descia da calçada procurando evitar uns excrementos de cavalo. Matthew os pisou distraídamente e soltou um xingamento.

Em outras circunstâncias, Pitt teria soltado uma gargalhada ao ver o rosto do Matthew, mas sabia que não era o melhor momento para fazê-lo. Os dois cruzaram a rua e Matthew começou a limpar o sapato contra o meio—fio com cara de poucos amigos.

—Mas já ninguém limpa a rua? —exclamou—. Não posso entrar assim.

—Sim pode. Já verá como há um limpador de barro na porta. Vamos.

Matthew seguiu ao Pitt a contra gosto até a entrada e ali se serviu de um raspador de ferro para limpar meticulosamente a bota, como se aquilo fosse da máxima importância, depois do que entraram na taverna.

Pitt pediu pelos dois e tomaram assento entre a multidão. As jarras reluziam penduradas sobre o balcão e a madeira tinha um brilho escuro, havia serragem no chão e tudo cheirava a uma mescla de cerveja, calor e suor.

—E agora o que vamos fazer?—disse Matthew quando já lhes tinham servido os pratos: pão rangente, manteiga, queijo em miolos, embutidos e cidra fresca.

Pitt fez um sanduíche com tudo e começou a comê—lo.

—De verdade pensou em algum momento que podemos conseguir algo? — prosseguiu Matthew sem tocar o prato—. Ou só tenta me tranqüilizar?

—É claro que o pensei de verdade—respondeu Pitt. Ele também estava zangado e angustiado, mas sabia muito bem quão importante era economizar esforços se tinham que lutar—. Mas não poderemos demonstrar que mentem até que não saibamos o que disseram.

—E depois?—perguntou Matthew em tom de incredulidade.

—Depois faremos tudo o que possamos—sentenciou Pitt.

Matthew sorriu.

—Você sempre tão literal e tão exato em tudo. Não mudou, não é, Thomas?

Pitt pensou em desculpar-se, mas logo se deu conta de que não valia a pena.

Pareceu que Matthew estava a ponto de lhe perguntar algo mais, mas decidiu não fazê-lo, começou a comer o sanduíche com um apetite surpreendente e seguiu calado até que chegou o momento de partir.

A primeira testemunha da tarde foi o médico legista, que fez sua declaração com toda sorte de detalhes, mas como já tinha muita experiência naquela ingrata tarefa, evitou os termos científicos. Era tudo muito simples: Arthur Desmond tinha morrido por uma overdose de láudano administrado na hora anterior ao falecimento.

Era uma quantidade bastante grande para ter matado a qualquer um, mas também tinha conhaque no estômago, o qual talvez contribuiu a dissimular o sabor. Em sua opinião, o láudano era muito forte para não haver-se notado com o conhaque, que, por outro lado, parecia excelente, embora isso fosse questão de gosto.

—Encontrou algum outro sintoma de enfermidade ou deterioração física ?—perguntou o juiz.

O médico legista pôs uma expressão longa.

—Naturalmente que havia sintomas de deterioração. Era um homem de setenta anos! Mas além disso, gozava de uma saúde excelente. Tomara me encontrasse como ele ao chegar a essa idade. Mas não havia indícios de nenhuma enfermidade.

—Obrigado, doutor, isso é tudo.

O médico soltou um tímido grunhido e abandonou a tribuna de testemunhas.

Pitt teria jurado que não era membro do Círculo Interior, mas tampouco sabia muito bem do que ia poder lhe servir aquilo.

A seguinte testemunha foi também um médico, mas era um homem completamente diferente do anterior. Este se mostrava sério, atento e amável, embora também se via consciente de sua própria importância. Deu seu nome e título e começou a responder às perguntas sobre o assunto que se tratava.

—Doutor Murray—começou o juiz—, tenho entendido que era o médico de Sir Arthur, é correto?

—É.

—Só durante uns anos.

—Os últimos quatorze anos, senhor juiz.

—Então conhecia muito bem seu estado de saúde, tanto físico como mental, não é certo?

Junto ao Pitt, Matthew estava inclinado para frente, com as mãos fortemente apertadas e o rosto tenso. Pitt também se notou ansioso por ouvir o que ia dizer.

—Naturalmente—disse Murray—. Embora deva confessar que não tinha nem idéia de que sua deterioração tinha chegado tão longe, do contrário não lhe receitaria láudano.

Refiro—me, claro está, à deterioração de seu estado de ânimo.

—Talvez poderia explicar-se um pouco, doutor Murray. A que se refere exatamente? Estava Sir Arthur deprimido, ou preocupado por algum assunto, ou possivelmente padecia de ansiedade?

Fez-se um silêncio total na sala. Os jornalistas esperavam pacientemente com os lápis na mão.

—Sim, mas não como você dá a entender, senhor juiz—respondeu Murray com total segurança em si mesmo—. Tinha maus sonhos, ou pesadelos, se assim o preferir. Pelo menos isso me disse quando veio ver—me. Eram sonhos horríveis, mas não sei se me entende.

Não refiro às imagens desagradáveis que todos sofremos depois de uma comida excessiva ou de uma má experiência—disse trocando ligeiramente de postura—. Via—o cada vez mais desorientado e começava a ter graves suspeitas das pessoas em quem tinha confiado toda a vida.

Devo reconhecer, melhor dizendo, dou por sentado que sofria de demência senil. Desgraçadamente, é algo que pode acontecer inclusive às pessoas de mais valia.

—É triste, sim—disse o juiz com gravidade.

Matthew não pôde resistir mais e se levantou com todo o ímpeto de que foi capaz.

—Isso é uma absoluta tolice! Achava-se tão lúcido e em plenitude de faculdades mentais como qualquer outro!

Uma careta de raiva escureceu o rosto do Murray. Não estava acostumado a que o contradissessem.

O juiz começou a falar com toda a paciência que pôde, mas com uma seriedade que pareceu encher a sala inteira e todo mundo se virou para olhar ao Matthew.

—Sir Matthew, todos compreendemos a dor que sente e a lógica angustia que padece pela perda de seu pai, sobretudo tendo em conta as circunstâncias em que esta se produziu, mas não vou permitir mais interrupções.

E agora, me deixe, por favor, que pergunte ao doutor Murray sobre sua opinião a respeito. —E dirigindo-se outra vez ao Murray, perguntou-lhe—: Pode nos dar algum exemplo que ilustre esse estranho comportamento, doutor? Se tão pouco sabia você de seu estado, surpreende—me que lhe receitasse láudano em quantidade suficiente para que se desencadeasse o fatal fato que nos trouxe aqui.

Murray não mostrava o menor sinal de arrependimento, e muito menos de culpa. Assim como Osbome, não fazia mais que desculpar-se, mas, a diferença daquele, seu rosto permanecia imperturbável, sem fresta algum de dor nem de ironia.

—É algo que lamento profundamente, senhor juiz—disse tranqüilamente e sem atrever-se a olhar ao Matthew—. Não é fácil fazer públicas as debilidades de um bom homem, e menos quando têm que ver com as causas de sua morte

Mas sou consciente do dever que me exige e dos motivos que tem para querer saber tudo. Como já disse, desconhecia seu estado real no momento de lhe receitar o láudano, de outro modo, como bem diz, jamais o teria feito.

Murray esboçou um tímido sorriso e um dos espectadores que tinha diante assentiu com a cabeça.

—Sir Arthur me falou de seus pesadelos e do muito que lhe custava dormir — continuou Murray—. Sonhava com animais selvagens, selvas, canibais e demais coisas aterradoras. Parecia sofrer um pânico interior para esse tipo de coisas.

Mas eu então não conhecia sua obsessão pela África—disse sacudindo a cabeça—. Lhe receitei láudano com o convencimento de que lhe ajudaria a dormir melhor e de que esses pensamentos deixariam de perturbá—lo tanto. Só depois soube por um de seus amigos até que ponto ficara sem sua capacidade de raciocínio.

— Mente!—disse Matthew entre dentes e sem olhar ao Pitt, por muito que aquela expressão fosse dirigida a ele—. Esse porco está mentindo para proteger-se! —E nesse momento o juiz pareceu ouvi—lo, de modo que Matthew virou rapidamente o corpo em sinal de desculpa.

—Sim, eu também acredito—respondeu Pitt em voz baixa—. Mas procura estar calado. Aqui não vai demonstrar nada.

—Mas se o assassinaram! Olha—os! Aí todos juntos, dispostos a manchar seu nome e a tentar que todo mundo acredite que era um velho senil que tinha perdido de tal maneira o juízo que se matou por acidente—disse Matthew com um ressentimento que o transbordava.

O homem que estava sentado ao outro lado parecia incômodo. Pitt pensou que já teria trocado de lugar se não fosse porque teria chamado muito a atenção.

—Não vai conseguir nada enfrentando a eles cara a cara—disse Pitt muito zangado e, de repente, com um calafrio no estômago sentiu que eram vítimas de um novo temor: em realidade não havia forma humana de saber quem estava comprometido, em quem podiam confiar e em quem não—. Reserva suas forças!

—O que? —exclamou Matthew voltando-se para ele com expressão de estar alheio a tudo. E por fim compreendeu o que lhe tentava dizer Pitt—. OH, claro. Sinto muito. Suponho que isso é precisamente o que esperam que faça, não é? Me zangar tanto que logo seja incapaz de pensar.

—Sim —soltou Pitt contundentemente.

Matthew voltou a sumir-se em seus próprios pensamentos.

O doutor Murray tinha abandonado a tribuna de testemunhas e em seu lugar estava agora um homem chamado Danforth, vizinho de Sir Arthur.

Naquele momento estava afirmando não sem certa tristeza que efetivamente tinha notado a Sir Arthur muito distraído e muito diferente de como ele era. Sim, por desgraça parecia ter perdido a consciência real das coisas.

—Poderia ser um pouco mais concreto? —rogou-lhe o juiz.

Danforth o olhou diretamente, procurando evitar deliberadamente os bancos do público e assim não encontrar-se com o olhar do Matthew.

—Bom, lembro por exemplo algo que aconteceu faz uns três meses—respondeu com tranqüilidade—. A melhor cadela de Sir Arthur teve cachorrinhos e me prometeu que poderia escolher os que eu quisesse da isca de peixe.

Fui vê-los e me pareceram uns animais magníficos, de modo que escolhi duas com sua permissão.

—Danforth desceu o olhar e mordeu o lábio como duvidando de algo antes de continuar—. Nos demos a mão em sinal de mútuo acordo. Quando chegou o momento de desmamá—los, fui a sua casa a recolhê—los, mas Sir Arthur foi a Londres para algum recado. Deixei dito que voltaria a semana seguinte, e assim o fiz, mas de novo se foi não sei aonde, e se por acaso fora pouco já lhe tinha vendido todos os cachorrinhos à comandante Bridges no Highfield.

A verdade é que isso me incomodou muito—disse franzindo o cenho e olhando ao juiz. ouviu-se um ligeiro ruído na sala, como se alguém estivesse trocando de posição.

—Quando por fim retornou Sir Arthur, quis discutir com ele sobre o assunto. — Ainda notava—o muito ressentido na voz e no gesto que fez com os ombros ao agarrar-se com ambas as mãos ao estrado—. Me havia encantado dos cachorrinhos—seguiu dizendo—. Mas Arthur parecia completamente ido e afirmou que me tinha ouvido dizer que eu já não os queria, o que é exatamente o contrário do que pretendia.

E logo começou a dizer um montão de disparates sobre a África—disse sacudindo a cabeça e fazendo uma careta com os lábios—.

O pior é que ele acreditava mesmo no que dizia. Muito temo que tinha isso que eu chamo uma obsessão. Segundo ele, havia uma sociedade secreta que o estava perseguindo. A verdade, senhor juiz, eu... tudo isto é muito embaraçoso para mim.

Danforth se moveu com desconforto e limpou a garganta. Frente a ele, dois ou três homens assentiam com a cabeça mostrando-se de acordo com o dito.

—Arthur Desmond era uma boa pessoa—disse Danforth em voz alta—. É realmente necessário que pincemos neste desgraçado assunto? O pobre tomou duas vezes por acidente o remédio que lhe tinham receitado para dormir e quase me atrevo a dizer que seu coração não era tão forte como ele achava. Podemos acabar com isto de uma vez?

O juiz hesitou só um momento e finalmente se mostrou de acordo com ele.

—Sim, senhor Danforth, acredito que podemos. Obrigado por seu testemunho em um caso que não deve ter sido nada fácil para você —e acrescentou olhando para a sala enquanto Danforth abandonava o estrado—: Há mais testemunhas? Alguém quer acrescentar algo mais que considere importante para o caso?

Um homem baixo e rechonchudo se levantou da primeira fileira do público.

-senhor juiz, se for amável, meus colegas e eu queríamos ajudar a limpar qualquer possível duvida sobre este trágico assunto—disse assinalando aos homens que se sentavam a ambos os lados dele—. Todos os que nos sentamos nesta primeira fila estivemos no Morton Clube à tarde em que morreu Sir Arthur.

Queríamos confirmar tudo o que disse o garçom e também o resto de testemunhos que hoje escutamos, e queríamos aproveitar esta oportunidade para expressar nossos mais sinceros pêsames a Sir Matthew Desmond—disse dirigindo o olhar para o banco onde Matthew se sentava curvado para frente e com o rosto pálido—.

Pêsames que fazemos extensivo a todo aquele que tivesse em grande estima a Sir Arthur, igual a nós. Obrigado, senhor juiz —concluiu tomando assento entre murmúrios de aprovação. que se sentava a sua direita tocou o ombro em um gesto de apoio e o da esquerda assentiu energicamente com a cabeça.

—Muito bem—disse o juiz cruzando as mãos—. Escutei suficientes declarações para ditar meu veredicto, desventurado talvez, mas sem o menor indício de dúvida.

Este tribunal sustenta que Sir Arthur Desmond morreu como conseqüência de uma overdose de láudano que ele mesmo se administrou em um momento de ofuscação.

Talvez tomou o láudano por engano em lugar de uns pós para a dor de cabeça ou de qualquer remédio contra a indigestão. Mas isso nunca saberemos. Este tribunal dita morte por acidente—sentenciou olhando ao Matthew fixamente, como se lhe estivesse advertindo de algo.

De repente, a sala começou a transbordar de agitação. Os jornalistas se lançaram à corrida para sair dali entre o bulício do público, que não deixava de fazer comentários e especulações.

O rosto do Matthew tinha adquirido um tom cinzento e tinha os lábios abertos, como a ponto de dizer algo.

—Calma! —murmurou Pitt energicamente.

—Não foi um acidente! —exclamou Matthew entre dentes—. Foi um assassinato a sangue frio! Não irá acreditar nisso?

—Eu não! Mas com as provas que há, podemos nos considerar afortunados de que não tenham conseguido um veredicto de suicídio.

Os últimos sinais de cor desapareceram do rosto do Matthew e se voltou para o Pitt. Ambos sabiam o que significava o suicídio: não se tratava unicamente de uma desonra, mas sim de um delito contra a Igreja e o estado.

Não teria tido direito a um enterro cristão e lhe teriam considerado um criminoso.

O juiz suspendeu a vista e as pessoas se levantaram e começaram a sair pouco a pouco para o sol do exterior sem deixar de falar, cada qual com suas dúvidas, suas teorias e suas explicações.

Matthew caminhava junto ao Pitt entre o pó da rua e ainda passaram vários minutos até que voltou a falar. Fez—o com a voz rouca, quase paralisado pela dor e confusão que o consumiam.

—Jamais me havia sentido assim. Custa—me trabalho acreditar que sou capaz de odiar a alguém desta maneira.

Pitt não disse nada. Nem sequer confiava em suas próprias emoções.

Vespasia dedicou à tarde ao que em outra época tinha sido uma ocupação muito habitual, mas que agora só praticava muito de vez em quando. Às três menos cinco mandou preparar sua carruagem e apareceu com um vestido de renda de cor crua e um chapéu à última moda com a aba subida e toucado com um motivo floral.

E assim, com uma sombrinha com cabo de marfim, desceu as escadas da entrada principal e a ajudaram a subir à carruagem.

Ordenou ao cocheiro que a levasse primeiro a casa de lady Brabazon, em Park Lane, onde devia permanecer o tempo exato de quinze minutos, nenhum mais nenhum menos, já que isso era o que devia durar uma visita vespertina. Menos tempo se teria considerado uma descortesia, e mais significava um abuso de confiança. Era mais importante saber quando partir que quando chegar.

Mais tarde mandou que a levassem a casa de lady Kitchener, no Grosvenor Square, aonde chegou pouco antes das três e meia, ainda dentro da margem permitida para as visitas cerimoniosas.

Entre quatro e cinco se dedicou às menos formais, e de cinco a seis às que podiam considerar-se de amizade. Vespasia seguia a estrita observância das convenções. Havia regras sociais que podiam desobedecer-se, mas também estavam as que eram ineludíveis e obrigatórias.

O tempo estabelecido para as visitas vespertinas entrava dentro destas últimas.

O que Vespasia queria era chegar a saber um pouco mais sobre diferentes altos cargos do Ministério de Colônias do ponto de vista social. Para isso era necessário que voltasse a fazer a ronda de visitas, já que só assim podia inteirar-se das intrigas adequadas.

Da casa de lady Kitchener se dirigiu ao norte para o Portman Square, e logo até o George Street, onde vivia Dolly Wentworth, e ali entregou seu cartão de visita e imediatamente a convidaram a entrar.

Eram já passadas as quatro, a hora em que devia oferecer o chá a um convidado, de modo que as visitas podiam durar então algo mais que os preceptivos quinze minutos.

—Que gentileza de sua parte ter vindo para ver—me, Lady Cumming—Gould—disse a senhora Wentworth com um sorriso. Achavam-se ali outras duas damas convenientemente sentadas na beira de suas cadeiras, com as costas bem retas e as sombrinhas depositadas ao lado. Uma era idosa, com um nariz elegante e gestos arrogantes.

A outra era pelo menos vinte e cinco anos mais jovem, e pela semelhança da testa e a cor do cabelo, supôs que eram mãe e filha. Dolly Wentworth tinha um filho ainda por casar. Vespasia tirou suas próprias conclusões assim que as viu ali e não demorou para comprovar que tinha razão.

Apresentaram—nas como a honorável senhora Reginald Saxby e a senhorita Violet Saxby.

A senhora Saxby se levantou em seguida. Era costume que alguém partisse assim que chegasse outra visita e não se considerava uma descortesia. Violet Saxby a seguiu visivelmente contrariada.

—Que pena que George tenha tido que ir ao clube—disse a senhora Saxby algo crítica.

—Estou segura de que se sentirá muito mal quando souber que vieram — murmurou Dolly—. Às vezes me pergunto o que têm que fazer os homens em seus clubes para que vão tão freqüentemente. Acredito que há muitos que passam as tardes inteiras ali, e se não se vão às corridas, ou ao criquet ou a qualquer outra coisa.

—Eu nem sequer sei por que têm seus clubes—disse Violet em tom petulante—. Há centenas de clubes para homens e apenas meia dúzia para mulheres.

—Isso tem uma explicação muito clara—lhe respondeu sua mãe—. Os homens necessitam de seus clubes para reunir-se e dizer tolices sobre política, esporte ou coisas assim, e de vez em quando se contam intrigas ou fazem negócios. É ali onde levam principalmente sua vida social.

—E as mulheres por que não? —insistiu Violet.

—Não seja absurda, menina. As mulheres já têm as salas de estar para essas coisas.

—Então, por que existem alguns clubes para mulheres?

—São só para as mulheres que não têm salas de estar, claro—respondeu a senhora Saxby com impaciência.

—Pois não conheço nenhuma dama digna deste nome que não tenha sua própria sala de estar.

—É claro que não. Uma dama que não disponha de uma sala de estar própria não é adequada para a vida em sociedade e, portanto, é como se não existisse — replicou a senhora Saxby.

E dito isto, parece que a senhorita Saxby se deu por satisfeita.

—OH, querida—lhe disse Dolly quando partiram—. Isto de ser solteiro se está convertendo em um suplício para o pobre George—sentenciou sem que fosse necessário dar mais explicações.

—Suponho que o verdadeiro suplício está em que seja tão bom partido—disse Vespasia sorrindo.

—Tem você toda a razão do mundo, querida. Mas por favor, sente-se—disse Dolly com um leve gesto da mão que servia para indicar uma das cadeiras de cor azul clara—. A verdade é que faz séculos que não a vejo em nenhuma das reuniões onde ainda é possível manter uma conversa sensata.

—Isso é porque já não existam—respondeu Vespasia aceitando o convite a conversar com ela—. Embora o outro dia desfrutei na recepção da Duquesa do Marlborough. Vi—a ao longe, claro que nestas ocasiões o mais difícil é encontrar-se, se não for por acaso.

Conheci Susannah Chancellor. Que mulher tão interessante!

Não sei por que recordou ao Beatrice Darnay. Não será da família dos Darnay do Worcestershire, não é?

—Não! Absolutamente. Desconheço de onde procede sua família, mas sei que seu pai era William Dowling, do Coutts Bank.

—Ah. Acredito que não o conheço.

—Nem o conhecerá, querida. Faz vários anos que morreu. Deixou uma fortuna mais que considerável e soube que Susannah e Maude a herdaram toda a partes iguais.

Não tinha filhos varões. Maude morreu, pobrezinha, e seu marido herdou sua parte junto com a principal participação no banco da família. Francis Standish. Conhece—o?

—Acredito que sim—respondeu Vespasia—. Um homem de aspecto muito diferente, se não recordo mau. Com o cabelo muito fino.

—O próprio. Dirige os negócios do banco. Tem essa aula de poder que sempre dá aos homens um ar de segurança em si mesmos, o qual não deixa de ser atraente—disse procurando uma postura mais cômoda na cadeira—. Claro que sua mãe estava aparentada com os Salisbury, mas não recordo como.

—E também conheci uma mulher de aspecto muito pouco freqüente chamada Christabel Thorne—seguiu dizendo Vespasia.

—Ah, querida! —exclamou Dolly rindo—. Acredito que pertence a essa corrente da "nova mulher". Um disparate, é claro, mas não deixa de ter sua graça. É algo que não passo. Como vou fazê-lo? Como vai fazer alguém com dois dedos de testa? É algo aterrador.

—É certo isso? —quis saber Vespasia—. Está segura?

Dolly ergueu as sobrancelhas.

—Você não? Se as mulheres começarem a abandonar a família e o lar para realizar-se sós em algo completamente diferente, já me dirá você o que vai ser da sociedade. Uma mulher não pode fazer sempre o que queira. A isso se chama irresponsabilidade.

Viu você essa horrenda peça de teatro do Ibsen? Titula-se Casa de Bonecas ou algo assim. A protagonista abandona a seu marido e seus filhos e parte de sua casa sem nenhum motivo.

—Suponho que ela acredita que o tem—disse Vespasia, sabendo que por sua idade lhe podiam permitir certas liberdades—. Seu marido era muito dominante e a tratava como a uma menina, sem deixar que ela tomasse suas próprias decisões.

Dolly soltou uma gargalhada.

—Pelo amor de Deus, querida, mas se a maioria dos homens fazem o mesmo.

Só terá que saber como levá—los. Com um pouco de adulação, outro pouco de sedução e muito tato, alguém pode distrair a atenção de um homem e conseguir algo que se proponha.

—O que ela não quer é ter que lutar tanto por algo que considera seu por direito próprio.

—Fala você como se também fosse uma "nova mulher"!

—É claro que não! Já sou muito velha para isso—disse Vespasia, e a seguir quis trocar de assunto. — E por que Christabel Thorne é tão extremista? Estou certa de que ela não abandonou seu lar.

—Muito pior que isso—disse, agora sim, com expressão de absoluto desagrado—.

Tem uma espécie de estabelecimento onde imprime e vende toda classe de livros que animam às mulheres a formar-se a si mesmos e a dedicar-se a uma profissão.

Imagine! Pelo amor de Deus! Quem vai empregar a uma mulher advogada, ou arquiteta, ou juiza ou a uma mulher médica? Além disso é de tudo inútil. Os homens nunca permitirão algo assim. Claro que ela tampouco quer escutar.

—Extraordinário—disse Vespasia tentando dissimular sua surpresa—. Absolutamente extraordinário.

E não continuaram falando mais do assunto porque nesse momento chegou outra visita, e embora já fossem passadas as quatro, Vespasia não tinha mais remedio que partir.

A última visita que realizou foi à casa de Nobby Gunne. Encontrou-a no jardim olhando fixamente uns lírios com cara de distração. Curiosamente, parecia nervosa, mas ao mesmo tempo irradiava uma espécie de felicidade pelo que a pele adquiria uma cor muito viva.

—Que alegria vê—la!—disse, deixando o leito de lírios e dirigindo-se para ela—. Deve ser a hora do chá. Quer tomar uma xícara? Ficará um momento?

—Claro que sim —aceitou Vespasia.

As duas cruzaram a ampla franja de grama onde algumas folhas mais longas e sem cortar cediam ao peso de suas saias ao passar. Um besouro voava preguiçosamente de uma rosa a outra.

—No verão, um jardim inglês é algo muito especial—disse Nobby com tranqüilidade—, mas não sei por que não deixo de pensar cada vez mais na África.

—Mas não irá voltar agora, não é?—perguntou Vespasia surpreendida. Nobby já tinha superado essa idade em que uma empresa dessas características é fácil de preparar e cômoda de realizar. O que aos trinta é uma aventura, pode converter-se em uma penosa experiência aos cinqüenta e cinco.

—OH, não! Não tenho a menor intenção de fazê-lo—disse Nobby sorrindo—. Bom, exceto quando sonho acordada. Não sei por que, as coisas sempre são mais belas do que foram quando se recordam. Não, só estou preocupada, especialmente depois da conversa da outra noite. Agora há tanto dinheiro no meio, tantos benefícios que se esperam da colonização e comércio. A época em que se explorava para descobrir um lugar pelo mero fato de que jamais o tinha pisado o homem branco já é coisa do passado. Agora só se fala de tratados, dos direitos das explorações mineiras e de soldados.

Quanto sangue derramado por tudo isso!—disse olhando a madressilva que se derramava por uma taipa do jardim pela que agora passavam—. Já ninguém fala das missões. Faz um par de anos que não ouço falar com ninguém do Moffat ou do Livingstone. Agora só se fala do Stanley e do Cecil Rhodes, e também de dinheiro —afirmou com o olhar nos olmos cujas folhas brilhavam ao sol e sussurravam com a brisa, e debaixo deles umas rosas brancas trepadeiras que começavam a abrir-se. Era tudo tão inglês. África, com o pó, o calor e o sol abrasador, mais parecia um conto de fadas muito irreal para que lhe importasse algo.

Mas vendo o rosto de Nobby, Vespasia se dava conta da profunda emoção que sentia e do muito que aquele continente ainda a preocupava.

—Os tempos mudam-disse Vespasia em voz alta—. Temo que depois dos idealistas, sempre chegam os pragmáticos, os que tiram proveito de tudo.

Sempre foi assim. Talvez seja inevitável—sentenciou enquanto caminhava tranqüilamente junto à Nobby até que se deteve junto a um arbusto de lupino com uma dúzia de brotos de cor rosa que já começavam a aparecer—. Deveria sentir-se agradecida por ter tido o privilégio de viver a melhor época e de ter feito parte dela.

-se só fosse isso—disse Nobby franzindo o cenho—, se só fosse uma questão pessoal, esqueceria—me do tema. Mas é algo mais importante, Vespasia—disse olhando ao redor com seus olhos escuros—.

Se a colonização da África se faz mau, se unicamente semearmos ventos, passaremos séculos inteiros recolhendo tempestades, prometo. —Falava agora com uma expressão tão carrancuda e um temor tão evidente, que Vespasia sentiu um calafrio no meio do jardim, e de repente todas aquelas cascatas de flores lhe pareceram muito longínquas e até o calor que sentia na pele lhe pareceu muito irreal.

—O que acredita que acontecerá exatamente?—perguntou.

Nobby ficou com o olhar perdido ao longe. Não estava ordenando seus pensamentos; isso já o tinha feito fazia tempo. Ficou contemplando uma espécie de visão interior, e o que ali via era aterrador.

-se algum dos planos do Linus Chancellor se leva a cabo com a ajuda de seus aliados, que são os que estão investindo enormes quantidades de dinheiro para colonizar o interior… (e refiro ao Mashonaland, Matabeleland, as bordas do Lago Nyasa ou inclusive Equatoria) e o fazem tal como têm previsto, já que estão seguros de que existe uma quantidade infinita de ouro ali, o que acontecerá a seguir é que começará a chegar outro tipo de gente que não se interessa o mínimo nem pela África, nem seus habitantes, gente que não quererá cultivar a terra, nem para si mesma nem para seus filhos, e cujo único objetivo será a rapina de seus minerais. —

E enquanto dizia isto, uma mariposa revoou junto a elas e se posou em uma flor aberta—. Acudirão especuladores de todas classes, sobretudo estelionatários e vigaristas.

Haverá gente muito violenta com seu exército privado e um após o outro tentarão ganhar aos chefes nativos de cada tribo. Neste momento a situação com respeito às guerras tribais já é grave, mas até agora só lutaram com lanças.

Pense no que pode acontecer quando uns tenham armas de fogo e outros não. —E acrescentou olhando a Vespasia—: E não subestime aos alemães. Sua presença no Zanzíbar é muito forte e só estão esperando o momento de ganhar espaço terra adentro. Já se produziu um terrível derramamento de sangue, mas é possível que o pior ainda esteja por chegar.

Os negociantes árabes de escravos farão todo o possível para proteger seus interesses pela força. Já se levantaram contra os alemães em uma ocasião.

—Mas certamente o governo é consciente da situação, não?—perguntou Vespasia.

Nobby voltou a dirigir o olhar para o jardim e deu ligeiramente de ombros.

—Não sei se sabem. É tudo tão diferente quando se fala deste tema na Inglaterra, aparecem tantos nomes nos jornais, há tanta gente que fala de ouvido e está tudo tão longe. Tudo é muito diferente quando se esteve ali, quando se aprendeu a amá-lo e conheceu-se a sua gente. Nem todos são nobres selvagens com o olhar limpo e o coração puro.

De novo voltavam a caminhar muito devagar sobre o canteiro de grama e Nobby soltou uma risada nervosa.

—Podem chegar a ser tão pérfidos e exploradores como qualquer homem branco, e igualmente despóticos. Chegam a vender a seus inimigos a qualquer árabe que lhes pague por eles para vendê—los logo como escravos.

É o que geralmente se faz com os prisioneiros de guerra. Não acredito que a diferença esteja na moralidade, mas no grau de poder—sentenciou com uma lenta piscada—. Com nossos modernos inventos, com as armas, o aço e nossa imponente organização, podemos fazer o bem, mas também o mal. E receio que por culpa da cobiça e da fome de ampliar um império, o que mais faremos será o mal.

—E se pode fazer algo para evitá—lo?—perguntou Vespasia—. Ou pelo menos para mitigar esse mau?

—Isso é o que me preocupa—respondeu Nobby, iniciando outra vez a marcha do fundo do canteiro de grama até um canto protegido pela sombra de um cedro. As duas se sentaram em um banco de cor branca—. Nestes momentos me sinto confundida e muito pouco segura, mas acredito que sim.

Ultimamente falei um pouco com o Kreisler. Não faz muito que retornou dali e tenho muito respeito por suas opiniões—disse com um ligeiro rubor nas faces e procurando não olhar a Vespasia—. Ali conheceu o Abushiri, o cabeça da rebelião que houve contra os alemães no Zanzíbar.

Acredito que tudo começou com um grupo de negociantes de escravos e de marfim que não podiam exercer sua atividade com normalidade pelas limitações que lhes impunham, mas a revolta se sufocou com bastante estupidez.

Reconheço que sei muito pouco. Kreisler falou do tema só por cima, mas me deixou muito intrigada.

Vespasia também estava, mas por outros motivos. Conhecia já a queda do Otto von Bismarck, o brilhante chanceler da Alemanha e pai da nova unificação do país. O velho kaiser, que em teoria mandava sobre ele, esteve doente naquela época e morreu pouco depois por um câncer de garganta.

Agora o único governante daquele novo estado tão pletórico de forças era o kaiser Guillermo II, jovem, voluntarioso e muito seguro de si mesmo. As ambições alemãs não estavam dirigidas precisamente por uma mão prudente e sábia.

—Ainda recordo os primeiros anos do Livingstone—disse Nobby com um tímido sorriso—. Isso me converte em uma velha, não acha? Naquela época todo mundo estava emocionado e ninguém falava de ouro nem de marfim.

O importante era descobrir outros povos, achar novas e maravilhosas terras e grandes cataratas como as de Vitória—disse levantando o olhar por volta do sol através dos ramos do cedro—. Uma vez conheci alguém que as tinha visto fazia só uns meses. Lembro que estava no acampamento, era quase de noite e ainda fazia muito, muito calor.

Na Inglaterra não faz um calor como o dali, que se pode tocar e respirar. As acácias tinham as copas esmagadas como pelo peso de um céu cheio de estrelas, e cheirava a pó e a erva seca. Só se ouvia o zumbido dos insetos e, de um poço de água, a meio quilômetro dali, também se ouviu de repente o rugido de uma leoa. Fiquei paralisada, como se tivesse podido tocar ao animal com apenas estender a mão.

Nobby parecia muito compungida e Vespasia não quis interrompê—la.

—Aquele homem era um explorador que tinha ido em expedição com um grupo.

Era um homem branco—seguiu contando Nobby com tranqüilidade, como se estivesse falando só para si mesma—.Quando chegou a nosso acampamento estava doente, tinha febre e estava tão esgotado que mal podia se ter em pé. Estava tão consumido que todo ele era um saco de ossos, mas tinha o olhar de um menino e seu rosto se acendeu de emoção quando começou a falar. Tinha—as visto fazia uns três meses.

As cataratas maiores do mundo, disse, como se o oceano inteiro se derramasse pelos penhascos do céu em uma corrente sem fim, caindo estrepitosamente para um abismo cujo fundo era impossível de ver pela quantidade de espuma que flutuava e pelos infinitos arco íris que se viam. O rio tinha uma dúzia de braços e cada um deles se precipitava para essa ravina, enquanto a selva se pegava às bordas e inclusive aparecia em centenas de lugares diferentes.

Nobby deixou de falar.

—E o que aconteceu com esse homem?—perguntou Vespasia.

Em algum lugar por cima delas, um pássaro ficou a cantar no cedro.

—Morreu de febres dois anos depois—respondeu Nobby—. Queira Deus que essas cataratas sigam aí até o fim dos tempos—disse. levantou-se e começou a caminhar pela grama em direção à casa, e Vespasia a seguiu—. O chá já deve estar preparado. Quer agora uma xícara?

—Sim, por favor—disse Vespasia alcançando—a.

—Kreisler caçava com o Selous, sabia?—seguiu dizendo Nobby.

—E quem é Selous?

—OH, Frederick Courtney Selous, um caçador e explorador maravilhoso—respondeu Nobby—. Me contou Kreisler que Selous é quem encabeça a coluna do Rhodes que se dirige para o norte para colonizar Zambeze—disse, outra vez com expressão de tristeza, embora com um tom especial na voz cada vez que mencionava o nome do Kreisler—.

Sei que Chancellor apóia a campanha do Rhodes, e é claro o banco do Francis Standish também.

—E isso é algo com o que Kreisler não está de acordo—disse Vespasia em tom de afirmação mais que de pergunta.

—E temo que razão não lhe falta—respondeu Nobby olhando de repente a Vespasia—. Sente um amor verdadeiro pela África, não pelo benefício que espera dela, mas sim por ela mesma, porque é selvagem e estranha, formosa, terrível e muito antiga —afirmou sem que fosse preciso que dissesse o muito que admirava aquele homem. Lhe notava na expressão do rosto e na doçura da voz.

Vespasia sorriu e não disse nada. As duas seguiram caminhando pela grama e a seu passo suas saias foram como escovando as fibras de erva, subiram as escadas que conduziam à casa e entraram para tomar o chá.

No dia seguinte se celebrava um bazar com fins beneficientes ao qual Vespasia tinha prometido comparecer.

Tinha-o organizado uma velha amiga e, por muito que estas coisas a desgostassem, sentia-se obrigada a apoiar a causa, embora tivesse preferido doar simplesmente o dinheiro e não ter que ir.

De qualquer maneira, pensou que talvez Charlotte o achasse divertido e mandou que fossem procurá—la em carruagem se por acaso quisesse ir.

No final, resultou que aquilo não era como tinha esperado; assim que ela e Charlotte chegaram, deu-se conta de que, além de entretido, daquele bazar podiam conseguir muita informação.

Sua amiga, Penelope Kennard, tinha esquecido de lhe dizer que era um bazar inspirado em Shakespeare, de modo que tudo o que tinha participado da organização do mesmo devia vir disfarçado de algum personagem de uma de suas obras.

Por esta razão, quando chegaram à entrada do jardim foram recebidas por um bonito Enrique V, que lhes deu as boas—vindas com a voz altissonante. Justo depois de havê-lo deixado atrás, lhes apareceu um malvado Shylock pedindo dinheiro ou uma libra de carne.

Depois da primeira reação de surpresa, Vespasia lhe pagou encantada uma generosa quantidade de dinheiro pelas entradas, a dela e a de Charlotte.

—Santo Céu! E agora o que vem? —murmurou baixo enquanto passavam

junto a uma barraca onde uma das organizadoras ia disfarçada da Titania, rainha das fadas do sonho de uma noite de verão, com o que estava muito atraente. Nem com o mais atrevido dos vestidos de noite teria mostrado tanto.

Ia envolta em um montão de gaze que deixava ao ar braços, ombros e cintura, para não falar do que podia adivinhar-se sob as transparências das dobras.

Havia dois jovens cavalheiros brigando pelo preço de uma pomada de lavanda, e ainda havia vários mais esperando ansiosamente seu turno.

—Que eficácia!—disse Charlotte com admiração não isenta de certo receio.

—Verdade que sim?—respondeu Vespasia com um sorriso—. A última vez que Penelope organizou um destes bazares se inspirou nos personagens do senhor Dickens e a verdade é que não foi tão divertido.

Tinham todos o mesmo aspecto que tenho eu. Olhe! Ali! Vê a Cleopatra vendendo almofadas?

Charlotte olhou para onde apontava Vespasia e viu uma jovem muito formosa com o cabelo e os olhos negros, o nariz aquilino, embora com a ponte muito alta para considerá-la perfeita, e a boca travessa e muito pessoal.

Aquele rosto podia ser perfeitamente de uma mulher acostumada ao poder e a extraordinária mescla de excesso e moderação. Nesse momento estava oferecendo um pequena almofada com bordados de renda a um cavalheiro vestido impecavelmente com um fraque e umas calças de listas. Tinha todo o aspecto de ser um banqueiro ou um negociante de ações e obrigações.

Um bispo com as tradicionais perneiras ia passeando devagar, sorrindo sem motivo aparente e saudando com a cabeça a um e outro lado. Seus olhos ficaram fixos durante um momento na Cleopatra e quase esteve a ponto de parar—e comprar uma almofada, mas a prudência lhe aconselhou o contrário e seguiu seu caminho para a Titania sem deixar de sorrir.

Vespasia olhou ao Charlotte; sobravam os comentários.

As duas seguiram caminhando entre barracas onde uns jovens embelezados com roupagens muito imaginativas vendiam confeitos, flores, ornamentos, fitas, pasteizinhos e desenhos, enquanto outros ofereciam ao visitante jogos para entreter-se a vários preços.

Depois Charlotte viu outra barraca onde pendiam umas cortinas de tecido escuro com muitas estrelas presas nelas e uns pôsteres anunciando que por seis pennies as bruxas do Macbeth podiam ler a sorte e anunciar os grandes triunfos que o futuro podia proporcionar a uma pessoa.

Havia uma fila de jovenzinhas sufocando seus risinhos esperando sua vez para entrar, e a seu lado alguns jovens afirmando que estavam ali só para acompanhá-las, embora se via em seus rostos o interesse que aquilo tinha despertado neles.

Um pouco mais adiante, Charlotte viu a robusta figura do Eustace March, erguido como uma estátua e falando atentamente com um homem gordo de cabelo branco e murcho e uma voz ensurdecedora.

Os dois riam a gargalhadas, até que Eustace se despediu dele e se voltou sem dar-se conta de que ali estava Charlotte. Assim que a viu, fez cara de susto, mas já era muito tarde para fingir que não a tinha visto.

Endireitou os ombros e se dirigiu a ela.

—Boa tarde, senhora Pitt. Quanto me alegro de vê—la! Já vejo que apoiando uma causa nobre, não?—disse rindo com espasmos—. Me parece muito bem. —

Vespasia tinha acabado de falar com uma amiga e Eustace ainda não tinha percebido sua presença. Hesitou sem saber muito bem o que dizer, esperando cumprir quanto antes com as normas da boa educação para fugir dali—. Que dia tão bonito. Vale a pena desfrutá—lo neste precioso jardim, não lhe parece?

—Encantador—respondeu Charlotte—. A senhora Kennard foi muito amável cedendo—o para o bazar, embora com tanta gente, depois haverá muito que limpar.

Eustace fez uma ligeira careta ante a ingenuidade daquele comentário.

—Tudo seja por uma boa causa, querida amiga. Terá que estar disposto a estes pequenos sacrifícios. Tudo o que vale, custa algo, já sabe—disse com um sorriso que deixava ver a dentadura.

—É claro—disse ela—. Suponho que conhecerá muitas das pessoas que vieram, não?

—Oh, não. Virtualmente a nenhuma. Já não disponho de tanto tempo como antes para fazer vida social. Há muitas coisas importantes que fazer —afirmou, e pareceu a ponto de partir para ocupar-se delas imediatamente.

—A verdade é que você me interessa muito, senhor March —soltou ela olhando-o nos olhos.

Eustace ficou horrorizado. Era a última coisa que queria no mundo. Charlotte o fazia sentir-se desconfortável. A conversa sempre ia por onde ele menos esperava.

—Bom, querida amiga, asseguro-lhe que eu...

—Não seja modesto, senhor March—disse ela com um sorriso muito encantador.

Eustace se ruborizou. Não se tratava de modéstia, mas sim da imperiosa necessidade de escapar dali.

—Estive pensando muito no que disse ontem sobre o fato de nos organizar todos juntos para fazer o bem—disse Charlotte transbordando impaciência—. Acredito que tem razão. Quando há cooperação, conseguem-se muitas mais coisas. O conhecimento é poder, não lhe parece? Como vamos lutar com eficácia se não soubermos onde estão as maiores necessidades? De outro modo, inclusive podemos chegar a causar dano, não acha?

—Sim, suponho que assim é—disse com muito pouco convencimento—. Não sabe quanto me alegra que se deu conta de que qualquer julgamento precipitado geralmente é errôneo. Posso lhe assegurar que a organização a que pertenço é muito respeitável.

—E modesta também – acrescentou ela sem pestanejar—. Deve ter estado muito preocupado sabendo o que Sir Arthur Desmond dizia de sua organização antes que o pobre homem morresse.

Eustace empalideceu, visivelmente incômodo.

—Sim, muito—respondeu ele—. Pobre homem. Já se sabe, a senilidade. Foi muito triste—disse negando com a cabeça—. O conhaque – acrescentou mordendo o lábio superior—. Sempre digo o mesmo: terá que tirar de tudo, mas com moderação. Ter a mente sã e o corpo são. Assim se consegue a virtude e a felicidade. —E acrescentou depois de respirar fundo—: É claro, procuro evitar o láudano e essas coisas.

Ar fresco, banhos de água fria, muito exercício e uma consciência tranqüila. Não há razão pela qual um homem não possa dormir bem todas as noites de sua vida. Terá que esquecer-se dos pós e as poções – disse levantando ligeiramente o queixo e voltando a sorrir.

Um Ricardo III com semblante ameaçador passou junto a eles caminhando para trás enquanto duas jovenzinhas riam agradecendo. O jovem mostrou o punho e as outras entraram no jogo fingindo assustar-se.

—Para ter a consciência tranqüila é necessária uma vida cheia de virtude e procurar, o arrependimento de forma sentida e habitual, do contrário se chega à insensibilidade—disse Charlotte em um tom pouco habitual nela e só olhando ao Eustace ao pronunciar a última palavra.

O outro se ruborizou ainda mais e não se atreveu a dizer nada.

—Por desgraça, não cheguei a conhecer Sir Arthur— continuou ela—, mas ouvi que era um dos homens melhores e honrados do mundo. Talvez lhe preocupava algo, e por isso não podia dormir de noite, não? Ou era talvez angústia? Quando se sente certa responsabilidade com o próximo, a gente acaba preocupando-se muito, não é verdade?

—Sim, sim, claro— respondeu Eustace com um entusiasmo perfeitamente descritível. Charlotte sabia que o estava obrigando a recordar algo, por muito que lhe desgostasse.

Se Eustace dormia tão bem todas as noites como dizia, ela se convencera de que não era justo que assim fosse.

—Chegou a conhecê-lo?—seguiu insistindo ela.

—Como? Ao Desmond? É... bom... sim, encontrei-me com ele em várias ocasiões. Mas não posso dizer que o conhecia, compreende-me?—disse sem atrever-se a olhá-la.

Charlotte se perguntou se não teriam pertencido ao mesmo grupo do Círculo Interior, mas não tinha a menor idéia de quantas pessoas formavam parte de cada grupo.

Por isso recordava do que lhe havia dito Pitt, talvez não fossem mais de doze ou algo assim, mas não estava certa. Para serem efetivos, esses grupos deviam ser mais numerosos.

Talvez cada grupo tivesse um chefe, que por sua vez se relacionava com outros de sua mesma posição e assim.

—Quer dizer que talvez se conheceram em alguma reunião social?—perguntou ela com toda a ingenuidade de que era capaz, embora sentia que ainda podia fazê-lo melhor—. Talvez em algum baile de gala? Ou em algo relacionado com seu trabalho?

Eustace olhou por cima do ombro esquerdo como se estivesse procurando algo e seguia com o rubor nas faces.

-seu trabalho?—perguntou inquieto—. Não, não sei muito bem a que se refere. Não lhe entendo.

Aquilo era suficiente. Ele não tinha deixado de falar do Círculo Interior. Se tratasse de uma simples reunião social, teria reconhecido sua relação com Sir Arthur sem embaraço algum, mas algo dizia ao Charlotte que Eustace March não se movia em âmbito algum da alta sociedade, a da burguesia, a autêntica aristocracia com a que Arthur Desmond convivia, posto que havia nascido em seu seio.

—Refiro—me ao Foreign Office—disse com um doce sorriso—. Mas já sabia que era muito pouco provável.

—Claro, claro—respondeu Eustace esboçando um pálido sorriso—. E agora, minha querida amiga, se me desculpa, devo retornar a minhas obrigações. Tenho muito que fazer, embora de vez em quando terá que fazer-se ver, sabe? Comprar algumas coisas, dar muitos ânimos e servir de exemplo— disse, e se afastou a toda pressa sem deixar que Charlotte lhe respondesse, enquanto saudava com a cabeça tanto às pessoas que conhecia como às que tivesse gostado de conhecer.

Charlotte ficou pensativa um bom momento, até que deu meia volta e seguiu o caminho pelo qual se fora Vespasia. Ao cabo de um momento se achou outra vez junto às almofadas da Cleopatra, olhando o tira e afrouxa entre uma velha dama com expressão de inveja e desgosto, e uma jovem a ponto de cumprir essa idade em que uma já não é casadoura, a não ser que seja uma rica herdeira.

Com elas se achava um cavalheiro dos que viravam punhos e colarinhos das jaquetas para seguir usando as por velhas e usadas que fossem.

Ela mesma o tinha feito já tantas vezes com as do Pitt que as reconhecia em seguida.

Ao cabo de um momento ouviu que alguém se dirigia a Cleopatra como senhorita Soames.

É possível que se tratasse do Harriet Soames, a mesma com a que Matthew Desmond se comprometera em matrimônio?

—Desculpe.

Cleopatra a olhou com amabilidade, mas sem interesse algum por ela. Vista de perto, era uma mulher ainda mais estranha. Tinha um olhar de certa indiferença, uma boca nada voluptuosa, com o lábio superior muito fino para o gosto da época, apesar de que em seu rosto se adivinhava uma profunda sensibilidade interior.

—Quer que lhe mostre algo?—perguntou—. É para você ou é um presente?

—Bom, a verdade é que ouvi como a pessoa que veio antes se dirigiu a você chamando-a senhorita Soames. Não será você por acaso Harriet Soames?

A outra pareceu desconcertar-se.

—Sim, sou eu. Mas não recordo onde nos conhecemos.

Era uma resposta amável e perfeitamente previsível por parte de uma jovem de boa educação que não tinha a menor intenção de entabular amizade com alguém aquem não conhecia e a que nem sequer lhe tinham apresentado.

—Meu nome é Charlotte Pitt— disse sorrindo—. Meu marido é um amigo de infância de Sir Matthew Desmond.

Queria felicitá—la por seu compromisso matrimonial e lhe expressar meus mais sentidos pêsames pela morte de Sir Arthur.

Meu marido sente profundamente sua perda. Sei que era um homem pouco comum.

—Oh! —exclamou Harriet Soames. Depois daquela explicação tão satisfatória sua disposição não podia ser outra que a de franco cordialidade, e suavizou a expressão de seu rosto com um sorriso encantador—. Que amável é você, senhora Pitt. Sim, realmente Sir Arthur era uma das melhores pessoas que jamais conheci.

A verdade é que antes de conhecê-lo sentia um temor reverencial por ele, como passa sempre com um futuro sogro, mas assim que falei com ele me senti completamente feliz—disse, enquanto a lembrança lhe refletia na rosto com uma mescla de felicidade e dor.

Charlotte lamentou ainda mais não ter conhecido a Sir Arthur. Haveria sentido mais pena por sua morte, mas por outro lado também teria podido compartilhar melhor os sentimentos do Pitt. Conhecia muito bem a dor que sofria seu marido, sobretudo pelo sentimento de culpa que levava dentro, e no momento ela estava à margem de todo isso e ninguém podia fazer nada para mudar.

—Sir Matthew veio nos ver a outra noite— continuou Charlotte com a intenção de chegar todo o longe que pudesse—. A verdade é que não o conhecia, mas em seguida gostei muito dele. Espero que os dois sejam muito felizes.

—Obrigado, é muito amável—disse Harriet, e pareceu que estava a ponto de acrescentar algo mais quando percebeu a chegada de uma jovem cujo rosto era cada vez mais atraente à medida que alguém se ia fixando nele.

A simples vista a podia considerar de uma beleza discreta, com uns traços muito comuns e o cabelo da típica cor clara de qualquer mulher inglesa, não muito loiro, mas sim do tom suave e quente do mel, e com uma cor da pele tão natural que qualquer um teria considerado pouco elegante.

Mas bastava fixar-se um pouco no rosto para descobrir nela uma mulher inteligente e com senso de humor, o qual a convertia em uma pessoa muito especial.

Sem dar-se conta de que Charlotte e Harriet estavam falando como amigas, mais que como vendedora e cliente, não hesitou em interromper a conversa, embora se apressou a desculpar-se assim que Harriet lhes apresentou. A recém chegada era a senhorita Amanda Pennecuick.

—OH, de verdade que o sinto— disse Amanda—. Que mal educada sou. Perdoe-me, senhora Pitt. A verdade é que não tinha nada importante que dizer.

—Eu tampouco —confessou Charlotte—. Só me estava apresentando à senhorita Soames, já que meu marido é um velho amigo de Sir Matthew Desmond—disse, dando por sentado que Amanda conhecia o compromisso matrimonial do Harriet, coisa que efetivamente comprovou pela expressão de normalidade que pôs.

—Estou muito zangada—lhes confiou Amanda—. Gwendoline Otway começou outra vez com essas detestáveis predições astrológicas, e me prometeu que não o faria. Às vezes tenho vontade de lhe dar uma boa bofetada, sabem? E além se disso disfarçou-se de Ana Bolena.

—Com ou sem cabeça?—perguntou Harriet sem poder dissimular a risada.

—Com ela, mas só de momento—respondeu Amanda, muito zangada.

—Não sabia que Ana Bolena fosse um personagem do Shakespeare —soltou Harriet arqueando as sobrancelhas.

—Adeus… "Assim me demito de toda minha grandeza"— disse uma formosa voz masculina por detrás da Amanda, e todas viram o rosto radiante, mas bem feio do Garston Aylmer—. Sou o cardeal Wolsey—disse muito contente e sem deixar de olhar a Amanda—. Enrique VIII-acrescentou.

—OH, sim, claro. Boa tarde, senhor Aylmer—respondeu ela sem alterar-se e com rosto inexpressivo, o qual devia resultar difícil para um rosto com tendência a emocionar-se facilmente.

—E por que lhe incomoda tanto que brinque um pouco com a astrologia? —quis saber Charlotte—. Não lhe parece uma maneira muito inofensiva de entreter às pessoas e de conseguir um pouco de dinheiro para o bazar?

—Amanda detesta a astrologia—disse Harriet com um sorriso—. Embora só seja para jogar com ela.

—As estrelas não são tão mágicas como acreditam—se apressou a dizer Amanda—. Pelo menos não como o entendemos sempre. A verdade que há nelas é muito mais maravilhosa que todos esses jogos tolos sobre heróis clássicos e animais fantásticos.

Se você soubesse a verdadeira magnitude de... —e aqui se deteve, consciente de que Garston Aylmer não lhe tirava os olhos de cima com uma admiração tão evidente que qualquer um se dava conta.

—Desculpe-me—disse ao Charlotte—. Não deveria me preocupar tanto por essas tolices.

Asseguro que Gwendoline está entretendo a gente que não olharia por um telescópio nem que o pusessem nas mãos— disse rindo com acanhamento—. Acredito que vou comprar uma almofada. Há uma aqui com uma renda branca muito bonita.

Harriet o mostrou.

—O que lhe parece se a acompanho a tomar um chá, senhorita Pennecuick?

—Vem você, senhora Pitt? —ofereceu Aylmer.

Charlotte sabia muito bem quando devia tirar-se do meio. Ignorava quais eram os sentimentos da Amanda; os do Aylmer, em troca, estavam bastante claros e além disso era um homem que lhe era simpático.

—Muito obrigado, mas vim com minha tia avó e queria me reunir com ela antes de que passe muito tempo—respondeu rechaçando o oferecimento.

     Amanda hesitava e lhe via na rosto que estava considerando o assunto, até que por fim aceitou friamente o convite e se desculpou com o Harriet e Charlotte.

Comprou a almofadinha e partiu junto ao Aylmer, mas sem agarrar do braço que aquele lhe oferecia. Não faziam muito bom ar. Ela era magra e elegante, e ele era muito feio, curto de pernas e além disso rechonchudo.

—Deveria tê-la acompanhado—disse Harriet em voz baixa—. Pobre Amanda.

—É verdade que vim com minha tia avó—respondeu Charlotte com um largo sorriso—. É absolutamente certo.

—Oh! —exclamou Harriet ruborizando-se—. Desculpe-me! Eu achava que você...—disse, e soltou uma gargalhada que acabou por contagiar à própria Charlotte.

Quinze minutos depois achou Vespasia e juntas foram até uma loja de campanha que tinham montado no jardim e onde serviam o chá da tarde. Viram sair dali Aylmer e Amanda Pennecuick, que continuava falando cordialmente.

—Que casal tão inesperado —observou Vespasia.

-se forem juntos é por ele, não por ela—respondeu Charlotte.

—Claro— disse Vespasia olhando a jovem que se tinha aproximado para lhes oferecer sanduíches e pasteizinhos adornados e cristalizados com desenhos de toda classe. As duas escolheram e Vespasia serviu um pouco de chá para ambas. Ainda estava muito quente para tomar um gole, pensou Charlotte, e de repente se deu conta de que Susannah Chancellor se achava em outra mesa próxima à sua, meio oculta atrás de um samovar e um enorme vaso de barro do qual pendia uma etiqueta com o preço.

Assim que Vespasia e ela deixaram de falar, a voz de Susannah se fez perfeitamente audível. Parecia cordial e animada, mas começava a soar um pouco nervosa.

—Acredito que está chegando a umas conclusões sem conhecer a totalidade dos fatos, senhor Kreisler. Esses planos se pensaram consciensiosamente e não deixaram de consultar muita gente que viajou pela África e que conhece os nativos.

—Gente como Cecil Rhodes?—perguntou Kreisler em um tom que raiava à descortesia, mas sem querer deixar de expressar seu desacordo e seu desagrado por Cecil Rhodes e suas ações.

—É claro que ele foi um deles—concedeu Susannah—. Mas não foi o único. Há, por exemplo, o senhor MacKinnon...

—Um homem muito respeitável— disse Kreisler terminando a frase por ela. Ainda não tinha elevado muito a voz, mas o tom era ligeiramente de brincadeira e com uma intensidade inconfundível ao ouvido. Charlotte não podia vê-lo, mas podia imaginar o olhar inquebrável de seus olhos, embora fingisse um sorriso—. Mas com certeza obterá um benefício. Esse é um negócio e disso depende sua honra e até sua sobrevivência.

—O senhor Rhodes investiu muito dinheiro próprio na empresa – prosseguiu Susannah—. Se fosse um simples aventureiro sem interesses pessoais, meu marido e meu cunhado não o estariam apoiando.

—Um aventureiro com muitos interesses pessoais, disse Kreisler esboçando um sorriso—. Mas se é um construtor de impérios da maior categoria!

—Diz isso como se não estivesse de acordo, senhor Kreisler. Por que? Se não o fizermos nós, farão-o outros e talvez teremos perdido a África em benefício da Alemanha. É isso o que quer? Quer também que continue existindo a escravidão?

—Não, é claro que não, senhora Chancellor. Mas o mal que ali existe tem muitos séculos de história e faz parte de sua maneira de viver. As mudanças que nós levaremos não têm por que mudar necessariamente as coisas, e o único que conseguiremos é entrar em guerra com os árabes, que são os maiores negociantes de escravos, e também com os comerciantes de marfim e com os portugueses, e é claro com os alemães e com o sultão do Zanzíbar.

E o pior de tudo, ampliaremos nosso império com a Equatoria e conseguiremos agarrar de improviso ao Emin Pasha, Lobengula, e à a Kabaka da Buganda e a todos outros. Os colonos brancos estarão armados e voltarão aos velhos métodos e dentro de cinqüenta anos os africanos serão um povo submetido em sua própria terra.

—Está exagerando! —exclamou entre a risada e a incredulidade, embora começou a notar-se na voz uma sombra de dúvida e preocupação—. Há milhões de africanos e nós somos muito poucos, só umas centenas.

—Quer você dizer hoje?—replicou ele com dureza—. E amanhã? O que acontecerá quando houver ouro e terra? E quando se acabarem as guerras, o que acontecerá com os que aqui não são filhos primogênitos e não tem terras e acabem indo até ali em busca de dinheiro e aventuras? E com os que queiram fugir da Europa por ter feito algo mau? E com os jovens cujas famílias já não queiram ajudar nem proteger?

—Isso não acontecerá se apressou a dizer ela—. Será como na Índia. Haverá um exército permanente e uns funcionários encarregados da administração e justiça e...

—Tão convencida está disso?—disse ele em um tom tão baixo que Charlotte teve que fazer um esforço para ouvir todas as palavras.

—Bom... — hesitou Susannah—. Não exatamente, claro. Levará seu tempo. Mas ao final, será como digo.

—A Índia é uma cultura e uma civilização milhares de anos mais antiga que a nossa. Quando ainda nos pintávamos de azul e nos vestíamos com peles de animais, eles já sabiam ler e escrever, construíam cidades, pintavam grandes obras de arte e sonhavam com a filosofia—sentenciou ele sem poder dissimular sua satisfação.

—Mas se beneficiaram de nossas leis— replicou ela—. Resolvemos as guerras internas e os unimos para formar um grande país. É possível que sejamos uns arrivistas em certo sentido, mas lhes levamos a paz. E faremos o mesmo na África.

Kreisler não disse nada. Era impossível imaginar que expressão tinha no rosto.

Nem Charlotte nem Vespasia haviam dito uma só palavra desde que ambas tinham reconhecido a voz de Susannah Chancellor. Seus olhares se cruzaram muitas vezes e com elas pensamentos que não precisavam manifestar-se.

—Conhecia você a Sir Arthur Desmond?—perguntou Susannah ao cabo de um momento.

—Não. Por que?

—Por nada, mas com certeza ele teria estado de acordo com você. Também lhe preocupava muito a África.

—Nesse caso, terei muito gosto em conhecê-lo.

—Temo que isso não será possível. Morreu a semana passada.

Kreisler não respondeu e um instante depois Christabel Thorne mediou entre os dois e a conversa se fez mais geral, sobre tudo referida ao bazar.

—É um homem de grandes paixões, este Kreisler—disse Vespasia, tomando um último gole de chá—. É interessante, mas temo que também perigoso.

—Acha que tem razão sobre a África?—perguntou Charlotte.

—Não sei. Talvez sim, pelo menos em parte. O que sei é que ele está convencido disso. Preferiria que Nobby não se interessasse tanto por ele. Vamos, querida, por hoje já cumprimos com nossa obrigação. Acredito que podemos ir.

 

Charlotte e Pitt chegaram à primeira hora ao Brackley para o enterro de Arthur Desmond e desembarcaram do trem sob um sol radiante.

A pequena estação do povoado tinha unicamente uma plataforma de várias centenas de metros de comprimento, no meio da qual se situava o edifício que albergava a sala de espera, o escritório de bilhetes e a casa do chefe de estação.

O resto eram todo campos de trigo já amadurecido e enormes árvores que transbordavam de cor com o verde das folhas novas.

Por entre as sebes apareciam cachos inteiros de casulos de rosas silvestres, e as flores de espinheiro, com seu aroma tão doce, já começavam a abrir-se.

Fazia quinze anos que Pitt não voltava para o Brackley, e de repente se sentiu agasalhado por uma sensação de familiaridade, como se se tivesse partido dali a noite anterior.

Tudo estava exatamente igual, o ângulo do telhado da estação, a curva que formavam os trilhos dobrando bruscamente a via em direção ao Tolworth e os enormes depósitos de carvão para o reabastecimento dos trens. Inclusive chegou a evitar pisar automaticamente o desnível que havia justo ante a porta da plataforma.

Era menor do que recordava e possivelmente um pouco mais desgastado.

O chefe de estação tinha agora o cabelo grisalho. A última vez que o viu era castanho. Tinha posto um bracelete negro no braço.

Deu a impressão de que ia pronunciar qualquer fórmula habitual de saudação, quando se deteve e se fixou melhor no recém—chegado.

—É você o jovem Thomas? É você, não é? É claro que sim! Já o disse ao velho Abe assim que o vi descer do trem. Hoje é um triste dia para o Brackley. Muito triste, sim.

—Bom dia, senhor Wilkie— respondeu Pitt, pondo o "senhor" por diante de forma intencional.

Agora era superintendente de polícia em Londres, mas aquele era seu lar e ali sempre seria o filho do guarda-florestal de Sir Arthur, de forma que o chefe de estação era seu igual—. Sim, muito triste— disse, e ainda quis acrescentar algo mais, como por exemplo, por que razão tinha demorado tanto tempo em voltar, mas qualquer desculpa ia ser inútil e, além disso, ninguém ia se importar em um dia como aquele.

Estavam muito emocionados, tanto que mal ficava lugar em seus corações para outra coisa que não fosse à dor por aquela morte que os unia. Pitt apresentou a Charlotte e o rosto do Wilkie se iluminou. Era uma gentileza que certamente não esperava, mas que lhe agradou muito.

Estavam a ponto de sair pela porta da estação quando viram chegar outras três pessoas da plataforma. Estava claro que tinham vindo no mesmo trem. Eram três cavalheiros de meia idade ou possivelmente um pouco mais e, a julgar por sua roupa, via-se que eram gente de posses.

De repente, Pitt recuperou na memória a imagem de um deles pelo menos e o reconheceu da sessão de investigação judicial, e sentiu tanta raiva que ficou paralisado enquanto Charlotte seguia o caminho sozinha.

Se não fosse porque teria sido muito ridículo, teria retrocedido para acusar abertamente aquele homem. Mas o que ia dizer lhe que servisse de algo mais que para desafogar da dor e a ira que sentia pelo que aquele homem havia dito em público, tanto se o pensava de verdade ou não. Fosse qual fosse à relação que lhe tinha unido ao Arthur Desmond, aquilo só podia considerar-se uma traição.

Foi talvez este sentimento de ter sofrido um ultraje o que o deteve, sobretudo porque teria posto em uma situação muito embaraçosa à Charlotte, embora ela o teria compreendido depois, para não falar do Wilkie, o chefe de estação.

Além disso, no fundo não podia evitar sentir-se também culpado. Se tivesse visitado com freqüência à Sir Arthur, talvez tivesse podido rebater as calúnias com conhecimento de causa e não só movido pela lembrança e o amor.

—Thomas?

A voz do Charlotte interrompeu seus pensamentos e deu meia volta para unir-se a ela e empreender a marcha pelo caminho que levava ao povoado, meio quilômetro mais ou menos até chegar à rua principal, e ao fundo, por detrás das últimas casas, à igreja.

—Quem eram? —quis saber ela.

—Estiveram na investigação judicial— respondeu Pitt, sem dizer em qualidade do que, mas ela tampouco perguntou mais. Pelo tom da voz soube tudo o que tinha que saber.

Era um passeio curto e não voltaram a falar. Só se ouvia o ruído de seus passos, o canto dos pássaros e o débil sussurro da brisa indo e vindo entre sebes e arvoredos. Ouviram o balido de uma ovelha ao longe e a resposta de um cordeiro, com um som mais agudo, e depois o latido de um cão.

O povoado também estava imerso em um silêncio pouco habitual. O açougue, a loja de ferragens e a padaria estavam fechadas com as persianas metálicas jogadas e em cada porta se viam fitas ou braçadeiras de luto negras. Até a ferraria estava vazia e fria. Um menino pequeno, de uns quatro ou cinco anos, estava de pé ante a porta de uma das casas, com rosto de solenidade e os olhos muito abertos. Não havia crianças brincando na rua e até os patos do lago flutuavam à deriva sem direção alguma.

Pitt olhou ao Charlotte e viu a tristeza e o respeito que sentia por tudo aquilo, por toda uma comunidade em luto e por um homem ao que nunca chegou a conhecer.

No final da rua principal viram meia dúzia de homens vestidos de negro; Charlotte e Pitt se aproximaram e todos se voltaram para eles. A princípio só viram o vestido negro de Charlotte e o bracelete e a gravata negra do Pitt, por isso em seguida sentiram certa simpatia por volta dos recém chegados. Depois de olhá-los pela segunda vez, um deles tomou a palavra.

—Você é o jovem Tom, não é?

—Zack, não deveria falar assim!—apressou-se a lhe murmurar sua mulher—. Agora é um cavalheiro. Olha-o! Sinto muito, jovem Thomas, senhor. Não quis lhe ofender.

Pitt teve que rebuscar entre suas lembranças para reconhecer a aquele homem de cabelo escuro com franjas cinzas e o rosto curtido pelo sol e o vento.

—Não se preocupe, senhora Burns. Sim, o "jovem Tom" está muito bem, e você?

—Oh, muito bem, senhor, e Mary e Lizzie também. Já saberá que nosso Dick se alistou no exército.

—Sim, isso ouvi —mentiu Pitt antes de pensar a resposta. Não queria que ela soubesse até que ponto desconhecia todo o referente à vida do povoado—. É uma boa carreira— acrescentou, e não se atreveu a dizer nada mais. É possível que Dick estivesse mutilado ou inclusive morto.

—Que bom que tenha podido vir para o de Sir Arthur— disse Zack sorvendo o nariz—. Suponho que já é hora de ir. Já se ouça o sino.

E efetivamente o sino da igreja começou a soar com um solene e sonoro toque de finados que parecia encher os campos e até devia chegar ao povoado mais próximo.

Na mesma rua e um pouco mais longe, ouviu-se o ruído de uma porta que se fechava e emergiu a figura de um homem vestido de negro que ficou olhando fixamente.

Era um homem muito corpulento e com as pernas arqueadas; era o ferreiro, que acabava de sair de sua casa. Levava uma tosca jaqueta que apenas se podia abotoar, mas se via perfeitamente um bracelete negro, limpo e novo.

Pitt ofereceu o braço à Charlotte e começaram a caminhar devagar em direção à igreja, separada do povoado por uns trezentos metros. Pouco a pouco começou a chegar cada vez mais gente: aldeãos, agricultores e arrendatários daquelas terras, o açougueiro com sua mulher, o padeiro com suas duas filhas, o ferreiro com seu filho e sua nora, o tonelero, o carreteiro, e até o taberneiro, que naquele dia tinha fechado seu estabelecimento para ir de rigoroso luto acompanhado de sua mulher e suas filhas.

Do outro lado do caminho apareceu a carruagem fúnebre puxada por quatro cavalos negros com penachos também negros sobre a cabeça e o lombo, e um cocheiro com capa negra e cartola.

Depois dele vinha Matthew com a cabeça descoberta e o chapéu na mão, rosto pálido e com Harriet Soames caminhando a seu lado.

Depois deles havia pelo menos oitenta ou noventa pessoas, todos os criados e empregados da propriedade de Sir Arthur, mais os camponeses que tinham arrendadas suas terras e atrás deles todos outros proprietários vizinhos de uns dez quilômetros ao redor.

Entraram todos em fila na igreja e aqueles que não acharam onde sentar-se permaneceram ao fundo da mesma, com a cabeça inclinada.

Matthew tinha reservado um espaço no banco da família para Pitt e Charlotte, como se Pitt fosse um segundo filho. Este se sentia tão embargado pela emoção e por uma mescla de sentimentos tão intensos de carinho, gratidão e culpa, que lhe encheram os olhos de lágrimas e não pôde falar. Nem sequer se atreveu a baixar a vista para que não transbordassem.

No momento em que o sino deixou de soar e apareceu o pastor, tudo aquilo se converteu na mais pura dor e na dilaceradora sensação de ter perdido algo irrecuperável.

O ofício foi simples, com essas palavras tão antigas e familiares que serviam para consolar e comover enquanto se repetia por dentro, palavras sobre a brevidade da vida, efêmera como uma flor. Chegado o momento, tinha que recolher-se essa flor para a eternidade.

O que mais chamava a atenção naquela cerimônia era a quantidade de pessoas que tinham acudido, e não porque lhes tivesse obrigado a isso, mas sim por vontade própria.

Pitt fez caso omisso da alta burguesia que tinha vindo de Londres; para ele os mais importantes eram aqueles aldeãos e camponeses.

Uma vez concluído o ofício, foram todos enterrar ao finado no panteão da família Desmond, que se achava à sombra de uns ciprestes e em um extremo do campo santo. Apesar de que ali havia mais de uma centena de pessoas, reinava um receoso silêncio. Ninguém se moveu nem falou enquanto introduziam o ataúde no panteão e voltavam a fechar a porta. O único que se ouvia era o canto de uns pássaros desde uns olmos que havia no outro extremo.

A seguir veio o longo ritual de agradecimentos, pêsames e condolências.

Pitt olhou para onde estava Matthew, justo no atalho que conduzia à entrada do cemitério. Estava muito pálido, com o sol refletindo-se nas mechas loiras de seu cabelo.

Harriet Soames permanecia junto a ele e com uma mão lhe agarrando o braço. Ela tinha um aspecto sombrio, muito apropriado para a ocasião, mas cada vez que olhava ao Matthew o fazia com muita ternura, como se compreendesse a raiva e a dor que sentia seu noivo além do que o podia ter pedido.

—Quer ficar um momento com ele? –perguntou-lhe Charlotte em voz baixa.

Apesar de suas dúvidas, naquele momento Pitt sabia muito bem a resposta.

—Não. Sir Arthur era como um pai para mim, mas eu não era seu filho. Este momento pertence ao Matthew. Ficar agora com ele seria uma intrusão e uma presunção por minha parte.

—Charlotte não disse nada. Pitt temia que ela se desse conta do que sentia de verdade. Em certo modo, tinha perdido o direito a ficar agora com ele por sua longa ausência.

Não era o ressentimento do Matthew que lhe inspirava medo, senão o da gente do povoado. Não lhes faltava razão para sentirem-se ofendidos com ele. Sua ausência tinha durado muito tempo.

Esperou um pouco e enquanto seguiu olhando como Matthew falava com todos eles com muita familiaridade, aceitando as hesitantes, mas, muito sentidas condolências de todo o mundo. Harriet seguia a seu lado, sorrindo e assentindo com a cabeça.

Um ou dois dos proprietários vizinhos se aproximaram para lhe dar os pêsames, e Pitt reconheceu entre eles ao Danforth, o mesmo que tinha atestado tão a contragosto na audiência com o juiz. O rosto do Matthew ficou escurecido por uma estranha combinação de emoções: ressentimento, prudência, confusão, dor e outra vez ressentimento.

De onde estava, Pitt não pôde ouvir o que se disseram antes que Danforth se despedisse negando com a cabeça e dirigindo-se logo para a porta de entrada do cemitério.

A este seguiram outros, todos eles procedentes de Londres. Pareciam todos deslocados. Era uma diferença sutil, algo que não encaixava na paisagem dos campos que se viam ao longe, nem nas grandes árvores que brilhavam sob o sol, nem no modo em que as estações do ano marcavam a vida de quem ali vivia, nem no enorme esforço físico que supunha trabalhar a terra para semear e depois colher seus frutos, nem na amável convivência com os animais.

Tampouco se tratava do contraste que supunha a maneira de vestir daqueles homens, a não ser talvez algum dos detalhes que ofereciam: uma cabeça muito penteada, umas botas de solas muito finas, um olhar estendido para o caminho que conduzia para as propriedades de Sir Arthur, como se de um inimigo se tratasse, uma distância que ninguém estava disposto a percorrer andando de tão acostumados que estavam as carruagens.

Matthew falou com eles fazendo um grande esforço que nenhum percebeu, salvo Pitt, que o conhecia desde que eram pequenos e podia ver o menino que havia dentro dele.

Por fim, quando o último deles disse o que se esperava que dissesse e Matthew respondeu como facilmente pôde, Pitt se dirigiu para ele. Mandaram as carruagens de volta e empreenderam a pé o caminho que conduzia à casa, com o Matthew e Pitt à frente e Charlotte e Harriet atrás.

Andaram os primeiros metros em meio de um silêncio tácito e no transcurso do qual Charlotte chegou a pensar que Harriet tinha muita vontade de lhe contar algo, mas que não sabia como abordar o tema.

—Acredito que a melhor comemoração que lhe podia dar esteve no fato de que tenha vindo o povoado inteiro— disse Charlotte enquanto chegavam a um cruzamento de caminhos e tomavam um mais estreito.

Era a primeira vez que estava ali e desconhecia as dimensões da propriedade, mas pôde divisar ao longe uns enormes pilares a partir dos quais começava um cercado e que logicamente não assinalavam outra coisa que a entrada a uma propriedade de considerável extensão.

Supôs a existência de um jardim e de um passeio que conduziriam a casa.

—Todo mundo o queria muito— respondeu Harriet—. Era um homem muito bom e sincero. Era a pessoa menos hipócrita do mundo— disse, sem acrescentar nada mais, e sem saber muito bem por que Charlotte teve a sensação de que Harriet estava a ponto de continuar com um "mas", e de que não se atrevia por prudência.

—Não cheguei a conhecê-lo— respondeu Charlotte—, mas meu marido lhe queria muito. Já sei que não se viam desde há muito tempo e que as pessoas às vezes mudam um pouco.

—Oh, continuava sendo tão honrado e generoso como sempre—se apressou a dizer Harriet.

Charlotte a olhou e viu como se ruborizava e girava a cabeça. Quase tinham chegado à entrada da propriedade.

—Mas possivelmente estava um pouco distraído— disse Charlotte em seu lugar.

Harriet mordeu o lábio.

—Sim, acredito que sim. Matthew não quer aceitá-lo e o entendo. Compreendo-o muito bem, de verdade. Minha mãe morreu quando eu era muito pequena e também cresci muito unida a meu pai. Nem Matthew nem eu temos irmãos. Essa é uma das coisas que mais nos une; os dois sabemos o que significa sentir-se só e muito unido a um pai. Eu não suportaria que ninguém falasse mal do meu.

Cruzaram a entrada da propriedade e Charlotte ficou muda de surpresa ante a longa curva daquele passeio franqueado a ambos os lados por uma fileira interminável de olmos, e a uns trezentos metros dali e ereta sobre uma pequena elevação se via a enorme casa senhoril. À direita havia uma grande extensão de grama que ia dar a um arroio, e à esquerda se viam mais árvores, os telhados das garagens e um pouco mais à frente as quadras.

Tudo era muito formoso à vista, e em harmonia com a natureza, surgindo de entre as árvores sem nenhum elemento estranho ou molesto, sem que nada perturbasse a simplicidade da paisagem.

Harriet pareceu não dar-se conta de todo aquilo. Certamente já tinha estado ali antes, e embora não demorasse para converter-se na proprietária de tudo, não era precisamente nisso no que ocupava seus pensamentos.

—Sou capaz de defendê-lo com tanta força como se ele fosse meu filho e eu seu pai—disse Harriet com um sorriso amargo—. Soa absurdo, já sei, mas o coração nem sempre se move pela lógica. Compreendo muito bem como se sente Matthew.

Caminharam vários passos em silencio até ficar cobertos pela sombra dos olmos.

— Receio muito que Matthew não sairá bem parado nesta cruzada por defender o bom nome de Sir Arthur. Claro que não está disposto a admitir que seu pai pudesse estar tão... tão... perturbado para chegar a se convencer de que lhe perseguiam sociedades secretas e menos para administrar uma overdose de láudano por acidente.

Harriet se deteve e olhou ao Charlotte no rosto.

-se seguir adiante com isso, ao final não terá mais remédio que enfrentar-se à verdade e então pode ser que seja ainda mais difícil do que já resulta agora. Por não falar dos inimigos que ganhará. As pessoas sentirão certa pena por ele ao princípio, mas durará pouco, sobretudo se começar a fazer acusações como as que está fazendo agora.

Talvez você poderia convencer a seu marido para que falasse com ele. Tem que deixar de obcecar-se por algo que em realidade é... bom, quero dizer por algo que só lhe fará mal e com o que só ganhará inimigos, e esse é um luxo que ninguém pode permitir-se.

A paciência se converte logo em risada patética e por fim em ira. E isso é quão último tivesse querido Sir Arthur, não lhe parece?

Charlotte não sabia muito bem o que dizer. Não lhe teria surpreendido absolutamente que Harriet ignorasse tudo o referente ao Círculo Interior, nem sequer que fosse capaz de imaginar que uma sociedade como aquela pudesse existir.

Se houvesse sabido por ela mesma, certamente também lhe teria parecido tudo absurdo. Quem ia enganar a alguém com a mente perturbada e que além disso inventava conspirações onde não havia nenhuma?

O pior de tudo, e era uma ofensa aos sentimentos e à razão, é que Harriet acreditasse de verdade que Sir Arthur padecia demência senil e que, além disso, fosse o responsável por sua própria morte.

Claro que era muito bom que sua preocupação nascesse de seu amor pelo Matthew, mas não estava claro até que ponto podia servir a ele de consolo aquele sentimento se Matthew chegasse a descobrir o que ela pensava de verdade. De momento, a dor pela morte de seu pai era muito forte para aceitar nada mais.

—Não fale deste tema com o Matthew—se apressou a dizer Charlotte tomando ao Harriet pelo braço e reatando a marcha para não chamar a atenção—. Temo que neste momento sua opinião lhe faria muito dano, e inclusive poderia considerá-la como outra traição.

Harriet ficou muda ante aquelas palavras e só ao cabo de um momento pareceu dar-se conta do que significavam.

As duas seguiam caminhando muito devagar, com o Pitt e Matthew muito à frente delas e sem perceber sua distância.

Harriet acelerou o passo para aumentar a distância que as afastava de quem vinha atrás delas. Não queria que ninguém as ouvisse, e muito menos que Matthew desse meia volta pensando que algo ia mau.

—Sim. Sim, talvez tenha você razão. Já sei que não soa muito sensato, mas suponho que me custaria muito tempo chegar a aceitar que meu pai não era como eu imaginava, que já não era tão... tão admirável, tão forte, tão inteligente –seguiu dizendo ela.

Talvez não façamos mais que idealizar às pessoas que amamos e quando a verdade fica manifesta ante nós, odiamos a quem nos mostrou isso. Não suportaria que Matthew pensasse algo assim de mim. Embora me dou conta de que isso é precisamente o que estou pedindo a seu marido, já que lhe estou rogando que diga a Matthew o que não tem nenhuma vontade de ouvir.

—Acredito que será inútil pedir algo assim ao Thomas—disse Charlotte com sinceridade enquanto caminhava ao mesmo ritmo—. Ele pensa exatamente o mesmo que Matthew.

—Que Sir Arthur foi assassinado? —exclamou Harriet boquiaberta—. De verdade? Mas ele é polícia! Como é possível que chegue a pensar que...? Tem certeza?

—Pois sim. Suponho que já saberá que esse tipo de sociedades existem.

—Oh, vamos, já sei que existem os delinqüentes. Qualquer que viva um pouco no mundo sabe perfeitamente —protestou Harriet.

Charlotte recordou de repente que quando ela tinha a idade do Harriet, e antes de conhecer o Pitt, sua concepção do mundo era igualmente inocente. Não só desconhecia o que era a delinqüência; muito pior que isso, não tinha a menor idéia do que significava a pobreza, ou o analfabetismo ou as enfermidades endêmicas, ou a desnutrição e suas conseqüências, como raquitismo, tuberculose, escorbuto e coisas assim.

Imaginava que o delito era exclusivo de gente violenta, falsa e malvada de nascimento. O mundo se reduzia então a uma simples divisão entre o branco e o negro. Não ia esperar que Harriet Soames compreendesse a infinidade de tons cinzas, que só a experiência podia ensinar, nem que conhecesse todo aquilo que ficava excluído de sua vida e seus limites. Não era justo.

—Mas você não sabe as coisas que Sir Arthur dizia!—continuou Harriet—. E a quem acusava!

-se ao final resultar que não é verdade— disse Charlotte com tato e procurando escolher as palavras—, então Thomas terá que dizer ao Matthew, por muito que a este doa. E só assim Matthew acabará aceitando-o, porque não haverá alternativa alguma.

Além disso, ele sabe que Thomas defende a prudência de Sir Arthur tanto como ele. Acredito que o melhor é que não digamos nada, não lhe parece?

—Sim, sim; tem você razão—disse Harriet com alívio. Já se aproximavam do último lance do passeio que conduzia à casa. Tinham deixado atrás a sombra dos olmos e agora caminhavam a pleno sol. Frente à entrada da casa se viam várias carruagens e os cavalheiros que tinham chegado nelas estavam entrando para o convite de costume. Era o momento de unir-se a eles.

Justo quando Pitt já estava a ponto de partir teve a oportunidade de falar com o Danforth e de lhe fazer algumas perguntas sobre o acontecido com os cães. Sir Arthur sempre tinha querido muito a seus animais.

Se o fato de achar dono para os cachorrinhos de sua cadela era algo que tivesse tomado muito à ligeira, então teria que reconhecer que não era a mesma pessoa que tinha conhecido. Mas o problema não estava em que tivesse esquecido por completo o combinado; segundo Danforth, os tinha vendido a outra pessoa.

Tropeçou com o Danforth no vestíbulo, e também a ponto de partir. Ainda parecia um pouco incômodo, como se não soubesse com certeza se sua presença era adequada ou não. Certamente sentia algum remorso de consciência pelo que tinha declarado ante o juiz.

Sempre tinha sido um bom vizinho e um bom amigo. Nunca houve más relações entre as duas propriedades, embora a do Danforth era muito menor.

—Boa tarde, senhor Danforth—disse Pitt dirigindo-se para ele como por acaso—. Alegra-me vê-lo tão bem.

—É... boa tarde— respondeu Danforth forçando a vista um pouco para identificar a seu interlocutor. Por seu aspecto, talvez pensou que Pitt vinha de Londres, e entretanto soube reconhecer nele um ar que lhe resultava familiar.

—Thomas Pitt —ajudou—o Pitt.

—Pitt? Pitt, Ah, claro! O filho do guarda florestal, já me lembro— disse com uma sombra na expressão do rosto, e de repente, Pitt retornou ao passado e recordou como se fora ontem a desgraça, o medo e a vergonha que sentiu ao ver como acusavam a seu pai de caçar furtivamente.

Não tinha sido nas propriedades do Danforth, mas aquilo agora era o de menos. A pessoa que tinha denunciado a seu pai para que o encerrassem no cárcere, onde finalmente morreu, pertencia à mesma classe social do Danforth, outro latifundiário como ele, e os caçadores furtivos eram um inimigo comum.

Pitt sentiu como lhe ardia o rosto ante a lembrança de toda aquela antiga humilhação, o ressentimento por sentir-se inferior, néscio e ignorante das normas.

Era absurdo, agora era polícia, e dos mais importantes. Ele mesmo tinha detido a homens melhores que Danforth, mais inteligentes, mais ricos e mais poderosos, homens de melhor sangue e linhagem.

—Superintendente Pitt, do Bow Street—disse Pitt com frieza embora lhe travasse a língua.

Danforth ficou surpreso.

—Por Deus bendito! Espero que não tenha vindo por trabalho. Já saberá que o pobre homem morreu por...—disse sem acabar a frase e soltando um suspiro—.

Suponho que os superintendentes não investigam os casos de suicídio. Será muito difícil demonstrá—lo, e certamente não serei eu quem o ajude! —exclamou com o rosto imperturbável, embora ligeiramente ofendido.

—Vim honrar a memória de um homem a quem queria muito—sentenciou Pitt apertando os dentes—, e a quem devo, além disso, quase tudo o que tenho. Assim como a você, minha presença nesta casa nada tem que ver com o trabalho.

—Então nada, homem. Mas por que teve que dizer você que é da polícia? —quis saber Danforth. Tinha ficado em ridículo e estava aborrecido por isso.

Pitt o tinha feito para lhe deixar bem claro que já não era o filho do guarda-florestal, mas não podia dizer-lhe.

—Estive na audiência com o juiz—disse desviando o tema—. Ouvi o que disse sobre os cachorrinhos. Sir Arthur sempre cuidou muito bem de seus cães.

—E de seus cavalos—disse Danforth enrugando o cenho—. Mas foi por isso que me dei conta de que o pobre velho estava perdendo faculdades. Não só me prometeu que poderia levar os que eu quisesse da isca de peixe, inclusive me acompanhou para que os escolhesse. E depois, maldita seja, vai e os vende ao Bridges—disse sacudindo a cabeça—.

Posso compreender um simples esquecimento, todos acabamos nos esquecendo de alguma coisa à medida que nos fazemos velhos, mas ele estava convencido de que eu lhe havia dito que não os queria. Estava seguro disso. Por isso me pareceu tão estranho. É muito triste, é terrível morrer assim. Mas me alegro de vê-lo por aqui, senhor é... superintendente.

—Bom dia— respondeu Pitt despedindo-se dele, e, movido por um impulso deu meia volta e se dirigiu para a cozinha da casa.

Sabia perfeitamente aonde ia. Conhecia tão bem o artesanato das paredes que podia reconhecer até a mais mínima variação da madeira, que partes eram mais lisas e escuras pela infinidade de mãos que as haviam tocado, ou pelo roçar que faziam ao passar os ombros de mordomos e lacaios, ou as saias das criadas, governantas e cozinheiras desde há gerações.

Ele mesmo tinha deixado seu rastro na época em que sua mãe tinha trabalhado ali, mas na longa história da casa, era como se tudo aquilo tivesse passado ontem. Ele e Matthew estavam acostumados a penetrar na cozinha para pedir leite, bolachas e restos de pasteizinhos.

Matthew costumava fazer muitas brincadeiras com às criadas e em uma ocasião colocou uma rã na sala de estar da governanta. A senhora Thayer odiava as rãs. Matthew e Pitt se retorceram de risada ao ouvir o grito da mulher. Depois os castigaram a comer pudim de tapioca durante toda uma semana, mas não lhes pareceu um preço muito alto tendo em conta o muito que tinham desfrutado.

O aroma da madeira encerada, das grandes cortinas e o chão sem tapetes era indefinível, mas tão penetrante que não se teria surpreendido se ao olhar-se ao espelho tivesse visto o menino de doze anos, de pernas longas, o olhar firme de seus olhos cinzas e o cabelo despenteado.

Ao entrar na cozinha, a cozinheira, com seu vestido de bombasí negro coberto por um avental, lançou-lhe um olhar de recriminação. Não era da época do Pitt, de modo que para ela, ele era um estranho.

Estava aturdida pela morte do dono da casa; tinham-lhe permitido assistir à cerimônia, mas também era a responsável por preparar o convite.

—Perdeu-se, senhor? Se der meia volta, voltará para os salões – disse assinalando a mesma porta pela qual tinha entrado.

—Lizzie, vêem e lhe mostre ao cavalheiro...

—Obrigado, Cook, mas estou procurando o guarda-florestal. Anda o senhor Sturges por aqui? Tenho que falar com ele sobre os cães de Sir Arthur.

—Não sei nada, senhor, mas hoje é um mau dia para falar disso.

—Meu nome é Thomas Pitt. Eu também vivi aqui.

—Oh, o jovem Tom! Eu não queria,—começou ruborizando-se—. Eu não queria...

—Não se preocupe—disse ele com um gesto complacente—. Só quero falar com o senhor Sturges. Sir Matthew me pediu que esclarecesse certo assunto e necessito a ajuda do Sturges.

—Oh, bom. Estava aqui faz uma meia hora e acredito que foi às quadras. Com enterro ou sem enterro, terá que continuar cuidando de tudo. Certamente o achará ali.

—Obrigado— disse ele passando junto a ela e olhando de esguelha as fileiras de frigideiras e bules e o enorme fogão de ferro forjado que ainda despedia calor, inclusive com o forno e as bocas tampados.

Os armários estavam repletos de peças de louça, e a despensa estava fechada, assim como os recipientes de madeira aonde guardavam a farinha, o açúcar, a aveia e as lentilhas. As verduras estariam certamente na copa e as carnes estariam penduradas no quarto frio. Seguindo pelo corredor e a mão direita se achava o tanque.

Pitt saiu pela porta de trás da cozinha, desceu os degraus e virou para a esquerda de maneira inconsciente. Teria conhecido o caminho inclusive com os olhos fechados.

Encontrou ao Sturges frente à porta do quarto das maçãs, um lugar ventilado com muitas prateleiras de madeira aonde se guardavam as maçãs no outono, e, cuidando de que não se tocassem umas com outras, geralmente se tinham ali todo o inverno e até bem entrada a primavera.

—Olá, jovem Tom!— disse sem mostrar surpresa alguma—. Alegra-me que tenha vindo para o enterro – acrescentou lhe olhando nos olhos.

Era uma relação difícil que tinha necessitado muitos anos para chegar ao ponto no qual se achava. Sturges tinha substituído a seu pai, algo pelo que Pitt ainda não lhe tinha perdoado. Ele e sua mãe tiveram que abandonar a casa do guarda-florestal e todos seus pertences ficaram dentro, tudo aquilo com o que se tinham acostumado a viver, coisas como a mesa e a despensa da cozinha, a lareira, uma poltrona muito cômoda e a banheira de lata.

Pitt tinha ali seu quarto próprio com uma pequena água-furtada que dava a uma macieira.

Tiveram que mudar-se às dependências da criadagem dentro da casa senhorial, mas não era o mesmo. O que era um quarto comparado com uma casa própria, com sua porta de entrada e sua cozinha?

É claro era plenamente consciente da sorte que tinham tido de que Sir Arthur tivesse dado refúgio à mulher do guarda-florestal e a seu filho e de que lhes tivesse acolhido tanto se acreditava na inocência de seu pai como se não. Outros não teriam feito ou mesmo; em realidade, muitos disseram que estava louco por fazer algo assim.

Mas isso não impediu que Pitt sentisse verdadeiro ódio por Sturges e sua mulher por ter ocupado a casa do guarda-florestal e que vivessem ali comodamente ao calor da lareira.

A partir de então, Sturges começou a percorrer os campos e os bosques que tinham sido o trabalho e também a felicidade de seu pai. O novo guarda-florestal tinha mudado muito poucas coisas, e isso era talvez o pior de tudo, especialmente se tal mudança tinha servido para piorar algo.

Mas quando melhorava, então a ofensa era muito pior.

Mas o tempo tinha suavizado bastante as coisas e, além disso, Sturges era um homem tranqüilo e paciente. Conhecia muito bem os costumes e as normas do lugar.

Tampouco ele se livrou de exercer de caçador furtivo sendo muito jovem, e sabia muito bem que tinha sido pela misericórdia de Deus ou pela boa fé do proprietário que não lhe tivessem pego.

Não emitia nenhum julgamento sobre a inocência ou a culpa de seu pai, só dizia que no caso de que fosse culpado, era o homem mais idiota do mundo.

E além disso amava os animais. A princípio de forma provisória, e logo como algo que já se dava por sentado, Sturges deixou que o jovem Thomas o ajudasse em seu trabalho. A relação começou em meio de um silêncio cheio de receios, mas à medida que a cooperação se foi fazendo mais necessária entre os dois, o gelo acabou por romper-se.

Foi, sobretudo, a partir do que aconteceu um dia a primeira hora da manhã, por volta das seis e meia, quando o sol começava a aparecer por entre os campos ainda úmidos pelo orvalho. Era primavera e as flores silvestres cresciam em abundância entre as sebes e árvores, os castanheiros tinham já suas novas folhas, enquanto que as haja e os olmos mostravam uns brotos que floresceriam um pouco mais tarde. Encontraram um mocho ferido e Sturges o levou a casa. Juntos o estiveram cuidando até que se recuperou e puderam soltá-lo no bosque.

Depois voltaram a vê-lo mais de uma vez, no verão, sobrevoando a quadra com suas asas abertas e majestosas, caçando ratos e atravessando a luz do lampião qual mesmo um fantasma, até que desaparecia de novo.

A partir daquele ano, os dois se mostraram mais compreensivos o um com o outro e em nenhum momento se reprovaram nada.

—Claro que vim— respondeu Pitt, respirando com dificuldade. O quarto das maçãs despedia um aroma doce e seco, um pouco rançoso, mas cheio de lembranças—. Sei muito bem que tinha que ter vindo antes. Não é preciso que me recorde isso.

—Sim, bom, mas isso já sabe—disse Sturges sem afastar os olhos do rosto do Pitt—. Mas está muito bem. Um pouco estranho com esse traje de cidade. Agora é superintendente, não é? E te dedica a deter às pessoas, não?

—Só por assassinato e traição— replicou Pitt—. É melhor que essa gente esteja encerrada, não?

—Oh, sim. A verdade é que eu não poderia assassinar a ninguém, não tenho tempo. Mas vejo que te foi muito bem, né?

—Sim.

Sturges mordeu o lábio.

—Tem mulher? Ou está tão ocupado melhorando sua posição que ainda não tem noiva?

—Sim, tenho mulher e dois filhos; um menino e uma menina— disse sem poder evitar um certo tom de orgulho em suas palavras.

—De verdade?—perguntou Sturges olhando-o fixamente. Fazia o possível por seguir com a mesma expressão de severidade, mas em seguida lhe delatou um brilho de satisfação nos olhos—. E onde estão agora? Em Londres?

—Não, Charlotte está aqui comigo. Trarei-a para que a conheça.

—Só se quiser — disse Sturges, procurando dar a impressão de que não lhe importava absolutamente. Deu-lhe as costas e começou a ordenar distraidamente um montão de palha.

—Mas antes, quero que me conte o que aconteceu com o senhor Danforth e os cães—disse Pitt.

—Não posso fazê-lo, Tom, sinto muito. Danforth nunca me foi muito simpático, mas que eu saiba sempre foi um bom homem. E muito preparado.

—É certo que escolher dois cachorrinhos?

—Sim, é—o respondeu enquanto reunia um montão de palha—. E ao cabo de duas semanas enviou a um de seus criados com uma nota dizendo que já não os queria.

E duas semanas depois veio levar os cães e se zangou muito por não poder levá-los. Disse algumas coisas muito pouco agradáveis sobre Sir Arthur. Teria gostado de lhe dizer um par de coisas bem grosseiras, mas Sir Arthur não me tinha deixado.

—Viu você mesmo essa nota ou foi Sir Arthur quem te falou dela?

Sturges deixou o montão de palha e olhou fixamente ao Pitt.

—Claro que a vi! Estava dirigida a mim, posto que eu sou o encarregado de cuidar dos cães; além disso, nesse momento Sir Arthur se achava em Londres.

—Que estranho—disse Pitt com a cabeça cheia de idéias que se atropelavam—. Mas tem razão. Acredito que alguém não está jogando limpo.

—Jogando ? Para mim, o que passa é que Danforth já está envelhecendo.

—Não necessariamente, embora o pareça. Tem essa nota?

—Por que? Para que ia guardá—la? Já não serve de nada.

-serve para demonstrar que é Danforth quem não disse a verdade, e não Sir Arthur—respondeu Pitt.

—E por que terá que demonstrar isso? —exclamou Sturges com uma careta—. Como pode haver alguém capaz de pensar que Sir Arthur não tinha razão?

De repente, Pitt sentiu que o coração lhe enchia de felicidade, e se viu si mesmo sorrindo apesar das circunstâncias. Sturges era um homem leal, embora muito ciumento das coisas que só ele sabia.

—Sturges, sabe algo do acidente que teve Sir Arthur quando se cruzou com outro cavalo e o cavaleiro o açoitou com o chicote?

-sei algo—disse Sturges com tristeza e enrugando o rosto como desconcertado. apoiou-se sobre uma das prateleiras cheias de maçãs—. Mas, por que faz tantas perguntas, Tom? E além disso, quem lhe contou isso? Matthew? –perguntou como se ainda não se acostumasse à idéia de que Matthew fosse seu amo, o herdeiro do título.

Fora se ouviu o relincho de um cavalo e Pitt reconheceu o som dos cascos sobre o pavimento da quadra.

—Sim. Segundo ele, é muito provável que não fosse um acidente— disse Pitt procurando não responder por ele insinuando que talvez se tratara de uma ameaça por parte de alguém.

—Que não foi um acidente?—perguntou Sturges com rosto de desconcerto, mas sem que a idéia lhe fosse tão estranha—. Bom, segundo como se olhe, talvez não foi. Veio um louco como se nunca tivesse subido a um cavalo.

Para mim um acidente é algo que ninguém pode evitar, salvo Deus nosso Senhor. Com um pouco mais de cuidado, nada teria passado. Chegou galopando rua abaixo como um novato, dando golpes à direita e esquerda com o chicote. Foi uma sorte que ninguém mais ficasse ferido, além de Sir Arthur e do cavalo que montava esse dia.

O pobre animal recebeu muitos golpes na cabeça e no lombo. Passaram várias semanas até que se recuperou. Ainda tem medo da vara e certamente o terá sempre.

—Quem era o cavaleiro?

—Não sei— respondeu Sturges visivelmente contrariado—. Suponho que algum forasteiro idiota. Ninguém por aqui o conhecia.

—Chegou alguém a saber quem era? Sabe-se agora?—continuou perguntando Pitt.

A cálida luz do sol entrava pela porta do quarto de maçãs. Um cachorro perdigueiro de cor palha pôs a cabeça dentro e começou a mover a cauda como esperando algo.

—Eu não sei— respondeu Sturges um pouco zangado—. Se chegar a saber quem foi, lhe teria dado o seu —afirmou desafiante, embora houvesse mais intenção que outra coisa, mas Pitt sabia que sentia o que dizia.

—Quem mais viu o que aconteceu?—perguntou-lhe Pitt.

O cão entrou no quarto e Sturges o acariciou automaticamente.

—Ninguém, que eu saiba. O carreteiro o viu passar ao galope, e o ferreiro também, mas não viram como batia em Sir Arthur. Por que? O que tenta me dizer? Que foi culpa de Sir Arthur? Que ele se meteu no meio?

—Não— disse Pitt sem sentir-se aborrecido ante sua raiva nem porque ficasse na defensiva—. Não, o que digo é que talvez não foi um acidente. É possível que aquele homem esporeasse o cavalo com a única intenção de atacar a Sir Arthur em galope e de açoitá-lo com o chicote.

Sturges fez cara de surpresa e incredulidade.

—E por que ia alguém fazer isso? Não o entendo. Sir Arthur não tinha inimigos.

Pitt não sabia até que ponto podia contar a verdade ao Sturges. É possível que se mostrasse ainda mais desconfiado se lhe falava do Círculo Interior.

—E quem não os tem?

—Sir Arthur não tinha inimigos. Pelo menos aqui não—replicou Sturges olhando-o atentamente.

—Dizia também ele o mesmo?

—O que é o que sabe, Tom? O que tenta me dizer?

—Que Sir Arthur supunha um perigo para certo grupo ao que pertencia, e sobre o que estava a ponto de descobrir alguns assuntos muito feios.

Sir Arthur se propôs desmascarar essa gente e o acidente não foi mais que uma advertência para que não rompesse o pacto de silêncio que tinham feito—respondeu Pitt.

—Oh, sim, esse Círculo do que às vezes falava— disse Sturges piscando—. Mas isso é arriscar-se muito. Poderiam havê-lo matado!

—Ouviste falar do Círculo? —quis saber Pitt surpreso.

—Oh, sim. Já te hei dito que às vezes falava dele. Má gente, dizia; mas estão em Londres, não?—disse, e acrescentou como duvidando de algo e olhando ao Pitt—. Está pensando o mesmo que eu, Tom?

—Diria que Sir Arthur não estava bem da cabeça e que imaginava coisas estranhas?

—Claro que não! Preocupado talvez, e bastante zangado pelo que dizia que ia acontecer no estrangeiro, mas estava tão lúcido como você e como eu—disse sem afetação alguma, sem tratar de convencer-se a si mesmo de algo que lhe fizesse duvidar em seu interior.

Tanto pelo convencimento com o que falava, como pelas palavras que tinha empregado, Pitt ficou convencido de sua sinceridade.

De repente, sentiu-se muito aliviado e quase feliz e se surpreendeu a si mesmo dando ao Sturges um sorriso.

—Então lhe direi que sim— respondeu com firmeza—. Acredito que estamos pensando o mesmo. O do cavalo foi uma advertência que ainda despertou mais a ira de Sir Arthur, mas sua integridade estava acima de tudo e não quis fazer conta.

Por isso o assassinaram. Ainda não sei como o fizeram nem se há algum modo de poder demonstrá-lo, mas lhe asseguro que não descansarei até que o consiga.

—Alegra—me ouvir isso, Tom. De verdade que me alegra— disse Sturges com tranqüilidade inclinando-se um pouco para arranhar a cabeça do cão—. Eu não gosto que haja gente pensando dele essas coisas sem havê-lo conhecido. Não sou um homem violento.

Muitas pessoas morrem injustamente, mas queria ver pendurado a quem lhe fez isso. O povoado inteiro lhe agradecerá se o conseguir, e falo em nome de todos— disse, e não acrescentou que também todos lhe perdoariam o fato de não ter tornado antes ao Brackley, mas o disse com a expressão do rosto. Talvez fosse algo muito delicado para dizer com palavras.

—Farei tudo o que possa— respondeu. Pitt sabia o que fazer uma promessa sem estar seguro de cumpri-la podia significar uma segunda traição. Sturges não era um menino a quem tinha que dar umas palavras de consolo em lugar da verdade.

—Sim. Bom, se houver algo que eu ou alguém do povoado possamos fazer, já sabe onde estamos. E agora será melhor que volte junto aos outros ou começarão a sentir sua falta.

—Vou trazer lhe Charlotte para que a conheça.

—Isso já o disse antes e ainda não a vi.

Na manhã seguinte, Pitt retornou a seu escritório no Bowl Street.

Mal tinha cruzado a soleira da porta quando viu entrar o inspetor Tellman, com a mesmo rosto longo e ressentido de sempre. Tellman não tinha mais remedio que lhe mostrar respeito, tanto na maneira de dirigir-se a ele como interiormente, por sua provada capacidade no trabalho.

Entretanto, sentia como uma ofensa pessoal que Pitt, a seu julgamento muito pouco acima dele do ponto de vista social e certamente ao mesmo nível profissional, tivesse subido a um posto de maior responsabilidade para substituir ao Drummond. Este sim era um cavalheiro e aí radicava a diferença.

O normal é que os cargos mais importantes os ocupassem os cavalheiros, à margem de sua capacidade para o trabalho, daí que tomasse como algo pessoal o fato de que tivessem promovido Pitt.

—Bom dia, senhor Pitt—disse em tom áspero—. Ontem lhe sentimos falta, senhor. Há alguns temas pendentes— disse como se tivesse estado toda a noite esperando.

—Bom dia, Tellman. Estive no Hampshire, em um enterro familiar. O que é o que temos?

Tellman fez uma careta com os lábios e nem sequer se incomodou em lhe dar os pêsames, mas aquilo era algo que passava com todo mundo. Era um homem que se emocionava facilmente, mas por nada do mundo teria compartilhado um só sentimento com o Pitt.

—É sobre aqueles homens que você ordenou que vigiássemos – respondeu Tellman—. É um pouco difícil quando nem sequer sabemos o que estamos procurando nem por que razão. São todos uns cavalheiros muito respeitáveis. O que fizeram?

—Isso é precisamente o que quero averiguar— respondeu Pitt com brusquidão.

Não gostava do fato de não poder lhe dizer tudo o que sabia. Seu instinto lhe dizia que podia confiar no Tellman, mas era um risco muito grande. O Círculo podia estar em qualquer parte.

—Chantagem—disse Tellman misteriosamente—. Não é fácil, mas a gente pode chantagear a um homem por uma dúzia de razões, sobre tudo por fraude, roubo ou por estar fornicando com quem não deve—prosseguiu dizendo sem mudar de expressão, embora falasse com um desprezo que parecia encher todo o escritório—.

Claro que tratando-se de cavalheiros tão respeitáveis, não é nada simples averiguar quem é essa mulher com a qual não deve estar e a quem lhe importa.

Há mais de um cavalheiro que troca de mulher e de amante como se de um livro se tratasse, e tudo vai bem enquanto ninguém o surpreenda lendo—o. Tampouco acontece nada por muito que sei, saiba. Todo mundo sabe o que faz o príncipe do Gales e a ninguém importa.

—Poderiam começar investigando a situação econômica de cada um —propôs Pitt, fazendo caso omisso do que o outro lhe havia dito. Já conhecia sobradamente as opiniões do Tellman—. Talvez descubramos que alguém vive muito acima do que poderia permitir-se segundo seus ganhos.

— Extravio de recursos?—perguntou Tellman surpreso—. E que recursos há no Ministério de Colônias que se possam extraviar?—disse em um tom muito sarcástico—. Olhe, senhor alfaiate, sinto-o muito mas este mês não lhe posso pagar como sempre, aqui tem um par de telegramas procedentes da África e desse você por pago—disse, e de repente mudou a expressão do rosto e lhe brilharam os olhos como se acabasse de descobrir algo—. Um momento! É isso! verdade? Alguém está vendendo informação! O que você procura é um traidor! Por isso não diz nada.

—E continuo sem dizer nada—disse Pitt, dissimulando sua surpresa ante a intuição do Tellman e olhando-o fixamente.

Pode imaginar o que quiser, mas guarde-o para você. O delegado se zangará muito se chegar a saber que mencionamos sequer tal possibilidade, e me atrevo a dizer que o primeiro—ministro terá razão em zangar-se ainda mais.

—Mandou-o chamar o primeiro—ministro?—disse Tellman, impressionado ante a idéia e apesar de sua opinião sobre o Pitt.

—Não. Não falei com o primeiro—ministro e o único lugar do Downing Street no que estive foi no Ministério de Colônias. Mas ainda não me contou o que têm descoberto.

Tellman o olhou receoso.

—Nada que pareça importante. Jeremiah Thorne é a virtude em pessoa. Parece muito apaixonado por sua mulher, que por certo é extraordinariamente feia, e gasta muito dinheiro em uma fundação destinada à formação de mulheres.

Isso é algo que todo mundo rechaça, exceto os mais modernos, claro, mas no pior dos casos poderia fazer um escândalo se alguém o propusesse. Em qualquer caso, não é algo ilegal e sua mulher não o faz em segredo.

De fato inclusive o defende publicamente a toda custa. Se a alguém ocorre lhe fazer chantagem por isso, estou certo de que ela não desperdiçaria a ocasião de ganhar notoriedade.

Pitt também sabia o que tinha que certo naquelas palavras.

—Que mais?

—Hathaway é um cavalheiro muito normal que vive só e muito tranqüilo, e que toma a sério seus pequenos prazeres. Lê muito, de vez em quando vai ao teatro e se houver bom tempo dá largos passeios —recitou Tellman sem entusiasmo, como se o sujeito em questão fosse tão aborrecido como os detalhes que dele estava dando—.

Conhece muitas pessoas, mas sua relação com elas não deixa de ser de simples cordialidade. Janta em seu clube uma vez por semana. É viúvo e tem dois filhos já maiores e tão respeitáveis como ele, um deles trabalha no Serviço de Colônias e o outro pertence à Igreja. —Tellman desenhou um arco com os lábios—. É um homem de bom gosto e gosta das coisas de qualidade, mas não muito caras.

Parece que vive em consonância com o que cobra. Além disso, ninguém diz nada mau dele.

Pitt suspirou.

—E Aylmer? Também é um modelo de virtude?

—Não muito—disse Tellman com uma sombra de ironia em sua expressão—. Tem uma cara muito pouco agraciada, mas isso não impede que goste das mulheres. É um sedutor completamente inofensivo— disse dando de ombros—.

Pelo menos isso me pareceu pelo que pude descobrir até agora. Mas continuo investigando ao Aylmer. Gasta muito dinheiro, acredito que mais do que se pode permitir pelo que tem vontade.

—Mais do que ganha no Ministério de Colônias?—perguntou Pitt com repentino interesse e com uma pontada de remorso.

—Isso parece— respondeu Tellman—. Claro que poderia ter economizado, ou talvez tem algum negócio privado. Ainda não sabemos.

—Alguma mulher em particular?

—Uma tal Amanda Pennecuick. Uma senhorita muito bonita, por certo, e de bom berço.

—E mostra ela algum interesse por ele?

—Não muito, mas ainda não o rechaçou—disse como se aquilo lhe fizesse graça—. Se está pensando você na possibilidade de que ela vá atrás do Aylmer com o único fim de obter informação dele, então é que a senhorita Pennecuick é muito esperta.

Pelo que pude ver, ela faz todo o possível por evitar ao Aylmer, mas à vista está que de momento não o conseguiu.

—Talvez isso é o que quer: não consegui—lo, mas que todo mundo veja que o tenta —indicou Pitt—, sim o que você diz é certo. Investigue também à senhorita Pennecuick. Saiba quem são suas amigas, seus outros admiradores, de onde vem e que relação pode ter com...—disse Pitt sem terminar a frase. Devia mencionar aos alemães?

Tellman esperava. Era muito esperto para deixar-se enganar. Sabia muito bem a que obedecia a vacilação do Pitt e isso o incomodava.

—Com a Alemanha, Bélgica ou África —concluiu Pitt—. Ou com qualquer outra coisa que chame a atenção.

Tellman colocou as mãos nos bolsos. Não queria ser insolente; era uma reação instintiva de falta de respeito.

—Esqueceu-se do Peter Arundell e do Robert Leicester—lhe recordou Pitt.

     —Nada interessante—respondeu Tellman—. Arundell é um jovem muito bonito de boa família. O menor.

O major herdou o título, o segundo comprou um emprego de oficial no exército e o terceiro trabalha no Ministério de Colônias; este é o nosso. Acredito que herdou um benefício que a família tem em alguma parte do Wiltshire.

—Um benefício?—perguntou Pitt um pouco confundido.

—A Igreja—disse Tellman sentindo-se satisfeito de ter desconcertado ao Pitt—. As famílias com dinheiro freqüentemente gozam do benefício de uma bolsa eclesiástica, que podem ceder a quem querem. Há paróquias que dão muito dinheiro. Pelos dízimos.

Onde eu nasci, o sacerdote tinha três, de modo que alugava os serviços de um vigário ou de outro cura para cada uma delas. O titular vivia na Itália dos benefícios. Agora já não se usa, mas antes sim.

Pitt esteve a ponto de dizer que já sabia todo aquilo, mas se conteve. Em qualquer caso, Tellman não lhe teria acreditado.

—E o que tem sobre Arundell? Que classe de homem é?—perguntou sabendo que pouco importava. Ele não tinha acesso à informação sobre Zambeze.

—Justo o que você esperava—respondeu Tellman—. Vive em um piso de aluguel em Belgrave, vai a muitas reuniões sociais, tem roupa cara e gosta de comer bem, embora esteja acostumado a ser a custa de outros. É solteiro e certamente um bom partido. Todas as mães com filhas em idade de casar-se andam atrás dele, excetuando, claro, às que aspiram a algo mais. Mas com certeza não demorará para casar-se —concluiu Tellman com uma ligeira careta de desagrado.

Detestava aquele mundo da alta sociedade e nunca desperdiçava a ocasião de manifestá—lo.

—E Leicester?

Tellman grunhiu.

—Mais ou menos o mesmo.

—Nesse caso, será melhor que se ocupe da Amanda Pennecuick —ordenou Pitt—. E, Tellman, por favor...

—Sim, senhor?—perguntou sem abandonar um certo tom de sarcasmo e com um olhar muito desafiante.

-seja discreto—disse Pitt aceitando o desafio e olhando ao Tellman nos olhos.

Não foi preciso dizer nada mais. Eram duas pessoas completamente diferentes quanto a sua procedência e sua escala de valores. Pitt vinha do campo, e tinha um respeito inato, por não dizer um carinho, pela aristocracia latifundiária que tinha construído sua própria vida e a que tanto devia.

Tellman era da cidade e tinha nascido entre a pobreza, e detestava a todo aquele que tivesse nascido com dinheiro, a quem além disso considerava um folgazão.

Era gente que não tinha criado nada, e que só consumia sem dar nada em troca. Quão único ele e Pitt tinham em comum era sua dedicação à polícia, mas só isso já bastava para que pudessem compreender-se, pelo menos a esse nível.

—Sim, senhor Pitt—disse esboçando um sorriso, e dando meia volta partiu.

Meia hora depois, o delegado Farnsworth mandou chamar o Pitt a seu escritório.

A nota estava escrita em tais termos que não deixava lugar a menor demora, de modo que Pitt saiu do Bow Street e pegou uma carruagem para o Scotland Yard para apresentar-se a seu superior.

—Ah—disse Farnsworth levantando a vista de sua escrivaninha assim que ouviu entrar Pitt. Esperou que o recém-chegado fechasse a porta e continuou—. Sobre esse assunto do Ministério de Colônias, o que descobriu?

Pitt não sabia como lhe dizer que em realidade era muito pouco o que sabia.

—De momento não parece que ninguém tenha feito nada mau—respondeu—, exceto talvez Garston Aylmer—disse, e viu como Farnsworth fazia expressão de interesse, embora preferiu não lhe fazer muito caso—. Parece que sente certa debilidade por uma tal miss Amanda Pennecuick, mas pelo visto o interesse não é mútuo. Ele é bastante feio e ela extremamente bonita.

—Mas isso é freqüente—disse Farnsworth visivelmente decepcionado—. Não me parece algo suspeito, Pitt, é um dos muitos desenganos que nos dá a vida. Não ser muito bonito ou declaradamente feio não é algo que tenha impedido a ninguém apaixonar-se pelo belo. Pode chegar a ser muito doloroso, inclusive trágico, mas nunca será um delito.

—Muitos delitos se cometem por culpa de uma tragédia como essa—lhe replicou Pitt—. Todos reagimos de maneiras distintas frente à dor, sobretudo se a dor produz algo que está fora de nosso alcance.

Farnsworth o olhou com uma mescla de impaciência e desprezo.

—Pode você roubar de um bolo de carne até um colar de diamantes, mas nunca conseguirá roubar o afeto de uma mulher, Pitt. Além disso, não estamos falando de um homem capaz de cair tão baixo para cometer um roubo.

—É evidente que algo assim não se pode roubar— replicou Pitt em tom igualmente irônico—. Mas às vezes se pode comprar, ou pelo menos se pode comprar algo que lhe pareça o bastante. Não seria o primeiro homem feio em consegui-lo.

Farnsworth se mostrava resistente a lhe dar a razão, mas não teve mais remédio que fazê-lo. Tinha vivido muito para discutir um tema como aquele.

—Você acha que vende informação aos alemães em troca de dinheiro para comprar presentes ou o que seja que ela queira?—perguntou com inapetência—. De acordo. Investigue—o. Mas, pelo amor de Deus, seja discreto, Pitt. Talvez se trata de um homem perfeitamente honrado que só se apaixonou por quem não devia.

—De fato, também pensei na possibilidade de que essa tal senhorita Pennecuick esteja relacionada de algum modo com os alemães; é possível que Aylmer não esteja vendendo informação por dinheiro, mas sim ela seja quem está surrupiando essa informação em troca de seu favor pessoal. Já sei que é pouco provável, mas de momento não temos nada mais.

Farnsworth mordiscou o lábio inferior.

—Tente descobrir tudo o que possa sobre—lhe ordenou—. Quem é, de onde vem e com quem se relaciona.

—Tellman já o está investigando.

—Esqueça-se do Tellman. Quero que você faça o mesmo— disse Farnsworth franzindo o cenho—. Como certo, onde esteve ontem, Pitt? Ninguém o viu em todo o dia.

—Estive no Hampshire, em um enterro familiar.

—Mas não tinham morrido seus pais faz tempo?—perguntou Farnsworth em tom inquisitivo.

—Assim é. O enterro era de um homem que me tratou como a seu próprio filho.

Farnsworth ficou olhando fixamente com seus olhos azul claro.

—Ah, sim?—disse sem perguntar de quem se tratava e sem que Pitt pudesse adivinhar pela expressão de seu rosto se já sabia.

—Acredito que foi à audiência com o juiz sobre a morte de Sir Arthur Desmond—prosseguiu—. É certo isso?

—Sim.

—E por que? —quis saber arqueando as sobrancelhas—. Não há nenhum caso que investigar aí. É uma tragédia que um homem de sua talha acabasse dessa maneira, mas os anos e a enfermidade não perdoam a ninguém. Deixe-o, Pitt, ou não fará mais que piorar as coisas.

Pitt o olhou fixamente com uma cara de raiva e surpresa que Farnsworth interpretou como de incompreensão.

—Quanto menos se saiba deste assunto, menos coisas terão que arejar-se— disse um pouco irritado ante a lentidão de reflexos do Pitt—. Não deve permitir que este lamentável fato acabe afetando a seus sócios e amigos.

Não faça caso da gente. Esqueçamos tudo isto e recordemo-lo como o homem que sempre foi antes de que começassem suas obsessões.

—Obsessões?—perguntou Pitt como surpreso. Sabia muito bem que nada ia conseguir discutindo o tema com o Farnsworth, mas tampouco podia evitá-lo.

—Sobre a África—explicou Farnsworth com impaciência—. Sobre conspirações, tramas secretas e coisas assim. Sir Arthur estava convencido de que o perseguiam.

Já conhecemos todos este tipo de ilusões, mas nem por isso deixa de ser algo triste e doloroso. Pelo amor de Deus, Pitt, se tanto respeito tem a sua memória, procure que nada de tudo isto se faça público. E se não, faça-o pelo bom nome de sua família, deixe que tudo isto siga enterrado com ele.

Pitt o olhou nos olhos.

—Sir Matthew sustenta que seu pai não estava louco, nem era tampouco tão distraído nem imprudente para ter tomado láudano no meio da tarde, e muito menos em uma quantidade suficiente para matar-se.

—É lógico que o pense— disse Farnsworth rechaçando a idéia com um ligeiro gesto da mão que servia, além disso, para mostrar uma esmerada manicura—. Não é fácil reconhecer que a pessoa a que amamos padece um transtorno mental.

Eu teria pensado o mesmo se tivesse tratado de meu pai. Me acredite se lhe disser que o entendo perfeitamente, mas isso nada tem que ver com os fatos.

—Mas talvez tem razão—disse Pitt com teima.

Farnsworth esboçou uma careta de desgosto.

—Não a tem, Pitt. Conheço melhor o caso que você. Pitt esteve a ponto de rebatê-lo, mas em seguida se deu conta de que sua relação com Sir Arthur tinha sido mais que esporádica nos últimos dez anos, claro que Farnsworth não tinha por que sabê-lo.

Apesar de tudo, não lhe punha na melhor situação para discutir com ele.

Procurou que seu rosto não refletisse o que estava pensando, mas talvez seus sentimentos eram muito evidentes. Farnsworth o olhava cada vez mais convencido e com uma espécie de amarga complacência.

—Até que ponto sabe você como se achava Sir Arthur, Pitt?

—Nos últimos anos muito pouco.

—Nesse caso, me acredite. Eu o via com freqüência e lhe asseguro que estava mentalmente transtornado. Via conspirações e perseguições por toda parte, inclusive entre seus próprios amigos. É um homem pelo qual sinto o maior dos respeitos, mas os sentimentos, por muito profundos e verdadeiros que sejam, não podem mudar a verdade.

Em nome de sua amizade com ele, Pitt, deixe-o descansar em paz e procuremos prejudicar seu bom nome o menos possível. Tem você a obrigação moral de fazê-lo.

Apesar de tudo, Pitt ainda queria continuar discutindo. De repente, recordou o rosto curtido do Sturges e se perguntou se talvez sua opinião estava condicionada pela fidelidade e era realmente incapaz de acreditar que seu amo e senhor tivesse podido perder o juízo.

—Bem—disse Farnsworth com firmeza—. E agora ocupe-se do que tem entre mãos e averigúe quem está passando informação do Ministério de Colônias.

Ponha toda sua atenção, Pitt, até que resolva. Compreendeu—me?

—Sim, compreendi-o muito bem—respondeu Pitt sem dar-se por vencido nem resignar-se a deixar a morte de Sir Arthur como estava, como um assunto fechado.

 

O mais importante são os tratados— disse Matthew franzindo o cenho e olhando ao Pitt da mesa de seu escritório no Ministério de Colônias. Parecia menos angustiado que no dia do enterro no Brackley, mas continuava igualmente pálido e com a mesma sombra de tristeza no olhar.

Pitt conhecia muito bem ao Matthew para não dar-se conta nem identificar perfeitamente a tensão com a qual o via. O passado ainda os mantinha muito unidos a pesar do tempo que tinha transcorrido e dos diferentes caminhos que tinham seguido na vida.

Se alguém lhe tivesse perguntado por alguma data, o certo é que não teria sabido o que responder, nem sequer a de algum momento importante da vida de seu amigo.

Mas as lembranças de sua infância compartilhada eram tão fortes que pareciam recentes: a surpresa, a mútua compreensão, a necessidade de proteger ao outro, a perplexidade ante o descobrimento da dor.

Pitt recordava perfeitamente a morte de algum animal querido, a emoção e a surpresa ante o primeiro amor, depois do primeiro desengano, e o temor a que as pessoas e os lugares que davam forma a suas vidas chegassem a trocar de forma irremediável.

Juntos tinham vivido aquelas coisas, apesar até da diferença de idade, pois Matthew era um ano mais novo que ele, mas então, quando lhe chegava o momento de experimentar algo, já o tinha vivido e sentido com toda a intensidade do mundo.

Sabia que Matthew seguia imerso na mais profunda tristeza pela morte de seu pai; só que agora, à medida que a primeira impressão se ia atenuando, procurava dominar-se um pouco mais exteriormente.

Agora estavam sentados os dois em seu amplo escritório com móveis de madeira de carvalho, tapete de cor verde clara e grandes janelas com vistas ao St. James Park.

—Refere aos tratados com os alemães—disse Pitt—, mas o que preciso saber é de que tipo de informação estamos falando, sempre que me possa dizer isso claro.

É a única maneira de poder averiguar sua procedência e de saber logo por que mãos passou.

Matthew enrugou o cenho.

—Não é tão simples como parece, mas farei o que puder.

Pitt esperou. Fora, na rua, ouviu-se o relincho de um cavalo e os gritos de um homem. O sol atravessava os vidros e desenhava toda classe de reflexos no chão.

—Talvez uma das coisas mais importantes seja o tratado que assinamos faz alguns anos com o rei Lobengula—disse Matthew, pensativo—. Em setembro de oitenta e oito, a delegação do Rhodes, encabeçada por um tal Charles Rudd, chegou ao acampamento do rei no Bulowayo; isso está em Zambeze e som da tribo nadebele— explicou agitando suavemente os dedos sobre a escrivaninha à medida que falava—. Rudd era um perito na exploração de recursos minerais, mas era um ignorante com respeito aos chefes nativos e seus costumes.

Por isso se fez acompanhar de um tipo chamado Thompson, quem falava várias línguas que também compreendia o rei.

Havia um terceiro homem chamado Rochfort Maguire, um advogado procedente do All Souls" College de Oxford.

Pitt escutava pacientemente. De momento, nada de tudo aquilo era de ajuda alguma. Tentou imaginar o calor que fazia nas planícies africanas, assim como a coragem daqueles homens e a cobiça que os guiava.

—O certo é que também havia outros grupos procurando a concessão de mais explorações mineiras—prosseguiu Matthew—, mas estivemos a ponto de perdê—las.

—"Estivemos"? Por que te inclui? –interrompeu-lhe Pitt.

—Porque tudo o que faça Cecil Rhodes nos implica de uma forma ou outra — replicou com uma careta—. Tão então como agora, Rhodes tem a bênção do governo de sua majestade.

Naqueles dias, ainda estava vigente o Tratado do Moffat, que assinamos com a Lobengula em fevereiro daquele mesmo ano e no que se dizia que não cederia nenhum de seus territórios, e cito textualmente, "sem o prévio consentimento" do governo britânico.

—Mas disse que estivemos a ponto de perdê-las, e acrescentou voltando para o tema que lhe interessava—: Possivelmente porque a informação se filtrou aos alemães?

Matthew abriu os olhos ainda mais.

—É curioso. Certamente foi a embaixada alemã, mas chegamos a pensar que os belgas também estavam informados de tudo. Toda a África Central é um formigueiro de aventureiros, caçadores, buscadores de minas e gente com a esperança de converter-se em intermediários de qualquer negócio— disse inclinando-se um pouco mais sobre a mesa—. Rudd teve êxito porque contou com a ajuda de Sir Sydney Shippard, subcomissário do governo para o Bechuanaland.

Ele mesmo é um grande entusiasta do Cecil Rhodes e acredita firmemente no que tenta fazer ali, assim como Sir Hercules Robinson na Cidade do Cabo.

—Que informação se sabe que se filtrou com segurança à embaixada alemã do Ministério de Colônias? —insistiu Pitt—. Mas descarta as suspeitas. Quero a informação e averiguarei como entrou, bem seja por comunicado verbal, por carta ou telegrama, quem a recebeu e aonde foi depois.

Matthew estendeu o braço e posou a mão sobre um montão de papéis que havia a seu lado.

—Aqui tenho algo para você. Mas há algumas coisas que pouco tem que ver com o Foreign Office; são questões de dinheiro. Quase tudo o que tenho aqui trata sobre dinheiro – disse olhando ao Pitt para ver se compreendia do que estava falando.

—Dinheiro?—perguntou sem saber a que se referia—. Certamente o dinheiro não serve para comprar terras aos chefes nativos, não? Ou é o governo quem equipa convenientemente a exploradores e enviados especiais para que reclamem as terras em nome da Grã—Bretanha?

—Não! Essa é a questão— disse Matthew com veemência—. Cecil Rhodes corre com todos os gastos de sua expedição. Neste momento está em marcha e tudo paga ele mesmo.

—Ele só?—perguntou Pitt sem conseguir acreditar. Não era possível que aquele homem fosse tão rico.

Matthew sorriu.

—Não entende nada da África, Thomas. Não, ele não põe todo o dinheiro, mas sim uma grande parte. Há mais de um banco investindo nisto, e algum em Escócia, sobre tudo o do Francis Standish.

E agora talvez começará a se dar conta de que classe de tesouros estou falando: diamantes, mais que em qualquer outro lugar do mundo, muito ouro e um continente de terra cujos habitantes ainda vivem na idade da pedra a julgar pelas armas que têm.

Pitt o olhou fixamente sem saber muito bem o que pensar, tinha imagens imprecisas na cabeça e não podia esquecer as palavras de Sir Arthur sobre a exploração e o Círculo Interior.

—Quando homens como Livingstone começaram a ir à África, tudo era diferente— prosseguiu Matthew com expressão de decepção—. Eles queriam levar a medicina e o cristianismo, e liberar a essa gente da ignorância, da enfermidade e da escravidão.

É possível que graças a isso mereçam passar à posteridade, mas em nenhum momento quiseram enriquecer. O próprio Stanley preferia a glória a qualquer recompensa material.

—Mas Cecil Rhodes quer terras, dinheiro, poder e mais poder. Necessitamos homens como ele nesta etapa do desenvolvimento da África, não isso?

O rosto de Matthew se ia escurecendo cada vez mais.

—De momento, acredito que sim. O pai e eu discutíamos muito sobre este tema. Segundo ele, o governo devia ter uma maior iniciativa em tudo isto e enviar a seus próprios homens sem ocultá—lo, e ao diabo com o que pudessem pensar o Kaiser e o Rei Leopoldo.

Claro que Lorde Salisbury se negou a fazê-lo desde o começo. Teria preferido esquecer-se da África, mas a história e as circunstâncias não o permitiam.

—Quer dizer que Cecil Rhodes atua em nome de Grã—Bretanha, não? — perguntou Pitt sem conseguir acreditar no que Matthew lhe estava dizendo.

—Mais ou menos— respondeu Matthew—. Mas, além disso, há muito dinheiro no meio, dinheiro que vem de Londres e Edimburgo. E essa é a informação que se filtrou à embaixada alemã, pelo menos em parte.

Ouviram passos do outro lado da porta, mas fosse quem fosse, não se deteve.

—Já vejo.

—Não, Thomas, ainda não se dá conta. Há outros muitos fatores atuando: alianças, disputas, e muitas guerras, tanto novas como já passadas. E não esqueça os bóeres. Paul Kruger não é alguém que se possa tomar à ligeira. Temos as conseqüências da guerra com os zulus.

Na Equatoria está o Emin Pascha, no Congo estão os belgas e em quase todas partes está Carl Peters e a Companhia Alemã da África Oriental—disse, e acrescentou tocando o montão de papéis que tinha ao lado—: Leia-os, Thomas. Não posso deixar que leve isso, mas achará o que está procurando.

—Obrigado— respondeu Pitt estendendo o braço para pegá-los, mas Matthew ainda não quis dar-lhe.

—Thomas...

—Sim?

—E o que tem sobre o pai? Disse que investigaria o do acidente – disse envergonhado, como se houvesse algo de reprovável na pergunta, mas, por pouco que gostasse, a necessidade empurrava a isso—. quanto mais tempo o deixe, mais difícil será depois averiguá—lo.

A gente se esquece das coisas, ou ao cabo de um tempo começa a ter medo quando se dão conta de que há gente capaz de... –disse suspirando e procurando o olhar do Pitt. Tinha os olhos castanhos muito brilhantes, cheios de dor e confusão.

—Já comecei—respondeu Pitt com tranqüilidade—. Falei com o Sturges no Brackley. Assegura que o dos cachorrinhos foi culpa do Danforth. Este enviou uma carta dizendo que já não os queria, que tinha mudado de opinião.

Pelo menos parece que a carta a escreveu Danforth, mas tanto se o fez como se não, Sturges a leu porque ia dirigida a ele. Sir Arthur tinha razão.

—Não está mal para começar—disse Matthew como agarrando-se a isso, mas continuava com a mesma expressão de ansiedade—. Mas, e o acidente? Foi premeditado? Foi uma advertência, não é?

—Não sei. Sturges assegura que ninguém o viu, embora tanto o carreteiro como o ferreiro viram o cavaleiro galopando rua acima como um louco, parece que com o cavalo fora de controle. Mas todo mundo sabe que até o mais acelerado dos cavalos nunca carregará contra outro sempre que puder vê-lo, nem tampouco se aproximará tanto para que o cavaleiro possa atacar com seu chicote.

Acredito que foi premeditado, mas não vejo a maneira de demonstrá—lo. Esse homem era um forasteiro. Ninguém sabe quem é.

As feições do Matthew se crisparam.

—E suponho que o mesmo pode dizer do incidente do metro. Nunca poderemos prová—lo.

Que saibamos, ninguém conhecido foi testemunha do que aconteceu –disse baixando o olhar—. São muito espertos. Preparam tudo de maneira que não possa dizer nada, e se o faz, soa tão absurdo que a gente mesmo se desqualifica, como se fosse um consumidor de ópio ou estivesse sempre bêbado. —De repente ergueu os olhos como preso do pânico—. Começo a me sentir impotente. Já não é ódio o que sinto.

É algo mais parecido ao medo e a um cansaço terrível, como se tudo fosse inútil. Se não se tratasse do pai, nem sequer o tentaria.

Pitt compreendia aquele temor. Ele mesmo o tinha sentido no passado, só que agora a causa era real. Também compreendia aquele esgotamento entristecedor, uma vez passado o primeiro golpe. A raiva é um sentimento que pode com tudo e destrói a força do corpo e o espírito.

Matthew estava cansado e em pouco tempo estaria renovado, e então voltaria a sentir-se com raiva, ultrajado, com a necessidade imperiosa de proteger, de fazer justiça e de demonstrar a mentira. Esperava que Harriet Soames fosse bastante inteligente e generosa para cuidar bem dele, para esperar com paciência a que Matthew superasse o cansaço e a confusão e não lhe pedir nada em troca no momento, além da confiança e a segurança de que lhe daria tudo o que pudesse.

—Não tente nada sozinho—lhe aconselhou Pitt muito sério.

Matthew arqueou as sobrancelhas em um gesto de surpresa e dúvida, ao que logo seguiu uma sombra de ironia.

—Não pensará de mim que sou um incompetente, não é, Thomas? Levo quinze anos no Foreign Office. Sei muito bem como fazer as coisas com diplomacia.

Tinha sido uma estupidez de sua parte não ter pensado um pouco antes de falar, mas se tinha deixado levar pelo instinto de amparo que sempre tinham compartilhado.

—Me perdoe—se desculpou Pitt—. Queria dizer que poderíamos unir nossas forças e não perder o tempo levantando suspeitas.

O rosto do Matthew se relaxou com um sorriso.

—Sinto muito, Thomas. Estou muito suscetível. Isto é mais duro do que pensava—disse, e por fim entregou os papéis ao Pitt—. Dê uma olhada na sala contigua, e me devolva isso quando tiver terminado.

Pitt se levantou e os pegou.

—Obrigado.

O escritório que lhe tinha indicado era de teto muito alto e tinha uma larga janela que também dava ao parque e por onde entrava a luz do sol com toda sua intensidade.

Sentou-se em uma das três cadeiras que havia e começou a ler. Em lugar de tomar notas, preferiu memorizar o mais importante.

Necessitou até o meio—dia para estar seguro de saber com exatidão de que maneira podia rastrear a informação que já sabia em mãos da embaixada alemã. Depois se levantou e devolveu os papéis ao Matthew.

—Necessita algo mais?—perguntou Matthew olhando-o de sua escrivaninha.

—De momento não.

Matthew sorriu.

—O que lhe parece se formos comer? Há uma taverna muito boa à volta da esquina, e a uns duzentos metros daqui há outra inclusive melhor.

—Fico com a melhor— disse Pitt fazendo um esforço por parecer entusiasmado.

Matthew o seguiu até a porta e dali percorreram o corredor e desceram a ampla escadaria da entrada principal para mesclar-se logo com o bulício da rua.

Enquanto caminhava se foram dando algum ou outro empurrão com outros passeantes, homens com fraque e cartola e alguma ou outra mulher vestida à última moda, levando uma sombrinha e saudando com um sorriso aos conhecidos com os quais se cruzava.

No meio—fio o trânsito também era abundante. Carros, carruagens, coches simones, calesas e landaus descobertos que iam e vinham com o trote enérgico dos cavalos, com os golpes secos e elegantes de suas patas no chão e o tinido dos arreios.

—Eu adoro esta cidade quando faz bom tempo— disse Matthew como se se estivesse desculpando de algo—. Olhe que vitalidade, que vertigem e que agitação.

—E acrescentou olhando ao Pitt de soslaio: — Necessito a paz do Brackley, a sensação de permanência que me dá. Fecho os olhos e me sinto como se estivesse ali, cheirando o ar frio do inverno, com a neve sobre os campos e o rangido da geada sob os pés.

Posso cheirar perfeitamente o aroma a feno que traz o ar no verão, a luz que deslumbra, o sol que arde na pele e o sabor de uma boa cidra.

Uma dama muito elegante com um vestido rosa e cinza passou junto a ele e lhe deu um sorriso cheio de interesse, apesar de que não se conheciam nada, mas Matthew mal lhe prestou atenção.

—E a primavera, com sua cálida luz e as chuvas repentinas— seguiu dizendo Matthew—. Na cidade ou chove ou faz sol, mas nada mais. Não se vê o estalo da natureza, o verde que cobre os campos, os sulcos da terra; na cidade não se sabe nunca quando troca a estação, nem é consciente desse eterno ciclo que existe desde a criação do mundo e que sempre existirá.

Uma carruagem passou a toda velocidade muito junto à calçada e Matthew teve que dar um salto para trás para não receber o golpe dos faróis que se sobressaíam.

—Está louco! —exclamou baixo.

Estavam a uns poucos metros do cruzamento.

—Minha estação favorita foi sempre o outono—disse Pitt com um sorriso evocador—. Os dias que se vão fazendo mais curtos, a luz dourada do entardecer derramando-se sobre os campos de restolhos, os montões de tresnales, as noites de céus claros e as nuvens afastando-se para o oeste, os bagos vermelhos crescendo entre as sebes, as rosas silvestres, o aroma da madeira queimada e das folhas úmidas, os tons avermelhados das árvores.—Chegaram ao cruzamento e ambos se detiveram—. Sempre gostoei da primavera, a vida que renasce, as flores, mas, há algo muito especial no outono, quando tudo adquire uma cor dourada e há uma sensação de plenitude.

Matthew o olhou com um intenso e repentino afeto. Era como se tivessem vinte anos menos e estivessem no Brackley, olhando os campos ou os bosques, em lugar do Parlament Street, esperando que o trânsito lhes deixasse cruzar a rua.

Por fim viram que tinham via livre e os dois começaram a cruzar. De repente, como saído de um nada e dobrando a esquina, apareceu uma carruagem puxada por quatro cavalos correndo a toda velocidade junto ao meio—fio, com os animais acelerados, assustados e relinchando.

Antes de dar um salto e atirar-se ao chão, Pitt empurrou com todas suas forças ao Matthew, apesar do que, uma das rodas dianteiras lhe deu um forte golpe e caiu com a cabeça a poucos centímetros da boca-de-lobo e o meio-fio.

Pitt saiu correndo para ver melhor o carruagem, mas o único que pôde ver foi à parte traseira do mesmo enquanto se desvanecia na esquina do St. Margaret Street em direção ao Old Palace Yard.

Matthew estava estendido no chão e não se movia.

Pitt foi a seu lado. Doía-lhe a perna e tinha contundido todo o flanco esquerdo, mas mal se deu conta disso.

—Matthew! —exclamou ouvindo sua própria voz assustada e sentindo um nó no estômago—. Matthew! —Não havia sangue. Matthew tinha o pescoço reto, sem torceduras suspeitas, mas seguia com os olhos fechados e o rosto branco.

Na calçada havia uma mulher soluçando e tampando a boca com ambas as mãos, como querendo amortecer o som.

Outra mulher, idosa, aproximou-se e se ajoelhou junto ao Matthew.

—Posso lhe ajudar? Meu marido é médico e lhe ajudei em muitas ocasiões — disse com tranqüilidade olhando ao Matthew e não ao Pitt. E sem esperar que este último aceitasse, a mulher tirou as luvas, tocou a face do Matthew e logo lhe pôs um dedo no pescoço.

Pitt esperou angustiado.

Ao cabo de um momento, ela ergueu a vista e o olhou com expressão serena.

—O pulso é firme— disse sorrindo—. Quando despertar, terá uma boa dor de cabeça e algum ou outro machucado um pouco dolorido, mas está bem, o asseguro.

Pitt sentiu um grande alívio. Era como se o sangue voltasse a correr por suas veias e o coração e a cabeça tivessem voltado para a vida.

—Acredito que necessita você de uma boa taça de conhaque—lhe aconselhou a mulher amavelmente—. Recomendo um banho quente e um pouco de arnica para as contusões. Sentirá-se melhor, me acredite.

—Muito obrigado— disse Pitt como se lhes tivesse salvado a vida.

—Suponho que não saberá você quem era o cocheiro— continuou ela, ainda de joelhos junto ao Matthew—. Deveriam denunciá-lo à polícia; isso é algo digno de um criminoso. Já pode dar graças a Deus de que seu amigo não se golpeou contra o meio-fio; teria quebrado a cabeça e certamente teria morrido.

—Sei— respondeu Pitt engolindo em seco e dando-se conta do que havia de verdade nessas palavras. Agora que sabia que Matthew estava vivo, via-o com mais clareza e começou a compreender o que significava tudo aquilo.

A mulher o olhou com curiosidade, enrugando o cenho e intuindo que havia algo mais atrás do acidente que acabava de presenciar.

Outras pessoas se foram concentrando ao redor, entre elas um homem corpulento com umas enormes costeletas, que abriu passagem a cotoveladas.

—O que aconteceu?—perguntou—. Necessitam um médico? Querem que chame à polícia? Chamou alguém à polícia?

—Eu sou a polícia—respondeu Pitt olhando-o do chão—. E sim, necessitamos de um médico. Estaria muito agradecido se alguém chamasse um.

O homem o olhou com rosto de incredulidade.

—De verdade é policial?

Pitt colocou a mão no bolso para procurar seu cartão e comprovou com desagrado que lhe tremiam as mãos. Tirou o cartão com dificuldade e a entregou ao homem sem incomodar-se sequer em esperar sua reação.

Matthew começou a mover-se, emitiu um gemido de dor e abriu os olhos.

—Matthew! —exclamou Pitt muito tenso, inclinando-se para ele e olhando-o fixamente.

—Estúpido louco!—disse Matthew enfurecido, e voltou a fechar os olhos de dor.

—Não deveria mover-se, jovem— lhe advertiu energicamente a mulher idosa.

—Logo virá o médico. Espere a escutar o que diz antes de tentar levantar-se.

—Thomas?

—Sim, estou aqui.

Matthew voltou a abrir os olhos e tentou esclarecer a imagem imprecisa que tinha do rosto do Pitt. Depois pareceu que queria dizer algo, mas por algum motivo decidiu não fazê-lo.

—Sim, Matthew, é exatamente o que está pensando— disse Pitt com calma.

Matthew suspirou profundamente com um calafrio.

—Não deveria me ter incomodado quando me disse que andasse com cuidado. Portei—me como um menino; está claro que me equivocava.

Pitt preferiu não responder.

A mulher idosa olhou ao homem das costeletas.

—Sabe você se alguém foi procurar um médico?—perguntou-lhe no mesmo tom que teria empregado uma boa preceptora com um criado indiferente.

—Não se preocupe, senhora—replicou ele, muito sério, e se afastou, certamente, para encarregar-se ele mesmo dessa tarefa, pensou Pitt.

—Acredito que com um pouco de ajuda poderei me pôr em pé. Aqui estou obstruindo a passagem e sou o espetáculo de toda a rua—disse Matthew fazendo um esforço por incorporar-se e sem que Pitt pudesse fazer nada por impedi—lo, limitou-se a lhe dar o braço e a segurá—lo enquanto Matthew se balançava e perdia o equilíbrio.

Passaram alguns segundos até que Matthew pôde recompor-se e manter-se erguido com um esforço de concentração, embora Pitt continuasse segurando—o.

—Talvez será melhor que peçamos uma carruagem e o leve a casa, e que de ali chamemos a seu médico o antes possível —sugeriu Pitt com decisão.

—Ora, não acredito que é preciso— replicou Matthew, balançando-se ainda um pouco.—Seria uma imprudência de sua parte que não fizesse caso desse conselho — disse a mulher idosa em tom de recriminação.

Agora que Pitt e Matthew estavam de pé, a diferença de altura com respeito a ela era mais que considerável, por isso se via obrigada a olhar para cima para dirigir-se a eles; entretanto, falava com tal segurança que essa diferença de estatura ficava perfeitamente compensada. Pitt teve inclusive a sensação de estar falando com a professora do colégio.

Matthew devia sentir o mesmo, porque preferiu não discutir com ela. Pitt deteve uma carruagem de aluguel, pediu ao cocheiro que se aproximasse e se despediu da dama em questão lhe agradecendo muito efusivamente, depois subiram ao veículo e partiram dali.

Pitt acompanhou ao Matthew a seus aposentos, assegurou-se de que foram procurar ao médico e se sentou na pequena sala de estar para meditar sobre os papéis que tinha lido no Foreign Office, enquanto esperava que chegasse o médico e desse sua opinião sobre o estado de saúde do Matthew. Este estava mais tranqüilo agora que descansava em sua própria cama.

—Poderia ter sido muito grave— disse o médico uns cinqüenta minutos mais tarde—. Mas felizmente, acredito que só sofreu um golpe sem importância e algum ou outro molesto machucado.

Informou à polícia sobre o acontecido?

O médico se achava no dormitório do Matthew enquanto este continuava na cama muito pálido e ainda impressionado. Pitt esperava junto à porta.

—O senhor Pitt é policial— lhe contou Matthew—. Estava comigo quando aconteceu o acidente. Ele também caiu no chão.

—Ah, sim? Não me havia dito isso — falou o médico olhando-o com expressão de surpresa—. Necessita você de meus serviços, senhor Pitt?

—Não, obrigado. Só tenho uns machucados— respondeu Pitt—. Mas muito obrigado, é muito amável.

—Nesse caso, suponho que informará a seus superiores. Conduzir dessa maneira, ferir dois homens e logo escapar só pode considerar um comportamento criminoso—disse o médico muito sério.

—Não sabemos quem o fez, nem nós nem a gente que se achava na rua. Não acredito que possamos fazer nada— disse Pitt.

Matthew esboçou um pálido sorriso.

—Além disso, o superintendente Pitt não tem superiores, só o delegado. Verdade, Thomas?

O médico se surpreendeu e começou a negar com a cabeça.

—É uma pena. A essa gente se devia prender. Como eu gostaria de ver esse tipo entre grades, claro que há tantas coisas que eu gostaria de ver e que nunca verei. Enfim— disse, voltando-se para o Matthew—, descanse alguns dias e me chame se a dor de cabeça piorar, se enjoar ou se não pode ver bem.

—Obrigado.

—Bom dia, Sir Matthew.

Pitt o acompanhou até a saída e logo retornou ao dormitório do Matthew.

—Obrigado, Thomas—disse Matthew com preocupação—. Se não me tivesse empurrado, esses cavalos me teriam feito em pedaços. Foi o Círculo Interior, não é? Estão me ameaçando.

—Talvez se trate de uma ameaça para os dois— respondeu Pitt—. Ou possivelmente seja alguém que investiu muito dinheiro na África, embora me parece muito pouco provável. E se fosse só um acidente, sem culpado algum detrás?

—Você acredita?

—Não.

—Eu tampouco— afirmou Matthew esboçando um sorriso, com seus olhos castanhos olhando-o de um rosto totalmente pálido, sem vontade de dissimular o medo que sentia.

—Deixa estar um par de dias— lhe aconselhou Pitt com tranqüilidade—. Não acredito que consigamos nada nos deixando ferir ou matar. Fica em casa. Temos que pensar muito bem qual será nosso próximo movimento. Terá que tomar cuidado. Nesta batalha não podemos nos permitir o luxo de atacar sem fazer mal.

—Não posso fazer muito de momento— disse Matthew com uma careta de dor—, mas lhe asseguro que não vou pensar em outra coisa.

Pitt sorriu e se despediu dele. Agora não podia fazer-se nada mais e Matthew precisava dormir um pouco. partiu com a cabeça lhe dando voltas e cheia de temores e escuros pressentimentos.

Eram quase quatro quando chegou ao Downing Street e subiu as escadas do Ministério de Colônias. Uma vez ali, perguntou pelo Linus Chancellor e lhe disseram que se pudesse esperar um pouco, não demoraria para recebê-lo.

Tal como lhe tinham anunciado, ao cabo de meia hora de espera pôde entrar no escritório do Chancellor.

Encontrou-o sentado frente a sua escrivaninha, com o olhar cravado nele e a fronte enrugada como mostra visível de interesse e ansiedade.

—Boa tarde, Pitt—disse sem levantar-se, e com um movimento da mão lhe indicou onde sentar-se—. Suponho que terá vindo a informar do que averiguou, não é? Embora talvez é ainda muito cedo para ter algum suspeito, não? Sim, pela cara que põe, deduzo que assim é. O que descobriu?—perguntou aguçando o olhar—. Parece você um pouco incômodo. Possivelmente algo rígido. Dói-lhe algo?

Pitt sorriu com tristeza. O certo é que lhe doía todo o corpo, e muito. Enquanto estava tão pendente de Matthew, virtualmente nem se acordou de suas próprias lesões, e agora doíam muito para não lhes fazer caso.

—Faz umas horas, quase me atropela uma carruagem, mas não acredito que tenha nada que ver com isto.

Chancellor fez expressão de preocupação e certo estupor.

—Por Deus bendito! Não me estará você dizendo que alguém tentou matá—lo, não é?—perguntou, e logo crispou os músculos do rosto e lhe dirigiu um olhar frio e quase ameaçador—.

Claro que não sei por que me surpreendo. Se houver alguém capaz de trair a seu próprio país, por que vai duvidar em matar a quem tenta desmascará—lo? Acredito que devo pôr um pouco em dia minha escala de valores.

Reclinou-se na poltrona visivelmente comovido.

—Talvez a violência ofende de tal modo nossa sensibilidade que sempre acabamos considerando—a muito pior que um ato encoberto de traição, quando este realidade é imensamente mais grave.

O assassinato se oculta atrás de um rosto que sorri, e quando menos se espera, chega a punhalada pelas costas –disse fechando o punho como preparado para atirar ele mesmo o golpe—, e de repente se dá conta de que pôs toda sua confiança em quem não devia e se vê despojado do mais importante que há na vida: a fé em Deus, o valor da amizade e a honra.

Sendo assim, por que ia esse homem duvidar de dar um simples empurrão a alguém entre a multidão? Ninguém estranha que uma pessoa acabe sob as rodas de uma carruagem em plena rua—disse com uma expressão de preocupação que não dissimulava a raiva que sentia por dentro—. Viu—o um médico? Sabe se lhe convém andar por aí em lugar de guardar cama? Tem certeza que não está ferido gravemente?

Pitt sorriu não sem certo esforço.

—Sim, já me viu o médico, obrigado—respondeu sem dizer exatamente a verdade—. Um amigo que me acompanhava ficou muito mais ferido, mas em uns poucos dias estaremos os dois perfeitamente. Esta manhã falei com Sir Matthew Desmond e me deu alguns detalhes sobre o tipo de informação que passou à mãos dos alemães.

Tive ocasião de ler essa informação no Ministério de Exterior, e embora não pude levar os papéis, já estou à corrente de seu conteúdo, por isso ficaria muito agradecido se pudesse me proporcionar alguma pista; possivelmente poderíamos começar por excluir de toda suspeita a quem não tivesse acesso a essa informação.

—É claro. Me diga você o que sabe—disse Chancellor reclinando-se na poltrona e cruzando os braços em sinal de espera.

Pitt pôs seus cinco sentidos em recordar toda a informação que tinha lido nos papéis do Matthew, e, um a um, foi expondo cada ponto por ordem de importância.

Assim que terminou, Chancellor ficou olhando com desconcerto e mais inquietação que antes.

—E então?—perguntou Pitt.

—Há uma parte dessa informação que eu mesmo ignorava—respondeu Chancellor com calma—. Não passa pelo Ministério de Colônias –acrescentou depois um longo silencio e olhando fixamente ao Pitt para averiguar se entendia bem o sentido do que acabava de dizer.

—Nesse caso, tanto se for intencional como se não, está claro que nosso traidor tem ajuda—sentenciou Pitt, e então lhe ocorreu outra idéia—. Embora talvez esse é precisamente seu ponto fraco.

Chancellor em seguida se deu conta do que queria dizer. Esticou o corpo com um brilho de esperança nos olhos.

—Naturalmente! Pode começar por aí em busca de provas, comunicados ou talvez inclusive subornos ou chantagens. Algo é possível.

—E por onde começo?

—Como diz?—disse Chancellor desconcertado.

—De que outro lugar pode ter saído essa informação?—explicou-se Pitt—. O que exatamente não passa por este escritório?

—Ah, já vejo. Assuntos econômicos. Referiu-se você aos diferentes empréstimos e garantias dados ao MacKinnon e ao Rhodes, entre muitos outros, com o apoio do centro financeiro de Londres e de alguns banqueiros escoceses.

Qualquer um com um pouco de paciência e umas noções básicas em economia pode averiguar por si mesmo o marco geral destes empréstimos; agora bem, os prazos, as condições e as quantidades exatas unicamente podem sair do Tesouro— disse esticando os lábios.

—Isto parece muito mal, Pitt. Agora resultará que também há um traidor no Tesouro.

Estaremos lhe muito agradecidos se conseguir desmascará—los, mas lhe rogo a máxima discrição —rogou procurando os olhos do Pitt—. É necessário que lhe advirta do grave prejuízo que suporia para o governo, não só para os interesses britânicos na África, se chegasse a saber se publicamente que isto é um formigueiro de espiões?

—Não— se limitou a dizer Pitt enquanto ficava em pé—. Farei todo o possível por levar o assunto com discrição, e até em segredo se for preciso.

—Bem, bem— respondeu Chancellor procurando uma posição mais cômoda e comprovando que os traços elegantes e cambiáveis do rosto do Pitt relaxavam por fim um pouco—. Tenha-me informado de tudo. Sempre posso lhe fazer um espaço durante o dia para nos ver, e também de noite, se for necessário. Suponho que, ao igual a mim, tampouco você tem um horário fixo.

—Não, senhor. Assegurarei-me de que esteja à corrente de tudo. Bom dia, senhor Chancellor.

Pitt se dirigiu imediatamente ao Tesouro, mas já eram quase cinco, e Ransley Soames, a pessoa com quem devia entrevistar-se, já tinha partido e não voltaria até o dia seguinte. Pitt se sentia cansado e lhe doía todo o corpo.

Nem sequer se sentiu culpado frustrando seu zelo investigador quando deteve uma carruagem no Whitehall para voltar para casa.

Duvidava se contava à Charlotte os detalhes do incidente com a carruagem. A verdade é que ia ser de todo inútil evitar o tema. Bastava olhá—lo para dar-se conta em seguida de que estava ferido, embora talvez o melhor era não lhe dar muita importância e não mencionar que Matthew ainda estava pior que ele, de outro modo só conseguiria preocupá—la inutilmente.

—O que aconteceu ? —insistiu ela assim que Pitt terminou de lhe dar uma explicação o mais vaga possível.

Achavam-se na sala de estar tomando um chá bem quente. As crianças, já jantadas, tinham subido ao piso de cima. Jemima estava fazendo os deveres.

Faltavam quatro anos para que chegassem os exames que deviam decidir seu futuro educativo. Daniel, dois anos menor que ela, ainda estava isento das exigências do estudo diário.

Com cinco anos e meio já sabia ler razoavelmente bem, estava aprendendo de cor as tábuas de multiplicar e lhe obrigavam a aplicar-se em ortografia muito mais do que gostaria.

Mas a última hora da tarde lhe permitiam que brincasse. Jemima punha todo seu empenho em aprender a lista completa de todos os reis da Inglaterra desde 1066, com o Eduardo o Confessor, até 1890, com a atual rainha, o que não era pouco.

Mas quando tivesse que ser examinda, não só teria que saber seus nomes e a ordem de sucessão, mas as datas de cada um e os acontecimentos mais destacados de seus respectivos reinados.

—O que aconteceu? —repetiu Charlotte, olhando-o atentamente.

—Uma carruagem com os cavalos acelerados e quase ao galope me roçou em uma esquina. Caí no chão, mas só tenho uns machucados— disse com um sorriso—. Não é nada, de verdade.

Estava a ponto de não lhe dizer isso, mas não quero que pense que me estou convertendo em um aleijado por coisas da idade.

Charlotte nem sequer lhe ofereceu um sorriso por resposta.

—Thomas, não tem bom aspecto. Deveria verte um médico, embora só seja para...

—Não é necessário.

—Claro que sim! —exclamou ela fazendo gesto de levantar-se.

—Não, não o é!—replicou ele, ouvindo o tom de sua própria voz, mas sem poder impedi-lo.

Soava cortante e assustado.

Charlotte calou e ficou olhando com uma ruga entre as sobrancelhas.

—Me perdoe. Já me viu um médico— se desculpou ele, e a seguir começou a lhe contar o acontecido com a mesma isenção que já tinha empregado com o Chancellor—. Não é nada. Só umas quantas contusões, um pouco de susto e bastante zanga.

—Sim, sim o é. E se não, me diga por que foi ver um médico—perguntou ela lhe cravando o olhar.

A verdade é que não ia ser fácil lhe contar a verdade, e, além disso, estava muito cansado. Ele fazia só por protegê—la, mas decidiu por fim contar-lhe tudo.

—Matthew estava comigo. Ele saiu muito pior parado. Por isso veio o médico, mas logo ficará bem—se apressou a acrescentar—. O que passa é que ficou inconsciente uns instantes.

Charlotte aguçou ainda mais o olhar de preocupação.

—De verdade foi um acidente, Thomas? Você não acha que o Círculo Interior foi lá por causa do Matthew, não é verdade?

—Não sei. Duvido—o. Também eu gostaria de pensar que Matthew supõe um perigo para eles, mas não acredito.

Ela o olhou sem conseguir acreditar nele, mas não insistiu mais. Apressou-se a lhe preparar um banho quente e lhe buscar um pouco de arnica.

—Bom dia, superintendente —saudou Ransley Soames em um tom que delatava seu desinteresse pela visita.

Era um homem de aparência agradável, de traços comuns e um cabelo claro, espesso e ondulado penteado para trás. Tinha o nariz muito reto e uma boca que revelava certa fraqueza de caráter. Certamente, era graças à força de vontade que corrigia sua inclinação ao abandono.

Apesar de tudo, impunha bastante respeito e olhou ao Pitt com certa condescendência—. Me diga, o que posso fazer por você?

—Bom dia, senhor Soames— respondeu Pitt fechando a porta a suas costas e aceitando a poltrona que lhe oferecia. Soames estava sentado atrás de uma mesa muito alta e finamente esculpida, na qual em um dos extremos podia ver-se uma caixa vermelha ainda por abrir e com as fitas entrelaçadas—.

Sinto ter que incomodá—lo, senhor, mas o Foreign Office me encarregou de investigar sobre o muito grave desvio de certa informação. É necessário que saibamos a fonte dessa informação, assim como o pessoal que teve acesso reservado a ela, com o fim de desculpar quanto antes o engano.

Soames ficou olhando com o cenho franzido.

—Usa você uma linguagem muito diplomática, superintendente, para não dizer bastante escura. De que informação está você falando e aonde foi a parar de forma tão indevida?

—É informação financeira sobre a África e de momento preferiria não dizer em mãos de quem caiu. O senhor Linus Chancellor me pediu que seja o mais discreto possível. Espero que o compreenda.

—Claro, claro—disse Soames, embora por sua expressão estava claro que não gostava de sentir-se excluído—. Em qualquer caso, espero, superintendente, que você tampouco se incomodará se solicitar a confirmação do que está você dizendo. Só é uma formalidade.

—Naturalmente— disse Pitt sorrindo e lhe mostrou a autorização que Matthew lhe tinha dado com a assinatura do ministro de Exterior.

Soames lhe deu uma olhada, reconheceu em seguida a assinatura de Lorde Salisbury e se endireitou no assento. Pitt percebeu certa tensão nele. Talvez agora começava a dar-se conta da gravidade do caso.

—Sim, superintendente. O que com exatidão deseja saber de mim? Como pode ver, por esta mesa passa uma grande quantidade de informação de caráter econômico e a referida a assuntos africanos não é precisamente pouca.

—Entre outras coisas, interessa-me sobre tudo o financiamento da campanha do Cecil Rhodes no Matabeleland, que está em pleno desenvolvimento.

—Ah, sim? Mas não sabe já, superintendente, que a maior parte dessa expedição foi financiada pelo próprio Rhodes com sua Companhia da África do Sul?

—Sim, sei. Mas nem sempre foi assim. Ajudaria—me muito se você me contasse os antecedentes do financiamento dessa campanha.

—Pelo amor de Deus! Até onde quer você remontar? —exclamou Soames com os olhos esbugalhados.

Havia uma janela aberta, e entre o rumor do trânsito se ouviu de repente o som de um realejo, que em seguida desapareceu.

—Digamos uns dez anos atrás—respondeu Pitt.

—E o que quer saber? Não sei se me lembrarei de tudo, mas vou estar aqui todo o dia—disse Soames visivelmente surpreso e irritado, como julgando o pedido nada razoável.

—Só quero saber por mãos de quem passava a informação.

Soames suspirou.

—Ainda assim, está pedindo o impossível. Rhodes quis assegurar-se primeiro Bechuanaland do Cabo. Em agosto de oitenta e três fez um pedido formal ao Parlamento do Cabo sobre este tema—começou Soames apoiando as costas na poltrona e cruzando as mãos à altura do peito—. Era a porta de acesso às extensas planícies férteis do norte, no Matabeleland e Mashonaland. Mas não parece que ao primeiro—ministro Scanlen lhe interessasse muito o assunto.

O governo do Cabo estava muito endividado com um plano de ferrovias que subia a uns quatorze milhões de libras, e além disso acabava de sofrer uma guerra com o Basutoland, o que supôs um gasto adicional realmente entristecedor.

Foi então que Rhodes começou a procurar financiamento em Londres, e muito a seu pesar.

Claro que todo isso coincidiu com o governo liberal do Gladstone. O ministro do Exterior era então Lorde Derby, mas ao igual a Scanlen, seu interesse pelo assunto era nulo. —Soames cravou o olhar no Pitt, e acrescentou—: Estará você à corrente de tudo isto, não é, superintendente?

—Pois não. É importante que o esteja?

—Sim, se quer compreender a história do financiamento dessa campanha — disse Soames, esboçou um sorriso e continuou—. Depois das graves perdas que sofremos em Majuba, Lorde Derby não quis saber nada do assunto.

Entretanto, no ano seguinte, as coisas mudaram radicalmente, sobre tudo por medo de que o Transvaal começasse a empurrar para o norte anulando nossos esforços, tão necessários, pela segurança do Império, com as rotas marítimas do Cabo e todo o resto. Não podíamos nos permitir o luxo de deixar que os portos do Cabo caíssem em mãos dos afrikaners. Segue—me?

—Sim.

—Kruger e outros delegados da província do Transvaal acudiram a Londres no ano seguinte, o oitenta e quatro, para renegociar o Tratado de Pretoria. Não queria lhe aborrecer com os detalhes, mas uma parte deste acordo incluía a renúncia do Kruger ao Bechuanaland.

E agora, os flibusteiros bóeres avançavam para o norte — disse, olhando fixamente para Pitt para comprovar que entendia tudo—. Kruger traiu ao Rhodes e anexou Goshen à província do Transvaal, por isso a Alemanha entrou em cena. O assunto se foi complicando cada vez mais.

Compreende agora que a informação é abundante e que é muito difícil saber quem estava à corrente do que?

—Dou-me conta— concedeu Pitt—, mas estou seguro de que haverá mais de um canal oficial através do qual passa toda a informação concernente a Zambeze e Equatoria.

—Naturalmente. Mas e o que tem sobre o Cabo, Bechuanaland, o Congo e Zanzíbar?

Os ruídos que chegavam pela janela aberta pareciam muito longínquos, como se viessem de outro mundo.

—De momento podemos prescindir de todo isso— sentenciou Pitt.

—Muito bem. Isso facilita as coisas— disse Soames com a mesma expressão de preocupação e aborrecimento. Continuava com as sobrancelhas enrugadas e o corpo em tensão—. Somente Thompson, Chetwynd, MacGregor, Cranbourne, Alderley e eu mesmo estamos à corrente dessas zonas que mencionou.

Custa-me acreditar que algum deles tenha podido cometer algum descuido ou que tenha passado informação a alguém não autorizado, mas suponho que é possível.

—Obrigado.

—E agora o que vai fazer? —quis saber Soames com o cenho franzido.

—Investigar o assunto— respondeu Pitt com um sorriso evasivo. O primeiro era encarregar ao Tellman que comprovasse se existia alguma relação entre algum destes cavalheiros e Amanda Pennecuick, entre outras coisas.

Soames continuava olhando fixamente para Pitt.

—Superintendente, deduzo que o uso indevido dessa informação obedece a algum motivo de benefício pessoal, de especulação ou algo parecido, não?

Confio em que não comprometerá gravemente nossa posição na África. Dou—me conta da importância que tem tudo isto—disse, e acrescentou inclinando-se para frente—: É absolutamente necessário para nós conseguir Zambeze e a rota do Cabo até o Cairo.

Se ambas caírem em mãos das potências equivocadas, só Deus sabe o dano que poderiam nos causar. Todo o trabalho e a profunda influência de pessoas como Livingstone e Moffat desaparecerão transbordados pela violência e o fanatismo religioso. A África sofrerá um banho de sangue e a civilização cristã poderia desaparecer do continente— sentenciou com expressão de tristeza e desolação. Estava claro que acreditava profundamente e sem nenhum gênero de dúvida no que dizia.

De repente, Pitt sentiu certa simpatia por aquele homem. Nada tinha que ver com o oportunismo e a exploração que tanto temia Sir Arthur. Pelo menos, Ransley Soames ficava à margem do Círculo Interior e de todas suas maquinações. Só por isso já podia ser simpático, e sentiu um grande alívio. Ao fim e ao cabo, aquele homem ia ser o sogro de Matthew.

—Sinto muito. Tomara que o que disse fosse certo— respondeu Pitt com gravidade—, mas essa informação se filtrou à embaixada alemã.

Soames empalideceu e olhou horrorizado ao Pitt.

—Essa informação? Toda? Tem certeza do que diz?

—Talvez ainda estamos a tempo de evitar um dano irreparável—respondeu Pitt procurando acalmá—lo.

—Mas quem ia ser capaz de algo assim?—perguntou Soames à beira do desespero—. Acredita que os alemães pressionarão desde Zanzíbar com seu exército? Têm tropas, armas e até lanchas cañoneras, sabia? Ali já conhecem o que é uma revolta, a repressão e o derramamento de sangue!

—Talvez isso impedirá de momento que avancem para o interior—disse Pitt em tom esperançoso. — Enquanto isso, quero lhe agradecer por esta informação.

Pitt se levantou e justo quando se dirigia para a porta lhe ocorreu uma idéia que não quis desperdiçar. Ao fim e ao cabo, Harriet Soames era uma jovem que se movia entre a sociedade—.

—Desculpe-me, por acaso não lhe será familiar o nome da Amanda Pennecuick?

—Sim—respondeu Soames perplexo—. Não sei por que me pergunta isso, mas lhe asseguro que nada tem que ver com tudo isto. É uma amiga de minha filha. Por que o pergunta, superintendente?

—Sabe se conhece algum dos cavalheiros que enumerou antes?

—Sim, acredito que sim. Alderley a conheceu em minha casa em uma reunião de sociedade, disso estou certo. Acredito que sente certa atração por ela, mas é lógico. É uma jovem extraordinariamente encantadora. O que teria isso que ver com a informação econômica sobre a África, superintendente?

—Talvez nada. —Pitt sorriu e abriu a porta—. Muito obrigado, senhor. Bom dia.

O dia seguinte era domingo e Nobby Gunne não recordava um dia tão feliz como aquele.

Peter Kreisler a tinha convidado a um passeio pelo rio, por isso tinha alugado um barco para aquela mesma tarde. Depois voltariam de carruagem depois de jantar desfrutando do longo entardecer primaveril.

E ali estava, sentada na pequena embarcação que flutuava entre os reflexos da água, com o sol lhe dando no rosto, uma brisa agradável e o som de risadas e vozes animadas ouvindo-se por todo o rio; mulheres com vestidos de musselina, homens em mangas de camisa e crianças cheias de entusiasmo apoiadas sobre a amurada de seus barcos de passeio, ou aparecendo nas pontes ou brincando de qualquer das duas margens.

—Parece que toda Londres veio aqui de excursão— disse ela muito contente enquanto o barqueiro virava com destreza entre uma barcaça amarrada e um navio de pesca.

Tinha começado o passeio junto à ponte do Westminster, à sombra do Parlamento, e agora seguiam corrente abaixo, além do Blackfriars, quase na ponte do Southwark e com a ponte de Londres ante seus olhos.

—Que dia de maio tão bonito, não é verdade? Suponho que a gente boa e virtuosa continuará na igreja— disse Kreisler sorrindo. Tinham ouvido o tangido de uns sinos como deslizando pela água e uma ou duas agulhas do Wren ao longe.

—Eu posso ser igualmente boa e virtuosa aqui,— respondeu ela com uma sinceridade mais que duvidosa—. E certamente estarei muito mais contente.

Desta vez Kreisler não pôde agüentar a risada.

—Se for tentar me convencer de que é uma mulher muito convencional, parece—me que chega muito tarde. As mulheres convencionais não remontam o Congo a remo em canoa.

—Claro que não!—replicou ela muito contente—. Elas se sentam em um barco para passear pelo Tâmisa e se deixam levar ao Richmond ou ao Kew, ou inclusive a Greenwich por algum amável cavalheiro que se empreste a isso.

—Talvez tivesse preferido ir ao Kew. Acredito que seu jardim botânico é uma das maravilhas do mundo.

—Nada disso! Sou muito feliz de ir a Greenwich. Além disso, em um dia como este, temo que todo filho de vizinho não fará outra coisa que ir ao Kew com sua correspondente tia.

Kreisler procurou um pouco mais de comodidade em seu assento e se relaxou à luz do sol contemplando a enorme quantidade de embarcações abrindo passagem sobre a água, assim como as carruagens de cavalos correndo ao longo das margens, e os postos ambulantes nos que se vendiam refrescos de hortelã, bolos, sanduíches, mariscos, globos, aros, flautas, apitos e toda classe de brinquedos.

Uma menina com um vestido de babados perseguia um menino com um traje com listas. Um cão de cor branca e negra ladrava e fazia cabriola cheio de entusiasmo. Também se ouvia um realejo tocando uma melodia muito familiar.

Um navio de recreio passou junto a eles com o convés cheio de gente e dirigindo saudações para a margem. Havia ali um homem com um lenço vermelho amarrado na cabeça, como uma mancha de cor entre muitos rostos.

Nobby e Kreisler se olharam. Não era necessário dizer-se nada. Os dois estavam desfrutando por igual com o mesmo sentimento de ironia com respeito a outros refletindo-se no rosto.

Tinham passado já sob a ponte do Southward. À esquerda ficava o antigo embarcadouro do Swan, com a ponte de Londres justo em frente, e mais à frente o mole das alfândegas.

—Você acha que o rio Congo se converterá com o tempo em uma das vias de comunicação mais importantes do mundo?—perguntou ela pensativamente—. Por muito que queira, só posso imaginar o como uma enorme corrente de cor marrom margeada por uma selva tão imensa que são várias as nações que a percorrem, e só vejo umas quantas canoas indo povoado em povoado—disse introduzindo a mão suavemente na água enquanto a brisa lhe acariciava o rosto—.

Que pequeno é o homem, que inútil nossa luta contra a força primitiva da África. Daqui nos parece que conquistamos tudo e que submetemos tudo a nossa vontade.

—Jamais conquistaremos o Congo— disse ele sem vacilar—. O clima nos impedirá isso. Essa é uma das poucas coisas que não sabemos dominar nem submeter. Mas não duvide que acabarão construindo-se cidades, chegarão os navios e se exportará a madeira, o cobre e algo que possamos vender. Já existe uma ferrovia.

Com o tempo, estou seguro de que construirão outro que vá de Zambeze até o Cabo, para transportar ouro, marfim e o que seja, com a maior rapidez possível.

—E você não gosta disso—disse ela com tristeza, apagando de seu rosto qualquer rastro de sorriso.

Kreisler a olhou fixamente.

—Detesto a cobiça e a exploração. Detesto a ambigüidade com a que enganamos aos africanos. enganaram e fraudou a Lobengula, o rei dos nadebele do Mashonaland. Claro que é um analfabeto, mas não é tolo. Acredito que intui muito bem a tragédia que se aproxima.

A maré baixava e com ela a barco em que navegavam quando passaram sob a ponte de Londres. Uma menina com um chapéu de aba longa ficou olhando enquanto sorria. Nobby lhe saudou com a mão e a menina lhe respondeu com o mesmo gesto.

O mole das alfândegas ficava agora a sua esquerda, e mais à frente se via Tower Hill e a grande torre de Londres com suas ameias e as bandeiras ondeando ao vento. Ali mesmo e junto à borda se podia ver o degrau da Porta dos Traidores, onde, em outros tempos chegavam por barco os condenados a morte para sua execução.

—Eu gostaria de saber como era—disse Kreisler quase em voz baixa, como falando consigo mesmo.

—Quem? —quis saber Nobby, sem saber pela primeira vez a que se referia.

—Guillerme da Normandia—respondeu ele—. O último conquistador que soube submeter este país e sua gente, levantar fortalezas em todas as colinas e manter a ordem e tirar proveito da terra com seus soldados. Era sua Torre— disse ao passar ante ela deslizando-se pela água enquanto falava. O barqueiro mal tinha que esforçar-se para manter a velocidade.

Ela sabia muito bem no que estava pensando Kreisler. Nada tinha que ver com o Guillerme da Normandía, nem com a invasão que aconteceu fazia quase oito séculos. Era de novo a África, e os fuzis e canhões europeus contra as lanças dos guerreiros zulús, ou dos nadebele, com formações britânicas enchendo as planícies africanas; homens negros dominados pelos brancos, igual aos saxões em mãos dos normandos.

Só que os normandos eram primos de sangue, unidos pela raça e a religião, unicamente diferentes pela língua que falavam.

Ambos se olharam fixamente nos olhos. Estavam cruzando agora St. Catherine’s Dock em direção ao Pool de Londres. De ambos os lados do rio podiam ver-se os moles, embarcadouros e as escadarias que chegavam até a margem da água.

Havia barcaças amarradas, outras avançavam devagar corrente acima para outros moles, ou corrente abaixo para a desembocadura do rio e mar. Agora se viam poucos navios de recreio; aquela era a zona comercial. Dali se negociava com o mundo inteiro.

Kreisler sorriu, como adivinhando os pensamentos dela.

—Navios carregados de seda procedentes da China, especiarias da Burma e a Índia, teca, marfim e jade—disse, tornando-se um pouco para trás. O sol brilhava em seu rosto curtido e iluminava seus cabelos de cor clara, quase branqueados por outra luz muito mais intensa que a daquela tarde inglesa adornada com os reflexos multicoloridos da água—. Suponho que também haverá cedros do Líbano e ouro do Ofir.

E não acredito que tarde em chegar ouro do Zimbabue, mogno e peles da Equatoria, marfim do Zanzíbar e minerais do Congo. E trocaremos todo isso por algodão do Manchester, e também por armas e homens de meia a Europa. Haverá quem volta a casa, mas muitos não o conseguirão.

—Viu alguma vez Lobengula em pessoa?—perguntou ela com curiosidade.

Kreisler soltou uma gargalhada e afastou a vista para o céu.

—Sim, Uma vez. É um homem gigantesco, deve pesar uns cento e quarenta quilos e medirá mais de um metro oitenta de estatura. Não leva nada posto, salvo um aro zulú sobre a cabeça e uma pequena tanga.

—Céus! Tão grande é?—perguntou ela olhando-o fixamente para saber se estava zombando, embora soubesse quase com certeza que não.

Kreisler esboçou apenas um sorriso, mas lhe via pelo olhar que aquilo lhe fazia muita graça.

—Os nadebele não são um povo construtor como os shona, que construíram a cidade do Zimbabue. Os primeiros vivem de criar e roubar gado, e levantam povoados com choças cobertas de esterco.

—Conheço—os…—respondeu ela rapidamente, e a lembrança se fez tão vivida que quase podia cheirar o seco calor africano, em lugar do vaivém da água que agora lhe rodeava com seus reflexos multicoloridos.

—É claro—se desculpou ele—. Me Perdoe. É—me tão estranho poder falar com alguém que não necessita explicação alguma para imaginar o que sempre tento descrever. Lobengula está rodeado de uma corte muito rigorosa.

Para ter audiência com ele, terá que aproximar-se com as mãos e os joelhos no chão, e permanecer assim todo o tempo—disse com uma careta de desgosto—. Lhe asseguro que pode ser uma experiência exaustiva, sobre tudo se ao final não se consegue o que queria dele. Não sabe ler nem escrever, mas tem uma memória prodigiosa para tudo quão bom acredita que conseguirá negociando com os europeus. Pobre diabo.

Ela esperou em silêncio. Kreisler ficou imerso em seus próprios pensamentos e Nobby preferiu não incomodá—lo, mas nem por isso se sentiu excluída; ao contrário, era a companhia perfeita.

A luz, o som da água, os moles e alpendres do Pool de Londres seguiam passando junto a eles, com os sonhos que compartilhavam sobre um passado em outra terra, mas também os temores sobre seu futuro enquanto outra classe de escuridão se abatia sobre eles.

—Enganaram—no, claro— disse ele ao cabo—. Prometeram que não levariam mais que dez homens brancos para trabalhar em seu país.

Ela se endireitou quase de um salto com expressão de incredulidade.

—Sim—disse ele olhando—a—. É incrível para você e para mim, mas ele aceitou. Também lhe disseram que não cavariam perto de nenhuma cidade, que todos eles se submeteriam às leis dos nadebele e que atuariam como súditos de Lobengula – acrescentou com um tom amargo.

—E o preço?—perguntou ela.

—Cem libras ao mês, um milhar de fuzis de repedido Martini—Henry, cem mil cartuchos de munição e um barco cañonera no rio Zambezi.

Nobby não disse nada. A sua esquerda, estavam passando junto ao Wapping Old Stairs enquanto seguiam rio abaixo. O Pool de Londres era um formigueiro de botes, barcaças, vapores, rebocadores e navios de arrasto e, aqui e lá, os curiosos navios de recreio.

É possível que o Congo, aquele rio de águas turvas assediadas pela selva, chegasse algum dia a ser como aquela paisagem transbordante de civilização e mercadorias procedentes de todo o mundo, que logo compravam, vendiam e consumiam uns homens e mulheres que jamais tinham saído de seu país nem de seu próprio condado?

—Rudd partiu a toda velocidade para comunicar a notícia ao Rhodes no Kimberley—continuou Kreisler—, antes de que o rei se desse conta do engano. O grande idiota quase morre de sede de tão ansioso que estava por transmitir a mensagem— disse com visível desagrado, mas sem poder dissimular na expressão uma dor profunda e pessoal.

Mantinha os lábios apertados, como se a intensidade daquele sentimento lhe tivesse acompanhado sempre, e apesar da magreza de seu corpo e da força que ela sabia habitava dentro, de repente lhe pareceu vulnerável.

Mas se tratava de uma dor muito íntima. Talvez ela fosse a única pessoa com quem podia compartilhar esperando em troca um certo grau de compreensão, embora não tanta para intrometer-se em sua intimidade. Uma parte do bom entendimento que havia entre os dois se devia à delicadeza com que ambos ficavam às vezes em silêncio.

Tinham passado já o Pool e os Docks e estavam deixando atrás o bairro do Limehouse. De ambos os lados do rio seguiam as rampas, as escadarias e os enormes armazéns com nomes pintados. Por diante tinham os West a Índia Docks, depois Limehouse Reach e a ilha do Dogs.

Também passaram junto às estacas do velho mole, que apareciam pela maré baixa e onde antigamente atavam aos piratas, que morriam abafados quando a água voltava a subir. Os dois as tinham visto, olharam-se o um ao outro e preferiram não dizer nada.

O certo é que era muito cômodo não ter que recorrer à linguagem para entender—se. Era um luxo ao que não estava acostumada. Quase todas as pessoas que conhecia teriam considerado o silêncio como uma carência e se teriam sentido na obrigação de dizer algo para rompê—lo.

Kreisler se sentia absolutamente feliz em apenas olhá—la nos olhos de vez em quando para saber que também ela estava muito ocupada com o vento, o aroma do sal, e o bulício que os rodeava, embora ao mesmo tempo se sentiam alheios a tudo isso pela pequena margem de água que os afastava de todo o mundo. Era como atravessá—lo com impunidade, para contemplá—lo sem envolver-se nele.

Greenwich era formoso, com o longo promontório verde emergindo do rio, as árvores em flor e, mais à frente, o parque, com a elegância clássica da arquitetura do Vanburgh refletindo-se no hospital e nas Reais Academias Navais.

Desceram na margem, subiram a uma carruagem descoberta a caminho do parque e uma vez ali passearam devagar entre a erva e as flores até deter-se sob umas grandes árvores a escutar o suave rumor dos ramos movidos pelo vento.

Havia uma enorme magnólia em flor, com suas tulipas como manchas de espuma branca contra o azul do céu. Havia crianças perseguindo-se e brincando com aros, piões e cornetas.

Babás com rígidos uniformes caminhando com a cabeça erguida e empurrando carrinhos. Soldados com jaquetas vermelhas pululando aqui e ali sem afastar a vista das babás. Casais de noivos, umas jovens e outras nem tanto, passeando agarrados pelo braço. Jovenzinhas risonhas paquerando com suas sombrinhas. Um cão fazendo cambalhotas com um pau entre os dentes. E em algum lugar, um realejo tocando uma bonita melodia.

Tomaram o chá e falaram de nadas, sabendo que os temas mais graves continuavam ali, só que já os compreendiam e nada tinham a acrescentar sobre eles.

Tinham compartilhado toda a tristeza e o medo que sentiam, de modo que aquela cálida e aprazível tarde pediu passagem para deixá—los relegados a um segundo plano.

Ao entardecer, com o ar mais fresco e cheio de mariposas noturnas e o aroma da terra e folhas separando do caminho, conseguiram a carruagem que tinha que levá—los em direção oeste para o longo caminho de volta. Kreisler lhe ofereceu a mão para ajudá—la a subir e uma vez dentro, empreenderam a volta quase sem falar enquanto cada vez se fazia mais escuro.

A luz lançava brilhos de cor damasco, âmbar e turquesa sobre as águas do rio, e por um momento todo adquiriu um tintura mágico, como se se tratasse das lagunas de Veneza, ou do estreito do Bósforo, ali onde a Europa se encontra com a Ásia, em lugar de achar-se em Londres, o coração do maior império que existiu desde a Roma dos Césares.

Depois a cor se fez prateada, as estrelas começaram a sair pelo sul, longe da agitação e as luzes artificiais da cidade, e começaram a juntar-se um pouco enquanto o frio da escuridão enchia tudo. Nobby não recordava um dia tão doce como aquele.

 

O dia seguinte, segunda—feira, Nobby o dedicou em grande parte a cuidar de seu próprio jardim. De todas as coisas que gostava da Inglaterra —e se o pensasse um pouco, a verdade é que não havia muitas—, com os jardins era com o que mais desfrutava. Não eram estranhas as ocasiões nas quais abominava o clima, quando os intermináveis e sombrios dias de janeiro e fevereiro a deprimiam e sentia então uma dolorosa nostalgia do sol africano. A geada se introduzia pelas costuras de qualquer objeto desenhado para combatê—la.

A água gelada abria passagem pelo pescoço e pulsos, entre as luvas e as mangas, não havia bota capaz de manter os pés secos e as pregas das saias ficavam empapadas e sujas. Os fabricantes de roupa não tinham a menor idéia do que supunha andar por aí com vários quilos de peso de tecido molhado envolvendo o corpo?

E havia dias, às vezes inclusive semanas, em que a névoa apagava o mundo por completo, uma névoa pegajosa e espessa que se introduzia pela garganta, distorcendo qualquer som parecido à voz, e que se mesclava com a fumaça e os vapores de cem mil lareiras para formar uma espécie de sudário, como um tecido frio e úmido que cobria o rosto.

E o que dizer dos desesperadores dias do verão, quando em lugar de luz e sol, caía uma chuva pertinaz e tinha que fazer frente ao vento gelado do este que vinha do mar arrepiando a pele.

Mas também havia dias de glória nos quais o sol brilhava em um céu perfeito, com árvores gigantescas de trinta e até sessenta metros de altura erguendo-se para o alto entre o rumor de milhões de folhas; os que mais gostava de eram os olmos, os susurrantes choupos, os abetos, com seus troncos prateados, e as enormes faias.

E a terra sempre verde, sem secar-se pelo calor do verão nem congelar-se pelo frio do inverno. A abundância de flores certamente também era única. Nobby era capaz de nomear uma centena de variedades sem necessidade de consultar um livro.

Assim, enquanto contemplava à luz da tarde seu longo e gentil canteiro de grama que acabava em um cedro e vários olmos, podia ver a roseira do Albertinas derramando-se com profusão sobre o velho muro de pedra, com inumeráveis casulos a ponto de abrir-se em uma explosão de cor rosa e coral.

E frente a ele, as esporas de cavalheiro em espirais, prontas para mostrar suas flores de cor anil e azul marinho, e as peonías de vermelho intenso, engordando seus caules para florescer. O ar se enchia do perfume do espinheiro e dos liláses de cor rosa e púrpura.

Em um dia como aquele, quem não ia dar as boas—vindas aos construtores de impérios na África, Índia, Pacífico, ilhas das Especiarias ou inclusive Índias.

—Desculpe-me, senhora.

Nobby se voltou saindo bruscamente de seu ensimesmamento. Sua criada estava ante ela olhando—a com rosto de surpresa.

—Sim, Martha?

—Desculpe-me. Há uma tal senhora Chancellor que pergunta por você. É a esposa do Linus Chancellor. É muito...

—Sim?

—Oh, será melhor que venha, senhora. Digo-lhe que em seguida a receberá?

Nobby se agüentou a risada e tratou de dissimular sua surpresa. Que diabos fazia Susannah Chancellor de visita em sua casa? Nobby não era precisamente de seu círculo social nem político.

—Sim, sim; lhe diga que entre e acompanhe—a até aqui—respondeu ela.

Martha reagiu com uma torpe reverencia e pôs-se a correr pela erva com muito pouca dignidade para despachar o recado.

Em um momento Susannah emergiu da porta que dava ao jardim; enquanto isso, Nobby já estava subindo os pequenos degraus que afastavam o jardim da casa, e ao passar a saia roçava umas urnas que transbordavam de radiantes capuchinas.

Susannah usava um elegante vestido branco com detalhes de cor rosa e um laço em tom carmim, renda também brancas na gola e pulsos e uma sombrinha adornada com um laço e uma rosa. Estava impecável, mas não parecia muito contente.

—Boa tarde, senhora Chancellor —saudou Nobby com certa cerimônia. Uma visita a aquela hora da tarde exigia todos os cumprimentos do mundo—. Que amável que tenha vindo ver—me.

—Boa tarde, senhorita Gunne— respondeu Susannah com menos segurança da qual sempre fazia demonstração, e ergueu a vista como tratando de averiguar se atrás de Nobby havia alguém mais—. Espero não havê—la interrompido com outra visita — disse forçando um sorriso.

—Não, estou sozinha—respondeu Nobby perguntando-se o que preocupava tanto a aquela mulher—. Só estava desfrutando deste tempo tão bom e pensando que ter um jardim é uma delícia.

—Sim, sim o é— disse Susannah aproximando-se do jardim e descendo os degraus que davam à grama—. O seu é especialmente bonito. Seria uma descortesia de minha parte lhe pedir que déssemos uma volta por ele? Daqui não pode ver-se tudo e parece que continua além daquele muro de pedra e daquela arcada, não é assim?

—Sim, para mim é uma sorte que seja tão grande. E é claro, será um prazer mostrá—lo — disse Nobby. Ainda era muito cedo para lhe oferecer um refrigério, e em qualquer caso, não era costume fazê-lo antes da primeira hora de uma visita. Claro que estas não deviam durar mais de quinze minutos; tampouco era muito elegante dar uma volta pelo jardim, o qual, por outro lado, levaria-lhes pelo menos meia hora.

Nobby começou a preocupar-se com o motivo que tinha levado Susannah até sua casa. Estava absolutamente claro que não se tratava de uma simples visita de cortesia. Em realidade, o normal, por não dizer o mais adequado, é que tivesse entregue seu cartão de visita, já que propriamente não podia considerar-se que tivessem relação de tipo algum.

Começaram a passear devagar e Susannah se ia parando de vez em quando para admirar algo, às vezes sem saber como se chamava, só porque gostava da cor, a forma ou a posição com que complementava outra coisa. Passaram a carpe sobre os antirrinos e arrancaram uns quantos brotos largos de erva que tinham crescido entre um montão de sálvias azuis.

—Claro que vivendo no Westminster— continuou Susannah—, a verdade é que não temos lugar para um jardim como este. Sempre saímos ao campo quando meu marido pode, embora isso não ocorre muito freqüentemente. Tem um trabalho muito absorvente.

—Já imagino —murmurou Nobby.

Susannah esboçou um tímido sorriso que em seguida se desvaneceu. E então adotou uma expressão curiosa, um olhar doce que era ao mesmo tempo de felicidade e dor, embora a crispação dos lábios delatava uma ansiedade que não a deixava tranqüila.

Tinha pronunciado as palavras "meu marido" com o orgulho de uma mulher apaixonada, mas suas mãos não deixavam de brincar com os laços da sombrinha, com os dedos rígidos, como se não lhe preocupasse que se rompessem os fios.

Nobby não podia fazer outra coisa que esperar.

Susannah se voltou então e começou a caminhar para o grande cedro e o banco branco que estava sob sua sombra. A erva tinha crescido pouco ali onde os ramos tocavam o chão e depois estava o cerco de terra rodeando o tronco, já que as raízes tinham absorvido todo o alimento do chão.

—Deve você de ter visto coisas maravilhosas, senhorita Gunne –disse Susannah sem olhá—la e dirigindo a vista para a arcada de pedra coberta de rosas—. Às vezes a invejo por suas viagens, embora geralmente, por não dizer quase sempre, reconheço que me custaria muito renunciar às comodidades da Inglaterra. —E acrescentou lhe olhando—a aborreceria muito me contar alguma de suas aventuras?

—Absolutamente, se for o que realmente deseja. Mas, me acredite, não tem por que escutá—las se só quer ser amável comigo.

—Amável? —exclamou Susannah surpreendida, deixando de caminhar e olhando para Nobby no rosto. Isso é o que acha?

—Não é a primeira vez que me ocorre— replicou Nobby com certa condescendência enquanto lhe vinham à cabeça algumas lembranças, nem todas boas, embora absurdas naquele momento.

—Oh, não; não é isso— lhe assegurou Susannah. Ambas seguiam sob a sombra do cedro e o ar esfriava cada vez mais. — a África me parece fascinante. É um tema do que meu marido se ocupa muito, sabe?

—Claro, sei perfeitamente quem é seu marido—respondeu Nobby, sem saber muito bem o que acrescentar. quanto mais detalhe conhecia sobre o apoio do Linus Chancellor à campanha do Cecil Rhodes, menos gostava do assunto. A colonização de Zambeze lhe preocupava desde que tinha conhecido ao Peter Kreisler. A lembrança daquele homem a fez sorrir apesar da situação e dos problemas.

O tom daquela resposta não passou inadvertido para Susannah, ou pelo menos isso parecia. Olhou rapidamente a seu redor como se estivesse a ponto de dizer algo, mas logo pareceu mudar de idéia, como se não quisesse abandonar aquele jardim. Levava dez minutos de visita e segundo as normas, tinha chegado o momento de começar a despedir-se.

—Estou certa de que conhece a África muito bem, não? Refiro a sua gente— disse.

—Só de algumas zonas em concreto, sim— respondeu Nobby com franqueza—.

Mas não se pode imaginar quão grande é aquilo; de fato é muito difícil para um europeu fazer uma idéia das enormes distancias que há nesse lugar. Seria ridículo por minha parte dizer que conheço mais que uma pequena parte.

Claro que se tanto lhe interessa há mais de uma pessoa em Londres que sabe muito mais que eu e que, além disso, acaba de retornar dali. Estou certa de que já teria conhecido ao senhor Kreisler, para dizer alguém —afirmou com uma estranha sensação de encolhimento ao pronunciar seu nome.

Mas que tolice. Mencioná-lo naquele momento era o mais normal do mundo; ela não era como essas mulheres que se apaixonam e aproveitam qualquer ocasião para falar de seu homem embora não venha a conto. O lógico era falar dele. O absurdo seria não citá—lo naquela conversa.

—Sim—respondeu Susannah desviando a vista da arcada e roseira para a erva e a casa—. Sim, já me apresentaram. É um homem curioso, e muito enérgico em suas opiniões. O que opina você dele, senhorita Gunne? –disse voltando-se para ela outra vez com a expressão muito séria—. Não lhe importa que o pergunte, não é? Certamente, de todas as opiniões possíveis, a sua é a mais autorizada.

—Temo que me super-valoriza — respondeu Nobby, ruborizando-se, o que piorava ainda mais as coisas—. Mas, é claro, estarei encantada de lhe contar o pouco que sei.

Susannah se mostrou visivelmente aliviada, como se aquele fosse o verdadeiro propósito de sua visita.

—Obrigado. Por um momento pensei que ia dizer que não.

—O que a preocupa?—perguntou Nobby. A conversa se estava fazendo cada vez mais incômoda.

Susannah continuava muito nervosa e cada minuto que passava aumentava em Nobby sua sensação de insegurança. Graças ao amparo dos muros, a tranqüilidade do jardim era tal que podia ouvir o vento agitando as copas das árvores em um som parecido ao do mar junto à margem, com a mesma suavidade das ondas na praia.

Uma abelha voava preguiçosamente de flor em flor. O calor da tarde era considerável e se notava inclusive à sombra do cedro; no ar flutuava um intenso aroma de erva pegada, a terra úmida sob os sebes e ao perfume adocicado e penetrante dos liláses e as flores de espinheiro.

—O senhor Kreisler não tem muita consideração pelo Senhor Rhodes – disse por fim Susannah—. Mas não consigo entender a razão. Você acha que se trata de algo pessoal?

Nobby acreditou perceber certo tom de esperança em sua voz, claro que era lógico que assim fosse, dada a confiança que Linus Chancellor tinha posto nele. Mas o que tinha podido dizer Kreisler ao Susannah para lhe provocar aquelas dúvidas e preferir a opinião de Nobby a de seu próprio marido? Somente isso já era algo extraordinário.

As mulheres compartilhavam a posição social de seus maridos, suas crenças religiosas, e se tinham idéias políticas, também estas eram as de seus maridos.

—Nem sequer sei se se conhecem pessoalmente—respondeu Nobby devagar, dissimulando sua surpresa e medindo as palavras para não deixar-se levar por sua própria desconfiança sobre os motivos da colonização africana, assim como por seu temor pela exploração de suas gente—. Claro que ele, assim como eu, sente certa fraqueza pelo mistério da África tal qual é – acrescentou com um sorriso que tinha um pouco de desculpa—. Nos dão medo as mudanças, sobre tudo se com eles se perde para sempre uma parte desse mistério.

Quando uma pessoa sabe que é a primeira pessoa em ver algo e se sente emocionada, transbordada e comovida por isso, sabe também que ninguém mais o tratará com o mesmo respeito. E isso faz que alguém sinta medo, talvez injustamente. Mas está claro que o senhor Kreisler não compartilha absolutamente os sonhos de colonização e assentamento do senhor Rhodes.

O rosto de Susannah brilhou de repente com um sorriso.

—Dito assim, senhorita Gunne, soa muito comedido. Se o que Kreisler diz é certo, seu temor é que tudo isto supõe a ruína de Zambeze. Ouvi algum de seus argumentos e o que eu gostaria de é conhecer sua opinião a respeito.

—Oh!—começou Nobby. Aquilo a pegou de improviso. Era uma pergunta muito direta para responder sem pensar antes um pouco e sem tratar de dominar seus próprios sentimentos para não delatar-se ante ninguém, e muito menos ante Susannah Chancellor. Tinha que sopesar a questão. Sob nenhum conceito, nem sequer por engano, devia trair a confiança que Kreisler tinha depositado nela lhe confiando inquietações e temores que talvez não desejava comunicar a ninguém mais.

No passeio de navio pelo Tâmisa fizera confidências que excluíam a todos outros. Ela se sentiria muito mal se chegasse a inteirar-se de que Kreisler tinha contado a seus amigos, pela razão que fosse, qualquer das coisas que lhe havia dito aquela tarde.

Nem por um momento lhe ocorreu pensar que Kreisler talvez se envergonhava de suas próprias idéias. Ao contrário. Mas ninguém tem direito a repetir o que um amigo lhe conta em uma situação de amizade e confiança.

Apesar de tudo, Nobby seguia dando-se perfeita conta da vulnerabilidade que demonstrava aquela mulher que agora olhava as flores de tremoceiros de cor rosa, pêssego, violeta, azul e creme. Seu perfume era quase irresistível. Susannah tinha tantas dúvidas que tinha sido incapaz de suportá-las em silêncio. Mas por que tanto medo? Pelo marido que tanto amava? Pelo dinheiro investido por sua sogra? Talvez por uma questão de consciência?

Além disso, para Nobby, e acima de qualquer daquelas considerações, o importante era ser sincera, fiel a sua própria visão da África, de modo que o que já conhecia tão bem dela formava parte de seu próprio caráter e condicionava necessariamente a compreensão que tinha do mundo e de todas as coisas. Trair isso, embora fosse movida pela compaixão, teria significado a destruição total.

Susannah continuava esperando enquanto a olhava no rosto.

—Talvez prefere não responder—disse lentamente—. Significa isso que para você é o senhor Kreisler quem tem razão e que meu marido se equivoca apoiando ao Cecil Rhodes? Ou é que talvez sabe você algo sobre o senhor Kreisler que pode desacreditá—lo e não quer contar-lhe a ninguém?

—Não—replicou Nobby com segurança. —. Absolutamente. Significa só que é uma pergunta muito importante para respondê—la sem pensar um pouco. Eu não gostaria de me precipitar. Acredito que o senhor Kreisler acredita firmemente no que diz e que conhece muito bem o tema. Ele receia que tenham enganado aos reis nativos...

—Já sei que o fizeram — interrompeu—a Susannah—. Até o Linus o reconhece, mas ele diz que é para conseguir um bem muito maior no futuro; dez anos, segundo ele. A África será colonizada, sabe? Já não é possível voltar atrás no tempo e fazer como se não a tivessem descoberto.

A Europa sabe que ali há ouro, diamante e marfim. Só se trata de saber quem será o primeiro em fazê-lo. Grã—Bretanha? Bélgica? Alemanha? Ou talvez pior, prefere você a um desses países árabes que ainda praticam a escravidão?

—Então o que é o que realmente lhe incomoda das idéias do senhor Kreisler? — perguntou Nobby em tom cortante—. Também nós queremos que seja Grã—Bretanha, mas pensando não só em nosso benefício, que resulta bastante egoísta, mas também de uma forma mais altruísta, porque estamos convencidos de que o faremos melhor, com um sistema mais honrado de governo que o que há agora e é claro mais humano que a escravidão que mencionou.

Susannah a olhou com expressão de inquietação.

—O senhor Kreisler sustenta que acabaremos escravizando aos africanos em sua própria terra.

Apoiamos ao senhor Rhodes e lhe deixamos pôr quase todo o dinheiro, além do esforço e risco. Se tiver êxito na empresa, coisa que muito provavelmente conseguirá, não haverá forma de controlá—lo. Teremos convertido—o em um imperador no meio da África com todas nossas bênçãos. Mas e se tivesse razão? De verdade sabe tanto e vê tão claramente as coisas como parece?

—Eu acredito que sim—respondeu Nobby sorrindo com tristeza—. Acredito que você mesma acaba de explicar muito bem.

—E acredita que essas idéias talvez deveriam assustar a alguém –disse Susannah virando uma e outra vez o cabo da sombrinha—. Em realidade, quem melhor se deu conta de tudo foi Sir Arthur Desmond. Conhecia-o? Morreu faz duas semanas. Era uma das pessoas mais encantadoras que jamais conheci. Trabalhava no Foreign Office.

—Não, não cheguei a conhecê-lo. Quanto o lamento.

Susannah ficou contemplando o colorido das flores de tremoceiros, sobre as quais voava um besouro indo de um cacho a outro. Viram o jardineiro em um dos extremos do jardim com um carrinho de mão cheio de ervas e em seguida desapareceu a caminho da horta.

—Parece absurdo sentir pena pela morte de alguém a quem mal vi meia dúzia de vezes no ano—continuou Susannah, suspirando—, mas assim é. Sinto uma tristeza terrível cada vez que penso que não voltarei a vê-lo.

Era uma dessas pessoas que conseguem que nos sintamos melhor—disse olhando ao Nobby para assegurar-se de que o entendia—. E não porque transbordasse alegria e entusiasmo, mas sim porque era uma pessoa fundamentalmente sensata, e isso vale muito em um mundo com valores freqüentemente tão pobres e com uns argumentos tão superficiais e cambiantes que não se podem rebater; um mundo que ri dos enganos e renunciou ao otimismo.

—Certamente, era um grande homem—disse Nobby em tom afetuoso—. Não me surpreende que lhe doa tanto sua ausência, por muito pouco que o visse. Às vezes o importante não é o tempo que uma pessoa passa em companhia de alguém, senão o que acontece nesse espaço de tempo. Há gente a que conheço há muitos anos e, embora pareça mentira, continuo sem conhecer seu interior.

Em troca, há outros com os que só pude falar uma hora ou duas, e tudo o que nos havemos dito tinha um significado e uma verdade que durará para sempre— disse sem que ao princípio estivesse pensando conscientemente em alguém em particular, mas o que tinha na cabeça era o rosto do Kreisler à luz do sol e navegando rio abaixo.

—Foi... foi tudo muito de repente—disse Susannah acariciando com a ponta dos dedos uma das rosas temporãs. — Às vezes, as coisas mudam tão depressa, não é verdade?…

—Verdadeiramente – respondeu Nobby, que estava pensando no mesmo; não são só as circunstâncias que mudam, também as emoções. No dia anterior o tinha tido tudo muito claro, mas agora se via incapaz de impedir a perseguição de certas dúvidas. Era evidente que Susannah estava angustiada e talvez se debatia entre a fidelidade às idéias de seu marido e as questões que Kreisler tinha suscitado nela.

Não estava disposta a admitir que Kreisler tinha razão, mas seguia com a mesma expressão de temor, e pela postura de seu corpo e o modo de segurar a sombrinha, mais parecia que tinha uma arma nas mãos em lugar de um objeto de adorno.

Mas o que era o que Kreisler lhe havia dito exatamente? E talvez mais importante que isso, por que razão? Ele não era um inconsciente capaz de falar só porque queria.

Kreisler sabia muito bem com quem falava e conhecia perfeitamente o apoio do Linus Chancellor à causa de Cecil Rhodes lhe conseguindo mais recursos econômicos e o espaldar do governo.

Também conhecia a relação entre Susannah e Francis Standish, assim como a herança dela no negócio dos bancos, por isso devia estar à corrente de muitos detalhes da operação. Tratou Kreisler de obter informação dela?

Ou talvez pretendia semear a dúvida nela com meias verdades para que as transmitisse ao Linus Chancellor, ao Ministério de Colônias e finalmente próprio primeiro—ministro? Kreisler era um sobrenome alemão. E se, apesar de sua aparência totalmente inglesa, em lugar de defender os interesses britânicos na África, só pensasse nos da Alemanha?

—E se estivesse utilizando às duas, ao Susannah e ao Nobby?

Aquele pensamento lhe doía no mais profundo, como uma ferida aberta em seu interior.

Susannah a olhava com os olhos cheios de incerteza e por onde aparecia o começo de uma grande dor. Havia entre as duas um espírito de mútua compreensão.

Ao Nobby bastou um instante para dar-se conta de que Susannah também enfrentava uma decepção tão amarga que só o fato de pensar nela a enchia de angústia. Mas uma vez passado esse instante, outra idéia começou a lhe encher a cabeça. E se Susannah estivesse também apaixonada pelo Peter Kreisler? Era possível?

E o que significava isso de "também"? Em que diabos estava pensando? Ela só se sentia atraída por ele, nada mais. Apenas o conhecia. Tinham, sim, algumas coisas em comum; o mesmo sonho adolescente que lhes tinha levado por separado à mesma grande aventura naquele escuro continente onde tinham que achar a luz e a maravilha, um lugar ao que amar profundamente, e ambos tinham retornado a casa com sua magia e sua emoção para sempre dentro deles. E agora também os dois temiam por seu desaparecimento.

Uma tarde no rio, por muito entendimento que houvesse entre os dois, tanto que nem as palavras eram necessárias, são só umas horas em meio de toda uma vida e não bastam para considerar amor, só atração. O amor era muito menos efêmero, sem tanta magia.

—Senhorita Gunne?

—Sim?—respondeu Nobby saindo de suas reflexões e voltando para o jardim e à companhia de Susannah.

—Você acha que o senhor Rhodes nos está utilizando? Que levantará seu próprio império na África Central convertendo Zambeze na terra do Cecil Rhodes para logo zombar de todos nós? Sobraria-lhe o dinheiro para consegui—lo.

É incrível a quantidade de ouro e diamantes que há ali, além de terras, marfim, madeira e outras muitas coisas. Dizem que está cheio de feras selvagens e de animais de todas as espécies imagináveis.

—Não sei—respondeu Nobby tiritando sem querer, como se o frio tivesse invadido de repente o jardim—. Certamente, impossível não é—disse. Era a única resposta que podia lhe dar. Susannah não merecia uma mentira e, além disso, provavelmente não teria acreditado nela.

—Diria que está medindo suas palavras—disse Susannah esboçando algo parecido a um sorriso.

—É algo muito complicado e também arriscado para tomar-lhe à ligeira. Basta olhar um pouco para trás em nossa história para ver que muitas de nossas maiores e mais obtidas conquistas estiveram em mãos quase sempre de um só homem — respondeu Nobby—. Veja senão o caso do Clive e a Índia.

—Sim, isso é verdade—disse Susannah dando—a volta e olhando a longa extensão de grama que levava a casa—. Mas já estou aqui há quase uma hora. Obrigada por ser tão generosa—disse sem esclarecer se se sentia melhor ou se tinha espaçado alguma de suas dúvidas, embora Nobby sabia muito bem que não.

Acompanhou—a até a casa, e não porque esperasse mais visitas, graças a Deus —tampouco tinha muita vontade delas—, mas sim por certo sentimento de solidariedade em um impulso quase inútil de proteger a alguém terrivelmente vulnerável.

Para aqueles que desfrutavam da temporada social de Londres, assistir de noite ao teatro ou à ópera supunha todo um descanso depois de uma frenética jornada montando a cavalo antes do café da manhã; comprando, escrevendo cartas e indo à costureira ou à chapeleira pela manhã; e depois almoçando e dedicando a tarde a fazer ou a receber visitas, ou visitando exibições caninas ou exposições de arte, festas, lanches, jantares, conversas, bailes e veladas sociais de qualquer tipo.

O fato de poder sentar-se em um lugar sem ter que travar conversa com alguém e com a possibilidade de jogar inclusive uma ligeira sesta, mas ao mesmo tempo estando presente e à vista de todo o mundo, era um luxo que não podia passar-se por alto.

Sem ele, mais de um podia chegar a derrubar-se depois da agitação do dia.

Entretanto, como fazia tempo que Vespasia tinha renunciado ao frenesi da vida social, o certo é que só ia ao teatro pelo simples prazer de contemplar qualquer função. Naquele mês de maio, entre as ofertas se incluía uma nova obra intitulada Esther Sandraz representada pelo Lillie Langtry, mas não gostava de ver a senhora Langtry em nenhum lugar.

No Savoy, claro, davam a opereta do Gilbert e Sullivan, Os gondoleiros, mas tampouco tinha muita vontade de vê—la. Antes preferia ver o Henry Irving em uma obra chamada Os sinos, ou talvez a comédia do Pinero intitulada O gabinete do ministro.

A verdade é que sua opinião sobre os ministros convidava a isso e, além disso, parecia mais prometedor que a temporada de teatro francês, em francês, claro, que se estava representando no Teatro de Sua Majestade; embora Sarah Bernhardt fazia-se de Joana D' Arc e isso resultava tentador.

As óperas eram Carmen, Lohengrin ou Fausto. Ela era uma amante da ópera italiana; de Wagner, em troca, não gostava apesar do inexplicável êxito que tinha naquele momento e que ninguém esperara. Se tivesse se tratado de Simão Boccanegra ou Nabucco, teria ido à ópera embora tivesse tido que estar de pé.

Ao final se decidiu pelo peso do triunfo, do Goldsmith, e ali se achou com uma considerável quantidade de rostos conhecidos que tinham tomado a mesma decisão.

A pesar do descanso que em muitos sentidos proporcionava o teatro, a ocasião exigia vestir-se de gala, ao menos durante os três meses que durava a temporada, de maio a julho. O resto do ano se permitia um traje mais informal.

As saídas ao teatro se organizavam freqüentemente em grupos. A gente de sociedade raramente fazia nada individualmente ou em casais, e parecia que as dúzias ou as vintenas se adequavam mais a seus gostos.

Naquela ocasião Vespasia tinha convidado ao Charlotte e Eustace; à primeira pelo prazer de convidá—la e ao segundo porque não tinha tido mais remédio que fazê-lo. Eustace estava presente quando Vespasia se decidiu a ir ao teatro; deixou ver um interesse tão claro por acompanhá—la que teria sido inoportuno não incluí—lo afinal.

Ao fim e ao cabo, apesar do que chegava a irritá—la de vez em quando, continuava sendo da família.

Também tinha convidado ao Thomas, claro, mas suas obrigações o impediam.

Teria saído muito tarde do Bowl Street e não era de boa educação entrar no camarote no meio da função.

Por isso, muito antes de abrir o pano de fundo, Vespasia, Charlotte e Eustace se entretiveram contemplando de seu camarote a chegada do resto do público.

—Ah! —exclamou Eustace inclinando-se ligeiramente para frente e assinalando a um cavalheiro de cabelos brancos e de ar diferente que entrava em um camarote a sua esquerda—. Sir Henry Rattray. Um homem excelente. Um modelo de cortesia e honra.

—Um modelo disse?—perguntou Vespasia algo perplexa.

—Absolutamente—respondeu Eustace, voltando a acomodar-se na cadeira e olhando—a no rosto enquanto sorria com toda a satisfação do mundo. De fato, parecia tão contente consigo mesmo que não cabia em si de gozo, com o rosto radiante de felicidade—. É a personificação de todas as virtudes cavalheirescas: a da coragem ante o inimigo, a clemência na vitória, a honestidade, a castidade, a delicadeza com as mulheres, o amparo do fraco.

Tudo o que mais apreciamos em um homem. Assim era um cavalheiro em outros tempos, e assim é um cavalheiro inglês agora: O melhor de todos, é claro! —exclamou convencido do que dizia, como se de uma declaração de princípios se tratasse.

—Deve conhecê-lo muito bem para defendê—lo desta maneira—disse Charlotte com mais dúvidas do que podia expressar.

—Bom, está claro que sabe dele muito mais coisas que eu —comentou Vespasia de um modo bastante ambíguo.

—Ah, minha querida sogra—começou Eustace como advertindo de algo com o dedo indicador—, disso se trata precisamente. Sei muitas coisas dele que ninguém sabe. Como bom cavalheiro cristão, faz todo o bem que pode com a maior discrição do mundo.

Charlotte abriu a boca para dizer algo sobre o roubo, mas a fechou a tempo.

Olhou o rosto sereno do Eustace e sentiu um calafrio. Via—o absolutamente seguro de si mesmo e convencido de compreender exatamente o que dizia, como se fossem especiais; eles, os que compartilhavam aqueles brumosos ideais. Tudo digno do rei Artur. Talvez inclusive se reuniam ao redor de mesas redondas com um vazio para o "assento perigoso" se por acaso se apresentava algum errante Galahad para uma nova busca do Graal. Era tão perfeito que dava medo.

—O melhor cavalheiro—disse Charlotte em voz alta.

—Exato! —exclamou Eustace com seu entusiasmo querida amiga, não podia havê-lo dito melhor.

—É do mesmo modo que se dizia de Lancelot —indicou Charlotte.

—Claro—disse Eustace assentindo com a cabeça e sorrindo—. O melhor amigo de Artur, sua mão direita.

—Também o homem que o traiu – acrescentou Charlotte.

—O que? —Eustace virou a cabeça para ela com consternação.

—Com Genevieve—explicou Charlotte—. Ou já o esqueceu? Esse foi o princípio do fim.

Era claro que Eustace não o recordava e se ruborizou com certo embaraço ante o pouco decoroso do tema e o atordoamento que lhe produzia ver-se comprometido naquela comparação tão inadequada.

Para sua própria surpresa, Charlotte sentiu pena dele, mas não estava disposta a dizer nada que pudesse interpretar-se como um elogio do Círculo Interior, que era do que tratava no fundo aquela conversa. Eustace era tão ingênuo que às vezes parecia um menino inocente.

—Apesar de tudo, os ideais da Mesa Redonda eram os melhores—disse ela amavelmente—. E Galahad estava limpo de tudo pecado, de outro modo não teria podido contemplar o Santo Graal. Aqui, o importante é que às vezes encontramos juntos ao que é bom e ao que é mau, ambos professando as mesmas crenças.

Todos temos alguma debilidade e às vezes tendemos a ver em outros aquilo que nos falta, sobretudo se se trata de alguém a quem admiramos.

Eustace duvidou.

Charlotte o olhou no rosto, nos olhos, e viu por um momento os esforços que fazia Eustace para compreender o que realmente tinha querido dizer ela, até que se deu por vencido e resolveu o tema com a resposta mais fácil que podia achar.

—Naturalmente, minha querida amiga, está certa —e voltando-se para a Vespasia, que tinha estado escutando sem dizer nada, acrescentou—: Quem é aquela mulher tão singular do camarote que há junto ao de Lorde Riverdale? Jamais tinha visto uns olhos como esses. Poderiam ser bonitos de tão grandes que são, mas certamente não o são.

Vespasia seguiu seu olhar e viu o Christabel Thorne sentada junto ao Jeremiah e falando animadamente com ele. Este escutava sem afastar os olhos de seu rosto, e não só com amabilidade, mas também com um interesse mais que evidente.

Vespasia contou ao Eustace quem eram e depois indicou ao Harriet Soames em companhia de seu pai, mostrando também o maior afeto e orgulho do mundo.

Uns segundos depois se produziu um pequeno revôo entre a audiência. Várias cabeças se viraram e de repente cessou o murmúrio geral da sala ao mesmo tempo que se comentavam algo uns aos outros.

—O príncipe de Gales?—perguntou-se Eustace com certa emoção na voz.

Estrito que era em questões de moral, se supunha que devia reprovar ao príncipe de Gales o mesmo comportamento que reprovava em outros. Mas os príncipes eram diferentes e não deviam ser julgados segundo os critérios pelos que se regia a gente normal. Pelo menos, não para o Eustace.

—Não—disse Vespasia asperamente. Segundo ela, os critérios morais serviam para todos por igual; os príncipes não eram uma exceção e além disso sentia um carinho especial pela princesa—. É o secretário de estado para Assuntos Coloniais, Linus Chancellor, e sua esposa, e acredito que lhes acompanha o cunhado dela, Francis Standish.

—Oh—disse Eustace sem saber muito bem se lhe interessava ou não.

Para Charlotte não havia nenhuma dúvida. Desde que ela e Pitt tinham visto Susannah Chancellor na recepção da duquesa do Marlborough, seu interesse por ela tinha aumentado, sobretudo depois da conversa que tinha ouvido entre o Kreisler e ela no bazar dedicado ao Shakespeare. Observou como tomavam assento; ele atento e cortês, mas com a naturalidade de quem se sente totalmente cômodo em seu matrimônio na medida em que ainda lhe proporcionava felicidade.

Charlotte sorria enquanto os observava, sabendo muito bem o que sentia Susannah ao oferecer-se seu marido a colocar bem o xale frente ao assento, ou ao olhá—la com um sorriso nos lábios ou no momento em que se cruzaram os dois olhares.

As luzes se apagaram e começou a soar o hino nacional, por isso já não havia tempo de distrair-se.

Tiveram que esperar a que cessassem os aplausos e começasse o primeiro intervalo da peça.

Eustace se voltou para o Charlotte.

—Como está sua família?—perguntou por educação e para impedir que voltasse a sair o tema do rei Artur ou de qualquer outra sociedade passada ou presente.

—Todos estão bem, obrigado— respondeu ela.

—E Emily? — quis saber Eustace.

—No estrangeiro. Suspenderam-se as sessões do Parlamento.

—Claro. E sua mãe?

—Também de viagem— respondeu sem querer lhe dizer que estava em lua de mel. Teria sido muito para ela. Charlotte viu como Vespasia continha a risada e desviou o olhar—. A avó se mudou para Ashworth House com o Emily – se apressou a acrescentar—, claro que de momento só está com os criados, mas não lhe importa.

—Claro— disse Eustace com a sensação de que lhe tinha passado algo por alto, mas preferiu não investigar. Quer tomar algo? —ofereceu-se amavelmente.

Vespasia aceitou, por isso Charlotte se sentiu livre para fazê-lo também. Eustace se levantou obedientemente e saiu a procurar o que tinham pedido.

Charlotte e Vespasia se olharam e logo dirigiram seus olhares com a maior discrição possível para o Linus e Susannah Chancellor.

Francis Standish partira, mas no camarote havia outra pessoa; embora não a viam bem, era certamente um homem, magro e esbelto, que se erguia com porte militar.

—Kreisler — murmurou Charlotte.

—Acredito que sim— respondeu Vespasia.

Assim que o homem se voltou para falar com Susannah, as duas comprovaram que não se enganaram.

Era impossível escutar a conversa, mas pela expressão de seus rostos podiam tirar-se várias conclusões.

Kreisler se mostrava correto com o Chancellor, mas havia uma evidente frieza de trato entre os dois, sem dúvida devido a suas diferenças políticas. Chancellor permanecia junto a sua esposa, como dando assim por sentado que também ela compartilhava as idéias que ele defendia.

E não é que Kreisler estivesse de costas a eles, mas sim com o ângulo suficiente para que nem Charlotte nem Vespasia pudessem lhe ver bem o rosto.

Kreisler falava com Susannah com mais atenção da que exigiam as boas maneiras e parecia que era a ela a quem dirigia seus argumentos mais que ao Chancellor, embora quase sempre era este último o que respondia.

Em uma ou duas ocasiões, Charlotte percebeu como Susannah começava a falar e como Chancellor se apressava a responder por ela, cortando—a com um rápido olhar ou com um gesto da mão.

E então Kreisler voltava à a carga, e sempre dirigindo-se a ela, não a ele.

Charlotte e Vespasia não se disseram nada, mas quando voltou Eustace, a primeira já tinha a cabeça cheia de hipóteses. Agradeceu-lhe quase distraidamente e se sentou com a bebida imersa em seus pensamentos, até que as luzes se apagaram de novo e a função continuou.

Durante o segundo intervalo, todos abandonaram os camarotes e saíram ao vestíbulo, e ali se encontrou Vespasia com várias amizades, sobretudo uma vetusta marquesa vestida com um chamativo vestido de cor verde com a qual esteve falando um momento.

Charlotte se limitou a seguir desfrutando de suas observações e voltou para a mais apaixonante por todas, a do Linus e Susannah Chancellor e Francis Standish.

Foi muito interessante ver como Chancellor se distraía uns minutos deixando Susannah a sós com o Standish e como os dois pareciam estar discutindo sobre algo.

Pela expressão do rosto dela, era claro que não estava disposta a ceder, por isso Standish dirigiu vários olhares irados para o outro lado do vestíbulo, justo onde se achava Peter Kreisler.

Em um momento dado, tomou ao Susannah do braço e ela se afastou dele com um gesto nervoso. Entretanto, quando Chancellor voltou junto a eles, Standish estava radiante de satisfação por ter ganho a batalha e encabeçou a volta dos três para seu camarote.

Chancellor sorriu ao Susannah com um gesto carinhoso e indulgente e lhe ofereceu o braço. Susannah se aproximou mais a ele e tomou, mas parecia preocupada com algo; Charlotte ficou tão impressionada ante aquela expressão de angústia que já não pôde esquecê—la durante o resto da função.

O dia seguinte foi borrascoso, embora agradável, e um pouco depois de meia amanhã Vespasia ordenou que dispusessem a carruagem para ir ao Hyde Park. Não era necessário convir que devia levar-se o perto da esquina do Albert Memorial.

Só cabia escolher entre esse lugar e Marble Arch se a pessoa ia encontrar-se com os membros da alta sociedade que habitualmente davam— a cavalo ou a pé- seus passeios matutinos pelo parque. No percurso que ia do Albert ao Grosvenor Gate podia-se achar-se a quem tinha decidido sair para tomar ar.

Vespasia seria perfeitamente feliz em qualquer lugar, mas tinha vindo expressamente encontrar-se com Bertie Canning, seu admirador.

Na tarde anterior, no teatro, sua amiga a marquesa tinha mencionado que Bertie conhecia amplamente a todo mundo, especialmente a aqueles que cimentavam sua fama e notoriedade em façanhas levadas a cabo no vasto Império e não dentro dos limites da Inglaterra.

Se alguém podia lhe dizer o que nesse momento com tanta urgência desejava saber do Peter Kreisler, esse era ele.

Não desejava passear. Mas então seria fácil que não visse o Canning e não haveria oportunidade de conversar. Vespasia desceu da carruagem e caminhou devagar e com suma elegância por volta de um dos muitos bancos que havia no lado norte do Row. Naturalmente, era a parte de moda; daí, com uma comodidade relativa, seria-lhe dado ver como o mundo inteiro passava diante dela.

Era um entretenimento que em qualquer outra circunstância a teria divertido —inclusive quando não era esse seu propósito—, mas agora desejava acalmar quanto antes a ansiedade que lhe tinha provocado o que a noite passada tinha visto, e o que tinha ouvido por acaso no bazar.

Ia vestida em tom cinza prateado—seu favorito— com toques de azul piçarra, e levava um chapéu de ultíssima moda não muito diferente aos de equitação. Era de copa alta e aba magra e enrolada, e levava uma fita de seda enfaixada.

Favorecia-lhe extraordinariamente e ela se dava conta com complacência de que chamava a atenção dos que à essa hora costumavam passar em suas carruagens ligeiras; muitos não estavam seguros de saber quem era, ou se teriam inclinado para saudá—la.

O embaixador espanhol e sua mulher vinham caminhando em direção oposta.

Com a certeza de que tinha que conhecê—la, o embaixador levou a mão ao chapéu; e se não a conhecia, deveria fazê-lo.

Divertida, Vespasia sorriu quando passou.

Outros veículos transitavam ante ela —tílburis, cadeiras volantes arrastadas por cavalinhos, tiros de quatro animais—, pequenos, ligeiros e elegantes. Cada um deles deliciosamente apresentado: o couro limpo e polido, os adornos de latão brilhantes, os cavalos limpos até a perfeição. E certamente os passageiros e os condutores imaculados; e os criados, no caso de havê-los pressentes, de libré.

Muitos senhores se ocupavam eles mesmos de conduzir, e manifestavam grande orgulho de dirigir as rédeas. De uma maneira ou outra, Vespasia sabia quem eram a maioria. Agora bem, naquela época a alta sociedade era tão reduzida que quase todo mundo, em maior ou menor grau, tratava-se.

Viu um príncipe europeu que tinha conhecido um pouco melhor uns trinta anos atrás e, ao passar, trocaram-se um olhar. Ele hesitou. Um brilho de cor em seus olhos, um sorriso momentâneo, e cordialidade. Mas ia com a princesa, e a mão dela — terminante— se impôs sobre o braço do príncipe.

E possivelmente era melhor deixar o passado a resguardo de seu próprio envoltório de felicidade, e não turvá—lo com a realidade mais presente. Seguiu seu caminho, e deixou Vespasia sorrindo para si mesma com a luz do sol, amável, que lhe iluminava o rosto.

Tinham passado perto de três quartos de hora — consumidos de maneira agradável, embora não útil— antes de que, por fim, visse o Bertie Canning. Vinha só, o que não era incomum desde que sua mulher tinha perdido o interesse por sair de casa se não fosse em carruagem, e Canning ainda preferia andar.

Ou ao menos isso era o que pretendia. Dizia que era necessário para sua saúde. Vespasia sabia perfeitamente bem que ele apreciava a liberdade que isso lhe proporcionava, e o teria continuado fazendo mesmo se necessitasse de duas muletas para sustentar-se.

Vespasia pensou que deveria aproximar-se, e o faria com elegância, mas felizmente não foi necessário.

Quando Canning a viu ela sorriu mais do que requeriam as boas maneiras, e ele aproveitou a oportunidade e se aproximou aonde estava sentada. Era um homem bonito, de maneiras cordiais e melífluos, e ela, no passado, tinha sentido carinho por ele. Não era difícil mostrar sentir prazer ao vê—lo.

—Bom dia, Bertie. Parece muito bem.

De fato, era quase dez anos mais jovem que ela, embora o passar do tempo tivesse sido menos bondoso com o Canning. Inegavelmente, tinha aumentado de peso, e tinha o rosto mais avermelhado do que o tinha tido em jovem.

—Minha querida Vespasia. Que delicioso é vê—la! Não mudou o mínimo. Quanto devem odiá—la suas contemporâneas. Se houver algo que uma mulher formosa não pode tolerar, é que outra mulher formosa leva muito melhor a passagem dos anos.

—Como sempre, sabe como agradar com cumprimentos curiosos— disse Vespasia com um sorriso, ao mesmo tempo que fazia o gesto, quase imperceptível, de convidá—lo a sentar-se a seu lado.

Aceitou imediatamente, e muito provavelmente nem tanto pela companhia quanto por descansar os pés. Durante um curto lapso de tempo, falaram de conhecidos mútuos e de trivialidades. Vespasia se divertia verdadeiramente. Nesses minutos breves, a passagem dos anos não tinha sentido. Poderia ter sido há trinta anos.

Os vestidos eram inapropriados (a saia muito estreita, sem crinolina nem aros), e havia muitos meio—burgueses que tinham adotado os costumes da alta sociedade e, em total, muitas mulheres, mas a predisposição era a mesma, o bulício, a beleza dos cavalos, a emoção, o sol de maio, o aroma da terra e as copas das grandes árvores que se erguiam sobre suas cabeças. A sociedade de Londres era exibicionista e se autocomprazia com um deleite ensimesmado.

Mas Nobby Gunne nem tinha vinte e cinco anos nem remontava o rio Congo em canoa. Tinha cinqüenta e cinco e aqui em Londres era em excesso vulnerável; apaixonara-se por um homem de quem Vespasia sabia muito pouco, e a quem temia muito.

—Bertie.

—Sim, querida?

—Conhece tudo sobre assuntos na África?

—Estava acostumado a conhecer, mas agora há tantas pessoas...—Encolheu os ombros—. Aparecem debaixo das pedras; todo tipo de indivíduos. A muitos preferiria não conhecer. Aventureiros sem o mínimo atrativo. Por que? Tem na mente alguém?

Não fez rodeios. Nem havia tempo nem Bertie tinha por que imaginar de quem se tratava.

—Peter Kreisler.

Um magnata das finanças de meia idade passou conduzindo um tiro de quatro cavalos. Sua mulher e sua filha a seu lado. Nem Vespasia nem Bertie Canning se deram conta. Um jovem ambicioso, na garupa de um cavalo baio, tirou o chapéu e lhe devolveram um sorriso aberto. Outro homem jovem e uma mulher montavam juntos a cavalo. A garota não teria dissimulado que ia em companhia do jovem se eles não tivessem estado.

—Ao fim comprometido —murmurou Bertie.

Vespasia soube a que se referia.

—E o que me diz do Peter Kreisler? —estimulou Vespasia a memória do Bertie.

—Ah, sim. Sua mãe foi uma das Aberdeenshire Calders, acredito. Uma mulher estranha, muito estranha. Se não recordo mal, casou-se com um teutão e durante um tempo viveram na Alemanha. Pontualmente, voltava, acredito. Morreu repentinamente, pobre mulher.

De súbito, Vespasia se sentiu como se lhe tivesse atirado um jarro de água fria.

Em outras circunstâncias, ser meio alemão seria irrelevante. A família real era mais que meio alemã. Mas com a situação atual no leste da África, profundamente relacionada com o assunto, e que Vespasia tinha tão presente, a questão era diferente.

—Entendo. E a que se dedicava seu pai?

Passou por ali montado a cavalo um popular ator de perfil muito belo. Vespasia pensou um instante em Caroline, a mãe do Charlotte, que se tinha casado recentemente com um ator dezessete anos mais jovem que ela. Era menos bonito que esse homem, mas muito mais atraente. As bodas tinham sido um escândalo e Vespasia desejava com franqueza que Caroline fosse feliz.

—Nem idéia —confessou Bertie—. Mas era amigo pessoal do antigo chanceler. Isso eu sei.

—Bismarck?—disse Vespasia com surpresa e desassossego crescente.

Bertie olhou Vespasia de esguelha.

—Naturalmente, Bismarck! Vespasia, o que tem que ver com você? Você não pode conhecer esse indivíduo. Passa todo seu tempo na África. Embora suponha que poderia ter voltado. Está brigado com o Cecil Rhodes, o que não é difícil, e missionários que tentam converter ao cristianismo os indígenas, e que se impõem é verdadeiramente difícil.

—Cristianizar ou mandar?

—Que se tenha brigado com os missionários.

—Resultaria—me muito fácil brigar com alguém que pretenda impor sua vontade — respondeu Vespasia—; ou que ambicione cristianizar a todas as almas, tanto se quiserem como se não.

—Então, sem dúvida que você gostará de Kreisler.

Bertie mudou o rosto.

Um membro do Parlamento —dos radicais— passou junto a eles. Mantinha uma conversa muito profunda com um escritor de êxito.

—Imbecis—disse Bertie com desdém—. O próximo deveria manter-se fiel a seu passado.

—Como diz?

—Políticos que querem escrever livros e autores que querem sentar-se no Parlamento—respondeu Bertie.

—Leu seu livro?—perguntou Vespasia.

Bertie ergueu as sobrancelhas.

—Não. Por que?

—Horrível. E John Dacre nos prejudicaria menos se deixasse sua cadeira para escrever novelas. Pensando-o bem, acredito que seria uma idéia excelente. Não os desanimemos.

Bertie a olhou fixamente com afeto durante um momento e depois começou a rir.

—Além disso brigou com o MacKinnon—disse depois de um instante.

—Dacre?—disse ela.

—Não, não; seu amigo K. MacKinnon era seu sócio poderoso. É claro a briga foi motivada pelo assunto do leste da África e pelo que deveria haver-se feito ali. Ainda não brigou com o Standish, mas isso provavelmente se deve a sua relação com o Chancellor. —Bertie, pensativo, franziu o cenho—. Caramba, não é que não se fez nada como ele disse! Muito questionável o amigo Rhodes. Lisonjeador, mas com olhos de trapaceiro. Muita fome de poder, para meu gosto. Tudo se tem feito com pressas. Muito rápido. Tudo muito rápido. Conhece o Arthur Desmond? Pobre infeliz.

Um homem sensato. Decente. Sinto que se foi.

—E Kreisler? —Vespasia ficou em pé ao mesmo tempo que o dizia. Estava começando a fazer um pouco de frio e preferia caminhar um trecho.

Bertie se levantou e lhe ofereceu o braço.

—Não tenho certeza, sinto muito. Agora não saberia o que lhe dizer. Não tenho claros seus motivos. Não sei se me entende.

Ela o entendia muito bem.

Um famoso artista de retratos passou por seu lado e tirou o chapéu. Vespasia sorriu em reconhecimento. Alguém tinha deixado ir à notícia de que o príncipe do Gales e o duque de Clarence iriam vir e se gerou um murmúrio que denotava interesse.

Mas Vespasia e Bertie tinham vindo bastante freqüentemente ao Hyde Park e a notícia nunca tinha sido mais que um rumor.

Um homem idoso, de rosto cítrico, aproximou-se e ficou a falar com o Bertie. Foi apresentado e, quando se fez evidente que pretendia ficar, Vespasia agradeceu ao Canning e se desculpou. Desejava estar a sós com seus pensamentos. O pouco que tinha aprendido do Peter Kreisler não a confortava absolutamente.

Quais eram os motivos pelos que perseguia o Susannah Chancellor? Por que defendia sua postura com tanta veemência? Não seria tão ingênuo para pensar que podia influenciar ao Chancellor. Publicamente se tinha comprometido já com o Cecil Rhodes.

E onde estava o compromisso do Kreisler? Na África e a auto-determinação da que falava, ou com os interesses alemães? Tentava Kreisler provocar alguma indiscrição que lhe levasse a fazer averiguações, ou deixava que se deslizasse sua própria versão dos fatos para criar desinformação?

E por que fazia a corte ao Nobby Gunne?

Vespasia teria sido muito mais desventurada se tivesse estado no cabaré e tivesse visto, juntos em um reservado, Nobby e Kreisler rir dos comediantes, olhar, com a respiração contida, como o prestidigitador lançava pratos no ar um após o outro, alvoroçar-se ante as extraordinárias figuras que conseguia o contorcionista vestido de amarelo, e sapatear com os pés ao som da música que dançavam as bailarinas.

Definitivamente aquilo era próprio de gente inferior, e se estavam divertindo muito. Intercambiavam olhares a cada momento, quando uma piada lhes tinha agradado ou espantado. As piadas de políticos eram ao mesmo tempo picantes e escabrosas.

O último número —momento alto do programa— foi uma soprano irlandesa de voz rica e potente que meteu ao auditório no bolso. Cantou Fios de prata entre o ouro, Canção de amor do beduíno, O acorde perdido do Sullivan e, finalmente —com sorrisos e lágrimas—, Adeus do Tosti.

O auditório aplaudiu pedindo bis, e, então, quando finalmente caiu o pano de fundo, abandonaram seus assentos e saíram à rua —concorrida e entusiasta— onde ondulavam os lampiões de gás, as ferraduras dos animais repicavam contra a pavimentação, as pessoas chamavam ss carruagens de aluguel que passavam, e o ar úmido da noite açoitava suavemente os rostos com a promessa de chuva.

Nem Nobby nem Kreisler falaram. Já tudo se entendia.

 

—Nada—disse Tellman, franzindo o lábio—. Nada de interesse, quando menos.

—Tellman se referia à investigação empreendida em torno de Ian Hathaway, do Ministério de Colônias—. Um homem tranqüilo e sóbrio, de meia idade e aficionado à leitura. Um homem comum , em muitos sentidos. —Tellman ocupou a cadeira que havia frente a Pitt sem esperar que o convidassem a isso—. Embora não tão comum para carecer de caráter— acrescentou. — Hathaway tem suas raridades, seus gostos particulares.

Por exemplo, gosta de comprar queijos caros. Gasta em queijo o que eu gastaria em um bom espeto de vitela. Mas detesta o peixe. E nem o prova.

Sentado de costas ao sol, Pitt franziu o cenho.

—Usa camisas ordinárias—prosseguiu Tellman—. Não investe nelas nem um penny mais do que o necessário. Costuma discutir o preço com seu camiseiro, sempre em tom correto. Embora possa ser muito insistente! —O rosto do Tellman delatava certa surpresa—. A princípio tomei por uma espécie de camundongo, um homem sem estridências, dos que nada têm que dizer. —Tellman abriu muito os olhos—.

Entretanto, descobri que Hathaway é uma pessoa enérgica, quando a coisa lhe interessa. Sempre tranqüilo, sempre cortês, sem jamais elevar a voz.

Mas deve ter algo em seu interior, pois o alfaiate só discutiu com ele um minuto ou dois antes de olhá-lo fixamente e bater em retirada; de repente tudo foram "sim, senhor; não, senhor; como o diz senhor".

—Nosso homem ocupa um cargo de certa importância no Ministério de Colônias —observou Pitt na hora.

Tellman soltou um grunido sardônico.

—Vi a homens de maior importância que eram brinquedos em mãos de seus alfaiates! Não, senhor, acredito que nosso Hathaway esconde mais coragem do que aparenta.

Pitt não respondeu. Mais que nada, tratava-se de uma impressão particular do Tellman. Tudo estava em função de quão escassa fora a consideração que Hathaway lhe merecesse desde o começo.

—Usa meias e camisas de gala de muito boa qualidade — acrescentou Tellman—. Muito bonitas de verdade. E mais de um lenço de seda.

—Um tanto extravagante em seus gastos? —interessou-se Pitt.

Tellman meneou a cabeça, como se a coisa lhe produzisse pesar.

—Não exatamente. Certamente, nosso homem não se excede em seus gastos.

De vez em quando se permite algum luxo, possivelmente um jantar no clube ou com os amigos. Algumas tardes sai a passear pelo parque.

—Tem alguma amiga?

Tellman respondeu com sua expressão, sem necessidade de palavras.

—E o que tem sobre seus filhos? Tem outros familiares? Irmãos? Irmãs?

—Pelo que sei, seus filhos se mostram igualmente respeitáveis. Os dois vivem no estrangeiro, sem que me tenha chegado à menor referência negativa. Que eu saiba, não há mais familiares. Não escreve nem visita a ninguém.

Pitt se voltou para trás, para o sol.

—Esses amigos com quem janta uma vez por semana, quem são? Têm alguma conexão com a África ou Alemanha? Com o mundo das finanças?

—Que eu saiba, não. —Tellman parecia ao mesmo tempo contente e aborrecido. De certo modo, satisfazia—o contribuir com um novo enigma a Pitt, já que lhe decepcionava seu próprio fracasso. Era um paradoxo que divertia ao Pitt.

—Que opinião lhe merece?—perguntou Pitt com a sombra de um sorriso.

Tellman pareceu surpreender-se. Ao que parecia, não tinha uma questão prevista assim. De repente se viu obrigado a pensar com rapidez.

—Eu gostaria de dizer que é um homem que oculta mais do que parece. –seu rosto se tornou sombrio—. Mas acredito que é um homenzinho calvo e muito comum, cuja existência é tão comum como transparente e muito aborrecida; como a de dezenas de milhares de londrinos. Não tenho motivo para pensar que seja um espião, ou coisa semelhante.

Pitt sentia respeito pela opinião do Tellman. Este teria seus preconceitos e seus ressentimentos, pessoais ou de classe, mas seu julgamento raramente errava quando se tratava de avaliar o crime ou o potencial delitivo de um indivíduo.

—Obrigado— respondeu Pitt, com uma sinceridade que desarmou ao outro—. Imagino que terá razão.

Contudo, Pitt procurou desculpa para apresentar-se no Ministério de Colônias e tratar com o Hathaway em pessoa. Simplesmente queria formar uma impressão, pois carecia dela por inteiro. O não fazer algo assim constituía uma omissão que não podia permitir-se nestes momentos. O escritório do Hathaway resultou menor que o de Chancellor ou o do Jeremiah Thorne, embora mostrasse dignidade e considerável conforto.

A primeira vista, nada nele parecia novo; tudo mostrava a delicada pátina do tempo e a qualidade. A madeira reluzia com brilho acumulado durante gerações, o couro lançava brilhos, o tapete se estendia da porta à escrivaninha. Os livros que havia na prateleira estavam encadernados em couro esculpido.

Sentado atrás de sua escrivaninha, Hathaway mostrava expressão benigna e cortês.

Quase inteiramente calvo, tão somente ficava algo de um curto cabelo esbranquiçado sobre as orelhas. Seu barbeado era impecável. Seu nariz era proeminente, e seus olhos, muito redondos e azuis. Tão somente ao observar os de perto, percebia-se a clareza e inteligência que emanava deles.

—Bom dia, superintendente— respondeu com calma. Sua voz era agradável, e sua dicção, perfeita—. No que posso ajudá—lo? Por favor, tome assento.

—bom dia, senhor Hathaway. —Pitt aceitou o convite e se sentou ante sua escrivaninha. A cadeira era muito cômoda; firme e macia ao mesmo tempo ao sentar-se. Apesar de sua aparente simplicidade, Hathaway era funcionário de status.

Melhor seria ir direto ao ponto. — Queria falar com você em relação com essas fastidiosas filtrações—explicou Pitt. Não havia razão para andar-se com evasivas.

Hathaway era muito inteligente para não adivinhar o sentido de sua investigação.

O rosto do Hathaway não registrou a menor transformação.

—Estive pensando nisso, superintendente, mas por desgraça continuo sem explicar o acontecido. —A sombra de um sorriso apareceu em seus lábios—.

Certamente, não é coisa que alguém possa tomar à ligeira. Quando falamos anteriormente, não deu você muita importância ao assunto, mas está claro que é questão de envergadura. Embora não sei com precisão de que informação se trata, nem de quem foi subministrada, o princípio segue sendo o mesmo.

A próxima vez poderia tratar-se de dados essenciais em relação com nosso país. E é claro, nem sempre sabemos quem podem ser nossos amigos. Acaso nossos amigos de hoje não o sejam tão amigos amanhã.

Era um pensamento estremecedor. Por um momento, o aposento espaçoso e bem iluminado pareceu sublinhar suas implicações. Pitt não sabia se Hathaway se referia aos inimigos de Grã—Bretanha ou se falava em termos mais gerais. O rosto do Arthur Desmond veio a sua lembrança. A quantos inimigos teria descoberto? Que surpresas lhe teriam proporcionado suas pesquisas? Que rostos teriam ido por surpresa a sua própria lembrança?

Era a faceta sinistra de uma sociedade secreta, as máscaras cotidianas atrás das quais se ocultavam rostos tão diversos. O Círculo Interior contava com seus próprios verdugos, embora "assassinos" era possivelmente palavra mais adequada.

Tratava-se de homens a quem se encomendava a execução do castigo previsto pelo agrupamento. Às vezes se tratava da ruína pessoal ou financeira, mas no caso do Arthur Desmond se tratou da morte.

Mas quem eram esses verdugos? Era quase certo que muitos membros do Círculo não chegavam a sabê—lo, medida necessária para garantir a segurança do verdugo e a eficiência de seu trabalho.

Assim, o verdugo estava em disposição de saudar sua vítima com um sorriso e um apertão de mãos antes de atirar o golpe mortal. O pacto de sangue do Círculo Interior ficava garantido pelo silêncio e o mútuo amparo.

Hathaway tinha o olhar fixo nele, aguardando com paciência. Pitt se obrigou a voltar para os dados sobre a África.

—É claro, tem você muita razão—acrescentou—. Se trata de uma circunstância muito desgraçada. investigamos o caminho seguido por essa informação até sua classificação no Ministério de Colônias. Acredito que conheço o nome de todos que tiveram acesso a ela.

Hathaway esboçou um sorriso sem alegria.

—É claro, trata-se de mais de uma pessoa. Devo me considerar suspeito?

—Você é um dos que teve acesso a esses dados—concedeu Pitt sem comprometer-se—. É tudo que posso dizer de você. Conforme soube, tem um filho na África Central.

—Sim, meu filho Robert é missionário. —O rosto do Hathaway mal mostrava expressão alguma. Era impossível saber se se orgulhava ou não da vocação de seu filho. O brilho no olhar acaso mostrasse aprovação, amor ou compreensão, mas acaso simplesmente fora reflexo da luz solar que se filtrava pela janela situada a sua esquerda.

Sua voz tranqüila não mostrava mais que uma cortesia natural não empanada pela natural ansiedade provocada por uma visita como a do Pitt.

—Onde?—perguntou Pitt.

Nesta ocasião, o rosto do Hathaway estremeceu levíssimamente.

—Perto do Lago Nyasa.

Pitt tinha repassado o atlas. Embora a costa africana aparecia delineada com bastante precisão, havia vastas zonas do interior nas quais mal apareciam assinaladas algumas rotas de viagem. A precisão era escassa e as rotas iam de este ao oeste, seguindo os rastros dos grandes exploradores: um lago aqui, uma cordilheira lá.

Entretanto, em sua maior parte, tratava-se de regiões sem delimitar, áreas que nenhum cartógrafo tinha visto ou medido, possivelmente nunca pisadas pelo homem branco.

Pitt sabia que o lago Nyasa estava perto da zona que Cecil Rhodes pensava reclamar, onde se supunha a existência do Zimbabue, a legendária cidade do ouro negro.

Hathaway lhe observava com interesse; seus olhos pálidos e redondos não perdiam detalhe.

—Essa é a região que o ocupa neste caso. —Hathaway expôs tal circunstância com calma. Sem mover-se, sem que sua expressão mudasse no substancial, seu rosto pareceu reconcentrar-se—. Superintendente, possivelmente seja melhor que nos deixemos de florituras.

Me corrija se me equivocar, mas eu diria que você quer saber sobre os interesses alemães no Mashonaland e Matabeleland.

Sei que estamos negociando um novo tratado sobre as respectivas zonas de influência, que Heligoland é zona implicada nesse tratado, que a queda do chanceler Bismarck mudou muito as coisas, e que Carl Peterson e a presença alemã no Zanzíbar são fatores de crescente importância, como o são a rebelião ali acontecida e o banho de sangue em que foi afogada.

Outros fatores a considerar são a expedição que Rhodes empreendeu do Cabo, assim como as negociações cercadas com o Kruger e os bóeres. Nossa posição se veria escavada se o kaiser chegasse a conhecer os dados com que contamos.

Pitt não respondeu. Nenhum som chegava da janela, que dava a um pátio.

Hathaway sorriu ligeiramente e se reclinou em seu assento.

—Aqui não estamos falando de um mau uso da informação privilegiada a fim de obter benefício pessoal com o ouro ou os diamantes – acrescentou com gravidade—.

Estamos falando de traição. Toda consideração individual deve passar a segundo plano a fim de dar com a pessoa responsável. —Embora sua voz não soava mais alta, percebia-se uma sutil variação no timbre, uma sinceridade apaixonada.

Hathaway não se moveu, mas sua presença pessoal aparecia carregada de energia.

Era inútil negar a verdade. Isso só serviria para ofender a inteligência do homem que Pitt tinha frente a sim.

—Um dos problemas da traição— respondeu Pitt em tom pausado, escolhendo as palavras com cuidado—, é que uma vez que se conhece sua existência, todo mundo se torna suspeito. Às vezes a suspeita pode resultar quase tão daninha como o fato em si. Nossos medos podem ser tão perturbadores como a própria verdade.

Hathaway abriu muito os olhos.

—É muito despachado, superintendente. Efetivamente, assim acontece nestes casos. Mas insinúa você que acaso não exista verdadeira traição, mas apenas um hábil arremedo desta a fim de que nos excedamos em nossa própria reação? —Sua voz refletia surpresa, assim como o progressivo encargo de que acaso as coisas fossem assim—. Então quem pode ter manipulado os dados?

Umas passadas ressoaram no corredor. Depois de um momento de hesitação, os passos seguiram seu caminho.

Pitt meneou levemente a cabeça.

—Só quero dizer que não terá que piorar a situação, nem fazer o trabalho sujo a nosso adversário, semeando a suspeita ali onde não há motivo. São poucos quem tem acesso à informação de terras.

—Entretanto, estamos falando de pessoas que pertencem às altas esferas —deduziu Hathaway—. Thorne, eu mesmo ou Chancellor! Céus! Se se tratasse do Chancellor, nossa posição seria desesperada.—seu rosto exibia traços de humor—. Por outra parte, sei que eu não fui.

—Há outras possibilidades— respondeu Pitt—. Embora não muitas. Aylmer, por exemplo. Ou Arundell. Ou Leicester.

—Aylmer. Sim, tinha—me esquecido dele. Um homem relativamente jovem.

Ambicioso. Ainda não alcançou os lucros que sua família espera dele. Esse poderia ser um incentivo de importância.—seus olhos não se moviam do rosto do Pitt—. À medida que envelheço, mais agradeço que minha mãe fosse uma mulher tranqüila cujo único desejo para seus filhos consistia em que se casassem com mulheres de boa disposição, lucro que tive ocasião de cumprimentar antes de cumprir os trinta anos.

A lembrança o fez sorrir um instante, antes que seus peculiares olhos se cravassem nos do Pitt com uma franqueza absoluta—. Sei muito bem que se tiver vindo a falar comigo é para efetuar uma avaliação de meu caráter. Mas, elementalidades à parte, há alguma outra coisa em que possa ajudá—lo?

Pitt já tinha decidido.

—Sim, senhor Hathaway. Conforme pude saber, você é o primeiro em saber grande parte da informação que chega ao Chancellor.

—Assim é. Acredito adivinhar o que tem em mente: alterar levemente alguns dados e oferecer distintas versões deles ao Chancellor, Aylmer, Thorne, Arundell e Leicester, preservando o original para o próprio Lorde Salisbury, a fim de evitar a possibilidade de cometer um sério engano. —Hathaway apertou os lábios—. Terá que pensar bem, teria que dar com a informação adequada, mas me cuidarei de pôr a coisa em prática.

Hathaway parecia animado, quase aliviado ante a idéia de envolver-se no plano.

Pitt não pôde reprimir um sorriso.

—Acredita que seria possível? Quanto antes o façamos, antes obteremos resultados.

—É claro! Sim, terá que fazê-lo com cuidado, para que não resulte claro. —Hathaway voltou a reclinar-se em sua cadeira—. A coisa deve encaixar com toda a informação anterior; ao menos não deve ser contraditória. Manterei—o informado, superintendente.

Hathaway lhe sorriu com franqueza; uma felicidade intensa parecia bulir em seu interior.

Pitt lhe agradeceu de novo e se levantou para partir. Embora não sabia se se tinha precipitado ao agir deste modo, tampouco lhe ocorria outra linha de ação.

Ainda não tinha falado com o Matthew ou Farnsworth a respeito.

—Que tem feito o que?—respondeu Farnsworth, com o rosto cinzento—. Por Deus! Dá-se conta das possíveis implicações de seu... de seu...

—Não—respondeu Pitt com aprumo—. A que implicações se refere?

Farnsworth cravou o olhar nele.

—Para começar, arriscamo—nos a transmitir informação manipulada aos ministros do governo de Sua Majestade. Não é um risco, é uma certeza!

—Mas só ao Chancellor...

—Só? Só ao Chancellor! —O rosto do Farnsworth se tornou rosa escuro—.

Estamos falando do ministro das Colônias! E o Império britânico se estende pela quarta parte da superfície terrestre! Se Chancellor contar com dados errôneos, sabe-se lá o que pode acontecer

—Nada absolutamente—replicou Pitt—. Estamos falando de uma manipulação corriqueira dos dados. Hathaway sabe a verdade, como saberá o ministro de Exterior. E não acredito que se tome nenhuma decisão importante sem consultar ao um ou ao outro. Aos dois, o mais provável.

—Pode ser—disse Farnsworth a contragosto—. Em todo caso, tomou-se você muitas liberdades, Pitt. Teria que ter falado comigo antes de empreender uma coisa assim. Duvido que o primeiro—ministro esteja de acordo com semelhante plano.

—Se não provocarmos algo pelo estilo— respondeu Pitt—, duvido que averigüemos onde está a filtração antes da assinatura do tratado.

—Não me convence. —Farnsworth mordeu o lábio—. Achava-o com maior experiência depois de tantos anos de investigação.

Achavam-se no escritório do Farnsworth, que tinha chamado ao Pitt para que o pusesse à corrente de suas pesquisas. O tempo tinha mudado; uma forte chuva da primavera açoitava as janelas. Pitt tinha as pernas das calças molhadas, salpicadas pelas rodas das carruagens. O investigador estava sentado com as pernas cruzadas, em deliberada atitude relaxada.

Franzindo o sobrecenho, Farnsworth se inclinou sobre a escrivaninha.

—Sabe, Pitt? Cometeu um ou dois enganos de importância, mas ainda não é tarde para remediá—los.

— Não é tarde? —Por um momento, ao Pitt lhe escapou o significado de suas palavras.

—Viu-se você obrigado a investigar solitário, rodeado de um entorno suspicaz e basicamente hostil—explicou Farnsworth, com o olhar fixo no Pitt—. Em certa forma é você um intruso, um policial isolado entre diplomatas, políticos e funcionários.

Pitt olhou a seu superior, temeroso de estar chegando a conclusões absurdas, enquanto umas sombras que lhe resultavam familiares começavam a abater-se sobre sua mente.

—Há pessoas que poderiam lhe ter ajudado! —A voz do Farnsworth se tornou mais baixa e urgente, vacilando entre a aspereza e a esperança—. Lhe falo de homens que sabem mais do que você e eu poderíamos aprender em um ano de investigações. Já o ofereci antes, Pitt. E o volto a oferecer.

O Círculo Interior. Farnsworth estava pressionando-o para que se unisse ao Círculo Interior, como tinha feito depois que Pitt sucedeu Micah Drummond.

Pitt já tinha recusado então, com a esperança de que a oferta não se repetisse.

Possivelmente teria que havê-lo suposto; sua ligeireza tinha sido imperdoável. A oferta tinha continuado em pé, para reaparecer no momento adequado.

—Não— respondeu Pitt com calma—. Pelos mesmos motivos. O preço a pagar seria muito alto.

O rosto do Farnsworth se endureceu.

—É você pouco razoável, Pitt. Ninguém lhe pediria coisa alguma que um patriota decente não estivesse disposto a realizar. Fecha-se você ao êxito e a promoção profissional. —Farnsworth aproximou ainda mais seu rosto—. Com um pouquinho de ajuda, poderia chegar até onde quisesse. Todas as portas lhe seriam abertas! Chegaria longe, pois tem a capacidade para isso.

Muito mais longe do que a sociedade permitiria em circunstâncias normais. Tem que dar-se conta disso! Como pode mostrar-se tão cego? —Farnsworth lhe exigia uma resposta. Seus olhos azul cinzentos se cravaram nos do Pitt.

Consciente da vontade de ferro oculta atrás da fachada tranqüila, quase afetada, de seu interlocutor, Pitt percebia agora que estava frente a uma inteligência insuspeitada. Dava-se conta de que até o momento havia sentido certo desdém por Farnsworth, cujo cargo atribuía de forma inconsciente ao berço antes que ao mérito pessoal. Até hoje, certos traços do Farnsworth, certos giros em sua forma de falar, tinham-lhe parecido sintomáticos de uma mente pouco acordada.

De repente percebia que certamente se tratava de simples racionalidade na experiência. Farnsworth pertencia ao vasto grupo humano incapaz de ficar no lugar de outra pessoa, incapaz de compreender matizações de classe, gênero ou emoção.

Um traço que mostra falta de perspectiva ou de sensibilidade, de humanidade inclusive, mas que não pode ser qualificado de simples estupidez.

—Você me fala de um grupo que só vela por seus interesses— replicou com uma franqueza que até então não tinha mostrado ao Farnsworth, sabedor de uma vez de que entrava em terreno perigoso.

A impaciência do Farnsworth mostrava mais matiz de fadiga que de autêntica irritação. Era possível que não tivesse esperado outra coisa dele.

—Eu admiro aos idealistas, Pitt, mas só até certo ponto. Quando se afasta da realidade, o idealismo se converte em um espantalho sem a menor aplicação prática. —Farnsworth meneou a cabeça—. Assim é como funciona o mundo. Se ainda não o compreendeu, confesso que não sei como chegou a ocupar o lugar que ocupa.

Você trata com o crime todos e cada um dos dias. Viu o pior do ser humano, o que de feio e fraco há nele. Como pode ser cego a uma motivação superior, indiferente aos homens que se esforçam em fazer o bem a outros?

Pitt pensou em responder que não achava que os dirigentes do Círculo Interior guardassem tão angélicas intenções. Possivelmente a princípio fora assim, mas agora se tratava de sustentar o próprio poder. Entretanto, era consciente de que uma resposta assim não faria brecha alguma em Farnsworth, que tinha muito clara sua linha de proceder. A coisa só serviria para aguçar o conflito.

E, contudo, por um instante, um brilho de compreensão cruzou por sua mente.

Por um momento, pareceu-lhe que podiam chegar a certo acordo. Devia aferrar-se à possibilidade. Tratava-se de um imperativo, moral e humano.

—Não ponho em dúvida a honra e a justiça desses fins— respondeu em tom pausado—. Tampouco duvido que seriam muitos quem se beneficiasse deles.

O rosto do Farnsworth se iluminou com um brilho de esperança. Embora esteve a ponto de interrompê—lo, Farnsworth se controlou e deixou que Pitt prosseguisse com seu raciocínio.

—O problema estriba em que uns poucos decidam o que é bom para todos, sem consultar à maioria—seguiu Pitt, escolhendo suas palavras com muito cuidado—.

Além disso, estamos falando de um modo secreto de proceder. Se os fins forem bons, todos nos beneficiaremos deles, mas se não o são, já é muito tarde para resolvê-lo.—Sem dar-se conta, inclinou seu rosto para frente—. Não há forma de evitar nem possível correção, pois ninguém sabe a quem dirigir-se ou a quem culpar.

Trata-se de uma estratégia que nega toda possibilidade de escolha a quem não pertence ao Círculo.

Com as sobrancelhas franzidas, Farnsworth mostrava expressão perplexa.

—Mas precisamente lhe falo de introduzir-se no Círculo. É o que lhe estou oferecendo.

—E o que tem sobre os outros?—disse Pitt—. Que capacidade de decisão têm eles?

Farnsworth abriu muito os olhos.

—Sugere você que outros, a maioria —Farnsworth ergueu as mãos para designar a quem existia além das paredes de seu escritório — está capacitada para compreender problemas desta natureza, para tomar uma decisão referente ao que ''e oportuno em um momento dado ao que pode ser meramente possível? — Seu olhar se fixou no Pitt—. Não, é claro que não. Temo que se refere você à mesma anarquia. A que cada homem arrume como pode. Sabe Deus, cada homem, e logo, cada mulher e cada menino...

Até o momento Pitt tinha agido movido por um instinto apaixonado, sem necessidade de racionalizar seus pensamentos; ninguém o tinha movido a isso.

—Existe uma diferença entre o poder transparente de um governo e o poder secreto de uma sociedade da qual se ignora o nome de seus membros— respondeu com decisão. Na hora percebeu uma careta de desdém no rosto do Farnsworth—. É claro, sempre pode dar-se a opressão, a corrupção, a incompetência, mas quando se conhece quem leva as rédeas do poder, pelo menos há alguém a quem exigir contas. Pelo menos fica o recurso de opor-se a essa figura.

—Fala—me da rebelião—disse Farnsworth em tom direto—. De traição, se é que a oposição é secreta! É essa sua alternativa?

—Não falo de derrocar governos. —Pitt não se deixou arrastar pelos radicalismos que lhe sugeria o outro—. Embora não me oponho à queda desses governos, a têm merecida.

Farnsworth arqueou as sobrancelhas.

—Merecida a julgamento de quem? De você?

—A julgamento da maioria.

—E você acha que a maioria tem razão? —Farnsworth olhava—o com os olhos muito abertos—. Que a maioria está informada? Que é sábia, benévola e disciplinada? Que sabe ler, inclusive?

—Não, não acredito—interrompeu Pitt—. Mas sim acredito que nunca o será enquanto seja governada em segredo por quem jamais tem pensado em contar com ela. Sim acredito que a maioria está composta de pessoas decentes que têm direito, tanto como possamos o ter você ou eu, a conhecer seu próprio destino e a ter o máximo controle sobre este.

—Um destino que não deveria pôr em perigo a ordem pública. —Com um sorriso sardônico nos lábios, Farnsworth se reclinou em sua cadeira—. Nem os direitos e privilégios de outros. Claro. Nossos objetivos de fundo são os mesmos, Pitt. Nossas diferenças se concentram nos meios para chegar a esses fins. E me deixe lhe dizer que sua ingenuidade é incurável. É você um idealista que não percebe as realidades da natureza humana, da economia ou dos negócios.

Como político, o público o aclamaria, contente de que lhe dissesse o que quer ouvir; temo, entretanto, que sua posição seria insustentável se chegasse ao poder. —Farnsworth entrelaçou as mãos e fixou no Pitt um olhar próximo à resignação—. Possivelmente faz bem em não aceitar a oferta de ingressar no Círculo Interior. Não tem você a coragem nem a visão necessárias para isso. No fundo, sempre seguirá sendo o mesmo filho do guarda-florestal.

Pitt não soube se tomava-o como um insulto. Se assim o parecia indicar a voz do Farnsworth, o tom expressava mais decepção que verdadeira ânsia de ofender.

Pitt se levantou da cadeira.

—Suponho que tem razão— respondeu, surpreso pelo pouco que lhe interessava averiguá—lo—. Mas lhe recordo que o guarda-florestal vive de proteger e preservar quanto é bom. —Um sorriso apareceu em seu rosto—. Não se referia você a isso, precisamente?

Farnsworth lhe olhou com expressão aniquilada. Embora abrisse a boca para negar tal implicação, no momento percebeu a solidez do argumento e guardou silêncio.

—Que tenha um bom dia, senhor— se despediu Pitt da soleira.

Só havia uma coisa que Pitt podia fazer em relação ao Ministério de Colônias.

A investigação rotineira de conhecidos e hábitos pessoais, a busca de pontos fracos, eram tarefas que Tellman e seus homens podiam atacar tão bem como o próprio Pitt.

Tampouco esperava que dessem com grande coisa. Contudo, a morte do Arthur Desmond continuava ocupando seus pensamentos e lhe produzindo idêntica tristeza.

Cada vez lhe era mais premente tratar de resolver a questão, em interesse do Matthew, tanto como em seu próprio interesse. Charlotte mal tinha falado com ele do acontecido, embora seu silêncio, por pouco habitual, era eloqüente em extremo.

Charlotte se tinha mostrado amável com ele, mais paciente do que nela era habitual, como se a moça fora sensível ao que sentia. Era algo que Pitt agradecia. Teria lhe doído seu rechaço, por compreensível. Quando a gente é mais vulnerável, mais difíceis de fechar resultam as feridas.

Não obstante, Pitt ansiava voltar a desfrutar da franqueza que tinha sido norma entre eles.

Começou pelo general Anstrusther, a quem seguiu de um clube a outro, até dar com ele na tranqüila biblioteca de um terceiro. Ou, melhor dizendo, até ser informado pelo garçom de que o general Anstrusther efetivamente estava ali. Não sendo membro, Pitt não tinha o acesso permitido ao tão privado santuário do clube.

Seria amável de perguntar ao general se me poderia conceder uns minutos de seu tempo?—perguntou Pitt cortesmente, ressentido por ter que suplicar. Não gozava de autoridade alguma neste caso, assim se via obrigado a extremar as formas.

—Agora mesmo o pergunto, senhor—respondeu o garçom em tom inexpressivo—. A quem devo anunciar?

—Ao superintendente Pitt, da delegacia de polícia do Bowl Street. —Pitt lhe entregou seu cartão.

—Muito bem, senhor. Vou perguntar lhe. —Enquanto Pitt aguardava no enorme vestíbulo ornamentado, o garçom enfiou as escadas levando o cartão em uma bandeja de prata.

Pitt lançou um olhar às paredes adornadas com bustos em mármore de soldados mortos tempo atrás: Marlborough, Wellington, Moore, Wolfe, Hastings, Clive, Gordon, e dois rostos mais que não reconheceu.

Com escassa surpresa, divertiu-lhe comprovar a ausência de Cromwell. Sobre a porta se erguiam os escudos do Ricardo Coração de Leão e Enrique V. A parede mais afastada exibia um magnífico e sombrio quadro que representava o enterro do Moore depois da batalha de La Coruña; frente a ele, outro quadro ilustrava a carga dos reis escoceses no Waterloo. Do teto pendiam lembranças de batalhas mais recentes: Inkermann, Alma e Balaclava.

O general Anstrusther desceu pelas escadas. Pálido e de rosto avermelhado, o militar se movia a passo erguido.

—Bom dia, senhor. No que posso ajudá—lo?—seu tom era quase peremptório—. Imagino que se tratará de algo urgente para procurar uma pessoa em seu próprio clube. Do que se trata?

—Possivelmente não seja urgente, general Anstrusther, mas sim acredito que se trata de coisa de importância—respondeu Pitt em tom resseioso—. A informação que necessito só posso obtê—la do senhor; por isso me atrevi a me apresentar em seu clube.

—Muito bem! Muito bem. E do que se trata, senhor superintendente? Embora, como suponho que não será coisa de um minuto, não sei o que fazemos aqui plantados como um par de mordomos. Me acompanhe à sala das visitas.

O militar fez um gesto com sua mão robusta e nodosa, assinalando uma das portas de carvalho que se alinhavam no corredor. Pitt seguiu—o obediente.

A sala estava mobiliada de poltronas amplas e cômodas que não conseguiam encaixar com os quadros e a parafernália bem severa da sala, possivelmente encaminhada a recordar às visitas que o glorioso passado militar dos sócios do clube

Estava muito acima de quanto um mero convidado civil podia sonhar.

O general Anstrusther indicou uma das poltronas. Pitt tomou assento e o militar fez o mesmo, cruzando as pernas.

—E bem, superintendente, o que o inquieta?

Pitt tinha pensado bem o que ia dizer.

—Trata-se da morte de Sir Arthur Desmond— respondeu com franqueza. O rosto do Anstrusther se endureceu, mas Pitt continuou—: Sua morte gerou certas especulações, cuja refutação requer que me informe perfeitamente a respeito de determinados pontos.

—Quem especulou com o que?—perguntou Anstruther—. Explique-se, senhor. Surpreende—me você.

—Entendo—o muito bem — concordou Pitt—. Se especulou a respeito da saúde mental de Sir Arthur. Há quem menciona a possibilidade de suicídio ou, pior ainda, assassinato.

—Deus santo! —A surpresa do Anstrusther era genuína. O horror de sua expressão não era fingido, como não o eram a inicial expressão de pasmo nem o brilho sombrio que começou a tingir seu olhar—. Mas isso é escandaloso! Quem se atreveu a sugerir algo assim? Exijo-lhe uma resposta, senhor!

—No momento não se trata mais que de meras suspeitas, general Anstrusther — respondeu Pitt, não muito fiel à verdade—. E meu desejo é refutá—las de forma decisiva, antes que cheguem a mais.

—Absurdo! Quem ia querer matar ao Desmond? Em minha vida não conheci homem mais decente!

—Não duvido que seja assim, até os últimos meses—disse Pitt, com maior segurança do que sentia. Começava a temer que o escandalizado Anstrusther acabasse expressando algum protesto que pudesse chegar aos ouvidos do Farnsworth.

Nesse caso, Pitt se veria em apuros seriamente. Era possível que passara dos limites ao abordar assim ao militar?

Mas já era tarde para voltar atrás.

—Bem,—respondeu Anstrusther sem comprometer-se—. Ah… sim… — Estava claro que o militar recordava o que tinha declarado durante a investigação—. Sim, de certa forma tem sentido.

—A isso precisamente me referia. —Pitt teve a impressão de ter ganho um pouco de terreno. Lhe pareceu errática sua conduta, senhor? Até que ponto? Como é natural, mostrou-se o senhor muito discreto em suas declarações, coisa natural em um amigo do finado que se vê obrigado a falar em público.

Mas aqui estamos em privado, e nosso propósito é bastante diferente.

—Bem... A verdade, não sei o que dizer. —Anstrusther parecia confuso.

—Você mencionou que Sir Arthur se mostrava confuso e esquecido —apontou Pitt—. Poderia me dar algum exemplo?

—Eu... né... São coisas que alguém prefere esquecer, cavalheiro! Por todos os Santos! A gente prefere esquecer as taras que possa apresentar um bom amigo, em vez de inscrevê—las na memória.

—Não me poderia proporcionar algum exemplo? —Pitt sentiu uma pontada de esperança, muito fraca para confiar nela, muito vivida para ignorá—la.

—Bem... né... Se trata mas bem de uma impressão, antes que de um catálogo de acontecimentos, entende você? —Anstruther mostrava agora uma expressão de desdita absoluta.

Pitt teve a impressão repentina e aguçada de que o outro lhe mentia.

Em realidade, não sabia nada. Simplesmente se tinha limitado a repetir o que lhe haviam dito seus companheiros do Círculo Interior.

—Quando viu Sir Arthur por última vez?—perguntou em tom de compreensão. O apuro do Anstrusther era evidente. Não tinha sentido fazer um inimigo dele; nesse caso, não descobriria coisa alguma.

—Ah, —Anstrusther estava vermelho como tomate. — Não saberia lhe dizer.

Aconteceram muitas coisas depois. Lembro ter jantado com ele umas três semanas antes de sua morte. O pobre. —Sua voz recuperou um pouco de segurança—. Achei—o bastante mudado. Não deixava de balbuciar sobre a África.

—Balbuciar?—interrompeu Pitt—. Quer dizer que se mostrava incoerente, desconexo em suas idéias?

—Ah, Eu não diria tanto, senhor. Nada disso. Só quero dizer que não cessava de voltar para a questão, embora outros estivessem falando de outra coisa.

—Um pouco pesado?

Anstruther abriu muito os olhos.

—Se o preferir assim. Não sabia quando mudar de assunto. Também efetuou algumas acusações bem desafortunadas. Sem nenhum fundamento.

—Isso lhe parece?

—Claro que sim. —Anstruther olhou—o com assombro—. Falava de um plano secreto para fazer-se com a África, de coisas pelo estilo. Loucuras sem pés nem cabeça.

—Conhece você bem a África? —Pitt fez quanto pôde por ocultar o menor traço de sarcasmo em sua voz. Pareceu-lhe havê-lo conseguido.

—Como? —Anstrusther se sobressaltou—. A África? A que vem sua pergunta, superintendente?

—Por que o vejo convencido de que não existe conspiração alguma em relação com as finanças que há detrás de seu processo de colonização. Há muito dinheiro em jogo, fortunas possivelmente, se referirmos a quem obtenha a exploração dos recursos minerais.

—Ah... bem... —A ponto de rechaçar categoricamente as alegações do Pitt, Anstrusther acabava de dar-se conta de que não tinha no que apoiar-se, por muito repugnante que lhe parecesse o expresso pelo investigador.

Pitt observou as emoções refletidas em seu rosto e deduziu que sua reação ante as acusações de Sir Arthur tinham mais que ver com o coração que com a mente, com o rechaço que uma mente simples sentia por um mundo de intrigas e corrupções que não compreendia, ao mesmo tempo que desprezava.

—Eu prefiro acreditar que se trata de rumores infundados — apontou Pitt—.

Embora tampouco pontuaria de demente a quem acreditasse neles. A riqueza ilimitada costuma atrair a ladrões e aventureiros, tanto como ao homem honrado. Não seria a primeira vez que a promessa de semelhante poder tenha corrompido ao homem.

Como o político que era, Sir Arthur saberia dos escândalos do passado e não deixaria de temer pelo que pudesse trazer o futuro.

Anstrusther conteve o fôlego. Seu rosto estava mais avermelhado que nunca. Era claro que se debatia entre lealdades. Pitt não sabia com certeza se uma delas se devia ao Círculo Interior, embora suspeitava que assim era. Com quase total segurança, o militar via o Círculo como Farnsworth o descrevera, como uma associação de homens ilustres e inteligentes decididos a procurar o melhor para seu país, embora fosse às custas da maioria ignorante e despreparada. A honra e o sentido do dever ligavam aos membros desta sociedade.

Sem dúvida o próprio Anstrusther teria feito juramento de lealdade, e ele era homem para quem a lealdade era tudo. Uma vida transcorrida no exército lhe tinha inculcado o princípio de que a autoridade não devia ser questionada. A deserção era pecado capital, o crime mais reprovável que alguém podia conceber.

E ao mesmo tempo se via confrontado com uma verdade que não podia ignorar. Seu sentido da honra e sua feitura de homem de bem debatiam com o juramento de lealdade condicionado por uma vida de obediência.

Pitt aguardou que o militar resolvesse seu dilema.

Na rua, um cabriolé se deteve na porta; um homem baixinho vestido de uniforme desceu da carruagem, pagou ao cocheiro e subiu as escadas do clube. Uma carruagem puxada por quatro cavalos cruzou a passo ligeiro.

—É possível que você tenha razão— concedeu Anstrusther com dificuldade, esforçando-se em pronunciar as palavras—. Possivelmente o mais ridículo não fossem as teorias conspiratórias do pobre Desmond, mas as acusações pessoais que fazia.

Isso, senhor, ia além de qualquer hipótese razoável e comprometia a homens de bem a quem conheço de toda a vida. —Com o rosto avermelhado, o militar falava com convicção absoluta—.

Falo de homens que serviram a seu povo, a seu país e a sua rainha sem obter reconhecimento nem benefício pessoal.

Mas possivelmente um poder oculto e inquestionado, disse-se Pitt. Possivelmente esta fosse à recompensa mais embriagadora de todas.

Entretanto, nenhuma palavra aflorou a seus lábios.

—Imagino que suas acusações lhe resultariam ofensivas, meu general – respondeu por fim.

—Em extremo, senhor —concordou Anstrusther com veemência—. Do mais desafortunadas. Sempre tive simpatia pelo Desmond. Um indivíduo estupendo. De uma peça. É uma tragédia que acabasse assim. Uma maldita tragédia. —Por fim satisfeito com a resolução de seu dilema pessoal, o militar cravou seu olhar no Pitt, com a emoção posta em suas palavras—. Uma lástima—acrescentou—. Uma pena para a família, maldito seja.

Espero que saiba você levar o caso com discrição. Não há porque arejar o acontecido. O melhor é esquecer. O melhor para todos. Ninguém prestava atenção às tolices que Desmond dizia nos últimos tempos. O que importa isso agora?

Pitt se levantou.

—Obrigado por sua amabilidade, general Anstrusther. Me acredite se lhe disser que aprecio em extremo sua franqueza.

—É o mínimo que alguém pode fazer. A questão é delicada. —O general se levantou e acompanhou ao Pitt até o vestíbulo—. O melhor é jogar terra sobre este assunto. Que tenha um bom dia, superintendente.

—Bom dia, general Anstrusther.

Ao pisar na rua iluminada pelo quente sol de maio, Pitt sentiu uma estranha pontada de irrealidade. Não se fixou nos coches e cavalos que passavam por seu lado, como não se fixou na mulher vestida a última e roçou seu cotovelo ao cruzar-se com ele. Pitt se achava muito perto do Piccadilly; uma débil música chegava do Green Park.

Pitt caminhava a toda pressa sem dar-se conta disso. Anstrusther não tinha feito senão lhe expressar o que esperava fosse certo. Sir Arthur não era um homem irracional; antes disso, tratava-se de uma personalidade inquietante que levava a uma pessoa a perguntar-se sobre a verdade de muitas coisas. Anstrusther era um homem de bem apanhado em uma engrenagem cuja dimensão lhe escapava.

O militar não sabia como tratar com lealdades complexas enfrentadas entre si. Simplesmente era incapaz de reconsiderar seus valores, suas amizades e sua confiança posta nos outros sem forçar sua mente de um modo que lhe era impossível de pôr em prática.

Não havia prova alguma assim acabava de averiguar. Contudo, sua mente e, acaso, suas emoções tinham achado certo consolo. Sir Arthur tinha sido reivindicado na medida do possível até o momento.

A seguir Pitt foi visitar o honorável William Osbome, homem que foi por completo diferente.

Osbome recebeu a última hora da tarde em sua própria casa de Chelsea. A moradia era opulenta, próxima ao Tâmisa e emoldurada por um magnífico jardim sombreado, em uma tranqüila rua arborizada. Osbome saudou o Pitt com gesto impaciente. Estava claro que tinha planos para a noite e que a visita o contrariava.

—Não tenho idéia no que posso lhe ajudar, senhor Pitt —declarou Osbome, depois de entrar em sua biblioteca de painéis de carvalho, onde não se sentou nem ofereceu assento ao Pitt. Estava clara sua intenção de cortar a entrevista ao mínimo—.

Já declarei quanto sei em relação com este desgraçado assunto. Minha declaração está ao alcance de quem quer lê—la. Não tenho nada que acrescentar a ela, e se o tivesse, tampouco me sentiria inclinado a voltar outra vez à questão.

—Conforme declarou, Sir Arthur levava algum tempo expressando umas opiniões bem irracionais—respondeu Pitt, esforçando-se em manter a calma.

—Como acabo de lhe dizer, senhor Pitt, minha declaração é de livre acesso. —De pé sobre o tapete turco azul, Osbome transparecia impaciência. Ao Pitt fez pensar em uma versão mal—humorada do Eustace March.

—Poderia me dizer quais eram essas opiniões de Sir Arthur?—perguntou Pitt, fixando o olhar nele, mas esforçando-se em mostrar-se cortês.

—Preferiria não ter que repeti—las—replicou Osbome—. Se tratava de umas opiniões absurdas, que não faziam nenhum favor a ninguém.

—Mas que são importantes para mim —insistiu Pitt.

—Por que? —Osbome arqueou as sobrancelhas—. O homem morreu. O que podem importar as tolices que dissesse em seus últimos meses de vida?

—Agora que está morto— disse Pitt em tom ao mesmo tempo pausado e firme—, Sir Arthur já não tem ocasião de retratar-se. —O investigador tomou uma decisão drástica. Um muito leve sorriso apareceu em seus lábios—.

Há homens de posição, homens de honra que preferem guardar o anonimato, cujos nomes foram caluniados, por implicação se não de forma direta.

—Sei que entende a que me refiro, senhor. Senhor Farnsworth —Pitt pronunciou o nome com reverência— prometeu apagar toda possível implicação injuriosa... —Pitt deixou que suas palavras fizessem efeito.

Osbome cravou seu olhar nele; seus olhos cinza escuro se mostravam tão duros como impávidos.

—E por que diabos não me disse isso antes? Não há por que andar-se com tanta onda.

Pitt sentiu um estremecimento. Osbome o tinha compreendido e engoliu a mentira. Ocorreu-lhe que estava falando com um novo integrante do Círculo Interior.

—Toda precaução me parece pouca —declarou Pitt, sem mentir em demasia—. É um hábito ao qual me acostumei.

—Não o reprovo—concedeu Osbome—. A coisa é difícil. É claro, nosso finado amigo não deixava de fazer acusações infundadas. Via—o tudo ao reverso. —Osbome se mostrava inexpressivo; seus lábios eram apenas uma linha—. Não se dava conta absolutamente. Um homem decente, mas burguês até a medula.

Sem o menor sentido prático. Um idiota bem—intencionado pode ser mais daninho que uma turma de canalhas confesos! —Osbome esquadrinhou as feições do Pitt. A suspeita seguia latente em seu olhar.

A seu juízo, Pitt não tinha maneira de pertencente ao Círculo Interior. Nem era um cavalheiro nem era um subordinado bastante submisso.

Osbome não se equivocava em nenhuma de suas duas asseverações. Pitt não tinha vontade de discutir a primeira questão. Mas a segunda era outra coisa.

—Estou de acordo com você— respondeu com honestidade—. Um idiota bem— intencionado pode ser muito perigoso se se fizer com uma onça de poder. Pode inclusive provocar a queda de muitas outras pessoas, embora não seja tal sua intenção.

Osbome pareceu surpreender-se. Ao que parecia, não esperava que Pitt se mostrasse de acordo com ele. Osbome soltou um grunhido.

—Então compreenderá minha posição, senhor. —Osbome se deteve em seco—. Exatamente, o que quer saber? E quem são esses cavalheiros cujo nome corre risco de ser arrastado pela lama?

—Preferiria não ter que mencionar nome algum—respondeu Pitt—. E para falar a verdade, não conheço muitos nomes. Em interesse da discrição, não fui informado disso.

—Entendo —assentiu Osbome. Ao fim e ao cabo, Pitt possivelmente fosse membro do Círculo, mas não deixava de ser um ajudante—. Sir Arthur segurava que certos cavalheiros amigos nossos se organizaram em comandita para financiar uma expedição na África Central, expedição desenhada para explorar às tribos nativas, aproveitando do espaldar financeiro e moral do governo britânico.

Conforme apontou, o plano estribava em que, uma vez colonizado o território com êxito e descobertas suas vastas riquezas naturais, estes cavalheiros tirariam fatia financeira e política do novo país a estabelecer baixo a nominal soberania britânica mas autônomo ao fim e ao final.

A fortuna a ganhar ficaria assim sob monopólio, excluindo a possíveis competidores mediante um sem—fim de arranjos.

O rosto do Osbome expressava irritação. Seu olhar se cravou no Pitt em demanda de resposta.

—Uns comentários bastante perigosos —apontou Pitt com honestidade, embora os tinha por certos em sua quase inteira totalidade—. Está claro que Desmond tinha perdido o sentido da realidade.

—Absolutamente! — concordou Osbome com veemência—. Absurdo por completo! E irresponsável a mais não poder, maldito seja. Sempre há confiantes a qualquer sandice.

—Não estou tão seguro— respondeu Pitt com uma repentina pontada de amargura—. Se trata de uma presunção realmente assustadora, para a que muito poucas pessoas estariam preparadas.

Osbome olhou—o com os olhos entrecerrados, aquilatando possíveis sarcasmos, mas o olhar do Pitt não expressava o menor rastro de malícia. Vistas as circunstâncias, Pitt não tinha indigestão em fingir-se quem não era, em mentir se fosse preciso.

Osbome limpou a garganta.

—É tudo que posso lhe dizer, Pitt. Não sei nada mais. Não sou perito em assuntos africanos.

—Foi—me de muita ajuda. Agradeço-lhe—disse Pitt—. Com um pouco mais de ajuda por parte de outras pessoas, acredito que chegarei a desembaraçar a verdade. Obrigado por seu tempo. Bom dia.

—Bom dia.

Osbome conteve o fôlego como se fora a dizer algo mais, mas finalmente mudou de idéia.

Quando Pitt finalmente deu com o Calvert, o terceiro homem que tinha prestado declaração, já era tarde e bastante escuro, apesar de que estavam em meados de maio.

Calvert lhe referiu uma história bastante similar, repleta de conversas ouvidas através de terceiros, acusações repetidas com escândalo e ignorância sobre a África, a quem se tinha por naturalmente destinada a ser britânica, por direito moral já que não político.

Pitt estava tão fatigado que lhe doíam os pés, tinha as costas encurvada e a garganta dolorida. Tudo eram nebulosas e impressões pessoais, encargos nascidos da indignação e a sensação de acreditar-se traído por alguém em quem tinham confiado. Apesar de tanta reiterada condolência, o ressentimento estava sempre a flor da pele. Com razão ou sem ela, Arthur Desmond fazia públicas suas suspeitas de uma corrupção generalizada.

A partir de agora, o respeito devido a tantos homens de posição possivelmente não fosse já tão unânime. Muitas pessoas que até então nem tinham imaginado a existência do Círculo Interior começariam a fazer-se perguntas. Esse era o grande pecado do Arthur Desmond, ter tornada públicas questões que deviam continuar sendo privadas. A roupa suja era melhor lavá—la em casa. Sua conduta não tinha sido a de um cavalheiro. Se a gente não podia confiar em um cavalheiro, em quem podia confiar?

Pitt não sabia se o homem era membro do Círculo Interior ou não. Acaso suas palavras só tinham refletido fidelidade a sua classe social. Acaso se pudesse dizer o mesmo do Osbome, embora Pitt tinha por quase certa a adesão do Osbome.

Quem mais? Hathaway, Chancellor, Thorne, Ayler? Não havia dúvidas quanto ao Farnsworth, pessoa a quem não tinha em apreço.

Entretanto, o próprio Arthur Desmond, por quem tanto apreço tinha sentido durante toda sua vida, era membro do Círculo.

Como o era Micah Drummond, a quem tanto tinha estimado e em quem tinha tido absoluta confiança. Possivelmente faria bem em falar com ele. Certamente era a única pessoa que lhe podia ajudar. Tomou a decisão nesse mesmo instante, enquanto caminhava pela calçada. Veria—o agora mesmo.

Ao próprio Pitt acabavam de lhe oferecer o ingresso no Círculo Interior.

Nem todos seus membros eram cavalheiros de posição. Qualquer um podia ser membro, qualquer um podia ser o próprio verdugo. Podia ser um garçom do clube, ou o próprio encarregado. Ou o médico que atendeu a Sir Arthur.

Um cabriolé apareceu pela esquina a muita velocidade. Pitt se viu obrigado a afastar-se com rapidez, tropeçando com um homem robusto que caminhava distraído.

—Vá com mais cuidado, amigo!—respondeu com fúria, olhando ao Pitt com olhos raivosos. Seu punho se fechou sobre a grossa bengala com que caminhava.

—Você vá com cuidado, e assim não haverá problema!—replicou Pitt.

—Como? Velhaco! —O homenzarrão ergueu sua bengala em gesto ameaçador.

— Nem se atreva a me falar assim! Olhe que chamo à polícia! E muito olho, que sei como me dirigir com a bengala.

—Eu sou a polícia! Assim deixe a bengala tranqüila, se não quer que o detenha por agressão a um agente da ordem. E de passagem, deixe as fanfarronices ou detenho—o por escândalo público.

O homenzarrão ficou estático, com a mão ainda fechada sobre a bengala.

Era possível que tivesse ido muito longe ao interrogar ao Osbome?, perguntou-se Pitt. Possivelmente Osbome gozasse de uma posição elevada no Círculo Interior que lhe permitia saber quem era membro e quem não o era. Não era a primeira vez que Pitt se misturava nos manejos do Círculo. Era ocioso pensar que não sabiam quem era.

Se tinham matado ao Arthur Desmond, o que lhes impedia de desfazer-se do Pitt? Um assalto guia de ruas, um rápido empurrão sob as rodas de um veículo. Um desafortunado acidente de rua.

Já tinha acontecido uma vez, no caso do Matthew.

Pitt deu meia volta, afastando-se dali. O homenzarrão seguia plantado no mesmo lugar, tão furioso como antes.

Tudo isto era absurdo. Tinha que controlar sua imaginação. Via inimigos por toda parte quando em Londres havia três milhões de habitantes. Sem dúvida os membros do Círculo Interior não passavam de três milhares. Mas três milhares cujo rosto desconhecia.

Ao voltar a esquina, tomou uma carruagem de aluguel, a cujo cocheiro indicou a direção do Micah Drummond. Pitt se reclinou no assento, tratando de acalmar-se e pôr em ordem seus pensamentos. Perguntaria ao Drummond se tinha idéia das verdadeiras dimensões do Círculo. Embora temesse a resposta, era preciso que soubesse.

Agora que pensava nisso, tinha sido um estúpido ao não ir a ele ao saber da morte de Sir Arthur. Drummond se tinha mostrado muito ingênuo desde o começo —possivelmente ainda continuava sendo—, mas era membro do Círculo desde há anos. Possivelmente recordasse episódios ou rituais que projetassem um pouco de luz sobre seu funcionamento.

Embora não tivera pistas adicionais, Pitt se sentiria menos só pelo mero fato de falar com ele.

A carruagem se deteve na direção indicada. Pitt desceu do veículo e pagou ao cocheiro.

A ansiedade o embargava.

De repente percebeu que não se viam luzes na casa. Não nas janelas que davam à rua, pelo menos. Embora Drummond e Eleanor tivessem saído, o lógico era que os criados tivessem deixado alguma luz acesa. Ainda não era hora de deitar-se. A única resposta consistia em que estivessem de viagem. A decepção o envolveu em um abraço gélido.

—Espero-lhe, senhor?—perguntou o cocheiro a suas costas. Sem dúvida tinha visto as luzes apagadas e chegado à mesma conclusão que ele. Possivelmente não partia por consideração a seu cliente, possivelmente não o fazia ante a perspectiva de uma possível nova corrida—. Quer que lhe leve a algum outro lugar?

Pitt lhe deu o endereço de seu lar, subiu à carruagem e fechou a porta.

—Tem um aspecto terrível, Thomas—disse Charlotte ao vê-lo. Sua mulher, que trazia um vestido vermelho escuro, tinha um aspecto radiante.

Ao estreitá—la entre seus braços, Pitt sentiu o aroma da primavera. Do piso de acima lhe chegou à voz de um de seus filhos que chamava Gracie. Um momento depois, Jemima apareceu na escada, vestida em sua camisola.

—Papai!

—Como é que não está na cama?—perguntou ele.

—Quero um copo de água—respondeu a pequena.

—Pois não tomará—respondeu Charlotte, afastando-se dele—. Já bebeu água antes de se deitar. Volte para a cama.

Jemima tentou por outro meio.

—Os lençóis estão muito enrugados. Por que não vem arrumá—los, mamãe?

—Já é bastante grande para os arrumar você sozinha—respondeu Charlotte com firmeza—. Agora tenho que fazer o jantar ao papai. Boa noite.

—Mas mamãe...

—Boa noite, Jemima!

—Posso dar boa noite ao papai?

Pitt não aguardou ouvir a resposta do Charlotte. Em vez disso, subiu os degraus de dois em dois e tomou a sua menina nos braços. A pequena era tão frágil e delicada que lhe surpreendeu o inesperado vigor de seus bracinhos ao rodeá—lo. Jemima cheirava a algodão limpo e sabão; ainda tinha os cabelos umedecidos.

Por que diabo tinha ele que desafiar o poder do Círculo Interior? A vida era muito preciosa, muito doce para correr perigos assim. Nunca conseguiria acabar com eles; só conseguiria machucar-se no intento. E, além disso, a África estava a meio mundo de distância.

—Boa noite, papai. —Jemima não fez gesto algum por separar-se de seu lado.

—Boa noite, querida. —Pitt a soltou com cuidado, lhe fazendo dar meia volta quando pisou no chão e lhe dando uma última carícia.

Jemima aceitou sua derrota e foi dormir sem mais discussão.

Pitt desceu a escada, muito emocionado para pronunciar palavra. Charlotte olhou seu rosto e se sentiu feliz de tê—lo a seu lado.

Pitt dormiu até entrada a manhã, decidiu não passar-se pelo Bowl Street e se dirigiu diretamente ao Morton Clube, a fim de falar com o Horace Guyler, o garçom que prestou declaração durante a investigação do caso.

Quando chegou, era muito cedo. O clube ainda não tinha aberto. Os criados deviam estar ocupados em limpar os tapetes, tirar o pó e abrilhantar o metal. Teria que havê-lo imaginado. Depois de passear durante uma hora, deixaram—no entrar para esperar meia hora mais antes que Guyler recebesse permissão para falar com ele.

—Sim, senhor?—disse Guyler com certa apreensão.

Ambos se achavam no pequeno quarto do garçom, onde poderiam falar a sós.

—Bom dia, senhor Guyler—respondeu Pitt em tom casual—. Me pergunto se poderia acrescentar alguma coisa mais em relação com o dia da morte de Sir Arthur Desmond aqui no clube.

Guyler se mostrava desconfortável, embora Pitt estava convencido de que a coisa tinha que ver menos com uma possível culpa que com um temor à morte quase supersticioso.

—Não sei que mais posso acrescentar, senhor. —Guyler se movia com inquietação—. Quando declarei, disse quanto sabia.

Se era membro do Círculo Interior, tratava-se de um ator consumado. Ou acaso seria um mero instrumento em mãos dos verdugos?

—Você respondeu a todas as perguntas que lhe fizeram. —Pitt sorriu, embora nenhum sorriso conseguiria tranqüilizar os nervos do garçom—. Mas pensei em algumas questões que o legista não expôs.

—Como é isso, senhor? Acontece algo?

—Quero me assegurar de que não aconteça nada —declarou Pitt com ambigüidade—. Nesse dia esteve de serviço na sala principal?

—Sim, senhor.

—A sós?

—Perdão, senhor?

—Era você o único garçom de guarda?

—Oh, não, senhor. Sempre somos dois ou três, no mínimo.

—Sempre? E o que acontece se um fica doente?

—Contratamos a um substituto temporário. A coisa acontece com freqüência. De fato, nesse mesmo dia trabalhava um substituto.

—Já vejo.

—Entretanto, eu era quem atendia nessa parte da sala, senhor. Eu fui quem serviu a Sir Arthur, a maioria das vezes pelo menos.

—Então, alguém mais lhe serviu em outro momento? —Embora se esforçasse em reprimi—la, Pitt percebeu a súbita urgência de sua voz, tanto como a percebeu o garçom—. Possivelmente um desses garçons substitutos?

—Não tenho certeza, senhor.

—O que quer dizer?

—Bem... A verdade, eu não sei o que fazem outros garçons quando estou ocupado servindo uma bebida ou anotando uma comanda, senhor. As pessoas entram e saem constantemente. Os cavalheiros vão ao banho, ou à mesa de bilhar, ou à biblioteca, ou à sala de escrita.

—Foi Sir Arthur a algum destes lugares?

—Que eu recorde, não, senhor. Mas não saberia lhe dizer com segurança. Não me atreveria a jurá—lo.

—Não é isso o que quero de você— respondeu Pitt.

A expressão nervosa do Guyler não variou um ápice.

—Disse você que Sir Arthur bebeu muitas taças de brandy esse dia —insistiu Pitt.

—Sim, senhor. Pelo que lembro, um mínimo de cinco ou seis taças —respondeu Guyler com segurança.

—Quantas taças serviu-lhe você pessoalmente?

—Umas quatro, senhor. Que eu recorde bem.

—Então alguém mais lhe serviu uma ou duas taças?

Guyler percebeu a premente nota de esperança renascida na voz do Pitt.

—Não sei, senhor. Só era uma hipótese— se apressou a responder, mordendo o lábio.

—Não o entendo —Pitt estava confundido seriamente; não tinha necessidade de fingir.

—Veja, senhor, se lhe digo que Sir Arthur bebeu cinco ou seis taças de conhaque, é porque ouvi que outros o diziam.

—Que outros o diziam? —resolveu Pitt na hora. — Quem o dizia? Quantas taças lhe serve você pessoalmente, Guyler?

—Uma, senhor. Uma taça de brandy pouco antes do jantar. A última —o garçom engoliu em seco. — Acredito que foi assim. Mas o juro Por Deus, senhor, que nunca pus coisa alguma em sua bebida. Só lhe servi o brandy de nossa melhor licoreira. Exatamente o que me pediu!

—Não o ponho em dúvida—disse Pitt em tom pausado, percebendo o rosto assustado do Guyler—. Mas me explique de onde saíram essas quatro ou cinco taças adicionais de conhaque que diz que bebeu Sir Arthur. Se você não as serviu nem viu fazê-lo a outros garçons, o que lhe leva a pensar que efetivamente bebeu—as?

—Verá, senhor —Os olhos do Guyler olharam ao Pitt com temor mas sem dobra—. Recordo que Sir James Duncansby me disse que Sir Arthur queria outra taça, assim que a servi da garrafa e a entreguei para que a levasse a Sir Arthur. O próprio Sir James se ofereceu a levá—la, junto com sua própria consumação. E não é nosso costume discutir com os cavalheiros, senhor.

—É claro, é claro. Essa seria uma taça. O que tem que as demais?

—Bem, né... O senhor William Rodsay se aproximou e pediu uma nova ronda, para ele e para Sir Arthur. Ele mesmo se encarregou de levá—la.

—Já temos duas taças. Siga.

—Depois veio o senhor Jenkinson e disse que queria convidar a Sir Arthur. Como outros, ele mesmo levou a taça.

—Três. Ainda faltam uma ou duas taças mais.

—Não sei o que lhe dizer, senhor. —A expressão do Guyler era de desdita—. Conforme ouvi, o brigadeiro Allsop dizia ter visto como Sir Arthur pedia uma nova taça a outro garçom. Uma taça, diria eu. Mas não estou seguro. Acaso se tratou de dois.

Pitt sentiu uma curiosa sensação de irrealidade. O garçom tão somente tinha servido uma taça a Sir Arthur! O resto eram falatórios. Possivelmente essas taças nunca chegaram à mesa de Sir Arthur.

De repente a confusão e o pesadelo começavam a adquirir certo sentido. A lucidez voltava a impor-se.

E a lucidez implicava um aspecto mais escuro e desagradável: se esta não era a verdade, mas uma fabricação, Sir Arthur tinha sido assassinado, tal e como assegurava Matthew.

E, possivelmente, se Pitt tivesse estado ali, se Sir Arthur tivesse podido lhe confiar suas terríveis suspeitas sobre o Círculo Interior, acaso Pitt poderia lhe ter avisado a tempo e agora não estaria morto.

Pitt agradeceu ao Guyler e abandonou o lugar, mais ansioso e perplexo do que se sentia ao vir.

O doutor Murray não era homem de trato acessível. Depois que Pitt se visse obrigado a acudir, sob pagamento, a sua consulta do Wimpole Street, o médico não gostou de saber que Pitt tinha vindo lhe fazer perguntas.

Decoradas com sobriedade, as salas de sua consulta eram imponentes e exalavam um ar de majestosa solidez. Pitt se perguntou o que teria levado ao Arthur Desmond a procurar-se semelhante médico e durante quanto tempo se teria prolongado sua relação.

—Senhor Pitt, o mais amável que posso dizer é que seu pedido me foi um tanto enganoso. —Posicionado atrás da ampla escrivaninha de nogueira, Murray observava ao Pitt com desagrado—. Que autoridade tem você para intrometer-se na desafortunada morte de Sir Arthur Desmond? O legista já disse o que tinha que dizer e deu o caso por fechado. Não sei que sentido tem voltar outra vez ao mesmo.

Pitt já tinha previsto certa dificuldade. Se, como suspeitava, Murray era membro do Círculo, o truque empregado com o Osbome não funcionaria pela segunda vez.

Murray mostrava muita segurança em si mesmo para deixar-se enganar assim. Deste modo lhe parecia provável que seu status fosse muito superior ao do Osbome e que em conseqüência soubesse quem era Pitt, conhecesse sua antiga inimizade com o Círculo e estivesse à corrente de sua recente negativa a ingressar nele.

Pitt tratou de afastar de si o pensamento de que Murray acaso fosse o próprio verdugo da sociedade, concentrando-se no sol radiante que brilhava sobre a rua buliçosa, do outro lado da janela.

Entretanto, o vidro era tão grosso que nem o menor som se filtrava ao interior da consulta. Pitt se sentiu preso de uma repentina claustrofobia, qual um recluso em sua cela.

Embora pensasse em mentir a respeito de umas supostas dúvidas do legista, finalmente pensou melhor. Era possível que o legista mesmo pertencesse ao Círculo Interior. De fato, quase todo mundo podia pertencer à sociedade, começando por seus próprios homens. Pitt sempre tinha tido Tellman por homem muito ressentido e mal—humorado para envolver-se em questões de governo, mas acaso se tratasse de mera cegueira de sua parte.

—Sou amigo pessoal de Sir Matthew —declarou por fim: Pelo menos, isto era completamente certo—. Sir Matthew me pediu que investigue alguns pontos escuros.

O pobre não se encontra muito bem. Faz poucos dias que sofreu um acidente em plena rua. —Pitt fixou seu olhar no rosto do Murray, cuja expressão não se alterou o mínimo.

—Sinto—o—disse Murray por fim—. Que má sorte. Espero que não seja coisa séria.

—Parece que não o é, mas se trata de um incidente desafortunado; Sir Matthew podia ter morrido.

—Temo que é algo que acontece com muita freqüência.

Tratava-se de uma ameaça velada? Ou de uma observação inocente?

—O que quer saber, senhor Pitt? –acrescentou Murray, entrelaçando as mãos sobre o estômago e olhando ao investigador com gesto grave—. Se for amigo de Sir Matthew, faria bem em convencê—lo de que possivelmente devia agradecer que a morte de seu pai chegasse antes que sua enfermidade danificasse ainda mais sua reputação, antes que sofresse mais ainda em seus ocasionais arrebatamentos de lucidez.

É duro confrontar as coisas como são, mas é mais prático que esquivar-se da verdade e das desagradáveis conseqüências que esta possa contribuir. —Um sorriso tilintou em seu rosto e desapareceu imediatamente—. Há muitos homens de bem que queriam recordar ao Sir Arthur de sempre, sem seguir pinçando na ferida. —Os olhos do médico não se afastavam do Pitt.

Por um segundo Pitt acreditou que se tratava de uma ameaça: os homens de bem seriam os membros do Círculo, tão numerosos como ungidos em poder. Uns homens de bem que não vacilariam em cobrar vingança se Matthew continuasse insistindo.

Entretanto, imediatamente, soube que não contava com prova alguma. Murray só era um médico que expunha o que era claro. Pitt via perseguições por toda parte, complôs em qualquer parte que lhe levavam a suspeitar de quanto inocente se cruzasse em seu caminho.

—Possivelmente me seja mais fácil convencê—lo se conto com fatos concretos para lhe referir—replicou, sem afastar seu próprio olhar do outro—. Por exemplo, prescreveu láudano a Sir Arthur com antecedência? Ou lhe parece que essa foi a única vez que o provou?

—Foi a única vez—respondeu Murray—. Ele mesmo me disse isso. Eu me encarreguei de lhe explicar as propriedades e os perigos de tal produto. Disse-lhe como devia administrá—lo e em que medida, para obter um sono de duração e profundidade normais.

—É claro —concordou Pitt—. Mas em seu estado de confusão, porque se mostrava confuso, não é assim? Irracional e contraditório muitas vezes?

—Nunca o observei. —Como Pitt esperava, Murray dizia o que mais lhe convinha para não ver-se salpicado—. Entretanto, logo soube através de outros que sofria de umas estranhas obsessões não muito racionais. Possivelmente esqueceu o que lhe disse e se administrou uma dose mortífera, pensando que era a que necessitava para poder desfrutar de uma sesta. É impossível saber o que acontecia a mente desse pobre homem.

—Qual era a apresentação do láudano?

—Em pó, como é costume. —Murray sorriu de forma apenas perceptível—. Cada dose vem em um invólucro individual. Senhor Pitt, seria difícil administrar-se mais de uma dose, a não ser que se tratasse de um descuido absoluto. Sinto não poder lhe proporcionar uma explicação mais ajustada a sua teoria, mas é uma precaução que sempre me encarrego de ter em conta.

—Já vejo. —Pitt não tinha por que acreditar nele. Murray muito bem podia ter misturado uma dose letal com as demais. Pitt se esforçou em manter uma expressão neutra em seu rosto—. Quando tratou você com Sir Arthur, doutor Murray?

—A primeira vez que me consultou foi em outono de 1887, em relação com uma congestão pulmonar. Pude ajudá—lo e se curou por completo. Se se referir a sua última visita, tenho que ver quando teve lugar. —O médico examinou sua agenda sobre a mesa—. Em 27 de abril. —Murray esboçou um sorriso—. Às quatro e quarenta da tarde, para ser preciso.

Esteve aqui uma meia hora ou mais. Sinto dizer que seu estado não era bom. Fiz quanto pude para lhe tranqüilizar, mas temo que seu mal desta vez ia além de minha capacidade. Se tiver que ser justo, acredito que seu estado ia além da capacidade de qualquer médico.

—Preparou você mesmo o láudano, doutor Murray?

—Não, não. Eu não tenho amostras dos remédios que receito a meus pacientes, senhor Pitt. Dava-lhe uma receita que imagino utilizou em alguma farmácia. Eu lhe recomendei a regentada pelo senhor Porteous no Jermyn Street.

Um excelente profissional, qualificado e minucioso. Por quanto falamos, sempre insisto em que o láudano seja medido e dosado em quantidade muito exata, antes de ser preparado em invólucros individuais.

Sir Arthur já conhecia o senhor Porteous de anteriores ocasiões e me confessou sua intenção de visitar sua farmácia outra vez.

—Já vejo. Muito obrigado por sua paciência, doutor Murray. —Pitt se levantou.

Embora não tinha averiguado grande coisa, não queria insistir, a fim de não despertar a suspeita de estar investigando um assassinato no que possivelmente estivesse comprometido o Círculo Interno.

Ao sair da consulta, sentiu uma absurda sensação de alívio ao ver-se ao ar livre enquanto os cascos dos cavalos ressoavam sobre o pavimento das ruas sulcadas de coches e radiantes de vitalidade.

Pitt se dirigiu ao Jermyn Street, onde deu com a farmácia mencionada pelo médico.

—Sir Arthur Desmond? —O ancião lhe sorriu com benevolência do balcão. —

Um cavalheiro sem mancha. Senti muito sua morte. Uma verdadeira lástima. O que posso fazer por você, senhor? Tenho quase todo o necessário para mitigar os males do corpo humano.

Visitou algum médico ou prefere que eu mesmo o aconselhe?

—Não necessito medicina alguma. Desculpe-me se não me expliquei bem.

Simplesmente queria consultar suas lembranças. —Pitt se sentia um pouco culpado por não adquirir nada, mas não necessitava nenhum remédio—. Quando foi a última vez que Sir Arthur esteve aqui?

—Sir Arthur? Como é que quer sabê—lo, jovem? —O ancião olhou-o com curiosidade não incompatível com suas maneiras amáveis.

—Eu quero saber sobre sua morte. Sobre o modo como morreu — respondeu Pitt, algo confuso. A imagem do farmacêutico lhe recordava um tanto a do próprio Sir Arthur, um Sir Arthur estranhamente aparecido atrás do balcão do estabelecimento.

—É natural. Eu também tenho curiosidade. É uma lástima. Se se tivesse apresentado por aqui com a receita do médico, como sempre fazia, teria lhe proporcionado o láudano em doses individuais, como sempre faço com meus clientes, e esse terrível acidente nunca teria lugar. —O ancião meneou a cabeça com pena.

—Sir Arthur não veio por aqui?—perguntou Pitt—. Tem certeza?

O ancião arqueou as sobrancelhas.

—Claro que tenho certeza, jovem. Eu sou o único que atende neste balcão, e a Sir Arthur não servi. A última vez que lhe vi foi o inverno passado. Isso deve ter sido por volta de janeiro. Um resfriado. Proporcionei-lhe uma infusão de ervas para eliminar a congestão. Lembro que estivemos falando de cães. Lembro—me muito bem.

—Obrigado. Obrigado, senhor Porteous. Foi—me de grande ajuda, senhor. Bom dia.

—Bom dia, jovem. Embora se eu fosse você, não correria tanto de um lado para outro. Não é bom para a digestão. Muita excitação nervosa...

Mas Pitt já tinha saído da farmácia e caminhava a toda pressa pelo Jermyn Street.

Na metade do caminho em direção ao Regent Street percebeu que não sabia aonde se dirigia. Onde teria obtido o láudano Sir Arthur? Se não o tinha feito no Jermyn Street, devia ser em outra farmácia. Ou acaso o teria proporcionado o próprio Murray, apesar de suas palavras? Havia algum modo de prová—lo?

Possivelmente Matthew soubesse. Os preparados de farmácia geralmente detalhavam o nome do estabelecimento, como garantia e como forma de publicidade.

Pitt voltou sobre seus passos e subiu a um cabriolé, em direção ao apartamento do Matthew.

—Do que se trata?—perguntou Matthew. Pitt achou-o sentado na escrivaninha da pequena sala que lhe servia de sala de jantar e estúdio.

Matthew vestia um roupão e tinha o mesmo aspecto pálido. Seu rosto exibia sombras sob os olhos, como se umas feridas latentes lutassem por sair à luz.

—Tem mau aspecto —observou Pitt com certa ansiedade—. Não estaria melhor na cama?

—Uma simples dor de cabeça —resolveu Matthew na hora. — Do que se trata? Encontrou algo?

Pitt se sentou em uma das cadeiras.

—Falei com várias pessoas. Tenho a impressão de que quanto se disse a respeito da conduta irracional de Sir Arthur se apóia em testemunhos de ouvidos ou no modo em que suas opiniões se chocavam com os preconceitos e desejos alheios.

—Já lhe disse isso! —exclamou Matthew em tom triunfal, com o rosto iluminado pela primeira vez desde que se apresentara em casa do Pitt com a notícia da morte de Sir Arthur—. Em nenhum momento se mostrava confuso ou caduco. Sabia muito bem o que dizia. Há algo mais?

Sabe-se algo mais sobre o brandy e o láudano? Conseguiu invalidar de uma vez essa teoria?—Matthew esboçou um sorriso de desculpa—. Me perdoe. Já vê que continuo acreditando nos milagres. Foi que grande ajuda, Thomas. Estou-lhe agradecido.

—O do conhaque também é coisa de ouvir. O garçom só lhe serviu uma taça.

As demais foram pedidas por outros, que queriam convidá—lo possivelmente.

Matthew franziu o cenho.

—Possivelmente? O que quer dizer?

Pitt lhe relatou o descrito pelo Guyler.

—Já vejo —comentou Matthew com expressão reflexiva—. Deus, a coisa dá medo. O Círculo está em todas partes. Mas não acredito que todos com quem falou sejam membros, não lhe parece? Ou é sim?—seu rosto empalideceu de novo.

—Não sei —confessou Pitt—. Imagino que o Círculo pode valer-se de quantos membros sejam precisos para a ocasião. E aqui parece que estejamos falando de uma emergência. Sir Arthur tinha quebrado seu juramento de confidencialidade para acusá-los de conspiração tendendo ao engano, de traição, segundo como se olhe.

Sentado em silêncio, Matthew estava enfrascado em suas próprias reflexões.

—Matthew...

Matthew ergueu a cabeça.

—Também falei com o doutor Murray. Conforme diz, aconselhou a Sir Arthur que procurasse o láudano na farmácia habitual do Jermyn Street. Entretanto, Porteous se mostra seguro de que Sir Arthur não se apresentou na farmácia. Tem idéia se pôde ter obtido o láudano em outro lugar?

—Tem importância? Pensa que alguém se pôde equivocar na dose, ou algo assim? Um farmacêutico, verdugo do Círculo? —Matthew esboçou uma careta de repugnância—. Que idéia tão assombrosa. Embora tenha sentido.

—Possivelmente se tratou do próprio médico —apontou Pitt—. Tem alguma idéia?

—Não. Embora se déssemos com alguns de seus papéis, possivelmente poderíamos averiguar. —Matthew ficou em pé—. Talvez encontremos algo entre suas coisas. Venha comigo. Vamos ver.

Pitt se levantou atrás dele.

—Só pôde ter adquirido o láudano nos dois ou três últimos dias. Sir Arthur foi à consulta do Murray nos dia vinte e sete.

Matthew se virou de repente para Pitt.

—O 27. Tem certeza?

—Sim. Por que?

—Não me disse nada a respeito. E não pôde ter obtido esse dia porque essa tarde fomos a Brighton.

—A que hora?

—A que hora saímos para Brighton? Por volta das duas e meia. Por que?

—E a que hora voltaram?

—Não voltamos em todo o dia. Jantamos com uns amigos e retornamos no dia seguinte.

—Murray diz que Sir Arthur foi a sua consulta nesse dia às quatro e quarenta. Tem certeza que foram a Brighton esse dia vinte e sete, não um dia antes nem um dia depois?

—Absolutamente certo. Era o aniversário de minha tia Mary e se celebrava uma recepção. Todo ano fazemos igual, em 27 de abril.

—Então Murray me mentiu. Jamais chegou a ver Sir Arthur!

Matthew franziu o cenho.

—Possivelmente se equivocou de data?

—Não. Comprovou—a em sua agenda. Eu mesmo estava diante.

—Então o da consulta é mentira —afirmou Matthew em tom curiosamente melancólico—. E se for assim, de onde saiu o láudano?

—Deus sabe... —murmurou Pitt—. Alguém que estava no clube. Alguém que lhe levou uma taça de brandy que ele não tinha pedido.

Matthew engoliu em seco e guardou silêncio.

Pitt voltou a tomar assento, sentindo-se curiosamente fraco e assustado. Ao observar o rosto do Matthew, soube que este se sentia igual a ele.

 

Pitt foi despertando pouco a pouco, à medida que os golpes que ressoavam em sua cabeça se faziam mais persistentes e lhe devolviam ao limite da consciência.

Abriu os olhos. Pelas cortinas penetrava uma franja da primeira luz diurna. Charlotte estava adormecida aninhada a seu lado, cálida e com o cabelo recolhido em tranças soltas que começavam a desfazer-se.

Os golpes não cessavam. Do exterior não chegava ruído algum, não passavam calesas, nem carruagens, não se ouvia ruído de passos nem de vozes.

Pitt se voltou e olhou o relógio junto à cama. Eram cinco menos dez.

Os golpes se faziam mais insistentes. Procediam do piso de baixo, da porta principal.

Fez um esforço para endireitar-se e passou os dedos pelo cabelo, vestiu a jaqueta por cima da camisola de dormir e foi descalço até a janela. Charlotte se agitou na cama sem chegar a despertar de todo. Ele levantou o marco corrediço da janela e olhou à rua.

Os golpes cessaram e uma figura robusta retrocedeu uns passos da porta e olhou para cima. Era Tellman. Seu rosto aparecia muito branco à luz primeira da manhã, sem seu habitual chapéu de feltro. Tinha o cabelo emaranhado e um aspecto alterado.

Pitt lhe indicou que descia em seguida e, depois de fechar a janela, caminhou fazendo o menor ruído possível para a porta do patamar e desceu a escada até o vestíbulo. Abriu o ferrolho e abriu a porta.

De perto Tellman oferecia ainda pior aspecto. Tinha o rosto macilento e a escassa carne que o recobria estava como afundada entre os ossos. Não esperou que Pitt lhe perguntasse.

—Aconteceu algo terrível— disse ao vê-lo. — Será melhor que venha e veja você mesmo. Ainda não o disse a ninguém, mas o senhor Farnsworth vai se alterar de verdade quando se inteirar.

—Entre—lhe ordenou Pitt lhe deixando entrar— Do que se trata? —Em sua mente se dispararam todo tipo de temores. Supôs que se teria produzido alguma terrível noticia procedente da embaixada alemã. Embora, como teria aos ouvidos do Tellman? Algum fugitivo que havia subtraído documentos — Do que se trata? —insistiu com obrigação.

Tellman permanecia no degrau da entrada. Estava tão pálido que parecia que fosse desmaiar, o que por si só bastava para alarmar ao Pitt. Ele acreditava no Tellman feito a tudo.

—A senhora Chancellor—disse Tellman, que tossiu lastimosamente e tragou saliva—. Acabamos de achar seu cadáver, senhor.

Pitt ficou estupefato. Fez-se um nó em sua garganta e mal pôde murmurar:

—Seu cadáver?

—Sim, senhor. Arrojado à borda do rio, à altura da Torre. —Olhava ao Pitt com olhos vazios.

—Suicídio? —pronunciou Pitt com lentidão, incapaz de acreditar em tal possibilidade.

—Não. —Tellman permanecia imóvel, salvo por um ligeiro tremor apesar da manhã ser temperada—. Assassinato. Estrangularam—na e depois a jogaram na água. Deve ter acontecido esta mesma noite, a julgar por seu aspecto. Mas terá que esperar ao exame legista para sabê—lo com segurança.

Pitt sentiu uma dor tão intensa que acabou por transformar-se em uma raiva incontida. Era uma mulher tão formosa e vulnerável, tão cheia de vida, com um espírito tão elevado e independente. Sua lembrança na recepção da duquesa do Marlborough lhe manifestou com toda viveza.

Reproduziu mentalmente os traços de seu rosto enquanto Tellman falava.

Acontecia tão poucas vezes que tivesse conhecido à vítima em vida, que o sentimento de perda era agora algo pessoal, diferente da pena que estava acostumado a sentir.

—Por que? —exclamou com virulência—. Por que ia alguém querer destruir uma mulher assim? Não tem sentido.—sem dar-se conta tinha apertado os punhos e retesado pela raiva os músculos do corpo sob a jaqueta. Nem sequer era consciente de que estava descalço sobre o degrau da porta e que não pusera as calças.

—Está o assunto da traição no Ministério de Colônias—disse Tellman com voz aflita—. Possivelmente soubesse algo.

Pitt golpeou o dintel da porta com o punho e deixou escapar um impropério.

—Deveria vestir-se, senhor, e vir comigo—disse Tellman com tranqüilidade—.

Não sabe ninguém, salvo o barqueiro que a achou e o agente que me informou, mas não poderemos manter a confidencialidade muito tempo. Por muito que lhes diga que sejam discretos e demais, ao final não pode evitar-se que alguém fale.

—Sabem quem era a vítima?—perguntou Pitt surpreso.

—Sim, senhor. Por isso me avisaram.

Pitt se zangou consigo mesmo. Deveria havê-lo suposto.

—Como é possível?—perguntou—. Como pode ser que os barqueiros do rio a conhecessem?

—Eles não, mas os agentes—explicou Tellman com tom paciente—. São os agentes que sabiam quem era ela.

Em seguida viram que se tratava de uma pessoa distinta, era claro, qualquer idiota o teria visto, mas, além disso, levava um pequeno pendente de ouro ao redor do pescoço.

Estava fechado e ao abri—lo descobriram um retrato. —Suspirou e em seus olhos se apreciou por um momento uma sombra de tristeza—. Era do Linus Chancellor, tão claro como a luz do dia.

Por isso nos avisaram. Quem quer que fosse aquela mulher, sabiam que aquele retrato só podia significar problemas.

—Já vejo. Onde está o corpo? —Pitt o olhou.

—Continua na Torre, senhor. Ordenei-lhes que a tampassem e a deixassem mais ou menos como estava para que você pudesse vê—la.

—Agora mesmo desço— disse Pitt, deixando Tellman na entrada. Subiu ao piso de cima, despojando-se da jaqueta ao chegar ao patamar, e tirou a camisola de dormir ao cruzar a porta do quarto.

Charlotte havia tornado a dormir e lhe parecia cruel despertá—la, mas bem tinha que lhe dizer aonde ia. Optou por vestir-se primeiro. Não tinha tempo de barbear-se.

Bastaria uma boa lavagem de água fria da bacia e um bom esfregão com a toalha.

Inclinou-se sobre Charlotte e a tocou com suavidade.

Devia estar algo tenso, ou talvez fossem suas mãos frias depois de haver-se lavado com a água, o caso é que ela despertou imediatamente.

—O que? Acontece algo? —Abriu os olhos e viu que Pitt estava vestido. Endireitou—se, meio adormecida—. O que aconteceu?

Pitt não tinha tempo para dizer-lhe com suavidade.

—Tellman veio para me dizer que acharam o cadáver de Susannah Chancellor na beira do rio.

Charlotte olhava—o sem conseguir compreender o que lhe dizia.

—Tenho que ir. —inclinou-se para lhe dar um beijo.

— Suicidou-se?—perguntou Charlotte sem afastar os olhos dele—. Pobrezinha, eu...—seu rosto se retorceu em uma careta de dor.

—Não... não. Assassinaram—na.

No rosto do Charlotte se desenhou uma expressão de sobressalto e alívio a mesmo tempo.

—Por que pensou que se havia suicidado?—perguntou-lhe Pitt.

—Pois não sei. Parecia tão transtornada.

—Em qualquer caso, pelo que diz Tellman não existem dúvidas.

—Como morreu?

—Primeiro tenho que vê-lo— disse ele, evitando uma resposta. Deu-lhe um ligeiro beijo na face e se voltou para partir.

—Thomas!

Deteve-se.

—Falou "pelo que diz Tellman". O que lhe disse?

Pitt suspirou devagar.

—Estrangularam—na. Sinto muito. Está embaixo me esperando.

Permaneceu sentada em silêncio, com expressão abatida. Não havia nada que ele pudesse fazer. Saiu do quarto com um sentimento de tristeza e impotência.

Tellman esperava—o no vestíbulo. Assim que apareceu Pitt, voltou-se e partiu diante até a rua. Pitt fechou a porta e se apressou para alcançá—lo.

Ao chegar à esquina cruzaram a rua principal e em questão de uns minutos pararam uma carruagem e Tellman ordenou ao cocheiro que os levasse a Torre de Londres.

Era um longo trajeto desde o Bloomsbury. Dirigiram-se primeiro para o sul, a Oxford Street, e depois para o este, até virar pelo High Holbom e seguir durante quilômetro e meio antes de virar mais à direita em direção ao rio, pelo St. Andrews Street, Shoe Lane e St. Bride Street até o Ludgate Circus.

Tellman ia sentado em silêncio. Não era um homem sociável. Não era dado a compartilhar seus pensamentos e permanecia quieto em uma atitude incômoda, olhando à frente.

Em várias ocasiões Pitt esteve a ponto de lhe perguntar algo, mas não lhe ocorria nada que pudesse ser de utilidade. Tellman já lhe havia dito tudo o que sabia com certeza. O resto só podiam ser especulações.

Além disso, Pitt não estava de todo certo de querer escutar as idéias que Tellman pudesse ter a respeito de Susannah Chancellor.

Seu encantador e inteligente rosto com sua capacidade para inspirar dor lhe aparecia já na mente com o realismo suficiente para saber o que ia achar quando chegassem à Torre.

Viraram pelo Ludgate Hill e continuaram pelo St. Paul’s Church, com o gigantesco corpo da catedral por cima de suas cabeças. Sua cúpula se recortava escura contra o pálido céu da manhã, sulcado por umas poucas franjas de nuvens que interrompiam apenas uma cor azul uniformemente limpa.

Havia muito poucas pessoas pela rua. Durante todo o percurso pelo Canon Street passaram só por meia dúzia de calesas, dois carruagens grandes e uma carreta recolhedora de esterco. Pelo Canon Street deram ao East Cheap e finalmente ao Great Tower Street.

Tellman se inclinou e deu um seco e inesperado golpe no teto para avisar ao cocheiro.

—Vire à direita! —ordenou que—. Siga pelo Water Street até o Lower Thames Street.

—Por aí não se vai a nenhuma parte, só estão as Escadas da Rainha e a Ponte dos Traidores—replicou o cocheiro—. Se querem ir à Torre, como diziam, é melhor pegar a Trinity Square, que está à esquerda.

—Você nos deixe nas Escadas da Rainha e logo siga seu caminho – disse Tellman com tom cortante.

O cocheiro resmungou umas palavras inaudíveis, mas obedeceu.

Avistaram os escritórios do Custom House, para o oeste, que começavam a bulir já com a agitação dos cidadãos que iam e vinham.

Logo viraram à direita e se acharam de frente com a grande fortificação medieval da Torre de Londres, autêntica memória de pedra de uma conquista que se retroagia até as profundidades da Idade Média e de uma história que só se recordava pelos breves arrebatamentos de iluminação dos escritores, pelas pitorescas obras de arte e as narrações de sangrentas batalhas e pelos deliciosos remansos de uma cristandade apaixonada.

A carruagem se deteve nas Escadas da Rainha. Pitt pagou ao cocheiro e este virou à esquerda, fazendo com que seus cavalos partissem em um brioso trote.

Faltavam dois minutos para as seis. O grande manto prateado do rio aparecia em calma em sua totalidade. Inclusive as barcaças de carga, escuras contra a brilhante superfície, mal levantavam uma pequena onda. O ar era fresco e ligeiramente úmido, e trazia um aroma de sal da maré.

Tellman abriu o passo ao longo da ribeira do rio até chegar às escadas, onde os esperava um barqueiro. Levantou a vista sem mudar a expressão e manobrou com destreza o pequeno bote até orientá—lo de forma que pudessem abordá—lo.

Pitt olhou ao Tellman, em espera de sua iniciativa.

—À Porta dos Traidores—disse este escuetamente, enquanto subia ao bote diante do Pitt e tomava assento. Não gostava de ir em barco, o que se transparecia em seu rosto.

Pitt seguiu—o com um movimento ágil e agradeceu ao barqueiro enquanto este fazia partir o bote.

—Encontraram—na na Porta dos Traidores?—perguntou com voz entrecortada.

—A maré a arrastou até ali—respondeu Tellman. A porta estava só alguns metros rio abaixo. Era à entrada da Torre pela qual, em outro tempo, se levava os condenados a sua execução, e se abria diretamente sobre as águas.

Pitt viu o pequeno grupo de pessoas que já se formara: um agente de uniforme com aspecto transido apesar do moderado da manhã, a túnica escarlate de um cavalheiro da Guarda Real, os tradicionais alabarderos que custodiavam a torre e o outro barqueiro dos dois que tinham achado o cadáver.

Pitt saltou a terra, tratando de evitar molhar os pés na rampa que emergia da água. Susannah jazia no lugar em que a tinha deixado a maré alta, com os pés somente por debaixo da superfície. Formava uma silhueta alongada e esbelta, apenas descomposta, meio voltada de barriga para cima.

Uma branca mão me sobressaía visivelmente de entre as empapadas roupas de seu vestido. O cabelo se tinha desprendido dos grampos que o seguravam e lhe tinha aderido ao redor do pescoço e sobre a pedra do chão como uma meada de algas.

O agente se voltou para o Pitt e, ao reconhecê-lo, afastou-se do corpo.

—Bom dia, senhor. —Tinha um semblante muito pálido.

—Bom dia, agente—respondeu Pitt. Não recordava seu nome, se é que alguma vez o tinha sabido. Olhou para Susannah—. Que hora era quando a acharam?

—Por volta das três e meia, senhor. A pleamar tinha sido um pouco antes das três, conforme diz esse barqueiro. Suponho que eles foram os primeiros que passaram por esta parte do rio depois que a água a jogara na margem, pobre mulher. Não é um suicídio, senhor. A pobre foi estrangulada, disso não há dúvida. —Falava com aspecto triste e muito solene para seus vinte e poucos anos.

Tinha a ronda atribuída nas margens do rio e aquele não era o primeiro cadáver que via, nem a primeira mulher, mas era talvez a primeira que via vestida com roupa tão elegante e que tinha, como pudera comprovar quando lhe afastaram o cabelo, um rosto tão apaixonado e vulnerável.

Pitt se ajoelhou para olhá—la com maior atenção. Viu em seu pescoço as inconfundíveis marcas arroxeadas de uns dedos, mas, a julgar pela falta de machucados e de inchaço no rosto, pensou que talvez tivesse morrido pela ruptura do pescoço e não por asfixia.

Não é que fosse um consolo, absolutamente, mas o fato de não vê—la desfigurada aliviava a dor.

Possivelmente tinha sofrido breves segundos. Aferraria-se a aquela convicção enquanto pudesse.

—Não a tocamos, senhor— disse um dos barqueiros com nervosismo—. Só para nos assegurar de que estava morta e de que não podíamos ajudá—la, pobre criatura. —Tinha um conhecimento suficiente das circunstâncias que impulsionam às pessoas ao suicídio para não as julgar.

Por ele as enterraria no cemitério e deixaria a decisão em mãos de Deus. Mas não era homem que freqüentasse a igreja por convicção. Fazia isso só para agradar a sua esposa.

—Obrigado—disse Pitt com expressão ausente, sem deixar de olhar para Susannah—. Em que ponto do rio podem tê—la jogado para que tenha vindo parar aqui?

—Isso depende, senhor. A corrente é muito caprichosa. Sobretudo em um rio como este, cheio de revoltas e redemoinhos. A maioria das vezes primeiro o corpo afunda, depois volta para a superfície mais ou menos onde mergulhou. Mas se o atiraram durante a mudança da maré, à água quero dizer, deslocaria-se mais acima do rio. Isso se a atiraram de um barco.

Mas se a atiraram da margem, o mais provável é que fosse durante a subida da maré, e então teria remontado o rio, de mais abaixo. Então dependeria de quando a atiraram, mais que de onde, segue—me?

—Ou seja, a única coisa que sabemos com segurança é que estava aqui quando a maré mudou, não?

—Pode ser que tenha razão —concordou o barqueiro—. Quando se joga um corpo à água, varia muito o tempo que pode permanecer nela. Depende de se passar algo que produza fluxo, ou de se topar com algo.

Às vezes ficam encalhados, ou são arrastados. Há correntes e redemoinhos com os quais nem sempre conta. Talvez o doutor poderá dizer quanto tempo faz que está morta, a pobre. Então poderemos lhe dizer mais ou menos onde a atiraram.

—Obrigado. —Pitt levantou os olhos para o Tellman—. Mandou chamar o carro fúnebre?

—Sim, senhor. Está esperando no Trinity Square. Não queria despertar mais falatórios—respondeu Tellman sem olhar aos barqueiros.

Se não sabiam quem era a vítima, muito melhor. A notícia já se difundiria o bastante depressa. E para o Chancellor seria uma forma terrível de conhecê—la, ou para quem quer que lhe tivesse tido afeto.

Pitt se endireitou deixando escapar um suspiro. Ele diria ao Chancellor pessoalmente. Conhecia-o e Tellman não. Além de que não era um dever que pudesse delegar-se.

—Faça que venha até aqui e que a levem para que lhe façam o exame legista. Tenho que me informar disto o antes possível.

—Sim, senhor, é claro. —Tellman olhou uma vez mais para Susannah e se voltou para o barco, com uma careta de desgosto.

Ao cabo de uns minutos Pitt partiu também. Subiu as Escadas da Rainha e caminhou devagar pelo Great Tower Hill. Viu-se obrigado a chegar até o East Cheap para poder achar uma carruagem de aluguel.

A manhã começava a nublar-se pelo norte e agora havia mais gente pela rua. Um moço vendedor de jornais proclamava aos quatro ventos certos problemas do governo. Um porta—voz tomava seu café da manhã matutino em um posto ambulante enquanto estudava as notícias do dia e se preparava para compor seus versos.

Dois homens saíram de uma cafeteria encetados em uma animada discussão. Foram procurando uma calesa, mas Pitt se adiantou ante sua consternação.

—A Berkeley Square, por favor —ordenou ao condutor antes de subir à carruagem. O cocheiro fez um gesto de assentimento e partiu. Pitt se reclinou no assento e tratou de formar uma composição mental do que ia dizer.

Era inútil, como esperava. Não havia forma razoável de irromper com uma notícia como aquela, nem de suprimir a dor que ia produzir, nem sequer de mitigá—la. Só podia ser simples e inequivocamente uma notícia terrível.

Tentou pensar ao menos que perguntas faria ao Chancellor, mas isso tampouco lhe serviu de muito.

Fosse o que fosse que decidisse naquele momento, teria que voltar a expor o assunto uma vez comprovasse qual era o estado de ânimo do Chancellor, até que ponto era capaz de manter a serenidade suficiente para responder a algum tipo de pergunta. A dor afetava às pessoas de forma muito diferente.

Em alguns casos a comoção era tão profunda que não se manifestava a princípio. Eram pessoas que podiam aparecer calmas durante dias, até que a dor podia com elas.

Outras eram presas da histeria, sentiam-se rasgadas por uma raiva impotente, ou eram incapazes de fazer outra coisa que chorar sem poder pensar em nada coerente salvo na perda que acabavam de sofrer.

—Que número, senhor? —o cocheiro interrompeu seus pensamentos.

—O dezessete, acredito.

—A casa do senhor Chancellor?

—Isso.

O cocheiro parecia querer acrescentar algo mais, mas mudou de idéia e fechou a cobertura do teto.

Ao cabo de um momento Pitt se apeou, pagou-lhe e permaneceu imóvel no degrau da entrada, estremecendo a pesar do sol da manhã. Eram já mais de sete.

Por toda a praça se viam criadas ocupadas tirando os tapetes para os sacudir e varrê—los, e moços e lacaios que iam de um lado a outro em cumprimento de seus encargos.

Também havia alguns distribuidores mais madrugadores com suas carruagens e vendedores de ruas que entregavam os jornais às moças para que os arrumassem e pudessem apresentar—los aos senhores da casa durante o café da manhã antes de sair para atender suas ocupações diárias no centro da cidade.

Pitt tocou à campainha da entrada.

Quase imediatamente lhe abriu um lacaio que pareceu muito surpreso de ver alguém que batia na porta principal à uma hora tão matutina.

—Sim, senhor?—disse com educação.

—Bom dia. Meu nome é Pitt. —Tirou um cartão de visita—. Preciso ver imperiosamente ao senhor Chancellor agora mesmo. É por um assunto inadiável. Diga-lhe assim, por favor.

O lacaio tinha trabalhado durante um tempo para um ministro do gabinete, razão pela qual não estava desabituado a assuntos de extrema emergência.

—Sim, senhor. Se tiver a amabilidade de esperar na saleta, informarei ao senhor Chancellor de que está aqui.

Pitt hesitou uns instantes.

—Sim, senhor? —interessou-se o lacaio com educação.

—Sinto ser portador de uma notícia terrivelmente grave. Talvez quisesse avisar primeiro ao mordomo.

O lacaio empalideceu.

—Como não, senhor, se assim acha necessário.

—Está o mordomo do senhor Chancellor muito tempo com ele?

—Sim, senhor, uns quinze anos.

—Então, por favor, chame a ele primeiro.

—Sim, senhor.

Ao cabo de uns momentos chegou o mordomo, com aspecto alterado. Fechou a porta da saleta atrás dele e olhou ao Pitt com o cenho franzido.

—Sou Richards, senhor, o mordomo do senhor Chancellor. Entendo pelo que diz Albert que aconteceu algo grave. Trata-se de algum dos cavalheiros do Ministério de Colônias? Ocorreu algum acidente?

—Não, Richards. Temo que é algo muito pior—disse Pitt com calma e com um tom de aspereza na voz—. Lamento ter que dizer que a senhora Chancellor faleceu de forma violenta. —Não acrescentou nada mais. O mordomo cambaleou como se fosse desmaiar. Sua pele perdeu todo rastro de cor.

Pitt se apressou a segurá—lo e o fez retroceder até uma cadeira.

—Sinto muito, senhor —ofegou Richards—. Não sei o que me passou. Eu... —Olhou ao Pitt com olhos suplicantes—. Tem certeza, senhor? Não terá havido alguma confusão, um engano de identificação? —Apesar de suas palavras, seu rosto refletia que sabia que não era assim. Quantas mulheres havia em Londres que pudessem parecer-se com Susannah Chancellor?

Pitt não respondeu à pergunta. Não havia necessidade.

—Pensei que seria prudente tê—lo convenientemente perto quando der a notícia ao senhor Chancellor—disse Pitt com amabilidade—. Talvez pudesse ter uma garrafa preparada de brandy.

E poderia ocupar-se de que não receba visitas e comunicados até que não se sinta capaz de lhes fazer frente.

—Sim. Sim, é claro. Obrigado, senhor. —E com passo ainda cambaleante e inseguro, Richards saiu da habitação.

Linus Chancellor chegou ao cabo de uns minutos, com passo impaciente e uma decisão no olhar que sobressaltou ao Pitt.

Deu-se conta de que Chancellor esperava que lhe traria notícias relacionadas com a informação que estava sendo subtraída da África. Ao ver o intenso interesse que expressavam seus olhos se deu conta também, se é que tinha albergado alguma dúvida, de que Chancellor era inocente de toda cumplicidade.

—Sinto muito, senhor. Trago notícias muito graves— disse antes quase que Chancellor tivesse fechado a porta. Não podia suportar que se prolongasse o equívoco.

—Trata-se de algum de meus superiores?—perguntou Chancellor—. Lhe agradeço que tenha vindo a me dizer isso em pessoa. De quem se trata? Do Aylmer?

Pitt seguia tendo frio apesar do calor da sala e do sol que brilhava já no exterior.

—Não, senhor. Lamento ter que lhe dizer que estou aqui pela senhora Chancellor. —Viu a surpresa refletir-se no rosto do Chancellor e não esperou mais—.Lamento profundamente, senhor, mas tenho que lhe comunicar que faleceu.

—Que faleceu? —Chancellor repetiu a palavra como se não conhecesse seu significado—. Mas se estava perfeitamente ontem à noite. Saiu e voltou e se dirigiu para a porta—. Richards?

O mordomo apareceu imediatamente, com uma bandeja com uma garrafa de brandy, uma taça e o rosto branco como o papel.

Chancellor se voltou para o Pitt, e logo depois de novo para o mordomo.

—Viu você à senhora Chancellor esta manhã, Richards?

Richards olhou ao Pitt sem saber o que dizer.

—Senhor Chancellor, não há possibilidade de dúvida— disse Pitt com suavidade. — Acharam-a na Torre de Londres.

—Na Torre de Londres? —repetiu Chancellor com incredulidade. Abria os olhos com desmesurado ceticismo e um olhar que parecia próxima à hilaridade, como se aquela idéia era muito absurda para ser verdadeira.

Pitt tinha enfrentado a comportamentos histéricos em outras ocasiões. Era algo que cabia dentro do possível.

—Por favor, sente-se, senhor—lhe rogou—. Vai ser duro.

Richards depositou a bandeja e lhe ofereceu uma taça de brandy.

Chancellor a pegou e a bebeu de um gole, depois do qual lhe sobreveio um forte acesso de tosse que durou uns segundos, até que conseguiu recuperar-se.

—O que foi que aconteceu?—perguntou pronunciando lentamente e com voz hesitante—. O que podia estar fazendo na Torre de Londres? Saiu para ir visitar Christabel Thorne. Sei que Christabel é excêntrica, mas, a Torre de Londres? Pelo amor de Deus, pode-se entrar nessas horas da noite?

—É possível que ela e a senhora Thorne fossem dar um passeio pelo rio? —perguntou Pitt, embora fosse um pouco estranho que duas mulheres sós decidissem fazer algo assim.

Acabariam encontrando também o corpo do Christabel em algum outro lugar da ribeira do rio?

—A que se refere? Um acidente em barco?—perguntou Chancellor dúbio—. Sugeriu isso a senhora Thorne, acaso?

—Ainda não falamos com ela. Não sabíamos que a senhora Chancellor tivesse estado com ela. Mas não se trata de um acidente, senhor. Sinto—o seriamente, muito temo que foi assassinada. O único consolo que posso lhe oferecer é que deve ter sido muito rápido. É improvável que sofresse.

Chancellor ficou olhando-o, imóvel, primeiro lívido, depois vermelho pela congestão. Parecia a ponto de afogar-se por falta de ar.

Richards lhe ofereceu outra taça de brandy e a bebeu. O rosto foi perdendo a violenta coloração até adotar um aspecto doentio.

—E Christabel? —sussurrou sem deixar de olhar fixamente ao Pitt.

—Até o momento não sabemos nada dela, mas faremos indagações, claro.

—Onde... onde acharam a minha mulher? —Chancellor tinha dificuldade em achar as palavras.

—Na Porta dos Traidores. Em uma rampa que desce até a água.

—Já sei, já sei! Conheço o lugar, superintendente. Vi—o muitas vezes. Já sei o que é. —Engoliu em seco uma vez mais—. Obrigado por vir você mesmo me dizer isso Deve ser uma de suas tarefas mais desagradáveis. Aprecio que tenha vindo em pessoa. Suponho que estará encarregado do caso?

E agora, se não se importar, preferiria estar só. Richards, informe por favor ao Ministério de Colônias de que não irei esta manhã.

Da casa do Linus Chancellor, Pitt se dirigiu caminhando a do Jeremiah Thorne.

Cruzou a praça e percorreu Mount Street até o final, para logo caminhar para o norte pelo Upper Brook Street. Demorou menos de vinte minutos em chegar à porta principal e tocar à campainha. O coração lhe pulsava com força como se tivesse percorrido duas vezes a mesma distância. Notou a língua seca.

Respondeu à chamada um lacaio que lhe perguntou pelo que lhe trazia até ali. Ao lhe apresentar seu cartão, o criado conduziu—o à biblioteca e pediu que esperasse. Iria perguntar se a senhora Thorne estava em casa. Àquelas horas da manhã parecia uma desculpa ridícula.

Dificilmente podia não saber se ela estava em casa, mas tinha sido instruído para que usasse sempre as mesmas fictícias fórmulas de cortesia antes de deixar entrar qualquer visita. Se esta era inconveniente, ou se seus senhores não desejavam ver ninguém, não podia voltar e dizer-lhe com tal franqueza.

Pitt esperava em tal estado de tensão que foi impossível sentar-se nem ficar sequer de pé no mesmo lugar. Ficou a caminhar de um lado para outro. Uma das vezes, sem reparar nos objetos que lhe rodeavam, golpeou-se os dedos ao voltar— se na borda de uma mesa esculpida.

Deu-se conta de que se fizera mal, mas só vagamente. Aguçava o ouvido à espera de escutar um som de passos. Ao passar uma das criadas se dirigiu à porta e esteve a ponto de abri—la de repente, quando percebeu o absurdo de seu comportamento.

Logo ouviu uma risada sufocada e a resposta de uma voz masculina. Era uma simples cena de paquera doméstica.

Estava ainda perto da porta quando entrou Christabel. Levava um vestido cinza claro e tinha um aspecto muito saudável, embora seu humor não fosse tão bom. Mas a curiosidade o mantinha sob controle, ao menos em enquanto não tivesse elucidado a razão de uma visita àquelas horas.

—Bom dia, superintendente—disse com frieza—. Alarmou a meu lacaio com tanta insistência por falar comigo. Espero que tenha uma razão que a justifique. É uma hora realmente inoportuna para fazer uma visita.

Pitt estava muito afetado para responder com rudeza. Tinha acontecido uma tragédia autêntica. Na mente retinha ainda a imagem do rosto de Susannah enquanto esta jazia no meio do silêncio da Porta dos Traidores, com a água do rio lhe cobrindo os pés.

—Sinto um enorme alívio de ver que está bem, senhora Thorne.

Houve algo na gravidade de seu rosto que a assustou. Sua atitude mudou de repente por completo e sua irritação desapareceu.

—Do que se trata, senhor Pitt? aconteceu algo?

—Sim, senhora. Lamento profundamente ter que lhe comunicar a morte da senhora Chancellor, esta mesma noite. O senhor Chancellor achava que estava com você, por isso como é natural vim imediatamente para comprovar que não estivesse você...

—Susannah? —Pareceu alterar-se extremamente, enquanto o olhava com seus enormes olhos, perdida toda arrogância—. Susannah está morta? —Deu um passo atrás, e logo outro até que tocou a cadeira que tinha detrás e se deixou cair nela—. Como? Se temia você também por mim é que foi uma morte violenta?

—Sim, senhora Thorne. Receio que a assassinaram.

—Oh, santo Deus! Cobriu o rosto com as mãos e permaneceu sentada sem mover uns instantes.

—Posso ir avisar a alguém? —ofereceu-se Pitt.

Ela ergueu a vista.

—O que? Oh… não, não, obrigada. Minha pobre Susannah. Como aconteceu? Pelo amor de Deus, onde estava para que tenham podido...? A agrediram? Atracaram—na?

—Ainda não sabemos. Encontraram—na no rio, a água a tinha jogado à margem.

—Estava afogada?

—Não. Estrangularam—na, com tanta violência que pode ser que lhe rompessem o pescoço. Provavelmente foi muito rápido. Sinto muito, senhora Thorne, mas como o senhor Chancellor achava que tinha vindo visitá—la, devo lhe perguntar se a viu ontem à noite.

—Não. Jantei em casa, mas Susannah não veio aqui. Devem tê—la agredido antes de que pudesse... —Deixou escapar um suspiro e um ligeiro sorriso, como uma sombra triste, desenhou-se em seus lábios—. Quer dizer, se é que tinha intenção de vir, claro.

Possivelmente fosse a algum outro lugar. Não acredito que seja lógico supor que fosse aqui aonde pensasse vir. Embora tampouco, acredito que tivesse uma entrevista. Estava muito apaixonada pelo Linus para considerar tal coisa provável.

—Não disse "possível", senhora Thorne— se apressou a observar Pitt.

Levantou-se da cadeira e se voltou para olhar pela janela, dando as costas ao Pitt.

—Não. Não há muitas coisas que sejam impossíveis, superintendente. Isso é algo que alguém aprende quando vai fazendo-se maior.

A união entre pessoas nem sempre é o que se supõe que deveria ser, e mesmo que ama a uma pessoa, isso não quer dizer necessariamente que tenha que se comportar de uma maneira que todo mundo vá entender.

—Diz isso em geral, ou tem à senhora Chancellor em mente?—perguntou Pitt com tranqüilidade.

—A verdade é que não sei. Mas Linus não é um homem fácil. É engenhoso, encantador, bonito, ambicioso e tem sem dúvida um enorme talento. Mas me perguntei sempre se era capaz de amá—la tanto como amava a ele.

Já sei que não há muitos matrimônios cujos dois membros se amem o um ao outro na mesma medida, isso só passa nos contos de fadas.—seguia dando as costas ao Pitt e pelo tom de voz deixava entender que lhe era indiferente se este a compreendia ou não—. Nem todo mundo é capaz de dar o mesmo.

Em geral uma das partes tem que transigir e aceitar o que há, e, além disso, não deixar-se levar pelo ressentimento ou solidão. Isso passa, sobretudo com mulheres casadas com homens poderosos e ambiciosos.

Susannah era bastante inteligente para saber esta realidade, e acredito que também era bastante prudente para não lutar contra isso e perder o que tinha, que acredito que era muito.

—Mas a você não parece impossível que tivesse encontrado um amigo ou um admirador.

—Impossível não, superintendente, mas sim improvável. —voltou-se para ele—. Apreciava muito Susannah, senhor Pitt. Era uma mulher inteligente, valente e muito íntegra. Amava a seu marido, mas nem por isso deixava de ser capaz de falar e atuar por si mesma. Não estava dominada.

Tinha caráter, desprendia paixão, sabia rir — de repente os olhos se encheram de lágrimas, que começaram a cair por suas faces. Ficou imóvel, chorando sem levantar a vista, imersa em uma dor profunda e dilaceradora.

—Lamento—o muito— disse Pitt antes de dirigir-se para a porta. No vestíbulo se encontrou com Jeremiah Thorne, com aspecto surpreso e algo nervoso.

—Que demônios está fazendo aqui?—perguntou-lhe.

—A senhora Chancellor foi assassinada—replicou Pitt sem preâmbulos—. Tinha razões para temer que sua esposa tivesse sofrido também algum dano.

Congratula—me que não seja assim, mas está muito penalizada e necessita afeto. O senhor Chancellor não irá hoje ao Ministério de Colônias.

Thorne ficou uns segundos olhando-o, compreendendo mal o que acabava de escutar.

—Sinto muito —repetiu Pitt.

—Susannah? —Thorne parecia agora surpreso. Não cabia engano na realidade de sua emoção—. Tem certeza? Sinto muito, que pergunta tão absurda. Certamente que o está, do contrário não teria vindo aqui.

—Mas como? Por que? O que aconteceu? Por que, no nome de Deus, pensou você que Christabel estava relacionada? —Escrutinou o rosto do Pitt como se tivesse podido ver nele alguma resposta mais imediata que as palavras.

—O senhor Chancellor achava que sua esposa tinha intenção de visitar ontem à noite à senhora Thorne— respondeu Pitt—. Mas ao que parece não chegou a vir.

—Não! Não a esperávamos.

—Isso me disse a senhora Thorne.

—Santo céu, é espantoso! Pobre Susannah. Era uma das mulheres mais adoráveis que conheci, adorável no verdadeiro sentido da palavra, Pitt.

Não estou pensando em seu rosto, mas no espírito que iluminava seu interior, a paixão, a coragem, o coração.

Desculpe-me, volte mais tarde e pergunte tudo o que quiser, mas agora devo ir com minha mulher. Sentia um grande afeto por Susannah —E sem acrescentar nada mais se voltou para a biblioteca, deixando que Pitt encontrasse ele sozinho a saída.

Era ainda muito cedo para esperar que houvesse alguma informação do legista.

Mal acabaria de receber o cadáver. As provas materiais eram escassas. Tal como havia dito o barqueiro, era possível que a tivessem jogado à água corrente acima, depois da maré mudar por volta das duas e meia, e logo se viu arrastada águas abaixo; mas também era possível que a tivessem atirado mais abaixo, de onde a acharam e que a enchente da maré a tivesse levada águas acima, até que ao mudar a vazante da maré o corpo teria ficado onde o acharam.

Mas, igualmente verossímil que qualquer destas duas possibilidades era que a tivessem atirado virtualmente onde a acharam. Mais abaixo da Torre só havia Wapping, Rotherhithe, Limehouse, os Surrey Docks e a ilha dos Cães.

Deptford e Greenwich estavam muito longe para que tivesse podido remontar o corpo no breve lapso de tempo antes da passagem do fluxo à vazante. Que demônios poderia estar fazendo Susannah Chancellor em quaisquer daqueles lugares?

Rio acima havia lugares mais verossímeis: a Ponte de Londres, Blackfriars, Waterloo; inclusive Westminster não estava muito longe. Estava falando de vários quilômetros. Claro que o mais provável é que a atirassem de alguma ponte ou da margem norte, por quanto era nesse lado onde a tinha jogado a água.

Parecia-lhe impossível por outro lado que o fato tivesse acontecido onde a acharam, na Torre de Londres