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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O CANTO DA SEREIA / Leyguarda Ferreira
O CANTO DA SEREIA / Leyguarda Ferreira

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O CANTO DA SEREIA

 

Há seis anos que regressei a esta casa pelo braço de meu marido, num dia lindo como o de hoje. O céu estava muito azul, o sol brilhante doirava as searas que ondulavam como mar verdejante, e escorria pelas espessas copas das árvores, atravéz das folhas das oliveiras que tinham cintilações de prata, agitadas pela brisa suave daquela tarde primaveril. O roseiral estava em plena floração. Por toda a parte as rosas trepavam, enroscavam-se, caíam em cachos, brancas, vermelhas, rosadas, amarelas ou açafroadas, numa orgia de tons suaves ou vivos. O seu perfume impregnava a atmosfera e quase nos entontecia; zumbiam abelhas; as andorinhas, lá no alto, riscavam os ares com as asas esguias; era como se toda a natureza se engalanasse para me receber.

 

O automóvel entrou o portão e subiu a rua das olaias que, nessa altura, se revestiam de folhagem tenra e se despojavam das flores. E essa massa florida atapetava o chão como esplêndida alcatifa, numa policromia de tons que iam do roxo rosado ao rosa pálido e ao branco creme.

 

Com os olhos enevoados pelas lágrimas, vi a minha velha casa surgir por entre o arvoredo e depois crescer, como se viesse ao meu encontro. O Luiz Guilherme adivinhou a comoção que me estrangulava e nada me disse. Limitou-se a apertar entre as suas a minha mão que tremia, numa pressão calorosa e terna que me fez bem.

 

O carro parou junto da escadaria. Saltei para o chão e corri para a minha boa Ema que já descia tão depressa quanto lho permitiam as suas velhas pernas e, a chorar e a rir, só sabia dizer: ”A menina Patrícia... a nossa rica menina!...” Apertou-me as mãos e queria beijá-las. Não lho consenti. Cingi-a nos braços e assim nos conservámos por algum tempo, confundindo as nossas lágrimas.

 

Torcato, o marido, que há muitos anos desempenha em nossa casa as funções de jardineiro, ao lado, esperava que a nossa comoção acalmasse. Quando, por fim, nos separámos, disse-me sorrindo: ”seja bemvinda, menina Patrícia”. Estendi-lhe a mão que apertou a medo, como se receasse esmagá-la.

 

Todos os amigos, todos, até a minha Nina, companheira dos meus passeios pela quinta, até essa me reconheceu. Estava velha, já trôpega, mas ainda apareceu correndo, agitando a cauda e fitando-me com o olhar meigo, como se me perguntasse porque tardara tanto. Morreu o ano passado. Pobre Nina, que saudades tenho de ti, do teu olhar vivo e inteligente, da tua dedicada ternura!

 

Estavam todos, sim... todos menos o avô. Nesse dia já não encontrei o seu olhar sereno, não vi o seu vulto aprumado, o rosto severo coroado pela cabeleira branca, e tive pena, muita pena.

 

Meu marido mais uma vez adivinhou o que se passava no meu coração e, pegando-me no braço, arrastou-me brandamente para casa, dizendo:

 

Vamos, Patrícia!... Não queres ficar à porta, com certeza. Entremos e, enquanto a nossa boa Ema acaba de preparar o jantar, vai descansar um bocadinho. A fadiga da viagem e tantas comoções esgotaram-te os nervos.

 

Concordei e subi para o meu quarto, o que fora de minha mãe e a Ema preparara para nós. Antes de me deitar, corri todos os cantos, abri gavetas, passei a mão pelos móveis, num afago instintivo, como se ainda me parecesse mentira encontrar-me na minha velha casa, rodeada por todas aquelas coisas que nunca conseguira esquecer. Depois saí para a varanda e, involuntariamente, abri os braços, como se quisesse tomar de novo posse daqueles campos, do pomar, do jardim, de todo aquele mundo que já fora meu e que, num momento de loucura, eu abandonara.

 

Só depois me deitei, e então, quebrada por tanta emoção, adormeci até que, perto das sete, a Ema bateu à porta do quarto para me dizer que o jantar estava pronto e perguntar se podia servi-lo.

 

Hoje, ao olhar para o calendário, não pude deixar de recordar o dia e há pouco quando, ao abrir uma das gavetas de velha cómoda, encontrei este caderno em branco, lembrei-me de escrever, não um diário, mas uma espécie de narrativa de viagem, uma viagem pelo passado, de deixar nestas páginas a recordação do que foi a minha vida, nesses cinco anos que precederam o meu regresso, no período agitado do meu primeiro casamento.

 

Serei sincera, não tentarei atenuar os meus erros e culpas, que foram muitos, que resgatei com dolorosos sofrimentos, com longas horas de tortura moral, com amargas desilusões.

 

E não o faço por vaidade, essa vaidade mórbida que nos impele a considerarmos a nossa desventura mais esmagadora do que nenhuma, a apregoá-la e expô-la aos olhos de indiferentes como se disséssemos: ”Avaliem bem quanto sofri!... Poderíeis encontrar resistência moral maior do que a minha, quem tivesse forças para suportassem fraquejar, tão pesada cruz?...” Não, sinceramente, não o faço por vaidade, repito. Desejo apenas recordar.

 

As recordações são luzeiros que chegam até nós, vindos do passado e nos acendem na memória lampejos fugazes, pálidos, melancólicos, ou brilhantes clarões, que nos aquecem a alma com a doçura retrospectiva de antigas alegrias. Mas tristes ou risonhas, são sempre recordações e eu desejo aprisioná-las todas, sem excepção, entre as páginas deste pobre caderno. Será demasiada ambição ou vaidosa ilusão, mas quero que, mais tarde, ao abri-lo, a claridade branda das lembranças do passado me envolva, o perfume de saudade me embriague.

 

De resto, não espero nem pretendo que estas páginas sejam lidas por estranhos... Por estranhos, não, mas pela minha filha, a minha Helena que, lá em baixo, no jardim, ri e saltita com a encantadora inconsciência dos seus cinco anos, na ignorância das amarguras da vida e da maldade do mundo; essa, quando for mais velha, há-de lê-las.

 

Que elas sejam como luz vermelha erguida bem alto no seu caminho, uma espécie de aviso, de grito de alarme; ”Cuidado, a estrada está cheia de ciladas. Antes de dares um passo, pensa e reflecte ou então correrás o risco de te afundares e talvez não encontres mão amiga que se estenda para te salvar.”

 

É possível que o meu intuito não seja compreendido, o meu fim alcançado e a minha filha, quando acabar de ler este caderno ou mesmo antes de chegar ao fim, o feche e, encolhendo os ombros, murmure com ar desdenhoso: ”Romance. Como se em todas as vidas não houvesse um romance, como se a própria vida não fosse feita de romances cómicos, ingénuos e, por vezes, dramáticos!... Como se todos os romances não fossem imagens, farrapos de vida!

 

Por último e é esse o meu principal desejo ao traçar estas páginas quero que elas sejam um hino de reconhecimento, uma prece constante erguida aos céus, uma perene acção de graças a Deus que, depois de tão violentos temporais onde muitas sossobrariam, misericordioso conduziu o meu barco ao porto onde encontrei a calma e a felicidade. A Deus que, apesar de todas as minhas loucuras, me conservou o amor do Luís Guilherme, do meu marido, esse apoio firme e seguro, a flor rara de dedicação e ternura que me perfuma a existência.

 

Suspendo aqui a minha narrativa. Vejo chegar meu marido. De longe, viu-me na varanda e sorri, acenando-me com a mão. A minha Helena corre ao seu encontro e eu vou fazer o mesmo.

 

Mais de duas semanas passaram sem que eu voltasse a abrir este caderno. Preguiça... falta de tempo?... Não, simplesmente falta de disposição de espírito.

 

Assim como ninguém corre quando as forças lhe escasseiam ou canta quando a humidade lhe tolheu os órgãos vocais, também para regressar ao passado se impõe um estado especial de sensibilidade. Cada minuto que passou trouxe-nos uma emoção, emoção que, como som que o vento arrebata, nunca mais se repete, exactamente como a sentimos. No entanto, são elas que, ao mergulharmos dentro da própria alma, tentamos ressuscitar e, se desejarmos consegui-lo, teremos de vibrar como vibramos na altura em que as experimentámos.

 

Doutra forma não valeria a pena escrever estas páginas. Poderiam então comparar-se a vasta necrópole onde as palavras seriam como corpos rígidos, dormindo no seu túmulo. Não haveria nelas calor, palpitação de vida, lágrimas e sorrisos.

 

Hoje, talvez porque o dia está lindo, sinto-me de novo menina e creio poder ressuscitar a criança feliz que fui até aos dez anos, data em que, pela primeira vez, entrei nesta casa.

 

Não nasci em Portugal. Meu pai, no começo” da sua carreira diplomática, logo depois de casar, foi colocado em Oslo e nessa cidade do Norte descerrei os olhos para o mundo.

 

Não acredito no fatalismo e estou convencida de que, até certo ponto, nós somos senhores do próprio destino. O caminho é aberto por nossas mãos à medida que avançamos, o nosso procedimento é como o esporão de um quebra-gelos, abrindo entre a neve o sulco para as rodas passarem.

 

Julgo que, quase sem excepção, todos os nossos sofrimentos morais e muitas vezes até os sofrimentos físicos são filhos, não da influência de funesta estrela ou da má sorte, mas sim dos nossos actos. Somos nós quem, por irreflexão, insensatez ou, em alguns casos, por maldade, projectamos sombras e construímos pesadas cruzes que, no futuro, teremos de transportar sobre os ombros.

 

Mas creio também que as impressões recebidas na altura em que a razão desperta, as directrizes que nos dão, se gravam por tal forma no nosso espírito que dificilmente se desvanecem ou conseguem apagá-las. Em crianças somos como películas por impressionar e, à medida que vamos crescendo, as imagens fixam-se e sobrepõem-se. As primeiras, no entanto, talvez por serem as primeiras, imprimem-se mais profundamente, sobressaem das outras, persistem e são elas que predominam.

 

Se eu tivesse nascido e vivido sempre junto do meu avô, consideraria excessiva a sua autoridade, ter-me-ia revoltado contra ela e...

 

Mas não antecipemos.

 

Nasci, portanto, num país do Norte, onde as crianças são educadas por forma completamente diferente da dos países meridionais, onde a personalidade de cada um se desenvolve sem peias, excepto as impostas pela moralidade, correcção e dignidade, onde o nível da mentalidade infantil se amplifica sem constrangimento. Os sentimentos elevados não são impostos em normas rígidas, mas inspirados suavemente, dando às crianças uma noção precoce das suas possibilidades.

 

Eis como fui educada até aos dez anos. Nem em moldes de inflexível severidade, nem com demasiada indulgência que a maior parte das vezes conduz ao egocentrismo, a excessiva concepção da própria importância, ao egoísmo, à perversão de todos os nobres sentimentos.

 

Vivia entre meus pais, respeitando-os, mas considerando-os como dois amigos muito queridos a quem confiava os meus desgostos infantis, a quem confessava as minhas diabruras, certa de que seriam perdoadas ou repreendidas com moderação. A minha mãe, então, idolatrava-a.

 

Os anos corriam, dia após dia, neste viver suave, sem nuvens.

 

De manhã ia para a escola, à tarde quase sempre saía com minha mãe e ao domingo, no Verão, meu pai metia-nos no automóvel e íamos dar longos passeios. No Inverno, meus pais, ambos apaixonados pelo esqui, partiam muitas vezes em excursão à montanha para se entregarem ao seu desporto favorito. E eu, apesar de pequenita, já tentava as minhas primeiras proezas desportivas.

 

Vivíamos felizes e unidos, bem longe da ideia de que tudo em breve se modificaria. Por que será que, quanto mais próxima está a desventura, mais a vida nos sorri?... Talvez porque a felicidade é como a chama que solta lampejos tanto mais vivos quanto mais perto está de extinguir-se; ou então talvez Deus nos queira conceder, como prova da sua infinita misericórdia, quando a asa da desventura está prestes a roçar-nos, horas maravilhosas de tranquila doçura para que a sua recordação seja, mais tarde, como fogueira ardendo perenemente dentro da nossa alma, aquecendo-nos nos dias de tristeza e amargura.

 

E foi assim que a tempestade caiu sobre nós, estalou sobre as nossas cabeças, fulminante, mais difícil de suportar por ser inesperada.

 

Meu pai sofria, sem que minha mãe o soubesse, de uma dessas doenças de coração que não perdoam e uma tarde a morte arrebatou-o quando a vida parecia abrir-lhe os braços em promessas risonhas, mostrando-lhe largos e floridos caminhos para o futuro, quando acabava de completar os trinta e oito anos.

 

E minha mãe, de manhã esposa adorada, caminhando confiante apoiada no braço do querido companheiro que era tudo para ela, à tarde viúva, crucificada por uma dor sem nome, vergando ao peso de tão grande provação, vacilando porque lhe faltara de repente o esteio que a amparava na vida, não sei como pôde resistir ao golpe.

 

Durante quinze dias oscilou entre a vida e a morte e quando conseguiu vencer a última, levantou-se trémula, envelhecida, tão diferente do que fora que, ao vê-la, me custou reconhecer aquela que dias antes vira estuante de alegria, na plenitude da sua beleza.

 

Mas as poucas energias de que dispunha, reuniu-as para um só fim: abandonar a Noruega o mais depressa possível.

 

Aquele país onde a sua missão de mulher se completara, pois ali chegara recém-casada e ali fora mãe, esse país que considerava como sua segunda pátria, tornou-se-lhe de repente odioso.

 

Com febril precipitação, procedeu aos preparativos da partida, tomou disposições e resolveu tudo com tal rapidez que, decorrido um mês, podíamos sair de Oslo para sempre.

 

Eu, apesar de pequena, media perfeitamente toda a extensão do golpe que nos atingira, afligia-me a perda do meu adorado paizinho, mas não conseguia compreender aquela pressa de partir e quantas vezes lhe perguntei:

 

Porque nos vamos embora, mãezinha?... Não podemos ficar aqui?

 

Minha mãe apertava-me nos braços e protestava numa explosão de desespero:

 

Podíamos, sim, filhinha, mas sou eu que não quero. Pois não percebes que tudo isto me pesa como se fosse de chumbo, me sufoca e que, nesta casa, as mais pequenas coisas me recordam o teu pai e essas recordações são como laços que me oprimem e estrangulam?... Não, tenho de sair daqui quanto antes, preciso ver outras caras, regressar para junto daqueles que ainda me estimam, já que me faltou o carinho de quem era tudo para mim. Em Portugal, na casa que me viu nascer, talvez consiga viver ainda alguns anos. Aqui, julgo endoidecer. Além disso, quando morrer, não quero deixar-te entre estranhos.

 

Eu começava a chorar. Por muito que tentasse reprimi-las, as lágrimas corriam-me pelas faces e, em voz trémula, protestava:

 

Pois tu desejas morrer também?... Que será de mim, sem os meus queridos paizinhos?

 

Minha mãe limitava-se a apertar-me de novo nos braços. Mais tarde, quando ela partiu e eu já tinha outra noção da vida, não me custou adivinhar que, embora ela não desejasse morrer, qualquer coisa dentro dela se tinha quebrado, qualquer coisa que era como a mola real e, sem ela, a minha adorada mãezinha seria impossível viver.

 

E foi assim que, numa fria manhã de Janeiro, nós tomamos o avião que nos conduziria a Copenhaga e daí o comboio para Paris e Lisboa.

 

Estava encerrado o primeiro período da minha vida, talvez o mais feliz.

 

Desde então, até ao dia em que regressei a esta casa pelo braço do meu Luís Guilherme tinha vinte e quatro anos nunca mais conheci um minuto de alegria plena, dias despreocupados, risonhos. Ignorei os sonhos da adolescência, as ilusões da mocidade, porque tudo isso foi sufocado pelo aborrecimento, sombria tristeza e depois destruído pela dura realidade.

 

Chegámos a Lisboa à noite, uma noite de Inverno, fria e húmida. O vento assobiava e, durante as últimas horas de viagem, a chuva fustigou constantemente os vidros da carruagem. Confesso que, ao sair do comboio na estação do Rossio, me sentia oprimida por vaga tristeza, por uma impressão dolorosa que, nos meus poucos anos, não sabia definir. Hoje penso que talvez fosse pressentimento.

 

O avô estava à nossa espera e ainda o comboio não tinha parado já minha mãe o reconhecera. Ficou radiante e foi a primeira vez que a vi sorrir, depois da morte do paizinho. Embora não tivesse conhecido o calor do verdadeiro carinho junto daquele pai severo, na hora do regresso, acabrunhada por tão recente e cruciante desgosto, tudo esquecia para se recordar apenas de que, ao pisar o solo da pátria donde estivera afastada durante tanto tempo, via o rosto querido da única pessoa, além de mim, que lhe restava para amar.

 

Era um velho alto, aprumado, cabelos brancos como prata, olhos claros sobrepujados por espessas sobrancelhas, boca vincada num jeito austero. Junto dele, tínhamos imediatamente a sensação de uma vontade tenaz, de uma autoridade que não admitia contradições. Mais tarde reconheci não me ter enganado nas minhas primeiras impressões. Talvez pelo hábito de mandar pois era general reformado meu avô gostava de impor-se e não admitia que o contrariassem ou desobedecessem às suas ordens.

 

Também nos viu logo e quando o comboio parou já estava junto da porta da carruagem. Auxiliou a filha a descer as bagagens, entregou-as ao bagageiro, deu as indicações precisas e só depois a abraçou. Minha mãe apertou-se contra ele e balbuciou:

 

Meu querido pai!... Não mudou nada! Não pode calcular o que sinto ao vê-lo e ao regressar a Portugal nesta triste situação!

 

E encostou-lhe a cabeça ao ombro, a soluçar.

 

O avô também estava comovido, mas percebi que se esforçava por ocultá-lo. Como mais tarde o ouvi dizer, considerava indigno de um homem ceder a sentimentalismos e dar aos outros o espectáculo da sua fraqueza.

 

Então, Paulina! dizia, passando-lhe a mão pelas faces Tem coragem, filha. Repara onde nos encontramos e tenta dominar-te. Vamos, sossega.

 

Minha mãe conseguiu reagir. Conhecia bem o pai e não desejava contrariá-lo, logo no primeiro instante em que se reuniam depois de tantos anos de separação. Enxugou os olhos e, como eu tivesse ficado um pouco para trás, pegou-me no braço, puxou-me e disse:

 

Aqui tem a sua neta, meu pai, a minha Patrícia.

 

O avô estendeu-me a mão e como eu não compreendesse o gesto, minha mãe impeliu-me brandamente para ele e ordenou-me em voz baixa:

 

Beija a mão ao teu avô, Patrícia. Confesso que obedeci de má vontade. Meus pais nunca me tinham habituado a essa fórmula de respeito. Éramos três amigos, entre nós não existia constrangimento nem cerimónias. Em compensação, havia sinceridade e ternura.

 

Meu avô deu-me, na testa, um beijo rápido e foi este o nosso primeiro contacto. Creio bem que deste incidente nasceu a frieza que sempre nos separou. O avô nunca gostou de mim e eu ao iniciar estas páginas jurei a mim própria não ocultar pensamentos ou actos, embora me fossem desfavoráveis e, portanto, declaro que eu também não gostava dele.

 

Censurar-me-ão, talvez, mas serão obrigados a reconhecer que eu tinha razão para o meu desamor. Não o conhecia, não fui criada com ele e nunca me manifestou o verdadeiro afecto de um avô, nunca me tratou com carinho.

 

O amor que é imposto pelos laços de família não nasce do coração, é como flor sem perfume, esse perfume que se chama ternura.

 

O amor sem ternura já não é amor, mas apenas paixão desordenada, hoje exaltada e ardente, amanhã frouxa, quase extinta. Sem ela, o amor materno, fraternal ou outro qualquer imposto pelos laços de sangue, deixa de ser amor para se chamar apenas dever.

 

A ternura é uma flor maravilhosa cuja semente Deus depositou no coração dos homens. Uns deixam-na morrer, despresam-na, não lhe dão o calor preciso. Outros cultivam-na para desabrochar à vontade, espalham generosamente o seu aroma pelos que os rodeiam, pelos estranhos e até pelos animais, perfumando a própria alma e a dos outros.

 

O avô podia, sem hesitar, incluir-se no primeiro grupo. Duro, inflexível, classificava a sensibilidade como defeito próprio das mulheres, a quem considerava como seres inferiores, justamente por serem tão impressionáveis. Para ele, a superioridade masculina era lei que se impunha e que devia ser aceite e admitida sem discussão, por todos com quem vivia.

 

Para ele, o dever era tudo.

 

Casou, não por amor, mas porque, em sua opinião, todo o homem tinha o dever de casar. Nunca conheceu a verdadeira ternura de pai e acolheu minha mãe depois de viúva por ser esse o seu dever. Por dever também olhou por mim depois de a perder, mas logo que encontrou pretexto para me repelir fê-lo sem hesitar, porque não gostava de mim, não me queria com essa adoração indulgente que, em geral, os avós sentem pelos netos.

 

Resta saber se, no prato da balança onde, depois de morrermos, Deus avalia todos os nossos actos, pesarão mais aqueles que o dever impôs ou um só inspirado pelo verdadeiro amor, o que tem raízes no mais íntimo da alma e se revigora nas fontes mais puras do sentimento humano...

 

...O automóvel esperava-nos junto da porta da estação. Ao ver-nos, o motorista, correctamente fardado, saltou do seu lugar e, de boné na mão, apressou-se a abrir-nos a porta.

 

Dentro do carro, aquecido, estava uma temperatura agradável que nos soube bem depois de termos atravessado o hall exterior batido pelo vento. Instalámo-nos, cobrimos as pernas com a confortável manta e, depois de arrumadas as bagagens, o carro rodou suavemente a caminho de casa.

 

Enquanto atravessámos a cidade e percorremos avenidas cheias de luz, de movimento e animação, conservei-me com a testa colada ao vidro da janela, curiosa e interessada nos aspectos desconhecidos e tão diferentes dos que estava habituada a ver.

 

Mas quando, depois de subirmos o Campo Grande, as luzes se tornaram mais raras e o movimento dos carros diminuiu, recostei-me no banco e cerrei os olhos.

 

Os meus dois companheiros conversavam a meia voz. Minha mãe descrevia ao pai o que tinha sido a sua vida em Oslo, falou-lhe do marido, do seu brusco desaparecimento, mas, conhecendo-o bem, evitou lamentações e conseguiu reprimir as lágrimas que, irresistivelmente, lhe chegaram aos olhos.

 

A certa altura, falaram de mim.

 

Creio comentou o avô que tens educado muito mal a tua filha. Parece-me muito independente, muito senhora do seu nariz.

 

Acredite que se engana, pai. Ficou mal impressionado por a ver hesitar quando lhe estendeu a mão para beijar. Mas não o fez por mal, creia. A hesitação explica-se. Nem eu nem o pai a habituámos a essas fórmulas um pouco antiquadas. Preferíamos a sinceridade, as manifestações espontâneas do seu carinho. Contávamos permanecer ainda muito tempo em Oslo e educámo-la conforme o meio onde teria de viver. A educação lá é tão diferente da nossa! Mas no fundo, a Patrícia é meiga e dócil, pode ficar certo. É tudo questão de procurar a melhor forma de lhe manifestarmos a nossa vontade.

 

Nunca me preocupei com a forma de impor a minha autoridade e muito menos a uma filha, creio não precisar dizer-to. E não me arrependo da severidade com que te eduquei. Persisto na minha opinião. A Patrícia é muito independente. Além disso, nesta idade, torna-se necessário um pulso forte para a conduzir, um pulso de homem e, como já não tem pai, cá estou eu para o substituir.

 

Minha mãe não se atreveu a protestar. Contava com o tempo para modificar a opinião do pai a meu respeito. Ficaram ambos calados e eu, vencida por tanta emoção e pela fadiga da viagem, adormeci.

 

Só acordei quando o carro parou diante da escadaria desta casa, cujos tectos iriam servir-me de abrigo durante oito anos.

 

Nunca recordo os primeiros tempos que passei em casa do avô, sem experimentar de novo as sensações que então experimentei. Desapontamento, desânimo, tristeza, um misto de sentimentos vagos que, sendo ainda muito pequena, eu não poderia definir, mas sufocaram toda a minha alegria, o entusiasmo que, nas crianças em geral, provoca uma mudança tão completa como a que modificara o meu destino. Variar de vida, de ambiente, de cidade é sempre motivo de regosijo para espíritos infantis, ávidos de novidade, ansiosos por verem rasgar-se diante dos seus olhos novos horizontes, novos caminhos, embora a mudança tenha sido ocasionada por uma perda irreparável como a que eu sofrera, pois já tinha o entendimento suficiente para poder avaliá-la.

 

Pois em mim, a transformação total da vida produziu efeito completamente oposto ao que seria de esperar. Sentia-me como planta brava que, tendo nascido em pleno campo, estendendo as raízes à vontade, bebendo o sol, a luz, o calor, se encontrasse, de súbito, metida num vaso, apertada, encerrada numa estufa, passando a viver à luz difusa do sol, coado por vidros foscos, na atmosfera húmida do calor artificial.

 

O avô vivia numa propriedade esta onde hoje me encontro a dois passos de Santarém, mas completamente isolada. Das janelas da casa, recuada ao fundo da quinta, não se avistava a estrada, mas apenas campos e mais campos, o pomar, o jardim e, lá ao longe, nos confins da paisagem, a linha prateada do rio que, como enorme serpente, corria sinuosa por entre as margens frescas. E também oliveiras e mais oliveiras de troncos rugosos e folhagem de acinzentados cambiantes. A paisagem era vasta, mas tão monótona!

 

O meu espírito ainda mal afinado pressentia a beleza das coisas, mas não a compreendia, não vibrava com a doçura calma dos campos esmaltados de papoilas ardentes e alvos malmequeres, com a maravilha doirada do sol, oficiando no enlace perfumado das rosas e glicínias, confundidas sob a abóbada verdejante das latadas, com o deslumbramento das árvores do pomar todas floridas, palpitantes como ramos de noiva, com a melancolia do ocaso num céu acolchoado de cetins rosados, lilazes e cor de pérola, ninho onde o sol se reclinava para dormir, cerrando as pálpebras de fogo, com o luar quieto como um sudário de prata, caindo sobre as águas do rio. Esse livro surpreendente, esplendoroso, cujas páginas a Natureza ia folheando diante dos meus olhos, era como se estivesse escrito num idioma estranho, cuja harmonia eu apreendia, mas não conseguia decifrar.

 

Só muito mais tarde aprendi a lê-lo e então palpitei de emoção, o meu coração vibrou, o meu espírito abriu-se para a luz e esta paisagem que eu considerava monótona, aborrecida e triste, revestiu-se de encantos, assumiu o seu verdadeiro aspecto. E hoje, depois de ter sido sacudida e arrastada pelos vendavais da vida, só peço a Deus que me deixe viver e morrer nesta casa que é todo o meu mundo.

 

Naquela altura, porém, tudo quanto deixara, embelezado pela ausência e pelas tintas suaves da saudade, me parecia maravilhoso, comparado com aquilo que viera encontrar. Passara do bulício de uma cidade alegre para a solidão da quinta; do conforto de uma casa moderna, luxuosa, mobilada com requintes de bom gosto para um casarão de salas enormes, móveis antigos, escuros, inegavelmente belos, mas pesados... um peso que parecia esmagar-me o peito; do convívio com crianças da minha idade, no colégio e em tantas festas infantis, para o mais completo isolamento. Vivia sozinha e nem mesmo em minha mãe talvez devido à doença encontrava a camarada de outros tempos. Creio também que a presença de meu avô a tolhia.

 

Quanto a frequentar escolas, nem pensar nisso. Foi essa a primeira imposição do avô, de princípio combatida, mas por fim aceita por minha mãe.

 

Temos de pensar num colégio para a Patrícia dissera ela um dia, voltando-se para o pai Lembrei-me e talvez fosse possível matriculá-la no liceu de Santarém. É perto e poderia fazer o caminho no autocarro. Que lhe parece, pai?

 

Que me parece?... Mal, muito mal. Não penses numa coisa dessas! Não acho necessário a tua filha frequentar liceus. Isso é bom para rapazes.

 

Na nossa época, pai, tanto os rapazes como as raparigas devem estar habilitados a enfrentar a vida e a ganhar o pão. Eu gostava que a Patrícia tivesse um curso do qual pudesse utilizar-se, se um dia se visse em dificuldades.

 

Tolices!... A Patrícia tem o pão assegurado e nunca virá a conhecer dificuldades materiais. A fortuna que herdou do pai e a que deve herdar por minha e tua morte, põe-na ao abrigo de preocupações. Educa-a para esposa, mãe e dona de casa, pois será esse o seu futuro.

 

Quem o pode garantir?... A vida é feita de surprezas e sempre tão incerta! comentou minha mãe, soltando um suspiro Nesse caso, em seu entender, a Patrícia não deve estudar mais?... Isso não, tenha paciência, pai, mas não concordo.

 

Quem fala em semelhante coisa?... Estás a interpretar mal as minhas palavras. Eu disse que não precisava frequentar o liceu e tirar cursos, mas, quanto ao resto, entendo que a cultura e instrução nunca são demais, mesmo numa mulher. Procuram-se professores competentes para virem aqui dar-lhe lições e está o caso solucionado.

 

Minha mãe ainda opôs dificuldades, mas meu avô combateu todos os seus argumentos e ela acabou por ceder. O desgosto sofrido e o estado de abatimento em que se encontrava roubavam-lhe a energia e a coragem para lutar com uma pessoa autoritária como o pai.

 

E, desta forma ficou resolvido o meu futuro que poderia ser muito diferente se o desejo de minha mãe tivesse triunfado. A convivência com os camaradas do liceu, o contacto com o mundo ter-me-iam aberto os olhos e eu veria as realidades da vida. Assim, construi um mundo conforme as minhas ilusões e fantasias, povoei-o de personagens utópicas, com sentimentos mais próprios de deuses do que de homens e vivi num sonho até que a maldade dos homens me despertou.

 

Dois anos correram, dois anos de adaptação difícil, lenta e, por vezes, dolorosa. Durante esse tempo, não conheci divertimentos próprios da minha idade, vivi encerrada entre os muros da quinta junto do avô, severo, autoritário e sempre ríspido para mim, e minha infeliz mãe, triste alheada como se apenas o seu corpo estivesse preso à terra e o seu espírito pairasse já muito alto, longe de nós. Nesses dois anos, saí três vezes de casa. Duas para ir a Santarém, uma no dia da minha primeira comunhão e outra para ir com minha mãe ao médico. A terceira vez fui a Lisboa, também com minha mãe para consultar um especialista.

 

Todas essas consultas, porém, foram inúteis, porque ela piorava de dia para dia. Piorar não será bem o termo a empregar, porque a infeliz senhora não sofria doença determinada, uma dessas doenças cujos sintomas os médicos logo descobrem e atacam. Minava-a um mal misterioso, vago, sem dores, sem sofrimento. Dizer que se apagava como chama que empalidece pouco a pouco por falta de alimento, seria um lugar comum e talvez pouco apropriado. Hoje, quando recordo os últimos meses da sua vida, penso que minha mãe se evaporava como se a sua alma criasse asas e o corpo se tornasse pequeno para a conter, fosse impotente para a prender.

 

O médico da família, depois de a examinar, dizia a meu avô:

 

A doença de sua filha não é física, o definhamento do corpo resulta do abatimento moral, da completa ausência do desejo de viver. É isto, não é, minha senhora? acrescentava, voltando-se para a doente Não quer tentar um esforço, reagir? Seria tão fácil!... Se quisesse, veria como se poria boa num instante.

 

Mas eu desejo viver, doutor! protestava minha mãe Mas é como se duas forças me solicitassem e duas vozes me chamassem e eu não soubesse a qual delas atender.

 

Atenda a voz da vida, minha senhora. A vida é um tesoiro que Deus nos concede e a senhora ofende-O, desprezando-o.

 

Não o desprezo, é ele que me foge murmurava minha mãe.

 

E, com efeito, a vida fugia-lhe como areia escoando por entre os dedos, impotentes para a conterem.

 

Quando o médico se despediu, meu avô acompanhou-o até ao portão. Da janela vi o doutor gesticular e abanar a cabeça e percebi que o avô, ao regressar a casa, vinha preocupado, inquieto.

 

E tinha razão para isso. Depois desta conversa, minha mãe pouco mais viveu.

 

Na véspera da sua morte, quando sentada no chão a seus pés, eu encostava a cabeça nos seus joelhos, afagando-me docemente os cabelos murmurou:

 

Não estaremos muito mais tempo juntas, minha Patrícia.

 

Não digas isso, mãe!... Queres deixar-me sozinha?

 

Não, não sou eu quem o deseja, filha. É Deus quem o ordena. Mas não ficas sozinha. E o teu avô?

 

Com ele ou sem ele é a mesma coisa. Pois tu não percebes que o avô não gosta de mim?

 

Não sejas tonta, Patrícia. O avô quer-te muito, fica sabendo. Mas tem aquele feitio retraído, pouco dado a expansões. Além disso, as suas ideias são diferentes das nossas, talvez um pouco antiquadas, tem um modo de pensar que desconhecias e ao qual dificilmente te habituarás. Não te compreende nem tu o compreendes. Deves desculpá-lo, filha. Tenta ser obediente, dócil e gostar dele um bocadinho.

 

Eu gosto do avô, mas... tenho-lhe medo confessei.

 

Minha mãe ficou um momento calada para recuperar as forças. Estava cada vez mais fraca e o falar exigia-lhe grande esforço. Por fim, disse como se falasse mais consigo própria do que comigo:

 

Muitas vezes tenho pensado que não devia ter vindo para Portugal. Fiz mal em não ter ficado na Noruega, a tua verdadeira pátria, afinal, e onde tínhamos tantos amigos. Fui egoísta, atendi unicamente ao meu desgosto.

 

Tu egoísta, tu a melhor das mães! Protestei.

 

E depois sofrerias tanto se lá ficássemos!

 

Para chegar ao mesmo resultado, lá ou aqui, pouco importava!

 

Incapaz de lhe responder, ocultei o rosto-no seu regaço e comecei a chorar.

 

Não chores, meu amor! pediu-me a doente.

 

Tenho tanto medo do futuro! lamentei, como se pressentisse as consequências que resultariam para mim da perda daquela a quem considerava como o meu único apoio, a minha confidente, a minha conselheira.

 

Sê corajosa, querida. Deus há-de permitir que lá do Alto eu vele por ti. Já estás uma mulherzinha, Patrícia, recorda-te sempre dos conselhos que hoje te dou e faz o possível para os seguires. Sejam quais forem os golpes que te firam, levanta a cabeça e luta, não te deixes vencer como eu. Fui uma fraca, não sube enfrentar a adversidade e ela derrubou-me. Tem fé em Deus porque Ele nunca desampara os que confiam e, acima de tudo, nunca te desvies do caminho direito, porque os outros, por muito luminosos que nos pareçam, acabam sempre em trevas. Prometes, Patrícia?

 

Prometi... Porque esqueci eu mais tarde esta promessa?

 

Ficámos as duas enlaçadas, usufruindo a amarga e lancinante doçura daquelas horas que ambas sabíamos serem as últimas que passávamos juntas.

 

Sim, porque eu tinha doze anos e não era tão pequena que não compreendesse o estado desesperado de minha mãe.

 

Morreu no dia seguinte ou antes, adormeceu serenamente, mergulhou na morte como o sol desce no horizonte, ao findar do dia. O seu derradeiro sorriso foi como o fulgor suave despedido pelos últimos raios do astro-rei, já fracos, mas que ainda iluminam todo o céu.

 

E a recordação desse doce sorriso foi também uma luz que, no meio das trevas em que me debati durante tanto tempo, fulgiu como símbolo de esperança e amor.

 

A minha vida modificou-se um pouco, depois do golpe que me feriu. Ema, que até ali me rodeava de carinhos, passou a amimar-me escandalosamente, afrontando, sem temor, as censuras do avô, embora este, por seu lado, tivesse passado a tratar-me também, com menos severidade.

 

Depois conheci de novo esse inapreciável bem de ter um companheiro quase da minha idade. A criança que se desenvolve e cresce no convívio de pessoas mais velhas, que nunca conheceu a companhia de outras crianças, é como raio de sol aprisionado, um botão de rosa encerrado dentro de uma redoma. Mas que dizer de mim, que já gosara o bem da liberdade, frequentara escolas, desportos, jogos ao ar livre e pudera expandir, em toda a sua exuberância, junto de crianças como eu, toda a minha alegria e vivacidade? Como exprimir o que sofri quando, de repente, fui privada de tudo?

 

A planta que, pouco depois de nascer, procuram curvar, obrigando os seus tenros e frágeis ramos a desenhos caprichosos, facilmente se submete, desenvolve-se e cresce segundo as directrizes impostas. Mas quando se tenta fazer o mesmo a um arbusto, é mais custoso. Por momentos, podemos supor que alcançámos o nosso desejo e triunfámos, mas, de repente, endireita-se e fere a mão que o vergou, rebelde e mais forte do que nunca. Foi isto o que aconteceu comigo...

 

Mas continuemos. Por ora é cedo para falar no assunto.

 

Dizia eu que tinha conhecido o precioso bem de ter um amigo, eu a pobre isolada, sujeita a rigorosa disciplina.

 

Uma irmã do avô a tia Céu, como depois lhe chamava e com que ternura o fazia até então vivendo em Lisboa, instalou-se definitivamente num palacete que possuía em Santarém. Trouxe consigo um neto, órfão como eu, criado por ela com o carinho e afecto de avó, não ofuscado pelo desejo de domínio, despotismo e mal concebido rigor. Chamava-se Luís Guilherme e é hoje meu marido.

 

Depressa nos afeiçoámos um ao outro. Eu acabava de completar treze anos. Meu primo ia nos quinze, mas, habituado à convivência dos camaradas do liceu, praticando desporto e tendo tido uma educação muito mais racional e moderna, comparado comigo podia considerar-se já um homenzinho, enquanto eu não passava de uma pobre pateta, com os olhos completamente cerrados para as realidades da vida. Vivia num mundo aparte, feito de ilusões e fantasias.

 

Mas à entrada nesse mundo de minha tia e do meu primo, jorrou uma luz tão intensa que modificou tudo em minha volta, dando às coisas um aspecto novo, mais brilhante, mas mais real.

 

A tia Céu era a única pessoa capaz de defrontar o avô, de discutir e combater as suas opiniões e, caso estranho, quase sempre o irmão cedia perante os seus argumentos, porque a tia era teimosa e não desistia senão quando conseguia convencê-lo.

 

Assim, à força de lutas e discussões, a tia que, por forma alguma, concordava com a minha educação, conseguiu que eu fosse passar todos os domingos em sua casa e muitas vezes durante a semana, me vinha buscar para me levar a passeios, cinema e outros divertimentos que, durante três anos, ignorara. Recomecei, emfim, a viver.

 

Todavia, o período de isolamento e rigidez a que fora submetida atrofiou toda a vivacidade e alegria, direi mesmo a inteligência que em Oslo evidenciara. A criança álacre, exuberante, de réplicas espirituosas que eu fora, transformara-se numa rapariguinha acanhada, tímida, respondendo a medo quando a interpelavam. E três anos tinham bastado para esta transformação!

 

Com o tempo isto foi passando, mas nunca consegui atingir o desembaraço e a mentalidade das raparigas da minha idade. E se o tentasse, lá estava o avô para me cortar as asas. A sua condescendência não ia ao ponto de abdicar das suas opiniões, do seu ódio ao modernismo.

 

Cresci, os anos passaram e cheguei aos dezassete.

 

A amizade e camaradagem entre mim e meu primo sofrera grande modificação ou, para melhor dizer, profunda evolução. O Luís Guilherme era já um homenzinho e como tal afirmava a sua superioridade masculina, tomava ares protectores, ao mesmo tempo que na sua atitude havia já uma sombra de galanteio, de ternura amorosa. No entanto, via-se que me queria cada vez mais. Por meu lado, eu, experimentava intenso prazer em dominá-lo com sorrisos ou lágrimas, armas muito femininas. Mostrava-me caprichosa, usava, involuntariamente, de toda a minha garridice. Arreliava-o, mas no fundo ficava aborrecida quando o via triste e também lhe queria muito. Não podia mesmo passar sem ele e não deixava de lho demonstrar quando se proporcionava ocasião. Outras vezes, mostrava-me meiga, carinhosa, submissa, afagava-lhe o orgulho. Não era já uma mulherzinha com todas as suas virtudes e defeitos que despertava em mim? Um dia, a tia Céu pensou levar-me a um baile. Que discussão, santo Deus! Que tremenda irritação!... Nunca me lembro de ver o avô assim, nem de o ouvir falar tão alto! Tão alto que, estando na sala contígua ao seu gabinete de trabalho, eu ouvi perfeitamente o que diziam.

 

Mas que loucura essa! protestava o avô Se já se ouviu disparate assim! Levar a Patrícia a um baile- Que ideia se meteu nessa cabeça tonta?... Como pudeste admitir que eu consentisse numa coisa dessas?... Nem mesmo devias ter falado nisso para não me irritares os nervos.

 

Quero lá saber dos teus nervos! replicou a tia com uma calma que contrastava com o nervosismo do avô. Tive esta ideia e insisto porque acho naturalíssimo uma rapariga da idade da tua neta começar a frequentar a sociedade.

 

Para se tornar numa cabeça no ar como as outras, não?... A Patrícia não precisa frequentar a sociedade, está muito bem em casa.

 

Olha lá, pensas fazer da tua neta uma freira? Nesse caso, será melhor metê-la no convento, desde já. Caso contrário, se pretendes casá-la, terás de a deixar conviver para encontrar marido.

 

Sabes muito bem que nunca pensei em metê-la no convento. Quanto a arranjar marido... já está arranjado. Ignoras que tenciono casá-la com o Luís Guilherme?

 

”Não quero... não penso... tenciono...” Lindas palavras! Falas como se no mundo não existisse senão a tua vontade. Tens de contar com a dos outros também. De tencionar a realizar vai uma grande distância. Seria esse também o meu desejo, mas pode não ser o deles... o dela, principalmente, porque, pelo lado do meu neto, quase posso afirmar não haver oposição.

 

Tolices!... A Patrícia há-de casar com quem eu quiser!

 

Chegas a ser cómico, Vasco!... Julgas viver ainda no tempo em que as raparigas não tinham vontade própria e casavam com o homem escolhido pelos pais, sem o amarem, muitas vezes sem o conhecerem? Isso já vai longe, é preciso que te convenças.

 

Amor... amor!... Falas como uma garota romântica. Na tua idade é ridículo! protestou o avô, cada vez mais enervado Eu e minha mulher mal nos conhecíamos quando o nosso casamento se combinou e, no entanto, fomos felizes, nunca questionámos nem discutíamos.

 

Fazes mal em falar no plural, Vasco atalhou minha tia, também irritada Tu foste feliz. Mas já perguntaste a ti próprio se tua mulher o foi?

 

Que pretendes dizer com isso?

 

Perdoa-me se avivo recordações dolorosas, mas, fazendo-o, defendo o futuro da tua neta. Em primeiro lugar, afirmo que a avó da Patrícia, se lhe fosse possível escolher, nunca teria casado contigo, quero dizer, não teria casado depois de conhecer o teu génio autoritário, digamos mesmo, despótico. Feliz a pobre! continuou com ironia Tremia de medo perante as tuas cóleras insensatas, nunca se atrevia a abrir a boca para manifestar as suas opiniões com receio de que, mesmo diante de visitas, a mandasses calar. Não tinha energia nem personalidade, embora em solteira fosse uma rapariga alegre, cheia de vivacidade e animação. Depois de casada transformou-se numa espécie de animalzinho doméstico, obedecendo às ordens do dono. Talvez involuntariamente, nunca soubeste fazer a felicidade dos teus. Mesmo a tua filha Paulina foi feliz porque se afastou de ti e quis o destino que gostasse do homem que lhe impuseste.

 

Estás doida! exclamou meu avô num tom que me pareceu estranho.

 

Não estou, mas, graças a Deus, recordo-me bem do passado. Felizmente, o Luís Guilherme não se parece contigo. Se a Patrícia não gostar dele para marido, podes estar certo de que não casará, embora seja essa a sua aspiração mais querida, parece-me.

 

Bem, bem, por enquanto é cedo para falarmos no assunto. Daqui a dois anos voltaremos a abordá-lo. Nem mesmo compreendo porque o fizemos agora.

 

Sequência de pensamentos, palavras que vêm umas atrás das outras como cerejas, réplicas de momento que, muitas vezes, nos obrigam a dizer aquilo que não desejamos. De facto, afastámo-nos do motivo que me trouxe aqui. Continuando... no fim do mês, os Meneses dão um baile para apresentarem a filha. Bela ocasião para a Patrícia entrar na sociedade. Está combinado, não é assim?... Posso começar a tratar-lhe do vestido?...

 

És teimosa!... Mas está bem, faz o que entenderes! cedeu o avô, facto que me deixou estupefacta e louca de contentamento Queira Deus que não te arrependas pela insistência e eu por ter condescendido e, pela primeira vez na minha vida, infringir as regras que a mim próprio impus.

 

Palavras proféticas! Quantas vezes, mais tarde, não teria a boa tia Céu lamentado a ideia que a levara a arrancar-me à minha solidão, quantas vezes não teria curvado a cabeça com as justas recriminações do avô! Como fui ingrata, santo Deus!

 

Da discussão, duas coisas ressaltaram para mim, duas coisas importantes, uma bem próxima e a outra ainda distante. Em primeiro lugar, a certeza de ir ao baile, certeza que me enebriava e me enlouquecia. O meu primeiro baile!... Qual a rapariga que não se sentiria um pouco embriagada com essa ideia, tanto mais tendo vivido até aí como uma reclusa, afastada de todo o convívio?... Em segundo, a revelação do avô, o seu projecto de me casar com o Luís Guilherme.

 

Afirmar que esta perspectiva me agradava muito, seria mentir ou, para melhor dizer, confesso que nunca a tinha encarado até ali. Mas quando as palavras do avô me levaram a admitir a ideia desse casamento, fiquei desolada.

 

A mulher e o homem fazem do casamento concepção diferente, direi mesmo completamente oposta.

 

O homem, quando casa, não precisa procurar imprevisto, aventura, mistério. Qualquer dessas coisas está ao seu alcance, seja qual for a época da vida, basta-lhe querer e estender a mão. No casamento procura, pelo contrário, calma, estabilidade, terreno conhecido.

 

Considera como ideal perfeito para esposa, aquela com quem conviveu desde criança, que desabrochou e evoluiu debaixo dos seus olhos, cujo carácter se formou à sua vista, por assim dizer, e foi, muitas vezes, moldado a seu gosto e não tem segredos para ele. No casamento deseja carinho, ternura, amor e não o fogo da paixão. Os primeiros sentimentos avivam com a convivência e perduram pela vida fora. O tempo e a convivência, pelo contrário, são prejudiciais à segunda e extinguem-na. ”Tecer ao sol um beijo e desde tenra idade ir nesse beijo unindo o amor e a amizade, numa ternura casta, numa estima são...” segundo o conceito magnífico de Júlio Dantas, eis o ideal de quase todos os homens.

 

Com a mulher tudo é diferente. No casamento deseja o amor com todo o seu cortejo maravilhoso de imprevisto e mistério. Raramente o amigo de infância é para ela o marido ambicionado. A amizade fraternal exclui o amor. Qual a rapariga que não aspirou, nos mais ocultos recessos do seu pensamento, à vinda do Príncipe Encantado que um dia surgirá na sua vida e com um beijo lhe despertará o coração adormecido?

 

Pode a nossa época material e prática classificar este desejo de romantismo tolo, mas, no fundo, mesmo aquelas que zombam e ironizam, também sonham, são iguais as nossas avós. O coração de mulher será sempre o mesmo, quer batesse apressado sob os corpetes cingidos dos séculos passados, das túnicas do Império ou palpitem dentro do peito descoberto daquelas que, expostas ao sol das praias, se mostram superiores a todas estas pieguices, como lhes chamam. O amor acaba sempre por vencer. Que o digam os admiradores de Julieta Grecco que, abandonando todas as teorias, partiu nos braços do esposo amado!

 

Eis a razão por que não me sorria casar com meu primo.

 

E, no entanto, como era cega!

 

Despresei o oiro de lei pelo metal doirado, o diamante mais puro pelo brilho falso do vidro espelhado, uma afeição sincera e segura, que o tempo não fez senão confirmar, pela falsa miragem de um suposto sentimento que raramente se encontra no nosso caminho. Na loteria do amor, atirei fora o bilhete premiado e fiquei com o branco. Isto é, joguei à toa. Mas no casamento como na loteria, só quando o mal já não tem remédio o reconhecemos.

 

Os palpites são tão enganosos...

 

Não sei descrever o meu estado de espírito nos quinze dias que antecederam o baile. Andava febril, entusiasmada, não pensava noutra coisa, tão distraída que, muitas vezes, quando me falavam não respondia, o que exasperava o avô. A minha atitude enervava-o e quando me ouvia cantarolar ou lhe respondia por forma que ele classificava de pouco respeitosa, repreendia-me asperamente.

 

A ideia de ires ao baile deu-te volta à cabeça, já vejo ralhava, fixando-me com olhar severo e com modos que me aterravam Mas trata de ter juizo e não tentes imitar certas meninas modernas, levianas, irreverentes, tolas, umas patetas que, muitas vezes, não sabem onde têm o nariz, mas se julgam uns seres excepcionais, de uma inteligência invulgar, capazes de dirigirem a sua vida sozinhas. Enquanto eu viver, terás de me obedecer. Dei o meu consentimento, mas ainda estou muito a tempo de o retirar, mete lá isto na tua cabecita louca.

 

Desculpava-me como podia e corria para o fundo da quinta para poder chorar à vontade. Dir-se-ia que o avô, adivinhando a alegria que a perspectiva de ir ao baile me causava, se comprazia em amargurá-la. Quanto a mim, vivia numa constante ansiedade, com receio de ver desmoronar-se, como castelo de cartas, a esperança que punha naquela festa.

 

Felizmente, passava muitos dias em casa da tia Céu e chegava a dormir lá.

 

O assunto obrigatório das conversas era o baile, cuja aproximação me punha o coração em festa e, ao mesmo tempo, me assustava.

 

Vou fazer má figura, tia! afirmava desolada Vivi sempre como um bicho do mato... nunca me vi numa sala assim! Isto é, em Oslo fui a muitas reuniões de crianças, mas era diferente e isso já lá vai há tanto ano!

 

Não sejas tola! ralhava a tia Quando lá chegares verás como o acanhamento te passa.

 

Não creio. É verdade que aprendi a dançar, mas nunca o fiz com rapazes e tenho medo. Para ser alvo de troças, prefiro meter-me a um canto.

 

Para isso não valia a pena ter-me sujeitado aos disparates do teu avô...

 

És tonta! ralhava por sua vez o Luís Guilherme Tanto faz dançar com raparigas como com rapazes. Queres ver?

 

Então punha a grafonola a tocar e dançávamos como dois malucos, até o fôlego nos faltar.

 

Mais tarde quando, debatendo-me com provações de toda a espécie, eu recordava essa época da minha vida, parecia-me um sonho. Depois censurava-me amargamente por ter sido tão ingrata para com aqueles que me queriam tanto, por ter despresado o tesoiro sem preço da sua amizade e do seu amor, trocando-o por uma falsa afeição, hipócrita e interesseira. Mas que podia eu saber do mundo, naquela altura?... de resto, julgo que a mais esperta e experiente se deixa iludir quando o amor a obriga a ver as coisas por um prisma falso que tudo deforma ou, por outra, sob uma claridade que cega e embriaga.

 

O dia do baile chegou. Eu tinha um lindo vestido de tule branco, leve como a espuma, frágil como um sonho. Quando entrei na sala pelo braço do Luís Guilherme, todo orgulhoso com o seu smocking impecável, julguei entrar no céu.

 

Dancei com ele e com muitos outros, não fiz má figura, pelo contrário, creio que fui muito admirada. Escutei galanteios, palavras lisonjeiras como nunca ouvi na minha vida, que me estontearam tanto ou mais que as duas taças de champanhe que bebi à ceia.

 

Quando de madrugada regressámos a casa, vinha tonta de alegria, não sentia fadiga, pelo contrário, dir-se-ia que os meus pés mal tocavam o chão. A vida afigurava-se-me deliciosa, digna de ser vivida e qualquer coisa me dizia que o futuro seria sempre assim, cheio de luz, risonho, maravilhoso como um conto de fadas!

 

Como somos ingénuas aos dezoito anos!... E como a vida se ri de todas as nossas loucas ilusões!

 

Recordar... recordar é como apertar nas mãos um punhado de flores secas e aspirar-lhes o aroma subtil.

 

Sim, porque os perfumes têm alma, podem exprimir sentimentos. O do cravo, por exemplo, não nos dá imediatamente a sensação de uma alegria exuberante, álacre como as suas pétalas de tons vivos? E o da rosa?... Esse é suave, abre-se todo num sorriso, é cativante, seduz. O da violeta é discreto, envolvente como a ternura de certos corações que dificilmente se entregam mas, quando o fazem, é por toda a vida, O das flores secas, esse tem um cunho especial, respira a melancolia das coisas passadas, daquelas que não voltam mais.

 

Mas quando a recordação traz consigo o remorso, todo o perfume desaparece, é substituído por uma espécie de fumo acre que nos sufoca.

 

Eis porque, tendo dedicado todos os dias algumas horas a vaguear pelo passado, ao chegar a esta altura, parei. Vim de muito longe, passo a passo, caminhando por veredas fáceis. Se, por vezes, as silvas me rasgaram as mãos ou as pedras me magoaram os pés, foram dores passageiras que um raio de sol ou o canto de uma avezita fizeram esquecer. Agora, porém, alongo a vista pela estrada e só vejo espinhos, lágrimas, sofrimento... um verdadeiro calvário...

 

E o mais custoso é ter de confessar que, se até aqui pude queixar-me e atribuir os meus males aos vendavais da vida que me sacudiram, pobre e tenro arbusto sem defesa, de futuro sou obrigada a reconhecer que tudo quanto sofri foi o justo castigo para o meu coração ingrato, para a minha cabeça louca.

 

Mas jurei ser sincera e ter coragem para confessar as minhas culpas... irei até ao fim.

 

O primeiro baile foi para mim como um ”abre-te Sésamo”, a chave que me abriu as portas do mundo.

 

Deixei de ser como prisioneira que sentia a vida passar para lá dos muros da quinta, cachoando como rio caudaloso, ora rugindo em fúria ora calmo, arrastando nas suas águas tanta coisa desconhecida e por isso mesmo atraente. Depois do baile, o meu barquito aventurou-se a sulcar a corrente.

 

Passei a viver quase sempre em casa da tia Céu. O avô abdicou da rígida autoridade em que me mantinha, mas desinteressou-se de mim. Estava profundamente sentido com a irmã e, sempre que se prestava ocasião, demonstrava-o.

 

Venho buscar a Patrícia para passar dois dias comigo declarou certa tarde a tia, aparecendo inesperadamente na quinta Não te opões, pois não?

 

Não, não me oponho afirmou o avô Não quero que voltes a acusar-me de ter feito e fazer ainda, a infelicidade daqueles com quem vivo. Permita Deus que não sejas tu a fazer a da Patrícia, supondo que, pelo contrário, a fazes feliz.

 

Minha tia encolheu os ombros, mal podendo suspeitar que as palavras do irmão se podiam tomar por uma profecia.

 

Nessa mesma noite fui a uma festa e... conheci Cláudio, isto é, fui ao encontro do meu destino.

 

Era tarde quando um rapaz com quem dançara muita vez se aproximou de mim.

 

Patrícia dissedê-me licença que lhe apresente o meu amigo Cláudio Gomes, que faz imenso empenho em conhecê-la.

 

Sorri e dispunha-me a responder quando os meus olhos encontraram os de Cláudio que me fitavam com expressão ardente. Não sei o que me tolheu. Corei e não consegui alinhavar uma frase. Como a orquestra atacasse os primeiros compassos de um slow, fomos dançar.

 

Quando me senti enlaçada nos seus braços, envolvida na carícia doce dos seus olhos negros, uma sensação estranha se apoderou de mim. As fontes latejavam-me, o coração palpitava com força, os meus pés mal afloravam o chão como se, de repente, me tivessem nascido asas. E como eram eloquentes aquelas pupilas de fogo! Adoração, ternura, timidez, tudo exprimiam, enquanto os lábios proferiam frases banais.

 

Fazia assim tanto empenho em conhecer-me? perguntei para dizer alguma coisa Porquê?

 

O olhar de Cláudio tornou-se mais insistente e, numa voz surda, de estranhas inflexões, respondeu:

 

Não mo pergunte. Digo-lhe apenas que realizei hoje o meu sonho mais querido, a minha maior ambição.

 

Presa de singular enleio, não soube o que dizer. Continuámos a dançar em silêncio. Nunca, como naquela noite, uma festa tomava para mim aspecto tão risonho, nunca a vida me parecera tão bela. Seria aquilo o amor?

 

Daí em diante não ia a festa ou passeio que não encontrasse Cláudio. Quando saímos em grupo, nunca se afastava de mim. Nos bailes dançávamos quase sempre um com o outro. Tudo, na sua atitude, marcava a preferência com que me distinguia, revelava um sentimento mais terno do que simples camaradagem. Gostava de mim, tinha a certeza, mas ainda não mo confessara. Em vão aguardava que os lábios confirmassem aquilo que o seu procedimento me deixava adivinhar, para poder revelar-lhe que o meu coração lhe pertencia em absoluto. Procurava-me, rodeava-me de atenções, a mais simples palavra tomava nos seus lábios uma inflexão cariciosa que não enganava, mas não passava daí. Dir-se-ia que entre mim e ele se erguia uma barreira intransponível, um obstáculo tremendo, uma espécie de dique a deter o caudal da sua imensa ternura. Mas qual?

 

Certa noite fui a uma festa a casa de pessoas amigas e, como sempre, encontrei-o.

 

Não sei bem porquê, quando o vi entrar na sala, tive o pressentimento de que essa noite seria decisiva na minha vida, que o meu futuro se fixaria para sempre.

 

Fazia muito calor e as largas portas envidraçadas que davam para o terraço estavam abertas de par em par.

 

Cláudio, enquanto dançávamos, manobrou por forma a levar-me para esse terraço. Não opus resistência.

 

Sabe porque motivo a trouxe para aqui, Patrícia?

 

Não, ainda não mo disse... repliquei, palpitante de esperança.

 

Vou fazer-lhe uma surpresa continuou com infinita meiguice uma desagradável surpresa, pois tenho a vaidade de acreditar que se interessa por mim e sentirá a minha ausência.

 

A sua ausência! repeti toda trémula.

 

É verdade. Vou deixar Santarém.

 

Por muito tempo?

 

Para sempre, Patrícia respondeu em voz abafada.

 

Sem forças para protestar, encostei-me à balaustrada, quase desfalecida.

 

Que tem, Patrícia? inquiriu ele, enlaçando-me os ombros.

 

Porque razão se vai embora? murmurei, libertando-me.

 

Pois não adivinha? Para que me obriga a a revelar aquilo que tanto desejava ocultar-lhe? Pois ainda não compreendeu que a amo como um louco? Em vão tenho tentado esmagar esta paixão, sufocar os meus sentimentos, mas não o consegui. Adoro-a, Patrícia, não sei o que será a minha vida quando estiver longe de si, quando não puder falar-lhe, quando me convencer de que a perdi para sempre e outro terá a dita, a inefável ventura de ser seu marido. Todavia, vejo-me forçado a deixá-la.

 

Forçado porquê?... Não compreendo... Para quê tanto desespero e para que tomar resoluções extremas, se eu também...

 

Não, não continue, suplico-lhe! atalhou Cláudio exaltado Pois não vê, não pressente quanto me faz sofrer? Se me repelisse, a minha dor seria tremenda, mas custar-me-ia menos o sacrifício. Mas não... A sua atitude, as suas palavras, a forma como me tem acolhido até hoje, tudo me deixa alimentar a esperança de que o seu coração me pertence. E sou eu quem se vê forçado a fugir, a despresar o tesoiro que me oferece, fugir e procurar o inferno quando antevejo o paraíso! Meu Deus, isto é demasiado para as minhas forças!... Não sei como poderei subir até ao fim tão doloroso calvário!

 

Sem poder pressentir, ingénua que eu era, quanta falsidade havia nestas frases melodramáticas, deixei-me arrastar por este canto da sereia e retorqui com uma presença de espírito que a mim própria causou espanto:

 

Falemos a sangue frio, Cláudio. Tente dominar a exaltação de um sentimento que também partilho e procuremos ter calma. Se gosta tanto de mim como eu gosto de si e nem por sombras quero duvidar da sua sinceridade porque razão pretende afastar-se?... Quais os obstáculos que prevê para a realização de uma felicidade que ambos desejamos?

 

Obstáculos enormes, invencíveis, Patrícia. Em primeiro lugar, pertenço a família muito humilde.

 

Presentemente, quem se preocupa com essas coisas, Cláudio? A nobreza está nos sentimentos e não no nascimento afirmei muito convicta E depois?

 

Sou pobre.

 

Eu sou rica pelos dois.

 

E o meu orgulho, Patrícia?

 

O seu orgulho!... Tão fraco é o seu amor que não saiba colocar-se acima desses sentimentos secundários e dominá-los?... Sendo assim, é preferível afastar-se, sim. O amor, quando digno desse nome, deve ser único, avassalador, senhor do espírito e do coração, vencedor de todos os sentimentos, bastante nobre e elevado para se colocar acima de todas as questões mesquinhas de jerarquia e dinheiro. Pelo menos, é assim que eu o compreendo e sinto afirmei com uma eloquência pouco nos meus hábitos, inspirada pelo desejo de defender aquilo que eu considerava como a minha felicidade De resto, um homem não pode dizer-se pobre quando tem dois braços para trabalhar, inteligência e força de vontade para abrir o seu caminho na vida e conquistar um lugar ao sol. Não creio que lhe faltem qualquer destas coisas?

 

Não, de facto. No entanto, considerar-me-ia um criminoso se não lhe confessasse toda a verdade. Não quero que um dia possa acusar-me de a ter iludido afirmou Presentemente, não tenho colocação, situação definida que me garanta o futuro e me dê a possibilidade de constituir um lar.

 

Presentemente, diz bem. Somos novos, podemos esperar. Além disso, como já lhe disse, a minha fortuna bastará para nos manter enquanto o Cláudio não assenta a sua vida em bases sólidas e estáveis.

 

Como ele devia exultar, como se regosijaria por ter sido tão fácil conduzir-me onde desejava e alcançar o alvo cobiçado!... E como sabia mentir, ocultar bem o seu jogo!

 

Como o visse esboçar um gesto de protesto, atalhei:

 

E não volte a falar-me em orgulho, susceptibilidades, amor próprio, sei lá que mais. Quando se trata de amor, esses sentimentos não contam.

 

A Patrícia é um anjo e, como tal, não conhece o mundo, as exigências da sociedade. Já pensou na sua família?... Não creio que o seu avô, principalmente, pelo que me têm dito dele, consinta no nosso casamento. Bastaria o meu nascimento para ele se opor, quanto mais a minha situação...

 

Curvei a cabeça. A observação era sensata. Na exaltação daquele minuto único na vida de uma mulher, na certeza do amor partilhado, na enebriante convicção de ter, enfim, entrado no mundo maravilhoso que sonhara e de encontrar o meu príncipe encantado, esquecera o avô, a sua severidade, a rigidez dos seus princípios, a despótica autoridade, o seu plano de me casar com o Luiz Guilherme.

 

E se, nos últimos tempos, se desinteressara de mim, não seria de admitir que o fizesse a ponto de pôr de lado os seus projectos e de me deixar casar com quem eu quisesse, tanto mais não sendo o escolhido do nosso nível social, quer em posição, quer em fortuna ou nascimento.

 

Tem razão concordei por fim, em voz sumida Esquecia-me o avô.

 

Vê?... Eu não dizia. Deixe-me estreitá-la nos meus braços e depois separemo-nos. Não temos outro caminho a seguir.

 

Não, não e não! protestei num impulso de todo o meu ser Até certo ponto, confesso que tem razão, mas não considero isso motivo para desistir. Será tão fraco o seu amor que se assuste com a perspectiva da luta? Se assim é, seja sincero, confesse-o e então serei eu a primeira a dizer-lhe. ”Parta e esqueça-me”. Caso contrário, lutaremos pela nossa felicidade e estou certa de que acabaremos por vencer.

 

Se já lhe queria com todas as forças da minha alma, Patrícia, agora adoro-a como se adora uma santa, venero-a, não tenho palavras para lhe exprimir o que sinto por si. Sim, é uma santa, porque acaba de fazer um milagre.

 

Milagre?... Não compreendo.

 

Acaba de restituir-me a vida.

 

Nesse caso, já não pensa em partir?...

 

Não, Patrícia adorada, não parto. Estamos unidos para sempre, não é assim?

 

Unidos pelo coração e pelas palavras, unidos perante Deus, enquanto o não estivermos perante os homens afirmei, estendendo-lhe as mãos.

 

Apertou-as entre as suas, cobriu-as de beijos ardentes e depois, decentemente, enlaçou-me os ombros e os seus lábios uniram-se aos meus, num beijo prolongado e profundo que me deixou inerte nos seus braços, sem outra vontade que não fosse a sua, vencida, mas feliz, feliz como nunca o fora, como nunca sonhara ser.

 

Voltámos à sala. A minha alegria era muito grande para me caber no peito. Irradiava-me no rosto, fulgia-me no olhar, palpitava em todo o meu ser, erguia-me a regiões de sonho, arrebatava-me a um estado de espírito muito perto do êxtase.

 

Minha tia tinha os olhos fixos na porta e quando nos viu entrar não se lhe tornou muito difícil adivinhar o que se tinha passado. Notei que franzia a testa, olhou-me com tristeza e a sua fisionomia bondosa ensombrou-se.

 

Regressámos a casa. Nessa noite nem dormi. Era tudo tão novo para mim! Seria possível ter encontrado, enfim, o senhor do meu coração?... A cena desenrolada no terraço teria sido real ou não passaria de um sonho? Mas cerrava as pálpebras, como que sentia o calor dos braços de Cláudio em torno dos meus ombros, a carícia dos seus lábios ardentes colados aos meus e então deixava-me submergir na vaga de enebriantes sensações e já não duvidava.

 

Impunha-se revelar à tia Céu o acontecimento que modificava a minha vida, mas não sabia como fazê-lo. De manhã, quando nos reunimos à hora do pequeno almoço, dava voltas à cabeça sem saber como encetar o assunto. Felizmente, foi ela a primeira a abordá-lo.

 

Patrícia disse-me com certa gravidade consideras-me tua amiga, não é assim?...

 

Portanto, julgo merecer a tua confiança e conto que respondas com sinceridade à pergunta que desejo fazer-te. Queres dizer-me o que há entre ti e aquele rapaz com quem dançaste quase toda a noite e com quem te demoraste a conversar no terraço?... Cláudio Gomes, creio ser esse o seu nome.

 

Corei e baixei a cabeça.

 

Então? insistiu minha tia.

 

Confessou-me... gosta muito de mim...

 

Disse-to ontem, não é verdade?... E tu?

 

Eu... também gosto muito dele.

 

E disseste-lho?

 

Limitei-me a confirmar com a cabeça.

 

Mas afinal quem é esse rapaz?... O que faz, a que família pertence?

 

Não sei bem, tia. Disse-me apenas que era pobre, de família humilde e ainda não tinha emprego balbuciei.

 

Minha pobre Patrícia! exclamou a tia Céu Pois será possível que te deixasses prender assim? O que esperas tu, filha?... Conhecendo o teu avô como conheces, não supões, por certo, que autorize semelhante namoro. Pelo contrário, se o descobre, temos muito que sofrer, tu e eu. Não ignoras que projecta casar-te com o Luís Guilherme?

 

Mas eu não quero o Luís Guilherme para marido, tia! protestei Gosto muito dele, quero-lhe como se fosse um irmão, mas casar, nunca!

 

Parece-te que teu avô desista das suas ideias só por tu não quereres?... Não estás boa da cabeça, pequena.

 

E se o Luís Guilherme for o primeiro a desistir?... Ele com certeza não deseja constranger-me a casar, sabendo quanto gosto de outro.

 

Não, isso não. Sei que sonha fazer de ti sua mulher, mas contra tua vontade, nunca. O obstáculo não é esse, mas...

 

Ajude-nos, tia!... Gosto tanto do Cláudio! Se não me deixam casar com ele, morro!

 

Tolices!... Não se morre por coisas mais graves, quanto mais por um namoro contrariado.

 

Mas ele mata-se!... Gosta tanto de mim!

 

Criança! Que sabes tu e como desconheces o mundo!... A mentira veste-se tanta vez com as roupagens da verdade!... É bom não esqueceres a tua fortuna, filha.

 

O Cláudio não é interesseiro! protestei com energia. Até projectava sair de Santarém para sempre, sem me dizer nada. Fui eu quem, por assim dizer, o obrigou a declarar-se. Agora tem a minha palavra. Lutarei contra o avô, contra todos, mas havemos de casar.

 

O que me dizes desse homem causa-me grandes apreensões, Patrícia. Ou é sincero ou muito esperto e, nesse caso, muito perigoso. Além disso, a tua exaltação assusta-me.

 

Já vejo que não quer ajudar-me...

 

A tia Céu ficou calada como se reflectisse.

 

Veremos declarou por fim Antes de mais nada, preciso de saber quem ele é, não basta o que me disseste. Não se trata só da família e da fortuna. Impõe-se conhecer-lhe o carácter, o procedimento, os antecedentes, em resumo. Se as informações colhidas me agradarem, estou disposta a auxiliar-te, mas não te garanto o êxito. Até agora, tenho conseguido modificar o teu avô. Neste assunto, porém, não me parece tão fácil a tarefa. Em troca, vais prometer-me uma coisa. Não voltas a falar ao Cláudio, nem mesmo a escrever-lhe, enquanto eu não souber o que desejo.

 

Isso é impossível, tia! protestei aflita.

 

Como queiras. Ou fazes o que te peço e hoje mesmo te levo para a quinta ou serei eu a primeira a contar a teu avô o que se passa e, da mesma forma, terás de recolher a casa, se o Vasco não te obrigar a sair de Santarém. Já não és criança, Patrícia, e deves compreender as coisas. Eu sei que, actualmente, já não se usa tirar informações, ninguém olha ao carácter, ou ao passado do homem que escolheu. As raparigas casam com quem lhes apetece, quase sem interferência dos pais ou da família. É esta a regra geral, mas ainda há excepções e não são tão raras como podes supor...

 

Mas quem casa somos nós, tia... Somos nós também quem sofre as consequências, se erramos.

 

Não é tanto assim. Se a infelicidade lhes bate à porta, correm a procurar a família. De resto, isso é humano, perfeitamente racional e não serei eu quem o censure. Além disso, vai fazer essas afirmações ao teu avô e verás o que te responde. Depois, a responsabilidade do que se passa é toda minha. Se não pensasse em te proporcionar uma vida mais conforme a tua idade, nada disto teria acontecido... e o Vasco não deixará de mo fazer sentir.

 

Estava escrito... murmurei, curvando a cabeça.

 

O fatalismo é muito bonito, mas não resolve o problema. Já pensaste no que te disse?... Já escolheste?... Estás disposta a satisfazer o meu pedido ou preferes que ponha o teu avô ao facto de tudo? Ainda que isso represente para mim um aborrecimento e me acarrete muitos dissabores, estou decidida a fazê-lo.

 

Já escolhi, tia. Prometo-lhe não voltar a falar nem a escrever ao Cláudio até a tia mo permitir. Está contente?

 

Contente, não. Tudo isto me apoquenta e preocupa. O problema é mais difícil de solucionar do que se te afigura e ainda não sei como consegui-lo. Mas enfim, és rasoável e isso já simplifica um tanto a minha tarefa. Vai então arranjar as tuas coisas, filha. Depois do almoço levo-te a casa.

 

Horas depois, partíamos para a quinta, sem eu tornar a ver Cláudio. Nem sequer pude telefonar-lhe para o pôr ao facto do que se passava, porque a tia não mo consentiu.

 

Que dias aqueles, santo Deus!... Durante toda a minha vida tenho tido muitas horas de aflição, mas nenhuma delas foi de tanta inquietação, de tão angustiosa espectativa como as que passei naquela altura, aguardando notícias da tia Céu e de Cláudio.

 

De resto, não creio que as nossas emoções se repitam exactamente. Cada minuto decorrido traz-nos sensações novas, sob idêntico impulso, a reacção de hoje é diferente do que foi ontem. Feitas de elementos imponderáveis, impossíveis de definir e muito menos de controlar, as nossas impressões variam a cada instante, a mesma causa pode provocar lágrimas, sorrisos ou cólera, tudo depende do estado de espírito em que nos encontramos.

 

Sim, no passado tive de solucionar problemas cruciantes, enfrentar horas dolorosas, mas, talvez endurecida pelas desilusões, couraçada numa espécie de indiferença, nenhuma delas me tocou tão profundamente, nenhuma me fez vibrar os nervos numa tensão tão forte como a que atingi naquele momento.

 

Jogava-se todo o meu futuro, supunha eu e, de facto, assim foi, mas não no sentido que eu lhe dava.

 

Tinha instantes de impaciência, de estranho nervosismo, outros de profundo abatimento, de desânimo. Vivia alheia a tudo, abstracta, com o pensamento tão longe, que o avô não pôde deixar de notar.

 

Que tens tu? perguntou-me certa manhã Estás doente?

 

Não tenho nada, avô. Sinto-me bem.

 

Então, se não é doença, o que é?... Andas pálida, distraída, abatida.., Falo contigo e não me respondes... Que mais temos agora?... Novas fantasias da tua tia ou alguma paixoneta?...

 

Corei violentamente e curvei a cabeça, no desejo de ocultar ao avô o meu embaraço.

 

Que não te passe isso pela cabeça protestou ele, já exaltado Tenho transigido em muita coisa, mas nesse ponto, não. Pensei casar-te com o teu primo e não te consinto namoricos, entendes?

 

Não gosto do Luís Guilherme para marido, avô! tive a coragem de afirmar.

 

Nessa idade, sabes lá se gostas ou não!... Tolices!... E desde já te aviso. Se apanho por aí algum valdevinos a rondar-me a porta...

 

E, num gesto eloquente, indicou uma bengala de junco em que usava apoiar-se quando dava os seus passeios pela quinta.

 

Indignei-me. Seria possível, na época em que vivíamos, existir alguém com a pretensão de impor as suas ideias e a sua autoridade por meios violentos, tanto mais tratando-se de um assunto tão pessoal como o casamento, um assunto que só a mim dizia respeito?

 

Enchi-me de coragem e repliquei, sorrindo a fim de atenuar o sentido das palavras:

 

Isso já não se usa, avô. As afeições não se impõem.

 

Sim? replicou com ironia Foi isso o que aprendeste em casa da tua tia?... Pois não voltas lá tão cedo, já sabes. E, embora não se use, se o tal se lembrar de aparecer por cá, será corrido à bengalada. Estou velho, mas ainda me sinto com forças para defrontar bonifrates.

 

Mas quem lhe disse que existe alguém? protestei quase a chorar.

 

Julgas ser fácil enganar-me?... Desilude-te. Adivinho perfeitamente o que se passa. A culpa foi da maluca da Céu e minha também, porque me deixei convencer. Mas ainda estamos a tempo de remediar o mal. Acabaram-se os bailes e as festas. Escusa a tua tia de inventar novos argumentos, porque desta vez não conseguirá levar a sua avante.

 

Fugi para a quinta a fim de poder chorar à vontade. No meu desespero quase dava razão ao avô. Para que teria ido eu a festas e bailes?... Se a minha vida não se tivesse modificado, não teria conhecido o Cláudio, casaria com o Luís Guilherme e todos ficariam contentes, até eu, quem sabe. Assim... Remediar o mal!... Supunha o avô que, fechando-me a sete chaves, solucionaria o problema, como se alguém pudesse, prendendo o corpo, prender ao mesmo tempo o espírito e o coração!

 

Depois... aquele silêncio da tia Céu!... Como deveria traduzi-lo? Não podia acreditar que, numa cidade tão pequena como Santarém, onde quase todos se conheciam, pelo menos aqueles que pertenciam a certa classe da sociedade, minha tia precisasse de tanto tempo para saber quem era o Cláudio.

 

Devia atribuir a sua prolongada ausência ao receio de afrontar a cólera do irmão ou ao desejo de adiar o momento em que se veria forçada a ferir-me, roubando-me todas as ilusões?

 

Não, não era possível! Cláudio não podia ter mentido. Amava-me e se momentânea infelicidade o esmagava e o colocava em situação inferior que se prestava a malévolas interpretações dos seus sentimentos, atribuindo ao seu empenho em conquistar-me um sentido interesseiro, a culpa não era dele. Jurara lutar para defender o nosso amor e estava disposta a fazê-lo, mas não podia tomar qualquer iniciativa sem falar com a tia Céu.

 

Justamente, ela apareceu no dia seguinte, depois do almoço. O avô não estava. Tinha ido a Almeirim visitar uma das nossas propriedades e devia regressar tarde.

 

Quando vi a tia assomar ao portão, corri para ela e só tive forças para perguntar:

 

Porque se demorou tanto, tia? Respondeu-me com outra pergunta:

 

O teu avô onde está?

 

Saiu, foi a Almeirim.

 

Ainda bem. Assim poderemos conversar mais à vontade. Vamos para a quinta onde estaremos sozinhas, sem ouvidos indiscretos para nos escutarem.

 

Estava-se no fim do Verão. Ligeira brisa agitava as copas das árvores já tocadas aqui e ali por pinceladas doiradas ou cor de cobre, prenúncios do Outono que nos infiltravam na, alma profunda melancolia. Ou talvez o culpado fosse o meu estado de espírito, que não me deixava apreciar como devia o subtil encanto, a maravilhosa doçura daquela tarde amena e agradável.

 

Sentámo-nos no jardim. O aspecto de minha tia não pressagiava nada de bom. A sua fisionomia simpática revestia-se de grave expressão e, de vez em quando, envolvia-me num olhar compassivo como se, tendo a certeza de que iria ferir-me profundamente, não se atrevesse a fazê-lo.

 

Porque não fala, tia? murmurei Se soubesse como tenho aguardado ansiosa a sua vinda...

 

Minha pobre Patrícia, as notícias que vou dar-te não são muito agradáveis e por isso hesito em tas revelar. Quanto a vir mais cedo, deves calcular que não me contentei com as primeiras informações e quis confirmá-las.

 

Afinal o que soube? Vamos, diga! supliquei quase num grito Pois não vê a minha aflição?

 

Seja. Empregaste muito mal a tua afeição, minha pobre pequena. O tal Cláudio não passa de um valdevinos, um caçador de dotes.

 

Tia, isso não pode ser verdade! protestei O Cláudio ama-me sinceramente, sem interesse e, se hesitou em dizer-mo, foi, justamente, por causa da minha fortuna.

 

Nobres sentimentos, na verdade!... Mas o caracter das pessoas não se conhece pelos seus protestos e palavras, mas sim pelas acções e quando estas não condizem com os primeiros...

 

Mas...

 

Deixa-me falar, filha És tu a terceira herdeira rica por quem o senhor Cláudio se apaixona. Tem graça, não achas?... Não se interessa pelo dinheiro, foge dele, mas não namora senão raparigas com fortuna. As outras não contam. A primeira foi a filha dos Mendes de Oliveira. Felizmente, os pais souberam a tempo quem ele era e afastaram-na. Não a conheceste porque ainda não frequentavas a sociedade. Ela mostrou-se sensata, submeteu-se, foi para Lisboa e lá casou. A segunda foi menos feliz. Trata-se da Júlia Neves. Recordas-te dela, não é verdade?

 

A Júlia que casou há dois meses?

 

Essa mesmo. A pobre rapariga caiu na asneira de escrever ao Cláudio, cartas simples, sem mal algum, mas que ele soube aproveitar. Quando os pais da Júlia souberam de quem se tratava e pediram à filha para acabar o namoro, o rapazinho ameaçou-a com o escândalo, jurando que a difamaria se não casasse com ele. Os pais meteram-se no caso e, como têm bastante influência, chamaram-no e, por sua vez, ameaçaram-no com a polícia. É de crer que o senhor Cláudio Gomes receasse conversas com a autoridade, pois entregou logo as cartas e, durante algum tempo, ninguém mais o viu em Santarém.

 

Mas se ele é assim, para que o recebem? protestei a chorar.

 

Nessa altura quase todas as casas se lhe fecharam. Não sei mesmo como conseguiu ser recebido em casa dos Meneses e nas outras onde o tens encontrado para tua e minha infelicidade. Tudo esquece, afinal.

 

Sua infelicidade porquê?

 

Minha sim, Patrícia. Já pensaste bem no que dirá o teu avô, se vier a saber o que se passa, nas acusações com que me esmagará?... Lembra-te bem disto, minha Patrícia, e não queiras pagar com a ingratidão o carinho e amizade que sempre te dediquei e ainda dedico. Estás nova, tens a vida diante de ti. Não a estragues, dando-a a quem não te merece. Um dia, mais tarde, encontrarás aquele que Deus te destina, um apoio seguro, o companheiro dos teus dias.

 

O Luís Guilherme, não é assim?

 

Quem te fala no Luís Guilherme?

 

Quem?... O avô, que ainda ontem me jurou que teria de casar com ele, a bem ou a mal! balbuciei entre soluços.

 

Minha tia rodeou-me os ombros com o braço, puxou-me para si e beijou-me carinhosamente.

 

Tontinha!... Ninguém pode obrigar-te a casar contra tua vontade. O tempo do casamento à força ou o convento já passou, felizmente. Mas a união de duas vidas é uma coisa muito séria para que se faça à toa, irreflectidamente. Se um dia gostares de um rapaz digno de ti, sincero, trabalhador, embora seja pobre, eu mesma advogarei a tua causa e tenho a certeza de vencer. O próprio Luís Guilherme, recusando casar contigo, te auxiliaria. Mas como posso eu dizer ao Vasco: ”A tua neta pretende casar com um vadio, um homem indigno, sem sentimentos, sem carácter, sem dignidade, um homem que ninguém sabe onde vai buscar o dinheiro e se supõe viver de expedientes”... Sim, diz-me lá como poderia eu fazê-lo?

 

O Cláudio não é um vadio protestei Se, presentemente, não tem emprego...

 

Nunca o teve. Viveu sempre à custa dos outros, daqueles a quem se chega e cuja amizade consegue captar com lisonjas, afagando-lhes a vaidade. Para isso não lhe falta habilidade, não. Já te afirmei e volto a repetir. Não confiei nas primeiras informações. Considerei-as tão desagradáveis, que desejei confirmá-las. Todos me disseram o mesmo. Esse rapaz não é digno do teu amor. Esquece-o, jura-me que nunca mais o verás, Patrícia. Desde que me instalei em Santarém, tenho procurado suavizar-te a vida e substituir aquela que, para teu mal, tão cedo perdeste. Escuta as minhas palavras, atende-as como se fosse ela a dizê-las. Se tua mãe fosse viva, tenho a certeza de que procuraria afastar-te desse rapaz e tu não deixarias de lhe fazer a vontade e seguir os seus conselhos. Segue também os meus. Acredita que são inspirados pela grande afeição que te dedico. Não queiras envenenar os poucos dias que me restam para viver. Sim, porque se fosses infeliz, o remorso pesar-me-ia na consciência até à hora da morte, acusando-me de ter sido o instrumento da tua desgraça. E o teu avô não me pouparia, acredita, não deixaria de mo fazer sentir. Fazes o que te peço, minha Patrícia?... Nunca mais falas com esse homem?

 

Nunca mais, tia. Juro-lhe.

 

Confio em ti, Patrícia. Caso contrário, ainda que isso representasse uma humilhação para mim, teria de avisar o teu avô.

 

Não, tia Céu! protestei Pelo amor de Deus não faça isso!

 

Não, não faço. Permita Deus que não venha a arrepender-me da confiança que em ti deposito. E agora retiro-me antes que o Vasco apareça. Poderia estranhar e, se me fizesse perguntas, não saberia muito bem o que responder-lhe. Adeus, até breve.

 

Beijou-me carinhosamente e partiu, deixando-me positivamente aniquilada.

 

Como sou desgraçada! soluçava baixinho.

 

Desgraçada aos dezoito anos, só porque o meu primeiro amor se desfolhava como flor delicada, crestada pelo sopro ardente da realidade!

 

Mais tarde, recordando esse dia e comparando-o com o verdadeiro sofrimento, com o abismo de amargura a que desci, pude reconhecer a puerilidade do meu desgosto. Como a vida teria sido bela se nunca tivesse tido outros maiores!

 

Se todos nós reflectíssemos no âmbito restricto das promessas e juramentos baseados nas palavras ”nunca” ou ”sempre”, palavras falsas, enganadoras, vazias de sentido, símbolos da mentira inconsciente, deixaríamos de os fazer. Jurei à tia Céu que nunca mais veria o Cláudio e no entanto... Todavia, posso jurar que, ao fazer a promessa, fui sincera, estava firmemente decidida a cumpri-la.

 

Estive três dias de cama, com febre, abatida, com os nervos abalados. Quando me levantei, ainda bastante fraca, apeteceu-me dar uma volta pela quinta e depois do almoço fui até ao meu cantinho preferido.

 

Junto do muro, encostado a frondosa tília, cuja ramagem se debruçava para fora, para os campos, existia um banco de madeira onde eu gostava de passar os dias. Levava para lá os meus livros, bordados, e a Ema ia levar-me a merenda e só quando o sol descia no horizonte eu regressava a casa.

 

Mais tarde, quando decorridos onze anos, aqui voltei, ele lá estava ainda, abrindo-me os braços, como que censurando-me pela longa ausência e eu não pude evitar que as lágrimas me saltassem dos olhos, ao recordar quantos sonhos vãos, quantas ilusões eu alimentei sentada naquele agradável cantinho e como esses sonhos e ilusões tinham sido rojados na lama, pisados, reduzidos a pó. Quantas vezes, ainda hoje, lá vou sentar-me e, vendo minha filha saltar e correr e olhando para o berço do meu pequenino, eu comparo o passado ao presente e ergo o meu pensamento ao Alto, numa fervorosa acção de graças.

 

Agora, como naquele tempo, a sombra da árvore cobre-me, as abelhas zumbem à minha volta, atraídas pelas flores perfumadas e doces, as cigarras cantam e eu abandono-me à doçura do momento que passa, como então me abandonava às miragens do futuro. O que não fantasia e julga possível um coração de dezoito anos quando um sentimento mais terno e absorvente o despertou e faz palpitar? Desde o primeiro instante em que vi o Cláudio, fiz dele o fulcro de todos os meus projectos, esquecendo o avô, o caminho que, havia muitos anos, traçara para mim, as dificuldades a vencer, para só pensar no que seria a minha vida a seu lado, no perpétuo encantamento do nosso amor.

 

E quando esses sonhos ruiram, quando os considerei irremediavelmente condenados, foi esse refúgio que procurei, como se todos os meus pensamentos tivessem deixado, em suspenso no ambiente, forças bastante poderosas para poderem anular a sentença do destino.

 

Vagarosamente, segui pela ruazinha ladeada de buxo, atravessei o pomar e alcancei o banco.

 

Porém, não encontrei ali o lenitivo que esperava. O meu tormento estava dentro de mim, a desilusão fora amarga, a derrocada tremenda e no meu peito amontoavam-se todos os destroços das minhas ilusões perdidas.

 

Sem conseguir dominar-me, curvei a cabeça e deixei correr as lágrimas.

 

Foi então que uma voz bem conhecida murmurou junto de mim:

 

Porque chora, Patrícia?

 

Pus-me de pé num salto e dei um grito:

 

Cláudio!

 

Sou eu, sim. Não me esperava?

 

Como chegou até aqui? Por onde veio?

 

Por ali respondeu, indicando-me a tília cujos ramos pendiam para fora do muro.

 

Que loucura! protestei aflita Se o avô aparece por aqui! Peço-lhe para se retirar. Vou abrir-lhe aquela porta concluí, indicando a portinha rasgada no muro e que abria para atalho pouco frequentado

 

Irei, se o exige. Mas primeiro gostava que me explicasse o seu procedimento. Depois de me ter confessado que correspondia ao meu amor, depois de me ter feito entrever o paraíso, desaparece sem uma palavra, mergulhando-me no mais terrível desespero. Em que desmereci no seu conceito? Porque retoma o que voluntariamente me deu?... Porquê?... Fale, por Deus lho peço, suplico-lho de joelhos, se tanto for preciso concluiu, esboçando o gesto de ajoelhar.

 

Deixemo-nos de cenas melodramáticas atalhei com frieza Muitas coisas nos separam, Cláudio. Não pense mais em mim... e não torne a falar-me de amor. Considero-o um sentimento muito nobre e sagrado para ser evocado como pretexto para manobras mais ou menos confessáveis.

 

Patrícia, porque não me deixou partir antes de lhe revelar quanto lhe queria? Não teria sido preferível a esmagar-me agora com o seu despreso?... Lembre-se de que me pediu para ficar, prometendo lutar a meu lado para defesa do nosso amor. E agora nega-o e foge-me!

 

Não nego coisa alguma. Acreditei na sua sinceridade e correspondi-lhe com toda a minha confiança. É tão fácil iludir uma rapariga criada à margem da vida, ignorante do mal e das feias realidades, da máscara mentirosa que muitos homens afivelam para nos conquistar!... Foi por isso que me escolheu para sua vítima, não é assim?... Mas acabemos com isto. Gostei de si, hoje já não gosto. Não volte a procurar-me e, se pensa utilizar o nosso romance como arma para me ridicularizar, pode gabar-se de que me viu chorar por sua causa, porque dessa vez não mente, nem temo o escândalo. E, vendo bem, não chorei por sua causa, chorei sobre mim mesma, porque, de futuro, será difícil eu acreditar em alguém. O Cláudio roubou-me a confiança na vida, destruiu toda a minha fé na sinceridade e na bondade do coração humano. Onde cresciam flores, hoje só existem pedregulhos. Ouviu bem?... Fixou todas as minhas palavras? Se quiser pode repeti-las, porque eu não tenho medo do escândalo, repito, nem será com essa arma que me obrigará a casar consigo, entende? concluí, dirigindo-me para a porta.

 

Não, Patrícia, não saio daqui sem me dizer em termos bem claros, qual o crime de que me acusam. Se os assassinos têm direito a defender-se, porque razão não mo concede? Vamos, diga, que fiz eu?

 

Não sabe? Pergunte-o à sua própria consciência e ela lhe responderá.

 

A minha consciência não me acusa de a ter ofendido ou enganado.

 

Não desvie a questão. Eu não estou propriamente em causa... por enquanto. Recorde os seus erros em vez de dar provas de demasiada indulgência para consigo próprio. Eu sou mais severa e já que pretende saber, vou dizer-lho. Já esqueceu a filha dos Mendes de Oliveira que teve de fugir de Santarém por sua causa?... E a forma indigna como procedeu com a Júlia Neves?... Como vê, estou ao facto de tudo, conheço as suas habituais manobras. Deseja mais alguma informação?

 

Cláudio fez-se horrivelmente pálido. Por certo não esperava ser acolhido com tão contundente ironia nem eu mesmo sabia onde tinha ido buscá-la. Com as pupilas cintilantes, dentes cerrados e maxilas contraídas, proferiu em voz surda:

 

Foi então isso que lhe contaram?

 

E não mentiram. Será capaz de o negar?

 

Não, não nego. Tudo quanto lhe disseram é verdade.

 

Fiquei de boca aberta, fulminada pelo espanto. Contava com negativas, protestos exaltados, exclamações indignadas. Mas aquela confissão simples, clara e categórica, deixava-me desarmada. Cláudio era suficientemente esperto para adivinhar o meu estado de espírito e para aproveitar imediatamente a vantagem. Patrícia pediu em voz surda permite-me que me defenda? Depois pode mandar-me embora. Resignar-me-ei. Mas primeiro, escute-me, consinta que lhe explique tudo. A primeira pessoa a quem se referiu, amei-a com toda a sinceridade, com todo o meu coração. E por isso fui cego, louco, não medi a distância que nos separava, não pensei na minha pobreza, na humildade do meu nascimento, esperançado que, nesta época, essas duas coisas já não assumiam a importância que dantes lhes davam. Mas os pais consideraram-nas como um crime e levaram a filha, afastaram-na de mim, vigiaram-na de tal maneira que nunca mais consegui vê-la, quanto mais falar-lhe. Por fim soube que tinha casado. Fiquei desesperado, furioso. Que culpa tinha eu de ser pobre, de ter nascido de camponeses em vez de ter por berço um palácio?... Então, de mim para mim, responsabilizei a sociedade pela afronta que me tinham infligido, pela dor que me torturava e jurei vingar-me. Conhece a Júlia Neves. É altiva, orgulhosa, vaidosa da sua riqueza. Estou mentindo?

 

Não concordei.

 

Ainda bem que o reconhece. Gostava de se ver rodeada por uma corte de admiradores, acolhendo uns com sorrisos e tratando com desdém, pelo menos aparente, aqueles que não possuíam fortuna. Escolhi-a para alvo da minha vingança. Que triunfo, que tremenda desforra se lhe quebrasse o orgulho e a levasse a casar comigo!... Confesso que não gostava dela mas, se tivesse podido, teria feito da Júlia minha mulher. Poderá parecer-lhe fatuidade ou gabarolice, mas não tive grandes dificuldades em conseguir que se apaixonasse loucamente por mim. Estava disposta a todos os sacrifícios, teria fugido comigo se lho pedisse e foi isso que me declarou em diversas cartas. Quando quis acabar o namoro, ameacei-a com o escândalo. Reconheço ter sido indigno o meu procedimento, pois nem o amor tinha como desculpa, mas via a minha vingança fugir-me por entre os dedos e fiquei desesperado. Só uma atenuante posso invocar para o meu gesto: a minha pouca idade.

 

Pouca idade! exclamei com espanto Se não me engano, disse-me ter vinte e cinco anos. Como esse caso se passou há dois anos, não lhe parece que será forçar a nota, considerar-se muito novo com vinte e três?

 

Nesse ponto, o seu informador enganou-a ou também foi enganado. Quando namorei a Elsa Mendes de Oliveira ainda não tinha vinte anos. Conheci a Júlia um ano depois, isto é, ia fazer vinte e um.

 

E agora escolheu nova vítima, não é verdade, supondo que, desta vez, poderia ir até ao fim? Felizmente, foi novamente desmascarado e a tempo. Lamento mas, mais uma vez, a vingança lhe foge... se tudo quanto me contou não passa de pura mentira.

 

O Cláudio corou, tomou uma expressão que, naquele momento, eu não soube definir. Hoje penso que seria de raiva e de maldade. Conseguiu, porém, dominar-se. Deu dois passos para o banco onde eu me encontrava sentada, fitou-me longamente e murmurou:

 

Como me ama e como deve ter sofrido para me falar assim!

 

Foi o máximo que pude suportar.

 

Ocultando o rosto nas mãos, deixei correr as lágrimas, enquanto os soluços me sacudiam toda.

 

Cláudio sentou-se a meu lado e, ternamente, afagou-me os cabelos.

 

Meu amor, minha Patrícia adorada! disse com infinita meiguice Não chore, suplico-lhe. Não, não a escolhi como vítima, para exercer a minha vingança, como diz. Amo-a como um louco e não quero que sofra por minha causa. Se o exige, partirei e nunca mais me verá!

 

Como somos desgraçados, Cláudio! exclamei, descobrindo o rosto inundado de pranto.

 

Finalmente! exclamou com intraduzível inflexão Sinto que me acredita. Sim, somos muito infelizes, mas um pouco por sua culpa, Patrícia. Se me perdoa e ainda me ama, porque não luta, não lutamos pelo nosso amor, como me prometeu?

 

É impossível, Cláudio! Parta, saia de Santarém e tente esquecer-me.

 

Não, não partirei. Como resignar-me ao sacrifício com a certeza de ser amado? Tenha dó de mim, Patrícia!

 

Não insista, Cláudio. Pois não compreende quanto me faz sofrer?... Prometi, jurei nunca mais o ver e, no entanto, estou aqui junto de si, escutei-o, perdoei-lhe como diz e não lhe ocultei quanto lhe quero ainda. É o máximo que lhe posso conceder.

 

Escute, Patrícia. Não insisto, porque mo exige. Obedeça aos seus, esmague o seu e o meu coração, torture-me, se é esse o seu desejo, mas não me peça para me afastar. Consinta que continue a vir aqui de longe em longe, faça-me a esmola de um sorriso, de uma palavra de conforto e ficarei contente. Consente?... Não vai recusar-me tão pouco, pois não?

 

Hesitei. Cerrei as pálpebras e vi o rosto bondoso da tia Céu, o seu olhar triste, fixando-me numa censura muda e então supliquei aterrada:

 

Vá-se embora, Cláudio!

 

Tomando as minhas palavras por anuência, visto não ter oposto negativa categórica ao seu pedido, Cláudio pôs-se de pé, pegou-me nas mãos e, cobrindo-as de beijos, afirmou:

 

Vou, mas voltarei breve, minha muito querida.

 

E, como eu fizesse um gesto de protesto, continuou:

 

Não, não me diga nada. Não torno a importuná-la com protestos de amor, descanse. Voltarei breve repetiu com estranha inflexão onde passavam uns longes de ameaça.

 

Como se encaminhasse para o muro, por certo na intenção de o saltar, auxiliando-se com a tília, detive-o.

 

Não, por aí não protestei Poderiam vê-lo saltar e nem quero pensar nas complicações que daí resultariam. Vou abrir-lhe a porta.

 

Tive certa dificuldade em dar a volta à chave porque aquela porta raramente se abria. Cláudio ajudou-me e eu não dei por ele meter a chave na algibeira, tão habilmente o fez.

 

Depois dele sair, quando pretendi fechar a porta, dei pela falta. Logo calculei que tivesse sido Cláudio e fiquei desesperada, mas já não havia remédio. Encostei-a conforme pude e depois mais me deixei cair do que me sentei no banco. Apoiei a cabeça contra o tronco da árvore e cerrei as pálpebras. Estava atordoada. Tudo quanto acabava de acontecer me parecia um sonho. Vira Cláudio... falara-lhe! Muito bem cumpria eu as minhas promessas! Se a tia Céu viesse a saber e contasse tudo ao avô!... Meu Deus, que fazer!... Confessar à tia que fora apanhada de surpresa e pedir-lhe que me levasse para casa dela?... Por outro lado, se Cláudio fosse, de facto, culpado, teria confessado os seus erros com tanta sinceridade?... E, vendo bem, tinha desculpa... Se conseguisse convencer a tia de que, ao relatarem-lhe os factos, os tinham carregado de cores sombrias... Cláudio gostava de mim, não podia duvidar, e era isso o principal. O passado não me interessava. Estava de novo decidida a lutar para defender a minha felicidade.

 

Mas como... sim, como, se a tia Céu se recusava a auxiliar-me?

 

Acreditar-me-ia quando lhe descrevesse a entrevista com Cláudio, não iria mais uma vez acusá-lo de falsidade, de projectos interesseiros?

 

Que fazer, santo Deus?

 

Desorientada, apertei a cabeça nas mãos.

 

Sentia-me impelida por forças irresistíveis, arrastada pelas rodas de uma engrenagem que me puxava com ímpeto crescente e me levava nem eu sabia para onde.

 

Depois de muito reflectir, decidi calar-me e pedir ao Cláudio que desistisse das suas visitas à quinta.

 

Mas ele voltou, amiudou essas visitas, passou a aparecer todos os dias e eu não tive coragem para o afastar. Esqueci a promessa feita à tia Céu, todas as suas prevenções e conselhos, as suas súplicas e passei a aguardar ansiosa e palpitante a chegada de Cláudio. Não via, não pensava noutra coisa, o amor assenhoreou-se de todo o meu ser, cresceu numa labareda alta, assumiu as proporções de paixão, uma paixão cega, embriagadora como vinho capitoso, que obnubilava todas as minhas faculdades. Vivia num sonho, não queria saber do passado, não pensava no futuro.

 

Fomos tão imprudentes que só por milagre o avô não nos surpreendeu. Tínhamos escolhido para nos encontrarmos, a hora da sua sesta, depois do almoço e só isso nos valeu. Mesmo assim, não deixou de estranhar o meu empenho em estar na quinta.

 

Nunca paras em casa! censurava Que ideia essa de passares os dias na quinta?... Felizmente, o tempo começa a refrescar. Daqui a pouco estamos no Inverno e já te passa a mania.

 

Por isso desejo aproveitar enquanto o tempo está bom replicava eu como desculpa.

 

O Inverno! Eis o meu pesadelo! Via a aproximação da estação invernosa com profundo terror. Como continuar a encontrar-me com Cláudio?... Seria possível que o nosso amor estivesse condenado?

 

Ele devia partilhar as minhas apreensões, porque de dia para dia me aparecia mais sombrio e preocupado.

 

Escusado será dizer que já não saltava o muro. Tinha mandado fazer uma chave da portinha e, quase sempre, quando eu chegava ao banco já ele lá se encontrava.

 

Certa tarde, depois de uma manhã de aguaceiros, Cláudio disse-me:

 

Patrícia, já pensou que em breve teremos de desistir dos nossos encontros?... O Inverno está à porta e depois como faremos? Teremos de aguardar pelo Verão do ano que vem?... Contenta-se com isso? Eu não.

 

Fiquei calada. De facto, a situação era desoladora e o problema afigurava-se-me sem solução. Depois de pensar algum tempo, ocorreu-me uma ideia.

 

Cláudio disse a medo Porque não vai falar com a tia Céu? Ela é muito boa, acredite, e acabará por se deixar convencer.

 

Minha ingénua Patrícia!... Foi esse o caminho que encontrou? Pois não se lembra de que, mesmo que a sua tia se deixassse comover e tomasse o nosso partido do que eu duvido ainda restava o seu avô? Também me aconselha a procurá-lo? concluiu com ironia.

 

Seguiu-se breve silêncio. Cláudio foi o primeiro a quebrá-lo.

 

Patrícia disse se quisesse ter confiança em mim, talvez a situação pudesse resolver-se.

 

Como?

 

Eu disse: ”se a Patrícia quisesse ter confiança em mim” Quer?

 

Se não a tivesse teria vindo encontrar-me consigo todos os dias?... Fale.

 

Fuja comigo, Patrícia.

 

Pus-me de pé num salto. Tudo quanto havia em mim de fundamentalmente honesto se revoltou.

 

Está louco, Cláudio?... O que me pede é impossível.

 

Vê? Faz afirmações de confiança e, no fundo, não a tem. Escute-me e depois protestará. Proponho-lhe a fuga como único meio para consentirem no nosso casamento. Levá-la-ia para Lisboa, para casa de minha mãe e voltaria imediatamente para Santarém, Até casarmos, a Patrícia seria sagrada para mim, entende?

 

Senti-me corar e curvei a cabeça a fim de ocultar o meu rubor.

 

Uma vez aqui, iria ter com sua tia para ela se encarregar de ser a nossa medianeira junto de seu avô que, perante o facto consumado, não iria por certo negar o seu consentimento. Compreende agora?

 

Repetia-se a história de Júlia Neves. Arrancar o consentimento da família por meio do escândalo. A arma empregada era outra, mas, no fundo, o sistema era o mesmo. E eu não via nada!... Não recordava coisa alguma! Deixava-me arrastar pela corrente sem medir o abismo a que me conduzia!

 

Mesmo assim, ainda tive forças para protestar:

 

Não, Cláudio, não me peça uma coisa dessas. Nunca o farei. Pois não percebe que, por muito que o ame, não o posso fazer?

 

Seja, Patrícia, não falemos mais nisso cedeu com tristeza Aguardemos a chegada do Inverno e então não se admire das resoluções que eu tomar.

 

Comecei a chorar e ele, sentado a meu lado, não fez um gesto para me consolar. Mais tarde compreendi que devia estar furioso e receava ter-se desmascarado.

 

Naquele dia separámo-nos muito mal dispostos. Nos dias seguintes não me apareceu. Estava desolada. Teria ele ficado zangado? Mas como poderia fazer-lhe a vontade?... A ideia não tinha feito caminho no meu espírito... mas o veneno lá ficara.

 

Durante esses dois dias vivi numa verdadeira tortura. Na minha cabeça febril entrechocavam-se os mais contraditórios pensamentos, mas aquela frase: ”Fuja comigo, Patrícia” como que se me gravara no cérebro em letras de fogo, repetia-se constantemente como estribilho infernal, a própria encarnação do demónio com as suas tentações.

 

Cláudio voltou a aparecer. Não se mostrava irritado, mas profundamente triste. O tempo que, até ali, estivera maravilhoso, de uma amenidade excepcional, mudou de repente e os nossos encontros passaram a ser muito irregulares. Chegámos a estar quatro dias sem nos vermos, por causa da chuva. Além disso, tornava-se-me cada vez mais difícil passar algumas horas na quinta por causa do avô que não cessava de barafustar contra a minha mania, como lhe chamava. Tudo conspirava contra mim.

 

Certa tarde, depois de dois dias invernosos, pude correr para o lugar habitual, porque o avô tinha saído.

 

Cláudio não tardou a aparecer. Achei-lhe uma expressão diferente, resoluta, a expressão do carrasco quando decidiu imolar a vítima, pensei mais tarde.

 

Que tem, Cláudio?... Novos aborrecimentos?

 

Novos, não. Sempre o mesmo. Isto não pode continuar assim. Não me conformo nem suporto esta situação. Declaro-lhe que venho hoje vê-la pela última vez. Ofereceram-me um lugar em África e vou aceitá-lo. A minha resolução está assente.

 

Cláudio! protestei, ao mesmo tempo que as lágrimas me saltavam dos olhos.

 

Não, não me diga nada, suplico-lhe. Supõe que não sofro com esta decisão?... Mas não vejo outra solução para o nosso problema. Exige que fique para a ver em breve casar com outro?... Não me peça uma coisa dessas. Não teria coragem para o suportar. Prefiro abandonar tudo e partir.

 

Calei-me e curvei a cabeça. O meu espírito debatia-se entre duas correntes. A do mal que me arrastava para a queda inevitável e a do bem que tentava deter-me à beira do abismo.

 

”Patrícia dizia-me uma voz, talvez a de minha mãe que, lá do Alto, tentava defender-me e desviar-me vê bem o que vais fazer!...” ”Deixa-a ser feliz! dizia outra

 

E só com Cláudio ela conhecerá a felicidade completa”.

 

Quanto tempo duraria esta controvérsia?...

 

Talvez horas, se Cláudio não me despertasse, dizendo:

 

Adeus, Patrícia!

 

Levantei a cabeça, hesitei ainda e, por fim, perguntei:

 

Tem a certeza de ir ocupar esse lugar em África, Cláudio?

 

Quem mo ofereceu é pessoa séria. Não creio que esteja a enganar-me.

 

Já deu a resposta?

 

Ainda não. Tenciono dá-la amanhã de manhã.

 

Cerrei as pálpebras. Toda eu tremia, mas, resolutamente, dei o salto e mergulhei na lama.

 

Pois bem, aceite-o. Irei consigo. Assim, ninguém poderá dizer que fugi para casar com um vadio, um interesseiro que só cobiçava a minha fortuna. Fujo para casar com um rapaz trabalhador e humilde que me ama e a quem amo e que abandona a sua terra por minha causa.

 

Patrícia, meu amor! Pois acede...

 

À proposta que me fez?... Acedo. Irei para casa de sua mãe. Prepare as coisas e quando estiver tudo em ordem, avise-me. Até lá, não deve voltar aqui.

 

Cláudio parecia louco. Apertava-me as mãos, beijava-as e as pupilas negras cintilavam com estranho fulgor.

 

Atingira enfim o seu alvo e eu, pobre borboleta tonta, tomava todas aquelas manifestações pela expressão de um amor sincero e agradecido. Como era ingénua e tola!

 

Patrícia, minha Patrícia! Nunca esquecerei o que faz por mim. O meu coração pertence-lhe enquanto eu viver. Tornou-me o mais feliz dos homens!

 

E eu serei talvez a mais desgraçada das mulheres! respondi, quase involuntariamente, como que tocada pela asa de triste pressentimento, como se o pesado véu que nos oculta o futuro se tivesse entreaberto aos olhos do espírito e eu pudesse entrever, num rápido relance, o sombrio precipício para onde me arrastava aquela desgraçada paixão!

 

Cláudio não demorou muito os preparativos. Três dias depois da nossa conversa decisiva, estava tudo pronto para a fuga. Receou, talvez, que eu me arrependesse e não perdeu tempo.

 

De facto, quando, ao chegar perto do banco, o vi, empalideci e estive quase a dizer-lhe que tinha mudado de ideias. Porque não o fiz?

 

Cláudio censurei não lhe pedi para não voltar aqui?...

 

Enquanto não tivesse tudo preparado para a fuga, eu sei atalhou ele e foi isso mesmo o que fiz. Amanhã virei buscá-la num automóvel.

 

Curvei a cabeça e de novo estive para lhe dizer que tinha sido uma loucura, que não me sentia com forças para abandonar a minha casa.

 

Adivinharia ele o que se passava em mim?... Por certo, pois nunca consegui ocultar o que sentia e ainda hoje não consigo fazê-lo.

 

Aproximou-se, pegou-me nas mãos e perguntou-me com infinita meiguice:

 

Está arrependida, Patrícia?... Já não deseja confiar-me a sua vida?... Embora não compreenda muito bem a reviravolta, diga uma palavra e eu desligá-la-ei do compromisso que tomou comigo e partirei para sempre.

 

Como ele sabia manobrar-me bem e fazer vibrar as cordas mais fracas do meu coração!... Apavorada com a ideia de o perder, protestei:

 

Não, não estou arrependida. Disse-lhe que partiria consigo e não renego a minha palavra. Mas confesso que não o esperava tão cedo e... compreende, não é o mesmo que ir dar um passeio a Santarém. Trata-se de um passo que modifica completamente a minha vida e vai influir em todo o meu futuro. Não acha natural que me custe?

 

Naturalíssimo. Mas se tem que o fazer, quanto mais depressa melhor. O Inverno está à porta e, além disso, por muitas precauções que se tomem, pode transpirar qualquer coisa e lá se iam os nossos planos por água abaixo.

 

Tem razão.

 

Posso então vir amanhã?

 

Pode, sim assenti em voz sumida. Beijou-me e desapareceu.

 

Parti de madrugada, no alvorecer de um dia nevoento, chuvoso. Era como se a Natureza quisesse, com o seu aspecto triste e sombrio, significar-me uma censura e dar-me a antevisão do porvir que me esperava: triste e sombrio, também.

 

Bem à vista, em cima da escrevaninha do meu quarto, deixei duas cartas, uma para o avô, outra para a tia Céu.

 

A primeira era curta e dizia simplesmente o seguinte:

 

”Avô

 

”Perdoi-me se adoptei este meio para fugir ao casamento que pensava impor-me. Não me recuse o seu consentimento para desposar um rapaz pobre, de família humilde, mas honesto, a quem amo e me ama também.

 

”Perdoi-me, mais uma vez lhe peço e não queira mal à sua neta Patrícia”.

 

A carta que escrevi à tia Céu era mais longa e mais terna.

 

”Querida tia

 

”Poderá perdoar à sua ingrata sobrinha?... Não ignoro o desgosto que vou dar-lhe, sei que, por minha causa, vai sofrer muitos aborrecimentos e arrelias e, no entanto, Deus sabe se era a tia a única pessoa a quem eu desejaria evitá-los. Mas não podia fazer outra coisa, acredite. Eu e o Cláudio em vão tentámos sufocar o nosso mútuo afecto. Não conseguimos. Era como a corrente de uma catarata, sempre mais impetuosa e irresistível à medida que se aproxima do abismo, uma corrente que nos arrastava, que me arrastava até ao despenhadeiro, até à queda inevitável.

 

”O avô não daria o seu consentimento, se não fosse coagido e eu nunca poderia ser feliz se não me unisse ao homem a quem adoro, a quem coloco acima de tudo neste mundo, acima do bom nome meu e da minha família, acima do meu sossego e bem-estar, da tranquilidade da minha consciência esmagada pelo remorso, pela certeza de ter pago com a mais negra ingratidão as suas bondades e carinho maternal.

 

”Mas não tinha ninguém, não tínhamos quem se dispusesse a auxiliar-nos. O avô é inflexível e a tia estava mal disposta com o Cláudio, denegria-lhe as intenções, atribuía-lhe sentimentos que não são os seus. Enganaram-na, tia, pode estar certa. Ele contou-me tudo. Não negou o seu indigno procedimento do qual está profundamente arrependido. Mas era tão novo!... Sim, porque, nesse ponto, o seu informador fez confusão, voluntária ou involuntária, isso não sei. Os factos que lhe narrou passaram-se há mais tempo, tinha o Cláudio pouco mais de vinte anos e encontram certa desculpa na forma como o trataram os pais da Elsa Mendes de Oliveira.

 

”De resto, nada disso me interessa. O passado já lá vai. Agora só desejo pensar no futuro que antevejo maravilhoso junto do homem a quem amo com todas as forças do meu coração. É tão bom amar assim, exclusivamente, com toda a nossa alma!

 

”Vou para casa da mãe de Cláudio e, veja lá, tia Céu, ele é tão correcto que, mal chegarmos a Lisboa, me deixará entregue aos cuidados da minha futura sogra e voltará para Santarém.

 

Depois de casarmos, partiremos para a África onde vai ocupar o lugar que lhe ofereceram. Como vê, não é vadio, mandrião nem tão pouco pensa viver da minha fortuna.

 

”E agora, querida tia, vou fazer-lhe um pedido. Venha assistir ao meu casamento, seja minha madrinha, para que eu, nesse dia tão lindo não me veja sozinha no meio de estranhos, para que tenha a meu lado alguém que me estime e substitua a minha adorada mãe. Tenho a certeza de que ela, lá do Alto, sabendo-me feliz e contente, ficará contente também.

 

”Sei bem que lhe vai custar muito, que não tenho o direito de lhe pedir mais este sacrifício, mas, pela última vez, abra-me os seus braços carinhosos, não me falte com o apoio do seu afecto. Que eu, ao partir, possa levar gravados na mente, o seu sorriso bondoso, o seu olhar impregnado de ternura. Não vai recusar-me o que lhe peço, pois não?

 

”O Cláudio em breve irá falar consigo.

 

”Entretanto, envio-lhe a minha direcção em Lisboa. Não a revele ao avô. Seria capaz de vir buscar-me e eu juro-lhe que preferia matar-me a voltar para Santarém, agora, depois de ter dado este passo que muitos interpretarão malévolamente.

 

”Adeus, querida tia... adeus não, até breve, assim o espero.

 

”Em pensamento, beijo-lhe as mãos, oculto a cabeça no seu regaço como costumava fazer e mais uma vez lhe suplico: ”Perdoi-me, tia adorada, perdoi a sua Patrícia que, apesar da tremenda angústia que a oprime ao abandonar esta casa onde viveu tantos anos, para mergulhar no desconhecido, se sente imensamente feliz. ”Da sobrinha que, a despeito de tudo lhe quer muito

Patrícia”.

 

Terminadas as cartas, fechei-as, peguei na maleta, saí do quarto e desci a escada pé ante pé.

 

Se, por um lado, aquela fuga culminava todos os meus anseios, por outro, quase desejava que o avô acordasse, descobrisse tudo e a impedisse. De que estranhas contradições é feito o coração humano!

 

Saí para a quinta. Chovia, dessa chuva miudinha, pegajosa, uma chuva que eu comparo a certar pessoas velhacas que sabem insinuar o seu veneno subtilmente, sem nós darmos por isso. Os aguaceiros fortes são francos, leais, encharcam-nos com desassombro, não ocultam as suas más intenções, pelo contrário, manifestam-nas abertamente.

 

Estava frio também. Quando transpus a porta e alcancei o carro, tremia. Instalei-me ao lado de Cláudio que já estava ao volante e partimos logo.

 

A primeira parte da viagem foi feita quase de noite. Para o oriente, o céu ia tomando um tom cor de pérola, mas o sol ainda não tinha rompido.

 

Não conseguia falar. Tudo aquilo me parecia um sonho. Era eu, Patrícia, quem ia ali, quem fechava os olhos a todas as conveniências e raciocínios, quem abandonava tudo para seguir o homem a quem amava com loucura, mas que, pelo menos, moralmente, podia considerar um desconhecido?

 

Admirado com o meu silêncio, o Cláudio acabou por se voltar para mim e, sorrindo, perguntou:

 

Que é isso, Patrícia?... Estás arrependida?... Se assim é, deixa-me dizer-te que é tarde para arrependimentos e se torna impossível voltar atrás.

 

Seria a brusca mudança de tratamento ou o tom destas palavras, a voz em que vibraram notas estranhas, misto de triunfo, de maldade, de ironia, de tudo menos de amor, de ternura, de compreensão?... Fitei-o com espanto e as lágrimas saltaram-me dos olhos.

 

Adivinhou ele o que se passava no meu espírito e receou ser ainda cedo para desmascarar-se?

 

Tirou uma das mãos do volante, enlaçou-me os ombros, puxou-me para si e, numa voz diferente, meiga e carinhosa, murmurou:

 

Querida, não chores! Melindrei-te sem querer quando comecei a tratar-te por tu? Se assim foi, perdoa-me. Fi-lo involuntariamente, num impulso nascido do mais fundo do meu coração. Com isso quis, talvez, traduzir, manifestar de qualquer forma a minha intensa alegria, marcar o instante inolvidável em que tomei posse do meu tesoiro. Perdoas-me?

 

Nada tenho a perdoar-lhe, Cláudio.

 

Para quê esse lhe?... Não sou agora o teu Cláudio, o teu maior amigo, o teu marido?

 

Marido, ainda não protestei Mas amigo sim, o maior e talvez o único, diz... dizes bem.

 

Agora sim aprovou contente Não entristeças. Seremos felizes, verás.

 

Chegámos a Lisboa perto das oito da manhã. A mãe de Cláudio morava para os lados de Campo de Ourique, numa casinha de um só andar, de aparência modesta. O interior condizia com o exterior. Móveis escassos, de aspecto humilde, um conjunto quase pobre.

 

Patrícia disse-me Cláudio com certa aspereza, quando me viu parada no meio da casa Ficaste desapontada, bem vejo. Mas eu já te havia prevenido de que minha mãe vivia pobremente.

 

Não estou desapontada respondi quase a chorar Estou simplesmente extenuada.

 

A Patrícia tem razão atalhou a dona da casa Venha beber uma chávena de leite e depois deitar-se. Venha.

 

Minha sogra teve grande culpa no desastre da minha vida. Ajudou o filho a tecer a teia que me envolveu e, em vez de o dissuadir do rapto, pelo contrário, prontificou-se a receber-me e proporcionou-lhe todas as facilidades. Devia guardar-lhe rancor, mas não guardo. Era mãe, tinha certa desculpa e talvez não medisse bem toda a perversidade do filho. Nunca mais a vi, não sei se é viva ou morta, mas não lhe quero mal.

 

Enquanto estive em sua casa, mostrou-se sempre compreensiva e carinhosa, rodeou-me de cuidados, tratou-me como se trata uma princesa, tentou atenuar, por todas as formas, a minha crescente desilusão e amargura, provocadas pela atitude de Cláudio.

 

No entanto, naquele primeiro dia, poderia ter impedido o que aconteceu e não o fez... E talvez, quem sabe, conhecendo o génio do filho, não se atrevesse a contrariá-lo.

 

Levou-me e teimou comigo para comer. Não quis ou antes, não pude. O próprio leite mal conseguia passar-me pela garganta estrangulada.

 

Minha futura sogra não insistiu e conduziu-me ao quarto que já estava preparado para... mim. Obrigou-me a tirar a roupa molhada e a deitar-me dentro dos lençóis. Depois conchegou-me a roupa, cerrou as janelas e saiu em pontas dos pés.

 

Ainda a ouvi conversar com o filho no aposento contíguo que servia de casa de estar e de jantar e depois adormeci profundamente.

 

À hora do almoço levantei-me, vesti-me e fui para a mesa, Cláudio não estava. Perguntei à mãe se tinha regressado a Santarém sem se despedir de mim e ela afirmou-me que o filho só partiria nessa noite.

 

Conversámos um pouco. Ela fazia o possível por dissipar o meu constrangimento, por atenuar tudo que havia de melindroso na situação em que me colocara por minhas próprias mãos. Para a tarde já me sentia mais à vontade, embora deslocada num meio que nunca tinha sido o meu.

 

Não vi o Cláudio em todo o dia. Voltou à noite, muito tarde e só partiu para Santarém na manhã seguinte, mas regressou nessa noite sem ter ido falar com a tia Céu.

 

E quando partiu... já não podia recusar-lhe coisa alguma, porque tudo lhe havia dado ou ele o tomara à força.

 

Só daí a dois dias recebi resposta às minhas cartas. A do avô era ríspida, contundente, definitiva.

 

”Patrícia

 

”Não me admirou o passo que deu. De si havia tudo a esperar, da sua revolta constante, da sua sede de divertimentos, da sua independência. Remeto o consentimento que me pede e sem o qual, depois deste escândalo, poderia muito bem passar. Seu marido que vá entender-se com o meu notário cuja morada indico. Já lhe dei instruções para lhe entregar os bens que herdou de seu pai, assim como as jóias de sua mãe. Quanto à sua roupa e outros objectos que lhe pertencem, sua tia lhos mandará.

 

”Pobre e honesto!... Deixe-me rir!... Honesto um homem que não hesita em roubar uma rapariga, a obriga a abandonar a sua casa e a casar com ele, empregando meios tão ignóbeis! Tão honesto como aquela que não hesitou em seguí-lo. Quanto a ser pobre, acredito. Mas se pensa tornar-se rico pelo casamento, desengane-se. Saberei proceder de forma que a minha fortuna e esta quinta a que tanto quero não lhe caiam nas mãos e passem para quem saiba apreciá-las tanto como eu, não esbanje aquilo que os meus me legaram e possa conservar o meu nome sem mancha e honrá-lo. Para lama, basta aquela com que o salpicou agora.

 

”Quanto a perdoar-lhe, nunca! Para mim, morreu, e teria sido preferível que, de facto, morresse, a sabê-la caída numa situação tão baixa, tão miserável. Não me trate mais por avô.

 

Então, já decidiste?... Voltas para casa da tua tia?

 

Bem sabes que já não posso escolher respondi com tristeza.

 

Acolheu a declaração com um sorriso que me fez mal e este comentário cheio de ironia que me feriu profundamente:

 

Nem voltarias, mesmo que pudesses. Ficaste doidinha por mim, desde o primeiro instante...

 

Nem me dei ao trabalho de responder. Tudo aquilo me desgostava e, de longe em longe, em breves relâmpagos, começava a entrever a loucura do passo que tinha dado. Quanta desilusão em tão poucos dias, Santo Deus!

 

Enquanto eu me entregava a tristes reflexões, Cláudio lia a carta do avô. Quando terminou, encolheu os ombros e comentou:

 

O velhote não é capaz de te deserdar como ameaça, não é verdade? De resto, a lei não lho consentiria.

 

Não conheces o avô, Cláudio. É inflexível. Seria mais capaz de vender tudo e dar o dinheiro, do que permitir que viesse parar-me às mãos. Ha muitas maneiras de iludir a lei, segundo tenho ouvido dizer. Contemos apenas com a fortuna de meu pai que não é grande Quanto ao resto, sei que nunca me pertencerá. Isso aflige-te?

 

Não me respondeu. O semblante ensombrou-se-lhe e, sem uma palavra, voltou-me as costas e saiu.

 

Pode parecer estranho que a minha família fizesse um drama do facto hoje tão vulgar de uma rapariga abandonar a sua casa para casar com quem lhe apeteça, que pretendesse opor-se ao casamento invocando diferenças de nascimento e de fortuna quando, as barreiras de intransigência que dantes separavam as classes, hoje quase desapareceram.

 

Naquela altura também eu me revoltei contra os meus. Mais tarde, reflectindo melhor, passei a considerar essa atitude muito natural.

 

Meu avô nasceu e foi educado numa época em que essas barreiras se erguiam com inabalável firmeza e, para um carácter da têmpera do seu, os princípios incutidos pela educação constituíam normas pelas quais se regeu toda a vida e lhe traçaram o caminho do qual nunca se desviou.

 

Podiam as opiniões mudarem, as concepções morais e sociais sofrerem profunda modificação, mas meu avô continuava firme como um rochedo, sem que a violência dos temporais ou os embates da adversidade conseguissem abalá-lo. E se fora sempre assim, não seria eu, fraca rapariguita, a neta a quem, forçosamente, não podia querer como se a tivesse visto nascer e fosse criada junto dele, quem o faria vergar. Pelo contrário, seria eu quem teria de me amoldar à sua vontade. Não o fiz e ele riscou-me da sua vida, embora, a seu modo, sofresse com isso, pois agora, pensando bem, reconheço que me estimava, não com a ternura carinhosa de um avô, pois o seu coração não nascera para essa espécie de afectos, mas como se quer a alguém que, apesar de tudo, é do nosso sangue.

 

Quanto à tia Céu, essa, tenho a certeza, não procedeu por intransigência, não foram a ausência de fortuna e a humildade do nascimento que a levaram a repelir Cláudio, mas sim as más informações que recebera. Revoltou-se contra o casamento, não por ela, mas por mim, pelo muito que me queria, pelo temor que lhe inspirava o meu futuro, pelo que pressentia, sabendo-me nas mãos de um homem indigno, de carácter tão baixo. Além disso, pungia-a o remorso, acusava-se por ter sido, em grande parte, a origem de tão desgraçado romance.

 

E, mais tarde, como lhe dei razão! Naquela altura, porém, estava cega, indignava-me, acusava-os e protestava riscá-los do meu pensamento tal como eles me tinham banido da sua vida.

 

Fui passar algum tempo a uma das praias do Norte e ha mais de dois meses que não traço uma linha neste caderno.

 

Dir-se-ia que o abandonei de vez, que, de repente, morreu em mim o desejo de revolver coisas passadas que tanto me fizeram sofrer.

 

E, por vezes, pergunto a mim mesma se a minha Lena, mais tarde, ao ler estas linhas, lhes dará o devido valor. Pelo contrário, talvez encolha os ombros e sorria com indulgente ironia, classificando como história piegas aquilo que tão grande importância teve na minha vida. É uma criança tão estranha!

 

Há dias, justamente quando me dispunha a escrever e abrira o caderno diante de mim, entrou-me pela salinha dentro e veio encostar-se aos meus joelhos.

 

O paizinho onde está? perguntou.

 

Foi a Santarém, mas não tarda a chegar.

 

Estás a escrever? perguntou-me depois, fixando-me com os lindos olhos negros, muito vivos.

 

Estou sim, meu amor. Estou a escrever uma história para tu leres quando fores mais crescida.

 

Uma história de fadas?

 

Isso mesmo. Tem fadas boas, fadas más, gigantes e anões.

 

Ficou calada uns momentos, como se reflectisse e depois saiu-se com esta conclusão que me deixou de boca aberta:

 

As histórias de fadas são sempre um bocadinho aborrecidas, sabes? Mas a tua deve ser engraçada e quero lê-la. Agora vou lá para baixo, para a quinta, esperar o paizinho.

 

E saiu a correr.

 

Poisei a estilográfica e fiquei a pensar. Como são precoces estas crianças modernas! Aborrecidas as histórias de fadas!... Ó minha Gata Borralheira, meu Chapelinho Vermelho, Gato de Botas e tantas outras histórias pueris que fizeram as delícias da minha infância, depois de terem feito as de minha mãe e de minha avó! Como eu gostava de lhas ouvir contar na sua voz suave, de mistura com as lendas nórdicas ou com as aventuras de Nils Holgersson, que ela resumia e adaptava à minha inteligência!

 

Que espécie de histórias será preciso contar a estas crianças modernas, santo Deus!

 

Entregava-me a estas reflexões quando meu marido entrou. Beijou-me e, estranhando a minha atitude, inquiriu:

 

Que tens, Patrícia? Aconteceu alguma coisa?

 

Nada, felizmente. Comparava as crianças do meu tempo com as de hoje.

 

O campo é vasto para comparações, de facto. Mas que motivo te impeliu a fazê-las?

 

Uma frase da nossa Lena. Descrevi-lhe então a breve conversa tida pouco antes com a nossa filhinha. O Luís Guilherme sorriu.

 

Sim, ela já me falou nessa história de fadas, gigantes, anões e sei lá que mais. Mostrava-se até bastante interessada e ansiosa por poder lê-la. Deste então em escritora?

 

Torna-se fácil ser escritora quando se vive o próprio romance e se escreve com o coração, Luís Guilherme.

 

Seja. Mas não compreendo como nessa história, real e bem verdadeira, conseguiste arranjar lugar para os anões e gigantes que prometeste à pequena.

 

Não me referia à estatura. Existem homens com o coração pequenino, como se fossem anões, a maldade e os requintes de crueldade dos génios maus. Há também gigantes na bondade.

 

Meu marido voltou a sorrir, deu-me leve palmadinha na face e comentou:

 

Essa cabecinha está sempre a trabalhar e a recordar tolices! E se fôssemos dar uma volta pela quinta antes do almoço? Não seria melhor do que repisar coisas que já lá vão? O passado, bom ou mau, não tem remédio e coisa alguma conseguirá modificá-lo, nem lágrimas nem arrependimentos. Podemos apenas tentar, na medida do possível, e com os nossos actos presentes, remediar as consequências dos nossos erros. De resto, em grande parte, não foste a culpada do que aconteceu, já to tenho dito muitas vezes e gostava que te esforçasses por apagar isso tudo da tua memória. Não és feliz agora?... Não tens dois filhos que são uns amores? Procura educá-los em moldes diferentes do que foste educada e isso será talvez a melhor forma de compensares o passado... E não mencionei o teu marido. Será possível que o meu carinho não consiga fazer-te esquecer essas horas amargas?

 

O teu carinho é a minha vida, Luís Guilherme. E quanto a educar os meus filhos, é justamente por isso que me lembrei de escrever este caderno. Desejo que a nossa filha, lendo-o, saiba evitar os escolhos onde eu naufraguei. Mas com estas mentalidades modernas, sabe-se lá!

 

Deixa o futuro nas mãos de Deus e tem confiança. Todas as precauções que possamos tomar para defender os nossos dos vendavais da vida, nada são comparadas com o pequenino raio da Sua luz. E agora, basta de filosofar. Vamos passear, sim?

 

Fui buscar o meu Jorgito que brincava, vigiado pela criada, e desci com o Luís Guilherme. Fechei o caderno na gaveta e, mais uma vez, a minha história ficou por contar.

 

A manhã estava linda e quente, embora de vez em quando uma aragem mais fresca perpassasse pela atmosfera e viesse recordar-nos que o Outono estava à porta. De resto, não era só esse o único adeus que o Verão nos fazia. A folhagem do arvoredo, cor de cobre ou amarela, os carros que passavam chiando, carregados com as dornas cheias de uva, a caminho do lagar, a azáfama na vinha e no pomar, onde as mulheres procediam à vindima e colhiam as maçãs e marmelos, destinados às compotas e marmelada para o Inverno, tudo nos indicava a proximidade dessa estação suave, talvez menos alegre do que o Verão, mas não menos bela, cheia de poesia, tocada de mistério e melancolia.

 

Regressámos a casa para almoçar, à tarde tornámos a sair e nesse dia não voltei a abrir este caderno.

 

Hoje, porém e já lá vão oito dias começaram a cair as primeiras chuvas, a tarde está sombria e enevoada, a Lena está na rouparia com a Ema, o Jorgito dorme e então, no ambiente calmo da minha salinha de costura, diante do retrato de meu marido, que na sua moldura de bronze me sorri, esqueci o presente e voltei a embrenhar-me no passado.

 

A primeira pessoa a entrar no meu quarto, na manhã em que fugi, foi a Ema.

 

Segundo me disse depois pois foi ela quem me contou tudo isto quando viu as duas cartas bem em evidência em cima da escrevaninha, pressentiu logo o que acontecera.

 

Ficou tão impressionada, as pernas tremiam-lhe tanto que se sentou na cadeira mais próxima para não cair.

 

Como ignorava tudo do meu namoro embora já andasse desconfiada a surpreza foi grande e o choque inesperado. Além disso, não sabia como dar a notícia ao avô. Depois de muita hesitação, acabou por meter as cartas na algibeira do avental e desceu para a cozinha, dando tratos à imaginação, sem saber como resolver o problema.

 

Não tardou que o avô saísse do quarto e entrasse na sala de jantar para tomar o pequeno almoço.

 

Ainda aguardou algum tempo e depois, como não me visse aparecer, chamou a criada:

 

Então a menina Patrícia ainda não se levantou? perguntou já irritado Vá dizer-lhe que são horas e que já estou à espera.

 

A menina Patrícia não está no quarto declarou a Ema com voz trémula, aproveitando o ensejo.

 

Não está no quarto!... Já saiu a esta hora e com esta manhã de chuva? Chega a ser mania! Parece-me que está abusando da minha paciência! Tenho de pôr termo a estes passeios.

 

Não é isso, senhor Melo!... A menina foi-se embora elucidou a rapariga, torcendo o avental entre os dedos.

 

Você está doida, mulher!... exclamou meu avô, pondo-se de pé Foi-se embora para onde?

 

Não sei, senhor Melo. Quando ia acordá-la não a vi, a cama não estava desfeita e encontrei estas duas cartas.

 

Não podia ter dito isso há mais tempo? Quando deu pela fuga da... minha neta?

 

Agora mesmo. Tinha acabado de descer quando o senhor me chamou.

 

Meu avô pegou nas cartas, rasgou o sobrescrito da que lhe era dirigida e começou a ler. Estava pálido e as mãos tremiam-lhe.

 

”Fazia dó ver, acredite, menina Patrícia!” dizia-me mais tarde a Ema.

 

E eu fechava os olhos e via a cena.

 

Isto era de esperar! murmurou o avô quando acabou de ler.

 

Depois, dirigiu-se à criada e ordenou:

 

O Joaquim que vá imediatamente a Santarém e diga à senhora D. Céu que lhe peço para vir imediatamente a minha casa. Ele que leve o carro para não perder tempo. E avie-se, criatura! acrescentou, cada vez mais irritado, achando que a Ema não andava tão depressa como ele desejava.

 

A rapariga saiu a correr, não conseguindo reprimir os soluços que a sufocavam.

 

O avô não se tirou da janela enquanto o carro não partiu. Depois, até a irmã chegar daí a três quartos de hora, pouco mais ou menos não deixou de passear para cá e para lá na sala. Ema ouvia-o falar sozinho, mas não conseguiu perceber o que dizia.

 

A tia Céu entrou esbaforida, alarmada com chamada tão matinal e como, no meio da sua desorientação, se esqueceu de fechar a porta, Ema pôde escutar toda a conversa.

 

Aconteceu alguma coisa por cá? perguntou Se já se viu obrigarem assim uma pessoa a sair da cama a estas horas da manhã?

 

Houve alguém que saiu mais cedo replicou duramente o irmão Toma, lê isto e depois diz-me quem tinha razão.

 

Seguiu-se prolongado silêncio, enquanto a tia Céu lia a minha carta, calculou a Ema. Quando terminou, ouviu-a murmurar:

 

Desgraçada rapariga!... Como não previ eu isto?

 

E começou a chorar.

 

Então sabias o que se passava, não é assim?... Porque motivo mo ocultaste?

 

A Patrícia suplicou-me que não o fizesse e eu fiquei certa de a ter convencido a esquecer aquele patife depois do que lhe contei e da promessa que me fez.

 

Promessas de uma cabeça leve como a dela, quem lhes dá fé! Eis o resultado dos vossos esconderijos vociferou meu avô Vamos, fala. Quem é esse homem?... Ou pretendes continuar a ocultar-me tudo?

 

Não, vou dizer-to.

 

E, em breves palavras, contou-lhe a primeira fase do meu namoro.

 

Provavelmente ele continuou a persegui-la e a Patrícia acabou por ceder concluiu em voz surda.

 

Eu já esperava qualquer coisa deste género afirmou o irmão Se a tivesses deixado viver sossegada, aqui, na quinta, em vez de a levares a bailes e festas, nada disto teria acontecido. Encontravam-se, é claro. Está agora explicada a sua mania de passar os dias fora de casa. Era para aproveitar o bom tempo, dizia ela. Estas raparigas, mesmo as mais acanhadas, lêem todas pela mesma cartilha. Bebem a manha com o leite das mães. Vou chamar a Ema. Deve saber alguma coisa e talvez tivesse sido a confidente. Ema! gritou, carregando furiosamente no botão da campainha.

 

Ema demorou-se um bocadinho para não deixar perceber que tinha estado à escuta.

 

O senhor chamou? disse, entrando na sala

 

Que pergunta tola! Pois não ouviu a campaínha?

 

Ouça cá. Você sabia que a menina Patrícia tinha namoro e se encontrava com ele na quinta?... Talvez lhe proporcionasse esses encontros, quem sabe?... Mas se eu adquiro a certeza...

 

Não, senhor Melo, juro-lhe que não. Até ontem de manhã ignorava tudo. Só ontem, o José, o rapaz que trata da vacaria, me afirmou ter visto, por duas vezes, um rapaz sair pela porta pequena do pomar. Não sabia que fazer e...

 

Não sabia!... Devia ter vindo logo dizer-mo.

 

Queria primeiro falar com a menina, avisá-la de que, se continuasse, contaria tudo ao senhor. Tencionava fazê-lo hoje de manhã, mas quando lhe entrei no quarto já ela tinha partido concluiu a chorar.

 

Tantas lágrimas não sei para quê! ralhou, dirigindo-se à irmã que também chorava Que vais fazer? acrescentou, vendo-a disposta a sair.

 

Vou a casa, a Santarém, e depois sigo imediatamente para Lisboa para a trazer comigo. Sei onde encontrá-la, visto ela ter-me indicado a morada.

 

Tolice! contrariou meu avô Não vês que tudo isso seria inútil? Não a convencerás a abandonar o rapaz no próprio dia em que fugiu com ele. Se não conseguiste convencê-la a deixá-lo quando se tratava de simples namoro...

 

É menor, poderemos obrigá-la.

 

Se ele se recusasse a casar. Mas como é isso, justamente, o que pretende... um casamento de dinheiro, com uma herdeira rica. Mas engana-se, eu saberei inutilizar-lhe as manobras.

 

Vai ter uma desilusão e, se a Patrícia sofrer por causa disso, é bem feito, será o seu castigo. Voltas para Santarém, sim, mas comigo e não vais a Lisboa. Deixa-a seguir o seu destino. Vou ter uma conversazinha com o meu notário e depois acabou-se o assunto. De futuro, para mim, a Patrícia é como se não existisse nem tivesse vivido oito anos nesta casa onde nunca deveria ter entrado. Leva as malas para tua casa e encarrega-te de lhas mandar. Quanto às jóias da mãe e à fortuna que herdou do pai, darei as minhas ordens ao notário para só lhas entregar depois de casada... Mas não creio que as conserve por muito tempo. Pelo que me contaste do tal Gomes, calculo que, logo que se apodere do dinheiro e das jóias, se encarregará de as fazer mudar de dono. Mas enfim, ela assim o quis, assim o tenha. Haja o que houver, saibas o que souberes, proíbo-te de me falares nela. Está entendido? Pelo menos, uma vez na vida, deves concordar que tenho razão concluiu com ironia.

 

Vasco replicou a irmã reconheço ter sido, em grande parte, a culpada do que aconteceu. Mas, pelo amor de Deus, não continues a esmagar-me com censuras e recriminações. Para sofrimento, já basta o remorso.

 

Falava com inflexão tão patética e dolorosa que o irmão se comoveu. O olhar suavisou-se-lhe e, com expressão branda, aproximou-se da irmã e pôs-lhe a mão no ombro.

 

Perdoa-me pediu com ternura Estou a apoquentar-te, sabendo que, se, de facto, o teu procedimento concorreu em grande parte para este desastre, no fundo, as tuas intenções eram boas. A ingrata foi ela, não sabendo reconhecê-las. Mas deves concordar que tudo isto me aflige, não só por se tratar da minha neta a quem estimava, embora não o parecesse, mas pelo escândalo que a sua fuga vai provocar. Ainda se fosse em Lisboa, quase não se dava por isso, mas nestas terras pequenas... Enfim, não se fala mais no caso e façamos o possível por esquecê-lo. Ema continuou, dirigindo-se à criada que, à porta, assistira a toda a conversa vá ao quarto da menina Patrícia, meta tudo quanto lhe pertence nas malas e diga ao José para as pôr no carro. Vamos, avie-se. Porque espera? acrescentou enervado.

 

Partiram ambos para Santarém. Meu avô regressou à tarde e fechou-se no escritório para me escrever a carta que atrás transcrevi.

 

Soube depois que tinha feito uma venda fictícia da quinta ao Luís Guilherme e passado para o seu nome todos os papéis que possuía. Em resumo, despojou-se em vida da fortuna para que, depois da sua morte, ela não viesse parar-me às mãos.

 

Quanto à tia Céu, não se conformando com a opinião do avô, ainda tentou arrancar-me à rede que o Cláudio tecera em volta de mim e escreveu-me, suplicando-me para voltar, abrindo-me as portas da sua casa.

 

À sua carta tão terna, respondi em poucas linhas:

 

”Não, querida tia, não espere por mim. Como muito bem me diz na sua carta, ao partir com o Cláudio, escolhi o meu caminho e, bom ou mau, feliz ou desgraçado, hei-de segui-lo até ao fim. Perdoi-me e, mais uma vez, adeus. Creia que, apesar de tudo, lhe quero muito e nunca a esquecerei.

 

Patrícia”

 

Decorridos alguns dias, recebi as malas, acompanhadas por curto bilhete:

 

”Seja como queres, minha filha. Deus te abençoi e guarde.

 

Maria do Céu”

 

Por seu lado, Cláudio apressava o casamento. Venceu todos os obstáculos, conseguiu a dispensa de muitas formalidades, de tal forma que, decorridos quinze dias, numa manhã fria, chuvosa, numa igreja sombria, rodeada por desconhecidos ou indiferentes e esses mesmo muito poucos, visto que à cerimónia só assistiram a mãe de Cláudio e as nossas testemunhas, eu unia-me perante Deus ao homem que preferia entre todos, que escolhera contra vontade dos meus e de cujos sentimentos eu começava a duvidar.

 

Tudo se desenrolou com tanta precipitação que me deixou atordoada, precipitação a que, no entanto, atribui louváveis intenções, supondo que meu marido desejasse pôr termo a uma situação tão deprimente para ele como para mim.

 

Mais tarde, porém, fui forçada a reconhecer que o móbil tinha sido outro, simplesmente a pressa de se apossar da minha fortuna que só lhe seria entregue depois de estarmos casados.

 

Com efeito, dois dias depois da cerimónia, o Cláudio foi falar com o notário, recebeu o dinheiro e papéis averbados em meu nome e nessa mesma tarde me levou ao cartório para tomar posse das jóias que, conforme determinação expressa do avô, deveriam ser-me entregues pessoalmente.

 

E assim se encerrou mais um período da minha vida, um período de luta, excitante, movimentado, que nem me deu tempo a reflectir. De resto, nem eu o faria, tão espessa era a venda que me cobria os olhos.

 

Da minha família nunca mais tive notícias. Ao avô não me atrevia a escrever, por ter a certeza de que as cartas me seriam devolvidas. À tia Céu, de princípio, não escrevi por vergonha. Não fosse eu tão orgulhosa que, mais tarde, quando me vi sozinha em terras estranhas, o teria feito.

 

O orgulho, sempre o orgulho! Foi ele que, nos primeiros meses de casada, me inspirou a embriaguez da vitória e a consciência da minha força.

 

As terras de África abriam-me os braços supunha eu e, fortalecida com a ilusão de ter seguido o melhor caminho, não temia o futuro.

 

Os primeiros meses de casada, passados em casa de minha sogra, foram tão estranhos, tão diferentes do que fora a minha vida até então que, por vezes, perguntava a mim própria se seria eu quem andava pelos dancings, bares, teatros, cinemas e restaurantes.

 

Não ficávamos uma só noite em casa, raramente jantávamos e não poucas vezes, também, Íamos almoçar fora.

 

E eu, vendo-me arrastada naquele turbilhão, atenuado o primeiro entusiasmo provocado pela novidade da situação, quase chegava a lamentar a calma quase monástica dos dias passados entre o avô e a Ema, o alegre alvoroço sentido quando a tia Céu conseguia licença do irmão para me levar a baile ou festa.

 

É bem certo que todos os excessos levam à saturação!

 

Aquela agitação constante, além de me fatigar, física e moralmente, começava a aborrecer-me, entontecia-me e ainda mais por ter sido a transição tão brusca como fora.

 

Cláudio mostrava-se carinhoso e terno e se, por vezes, involuntariamente, a máscara lhe caía, era uma nuvem tão rápida que eu continuava a viver iludida, porque a esperança tem raízes fundas, tornando-se muito difícil arrancá-las do coração.

 

Havia momentos, porém, em que, num relâmpago fugaz, eu começava a ver claro. De resto, já não era a rapariguita inexperiente, quase pateta que acreditava no amor dos romances e certa noite abandonara tudo para seguir uma miragem. E, todavia, poucos meses tinham decorrido!

 

O amor é cego, afirma-se geralmente, mas, quanto a mim, essa afirmação é errónea. Em minha opinião, o verdadeiro amor é clarividente, um nada o põe de sobreaviso, conquanto seja indulgente ao máximo, sempre pronto ao perdão. O verdadeiro amor não é o que desconhece defeitos e erros, pelo contrário, é aquele que, reconhecendo-os, os admite e ama apesar de tudo.

 

Eis porque, decorridos poucos meses de convivência, eu começava a conhecer o verdadeiro Cláudio, embora ele fizesse todos os esforços para mo ocultar. Por outro lado, os olhos abriram-se-me para a vida, para a vida real, com as suas maldades, torpezas e indignidades.

 

Quando, por acaso, ficava um dia em casa ou à noite o Cláudio saía, eu ia buscar um livro à estante e não o largava senão quando o acabava. A leitura era para mim uma distracção absorvente, tanto mais que nunca a conhecera em casa do avô.

 

Infelizmente, a biblioteca de meu marido, apreciável em quantidade, não o era em qualidade. Quase todos livros realistas, desse realismo torpe que vai cavar fundo no lodo da sociedade, e nem mesmo tinham como desculpa o véu da correcção da linguagem, a beleza que nos faz vibrar, a orquestração harmoniosa, encobrindo com a sua incomparável melodia a pobreza do tema.

 

Os livros do Cláudio nem isso tinham. Eram pobres de moral, de beleza, de linguagem e neles aprendi muita coisa, foram eles, em grande parte, que me abriram os olhos sobre o carácter de meu marido. Quero dizer, foi ele próprio quem me forneceu armas e elementos para o julgar. De resto, creio que o facto de eu começar a conhecê-lo, de descobrir o verdadeiro móbil do seu procedimento, não lhe importava. Alcançado o fim, o resto pouco lhe interessava.

 

Por outro lado, apesar de começar a vê-lo tal como era, tendo a certeza de que, com o meu dinheiro, fazia face a todas as despesas, à vida de ostentação, que levávamos, encontrava em mim tesoiros de ternura e indulgência para lhe perdoar e até dar-lhe certa desculpa.

 

Não era natural que um rapaz que sempre vivera com dificuldades, desconhecendo os mais simples prazeres da vida, as pequenas satisfações que o dinheiro proporciona, ao ver-se senhor de pequena fortuna, aproveitasse o ensejo que se lhe oferecia, perdesse um pouco a cabeça e vivesse alguns meses como se essa fortuna nunca mais devesse acabar-se?

 

Quando fôssemos para África tudo mudaria e meu marido passaria a encarar a vida como coisa séria e a pensar no futuro.

 

Então comecei a desejar que chegasse o dia do embarque, como ponto de partida para uma vida nova, o fulcro de um lar normal, feliz, aquele que nos meus sonhos de rapariga tinha visionado.

 

Mas os meses iam passando e esse dia não chegava nem o Cláudio fazia qualquer alusão ao assunto.

 

Certa tarde, depois do almoço, decidi abordá-lo. Estávamos os dois sozinhos em casa.

 

Meu marido pegou no jornal e eu num livro. Mas as minhas preocupações não me deixavam conciliar ideias nem compreender o que lia e em breve o fechei.

 

Cláudio disse, poisando o livro em cima da mesa quando pensas poder tomar posse do teu lugar?

 

Do meu lugar! repetiu com sincero espanto Não compreendo.

 

Sim, o lugar que te prometeram em África. Não me disseste que estava garantido e logo depois de casados embarcaríamos?

 

Soltou uma gargalhada tão sarcástica, tão irónica, que me gelou o sangue nas veias.

 

Pois ainda te lembras disso?... Sempre és muito ingénua, Patrícia! Não chegaste à conclusão de que tinha sido tudo mentira, um pretexto para te obrigar a tomar uma decisão mais rápida?... Mais tarde ou mais cedo terias fugido comigo, quanto a isso não tenho dúvidas, mas se não tivesse empregado esse meio, as tuas hesitações ainda hoje durariam e eu não podia perder tempo.

 

Ao escutar esta declaração não sei o que senti. Cada palavra foi como punhal que me trespassou o peito ou ferro em brasa que me queimasse fibra a fibra. Foi como se caminhasse dentro de um túnel comprido e escuro, com os olhos postos na saída que, ao longe, era como estrela brilhante, aumentando pouco a pouco, símbolo de luz, de esperança e de liberdade. De repente, porém, um desabamento obstruiu a boca do túnel, mergulhando-me em trevas. Tive a certeza de que nunca mais voltaria a ver o sol. Sim, foi esta a dolorosa sensação que experimentei. Fiquei sem respiração e creio que me fiz tão branca que meu marido se assustou.

 

Que é isso, Patrícia? perguntou, largando o jornal e aproximando-se de mim Tinhas assim tanto empenho em ir para África?

 

Não, Cláudio. Foi o teu procedimento, a tua duplicidade que me deixou assombrada. Eu... eu...

 

Balbuciava, sem conseguir continuar e, por fim, as lágrimas saltaram-me dos olhos.

 

Cláudio franziu a testa.

 

Porque choras?... Não vejo motivo para lágrimas. Quem pretende alcançar um fim não olha a meios, é a teoria que sempre adoptei. Em vez de te ofenderes, devias ficar contente porque foi uma prova de amor que te dei. Já notei que tens certa tendência para o drama e isso é mau, pelo menos para mim. Detesto mulheres choramingas e, para o futuro, faz o possível para me evitares o espectáculo desagradável das tuas lágrimas.

 

E, sem me dar tempo a protestos, saiu.

 

Quando me vi sozinha, dei largas ao meu desgosto. Seria possível que todas as minhas esperanças estivessem por terra, feitas em pedaços como estátuas maravilhosas, destruídas pelo martelo inexorável da realidade, que a minha vida, daí em diante, tivesse de decorrer naquela casa triste, desconfortável, num meio que não era o meu?

 

Revoltava-me sem querer dar ouvidos à voz da minha consciência que me censurava: ”Só agora o reconheces?... Devias ter pensado assim antes de abandonar o teu lar e o carinho dos teus, para seguires um homem que mal conhecias”.

 

Era verdade, não podia deixar de o reconhecer, mas naquela altura o arrependimento tornava-se inútil. O mal já não tinha remédio.

 

Soluçava convulsivamente quando minha sogra entrou.

 

Ficou um momento parada à porta, olhando-me com tristeza. Depois aproximou-se da minha cadeira, afagou-me os cabelos e murmurou: ”Pobre menina!”

 

Não sei o que senti. Devia talvez ter ficado sensibilizada com aquela prova de simpatia, mas aconteceu exactamente o contrário.

 

Cresceu-me no peito uma onda de revolta, a amargura e tristeza recalcadas no coração quebraram todos os diques e, com os olhos cintilantes de cólera, já sem lágrimas, pus-me de pé e exclamei em voz trémula:

 

Agora lamenta-me, a senhora que tanto contribuiu para esta desgraçada situação! Se não tivesse consentido que o Cláudio me trouxesse para aqui, se procurasse dissuadi-lo dos seus intentos em vez de o aprovar, ele teria desistido de perseguir-me e eu não me encontraria agora condenada para sempre a viver num meio que me sufoca, junto de um homem que não me ama nem nunca amou e que, casando comigo, só pretendia o meu dinheiro.

 

Olhou-me desolada e acabou por dizer:

 

Esta explicação entre nós era inevitável, Patrícia. Muitas vezes tenho desejado abordar o assunto consigo, outras tantas tenho recuado. Hoje, porém, é a Patrícia quem, acusando-me, varre todas as minhas hesitações. Não lhe peço que me escute com indulgência, mas apenas sem rancor, sem má vontade. E, se no decorrer desta conversa a ofender, perdoe-me e acredite que o faço involuntariamente. No entanto, tem de concordar que nem todas as culpas foram do Cláudio e muito menos minhas. Para que lhe deu ouvidos?

 

Defendi-me quanto pude protestei Mas ele soube desempenhar bem a comédia do amor e eu não conhecia a maldade do mundo e deixei-me iludir facilmente.

 

Eu sei, e é essa a sua desculpa. A forma como foi educada tornava-a presa fácil para ambiciosos.

 

E o Cláudio é um deles. Ambicioso, mentiroso e falso. Para que o educou assim?

 

Há certos defeitos que nascem com a pessoa. Não são fruto da educação nem ela pode modificá-los. Além desses, meu filho tem ainda o da teimosia. Acusou-me de o ter auxiliado e não dissuadido. Sendo casada quase há seis meses, será possível que ainda não conheça bem o seu marido para saber que, quando decide uma coisa, ninguém, nem mesmo eu, sua mãe... direi mesmo, e ainda menos eu, seria capaz de o levar a mudar de ideias? Se não lhe permitisse que a trouxesse para minha casa e não o podia fazer porque também é dele se era seu propósito levá-la a segui-lo, tê-lo-ia feito da mesma forma e talvez tivesse sido muito pior para si. Sabe Deus para onde a levaria. Não digo isto para me defender, acredite, mas talvez tivesse conhecido meio muito mais baixo e indigno do que este.

 

Vendo que me dispunha a falar, não mo consentiu.

 

Não me interrompa, peço-lhe atalhou Escute-me até ao fim e depois terá de reconhecer que não sou tão culpada como pensa. Vou agora fazer-lhe uma confissão. Acabei de lhe afirmar que, se pensasse levar Cláudio a mudar de ideias e a deixá-la em paz, não o teria conseguido. Mas não o tentei. Sou mãe e as mães são sempre indulgentes. Reconheço as más qualidades do meu filho, mas alimentei a esperança de que pudesse modificar-se. Se era sincero ou não, será difícil afirmá-lo. Mas falava-me de si com entusiasmo. Pareceu-me apaixonado de verdade e não ha milagres que o amor não realize. Conseguindo casar consigo, vendo-se senhor de uma fortuna que sempre ambicionou e nunca conheceu, passando a viver desafogado quando, desde que nasceu até há pouco tempo, só deparou com dificuldades e privações, talvez mudasse, deixasse as más companhias, esses amigos que o têm arrastado para todos os vícios. Não quis o seu mal, Patrícia, pelo contrário. Contava com a sua influência para salvar meu filho e só desejava vê-los felizes. Além disso, também acreditei no emprego em África e contava que, mudando de terra, o Cláudio também mudasse. Era tudo novo em volta dele... Pode censurar-me por isso?... Desgraçadamente, enganei-me. Não havia emprego em África, o Cláudio continua a ser o mesmo, os seus sentimentos não se modificaram e as perspectivas de futuro agravaram-se. E hoje, embora reconheça não o dever fazer, sou eu a primeira a aconselhar: Deixe-o, Patrícia, volte para casa da sua família, parta sem olhar para trás, abandone-o à sua sorte que prevejo vir a ser das mais desgraçadas. Sei que não devia falar-lhe assim, repito. Estão casados perante Deus e só Deus pode separá-los. Mas o vosso casamento assentou numa fraude. O Senhor, por certo, não me condenará se tento remediar assim o mal que, involuntariamente, lhe causei. Estou pronta a auxiliá-la, Patrícia, mas primeiro diga-me que me compreende e perdoa.

 

Sim, perdoo-lhe afirmei e peço-lhe para esquecer as minhas palavras duras e injustas. Ofendi-a e quem deve pedir perdão sou eu.

 

Não falemos mais nisso e esqueçamos tudo. Agora diga-me, quando pensa voltar para Santarém?

 

Abanei a cabeça e sorri tristemente.

 

Não volto para Santarém. Não abandono o Cláudio.

 

Mas porquê?... Por acaso ainda alimenta a esperança de o regenerar? Ainda tem a ilusão de ser amada, minha pobre filha?

 

Não, não tenho. Sinto que meu marido me olha com indiferença ou até com uma pontinha de rancor. Fui apenas um instrumento para alcançar a fortuna que ambicionava. A que lhe trouxe não foi tão grande como supunha e daí o seu despeito. Infelizmente, sou eu quem o ama e não me resolvo a deixá-lo. Quando uma rapariga, educada como eu fui, se resolve a abandonar tudo, salta por cima de princípios, opinião do mundo e reputação própria, para seguir um homem, é porque, surda a todos os apelos, o ama e o seu amor é superior a todas as considerações. E não vê que um amor dessa natureza não morre assim, resiste a todos os golpes do despreso, da desilusão, da desventura? Fui arrastada pelo turbilhão, não me sinto com forças para lhe resistir nem posso voltar atrás. Será o que Deus quiser conclui com profunda tristeza, vencida por um fatalismo mórbido que me roubava toda a energia e o desejo de lutar.

 

Quando à noite regressou para jantar, meu marido, talvez no desejo de atenuar a desastrosa impressão que a sua confissão poderia ter-me causado, mostrou-se bem disposto, prazenteiro, como se não se tivesse passado coisa alguma.

 

Insistiu para saírmos, levou-me ao teatro, mostrou-se carinhoso e terno e eu, pobre de mim, apesar de tudo, ainda alimentei ilusões, senti renascer a esperança. Talvez que, no fundo, ele não estivesse tão pervertido como a mãe afirmara e eu acreditava. E resolvi levar a minha cruz com coragem, sem queixumes nem impaciências. Talvez Deus tivesse dó de mim e ela não fosse tão pesada como tudo me fazia prever.

 

Como a confirmar a minha confiança, daí a dias, Cláudio entrou em casa muito bem disposto e anunciou-me com ar satisfeito:

 

Podes ir fazendo as malas. Partimos para a semana.

 

Partimos!... Para África?

 

Para África?... Forte mania a tua! Não perdes essa ideia, verifico. Não vamos para África, mas sim para Madrid. Não te agrada mais?

 

Como não lhe respondesse e ficasse a olhar para ele admirada, mas confesso por forma alguma entusiasmada com a perspectiva, acrescentou:

 

Não estou a mentir desta vez, descansa, nem vamos em viagem de recreio. Vou começar a trabalhar. Arranjaram-me uma representação e devo percorrer alguns países por conta de uma empresa estrangeira. Começarei por Espanha. Estás contente agora?

 

Dessa vez, sim, dessa vez não consegui dominar-me. Saltei-lhe ao pescoço e, radiante, exclamei:

 

Estou tão contente, Cláudio! Finalmente, vamos ser felizes. Mas falas sério, é verdade? insisti, receando ter aberto as portas à esperança com demasiada precipitação Tens dito tantas mentiras com tal aparência de verdade que, francamente, já não sei se deva acreditar-te... És tão estranho, Cláudio!

 

Em vez de se zangar com as minhas dúvidas, meu marido soltou uma gargalhada e comentou com indulgência:

 

Não calculas o prazer que as tuas palavras me dão. Gosto desse papel de homem mistério. O teu marido será sempre um enigma para ti, Patrícia. E será bom que nunca tentes desvendá-lo concluiu sorridente, mas num tom que me pareceu envolver surda ameaça.

 

De momento, porém, não quis profundar essa impressão. Bastava-me a certeza de sair dali e de ir viajar, a perspectiva de dias mais risonhos.

 

E, intimamente, quase acusei minha sogra de caluniar o filho e pretender separar-nos, tão prontos somos em esquecer os factos que nos apontam uma certeza má, para aceitar vagos indícios daquilo que desejaríamos fosse a realidade.

 

E, alegremente, comecei a fazer as malas.

 

Partimos daí a poucos dias e instalámo-nos em Madrid e, mais uma vez, a minha vida se modificou por completo.

 

Estava escrito, talvez, que eu nunca deveria conhecer meios termos. Do movimentado ambiente de Oslo, do convívio de alegres companheiras, da liberdade compreensiva concedida por meus pais, passei ao isolamento da quinta, para o domínio severo e quase despótico do meu avô. Depois troquei a vida, se não luxuosa, pelo menos desafogada e confortável da minha casa pela humildade e pobreza do lar da minha sogra, amargurada pelas desilusões e pelas perspectivas de um futuro incerto. Naquela altura, novamente, abandonava a vida menos do que mediocre, esquecia tristezas para mergulhar outra vez no luxo e abandonar-me a risonhas esperanças.

 

E quem não o faria?

 

Via-me instalada num hotel de luxo, senhora de lindos vestidos, jóias, de tudo quanto uma rapariga da minha idade podia ambicionar, saboreava, enfim, os prazeres que nunca sonhara poder conhecer.

 

Percorri toda a Espanha de Norte a Sul, conheci Tanger, Palma de Maiorca, sei lá que mais.

 

Meu marido gastava sem contar, facto que, por vezes, me assustava. Mas quando arriscava qualquer observação, Cláudio enervava-se e irritava-se.

 

És como todas as mulheres, incompreensível e ilógica, Patrícia. Em casa de minha mãe queixavas-te do meio e não nego que tivesses razão da vida mesquinha que levávamos, acusavas-me de preguiça, atribuias-me más intenções, todos os defeitos, enfim!... Hoje trabalho, ganho dinheiro, proporciono-te uma vida larga, dou-te tudo quanto poderias desejar e queixas-te!

 

Não é isso, Cláudio. Eu não me queixo, assusto-me apenas. Custa-me a acreditar que, só com os teus ganhos, possas fazer face a tanta despesa.

 

Enfureceu-se e a sua cólera pareceu-me desproporcionada às minhas palavras.

 

Se não é com o meu trabalho, como será então?,.. Vamos, dize lá, como pensas que arranjo o dinheiro? gritava.

 

Acalma-te! supliquei Não penso coisa alguma.

 

Se não pensas, cala-te e aproveita. Esfalfo-me a trabalhar e é assim que me agradeces?

 

Está bem. Mas afinal que espécie de trabalho é o teu?

 

Represento uma casa estrangeira. Vendo máquinas, automóveis, tractores. Já vês que, embora venda apenas uma destas coisas por mês, a comissão é importante.

 

Estas explicações, se não acalmaram por completo os meus temores, de momento sossegaram-me e não fiz mais observações, abandonando-me à corrente sem querer saber onde me levaria.

 

Enquanto estivemos em Madrid, raramente jantávamos no hotel, íamos comer a restaurantes caros para onde, segundo afirmava meu marido, tinha sido convidado pelos seus clientes. De facto, nunca comíamos sozinhos. À nossa mesa sentavam-se sempre mais duas ou três pessoas, quase sempre homens, cujo aspecto me desagradava. Em seguida, íamos ao teatro e, quase sempre, meu marido, depois de me acompanhar ao hotel, voltava a sair.

 

Vou cear com um cliente afirmava Talvez que, animado por algumas taças de champanhe, ele feche o negócio.

 

Não me parecia aquilo muito correcto, mas nunca lho dizia.

 

Quando voltava de madrugada, muitas vezes meu marido parecia febril, agitado. No dia seguinte quase nunca saíamos ou então íamos dar um passeio para longe e só regressávamos a Madrid daí a quatro ou cinco dias.

 

Outras vezes levava-me a cear a clubes nocturnos, cuja frequência me desagradava, tanto mais que o Cláudio não fazia cerimónia em me deixar sozinha, para ir passar uma hora numa casa de jogo clandestina.

 

Eis como vivi quase seis meses, num turbilhão que me envolvia e arrastava. É estranho como a nossa mentalidade se modifica sob a influência do meio, como, pouco a pouco, os nossos escrúpulos enfraquecem e, de concessão em concessão, vamos aceitando aquilo que antes repelíamos como indigno e imoral.

 

Se, em tempos, me afirmassem que teria de passar duas horas sentada à mesa de um bar, num ambiente duvidoso, onde meu marido me levara e abandonara na companhia de amigos seus, cuja convivência me desagradava, como eu protestaria e me revoltaria!

 

No entanto, não foi uma, mas muitas vezes que tal caso se deu e, quando Cláudio voltava a aparecer, umas vezes sorridente, outras nervoso, carrancudo, irritado, nem sequer me atrevia a abrir a boca para o censurar.

 

Nunca escuto essa maravilha que se chama a Sinfonia Pastoral sem que, por estranha associação de ideias, seja levada a considerá-la como a perfeita imagem da minha vida, traduzida em música pelo divino génio de Beethoven.

 

A infância feliz; os anos um pouco tristes, mas despreocupados, da adolescência; depois a tempestade, rugindo ameaçadora, arrastando tudo na sua fúria indómita; esperanças perdidas; miragens feéricas que se desvanecem; afeições traídas, não será isto o que nos sugerem os primeiros andamentos?

 

E, por fim, a inspiração mágica do mestre não nos conduz suavemente à calma consoladora da bonança, ao renascer de todas as alegrias da Natureza, à paz divina do entardecer?... Diana assesta o arco, surge o prateado crescente da Lua, as estrelas brilham no céu...

 

Também eu recuperei a paz, a consolação maravilhosa de um afecto sempre vivo e deixo-me conduzir docemente até que, para mim, a noite chegue.

 

E não foi uma tempestade que me desvastou a vida com os seus temerosos furores?... E tal como elas, quando parecem afastar-se e, por momentos, nos concedem uma trégua, para depois recomeçarem com redobrada violência, também eu, depois dos dias de encantamento que vivi em Madrid e dos primeiros tempos que passei em Paris, fui atingida por golpes tremendos que me abalaram e quase derrubaram para sempre.

 

É estranho!... Até à data do meu segundo casamento, a minha vida foi sempre diferente da das outras raparigas, não pelo facto de ter abandonado a casa do meu avô para seguir o que foi depois meu marido, pois não fui a primeira, nem serei a última que o fez, mas sim pela forma invulgar como depois se encadearam os factos. Após o período agitado, anterior ao casamento, realizado este, seria natural que tudo se estabilizasse, que encontrasse a segurança de um lar feliz e calmo onde passasse os dias, aguardando ansiosa a chegada do meu companheiro, que entraria em casa cansado, mas risonho, carinhoso, tão contente por me apertar nos braços como eu ao sentir o calor dos seus beijos. Sim, eram estas as minhas aspirações, bem modestas por sinal, que ainda não vira realizadas... nem veria, começava a receá-lo.

 

Estava escrito, talvez que, como o judeu errante, condenada pela lei inexorável do ”O mal que fizeres um dia o sofrerás”, eu, tendo roubado o sossego e a paz de espírito aos meus, também nunca conseguisse obtê-los e fosse ferida naquilo que mais fundo me tocava, nos meus sonhos, ambições e respeito pelo meu marido. Haverá tormento maior do que, querendo muito a alguém, reconhecer que esse ente vai diminuindo no nosso conceito e já não é digno da nossa estima, embora o amor persista?

 

Quanto ao sossego... sempre de terra em terra, hoje num hotel amanhã noutro, conhecendo todos os dias caras novas, sem nunca criar raízes, adquirir amizades e poder abrir o coração à simpatia e ao afecto de quem me compreendesse e estimasse, podia considerar-se isto uma vida normal?

 

Quando começava a habituar-me a Madrid e a sentir-me bem no ambiente alegre da cidade, tive, novamente, de fazer as malas e partir.

 

Uma noite, meu marido regressou tardíssimo ao hotel. Na manhã seguinte pareceu-me preocupado e não saiu. Pouco depois de termos almoçado, chegou um rapaz espanhol que o Cláudio dizia seu amigo e com quem eu não conseguia simpatizar.

 

Sentaram-se os dois a um canto da sala, conversando em voz baixa, com grande animação. Depois dele sair, Cláudio veio ter comigo e declarou:

 

Prepara tudo para saírmos de Madrid amanhã de manhã.

 

Saírmos de Madrid!... Porquê?... Para onde vamos?

 

Meu marido franziu a testa, mas elucidou:

 

Já não tenho que fazer aqui. Preciso de campo mais vasto para as minhas actividades. Vamos para Paris, onde conto demorar-me algum tempo. E não me faças mais perguntas.

 

Não gosto de pessoas curiosas. Partimos às seis da manhã, no carro deste meu amigo, que também é meu companheiro de trabalho.

 

E voltou-me as costas, sem me dar ocasião a novas interrogações. De resto, nem eu as faria, intimidada como fiquei pelos seus modos bruscos.

 

No dia seguinte, saímos à hora marcada, ainda de noite.

 

E, até Paris, a nossa viagem foi tão rápida que mais se assemelhou a uma fuga. Mal parávamos para comer, chegávamos tardíssimo aos hotéis, saíamos de madrugada, nunca nos demorávamos umas horas para visitar as cidades por onde passávamos que, no entanto, tinham tanto que ver, e corríamos velozmente pelas estradas sem tempo para admirarmos as paisagens. De resto, para ser justa, mesmo devagar não seria fácil fazê-lo. O Inverno estava à porta o segundo Inverno da minha vida de casada e não raras vezes a chuva foi nossa companheira constante, correndo diante das cortinas do carro um véu opaco que não nos deixava entrever coisa alguma. Com a velocidade que levávamos e as estradas quase sempre molhadas, não sei como não sofremos algum desastre. Só por milagre.

 

Foi com um suspiro de alívio que me encontrei em Paris, cidade onde eu estivera de passagem quando, com minha mãe, regressara a Portugal, mas que deixara no meu cérebro infantil uma impressão de deslumbramento. Voltava em condições bem estranhas e, no entanto, não podia deixar de me alegrar com a perspectiva de ali viver algum tempo, não muito, calculava eu, pois já estava habituada às constantes deslocações, para as quais não encontrava explicação, senão o capricho de meu marido.

 

Instalámo-nos num bom hotel, mas por pouco tempo. Decorridos oito dias, o Cláudio alugou um apartamento luxuosamente mobilado, num prédio aparatoso e moderno, um dos muitos de um bairro residencial, na estrada de Versalhes. Entrevendo a possibilidade de maior permanência e uma vida mais normal, entrei, se não alegre, pelo menos mais animada, nesta nova fase da minha movimentada existência. Quando abro este caderno, quando me deixo arrastar pelas recordações do passado e começo a escrever, esqueço tudo quanto me rodeia, sorriu ou as lágrimas me chegam aos olhos, conforme as minhas evocações focam acontecimentos alegres ou tristes.

 

Faço-o, geralmente, depois do almoço, quando os meus filhos dormem a sesta e ninguém pensa em vir incomodar-me, supondo-me também a dormir. Só o Luís Guilherme sabe que estou a escrever, mas, delicado como sempre, evita entrar na minha salinha de costura.

 

Estamos perto do Natal. Na sala, a árvore ergue-se, enfeitada com as bolas irisadas, de cor viva, fios prateados e flocos de algodão e só espera pela noite festiva para lhe pendurarem nos ramos os brinquedos e prendas que fazem a nossa alegria, visto eu também estar incluida no número, pois o meu marido nunca se esquece de mim. No pacotinho que me é destinado encontro sempre aquilo que mais desejava e ele, pacientemente e com muitos meses de antecedência, tentou descobrir.

 

A minha Lena anda ansiosa e alvoroçada. Todas as manhãs, mal abre os olhos, me pergunta se falta muito para a Noite de Natal e quando lhe respondo que faltam poucos dias, bate palmas, salta, dança e novas perguntas chovem. Quer saber o que lhe dará o Menino Jesus, se vamos à missa da meia-noite, sei lá que mais.

 

E eu, apesar de compartilhar a sua impaciência, quando abro este caderno e penso nesta época tão grata às crianças, não posso deixar de recordar o meu pequenino Paulo que dorme num cemitério de Paris, que nunca conheceu as emoções tão belas, tão suaves desta festa que é das crianças por ser a do Menino Deus.

 

Vivi quatro anos em Paris e cada ano marcou um passo para baixo ou, para melhor dizer, para cima, no meu doloroso calvário.

 

O primeiro ano decorreu num meio luxuoso, no aparatoso apartamento que alugamos à chegada e foi aí que nasceu o meu filhinho.

 

Quando participei ao Cláudio que ia ser pai ele acolheu a notícia não só com indiferença, mas até com aborrecimento, direi mesmo com raiva.

 

Não nos faltava mais nada, agora!... Mais esse trambolho!

 

Cláudio! protestei indignada É nosso filho, um filho...

 

Já sei, já sei! Não continuis, não é preciso. Um filho do nosso amor, mais um laço a prender-nos um ao outro, todas essas frases feitas que aprendeste nos romances e agora empregas, aproveitando o ensejo que se proporcionou. Sempre és muito tola, Patrícia!... Se estás radiante, eu não, longe disso. Na situação em que nos encontramos, uma criança representa um encargo que não sei como poderemos suportar.

 

Não sabes?... Um filho não é coisa que se possa suportar ou não. Quando Deus nos concede esse bem, cumpre-nos aceitá-lo com reconhecimento e fazer todo o possível para lhe suavizar a vida e para que, um dia mais tarde, não amaldiçoe os pais por lhe terem dado o ser. De resto, não me parece que estejamos em má situação. Vivemos rodeados de luxo, levamos uma vida larga, sem dificuldades, e a fortuna que trouxe em dote, conquanto não tenha sido a que esperavas, não foi para despresar. Além disso, ganhas dinheiro e...

 

Olhou-me com expressão tão estranha e sorriso tão irónico que o resto da frase morreu-me nos lábios e não consegui dizer mais nada. Depois, encolheu os ombros e, sem uma palavra, saiu.

 

Daí a dias, quando me viu manejar tecidos finos e rendas, declarou:

 

Trata de ser económica e não gastes dinheiro em inutilidades.

 

Inutilidades, o enxoval para o nosso filho?

 

Isso que tem?... Os negócios correm mal e talvez em breve sejamos obrigados a mudar para uma casa mais barata.

 

E era assim a minha vida! Meu marido já não se constrangia nem tentava ocultar a sua indiferença por mim. Falava-me com frieza e zangava-se com frequência. Tinha súbitos arrebatamentos de cólera, sem motivo, durante os quais me tratava com dureza, acusando-me de o ter enganado, pois lhe tinha feito acreditar ser mais rica do que, de facto, era.

 

Há dias falaste-me da tua fortuna! disse-me certa vez Como se uns míseros contos de réis pudessem classificar-se de fortuna! Onde ela vai! Ou contavas que a guardasse muito guardadinha?

 

Quase sempre ficava calada, dominada pelo espanto e por uma espécie de terror, porque, se protestava, tinha tais acessos de furor que chegava a recear me batesse. Por isso, tentava mascarar os meus receios com uma atitude de despreso.

 

Debaixo de outros aspectos, também me desagradava o nosso modo de viver. Quase todas as noites, o Cláudio reunia em casa algumas pessoas, em geral, só homens. Bebiam, jogavam forte, cantavam e quando me recusava a aparecer e a desempenhar o meu papel de dona de casa o que fazia sempre chamava-me tola, presumida, orgulhosa, e acusava-me de não o auxiliar como devia.

 

Muitas vezes perguntava a mim própria porque motivo vivia ainda com ele e não pedia o divórcio. Depois, pensava que me encontrava num país estranho e que, embora fosse mau marido, o Cláudio era pai da criancinha que não tardaria a vir ao mundo.

 

O nosso filhinho nasceu e, dois meses depois, mudávamos para uma casa mais pequena.

 

Mas não ficamos por aí. Corremos três casas, sempre para pior e, quando fiz quatro anos de casada, estávamos instalados em dois quartos pequenos, mais do que modestamente mobilados, sem conforto de espécie alguma. Dispúnhamos ainda de uma cozinha, em frente, velha e escura. Eis como eram os nossos aposentos, situados num quinto andar de um prédio de miserável aparência, numa das ruas mais pobres de Montmartre.

 

Como estava longe a casa onde hoje me encontro, o confortável palacete da tia Céu em Santarém. Para onde me tinha arrastado a minha loucura e a maldade de um homem!

 

O Cláudio acompanhava, por assim dizer, a nossa decadência. Descuidado, mal barbeado, tinha uma aparência desagradável, embora eu me esforçasse por lhe cuidar do fato, já bastante velho, e mantê-lo no nível que era o nosso. Quanto aos negócios, começava a recear serem eles de natureza muito duvidosa. Passava os dias em casa, a dormir. À tarde saía, só voltando de madrugada e os amigos que vinham procurá-lo tinham aspecto esquisito, muito pior do que o de Cláudio.

 

O meu filhinho ia fazer três anos, mas parecia ter dois. Muito pálido, franzino, olhos muito negros, tão grandes que pareciam comer o rosto. Tinha por mim adoração sem limites, mas, em compensação, fugia do pai que, por seu lado, nunca lhe dava um beijo, nem se lembrava da sua existência.

 

Vivíamos lutando com as maiores dificuldades. O Cláudio raramente me dava dinheiro para o nosso sustento e, quando lho pedia, fazia cenas terríveis, que me deixavam moralmente abatida, com os nervos destroçados, sem forças para protestar. Quando, por acaso, fazia algum negócio, segundo dizia e que negócios seriam esses dava-me quantias importantes que, com muita economia e por vezes roubando a mim para que ao meu Paulo nada faltasse, eu ia governando a casa durante os muitos meses em que não recebia dele nem um cêntimo.

 

Onde estava a Patrícia despreocupada e simples, que encarava a mais pequenina migalha de prazer como um banquete?... Onde estavam as lindas miragens, as ilusões sobre o amor partilhado e eterno, onde estava, mesmo, a minha ternura pelo Cláudio, o amor que eu defendera contra tudo e a todo o custo e supunha inabalável?

 

Confesso que essa ternura se ia apagando, destruída pela sua indiferença, pelo seu abandono e, principalmente, pelo seu desapego, para não dizer aversão, ao filho. Em mim, a mãe sobrelevava a esposa. Se o Cláudio tivesse acolhido o nascimento do meu Paulo como uma bênção do Céu, toda a ternura que ele demonstrasse ter pelo filho seria como novo elo a reforçar aquela que eu lhe dedicava. Mas, pelo contrário, a frieza manifestada à criança, o nenhum caso que fazia dela, não se importando com o seu bem-estar nem tentando um esforço para melhorar a nossa situação por causa do filho, tudo isso me doía mais do que o abandono em que me deixava e as privações que eu própria sofria para que a criança não as sofresse. E depois de tudo isto, seria possível que existisse no meu coração uma centelha sequer daquela ternura tão viva, da loucura que me levara a abandonar tudo para o seguir? Não, estava saturada, farta, e, se me encontrasse em Portugal, teria posto de lado o meu orgulho e, com o meu filho nos braços, abandonaria o Cláudio e iria bater à porta da tia Céu, certa de que nos acolheria e saberia proteger-nos.

 

”Quando acabará esta vida! pensava muitas vezes, mal supondo que o desfecho se aproximava.

 

E os acontecimentos desenrolaram-se com tanta rapidez que, ainda hoje, quando os recordo, fico admirada.

 

Foi como se tivesse na mão um novelo, supondo dispor ainda de muita linha e, de súbito, depois de três ou quatro voltas, a ponta aparecesse.

 

Certa manhã, o pequenito queixou-se da garganta. Madame Julien, a porteira, criatura bondosa e cuja simpatia por mim se tornava evidente, ofereceu-se para ir chamar o médico.

 

Tinha por mim atenções que me sensibilizavam, fazia-me as compras, tratava-me de tudo e rodeava-me de cuidados e carinhos.

 

Ainda hoje, quando a recordo, me sinto reconhecida e, de longe em longe, escrevo-lhe e envio-lhe pequena lembrança.

 

Por enquanto, não é preciso. Deixemos ver se isto passa.

 

Adivinhando as dificuldades com que lutávamos, não insistiu.

 

Quando o Cláudio se levantou tinham dado as seis da tarde havia muito disse-lhe que o pequeno estava doente e não tinha dinheiro para o tratar.

 

Falas em boa altura replicou, encolhendo os ombros.

 

E, metendo a mão na algibeira, tirou um punhado de notas amarfanhadas que pôs em cima da mesa. Alguma coisa caiu, juntamente com as notas, produzindo um ruido metálico que me chamou a atenção. Vi então um anel com lindo brilhante.

 

Rapidamente, meu marido apanhou-o e guardou-o na algibeira.

 

Não sei o que senti. Havia muito tempo já que as actividades de meu marido me pareciam suspeitas. As saídas nocturnas, o aspecto duvidoso dos amigos que o visitavam, os dias que passava fechado em casa, como se tivesse medo que o perseguissem, mesmo o dinheiro que, por vezes, me dava, tudo isso me fazia recear o pior.

 

Por outro lado, quando essas desconfianças me assaltavam, censurava-me por chegar a admitir a hipótese de ter a consciência de meu marido descido tão baixo que não recuasse perante uma vida de expedientes e para que não dizer a palavra se o facto existia? de roubos também. Seria possível que o meu castigo não ficasse por ali e que, depois de ter sofrido tantas privações e humilhações, eu chegasse à conclusão de ter casado com um ladrão e o meu filho, mais tarde, devesse envergonhar-se do nome que usava? Era o cúmulo!

 

Naquela manhã, porém, o incidente do anel varreu-me todas as dúvidas.

 

Onde foste arranjar essa jóia, Cláudio? perguntei com firmeza.

 

Que tens com isso? Não me pediste dinheiro para tratar o miúdo? Aí o tens. Quanto ao resto, não é da tua conta.

 

Enganas-te. Prefiro morrer de fome e ver morrer de fome o meu filho, a utilizar-me desse dinheiro, se o arranjaste por meios vergonhosos. Há muito que o receio, mas agora, tenho a certeza. Tu...

 

Roubei-o, não é o que ias a dizer? Pois acertaste. Queria evitar esta cena, ocultar-te certas coisas, visto ter sido eu a causa da tua desgraça, como lhe chamas, quando, no fundo, a verdadeira culpada, foste e és tu. Meios vergonhosos!... Isso depende do prisma por que se encaram. Se fosses mais razoável e visses as coisas pelo lado prático, poderíamos entender-nos. Assim não.

 

Cláudio!

 

Deixa-me falar, porque talvez seja esta a última vez que o faço contigo. Quando o barco encalha, para o salvar, começa-se por deitar a carga fora. O nosso barco encalhou, por se ter esgotado o combustível. Supus que a tua provisão fosse maior. Afinal, o teu avô roubou-me.

 

Proíbo-te de falares assim!

 

Digo o que entendo e não me interessam as tuas proibições. Mas, de facto, não vale a pena insistir. Continuemos. Como disse, o navio encalhou e eu fui alijando a carga. Comecei por atirar fora os escrúpulos, que só servem para nos entravar a vida. Sem dinheiro não se pode viver e eu, para o arranjar, lancei mão de todos os meios. Hoje censuras-me e das censuras em breve passarás às lamentações. E como não estou para as suportar, deito fora o resto da carga e digo-te: ”Passa muito bem, governa-te como puderes, come dos teus escrúpulos e preconceitos e não contes mais comigo”.

 

Eu escutava-o, mal podendo acreditar no que ouvia.

 

Isso quer dizer que vais abandonar-nos, a mim, e ao nosso filho?

 

É verdade. Vou-me embora. Deixo-te todo o dinheiro que possuo declarou, deitando para cima da mesa um maço de notas Não foi roubado. Ganhei-o ao jogo... fazendo batota, é claro. Para as primeiras despesas, chega. Depois, procura ganhar a vida como entenderes. Uma mulher nova e bonita como tu, não deve encontrar dificuldades para o conseguir.

 

Foi ao quarto, meteu a roupa numa maleta e, sem olhar para mim ou para a criança, abriu a porta e saiu, deixando-me tão assombrada, tão desorientada que nem uma palavra tive para o deter.

 

De resto, teria eu vontade de o fazer? Refeita do choque inesperado, lamentaria eu, de facto, o abandono de meu marido?... Não, era nova, saudável e, com a ajuda de Deus, saberia ganhar o meu pão e o do meu filho.

 

Aquela vida de inferno e de vergonhas não podia continuar!

 

Infelizmente, o meu Paulo não melhorou. Decorreram dois dias e ele sempre a pior. Na noite do segundo dia, a febre subiu tanto, passou-a tão agitada que, de manhã, resolvi mandar chamar o médico. Tinha conseguido esconder algumas jóias, defendê-las da cobiça do Cláudio. Vendê-las-ia para fazer face às despesas.

 

No dinheiro que me deixara não queria tocar.

 

Quando madame Julien veio trazer-me o leite, entreguei-lhas e pedi-lhe para as vender, e, ao mesmo tempo, para chamar o médico.

 

Vou já, madame Gomes, vou já. Não me demoro e, entretanto, vá lendo o jornal. Aqui lho deixo. Eu ainda não o li, mas disseram-me que traz muitas novidades. Já sabe que o governo caiu?

 

Não me interessa a política declarei tristemente A minha vida já chega para me apoquentar.

 

E tem razão, pobre senhora. Até já. Saiu, deixando-me o jornal em cima da mesa.

 

Peguei-lhe distraídamente e comecei a ler sem interesse.

 

Ao chegar ao noticiário do dia, saltou-me aos olhos pequena notícia:

 

”Ontem à noite dizia três meliantes assaltaram uma casa em Neully. Ao serem pressentidos, fugiram. A polícia perseguiu-os e prendeu-os, apesar deles resistirem e se defenderem a tiro. Um deles, o português José Martins, foi ferido na refrega e chegou ao hospital já morto.

 

A notícia era acompanhada pelos retratos dos três assaltantes e no que morrera reconheci Cláudio.

 

Não sei o que senti. Passou-me uma nuvem pelos olhos, o sangue subiu-me à cabeça. Senti o olhar turvo, mas, a custo, reli a notícia e examinei melhor o retrato para me certificar.

 

Bonito desfecho para o meu romance! exclamei.

 

E comecei a rir, a rir, num ataque histérico que se aproximava da loucura.

 

E foi neste estado que madame Julien me encontrou quando regressou acompanhada pelo médico.

 

Estive quinze dias entre a vida e a morte, dias de sofrimento atroz, insuportável. Por vezes, abrasava-me um calor ardente que me escaldava. O sangue latejava-me nas veias com tal impetuosidade que seria de recear elas não aguentassem tão forte tensão. Outras, tremia de frio, um frio de morte que me regelava e me entorpecia os membros, como se o fim se aproximasse. Ao mesmo tempo, as ideias baralhavam-se, a razão fugia-me, não sabia onde estava nem qual a causa daquela tortura. Era como animalzinho, prostrado pela doença, todo instinto, sofrendo fisicamente, mas não sabendo porque sofria.

 

A febre cerebral espreitava-me de perto, mas o médico conseguiu afastá-la.

 

Pouco a pouco, recuperei a razão, mas ainda não conseguia recordar-me do passado, envolto nas brumas de uma amnésia parcial. Vagamente, sentia que me faltava qualquer coisa ou alguém, mas não podia lembrar-me o quê ou quem.

 

E, se num esforço, tentava romper o nevoeiro, as dores de cabeça tornavam-se tão violentas, que me via forçada a desistir.

 

Durante o período mais agudo da doença, em que estive inconsciente, madame Julien soube-o mais tarde tratou-me com extremos de carinhos. Se fosse minha mãe, não teria sido mais extremosa. O médico, já de certa idade, tomou por mim um interesse mais do que profissional e, sem pensar no dinheiro lutou contra o mal que me prostrava, trazia remédios, injecções, tudo, sem pensar se, mais tarde, eu poderia pagar-lhos ou não, ou talvez o mais provável com a certeza de que não o faria, dado o ambiente de pobreza em que vivia.

 

Finalmente, comecei a reconhecer as pessoas e, certa manhã, quando madame Julien entrou no meu quarto com um copo de leite na mão, sorri-lhe.

 

Graças a Deus! exclamou a excelente criatura, manifestando sincera alegria Sabe quem sou?

 

Voltei a sorrir e, muito fraca ainda para poder falar, acenei com a cabeça.

 

Então esteja quietinha e sossegue. Mas só depois de beber isto continuou, passando-me o braço pelos ombros, enquanto que, com a mão livre, me chegava o copo aos lábios.

 

Depois compôs-me as almofadas e, enquanto me conchegava a roupa, murmurou:

 

Pauvre chou... Quel dommage!,.. Si jeune encore! Veja se consegue dormir acrescentou em português Precisa de muito sossego.

 

Submissa, fechei os olhos e, de facto, caí num sono profundo, tranquilo e só despertei quando, depois do meio-dia, ela voltou a entrar-me no quarto.

 

Aquele período de repouso fez-me bem. Acordei com o cérebro mais desanuviado, conquanto ainda não conseguisse lembrar-me do que se tinha passado. Recordava-me de ter sofrido profundo choque que, supunha eu, fora a origem da minha doença, mas não sabia qual fosse.

 

Bravo! exclamou madame Julien, vendo-me soerguer na cama Parece outra! Até já tem cor nas faces.

 

Com efeito, sinto-me melhor confirmei em voz débil.

 

Nesse instante, porém, voltei a cabeça e dei com os olhos na caminha de meu pequenino. Então, foi como se um véu se rasgasse de repente.

 

Madame Julien! exclamei, tentando saltar da cama Onde está o meu filho?

 

Acalme-se!... Não vê que está muito fraca para poder levantar-se? protestou, obrigando-me a deitar O seu filhinho estava também muito doente e teve de ser levado para o hospital. Mas o doutor Darcet não tarda aí e ele lhe explicará tudo. E agora não me faça mais perguntas concluiu, saindo apressadamente, como se receasse que a minha ansiedade me impelisse a novas interrogações.

 

Tremia de inquietação. Ainda tentei levantar-me para me arranjar e estar pronta quando o médico chegasse, pois tencionava pedir-lhe para me levar ao hospital. Como fui louca! Nem sequer consegui pôr-me de pé, quanto mais vestir-me!... Mal me sentei e tentei descer do leito, a cabeça começou a andar-me à roda e, para não perder os sentidos, não tive mais remédio senão deitar-me outra vez.

 

Chorava de raiva quando o médico entrou.

 

Então que é isto?... A chorar! exclamou Quer piorar? Pode gabar-se de ter estado com os pés dentro da cova. Deu-nos muito trabalho para conseguirmos tirá-la de lá e agora não é justo que esteja a estragar tudo quanto fizemos.

 

Fitei-o com expressão desolada.

 

Doutor, onde está o meu filho?... Diga-me tudo, por Deus lhe peço.

 

Devagar protestou o doutor Darcet, cuja fisionomia se ensombrou Não comecemos com perguntas. Vou dizer-lhe o que entendo ser necessário, para satisfazer a sua natural ansiedade. E o resto fica para mais tarde. O seu pequeno teve de ser internado no hospital Lês Enfants Malades, porque estava com escarlatina, doença contagiosa que, devido à sua constituição débil, o atacou fortemente. Precisava de muito tratamento e aqui ninguém lho podia dar. De resto, numa doença daquelas, a hospitalização é obrigatória. E agora acabou-se. Já sabe o indispensável. Os outros pormenores ficam para depois.

 

Queria vê-lo! protestei.

 

Mais tarde, quando estiver mais forte e puder sair. Agora é impossível. Sossegue.

 

Doutor, ele está mal?

 

Já lhe disse que não se fala mais no assunto. Está bem agora afirmou após ligeira hesitação Muito melhor que a senhora. Não pense nele, por enquanto. Pense antes em si, pois está na sua mão melhorar depressa. Ajude-nos concluiu, enquanto preparava a injecção.


Que remédio senão conformar-me.

 

O meu restabelecimento foi rápido e com a saúde a memória voltou. Passava grande parte do dia sozinha, pois madame Julien aparecia de fugida e só à noite ia fazer-me companhia. Nessas compridas horas de solidão, pensava muito. Recordava a última conversa com meu marido, o choque sofrido com a brusca notícia da sua morte, mais pelas circunstâncias em que se dera do que pelo facto em si. Não devia talvez confessá-lo, mas jurei ser sincera. Considerava o desaparecimento de Cláudio como uma espécie de libertação, porque, por muito longe que procurasse na minha vida de casada, não conseguia encontrar uma hora de felicidade absoluta, verdadeiramente plena, que me compensasse de todos os tormentos suportados depois.

 

Agora estava sozinha, mas senhora das minhas acções. Tratava-se de me restabelecer por completo, ir buscar o meu Paulo e procurar forma de ganhar o meu sustento e o dele.

 

Numa associação de ideias, pensei nas despesas feitas com a minha doença e decidi interrogar madame Julien a esse respeito.

 

As suas jóias estão ali, madame Gomes declarou quando lhe falei no assunto Não as vendi porque, naquela manhã, vendo o seu filhinho tão mal, quis, antes de mais nada, trazer-lhes o médico e depois não tive cabeça para tratar disso. Mas não há motivos para aflições. Encontrei dinheiro e bastante, no cofrezinho que está em cima da mesa, e com ele fiz face às despesas.

 

Era o dinheiro em que jurara não tocar!

 

Fiquei profundamente contrariada e creio que as minhas impressões se reflectiram na expressão do semblante.

 

Consternada, supondo ter-me desagradado, a pobre senhora exclamou aflita:

 

Valha-me Deus!... Querem ver que fiz tolice?... O dinheiro não era seu?

 

Não é bem isso, madame Julien. Era de meu marido e eu não queria tocar-lhe. Mas numa doença não pode haver caprichos. Não se preocupe, porque o caso não tem importância.

 

De facto, enfraquecida pela doença e por tantos abalos sucessivos, eu encarava o assunto por prisma diferente e os meus escrúpulos, muito justificados, eram abafados por uma espécie de apatia.

 

Quanto ao Cláudio, como usava nome falso e nem os próprios companheiros conheciam o verdadeiro e, se o conheciam, não o denunciaram, não fui incomodada por causa da sua morte. Se madame Julien o reconheceu pelo retrato, não sei. Nunca abordou o assunto, não fez perguntas, nem mesmo pronunciou o seu nome.

 

Várias vezes tentei interrogar o médico a respeito do meu Paulo, mas esquivava-se sempre, dando-me respostas evasivas.

 

Um dia, porém, fiz apelo a toda a minha energia e exigi-lhe a verdade. Pressentia novo golpe, mas tudo seria preferível à incerteza. Justamente nessa tarde contava com a sua visita.

 

Foi, auscultou-me e observou-me com minuciosos cuidados.

 

Então, doutor, como me encontra?

 

Magnífica! Restabeleceu-se mais depressa do que eu calculava.

 

Nesse caso, estou forte, não receia uma recaída.

 

Não, que ideia! Uma recaída porquê?

 

Porque chegou a hora de eu conhecer a verdade. Sei que vai ferir-me profundamente e queria ter a certeza de poder suportar o golpe. Fale, doutor. Não acha que já é tempo de eu saber tudo?... O meu filho morreu, não é assim?

 

Não protestou e o seu silêncio foi mais eloquente do que tudo quanto pudesse dizer-me.

 

Contava com a notícia, mas, por pouco inesperada que fosse, era de tal ordem que não pude suportá-la. Fiz-me tão pálida que o doutor Darcet se assustou.

 

Vê?... Não devia ter insistido e eu fui tolo em aceder aos seus rogos. Ainda não se encontrava em estado de sofrer tão grande abalo.

 

Isto passa murmurei. Mas os soluços sofucavam-me.

 

Chore à sua vontade, não se constranja. As lágrimas aliviam.

 

E, com palavras carinhosas, tentou confortar-me, suavizar o meu desgosto.

 

Quando a crise de choro passou, supliquei:

 

Conte-me tudo, doutor!

 

Não se escusou, mas pouco mais tinha para me revelar.

 

O ataque de escarlatina fora violento e, muito fraco para poder resistir à doença, o meu pequenino morreu oito dias depois de ter dado entrada no hospital... e foi tudo quanto me disse.

 

Depois de novas exortações saiu, deixando-me entregue a tristes reflexões.

 

Encontrava-me sozinha num país estranho, sem marido, sem filho, sem família ou amigos, excepto madame Julien, pessoa sincera, bondosa, mas que, devido à sua situação, pouco podia auxiliar-me, por muito que o desejasse.

 

Eis o que eu pensava, não me lembrando de que, por vezes, a boa vontade pode mais do que o dinheiro, influência e categoria social.

 

De futuro supunha eu teria de lutar sem apoio ou auxílio, abrir caminho à custa do meu próprio esforço. E valeria a pena?

 

Depois censurava-me pela minha fraqueza, pelos meus pensamentos destrutivos. Vale sempre a pena lutar, porque Deus assim o ordena, porque é esse o nosso dever, a nossa missão na terra.

 

Impunha-se encarar a situação com ânimo e coragem e, antes de mais nada, restabelecer-me por completo para poder, sem receio, enfrentar a luta.

 

Infelizmente, os meses iam passando e a minha situação não melhorava. O dinheiro deixado pelo meu marido já desaparecera todo, vendi as jóias e não encontrava forma de ganhar a minha vida, a despeito de todos os esforços empregados para o conseguir.

 

De resto, se normalmente isso se torna difícil, para mim era muito pior.

 

Recuava, confesso, perante a perspectiva de certas tarefas grosseiras, de costura pouco sabia e só nesse campo poderia encontrar mais facilidades.

 

Convinha-me um lugar de dama de companhia ou preceptora de crianças e nesse sentido orientava as minhas tentativas. Mas quem se resolveria a entregar os filhos à guarda de uma estrangeira, uma desconhecida que, como referências, apenas podia dar as da porteira de humilde prédio de Montmartre?

 

Porque não recorre à Casa de Portugal? aconselhava madame Julien Não deixariam de lhe prestar auxílio.

 

Todavia, apesar de ser minha única ambição regressar a Portugal, não me decidia a seguir o conselho.

 

Considerava a pátria distante como farol que no horizonte brilhava, indicando-me o porto onde o meu pobre barco, arruinado por tantos embates, encontraria enfim a paz de que tanto necessitava. Todavia, se um dia aparecesse à tia Céu e lhe suplicasse para me receber, gostaria que ela ignorasse sempre todas as vicissitudes por que passara e atribuisse a minha triste situação à inesperada viuvez. Aparecer-lhe como uma mendiga, repatriada por caridade, isso nunca! Que ela não sonhasse os trabalhos, as misérias sofridas, até que ponto eu tinha descido.

 

Não, não iria à sua Scribe, à Casa de Portugal. Enquanto não conseguisse o dinheiro bastante para fazer face às despesas do regresso, continuaria em Paris, ignorada de todos. E se lá morresse, paciência. Os meus talvez já não se lembrassem de mim.

 

E, mesmo desanimada, continuava a procurar, esperando talvez um milagre.

 

E o milagre realizou-se!

 

Uma tarde, depois de almoço, madame Julien apareceu-me de chapéu e luvas, toda preparada para sair.

 

Vai passear? perguntei, sorrindo.

 

Não, vou fazer uma visita. Deseje-me boa sorte na tentativa que vou fazer, madame Gomes.

 

Vai arranjar noivo? gracejei.

 

Mais non!... Nem a brincar!... É segredo, não lho posso dizer. Até logo.

 

Até logo.

 

E não mais pensei no assunto. As minhas preocupações chegavam-me.

 

Será egoísmo, mas racional e humano. Quando os problemas são insistentes, de primordial importância, só um espírito de excepcional elevação os põe de lado para entender os de alguém que não lhe toque muito de perto, tanto mais que os de madame Julien, dado o seu aspecto risonho, não deviam ser muito graves, pelo contrário.

 

Só a vi no dia seguinte. Não se referiu ao assunto, o mesmo acontecendo durante toda a semana.

 

No domingo voltou a sair, mas dessa vez de manhã e quando regressou, à tarde, subiu ao meu quarto.

 

Alvíçaras, madame Gomes! exclamou radiante Trago-lhe boas notícias.

 

Boas notícias para mim? Não sei o que possa ser.

 

Escute-me e não seja descrente na bondade de Deus que se manifesta quando menos o esperamos. Quando há dias lhe disse que ia fazer uma visita, fui a casa da minha irmã e fi-lo por sua causa. É viuva como eu e exerce o lugar de porteira num prédio do boulevard de Saint-Germain.

 

Um bairro aristocrático e antigo, na margem esquerda, eu sei.

 

Pensei falar-lhe a seu respeito porque, naquele meio, talvez fosse mais fácil arranjar-lhe colocação. Em boa hora me ocorreu esta ideia. No primeiro andar do prédio mora uma senhora bastante rica, viuva de um engenheiro português. Vive sozinha e há muito desejava encontrar uma pessoa educada para lhe fazer companhia. Minha irmã falou-lhe em si e quando a senhora soube que era portuguesa, ficou contentíssima e manifestou logo desejos de a conhecer e falar consigo. Se conseguir o lugar, não podia encontrar melhor. Uma casa sossegada, sem ter de aturar crianças, alojamento, comida e, ainda por cima, rasoável ordenado. Que diz a isto?

 

Digo que madame Julien foi a minha providência. Salvou-me.

 

Devagar. Tenhamos esperanças, mas não a certeza para não sofrermos alguma desilusão. Madame Azevedo é o nome da senhora espera-nos amanhã à tarde. Eu vou consigo para a apresentar à minha irmã. E diga-me uma coisa. Tem...

 

Um vestido decente para comparecer à entrevista, não é isso que ia dizer? atalhei.

 

Era... não se ofende, pois não?

 

Não ofendo, não. E pode ficar descansada. Saberei apresentar-me, sem luxo, mas por forma que não a envergonhe, descanse.

 

Entre os poucos vestidos que me restavam e esses mesmo muito usados tinha um, preto, género alfaiate, de excelente fazenda e bom corte, comprado em Madrid pouco antes de abandonar a capital espanhola. Estava já um pouco fora de moda, mas isso não importava. Quem se encontrava na minha situação não podia pensar em modas e até seria disparatado se o fizesse.

 

Foi o que levei no dia seguinte.

 

Madame Julien acompanhou-me. Fomos no metro e, antes de nos dirigirmos à casa onde me esperava o fim dos meus tormentos ou profunda decepção, entrámos na igreja de Santo Eustáquio para implorar a Deus o seu auxílio e protecção, naquela hora decisiva da minha vida.

 

No ambiente calmo do velho templo, banhada pela claridade de tonalidades brandas que o sol, ao atravessar os vitrais, difundia pela nave, senti-me mais reconfortada e cheia de coragem para afrontar as decisões do Destino.

 

Madame Azevedo como soava bem aos meus ouvidos este apelido português era uma senhora dos seus sessenta anos, distinta e muito simpática.

 

Recebeu-me com extrema afabilidade e, logo aos primeiros contactos me senti atraída pelos seus modos simples, sem afectação.

 

E como o seu desejo era admitir-me, tal como o meu era o de ser admitida, depressa nos entendemos.

 

Está então combinado, não é assim? decidiu por fim Gostaria que fosse para mim mais uma amiga do que dama de companhia, dessas que dispensam os seus cuidados por obrigação, porque lhe pagam para isso. Há muito tempo que desejo ter a meu lado alguém com quem possa entender-me, conviver, e espero tê-lo conseguido agora. Vivo sozinha e a solidão começa a pesar-me. Estava habituada a ambiente muito diferente. Em vida de meu marido, tínhamos muitas relações, íamos ao estrangeiro. Tenciono recomeçar agora a viajar visto já ter quem me acompanhe. Só me resta perguntar-lhe quando posso contar consigo.

 

Quando quiser respondi imediatamente.

 

Esplêndido. Hoje é segunda-feira, se não me engano. Poderia vir na quarta? Um dia chega-lhe para pôr as suas coisas em ordem?

 

Perfeitamente. Está combinado. Virei na quarta-feira.

 

Cedinho. Conto consigo para o almoço. Não posso dizer em que estado de espírito regressei a casa. Tinha a impressão de caminhar sobre nuvens, os nervos vibravam-me numa exaltação deliciosa, o peito dilatava-se-me como o de um prisioneiro que, tendo vivido muitos anos numa masmorra escura, se encontrasse, de repente, em liberdade, visse o sol brilhar, contemplasse o céu muito azul e pudesse respirar à vontade.

 

Depressa pus tudo em ordem. Meti a roupa na mala, dei a madame Julien loiças e outros utensílios que, de futuro, me seriam inúteis, pedi-lhe que me guardasse alguns objectos que não podia levar comigo e, por terem pertencido ao meu pequenino, gostaria de conservar. Na quarta-feira de manhã, abandonei para sempre aquela casa onde tinha conhecido tanto sofrimento, onde suportara privações e misérias materiais e morais, em resumo, onde esgotara até à última gota a taça de fel da amargura.

 

Não me esqueci também de escrever à minha sogra, participando-lhe as mortes do filho e do neto, como lhe escrevera por imposição do meu marido a participar-lhe o nascimento deste último.

 

Ao fechar a porta do meu humilde apartamento, tive o pressentimento de que tudo sofrimento, miséria, tristeza e abandono tudo acabara para sempre, ficava encerrado entre aquelas paredes sombrias e que, de futuro, a vida se mostraria mais clemente comigo.

 

E não me enganei, graças a Deus.

 

Tinha descido muito baixo, mesmo até ao fundo do barranco. Daí em diante comecei a subir. Devagar, sim, mas subi sempre. Alguém me ofereceu o apoio do seu braço e da sua ternura, o caminho tornou-se mais suave, os horizontes alargaram e hoje considero-me plenamente feliz. Reconhecida, agradeço a Deus por ter conseguido chegar ao porto, depois de quase ter sucumbido, arrastada pelo turbilhão da vida.

 

Quando não estou com disposição para abrir este caderno ou outras ocupações me solicitam, instalo-me na minha sala de costura e, conforme o tempo, sento-me diante do fogão ou na varanda e então, enquanto, maquinalmente os dedos se movem no trabalho, o pensamento voa para o passado.

 

Ao recordar os primeiros dias vividos em casa de madame Azevedo, não posso deixar de me comparar ao náufrago que, agarrado ao frágil madeiro, milagrosamente posto pelo acaso debaixo da sua mão e do qual depende a sua vida, experimenta todas as angústias da agonia, sente as forças fugir-lhe, acaba por perder os sentidos e, ao voltar a si, se vê estendido num leito confortável, no camarote do navio que o recolheu, precisamente na altura em que ia desaparecer no turbilhão. Sim, era uma impressão semelhante que sentia nos primeiros tempos quando, ao abrir os olhos, reconhecia o ambiente agradável do meu quarto conchegado e, ao entrar na sala de jantar, o aroma delicioso do chocolate me afagava as narinas.

 

Outras vezes, aborrecida por me ver sozinha, chamava a Ema. Ela vinha com a sua costura, sentava-se diante de mim e as suas tagarelices distraiam-me. Quase sempre, falava-me dos acontecimentos ocorridos durante os cinco anos da minha ausência, assunto que sempre me interessava porque, conjugando as suas confidências com o que o Luís Guilherme me contou, pude reconstituir um passado que devia ser meu e eu desprezei.

 

Falava-me, principalmente, do avô.

 

Não pode imaginar como ele mudou depois da menina Patrícia se ter ido embora.

 

Para a excelente criatura, que tão pequenina me tinha conhecido, eu era e seria sempre a ”menina Patrícia”, embora já tivesse ultrapassado os trinta anos e fosse mãe de dois filhos.

 

Mudou muito, como?

 

Nos modos, na forma como nos tratava. Já não nos ralhava tanto, falava-nos com bondade e, enquanto a senhora D. Céu cá veio, não os ouvia discutir como dantes. Pelo contrário, o senhor seguia-lhe sempre os conselhos, não se revoltava com as observações da irmã. Enfim, estava outro, completamente outro. Mandou fechar o seu quarto e não consentia que lá entrássemos senão uma vez por mês, para abrir as janelas e limpar o pó. ”Façam de conta que a menina Patrícia morreu disse-nos no dia que a menina partiu e nunca mais quero ouvir pronunciar-lhe o nome, entendeu?” Mas passou a andar triste e eu bem percebia que pensava muito em si. Quantas vezes, ao entrar no escritório onde passou a comer quando estava sozinho para lhe servir o jantar, o via a passear de um lado para o outro, de cabeça pendida e uma vez ainda o ouvi dizer baixinho: ”Pobre rapariga!” e saí logo nas pontas dos pés, antes que ele me visse e se irritasse. E, também emagreceu bastante. Direitinho como um pinheiro, fazendo a sua vida, mas dia a dia estava mais magro e mais pálido, como se qualquer coisa o roesse lá por dentro. Depois, pouco a pouco, começou a desinteressar-se de tudo e como, segundo dizia, o senhor Luís Guilherme era o dono disto, passou-lhe tudo para as mãos e era ele quem vigiava todos os trabalhos da quinta. Uma tarde, o senhor Vasco sentiu-se mal disposto. O senhor Luís Guilherme, que aparecia por cá todos os dias, ofereceu:

 

”O tio quer que eu passe cá a noite? Telefona-se à avó para ela não estar em cuidado.”

 

Sim, porque pouco depois da menina se ir embora, o senhor Luís Guilherme tanto teimou, dizendo que o seu avô não podia viver aqui sozinho, sem telefone, que o senhor cedeu e mandou-o instalar.

 

Pois naquela noite o senhor Luís Guilherme queria cá ficar, mas o tio recusou, afirmando que não era preciso.

 

Mas o sobrinho viu-o tão abatido que o deixou adormecer e depois mandou-me chamar e ordenou-me que preparasse o quarto dos hóspedes, porque o tio não lhe parecia estar muito bem e não queria deixá-lo sozinho. Eu também não fui para o meu quarto. Deitei-me no sofá do escritório e dormi com um olho fechado e outro aberto, como costuma dizer-se.

 

E foi o melhor que fizemos.

 

De madrugada ouvi o seu avô chamar. Corri ao quarto e vi-o muito aflito, assim como sufocado. Precipitei-me para o quarto do senhor Luiz Guilherme. Telefonou-se logo ao médico que não se demorou e, depois de o observar, disse que tinha sido um ataque de coração. Tratou-o e ainda conseguiu melhorá-lo, mas ficou muito fraco, mal podia falar e não voltou a levantar-se da cama. Daí a três dias, o ataque repetiu-se e então já não houve nada a fazer-lhe. A senhora D. Céu ainda veio vê-lo duas ou três vezes, mas já tinha as pernas muito atacadas pelo reumatismo que não a deixava andar e foi o senhor Luís Guilherme quem tratou de tudo. Pobre senhor! No fundo, não era mau e gostava muito de si, acredite. Tinha lá o seu feitio rabugento e severo, mas o génio é Deus quem o dá. Ninguém tem culpa de ser como é. Gostava de si, menina Patrícia e, se lho digo, é porque sei.

 

Pode ser, sim.

 

Mas, pelo que meu marido me contou, tinha a certeza disso. O resto soube-o por ele.

 

O avô, depois da minha fuga, mudou muito, de facto, segundo me disse o Luís Guilherme. Não queria saber de coisa alguma, desinteressou-se de tudo quanto até ali constituíra a principal razão da sua vida. Quem passou a olhar pela quinta foi o meu marido.

 

Depois do primeiro ataque, ficou muito fraco e quase não falava. Na véspera de morrer, pouco antes do ataque cardíaco que o vitimou, numa ocasião em que o Luís Guilherme estava sentado junto da sua cama, estendeu o braço, apertou-lhe a mão e murmurou:

 

”Luís Guilherme, lê a carta.

 

”Qual carta, tio?

 

a gaveta da secretária... carta para ti. Percebeste?

 

”Percebi, sim, tio. Deseja que vá buscá-la agora?

 

”Não. Depois de eu morrer.

 

”Então temos muito tempo... alguns anos ainda. Não esteja a cansar-se.

 

O doente abanou a cabeça, sorriu tristemente e teimou:

 

”Não, eu sei e quero pedir-te... para fazeres o que indico.

 

”Sossegue, tio. Farei o que quiser. Mas deixe isso agora. Está a fatigar-se. Veja se consegue dormir.

 

”Prometes? teimou o avô.

 

”Prometo. Até lhe juro, se quiser, mas sossegue.

 

Sorriu contente, cerrou os olhos e adormeceu.

 

Morreu no dia seguinte e, mal ele cerrou os olhos, o sobrinho foi logo procurar a carta. Desejava cumprir a promessa e estava ansioso por saber do que se tratava.

 

Encontrou-a logo na gaveta da secretária que o avô indicara e mostrou-ma mais tarde quando, depois de casados, nos instalámos aqui Creio que ainda a guarda piedosamente. Foi escrita pelo avô poucos dias antes de adoecer e eis o que dizia:

 

”Meu querido Luís Guilherme

 

”Não sei bem porquê, nestes últimos dias, tenho tido o pressentimento de que não duro muito mais tempo e, quando temos destes avisos do Céu, devemos atendê-los, pôr as nossas coisas em ordem para que a hora da partida nos seja mais suave, mais livre de preocupações terrenas e possamos voltar o pensamento para as coisas do espírito, as únicas que nesse instante decisivo devem importar. Bem basta não podermos evitar o remorso pelo mal que fizemos e não pudemos remediar. É isso que tento fazer agora, mas só posso fazê-lo em parte e com o teu auxílio.

 

”Quando começamos a avistar a porta que vai abrir-se e patentear-nos tanta coisa misteriosa e terrível, se temos a coragem de olhar para trás e reconhecemos os nossos erros, trememos horrorizados pelas contas que teremos de prestar e ficamos espantados como pudemos ser tão cegos e orgulhosos. O orgulho, vês tu, é o pior defeito chamemos-lhe assim que uma pessoa pode alimentar. É como cavalo fogoso que, se lhe alargamos a rédea, começa a galopar e acaba por tomar o freio nos dentes. Se, de princípio, não tentamos dominá-lo, acaba ele por nos dominar a nós.

 

”Fui criado e educado em moldes rígidos, teorias que, no meu tempo, se consideravam justas e normais. Agarrei-me a elas, finquei os pés no chão e não quis deixar-me arrastar pela onda da vida que nunca pára, numa evolução constante. Foi esse o meu grande mal, maior ainda porque, no meu orgulho, supunha a razão do meu lado e não queria aceitar as ideias daqueles que, como tua avó, caminharam e não se deixaram atrasar. E então, não conseguindo eu mesmo ser feliz, fiz a infelicidade dos outros.

 

”Compreendes a quem me refiro, não é verdade?... Vou falar-te da tua prima Patrícia.

 

”Quando entrou nesta casa, tinha apenas dez anos e vinha de um meio muito diferente. As normas da sua educação eram as da sua época e eu quis, imediatamente, sujeitá-la às minhas. Fi-la sofrer e a mãe, a minha pobre Paulina, que, educada por mim com severidade e rigidez, não soube resistir-me.

 

”Depois da morte da minha filha, sendo então o único educador e tutor da Patrícia, o meu autoritarismo tornou-se despótico; mas ela era muito diferente da mãe. Tinha outra mentalidade, a sua personalidade firmara-se com outra independência e por isso, logo de princípio, se revoltou e tentou defrontar-me. Duas gerações nos separavam. Era como se estivéssemos na extremidade de uma ponte e nenhum de nós quisesse dar o primeiro passo para se aproximar do outro, porque, a meio, erguia-se uma barreira de incompressão e transigência.

 

”Se eu tivesse sido menos severo, mais carinhoso e benevolente, se tivesse abandonado um pouco os meus preconceitos e a tua prima fosse um pouco mais indulgente para comigo, tudo se teria evitado. A tua avó, mais sensata, ainda tentou conciliar e amenizar a situação, mas eu inutilizei todos os seus esforços. Assim, os agravos de parte a parte aumentaram e nós passámos a olhar-nos não como avô e neta, mas como dois inimigos. Então sucedeu o inevitável, mas a culpa foi toda minha.

 

”Se a Patrícia tivesse visto em mim o avô carinhoso, o confidente e o conselheiro, teria podido, com certeza, desviá-la do perigo. Se a tivesse levado a conhecer o mundo em vez de, sistematicamente, a afastar dele, a pobrezita não teria ficado com os olhos cerrados quando as outras raparigas da sua idade os tinham bem abertos e, inteligente como era, saberia reconhecer o perigo, afastar-se-ia dele, não se deixaria arrastar com promessas falsas, não tomaria um simulacro de paixão pelo amor verdadeiro, em resumo, não teria caído nas garras daquele patife.

 

”De resto, não te digo coisa alguma que não saibas, pois assististe ao drama desde as suas primeiras manifestações e muitas vezes tentaste evitá-lo. Porém eu, no meu orgulho sempre o maldito orgulho não podia admitir que um rapaz da tua idade, em minha opinião quase um garoto, me desse conselhos.

 

”Luís Guilherme, meu filho, sei quanto gostavas da Patrícia e também quanto sofreste quando ela fugiu. Mas, conhecendo como conheço a nobreza do teu coração, estou certo de que já lhe perdoaste. Não é a ela, porém, a quem deves perdoar, mas sim a mim, pois fui eu o único causador de tudo. Fiz a infelicidade dela, a tua e também a minha.

 

”Estou arrependido, os remorsos torturam-me e por isso te suplico que me ajudes a remediar o mal que fiz.

 

”Não passa uma só noite que não me lembre dela, não me sento à mesa, não me deito, sem pensar que talvez a minha neta não tenha que comer nem uma cama para se deitar. Um pressentimento me diz que aquele homem a abandonou depois de lhe ter gasto tudo quanto possuía. Levou-a para o estrangeiro e foi a única coisa que pude saber, mas para onde não sei.

 

”Procura, indaga e vê se consegues encontrá-la. E, se a vires desgraçada, ampara-a, socorre-a, instala-a nesta casa que é tua porque eu lha tirei. Que ela, ao menos, tenha um tecto a que possa chamar seu e um cantinho onde se acolha.

 

”Não te dou sugestões porque ignoro a situação em que vais encontrá-la, mas conheço os teus sentimentos generosos e sei que não hesitarás em fazer o que te peço e procederás pela forma mais eficaz para a socorrer.

 

”Agora só me resta suplicar-te que não percas um minuto e não descanses enquanto não a encontrares.

 

”A mim próprio marquei um prazo. Se até ao fim desta semana os meus pressentimentos não se realizarem e eu ainda estiver vivo oxalá o esteja, porque só Deus sabe como desejo apertá-la nos braços e pedir-lhe perdão se ainda estiver vivo, repito, dir-te-ei o que acabo de escrever e, da mesma forma, partirás, pois sei quanto és digno da minha confiança.

 

”Se morrer, por esta carta conhecerás os meus últimos desejos.

 

”Meu querido Luís Guilherme, só de ti espero sossego e tranquilidade para o meu espírito, pois estou certo de que se lá no Alto ainda podemos saber o que se passa na Terra, quando a vir de novo instalada nesta casa, estremecerei de alegria e poderei então descansar em paz.

 

Vasco de Mascarenhas e Melo”

 

Quando acabei de ler esta carta, chorava. Pobre avô que só pedia um pouco de ternura e compreensão! Como fui ma para ele!

 

Como deves calcular disse-me depois o Luís Guilherme não perdi tempo. Os meus desejos estavam tão em harmonia com as últimas vontades do teu avô, expressas nessa comovente carta que, logo no dia seguinte ao enterro, pus as minhas coisas em ordem e parti para Lisboa.

 

”Antes de mais nada aconselhou a avó deves ir a casa da mãe do Cláudio. Foi para lá que ele a levou quando a convenceu a fugir e, se alguém pode saber onde estão, deve ser ela. Tenho aqui a morada que a Patrícia me indicou na carta em que se despedia de mim. Oxalá a criatura ainda viva na mesma casa.

 

Felizmente, ainda la a encontrei. Mostrou-se muito admirada ao ver-me, mas, quando lhe disse que era teu primo, mandou-me entrar. Conversámos e, confesso-te, acabei por ter pena dela. Tinha aparência de uma pessoa que sofreu muito e passou muitas privações. Em minha opinião, aparentava muito mais idade do que tinha.

 

”A sua prima não gostava de mim disse-me a chorarmas era injusta. Eu era sua amiga e tinha muita pena dela. Um dia, acusou-me e atribuiu-me a culpa da sua infelicidade, mas eu não podia evitar que o Cláudio a trouxesse para aqui e, para ela, talvez tivesse sido melhor. Ainda tentei dissuadi-lo, mas nada consegui. O meu filho só fazia o que queria e quando uma ideia se lhe metia na cabeça, tanto teimava que a levava por diante. Quanto a conselhos, não os atendia nem aceitava, nem sequer os meus que era sua mãe. Pouco tempo foi preciso para a mulher o conhecer. Ele não escondia que tinha casado com ela por causa do dinheiro. Uma vez aconselhei-a a voltar para a família, mas sua prima respondeu-me que gostava do marido e o seu destino estava traçado. Depois, ele levou-a para Espanha e depois para Paris e por lá ficaram. A Patrícia deve ter sofrido muito, mas agora acabou-se tudo concluiu, curvando a cabeça.

 

Dei um pulo na cadeira.

 

”Tudo o quê? perguntei assustado.

 

”O meu filho morreu.

 

”Quer dizer que minha prima está viúva?

 

”É isso. O meu filho morreu num desastre e a pobre senhora para lá ficou sozinha. O que terá sido feito dela!

 

Nunca a notícia da morte de uma pessoa me causou tão grande alegria, Deus me perdoi continuou o Luiz Guilherme mas, ao mesmo tempo, afligia-me ao pensar o que teria sido a tua vida, sozinha e sem dinheiro, pois não duvidava de que, da tua fortuna, não existisse já uma migalha que fosse.

 

”Onde viviam, sabe? perguntei.

 

”A última carta que recebi de sua prima, a participar-me a morte do marido, trazia o nome do remetente e esta morada... mas já lá vão alguns meses e se ainda lá vive não sei.

 

”Com esta indicação, espero poder encontrá-la. Muito obrigado.

 

Despedi-me dela, deixei-lhe algum dinheiro que, de princípio, não queria aceitar e, no dia seguinte, meti-me no comboio para Paris.

 

Foi isto o que me contou o Luís Guilherme. O que me disse da mãe de Cláudio comoveu-me. Quando lhe escrevi a participar a morte do filho, não tive a crueldade de lhe revelar as circunstâncias em que se dera e atribuí-a essa morte a desastre. Para que ir aumentar as atribulações da infeliz criatura e sobrecarregá-la ainda com o peso da desonra e da vergonha?

 

Mal cheguei a Paris disse-me o Luís Guilherme, prosseguindo a sua narrativadirigi-me logo à morada indicada no sobrescrito. Por infelicidade, não encontrei a porteira e ninguém soube dizer-me para onde tinhas ido. ”Mas a porteira, amanhã, deve estar em casa e ela sabe, com certeza disseram-me.

 

O Luís Guilherme voltou no dia seguinte, encontrou a porteira e conversaram muito. Antes de saber as intenções do visitante, mostrou-se retraída, mas depois contou-lhe tudo.

 

”Pobre senhora! O que ela sofreu! Houve dias em que, para poder comprar leite ao filhinho, não comprava comida para ela e era eu quem lhe dava um pratinho das minhas sopas. Quanto ao marido, não tinha que se preocupar com comida para ele, felizmente. Andava por fora toda a noite e, quando vinha para casa, deitava-se a dormir. Não fazia caso da mulher nem do filho. Acabou mal, não admira, porque não passava de um ladrão!

 

”Um ladrão!

 

”É verdade. A pobre nunca desconfiou de que eu sabia, nem eu lhe toquei no assunto para não a fazer corar de vergonha, mas logo no dia em que publicaram o retrato dele no jornal, eu o reconheci. Quando recebeu a notícia, a mulher adoeceu e esteve entre a vida e a morte.

 

”E minha prima não sofreu dissabores por causa disso, não foi incomodada pela polícia?

 

”Não, porque ele usava um nome falso e, como morreu, ninguém mais pensou no assunto. Ainda tenho o jornal, guardado naquela gaveta. Quer ler?

 

Li tudo disse-me o Luís Guilherme quando, algum tempo depois de casados falámos no assunto e não sei o que senti. Tu, minha pobre Patrícia, que eu conhecera tão sensível, de sentimentos tão delicados, casada com um ladrão, passando fome e privações! Estava tão comovido que não conseguia falar!

 

”E o filho? perguntei quando pude, finalmente, dominar-me.

 

”O pequenito morreu também e, Deus me perdoi, foi um bem para ambos.

 

”Como morreu ele?

 

Madame Julien descreveu-lhe então a minha doença e a de meu filho e a sua morte no hospital.

 

”Se o pequeno fosse vivo observou a pobre senhora teria muita dificuldade em governar a vida e não sei o que seria dos dois. Assim...

 

”Onde está ela agora?

 

Hesitou um instante.

 

”Fale sem receio. Se não mo disser, de qualquer forma o hei-de saber. Os trabalhos de minha prima acabaram. Venho buscá-la para a casa que é dela e donde nunca teria saído se não lhe tivesse aparecido aquele patife.

 

”Coisas da vida... destinos que Deus dá comentou, filosoficamente, madame Julien Mas agora, felizmente, tudo acabou e, graças a Deus, vai ser feliz. Bem o merece, coitadinha. Sua prima arranjou um lugar de dama de companhia, em casa de uma senhora rica, muito educada e boa e que a estima muito. Já lá está há três meses. Aqui tem a morada. A senhora era casada com um engenheiro português, que morreu há dois anos. Chama-se madame Azevedo.

 

O Luís Guilherme gratificou-a generosamente, agradeceu-lhe tudo quanto tinha feito por mim e, nesse mesmo dia, escreveu à minha patroa.

 

As rodas da vida andam ligeiras e arrastam nas suas engrenagens surpresas inesperadas.

 

Mal diria eu, nesse dia, quando, sentada muito tranquila diante de madame Azevedo, almoçava e conversava, que mais uma vez teria de abandonar tudo, deixar atrás de mim pessoas a quem me afeiçoara, para entrar em nova fase da minha vida.

 

Dessa vez, porém, não começava, recomeçava. Era como se os dias passados viessem prender-se ao presente, formando uma espécie de ponte muito alta, e tudo quanto tinha sofrido, aqueles anos que constituiram o período mais doloroso e sombrio da minha vida, tivessem ficado lá em baixo, fossem arrastados pelas águas do esquecimento e nunca mais viessem à superfície.

 

Desse filme dramático no qual eu desempenhei o principal papel, todas as imagens se esbateram, excepto uma, a do meu Paulo, pálido, franzino, com os seus olhos negros, tristes e meigos. Essa vive e viverá eternamente no fundo do meu coração.

 

Ontem estava a deitar a minha Lena quando, de repente, ela me perguntou:

 

E a história, mãezinha?

 

A história?

 

Sim, aquela história com anões, gigantes e fadas que me prometeste.

 

Sorri satisfeita. Afinal sempre tinha conseguido despertar-lhe, pelo menos, a curiosidade.

 

Está quase pronta.

 

E depois lês para eu ouvir?

 

Não, a minha história não é para tu ouvires, é para tu leres.

 

Mas eu ainda não sei ler!

 

Quando aprenderes.

 

Ora! replicou a minha garota, encolhendo os ombros Nessa altura já sou crescida e a tua história com certeza me aborrece.

 

Fiquei a olhar para ela sem saber o que responder-lhe. Tenho mais de trinta anos e, no entanto, a minha filha, por vezes, tem réplicas que me deixam desnorteada. Estas crianças, santo Deus!... Que se passará naquelas cabecinhas?

 

Quando a minha Helena nasceu, sonhei” como por certo sonham todas as mães, moldar-lhe a alma, educar-lhe o carácter, atenuar-lhe os defeitos inatos, desenvolver-lhe as qualidades, tal como um jardineiro vigia as flores, cujas fases de crescimento conhece, rodeando-as de cuidados até ao completo desenvolvimento e, dessa forma, consegue obter flores perfeitas, de uma beleza rara.

 

Mas como guiar e conduzir as crianças de hoje até à sua completa formação moral, como tentar dar-lhe uma personalidade, se elas são para nós como carros desconhecidos, em cujo volante poisamos pela primeira vez as mãos, cujas reações são inesperadas e não correspondem aos nossos reflexos?

 

Mesmo assim, não deixarei a minha história por acabar. Está no fim, escrevi-a para minha filha e, se a aborrecer, paciência.

 

É árvore que plantei para lhe dar sombra. Se, mais tarde, a despresar isso não impede que as minhas intenções tivessem sido boas.

 

Estava em casa de madame Azevedo havia três meses e éramos já mais duas amigas do que patroa e dama de companhia.

 

Conversávamos muito. Ela estivera várias vezes em Portugal com o marido, falava perfeitamente o português e conhecia a minha pátria muito melhor do que eu.

 

A sua terra é linda! afirmava muitas vezes Nunca vi tantas belezas naturais e das mais variadas, reunidas num país tão pequeno, tantos panoramas diferentes. Num dia, quase de uma hora para a outra, passa-se de beleza agreste de Trás-os-Montes para a paisagem fresca do Minho com os seus campos verdejantes, as latadas inclinadas e quase rentes ao chão, o milho muito alto e fresco e, logo a seguir, o mar, a costa com as suas praias maravilhosas, poemas de luz e de cor. É uma aguarela ou antes, uma sucessão de aguarelas. E a serra da Estrela?... Tem aspectos grandiosos e impressionantes. Conhece-a?... Para mim, é uma das coisas mais belas do seu país.

 

Não, não conheço.

 

E também não conhece o Bussaco? Tão lindo, tão magestoso, com a vilazita aninhada aos pés, graciosa e pequena como uma miniatura. Como se chama? Não me recordo... deixe ver... Já sei, chama-se Luso. Não conhece, deveras?

 

Não, minha senhora. Eu, de Portugal conheço pouco respondi, corando Vivi sempre na província, perto de Santarém.

 

Bonito também, muito bonito. Lembro-me de ter andado por lá de automóvel. Campos imensos, lezírias, como lhes chamam, toiros à solta, cavalos. Muito pitoresco tudo.

 

Sorri com aquele entusiasmo mas, ao mesmo tempo, envergonhava-me pelo facto de, sendo portuguesa, não conhecer a minha terra.

 

Nunca lhe contara a minha vida, as circunstâncias que tinham rodeado o meu casamento e me haviam atirado para uma terra estrangeira, sem amparo e sem meios. Sabia apenas que era viúva e, antes de ir para sua casa, tinha lutado com grandes dificuldades.

 

Pois foi aí que vivi até casar prossegui.

 

Fui criada num meio um tanto acanhado, com meu avô que era já de idade e não pensava em proporcionar-me passeios. De resto, casei muito nova. Meu marido levou-me para Lisboa e foi então que conheci a capital. Antes disso, só lá tinha ido uma vez, quando era pequena. Infelizmente, estive lá pouco tempo. Depois fomos viver para Madrid e mais tarde passámos a França e instalámo-nos aqui.

 

Que fazia o seu marido?

 

Negociava em máquinas, por conta de uma casa, suponho que francesa, mas ignoro qual fosse. Gostava pouco de me falar na sua vida respondi com ligeira hesitação e corando ainda mais.

 

A mentira escaldava-me os lábios”. Mas seria possível revelar-lhe a verdade? Deveria dizer-lhe que meu marido não passava de um ladrão e morrera abatido pela polícia francesa?... Isso nunca!

 

E a sua família? inquiriu com bondade

 

Não tinha mais ninguém senão o seu avô? E ele já morreu?

 

Não era curiosidade, mas sim interesse, um interesse carinhoso, ditado pela amizade, pela bondade do seu coração. Adivinhei-o, mas não podia corresponder-lhe com a sinceridade exigida pelo seu impulso afectuoso.

 

Tinha também uma tia, irmã de meu avô e um primo, seu neto. Mas indispus-me com eles por causa do meu casamento e agora nada sei a seu respeito. Nunca mais tive notícias deles... respondi, curvando a cabeça para ocultar as lágrimas que me corriam pelas faces.

 

Compreendo murmurou madame Azevedo, observando-me com atenção E agora o seu orgulho não quer vergar, não deseja dar-lhes a saber que a razão estava do lado deles, não é assim?

 

Confirmei com a cabeça porque a comoção não me deixava falar.

 

Faz mal, acredite. Quantos anos tem?

 

Vinte e quatro.

 

Já vê, está ainda uma criança. Eu podia ser sua mãe e estou em condições de poder dar-lhe conselhos, porque conheço melhor a vida, apesar de não ter sofrido tanto como a Patrícia, calculo, pois sei que sofreu muito. A sua família opunha-se ao casamento por não encontrar no homem que escolheu qualidades bastantes para lhe proporcionar a felicidade que sonhavam para si e um futuro condigno. Cega por uma afeição profunda, a minha amiga teimou e casou. Então eles cortaram relações consigo. Foi isto, não é assim?

 

Concordei. Mal podia ela adivinhar que a minha cegueira chegara ao ponto de abandonar tudo por alguém a quem emprestara nobres sentimentos, desinteresse, amor e que, por fim, tão mal recompensara a minha dedicação. Um pouco de lama que eu supunha ser barro fino no qual moldei umas asas de anjo!

 

A Patrícia sofreu profunda desilusão continuou madame Azevedo e de si para si tem de concordar que a razão estava do lado dos seus. O que lhe pareceu injustiça e despotismo não foi mais do que ternura, cuidado pelo seu futuro e clarividência. Seu avô e sua tia, se ainda vivem, devem estar arrependidos também da sua severidade e intransigência. Agora só o orgulho os separa, acredite. Nem eles nem a Patrícia querem dar o primeiro passo para uma aproximação. Como mais nova e aquela que errou, compete-lhe a si fazê-lo. Porque não lhes escreve?

 

Não, isso não! protestei num impulso de todo o meu ser Um dia irei a Portugal, se Deus o permitir, e então procurá-los-ei, se ainda estiverem vivos, como muito bem disse ha pouco.

 

Faz mal, mas isso é lá consigo. Dei-lhe apenas um conselho, ditado pela simpatia que me inspira, não quis impor-lhe directrizes. Quanto a ir a Portugal, talvez seja mais cedo do que supõe. Ha muito que desejo voltar a pátria de meu marido, percorrer outra vez os sítios onde estive com ele, fazer uma espécie de romagem de saudade. Ainda não me decidi a essa viagem porque, na minha idade, receava fazê-la sozinha. Mas agora é diferente, iremos as duas. Agrada-lhe?

 

Ainda mo pergunta?

 

Como não havia de me agradar se era essa a minha maior ambição?

 

Alguns dias depois desta conversa, tínhamos acabado de almoçar quando a criada apareceu com uma carta para madame Azevedo que, ao lê-la, manifestou grande surpreza. Quando terminou ficou pensativa.

 

Más notícias? indaguei, preocupada com a sua atitude.

 

Mas?... Ainda não sei dizer-lho, Patrícia replicou enervada e fitando-me por forma singular.

 

Estranhei os seus modos. Madame Azevedo era pessoa de génio sempre igual, muito calma. Nunca a tinha visto nervosa ou irritada. Nunca tomava uma resolução no ar, sem reflectir durante algum tempo e, se estava de mau humor, fechava-se no quarto ou saía para não o dar a perceber. Donde provinha então o evidente nervosismo, a ligeira irritação e até a nota desabrida na maneira como me respondeu?

 

Receando ter sido indiscreta, não insisti. A minha patroa conservou-se calada durante alguns minutos e depois, mudando de repente de assunto, disse-me:

 

Vou pedir-lhe um favor, Patrícia. Pretendo mandar uma encomendazita a uma senhora minha amiga, mas trata-se de uma coisa que não posso enviar pelo correio nem confiar a estranhos. Não se importa de ir levar-lha? É uma espécie de missão confiança concluiu, sorrindo com afabilidade, talvez para compensar os modos bruscos de que, pouco antes, usara para comigo.

 

Com todo o gosto. A senhora não pede, manda. É preciso levá-la hoje?

 

Sim, gostaria que lhe fosse entregue hoje, de facto. Vá preparar-se e, entretanto, eu vou fazendo o embrulho e escrevendo a carta.

 

Quando regressei à sala, já pronta, madame Azevedo ainda escrevia. Ao terminar, dobrou a carta, meteu-a no sobscrito e fechou-o. No mesmo instante soltou uma exclamação de pesar:

 

Valha-me Deus, Patrícia! Então não fechei eu a carta! Desculpe-me esta indelicadeza. Vou inutilizar o sobrescrito e fazer outro. Prontamente, detive-lhe o gesto e protestei:

 

Por amor de Deus! Que importância tem isso?... Não vale a pena rasgá-lo.

 

Não se ofende por ter fechado a carta? insistiu Fi-lo inadvertidamente. Sou tão distraída, por vezes.

 

Nunca dera por isso, mas, mesmo assim, afirmei:

 

Não me ofenderia por coisa tão pequena. Se a encomenda está pronta...

 

Aqui a tem disse-me, entregando-me pequeno embrulho e a carta A minha amiga mora longe, para os lados de Clichy. Vá e não se preocupe com as horas. Eu vou deitar-me um bocadinho porque me dói a cabeça e depois talvez saia e não volte antes das sete. Como vê, tem muito tempo diante de si, até pode dar uma volta pelos boulevards.

 

Despedi-me de madame Azevedo, que parecia ansiosa por me ver pelas costas, e saí.

 

Enquanto me dirigia para a mais próxima boca do metro, não podia deixar de pensar na sua atitude que, de minuto a minuto, me parecia mais estranha.

 

Iria jurar que fechara a carta de propósito, mas porquê? Recearia ela que eu a lesse? Nunca lhe tinha dado motivos para me supor capaz de semelhante indelicadeza. Qual seria então a causa dessa desconfiança? A carta recebida nessa manhã teria qualquer referência desagradável a meu respeito? Mas quem poderia escrevê-la, se eu não conhecia ninguém em Paris, excepto madame Julien e a irmã e essas, menos do que ninguém, desejariam prejudicar-me no ânimo daquela que me tinha acolhido por indicação de ambas.

 

Sempre preocupada com o mistério, cheguei à morada indicada.

 

Fui recebida por uma senhora de certa idade, bastante simpática, de tipo muito fino, que me acolheu com marcada afabilidade. Entreguei-lhe a encomenda e a carta. Quando começou a lê-la, ergueu a vista e olhou-me com espanto. Depois continuou a leitura. Fiquei ainda mais intrigada.

 

Sentia como que um nevoeiro invisível apertar-se em volta de mim, um nevoeiro carregado de mistério e ameaças, para além do qual eu não conseguia enxergar coisa alguma.

 

A atitude de madame Melville assim se chamava a senhora o seu evidente espanto, assustava-me. Como podia eu adivinhar que a sua estranhesa provinha de madame Azevedo lhe pedir, na carta, que me prendesse de forma que eu não regressasse a casa antes das sete?

 

E, satisfazendo esse desejo, convidou-me para tomar chá com ela e, apesar das minhas desculpas, insistiu tanto que seria indelicadeza recusar. Depois conversámos e, começando a falar de livros, madame Melville quis mostrar-me a sua biblioteca que era grande e das mais escolhidas.

 

Entusiasmei-me e o tempo foi passando sem eu dar por isso.

 

Quando, por acaso, olhei para o relógio e vi que já passava das seis, sobressaltei-me.

 

É tardíssimo! Como pude esquecer as horas a este ponto!

 

A sua exclamação é muito lisongeira para mim! comentou a dona da casa Demonstra que se sente bem na minha companhia, minha amiguinha.

 

Não podia sentir-me melhor e não sei como agradecer-lhe todas as atenções que me dispensou.

 

Não me agradeça. Simpatisei imenso consigo e espero vê-la mais vezes em minha casa. Quando tiver um bocadinho livre, venha até cá porque me dará muito gosto. Acredite que lho digo sinceramente. Até breve, sim?

 

Agradeci-lhe novamente, prometi voltar a visitá-la e despedi-me. Com esta troca de amabilidades, mais tempo passou e quando, finalmente, consegui sair de sua casa, já passava das seis e meia.

 

Regressei sem dar a volta aconselhada por madame Azevedo, volta que, de facto, me tentava. Mas já era tarde e não podia ceder a tentações.

 

Nova surpreza me aguardava. A minha patroa recebeu-me com ar sorridente, quase alegre, numa disposição completamente oposta à que apresentara depois do almoço.

 

Passaram-lhe as dores de cabeça? inquiri com involuntária ironia Vejo-a tão bem disposta agora, quando a deixei tão enervada... facto bem raro em si. Garanto-lhe que, até este momento, me senti bastante preocupada, receando que estivesse doente.

 

Soltou uma gargalhada, coisa que muito me admirou, pois nunca fora muito dada a tais expansões.

 

Esse ”agora” é revelador! Quer dizer que esta tarde, quando saiu, me achou rabugenta?... Tem razão, estava mal disposta, mas já passou. No entanto, na sua atitude notava qualquer coisa de estranho, de diferente, que não sabia definir.

 

Então como achou a minha amiga? perguntou.

 

Muito simpática e agradável. A conversar com ela perdi a noção das horas.

 

E descrevi-lhe a visita.

 

Tem razão concordou madame Melville é boa pessoa e muito culta. Se continuarmos juntas, iremos lá mais vezes.

 

Se continuarmos juntas! exclamei assustada Tenciona mandar-me embora?

 

E senti que empalidecia.

 

Não, não! Não se aflija. Mas esta tarde, enquanto estive sozinha porque afinal não cheguei a sair pensei muito em si e na conversa que há dias tivemos. Recorda-se dela?

 

Muito bem... mas...

 

Por que não segue o meu conselho, Patrícia atalhou, sem me deixar continuar e não escreve à sua família?... Não, não proteste acrescentou, prevendo a minha negativa Já pensou que, mesmo se eles desejassem ser os primeiros a fazê-lo ou mesmo procurá-la, não tinham a mais pequena indicação que os guiasse?

 

Sim... nesse ponto tem razão concordei Mas quem lhe diz que pensam em escrever-me?... Quanto a procurar-me, julgo isso impossível. Meu avô e minha tia, embora estejam vivos, já não têm idade para empreender uma viagem. Só se fosse...

 

Eu, não é verdade, Patrícia? proferiu atrás de mim uma voz masculina que logo reconheci.

 

Voltei-me de chofre e vi Luís Guilherme no limiar da porta.

 

Corri para ele, caí-lhe nos braços e depois não me recordo de mais nada, porque perdi os sentidos.

 

Quando voltei a mim, estava encostada às almofadas do sofá. O Luís Guilherme tinha o braço em torno dos meus ombros e madame Azevedo humedecia-me as fontes com uma toalha molhada.

 

Abri os olhos e sorri-lhes.

 

Então que foi isso, Patrícia? É assim que recebe o seu primo? Não a sabia tão pouco corajosa. Que vergonha!

 

Sentei-me e passei a mão pela testa. Tudo aquilo me parecia um sonho. Seria possível que o Luís Guilherme estivesse ali, junto de mim? Era como se, de repente, todo o meu passado ressurgisse, enchesse a sala e me arrebatasse nos seus laços poderosos. As perguntas atropelavam-se-me nos lábios. Olhei para o meu primo e só então reparei que trajava de preto.

 

Estás de luto, Luís Guilherme? perguntei aflita A tia Céu...

 

Abanou a cabeça.

 

Então foi o avô?

 

Foi sim, mas não te apoquentes. Não quero ver ensombrado por nuvens de tristeza o instante em que de novo nos reunimos.

 

Como conseguiste encontrar-me? perguntei.

 

Ao morrer, o teu avô pediu-me para te procurar, mas eu não sabia como fazê-lo, por não ter o mais pequeno indício que me guiasse. Felizmente, a avó lembrou-se de que talvez a tua sogra, cuja direcção tu lhe tinhas indicado, pudesse informar-me. Fui a Lisboa, a sua casa, e por ela soube a tua morada em Paris. Parti imediatamente, procurei a morada indicada, falei com a porteira que me mandou para aqui. Escrevi a madame Azevedo, pedindo-lhe para me receber, pois não desejava aparecer-te de surpresa. E aqui tens como as coisas se passaram.

 

Compreende agora a minha emoção ao receber, esta manhã, a carta de seu primo? atalhou a dona da casa Aqui a tem. Leia-a e depois diga-me se não tinha razão para ficar sobressaltada.

 

Eis o teor do bilhete:

 

”Madame

 

”Perdoi-me a ousadia de lhe escrever. Não me conhece nem o meu nome lhe diz coisa alguma. No entanto, atrevo-me a pedir-lhe que me conceda a honra de me receber em sua casa, durante alguns momentos. Não o faria se não se tratasse de assunto de máxima importância para mim e relacionado com a senhora que presentemente vive consigo e de quem sou primo. Pedia-lhe ainda, como especial favor, para guardar segredo da minha visita e afastar minha prima de modo que não esteja presente quando for a sua casa.

 

”Receio que me classifique de importuno e exigente e do coração lhe peço mil perdões.

 

”Amanhã, às quatro horas, irei visitá-la, esperando da sua bondade que me acolha.

 

”Com toda a consideração, apresento-lhe os meus mais respeitosos cumprimentos.

 

Luís Guilherme de Melo e Sousa”

 

Já vê. Ao ler essa carta, que me dava margem às mais estranhas suposições, não consegui evitar certa desconfiança a seu respeito. Perdoi-me, Patrícia. Fui injusta, bem sei, tanto mais que o seu procedimento nunca me deu motivos para isso, mas nós somos assim feitos, mais prontos a pensar o mal, a despeito de todas as aparências. Daí a causa do meu nervosismo. Irritava-me comigo própria, censurava-me pelos maus pensamentos que me assaltavam, mas não conseguia evitá-los.

 

Por isso me mandou a casa da sua amiga?

 

Com uma carta, pedindo-lhe para a prender lá até tarde. Perdoa-me o estratagema, não é verdade?

 

Perdoar-lhe o quê?... As suas desconfianças foram muito naturais e admissíveis, tanto mais que pouco sabia a meu respeito. Conta-me como morreu o avô, Luís Guilherme pedi, voltando-me para meu primo.

 

Não, hoje não. Já é tarde e, para comoções, já basta. Voltarei amanhã, se madame Azevedo me der licença e então saberás tudo.

 

Sim, venha amanhã jantar connosco para poderem conversar à vontade. Está combinado?

 

Luís Guilherme aceitou o convite e depois despediu-se logo.

 

Então que me diz à surpresa? perguntou madame Azevedo quando ficámos sozinhas O seu primo é muito simpático e deve ser excelente rapaz. É casado?

 

Creio que não respondi, corando.

 

Nessa noite conversámos muito. Considerando-a mais como amiga do que como patroa, contei-lhe toda a minha vida e, por vezes, ao evocar esse passado tão doloroso, principalmente quando lhe falei no meu pequenino Paulo, chorei e fi-la chorar. Não lhe ocultei coisa alguma, nem mesmo a desgraçada morte do Cláudio.

 

Passava da meia-noite quando terminei.

 

Felizmente, os seus trabalhos acabaram comentou quando me calei Vai regressar ao seu país e a sua casa e em breve esquecerá tudo quanto sofreu. Já pagou o seu tributo e bem pesado. Se todos nós temos o nosso quinhão de sofrimento, uma taça de fel a esgotar, a sua já deve estar esgotada até à última gota e já conquistou o direito a ser feliz. E por hoje, basta. Vá descansar. Desejo-lhe lindos sonhos concluiu, beijando-me na testa.

 

Um sonho me parece tudo isto. Chego a ter medo de acordar murmurei, retribuindo-lhe o beijo.

 

Nessa noite dormi mal, apesar de no meu espírito reinar uma calma, uma espécie de euforia como não experimentara havia muito tempo... talvez desde o primeiro dia em que tinha encontrado o Cláudio, porque, desde essa data, nunca mais tive sossego.

 

O dia seguinte veria uma nova Patrícia, não a Patrícia de outros tempos, porque essa tinha morrido definitivamente. Por muito igual que seja a nossa vida, a hora que vem nunca será idêntica à que passa porque, a cada momento, os nossos pensamentos variam e são diferentes os fios que o imponderável tece em volta de nós. Mas veria uma Patrícia feliz, com família, com lar, com um futuro diante de si e - para que não confessar - com sonhos loucos delineando-se no horizonte.

 

Mas quando acordei, de madrugada excitada e febril, perguntava a mim mesma se teria sido tudo um sonho e, de facto, nessa tarde veria o Luís Guilherme e em breve voltaria a Portugal, à minha casa, à quinta, aos deliciosos recantos onde tinham decorrido alguns anos da minha vida, cujos encantos eu não apreciara então e agora me apareciam mais aliciantes do que nenhuns, aureolados pela saudade e pela distância.

 

Porque será que, quando os dedos férreos da desventura nos agarram ou a adversidade nos colhe nas suas rodas e nos leva sempre mais para baixo, nós aceitamos imediatamente a triste realidade e, revoltados uns, outros resignados, todos nós nos submetemos ao inevitável. Mas quando na noite da nossa tristeza fulgem as estrelas ou no dia carregado de sombrias nuvens o sol brilha e a tempestade parece afastar-se, duvidamos, como que recuamos assustados, julgamos sonhar, isto é, somos mais prontos a aceitar o sofrimento e a dor, do que a alegria. Porquê ?

 

Talvez por sentirmos, inconscientemente, que a cruz imposta é aquela que merecemos pelas nossas acções e pensamentos ou o sacrifício necessário para nos moldar o espírito, e consideremos o bem como dádiva inesperada, concedida pela misericórdia de Deus e não alcançada pelos nossos méritos.

 

Sim, devia ser esse o meu sentir. Por um lado, pensava que o castigo tinha, finalmente, terminado; por outro, receava não ter ainda espiado bastante os meus erros, temia que as risonhas perspectivas, rasgadas no meu sombrio horizonte pelo súbito aparecimento do Luís Guilherme, não fossem mais do que ligeira trégua, breve paragem concedida pelo destino para me dar tempo a recuperar as forças e reunir energias contra novos golpes.

 

Depois, já extenuada, consegui, por fim, adormecer, com um sono pesado, sem sonhos, que me proporcionou o repouso exigido pelos meus pobres nervos, submetidos, naquele dia, a constante tensão.

 

De manhã, mal abri os olhos, o meu primeiro pensamento foi para o meu primo.

 

”Vou vê-lo hoje... daqui a algumas horas pensei.

 

E, radiante, saltei da cama e comecei a vestir-me, supondo ser tardíssimo quando, afinal, pouco passava das oito.

 

Pouco depois, a criada batia leve pancada na porta.

 

Trazia-me o pequeno almoço que madame Azevedo ordenara me servisse no quarto, atenção que, por vezes, sabendo-me indisposta, tivera comigo e naquela manhã muito me agradou porque me deu tempo a preparar-me com todo o vagar e, por que não confessar, com uma pontinha de garridice.

 

Quando entrei na salinha onde a dona da casa se encontrava, olhou para mim e sorriu:

 

A felicidade fica-lhe bem, Patrícia. Como vem bonita! Parece uma garota de dezoito anos, aguardando ansiosa a chegada do seu apaixonado.

 

Corei e, talvez involuntariamente, manifestasse ligeira contrariedade.

 

Perdoi-me, Patrícia pediu, já arrependida do que dissera Não veja nas minhas palavras qualquer alusão ao passado. Fui irreflectida e magoei-a sem querer. Vai considerar-me indigna das suas confidências.

 

Por forma alguma, acredite. O passado não volta e bem louca seria se alimentasse qualquer esperança. O Luís Guilherme gostou sinceramente de mim e eu desprezei-o, fui ingrata e ele, como seria justo, por certo me esqueceu. Procurou-me a pedido do avô e porque me estima, não duvido, mas como se fosse sua irmã. Talvez até já tenha noiva.

 

Porque mentimos a nós mesmas? Porque afirmam os lábios precisamente o contrário do que sente o coração?... Queremos talvez, materializando os factos em palavras, afirmar uma convicção que não existe, lançá-las com todo o seu peso no prato da balança, na luta travada entre a nossa razão e as loucas aspirações que alimentamos, desejando, no entanto, que a vitória pertença às últimas.

 

Somos como as crianças que, ao verem numa montra um brinquedo que sabem não poderem alcançar, mas que ardentemente desejam, dizem: ”É feio, não gosto dele. Mesmo que mo dessem não o queria”. Ou então tentamos convencer-nos do impossível.

 

Noiva... quem sabe?... comentou madame Azevedo?

 

Não para mim já é uma alegria imensa, como nunca poderia sonhar, voltar para junto dos meus. No entanto, não tinha que me pedir perdão. As suas palavras traduziam uma aspiração, a de ver-me casada com o meu primo e feliz. E, embora essa aspiração não passe de uma fantasia, não posso deixar de lhe agradecer. Não sou ingrata, acredite. Toda a minha vida recordarei a sua bondade e o carinho com que me acolheu.

 

Também nunca a esquecerei. Vai para sua casa e admito muito bem que nunca mais pense em voltar a Paris, que deve despertar-lhe dolorosas recordações. Sei que a perco definitivamente, mas, ao mesmo tempo, regosijo-me. Compreende-me, não é assim?

 

Muito bem e volto a agradecer-lhe.

 

E agora vou deixá-la. Seu primo deve estar a chegar e eu tenho que fazer.

 

O almoço terminara. Fui para o meu quarto e comecei a pôr as coisas em ordem na ideia da próxima partida, pois segundo meu primo dissera na véspera, em breve deixaria a França.

 

Luís Guilherme chegou perto das quatro. Corri a recebê-lo. Entrámos para a sala e, pouco depois, madame Azevedo apareceu de chapéu na cabeça.

 

Conversem à vontade. Vou sair e só volto à hora do jantar. Patrícia, mande fazer chá, não se esqueça. Não me despeço de si acrescentou, dirigindo-se a meu primo porque, conforme ontem combinámos, conto consigo para o jantar. Até logo.

 

E saiu, deixando-nos sozinhos.

 

Pedi ao Luís Guilherme que me contasse tudo.

 

Falou-me na doença da tia Céu, na tristeza do avô, da sua doença e descreveu a sua morte. Escutei-o sem o interromper, mas quando se referiu à carta, pedi-lhe para ma deixar ler.

 

Não a trago comigo respondeu Quando regressarmos a Portugal poderás lê-la, porque está piedosamente guardada. Nem eu deixaria de ta mostrar como prova de um afecto profundo em que não acreditavas. Por ela poderás verificar quanto o teu avô gostava de ti, como se arrependeu, considerando-se o principal culpado de tudo quanto aconteceu. E não soube ele quanto sofreste, minha pobre Patrícia!

 

Pobre avô! Culpado ele?... Sim, talvez um pouco, pela sua excessiva severidade, mas não pela minha cegueira e loucura. Essas mereciam o castigo que tive.

 

Deixemos o passado, Patrícia. Coisa alguma pode conseguir apagá-lo, agora. Pensemos antes no futuro. Temos muitas e graves decisões a tomar.

 

Entrego-me nas tuas mãos, Luís Guilherme. Decide tu. Quando pensas que possamos regressar a Portugal?

 

Depende das circunstâncias em que o fizermos e é precisamente nisso que desejo falar-te. Desde que conversei com madame Julien e soube da morte do teu marido, tenho reflectido muito. Esta noite quase não dormi.

 

Nem eu.

 

Calculo. As razões, porém, com certeza foram diferentes. Durante essas longas horas de insónia, tomei uma resolução e agora venho dizer-te: Num só ponto o passado pode reviver, nos projectos que os nossos formaram a nosso respeito, projectos que me eram tão queridos e nunca pude esquecer. Agora que estas viuva e livre, pergunto-te se queres ser minha mulher, Patrícia?

 

Dei um salto na cadeira e fiquei a olhar para ele com os olhos muito abertos, sem conseguir proferir palavra.

 

Então não respondes? insistiu meu primo.

 

Eu não posso aceitar o teu gesto de bondade e de compaixão consegui balbuciar Já foi muito ter-te despojado da casa que era tua, porque o avô ta deu...

 

Se consideras isso uma injustiça, casando comigo é a melhor maneira de a reparar. Mas a injusta és tu agora, Patrícia. Não se trata de qualquer dos sentimentos que supões. É uma coisa muito diferente, qualquer coisa de muito profundo que sempre viveu comigo, que nasceu nem eu sei dizer-te quando, talvez no dia em que, garoto ainda, eu te vi pela primeira vez, uma criança tímida, de olhar meigo e triste, olhar que se iluminou quando encontrou o meu. Fomos criados juntos e, enquanto tu vias em mim o companheiro de folguedos, eu já sonhava, embora inconscientemente, fazer de ti a companheira de toda a minha vida. Quando me tornei homem, esse sentimento não fez mais do que afirmar-se. Nunca to confessei antes de saíres de casa do teu avô para não supores que, escudado com a sua autoridade, eu queria imporme. Hoje, porém, nem tu já tens idade para imposições nem eu desejo que o passado ou a tua situação possam influir nas tuas decisões. De resto, tens o teu futuro assegurado, não dependes de ninguém. Portanto, é ao teu coração, só a ele que me dirijo. Quero-te hoje como sempre te quis e venho oferecer-te o apoio da minha ternura sincera para caminharmos unidos pela vida fora até que chegue a nossa hora e Deus nos separe. Queres?

 

Estendi-lhe as mãos que ele apertou entre as suas.

 

Como és bom, Luiz Guilherme! E como sou feliz, como agradeço a Deus por me ter conservado o teu amor! No fundo, talvez o meu coração sempre te pertencesse, também. O resto não foi mais do que uma espécie de embriaguez que me toldou o cérebro e me arrastou a todas as loucuras, embriaguez que depressa se dissipou e da qual logo me arrependi, Sim, serei tua mulher e nunca me cansarei de dar graças ao céu e de abençoar este minuto que nos une para sempre. A minha vida pertence-te. Faz de mim o que quizeres.

 

Uma esposa feliz e respeitada e uma mãe ditosa.

 

Mãe! Não pude evitar que a recordação do meu Paulo anuviasse a minha alegria e as lágrimas chegaram-me aos olhos. Luís Guilherme adivinhou o que se passava em mim e, apertando-me a mão, beijou-a

 

Perdoa-me, Patrícia. Sem querer, avivei o teu desgosto, mas o júbilo que me causou a certeza da realização daquilo que sempre ambicionei, tornou-me involuntariamente cruel.

 

Eu sei que não o fizeste por mal. Falemos de outro assunto, sim?

 

Tens razão. Compreendes agora o motivo por que te afirmei depender o nosso regresso das circunstâncias em que o fizéssemos? Não sabia como responderias ao meu pedido e, conforme essa resposta, eu decidiria. Se estiveres de acordo, casaremos antes do regresso a Portugal o que, necessariamente, vai demorar a nossa partida.

 

O resto da tarde passamo-la fazendo projectos. Eu tinha vinte e quatro anos, o Luís Guilherme quase trinta, mas, pelo nosso alvoroço, dir-se-ia termos ambos menos de vinte.

 

Tão entusiasmados estávamos que não demos pelas horas e ficamos muito admirados quando madame Azevedo entrou na sala.

 

Boa noite!... Ainda aqui estão? exclamou Supus que tivessem ido dar uma volta. Pode mandar servir o jantar, Patrícia. Vou tirar o chapéu e volto já.

 

Pouco depois, já sentados a mesa, interrogou-nos sobre os nossos projectos.

 

Quando tencionam partir para Portugal?... Muito breve, calculo.

 

Luís Guilherme sorriu e, antegozando a sua surpresa, demorou um pouco a resposta. Por fim, declarou:

 

Não sabemos ainda. Depende da maior ou demora em cumprir certas formalidades indispensáveis. A Patrícia e eu combinamos partir só depois de casarmos e isso vai demorar muito o nosso regresso.

 

Bravo! exclamou madame Azevedo com evidente alegria Adivinhei ou não, Patrícia?... Tem de concordar que sou boa profetiza. Não sei porquê, mas alguma coisa me dizia que o coração de seu primo não mudara e ainda lhe pertencia. Mas não compreendo como o casamento pode ser obstáculo ao vosso rápido regresso a Portugal.

 

Sim, já há pouco me disseste o mesmo confirmei eu e também não compreendi.

 

Porque nem uma nem outra reflectiu bem no assunto. Esqueces que, para casar segunda vez, Patrícia, tens de apresentar a certidão de óbito do teu primeiro marido?... E, para a obter, terás de provar que o José Martins, que foi ferido pela polícia e morreu no hospital, era o Cláudio Nunes com quem estavas casada?

 

É isso concordámos ambas. Profundamente desanimada, curvei a cabeça e murmurei em voz sumida:

 

Como prová-lo! Isso é impossível! Eu própria forjei as cadeias que hão-de prender-me toda a vida.

 

Madame Azevedo não dizia nada, mas olhava-me com profunda tristeza. Por certo pensava como eu.

 

Impossível, não. Não vale a pena desanimares protestou meu primo Vai levar muito tempo e ainda mais porque desejo evitar o escândalo e não quero que o teu nome seja envolvido no caso, se tiver de ser falado nos jornais. Felizmente, tenho boas relações no consulado, pessoas amigas que, por certo, não se recusarão a auxiliar-me. Mais um pouco de paciência e ficarás livre... para seres presa com outras cadeias.

 

Que nunca me pesarão e sempre abençoarei afirmei com as lágrimas nos olhos.

 

E eu vou dar-lhe uma carta de recomendação para o Prefeito da Polícia de quem sou velha amiga declarou madame Azevedo Tenho a certeza de que, a meu pedido, fará tudo quanto puder para o auxiliar a resolver o assunto. Quanto à Patrícia, escusado será dizerlhes que as suas obrigações para comigo cessaram. Mas, se quiserem dar-me esse prazer, ficará comigo até casar, como se fosse minha filha.

 

Levantei-me e fui abraçá-la. Era o primeiro dia, desde que abandonara a casa do meu avô ou talvez mesmo antes, que me sentia tão acarinhada, tão confortada, verdadeiramente feliz.

 

Uma rajada forte varrera todas as nuvens, o céu apresentava-se radiosamente límpido. Só ao longe, pequena nuvem negra se mostrava mais teimosa, a perspectiva das dificuldades que surgiam para poder casar de novo, nuvem que só se desvaneceria quando me visse para sempre unida ao Luís Guilherme.

 

Mas Deus, até ali, mostrara-se tão clemente, tão generoso, que seria pecado desesperar.

 

O meu futuro marido também lhe agradeceu calorosamente. Conversámos até tarde. Por fim, Luís Guilherme despediu-se para recolher ao hotel e nós duas ficamos ainda algum tempo trocando impressões, fazendo projectos.

 

Quando me deitei, adormeci logo e posso dizer que, em toda a minha vida, poucas noites dormi tão bem.

 

No dia seguinte, o Luís Guilherme iniciou imediatamente as suas deligências para conseguir obter a certidão de óbito do Cláudio. As dificuldades com que esbarrou foram tremendas, como calculava, mas, felizmente, tudo acabou por se resolver. O testemunho de madamejulien, a minha porteira, que identificou o retrato de José Martins como sendo o do Cláudio e, principalmente, o passaporte e outros documentos de identificação que ele nunca levava consigo por usar nome falso, e eu guardara nem sei bem porquê, tudo isso constituiu uma série de preciosos elementos para se conseguir o resultado que ambicionávamos.

 

Mesmo assim, um mês passou antes que pudéssemos casar.

 

Durante esse mês quase todos os dias saía com Luís Guilherme e então conheci Paris, aquele que, durante cinco anos, ignorara por completo.

 

Em vida do meu marido, só tomara contacto com os aspectos mais miseráveis da capital francesa, exceptuando os primeiros meses da nossa instalação. Nessa altura, se as circunstâncias tivessem sido outras, talvez a minha vida fosse mais divertida e alegre, porque o Cláudio pretendia, justamente, exibir-me. Mas como esperava o nascimento do meu filho, pouco saía.

 

Agora, pelo contrário, guiada por alguém que conhecia bem a capital da França Luís Guilherme fora diversas vezes a Paris, mal podendo supor que eu também vivia ali. Tão perto tinhamos estado e tão longe, porque o acaso nunca nos conduziu um para o outro. Se o Luís Guilherme o tivesse sabido! coube-me a vez de o conhecer sob todos os aspectos: o Paris dos museus, o Paris pitoresco, de recantos sossegados e calmos, como pequeninas aldeias, o Paris dos monumentos e o dos teatros e cabarés.

 

Finalmente, numa manhã fria e chuvosa como tinha sido a da minha fuga mas que se me afigurou radiosa, maravilhosamente linda, tão feliz me sentia, tão cheia de sol tinha a alma, casámos, primeiro no consulado e depois na igreja. Madame Azevedo acompanhou-me como se fosse minha mãe e depois ofereceu-nos um almoço de despedida, pois nessa mesma tarde partimos.

 

À despedida, abraçou-me afectuosamente e disse-me com as lágrimas nos olhos:

 

Já não fazemos a nossa viagem a Portugal, Patrícia, mas de todo o coração me regosijo com isso, por ter sido pelo motivo que foi.

 

Não fazemos a viagem juntas retorqui mas conto vê-la um dia em minha casa, um dia muito breve, sim? E, nessa altura, percorreremos o meu país como tanta vez combinámos.

 

Está dito. Irei lá para o ano respondeu a rir.

 

Não brinque, porque vou exigir-lhe uma promessa.

 

Prometo e cumprirei.

 

E, de facto, no ano seguinte veio a Portugal e esteve aqui quase todo o Verão. Percorremos então todas as terras que para ela evocavam recordações queridas, mas a maior parte do tempo passou-o na quinta que não se cansava de elogiar, afirmando que era linda e se sentia aqui muito bem. Repete-o sempre nas cartas que me escreve, afirmando-me o seu desejo de voltar.

 

O Luís Guilherme, logo no primeiro dia que me falou, escreveu à avó, comunicando-lhe a feliz notícia. No dia seguinte, quando combinamos casar, escreveu-lhe segunda carta, participando-lhe, o facto que, por certo, não foi novidade para ela. Junto, ia um bilhete meu.

 

”Querida tia dizia poderá perdoar à sua ingrata Patrícia, a esta sobrinha que em breve será sua neta e que depois de ter sofrido tanto, pode finalmente gritar: ”Agora sou feliz... feliz... feliz!”E não posso dizer-lhe mais nada. Segundo espero, em breve estaremos aí e então poderei matar, num abraço prolongado, esta sede de seus carinhos, as saudades que durante estes anos foram para mim o mais doloroso dos calvários.

 

”Até breve. Um abraço e um rosário de beijos da sua

 

Patrícia”

 

Abandonámos por fim a França, de regresso a Portugal que de longe me sorria. E quando desci na estação do Rossio, quando me convenci de que, finalmente, pisava o solo da minha pátria, senti o desejo de ajoelhar e beijar o chão. Ria e chorava, os meus nervos vibravam, sentia-me tonta como se o perfume subtil que pairava no ar fosse um vinho capitoso que me embriagasse. O meu marido sorria comovido e eu sentia que me compreendia, vibrava comigo e comungava na mesma alegria.

 

Passámos alguns dias em Santarém, em casa da tia Céu, agora minha avó, cuja comoção, ao ver-me, foi tão profunda que, por momentos, nos assustou.

 

Mais tarde consegui convencê-la a vir viver connosco. Ainda aqui esteve dois anos e morreu feliz, tendo ainda assistido ao nascimento da bisneta, a minha querida Maria Helena.

 

A história acaba aqui, minha Lena. É uma história verdadeira, mas, quando a leres, por certo adivinharás quem são as fadas, os anões e os gigantes que te prometi. Também encontrarás uma menina do Chapelinho Encarnado que, desprezando os sensatos conselhos da avó, foi cair na guela do lobo.

 

Talvez não te agrade e, pelo contrário, como disseste há dias, te aborreça e não chegue a despertar-te interesse.

 

Mas atende, minha filhinha adorada, este caderno pode comparar-se a certas caixas onde as pessoas de idade gostam de guardar objectos sem importância, ninharias que lhes recordam sorrisos e lágrimas, alegrias e sofrimentos, farrapos da vida, enfim.

 

Um dia, essa pessoa morre e os que ficam encontram a caixa, abrem-na, olham para o seu conteúdo com irónica compaixão e acabam por despejar tudo no fogão.

 

Eu também encerrei neste caderno todas as minhas recordações: os meus erros, curtas alegrias, prolongados sofrimentos, anos de amargura e dor.

 

Se, ao leres as primeiras páginas, não conseguires evitar desdenhoso encolher de ombros, paciência. Mas, pelo menos, não o deites para o fogão. Fecha-o devagarinho para que não se evole o perfume do passado que as suas páginas encerram. E guarda-o. Pode ser que, mais tarde, voltes a lê-lo e lhe encontres algum encanto.

 

E depois... vou dizer-te uma coisa...

 

Ontem, precisamente, quando acabava de poisar a caneta, meu marido entrou na sala.

 

Viu-me fechar o caderno e, a sorrir, perguntou:

 

Então a tua história está pronta? Acabou-se?

 

Chegou ao fim, é verdade, mas não acabou.

 

Mau, não te compreendo. Estás sibilina. Chegou ao fim e não acabou?

 

É verdade. Esta história chegou ao fim, mas a vida continua, é uma roda que nunca pára, está sempre a girar.

 

Isso não é novo, minha tonta! replicou com indulgente sorriso Acabas de enunciar uma verdade tão velha como o Mundo. O que digo eu? Uma verdade eterna!

 

Então já vês. O... nosso Jorge e a Lena também terão a sua história, eu sei.

 

E permita Deus que não seja tão triste como a minha.

 

Uma história triste que acabou bem.

 

Graças ao bom gigante. Mas ainda não é tudo. Não se trata só do Jorge e da Lena. Haverá mais alguém.

 

Quem?

 

Esbocei um gesto vago e corei.

 

Luís Guilherme compreendeu, por fim. Pôs-se de pé, poisou-me as mãos nos ombros, mergulhou nas minhas as suas pupilas escuras, ternas e graves e exclamou:

 

Será verdade, Patrícia... tu?

 

É verdade, sim, vais ter um irmãozinho ou uma irmãzinha, minha Lena. E a vida continua.

 

                                                                                Leyguarda Ferreira  

 

                      

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