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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O CADERNO DE MAYA / Isabel Allende
O CADERNO DE MAYA / Isabel Allende

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Esta Maya fez-me sofrer mais do que qualquer outra das minhas personagens. Em algumas cenas apeteceu-me dar-lhe um par de estalos para chamá-la à razão, e noutras envolvê-la num abraço apertado para a proteger do mundo e do seu próprio coração imprudente.

Há uma semana, a minha avó deu-me um abraço sem lágrimas no aeroporto de São Francisco e voltou a dizer-me que, se dava valor à vida, não entrasse em contacto com

ninguém conhecido até termos a certeza de que os meus inimigos já não andavam à minha

procura. A minha Nini é paranoica, como o são os habitantes da República Popular Independente de Berkeley, que se crêem perseguidos pelo governo e pelos extraterrestres, mas no meu caso não estava a exagerar, pois todos os cuidados eram poucos. Deu-me um caderno de cem folhas para manter um diário da minha vida, como tinha feito dos oito aos quinze, quando o meu destino se entortou. Não te vai faltar tempo para te aborreceres Maya. Aproveita para escreveres sobre as asneiras monumentais que fizeste, para ver se compreendes o seu devido peso, disse-me. Há vários diários meus, selados com fita-adesiva industrial, que o meu avô costumava guardar fechados à chave no seu escritório e agora estão metidos numa caixa de sapatos debaixo da cama da minha avó. Este seria o meu caderno número 9. A minha Nini acredita que os cadernos vão ser úteis um dia que faça psicanálise, porque encerram as chaves para desatar os nós da minha personalidade; no entanto, se os tivesse lido saberia que contêm um monte de fábulas capazes de derorientar o próprio Freud. Por princípio, a minha avó desconfia dos profissionais que cobram à hora, já que os resultados rápidos não lhes são nada convenientes, mas abre uma exceção para os psiquiatras, porque um a salvou da depressão e das armadilhas da magia quando lhe deu na cabeça pôr-se a tentar comunicar com os mortos.

   Pus o caderno na minha mochila para não a ofender, sem nenhuma intenção de o vir a usar, mas a verdade é que aqui o tempo demora a passar e escrever é uma forma de ocupar as horas. Esta primeira semana no exílio foi longa para mim. Estou numa ilha quase invisível no mapa, em plena Idade Média. Acho difícil escrever sobre a minha vida, porque não sei quanto são recordações e quanto é produto da minha imaginação. A verdade pura pode ser entediante, por isso, sem mesmo me aperceber, mudo-a ou exagero-a, mas pretendo corrigir esta falha e mentir o menos possível no futuro. E é assim que, no momento presente, quando até mesmo os índios Yanomani da Amazónia usam computadores, eu estou a escrever à mão. Demoro bastante tempo, e devo estar a escrever no alfabeto cirílico, porque nem mesmo eu consigo decifrar a minha letra, mas suponho que irá ficando mais clara de página para página.

 

 

 

 

   Escrever é como andar de bicicleta: nunca se esquece, mesmo se passarmos anos sem praticar. Tento avançar segundo uma ordem cronológica, já que a narrativa deve seguir algum tipo de ordem e pensei que assim seria fácil, mas perco o fio à meada, perco-me por caminhos secundários ou esqueço-me de algo importante várias páginas mais à frente e já não há forma de o intercalar no relato. A minha memória move-se em círculos, espirais e saltos de trapezista.

Chamo-me Maya Vidal, dezanove anos, sexo feminino, solteira, sem namorado por falta de oportunidade e não por esquisitice, nas cida em Berkeley, Califórnia, com passaporte americano, temporária mente refugiada numa ilha no sul do mundo. Chamaram-me Maya porque a minha Nini adora a índia e não ocorreu outro nome aos meus pais, embora tenham tido nove meses para pensar no assunto. Em hindi, Maya significa «feitiço, ilusão, sonho», o que não tem nada a ver com o meu carácter. Átila teria sido mais apropriado, pois onde ponho o pé a erva não volta a crescer. A minha história começa no Chile com a minha avó, a minha Nini, muito antes de eu nascer, porque se ela não tivesse emigrado não se teria apaixonado pelo meu Popo nem se teria instalado na Califórnia, o meu pai não teria conhecido a minha mãe e eu não seria eu, mas uma jovem chilena muito diferente.

     E como sou eu? Um metro e oitenta, cinquenta e oito quilos quando jogo futebol e vários quilos mais quando me descuido, pernas musculadas, mãos desajeitadas, olhos azuis ou cinzentos, segundo a hora do dia, e acho que sou loura mas não tenho a certeza, uma vez que há vários que não vejo a cor natural do meu cabelo. Não herdei o aspeto exótico da minha avó, com a sua pele cor de azeitona e aquelas olheiras escuras que lhe dão um ar depravado, ou do meu pai, aprumado como um toureiro e igualmente vaidoso, nem tão-pouco me pareço com o meu avô - o meu magnífico Popo -, que por infelicidade não é o meu antepassado biológico, mas o segundo marido da minha Nini.

     Pareço-me com a minha mãe, pelo menos no tamanho e na cor. A minha mãe não era nenhuma princesa da Lapónia, como pensava antes de ter uso da razão, mas uma hospedeira de voo dinamarquesa por quem o meu pai piloto comercial, se apaixonou em pleno ar. O meu pai era demasiado jovem e pobre para se casar, mas meteu na cabeça que aquela era a mulher da sua vida e perseguiu-a teimosamente até que ela cedeu por cansaço. Ou talvez tenha cedido porque estava grávida. A verdade é que se casaram e se arrependeram ao fim de uma semana

mas ficaram juntos até ao meu nascimento. Alguns dias depois de eu nascer enquanto o marido andava pelos ares, a minha mãe fez as malas, enrolou-me numa mantinha, apanhou um táxi e foi ver os sogros. A minha Nini andava por São Francisco a protestar contra a guerra do Golfo, meu Popo estava em casa e recebeu o volume que a minha mãe lhe entregou sem lhe dar muitas explicações antes de correr para o táxi que a esperava. A neta era tão leve que cabia numa só mão do avô. Pouco depois, a dinamarquesa mandou por correio os papéis do divórcio e, de brinde, a renúncia à custódia da filha. A minha mãe chamava-se Marta Otter e conheci-a no verão dos meus quando os meus avós me levaram à Dinamarca.

   Encontro-me no Chile, o país da minha avó Nidia Vidal, onde o oceano come a terra às dentadinhas e o continente sul-americano se desfia em ilhas. Para ser mais precisa, estou em Chiloé, parte da Região dos Lagos, entre o paralelo 41 e o paralelo 43, latitude sul, um arquipélago com mais ou menos nove mil quilómetros quadrados de superfície e uns duzentos mil habitantes, todos mais baixos que eu. Na língua mapuche, o idioma dos indígenas da região, Chiloé quer dizer «terra da gaivota-maria-velha»(1), que é uma espécie de gaivota de cabeça negra que faz muito barulho, mas deveria chamar-se terra de madeira e batatas. Para além da Ilha Grande, onde se encontram as cidades mais povoadas, existem muitas ilhas pequenas, várias das quais desabitadas. Algumas encontram-se em grupos de três e quatro e estão tão próximas umas das outras que na maré baixa se tocam, mas eu não tive a sorte de ir parar a uma destas e vivo a quarenta e cinco minutos, em lancha a motor e com mar calmo, da localidade mais próxima.

A minha viagem desde o norte da Califórnia até Chiloé começou no nobre Volkswagen amarelo da minha avó, que sofreu dezassete embates desde 1999 mas anda como um Ferrari. Parti em pleno inverno, num daqueles dias de vento e chuva em que a baía de São Francisco perde as cores e parece desenhada com caneta de tinta permanente, em tons de branco, preto e cinzento. A minha avó conduzia ao seu estilo, aos solavancos, agarrada ao volante como a um salva-vidas, com os olhos postos em mim mais que na estrada, ocupada a dar-me as últimas instruções. Ainda não me tinha explicado exatamente para onde me ia mandar; Chile era tudo o que tinha referido ao traçar o plano para me fazer desaparecer. No carro, revelou-me os pormenores e entregou-me um guiazinho turístico em edição barata.

   - Chiloé? Que lugar é esse? - perguntei.

   - Tens aí toda a informação necessária - respondeu ela, indicando o livro.

   - Parece muito longe...

   - Quanto mais longe fores, melhor. Em Chiloé conto com um amigo, o Manuel Arias, a única pessoa neste mundo, tirando o Mike 0'Kelly, a quem me atreveria a pedir para te esconder um ano ou dois.

   - Um ano ou dois! Estás avariada da cabeça, Nini!

   - Olha, menina, há momentos em que não temos controlo nenhum sobre a nossa própria vida; as coisas acontecem, é tudo. Este é um desses momentos- anunciou-me com o nariz encostado ao pára- brisas, tentando orientar-se enquanto dávamos voltas às cegas pelo emaranhado de autoestradas.

Chegávamos a correr ao aeroporto, despedimo-nos sem grandes sentimentais e a última imagem que guardo dela é doVolkswagen afastando-se aos solavancos sob a chuva. Viajei váriashoras até Dallas, apertada entre a janela e uma gorda que cheirava a amendoim torrado, e a seguir apanhei outro voo de dez horas para Santiago do Chile, acordada e cheia de fome, recordando, pensando e lendo o livrinho sobre Chiloé, que exaltava as virtudes da paisagem, das igrejas de madeira e da vida rural. Fiquei apavorada. O dia 2 de janeiro deste ano de 2009 amanheceu com um céu alaranjado sobre as montanhas arroxeadas dos Andes, definitivas, eternas, imensas, e a voz do piloto anunciou a aterragem. Logo apareceu um vale verde, filas de árvores, pastagens verdejantes e, ao longe, a cidade de Santiago do Chile nasceram a minha

avó e o meu pai e onde se encontra um pedaço misterioso da história da minha família.

     Sei muito pouco acerca do passado da minha avó, do qual ela raramente fala, como se a sua vida tivesse começado quando conheceu o meu Popo. Em 1974, no Chile, morreu o seu

primeiro marido, Felipe Vidal, após o golpe militar que derrubou o governo socialista de Salvador Allende e estabeleceu uma ditadura no país. Quando se viu viúva, a minha avó decidiu que não queria viver num regime opressor e emigrou para o Canadá com o filho Andrés, o meu pai. Este não consegue acrescentar muito à história, porque se lembra pouco da sua infância, mas continua a venerar o pai, do qual subsistem somente três fotografias.

   - Não vamos voltar, pois não? - disse Andrés quando iam no avião que os levou para o Canadá.

   - Não foi uma pergunta, mas uma acusação. O meu pai tinha nove anos e, nos meses anteriores, tinha crescido muito em termos psicológicos; queria explicações, porque percebera que a mae o tentava proteger com mentiras e meias-verdades. Tinha aceitado corajosamente a noticia do súbito ataque cardíaco do pai, bem como a noticia de que este fora enterrado sem que pudesse ver o corpo para se despedir. Pouco depois, viu-se num avião com destino ao Canadá.

   - É claro que vamos voltar, Andrés - garantiu a minha avó, mas o meu pai não acreditou.

   Em Toronto foram recebidos por voluntários do Comité para os Refugiados; forneceram-lhes roupa adequada e instalaram-nos num apartamento mobilado com as camas feitas e o frigorífico cheio. Nos três primeiros dias, enquanto duraram as provisões, mãe e filho permaneceram trancados em casa, tiritando de solidão, mas no quarto receberam a visita de uma assistente social que falava bem espanhol e os informou dos apoios e direitos de cada cidadão no Canadá. Antes de mais nada, receberam aulas intensivas de inglês e o menino foi matriculado na escola correspondente; depois, Nidia arranjou emprego como motorista, para evitar a humilhação de receber uma esmola do Estado sem trabalhar para isso. Era o emprego menos adequado para a minha Nini, que, se hoje guia pessimamente, naquela altura guiava ainda pior.

   O breve outono canadiano deu lugar a um inverno polar, ótimo para Andrés, a quem agora chamavam Andy, que descobriu as alegrias da patinagem no gelo e do esqui, mas insuportável para Nidia, que nunca se conseguia sentir quente ou ultrapassar a tristeza de ter perdido marido e país. O seu humor não melhorou com a chegada de uma hesitante primavera nem com as flores que, numa só noite, brotaram como uma miragem onde antes havia neve dura. Sentia-se sem raízes e tinha a mala sempre feita, esperando a oportunidade de voltar ao Chile mal a ditadura terminasse, sem imaginar que isto tardaria dezasseis anos a acontecer.

   Nidia Vidal permaneceu em Toronto dois anos, contando os dias e as horas, até que conheceu Paul Ditson II, o meu Popo, um professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, que tinha ido a Toronto dar uma série de conferências sobre um esquivo planeta, cuja existência tentava provar mediante cálculos poéticos e saltos de imaginação O meu Popo era um dos poucos astrónomos afro-americanos numa profissão esmagadoramente dominada por brancos, uma eminência na sua área e autor de vários livros. Em jovem, passara um ano no Lago Turkana, no Quénia, a estudar os antigos megálitos da região e, com base nas suas descobertas arqueológicas, desenvolvera a teoria de aquelas colunas de basalto tinham sido observatórios astronómicos utilizados trezentos anos antes da era cristã para determinar o calendário lunar Borana, que os pastores da Etiópia e do Quénia continuam ainda a usar. Em África aprendeu a observar o céu sem ideias pré-concebidas e assim nasceram as suas suspeitas sobre a existência do planeta invisível que depois procurou inutilmente no céu com os telescópios mais poderosos.

   A Universidade de Toronto instalou-o numa suíte para visitantes académicos e alugou-lhe um carro através de uma agência, e foi deste modo que Nidia Vidal se viu a escoltar o professor durante a sua estada. Ao saber que a sua motorista era chilena, este contou-lhe que estivera no observatório de Silla, no Chile, e que no hemisfério sul se veem constelações desconhecidas no norte, como as galáxias da Pequena Nuvem de Magalhães e da Grande Nuvem de Magalhães, e que em algumas partes as noites são tão límpidas e o clima tão seco que se tornam ideais para esquadrinhar o firmamento. Foi assim que se descobriu que as galáxias se agrupam em desenhos parecidos com teias de aranha. Por uma daquelas coincidências romanescas, o astrónomo terminara a sua visita ao Chile no mesmo dia de 1974 em que a minha avó partira com o filho para o Canadá. Ocorreu-me que talvez tenham estado juntos no aeroporto, esperando os respetivos voos, sem se conhecerem, mas segundo eles isso seria impossível, porque o meu Popo teria reparado naquela bela mulher e ela também o teria visto, pois no Chile daquela altura um negro chamava a atenção, especialmente um tão alto e garboso como o meu Popo.

   Bastou a Nidia uma manhã a conduzir por Toronto com o passageiro no banco de trás para compreender que este possuía a rara combinação de uma mente brilhante com a fantasia de um sonhador, mas lhe faltava por completo o sentido prático do qual ela tanto se orgulhava. A minha Nini nunca me conseguiu explicar como chegou a esta conclusão ao volante do carro e em pleno transito, mas o facto é que acertou em cheio. O astrónomo vivia tão perdido como o planeta que procurava nos céus. Em menos de um piscar de olhos, conseguia calcular quanto tempo demoraria a chegar à Lua uma nave espacial viajando a vinte e oito mil, trezentos e três quilómetros por hora, mas ficava perplexo diante de uma cafeteira elétrica. A minha avó não senha o difuso esvoaçar do amor desde há anos e aquele homem, muito diferente de todos os que tinha conhecido nos seus trinta e três ano, intrigava-a e atraía-a.

   O meu Popo, bastante assustado com a audácia ao volante da SUA motorista, também se sentia curioso acerca da mulher que se escondia atrás de um uniforme demasiado grande e de um gorro de caçador de ursos. Não era homem de ceder facilmente a impulsos sentimentais E se por acaso lhe passou pela cabeça a ideia de a seduzir, descartou-a de imediato por lhe parecer uma chatice. A minha Nini, pelo contrário, achando que não tinha nada a perder, decidiu atirar-se ao astrónomo antes que acabassem as conferências. Agradava-lhe a sua pele cor DE mogno - queria contemplá-lo de alto a baixo - e pressentia que os DOIS tinham muito em comum, ele com a astronomia e ela com a astrologia que na opinião da minha avó era quase a mesma coisa. Achou que ambos tinham vindo de longe para se encontrarem naquele ponto do globo e dos seus destinos, porque era assim que estava escrito nas estrelas. Já nessa altura a minha avó era dependente do horóscopo, mas não foi por isso que deixou tudo ao acaso. Antes de tomar a iniciativa de o atacar de surpresa, deu-se ao trabalho de descobrir que era solteiro, com boa situação económica, saudável e apenas onze anos mais velho que ela, embora à primeira vista pudesse parecer sua filha se tivessem sido da mesma raça. Anos mais tarde, o meu Popo conta- ria, a rir, que se ela não o tivesse posto fora de combate no primeiro assalto, ainda continuaria a viver apaixonado pelas estrelas.

   Ao segundo dia, o professor sentou-se no lugar da frente para observar melhor a sua motorista e esta deu várias voltas desnecessárias pela cidade para lhe dar tempo para isso. Nessa mesma noite, depois de dar de comer ao filho e de o deitar, Nidia despiu o uniforme, tomou um duche, pintou os lábios e apresentou-se diante da sua presa com o pretexto de lhe devolver uma capinha que o professor tinha deixado no carro e a minha avó lhe podia perfeitamente ter entregue na manhã seguinte. Nunca tomara uma decisão amorosa tão atrevida. Chegou ao hotel desafiando um vento gelado, subiu até à suite, benzeu-se para ganhar coragem e bateu à porta. Eram onze e meia da noite quando se introduziu definitivamente na vida de Paul Ditson

 

   Em Toronto, a minha Nini tinha vivido como uma reclusa. De noite ansiava pelo peso de uma mão masculina na cintura, mas tinha de sobreviver e criar o filho num país onde seria eternamente estrangeira, pelo que não lhe sobrava tempo para sonhos românticos. A coragem que naquela noite reunira para ir até ao quarto do astrónomo esfumou-se mal este lhe abriu a porta em pijama e com ar de ter estado a dormir. Olharam-se durante meio minuto sem saber que dizer, uma vez que ele não a esperava e a ela lhe faltava um plano de ação, até que ele a convidou a entrar, surpreendido pela diferença do seu aspeto sem o chapéu e o uniforme. Admirou o seu cabelo escuro, o seu rosto de feições irregulares e o seu sorriso um pouco torto, que antes tinha observado apenas de fugida. A minha avó, por seu lado, surpreendeu-se com a diferença de tamanho entre ambos, menos notável dentro do carro: em bicos de pés conseguiria apenas tocar com o nariz no esterno do gigante. A seguir, deu conta da desordem de cataclismo

nos reduzidos aposentos do professor e concluiu que aquele homem precisava seriamente dela.

Paul Ditson II tinha passado a maior parte da sua existência a estudar o misterioso comportamento dos corpos astrais, mas percebia muito pouco de corpos femininos e nada dos caprichos do amor. Nunca se tinha apaixonado e a sua relação mais recente era com uma colega de faculdade com quem se encontrava duas vezes por mês, uma judia atraente e em boa forma para a idade, que insistia sempre em pagar metade da conta no restaurante. A minha Nini só tinha amado dois homens na vida, o seu marido e um amante que tinha arrancado da cabeça e do coração dez anos antes. O marido fora um companheiro bastante despistado, sempre absorto no seu trabalho e na ação política, que viajava sem parardemasiado distraído para reparar nas necessidades da mulher; o amante fora uma relação sem futuro. Nidia Vidal e Paul Ditson II estavam prontos para o amor que os uniria até à morte.

   Ouvi muitas vezes o relato possivelmente romanceado, da história de amor dos meus avós e cheguei a decorá-lo palavra por palavra, como se tratasse de um poema. Como é óbvio não conheço os pormenores do que se passou naquela noite à porta fechada, mas posso imaginá-los com base no conhecimento que tenho de ambos.

Suspeitaria o meu Popo, ao abrir a porta àquela chilena, que se encontrava numa encruzilhada transcendental e que o caminho que escolhesse determinaria o seu futuro? Não, de certeza que tamanha pirosice não lhe terá ocorrido. E a minha Nini? Vejo-a a avançar como uma sonâmbula entre a roupa espalhada pelo chão e os cinzeiros cheios de beatas, atravessar a salinha, entrar no quarto e sentar-se na cama, porque o cadeirão e as cadeiras estavam todos ocupados com livros e papéis. Ou talvez ele se tenha ajoelhado ao lado dela para a abraçar, e assim teriam permanecido um bom bocado, procurando acostumar-se à repentina intimidade. Talvez ela tenha começado a sufocar com o aquecimento e ele a tenha ajudado a tirar o casaco e as botas, e depois acariciaram-se hesitantemente, reconhecendo-se, tateando a alma para se assegurarem de que não estavam enganados. Cheiras a tabaco e a sobremesa. E és liso e negro como uma foca, comentaria a minha Nini. Muitas vezes a ouvi dizer esta frase.

   Não tenho necessidade de inventar a última parte da lenda, porque ma contaram. Durante aquele primeiro abraço, a minha Nini chegou à conclusão de que tinha conhecido o astrónomo noutras vidas e noutros tempos, de que aquilo era somente um reencontro e de que os seus signos astrais e os seus arcanos do Tarot se complementavam.

   - Menos mal que és homem, Paul. Imagina se nesta encarnação tivesse calhado seres minha mãe... - suspirou ela, sentada nos joelhos dele.

   - Mas como não sou tua mãe, que achas de nos casarmos? - respondeu ele.

   Duas semanas mais tarde, a minha avó chegou à Califórnia arrastando atrás de si o filho que não queria emigrar outra vez, munida de um visto concedido ao abrigo da sua relação com o professor, com validade de três meses, ao cabo dos quais devia casar-se ou sair do país. Casaram-se.

   Passei o meu primeiro dia no Chile dando voltas por Santiago com um mapa na mão, num calor pesado e seco, fazendo horas para apanhar um autocarro em direção ao sul. Santiago é uma cidade moderna, sem nada de exótico ou pitoresco. Não há índios vestidos com trajes típicos nem bairros coloniais pintados de cores atrevidas, como tinha visto com os meus avós na Guatemala e no México. Subi num funicular até ao cimo de uma colina, passeio obrigatório para os turistas, e pude ficar com uma ideia do tamanho da capital, que parece não terminar em lado nenhum, e da poluição que a cobre como uma névoa empoeirada. Ao entardecer, embarquei num autocarro cor de damasco rumo ao sul e a Chiloé.

   Tentei em vão dormir, embalada pelo movimento, pelo ronronar do motor e pelo ressonar dos outros passageiros, mas nunca me foi fácil dormir e é-o muito menos agora, que ainda conservo resíduos da má vida nas veias. Ao amanhecer, o autocarro deteve-se para os passageiros poderem tomar um café e ir à casa de banho numa pousada, no meio de uma paisagem pastoral de colinas verdes e vacas a pastar, e depois continuamos por várias horas mais até um cais rudimentar, onde pudemos desentorpecer os ossos e comprar empadas de queijo e marisco a algumas mulheres vestidas com batas brancas de enfermeiras. O autocarro subiu para um ferry para atravessarmos o Canal de Chacao e navegámos silenciosamente durante meia hora por um mar luminoso. Desci do autocarro para espreitar pela amurada junto com o resto dos entorpecidos passageiros que, como eu, estavam há muitas horas presos aos seus assentos. Desafiando o vento cortante, admirámos os bandos de andorinhas, que se assemelhavam a lenços a ondear no céu, e as toninhas, uns golfinhos de ventre branco que acompanhavam a embarcação a dançar. O autocarro deixou-me em Ancud, na Ilha Grande, a segunda cidade mais importante do arquipélago, e ali deveria apanhar outro para ir até à aldeia onde me esperava Manuel Arias, mas descobri que me faltava a carteira. A minha Nini tinha-me prevenido contra os carteiristas chilenos e a sua habilidade de ilusionistas: roubam-nos a alma amavelmente. Por sorte, não me levaram a foto do meu Popo e o passaporte, que trazia noutro bolsinho da mochila.

Estava sozinha, sem um centavo, num país desconhecido, mas, se as minhas infaustas aventuras no ano anterior me tinham ensinado algo, fora a não me deixar abater por inconvenientes de pouca monta.

Numa das pequenas lojas de artesanato da praça, que vendia tecidos de Chiloé,     havia três mulheres sentadas em círculo, conversando e tecendo, e supus que, se fossem como a minha Nini, me iriam ajudar. As chilenas saltam em auxílio de alguém em apuros,

especialmente se for forasteiro. Expliquei-lhes o problema no meu espanhol vacilante e, de imediato, largaram os seus pauzinhos e ofereceram-me uma cadeira e um refrigerante de laranja, enquanto discutiam o meu caso, cortando a palavra umas às outras para opinar. Fizeram várias chamadas por telemóvel, conseguiram-me boleia com um primo que ia na minha direção, me podia levar dali a um par de horas e não via incómodo em desviar-se um pouco para me deixar no meu destino.

   Aproveitei o tempo de espera para visitar a aldeia e um museu das igrejas de Chiloé, desenhadas por missionários jesuítas há trezentos anos e erguidas tábua a tábua pelos chilotes, que são mestres da madeira e construtores de embarcações. As estruturas mantêm-se de pé por via de engenhosos acoplamentos, sem um único prego, e os tetos abobadados são botes invertidos. A saída do museu, encontrei o cão. Era de tamanho médio, coxo, com um pelo teso e encanecido e uma cauda lamentável, mas tinha a atitude digna de um animal com pedigree. Ofereci-lhe a empada que tinha na mochila, ele agarrou-a com delicadeza entre os grandes dentes amarelos, pousou-a no chão e olhou-me, dizendo-me claramente que a sua fome não era de comida mas de companhia. A minha madrasta, Susan, era treinadora de cães e ensinou-me a não tocar num animal antes que o mesmo se aproxime, sinal de que se sente seguro, mas naquele caso saltámos o protocolo e demo-nos bem desde o início. Andámos por ali juntos a fazer turismo e, à hora acordada, regressei para junto das tecedeiras. O cão permaneceu fora da loja, com uma só pata pousada na ombreira, educadamente.

   O primo demorou mais uma hora para além do anunciado a aparecer e chegou num furgão cheio até ao teto, acompanhado pela mulher e um menino de peito. Agradeci às minhas benfeitoras, que também me tinham emprestado o telemóvel para ligar a Manuel Arias

e despedi-me do cão, mas este linha outros planos. Sentou se a meus pés varrendo o chão com a cauda e sorrindo como uma hiena. Tinha-me feito o favor de me distinguir com a sua atenção e agora eu era a sua afortunada humana. Mudei de tática.

   - Shoo! Fucking dog! – gritei-lhe em inglês.

     O cão não se mexeu, enquanto o primo observava a cena com pena.

     - Não se preocupe, menina, podemos levar o seu Fakin - disse, por fim.

   E desta forma, aquele animal acinzentado ganhou o seu novo nome quando talvez na sua vida anterior se chamasse Príncipe. Só com muito esforço coubemos todos no veículo apinhado e, uma hora mais tarde, chegámos à aldeia onde devia encontrar-me com o amigo da minha avó, com quem tinha combinado ir ter na igreja frente ao mar.

     A aldeia, fundada pelos espanhóis em 1567, é das mais antigas do arquipélago e conta com dois mil habitantes, mas não sei onde se teriam metidos todos, porque viam-se mais galinhas e ovelhas que seres humanos. Esperei por Manuel um bom bocado, sentada nas grades de uma igreja pintada de azul e branco, na companhia do Fakin e observava a certa distância por quatro rapazinhos silenciosos e sérios. De Manuel apenas sabia que tinha sido amigo da minha avó e que não se viam desde os anos setenta, mas se tinham mantido em contacto de modo esporádico, primeiro por carta, como era costume na pré- história, e depois por email.

Manuel Arias apareceu finalmente e reconheceu-me pela descrição que a minha Nini lhe

tinha feito por telefone. Que lhe teria ela dito? Que sou um obelisco de cabelos pintados de quatro cores primárias com uma argola no nariz. Manuel estendeu-me a mão observando-me com um olhar rápido avaliando os vestígios de verniz azul nas minhas unhas roídas, os jeans encardidos e as botas da tropa pintadas com spray cor-de –rosa, que arranjei numa loja do Exército de Salvação quando era mendiga.

   - Sou Manuel Arias - apresentou-se o homem, em inglês.

   - Olá. O FBI, a Interpol e uma máfia criminosa de Las Vegas andam atrás de mim – anunciei-lhe de rompante, para evitar mal-entendidos.

   - Os meus parabéns - respondeu.

   - Não matei ninguém e, francamente, não acho que se deem ao trabalho de me vir buscar ao cu do mundo.

   - Obrigado.

   - Desculpa, não quis insultar a tua terra, homem. Na verdade, isto aqui é bem bonito, é muito verde e tem muita água, mas tens de ver o longe que fica.

   - De quê?

   - Da Califórnia, da civilização, do resto do mundo. A minha Nini não me disse que ia estar frio.

   - Estamos no verão - informou-me.

   - Verão em janeiro, onde já se viu!

   - No hemisfério sul - replicou secamente.

   Estamos mal, pensei, este tipo não tem sentido do humor. Manuel convidou-me a tomar um chá, enquanto esperávamos por um camião que lhe vinha trazer um frigorífico e devia ter chegado há três horas. Entrámos para uma casa marcada por um trapo branco hasteado num pau, como uma bandeira de tréguas, sinal de que ali se vendia pão fresco. Tinha quatro mesas rústicas com toalhas de tule e cadeiras de vários tipos, um expositor e um fogão, onde uma cafeteira negra DE fuligem fervia. Uma mulher corpulenta, de riso contagiante, cumprimentou Manuel Arias com um beijo na face e observou-me um pouco desconcertada antes de se decidir a dar-me um beijo também.

   - Americana? - perguntou a Manuel.

   - Não se nota? - disse ele.

   - E que foi que lhe passou pela cabeça? - acrescentou a mulher indicando o meu cabelo pintado.

        - Nasci assim - informei-a, irritada.

   - A gringuita fala língua de gente - exclamou ela, encantada. - Sentem-se, já vos trago um chazinho.

   Agarrou-me por um braço e sentou-me com determinação numa das cadeiras, enquanto Manuel me explicava que, no Chile, chamavam gringo a qualquer pessoa loura anglofalante e que, quando se usava a palavra no diminutivo - gringuito ou gringuita - se tratava de um termo afetuoso.

   A dona do estabelecimento trouxe-nos chá em saquinhos e uma pirâmide de pão amassado e fragrante acabado de sair do torno, manteiga e mel, e depois instalou- se junto a nós para ter a certeza de que eu comia como deve ser. Pouco depois, ouvimos os espirros do camião que avançava aos tropeções pela rua de terra semeada de buracos, balançando um frigorífico na parte de trás.

     A mulher assomou à porta, assobiou e rapidamente se juntaram vários homens para ajudar a descer o aparelho, carregá-lo até à praia e subido para o bote a motor de Manuel por um passadiço de tábuas. A embarcação tinha cerca de oito metros de comprimento e era de fibra de vidro, pintada de branco, azul e vermelho, as cores da bandeira chilena que ondulava na proa, quase igual à do Texas. No costado via-se o nome: Cahuilla. Os jovens amarraram o frigorífico na vertical o melhor que puderam e ajudaram-me a subir para o barco. O cão seguiu-me com o seu trotezinho patético; tem uma pata meio encolhida e anda de lado.

   - E esse aí? - perguntou-me Manuel.

   - Não é meu, colou-se a mim em Ancud. Disseram-me que os cães chilenos são muito inteligentes e este é de boa raça.

   - Deve ser alemão cruzado com fox terrier. Tem corpo de cão grande e patas cão pequeno - disse Manuel.

   - Quando lhe der banho, vais ver que é de qualidade.  

   - Como se chama? - perguntou Manuel.

   - Fucking dog em chileno.

   - Como?

   - Fakin

   - Espero que tu e o Fakin se dêem bem com os meus gatos. Vais ter o prender de noite, para não andar a matar ovelhas - avisou-me.

   - Não vai ser preciso, vai dormir comigo.

   Fakin agachou-se contra o fundo do bote, com o nariz entre as patas dianteiras, e ali permaneceu imóvel, sem tirar os olhos de mim. Não é carinhoso, mas entendemo-nos na linguagem da flora e da fauna: o esperanto telepático.

     Do horizonte rolava uma avalancha de nuvens enormes e corria uma brisa gelada, mas o mar estava tranquilo. Manuel emprestou-me um poncho de lã e já não disse mais nada,concentrado no leme e nos seus aparelhómetros, compasso, GPS, radiotransmissor e sabe Deus que mais enquanto eu o estudava pelo canto do olho. A minha Nini tinha-me contado que Manuel era sociólogo, ou algo do género, mas no seu botezinho poderia passar por marinheiro, de estatura média, magro, forte, só fibra e músculo, curtido pelo vento salgado, com rugas de carácter, cabelo curto e teso, olhos da mesma cor cinzenta da cabeleireira.

Não sei calcular a idade das pessoas velhas. Este vê-se bem ao longe, porque continua a caminhar rapidamente e ainda não ganhou aquela corcunda típica dos anciãos, mas de perto nota-se que é mais velho que a minha Nini, digamos que terá uns setenta e tal anos. Eu caí como uma bomba na sua vida. Vou ter de andar em bicos de pés, para não se arrepender de me ter dado abrigo.

   Ao fim de quase uma hora de navegação, passando perto de várias ilhas de aspeto desabitado, embora não o estejam, Manuel Arias indicou-me um promontório que ao longe era apenas uma mancha escura e, mais perto, se revelou uma colina bordejada por uma praia de rochas e areia escura, onde quatro botes de madeira secavam virados ao contrário. Manuel prendeu o Cahuilla a um cais flutuante e atirou umas cordas grossas a várias crianças, que se tinham aproximado a correr e amarraram habilmente a lancha a uns postes.

   - Bem-vinda à nossa metrópole - disse Manuel, assinalando uma aldeia de casas de madeira assentes em estacas em frente à praia.

   Fui sacudida por um calafrio, porque aquele era agora todo o meu mundo. Um grupo desceu até à praia para me inspecionar. Manuel tinha-lhes anunciado que uma americana o vinha ajudar no seu trabalho de investigação e, se aquela gente esperava alguém de respeitável, apanhou um balde de água fria, porque a t-shirt com o retrato de Obama, que a minha Nini me ofereceu no Natal, não chegava para me tapar o umbigo. Descer o frigorífico sem o inclinar foi tarefa para vários voluntários, que se animavam mutuamente entre gargalhadas, com pressa porque começava a escurecer. Subimos à aldeia em procissão, com o frigorífico à frente, a seguir Manuel e eu, mais atrás uma dezena de miúdos aos gritos e, na retaguarda, uma heterogénea leva de cães ladrando furiosamente a Fakin, mas sem se aproximarem demasiado, porque a sua atitude de supremo desprezo indicava, claramente, que o primeiro que o fizesse sofreria as consequências. Parece que o Fakin é difícil de intimidar e não permite que lhe cheirem o traseiro.

   Passámos diante de um cemitério, onde pastavam umas cabras com os úberes inchados, entre flores de plástico e casas de boneca assinalando as sepulturas, algumas com móveis para uso dos mortos.

   Na aldeia,as palafitas comunicavam através de pontes de madeira e, na rua principal – para lhe chamar alguma coisa -, vi burros, bicicletas, um jipe com o emblema com espingardas cruzadas dos carabineiros, a polícia chilena, e três ou quatro carros velhos, que na Califórnia seriam de coleção se estivessem menos degradados. Manuel explicou-me que, por causa do terreno irregular e da lama inevitável no inverno, os transportes pesados fazem-se em carros de bois, os leves no lombo de mulas e as pessoas deslocavam-se a cavalo ou a pé. Alguns letreiros desbotados identificavam lojas modestas, um par de armazéns, uma farmácia, várias tabernas, dois restaurantes, que consistiam numas poucas mesas metálicas diante de pescarias rotineiras, e um sítio com Internet, onde se vendiam pilhas, refrigerantes, revistas e bibelôs para os visitantes, que aparecem uma vez por semana, pela mão de agências de ecoturismo, para provar o melhor curanto de Chiloé. Mais adiante vou dizer como é o curanto, porque ainda não o provei.

     Algumas pessoas vieram observar-me cautelosamente, em silêncio, até que um homem direito e maciço como um armário se decidiu a cumprimentar-me. Limpou a mão às calças antes de ma estender, sorrindo com os dentes revestidos a ouro. Era Aurelio Nancupel, descendente de um célebre pirata e a personagem mais necessária da ilha, porque vende álcool a crédito, arranca dentes e tem um televisor de ecrã plano, de que os seus fregueses desfrutam quando há eletricidade.

     O seu estabelecimento tem o nome bastante apropriado de Taberna do Mortito, pois, devido á sua vantajosa localização perto do cemitério, é paragm obrigatória para entes queridos aliviarem a dor do funeral. Nancupel tornara-se mórmon com a ideia de poder ter várias

Esposas, mas descobriu, tarde de mais, que os mórmones tinham renunciado à poligamia no seguimento de uma nova revelação profética, mais e acordo com a Constituição norte-americana. Assim mo contou Manuel Arias, enquanto o aludido se dobrava de riso, ao som das aclamações dos mirones. Manuel apresentou-me igualmente a outras pessoas, cujos nomes fui incapaz de reter e me pareceram velhos de mais para serem os pais daquela catrefada de miúdos. Agora sei que são os avós, pois a geração intermédia trabalha longe da ilha. Neste ponto, avançou pela rua com ar de autoridade uma mulher cinquentona, robusta, atraente, com o cabelo do tom bege das louras encanecidas preso num tufo desordenado na nuca. Era Blanca Schnake, diretora da escola, a quem as pessoas, por respeito, chamavam tia Blanca. Deu um beijo a Manuel na cara, como é costume aqui, e deu-me as boas-vindas oficialmente em nome da comunidade, o que dissolveu a tensão ambiente e fez apertar-se o círculo de curiosos à minha volta. A tia Blanca convidou-me a visitar a escola no dia seguinte e pôs à minha disposição a biblioteca, dois computadores e videojogos, que posso usar até março, altura em que as crianças regressarão às aulas e haverá limitações em termos de horário. Acrescentou que aos sábados passavam na escola os mesmos filmes que em Santiago, mas grátis. Bombardeou-me com perguntas e resumi-lhe, no meu espanhol de principiante, a minha viagem de dois dias desde a Califórnia e o roubo da minha carteira, o que provocou um coro de gargalhadas das crianças, rapidamente silenciado pelo olhar gélido da tia Blanca.

   - Amanhã vou preparar-vos umas machas ao parmesão, para que a gringuita comece a conhecer a comida chilota. Espero-os por volta das nove - disse a Manuel. Mais tarde, descobri que o correto é chegar com uma hora de atraso. Aqui come-se muito tarde.

   Terminámos o breve percurso pela aldeia, subimos para uma carroça puxada por duas mulas, onde já tinham colocado o frigorífico, e lá fomos sobre rodas por um caminho de terra que mal se via entre as pastagens, seguidos pelo Fakin.

   Manuel Arias vive a uma milha - digamos, a quilómetro e meio - da aldeia, frente ao mar, mas não é possível aceder à propriedade com a lancha por causa das rochas. A sua casa é um bom exemplo da arquitetura da zona, disse-me ele com uma nota de orgulho na voz. A mim pareceu-me igual a outras da aldeia, também está assente sobre estacas e é de madeira, mas Manuel explicou-me que a diferença está nos pilares e nas vigas talhados a machado, as telhas «de cabeça circular», muito apreciadas pelo seu valor decorativo, e a madeira de cipreste das ilhas Guaitecas, antes abundante na região e agora muito escassa. Os ciprestes de Chiloé podem viver mais de três mil anos, são as árvores com maior longevidade do mundo, a seguir aos embondeiros de África e às sequóias da Califórnia.

   A casa consiste numa sala comum de altura dupla, onde a vida decorre à volta de um fogão a lenha, negro e imponente, que serve para aquecer o ambiente e cozinhar. Há dois quartos, um de tamanho médio, ocupado por Manuel, e outro mais pequeno, o meu, e uma casa de banho com lavatório e duche. Não há uma única porta no interior, mas a casa de banho tem uma manta de lã às riscas pendurada na ombreira para proporcionar privacidade. Na parte da sala comum destinada à cozinha há uma grande mesa, um armário e um enorme caixote com tampa para guardar batatas, que em Chiloé são usadas em todos os pratos, e do teto pendem molhos de ervas aromáticas, tranças de alho e de pimento picante, linguiças secas e pesadas caçarolas de ferro, próprias para o fogão a lenha. Ao sótão, onde Manuel tem a maior parte dos seus livros e dossiês, acede-se através de um escadote.

   Nas paredes não se veem quadros, fotografias ou objetos decorativos, nada de pessoal, apenas mapas do arquipélago e um bonito relógio de bordo com caixa de mogno e porcas de bronze, que parece resgatado do Titanic. No exterior, Manuel improvisou um jacuzzi primitivo com um grande barril de madeira.

   As ferramentas, a lenha, o carvão e os bidões de gasolina para a lancha e o gerador são armazenados no alpendre do pátio. O meu quarto é simples como o resto da casa; consiste numa cama estreita coberta com uma manta semelhante à cortina da casa de banho, uma

Cadeira, uma cómoda três gavetas e vários pregos na parede para pendurar roupa. O suficiente para as minhas posses, que me cabem folgadamente na mochila.

   Gosto deste ambiente austero e masculino; a única coisa desconcertante é a ordem maníaca de Manuel Arias, já que sou mais descontraída.

   Os homens colocaram o frigorífico no local correspondente, fizeram a ligação ao gás e depois sentaram- se para partilhar duas garrafas de vinho e um salmão que Manuel tinha defumado na semana anterior num bidão metálico com madeira de macieira. Olhando o mar pela janela, beberam e comeram em silêncio, e as únicas palavras pronunciadas consistiram numa série de elaborados e cerimoniosos brindes:

   - Saúde!

   - Que em saúde se torne.

   - Devolvo as mesmas finezas.

   - Que você viva muitos anos.

   - Que você vá ao meu enterro.

   Manuel olhava-me pelo canto do olho, incomodado, até que o chamei à parte para lhe dizer que ficasse descansado, pois não pensava atirar-me às garrafas. A minha avó de certeza que o pôs de sobreaviso e Manuel tinha planeado esconder o álcool, mas isto seria absurdo, porque o problema não é o álcool, sou eu.

   Entretanto, Fakin e os gatos mediram-se com cautela, distribuindo o território entre si. O tigrado chama-se Gato-Lerdo, porque o seu animal é bastante parvo, e o alaranjado é o Gato-Literato, porque o seu sítio favorito é em cima do computador; Manuel argumenta que sabe ler.

   Os homens terminaram o salmão e o vinho, despediram-se e foram embora. Chamou-me a atenção o facto de Manuel não fazer menção de lhes pagar, como também já não o fizera com os outros que o tinham ajudado antes a transportar o frigorífico, mas teria sido imprudente da minha parte interrogá-lo a respeito do assunto.

   Examinei o escritório de Manuel, composto por duas escrivaninhas, um móvel de arquivo, estantes de livros, um computador moderno de ecrã duplo, um fax e uma impressora. Tinha Internet, mas recordou-me - como se eu pudesse esquecê-lo - que me encontro incomunicável. À defensiva, acrescentou que tinha todo o seu trabalho naquele computador e preferia que ninguém lhe tocasse.

   - Em que trabalhas? - perguntei.

   - Sou antropólogo.

   - Antropófago?

   - Estudo as pessoas, não as como - respondeu.

   - Era uma brincadeira, homem. Os antropólogos já não têm matéria-prima, agora até o último selvagem do mundo tem telemóvel e televisão.

   - A minha especialidade não são os selvagens. Estou a escrever um livro sobre a mitologia de Chiloé.

   - E pagam-te por isso?

   - Quase nada – informou-me.

   - Nota-se que és pobre.

           - Sim, mas vivo de maneira modesta.

- Não queria ser um peso para ti – disse.

- Vai trabalhar para cobrir os teus gastos, Maya, foi isso que ficou combinado com a tua avó. Podes ajudar-me com o livro e, em março, podes trabalhar com a Blanca na escola.

- Desde já te aviso de que sou muito ignorante, não sei nada de nada.

- Que sabes fazer?

   - Bolachas e pão, nadar, jogar futebol e escrever poemas sobre samurais. Devias de ver o meu vocabulário! Sou um verdadeiro dicionário, só que em Inglês. Não creio que isso te sirva de alguma coisa.

   - Já veremos. Isso das bolachas tem futuro - respondeu, e pareceu- me que disfarçava um sorriso.

     - Escreveste mais livros? - perguntei, bocejando. O cansaço da longa viagem e as cinco horas de diferença horária entre a Califórnia e o Chile pesavam-me como um saco cheio de pedras.

   - Nada que me possa tornar famoso - disse, indicando vários livros sobre a mesa: O Mundo Onírico dos Aborígenes Australianos, Ritos de Iniciação nas Tribos do Orinoco, Cosmogonia Mapuche do Sul do Chile.

- Segundo a minha Nini, Chiloé é mágico - disse eu.

- O mundo inteiro é mágico, Maya - replicou ele.

   Manuel Arias garantiu - me que a alma da sua casa é muito antiga.

A minha Nini também acredita que as casas têm recordações e sentimentos, é capaz de captar

as vibrações, saber se o ar de um lugar está carregado de energia negativa, porque ali se deram desgraças, ou se a energia é positiva. O seu casarão de Berkeley tem uma alma boa. Quando o recuperarmos vai ser preciso arranjá-lo - está a cair de velho – e, depois, penso lá viver até morrer. Cresci ali, no cimo de uma colina, com uma vista da baía de São Francisco que seria impressionante se dois frondosos pinheiros não a ocultassem. O meu Popo nunca permitiu que os cortassem, dizia que as árvores sofrem quando as mutilam, sofrendo igualmente a vegetação mil metros ao redor, porque no subsolo tudo está interligado. Seria um crime matar dois pinheiros para ver uma extensão de água que se pode apreciar da mesma forma da autoestrada.

   A casa foi comprada pelo primeiro Paul Ditson em 1948, o mesmo ano em que foram abolidas as restrições raciais para aquisição de propriedades em Berkeley. Os Ditson foram a primeira família de cor no bairro e a única durante vinte anos, até que começaram a chegar outras. A casa foi construída em 1885 por um magnata das laranjas, que ao morrer doou toda a fortuna à Universidade e deixou a família na pobreza. Esteve desocupada muito tempo e depois passou de mão em mão, deteriorando-se a cada transação, até que os Ditson a compraram e a conseguiram reparar, porque tinha uma estrutura firme e boas fundações. Depois da morte dos pais, o meu Popo comprou a parte correspondente aos irmãos e ficou sozinho naquela relíquia vitoriana de seis quartos, encimada por um inexplicável campanário, onde se instalou o seu telescópio.

   Quando Nidia e Andy Vidal chegaram, o meu Popo utilizava apenas duas divisões, a cozinha e a casa de banho, mantendo as restantes fechadas. A minha Nini irrompeu como um furacão de renovação, deitando fora bibelôs, limpando e fumigando, mas a sua ferocidade no combate da decadência não pôde com o caos endémico do marido.Depois de muitas disputas, acordaram em que ela podia fazer o que lhe desse na gana na casa inteira, desde que não interferisse com o escritório dele ou a torre do telescópio.

   A minha Nini achou-se como um peixe na água em Berkeley, essa cidade suja, radical e extravagante, com a sua mistura de raças e cores humanas, com mais génios e prémios Nobel que qualquer outro lugar no mundo, saturada de causas nobres e intolerante no seu empenho. A minha Nini transformou-se. Antes, era uma jovem viúva prudente e responsável, que procurava passar despercebida; em Berkeley, o seu verdadeiro caráter veio à superfície. Já não precisava de se vestir de motorista, como em Toronto, nem de se vergar à hipocrisia social, como no Chile; ninguém a conhecia, podia reinventar se. Adotou a estética dos hippies, que languesciam na avenida Tclegraph vendendo os seus objetos de artesanato entre névoas de incenso e marijuana. Começou a vestir-se com túnicas, sandálias e colares provenientes da Índia, mas estava muito longe de ser uma hippie: trabalhava, cuidava de uma casa e de uma neta, estava envolvida na comunidade e nunca a vi em êxtase a entoar cânticos em sânscrito.

   Perante o escândalo dos vizinhos, quase todos colegas do marido na Universidade, com as suas moradias escuras, vagamente inglesas, cobertas de heras, a minha Nini pintou o casarão dos Ditson de cores picadélicas, inspirada na rua Castro em São Francisco, onde os gays começavam a multiplicar-se e a remodelar as casas antigas. As suas paredes em violeta e verde, os seus frisos amarelos e as suas grinaldas de flores de gesso geraram falatório e deram origem a duas notificações do município, até que a casa apareceu fotografada numa revista de arquitetura, se transformou numa atração turística da cidade e depressa foi imitada por restaurantes paquistaneses, lojas juvenis e ateliês de artistas.

     A minha Nini imprimiu igualmente o seu cunho pessoal na decoração dos interiores. Aos móveis cerimoniais, relógios de mesa e quadros horrendos com molduras douradas, adquiridos pelo primeiro Ditson, acrescentou o seu toque artístico: uma profusão de candeeiros, almofadas em desalinho, divãs turcos e cortinas de croché. O meu quarto, pintado de um tom de manga, tinha sobre a cama um baldaquino de tecido indiano bordado com espelhinhos e um dragão alado pendurado no meio, capaz de me matar se me caísse em cima, e nas paredes a minha vó colocara fotografias de crianças africanas subnutridas, para que eu visse como as infelizes criaturas morriam de fome enquanto eu não queria comer. Segundo o meu Popo, o dragão e os meninos do Biafra eram a causa da minha insónia e geral falta de jeito.

   As minhas tripas estão a sofrer o ataque frontal das bactérias chilenas. Ao segundo dia nesta ilha, caí na cama dobrada de dores no estômago. Agora, contínuo a tremer e passo horas em frente à janela com uma botija de água quente na barriga. A minha avó diria que estou a dar tempo à minha alma para chegar a Chiloé. Ela acredita que as viagens em avião a jato não são convenientes, porque a alma viaja mais devagar que o corpo, fica para trás e, por vezes, perde-se pelo caminho, o que seria a causa de os pilotos, como o meu pai, nunca parecerem estar totalmente presentes: estão à espera da alma, que ainda anda nas nuvens.

   Aqui não é possível alugar nem DVD nem videojogos e os únicos filmes são os que passam uma vez por semana na escola. Para distrair, disponho apenas dos febris romances de amor de Blanca Schnake e de livros sobre Chiloé em espanhol, muito úteis para aprender a língua, mas difíceis de ler. Manuel deu-me uma lanterna a pilhas que se ajusta na frente como uma lanterna de mineiro; é assim lemos quando cortam a luz. Sobre Chiloé não posso dizer muito, porque ainda mal saí de casa, mas poderia encher várias paginas sobre Manuel Arias, os gatos e o cão, que agora são a minha família, Blanca, que aparece com frequência com o pretexto de me vir visitar, embora seja óbvio que vem por causa de Manuel, e Juanito Corrales, um menino que também vem até cá todos os dias ler comigo e brincar com o Fakin. O cão é muito seletivo em matéria de relacionamentos, mas tolera o rapazinho.

   Ontem conheci a avó de Juanito. Ainda não a tinha visto porque estava no hospital de Castro, a capital de Chiloé, com o marido, a quem foi amputada uma perna em dezembro e não sarou bem. Eduvigis Corrales tem a pele do tom da terracota, um rosto alegre sulcado de rugas, um tronco longo e pernas curtas - uma chilota típica. Usa uma trança fina enrolada na cabeça e veste-se como uma missionária, com saia grossa e grandes sapatos de lenhador. Aparenta cerca de sessenta anos, mas não tem mais de quarenta e cinco. Aqui, as pessoas envelhecem rapidamente e vivem muito tempo. A avó de Juanito chegou com uma caçarola de ferro, pesada como um canhão, que colocou em cima do fogão a lenha a aquecer, enquanto me dirigia um discurso precipitado, algo do género que se apresentava com o devido respeito, era a Eduvigis Corrales, vizinha do cavalheiro e assistente doméstica.

   - Ouu! Que meninona tão bonita, esta gringuita! Que Jéssu ma guarde! O cavalheiro tem estado à espera dela, como toda a gente na ilha. Oxalá goste do franguinho com batatinhas que lhe preparei.

   Ao contrário do que pensei, não falava um dialeto da zona, só aldrabava no espanhol. Deduzi que Manuel Arias era o cavalheiro, embora Eduvígis falasse dele na terceira pessoa, como se estivesse ausente.

   A mim, ao invés, fala-me com o mesmo tom mandão da minha avó. Esta boa mulher vem até cá limpar, leva a roupa suja e devolve-a lavada, parte lenha com um machado tão pesado que eu não seria capaz de o levantar,cultiva as suas terras, ordenha a sua vaca, tosquia ovelhas e sabe esquartejar um porco, mas esclareceu-me que não vai pescar nem apanhar marisco por causa da artrite. Diz que o marido não tem má índole, como crê a gente da aldeia, mas que os diabetes lhe desalinharam o carácter e, desde que perdeu a perna, tudo o que quer é morrer. Dos cinco filhos vivos, apenas um vive ainda em casa dela, Azucena, de treze anos, e tem também o neto, Juanito, de dez, que parece mais novo «porque nasceu espiritado», segundo me explicou.

Este espiritado pode querer dizer debilidade mental ou que o sujeito possui mais espírito que a

matéria; o caso de Juanito deve ser o segundo, porque de tonto não tem nada.

   Eduvigis vive do produto do seu campo, do que Manuel lhe paga pelos seus serviços e da ajuda que lhe manda uma filha, a mãe de Juanito, que trabalha na indústria do salmão no sul da Ilha Grande. Chiloé era o segundo local no mundo na criação de salmão, depois da Noruega, o que fez crescer a economia da região, mas contaminou o fundo marinho, arruinou os pescadores artesanais e desfez as famílias. Agora o setor está acabado,explicou-me Manuel, porque colocavam demasiados peixes nas jaulas e deram-lhes tantos antibióticos que, quando forma atacados por um vírus, já não se conseguiu salvá-los. Há vinte mil desempregados das fábricas de salmão, a maioria mulheres, mas a filha de Eduvigis ainda tem trabalho.

   Pouco depois, sentámo-nos à mesa e, mal destapámos a caçarola e a fragrância do estufado me chegou ao nariz, vi-me de novo na cozinha da minha infância, na casa dos meus avós, e os meus olhos humedeceram-se de nostalgia. O guisado de frango de Eduvigis foi a minha primeira refeição sólida em vários dias. Esta doença foi bastante embaraçosa, é impossível dissimular vómitos e diarreia numa casa sem portas. Perguntei a Manuel que tinha acontecido às portas e ele respondeu-me que prefere os espaços abertos. Tenho a certeza de que fique doente graças às machas com parmesão e à tarte de murtas de Blanca Schnake. Ao princípio, Manuel fingiu que não ouvia os ruídos provenientes da casa de banho, mas depressa teve de se dar por achado, pois deu comigo desmaiada no chão. Ouvi-o falar por telemóvel com Blanca para lhe pedir instruções e, a seguir, pôs-se a prepara uma sopa de arroz, mudou-me os lençóis e trouxe-me a botija de águaquente. Vigia-me pelo canto do olho sem dizer palavra, mas está atento às minhas necessidades. À menor tentativa de lhe agradecer, reage com um grunhido. Também ligou a Liliana Trevino, a enfermeira da localidade, uma mulher jovem, baixa, compacta, com um riso contagioso e uma indómita melena de cabelo crespo, que me deu uns enormes comprimidos de carvão, negros e ásperos, muito difíceis de engolir. Uma vez que não surtiram o menor efeito, Manuel pediu o pequeno camião da loja de legumes para me levar à aldeia para consultar um médico.

   Às quintas-feiras, passa por aqui a lancha do Serviço Nacional de Saúde, que percorre as ilhas. O médico parecia um miúdo de catorze anos, míope e imberbe, mas bastou-lhe um olhar para diagnosticar o meu problema: Tem chilenite, o mal dos estrangeiros que vêm para o Chile. Nada de grave, e entregou-me uns comprimidos num cartuchinho de papel. Por seu lado, Eduvigis preparou-me uma infusão de ervas, uma vez que não confia nos remédios da farmácia: diz que são um negócio das corporações norte-americanas. Tomei a infusão com disciplina, e lá me vou pondo boa. Gosto desta Eduvigis Corrales. Que fala sem parar, como a tia Blanca; por estas partes, o resto das pessoas é taciturna.

   Juanito Corrales mostrou curiosidade em saber mais sobre a minha família, pelo que lhe contei que a minha mãe era uma princesa da Lapónia. Manuel estava no seu escritório e não fez comentários, mas depois de o rapazinho partir, esclareceu-me que, entre os sámi, os habitantes da Láponia, não há realeza. Tínhamo-nos sentado à mesa, ele diante de um linguado com manteiga e coentros e eu perante um caldo translúcido. Expliquei-lhe que aquilo da princesa da Lapónia ocorreu à minha Nini num momento de inspiração, quando eu tinha uns cinco anos e começava a aperceber- me do mistério que rodeava a minha mãe. Lembro-me de que estávamos na cozinha, a divisão mais acolhedora da casa, a cozer no forno, como todas as semanas, as bolachas para os delinquentes e drogados de Mike O'Kelly, o melhor amigo da minha Nini, que tinha abraçado a tarefa impossível de salvar a juventude tresmalhada. Mike é um irlandês autêntico, nascido em Dublin, tão branco, de cabelo tão negro e olhos tão azuis que o meu Popo lhe deu a alcunha de Branca de Neve, inspirado na menina ingénua que comia maçãs envenenadas no filme de Walt Disney. Não digo que O´Kelly seja ingénuo; muito pelo contrário, excede-se em inteligência: é a única pessoa capaz de fazer calar a minha Nini. A princesa da Lapónia figurava num dos meus livros. Em pequena tinha uma biblioteca séria, porque o meu Popo achava que a cultura entra por osmose e mais vale começar cedo, mas os meus livros preferidos eram os contos de fadas. Segundo o meu Popo, os contos infantis são racistas – por que carga de água não existem fadas no Botswana ou na Guatemala? -, mas não censurava as minhas leituras, limitando-se a dar a sua opinião com o objectivo de desenvolver o meu pensamento crítico e costumava desecorajá-lo à força toda.

     Num dsesnho da minha família, que fiz no infantário, pintei os meus avós em cores garridas no centro da página e coloquei uma mosca num dos extremos - o avião do meu pai - e uma coroa no outro, representando o sangue azul da minha mãe. Para o caso de haver dúvidas, no dia seguinte levei para o infantário o meu livro, onde aparecia a princesa com capa de arminho montada num urso branco. A turma riu-se de mim em uníssono. Mais tarde, de volta a casa, meti o livro no forno junto do bolo de milho, que estava a cozer a 350 °C.

Depois de os bombeiros irem embora e de a fumarada vulcânica se começara dissipar, a minha avó desancou-me com os seus habituais gritos de « miudita de merda »,enquanto o meu Popo procurava salvar- me antes que ela me arrancasse a cabeça. Entre soluços e ranhetas, contei aos meus avós que na escola me tinham posto a alcunha de « orfã da Lapónia ». A minha Nini, numas das suas súbitas mudanças de humor, apertou-me contra os seus seios de papaia e assegurou-me que de orfã nada tinha, pois possuía pai e avós, e o primeiro desgraçado que se atrevesse a insultar-me ia ter de se entender com a máfia chilena. Esta máfia compõe-se unicamente da minha avó, mas Mike O´Kelly e eu tememo-la tanto que lhe chamamos Dom Corleone.

     Os meus avós tiraram-me do infantário e, durante algum tempo, ensinaram-me em casa as bases de pintar desenhos e fazer minhocas de plasticina, até que o meu pai regressou de uma das suas viagens e decidiu que me faziam falta companhias adequadas à minha idade, para além dos toxicodependentes de 0'Kelly e dos hippies abúlicos e feministas implacáveis com quem a minha avó se relacionava. A nova escola infantil consistia em duas casas antigas unidas por uma ponte coberta no segundo piso, um desafio arquitetônico mantido no ar pelo efeito da sua curvatura, como as cúpulas das catedrais, como me explicou o meu Popo, apesar de eu não lhe ter perguntado nada. Lá, praticava-se um sistema italiano de educação experimental segundo o qual as crianças faziam o que lhes apetecia, as salas não tinham nem quadros nem as tradicionais secretárias para os professores, os alunos sentavam-se no chão, as professoras não usavam sutiã nem sapatos e cada um aprendia ao seu próprio ritmo. Talvez o meu pai tivesse preferido um colégio militar, mas não interferiu na decisão dos meus avós, já que era a eles que lhes caberia entender-se com as minhas professoras e ajudar-me nos trabalhos de casa.

   - Esta miúda é atrasada - decidiu a minha Nini, ao constatar a lentidão da minha aprendizagem. O seu vocabulário está salpicado de expressões politicamente incorretas, como atrasada, gorda, anão, corcunda, maricas, fufa, chinoca-come-aloz e muitas outras, que o meu avô tentava justificar como uma limitação do inglês da mulher. A minha avó é a única pessoa em Berkeley que diz preto em vez de afro-americano.

     O meu Popo defendia que eu não era deficiente mental, mas imaginativa, o que é menos grave, e o tempo deu-lhe razão, porque mal aprendi o abecedário comecei a ler vorazmente e a encher cadernos com poemas pretensiosos e a história inventada da minha vida, amarga e triste. Apercebera-me de que, na literatura, a felicidade não serve para nada - sem sofrimento não há história - e saboreava em segredo a alcunha de órfã, porque os únicos órfãos que conhecia eram os dos contos clássicos, todos extremamente desgraçados.

     A minha mãe, Marta Otter, a improvável princesa da Lapónia, desapareceu entre as brumas escandinavas antes que eu conseguisse conhecer- lhe o cheiro. Tinha uma dúzia de fotografias suas e uma prenda que me mandou por correio no meu quarto aniversário, uma sereia sentada sobre uma rocha dentro de uma bola de vidro, que, ao ser agitada, produzia um efeito de neve. Esta bola foi o meu tesouro mais precioso até aos oito anos, quando subitamente perdeu o seu valor sentimental, mas isso é outra história.

   Estou furiosa porque desapareceu o meu único bem de valor, a minha música civilizada, o meu Ipod. Acho que foi o Juanito Corrales que o levou. Não lhe queria criar problemas, pobre miúdo, mas tive de dizer a Manuel, que não deu muita importância ao assunto. Diz que

0 Juanito usará o Ipod durante alguns dias e, depois, o voltará a pôr no sítio de onde o tirou. É o costume em Chiloé, segundo parece. Na quarta-feira passada, alguém nos devolveu um machado que tinha tirado sem autorização do depósito de lenha há mais de uma semana. Manuel tinha as suas suspeitas sobre quem o tinha, mas teria sido um insulto pedi-lo de volta, já que uma coisa é levar emprestado e outra, muito diferente, roubar. Os chilotes, descendentes de dignos indígenas e soberbos espanhóis, são orgulhosos. O homem do machado não deu

explicações, mas trouxe um saco de batatas de presente, que deixou no pátio antes de se instalar com Manuel no terraço, a beber chicha de maçã e a observar o voo das gaivotas. Algo similar sucedeu com um parente dos Corrales, que trabalha na Ilha Grande e veio até cá para se

casar pouco antes do Natal. Eduvigis entregou-lhe a chave desta casa para que, na ausência de Manuel, que andava por Santiago, viesse buscar a aparelhagem de música para animar a festa de casamento. Ao regressar, Manuel descobriu com surpresa que a aparelhagem se tinha esfumado, mas, em vez de apresentar queixa aos carabineiros, esperou pacientemente. Na ilha não há ladrões sérios e os que vêm de fora ver-se-iam em apuros para conseguir transportar algo tão volumoso. Pouco depois, Eduvigis recuperou aquilo que o parente levara e devolveu-o acompanhando a aparelhagem com uma canastra de marisco. Se Manuel tem a sua aparelhagem, é sinal de que voltarei a ver o meu Ipod.

     Manuel pretere estar calado, mas apercebeu- se de que o silêncio desta casa pode ser excessivo para uma pessoa normal e faz esforços por conversar comigo. Quando estava no meu quarto, ouvi-o a falar com Blanca Schnake na cozinha.

   - Não sejas tão tosco com a gringuita, Manuel. Não vês que está muito sozinha? Tens de falar com ela - aconselhou-o.

   - Que queres que lhe diga, Blanca? Parece uma marciana - mastigou Manuel, mas deve ter pensado melhor, porque agora, em vez de me entediar com conversas académicas sobre antropologia, como fazia ao início, pergunta pelo meu passado e assim, pouco a pouco, vamos alinhavando ideias e conhecendo-nos.

     O meu espanhol brota aos tropeções, mas o inglês dele, por seu lado, é fluido, embora com sotaque australiano e entoação chilena. Concordamos em que tenho de praticar, por isso normalmente esforçamo-nos por falar em espanhol, mas depressa começamos a misturar as línguas na mesma frase e acabamos em espanholês. Quando estamos chateados, fala-me num espanhol muito pronunciado, para me fazer entender, e eu grito-lhe num inglês de membro de gangue, para o assustar.

   Manuel não fala de si mesmo, o pouco que sei dele é adivinhado, ou então ouvi-o da tia Blanca. Há algo de estranho na sua vida. O seu passado deve ser mais turvo do que o meu, porque muitas noites ouvi-o gemer e debater-se, enquanto dormia, dizendo tirem-me daqui, tirem-me daqui. Através destas paredes finas ouve-se tudo. O meu primeiro impulso é ir acordá-lo, mas não me atrevo a entrar no seu quarto; a falta de portas obriga-me a ser prudente. Os seus pesadelos invocam presenças malignas, parece que a casa se enche de demónios. Até o Fakin se aflige e treme, colado à minha cama.

   O meu trabalho com Manuel Arias não pode ser mais leve. Consiste em transcrever as suas gravações de entrevistas e passar a limpo as suas notas para o livro. Manuel é tão arrumado que, se mudo de sítio um papelinho insignificante no seu escritório, fica pálido. Podes--te sentir lisonjeada, Maya, porque és a primeira e única pessoa a quem permiti pôr um pé no meu escritório. Espero não vir a lamentá-lo, atreveu-se a dizer- me, quando deitei fora o calendário do ano passado.

Fui buscá-lo ao cesto do lixo intacto, exceto umas manchas de esparguete, e colei-o ao ecrã do computador com pastilha elástica. Não falou comigo durante vinte e seis horas.

     O seu livro sobre a magia de Chiloé agarrou-me de tal forma que até me tira o sono (é uma maneira de dizer, a mim qualquer disparate me tira o sono). Não sou supersticiosa, como a minha Nini, mas aceito que o mundo é misterioso e tudo é possível. O livro tem um capítulo completo sobre a Mayoria, ou Reta Província, como se chamava ao governo dos bruxos, muito temidos por estes lados. Na nossa ilha, correm rumores de que os Miranda são uma família de bruxos e as pessoas cruzam os dedos ou benzem-se quando passam diante da casa de Rigoberto Miranda, parente de Eduvigis Corrales e pescador de profissão. O seu apelido é tão suspeito como a sua boa sorte: os peixes lutam por lhe cair nas redes, mesmo quando o mar está negro, e a sua única vaca pariu gémeos duas vezes em três anos. Dizem que, para voar de noite, Rigoberto Miranda tem um macun, um corpete feito com a pele do peito de um cadáver, mas nunca ninguém o viu. É conveniente talhar o peito aos mortos com uma faca ou pedra afiada para não sofrerem a sorte indigna de acabarem transformados em colete.

     Os bruxos voam, podem fazer muito mal, matam só com o pensamento e transformam-se em animais, coisas que quanto a mim não combinam com Rigoberto Miranda, um homem tímido que costuma vir trazer caranguejos a Manuel. Mas a minha opinião não conta, sou uma gringa ignorante. Eduvigis avisou-me de que, quando vier até cá Rigoberto Miranda, tenho de cruzar os dedos antes de lhe dizer para entrar, para o caso de trazer algum malefício. Quem nunca sofreu a bruxaria em primeira mão tende a ser descrente, mas mal lhe acontecem coisas estranhas vai logo a correr até uma machi, uma curandeira indígena. Digamos que uma família daqui começa a tossir demasiado, então a machi procura um Basilisco ou Rei das Serpentes, um réptil maléfico nascido de um ovo de galo velho, que se aloja debaixo da casa e, de noite, suga o fôlego às pessoas enquanto dormem.

   As histórias e acontecimentos mais suculentos ouvem-se das pessoas mais antigas, nos sítios mais afastados do arquipélago, onde se mantêm as mesmas crenças e costumes de há séculos. Manuel não só procura obter informação junto dos mais idosos mas também de jornalistas,

professores, livreiros e comerciantes, que troçam dos bruxos e da magia, mas nem loucos seriam capazes de se aventurar de noite num cemitério. Blanca Schnake diz que o seu pai, quando era jovem, conhecia a entrada da mítica gruta onde se reúnem os bruxos, na aprazível aldeia de Quicavi, mas em 1960 um terramoto originou um deslocamento da terra e do mar e, desde aí, nunca mais ninguém a conseguiu encontrar.

     Os guardiães da gruta são invunches, seres horripilantes criados pelos bruxos a partir do primeiro recém-nascido varão de uma família, raptado antes de ser batizado. O método para transformar o bebé em invunche é tão macabro como improvável: quebram-lhe uma perna, torcem-na e enfiam-na sob a pele das costas, para que só possa usar três membros para se locomover e, assim, não consiga escapar; aplicam-lhe um unguento que provoca o nascimento de uma grossa pelagem de bode, abrem-lhe a ponta da língua para se assemelhar à das serpentes e alimentam-no com carne putrefacta de mulher morta e leite de índia. Em comparação, um zombie pode dar-se por afortunado. Pergunto a mim mesma a que mente depravada ocorreriam tais horrores. A teoria de Manuel é de que a Reta Província, ou Mayoria, como também lhe chamam, foi na sua origem um sistema político. A partir do século dezoito, os índios da região, os huilliches, rebelaram-se contra o domínio espanhol e, a seguir, contra as autoridades chilenas. Supostamente, formaram um governo clandestino copiado do estilo administrativo dos espanhóis e dos jesuítas, dividiram o território em reinos e nomearam presidentes, escrivães, juízes, etc. Existiam treze bruxos principais, que obedeciam ao rei da Reta Província, ao rei de Sobre a Terra e ao rei de Debaixo da Terra. Como era indispensável manter o segredo e controlar a população, criaram um clima de temor supersticioso nos territórios da Mayoria e, deste modo, uma estratégia política acabou por se converter numa tradição de magia.

Em 1880, várias pessoas foram acusadas de bruxaria e, depois, julgadas em Ancud e fuziladas, com o fim de quebrar a coluna dorsal à Mayoria, mas ninguém pode afirmar que o objetivo tenha sido alcançado.

   - Tu acreditas em bruxas? - perguntei a Manuel.

   - Não, mas que as há, há, como dizem em Espanha.

     - Diz-me sim ou não!

   - É impossível provar algo negativo, Maya, mas descansa, vivo aqui há muitos anos e a única bruxa que conheço é a Blanca.

   Blanca não acredita em nada disto. Disse-me que os invunches foram inventados pelos missionários para conseguir que as famílias chilotas batizassem os bebés, mas tal invenção parece-me um recurso demasiado extremo, até para os jesuítas.

   - Quem é um tal Mike O'Kelly? Recebi uma mensagem sua incompreesível - disse Manuel.

   - Ah, o Branca de Neve escreveu-te! É um irlandês amigo de toda a confiança da nossa família. Deve ser ideia da minha Nini comunicar connosco através dele, para maior segurança. Posso responder-lhe?

   - Não diretamente, mas eu posso enviar-lhe a tua mensagem.

   - Estas precauções são exageradas, Manuel, já não sei que te dizer.

   - A tua avó deve ter bons motivos para ser tão cautelosa. - A minha avó e Mike O'Kelly são membros do Clube dos Criminosos e dariam um braço para estarem envolvidos num crime verdadeiro, mas têm de se conformar com brincar aos bandidos.

   - Que clube é esse? - perguntou-me Manuel, preocupado.

     Expliquei-lhe, começando pelo princípio. A Biblioteca do condado de Berkeley contratou a minha Nini, onze anos antes do meu nascimento, para contar contos às crianças como forma de as manter ocupadas depois da escola, até os pais saírem do trabalho. Pouco depois, ela propôs à Biblioteca sessões de contos policiais para adultos. A ideia foi aceite e a minha avó fundou com Mike O'Kelly o Clube dos Criminosos, como lhe chamam, embora a Biblioteca o promova como o Clube do Romance Policial. À hora dos contos infantis, eu integrava o grupo de crianças que bebiam cada palavra da minha avó e, por vezes, quando não tinha com quem me deixar, a minha Nini também me levava à Biblioteca à hora dos adultos. Sentada sobre uma almofada de pernas cruzadas como um faquir, a minha Nini perguntava às crianças o que queriam ouvir, alguém sugeria um tema e ela improvisava uma história em menos de dez segundos. Sempre se sentiu incomodada pelo artifício de um final feliz nos contos de fadas, acha que na vida não há finais, mas umbrais – uma pessoa deambula por aqui e por ali, tropeçando e perdendo-se. Isto de premiar o herói e castigar o vilão parecia-lhe uma limitação, mas para manter o emprego devia cingir-se à fórmula tradicional, a bruxa não pode envenenar impunemente a donzela e casar-se de branco com o príncipe. A minha Nini prefere o público adulto, porque os assassinatos mórbidos não requerem um final feliz. Está muito bem preparada, leu todos os relatos policiais e manuais de medicina forense existentes e diz que, junto com Mike O'Kelly, poderiam realizar uma autópsia sobre a mesa da cozinha com a maior das facilidades.

   O Clube dos Criminosos consiste num grupo de amantes das histórias de detetives, pessoas inofensivas que, nos seus tempos livres, se dedicam a planear homicídios monstruosos. Começou discretamente na Biblioteca de Berkeley e, agora, graças à Internet, ganhou um alcance global. É financiado na totalidade pelos sócios, mas como estes se reúnem num edifício público, levantaram-se vozes indignadas na imprensa local, alegando que dinheiro dos impostos dos contribuintes está a ser usado para fomentar o crime.

   - Não sei de que se queixam. Não é melhor falar de crimes que cometê-los? - alegou a minha Nini diante do presidente da câmara, quando este lhe pediu para ir ao seu gabinete discutir o problema.

   A relação da minha Nini com Mike O'Kelly nasceu num alfarrabista, onde ambos estavam absortos na secção de livros policiais. Ela estava casada há pouco com o meu Popo e ele era estudante na Universidade, ainda tinha o uso das duas pernas e não pensava transformar-se em ativista social nem dedicar-se a salvar jovens delinquentes das ruas e das prisões. Desde que me lembro que a minha avó faz bolachas para os rapazes de O'Kelly, na sua maioria negros e latinos, os mais pobres da Baía de São Francisco. Quando tive idade para interpretar certos sinais, adivinhei que o irlandês estava apaixonado pela minha Nini, apesar de ser doze anos mais novo, e ela nunca teria cedido ao capricho de ser infiel ao meu Popo. Trata-se de um amor platónico de romance vitoriano.

   Mike O'Kelly ficou famoso quando fizeram um documentário sobre a sua vida. Apanhou dois tiros nas costas por proteger um rapaz de um gangue e acabou numa cadeira de rodas, mas isto não o impediu de continuar a sua missão. Consegue dar uns passos com um andarilho e conduzir um carro adaptado, e é assim que percorre os piores bairros salvando almas e é o primeiro a apresentar-se em todos os pro-testos de rua de Berkeley e arredores. A sua amizade com a minha Nini fortalece-se a cada causa chanfrada que abraçam juntos. Foi ideia de ambos sugerir aos restaurantes de Berkeley que doassem a comida que lhes sobrava aos mendigos, malucos e toxicodependentes da cidade. Ela conseguiu um atrelado para a distribuir e ele recrutou os voluntários para servirem. No noticiário televisivo apareceram os indigentes a escolher entre sushi, caril, pato com trufas e os pratinhos vegetarianos do menu. Uns quantos reclamaram por causa da qualidade do café. Depressa as filas engrossaram com indivíduos da classe média dispostos a comer sem pagar, houve confrontos entre a clientela original e os aproveitadores e O'Kelly teve de fazer vir os seus rapazes para restaurar a ordem antes que a polícia o fizesse. Por último, o departamento de Saúde proibiu a distribuição das sobras, porque um tipo com alergias quase morreu por causa do molho tailandês com amendoins.

     O irlandês e a minha Nini juntam-se muitas vezes para tomar chá e bolos e analisar assassinatos truculentos. Achas que um corpo esquartejado se pode dissolver no líquido de desentupir canos?, perguntaria O'Kelly. Depende do tamanho dos bocados, diria a minha Nini, e a seguir ambos fariam a experiência, mergulhando um quilo de costelelas em Drano, enquanto a mim me tocava anotar os resultados.

     - Não me surpreende que se tenham confabulado para me manter incomunicável no fim do mundo - disse por fim a Manuel Arias.

     - Pelo que me contas, são mais temíveis que os teus supostos inimigos, Maya - respondeu.

     - Não menosprezes os meus inimigos, Manuel.

     - O teu avô também tinha o hábito de meter costeletas em líquido para desentupir canos?

     - Não, a cena dele não eram os crimes, mas as estrelas e a música. Pertencia à terceira geração de uma família amante da música clássica e do jazz.

     A seguir, contei-lhe como o meu avô me ensinou a dançar mal me consegui aguentar de pé e me comprou um piano aos cinco anos, porque a minha Nini queria que eu fosse uma daquelas crianças-prodígio que vai a concursos na televisão. Os meus avós suportaram os meus estrondosos exercícios no teclado, até que a professora sugeriu que o meu esforço seria mais bem empregue em algo que não exigisse ter bom ouvido. De imediato, optei pelo soccer, como chamam os americanos ao futebol, uma atividade que a minha Nini acha própria de tolos - onze homens adultos de calções a lutar entre si por uma bola. O meu Popo nada sabia deste desporto, porque não é popular nos Estados Unidos, mas não hesitou em abandonar o basebol, do qual era fanático, para assistir a centenas de partidas infantis de futebol entre equipas femininas. Valendo-se de uns colegas do Observatório de São Paulo, conseguiu- me um cartaz autografado por Pele, que estava retirado do desporto havia muito e vivia no Brasil. Pela sua parte, a minha Nini empenhou-se em me fazer ler e escrever como uma adulta, tendo em conta que não ia ser nenhum prodígio musical. Tornou-me sócia da biblioteca, fazia-me copiar trechos dos clássicos e dava-me cachaços se detetava algum erro ortográfico ou se eu chegava a casa com notas medíocres a Inglês ou Literatura, as únicas áreas de estudo que lhe interessavam.

     - A minha Nini sempre foi rude, Manuel, mas o meu Popo era um doce, foi o sol da minha vida. Quando Marta Otter me levou a casa dos meus avós, o meu avô segurou-me contra o peito com muito cuidado, porque nunca tinha pegado num recém-nascido. Disse-me que o carinho que sentiu por mim o transtornou. Foi isto que me disse e nunca duvidei deste carinho.

     Quando começo a falar do meu Popo, nunca mais me calo. Expliquei a Manuel que devo à minha Nini o gosto pelos livros e um vocabulário nada desprezável, mas ao meu avô devo tudo o resto. A minha Nini fazia-me estudar à força, dizia que «a letra entra com sangue», ou algo igualmente bárbaro, mas o meu avô transformava o estudo num jogo. Um dos seus jogos consistia em abrir o dicionário ao acaso, apontar às cegas uma palavra e adivinhar o significado. Também jogávamos às perguntas idiotas:

   - Porque cai a chuva para baixo, Popo?

   - Porque se caísse para cima molhava-te os calções, Maya.

   - Porque é que o vidro é transparente?

   - Para confundir as moscas.

   - Porque tens as mãos negras por cima e rosadas por baixo, Popo?

   - Porque a tinta não chegou.

   E assim continuávamos, até que a minha avó perdia a paciência e começava a uivar.

   A imensa presença do meu Popo, com o seu humor sarcástico, a sua bondade ilimitada, a sua inocência, a sua barriga para me embalar e a sua ternura, encheu a minha infância. Tinha um riso sonoro, que nascia nas entranhas da terra, lhe subia pelos pés e o sacudia por inteiro. Popo, jura-me que nunca vais morrer, exigia-lhe eu pelo menos uma vez por semana, e a sua resposta era invariável: Juro que estarei sempre contigo.

   Procurava voltar cedo da universidade para passar um momentos comigo antes de ir para o seu escritório, com os seus calhamaços de astronomia e os seus mapas astrais, preparando aulas, corrigindo provas, investigando, escrevendo. Havia alunos e colegas que o vinham visitar e fechavam-se todos a trocar ideias esplêndidas e improváveis até ao amanhecer, quando a minha Nini os interrompia em camisa de dormir com um grande termos de café na mão.

   - Andas com a aura opaca, velho. Não te lembras que às oito tens aulas?

   Após o que começava a servir café e a empurrar as visitas em direção à porta. A cor dominante da aura do meu avô era o violeta, muito apropriada para ele, porque é a cor da sensibilidade, da sabedoria, da intuição, do poder psíquico e da visão futurista. Estas eram as únicas ocasiões em que a minha Nini entrava no escritório. Eu, pelo contrário tinha livre acesso e dispunha até da minha própria cadeira e de um canto da mesa para fazer os meus trabalhos de casa, acompanhada por jazz suave e pelo cheiro a tabaco do cachimbo.

   Segundo o meu Popo, o sistema educativo oficial impede o desenvolvimento do intelecto. Devemos respeitar os professores, mas fazer-lhes pouco caso. Costumava dizer que Da Vinci, Galileu, Einstein e Darwin, para mencionar apenas quatro génios da cultura ocidental, já que houve muitos outros, como os filósofos e matemáticos árabes Avicena e Al-Khwarizmi, questionaram o conhecimento da sua época. Se tivessem aceitado as coisas estúpidas que lhes ensinavam os mais velhos, não teriam inventado nem descoberto nada.

   - A tua neta não é nenhum Avicena, e se não estuda terá de ganhar a vida a fritar hambúrgueres - replicava a minha Nini.

     Eu, no entanto, tinha outros planos; queria ser futebolista, os futebolistas ganham milhões.

   - Mas são homens, rapariguinha tonta. Conheces alguma mulher que ganhe milhões? - alegava a minha avó e, a seguir, disparava um discurso de agravo, que começava no terreno do feminismo e derivava para o da justiça social, para concluir que, por jogar futebol, ia acabar com as pernas peludas.

   A seguir, o meu avô explicava-me num aparte que o hirsutismo não é causado pela prática de desporto, mas pelos genes e pelas hormonas.

   Durante os meus primeiros anos dormi com os meu avôs, ao início entre os dois e, depois, num saco-cama, que ficava guardado debaixo da cama e cuja existência os três fingíamos ignorar. À noite, o meu Popo levava-me à torre para examinar o espaço infinito semeado de luzes, e foi assim que aprendi a distinguir as estrelas azuis que se aproximam e as vermelhas que se afastam, os cúmulos de galáxias e os supercúmulos, estruturas ainda mais imensas, de que há milhões. Explicava-me que o Sol é uma estrela pequena entre cem milhões de estrelas na Via Látea e que havia seguramente milhões de outros universos para além daquele que agora podemos ver.

   - Ou seja, Popo, somos menos que o suspiro de um piolho - era a minha conclusão lógica.

   - Não te parece fantástico, Maya, que estes suspiros de piolho sejam capazes de conceber o prodígio do universo? Um astrónomo precisa de mais imaginação poética do que de senso comum, porque a magnífica complexidade do universo não se pode medir nem explicar, apenas intuir.

   E falava-me do gás e da poeira estelar de que se formam as belíssimas nebulosas, verdadeiras obras de arte, pinceladas intrincadas de cores magníficas no firmamento, de como nascem e morrem as estrelas, dos buracos negros, do espaço e do tempo, de como possivelmente tudo se originou com o Big Bang, uma explosão indescritível, e das partículas fundamentais que formaram os primeiros protões e neutrões, e assim, em processos cada vez mais complexos, nasceram as galáxias, os planetas, a vida.

   - Vimos das estrelas - costumava dizer-me.

   - Isso é o que digo eu - acrescentava a minha Nini, tendo em mente os horóscopos.

   Depois de visitar a torre com o seu mágico telescópio e de me dar o meu copo de leite com mel e canela, segredo de astrónomo para desenvolver a intuição, o meu avô assegurava-se de que eu escovava os dentes e levava-me para a cama. Então, chegava a minha Nini e contava-me um conto diferente cada noite, inventado ao sabor do momento, que eu tentava prolongar o mais possível, mas inevitavelmente chegava o momento de ficar sozinha, e então punha-me a contar carneiros, alerta ao oscilar do dragão alado sobre a minha cama, aos rangidos do pavimento, aos passinhos e murmúrios discretos dos habitantes invisíveis daquela casa embruxada. A minha luta por vencer o medo era meramente retórica, porque, mal os meus avós adormeciam, deslizava até ao seu quarto, tateando no escuro, arrastava o saco de dormir para um canto e deitava-me em paz. Durante anos, os meus avós marcaram encontros em hotéis a horas indecentes para fazerem amor às escondidas. Só agora, depois de crescer, consigo avaliar devidamente o peso do sacrifício que fizeram por mim.

   Estudei com Manuel a críptica mensagem que O'Kelly lhe tinha enviado. As notícias eram boas: a situação em minha casa era normal e os meus perseguidores não tinham dado sinais de vida, embora isto não queira dizer que me tenham esquecido. O irlandês não disse estas coisas diretamente, como é lógico dada a situação, mas num código similar ao usado pelos japoneses na Segunda Guerra Mundial, que me tinha ensinado.

   Estou há um mês nesta ilha. Não sei se algum dia chegarei a acostumar-me ao passo de tartaruga de Chiloé, a esta preguiça, esta permanente ameaça de chuva, esta paisagem imutável de água e nuvens e pastagens verdes. Tudo é igual, todo é sossego. Os chilotes não conhecem a pontualidade, os planos dependem do clima e do ânimo, as coisas acontecem quando acontecerem, para quê fazer hoje o que se pode fazer amanhã? Manuel Arias troça das minhas listas e dos meus projetos, inúteis nesta cultura atemporal. Aqui, uma hora ou uma semana são o mesmo. No entanto, Manuel mantém os seus horários de trabalho e avança com o seu livro ao ritmo que estabeleceu.

   Chiloé tem a sua própria voz. Antes, não tirava os auscultadores das orelhas, a minha música era o meu oxigénio, mas agora ando atenta para entender o espanhol arrevesado dos chilotes. Juanito Corrales deixou o meu Ipod no mesmo bolsinho da mochila de onde o tinha tirado e nunca falámos no assunto, mas na semana que tardou a devolver-mo apercebi-me de que não me faz tanta falta como pensava. Sem o Ipod posso ouvir a voz da ilha, pássaros, vento, chuva, o crepitar da lenha, rodas de carros de bois e, às vezes, os violinos remotos do Caleuche, um barco-fantasma que navega na bruma e se reconhece pela música e pelo tilintar de ossos dos náufragos que vão a bordo, a cantar e a dançar. O barco é acompanhado por um golfinho chamado Cahuilla, o nome que Manuel pôs à sua lancha. Às vezes, sinto saudades de um gole de vodka para honrar os tempos passados, que foram muito maus, mas um bocado mais mexidos do que estes.

   Trata-se de um capricho fugaz, não do pânico da abstinência forçada que experimentei antes. Estou decidida a cumprir a minha promessa, nada de álcool, drogas, telefone ou email, e o certo é que me tem custado menos do que esperara. Depois de esclarecermos este ponto, Manuel parou de esconder as garrafas de vinho. Expliquei-lhe que não devia alterar os seus hábitos por minha causa, há álcool por todo o lado e a única responsável pela minha sobriedade sou eu. Manuel compreendeu e já não se inquieta demasiado se vou à Taberna do Mortito assistir a algum programa de televisão ou ver o truco, um jogo argentino com cartas de baralho espanholas, em que os participantes improvisam versos a cada jogada.

   Alguns costumes da ilha, como este do truco, encantam me, mas outros acabaram por me aborrecer. Se o chucao, um pássaro minús culo e estridente, canta do meu lado esquerdo, é má sorte, devo despir uma peça de roupa e virá-la do avesso antes de continuar pelo mesmo caminho; se andar de noite, é melhor levar comigo uma faca limpa e sal, porque se se atravessar no meu caminho um cão negro sem uma orelha, é um bruxo e, para me livrar dele, tenho de traçar uma cruz no ar com a faca e espalhar o sal. A diarreia que quase me despachou para o outro mundo logo que cheguei a Chiloé não foi disenteria, porque teria desaparecido com os antibióticos do doutor, mas um bruxedo, como demonstrou Eduvigis ao curar-me com rezas, a sua infusão de murta, linhaça e cidreira e as suas fricções na barriga com pomada para limpar metais.

   O prato tradicional de Chiloé é o curanto, e o curanto da nossa ilha é o melhor. A ideia de oferecer curanto aos turistas foi uma iniciativa de Manuel para romper o isolamento deste pequeno povoado, onde raramente vinha alguém, porque os jesuítas não nos deixaram uma das suas igrejas e não temos nem pinguins nem baleias, mas apenas cisnes, flamingos e toninhas, muito comuns por estes lados. Primeiro, Manuel fez correr o rumor de que se a gruta da Pincoya se encontra aqui, e ninguém possui autoridade para o desmentir, porque a localização exata da gruta é matéria de discussão e várias ilhas a reclamam. A gruta e o curanto são agora as nossas atrações.

A costa noroeste da ilha é um aglomerado agreste de rochedos, perigoso para a navegação, mas excelente para a pesca; ali existe uma caverna na submersa, visível unicamente na maré baixa, perfeita para o reino da Pincoya, um dos poucos seres benévolos na espantosa mitologia chilota, porque ajuda os pescadores e marinheiros em apuros. É uma bela adolescente de longos cabelos, vestida de algas marinhas. Que se dança de cara virada para o mar, prognostica boa pescaria, mas se o faz olhando para a praia, indica escassez e que se deve procurar noutro sítio para lançar as redes. Como quase ninguém a viu, esta informação é inútil. Se a Pincoya aparecer, devemos fechar os olhos e correr na direção oposta, porque seduz os indivíduos de carácter luxurioso e leva- os para o fundo do mar.

     Da aldeia à gruta, há apenas vinte e cinco minutos de caminhada com sapatos firmes e ânimo positivo por um trilho escarpado e ascendente. Na encosta da colina alçam- se algumas araucárias solitárias que iluminam a paisagem e do cimo pode se apreciar o bucólico panorama do mar, do céu e das ilhotas vizinhas desabitadas. Algumas estão separadas por canais tão estreitos que na maré baixa se pode gritar de uma margem para a outra. Do cume vê-se a gruta como uma grande boca desdentada. É possível descer até lá agarrando-se às rochas cobertas de excremento de gaivota, com risco de partir a coluna, ou alcançar a gruta de caiaque bordejando a costa da ilha, desde que se conheça o mar e as rochas nesta zona. É preciso alguma imaginação para apreciar o palácio submarino da Pincoya, uma vez que, para lá da boca da bruxa, não se vê mais nada. No passado, alguns turistas alemães tentaram nadar para o interior, mas os carabineiros impediram-nos, por causa das correntes traiçoeiras. Não nos convém nada que gente de fora venha para aqui afogar-se.

   Disseram-me que janeiro e fevereiro são meses secos e quentes nestas latitudes, mas este deve ser um verão estranho, porque passa a vida a chover. Os dias são compridos, o sol não tem pressa de se ir embora.

   Vou tomar banho no mar apesar das advertências de Eduvigis contra as correntes, os salmões carnívoros fugidos das jaulas e o Millalobo, um ser da mitologia chilota, metade homem e metade lobo-marinho, coberto por uma pelagem dourada, que me pode raptar na maré alta. A esta lista de desgraças, Manuel acrescenta a hipotermia. Diz que só uma gringa descuidada se lembraria de tomar banho nestas águas geladas sem fato de mergulho. Na verdade, ainda não vi ninguém meter-se no mar por gosto. A água fria é boa para a saúde, garantia a minha Nini quando falhava o esquentador no casarão de Berkeley, ou seja, duas ou três vezes por semana. No ano passado, cometi demasiados abusos sobre o meu corpo, poderia ter morrido estendida na rua. Aqui, estou em recuperação e, para tal, não há nada melhor que um banho de mar. Só receio o reaparecimento da cistite, mas até agora tenho estado bem.

Visitei outras ilhas e aldeias com Manuel para entrevistar pessoas mais idosas e já tenho uma ideia geral do arquipélago, embora ainda me falte ir ao sul. Castro é o coração da Ilha Grande, com mais de quarenta mil pessoas e um comércio fervilhante. « Fervilhante » é um adjetivo um pouco exagerado, mas, ao cabo de seis semanas aqui, Castro é como Nova Iorque para mim. A cidade debruça-se sobre o mar, com palafitas na extremidade e casas de madeira pintadas de cores arrojada, para alegrar os ânimos durante os longos invernos, quando o céu e a água se tornam cinzentos. É aqui que Manuel tem a sua conta bancária, o dentista e o barbeiro, é aqui que faz compras no armazém e incomenda na livraria livros que depois vem buscar.

   Se o mar está bravo e não conseguimos voltar para casa, ficamos na hospedaria de uma senhora austríaca, cujo traseiro formidável e peito redondo fazem Manuel corar, e empanturramo-nos de carne de porco e strudel de maçã. Há poucos austríacos por estes lados, mas os alemães não faltam. Este país praticou uma política de imigração bastante racista: nada de asiáticos, negros nem indígenas de outras partes, apenas europeus brancos. Um presidente do século dezanove trouxe a alemães da Floresta Negra e atribuiu-lhes terras no sul que não eram suas, mas dos índios mapuche, com a ideia de melhorar a raça. O seu desejo era que os alemães incutissem aos chilenos hábitos de pontualidade, amor ao trabalho e disciplina. Não sei se o plano funcionou como esperava, mas, de qualquer maneira, os alemães ergueram com o seu esforço algumas províncias do sul e povoaram-nas com a sua descendência de olhos azuis. A família de Blanca Schnake provém destes emigrantes.

     Fizemos uma viagem especial para Manuel me apresentar o padre Luciano Lyon, um ancião fabuloso, que esteve preso várias vezes nos tempos da ditadura militar (1973-1989) por defender os perseguidos. O Vaticano, cansado de lhe puxar as orelhas por causa das suas atitudes rebeldes, reformou-o e colocou-o num casario remoto de Chiloé, MAS aqui também não faltam causas que façam indignar o velho guerreiro. Quando fez oitenta anos, vieram visitá-lo admiradores de todas as ilhas e chegaram vinte autocarros com os seus antigos paroquianos de Santiago. A festa durou dois dias no terreiro frente à igreja, com cordeiros e frangos assados, empadas e um rio de vinho barato. Foi o milagre da multiplicação dos pães, porque as pessoas não paravam de chegar e a comida continuava a sobrar. Os ébrios de Santiago pernoitavam no cemitério, sem fazer caso das almas penadas.

   A casinha do sacerdote era guardada por um galo majestoso de plumas iridescentes que cacarejava no telhado e um imponente carneiro por tosquiar, deitado no umbral como morto. Tivemos de entrar pela porta da cozinha. O carneiro, com o adequado nome de Matusalém, conseguiu escapar tantos anos de se transformar em carne para guisado, que já mal se pode mexer de tão velho.

   - Que fazes por estes lados, tão longe de tua casa, menina? - foi o cumprimento do padre Lyon.

   - Fujo das autoridades - respondi-lhe com ar sério, fazendo-o desatar a rir.

   - Passei anos a fazer o mesmo e, para ser franco, tenho saudades daqueles tempos.

   O padre Lyon é amigo de Manuel Arias desde 1975, altura em que ambos estiveram desterrados em Chiloé. A pena de desterro é muito dura, mas não tanto como o exílio, porque pelo menos o condenado está no seu próprio país, explicou-me.

   - Mandavam-nos, longe da família, para algum lugar inóspito, onde nos víamos sozinhos, sem dinheiro nem trabalho, hostilizados pela polícia. O Manuel e eu tivemos sorte, porque calhou-nos Chiloé e, aqui, as pessoas acolheram-nos bem. Não vais acreditar, rapariga, mas Dom Lionel Schnake, que odiava os esquerdistas mais que o próprio diabo, deu-nos alojamento.

     Foi nesta casa que Manuel conheceu Blanca, a filha do seu bondoso anfitrião. Blanca tinha pouco mais de vinte anos, estava noiva e a fama da sua beleza andava de boca em boca, atraindo uma romaria de admiradores, que não se deixavam intimidar pelo noivo.

   Manuel esteve um ano em Chiloé, ganhando apenas para o seu sustento como pescador e carpinteiro, enquanto lia sobre a fascinante história e mitologia do arquipélago sem sair de Castro, onde tinha de se apresentar diariamente na esquadra de polícia para assinar o livro dos desterrados. Pese embora as circunstâncias, apegou-se a Chiloé, nasceu-lhe a vontade de percorrer o arquipélago de ponta a ponta, de estudá-lo, narrá-lo. Por isso, ao fim de um longo périplo pelo mundo, veio terminar os seus dias aqui. Depois de cumprir a sua pena de desterro, pôde partir para a Austrália, um dos países que recebia refugia dos chilenos, onde já o esperava a mulher. Fiquei admirada ao saber que Manuel tinha uma família, porque nunca tinha falado nela. O facto, contudo, é que se casou duas vezes, nunca teve filhos, divourciou-se de ambas as mulheres há muito e nenhuma delas vive no Chile.

   - Porque te desterraram, Manuel? – perguntei-lhe.

   - Os militares encerraram a Faculdade de Ciências Sociais, onde eu era professor, por a considerarem um antro de comunistas. Prenderam muitos professores e alunos, e alguns foram mortos.

   - Foste preso?

   - Sim.

   - E a minha Nini? Sabes se ela também foi detida?

   - Não, ela não.

   Como é possível que eu saiba tão pouco do Chile? Não me atrevo a fazer perguntas a Manuel, para não passar por ignorante, mas comecei a procurar na Internet. Graças aos bilhetes grátis a que o meu pai tinha direito na qualidade de piloto, os meus avós viajavam comigo em todas as férias e feriados disponíveis. O meu Popo elaborou uma lista de sítios que tínhamos de conhecer depois da Europa, e antes de morrermos e, assim, visitámos as ilhas Galápagos, a Amazónia, a Capadócia e Machu Pichu, mas nunca viemos ao Chile, como teria sido lógico. A falta de interesse da minha Nini em visitar o seu próprio país é inexplicável, porque defende ferozmente os seus costumes chilenos e continua a emocionar-se quando, em Setembro, pendura a bandeira tricolor na sua varanda. Acho que cultiva uma ideia poética do Chile e receia enfrentar a realidade ou, então, há algo aqui de que não se quer lembrar.

   Os meus avós eram viajantes experimentados e práticos. Nos álbuns de fotografias aparecemos os três em lugares exóticos sempre com a mesma roupa, porque tínhamos reduzido a bagagem ao mais básico e conservávamos malas de mão sempre preparadas, uma para cada um, o que nos permitia partir em meia hora, seguindo a oportunidade ou um capricho. Certa vez, o meu Popo e eu estávamos a ler sobre os gorilas num exemplar do National Geographic, e sober como são vegetarianos, mansoso e têm um sentido da família, e a minha Nini, que ia a passar pela sala com uma floreira na mão, comentou distraidamente que devíamos ir vê-los.

     - Boa ideia - respondeu o meu Popo.

   A seguir, pegou no telefone, ligou para o meu pai, conseguiu as passagens e, no dia seguinte, íamos a caminho do Uganda com as nossas desgastadas malinhas.

   O meu Popo era convidado com frequência para seminários e conferências e, sempre que podia, levava-nos com ele, porque a minha Nini receava que acontecesse alguma calamidade que nos apanhasse separados. O Chile é um rebordo entre as montanhas dos Andes e as profundidades do Pacífico, com centenas de vulcões, alguns com a lava ainda morna, que podem despertar a qualquer momento e afundar o território no mar. Isto explica o facto de a minha avó chilena esperar sempre o pior, estar preparada para emergências e ir pela vida com um saudável fatalismo, apoiada em alguns santos católicos da sua preferência e nos conselhos vagos do horóscopo.

   Eu faltava com frequência às aulas, porque viajava com os meus avós e porque me aborrecia na escola; só as minhas boas notas e a flexibilidade do método italiano impediam que fosse expulsa. Os recursos sobravam-me: fingia ter apendicite, enxaqueca, laringite, e, se estes estratagemas falhavam, convulsões. O meu avô era fácil de enganar, mas a minha Nini curava-me com métodos drásticos, como um duche gelado ou uma colher de óleo de fígado de bacalhau, a menos que lhe conviesse que eu faltasse à escola - por exemplo, quando me levava consigo para protestar contra a guerra da altura, colar cartazes em defesa dos animais de laboratório ou nos acorrentarmos a uma árvore para chatear as empresas madeireiras. A sua determinação para me incutir uma consciência social sempre foi heróica.

Mais de uma vez, o meu Popo teve de nos ir buscar à esquadra. A polícia de Berkeley é indulgente, está acostumada a manifestações de rua por todas as causas nobres existentes, a fanáticos bem-intencionados capazes de acampar meses seguidos numa praça pública, estudantes decididos a ocupar a universidade por causa da Palestina ou dos direitos dos nudistas, génios distraídos que ignoram os semáforos, mendigos que noutra vida se licenciaram Summa cum Laude, toxicodependentes que procuram o paraíso, enfim, a quantos cidadãos virtuosos, intolerantes e combativos existem nesta c idade de cem mil habitantes, onde quase tudo é permitido, desde que seja feito com boas maneiras. A minha Nini e Mike O'Kelly costumam esquecer as boas maneiras no calor da defesa da justiça, mas quando são detidos nunca acabam numa cela - o normal é antes o Sargento Walczak ir pessoalmente comprar-lhes um cappucino.

     Tinha dez anos quando o meu pai se voltou a casar. Nunca nos tinha apresentado nenhuma das suas namoradas e defendia tanto as vantagens da liberdade que não esperávamos vê-lo a renunciar a ela. Um dia, anunciou que ia trazer uma amiga para jantar e a minha Nini, que durante anos lhe tinha procurado namorada em segredo, preparou-se para causar uma boa impressão à dita mulher, enquanto eu me preparava para a atacar. Desencadeou-se um frenesi de atividade pela casa. A minha Nini contratou um serviço de limpeza profissional que deixou o ar saturado de um cheiro a lixívia e gardênias, e pôs-se a complicar a vida com uma receita marroquina de frango com canela, que ficou parecida com uma sobremesa. O meu Popo gravou uma seleção dos seus temas musicais favoritos para termos música ambiente - música de consultório de dentista, na minha opinião.

Omeu pai, que não víamos há algumas semanas, apresentou-se na noite combinada acompanhado por Susan, uma loura sardenta e mal e mal vestida, que nos deixou admirados, pois tínhamos a ideia de que gostava de mulheres glamorosas, como o foi Marta Otter antes de sucumbir à maternidade e à vida doméstica em Odense. Em poucos minutos, Susan seduziu os meus avós com a sua sensatez, mas comigo o caso foi diferente. Recebi-a tão mal que a minha Nini me arrastou zangada até à cozinha com o pretexto de servir o frango e me ofereceu uns quantos sopapos se não mudasse de atitude. Depois de comer, o meu Popo fez impensável: convidou Susan a visitar o torreão astronómico, onde não levava ninguém para além de mim, e ali estiveram longos momentos a observar o céu, enquanto a minha avó e o meu pai me repreendiam pela minha insolência.

Alguns meses mais tarde, o meu pai e Susan casaram-se numa cerimónia informal na praia. Há uma década que casar assim tinha passao de moda, mas era o que a noiva queria. O meu Popo teria preferido algo mais cómodo, mas a minha Nini sentia-se como peixe na água. Quem oficiou o casamento foi um amigo de Susan, que tinha obtido uma licença por correspondência da Igreja Universal. Obrigaram-me a assistir, mas recusei-me a levar as alianças e a vestir-me de fada, como queria a minha avó. O meu pai vestiu um fato branco estilo Mao Tsé-Tung que não combinava com a sua personalidade ou simpatias políticas, e Susan uma túnica vaporosa e um cintinho de flores silvestres, também muito passados de moda. Os convidados, de pé na areia, com os sapatos na mão, suportaram meia hora de neblina e conselhos açucarados do oficiante. A seguir, houve uma receção no clube náutico da mesma praia e os comensais dançaram e beberam até depois da meia-noite, enquanto eu me tranquei no Volkswagem dos meus avós e mal assomei o nariz quando o bom do Mike O'Kelly veio na sua cadeira de rodas trazer-me uma fatia de bolo.

     Os meus avós queriam que os recém-casados morassem connosco, já que tínhamos espaço de sobra, mas o meu pai alugou antes uma casinha no mesmo bairro, tão pequena que caberia na cozinha da sua mãe, porque não podia pagar algo melhor. Os pilotos ganham pouco, trabalham muito e andam sempre cansados; não é uma profissão invejável. Depois de se instalarem, o meu pai decidiu que eu devia ir viver com eles e as minhas birras não lhe amoleceram a decisão nem espantaram Susan, que à primeira vista me tinha parecido fácil de intimidar. Era uma mulher equânime, de humor estável, sempre disposta a ajudar, mas sem a compaixão agressiva da minha Nini, que costuma ofender os recipientes das suas benesses.

Agora compreendo que calhou a Susan a ingrata tarefa de tomar conta de uma miúda ranhosa criada por velhos, mimada e cheia de manias, que só tolerava alimentos brancos - arroz, pipocas, pão de forma, bananas - e passava as noites acordada. Em vez de me obrigar a comer com métodos tradicionais, fazia-me peito de peru com chantilly, couve-flor com gelado de coco e outras combinações audazes, até que, aos poucos, passei do branco ao bege - hummus, alguns cereais, café com leite -, e daí para cores com mais personalidade, como alguns tons de verde, laranja e vermelho, desde que não me dessem beterraba.

   Susan não podia ter filhos e esforçou-se por compensar esta carência ganhando o meu carinho, mas enfrentei- a com a obstinação de uma mula. Deixei as minhas coisas em casa dos meus avós e ia até à do meu pai apenas para dormir, com um saco de mão, o meu despertador e o livro que estava a ler. As minhas noites eram de insónia, tremendo de medo, com a cabeça debaixo dos cobertores. Como o meu pai não me teria tolerado nenhuma insolência, optei ao invés por exibir uma cortesia altaneira, inspirada nos mordomos dos filmes ingleses.

     O meu único lar era o casarão pintalgado, para onde ia diariamente depois de sair da escola fazer os meus trabalhos de casa e brincar, rezando para que Susan se esquecesse de me ir buscar depois de sair do trabalho em São Francisco. Isto, contudo, nunca sucedeu, a minha madrasta tinha um sentido de responsabilidade patológico.

     Assim decorreu o primeiro mês, até que Susan trouxe um cão para viver em nossa casa. A minha madrasta trabalhava no Departamento de Polícia de São Francisco a treinar cães para farejarem explosivos, uma especialidade muito valorizada a partir de 2001, quando principiou a paranóia com o terrorismo, mas que, na época em que Susan se casou com o meu pai, suscitava piadas entre os seus rudes colegas, pois nãohavia um atentado à bomba na Califórnia desde tempos imemoriais.

     Cada animal trabalhava com apenas um ser humano durante toda a sua vida, e ambos chegavam a complementar-se tão bem que começavam a adivinhar os pensamentos um do outro. Susan selecionava o cachorro mais vivo da ninhada e a pessoa mais idónea para fazer par com o cão, alguém que tivesse crescido com animais. Apesar de ter jurado dar cabo dos nervos à minha madrasta, rendi-me diante de Alvy, um labrador de seis anos, mais inteligente e simpático que o melhor dos seres humanos. Susan ensinou-me tudo o que sei sobre animais e permitia-me, numa violação das regras fundamentais do manual, dormir com o Alvy. E desta forma ajudou-me a combater a insónia.

     A calada presença da minha madrasta chegou a ser tão natural e necessária na família, que era difícil lembrarmo-nos de como era antes dela. Se o meu pai andava em viagem, ou seja, a maior parte do tempo,Susan autorizava-me a ficar a dormir na casa mágica dos meus avós, onde o meu quarto permanecia intacto. Susan gostava muito do meu Popo, ia com ele ver filmes suecos dos anos cinquenta, a preto e branco, sem legendas - tinham de adivinhar os diálogos - e ouvir jazz nuns botecos cheios de fumo. Tratava a minha Nini, que não é nada dócil, com o mesmo método de treinar cães farejadores de bombas: afeto e firmeza, castigo e recompensa. Com afeto lhe fez saber que gostava dela e estava à sua disposição, com firmeza a impediu de entrar pela janela de sua casa para inspecionar a limpeza ou dar doces à neta às escondidas; castigava-a desaparecendo por alguns dias quando a minha Nini a sufocava de prendas, advertências e guisados chilenos, e recompensava-a levando-a a passear no bosque quando tudo corria bem. Aplicava o mesmo sistema ao seu marido e a mim.

       A minha boa madrasta nunca se interpôs entre os meus avós e eu, embora deva tê-la chocado a forma errática como me educavam. É verdade que me mimaram em demasia, mas esta não foi a causa dos meus problemas, como suspeitavam os psicólogos com quem me confrontei na adolescência. A minha Nini criou-me à chilena, com comida e carinho em abundância, regras claras e algumas palmadas, mas não muitas. Certa vez, ameacei denunciá-la à polícia por abuso de menores e deu-me uma pancada com a concha da sopa que me fez um galo na cabeça, o que cortou a minha iniciativa pela raiz.

     Assisti a um curanto, a refeição típica de Chiloé, abundante e generosa, e também uma cerimónia comunitária. Os preparativos começaram cedo, porque as lanchas do ecoturismo chegam antes do meio-dia.

     As mulheres picaram tomate, cebola, alho e coentros para o tempero e, mediante um aborrecido processo, fizeram milcao e chapatele, uns pastéis de batata, farinha, gordura de porco e torresmos - horríveis, se querem saber a minha opinião -, enquanto os homens cavaram um buraco grande e colocaram no fundo um montão de pedras, em cima das quais acenderam uma fogueira. Quando a lenha acabou, as pedras estavam incandescentes, o que coincidiu com a chegada das lanchas. Os guias mostraram a aldeia aos turistas e deram-lhes a oportunidade de comprar tecidos, colares de conchas, compota de murta, licor de oro, estatuetas de madeira, creme de caracol para as manchas da idade, raminhos de alfazema, enfim, o pouco que a ilha tem para vender, e a seguir reuniram-nos em volta do buraco fumegante na praia. Os cozinheiros do curanto colocaram tachos de barro sobre as pedras para recolher os líquidos da cozedura, que, como bem se sabe, são afrodisíacos, e começaram a dispor em camadas os chapaleles e milcao, as carnes de porco, cordeiro e frango, moluscos, peixe, legumes e outras delícias que não anotei, taparam tudo com panos brancos molhados, enormes folhas de nalca, um saco que saía do orifício como uma fralda e, por último, areia. A cozedura demorou pouco mais de uma hora e, enquanto os ingredientes se transformavam, no segredo do calor, nos seus sumos e fragrâncias mais íntimos, os visitantes entretinham-se a fotografar o fumo, a beber pisco e a ouvir Manuel Arias.

     Os turistas são de várias categorias: chilenos idosos, europeus de férias, argentinos de diversas categorias e viajantes de mochila às costas, de origem vaga. Às vezes, chega um grupo de asiáticos ou americanos com mapas, guias e livros sobre flora e fauna que consultam com uma terrível seriedade. Todos, menos os mochileiros, que preferem marijuana atrás dos arbustos, apreciam a oportunidade de ouvir um escritor publicado, alguém capaz de esclarecer os mistérios do arquipélago em inglês ou espanhol, segundo o caso. Manuel não é sempre aborrecido; na sua área de estudo, consegue entreter as pessoas durante um momento, embora não muito longo. Fala aos visitantes da Historia, lendas e costumes de Chiloé e avisa-os de que os ilhéus são cautelosos, é necessário conquistá-los devagar, com respeito, tal como é necessário adaptarmo-nos gradualmente e com respeito à agreste Natureza, aos implacáveis invernos, aos caprichos do mar. Tudo lento. Muito lento. Chiloé não é para pessoas apressadas.

     As pessoas vão até Chiloé com a ideia de retroceder no tempo e ficam desapontadas com as cidades da Ilha Grande, mas na nossa ilhota encontram precisamente aquilo que procuram. Não existe da da nossa parte um desígnio deliberado de enganar, como é óbvio, mas, no entanto, no dia do curanto aparecem por acaso vacas e cordeiros nas vizinhanças da praia, há um maior número de redes e botes a secar na areia, as pessoas vestem os seus jorros e ponchos mais toscos e não ocorreria a ninguém usar o telemóvel em público.

     Os especialistas sabiam a altura exata em que estariam cozidos os tesouros culinários metidos no buraco e retiraram a areia com pás, levantaram delicadamente o saco, as folhas de nalca e os panos brancos, e então subiu ao céu uma nuvem de vapor perfumada com os deliciosos aromas do curanto. Produziu-se um silêncio expectante e, a seguir, um clamor de aplauso. As mulheres retiraram os alimentos e serviram-nos em pratos de cartão, acompanhados de novas rodadas de pisco sour, a bebida nacional do Chile, capaz de derrubar um cossaco. No fim, tivemos de amparar vários turistas a caminho das lanchas.

     O meu Popo teria gostado desta vida, desta paisagem, desta abundância de marisco, deste tempo preguiçoso. Nunca deve ter ouvido falar de Chiloé, senão tê-lo-ia incluído na sua lista de lugares para visitar antes de morrer. O meu Popo... como sinto a sua falta! Era um urso grande, forte, lento e doce, caloroso como uma lareira, com um cheiro a tabaco e água de colónia, uma voz escura e um riso telúrico, e enormes mãos para pegar em mim. Levava-me a jogos de futebol e à ópera, respondia às minhas infinitas perguntas, escovava-me o cabelo e aplaudia os meus intermináveis poemas épicos, inspirados nos filmes de Kurosawa, que víamos juntos. Subíamos até ao torreão da casa para esquadrinhar com o telescópio a abóbada negra do céu em busca do seu fugidio planeta, uma estrela verde que nunca conseguimos encontrar.

     Promete-me que vais sempre gostar de ti mesma como eu gosto, Maya, repetia-me, e eu prometia, sem saber o que esta estranha frase significava. O meu avô amava-me sem condições, aceitava-me tal como sou, com as minhas limitações, manias e defeitos, aplaudia-me mesmo que não o merecesse, ao contrário da minha Nini, que achava que os esforços das crianças não devem ser celebrados, porque se acostumam e, mais tarde, passam muito mal na vida quando ninguém os elogia. O meu Popo perdoava-me tudo, consolava-me, ria-se quando eu me ria, era o meu melhor amigo, o meu cúmplice e confidente, eu era a sua única neta e a filha que não teve. Diz-me que sou o teu maior amor, Popo, pedia-lhe eu, para irritar a minha Nini. És o nosso maior amor, Maya, respondia-me diplomaticamente, mas eu era a sua preferida, tenho a certeza, a minha avó não podia competir comigo.

   O meu Popo era incapaz de escolher a sua própria roupa, era a minha Nini quem o fazia, mas quando fiz treze anos levou-me a comprar o meu primeiro sutiã, porque notou que enrolava um lenço à volta do tronco e andava agachada para esconder o peito. A timidez impedia-me de falar do assunto com a minha Nini ou com Susan; no entanto, pareceu-me bastante normal experimentar um sutiã diante do meu Popo.

   A casa de Berkeley foi o meu mundo: as tardes com os meus avós a ver séries de televisão, os domingos de verão em que tomávamos o pequeno- almoço no terraçp, as ocasiões em que o meu pai chegava e jantávamos todos juntos, enquanto Maria Callas cantava em velhos discos de vinil, o escritório do meu avô, os livros, as fragâncias da cozinha. Com esta pequena família decorreu a primeira parte da minha existência sem problemas dignos de serem mencionados, mas aos dezasseis anos as forças catastróficas da Natureza, como lhes chama a minha Nini, alvoroçaram-me o sangue e toldaram-me o entendimento.

   No meu pulso esquerdo tenho tatuado o ano em que morreu o meu Popo: 2005. Em Fevereiro, soubemos que estava doente, em Agosto despedimo-nos dele, em Setembro fiz dezasseis anos e a minha famíliadesmoronou-se.

   No dia inesquecível em que o meu Popo começou a morrer, eu tinha ficado até mais tarde na escola, no ensaio de uma peça – nad menos que À espera de Godot, a professora de teatro era ambiciosa -, e depois fui andando para casa dos meus avós. Quando cheguei, já era de noite. Entrei e fui chamando por eles e acendendo as luzes, estranhando o silêncio e o frio, porque era a hora mais acolhedora da casa, quando esta estava quente, tinha música e no ambiente pairavam os aromas das panelas da minha Nini. Àquela hora, o meu Popo lia sentado na poltrona do seu estúdio e a minha Nini cozinhava ouvindo as notícias na rádio, mas nada disto encontrei naquela noite. Os meus aos estavam na sala, sentados muito juntos no sofá, que a minha Nini tinha estofado seguindo as instruções de uma revista. Tinham diminuído de tamanho e, pela primeira vez, notei a sua idade. Até àquele momento, tinham permanecido intocados pelo rigor do tempo. Eu estivera com eles dia a dia, ano a ano, sem me aperceber das mudanças, os meus avós eram imutáveis e eternos como as montanhas. Não sei se os tinha visto apenas com os olhos da alma ou, talvez, tivessem envelhecido naquelas horas. Também não tinha notado que nos últimos meses o meu avô perdera peso, a roupa ficava-lhe larga e, ao seu lado, a minha Nini já não parecia tão diminuta como antes.

     - Que se passa, velhos?

   E o meu coração deu um salto no vazio, porque, mesmo antes que me conseguissem responder, já tinha adivinhado tudo. Nidia Vidal, aquela guerreira invencível, estava quebrada, com os olhos inchados de chorar. O meu Popo fez-me um sinal para me sentar ao lado deles, abraçou-me, apertando-me contra o peito, e contou-me que já há algum tempo se sentia mal, doía-lhe o estômago, tinham-lhe feito vários exames e o médico acabava de lhe confirmar a causa.

     - Mas que tens, Popo? - A pergunta saiu-me como um grito.

     - É um problema no pâncreas - respondeu-me, e o gemido visceral da minha avó deu-me a entender que era cancro.

   Por volta das nove, Susan chegou para jantar, como fazia muitas vezes, e foi dar connosco comprimidos no sofá, tiritando. Ligou o aquecimento, encomendou pizzas por telefone, ligou para o meu pai, em Londres, para lhe dar a má notícia, e depois sentou-se connosco, ao lado do sogro, em silêncio.

   A minha Nini abandonou tudo para cuidar do marido - a biblioteca, os contos, os protestos de rua, o Clube dos Criminosos, e deixou que se esfriasse o forno, que durante toda a minha infância sempre esteve aceso. O cancro, esse inimigo encoberto, atacou o meu Popo sem dar sinais de alarme até já estar em estado muito avançado. A minha Nini levou o marido ao Hospital da Universidade de Georgetown, em Washington DC, onde estão os melhores especialistas, mas de nada serviu. Disseram ao meu avô que seria inútil operá-lo e ele recusou submeter-se a um bombardeamento químico para prolongar a vida apenas alguns meses mais. Estudei a sua doença na Internet e nos livros que obtive na biblioteca e, assim, fiquei a saber que, de quarenta e três mil casos anuais nos listados Unidos, mais ou menos trinta e sete mil são terminais; cerca de cinco por cento dos pacientes respondem positivamente ao tratamento e, para estes, a expectativa máxima de vida são cinco anos. Em resumo, apenas um milagre salvaria o meu avô.

     Na semana que os meus avós passaram em Washington, o estado do meu Popo deteriorou-se tanto que nos custou reconhecê-lo quando eu, o meu pai e Susan fomos esperá-los ao aeroporto. Tinha emagrecido ainda mais, arrastava os pés e andava encurvado, com os olhos amarelos e a pele opaca, acinzentada. Foi até à carrinha de Susan com passinhos de inválido, transpirando devido ao esforço, e em casa faltou- lhe a energia para subir as escadas, tivemos de lhe preparar uma cama no seu estúdio do rés do chão, onde dormiu até arranjarmos uma cama de hospital. A minha Nini deitava-se com ele, enroscada ao seu lado,como um gato.

   Com a mesma paixão com que abraçava causas políticas e humanitárias perdidas, a minha avó enfrentou Deus em defesa do marido, primeiro com súplicas, rezas e promessas, e depois com maldições e ameaças de se tornar ateia.

   - Que ganhamos em lutar com a morte, Nidia, se mais tarde ou mais cedo ela acaba por ganhar? - troçava o meu Popo.

   Uma vez que a ciência tradicional se tinha declarado incompetente para o curar, a minha avó recorreu a tratamentos alternativos, como ervas, cristais, acupuntura, xamãs, massagens na aura e uma menina de Tijuana, que tinha estigmas e fazia milagres. O seu marido suportou estas excentricidades com bom humor, como sempre fizera desde que a tinha conhecido. No início, o meu pai e Susan procuraram proteger os velhos dos muitos charlatães que, de algum modo, farejaram a possibilidade de explorar a minha Nini, mas depois acabaram por aceitar que estes recursos desesperados a mantinham ocupada enquanto os dias passavam. Nas semanas finais não fui às aulas, instalei-me no casarão mágico com a intenção de ajudar a minha Nini, mas estava mais deprimida que o doente e ela acabou por ter de cuidar dos dois.

   Susan foi quem primeiro se atreveu a mencionar o Hospice.

   - Isso é para os moribundos e o Paul não vai morrer!   Exclamou a minha Nini.

   Pouco a pouco, contudo, teve de ceder. Veio até nossa casa Carolyn, uma voluntária de maneiras suaves e vasta experiência, que nos explicou o que ia acontecer e como a sua organização podia ajudar-nos gratuitamente, em coisas desde manter o doente confortável e dar-nos apoio espiritual ou psicológico até lidar com a burocracia dos médicos e do funeral.

     O meu Popo insistiu em morrer em casa. As etapas sucederam-se na ordem natural e nos prazos que Carolyn previra, mas apanharam-me de surpresa, porque também eu, como a minha Nini, esperava que uma intervenção divina mudasse o curso da desgraça. A morte é algo que acontece aos outros, não às pessoas que mais amamos, e muito menos ao meu Popo, que era o centro da minha vida, a força gravítica que ancorava o mundo. Sem ele, eu não teria suporte, e a menor brisa poderia arrastar-me.

   - Juraste-me que nunca irias morrer, Popo!

   - Não, Maya, disse-te que estaria sempre contigo, e penso cumprir o prometido.

   Os voluntários do Hospice instalaram a cama de hospital frente à ampla janela da sala, para que à noite o meu avô pudesse imaginar as estrelas e a lua iluminando-o, já que não podia vê-las através das ramagens dos pinheiros. Instalaram-lhe uma válvula no peito para lhe injetarem os medicamentos sem terem de estar sempre a picá-lo e ensinaram-nos como o deslocar, lavar e trocar-lhe os lençóis sem o tirar da cama. Carolyn vinha vê-lo continuamente, lidava com o médico, o enfermeiro e a farmácia; por mais de uma vez, tratou das compras da casa, quando ninguém na família tinha ânimo para o fazer.

   Mike O'Kelly também nos vinha visitar. Chegava na sua cadeira de rodas elétrica, que manobrava como um carro de corridas, acompanhado muitas vezes por um par dos seus delinquentes redimidos, a quem mandava despejar o lixo, aspirar a casa, varrer o pátio e realizar outras tarefas domésticas, enquanto tomava chá com a minha Nini na cozinha. Tinham estado afastados alguns meses, depois de discutirem por causa de uma manifestação em prol do direito ao aborto, que O'Kelly, católico praticante, rejeitava sem exceções, mas a doença do meu avô reconciliou-os. embora, por vezes, os dois se achassem em extremos ideológicos opostos, não eram capazes de permanecer zangados, porque gostavam demasiado um do outro e tinham muito em comum.

   Quando o meu Popo estava acordado, o Branca de Neve conversava uns momentos com ele. Nunca tinham desenvolvido uma verdadeira amizade, penso que tinham um pouco de ciúmes um do outro. Certa vez, ouvi O'Kelly falar de Deus ao meu Popo e senti-me obrigada a avisá-lo de que perdia o seu tempo, porque o meu avô era agnóstico.

   - Tens a certeza, rapariga? Paul passou a vida a observar o céu com um telescópio, não é possível que não tenha vislumbrado Deus respondeu-me.

     No entanto, não tentou salvar a alma do meu avô contra a sua vontade. Quando o médico lhe receitou morfina e Carolyn nos informou de que teríamos à nossa disposição toda a que fosse necessária, porque o doente tinha o direito a morrer sem dor e com dignidade, O'Kelly absteve-se de nos fazer um discurso contra a eutanásia.

   Chegou o momento inevitável em que acabaram as forças ao meu Popo e tivemos de pôr fim ao desfile de alunos e amigos que o vinham visitar. O meu avô sempre foi coquete e, apesar do seu estado de debilidade, preocupava-se com o seu aspeto, mesmo quando éramos os únicos a vê-lo. Pedia para o mantermos limpo e barbeado, assim como para mantermos a divisão arejada; receava ofender-nos com as misérias da sua doença. Tinha os olhos opacos e afundados, as mãos como patas de passarinho, os lábios ulcerados, a pele semeada de manchas e pendendo-lhe dos ossos; o meu avô era o esqueleto de uma árvore queimada, mas ainda conseguia ouvir música e recordar.

   - Abram a janela para que entre a alegria - pedia-nos.

   Por vezes, estava tão fraco que a voz mal lhe saía, mas também tinha momentos melhores, e então levantávamos o encosto da cabeceira para o sentar e ficávamos a conversar. Queria entregar-me as suas vivências e a sua sabedoria antes de partir. Nunca perdeu a lucidez.

   - Tens medo, Popo? - perguntei-lhe.

   - Não, mas tenho pena, Maya, gostaria de passar mais vinte anos convosco-   respondeu.

   - Que haverá do outro lado, Popo? Achas que há vida depois da morte?

   - É uma possibilidade, mas nunca foi provada.

   - Também nunca se provou a existência do teu planeta, e tu bem que acreditas nele - repliquei, e ele riu-se com complacência.

   - Tens razão, Maya. É absurdo acreditar apenas naquilo que se pode provar.

   - Lembras-te de quando me levaste ao Observatório para ver um cometa, Popo? Nessa noite, vi Deus. Não havia lua, o céu estava negro e cheio de diamantes e, quando olhei pelo telescópio, distingui claramente a cauda do cometa.

   - Gelo seco, amoníaco, metano, ferro, magnésio e...

   - Era um véu de noiva e atrás estava Deus - asseverei.

   - Como era? - perguntou-me.

   - Como uma teia de aranha luminosa, Popo. Tudo o que existe está ligado pelos fios desta teia. Não te consigo explicar. Quando morreres, vais viajar como o cometa e eu vou agarrada à tua cauda.

   - Seremos poeira sideral.

   - Ai, Popo!

   - Não chores, rapariga, porque fazes-me chorar a mim também, e depois começa a chorar a tua Nini e nunca mais vamos acabar de nos consolar.

   Nos seus últimos dias, mal podia engolir umas colherinhas de iogurte e uns golinhos de água. Quase não falava, mas também não se queixava. Passava as horas a pairar numa dormência de morfina, aferrado à mão da sua mulher ou à minha. Duvido que soubesse onde estava, mas sabia que nos amava. A minha Nini continuou a contar-lhe contos até ao final, quando o meu avô já não os podia compreender, mas a cadência da sua voz o embalava. Contava-lhe a história de dois amantes que reencarnavam em diferentes épocas, viviam aventuras, morriam e voltavam a encontrar-se noutras vidas, sempre juntos.

   Eu murmurava orações que eu própria inventara, na cozinha, na casa de banho, na torre, no jardim, em qualquer parte onde me pudesse esconder, e suplicava ao Deus de Mike 0'Kelly que tivesse piedade de nós, mas este permanecia remoto e mudo. A minha pele ficou coberta de manchas vermelhas, o cabelo caía-me e roía as unhas até fazer sangue.

   A minha Nini ligava-me os dedos com fita adesiva e obrigava-me a dormir de luvas. Não podia imaginar a vida sem o meu avô, mas tão pouco conseguia suportar a sua lenta agonia e acabei a rezar para que morresse depressa e deixasse de sofrer. Se me tivesse pedido, ter-lhe-ia administrado mais morfina para o ajudar a partir; era muito fácil, mas o meu avô nunca o fez.

   Dormia vestida no sofá da sala, com um olho aberto, vigilante. E foi desta forma que soube, primeiro que toda a gente, quando chegou o momento da despedida. Corri a acordar a minha Nini, que tinha minado um calmante para descansar um pouco, e liguei ao meu pai e a Susan, que chegaram dez minutos depois.

   A minha avó, em camisa de dormir, meteu-se na cama do marido e pousou a cabeça sobre o seu peito, tal como sempre tinham dormido. De pé do outro lado da cama, reclinei-me também sobre o seu peito, que antes era forte e amplo e chegava para ambas e, agora, já mal batia. A respiração do meu Popo tinha-se tornado impercetível e, por uns instantes muito longos, pareceu ter cessado por completo, mas logo o meu avô abriu os olhos, passou o olhar pelo meu pai e por Susan, que o rodeavam chorando em silêncio, levantou com esforço a grande mão e pousou-a na minha cabeça.

   Quando encontrar o planeta, ponho-lhe o teu nome, Maya - foi a última coisa que disse.

   Nos três anos que passaram desde a morte do meu avô, falei dele muito raramente. Este facto criou-me vários problemas com os psicólogos do Oregon, que queriam obrigar-me a «resolver o meu luto», ou algo do estilo. Há gente assim, gente que acha que todos os lutos se parecem e existem fórmulas e prazos para os ultrapassarmos. A filosofia estóica da minha Nini é mais adequada a estes casos: «chamam-nos a sofrer, é cerrar os dentes», costumava dizer. Uma dor assim, dor da alma, não se tira com remédios, terapia ou férias. Uma dor assim sofre-se simplesmente, a fundo, sem atenuantes, como deve ser. Teria feito bem em seguir o exemplo da minha Nini, em vez de negar que estava a sofrer e de silenciar o uivo que me estava atravessado no peito. No Oregon, receitaram-me antidepressivos, que não tomava porque me deixavam estúpida. Vigiavam-me, mas conseguia enganá-los com pastilha elástica escondida na boca, onde colava o comprimido com a língua, para o cuspir intacto minutos depois. A minha tristeza era a minha companheira, não me queria curar dela como se fosse uma constipação. Também não queria partilhar as minhas recordações com aqueles psicoterapeutas bem-intencionados, porque tudo o que lhes dissesse sobre o meu avô seria banal. No entanto, nesta ilha chilota não passa um dia sem contar a Manuel Arias alguma história engraçada sobre meu Popo. São muito diferentes, o meu Popo e este homem, mas os dois têm uma certa característica de grande árvore e, com eles, sinto-me protegida.

   Acabo de ter com Manuel um raro momento de comunhão, como os que costumava ter com o meu Popo. Encontrei-o a observar o entardecer pela grande janela e perguntei-lhe o que estava a fazer.

   - A respirar.

   - Eu também estou a respirar. Não falo disso.

   - Até me vires interromper, Maya, estava a respirar, mais nada.

   - Devias ver como é difícil respirar sem pensar.

   - A isso chama-se meditação. A minha Nini gosta muito de meditar, diz que assim sente o meu Popo ao seu lado.

   - E tu também o sentes?

   - Antes não, porque por dentro estava gelada, não sentia nada. Mas agora parece-me que o meu Popo anda por aqui, a rondar, a rondar…

     - O que mudou?

     - Então, tudo, Manuel. Para começar, estou sóbria, e para além disso aqui há calma, silêncio e espaço. Fazia-me bem meditar, como a minha Nini, mas não consigo, penso o tempo inteiro, tenho a cabeça cheia de ideias. Achas que isto é mau?

     - Depende das ideias...

   - Não sou nenhum Avicena, como diz a minha avó, mas ocorrem--me boas ideias.

     - Como, por exemplo?

     - Neste preciso momento, não te consigo responder, mas mal me ocorra algo de genial, digo- te. Tu pensas demasiado no leu livro, mas não gastas pensamentos em ideias mais importantes, por exemplo, em como a tua vida era deprimente antes de eu chegar aqui. E que será de li quando me for embora? Começa a pensar no amor, Manuel. Toda a gente precisa de um amor.

   - Aprovado! E qual é o teu? - perguntou, a rir.

   - Eu posso esperar, tenho dezanove anos e a vida à minha frente. Tu tens noventa e podes morrer em cinco minutos.

   - Só tenho setenta e dois, mas é certo que posso morrer em cinco minutos. Essa é uma boa razão para evitar o amor, seria muito deselegante deixar uma pobre mulher viúva.

   - Com um critério desses estás lixado, homem.

   - Senta-te aqui comigo, Maya. Um ancião moribundo e uma rapariga bonita vão respirar juntos. Desde que te consigas calar um bocadinho, claro.

   E foi o que fizemos, até que caiu a noite. E o meu Popo fez-nos companhia.

   A morte do meu avô deixou-me sem bússola e sem família: o meu pai vivia no ar, Susan foi mandada para o Iraque com o Alvy, para farejar bombas, e a minha Nini sentou-se a chorar o marido. Nem cães tínhamos.

   Susan costumava trazer cadelas grávidas para casa, que ficavam connosco até os cachorros terem três ou quatro meses e, então, levava-os para os treinar. Era um drama quando nos apegávamos a eles. Os cãezinhos teriam sido um grande consolo quando a minha família se dissolveu. Sem Alvy e sem cachorros, não tive com quem partilhar a dor.

   O meu pai andava ocupado com outros amores e deixava um impressionante rasto de pistas, como se estivesse a pedir que Susan descobrisse. Aos quarenta e um anos, tentava parecer que tinha trinta, pagava uma fortuna pelo seu corte de cabelo e pela sua roupa desportiva e fazia musculação e bronzeava-se com luz ultravioleta. Estava mais atraente que nunca, os cabelos brancos nas têmporas davam-lhe um ar distinto. Susan, ao invés, cansada de viver à espera de um marido que nunca aterrava por inteiro, estava sempre pronto a ir- se embora ou passsava o tempo a segredar ao telemóvel com outras mulheres, entregara-se

ao desgaste da idade e estava mais gorda, vestia-se com roupas masculinas e usava uns óculos vulgares, comprados à dúzia na farmácia. Agarrou-se à oportunidade de ir para o Iraque para escapar daquela relação humilhante. A separação foi um alívio para ambos.

     Os meus avós tinham-se amado a valer. A paixão que despontara, em 1976, entre a exilada chilena que vivia com a mala sempre feita e o astrónomo americano de passagem em Toronto manteve-se fresca por três décadas. Quando o meu Popo morreu, a minha Nini ficou desconsolada e confusa, já não era ela mesma. Também ficou sem recursos, porque em poucos meses os gastos com a doença do meu avô tinham consumido as suas poupanças. Contava com a pensão do marido, mas esta não era suficiente para manter o galeão à deriva que era a sua casa. Sem me dar nem dois dias de aviso, alugou a casa a um comerciante da índia, que a encheu de parentes e mercadoria, e foi viver para uma divisão sobre a garagem do meu pai. Desfez-se da maior parte dos seus bens, à exceção das mensagens apaixonadas que o marido lhe tinha deixado por aqui e por ali durante os seus anos de convivência, os meus desenhos, poemas e diplomas, e as fotografias, provas irrefutáveis da felicidade vivida com Paul Ditson II. Deixar aquele casarão, onde fora amada de modo tão pleno, representou um segundo luto. Para mim, foi o golpe de misericórdia, senti que tinha perdido tudo.

     A minha Nini estava tão isolada no seu luto que vivíamos sob o mesmo teto e ela nem me via. Um ano antes, era uma mulher jovem, enérgica, alegre e intrometida, com o cabelo em reboliço, sandálias de frade e saias compridas, sempre ocupada, ajudando os outros, criando, e agora era uma viúva madura com o coração despedaçado. Abraçada à urna das cinzas do marido, disse-me que o coração se quebra como um copo, às vezes rachando-se silenciosamente e, outras, estilhaçando-se em muitos pedaços. Sem sequer se aperceber, foi eliminando a cor do seu vestuário e acabou a vestir um luto severo, deixou de pintar o cabelo e envelheceu dez anos. Afastou-se das suas amizades, até mesmo de Branca de Neve, que não a conseguiu aliciar para nenhuma das manifestações contra o governo de Bush, apesar do incentivo de poderem ser presos, que antes leria sido irresistível. Começou a desafiar a morte.

   O meu pai perdeu a conta aos comprimidos para dormir que a mãe tomava, às vezes em que bateu com o Volkswagen, deixou abertas as torneiras do gás e sofreu quedas aparatosas, mas não interveio até que a apanhou a gastar o pouco dinheiro que lhe sobrava a tentar comunicar com o marido morto. Seguiu-a até Oakland e resgatou-a de um atrelado pintado com símbolos astrais, onde uma vidente ganhava a vida a pôr os sofredores em contacto com os seus defuntos, quer fossem humanos ou animais de estimação. A minha Nini deixou-se levar a um psiquiatra, que começou a tratá-la duas vezes por semana e a encheu de comprimidos. Não «resolveu o luto» e continuou a chorar pelo meu Popo, mas ultrapassou a paralisante depressão em que se havia afundado.

     Passado pouco tempo, a minha avó saiu da sua gruta por cima da garagem e assomou o rosto ao mundo, surpreendendo-se ao verificar que este não se tinha detido. Em pouco tempo, o nome de Paul Ditson II apagara-se, já que nem a neta falava dele.

     Eu tinha-me enroscado dentro de uma carapaça de escaravelho e não, permitia que ninguém se aproximasse de mim. Transformei-me numa estranha, sempre maldisposta e com uma atitude de desafio, que não respondia quando me dirigiam a palavra, passava por casa como um vendaval, não ajudava nas tarefas domésticas e, à menor contrariedade, ia-me embora batendo as portas. O psiquiatra fez ver à minha Nini que eu sofria de uma combinação de adolescência e depressão, recomendando-lhe que me inscrevessem em grupos de apoio para jovens de luto, mas eu nem quis ouvir falar no assunto. Nas noites mais negras, quando estava mais desesperada, sentia a presença do meu Popo. A minha tristeza chamava por ele.

   A minha Nini dormira trinta anos sobre o peito do seu marido, embalada pelo rumor seguro da sua respiração. Tinha vivido confortavelmente, protegida no calor deste homem bondoso que celebrava as suas extravagâncias de horóscopos e decoração hippie, o seu extremismo político e a sua culinária estrangeira, que suportava de sorriso nos lábios as suas variações de humor, os seus arrebatamentos sentimentais e as suas súbitas premonições, que costumavam alterar os melhores planos da família. E, quando mais precisou de conforto psicológico, o seu filho não estava presente e a sua neta tinha-se transformado numa energúmena.

     Foi neste ponto que reapareceu Mike O'Kelly, que tinha feito outra operação às costas e passara várias semanas num centro de reabilitação física.

     - Não me visitaste uma única vez, Nidia, e também não me ligaste - disse-lhe em jeito de cumprimento.

     Perdera dez quilos e tinha deixado crescer a barba, quase não o reconheci, parecia maior e já não tinha ar de filho da minha Nini.

   - Que posso fazer para que me perdoes, Mike? - pediu ela, inclinada sobre a cadeira de rodas.

   - Começa a fazer bolachas para os meus rapazes - respondeu ele. A minha Nini teve de as cozer sozinha, porque me declarei farta dos delinquentes arrependidos do Branca de Neve e de outras causas nobres que não me importavam minimamente. A minha Nini levantou a mão para me dar um sopapo, aliás bem merecido, mas agarrei-lhe o pulso no ar.

   - Nem penses em voltar a bater-me, porque nunca mais me voltas a ver, percebeste?

   Percebeu.

   Aquela foi a sacudidela de que a minha avó precisava para se pôr de pé e voltar a andar. Regressou ao seu trabalho na biblioteca, embora já não fosse capaz de inventar nada e se limitasse a repetir contos do passado. Dava largas caminhadas pelo bosque e começou a frequentar o Centro Zen. É totalmente desprovida de talento para a serenidade, mas na forçada quietude da meditação invocava o meu Popo e ele vinha, como uma suave presença, sentar-se junto dela. Acompanhei-a uma única vez à cerimónia dominical do.centro, onde suportei contrariada uma conversa sobre monges que varriam o mosteiro, cujo significado me escapou por completo. Ao ver a minha Nini na posição de lótus entre budistas de cabeça rapada e túnicas cor de abóbora, consegui perceber como estava sozinha, mas a compaixão durou-me apenas um instante. Pouco depois, enquanto tomávamos chá verde e bolos orgânicos com o resto dos participantes, tinha voltado a odiá-la, tal como odiava o mundo inteiro.

   Ninguém me viu chorar depois de cremarmos o meu Popo e nos entregarem as cinzas num jarrão de cerâmica. Não voltei a mencionar o seu nome, nem contei a ninguém que ele me aparecia.

   Andava na Secundária de Berkeley, a única escola secundária pública da cidade e uma das melhores do país, demasiado grande, com três mil e quatrocentos alunos de variadas proveniências: trinta por cento brancos, outros trinta por cento negros e os restantes hispÂnicos, asiáticos e de etnias misturadas. Na época em que o meu Popo andou na Secundária de Berkeley, esta era um jarim zoológico, os diretoresnão duravam mais que um ano, acabando por se dimitir do cargo, esgotados, mas no meu tempo o ensino era excelente, apesar do nível dos estudantes ser muito díspar, na escola havia ordem e limpeza, tirando nas casas de banho, que ao fim estavam asquerosas, e o diretor já estava há cinco anos no lugar. Diziam que era de outro planeta, porque nada conseguia penetrar na sua pele de paquiderme. Tínhamos arte, música, teatro, desportos, laboratórios de ciências, aulas de línguas, religião comparada, política, programas sociai, ateliês de muitas áreas e o melhor programa de educação sexual, ministrado a toda a gente por igual, incluindo a mulçumanos e cristãos fundamentalistas, que nem sempre o apreciavam. A minha Nini publicou uma carta no The Berkeley Daily Planet, propondo que o grupo LGBTI (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e indecisos) acrescentasse um H ao nome para incluir os hermafroditas. Estas eram as iniciativas típicas da minha avó que me punham nervosa, porque cresciam de proporção e acabávamos a protestar na rua com Mike O´Kelly. Arranjavam sempre maneira de me incluir na coisa.

   Os alunos aplicados floresciam na Secundária de Berkeley e, a seguir, ingressavam diretamente nas universidades diretamente nas universidades mais prestigiadas, à imagem do meu Popo, bolseiro em Harvard devido às boas notas e ao seu recorde como jogadorde beisebol. Os estudantes medíocres mantinham-se à tona de água, tentando passar despercebidos, e os fracos ficavam pelo caminho ou entravam em programas especiais. Os mais conflituosos, os toxicodependentes e os membros de gangues acabavam na rua; ou eram expulsos ou saíam por sua própria iniciativa. Nos dois primeiros anos, eu tinha sido boa aluna e desportista, mas numa questão de três meses desci à última categoria, as minhas notas afundaram-se a pique, envolvia-me em zaragatas, roubava, fumava marijuana e adormecia nas aulas. Preocupado, o professor Harper, de História, falou com o meu pai, que nada podia fazer para resolver o problema senão dar-me um sermão edificante, e enviou-me aos Serviços de Saúde, onde me fizeram umas quantas perguntas e, depois de determinarem que não era anorética nem me tinha tentado suicidar, me deixaram em paz.

   A Secundária de Berkeley é um campus aberto, incrustado no meio da cidade, onde foi fácil perder-me na multidão. Comecei a faltar às aulas sistematicamente, saía para almoçar e à tarde já não voltava. Tínhamos uma cafetaria onde só paravam os cromos, ser visto lá não tinha pinta nenhuma. A minha Nini era inimiga dos restaurantes de hambúrgueres e pizzas do bairro e insistia em que eu fosse à cafetaria, onde a comida era orgânica, saborosa e barata, mas nunca lhe liguei nenhuma. Os estudantes reuniam-se no Park, uma praça vizinha, a cinquenta metros da esquadra de Polícia, onde imperava a lei da selva. Os pais queixavam-se da cultura de drogas e ócio do Park, a imprensa publicava artigos, os polícias passeavam-se pelo local sem intervir e os professores lavavam as mãos, porque a praça estava fora da sua jurisdição.

     No Park, dividíamo-nos em grupos, separados segundo classe social e cor. Os que fumavam marijuana e restantes transviados tinham a sua zona, os brancos, como eu, ocupavam outra, a malta hispânica mantinha-se na periferia, defendendo o seu território imaginário com

ameaças rituais, e ao centro instalavam-se os vendedores de drogas. Numa esquina ficavam os bolseiros do Iémen, que tinham feito manchete depois de agredidos por rapazes afro-americanos armados de tacos de beisebol e canivetes. Noutra esquina estava Stuart Peel sempre

sozinho, porque tinha desafiado uma miúda de doze anos a atravessar a autoestrada a correr e a miúda foi atropelada por dois ou três carros; sobreviveu, mas ficou inválida e desfigurada e o autor da brincadeira pagou com o ostracismo: ninguém voltou a dirigir-lhe a palavra. Mis-

turados com os estudantes estavam os punks, com os seus cabelos verdes, os seus piercings e tatuagens, os mendigos com os seus carrinhos de supermercado repletos e os seus cães obesos, vários alcoólicos, uma senhora louca que costumava exibir o traseiro e outras personagens habituais da praça.

   Alguns dos rapazes fumavam, bebiam álcool em garrafas de Coca-Cola, faziam apostas, passavam marijuana e comprimidos debaixo do nariz dos polícias, mas a grande maioria comia o seu almoço e regressava à escola quando terminava o intervalo de quarenta e cinco minuto. Eu não me encontrava entre este grupo; assistia às aulas apenas o indispensável para estar a par do que se dava.

   À tarde, os adolescentes tomavam o centro de Berkeley. Deslocámo-nos em grupos, perante o olhar desconfiado de transeuntes e comerciantes. Passávamos a arrastar os pés, com os nossos telemóveis, auscultadores, mochilas, pastilhas elásticas, jeans rasgados, linguagem em código. Como todos, eu ansiava mais que tudo por fazer parte do grupo e que gostassem de mim; não havia pior sorte que ser excluído, Stuart Peel. Naquele ano do meu décimo sexto aniversário, sem sentia-me diferente dos outros, atormentada, rebelde e furiosa com o mundo.Já não tentava esbater-me no rebanho, mas destacar-me; não queria ser aceite, mas temida. Afastei-me das minhas amizades habituais, ou afastaram-se elas de mim, e formei um triângulo com Sarah e

Debbie, as raparigas com pior reputação da escola, o que é dizer muito, porque na Secundária de Berkeley havia alguns casos patológicos. Formámos o nosso clube exclusivo, éramos íntimas, irmãs, contávamos umas às outras até os sonhos que tínhamos, estávamos sempre juntas ou continuamente ligadas por telemóvel, falando, partilhávamos roupa, maquilhagem, dinheiro, comida, drogas, não podíamos conceber uma existência separadas, a nossa amizade duraria o resto da vida e nada nem ninguém se intrometeria entre nós.

   Transformei-me por dentro e por fora. Parecia-me que ia rebentar, tinha carne a mais, faltavam-me ossos e pele, fervia-me o sangue, não me suportava a mim mesma. Receava despertar de um pesadelo kafkiano transformada em barata. Examinava os meus defeitos, os meus dentes grandes, as pernas musculosas, as orelhas protuberantes, o cabelo escorrido, o nariz curto, as cinco borbulhas, as unhas roídas, a má postura, a pele demasiado branca, a minha figura alta e desajeitada. Sentia- me horrível, mas tinha momentos em que podia adivinhar o poder do meu corpo de mulher, um poder que não sabia utilizar. Irritava-me se os homens olhavam para mim ou me ofereciam boleia na rua, se os meus colegas me tocavam ou um professor se interessava demasiado pelo meu comportamento ou pelas minhas notas, excetuando o corretíssimo professor Harper.

   A escola não tinha equipa feminina de futebol e eu jogava num clube, onde uma vez o treinador me mandou fazer flexões no campo até as outras raparigas irem embora e, depois, me seguiu até aos chuveiros, me tocou por todo o corpo e, como não tive reação, julgou que tinha gostado. Envergonhada, só contei a Sarah e a Debbie, sob juramento de guardarem segredo, deixei de jogar e não voltei a pôr os pés no clube.

   As mudanças no meu corpo e no meu carácter foram tão súbitas como uma queda sobre o gelo e não consegui perceber que me iria estatelar de cabeça. Comecei a desafiar o perigo com a determinação de alguém sob hipnose, e depressa levava uma vida dupla, mentia com uma habilidade espantosa e discutia com a minha avó aos gritos e batendo as portas; ela era a única autoridade em casa, desde que Susan partira para o Iraque. Na prática, o meu pai tinha desaparecido, imagino que tenha duplicado as suas horas de voo para evitar confrontos comigo.

   Com Sarah e Debbie descobri a pornografia na Internet, como o resto dos nossos colegas de escola, e juntas ensaiávamos os maneirismos e posturas das mulheres do ecrã, com resultados duvidosos no meu caso, porque me achava ridícula. A minha avó começou a suspeitar de algo e lançou-se numa campanha frontal contra a indústria do sexo, que explorava as mulheres e as degradava, o que não era nada de novo, uma vez que já me tinha levado com Mike O'Kelly a uma manifestação contra a Playboy, quando Hugh Hefner teve a disparatada ideia de visitar Berkeley. Eu tinha nove anos, tanto quanto me lembro.

As minhas amigas eram o meu mundo, somente com elas podia partilhar as minhas ideias e sentimentos, apenas elas viam as coisas do meu ponto de vista e me compreendiam, mais ninguém entendia nem o nosso humor nem os nossos gostos. Os alunos da Secundária de Berkeley eram uns pirralhos mimados, estávamos convencidas de que ninguém tinha vidas tão complicadas como as nossas. Com o pretexto de supostas violações e tareias do seu padrasto, Sarah dedicava-se a roubar compulsivamente, enquanto Debbie e eu vivíamos em alerta constante para a encobrir e proteger. A verdade é que Sarah vivia sozinha com a mãe e nunca tivera padrasto, mas aquele psicopata imaginário estava tão presente nas nossas conversas como se fosse de carne e osso. A minha amiga parecia um gafanhoto, toda cotovelos, joelhos, clavículas e outros ossos protuberantes, e andava sempre com sacos de guloseimas que devorava de uma assentada, para, a seguir, correr para a casa de banho e enfiar os dedos na garganta. Estava tão subnutrida que desmaiava e cheirava a morto, pesava trinta e sete quilos, mais oito que a minha mochila cheia com os livros, e o seu objetivo era chegar aos vinte e cinco e desaparecer por completo. Pela parte que lhe toca, Debbie, a quem realmente batiam em casa e que tinha sido violada por um tio, era fanática de filmes de terror e sentia uma atração mórbida por coisas do outro mundo, zombies, vudu, Drácula e possessão demoníaca. Tinha comprado O Exorcista, um filme muito antigo, que nos obrigava a ver de tempos a tempos, porque tinha medo de o ver sozinha. Sarah e eu adotámos o seu estilo gótico, de negro total, incluindo o verniz das unhas, a sua palidez sepulcral, os enfeites de chaves, cruzes, e caveiras, e o cinismo lânguido dos vampiros de Holhywood, que deu origem à nossa alcunha: as vampiras.

   Competíamos as três numa prova de mau comportamento. Tínhamos estabelecido um sistema de pontos por delitos impunes, que consistiam, basicamente, em destruir propriedade alheia, vender marijuana, ecstasy, LSD e medicamentos roubados, pintar com spray as paredes da escola, falsificar cheques, roubar nas lojas. Anotávamos as nossas proezas num caderninho, ao fim do mês contávamos os pontos e a vencedora recebia de prémio uma garrafa de vodka da mais forte e barata, KU:L, uma vodka polaca com a qual seria possível dissolver tinta. As minhas amigas vangloriavam-se do seu comportamento promíscuo, de infeções venéreas e abortos, como se fossem medalhas de honra, embora, no tempo que passámos juntas, não tenha assistido nada disto. Por comparação, o meu estado de boa rapariga era bastante embaraçoso, pelo que me apressei a perder a virgindade, coisa que fiz com Rick Laredo, o bruto mais bruto do planeta.

   Adaptei-me às rotinas de Manuel Arias com uma flexibilidade e cortesia que surpreenderiam a minha avó. Ela continua a considerar-me uma miudita de merda, termo que pode ser de censura ou de carinho, dependendo do tom, mas quase sempre cai na primeira categoria. Não sabe o quanto mudei, tornei-me encantadora. «Com a pancada se aprende, a vida ensina-nos», é outro dos seus provérbios, que no meu caso se provou acertado.

   Às sete da manhã, Manuel atiça o fogo do fogão para aquecer a água do duche e as toalhas, depois chega Eduvigis com a sua filha Azucena, que nos trazem um esplêndido pequeno-almoço de ovos das suas galinhas, pão do seu forno e leite da sua vaca, espumoso e quente. O leite tem um cheiro peculiar, que ao princípio me repugnava e agora me delicia, um cheiro a estábulo, a pasto, a bosta fresca. Eduvigis gostaria que eu tomasse o pequeno-almoço na cama, «como uma senhorita» - este é ainda o costume no Chile em algumas casas onde há «nanas», como chamam às empregadas domésticas -, mas só o faço aos domingos, dia em que me levanto tarde, porque vem até cá Juanito, o seu neto, e lemos na cama com o Fakin aos pés. Vamos a meio do primeiro volume do Harry Potter.

   De tarde, depois de terminar o meu trabalho com Manuel, vou até à aldeia em passo de corrida. As pessoas olham-me com um ar estranho e algumas já me perguntaram onde vou com tanta pressa. Preciso de fazer exercício ou acabarei redonda, ando a comer por toda a fome que tive no ano passado. A dieta chilota contém demasiados hidratos de carbono, mas não se veem pessoas obesas em lado nenhum, deve ser do esforço físico, aqui é preciso uma pessoa mexer-se muito. Azucena Corrales está um bocadinho gorda para os seus treze anos e não a consegui convencer a vir correr comigo, tem vergonha. Que é que as pessoas vão pensar?, diz ela. Esta rapariga leva uma vida muito solitária, porque há poucos jovens na aldeia, apenas alguns pescadores, meia dúzia de adolescentes ociosos e pedrados com marijuana, e o rapaz do cibercafé, onde o café é instantâneo e a ligação à Internet é caprichosa, um local que procuro frequentar o menos possível para evitar a tentação do email. As únicas pessoas nesta ilha que vivem incomunicáveis        são a dona Lucinda e eu, ela devido à muita idade e eu por ser fugitiva. Os restantes habitantes da aldeia têm os seus telemóveis e os computadores do cibercafé.

   Não me aborreço. Isto surpreende-me, porque antes aborrecia-me até a ver filmes de ação. Acostumei-me às horas desocupadas, aos dias longos, ao ócio. Entretenho-me com muito pouco, as rotinas do trabalho de Manuel, os romances de muito má qualidade da tia Blanca, os vizinhos da ilha e as crianças, que andam em grupo e sem vigilância, Juanito Corrales é o meu favorito, parece um boneco, com o seu corpo delgado, a sua grande cabeça e os seus olhos negros que tudo veem. Passa por lerdo, porque fala o mínimo possível, mas é muito esperto: compreendeu cedo que ninguém se importa com aquilo que dizemos, por isto não diz nada. Jogo futebol com os rapazes, mas não consegui despertar o interesse das raparigas, em parte porque os rapazes se negam a jogar com elas e, em parte, porque aqui nunca se viu uma equipa feminina de futebol. A tia Blanca e eu decidimos que isto tem de mudar e, mal as aulas comecem, em março, e tenhamos os miúdos sob o nosso controlo, vamo-nos ocupar do assunto.

     Os habitantes da aldeia abriram-me as suas portas, embora isto seja uma maneira de falar, já que as portas estão sempre abertas. Como o meu espanhol melhorou bastante, podemos ir tendo umas conversas aos tropeções. Os chilotes têm um sotaque cerrado e usam palavras e construções sintáticas que não figuram em nenhuma gramática, as quais, de acordo com Manuel, provêm do castelhano antigo, porque Chiloé esteve isolado do resto do país durante muito tempo. O Chile tornou-se independente da Espanha em 1810, mas Chiloé apenas o fez.

Em 1826, foi o último território espanhol no Cone Sul.

     Manuel avisara-me de que os chilotes são desconfiados, mas a minha experiência é diferente, comigo são muito amáveis. Convidam-me para sua casa, sentamo-nos diante do fogão a conversar e a beber chá-mate, uma infusão de ervas verde e amarga, servida numa cabaça, que passa de mão em mão, com todos a chupar do mesmo tubo. Falam-me das suas doenças e das doenças das plantas, que podem ser causadas pela inveja de um vizinho. Várias famílias estão zangadas devido a boatos espalhados ou suspeitas de bruxaria. Não consigo imaginar como fazem para continuar inimigos, já que somos apenas cerca de trezentas pessoas e vivemos num espaço reduzido, como frangos num galinheiro. Nenhum segredo se consegue guardar nesta comunidade, que é como uma grande família, dividida, rancorosa e obrigada a conviver e a ajudar-se mutuamente em caso de necessidade.

   Falámos das batatas - há cem variedades, ou «qualidades», batatas vermelhas, roxas, negras, brancas, amarelas, redondas, compridas, batatas e mais batatas -, de como se plantam na lua minguante e nunca ao domingo, de como se agradece a Deus ao plantar e colher a primeira e de como se lhes canta quando estão adormecidas debaixo da terra. A dona Lucinda, com cento e nove anos de idade, segundo os cálculos locais, é uma das cantoras que canta à plantação: «Chilote cuida das tuas batatas, cuida das tuas batatas, chilote, que não venha um de fora e tas leve, Chilote.» Queixam-se das unidades produtoras de salmão, culpadas de muitos males, e das falhas do governo, que promete muito e cumpre pouco, mas estão de acordo em que Michelle Bachelet é a melhor presidente que alguma vez tiveram, apesar de ser mulher. Ninguém é perfeito.

   Manuel, por exemplo, está longe de ser perfeito, é seco, austero, falta-lhe uma barriga acolhedora e visão poética para entender o universo e o coração humano, como o meu Popo, mas ganhei-lhe afeto, não o posso negar. Gosto tanto dele como do Fakin, e isto apesar de Manuel não fazer o menor esforço por conquistar a estima de ninguém. O seu pior defeito é a ordem obsessiva. Esta casa parece um quartel militar, às vezes deixo as minhas coisas espalhadas de propósito ou os pratos sujos na cozinha, para ensiná-lo a descontrair um pouco. Não discutimos, no estrito sentido da palavra, mas temos os nossos embates. Hoje, por exemplo, não tinha nada que vestir, porque me esqueci de lavar a roupa, por isso peguei num par de peças de roupa dele que estavam a secar sobre o fogão. Supus que, se as outras pessoas podem levar desta casa o que bem lhes dá na gana, eu podia tomar de empréstimo algo que ele não está a usar.

   - Da próxima vez que vestires as minhas cuecas, faz o favor de me pedires antes! - disse-me, num tom que não me agradou nada.

   - És mesmo um obcecado, Manuel! Quem te ouvisse ainda julgava que não tens mais nenhumas - respondi, num tom que talvez não lhe tenha agradado a ele.

     - Eu nunca pego nas tuas coisas, Maya.

     - Isso é porque não tenho nada para pegares! Aqui tens a merda das cuecas! - E comecei a despir as calças para lhas devolver, mas Manuel deteve-me, espantado.

     - Não, não! Ofereço-tas, Maya.

     E eu, como uma estúpida, comecei a chorar. Claro que não chorava por causa disto, sabe Deus porque chorava, talvez porque dentro de pouco tempo estarei com o período, ou porque ontem à noite me estive a lembrar da morte do meu Popo e andei triste todo o dia. O meu Popo ter-me-ia abraçado e, dois minutos depois, ter-nos-íamos rido juntos, mas Manuel começou a passear em círculos coçando a cabeça e dando pontapés aos móveis, como se nunca tivesse visto lágrimas. Por fim, ocorreu-lhe a brilhante ideia de me preparar um Nescafé com leite condensado, o que me acalmou um pouco, e já pudemos conversar. Pediu-me que o tentasse compreender, há vinte anos que não vivia com uma mulher, tem os hábitos muito arraigados, a ordem é importante num espaço tão reduzido como o desta casa e a convivência seria mais fácil se respeitássemos a roupa interior um do outro. Pobre homem.

     - Ouve, Manuel, eu sei muito de psicologia, porque passei mais de um ano entre lunáticos e psicoterapeutas. Estive a estudar o teu caso e o que tu tens é medo - anunciei-lhe.

     - De quê? - perguntou, sorrindo.

     - Não sei, mas posso investigar. Deixa que te explique, isto da ordem e do território é uma manifestação de neurose. Vê a confusão que armaste por causa de umas miseráveis cuecas,

quando, por outro lado, nem pestanejaste quando um desconhecido levou a tua aparelhagem emprestada. Esforças-te por controlar tudo, em especial as tuas emoções, para te sentires seguro, mas qualquer tontinho sabe que neste mundo não há segurança, Manuel.

     - Estou a ver. Continua...

     - Pareces sereno e distante, como Siddhartha, mas a mim não enganas: sei que por dentro estás uma desgraça. Sabes quem era

Siddhartha, não? O Buda.

     - Sim, o Buda,

     - Nao te rias. As pessoas pensam que és sábio, que alcançaste a paz espiritual ou alguma palermice do género. De dia és o cúmulo do equilíbrio e da tranquilidade, como Siddhartha, mas eu ouço-te de noite, Manuel. Gritas e gemes a dormir. Que coisa tão terrível escondes?

Não passou dali a nossa sessão de terapia. Manuel pôs o gorro e o colete, assobiou ao Fakin para que o acompanhasse e foi dar um passeio ou andar de barco ou queixar-se de mim a Blanca Schnake. Era muito tarde quando regressou. Custa-me ficar sozinha de noite nesta casa cheia de morcegos!

   A idade, como as nuvens, é imprecisa e mutável. Por vezes, Manuel aparenta os anos que tem e, noutras alturas, dependendo da luz e do seu estado de espírito, posso ver o homem jovem que continua oculto sob a sua pele. Quando se inclina sobre o teclado, no cru resplendor azulado do computador parece ter uma idade avançada, mas, quando capitaneia a sua lancha, aparenta uns cinquenta. No princípio, reparava nas suas rugas, nas olheiras e no contorno avermelhado dos olhos, nas veias das mãos, nos dentes manchados, nos ossos do rosto esculpidos a cinzel, na tosse e no catarro matutino, no gesto fatigado de tirar os óculos e esfregar as pálpebras, mas agora já não é nestes pormenores que me fixo, mas na sua virilidade sem estridência. Manuel é atraente. Tenho a certeza de que Blanca Schnake está de acordo, notei o olhar que lhe dirige. Acabo de dizer que Manuel é atraente! Deus do céu, é mais velho que as pirâmides! A má vida em Las Vegas deve-me ter deixado o cérebro em papas, não há outra explicação.

   Segundo a minha Nini, o mais sexy de uma mulher são as ancas, porque indicam a sua capacidade reprodutora, e num homem são os braços, porque indicam a sua capacidade para o trabalho. Sabe-se lá onde foi desencantar esta teoria, mas tenho de admitir que os braços de Manuel são sexy. Não são musculosos como os de um jovem, mas são firmes, de pulsos grossos e mãos grandes, inesperadas num escritor, mãos de marinheiro ou de pedreiro, com a pele gretada e as unhas sujas de óleo do motor, gasolina, lenha, terra. Estas mãos picam tomates e coentros ou são capazes de amanhar um peixe com grande delicadeza. Observo-o dissimuladamente, porque me mantém a certa distância, acho que tem medo de mim, mas examinei-o pelas costas. Gostava de tocar no seu cabelo duro como o pelo de uma escova e ver mais de perto aquela fenda que tem na base da nuca, que todos temos, suponho. Como será o seu cheiro? Não fuma nem usa água-de-colónia, tomo o meu Popo, cuja fragrância é a primeira coisa de que me apercebo quando me vem ver. A roupa de Manuel cheira como a minha e como tudo nesta casa: a lã, a madeira, a gatos, a fumo do fogão.

   Quando tento averiguar o passado ou os sentimentos de Manuel, este põe-se na defensiva, mas a tia Blanca contou-me algumas coisas e descobri outras ao arquivar as suas pastas. É sociólogo, para além de antropólogo, não sei qual será a diferença, e suponho que isto explicará a sua paixão contagiosa pelo estudo da cultura dos chilotes. Gosto de trabalhar e de viajar para outras ilhas com ele, gosto de viver em sua casa, gosto da sua companhia. Estou a aprender muito. Quando cheguei a Chiloé, a minha cabeça era uma caverna vazia e, em pouco tempo, tem-se ido enchendo.

   Blanca Schnake também contribui para a minha educação. Nesta ilha, a sua palavra é lei, aqui ela manda mais que os dois carabineiros da guarnição. Em jovem, Blanca foi aluna interna numa escola de freiras, depois viveu algum tempo na Europa e estudou pedagogia; é divorciada e tem duas filhas, uma em Santiago e a outra, casada e com duas crianças, na Florida. Nas fotografias que me mostrou, as filhas parecem modelos e os netos querubins. Dirigia uma escola secundária em Santiago, mas, há alguns anos, pediu transferência para Chiloé, porque queria viver em Castro, perto do pai. No entanto, foi colocada nesta ilhazinha insignificante. Segundo Eduvigis, Blanca teve cancro do peito e pôs-se boa com as curas de uma machi, mas Manuel esclareceu-me que isto foi apenas depois de uma mastectomia dupla e quimioterapia. Agora está em remissão. Vive por detrás da escola, na melhor casa da aldeia, reconstruída e ampliada, que o pai lhe comprou com um só cheque. Ao fim de semana vai até Castro visitá-lo.

     Dom Lionel Schnake é considerado uma pessoa ilustre em Chiloé muito querido pela sua generosidade, que parece ilimitada.

   - Omeu pai, quanto mais dá, melhor lhe correm os investimentos, por isso me custa pedir- lhe explicou me Blanca.

   Na reforma agrária de 1971, o governo de Allende expropriou a propriedade dos Schnake em Osorno e entregou-a aos camponeses que tinham vivido e trabalhado nela durante décadas. Schnake não gastou forças a alimentar o ódio ou a sabotar o governo, como outros na sua situação, mas olhou em volta em busca de novos horizontes e oportunidades. Sentia-se jovem e capaz de começar de novo. Mudou-se para Chiloé e montou um negócio de produtos do mar para abastecer os melhores restaurantes de Santiago. Sobreviveu às vicissitudes políticas e económicas da época e, mais tarde, à concorrência dos barcos pesqueiros japoneses e da indústria do salmão. Em 1976, o governo militar devolveu-lhe a terra e Dom Lionel pô-la nas mãos dos filhos, que a ergueram da ruína em que fora deixada, mas permaneceu em Chiloé, porque tinha sofrido o primeiro de vários ataques de coração e decidiu que a sua salvação seria adotar o ritmo pouco enérgico dos chilotes.

     - Com os oitenta e cinco anos que tenho, muito bem vividos, o meu coração anda melhor que um relógio suíço - disse-me Dom Lionel, que conheci no domingo, quando fui visitá-lo com Blanca.

   Ao saber que era a gringuita de Manuel Arias, apertou-me num grande abraço.

   - Diz a esse comunista mal-agradecido que me venha visitar. Desde o Ano Novo que não vem cá e tenho aqui um brandy reserva excelente à espera dele.

   Dom Lionel é um patriarca corado, com um grande bigode e quatro mechas de cabelo branco no crânio; pançudo, bon vivant, expansivo, que se ri com alarido das suas próprias piadas e tem sempre a mesa preparada para quem queira lá ir. É assim que imagino o Millalobo, esse mítico ser que rapta donzelas e as leva para o seu reino no fundo do mar. Este Millalobo de apelido alemão afirma-se vítima das mulheres em geral - «Não consigo recusar nada àquelas belezas!» - e, em especial, da sua filha, que o explora.

   - Blanca é mais pedinchona que um chilote, passa a vida a mendigar para a sua escola. Sabes qual foi a última coisa que me pediu? Preservativos! Era só o que faltava neste país! Preservativos para as crianças! - contou-me, entre gargalhadas.

   Dom Lionel não é o único a render-se diante de Blanca. A uma sugestão sua, juntaram-se mais de vinte voluntários para pintar e reparar a escola, no que aqui se chama minga: várias pessoas colaboram gratuitamente numa tarefa, sabendo que não lhes faltará ajuda quando, por sua vez, dela necessitem. É assim que se apanham batatas, se reparam tetos e se remendam redes, e foi assim que o frigorífico de Manuel foi transportado.

   Rick Laredo não tinha terminado o secundário e andava pelas ruas com outros delinquentes, vendia drogas a miúdos muito novos, roubava objetos e pouca monta e rondava o Park ao meio-dia para ver os seus antigos colegas da Secundária de Berkeley e, havendo oportunidade, fazer negócios com eles. Embora nunca tivesse sido capaz de o admitir, desejava voltar a intregar-se no rebanho da escola, de onde foi expulso por encostar o cano da pistola a uma orelha do professor Harper. É preciso que se diga: o professor portou-se bem de mais, intercedeu mesmo para que o aluno não fosse expulso, mas o próprio Laredo cavou a sua sepultura ao insultar o diretor e os membros da comissão. Rick Laredo cuidava do seu aspeto com esmero, com as suas impecáveis sapatilhas brancas de marca, t-shirt sem mangas para exibir os músculos e as tatuagens, o cabelo eriçado com gel como um porco-espinho e tantas correntes e pulseiras, que poderia ficar preso num íman. Os seus jeans eram enormes e caíam-lhe pelas ancas abaixo, caminhava como um chimpanzé. Era tão insignificante que nem sequer interessava à polícia ou a Mike O´Kelly.

   Quando decidi pôr termo à minha virgindade, marquei encontro com Laredo, sem mais explicações, no parque de estacionamento vazio de um cinema, a uma hora morta, antes da primeira sessão. De longe, vi-o passar em círculos com o seu balancear provocador, segurando com uma mão as calças, tão largas que parecia que andava de fraldas, enquanto na outra tinha um cigarro, excitado e nervoso, mas quando me aproximei fingiu a indiferença protocolar dos machos da sua categoria. Deitou a ponta do cigarro no chão e olhou-me de cima a baixo com uma expressão zombateira.

   - Despacha-te, tenho de apanhar o autocarro dentro de dez minutos - disse-lhe, tirando as calças.

   Apagou-se o seu sorriso de superioridade. Talvez esperasse algum tipo de preâmbulo.

   - Sempre gostei de ti, Maya Vidal - disse.

Pelo menos, este cretino sabe o meu nome, pensei.

   Laredo esmagou a beata sob o pé, agarrou-me num braço e quis-me beijar, mas voltei-lhe a cara, pois aquilo não estava incluído nos meus planos e o hálito de Laredo cheirava a motor. Esperou que acabasse de despir as calças e, a seguir, esmagou-me contra o pavimento e afadigou-se por um minuto ou dois, cravando-me os colares e amuletos no peito, sem imaginar que estava a fazer aquilo com alguém sem experiência, e por fim caiu sobre mim como um animal morto. Sacudi-o de cima com fúria, limpei-me às calcinhas, que deixei no chão do estacionamento, voltei a vestir as calças, agarrei na mochila e fui-me embora a correr. No autocarro reparei na mancha escura entre as minhas pernas e nas lágrimas que me molhavam a blusa.

   No dia seguinte, Rick Laredo estava plantado no Park com um CD de rap e um saquinho de marijuana para a «sua miúda». O infeliz deu-me pena e não consegui despachá-lo troçando dele, como seria próprio de uma vampira. Escapei-me à vigilância de Sarah e Debbie e convidei-o para ir a uma geladaria, onde comprei um cone de três bolas para cada um, com sabores de pistacho, baunilha e rum com passas. Enquanto comíamos o gelado, agradeci o seu interesse por mim e o favor que me tinha feito no estacionamento, e tentei explicar-lhe que não teria uma segunda oportunidade, mas a mensagem não penetrou no seu crânio de primata. Não me consegui livrar de Rick Laredo durante meses, até que um acidente inesperado o apagou da minha vida.

   De manhã, eu saía de casa com o aspeto de quem vai à escola, mas a meio do caminho juntava-me a Sarah e Debbie num Starbucks, onde os empregados nos davam um latte em troca de lavores indecentes no WC, disfarçava-me de vampira e saía para me divertir até à hora de regressar a casa à tarde, com a cara limpa e ar de colegial. Esta liberdade durou vários meses, até que a minha Nini deixou de tomar os antidepressivos, regressou ao mundo dos vivos e reparou em sinais de que antes não se tinha apercebido por andar de olhar virado para dentro: o dinheiro desaparecia-lhe da carteira, os meus horários não batiam certo com nenhum programa educacional conhecido, mostrava má cara e exibia uma atitude de ladra, tinha-me tornado ladina e mentirosa. A minha roupa cheirava a marijuana e o meu hálito a suspeitas pastilhas de menta. A minha avó ainda não tinha percebido que eu não ia às aulas. O professor Harper tinha falado com o meu pai uma vez, sem resultados aparentes, mas não lhe ocorrera ligar à minha avó. As tentativas da minha Nini para comunicar comigo competiam com o ruído da música trovejante dos meus auscultadores, o telemóvel, o Computador e a televisão.

   O mais conveniente para o bem-estar da minha Nini teria sido ignorar os sinais de perigo e conviver comigo em paz, mas o desejo de me proteger e o seu longo hábito de deslindar mistérios em romances de detetives levou-a a investigar. Começou pelo meu roupeiro e pelos números registados no meu telemóvel. Num bolso encontrou embalagens de preservativos e uma bolsinha de plástico com dois comprimidos amarelos com a marca Mitsubishi, que não conseguiu identificar. Mete-os na boca distraidamente e, passados quinze minutos, pôde constatar o efeito. Toldou-se-lhe a vista e o entendimento, os dentes batiam-lhe, sentiu os ossos ficarem moles e todas as suas mágoas desapareceram. Pôs a tocar um disco de música do seu tempo e lançou-se numa dança frenética, depois saiu para a rua para se refrescar, continuando a dançar enquanto tirava a roupa em público. Alguns vizinhos, que a viram cair ao chão, foram rapidamente cobri-la com uma toalha. Preparavam-se para ligar para o 112 quando cheguei eu, reconheci os sintomas e consegui convencê-los a ajudarem-me a levá-la para dentro de casa.

     Não a conseguimos erguer, o seu corpo tinha-se transformado em granito, e tivemos de a arrastar até ao sofá da sala. Expliquei aos bons samaritanos que não era nada grave, a minha avó tinha ataques daqueles com regularidade e a coisa passava sozinha. Empurrei-os amavelmente para a porta e, depois, corri a aquecer o café que sobrara do pequeno- almoço e a procurar uma manta, porque a minha Nini batia os dentes. Passados alguns minutos, fervia de calor. Durante as três horas seguintes, fui alternando a manta com compressas de água fria, até que a minha Nini conseguiu controlar a temperatura.

   Foi uma noite longa. No dia seguinte, a minha avó exibia o desânimo de um pugilista derrotado, mas a mente clara, e recordava bem o que se tinha passado. Não engoliu a minha história de que uma amiga me tinha pedido para lhe guardar as pastilhas e eu, inocente, ignorava que se tratava de ecstasy. A infeliz trip infundiu-lhe novas pretensões, chegara a sua oportunidade de praticar aquilo que havia aprendido no Clube dos Criminosos. Descobriu outras dez pastilhas Mitsubishi entre os meus sapatos e soube por 0'Kelly que cada uma custava o dobro da minha semanada.

     A minha avó percebia alguma coisa de computadores, porque os usava na Biblioteca, mas estava longe de ser uma especialista, por isso recorreu a Norman, um génio da tecnologia, curvado e cegueta aos vinte e seis anos de tanto viver de nariz colado aos ecrãs, que Mike 0'Kelly contratava ocasionalmente para propósitos ilegais. Quando se tratava de ajudar os seus rapazes, Branca de Neve nunca teve escrúpulos em esquadrinhar clandestinamente os ficheiros eletrônicos de advogados, magistrados, juízes e polícias. Norman consegue aceder atudo aquilo que deixa vestígios, por mais ínfimos que sejam, no espaço virtual, desde os documentos secretos do Vaticano até fotos de membros do Congresso americano a dar umas cambalhotas com prostitutas. Sem sair da divisão que ocupa em casa da mãe, seria capaz de praticar extorsões, roubar contas bancárias e cometer fraudes na Bolsa, mas é desprovido de inclinação criminosa, a sua paixão é meramente teórica.

     Norman não estava disposto a perder o seu precioso tempo com o computador e o telemóvel de uma pirralha de dezasseis anos, mas colocou os seus talentos de hacker ao serviço da minha Nini e de 0'Kelly e ensinou-os a violar passwords, ler mensagens privadas e recuperar do vazio aquilo que eu pensava ter destruído. Num só fim de semana, este parzinho de vocação detetivista reuniu informações suficientes para confirmar os piores temores da minha Nini e deixá- la desorientada: a sua neta bebia tudo o que lhe caísse nas mãos, desde genebra a xarope para a tosse, fumava marijuana, vendia ecstasy, ácido e calmantes, roubava cartões de crédito e tinha posto em marcha um negócio que lhe ocorreu depois de ver um programa de televisão, em que agentes do FBI se faziam passar por meninas impúberes para apanhar tarados pela Internet.

     A aventura começou com um anúncio que escolhi com as outras vampiras entre centenas de outros idênticos:

     Papá procura filha: homem de negócios branco, 54 anos, paternal, sincero, afetuoso,                   procura rapariga jovem de qualquer raça, pequena, meiga, muito desinibida e confortável no papel de filha com o seu paizinho, para prazer mútuo, simples, direto, por uma noite e, havendo seguimento, posso ser generoso. Apenas respostas sérias, nada de brincadeiras nem homossexuais. Indispensável mandar foto.

     Enviámos-lhe uma de Debbie, a mais baixa das três, aos treze anos, montada numa bicicleta, e marcámos encontro com ele num hotel de Berkeley, que conhecíamos porque Sarah tinha lá trabalhado no verão.

     Debbie livrou-se dos trapos negros e da maquilhagem sepulcral e sentou-se com algum álcool no estômago para ganhar coragem, disfarçada de rapariguinha vestida com o seu uniforme escolar, com saia plissada, blusa branca, meias curtas e fitas no cabelo. O homem teve um sobressalto ao verificar que era mais velha do que na foto, mas não estava em situação de reclamar, uma vez que tinha dez anos a mais que a idade indicada no anúncio. Explicou a Debbie que o seu papel consistia em ser obediente e o dele era dar-lhe ordens e aplicar-lhe alguns castigos, mas sem intenção de a magoar, somente para a corrigir, que é a obrigação de um bom pai.

     - E qual é a obrigação de uma boa filha? Ser carinhosa com o seu papá. Como te chamas? Não importa, comigo vais chamar-te Candy. Anda, Candy, senta te aqui, nos joelhos do teu paizinho, e conta-lhe se hoje os teus intestinos funcionaram, isto é importante, filhinha,

é a base para uma boa saúde.

   Debbie disse que tinha sede e o homem pediu um refrigerante e uma sanduíche por telefone. Enquanto ele descrevia os benefícios de um clister, Debbie ganhou tempo examinando o quarto com uma fingida curiosidade infantil ao mesmo tempo que chupava no dedo. Entretanto, Sarah e eu esperámos no estacionamento do hotel os dez minutos que tínhamos acordado e, a seguir, mandámos Rick Laredo, que subiu até ao andar correspondente e bateu à porta.

   - Serviço de quartos! - anunciou Laredo, seguindo as instruções que eu lhe havia dado.

   Mal abriram, irrompeu pelo quarto de pistola em punho. Laredo, a quem tínhamos posto a alcunha de psicopata, porque se vangloriava de torturar animais, tinha a musculatura e todos os adereços de membro de um gangue para se impor, mas, até aí, a arma apenas lhe tinha servido para assustar a clientela adolescente a quem vendia drogas e conseguir ser expulso da Secundária de Berkeley. Ao ouvir o nosso plano para extorquir pedófilos assustou-se, porque semelhante malfeitoria não fazia parte do seu escasso repertório, mas queria impressionar as vampiras e passar por valente. Dispôs-se a ajudar-nos e, para ganhar coragem, consumiu tequilha e crack. No momento em que abriu a porta do quarto de hotel com um pontapé e entrou com uma expressão demente e o seu tilintar de tacões, chaves e correntes, apontando a arma com as duas mãos como tinha visto no cinema, o frustrado paizinho desfaleceu no único cadeirão existente, encolhido como um feto. Laredo vacilou, porque com os nervos esqueceu-se do passo seguinte, mas a memória de Debbie era melhor.

   É possível que a vítima não tenha ouvido nem metade do que ela lhe disse, porque soluçava de medo, mas algumas palavras surtiram o impacto devido, como «crime federal», «pornografia infantil», «tentativa de violação de menores», «anos de prisão». Por uma quantia de duzentos dólares em dinheiro vivo podiam evitar-se todos estes problemas, explicaram-lhe. O tipo jurou pelo mais sagrado que não tinha aquele dinheiro e isto alterou tanto Laredo que talvez lhe tivesse dado um tiro, se Debbie não se tivesse lembrado de me ligar para o telemóvel; eu era a chefe daquela orquestra. Nisto, tocaram à porta de novo e, desta vez, era um empregado do hotel que trazia a bebida e a sanduíche.

     Debbie recebeu a bandeja na ombreira da porta e assinou a conta, bloqueando a visão do espetáculo de um homem em cuecas a gemer no cadeirão, enquanto outro, vestido de cabedal negro, lhe enfiava uma pistola na boca. Fui até ao quarto do paizinho e assumi o controlo da situação com a calma resultante de um charro de marijuana. Indiquei ao homem que se vestisse e assegurei-lhe que não lhe aconteceria nada se cooperasse. Bebi o refrigerante e dei duas dentadas na sanduíche, após o que ordenei à vítima que nos acompanhasse sem protestar, porque não lhe convinha armar escândalo. Tomei o infeliz pelo braço e, com Laredo colado às nossas costas, descemos quatro andares pelas escadas, já que no elevador havia o risco de nos depararmos com alguém. Empurrámo-lo para dentro do Volkswagen da minha avó, que trouxera emprestado sem pedir permissão e conduzia sem ter carta, e levámo-lo até uma caixa Multibanco, onde o homem levantou o dinheiro do seu resgate. Entregou-nos as notas, entrámos para o carro a saímos disparados dali. O homem ficou na rua, suspirando de alívio e suponho, curado do vício de brincar aos papás. No seu todo, a operação demorou trinta e cinco minutos e a descarga de adrenalina foi tão fantástica como os cinquenta dólares que cada um de nós meteu ao bolso.

   O que mais chocou a minha Nini foi a minha falta de escrúpulos. Nas minhas mensagens, que circulavam para cá e para lá ao ritmo de uma centena por dia, não encontrou qualquer vestígio de remorso ou medo das consequências, somente um descaramento de safada nata.

Por essa altura, tínhamos repetido esta forma de extorsão três vezes e só não continuámos porque nos fartámos de Rick Laredo, da sua pistola, do seu pegajoso amor de poodle e das suas ameaças de me matar ou de nos denunciar se eu não aceitasse ser sua namorada. Era um tipo exaltado, podia perder a cabeça a qualquer momento e matar alguém num acesso brusco. Para além disso, queria que lhe déssemos uma percentagem maior dos ganhos, porque, se algo corresse mal, ele iria para a cadeia vários anos, enquanto nós seríamos julgadas como menores

   - Tenho o mais importante: a pistola – disse-nos.

   - Não, Rick, o mais importante tenho-o eu: o cérebro - respondi-lhe.

     Encostou-me o cano da arma à testa, mas afastei-o com um dedo e, juntamente com as outras duas vampiras, voltámos-lhe as costas e fomo-nos embora a rir. Assim terminou nosso rentável negócio com os pedófilos, mas livrámo-nos de Laredo, que no entanto continuou a assediar-me com tanta insistência que cheguei a odiá-lo.

     Noutra inspeção ao meu quarto, a minha Nini descobriu mais drogas, saquinhos com pastilhas e uma grossa corrente de ouro cuja proveniência não foi capaz de determinar através da análise das mensagens intercetadas. Sarah roubara-a à sua mãe e eu escondi-a enquanto investigávamos uma forma de a vender. A mãe de Sarah era para nós uma fonte generosa de rendimentos, porque trabalhava numa grande empresa, ganhava bem e gostava de fazer compras, para além de que viajava, chegava tarde a casa, era fácil de enganar e não dava conta se algo lhe faltava. Gabava-se de ser a melhor amiga da filha e de esta lhe contar tudo, embora na realidade não suspeitasse minimamente de como era a vida de Sarah, nem sequer tivesse reparado em como a filha estava anêmica e subnutrida. Por vezes, convidava-nos para ir até sua casa beber cerveja e fumar marijuana com ela, porque era mais seguro que fazê-lo na rua, como costumava dizer. Custava-me a entender que Sarah espalhasse o mito de um padrasto cruel, tendo uma mãe tão invejável; comparada com esta senhora, a minha avó era um monstro.

A minha Nini perdeu a pouca tranquilidade que tinha, convencida de que a neta acabaria estendida nas ruas de Berkeley entre toxicodependentes e mendigos, ou na cadeia, com os jovens delinquentes que Branca de Neve não conseguia salvar. Lera que há uma parte do cérebro que se demora a desenvolver e é por isso que os adolescentes têm um comportamento tresloucado, sendo inútil tentar fazê-los ver a razão. Concluiu que eu estava presa na fase do pensamento mágico, como estivera ela mesma na altura em que tentava comunicar com o espírito do meu Popo e caiu nas mãos da vidente de Oakland. 0'Kelly, o seu leal amigo e confidente, encarregou-se de a tranquilizar com o argumento de que eu tinha sido arrastada pelo Tsunami das hormonas, como sucede a todos os adolescentes, mas era basicamente uma menina decente e, no fim, salvar- me- ia, desde que eles pudessem proteger- me de mim mesma e dos perigos do mundo, enquanto a Natureza implacável cumpria o seu ciclo. A minha Nini concordou, porque, pelo menos, eu não era bulímica como Sarah, nem me cortava com lâminas de barbear como Debbie, e também não estava grávida, nem tinha hepatite nem SIDA.

     Isto e muito mais tinham descoberto Branca de Neve e a minha avó, graças às indiscretas comunicações eletrônicas das vampiras e às demoníacas habilidades de Norman. A minha Nini debateu-se entre a obrigação de contar tudo ao meu pai, com repercussões imprevisíveis, e o desejo de me ajudar discretamente, como sugeria Mike, mas não chegou a tomar qualquer decisão, porque o vendaval dos acontecimentos varreu-a para o lado.

   Entre as pessoas importantes desta ilha estão os dois carabineiros - chamam-lhes paços - Laurencio Carcamo e Humilde Garay, que têm a seu cargo a ordem pública e com quem tenho uma boa amizade porque lhes estou a treinar o cão. Antes, as pessoas tinham pouca simpatia pelos paços, porque se portaram terrivelmente durante a ditadura, mas, nos vinte anos de democracia que o país já leva, têm vindo a recuperar a confiança e a estima dos cidadãos. No tempo da ditadura, Laurencio Carcamo era uma criança e Humilde Garay ainda não tinha nascido. Nos cartazes institucionais do Corpo de Carabineiros do Chile, os soldados de uniforme aparecem acompanhados por soberbos pastores alemães, mas por aqui temos um bicho meio arraçado a que puseram o nome de Livingston, em honra do mais famoso futebolista chileno, já um ancião. O cachorro acaba de fazer seis meses, idade ideal para começar a sua educação, mas receio que comigo apenas vá aprender a sentar-se, dar a pata e fazer de morto. Os carabineiros pediram-me para o ensinar a atacar e encontrar cadáveres, mas a habilidade requer agressividade e a segunda paciência, duas características opostas. Obrigados a escolher, optaram pela busca cadáveres, já que aqui não há quem atacar e, por outro lado, costuma desaparecer gente nos escombros dos terramotos.

     O método, que nunca antes tinha praticado, mas li num manual, consiste em empapar um trapo com cadaverina, uma substância fétida que cheira a carne em decomposição, dá-lo a cheirar ao cão, escondê-lo e, a seguir, fazer com que este o encontre.

   - Isso da cadaverina seria complicado, senhora. Não poderíamos usar tripas podres de frango? - sugeriu Humilde Garay.

   No entanto, quando o fizemos, o cão levou-nos diretamente à cozinha de Aurelio Nancupel na Taberna do Mortito.

   Continuo a tentar com diversos métodos improvisados, perante o olhar ciumento do Fakin, que em princípio não gosta de outros animais. Com este pretexto, passo horas no quartel a beber café instantâneo e a ouvir as fascinantes histórias destes homens ao serviço da pátria, como se definem a si mesmos. O quartel é uma casa pequena de cimento, pintada de branco e verde pardo, as cores da polícia, e com a cerca decorada com fiadas de conchas de machas. Os carabineiros falam muito pouco, dizem negativo e positivo em vez de «não, não» e «sim, sim», como fazem os chilotes, eu sou «senhora» e o Livingston é o «canídeo», também ao serviço da pátria. Laurencio Carcamo, o que tem mais autoridade, esteve colocado num aldeia perdida da Província da Última Esperança, onde lhe tocou amputar a perna a um homem que ficou preso num desmoronamento.

   - Com um serrote, senhora, e sem anestesia, aguardente era a única coisa que tínhamos.

   Humilde Garay, que me parece o mais adequado para companheiro do Livingston, é muito atraente, parece-se com aquele ator dos filmes do Zorro, caramba, não me lembro do nome... Há um batalhão de mulheres atrás dele, desde turistas ocasionais que ficam aparvalhadas na sua presença até raparigas empenhadas que vêm do continente só para o ver, mas Humilde Garay é sério a dobrar, primeiro por vestir o uniforme e segundo por ser evangélico. Manuel contou-me que Garay salvou uns montanhistas argentinos, que se tinham perdido nos Andes. As patrulhas de resgate dispunham-se a abandonar a busca, porque os davam por mortos, quando interveio Garay. Simplesmente assinalou um ponto no mapa com o seu lápis, mandaram um helicóptero e, naquele preciso lugar, encontraram os montanhistas, semicongelados mas ainda vivos.

   - Positivo, senhora, a localização das presumíveis vítimas da república irmã estava adequadamente assinalada no mapa Michelin - respondeu, quando lhe perguntei sobre o assunto, e mostrou-me um recorte de jornal do ano de 2007 com a notícia e uma foto do coronel que lhe deu a ordem: Se o suboficial no ativo Humilde Garay Ranquileo é capaz de encontrar água no subsolo, também é capaz de encontrar cinco argentinos à superfície, disse o coronel na entrevista. O facto é que, quando os carabineiros precisam de cavar um poço em qualquer parte do país, consultam Garay por rádio, e este marca num mapa o lugar exato e a profundidade onde há água e, a seguir, manda uma fotocópia do mapa por fax. Estas são as histórias que devo registar, porque um dia servirão à minha Nini de matéria-prima para os seus contos.

   Este par de carabineiros chilenos lembra-me o sargento Walczak de Berkeley, pois são tolerantes com as fraquezas humanas. As duas celas do quartel, uma para damas e outra para cavalheiros, como indicam os letreiros nas grades, são principalmente usadas para alojar bêbedos quando está a chover e não há maneira de os levar até casa.

   Os últimos três anos da minha vida, entre os dezasseis e os dezanove, foram tão explosivos que por pouco destruíram a minha Nini, Bill resumiu o assunto numa só frase: Fico contente por o teu Popo já não estar neste mundo para ver aquilo em que te transformaste, Maya. Quase lhe respondi que, se o meu Popo estivesse neste mundo, eu não me teria transformado no que sou, mas calei-me a tempo, pois não era justo culpá-lo pelo meu comportamento.

     Certo dia, em novembro de 2006, catorze meses depois da morte do meu Popo, às quatro da madrugada, ligaram do hospital do condado para informar a família Vidal de que a menor Maya Vidal tinha chegado numa ambulância ao Serviço de Urgência e, naquele momento, estava a ser submetida a uma cirurgia. A única pessoa que estava em casa era a minha avó, que conseguiu falar com Mike O'Kelly para lhe pedir que localizasse o meu pai antes de sair disparada para o hospital. Eu tinha-me escapulido durante a noite para assistir a uma rave numa

fábrica encerrada, onde me esperavam Sarah Debbie. Não pude levar o Volkswagen, porque a minha Nini tinha batido com ele outra vez e estava na oficina, por isso usei a minha velha bicicleta, um pouco enferrujada e com os travões em mau estado.

     Nós, as vampiras, conhecíamos o segurança da porta, um tipo de aspeto patibular e cérebro de galinha, que nos deixou entrar para a festa sem pôr objeções quanto à idade. A fábrica vibrava com o ribombar da música e a multidão desenfreada, quais fantoches desarticulados, uns dançando ou saltando, outros pregados ao chão em estado catatónico, marcando o ritmo com a cabeça. Beber até perder o juízo, fumar o que não era possível injetar, fornicar com quem estivesse mais à mão e sem inibições, era disto que se tratava. O cheiro, o fumo e o calor eram tão intensos que de vez em quando íamos até à rua para respirar. Ao chegar, pus-me fina com um cocktail da minha invenção - genebra, vodka, whisky, tequilha e Coca-Cola - e um cachimbo de marijuana misturada com cocaína e umas gotinhas de LSD, que me bateu como dinamite. Depressa perdi de vista as minhas amigas, qui se diluíram na massa frenética. Dancei sozinha, continuei a beber, deixei-me manusear por vários rapazes... Não me lembro dos pormenores nem do que se passou a seguir. Dois dias mais tarde, quando começou a esbater-se o efeito dos calmantes que me deram no hospital, soube que tinha sido atropelada por um automóvel ao sair da rave, completamente drogada, na minha bicicleta, sem luzes nem travões. Fui projetada pelos ares e caí a vários metros de distância, nuns arbustos na berma da estrada. Ao tentar desviar-se de mim, o condutor do carro bateu contra um poste e teve um traumatismo craniano.

   Estive doze dias no hospital com um braço partido, o maxilar deslocado e o corpo a arder, porque tinha aterrado sobre uma mata de hera venenosa, e outros vinte dias prisioneira em minha casa, com ferros e porcas metálicas no osso, sob a vigilância da minha avó e de Branca de Neve, que a substituía algumas horas para que a minha Nini pudesse descansar.

   A minha avó achou que o acidente fora um recurso desesperado do meu Popo para me proteger.

- A prova é que continuas viva e não partiste nenhuma perna, porque nesse caso não não terias podido voltar a jogar futebol – disse-me.

   No fundo, penso que a minha avó estava agradecida, porque se livrou da obrigação de dizer ao meu pai o que dscobrira sobre mim; disto se encarregou a polícia.

   A minha Nini faltou ao trabalho durante aquelas semanas e instalou-se a meu lado com um zelo de carcereiro. Quando Sarah e Debbie vieram por fim visitar-me – não se tinham atrevido a mostrar a cara a seguir ao acidente -, expulsou-as de casa aos gritos como uma peixeira, mas compadeceu-se de Rick Laredo, que apareceu com um raminho de tulipas sem viço e o coração partido. Neguei-me a recebê-lo e tocou à minha avó ouvi-lo desafiar as suas mágoas na cozinha durante mais de duas horas.

   - Aquele rapaz pediu-me para te dar um recado, Maya: jurou-me que nunca torturou animais e pede por favor que lhe dês outra oportunidade – veio dizer-me depois.

   A minha avó tem um fraquinho por quem sofre de amor.

   - Se ele voltar, Nini, diz-lhe que mesmo que se torne vegetariano e se dedique a salvar atuns, não quero voltar a vê-lo – respondi.

   Os calmantes para as dores e o susto de ter sido descoberta quebraram-me a vontade e confessei à minha Nini o que bem lhe deu na gana perguntar-me em intermináveis interrogatórios, se bem que ela já soubesse tudo, porque graças às lições de Norman, aquele roedor, já não restavam segredos na minha vida.

   - Não acho que tenhas má índole, Maya, nem que sejas completamente estúpida, embora às vezes faças o possível por o parecer – suspirou a minha Nini. – Quantas vezes falámos do perigo das drogas? Como pudeste extorquir dinheiro àqueles homens de pistola apontada?!

   - Eram uns tarados, uns pervertidos, uns pedófilos, Nini. Mereciam que os fodessem. Bem, não é que a gente os tenha fodido literalmente, tu percebes.

   - E quem és tu para fazeres justiça pelas tuas próprias mãos? O Batman? Podiam ter-te matado!

   - Não me aconteceu nada, Nini…

   - Como é que podes dizer que não te aconteceu nada! Olha para o estado em que estás! Que vou fazer contigo, Maya? – perguntava, e desatava a chorar.

   - Perdoa-me, Nini. Não chores, por favor. Juro-te que aprendi a lição. O acidente fez-me ver as coisas mais claramente.

   - Não acredito em ti nem a tiro! Jura-me pela memória do Popo!

   O meu arrependimento era genuíno, estava realmente assustada, mas não me valeu de nada, porque, mal o médico me deu alta, o meu pai levou-me para uma academia no Oregon, especializada em acolher adolescentes descontrolados. Não o acompanhei de bom grado: o meu pai teve de recorrer a um polícia amigo de Susan para me sequestrar, um mastodonte que se parecia com um moai da ilha de Páscoa, que o ajudou naquele empreendimento desprezível. A minha Nini escondeu-se para não ver como me arrastavam como um animal a caminho do matadouro, uivando que ninguém gostava de mim, que todos me tinham rejeitado, perguntando porque não me matavam de uma vez, antes que eu mesma o fizesse.

   Fiquei presa na academia do Oregon até ao início de junho de 2008, na companhia de mais cinquenta e seis jovens rebeldes, toxicodependentes, suicidas, anoréticas, bipolares, expulsos da escola e outros que simplesmente não se integravam em lado nenhum. Decidi-me a sabotar qualquer tentativa de redenção, enquanto planeava a maneira de me vingar do meu pai por me levar àquele antro de desvairados, da minha Nini por permitir tal coisa e do mundo inteiro por me ignorar. A verdade é que fui ali parar por decisão da juíza que julgou o caso do acidente. Mike 0'Kelly conhecia-a e intercedeu em meu favor com tal eloquência que conseguiu comovê-la, caso contrário teria acabado numa instituição do estado, embora não na prisão federal de San Quentin, como me gritou a minha avó num dos seus arroubos. É bastante exagerada. Uma vez, levou-me a ver um filme terrível em que um assassino era executado em San Quentin.

   - É para veres o que acontece a quem viola a lei, Maya. Começa se por roubar lápis de cores na escola e acaba-se na cadeira elétrica - advertiu-me à saída. Desde essa altura, o aviso transformou-se numa piada familiar, mas desta vez disse- mo a sério.

   Tendo em consideração a minha tenra idade e o facto de nao ter antecedentes criminais, a juíza, uma asiática mais pesada que um saco de areia, deu-me a escolher entre um programa de reabilitação ou o encerramento numa prisão juvenil, como exigia o condutor do carro que me tinha batido. Ao perceber que o seguro do meu pai não o compensaria tão esplendidamente como havia esperado, o homem desejava castigar-me. A decisão de me enviar para a academia não foi minha, mas do meu pai, que a tomou sem me perguntar. Por sorte, o sistema educativo da Califórnia pagava, caso contrário a minha família teria sido obrigada a vender a casa para financiar a minha rea-hilitação, que custava sessenta mil dólares por ano; os pais de alguns dos alunos chegavam para os visitar em jatos privados.

   O meu pai obedeceu às deliberações do tribunal com alívio, pois eu queimava-lhe as mãos como carvão a arder e queria ver-se livre de mim. Levou-me para o Oregon comigo a espernear, depois de me dar três comprimidos de Valium que não serviram para nada, uma vez que teria sido preciso o dobro para causar efeito em alguém como eu, capaz de funcionar normalmente com um cocktail de Vicodin e cogumelos mexicanos. Com a ajuda do amigo de Susan, arrastaram-me para fora de casa, carregaram-me à força para o avião e depois enfiaram-me num carro alugado, no qual me conduziram do aeroporto à instituição terapêutica através de uma interminável estrada rodeada de bosques. Estava à espera de camisas de forças e choques elétricos, mas a academia era um agradável conjunto de construções de madeira no meio de um parque, não se parecendo, nem remotamente, com um asilo para alienados.

   A diretora recebeu-nos no seu escritório na companhia de um jovem barbudo, que era um dos psicólogos. Pareciam irmãos, ambos com o cabelo cor de estopa apanhado, jeans deslavados, camisolas de lã cinzentas e botas, o uniforme do pessoal da academia e a forma de se distinguirem dos alunos, que usavam indumentárias extravagantes. Trataram-me como se fosse uma amiga de visita e não a rapariguinha desgrenhada e estridente que chegou ali arrastada por dois homens.

   - Podes chamar- me Angie, e este é o Steve. Vamos-te ajudar, Maya. Verás como o programa é fácil - exclamou animadamente a mulher.

   Vomitei as nozes que comera no avião sobre a carpete. O meu pai avisou-a de que nada ia ser fácil com a sua filha, mas a mulher tinha o meu historial sobre a secretária e, possivelmente, já tinha visto casos piores.

   - Está a ficar escuro e o caminho de volta é longo, Sr. Vidal. É melhor despedir-se da sua filha. Não se preocupe, a Maya fica em boas mãos - disse-lhe ela.

   O meu pai correu para a porta, cheio de presa em se ir embora, mas atirei-me para cima dele e pendurei-me no seu casaco, clamando que não me deixasse ali, por favor, paizinho, por favor. Angie e Steve agarraram-me sem usar de excessiva força, enquanto o meu pai e o moai fugiam a correr.

   Vencida finalmente pelo cansaço, parei de me debater e deixei-me cair no chão, enroscada como um cão. Deixaram-me ali um bom bocado, limparam o vómito e, quando parei de soluçar e de fungar, deram-me um copo de água.

   - Não penso ficar neste manicômio! Vou fugir daqui logo que possa! - gritei-lhes com a pouca voz que me restava.

   No entanto, não opus resistência quando me ajudaram a levantar e me levaram a percorrer o local. Lá fora, a noite estava muito fria, mas dentro o edifício era confortável e quente, com longos corredores cobertos, espaços amplos, tetos altos com vigas à vista, janelas de vidros embaciados, cheiro a madeira, simplicidade. Não havia grades nem cadeados. Mostraram-me uma piscina coberta, um ginásio, uma sala de múltiplos usos com cadeirões, uma mesa de bilhar e uma grande lareira, onde ardiam troncos grossos. Os alunos estavam reunidos no refeitório em torno de mesas rústicas, decoradas com raminhos de flores, pormenor em que não pude deixar de reparar, uma vez que o clima não estava propício ao cultivo de flores. Duas mexicanas baixas, entroncadas e sorridentes, de avental branco, serviam atrás do grande balcão do bufete. O ambiente era familiar, descontraído, ruidoso. O delicioso odor a feijões e carne assada assaltou-me o nariz, mas recusei-me a comer; não pensava misturar-me com aquela gentinha.

   Angie pegou num copo de leite e num pratinho de bolachas e conduziu-me até um dormitório, uma divisão simples, com quatro camas, móveis de madeira clara e quadros com pássaros e flores. O único sinal de que alguém dormia ali eram as fotos de famíla nas mesas de cabeceira. Estremeci ao pensar no género de anormais capazes de viver no meio de semelhante arrumação. A minha mala e a minha mochila estavam em cima de uma das camas, abertas e com sinais de terem sido revistadas. Preparava-me para dizer a Angie que me recusava a dormir com outras pessoas, mas lembrei-me de que ao amanhecer do dia seguinte iria embora dali e não valia a pena armar confusão só por uma noite.

   Despi as calças e os sapatos e deite; me sem me lavar, sob o olhar atento da diretora.

     - Não tenho marcas de picadas nem de cortes nos pulsos – disse num tom de desafio, mostrando os braços.

     - Fico contente, Maya. Dorme bem - respondeu Angie com naturalidade. A seguir, deixou o leite e as bolachas em cima da mesinha e saiu sem fechar a porta.

     Devorei a refeição ligeira ansiando algo mais substancial, mas estava exausta e, em poucos minutos, caí num sono de morte. Acordei com as primeiras luzes da madrugada, que se insinuavam entre as persianas da janela, esfomeada e confusa. Ao ver nas outras camas as silhuetas de raparigas a dormir, lembrei-me de onde estava. Vesti-me à pressa, agarrei na minha mochila e no meu grande casaco e saí nas pontas dos pés. Atravessei o átrio, dirigi-me a uma porta ampla, que parecia conduzir ao exterior, e encontrei-me num dos corredores cobertos, entre dois edifícios.

   A bofetada de ar frio fez-me estacar. O céu estava alaranjado e a terra coberta de uma fina capa de neve, o ar cheirava a pinheiro e a lenha queimada. A poucos metros de distância, uma família de veados observava-me, avaliando o perigo, com os narizes a explir   vapor e as

caudas trémulas. Duas crias de veado, com as manchas dos recém- nascidos, mantinham-se precariamente de pá sobre as patas finas, enaquanto a mãe vigiava com as orelhas alerta. A mãe e eu olhámo-nos nos olhos durante um instante eterno, esperando a reação uma da outra, imóveis, até que uma voz atrás de mim nos sobressaltou e os veados,fugiram a correr.

   - Vêm até aqui beber água. Também aparecem guaxinins, raposas e ursos.

   Era o mesmo tipo barbudo que me recebera no dia anterior, enfiado numa parka de esquiador, com botas e um gorro de couro forrado com pelo.

   - Vimo-nos ontem, não sei se te lembras. Sou o Steve, um dos orientadores. Faltam quase duas horas para o pequeno-almoço, mas tenho café - disse, e começou a andar sem olhar para trás.

   Segui-o automaticamente até à sala de convívio, onde estava a mesa de bilhar, e esperei na defensiva enquanto Steve acendia os troncos da lareira com papel de jornal e, a seguir, servia duas chávenas de café com leite de uma garrafa térmica.

   - Ontem à noite caiu a primeira neve da temporada - disse ele, abanando as chamas com o gorro.

   A tia Blanca teve de ir a Castro de urgência, porque o seu pai sofreu uma alarmante taquicardia, provocada pelo «Concurso de Pacotes» nas praias. Blanca diz que o Millalobo só está vivo porque o cemitério lhe parece aborrecido. Aquelas imagens na televisão poderiam matar um doente cardíaco: raparigas com tangas invisíveis a agitarem o traseiro diante de uma horda masculina, que no seu entusiasmo atirava garrafas e atacava a imprensa. Na Taberna do Mortito, os homens ofegavam em frente ao ecrã e as mulheres, de braços cruzados, cuspiam para o chão. Que diriam de semelhante concurso a minha Nini e as suas amigas feministas! Ganhou uma rapariga de cabelo louro pintado e traseiro de negra, na praia de Pichilemu, seja lá onde isso fica.

   - Por culpa daquela galdéria, o meu pai quase que embarca para o outro mundo - comentou Blanca ao voltar de Castro.

   Estou encarregada de formar uma equipa infantil de futebol, tarefa fácil, porque, neste país, as crianças aprendem a chutar uma bola mal são capazes de se pôr de pé. Já tenho uma equipa selecionada, outra de reserva e uma equipa feminina, que provocou uma vaga de piadas, apesar de ninguém se ter oposto abertamente, porque teriam de se ver com a tia Blanca. Queremos que a nossa equipa participe no campeonato escolar das festas nacionais do Chile, em setembro. Temos pela frente vários meses para treinar, mas não podemos fazê-lo sem sapatilhas e, como nenhuma família tem orçamento para tal despesa, Blanca e eu fomos fazer uma visita de cortesia a Dom Lionel Schnake, já recuperado do impacto causado pelos traseiros estivais.

Amaciámo-lo com duas garrafas do mais fino licor de oro, que Blanca prepara com aguardente, açúcar, soro de leite e especiarias, e expusemos-lhe a conveniência de manter as crianças ocupadas com atividades desportivas, pois assim não se metem em sarilhos. Dom Lionel esteve de acordo. Dali a mencionar o futebol foi só mais um copinho de licor de oro e Dom Lionel comprometeu-se a oferecer-nos onze pares de sapatilhas dos tamanhos necessários. Tivemos de lhe explicar que precisávamos de onze para o Caleuche, a equipa masculina, onze para a Pincoya, a feminina, e seis pares adicionais de substituição. Ao tomar conhecimento dos custos, desatou num discurso sobre a crise económica, as fábricas de salmão, o subsídio de desemprego e como aquela sua filha era um saco sem fundo e o ia matar do coração, sempre a pedir mais, e onde já se viu as chuteiras serem uma prioridade no deficiente sistema educativo deste pais.

   No fim, limpou a testa, bebeu de golada um quarto copinho de licor de oro e passou-nos o cheque. Nesse mesmo dia, encomendámos as sapatilhas a Santiago e, uma semana depois, fomos buscá-las ao autocarro em Ancud. A tia Blanca guarda-as fechadas à chave para que as crianças não as usem todos os dias e decretou que aqueles a quem crescessem os pés ficavam fora da equipa.

 

   As obras na escola estão terminadas. É aqui que as pessoas se refugiam em caso de emergência, porque é o edifício mais seguro, excetuando a igreja, cuja frágil estrutura de madeira é mantida de pé por Deus, como ficou provado em 1960, quando ocorreu o terramoto mais forte registado no mundo, que atingiu os 9,5 na escala de Richter. O mar subiu esteve a ponto de engolir a aldeia, mas as vagas detiveram-se à porta da igreja. Nos dez minutos que durou o tremor, os lagos encolheram, desapareceram ilhas inteiras, a terra abriu-se e afundaram-se linhas férreas, pontes e caminhos. O Chile é propenso às catástrofes, a inundações, a secas, a vendavais, a terramotos e ondas marinhas capazes de levar um barco para o meio de uma praça. As pessoas possuem uma resignada filosofia a este respeito, acham que são provas de que é Deus quem manda, mas ficam nervosas quando passa muito tempo sem acontecer nenhuma desgraça. É assim a minha Nini, sempre à espera que o céu lhe caia em cima.

   A nossa escola está preparada para a próxima fúria da Natureza. É o centro social da ilha, ali se reúne o círculo de mulheres, o grupo de artesanato e os Alcoólicos Anónimos, onde fui algumas vezes, porque prometera a Mike 0'Kelly que o faria, mas era a única mulher entre quatro ou cinco homens que não se atreviam a falar diante de mim. Penso que não me faz falta, há mais de quatro meses que estou sóbria. Na escola passam- se filmes, resolvem-se conflitos menores que não merecem a intervenção dos carabineiros e discutem-se assuntos pendentes, como sementeiras, colheitas ou o preço das batatas e do marisco; é aqui que Liliana Trevino dá vacinas e ensina os fundamentos da higiene, que as mulheres mais velhas ouvem divertidas:

   - Com todo o respeito, menina Liliana, mas não nos vai ensinar a nós a curar alguém.

   As comadres asseguram, e com razão, que os comprimidos que vêm de um frasco são suspeitos, há alguém que está a ficar rico à custa deles, e optam por remédios caseiros, que são grátis, ou produtos de homeopatia. Na escola, explicaram-nos o programa de distribuição de contracetivos do governo, que causou espanto a várias avós, e foi também ali que os carabineiros nos forneceram instruções para lidar com os piolhos, no caso de haver uma epidemia, como sucede a cada dois anos. Só de pensar em piolhos, já sinto picadas na cabeça, prefiro as pulgas, porque ficam-se pelo Fakin e pelos gatos.

   Os computadores da escola são da era pré-colombiana, mas estão em bom estado e uso-os para tudo o que é preciso, menos para o correio eletrônico. Habituei-me a viver incomunicável. A quem vou escrever se não tenho amigos? Recebo notícias da minha Nini e de Branca de Neve, porque escrevem em código a Manuel, mas gostaria de partilhar com eles as minhas impressões deste curioso desterro. Não podem imaginar Chiloé, é um lugar que só vendo.

   Permaneci na academia do Oregon à espera de que o frio diminuísse um pouco para fugir dali, mas o inverno naqueles bosques chegara para ficar, com a sua cristalina beleza de gelo e neve e os seus céus, às vezes azuis e inocentes, outras plúmbeos e encolerizados. Quando os dias ficaram mais compridos, a temperatura subiu e começaram as atividades ao ar livre, voltei a pensar nos meus planos de fuga, mas então vieram as vicunhas, dois animais esbeltos de orelhas imóveis e pestanas de noiva, um dispendioso presente do pai agradecido de um dos alunos que terminara o curso no ano anterior. Angie encarregou-me de cuidar das vicunhas com o argumento de que ninguém estava melhor qualificado que eu para tomar a seu cargo aqueles delicados animais, uma vez que tinha crescido com os cães farejadores de explosivos de Susan. Tive de adiar a minha fuga, porque as vicunhas precisavam de mim.

   Com o tempo, adaptei-me ao programa de desportos, arte e terapia, mas não fiz amigos, porque o sistema desencorajava a amizade; por outro lado, é preciso dizer que os alunos eram cúmplices em algumas travessuras. Não sentia a falta de Sarah e de Debbie, como se, ao mudar de ambiente e de circunstâncias, as minhas amigas tivessem perdido a sua importância. Pensava nelas com inveja, a viver as suas vidas sem mim, da mesma forma que toda a Secundária de Berkeley estaria a cochichar sobre a safada da Maya Vidal, a aluna internada num manicômio. Talvez outra rapariga já tivesse tomado o meu lugar no trio das vampiras. Na academia, aprendi a linguagem dos psicólogos e o modo de navegar entre as regras, que ali não se chamavam regras, mas acordos. No primeiro de muitos acordos que assinei sem intenção de cumprir, comprometi-me, como os restantes alunos, a evitar álcool, drogas, violência e sexo. Para os três primeiros não tinha oportunidade, mas os meus colegas lá arranjavam maneira de praticar o quarto, apesar da vigilância constante de psicólogos e orientadores. Eu abstive-me.

   Para evitar problemas, era muito importante parecer normal, apesar de a definição de normalidade ser flutuante. Se comia muito, sofria de ansiedade, se comia pouco, era anorética; se preferia a solidão, era depressiva, mas qualquer amizade levantava suspeitas; se não participava numa atividade, tinha uma atitude de sabotagem, e, se participava muito, queria chamar a atenção. Presa por ter cão e presa por não ter, é outro dos provérbios que a minha Nini costumava dizer.

   O programa da academia assentava em três perguntas concisas – quem és, que desejas fazer com a tua vida e como vais consegui-lo -, mas os métodos terapêuticos eram menos claros. Uma rapariga que tinha sido violada foi vestida de criadinha francesa e teve de dançar

diante dos outros alunos; a um jovem com inclinação suicida, fizeram-no subir à torre de vigilância florestal para ver se se atirava e, a outro com claustrofobia, fechavam-no regularmente num roupeiro. Submetiam-nos a penitências - rituais de purificação - e a sessões coletivas em que tínhamos de representar os nossos traumas com o fim de os ultrapassarmos. Neguei- me a dramatizar a morte do meu avô e os meus colegas tiveram de o fazer por mim, até que o psicólogo de serviço me declarou curada ou incurável, já não me recordo. Em longas sessões de terapia de grupo confessávamos - partilhávamos - recordações, sonhos, desejos, receios, intenções, fantasias, os nossos mais íntimos segredos. Despir a alma, era esta a finalidade daquelas maratonas. Os telemóveis eram proibidos, o telefone controlado, a correspondência, a música, os livros e os filmes censurados, nada de correio eletrônico nem de visitas-surpresa.

   Ao fim de três meses na academia, tive a primeira visita da minha família. Enquanto o meu pai discutia os meus progressos com Angie, levei a minha avó a conhecer o parque e as vicunhas, que enfeitara com fitas nas orelhas. A minha Nini tinha-me trazido uma pequena fotografia plastificada do meu Popo na qual este aparecia sozinho, uns três anos antes da sua morte, com o chapéu posto e o cachimbo na mão, sorrindo para a câmara. Fora Mike 0'Kelly quem a tirara no Natal dos meus treze anos, quando ofereci ao meu avô o seu planeta perdido: uma bolinha verde marcada com cem números, correspondentes a outros tantos mapas ou ilustrações do que devia existir no seu planeta, segundo aquilo que tínhamos imaginado juntos. Gostou muito da prenda, por isso na foto sorria como um rapazinho.

   - O teu Popo está sempre contigo. Não te esqueças disso, Maya -disse-me a minha avó.

   - Ele está morto, Nini!

   - Sim, mas está dentro de ti, apesar de ainda não o saberes. Ao princípio a minha dor era tanta, Maya, que achei que o tinha perdido para sempre, mas agora quase que o posso ver.

   - Já não sentes dor? Só mesmo tu! - respondi-lhe, repugnada.

   - Sinto dor, mas aceitei-a. Estou com muito melhor disposição.

   - Dou-te os parabéns. Eu estou com uma disposição cada vez pior neste asilo de imbecis. Tira-me daqui, Nini, antes que fique louca varrida.

   - Não sejas trágica, Maya. Isto é muito mais agradável do que eu pensava, há compreensão e amabilidade.

   - Porque vocês estão de visita!

- Queres-me dizer que quando não estamos aqui te tratam mal?

- Não nos batem, ma submetem-nos a torturas psicológicas, Nini. Privam-nos de comida e de sono, diminuem-nos as defesas e, a seguir, lavam-nos o cérebro, metem-nos coisas na cabeça.

- Que coisas?

- Advertências espantosas sobre drogas, doenças venéreas, prisões, hospitais psiquiátricos, abortos, tratam-nos como idiotas. Achas pouco?

- Até acho demasiado. Vou dizer das boas àquela tipa. Como é que ela se chama? Angie? Já vai ver quem eu sou!

- Não! – exclamei, agarrando-a.

- Não, porquê?! Achas que vou permitir que tratem a minha neta como um prisioneiro de Guantánamo?

E a máfia chilena partiu a passos largos em direção ao gabinete da diretora. Minutos mais tarde, Angie chamou-me.

- Maya, por favor repete diante do teu pai o que disseste à tua avozinha.

- O quê?

- Sabes a que me refiro – insistiu Angie sem levantar a voz.

O meu pai não pareceu impressionado e limitou-se a lembrar-me da decisão da juíza: ou um programa de reabilitação ou a prisão. Fiquei no Oregon. Na segunda visita, dois meses mais tarde, a minha Nini ficou encantada: por fim tinha recuperado a sua menina, disse, nada da maquilhagem à Drácula nem modos de membro de gangue, eu parecia-lhe sã de espírito e em boa forma. Isto devia-se às cinco milhas diárias que corria. Permitiram-mo porque, por muito que corresse, não poderia chegar longe. Não suspeitavam de que estava a treinar para fugir.

Contei à minha Nini como os alunos troçavam das provas psicológicas e dos terapeutas, tão transparentes nas suas intenções, que até o mais novato era capaz de os manipular, isto já para não falar do nível académico, quando terminássemos o curso dar-nos-iam um certificado de ignorantes para pendurar na parede. Estavámos fartos de documentários sobre o aquecimento dos pólos excursões ao Everest, queríamos saber o que se passava no mundo. A minha avó informou-me de que não se passava nada digno de ser contado, apenas más notícias sem solução, o mundo estava a acabar, mas tão lentamente que duraria até eu sair dali.

   -Não vejo a hora de voltares para casa, Maya. Sinto tantas saudades tuas - suspirou, acariciando-me o cabelo, pintado de várias cores inexistentes na Natureza com as tintas que ela mesma me enviava por correio.

   Apesar do arco-íris dos meus cabelos, achava-me discreta em comparação com alguns dos meus colegas. Para compensar as incontáveis restrições e dar-nos uma falsa sensação de liberdade, deixavam-nos experimentar com a roupa e o cabelo segundo as fantasias de cada um, mas não podíamos acrescentar nem piercings nem tatuagens aos já existentes. Eu tinha um aro de ouro no nariz e a minha tatuagem de 2005. Um rapaz, que tinha passado uma breve etapa neo-nazi antes de enveredar pelas metanfetaminas, exibia uma suástica gravada com um ferro em brasa no braço direito e outro tinha tatuado «fuck» na testa.

   -Tem vocação de desgraçado, Nini. Proibiram-nos de falar na tatuagem dele. O psiquiatra diz que pode ficar traumatizado.

   - Qual deles é, Maya?

   - Aquele comprido com uma cortina de cabelo até aos olhos.

   E lá foi a minha Nini até junto dele, para lhe dizer que não se preocupasse, porque agora havia um raio laser capaz de lhe apagar o palavrão da testa.

     Manuel aproveita o curto verão para recolher informação e depois, nas horas escuras do inverno, pensa terminar o livro sobre a magia de Chiloé. Damo-nos muito bem, acho eu, apesar de ele ainda me grunhir de vez em quando. Não lhe ligo. Lembro-me de que, quando o conheci, me pareceu uma pessoa intratável, mas nestes meses a vivermos juntos descobri que é um daqueles tipos bondosos que se envergonham de o ser. Manuel não se esforça por ser amável e assusta-se quando alguém se afeiçoa a ele, por isso tem-me um bocado de medo. Dois dos seus livros anteriores foram publicados na Austrália em formato grande com fotografias a cores e este terá sorte parecida, graças aos auspícios do Conselho da Cultura e de várias empresas de turismo.

Os editores encomendaram as ilustrações a um pintor de alto gabarito de Santiago, que se verá em apuros para criar alguns dos seres horripilantes da mitologia chilota. Espero que Manuel me dê mais trabalho, assim poderei retribuir a sua hospitalidade, embora vá ficar endividada até ao fim dos meus dias.

   O mal de Manuel é que não sabe delegar. Encarrega-me das tarefas mais simples e, depois, perde o seu tempo a verificá-las. Deve achar que sou chanfrada. Para cúmulo, teve de me dar dinheiro, porque cheguei sem nada. Garantiu-me que a minha avó lhe fez uma transferência bancária com este fim, mas não acredito, a ela nunca lhe ocorrem soluções simples. Estaria mais de acordo com o seu carácter mandar-me uma pá para desenterrar tesouros. Aqui há tesouros escondidos pelos piratas de antigamente, toda a gente sabe. Na noite de São João, a 24 de junho, veem-se luzes nas praias, sinal de que ali há um baú enterrado. Infelizmente, as luzes mexem-se, o que desorienta os ambiciosos, e, além disso, pode ser que as luzes sejam um engano dos bruxos. Ainda ninguém ficou rico a cavar na noite de São João.

   O clima está a mudar rapidamente e Eduvigis teceu-me um gorro chilote. A centenária dona Lucinda tingiu-lhe a lã usando plantas, cascas e frutos da ilha. Esta velhinha é uma especialista, ninguém consegue obter cores tão resistentes como as suas, diversos tons de castanho, vermelho, cinzento, negro e um verde-bílis que me fica muito bem. Com muito pouco dinheiro, pude abastecer-me de roupa quente e sapatilhas, as minhas botas rosadas apodreceram com a humidade. No Chile não faltam a ninguém possibilidades de se vestir com decência: por todo o lado se vende roupa usada ou proveniente de saldos americanos ou chineses, onde às vezes se encontram coisas do meu tamanho.

Ganhei respeito à Cahuilla, a lancha de Manuel, de aspeto tão frágil mas de coração tão valente. Levou-nos a galope pelo Golfo de Ancud, depois do inverno, iremos até mais ao sul, ao Golfo Corcovado, contornando a costa da ilha Grande. A Cahuilla é lenta, mas segura nestas águas tranquilas. As piores tempestades dão-se em mar aberto, no Pacífico. Nas ilhas e aldeias remotas vivem as pessoas mais antigas, que conhecem as lendas. Os antigos vivem do campo, da criação de animais e da pesca, em comunidades pequenas, onde a fanfarra do progresso ainda não chegou.

   Saio com Manuel de madrugada e, se a distância é curta, procuramos regressar antes de escurecer, mas se é de mais de três horas ficamos lá a dormir, porque somente os navios da Armada e o Caleuche, o barco-fantasma, navegam de noite. Segundo os antigos, tudo o que existe sobre a terra também existe debaixo de água. Há cidades submersas no mar, em lagunas, rios e charcos, e ali vivem os pigüichenes, criaturas de mau feitio capazes de criar correntes traiçoeiras e pôr o mar revolto. É preciso muito cuidado em lugares húmidos, advertiram-nos, mas é um conselho inútil nesta terra de chuva incessante, onde a humidade está por todo o lado. Às vezes encontramos indivíduos bastante dispostos a contar-nos o que os seus olhos viram e voltamos para casa com um tesouro de gravações, que depois é um sarilho decifrar, porque estas pessoas têm a sua própria maneira de falar. Ao início da conversa evitam o tema da magia, são coisas de velhos, dizem, já ninguém acredita nisso. Talvez temam as represálias dos «da arte», como chamam aos bruxos, ou então não querem contribuir para aumentar a sua reputação de supersticiosos, mas com astúcia e chicha de maçã Manuel lá lhes vai sacando as coisas.

   Tivemos a tempestade mais séria até agora. Chegou com passos de gigante, furiosa com o mundo, desatando-se em raios, trovões e um vento demencial, que nos fustigou decidido a pôr a casa a navegar na chuva. Os três morcegos das vigas soltaram-se e começaram a voar em círculos na sala, enquanto eu procurava enxotá-los à vassourada e o Gato-Lerdo fazia inúteis tentativas de os apanhar com a pata na trémula luz das velas. O gerador anda a funcionar mal há vários dias e não sabemos quando virá o «mestre técnico», se é que virá de todo; aqui nunca se sabe, ninguém cumpre horários por estes lados. No Chile chama-se «mestre técnico» a qualquer tipo capaz de reparar algo usando um alicate e um arame, mas nesta ilha não há nenhum e somos obrigados a recorrer aos de fora, que se fazem esperar como se fossem dignitários. O ruído da tempestade era atroador: rochas a rolar, tanques de guerra, comboios descarrilados, lobos uivantes e, de repente, um clamor que vinha do fundo da terra.

   - Está a tremer, Manuel!

   Mas Manuel, imperturbável, continuou a ler com a sua lanterna de mineiro na testa.

- É apenas o vento, mulher, quando a terra treme caem as panelas.

Nesse momento chegou Azucena Corrales, a escorrer água, com um poncho de plástico e botas de pescador, a pedir socorro porque o pai estava muito mal. Por causa da fúria da tempestade, os telemóveis não tinham rede e caminhar até à aldeia era impossível. Manuel pôs o impermeável, o chapéu e as botas, pegou na lanterna e preparou-se para sair. Eu parti atrás dele, não estava disposta a ficar sozinha com os moregos e o vendaval.

   A casa dos Corrales fica perto, mas demrámos um século a percorrer a distância na escuridão, encharcados pela catarata que caía do céu, afundando-nos na lama e lutando com o vento que nos empurrava em sentido contrário. Por momentos, pareceu-me que estávamos perdidos, mas rapidamente apareceu o brilho amarelo da janela dos Corrales.

   A casa, mais pequena que a nossa e bastante desconjuntada, mantinha-se precariamente de pé no meio de um concerto de tábuas soltas, mas lá dentro estava bem seca. À luz de um par de candeias a parafina pude distinguir uma desordem de móveis velhos, cestos de lã para fiar, amontoados de batatas, panelas, volumes, roupa a secar num arame, baldes para as goteiras do teto e até jaulas com coelhos e galinhas, que não podiam deixar fora de casa numa noite como aquela. Num canto, havia um altar com uma vela acesa diante de uma Virgem de gesso e um imagem do padre Hurtado, o santo dos chilenos. As paredes estavam decoradas com calendários, fotografias emolduradas, postais e publicidade do Ecoturismo e do Manual de Alimentação para o Adulto Idoso, Carmelo Corrales fora em tempos homem forte, carpinteiro de profissão e construtor de barcos, mas o álcool e a diabetes, que andavam há muito tempo a minar-lhe o organismo, haviam-no derrotado. Ao princípio ignorou os sintomas, depois a mulher tratou-o com alho, batata cruae eucalipto, e, quando Liliana Trevino o obrigou a ir ao hospital de Castro, já era tarde. Segundo Eduvigis, a intervenção dos médicos piorou o seu estado. Corrales não modificou o seu estilo de vida, continuando a beber e a tratar mal a família até que lhe amputaram uma perna, em Dezembro do ano passado. Já não consegue apanhar os netos para lhes bater de cinto, mas Eduvigis costuma andar com um olho roxo, coisa que não chama a atenção de ninguém. Manuel aconselhou-me a não fazer perguntas, porque seria aborrecido para Eduvigis, a violência doméstica mantém-se em segredo.

     Tinham aproximado a cama do doente do fogão a lenha. Pelas histórias que tinha ouvido de Carmelo Corrales, das suas rixas quando se embriagava e da forma como maltratava a família, imaginava-o um homenzarrão abominável, mas o que via naquela cama era um ancião inofensivo, ossudo e de rosto alterado, com as pálpebras semicerradas, a boca aberta, que respirava com uma ronqueira de agonizante. Pensava que era insulina que os diabéticos deviam sempre tomar, mas Manuel deu-lhe umas colheres de mel e, com aquilo e as rezas de Eduvigis, o doente reagiu. Azucena preparou-nos uma chávena de chá, que bebemos em silêncio, esperando que a tempestade amainasse.

   Por volta das quatro da manhã, Manuel e eu voltámos para nossa casa, agora fria, porque o fogão se tinha apagado há algum tempo, Manuel foi procurar mais lenha enquanto eu acendia velas e aquecia água e leite no fogãozinho a parafina. Sem me aperceber, estava a tremer, não tanto pelo frio como pela tensão da noite, o vendaval, os morcegos, o homem moribundo e algo que senti na casa dos Corrales e não sou capaz de explicar, algo de maléfico, como o ódio. Se é verdade que as casas se impregnam da vida que decorre entre as suas paredes, então na dos Corrales existe maldade.

   Manuel acendeu o fogo rapidamente, despimos a roupa molhada, vestimos pijamas, meias grossas e embrulhámo-nos em mantas chilotas. Bebemos de pé, junto do fogão, ele a sua segunda chávena de chá e eu o meu leite, depois Manuel foi verificar as persianas, para o caso de terem dado de si com o vento, preparou a minha botija de água quente, deixou-a no meu quarto e foi-se embora para o seu. Senti-o ir e vir da casa de banho e meter-se na cama. Permaneci à escuta dos últimos bramidos da tempestade, dos trovões, que se afastavam, e do vento que começava a cansar-se de soprar.

   Desenvolvi diversas estratégias para vencer o medo da noite e nenhuma funciona. Desde que cheguei a Chiloé estou sã de corpo e mente, mas as minhas insónias pioraram e não quero tomar calmantes. Mike O´Kelly avisou-me de que a última coisa que um drogado recupera é o sono normal. De tarde, evito a cafeína e estimulos fortes, como filmes ou livros com cenas de violência, que depois me vêm assombrar durante a noite. Antes de me deitar, bebo um copo de leite morno com mel e canela, a poção mágica que o meu Popo me dava quando era pequena, e a infusão tranquilizante de Eduvigis: tília, sabugueiro, menta e violeta, mas faça o que fizer, e apesar de me deitar o mais tarde posível e ler até as pálpebras me caírem, não consigo enganar a insónia, é implacável. Passei muitas noites da minha vida sem dormir; antes contava carneiros, agora conto cisnes de pescoço negro ou golfinhos de barriga branca. Passo horas na escuridão. Uma, duas, três da manhã, a escutar a respiração da casa, o sussurro dos fantasmas, o arranhar dos monstros debaixo da minha cama, temendo pela minha vida. Sou atacada pelos inimigos de sempre, dores, perdas, humilhações, culpa. Acender a luz equivale a dar-me por vencida, já não dormirei o resto da noite, porque com luz a casa não só respira, também se mexe, palpita, surgem-lhe protuberâncias e tentáculos, os fantasmas adquirem contornos visíveis, as aventesmas agitam-se. Esta seria uma daquelas noites sem fim, tinha haido demasiados estímulos, demasiado tarde. Estava enterrada debaixo de um amontoado de mantas a ver passar os cisnes, quando ouvi como Manuel se debatia durante o sono na divisão ao lado, como já o tinha ouvido de outras vezes.

   Algo provoca aqueles pesadelos, algo relacionado com o seu passado e, talvez, com o passado deste país. Descobri algumas coisas na Internet que podem ser significativas, mas vou avançando às cegas com poucas pistas e nenhuma certeza. Tudo começou quando tentei descobrir alguma coisa sobre o primeiro marido da minha Nini, Felipe Vidal, acabando por me deparar com o golpe militar de 1973, que mudou a existência de Manuel.

   Encontrei dois artigos publicados por Felipe Vidal sobre Cuba nos anos sessenta, foi um dos poucos jornalistas chilenos que escreveu sobre a revolução, outras reportagens suas sobre diferentes lugares do mundo, pelos vstos viajava sem parar. Uns meses depois do golpe desapareceu, é a última coisa que encontrei na Internet sobre ele. Era casado e tinha um filho, mas os nomes da mulher e do filho não são, revelados. Perguntei a Manuel exatamente onde tinha conhecido Felipe Vidal e respondeu-me secamente que não queria falar disso, mas tenho o pressentimento de que as histórias destes dois homens estão de algum modo relacionadas.

     No Chile, muita gente recusou-se a acreditar nas atrocidades cometidas pela ditadura militar, até que nos anos noventa surgiram evidências irrefutáveis. Segundo Blanca, já ninguém pode negar que se cometeram abusos, mas ainda há quem os justifique. Não se pode tocar neste assunto diante do seu pai e do resto da família Schnake, para quem o passado está enterrado, os militares salvaram o país do comunismo, instauraram a ordem, eliminaram os subversivos e estabeleceram uma economia de mercado livre, que trouxe prosperidade e obrigou os chilenos, preguiçosos por natureza, a trabalhar. Atrocidades? Na guerra são inevitáveis, e aquilo foi uma guerra contra o comunismo.

   Que estaria Manuel a sonhar esta noite? Voltei a sentir as presenças nefastas dos seus pesadelos, presenças que já me tinham assustado antes. Finalmente, pus-me de pé e, tateando as paredes, fui até ao seu quarto, onde chegava um ténue reflexo do brilho do fogão, apenas suficiente para adivinhar os contornos dos móveis. Nunca antes tinha entrado nesta divisão. Temos convivido em proximidade, ele socorreu-me quando tive a colite - não há nada tão íntimo como isto -, cruzámo-nos na casa de banho, ele até já me viu nua quando saio do duche distraída, mas o seu quarto é território interdito, onde apenas entram sem convite o Gato-Lerdo e o Gato-Literato. Porque o fiz? Para acordá-lo e para que não continuasse a sofrer, para enganar a insónia e dormir junto dele. Isto, nada mais, mas sabia que estava a brincar com o fogo, Manuel é homem e eu sou mulher, apesar de ele ser cinqucnla e dois anos mais velho que eu.

   Gosto de olhar para Manuel, de usar o seu casaco gasto, de cheirar o seu sabonete na casa de banho, de ouvir a sua voz. Gosto da sua ironia, da sua segurança, da sua companhia silenciosa, gosto do facto de não saber o afeto que as pessoas têm por ele. Não sinto atracão por ele, nada disso, mas um carinho imenso, impossível de exprimir por palavras. A verdade é que não tenho muitas pessoas de quem gostar, a minha Nini, o meu pai, Branca de Neve, duas que deixei em Las Vegas, ninguém no Oregon, tirando as vicunhas, e algumas a quem começo a afeiçoar-me demasiado nesta ilha. Aproximei-me de Manuel, sem me esfoçar por não fazer barulho, meti-me na sua cama e abracei-me a ele pelas costas, com os pés entre os seus e o nariz colado à sua nuca. Não se mexeu, mas soube que tinha acordado, porque se transformou num bloco de mármore.

     - Descontrai-te, homem, só venho respirar contigo - foi a única coisa que me ocorreu dizer.

   Ficamos assim, como um velho casal, envoltos no calor das mantas e no calor de ambos, respirando. E adormeci profundamente, como nos tempos em que dormia entre os meus avós.

     Manuel acordou-me às oito com uma chávena de café e pão torrado. A tempestade tinha-se dissipado, deixando o ar limpo, com um cheiro fresco a sal e madeira molhada. Os acontecimentos da noite anterior pareciam um sonho mau na luz matinal que banhava a casa.

Manuel estava barbeado, com o cabelo húmido, vestido da maneira habitual, com calças deformes, camisa de colarinho subido, casaco esfiapado nos cotovelos. Passou-me a bandeja e sentou-se ao meu lado.

   - Desculpa-me. Não conseguia dormir e tu estavas a ter um pesadelo. Suponho que foi um disparate da minha parte vir para o teu quarto... - disse-lhe.

   - De acordo.

   - Não faças essa cara de caso, Manuel. Até parece que cometi um crime irreparável. Não te violei nem nada do género.

   - Menos mal - respondeu seriamente. Posso perguntar-te algo pessoal?

   - Depende.

   - Eu olho para ti e vejo um homem, apesar de seres velho. Mas tu tratas- me como aos teus gatos. Não me vês como uma mulher, pois não?

   - Eu vejo-te a ti, Maya. Por isso peço-te que não voltes à minha cama. Nunca mais. Estamos entendidos?

   - Estamos.

   Nesta ilha bucólica de Chiloé, a minha agitação do passado parece incompreensível. Não sei que rebuliço interior era aquele que antes não me dava tréguas, por que motivo saltava de uma coisa para outra, sempre à procura de algo sem saber o que procurava; não consigo recordar com clareza os impulsos e sentimentos dos últimos três anos, como se a Maya Vidal de então fosse outra pessoa, uma desconhecida. Falei disto com Manuel durante uma das nossas raras conversas mais ou menos íntimas, quando estamos sozinhos, chove no exterior, faltou a luz e ele não se pode refugiar nos seus livros para escapar ao meu pairar, e Manuel disse-me que a adrenalina é viciante, habituamo-nos a viver no fio da navalha, não podemos prescindir do melodrama, que no fim de contas é mais interessante do que a normalidade. Acrescentou que na minha idade ninguém deseja paz de espírito, estou na idade da aventura, e este exílio em Chiloé é uma pausa, mas não se pode transformar numa forma de vida para alguém como eu.

   - Ou seja, estás a insinuar que quanto antes deixe a tua casa, melhor. Certo? - perguntei.

   - Melhor para ti, Maya, não para mim - respondeu.

   Acredito nele, porque quando eu me for embora, este homem vai -se sentir mais sozinho do que um molusco.

   É verdade que a adrenalina é viciante. No Oregon havia alguns rapazes fatalistas que estavam muito confortáveis na sua desgraça. A felicidade é fugidia, escorre por entre os dedos, mas aos problemas é possível agarrarmo-nos, são dotados de apoio, são ásperos, duros. Na academia, cultivava o meu próprio romance russo: eu era má, impura e perniciosa, enganava e feria quem mais gostava de mim, a minha vida já estava completamente lixada. Nesta ilha, ao invés, quase sempre me sinto boa, como se ao mudar de paisagem também tivesse mudado de pele. Aqui ninguém conhece o meu passado, salvo Manuel. As pessoas confiam em mim, acham que sou uma estudante de férias que veio auxiliar Manuel no seu trabalho, uma rapariga ingénua e equilibrada, que nada no mar gelado e joga futebol como um homem, uma gringa um bocado tontinha. Não penso defraudá-los.

   Por vezes, nas horas de insónia sinto um arremedo de culpa por tudo o que fiz antes, mas dissipa-se ao amanhecer com o cheiro da lenha no fogão, a pata do Fakin a arranhar-me para o levar lá fora e a tosse alérgica de Manuel a caminho da casa de banho. Acordo, bocejo, espreguiço-me na cama e suspiro feliz. Não é indispensável bater no peito de joelhos nem pagar os meus erros com lágrimas e sangue, domo dizia o meu Popo, a vida é uma tapeçaria que se borda dia a dia comfios de muitas cores, uns pesados e escuros, outros finos e luminosos, todos os fios servem. Os disparates que fiz já estão na tapeçaria, são inapagáveis, mas não vou carregar com eles até morrer. Aquilo que está feito, feito está; tenho de olhar para a frente. Em Chiloé não há combustível para fogueiras de desespero. Nesta casa de madeira de cipreste o coração serena.

   Em junho de 2008 terminei o programa da academia do Oregon, onde estava fechada há tanto tempo. Numa questão de poucos dias, poderia sair pela porta grande e apenas sentiria saudades das vicunhas e de Steve, o orientador preferido das estudantes femininas. Estava vagamente apaixonada por ele, como as restantes raparigas, mas era demasiado orgulhosa para o admitir. Outras tinham deslizado para dentro do seu quarto no segredo da noite, tendo sido mandadas gentilmente de volta para as suas camas. Steve era um génio da rejeição.

   Liberdade, por fim. Poderia reintegrar-me no mundo das pessoas normais, empanturrar-me de música, filmes e livros proibidos, abrir uma conta no Facebook, a última moda em redes sociais, por que todos na academia ansiávamos. Jurei que não voltaria a pôr os pés no Estado do Oregon durante o resto da minha vida.

   Pela primeira vez em meses, voltei a pensar em Sarah e Debbie, perguntando a mim mesma que seria feito delas. Com sorte, teriam terminado o secundário e estariam agora na fase de arranjar um emprego qualquer, porque não era provável que fossem para a faculdade, o cérebro não lhes chegava para tanto.

   Debbie foi sempre péssima nos estudos e Sarah tinha demasiados problemas; se não se tivesse curado da bulimia, o mais certo era estar no cemitério. Uma manhã, Angie convidou-me a dar um passeio entre pinheiros, algo bastante suspeito, porque não era nada o seu estilo, e anunciou- me que estava satisfeita com os meus progressos, que eu tinha feito o trabalho necessário sozinha, a academia apenas o facilitara, e que agora poderia ir para a universidade, apesar de talvez ter algumas lacunas nos meus estudos.

- Lacunas, não, crateras inteiras - interrompi-a. Angie tolerou a impertinência com um sorriso e recordou-me que a sua missão não era fornecer conhecimentos, isto qualquer estabelecimento de ensino podia fazer, mas algo muito mais delicado, dar aos jovens as ferramentas emocionais para alcançarem o seu máximo potencial

   - Amadureceste, Maya, isso é o importante

     - Tens razão, Angie. Aos dezasseis anos o meu plano de vida era casar-me com um velho milionário, envenená-lo e herdar a sua fortuna, mas agora o meu plano é criar vicunhas para vender.

   Angie não achou graça. Com alguns rodeios, propôs-me ficar na academia como instrutora desportiva e ajudante no ateliê de artes durante o verão, depois podia ir diretamente para a faculdade em setembro. Acrescentou que o meu pai e Susan se estavam a divorciar como já sabíamos, e que o meu pai vira ser-lhe atribuída uma rota aérea para o Médio Oriente.

   - A tua situação é complicada, Maya, porque precisas de estabilidade na etapa de transição. Aqui tens estado protegida, mas em Berkeley não terias estrutura. Não convém que regresses ao mesmo ambiente.

     - Viveria com a minha avó.

     - A tua avozinha já não tem idade para...

   - Não a conheces, Angie! Tem mais energia que a Madonna. E deixa de lhe chamar avozinha, porque a sua alcunha é Dom Corleone, como o Padrinho. A minha Nini criou-me à força de umas boas palmadas, queres mais estrutura que esta?

   - Não vamos discutir a tua avó, Maya. Mais dois ou três meses aqui podem ser decisivos para o teu futuro. Pensa nisso antes de me responderes.

   Nessa altura, compreendi que o meu pai fizera um pacto com ela. Eu e ele nunca fomos muito próximos, esteve quase ausente durante a minha infância, arranjou sempre forma de se manter longe, enquanto a minha Nini e o meu Popo lidavam comigo. Quando o meu avô morreu e as coisas se puseram feias entre nós, internou-me no Oregon e lavou as mãos do assunto. Agora pilotava numa rota para o Médio Oriente, situação perfeita para ele. Para que me trouxera ao mundo? Devia ter sido mais prudente na sua relação com a princesa da Lapónia, uma vez que nenhum dos dois queria filhos. Suponho que naqueles tempos também haveria preservativos. Tudo isto me passou pela cabeça de rajada e cheguei rapidamente à conclusão de que era inútil desafiá-lo ou tentar negociar com ele, porque é teimoso como um burro quando mete uma coisa na cabeça. Teria de arranjar outra solução. Eu tinha dezoito anos e legalmente o meu pai não podia obrigar-me a ficar na academia, por isso procurou a cumplicidade de Angie, cuja opinião tinha o peso de um diagnóstico. Se me rebelasse, isso seria interpretado como um problema de conduta e, com a assinatura do psiquiatra residente, podiam reter-me à força ali ou noutro programa similar.

   Aceitei a proposta de Angie com tal prontidão que alguém menos seguro da sua autoridade teria ficado com suspeitas, e comecei imediatamente a preparar a minha fuga adiada.

   Na segunda semana de Junho, poucos dias depois do meu passeio no pinhal com Angie, um dos alunos, fumando no ginásio, provocou um incêndio. A beata esquecida incendiou um colchão e o fogo chegou ao teto antes de o alrme sequer tocar. Nada tão dramáticoou tão divertido sucedera alguma vez na academia desde a findação. Enquanto os instrutores e os jardineiros ligavam as mangueiras, os jovens aproveitaram para partir em debandada numa festa de saltos e gritos, libertando a energia acumulada em meses de introspecão, e, quando por fimos bombeiros e a polícia chegaram, encontraram um quadro alucinante, que confirmava a ideia generalizada de que aquilo era um asilo de energúmenos. O incêndio espalhou-se, ameaçando os bosques vizinhos, e os bombeiros pediram reforço de uma avioneta, o que aumentou a euforia maníaca dos rapazes, que corriam sob os jatos de espuma química, surdos diante das ordens das autoridades.

   Era uma manhã esplêndida. Antes da fumarada do incêndio toldar o céu, o ar estava morno e límpido, ideal para a minha fuga. Primeiro, tinha de pôr a salvo as vicunhas, de quem ninguém se lembrara na confusão, e perdi meia hora a tentar fazê-las mover-se, tinham as patas travadas de medo pelo cheiro a queimado. Por fim, lembrei-me de molhar duas t-shirts e de lhes cobrir as cabeças, e assim consegui arrastá-las até ao campo de ténis, onde as deixei amarradas e encapuçadas. A seguir, fui até ao meu dormitório, meti na mochila os objetos indispensáveis - a foto do meu Popo, alguma roupa, duas barras energéticas e uma garrafa de água -, calcei as minhas melhores sapatilhas e corri em direção ao bosque. Não se tratou de um impulso, estava à, espera daquela oportunidade há séculos, mas chegado o momento parti sem um plano razoável, sem identificação, dinheiro ou um mapa, com a ideia louca de desaparecer por alguns dias e pregar um susto inesquecível ao meu pai.

   Angie demorou quarenta e oito horas a ligar para a minha família, porque era normal que os alunos desaparecessem de vez em quando. Afastavam-se pela estrada fora, pediam boleia até à povoação mais próxima, a trinta quilómetros de distância, provavam a liberdade e depois regressavam sozinhos, porque não tinham para onde ir, ou; eram trazidos pela polícia. Estas escapadelas eram tão rotineiras, especialmente entre os recém-chegados, que eram vistas como uma demonstração de saúde mental. Somente os mais abúlicos e deprimidos se resignavam mansamente ao cativeiro.

     Depois de os bombeiros confirmarem que não havia vítimas do fogo, a minha ausência não foi motivo de preocupação especial, mas na manhã seguinte, quando da excitação do incêndio já só sobrava cinzas, começaram a procurar-me na aldeia e organizaram patrulha para vasculhar os bosques. Por essa altura, eu já levava muitas horas de vantagem.

     Não sei como me consegui orientar sem bússola naquele ocean de pinheiros e chegar aos ziguezagues à estrada interestadual. Tive sorte, não há outra explicação. A minha maratona durou horas, parti de manhã, vi cair a tarde e ficar de noite. Parei algumas vezes, para beber água e mordiscar as barrinhas energéticas, empapada em suor, e continuei a correr até que a escuridão me forçou a parar. Aninhei- me entre as raízes de uma árvore para passar a noite, rezando ao meu Popo para afastar de mim os ursos; por ali havia muitos e eram atrevidos, às vezes vinham até à academia em busca de comida sem se incomodarem minimamente com a proximidade dos seres humanos. Costumávamos observá-los pelas janelas, sem ninguém se atrever a enxotá-los, enquanto reviravam os caixotes do lixo. A comunicação com o meu Popo, efémera como espuma, sofrera sérios altos e baixos durante a minha estadia na academia. Nos primeiros tempos depois da sua morte, aparecia-me, tenho a certeza; via-o no umbral de uma porta, do outro lado da rua, atrás da montra de um restaurante. É inconfundível, não há outro parecido com ele, nem negro nem branco, ninguém tão elegante e teatral, com cachimbo, óculos de aros dourados e chapéu borsalino. Depois, teve início o meu percurso descendente de álcool e drogas, ruído e mais ruído, andava com a mente ofuscada e não o voltei a ver, mas em determinadas ocasiões creio que esteve por perto, podia sentir os seus olhos fixos nas minhas costas. Segundo a minha Nini, é preciso estar muito quieta, em silêncio, num espaço vazio e limpo, sem relógios, para sentir os espíritos.

   - Como queres ouvir o teu Popo se andas sempre ligada a um par de auscultadores? - costumava perguntar-me.

   Naquela noite, sozinha no bosque, experimentei de novo o medo irracional das noites insones da minha infância, de novo me atacaram osmesmos monstros do casarão dos meus avós. Apenas o abraço e o calor de outro ser me ajudavam a dormir, alguém maior e mais forte que eu: o meu Popo, um cão farejador de explosivos. Popo, Popo, chamei, com o coração a sapatear-me dentro do peito. Apertei as pálpebras e tapei os ouvidos para não ver as sombras movediças nem ouvir sons ameaçadores. Adormeci uns instantes, que devem ter sido muito breves, e despertei sobressaltada por um brilho entre os troncos das árvores. Demorei um pouco a perceber onde estava e a pensar que aquilo poderiam ser os focos de um veículo e que estava perto de uma estrada; então, ergui-me de um salto, gritando de alívio, e desatei a correr.

   As aulas começaram há várias semanas e agora tenho um emprego de professora, mas sem ganhar nada. Vou pagar a minha estadia a Manuel mediante uma complicada fórmula de troca direta.

Eu trabalho na escola e a tia Blanca, em vez de me pagar diretamente, retribui a Manuel com lenha, papel para escrever, gasolina, licor de oro e outras comodidades, como filmes que não são exibidos na aldeia por falta da legendas em espanhol ou porque são «repelentes». Não é ela quem aplica a censura, mas um comité de vizinhos, para quem «repelentes» são todos os filmes americanos onde haja demasiado sexo. Este adjetivo não é aplicável aos filmes chilenos, onde os atores costumam rebolar-se nus a uivar sem que o público da ilha pestaneje.

   A troca direta é parte essencial da economia nestas ilhas. Trocam-se peixes por batatas, pão por madeira, frangos por coelhos, e muitos serviços são pagos com produtos. O médico imberbe da lancha não leva dinheiro, porque pertence ao Serviço Nacional de Saúde, mas os seus pacientes pagam-lhe na mesma com galinhas ou tecidos. Ninguém põe preço às coisas, mas todos sabem o valor certo e trazem a conta na memória. O sistema flui com elegância, nunca se menciona a dívida, nem o que se dá, nem o que se recebe. Quem não nasceu aqui nunca poderia dominar completamente a complexidade e subtileza deste intercâmbio, mas aprendi a retribuir as infinitas chávenas de mate e chá que me oferecem na aldeia. Ao princípio não sabia como o fazer, porque nunca fui tão pobre como agora, nem sequer quando andei a pedir, mas apercebi-me de que os vizinhos agradecem que eu entretenha as crianças ou ajude a dona Lucinda a tingir e dobar a sua; lã. A dona Lucinda é tão velha que já ninguém recorda a que família pertence e cuidam dela por turnos. É a tetravô da ilha e permanece ativa, cantando às batatas e vendendo lã.

   Não é indispensável pagar o favor diretamente ao seu fornecedor, pode-se fazer uma carambola, como a de Blanca e Manuel com o meu trabalho na escola. Por vezes, a carambola é dupla ou tripla: Liliana Trevino consegue glucosamina para a artrite de Eduvigis Corrales, que tece meias de lã a Manuel Arias, que troca os seus exemplares do National Geographic por revistas femininas na livraria de Castro e as dá a Liliana Trevino quando esta chega com o remédio de Eduvigis, e assim segue a dança e toda a gente anda contente. No que se refere à glucosamina, é preciso esclarecer que Eduvigis a toma contrariada, para não ofender a enfermeira, porque a única cura infalível para a artrite são as fricções de urtigas com picadas de abelhas.

Com tratamentos tão drásticos, não é raro que aqui as pessoas se desbastem rapidamente. Para além disso, o vento e o frio são nocivos para os ossos e a humidade entra nas articulações; o corpo cansa-se de apanhar batatas da terra e mariscos do mar e o coração fica melancólico, porque os filhos partem para longe. A chicha e o vinho combatem as mágoas por algum tempo, mas por fim o cansaço acaba sempre por vencer. Aqui, a existência não é fácil e, para muitos, a morte significa um convite ao descanso.

   Os meus dias tornaram-se mais interessantes desde que a escola começou. Antes era a gringuita, mas, agora que ensino as crianças, sou a tia Gringa. No Chile as pessoas mais velhas recebem o título de tio ou tia, mesmo que não mereçam a designação. Por respeito, deveria

chamar tio a Manuel, mas quando cheguei aqui não sabia disto e agora è tarde. Estou a deitar raízes nesta ilha, nunca imaginaria tal coisa.

   No inverno, as aulas começam por volta das nove da manhã, segundo a luz e a chuva. Vou para a escola a trote, acompanhada pelo Fakin, que me deixa na porta e depois regressa a casa, onde pode estar abrigado. A jornada começa com o içar da bandeira chilena e toda a gente a formar para cantar o hino nacional - Puro Chile es tu cielo azulado, puras brisas te cruzan también, etc. -; a seguir, a tia Blanca dá-nos o programa do dia. Às sextas-feiras nomeia os alunos premiados e os castigados e levanta-nos o moral com um pequeno discurso edificante.

   Ensino às crianças as bases do inglês, o idioma do futuro, como pensa a tia Blanca, com um manual de 1952 no qual os aviões ainda i' ui hélices e as mães, sempre louras, cozinham de saltos altos. Também lhes ensino a usar os computadores, que funcionam sem problemas quando há eletricidade, e sou a treinadora oficial de futebol, apesar de qualquer destes pirralhos jogar melhor que eu. Há uma determinação olímpica na nossa equipa masculina, o Caleuche, porque apostei com Dom Lionel Schnake, quando nos ofereceu as sapatilhas, que ganharíamos o campeonato escolar em setembro e, se perdermos, terei de rapar a cabeça, o que seria uma humilhação insuportável para os meus futebolistas, A Pincoya, a equipa feminina, é muito má e é melhor nem falar dela.

   O Caleuche rejeitou Juanito Corrales, que tem a alcunha de «anão», devido ao seu físico débil, apesar de Juanito correr como uma lebre e não ter medo de apanhar boladas. As crianças troçam dele e, podendo, batem-lhe. O aluno mais velho é Pedro Pelanchugay, que já repetiu vários anos e, segundo a opinião geral, devia ganhar a vida a pescar com os tios, em vez de gastar o pouco cérebro que tem a aprender números e letras que não lhe vão servir de muito. É índio huilliche, maciço, moreno, obstinado e paciente, boa pessoa, mas ninguém se atreve a meter-se com ele, porque, quando por fim perde a paciência, investe como um trator. A tia Blanca encarregou-o de proteger Juanito.

   - Porquê eu? - perguntou ele, olhando para os pés.

   - Porque és o mais forte.

   A seguir, chamou Juanito e mandou-o ajudar Pedro com os estudos.

   - Porquê eu ? - balbuciou o rapazinho, que raramente fala.

   - Porque és o mais esperto.

   Com esta salomónica solução resolveu o problema das más notas de um e dos abusos cometidos contra o outro e, para além disso, deu origem a uma sólida amizade entre os miúdos, que por mútua conveniência se tornaram inseparáveis. Ao meio-dia, ajudo a servir o almoço fornecido pelo Ministério da Educação: frango ou peixe, batatas, legumes, sobremesa e um copo de leite. A tia Blanca diz que, para algumas crianças chilenas, é tudo o que comem durante o dia, mas nesta ilha não é o caso; somos pobres, mas não nos falta de comer. O meu turno termina depois do almoço. A seguir, vou para casa trabalhar com Manuel umas duas horas e, no resto da tarde, estou livre. Às sextas, a tia Blanca premeia os três alunos que melhor se portaram durante a semana com um papelinho amarelo assinado por ela, válido para um banho no jacuzzi, ou seja, no tonel de madeira com água quente do tio Manuel. Em casa, damos às crianças premiadas uma, chávena de chocolate quente e bolachas feitas por mim, fazemo-los ensaboar-se bem primeiro no duche e, a seguir, podem brincar no jacuzzi até escurecer.

   Aquela noite no Oregon deixou- me uma marca indelével. Tinha fugido da academia e correra todo o dia no bosque sem um olano, sem outro pensamento na cabeça senão magoar o meu pai e livrar-me dos terapeutas e das suas sessões de grupo, estava farta da sua amabilidade açucarada e da sua insistência obscena em vasculhar a minha mente. Queria ser normal, era tudo.

   Fui acordada pelo ruído fugaz de um veículo e corri, tropeçando em arbustos e raízes e desviando os ramos dos pinheiros para o lado, mas, quando finalmente encontrei a estrada, que estava a menos de cinquenta metros, as luzes tinham desaparecido. A lua iluminava o risco amarelo que dividia a estrada. Calculei que passariam outros carros, porque ainda era relativamente cedo. Não me enganei, porque pouco tempo depois escutei o ruído de um poderoso motor e vi ao longe o brilho de dois faróis, que ao aproximar-se revelaram um camião gigantesco, com rodas da minha altura e duas bandeiras a adejar no chassis. Atravessei-me à frente dele fazendo sinais deseperados com os braços. O condutor surpreendido perante aquela visão inesperada, travou a fundo, mas tive de me afastar a correr, porque a enorme massa do camião continuou a rolar por inércia ainda uns vinte metros antes de se deter por completo. Corri para o veículo. O motorista enfiou a cabeça pela janela e iluminou-me de cima baixo com uma lanterna, estudando-me, perguntando-se se aquela rapariga poderia ser o isco de uma quadrilha de asslatantes; não seria a primeira vez que algo assim acontecia a um camionista. Ao verificar que não havia mais ninguém nos corredores e ao ver a minha cabeça de Medusa com madeixas cor de sorvete, ficou mais tranquilo. Deve ter concluído que eu era uma toxicodependente inofensiva, mais uma drogada tola. Fez-me um sinal, destravou a porta da direita e subi para a cabina.

     O homem, visto de perto, era tão assustador coo o seu veículo, grande, corpulento, com braços de levantador de pesos, t- shirt sem mangas e um rabo de cavalo anémico espreitando sob o boné de beisebol, uma caricatura do macho bruto, mas eu já não podia retroceder. Contrastando com o seu aspeto ameaçador, tinha um sapatinho de bebé pendurado no espelho retrovisor e dois cartazes religiosos.

   - Vou para Las Vegas - infomou-me

   Disse-lhe que eu ia para a Califórnia, acrescentando que Las Vegas me calhava bem na mesma, porque na Califórnia não tinha ninguém à espera. Este foi o meu segundo erro; o primeiro foi subir para o camião.

   A hora seguinte caracterizou-se por um animado monólogo do homem, que exalava energia como se estivesse eletrizado pelo efeito de anfetaminas. Durante as suas eternas horas ao volante, entretinha-se comunicando com outros condutores para trocar piadas e comentários sobre o tempo, o estado do asfalto, beisebol, os respetivos camiões e os restaurantes da estrada, enquanto na rádio os pregadores evangélicos profetizavam a plenos pulmões a segunda vinda de Cristo.

   Fumava sem parar, transpirava, coçava-se, bebia água. O ar na cabina era irrespirável. Ofereceu-me batatas fritas de um saco que tinha no assento e uma lata de Coca-Cola, mas não se incomodou em saber o meu nome nem por que motivo estava à noite numa estrada desolada. Ao invés, falou-me de si mesmo. Chamava-se Roy Fedgewick, era do Tennessee, tinha estado no exército, até que teve um acidente e foi dispensado. No hospital ortopédico, onde passou várias semanas, encontrou Jesus.

   O homem continuou a falar e a citar passagens da Bíblia, enquanto eu tentava em vão descontrair-me com a cabeça encostada à minha janela, o mais longe possível do seu cigarro. Sentia cãibras nas pernas e um formigueiro desagradável na pele pela dura corrida do dia.

   Cerca de oitenta quilómetros mais à frente, Fedgewick saiu da estrada e deteve-se diante de um motel. Um letreiro de luzes azuis, com várias lâmpadas queimadas, indicava o nome. Via-se uma fiada de quartos, uma máquina dispensadora de refrigerantes, uma cabina de telefone público, um camião e dois carros com aspeto de estarem ali desde o início dos tempos; não havia quaisquer sinais de atividade.

   - Estou a conduzir desde as seis da manhã. Vamos passar a noite aqui. Desce - comunicou-me Fedgewick.

   - Prefiro dormir no camião, se não se importa - disse-lhe, pensando que não tinha dinheiro para um quarto.

   O homem esticou o braço por cima de mim para abrir o compartimento interior e agarrou numa garrafa de quarto de litro de whisky e numa pistola semiautomática. Pegou num saco de lona, desceu do camião, deu-lhe a volta, abriu a porta do meu lado e mandou-me descer,seria melhor para mim.

   - Ambos sabemos para que estamos aqui, putinha. Ou pensavas que a viagem era grátis?

     Obedeci-lhe por instinto, apesar de no curso de autodefesa da Secundária de Berkeley nos terem ensinado que, em semelhantes circunstâncias, o melhor é atirar-se para o chão e gritar como uma alienada, nunca colaborar com o agressor. Apercebi-me de que o homem coxeava e era mais baixo e entroncado do que parecia sentado; teria podido fugir a correr e ele não teria sido capaz de me apanhar, mas a pistola deteve-me. Fedgewick adivinhou as minhas intenções, agarrou-me firmemente por um braço e quase me levou pelos ares até à receção, protegida por grades e por um vidro grosso, passou várias notas através de uma abertura, recebeu a chave e pediu um pack de seis cervejas e uma pizza. Não consegui vislumbrar o empregado nem fazer-lhe sinal, porque o camionista conseguiu interpor o seu corpanzil entre ambos.

   Com a mão do homenzarrão a comprimir-me o braço, caminhei até ao número 32 e entrámos num quarto com um odor fétido a humidade e creosoto, com uma cama dupla, papel de parede às riscas, televisor, radiador elétrico e um aparelho de ar condicionado, que bloqueava a única janela existente. Fedgewick mandou-me ficar fechada na casa de banho até trazerem a cerveja e a pizza. A casa de banho consistia num duche com as torneiras ferrugentas, um lavatório, uma sanita de higiene duvidosa e duas toalhas esfiapadas. A porta não tinha fecho e havia apenas uma pequena clarabóia de ventilação. Percorri a minha cela com um olhar angustiado e compreendi que nunca tinha estado tão desamparada na vida, as minhas aventuras anteriores eram uma brincadeira comparadas com aquilo, haviam ocorrido em território conhecido, com as minhas amigas, Rick Laredo a vigiar a retaguarda e a certeza de que, numa emergência, poderia refugiar-me debaixo das saias da minha avó.

   Ocamionista recebeu o pedido, trocou um par de frases com o empregado, fechou a porta e chamou-me para ir comer antes que a pizza arrefecesse. Eu não era capaz de comer nada, tinha um penedo na garganta. Fedgewick não insistiu. Procurou algo no saco, foi à casa de banho, sem fechar a porta, e regressou à divisão com a braguilha aberta e um copo de plástico com um dedo de whisky.

   - Estás nervosa? Com isto vais-te sentir melhor - disse, passando-me o copo. Recusei abanando a cabeça, incapaz de falar, mas o homem agarrou-me pela nuca e colocou-me o copo na boca.

     - Bebe, cabra desgraçada, ou queres que te obrigue?

   Engoli a bebida, tossindo e lacrimejando. Há mais de um ano que não provava álcool e tinha esquecido como queimava. O meu raptor sentou-se na cama a ver uma comédia na televisão, enquanto despachava três cervejas e dois terços da pizza, rindo, arrotando, aparentemente esquecido de mim, enquanto eu esperava de pé num canto, encostada à parede, com náuseas. O quarto movia-se, os móveis mudavam de forma, a massa enorme de Fedgewick confundia-se com as imagens do televisor. Sentia as pernas dobrarem-se e tive de me sentar no chão, lutando contra o desejo de fechar os olhos e de me deixar ir. Era incapaz de pensar, mas compreendia que estava drogada: o whisky no copo de papel. O homem, cansado da comédia, desligou o televisor e aproximou-se para avaliar o meu estado. Os seus grossos dedos levantaram-me a cabeça, que se transformara em pedra, e o pescoço já não era capaz de a suster. O seu hálito repugnante atingiu-me na cara.

     Fedgewick sentou-se na cama, dispôs a cocaína em linhas na mesa de cabeceira com um cartão de crédito e aspirou o pó branco profundamente, com prazer. Seguidamente, virou-se para mim e mandou-me tirar a roupa, enquanto esfregava o entrepernas com o cano da pistola, mas não me consegui mexer. O homem ergueu-me do chão e despiu-me com movimentos bruscos. Tentei resistir, mas o meu corpo não respondia, tentei gritar e a voz não me saía. Fui-me afundando num espesso lodaçal, sem ar, sufocando, morrendo.

   Estive meio inconsciente durante as horas que se seguiram e não me apercebi das piores humilhações que sofri, mas a dado momento o meu espírito regressou de longe e observei a cena no sórdido quartil do motel, como num ecrã a preto e branco: a figura feminina alta e magra, inerte, aberta em cruz, o minotauro que mastigava obscenidades e arremetia repetidamente contra ela, un manchas escuras no lençol, o cinto, a arma, a garrafa. A flutuar no ar, vi por fim Fedgewick cair de borco, exausto, satisfeito, a escorrer baba, e começar imediatamente a ressonar.

     Fiz um esforço sobre-humano para acordar e regressar ao meu corpo dorido, mas mal podia abrir os olhos e muito menos pensar. Levantar-me, pedir ajuda, escapar, eram palavras sem sentido que se formavam como bolas de sabão e se desvaneciam no algodão do meu cérebro embotado. Afundei-me uma vez mais numa piedosa obscuridade.

     Acordei às duas e cinquenta da madrugada, segundo indicava o relógio fluorescente na mesa de cabeceira, com a boca seca, os lábios gretados e atormentada por uma sede de deserto. Quando me tentei sentar, apercebi-me de que estava imobilizada, porque Fedgewick prendera o meu pulso esquerdo à cabeceira da cama com umas algemas. Tinha a mão inchada e o braço rígido, o mesmo braço que partira antes no acidente com a bicicleta. O pânico que sentia dissipou um pouco a densa névoa da droga. Mexi-me com cuidado, procurando situar-me na penumbra. A única luz vinha do brilho azul do letreiro do motel, que se escoava por entre as cortinas encardidas, e do reflexo verde dos números luminosos do relógio. O telefone! Descobri-o ao voltar-me para ver as horas; estava junto ao relógio, muito perto.

   Com a mão livre agarrei no lençol e limpei a humidade viscosa da barriga e das coxas, depois virei-me para a esquerda e deslizei para o chão com uma lentidão penosa. O puxão das algemas no pulso arrancou-me um gemido e o ranger das molas da cama soou como a travagem de um comboio. De joelhos sobre a alcatifa áspera, com o braço torcido numa posição impossível, esperei apavorada a reação do meu raptor, mas por cima do ruído ensurdecedor do meu próprio coração ouvi-o a ressonar. Antes de me atrever a pegar no telefone, aguardei cinco minutos para ter a certeza de que continuava mergulhado no sono profundo da embriaguez. Encolhi-me no chão, o mais longe que as algemas o permitiram, e marquei o número das emergência para pedir socorro, amortecendo a voz com uma almofada. Não tinha linha exterior. O telefone do quarto comunicava somente com a receção, para ligar para fora era necessário usar o telefone público da portaria ou um telemóvel e o do camionista estava fora do meu alcance.

Marquei o número da receção e ouvi tocar onze vezes antes de uma voz masculina com sotaque da índia atender.

   - Fui raptada, ajude-me, ajude-me... - sussurrei, mas o empregado desligou o telefone sem me dar tempo de dizer mais nada. Tentei de novo, com o mesmo resultado. Desesperada, afoguei os soluços na almofada suja.

   Passou mais de meia hora antes de me lembrar da pistola, que Fedgewick usara como um brinquedo perverso, metal frio na boca, na vagina, sabor a sangue. Tinha de a encontrar, era a minha única esperança. Para voltar a subir para a cama com uma mão algemada tive de realizar contorções de artista de circo e não pude evitar que o colchão ressaltasse sob o meu peso.

   O camionista resfolegou como um touro, voltou-se sobre as costas e a sua mão caiu sobre a minha anca com o peso de um tijolo, paralisando-me, mas depressa começou de novo a ressonar e eu pude voltar a respirar. O relógio marcava três e cinco da madrugada, o tempo arrastava-se, ainda faltavam horas até ao amanhecer.

   Compreendi que aqueles eram os meus últimos instantes, Fegdewick nunca me deixaria viva, podia identificá-lo e descrever o seu: camião, se ainda não me tinha matado era porque planeava continuar a abusar de mim. A ideia de que estava condenada, de que ia morrer assassinada e nunca encontrariam os meus restos naqueles bosques, deu-me uma coragem inesperada. Não tinha nada a perder.

   Afastei a manápula de Fedgewick da minha anca com brusquidão e voltei-me para o enfrentar. O seu cheiro atingiu-me: um hálito de animal, suor, álcool, sémen, pizza rançosa. Distingui o seu rosto bestial de perfil, o tórax enorme, os músculos volumosos do antebraço, o sexo peludo, a perna grossa como um tronco e engoli o vómito que me subia pela garganta. Com a mão livre comecei a tatear debaixo da sua almofada à procura da pistola. Encontrei-a quase de imediato, estava ao meu alcance, mas comprimida sob a cabeçorra de Fedgewick, que devia estar muito seguro do seu poder e da minha resignação de vítima para a ler deixado ali.

     Respirei fundo, fechei os olhos, agarrei o cano com dois dedos e comecei a puxar milímetro a milímetro, sem fazer mexer a almofada. Por fim, consegui tirar a pistola, que era mais pesada do que o esperado, e segurei-a contra o peito, trémula pelo esforço e pela ansiedade. A única arma que tinha visto era a de Rick Laredo e nunca lhe tinha locado, mas sabia usá-la, tinha aprendido nos filmes.

   Apontei à cabeça de Fedgewick, era a vida dele ou a minha. Mal podia levantar â arma apenas com uma mão, tremendo de nervosismo, com o corpo torcido e debilitada pela droga, mas ia ser um disparo à queima-roupa e não era possível falhar. Pus o dedo no gatilho e hesitei, atordoada pelas guinadas ensurdecedoras que sentia nas têmporas. Com absoluta clareza, calculei que não iria ter outra oportunidade de escapar daquele animal. Forcei-me a mover o dedo indicador, senti a leve resistência do gatilho e vacilei de novo, antecipando o disparo, o coice da arma, o rebentar dantesco de ossos e sangue e fragmentos do cérebro. Agora, tem de ser agora, murmurei, mas não fui capaz. Limpei o suor que escorria pelo meu rosto e me toldava a visão, sequei a mão no lençol e voltei a pegar na arma, pus o dedo no gatilho e apontei. Repeti o gesto mais duas vezes, sem conseguir disparar. Olhei para o relógio: três e quinze da manhã. Finalmente, pousei a pistola sobre a almofada, junto à orelha do meu carrasco adormecido. Virei-lhe as costas e encolhi-me, nua, entumecida, chorando de frustração pelos meus escrúpulos e de alívio por me ter livrado do irreversível horror de matar.

     Ao amanhecer, Roy Fedgewick acordou a arrotar e a espreguiçar-se, sem vestígios de embriaguez, falador e de bom humor. Viu a pistola sobre a almofada, agarrou-a, encostou-a a uma têmpora e premiu o gatilho.

     - Pum! Não pensaste que estava carregada, pois não? - disse, desatando a rir.

   Levantou-se nu, sopesou a sua ereção matinal com ambas as mãos, pensou um instante, mas depois desistiu do impulso. Guardou a arma no saco, tirou uma chave do bolso das calças, abriu as algemas e libertou- me.

     - Devias ver como estas algemas me têm sido úteis, as mulheres adoram-nas. Como te sentes? - perguntou-me, acariciando-me a cabeça com um gesto paternal.

   Ainda não conseguia acreditar que estava viva. Tinha dormido um par de horas como se estivesse anestesiada, sem sonhos. Esfreguei o pulso e a mão, para restabelecer a circulação.

   - Vamos tomar o pequeno-almoço, é a refeição mais importante do dia. Com um bom pequeno-almoço sou capaz de conduzir vinte horas - disse-me da casa de banho, onde estava sentado na sanita com um cigarro na boca.

   Passado pouco tempo, ouvi-o tomar duche e escovar os dentes, depois voltou ao quarto, vestiu-se a cantarolar e recostou-se sobre a cama calçado com as suas texanas em imitação de pele de lagarto, a ver; televisão. Passados uns instantes, mexi o meu esqueleto rígido, levantei-me com a falta de agilidade de uma anciã, arrastei-me até à casa de banho e fechei a porta. O duche quente caiu-me em cima como um bálsamo. Lavei o cabelo com o champô barato do motel e esfreguei o corpo furiosamente, tentando eliminar com o sabonete as infâmias da noite. Tinha arranhões e nódoas negras nas pernas, nos seios e na cintura; o pulso e a mão esquerdos estavam deformados com o inchaço. Sentia uma dor generalizada de queimadura na vagina e no ânus, escorria-me um fio de sangue entre as pernas. Fiz um penso com papel higiénico, vesti as calcinhas e depois o resto a roupa. O camionista meteu dois comprimidos na boca e engoliu-os com meia garrafa de cerveja, a seguir ofereceu-me o resto da garrafa, a última que sobrava, e outros dois comprimidos.

   - Toma, são aspirinas, ajudam com a ressaca. Hoje chegaremos a Las Vegas. A ti convém-te continuar comigo, menina, já me pagaste a portagem - disse-me.

   Agarrou no seu saco, verificou se não deixava ficar nada e saiu do quarto. Segui-o sem forças até ao camião. O céu começava a clarear.

Pouco depois, parámos num restaurante de berma de estrada, onde já havia outros veículos pesados de transporte e uma autocaravana. Lá dentro, o aroma a bacon e a café despertou-me a fome, só linha comido duas barras energéticas e um punhado de batatas fritas em vinte e tal horas. O camionista entrou no local destilando boa disposição, fazendo piadas com os outros fregueses, a quem pelos vistos conhecia, aos beijos à empregada de mesa e cumprimentando num espanhol mastigado os dois guatemaltecos que cozinhavam. Pediu sumo de laranja, ovos, salsichas, panquecas, torradas e café para os dois, enquanto eu absorvia de um olhar só o piso de linóleo, as ventoinhas no teto, os bolos amontoados sob a campânula de vidro em cima do balcão. Quando trouxeram a comida, Fedgewick agarrou-me as duas mãos por sobre a mesa, inclinou a cabeça teatralmente e fechou os olhos.

   - Obrigado, Senhor, por este pequeno-almoço nutritivo e este bonito dia. Abençoa-nos, Senhor, e protege-nos durante o resto da viagem. Ámen.

   Observei sem esperança os homens que comiam ruidosamente nas outras mesas, a mulher que servia o café com os cabelos pintados e o seu ar cansado, os índios milenares que viravam ovos e bacon na cozinha. Não tinha a quem recorrer. Que poderia dizer-lhes? Que pedira boleia e me tinham cobrado o favor num motel, que era uma estúpida e merecia a minha sorte. Inclinei a cabeça como o camionista e rezei em silêncio: Não me abandones, Popo, cuida de mim. Depois, devorei o meu pequeno-almoço até à última migalha.

   Devido à sua localização no mapa, tão longe dos Estados Unidos e tão perto de nada, o Chile está fora da rota habitual do narcotráfico, mas as drogas também chegaram aqui, como ao resto do mundo. Veem-se alguns rapazes perdidos nas nuvens. Deparei com um no ferry, quando atravessei o Canal de Chacao para vir para Chiloé, um desesperado que já estava na fase dos seres invisíveis, ouvindo vozes, falando sozinho, gesticulando. A marijuana está ao alcance de toda a gente, é mais comum e barata que o tabaco, oferecem-na pelas esquinas; o crack circula mais entre os pobres, que também cheiram gasolina, cola, diluente de verniz e outros venenos; para quem quer variedade existem alucinogénios de diferentes tipos, cocaína, heroína e seus derivados, anfetaminas e um menu completo de fármacos do mercado negro, mas na nossa ilhazinha há menos opções, apenas álcool para toda a gente e marijuana e crack para os jovens.

   - Tens de andar sempre muito atenta às crianças, gringuita, nada de drogas na escola - ordenou-me Blanca Schnake, passando depois a explicar-me como detetar os sintomas nos alunos. Não sabe que sou especialista.

   Quando estávamos a vigiar o recreio, Blanca contou-me que Azucena Corrales não tinha ido às aulas e que receia que a rapariga abandone os estudos como os seus irmãos mais velhos - nenhum acabou a escola. Não conhece a mãe de Juanito, porque já tinha ido embora quando ela veio para a ilha, mas sabe que era uma menina brilhante, que ficou grávida aos quinze anos e, depois de dar à luz, foi embora e nunca mais voltou. Agora vive em Quellón, no sul da ilha Grande, onde se localizavam a maioria das unidades produtoras de salmão, antes de aparecer o vírus que dizimou os peixes. Na época da prosperidade do salmão, Quellón era como o faroeste, uma terra de aventureiros e homens sós, que costumavam tomar a lei nas suas próprias mãos, e de mulheres de virtude fácil e ânimo empreendedor, capazes de amealhar numa semana o que um operário ganhava num ano. As mulheres mais solicitadas eram as colombianas, designadas como trabalhadoras sexuais itinerantes pela imprensa e como negras cuzudas pelos clientes agradecidos.

   - Azucena era boa aluna, como a irmã, mas de repente ficou esquiva e começou a evitar as pessoas. Não sei que lhe terá dado - disse-me a tia Blanca.

   - Também já foi limpar lá a casa. A última vez que a vi foi na noite da tempestade, quando veio procurar Manuel, porque o Carmelo Corrales estava muito doente.

   - O Manuel contou-me. Carmelo Corrales estava com um ataque de hipoglicemia, bastante comum entre os diabéticos alcoólicos, mas dar-lhe mel foi uma decisão arriscada da parte do Manuel, podia tê-lo matado. Imagina só que responsabilidade!

   - De qualquer maneira, já estava meio morto, tia Blanca. Manuel tem um admirável sangue-frio. Já reparaste que nunca se zanga nem se preocupa?

- É por causa da bolha no cérebro - informou-me Blanca.

O facto é que, há uma década, descobriram um aneurisma na cabeça de Manuel, que pode rebentar a qualquer instante. E eu só agora acabo de saber! Segundo Blanca, Manuel veio para Chiloé para viver os seus dias em plenitude nesta paisagem soberba, em paz e silêncio, fazendo aquilo que adora: escrever e estudar.

   - O aneurisma equivale a uma sentença de morte, o que o tornou desprendido, mas não indiferente. Manuel aproveita bem o seu tempo, gringuita. Vive no presente, hora a hora, e está muito mais reconciliado com a ideia de morrer do que eu, que também ando com uma homba-relógio cá dentro. Há quem passe anos a meditar num mosteiro sem alcançar o estado de paz que o Manuel encontrou.

   - Vejo que também achas que ele é como Siddhartha.

   - Quem?

   - Ninguém.

Ocorreu-me que Manuel Arias nunca teve um grande amor, como o dos meus avós, por isso conforma-se com a sua existência de lobo solitário. A bolha no cérebro serve-lhe de desculpa para evitar o amor. Por acaso não tem olhos para ver Blanca? Jéssus, como diria Eduvigis, parece que estou a tentar juntá-lo com Blanca. Este pernicioso romantismo é produto dos romances cor-de-rosa que andei a ler ultimamente. A pergunta inevitável é por que razão aceitou Manuel receber em sua casa uma tipa como eu, uma desconhecida, alguém de outro inundo, com hábitos suspeitos e, para além disso, fugitiva; como é possível que a sua amizade com a minha avó, que não vê há várias décadas, pese mais na balança que a sua indispensável tranquilidade?

   Manuel estava preocupado com a tua vinda - disse-me Blanca, quando lhe perguntei sobre o assunto. - Pensava que lhe ias dar cabo da vida, mas não pôde negar o favor à tua avó, porque quando o desterraram em 1975 houve alguém que lhe deu amparo a ele.

     - O teu pai.

   - Sim. Naquela época era arriscado ajudar as pessoas perseguidas pela ditadura, o meu pai foi avisado, perdeu amigos e familiares, até os meus irmãos ficaram zangados por isso. Lionel Schnake dando abrigo a um comunista! Mas ele dizia que, se neste país nao se pode ajudar o próximo, mais vale ir daqui para fora. O meu pai acha-se invulnerável, costumava dizer que os militares não se atreveriam a tocar-lhe. A arrogância típica da sua classe serviu-lhe, neste caso, para fazer o bem.

   - E agora Manuel retribui a Dom Lionel ajudando-me a mim. A lei chilota da reciprocidade em carambola.

     - Correto.

   - Os receios de Manuel a meu respeito eram bastante justificados, tia Blanca. Cheguei aqui como um touro solto pronto a quebrar-lhe a louça toda...

   - Mas isto tem-lhe feito muito bem! - interrompeu-me. - Noto que está mudado, gringuita, esta mais solto.

   - Solto? É mais fechado que um nó de marinheiro. Acho que está com uma depressão.

     - É o carácter dele, gringuita. Nunca foi palhaço nenhum.

   O tom e o olhar perdido de Blanca indicaram-me o quanto gosta dele. Contou-me que Manuel tinha trinta e nove anos quando foi enviado para Chiloé e viveu em casa de Dom Lionel Schnake. Estava traumatizado por mais de um ano na prisão, pelo desterro, pela perda da família, dos amigos, do emprego, de tudo, enquanto Blanca atravessava uma época esplêndida: tinha sido eleita rainha num concurso de beleza e estava a planear o seu casamento. O contraste entre os dois era muito cruel.

Blanca não sabia quase nada do hóspede do pai, mas sentia- se atraída pelo seu ar trágico e melancólico. Por comparação, outros homens, incluindo o seu noivo, pareciam-lhe desprovidos de substância. Na noite antes de Manuel partir para o exílio, justamente quando a família Schnake celebrava a devolução dos terrenos expropriados em Osorno, Blanca foi ao seu quarto oferecer-lhe um pouco de prazer, algo de memorável que Manuel pudesse levar consigo para a Austrália. Blanca tinha feito amor com o seu noivo, um engenheiro de sucesso, de uma família rica, partidário do governo militar, católico, o oposto de Manuel e o adequado para uma jovem como ela, mas o que viveu com Manuel naquela noite foi muito diferente. O amanhecer veio encontrá-los abraçados e tristes, como dois órfãos.

   - Mas foi ele quem me ofereceu alguma coisa. Manuel mudou- me, deu-me outra perspetiva do mundo. Não me contou o que lhe aconteceu quando esteve na cadeia, nunca fala disso, mas senti o seu sofrimento na minha própria pele. Pouco depois, rompi com o meu noivo e fui de viagem - disse Blanca.

   Nos vinte anos seguintes foi tendo notícias de Manuel, porque este nunca deixou de escrever a Dom Lionel, e foi assim que soube dos seus divórcios, da sua estada na Austrália, depois em Espanha, do seu regresso ao Chile em 1998. Então, Blanca estava casada, com duas filhas adolescentes.

   - O meu casamento ia-se desmoronando, o meu marido era um daqueles infiéis crónicos, criado para ser servido pelas mulheres. Já te deves ter apercebido de como este país é machista, Maya. O meu marido deixou-me quando me diagnosticaram o cancro. Não conseguiu suportar a ideia de se deitar com uma mulher sem seios.

   - E que se passou entre ti e o Manuel?

   - Nada. Reencontrámo-nos aqui em Chiloé, os dois bastante magoados pela vida.

   - Mas tu gostas dele, não é verdade?

   - Não é assim tão simples...

   - Então deverias dizer-lhe - interrompi-a. - Se vais ficar à espera que ele tome a iniciativa, é melhor esperares sentada.

   - A qualquer altura o cancro pode reaparecer, Maya. Nenhum homem quer cuidar de uma mulher com este problema.

   - E em qualquer momento pode rebentar o raio da bolha ao Manuel, tia Blanca. Não há tempo a perder.

   - Nem penses em meter o nariz nisto! A última coisa de que precisamos é de uma gringa alcoviteira - advertiu-me, alarmada.

   Receio que, se não meter o nariz, os dois ainda vão morrer de velhos sem resolverem o assunto. Mais tarde, quando cheguei a casa, encontrei Manuel sentado na sua poltrona em frente à janela, editando páginas soltas, com uma chávena de chá em cima da mesinha, o Gato-Lerdo aos seus pés e o Gato-Literato enroscado em cima do manuscrito. A casa cheirava a açúcar, Eduvigis tinha estado a fazer compota de damasco com a última fruta da época. A compota estava a arrefecer numa fileira de frascos reciclados de diversos tamanhos, prontos para o inverno, quando acaba a abundância e a terra adormece, como Eduvigis diz.

Manuel ouviu me entrar e fez me um gesto vago com a mão, mas não levantou a vista dos papéis. Ai, Popo! Não conseguiria suportar se acontecesse alguma coisa a Manuel, cuida-me dele, não mo deixes morrer também. Aproximei-me na ponta dos pés e abracei-o por trás, num abraço triste. Perdi-lhe o medo desde aquela noite em que me meti na cama dele sem ser convidada, agora pego-lhe na mão, dou-lhe beijos, roubo comida do seu prato - algo que Manuel detesta -, ponho a cabeça sobre os seus joelhos quando lemos, peço-lhe que me coce as costas e ele, apavorado, lá faz o que eu digo. Já não discute comigo quando uso a sua roupa e o seu computador ou lhe corrijo o livro; a verdade é que escrevo melhor que ele. Mergulhei o nariz na sua cabeleira tesa e as minhas lágrimas cairam-lhe em cima como pedrinhas minúsculas.

   - Passa-se alguma coisa? - perguntou-me, admirado.

   - Passa-se que gosto de ti - confessei-lhe.

   - Não me dê beijos, menina. Mais respeito para com este ancião - resmungou.

   Depois do abundante pequeno-almoço com Roy Fedgewick, viajei com ele no camião o resto do dia, ouvindo música country e pregadores evangélicos na rádio e o seu interminável monólogo, que mal escutava, porque estava entorpecida pela ressaca da droga e o cansaço daquela noite terrível. Tive duas ou três oportunidades de escapar e ele não teria tentado reter-me, perdera todo o interesse em mim, mas não tinha forças suficientes, sentia o corpo flácido e a mente confusa. Parámos numa estação de serviço e, enquanto ele comprava cigarros, fui à casa de banho. Sentia dores ao urinar e ainda sangrava um pouco. Pensei em ficar naquela casa de banho até que o camião de Fedgewick se afastasse, mas o cansaço e o medo de cair nas mãos de outro celerado tiraram-me a ideia da cabeça. Regressei ao veículo cabisbaixa, encolhi -me no meu canto e fechei os olhos.

   Chegámos a Las Vegas ao anoitecer, quando já me sentia um pouco melhor. Fedgewick deixou-me em pleno Las Vegas Boulevard -         a Strip -, o coração da cidade, com dez dólares de gorjeta, porque lhe fazia lembrar a sua filha, como me linha garantido, e para o provar mostrou-me uma criatura loura de uns cinco anos no telemóvel.

Ao partir, acariciou me a cabeça e despediu-se com um « Deus te abençoe, querida» . Apercebi-me de que Fedgewick não tinha medo de nada e se ia embora com a consciência tranquila, este tinha sido mais um de muitos encontros similares, para os quais andava preparado com a pistola, as algemas, as drogas e o álcool; dentro de alguns minutos, ter-- me-ia esquecido. A dada altura do seu monólogo, dera-me a entender que existiam dúzias de adolescentes, rapazes e raparigas, fugidos de casa, que se ofereciam pelas estradas fora para benefício dos camionistas; era toda uma cultura de prostituição infantil. A única coisa boa que se poderia dizer dele é que tomou precauções para que eu não lhe pegasse nenhuma doença. Prefiro não saber os detalhes do que aconteceu naquela noite no motel, mas lembro-me de que de manhã havia preservativos usados no chão. Tive sorte, violou-me com camisinha.

   Àquela hora, o ar de Las Vegas estava um pouco mais fresco, mas o pavimento ainda conservava o calor seco das horas anteriores, sentei-me num banco, dorida pelos excessos das últimas horas e incomodada pela profusão de luzes daquela cidade irreal, surgida como um encantamento no pó do deserto. As ruas estavam animadas num festival eterno, trânsito, autocarros, limusinas, música, gente por todo o lado: velhos em calções e camisas havaianas, mulheres maduras com hapéus texanos, jeans ornados de lantejoulas e bronzeado artificial, os habituais turistas pobretanas, muitos gordos. A minha decisão de instigar o meu pai continuava firme, culpava-o por todos os meus infortúnios, mas queria ligar à minha avó. Nesta era de telemóveis é quase impossível encontrar um telefone público. No único telefone que encontrei em bom estado, a operadora não pôde ou não quis fazer uma amada a cobrar no destino. Fui trocar a nota de dez dólares por moedas num hotel-casino, uma das vastas cidadelas de luxo de Las Vegas com palmeiras transplantadas das Caraíbas, erupções vulcânicas artificiais, cascatas coloridas e praias sem mar. A exibição de fausto e vulgaridade está concentrada nuns poucos quarteirões, onde também abundam bordéis, bares, tabernas, salões de massagens, cinemas que passam filmes para adultos. Num extremo do Boulevard, é possível casar em sete minutos numa capela com corações tremeluzentes e, no outro, divorciar- se no mesmo período de tempo. Assim descreveria eu a cidade meses mais tarde à minha avó, apesar de ser uma verdade incompleta, porque em Las Vegas existem comunidades de ricos com mansões gradeadas, subúrbios de classe média, onde as mães passeiam os seus carrinhos de bebé, bairros degradados de gangues e mendigos, e há escolas, igrejas, museus e parques, que eu apenas vislumbrei de longe, já que a minha vida decorreu de noite. Liguei para o número da casa que tinha sido do meu pai e de Susan e onde agora a minha Nini vivia sozinha. Não sabia se Angie já a teria informado da minha ausência, apesar de terem passado dois dias desde que desaparecera da academia. O telefone tocou quatro vezes e a gravação indicou-me que deixasse uma mensagem, e foi então que me lembrei de que, às quintas, a minha avó fazia um turno da noite como voluntária do Hospice, retribuindo assim a ajuda recebida quando o meu Popo agonizava. Desliguei, não encontraria ninguém até à manhã seguinte.

   Nesse dia tinha tomado o pequeno-almoço muito cedo, não quis comer ao meio-dia com Fedgewick e naquele momento sentia um buraco no estômago, mas decidi guardar as minhas moedas para o telefone. Comecei a andar na direção oposta às luzes dos casinos, afastando-me da multidão, do brilho fantástico dos avisos luminosos, do ruído ininterrupto do tráfego. A cidade alucinante desapareceu para dar lugar a outra, silenciosa e sombria. Vagueando sem rumo, desorientada, cheguei a uma rua sonolenta, sentei-me no banco coberto de uma paragem de autocarros, apoiada na minha mochila, e preparei -me para repousar um pouco. Esgotada, adormeci.

   Passado pouco tempo, fui acordada por um desconhecido que me tocava no ombro.

   - Posso levar-te a tua casa, Bela Adormecida? - perguntou-me, num tom de domador de cavalos. Era baixo, muito magro, com as costas encurvadas, cara de lebre, cabelo louro-palha gorduroso.

   - A minha casa... - repeti, desconcertada.

   O homem estendeu-me a mão, sorrindo com os dentes manchados, e disse-me o nome: Brandon Leeman. Naquele primeiro encontro, Leeman estava vestido em tom caqui da cabeça aos pés: camisa e calças com vários bolsos e grandes sapatos com sola de borracha. Tinha um ar tranquilizador de guarda de parques. As mangas compridas cobriam- lhe as laluagens com motivos de artes marciais e as nódoas negras causadas pelas picadas das agulhas, que eu só veria mais tarde. Leeman tinha cumprido duas penas de prisão e era procurado pela polícia em vários estados, mas em Las Vegas sentia-se a salvo e tinha feito da cidade o seu refúgio temporário. Era ladrão, traficante e viciado em heroína, em nada se distinguindo de outros da mesma categoria naquela cidade.

   Andava armado por precaução e hábito, não porque fosse propenso à violência, e em caso de necessidade tinha à sua disposição dois capangas, Joe Martin, do Kansas, e o Chinês, um filipino com a cara marcada pelas bexigas que conhecera na prisão. Tinha trinta e oito anos, mas parecia ter cinquenta. Naquela quinta-feira estava a sair da sauna, um dos poucos prazeres que se permitia, não por austeridade, irias por ter chegado a um estado de total indiferença por tudo menos pela sua dama branca, a sua neve, a sua rainha, o seu açúcar. Acabava de se injetar e sentia-se fresco e cheio de ânimo para iniciar a sua ronda Noturna.

   Do seu veículo, uma camioneta de aspeto fúnebre, Leeman tinha-me avistado a dormir em cima do banco. Tal como me contou depois, confiava no seu instinto para julgar as pessoas, capacidade muito útil na sua área profissional, e eu pareci-lhe um diamante em bruto. Deu uma volta pelo quarteirão, voltou a passar lentamente diante de mim e confirmou a sua primeira impressão. Pensou que eu teria uns quinze anos demasiado jovem para os seus propósitos, mas não estava em condições de fazer exigências, porque desde há meses que procurava alguém como eu. Deteve-se a cinquenta metros, saiu do carro, ordenou aos seus sequazes que desaparecessem até os voltar a chamar e aproximou-se da paragem de autocarro.

     - Ainda não comi. Há um McDonalds a três quarteirões daqui. Fazes-me companhia? Pago eu - ofereceu.

     Analisei rapidamente a situação. A minha recente experiência com Fedgewick deixara-me escaldada, mas aquele Zé-ninguém vestido de explorador não era de temer.

   - Vamos? - insistiu.

   Segui o um tanto ou quanto hesitante, mas ao dobrar a esquina vi ao longe o letreiro do McDonalds e não pude resistir à tentação, tinha fome. Pelo caminho, fomos conversando e acabei por lhe contar que tinha acabado de chegar à cidade, estava de passagem, ia voltar para a Califórnia mal ligasse para a minha avó e ela me mandasse o dinheiro.

   - Emprestava-te o meu telemóvel para lhe ligares, mas fiquei sem bateria - disse Leeman.

   - Obrigada, mas só posso ligar amanhã. Hoje a minha avó não está em casa.

   No McDonald's havia poucos clientes e três empregados, uma adolescente negra com unhas postiças e dois hispânicos, um dos quais trazia uma t-shirt com a imagem da Virgem de Guadalupe. O cheiro a gordura avivou-me o apetite e, em pouco tempo, um hambúrguer duplo com batatas fritas devolveu-me em parte a autoconfiança, a firmeza nas pernas e a clareza de raciocínio. Já não me pareceu tão urgente ligar à minha Nini.

   - Las Vegas parece muito divertida - comentei com a boca cheia.

   - A Cidade do Pecado, assim lhe chamam. Não me disseste o teu nome - disse Leeman, sem provar a comida.

   - Sarah Laredo - improvisei, para não dizer o meu nome verdadeiro a um estranho.

   - Que tens na mão? - perguntou-me, indicando o meu pulso inchado.

   - Caí.

   - Fala-me de ti, Sarah. Por acaso não fugiste de casa?

   - Claro que não! - exclamei, engasgada com uma batata frita. - Acabo de terminar o secundário e, antes de ir para a faculdade, queria conhecer Las Vegas, mas perdi a carteira, por isso tenho de ligar à minha avó.

   - Percebo. Já que aqui estás, deves ver Las Vegas, é um Disneyworhl para adultos. Sabias que é a cidade que está a crescer mais rapidamente na América? Toda a gente quer vir viver para aqui. Não mudes de planos por causa de uma contrariedade sem importância, fica por cá algum tempo. Olha, Sarah, se a transferência bancária da tua avó demorar a chegar, posso-te adiantar algum dinheiro.

   - Porquê? Nem me conheces - respondi, alerta.

   - Porque sou um bom tipo. Quantos anos tens?

   - Vou fazer dezanove.

   - Pareces mais nova.

   - É o que dizem.

Nesse momento, entraram dois polícias no McDonalds, um jovem, com óculos negros espelhados, apesar de já ser de noite, e músculos de lutador prestes a rebentar-lhe as costuras do uniforme, e o outro com cerca de quarenta e cinco anos, sem nada de assinalável na sua aparência. Enquanto o mais jovem ditava o pedido à rapariga das unhas falsas, o outro aproximou-se para cumprimentar Brandon Leeman, que nos apresentou: o seu amigo, o oficial Arana, e eu era a sua sobrinha do Arizona, de visita por uns dias. O polícia examinou-me com nina expressão inquisitiva nos olhos claros, tinha um rosto aberto, de sorriso fácil, com a pele cor de tijolo devido ao sol do deserto.

   - Cuida bem da tua sobrinha, Leeman. Nesta cidade uma rapariga decente perde-se facilmente - disse, e foi sentar-se na outra mesa com o i olcga.

   - Se quiseres, posso-te dar emprego durante o verão, até ires para faculdade em setembro

- ofereceu Brandon Leeman.

   Um lampejo de intuição preveniu-me contra tamanha generosidade, mas tinha a noite à minha frente e não tinha obrigação de dar uma resposta imediata àquele pássaro sem penas. Pensei que devia ser um daqueles alcoólicos reabilitados que se dedicam a salvar almas, outro Mike 0'Kelly, mas sem ponta do carisma do irlandês. Já verei para que lado é que a coisa vira, decidi. Na casa de banho lavei-me o melhor possível, verifiquei que já não sangrava, vesti uma roupa limpa que levava na mochila, escovei os dentes e, refrescada, dispus-me a conhecer Las Vegas com o meu novo amigo.

   Ao sair da casa de banho, vi Brandon Leeman a falar pelo telemóvel. Não me tinha dito que estava sem bateria? Não importava. De certeza que devia ter entendido mal. Fomos a andar até ao seu carro, onde esperavam dois tipos com ar suspeito.

   - Joe Martin e o Chinês, os meus sócios - disse Leeman em jeito de apresentação.

O Chinêssentou-se ao volante, o outro ao lado dele, Leeman e eu no assento de trás. À medida que nos afastávamos comecei a ficar inquieta, estávamos a entrar numa zona com mau aspeto, com casas desocupadas ou em péssimo estado, lixo, grupos de jovens ociosos na entrada dos prédios, um par de mendigos em sacos-cama encardidos junto aos seus carrinhos atafulhados de sacos com tralha.

   - Não te preocupes, comigo estás segura, aqui toda a gente me conhece - tranquilizou-me Leeman, adivinhando que eu me preparava para fugir a correr. - Há bairros melhores, mas este é discreto e é aqui que tenho o meu negócio.

- Que tipo de negócio? - perguntei.

- Já vais ver.

   Parámos diante de um edifício de três andares, decrépito, com vidros partidos, coberto de graffitis. Leeman e eu saímos do carro e os seus sócios continuaram até ao estacionamento, na rua de trás.

   Era tarde para retroceder e resignei-me a seguir Leeman, para não parecer desconfiada, o que podia provocar-lhe uma reação pouco conveniente para mim. Conduziu-me através de uma porta lateral - a principal estava bloqueada - e vimo-nos num átrio de entrada em estado de absoluto abandono, débilmente iluminado por algumas lâmpadas que pendiam de fios nus. Leeman explicou-me que, inicialmente, o edifício tinha sido um hotel e depois foi dividido em apartamentos, mas era mal administrado, explicação que ficava muito aquém da realidade.

   Subimos dois andares de uma escada suja e malcheirosa e, em cada piso, consegui ver várias portas desencaixadas dos gonzos, que abriam para divisões cavernosas. Não encontrámos ninguém durante o nosso percurso, mas ouvi vozes, risos e apercebi-me de umas sombras humanas imóveis naqueles quartos abertos. Mais tarde, soube que nos dois andares inferiores se juntavam toxicodependentes para injetar ou snilar drogas, prostituir-se, traficar e morrer, mas ninguém subia ao terceiro sem autorização. O lanço da escada que conduzia ao último piso estava fechado com uma grade, que Leeman abriu com um dispositivo de controlo remoto, e penetrámos num corredor relativamente limpo, cm comparação com a pocilga que eram os andares inferiores.

   Leeman manipulou o fecho de uma porta metálica e entrámos para um apartamento com as janelas entaipadas, iluminado por lâmpadas no teto e a luz azulada de um ecrã. Um aparelho de ar acondicionado mantinha a temperatura a um nível suportável. Cheirava a diluente de pintura e a menta. Havia um sofá de três lugares em bom estado, um par de velhos colchões no chão, uma mesa comprida, algumas cadeiras e um enorme televisor moderno, frente ao qual um rapaz de uns doze anos comia pipocas deitado no chão.

   - Deixaste-me aqui fechado, cabrão! - exclamou o rapaz sem desviar os olhos do ecrã.

   - E...? - replicou Brandon Leeman.

   - Se houvesse uma merda de um incêndio, eu ficava cozido como uma salsicha!

   - Porque haveria um incêndio? Este é Freddy, futuro rei do rap -apresentou-mo Leeman. - Freddy, diz olá a esta rapariga. Vai trabalhar comigo.

   Freddy não levantou os olhos. Percorri o estranho apartamento onde não havia muitos móveis, mas se amontoavam computadores antiquados e outras máquinas de escritório nas diferentes divisões, havia vários inexplicáveis maçaricos a gás na cozinha, que parecia nunca ter sido usada para cozinhar, e caixas e volumes ao longo de um corredor.

   O apartamento comunicava com outro do mesmo andar através de um grande buraco na parede, aparentemente aberto à martelada.

Aqui é o meu escritório e ali é onde durmo - explicou-me Brandon Leeman.

   Passámos agachados pelo buraco e chegámos a uma sala idêntica a interior, mas sem móveis, também com ar condicionado, janelas tapadas com grandes tábuas e vários fechos na porta que comunicava com o exterior.

   - Como vês, não tenho família - disse o anfitrião, assinalando com um gesto exagerado o espaço vazio.

   Numa das divisões, havia uma cama ampla com os lençóis revoltos, num canto amontoavam-se caixotes e uma mala, e em frente à cama havia outro televisor de marca cara. Na divisão do lado, mais pequena mas tão suja como o resto do apartamento, vi uma cama estreita, uma

Cómoda e duas mesinhas de cabeceira pintadas de branco, como se se destinassem a uma menina pequena.  

   - Se ficares cá, este será o teu quarto - disse-me Brandon Leeman,

   - Porque estão entaipadas as janelas?

   - Por precaução, não gosto de curiosos. Vou-te explicar em que consistiria o teu trabalho. Preciso de uma rapariga com boa apresentação, para ir a hotéis e casinos de primeira categoria. Alguém como tu, que não levante suspeitas.

   - Hotéis?

   - Não é o que estás a imaginar. Não posso competir com as máfias da prostituição. É um negócio brutal e aqui há mais putas e chulos que clientes. Não, nada disso, tu apenas terias de fazer entregas nos sítios que te indicasse.

   - Que tipo de entregas?

   - De drogas. As pessoas com classe apreciam o serviço de quartos,

   - Isso é muito perigoso!

   - Não. Os empregados dos hotéis cobram a sua comissão e fazera vista grossa, convém-lhes que os hóspedes vão dali embora contentes. O único problema poderia ser um agente da brigada de narcóticos mas nunca nos apareceu nenhum, garanto-te. É muito fácil e vais ter dinheiro de sobra.

     - Desde que vá para a cama contigo...

   - Oh, não! Há muito tempo que não penso nisso e devias ver como me simplificou a vida - disse Brandon Leeman, rindo-se com vontade. - Tenho de sair. Tenta descansar, amanhã podemos começar,

     - Foste muito amável comigo e não queria ser mal-agradecida, mas na verdade não vou servir para isso. Eu...

   - Podes decidir mais tarde - interrompeu-me. - Ninguém trabalha para mim à força. Se amanhã quiseres ir embora, estás no teu direito, mas por agora estás melhor aqui que na rua, não?

     Sentei-me na cama, com a minha mochila nos joelhos. Sentia um sabor desagradável a gordura e a cebola na boca, o hambúrguer tinha -me caído como uma pedra no estômago, tinha os músculos doridos e os ossos bambos, não podia mais. Recordei a extenuante corrida para escapar da academia, a violência da noite no motel, as horas viajando no camião aturdida pelos resíduos de droga no corpo, e compreendi que precisava de me recompor.

   - Se preferires, podes vir comigo, para veres em que sítios me movimento, mas desde já te aviso que a noite vai ser comprida - disse Leeman.

   Não podia ficar ali sozinha. Acompanhei-o até às quatro da madrugada num percurso por hotéis e casinos da Strip, onde Leeman entregava saquinhos a diversas pessoas, porteiros, encarregados dos automóveis, mulheres e homens jovens com aparência de turistas, que aguardavam na obscuridade. O Chinês ficava ao volante, Joe Martin vigiava e Brandon Leeman distribuía. Nenhum dos três entrava nos estabelecimentos porque já estavam marcados ou sob observação, há demasiado tempo que operavam na mesma zona.

     - Não me convém fazer este trabalho pessoalmente, mas também não me convém usar intermediários, cobram uma comissão desproporcionada e são pouco de fiar - explicou Leeman.

   Compreendi a vantagem que este tipo tinha ao empregar-me a mim porque eu mostrava a cara e corria os riscos, mas não recebia comissão. Quais iriam ser os meus honorários? Não me atrevi a perguntar. Ao terminar a ronda, regressámos ao arruinado edifício, onde Freddy, o rapazinho que tinha visto antes, dormia sobre um dos colchões. Brandon Leeman foi sempre claro comigo, não posso alegar que me tenha enganado sobre o tipo de negócio e o estilo de vida que me oferecia. Fiquei com ele sabendo exatamente o que fazia.

   Manuel vê-me escrever no meu caderno com a concentração de um notário, mas nunca me pergunta o que escrevo. A sua falta de interessa contrasta com a minha curiosidade, eu quero saber mais sobre ele, o seu passado, os seus amores, os seus pesadelos, quero saber o que sente por Blanca Schnake. Manuel não me conta nada. Eu, ao invés, conto- lhe quase tudo, porque sabe escutar e não me dá conselhos; poderia ensinar estas virtudes à minha avó. Ainda não lhe contei sobre a noite desonrosa com Roy Fedgewick, mas vou fazê-lo em algum momento. É o tipo de segredo que, guardado, acaba por envenenar a mente. Não me sinto culpada por causa do que aconteceu, a culpa pertence ao violador, mas tenho vergonha.

   Ontem , Manuel encontrou- me absorta diante do seu computador a ler sobre « a caravana da morte», um esquadrão do exército que, em outubro de 1973, um mês depois do golpe militar, percorreu o Chile de norte a sul a assassinar prisioneiros políticos. O grupo estava sob os comando de um tal Arellano Stark, um general que escolhia presos ao acaso, mandava-os fuzilar sem quaisquer outras tramitações e, depois, mandava dinamitar os corpos, um método eficiente para impor terror entre a população civil e os soldados indecisos. Manuel nunca se referi a este período, mas como me viu interessada, emprestou-me um livro sobre esta sinistra caravana, escrito há uns anos por Patrícia Verdugo uma jornalista corajosa que investigou o caso.

   - Não sei se o vais entender, Maya, és demasiado jovem e és estrangeira - disse-me.

   - Não me subestime, companheiro - repliquei.

     Manuel sobressaltou-se, porque já ninguém usa este termo, estava em voga no tempo de Allende e foi depois proibido pela ditadura. Aprendi isto na Internet.

   Passaram trinta e seis anos desde o golpe militar e, durante as últimas duas décadas, este país foi dirigido por governos democráticos mas ainda permanecem cicatrizes e, em alguns casos, feridas abertas. Fala-se pouco da ditadura, os que a sofreram na pele esforçam-se por esquecê-la e, para os jovens, é uma história antiga, mas é possível encontrar toda a informação que se queira, há muitas páginas na Internet e também existem livros, artigos, documentários e fotografias, vi na livraria de Castro, onde Manuel compra os seus livros. O assunto é estudado em universidades e foi analisado a partir dos mais varios ângulos, mas em sociedade é de mau gosto abordá-lo. Os chilenos ainda estão divididos. O pai de Michelle Bachelet, a presidente, general de brigada da Força Aérea, morreu às mãos dos seus próprios companheiros de armas porque não se quis vergar à sublevação, seguir Michelle e a mãe foram detidas, torturadas e exiladas, mas a presidente nunca fala disto. Segundo Blanca Schnake, este fragmento da história chilena é barro no fundo de uma laguna, não se deve remexer nele para não turvar a água.

   A única pessoa com quem posso falar disto é Liliana Trevino, a enfermeira, que me quer ajudar a investigar. Ofereceu-se para ir comigo visitar o padre Luciano Lyon, que escreveu ensaios e arrtigos sobre a repressão durante a ditadura. O nosso plano é ir vê-lo sem Manuel, para falarmos à vontade.

     Silêncio. Esta casa de cipreste das Gualtecas é de longos silêncios.

   Demorei quatro meses a adaptar-me ao carácter introvertido de Manuel. A minha presença deve ser um transtorno para este homem solitário, especialmente numa casa sem portas, onde a privacidade depende das boas maneiras. Manuel é gentil comigo à sua maneira: por um lado ignora-me ou responde-me por monossílabos e, por outro, aquece-me as toalhas no fogão quando calcula que vou tomar banho, traz-me o meu copo de leite à cama, cuida de mim. Noutro dia, perdeu as estribeiras pela primeira vez desde que o conheço, porque fui com dois pescadores lançar as redes, apanhámos mau tempo, chuva e mar encrespado, e regressámos muito tarde, molhados até aos ossos. Manuel estava à nossa espera no embarcadouro com o Fakin e um dos carabineiros, Laurencio Carcamo, que já tinha comunicado por rádio com a Ilha Grande para pedir que enviassem uma lancha da Armada para nos procurar.

   - Que vou dizer à tua avó se te afogares? - gritou-me Manuel, furioso, mal pus um pé em terra firme.

   - Acalma-te, homem. Sei cuidar de mim sozinha - disse-lhe.

   - Claro, é por isso que estás aqui! Porque sabes cuidar tão bem de ti! No jipe de Laurencio Carcamo, que considerou adequado conduzir-me a casa, agarrei na mão de Manuel e expliquei-lhe que tínhamos saído para o mar com boas previsões meteorológicas e autorização do capitão do porto, ninguém estava à espera daquela tempestade súbita. Em coisa de minutos, o céu e o mar puseram-se da cor do chumbo e tivemos de recolher as redes. Navegámos algumas horas perdidos, porque caiu a noite e nos desorientámos. Não tínhamos sinal nos telemóveis, por isso não o tinha podido avisar; foi apenas um contra- tempo, não corremos perigo, o barco era resistente e os pescadores conhecem estas águas. Manuel não se dignou olhar para mim nem me respondeu, mas também não retirou a mão da minha.

Eduvigis tinha nos preparado salmão com batatas no forno, uma benção para mim, que vinha esfomeada, e no ritual de nos sentarmos à mesa e da intimidade da rotina partilhada, passou-lhe o mau humor. Depois de comer, instalámo-nos no desconjuntado sofá, ele a ler e eu a escrever no meu caderno, com as nossas grandes canecas de café com leite condensado, doce e cremoso. Chuva, vento, os ramos da árvore rasparem na janela, lenha a arder no fogão, os gatos a ronronar, esta agora a minha música. A casa fechou-se, como um abraço, em torno de nós e dos animais.

     Era de madrugada quando regressei com Brandón Leeman da minha primeira ronda pelos casinos da Strip. Estava a cair de cansaço, mas antes de me ir deitar tive de posar frente a uma câmara, porque era preciso uma foto para pôr em marcha a minha nova identidade. Leeman adivinhara que não me chamava Sarah Laredo, mas o meu nome verdadeiro também não lhe interessava para nada. Por fim, pude ir para meu quarto, onde me estendi na cama sem lençóis, vestida e com sapatilhas calçadas, cheia de nojo do colchão, que imaginei usado por gente de higiene duvidosa. Só acordei às dez. A casa de banho era tão repugnante como a cama, mas mesmo assim tomei um duche, tiritando porque não havia água quente e do aparelho de ar condicionado saí uma ventania siberiana. Vesti a mesma roupa do dia anterior, pensando que tinha de encontrar um sítio para lavar as poucas peças que trazia na mochila, e depois espreitei pelo buraco na parede para o outro apartamento, o «escritório», onde não havia ninguém à vista. Estava na penumbra, uma vez que as tábuas da janela apenas deixavam entrar uma luz mínima, mas localizei um interruptor e acendi as lâmpadas do teto. No frigorífico, havia apenas pequenos pacotes selados com fita adesiva, um frasco de ketchup a meio e vários iogurtes fora de prazo com uma penugem verde. Percorri o resto das divisões, mais sujas que no outro apartamento, sem me atrever a tocar em nada, e descobri frascos vazios, seringas, agulhas, fios de borracha, cachimbos, tubos de vidro queimados, vestígios de sangue. Então, compreendi o uso dos maçaricos a gás da cozinha e confirmei que estava num covil de toxicodependentes e traficantes. O mais sensato era sair dali o quanto antes.

A porta metálica estava sem chave e no corredor também não havia ninguém, encontrava- me sozinha no andar inteiro, mas não podia ir embora porque a grade elétrica da escada estava fechada. Voltei a revistar o apartamento de uma ponta à outra, praguejando de nervosismo, sem encontrar o comando remoto da grade nem um telefone para pedir socorro. Comecei a puxar pelas tábuas de uma janela com desespero, tentando recordar em que piso estava, mas estavam pregadas a fundo e não consegui fazer soltar nenhuma. Ia começar a gritar quando escutei vozes e o rangido da grade elétrica na escada e, um instante depois, Brandon Leeman entrou com os seus dois sócios e o rapazinho, Freddy.

   - Gostas de comida chinesa? - perguntou-me Leeman, em jeito de saudação.

A voz não me saiu, de puro pânico, mas somente Freddy se apercebeu da minha agitação.

   - Eu também não gosto que me deixem fechado - disse-me, piscando o olho amigavelmente.

Brandon Leeman explicou-me que era uma medida de segurança, ninguém devia entrar no apartamento na sua ausência, mas se eu ficasse teria o meu próprio comando remoto. Os guarda-costas - ou sócios, como preferiam ser chamados - e o rapazinho instalaram-se diante do televisor a comer com pauzinhos, diretamente das embalagens. Brandon Leeman encerrou-se numa das divisões a gritar com alguém pelo telemóvel durante um longo momento e, seguidamente, anunciou-nos que ia descansar e desapareceu pelo buraco para o outro apartamento.

   Passado pouco tempo, Joe Martin e o Chinês foram embora, e eu fiquei sozinha com Freddy e passámos as horas mais quentes da tarde a ver televisão e a jogar às cartas. Freddy fez uma imitação perfeita de Michael Jackson, o seu ídolo. Por volta das cinco, Brandon Leeman apareceu e, pouco depois, o filipino surgiu com uma carta de condução de uma tal Laura Barron, de vinte e dois anos de idade, do Arizona, com a minha fotografia.

   - Usa-a enquanto estiveres aqui - disse-me Leeman.

   - Quem é? - perguntei, examinando a carta.

   - A partir deste momento, Laura Barron és tu.

   - Sim, mas só posso ficar em Las Vegas até Agosto

   - Já sei. Não te vais arrepender, Laura, este é um bom trabalho, O que é importante é que ninguém pode saber que estás aqui, nem a tua família, nem os teus amigos. Ninguém. Percebes?

   - Sim.

   - Vamos espalhar pelo bairro que és a minha miúda, assim evitamos problemas. Ninguém se atreverá a incomodar-te.

   Leeman deu ordens aos seus sócios para comprarem um colchão novo e lençóis para a minha cama, depois levou-me ao luxuoso cabeleireiro de um clube de fitness, onde um homem com brincos de argola e calças cor de framboesa exclamou repetidamente de desgosto diante do estridente arco-íris do meu cabelo e diagnosticou que a única solução seria cortá-lo e descolorá-lo. Duas horas depois, vi no espelho uma hermafrodita escandinavo de pescoço demasiado longo e orelhas de rato. Os produtos químicos da descoloração tinham-me deixado o couro cabeludo a arder.

   - Muito elegante - aprovou Brandon Leeman e, a seguir, levou -me em peregrinação por todos os centros comerciais do Boulevard. O seu método de fazer compras era desconcertante: entravam numa loja, fazia-me experimentar várias peças de roupa e, por fim, escolhia apenas uma, pagava com notas grandes, guardava o troco e íamos até outro local, onde adquiria um dos artigos que tinha experimentado na loja anterior e não tínhamos comprado. Perguntei-lhe se não seria mais rápido comprar tudo no mesmo sítio, mas não me respondeu.

     O meu novo enxoval consistia de vários conjuntos informais e desportivos, em nada provocantes ou vistosos, um vestido negro discreto, um par de sandálias para uso diurno e outras douradas de salto alto, alguns artigos de maquilhagem e duas carteiras grandes com o logótipo do designer à vista, que custaram, segundo os meus cálculos tanto como o Volkswagen da minha avó. Leeman inscreveu-me no ginásio, o mesmo onde tinha arranjado o cabelo, e aconselhou- me usá-lo o mais possível, já que me iam sobrar horas vazias durante o dia. Pagava em dinheiro vivo com maços de dólares presos com um elástico e ninguém achava estranho, pelos visto naquela cidade as notas corriam como água. Apercebi-me de que Leeman pagava sempre com notas de cem, mesmo se o preço da compra fosse dez vezes mais baixo, e não encontrei explicação para esta excentricidade.

por volta das dez da noite, tive de fazer a minha primeira entrega. Deixaram-me no hotel Mandalay Bay. De acordo com as instruções de Leeman, dirigi-me à piscina, onde se aproximou de mim um casal que me identificou pela marca da carteira, que aparentemente era o sinal que Leeman lhes tinha indicado. A mulher, com um vestido comprido de praia e um colar de contas de vidro, ignorou-me, mas o homem, de calças cinzentas, camiseta branca e sapatos sem meias, estendeu-me a mão. Conversámos um minuto sobre nada, passei-lhes o pacote dissimuladamente, recebi duas notas de cem dólares dobradas dentro de um folheto turístico e despedimo-nos.

   No átrio, liguei pelo telefone interno do hotel a outro cliente, subi ao décimo piso, passei diante do nariz de um segurança plantado junto ao ascensor sem que este olhasse para mim sequer uma vez e bati à porta indicada. Um homem de aproximadamente cinquenta anos, descalço e em roupão de banho, convidou-me a entrar, recebeu o saquinho, pagou-me e vim-me embora rapidamente. Na porta, cruzei-me com uma visão dos trópicos, uma bela mulata com corpete de cabedal negro saia muito curta e saltos de agulha; adivinhei que era uma acompanhante, como chamam agora às prostitutas com nível. Olhámo-nos mutuamente de cima a baixo, sem nos cumprimentarmos.

     No imenso átrio do hotel, respirei fundo, satisfeita com a minha primeira missão, que fora muito fácil. Leeman estava à minha espera no carro, com o chinês ao volante, para me levar a outros hotéis. Antes da meia noite, tinha recolhido mais de quatro mil dólares para o meu novo chefe.

   À primeira vista, Brandon Leeman era diferente de outros drogados que conheci naqueles meses, gente destruída pelas drogas. Leeman tinha um aspeto normal, apesar de frágil, mas ao viver com ele compreendi como estava realmente doente. Comia menos que um pardal, não retinha quase nada no estômago e, às vezes, ficava estendido na sua cama tão inerte que não sabíamos se estava a dormir, se tinha desmaiado ou se agonizava. Tinha um cheiro peculiar, uma mistura de cigarro, álcool e algo tóxico, como fertilizante. A cabeça falhava-lhe e ele tinha consciência disso, por isso mantinha-me a seu lado, dizia que confiava mais na minha memória do que na sua. Era um animal noturno, passava parte do dia a repousar no ar condicionado do quarto, de tarde costumava ir ao ginásio fazer massagens, sauna ou banhos de vapor e durante a noite tratava dos seus negócios. Víamo-nos no ginásio, mas nunca chegávamos juntos e o combinado era ignorarmo-nos mutuamente. Eu não podia falar com ninguém, algo muito difícil, visto que ia lá todos os dias e via sempre as mesmas caras.

     Leeman era exigente com o seu veneno, como dizia, bourbon do mais caro e heroína da mais pura, que injetava cinco ou seis vezes por dia, sempre com agulhas novas. Dispunha de toda a heroína que quisesse e mantinha as suas rotinas, nunca caía no insuportável desespero da abstinência, como outras pobres almas que se arrastavam até à sua porta nos últimos estádios da necessidade. Eu presenciava o ritual do pó, a colher, a chama de uma vela ou de um isqueiro, a seringa, a fita de borracha no braço ou na perna, admirada pela sua destreza para apanhar as veias afundadas, invisíveis, inclusive nas virilhas, na barriga ou no pescoço. Se a mão lhe tremia demasiado recorria ao Freddy, porque eu não era capaz de o ajudar, a agulha arrepiava-me. Leeman consumia heroína há tanto tempo que tolerava doses que teriam sido fatais para qualquer outro.

   - A heroína não mata, o que mata é o estilo de vida dos toxicodependentes, a pobreza, a subnutrição, as infeções, a sujidade, as agulhas usadas - explicou-me.

     - Então, porque não me deixas experimentar?

     - Porque uma agarrada não me serve para nada.

     - Só uma vez, para ver como é...

     - Não. Conforma-te com o que te dou.

   Dava-me álcool, marijuana, alucinogénios e comprimidos, que eu engolia às cegas, sem me importar demasiado com o efeito, desde que obtivesse alguma alteração da consciência para conseguir escapar da realidade, da voz da minha Nini a chamar- me, do meu corpo,da angústia pelo futuro. Os únicos comprimidos que conseguia reconhecer eram os soníferos, pela sua cor laranja; aquelas cápsulas benditas derrotavam a minha insónia crónica e ofereciam-me algumas horas de repouso sem sonhos. O chefe deixava-me consumir umas linhas de cocaína para me manter animada e alerta no trabalho, mas proibia-me o crack, que também não tolerava aos seus guarda-costas. Joe Martin e o Chinês tinham os seus próprios vícios.

     - Essas porcarias são para depravados - dizia Leeman com desprezo, apesar de estes serem os seus mais leais clientes, os que podia espremer até à morte, obrigar a roubar e a prostituir-se, a qualquer degradação para conseguir a próxima dose.

   Perdi a conta de quantos daqueles zombies nos rodeavam, esqueletos com chagas na pele e o nariz sujo, agitados, trémulos, transpirando, aprisionados nas suas alucinações, sonâmbulos perseguidos por vozes e bichos que lhes entravam pelos orifícios do corpo.

   Freddy passava por aqueles estados, pobre rapazinho, partia-me a alma vê-lo ter uma crise. Por vezes, eu ajudava-o a aproximar a chama do cachimbo e aguardava com a mesma ansiedade que o fogo desfizesse os cristais amarelos com um ruído seco e a nuvenzinha mágica enchesse o tubo de vidro. Em trinta segundos, Freddy escapava-se para outro mundo. O prazer, a grandiosidade e a euforia duravam-lhe apenas uns momentos e, a seguir, voltava a agonizar num abismo profundo, absoluto, do qual apenas podia emergir com outra dose. Cada vez precisava de mais para se aguentar e Leeman, que gostava dele, dava- lhe a droga.

   - Por que não o ajudamos a desintoxicar-se? - perguntei uma vez a Leeman.

   - Ê tarde para Freddy, o crack não tem volta a dar. Por isso tive de me livrar de outras raparigas que trabalharam para mim antes de ti - respondeu.

     Por isto, entendi que Leeman as tinha despedido. Não sabia que naqueie ambiente «livrar-se de alguém» costumava ter um significado irrevogável.

   Era impossível evadir-me da vigilância de Joe Martin e do Chinês, que estavam encarregados de me vigiar e desempenhavam a tarefa escrupulosamente. O Chinês, uma doninha furtiva, nunca me dirigia a palavra nem me olhava de frente, mas Joe Martin, pelo contrário, fazia

alarde das suas intenções.

     - Empreste-me a rapariga para uma mamada, chefe - ouvi-o dizer a Brandon Leeman em certa ocasião.

     - Se não soubesse que estás a brincar, dava-te um tiro aqui mesmo pela insolência - respondeu Leeman com calma.

     Deduzi que, enquanto Leeman estivesse no comando, aquele par de cretinos não se atreveria a tocar-me.

     As atividades a que se dedicava aquela pandilha não eram mistério nenhum, mas eu não considerava Brandon Leeman um criminoso, como Joe Martin e o Chinês, os quais, segundo Freddy, já levavam vários mortos na consciência. Obviamente, era muito provável que Leeman também fosse um assassino, mas não tinha aspeto disso. De qualquer das formas, era melhor não saber, tal como Leeman preferia não saber nada de mim. Para o chefe, Laura Barron não tinha passado nem futuro e os seus sentimentos eram irrelevantes, a única coisa que lhe importava era que eu lhe obedecesse. Confiava-me alguns pormenores do seu negócio, que tinha medo de esquecer e teria sido imprudente anotar, para que eu os memorizasse: quanto lhe deviam e quem, onde recolher um pacote, quanto tinha de pagar aos polícias, quais eram as ordens do dia para a quadrilha.

   O chefe era muito frugal, vivia como um monge, mas era generoso comigo. Não me tinha atribuído um ordenado fixo nem uma comissão sobre as entregas, ia-me dando dinheiro do seu inesgotável maço sem anotar, em jeito de gorjetas, e pagava diretamente o clube de fitness e as minhas compras. Quando eu pedia mais, dava-me sem protestar, mas depressa deixei de lhe pedir, porque não precisava de nada e, para além disso, tudo o que tivesse valor desaparecia do apartamento. Dormíamos separados por um estreito corredor, que Leeman nunca fez qual quer tentativa de atravessar. Tinha-me proibido de ter relações com outros homens por uma questão de segurança, dizia que na cama a língua se solta.

     Aos dezasseis anos, eu tinha tido, para além do desastre com Rick Laredo, algumas experiências com rapazes que me tinham deixado frustrada e ressentida. A pornografia da Internet, à qual toda a gente na Secundária de Berkeley tinha acesso, não ensinava nada aos rapazes, que eram de uma falta de jeito grotesca. Celebravam a promiscuidade como se a tivessem inventado, a designação na moda era «amigos coloridos», mas para mim era bastante claro que apenas eles tiravam vantagem de toda aquela cor. Na academia do Oregon, onde o ambiente estava saturado de hormonas juvenis - dizíamos que a testosterona escorria pelas paredes -, estávamos submetidos a uma combinação de convivência íntima e castidade forçada. Esta mistura explosiva dava aos terapeutas material infindável para as sessões de grupo. Para mim, o «acordo» em relação ao sexo, que para outros era pior que a abstinência das drogas, não tinha nada de custoso, uma vez que para além de Steve, o orientador, que não se prestava a tentativas de sedução, a fauna masculina era deplorável. Em Las Vegas, não me rebelei contra a restrição imposta por Leeman, porque a noite funesta com Fedgewick ainda estava demasiado viva na minha mente. Não queria que ninguém me tocasse.

   Brandon Leeman garantia que podia satisfazer qualquer capricho dos seus clientes, desde um rapazinho de tenra idade para um pervertido até uma espingarda automática para um extremista, mas era mais bazófia que realidade, nunca assisti a nada disto, apenas a tráfico de drogas e revenda de objetos roubados, negócios insignificantes quando amparados com outros que funcionavam impunemente na cidade. Pelo apartamento passavam prostitutas de diversos géneros em busca de drogas, umas bastante caras, como denotava o seu aspeto, outras no último estádio da miséria; umas pagavam em dinheiro, a outras fornecia-se fiado, registando o crédito, e por vezes, quando o chefe não estava, Joe Martin e o Chinês cobravam em serviços.

   Brandon Leeman juntava aos seus rendimentos o produto de carros roubados por uma quadrilha de menores viciados em crack, que reciclava numa garagem clandestina e vendia noutros Estados, depois de lhes mudar a matrícula. Isto também lhe permitia trocar de veículo cada duas ou três semanas, de forma a evitar ser identificado. Tudo contribuía para engrossar o seu mágico rolo de notas.

     - Com a tua galinha dos ovos de ouro podias ter uma penthouse em vez desta pocilga, um avião, um iate, tudo o que quisesses... – censurei-o certa vez, quando a canalização rebentou num jorro de água fétida e fomos obrigados a usar as casas de banho do ginásio.

       - Queres ter um iate no Nevada? - perguntou-me, surpreendido.

   - Não! Tudo o que peço é uma casa de banho decente! Porque não mudamos para outro edifício?

     - Esta localização convém-me.

   - Então chama um canalizador, pelo amor de Deus. E já agora podias contratar alguém para vir limpar isto.

       Leeman desatou a rir à gargalhada, a ideia de uma emigrante ilegal a fazer limpezas num reduto de delinquentes e viciados pareceu-lhe hilariante. Na realidade, a limpeza era tarefa de Freddy, este era o pretexto para lhe dar alojamento, mas o rapazinho limitava-se a leva o lixo para a rua e a desfazer-se das provas incriminatórias queimando-as num bidão de gasolina no pátio. Apesar de ser totalmente despiu vida de vocação para as tarefas domésticas, às vezes tinha de calçar as luvas de borracha e agarrar no detergente, não tinha outro remédio se queria viver ali, mas era impossível combater a degradação e a sujidade, que invadiam tudo como uma inexorável pestilência. Mas apenas eu me incomodava, os restantes nem notavam. Para Brandon Leeman, aqueles apartamentos eram um arranjo temporário, ia mudar de vida mal se concretizasse um misterioso negócio que estava a preparar com o irmão.

   O meu chefe, como gostava que lhe chamasse, tinha uma grande dívida para com o irmão, Adam, segundo me explicou. A sua família era originariamente da Geórgia. A mãe abandonou-os quando eram crianças, o pai morreu na cadeia, possivelmente assassinado, apesar da versão oficial ser suicídio, e o irmão tomou conta dele. Adam nunca tivera um trabalho honrado, mas também nunca tinha tido problemas com a Lei, como o irmão mais novo, que aos treze anos já tinha cadastro como delinquente.

   - Tivemos de nos separar para que eu não prejudicasse Adam com os meus problemas - confessou-me Brandon.

   De mútuo acordo decidiram que o Nevada era o lugar ideal para ele, com mais de cento e oitenta casinos abertos dia e noite, dinheiro vivo a passar de mão em mão a uma velocidade vertiginosa e um número conveniente de polícias corruptos.

   Adam entregou ao irmão um maço de bilhetes de identidade e passaportes com diferentes nomes, que poderiam ser-lhe de grande utilidade, e dinheiro para começar as operações. Nenhum dos dois usava cartões de crédito. Num raro momento de conversa descontraída, Leeman contou-me que nunca se tinha casado, o seu irmão era o seu único amigo e o sobrinho, filho de adam, era a sua única fraqueza sentimental. Mostrou-me uma foto da família, em que aparecia o irmão, corpulento e com bom aspeto, muito diferente dele, a cunhada roliça e o sobrinho, um anjinho rechonchudo chamado Hank. Por várias vezes, fui com Leeman escolher brinquedos electrónicos para mandar de presente ao rapazinho, muito caros e pouco apropriados para uma criança de dois anos.

   As drogas eram apenas uma diversão para os turistas que iam a Las Vegas passar o fim de semana para escapar do tédio e experimentar a sorte nos casinos, mas eram o único consolo para prostitutas, vagabundos, mendigos, pequenos ladrões, mebros de gangues e outros infelizes que circulavam no edifício de Leeman dispostos a vender o último resquício de humanidade por uma dose. Às vezes, chegavam sem um cêntimo e suplicavam ate que Leeman lhes dava algo por caridade ou para os manter dependentes.

   Outros havia que já andavam de mão dada com a morte e nem valia a pena socorrê-los, vomitavam sangue, tinham convulsões, perdiam a consciência. A estes, Leeman mandava-os atirar para a rua. Alguns eram inesquecíveis, como um jovem do Indiana que sobreviveu a uma explosão no Afeganistão e acabou em Las Vegas sem mesmo se lembrar do nome. Perdes as pernas e dão-te uma medalha, perdes a cabeça e não te dão nada, repetia ele como uma oração entre inalações de crack. Ou como Margaret, uma jovem da minha idade, mas com o corpo acabado, que me roubou uma das carteiras de marca. Freddy viu-a e conseguimos tirar-lha antes que a pudesse vender, caso contrário Brandon Leeman tê-la-ia feito pagar muito caro. Em certa ocasião, Margaret chegou ao apartamento a alucinar e, como não encontrou ninguém que a socorresse com uma dose, cortou as veias com um bocado de vidro. Freddy encontrou-a no corredor num charco de sangue e arranjou forma de a levar para o exterior, deixá-la a um quarteirão de distância e pedir ajuda por telefone. Quando a ambulância chegou ainda estava viva, mas não sabemos o que lhe aconteceu depois, nem nunca mais a voltámos a ver. E como poderia esquecer Freddy? Devo-lhe a vida. Ganhei um carinho de irmã por aquele rapazinho incapaz de parar quieto, magro, pequeno, de olhos vidrados, sempre de ranho a correr do nariz, duro por fora e doce por dentro, que ainda se conseguia rir e aninhar-se a meu lado para ver televisão. Eu dava-lhe vitaminas e cálcio para que crescesse, e comprei duas panelas e um livro de receitas para inaugurar a cozinha, mas os meus pratos iam parar inteiros ao caixote do lixo. Freddy comia duas garfadas e perdia o apetite. De vez em quando, ficava muito doente e não conseguia sair do seu colchão, outras vezes desaparecia vários dias seguidos sem dar explicações. Brandon Leeman fornecia-lhe drogas, álcool, cigarros ou o que quer que fosse que Freddy lhe pedisse.

   - Não vês que o estás a matar? - perguntava-lhe eu.

   - Já estou morto, Laura, não te preocupes - interrompia-nos Freddy, de bom humor.

Consumia todas as substâncias tóxicas à face da terra, todas as imundícies que pudesse engolir, fumar, cheirar ou injetar, estava realmente meio morto, mas tinha música no sangue e podia arrancar ritmos a uma lata de cerveja ou improvisar longas histórias num rap rimado. O seu sonho era ser descoberto e lançar-se numa carreira de estrela, como Michael Jackson.

   - Havemos de ir juntos para a Califórnia, Freddy. Vais começar outra vida lá. Mike 0'Kelly vai-te ajudar, já reabilitou centenas de jovens, alguns que estavam muito mais lixados que tu, mas se os visse agora, nem acreditavas. A minha avó também te vai ajudar, tem jeito para isso. Vais viver connosco. Que te parece?

   Uma noite, num dos exagerados salões do Caesar´s Palace, com as suas estátuas e fontes romanas, onde eu estava à espera de um cliente, encontrei-me com o oficial Arana. Tentei escapar-me, mas ele tinha me visto e aproximou-se de mim a sorrir, de mão estendida, e perguntou -me como estava o meu tio.

     - O meu tio? - repeti, desconcertada, e então lembrei- me de que a primeira vez que nos vimos, num McDnnalds, Leeman tinha- me apresentado como a sua sobrinha do Arizona. Nervosa, porque tinha a mercadoria na carteira, comecei a balbuciar explicações que o polícia não me tinha pedido.

   - Estou aqui só a passar o verão, em breve vou para a universidade.

     - Qual? - perguntou-me Arana, sentando-se ao meu lado.

     - Ainda não sei...

   - Pareces uma rapariga séria, o teu tio deve estar orgulhoso de ti. Desculpa, não me lembro do teu nome...

     - Laura. Laura Barron.

   - Fico contente por continuares a estudar, Laura. No meu trabalho vejo casos trágicos de jovens com muito potencial, que se perdem completamente. Queres tomar alguma coisa? - perguntou, e, antes que eu conseguisse recusar, pediu um cocktail de fruta a uma empregada

vestida com uma túnica romana.

     - Lamento, não posso beber uma cerveja para te acompanhar, estou de serviço.

       - Neste hotel?

     - Faz parte da minha ronda.

   Contou-me que o Caesar´s Palace tinha cinco torres, três mil trezentos e quarenta e oito quartos, alguns com quase cem metros quadrados, nove restaurantes de luxo, uma galeria comercial com as lojas mais requintadas do mundo e um teatro que imitava o coliseu romano, Com quatro mil duzentos e noventa e seis lugares, onde atuavam celebridades. Já tinha visto o Cirque du Soleil? Não? Devia pedir ao meu tio que me levasse, o melhor de Las Vegas eram os seus espetáculos. Pouco depois, chegou a falsa vestal romana com um líquido esverdeado num copo encimado por uma rodela de ananás. Eu contava os minutos, porque lá fora Joe Martin e o Chinês estavam à minha espera, de relógio na mão, e no interior o meu cliente devia estar a passear entre colunas e espelhos sem suspeitar que o seu contacto era a rapariga ocupada numa amável tertúlia com um polícia de uniforme. Que saberia Arana das atividades de Brandon Leeman?

     Bebi o sumo de fruta, demasiado doce, e despedi-me dele com tanta pressa que lhe deve ter parecido suspeito. O agente Arana causava-me impressão, olhava nos olhos com uma expressão amável, apertava a mão com firmeza e tinha uma atitude descontraída. Olhando bem para ele, era atraente, apesar de ter vários quilos a mais; os seus dentes muito brancos contrastavam com a pele bronzeada e, quando sorria, os olhos estreitavam-se-lhe em duas linhas.

   A pessoa mais próxima de Manuel é Blanca Schnake, mas isto não significa muito, Manuel não precisa de ninguém, nem sequer de Blanca, e poderia passar o resto da vida sem falar. O esforço para manter a amizade é feito unicamente por Blanca. É ela quem o convida a comer em sua casa ou chega de improviso com um guisado e uma garrafa de vinho; é ela quem o obriga a ir a Castro ver o seu pai, o Millalobo, que se ofende se não o visitam regularmente; é ela quem se preocupa com a roupa, a saúde e o conforto doméstico de Manuel, como uma governanta. Eu sou uma intrusa que lhes veio arruinar a privacidade, antes da minha chegada podiam estar sozinhos, mas agora têm-me sempre metida no meio deles. São tolerantes, estes chilenos, nenhum dos dois deu mostras de ressentimento pela minha presença.

   Há alguns dias, fomos comer a casa de Blanca, como fazemos muitas vezes, porque é muito mais acolhedora que a nossa. Blanca tinha posto a mesa com a sua melhor toalha, guardanapos de linho engomados, velas e um cesto com o pão de alecrim que eu lhe tinha trazido, uma mesa sóbria e refinada, como todas as suas coisas. Manu é incapaz de apreciar aqueles detalhes, que a mim me deixam boquia berta, porque antes de conhecer esta mulher eu pensava que a decoração de interiores era apenas para hotéis e revistas. A casa dos meus avós parecia uma feira da ladra, com a sua abundância de móveis objetos horrendos amontoados sem outro critério para além da uli dade ou da preguiça para os deitar fora. Com Blanca, que é capaz criar uma obra de arte com três hortênsias azuis num jarro de vidr cheio de limões, o meu gosto está a ficar mais apurado. Enquanto dois cozinhavam uma sopa de marisco, saí para a horta para colher alfaces e alfavaca antes de a luz desaparecer, agora escurece mais cedo. Em poucos metros quadrados, Blanca plantou árvores de fruto e um variedade de legumes, de que cuida pessoalmente; estamos sempre a vê-la com luvas e um chapéu de palha a trabalhar na sua horta. Quando chegar a primavera, vou-lhe pedir que me ajude a cultivar o terreno de Manuel, onde não há senão pedras e ervas daninhas.

   À sobremesa, falámos de magia - ando obcecada com o livro de Manuel - e de fenómenos sobrenaturais, matéria em que seria uma autoridade se tivesse prestado mais atenção à minha avó. Contei-lhes que crescera com o meu avô, um astrónomo racionalista e agnóstico, a minha avó, entusiasta do Tarot, aspirante a astróloga, leitora da aura e da energia, intérprete de sonhos e colecionadora de amuletos, cristais e pedras sagradas, já para não falar em amiga dos espíritos que a rondam.

   - A minha Nini nunca se aborrece, entretém-se a protestar contra o governo e a falar com os mortos - disse eu.

     - Que mortos? - perguntou-me Manuel.

     - O meu Popo e outros, como Santo António de Pádua, um santo que encontra coisas perdidas e namorados para as raparigas solteiras.

     - É à tua avó que faz falta um namorado - respondeu ele. Dizes cada coisa, homem! É quase tão velha como tu.

     - Não me disseste que preciso de um amor? Se achas que tenho idade para me apaixonar, ainda mais a tem Nidia, que é vários anos mais nova que eu.

     - Estás interessado na minha Nini! - exclamei, pensando que poderíamos viver os três juntos. Por um instante, esqueci-me de que a sua namorada ideal seria Blanca.

     - Estás a tirar conclusões precipitadas, Maya.

     - Terias de a roubar a Mike 0'Kelly - informei-o. - É inválido e irlandês, mas bastante atraente e famoso.

     - Então, pode oferecer-lhe mais do que eu - disse Manuel, rindo-se.

     - E tu, tia Blanca, acreditas nestas coisas? - perguntei. Sou muito prática, Maya. Se se trata de curar uma verruga, vou ao dermatologista e depois, só para jogar pelo seguro, amarro um pelo no dedo mindinho e faço chichi atrás de um carvalho.

     - Manuel disse-me que és bruxa.

     - Correto. Junto- me com outras bruxas nas noites de lua cheia. Queres vir? Vamo-nos reunir na próxima quarta-feira. Poderíamos ir juntas a Castro passar uns dois dias com o meu pai e levo-te ao nosso sabá.

       - Um sabá? Não tenho vassoura - disse-lhe.

       - No teu lugar, eu aceitaria, Maya - interveio Manuel. - Não vais ter uma oportunidade destas duas vezes. Blanca, a mim, nunca me convidou.

     - É um círculo feminino, Manuel. Ias-te afogar em estrogénio.

     - Estão a gozar comigo... - disse.

     - Estou a falar a sério, gringuita. Mas não é aquilo que pensas, não tem nada a ver com a bruxaria do livro de Manuel, nada de coletes de pele de morto nem de invunches. O nosso grupo é muito fechado, como deve ser para nos sentirmos em plena segurança. Não costumamos admitir convidados, mas contigo abriríamos uma exceção.

     - Porquê?

     - Parece-me que estás bastante sozinha e precisas de amigas. Uns dias mais tarde,

acompanhei Blanca a Castro. Chegámos a casa do Millalobo à hora sagrada do chá, que os chilenos copiaram dos ingleses. Blanca e o seu pai têm uma rotina invariável, uma cena de comédia. Primeiro cumprimentam-se efusivamente, como se não se tivessem visto na semana anterior e não se falassem por telefone todos os dias, imediatamente a seguir ela repreende-o porque «está cada dia mais gordo, e até quando vai continuar a fumar e a beber, papá? Vai esticar o pernil a qualquer momento». Ele responde-lhe com comentários sobre as mulheres que não escondem os cabelos brancos e anda vestidas de proletárias romenas; a seguir, põem-se ao corrente do boatos e rumores em circulação; depois Blanca pede-lhe mais dinheiro e ele grita aos céus que o estão a arruinar, que vai acabar descalço e ter de declarar falência, o que dá origem a cinco minutos de negociaçõc e, por fim, selam o acordo com mais beijos. Por essa altura, vou na minha quarta chávena de chá.

       Ao anoitecer, o Millalobo emprestou-nos o carro e Blanca levou -me à reunião. Passámos frente à catedral das duas torres, coberta chapas metálicas, e à praça, com lodos os bancos ocupados por casais de apaixonados, deixámos a parte antiga da cidade para trás, depois os novos bairros de casas feias de cimento, e metemos por um caminho solitário e cheio de curvas. Pouco depois, Blanca deteve-se num pátio, onde já havia outros carros estacionados, e avançámos em direção à casa por um trilho mal iluminado, servindo-nos da lanterna para conseguirmos ver. Lá dentro, havia um grupo de dez mulheres jovens, vestidas no mesmo estilo hippie da minha Nini, com túnicas, saias compridas, calças largas de algodão e ponchos, porque estava frio. Estavam à minha espera e receberam-me com aquele afeto espontâneo dos chilenos, que ao princípio, quando era uma recém-chegada a este pais, me chocava, mas pelo qual agora espero. A casa estava mobilada despretensiosamente, havia um cão velho deitado em cima do sofá e brinquedos espalhados pelo chão. A anfitriã explicou-me que, nas noites de lua cheia, os seus filhos iam dormir a casa da avó e o marido aproveitava para jogar póquer com os amigos.

   Saímos pela cozinha para um grande pátio traseiro, iluminado por candeias de parafina, onde havia uma horta com legumes plantados em caixotes, um galinheiro, dois baloiços, uma grande tenda de campismo e algo que, à primeira vista, parecia um montículo de terra coberto com uma lona recauchutada, mas de cujo centro saía uma delgada coluna de fumo.

   - Isto é a ruça (2) - disse-me a dona da casa.

   A ruca tinha a forma redonda de um iglo ou de uma kiva (3) e apenas o teto assomava à superfície, o resto da casa estava debaixo de leira, hora construída pelos companheiros destas mulheres, que às vezes participavam nas reuniões, mas nessas alturas juntavam-se todos na lenda, porque a ruca era um santuário feminino. Imitando as outras mulheres, tirei a roupa; algumas despiram-se completamente, outras ficaram com as calcinhas. Blanca acendeu um molho de salva para «nos limpar» com o fumo fragrante à medida que entrávamos de gatas por um estreito túnel.

Por dentro, a ruca era uma abóbada redonda de cerca de três metros, de diâmetro por um metro e setenta de altura na parte mais alta.Ao centro, ardia uma fogueira de lenha e pedras, o fumo saía pela única abertura no teto, por cima da fogueira, e ao longo da parede estendia-se uma plataforma coberta com mantas de lã, onde nos sentámos em círculo. O calor era intenso, mas suportável, o ar cheirava a algo de orgânico, como cogumelos ou levedura, e a escassa luz provinha do fogo. À nossa disposição tínhamos alguma fruta - damascos, amêndoas, figos - e dois jarros de chá frio.

   Aquele grupo de mulheres era uma visão das Mil e Uma Noites, um harém de odaliscas. Na penumbra da ruca pareciam belíssimas, assemelhando-se a Virgens renascentistas, com as suas cabeleiras pesadas, confortáveis nos seus corpos, lânguidas, abandonadas. No Chile, as classes sociais dividem as pessoas, como as castas na índia ou a raça nos Estados Unidos, e o meu olhar não está treinado para as distinguir, mas aquelas mulheres de aspeto europeu deviam ser de uma classe diferente das chilotas que conheci, que regra geral são cheias, baixas, com traços indígenas, gastas pelo trabalho e pelas mágoas. Uma delas estava grávida de sete ou oito meses, a julgar pelo tamanho da barriga, e outra tinha dado à luz recentemente, pois os seus seios estavam inchados e viam-se auréolas arroxeadas à volta dos mamilos. Blanca soltara o carrapito e o cabelo, crespo e em alvoroço, como espuma, chegava-lhe aos ombros. Exibia o seu corpo maduro com a naturalidade de quem sempre foi bonita, apesar de não ter seios e da cicatriz de pirata que lhe atravessava o peito.

   Tocou um sininho, houve alguns minutos de silêncio para nos concentrarmos e, em seguida, uma das mulheres invocou a Pachamama, a mãe terra, em cuja barriga estávamos reunidas. As quatro horas seguintes esfumaram-se sem darmos por isso, lentamente, passando de mão em mão uma grande concha marítima para falarmos à vez, bebendo chá, mordiscando fruta, contando umas às outras o que estava a acontecer nesse momento nas nossas vidas e as dores trazidas do passado, escutando com respeito, sem fazer perguntas nem emitir opiniões. A maioria delas era originária de outras cidades do país, umas estavam ali pelo trabalho, outras acompanhando os maridos. Duas das mulheres eram «curandeiras», dedicavam-se a curar por diferentes meios, como ervas, essências aromáticas, reflexologia, imanes,luz, homeopatia, movimentos de energia e outras formas de medicina alternativa que no Chile são muito populares. Aqui, as pessoas recorrem aos medicamentos da farmácia apenas quando o resto falha. Partilharam as suas histórias sem pudores, uma estava destroçada porque tinha surpreendido o marido com a sua melhor amiga, outra não se decidia a deixar um homem abusador que a maltratava emocional e fisicamente. Falaram dos seus sonhos, doenças, receios e esperanças, riram-se, algumas choraram e todas aplaudiram Blanca, porque os exames recentes confirmavam que o cancro continuava em remissão. Uma jovem, a quem acabava de morrer a mãe, pediu que cantassem pela sua alma, e outra, com uma voz de prata, começou uma canção que as restantes acompanharam em coro.

   Depois da meia-noite, Blanca sugeriu que concluíssemos a reunião honrando os nossos antepassados, e então cada uma nomeou alguém - a mãe recém-falecida, uma avó, uma madrinha - e descreveu o legado que esta pessoa lhe tinha deixado. Para uma era o talento artístico, para outra um receituário de medicina natural, para uma terceira o amor pela ciência, e assim todas disseram o seu. Eu fui a última e, quando chegou a minha vez, chamei o meu Popo, mas a voz não me saiu para contar aquelas mulheres quem era. Depois, houve uma meditação em silêncio, com os olhos fechados, para pensar no antepassado que tínhamos invocado, agradecer-lhe aquilo que nos dera e despedirmo-nos dele. Estávamos nesta parte quando me lembrei da frase que o meu Popo me repetira durante anos: «Promete-me que vais sempre gostar de ti mesma como eu gosto, Maya.» A mensagem foi tão clara como se ele tivesse falado em voz alta. Comecei a chorar e continuei a derramar o mar de lágrimas que não verti quando morreu.

   No final, as mulheres fizeram circular entre elas um alguidar de madeira e cada uma teve a oportunidade de pôr lá dentro uma pedrinha. Blanca contou-as e tinha tantas pedras como mulheres na ruca. Era uma votação e eu tinha sido aprovada por unanimidade, a única forma de pertencer ao grupo. Felicitaram-me e brindámos com chá. Regressei à nossa ilha orgulhosa, para informar Manuel Arias que, de agora em diante, não contasse mais comigo nas noites de lua cheia.

   A noite com as bruxas boas em Castro pôs-me a pensar nas minhas experiências do ano passado, A minha vida é muito diferente da destas mulheres e não sei se, na intimidade da ruca, serei capaz de lhes contar algum dia tudo o que me aconteceu, falar-lhes da raiva que antes me consumia, do que significa a ânsia de álcool e de drogas, de como não conseguia estar quieta e calada. Na academia do Oregon, diagnosticaram-me um «défice de atenção», uma daquelas classificações que parecem uma condenação a prisão perpétua, mas este problema nunca se manifestou enquanto o meu Popo era vivo e agora também não o tenho. Posso descrever os sintomas da dependência do álcool e das drogas, mas não consigo evocar a sua brutal intensidade. Onde estava a minha alma durante todo aquele tempo? Em Las Vegas houve árvores, sol, parques, o riso de Freddy, o rei do rap, gelados, comédias na televisão, jovens bronzeados e limonadas na piscina do ginásio, música e luzes na noite eterna da Strip, houve momentos agradáveis, inclusive um casamento de uns amigos de Leeman e um bolo de aniversário para Freddy, mas apenas recordo a felicidade efémera de me drogar e o longo inferno de procurar a dose seguinte. O mundo de então começa a transformar-se num borrão na minha memória, apesar de terem passado apenas alguns meses desde essa altura.

   A cerimónia feminina no ventre da Pachamama ligou-me definitivamente a este Chiloé fantástico e, de alguma maneira estranha, ao meu próprio corpo. O ano passado levava uma existência quebrantada, pensava que a minha vida estava acabada e o meu corpo estava irremediavelmente conspurcado. Agora sinto-me inteira e tenho um respeito pelo meu corpo que nunca tive antes, quando passava a vida a examinar-me ao espelho para contabilizar os meus defeitos. Gosto do meu aspeto, não quero mudar nada. Nesta ilha bendita nada alimenta as minhas más recordações, mas faço o esforço de as registar neste caderno para não me acontecer o mesmo que a Manuel, que tem as suas recordações fechadas numa gruta e, mal se descuida, assaltam-no de noite como cães raivosos.

   Hoje, pus cinco flores do jardim de Blanca Schnake em cima da secretária de Manuel, as últimas flores da estação, que ele não será capaz de apreciar, mas a mim me dão uma tranquila felicidade. É natural extasiar-se diante da cor quando se vem do cinzento. O ano passado foi um ano cinzento para mim. Este raminho mínimo é perfeito: um copo de vidro, cinco flores, um inseto, a luz da janela. Nada mais.

Não é sem razão que me custa recordar a escuridão de antes. Que longa foi a minha adolescência! Uma viagem subterrânea.

   Para Brandon Leeman, a minha aparência era parte importante do seu negócio. Devia ter um aspeto inocente, fresco e sensato, como as esplêndidas raparigas que trabalham nos casinos; desta forma, inspirava confiança e fundia-me no ambiente. Leeman gostava do meu cabelo branco, muito curto, que me dava um ar quase masculino. Fazia-me usar um elegante relógio de homem com uma larga correia de couro para tapar a tatuagem no pulso, que me recusei a apagar a laser, como ele queria. Nas lojas, pedia-me que desfilasse com a roupa escolhida por ele e divertia-se com as minhas poses exageradas de modelo. Não tinha engordado, apesar da comida de plástico, que era tudo o que comia, e da falta de exercício; já não corria, como sempre fora meu hábito, porque me desagradava levar Joe Martin e o Chinês colados aos calcanhares.

   Em algumas ocasiões, Brandon Leeman levou-me a uma suíte num hotel da Strip, pediu champanhe e depois quis que me despisse lentamente, enquanto ele flutuava entre a sua dama branca e o seu copo de bourbon, sem me tocar. A princípio, despi-me timidamente, mas depressa me apercebi de que era como tirar a roupa sozinha frente ao espelho, pois, para o chefe, o erotismo ficava-se pela agulha e pelo copo. Repetia-me que eu tinha muita sorte por estar com ele, outras raparigas eram exploradas em bordéis e casas de massagens, sem ver a luz do dia, espancadas. Sabia eu quantas centenas de milhares de escravas sexuais havia nos Estados Unidos? Algumas eram originárias da Ásia e dos Balcãs, mas muitas eram americanas raptadas na rua, nas estações do metro e em aeroportos, ou adolescentes fugidas de casa; mantinham-nas fechadas e sob o efeito de drogas, tinham de atender trinta homens ou mais por dia e, se recusavam, davam-lhes choques elétricos. Estas infelizes eram invisíveis, descartáveis, não valiam nada. Havia lugares especializados em sadismo, onde os clientes podiam torturar raparigas como bem lhes aprouvesse, chicoteá-las, violá-las, até matá-las, se papassem o suficiente. A prostituição era muito rentável para as máfias, mas era uma máquina trituradora para as mulheres, que não duravam muito e acabavam sempre mal.

   - Isto é para perversos, Laura, e eu sou uma pessoa de coração brando - costumava dizer-me. - Porta-te bem, não me desiludas. Ia ter muita pena se fosses parar a esse mundo.

   Mais tarde, quando comecei a relacionar factos aparentemente desconexos, certo aspeto do negócio de Brandon Leeman intrigou-me. Nunca o vi envolvido em atividades de prostituição, exceto para vender droga às mulheres que a pediam, mas tinha misteriosas conversações com chulos, que coincidiam com a desaparição de algumas raparigas da sua clientela. Em várias ocasiões, vi-o com raparigas muito jovens, viciadas recentes, que atraía ao edifício com os seus modos gentis, a quem dava a provar o melhor do seu material, abastecia a crédito durante um par de semanas e, a seguir a isso, elas já não voltavam mais, esfumavam-se no ar. Freddy confirmou as minhas suspeitas de que acabavam vendidas às máfias; deste modo, Brandon Leeman ganhava uma maquia sem sujar demasiado as mãos.

     As regras do chefe eram simples e, enquanto eu cumprisse a minha parte do acordo, ele cumpriria a sua. A sua primeira condição era que eu evitasse qualquer contacto com a minha família ou qualquer pessoa da minha vida anterior, o que para mim foi fácil, porque só sentia saudades da minha avó e, como pensava voltar para a Califórnia em breve, podia esperar. Também não estava autorizada a fazer novas amizades, porque a menor indiscrição poria em perigo a frágil estrutura dos seus negócios, como dizia. Em determinada ocasião, o Chinês contou-lhe que me tinha visto na porta do ginásio a falar com uma mulher. Leeman agarrou-me pelo pescoço e dobrou-me até me pôr de joelhos com uma destreza inusitada, uma vez que eu era mais alta e forte que ele.

   - Idiota! Desgraçada! - disse, dando-me duas bofetadas, vermelho de cólera.

   Isto fez soar uma campainha de alerta na minha cabeça, mas não fui capaz de processar o que acontecera, pois era um daqueles dias, cada vez mais frequentes, em que não conseguia alinhavar o raciocínio. Passado pouco tempo, mandou- me vestir de forma elegante, porque íamos jantar num novo restaurante italiano. Supus que era a sua maneira de se fazer desculpar. Vesti o vestido negro e as sandálias douradas, mas não fiz qualquer tentativa para disfarçar com maquilhagem o corte no lábio ou as marcas nas faces. O restaurante era mais agradável do que o esperado, muito moderno, de vidro, aço e espelhos negros, nada de toalhas aos quadrados nem rapazes vestidos de gondoleiros. Quase não tocámos na comida, mas bebemos duas garrafas de Quintessa, colheita de 2005, que custaram uma fortuna e tiveram a virtude de suavizar as asperezas. Leeman explicou-me que estava sob muita pressão, tinha-lhe surgido uma oportunidade num negócio estupendo, mas perigoso. Relacionei este facto com uma viagem recente de dois dia, que Leeman tinha feito sem dizer onde ia e sem levar os sócios.

     - Agora, mais que nunca, uma brecha na segurança pode ser fatal, Laura - disse-me.

     - Com aquela mulher do ginásio, falei menos de cinco minutos sobre a aula de ioga, nem sequer sei o nome dela, Brandon, juro-te.

     - Não voltes a fazer isso. Desta vez vou deixar passar, mas não te esqueças. Percebes? Preciso de confiar no meu pessoal, Laura. Dou-me bem contigo, tens classe, isso agrada-me, e aprendes depressa. Podemos fazer muitas coisas juntos.

     - Como o quê?

     - Vou-te dizer quando for o momento adequado. Ainda estás à prova.

   Este momento, tão anunciado, chegou em setembro. De junho a agosto eu vivera perdida numa nebulosa. No apartamento não saía água das torneiras e o frigorífico estava vazio, mas as drogas sobravam. Nem me apercebia do quanto andava drogada. Engolir dois ou três comprimidos com vodka ou acender um cachimbo de marijuana tornaram-se gestos automáticos que o meu espírito não registava. O meu nível de consumo era ínfimo, se comparado com o das restantes pessoas à minha volta; fazia-o por divertimento, podia parar em qualquer momento, não era uma viciada, pensava eu.

   Acostumei-me à sensação de flutuar, à névoa que me envolvia a mente, à impossibilidade de terminar um pensamento ou exprimir uma ideia, a ver esfumar-se as palavras do vasto vocabulário aprendido com a minha Nini. Nos meus escassos lampejos de lucidez, recordava o propósito de regressar à Califórnia, mas dizia a mim mesma que já teria tempo para isso. Tempo. Onde se escondiam as horas? Escorriam-me como areia por entre os dedos, vivia num compasso de espera, mas não tinha nada que esperar, apenas outro dia exatamente igual ao anterior, numa letargia diante da televisão com Freddy. A minha única tarefa diurna consistia em pesar pós e cristais, contar comprimidos, selar saquinhos de plástico. Assim se passou agosto.

   Ao entardecer, despertava-me com algumas linhas de cocaína saía para o ginásio, para me mergulhar na piscina. Olhava-me com um espírito crítico nas fileiras de espelhos do balneário, procurando o sinais da má vida, mas estes não eram visíveis. Ninguém suspeitaria das borrascas do meu passado ou das vicissitudes do meu presente. Parecia uma estudante, tal como desejava Brandon Leeman. Outra linha de cocaína, comprimidos, uma chávena de café muito forte estava pronta para o meu trabalho noturno. Talvez Brandon Leeman tivesse outros distribuidores durante o dia, mas nunca os vi. Por vezes Leeman ia comigo, mas mal aprendi a rotina e ganhou confiança em mim, começou a enviar-me sozinha com os seus sócios.

   Eu sentia-me atraída pelo ruído, pelas luzes, pelas cores, pelo esbanjamento dos hotéis e dos casinos, pela tensão dos jogadores nas máquinas de moedas e nas mesas de tampos verdes, pelo tilintar das fichas, pelos copos encimados por orquídeas e sombrinhas de papel. Os meus clientes, muito diferentes dos da rua, tinham a desfaçatez de quem conta com a impunidade. Os traficantes também não tinham nada a temer, como se naquela cidade existisse um acordo tácito para violar a lei sem sofrer as consequências. Leeman entendia-se com vários polícias, que recebiam a sua parte e o deixavam em paz. Eu não os conhecia e Leeman nunca me revelou os seus nomes, mas sabia quando e quanto tinha de lhes pagar.

   - São uns porcos odiosos, malditos, insaciáveis, é preciso ter cuidado com eles, são capazes de qualquer coisa, colocam provas para incriminar inocentes, roubam jóias e dinheiro durante as buscas domiciliárias, ficam com metade das drogas e das armas que confiscam, protegem-se uns aos outros. São corruptos, racistas, psicopatas. Eram eles que deveriam estar atrás das grades – dizia-me o chefe.

     Os infelizes que iam ao nosso prédio em busca de drogas eram prisioneiros do seu vício, pobres de uma pobreza absoluta, sozinhos de uma solidão irremediável. Sobreviviam perseguidos, maltratados, enfiados nos seus buracos do subsolo como toupeiras, expostos às garras da Lei. Para eles, não havia impunidade, apenas sofrimento.

     Sobravam-me o dinheiro, o álcool e os comprimidos, bastava pedir, mas não tinha mais nada, nada de família, amizade ou amor, nem sequer sol tinha na minha vida, porque vivia de noite, como os ratos.

   Um dia, Freddy desapareceu do apartamento de Brandon Leeman, e não soubemos dele até à sexta-feira seguinte, quando nos encontrámos por acaso com o agente Arana, que eu vira muito poucas vezes, mas que contudo tinha sempre algumas palavras amáveis para mim. A conversa recaiu em Freddy e o polícia comentou casualmente que o tinham encontrado gravemente ferido. O rei do rap aventurara-se em zona inimiga e um gangue tinha-o espancado e atirado para uma lixeira, pensando que estava morto. Arana acrescentou, para minha informação, que a cidade estava dividida em territórios controlados diferentes gangues e que um hispânico como Freddy, apesar de mulato, não se podia ir meter com os negros.

   - O rapaz tem vários mandatos de prisão pendentes, mas a cadeia seria fatal para ele. O Freddy precisa de ajuda - disse-nos Arana ao despedir- se.

   Não convinha a Brandon Leeman aproximar-se de Freddy, já que a policia o tinha sob vigilância, mas foi comigo visitá-lo ao hospital. Subimos ao quinto piso e percorremos corredores iluminados por lâmpadas fluorescentes à procura do seu quarto, sem que ninguém reparasse em nós, éramos duas pessoas mais no ir e vir de pessoal médico, pacientes e familiares, mas Leeman ia colado às paredes, olhando por cima do ombro e com a mão no bolso, onde trazia a pistola. Freddy estava numa sala de quatro camas, todas ocupadas, imobilizado com correias e ligado a vários tubos; tinha o rosto deformado, costelas partidas e uma mão maltratada a tal ponto que tiveram de lhe amputar dois dedos. Os pontapés tinham-lhe rebentado um rim e a sua urina tinha uma cor de ferrugem no saco que a recolhia.

     O chefe deu-me autorização para fazer companhia ao rapaz quantas horas por dia quisesse, desde que cumprisse com as minhas obrigações à noite. Ao princípio, mantiveram Freddy dopado com morfina depois, começaram a dar-lhe metadona, porque no seu estado nunca teria suportado a síndrome da abstinência, mas a metadona não era suficiente. Freddy estava desesperado, era um animal preso a debate -se entre as correias da cama. Entre as desatenções do pessoal, eu arranjava maneira de lhe injetar heroína no tubo do soro, como me tinha indicado Leeman.

   - Se não fizeres isso, ele vai morrer. Para Freddy, o que lhe dão aqui é como água - disse-me.

     No hospital conheci uma enfermeira negra, de uns cinquenta e anos, volumosa, com um vozeirão gutural, que contrastava com doçura do seu carácter e com o nome magnífico de Olympia Pettiford. Tocou-lhe a ela receber Freddy quando o subiram da sala de cirurgia para o quinto piso.

     - Dá-me pena vê-lo tão magro e miserável, este rapazinho podia ser meu neto - disse-me.

   Não tinha feito amizade com ninguém desde que chegara a Las Vegas, com exceção de Freddy, que naquele momento estava com um pé na cova, e por uma vez desobedeci às ordens de Brandon Leeman. Precisava de falar com alguém e aquela mulher era irresistível. Olympia perguntou-me qual era a minha relação com o paciente e, para simplificar, respondi-lhe que era sua irmã e ela não estranhou que uma branca de cabelo platinado, vestida com roupas caras, fosse parente de um miúdo de cor, viciado em drogas e possivelmente delinquente.

   A enfermeira aproveitava qualquer momento livre para se sentar junto ao rapazinho a rezar.

   - Freddy tem de aceitar Jesus no seu coração, Jesus salvá- lo- á - garantiu-me.

   Olympia dirigia a sua própria congregação religiosa no oeste da cidade e convidou –me a ir aos seus serviços noturnos, mas expliquei-lhe que àquela hora eu trabalhava e que o meu chefe era muito rígido.

   - Então vem no domingo, menina. Depois da cerimónia, nós, as Viúvas por Jesus, oferecemos o melhor pequeno-almoço do Nevada.

   As Viúvas por Jesus eram um grupo pouco numeroso, mas muito ativo, a coluna vertebral da sua Igreja. Ser viúva não era um requisito indispensável para pertencer, bastava ter perdido um amor no passado.

   Eu, por exemplo, atualmente estou casada, mas tive dois homens que partiram e um terceiro que morreu, de modo que tecnicamente sou viúva - explicou-me Olympia.

   A assistente social do Serviço de Proteção de Menores encarregue no caso de Freddy revelou-se uma mulher madura, mal paga, com mais casos sobre a mesa do que podia dar conta, farta do trabalho e que contava os dias para a reforma. As crianças passavam pelo Serviço muito brevemente, ela colocava-os num lar de acolhimento têmporário e, passado pouco tempo, regressavam, de novo espancadas ou violadas. Foi ver Freddy umas duas vezes e ficou à conversa com Olympia, e foi assim que tomei conhecimento do passado do meu amigo.

     Freddy tinha catorze anos - e não doze, como eu pensava, nem dezasseis, como ele alegava -, nascera no bairro hispânico de Nova Iorque, de mãe dominicana e pai desconhecido. A mãe trouxera-o para o Nevada no arruinado carro do seu amante, um índio paiute alcoólico como ela. Viviam acampando aqui e ali, deslocando-se quando tinham gasolina, acumulando multas de trânsito e deixando um caudal de dívidas. Ambos desapareceram do Nevada passado pouco tempo, mas alguém encontrou Freddy, de sete meses, abandonado numa estação de serviço, subnutrido e coberto de nódoas negras. O rapaz cresceu em lares de acolhimento do Estado, passando de mão em mão, não durava em casa nenhuma, tinha problemas de comportamento e de personalidade, mas ia à escola e era bom aluno. Aos nove anos, foi preso por roubo à mão armada, esteve vários meses num reformatório e a seguir, desapareceu do radar do Serviço e da polícia.

   A assistente social devia averiguar como e onde vivera Freddy durante os últimos anos, mas este fingia estar a dormir ou recusava-se a responder-lhe. Tinha medo que o colocassem num programa de reabilitação.

     - Não sobreviveria um único dia, Laura, não imaginas o que aquilo é. De reabilitação não tem nada, é só castigo.

   Brandon Leeman estava de acordo e na disposição de impedir que aquilo acontecesse. Quando tiraram as sondas ao rapaz e já estava condições de comer alimentos sólidos e pôr-se em pé, ajudámo-lo a vestir-se, levámo-lo até ao elevador dissimulado entre a multidão quinto piso à hora das visitas, e dali, a passinhos de tartaruga, até porta do hospital, onde Joe Martin nos esperava de motor ligado. Poderia jurar que Olympia Pettiford estava no corredor, mas a boa mulher fingiu não nos ter visto.

   Um médico, que fornecia a Brandon Leeman fármacos para o mercado negro, vinha ao apartamento ver Freddy e ensinou – me a mudar-lhe os pensos da mão, para que a ferida não infetasse. Pensei aproveitar-me do facto de ter o rapazinho sob o meu poder para retirar as drogas, mas não tive forças para o ver sofrer de maneira horrível. Freddy recompôs-se rapidamente, para surpresa do médico que esperava vê-lo prostrado uns dois meses, e depressa estava de novo a dançar como Michael Jackson com o braço ao peito, mas continuou a urinar sangue.

   Joe Martin e o Chinês encarregaram-se da vingança contra o gangue inimigo, porque consideraram que não se podia deixar passar semelhante insulto.

     A tareia que Freddy apanhou no bairro negro afetou-me muito. No universo desarticulado de Brandon Leeman, as pessoas passavam desapareciam sem deixar recordações, uns partiam, outros acabavam presos ou mortos, mas Freddy não era uma destas sombras anónimas,era meu amigo. Ao vê-lo no hospital a respirar com dificuldades, cheio de dores, com períodos de perda de consciência, caíam-me as lágrimas. Suponho que também chorava pela minha própria pessoa. Sentia -me aprisionada e já não me podia continuar a enganar acerca do meu do vício, porque estava dcpendenle de álcool, comprimidos, marijuana, cocaína e outras drogas para passar o dia. Ao acordar de manhã com a ressaca feroz da noite anterior, tomava a firme resolução de parar e de desintoxicar o corpo, mas antes de passar meia hora cedia à tentação de um gole. Apenas um pouco de vodka para tirar a dor de cabeça, prometia a mim mesma. A dor de cabeça persistia e a garrafa estava à mão.

   Não me podia enganar com a ideia de estar de férias, a fazer tempo até ir para a universidade: encontrava-me entre criminosos. Ao menor descuido, podia acabar morta ou, como Freddy, ligada a meia dúzia de sondas e tubos num hospital. Estava muito assustada, apesar de me recusar a admitir o medo, aquele felino aninhado na boca do estômago. Uma voz insistente recordava-me do perigo, como não era capaz de o ver, porque não fugia antes que fosse tarde, que esperava para ligar à minha família? Mas outra voz ressentida respondia que ninguém se importava com a minha sorte, se o meu Popo estivesse vivo teria revolvido o céu e a terra para me encontrar, mas o meu pai não setinha dado ao incómodo. Não me telefonaste porque ainda não tinhas sofrido o suficiente, Maya, disse-me a minha Nini quando voltámos a ver-nos.

   Passou-se a pior parte do verão do Nevada, com um calor de 40 °C, mascomo eu vivia no ar condicionado e circulava de noite, não o senti demasiado. As minhas rotinas eram invariáveis, o trabalho continuou como sempre. Nunca estava sozinha, o ginásio era o único sítio onde os sócíos de Brandon Leeman me deixavam em paz, porque, apesar de não entrarem comigo nos hotéis e nos casinos, esperavam-me no exterior a contar os minutos.

     Por aquela altura, o chefe andava com uma bronquite persistente, à qual chamava alergia, e reparei que tinha emagrecido. No pouco tempo que o conhecia, debilitara-se, a pele dos braços pendia-lhe como um tecido enrugado e as tatuagens tinham perdido os seus contornos originais, podíamos contar-lhe as costelas e as vértebras, estava macilento, cheio de olheiras, muito cansado. Joe Martin foi o primeiro a notar e começou a dar-se ares e a questionar as suas ordens, enquanto o sigiloso Chinês nada dizia, mas secundava o outro, traficando nas costas do chefe e aldrabando as contas. Agiam com tal desenvoltura que Freddy e eu falávamos do assunto.

     - Não abras a boca, Laura, senão vais pagar, estes tipos não perdoam – avisou-me o rapaz.

     Os gorilas descuidavam-se diante de Freddy, que consideravam inofensivo, um palhaço, um drogado com o cérebro frito, mas o cérebro de Freddy funcionava melhor que o de todos os restantes, disto não tinha dúvidas. Eu esforçava-me por convencer o rapazinho de que podia desintoxicar-se, ir para a escola, fazer algo com o seu futuro, mas ele respondia-me com o cliché de que a escola não tinha nada para lhe ensinar, aprendia na universidade da vida. Repetia as mesmas palavras lapidares de Leeman: É demasiado tarde para mim.

     No início de outubro, Leeman foi ao Utah de avião e voltou ao volante de um Mustang descapotável último modelo, azul com uma risca prateada e o interior negro. Informou-me de que o tinha comprado para o irmão, que, por razões complicadas de explicar, não podia comprar pessoalmente. Adam, que vivia a uma distância de doze horas por estrada, mandaria alguém buscar o carro dentro de alguns dias. Um veículo daquela categoria não podia ficar um minulo que fosse nas ruas daquele bairro sem desaparecer ou ser desmontado, por isso Leeman guardou-o de imediato numa das duas garagens do edifício dotadas de portas seguras, as restantes eram caverna cheias de entulho, covis para drogados de passagem e fornicadores de improviso. Alguns indigentes viviam durante anos nestas grutas defendendo o seu metro quadrado contra as ratazanas e contra outros desamparados.

   No dia seguinte, Leeman mandou os sócios irem buscar uma encomenda a Fort Ruby, uma das seiscentas aldeias-fantasma do Nevada, que costumava servir-lhe de ponto de encontro com o seu fornecedor mexicano, e, depois de se irem embora, convidou-me a experimentar o Mustang. O motor poderoso, o cheiro a couro novo, a brisa no cabelo, o sol na pele, a paisagem imensa cortada abrupta- mente pela estrada, as montanhas recortadas contra um céu pálido e sem nuvens, tudo contribuía para me embriagar de liberdade, daquela sensação de liberdade que contrastava com o facto de passarmos perto de várias prisões federais. Era um dia de calor e, apesar de já ter passado o pior do verão, depressa o panorama se tornou incandescente e tivemos de subir a capota e ligar o ar condicionado.

       - Sabes que Joe Martin e o Chinês me andam a roubar, não sabes? perguntou-me Leeman.

   Preferi calar-me. Este não era um assunto que o chefe abordasse sem um objetivo definido. Negar implicava que eu andava na lua e uma resposta afirmativa equivalia a admitir que o tinha traído por não lhe contar.

     - Tinha de acontecer, mais tarde ou mais cedo - acrescentou I ,eeman. - Não posso contar com a lealdade de ninguém.

     - Podes contar com a minha - murmurei, com a sensação de estar a escorregar em azeite.

     - Assim espero. Joe e o Chinês são dois imbecis. Ninguém os trataria melhor do que eu, fui muito generoso com eles.

     - Que vais fazer?

     - Substituí-los, antes que eles me substituam a mim.

     Continuámos calados durante vários quilómetros, mas quando já pensava que se tinham acabado as confidências, Leeman voltou à carga.

   - Um dos polícias quer mais dinheiro. Se lhe der, vai querer ainda mais. A ti que te parece, Laura?

       - Não percebo nada disso...

   Fizemos outro trecho de vários quilómetros sem falar. Brandon Leeman, que começava a ficar ansioso, desviou-se da estrada em busca de um sítio privado, mas estávamos num baldio deserto de terra seca, rochas, amontoados de arbustos espinhosos e campos de pasto raquíticos. Saímos do carro à vista dos veículos que passavam, aninhámo-nos atrás da porta aberta e eu segurei no isqueiro enquanto Leeman aquecia a mistura. Num piscar de olhos, injetou-se. A seguir, partilhámos um cachimbo de marijuana para festejar a travessura; se fôssemos revistados por uma patrulha da brigada de trânsito, encontrariam uma armailegal, cocaína, heroína, marijuana, Demerol e outros comprimidos soltos numa bolsinha.

   - Os porcos dos bófias encontrariam mais uma coisa, que também não lhes poderíamos explicar - acrescentou enigmaticamente Brandon Leeman, encolhendo- se de riso.

       Estava tão drogado que tive de conduzir eu, apesar de a minha experiência ao volante ser mínima e de a fumarada me ter nublado a vista. Entrámos em Beatty, uma povoação de aspeto desabitado àquela hora do meio-dia, e parámos para almoçar numa estalagem mexicano com um reclame onde se viam jeans, chapéus e cordas em laço, e que por dentro, se revelou um casino cheio de fumo. No restaurante, Leeman pediu dois cocktails de tequila, dois pratos ao acaso e a garrafa de vinho tinto mais cara do menu. Fiz um esforço por comer, enquanto Leeman remexia o conteúdo do seu prato com o garfo, abrindo pequenos caminhos no puré de batata.

     - Sabes o que vou fazer com Joe e o Chinês? Já que de qualquer maneira tenho de dar ao polícia o que ele quer, vou-lhe pedir que retribua com um pequeno favor.

     - Não estou a perceber.

     - Se quiser aumentar a comissão, vai ter de se desfazer daqueles dois sem me implicar de maneira nenhuma.

     Captei o significado desta frase e lembrei-me das raparigas que Leeman tinha empregado antes de mim e de quem se tinha «desfeito». Vi com aterradora claridade o abismo aberto sob os meus pés e, uma vez mais, pensei em fugir, mas de novo fui paralisada pela sensação me estar a afundar em melaço espesso, sentindo-me inerte, sem vontade. Não consigo pensar, sinto o cérebro cheio de serradura, são dem siados comprimidos, marijuana, vodka, já nem sei o que tomei hm tenho de me desintoxicar, mastigava para dentro, enquanto enfiava corpo o segundo copo de vinho, depois de ter bebido a tequila.

     Brandon Leeman reclinara-se no assento, com a cabeça no encosto e os olhos semicerrados. A luz iluminava-o de um lado, pondo em realce as maçãs do rosto proeminentes, as faces cavadas, as olheiras esverdeadas, parecia um cadáver.

   - Vamos voltar - sugeri, com um espasmo de náusea.

   - Antes tenho algo que fazer nesta maldita aldeia. Pede-me um café - respondeu.

   Leeman pagou em dinheiro, como sempre, e saímos do ar condicionado para o calor impiedoso de Beatty, que segundo o chefe era um depósito de lixo radioativo e só existia devido aos turistas que visitavam o Vale da Morte, a dez minutos de distância. Leeman conduziu aos ziguezagues até um sítio onde alugavam espaços para armazenamento, umas construções planas de cimento com filas de portas metálicas pintadas de cor turquesa. Já ali estivera antes, porque se dirigiu a uma das portas sem hesitar. Mandou-me ficar no carro, enquanto manipulava torpemente as combinações de dois pesados cadeados industriais, praguejando, porque desde há algum tempo tinha dificuldades em focar a vista e tremiam-lhe muito as mãos. Quando abriu a porta, fez-me sinal para me aproximar.

   O sol iluminou uma divisão pequena, onde havia apenas dois grandes caixotes de madeira. Retirou do porta-bagagens do Mustang um saco de desporto de plástico negro onde se podia ler «El Paso TX» e entrámos no depósito, que fervia de calor. Não pude evitar o pensamento aterrador de que Leeman me poderia deixar enterrada em vida naquele armazém. O chefe agarrou-me firmemente um braço e cravou os olhos em mim.

     - Lembras-te de que te disse que faríamos grandes coisas juntos?

     - Sim...

     - Chegou o momento. Espero que não me desiludas. Assenti com a cabeça, assustada pelo seu tom ameaçador e por me encontrar sozinha com ele naquele forno sem outra alma em redor. Leeman pôs-se de cócoras, abriu o saco e mostrou-me o conteúdo. Demorei um instante a compreender que aqueles feixes verdes eram maços de notas.

       - Não é dinheiro roubado e ninguém anda à procura dele - disse-me. - Isto é apenas uma amostra, em breve haverá muito mais. Percebes que te estou a dar uma tremenda prova de confiança, não? És a única pessoa decente que conheço, tirando o meu irmão. Agora tu e eu somos sócios.

       - Que tenho de fazer? - murmurei.

       - Nada, por agora, mas se te der a ordem, ou se algo me acontecer, deves ligar imediatamente a Adam e dizer-lhe onde está o seu saco de El Paso TX, estás a compreender? Repete o que acabo de te dizer.

       - Devo ligar ao teu irmão e dizer-lhe onde está o saco dele.

   - O seu saco de El Paso TX, não te esqueças disto. Tens alguma pergunta?

       - Como é que o teu irmão vai abrir os cadeados?

         - Isso não te interessa! - ladrou Leeman com tal violência que encolhi à espera de uma pancada, mas Leeman acalmou-se, fechou saco, pô-lo em cima de um dos caixotes e saímos.

     Os acontecimentos precipitaram-se a partir do momento em que fui com Brandon Leeman deixar o saco no depósito de Beatty, e não fui depois capaz de os ordenar na minha cabeça, porque alguns suce -deram simultaneamente e a outros não os presenciei, só soube dele depois.

     Dois dias mais tarde, Brandon Leeman mandou-me segui-lo num Ford Acura acabado de reciclar na garagem clandestina, enquanto e conduzia o Mustang que tinha comprado no Utah para o irmão. Segui-o pela estrada 95, três quartos de hora sob um calor inclemente através de uma paisagem de palpitantes miragens, até Boulder City ausente do mapa mental de Brandon Leeman porque é uma das únicas duas cidades do Nevada onde o jogo é ilegal. Detivemo-nos num posto de abastecimento e prepáramo-nos para esperar debaixo daquele sol maldito.

     Vinte minutos depois, chegou um carro com dois homens, Brand Leeman entregou-lhes as chaves do Mustang, recebeu um saco de viagem de tamanho médio e sentou-se ao meu lado no Ford Acura. O Mustang e o outro veículo afastaram-se em direção ao sul e metemos pela estrada por onde tínhamos vindo. Não passámos por Las Vegas, seguimos diretamente para o depósito de Beatty, onde Leeman repetiu a mim de abrir os cadeados sem me deixar ver a combinação. Colocou o saco junto ao outro e fechou a porta.

   - Meio milhão de dólares, Laura! - disse, esfregando as mãos contentamento.

   - Não gosto disto... - murmurei, retrocedendo.

   - De que é que não gostas, cabra?

   Lívido, agarrou-me pelos braços, mas afastei-o com um empurrão, choramingando. Aquele esqueleto doente, que eu poderia esmagar sob os pés, inspirava-me terror, era capaz de qualquer coisa.

   - Larga-me!

   - Pensa, mulher - disse Leeman, num tom conciliador. - Queres Continuar nesta vida lixada? O meu irmão e eu temos tudo preparado, vamos deixar este maldito país e tu virás connosco.

   - Para onde?

   - Para o Brasil. Dentro de duas semanas estaremos numa praia com coqueiros. Não querias ter um iate?

   - Iate? Que iate? Eu só quero voltar para a Califórnia!

   - Então a merda da puta quer voltar para a Califórnia! - troçou ele, ameaçador.

   - Por favor, Brandon. Não vou contar nada a ninguém, juro-te, podes ir com a tua família para o Brasil descansado.

   Leeman pôs-se a deambular com grandes passadas, pontapeando o chão de cimento, descomposto, enquanto eu aguardava empapada em suor junto ao carro, tentando entender os erros que me tinham conduzido àquele inferno poeirento e àqueles sacos cheios de notas verdes.

   - Enganei-me a teu respeiro, Laura, és mais estúpida do que pensei - disse, por fim. - Podes ir para o inferno, se é isso que queres, mas nas próximas duas semanas vais-me ajudar. Conto contigo?

   - Claro que sim, Brandon, farei o que me disseres.

   - De momento não vais fazer nada, tirando calar a boca. Quando eu te mandar, vais ligar ao Adam. Lembras-te das instruções que te dei?

   - Sim, ligo-lhe e digo-lhe onde estão os dois sacos.

   - Não! Dizes-lhe onde estão os sacos de El Paso TX. Isto e nada mais. Entendeste?

   - Sim, é claro, digo-lhe que os sacos de El Paso TX estão aqui. Não te preocupes.

     - Muita discrição, Laura. Se dizes uma só palavra sobre isto, vais arrepender-te. Queres saber exatamente o que te aconteceria? Posso dar-te os pormenores.

     - Juro-te, Brandon, não direi a ninguém.

   Regressámos em silêncio a Las Vegas, mas eu podia ouvir os pensamentos de Brandon Leeman na minha cabeça, como um sino a tocar: ia «desfazer-se» de mim. Tive a mesma reação física de náuseas e mal-estar que experimentara enquanto estive algemada por Fedgewick à cama daquele sórdido motel; via o brilho esverdeado do relógio, sentia o cheiro, a dor, o terror.

   Tenho de pensar, tenho de pensar, preciso de um plano... Mas como ia pensar, se estava intoxicada de álcool e nem conseguia recordar que comprimidos tinha tomado, quantos e a que horas? Chegámos à cidade às quatro da tarde, cansados, com a roupa colada ao corpo de transpiração e de pó, sedentos. Leeman deixou-me no ginásio para me refrescar antes da ronda noturna e foi até ao apartamento. Ao despedir-se, apertou-me a mão e disse-me que ficasse descansada, ele tinha tudo sob controlo. Esta foi a última vez que o vi.

   O ginásio não dispunha dos luxos extravagantes dos hotéis da Strip, com os seus famosos banhos de leite em banheiras de mármore e os seus massagistas cegos de Xangai, mas era o maior e mais completo da cidade, tinha várias salas de exercício, diversos aparelhos de tortura para insuflar músculos e estirar tendões, um spa com um menu de tratamentos de saúde e de beleza à la carte, cabeleireiro para pessoas e para cães e uma piscina coberta onde calculo que caberia uma baleia. Eu considerava-o o meu quartel-general. Tinha crédito aberto e podia ir ao spa, nadar ou fazer ioga nas ocasiões, cada vez menos frequentes, em que tinha ânimo. A maior parte do tempo estava deitada numa cadeira reclinável com a cabeça em branco. Nos cacifos com chave guardava as minhas coisas de valor, que no apartamento desapareciam nas mãos de infelizes como Margaret e do próprio Freddy, quando andava necessitado.

   Ao regressar de Beatty, lavei o cansaço da viagem no duche e suei o susto na sauna. Limpa e serenada, a minha situação pareceu -me menos angustiante, tinha duas semanas completas, prazo suficiente para decidir o meu destino. Pensei que qualquer ação imprudente da minha parte precipitaria consequências que poderiam ser fatais, tinha de comprazer Brandon Leeman até encontrar forma de me livrar dele. A ideia de uma praia brasileira com coqueiros na companhia da sua família deu-me arrepios; tinha de voltar para minha casa.

   Quando cheguei a Chiloé, queixava-me de que aqui não se passa nada, mas tenho de me retratar, porque se passou algo que merece ser escrito a tinta de ouro e com letras maiúsculas: ESTOU APAIXONADA! Talvez seja um pouco prematuro falar disto, porque só aconteceu há cinco dias, mas o tempo não significa nada neste caso, estou totalmente segura dos meus sentimentos. Como hei de calar-me se me sinto a flutuar? O amor é assim caprichoso, como diz uma canção estúpida que Blanca e Manuel me cantam em coro; riem-se nas minhas costas desde que Daniel surgiu no horizonte. Que vou fazer com tanta felicidade, com esta explosão no coração?

     Mais vale começar pelo princípio. Fui com Manuel e Blanca até à Ilha Grande ver a tiradura de uma casa, sem sonhar que ali, de repente, por acaso, iria suceder-me algo mágico, ia conhecer o homem da minha Vida, Daniel Goodrich. Uma tiradura é algo único no mundo, tenho a certeza, consiste em transferir uma casa de um lado para o outro navegando pelo mar, à boleia de um par de lanchas, e depois arrastá-la por terra com seis juntas de bois para a colocar no sítio destinado. Se um chilote vai viver para outra ilha ou lhe seca o poço e tem de se deslocar uns, quilômetros para obter água, leva a casa inteira consigo, como um caracol. Devido à humidade, as casas chilotas são de madeira, sem fundações, o que permite rebocá-las sobre a água e transportá-las sobre troncos. A tarefa realiza-se através de uma minga em que vizinhos, parentes e amigos deitam mãos ao trabalho. Uns dão as lanchas, outros os bois e o dono da casa dá a bebida e a comida, mas neste caso a minga era uma encenação para turistas, porque a mesma casita vai e vem por mar e terra durante meses, até se desfazer em pedaços. Esta seria a última tiradura até ao próximo verão, altura em que haverá outra casa transumante. A ideia é mostrar ao mundo o nível de desvario dos chilotes e dar prazer aos inocentes que vêm até cá nos autocarros das agências de turismo. Entre aqueles turistas vinha Daniel.

   Tínhamos tido vários dias secos e quentes, inusitados nesta época do ano, sempre chuvosa. A paisagem era diferente, nunca tinha visto um céu tão azul, um mar tão prateado, tantas lebres nos pastos, nunca tinha ouvido uma algaraviada de pássaros tão alegres nas árvores. Gosto da chuva, inspira recolhimento e amizade, mas em pleno sol aprecia- se melhor a beleza destas ilhas e canais. Com bom tempo, posso nadar sem quebrar os ossos na água gelada e bronzear-me um pouco, embora sempre com cuidado, porque aqui a camada de ozono é tão fina que costumam nascer ovelhas cegas e sapos deformados. É o que dizem, ainda não vi nenhum.

   Na praia, os preparativos para a tiradura estavam a postos: bois, cordas, cavalos, vinte homens para o trabalho pesado e várias mulheres com cestos de empadas, muitos rapazinhos, cães, turistas, gente da localidade que nunca perde uma festa, dois carabineiros para assustar os carteiristas e um fiscal de igreja para abençoar a coisa. Em mil e setecentos, quando viajar era bastante difícil e não havia sacerdotes suficientes para cobrir o extenso e desarticulado território de Chiloé, os jesuítas criaram o cargo de fiscal de igreja, exercido por uma pessoa de reputação honorável. O fiscal cuida da igreja, convoca a congregação, preside a funerais, administra a comunhão, abençoa e, em casos de verdadeira emergência, pode batizar e casar.

     Com a maré alta, a casa avançou balançando-se sobre o mar como uma antiga caravela, rebocada por duas lanchas e submergida até às janelas. No telhado, ondulava uma bandeira chilena amarrada a um pau e dois rapazinhos cavalgavam montados sobre a viga maior, sem colete salva-vidas. Ao aproximar-se da praia, a caravela foi recebida com um merecida ovação e os homens trataram de a ancorar até a maré baixar. Tinham calculado bem a operação, para que a espera não fosse muito longa. O tempo passou a correr num carnaval de empadas, álcool, guitarras, partidas de pelota e um concurso de cantadores, que se desafíavam uns aos outros com versos rimados de duplo sentido e bastante picantes, segundo me pareceu. O humor é a última coisa que se domina numa língua estrangeira, e a mim ainda me falta muito para conseguir fazê-lo. À hora conveniente, deslizaram-se uns troncos debaixo da casa, os doze bois foram amarrados às suas juntas, prenderam-nas aos pilares da casa com cordas e correntes e teve início a monumental tarefa, animada por gritos e aplausos dos espectadores e apitos dos carabineiros.

   Os bois baixaram a cervical, retesaram cada músculo dos sem corpos grandiosos e, a uma ordem dos homens, avançaram a bramir, O primeiro puxão foi vacilante, mas no segundo os animais já tinham coordenado as loiças e começaram a andar muito mais depressa do que tinha imaginado, rodeados pela multidão, uns à frente, abrindo caminho para o comboio, outros dos lados a incitá-los, outros atrás da casa a empurrar. Que grande confusão! Tanto esforço partilhado e tanta alegria! Eu corria entre as crianças, dando gritinhos de prazer, com o Fakin no meu encalço entre as patas dos bois. A cada vinte ou trinta metros, a tiradura detinha-se, para alinhar os animais, passar garrafas de vinho entre os homens e posar para as câmaras.

   Tratou-se de uma minga de circo preparada para os turistas, mas tal não retirou mérito ao atrevimento humano ou ao brio dos bois. Por fim, quando a casa foi colocada no sítio devido, virada para o mar, o fiscal lhe atirou água benta e o público começou a dispersar, quando os forasteiros subiram para os autocarros e os chilotes levaram os seus bois, eu sentei-me num campo a passar em revista aquilo que tinha visto, lamentando não ter comigo o meu caderno para anotar os detalhes. Nisto, senti que alguém olhava para mim e, ao erguer o olhar, encontrei-me com os olhos de Daniel Goodrich, olhos redondos de um tom de madeira, olhos de potro. Senti um espasmo de susto no estômago, como se uma personagem de ficção se tivesse materializado, alguém conhecido de outra realidade, de uma ópera ou um quadro do Renascimento, daqueles que vi na Europa com os meus avós. Qualquer pessoa pensaria que estou mal da cabeça, um estranho planta-se na minha frente e sinto a cabeça cheia de beija-flores; qualquer, menos a minha Nini, que entenderia, porque foi isso mesmo que aconteceu quando conheceu o meu Popo no Canadá.

     Os olhos dele foram a primeira coisa que vi, olhos de pálpebras languidas, pestanas de mulher e sobrancelhas grossas. Demorei quase um minuto a avaliar o resto: alto, forte, de ossos longos, rosto sensual, lábios grossos, pele cor de caramelo. Trazia botas de caminhante, uma câmara de vídeo e uma grande mochila poeirenta com um saco-cama enrolado no topo. Cumprimentou-me em bom castelhano, deixou cair a mochila no chão, sentou-se ao meu lado e começou a abanar-se com o chapéu; tinha o cabelo curto, negro, num encaracolado cerrado. Estendeu- me uma mão escura de dedos longos e disse-me o nome, Daniel Goodrich. Ofereci-lhe o resto da minha garrafa de água, que ele bebeu em três goles sem se importar com os meus germes.

     Pusemo-nos a falar da tiradura, que ele filmara a partir de vários ângulos, e desfiz o engano explicando-lhe que era para turistas, mas isto não diminuiu o seu entusiasmo. Vinha de Seattle e andava há cinco meses a percorrer a América do Sul sem planos nem objetivos a cumprir, como um vagabundo. Assim se definiu, um vagabundo. Queria conhecer o mais possível e praticar o espanhol aprendido nas aulas e nos livros, tão diferente da língua falada pelas pessoas.

     Nos seus primeiros dias neste país não entendia nada, como me sucedeu a mim, porque os chilenos usam imensos diminutivos, falam a cantar e a correr, comem a última sílaba de cada palavra e aspiram os «S».

   - Para as asneiras que as pessoas dizem, o melhor é não perceber - diz a tia Blanca.

   Daniel anda a viajar pelo Chile e, antes de chegar a Chiloé, esteve no deserto de Atacama, com as suas paisagens lunares de sal e as suas colunas de água a ferver, em Santiago e noutras cidades, que lhe interessaram pouco, na região dos bosques, com os seus vulcões fumegantes e lagos de cor esmeralda, e pensa seguir viagem até à Patagônia e à Terra do Fogo, para ver os fiordes e os glaciares.

   Manuel e Blanca, que tinham ido fazer compras à aldeia, chegaram demasiado depressa para nos interromper, mas Daniel causou -lhes boa impressão e, para meu deleite, Blanca convidou-o a ficar em sua casa uns dias. Disse-lhe que ninguém pode passar por Chiloé sem experimentar um verdadeiro curanto e na quinta-feira teríamos um nanossa ilha, o último da temporada turística, o melhor de Chiloé, e não podia perdê-lo. Daniel não se fez rogado, já tivera tempo para se habituar à hospitalidade impulsiva dos chilenos, sempre dispostos a abrir as suas portas a qualquer forasteiro despistado que se atravesse no seu caminho. Acho que aceitou apenas por mim, mas Manuel disse- me para não ser presumida, pois, segundo ele, Daniel teria de ser parvo para recusar alojamento e comida de graça.

   Partimos na Cahuilla, com um mar ameno e uma brisa de popa, e chegámos a horas de ver os cisnes de pescoço negro que flutuavam no canal, esbeltos e elegantes como gôndolas em Veneza.

   - Estáveis passam os cisnes - disse Blanca, que fala como os chalotes. Na luz do entardecer, a paisagem parecia mais bela que nunca.

Senti-me orgulhosa por viver neste paraíso e poder mostrá-lo a Daniel. Indiquei-o com um gesto amplo do braço, abarcando o horizonte inteiro.

   - Bem-vindo à ilha de Maya Vidal, amigo - disse-lhe Manuel com uma piscadela do olho que não me passou despercebida.

     Pode troçar de mim quanto quiser em privado, mas se pensa fazê-lo diante de Daniel, vai arrepender-se. Isso mesmo lhe fiz saber quando ficámos sozinhos.

     Fomos até casa de Blanca, onde esta e Manuel se puseram imediatamente a cozinhar. Daniel pediu autorização para tomar um duche, que muita falta lhe fazia, e lavar algumas peças de roupa, enquanto eu ia a trote rápido até nossa casa em busca de um par de boas garrafas de vinho, que o Millalobo tinha oferecido a Manuel. Fiz o trajeto em onze minutos, um recorde mundial, tinha asas nos calcanhares. Lavei-me, pintei os olhos, vesti pela primeira vez o meu único vestido e desatei a correr de volta com as minhas sandálias e as garrafas num saco, seguida pelo Fakin com a língua de fora e a arrastar a pata coxa. No total, demorei quarenta minutos e, nesse entretanto, Manuel e Blanca tinham improvisado salada e uma massa com marisco, que na Califórnia se chama tuti-mare e aqui se chama talharim com sobras, porque leva os restos do dia anterior. Manuel recebeu-me com um assobio de espanto, porque só me tinha visto de calças e deve achar que não tenho estilo nenhum. Tinha comprado o vestido numa loja de roupa usada em Castro, mas está quase novo e ainda não passou muito de moda.

   Daniel saiu do duche recém-barbeado e com a pele brilhante como madeira polida, tão atraente que tive de me esforçar para não olhar demasiado para ele. Cobrimo-nos com ponchos para comer no terraço, porque nesta época já faz frio. Daniel mostrou-se muito agradecido pela hospitalidade, disse que anda há meses a viajar com um orçamento mínimo e teve de dormir nos sítios mais incómodos ou à intempérie. Soube apreciar a mesa, a boa comida, o vinho chileno e a paisagem de água, céu e cisnes. Tão elegante era a lenta dança dos cisnes na seda de cor violeta do mar que ficámos a admirá-la calados.

Outro bando de cisnes chegou vindo de oeste, obscurecendo os últimos reflexos alaranjados do céu com as suas grandes asas, e passou ao largo. Estas aves, tão dignas de aspeto e de coração tão feroz, estão concebidas para navegar - em terra parecem patos gordos -, mas nunca são tão esplêndidas como em pleno voo.

   Os três deram conta das duas garrafas do Millalobo e eu bebi limonada, não senti falta do vinho, estava meio embriagada com a companhia. Depois da sobremesa - maçãs no forno com doce de leite -, Daniel perguntou com naturalidade se queríamos partilhar um pouco de marijuana. Deu-me um calafrio, esta proposta não cairia bem aos velhos, mas aceitaram e, para minha surpresa, Blanca foi procurar um cachimbo.

   - Não te lembres de falar de nada disto na escola, gringuita -disse-me com um ar de conspiração, acrescentando que de vez em quando fumava com Manuel.

   Acontece que nesta ilha há várias famílias que cultivam marijuana de primeira qualidade. A melhor é a de dona Lucinda, a tetravô, que há meio século que a exporta para outros pontos de Chiloé.

   -   A dona Lucinda canta às plantas, diz que é preciso fazer-lhes serenatas, como às batatas, para que se dêem melhor, e deve ter razão, porque ninguém pode competir com a erva dela - contou-nos Blanca.

   Sou muito despistada, estive cem vezes no pátio de dona Lucinda, ajudando-a a tingir a sua lã, sem reparar nas plantas. De qualquer maneira, ver Blanca e Manuel, este par de anjinhos, a passar o cachimbo de água foi difícil de acreditar. Eu também fumei, sei que o posso fazer sem que se torne uma necessidade, mas não me atrevi a experimentar o álcool, ainda não, talvez nunca mais.

   Não foi preciso confessar a Manuel e a Blanca o impacto que Daniel teve em mim, os dois adivinharam quando me viram de vestido e maquilhagem, estão habituados ao meu aspeto de refugiada. Blanca, romântica por vocação, vai facilitar-nos as coisas, porque dispomos de pouco tempo. Manuel, pelo contrário, empenha-se na sua atitude de velho caquético.

     - Antes de morreres de amor, Maya, é melhor que tentes descobrir se esse jovem também está a agonizar do mesmo mal, ou se pensa seguir o seu caminho e deixar-te plantada - aconselhou-me.

   - Com semelhante prudência ninguém se apaixonaria, Manuel. Não estarás com ciúmes?

   - Pelo contrário, Maya, estou é esperançado. Talvez Daniel te leve para Seattle, é a cidade perfeita para te esconderes do FBI e da máfia.

   - Estás a pôr-me fora de tua casa!    

   - Não, menina, ia lá pôr-te fora de minha casa, se és a luz da minha triste velhice - disse ele, naquele tom sarcástico que dá cabo de mim. - Só me preocupa que te espetes de cabeça nesta questão do amor. Daniel já te deu indicações dos seus sentimentos?

   - Ainda não, mas vai dar.

   - Pareces muito segura.

   - Uma atração como esta não pode ser unilateral, Manuel.

   - Não, claro, é o encontro de duas almas...

   - Exatamente, mas a ti nunca aconteceu, é por isso que gozas.

   - Não fales do que não sabes, Maya.

   - És tu quem fala do que não sabe!

     Daniel é o primeiro americano da minha idade que vi desde que cheguei a Chiloé e o único interessante que me lembro de ter conhecido;os miúdos da secundária, os neuróticos do Oregon e os viciosos de Las Vegas não contam. Não somos da mesma idade, eu sou oito anos mais nova, mas vivi um século mais e poderia dar-lhe lições de maturidade e experiência do mundo. Senti-me confortável com ele desde o início, temos gostos semelhantes em livros, cinema e música e rimo-nos das mesmas coisas, entre os dois conhecemos mais de cem piadas de malucos, a metade aprendeu-as ele na universidade, a outra metade aprendi-as eu na academia. No resto, somos muito diferentes.

   Daniel foi adotado uma semana depois de ter nascido por um casal de brancos com recursos económicos, liberais e cultos, o tipo de pessoas protegidas pelo grande telhado da normalidade. Foi um estudante decente e um bom desportista, levou uma existência ordenada e pôde planear o seu futuro com a confiança irracional daqueles que não sofreram. É um tipo saudável, seguro de si, amigável e descontraído; seria irritante sem o seu espírito inquiridor. Viaja disposto a aprender, o que o salva de ser apenas mais um turista. Decidido a seguir os passos do seu pai adotivo, estudou Medicina, terminou o internato em Psiquiatria em meados do ano passado e, quando regressar a Seattle, tem emprego assegurado na clínica de desintoxicação do pai. Que ironia, poderia ser uma das suas pacientes.

   A felicidade natural de Daniel, sem ênfase, como a felicidade dos gatos, dá-me inveja. Na sua peregrinação pela América Latina conviveu com as mais variadas pessoas, ricaços de Acapulco, pescadores das Caraíbas, madeireiros do Amazonas, cultivadores de coca da Bolívia, indígenas do Peru, e também membros de gangues, chulos, traficantes de drogas, criminosos, polícias e militares corruptos. Flutuou de uma aventura para a outra com a inocência intacta. A mim, ao invés, tudo aquilo que vivi deixou-me cicatrizes, arranhões, nódoas negras. Este homem tem sorte, espero que isto não seja um problema entre nós. Passou a primeira noite em casa da tia Blanca, onde descansou entre plumas e lençóis de linho, Blanca é refinada a este ponto, mas depois veio embora connosco porque ela encontrou um pretexto para ir a Castro e deixar o hóspede nas minhas mãos. Daniel instalou o seu saco-cama num canto da sala e ali dormiu com os gatos.

     Todas as noites jantamos tarde, mergulhamos no jacuzzi, conversamos, ele conta-me a sua vida e a sua viagem, eu mostro-lhe as constelações do sul, falo-lhe de Berkeley e dos meus avós e também da academia do Oregon, embora, por agora, me cale sobre a parte de Las Vegas. Não posso falar-lhe disto antes de desenvolver uma confiança entre nós, iria espantá-lo. Parece-me que, no ano passado, desci precipitadamente a um mundo sombrio. Nesse entretanto, estive debaixo da terra, como uma semente ou um tubérculo, outra Maya Vidal lutava por emergir; de mim brotaram finos filamentos em busca de humidade, depois raízes como dedos que procuravam alimento, e, finalmente, um caule tenaz e folhas procurando a luz. Agora devo estar a florescer, por isso posso reconhecer o amor. Aqui, no sul do mundo, a chuva torna tudo fértil.

   A tia Blanca regressou à ilha, mas, apesar dos seus lençóis de linho, Daniel não sugeriu voltar para casa dela e continua na nossa. Bom sinal.

Temos passado todo o tempo juntos, porque não estou a trabalhar, Blanca e Manuel libertaram-me de responsabilidades enquanto Daniel aqui estiver. Temos conversado sobre muitas coisas, mas ele ainda não me deu margem para lhe fazer confidências. É muito mais cauteloso do que eu. Perguntou-me porque estou em Chiloé e respondi-lhe que estou a ajudar Manuel no seu trabalho e a conhecer o país, porque a minha família é de origem chilena, o que é uma verdade incompleta. Mostrei-lhe a aldeia, filmou o cemitério, as palafitas, o nosso patético e poeirento museu, com os seus quatro trastes velhos e as suas pinturas a óleo de próceres esquecidos, a dona Lucinda, que aos cento e nove anos ainda vende lã e cultiva batatas e marijuana, os poetas do truco na Taberna do Mortito, Aurelio Nancupel e as suas histórias de piratas e mórmones.

     Manuel Arias está encantado, porque tem um hóspede atento, que o escuta com admiração e não o critica, como eu. Enquanto os dois conversam, eu conto os minutos perdidos em lendas de bruxos e monstros. São minutos que Daniel poderia empregar melhor a sós comigo. Deve terminar a sua viagem dentro de algumas semanas e ainda lhe faltam o extremo sul do continente e o Brasil, é lamentável que gaste o seu precioso tempo com Manuel. Temos tido ocasiões para momentos mais íntimos, mas muito poucas, na minha opinião, e ele apenas me pegou na mão para me ajudar a saltar um rochedo. Raramente estamos sozinhos, porque as comadres da aldeia espiam-nos e Juanito Corrales, Pedro Pelanchugay e o Fakin seguem-nos para todo o lado. As avós adivinharam os meus sentimentos por Daniel e creio que soltaram um suspiro coletivo de alívio, porque circulavam rumores absurdos a respeito de Manuel e de mim. Parece suspeito às pessoas que vivamos juntos, apesar de nos separar mais de meio século de idade. Eduvigis Corrales e outras mulheres confabularam-se para me servirem de alcoviteiras, mas deviam ser mais dissimuladas ou vão acabar por afugentar o jovem de Seattle. Manuel e Blanca também andam a conspirar.

                 Ontem teve lugar o curanto que Blanca tinha anunciado e Daniel pôde filmá-lo do princípio ao fim. A gente da aldeia é cordial com os turistas, porque compram artesanato e as agências pagam pelo curanto, mas quando os forasteiros partem há uma sensação generalizada de alívio. As pessoas sentem-se incomodadas por estas hordas de estranhos que metem o nariz nas suas casas e lhes tiram fotografias como se fossem eles os exóticos. Com Daniel é diferente, trata-se de um hóspede de Manuel, isto abre-lhe portas, e para além disso veem-no comigo, por isso dão-lhe facilidades para filmar tudo o que quer, até dentro de casa.

     Nesta ocasião, a maioria dos turistas eram da terceira idade, reformados de cabeleiras brancas que vinham de Santiago, muito alegres, apesar da dificuldade em caminhar na areia. Trouxeram uma guitarra e cantaram, enquanto o curanto cozinhava, e beberam pisco sour a granel, o que contribuiu para a descontração geral. Daniel apoderou-se da guitarra e deleitou-nos com boleros mexicanos e valsas peruanas, que fora aprendendo ao longo da sua viagem. A sua voz não é grande coisa, mas canta afinado e o seu aspeto de beduíno seduziu os visitantes.

     Depois de darmos conta do marisco, bebemos os líquidos da cozedura do curanto nos recipientes de barro, que são a primeira coisa que se coloca sobre as pedras quentes para receber este néctar. É impossível descrever o sabor deste caldo concentrado das delícias da terra e domar, nada pode comparar-se à embriaguez que produz, percorre as veias como um rio quente e deixa o coração aos saltos. Disseram-se muitas piadas sobre o seu poder afrodisíaco, os velhinhos de Santiago que nos visitavam compararam-no com o Viagra, dobrados de riso. Deve ser verdade, porque pela primeira vez na minha vida sinto um desejo concreto, opressivo e intransferível de fazer amor com alguém muito particular, com Daniel.

     Tive oportunidade de o observar de perto e aprofundar aquilo que ele acha que é amizade e eu sei que tem outro nome. Daniel está de passagem, partirá em breve, não quer amarras, talvez não o volte a ver, mas esta ideia é tão insuportável que a descartei por completo. É possível morrer de amor. Manuel diz isto a brincar, mas é verdade, está-se -me a acumular no peito uma pressão fatídica e, se não tem alívio depressa, vou rebentar. Blanca aconselhou-me a tomar a iniciativa, um conselho que ela própria não aplica à sua situação com Manuel, mas não me atrevo. Isto é ridículo, na minha idade e com o meu passado, bem posso suportar uma rejeição. Posso? Se Daniel me rejeitasse, atirava-me de cabeça para o meio de salmões carnívoros. Não sou feia de todo, segundo dizem, porque não me beija ele?

     A proximidade deste homem que mal conheço é intoxicante, termo que uso com cuidado, porque conheço demasiado bem o seu significado, mas não encontro outro para descrever esta exaltação dos sentidos, esta dependência tão parecida a estar viciada em drogas.

     Agora entendo por que motivo os amantes da ópera e dos livros, confrontados com a eventualidade de uma separação, se suicidam ou morrem de desgosto. Há grandeza e dignidade na tragédia, por isso esta é fonte de inspiração, mas eu não quero tragédia, por mais imortal que seja, quero uma felicidade sem confusões, íntima e muito discreta, para não provocar os ciúmes dos deuses, sempre tão vingativos. Que idiotices digo! Não há fundamento para estas fantasias, Daniel trata-me com a mesma simpatia com que trata Blanca, que poderia ser sua mãe. Talvez não seja o seu tipo. Ou será gay?

     Contei-lhe que Blanca foi rainha de beleza nos anos setenta e há quem ache que inspirou um dos vinte poemas de amor de Pablo Neruda, apesar de em 1924, altura em que estes foram publicados, ela ainda não ser nascida. É até onde vai a malícia das pessoas. Blanca raramente fala do seu cancro, mas penso que veio para esta ilha para se curar da doença e da desilusão do seu divórcio. O assunto mais comum aqui são as doenças, mas a mim saíram-me na rifa os únicos dois chilenos estóicos que não falam delas, Blanca Schnake e Manuel Arias, para quem a vida é difícil e queixar-se só a torna pior. Foram grandes amigos durante vários anos, têm tudo em comum, menos os segredos que ele guarda e a ambivalência dela a respeito da ditadura. Entretêm-se juntos, emprestam livros um ao outro, cozinham, por vezes encontro-os sentados à janela a ver passar os cisnes, mudos.

   - Blanca olha para Manuel com olhos de amor - disse-me Daniel, de modo que não sou a única que reparou.

   Esta noite, depois de meter uns paus no fogão e fechar as persianas   fomo- nos deitar, ele no seu saco cama na sala, eu no meu quarto. Já era muito tarde. Encolhida na minha cama, insone, sob três cobertores, com o meu gorro verde- bílis na cabeça por medo dos morcegos, que se agarram ao cabelo, segundo diz Eduvigis, podia ouvir os suspiros das tábuas da casa, o crepitar da lenha a arder, o grito da coruja na árvore em frente à minha janela, a respiração vizinha de Manuel, que mal pousa a cabeça na almofada cai no sono, e os roncos suaves do Fakin. Fiquei ali a pensar que, nos meus vinte anos, só olhei com um olhar de amor para Daniel.

     Blanca insistiu em que Daniel ficasse outra semana em Chiloé, para poder visitar as aldeias remotas, percorrer os trilhos dos bosques e ver os vulcões, depois pode viajar até à Patagônia no avião de um amigo do seu pai, um multimilionário que comprou um terço do território de Chiloé e pensa candidatar-se à presidência do país nas eleições de dezembro, mas eu quero que Daniel fique ao meu lado, já vagueou o suficiente. Não tem necessidade nenhuma de ir à Patagônia ou ao Brasil, pode ir diretamente para Seattle em junho.

     Ninguém pode permanecer nesta ilha mais de alguns dias sem ficar conhecido e já todos sabem de Daniel Goodrich. Os vizinhos da aldeia têm sido especialmente carinhosos para com ele, porque o acham muito exótico, apreciam o facto de falar espanhol e supõem que é o meu apaixonado (oxalá fosse!). Também ficaram impressionados com a sua participação no problema de Azucena Corrales.

Tínhamos ido de caiaque à gruta da Pincoya, bem enroupados porque estávamos no final de maio, sem suspeitar o que nos aguardava ao regressar. O céu estava limpo, o mar calmo e o ar muito frio. Para ir à gruta, uso uma rota diferente da dos turistas, mais perigosa, por causa das rochas, mas prefiro-a porque me permite aproximar-me dos lobos-marinhos. Esta é a minha prática espiritual, não há outro nome para definir o arrebatamento místico que me produzem os bigodes tesos da Pincoya, como chamei à minha molhada amiga, uma fêmea de lobo-marinho. Nos rochedos há um macho ameaçador, que devo evitar, e umas oito ou dez mães com as suas crias, que apanham banhos de sol ou brincam na água entre as lontras marinhas. Da primeira vez, fiquei a flutuar no meu caiaque sem me aproximar, imóvel, para ver as lontras de perto, e passado pouco tempo uma das lobas- marinhas começou a rondar-me. Estes animais são desajeitados em terra, mas muito graciosos e velozes na água.

     Passava por debaixo do caiaque como um torpedo e reaparecia na superfície, com os seus bigodes de flibusteiro e os seus redondos olhos negros, cheios de curiosidade. Dava pancadas com o nariz na minha frágil embarcação, como se soubesse que, com um sopro, poderia atirar-me para o fundo do mar, mas a sua atitude era puramente brincalhona. Fomo-nos conhecendo gradualmente. Comecei a visitá-la com frequência e, passado pouco tempo, a loba nadava ao meu encontro mal vislumbrava o caiaque. A Pincoya gosta de esfregar os seus bigodes de escova contra o meu braço nu.

   Estes momentos com a loba são sagrados, sinto por ela um carinho vasto como uma enciclopédia, dá-me uma vontade demente de me atirar à água e rebolar com ela. Não podia dar a Daniel maior prova de amor que levá-lo à gruta. A Pincoya estava a apanhar sol e, mal me viu, lançou-se ao mar para me vir cumprimentar, mas conservou-se a certa distância, a estudar Daniel, e por fim regressou às rochas, ofendida porque levei comigo um estranho. Vou demorar muito tempo a recuperar a sua estima.

   Quando regressámos à aldeia, perto da uma, Juanito e Pedro estavam à nossa espera ansiosos no embarcadouro, com a notícia de que Azucena sofrera uma hemorragia em casa de Manuel, onde tinha ido lazer limpeza. Manuel encontrou-a num charco de sangue e ligou por telemóvel aos carabineiros, que foram buscá-la no jipe. Juanito disse que naquele momento a rapariga estava no quartel à espera da lancha da ambulância.

   Os carabineiros tinham instalado Azucena no catre da cela das senhoras e Humilde Garay estava a aplicar-lhe panos húmidos na testa, à falta de um remédio mais eficaz, enquanto Laurencio Carcamo falava por telefone com a esquadra de Dalcahue a pedir instruções. Daniel Goodrich identificou-se como médico, pediu-nos para sairmos da cela e começou a examinar a Azucena. Dez minutos depois, regressou anunciando- nos que a menina estava grávida de cerca de cinco meses.

   - Mas ela só tem treze anos! – exclamei.

     Não compreendo como ninguém se deu conta, nem Eduvigis, nem Blanca, nem sequer a enfermeira; Azucena parecia simplesmente gorda.

     Neste ponto, chegou a lancha da ambulância e os carabineiros permitiram que Daniel e eu acompanhássemos Azucena, que chorava de medo. Entrámos com ela nas Urgências do hospital de Castro e eu esperei no corredor, mas Daniel fez valer o seu título de médico e seguiu a maca para o interior. Nessa mesma noite operaram Azucena para retirar o bebé, que estava morto. Haverá uma investigação para saber se o aborto foi induzido, é o procedimento legal num caso como este e isto parece mais importante que averiguar as circunstâncias em que uma menina de treze anos ficou grávida, como diz Blanca Schnake, enfurecida e com razão.

   Azucena Corrales recusa-se a dizer quem a engravidou e já circula o rumor na ilha de que foi o Trauco, um mítico anão de 83 centímetros de altura, armado com um machado, que vive nos buracos das árvore e protege os bosques, pode torcer a coluna de um homem com o olhar e persegue as raparigas virgens com o intuito de as engravidar. Tem de ter sido o Trauco, dizem, porque foram vistos excrementos amarelos perto da casa dos Corrales.

     Eduvigis reagiu de forma estranha, recusa-se a ver a filha ou a conhecer os pormenores daquilo que aconteceu. O alcoolismo, a violência doméstica e o incesto são as maldições de Chiloé, especialmenlc nas comunidades mais isoladas, e segundo Manuel o mito do Trauco nasceu para encobrir as gravidezes das raparigas violadas pelos pais ou pelos irmãos. Acabo de saber que Juanito não é apenas neto de Carmelo Corrales, é também seu filho. A mãe de Juanito, que vive em Quellon, foi violada por Carmelo, o seu pai, e teve o rapazinho aos quinze anos. Eduvigis criou-o como se fosse seu filho, mas na aldeia sabe-se a verdade. Pergunto a mim mesma como um inválido prostrado pôde abusar de Azucena, tem de ter sido mesmo antes de lhe amputarem a perna, em dezembro do ano passado.

   Ontem Daniel foi se emboral! O dia 29 de maio de 2009 ficará na minha memória como o segundo mais triste da minha vida; o primeiro foi quando morreu o meu Popo. Vou tatuar «2009» no outro pulso, para nunca me esquecer. Chorei dois dias seguidos, Manuel diz que vou ficar desidratada, que nunca viu tantas lágrimas e que nenhum homem merece tanto sofrimento, especialmente se foi apenas para Seattle e não para a guerra. Ele sabe lá alguma coisa! As separações são muito perigosas. Em Seattle, deve haver um milhão de raparigas muito mais bonitas e menos complicadas do que eu. Para que lhe contei os detalhes do meu passado? Agora terá tempo para os analisar, poderá mesmo discuti-los com o pai, vão-me catalogar como neurótica e viciada. Longe de mim, o entusiasmo de Daniel vai arrefecer e pode decidir que não lhe convém estar envolvido com uma tipa como eu. Porque não parti com ele!

     Bem, ele também não me pediu, a verdade é essa…

     Se, há umas poucas semanas, me tivessem perguntado qual foi a época mais feliz da minha vida, teria dito que foi no passado, a minha infância com os meus avós no casarão mágico de Berkeley. No entanto, agora responderia que vivi os dias mais felizes da minha vida em fins de maio, com Daniel, e, se não se der catástrofe nenhuma, voltarei a vivê-los num futuro próximo. Passei nove dias na sua companhia e, durante três deles, estivemos sozinhos nesta casa com alma de cipreste. Nesses dias prodigiosos, vi entreabrir-se-me uma porta, assomei-me ao amor e a luz foi quase insuportável. O meu Popo dizia que o amor nos torna bons. Não importa a quem amemos, também não importa sermos correspondidos ou se a relação é durável. Basta a experiência de amar, isso transforma-nos.

     Vamos ver se consigo descrever os únicos dias de amor da minha vida. Manuel Arias foi até Santiago numa apressada viagem de três dias, motivada por uma questão ligada ao seu livro, segundo ele. Nas palavras de Blanca, no entanto, foi ao médico controlar a bolha no cérebro. Eu acho que foi embora para me deixar a sós com Daniel, estivemos completamente sozinhos, porque Eduvigis não regressou para fazer limpeza depois do escândalo da gravidez de Azucena, que continuava no hospital de Castro, a convalescer de uma infeção, e Blanca proibiu Juanito Corrales e Pedro Pelanchugay de nos incomodarem.

   Estavamos no final de maio, os dias eram curtos e as noites compridas e geladas, o clima perfeito para a intimidade. Manuel partiu ao meio-dia, deixando-nos a tarefa de fazer compota de tomate, antes de os tomates apodrecerem. Tomates, tomates, mais tomates. Tomates no outono, onde já se viu. Dão-se tão bem na horta de Blanca, e oferecemos tantos que não sabemos o que fazer com eles: molho, pasta, tomates secos, em conserva. A compota de tomate é uma solução extrema, não sei quem poderá gostar disto. Daniel e eu pelámos vários quilos, cortámo-los, retirámos as pevides, pesámo-los e metemo-los nas caçarolas, operação que nos levou mais de duas horas, que não foram perdidas, porque com a distração dos tomates a língua soltou-se-nos e contámos muitas coisas um ao outro. Acrescentámos um quilo de açúcar por cada quilo de polpa de tomate, deitámos um pouco de sumo de limão, cozemos tudo até espessar, mais ou menos vinte minutos, mexendo sempre, e a seguir pusemos o doce em frascos bem lavados. Fervemos os frascos cheios durante meia hora e, depois de selados de forma hermética, ficaram prontos para trocar por outros produtos, como o doce de marmelo de Liliana Trevino e a lã de dona Lucinda. Quando terminámos, a cozinha estava escura e a casa tinha um cheiro delicioso a açúcar e a lenha.

   Instalámo-nos diante da janela a contemplar a noite, com uma bandeja com pão, queijo amanteigado, salsichão enviado por Dom Lionel Schnake e peixe fumado de Manuel. Daniel abriu uma garrafa de vinho tinto, encheu um copo e, quando se preparava para servir o segundo, detive-o, era hora de lhe explicar os meus motivos para não beber o vinho e esclarecer que ele podia tomá-lo sem se preocupar comigo. Falei-lhe das minhas dependências em geral, sem entrar ainda na má vida do ano passado, e expliquei-lhe que não sinto falta da bebida para afogar as mágoas, apenas em momentos de celebração, como este frente à janela, mas podíamos brindar juntos, ele com vinho e eu com sumo de maçã.

   Penso que terei de ter cuidado com o álcool para sempre, é mais difícil de resistir que as drogas, porque é legal, está disponível e oferecem-no em todo o lado. Se aceitasse um copo, a minha vontade afrouxaria e custar-me-ia recusar o segundo, e dali ao abismo de antes vão uns quantos goles. Tive sorte, disse a Daniel, porque nos seis meses que passei em Las Vegas a dependência não se conseguiu enraizar demasiado e, quando agora surge a tentação, recordo as palavras de Mike O´Kelly, que sabe muito do assunto, porque é alcoólico recuperado, e diz que a dependência é como a gravidez, ou se está ou não se está, não há meio-termo.

     Por fim, ao cabo de muitos rodeios, Daniel beijou-me, primeiro com suavidade, apenas roçando a minha boca, e depois com mais segurança, com os seus lábios grossos contra os meus, a sua língua na minha boca. Senti o ténue sabor do vinho, a firmeza dos seus lábios, a doce intimidade do seu hálito, o seu cheiro a lã e a tomate, o sussurro da sua respiração, a sua mão quente na minha nuca. Afastou-se de mim e olhou-me com uma expressão interrogativa, e então apercebi-me de que estava rígida, com os braços colados ao lado do corpo, os olhos desorbitados.

   - Desculpa - disse-me, afastando-se.

   - Não! Desculpa-me a mim! - exclamei com demasiada veemência, assustando-o.

   Como lhe poderia explicar que, na realidade, aquele era o meu primeiro beijo, que tudo o que anteriormente acontecera fora outra coisa, muito diferente do amor, que andava há uma semana a imaginar este beijo e, de tanto o antecipar, agora soçobrava, e de tanto recear que nunca fosse acontecer, agora estava prestes a chorar. Não sabia como dizer-lhe tudo isto e o mais expedito foi agarrar-lhe a cabeça entre as mãos e beijá-lo como numa despedida trágica. E, deste ponto em diante, foi apenas questão de soltar amarras e partir de velas desfraldadas por águas desconhecidas, atirando as vicissitudes do passado borda fora. Numa pausa, entre dois beijos, confessei-lhe que tinha tido relações sexuais, mas que na realidade nunca tinha feito amor.

   - Imaginavas que isso iria acontecer-te aqui, no fim do mundo? -perguntou-me.

   - Quando cheguei, definia Chiloé como o cu do mundo, Daniel, mas agora sei que é o centro da galáxia - respondi-lhe.

     O desconjuntado sofá de Manuel revelou-se inadequado para o amor, as molas espreitam e está coberto de pelos pardos do Gato- Lerdo e pelos alaranjados do Gato - Literato, por isso trouxemos mantas do meu quarto e fizemos um ninho junto ao fogão,

   - Se soubesse que existias, Daniel, teria feito caso à minha avó e tinha tido mais cuidado comigo - admiti, disposta a recitar-lhe o rosário dos meus erros, mas um instante depois esqueci-me deles, porque na magnitude do desejo, que diabos importavam?

   Bruscamente, aos puxões, arranquei-lhe a camisola e a camiseta de mangas compridas e comecei a debater-me com o cinto e o fecho dos jeans.

   - Que chata que é a roupa de homem!

   Mas Daniel agarrou-me nas mãos e beijou-me outra vez.

   - Temos três dias, não é preciso ter pressa - disse.

   Acariciei o seu torso nu, os seus braços, os seus ombros, percorrendo a topografia desconhecida daquele corpo, os seus vales e montes, admirando a sua pele lisa da cor do bronze antigo, pele de africano, a arquitetura dos seus ossos longos, a forma nobre da sua cabeça, beijando a depressão no meio do queixo, as maçãs do rosto de bárbaro, as pálpebras lânguidas, as orelhas inocentes, a maçã de Adão, o longo caminho do esterno, os mamilos semelhantes a arandos, pequenos e arroxeados. Voltei a arremeter contra o seu cinto e Daniel deteve-me de novo com o pretexto de que queria olhar para mim.

   Começou a tirar-me a roupa e foi um nunca acabar: colete velho de caxemira de Manuel, camisa de flanela de inverno, t-shirt mais fina por baixo, tão deslavada que Obama é já apenas um borrão, sutiã de algodão com uma das alças presa com um alfinete, calças compradas com Blanca na loja de roupa usada, demasiado curtas nas pernas, mas quentes, meias grossas e, por último, as calcinhas brancas de colegial que a minha avó me meteu na mochila em Berkeley. Daniel estendeu-me de costas no ninho e senti os arranhões das grosseiras mantas chilotas, insuportáveis noutras circunstâncias, mas sensuais naquele momento. Com a ponta da língua lambeu-me como um caramelo, fazendo-me cócegas nalgumas partes, despertando quem sabe que animal adormecido, comentando o contraste da sua pele escura e da minha cor original de escandinava, visível na sua mortal palidez nos sítios que não apanhavam sol. Fechei os olhos e abandonei-me ao prazer, serpenteando ao encontro daqueles dedos solenes e sábios, que me tocavam como a um violino, e assim continuámos uns momentos, até que de súbito chegou o orgasmo, longo, lento, crescente, e o meu grito alarmou Fakin, que começou a grunhir com os caninos à mostra.

   - It´s okay, fucking dog - disse eu, e enrosquei-me no abraço de Daniel, ronronando feliz no calor do seu corpo e no cheiro almiscarado dos dois.

   - Agora é a minha vez - anunciei-lhe ao fim de algum tempo, e então Daniel deixou-me despi-lo e fazer com ele o que me desse na real gana.

     Permanecemos fechados em casa durante três dias memoráveis, cortesia de Manuel. A minha dívida para com este velho antropófago cresceu de maneira alarmante. Tínhamos confidências pendentes e amor por inventar. Tínhamos de aprender a adequar os nossos corpos, a descobrir com calma a forma de comprazer o outro e de dormirmos juntos sem nos incomodarmos. Falta-lhe experiência neste ponto, mas para mim é natural, porque cresci na cama dos meus avós. Colada a alguém não preciso de contar carneiros, cisnes ou golfinhos, em especial a alguém grande, quente, cheiroso, que ressona discretamente, fazendo-me saber que está vivo. A minha cama é estreita e, como nos pareceu falta de respeito ocupar a de Manuel, colocámos um amontoado de mantas e almofadas no chão, perto do fogão.

     Cozinhávamos, conversávamos, fazíamos amor; olhávamos pela janela, íamos até às rochas, ouvíamos música, fazíamos amor; tomávamos banhos no jacuzzi, íamos buscar lenha, líamos os livros de Manuel sobre Chiloé, fazíamos amor de novo. Chovia e não dava vontade de sair, a melancolia das nuvens chilotas presta-se ao romance.

     Nesta oportunidade única de estar sozinha com Daniel sem interrupções, propus a mim mesma, guiada por ele, a tarefa refinada de prender as múltiplas possibilidades dos sentidos, o prazer de nos acariciarmos sem um propósito, pelo gosto de roçar pele com pele. Um corpo de homem dá para nos entretermos durante anos; os pontos sensíveis que se estimulam de determinada forma, outros que pedem diferentes atenções, aqueles que não se tocam e basta soprar sobre eles; cada vértebra tem uma história podemos perder-nos no campo amplo dos ombros, com a sua boa disposição para carregar pesos e pesares, e nos duros músculos dos braços feitos para sustentar o mundo. E sob a pele escondem-se desejos nunca formulados, aflições recônditas, marcas invisíveis ao microscópio. Deve haver manuais sobre beijos, beijos de pica-pau, de peixe, uma variedade infinita. A língua é uma serpente atrevida e indiscreta, e não me refiro às coisas que diz. O coração e o pénis são os meus favoritos: indómitos, transparentes nas suas intenções, cândidos e vulneráveis, não se deve abusar deles.

     No fim, pude contar os meus segredos a Daniel. Falei-lhe de Roy Fedgewick e Brandon Leeman e dos homens que o mataram, de distribuir drogas e de perder tudo e acabar a pedir, de quão mais perigoso é o mundo para as mulheres, como devemos atravessar uma rua solitária se vem um homem em sentido contrário e evitá-los por completo se vão em grupo, vigiar a retaguarda, olhar para os lados, tornarmo-nos invisíveis. Nos últimos tempos que passei em Las Vegas, quando já tinha perdido tudo, protegi-me fazendo-me passar por um rapaz; ajudou-me ser alta e estar magra como uma tábua, ter o cabelo curto e vestir roupa de homem do Exército de Salvação. Assim me salvei mais de uma vez, suponho. A rua é implacável.

   Falei-lhe das violações que presenciei e que apenas tinha contado a Mike 0'Kelly, que tem estômago para tudo. Da primeira vez, um bêbedo asqueroso, um homenzarrão que parecia corpulento pelas camadas de farrapos que o cobriam, mas talvez estivesse magro como um esqueleto, agarrou uma rapariga num beco sem saída, cheio de lixo, em plena luz do dia. A cozinha de um restaurante dava para o beco e eu não era a única que ia esgaravatar nos baldes de lixo em: busca de sobras que disputava aos gatos vadios. Também havia ratazanas, conseguia ouvi-las, mas nunca as vi. A rapariga, uma toxicodependente jovem, esfomeada, suja, poderia ter sido eu. O homem agarrou-a por trás, atirou-a de frente contra o pavimento, entre lixo e charcos de água putrefacta, e com uma navalha rasgou-lhe as calças de lado. Eu encontrava-me a menos de três metros, escondida entre os caixotes, e só por acaso era ela quem gritava e não eu. A rapariga não se defendeu. Em dois ou três minutos o homem terminou, ajeitou os farrapos e afastou-se, tossindo. Durante aqueles minutos, eu poderia tê-lo aturdido com um golpe na nuca usando uma das garrafas que se encontravam no chão da viela, teria sido fácil e a ideia ocorreu- me, masdescartei- a de imediato: a merda do problema não era meu. E depois de o atacante partir, também não me aproximei para ajudar a rapariga imóvel no chão, passei ao lado dela e fui-me embora depressa, sem olhar para ela.

     Da segunda vez foram dois homens jovens, talvez traficantes ou membros de algum gangue, e a vítima era uma mulher que eu vira antes na rua, muito desgastada, doente. Também não a ajudei. Arrastaram-na para debaixo de uma passagem de nível, rindo-se, troçando, enquanto ela se debatia com uma fúria tão concentrada quanto inútil. Subitamente, viu-me. Os nossos olhares cruzaram-se por um instante eterno, inesquecível, e eu dei meia-volta e desatei a correr.

     Naqueles meses em Las Vegas em que o dinheiro abundava, fui incapaz de poupar o suficiente para uma passagem de avião para a Califórnia. Já era tarde para pensar em ligar à minha Nini. A minha aventura de verão tinha-se tornado sinistra e não podia enredar a minha inocente avó nas malfeitorias de Brandon Leeman.

     Depois da sauna, fui até à piscina do ginásio envolta numa roupão, pedi uma limonada, que temperei com um pouco de vodka de um Frasco que trazia sempre na carteira, e tomei dois tranquilizantes e mais um comprimido que não identifiquei; consumia demasiados fármacos de variadas cores e formas para os conseguir distinguir. Estendi-me numa cadeira o mais longe possível de um grupo de jovens com deficiência mental, que se banhavam na água acompanhados pelas pessoas que cuidavam deles. Noutras circunstâncias, teria brincado uns momentos com eles, tinha-os visto muitas vezes e eram as únicas pessoas com quem me atrevia a relacionar-me, porque não representavam um perigo para a segurança de Brandon Leeman, mas doía-me a cabeça e precisava de estar sozinha.

   A paz abençoada dos comprimidos começava a invadir-me, quando ouvi o nome de Laura Barron no altifalante, o que nunca antes me acontecera. Pensei que tinha ouvido mal e não me mexi até chamarem pela segunda vez, e então fui até ao telefone interno, marquei o número

da receção e informaram-me que alguém me procurava e se tratava de uma emergência.

   Fui até ao átrio, descalça e de roupão, e deparei-me com Freddy, muito agitado. Pegou- me na mão e levou-me até a um canto para me anunciar, transtornado, que Joe Martin e o Chinês tinham matado Brandon Leeman.

   - Encheram-no de tiros, Laura!

   - Mas que estás a dizer, Freddy?!

   - Havia sangue por todos os lados, bocados do cérebro... Tens de fugir, também te vão matar a ti! - soltou de um fôlego.

   - A mim? A mim, porquê?

   - Depois explico-te, temos de sair daqui a voar, despacha-te. Corri a vestir-me, agarrei no dinheiro que tinha e juntei-me a Freddy, que passeava para a frente e para trás, como uma pantera diante do olhar alerta dos empregados da receção. Saímos para a rua e afastámo-nos depressa, procurando não chamar demasiado a atenção. Dois quarteirões mais à frente conseguimos fazer parar um táxi. Acabámos num motel nos subúrbios de Las Vegas, depois de mudar de táxi três vezes para apagar o rasto e de comprar tinta para o cabelo e a garrafa de genebra mais forte e ordinária do mercado. No motel, paguei a noite e fechámo-nos num quarto.

     Enquanto me pintava o cabelo de negro, Freddy contou-me que Joe Martin e o Chinês tinham passado o dia a entrar e a sair do apartamento e a falar pelos telemóveis freneticamente, sem lhe prestarem atenção.

   - De manhã estive muito mal, Laura, já sabes como fico às vezes, mas apercebi-me de que aquele par de bestas de um raio estava a tramar alguma e comecei a afinar as orelhas, sem me mexer do colchão. Esqueceram-se de mim ou pensaram que estava completamente pedrado.

   Pelas chamadas e conversas, Freddy deduziu finalmente o que se estava a passar. Os dois homens tinham tomado conhecimento de que Brandon Leeman pagara a alguém para os eliminar, mas por alguma razão essa pessoa não o fez, colocando-os em vez disso de sobreaviso e dando-lhes instruções para raptar Brandon Leeman e obrigá-lo a revelar onde tinha o dinheiro. Pareceu a freddy, pelo tom deferente de Joe Martin e do Chinês, que o misterioso interlocutor era alguém com autoridade.

         - Não consegui avisar Brandon. Não tinha telemóvel e não houve tempo - gemeu o rapaz.

   Brandon Leeman era o mais parecido com uma família que Freddy tinha, recolhera-o da rua, tinha-lhe dado um teto, comida e proteção sem lhe impor condições, nunca tentou regenerá-lo, aceitava-o com os seus vícios e celebrava as suas brincadeiras e as exibições de rap.

     - Apanhou-me várias vezes a roubá-lo, Laura, e sabes o que fazia em vez de me bater? Dizia-me que lhe pedisse, que ele dava-me.

   Joe Martin plantou-se à espera de Leeman na garagem do edifício, onde este devia meter o carro, e o Chinês montou guarda no apartamento. Freddy ficou deitado no colchão, fingindo dormir, e dali ouviu o Chinês receber no telemóvel o aviso de que se aproximava o chefe. O filipino desceu a correr e Freddy seguiu-o a uma certa distância.

   O Ford Acura entrou na garagem, Leeman desligou o motor e começou a sair do veículo, mas viu pelo espelho retrovisor as sombras dois homens que lhe bloqueavam a saída. Reagiu movido pelo longo hábito de desconfiar e com um só movimento instintivo sacou da arma, atirou-se para o chão e disparou sem fazer perguntas. Mas Brandon Leeman, sempre tão obcecado pela segurança, desconhecia o seu próprio revólver. Freddy nunca o tinha visto limpá-lo nem treinar a pontaria, como faziam Joe Martin e o Chinês, que eram capazes de desmontar as pistolas e voltar a armá-las em poucos segundos. Ao disparar às cegas contra aquelas sombras na garagem, Brandon Leeman precipitou a sua morte, apesar de que, muito seguramente, o teriam crivado de balas de qualquer das maneiras. Os dois gorilas esvaziaram as armas no chefe, que estava encurralado entre o carro e a parede. Freddy ainda conseguiu ver a carnificina e depois fugiu a correr, antes que o alvoroço acalmasse e os dois homens descobrissem a sua presença.

     - Porque pensas que me querem matar? Eu não tenho nada a ver com isso, Preddy - disse lhe.

   - Eles pensavam que tu estarias com Brandon no carro. Queriam apanhar -vos aos dois, dizem que tu sabes mais do que devias. Diz-me em que estás metida, Laura.

   - Em nada! Não sei o que aqueles tipos querem de mim!

   - De certeza que Joe e o Chinês te foram procurar ao ginásio, o único sítio onde poderias estar. Devem ter chegado uns minutos depois de sairmos.

   - Que vou fazer agora, Freddy?

   - Ficar aqui até nos lembrarmos de alguma coisa.

   Abrimos a garrafa de genebra e, deitados lado a lado na cama, bebemos à vez até nos afundarmos numa densa embriaguez de morte.

   Ressuscitei muitas horas mais tarde num quarto desconhecido, com a sensação de ter um paquiderme em cima de mim e agulhas cravadas nos olhos, sem me lembrar do que acontecera. Sentei-me na cama com grande esforço, deixei-me cair no chão e arrastei-me até à casa de banho a tempo de abraçar a sanita e vomitar um jorro interminável de lama de esgoto. Permaneci prostrada sobre o linóleo, a tremer, com a boca amarga e uma garra cravada nas entranhas, balbuciando entre secos arranques de vómito que queria morrer, queria morrer. Muito tempo depois, consegui deitar água na cara e lavar a boca, espantada perante a desconhecida de cabelo negro e palidez cadavérica que via no espelho. Não fui capaz de chegar à cama e deitei-me no chão, a gemer.

     Algum tempo mais tarde, soaram três pancadas na porta, que senti como tiros, e uma voz com pronúncia hispânica gritou que vinha limpar o quarto. Apoiando-me nas paredes cheguei à porta, entreabri-a apenas o suficiente para mandar a empregada ao diabo e pendurar o aviso de não incomodar, depois caí outra vez de joelhos. Voltei de gatas para a cama com o pressentimento de um perigo imediato e funesto, que não conseguia precisar. Não me lembrava porque estava naquele quarto, mas intuía que não se tratava de uma alucinação nem de um pesadelo, mas de algo real e terrível, algo relacionado com Freddy. Uma coroa de ferro comprimia-me as têmporas, cada vez mais apertada, enquanto eu chamava por Freddy num fio de voz. Por fim, cansei-me de chamar por ele e, desesperada, pus-me a procurá-lo debaixo da cama, no roupeiro, na casa de banho, para o caso de me estar a pregar uma partida. Não estava em lado nenhum, mas descobri que me tinha deixado um saquinho de crack, um cachimbo e um maçarico. Tão simples e familiar!

   O crack era o paraíso e a condenação de Freddy, tinha-o visto a usá-lo diariamente, mas nunca o provara por ordens do chefe. Menina obediente. Foda-se. As minhas mãos mal funcionavam e estava cega com as dores de cabeça, mas arranjei forma de introduzir as pedras no cachimbo de vidro e acender o maçarico, uma tarefa titânica. Exasperada, enlouquecida, esperei uns segundos eternos para que as pedrinhas cor de cera ardessem, com o tubo a queimar-me os dedos e os lábios, e por fim partiram-se e aspirei a fundo a nuvem salvadora, a fragrância adocicada de gasolina mentolada, e então desapareceram o mal-estar e as premonições e elevei-me à glória, leve, grácil, como um pássaro no vento.

   Durante um breve momento senti-me eufórica, invencível, e de seguida aterrei com estrondo na penumbra do quarto. Outra passa no tubo de vidro, e mais outra. Onde estava Freddy? Porque me tinha abandonado sem se despedir, sem uma explicação? Restava-me algum dinheiro e saí com um andar vacilante para comprar outra garrafa, e a seguir regressei para me fechar na minha guarida.

   Entre o álcool e o crack, flutuei à deriva durante dois dias sem dormir nem comer nem me lavar, suja de vómito, porque não conseguia chegar à casa de banho. Quando se acabaram o álcool e a droga, esvaziei o conteúdo da minha carteira e encontrei uma dosezinha de cocaína, que snifei de imediato, e um frasco com três comprimidos para dormir, que propus a mim mesma racionar. Tomei dois e, como nao fizeram o menor efeito, tomei o terceiro. Não sei se dormi ou se estive inconsciente, o relógio marcava números que nada significavam. Que dia era? Onde estava? Não fazia a menor ideia. Abria os olhos, sufocava, o meu coração era uma bomba-relógio, tiquetaque, tiquetaque, cada vez mais rápido, sentia descargas elétricas, sacudidelas, estertores, e depois o vazio.

   Fui despertada por novas pancadas na porta e gritos perentórios, desta vez do diretor do hotel. Enterrei a cabeça debaixo das almofadas clamando por algum alívio, só uma baforada mais do fumo bendito, só um gole mais de qualquei coisa. Dois homens forçaram a porta e

irromperam no quarto a praguejar, ameaçando-me. Estacaram diante do espetáculo de uma Iouca, espavorida, agitada, balbuciando incoerências naquele quarto transformado numa pocilga fétida, mas tinham visto de tudo naquele motel decadente e adivinharam do que se tratava. Obrigaram-me a vestir, levantaram-me pelos braços, arrastaram-me pelas escadas abaixo e empurraram-me para a rua. Confiscaram os meus únicos pertences de valor, a mala de marca e os óculos de sol, mas tiveram a consideração de me dar a carta de condução e a carteira, com os dois dólares e quarenta cêntimos que me restavam.

   No exterior fazia um calor de incêndio e o asfalto meio derretido queimava-me os pés através das sapatilhas, mas nada me importava, a minha única obsessão era conseguir algo para acalmar a angústia e o medo. Não tinha para onde ir nem a quem pedir ajuda. Lembrei-me de que prometera telefonar ao irmão de Brandon Leeman, mas isso podia esperar, e também me lembrei dos tesouros que havia no edifício onde tinha vivido aqueles meses, pilhas de pós magníficos, cristais preciosos, comprimidos prodigiosos, que eu separava, pesava, contava e colocava cuidadosamente em saquinhos de plástico, ali até o mais. miserável podia dispor do seu pedaço de céu, por breve que fosse. Como não havia de conseguir algo nas cavernas das garagens, nos cemitérios do primeiro e do segundo andar, como não ia encontrar alguém que me desse alguma coisa, pelo amor de Deus? No entanto, com a escassa lucidez que me restava, recordei que aproximar-me daquele bairro equivalia a um suicídio.

   Pensa, Maya, pensa, repetia em voz alta, como fazia com frequência nos últimos meses. Há drogas por todo o lado nesta cidade lixada, é só procurar, exclamava, passeando-me em frente do motel como um coiote faminto, até que a necessidade me desanuviou a mente e consegui pensar. Expulsa do motel onde Freddy me tinha deixado, caminhei até um posto de gasolina, pedi a chave da casa de banho e lavei-me um pouco. A seguir, consegui boleia com um motorista, que me deixou a alguns quarteirões do ginásio. Tinha a chave do meu cacifo no bolso das calças.

     Deixei-me ficar perto da porta, esperando a oportunidade de entrar sem chamar a atenção, e quando vi aproximarem-se três pessoas a conversar, juntei-me ao grupo dissimuladamente. Atravessei o átrio da receção e, ao chegar à escada, deparei-me com um dos funcionários, que hesitou antes de me cumprimentar, estranhando a cor da meu cabelo. Nunca falava com ninguém no ginásio e imagino que devia ter reputação de arrogante ou de estúpida, mas havia membros que me conheciam de vista e vários empregados sabiam o meu nome. Subi a correr para os vestiários e esvaziei o conteúdo do meu cacifo no chão tão freneticamente que uma mulher me perguntou se perdera alguma coisa. Soltei uma fiada de pragas, porque não encontrei nada com que me pudesse drogar, enquanto a mulher me observava pelo espelho sem disfarçar.

   - Está a olhar para onde?! - gritei-lhe, e então vi-me no espelho como ela me via, e não reconheci aquela lunática de olhos avermelhados, pele manchada e um animal negro no topo da cabeça.

   Enfiei as coisas de qualquer maneira no cacifo, atirei para o lixo a minha roupa suja e o telemóvel, que Brandon Leeman me dera e cujo número os assassinos conheciam, tomei um duche e lavei o cabelo apressadamente, pensando que podia vender a outra carteira de marca, que estava ainda em meu poder, o que me daria o suficiente para comprar drogas durante vários dias. Vesti o vestido negro, coloquei uma muda de roupa num saco de plástico, mas não me tentei maquilhar, porque tremia dos pés à cabeça e as mãos mal me obedeciam.

   A mulher continuava ali, enrolada numa toalha, com o secador de cabelo na mão, apesar de ter os cabelos secos, a espiar-me, avaliando se devia chamar os seguranças. Ensaiei um sorriso e perguntei-lhe se queria comprar a minha mala, disse-lhe que era uma Louis Vuitton autêntica e estava quase nova, tinham-me roubado a carteira e precisava de dinheiro para regressar à Califórnia. O rosto da mulher desfigurou-se com um trejeito de desprezo, mas aproximou-se para examinar a carteira, vencida pela ganância, e ofereceu-me cem dólares. Fiz-lhe um gesto obsceno com o dedo e saí dali com pressa.

   Não cheguei longe. Da escada tinha uma vista completa da receção e, através da porta de vidro, distingui o carro de Joe Martin e do Chinês. Era possível que se instalassem ali todos os dias, sabendo que, mais tarde ou mais cedo, eu viria ao clube, ou então um delator avisara-os da minha chegada, e neste caso naquele preciso momento um deles devia estar à minha procura dentro do edifício.

   Consegui encer o pânico, que me gelou por um instante, e recuei em direção ao spa, que ocupava uma ala do edifício, com o seu Buda, pratos de pétalas, música de pássaros, cheiro a baunilha e jarros de água com rodelas de pepino. Os massagistas de ambos os sexos diferenciavam-se por batas de cor turquesa, o resto do pessoal compunha-se de raparigas quase idênticas, que envergavam batas rosadas. Como conhecia as rotinas do spa, porque este era um dos luxos que Brandon Leeman me autorizava, pude deslizar pelo corredor sem ser vista e entrar num dos cubículos. Fechei a porta e acendi a luz indicando que estava ocupado. Ninguém incomodava quando a luz vermelha estava acesa. Sobre uma mesa havia um aquecedor de água com folhas de eucalipto, pedras planas para as massagens e vários frascos com produtos de beleza. Rejeitei os cremes e bebi uma garrafa de loção em três goles, mas se continha álcool era mínimo e não me aliviou.

   No cubículo estava a salvo, pelo menos durante uma hora, o tempo normal de um tratamento, mas depressa a angústia começou a dominar-me naquele espaço fechado, sem janelas, com uma única saída e aquele penetrante odor a dentista que me revolvia as entranhas. Não podia ficar ali. Por cima da minha roupa, vesti o roupão que se encontrava sobre a mesa de massagens e enrolei uma toalha como um turbante na cabeça, espalhei na cara uma camada grossa de creme branco e espreitei para o corredor. O meu coração deu um salto: Joe Martin estava a falar com uma das empregadas de bata rosada.

   O impulso de fugir a correr era insuportável, mas forcei-me a afastar-me pelo corredor com a maior calma possível. Procurava a saída do pessoal, que não devia estar longe. Passei diante de vários cubículos fechados, até que deparei com uma porta mais larga; empurrei-a e vi-me na escada de serviço. O ambiente ali era muito diferente do amável universo do spa, com um chão de ladrilhos, paredes de cimento por pintar, luz crua, um cheiro inconfundível a tabaco e vozes femininas na passagem do piso inferior. Esperei uma eternidade encostada à parede, sem poder avançar nem voltar para o spa, e por fim as mulheres acabaram de fumar e foram embora. Limpei o creme da cara, deixei a toalha e o roupão num canto e desci aos interstícios do edifício, que os membros do clube nunca viam. Abri uma porta ao acaso e encontrei- me numa sala grande, atravessada por tubagens de água e ar, onde trovejavam maquinas de lavar e de secar. A saída não dava para a rua, como eu esperava, mas para a piscina.

   Voltei para trás e encolhi-me num canto, oculta por um monte de toalhas usadas, no ruído e no calor insuportáveis da lavandaria. Não me podia mover até que Joe Martin se desse por vencido e partisse. Os minutos passavam naquele submarino ensurdecedor e o temor dominante de cair nas mãos de Joe Martin foi substituído pela urgência de me drogar. Não tinha comido nada em vários dias, estava desidratada, tinha um remoinho na cabeça e cãibras no estômago. As mãos e os pés adormeceram-me, via vertiginosas espirais de pontinhos coloridos, como num pesadelo de LSD. Perdi consciência do tempo, podem ter passado uma hora ou várias, não sei se dormi ou se, de tempos a tempos, desmaiava. Suponho que entraram e saíram empregados para lavar roupa, mas não me descobriram. Por fim, saí a rastejar para fora do meu esconderijo e, com um esforço enorme, pus-me de pé e comecei a andar com pernas de chumbo, apoiando-me na parede, maldisposta.

   Lá fora ainda era de dia, deviam ser seis ou sete da tarde, e a pisei na estava cheia de gente. Era a hora mais concorrida do clube, quando chegavam em massa os empregados de escritório. Era também a hora em que Joe Martin e o Chinês deviam preparar-se para as suas atividades noturnas e o mais provável era que tivessem ido embora. Deixei-me cair numa das cadeiras reclináveis aspirando a baforada de cloro que emanava da água, sem me atrever a um mergulho, porque devia estar pronta para correr em caso de necessidade. Pedi um batido de fruta a um empregado de mesa, praguejando entredentes, porque apenas serviam bebidas saudáveis, nada de álcool, e pu-lo na minha conta. Bebi dois goles daquele líquido espesso, mas pareceu-me nojento e tive de o pôr de lado. Era inútil continuar a perder tempo e decidi arriscar-me a passar em frente da receção, com a esperança de que o delator que avisara aqueles homens perversos já não estivesse ao serviço. Tive sorte e saí sem problemas.

   Para alcançar a rua tinha de atravessar o parque de estacionamento, que àquela hora estava cheia de carros. Vi ao longe um membro do clube, um quarentão em boa forma, a meter a sua mochila na mala, e aproximei- me. vermelha de humilhação, perguntando-lhe se tinha tempo para me convidar para tomar um copo. Não sei de onde tirei coragem. Surpreendido perante aquele ataque frontal, o homem demorou-se um momento a classificar-me. Se me tinha visto antes, não me reconheceu, e eu não encaixava na sua ideia de prostituta. Examinou-me de cima abaixo, encolheu os ombros, entrou no carro e foi-se embora.

     Eu tinha cometido muitas imprudências na minha curta existência, mas até àquele momento nunca me degradara daquela maneira. O que sucedera com Fedgewick foi sequestro e violação, acontecera-me por ser incauta e não por ser descarada. Isto era diferente e tinha um nome, que me negava a pronunciar. Em breve reparei noutro homem, de cinquenta ou sessenta anos, barriga, calças curtas, pernas brancas com veias azuis, que caminhava em direção ao carro, e segui-o. Desta vez tive mais sorte... Ou menos sorte, não sei. Se este também me tivesse recusado, talvez a minha vida não se tivesse entortado tanto.

   Sinto náuseas ao pensar em Las Vegas. Manuel lembra-me que tudo aquilo me aconteceu há apenas alguns meses e ainda está fresco na minha memória, assegurando-me que o tempo ajuda a curar e um dia falarei com ironia destes episódios da minha vida. É o que diz, mas no seu caso não é assim, porque nunca fala do seu passado. Eu pensava ter assumido os meus erros? estava até um pouco orgulhosa deles, porque me tornaram mais forte, mas agora que conheço Daniel gostaria de ter um passado menos interessante para poder apresentar-me diante ele com dignidade. Aquela rapariga que intercetou um homem barrigudo de pernas varicosas no estacionamento do clube era eu aquela rapariga disposta a entregar o corpo por um trago de álcool era eu, mas agora sou outra. Aqui, em Chiloé, tenho uma segunda oportunidade, tenho mil oportunidades mais, mas às vezes não posso calar voz da consciência, que me acusa.

   Aquele velho de calções foi o primeiro de vários homens que me mantiveram à tona por um par de semanas, até que não consegui fazer mais aquilo. Vender-me daquela maneira foi pior que passar fome pior que o suplício da abstinência. Nunca, nem ébria nem drogada pude escapar do sentimento de profunda degradação, tive sempre o meu avô a olhar-me, sofrendo por mim. Os homens aproveitavam da minha timidez e da minha falta de experiência. Comparada c outras mulheres que faziam o mesmo, eu era jovem e de bom aspeto, podia ter-me governado melhor, mas vendia-me por uns goles, uma pitada de pó branco, um punhado de pedrinhas amarelas. Os mais decentes permitiram-me beber sofregamente num bar, ou ofereceram-me cocaína antes de me levarem para um quarto de hotel; outros limitaram-se a comprar uma garrafa de álcool reles e a levar-me para o carro. Alguns deram-me dez ou vinte dólares, outros atiraram-me para a rua sem nada, eu ignorava que se deve receber antes e quando aprendi já não estava disposta a continuar naquela vida.

   Com um «cliente» provei por fim a heroína, direta à veia, e amaldiçoei Brandon Leeman por me ter impedido de partilhar o seu paraíso. É impossível descrever aquele instante em que o líquido divino entra no sangue. Tratei de vender o pouco que tinha, mas não houve interessados, só obtive sessenta dólares pela carteira de marca, depois de muito implorar a uma vietnamita na porta de um cabeleireiro. Valia vinte vezes mais, mas ter-lha-ia dado por metade, tal era a minha urgência.

     Não tinha esquecido o número de telefone de Adam Trevor, nem a promessa que fizera a Brandon de o contactar se algo lhe sucedesse, mas não o fiz, porque pensava ir a Beatty e apropriar-me da fortuna que estava naqueles sacos. Mas este plano requeria estratégia e uma lucidez que me faltavam por completo.

     Dizem que ao fim de uns meses a viver na rua se acaba definitivamente marginalizado, porque se adquirem traços de indigente, perdemos a identidade e a rede social. No meu caso foi mais rápido, bastaram três semanas para ir ao fundo. Submergi-me com uma pavorosa rapidez nesta dimensão miserável, violenta, sórdida, que existe paralela à vida normal de uma cidade, um mundo de delinquentes e das suas vítimas, de loucos e de toxicodependentes, um mundo sem solidariedade ou compaixão, onde se sobrevive pisando os outros. Estava sempre drogada ou à procura de meios para o estar, suja, malcheirosa e desgrenhada, cada vez mais enlouquecida e doente. Mal suportava duas dentadas de munida no estômago, tossia e fungava constantemente, custava-me a abrir as pálpebras, coladas de pus, por vezes desmaiava. Várias marcas de agulhas infetaram, tinha chagas e hematomas nos braços. Passava as noites a caminhar de um lado para o outro, era mais seguro que dormir, e durante o dia procurava abrigos para me esconder e descansar.

   Aprendi que os lugares mais seguros eram à vista de todos, mendigando com um copo de papel na rua à entrada de um centro comercial ou de uma igreja, o que disparava o sentido de culpa dos transeuntes. Alguns deixavam cair algumas moedas, mas ninguém falava comigo, a pobreza de hoje é como a lepra de antes, repugna e dá medo.

   Evitava aproximar-me dos sítios por onde antes tinha andado, como o Boulevard, porque eram também os territórios de Joe Martin e do Chinês. Os mendigos e os viciados marcam o seu território, como os animais, e limitam-se a um raio de poucos quarteirões, mas o desespero fazia-me explorar diferentes bairros, sem respeitar as barreiras raciais de negros com negros, latinos com latinos, asiáticos com asiáticos, brancos com brancos. Nunca permanecia mais de algumas horas na mesma área. Era incapaz de cumprir as tarefas mais elementares, como alimentar-me ou lavar-me, mas lá arranjava forma de conseguir álcool e drogas. Estava sempre alerta, era uma raposa perseguida, mexia-me rapidamente, não falava com ninguém, tinha inimigos em cada esquina.

   Comecei a ouvir vozes e às vezes surpreendia-me respondendo-lhes, apesar de saber que não eram reais, porque tinha visto os sintomas em vários habitantes do prédio de Brandon Leeman. Freddy chamava-lhes «os seres invisíveis» e gozava com eles, mas quando ficava mal aqueles seres ganhavam vida, como os insetos, também invisíveis, que costumavam atormentá-lo. Se vislumbrava um veículo negro como o dos meus perseguidores, ou alguém de aspeto conhe- cido, escapava-me na direção contrária, mas não perdia a esperança de voltar a ver Freddy. Pensava nele com uma mistura de agradecimento e rancor, sem entender porque tinha desaparecido, porque não era capaz de encontrar-me se conhecia cada canto da cidade.

   As drogas adormeciam a fome e as múltiplas dores do corpo, mas não acalmavam as cãibras. Pesavam-me os ossos e sentia a pele picar pela sujidade, e apareceu-me uma estranha erupção nas pernas e na costas, que sangrava de tanto a coçar. De repente, lembrava-me de que não tinha comido nada em dois ou três dias, e então ia a arrastar os pés até um abrigo de mulheres ou à fila de pobres da instituição de São Vicente de Paulo, onde era sempre possível obter um prato de comida quente.

   Muito mais difícil era encontrar onde dormir. Durante a noite, a temperatura mantinha-se nos vinte graus, mas como estava num estado muito debilitado, passei muito frio até me darem um casaco no Exército de Salvação. Esta generosa organização revelou-se um valioso recurso: não tinha de andar com sacos num carrinho roubado do supermercado, como outros desamparados, porque, quando a minha roupa fedia demasiado ou me começava a ficar grande, trocava-a por outra no Exército de Salvação.

   Tinha emagrecido vários tamanhos de roupa, tinha os ossos salientes nas clavículas e nas ancas e as minhas pernas, antes tão fortes, metiam dó. Não tive oportunidade de me pesar até dezembro, e então descobri que tinha perdido treze quilos em dois meses. As casas de banho públicas eram antros de delinquentes e pervertidos, mas não tinha outro remédio senão tapar o nariz e usá-las, já que as de uma loja ou de um hotel estavam fora do meu alcance, ter-me-iam expulsado dali aos empurrões. Também não tinha acesso às casas de banho das estações de serviço, porque os empregados negavam-se a emprestar-me a chave. E, deste modo, fui descendo com rapidez os degraus do inferno, como tantos outros seres abjetos que sobreviviam na rua mendigando e roubando por um punhado de crack, um pouco de metadona ou de ácido, um gole de algo forte, áspero, brutal. Quanto mais barato o álcool, mais eficaz, exatamente aquilo de que eu precisava. Passei outubro e novembro da mesma forma, não consigo recordar com clareza como sobrevivia, mas lembro-me bem dos breves instantes de euforia e, depois, da caçada indigna para obter outra dose.

   Nunca me sentei numa mesa, se tinha dinheiro comprava tacos, burritos ou hambúrgueres, que a seguir vomitava sacudida por arcadas intermináveis, de joelhos na rua, com o estômago em chamas, a boca rebentada, chagas nos lábios e no nariz, nada limpo nem amável, lixo, vidro partido, baratas, cacos, nem um só rosto na multidão que me sorrisse, nem uma só mão que ajudasse, o mundo inteiro estava povoado de traficantes, agarrados, chulos, ladrões, criminosos, putas e loucos. Doía- me o corpo inteiro. Odiava aquele corpo lixado, odiava aquela vida lixada, odiava não ter a vontade lixada de me salvar, odiava a minha alna lixada, o meu destino lixado.

Em Las Vegas, passei dias completos sem cumprimentar ninguém, sem receber uma palavra ou um gesto de outro ser humano. A solidão, aquela garra gelada no peito, venceu-me de tal forma que não me ocorreu a solução simples de pegar num telefone e telefonar para a minha casa em Berkeley. Teria bastado isso, um telefonema; mas por essa altura eu tinha perdido a esperança.

     Ao princípio, quando ainda podia correr, rondava os cafés e restaurantes com mesas ao ar livre, onde se sentam os fumadores, e se alguém deixava um maço de cigarros sobre a mesa, eu passava a correr e levava-o, porque podia trocá-lo por crack. Usei todas as substâncias tóxicas que existem na rua, exceto tabaco, apesar de gostar do cheiro, porque me lembrava o meu Popo. Também roubava fruta dos supermercados ou chocolates dos quiosques da estação, mas tal como não fui capaz de dominar o triste ofício de puta, também não consegui aprender a roubar. Freddy era especialista, tinha começado a roubar quando ainda usava fraldas, dizia, e fez-me várias demonstrações com a finalidade de me ensinar os seus truques. Explicava-me que as. mulheres são muito descuidadas com as suas carteiras, penduram-nas nas cadeiras, largam-nas nas lojas enquanto escolhem ou experimentam a roupa, deixam-nas no chão no cabeleireiro, põem-nas ao ombro nos autocarros, é o mesmo que dizer, andam a pedir que alguém as livre do problema. Freddy tinha mãos invisíveis, dedos mágicos e graça sigilosa de uma chita.

     - Concentra-te bem, Laura, não tires os olhos de mim - desafiava-me.

     Entrávamos num centro comercial, Freddy estudava as pessoas procura da sua vítima, passeava-se com o telemóvel na orelha fingindo-se absorto numa conversa aos gritos, aproximava-se de um mulher distraída, tirava-lhe a carteira da mala antes que eu chegasse vê-lo e afastava-se com calma, sempre a falar ao telefone.

Com a mesma elegância conseguia violar a fechadura de qualquer carro ou entrar numa loja de departamento e sair passados cinco minutos por outra porta com um par de perfumes ou relógios. Tratei de aplicar as lições de freddy, mas carecia de naturalidade, falhavam- me os nervos e o meu aspeto miserável tornava-me suspeita. Nas lojas vigiavam-me e, na rua, as pessoas afastavam-se de mim, cheirava a sarjeta, tinha o cabelo oleoso e uma expressão desesperada.

     Em meados de outubro, o tempo mudou, começou a ficar frio à noite e eu estava doente, urinava a cada momento com uma dor aguda e ardente, que desaparecia somente sob o efeito de drogas. Era cistite. Reconheci a doença porque a tinha tido uma vez antes, aos dezasseeis anos, e sabia que se cura rapidamente com um antibiótico, mas um antibiótico sem receita médica é mais difícil de obter nos Estados Unidos que um quilo de cocaína ou uma metralhadora automática. Custava-me a andar, sentar, mas não me atrevi a ir à Urgência do hospital, porque me fariam perguntas e havia sempre polícias de guarda.

     Tinha de encontrar um sítio seguro para passar as noites e decidi experimentar um albergue para indigentes, que se revelou uma espécie de pequeno armazém mal arejado com apertadas filas de catres de campanha, onde havia umas vinte mulheres e muitas crianças. Fiquei admirada por muito poucas daquelas mulheres estarem resignadas à miséria, como eu. Apenas umas quantas falavam sozinhas como os malucos ou procuravam arranjar confusões, as restantes pareciam bastante sólidas. As que tinham crianças eram mais decididas, ativas, limpas e até alegres, atarefavam-se com os seus filhos, preparavam biberões, lavavam roupa; vi uma a ler um livro do Dr. Seuss a uma menina de uns quatro anos, que o sabia de memória e o recitava acompanhando a mãe. Nem todas as pessoas que vivem na rua são esquizofrênicas ou delinquentes, como se costuma pensar; são simplesmente pobres, velhos ou desempregados, a maioria são mulheres com filhos que foram abandonadas ou estão a fugir de diversas formas de violência. Na parede do albergue havia um cartaz com uma frase que me ficou gravada na cabeça para sempre: «A vida sem dignidade não vale a pena.» Dignidade?

     Compreendi de súbito, com aterradora certeza, que me tinha transformado numa drogada e numa alcoólica. Suponho que me restava um resquício de dignidade enterrada entre as cinzas, suficiente para sentir uma perturbação tão violenta como um murro no peito. Vesti-me a chorar diante do cartaz, e deve ter sido muito o meu desconsolo, porque depressa se aproximou de mim uma das conselheiras, que me conduziu ao seu pequeno escritório, me deu um copo de chá frio e me perguntou amavelmente o meu nome, o que estava a tomar, com que frequência, quando fora a última vez, se tinha recebido tratamento, se podíamos avisar alguém.

     Eu sabia de memória o número de telefone da minha avó, disso não me tinha esquecido, mas ligar-lhe significava matá-la de dor e constrangimento, e para mim também significava reabilitação forçada e abstinência. Nem pensar.

     - Tens família? - insistiu em perguntar-me a conselheira.

     Explodi de fúria, como me acontecia frequentemente, e respondi-lhe com palavrões. Ela deixou-me descarregar a ira, sem perder a calma, e depois autorizou-me a ficar aquela noite no albergue, violando o regulamento, porque uma condição para ser aceite era não estar a usar álcool ou drogas.

     Havia sumo de fruta, leite e bolachas para as crianças, café e chá a toda a hora, casas de banho, telefone e máquinas de lavar, inúteis para mim, porque só tinha a roupa que vestia, tinha perdido o saco de plástico com os meus poucos pertences. Tomei um duche muito longo, o primeiro em várias semanas, saboreando o prazer da água quente na pele, o sabonete, a espuma no cabelo, o cheiro delicioso do champô. Depois tive de vestir a mesma roupa hedionda. Enrosquei-me no meu catre, chamando num murmúrio pela minha Nini e pelo meu Pop implorando-lhes que viessem pegar-me ao colo, como antes, dizer-me que tudo ia ficar bem, que não me preocupasse, eles velavam por mim nana minha menina, dorme meu sol, adormece pedaço do meu coração. Dormir sempre foi o meu problema, desde que nasci, mas consegui descansar, apesar do ar rarefeito e do ressonar das mulheres. Algumas gritavam em sonhos.

     Perto da minha cama, tinha-se instalado uma mãe com duas crianças, um bebé de peito e uma menina lindíssima de dois ou três anos. Era uma jovem branca, sardenta, gorda, que aparentemente ficara sem teto há pouco tempo, porque ainda parecia ter um propósito, um plano. Ao cruzarmo-nos na casa de banho, tinha -me sorrido e a menina ficara a olhar para mim com os seus redondos olhos azuis e tinha-me me perguntado se eu tinha um cão.

   - Antes eu tinha um cãozinho, chamava-se Toni - disse-me. Quando a mulher mudou a fralda ao bebé, reparei numa nota de cinco dólares num compartimento da sua mala e já não consegui tirá-la do pensamento. Ao amanhecer, quando por fim havia silêncio no dormitório e a mulher dormia em paz abraçada aos seus filhos, deslizei até à sua cama, revistei o bolso da mala e roubei-lhe a nota. Depois regressei à minha cama agachada, com a cauda entre as pernas, como uma cadela.

     De todos os erros e pecados cometidos na minha vida, este é o que menos poderei desculpar. Roubei a alguém mais necessitado que eu, a uma mãe que teria empregado aquela nota na compra de comida para os filhos. Isto não tem perdão. Sem decência, as pessoas desmoronam-se, perdem a humanidade, a alma.

   Às oito da manhã, depois de um café e um bolo, a mesma conselheira que me tinha atendido ao chegar deu-me um papel com os dados de um centro de reabilitação.

   - Fala com a Michelle, é minha irmã, vai-te ajudar - disse-me. Saí para a rua sem lhe agradecer e atirei o papel para um caixote do lixo. Os benditos cinco dólares chegavam-me para uma dose de algo barato e eficaz. Não precisava da compaixão de Michelle nenhuma.

   Nesse mesmo dia, perdi a foto do meu Popo, que a minha Nini me tinha dado na academia do Oregon e que trazia sempre comigo. Pareceu-me um sinal aterrador, significava que o meu avô me tinha visto roubar aqueles cinco dólares, que estava chocado, que se tinha ido embora e já ninguém velava por mim. Medo, angústia, esconder-me, fugir, mendigar, tudo fundido num só pesadelo, dias e noites Iguais.

   Às vezes, assalta-me a recordação de uma cena desse tempo na rua que surge diante de mim num piscar de olhos e me deixa trémula. Outras vezes, desperto a suar com imagens na cabeça, tão vívidas como se fossem reais. No sonho vejo-me a correr nua, gritando sem num labirinto de vielas estreitas que serpenteiam como cobras, edifícios com portas e janelas vedadas, nem uma alma a quem pedir socorro, o corpo a arder, os pés a sangrar, um sabor a bílis na boca, sozinha. Em las Vegas pensava- me condenada a uma solidão irremediável que tinha começado com a morte do meu avô. Como havia de imaginar então que um dia estaria aqui, incomunicável, escondida, entre estranhos e muito longe de tudo o que me é familiar, sem me sentir sozinha.

     Quando tinha acabado de conhecer Daniel, queria causar-lhe boa impressão, apagar o meu passado e começar de novo numa folha em branco, inventar uma versão melhor de mim mesma, mas na intimidade do amor partilhado entendi que isto não é possível nem conveniente. A pessoa que sou é o resultado das minhas vivências anteriores, incluindo os erros drásticos. Confessar-me com ele foi uma boa experiência, confirmei a verdade das afirmações de Mike 0'Kelly, que os demónios perdem o seu poder quando os arrancamos das profundezas onde se escondem e os olhamos de frente em plena luz, mas agora não sei se deveria tê-lo feito. Creio que assustei Daniel e por isso não me responde com a mesma paixão que sinto, seguramente desconfia de mim, é natural. Uma história como a minha seria capaz de amedrontar o mais corajoso.

   Também é verdade que ele próprio provocava as minhas confidências, foi muito fácil contar-lhe até os episódios mais humilhantes, porque me ouvia sem me julgar, imagino que isto será parte do seu treino. Não é isto tudo o que os psiquiatras fazem? Ouvir e calar-se. Nunca me perguntou o que aconteceu, perguntava-me o que sentia neste momento, ao contá-lo, e eu descrevia-lhe o ardor na pele, as palpitações no peito, o peso de um rochedo a esmagar-me. Pedia-me que não recusasse essas sensações, que as admitisse sem analisá-las, porque se tivesse a coragem de o fazer ir-se-iam abrindo como caixas e o meu espírito poderia libertar-se.

   - Sofreste muito, Maya, não apenas pelo que te aconteceu na adolescência, mas também pelo abandono da infância - disse-me.

   - Abandono? De abandono, não houve nada, garanto-te. Não imaginas como os meus avós me davam atenção.

   - Sim, mas a tua mãe e o teu pai abandonaram-te.

   - Era isso que diziam os terapeutas do Oregon, mas os meus avôs…

   - Algum dia terás de analisar isso numa terapia...   interrompeu- me Daniel.

           - Vocês, os psiquiatras, resolvem tudo com terapia!

   - É inútil deitar terra nas feridas psicológicas, é preciso arejá-las para cicatrizarem.

   - Fartei-me de terapia no Oregon, Daniel, mas se é disso que preciso, podias ajudar-me.

   A sua resposta foi mais razoável que romântica, disse que isso seria um projeto a longo prazo e que teria de partir em breve, para além disso na relação do paciente com o seu terapeuta não pode haver sexo.

   - Então vou pedir ao meu Popo que me ajude.

   - Boa ideia - disse, e riu-se.

   No tempo desgraçado de Las Vegas, o meu Popo veio ver-me uma vez só. Eu tinha conseguido uma heroína tão barata que devia ter suspeitado de que não era segura. Sabia de toxicodependentes que tinham morrido envenenados pelas porcarias com que às vezes cortam a droga, mas estava muito necessitada e não pude resistir. Snifei-a numa casa de banho pública asquerosa. Não tinha uma seringa para a injetar, talvez isso me tenha salvado. Mal inalei, senti patadas de mula nas têmporas, o coração abriu-se-me e, em menos de um minuto, vi-me envolta num manto negro, sufocada, sem puder respirar. Caí no chão, nos quarenta centímetros entre a retrete e a parede, sobre papéis usados, numa névoa de amoníaco.

   Compreendi vagamente que estava a morrer e, longe de me assustar, invadiu-me um grande alívio. Flutuava em água negra, cada vez mais fundo, mais solta, como num sonho, contente por cair suavemente para o fundo daquele abismo líquido e pôr fim à vergonha, por me ir, ir-me para o outro lado, escapar da farsa que era a minha vida, das minhas mentiras e justificações, daquele ser indigno, desonesto e cobarde que era eu mesma, aquele ser que culpava o meu pai, a minha avó e o resto de universo pela minha própria estupidez, aquela infeliz que aos dezanove anos acabados de fazer já tinha queimado todas as pontes e estava arruinada, aprisionada, perdida, aquele esqueleto com a pele coberta de manchas e cheia de piolhos em que me transformara, aquela miserável que se deitava com alguém por um trago, que roubava a uma mãe indigente. Desejava apenas escapar para sempre de Joe Martin e do Chinês, do meu corpo, da minha existência de merda.

   Então, quando já me estava a ir, escutei desde muito longe os gritos de Maya, Maya, respira! Respira! Respira! Vacilei um bom bocado, confusa, desejando perder os sentidos de novo para não ter de tomar uma decisão, tentando soltar-me e partir como uma flecha para o nada, mas estava amarrada a este mundo por aquele vozeirão categórico que me chamava. Respira, Maya! Instintivamente, abri a boca, engoli ar e comecei a inalar em suspiros curtos de moribunda. Pouco a pouco, com uma pasmosa lentidão, regressei do último sono. Não havia ninguém comigo, mas no espaço de um palmo entre a porta da casa de banho e o chão consegui ver uns sapatos de homem do outro lado e reconheci-os. Popo? És tu, Popo? Não houve resposta. Os mocassins ingleses permaneceram no mesmo sítio um instante e depois afastaram-se sem ruído. Fiquei ali sentada, respirando de maneira entrecortada, com espasmos nas pernas, que não me obedeciam, chamando por ele, Popo, Popo.

   Daniel não estranhou de todo que o meu avô me tivesse visitado e não tentava dar-me uma explicação racional para o que se tinha passado, como faria qualquer um dos muitos psiquiatras que tinha conhecido. Nem sequer me brindou com um daqueles olhares trocistas que Manuel Arias costuma lançar-me quando fico esotérica, como ele diz. Como poderia não estar apaixonada por Daniel, que para além de belo é sensível? Sobretudo, é belo. Parece-se com o David de Miguel Ângelo, mas tem uma cor muito mais atraente. Em Florença, os meus avós compraram uma réplica em miniatura da estátua. Na loja, ofereceram-lhes um David com uma folha de figueira, mas a mim o que mais me agradava eram os seus genitais. Ainda não tinha visto esta parte num verdadeiro ser humano, somente no livro de anatomia do meu Popo. Enfim, distraí-me, regresso a Daniel, que acha que metade dos problemas do mundo se resolveria se cada um de nós tivesse um Popo incondicional, em vez de um superego exigente, porque as melhores virtudes florescem com o carinho.

   A vida de Daniel Goodrich foi regalada em comparação com a minha, mas também ele teve os seus desgostos. É um tipo sério nos seus propósitos, que sabia desde jovem qual iria sei o seu caminho, ao contrário de mim, que ando à deriva. À primeira vista, engana com a sua atitude de rapazinho rico e o seu sorriso demasiado fácil, o sorriso de alguém satisfeito consigo mesmo e com o mundo. Este ar de eterno contentamento é estranho, porque durante os seus estudos de Medicina, o seu internato em hospitais e as suas viagens, a pé e de mochila às costas, deve ter presenciado muita pobreza e sofrimento. Se não tivesse dormido com ele, pensaria que é outro aspirante a Siddhartha, outro tipo desligado das suas emoções, como Manuel.

     A história dos Goodrich dava um romance. Daniel sabe que o seu pai biológico era negro e a mãe branca, mas não os conhece e nunca teve interesse em procurá-los, porque adora a família que o criou. Robert Goodrich, o seu pai adotivo, é inglês, daqueles com o título de Sir, apesar de não o usar, pois nos Estados Unidos seria motivo de troça. Como prova, existe uma fotografia a cores em que aparece a cumprimentar a Rainha Isabel I com uma ostentosa condecoração que pende de uma fita cor de laranja. É um psiquiatra muito reputado, com dois livros publicados, mas o título de Sir não lhe coube pelos méritos científicos, é herança de família: passa sempre para o primogénito varão, o que significa que poderia tocar a Daniel, Deus nos livre, como me disse ele, porque não tem vocação para nobre.

   O Sir inglês casou-se com Alice Wilkins, uma jovem violinista americana de passagem por Londres, mudou-se com ela para os Estados Unidos e o casal instalou-se em Seattle, onde ele abriu a sua própria clínica, enquanto ela entrava para a orquestra sinfónica. Ao saber que Alice não podia ter filhos, depois de muitas hesitações adotaram Daniel. Quatro anos mais tarde, inesperadamente, Alice ficou grávida. Ao princípio pensaram que se tratava de uma gravidez histérica, mas depressa se confirmou que não era o caso e, a seu devido tempo, Alice deu à luz a pequena Frances. Em vez de ficar com ciúmes pela chegada de uma rival, Daniel apegou-se à irmã com um amor absoluto e exclusivo, que mais não fez que aumentar com o tempo e era plenamente correspondido pela menina. Robert e Alice partilhavam o apreço pela música clássica que incutiram aos dois filhos, o gosto pelos cocker spaniel, que sempre tiveram, e os desportos de montanha, que viriam a causar a desgraça de Frances.

     Daniel tinha nove nove anos e a irmã cinco quando os seus pais se separaram e Robert Goodrich foi viver a dez quarteirões de distância com Alfons Zaleski, o pianista da orquestra onde tocava Alice, um polaco talentoso, de maneiras bruscas, com um corpanzil de lenhador, um matagal de cabelo indomável e um humor vulgar, que contrastava notoriamente com a ironia britânica e a finura de Sir Rober Goodrich.

   Daniel e Frances receberam uma explicação poética sobre o vistoso amigo do pai e ficaram com a ideia de que se tratava de um arranjo temporário, mas passaram dezanove anos e os dois homens continuam juntos. Entretanto, Alice, promovida a primeiro violino da orquestra, continuou a tocar com Alfons Zaleski como os bons camaradas que na realidade são, porque o polaco nunca tentou tirar-lhe o marido, só partilhá-lo.

     Alice ficou na casa da família com a metade dos móveis e dois dos cocker spaniel, enquanto Robert se instalava no mesmo bairro com o seu apaixonado numa casa similar, com o resto da mobília e o terceiro cão. Daniel e Frances cresceram a ir e vir entre ambos os lares com as malas atrás, uma semana em cada um. Andaram sempre na mesma escola, onde a situação dos pais não chamava a atenção, passavam as épocas festivas e aniversários com ambos e, durante algum tempo, acreditaram que a numerosa família Zaleski, que viajava de Washington e invadia a casa em massa no dia de Ação de Graças, era constituída por acrobatas de circo, porque esta foi uma das muitas histórias inventadas por Alfons para conquistar o afeto das crianças. Poderia ter-se poupado o trabalho, porque Daniel e Frances gostam dele por outros motivos: foi uma mãe para eles. O polaco adora-os, dedica-lhes mais tempo que os verdadeiros pais e é um tipo alegre e bon vivant, que costuma fazer-lhes demonstrações de atléticas danças folclóricas russu em pijama, com a condecoração de Sir Robert ao pescoço.

     Os Goodrich separaram-se sem se incomodarem com um divórcio legal e conseguiram manter a amizade. Estão unidos pelos mesmos interesses que partilhavam antes do aparecimento de Alfons Zaleski exceto o montanhismo, que não tornaram a praticar depois do acidente de Frances.

   Daniel terminou o secundário com boas notas quando acabava de fazer dezassete anos e foi aceite na universidade para estudar Medicina, mas era tão evidente a sua imaturidade que Alfons o convenceu a esperar um ano e, entretanto, ganhar alguma experiência de vida.

   - És um miúdo ranhoso, Daniel, como hás de ser médico se ainda nem aprendeste a assoar o ranho do nariz?

   Apesar da firme oposição de Robert e Alice, o polaco mandou-o para a Guatemala ao abrigo de um programa estudantil para que se fizesse homem e aprendesse espanhol. Daniel viveu nove meses com uma família indígena numa aldeia do lago Atitlan, a cultivar milho e a tecer cordas de sisal, sem mandar notícias, e regressou da cor do petróleo, com o cabelo transformado num arbusto impenetrável, ideias de guerrilheiro e a falar a língua quiché. Depois desta experiência, estudar Medicina pareceu-lhe uma brincadeira de crianças.

   O cordial triângulo formado pelos Goodrich e Zaleski ter-se-ia provavelmente desfeito depois de as duas crianças que tinham criado juntos crescerem, mas a necessidade de cuidar de Frances uniu-os mais que antes. Frances depende por completo deles.

   Há nove anos, Frances Goodrich sofreu uma queda aparatosa quando toda a família, à exceção do polaco, estava a escalar montanhas na Sierra Nevada, quebrou mais ossos do que é possível contar e, ao fim de treze operações complicadas e exercício continuado, mal se pode mexer. Daniel decidiu estudar Medicina ao ver a irmã feita um caco numa cama da Unidade de Cuidados Intensivos e acabou por optar pela Psiquiatria porque ela lhe pediu.

   A jovem esteve mergulhada num coma profundo três longas semanas. Os pais contemplaram a ideia irrevogável de desligar a máquina, porque Frances sofrera uma hemorragia cerebral e, segundo os prognósticos médicos, iria ficar num estado vegetativo, mas Alfons Zaleski não permitiu, porque tinha o forte pressentimento de que Frances estava suspensa num limbo e, se não a soltassem, iria voltar. A família organizava turnos para passar dia e noite no hospital, falando com ela, chamando- a, acariciando-a e, no momento em que Frances por fim abriu os olhos, um sábado ás cinco da manhã, era Daniel que estava com ela. Francês não podia falar, porque fora sujeita a uma traqueotomia, mas Daniel traduziu aquilo que os seus olhos exprimiam e anunciou ao mundo que a sua irmã estava muito feliz por estar viva e mais valia abandonar o plano misericordioso de a ajudar a morrer. Os dois irmãos tinham crescido unidos como se fossem gémeos, conheciam-se um ao outro melhor que a si mesmos e não precisavam de palavras para se entenderem.

   A hemorragia não causou danos ao cérebro de Frances da forma que se temia, apenas lhe provocou uma perda temporária da memória e a rapariga ficou vesga e perdeu a audição num ouvido, mas Daniel apercebeu-se de que algo fundamental tinha mudado. Antes, a irmã era como o pai, racional, lógica, propensa à ciência e à matemática, mas depois do acidente passou a pensar com o coração, segundo me explicou. Daniel diz que Frances é capaz de adivinhar as intenções e os estados de alma das pessoas, é impossível esconder-lhe algo ou enganada e tem premonições tão acertadas que Alfons Zaleski está a treiná-la para adivinhar os números da lotaria. A sua imaginação desenvolveu-se de forma espetacular, assim como a criatividade e a intuição.

   - A mente é muito mais interessante que o corpo, Daniel. Devias ser psiquiatra, como o papá, para descobrires por que motivo tenho tanta vontade de viver e outras pessoas, que estão bem de saúde, se suicidam - disse-lhe Frances, quando voltou a conseguir falar.

   A coragem que antes empregava em desportos arriscados tem servido a Frances para aguentar o sofrimento; jurou que vai recuperar. Por agora, tem a vida inteiramente ocupada entre a reabilitação física, que lhe consome muitas horas todos os dias, a sua assombrosa vida social online e os seus estudos - vai licenciar-se este ano em História da Arte. Vive com a sua curiosa família. Os Goodrich e Zaleski decidiram que seria mais conveniente viverem todos juntos com os cocker spaniel, cujo número aumentou para sete, e mudaram-se para uma casa grande de um só piso, onde Frances se pode deslocar de um lado para o outro na cadeira de rodas com a maior comodidade. Zaleski frequentou vários cursos para ajudar Frances com os seus exercícios e já ninguém se lembra claramente de qual é a relação entre os Goodrich e o pianista polaco. Não importa, são três pessoas boas que se estimam mutuamente e cuidam de uma filha, três pessoas que amam a música, os livros e o teatro, colecionam vinhos e partilham os mesmos cães e os mesmos amigo.

   Frances não é capaz de se pentear ou de escovar os dentes sozinha, mas consegue mover os dedos e mexer no seu computador, e assim se liga à Universidade e ao mundo. Entrámos na Internet e Daniel mostrou-me o Facebook da irmã, onde há várias fotos suas antes e depois do acidente: uma rapariguinha com cara de esquilo, ruiva, cheia de sardas, delicada e alegre. Na sua página tem vários comentários, fotos e vídeos referentes à viagem de Daniel.

   - Frances e eu somos muito diferentes - explicou-me ele. - Eu sou mais sedentário e avesso a confusões, enquanto ela é um barril de pólvora. Em pequena, queria ser exploradora e o seu livro favorito era da autoria de Nunez Cabeza de Vaca, um aventureiro espanhol do século XV. Frances teria gostado de ir aos confins da terra, ao fundo do mar, à Lua. A minha viagem à América do Sul foi ideia dela, era a que ela tinha planeado e não poderá fazer. A minha missão é ver com os seus olhos, escutar com os seus ouvidos e filmar com a sua câmara.

   Temia, e continuo a temer, que Daniel se assuste com as minhas confidências e me rejeite por me achar desequilibrada, mas tive de lhe contar tudo, não se pode construir nada de sólido sobre mentiras e omissões. Na opinião de Blanca, com quem discuti este assunto até a cansar, cada pessoa tem direito aos seus segredos e este meu afã de me mostrar a uma luz menos favorável é uma forma de soberba. Também pensei nisso.

A altivez consistiria em pretender que Daniel gostasse de mim apesar dos meus problemas e do meu passado. A minha Nini dizia que sentimos um amor incondicional pelos filhos e pelos netos, mas não pelo parceiro. Sobre este assunto, Manuel remete-se ao silêncio, mas advertiu-me para a imprudência de me apaixonar por um desconhecido que vive muito longe daqui. Que outro conselho poderia dar-me? Manuel é assim: não corre riscos emocionais, prefere a solidão do seu refúgio, onde se sente seguro.

   Em novembro do ano passado, a minha vida em Las Vegas estava tão fora de controlo, e eu tão doente, que os detalhes se confundem na minha cabeça. Andava vestida de homem, com o capuz do casaco sobre os olhos, a cabeça enfiada entre os ombros, movendo- me rapidamente, sem mostrar a cara. Para descansar, encostava-me a uma parede, e melhor ainda, à esquina entre duas paredes, encolhida, com uma garrafa quebrada na mão, que de pouco me teria servido como defesa. Deixei de pedir comida no albergue para mulheres e comecei a ir ao dos homens, esperava para me pôr no fim da fila, agarrava no meu prato e comia apressadamente num canto. Entre aqueles homens, um olhar direto podia ser interpretado como uma agressão, uma palavra a mais era perigosa, eram seres anónimos, invisíveis, salvo os velhos, que tinham alguns problemas mentais e há anos que iam ali, este era o seu território e ninguém se metia com eles. Eu passava por ser outro rapaz drogado dos muitos que apareciam, arrastados pela maré da miséria humana. Era tal o meu aspeto de vulnerabilidade que, às vezes, alguém que ainda tinha um resquício de compaixão me cumprimentava com um «Olá, companheiro!». Mas eu não respondia, porque a minha voz me teria denunciado.

   O mesmo traficante que me trocava cigarros por crack comprava-me aparelhos eletrônicos, CD, DVD, iPod, telemóveis e videojogos, mas obtê-los não era fácil. Para roubar este tipo de coisas é preciso muito atrevimento e velocidade, que a mim me faltavam. Freddy explicara-me o seu método. Primeiro, deve fazer-se uma visita de reconhecimento para estudar a localização das saídas e das câmaras de segurança; a seguir, esperar que a loja esteja cheia e os empregados ocupados, o que acontece em particular por ocasião dos saldos, dos dias de descanso e a princípio e meados do mês, alturas de pagamento, Isto está muito bem em teoria, mas quando a necessidade é imperiosa não se pode esperar pelas circunstâncias ideais.

   O dia em que o agente Arana me surpreendeu tinha sido de contínuo sofrimento, não tinha conseguido nada e estava há horas com cãibras, tiritando pela abstinência e dobrada de dor devido à cistite, que se tinha agravado e já só se acalmava com heroína ou medicamentos muito

caros no mercado negro. Não podia continuar naquele estado nem mais uma hora e fiz exatamente o contrário do aconselhado por Freddy: entrei desesperada numa loja de artigos eletrônicos que não conheicia, cuja única vantagem era a ausência de um segurança armado na porta como havia noutras, sem me preocupar com os empregados ou as câmaras, procurando a seção de jogos como uma desvairada. A minha atitude e o meu aspeto devem ter chamado a atenção. Encontrei os jogos, agarrei num jogo japonês de guerra, de que Freddy costumava gostar, enfiei-o debaixo da t-shirt e apressei-me a sair. O código de segurança do videojogo fez disparar o alarme com um ruído estrepitoso mal me aproximei da porta.

   Desatei a correr com uma surpreendente energia, dado o estado lamentável em que me encontrava, antes que os empregados conseguissem reagir. Continuei a correr, primeiro pelo meio da rua, desviando-me dos veículos, e depois pelo passeio, afastando as pessoas aos empurrões e com gritos obscenos, até que percebi que ninguém me seguia. Parei, a ofegar, sem fôlego, com uma pontada nos pulmões, uma dor lancinante na cintura e na bexiga, humidade quente de urina entre as pernas, e deixei-me cair sentada sobre o passeio, abraçada à caixa japonesa.

Alguns momentos depois, duas mãos pesadas e firmes agarram-me pelos ombros. Ao voltar-me, dei de caras com uns olhos claros num rosto muito bronzeado. Era o agente Arana, que não reconheci de imediato, porque estava sem uniforme e eu não conseguia focar o olhar, encontrava-me a ponto de perder os sentidos. Pensando bem, é surpreendente que Arana não me tivesse encontrado antes. O mundo de mendigos, pequenos ladrões, prostitutas e toxicodependentes limita-se a certos bairros e ruas que a polícia conhece de sobra e vigia, tal como tem o olho posto nos albergues para indigentes, onde mais tarde ou mais cedo vão parar todos os esfomeados. Vencida, tirei o jogo de vídeo de dentro da t-shirt e entreguei-lho.

   O polícia ergueu-me do chão por um braço e teve de me amparar, porque as minhas pernas dobravam-se.

   - Vem comigo - disse-me, com uma amabilidade maior do que seria de esperar.

     - Por lavor... não me prenda, por favor... - disse eu, aos soluços.

     - Não te vou prendei, tem calma.

     Conduziu- me até vinte metros mais adiante, a La Taquería, um restaurantezinho mexicano, onde os empregados de mesa tentaram impedir- me a entrada ao ver o meu estado miserável, mas cederam quando Arana lhes mostrou a identificação. Desmoronei-me sobre um assento com a cabeça entre as mãos, sacudida por incontroláveis tremores.

     Não sei como Arana me conseguiu reconhecer, tinha-me visto poucas vezes e a ruína que tinha à sua frente não se parecia em nada com a rapariga de aspeto saudável com uma cabeleira de pequenas plumas platinadas, vestida à moda, que conhecia. Apercebeu-se imediatamente de que não era de comida que eu precisava com mais urgência e, auxiliando-me como a uma inválida, levou-me até à casa de banho. Deu uma vista de olhos para se assegurar de que estávamos sozinhos, meteu-me algo na mão e empurrou-me suavemente para dentro, enquanto montava guarda na porta. Pó branco. Assoei o nariz com papel higiénico, ansiosa, apressada, e snifei a droga, que me subiu pela testa como uma faca gelada. Instantaneamente, fui invadida por aquele alívio prodigioso que qualquer agarrado conhece, deixei de tremer e de gemer, desapareceu a névoa que me toldava o raciocínio.

   Molhei a cara e tentei ordenar um pouco o cabelo com os dedos, sem reconhecer no espelho aquele cadáver de olhos avermelhados e gordurosas madeixas de duas cores. Não suportava o meu próprio cheiro, mas era inútil lavar-me se não podia mudar de roupa. No exterior, Arana esperava-me de braços cruzados, encostado à parede.

   - Trago sempre alguma coisa comigo para emergências com estas - disse, e sorriu-me com os seus olhos como pequenas fendas.

     Voltámos para a mesa e o agente ofereceu-me uma cerveja, que me caiu no estômago como água benta, e obrigou-me a comer uns bocados de fajitas de frango antes de me dar dois comprimidos. Devia ser algum analgésico muito forte, porque insistiu em que não os podia tomar de estômago vazio. Em menos de dez minutos, tinha ressuscitado.

   - Quando mataram Brandon Leeman procurei-te por todo o lado para prestares declarações e identificaras o corpo. Era apenas formalidade, porque não havia nenhuma dúvida sobre quem ele era. Foi um típico crime entre traficantes - disse-me.

   - Sabe-se quem o matou, agente?

   - Temos uma ideia, mas faltam provas. Deram lhe onze tiros e mais de uma pessoa deve ter ouvido o tiroteio, mas ninguém colabora com a polícia. Pensei que já terias voltado para junto da tua família, Laura. Em que ficaram os teus planos de ir para a universidade? Nunca imaginei que te encontraria nestas condições.

     - Assustei-me, agente. Quando soube que o tinham matado não me atrevi a voltar ao prédio e escondi-me. Não pude ligar à minha família e acabei na rua.

   - E viciada, pelos vistos. Precisas de...

   - Não! - interrompi-o. - A sério que estou bem, agente, não preciso de nada. Vou voltar para casa, vão-me mandar dinheiro para o bilhete de autocarro.

   - Deves-me algumas explicações, Laura. O teu suposto tio não se chamava Brandon Leeman nem nenhum dos nomes que apareciam na meia dúzia de identificações falsas em seu poder. Foi identificado como Hank Trevor, com duas penas de prisão em Atlanta.

   - Nunca me falou de nada disso.

   - Também não te falou do irmão dele, Adam?

   - É capaz de o ter mencionado, não me lembro.

   O polícia pediu outra cerveja para cada um e, a seguir, contou-me que Adam Trevor era um dos melhores falsificadores de dinheiro do mundo. Aos quinze anos, tinha começado a trabalhar numa tipografia de Chicago, onde aprendeu o ofício da tinta e do papel, e depois desenvolveu uma técnica para falsificar notas tão perfeitas que passavam a prova da lapiseira e da luz ultravioleta. Vendia-as a quarenta ou cinquenta centavos por dólar às máfias da China, da índia e dos Balcãs, que as misturavam com notas verdadeiras antes de as introduzirem no fluxo do mercado. O negócio de dinheiro falsificado, um dos mais lucrativos do mundo, exige total discrição e sangue frio.

   - Brandon Leeman, ou melhor dizendo, Hank Trevor, não tinha o talento ou a inteligência do irmão, era um delinquente de pouca monta. A única coisa que os irmãos tinham em comum era a sua mentalidade criminosa. Para quê cansar-se num trabalho honesto se a delinquência era rentável e divertida? Razão não lhes falta, nãoéverdade, Laura?

Confesso- te que sinto uma certa admiração por Adam Trevor, é um artista e nunca fez mal a ninguém, tirando o governo americano – concluiu arana.

   O agente explicou-me também que a regra fundamental de um falsificador é não gastar o dinheiro que faz, mas vendê-lo o mais longe possível, sem deixar pistas que possam conduzir ao autor ou à tipografia. Adam Trevor violou esta regra e entregou um montante ao irmão, que, em vez de guardar o dinheiro, como eram seguramente as suas instruções, começou a gastá-lo em Las Vegas.

   Arana acrescentou que tinha vinte e cinco anos de experiência no Departamento de Polícia e sabia muito bem a que se dedicava Brandon Leeman e o que eu fazia para ele, mas não nos tinha detido, porque agarrados como nós não tinham importância. Se prendessem cada toxicodependente e traficante do Nevada não teriam celas suficientes onde os pôr. No entanto, quando Leeman pôs em circulação o dinheiro falsificado, colocou-se noutra categoria, muito acima da sua liga. A única razão para não o deter de imediato foi a possibilidade de, através dele, se poder descobrir a origem das notas.

   - Eu andava há meses a vigiá-lo, na esperança de que me conduzisse a Adam Trevor, por isso imagina a minha frustração quando mataram. Andava à tua procura porque tu sabes onde o teu amante guardava o dinheiro que recebia do irmão...

   - Não era meu amante! - interrompi-o.

   - Isso dá no mesmo. Quero saber onde pôs o dinheiro e como localizar Adam Trevor.

   - Se soubesse onde está o dinheiro, agente, acha que vivia na rua?

   Uma hora antes, ter-lhe-ia dito sem hesitar, mas a droga, os comprimidos, as cervejas, mais um copinho de tequila, tinham-me apagado temporariamente a angústia e lembrei-me de que não me devia meter naquela confusão. Ignorava se as notas do depósito de Beatty eram falsas, verdadeiras, ou uma mistura de ambas, mas de qualquer das maneiras não me convinha que Arana me relacionasse com aqueles sacos. Como aconselhava Freddy, o mais seguro é sempre ficar calado. Brandon Leeman tinha morrido brutalmente, os seus assassinos andavam à solta, o polícia falara de máfias e qualquer informa que eu ventilasse provocaria a vingança de Adam Trevor.

   - Por que carga de água lhe ocorreria que Brandon Leeman me ia confiar algo assim, agente? Eu era a moça de recados dele. Joe Martin e o Chinês é que eram os sócios, participavam nos seus negócios e acompanhavam-no para todo o lado, não eu.

   - Eram sócios?

   - É o que penso, mas não tenho a certeza, porque Brandon Leeman não me dizia nada. Até este momento, nem sequer sabia que se chamava Hank Trevor.

   - Ou seja, Joe Martin e o Chinês sabem onde está o dinheiro.

   - Vai ter de lhes perguntar a eles. O único dinheiro que eu via eram as gorjetas que Bandon Leeman me dava.

   - E o que recebias para ele nos hotéis.

   Continuou a interrogar-me para averiguar detalhes da convivência no antro de delinquência que era o edifício de Brandon Leeman e respondi-lhe com cautela, sem mencionar Freddy nem lhe dar quaisquer pistas sobre os sacos de El Paso TX. Esforcei-me por implicar Joe Martin e o Chinês, com a ideia de que, se fossem presos, eu me poderia livrar deles, mas Arana não parecia interessado na dupla. Tínhamos acabado de comer há algum tempo, eram perto das cinco da tarde e no modesto restaurante mexicano só restava um empregado de mesa à espera que nos fôssemos embora. Como se já não tivesse feito bastante por mim, o agente Arana deu-me dez dólares e o seu número de telemóvel, para ficarmos em contacto e eu lhe ligar se me visse em apuros. Avisou-me de que o devia informar antes de me ir embora da cidade e aconselhou-me a ter cuidado comigo, porque havia bairros muito perigosos em Las Vegas, especialmente de noite, como se eu não soubesse. Ao despedirmo-nos, lembrei-me de lhe perguntar porque andava sem uniforme e confessou-me que estava a colaborar com o FBI: a falsificar dinheiro é um crime federal.

As precauções que me permitiram esconder-me em Las Vegas foram inúteis face à Força do Destino, com maiúsculas, como diria o meu avô referindo-se a uma das suas óperas favoritas de Verdi. O meu Popo aceitava a ideia poética do destino, que outra explicação havia para ter encontrado a mulher da sua vida em Toronto, mas era menos fatalista que a minha avó, para que o destino é algo tão seguro e concreto como a herança genética. Ambos, o destino e os genes, determinam o que somos, não se podem mudar. Se a combinação for virulenta, estamos lixados, mas, em caso contrário, podemos exercer um certo comando sobre a nossa existência, sempre que a carta astral nos seja favorável. Tal como a minha Nini me costumava dizer, vimos ao mundo com determinadas cartas na mão e fazemos o nosso jogo; com naipes similares, uma pessoa pode soçobrar e outra superar-se.

   - É a lei da compensação, Maya. Se o teu destino é nascer cega, não és obrigada a sentares-te no metro a tocar flauta, podes desenvolver o olfato e tornares-te enóloga.

   O típico exemplo da minha avó. Segundo a teoria da minha Nini, eu nasci predestinada à dependência, vá-se lá saber porquê, já que não está nos meus genes - a minha avó é abstêmia, o meu pai apenas toma um copo de vinho branco de vez em quando e a minha mãe, a princesa da Lapónia, deixou-me uma boa impressão da única vez que a vi. Claro que eram onze da manhã e a esta hora quase toda a gente está mais ou menos sóbria. Em qualquer dos casos, entre as minhas cartas está a da propensão a tornar-me viciada, mas com vontade e inteligência eu poderia conceber jogadas mestras para a manter sob controlo. No entanto, as estatísticas são pessimistas, há mais cegos que se tornam enólogos que toxicodependentes reabilitados.

   Tendo em conta outras rasteiras que o destino me pregou, como ter conhecido Brandon Leeman, as minhas possibilidades de levar uma vida normal eram mínimas antes da oportuna intervenção de Olympia Pettiford. Assim o disse à minha Nini e ela respondeu que sempre se pode fazer batota com as cartas. Isto foi o que ela fez ao mandar-me para esta ilhazinha de Chiloé: batota com as cartas.

   No mesmo dia em que encontrei Arana, umas horas mais tarde, Joe Martin e o Chinês deram finalmente comigo a alguns quarteirões do restaurantezinho mexicano, onde o agente me tinha socorrido. Não vi temível carrinha negra nem os senti aproximarem-se até estarem em cima de mim, porque gastara os dez dólares em drogas e estava totalmente pedrada. Agarraram-me um de cada lado, ergueram-me no ar meteram-me à força no veículo, enquanto eu gritava e dava pontapés de maneira desesperada, a algazarra fez parar algumas pessoas, mas ninguém interveio, quem se iria meter com dois gorilas perigosos e uma pedinte histérica. Tentei atirar-me do carro em andamento, mas Joe Martin imobilizou-me com um golpe no pescoço.

   Levaram-me ao edifício que já conhecia, o quartel-general de Brandon Leeman, onde agora eram eles os capos, e apesar do meu aturdimento pude aperceber-me de que estava mais deteriorado, tinham-se multiplicado as grosserias pintalgadas nas paredes, o lixo e os vidros partidos, cheirava a excrementos. Entre os dois, levaram-me até ao terceiro andar, abriram a grade e entrámos no apartamento, que estava vazio.

   - Agora vais cantar, puta maldita - ameaçou-me Joe Martin, a dois centímetros da minha cara, apertando-me os seios com as suas manápulas de símio. - Vais-nos dizer onde Leeman guardou o dinheiro ou vou-te partir os ossos um a um.

   Nesse instante, o telemóvel do Chinês tocou, este trocou um par de frases com alguém e, a seguir, disse a Joe Martin que teriam tempo de me partir os ossos mais tarde, tinham ordens para ir embora, estavam à espera deles. Amordaçaram-me tapando-me a boca com um trapo e fita adesiva, atiraram-me para cima de um dos colchões, amarraram-me os tornozelos e os pulsos com fios elétricos e ataram o que prendia os tornozelos ao das mãos, de forma que fiquei arqueada para trás. Partiram, depois de me advertirem uma vez mais do que me fariam ao voltar, e fiquei sozinha, sem poder gritar nem mexer-me, com os fios a cortar-me os tornozelos e os pulsos, o pescoço rígido devido à pancada anterior, sufocando com o pano metido na boca, aterrada pelo que me esperava às mãos daqueles assassinos e porque começava a dissipar-se o efeito do álcool e das drogas. Na boca tinha o trapo e o gosto das fajitas de frango do almoço. Esforçava-me por controlar o vómito, que me subia pela garganta e me teria sufocado.

   Quanto tempo estive sobre aquele colchão? É impossível saber com certeza, mas pareceram-me vários dias, apesar de poder ter sido menos de uma hora. Muito rapidamente comecei a tremer violentamente e a morder o trapo, já empapado de saliva, para não o engolir. A cada sacudidela do corpo, os cabos que me amarravam enfiavam-se mais na pele. O medo e a dor impediam-me de pensar, estava a ficar sem ar e comecei a rezar para que Joe Martin e o Chinês regressassem, para lhes dizer tudo o que queriam saber, para levá-los eu mesma a Beatty, para ver se podiam rebentar os cadeados do depósito à bala, e se depois me dessem um tiro na cabeça, isso seria preferível a morrer supliciada como um animal. Aquele maldito dinheiro não me interessava para nada, porque não confiei no agente Arana, porquê, porquê? Agora, meses mais tarde, aqui em Chiloé, com a calma da distância, compreendo que aquela era a forma de fazer-me confessar, não era necessário partir-me os ossos, o tormento da abstinência seria suficiente. Esta fora, seguramente, a ordem que o Chinês recebera por telemóvel.

   No exterior, tinha-se posto o sol, já não entrava luz por entre as tábuas da janela e dentro a escuridão era total, enquanto eu, cada vez mais doente, continuava a suplicar pelo regresso dos assassinos. A força do destino. Não foram Joe Martin e o Chinês que acenderam a luz e se inclinaram sobre mim, mas Freddy, tão magro e tão transtornado, que por um momento não o reconheci.

   - Foda-se, Laura, foda-se, foda-se - mastigava entredentes, enquanto tentava livrar-me da mordaça com a mão a tremer. Por fim, retirou trapo e pude aspirar uma imensa golfada de ar e encher os pulmões, enquanto tossia e tinha acessos de vómito. Freddy, Freddy, bendito sejas, Freddy. Não me conseguiu desamarrar, os nós tinham-se fossilizado e Freddy podia contar apenas com uma mão, à outra faltava dois dedos e nunca recuperara a mobilidade depois dos maus-tratos que sofrera. Freddy foi procurar uma faca à cozinha e começou cortar o cabo até que conseguiu parti-lo, e, ao fim de uns minuto eternos, soltou-me. Eu tinha feridas sangrentas nos tornozelos e nos pulsos, mas só reparei nelas mais tarde, naquele momento esta dominada pela angústia da abstinência, obter outra dose era a única coisa que me importava. Tentar levantar-me foi inútil, o meu corpo era sacudido por espasmos convulsivos e eu não tinha comando sobre os meus membros.

   - Foda-se, foda-se, foda-se, tens de sair daqui, foda-se, Laura, foda-se - repetia o rapaz, como numa litania.

     Foi outra vez à cozinha e voltou com um cachimbo, um maçarico e um punhado de crack. Acendeu o cachimbo e colocou- mo na boca. Inalei profundamente e aquilo devolveu- me alguma força.

   - Como vamos sair daqui, Freddy? - murmurei, com os dentes a bater.

   - A andar, é a única forma. Levanta-te, Laura - respondeu.

   E a andar saímos dali, da forma mais simples, pela porta principal. Freddy tinha o comando remoto para abrir a grade e deslizámos pela escada abaixo na obscuridade, colados à parede, ele amparando-me pela cintura, eu apoiada nos seus ombros. Era tão pequeno! Mas o seu coração valente supria de sobra a sua fragilidade. Talvez alguns dos fantasmas dos andares inferiores nos tenham visto e dito a Joe Martin e ao Chinês que Freddy me tinha resgatado, nunca saberei. Se ninguém lhes disse, devem ter adivinhado, quem mais iria arriscar a vida para me ajudar?

   Caminhámos dois quarteirões pelas sombras das casas, afastando-nos do prédio. Freddy tentou parar vários táxis, que ao ver-nos seguiam ao largo, devíamos ter um aspeto deplorável. Levou-me até uma paragem de autocarro e entrámos para o primeiro que passou, sem repararmos aonde ia nem fazer caso das caras de repugnância dos passageiros nem dos olhares do motorista pelo espelho retrovisor. Eu cheirava a urina, estava desgrenhada, tinha rastos de sangue nos braços e nos sapatos. Poderiam ter-nos obrigado a sair do autocarro ou ter chamado a polícia, mas também nisto tivemos sorte e ninguém o fez.

   Saímos na última paragem, onde Freddy me levou a uma casa de banho pública e me lavei o melhor possível, que não era grande coisa, porque tinha a roupa e o cabelo num estado asqueroso, e depois apanhámos outro autocarro, e depois mais outro, e demos voltas por Las Vegas durante horas para despistar. Finalmente, Freddy levou-me a um bairro negro onde eu nunca tinha estado, mal iluminado, com as ruas vazias aquela hora, casas humildes de operários e outros trabalhadores de baixa categoria, com alpendres com cadeiras de verga, pátios cheios de trastes, carros velhos. Depois da terrível tareia que tinham dado àquele rapazinho por se ir meter num bairro que não lhe correspondia, era preciso muita coragem para me levar ali, mas Freddy não parecia preocupado, como se tivesse estado naquelas ruas muitas vezes.

   Chegávamos a uma casa, que em nada se diferenciava das outras, e Freddy tocou à campainha várias vezes, com insistência. Por fim, escutámos uma voz de trovão:

   - Quem se atreve a incomodar-me tão tarde!?

   Acendeu-se uma luz no alpendre, entreabriu-se a porta e um olho inspecionou-nos.

     - Louvado seja o Senhor, então és tu, Freddy?

   Era Olympia Pettiford, num roupão de pelúcia rosada, a enfermeira que tinha cuidado de Freddy no hospital quando o espancaram, a giganta doce, a Madona dos desamparados, a mulher esplêndida que dirigia a sua própria igreja das Viúvas por Jesus. Olympia abriu a porta de par em par e acolheu-me no seu regaço de deusa africana.

   - Pobre menina, pobre menina - disse, e levou-me ao colo para o sofá da sala e ali me deitou com a delicadeza de uma mãe com o seu recém-nascido.

   Em casa de Olympia Pettiford estive mergulhada por completo horror da síndrome da abstinência, pior do que qualquer dor física, dizem, mas não tão mau como a dor moral de me sentir indigna ou dor terrível de perder alguém tão querido como o meu Popo. Não que pensar no que seria perder Daniel... O marido de Olympia, Jeremiah Pettiford, um verdadeiro anjo, e as Viúvas por Jesus, umas senhoras negras maduras, sofridas, mandonas e generosas, fizeram turnos para cuidar de mim nos piores dias. Quando os dentes me batiam tanto que mal me saía a voz para pedir uma bebida, apenas um gole de algo foi qualquer coisa para sobreviver, quando os tremores e as cólicas me martirizavam e o polvo da angústia me comprimia as têmporas e me esmagava entre os seus mil tentáculos, enquanto transpirava e me debatia e lutava e tentava escapar, estas Viúvas maravilhosas abraçaram-me, embalaram-me nos seus braços, consolaram-me, rezaram e cantaram por mim e não me deixaram sozinha um só instante.

   - Arruinei a minha vida, não posso mais, quero morrer – solucei a certa altura, quando fui capaz de articular algo mais que insultos, súplicas e maldições.

   Olympia agarrou-me pelos ombros e obrigou-me a olhá-la nos olhos, a focar a vista, a prestar atenção, a escutá-la:

   - Quem te disse que ia ser fácil, menina? Aguenta. Ninguém morre por causa disto. Proíbo- te de falares em morrer, isso é pecado. Põe-te nas mãos de Jesus e viverás com decência os setenta anos que ainda tens pela frente.

   Olympia Pettiford arranjou-se de alguma forma para me obter um antibiótico, que debelou a minha infeção urinaria, e Valium para me ajudar com os sintomas da abstinência. Imagino que os subtraiu do hospital com a consciência tranquila, porque contava com o perdão antecipado de Jesus. A cistite tinha chegado aos rins, segundo me explicou, mas as suas injeções controlaram-na em alguns dias e, depois, Olympia deu-me um frasco de comprimidos para tomar durante as duas semanas seguintes. Não me lembro de quanto tempo estive a agonizar pela abstinência, devem ter sido dois ou três dias, mas pareceu-me um mês.

   Aos poucos, fui saindo do poço e assomei à superfície. Primeiro, fui capaz de comer sopa e flocos de aveia com leite, de descansar e de dormir por alguns momentos. O relógio troçava de mim e uma hora alongava-se como uma semana. As Viúvas deram-me banho, cortaram-me as unhas e tiraram-me os piolhos, trataram-me as feridas inflamadas das agulhas e dos fios que me tinham cortado os pulsos e os tornozelos, fizeram-me massagens com óleo de bebé para suavizar as crostas, arranjaram-me roupa limpa e vigiaram-me para evitar que saltasse pela janela e fosse à procura de drogas. Quando por fim consegui pôr-me de pé e caminhar sem ajuda, levaram-me à sua igreja, um pequeno armazém pintado de azul- celeste, onde se reuniam os membros da reduzida congregação. Não havia jovens, eram todos afro-americanos, a maioria mulheres, e soube que os poucos homens presentes não eram necessariamente viúvos. Jeremiah e Olympia Pettiford, ataviados com túnicas de seda violeta com franjas amarelas, conduziram uma cerimónia religiosa para agradecer a Jesus em meu nome. Aquelas vozes! Cantavam com o corpo inteiro, balançando-se como palmeiras, com os braços alçados para o céu, alegres, tão alegres que os seus cantos me limparam por dentro.

   Olympia e Jeremiah não se interessaram por saber nada em relação a mim, nem sequer o meu nome, era suficiente que Freddy me tivesse levado á sua porta para me acolherem. Adivinharam que eu fugia de algo e preferiram não saber de quê, para o caso de alguém lhes fazer perguntas comprometedoras. Rezavam por Freddy todos os dias, pediam a Jesus por ele, para que se desintoxicasse e aceitasse ajuda e amor - mas às vezes Jesus demora a responder, porque recebe demasiados pedidos, explicaram-me. Também eu não conseguia tirar Freddy da cabeça, tinha medo de que caísse nas mãos de Joe Martin e do Chinês, mas Olympia confiava na sua astúcia e na sua assombrosa capacidade para sobreviver.

   Uma semana mais tarde, quando os sintomas da infeção tinham desaparecido e eu já conseguia estar mais ou menos quieta sem tomar Valium, pedi a Olympia que ligasse à minha avó na Califórnia, porque eu não era capaz de o fazer. Eram sete da manhã quando Olympia marcou o número que lhe dei e a minha Nini atendeu de imediato, como se tivesse estado seis meses sentada junto ao telefone, à espera.

   - A sua neta está pronta para voltar para casa, venha buscá-la. Onze horas depois, uma carrinha vermelha deteve-se em frente à casa dos Pettiford. A minha Nini colou o dedo à campainha com a urgência do carinho e eu caí-lhe nos braços diante do olhar comprazido dos donos da casa, de várias das Viúvas e de Mike 0'Kelly, que tirava a sua cadeira de rodas do veículo alugado.

   - Rapariguinha de merda! Fizeste-nos sofrer tanto! Tinha custado muito ligares-me para sabermos que estavas viva? - Assim me cumprimentou a minha Nini, em espanhol e aos gritos, como fala quando está muito emocionada, dizendo a seguir: - Estás com péssimo aspeto, Maya, mas tens a aura verde, da cor da cura, isso é bom sinal.

   A minha avó parecia-me muito mais pequena do que eu me lembrava. Em poucos meses, o seu tamanho diminuíra e as suas olheiras arroxeadas, antes tão sensuais, davam-lhe agora um ar envelhecido.

   - Avisei o teu pai, vem de avião do Dubai e amanhã estará à tua espera em casa - disse-me, aferrada à minha mão e olhando-me com olhos de coruja para impedir que desaparecesse de novo, mas abstendo-se de me bombardear de perguntas.

   Pouco depois, as Viúvas chamaram-nos para a mesa: frango frito, batatas fritas, legumes panados e fritos, bolinhos fritos, um festim do colesterol para celebrar o reencontro com a minha família.

   Depois do jantar, as Viúvas por Jesus despediram se e foram embora, enquanto nós nos juntávamos na pequena sala, onde a cadeira de rodas mal cabia. Olympia fez à minha Nini e a Mike um resumo do meu estado de saúde, aconselhando que me enviassem para um programa de reabilitação mal chegássemos à Califórnia, coisa que Mike, muito entendido nesta matéria, já havia decidido. A seguir, retirou-se com discrição. Pu-los então ao corrente, de maneira breve, do que tinha sido a minha vida desde maio, saltando a noite com Roy Fedgewick no motel e a prostituição, que teriam dado cabo da minha Nini. À medida que lhes falava de Brandon Leeman, ou melhor, de Hank Trevor, do dinheiro falsificado, dos assassinos que me tinham sequestrado e de tudo o resto, a minha avó retorcia-se no assento, repetindo entredentes «rapariguinha de merda», mas os olhos azuis de Branca de Neve brilhavam como as luzes de um avião. Estava encantado por se encontrar finalmente no meio de uma aventura policial.

   - A falsificação de dinheiro é um crime muito grave, paga-se mais caro que um homicídio com premeditação e requintes de malvadez -informou-nos alegremente.

   - Foi isso que o agente Arana me disse. O melhor seria ligar-lhe e confessar tudo, deu-me o número dele - sugeri eu.

   - Que ideia genial! Digna da burra da minha neta! - exclamou a minha Nini. - Gostavas de passar vinte anos em San Quentin e acabar na cadeira elétrica, menina parvinha? Anda lá, então, vai a correr contar ao bófia que foste cúmplice.

   - Acalma-te, Nidia. A primeira coisa a fazer é destruir as provas, para que não seja possível relacionar a tua neta com o dinheiro. A seguir, vamos levá-la para a Califórnia sem deixar rasto da sua passagem por Las Vegas e depois, quando recuperar a saúde, damos-lhe sumiço. Que achas?

   - E como vamos fazer isso? - perguntou ela.

   - Aqui todos a conhecem como Laura Barron, menos as Viúvas por Jesus, não é assim, Maya?

   As Viúvas também não sabem o meu nome verdadeiro -esclareci.

   Excelente .Vamos voltar para a Califórnia na carrinha que alugámos – decidiu Mike.

   Bem pensado, Mike – interveio a minha Nini, a quem também tinham começado a brilhar os olhos. - Para ir de avião, a Maya precisaria de um bilhete em seu nome e de alguma forma de identificação, o que deixa pistas, mas de carro podemos atravessar o país sem ninguém saber. Podemos devolver a carrinha em Berkeley.

   Desta maneira expedita, os dois membros do Clube dos Criminosos organizaram a minha saída da Cidade do Pecado. Era tarde, estávamos cansados e tínhamos de dormir antes de pôr o plano em prática. Naquela noite fiquei em casa de Olympia, enquanto Mike e a minha avó procuravam um hotel. Na manhã seguinte, reunimo-nos aos Pettiford para tomar o pequeno-almoço, que prolongámos o mais possível, porque tínhamos pena de nos despedirmos da minha benfeitora. A minha Nini, grata e para sempre em dívida para com o Pettiford, ofereceu-lhes hospitalidade incondicional em Berkeley -«mi casa es su casa» -, mas, por precaução, estes não quiseram saber o nome da minha família nem o seu endereço. No entanto, quando Branca de Neve lhes disse que tinha salvado outros jovens como Freddy e podia ajudar o rapaz, Olympia aceitou o seu cartão.

   - As Viúvas por Jesus vão procurá-lo até o encontrarem, e havemos de levá-lo até si, nem que seja amarrado, garanto-lhe.

     Despedi-me daquele casal adorável com um abraço imenso e promessa de voltar para os visitar. Vai ser a primeira coisa que vou fazer quando regressar aos Estados Unidos.

   A minha avó, Mike e eu partimos na carrinha vermelha rumo Beatty e pelo caminho discutimos a forma de abrir os cadeados. A solução não seria rebentar a porta com dinamite, como sugeriu a minha Nini, porque no caso de sermos bem-sucedidos o estrondo poderia chamar a atenção e, para além disso, a força bruta deve ser o último recurso de um bom detetive. Obrigaram-me a repetir dez vezes os pormenores das duas viagens que fiz com Brandon Leeman ao depósito.

     - Qual era exatamente a mensagem que deverias transmitir ao irmão dele por telefone? - perguntou-me uma vez mais a minha Nini,

   - O sítio onde estavam os sacos.

   - Só isso?

   - Não! Agora que penso nisso, Leeman insistiu muito em que devia dizer ao irmão onde estavam os sacos de El Paso TX.

     - Referia-se à cidade de El Paso, no Texas?

     - Suponho, mas não tenho a certeza. O outro saco não tinha marca, era um saco de viagem vulgar.

   O par de detetives amadores deduziu que o código dos cadeados estava no nome, por isso Leeman me tinha chateado a paciência em relação à exatidão da mensagem. Demoraram três minutos a traduzir as letras em números, um código tão simples que os desiludiu, pois estavam à espera de um desafio à altura das suas capacidades. Bastava olhar para o teclado de um telefone: as oito letras correspondiam a oito números, quatro para cada combinação, 3572 e 7689.

   Fomos comprar luvas de borracha, um pano, uma vassoura, fósforos e álcool, depois procurámos uma loja de ferragens para arranjar um bidão de plástico e uma pá, e por último fomos até uma estação de serviço encher o tanque do veículo e o bidão. Seguimos caminho até ao depósito, de que por sorte eu me lembrava bem, porque existiam vários naquela zona. Localizei a porta correspondente e a minha Nini, com luvas, abriu os cadeados à segunda tentativa; poucas vezes a vi mais contente. No interior encontravam-se os dois sacos, tal como Leeman os deixara. Disse-lhes que nas duas visitas anteriores não tinha tocado em nada, tinha sido Leeman a abrir os cadeados, a tirar os sacos do carro e a fechar o depósito no fim, mas a minha Nini achou que, se eu andava drogada, não podia ter a certeza de nada. Com um trapo empapado em álcool, Mike limpou as superfícies onde se poderiam encontrar impressões digitais, desde a porta até ao interior.

   Por curiosidade, espreitámos dentro dos caixotes e encontrámos espingardas, pistolas e munições. A minha Nini queria que saíssemos dali armados como guerrilheiros, já que estávamos metidos até ao nariz num ambiente criminoso, e a ideia pareceu estupenda a

Branca de Neve, mas eu não permiti. O meu Popo nunca quis ter uma arma, dizia que quem as carrega é o diabo e, quando uma pessoa tem uma, acaba por a usar e depois arrepende-se. A minha Nini achava que, se o marido tivesse possuído uma arma, a teria matado quando deitou fora as suas partituras de ópera, uma semana após o casamento. O que não dariam os membros do Clube dos Criminosos por aqueles dois caixotes cheios de brinquedos mortíferos! Colocámos os sacos na carrinha, a minha Nini varreu o chão para apagar as marcas dos nossos sapatos e da cadeira de rodas, fechámos os cadeados e afastámo-nos, desarmados.

     Com os sacos na carrinha, fomos até um motel descansar algumas horas, depois de comprar água e provisões para a viagem, que nos levaria umas dez horas. Mike e a minha Nini tinham chegado de avião e alugaram a carrinha no aeroporto de Las Vegas, não faziam ideia de como a estrada é comprida, reta e aborrecida, mas pelo menos naquela época do ano não era o caldeirão fumegante que é noutros meses, quando a temperatura sobe acima dos quarenta. Mike 0'Kelly levou os sacos do tesouro para o seu quarto e eu partilhei uma cama larga noutro quarto com a minha avó, que não me largou a mão a noite inteira.

   - Não penso fugir, Nini, não te preocupes - assegurei-lhe, meio desfalecida de cansaço, mas ela não me soltou.

     Nenhuma das duas conseguiu dormir muito e aproveitámos para conversar, tínhamos muito que dizer uma à outra. Ela falou-me do meu pai, de como sofrera com a minha fuga, e repetiu-me que nunca me perdoaria por os ter mantido cinco meses, uma semana e dois dias sem notícias, tinha-lhes arruinado os nervos e partido o coração.

   - Desculpa, Nini, não pensei nisso...

   E na verdade aquilo não me ocorrera, só tinha pensado em mim.

   Perguntei-lhe por Sarah e Debbie e contou-me que tinha assistido à cerimónia de graduação da minha turma na Secundária de Berkeley, convidada especial do Sr. Harper, com quem chegou a desenvolver uma amizade, porque sempre se tinha interessado por saber noticias minhas. Debbie acabou o secundário com o resto dos meus colegas mas a Sarah tinham-na tirado da escola e estava há meses numa clínica, no último estádio de debilidade, transformada num esqueleto. No fim da cerimónia, Debbie veio até junto dela perguntar-lhe por mim. Estava vestida de azul, fresca e bonita, não restava nada dos seus farrapos góticos nem da sua maquilhagem de além-tumba, e a minha Nini, picada, comunicou-lhe que eu me tinha casado com o hedeiro de uma fortuna e andava pelas Bahamas.

   - Para que lhe ia dizer que tinhas desaparecido, Maya? Não queria dar-lhe esse prazer, olha o mal que te fez aquela desgraçada com os seus maus costumes - disse-me Dom Corleone, da máfia chilena, que não perdoa.

   Quanto a Rick Laredo, tinha sido preso por uma estupidez que só lhe poderia ocorrer a ele: raptar animais de estimação. A sua operação, muito mal planeada, consistia em roubar algum cãozito de vida regalada e depois ligar à família a pedir uma recompensa para o devolver.

   - Tirou a ideia dos raptos de milionários na Colômbia, já sabes, aqueles rebeldes, como se chamam, FARC? Bem, algo do género. Mas não te preocupes, o Mike está a ajudá-lo e vão soltá-lo em breve - concluiu a minha avó.

   Informei-a de que não me importava nada que Laredo estivesse atrás das grades, pelo contrário, pensava que aquele era o sítio que lhe correspondia na ordem do universo.

   - Não sejas aborrecida, Maya, o pobre rapaz esteve muito apaixonado por ti. Quando o soltarem, Mike vai arranjar-lhe emprego na Sociedade Protetora dos Animais, para aprender a respeitar os cães dos outros. Que te parece?

     Esta solução não teria passado pela cabeça de Branca de Neve, tinha de ser da autoria da minha Nini.

   Mike telefonou do seu quarto a acordar-nos às três da manhã, deu-nos bananas e bolos, metemos a escassa bagagem na carrinha e, meia hora depois, íamos em direção à Califórnia com a minha avó ao volante. Era noite cerrada, uma boa hora para evitar o tráfego e as brigadas de trânsito. Eu cabeceava, sentia serradura nos olhos, tambores na cabeça, algodão nos joelhos e teria dado qualquer coisa para poder dormir um século, como a princesa do conto de Perrault.

   Cento e noventa e três quilómetros mais adiante, saímos da estrada e enfiámos por um caminho estreito, escolhido por Mike no mapa porque não levava a lado nenhum, e depressa nos achámos numa solidão lunar. Fazia frio, mas rapidamente aqueci cavando um buraco,

tarefa impossível para Mike na cadeira de rodas ou para a minha Nini com os seus sessenta e seis anos, e muito difícil para uma sonâmbula como eu. O terreno era pedregoso, com uma vegetação rasteira seca e dura, falhavam- me as forças, nunca antes tinha usado uma pá e as instruções de MiKe e da minha avó aumentavam a minha frustração. Meia hora mais tarde, conseguira apenas abrir uma fenda no chão, mas como tinha bolhas nas mãos sob as luvas de borracha e já mal podia levantar a pá, os dois membros do Clube dos Criminosos tiveram de se dar por satisfeitos.

   Queimar meio milhão de dólares foi mais complicado do que tínhamos imaginado, porque não levámos em consideração o fator vento, a qualidade do papel, reforçado com tecido, nem a densidade dos maços. Depois de várias tentativas, optámos pelo método menos elaborado: colocávamos punhados de notas no buraco, borrifávamos com gasolina, pegávamos-lhes fogo e abanávamos o fumo para evitar que se visse de longe, apesar de isto de noite ser pouco provável.

   - Tens a certeza de que isto é tudo falsificado, Maya? - perguntou-me a minha avó.

   - Como hei de ter, Nini? O agente Arana disse que normalmente misturam as notas falsas com verdadeiras.

   - Seria um desperdício queimar notas boas, com todas as despesas que temos. Podíamos guardar algumas para as emergências... sugeriu ela.

   - Estás louca, Nidia? Isto é mas perigoso que nitroglicerina contrariou-a Mike.

   Continuaram a discutir acaloradamente enquanto eu acabei queimar o conteúdo do primeiro saco e abri o segundo. Lá dentro encontrei apenas quatro maços de notas e dois pacotes com a forma tamanho de livros, envoltos em plástico e fita adesiva para embalar. Rasgámos a fita aos puxões e à dentada, porque não tínhamos nenhum objeto cortante e precisávamos de nos despachar, o céu começava clarear com nuvens acinzentadas deslizando rapidamente contra um céu de um vermelho-vivo. Os pacotes continham quatro placas metálicas para imprimir notas de cem e cinquenta dólares.

   - Isto vale uma fortuna! - exclamou Mike. - É muito mas valioso que as notas que queimámos.

   - Como é que sabes? - perguntei.

   - Segundo te disse o polícia, Maya, as notas de Adam Trevor são tão perfeitas que são quase impossíveis de detetar. As máfias pagariam milhões por estas placas.

   - Ou seja, podíamos vendê- las - disse a minha Nini, esperançada.

   - Nem penses nisso, Dom Corleone - interrompeu-a Mike, com um olhar cortante.

- Não podemos queimá-las - intervim.

   - Vamos ter de as enterrar ou de as atirar ao mar - decidiu ele.

   - Que pena, são obras de arte - suspirou a minha Nini, e começou a envolver as placas cuidadosamente para evitar que se riscassem.

   Acabámos de queimar o nosso saque, tapámos o buraco com terra e, antes de partirmos, Branca de Neve insistiu em marcar o sítio.

   - Para quê? - perguntei.

   - Para prevenir. É assim que se faz nos romances policiais -explicou-me.

   Tocou-me a mim procurar as pedras e erguer uma pirâmide em cima do buraco, enquanto a minha Nini media os passos até às referencias mais próximas e Mike desenhava um mapa num dos sacos de papel. Aquilo era como brincar aos piratas, mas não tive forças para discutir com eles. Fizemos a viagem até Berkeley com três paragens para ir à casa de banho, tomar café, meter gasolina e deitar fora os sacos, a pá, o bidão e as luvas em diferentes caixotes de lixo. O incêndio de cores do amanhecer dera lugar à luz branca do dia e transpirávamos na exalação febril do deserto, porque o ar condicionado do veículo funcionava a meio gás. A minha avó recusou-se a ceder-me o volante, porque acreditava que eu ainda tinha o cérebro afetado e os reflexos entorpecidos, e conduziu por aquela faixa interminável o dia inteiro até ao anoitecer, sem se queixar uma única vez.

   - Para alguma coisa fui motorista de limusinas - comentou, referindo-se à época em que conhecera o meu Popo.

   Quando lhe contei a história, Daniel Goodrich quis saber o que tinhamos feito com as placas. A minha Nini ficou encarregue de as atirar do ferry à baía de São Francisco.

   Recordo que a fleuma de psiquiatra de Daniel Goodrich vacilou quando lhe contei esta parte da minha história, em maio. Como fui iupaz de viver esta eternidade sem ele? Daniel escutou-me boquiaberto e, pela sua expressão, deduzi que nunca lhe tinha sucedido nada de tão excitante como as minhas aventuras em Las Vegas. Disse-me que, quando regressasse aos Estados Unidos, se poria em contacto com a minha Nini e Branca de Neve, mas ainda não o fez.

   - A tua avó é qualquer coisa, Maya. Faria um bom par com AlfonsZaleski - disse-me.

   - Agora sabes porque estou a viver aqui, Daniel. Não é um capricho turístico, como poderás imaginar. A minha Nini e 0'Kelly decidiram mandar-me para o mais longe possível dali até que a situação em que estou metida se desanuviasse um pouco. Joe Martin e o Chinês andam atrás do dinheiro, porque não sabem que é falsificado; a polícia quer prender Adam Trevor e Adam quer recuperar as placas antes de o FBI o fazer. Eu sou a ligação entre tudo e, quando descobrirem, vou tê-los todos no meu encalço.

   - A ligação é Laura Barron - lembrou-me Daniel.

   - A polícia deve ter descoberto que ela sou eu. Deixei as minhas impressões digitais em muitos sítios, nos cacifos do ginásio, no edifício de Brandon Leeman, até em casa de Olympia Pettiford, caso tenham apanhado Freddy e o tenham feito falar, queira Deus que não.

   - Não mencionaste Arana.

   - É bom tipo. Está a colaborar com o FBI, mas quando teve oportunidade de me prender, não o fez, apesar de suspeitar de mim. Protegeu-me. Só lhe interessa desmantelar a produção de notas falsas e prender Adam Trevor. Davam-lhe uma medalha por isso.

     Daniel concordou com o plano de me manter isolada por um tempo, mas não lhe pareceu perigoso escrevermos um ao outro, não havia necessidade de exagerar a mania da perseguição. Abri uma conta de email em nome de juanitocorrales@gmail.com, ninguém suspeitaria da relação de Daniel Goodrich, em Seattle, com um miúdo de Chiloé, um mais no meio de todos os amigos feitos durante a viagens com quem comunica regularmente. Desde que Daniel se foi embora, tenho usado o email diariamente. Manuel não aprova a ideia, acha que os espiões do FBI e os seus hackers dos computadores são como Deus, estão em todo o lado e veem tudo.

Juanito Corrales é o irmão que gostaria de ter tido, como também o foi Freddy.

   - Leve-o consigo para o seu país, gringuita, a mim este pirralho não me serve para nada - disse- me uma vez Eduvigis, a brincar.

   Juanito levou-a tão a sério que está a fazer planos para ir viver comigo em Berkeley. É o único ser no mundo que me admira.

   - Quando for grande, vou casar contigo, tia Gringa - costuma dizer-me. Vamos no terceiro volume do Harry Potter e Juanito sonha ir ao Colégio de Magia de Hogwarts e ter a sua própria vassoura voadora. Está orgulhoso de me ter emprestado o seu nome para abrir uma conta de email.

     Naturalmente, Daniel achou um disparate termos queimado o dinheiro no deserto, onde poderíamos ter sido surpreendidos por uma patrulha, porque a estrada interestadual 15 tem muito tráfego de camiões e é vigiada por terra e com helicópteros. Antes de tomar a decisão, Branca de Neve e a minha Nini equacionaram diferentes opções, até dissolver as notas em Drano, como tinham feito uma vez com um quilo de costeletas, mas todas apresentavam riscos e nenhuma era tão definitiva e teatral como o fogo. Dentro de alguns anos, quando puderem contar a história sem irem presos, uma fogueira no deserto do Mojave soará melhor que líquido para desentupir canos.

     Antes de conhecer Daniel, nunca tinha pensado no corpo masculino nem me tinha detido a contemplá-lo, excetuando aquela visão inesquecível do David em Florença, com os seus cinco metros e dezassete centímetros de perfeição em mármore, mas com um pénis de tamanho bastante reduzido. Os rapazes com quem me deitara não se pareciam nada com aquele David, eram desajeitados, malcheirosos, peludos e tinham acne. Passei pela adolescência apaixonada por alguns atores de cinema de cujos nomes nem me lembro, apenas porque Sarah e Debbie ou algumas raparigas da academia do Oregon também estavam, mas eram tão incorpóreos como os santos da minha avó. Podia-se duvidar de que realmente fossem mortais, tal era a brancura dos

seus dentes e a suavidade dos seus torsos depilados com cera e bronzeados com o sol dos ociosos. Eu nunca os veria de perto, muito menos chegaria a tocá-los, tinham sido criados para um ecrã e não para o manuseamento delicioso do amor. Nenhum fazia parte das minhas fan-

tasias eróticas. Quando era pequena, o meu Popo ofereceu me um delicado teatro de cartão com personagens vestidas de papel para ilustrar os chatos argumentos das óperas. Os meus amantes imaginários, como aquelas figuras de cartão, eram atores sem identidade que eu movia num cenário. Agora todos foram substituídos por Daniel, que ocupa as minhas noites e os meus dias; penso e sonho com ele. Foi-se embora demasiado depressa, não chegámos a consolidar nada.

   A intimidade requer tempo para amadurecer, uma história comum, lágrimas derramadas, obstáculos superados, fotografias num álbum, é uma planta de crescimento lento. Eu e Daniel estamos suspensos num espaço virtual e esta separação pode destruir o amor. Ficou em Chiloé vários dias além do planeado, não conseguiu ir até à Patagônia, partiu para o Brasil de avião e dali para Seattle, onde já está a trabalhar na clínica do pai. Entretanto, eu tenho de cumprir o meu exílio nesta ilha e, chegando o momento, suponho que decidiremos onde havemos de nos juntar. Seattle é um bom lugar, chove menos que em Chiloé, mas gostaria mais de viver aqui, não queria deixar Manuel, Blanca, Juanito e o Fakin.

     Não sei se haveria trabalho para Daniel em Chiloé. Segundo Manuel, os psiquiatras passam fome neste país, apesar de haver mais loucos que em Hollywood, porque os chilenos acham a felicidade kitsch, têm muita renitência em gastar dinheiro para ultrapassarem o infortúnio. Ele próprio é um bom exemplo, na minha opinião, porque se não fosse chileno teria explorado os seus traumas com um profissional e viveria um pouco mais feliz. E não é que eu seja amiga de psicoterapias, nem poderia sê-lo depois da minha experiência no Oregon mas às vezes ajudam, como no caso da minha Nini, quando fico viúva. Talvez Daniel pudesse trabalhar noutra coisa. Conheço um académico de Oxford, daqueles de casaco de tweed com remendos de couro nos cotovelos, que se apaixonou por uma chilena, ficou na Ilha Grande e agora dirige uma empresa turística. Já para não falar da austríaca do traseiro épico e do strudel de maçã, que era dentista em Innsbruck e agora é dona de uma hospedaria. Daniel e eu poderíamos fazer bolachas, isto tem futuro, como diz Manuel, ou abrir uma criação vicunhas, como eu queria no Oregon.

   Naquele dia 29 de maio despedi-me de Daniel com uma serenidade fingida, porque havia vários curiosos no embarcadouro - a nossa relação era mais comentada que a telenovela - e não queria dar espetáculo para aqueles chilotes linguarudos, mas a sós com Manuel em casa chorei até ficarmos os dois cansados. Daniel viajava sem computador, mas ao chegar a Seattle deparou-se com cinquenta mensagens minhas e respondeu-me, nada de demasiado romântico, devia estar exausto. Desde então comunicamos um com o outro continuamente, evitando tudo o que me possa identificar, e temos um código para o amor, que ele usa com demasiada contenção, de acordo com o seu carácter, e de que eu abuso sem medida, de acordo com o meu.

   O meu passado é curto e deveria ser claro na minha cabeça, mas não confio na minha memória caprichosa, tenho de o registar antes que comece a mudá-lo ou a censurá-lo. Disseram na televisão que uns cientistas americanos desenvolveram uma nova droga para eliminar recordações, que pensam usar no tratamento de traumas psicológicos, especialmente em soldados que regressam da guerra desequilibrados.

   Esta droga ainda se encontra em fase experimental, é preciso melhorá-la para que não apague a memória inteira. Se eu a tivesse, que escolheria esquecer? Nada. As coisas más do passado são lições para o futuro e o pior que me aconteceu, a morte do meu Popo, é algo que quero recordar para sempre.

     Na encosta, perto da gruta da Pincoya, vi o meu Popo. Estava de pé na borda da escarpa a olhar para o horizonte, com o seu chapéu italiano, a sua roupa de viagem e a sua mala de mão, como se tivesse vindo de longe e hesitasse entre ir ou ficar. Permaneceu ali um momento demasiado breve, enquanto eu, imóvel, sem respirar para não o afugentar, o chamava sem voz, e depois passaram umas gaivotas aos gritos e desapareceu no ar. Não contei isto a ninguém, para evitar explicações pouco convincentes, apesar de que aqui talvez acreditassem em mim. Se uivam almas penadas em Cucao, se um barco tripulado por aventuresmas navega no Golfo de Ancud e se os bruxos se transformam em cães em Quicavi, então a aparição na gruta da Pincoya de um astrónomo morto é perfeitamente possível. Pode não ser um fantasma, mas um fruto da minha imaginação, que o materializa na atmosfera, como uma projeção de cinema. Chiloé é bom lugar para o ectoplasma de um avô e a imaginação de uma neta.

   Falei muito a Daniel do meu Popo quando estávamos sozinhos e nos dedicámos a contar as nossas vidas um ao outro. Descrevi-lhe a minha infância, que decorreu feliz na extravagância arquitetônica de Berkeley. A lembrança daqueles anos e do amor ciumento dos meus avós amparou-me nos tempos de infortúnio. O meu pai teve pouca influência em mim, porque o seu trabalho de piloto o mantinha mais tempo no ar do que em terra firme. Antes de se casar, vivia na mesma casa connosco, em duas divisões do segundo piso, com entrada independente por uma estreita escada exterior, mas víamo-lo pouco, porque quando não estava a voar podia estar nos braços de alguma daquelas apaixonadas que telefonavam a horas despropositadas e de que ele não falava. Os seus horários mudavam a cada duas semanas e na nossa família habituámo-nos a não o esperar nem a fazer-lhe perguntas. Os meus avós criaram-me, eram eles que iam às reuniões de pais na escola, que me levavam ao dentista, me ajudavam com os trabalhos, me ensinaram a apertar os cordões das sapatilhas, a andar de bicicleta, a usar um computador, foram eles que me secaram as lágrimas, que se riram comigo. Não me lembro de um único momento dos meus primeiros quinze anos em que a minha Nini e o meu Popo não estivessem presentes, e agora que o meu Popo está morto, sinto-o mais perto que nunca, cumpriu a sua promessa de estar sempre comigo.

     Passaram-se dois meses desde que Daniel se foi embora, dois meses sem o ver, dois meses com o coração apertado num nó, dois meses a escrever neste caderno as coisas que deveria estar a conversar com ele. Que falta me faz! Isto é uma agonia, uma doença mortal.

Em maio, quando Manuel regressou de Santiago, fingiu não se dar conta de que a casa inteira cheirava a beijos e o Fakin estava nervoso porque não me ocupei dele e teve de ir passear sozinho, como todos os cães deste país. Há pouco era um rafeiro vadio e agora anda com pré- tensões de cãozinho fraldiqueiro. Manuel pousou a mala e comunicou-nos que precisava de resolver certos assuntos com Blanca Schnake e, visto que ia chover, ficaria a dormir em casa dela. Aqui sabe-se que vai chover quando as toninhas dançam e quando há «barras de luz», como chamam aos raios de sol que atravessam as nuvens. Que eu saiba, nunca antes Manuel tinha ficado a dormir em casa de Blanca. Obrigado, obrigado, obrigado, soprei-lhe ao ouvido num daqueles abraços longos, que ele detesta. Ofereceu-me outra noite com Daniel, que nesse momento estava a encher de lenha o fogão para cozinhar um frango com toucinho e mostarda, invenção da sua irmã Frances, que nunca cozinhou na vida, mas coleciona livros de culinária e se converteu num chef teórico. Eu decidira-me a não olhar para o relógio na parede, que devorava rapidamente o tempo que me restava com ele.

   Na nossa breve lua de mel, falei a Daniel sobre a clínica de reabilitação em São Francisco, onde estive quase um mês, que deve ser muito parecida à que ele tem com o pai em Seattle. Durante a viagem de novecentos e dezanove quilómetros entre Las Vegas e Berkeley, a minha avó e Mike O'Kelly traçaram um plano para me fazer desaparecer do mapa antes que as autoridades ou os criminosos me deitassem a mão. Eu levava um ano sem ver o meu pai e não me tinha feito falta, culpava-o pelas minhas desgraças, mas o meu ressentimento esfumou-se de um sopro quando chegámos a casa na carrinha vermelha e ele estava à nossa espera à porta. Também o meu pai, como a minha Nini, estava mais magro e encolhido; naqueles meses da minha ausência, tinha envelhecido e já não era o sedutor com pinta de ator de cinema que eu recordava. Deu-me um abraço muito apertado, repetindo o meu nome com uma ternura desconhecida.

   - Pensei que te tínhamos perdido, filha.

   Nunca tinha visto o meu pai transtornado por uma emoção. Andy Vidal era a imagem viva da compostura, muito charmoso no seu uniforme de piloto, intocado pelas asperezas da existência, desejado pelas mulheres mais bonitas, viajado, culto, satisfeito, saudável.

     - Bendita sejas, bendita sejas, filha - repetia.

   Chegámos de noite, mas ele tinha-nos preparado um pequeno-almoço em vez de um jantar: batido de chocolate e fatias douradas Com creme e banana, a minha comida favorita. Enquanto comíamos, Mike O'Kelly referiu-se ao programa de reabilitação mencionado por Olympia Pettiford e reiterou-nos que era a melhor forma conhecida de tratar a dependência. O meu pai e a minha Nini estremeciam como se recebessem um choque elétrico de cada vez que ele articulava aquelas palavras aterradoras, toxicodependente, alcoólica, mas eu já as tinha incorporado na minha realidade graças às Viúvas por Jesus, cuja vasta experiência naqueles assuntos lhes permitiu ser muito claras comigo.

     Mike disse que o vício é uma fera astuta e paciente, de infinitos recursos e sempre à espreita, cujo argumento mais poderoso é que não somos realmente viciados. Resumiu as opções à nossa disposição, desde o centro de reabilitação a seu cargo, grátis e muito modesto, até uma clínica em São Francisco, que custava mil dólares por dia e que eu descartei de imediato, porque não havia de onde tirar um dinheiro daqueles. O meu pai escutou de dentes e punhos cerrados, extremamente pálido, e por fim anunciou que usaria as poupanças da sua reforma para o meu tratamento. Não houve forma de o demover, apesar de, segundo Mike, o programa ser similar ao seu, a única diferença serem as instalações e a vista para o mar. Passei o mês de dezembro na clínica, cuja arquitetura japonesa convidava à paz e à meditação: madeira, grandes janelas e terraços, muita luz, jardins com caminhos discretos, bancos para nos sentarmos bem agasalhados a contemplar o nevoeiro, piscina aquecida. O panorama de água e bosques valia os mil dólares diários. Eu era a mais jovem dos residentes, os outros eram homens e mulheres de trinta a sessenta anos, amáveis, que me cumprimentavam nos corredores ou me convidavam a jogar scrabble e ténis de mesa, como se estivéssemos de férias. Excetuando a forma compulsiva de consumir cigarros e café, pareciam normais, ninguém imaginaria que era toxicodependentes.

   O programa parecia-se com o da academia do Oregon, com conversas, cursos, sessões de grupo, a mesma linguagem de psicólogos e conselheiros que conheço demasiado bem, mais os Doze Passos, abstinência, recuperação, sobriedade. Demorei uma semana para me começar a relacionar com os outros residentes e vencer a tentação constante de me ir embora, já que a porta permanecia aberta e a estada era voluntária. Isto não é para mim foi o meu mantra durante aquela semana, mas deteve-me o facto de o meu pai ter aplicado as suas poupanças naqueles vinte e oito dias, pagos adiantados, e eu não podia desiludi-lo de novo.

   A minha companheira de quarto era Loretta, uma mulher atraente, de trinta e seis anos, casada, mãe de três filhos, agente imobiliaria e alcoólica.

   - Esta é a minha última oportunidade. O meu marido informou -me de que, se eu não deixar de beber, vai divorciar-se de mim e tirar-me as crianças - disse-me.

     Nos dias de visita, o marido vinha vê-la com os filhos, traziam desenhos, flores e chocolates, pareciam uma família feliz. Loretta mostrava-me uma e outra vez os álbuns de fotografias: «Quando nasceu o meu filho mais velho, Patrick, só cerveja e vinho; férias no Hawai, daiquiris e martinis; Natal de 2002, champanhe e genebra; aniversário de casamento em 2005, lavagem ao estômago e programa de reabilitação; piquenique do 4 de julho, primeiro whisky após onze meses sóbria; aniversário em 2006, cerveja, tequila, rum, amaretto.» Sabia que as quatro semanas do programa eram insuficientes, devia ficar dois ou três meses antes de voltar para a família.

   Para além das conversas para nos levantar o ânimo, éramos educados sobre o vício e as suas consequências e havia sessões privadas com os conselheiros. Os mil dólares diários davam direito a frequentar a piscina e o ginásio, a passeios pelos parques próximos, massagens e alguns tratamentos de relaxamento e beleza, assim como a aulas de ioga, pilates, meditação, jardinagem e arte. Contudo, por muitas atividades que houvesse, cada um carregava com o seu problema como um cavalo morto sobre os ombros, impossível de ignorar. O meu cavalo morto era o desejo imperioso de fugir para o mais longe possível, fugir daquele lugar, da Califórnia, do mundo, de mim própria. A vida dava demasiado trabalho, não valia a pena levantarmo-nos pela manhã e ver as horas a arrastar-se sem um propósito. Descansar. Morrer. Ser ou não ser, como Hamlet.

   - Não penses, Maya, tenta manter-te ocupada. Esta etapa negativa é normal e em breve passará - foi o conselho de Mike 0'Kelly.

   Para me manter ocupada, pintei o meu cabelo várias vezes, perante o espanto de Loretta. Do preto aplicado por Freddy em setembro restavam apenas vestígios plúmbeos espalhados pelas pontas. Entretiveram- me a pintar madeixas dos tons que normalmente se veem nas bandeiras. A minha orientadora classificou ou o ato como uma agressão contra mim mesma, uma forma de me castigar, e o mesmo pensava eu do seu carrapito de matrona.

   Duas vezes por semana, havia reuniões de mulheres com uma psicóloga parecida com Olympia Pettiford pelo seu volume e bondade. Sentávamo-nos no chão da sala iluminada por algumas velas e cada uma contribuía com algo para construir um altar: uma cruz, um Buda, fotos dos filhos, um urso de peluche, uma caixinha com cinzas de um ente querido, um anel de casamento. Na penumbra, naquele ambiente feminino, era mais fácil falar. As mulheres contavam como o vício destruíra as suas vidas, estavam cheias de dívidas, tinham sido abandonadas pelos amigos, a família ou o companheiro, atormentava-as a culpa de terem atropelado alguém ao conduzir embriagadas ou abandonado um filho doente para ir procurar drogas. Algumas falavam também da degradação em que haviam caído, das vergonhas, dos roubos, da prostituição, e eu escutava com a alma, porque tinha passado pelo mesmo. Muitas eram reincidentes sem qualquer confiança em si próprias, porque sabiam quão fugaz e efémera pode ser a sobriedade. A fé ajudava, podiam pôr-se nas mãos de Deus ou de um poder superior, mas nem todas contavam com este recurso. Aquele círculo de viciadas, com a sua tristeza, era o oposto do das belas bruxas de Chiloé. Na ruca ninguém tem vergonha, tudo é abundância e vida.

   Aos sábados e domingos, havia sessões com a família, muito dolorosas, mas necessárias. O meu pai fazia perguntas lógicas: que é o crack e como se usa, quanto custa a heroína, qual é o efeito dos cogumelos alucinógenios, qual a percentagem de sucesso dos Alcoólicos Anónimos, e as respostas eram pouco tranquilizadoras. Outros familiares manifestavam a sua desilusão e desconfiança, tinham suportada o viciado durante anos sem compreenderem a sua determinação em destruir-se e destruir as coisas boas que alguma vez tiveram. No meu caso, havia somente carinho no olhar do meu pai e da minha Nini nem uma palavra de reprovação ou de dúvida.

   - Tu não és como eles, Maya, aproximaste- te do abismo, mas não caíste no fundo - disse me a minha Nini em certa ocasião.

   Olympia e Mike tinham-me prevenido precisamente contra a tentação de achar que somos melhores que os outros.

   A vez, cada família ia para o centro do círculo para partilhar as suas experiências com as restantes pessoas. Os orientadores conduziam com destreza aquelas rodadas de confissões e conseguiam criar um ambiente de segurança no qual éramos iguais, nenhum tinha cometido faltas originais. Ninguém permanecia indiferente naqueles momentos, um a um todos cediam, e às vezes alguém ficava no chão, a soluçar, e nem sempre era o viciado. Pais abusadores, colegas violentos, mães odiosas, incesto, uma herança de alcoolismo, havia de tudo.

   Quando chegou a vez da minha família, Mike O'Kelly acompanhou-nos ao centro na sua cadeira de rodas e pediu para colocarem outra cadeira no círculo, que permaneceu vazia. Eu tinha contado à minha Nini muito do que sucedera desde a minha fuga da academia, mas omiti as coisas que poderiam feri-la de morte; a sós com Mike, porém, quando este me vinha visitar, podia contar-lhe tudo, a ele nada o escandalizava.

   O meu pai falou do seu trabalho de piloto, de ter permanecido longe de mim, da sua frivolidade e de como, por egoísmo, me deixara com os meus avós sem dar valor ao seu papel de pai, até que tive o acidente na bicicleta aos dezasseis anos começou a prestar-me atenção. Não estava zangado nem tinha perdido a confiança em mim, disse, faria tudo o que estivesse ao seu alcance para me ajudar. A minha Nini descreveu a menina que fui, saudável e alegre, as minhas fantasias, os meus poemas épicos e jogos de futebol, e repetiu o quanto jostava de mim.

   Naquele instante, entrou o meu Popo tal como era antes da sua doença, grande, a cheirar a tabaco fino, com os seus óculos de ouro e o seu chapéu borsalino, sentou-se na cadeira que lhe correspondia e abriu -me os braços. Nunca antes me tinha presenteado com tal aprumo, pouco habitual num fantasma. Nos seus joelhos chorei e chorei, pedi perdão e aceitei a verdade absoluta de que ninguém podia salvar- me de mim mesma e de que sou a única pessoa responsável pela minha vida.

   - Dá-me a mão, Popo – pedi-lhe, e desde então não mais a soltou.

     Que viram os restantes? Viram-me abraçada a uma cadeira vazia, mas Mike estava à espera do meu Popo, por isso pedira a cadeira, e a minha Nini aceitou a sua presença invisível com naturalidade.

   Não me lembro de como terminou esta sessão, apenas recordo o meu cansaço visceral, que a minha Nini me acompanhou ao quarto e me deitou com a ajuda de Loretta, e pela primeira vez dormi catorze horas seguidas. Dormi pelas minhas inumeráveis noites de insónia, pela indignidade acumulada e pelo medo tenaz. Foi um sono reparador que não voltou a repetir-se, a insónia estava à espera atrás da porta, pacientemente. A partir daquele momento entreguei-me em pleno ao programa e atrevi-me a explorar as cavernas escuras do passado uma a uma. Entrava às cegas numa destas cavernas para me digladiar com dragões e, quando me parecia que os tinha vencido, abria-se outra e mais outra, um labirinto sem fim. Tinha de enfrentar as perguntas da minha alma, que não estava ausente, como eu pensava em Las Vegas, mas entumecida, encolhida, assustada.

     Nunca me senti a salvo nestes buracos negros, mas perdi o medo à solidão e por isso agora, na minha nova vida solitária em Chiloé, estou contente. Que estupidez acabo de escrever nesta página? Em Chiloé não estou sozinha. A verdade é que nunca tinha estado mais acompanhada que nesta ilha, nesta casinha, com este cavalheiro neurótico que é Manuel Arias.

   Enquanto eu cumpria o meu programa de reabilitação, a minha Nini renovou o meu passaporte, entrou em contacto com Manuel e preparou a minha viagem para o Chile. Se tivesse os recursos necessários, teria vindo pessoalmente deixar-me nas mãos do seu amigo em Chiloé. Dois dias antes de terminar o tratamento, meti as minhas coisas na mochila e, mal escureceu, saí da clínica sem me despedir de ninguém. A minha Nini esperava-me a dois quarteirões de distânca no seu decrépito Volkswagen, tal como tínhamos combinado.

   - A partir deste momento, vais transformar-te em fumo, Maya disse-me, com uma piscadela de cumplicidade travessa.

A seguir, deu-me outra foto plastificada do meu Popo, igual à que tinha perdido, e levou-me ao aeroporto de San Francisco.

   Estou a deixar Manuel com os nervos em franja: Achas que os homens se apaixonam tão perdidamente como as mulheres? Achas que o Daniel seria capaz de se vir enterrar em Chiloé por minha causa? Parece-te que estou gorda, Manuel? Tens a certeza? Diz-me a verdade! Manuel diz que nesta casa não se pode respirar, o ar está saturado de lágrimas e suspiros femininos, paixões ardentes e planos ridículos. Até os animais andam estranhos, ao Gato-Literato, antes muito limpo, agora deu-lhe para vomitar no teclado do computador, e o Gato-Lerdo, antes displicente, agora compete pelo meu carinho com o Fakin e acorda na minha cama com as quatro patas no ar para que lhe faça festas na barriga.

   Temos tido várias conversas sobre o amor - demasiadas, na opinião de Manuel. Não há nada mais profundo que o amor, digo-lhe eu, entre outras trivialidades, e ele, que tem uma memória académica, recita-me do nada um verso de D.H. Lawrence sobre como há algo mais profundo que o amor, a solidão de cada um, e como no fundo dessa solidão arde o fogo poderoso da vida nua, ou algo igualmente deprimente para mim, que descobri o fogo poderoso de Daniel nu. Para lá das citações de poetas mortos, Manuel fica em silêncio. As nossas conversas são mais como monólogos, nos quais eu desabafo relativamente a Daniel e não falo de Blanca Schnake, porque esta me proibiu de o fazer, mas a sua presença se também sente no ar. Manuel acha que está demasiado velho para se apaixonar e não tem nada para oferecer a uma mulher, mas a mim cheira-me que o seu problema é cobardia, tem medo de partilhar, depender, sofrer, medo que o cancro de Blanca volte e que morra antes dele, ou, ao invés, tem medo de a deixar viúva ou de ficar senil enquanto a ela ainda lhe reste juventude, o que seria muito provável, porque Manuel é muito mais velho que Blanca.

     Se não fosse pela macabra bolhinha no seu cérebro, de certeza Manuel chegaria saudável e forte aos noventa. Como será um amor entre velhos? Refiro-me à parte física. Farão... aquilo? Quando fiz doze anos e comecei a espiar os meus avós, estes passaram a trancar a porta do quarto. Perguntei à minha Nini o que faziam ali fechados, e respondeu-me que rezavam o terço,

     Às vezes dou conselhos a Manuel, não posso conter-me, e ele desarma- me com ironia, mas sei que me ouve e aprende. Pouco a pouco, está a mudar os seus hábitos de monge, está menos obcecado com a mania da ordem e mais amável para comigo, já não congela quando lhe toco nem foge quando começo a saltar e a dançar ao som dos meus auscultadores - tenho de fazer exercício senão ficarei como as Sabinas de Rubens, umas gordas em cuecas que vi na Pinacoteca de Munique. A bolha no seu cérebro deixou de ser um segredo, porque Manuel não me conseguiu ocultar as suas enxaquecas nem os episódios de visão dupla, confunde as letras nas páginas e no ecrã. Quando Daniel soube do aneurisma, sugeriu-me a Clínica Mayo, em Minneapolis, a melhor em neurocirurgia dos Estados Unidos, e Blanca assegurou-me que o seu pai financiaria a operação, mas Manuel não quis nem falar no assunto, já deve demasiado a Dom Lionel.

     - Por isso mesmo, homem, entre dever um favor ou dever dois, dá no mesmo - contra-argumentou Blanca.

   Arrependo-me de ter queimado aquele montão de notas no deserto de Mojave; falsas ou não, teriam servido para isto.

   Voltei a escrever no meu caderno, que tinha abandonado por uns tempos na ânsia de enviar emails a Daniel. Penso dar-lho quando nos virmos de novo, assim poderá conhecer-me melhor e conhecer minha família. Não posso contar-lhe tudo o que quero por email, onde mal cabem as notícias do dia e uma ou outra palavra de amor. Manu aconselha-me a censurar os meus acessos de paixão, porque toda gente se arrepende das cartas de amor que escreveu, não há nada mais parolo e ridículo, e no meu caso não encontram eco no destinatário. As respostas de Daniel são breves e pouco frequentes.

Deve estar muito ocupado com o seu trabalho na clínica, ou aderiu estritamente às medidas de segurança impostas pela minha avó. Mantenho-me ocupada para não arder em combustão espontânea a pensar em Daniel. Houve casos assim, gente que sem causa aparente incendeia e desaparece em chamas. O meu corpo é um pêssego maduro, está pronto para ser saboreado ou cair da árvore e transformar -se em polpa no chão, entre as formigas. O mais provável é que me aconteça o segundo caso, porque Daniel não dá sinais de vir saborear- me. Esta vida de freira põe- me de péssimo humor, expludo ao menor inconveniente, mas admito que estou a dormir bem pela primeira vez desde que me lembro e os meus sonhos são interessantes, apesar de não serem todos eróticos, como desejaria.

   Desde a morte inesperada de Michael Jackson, sonhei várias vezes com Freddy. Jackson era o seu ídolo e o meu pobre amigo deve estar de luto. Que será feito dele? Freddy arriscou a sua vida para salvar a minha e não tive hipótese de lhe agradecer. De certa forma, Freddy parece-se com Daniel, têm a mesma cor, os olhos cheios de pestanas e enormes, o cabelo crespo. Se Daniel tivesse um filho, poderia ser como Freddy, mas, se eu fosse a mãe desta criança, correríamos o risco de que saísse dinamarquês. Os genes de Marta Otter são muito poderosos, eu não tenho nem uma gota de sangue latino. Nos Estados Unidos, Daniel considera-se negro, apesar de ser de cor clara e poder passar por grego ou árabe.

     - Os homens negros jovens na América são uma espécie ameaçada, demasiados acabam presos ou assassinados antes dos trinta anos disse-me Daniel quando falámos do assunto.

   Daniel foi criado entre brancos, numa cidade liberal do oeste americano, circula num ambiente privilegiado, onde a sua cor não o limitou em nada, mas a sua situação seria diferente noutros locais. A vida é mais fácil para os brancos, isto o meu avô também sabia.

     O meu Popo emanava um ar poderoso, com o seu metro e noventa e os seus cento e vinte quilos, o cabelo grisalho, os óculos com armação de ouro e os inevitáveis chapéus, que o meu pai lhe trazia de Itália. Ao seu lado, sentia-me a salvo de qualquer perigo, ninguém se atreveria a locar naquele homem formidável. Assim acreditei até ao incidente com o ciclista, quando tinha à volta de sete anos.

     A Universidade de Buffalo, no estado de Nova Iorque, tinha convidado o meu avô para dar umas conferências e estávamos hospedados num hotel da Avenida Delaware, uma daquelas mansões de milionários do século passado que hoje são edifícios públicos ou comerciais. Fazia frio e soprava um vento gélido, mas meteu-se-lhe na cabeça irmos caminhar num parque próximo. A minha Nini e eu íamos uns passos à frente a saltar sobre poças de água e não vimos o que aconteceu, apenas ouvimos o grito e a contusão que surgiu de imediato. Atrás de nós vinha um jovem de bicicleta, que aparentemente resvalou numa poça turva, chocou contra o meu avô e rolou pelo chão. O meu Popo cambaleou com o golpe, perdeu o chapéu e deixou cair o guarda-chuva fechado, que levava no braço, mas manteve-se de pé. Eu corri atrás do chapéu e ele abaixou-se para recolher o guarda-chuva, depois estendeu uma mão ao desgraçado para ajudá-lo a levantar-se.

     Num instante a cena tornou-se violenta. O ciclista, assustado, começou a gritar, um carro parou, depois outro, e em poucos minutos chegou uma patrulha da polícia. Não sei como as pessoas concluíram que o meu avô tinha causado o acidente e ameaçado o ciclista com o guarda-chuva. Sem perguntar nada, os polícias empurraram-no com violência contra o carro-patrulha, ordenaram-lhe que pusesse as mãos ao alto, afastaram-lhe as pernas a pontapé, revistaram-no e algemaram-lhe os pulsos atrás das costas.

     A minha Nini interveio como uma leoa, enfrentou os polícias com um rosário de explicações em espanhol, o único idioma que recorda nos momentos de crise, e quando quiseram afastá-la agarrou o maior pela roupa com tal ênfase que conseguiu levantá-lo uns centímetros do chão, admirável para alguém que pesa menos de cinquenta quilos.

     Acabámos na esquadra, mas já não estávamos em Berkeley, ali não havia um Sargento Walczak a oferecer-nos cappucinos. O meu avô, a sangrar do nariz e de um corte na sobrancelha, tentou explicar o que acontecera num tom humilde que nunca lhe ouvíramos e pedir um telefone para ligar para a Universidade. Por única resposta, ameaçaram prendê-lo se não se calasse. À minha Nini, também algemada por receio que tornasse a atacar alguém, ordenaram-lhe que se sentasse num banco enquanto preenchiam um formulário. Ninguém reparou em mim e encostei-me, tremendo, junto à minha avó.

   - Tens de fazer algo, Maya - sussurrou-me ela ao ouvido. No seu olhar compreendi o que me estava a pedir. Respirei fundo para encher os pulmões, lancei um gemido gutural que ressoou pela sala e caí ao chão arqueada para trás, sacudida por convulsões, deitando espuma pela boca e com os olhos em branco. Fingira ataques de epilepsia tantas vezes durante as minhas birras de criança mimada para não ir à escola que poderia enganar um neurocirurgião e, com maior facilidade, uns polícias de Buffalo. Passaram-nos o telefone. Levaram- me numa ambulância para o hospital, acompanhada pela minha Nini, e cheguei completamente recomposta do ataque, perante a surpresa da agente da polícia que nos vigiava, enquanto a Universidade enviava um advogado para tirar o astrónomo da cela, que partilhava com bêbedos e ladrões.

   À noite, reunimo-nos com o meu avô no hotel, extenuados, jantámos apenas um prato de sopa e deitámo-nos os três na mesma cama. A pancada da bicicleta deixou extensas nódoas negras ao meu Popo e as algemas feriram-lhe os pulsos. Na escuridão, envolta entre os seus corpos como num casulo, perguntei-lhes o que tinha acontecido.

   - Nada de grave, Maya, dorme - respondeu o meu Popo. Ficaram um tempo em silêncio, a fingir que dormiam, até que finalmente a minha Nini falou:

     - O que se passou, Maya, é que o teu avô é negro.

   E havia tanta ira na sua voz que não perguntei mais nada. Esta foi a minha primeira lição sobre as diferenças raciais, que não tinha percebido anteriormente e que, segundo Daniel Goodrich, não se podem ignorar.

   Manuel e eu estamos a reescrever o seu livro. Digo «estamos», porque ele põe as ideias e eu a escrita, e até escrevo melhor em castelhano que ele. A ideia surgiu quando Manuel contou os mitos de Chiloé a Daniel e este, como bom psiquiatra, começou a complicar as coisas. Disse que os deuses representam diversos aspetos da psique e os mitos são histórias da criação, da Natureza ou dos dramas humanos fundamentais e estão ligados à realidade, mas os daqui dão a impressão de estarem colados com pastilha elástica, falta-lhes coerência.

   Manuel ficou a pensar e, dois dias mais tarde, anunciou-me que já se tinha escrito extensamente sobre os mitos de Chiloé e o seu livro não traria nada de novo a não ser que pudesse oferecer uma interpretação da mitologia. Falou com os seus editores e deram-lhe um prazo de quatro meses para apresentar o novo manuscrito; temos de nos apressar. Daniel contribui à distância, porque isto lhe interessa, e assim tenho outra desculpa para estar em contacto permanente com o nosso sucessor em Seattle.

   O clima invernoso limita as atividades na ilha, mas há sempre trabalho: é preciso tratar das crianças e dos animais, apanhar marisco na maré baixa, remendar redes, reparar provisoriamente as casas agredidas pelas tempestades, tecer e contar nuvens até às oito, altura em que as mulheres se juntam a ver a telenovela e os homens a beber e a jogar ao truco. Choveu a semana inteira, naquele pranto tenaz do céu do sul, e a água infiltra-se-nos pelos buracos das telhas deslocadas pelo temporal de terça-feira. Pomos frascos debaixo das goteiras e andamos sempre de pano na mão para secar o chão. Quando parar de chover vou subir ao telhado, uma vez que Manuel não tem idade para fazer acrobacias e já perdemos a esperança de ver por aqui o «mestre técnico» antes da primavera. O sapatear da água costuma inquietar os nossos três morcegos, pendurados de cabeça para baixo nas vigas altas, fora do alcance das garras inúteis do Gato-Lerdo. Detesto aqueles ratos alados de olhos cegos, porque me podem sugar o sangue durante a noite, apesar de Manuel me garantir que não são aparentados com os vampiros da Transilvânia.

     Dependemos mais do que nunca da lenha e do negro fogão de ferro, onde a chaleira está sempre pronta para fazer mate ou chá; há um rasto de fumo, uma fragância picante na roupa e na pele. A convivência com Manuel é uma dança delicada, eu trato da louça, ele carrega a lenha e, entre os dois, cozinhamos. Durante algum tempo também fazíamos as limpezas, porque Eduvigis deixou de vir cá a casa, apesar de mandar Juanito recolher a roupa suja e devolvê-la lavada, mas agora regressou ao trabalho.

     Depois do aborto de Azucena, Eduvigis andou muito calada, sem se aproximar da aldeia mais do que o indispensável nem falar com as pessoas. Sabia dos rumores que circulavam nas suas costas sobre a sua família. Muitos culpavam-na por ter permitido que Carmelo Corrales violasse as filhas, mas não faltavam os que culpavam as filhas «por tentarem o pai, que era um bêbedo e não sabia o que fazia», como ouvi dizer na Taberna do Mortito. Blanca explicou-me que a docilidade de Eduvigis face aos abusos do marido é comum nestes casos e é injusto acusá-la de cumplicidade, porque também ela, à imagem do resto da família, era uma vítima. Temia o marido e nunca foi capaz de o enfrentar.

     - É fácil julgar os outros quando não passamos pela mesma coisa - concluiu Blanca.

     Isto deixou-me a pensar, porque fui das primeiras a julgar duramente Eduvigis. Arrependida, fui visitá-la a casa. Encontrei-a inclinada sobre o tanque a lavar os nossos lençóis com sabão azul e uma escova de madeira. Limpou as mãos ao avental e convidou-me a tomar «um cházinho», sem olhar para mim. Sentamo-nos diante do fogão à espera que a água fervesse, depois bebemos o chá em silêncio. A intenção conciliadora da minha visita era clara, teria sido desconfortável para ela que eu lhe pedisse desculpas e uma falta de respeito mencionar Carmelo Corrales. Ambas sabíamos por que estava eu ali.

   - Como está, dona Eduvigis? - perguntei finalmente, quando tínhamos terminado a segunda chávena de chá, usando sempre o mesmo saquinho.

   - Vou andando, é tudo. E você, minha filha?

     - Também vou andando, obrigada. E a sua vaca, está bem?

- Sim, sim, mas já tem a sua idade - suspirou. - Pouco leite dá. Está a pôr-se fraquinha, digo eu.

- O Manuel e eu estamos a usar leite condensado.

- Jéssus! Diga ao senhor que, a partir de amanhã mesmo, o Juanito lhes vai levar leitinho e queijinho.

     - Muito obrigada, dona Eduvigis.

     - E a sua casinha não há de estar muito limpa...

- É verdade, é verdade, está bastante suja, não vale a pensa mentir-lhe - confessei.

     - Oue! Desculpe-me.

     - Não, não, não há nada que desculpar.

     - Diga ao senhor que conte comigo logo, logo.

     - Como habitualmente, então, dona Eduvigis.

     - Sim, sim, gringuita, como habitualmente.

   A seguir, falámos de doenças e de batatas, como exige o protocolo.

   Estas são as notícias recentes. O inverno em Chiloé é frio e longo, mas muito mais suportável que aqueles invernos do norte do mundo, aqui não temos de nos forrar com peles ou afastar a neve ao pontapé. Temos aulas na escola quando o clima o permite, mas há truco na taberna todos os dias, mesmo que o céu se desfaça em relâmpagos.

Nunca faltam batatas na sopa, lenha no fogão nem mate para os amigos. Às vezes, temos eletricidade, outras vezes arranjamo-nos com velas.

   Quando não chove, a equipa do Caleuche treina ferozmente para o campeonato de setembro, os pés dos rapazinhos não lhes cresceram e as sapatilhas de futebol ainda servem a todos. Juanito é suplente e Pedro Pelanchugay foi eleito guarda-redes da equipa por votação. Neste país tudo se resolve votando democraticamente ou nomeando comissões, processos algo complicados; os chilenos acham que as soluções simples são ilegais.

     Dona Lucinda fez cento e dez anos e, nas últimas semanas, ganhou um aspeto de boneca de trapos coberta de pó, já não tem energia para tingir lã e passa o tempo sentada a olhar para o lado da morte, mas! estão-lhe a nascer dentes novos. Não haverá curantos nem turistas até à primavera, e entretanto as mulheres tecem e fazem objetos de artesanato, porque é um pecado estar com as mãos ociosas, a preguiça é coisa de homens. Estou a aprender a tecer, para não ficar mal, e por agora faço cachecóis à prova de erros, com ponto corrido e lã grossa.

   Metade da população da ilha está constipada, com bronquite o com dores nos ossos, mas se a lancha do Serviço Nacional de Saúde atrasa uma semana ou duas, a única que lhe sente a falta é Lilian Trevino, que está de amores com o médico imberbe, segundo dizem. As pessoas desconfiam dos médicos que não levam dinheiro, prefere tratar-se com remédios naturais e, se o caso é grave, com os recurso mágicos de uma machi. O padre, ao invés, sempre chega para dizer sua missa dominical, para evitar que as igrejas pentecostais e evangélicas lhe deitem a mão aos paroquianos. Segundo Manuel, isto não se passará facilmente, porque no Chile a Igreja Católica tem mais influência que no Vaticano. Contou-me que este foi o último país do mundo a elaborar uma lei do divórcio e a que há é muito complicada, é mais fácil matar o cônjuge que divorciar-se, por isso ninguém se quer casar e a maioria das crianças nasce fora do casamento. Do aborto nem se fala, é uma palavra grosseira, apesar de ser prática corrente. Os chilenos veneram o Papa, mas não lhe fazem caso no que diz respeito a assuntos sexuais e às suas consequências, porque um velhinho solteiro, com boa situação económica e que nunca trabalhou na vida percebe pouco disso.

   A telenovela avança muito devagar, vai no episódio noventa e dois e ainda estamos na mesma situação que no princípio. É o acontecimento mais importante da ilha, aqui as pessoas sofrem mais com as desgraças das personagens do que com as suas. Manuel não vê televisão e eu percebo pouco do que os atores dizem e quase nada do argumento, parece que uma tal Elisa foi raptada pelo tio, que se apaixonou por ela e a mantém encerrada nalgum sítio, enquanto a tia a procura para a matar, em vez de matar o marido, como seria natural.

     A minha amiga, a Pincoya, e a sua família de lobos-marinhos já não estão na gruta, emigraram para outras águas e outros rochedos, mas regressarão na próxima estação. Os pescadores garantiram-me que são criaturas de costumes arraigados e voltam sempre no verão.

Livingston, o cão dos carabineiros, alcançou o seu tamanho definitivo e revelou-se poliglota, entende da mesma forma instruções em inglês, espanhol e chilote. Ensinei-lhe quatro truques básicos que qualquer animal doméstico sabe e o resto aprendeu por conta própria, e, portanto, conduz ovelhas e bêbedos, vai buscar as presas quando o levam para a caça, dá o alarme se há incêndios ou inundações, deteta drogas - exceto marijuana - e ataca a brincar quando Humilde Garay lho ordena nas demonstrações, mas na vida real é muito manso. Ainda não conseguiu localizar nenhum cadáver, porque infelizmente não temos tido nenhum, como me disse Garay, mas encontrou o neto de quatro anos de Aurelio Nancupel, que se tinha perdido na colina. Susan, a minha antiga madrasta, daria ouro por um cão como Livingston.

   Faltei duas vezes à reunião das bruxas boas na ruca, a primeira quando Daniel estava aqui e a segunda este mês, porque Blanca e eu nao pudemos ir até à Ilha Grande, havia uma ameaça de tempestade e o capitão de mar proibiu a navegação. Tive muita pena, porque íamos conhecer o bebé recém-nascido de uma delas e estava curiosa por o conhecer, gosto das crianças quando ainda não respondem. Senti muito a falta do nosso sabá mensal na barriga da Pachamama com

aquelas mulheres jovens, sensuais, de mente e coração sãos. Entre elas sinto-me aceite, não sou a gringa, sou a Maya, uma das bruxas, e pertenço a esta terra. Quando vamos a Castro ficamos a dormir uma ou duas noites com Dom Lionel Schnake, por quem me teria apaixonado se Daniel Goodrich não se tivesse atravessado na minha carta astral. É irresistível como o mítico Millalobo, enorme, sanguíneo, bigodudo e luxurioso.

   - Olha só a sorte que tens, comunista, veio-te ter a casa esta gringuinha linda! - exclama de cada vez que vê Manuel Arias.

   A investigação do caso de Azucena Corrales não deu em nada por falta de provas, não havia evidências de que o aborto tivesse sido induzido, esta é a vantagem da infusão concentrada de folhas de borragem e abacate. Não voltámos a ver a menina, porque foi para Quellon viver com a irmã mais velha, a mãe de Juanito, que ainda não conheço.

    Depois do sucedido, os carabineiros Carcamo e Garay começaram a indagar por sua conta sobre a paternidade do bebé morto e concluíram o que já toda a gente sabia, que Azucena foi violada pelo próprio pai, à semelhança das outras filhas. Isto é «privativo», como dizem por aqui, e ninguém se sente com o direito de intervir no que acontece para lá das portas de qualquer lar, «a roupa suja lava-se em casa».

   Os carabineiros queriam que a família denunciasse o crime, assim poderiam intervir legalmente, mas não o conseguiram. Blanca Schnake também não conseguiu convencer Azucena ou Eduvigis a fazê-lo. Corriam rumores e acusações, a aldeia inteira opinava sobre o assunto e, por fim, o escândalo acabou por se diluir no palavreado, No entanto, foi feita justiça da forma que menos se esperava, quando gangrenou a Carmelo Corrales o pé que lhe restava. O homem esperou que Eduvigis fosse até Castro tratar dos formulários para a segunda amputação e injetou uma caixa completa de insulina. Eduvigis deu com ele inconsciente e segurou-o até ele morrer, alguns minutos mia tarde. Ninguém, nem os carabineiros, mencionou o suicídio; por consenso geral, o doente teve morte natural, assim puderam dar-lhe sepultura cristã e evitou-se mais uma humilhação para a desafortunada família.

   Carmelo Corrales foi enterrado sem se esperar pela chegada do padre itinerante, com uma breve cerimónia a cargo do fiscal da igreja que elogiou a habilidade de carpinteiro de barcos do defunto, única virtude que conseguiu sacar da manga, e encomendou a sua alma à misericórdia divina. Assistiram um punhado de vizinhos movidos por compaixão para com a família, e entre eles estavam Manuel e eu. Blanca estava tão furiosa pelo que sucedera a Azucena que não apareceu no cemitério, mas comprou uma coroa de flores de plástico para a sepultura em Castro. Nenhum dos filhos de Carmelo veio ao funeral, apenas Juanito estava presente, vestido com o seu fato da primeira comunhão, que lhe fica pequeno, de mão dada com a avó, que se vestiu de luto da cabeça aos pés.

   Acabámos de celebrar a festa do Nazareno na ilha de Caguach. Vieram milhares de peregrinos, incluindo argentinos e brasileiros, a maioria em grandes barcaças onde cabem duzentas ou trezentas pessoas de pé, bem apertadas umas conta as outras, mas também chegaram pessoas em botes artesanais. As embarcações navegavam precariamente num mar bravo, com nuvens enormes e densas no céu, mas ninguém se inquietava, porque há a crença de que o Nazareno protege os peregrinos. Isto não corresponde à verdade, porque alguns botes naufragaram no ano passado e houve cristãos que morreram afogados. Em Chiloé afoga-se muita gente porque ninguém sabe nadar, exceto o pessoal da Armada, que aprende à força.

   O Santo Cristo, muito milagroso, consiste numa armação de arame com cabeça e mãos de madeira, tem uma peruca de cabelo humano, olhos de vidro e um rosto sofredor, banhado em lágrimas e sangue. Uma das tarefas do sacristão é retocar o sangue com verniz das unhas antes da procissão. Tem uma coroa de espinhos, está vestido com uma túnica roxa e carrega uma pesada cruz. Manuel escreveu sobre o Nazareno, que já tem trezentos anos e é um símbolo da fé dos chilotes, para ele não é novidade, mas acompanhou-me a Caguach. Para mim, criada em Berkeley, o espetáculo não podia ser mais pagão.

   Caguach tem dez quilómetros quadrados e quinhentos habitantes, mas durante as procissões de janeiro e agosto os devotos são aos milhares. É preciso a assitência da polícia para manter a ordem durante a navegação e os quatro dias de cerimónias em que os devotos acorrem em massa para pagar as suas promessas. O Santo Cristo não desculpa quem não paga as dívidas pelos favores recebidos. Nas missas, os cestos da coleta enchem-se até acima com dinheiro e jóias, os peregrinos pagam como podem, há até quem ofereça os telemóveis. Senti medo, primeiro na Cahuilla, que oscilou durante horas sobre as vagas empurrada por um vento traiçoeiro, com o padre Lyon a cantar hinos na popa, e depois na ilha, entre os fanáticos religiosos, e finalmente ao regressar, quando os peregrinos nos assaltaram para subir à lancha, porque não havia transporte suficiente para a multidão. Trouxemos onze pessoas de pé na Cahuilla, agarradas umas às outras incluindo vários bêbedos e cinco crianças a dormir nos braços das mães.

   Fui a Caguach com uma atitude de são ceticismo, apenas par assistir à festa e filmá-la, como prometera a Daniel, mas admito que fervor religioso me contagiou e acabei de joelhos diante do Nazaren dando-lhe graças por duas notícias estupendas que tinha recebido minha Nini. A sua mania da perseguição leva-a a compor mensage crípticas, mas como escreve muito e com frequência consigo adivinhar o que diz. A primeira notícia é que recuperou finalmente o casa colorido onde passei a minha infância, depois de três anos de batalha legal para expulsar o comerciante indiano, que nunca pagou a renda e se apoiava nas leis de Berkeley, que favorecem o inquilino. A minha avó decidiu limpá-la, consertar as imperfeições mais evidentes e alugar quartos a estudantes da Universidade, assim pode sustentar a casa e viver nela. Que vontade de me passear por aqueles quartos maravilhosos! A segunda notícia, muito mais importante, é sobre Freddy. Olyimpia Pettiford apareceu em Berkeley, acompanhada por outra senhora tão imponente como ela, arrastando Freddy atrás de si para o colocar sob os cuidados de Mike 0'Kelly.

     Em Caguach, acampei com Manuel numa tenda de campanha, porque não havia alojamento que chegasse para toda a gente. Deveriam estar melhor preparados para esta invasão de crentes, que se repete todos os anos desde há mais de um século. O dia estava húmido e gelado, mas a noite foi muito pior. Tiritávamos dentro dos sacos-cama, com a roupa vestida, gorro, meias grossas e luvas, enquanto a chuva caía sobre a lona e escorria por debaixo do chão de plástico. Por fim, decidimos unir os dois sacos e dormir juntos. Colei-me às costas de Manuel, como uma mochila, e nenhum dos dois mencionou o acordo feito em fevereiro de que nunca mais me tornaria a meter na cama dele. Dormimos como bebés até que se começou a fazer ouvir no exterior o ruído dos peregrinos.

   Não passámos fome, porque havia inúmeros locais de venda de comida, empadas, salsichas, marisco, batatas cozidas em cinza, carneiros inteiros assados no espeto, para além de doces chilenos e vinho a granel, disfarçado em embalagens de refrigerantes, porque os padres não veem com bons olhos o álcool nas festas religiosas. As casas de banhos, uma fileira de WC portáteis, revelaram-se insuficientes e com poucas horas de uso já davam náuseas. Os homens e as crianças aliviavam-se dissimuladamente atrás das árvores, mas para as mulheres era mais complicado.

   Ao segundo dia, Manuel teve de usar um dos WC e, de forma inexplicável, trancou a porta e ficou fechado lá dentro. Naquele momento, eu andava a passear pelas tendas que vendiam artesanato e objetos diversos, que se alinhavam ao lado da igreja, e apercebi-me do problema pelo alvoroço que se armou. Aproximei-me por curiosidade, sem suspeitar do que se tratava, e vi um grupo de gente a abanar a casinha de plástico com risco de a virar, enquanto lá dentro Manuel gritava e batia nas paredes como um alienado. Várias pessoas riam-se, mas apercebi-me de que a angústia de Manuel era a de alguém enterrado em vida. A confusão foi aumentado, até que um «mestre técnico» afastou os amadores e começou calmamente a desmontar o fecho com um canivete. Cinco minutos mais tarde, abriu a porta e Manuel saiu de lá disparado como um bólide e caiu no chão, apoplético e sacudido por ataques de vómito. Já ninguém se ria.

   Nisto, o padre Lyon aproximou-se e, entre os dois, ajudámos Manuel a levantar-se, amparámo-lo pelos braços e demos uns passos vacilantes em direção à tenda. Atraídos pela confusão, chegaram dois carabineiros a perguntar se o cavalheiro estava doente, apesar de segu- ramente suspeitarem de que tinha bebido mais do que a conta, porque por essa altura já havia por ali muitos bêbedos a cambalear. Não sei o pensou Manuel, mas foi como se tivesse aparecido o diabo, empurrou-nos com uma expressão de terror, tropeçou, caiu de joelhos e vomitou uma espuma esverdeada. Os carabineiros fizeram menção de intervir, mas o padre Lyon colocou-se na sua frente com a autoridade conferida pela sua reputação de santo, garantiu-lhes que se tratava de uma indigestão e que éramos capazes de tratar do doente.

   O padre e eu levámos Manuel para a tenda, limpámo-lo com um pano molhado e deixámo-lo a descansar. Dormiu três horas seguidas, encolhido, como se tivesse apanhado uma tareia.

   - Deixa-o sozinho, gringuita, e não lhe faças perguntas - disse-me o padre Lyon antes de partir para cumprir os seus deveres, mas eu não quis deixar Manuel e fiquei na tenda a vigiar-lhe o sono.

   Na esplanada diante da igreja tinham sido dispostas várias mesas e ali se instalaram os sacerdotes a distribuir a comunhão durante a missa. Depois começou a procissão, com a imagem do Nazareno levada sobre um andor pelos fiéis, que cantavam aos gritos, enquanto dezenas de penitentes se arrastavam de joelhos na lama ou queimavam as mãos com cera derretida das velas, clamando pelo perdão dos seus pecados.

     Não pude cumprir a minha promessa de filmar o evento para Daniel, porque na agitada viagem para Caguach a câmara caiu-me ao mar, uma perda menor, tendo em conta que uma senhora deixou cair um cãozinho. Resgataram-no da água meio congelado, mas vivo, outro milagre do Nazareno, como disse Manuel.

   - Não me venhas com ironias de ateu, Manuel, olha que podemos afundar-nos - respondeu-lhe o padre Lyon.

   Uma semana depois da peregrinação a Caguach, fui com Liliana Trevino visitar o padre Lyon, uma estranha viagem quase clandestina, para evitar que Manuel ou Blanca tomassem conhecimento. As explicações teriam sido muito aborrecidas, porque não tenho o direito de esquadrinhar o passado de Manuel e muito menos nas suas costas. Sou movida pelo carinho que sinto por ele, um carinho que tem vindo a crescer com a convivência. Depois de Daniel partir e de cair o inverno passámos muito tempo sozinhos nesta casa sem portas, onde o espaço é demasiado reduzido paia guardar segredos. A minha relação com Manuel tornou-se mais estreita, finalmente confia em mim e tenho pleno acesso aos seus papéis, às suas notas, às suas gravações e ao seu computador. O trabalho deu-me pretextos para escarafunchar nas suas gavetas. Perguntei porque não tem fotografias de parentes ou amigos e explicou-me que viajou muito, recomeçou do zero várias vezes em diferentes locais e, pelo caminho, foi-se desprendendo da carga material e sentimental, diz que não precisa de fotos para recordar as pessoas importantes para si. Nos seus arquivos não encontrei nada sobre a parte do seu passado que me interessa. Sei que esteve preso mais de um ano na altura do golpe militar, que foi desterrado para Chiloé e, em 1976, deixou o país; sei dos seus casamentos, dos seus divórcios, dos seus livros, mas não sei nada acerca da sua claustrofobia ou dos seus pesadelos. Se não descobrir, será impossível ajudá-lo e nunca chegarei a conhecê-lo verdadeiramente.

   Dou-me muito bem com Liliana Trevino, tem a personalidade da minha avó, enérgica, idealista, intransigente e apaixonada, mas não é tão mandona. Arranjou as coisas de forma a irmos fazer uma visita discreta ao padre Lyon na lancha do Serviço Nacional de Saúde, convidadas pelo doutor, o seu apaixonado, que se chama Jorge Pedraza. Parece muito mais jovem do que é, acaba de fazer quarenta anos e há dez que presta serviço no arquipélago. Está separado da mulher e a tratar dos lentos trâmites para o divórcio, e tem dois filhos, um com Síndroma de Down. Pensa casar-se com Liliana mal esteja livre, apesar de esta não ver a vantagem de o fazer; diz que os seus pais viveram vinte e nove anos juntos e criaram três filhos sem precisar de papéis.

     A viagem durou uma eternidade, porque a lancha se deteve em vários sítios, e quando chegámos onde o padre Lyon vivia já eram quatro da tarde. Pedraza deixou-nos ali e continuou o seu percurso habitual, com o compromisso de nos vir buscar passado hora e meia para voltarmos à nossa ilha. O galo de plumas iridescentes e o carneiro obeso que vira antes estavam nos mesmos lugares, vigiando a casinha revestida a telhas de madeira do sacerdote. O lugar pareceu-me diferente sob a luz invernal; até as flores de plástico do cemitério pareciam descoloradas. O padre estava à nossa espera com chá, doces, pão acabado de cozer, queijo e presunto, servidos por uma vizinha, que cuida do padre e o vigia como se fosse seu filho.

   - Vista o seu ponchinho e tome a aspirina, padrezinho, olhe que não estou para cuidar de velhinhos doentes - ordenou-lhe a mulher no chileno diminutivo, enquanto o padre Lyon resmungava.

   O sacerdote esperou que estivéssemos sozinhos e suplicou-nos que comêssemos os bolos, porque senão teria de os comer ele, e na sua idade caíam como pedras no estômago Tínhamos de regressar antes que escurecesse e, como o tempo era pouco, fomos diretas ao assunto.

   - Porque não perguntas a Manuel o que queres saber, gringuita? - sugeriu-me o sacerdote, entre dois goles de chá.

   - Perguntei-lhe, padre, mas ele esquiva-se.

   - Então há que respeitar o seu silêncio, menina.

   - Desculpe-me, padre, mas não vim aqui incomodá-lo por pura curiosidade. Manuel está doente da alma e eu quero ajudá-lo.

   - Doente da alma... Que sabes tu disso, gringuita? - perguntou--me, sorrindo, trocista.

   - Bastante, porque cheguei a Chiloé doente da alma e o Manuel acolheu-me e ajudou-me a ficar melhor. Tenho de lhe retribuir o favor, não acha?

     O sacerdote falou-nos do golpe militar, da repressão implacável que se lhe seguiu e do seu trabalho no Vicariato da Solidariedade, que não durou muito, porque também ele foi detido.

   - Tive mais sorte que outros, gringuita, porque o cardeal em pessoa resgatou-me em menos de dois dias, mas não conseguiu evitar que fosse desterrado.

   - Que acontecia aos detidos?

   - Depende. Podiam cair nas mãos da polícia política, a DINA, que foi seguida pelo CNI, dos carabineiros ou dos serviços de segurança de um ramo das forças armadas. Manuel foi primeiro levado para o Estádio Nacional e, depois, para a Villa Grimaldi.

   - Porque se recusa ele a falar disso?

   - É possível que não se lembre, gringuita. Às vezes, a mente bloqueia os traumas demasiado graves como defesa contra a loucura ou a depressão. Olha, vou-te dar um exemplo que vi no Vicariato. Em 1974 calhou-me entrevistar um homem que tinham acabado de soltar de um campo de concentração e estava física e moralmente despedaçado. Gravei a conversa, como era nosso hábito. Conseguimos tirá- lo do país e não o voltei a ver durante muito tempo. Quinze anos mais tarde, fui a Bruxelas e procurei-o, porque sabia que vivia naquela cidade, e queria entrevistá-lo para um ensaio que estava a escrever para a revista Mensaje, dos jesuítas. Não se lembrava de mim, mas aceitou conversar comigo. A segunda gravação não se parecia em nada à primeira.

   - Em que sentido? - perguntei.

   - O homem recordava que tinha sido preso, mas nada mais. Tinha apagado lugares, datas e pormenores.

   - Suponho que o senhor o tenha feito ouvir a primeira gravação.

   - Não, isso teria sido uma crueldade. Na primeira gravação, contara-me da tortura e dos ultrajes sexuais que sofreu. O homem tinha esquecido tudo para continuar a viver com integridade. Talvez Manuel tenha feito o mesmo.

   - Se é assim, aquilo que Manuel reprimiu aflora nos seus pesadelos - interrompeu Liliana Trevino, que nos escutava com grande atenção.

   - Tenho de descobrir o que lhe aconteceu, padre, por favor ajude-me - pedi ao sacerdote.

   - Terias de ir a Santiago, gringuita, e meter o nariz nos recantos mais esquecidos. Posso-te pôr em contacto com pessoas que te ajudariam…

   - Vou fazê-lo logo que possa. Muito obrigada.

   - Ligue-me sempre que quiser, menina. Agora tenho o meu próprio telemóvel, mas nada de correio eletrônico, ainda não fui capaz de aprender os mistérios de um computador. Fiquei muito para trás nas comunicações.

   - O senhor está em comunicação com o céu, padre, não precisa de computador - disse-lhe Liliana Trevino.

   - Até no céu já têm Facebook, filha!

   Desde que Daniel partiu, a minha impaciência tem crescido. Passaram-se mais de três meses intermináveis e estou preocupada. Os meus avós nunca se separavam devido à possibilidade de que pudessem não se reencontrar, receio que isto possa ocorrer com Daniel e comigo. Começo a esquecer o seu cheiro e a pressão exata das suas mãos, o som da sua voz, o seu peso sobre o meu corpo, e assaltam-me dúvidas lógicas, se realmente me ama, se pensa voltar ou se o nosso encontro foi apenas um capricho de mochileiro peripatético. Dúvidas e mais dúvidas. Daniel escreve-me, isto poderia tranquilizar-me, como argumenta Manuel quando lhe exaspero os nervos, mas não me escreve que chegue e as suas mensagens são parcimoniosas. Nem toda a gente sabe comunicar por escrito, como eu, modéstia à parte, e nada diz de vir ao Chile, o que é mau sinal.

   Faz-me muita falta ter uma confidente, uma amiga, alguém da minha idade com quem desabafar. Blanca aborrece-se com as minhas litanias de amante frustrada e a Manuel não me atrevo a chateá-lo demasiado, porque agora as suas dores de cabeça são mais frequentes e intensas, costuma cair fulminado e não há analgésico, panos frios ou remédio de homeopatia capaz de o aliviar. Por um tempo fingiu ignorá-las, mas, perante a minha pressão e a de Blanca, ligou ao seu neurologista e em breve deverá ir à capital para lhe examinarem a maldita bolha. Não suspeita de que penso ir com ele, graças à generosidade do portentoso Millalobo, que me ofereceu dinheiro para comprar a passagem e mais algum para os gastos. Aqueles dias em Santiago vão-me servir para acabar de pôr no sítio as peças do puzzle que formam o passado de Manuel. Tenho de completar os dados dos livros e da Internet. A informação está disponível, não me custou nada obtê -la, mas foi como descascar uma cebola, camadas e mais camadas fina e transparentes, sem chegar nunca ao núcleo. Investiguei sobre a denúncias de torturas e assassinatos, extensamente documentadas, mas preciso de me aproximar dos sítios onde estes factos ocorreram quero entender Manuel. Espero que os contactos do padre Lyon m sirvam de alguma coisa.

   É difícil falar disto com Manuel e com outras pessoas; os chileno são prudentes, receiam ofender ou dar uma opinião direta, a linguagem é uma dança de eufemismos, o hábito da cautela está arraigado há muito ressentimento debaixo da superfície, que ninguém deseja ventilar. É como se houvesse uma espécie de embaraço coletivo, un porque sofreram e outros porque beneficiaram durante a ditadura, un porquê foram embora, outros porque ficaram, uns porque perderam familiares, outros porque fizeram vista grossa. Por que motivo a minha Nini nunca falou de nada disto? Criou-me a falar em castelhano, apesar de eu lhe responder em inglês, levava-me a La Pena Chilena, em Berkeley, ponto de reunião de latino-americanos, para ouvir música, ver obras de teatro ou filmes, e fazia-me memorizar poemas de Pablo Neruda, que eu mal entendia. Através dela conheci o Chile antes de ter posto um pé no país; falava-me de abruptas montanhas nevadas, de vulcões adormecidos que às vezes despertam com uma sacudidela apocalíptica, da comprida costa do Pacifico com as suas ondas encrespadas e a sua crista de espuma, do deserto no norte, seco como a Lua, que às vezes floresce como uma pintura de Monet, dos bosques frios, dos lagos límpidos, dos rios fecundos e dos glaciares azuis. A minha avó falava do Chile com uma voz de apaixonada, mas nada dizia das pessoas nem da História, como se fosse um território virgem, desabitado, nascido ontem de um suspiro telúrico, imutável, parado no tempo e no espaço. Quando se juntava com outros chilenos, a língua acelerava-se-lhe e o seu sotaque mudava e eu já não conseguia seguir o fio do diálogo.

   Os emigrantes vivem com os olhos postos no país remoto que deixaram, mas a minha Nini nunca mostrou empenho em visitar o Chile. Tem um irmão na Alemanha com quem raramente fala, os pais morreram e o mito da família tribal não se aplica no seu caso.

   - Não me resta ninguém ali. Para quê ir até lá? - costumava dizer-me.

   Terei de esperar para lhe perguntar cara a cara o que sucedeu com o seu primeiro marido e por que partiu ela para o Canadá.

 

     A ilha está alegre, porque chegaram os pais das crianças para a celebração das festas nacionais do Chile e é o inicio da primavera. A chuva do inverno, que ao princípio me parecia poética, acabou por tornar-se insuportável. E eu vou festejar o meu aniversário - sou Balança -, tenho vinte anos, acabou-se a adolescência, Jéssus, que alívio!

     Normalmente, ao fim de semana há sempre algumas pessoas mais jovens que vêm visitar as famílias, mas neste mês de setembro acorreram aqui em massa, as lanchas vinham cheias. Trouxeram prendas para os filhos, que em muitos casos não veem há vários meses, e dinheiro para os avós e para gastar em roupa, objetos para a casa, tetos novos para substituir os que o inverno danificou. Entre os visitantes estava Lucia Corrales, a mãe de Juanito, uma mulher simpática, boa rapariga e demasiado jovem para ter um filho de onze anos. Contou-nos que Azucena arranjou emprego como empregada de limpeza de uma pousada em Quellon, não quer continuar os estudos e não pensa voltar para a nossa ilha, para não ter de enfrentar os comentários maldosos das pessoas.

   - Nos casos de violação, costumam culpar a vítima - disse-me Blanca, corroborando o que eu ouvira na Taberna do Mortito.

   Juanito é tímido e desconfiado com a mãe, que conhece apenas por fotografias, porque ela o deixou nos braços de Eduvigis quando tinha dois ou três meses e não o voltou a ver enquanto Carmelo Corrales foi vivo, apesar de lhe telefonar com frequência e de sempre o ter sustentado. O rapazinho falara-me muitas vezes dela com uma mistura de orgulho, porque lhe manda bons presentes, e de raiva, porque o abandonou em casa dos avós. Apresentou-ma com as faces coradas e os olhos no chão:

   - Esta é a Lúcia, a filha da minha avó - disse.

   Mais tarde, contei-lhe que a minha mãe se tinha ido embora quando eu era bebé e que também fui criada pelos meus avós, mas tive muita sorte, a minha infância foi feliz e não a trocaria por nenhuma outra. Juanito olhou-me demoradamente com os seus grandes olhos escuros, e então lembrei-me das marcas de golpes de cinto que há alguns meses tinha nas pernas, quando Carmelo Corrales ainda lhe conseguia chegar. Abracei-o, triste, porque não posso protegê-lo disto, carregará aquelas marcas para o resto da vida.

     Setembro é o mês do Chile, de norte a sul ondulam bandeiras e até nos sítios mais remotos se erguem ramadas, quatro postes de madeira e um teto de ramos de eucalipto, onde a aldeia acode para beber e sacudir o esqueleto com ritmos americanos e com a cueca, a dança nacional que imita a corte entre o galo e a galinha. Aqui também fizemos ramadas e houve empadas à discrição e vinho, cerveja e chicha a rodos. Os homens acabaram a roncar esparramados no chão e, ao entardecer, os carabineiros e as mulheres enfiaram-nos no pequeno camião da frutaria e foram-nos distribuindo pelas respetivas casas. Nenhum bêbedo vai preso a 18 e 19 de setembro, a menos que puxe de faca.

   No televisor de Nancupel, vi os desfiles militares em Santiago, onde a Presidente Michelle Bachelet passou revista às tropas no meio de aclamações da multidão, que a venera como a uma mãe. Nenhum outro presidente chileno foi tão querido. Há quatro anos, antes das eleições, ninguém apostava nela, porque se supunha que os chilenos não votariam numa mulher, ainda por cima socialista, mãe solteira e agnóstica, mas ganhou a presidência e também o respeito de mouros e cristãos, como diz Manuel, apesar de ainda não ter visto nenhum mouro em Chiloé.

Temos tido dias mornos e céus azuis, o inverno retrocedeu perante a investida da euforia patriótica. Com a primavera foram avistados alguns lobos-marinhos nas proximidades da gruta, acho que em breve voltarão a instalar-se onde costumavam estar antes e poderei retomar a minha amizade com a Pincoya, se ela ainda se lembrar de mim. Subo o caminho da encosta para a gruta quase diariamente, porque ali costumo encontrar o meu Popo. A melhor prova da sua presença é que o Fakin se põe nervoso e às vezes foge a correr com o rabo entre as pernas. É apenas uma silhueta difusa, o cheiro delicioso do seu tabaco inglês no ar, ou a sensação de que me abraça, então fecho os olhos e abandono-me ao calor e à segurança daquele peito largo, daquela barriga de xeique, daqueles braços poderosos. Uma vez perguntei-lhe onde estava ele quando mais tinha precisado no ano anterior e não tive de esperar pela resposta, porque no fundo já a conhecia: esteve sempre comigo. Enquanto o álcool e as drogas dominaram a minha existência, ninguém podia chegar a mim, eu era uma ostra na sua concha, mas, nos momentos de maior desespero, o meu avô carregava-me nos braços. Nunca me perdeu de vista e, quando estive em perigo de vida, drogada com heroína adulterada numa casa de banho pública, salvou-me. Agora, sem ruído dentro da cabeça, sinto-o sempre por perto. Diante da escolha entre o prazer fugaz de um gole de álcool ou o prazer memorável de um passeio pela colina com o meu avô, prefiro sem hesitar o segundo. O meu Popo encontrou por fim a sua estrela. Esta ilha remota, invisível na conflagração do mundo, verde, sempre verde, é o seu planeta perdido. Em vez de procurar tanto o seu planeta no céu, poderia ter olhado para sul.

   As pessoas despiram os casacos de inverno e saíram para apanhar sol, mas eu ainda uso o meu gorro de lã verde-bílis, porque perdemos o campeonato escolar de futebol. Os meus desafortunados «caleuhes», cabisbaixos, assumiram a total responsabilidade pela minha carecada. A partida realizou-se em Castro com a assistência de metade da população da nossa ilha, que foi puxar pelo Caleuche, incluindo a dona Lucinda, que transportámos na lancha de Manuel, amarrada a uma cadeira e envolta em xailes. Dom Lionel Schnake, mais corado e ruidoso que nunca, apoiava os nossos rapazes com gritos desenfreados. Estivemos a ponto de ganhar, ter-nos-ia bastado um empate, foi uma rasteira do destino que no último momento, quando faltavam trinta segundos para terminar o jogo, nos marcassem um golo.

   Pedro Pelanchugay cortou um remate com a cabeça, entre as aclamações ensurdecedoras dos nossos apoiantes e os assobios dos adversários, mas a pancada deixou-o meio aturdido e, antes que se refizesse, veio um desgraçado e, com a ponta do pé, enfiou tranquilamente a bola na baliza. Foi tal o estupor geral, que ficámos paralisados durante um longo segundo antes de estalar a gritaria de guerra e começarem a voar latas de cerveja e garrafas de refrigerantes. Dom Lionel e eu estivemos prestes a sofrer um ataque cardíaco em conjunto. Nessa mesma tarde, apresentei-me em sua casa para pagar a minha dívida.

   - Nem pensar, gringuita! Essa aposta foi a brincar - assegurou-me o Millalobo, sempre galante, mas, se aprendi alguma coisa na taberna de Nancupel, é que as apostas são sagradas.

   Fui a um humilde cabeleireiro de homens, daqueles em que só trabalha o dono, com um tubo de riscas tricolores na porta e um único cadeirão antigo e majestoso, onde me sentei com um certo pesar, porque aquilo não ia agradar nada a Daniel Goodrich. O cabeleireiro, muito profissional, rapou-me o cabelo todo e deu-me brilho ao crânio com um trapo de flanela. As minhas orelhas parecem enormes, assemelham-se a asas de um jarrão etrusco, e tenho manchas coloridas no couro cabeludo, como um mapa de África, por causa das tintas baratas, segundo disse o cabeleireiro. Recomendou-me fricções com sumo de limão e cloro. O gorro é necessário, porque as manchas parecem contagiosas.

   Dom Lionel sente-se culpado e não sabe como fazer as pazes comigo, mas não há nada que desculpar, uma aposta é uma aposta. Pediu a Blanca para me comprar uns chapéus coquetes, porque pareço uma lésbica a fazer quimioterapia, como muito claramente declarou, mas o gorro chilote combina melhor com a minha personalidade. Neste país, o cabelo é símbolo de feminilidade e beleza, as mulheres jovens usam-no comprido e cuidam dele como se de um tesouro tratasse. Nem vou falar das exclamações de comiseração na ruca quando apareci calva como uma extraterrestre entre aquelas belas mulheres douradas com as suas abundantes melenas renascentistas.

   Manuel preparou um saco com algumas roupas e o seu manuscrito, que pensava discutir com o editor, e chamou-me à sala para me dar instruções antes de partir para Santiago. Apresentei-me com a minha mochila e o bilhete na mão e anunciei-lhe que iria gozar da minha companhia, gentileza de Dom Lionel Schnake.

   - Quem vai ficar com os animais? - perguntou-me numa voz fraca.

   Expliquei-lhe que Juanito Corrales ia levar o Fakin para sua casa e viria uma vez por dia dar de comer aos gatos, estava tudo combinado. Não lhe disse nada sobre a carta fechada que o portentoso Millalobo me tinha dado para entregar discretamente ao neurologista, que por acaso é parente dos Schnake, uma vez que é casado com uma prima de Blanca. A rede de relações neste país é como a deslumbrante teia de aranha de galáxias do meu Popo. Manuel não conseguiu nada com os seus protestos e, por fim, resignou-se a levar-me com ele. Fomos até Puerto Montt, onde apanhámos o voo para Santiago. O trajeto que me tinha levado doze horas de autocarro para chegar a Chiloé demorou uma hora de avião.

   - Que tens, Manuel? - perguntei, quando estávamos prestes a aterrar em Santiago.

     - Nada.

   - Nada, como? Não disseste nada desde que saímos de casa. Sentes-te mal?

     - Não.

     - Então estás chateado.

   - A tua decisão de vires comigo sem me consultares é bastante invasiva.

   - Olha, homem, não te consultei porque terias dito que não. É melhor pedir desculpa que pedir licença. Desculpas-me?

     Isto calou-o e, passado pouco tempo, estava de melhor humor, fomos para um hotelzinho do centro, cada um no seu quarto, porque ele não quis dormir comigo, apesar de saber o quanto me custa dormir sozinha, e depois convidou-me a comer pizza e a ir ao cinema ver Avatar, que ainda não tinha chegado à nossa ilha e eu estava morta por ver, Manuel, é claro, preferia ver um deprimente filme sobre um mundo pós apocalíptico, coberto de cinza e habitado por bandos canibais, mas resolvemos o diferendo atirando uma moeda ao ar, saiu coroa e ganhei eu, como sempre. O truque é infalível: coroa ganho eu, cara perdes tu. Comemos pipocas, pizza e gelados, um banquete para mim, que levava meses de comida fresca e nutritiva e já tinha saudades de algum colesterol.

   O Dr. Arturo Puga atende pelas manhãs num hospital para pobres, onde recebeu Manuel, e de tarde no seu consultório privado na Clínica Alemã, em pleno bairro de ricos. Sem a misteriosa carta do Millalobo, que lhe fiz chegar através da sua rececionista nas costas de Manuel, possivelmente ter-me-ia impedido de assistir à consulta. A carta abriu-me as portas de par em par. O hospital parecia saído de um filme da Segunda Guerra Mundial, antiquado e enorme, desordenado, com canos à vista, lavatórios enferrujados, tijoleira partida e paredes descascadas, mas estava limpo e o atendimento era eficiente, tendo em conta o número de pacientes. Esperámos quase duas horas numa sala com filas de cadeiras de ferro, até que chamaram pelo nosso número. O Dr. Puga, chefe do departamento de neurologia, recebeu-nos amavelmente no seu modesto gabinete, com o dossiê de Manuel e as suas radiografias sobre a mesa.

     - Qual é a sua relação com o paciente, menina? - perguntou-me.

     - Sou sua neta - respondi sem vacilar, perante o olhar atónito de Manuel.

   Manuel está numa lista de espera para uma possível operação há dois anos e quem sabe quantos mais passarão antes de chegar a sua vez, porque não se trata de uma emergência. Supõe-se que, se viveu com a bolha mais de setenta anos, bem pode esperar mais alguns, A operação é arriscada e, pelas características do aneurisma, o couveniente é adiá-la o mais possível, na esperança de que o paciente morra de outra coisa, mas devido à crescente intensidade das enxaquecas e tonturas de Manuel, parece que chegou a hora de intervir.

   O método tradicional consiste em abrir-lhe o crânio, separar o crânio tecido cerebral, colocar um clipe para impedir o fluxo de sangue para o aneurisma e voltar a fechar a ferida. A recuperação demora à volta de um ano e pode deixar sequelas graves. Em geral, um quadro pouco tranquilizador. No entanto, na Clínica Alemã podem resolver o problema com um buraquinho na perna, por onde introduzem um cateter na artéria, chegam ao aneurisma navegando pelo sistema vascular e preenchem-no com um arame de platina, que se enrola lá dentro como um carrapito de velha, em espirais. O risco é muito menor, a estada na clínica é de trinta e seis horas e o tempo de convalescença de um mês.

   - Elegante, simples e completamente fora do alcance da minha carteira, doutor - disse Manuel.

   - Não se preocupe, senhor Arias, isso arranja-se. Posso operá-lo sem qualquer custo. Este é um procedimento novo, que aprendi nos Estados Unidos, onde já se faz de forma rotineira, e tenho de treinar outro cirurgião para trabalharmos em equipa. A sua operação seria como uma aula - explicou-lhe Puga.

   - Ou seja, um mestre técnico vai enfiar-se com um arame no cérebro de Manuel - interrompi-o eu, horrorizada.

   O médico desatou a rir e piscou-me o olho de maneira cúmplice, e então lembrei-me da carta e compreendi que se tratava de uma conspiração do Millalobo para pagar a operação sem Manuel saber até já ser demasiado tarde para poder fazer alguma coisa.

   Sou da opinião de Blanca, entre dever um favor ou dever dois, dá no mesmo. Para resumir, Manuel foi internado na Clínica Alemã, fizeram-lhe os exames necessários e, no dia seguinte, o doutor Puga e um suposto aprendiz fizeram a intervenção com total êxito, segundo nos asseguraram, apesar de não poderem garantir que a bolha vá permanecer estável.

   Blanca Schnake deixou a escola a cargo de uma substituta e apanhou um avião para Santiago mal lhe liguei para lhe contar da operação. Acompanhou Manuel como uma mãe durante o dia, enquanto eu fazia as minhas pesquisas. A noite, Blanca foi-se embora para casa de uma irmã e eu dormi com Manuel na Clínica Alemã, num sofá mais confortável que a minha cama chilota. A comida da cafetaria também era cinco estrelas. Pude tomar o primeiro duche à porta fechada em muitos meses, mas, com o que agora sei, nunca mais poderei chatear Manuel para instalar portas na casa.

   Santiago tem seis milhões de habitantes e continua a crescer para cima num delírio de torres em construção. É uma cidade rodeada de colinas e altas montanhas coroadas de neve, limpa, próspera, apressada, com parques bem cuidados. O trânsito é agressivo, porque os chilenos, de aparência tão amável, descarregam as suas frustrações ao volante. Entre os veículos, pululam vendedores de fruta, de antenas de televisão, de pastilhas de menta e de quanto traste existe, e em cada semáforo há saltimbancos dando saltos mortais circenses a troco de uma esmola. Calharam-nos dias bons, apesar de às vezes a poluição nos impedir de ver a cor do céu.

   Uma semana depois da intervenção, regressámos com Manuel a Chiloé, onde nos esperavam os animais. O Fakin recebeu-nos com uma coreografia patética e as costelas à vista, porque se recusou a comer durante a nossa ausência, como nos explicou Juanito, consternado. Regressámos antes de o Dr. Puga dar alta a Manuel, porque este não quis ficar o mês inteiro a convalescer em casa da irmã de Blanca em Santiago, onde, nas suas palavras, estávamos a incomodar. Blanca pediu-me para evitar comentários diante da família da irmã, que é da direita mais conservadora, sobre o que tínhamos descoberto em relação ao passado de Manuel, pois cairia muito mal. Acolheram-nos com carinho e todos, mesmo os filhos adolescentes, puseram-se à disposição de Manuel para cuidarem dele e o levarem aos exames médicos.

   Partilhei o quarto com Blanca e tive ocasião de apreciar como vivem os ricos nas suas comunidades rodeadas de grades, com empregadas domésticas, jardineiros, piscina, cães finos e três automóveis, Traziam-nos o pequeno-almoço à cama, preparavam-nos o banho com sais aromáticos e até me passaram as calças a ferro. Nunca tinha visto nada parecido e gostei bastante; era capaz de me acostumar muilo depressa à riqueza.

   - Não são realmente ricos, Maya, não têm avião - brincou Manuel, quando lhe falei disto.

   - Tu tens mentalidade de pobre, esse é o problema dos esquerdistas - respondi-lhe, pensando na minha Nini e em Mike 0'Kelly, pobres por vocação. Não sou como eles, a mim a igualdade e o socialismo parecem-me vulgares.

     Em Santiago, senti-me incomodada pela poluição, pelo tráfego e pelo trato impessoal das pessoas. Em Chiloé sabe-se quando alguém é de fora porque não nos cumprimenta na rua, em Santiago quem cumprimenta na rua é suspeito. No elevador da Clínica Alemã eu cumprimentava as pessoas como uma estúpida e elas olhavam fixamente a parede, para não terem de me responder. Não gostei de Santiago e não via a hora de voltar para a nossa ilha, onde a vida flui como um rio manso, há ar puro, silêncio e tempo para terminar os pensamentos.

   A recuperação de Manuel demorará algum tempo, ainda lhe dói a cabeça e as forças faltam-lhe. As ordens do Dr. Puga foram categóricas, tem de engolir meia dúzia de comprimidos por dia, estar em repouso até dezembro, altura em que deverá voltar a Santiago para fazer outra TAC, evitar esforços físicos durante o resto da vida e confiar na sorte ou em Deus, de acordo com a preferência, porque a espiral de platina não é infalível. Estou a pensar que nada se perde em consultar uma machi, só para prevenir...

   Decidi com Blanca que vamos esperar até surgir a oportunidade para falar com Manuel do que temos de falar, sem o pressionar. Por agora, cuidamos dele o melhor possível. Está habituado aos modos autoritários de Blanca e desta gringa que vive em sua casa, por isso a nossa amabilidade recente fá-lo sentir-se inquieto, acha que lhe estamos a esconder a verdade e que esta é muito mais grave do que lhe disse o Dr. Puga.

     - Se pensam tratar-me como um inválido, prefiro que me deixem sozinho - resmunga.

     Com a ajuda de um mapa e de uma lista de lugares e pessoas, facilitada pelo padre Lyon, consegui reconstruir a vida de Manuel nos anos-chave entre o golpe militar e a sua ida para o exílio. Em 1973, Manuel tinha trinta e seis anos, era um dos professores mais jovens da faculdade de Ciências Sociais, estava casado e, segundo deduzi, o casamento atravessava problemas.

   Não era comunista, como pensa o Millalobo, nem estava inscrito noutro partido político, mas simpatizava com o governo de Salvador Allende e participava nas concentrações de multidões desta época, unias de apoio ao Governo e outras de oposição. Quando se deu o golpe militar, na terça- feira, 11 de setembro de 1973, o país estava dividido em duas facões irreconciliáveis, ninguém podia permanecer neutro. Dois dias após o golpe, foi levantado o recolher obrigatório imposto durante as primeiras quarenta e oito horas e Manuel regressou ao trabalho. Encontrou a Universidade ocupada por soldados armados para a guerra, em uniformes de combate e com as caras cobertas de fuligem para não serem reconhecidos, viu buracos de balas nas paredes e sangue na escada e alguém o avisou de que tinham detido os estudantes e professores que estavam no edifício.

     Aquela violência era tão inimaginável no Chile, orgulhoso da sua democracia e das suas instituições, que Manuel foi incapaz de avaliar a gravidade do que sucedera e foi até à esquadra mais próxima perguntar pelos colegas. Já não voltou a sair à rua. Levaram-no com os olhos vendados até ao Estádio Nacional, que estava transformado em centro de detenção. Ali, já se encontravam milhares de pessoas que haviam sido presas durante aqueles dois dias, maltratadas e famintas, que dormiam deitadas no chão de cimento e passavam o dia sentadas nas bancadas, rezando em silêncio para não serem incluídas entre os desafortunados que eram conduzidos à enfermaria para interrogatório. Ouviam-se os gritos das vítimas e, à noite, os tiros das execuções. Os detidos estavam incomunicáveis, sem contacto com os familiares, apesar de estes poderem deixar embrulhos com comida e com roupa, na esperança de que os guardas os entregassem à pessoa a quem se destinavam. A esposa de Manuel, que pertencia ao Movimento da Esquerda Revolucionária, o grupo mais perseguido pelos militares, fugiu imediatamente para a Argentina, e dali para a Europa, e só voltaria a reunir-se com o marido três anos mais tarde, quando ambos se refugiaram na Austrália.

     Pelas bancadas do estádio passava um homem encapuzado, com a sua carga de culpa e pesar, vigiado de perto por dois soldados, O homem assinalava supostos militantes socialistas ou comunistas, que eram levados de imediato para as entranhas do edifício, para serem submetidos a torturas ou mortos. Por erro ou por medo, o fatídico encapuzado indicou Manuel Arias.

   Dia a dia, passo a passo, percorri a rota do seu calvário e, no processo, pude tocar as cicatrizes indeléveis que a ditadura deixou no Chile e na alma de Manuel. Agora sei o que se esconde sob as aparências neste país.

   Sentada num parque frente ao rio Mapocho, onde trinta e cinco anos antes costumavam flutuar cadáveres de supliciados, li o relatório da comissão que investigou as atrocidades de então, um extenso relato de sofrimento e crueldade. Um sacerdote, amigo do padre Lyon, facilitou-me o acesso aos arquivos do Vicariato da Solidariedade, um serviço da Igreja Católica que ajudava as vítimas da repressão e mantinha uma relação dos desaparecidos, desafiando a ditadura a partir do próprio coração da catedral. Examinei centenas de fotografias de pessoas que foram detidas e a seguir se esfumaram sem deixar rasto, quase todas jovens, e as denúncias das mulheres que ainda procuram os seus filhos, os seus maridos, por vezes os seus netos.

   Manuel passou o verão e o outono de 1974 no Estádio Nacional e noutros centros de detenção, onde foi interrogado tantas vezes que já se tinha perdido a conta. As confissões nada significavam e acabavam perdidas em arquivos ensanguentados, que interessavam apenas aos ratos.

   Como muitos outros prisioneiros, nunca soube o que os seus verdugos queriam ouvir e, por fim, percebeu que não importava, porque tão-pouco estes sabiam o que procuravam. Aquilo não eram interrogatórios, eram punições para estabelecer um regime opressivo e eliminar de raiz qualquer assomo de resistência na população. O pretexto eram depósitos de armas, que supostamente o governo de Allende teria entregado ao povo, mas ao fim de meses não se tinha encontrado nada e já ninguém pensava nos imaginários arsenais. O terror paralisou as pessoas e impôs-se como o meio mais eficaz de impor a ordem gelada dos quartéis. Era um plano a longo prazo para mudar o país por completo.

Durante o inverno de 1974, Manuel esteve preso numa mansão nos arredores de Santiago, que pertencera à poderosa família Grimaldi, de origem italiana, cuja filha foi presa para depois trocar a sua liberdade pela casa. A propriedade passou para as mãos da Direção de Inteligência Nacional, a infame DINA, cujo emblema era um punho de ferro, responsável por muitos crimes, até mesmo no estrangeiro, como assassinato em Buenos Aires do deposto comandante-em-chefe das Forças Armadas e de um ex-ministro em pleno coração de Washington, a poucos quarteirões da Casa Branca. A Villa Grimaldi transformou-se no mais temido centro de interrogatórios, por onde haveriam de desfilar quatro mil e quinhentos detidos, muitos dos quais não sairiam de lá vivos.

   No fim da minha semana em Santiago, realizei a obrigatória visita à Villa Grimaldi, que agora é um jardim silencioso onde pena a memória daqueles que ali padeceram. Chegado o momento, fui incapaz de ir sozinha. A minha avó acha que os lugares ficam marcados pelas experiências humanas e a mim faltou-me coragem para enfrentar, sem uma mão amiga, a maldade e a dor para sempre aprisionadas naquele local. Pedi a Blanca Schnake, a única pessoa a quem contara o que estava a investigar, à exceção de Liliana e do padre Lyon, que me acompanhasse. Blanca fez uma débil tentativa de me dissuadir, «para quê continuar a esgravatar em algo que aconteceu há tanto tempo», mas pressentia que se encontrava ali a chave da vida de Manuel Arias e o seu amor por ele foi mais forte que a sua resistência a enfrentar algo que preferia ignorar.

   - Está bem, gringuita, vamos já, antes que me arrependa - disse ela.

   A Villa Grimaldi, agora chamada Parque pela Paz, é um hectare verde de árvores sonolentas. Pouco ficou dos edifícios que existiam quando Manuel ali esteve, porque foram demolidos pela ditadura numa tentativa de apagar os vestígios do imperdoável, mas as escavadoras não conseguiram arrasar os persistentes fantasmas nem calar o lamentos de agonia que ainda se percebem no ar. Caminhámos entre imagens, monumentos, grandes telas com os rostos dos mortos e dos desaparecidos. Um guia explicou-nos o tratamento que era dado ao prisioneiros, as formas mais habituais de tortura, com desenhos esquemáticos de formas humanas penduradas pelos braços, cabeças mergulhadas em barris de água, catres de ferro ligados à eletricidade, mulheres violadas por cães, homens sodomizados com paus de vassoura. Num muro de pedra, entre duzentos e sessenta e seis nomes encontrei o de Felipe Vidal e então fui capaz de encaixar as últimas peças do puzzle. Na desolação daquela Villa Grimaldi, conheceram-se Manuel Arias, professor, e Pelipe Vidal, jornalista, ali padeceram juntos e um sobreviveu.

     Blanca e eu decidimos que temos de falar com Manuel sobre o seu passado e lamentámos que Daniel não nos possa ajudar, porque uma intervenção deste tipo justifica a presença de um profissional, mesmo sendo um psiquiatra novato como ele. Blanca defende que estas experiências de Manuel devem ser tratadas com o mesmo cuidado e delicadeza que o seu aneurisma pede, porque estão encapsuladas numa bolha da memória, que se rebentasse subitamente poderia aniquilá-lo. Naquele dia, Manuel tinha ido a Castro procurar uns livros e aproveitámos a sua ausência para preparar o jantar, sabendo que regressa sempre ao pôr do sol.

   Pus-me a fazer pão, como sempre faço quando estou nervosa. Serena-me trabalhar a massa com firmeza, dar-lhe forma, esperar que cresça em cru debaixo de um pano branco, cozê-la no forno até ficar dourada e, mais tarde, servi-la ainda morna aos amigos, um ritual paciente e sagrado. Blanca cozinhou o infalível frango com toucinho e mostarda de Frances, um favorito de Manuel, e trouxe castanhas em calda para a sobremesa.

   A casa estava acolhedora, repleta de uma fragrância a pão acabado de sair do forno e ao guisado que cozia lentamente numa caçarola de barro. Era uma tarde mais para o fria, aprazível, com o céu cinzento, sem vento. Em breve haveria lua cheia e outra reunião de sereias na ruca. Desde a operação ao aneurisma, algo mudara entre Manuel e Blanca, as suas auras brilham, como diria a minha avó, têm aquela luz palpitante dos recém-deslumbrados. Também há outros sinais menos subtis, como a cumplicidade no olhar, a necessidade de tocarem um no outro, a forma como adivinham mutuamente as intenções e os desejos. Por um lado isto alegra-me, é o que eu tenho vindo a encorajar há muitos meses, mas por outro preocupa-me o meu futuro. Que vai ser de mim quando decidirem mergulhar neste amor que adiaram durante tantos anos? Nesta casa não cabemos os três e a de Blanca também seria pequena. Bom, espero que nessa altura o meu futuro com Daniel Goodrich já se tenha esclarecido.

   Manuel chegou com um saco de livros, que encomendara aos seus amigos livreiros, e romances em inglês enviados pela minha avó para o posto de correios de Castro.

   - Estamos a festejar algum aniversário? - perguntou, cheirando o ar.

   - Estamos a festejar a amizade. Como esta casa mudou desde que chegou a gringuita! - disse Blanca.

   - Referes-te à desarrumação?

   - Refiro-me às flores, à boa comida e à companhia, Manuel. Não sejas mal-agradecido. Vais sentir muito a sua falta quando se for embora.

   - Ela por acaso está a pensar partir?

   - Não, Manuel. Penso casar-me com Daniel e viver aqui contigo e com os quatro filhos que vamos ter - trocei eu.

   - Espero que o teu apaixonado aprove esse plano - disse ele no mesmo tom.

     - Porque não? É um plano perfeito.

     - Morreriam de tédio neste penhasco desta ilha, Maya. Os forasteiros que se retiram para aqui estão desencantados do mundo. Ninguém vem antes de ter começado a viver.

   - Eu vim para me esconder e olha tudo o que encontrei, vocês e Daniel, segurança, Natureza e uma povoação de trezentos chilotes de quem gostar. Até o meu Popo se sente bem aqui, vi-o a passear na encosta.

   - Andaste a beber! - exclamou Manuel, alarmado.

   - Não bebi nem um só gole, Manuel. Sabia que não ias acreditar em mim, por isso não te contei.

     Foi uma noite extraordinária, em que tudo conspirou para as confidencias, o pão e o frango, a Lua que espreitava entre as nuvens, a simpatia comprovada que temos uns pelos outros, a conversa salpicada de anedotas e brincadeiras ligeiras. Manuel e Blanca contaram-me como se conheceram, a impressão com que cada um ficou do outro. Manuel disse que, em jovem, Blanca era muito bonita - ainda é -, era uma valquíria dourada, toda pernas, cabelos e dentes, que irradiava a segurança e a alegria de alguém a quem fizeram todas as vontades.

   - Eu devia tê-la detestado, por ser tão privilegiada, mas derrotou -me com a sua simpatia, era impossível não gostar dela. Mas eu estava em condições de conquistar ninguém, muito menos uma jovem tão inalcançável como ela.

   Para Blanca, Manuel tinha os atrativos do proibido e do perigoso, vinha de um mundo oposto ao seu, provinha de outro meio social e representava o inimigo político, apesar de, por ser hóspede da sua família, estar disposta a aceitá-lo. Eu falei-lhes da minha casa em Berkeley, da razão para parecer escandinava e da única vez que vi a minha mãe. Contei-lhes sobre algumas personagens que conheci em Las Vegas, como uma gorda de cento e oitenta quilos e uma voz como uma carícia, que ganhava a vida com sexo telefónico, ou um casal de transexuais amigos de Brandon Leeman, que se casaram numa cerimónia formal, ela de smoking e ele com um vestido de organdi branco. Comemos sem pressas e depois sentámo-nos, como habitualmente, a contemplar a noite pela janela, eles com os seus copos de vinho, eu com um chá. Blanca estava no sofá colada a Manuel e eu em cima de uma almofada no chão com o Fakin, que sofre de síndroma da separação desde que o deixámos para ir a Santiago. Segue-me com os olhos e não descola do meu lado, é um aborrecimento.

   - Tenho a impressão de que esta festinha é uma armadilha -gaguejou Manuel. - Há dias que algo paira no ar. Vão direitas ao assunto, mulheres.

   - Estragaste-nos a estratégia Manuel, pensávamos abordar a questão com diplomacia - disse Blanca.

   - Que querem?

   - Nada, apenas conversar.

   - Sobre quê?

   E então contei-lhe que andava há meses a pesquisar por conta própria o que lhe acontecera depois do golpe militar, porque pensava que ele tinha as recordações inflamadas como uma úlcera no mais fundo da sua memória e o estavam a envenenar. Pedi-lhe desculpa por me intrometer, apenas me movia o muito que gostava dele, dava-me pena vê-lo sofrer todas as noites, quando era assaltado por pesadelos. Disse-lhe que o penedo que levava em cima dos ombros era demasiado pesado, mantinha-o esmagado, vivendo a meio gás, como se estivesse a fazer tempo para morrer. Tinha-se fechado tanto que não conseguia sentir alegria ou amor. Acrescentei que Blanca e eu podíamos ajudá-lo a carregar aquela pedra.

   Manuel não me interrompeu, estava muito pálido, respirando como um cão cansado, com a mão de Blanca agarrando a sua, os olhos fechados.

   - Queres saber o que a gringuita descobriu, Manuel? - perguntou Blanca, num murmúrio, e ele assentiu, mudo.

     Confessei-lhe que em Santiago, enquanto ele convalescia da operação, eu tinha andado a esgaravatar nos arquivos do Vicariato e a falar com as pessoas com quem o padre Lyon me tinha posto em contacto, dois advogados, um sacerdote e um dos autores do Relatório Rettig, onde figuram mais de três mil e quinhentas denúncias de violações dos direitos humanos cometidas durante a ditadura. Entre aqueles casos, estava Felipe Vidal, o primeiro marido da minha Nini, e também Manuel Arias.

   - Eu não tive participação nesse relatório - disse Manuel, com a voz quebrada.

   - O teu caso foi denunciado pelo padre Lyon. Contaste-lhe os pormenores daqueles catorze meses que estiveste detido, Manuel. Acabavas de sair do campo de concentração de Tres Álamos e estavas desterrado aqui em Chiloé, onde conviveste com o padre Lyon.

   - Não me lembro disso.

   - O padre lembra-se, mas não me pôde contar, porque o considera segredo de confissão, limitou-se a indicar-me o caminho. O caso de Felipe Vidal foi denunciado pela sua mulher, a minha Nini, antes de partir para o exílio.

   Repeti a Manuel o que tinha descoberto naquela semana transcendental em Santiago e a visita que fizera com Blanca à Villa Grimaldi. O nome do lugar não provocou qualquer reação especial em Manuel, tinha uma ideia vaga de que estivera ali, mas confundia-o na sua mente com outros centros de detenção. Nos trinta e tantos anos, decorridos desde aquela altura, eliminara esta experiência da memória, recordava-a como se a tivesse lido num livro, não como algo de pessoal, apesar de ter cicatrizes de queimaduras no corpo e de não conseguir erguer os braços acima dos ombros, porque lhos tinham deslocado.

     - Não quero conhecer os pormenores - disse-nos.

   Blanca explicou-lhe que os pormenores permaneciam intactos nalgum lugar dentro dele, e era precisa imensa coragem para entrar nesse lugar, mas Manuel não iria sozinho, ela e eu iríamos com ele. Já não era um prisioneiro impotente nas mãos tios seus carrascos, mas nunca seria verdadeiramente livre se não enfrentasse os sofrimentos do passado.

   - O pior aconteceu-te na Villa Grimaldi, Manuel. No fim da visita que fizemos, o guia levou-nos a ver as celas de exposição. Havia celas de um metro por dois, onde metiam vários prisioneiros de pé, apertados, dias, semanas, só os tiravam dali para os torturar ou levar à casa de banho.

   - Sim, sim... Numa dessas celas estive com Felipe Vidal e outros homens. Não nos davam água... Era uma caixa sem ventilação, macerávamos em suor, sangue, excrementos - balbuciou Manuel, dobrado, com a cabeça sobre os joelhos. - E outras eram buracos individuais, túmulos, casotas de cães... As cãibras, a sede... Tirem-me daqui!

   Blanca e eu rodeámo-lo num círculo de braços e seios e beijos, amparando-o, chorando com ele. Tínhamos visto uma destas celas. Tanto pedi ao guia, que me deixou entrar. Tive de o fazer de joelhos, no interior fiquei encolhida, de cócoras, incapaz de mudar de posição ou de me mexer, e depois de fecharem a portinhola fiquei às escuras, aprisionada. Não aguentei mais de uns segundos e comecei a gritar até que me tiraram dali puxando-me pelos braços. Os presos ficavam enterrados em vida durante semanas, às vezes meses. Daqui, poucos saíram vivos, e os que saíram ficaram loucos, tinha-nos dito o guia.

     - Já sabemos onde estás quando sonhas, Manuel - disse Blanca.

   Por fim, retiraram Manuel do seu túmulo, para fechar nele outro prisioneiro, cansaram-se de o torturar e mandaram-no para outros centros de detenção. Depois de cumprir a sua pena de desterro em Chiloé, pôde ir para a Austrália, onde estava a sua mulher, que durante mais de dois anos não soubera nada dele, dera-o por morto e tinha uma nova vida na qual Manuel, traumatizado, não tinha lugar. Divorciaram-se passado pouco tempo, como aconteceu com a maioria dos casais no exílio. Apesar de tudo, Manuel teve melhor sorte que outros exilados, porque a Austrália é um país acolhedor, ali conseguiu trabalho na sua área e pôde escrever dois livros, enquanto se aturdia com álcool e aventuras fugazes que apenas acentuavam a sua solidão abissal Com a sua segunda mulher, uma bailarina espanhola que conheceu em Sydney, o casamento durou menos de um ano. Era incapaz de confiar em alguém ou de se entregar numa relação amorosa, sofria episódios de violência e ataques de pânico, estava irremediavelmente aprisionado na sua cela da Villa Grimaldi ou nu, preso a um catre metálico, enquanto os seus carcereiros se divertiam a dar-lhe descargas elétricas.

   Um dia, em Sydney, Manuel estatelou-se de carro contra um pilar de betão armado, um acidente improvável até para alguém entorpecido pelo álcool, como Manuel estava quando o socorreram. Os médicos do hospital, onde esteve treze dias em estado grave e um mês imobilizado, concluíram que se tinha tentado suicidar. Puseram-no em contacto com uma organização internacional que ajudava vítimas de tortura. Um psiquiatra com experiência em casos como o seu visitou-o quando ainda estava no hospital. Não conseguiu desentranhar os traumas do seu paciente, mas ajudou-o a lidar com as mudanças de humor e os episódios de violência e de pânico, a deixar de beber e a levar uma existência aparentemente normal. Manuel considerou-se curado, sem dar grande importância aos pesadelos ou ao medo visceral de elevadores e sítios fechados, continuou a tomar antidepressivos e acostumou-se à solidão.

     Durante o relato de Manuel, falhou a luz, como sempre sucede na ilha a esta hora, e nenhum dos três se levantara para acender velas estávamos às escuras, sentados muito juntos.

     - Perdoa-me, Manuel - murmurou Blanca ao cabo de uma longa pausa.

     - Perdoar-te? A ti só tenho de agradecer - disse ele.

     - Perdoa-me pela incompreensão e cegueira. Ninguém poder desculpar os criminosos, Manuel, mas talvez possas desculpar-me a mim e à minha família. Pecámos por omissão. Ignorámos a evidência porque não queríamos ser cúmplices. No meu caso é pior, porque naqueles anos viajei bastante, sabia o que a imprensa estrangeira publicava sobre o governo de Pinochet. Mentiras, pensava, tudo propaganda comunista.

   Manuel puxou-a para si, abraçando-a. Levantei-me às apalpadelas para colocar lenha no fogão e procurar velas, outra garrafa de vinho e mais chá. A casa tinha arrefecido. Coloquei-lhes uma manta sobre as pernas e enrosquei-me sobre o desconjuntado sofá do outro lado de Manuel.

   - Vejo que a tua avó te contou sobre nós, Maya - disse Manuel.

     - Só que eram amigos, mais nada. Ela não fala daquela época, raras vezes mencionou Felipe Vidal.

   - Então como soubeste que sou teu avô?

   - O meu avô é o meu Popo - repliquei, afastando-me dele.

   A sua revelação foi tão inaudita que demorei um minuto eterno a captar o seu alcance. As palavras foram abrindo caminho à machadada na minha mente cerrada e no meu coração tão enredado, mas o significado continuava a escapar-me.

   - Não percebo... - murmurei.

   - Andrés, o teu pai, é meu filho - disse Manuel.

   - Não pode ser. A minha Nini não teria mantido isso em segredo durante quarenta e tal anos.

   - Pensei que já sabias, Maya. Disseste ao doutor Puga que eras minha neta.

   - Para ele me deixar entrar contigo na consulta!

   Em 1964, a minha Nini era secretária e Manuel Arias assistente de um professor na Faculdade; ela tinha vinte e dois anos e casara há pouco com Felipe Vidal, ele tinha vinte e sete e uma bolsa atribuída para fazer um doutoramento de Sociologia na Universidade de Nova Iorque.

     Tinham estado apaixonados na adolescência, deixaram de se ver durante alguns anos e, ao reencontrarem-se por acaso na Faculdade, foram varridos por uma paixão nova e urgente, muito diferente do romance virginal de antes. Esta paixão teria de terminar de forma destroçadora quando Manuel partiu para Nova Iorque e tiveram de se separar. Nesse entretanto, Felipe Vidal, lançado numa notável carreira jornalística, estava em Cuba, sem suspeitar da traição da mulher, tal como nunca pôs em dúvida que o filho nascido em 1965 fosse seu. Não soube da existência de Manuel Arias até partilharem uma cela infame, mas Manuel tinha seguido de longe os seus sucessos como repórter. O amor de Manuel e Nidia sofreu várias interrupções, mas voltava a acender- se inevitavelmente quando se reencontravam, até que ele se casou em 1970, ano em que Salvador Allende ganhou a presidência e teve início a gestação do cataclismo político que culminaria três anos depois com o golpe militar.

   - O meu pai sabe? - perguntei a Manuel.

   - Penso que não. A Nidia sentia-se culpada pelo que acontecera entre nós e estava disposta a manter o segredo a qualquer custo, queria esquecer aquilo e que eu também esquecesse. Nunca o mencionou até dezembro do ano passado, quando me escreveu sobre ti.

   - Agora entendo porque me recebeste nesta casa, Manuel.

   - Na minha esporádica correspondência com Nidia soube da tua existência, Maya, sabia que por seres filha de Andrés eras minha neta, mas não dei importância ao facto, pensei que nunca te chegaria a conhecer.

     O clima de reflexão e intimidade que existia minutos antes tornou-se muito tenso. Manuel era o pai do meu pai, tínhamos o mesmo sangue. Não houve reações dramáticas, nada de abraços comovidos ne de lágrimas de reconhecimento, nada de nos afogarmos em declarações sentimentais. Senti aquela dureza amarga dos meus tempos mau que nunca antes sentira em Chiloé. Apagaram-se-me os meses de chacota, estudo e convivência com Manuel, de súbito era um desconhecido cujo adultério com a minha avó me repugnava.

   - Meu Deus, Manuel, porque nunca me contaste? Esqueceste-de um episódio da telenovela - concluiu Blanca com um suspiro.

   Isto rompeu o feitiço e desanuviou o ar. Olhámo-nos na luz am relada da vela, sorrimos timidamente e depois desatámos a rir, primeiro titubeantes e a seguir com entusiasmo, diante do carácter absurdo e pouco transcendente da questão, porque não se tratava doar um órgão ou de herdar uma fortuna, dá no mesmo quem seja meu antepassado biológico, apenas importa o afeto, que por sorte temos um pelo outro.

   - O meu Popo é o meu avô - repeti eu.

   - Ninguém duvida disso, Maya - respondeu Manuel.

   Pelas mensagens da minha Nini, que escreve a Manuel através de Mike O´Kelly, soube que Freddy foi encontrado sem sentidos numa rua de Las Vegas. Uma ambulância conduziu-o ao mesmo hospital onde estivera internado antes e onde Olympia Pettiford o tinha conhecido, numa daquelas afortunadas coincidências que as Viúvas por Jesus atribuem ao poder da oração. O rapazinho permaneceu na Unidade de Cuidados Intensivos, respirando por um tubo ligado a uma ruidosa máquina, enquanto os médicos se esforçavam por controlar uma pneumonia dupla, que o teve às portas da morte. Depois, tiveram de lhe extrair um rim, que a antiga tareia arruinara, e tratar dos múltiplos problemas causados pela má vida. Por último, foi parar a uma cama no piso de Olympia. Entretanto, esta pôs em movimento as forças salvadoras de Jesus e os seus próprios recursos para evitar que o Serviço de Proteção de Menores ou a Lei se apropriassem do rapaz.

   Na data em que o rapazinho recebeu alta, Olympia Pettiford tinha conseguido autorização judicial para o tomar a seu cargo, alegando um parentesco ilusório, e assim o salvou de um centro de detenção juvenil ou da cadeia. Parece que nisto foi ajudada pelo agente Arana, que tomou conhecimento de que tinham levado para o hospital um rapaz que correspondia à descrição de Freddy e, num momento livre, foi vê-lo. Viu o acesso bloqueado pela imponente Olympia, decidida a censurar-lhe as visitas ao doente, que ainda andava meio perdido naquele território incerto entre a vida e a morte.

   A enfermeira receava que Arana tivesse intenção de deter o seu protegido, mas este convenceu-a de que desejava somente pedir-lhe notícias de uma amiga sua, Laura Barron. Disse que estava disposto a ajudar o rapaz e, como nisto estavam ambos de acordo, Olympia convidou-o a tomar um sumo na cafetaria e conversar. Explicou-lhe que, no final do ano anterior, Freddy levara até sua casa uma tal Laura Barron, drogada e doente, e depois se esfumara no ar. Não soube mais nada dele até que saiu da sala de operações com um só rim e aterrou numa enfermaria do seu piso.

   Acerca de Laura Barron, apenas podia dizer-lhe que cuidou dela durante alguns dias e, mal a rapariga se recompôs um pouco, vieram uns parentes procurá-la e levaram-na, provavelmente para um programa de reabilitação, como ela mesma lhes havia aconselhado. Ignorava onde e já não tinha o número que a rapariga lhe dera para ligar à avó. A Freddy tinha de o deixar em paz, disse ela a Arana num tom que não admitia discussão, porque o rapaz não sabia nada daquela tal Laura Barron.

     Quando Freddy saiu do hospital, assemelhando-se a um espantalho, Olympia Pettiford levou-o para sua casa e colocou-o nas mãos do temível comando de Viúvas cristãs. Por essa altura, o rapazinho levava dois meses de abstinência e a sua escassa energia mal lhe dava para ver televisão. Graças à dieta de fritos das Viúvas, foi recuperando as forças e, quando Olympia calculou que poderia fugir para a rua e voltar ao inferno da dependência, lembrou-se do homem na cadeira de rodas, cujo cartão mantinha entre as páginas da Bíblia, e ligou-lhe. Levantou as poupanças do banco, comprou as passagens e, com outra mulher a servir-lhe de reforço, levaram Freddy para a Califórnia. Segundo a minha Nini, apresentaram-se, vestidas com roupa de domingo, num cubículo sem ventilação perto da Prisão de Menores onde trabalha Branca de Neve, que as esperava. A história encheu-me de esperança porque se alguém neste mundo poderá ajudar Freddy, é Mike 0'Kelly.

   Daniel Goodrich e o seu pai assistiram a uma Conferência de Analistas Junguianos em São Francisco, onde o tema de fundo foi Livro Vermelho (Líber Novus) de Carl Jung, que acaba de ser publicado, depois de ter estado fechado numa caixa-forte na Suíça durante décadas, vedado aos olhos do mundo e rodeado de grande mistério. Sir Robert Goodrich comprou a preço de ouro uma das cópias de luxo idêntica ao original, que Daniel herdará juntamente com o título nobreza. Aproveitando o domingo livre, Daniel foi a Berkeley visitar a minha família e levou as fotografias da sua estada em Chiloé.

   Na melhor tradição chilena, a minha avó insistiu em que ficasse em sua casa a passar a noite e instalou-o no meu quarto, que foi pintado numa cor mais tranquila que o tom de manga estridente da minha infância e despojado do dragão alado no teto e das criaturas subnutridas das paredes. O hóspede ficou pasmado diante da minha pitoresca avó e do casarão de Berkeley, um cenário mais rabugento, reumático e berrante do que eu conseguira descrever-lhe. O torreão das estrelas tinha sido usado pelo inquilino para guardar mercadorias, mas Mike mandara vários dos seus delinquentes arrependidos limpar a sujidade e recolocar o velho telescópio no seu devido sítio. A minha Nini diz que isto tranquilizou o meu Popo, que antes deambulava pela casa, tropeçando em caixotes e volumes da índia. Abstive-me de lhe contar que o meu Popo está em Chiloé, porque talvez ronde vários lugares ao mesmo tempo.

   Daniel foi com a minha Nini conhecer a Biblioteca, os hippies idosos da rua Telegraph, o melhor restaurante vegetariano, La Pena Chilena e, como é óbvio, Mike 0'Kelly.

   - O irlandês esta apaixonado pela tua avó e acho que ela não lhe é indiferente - escreveu-me Daniel, mas tenho dificuldades em imaginar a minha avó a levar a sério Branca de Neve, que, comparado com o meu Popo, é um pobre diabo. A verdade é que 0'Kelly não está mal de todo, mas qualquer pessoa é um pobre diabo comparado com o meu Popo.

   No apartamento de Mike estava Freddy, que deve ter mudado muito nestes meses, porque a descrição de Daniel não corresponde ao rapaz que me salvou a vida duas vezes. Freddy está no programa de reabilitação de Mike, sóbrio e aparentemente de boa saúde, mas muito deprimido, não tem amigos, não sai à rua, não quer estudar nem trabalhar. O´Kelly acha que precisa de tempo e que devemos ter fé de que vai seguir em frente, porque é muito novo e tem bom coração, o que ajuda sempre. O rapaz mostrou-se indiferente diante das fotos de Chiloé e das notícias sobre mim. Se não fosse por lhe faltarem dois dedos numa mão, pensaria que Daniel o confundiu com outro.

   O meu pai chegou naquele domingo ao meio-dia, proveniente de algum emirato árabe, e almoçou com Daniel. Imagino os três na antiquada cozinha do casarão, os guardanapos brancos esfiapados pelo uso, o mesmo jarro de cerâmica verde para a água, a garrafa de sauvignon blanc Veramonte, o favorito do meu pai, e o fragrante «caldo de peixe» da minha Nini, uma variante chilena do cioppino italiano e da bouillabaisse francesa, como ela mesma o descreve. O meu amigo concluiu, erradamente, que o meu pai é de lágrima fácil, porque se emocionou ao ver as minhas fotos, e que eu não me pareço com ninguém da minha pequena família. Devia ver Marta Otter, a princesa da Lapónia. Passou um dia de estupenda hospitalidade e foi-se embora com a

ideia de que Berkeley é um país do terceiro mundo. Deu- se bem com a minha Nini, apesar de a única coisa que têm em comum ser eu, para além de uma fraqueza mútua pelos gelados de menta. Depois de avaliar os riscos, ambos se puseram de acordo para trocar notícias por telefone, um meio que oferece um perigo mínimo, desde que evitem mencionar o meu nome.

   - Pedi a Daniel para vir a Chiloé no Natal - anunciei a Manuel.

   - De visita, para ficar ou para te vir buscar? - perguntou-me.

   - Pois, não sei, Manuel.

   - Que preferirias?

   - Para ficar! - respondi sem vacilar, surpreendendo-o pela minha certeza.

   Desde que o nosso parentesco foi revelado, Manuel começou olhar para mim com os olhos húmidos e na sexta-feira trouxe-me chocolates de Castro.

   - Não és meu namorado, Manuel, e tira da cabeça a ideia de que vais ocupar o lugar do meu Popo - disse-lhe eu.

   - Não tentaria fazê-lo, gringa tola - respondeu-me.

   A nossa relação é a mesma de antes, nada de gestos ternurentos e o sarcasmo continua a abundar, mas Manuel parece outra pessoa e Blanca também reparou, espero que não fique mole e acabe transformado num velhinho gagá. A relação entre estes dois também mudou. Várias noites por semana, Manuel dorme em casa de Blanca e deixa -me aqui abandonada, sem outra companhia que três morcegos, gatos cheios de manias e um cão coxo. Temos tido ocasião de falar seu passado, que já não é tabu, mas ainda não me atrevo a ser abordar o assunto, prefiro esperar que tome ele a iniciativa, O que sucede com certa frequência, porque depois de abrir a sua caixa Pandora Manuel precisa de desabafar.

   Tracei um quadro bastante preciso do que aconteceu a Felipe Vidal, graças àquilo de que Manuel se lembra e à denúncia detalhada da sua mulher ao Vicariato da Solidariedade, onde têm até arquivadas duas cartas que Felipe escreveu à esposa antes de ser detido. Violando

as normas de segurança, escrevi à minha Nini através de Daniel, que lhe fez chegar a carta, para lhe pedir alguns esclarecimentos.

Ela respondeu-me pela mesma via e, desta forma, completei a informação que me faltava.

   Na desordem dos primeiros tempos depois do golpe militar, Felipe e Nidia Vidal acreditaram que, se se mantivessem invisíveis, poderiam continuar com a sua existência normal. Felipe Vidal fora moderador de um programa televisivo sobre política durante os três anos do governo de Salvador Allende, razão de sobra para ser considerado suspeito pelos militares, contudo não tinha sido detido. Nidia pensava que a democracia seria em breve reinstaurada, mas Felipe receava uma ditadura de longa vida, porque no exercício da sua profissão como jornalista tinha coberto guerras, revoluções e golpes militares e sabia que a violência, uma vez desencadeada, é impossível de conter. Antes do golpe, pressentia que se encontravam sobre um barril de pólvora pronto a explodir e advertiu o Presidente em privado, depois de uma conferência de imprensa.

   - Sabe algo que eu não saiba, camarada Vidal, ou é só um pressentimento? - perguntou Allende.

   - Medi o pulso ao país e acho que os militares se vão revoltar -respondeu-lhe Felipe sem rodeios.

   - O Chile tem uma longa tradição democrática, aqui ninguém toma o poder pela força. Conheço a gravidade desta crise, camarada, mas confio no Comandante das Forças Armadas e na honra dos nossos soldados, sei que cumprirão o seu dever - disse Allende em tom solene, como se discursasse para a posteridade.

   O presidente referia-se ao general Augusto Pinochet, a quem tinha nomeado recentemente, um homem de província, de uma família de militares, que vinha bem recomendado pelo seu antecessor, o general Prats, deposto devido a pressões políticas. Vidal reproduziu esta conversa na íntegra na sua coluna no jornal. Nove dias mais tarde, na terça-feira, 11 de setembro, escutou pela rádio as últimas palavras do Presidente, despedindo-se da população antes de morrer, e o estrépito das bombas caindo sobre o Palacio de la Moneda, sede da presidência, latão preparou-se para o pior. Não acreditava no mito da conduta civilizada dos militares chilenos, porque tinha estudado história e havia demasiadas evidências em contrário. Pressentia que a repressão iria ser terrível.

   A Junta Militar declarou o estado de guerra e, entre as suas medidas imediatas, impôs uma censura rígida sobre os meios de comunicação. Não circulavam notícias, apenas rumores, que a propaganda oficial não tentava silenciar, porque lhe convinha semear o terror. Falava-se de campos de concentração e centros de tortura, de milhares e milhares de detidos, de exilados e mortos, de tanques arrasando povoações operárias, soldados fuzilados por se recusarem a obedecer, prisioneiros atirados ao mar de helicópteros, amarrados a bocados de carris e abertos de cima a baixo para se afundarem. Felipe Vidal registou mentalmente os soldados com armas de guerra, os tanques, o tropel de camiões militares, o zumbido dos helicópteros, as pessoas espancadas. Nidia arrancou das paredes os cartazes de cantores de protesto e reuniu os seus livros, incluindo os romances inofensivos, e foi deitá-los num contentor do lixo, porque não tinha forma de os queimar sem chamar a atenção. Era uma precaução inútil, porque havia centenas de artigos, documentários e gravações comprometedoras ligados à atividade jornalística do marido.

     Foi Nidia quem teve a ideia de Felipe se esconder, desta forma estariam mais sossegados, e sugeriu que fosse para o Sul, onde vivia uma tia sua. Dona Ignacia era uma octogenária bastante peculiar, que andava há cinquenta anos a receber moribundos em casa. Três criadas, quase tão idosas como ela, secundavam-na na nobre tarefa de ajudar a morrer doentes terminais de apelidos distintos, de quem as próprias famílias não podiam ou não queriam cuidar. Ninguém visitava esta lúgubre residência, à exceção de uma enfermeira e de um diácono, que passavam duas vezes por semana para distribuir medicamentos e a comunhão, porque se sabia que por ali havia almas penadas. Felipe Vida não pensava em nada disto, mas numa carta admitiu à mulher que os móveis se mexiam sozinhos e, durante a noite, não se podia dormir devido aos inexplicáveis barulhos de portas a bater e pancadas no teto. A sala de jantar era frequentemente utilizada como capela funerária e havia um armário cheio de dentaduras postiças, óculos e frascos de remédios, que os hóspedes deixavam ao partirem para o céu. Dona Ignacia acolheu Felipe Vidal de braços abertos. Não se lembrava de quem ele era e pensou que se tratava de outro paciente enviado por Deus, por isso espantou-a o seu aspeto tão saudável.

   A casa era uma relíquia colonial, de telhas e adobe, quadrada, com um pátio central. Os quartos davam para uma galeria, onde definhavam matas de gerânios cobertos de pó e galinhas à solta debicavam o solo. As vigas e os pilares estavam tortos, as paredes rachadas, as portadas desconjuradas pelo uso e os tremores de terra; do teto escorria água por vários orifícios e as correntes de ar e as almas penadas costumavam deslocar as estátuas de santos que decoravam os quartos. Era a perfeita antecâmara da morte, gelada, húmida e sombria como um cemitério, mas o Felipe Vidal pareceu-lhe um alojamento de luxo. O quarto que lhe tocou era do tamanho do seu apartamento em Santiago, com uma coleção de móveis pesados, janelas gradeadas e um pé direito tão alto que os deprimentes quadros de cenas bíblicas eram pendurados inclinados, para se poderem apreciar de baixo. A comida revelou-se excelente, porque a tia era gulosa e não privava de nada os seus moribundos, que permaneciam muito quietos nas suas camas, respirando aos gorgolejos, e mal provavam os pratos.

   A partir daquele refúgio na província, Felipe tratou de fazer diligências para esclarecer a sua situação. Estava sem trabalho, porque o canal de televisão fora intervencionado pelo governo, o jornal arrasado e o edifício queimado até às fundações. O seu rosto e a sua escrita estavam identificados com a imprensa de esquerda, não podia sonhar em arranjar emprego na sua área, mas contava com algumas poupanças para viver durante uns meses. O seu problema imediato era descobrir se estava na Lista Negra e, se isto se confirmasse, escapar do país. Mandava recados cifrados e fazia discretas averiguações por telefone, mas os seus amigos e conhecidos recusavam-se a responder-lhe ou enredavam-no em desculpas.

   Ao fim de três meses, andava a beber meia garrafa de pisco por dia e sentia-se deprimido e envergonhado, porque enquanto outros lutavam na clandestinidade contra a ditadura militar, ele comia como um príncipe as costoletas de uma anciã demente, que lhe passava a vida a põr o termómetro. Morria de tédio. Recusava-se a ver televisão, para não ouvir os bandos e marchas militares, não lia, porque os livros existentes na casa eram do século XIX, e a sua única atividade social era o rosário vespertino, que as empregadas e a tia rezavam pela alma dos agonizantes, e no qual devia participar, porque era aúnica condição que dona Ignacia tinha colocado para lhe dar hospedagem. Neste período, escreveu varias cartas à mulher, contando-lhe os pormenores da sua existência, duas das quais pude ler no arquivo do Vicariato. Passado pouco tempo, começou a sair, primeiro até à porta, depois até à padaria da esquina e ao quiosque que vendia jornais, a seguir para dar umas voltas pela praça e ir ao cinema. Descobriu que o verão desabrochara em pleno e as pessoas se preparavam para as férias com um ar de normalidade, como se as patrulhas de soldados de capacete e metralhadora fizessem parte da paisagem urbana. Passou o Natal e começou o ano de 1974 separado da mulher e do filho, mas em fevereiro, quando já levava cinco meses a viver como uma ratazana, sem que a polícia secreta desse mostras de andar à sua procura, calculou que era tempo de regressar à capital e tentar colar os pedaços quebrados da sua vida e da sua família.

     Felipe Vidal despediu-se de dona Ignacia e das criadas, que lhe encheram a mala de queijos e pastéis, emocionadas porque era o primeiro paciente em meio século que, em vez de morrer, engordara nove quilos. Felipe tinha posto lentes de contacto e cortara os longos cabelos e o bigode, estava irreconhecível. Regressou a Santiago e decidiu ocupar o seu tempo a escrever as memórias, já que as circunstâncias ainda não eram propícias para procurar trabalho. Um mês depois, a mulher saiu do emprego, foi buscar o filho Andrés à escola e comprar qualquer coisa para o jantar. Quando chegou ao apartamento, encontrou a porta arrombada e o gato estendido na ombreira com a cabeça despedaçada.

     Nidia Vidal realizou o percurso habitual perguntando pelo marido, juntamente com outras centenas de pessoas angustiadas, que faziam fila diante de quartéis de polícia, prisões, centros de detenção, hospitais e morgues. O marido não figurava na Lista Negra, não estava registado em lado nenhum, nunca tinha sido preso, não procure por ele, senhora, de certeza que fugiu com alguma amante para Mendoza. A sua peregrinação poderia ter continuado durante anos se Nidia não tivesse recebido uma mensagem.

     Manuel Arias estava na Villa Grimaldi, inaugurada há pouco tempo como quartel da DINA, numa das celas de tortura, de pé, comprimido contra outros prisioneiros imóveis. Entre eles estava Felipe Vidal, que todos conheciam pelo seu programa de televisão. Obviamente, Vidal não podia saber que o seu colega de cela, Manuel Arias, era o pai de Andrés, o rapazinho que considerava seu filho. Ao fim de dois dias, levaram Felipe Vidal para o interrogar e nunca mais voltou.

   Os presos costumavam comunicar uns com os outros por intermédio de pancadinhas e arranhões nos tabiques de madeira que os separavam, e foi assim que Manuel tomou conhecimento de que Felipe sofrera uma paragem cardíaca na cama de tortura elétrica. Os seus restos mortais, como os de tantos outros, foram lançados ao mar. Entrar em contacto com Nidia tornou-se numa obsessão para Manuel. O mínimo que podia fazer por esta mulher, que tinha amado muito, era impedi-la de gastar a vida a procurar o marido e avisá-la para fugir antes que também a ela a fizessem desaparecer.

       Era impossível enviar mensagens para o exterior, mas, por uma milagrosa coincidência, naquela altura a Cruz Vermelha levou a cabo a sua primeira visita, porque as denúncias de violações dos direitos humanos já tinham dado a volta ao mundo. Foi necessário esconder os detidos, limpar o sangue e desmontar os aparelhos de tortura elétrica para a inspeção. A Manuel e a outros que estavam em melhores condições, trataram-lhes as feridas como puderam, deram-lhes banho e roupa limpa e apresentaram-nos diante dos observadores com a advertência de que, à menor indiscrição, as suas famílias sofreriam as consequências. Manuel aproveitou para enviar um recado a Nidia Vidal nos únicos segundos que teve para sussurrar duas frases a um dos membros da Cruz vermelha.

     Nidia recebeu a mensagem, soube de quem provinha e não duvidou da sua veracidade. Entrou em contacto com um sacerdote belga, que trabalhava no Vicariato e que Nidia conhecia, e este arranjou forma de a meter com o filho na Embaixada das Honduras, onde passaram dois meses à espera de salvo-condutos para deixar o país. A residência diplomática fora invadida até ao último recanto por meia centena de homens, mulheres e crianças, que dormiam deitados no chão e mantinham as três casas de banho do edifício ocupadas em permanência, enquanto o embaixador procurava colocar as pessoas noutros países, porque o seu estava a abarrotar e não podia acolher mais refugiados. A empresa parecia interminável, já que, de tempos a tempos, outros perseguidos do regime saltavam o muro da rua e aterravam no pátio. O embaixador conseguiu que o Canadá recebesse vinte pessoas, entre elas Nidia e Andrés Vidal, alugou um autocarro, colocou-lhe uma matrícula diplomática e duas bandeiras hondurenhas e, acompanhado pelo seu adido militar, conduziu pessoalmente os vinte exilados ao aeroporto e, dali, até à porta do avião.

   Nidia propôs a si própria dar ao filho uma vida normal no Canadá, sem medo, ódio ou rancores. Não faltou à verdade ao explicar-lhe que o pai tinha morrido de um ataque de coração, mas omitiu os horrendos pormenores que o tinham rodeado, porque o rapazinho era demasiado jovem para os assimilar. Os anos foram passando sem que Nidia encontrasse a oportunidade - ou uma boa razão - para esclarecer a circunstâncias desta morte, mas, agora que eu desenterrei o passado, a minha Nini terá de o fazer. Também terá de lhe dizer que Felipe Vidal, o homem da fotografia que sempre teve na mesinha de cabeceira, não era seu pai.

     Chegou-nos uma encomenda por correio à Taberna do Mortilo e, antes de a abrirmos, já sabíamos quem a enviara, porque vinha de Seattle. Continha a carta que tanta falta me fazia, comprida e informa, tiva, mas sem a linguagem apaixonada que teria desfeito as minhas dúvidas acerca de Daniel. Também vinham as fotos tiradas por ele Berkeley: a minha Nini, com melhor aspeto que no ano passado, po que pintou a cabeleira branca, de braço dado com o meu pai, vestido com o seu uniforme de piloto, sempre atraente; Mike 0'Kelly de pé aferrado ao andarilho, com o tronco e os braços de um lutador a pernas atrofiadas pela paralisia; a casa mágica sombreada pelos pinheiros num luminoso dia de outono; a baía de São Francisco salpicada é velas brancas. De Freddy havia apenas um instantâneo, obtido possívelmente num descuido do rapaz, que não aparecia nas outras fotografias, como se tivesse evitado a câmara de propósito. Aquele ser de olhos famintos, ossudo e triste, era igual aos zombies do edifício de Brandon Leeman. Escorraçar de vez a dependência pode demorar anos ao meu pobre Freddy se é que o vai conseguir, e entretanto sofre.

     A enco