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O CALDEIRÃO NEGRO / Lloyd Alexander
O CALDEIRÃO NEGRO / Lloyd Alexander

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O CALDEIRÃO NEGRO

 

As páginas a seguir destinam-se, espero, a fazer um pouco mais do que ser apenas uma conti­nuação às Crônicas de Prydain. “E o que acon­tece depois?” é sempre uma pergunta urgente, e o presente livro tenta responder a ela. Apesar disso, por uma questão de direito, O Caldeirão Negro deve se manter como uma crônica independente. Certas questões, ante­riormente apenas sugeridas, aqui são mais plenamente re­veladas; e, ao mesmo tempo em que ampliei a história, também tentei aprofundá-la.

Se um fio de tom mais sombrio entrelaça a trama do tecido habitualmente alegre e bem-humorado, é porque os acontecimentos têm grave e importante significado não só para a Terra de Prydain, mas também para o próprio Taran, o Porqueiro-Assistente. Embora Prydain seja um mundo imaginário, não é, essencialmente, muito diferente da nossa Prydain verdadeira, onde humor e desgosto, ale­gria e tristeza, são estreitamente entretecidos. As escolhas e decisões com que se defronta um Porqueiro-Assistente, freqüentemente confuso, não são mais fáceis que aquelas que nós mesmos temos que fazer e tomar. Mesmo em um reino de fantasia, crescer não é algo que se consiga fazer sem pagar um preço.

Os leitores que estiverem se aventurando por este rei­no pela primeira vez também devem estar advertidos de que, à primeira vista, a paisagem pode se parecer com a do País de Gales, e que os habitantes podem evocar heróis das antiqüíssimas lendas de Gales. Essas foram minhas raízes e inspiração. Mas o resto é um trabalho de imaginação, semelhante apenas em espírito, não em detalhe.

Os leitores que já fizeram jornadas com Taran podem ficar tranqüilos de que — e digo isto sem revelar nenhuma surpresa — Gurgi, a despeito de arrepios e tremores assusta­dores, e de grandes temores por sua pobre cabeça mimosa, fez questão de participar dessa nova aventura, do mesmo modo que o impetuoso Fflewddur Fflam e o desapontado Doli, do Povo Formoso. Quanto à Princesa Eilonwy, Filha de Angharad, não se precisa nem perguntar!

Fiquei feliz ao descobrir que Taran, a despeito de seus defeitos, conquistou alguns companheiros fiéis além das fron­teiras de Prydain: Beverly Bond, cuja coragem nunca vacilou; Zay Borman, que temerariamente visitou os Pântanos de Morva durante uma tempestade; Carl Brandt, que tinha cer­teza de que Prydain existia antes de ter sido descoberta; Ann Durell, desde o começo; Max Jacobson, meu severo amigo e melhor crítico; Evaline Ness, que é dotada da visão mais esclarecida; Louise Waller, que ajudou a capinar os dentes-de-leão. E Evan e Reed, Kris e Mike, Fleur, Suzy e Barbara, Peter, Liz e Susie, Michael, Mark, Gary e Diana. E seus respec­tivos pais. A eles afetuosamente dedico estas páginas.

Lloyd Alexander

 

 

O Conselho em Caer Dallben

O outono havia chegado rápido demais. Nos rei­nos mais ao norte de Prydain muitas árvores já estavam sem folhas e, em meio a seus galhos, restavam apenas as silhuetas esfarrapadas de ninhos vazios. Ao sul, do outro lado do rio Grande Avren, as montanhas protegiam Caer Dallben dos ventos, mas, mesmo ali em seu abrigo, a pequena fazenda estava se recolhendo.

Para Taran, o verão estava chegando ao fim antes de ter começado. Naquela manhã, Dallben o havia incumbido da tarefa de dar banho na porca oracular. Tivesse o velho feiticeiro ordenado que ele capturasse um guidainte, feliz da vida, Taran teria saído atrás de uma das perversas criaturas. De todo jeito, ele encheu um balde no poço e se encami­nhou penosa e relutantemente para o cercado de Hen Wen. A porca branca, geralmente ávida por um banho, naquele dia guinchou nervosamente e rolou sobre as costas na lama.

Ocupado com o esforço e a faina de levantar Hen Wen e fazê-la se pôr de pé, Taran nem reparou no cavaleiro até que ele puxou as rédeas do cavalo junto do cercado.

— Você aí! Menino porcariço! — O cavaleiro que o olhava com ares de superioridade era um rapazinho, apenas alguns anos mais velho que Taran. O cabelo dele era de cor amarelo tostado, os olhos negros profundos nas órbitas, em um rosto pálido e arrogante. Embora de excelente qualidade, suas roupas tinham sido muito usadas e a capa estava deliberadamente arranjada de maneira a esconder as vestimentas puídas. Até a própria capa, Taran reparou, tinha sido cuida­dosa e meticulosamente cerzida. Ele estava montado numa égua ruana, um cavalo de batalha esguio e nervoso, de pêlo branco mesclado de vermelho e preto, e crina amarela, com a cabeça comprida e estreita, cuja expressão era tão mal-humorada quanto a de seu dono.

— Você aí! Menino porcariço — repetiu ele —, isto aqui é Caer Dallben?

O tom do cavaleiro e sua atitude irritaram Taran, mas ele controlou o temperamento e gentilmente fez uma mesura.

— É — respondeu. — Mas eu não sou um menino porca­riço — acrescentou. — Sou Taran, o Porqueiro-Assistente.

— Um porco é um porco — retrucou o desconheci­do —, e um menino porcariço é um menino porcariço. Cor­ra e vá avisar a seu senhor que estou aqui — ordenou ele. — Diga-lhe que o Príncipe Ellidyr, Filho de Pen-Llarcau...

Hen Wen aproveitou esta oportunidade para rolar numa outra poça de lama.

— Pare com isso, Hen! — gritou Taran, correndo atrás dela.

— Largue esta porca — ordenou Ellidyr. — Você não me ouviu? Faça o que eu mandei e trate de andar depressa.

— Vá avisar Dallben o senhor, se quiser! — gritou Taran por cima do ombro, tentando impedir Hen Wen de chafur­dar na lama. — Ou espere eu acabar de fazer meu trabalho.

— Cuidado com a sua impertinência — respondeu Ellidyr — ou levará uma boa surra por causa disso.

Taran ficou vermelho de raiva. Deixando que Hen Wen fizesse o que lhe agradasse, caminhou rapidamente até a cer­ca e saltou para o outro lado.

— Se eu levar — respondeu furioso, jogando a cabeça para trás e encarando Ellidyr bem no rosto —, não vai ser de suas mãos.

Ellidyr deu uma gargalhada zombeteira. Antes que Taran pudesse saltar para o lado, a mana mergulhou em sua dire­ção. Ellidyr, inclinando-se na sela, agarrou Taran pelo peito do gibão. Taran se debateu e esperneou em vão. Por mais forte que fosse, não conseguia se libertar. Foi esmurrado e sacudi­do até seus dentes chocalharem. Então Ellidyr esporeou a mana para sair a galope, arrastou Taran pelo relvado até o chalé e ali, enquanto as galinhas batiam em debandada, cor­rendo em todas as direções, o atirou com violência no chão.

A comoção trouxe Dallben e Coll para fora. A Princesa Eilonwy saiu correndo da copa, com o avental esvoaçando e uma panela ainda na mão. Com um grito alarmado, ela cor­reu para junto de Taran.

Ellidyr, sem se dar ao trabalho de desmontar, gritou para o feiticeiro de barbas brancas.

— O senhor é Dallben? Eu trouxe seu menino porcariço para levar uma surra por sua impertinência.

— Isso é besteira! — exclamou Dallben, sem se pertur­bar com a expressão furiosa de Ellidyr. — Se ele é insolente é uma coisa e, se deve ser castigado com uma surra, é outra. Qualquer que seja o caso, não preciso de sugestões suas.

— Eu sou um Príncipe de Pen-Llarcau — exclamou Ellidyr.

— Sim, sim, eu sei — interrompeu Dallben, com um aceno da mão magra. — Tenho pleno conhecimento de tudo isso e estou ocupado demais para ser incomodado com isso. Vá dar de beber a seu cavalo e aproveite para também esfriar um pouco a cabeça. Será chamado na hora em que sua pre­sença for necessária.

Ellidyr estava a ponto de responder, mas o olhar severo do feiticeiro o fez segurar a língua. Ele virou a ruana e com os calcanhares a incitou a seguir na direção do estábulo.

Enquanto isso, a Princesa Eilonwy e o corpulento e ca­reca Coll tinham estado ajudando Taran a se levantar.

— Você já devia saber, meu rapaz, que não se deve brigar com estranhos — disse Coll em tom bem-humorado.

— Isso é verdade — acrescentou Eilonwy. — Especial­mente se estiverem a cavalo e você a pé.

— Da próxima vez que me encontrar com ele — Taran começou a dizer.

— Quando voltarem a se encontrar — interrompeu Dallben —, você, pelo menos, vai se conduzir com o maior comedimento e dignidade possíveis, os quais, admito, podem não ser muito grandes, mas você terá que se virar com eles. Agora, trate de ir. A Princesa Eilonwy poderá ajudá-lo a se arrumar e ficar um pouco mais apresentável do que está no ‘momento.

Completamente arrasado, Taran seguiu a garota de ca­belos dourados até a copa. Ainda se sentia irritado e humi­lhado, mais pelas palavras de Ellidyr do que pela surra que levara; e não estava nada satisfeito com o fato de que Eilonwy o tivesse visto esparramado no chão aos pés do arrogante príncipe.

— Como foi que aquilo aconteceu? — perguntou Eilonwy, pegando um pano úmido e passando no rosto de Taran.

Taran não respondeu, mas tristemente submeteu-se a seus cuidados.

Antes que Eilonwy acabasse, uma figura cabeluda, co­berta de folhas e gravetos, surgiu, de repente, na janela e, com grande agilidade, com os pés e as mãos trepou no peitoril da janela e entrou.

— Que pesar e tristeza! — lamuriou-se a criatura, inclinando-se ansiosamente para Taran. — Gurgi vê pancadas e cacetadas dadas pelo forte lorde! Pobre coitado do senhor bondoso! Gurgi está com pena dele.

— Mas há notícias! — Gurgi prosseguiu rapidamente. — Boas notícias! Gurgi também vê o príncipe, de todos, o mais poderoso, em cavalgada! Sim, sim, com grandes galopadas no cavalo branco e com espada preta, que alegria!

— Como é que é? — exclamou Taran. — Está falando do Príncipe Gwydion? Não pode ser...

— Mas é — disse uma voz às suas costas. Gwydion estava no umbral da porta.

Com um grito de surpresa, Taran correu para junto dele e apertou-lhe a mão. Eilonwy deu um grande abraço no alto guerreiro, enquanto Gurgi, feliz da vida, batia com as mãos no assoalho. Da última vez em que Taran o vira, Gwydion esti­vera vestindo os trajes cerimoniais de um príncipe da real Casa de Don. Agora, estava vestido com roupas muito sim­ples: uma capa cinza com capuz e um gibão sem nenhum tipo de adorno. A espada preta, Dyrnwyn, estava embainhada ao longo de seu quadril.

— Que bom ver todos vocês — disse Gwydion. — Gurgi parece tão faminto como sempre, Eilonwy mais linda do que nunca. E você, Porqueiro-Assistente — acrescentou, o rosto curtido pelo sol e marcado por finas rugas se abrindo num largo sorriso —, está um pouco pior do que de costu­me. Dallben me contou como se machucou desse jeito.

— Eu não procurei briga — declarou Taran.

— Mas, apesar disso, uma briga o encontrou — obser­vou Gwydion. — Creio que é assim que devem ser as coisas com você, Taran de Caer Dallben. Mas isso não tem impor­tância — disse ele, dando um passo atrás e, atentamente, examinando Taran com os olhos salpicados de verde. — Deixe-me olhar para você. Você cresceu desde a última vez em que nos encontramos. — Gwydion balançou a cabeça, de cabelos longos e desalinhados, com fios prateados como pêlos de lobo, com aprovação. — Espero que tenha adquiri­do tanta sabedoria quanto ganhou altura. Veremos. Agora devo fazer os preparativos para o conselho.

— Conselho? — exclamou Taran. — Dallben não falou nada sobre um conselho. Ele nem disse que o senhor estava vindo para cá.

— A verdade é — acrescentou Eilonwy — que Dallben não tem dito grande coisa, a respeito de coisa nenhuma, para ninguém.

— Vocês a esta altura já deveriam saber — comentou Gwydion — que das coisas que sabe Dallben conta muito pouco. Sim, vai haver um conselho, e convoquei outras pes­soas para virem se reunir conosco aqui.

— Eu já tenho idade para participar de um conselho de homens — interrompeu Taran animadamente. —Já aprendi muita coisa; combati a seu lado, eu...

— Calma, calma — disse Gwydion. — Nós já concor­damos que você deverá participar. Embora chegar à idade viril — ele acrescentou em voz baixa, com um traço de tristeza — possa não ser tudo que você acredita que seja. — Gwydion pôs as mãos sobre os ombros de Taran. — Nesse meio tempo, trate de se aprontar. Muito brevemente será incumbido de sua missão.

Como Gwydion havia previsto, durante o resto da ma­nhã chegaram muitos novos visitantes. Um grupo de cavalei­ros logo apareceu e começou a montar acampamento no campo de restolhos além do pomar. Os guerreiros, Taran observou, estavam armados para batalha. Seu coração deu um salto. Sem dúvida, aquilo também tinha a ver com o con­selho convocado por Gwydion. A cabeça de Taran girava cheia de perguntas e ele correu em direção ao campo. Mas não havia coberto nem metade do caminho quando parou, de repente, tomado por grande surpresa. Dois vultos familia­res vinham cavalgando pelo caminho. Taran correu ao en­contro deles.

— Fflewddur! — gritou, enquanto o bardo, com sua bela harpa pendurada no ombro, levantava a mão para saudá-lo. — E Doli! É realmente você?

O anão de cabelos flamejantes desmontou de seu pônei. Sorriu largamente, por um instante, depois amarrou sua car­ranca habitual. Ele não escondeu, contudo, o brilho de prazer em seus olhos redondos e vermelhos.

— Doli! — Taran bateu nas costas do anão. — Nunca pensei que fosse voltar a vê-lo. Isto é, realmente ver você. Não depois que adquiriu o poder de se tornar invisível.

— Hummm! — fungou o anão, vestido num gibão de couro. — Invisível! Já vivi tudo que queria dessa história. Você se dá conta do esforço que é necessário? É terrível! Faz meus ouvidos zumbirem. E isso não é a pior parte. Ninguém pode .ver você, de modo que leva pisões nos dedos dos pés, ou uma cotovelada no olho. Não, não, isso não é para mim. Não suporto mais isso!

— E você Fflewddur — exclamou Taran, enquanto o bardo desmontava —, senti muito sua falta. Sabe de que vai tratar o conselho? É por isso que está aqui, não é? E Doli também?

— Eu não sei de nada a respeito de conselhos — res­mungou Doli. — O Rei Eiddileg me ordenou que viesse para cá. Como uma deferência especial para Gwydion. Mas posso lhe dizer agora, neste instante, que preferiria estar em casa, no reino do Povo Formoso, cuidando de minha vida.

— No meu caso — disse o bardo —, aconteceu de Gwydion estar passando por meu reino, assim, por puro acaso, me pareceu, embora agora esteja começando a pen­sar que não era. Ele sugeriu que talvez eu pudesse apreciar vir fazer uma visita a Caer Dallben. Disse que o bom e ve­lho Doli estaria por aqui, de modo que é claro que parti imediatamente.

— Eu havia desistido de ser bardo — prosseguiu Fflewd­dur —, e havia me acomodado, muito satisfeito, voltando à vida de rei. Francamente, vim apenas para agradar Gwydion.

Diante dessas palavras, duas cordas de sua harpa parti­ram-se com um sonoro “tóing”. Fflewddur calou-se imediata­mente e pigarreou.

— Pois bem, sim — acrescentou ele —, a verdade é o seguinte: eu estava absolutamente infeliz. Teria aproveitado qualquer desculpa para sair daquele castelo úmido, deprimente, por algum tempo. Você disse que vai haver um conselho? Estava na esperança de que fosse um festival de colheita e que fossem precisar de mim para cuidar do entretenimento.

— Seja lá o que for — disse Taran —, estou feliz por vocês dois estarem aqui.

— Eu não estou — reclamou o anão. — Quando eles começam a falar sobre o bom e velho Doli isso e o bom e velho Doli aquilo, cuidado! É para fazer alguma coisa desagradável.

Enquanto eles se encaminhavam para o chalé, Fflewddur olhou ao redor com interesse.

— Ora, mas que surpresa, estou vendo o estandarte do Rei Smoit ali? Está aqui também a pedido de Gwydion, não tenho dúvida.

Justo naquele momento um cavaleiro aproximou-se a meio galope e chamou o nome de Fflewddur. O bardo deu um grito de prazer.

— Aquele é Adaon, filho do Chefe dos Bardos, Taliesin — disse para Taran. — Caer Dallben, de fato, hoje está rece­bendo uma grande honra!

O cavaleiro desmontou e Fflewddur se apressou para apresentar seus amigos a ele.

Adaon, Taran reparou, era alto, com cabelos negros, lisos, que lhe desciam até os ombros. Embora tivesse linha­gem e porte nobre, vestia os trajes de um guerreiro comum, sem nenhum ornamento exceto um broche de ferro, de for­mato curioso, no colarinho. Seus olhos eram cinzentos, estra­nhamente penetrantes, luminosos como uma chama, e Taran percebeu que muito pouco podia escapar ao olhar atento e perspicaz de Adaon.

— Em boa hora, afinal, tenho a oportunidade de conhecê-los, Taran de Caer Dallben e Doli do Povo Formo­so — disse Adaon, trocando um aperto de mãos com cada um deles. — O nome de vocês não é desconhecido entre os bardos do norte.

— Então o senhor também é um bardo? — perguntou Taran, fazendo uma mesura com grande respeito.

Adaon sorriu e sacudiu a cabeça.

— Muitas vezes meu pai me pediu que eu me apresen­tasse para o exame de admissão, mas eu preferi esperar. Ainda há muito que tenho a esperança de aprender e, em meu cora­ção, não me sinto pronto. Um dia, quem sabe, talvez esteja.

Adaon virou-se para Fflewddur.

— Meu pai envia suas saudações e pergunta como tem se saído com a harpa que ele lhe deu. Pelo que vejo, precisa de reparos — acrescentou, com uma risada amistosa.

— É verdade — admitiu Fflewddur —, de fato, tenho problemas com ela de vez em quando. Não posso me impe­dir de... aah, acrescentar um pouquinho de cor aos fatos, a maioria dos fatos precisa tanto de um pouco de cor. Mas toda vez que faço isso — ele suspirou, olhando para as duas cordas partidas — o resultado é este.

— Alegre-se e não desanime — disse Adaon, dando uma gostosa gargalhada. — Suas galantes narrativas merecem todas as cordas de harpa de Prydain. E vocês, Taran e Doli, devem prometer me contar mais sobre suas famosas façanhas. Mas, primeiro, devo ir ao encontro de Lorde Gwydion.

Pedindo licença aos companheiros, Adaon montou e seguiu adiante.

Fflewddur o observou, enquanto se afastava, com uma expressão de afeto e admiração no olhar.

— Se Adaon está aqui, não pode ser uma questão de pequena importância — comentou Fflewddur. — Ele é um dos homens mais bravos que conheço. Isso e mais, pois tem o coração de um verdadeiro bardo. Algum dia, ele certamen­te será o maior de nossos bardos, pode escrever o que digo.

— E é mesmo verdade que nossos nomes são conheci­dos por ele? — perguntou Taran. — E tem havido canções falando de nós?

Fflewddur sorriu radiante.

— Depois da batalha com o Rei Cornudo, sim, de fato, eu compus uma coisinha. Uma modesta homenagem. Mas é um prazer saber que se tornou conhecida. Assim que eu con­sertar essas pobres infelizes dessas cordas, ficarei encantado em cantar para vocês.

Pouco depois do meio-dia, quando todos tinham re­pousado da jornada, Coll os convocou para se reunirem nos aposentos de Dallben. Ali, havia sido colocada uma mesa comprida, com cadeiras dos dois lados. Taran reparou que o feiticeiro tinha até feito algumas tentativas para arrumar a desordem de antiqüíssimos livros que atravancavam o apo­sento. O Livro dos Três, o pesado tomo que era repleto dos mais íntimos segredos de Dallben, havia sido posto cuidado­samente no alto de uma prateleira. Taran lançou um olhar rápido para cima, quase temeroso, certo de que continha muito mais do que Dallben jamais quisera revelar.

O resto do grupo havia começado a entrar quando Fflewddur segurou o braço de Taran e o puxou para um canto, enquanto um guerreiro de barba escura passava rapi­damente por eles.

— De uma coisa você pode estar certo — disse o bar­do, falando baixinho —, Gwydion não está planejando um festival de colheita. Já viu quem está aqui?

O guerreiro moreno estava mais ricamente vestido do que qualquer outra pessoa do grupo. Seu nariz adunco pare­cia um bico de falcão, os olhos semicerrados pareciam sonolentos, velados pelas pálpebras pesadas, mas eram penetran­tes. Somente para Gwydion ele ofereceu uma mesura; então, sentando-se à mesa, lançou um olhar frio avaliando os outros ao seu redor.

— Quem é ele? — sussurrou Taran, sem ousar encarar aquele personagem orgulhoso e de porte régio.

— É o Rei Morgant de Madoc — respondeu o bardo —, o mais corajoso líder de guerra de Prydain, mais do que ele somente o próprio Gwydion. Jurou fidelidade e obediência à Casa de Don. Dizem que certa vez salvou a vida de Gwydion. Eu acredito nisso. Já vi aquele sujeito em combate. É puro gelo! Absolutamente destemido! Se Morgant for participar nisso, alguma coisa muito interessante deve estar sendo pla­nejada. Ah, ouça. É o Rei Smoit. Sempre se pode ouvi-lo antes de se poder vê-lo.

Uma alta e sonora gargalhada ressoou fora do aposento e, um momento depois, um gigantesco guerreiro de cabelos vermelhos apareceu ao lado de Adaon. Era muito mais alto que todo mundo no aposento, e a barba ruiva chamejava ao redor de um rosto tão marcado por cicatrizes de velhos ferimentos que era impossível dizer onde uma começava e outra acabava. Seu nariz tinha sido quebrado e achatado en­tre as maçãs do rosto; a testa proeminente quase se perdia num emaranhado desgrenhado de sobrancelhas; e o pescoço parecia tão grosso quanto a cintura de Taran.

— Que grande urso! — comentou Fflewddur com uma pequena gargalhada afetuosa. — Mas é um homem que não tem um grão de maldade. Quando os lordes dos cantreves do sul se insurgiram contra os Filhos de Don, Smoit foi um dos poucos que se manteve leal. Seu reino é o Cantreve de Cadiffor.

Smoit parou no meio do aposento, atirou sua capa para trás e enfiou os polegares no enorme cinturão de bronze que se estirava quase a ponto de explodir, cingindo-lhe a ampla circunferência.

— Olá, Morgant! — rugiu ele. — Quer dizer que eles também o chamaram, não é? — Smoit farejou o ar com fero­cidade. — Sinto o cheiro de derramamento de sangue no vento! — Smoit se encaminhou com passadas largas para o austero líder de guerra e deu-lhe uma forte palmada no ombro.

— Trate de ter cuidado — replicou Morgant, com um fiapo de sorriso que mostrava apenas as pontas de seus den­tes —, para que não seja o seu.

— Rô! Rô-rô-rô! — O Rei Smoit rugiu numa sonora gargalhada e bateu com as palmas das mãos nas coxas maci­ças. — Essa foi boa! Ter cuidado para que não seja o meu! Não se preocupe, seu pingente de gelo! Eu tenho mais que de sobra! — Ele avistou Fflewddur. — E mais um velho cama­rada! — bramiu, correndo para o bardo e envolvendo-o num abraço apertado com tamanho entusiasmo que Taran ouviu as costelas de Fflewddur estalarem. — Meu pulso! — excla­mou Smoit. — Meu corpo e meus ossos! Cante uma canção para nos alegrar, seu tolo arranhador de harpa!

Os olhos dele cravaram-se em Taran.

— Mas o que é isso, o que é isso? — Ele agarrou Taran com uma fortíssima mão coberta de pêlos ruivos. — Um coelho esfolado? Uma galinha depenada?

— Ele é Taran, o Porqueiro-Assistente de Dallben — respondeu o bardo.

— Eu gostaria que fosse o cozinheiro de Dallben! — exclamou Smoit. — Mal forrei minha pança!

Dallben começou a bater na mesa pedindo silêncio. Smoit se encaminhou para seu lugar depois de dar mais um abraço em Fflewddur.

— Pode não haver um grão de maldade nele — co­mentou Taran com o bardo —, mas eu acho que é mais seguro tê-lo como amigo.

Agora todo o grupo estava reunido ao redor da mesa, com Dallben e Gwydion numa das cabeceiras, Coll na ou­tra. O Rei Smoit, transbordando de sua cadeira, estava sentado à esquerda do feiticeiro, bem defronte ao Rei Morgant. Taran se espremeu entre o bardo e Doli, que res­mungou muito contrariado porque a mesa era alta demais para ele. Sentado à direita de Morgant, estava Adaon e, ao lado dele, Ellidyr, que Taran não tinha mais visto desde aquela manhã.

Dallben se levantou e ficou parado, silenciosamente, por um momento, e todos viraram-se em sua direção. O feiticei­ro puxou um tufo de barba.

— Estou velho demais para ter boas maneiras — disse Dallben — e não tenho intenção de fazer um discurso de boas-vindas. O assunto que temos a tratar aqui é urgente e o abordaremos imediatamente.

— Há pouco mais de um ano, como alguns dentre os senhores têm bons motivos para se recordar — prosseguiu Dallben, olhando de relance para Taran e seus companhei­ros —, Arawn, Lorde de Annuvin, sofreu uma séria derrota quando o Rei Cornudo, seu paladino, foi morto. Durante al­gum tempo, o poder da Terra da Morte esteve contido. Mas em Prydain o mal nunca está distante.

— Nenhum de nós é tolo a ponto de acreditar que Arawn aceitaria uma derrota sem reagir— continuou Dallben. — Eu tinha esperanças de poder ter um pouco mais de tem­po para meditar sobre a nova ameaça de Annuvin. Infeliz­mente, esse tempo não será concedido. Os planos de Arawn tornaram-se demasiado evidentes. A respeito deles, vou pe­dir a Lorde Gwydion que fale.

Então Gwydion, por sua vez, se levantou. A expressão de seu rosto, séria, fechada.

— Quem já não ouviu falar dos Nascidos do Caldeirão, os guerreiros mudos e imortais que servem o Senhor de Annuvin? Esses guerreiros são os corpos roubados dos mor­tos, postos numa infusão no caldeirão de Arawn para dar-lhes novamente vida. Eles emergem implacáveis como a pró­pria morte, tendo perdido a memória de sua humanidade. Na verdade, não são mais homens e sim armas assassinas, para sempre escravos de Arawn.

— Neste trabalho odioso — prosseguiu Gwydion —, Arawn tem se dedicado a espoliar as sepulturas e os dólmenes de guerreiros mortos em combate. Agora, por toda parte em Prydain, têm ocorrido estranhos desapareci­mentos, homens que somem, subitamente, para nunca mais serem vistos; e os Nascidos do Caldeirão aparecem onde, nunca antes, nenhum havia sido visto. Arawn não tem anda­do ocioso. Conforme agora descobri, seus servos ousam ata­car os vivos e carregá-los para Annuvin, para engrossar as fileiras de suas hostes imortais. Desse modo, a morte gera a morte; o mal gera o mal.

Taran foi sacudido por um calafrio. Lá fora, a floresta chamejava colorida de carmesim e amarelo. A temperatura estava agradável, como se um dia de verão tivesse perdurado além de sua estação, mas as palavras de Gwydion gelaram-no como um vento frio, repentino. Ele recordava-se bem demais dos olhos baços, sem vida, e das faces lívidas dos Nascidos do Caldeirão, de seu silêncio espectral e espadas impiedosas.

— Vamos ao que interessa, vamos à parte carnuda des­sa história! — exclamou Smoit. — Por acaso somos coelhos assustados? Devemos temer esses escravos do Caldeirão?

— Haverá carne de sobra para todos mastigarem — respondeu Gwydion com um sorriso sinistro. — Eu os advir­to, antecipadamente: nenhum de nós jamais partiu para uma missão mais perigosa. Peço-lhes sua ajuda, porque pretendo atacar a própria Annuvin para me apoderar do caldeirão de Arawn e destruí-lo.


 

A Descrição das Tarefas

Taran teve um sobressalto em sua cadeira. O apo­sento estava no mais total e absoluto silêncio. O Rei Smoit, que estivera prestes a dizer algu­ma coisa, permaneceu boquiaberto. Só o Rei

Morgant não mostrava nenhum sinal de espanto; mantinha-se sentado imóvel, os olhos semicerrados, uma ex­pressão curiosa no rosto.

— Não existe nenhuma outra alternativa — declarou Gwydion. — Embora os Nascidos do Caldeirão não pos­sam ser mortos, temos que impedir que suas fileiras au­mentem. Entre o poder de Annuvin e nossa própria força, o equilíbrio é delicado demais. À medida que adquire no­vos guerreiros para servi-lo, Arawn estende as mãos, aproximando-as cada vez mais de nossas gargantas. Tampouco me esqueço dos vivos, perfidamente assassinados e con­denados a uma servidão ainda mais pérfida.

— Até o dia de hoje — prosseguiu Gwydion —, so­mente o Grande Rei Math e alguns outros tinham conheci­mento do que tenho em mente. Agora que todos os se­nhores me ouviram, estão livres para ir ou para ficar, como preferirem. Se escolherem voltar para seus cantreves, não considerarei menor sua coragem.

— Mas eu considerarei! — gritou Smoit. — Qualquer frouxo de estômago fraco e sangue ralo que tiver medo de apoiá-lo terá que se haver comigo!

— Smoit, meu amigo — respondeu Gwydion com fir­meza, mas afetuosamente —, esta é uma escolha que deve ser feita sem persuasão de sua parte.

Ninguém se moveu. Gwydion olhou ao redor e depois balançou a cabeça com satisfação.

— Os senhores não me desapontam — declarou. — Eu havia contado com cada um dos que estão aqui presentes para se incumbir de tarefas que explicarei mais tarde.

O entusiasmo de Taran levou a melhor sobre seu medo dos Nascidos do Caldeirão. Teve dificuldade para engolir sua impaciência e não perguntar a Gwydion, ali, naquele mesmo instante, qual seria sua tarefa. Pelo menos naquela ocasião, sabiamente controlou a língua. Em vez dele, foi Fflewddur quem se levantou de um salto.

— É claro! — exclamou o bardo. — Percebi a coisa inteira imediatamente! Naturalmente, o senhor vai precisar de guerreiros, para ir buscar aquele repugnante caldeirão. Mas vai precisar de um bardo para compor os cânticos de vitória. Eu aceito! Encantado!

— Eu o escolhi — observou Gwydion, não sem delica­deza —, mais por sua espada que por sua harpa.

— Como assim? — perguntou Fflewddur. Sua testa se franziu de desapontamento. — Ah, sim, compreendo — acrescentou ele, alegrando-se. — Sim, pois bem, não nego ter uma certa reputação nesse campo. Um Fflam é sempre valente! Abri meu caminho a espadadas com a derrubada de milhares — ele lançou um olhar rápido e preocupado para a harpa —, bem, ahh, digamos numero­sos inimigos.

— Espero que continue sempre assim, disposto a cum­prir com entusiasmo suas tarefas depois que elas lhe forem atribuídas — disse Gwydion, puxando uma folha de pergaminho do bolso do gibão e abrindo-a sobre a mesa.

— Nosso encontro se realiza em Caer Dallben, não apenas por motivos de segurança — prosseguiu ele. — Dallben é o feiticeiro mais poderoso de Prydain e aqui estamos sob sua proteção. Caer Dallben é o único lugar que Arawn não ousa atacar, mas também é o mais adequado para iniciarmos nossa jornada para Annuvin. — Com um dedo, ele traçou uma rota, seguindo para noroeste, partindo da pequena fa­zenda. — O Grande Avren fica raso nesta estação — disse ele —, e pode ser atravessado sem dificuldade. Depois da travessia, o avanço é fácil através do Cantreve Cadiffor, reino do Rei Smoit, até a Floresta de Idris, que fica ao sul de Annuvin. De lá, poderemos seguir rapidamente para o Portão Escuro.

Taran prendeu a respiração. Como todos no grupo, tinha ouvido falar sobre o Portão Escuro, as montanhas gê­meas que guardavam a passagem do sul, dando acesso à Terra da Morte. Embora não fosse monumental como o Monte Dragão, ao norte de Annuvin, o Portão Escuro era traiçoeiro, com seus rochedos pontiagudos e fendas como alçapões escondidos.

— É uma passagem difícil — continuou Gwydion —, mas é a menos guardada, como Coll, Filho de Collfrewr, lhes contará.

Coll se pôs de pé. O velho guerreiro, com a cabeça careca brilhante e mãos enormes, parecia que preferiria dar combate a discursar em um conselho. Mesmo assim, sorriu largamente para o grupo e começou a falar.

— Nós vamos entrar, por assim dizer, pela porta dos fundos de Arawn. O caldeirão fica numa plataforma no Sa­guão dos Guerreiros, que fica imediatamente depois do Portão Escuro, como me recordo muito bem. A entrada do Saguão tem guardas, mas existe um portal nos fundos que é fechado com pesados ferrolhos. Um homem poderia abri-lo para os outros se, como Doli, pudesse se mover sem ser visto.

— Eu lhe disse que não iria gostar — resmungou Doli baixinho para Taran. — Esse negócio de me tornar invisível! Um dom! É uma maldição! Veja só aonde vai me levar. Hummm! — O anão fungou com irritação, mas não emitiu nenhum outro protesto.

— É um plano ousado — observou Gwydion —, mas, com companheiros ousados, pode ser bem-sucedido. Quando chegarmos ao Portão Escuro, nós nos dividire­mos em três bandos. O primeiro será composto por Doli, do Povo Formoso, Coll, Filho de Collfrewr, Fflewddur Fflam, Filho de Godo, e por mim. Conosco estarão seis dos mais fortes e valorosos guerreiros do Rei Morgant. Doli, depois de se tornar invisível, entrará primeiro para abrir os ferrolhos e nos dizer como os guardas de Arawn estão posicionados. Então nós penetraremos pelo portal e apanharemos o caldeirão.

— Ao mesmo tempo, a um sinal meu — continuou Gwydion — o segundo bando, composto pelo Rei Morgant e seus cavaleiros, atacará o Portão Escuro, aparentemente com um grande número de homens, para gerar confusão e desviar o maior número de tropas de Arawn possível.

O Rei Morgant assentiu e, pela primeira vez, tomou a palavra. Sua voz, embora de tom gelado, era compassada e cortês.

— Regozijo-me com o fato de que finalmente decida­mos fazer um ataque direto contra Arawn. Eu, pessoalmen­te, já teria me incumbido de fazer isso, mas tinha a obrigação de esperar pela ordem de Lorde Gwydion.

— Mas, agora, devo dizer o seguinte — prosseguiu Morgant. — Embora seu plano seja sensato, o caminho que escolheu não é adequado para uma retirada rápida caso Arawn decida vir ao seu encalço.

— Não existe outro caminho que seja mais curto para voltar a Caer Dallben — respondeu Gwydion —, e é para cá que o caldeirão deve ser trazido. Temos que aceitar o risco. Contudo, se estivermos sofrendo uma perseguição muito in­tensa, iremos nos refugiar em Caer Cadam, a fortaleza do Rei Smoit. Com este objetivo, peço ao Rei Smoit que esteja a postos com todos os seus guerreiros perto da Floresta de Idris.

— Quê? — rugiu Smoit. — Vai me impedir de ir a Annuvin? — Ele esmurrou a mesa com o punho. — Vai me deixar chupando os dedos? Deixar Morgant, aquele lúcio de barbas negras, sangue frio e escamas escorregadias, cobrir a sua retaguarda!

Morgant não deu sinal de ter ouvido a explosão de Smoit Gwydion sacudiu a cabeça.

— Nosso sucesso depende de surpresa e de rapidez de movimentos, não de número de homens. Você, Smoit, deve ser nosso mais firme apoio, caso nossos planos não corram bem. Sua missão não é menos importante.

— O terceiro bando esperará por nós nas proximida­des do Portão Escuro, para guardar nossos animais de carga, nossa retirada em segurança e para nos servir de acordo com as nossas necessidades; eles serão Adaon, Filho de Taliesin, Taran, de Caer Dallben, e Ellidyr, Filho de Pen-Llarcau.

A voz de Ellidyr elevou-se rápida e furiosamente.

— Por que devo ser deixado para trás? Não sou melhor que um menino porcariço? Ele é inexperiente, verde como uma maçã.

— Inexperiente! — gritou Taran, levantando-se de um salto. — Eu enfrentei os Nascidos do Caldeirão com o pró­prio Gwydion. O senhor passou por um teste melhor que esse, Príncipe Capa Remendada?

A mão de Ellidyr voou para a espada.

— Eu sou um filho de Pen-Llarcau e não engulo insultos de...

— Silêncio! — ordenou Gwydion. — Nesta aventura arriscada a coragem de um Porqueiro-Assistente pesa tanto quanto a de um príncipe. Eu o estou avisando, Ellidyr, contro­le seu gênio agressivo ou abandone este conselho.

— E você — acrescentou Gwydion, virando-se para Ta­ran —, retribuiu a raiva com um insulto infantil. Pensei que soubesse se comportar melhor. Além disso, vocês dois esta­rão sob as ordens de Adaon e, na minha ausência, obedece­rão a ele.

Taran corou e sentou-se. Ellidyr, também, voltou a ocu­par seu lugar, o rosto furioso e ameaçador.

— Vamos encerrar nossa reunião — disse Gwydion. — Eu falarei com cada um de vocês mais tarde e mais demoradamente. Agora, tenho assuntos a tratar com Coll. Amanhã, ao raiar do dia, estejam prontos para cavalgar rumo a Annuvin.

Enquanto o grupo começava a deixar o aposento, Taran se aproximou de Ellidyr e estendeu a mão.

— Nesta missão não devemos ser inimigos.

— Fale apenas por si mesmo — respondeu Ellidyr. — Eu não tenho nenhum desejo de servir ao lado de um insolente menino porcariço. Sou filho de um rei. Você é filho de quem? Então você combateu contra os Nascidos do Caldei­rão — ele zombou. — E com Gwydion? Não perdeu a opor­tunidade de tornar isso conhecido.

— O senhor se gaba de seu nome — rebateu Taran. — Eu me orgulho de meus companheiros.

— Sua amizade com Gwydion não é nenhuma prote­ção, no que me diz respeito — declarou Ellidyr. — Ele que prefira você tanto quanto quiser. Mas, trate de me ouvir bem, em minha companhia você vai ter que se defender sozinho.

— E vou me defender sozinho — retrucou Taran, a raiva crescendo. — Trate de se defender com a mesma ousa­dia com que fala.

Adaon havia se aproximado deles.

— Devagar, amigos — ele deu uma risada. — Eu pensei que a batalha fosse contra Arawn, não entre nós. — Ele fala­va baixo, mas sua voz tinha um tom firme, de autoridade, quando se virou para olhar de Taran para Ellidyr. — Guarda­mos a vida uns dos outros, na palma aberta de nossas mãos, não em punhos cerrados.

Taran baixou a cabeça. Ellidyr, puxando a capa remen­dada e cobrindo-se com ela, saiu do aposento pisando duro, sem dizer uma palavra. Quando Taran estava se preparando para seguir Adaon, Dallben o chamou de volta.

— Vocês são um belo par de cabeças quentes — co­mentou o feiticeiro. — Estive tentando avaliar qual de vocês dois é o mais confuso. Não é fácil — ele bocejou. — Terei que meditar a respeito disso.

— O que Ellidyr falou é verdade — disse Taran com amargura. — De quem eu sou filho? Não tenho nome, exceto o que o senhor me deu. Ellidyr é um príncipe...

— Ele pode ser príncipe — observou Dallben —, ape­sar disso não é uma pessoa tão afortunada quanto você. É o filho mais moço do velho Pen-Llarcau, das terras do norte; seus irmãos mais velhos herdaram o pouco que havia da for­tuna da família e, mesmo isso, já se foi. Ellidyr tem apenas seu nome e sua espada, embora eu admita que ele usa ambos de uma forma que não é nada sábia.

— Contudo — prosseguiu Dallben —, essas coisas cos­tumam acabar por se corrigirem sozinhas. Ah, antes que eu me esqueça...

Com a bata esvoaçando ao redor das pernas delgadas, Dallben se encaminhou para um enorme baú, destrancou-o com uma chave antiqüíssima e levantou a tampa. Debruçou-se sobre ele e começou a remexer lá dentro.

— Confesso que tenho um certo número de arrependi­mentos e apreensões — declarou — que, francamente, não poderiam interessá-lo; de modo que não o preocuparei com eles. Por outro lado, há uma coisa que tenho certeza de que vai interessá-lo. E também o sobrecarregará, já que estamos falando nisso.

Dallben se endireitou e se virou. Nas mãos estendidas para Taran, havia uma espada.

O coração de Taran saltou em seu peito. Agarrou a espada avidamente, as mãos tremendo tanto que quase a deixou cair. A bainha e o punho não tinham nenhum orna­mento; a arte de sua feitura estava na proporção e no equilí­brio. Embora fosse muitíssimo antiga, o metal brilhava límpido e imaculado, e, exatamente, sua absoluta simplicidade tinha a beleza da verdadeira nobreza. Taran fez uma profunda mesura para Dallben e gaguejou agradecimentos.

Dallben sacudiu a cabeça.

— Se você deve me agradecer ou não — disse ele —, é algo que ainda deveremos ver. Use-a com sabedoria — acres­centou ele. — Eu só espero que você não venha a ter ne­nhum motivo para usá-la.

— Quais são seus poderes — perguntou Taran, os olhos faiscando. — Conte-me agora, para que eu...

— Seus poderes? — respondeu Dallben com um sorri­so triste. — Meu querido menino, isto é um pedaço de metal batido com martelo até assumir uma forma muito pouco atraente; melhor teria sido se fosse uma podadeira ou um arado. Seus poderes? Como todas as armas, apenas os que possui aquele que a empunha. Quais poderão ser os seus poderes realmente não sei dizer.

— Agora, vamos nos despedir — disse Dallben, pondo uma mão sobre o ombro de Taran.

Taran reparou, pela primeira vez, como era velhíssimo o rosto do feiticeiro, e como estava preocupado e aflito.

— Prefiro não ver nenhum de vocês antes de partirem — prosseguiu Dallben. — Esse tipo de separação é uma coi­sa de que quero me poupar. Além disso, mais tarde sua cabe­ça estará cheia de outras preocupações e você esquecerá qualquer coisa que eu possa lhe dizer. Trate de ir, e veja se consegue persuadir a Princesa Eilonwy a cintá-lo com esta espada. Agora que tem a espada — suspirou ele —, suponho que faria bem em observar as formalidades.

Eilonwy estava guardando tigelas e pratos de barro quan­do Taran entrou correndo na copa.

— Veja! — exclamou ele. — Dallben me deu isto! Cinte-a em mim, quero dizer, por favor, cinte-a. Diga que sim, que vai cintá-la. Eu quero muito que você seja a pessoa a fazê-lo.

Eilonwy virou-se para ele com surpresa.

— Sim, é claro que vou — respondeu ela, corando —, se você realmente...

— Eu quero! — exclamou Taran. — Afinal — acrescen­tou ele —, você é a única garota em Caer Dallben.

— Então é por isso! — rebateu Eilonwy. — Eu sabia que havia alguma coisa errada quando você começou a ser todo gentil e educado comigo. Muito bem, Taran, de Caer Dallben, se este é seu único motivo, pode ir procurar outra pessoa e, pouco me importa quanto tempo vai demorar para encontrá-la, mas quanto mais tempo levar, melhor! — Ela atirou a cabe­ça para trás e, furiosamente, começou a enxugar uma tigela.

— Ora, mas o que fiz de errado agora? — perguntou Taran, confuso. — Eu pedi, “por favor”, não pedi? Cinte-a em mim — suplicou ele. — Prometo contar a você o que acon­teceu no conselho.

— Eu não quero saber — respondeu Eilonwy. — Não poderia estar menos interessada... conte, o que aconteceu? Aaah, ande, me dê logo essa coisa.

Com destreza ela afivelou o cinto de couro ao redor da cintura de Taran.

— Não pense que vou cumprir todos os rituais da ceri­mônia e fazer discursos sobre ser corajoso e invencível — declarou Eilonwy. — Para começar, não creio que eles se apliquem a Porqueiros-Assistentes e, além disso, eu não os conheço. Pronto — disse ela, dando um passo para trás. — Devo admitir — acrescentou Eilonwy —, a espada realmente fica muito bem em você.

Taran desembainhou a espada e a empunhou erguida ao alto.

— Sim — exclamou ele —, esta é uma arma para um homem e um guerreiro!

— Ora, mas agora basta dessa história! — exclamou Eilonwy, batendo o pé com impaciência. — O que houve no conselho?

— Nós vamos partir para Annuvin — cochichou Taran, todo entusiasmado. — Ao raiar do dia. Para arrancar o caldeirão de Arawn, em pessoa. O caldeirão que ele usa para...

— Por que você não me disse isso imediatamente? — exclamou Eilonwy. — Não terei nem metade do tempo de que preciso para arrumar minhas coisas. Quanto tempo fica­remos fora? Tenho que pedir a Dallben que também me dê uma espada. Você acha que eu vou precisar...

— Não, não — interrompeu Taran. — Você não com­preende. Esta é uma tarefa para guerreiros. Não podemos ter o trabalho e a preocupação de levar uma garota. Quando falei “nós” estava querendo dizer...

— O quê? — bradou Eilonwy. — E esse tempo todo você me deixou pensar que... Taran, de Caer Dallben, você me deixa mais furiosa do que qualquer pessoa que eu jamais tenha conhecido. Guerreiro, pois sim! Não me importa se você tiver cem espadas! Por baixo de toda essa pose você é um Porqueiro-Assistente e, se Gwydion está disposto a levá-lo, não há nenhum motivo por que não possa me levar! Aaah, saia da minha copa, fora daqui! — Com um grito, Eilonwy agarrou um prato.

Taran curvou os ombros e fugiu correndo, enquanto a louça de barro espatifava-se às suas costas.


 

Adaon

Ao raiar do dia, os guerreiros se prepararam para partir. Apressadamente, Taran selou Melynlas, o potro cinzento de crina prateada, cria do ca­valo de batalha de Gwydion, a égua Melyngar. Gurgi, infeliz como uma coruja molhada por ser deixado para trás. ajudou a carregar os alforjes. Dallben havia mu­dado de idéia sobre não ver ninguém e estava postado, silencioso e pensativo, na soleira da porta do chalé, com Eilonwy a seu lado.

— Não quero mais falar com você! — gritou ela para Taran. — Depois da maneira como se comportou. Aquilo é a mesma coisa que convidar as pessoas para um banque­te, depois botar os convidados para lavar a louça! Mas, de qualquer maneira, adeus! Isto — acrescentou ela — não conta como falar.

Com Gwydion na liderança, os cavaleiros puseram-se em marcha em meio à neblina que subia da terra em rede­moinhos. De pé nos estribos, Taran levantou-se na sela, virou-se e acenou despedindo-se, todo orgulhoso. O chalé branco e os três vultos tornaram-se pequeninos. O campo e o pomar ficaram para trás, enquanto Melynlas cavalgava a trote largo para o meio das árvores. A floresta se fechou às costas de Taran e ele não conseguiu mais ver Caer Dallben.

Com um relinchar assustado, subitamente, Melynlas empinou. Enquanto Ellidyr cavalgara e ganhara terreno, avan­çando atrás de Taran, seu cavalo de batalha espichara o pes­coço e, com malevolência, dera uma mordida no pescoço do garanhão. Taran agarrou-se às rédeas e quase caiu.

— Mantenha a distância de Islimach — disse Ellidyr, com uma gargalhada brutal. — Ela morde. Somos muito pareci­dos, Islimach e eu.

Taran estava pronto para responder furioso, quando Adaon, que tinha visto o que havia acontecido, se aproximou emparelhando sua égua baia com a égua de Ellidyr.

— Tem toda razão, Filho de Pen-Llarcau — disse Adaon. — Seu cavalo carrega um fardo difícil. Da mesma forma que seu dono.

— Que fardo eu carrego? — exclamou Ellidyr, com irritação.

— Na noite passada eu sonhei com todos nós — rela­tou Adaon, pensativamente, manuseando o broche de ferro em sua garganta. — Você, eu vi com um monstro negro, cruel, montado sobre seus ombros. Cuidado, Ellidyr, para que ele não o devore — acrescentou, a delicadeza de seu tom de voz suavizando a dureza de seu conselho.

— Poupem-me, de meninos porcariços e de sonhado­res eu só quero distância! — retrucou Ellidyr e, com um grito, incitou Islimach a avançar mais para a frente na coluna.

— E eu? — perguntou Taran. — O que seu sonho disse de mim?

— Você — respondeu Adaon, depois de um momento de hesitação — estava dominado pelo pesar e pelo luto.

— Que motivo tenho eu para sentir pesar? — pergun­tou Taran, surpreendido. — Estou orgulhoso de servira Lorde Gwydion e existe uma chance de que eu possa vir a conquis­tar muita honra, muito mais do que lavando porcos e capi­nando ervas daninhas!

— Já marchei em muitos exércitos para o campo de batalha — respondeu Adaon em voz baixa —, mas também plantei sementes e colhi os frutos com minhas próprias mãos. E aprendi que há mais honra em um campo bem arado do que em um campo embebido de sangue.

A coluna havia começado a se mover mais rapidamente e eles aceleraram a marcha de seus cavalos de batalha. Adaon cavalgava com facilidade e maestria; de cabeça erguida, com um sorriso franco no rosto, ele parecia estar bebendo os pano­ramas e os sons da manhã. Enquanto Fflewddur, Doli e Coll acompanhavam a marcha de Gwydion, e Ellidyr, sempre mal-humorado, seguia atrás da tropa do rei Morgant, Taran mante­ve-se ao lado de Adaon, na trilha coberta de folhas caídas.

Enquanto conversavam para amenizar os rigores da jor­nada, Taran não demorou muito para perceber que havia muito pouco que Adaon já não tivesse visto ou feito. Já havia velejado muito além da Ilha de Mona, chegando até ao mar do norte; havia trabalhado no torno de oleiro, lançado redes com os pescadores, tecido panos nos teares de camponeses; e, como Taran, tinha trabalhado duro debruçado sobre uma forja em brasa. Estudara profundamente os costumes e tradi­ções da floresta, e Taran ouviu maravilhado enquanto Adaon lhe falava dos hábitos, do temperamento e da natureza das criaturas dos bosques, de texugos ousados e de cautelosos arganazes e gansos voando sob o luar.

— Há muita coisa para ser conhecida — observou Adaon — e, sobretudo, muito para ser amado, seja na virada das estações ou no formato de um seixo de rio. De fato, quanto mais encontramos para amar, mais acrescentamos à capaci­dade de amar de nosso coração.

O semblante de Adaon estava radiante sob os primei­ros raios de sol, mas um tom de tristeza e saudade havia surgido em sua voz. Quando Taran perguntou qual era o problema, Adaon não respondeu imediatamente, como se quisesse guardar para si seus pensamentos.

— Meu coração ficará mais leve quando nossa missão estiver cumprida — respondeu Adaon, finalmente. — Arianllyn, minha noiva, me espera nos domínios do norte e, quanto antes o caldeirão de Arawn estiver destruído, mais depressa poderei voltar para junto dela.

Quando chegou o fim do dia, eles haviam se tornado bons amigos. Ao anoitecer, quando Taran se juntou a Gwydion e seus companheiros, Adaon acampou com eles. Já tinham feito a travessia do Avren e estavam bem avançados no cami­nho, rumo às fronteiras do reino do Rei Smoit. Gwydion es­tava satisfeito com o progresso, embora os advertisse que a parte mais difícil e mais perigosa da jornada ainda estava por vir.

Todos estavam felizes e animados, exceto Doli, que de­testava andar a cavalo e, asperamente, declarou que poderia andar mais depressa se estivesse a pé. Enquanto os compa­nheiros descansavam em um arvoredo protegido, Fflewddur ofereceu sua harpa a Adaon e insistiu para que cantasse. Adaon, confortável mente sentado com as costas apoiadas numa árvore, posicionou o instrumento no ombro. Por um instante ficou pensativo, a cabeça baixa, então suas mãos de­licadamente tocaram nas cordas.

A voz da harpa e a voz de Adaon uniram-se uma à outra, como se num trançado, tecendo harmonias que Taran nunca antes havia ouvido. O rosto do homem alto estava erguido em direção às estrelas e seus olhos cinzentos pare­ciam ver muito longe, para além delas. A floresta havia silen­ciado; os sons noturnos tinham se calado.

A canção de Adaon não era uma balada de guerreiro e sim uma canção de paz, quietude e profunda felicidade, e, enquanto Taran ouvia, seus ecos ressoavam uma vez após a outra em seu coração. Ele desejou que a música continuasse, mas, quase que abruptamente, Adaon parou de cantar e, com um sorriso sóbrio, devolveu a harpa a Fflewddur.

Os companheiros se agasalharam em suas capas e fo­ram dormir. Ellidyr permaneceu afastado deles, estendido no solo junto aos cascos de sua ruana. Taran, com a cabeça apoia­da na sela, a mão sobre a espada nova, estava impaciente para que amanhecesse e ansioso para retomar a jornada. Contudo, quando ia adormecendo, recordou-se do sonho de Adaon e sentiu a proximidade de uma sombra como o adejar de uma asa negra.

No dia seguinte os companheiros atravessaram o Rio Ystrad e começaram a rumar para o norte. Com muitos bra­dos de reclamação rude pelo fato de ser impedido de partici­par na incursão de busca do caldeirão, o Rei Smoit obedeceu Gwydion e se separou da coluna, para cavalgar rumo a Caer Cadarn para aprontar seus guerreiros. Mais tarde, a marcha da coluna tornou-se mais lenta, à medida que as agradáveis pradarias tornavam-se gradualmente íngremes, transforman­do-se em colinas. Pouco depois do meio-dia, os cavaleiros entraram na Floresta de Idris. Ali, as folhas de relva, marrons, mimadas e secas, eram afiadas como espinhos. Carvalhos e amieiros, outrora familiares, pareciam estranhos a Taran; as folhas mortas agarravam-se aos galhos emaranhados e os troncos enegrecidos se projetavam do solo como se fossem os­sos carbonizados.

Depois de bastante tempo, finalmente a floresta tor­nou-se menos densa e desapareceu para revelar paredões verticais de penhascos dentados. Gwydion fez sinal para que o grupo prosseguisse. Taran sentiu um aperto na garganta. Por um instante gelado teve medo de incitar Melynlas para subir a encosta pedregosa. Ele sabia, sem que Gwydion tives­se dito uma palavra, que o Portão Escuro de Annuvin não estava muito distante.

Trilhas estreitas, que subiam debruçadas sobre gargan­tas profundas, agora obrigavam a companhia a seguir em fila indiana. Taran, Adaon e Ellidyr tinham estado seguindo em marcha lenta no final da coluna, mas Ellidyr bateu com os calcanhares nos flancos de Islimach e forçou passagem, dei­xando Taran para trás.

— Seu lugar é na retaguarda, menino porcariço — gri­tou ele.

— E seu lugar é onde merecer ficar — gritou Taran, dando rédeas a Melynlas para competir pela dianteira.

Os cavalos se chocaram; os cavaleiros lutaram, joelho contra joelho. Islimach empinou e refugou freneticamente. Com a mão livre, Ellidyr agarrou a rédea de Melynlas para obrigar o garanhão a frear. Taran tentou virar a cabeça de sua montaria, mas, em meio a uma cascata de seixos, Melynlas escorregou da trilha e deslizou para a encosta íngreme. Taran, arremessado para fora da sela, agarrou-se às rochas para amortecer a queda.

Melynlas, de andar mais seguro que seu dono, recupe­rou o equilíbrio numa saliência de rochedo abaixo da trilha. Taran, esparramado de cara no chão contra as pedras, tentou em vão, valendo-se de pés e mãos, escalar a encosta para voltar à trilha. Adaon desmontou imediatamente, correu para a beira da encosta e tentou agarrar as mãos de Taran. Ellidyr também desmontou. Ele afastou Adaon para o lado e agar­rou Taran por baixo dos braços. Com um impulso violento, levantou Taran como se fosse um saco de batatas, trazendo-o de volta para a segurança da trilha. Encaminhando-se cuida­dosamente para onde estava Melynlas, Ellidyr pôs o ombro debaixo da cilha da sela e com um imenso esforço fez pres­são para cima. Com toda sua força, pouco a pouco, ele levan­tou Melynlas até o garanhão conseguir alcançar a encosta e escalá-la, saindo da saliência.

— Seu tolo! — gritou Taran para Ellidyr, correndo para Melynlas e ansiosamente examinando o cavalo de batalha. — Será que seu orgulho expulsou todo o bom senso de sua cabeça? — Melynlas, viu aliviado, estava ileso. A contragosto, ele olhou para Ellidyr com espanto e não sem alguma admira­ção. — Nunca vi tamanha façanha de força — admitiu Taran. Ellidyr, pela primeira vez, pareceu ficar confuso e assustado.

— Eu não tinha a intenção de fazer você cair — come­çou a desculpar-se. Então atirou a cabeça para trás e, com um sorriso zombeteiro, acrescentou: — Minha preocupação é por seu cavalo de batalha, não por sua pele.

— Eu também admiro sua força, Ellidyr— disse Adaon em tom áspero. — Mas é vergonhoso que a tenha provado assim. O monstro cruel cavalga montado na mesma sela que você. Até agora, neste instante, posso vê-lo.

Um dos guerreiros de Morgant, ouvindo o clamor, tinha dado o alarme. Um momento depois, Gwydion, seguido pelo Rei Morgant, aproximou-se a pé pela trilha. Atrás dele vi­nham correndo o agitado Fflewddur e o anão.

— Seu menino porcariço não soube ser sensato e quis me ultrapassar, forçando a passagem — disse Ellidyr para Gwydion. — Se eu não o tivesse resgatado de lá com seu cavalo de batalha...

Taran, pronto para responder, cerrou os lábios com for­ça e assentiu. Percebeu a expressão de surpresa no rosto zangado de Ellidyr.

— Não temos vidas para desperdiçar — declarou Gwydion —, contudo, você arriscou duas. Não posso abrir mão nem sequer de um único homem, caso contrário, man­daria você de volta para Caer Dallben, neste instante. Mas eu o farei, se isto acontecer de novo. E, você também, Ellidyr, ou qualquer outro desta companhia.

O Rei Morgant se adiantou.

— Isto demonstra o que eu temia, Lorde Gwydion. Nosso caminho é difícil, mesmo que ainda não estejamos com o fardo do caldeirão. Depois que nos apoderarmos dele, recomendo-lhe com insistência que não volte para Caer Dallben. Seria mais aconselhável levar o caldeirão para o nor­te, para o meu reino.

— Também sou de opinião — prosseguiu Morgant — que um bom grupo de meus guerreiros deveria ser despachado para guardar nossa retaguarda. Em troca disso, ofereço a estes três — disse ele, apontando para Taran, Adaon e Ellidyr— um lugar entre meus cavaleiros quando eu atacar. Se interpreto corretamente a expressão no rosto deles, creio prefeririam isso a esperar em reserva.

— Sim! — exclamou Taran, apertando o punho da espada. — Deixe-nos participar do ataque!

Gwydion sacudiu a cabeça.

— O plano será executado como eu determinei. Agora tratem de montar depressa, pois nós já perdemos tempo demais.

Os olhos do Rei Morgant faiscaram.

— Suas ordens serão cumpridas, Lorde Gwydion.

— O que aconteceu? — sussurrou Fflewddur para Taran. — Não me diga que, de alguma forma, não foi culpa de Ellidyr. Ele é um criador de casos, isso é evidente para mim. Não consigo imaginar em que Gwydion estava pensando quando decidiu trazê-lo conosco.

— A culpa foi tão minha quanto dele — respondeu Taran. — Não me comportei melhor que ele. Deveria ter controlado minha língua. Com Ellidyr— ele acrescentou —, isto não é fácil de fazer.

— Sei como é — suspirou o bardo, olhando de relance para sua harpa. — Eu tenho uma dificuldade semelhante.

Durante o dia seguinte inteiro o grupo prosseguiu com a maior cautela, pois revoadas de guidaintes, os temíveis pássa­ros mensageiros de Arawn, agora podiam ser vistos recortados em silhueta contra as nuvens. Pouco antes do crepúsculo, a trilha conduziu a uma descida em direção a um rio raso, cerca­do por vertentes cobertas de vegetação rasteira e pinheiros. Ali, Gwydion ordenou uma parada. Adiante erguiam-se os si­nistros penhascos do Portão Escuro, suas encostas gêmeas fulgurando coloridas de carmesim à luz do sol que morria.

Até ali, o grupo não havia se deparado com os Nascidos do Caldeirão. Taran considerava isso afortunado, mas Gwydion franziu o cenho, com inquietação.

— Tenho mais medo dos Nascidos do Caldeirão quan­do eles não podem ser vistos — declarou Gwydion, depois de chamar os guerreiros para se reunirem ao seu redor. — Quase acreditaria que eles desertaram de Annuvin. Mas Doli trouxe notícias que eu gostaria de não ter que lhes dar.

— Ele me mandou ficar invisível e correr adiante, foi isso o que ele fez — resmungou Doli furibundo, em voz baixa, para Taran. — Quando entrarmos em Annuvin, terei que fazê-lo de novo. Hummm! Minhas orelhas já me parecem um enxame de abelhas!

— Estejam atentos, todos vocês — prosseguiu Gwy­dion —, os Caçadores de Annuvin estão circulando por aí.

— Eu enfrentei os Nascidos do Caldeirão — exclamou Taran audaciosamente. — Esses guerreiros não podem ser mais terríveis que eles.

— Você acredita nisso? — respondeu Gwydion com um sorriso sombrio. — Pois para mim são tão temíveis quan­to os outros. Eles são impiedosos como os Nascidos do Cal­deirão, sua força ainda maior. Circulam a pé, mesmo assim são muito rápidos, dotados de uma enorme resistência. Fadi­ga, fome e sede não significam nada para eles.

— Os Nascidos do Caldeirão são imortais — observou Taran. — Se esses guerreiros são homens mortais, podem ser mortos.

— Eles são mortais — respondeu Gwydion —, embora eu me recuse a chamá-los de homens. São os mais vis dos guerreiros, homens que traíram seus camaradas; assassinos que mataram pelo prazer de matar. Para satisfazer sua pró­pria crueldade, voluntariamente escolheram o reino de Arawn e juraram fidelidade a ele com um juramento de sangue que nem mesmo eles podem renegar.

— Sim — acrescentou Gwydion —, eles podem ser mor­tos. Mas Arawn os forjou de modo a se tornarem uma fraternidade de matadores e deu-lhes um terrível poder. Vagueiam em pequenos bandos e, entre os membros desses grupos, a morte de um homem só aumenta a força de todos os outros.

— Afastem-se deles — advertiu Gwydion. — Não dêem combate se for possível evitar. Pois quanto mais deles mata­rem, mais os outros ganham força. Ao mesmo tempo que o número deles se reduz, a força deles aumenta.

— Agora vamos nos esconder — ordenou ele — e dormir. Nosso ataque tem que ser hoje à noite.

Inquieto, Taran teve dificuldade para se obrigar a fechar os olhos. Quando o fez, foi para pegar num sono leve e intranqüilo. Acordou sobressaltado, tateando para agarrar a espada. Adaon, já desperto, o advertiu com um sinal para que se mantivesse em silêncio. A lua já estava alta, fria e fulguran­te. Os guerreiros do séquito do Rei Morgant moviam-se como sombras. Houve um ligeiro tilintar de couraças, o sussurro de uma espada sendo desembainhada.

Doli, tendo se tornado invisível, havia partido rumo ao Portão Escuro. Taran encontrou o bardo prendendo sua amada harpa mais firmemente aos ombros.

— Duvido que realmente vá precisar dela — admitiu Fflewddur. — Mas, por outro lado, nunca se sabe o que se precisará fazer. Um Fflam está sempre equipado!

Ao lado dele, Coll havia acabado de enfiar um elmo cônico, bem ajustado. Ver o velho guerreiro corajoso, e o capacete mal parecendo bastar para proteger-lhe a cabeça careca, subitamente, encheu Taran de tristeza. Ele se abraçou a Coll e desejou-lhe boa sorte.

— Bem, meu garoto — disse Coll, piscando o olho para ele —, não se preocupe. Estaremos de volta antes que você perceba. Depois, seguiremos direto para Caer Dallben e a missão estará cumprida.

O Rei Morgant, protegido por uma pesada capa negra que o cobria totalmente, deteve-se ao lado de Taran.

— Eu teria ficado honrado por contar com você entre meus homens — declarou. — Gwydion falou-me um pouco a seu respeito e, pude observá-lo, pessoalmente. Sou um guer­reiro e sei reconhecer quem tem tutano.

Aquela era a primeira vez que Morgant lhe dirigia a pala­vra diretamente e Taran ficou tão confuso, tomado de sur­presa e prazer, que não conseguiu nem sequer gaguejar uma resposta antes que o líder de guerra se afastasse caminhando a passadas largas para seu cavalo.

Taran avistou Gwydion montado em Melyngar e correu até ele.

— Deixe-me ir com o senhor— suplicou novamente.

— Se fui bastante homem para participar do conselho e vir até aqui, sou bastante homem para cavalgar com seus guerreiros.

— Você ama tanto assim o perigo? — perguntou Gwydion. — Antes de se tornar um homem — acrescentou ele com delicadeza —, você aprenderá a odiá-lo. Sim, e tam­bém, a temê-lo, da mesma forma que eu. — Ele se inclinou e apertou a mão de Taran. — Mantenha o coração valente. Sua coragem será posta à prova muitas vezes.

Desapontado, Taran se afastou. Os cavaleiros desapare­ceram além das árvores, e o bosque pareceu vazio e desola­do. Melynlas, atado entre os outros cavalos de batalha, relinchou queixosamente.

— Esta noite vai ser longa — comentou Adaon, olhan­do atentamente para os cumes ameaçadores do Portão Es­curo, logo além das sombras. — Você, Taran, montará o pri­meiro turno de guarda; Ellidyr o segundo, até a lua descer.

— De modo que assim terá mais tempo para sonhar — comentou Ellidyr, com uma gargalhada de escárnio.

— Não vai encontrar briga com meus sonhos esta noite — replicou Adaon com afabilidade —, pois eu vou dividir o turno de guarda com ambos. Durma bem, Ellidyr — acres­centou —, ou, se não dormir, pelo menos mantenha-se calado.

Raivosamente, Ellidyr se embrulhou na capa e se atirou no solo perto de Islimach. A ruana relinchou e baixou o pes­coço, esfregando o focinho em seu dono.

A noite estava fria. A geada havia começado a reluzir na junça seca e uma nuvem rastejou encobrindo a lua. Adaon desembainhou a espada e aproximou-se da franja das árvo­res. A luz branca refletia-se em seus olhos tornando-os ful­gurantes como o brilho das estrelas. Ele se manteve em silêncio, de cabeça erguida, alerta como um animal bravio da floresta.

— Acha que eles já entraram em Annuvin? — sussurrou Taran.

— Logo devem estar chegando lá — respondeu Adaon.

— Gostaria tanto que Gwydion tivesse me deixado ir com ele — comentou Taran com uma certa amargura. — Ou com Morgant.

— Não deseje isso — replicou Adaon rapidamente. O rosto dele tinha uma expressão preocupada.

— Por que não? — perguntou Taran, surpreendido. — Eu teria ficado orgulhoso de acompanhar Morgant. Depois de Gwydion, ele é o maior senhor de guerra em Prydain.

— É um homem valente e poderoso — concordou Adaon —, mas estou preocupado com ele. Em meu sonho, na noite antes de partirmos, guerreiros cavalgavam lentamente em círculo ao redor dele, e a espada de Morgant estava que­brada e chorava sangue.

— Talvez isso não tenha nenhum significado — sugeriu Taran, tanto para tranqüilizar Adaon quanto a si mesmo. — Sempre acontece... que seus sonhos sempre se realizam?

Adaon sorriu.

— Existe verdade em todas as coisas, se você souber compreendê-las bem.

— Acabou não me contando o que sonhou a respeito dos outros — comentou Taran. — De Coll ou do bom e velho Doli... nem de si mesmo, já que estamos falando nisso.

Adaon não respondeu, mas tornou a se virar e olhou na direção do Portão Escuro.

Desembainhando a espada, Taran se encaminhou preo­cupado para a orla do arvoredo.


 

A Sombra do Portão Escuro

A noite se passou lentamente e estava quase na hora do turno de guarda de Ellidyr, quando Taran ouviu um farfalhar em meio aos arbus­tos. Ele levantou a cabeça abruptamente. O som parou. Então ficou incerto de realmente tê-lo ouvi­do. Prendeu a respiração e esperou, de espada em punho e tenso.

Adaon, cujos ouvidos eram tão aguçados quanto seus olhos, também percebera o ruído e, em um instante, esta­va ao lado de Taran.

Houve, pareceu a Taran, uma centelha de luz. Um galho se partiu com um estalo ali por perto. Com um grito, Taran girou a espada para o alto e saltou naquela direção. De repente, um raio de luz dourada ofuscou seus olhos e um grito estridente de indignação golpeou-lhe os ouvidos.

— Baixe esta espada! — exclamou Eilonwy. — Toda vez que vejo você, está sacudindo esta espada por aí ou apontando-a para alguém.

Taran recuou pasmo de espanto. No instante em que o fez, um vulto escuro pulou passando por Ellidyr, que se levantou de um salto, de espada desembainhada e assobian­do no ar.

— Socorro! Socorro! — uivou Gurgi. — Lorde raivo­so vai machucar a pobre cabeça mimosa de Gurgi com espadadas e cutiladas! — Ele fugiu subindo rapidamente até quase a metade de um pinheiro, e da segurança de seu poleiro sacudiu o punho cerrado para o espantadíssimo Ellidyr.

Taran puxou Eilonwy para o abrigo do arvoredo. Seus cabelos estavam desgrenhados, a bata rasgada e manchada de lama.

— Mas o que você fez? — exclamou ele. — Quer que todos nós sejamos mortos? Apague essa luz! — Ele tomou-lhe a esfera luminosa e a revirou em vão.

— Ah, você nunca vai aprender como usar minha bola — comentou Eilonwy com impaciência. Ela tomou de volta a bola dourada, segurou-a entre as mãos em concha, e a luz desapareceu.

Adaon, reconhecendo a garota, ansiosamente pôs a mão sobre o ombro dela.

— Princesa, Princesa, não deveria ter-nos seguido.

— É claro que ela não deveria — concordou Taran furioso. — Ela tem que voltar imediatamente. É uma tola, descuidada...

— Ela é uma intrusa e uma indesejada aqui — declarou Ellidyr, aproximando-se deles. Ele virou-se para Adaon. — Pelo menos desta vez o menino porcariço demonstra bom senso. Mande esta tolinha de volta para suas panelas.

Taran girou nos calcanhares.

— Controle a sua língua! Eu engoli seus insultos contra mim pelo bem de nossa missão, mas não admito que ofenda outra pessoa.

A espada de Ellidyr ergueu-se de um salto. Taran levan­tou a sua. Adaon colocou-se entre eles e estendeu as mãos espalmadas.

— Basta, basta — ordenou. — Estão assim tão ansiosos para derramar sangue?

— E devo eu ouvir reprovações de um menino porcariço? — retrucou Ellidyr. — Devo deixar que uma criada de copa me custe a cabeça?

— Criada de copa! — berrou Eilonwy. — Ora, pois bem, posso lhe dizer...

Enquanto isso, Gurgi havia descido cautelosamente da árvore e se deixado cair de modo a ficar de pé atrás de Taran.

— E isto! — Ellidyr gargalhou amargamente, gesticulan­do para Gurgi. — Esta... coisa! Será isto o monstro negro cruel que tanto o preocupou, sonhador?

— Não, Ellidyr, não é — murmurou Adaon, quase com tristeza.

— Este é Gurgi, o guerreiro! — exclamou Gurgi, ousadamente, por cima do ombro de Taran. — Sim, sim! O esperto e valente Gurgi, que a seu senhor vem se juntar para não deixar que sofra feridas doloridas!

— Fique calado — ordenou Taran. —Já causou bastan­te problema.

— Como conseguiram nos alcançar? — perguntou Adaon. — Vocês estão a pé.

— Bem, na verdade, não — respondeu Eilonwy —, pelo menos, não viemos a pé o caminho todo. Os cavalos só fugi­ram ainda há pouquinho.

— Quê? — exclamou Taran. — Vocês tiraram cavalos de Caer Dallben e os perderam?

— Você sabe perfeitamente bem que são nossos pró­prios cavalos — declarou Eilonwy —, os cavalos que Gwydion nos deu no ano passado. E não os perdemos. Foi mais como se eles tivessem nos perdido. Nós só paramos para deixá-los beber água e os tolinhos saíram galopando. Estavam assusta­dos, suponho. Acho que não estavam gostando de estar tão perto de Annuvin, embora deva lhe dizer, sinceramente, que não me incomoda nem um pouco.

— De qualquer maneira — concluiu ela —, você não precisa se preocupar com eles. A última coisa que vimos, foi que estavam rumando direto para Caer Dallben.

— E você fará o mesmo — disse Taran.

— E eu não farei! — gritou Eilonwy. — Pensei a respei­to disso por muito tempo, depois de vocês partirem, todo o tempo que levaram para atravessar os campos. E tomei mi­nha decisão. Não importa o que todo mundo diga, justiça é justiça. Se você pode ter permissão para participar numa mis­são, eu também posso. E é isso e pronto, é muito simples.

— E foi Gurgi, o sabido, quem encontrou o caminho! — acrescentou Gurgi todo orgulhoso. — Sim, sim, com fungadas e farejadas! Gurgi não deixa a doce Princesa partir sozinha, aah, não! E amigos, o leal Gurgi não deixa ficar para trás — acrescentou em tom de censura para Taran.

— Já que vieram tão longe — disse Adaon —, podem esperar Gwydion. Embora a maneira como ele vai lidar com um par de fujões como vocês possa não lhes agradar nada. Sua jor­nada — acrescentou, sorrindo para a princesa imunda — parece ter sido mais difícil que a nossa. Agora, descansem e comam.

— Sim, sim! — exclamou Gurgi. — Lambiscos e petis­cos para o valente e faminto Gurgi!

— É muito gentil e atencioso de sua parte — respon­deu Eilonwy, com um olhar de admiração para Adaon. — Muito mais do que se pode esperar de um certo Porqueiro-Assistente.

Adaon foi até o estoque de provisões, enquanto Ellidyr se afastava a passadas largas para seu posto de guarda. Taran sentou-se cansadamente num pedregulho, a espada atraves­sada sobre os joelhos.

— Não é que estejamos passando fome — observou Eilonwy. — Gurgi se lembrou de trazer a mochila de comi­da. Sim, e esta também foi um presente de Gwydion, de modo que ele tinha todo o direito de trazê-la. Sem sombra de dúvida é uma mochila mágica — prosseguiu ela—, pare­ce nunca se esvaziar. A comida é realmente muito nutritiva, tenho certeza, e maravilhosa de comer quando se precisa. Mas a verdade é, para falar francamente, que é completa­mente insossa. Este quase sempre é o problema com coisas mágicas. Elas nunca são exatamente o que se espera que sejam.

— Você está zangado, não está? — continuou Eilonwy. — Eu sempre percebo. Você fica com uma cara que é como se tivesse engolido uma vespa.

— Se você tivesse parado para pensar nos perigos — respondeu Taran —, em vez de sair às carreiras sem saber o que estava fazendo.

— E o que você pensa que é para achar que pode falar a respeito disso, Taran, de Caer Dallben? — retrucou Eilonwy. — Além disso, não acredito que esteja assim tão zangado como quer parecer, não depois do que disse para Ellidyr. Foi maravilhosa a maneira como imediatamente partiu para cima dele, pronto para lutar por minha causa. Não que precisasse fazer isso. Eu poderia ter cuidado muito bem dele sozinha. E não estou querendo dizer que não seja gentil e atencioso, na verdade, você realmente é. É só que nem sempre se lembra de ser. Para um Porqueiro-Assistente, você se sai espantosa­mente bem...

Antes que Eilonwy pudesse concluir, Ellidyr deu um gri­to de advertência. Subitamente um cavalo e um cavaleiro irromperam em meio ao arvoredo. Era Fflewddur. Atrás dele galopava o pônei de pêlo longo de Doli.

Ofegante e com os cabelos amarelos espetados em to­das as direções, o bardo desmontou apressadamente do ca­valo de batalha e correu para Adaon.

— Aprontem-se para partir! — exclamou ele. — Le­vem as armas. Ponham os cavalos de carga em marcha. Va­mos para Caer Cadarn... — Ele avistou Eilonwy. — Grande Belin! O que você está fazendo aqui?

— Estou cansada de ouvir esta pergunta — respondeu Eilonwy.

— O caldeirão! — exclamou Taran. — Vocês o apa­nharam? Onde estão os outros? Onde está Doli?

— Aqui, onde mais estaria? — retrucou asperamente uma voz. Um instante depois Doli tremeluziu diante dos olhos deles, montado no que parecera ser uma sela vazia. Ele saltou pesadamente para o chão. — Nem parei para me tornar visível de novo. — Ele apertou a cabeça entre as mãos. — Ai, meus ouvidos!

— Gwydion deu ordens para que nos retiremos imedia­tamente — prosseguiu o bardo com grande agitação. — Ele e Coll estão com Morgant. Eles nos alcançarão se puderem. Se não, todos nós nos reuniremos em Caer Cadarn.

Enquanto Ellidyr e Adaon apressadamente desamarra­vam os animais, Taran e o bardo carregavam e atavam os fardos de armas.

— Fique com estes — ordenou Fflewddur, pondo um arco e uma aljava de flechas nas mãos de Eilonwy. — E vocês, armem-se bem.

— O que aconteceu? — perguntou Taran temeroso. — O plano falhou?

— O plano? — perguntou Fflewddur. — O plano funcio­nou perfeitamente. Não poderia ter sido melhor. Morgant e seus homens cavalgaram conosco até o Portão Escuro... ah, aquele Morgant! Que guerreiro! Parece não ter nervos. É de uma frieza impressionante. Você poderia ter imaginado que ele estava indo para um banquete. — O bardo sacudiu a cabeça de cabelos espetados. — E, lá estávamos nós, bem na soleira da porta de Annuvin! Ah, vocês ouvirão canções rela­tando isso, podem escrever o que estou dizendo.

— Pare com esse falatório — ordenou Doli, apressando-se com os cavalos de carga agitados. — Sim, o plano era bom — exclamou furibundo. — Teria sido perfeito, tão fácil quanto passar manteiga no pão. Só houve uma coisa errada. Perdemos nosso tempo e arriscamos o pescoço por nada!

— Será que um dos dois poderia falar claramente? — explodiu Eilonwy. — Não estou interessada em canções nem em manteiga! Contem-nos logo de uma vez! Onde está o caldeirão?

— Eu não sei — respondeu o bardo. — Ninguém sabe.

— Vocês não perderam o caldeirão! — exclamou Eilonwy com um pequeno soluço, espalmando a mão sobre a boca. — Não! Ah, mas que bando de idiotas! Grandes heróis! Eu sabia que deveria ter ido com vocês desde o princípio.

Doli parecia a ponto de explodir. As orelhas dele tre­miam; ergueu-se nas pontas dos pés, de punhos cerrados.

— Mas será que você não compreende? O caldeirão desapareceu! Sumiu! Não estava lá!

— Isto não é possível! — exclamou Taran.

— Não me diga que não é possível — retrucou Doli com aspereza. — Eu estava lá. Sei o que vi. Sei o que ouvi. Eu entrei primeiro, exatamente como Gwydion ordenou. En­contrei o Saguão dos Guerreiros. Absolutamente sem ne­nhuma dificuldade. Na verdade, não havia guardas. Ah-ah!, pensei com meus botões, isso vai ser mais fácil que assobiar. Entrei quieto e despercebido, poderia tê-lo feito bem à vista, em plena luz do dia. E por quê? Porque não havia nada a guardar! A plataforma estava vazia!

— Arawn mudou o caldeirão de lugar — interrompeu Taran. — Há um novo esconderijo; ele o trancou em algum outro lugar.

— Você não acha que eu tenho a inteligência com que nasci? — retrucou Doli. — Esta foi a primeira coisa que me veio à cabeça. De modo que saí para procurar novamente, teria dado uma busca até nos aposentos do próprio Arawn se tivesse precisado. Mas não tinha dado nem seis passos quando esbarrei num par de guardas de Arawn. Ou melhor, eles esbarraram em mim, os imbecis grosseirões — resmun­gou Doli, esfregando um olho arroxeado. — Eu os segui du­rante algum tempo. A essa altura, já tinha ouvido o bastante.

“Deve ter acontecido alguns dias atrás. Como ou quem, não sei dizer. Nem Arawn sabe. Podem imaginar como está furioso! Mas, quem quer que tenham sido, eles chegaram lá antes de nós. E fizeram bem seu trabalho. O caldeirão desa­pareceu de Annuvin!”

— Mas isto é maravilhoso! — exclamou Eilonwy. — Nossa tarefa está cumprida e não nos custou nada além de uma jornada.

— Nossa tarefa está longe de estar cumprida — decla­rou a voz grave de Adaon. Ele havia acabado de pôr os far­dos num dos cavalos de carga e viera se postar ao lado de Taran. Ellidyr também estivera ouvindo atentamente.

— Perdemos a glória de lutar por ele — disse Taran. — Mas a coisa importante é que Arawn não está mais com o caldeirão.

— Não é assim tão fácil — advertiu Adaon. — Isso é uma derrota dolorosa para Arawn; ele fará tudo que estiver ao seu alcance para recuperar o caldeirão. Mas isto não é tudo. O caldeirão é perigoso por si só, mesmo fora do alcan­ce de Arawn. E se tiver caído em outras mãos igualmente perversas?

— Exatamente as palavras do próprio Gwydion — con­cordou Fflewddur. — De alguma maneira, a coisa tem de ser encontrada e destruída sem demora. Gwydion planejará uma outra expedição de busca de Caer Cadarn. Parece que nosso trabalho apenas começou.

— Montem seus cavalos de batalha — ordenou Adaon.

— Não podemos sobrecarregar nossos animais de carga; a Princesa Eilonwy e Gurgi montarão na garupa de nossos cavalos.

— Islimach só aceita ser montada por mim — disse Ellidyr.

— Ela foi treinada para isso desde que era uma potrinha.

— Isso seria de se esperar, sendo seu cavalo de batalha — comentou Taran. — Eilonwy montará comigo.

— E eu levarei Gurgi comigo na garupa de Lluagor — disse Adaon. — Agora, vamos andando, depressa.

Taran correu para Melynlas, com um salto montou nele e puxou Eilonwy para sua garupa. Doli e os outros apressa­ram-se para montar. Mas, no instante em que o faziam, gritos ferozes irromperam ao redor deles e houve um súbito zunido de flechas.


 

Os Caçadores de Annuvin

Os cavalos de carga relincharam de terror. Melynlas empinou, enquanto as flechas chocalhavam en­tre os galhos das árvores. Fflewddur, de espada em punho, girou sua montaria e investiu contra os atacantes.

A voz de Adaon ressoou acima do ruído contínuo. — São os Caçadores! Batam-se só para repeli-los, evitem-nos!

Inicialmente, Taran teve a impressão de que as som­bras tinham adquirido vida. Disformes, elas arremeteram contra ele, tentando arrancá-lo da sela. Taran brandiu a espada cegamente. Melynlas escoiceou furiosamente, ten­tando se libertar do assédio dos guerreiros.

O céu havia começado a clarear em nesgas escarlates. O sol, nascendo sombreado pelos pinheiros negros e árvores sem folhas, encheu o bosque com uma luz sinistra.

Taran agora podia ver que os atacantes eram em torno de uma dúzia. Vestiam gibões e perneiras feitos de peles de animais. Traziam longos facões enfiados nos cin­tos e, do pescoço de um dos guerreiros pendia uma trompa curva de caça. Enquanto os homens redemoinhavam ao seu redor, Taran prendeu a respiração horrorizado. Cada um dos Caçadores tinha uma marca de fogo carmesim na testa. A visão daquilo encheu Taran de pavor, pois sabia que o símbolo devia ser uma marca de poder de Arawn. Ele lutou contra o medo que gelava seu coração e consumia-lhe as forças.

As suas costas, Taran ouvi Eilonwy gritar. Então foi agar­rado pelo cinto e arrastado para fora da sela de Melynlas. Um Caçador caiu e rolou com ele pelo chão. Bem seguro pelo homem, Taran não conseguia usar a espada. O Caça­dor levantou-se abruptamente e enfiou um joelho contra o peito de Taran. Os olhos do guerreiro faiscaram; ele arreganhou os dentes num sorriso horrendo, enquanto levantava um punhal.

A voz do Caçador congelou em meio a um grito de triunfo e, de repente, ele tombou para trás. Ellidyr, vendo a situação desesperada de Taran, havia descido a espada num golpe poderoso. Empurrando o corpo sem vida para o lado, ele puxou Taran, pondo-o de pé.

Por um instante os olhos deles se encontraram. O ros­to de Ellidyr, sob um emaranhado de cabelos amarelos tos­tados, manchados de sangue, tinha uma expressão de es­cárnio e orgulho. Ele parecia a ponto de falar, porém, sem dizer uma palavra, virou-se rapidamente e correu de volta para o combate.

No arvoredo houve um momento repentino de silên­cio. Então um longo suspiro se propagou como a ondulação de um tremor entre os guerreiros, como se cada homem tivesse tomado fôlego. O coração de Taran se contraiu, en­quanto se recordava da advertência de Gwydion. Com um rugido, os Caçadores retomaram o ataque com uma feroci­dade ainda maior, arremessando-se, em um ímpeto de fúria, contra os companheiros que resistiam com dificuldade.

Montada na garupa de Melynlas, Eilonwy encaixou uma flecha na corda de seu arco. Taran correu para junto dela.

— Não os mate! — gritou. — Defenda-se, mas não os mate!

Justo nesse instante, um vulto peludo e folhudo irrompeu dos arbustos. Gurgi havia agarrado uma espada quase tão grande quanto ele. Com os olhos fechados bem apertados, ele bateu os pés, gritou e brandiu a espada ao seu redor como se fosse uma segadeira. Furioso como um vespão, cor­reu para trás e para a frente entre os Caçadores, pulando para cima e para baixo, a espada sempre em movimento.

Enquanto os guerreiros saltavam para os lados, Taran viu um deles agarrar-se ao ar e sair voando de cabeça para baixo. Um outro Caçador dobrou-se para a frente e caiu, esmurrado por punhos invisíveis. Ele rolou pelo solo, numa tentativa de escapar aos golpes, mas, tão logo conseguiu se levantar, um guerreiro gritando e se debatendo foi arre­messado contra ele. Os Caçadores golpearam com suas armas, só para tê-las arrancadas de suas mãos e atiradas longe, nas moitas de arbustos. Diante dessa carga, eles recua­ram assustados.

— Doli! — exclamou Taran. — É Doli!

Adaon aproveitou este momento para avançar rapida­mente. Ele agarrou Gurgi e o puxou para cima da garupa de Lluagor.

— Sigam-me! — gritou Adaon. Ele fez girar sua mon­taria e saiu em disparada deixando para trás os guerreiros atordoados.

Taran saltou para o dorso de Melynlas. Com Eilonwy agarrada a seu cinto, debruçou-se bem sobre a crina pratea­da do cavalo. As flechas passavam voando por ele, enquanto Melynlas avançava a toda a velocidade. Então o garanhão dei­xou para trás o arvoredo e disparou por terreno aberto.

Com as orelhas coladas à cabeça, Melynlas galopou ul­trapassando uma fileira de árvores. Folhas secas voaram em redemoinhos sob o bater violento dos cascos, enquanto o garanhão seguia a toda a velocidade para a crista marrom de um morro. Por um momento Taran arriscou lançar um olhar rápido para trás. Mais abaixo, um grupo de Caçadores tinha se separado do bando e com largas passadas seguia a trilha dos companheiros que fugiam. Eram rápidos, exatamente como Gwydion advertira. Com seus gibões de peles eriçadas, mais pareciam animais selvagens que homens, à medida que se espalhavam em um arco largo pela encosta, Enquanto cor­riam, chamavam uns aos outros aos berros, com um estranho grito, sem palavras, que ressoava quase como se viesse dos penhascos ameaçadores do próprio Portão Escuro.

Gelado de pavor, Taran incitou Melynlas a acelerar mais. Chumaços de relva subiram alto entre os troncos de árvores caídas e galhos mirrados. Mais adiante, Lluagor galopava des­cendo pelo declive de uma margem.

Adaon os conduzira a um leito de rio. Havia água escura em algumas poças rasas, mas a maior parte do rio estava seca, e as ribanceiras de argila nas margens erguiam-se com altura suficiente para oferecer esconderijo. Adaon refreou Lluagor e lançou um olhar rápido para trás, para se assegurar de que todos o haviam seguido, então fez sinal para que os companheiros avançassem. Eles partiram em marcha rápida. O leito do rio fazia meandros, em meio a altos pinheiros e olmos dilapidados, mas, pouco tempo depois, o barranco das margens se aplainou e uma floresta de vegetação esparsa tor­nou-se a única cobertura de que dispunham.

Embora Melynlas não tivesse reduzido a velocidade, Taran viu que a marcha estava começando a se fazer sentir nos outros cavalos. O próprio Taran estava louco por um descanso. O pônei de pêlo longo, de Doli, avançava com dificuldade em meio às árvores; o bardo havia exigido tanto de sua montaria que a deixara espumando. O rosto de Ellidyr estava pálido mortalmente e ele sangrava muito de um ferimento na testa.

Até onde Taran podia dizer, eles não haviam parado de avançar para oeste e, embora seus picos não pudessem mais ser vistos, o Portão Escuro ficara a alguma distância para trás. Taran havia esperado que Adaon pudesse ter retomado o caminho que haviam usado antes, com Gwydion, mas agora sabia que estavam longe dele e seguindo para mais longe ainda.

Adaon os conduziu para uma moita fechada e fez sinal para que desmontassem.

— Não podemos nos arriscar a ficar aqui por muito tempo — advertiu ele. — Existem poucos esconderijos que os Caçadores de Arawn não possam descobrir.

— Então vamos ficar aqui, resistir e enfrentá-los! — ex­clamou o bardo. — Um Fflam nunca recua!

— Sim, sim! Gurgi vai enfrentá-los também! — concor­dou Gurgi, embora ele mal parecesse conseguir levantar a cabeça.

— Só vamos enfrentá-los se formos obrigados — disse Adaon. — Eles agora estão mais fortes que antes e não vão se cansar com a mesma rapidez que nós.

— Deveríamos oferecer resistência agora — exclamou Ellidyr. — É esta a honra que ganhamos por seguir Gwydion? Permitir que eles sigam nossos rastros e nos persigam como se fôssemos animais? Ou será que tem medo demais deles?

— Não tenho medo deles — retrucou Taran —, mas não é desonra evitar dar-lhes combate. Isto é o que o pró­prio Gwydion ordenaria.

Eilonwy, embora exausta e desgrenhada, não perdera o uso da língua afiada.

— Aah! Calem-se, vocês dois! — ordenou. — Ficam se preocupando tanto com honra quando seria muito melhor se estivessem pensando numa maneira de voltar para Caer Cadam,

Taran, que estivera agachado, encostado numa árvore, levantou a cabeça que estivera descansando nas mãos. De longe veio um grito longo, tremulante. Uma outra voz res­pondeu, depois outra,

— Eles estão desistindo da caçada? — perguntou Taran. — Conseguimos deixá-los para trás?

Adaon sacudiu a cabeça.

— Duvido muito. Eles não nos perseguiriam até tão lon­ge só para nos deixar escapar. — Adaon saltou rapidamente na garupa de Lluagor. — Temos que cavalgar até encontrar­mos um lugar mais seguro para descansar. Não teríamos muita esperança se deixássemos que nos alcançassem agora.

Enquanto Ellidyr encaminhava-se para a cansada Islimach, Taran o segurou pelo braço.

— Combateu bem, Filho de Pen-Llarcau — disse em voz baixa. — Creio que lhe devo a vida.

Ellidyr se virou para ele com o mesmo olhar de despre­zo que Taran vira no arvoredo.

— É uma pequena dívida — respondeu. — Dá mais valor a ela do que eu.

Eles partiram novamente, penetrando mais profunda­mente na floresta, tão rápido quanto suas forças permitiam. O dia tornara-se opressivo, carregado de umidade e friagem. O sol estava fraco, envolto por nuvens cinzentas, esfiapadas.

O progresso deles tornou-se mais lento no emaranhado da vegetação rasteira e as folhas molhadas faziam atolar os cava­los que avançavam com dificuldade. Doli, que estivera debru­çado sobre sua sela, endireitou-se abruptamente. Olhou ao redor com grande atenção. O que ele viu, fosse lá o que fosse, fez com que ficasse estranhamente radiante.

— Há gente do Povo Formoso por aqui — declarou, quando Taran cavalgou até junto dele.

— Tem certeza? — perguntou Taran. — Como você sabe?

Embora procurasse atentamente, não podia ver nenhu­ma diferença entre aquele trecho de floresta e o outro por onde haviam acabado de passar.

— Como eu sei? Como eu sei? — retrucou Doli rispidamente. — Como você sabe como deve engolir seu jantar?

Ele bateu os calcanhares nos flancos do pônei e, rapida­mente, seguiu adiante, ultrapassando Adaon, que parou sur­preendido. Doli desmontou e, depois de examinar várias ár­vores, correu rapidamente para as ruínas de um enorme car­valho oco. Enfiou a cabeça dentro do buraco e começou a gritar o mais alto que podia.

Taran desmontou também. Com Eilonwy seguindo em seus calcanhares, ele correu até a árvore, temeroso de que a fadiga e a tensão do dia tivessem finalmente levado o anão ao desatino.

— Ridículo! — resmungou Doli, tirando a cabeça do buraco da árvore. — Não posso estar assim tão enganado!

Ele curvou-se, baixou a cabeça, observou bem de perto o solo nas vizinhanças e fez cálculos incompreensíveis usando os dedos.

— Tem que ser! — exclamou. — O Rei Eiddileg não permitiria que as coisas deixassem de funcionar e se deterio­rassem a este ponto.

Com essas palavras, deu uma porção de chutes furio­sos nas raízes das árvores. Taran tinha certeza de que o anão furibundo teria trepado e entrado no próprio buraco no tronco da árvore se este tivesse sido maior.

— Vou dar queixa disso — berrou Doli —, sim, a Eiddileg, pessoalmente! Isto é sem precedentes! Impossível!

— Não sei o que você está fazendo — disse Eilonwy, passando rapidamente bem perto do anão e se aproximando do carvalho —, mas se nos contar o que é poderíamos ajudá-lo.

Como o anão havia feito, Eilonwy enfiou a cabeça no buraco oco do tronco e o examinou.

— Não sei quem está aí embaixo — gritou —, mas nós estamos aqui em cima e Doli quer falar com vocês. Pelo menos poderiam responder! Estão me ouvindo?

Eilonwy deu as costas para o tronco e sacudiu a cabeça.

— Eles são mal-educados, sejam lá quem forem. Isto é pior que alguém fechar os olhos para não deixar que você possa vê-los!

Uma voz fraca, mas muito clara, se elevou da árvore.

— Vão embora — disse.


 

Gwystyl

Doli apressadamente empurrou Eilonwy para o lado e tornou a enfiar a cabeça no tronco de árvore. Começou a gritar novamente, mas a madeira morta abafava o som a tal ponto que Taran não conseguiu ouvir nada da conversa, que consistiu principalmente em longos e furiosos discursos do anão, seguidos por breves e relutantes respostas.

Finalmente, Doli se endireitou e fez sinal para que os outros o seguissem. Ele partiu em grande velocidade atra­vessando em linha reta a floresta e, depois de pouco mais de cem passos, saltou dentro de uma ribanceira saliente. Taran, conduzindo o pônei do anão bem como Melynlas, apressou-se para juntar-se a ele. Adaon, Ellidyr e o bardo viraram rapidamente suas montarias e logo estavam atrás deles.

A ribanceira tinha uma inclinação tão íngreme e esta­va tão coberta de vegetação, que os cavalos mal conse­guiam se equilibrar e encontrar apoio para as patas. Eles caminharam delicadamente em meio aos arbustos espinho­sos e pedregulhos expostos. Islimach sacudiu a crina e relinchou nervosamente. A montaria do bardo esteve perto de cair sobre os quartos traseiros e, até Melynlas, bufou um protesto contra a encosta difícil.

Quando Taran finalmente alcançou uma saliência de ter­reno plano, Doli havia corrido para a face protegida da riban­ceira e, impacientemente, estava berrando, em mais um de seus acessos de cólera, diante de um imenso emaranhado de espinheiros. Para espanto de Taran, os arbustos espinhosos começaram a tremer, como se estivessem sendo empurra­dos por dentro; então, com muito roçar e partir de gravetos, a massa inteira se abriu um pouquinho.

— É um posto avançado dos caminhos subterrâneos do Povo Formoso — exclamou Eilonwy. — Eu sabia que eles os mantinham espalhados por toda parte, mas só o bom e velho Doli seria capaz de encontrar um!

Quando Taran chegou ao lado do anão, o portal se abriu o bastante para que ele vislumbrasse um vulto ali atrás.

Doli apertou os olhos esforçando-se para enxergar o interior.

— Então é você Gwystyl — comentou ele. — Eu devia ter imaginado.

— Então é você Doli — respondeu uma voz. — Gos­taria que tivesse me avisado de sua vinda com alguma antecedência.

— Avisar com antecedência! — exclamou o anão. — Vou lhe dar mais do que um aviso se não abrir já! Eiddileg será informado disso. De que serve um posto avançado se você não pode entrar nele quando precisa? Você conhece as regras: se alguém do Povo Formoso estiver em perigo... Bem, é esta a situação em que nos encontramos neste instante! Como se não bastasse todo o resto, poderia ter berrado até ficar rouco! — ele deu um chute furioso nos arbustos espinhosos.

O vulto deixou escapar um longo e melancólico suspi­ro e o portal se abriu mais, Taran viu uma criatura que, à primeira vista, parecia um feixe de varas e galhos com teias de aranha flutuando no alto. Rapidamente, se deu conta de que o estranho guarda-portão se parecia com certas pesso­as do Povo Formoso que ele uma vez havia visto no reino de Eiddileg; só que aquele indivíduo parecia estar em um estado lamentável de descuido e dilapidação.

Ao contrário de Doli, Gwystyl não era da raça dos anões. Embora fosse mais alto, era extremamente magro. Seus ca­belos ralos eram longos e viscosos; o nariz inclinava-se em direção ao queixo numa expressão extremamente triste. Rugas franziam-lhe atesta; os olhos piscavam ansiosamente; ele pa­recia à beira de explodir em lágrimas. Ao redor dos ombros encurvados, pendia um manto surrado e sujo, que ele retor­cia nos dedos nervosamente. Gwystyl fungou várias vezes, suspirou de novo e com má vontade convidou Doli a entrar.

Gurgi e Fflewddur tinham se aproximado atrás de Taran. Gwystyl, pela primeira vez percebendo a presença deles, deu um gemido abafado.

— Ah, não — disse ele —, seres humanos não. Talvez um outro dia. Sinto muito, Doli, creia-me. Mas os humanos não.

— Eles estão comigo — retrucou o anão com aspereza. — Solicitam a proteção do Povo Formoso e cuidarei para que recebam.

O cavalo de Fflewddur, escorregando em meio aos ga­lhos, relinchou alto e, diante disso, Gwystyl espalmou a mão na testa.

— Cavalos! — soluçou ele. — Isto está fora de questão! Mande entrar seus humanos se realmente precisar. Mas cava­los não. Cavalos, hoje, não, Doli, simplesmente não tenho condições de receber cavalos hoje. Por favor, Doli — gemeu ele —, não faça isso comigo. Não estou bem, nada bem, realmente. Não poderia nem conceber isso. Todo aquele bufar e pisotear, e grandes cabeças ossudas. Além disso, não há espaço. Absolutamente, não há nenhum espaço.

— Que lugar é este? — questionou Ellidyr irritadamente. — Para onde nos conduziu, anão? Meu cavalo não sairá do meu lado. Entrem nesta ratoeira, vocês todos. Eu guardarei Islimach sozinho.

— Não podemos deixar os cavalos acima da terra — disse Doli para Gwystyl, que já havia começado a recuar para o corredor. — Encontre espaço ou abra espaço — ordenou ele. — Isto é categórico!

Fungando, gemendo, sacudindo a cabeça, Gwystyl le­vantou a porta, abrindo-a em toda sua largura.

— Está bem — suspirou —, traga-os para dentro. Tra­ga-os todos para dentro. E se conhecer mais alguns outros, convide-os também. Não faz mal. Eu só fiz uma sugestão, estava fazendo um apelo a seu coração generoso, Doli. Mas agora, não me importo. Não faz nenhuma diferença.

Taran havia começado a pensar que Gwystyl tinha bons motivos para preocupação. O portal mal era alto o bastante para permitir a passagem dos animais. Só com muita dificul­dade o alto cavalo de batalha de Adaon conseguiu entrar; e Islimach revirou os olhos freneticamente enquanto os espi­nhos arranhavam seus flancos.

Contudo, depois de ultrapassada aquela barreira, Taran viu que eles haviam entrado numa espécie de galeria, longa e de teto baixo. Um dos lados era de terra sólida, o outro, uma cortina espessa de espinhos e galhos que impossibilitava que se visse através dela, mas com bastantes rachaduras e fendas para permitir a passagem de algum ar.

— Podem pôr os cavalos ali dentro, suponho — suspi­rou Gwystyl, agitando as mãos na direção da galeria. — Eu a limpei não faz muito tempo. Não estava esperando vê-la trans­formada em estábulo. Mas vão em frente, não faz nenhuma diferença.

Engolindo soluços e suspirando para consigo mesmo, Gwystyl então conduziu os companheiros por um corredor cheirando a umidade. De um lado, Taran reparou, uma alcova havia sido escavada; estava cheia de raízes, líquenes e cogu­melos — os víveres, calculou, do melancólico habitante. Água pingava do teto de terra e corria em pequenos regatos pela parede. Um odor de marga e de folhas mortas pairava no corredor. Mais adiante, a passagem se abria para uma câmara redonda.

Ali, uma pequena fogueira de terra com grama e raízes bruxuleava numa minúscula lareira cheia de cinzas e, com fre­qüência, lançava bafejadas de uma fumaça de odor acre, que fazia arder o nariz. Perto dela havia um catre desordenado de palha. Havia uma mesa quebrada, dois bancos e um vasto nú­mero de maços de ervas pendurados contra a parede, secan­do. Algumas tentativas tinham sido feitas de aplainar as faces laterais da parede propriamente dita, mas, aqui e ali, os dedos contorcidos de raízes se projetavam para fora. Embora a câma­ra estivesse extremamente quente e abafada, Gwystyl estreme­ceu e puxou o manto fechando-o mais ao redor dos ombros.

— Muito acolhedor — comentou Fflewddur, tossindo violentamente.

Gurgi correu para junto da lareira e, a despeito da fuma­ça, atirou-se no chão ao lado dela. Adaon, que por causa de sua altura mal podia ficar completamente ereto, não deu ne­nhuma atenção à bagunça, mas se aproximou de Gwystyl e cortesmente fez uma mesura.

— Nós lhe agradecemos por sua hospitalidade — disse Adaon. — Estivemos em dificuldades.

— Hospitalidade! — rebateu Doli asperamente. — Dis­so vimos realmente muito pouco! Ande logo, Gwystyl, vá buscar alguma coisa para comermos e bebermos.

— Ah, mas é claro, mas é claro — balbuciou Gwystyl —, se realmente quiserem se demorar o tempo necessário para isso. Quando foi mesmo que disseram que iam embora?

Eilonwy deu um grito de prazer.

— Vejam, ele tem um corvo domesticado!

Perto da fogueira, num galho de árvore talhado para formar um poleiro rústico, agachava-se um amontoado de sombras que Taran percebeu que, na verdade, era um gran­de corvo. Com Eilonwy, ele correu até lá para olhá-lo. O corvo mais parecia uma bola cheia de corcovas com penas esparsas na cauda, penas tão delgadas, espetadas e desorde­nadas quanto os cabelos cheios de teias de aranha de Gwystyl. Mas seus olhos eram penetrantes e inteligentes, e examina­ram Taran criticamente. Com alguns estalidos secos, o pássa­ro lixou o bico no poleiro e inclinou a cabeça.

— É um belo corvo — comentou Eilonwy —, embora eu nunca tenha visto um com asas como este. São diferentes, mas muito bonitas depois que a gente se acostuma com elas.

Uma vez que o corvo não objetou, Taran delicadamen­te acariciou as penas ao redor de seu pescoço e passou um dedo debaixo do bico afiado e reluzente. Com uma súbita tristeza, ele recordou-se da guidainte filhote que havia ajuda­do — há muito, muito tempo, parecia-lhe — e se perguntou como a avezinha estaria. O corvo, enquanto isso, estava apre­ciando uma atenção que, evidentemente, não costumava re­ceber. Ele balançou e sacudiu a cabeça, piscou feliz da vida e tentou passar o bico no cabelo de Taran.

— Qual é o nome dele? — perguntou Eilonwy.

— Nome? — respondeu Gwystyl. — Ah, o nome dele é Kaw. Por causa do barulho que ele faz, compreende? Ou alguma coisa parecida — acrescentou vagamente.

— Kaw! — exclamou Fflewddur, que estivera observan­do com interesse. — Excelente! Que nome bem escolhido! Nunca teria pensado em dar-lhe um nome assim. — Ele as­sentiu com prazer e aprovação.

Enquanto Taran alisava as penas do corvo deliciado, Adaon começou a examinar o ferimento de Ellidyr. De uma pequena mochila presa no cinto retirou um punhado de er­vas secas, que triturou até se tornarem pó.

— Ora — exclamou Ellidyr —, mas também é curandeiro além de sonhador? Se não me incomoda, por que ha­veria de incomodá-lo?

— Se preferir não considerar isto como um ato de gen­tileza — respondeu Adaon, sem se perturbar e continuando a tratar o corte —, considere como uma precaução. Temos uma jornada árdua e perigosa pela frente. Eu não quero vê-lo cair doente e nos atrasar.

— Não serei eu quem vai atrasá-lo — respondeu Ellidyr. — Eu teria me defendido quando a oportunidade se apre­sentou. Agora, permitimos que nos acuassem até nos escon­dermos numa toca, como se fôssemos raposas.

Gwystyl estivera observando ansiosamente por cima do ombro de Adaon.

— Tem alguma coisa que possa ser útil para minha doen­ça? — perguntou com a voz trêmula. — Não, imagino que não tenha. Bem, não tem importância. Não há nada que se possa fazer a respeito da umidade e das correntes de ar; não, elas durarão mais do que eu, pode estar certo — concluiu numa voz desolada.

— Pare de resmungar a respeito das correntes de ar — ordenou Doli bruscamente — e pense em alguma maneira de conseguir nos tirar daqui em segurança. Se você é o en­carregado de um posto avançado, deve estar pronto para emergências. — Ele se afastou furibundo. — Não sei em que Eiddileg estava pensando quando botou você aqui.

— Eu me perguntei isto muitas vezes — concordou Gwystyl com um suspiro melancólico. — É perto demais de Annuvin para qualquer tipo de pessoa decente vir bater à sua porta... não estou me referindo a nenhum de vocês — acres­centou apressadamente. — Mas é deserto. Realmente, não há nada que seja de nenhum interesse. Não Doli, receio que não haja nada que eu possa fazer por vocês. Exceto mandá-los embora daqui o mais rápido possível.

— E os Caçadores? — questionou Taran. — Se ainda estiverem seguindo nossos rastros...

— Caçadores? — o rosto de Gwystyl adquiriu uma co­loração branco-esverdeada doentia e suas mãos tremeram. — Mas como foi que vocês foram cruzar justo com eles? Lamento muito ouvir isso. Se tivesse sabido antes, poderia ter sido possível... Ah, agora é tarde demais para isso. Agora, eles já estarão à espreita, espalhados por toda parte. Não, francamente, vocês poderiam ter demonstrado um pouco mais de consideração.

— Da maneira como o senhor fala até parece que que­ríamos tê-los em nosso encalço! — exclamou Eilonwy, inca­paz de controlar a impaciência. — É como se convidar uma abelha para vir e dar-lhe uma picada.

Diante da explosão da garota, Gwystyl encolheu-se todo debaixo do manto e pareceu ficar mais desolado do que nunca. Ele ofegou, num soluço, enxugou a testa com a mão trêmula, e deixou uma grande lágrima rolar por seu nariz abaixo.

— Não tive a intenção de sugerir isso, minha cara crian­ça, creia-me — Gwystyl fungou. — É simplesmente que não vejo o que se pode fazer a respeito do problema... se é que se pode fazer alguma coisa. Vocês estão numa situação tene­brosa. Como ou por que, tenho certeza de que não posso imaginar.

— Gwydion nos conduziu a um ataque contra Arawn — começou Taran.

Gwystyl, apressadamente, levantou a mão.

— Não me conte — interrompeu ele, franzindo a testa com ansiedade. — O que quer que seja, não quero nem ouvir falar do assunto. Prefiro não saber. Não quero ser en­volvido em nenhum de seus planos malucos. Gwydion? Estou surpreso que, pelo menos, ele não soubesse que seria uma estupidez fazer isso. Mas, suponho, que seja de se esperar. Não adianta nada reclamar.

— Nossa tarefa é urgente — disse Adaon, que havia acabado de enfaixar o ferimento de Ellidyr e viera se postar ao lado de Gwystyl. — Não pedimos que faça nada que pos­sa pô-lo em perigo. Não lhe contaria as circunstâncias que nos trouxeram até aqui se pudesse, mas sem conhecê-las não poderá compreender em que medida precisamos desesperadamente de sua ajuda.

— Viemos para nos apoderar do caldeirão de Annuvin

— explicou Taran.

— Caldeirão? — murmurou Gwystyl.

— Sim, o caldeirão! — berrou o anão furioso. — Seu verme descorado! Seu vaga-lume sem lume! O caldeirão, dos Nascidos do Caldeirão, de Arawn!

— Ah, aquele caldeirão — respondeu Gwystyl debilmente. — Perdoe-me, Doli, eu estava pensando em uma outra coisa. Quando foi mesmo que disse que iam embora?

O anão parecia à beira de agarrar Gwystyl pela bata e sacudi-lo, mas Adaon se adiantou e, rapidamente, explicou o que havia acontecido no Portão Escuro.

— É uma pena — murmurou Gwystyl, com um suspiro sofredor. — Nunca deveriam ter-se metido com aquela coi­sa. Agora receio que seja tarde demais para pensar a respeito disso. Não os invejo. Creiam-me, não mesmo. Este é um da­queles acontecimentos desafortunados.

— Mas o senhor não compreende — argumentou Taran. — Nós não estamos metidos com o caldeirão. Ele não está mais em Annuvin. Alguém já o havia roubado.

— Sim — disse Gwystyl, com um olhar melancólico para Taran —, sim, eu sei.


 

Kaw

Taran calou-se de repente, surpreendido.

— O senhor sabe disso? — perguntou espan­tado. — Então por que não... Gwystyl engoliu em seco e lançou olhares ner­vosos para todos os lados.

— Ah, eu sei. Mas só muito por alto, sabe como é. Quero dizer, na verdade, eu não sei de coisa nenhuma, de absolutamente nada. Apenas os rumores habituais, sem fundamentos, que se poderia esperar ouvir num lugar hor­roroso como este. Não têm nenhuma importância. Não dê nenhuma atenção a isso.

— Gwystyl — disse Doli, ríspida e zangadamente —, você sabe mais a respeito disso do que está dizendo. Ago­ra, vamos, confesse.

A criatura melancólica atirou as mãos à cabeça e começou a gemer e a se balançar para trás e para a frente.

— Por favor, vão embora e deixem-me em paz — soluçou ele. — Não estou bem; tenho tantas tarefas para acabar de fazer, nunca conseguirei pôr tudo em dia.

— Mas o senhor tem que nos contar! — exclamou Taran. — Por favor — acrescentou ele, baixando a voz, pois o infeliz Gwystyl havia começado a tremer violentamente, os olhos se revirando para o alto, como se estivesse à beira de ter um acesso. — Não esconda o que conhece de nós. Se o senhor se mantiver calado, nossas vidas terão sido arriscadas sem nenhum propósito.

— Não se metam nisso, deixem ficar como está — Gwystyl sufocou novamente, abanando-se com a bainha da bata. — Não se incomodem com isso. Esqueçam tudo isso. É a melhor coisa que podem fazer. Voltem para seja lá de onde for que vieram. Nem sequer pensem no assunto.

— Como podemos fazer isso? — exclamou Taran. — Arawn não descansará enquanto não tiver o caldeirão de volta.

— É claro que ele não descansará — concordou Gwystyl. — Ele não está descansando agora. É exatamente por isso que devem abandonar a busca e ir embora discretamente, sem fazer barulho. Só vão criar mais problemas. E isso já te­mos, mais do que o suficiente.

— Então seria melhor voltarmos para Caer Cadarn e nos juntarmos a Gwydion tão rapidamente quanto puder­mos — disse Eilonwy.

— Sim, sim, sem dúvida — interrompeu Gwystyl, pela primeira vez demonstrando algum vestígio de animação que Taran tivesse conseguido vislumbrar naquele estranho indiví­duo. — Só estou lhes dando este conselho para o próprio bem de vocês. Estou contente, muito contente, que tenham achado adequado segui-lo. Agora, é claro — acrescentou ele, quase alegremente —, vão querer se pôr a caminho. É muito prudente que façam isso. Eu, infelizmente, tenho que ficar aqui. Eu invejo vocês, realmente invejo. Mas é assim que são as coisas, e há muito pouco que se possa fazer. Foi um prazer conhecê-los, todos vocês. Adeus.

— Adeus? — exclamou Eilonwy. — Se pusermos o na­riz acima do solo e os Caçadores estiverem esperando por nós... sim, realmente será adeus! Doli disse que é seu dever nos ajudar. E, agindo assim, o senhor não fez coisa nenhuma. Exceto suspirar e gemer! Se isto é o que o Povo Formoso tem de melhor para oferecer, ora, pois bem, prefiro estar trepada numa árvore com os dedos dos pés amarrados!

Gwystyl apertou a cabeça entre as mãos novamente.

— Por favor, por favor, não grite. Não estou em condi­ções de ouvir gritos hoje. Não depois dos cavalos. Um de vocês pode ir e ver se os Caçadores ainda estão lá fora. Não que realmente vá adiantar alguma coisa, pois eles poderiam ter apenas se afastado por um momento.

— Gostaria de saber quem vai fazer isso — resmungou o anão. — O bom e velho Doli, é claro. Pensei que tivesse acabado com essa história de me tornar invisível.

— Eu poderia lhe dar uma coisinha para ajudar— pros­seguiu Gwystyl —, não que vá adiantar muito. É uma espécie de pó que estive guardando para um caso de necessidade. Estava economizando para uma emergência.

— E o que você acha que é esta situação, sua nata aze­da! — rosnou Doli.

— Sim, bem, eu estava me referindo a, a-ah, mais para emergências pessoais — explicou Gwystyl, empalidecendo. — Mas, quanto a mim, não tem importância, não se preocu­pem. Podem ficar com ele. Levem todo o pó, vão em frente, podem pegar.

— Devem passar o pó nos pés ou em qualquer coisa sobre a qual andem — acrescentou Gwystyl. — Estou me referindo a cascos de cavalo e assim por diante. Não funciona muito bem, na verdade, não faz muito sentido se dar a todo esse trabalho. Porque vai se desgastando e desaparecendo com o passar do tempo. O que é muito natural, se estiverem andando em cima dele, teria que desaparecer. Entretanto, o pó esconderá as pegadas e rastros por algum tempo.

— É disso que estamos precisando — disse Taran, — Se conseguirmos despistar os Caçadores e tirá-los de nosso encalço, creio que conseguiremos deixá-los para trás.

— Vou buscar um pouco — disse Gwystyl com entu­siasmo. — Só um instante, não vai demorar nada.

Contudo, no momento em que ele se moveu para sair da câmara, Doli o agarrou pelo braço.

— Gwystyl — disse o anão muito severamente —, você tem uma expressão esquiva e traiçoeira em seus olhos. Po­deria ser capaz de enganar meus amigos. Mas não se esqueça de que também está lidando com alguém que pertence ao Povo Formoso. Tenho uma sensação — acrescentou Doli, agarrando-o melhor e apertando — de que você está an­sioso demais para nos ver pelas costas. Estou começando a me perguntar o que mais eu ouviria se espremesse você um pouco.

Diante dessas palavras, Gwystyl revirou os olhos e des­maiou. O anão teve que botá-lo sentado e aprumá-lo, en­quanto Taran e os outros o abanavam.

Afinal Gwystyl abriu um olho.

— Desculpem-me — disse ofegante. — Hoje não es­tou me sentindo bem. Sinto muito sobre o caldeirão. Foi uma daquelas coisas infelizes que acontecem.

O corvo, que estivera observando toda essa atividade, arregalou os olhos redondos e brilhantes para seu dono e ba­teu as asas com tamanho vigor que Gurgi despertou assustado.

— Orddu! — grasnou Kaw.

Fflewddur se virou surpreendido.

— Ora, mas vocês viram só isso! Ele não disse “kaw”, não foi isso, de jeito nenhum. Pelo menos, não foi o que me pareceu. Eu poderia ter jurado que ele disse algo parecido com “or-do”.

— Orwen! — crocitou Kaw. — Orgoch!

— Aí está — declarou Fflewddur, olhando para o pássa­ro com fascinação. — Ele fez de novo.

— É estranho — concordou Taran. — Soou como “ordorwenorgoch”! E olhem só para ele, correndo de um lado para o outro no poleiro. Vocês acham que nós o assustamos?

— Ele está se comportando como se estivesse tentan­do nos dizer alguma coisa — comentou Eilonwy.

Enquanto isso o rosto de Gwystyl tinha adquirido a cor de um queijo muito, muito velho.

— Você pode não querer que saibamos — declarou Doli, agarrando brutalmente o aterrorizado Gwystyl —, mas ele quer. Desta vez, Gwystyl, eu realmente tenho a intenção de espremê-lo.

— Não, não, Doli, por favor, não faça isso — gemeu Gwystyl. — Não lhe dê nenhuma atenção. Ele costuma fazer coisas estranhas; já tentei ensinar Kaw a ter melhores hábitos, mas não adianta nada.

Seguiu-se uma torrente de súplicas e gemidos de Gwystyl, mas o anão não lhe deu ouvidos e começou a cumprir sua ameaça.

— Não — guinchou Gwystyl. — Não me esprema. Hoje, não. Escute-me, Doli — acrescentou ele, os olhos ficando vesgos depois virando para os lados, freneticamente —, se eu lhe contar, você me prometerá que vai embora?

Doli assentiu e afrouxou o aperto.

— Tudo o que Kaw quis dizer — prosseguiu Gwystyl apressadamente — é que o caldeirão está nas mãos de Orddu, Orwen e Orgoch. Isto é tudo. É uma pena, mas com certeza não há nada que se possa fazer com relação a isso. Me pare­ceu que realmente não valia a pena nem falar no assunto.

— Quem são Orddu, Orwen e Orgoch? — perguntou Taran. Seu entusiasmo e impaciência estavam levando a me­lhor sobre ele, e sentia-se seriamente tentado a ajudar Doli a espremer Gwystyl.

— Quem são eles? — murmurou Gwystyl. — Seria me­lhor perguntar o que são elas?

— Pois muito bem — exclamou Taran —, o que são elas?

— Não sei — respondeu Gwystyl. — É difícil dizer. Não tem importância; elas estão com o caldeirão e vocês podem muito bem deixar as coisas ficarem como estão. — Ele estre­meceu violentamente. — Não se metam com elas; não exis­te nenhuma razão imaginável que justifique fazer isso.

— Sejam lá quem forem, ou o que forem — exclamou Taran, virando-se para o resto do grupo —, acho que deve­mos encontrá-las e tomar-lhes o caldeirão. Foi isso que vie­mos fazer e não deveríamos desistir agora. Onde elas vivem? — perguntou a Gwystyl.

— Viver? — perguntou Gwystyl franzindo o cenho. — Elas não vivem. Não exatamente. É tudo muito vago. Eu sin­ceramente não sei.

Kaw bateu as asas de novo.

— Morva! — grasnou ele.

— O que estava querendo dizer — gemeu Gwystyl, enquanto o furioso Doli estendia as mãos para agarrá-lo no­vamente — é que elas ficam nos Pântanos de Morva. Exata­mente onde, não tenho a menor idéia, absolutamente ne­nhuma idéia. Este é o problema. Vocês nunca as encontra­rão. E se encontrarem, coisa que não farão, desejarão que nunca as tivessem encontrado. — Gwystyl torceu as mãos ossudas e suas feições trêmulas, de fato, revelavam uma ex­pressão do mais profundo pavor.

— Já ouvi falar sobre os Pântanos de Morva — disse Adaon. — Fica a oeste daqui. A que distância, não sei dizer.

— Eu sei! — interrompeu Fflewddur. — A pelo menos um dia de viagem, eu diria. Certa vez, em minhas andanças, fui parar por lá. Recordo-me muito claramente. Uma região muito desagradável e bastante assustadora. Não que isso ti­vesse me incomodado, é claro. Intrépido, eu caminhei por...

Uma corda da harpa partiu-se, abruptamente, com um sonoro “tóing”.

— Na verdade, eu contornei os pântanos — corrigiu-se o bardo rapidamente. — Eram uns brejos terríveis, malchei­rosos e de aspecto horroroso. Mas — acrescentou ele —, se é lá que o caldeirão está, então faço coro às palavras de Taran: vamos lá! Um Fflam nunca hesita!

— Um Fflam nunca hesita em abrir a boca — arrema­tou Doli. — Desta vez, pelo menos, Gwystyl está dizendo a verdade, tenho certeza. Ouvi relatos, lá no reino de Eiddileg, a respeito desses... seja lá como os chamam. E não eram agra­dáveis. Ninguém sabe muita coisa a respeito deles. Ou se alguém sabe, não conta.

— Você deveria prestar atenção a Doli — interrompeu Eilonwy, virando-se impacientemente para Taran. — Não vejo como pode sequer pensar em tentar tomar o caldeirão de seja lá quem for que está com ele sem nem sequer saber o que é, seja lá o que for que está com ele.

— Além disso — prosseguiu Eilonwy —, Gwydion nos ordenou que fôssemos nos encontrar com ele em Caer Cadarn, e, se minha memória não está cheia de buracos por causa de todos os absurdos que andei ouvindo, ele não falou nem uma palavra sobre sairmos às carreiras na direção oposta.

— Você não compreende — replicou Taran. — Quan­do nos disse para irmos nos encontrar com ele, Gwydion ia planejar uma nova busca. Ele não sabia que iríamos encontrar o caldeirão.

— Em primeiro lugar — rebateu Eilonwy —, você não encontrou o caldeirão.

— Mas nós sabemos onde está! — exclamou Fflewddur. — É a mesma coisa!

— E, em segundo lugar — continuou Eilonwy, ignoran­do o bardo —, se tem quaisquer notícias a respeito dele, a única coisa sensata a fazer é ir encontrar Gwydion e contar-lhe o que sabe.

— Isto é sensato — observou Doli. — Já teremos bas­tante dificuldade para chegar a Caer Cadarn sem chapinhar sem rumo em pântanos numa procura infrutífera. Trate de ouvi-la. Ela é a única pessoa, além de mim, que tem alguma noção do que deve ser feito.

Taran hesitou.

— Pode ser— admitiu ele, depois de uma pausa — que seja mais sensato nós voltarmos para junto de Gwydion. O Rei Morgant e seus guerreiros poderão nos dar alguns reforços.

Ele disse essas palavras com algum esforço; no fundo de sua mente, Taran ansiava por encontrar o caldeirão, trazê-lo de volta em triunfo para Gwydion. Apesar disso, não podia negar para si mesmo que Eilonwy e Doli haviam proposto o plano mais seguro.

— Então parece-me — começou ele. Mas mal havia começado a concordar com Doli, Ellidyr abriu caminho à for­ça até a lareira.

— Menino porcariço — disse Ellidyr—, soube escolher bem. Volte com seus amigos e deixe-nos nos despedir aqui.

— Nos despedir? — perguntou Taran, confuso.

— Então acha que eu iria dar as costas agora, quando o prêmio está quase ganho? — perguntou Ellidyr friamente. — Siga seu caminho, menino porcariço, e eu seguirei o meu, para os próprios Pântanos de Morva. Espere por mim em Caer Cadarn — acrescentou Ellidyr com um sorriso de es­cárnio. — Aqueça sua coragem ao lado da lareira. Eu levarei o caldeirão para lá.

Os olhos de Taran faiscaram de raiva ao ouvir as pala­vras de Ellidyr. A simples idéia de que Ellidyr pudesse encon­trar o caldeirão era mais do que ele podia suportar.

— Vou aquecer minha coragem, Filho de Pen-Llarcau — exclamou —, em qualquer fogueira que o senhor esco­lher! O resto de vocês pode voltar, se isso é o que querem. Fui um idiota por dar ouvidos às opiniões de uma garota!

Eilonwy deixou escapar um grito furioso. Doli levantou a mão em sinal de protesto, mas Taran o interrompeu. Esta­va mais calmo, agora que o primeiro ímpeto de raiva havia passado.

— Isto não é uma competição para ver quem tem mais coragem — declarou. — Eu seria duas vezes idiota, e o sería­mos todos nós, se nos deixássemos espicaçar por uma pro­vocação fútil. Isto, pelo menos, eu aprendi com Gwydion. Mas também há o seguinte: neste mesmo instante, enquanto estamos aqui, Arawn procura pelo caldeirão. Não podemos ousar perder o tempo que seria necessário para buscar refor­ços. Se ele encontrar o caldeirão antes de nós...

— E se não encontrar? — argumentou Doli. — Como sabe que Arawn sabe onde está? E se não souber, quanto tempo vai levar para descobrir? Um bom tempo, tenho cer­teza, mesmo com todos os seus Nascidos do Caldeirão e Caçadores e guidaintes, e o que mais você quiser! De qual­quer maneira, existe um risco, qualquer cabeça-dura, igno­rante, pode ver isso. Mas se quiser saber minha opinião, exis­te um risco maior se você partir desabalado para se embrenhar nos Pântanos de Morva do que se não for.

— E você, Taran, de Caer Dallben — acrescentou Eilonwy —, está apenas encontrando desculpas para justificar uma de suas idéias insensatas. Você já falou e falou, mas se esqueceu de uma coisa. Não é você quem tem o poder de decidir coisa nenhuma; nem Ellidyr. Quem comanda todos os dois é Adaon, se não me engano.

Taran corou ao ouvir o lembrete de Eilonwy.

— Perdoe-me, Adaon — disse, baixando a cabeça. — Não tive a intenção de desobedecer às suas ordens. A escolha é sua.

Adaon, que estivera ouvindo em silêncio, parado junto da lareira, sacudiu a cabeça.

— Não — disse ele baixinho —, esta escolha não pode ser minha. Não disse nada nem a favor nem contra seu plano; a decisão é de importância demasiado grande para que eu ouse tomá-la.

— Mas por quê? — exclamou Taran. — Não compreen­do — prosseguiu rapidamente e com preocupação. — De todos nós, é a pessoa que está mais bem preparada para saber o que fazer.

Adaon voltou seus olhos cinzentos para o fogo.

— Talvez você venha a compreender um dia. Por ora, escolha seu caminho, Taran, de Caer Dallben — disse ele. — Para onde quer que possa conduzir, prometo-lhe minha ajuda.

Taran se retraiu e ficou em silêncio por um momento, cheio de angústia e de inquietação. Não era medo o que tocava seu coração, e sim a tristeza indizível de folhas secas desoladas, impetuosamente impelida a correr com o vento. Adaon continuou a observar a dança das chamas.

— Eu irei para os Pântanos de Morva — disse Taran. Adaon assentiu.

— Então, assim seja.

Ninguém falou depois disso. Nem mesmo Ellidyr fez nenhum comentário; apenas mordeu os lábios e passou os dedos no punho da espada.

— Bem — disse Doli finalmente —, suponho que já que é assim é melhor eu ir também. Para fazer o que puder. Mas é um erro, estou avisando.

— Erro? — exclamou jubilante o bardo. — De maneira nenhuma! Eu não permitiria que me impedissem de ir!

— E eu certamente não permitirei — declarou Eilonwy. — Alguém tem que se assegurar que haja pelo menos alguns de nós com bom senso neste grupo. Pântanos! Ugh! Se insis­tem em fazer papel de tolos, eu gostaria que tivessem esco­lhido uma maneira mais seca.

— E Gurgi ajudará! — gritou Gurgi, levantando-se de um salto. — Sim, sim, com procuradelas e espreitadelas!

— Gwystyl — disse Doli, com uma expressão de resig­nação —, você também faria bem se fosse buscar aquele pó de que estava falando.

Enquanto Gwystyl avidamente vasculhava a alcova, o anão respirou fundo, tremeluziu e tornou-se invisível. Depois de um bom tempo, ele voltou, plenamente visível e parecen­do furibundo, as orelhas tremendo e com as beiradas azuis.

— Há cinco Caçadores acampados na encosta, mais acima— disse ele. —Já se acomodaram para passar a... ah, ai minhas orelhas.., noite. Se aquele pó servir para alguma coisa, poderemos muito bem estar longe antes que eles sequer sai­bam que estivemos aqui.

Os companheiros cobriram os pés e os cascos de seus cavalos de batalha com uma substância preta que Gwystyl distribuiu tirando de uma saca bolorenta. Ele parecia quase alegre, enquanto Taran desatava Melynlas e conduzia o cava­lo para a saída, por trás da cortina de espinheiros.

— Adeus, adeus — murmurou Gwystyl. — Detesto vê-los desperdiçarem seu tempo, para não falar em suas vidas. Mas suponho que é assim que sejam as coisas. Hoje aqui, amanhã sumidos, e o que se pode fazer a respeito disso? Adeus. Espero que voltemos a nos encontrar. Mas não bre­vemente. Adeus.

E com essas palavras o portal se fechou. Taran segurou com mais firmeza as rédeas de Melynlas e os companheiros moveram-se silenciosamente pela floresta.


 

Uma Pedra no Sapato

Do lado de fora do posto avançado, a noite já havia caído; o céu estava claro mais uma vez, mas o frio tornara-se mais intenso. Adaon e Fflewddur realizaram um conselho apressado para decidir que caminho seguir e chegaram a um acordo que o grupo deveria cavalgar para oeste até a alvorada, esconder-se e dormir, depois virarem direção ao sul. Como antes, Eilonwy cavalgou junto com Taran, em Melynlas, e Gurgi agarrou-se à garupa de Lluagor.

Fflewddur havia se oferecido para conduzir o grupo, afirmando que nunca havia se perdido e que seria capaz de encontrar os Pântanos de olhos fechados; depois de duas cordas da harpa terem se partido, ele reconsiderou e cedeu sua posição a Adaon. Doli, ainda resmungando furiosamen­te sobre suas orelhas que zumbiam, vinha por último, como retaguarda, embora se recusasse terminantemente a se tor­nar invisível quaisquer que fossem as circunstâncias.

Ellidyr não tinha falado com ninguém desde que ha­viam deixado o melancólico Gwystyl, e Taran tinha visto a raiva fria em seus olhos depois da decisão dos companhei­ros de seguir adiante para os Pântanos de Morva.

— Creio que ele realmente teria tentado trazer o cal­deirão de volta sozinho — comentou Taran com Eilonwy. — E você sabe que chances ele teria tido sozinho. Isso é o tipo de coisa infantil que eu teria feito quando era um Porqueiro-Assistente.

— Você ainda é um Porqueiro-Assistente — respon­deu Eilonwy. — Você está indo para esses pântanos idiotas só por causa de Ellidyr e qualquer outra coisa que diga é pura besteira. Não me diga que não teria sido mais sensato ir ao encontro de Gwydion. Mas, não, você tem que decidir exata­mente o contrário e arrastar todos nós junto.

Taran não respondeu. As palavras de Eilonwy o afligi­ram — sobretudo, porque já havia começado a se arrepen­der de sua decisão. Agora que os companheiros estavam em marcha, as dúvidas o atormentavam e seu coração estava pesado. Taran não conseguia esquecer o estranho tom na voz de Adaon e buscou repetidas vezes compreender por que ele havia se recusado a fazer uma escolha que, por direi­to, lhe pertencia. Fez Melynlas trotar para se aproximar mais de Adaon e inclinou-se na sela.

— Estou preocupado — disse em voz baixa — e agora me pergunto se não deveríamos fazer meia-volta e retomar. Receio que tenha me escondido alguma coisa e, tivesse eu sabido o que era, teria feito uma escolha diferente.

Se Adaon compartilhava as dúvidas de Taran, não deu nenhum sinal disso. Na sela, cavalgava bem ereto, como se tivesse adquirido novas forças e o cansaço da jornada não pudesse mais tocá-lo. Em seu semblante havia uma expres­são que Taran nunca vira antes, que não conseguia com­preender. Nela havia orgulho, porém, mais que isso; pois ema­nava também uma luz que parecia quase jubilosa.

Depois de uma pausa prolongada, Adaon disse:

— Para cada um de nós há um destino traçado que im­põe que façamos o que temos que fazer, embora nem sem­pre nos seja concedido o dom de vê-lo.

— Eu acredito que o senhor veja muitas coisas — res­pondeu Taran baixinho —, muitas coisas que não conta a ninguém. Já faz bastante tempo, tem estado muito presente em meus pensamentos — prosseguiu ele, com muita hesita­ção —, e agora mais do que nunca... o sonho que teve, na­quela última noite em Caer Dallben. O senhor viu Ellidyr e o Rei Morgant; para mim, previu que eu seria dominado pelo pesar e pelo luto. Mas o que sonhou a respeito de si mesmo?

Adaon sorriu.

— É isso o que o aflige? Muito bem, eu lhe contarei. Eu me vi numa clareira; e, embora o inverno estivesse por toda parte, estava aquecida e ensolarada. Os passarinhos canta­vam e as flores brotavam de pedras nuas.

— Seu sonho foi bonito — comentou Eilonwy —, mas não consigo compreender seu significado.

Taran assentiu, concordando.

— Sim, é bonito. Eu receava que tivesse sido um sonho infeliz e que por este motivo tivesse preferido não falar a respeito dele.

Adaon não disse mais nada e Taran voltou a entregar-se a seus próprios pensamentos, ainda sem ter encontrado nada que o tranqüilizasse. Melynlas seguiu adiante, com passo se­guro, a despeito da escuridão. O garanhão conseguia evitar as pedras soltas e os galhos caídos que obstruíam a trilha, mesmo sem as mãos de Taran controlando as rédeas. Com os olhos pesados de cansaço, Taran se debruçou para a fren­te e deu palmadinhas no pescoço forte do garanhão.

— Siga o caminho, meu amigo — murmurou Taran. — Você certamente o conhece melhor do que eu.

Ao raiar do dia, Adaon levantou a mão e sinalizou uma parada. Para Taran, parecia que haviam cavalgado durante a noite inteira, descendo por uma longa série de encostas em declive. Ainda estavam na Floresta de Idris, mas ali o terreno se nivelava um pouco. Muitas das árvores ainda estavam co­bertas de folhas, a vegetação rasteira era mais espessa, a terra menos nua do que nas colinas ao redor do Portão Escuro. Doli, com seu pônei bufando uma névoa branca, se aproxi­mou galopando depois de um reconhecimento de terreno, para relatar que não havia nenhum sinal dos Caçadores na trilha deles.

— Quanto tempo o pó daquele bicho-da-farinha amare­lado vai durar, não saberia dizer — comentou o anão. — E, de qualquer maneira, não creio que vá nos ser muito útil. Se Arawn estiver procurando pelo caldeirão, ele vai examinar tudo muito de perto e atentamente. Os Caçadores devem saber que vie­mos mais ou menos nesta direção. Se um número suficiente deles se mantiver atrás de nós, mais cedo ou mais tarde acaba­rão por nos encontrar. Aquele Gwystyl, que ajuda de uma figa ele nos deu! Huumm! E seu corvo, também. Huumm! Gostaria que não tivéssemos encontrado nenhum dos dois.

Ellidyr havia desmontado e estava ansiosamente exami­nando a pata dianteira esquerda de Islimach. Taran também desmontou e se encaminhou para junto de Ellidyr. A égua relinchou e revirou os olhos quando ele se aproximou.

— Ela está mancando — disse Taran. — A menos que possamos ajudá-la, receio que não vá conseguir acompanhar nosso passo.

— Não preciso de nenhum menino porcariço para me dizer isso — respondeu Ellidyr. Ele se abaixou e examinou o casco da égua com uma delicadeza de toque que surpreen­deu Taran.

— Se você diminuísse sua carga — sugeriu Taran —, poderia aliviá-la por algum tempo. Fflewddur pode levá-lo na garupa.

Ellidyr se endireitou, os olhos escuros e amargos.

— Não me dê conselhos sobre meu cavalo de batalha. Islimach pode continuar. E vai continuar.

Apesar disso, quando Ellidyr se virou e se afastou, Ta­ran viu o rosto dele se contrair numa expressão cheia de preocupação.

— Deixe-me examiná-la — pediu Taran. — Talvez eu possa descobrir qual é o problema. — Ele se ajoelhou e es­tendeu a mão para a pata dianteira de Islimach.

— Não toque nela — gritou Ellidyr. — Ela não aceitará as mãos de um estranho.

Islimach empinou e arreganhou os dentes. Ellidyr deu uma gargalhada zombeteira.

— Aprenda sofrendo na própria pele, menino porcariço — disse ele. — Os cascos dela são afiados como facas, como verá.

Taran se levantou e agarrou as rédeas de Islimach. Por um momento, quando a égua arremeteu para cima dele, te­meu que ela realmente fosse pisoteá-lo. Os olhos de Islimach estavam arregalados de terror; relinchou, empinou e escoiceou, vindo para cima dele. Um casco bateu de raspão contra seu ombro, mas Taran não afrouxou as rédeas. Estendeu o braço para cima e pôs a mão na cabeça alongada e ossuda de Isli­mach. A égua estremeceu, mas Taran falou baixinho e em tom tranqüilizador com ela. Islimach sacudiu a crina, baixando a cabeça, os músculos tensos relaxaram; as rédeas ficaram folgadas e ela não tentou mais se afastar.

Sem interromper o fluxo de palavras tranqüilizadoras, Taran levantou-lhe o casco. Como suspeitava, havia uma pe­drinha dentada profundamente encravada atrás da ferradura. Ele puxou a faca. Islimach tremeu, mas Taran trabalhou rápi­da e habilmente. A pedra se soltou e caiu no chão.

— Isso também já aconteceu com Melynlas — explicou Taran, dando palmadinhas no flanco da ruana. — Existe um lugar bem fundo no casco, qualquer um pode deixá-lo passar despercebido se não souber onde é. Foi Coll quem me ensi­nou a encontrá-lo.

O rosto de Ellidyr estava lívido.

— Já tentou me roubar a honra, menino porcariço — disse ele por entre os dentes cerrados. — Agora vai me rou­bar meu cavalo?

Taran não havia esperado agradecimentos, mas a esto­cada furiosa de Ellidyr o apanhou de surpresa. A mão de Ellidyr estava sobre a espada. Taran sentiu um ímpeto de rai­va em resposta, o sangue subindo-lhe às faces, mas deu-lhe as costas e se afastou dizendo friamente:

— A sua honra é sua, do mesmo modo que seu cavalo de batalha. Qual é a pedra que tem em seu sapato, Príncipe de Pen-Llarcau?

Ele se encaminhou para junto de seus companheiros, que haviam se abrigado sob o emaranhado das moitas. Gurgi já tinha aberto a mochila e orgulhosamente estava distribuin­do seu conteúdo.

— Sim, sim! — exclamou Gurgi alegremente —, lambiscos e petiscos para todos! Graças ao generoso e bondoso Gurgi! Ele não deixará os bravos guerreiros sofrerem com barrigas cheias apenas de roncos, bramidos e rugidos!

Ellidyr continuava mais para trás, dando palmadinhas no pescoço de Islimach e murmurando no ouvido da ruana. Uma vez que não fez nenhum movimento para se juntar aos com­panheiros para a refeição, Taran gritou um convite. Mas o Príncipe de Pen-Llarcau deu-lhe apenas um olhar amargo e permaneceu ao lado de Islimach.

— Aquela égua mal-humorada é a única coisa com que ele se importa — resmungou o bardo — e, até onde posso ver, a única criatura que gosta dele. Se querem minha opi­nião, eles são iguais e se merecem.

Adaon, sentado um pouco afastado dos outros, cha­mou Taran.

— Quero elogiar sua paciência — disse ele. — O mons­tro negro esporeia Ellidyr cruelmente.

— Acho que ele vai se sentir melhor depois que encon­trarmos o caldeirão — respondeu Taran. — Haverá bastante glória para todos.

Adaon sorriu sombriamente.

— Não há bastante glória em viver os dias que nos são dados? Você deveria saber que existe aventura, simplesmen­te, em estar entre aqueles a quem amamos e as coisas que amamos, e beleza também.

— Mas quero lhe falar de um outro assunto — prosse­guiu Adaon. Seu belo semblante, geralmente tranqüilo, esta­va carregado e triste. — Tenho poucos bens pessoais, pois os considero sem importância. Mas, estes poucos, prezo muito: Lluagor, meus saquinhos de ervas curativas e isto — disse ele, tocando no broche em sua garganta —, o broche que uso, um presente precioso de Arianllyn, minha noiva. Se alguma desgraça me acontecer, eles são seus. Tenho observado você muito atentamente, Taran de Caer Dallben. Em todas as mi­nhas jornadas não encontrei nenhuma outra pessoa a quem preferiria confiá-los.

— Não fale de lhe acontecer alguma desgraça — excla­mou Taran. — Somos companheiros e protegemos uns aos outros dos perigos. Além disso, Adaon, para mim, sua amiza­de já me basta como presente.

— Mesmo assim — respondeu Adaon —, não temos como saber tudo o que o futuro nos reserva. Você os aceita?

Taran assentiu.

— Isso é bom — disse Adaon. — Agora meu coração está mais leve.

Depois da refeição, ficou decidido que eles descansa­riam até o meio-dia. Ellidyr não fez comentários quando Adaon lhe ordenou que montasse o primeiro turno de guarda. Taran se enrolou na capa sob a proteção de um arbusto. Esgotado pela jornada e por causa de suas próprias dúvidas e temores, dormiu pesadamente.

O sol estava alto quando Taran abriu os olhos. Sentou-se sobressaltado, ao dar-se conta de que seu turno de guarda já havia quase acabado. Ao seu redor, os companheiros ainda dormiam.

— Ellidyr — chamou em voz alta —, por que não me acordou? — Ele pôs-se de pé rapidamente. Não havia ne­nhum sinal de Ellidyr nem de Islimach.

Taran apressadamente despertou os outros. Correu uma pequena distância em meio às árvores, depois retornou fa­zendo um círculo completo.

— Ele foi embora! — exclamou Taran. — Saiu para pro­curar o caldeirão sozinho. Disse que faria isso e agora o fez!

— Nos passou para trás em um dia de marcha, não foi? — resmungou Doli. — Bem, vamos alcançá-lo, e se não o alcançarmos, isso é problema dele. Ele não sabe para onde está indo e, já que estamos falando nisso, também não sabemos.

— Que bom que nos livramos dele — comentou Fflewddur. — Se tivermos alguma sorte, não voltaremos a vê-lo.

Pela primeira vez Taran viu uma profunda preocupação no rosto de Adaon.

— Temos que ultrapassá-lo rapidamente — disse Adaon. — O orgulho e a ambição de Ellidyr o engolirão. Receio sequer pensar no que aconteceria se o caldeirão caísse em suas mãos.

Eles partiram com toda a rapidez possível. Adaon logo encontrou os rastros de Ellidyr seguindo rumo ao sul.

— Eu estava na esperança de que Ellidyr pudesse ter se aborrecido com a coisa toda e ido para casa — comentou Fflewddur—, mas não há possibilidade de dúvida, ele está se dirigindo para Morva.

Apesar da velocidade com que avançavam, os compa­nheiros não viram sinal de Ellidyr, pessoalmente. Eles segui­ram adiante, arrancando as últimas forças dos cavalos exaus­tos, até que foram obrigados a parar para um descanso. Um vento frio havia começado a soprar, levantando as folhas em grandes redemoinhos que giravam acima da cabeça deles.

— Não sei se podemos alcançá-lo — disse Adaon. — Ele cavalga tão rapidamente quanto nós e tem uma dianteira de quase um quarto de dia.

Com o coração disparado, Taran desmontou de Melynlas e deixou-se cair no solo. Apertou a cabeça entre as mãos. De alguma distância ouviu-se o grito estridente de um pássaro, o primeiro cantar de pássaro que ele escutava desde que havia deixado Caer Dallben.

— Isso não é um verdadeiro cantar de pássaro — excla­mou Adaon, levantando-se de um salto. — Os Caçadores nos encontraram.

Sem esperar pela ordem de Adaon, o anão correu na direção do chamado dos Caçadores. Enquanto Taran obser­vava, Doli desapareceu diante de seus olhos. Adaon desembainhou a espada.

— Desta vez precisamos resistir e enfrentá-los — de­clarou. — Não podemos mais fugir deles. — Rapidamente ordenou a Taran, Eilonwy e Gurgi que preparassem seus ar­cos, enquanto ele e o bardo montavam seus cavalos.

Minutos depois o anão estava de volta.

— Cinco Caçadores! — exclamou. — Vocês, sigam adiante. Eu os apanharei de surpresa como fiz antes.

— Não — disse Adaon. — Não creio que vá funcionar de novo. Depressa, sigam-me.

Ele os conduziu por uma clareira e se deteve na orla mais afastada.

— Prepararemos nossa defesa aqui — disse Adaon. — Assim que eles estiverem à vista, Fflewddur, Doli e eu os atacaremos pelo flanco. Quando se virarem para dar comba­te, vocês lançam as flechas.

Adaon girou o cavalo para ficar de frente para a clareira. Um instante depois os Caçadores irromperam da cobertura das árvores. Mal tinham dado um passo adiante quando Adaon, com um brado poderoso, fez seu cavalo avançar atravessan­do o terreno. Doli e o bardo galoparam a seu lado. No ins­tante em que Taran tensionou o arco, Adaon estava bem no meio dos Caçadores, golpeando à esquerda e à direita com a espada. O anão havia tirado o machado curto e grosso do cinto e saído cortando furiosamente os inimigos. Surpreendi­dos pelo ataque feroz, os Caçadores giraram para dar com­bate aos cavaleiros.

Taran lançou sua flecha e ouviu as setas de Eilonwy e Gurgi passarem zunindo no ar. A trajetória de todas as três foi a esmo; desviadas pelo vento, as setas acabaram deslizan­do em meio aos arbustos secos. Gritando loucamente, Gurgi encaixou outra flecha no arco. Três Caçadores avançaram sobre Fflewddur e o anão, obrigando-os a recuar para uma moita. A espada de Adaon reluzia e retinia chocando-se con­tra as armas de seus atacantes.

Taran agora não tinha mais coragem de lançar outra flecha por temor de acertar um dos companheiros.

— Estamos lutando inutilmente — gritou ele, e atirou o arco no chão. Taran desembainhou a espada e correu para o lado de Adaon.

Um dos Caçadores desviou seu ataque para Taran, que o golpeou com toda sua força. O impacto do golpe foi amorte­cido pelo gibão de peles de animais, mas o Caçador escorre­gou e caiu no chão. Taran deu um passo à frente. Ele havia se esquecido dos temíveis punhais dos Caçadores, até que viu o homem se soerguer, passar a mão no cinto e puxar o seu.

Taran gelou de horror. Diante dele, viu o rosto rosnador com sua marca de fogo carmesim, o braço erguido para arre­messar a arma. De repente, Lluagor meteu-se entre ele e o Caçador. Adaon se levantou na sela e girou a espada para baixo. Enquanto o Caçador tombava, a faca voou rebrilhando no ar.

Adaon arquejou e deixou cair sua arma. Então tombou sobre a crina de Lluagor, agarrando o punhal cravado no peito.

Com um grito de angústia, Taran o segurou quando ia caindo.

— Fflewddur! Doli! — gritou Taran. — A nossa guarda! Adaon está ferido!


 

O Broche

O cavalo de Fflewddur empinou quando os Caça­dores voltaram seu ataque contra ele. A morte de um homem do grupo deles havia incitado o inimigo a uma violência e frenesi ainda maiores.

— Leve-o para um lugar seguro! — gritou o bardo. Com um salto poderoso seu cavalo de batalha ultra­passou os arbustos e moveu-se muito rapidamente para dentro da floresta. O anão, montado em seu pônei, o se­guiu. Com um grito de fúria, os Caçadores restantes os perseguiram.

Taran agarrou as rédeas de Lluagor e, enquanto Adaon se segurava na crina do cavalo, correu em direção à orla da clareira. Eilonwy correu ao encontro deles. Dividindo o peso, eles impediram que Adaon caísse e abriram caminho rapi­damente em meio à vegetação rasteira. Gurgi, conduzindo Melynlas, correu atrás deles.

Correram às cegas, tropeçando nos espinheiros e nas redes ásperas de trepadeiras mortas. O vento havia come­çado a soprar mais forte, frio e cortante como uma tem­pestade de inverno, mas a floresta se abriu um pouco e, à medida que o solo se inclinava para baixo, encontraram-se em uma ravina protegida que rasgava a mata de amieiros for­mando uma clareira.

Da garupa de Lluagor, Adaon levantou a cabeça e gesti­culou para que parassem. O rosto dele estava pálido e con­traído, os cabelos negros, úmidos, colados em sua testa.

— Ponham-me no chão — murmurou. — Deixem-me ficar aqui. Não posso mais continuar. Como o bardo e Doli estão se saindo?

— Eles conduziram os Caçadores para longe de nós — respondeu Taran rapidamente. — Estaremos em segurança aqui por algum tempo. Tenho certeza de que Doli pode tirá-los de nosso rastro e Fflewddur o ajudará. De alguma forma eles virão se juntar a nós, tenho certeza. Agora descanse. Vou buscar seus medicamentos nos alforjes.

Cuidadosamente, eles retiraram Adaon de seu cavalo e carregaram-no para uma pequena elevação. Enquanto Eilonwy trazia o cantil de couro, Taran e Gurgi desarreavam Lluagor e punham a sela sob a cabeça de Adaon. O vento uivava acima das árvores, mas, em contraste, aquele recanto abrigado pa­recia aquecido. As nuvens se foram, carregadas pelo vento; o sol tingiu os galhos de dourado.

Adaon se levantou um pouco. Seus olhos cinzentos exa­minaram a clareira e ele assentiu brevemente.

— Sim, este é um belo lugar. Vou descansar aqui.

— Nós cuidaremos de seu ferimento — respondeu Taran, apressadamente abrindo um saquinho de ervas. — Logo estará melhor e, se tivermos que sair daqui, poderemos fazer uma liteira de galhos e suspendê-la em nossos cavalos.

— Estou bastante confortável — respondeu Adaon. — A dor passou e está agradável aqui, o ar tão cálido como se fosse primavera.

Diante das palavras de Adaon o coração de Taran se encheu de terror. A clareira silenciosa, o sol nos amieiros de repente pareciam-lhe ameaçadores.

— Adaon — exclamou angustiado —, isto foi o que sonhou!

— Sim, é muito parecido — respondeu Adaon baixinho. — Então sabia! — exclamou Taran. — Sabia que have­ria perigo para o senhor. Por que não falou a respeito disso antes? Eu nunca teria insistido em procurar encontrar os Pân­tanos. Poderíamos ter voltado.

Adaon sorriu.

— Isso é verdade. De fato, foi por isso que não ousei falar. Tenho ansiado por estar novamente junto de minha amada Arianllyn, e meus pensamentos, agora, estão com ela. Mas se eu tivesse escolhido voltar, para sempre me pergunta­ria se minha escolha havia sido feita por sabedoria ou para seguir os desejos de meu próprio coração. Vejo isto como o que tinha de ser e o destino que estava traçado para mim. Estou contente de morrer aqui.

— O senhor salvou minha vida — exclamou Taran. — Não perderá sua vida por mim. Nós acharemos um caminho para chegar a Caer Cadarn e encontrar Gwydion.

Adaon sacudiu a cabeça. Ele levou a mão à garganta e abriu o fecho que prendia o broche de ferro no colarinho de seu gibão.

— Fique com isto — disse ele. — Guarde-o bem. É uma coisa pequenina, porém mais valiosa do que pode imaginar.

— Tenho que recusar — respondeu Taran com um sorriso que mal escondia sua ansiedade. — Isto seria aceitar um presente de um homem moribundo. Mas o senhor vive­rá, Adaon.

— Fique com ele — repetiu Adaon. — Isto não é uma ordem, mas um desejo que peço que satisfaça, um pedido de amigo para amigo. — Ele apertou o broche na mão de Taran, que resistia a recebê-lo.

Eilonwy tinha se aproximado com água para fazer a in­fusão de ervas. Taran pegou a água e se ajoelhou ao lado de Adaon.

Os olhos de Adaon haviam se fechado. Seu semblante estava calmo; sua mão jazia aberta e estendida no chão. E assim ele morreu.

Quando o choque do luto, o pesar e a tristeza amaina­ram um pouco, os companheiros cavaram uma cova, forrando-a com pedras achatadas. Embrulhando-o em sua capa, baixaram Adaon à sepultura e cobriram-no delicadamente com torrões de grama, enquanto Lluagor relinchava triste­mente e raspava a terra seca com o casco. Então eles ergue­ram um monte de pedregulhos. Em um canto abrigado da clareira, Eilonwy encontrou e colheu punhados de pequenas flores ainda intocadas pela geada. Ela as espalhou sobre a sepultura, onde caíram nas fendas e pareceram brotar das próprias pedras.

Eles permaneceram ali, silenciosamente, até o anoitecer, sem que houvesse sinal de Fflewddur ou Doli.

— Esperaremos por eles até o amanhecer— disse Taran. — Mais tempo que isso, não devemos ousar ficar. Receio que tenhamos perdido mais que um nobre e bravo amigo.

— Adaon me avisou que eu seria dominado pelo pesar e pelo luto — murmurou consigo mesmo. — E de fato estou, muito profundamente.

Demasiado abatidos pelo sofrimento, cansados demais para montar guarda, eles se aninharam em suas capas e dor­miram. Da mesma forma que estava confuso seu espírito, os sonhos de Taran foram confusos, cheios de desalento e te­mor. Neles, ele viu as faces pesarosas dos companheiros, o semblante calmo de Adaon. Viu Ellidyr ser agarrado por um monstro negro que enterrou as garras nele e o apertou até que começou a gritar desesperado.

As imagens inquietantes cederam lugar a uma vasta ex­tensão de pradaria, onde Taran correu em meio à relva alta que lhe chegava à altura dos ombros, desesperadamente bus­cando um caminho que não conseguia encontrar. Ao alto, um pássaro esvoaçou e abriu as asas. Ele o seguiu e um cami­nho se abriu diante de seus pés.

Viu também um córrego turbulento com um grande pedregulho no meio. Sobre o pedregulho estava a harpa de Fflewddur, que tocava sozinha à medida que o vento agitava suas cordas.

Em seguida, Taran estava correndo em meio a um pân­tano sem vestígios de caminho. Um urso e dois lobos parti­ram para cima dele e tentaram despedaçá-lo com suas presas arreganhadas. Aterrorizado, ele mergulhou num lago escuro, mas a água, de repente, se transformou em terra seca. As feras enfurecidas rosnaram e saltaram em cima dele.

Taran despertou sobressaltado, com o coração ba­tendo disparado. A noite mal havia acabado; os primeiros raios da alvorada elevavam-se acima da clareira. Eilonwy se mexeu, Gurgi choramingou enquanto dormia, Taran baixou a cabeça e enterrou o rosto nas mãos. O sonho ainda pesava, muito nítido, em sua mente; ainda podia ver as mandíbulas arreganhadas de um lobo e seus dentes bran­cos, pontiagudos. Ele estremeceu. Sabia que agora deveria decidir se voltaria para Caer Cadarn ou se tentava encon­trar os Pântanos de Morva.

Taran olhou para o lado, para as formas adormecidas de Gurgi e Eilonwy. Em pouco mais de um dia, os companheiros haviam sido espalhados como folhas ao vento, e só restava aquele grupo lamentavelmente pequeno, perdido e perse­guido. Como poderiam ter esperanças de encontrar o caldei­rão? Taran duvidava que sequer fossem conseguir salvar suas próprias vidas; contudo, a jornada para Caer Cadam seria tão perigosa quanto a busca do caldeirão, talvez até mais. Apesar disso, uma escolha tinha que ser feita.

Depois de algum tempo, ele se levantou e selou os cavalos. Eilonwy agora estava acordada e Gurgi levantava uma cabeça desgrenhada e coberta de gravetos das dobras de sua capa.

— Apressem-se — ordenou Taran. — É melhor come­çarmos a avançar cedo, antes que os Caçadores nos alcancem.

— Eles logo nos encontrarão — disse Eilonwy. — Pro­vavelmente estão espalhados por aí em grandes bandos en­tre aqui e Caer Cadarn.

— Nós vamos seguir para os Pântanos — disse Taran —, não para Caer Cadarn.

— O quê? — exclamou Eilonwy. — Você ainda está pensando nesses pântanos desgraçados? Acredita seriamente que podemos encontrar o caldeirão, para não falar em carregá-lo de volta de onde estiver, seja lá de onde for?

— Por outro lado — prosseguiu Eilonwy, antes que Taran pudesse responder—, imagino que seja a única coisa que po­demos fazer, agora que nos meteu nessa encrenca. E não te­mos como saber o que Ellidyr tem em mente. Se você não ti­vesse provocado o ciúme dele por causa de um cavalo idiota...

— Eu sinto pena de Ellidyr — respondeu Taran. — Adaon certa vez me disse que via um monstro negro, cruel, montado nos ombros de Ellidyr. Agora compreendo o que ele queria dizer.

— Bem — comentou Eilonwy —, estou surpreendida por ouvir você dizer isso. Mas foi generoso de sua parte aju­dar Islimach; realmente estou feliz por você ter feito isso. Tenho certeza de que sua intenção era boa e isto, por si só, é encorajador. Faz com que se pense que afinal ainda pode haver alguma esperança para você.

Taran não respondeu, pois ainda estava ansioso e sen­tindo-se oprimido, embora a lembrança dos sonhos pertur­badores tivesse começado a se apagar. Ele montou em Melynlas; Gurgi e Eilonwy montaram Lluagor e os compa­nheiros cavalgaram rapidamente, afastando-se da clareira.

Era intenção de Taran seguir para o sul, esperando de alguma forma encontrar os Pântanos de Morva dentro de mais um dia; embora admitisse para si mesmo que não tinha mais que uma vaga idéia de a que distância se encontravam ou da localização exata dos Pântanos.

O dia estava ensolarado e frio. Enquanto Melynlas trota­va sobre o solo coberto de geada, Taran avistou uma teia de aranha reluzente, coberta de orvalho, em um galho de espinheiro, e a aranha diligentemente reparando-a. De uma ma­neira estranha, Taran estava consciente de vastas atividades ao longo da trilha na floresta. Esquilos preparavam seu mealheiro para o inverno; as formigas labutavam em seus cas­telos de terra. Podia vê-las claramente, não exatamente com seus olhos, mas de uma maneira que jamais experimentara antes.

O próprio ar trazia aromas especiais. Havia um encrespar, penetrante e límpido, como vinho gelado. Taran sabia, sem parar para pensar, que um vento do norte havia come­çado a soprar. Contudo, em meio a este, percebia um outro aroma mesclado. Ele virou Melynlas para a direção de onde vinha o vento.

— Taran, uma vez que está nos conduzindo — obser­vou Eilonwy —, gostaria de saber se seria demais esperar que você soubesse para onde está indo.

— Há água aqui por perto — respondeu Taran. — Va­mos precisar encher nossos cantis... — Ele hesitou, confuso. — Sim, há um riacho — murmurou —, tenho certeza disso. Temos que ir até lá.

Apesar disso, não conseguiu dominar a surpresa quando, depois de pouco tempo, de fato chegaram a um córrego que serpenteava em meio a um arvoredo de sorveiras bravas. Eles cavalgaram até a margem. Com um grito, Taran bruscamente freou Melynlas. No meio do riacho, sentado em um pedregu­lho, estava Fflewddur, refrescando os pés descalços na água.

O bardo levantou-se de um salto e correu, levantando água, ao encontro dos companheiros. Embora abatido e can­sado, não parecia estar ferido.

— Ora, mas isto foi realmente um golpe de sorte, eu encontrar vocês, ou melhor, vocês me encontrarem. Detesto ter que admitir, mas estou perdido. Completamente. De al­guma forma, me desviei do caminho, depois que Doli e eu começamos a despistar os Caçadores. Tentei encontrar o caminho de volta e fiquei ainda mais perdido. Como está Adaon? Estou feliz que tenham conseguido... — O bardo se calou. A expressão de Taran lhe disse o que havia aconteci­do. Fflewddur sacudiu a cabeça com tristeza. — Existem pou­cos homens como Adaon — comentou. — Não vai ser fácil para nós superar sua perda. Nem a perda do nosso bom e velho Doli.

— Não sei muito bem o que aconteceu — prosseguiu Fflewddur. — Tudo o que sei é que estávamos galopando a toda a velocidade. Vocês precisavam tê-lo visto! Ele cavalgava como um louco desatinado, tornando-se invisível e depois reaparecendo de novo, os Caçadores correndo atrás dele. Se não tivesse sido por ele, teriam me derrubado com certe­za. Agora, estão mais fortes do que nunca. Então meu cavalo caiu. Isto é — acrescentou o bardo apressadamente, quando as cordas da harpa se tensionaram e ressoaram com estridência—, eu caí do cavalo. Felizmente, àquela altura, Doli já os havia conduzido para bem longe. Na velocidade com que estava cavalgando... — Fflewddur deixou escapar um profundo suspiro. — O que aconteceu com ele depois disso, não sei.

O bardo puxou e prendeu as perneiras. Havia caminha­do uma grande distância e ficou bastante satisfeito por poder cavalgar mais uma vez. Gurgi montou em sua garupa em Lluagor. Taran e Eilonwy montaram em Melynlas. As notícias do bardo haviam deixado Taran ainda mais deprimido, pois ele se dava conta de que havia muito pouca chance de que Doli pudesse voltar a se juntar a eles. Apesar disso, continuou a conduzir os companheiros rumo ao sul.

Até que pudesse reconhecer algum marco, Fflewddur concordou que aquele era o único rumo a seguir.

— O problema é que — explicou ele —, se nos des­viarmos demais para o sul, simplesmente acabaremos no mar e nem sequer veremos os Pântanos.

O próprio Taran não tinha sugestões a oferecer. Abati­do, deu rédeas a Melynlas e não fez nenhum esforço para guiar o garanhão. As árvores começaram a escassear às suas costas e os companheiros entraram em uma ampla campina ondulante. Taran, quase cochilando na sela, com a capa abrigando-lhe bem os ombros, despertou inquieto. A campina, com sua relva alta se estendendo por toda parte ao redor deles, era familiar. Ele a vira antes; onde, não conseguia se lembrar muito bem. Tocou com os dedos no broche de Adaon em sua garganta. De repente, com temor e excitação, com­preendeu. Suas mãos tremeram ao fazer a descoberta. Taran olhou rapidamente para cima. Um pássaro cinzento voou em círculos, planou descendo, com as asas bem abertas, então voou rapidamente atravessando a campina e desapareceu de vista.

— Aquele era um pássaro do pântano — disse Taran, rapidamente virando-se em Melynlas. — Se seguirmos por aqui — acrescentou, apontando na direção para onde o pás­saro voara —, tenho certeza de que chegaremos a Morva.

— Belo trabalho! — exclamou o bardo. — Tenho que confessar que jamais teria reparado.

— Esta pelo menos foi uma coisa inteligente que você fez hoje — admitiu Eilonwy.

— Isso não foi obra minha — declarou Taran, com o cenho franzido numa expressão perplexa e intrigada. — O que Adaon disse é verdade. Seu presente é um presente precioso. — Apressadamente, contou a Eilonwy sobre o bro­che e os sonhos da noite anterior.

— Você não compreende? — exclamou ele. — Sonhei com a harpa de Fflewddur, e nós encontramos Fflewddur em pessoa. Não foi exatamente minha idéia sair à procura de um riacho; apenas me ocorreu, de repente, e tive certeza de que o encontraríamos. Ainda agora, quando vi o pássaro, aquilo estava em meu sonho. E houve um outro sonho, um sonho terrível, com lobos... Isso também vai acontecer. Tenho cer­teza de que vai. Os sonhos de Adaon sempre se realizavam. Ele me falou de seus sonhos.

Inicialmente, Eilonwy relutou em acreditar nele.

— Adaon era um homem maravilhoso — disse ela. — Não pode vir me dizer que era tudo apenas por causa de um pedaço de ferro. Não me interessa quanto o broche seja mágico.

— Não é isso que estou querendo dizer— reagiu Taran. — O que acredito é que Adaon, por si mesmo, já possuísse um conhecimento e uma compreensão dessas coisas. Mes­mo com o broche, há muita coisa que eu não compreendo. Tudo que sei é que, de alguma forma, sinto as coisas de uma maneira diferente. Posso ver coisas que nunca vi antes, ou sentir-lhes o cheiro ou o sabor. Não sei dizer exatamente o que é. É estranho e assustador de certa forma. E muito boni­to, por vezes. Existem coisas que eu sei... — Taran sacudiu a cabeça. — E não sei nem como sei delas.

Eilonwy ficou em silêncio por um momento.

— Sim — disse ela lentamente —, agora acredito. Até seu modo de falar está diferente, nem parece você. O bro­che de Adaon é um presente de valor inestimável. Ele lhe dá uma espécie de sabedoria — acrescentou ela — que é, supo­nho, aquilo de que Porqueiros-Assistentes precisam, mais do que qualquer outra coisa.


 

Os Pântanos de Morva

A partir do momento em que o pássaro dos pân­tanos apareceu, Taran conduziu os companhei­ros rapidamente, seguindo um caminho que agora lhe parecia claro. Sentia os músculos potentes de Melynlas movendo-se sob seu corpo e guiou o cavalo de batalha com uma destreza não habitual. O garanhão respondeu a esse novo punho nas rédeas com vigorosas explosões de velocidade, tão intensas que Lluagor mal conseguia acompanhá-lo. Fflewddur gritou para que Taran fizesse uma parada e deixasse que todos eles recu­perassem um pouco o fôlego. Gurgi, parecendo uma saca de feno carregada pelo vento, desmontou agradecido e até Eilonwy deu um suspiro de alívio.

— Já que paramos — disse Taran —, Gurgi bem que poderia distribuir alguma comida. Mas é melhor encontrar­mos abrigo, se não quisermos ficar encharcados.

— Encharcados? — exclamou Fflewddur. — Grande Belin, não há uma única nuvem no céu! Está um dia glorio­so, levando tudo em consideração.

— Se eu fosse você — aconselhou Eilonwy ao per­plexo bardo —, ouviria o que ele está dizendo. De maneira geral, não é muito aconselhável dar-lhe ouvidos. Mas as circunstâncias agora estão um pouco diferentes.

O bardo deu de ombros e sacudiu a cabeça, mas seguiu Taran pela campina ondulante até um barranco baixo. Ali, eles encontraram uma reentrância larga e bastante profunda no sopé de uma colina.

— Espero que você não esteja ferido — comentou Fflewddur. — Meu líder de guerra, lá em minha terra, tem um velho ferimento que lhe dá umas pontadas quando o tempo vai mudar. É muito útil, admito; embora, francamente, seja uma maneira dolorosa de prever chuva. Eu sempre acho mais fácil apenas esperar e, seja lá qual for o tempo que tiver que vir, mais cedo ou mais tarde aparece.

— O vento virou — disse Taran. — Agora, está vindo do mar. É um vento impetuoso, com um sabor de maresia. Tem um cheiro de relva e ervas, o que também me faz pen­sar que não estamos muito longe de Morva. Se tudo correr bem, poderemos chegar aos Pântanos amanhã.

Pouco depois, o céu, de fato, foi encoberto pelas nuvens e uma chuva gelada começou a bater forte contra a colina. Em poucos momentos transformou-se em um pesado temporal. A chuva corria formando pequenos riachos nos dois flancos do abrigo, mas os companheiros se mantiveram secos.

— Sábio senhor — gritou Gurgi —, que nos protege de escorregadelas e molhadelas!

— Tenho que admitir — comentou o bardo —, você previu exatamente o que ia acontecer.

— Não fui eu — respondeu Taran. — Sem o broche de Adaon, receio que todos nós tivéssemos ficado ensopados.

— Como é possível isso? — perguntou Fflewddur per­plexo. — Não imaginaria que um broche pudesse ter alguma coisa a ver com isso.

Como havia explicado para Eilonwy, Taran então con­tou ao bardo as coisas que havia descoberto a respeito do broche. Fflewddur examinou cautelosamente o ornamento preso ao colarinho de Taran.

— Muito interessante — declarou. — Sejam lá quais forem as outras propriedades que ele possa ter, o broche ostenta o símbolo bárdico, são estas três linhas aqui, como uma espécie de cabeça de flecha.

— Eu as vi — observou Taran —, mas não sabia o que eram.

— É claro que não — concordou Fflewddur. — Fazem parte das tradições secretas dos bardos. Pelo menos isso eu aprendi quando estava estudando para meus exames.

— Mas o que significam? — perguntou Taran.

— Pelo que me lembro — interrompeu Eilonwy — da última vez que pedi a ele para ler uma inscrição...

— É verdade — admitiu Fflewddur, constrangido —, porém, naquele caso tratava-se de uma coisa muito diferen­te. Mas eu conheço bem o símbolo bárdico. O significado é mantido em segredo, embora, uma vez que agora você é dono do broche, não creio que possa fazer mal nenhum lhe contar. As linhas significam sabedoria, verdade e amor.

— Isso é muito bonito — disse Eilonwy —, mas não posso imaginar por que motivo sabedoria, verdade e amor devam ser um segredo tão grande.

— Talvez eu deva dizer que sejam coisas incomuns, tan­to quanto um segredo — respondeu o bardo. — Por vezes, creio que já é bastante difícil encontrar qualquer uma das três, mesmo separadamente. Ponha as três juntas e você terá algo de realmente muito poderoso.

Taran, que estivera pensativamente passando os dedos no broche, parou, de repente, e olhou ao redor com inquietação.

— Depressa, vamos — disse —, temos que sair daqui imediatamente.

— Taran de Caer Dallben — exclamou Eilonwy — você está indo longe demais! Posso compreender vir para cá para sair da chuva, mas não compreendo porque, deliberadamente, sair daqui para ficar debaixo da chuva!

Mesmo assim, ela o seguiu; e os companheiros, diante da ordem urgente de Taran, desataram os cavalos e fugiram do declive. Não tinham dado nem dez passos quando a en­costa inteira, minada pelo temporal, desabou com um grande rugido.

Gurgi ganiu de terror e se atirou aos pés de Taran.

— Ah, grande, bravo e sábio senhor! Gurgi está grato! Sua pobre cabeça mimosa foi poupada de terríveis pancadas e derrocadas!

Fflewddur pôs as mãos nos quadris e deu um assobio baixo.

— Ora, ora, imaginem só! Mais um momento e nós teríamos sido enterrados de uma vez por todas. Nunca se separe desse broche, meu amigo. É um verdadeiro tesouro.

Taran ficou em silêncio. Sua mão cobriu o broche de Adaon e seus olhos ficaram cravados na encosta destruída com uma expressão maravilhada e de assombro.

A chuva amainou um pouco antes do anoitecer. Embo­ra encharcados e gelados até os ossos, os companheiros ti­nham feito um bom avanço quando Taran finalmente lhes permitiu, mais uma vez, parar para descansar. Ali, os pântanos cinzentos e sombrios se estendiam diante deles. O vento e a água tinham aberto fendas na terra, como se tivessem sido perfuradas pelos dedos de um gigante. Os companheiros montaram acampamento numa garganta estreita, satisfeitos por terem uma chance de dormir mesmo no solo lamacento.

Taran cochilou com uma das mãos sobre o broche de ferro e a outra apertando o punho da espada. A despeito da caval­gada exaustiva, estava menos cansado do que havia espera­do. Uma estranha sensação de exaltação o dominava, dife­rente da que havia sentido quando Dallben lhe presenteara com a espada. Contudo, naquela noite, seus sonhos foram inquietantes e tristes.

Ao raiar do dia, quando os companheiros retomavam a jornada, Taran falou de seus sonhos para Eilonwy.

— Não consigo compreender o sentido deles — disse com hesitação. — Vi Ellidyr em perigo mortal. Ao mesmo tempo, era como se minhas mãos estivessem amarradas e eu não pudesse ajudá-lo.

— Receio que o único lugar onde você vá ver Ellidyr seja em seus sonhos — respondeu Eilonwy. — Com certeza não encontramos nenhum vestígio dele em lugar nenhum. Pelo que podemos supor, eleja poderia ter estado em Morva e partido, ou nem sequer chegado aos Pântanos, para come­çar. É uma pena que você não tenha sonhado com uma ma­neira mais fácil de encontrar aquele caldeirão e posto um fim a tudo isso. Estou com frio e molhada e, a esta altura dos trabalhos, estou começando a não me importar mais com quem está com ele.

— Eu também sonhei com o caldeirão — confessou Taran ansiosamente. — Mas tudo estava confuso e obscuro. Parece-me que nós descobrimos o caldeirão. Contudo — acrescentou ele —, quando o encontramos, eu chorei.

De maneira muito pouco característica, Eilonwy se man­teve em silêncio e Taran não teve mais coragem de falar de novo sobre o sonho.

Pouco depois do meio-dia eles chegaram aos Pântanos de Morva.

Taran havia percebido a proximidade deles muito an­tes, à medida que o solo havia começado a se tornar esponjoso e traiçoeiro sob os cascos de Melynlas. Tinha avistado mais pássaros dos pântanos e ouvido, muito longe, a distân­cia, o chamado estranho e solitário da tarda-mergulhadeira. Cordas de neblina, retorcendo-se e arrastando-se como ser­pentes brancas, haviam começado a se elevar do solo fétido.

Naquele instante, os companheiros se detiveram e ficaram parados, em silêncio, numa estreita língua de terra do pântano. Dali, os Pântanos de Morva se estendiam para oeste até o horizonte. Ali, elevavam-se imensos arbustos espinhosos de tojo. Na outra ponta, Taran distinguiu moi­tas magras de árvores mirradas. Sob o céu cinzento, laguinhos de água estagnada reluziam em meio a tufos de ca­pim morto e cipós partidos. Um cheiro antiqüíssimo de matéria deteriorada sufocava-lhe as narinas. Um dedilhar e gemer incessantes tremiam no ar. Os olhos de Gurgi esta­vam arregalados de terror, e o bardo mexeu-se apreensi­vo no dorso de Lluagor.

— Você soube nos trazer até aqui muito bem — disse Eilonwy. — Mas como pode sequer imaginar o que deve fazer para encontrar um caldeirão em um lugar como este?

Taran gesticulou para que Eilonwy se calasse. Enquanto observava a extensão dos medonhos Pântanos, alguma coisa despertou em sua mente.

— Não se mexam — advertiu em voz baixa. Lançou um olhar rápido para trás. Vultos cinzentos apareceram saindo da fileira de arbustos que cresciam esparsos sobre um morrinho. Não eram dois lobos, como ele havia imaginado inicialmente, e sim dois Caçadores vestindo gibões feitos de peles de lobo. Um outro Caçador, com uma pesada capa de pele de urso estava agachado ao lado deles.

— Os Caçadores nos encontraram — prosseguiu Taran rapidamente. — Sigam exatamente cada passo que eu der. Mas nenhum movimento antes de meu sinal. — Agora, ele compreendia com clareza o sonho dos lobos e sabia exata­mente o que deveria fazer.

Os Caçadores, acreditando que poderiam apanhar suas presas desprevenidas, se aproximaram.

— Agora! — gritou Taran.

Ele incitou Melynlas a avançar e galopou impetuosa­mente para dentro dos Pântanos. Alternadamente erguendo-se em saltos e mergulhando, o garanhão avançou com dificuldade em meio ao atoleiro. Com um grande grito, os Caçadores correram atrás dele. Numa ocasião, Melynlas quase afundou num local mais profundo. As grandes pas­sadas dos perseguidores trouxeram-nos para mais perto, tão perto que, com um olhar atemorizado para trás, Taran viu um deles, com os dentes arreganhados em um rosnado, esticar a mão para agarrar os estribos de Lluagor.

Taran girou Melynlas bruscamente para a direita. Lluagor o seguiu. Um grito de terror elevou-se atrás deles. Um dos homens vestido com peles de lobo havia tropeçado, e se projetado no ar num mergulho mais à frente, gritando en­quanto a lama negra o agarrava e o sugava para baixo. Seus dois camaradas agarraram-se um ao outro, lutando desesperadamente para fugir do solo que desaparecia sob seus pés. O Caçador com a capa de pele de urso estendeu os braços e agarrou-se aos tufos de mato, rosnando de raiva; o último guerreiro pisoteou o homem que afundava, buscando em vão um ponto de apoio onde pudesse se firmar para escapar ao brejo mortal.

Melynlas seguiu adiante galopando. A água salobra imun­da esguichava em jorros sob suas patas, mas Taran guiou o vigoroso garanhão pelo que parecia ser uma cadeia de ilhas submersas, sem nunca parar, nem mesmo quando alcançou o lado oposto do pântano. Ali, em terreno mais firme, correu em meio aos arbustos espinhosos de tojo e para além do grupo de árvores. Enquanto Lluagor vinha em disparada atrás dele, Taran seguiu um longo vale estreito em direção à prote­ção de um morro alto.

Subitamente, ele puxou as rédeas do garanhão. No flanco do momo, quase como se fosse parte da própria turfa, erguia-se um chalé baixo. Era tão habilmente escondido por torrões de terra, com raízes e galhos, que Taran teve que olhar de novo para ver que havia uma porta Ao redor do momo havia estábulos em ruínas e algo que se parecia com um galinheiro destruído.

Taran começou a afastar Melynlas daquele estranho aglo­merado de construções e fez sinal para que os outros se mantivessem em silêncio.

— Você não deveria se preocupar com isso — disse Eilonwy. — Sejam lá quem forem as pessoas que moram aí, com certeza nos ouviram chegar. Se até agora não saíram para nos dar as boas-vindas nem para lutar conosco, não creio que haja ninguém em casa. — Com um salto, ela desmontou de Melynlas e se encaminhou para o chalé.

— Volte! — gritou Taran.

Ele desembainhou a espada e a seguiu. O bardo e Gurgi desmontaram e empunharam suas armas.

Alerta e cauteloso, Taran se aproximou da porta baixa. Eilonwy havia descoberto uma janela, semi-escondida pela turfa e pela grama, e estava espiando o interior através dela.

— Não vejo ninguém — declarou, enquanto os outros se aproximavam dela. — Vejam por si próprios.

— Já que estamos falando nisso — comentou o bardo, baixando a cabeça e espiando por cima do ombro de Eilon­wy —, não creio que ninguém tenha estado por aqui há bas­tante tempo. Melhor que seja assim! Assim, pelo menos, tere­mos um lugar seco para descansar.

Taran viu que o interior do chalé realmente parecia de­serto, pelo menos de habitantes, pois o aposento era ainda mais atravancado, entupido de coisas e ainda mais desorde­nado do que o de Dallben. Em um canto havia um amplo tear com um bom número de fios soltos, espalhados, se arrastan­do pelo chão. O trabalho no caixilho não estava nem a meio caminho de estar terminado e era tão emaranhado e cheio de nós que ele não podia imaginar ninguém, nunca mais, concluindo-o. Peças de louça de barro quebradas cobriam uma pequena mesa. Armas enferrujadas e quebradas estavam empilhadas ao redor.

— Que tal lhe parece a idéia — perguntou uma voz alegre atrás de Taran —, de ser transformado em um sapo? E esmagado com um pisão?


 

O Chalé

Taran girou nos calcanhares e levantou a espada. Subitamente, uma serpente fria retorceu-se em sua mão, sibilando e enroscando-se, pronta para dar o bote. Com um grito de horror ele a ati­rou longe, a serpente caiu no chão e lá, em seu lugar, esta­va a espada de Taran. Eilonwy sufocou um grito. Taran recuou assustado.

Diante dele estava uma mulherzinha baixa e bastante roliça, com uma cara redonda cheia de protuberâncias e um par de olhos negros muito aguçados. Seus cabelos estavam presos, como um punhado de ervas do pântano desbota­das, amarrados com cipós e enfeitados com travessas ador­nadas com pedras preciosas, que pareciam à beira de se perder no impossível emaranhado. Ela vestia uma bata escu­ra, solta, sem forma, coberta de remendos e manchas. Seus pés estavam descalços e eram excepcionalmente grandes.

Os companheiros se juntaram mais. Gurgi, tremendo violentamente, agachou-se atrás de Taran. O bardo, pare­cendo pálido e apreensivo, mesmo assim se preparou para se defender.

— Vamos, aproximem-se, meus patinhos — disse a fei­ticeira jovialmente. — Prometo que não vai doer nem um pouquinho. Você pode trazer sua espada, se quiser— acres­centou ela com um sorriso indulgente para Taran —, embora não vá precisar dela. Eu nunca vi um sapo com uma espada. Por outro lado, nunca vi uma espada com um sapo, de modo que pode fazer como quiser.

— O que nós queremos é ficar como estamos — excla­mou Eilonwy. — Não pense que vamos deixar ninguém...

— Quem é a senhora? — exclamou Taran. — Não lhe fizemos nenhum mal. A senhora não tem motivo para nos ameaçar.

— Quantos gravetos há em um ninho de passarinho? — perguntou a feiticeira subitamente. — Responda depressa. Aí está, viram só — acrescentou ela. — Pobres franguinhos, não sabem nem isso. Como se poderia esperar que soubessem o que realmente querem da vida?

— Se há uma coisa que eu quero — retrucou Eilon­wy —, é não ser um sapo.

— Você é uma menina muito bonitinha — disse a feiti­ceira, numa voz gentil, bajuladora. — Você me daria seu ca­belo depois que não precisar dele? Tenho tido tanta dificul­dade com o meu, ultimamente. Alguma vez já teve a impres­são de que as coisas estavam desaparecendo dentro dele e que você poderia nunca mais vê-las?

— Não tem importância — prosseguiu ela. — Vocês vão gostar de ser sapos, saltitar por aqui e por ali, sentar em cogumelos... bem, isso talvez não. Sapos, na verdade, não sen­tam em cogumelos. Mas poderiam dançar em círculos de orvalho. Vejam só, esta é uma idéia encantadora.

— Não fiquem assustados — acrescentou ela, inclinando-se para a frente e cochichando no ouvido de Taran. — Você não pode, nem por um segundo, imaginar que eu faria tudo o que disse. De jeito nenhum, eu não sonharia em pisar em você. Não suportaria a sensação de esmagar a massa mole.

Com terror crescente, desesperado, Taran vasculhou a mente em busca de algum meio de salvar seus companhei­ros. Ele teria considerado a intenção daquela criatura desgrenhada como sendo loucura e impossível se não se lembrasse da serpente em sua mão, as presas ameaçadoras e os olhos gelados.

— Inicialmente, vocês poderiam não gostar de ser sa­pos — comentou a feiticeira comedidamente. — Leva algum tempo para se habituar. Mas — acrescentou ela, em um tom tranqüilizador—, depois de ter acontecido, tenho certeza de que não quereriam outra coisa.

— Por que a senhora está fazendo isso? — exclamou Taran, dominado pela raiva por se sentir impotente. Ele virou a cabeça com temor e repulsa quando a feiticeira lhe deu um tapinha gentil na face.

— Não posso permitir que as pessoas apareçam por aqui e fiquem espionando — respondeu ela. — Pelo menos isso você compreende, não é? Se eu fizer exceção para um, logo serão dois, depois três e, quando parar para ver, terei centenas de pessoas pisoteando as coisas e me atrapalhando. Creia-me, esta é a melhor solução para todo mundo.

Naquele momento, do outro lado da colina, surgiram mais duas personagens. Ambas se pareciam muito com a mulherzinha robusta, exceto que uma vestia uma capa com­prida com o capuz cobrindo-lhe a cabeça, quase lhe escon­dendo o rosto; e no pescoço da outra havia um colar de pedras brancas leitosas.

A feiticeira correu para elas e chamou alegremente:

— Orwen! Orgoch[1]! Andem depressa! Nós vamos fa­zer sapos!

Taran arquejou. Ele lançou um olhar rápido para o bar­do e para Eilonwy.

— Vocês ouviram esses nomes? — sussurrou apressa­damente. — Nós as encontramos!

O rosto do bardo estava cheio de preocupação.

— E de que vai nos servir isso — questionou. — Quan­do elas tiverem acabado conosco, não creio que tenhamos condições de nos importar com o caldeirão ou com qualquer outra coisa. Eu nunca dancei num círculo de orvalho — pros­seguiu, falando por entre os dentes. — Em outras circunstân­cias, poderia até gostar disso. Mas não agora — acrescentou, sacudido por um calafrio.

— Eu nunca conheci uma pessoa — cochichou Eilonwy, enquanto Gurgi bufava e fungava apavorado — que pudesse falar sobre coisas tão medonhas e sorrir ao mesmo tempo. É como sentir uma porção de formigas subindo e descendo pelas suas costas.

— Temos que tentar apanhá-las desprevenidas — disse Taran. — Não sei o que elas podem fazer com todos nós ao mesmo tempo. Não sei nem se há alguma coisa que possa­mos fazer com elas. Mas temos que correr o risco. Um ou dois de nós poderia sobreviver.

— Suponho que isso seja tudo o que podemos fazer — concordou o bardo. Ele engoliu em seco, com dificuldade, e lançou um olhar preocupado para Taran. — Se acontecer de eu... se eu for... ora, pois bem, o que estou querendo dizer é que se alguma coisa me acontecer, por favor, vejam onde pisam.

Enquanto isso as três feiticeiras voltaram para o chalé.

— Ah, Orddu — disse a que usava o colar —, por que tem sempre que ser sapos? Não pode pensar em alguma outra coisa?

— Mas eles são tão elegantes — respondeu Orddu —, compactos e convenientes.

— O que há de errado com sapos? — perguntou a de capuz. — Este é o seu problema, Orwen, sempre tentando complicar as coisas.

— Eu apenas sugeri uma outra coisa, Orgoch — res­pondeu a feiticeira chamada Orwen —, para variar um pouco.

— Eu adoro sapos — murmurou Orgoch, estalando os lábios.

Mesmo sob a sombra do capuz, Taran podia ver as fei­ções da feiticeira se movendo e se contraindo com o que ele temia ser impaciência.

— Olhe só para eles, de pé ali — comentou Orddu —, pobres pintinhos, todos molhados e enlameados. Estive con­versando com eles e creio que finalmente compreenderam o que é melhor para eles.

— Ora veja, estes são os mesmos que vimos galopando pelo pântano — comentou Orwen, brincando com suas con­tas. — Foi tão inteligente de sua parte — acrescentou ela, sorrindo para Taran — levar os Caçadores a serem engolidos pelo brejo, sinceramente, foi um belo trabalho.

— São umas criaturas nojentas, os Caçadores — res­mungou Orgoch. — Umas coisas malvadas, cabeludas e per­versas. Eles me deixam de estômago virado.

— Mas eles cuidam bem de seu trabalho — aventurou o bardo. — Pelo menos isso reconheço.

— Tivemos um bando inteiro de Caçadores aqui no outro dia — disse Orddu. — Eles estavam revirando tudo e espionando, exatamente como vocês. Agora compreendem por que eu disse que não podíamos fazer exceções.

— Nós não fizemos exceções com eles, não é verdade Orddu? — perguntou Orwen. — Embora não tivessem sido sapos, se você se recorda.

— Eu me lembro muito bem, minha querida — respon­deu a primeira feiticeira —, mas você era Orddu naquela ocasião. E quando você é Orddu, pode fazer o que lhe agra­dar. Mas hoje eu sou Orddu, e o que eu acho é...

— Isso não é justo — interrompeu Orgoch. — Você sempre quer ser Orddu. Eu tive que ser Orgoch três vezes seguidas, enquanto você só foi Orgoch uma vez.

— Não é nossa culpa, minha querida — disse Ord­du —, se não gostamos de ser Orgoch. Não é confortável, sabe. Você tem essas indigestões tão horrorosas. Se pelo menos prestasse mais atenção ao que escolhe comer nas refeições.

Taran estivera tentando acompanhar aquela conversa das feiticeiras, mas viu-se mais confuso do que nunca. Agora, não tinha uma idéia clara de qual fosse realmente Orddu, Orwen e Orgoch, ou se fossem todas as três ao mesmo tem­po. Contudo, os comentários delas sobre os Caçadores, pela primeira vez, deram-lhe alguma esperança.

— Se os Caçadores de Annuvin são seus inimigos — disse Taran —, então temos uma causa em comum. Nós, também, lutamos contra eles.

— Inimigos, amigos, no final dá tudo na mesma coisa — resmungou Orgoch. — Trate de se apressar, Orddu, e leve-os de uma vez para a choupana. Foi uma manhã terrivelmen­te longa.

— Você é uma criatura voraz — comentou Orddu, com um sorriso tolerante para a companheira encapuzada. — Este é um outro motivo pelo qual nenhuma de nós quer ser Orgoch se for possível evitar. Talvez, se aprendesse a se con­trolar melhor...? Agora, escute o que esses queridos camundongos têm para nos contar. Deve ser interessante; são umas coisinhas tão encantadoras.

Orddu se virou para Taran.

— Agora diga-me, meu patinho — disse ela muito ama-elmente —, como foi que aconteceu de vocês se desenten­derem tão seriamente com os Caçadores?

Taran hesitou, temeroso de revelar o plano de Gwydion.

— Eles atacaram a gente — começou ele.

— É claro que atacaram, meus pobres gansinhos — dis­se Orddu com simpatia. — Eles estão sempre atacando todo mundo. Esta é uma das vantagens de ser sapos; não precisa­rão mais se preocupar com essas coisas. Tudo na vida será brincadeiras na floresta e deliciosas manhãs úmidas. Os Caça­dores não os atormentarão mais. É bem verdade que terão que ficar de olho vivo nas garças, nos martins-pescadores e nas serpentes. Mas, exceto por isso, não terão nada com que se preocupar no mundo.

— Mas quem é “a gente”? — interrompeu Orwen. Ela se virou para Orddu. — Você não vai descobrir os nomes deles?

— Sim, é claro que sim — murmurou Orgoch, com um estalar de lábios. — Eu adoro nomes.

Mais uma vez Taran hesitou.

— Esta... esta — disse ele, gesticulando na direção de Eilonwy — é Indeg. E o Príncipe Glessic...

Orwen deu uma risadinha e deu uma cutucada afetuosa em Orddu.

— Escute só isso — comentou. — Eles são deliciosos quando mentem.

— Se não querem dar seus nomes verdadeiros — disse Orgoch —, então simplesmente trate de levá-los.

Taran se calou e não tentou dizer mais nada. Orddu o estava observando atentamente. Dominado por um desâni­mo repentino, ele se deu conta de que seus esforços eram inúteis.

— Esta é Eilonwy, Filha de Angharad — disse ele. — E Fflewddur Fflam.

— Um bardo da harpa — acrescentou Fflewddur.

— E este é Gurgi — prosseguiu Taran.

— Então isto é um gurgi — comentou Orwen com grande interesse. — Parece-me que já ouvi falar deles, mas nunca soube o que eram.

— Não é um gurgi — retrucou Eilonwy. — Ele é Gurgi. E só existe um.

— Sim, sim! — concordou Gurgi, aventurando-se a avan­çar um passo e sair de trás de Taran.

— E ele é corajoso e talentoso! Não deixará que os bravos companheiros se tornem sapos com corcundas que vivem só a pular e saltar!

Orgoch olhou curiosamente para ele.

— O que se faz com um gurgi? — perguntou ela. — Serve para comer ou é para sentar em cima?

— Eu acho — sugeriu Orddu — que qualquer coisa que você fosse fazer, não importa o que seja, antes teria que limpá-lo. E você, meu patinho — disse ela para Taran —, quem é você?

Taran se empertigou todo e jogou a cabeça para trás.

— Eu sou Taran — respondeu ele —, Porqueiro-Assistente de Caer Dallben.

— Dallben! — exclamou Orddu. — Meu pobre franguinho perdido, por que não disse isso logo? Agora, con­te-me, como está nosso querido pequeno Dallben?


 

O Pequeno Dallben

O queixo de Taran caiu. Antes que pudesse res­ponder, as feiticeiras haviam se juntado ao re­dor dos companheiros e os estavam conduzin­do para o chalé. Espantadíssimo, ele se virou para Fflewddur, que parecia menos pálido agora que Orddu tinha parado de falar em sapos.

— Pequeno Dallben? — sussurrou Taran. — Eu nunca na minha vida ouvi ninguém falar a respeito dele dessa ma­neira. Será que elas estão falando do mesmo Dallben?

— Eu não sei — cochichou o bardo em resposta. — Mas se elas pensam que é... Grande Belin, não vá dizer-lhes o contrário!

Dentro do chalé, com um enorme e alegre alvoroço que na verdade não resultou em nada, as feiticeiras traba­lharam apressadamente para tentar arrumar a câmara. Orwen, com visível animação e contentamento, trouxe várias cadeiras e bancos velhos e de pernas bambas; Orgoch limpou a mesa varrendo a louça de barro para o chão, Orddu bateu palmas e sorriu radiante para os companheiros.

— Eu nunca teria imaginado — começou ela. — Ah, não, não, meu amorzinho! — ela exclamou subitamente para Eilonwy, que havia chegado mais perto do tear e acabara de se inclinar para a frente para examinar a trama. — Não mexa nisso. Vai levar umas terríveis picadas se tocar nisso. Está cheio de urtigas. Venha sentar-se conosco, isso, boa menina.

A despeito do calor repentino na acolhida, Taran obser­vou as feiticeiras com inquietação. O próprio aposento o enchia de estranhos pressentimentos que ele não conseguia identificar, que pareciam se esquivar dele como sombras. Gurgi e o bardo, contudo, pareciam encantados com a estranha reviravolta nos acontecimentos e, com grande apetite, come­çaram a comer a comida que logo chegou à mesa. Taran olhou interrogativamente para Eilonwy.

A garota adivinhou seu pensamento.

— Não precisa ter medo de comer — disse ela cobrin­do a boca com a mão. — Não tem nenhum problema, nada é nem de longe venenoso ou enfeitiçado. Eu sei dizer quando é. Aprendi isso quando morava com a Rainha Achren e esta­va aprendendo a ser feiticeira. O que você faz é...

— Agora, meu pardal — interrompeu Orddu —, você tem que nos contar tudo sobre o nosso querido pequeno Dallben. O que ele anda fazendo? Ele ainda tem O Livro dos Três?

— Pois bem... é, ele tem sim — respondeu Taran um pouco confuso, começando a se perguntar se as feiticeiras não saberiam de mais coisas a respeito de Dallben do que ele.

— Pobre rouxinol — comentou Orddu —, era um livro tão pesado. Estou surpresa de que ele consiga sequer virar as páginas.

— Bem, sabe como é — disse Taran, ainda perplexo —, o Dallben que conhecemos não é pequeno. Quero dizer, ele é bastante idoso.

— Idoso! — explodiu Fflewddur. — Ele tem exatamente trezentos e oitenta anos! Coll me contou isso pessoalmente.

— Ele era uma criancinha tão doce, tão querida — co­mentou Orwen, com um suspiro. — Com as bochechas ro­sadas e os dedinhos roliços.

— Eu adoro bebês — declarou Orgoch, estalando os beiços.

— O cabelo dele está muito grisalho — disse Taran, que não conseguia se convencer a acreditar que aquelas es­tranhas criaturas estivessem realmente falando de seu velho mestre. A idéia do sábio Dallben algum dia ter tido boche­chas rosadas e dedos roliços ficava além de sua imaginação. — Ele também tem barba — acrescentou.

— Uma barba? — exclamou Orddu. — O que o pe­queno Dallben está fazendo com uma barba? Por que motivo ele haveria de querer uma coisa dessas? Era um sapinho tão encantador!

— Nós o encontramos no pântano uma bela manhã — disse Orwen. — Completamente sozinho, dentro de uma grande cesta de vime. Foi lindo demais para descrever em palavras. Orgoch, é claro...

Diante disso Orgoch fez um ruído de irritação e seus olhos faiscaram das profundezas do capuz.

— Ora deixe disso, querida Orgoch, não faça esta cara tão desagradável — ralhou Orddu. — Aqui nós estamos to­dos entre amigos; agora podemos falar dessas coisas. Bem, eu explicarei da seguinte maneira para poupar os sentimentos de Orgoch. Ela não queria ficar com ele. Isto é, não no sentido habitual. Mas nós queríamos. E assim trouxemos o pobre passarinho para o chalé.

— Ele cresceu muito rápido — acrescentou Orwen. — E como! Não demorou muito para que estivesse engatinhando, depois andando pela casa e falando, e fazendo pequenas ta­refas. Tão gentil e educado. Uma verdadeira alegria. E você diz que ele agora tem barba?

— Sim, ele era um pequeno pardal encantador — co­mentou Orddu. — Mas então — prosseguiu ela, com um sorriso triste — houve aquele terrível acidente. Estávamos aferventando algumas ervas para uma infusão, uma poção bastante especial.

— E Dallben — suspirou Orwen —, o doce pequenino Dallben, estava mexendo a mistura na chaleira para nós, com a colher. Era uma daquelas coisas gentis e atenciosas que ele sempre fazia. Mas quando começou a ferver e borbulhar, parte do líquido subiu e respingou.

— E queimou-lhe os pobres dedinhos — acrescentou Orddu. — Mas ele não chorou, não mesmo. Apenas enfiou os dedos na boca, o bravo estorninho. É claro, a poção ainda estava lá e Dallben a engoliu.

— Assim que fez isso — explicou Orwen —, adqui­riu todos os conhecimentos que nós possuímos. Era uma poção mágica, vocês compreendem, uma receita para a sabedoria.

— Depois disso — prosseguiu Orddu —, tornou-se impossível que continuasse aqui vivendo conosco, fora de questão. As coisas nunca teriam sido iguais; não, jamais pode­ria ter dado certo; não se pode ter assim tanta gente, tendo todos aqueles conhecimentos, morando sob o mesmo teto. Especialmente uma vez que Dallben tornou-se capaz de adi­vinhar algumas das coisas que Orgoch tinha em mente. E, por causa disso, tivemos que deixá-lo ir embora, isto é, realmente deixá-lo ir embora. Pois Orgoch, àquela altura, era quem queria que ele ficasse. Claro que lá à sua maneira, algo que duvido que Dallben tivesse gostado.

— Ele teria sido uma coisinha tão doce — murmurou Orgoch.

— Tenho que confessar que fomos extremamente ge­nerosas com ele — continuou Orddu. — Eu lhe dei a opção de escolher entre três alternativas, uma harpa, uma espada ou O Livro dos Três. Se tivesse escolhido a harpa, poderia ter sido o maior bardo do mundo; se tivesse escolhido a espada, nosso querido patinho poderia ter sido o soberano de toda Prydain. Mas — disse Orddu — ele escolheu O Livro dos Três. E para falar a verdade, ficamos muito contentes que o tives­se escolhido, pois era pesado e bolorento e não fazia nada senão acumular poeira. De modo que, assim, ele partiu e foi abrir seu caminho no mundo. E aquela foi a última vez em que o vimos.

— É uma coisa boa que o querido Dallben não esteja aqui — disse Fflewddur com uma risadinha para Taran. — A descrição delas não combina em nada. Receio que fossem ficar muito surpreendidas.

Taran tinha ficado em silêncio durante o relato de Orddu, perguntando a si mesmo como ousaria abordar a questão do caldeirão.

— Dallben tem sido meu mestre desde que posso me recordar — disse Taran finalmente, decidindo que falar com franqueza seria a melhor solução, sobretudo porque as feiti­ceiras pareciam ser capazes de adivinhar quando não estava contando a verdade. — Se gostam dele tanto quanto eu...

— Nós o amamos muitíssimo, é nosso amorzinho que­rido — disse Orddu —, pode ter certeza disso.

— Então suplico-lhes que nos ajudem a cumprir os de­sejos dele e os desejos de Gwydion, Príncipe de Don — prosseguiu Taran. Ele explicou o que havia acontecido duran­te o conselho, o que haviam descoberto no Portão Escuro e através de Gwystyl. Explicou o motivo pelo qual era urgente que o caldeirão fosse levado para Caer Dallben e perguntou, também, se as feiticeiras tinham visto Ellidyr. Orddu sacudiu a cabeça.

— Um Filho de Pen-Llarcau? Não, meu querido, essa pessoa não esteve em lugar nenhum aqui pelos arredores. Se ele tivesse atravessado os Pântanos, nós certamente o tería­mos visto.

— Temos uma vista maravilhosa das samambaias lá do alto da colina — acrescentou Orwen, com tamanho entusias­mo que seu colar balançou e chocalhou. — Vocês precisam vir admirá-la. Sinceramente, vocês são muito bem-vindos e podem ficar o tempo que quiserem — acrescentou avida­mente. — Agora que o pequeno Dallben foi embora e, além disso, também arranjou uma barba, este lugar nem de longe é tão alegre quanto costumava ser. Nós não transformaríamos vocês em sapos... a menos que insistissem.

— Isso mesmo, fiquem — grasnou Orgoch com um olhar de esguelha.

— Nossa missão é recuperar o caldeirão — insistiu Taran, preferindo ignorar o comentário de Orgoch. — Pelo que Gwystyl nos contou...

— Você disse que o corvo dele lhe contou, meu carneirinho — interrompeu Orddu. — Não acredite em tudo o que ouve de um corvo.

— Doli, do Povo Formoso, acreditou nele — observou Taran. — Agora estão me dizendo que não têm nenhum caldeirão? Faço-lhes esta pergunta em nome do próprio Dallben.

— Caldeirão? — respondeu Orddu. — Ora, mas que pergunta, nós temos dúzias! Caldeirões, chaleiras, panelões... mal conseguimos saber por onde andam todos.

— Estou falando do caldeirão de Annuvin — disse Taran com firmeza —, o caldeirão de Arawn e de seus guerreiros imortais.

— Ah! — exclamou Orddu, rindo alegremente. — Você deve estar falando do Crochan Negro.

— Eu não sei como se chama — disse Taran —, mas pode ser que este seja o que estamos procurando.

— Tem certeza de que não preferiria um dos outros?

— perguntou Orwen. — São muito mais bonitos do que aquela coisa velha. E muito mais práticos. Que utilidade te­riam para você os Nascidos do Caldeirão? Eles seriam apenas um aborrecimento. Podemos lhe dar uma chaleira para pre­parar as mais maravilhosas poções para dormir, ou uma que pode usar para regar narcisos silvestres e tirar todo aquele amarelo feio bilioso.

— Nossa preocupação é com o Crochan Negro — in­sistiu Taran, decidindo que aquele era, de fato, o nome do caldeirão de Arawn. — Não podem me dizer a verdade? O caldeirão está aqui?

— É claro que está — respondeu Orddu. — Por que não, se era nosso, para começar? E sempre foi!

— Das senhoras? — exclamou Taran. — Então Arawn o roubou daqui?

— Roubou? — respondeu Orddu. — Não exatamente. Não, não poderíamos dizer que tenha sido roubado.

— Mas não é possível que tenham dado o caldeirão a Arawn — exclamou Eilonwy —, sabendo para que ele tinha a intenção de usá-lo!

— Até mesmo Arawn tinha o direito de que lhe fosse concedida sua oportunidade — disse Orddu tolerantemente.

— Um dia você compreenderá por quê. Pois há um destino traçado para todas as coisas; para grandes e feios Crochans, bem como para pobres patinhos novos, e até para nós há um destino traçado. Além disso, Arawn pagou muitíssimo caro por tê-lo usado, realmente, muitíssimo caro, pode ter certeza disso. Os detalhes, minha patinha, são de natureza particular e não lhe dizem respeito. De qualquer maneira, o Crochan não deveria ser dele para sempre.

— Arawn jurou que o devolveria depois de um deter­minado prazo — disse Orwen. — Mas, quando chegou a ocasião, ele quebrou o juramento que nos havia feito, como era de se esperar.

— Uma imprudência — murmurou Orgoch.

— E uma vez que ele se recusava a devolvê-lo — disse Orddu —, o que mais poderíamos fazer? Fomos lá e o pega­mos de volta.

— Grande Belin! — exclamou o bardo. — As senhoras se aventuraram a entrar no coração de Annuvin e saíram carregando a coisa? Como foi que conseguiram fazer isso?

Orddu sorriu.

— Existem muitas maneiras, meu pardal curioso. Po­deríamos ter inundado Annuvin com escuridão e ter feito com que o caldeirão tivesse saído flutuando. Poderíamos ter feito com que todos os guardas adormecessem. Ou poderíamos ter-nos transformado em... bem, não interes­sa... digamos que poderíamos ter usado uma variedade de métodos. De qualquer maneira, o caldeirão está, mais uma vez, aqui.

— E — acrescentou a feiticeira — aqui ele vai ficar. Não, não — disse ela, levantando a mão para Taran. — Pos­so ver que você gostaria de levá-lo, mas isso está fora de questão. É perigoso demais para franguinhos errantes como você. Céus, nós não conseguiríamos dormir à noite. Não, não, nem pelo bem do pequeno Dallben.

— Na verdade — prosseguiu Orddu — vocês estariam muito mais seguros transformados em sapos do que tendo qualquer coisa a ver, seja o que for, com o Crochan Negro. — Ela sacudiu a cabeça. — Melhor ainda,, nós poderíamos transformá-los em pássaros e fazê-los voar de volta para Caer Dallben imediatamente.

— Não, de maneira nenhuma — prosseguiu ela, levantando-se da mesa e segurando Taran pelos ombros. — Vocês, meus patinhos, devem sair daqui imediatamente e nunca mais sequer pensar no Crochan. Diga ao querido pequeno Dallben e ao Príncipe Gwydion que lamentamos muitíssimo, e que se houver alguma outra coisa que possamos fazer... Mas não isto. Ah, isto, de maneira nenhuma.

Taran ensaiou um protesto, mas Orddu o interrompeu bruscamente e o conduziu rapidamente até a porta, enquan­to as outras feiticeiras vinham empurrando os companheiros atrás dele.

— Vocês podem dormir na choupana esta noite, meus franguinhos — disse Orddu. — Então, de manhã bem cedinho, assim que clarear, devem tratar de voltar para junto do pe­queno Dallben. E vocês decidirão se querem ir com suas pró­prias pernas. Ou — acrescentou ela, desta vez sem nenhum sorriso — com um par de suas próprias asas.

— Ou — resmungou Orgoch —, saltando pelo cami­nho inteiro.


 

O Plano

A porta fechou-se com violência atrás deles e mais uma vez os companheiros viram-se do lado de fora do chalé.

— Bem, eu realmente gostei disso! — exclamou

Eilonwy com indignação. — Depois de toda aquela conversa sobre o querido pequeno Dallben, elas nos puseram para fora!

— Melhor ser posto para fora que ser transformado em alguma coisa — comentou o bardo. — Um Fflam é sempre gentil com os animais, mas de alguma forma não consigo me levar a sentir que eu realmente gostaria de me tornar um deles!

— Não, ah, não! — gritou Gurgi ardorosamente. — Gurgi quer ficar como ele é... corajoso e engenhoso!

Taran se virou de volta para o chalé e começou a bater violentamente na porta.

— Elas precisam nos ouvir! — declarou. — Nem se­quer pararam um instante para refletir.

Mas a porta não foi aberta e, embora ele corresse até a janela e batesse forte e por muito tempo, as feiticeiras não voltaram a aparecer.

— Receio que esta seja a sua resposta — disse Fflewddur. — Elas disseram tudo que pretendem dizer, e tal­vez seja melhor assim. E eu tenho uma sensação desagradá­vel de que toda essa barulheira e esse bater em portas e janelas poderiam... bem, você não sabe, mas, e se essas, ahh, senhoras ficarem aborrecidas com todo esse barulho.

— Mas não podemos simplesmente ir embora — res­pondeu Taran. — O caldeirão está nas mãos delas e, quer sejam amigas de Dallben ou não, não temos como saber o que farão com ele. Tenho medo dessas feiticeiras e não con­fio nelas. Você ouviu a maneira como aquela, chamada Orgoch, estava falando. Sim, posso imaginar muito bem o que teria feito com Dallben. — Ele sacudiu a cabeça sombriamente. — Foi contra isso que Gwydion nos advertiu. Qualquer pessoa, seja quem for, que esteja de posse do caldeirão pode ser um perigo mortal para Prydain, se este for o seu desejo.

— Pelo menos Ellidyr não o encontrou — observou Eilonwy. — Pelo menos devemos nos sentir gratos por isso.

— Se quiser ouvir o conselho de quem é, afinal, o mais velho dentre nós, aqui presentes — disse o bardo —, creio que faríamos bem se tratássemos de voltar rapidamente para casa e deixássemos que Dallben e Gwydion cuidassem desse problema. Afinal, Dallben deve saber como lidar com essas três.

— Não — respondeu Taran —, isso não vai dar certo. Nós perderíamos dias preciosos na viagem. Os Caçadores fracassaram em recuperar o caldeirão. Mas quem sabe o que Arawn vai tentar a seguir? Não, não devemos nos arriscar a deixar a coisa aqui.

— Por esta vez — declarou Eilonwy —, eu concordo. Já viemos até aqui e teremos que ir até o fim. Eu também não confio nessas feiticeiras. Elas não conseguiriam dormir se soubessem que estávamos com o caldeirão? Eu certa­mente terei pesadelos se pensar nelas com ele! Isso, para não falar em Arawn! Creio que ninguém, seja humano ou não, deveria ter todo esse poder. — Ela estremeceu com um calafrio. — Ugh! Lá se vão as formigas andando pelas minhas costas de novo.

— Sim, pensando bem, é verdade — começou Fflewddur. — Mas o fato é que elas estão com o maldito panelão e nós não. Elas estão e nós estamos aqui, e parece mais do que muito provável que vá continuar assim.

Taran ficou pensativo por alguns instantes.

— Quando Arawn se recusou a devolver-lhes o caldei­rão — disse ele —, elas foram lá e o pegaram de volta. Ago­ra, uma vez que elas não nos deixam levar o caldeirão, só vejo uma saída: nós teremos que ir apanhá-lo e levá-lo.

— Roubá-lo? — exclamou o bardo. Sua expressão preo­cupada se modificou rapidamente e seus olhos se ilumina­ram. — Quero dizer — ele baixou a voz e disse num sussur­ro —, roubá-lo? Ora, mas esta é uma bela idéia — prosseguiu com entusiasmo. — Jamais me ocorreu. Mas sim, sim, é a única maneira — acrescentou com grande animação. — Fran­camente, é uma idéia que tem um bocado de elegância e originalidade de concepção.

— Existe apenas uma dificuldade — observou Eilonwy. — Nós não sabemos onde elas esconderam o caldeirão e, evidentemente, elas não vão nos deixar entrar para descobrir.

Taran franziu o cenho.

— Eu gostaria tanto que Doli estivesse aqui; com ele não teríamos nenhuma dificuldade. Não sei... mas deve haver alguma maneira. Elas nos disseram que poderíamos passar a noite aqui. Isso nos dá o tempo de agora até o amanhecer. Venham, não vamos ficar aqui parados na frente do chalé, senão vão desconfiar que estamos planejando alguma coisa, Orddu falou de uma choupana.

Os companheiros conduziram seus cavalos para o lado da colina onde uma construção baixa, maltratada, erguia-se sem muita firmeza na relva. Não havia nada dentro dela e era sombria, desprotegida e o vento do outono assobiava atra­vés das fendas nas paredes de pau a pique. O bardo bateu com os pés no chão e deu palmadinhas nos braços para se aquecer.

— Que lugar gelado para planejar seja lá o que for — comentou ele. — Aquelas feiticeiras podem ter uma vista maravilhosa dos Pântanos, mas é um bocado fria.

— Gostaria que tivéssemos um pouco de palha — disse Eilonwy —, ou qualquer outra coisa para nos aquecer. Va­mos congelar antes de termos uma chance de pensar em alguma coisa,

— Gurgi vai encontrar palha — sugeriu Gurgi. Ele saiu rapidamente da choupana e correu na direção do galinheiro.

Taran andou de um lado para o outro.

— Teremos que entrar no chalé no instante em que elas adormecerem. — Ele sacudiu a cabeça e passou os de­dos no broche preso em sua garganta. — Mas como? O bro­che de Adaon não me deu nenhuma idéia. Os sonhos que eu tive com o caldeirão não fazem nenhum sentido para mim. Se ao menos pudesse compreendê-los...

— Quem sabe se você se deitasse para tirar um cochilo agora mesmo — sugeriu Fflewddur prestativamente — e ador­mecesse o mais rápido que pudesse? E também tão pro­fundamente quanto pudesse. Talvez pudesse encontrar a resposta.

— Não tenho certeza — respondeu Taran. — Não fun­ciona exatamente assim.

— Mas deve ser muito mais fácil que escavar um buraco através daquele morro — disse o bardo —, que era a próxi­ma sugestão que eu ia fazer.

— Poderíamos bloquear a chaminé e esperar que a fu­maça as obrigasse a sair — disse Eilonwy. — Então um de nós poderia se esgueirar para dentro do chalé. — Não — acrescentou ela —, pensando bem, receio que qualquer coi­sa que pudéssemos botar dentro da chaminé... bem... elas, muito provavelmente, poderiam transformar em algo muito pior e botar para fora. Além disso, elas não têm chaminé, de modo que temos que esquecer essa idéia.

Enquanto isso, Gurgi tinha voltado trazendo uma enor­me braçada de palha do galinheiro e, agradecidos, os compa­nheiros começaram a empilhá-la no assoalho de barro. En­quanto Gurgi saía para buscar outra braçada, Taran olhou indeciso para a pilha malfeita.

— Bem, suponho que eu poderia tentar sonhar — dis­se, sem muita esperança. — Francamente, não tenho uma sugestão melhor.

— Podemos acomodar você muito confortavelmente — disse Fflewddur— e, enquanto estiver dormindo, nós tam­bém estaremos pensando. Assim, todos nós, cada um à sua maneira, estaremos trabalhando. Não me incomodo de lhe confessar — acrescentou ele —, eu bem que gostaria de ter o broche de Adaon. Dormir? Não precisaria que me pedis­sem duas vezes, pois estou cansado até os ossos.

Taran, ainda indeciso, se preparou para se acomodar na palha, quando Gurgi reapareceu, de olhos arregalados e tre­mendo. A criatura estava num estado de aflição tão terrível que só conseguia arquejar e gesticular. Taran levantou-se de um salto.

— O que houve? — exclamou.

Gurgi fez sinal para que o acompanhassem até o galinhei­ro e os companheiros saíram correndo atrás dele. Agitado, Gurgi os conduziu até a construção de paredes de taipa, então recuou, encolhendo-se apavorado. Ele apontou para o canto mais afastado. Ali, no meio da palha, estava um caldeirão.

Era largo, bojudo e preto, com a metade da altura de um homem. Sua boca medonha abria-se larga o bastante para conter um corpo humano, A borda do caldeirão estava amas­sada e gasta pelo uso, os lados tinham mossas e arranhões; na orla da borda e na curva de seu bojo havia gotículas e man­chas marrons que Taran sabia que não eram de ferrugem. Uma longa e grossa alça prendia-se a uma barra pesada; duas argolas, como os elos de uma grande corrente, encaixavam-se nos dois lados. Embora fosse de ferro, o caldeirão parecia estar vivo, repugnante e carregado de um mal antiqüíssirmo. A boca vazia engolia a brisa gelada e um murmúrio baixo erguia-se das profundezas do caldeirão, como as vozes perdi­das dos mortos atormentados.

— É o Crochan Negro — sussurrou Taran, dominado pelo medo e pelo espanto. Agora compreendia muito bem o terror de Gurgi, pois a simples visão do caldeirão bastava para fazê-lo sentir como se uma gelada mão estivesse aper­tando seu coração. Deu as costas para o caldeirão, sem se atrever a continuar a olhar para ele.

O rosto de Fflewddur estava pálido. Eilonwy pôs a mão sobre a boca. No canto, Gurgi tremia de dar pena. Embora ele próprio o tivesse encontrado, não deu uivos alegres de triunfo. Em vez disso, enterrou-se mais fundo na palha e ten­tou fazer-se tão pequeno quanto podia.

— Sim, pois bem, suponho que realmente seja — res­pondeu Fflewddur, engolindo em seco. — Por outro lado — acrescentou esperançosamente —, talvez não seja. Elas tam­bém disseram que tinham uma porção de outros caldeirões e chaleiras espalhados por aí. Quero dizer, não queremos nos enganar nem cometer nenhum erro.

— É o Crochan — disse Taran. — Eu já sonhei com ele. E mesmo que não tivesse sonhado, ainda assim o conheceria, pois posso sentir o mal nele.

— Eu também — murmurou Eilonwy. — Está cheio de morte e sofrimento. Agora compreendo por que Gwydion quer destruí-lo. — Ela se virou para Taran. — Você estava certo em querer procurar encontrá-lo sem demora — acres­centou Eilonwy, sacudida por um calafrio. — Eu retiro todas as coisas que disse. O Crochan deve ser destruído o mais rapidamente possível.

— Sim — suspirou Fflewddur —, receio que este seja mesmo o Crochan. Por que não poderia ter sido uma bela chaleirinha em vez desse feio e imenso gigante? Contudo — prosseguiu ele, respirando fundo —, vamos tratar já de passar a mão nele! Um Fflam nunca hesita!

— Não! — exclamou Taran, estendendo a mão para segurar o bardo. — Não podemos nos arriscar a levá-lo em plena luz do dia; e não devemos ficar aqui, caso contrário elas saberão que o encontramos. Voltaremos depois que anoite­cer, trazendo os cavalos para arrastá-lo daqui. Por enquanto, é melhor ficarmos na choupana e fingir que não aconteceu nada.

Os companheiros rapidamente voltaram para a chou­pana. Uma vez longe do Crochan, Gurgi recuperou parte de seu entusiasmo.

— Gurgi, o sabido, o encontrou! — exclamou ele. — Aah, sim! Ele sempre encontra o que está perdido! Ele en­controu porquinhas e agora encontra um grande caldeirão que fabrica perversas ações e poções! Seu senhor bondoso honrará e exaltará o humilde Gurgi! — Apesar disso, o rosto dele estava franzido de medo.

Taran deu uma palmadinha confortadora no ombro de Gurgi.

— Sim, velho amigo — disse ele —, você já nos ajudou mais de uma vez. Mas eu nunca teria imaginado que elas ti­vessem escondido o Crochan dentro de um galinheiro vazio, debaixo de um monte de palha suja. Taran sacudiu a cabeça. — Imaginei que fossem querer guardá-lo melhor.

— De maneira nenhuma — observou o bardo. — Elas foram muito, muito espertas. Puseram o caldeirão em um dos primeiros lugares para onde qualquer pessoa iria olhar, sabendo muito bem que era tão fácil que ninguém jamais pensaria em ir procurar ali.

— É possível — comentou Taran. Ele franziu atesta. — Ou também é possível — acrescentou, sem conseguir conter o pavor que de repente se apoderou dele — que a intenção delas fosse que o encontrássemos.

Na choupana, os companheiros tentaram dormir, sabendo que a noite por vir seria uma noite de trabalho duro e perigoso. Fflewddur e Gurgi cochilaram por alguns instantes; Eilonwy acon­chegou-se em sua capa, com alguns montes de palha empilhados ao seu redor. Taran estava inquieto e apreensivo demais para sequer fechar os olhos. Ficou sentado em silêncio, apertando nas mãos um longo rolo de corda que havia tirado dos parcos supri­mentos que ainda restavam aos companheiros. Tinham decidido levantar o caldeirão enganchado na corda presa entre os dois cavalos e seguir viagem saindo dos Pântanos em busca do abrigo seguro da floresta, onde destruiriam o Crochan.

Do chalé, não se ouvia nenhum sinal de vida. Ao anoi­tecer, contudo, a luz de uma vela, de repente, brilhou na janela.

Taran se levantou sem fazer barulho e saiu cautelosamente da choupana. Mantendo-se nas sombras, encaminhou-se para a construção baixa e espiou o interior. Por um momento ficou parado ali, pasmo, sem conseguir se mover. Então se virou e correu de volta para junto dos outros o mais depressa que pôde.

— Eu vi as feiticeiras lá dentro! — sussurrou, depois de acordar o bardo e Gurgi. — Não são absolutamente mais as mesmas!

— O quê! — exclamou Eilonwy. — Tem certeza de que sem querer não foi parar em outro chalé?

— É claro que não fui — rebateu Taran. — E se não acredita em mim, vá até lá e veja por si própria. Elas não são mais as mesmas. Há três delas, sim, mas estão diferentes. Uma delas estava penteando lã com carda, uma estava fiando e a terceira tecendo.

— Na verdade, eu imagino — comentou o bardo — que isso faça o tempo passar para elas. Há muito pouco o que fazer no meio desses brejos sinistros.

— Eu realmente vou ter que ir ver por mim mesma — declarou Eilonwy. — Não há nada de estranho em tecer, mas, exceto por isso, não consigo encontrar nenhum sentido no que você diz.

Com Taran na liderança, pé ante pé, os companheiros aproximaram-se cautelosamente e espiaram pela janela. O que viram era exatamente o que ele havia descrito. Dentro do chalé, três pessoas cuidavam de suas tarefas, mas nenhu­ma delas se parecia com Orddu, Orwen ou Orgoch.

— Elas são bonitas! — cochichou Eilonwy.

— Eu ouvi falar de bruxas velhas e feias que tentam se disfarçar como belas donzelas — murmurou o bardo —, mas nunca ouvi falar de belas donzelas querendo se disfarçar pas­sando por velhas bruxas feias. Não é natural, e não me im­porto de lhes confessar que isso me deixa nervoso. Acho que é melhor nós apanharmos o caldeirão e tratarmos de ir embora.

— Não sei quem elas são — disse Taran —, mas receio que sejam muito mais poderosas do que podemos sequer imaginar. De alguma forma nos metemos em alguma coisa... não sei o que é. Isso me preocupa. Sim, acho que é melhor pegarmos o caldeirão assim que pudermos, mas esperare­mos até que estejam dormindo.

— Se elas dormirem — observou o bardo. — Agora que vi isto, nada me surpreenderia, nem mesmo se elas fica­rem de cabeça para baixo, penduradas pelos dedos dos pés a noite inteira, como morcegos.

Durante muito tempo Taran temeu que o bardo estives­se certo e que as feiticeiras pudessem simplesmente não dor­mir. Os companheiros se revezaram, vigiando o chalé e foi somente quase ao amanhecer que a vela finalmente piscou e se apagou. Numa agonia de espera, Taran ainda adiou a parti­da. Logo um som alto de roncos se elevou vindo do interior.

— Elas devem ter voltado à forma anterior — comen­tou o bardo. — Não consigo imaginar belas damas roncando dessa maneira. Não, é Orgoch. Eu reconheceria aquele ron­co em qualquer lugar.

Nas sombras silenciosas da falsa madrugada os compa­nheiros seguiram rapidamente para o galinheiro enquanto Eilonwy se aventurava a acender sua bola.

O Crochan continuava agachado em seu canto, negro e maligno.

— Agora, vamos depressa — ordenou Taran, agarran­do a alça. — Fflewddur e Eilonwy, levantem essas argolas; e Gurgi, levante o outro lado. Nós o carregaremos para fora e o amarraremos aos cavalos. Estão prontos? Vamos levantar todos juntos.

Os companheiros fizeram um enorme esforço puxando o caldeirão para cima, depois quase caíram no chão. O cal­deirão não havia se movido.

— É muito mais pesado do que eu havia pensado — comentou Taran. — Vamos tentar de novo. — Ele tentou mudar a posição de suas mãos e segurar melhor a alça. Mas as mãos não se soltavam. Com um puxão apavorado, Taran tentou arrancar as mãos dali. Mas foi em vão.

— Eu admito — resmungou o bardo — que pareço estar preso em alguma coisa.

— E eu também! — gritou Eilonwy, lutando para soltar as mãos.

— E Gurgi está preso! — uivou Gurgi aterrorizado. — Ah, tristeza! Ele não pode se mover!

Desesperadamente os companheiros se debateram atirando-se para trás e para a frente, lutando contra o inimigo de ferro, mudo. Taran puxou e torceu até começar a soluçar por não ter mais forças. Eilonwy tinha tombado, exausta, suas mãos ainda enfiadas na argola pesada. Mais uma vez, Taran se esforçou para se libertar. O Crochan Negro o segurou firme.

Um vulto vestido em uma camisola comprida apareceu no umbral da porta.

— É Orddu! — exclamou o bardo. — Com certeza seremos transformados em sapos!


 

O Preço

Orddu, piscando sonolentamente e parecendo mais desgrenhada do que nunca, entrou no ga­linheiro. Atrás dela vinham as outras duas feiti­ceiras, também vestidas em largos camisolões, os cabelos soltos e espalhando-se sobre seus ombros numa massa de emaranhados e nós. Elas haviam mais uma vez assumido a forma de velhas encarquilhadas, de maneira alguma se assemelhando às donzelas que Taran tinha visto pela janela.

Orddu levantou uma vela bruxuleante acima da ca­beça e apertou os olhos para ver os companheiros.

— Ah, os pobres cordeirinhos! — exclamou ela. — O que foi que eles foram fazer? Nós tentamos adverti-los sobre o malvado Crochan, mas os gansinhos cabeçudos não quiseram ouvir! Ah, que coisa, mas que coisa — cacarejou ela, tristemente —, agora estão com os dedinhos presos!

— Você não acha — disse Orgoch em um sussurro áspero —, que deveríamos preparar a fogueira?

Orddu virou-se para ela.

— Por favor, cale-se, Orgoch — exclamou. — Que idéia tenebrosa. Está cedo demais para o café da manhã.

— Nunca está cedo demais — resmungou Orgoch.

— Olhe só para eles — prosseguiu Orddu afetuosa­mente. — Ficam tão encantadores quando estão com medo. Como avezinhas que ainda não emplumaram.

— A senhora nos enganou e nos fez cair nesta armadi­lha, Orddu! — gritou Taran. — Sabia que encontraríamos o caldeirão e sabia o que iria acontecer!

— Ora, mas é claro que sabíamos, meu franguinho — respondeu Orddu docemente. — Estávamos apenas curiosas para descobrir o que fariam quando o encontrassem. E agora encontraram, e agora nós sabemos!

Taran lutou desesperadamente para se libertar. A des­peito de seu terror, atirou a cabeça para trás e lançou um olhar furioso e desafiador para Orddu,

— Matem-nos se quiserem, suas velhas bruxas malva­das! — exclamou ele. — Sim, nós teríamos roubado o caldei­rão e o teríamos destruído! E tentarei fazer a mesma coisa de novo, portanto tempo quanto viver! — Taran atirou-se furio­samente contra o Crochan, imóvel como um rochedo, e mais uma vez com toda sua força tentou em vão arrancá-lo do chão.

— Adoro vê-los ficar furiosos, você não gosta? — co­chichou Orwen alegremente para Orgoch.

— Tome cuidado — Orddu advertiu Taran —, ou vai se machucar com todas essas contorções e pancadas. Nós perdoamos você por nos chamar de velhas bruxas — acres­centou, com indulgência. — Está fora de si, pobre franguinho, e é capaz de dizer qualquer coisa.

— As senhoras são criaturas malvadas! — gritou Taran. — Façam o que quiserem conosco, porém mais cedo ou mais tarde serão vencidas. Gwydion saberá de nosso desti­no. E Dallben...

— Sim, sim! — berrou Gurgi. — Eles encontrarão, ah, sim! Com grandes combates e embates!

— Meus queridos franguinhos — respondeu Orddu —, ainda não compreendem, não é? Malvadas? Ora, agradeçam do fundo de seus pequeninos corações vivos, nós não somos malvadas.

— Eu dificilmente chamaria isto de “bom” — resmun­gou o bardo. — Não, pelo menos, não de um ponto de vista pessoal.

— É claro que não — concordou Orddu. — Não so­mos nem boas, nem más. Simplesmente nos interessamos pelas coisas como elas são. E as coisas como elas são, no momento, parecem ser que vocês estão presos pelo Crochan.

— E vocês pouco se importam, não se incomodam! — exclamou Eilonwy. — Isso é pior que serem más!

— Certamente nos incomodamos, minha querida — disse Orwen em tom apaziguador. — É que não nos incomo­damos exatamente da mesma maneira que vocês, ou, me­lhor dizendo, nos incomodar com alguma coisa não é, na ver­dade, um sentimento que possamos ter.

— Agora, deixem disso — disse Orddu —, não aflijam seus pensamentos com essas questões. Estivemos conver­sando e conversamos muito, e temos algumas notícias agra­dáveis para vocês. Tragam o Crochan para fora... aqui dentro está tão abafado e cheirando a ovos... e contaremos a vocês. Vamos lá, vão em frente — acrescentou ela —, agora vão conseguir levantá-lo.

Taran lançou um olhar de desconfiança para Orddu, mas se aventurou a apoiar seu peso contra o caldeirão. Ele se mo­veu, e Taran descobriu, também, que suas mãos estavam livres.

Com muito esforço os companheiros conseguiram levantar o pesado Crochan e carregá-lo para fora do galinheiro.

Lá fora, o sol já havia nascido. Enquanto os companhei­ros punham o caldeirão no chão e rapidamente se afastavam, os raios da alvorada tingiram o ferro negro do caldeirão de vermelho cor de sangue.

— Pois sim, muito bem, agora, como eu ia dizendo — continuou Orddu, enquanto Taran e seus companheiros es­fregavam os braços e mãos doloridos —, conversamos muito sobre a questão e chegamos a um acordo, todas concorda­mos — até Orgoch concorda — que vocês terão o Crochan se, verdadeiramente, o quiserem.

— Vão nos deixar levá-lo? — exclamou Taran. — De­pois de tudo o que fizeram?

— Exatamente — respondeu Orddu. — O Crochan é inútil... só serve para fazer Nascidos do Caldeirão. Arawn o estragou para qualquer outra coisa, como bem podem imagi­nar. É triste que isso tenha acontecido, mas é assim que são as coisas. Pois bem, eu lhes asseguro que Nascidos do Caldei­rão são as últimas criaturas do mundo que quereríamos ver por aqui. De modo que chegamos à conclusão de que o Crochan nada mais é que um estorvo incômodo para nós. E uma vez que são amigos de Dallben...

— Estão nos dando o Crochan? — Taran começou a perguntar, espantadíssimo.

— Ficaremos encantados em obsequiá-las senhoras — aparteou o bardo.

— Devagar, vamos mais devagar, meus patinhos — in­terrompeu Orddu. — Dor o Crochan a vocês? Ah, não, de jeito nenhum! Nós nunca damos nada. Só vale a pena ter aquilo que mereceu nosso esforço para ser conquistado. Mas daremos a vocês uma oportunidade para comprá-lo.


— Nós não temos tesouros com os quais possamos negociar — disse Taran decepcionado. — Infelizmente, real­mente não temos.

— Não poderíamos esperar que pagassem tanto quanto Arawn pagou — respondeu Orddu —, mas temos certeza de que poderão encontrar alguma coisa para oferecer em troca. Ah, digamos... o Vento do Norte dentro de uma sacola?

— O Vento do Norte! — exclamou Taran. — Impossí­vel! Como sequer poderiam sonhar...?

— Muito bem — disse Orddu —, não vamos ser exi­gentes. O Vento do Sul, então. É muito mais suave.

— Está fazendo troça conosco — exclamou Taran furio­so. — O preço que pede está muito além do que qualquer um de nós pode pagar.

Orddu hesitou.

— É possível que você esteja certo — admitiu ela. — Bem, então alguma coisa um pouco mais pessoal. Já sei! — disse ela, sorrindo radiante para Taran. — Dê-nos... dê-nos o mais lindo dia de verão de que puder se lembrar! Você não pode dizer que isso seja difícil, uma vez que lhe pertence!

— Sim — disse Orwen avidamente. — Uma lindíssima tarde de verão, cheia de luz do sol e de perfumes modorrentos.

— Não existe nada que seja tão doce — murmurou Orgoch, chupando um dente — quanto uma tarde de verão de um cordeirinho ainda bem pequenino.

— Mas como eu poderia lhes dar isso? — protestou Taran. — Ou qualquer outro dia, quando eles estão... eles estão dentro de mim em algum lugar? Não se pode tirá-los de lá! Quero dizer...

— Poderíamos tentar — resmungou Orgoch. Orddu suspirou pacientemente.

— Muito bem, meus gansinhos. Nós fizemos as nossas sugestões e estamos dispostas a ouvir as suas. Mas prestem atenção, para que seja uma troca justa, deve ser alguma coisa que vocês prezem tanto quanto prezam o Crochan.

— Eu prezo minha espada — disse Taran. — Foi um presente de Dallben e é a primeira espada que é realmente minha. Pelo Crochan, eu me separaria dela, de bom grado.

— Ele rapidamente começou a desafivelar o cinto, mas Orddu abanou a mão desinteressadamente.

— Uma espada? — respondeu ela, sacudindo a cabeça.

— Céus, de jeito nenhum, meu querido. Já temos tantas... na verdade, temos espadas demais. E algumas delas, armas fa­mosas de poderosos guerreiros.

— Então — disse Taran, com hesitação —, eu lhes ofe­reço Lluagor. Ela é um nobre animal. — Ele fez uma pausa, vendo Orddu franzir atesta. — Ou — acrescentou ele, relu­tantemente, em voz baixa — o meu cavalo, Melynlas, um potro, filho de Melyngar, o cavalo de batalha do Príncipe Gwydion. Nenhum outro é mais veloz nem de andar mais seguro que ele. Eu prezo Melynlas mais que todos os outros.

— Cavalos? — disse Orddu. — Não, isso absolutamen­te não serve. É uma trabalheira tão grande alimentá-los e cuidar deles. Além disso, com Orgoch é difícil ter animais de estimação por aqui.

Taran ficou em silêncio por um momento. Seu rosto empalideceu, enquanto pensava no broche de Adaon e sua mão o cobriu em um gesto protetor.

—Tudo que me resta — começou ele, falando lentamente.

— Não, não! — gritou Gurgi, abrindo caminho para aproximar-se da feiticeira e brandindo sua mochila. — Fique com o grande tesouro de Gurgi! Fique com a mochila de lambiscos e petiscos!

— Comida, não — disse Orddu. — Isso também não serve. A única de nós que tem algum interesse por comida é Orgoch. E tenho certeza de que sua mochila não tem nada que possa tentá-la.

Gurgi olhou para Orddu desapontado.

— Mas é tudo que o pobre Gurgi tem para dar. — Ele estendeu a mochila mais uma vez.

A feiticeira sorriu e sacudiu a cabeça. As mãos de Gurgi caíram junto a seu corpo; seus ombros se curvaram e ele se virou pesarosamente.

— Devem gostar de jóias — observou Eilonwy rapida­mente. Ela tirou o anel do dedo e o ofereceu a Orddu. — Esta é uma coisa muito linda — comentou Eilonwy. — Foi o Príncipe Gwydion quem me deu. Está vendo a pedra? Foi lapidada pelo Povo Formoso.

Orddu pegou o anel, segurou-o bem junto do olho e o examinou cobiçosamente.

— Lindo, muito lindo — disse ela. — Tão bonito. Quase tão bonito quanto você, minha ovelhinha. Mas tão mais velho. Não, receio que não. Também já temos uma quantidade deles. Realmente não queremos mais anéis. Fique com ele, minha querida. Um dia pode ser que encontre alguma utilidade para ele, mas nós certamente não encontraremos. — Ela devolveu o anel a Eilonwy, que tristemente tornou a enfiá-lo no dedo.

— Eu tenho uma outra coisa que é muito preciosa para mim — prosseguiu Eilonwy. Ela enfiou a mão nas pregas da capa e tirou a esfera dourada.

— Veja — disse ela, girando-a nas mãos de modo que luzisse com um brilho fulgurante. — É muito melhor do que apenas uma luz — explicou Eilonwy. — Com ela a gente vê as coisas de uma maneira diferente, de alguma forma, com mais clareza. É muito útil.

— Que gentileza de sua parte oferecê-la a nós — disse Orddu. — Porém, mais uma vez, é algo de que realmente não precisamos.

— Senhoras, senhoras! — exclamou Fflewddur. — Dei­xaram de ver o mais excelente objeto para esta troca. — Ele deu um passo adiante e tirou a harpa do ombro. — Com­preendo perfeitamente que sacolas de comida e todas as coisas desse tipo não poderiam interessá-las. Mas peço-lhes que considerem esta harpa. Estão sozinhas aqui neste brejo escu­ro — prosseguiu ele — e um pouco de música deveria ser exatamente aquilo de que precisam.

— A harpa quase toca por si só — continuou Fflewddur. Ele pôs o belo instrumento arqueado no ombro, mal tocou nas cordas e uma longa e belíssima melodia encheu o ar. — Viram só? — exclamou o bardo. — Não há nenhum mistério!

— Ah, realmente é bonita! — murmurou Orwen desejosa. — E pensem nas canções que poderíamos cantar para nos fazer companhia.

Orddu examinou a harpa cuidadosamente.

— Estou vendo que muitas das cordas têm os nós mal­feitos. O mau tempo as danificou?

— Não, não foi exatamente o mau tempo — respon­deu o bardo. — Comigo elas têm a tendência de se partir com freqüência. Mas só quando eu... quando eu exagero um pouco os fatos. Tenho certeza de que as senhoras não teriam esse tipo de problema.

— Posso compreender que a preze muito — disse Orddu. — Mas, se quisermos música, podemos sempre man­dar vir alguns passarinhos. Não, pensando bem, seria um abor­recimento, ter que mantê-la afinada e assim por diante.

— Você tem certeza de que não tem mais nada? — perguntou Orwen esperançosamente.

— Isto é tudo — disse o bardo desapontado. — Abso­lutamente tudo. A menos que queiram as capas que temos no corpo.

— Por favor, de forma alguma! — disse Orddu. — Não seria apropriado, não, de maneira nenhuma, que vocês, po­bres patinhos, ficassem sem elas. Morreriam de frio... E então de que lhes serviria o Crochan?

— Eu sinto muitíssimo, meus franguinhos — prosseguiu Orddu. — Realmente parece que não possuem nada que possa nos interessar. Muito bem, nós ficaremos com o Crochan e vocês seguirão seu caminho.


 

O Crochan Negro

— Adeus, minhas corujinhas — disse Orddu, virando-se na direção do chalé. — É uma infelicidade que não tenham po­dido chegar a um acordo conosco. Mas isso, também, é como são as coisas. Tratem de voar de volta para seu ninho, e não deixem de dar nossas lembran­ças carinhosas a Dallben.

— Espere! — gritou Taran, e saiu andando a passadas largas atrás dela.

Eilonwy, percebendo qual era sua intenção, gritou pro­testando e o agarrou pelo braço. Delicadamente, Taran a afastou. Orddu parou e olhou de volta para ele.

— Tenho... tenho mais uma coisa — disse Taran em voz baixa. Ele se contraiu e respirou fundo. — O broche que uso, o presente de Adaon, Filho de Taliesin.

— Broche? — perguntou Orddu, olhando para ele curiosamente. — Um broche, de verdade? Sim, isso pode­ria ser mais interessante. Talvez seja exatamente a coisa perfeita. Deveria tê-lo mencionado antes.

Taran levantou a cabeça e seus olhos encontraram os de Orddu. Durante aquele instante, pareceu-lhe que eles estavam completamente sozinhos. Levantou a mão len­tamente até a garganta e sentiu a força mágica do broche percorrer seu corpo.

— Esse tempo todo esteve se divertindo à nossa custa, Orddu — sussurrou ele. — Viu o broche de Adaon desde o momento em que chegamos aqui. Sabia exatamente o que era.

— Isso tem alguma importância? — respondeu Orddu. — Você ainda tem a escolha, se vai querer ou não usá-lo para fazer a troca. Sim, nós conhecemos bem o broche. Menwy, Filho de Teirgwaedd, o primeiro de todos os bardos, o fez há muito, muito tempo atrás.

— Poderiam ter-nos matado — murmurou Taran — e ficado com o broche.

Orddu deu um sorriso triste.

— Você não compreende, meu pobre franguinho? Como a sabedoria, a verdade e o amor, por sua própria natureza, o broche tem que ser dado voluntariamente, de bom grado, caso contrário seu poder mágico desaparece. E é, de fato, repleto de força mágica. Isto também é preciso que você compreenda. Pois, Menwy, o bardo, fez um feitiço muitíssimo poderoso quando fez este broche, e o encheu de sonhos, de sabedoria e de visão. Com um broche como este, um pati­nho poderia conquistar muita glória e honra. Quem sabe? Poderia igualar todos os heróis de Prydain, até mesmo Gwydion, Príncipe de Don.

— Pense com cuidado, patinho — disse Orddu. — Pois, uma vez dado, ele não voltará de novo às suas mãos. Quer trocá-lo por um caldeirão malvado que pretende apenas destruir?

Enquanto segurava o broche, Taran recordou-se com amarga clareza das alegrias de visões e perfumes, de gotas de orvalho numa teia de aranha, de como salvara seus compa­nheiros do desabamento de rochas, de Gurgi elogiando sua sabedoria, dos olhos cheios de admiração de Eilonwy, e de Adaon, que lhe confiara o broche. Mais uma vez, foi domina­do pelo orgulho da força e do conhecimento. A seus pés, o feio caldeirão parecia zombar dele.

Taran assentiu, mal conseguindo falar.

— Sim — disse pesaroso. — Estou de acordo, minha oferta é o broche em troca do caldeirão. — Lentamente, abriu o fecho do broche em sua garganta. Enquanto deixava cair o pedaço de ferro na mão estendida de Orddu, foi como se uma luz tremeluzisse e se apagasse em seu coração e ele quase gritou alto tamanha era a angústia que sentia.

— Feito, meu franguinho! — exclamou Orddu. — O broche pelo Crochan!

Os companheiros mantiveram-se ao seu redor, em silêncio, entristecidos e consternados. As mãos de Taran cerraram-se.

— O Crochan é nosso — disse ele, olhando cara a cara para Orddu. — Não é verdade? É nosso para fazermos com ele o que quisermos?

— Ora, mas é claro, querida avezinha — disse Orddu. — Nunca desrespeitamos um acordo. É inteiramente seu, sem qualquer dúvida.

— Em seus estábulos — disse Taran —, vi martelos e barras de ferro. Nos permitiria usá-los? Ou — acrescentou ele com amargura — deveremos pagar mais alguma coisa por isso?

— Use-os à vontade — respondeu Orddu. — Incluire­mos isso como parte da troca, pois você é um bravo franguinho audacioso, temos que admitir.

Taran conduziu os companheiros até o estábulo e lá se deteve.

— Eu compreendo o que todos vocês estavam tentan­do fazer — disse em voz baixa apertando entre as suas as mãos deles, um de cada vez. — Cada um de vocês teria oferecido aquilo que tinha de mais precioso por mim. Estou feliz por Orddu não ter querido a sua harpa, Fflewddur — acrescentou ele. — Sei como você teria ficado infeliz sem sua música, muito mais do que eu sem meu broche. E Gurgi, você nunca deveria ter tentado sacrificar seu alimento por minha causa. E Eilonwy, seu anel e sua bola são realmente úteis e bonitos demais para serem trocados por um feio Crochan.

— Todas essas coisas — prosseguiu Taran —, agora, são duplamente preciosas. E do mesmo modo são vocês, meus melhores e mais verdadeiros amigos. — Ele apanhou um martelo que estava encostado na parede. — Agora, va­mos, amigos, temos uma tarefa a concluir.

Armados de barras de ferro e marretas, os companhei­ros voltaram rapidamente para o chalé e, enquanto as feiti­ceiras observavam curiosamente, Taran ergueu o martelo. Com toda sua força ele o baixou sobre o Crochan.

O martelo quicou. O caldeirão badalou como um gran­de sino de perdição, mas permaneceu sem uma marca. Com um grito de raiva, Taran o golpeou de novo. O bardo e Eilonwy acrescentaram pancadas furiosas, enquanto Gurgi castigava o caldeirão com uma barra de ferro.

A despeito dos esforços de todos eles, o caldeirão não apresentou nem o mais leve estrago. Banhado de suor e exausto, Taran apoiou-se no martelo e enxugou o rosto molhado.

— Vocês deveriam ter nos contado, meus gansinhos, o que pretendiam fazer — gritou Orddu. — Não podem fazer isso com o Crochan, não adianta.

— O caldeirão nos pertence — retrucou Eilonwy. — Taran pagou mais do que o suficiente. É problema nosso se queremos despedaçá-lo!

— Naturalmente — respondeu Orddu —, e podem ficar à vontade e martelar e chutá-lo até os pássaros começa­rem a fazer ninhos de novo. Mas, meus gansinhos tolos, vocês nunca destruirão o Crochan dessa maneira. Céus, de jeito nenhum, estão fazendo tudo errado!

Gurgi, pronto para se enfiar dentro do Crochan e atacá-lo a partir do interior, parou para ouvir enquanto Orddu prosseguia.

— Uma vez que o Crochan é de vocês — disse ela —, têm o direito de saber como destruí-lo. Só existe uma manei­ra, embora seja muito simples e elegante.

— Então diga-nos! — exclamou Taran. — De modo que possamos pôr um fim a essa coisa malvada!

— Uma pessoa viva tem que entrar dentro dele — dis­se Orddu. — Quando ele o fizer, o Crochan se despedaçará. Mas — acrescentou ela — há um detalhe desagradável a respeito disso, o pobre patinho que entrar nunca sairá vivo.

Com um uivo de terror, Gurgi saltou para longe do cal­deirão e correu para uma distância segura, onde furiosamen­te brandiu sua barra de ferro e sacudiu o punho cerrado para o Crochan.

— Sim — disse Orddu com um sorriso —, esta é a maneira de fazê-lo. O Crochan só lhe custou um broche, mas ele custará uma vida para ser destruído. E não é só isso, quem quer que dê sua vida para destruir o Crochan deve fazê-lo de livre e espontânea vontade, tendo pleno conhecimento do que está fazendo.

— E agora, meus pintinhos — prosseguiu ela —, real­mente temos que lhes dizer adeus. Orgoch está morrendo de sono. Vocês nos acordaram muito cedo, sabem disso. Adeus, adeus. — Ela abanou a mão e, junto com as outras feiticeiras, virou-se para entrar no chalé.

— Pare! — gritou Taran. — Diga-nos, não existe ne­nhuma outra maneira? — Ele correu até a porta.

A cabeça de Orddu se espichou para fora por um instante.

— Nenhuma outra, meu franguinho — respondeu ela, e, pela primeira vez, havia um vestígio de piedade em sua voz.

A porta fechou-se, bruscamente, na cara de Taran. Ele bateu e socou em vão; não houve nenhuma outra resposta das feiticeiras e mesmo a janela, de repente, escureceu enco­berta por uma neblina preta, impenetrável.

— Quando Orddu e suas amigas dizem adeus — co­mentou o bardo —, elas realmente estão falando sério. Duvi­do que as vejamos novamente. — Ele se animou e sorriu. — E esta é a melhor notícia que eu tive nesta manhã.

Cansadamente, Taran deixou o martelo tombar no solo.

— Certamente deve haver alguma outra coisa que pos­samos fazer. Embora não possamos destruir o Crochan, não podemos nos atrever a nos separar dele.

— Esconda-o — sugeriu Fflewddur. — Enterre-o. E eu diria que devemos fazer isso o mais rapidamente possível. Pode ter certeza de que não vai encontrar ninguém ansioso para pular dentro dessa coisa e quebrá-la para nós.

Taran sacudiu a cabeça.

— Não, não podemos escondê-lo. Mais cedo ou mais tarde Arawn o encontraria, e todos os nossos esforços teriam sido desperdiçados. Dallben saberá o que fazer — prosseguiu ele. — Só ele possui a sabedoria necessária para lidar com este caldeirão. O próprio Gwydion havia planejado levar o Crochan para Caer Dallben. Agora esta deve ser nossa missão.

Fflewddur concordou.

— Suponho que esta seja a única alternativa segura. Mas é um monstro muito pesado. Não vejo como nós quatro conseguiremos carregá-lo por algumas daquelas trilhas nas montanhas.

Diante do chalé silencioso, os companheiros trouxeram Lluagor e Melynlas e amarraram o caldeirão entre os dois cavalos de batalha. Gurgi e Eilonwy conduziram os dois cava­los pesadamente carregados, enquanto Taran e o bardo ca­minhavam, um na frente e o outro atrás, para firmar o Crochan e impedi-lo de balançar.

Embora estivesse ansioso para se ir embora do chalé de Orddu, Taran não ousou se aventurar a atravessar novamen­te os Pântanos de Morva. Em vez disso, determinou que os companheiros viajariam, mantendo-se a alguma distância das margens do pântano, ficando em terra firme e seguindo um caminho que fazia um semicírculo ao redor do brejo até che­garem aos campos cobertos de urze.

— É um caminho mais longo — disse Taran —, mas os Pântanos são muito traiçoeiros. Da última vez, o broche de Adaon me guiou. Agora — acrescentou ele — receio que nos conduziria ao mesmo destino que tiveram os Caçadores.

— Esta é uma excelente idéia! — exclamou o bardo. — Não para nós — acrescentou ele rapidamente —, mas pa­ra o Crochan. Vamos afundar esse caldeirão horroroso nas areias movediças!

— Não, muito obrigada! — — respondeu Eilonwy. — Quando chegasse a hora em que afinal encontrássemos areia movediça, estaríamos afundando junto com o Crochan. Se estiver cansado, podemos trocar de lugar e você conduz Melynlas.

— Não, de maneira nenhuma, de maneira nenhuma — resmungou Fflewddur. — Não é assim tão pesado. Na verda­de, acho o exercício estimulante, realmente bastante revigorante. Um Fflam nunca se cansa!

Diante disso, uma corda da harpa se rompeu, mas o bardo não lhe deu nenhuma atenção, pois estava ocupado em segurar seu lado do caldeirão que oscilava.

Taran caminhou penosamente, em silêncio, falando ape­nas para dar instruções sobre a direção a seguir para Eilonwy e Gurgi. Eles prosseguiram com apenas alguns momentos de parada para descanso durante o resto do dia. Apesar disso, ao pôr-do-sol, Taran se deu conta de que haviam coberto apenas uma pequena distância e que mal haviam chegado aos vastos campos de urze. Ele também se dava conta da enorme fadiga que sentia, tão pesada quanto o próprio Crochan, uma exaustão que jamais havia sentido enquanto usara o broche de Adaon.

Acamparam em uma charneca desprotegida, fria e estéril, envolta na neblina que flutuava vinda dos Pântanos de Morva. Ali, desamarraram o Crochan dos cavalos cansados e Gurgi tirou comida da mochila. Depois da refeição, o entusiasmo de Fflewddur reacendeu. Embora estivesse tremendo por causa do frio e da umidade, o bardo pôs a harpa no ombro e tentou animar os companheiros com uma canção alegre.

Taran, geralmente ávido para ouvir a música do bardo, sentou-se afastado do grupo, vigiando o caldeirão, com olhar sombrio. Depois de algum tempo, Eilonwy se aproximou e pôs a mão sobre o ombro dele.

— Eu compreendo que não seja nenhum consolo para você — disse ela —, mas se analisar sob um determinado ponto de vista, não entregou coisa nenhuma às feiticeiras, não verdadeiramente. Você, de fato, trocou o broche e tudo que ele trazia consigo. Mas, não percebe, todas aquelas coisas vinham do próprio broche; elas não estavam dentro de você.

— Eu creio — acrescentou ela — que teria sido muito pior entregar um dia de verão. O que quero dizer é que isto faz parte de você. Eu sei que não teria querido entregar nem um único de meus dias. Nem um dia de inverno, já que estamos falando nisso. De modo que, se examinar com aten­ção os detalhes, Orddu não tomou nada de você; ora, veja bem, você continua sendo você e não pode negá-lo.

— É verdade — respondeu Taran. — Eu continuo sen­do apenas um Porqueiro-Assistente. Deveria ter sabido que qualquer outra coisa era boa demais para durar.

— Isso pode ser verdade — respondeu Eilonwy—, mas no que diz respeito a ser um Porqueiro-Assistente, em minha opinião você é um Porqueiro-Assistente absolutamente ma­ravilhoso. Creia-me, não existe nenhuma dúvida em minha mente de que você é o melhor Porqueiro-Assistente de toda Prydain. Quantos outros existem, tenho certeza de que não sei, mas isso não interessa. E duvido que um único deles ti­vesse feito o que você fez.

— Eu não poderia ter feito outra coisa — disse Ta­ran —, não se quiséssemos ter o caldeirão. Orddu disse que elas estavam interessadas nas coisas como elas são — pros­seguiu ele. — Creio que agora elas estão interessadas nas coisas como elas devem ser.

— Adaon sabia que havia um destino traçado para ele — prosseguiu Taran, virando-se para Eilonwy sua voz ga­nhando firmeza —, e não fugiu de seu destino, embora isso tenha lhe custado a vida.

— Pois muito bem — declarou ele. — Se houver um destino traçado para mim, eu o enfrentarei. Espero apenas que possa enfrentá-lo tão bem quanto Adaon enfrentou o seu.

— Mas não esqueça — acrescentou Eilonwy —, não importa o que mais venha a acontecer, você conquistou o caldeirão para Gwydion e Dallben e todos nós. Isto é uma coisa que ninguém pode tirar de você. Ora, apenas por isso, Taran, você tem todos os motivos para se sentir orgulhoso. Taran assentiu.

— É verdade, pelo menos isso eu fiz. — Ele não disse mais nada e, em silêncio, Eilonwy o deixou ali.

Durante muito tempo, depois que os outros tinham ador­mecido, Taran ficou sentado ali, olhando para o Crochan. Re­fletiu muito cuidadosamente sobre tudo o que Eilonwy lhe dissera; seu desespero abrandou um pouco e uma ponta de orgulho despertou em seu íntimo. Brevemente o caldeirão es­taria nas mãos de Gwydion e a longa missão estaria concluída.

— Pelo menos isso eu fiz — Taran repetiu para si mes­mo. E uma nova força floresceu em seu coração.

Mas, apesar disso, enquanto o vento gemia varrendo a charneca desolada e o Crochan erguia-se diante dele como uma sombra de ferro, Taran pensou novamente no broche, enterrou o rosto nas mãos e chorou.


 

O Rio

A noite de sono aliviou Taran, mas fez muito pouco para amenizar e em quase nada abrandou a intensidade de sua exaustão. Mesmo assim, ao raiar do dia, despertou os companheiros e com muito esforço eles começaram a amarrar o Crochan em Lluagor e Melynlas. Quando acabaram, Taran olhou ao re­dor inquieto.

— Não há nenhum lugar para nos escondermos nes­sa charneca — comentou. — Eu havia esperado que pu­déssemos nos manter nas terras baixas onde nossa jornada seria mais fácil. Mas receio que Arawn tenha seus guidaintes procurando pelo Crochan. Mais cedo ou mais tarde eles nos encontrarão e aqui poderiam cair sobre nós como fal­cões sobre galinhas.

— Por favor, não me fale de galinhas — disse o bardo com uma careta amarga. — Ouvi mais do que o suficiente sobre o assunto de Orddu.

— Gurgi protegerá o bondoso senhor! — gritou Gurgi. Taran sorriu e pôs a mão sobre o ombro de Gurgi.

— Eu sei que você fará o melhor que puder — disse. Mas nem todos nós juntos somos adversários à altura de mesmo um único guidainte. — Taran sacudiu a cabeça.

— Não — disse ele relutantemente —, creio que será me­lhor rumarmos para o norte, para a Floresta de Idris. É o caminho mais longo, mas pelo menos nos daria alguma cobertura.

Eilonwy concordou.

— Geralmente, não é muito aconselhável seguir para a direção oposta de para onde você quer ir — disse ela. — Mas pode ter certeza de que eu prefiro não ter que lutar contra guidaintes.

— Então, vamos lá — disse Fflewddur. — Um Fflam nunca vacila! Embora o que meus ossos doloridos possam fazer seja uma outra questão!

Atravessando os campos de urzes, os companheiros prosseguiram sem dificuldades, mas, uma vez dentro da Flo­resta de Idris, o Crochan tornou-se mais difícil de transportar. Embora as árvores e arbustos oferecessem esconderijo e pro­teção, as trilhas eram estreitas. Lluagor e Melynlas tropeça­vam com freqüência e, a despeito de seus mais valorosos esforços, mal conseguiam arrastar o caldeirão em meio à ve­getação rasteira.

Taran ordenou uma parada.

— Nossos cavalos suportaram tudo o que podem su­portar— disse ele, acariciando o pescoço suado de Melynlas.

— Agora é nossa vez de ajudá-los. Eu gostaria tanto que Doli estivesse aqui. — Taran suspirou. — Tenho certeza de que ele encontraria uma maneira mais fácil de carregar o Crochan. Pensaria em alguma coisa engenhosa. Como fazer uma eslinga com galhos e cipós.

— É isso! — exclamou Eilonwy. — Você mesmo aca­bou de dizer qual é a maneira! Está se saindo incrivelmente bem sem o broche de Adaon!

Com as espadas, Taran e o bardo cortaram galhos bem resistentes, enquanto Eilonwy e Gurgi arrancavam cipós dos troncos das árvores. O ânimo de Taran se reacendeu quando viu a eslinga tomar forma de acordo com seu plano. Os com­panheiros içaram o Crochan e se puseram a caminho de novo. Mas, mesmo com a eslinga e com toda a força deles, o pro­gresso foi lento e penoso.

— Ah, pobres braços fatigados! — gemeu Gurgi. — Ah, duro trabalho cansativo, labutar exaustivo! Este perverso panelão é, para todos nós, um cruel e malvado patrão! Ah, tristeza! Nunca mais o pobre desmaiado Gurgi voltará a dei­xar Caer Dallben sem ser mandado!

Taran cerrou os dentes, enquanto os galhos ásperos machucavam-lhe os ombros. Ele também tinha a impressão de que era como se o feio e pesado caldeirão tivesse adqui­rido alguma estranha forma de vida própria. O Crochan, bojudo e escurecido pelo sangue, avançava aos trancos atrás dele, enquanto Taran tropeçava em meio às moitas. O cal­deirão se prendia nos galhos e raízes de árvores que se projetavam, como se, avidamente, estivesse se agarrando neles. Com freqüência, nessas paradas repentinas, os com­panheiros perdiam o equilíbrio e caíam, derrubando-o ao chão. Então, laboriosamente, eram obrigados a mais uma vez colocar o Crochan de volta na eslinga. Embora o tempo estivesse frio o suficiente para fazer a respiração deles se transformarem vapor branco, suas roupas estavam encharca­das de suor e quase rasgadas em farrapos pelos galhos sô­fregos dos espinheiros.

As árvores tinham começado a se tornar mais densas, e o solo se ergueu em direção à crista de uma colina. Para Taran, o Crochan parecia ganhar peso a cada passo. Sua boca arreganhada, aberta num sorriso malicioso, escarnecia dele, e o caldeirão resistia à sua força enquanto puxava e lutava para avançar pela trilha ascendente.

Os companheiros tinham quase alcançado a crista da colina quando um dos galhos de suporte da eslinga quebrou-se, de repente, com um estalo. O Crochan mergulhou para o solo e Taran caiu de cabeça no chão. Levantando-se com dificuldade, esfregando o ombro, ele encarou o malévolo cal­deirão e sacudiu a cabeça.

— Não adianta — disse Taran com a respiração ofegante. — Nunca conseguiremos atravessar a floresta carre­gando esse caldeirão. Não faz sentido nem tentar.

— Você parece Gwystyl falando — comentou Eilonwy. — Se não estivesse com os olhos abertos, mal seria capaz de perceber que era uma pessoa diferente falando.

— Gwystyl! — exclamou o bardo, examinando pesaro­samente as mãos esfoladas e cheias de bolhas. — Eu invejo aquele sujeito em sua toca de coelho! Por vezes penso que ele é quem estava absolutamente certo.

— Nós somos muito poucos para carregar um peso tão grande — disse Taran desesperançado. — Com mais um cavalo ou mais um par de mãos, poderia haver alguma possi­bilidade. Mas estamos apenas nos enganando se pensamos que poderemos levar o Crochan até Caer Dallben.

— Isto pode ser verdade — Eilonwy suspirou cansada­mente. — Mas não sei o que mais podemos fazer, exceto continuar a nos enganar. E talvez, depois de algum tempo, quando virmos estaremos em casa.

Taran cortou mais um galho para a eslinga, mas seu coração estava tão pesado quanto o próprio Crochan. E, depois que os companheiros arrastaram com dificuldade seu fardo até a crista da colina e desceram para um vale profun­do, Taran quase se atirou no chão de desespero. Diante deles, como uma serpente ameaçadora, estendia-se um rio turbulento.

Taran ficou olhando fixo, sombriamente, para as águas agitadas por um momento, então deu as costas para elas.

— Há um destino traçado para nós que determina que o Crochan nunca alcançará Caer Dallben.

— Isso é tolice! — exclamou Eilonwy. — Se desistir agora, então terá dado o broche de Adaon por nada! Isso é pior que botar um colar numa coruja e depois deixá-la sair voando!

— Se não estiver enganado — disse Fflewddur, queren­do ajudar —, aquele deve ser o Rio Tewyn. Já o atravessei mais para o norte, onde tem sua nascente. São surpreenden­tes as informações que você descobre nessa vida de bardo errante.

— Infelizmente, isso não nos ajuda em nada, meu amigo

— comentou Taran —, a menos que pudéssemos virar para o norte de novo e fazer a travessia onde o rio é menos largo.

— Receio que isso não seja possível — disse Fflewddur.

— Teríamos que transpor as montanhas, naquela direção. Se tivermos que atravessá-lo, teremos que fazê-lo aqui.

— Parece um pouco mais raso ali, mais abaixo — disse Eilonwy, apontando para um ponto onde o rio fazia uma cur­va ao redor de uma margem coberta de junça. — Muito bem, Taran, de Caer Dallben — disse ela —, qual é a sua decisão? Não podemos ficar parados aqui até que guidaintes ou algu­ma coisa ainda mais desagradável nos encontre, e certamen­te não podemos voltar para o chalé de Orddu e oferecer trocar o Crochan de novo.

Taran respirou fundo.

— Se todos vocês estiverem dispostos — disse ele —, tentaremos cruzar o rio.

Lentamente, com grande esforço sob o peso cruel, os companheiros levaram o Crochan até a margem do rio. En­quanto Gurgi, conduzindo os cavalos, cautelosamente punha um pé, e depois o outro, na corrente d’água, Taran e o bardo puseram a eslinga sobre os ombros. Eilonwy seguiu ao lado deles para firmar o caldeirão que balançava. A água gelada golpeou as pernas de Taran como uma faca cortante. Ele enterrou os calcanhares no leito do rio, buscando um ponto de apoio mais firme para os pés. Então, mergulhou mais fun­do; atrás dele, esforçando-se e grunhindo, Fflewddur dava o melhor de si para evitar deixar cair sua ponta da eslinga. O frio da água do rio tirou o fôlego de Taran. Sua cabeça girou, os galhos quase escorregaram de seus dedos dormentes.

Por um momento de terror, ele se sentiu cair. Seu pé encontrou uma pedra e Taran se apoiou nela. Os cipós ran­geram e se retesaram à medida que o peso do caldeirão oscilava. Os companheiros agora estavam na metade do rio e a água subia-lhes apenas até a cintura. Taran levantou o rosto que pingava. A margem oposta não estava longe; o terreno parecia mais nivelado, a floresta não tão densa.

— Logo estaremos lá! — gritou ele, com entusiasmo renovado.

Gurgi, observou Taran, já havia conduzido os cavalos para fora da água e estava voltando para ajudar os compa­nheiros na árdua labuta.

Mais perto da margem o fundo do rio ficou pedregoso. As cegas, Taran foi andando com cuidado em meio às rochas traiçoeiras. Mais adiante erguiam-se vários pedregulhos altos e ele cautelosamente guiou o Crochan até ultrapassá-los. Gurgi estava estendendo as mãos quando Taran ouviu um grito penetrante do bardo. O caldeirão deu um solavanco. Com toda sua força Taran puxou para a frente. Eilonwy agarrou o caldeirão pela alça e puxou desesperadamente. Taran atirou-se na direção da terra firme.

O Crochan rolou sobre o lado e mergulhou nos baixios lamacentos.

Taran voltou para ajudar o Fflewddur. O bardo, que havia caído pesadamente contra os pedregulhos, estava se esfor­çando para chegar à margem. Seu rosto estava pálido de dor; o braço direito pendia imóvel junto a seu flanco.

— Quebrou? Quebrou? — gemeu Fflewddur, enquanto Taran e Eilonwy corriam para ajudá-lo a subir na margem.

— Vou poder dizer daqui a um momento — respon­deu Taran, ajudando o bardo cambaleante a sentar-se e a apoiar as costas contra um amieiro. Ele abriu a capa de Fflewd­dur, cortou a manga do gibão e cuidadosamente examinou o braço ferido. Taran viu rapidamente que a queda do bardo não só tinha sido grave, mas que também uma das pernas do caldeirão tinha-lhe aberto um profundo corte no flanco. — Quebrou — disse Taran em voz baixa e séria.

Ao ouvir isso o bardo deixou escapar um grito alto de lamento e baixou a cabeça.

— É terrível, é terrível! — gemeu ele. — Um Fflam é sempre alegre, mas isto é demais para suportar.

— Foi um acidente grave — disse Eilonwy, tentando esconder sua preocupação —, mas não deve se deixar aba­ter assim. Isso tem conserto. Vamos enfaixar.

— É inútil! — gritou Fflewddur desesperado. — Nunca mais será a mesma coisa! Ah, isto é culpa daquele medonho Crochan! Aquela coisa maldita me golpeou deliberadamente, tenho certeza!

— Você vai ficar bem, eu prometo — garantiu Taran, procurando tranqüilizar o pesaroso bardo. Ele cortou várias tiras largas de sua capa. — Estará perfeitamente recuperado dentro de pouco tempo — acrescentou. — E claro, você não vai poder mover o braço até estar curado.

— O braço? — exclamou Fflewddur. — Não é meu braço que me preocupa! É minha harpa!

— Sua harpa está em melhor estado que você — disse Eilonwy, tirando o instrumento do bardo de seu ombro e pondo-a no colo dele.

— Grande Belin, mas vocês me deram um tremendo susto! — disse Fflewddur, acariciando a harpa com a mão livre. — Braços? Naturalmente, eles se curam sem nenhum problema. Já quebrei uma dúzia, sim, bem, o que eu queria dizer é que quebrei o pulso uma vez durante um exercício de esgrima, de qualquer maneira, eu tenho dois braços. Mas só tenho uma harpa! — O bardo deixou escapar um imenso suspiro de alívio. — Na verdade, já me sinto melhor.

A despeito do sorriso corajoso de Fflewddur, Taran viu que o bardo estava sofrendo mais do que queria admitir. Rápida e delicadamente, Taran acabou de fazer uma tala e enrolou as faixas fixando-a e imobilizando o braço, então ti­rou as ervas do alforje de Lluagor.

— Mastigue isso — disse a Fflewddur. — Elas vão aliviar a dor. E é melhor você ficar absolutamente imóvel durante algum tempo.

— Ficar deitado? — exclamou o bardo. — Não agora, no pior momento possível! Temos que pescar aquele panelão perverso do rio!

Taran sacudiu a cabeça.

— Nós três tentaremos levantá-lo. Com um braço que­brado nem mesmo um Fflam poderia nos dar muita ajuda.

— De jeito nenhum! — exclamou Fflewddur. — Um Fflam sempre pode dar ajuda! — Ele se esforçou para se levantar do chão, se contorceu, se contraiu e caiu de volta. Arquejando por causa da dor provocada pelo esforço, olhou tristemente para seu ferimento.

Taran desenrolou as cordas e, com Gurgi e Eilonwy seguindo atrás dele, se encaminhou para os baixios. O Crochan estava semi-submerso na água. A correnteza fazia redemoinhos ao redor de sua boca arreganhada e o caldei­rão parecia estar resmungando desafios. A eslinga, Taran verificou, estava em perfeito estado, mas o caldeirão estava firmemente preso entre os pedregulhos. Ele fez uma laçada com a corda e a apertou em volta de uma perna que se projetava no ar, instruindo Gurgi e Eilonwy para puxarem quando desse o sinal.

Taran entrou no rio e foi andando na água, abaixou-se bem e tentou enfiar o ombro debaixo do caldeirão. Gurgi e Eilonwy puxaram com toda a força que podiam. O Crochan não se moveu.

Molhado até os ossos, com as mãos dormentes de frio, Taran lutou em vão com o caldeirão. Ofegante, ele camba­leou de volta para a margem onde amarrou cordas em Lluagor e Melynlas.

Mais uma vez Taran voltou para as águas geladas do rio. Gritou para Eilonwy, que conduziu os cavalos na dire­ção oposta ao rio. As cordas se retesaram; os cavalos de batalha se esforçaram duramente; Taran empurrou e puxou o caldeirão, que se mantinha imóvel. O bardo havia conse­guido se levantar e ajudou com as forças de que ainda dis­punha. Gurgi e Eilonwy assumiram seus lugares na água ao lado de Taran, mas o Crochan resistiu à força dos músculos de todos eles.

Tomado pelo desespero, Taran fez sinal para que paras­sem. Preocupados e tristes, os companheiros voltaram para a margem.

— Vamos acampar aqui durante o resto do dia — disse Taran. — Amanhã, quando recuperarmos as forças, pode­mos tentar de novo. Pode haver alguma outra maneira de tirá-lo de lá, não sei. Está firmemente entalado e tudo que fazemos parece piorar a situação.

Ele olhou na direção do rio, onde o caldeirão estava agachado como uma fera de olhar furioso, à espreita.

— Este caldeirão é uma coisa do mal — disse Taran — e não nos trouxe nada a não ser o mal. Agora, finalmente, receio que tenha nos derrotado.

Ele deu as costas para o caldeirão. Atrás dele os arbustos farfalharam. Taran virou-se rapidamente, de mão na espada. Um vulto avançou saindo da orla da floresta.


 

A Escolha

Era Ellidyr. Com Islimach seguindo-o, caminhou a passadas largas até a margem do rio. Lama seca emplastrava seus cabelos amarelos tostados e encardia-lhe o rosto. Suas faces e mãos tinham sido cruelmente cortadas; o gibão manchado de sangue estava rasgado em tiras e pendia de seus ombros com pe­daços arrancados, e ele estava sem capa. Com olheiras es­curas, seus olhos brilhavam febrilmente. Ellidyr parou dian­te dos companheiros emudecidos, atirou a cabeça para trás e olhou desdenhosamente para eles.

— É bem no momento oportuno que nos encontra­mos — disse numa voz enrouquecida —, bravo séquito de espantalhos! — Os lábios dele se repuxaram em um sorri­so tenso, amargo. — O menino porcariço, a criadinha de copa... não estou vendo o sonhador.

— Que está fazendo aqui? — exclamou Taran, encarando-o com raiva. — Ousa falar de Adaon? Ele está mor­to e repousa sob seu dólmen. O senhor nos traiu, Filho de Pen-Llarcau! Onde estava o senhor quando os Caçadores nos atacaram? Quando mais uma espada teria sido decisiva? O preço foi a vida de Adaon, um homem muito melhor do que o senhor jamais será!

Ellidyr não respondeu, mas passou por Taran andando todo empertigado e foi se agachar junto da pilha de alforjes.

— Dêem-me de comer — disse rudemente. — Raízes e água da chuva têm sido minha comida e bebida.

— Traidor malvado! — gritou Gurgi, levantando-se de um salto. — Não temos lambiscos e petiscos para vilão capaz de traição, não, não!

— Cuidado com essa língua — disse Ellidyr — ou vai ter que cuidar dessa cabeça.

— Dê comida a ele, já que está pedindo — ordenou Taran.

Resmungando furioso, Gurgi obedeceu e abriu a mochila.

— E só porque estamos lhe dando de comer— excla­mou Eilonwy — não pense que pode considerá-la sua nem que é bem-vindo!

— A criadinha de copa não está contente por me ver — comentou Ellidyr. — Ela está mal-humorada.

— Não posso dizer que realmente a censure por isso — observou Fflewddur, vindo juntar-se a eles. — E não vejo por que deveria esperar que fosse diferente. O senhor nos prestou um desserviço. Acha que deveríamos lhe oferecer uma festa?

— Pelo menos, o mau tocador de harpa ainda está com vocês — comentou Ellidyr, arrancando a comida da mão de Gurgi. — Mas vejo que ele é um pássaro de asa quebrada.

— Pássaros de novo — murmurou o bardo com um arrepio. — Será que nunca me será permitido esquecer Orddu?

— Por que veio nos procurar? — perguntou Taran. — Ficou satisfeito por nos abandonar uma vez. O que o traz aqui agora?

— Procurar vocês? — Ellidyr deu uma gargalhada áspe­ra. — Estou procurando os Pântanos de Morva.

— Pois bem, está muito longe deles — exclamou Eilonwy. — Mas se estiver com pressa de chegar lá, como espero que esteja, terei prazer em lhe indicar o caminho. E enquanto estiver por lá, sugiro que encontre Orddu, Orwen e Orgoch. Elas ficarão muito mais contentes em vê-lo do que nós.

Ellidyr devorou a comida e se acomodou sentado com as costas apoiadas nos alforjes.

— Assim está melhor — disse ele. — Agora há um pouco mais de vida em mim.

— O suficiente para levá-lo seja lá para onde calhar de estar indo — retrucou Eilonwy.

— E seja lá para onde vocês calharem de estar indo — respondeu Ellidyr —, desejo-lhes que tenham alegria em sua jornada. Encontrarão um número suficiente de Caçadores para satisfazê-los.

— Como assim — exclamou Taran —, os Caçadores ainda estão circulando por ai?

— Sim, menino porcariço — respondeu Ellidyr. — Toda a Annuvin está agitada. Consegui deixar para trás os Caçado­res, uma nobre competição entre lebre e cães de caça. Os guidaintes também já tiveram sua oportunidade de brincar comigo — acrescentou com uma gargalhada desdenhosa — , embora isso tenha custado a vida de dois de seu bando. Mas ainda restam bastantes deles para oferecer-lhes uma boa ca­çada, se isso lhes agradar.

— Espero que não os tenha conduzido até nós — Eilonwy começou a dizer.

— Eu não os conduzi a lugar nenhum — interrompeu Ellidyr —, muito menos a vocês, uma vez que não sabia onde estavam. Quando os guidaintes e eu nos separamos, posso lhes garantir que dei muito poucas indicações do caminho que escolhi.

— Ainda pode escolher seu caminho — retrucou Eilonwy —, desde que o conduza para longe de nós. E espe­ro que o siga com a mesma rapidez com que se foi quando fugiu às escondidas.

— Fugir às escondidas? — Ellidyr deu uma gargalhada. — Um Filho de Pen-Llarcau não foge às escondidas. Vocês eram lentos demais para mim. Havia questões urgentes a tratar.

— Sua própria glória! — replicou Taran asperamente. — Não pensou em mais nada. No mínimo, Ellidyr, fale a verdade!

— É verdade que eu pretendia ir para os Pântanos de Morva — disse Ellidyr com um sorriso amargo. — E também é verdade que não consegui encontrá-los. Embora devesse tê-los encontrado, se não tivesse sido impedido pelos Caçadores.

— Pelo que diz a criadinha de copa — prosseguiu Elli­dyr —, presumo que tenham estado em Morva.

Taran assentiu.

— Sim, estivemos lá. Agora voltaremos para Caer Dallben.

Ellidyr deu outra gargalhada.

— E vocês, também, fracassaram. Mas, uma vez que fi­zeram uma jornada mais longa, pergunto qual de nós desper­diçou mais de seus esforços e padecimentos?

— Fracassamos? — exclamou Taran. — Nós não fra­cassamos! O caldeirão é nosso! Lá está ele — acrescentou, apontando para a corcova negra do Crochan, um pouco além da margem do rio.

Ellidyr se pôs de pé de um salto e vasculhou a água de um lado para outro.

— Então, como é possível isso? — gritou enfurecido.

— Vocês me passaram para trás mais uma vez? — O rosto dele ficou rubro de raiva. — Eu mais uma vez arrisco minha vida para que um menino porcariço possa me roubar meu prêmio? — Os olhos dele estavam enlouquecidos e tentou agarrar Taran pela garganta.

Taran afastou-lhe a mão com um tabefe.

— Eu nunca o passei para trás, Filho de Pen-Llarcau! Seu prêmio? Arriscou suo vida? Pois nós perdemos uma vida e derramamos sangue pelo caldeirão. Sim, um preço terrível foi pago, um preço muito maior do que tem conhecimento, Prín­cipe de Pen-Llarcau.

Ellidyr pareceu que ia sufocar de raiva. Ficou parado sem se mover, seu rosto se contraindo e se contorcendo. Mas logo se obrigou a novamente aparentar frieza e arrogância, embora suas mãos ainda estivessem trêmulas.

— Então, menino porcariço — disse ele, numa voz baixa e áspera —, afinal você encontrou o caldeirão. Con­tudo, na verdade, ele mais parece pertencer ao rio do que a você. Quem, senão um menino porcariço, o deixaria enca­lhado assim? Não teve a sabedoria necessária ou a força necessária para despedaçá-lo, de modo que tem que carregá-lo consigo?

— O Crochan não pode ser destruído a menos que um homem dê sua vida ao entrar dentro dele — respondeu Taran.

— Tivemos a sabedoria necessária para saber que deve ser posto em segurança nas mãos de Dallben.

— Não quer ser um herói, menino porcariço? — per­guntou Ellidyr. — Por que não entra dentro dele você mes­mo? Certamente tem a coragem necessária para isso. Ou será que no fundo do coração é um covarde, quando real­mente é posto à prova?

Taran não deu atenção à provocação de Ellidyr.

— Precisamos de sua ajuda — disse ansiosamente. — Nossas forças estão se esgotando. Ajude-nos a levar o Crochan para Caer Dallben. Ou, pelo menos, ajude-nos a trazê-lo para a margem do rio.

— Ajudar vocês? — Ellidyr jogou a cabeça para trás e gargalhou descontroladamente. — Ajudar vocês? Para que um menino porcariço possa se pavonear diante de Gwydion e se gabar de seus feitos? E para que um Príncipe de Pen-Llarcau faça o papel do camponês? Não, você não terá nenhuma ajuda minha! Eu o avisei que deveria se resignar a desempenhar o papel que lhe pertence! Faça isso agora, menino porcariço!

Eilonwy gritou e apontou para o céu.

— Guidaintes!

Um bando de guidaintes voava muito alto acima das árvores. Movendo-se tão depressa como se estivessem com­petindo com as nuvens varridas pelo vento, os pássaros gi­gantescos se aproximaram em grande velocidade. Taran e Eilonwy agarraram Fflewddur e juntos, aos tropeções, carre­garam-no para o meio dos arbustos do bosque. Gurgi, quase enlouquecido pelo medo, puxou as rédeas dos cavalos e os conduziu para a segurança das árvores. Enquanto Ellidyr cor­ria atrás deles, os guidaintes desceram, rapidamente, numa arremetida, o vento agitando ruidosamente suas penas faiscantes.

Com guinchos agudos e assustadores, os guidaintes voa­ram em círculos ao redor do caldeirão, encobrindo o sol com suas asas negras. Um dos pássaros ferozes pousou no Crochan e, por um instante, permaneceu parado ali, batendo as asas. Os guidaintes não fizeram nenhuma tentativa de atacar os companheiros, em vez disso fizeram mais uma revoada em círculo, acima deles, depois arremeteram em direção ao céu.

Então fizeram uma curva rumo ao norte e as montanhas rapi­damente os esconderam.

Pálido e trêmulo, Taran saiu do bosque.

— Eles encontraram o que estavam procurando — de­clarou. — Arawn logo saberá que o Crochan espera para ser arrancado de nossas mãos. — Ele se virou para Ellidyr. — Ajude-nos — pediu novamente —, eu lhe suplico. Não po­demos ousar perder um momento.

Ellidyr deu de ombros e se dirigiu a passadas largas para a margem do rio, onde examinou cuidadosamente o Crochan meio encoberto pela água.

— Ele pode ser retirado de lá — disse quando voltou.

— Mas não por você, menino porcariço. Precisará da força de Islimach somada à força de seus próprios cavalos de bata­lha... e também precisará da minha força.

— Então, ajude-nos com sua força — implorou Taran.

— Vamos tirar o Crochan do rio e ir embora daqui antes que outros escravos de Arawn o alcancem.

— Talvez eu ajude; talvez não — respondeu Ellidyr, com uma expressão estranha no olhar. — Você pagou um preço para adquirir o caldeirão? Muito bem, vai ter que pagar um outro.

— Escute-me, menino porcariço — prosseguiu ele. — Se eu o ajudar a carregar o caldeirão até Caer Dallben, isto será de acordo com as condições que eu impuser.

— Isto não é hora de impor condições — exclamou Eilonwy. — Não queremos ouvir suas condições, Ellidyr. Desco­briremos uma maneira de tirar o Crochan sozinhos. Ou ficare­mos aqui com ele e um de nós poderá voltar e trazer Gwydion.

— Se ficarem aqui, serão mortos — respondeu Ellidyr.

— Não, isso tem que ser feito agora, e feito da maneira como eu disser, ou então não será feito.

Ele se virou para Taran.

— Estas são as minhas condições — disse ele. — O Crochan é meu e vocês estarão sob o meu comando. E fui eu quem o encontrou, não você, menino porcariço. Fui eu quem lutou por ele e o conquistou. E isto é o que você dirá a Gwydion e aos outros. E todos vocês farão um juramento solene de sujeição total e absoluta a essas condições.

— Não, não faremos! — gritou Eilonwy em resposta. — Está nos pedindo para mentir de modo que possa roubar o Crochan e também roubar todos os esforços que já fize­mos por ele! Está louco, Ellidyr!

— Não estou louco, criadinha de copa — disse Ellidyr, com os olhos faiscantes —, mas estou mortalmente cansado. Está me ouvindo? A minha vida inteira fui obrigado a ocupar uma posição secundária. Fui posto de lado, menosprezado. Honra? A cada vez que a ocasião se apresentou, ela sempre me foi negada. Mas desta vez não permitirei que o prêmio escape de minhas mãos.

— Adaon viu um monstro cruel montado em seus om­bros — disse Taran em voz baixa. — E eu também o vi. Eu o estou vendo agora, Ellidyr.

— Seu monstro cruel não me interessa nem me preo­cupa! — berrou Ellidyr. — A única coisa que me interessa e tem valor para mim é minha honra.

— E acha — perguntou Taran — que não me interesso nem dou nenhum valor à minha?

— O que é a honra de um menino porcariço — Ellidyr deu uma gargalhada —, comparada com a honra de um príncipe?

— Eu paguei pela minha honra — respondeu Taran, levantando o tom de voz — muito mais caro do que o se­nhor pagaria pela sua. Está me pedindo para jogá-la fora?

— Você, menino porcariço, ousou me censurar por buscar a glória — disse Ellidyr. — Contudo, você próprio se agarra a ela com suas mãos sujas. Não vou me demorar por aqui. São as minhas condições ou nada. Faça sua escolha.

Taran ficou em silêncio. Eilonwy agarrou Ellidyr pelo gibão.

— Como se atreve a pedir um preço tão alto? Ellidyr se afastou dela.

— Deixe o menino porcariço decidir. Cabe a ele esco­lher se vai pagá-lo.

— Se eu fizer esse juramento — disse Taran, virando-se para os companheiros —, vocês terão que jurar junto comigo. Eu não quebrarei um juramento depois que der minha palavra e jurar fé, e seria ainda mais vergonhoso para mim se eu quebrasse este. Antes de poder decidir, preciso saber se vocês, também, aceitam empenhar a palavra e se submeter ao juramento. Todos nós temos que estar de acordo com relação a isto.

Ninguém falou. Finalmente, Fflewddur murmurou:

— Eu deixo a decisão em suas mãos e aceitarei e farei o que você decidir.

Gurgi balançou a cabeça concordando solenemente.

— Eu não mentirei! — exclamou Eilonwy. — Não por este traidor e desertor.

— Não é por ele — disse Taran em voz baixa —, mas pelo bem de nossa missão.

— Mas não é correto — Eilonwy começou a argumen­tar, as lágrimas subindo-lhe aos olhos.

— Não estamos falando de correção — respondeu Taran. — Estamos falando de uma missão que precisa ser concluída.

Eilonwy desviou o olhar.

— Fflewddur disse que a escolha é sua — murmurou ela finalmente. — Tenho que dizer o mesmo.

Por um longo momento Taran não falou. Toda a angús­tia que havia sentido quando o broche de Adaon havia deixa­do suas mãos voltou a se apoderar dele. E recordou-se das palavras de Eilonwy, quando estava no mais profundo deses­pero, a voz da garota dizendo-lhe que nada nem ninguém poderia lhe tomar o que ele havia feito. Contudo, aquele era exatamente o preço que Ellidyr exigia.

Taran baixou a cabeça.

— O caldeirão, Ellidyr, é seu — disse lentamente. — Nós estamos sob o seu comando e tudo será feito como você disser. Por estas palavras nós juramos solenemente.

Entristecidos e silenciosos, os companheiros cumpriram as ordens de Ellidyr e, mais uma vez, passaram e ataram as cordas em volta do Crochan mergulhado no rio. Ellidyr posicionou e amarrou os três cavalos lado a lado, depois pren­deu as cordas a eles. Enquanto Fflewddur segurava as rédeas com a mão boa, os companheiros foram andando na água pelos baixios.

Ellidyr, de pé na correnteza com água até os joelhos, ordenou que Taran, Eilonwy e Gurgi se posicionassem em ambos os lados do Crochan e que o impedissem de escorre­gar de volta contra os pedregulhos. Ele sinalizou uma ordem para o bardo que aguardava, depois curvou-se para cumprir sua parte da tarefa.

Como havia feito com Melynlas tanto tempo antes, Ellidyr enfiou os ombros o máximo que pôde debaixo do caldeirão, até onde os pedregulhos permitiam. Seu corpo se retesou; as veias saltaram parecendo que iam explodir em sua testa banhada de suor. Mesmo assim o caldeirão não se moveu. Ao lado dele, Taran e Eilonwy se esforçaram em vão para levantar a eslinga.

Com a respiração ofegante, Ellidyr mais uma vez virou-se para o Crochan. A eslinga rangeu contra os pedregulhos; as cordas se retesaram. Os ombros de Ellidyr estavam corta­dos e sangrando, seu rosto mortalmente pálido. Ele emitiu uma outra ordem estrangulada para os companheiros; seus músculos tremeram num esforço final.

Com um grito, Ellidyr se arremessou para a frente dentro d’água, cambaleando para recuperar o equilíbrio. Então deu um grito exultante. O caldeirão havia se levantado e se soltado.

Desesperadamente, os companheiros se entregaram ao árduo trabalho de levar o Crochan para a margem. Ellidyr agarrou uma extremidade da eslinga e arremeteu com um violento empurrão para a frente. O caldeirão saiu derrapando e parou em terra firme e seca.

Na margem do rio, eles rapidamente passaram as cor­das amarrando a eslinga entre Melynlas e Lluagor. Ellidyr passou uma laçada posicionando Islimach como o cavalo na dianteira dos três, para guiar os outros e carregar parte do peso.

Até aquele momento, os olhos de Ellidyr haviam fulgurado com triunfo, mas naquele instante a expressão em seu rosto se alterou.

— Meu caldeirão foi conquistado de volta do rio — disse ele, com um olhar curioso para Taran. — Mas creio que eu talvez tenha sido precipitado demais. Você aceitou minhas condições muito depressa — acrescentou ele. — Diga-me, em que está pensando, menino porcariço? — A raiva o do­minou novamente. — Eu sei muito bem! Você tentaria me passar para trás, mais uma vez!

— Mas fiz o juramento, tem minha palavra — Taran começou a argumentar.

— E o que é o juramento de um menino porcariço? — retrucou Ellidyr. — Você deu fé e jurou; você quebrará seu juramento!

— Fale por si mesmo — disse Eilonwy indignada. — Isto é o que o senhor faria, Príncipe de Pen-Llarcau. Mas nós não somos como o senhor.

— O caldeirão precisou de todos nós para ser levanta­do — continuou Ellidyr, baixando a voz. — Mas será que, agora, ele precisa de todos nós para carregá-lo? Apenas al­guns serviriam — acrescentou. — Sim, sim... apenas alguns. Talvez apenas um, se ele tiver a força necessária.

— Meu preço foi baixo demais? — prosseguiu ele, fa­zendo meia-volta para encarar Taran.

— Ellidyr — exclamou Taran —, está realmente louco!

— Sim! — Ellidyr deu uma gargalhada. — Louco por acreditar somente em sua palavra! O preço deve ser o silên­cio, o silêncio absoluto! — Sua mão moveu-se para a espada. — Sim, menino porcariço, eu sabia que um dia teríamos que nos enfrentar.

Ele deu uma estocada para a frente, a espada já fora da bainha e erguida. Antes que Taran pudesse desembainhar sua espada, Ellidyr golpeou violentamente e deu seguimento ao ataque. Taran tropeçou descendo pela margem do rio e saltou para um pedregulho, febrilmente procurando desem­bainhar a espada. Ellidyr entrou a passadas largas na água, enquanto os companheiros corriam para detê-lo.

Quando Ellidyr girou a espada em mais um golpe, Taran escorregou e caiu de cima do pedregulho. Tentou se levan­tar, mas os seixos deslizaram sob seus pés e ele tropeçou para trás. Taran jogou as mãos para o alto. A correnteza o estava puxando e ele caiu. A ponta aguda de uma rocha se aproximou rapidamente e ele não viu mais nada.


 

A Perda

Já era noite quando Taran recuperou os sentidos. Descobriu-se deitado, apoiado em um tronco, com uma capa cobrindo-o. Sua cabeça latejava; o corpo doía. Eilonwy estava debruçada acima dele, examinando-o ansiosamente. Taran piscou os olhos e tentou se levantar. Por alguns momentos sua memória só lhe apre­sentou uma mistura de visões e de sons, de água correndo rápida, uma pedra, um grito; sua cabeça ainda girava. Uma luz amarela brilhou ofuscando-lhe os olhos. Ele se deu con­ta, à medida que sua mente gradualmente clareava, que a garota havia acendido a esfera dourada e a colocara sobre o tronco. Ao lado dele, ardia uma pequena fogueira. Agachados ao lado dela, o bardo e Gurgi alimentavam as chamas com gravetos.

— Estou contente por você ter decidido acordar — disse Eilonwy, tentando aparentar alegria, enquanto Fflewddur e Gurgi vinham se ajoelhar junto de Taran. — Você bebeu tanta água do rio que tivemos medo de que nunca fôssemos conseguir bombear toda para fora de seu estômago, e aque­la pancada na cabeça não ajudou as coisas.

— O Crochan! — exclamou Taran. — Ellidyr! — Ele olhou ao redor. — Esta fogueira — murmurou ele —, não devíamos nos arriscar a fazer nenhuma luz, os guerreiros de Arawn...

— As alternativas eram acender a fogueira ou deixar você morrer congelado — disse o bardo —, de modo que, é claro, escolhemos a primeira. A esta altura — acrescentou ele com um sorriso enviesado — duvido que possa fazer muita diferença. Uma vez que o caldeirão está fora de nossas mãos, não acredito que Arawn venha a ter o mesmo interes­se por nós. Felizmente, eu diria.

— Onde está o Crochan? — perguntou Taran. A des­peito da cabeça que ainda girava, ele se desencostou do tronco e sentou.

— Está com Ellidyr— respondeu Eilonwy.

— E se você perguntar onde ele está — acrescentou o bardo —, podemos lhe responder muito rapidamente: nós não sabemos.

— O príncipe malvado saiu em disparada com o panelão malvado — acrescentou Gurgi —, sim, sim, com grandes ca­valgadas e largas passadas!

— Que bom que nos livramos deles — concordou Fflewddur. — Não sei qual dos dois é o pior, o Crochan ou Ellidyr. Agora, pelo menos, ambos estão juntos.

— Vocês deixaram que ele se fosse? — exclamou Taran alarmado. Ele pôs as mãos na cabeça. — Deixaram que Ellidyr roubasse o Crochan?

— Deixar não é exatamente a palavra adequada, meu amigo — respondeu o bardo pesaroso.

— Você parece ter-se esquecido — acrescentou Eilonwy. — Ellidyr estava tentando matá-lo. Foi bom que você tivesse caído no rio, porque posso lhe dizer que as atividades aqui na margem não foram muito agradáveis.

— Para falar a verdade, foi terrível — prosseguiu a garo­ta. — Todos nós tínhamos corrido atrás de Ellidyr, mas, a essa altura, você já estava descendo o rio, flutuando como um graveto em um... bem, como um graveto em um rio. Tenta­mos salvá-lo, mas Ellidyr partiu para cima de nós.

— Tenho certeza de que ele tinha a intenção de nos matar — disse Eilonwy. — Você precisava ter visto a cara dele e seus olhos. Estava furioso. Não, pior que isso. Fflewddur tentou enfrentá-lo...

— Aquele vilão tem a força de dez homens! — excla­mou o bardo. — Eu mal podia desembainhar minha espa­da, fica complicado quando se está com um braço quebra­do, sabe como é. Mas eu o enfrentei! Foi um tremendo choque de armas! Você nunca viu as proezas de um Fflam ultrajado! Mais um momento e eu o teria tido à minha mercê... por assim dizer — acrescentou o bardo rapida­mente. — Ele me derrubou, me jogou longe, estendido no chão.

— E Gurgi lutou também! Sim, sim, com pancadas e dentadas!

— Pobre Gurgi — disse Eilonwy —, ele fez tudo o que podia. Mas Ellidyr o agarrou e o arremessou contra uma ár­vore. Quando tentei empunhar meu arco, ele o arrancou de mim e o quebrou com as mãos.

— Depois disso, nos perseguiu, obrigando-nos a correr para a floresta — disse Fflewddur. — Eu nunca vi um homem tomado por tamanho furor, Berrando a plenos pulmões, chamando-nos de ladrões e de perjuros, e afirmando que estáva­mos tentando mantê-lo no segundo lugar, isto é a única coisa que ele é capaz de dizer ou em que consegue pensar agora, se você quiser chamar isso de pensar.

Taran sacudiu a cabeça tristemente.

— Receio que o monstro cruel o tenha engolido com­pletamente, como Adaon advertiu — disse ele. — Do fundo de meu coração, tenho pena de Ellidyr, sinceramente.

— Eu teria mais pena dele — resmungou Fflewddur —, se não tivesse tentado cortar fora minha cabeça.

— Por muito tempo, eu o odiei — comentou Taran —, mas, no pequeno intervalo de tempo em que usei o broche de Adaon, creio que o vi mais claramente. O coração dele é infeliz e atormentado. Também nunca esquecerei do que ele me disse: que o insultei por buscar conquistar glória, mas que eu mesmo me agarrava a ela. — Taran espalmou as mãos diante de si. — Com as mãos sujas — disse tristemente.

— Não dê atenção ao que Ellidyr diz — exclamou Eilonwy. — Depois do que nos obrigou a fazer, ele não tem o direito de culpar ninguém por coisa nenhuma.

— Mas, ao mesmo tempo — prosseguiu Taran baixi­nho, quase que para si mesmo —, ele falou a verdade.

— Falou? — perguntou Eilonwy. — Só que foi verda­deiro demais; para conquistar honra para si mesmo, teria matado todos nós.

— Conseguimos escapar dele — Fflewddur continuou. — Melhor dizendo, ele finalmente parou de nos perseguir. Quando voltamos, os cavalos, o Crochan e Ellidyr haviam desaparecido. Depois disso descemos seguindo a margem do rio, procurando por você. Não tinha ido muito longe. Mas ainda estou pasmo de que alguém consiga beber tanta água ao longo de uma distância tão pequena.

— Nós temos que encontrá-lo! — exclamou Taran. — Não podemos ousar deixá-lo ficar com o Crochan! Vocês de­veriam ter-me deixado e ter ido atrás dele. — Taran tentou se pôr de pé. — Vamos depressa, não há tempo a perder!

Fflewddur sacudiu a cabeça.

— Receio que não vai ser de nenhuma utilidade fazer isso, como nosso amigo Gwystyl poderia dizer. Não há qual­quer sinal dele em lugar algum. Não temos nenhuma idéia de para onde planejava ir ou o que estava pensando em fazer. Ele tem uma dianteira grande demais sobre nós. E, embora deteste ter que admitir, eu não acredito que ne­nhum de nós, ou mesmo todos nós juntos, possamos fazer grande coisa contra ele. — O bardo olhou de relance para o braço quebrado. — Nem de longe estamos na melhor das formas para lidar com o Crochan ou com Ellidyr, mes­mo se os encontrássemos.

Taran ficou olhando fixo para a fogueira.

— Você, também, diz a verdade, meu amigo — declarou com grande tristeza. — Todos vocês fizeram mais do que eu ja­mais poderia pedir. Infelizmente, muito melhor do que eu. Sim, agora seria inútil procurar Ellidyr, tão inútil quanto foi nossa missão. Perdemos tudo por nada, o broche de Adaon, nossa honra e agora o próprio Crochan. Voltaremos para Caer Dallben de mãos vazias. Talvez Ellidyr estivesse certo — murmurou ele. — Não é apropriado que um menino porcariço busque con­quistar a mesma honra de um príncipe.

— Menino porcariço! — exclamou Eilonwy com indig­nação. — Nunca fale de si mesmo dessa maneira, Taran de Caer Dallben. Independentemente do que aconteceu, você não é um menino porcariço, é um Porqueiro-Assistente! Isto, por si só, já é uma honra! Não que as palavras não tenham o mesmo significado, se formos pensar e falar muito franca­mente — disse ela —, mas uma expressão manifesta orgulho e a outra não. Uma vez que você tem escolha, prefira a que mostra orgulho!

Taran não disse nada durante algum tempo, depois le­vantou a cabeça para encarar Eilonwy.

— Adaon certa vez me disse que há mais honra em um campo bem arado que em um campo embebido de sangue. — Enquanto falava, seu coração pareceu ficar mais leve. — Agora percebo que o que ele disse era mais verdade que qualquer outra coisa. Não invejo o prêmio de Ellidyr. Eu tam­bém buscarei conquistar honra. Mas buscarei conquistá-la onde sei que ela será encontrada.

Os companheiros passaram a noite na floresta e na manhã seguinte seguiram rumo ao sul, passando por terras menos inóspitas. Não viram nem Caçadores nem guidaintes, e também não fizeram grandes esforços para se manter es­condidos; pois, como o bardo dissera, as forças de Arawn estavam à procura do Crochan e não de um lamentável ban­do de pessoas errantes. Sem nada para carregar, eles mo­viam-se mais facilmente, embora sem Lluagor e Melynlas o ritmo de marcha fosse lento e cansativo. Taran caminhou longa e penosamente em silêncio, a cabeça baixa para se proteger do vento frio. Folhas mortas batiam-lhe contra o rosto, mas ele não lhes deu atenção, cheio como estava da angústia de seus próprios pensamentos.

Algum tempo depois do meio-dia, Taran avistou um movimento entre as árvores cobrindo a crista de uma colina. Prevendo perigo, ele incitou os companheiros a se apressa­rem na travessia da campina aberta e buscarem proteção numa moita. Mas, antes que pudessem alcançá-la, um grupo de ca­valeiros apareceu na elevação e galopou na direção deles. Taran e o bardo desembainharam as espadas, Gurgi encaixou uma flecha na corda de seu arco, e o bando exausto se pre­parou para se defender da melhor maneira possível.

Fflewddur de repente deu um grande berro e acenou vigorosamente com a espada.

— Levantem as armas! — exclamou. — Finalmente estamos salvos! Esses são os guerreiros de Morgant! Eles por­tam os estandartes da Casa de Madoc!

Os guerreiros se aproximaram rapidamente. Taran tam­bém deixou escapar um grito de alívio. De fato, eram os cavaleiros do Rei Morgant e, encabeçando o grupo, cavalga­va o Rei Morgant em pessoa. Enquanto os cavaleiros refrea­vam os cavalos parando ao lado dos companheiros, Taran correu para o cavalo de batalha de Morgant e dobrou um joelho no chão.

— Vem no momento bem oportuno, Majestade — ex­clamou ele. — Receamos que seus homens fossem os servos de Arawn.

O Rei Morgant desmontou do cavalo. A capa preta es­tava rasgada e manchada de lama pela jornada, seu semblan­te emaciado e a expressão muito fechada, mas os olhos ainda conservavam o orgulho feroz de um falcão. Uma sombra de sorriso lampejou por um instante em seus lábios.

— Mas, não obstante isso, você teria nos dado combate — disse ele, ajudando Taran a se levantar.

— Que foi feito do Príncipe Gwydion e de Coll? — perguntou Taran rapidamente e com uma inquietação re­pentina. — Fomos separados no Portão Escuro e não tive­mos mais notícias deles. Adaon, infelizmente, está morto. E receio que Doli também.

— Do anão, não encontramos vestígio — respondeu Morgant. — Lorde Gwydion e Coll, Filho de Collfrei, estão em segurança. Até agora, eles ainda estão à procura de vocês. Embora — acrescentou Morgant, com outra sombra de sor­riso —, felizmente, tenha sido minha sorte encontrá-los.

— Os Caçadores de Annuvin investiram contra nós com grande violência no Portão Escuro e nos perseguiram — pros­seguiu Morgant. — Finalmente conseguimos repeli-los e co­meçamos a nos encaminhar para Caer Cadarn, onde Lorde Gwydion esperava que vocês fossem se juntar a nós.

— Ainda não tínhamos chegado lá — disse Morgant —, quando tivemos notícias de vocês, e que tinham assumido a tarefa de ir para os Pântanos de Morva. Aquilo foi empreitada muito ousada, Taran de Caer Dallben — acrescentou Morgant —, tal­vez, tão ousada, a ponto de ser imprudente. Você deveria aprender que um guerreiro deve obediência a seu senhor.

— Não me pareceu que pudéssemos fazer outra coisa — protestou Taran. — Tínhamos que encontrar o Crochan antes de Arawn. O senhor não teria feito o mesmo?

Morgant assentiu bruscamente.

— Não censuro sua disposição, mas gostaria que com­preendesse que o próprio Lorde Gwydion hesitaria em to­mar uma decisão desse porte. Não teríamos sabido de nada de seus movimentos se Gwystyl, do Povo Formoso, não ti­vesse nos trazido notícias. Lorde Gwydion e eu então nos separamos para procurá-los.

— Gwystyl? — interrompeu Eilonwy. — Não Gwystyl! Ora, mas ele não queria fazer coisa nenhuma para nos aju­dar... até que Doli ameaçou espremê-lo! Gwystyl! Tudo o que ele queria era ser deixado em paz e se esconder em sua toca miserável!

Morgant se virou para ela.

— Fala sem ter o conhecimento necessário, Princesa. Dentre todos os que guardam os postos avançados, Gwystyl, do Povo Formoso, é o mais esperto e o mais bravo. Acredi­taria realmente que o Rei Eiddileg confiaria um posto tão próximo de Annuvin a um servo medíocre? Mas — acrescen­tou ele —, se o julgou mal, foi porque era a intenção dele que o fizesse.

— Quanto ao Crochan — Morgant prosseguiu, enquan­to Taran olhava para ele espantadíssimo —, embora tenha fracassado na missão de trazê-lo de Morva, o Príncipe Ellidyr nos prestou um nobre serviço. Sim — acrescentou Morgant rapidamente —, meus guerreiros o encontraram perto do Rio Tewyn, enquanto prosseguíamos com nossa busca. De acordo com o que ele relatou, eu havia pensado que você tinha se afogado, que seus companheiros.tinham se desgarra­do, e que ele, sozinho, trouxera o caldeirão de Morva.

— Isto não é verdade — Eilonwy começou a falar, os olhos faiscando furiosos.

— Cale-se! — exclamou Taran.

— Não, eu não vou me calar — retrucou Eilonwy, gi­rando nos calcanhares para encarar Taran. — Você não vai me dizer que ainda pensa que está obrigado por aquele jura­mento que fez com que todos nós aceitássemos!

— De que ela está falando? — perguntou Morgant. Seus olhos se estreitaram e ele observou Taran atentamente.

— Vou explicar ao senhor de que estou falando! — res­pondeu Eilonwy, sem dar atenção ao protesto de Taran. — É muito simples. Taran pagou pelo caldeirão, e pagou muito caro. Nós o carregamos quase que nas costas a cada passo do cami­nho de Morva, até que Ellidyr apareceu. Ele nos ajudou, sim, sem dúvida ele nos ajudou, exatamente como um ladrão o ajudará a arrumar seu quarto! Esta é a verdade sobre o que aconteceu, e não me interessa o que qualquer outra pessoa disser!

— Ela, de fato, está dizendo a verdade? — perguntou Morgant.

Quando Taran não respondeu, Morgant assentiu lenta­mente e prosseguiu num tom reflexivo.

— Creio que está, embora você se mantenha em silên­cio. Houve muita coisa no relato do Príncipe Ellidyr que me soou falsa. Conforme eu já lhe disse, certa ocasião, Taran de Caer Dallben, sou um guerreiro e conheço meus homens. Mas, quando você estiver cara a cara com o próprio Ellidyr, saberei sem sombra de dúvida.

— Vamos — disse Morgant, ajudando Taran a montar na garupa de seu cavalo de batalha —, cavalgaremos para meu acampamento. Sua missão está concluída. O Crochan está em minhas mãos.

Os guerreiros de Morgant puseram na garupa o resto dos companheiros e todos galoparam rapidamente para a floresta. O senhor de guerra havia montado acampamento em uma larga clareira, bem protegida por árvores, com o acesso defendido por um profundo barranco e as tendas ti­nham sido camufladas em meio a uma fileira de arbustos e moitas. Taran viu Lluagor e Melynlas amarrados entre os ca­valos de batalha dos guerreiros; ligeiramente afastada, Islimach batia a pata no solo nervosamente e aos puxões lutava con­tra o cabresto.

Perto do centro da clareira Taran prendeu a respiração ao ver o Crochan Negro, que agora tinha sido retirado da eslinga. Embora dois dos guerreiros de Morgant estivessem montando guarda a seu lado, com as espadas desembainhadas, Taran não conseguia afastar o sentimento de medo e de tragédia iminente que pairava sobre o caldeirão como uma neblina escura.

— Não receia que Arawn o ataque aqui e mais uma vez recupere o caldeirão? — sussurrou Taran.

Os olhos de Morgant se velaram por um instante, de­pois ele lançou para Taran um olhar, ao mesmo tempo, de raiva e de orgulho.

— Quem me desafiar será derrotado — declarou fria­mente —, mesmo que seja o próprio Lorde de Annuvin.

Um guerreiro afastou o cortinado de uma tenda e o senhor de guerra os conduziu para o interior.

Ali, com os pés e as mãos amarrados, jazia o vulto imóvel de Ellidyr. O rosto dele estava coberto de sangue e parecia ter sido surrado e estar tão gravemente ferido que Eilonwy não conseguiu conter um grito de pena.

— Como aconteceu isso? — exclamou Taran, virando-se para Morgant com horror e reprovação. — Majestade — acrescentou rapidamente —, seus guerreiros não tinham o direito de tratá-lo tão mal! Este é um tratamento vergonhoso e desonroso.

— Então questiona a minha conduta? — replicou Morgant. — Tem muito o que aprender sobre obediência. Meus guerreiros cumprem minhas ordens e você também o fará. O Príncipe Ellidyr ousou resistir. Advirto-o a não seguir o exemplo dele.

A um chamado de Morgant, guardas armados entraram rapidamente na tenda. O senhor de guerra fez um breve ges­to na direção de Taran e seus companheiros.

— Desarmem-nos e amarrem-nos depressa.


 

O Senhor de Guerra

Antes que o estarrecido Taran pudesse desembainhar a espada, um guarda o agarrou e rapi­damente amarrou seus braços atrás das costas. O bardo também foi imobilizado. Gritando e chutando Eilonwy lutou em vão. Por um instante Gurgi conseguiu se libertar de seus captores e se atirou na direção do Rei Morgant. Mas um guerreiro o golpeou brutalmente, derrubando-o no chão, montou em cima do vulto desacordado e o amarrou pelo pescoço, pul­sos e pés.

— Traidor! — berrou Eilonwy. — Mentiroso! Ousa roubar...

— Silenciem-na — ordenou Morgant friamente, e um momento depois uma mordaça amorteceu seus gritos.

Freneticamente Taran lutou para chegar ao lado da garota, antes de ser derrubado e ter as pernas amarradas com tiras de couro. Morgant o observou em silêncio, suas feições imóveis e sem expressão. Os guardas se afastaram dos companheiros agora impotentes. Morgant fez um ges­to para que os guerreiros se retirassem da tenda.

Taran, cuja cabeça ainda girava de incompreensão e in­credulidade, lutou contra as tiras que o prendiam.

— O senhor já é um traidor — gritou. — Será que agora vai se tornar um assassino? Nós estamos sob a prote­ção de Gwydion; não poderá escapar à sua ira!

— Eu não temo Gwydion — respondeu Morgant —, e a proteção dele para você, agora, é inútil. Inútil, na verdade, para toda Prydain. Mesmo Gwydion é impotente contra os Nascidos do Caldeirão.

Taran o encarou com horror.

— O senhor não ousaria usar o Crochan contra gente de sua própria família, seu próprio povo. Isto é ainda mais infame que traição e assassinato!

— Acha que sim? — respondeu Morgant. — Então tem mais lições a aprender além da lição de obediência. O caldeirão pertence àquele que sabe como mantê-lo e como usá-lo. E uma arma que precisa de uma mão que queira usá-la. Durante anos Arawn foi o senhor do caldeirão, contudo o perdeu. Isto não é prova de que ele era indigno de tê-lo, de que não teve a força nem a esperteza para impedir que escapasse de suas mãos? Ellidyr, o tolo orgulhoso, acredita­va que poderia ficar com o caldeirão. Mal serve para ser jogado dentro dele.

— Que está dizendo? — exclamou Taran. — O senhor pretende se tornar rival de Arawn?

— Tornar-me rival dele? — Morgant perguntou com um sorriso duro. — Não. Pretendo superá-lo. Eu conheço meu valor, embora tenha me desgastado a serviço de ho­mens inferiores a mim. Agora vejo que o momento certo chegou. Existem muito poucos — prosseguiu ele arrogante­mente — que compreendem os usos que se pode dar ao poder. E poucos que ousam usá-lo quando lhes é oferecido.

— Poder deste tipo já foi oferecido uma vez a Gwydion — continuou Morgant. — Ele o recusou. Eu não deixarei de aceitá-lo. E você?

— Eu? — perguntou Taran, com um olhar apavorado para Morgant.

O Rei Morgant assentiu. Seus olhos estavam velados, mas seu rosto de falcão estava atento e ávido.

— Gwydion falou de você — disse ele. — Contou-me muito pouca coisa, mas o pouco que disse é interessante. Você é um jovem ousado, e, talvez, mais que isso. Quanto mais, não sei. Mas sei que não tem família, nem nome, nem futuro. Não pode ter nenhuma ambição. E, no entanto — acrescentou Morgant —, pode ambicionar tudo.

— Eu não ofereceria isto a alguém como Ellidyr — continuou Morgant — Ele é orgulhoso demais, é mais fraco exatamente onde acredita ser forte. Você se lembra de quan­do eu lhe disse que sabia reconhecer quem tinha tutano? Existe muita coisa que é possível para você, Taran de Caer Dallben. E isto é o que ofereço, jure que será meu fiel vassalo, que me servirá como seu soberano e, quando chegar a hora certa, você será meu líder de guerra, tendo como seu único superior apenas a mim em toda Prydain.

— Por que está me oferecendo isto? — exclamou Taran.

— Por que me escolheu?

— Como eu disse — respondeu Morgant —, há muita coisa que você poderá realizar, se o caminho for aberto para você. Não negue que sonhou longamente em alcançar a gló­ria. Não é impossível que venha a encontrá-la, se eu soube julgar você corretamente.

— Se soubesse me julgar corretamente — rebateu Taran — saberia que eu desprezo servir a um traidor perverso!

— Não tenho tempo para ouvi-lo desabafar sua raiva — disse Morgant. — Meus planos devem ser feitos entre agora e o raiar do dia. Eu o deixarei com o seguinte para refletir: você será o primeiro dentre os meus guerreiros... ou o primeiro dentre os meus Nascidos do Caldeirão?

— Então dê-me ao caldeirão! — gritou Taran. — Atire-me dentro dele agora, enquanto estou vivo!

— Você me chamou de traidor — respondeu Morgant, sorrindo. — Não me chame de tolo. Eu também conheço o segredo do caldeirão. Você pensa que deixaria o Crochan se despedaçar antes mesmo que começasse seu trabalho? Sim — prosseguiu ele —, eu também estive nos Pântanos de Morva, muito antes que o caldeirão fosse tirado de Annuvin. Pois sabia que, mais cedo ou mais tarde, Gwydion teria que fazer seu ataque final contra Arawn. E assim eu me preparei. Você pagou um preço pelo Crochan? Eu também paguei um preço para ter o conhecimento de como ele funciona. E sei como destruí-lo, e sei como fazer com que ele me renda uma rica colheita de poder.

— Mas, não obstante isso, ter tido a esperança de me enganar foi corajoso de sua parte — acrescentou Morgant.

— Você tem medo de mim — disse ele, aproximando-se mais de Taran —, e existem muitos em Prydain que também têm. Contudo, você me desafia. Os que ousam fazer isso são muito poucos. Isso é, de fato, um metal raro, pronto para ser temperado.

Taran estava a ponto de falar, mas o senhor de guerra levantou a mão.

— Não diga mais nada. Em vez disso, pense cuidadosa­mente. Se recusar, vai se tornar um escravo sem voz e sem pensamentos, sem nem sequer a esperança da morte para libertá-lo de sua servidão.

O coração de Taran se desesperou, mas ele levantou a cabeça orgulhosamente.

— Se este for o destino que está traçado para mim...

— Será um destino mais duro do que imagina — disse Morgant, os olhos faiscando. — Um guerreiro não teme per­der a própria vida. Mas ele sacrificará a de seus companheiros?

Taran arquejou de horror enquanto Morgant prosseguia.

— Sim — disse o senhor de guerra —, um por um, seus companheiros serão mortos e dados ao Crochan. Quem ele devorará antes que você grite para parar? Será o bardo? Ou a criatura maltrapilha que é seu criado? Ou a jovem Princesa? Eles irão antes de você, enquanto você assiste. E, por último, irá você.

— Pese bem as coisas — disse o senhor de guerra. — Eu voltarei para ouvir sua resposta. — Ele atirou a capa preta ao redor dos ombros e saiu da tenda a passadas largas.

O bardo, que estivera em silêncio todo aquele tempo, deixou escapar um suspiro doloroso.

— Tivesse eu sabido disso — disse ele —, quando está­vamos nos Pântanos de Morva, teria pedido a Orddu que me transformasse num sapo. Na ocasião, a idéia não me agradou. Quanto mais penso nela agora, me parece uma vida mais feliz do que ser um guerreiro do Caldeirão. Pelo menos teria havido círculos de orvalho onde dançar.

— Ele não vai ser bem-sucedido nisso — declarou Taran. — De alguma forma, temos que arranjar uma maneira de fugir. Não podemos ousar perder a esperança.

— Estou plenamente de acordo — respondeu Fflewddur. — Sua idéia é excelente em termos gerais; são apenas os detalhes que estão faltando. Perder a esperança? De jeito nenhum! Um Fflam sempre mantém viva a esperança! Pretendo continuar mantendo viva a esperança — acrescentou ele tristemente —, mesmo quando eles vierem e me jogarem dentro do Crochan.

Gurgi e Ellidyr ainda jaziam inconscientes, mas Eilonwy não havia parado de trabalhar furiosamente para se livrar da mordaça e agora, finalmente, tinha conseguido empurrá-la para fora da boca.

— Morgant! — arquejou ela. — Ele pagará por isso! Que horror, pensei que fosse sufocar! Ele pode ter me impe­dido de falar, mas não me impediu de ouvir. Quando ele voltar, espero que tente me botar no caldeirão primeiro! Logo vai descobrir com quem está se metendo. Vai desejar que nunca tivesse pensado em fazer os seus próprios Nascidos do Caldeirão!

Taran sacudiu a cabeça.

— Quando chegar essa hora, já será tarde demais. Nós seremos mortos antes de sermos levados para o Crochan. Não, só existe uma esperança. Nenhum de vocês será sacri­ficado por minha causa. Já decidi o que devo fazer.

— Decidiu! — explodiu Eilonwy. — A única coisa que você tem que decidir é como nós vamos fugir desta tenda. Se estiver pensando em alguma outra coisa, estará perdendo seu tempo. Isso é a mesma coisa que ficar pensando se deve cocar a cabeça quando um pedregulho está prestes para cair em cima dela.

— Esta é minha decisão — disse Taran lentamente. — Eu aceitarei o que Morgant oferece.

— O quê? — exclamou Eilonwy com incredulidade. — Por um momento realmente pensei que você tivesse apren­dido alguma coisa com o broche de Adaon. Como pode sequer pensar em aceitar?

— Eu jurarei fidelidade a Morgant como soberano — prosseguiu Taran. — Ele terá minha palavra, mas não poderá me obrigar a cumpri-la. Um juramento feito sob ameaça de morte não pode me impor a obrigação de respeitar a fé jura­da. Desta maneira, pelo menos, poderemos ganhar algum tempo.

— Você tem certeza de que os guerreiros não bateram em sua cabeça sem que percebesse? — perguntou Eilonwy rispidamente. — Realmente imagina que Morgant não vai adivinhar qual é seu plano? Ele não tem nenhuma intenção de cumprir sua parte do acordo; de qualquer maneira, matará todos nós. Depois que você estiver nas garras dele, e, quero dizer, mais do que já está, nunca mais se libertará delas. Morgant um dia pode ter sido o maior dos líderes de guerra de Prydain; mas tornou-se uma pessoa má e, se você tentar fazer um acordo com ele, descobrirá que isso é pior que ser um guerreiro do Caldeirão. Embora eu admita que isto tam­bém não seja muito atraente.

Taran ficou em silêncio por algum tempo.

— Receio que você esteja certa — disse afinal. — Mas não sei que outra coisa posso fazer.

— Vamos tratar, primeiro, de sair daqui — aconselhou Eilonwy. — Podemos decidir que outra coisa fazer quando chegar a hora. De alguma forma, é difícil pensar a respeito de para onde fugir quando se está com as mãos e os pés atados.

Com muita dificuldade, os companheiros muito bem amarrados se esforçaram e conseguiram se aproximar e então tentaram desatar os nós das tiras de couro uns dos outros. Os nós se recusavam a ceder, escorregavam de seus dedos dormentes e só faziam penetrar e apertar ainda mais a carne.

Uma vez após outra os companheiros retomaram seus esforços até estarem sem fôlego e exaustos. Nem mesmo Eilonwy tinha forças para falar. Eles descansaram por algum tempo, na esperança de recuperar a energia, mas a noite avan­çou como um sonho opressivo, atormentado, e os momen­tos que, esporadicamente, passaram dormitando não lhes trou­xeram nenhum repouso reparador, tampouco ousavam des­perdiçar muito tempo precioso; a manhã, Taran sabia, chega­ria rapidamente. O gotejar, frio e cinzento, dos fios de luz da madrugada já haviam começado a se infiltrar na tenda.

A noite inteira, enquanto haviam labutado arduamente, Taran tinha escutado os movimentos dos guerreiros na cla­reira, a voz de Morgant gritando ordens ríspidas e urgentes. Naquele momento, ele se arrastou penosamente até o cortinado da entrada da tenda, pressionou a face no chão frio e tentou espiar o lado de fora. Podia ver muito pouco, pois as brumas que subiam redemoinhavam acima do relvado, e Taran só conseguia distinguir formas como sombras correndo de um lado para outro. Os guerreiros, imaginava ele, deveriam estar reunindo seus pertences talvez se preparando para le­vantar acampamento. Um longo relinchar de queixume ele­vou-se, vindo da fileira de cavalos amarrados, e o reconheceu como sendo de Islimach. O Crochan ainda continuava colo­cado onde estivera; Taran distinguiu a massa escura, ameaça­dora, e pareceu-lhe, num clarão de horror, que sua boca abria-se vorazmente.

Taran rolou sobre si mesmo e se arrastou de volta para junto dos companheiros. As feições do bardo estavam páli­das; ele parecia meio atordoado de fadiga e de dor. Eilonwy levantou a cabeça e olhou silenciosamente para Taran.

— O que foi — murmurou Fflewddur —, já chegou o momento de dizermos adeus?

— Ainda não — respondeu Taran —, embora eu re­ceie que Morgant deva estar chegando por aqui dentro de muito pouco tempo. Então nossa hora terá chegado. Como está Gurgi?

— O pobrezinho ainda está inconsciente — respondeu Eilonwy. — Deixe-o ficar como está, assim é menos doloroso.

Ellidyr se mexeu e gemeu baixinho. Lentamente, seus olhos se abriram; ele estremeceu, virou o rosto manchado de sangue, desfigurado, para Taran e o observou por algum tem­po como se não o reconhecesse. Então seus lábios dilacera­dos se moveram em seu trejeito amargo já familiar.

— E aqui estamos nós, juntos novamente, Taran de Caer Dallben — disse ele. — Não esperava que voltássemos a nos encontrar assim, tão depressa.

— Não tenha receio, Filho de Pen-Llarcau — respon­deu Taran. — Não será por muito tempo.

Ellidyr baixou a cabeça.

— E isto é algo que lamento muito sinceramente. Eu gostaria de reparar o mal que causei a todos vocês.

— Teria dito a mesma coisa se o caldeirão ainda esti­vesse em suas mãos? — perguntou Taran em tom suave e baixo.

Ellidyr hesitou.

— Vou dizer a verdade... eu não sei. O monstro negro que você viu é um senhor impiedoso; suas garras são afiadas. Contudo, não as havia sentido até agora.

— Mas vou lhe dizer uma coisa — prosseguiu Ellidyr, tentando se levantar —, roubei o caldeirão por orgulho, não por maldade. Juro a você, pelo que ainda me restar de honra, eu não o teria usado. Sim, eu teria tomado toda sua glória, ostentando-a como se fosse minha. Mas eu, também, teria levado o Crochan para Gwydion e o teria oferecido para ser destruído. Pelo menos acredite nisso de minha parte.

Taran assentiu.

— Eu acredito, Príncipe de Pen-Llarcau. E agora talvez mais do que o senhor mesmo acredita nisso.

Um vento havia começado a soprar forte, gemendo em meio às árvores e sacudindo atenda. O cortinado foi levanta­do pelo vento. Taran viu os guerreiros entrando em forma­ção dispostos em fileiras atrás do caldeirão.


 

O Preço final

— Ellidyr! — exclamou Taran. — Você ain­da tem forças para partir as tiras que o prendem e nos libertar?

Ellidyr rolou sobre o lado e lutou desesperadamente contra as tiras de couro justas, bem amarra­das. O bardo e Taran tentaram ajudá-lo, mas, finalmente, Ellidyr tombou para trás exausto e arquejando de dor por causa do esforço.

— Perdi forças demais — murmurou. — Receio que Morgant tenha me ferido mortalmente. Não consigo fazer mais que isso.

O cortinado mais uma vez se abriu erguido pelo ven­to. Um instante depois, Taran foi arremessado para o alto de corpo inteiro e bruscamente virado de cabeça para bai­xo. Ele chutou violentamente com as pernas amarradas e tentou se endireitar.

— Pare de se debater, seu idiota! — gritou uma voz em sua orelha.

— Doli! — o coração de Taran deu um pulo. — É você?

— Pergunta inteligente! — retrucou a voz asperamen­te. — Pare de tentar lutar comigo! As coisas já estão bas­tante difíceis sem você se contorcendo! Seja lá quem for que amarrou estes nós, eu gostaria que ele os tivesse amarrado em volta de seu próprio pescoço!

Taran sentiu mãos firmes puxando as tiras de couro.

— Doli! Como foi que veio parar aqui?

— Não me aborreça com conversa fiada — rosnou o anão. Taran sentiu um joelho enterrar-se na base de sua colu­na enquanto Doli agarrava melhor as tiras.

— Será que não pode ver que estou ocupado? — per­guntou o anão. — Não, é claro que não pode, mas isso não importa. Droga e maçada! Se eu não tivesse perdido meu machado acabaria com isso num instante! Ahh-ai, minhas ore­lhas! Nunca fiquei invisível tanto tempo seguido de uma vez só! Marimbondos! Vespas!

Subitamente, as tiras se soltaram. Taran sentou-se e co­meçou a fazer tudo que podia para desamarrar as pernas. Mais um instante depois, Doli em pessoa lampejou, tornan­do-se visível, e dedicou-se à tarefa de libertar o bardo. O vigoroso anão estava imundo, enlameado e suas orelhas esta­vam tingidas de um tom azul forte.

— Agora basta de invisibilidade, já fiquei invisível por tempo demais! — explodiu ele. — Não há necessidade disso aqui dentro. Não por enquanto. Abelhões! Tenho um enxa­me inteiro deles dentro de minhas orelhas!

— Como foi que conseguiu nos encontrar? — exclamou Eilonwy, enquanto o anão rasgava as tiras que a amarravam.

— Se precisa saber— retrucou o anão impacientemente —, eu não encontrei vocês. Não inicialmente. Encontrei Ellidyr. Eu o vi subindo pelo rio, um pouco antes de Morgant alcançá-lo. Estava a caminho de Caer Cadarn, depois de ter despistado os Caçadores, para pedir ajuda a Gwydion. Não tive coragem de desperdiçar tempo tentando seguir os rastros de vocês pelos Pântanos. Ellidyr estava com o caldeirão. E também com os cavalos de vocês. Aquilo despertou minhas sus­peitas. De modo que me tomei invisível e o segui a pé. Assim que compreendi o que havia acontecido, voltei para ir procurar vocês. Meu pônei tinha fugido, maldito animal, jamais gostamos um do outro, e vocês chegaram aqui antes de mim.

O anão se ajoelhou e desamarrou Gurgi, que havia co­meçado a mostrar algum sinal de vida, mas hesitou quando chegou a vez de Ellidyr.

— E com este aqui, o que fazemos? — perguntou Doli. Tenho a impressão de que ele ficará melhor se o deixar como está — acrescentou asperamente. — Eu sei o que ele tentou fazer.

Ellidyr levantou a cabeça.

Taran e Ellidyr se encararam, olhos nos olhos, por um momento, e Taran fez um gesto rápido para Doli.

— Desamarre-o — ordenou Taran.

Doli hesitou por um instante, duvidando. Taran repetiu as palavras. O anão sacudiu a cabeça, depois deu de ombros.

— Se tem certeza — resmungou, pondo mãos à obra nas tiras de couro que prendiam Ellidyr.

Enquanto Eilonwy esfregava os pulsos de Gurgi, o bardo comeu para o cortinado da tenda e cautelosamente olhou para fora. Em vão, Taran vasculhou a tenda em busca de armas.

— Estou vendo Morgant — avisou Fflewddur. — Ele está a caminho daqui. Bem, ele terá uma surpresa.

— Estamos desarmados! — exclamou Taran. — Eles são muito mais numerosos do que nós e podem nos matar a seu bel-prazer!

— Rasguem o tecido do fundo da tenda! — instruiu Doli. — Tratem de correr e fugir daqui para a floresta!

— E deixar o Crochan nas mãos de Morgant? — res­pondeu Taran. — Não, isto não podemos ousar fazer!

Ellidyr havia se posto de pé.

— Eu não tive forças para arrebentar as amarras que me prendiam — disse ele —, mas ainda posso lhes prestar um serviço.

Antes que Taran pudesse detê-lo, Ellidyr atirou-se para fora da tenda. Os guardas gritaram, dando o alerta. Taran viu Morgant dar um passo atrás de espanto, depois desembainhar a espada.

— Matem-no! — ordenou Morgant. — Matem-no! Mantenham-no longe do caldeirão!

Com o bardo e Doli seguindo em seus calcanhares, Taran correu para fora da tenda e se arremessou contra o Rei Morgant, lutando furiosamente para arrancar a espada das mãos do senhor de guerra. Com um rosnado brutal, Morgant o agarrou pela garganta e o atirou ao chão, então se virou para ir ao encalço de Ellidyr. Os cavaleiros tinham saído de formação e se apressavam para alcançar o vulto que corria.

Taran se levantou depressa. Mais adiante, viu Ellidyr lu­tando ferozmente, em combate corpo a corpo, com um dos guerreiros. Lutando como nunca lutara antes, Taran sabia que o Príncipe de Pen-Llarcau estava recomendo a todas as forças que ainda lhe restavam. Ellidyr derrubou o guerreiro, mas cambaleou, quase foi ao chão e gritou quando a espada do homem enterrou-se profundamente em seu flanco. Apertan­do o ferimento, Ellidyr seguiu adiante cambaleando.

— Não! Não! — gritou Taran. — Ellidyr! Salve-se!

A alguns passos do caldeirão, lutando loucamente, Ellidyr conseguiu se libertar dos guerreiros. Então, com um grito, ele atirou-se dentro da boca escancarada do Crochan.

O Crochan estremeceu como se fosse um ser vivo. Com horror e tristeza, Taran gritou bem alto, de novo, chamando Ellidyr. Lutando, esforçou-se para abrir caminho e se aproximar do caldeirão, mas, um instante depois, um violento estrondo, mais alto que um trovão, ressoou acima da clareira. As árvores despidas de folhas estremeceram até as raízes; os galhos se re­torceram como se em agonia. Então, enquanto os ecos rasga­vam o ar e um vento de furacão ululava nos ares bem acima dele, o caldeirão se fendeu e se despedaçou. Os cacos dentados se espalharam ao redor do corpo sem vida de Ellidyr.

Um cavalo de batalha irrompeu saído do matagal. Mon­tado nele vinha o Rei Smoit, uma espada desembainhada em punho, um grito de guerra nos lábios. Atrás do rei de barbas ruivas jorravam guerreiros a cavalo, que partiram para o com­bate contra os homens de Morgant. Em meio às forças com­batentes que avançavam, Taran vislumbrou um cavalo de batalha branco que galopava para investir contra o inimigo.

— Gwydion! — gritou Taran, e lutou para chegar ao lado dele. Então ele avistou Coll; o robusto velho guerreiro tinha desembainhado a espada e a fazia girar, golpeando vio­lentamente ao seu redor, Gwystyl, com Kaw empoleirado em seu ombro, lançou-se ao combate. Urrando de raiva, o Rei Smoit investiu direto sobre Morgant, que levantou a es­pada e golpeou brutalmente o cavalo de batalha que empinava. Smoit saltou para o chão. Dois dos guerreiros de Morgant se atiraram na frente dele para defender seu senhor, mas Smoit os derrubou com golpes poderosos e seguiu adiante.

Os olhos desvelados e faiscantes, os dentes arreganhados, Morgant lutou brutalmente em meio aos pedaços parti­dos do caldeirão, como se quisesse ainda em desafio reivindi­car a posse deles. Sua espada havia se quebrado sob a força do ataque de Smoit, contudo ele continuou, uma vez depois da outra, a dar golpes cortantes e cutiladas com a lâmina partida, dentada, o esgar do ódio e da arrogância congelado em suas feições, as mãos ainda brandindo a arma ensangüen­tada mesmo enquanto tombava morto.

Os cavaleiros de Morgant tinham sido mortos ou captura­dos quando a voz de Gwydion se elevou dando a ordem para cessar o combate. Taran foi aos tropeções até o lado de Ellidyr e tentou levantá-lo. Então baixou a cabeça dominado pelo pesar.

— O monstro negro se foi e o deixou, Príncipe de Pen-Llarcau — murmurou.

Um relinchar estridente, às suas costas, fez Taran se vi­rar. Era Islimach que havia arrebentado a corda que a prendia e agora se debruçava sobre o corpo sem vida de seu dono. A ruana levantou a cabeça afilada, ossuda, sacudiu a crina, rodo­piou e saiu a galope da clareira.

Taran, compreendendo o significado da expressão frenéti­ca nos olhos da ruana, gritou alto e saiu comendo atrás dela. Islimach avançou sobre a vegetação rasteira. Taran se esforçou para alcançá-la e agarrar as rédeas soltas, mas a ruana ganhou velocidade e seguiu para o barranco. Ela não reduziu a velocida­de nem quando chegou à beira. Islimach lançou-se e subiu num salto poderoso, manteve-se equilibrada no ar por um momento, depois despencou em direção às rochas abaixo. Taran cobriu o rosto com as mãos e deu as costas para o barranco.

Na clareira, os corpos do Rei Morgant e de Ellidyr jaziam lado a lado, e o restante dos cavaleiros do Rei Smoit cavalga­vam em um círculo lento e pesaroso ao redor deles. Sozinho e afastado dos outros, Gwydion apoiava-se pesadamente na espada preta, Dyrnwyn, a cabeça de cabelos longos e desali­nhados, caída sobre o peito, o rosto moreno, curtido pelo sol e pelo vento, cheio de dor.

Depois de muito tempo, Gwydion falou.

— Fflewddur me contou tudo o que lhes aconteceu. Meu coração está pesaroso porque Coll e eu só os encontramos agora. Contudo, sem o Rei Smoit e seus guerreiros, receio que pudéssemos não ter vencido. Ele ficou impaciente e veio à nossa procura. Tivesse eu podido lhe enviar uma mensagem, o teria convocado muito antes disso. Sou-lhe grato por sua impaciência.

— E a você, também, Porqueiro-Assistente — acres­centou ele. — O caldeirão está destruído, e com ele o poder de Arawn de aumentar o número de seus Nascidos do Cal­deirão. Esta foi uma das mais sérias derrotas que Arawn ja­mais sofreu. Mas sei qual foi o preço que pagou por ela.

— Foi Ellidyr quem pagou o preço final — disse Taran lentamente. — A derradeira honra pertence a ele. — Então falou de Islimach. — Ele perdeu realmente tudo, até seu ca­valo de batalha.

— Ou talvez tenha ganhado tudo — respondeu Gwy­dion. — E sua honra será certa. Nós erigiremos um dólmen em homenagem à sua memória. Islimach também repousará com ele, pois agora ambos estão em paz. Os mortos de Smoit também repousarão com honra, e um dólmen será erigido sobre o corpo de Morgant, Rei de Madoc.

— Morgant? — perguntou Taran, lançando um olhar de incompreensão para Gwydion. — Como pode haver honra para um homem como ele?

— É fácil julgar o mal puro, quando se manifesta sem estar misturado a nada — respondeu Gwydion. — Mas, infe­lizmente, na maioria de nós o bem e o mal estão entretecidos numa trama tão fechada quanto a dos fios em um tear; ne­cessitamos de uma sabedoria maior do que a minha para fazer tal julgamento.

— O Rei Morgant serviu os Filhos de Don durante mui­to tempo e os serviu bem — prosseguiu ele. — Até que a sede de poder abrasasse sua garganta, foi um nobre e deste­mido senhor. No campo de batalha, ele mais de uma vez salvou minha vida. Essas coisas são parte dele e não podem ser descartadas nem esquecidas.

— De modo que eu prestarei homenagem e honras ao Rei Morgant — disse Gwydion —, pelo que ele costumava ser, e a Ellidyr, Príncipe de Pen-Llarcau, pelo que ele se tornou.

Perto das tendas de Morgant, Taran encontrou nova­mente os companheiros. Sob os cuidados de Eilonwy, Gurgi havia se recuperado da pancada que levara do guarda e pare­cia apenas um pouquinho abalado.

— A pobre cabecinha mimosa está toda quebrada, ferida e dolorida — disse Gurgi, com um sorriso pálido para Taran.

— Gurgi está triste por não ter lutado ao lado de seu senhor bondoso. Ele teria derrubado guerreiros malvados, ah, sim!

— Agora basta, já tivemos lutas demais — declarou Eilonwy. — Encontrei a sua espada de novo — acrescentou ela, entregando a arma a Taran. — Mas, às vezes, desejo que, para começar, Dallben não a tivesse dado a você. Com cer­teza, ela só vai trazer problemas.

— Ah, eu diria que nossos problemas se acabaram — interveio Fflewddur, segurando o braço quebrado. — A ve­lha chaleira abominável está destruída em pedaços, graças a Ellidyr— prosseguiu ele tristemente. — Os bardos cantarão nossos feitos... e os dele.

— Isso não me interessa nem um pouco — resmungou Doli, esfregando as orelhas, que só agora haviam começado a retornar à sua cor natural. — Eu só não quero é que nin­guém, nem mesmo Gwydion, me apareça com invenções de outro plano para fazer com que eu me torne invisível.

— Bom e velho Doli — disse Taran —, quanto mais você resmunga, mais satisfeito está consigo mesmo.

— Bom e velho Doli — retrucou o anão. — Hummm! Taran avistou Coll e o Rei Smoit descansando debaixo de um carvalho. Coll tinha tirado o elmo bem-ajustado e, embora com algumas manchas roxas e cortes, seu rosto reluzia de pra­zer, enquanto passava o braço em volta dos ombros de Taran.

— Não nos encontramos tão cedo quanto eu esperava

— disse Coll, dando uma piscadela de olho para Taran —, pois pelo que soube você estava ocupado com outras coisas.

— Por meu corpo e sangue! — rugiu Smoit, dando um tapa nas costas de Taran. — Você já estava magro como um coelho esfolado da última vez em que o vi, Taran. Agora o coelho se foi e só restaram a pele e os ossos!

Um grito agudo e penetrante interrompeu o rei de bar­ba cor de fogo. Surpreendido, Taran se virou e viu Gwystyl, sentado sozinho e melancólico. Em seu ombro Kaw saltitava para baixo e para cima e balançava a cabeça feliz da vida.

— Então é você novamente — comentou Gwystyl, sus­pirando profundamente enquanto Taran corria para junto dele. — Bem, não vou culpá-lo pelo que aconteceu. Eu bem que lhe avisei. Contudo, o que está feito, está feito, e não adianta reclamar. Não adianta nada, absolutamente nada mesmo.

— Não vai me enganar novamente, Gwystyl, do Povo Formoso — disse Taran. — Eu sei quem é e o serviço valoro­so que prestou.

Kaw grasnou alegremente enquanto Taran acariciava suas penas e o cocava debaixo do bico.

— Ande, vá em frente — disse Gwystyl —, ponha-o em seu ombro. É isso o que ele quer. Aliás, no que diz respeito a isso, você o terá como presente, com os agradecimentos do Povo Formoso. Pois nos prestou um serviço também. Estáva­mos preocupados com o Crochan andando por aí, sendo levado ora para um lugar, ora para outro; nunca se sabia o que iria acontecer. Sim, sim, pegue-o — acrescentou Gwystyl com um suspiro melancólico. — Ele realmente se tomou de amores por você. E ainda bem que isso aconteceu. Eu sim­plesmente não me sinto mais disposto para cuidar de corvos, realmente não estou em condições.

— Taran! — grasnou Kaw.

— Embora deva adverti-lo, mais uma vez — prosseguiu Gwystyl —, a não prestar atenção ao que ele diz. A maior parte do tempo, ele fala simplesmente para se ouvir falar, como alguns outros tantos que eu poderia citar. O segredo é o seguinte: não lhe dê ouvidos. Não adianta ouvir. Não tem absolutamente nenhuma utilidade.

Depois de terem erigido os dólmenes, Gwystyl se foi para retomar seu serviço de guarda no posto avançado; os companheiros, o Rei Smoit e seus cavaleiros partiram da clareira e viraram seus cavalos em direção ao Rio Avren. Muito alto, acima deles, suas asas obscurecendo o céu, bando após bando de guidaintes batiam em retirada em direção a Annuvin. Dos Caçadores não havia nenhum sinal; e Gwydion acredita­va que Arawn, ao tomar conhecimento da destruição do Crochan, os havia convocado a retornar.

Os companheiros cavalgaram, não com alegria triunfante, mas lenta e pensativamente. O coração do Rei Smoit também estava entristecido, pois havia sofrido a perda de muitos guerreiros.

Com Kaw empoleirado em seu ombro, Taran cavalgava ao lado de Gwydion à frente da coluna enquanto esta ser­penteava pelas colinas resplandecentes com as cores do ou­tono. Por um longo tempo Taran não falou.

— É estranho — disse finalmente. — Eu havia ansiado por entrar no mundo dos homens. Agora o vejo cheio de sofrimento, de crueldade e traição, e daqueles que destrui­riam todos ao seu redor.

— Contudo, nele terá que entrar — respondeu Gwy­dion —, pois há um destino traçado para cada um de nós. É verdade que você viu essas coisas. Mas, igualmente, existem nele, na mesma proporção, amor e alegria. Pense em Adaon e acredite nisso.

— Pense, também, em seus companheiros — prosseguiu. — Por amizade a você, teriam aberto mão de tudo que ti­nham de mais precioso; na verdade, de tudo o que possuíam.

Taran assentiu.

— Agora vejo que o preço que paguei foi o menor de todos, pois o broche nunca foi verdadeiramente meu. Eu o usei, mas na verdade não era parte de mim. Estou grato por ter podido tê-lo comigo por todo aquele tempo; pelo menos eu soube, por um breve momento, como um bardo deve se sentir e qual a sensação de ser um herói.

— É por isso que seu sacrifício foi ainda mais difícil — disse Gwydion. — Você escolheu ser um herói não através de magia, mas através de sua própria humanidade. E uma vez que fez essa escolha, seja para o bem ou para o mal, deve assumir os riscos de um homem. Você pode ganhar ou per­der. O tempo decidirá.

Eles tinham chegado ao Vale do Ystraf e ali Gwydion refreou o cavalo de batalha de crina dourada.

— Melyngar e eu agora devemos retornar para Caer Dathyl — disse ele —, e levar as notícias para o Rei Math. Você deverá contar a Dallben tudo o que aconteceu; na ver­dade, desta vez, você sabe mais a respeito dos acontecimen­tos do que eu.

— Vá depressa — disse Gwydion, estendendo a mão. — Seus companheiros esperam por você; e Coll, eu sei, está an­sioso para preparar sua horta para o inverno. Adeus, Taran, Porqueiro-Assistente... e amigo.

Gwydion acenou uma vez e cavalgou rumo ao norte. Taran o observou até desaparecer de vista. Virou Melynlas e então viu os rostos dos companheiros sorrindo para ele.

— Vamos, ande logo — gritou Eilonwy. — Hen Wen deve estar querendo seu banho. E receio que Gurgi e eu tenhamos saído com tanta pressa que não tive tempo de arrumar a copa. Isto é pior que começar uma jornada e es­quecer de calçar os sapatos!

Taran cavalgou na direção deles.

 

 

[1] Orddu, Orwen e Orgoch, na lenda celta, são as deusas triplas bretãs do Amanhecer. Três irmãs deusas, que moram nos Pântanos de Morva e assumem a forma de velhas feiticeiras de cabelos vermelhos e vestem batas azuis. [N. da T.]

 

                                                                                            Lloyd Alexander

 

                      

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