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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O CAPITÃO E O INIMIGO / Graham Greene
O CAPITÃO E O INIMIGO / Graham Greene

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O CAPITÃO E O INIMIGO

 

Tenho agora vinte e dois anos, mas o único aniversário que consigo distinguir claramente entre todos os outros é o décimo segundo, pois foi nesse dia húmido e enevoado de Setembro que conheci o Capitão. Ainda me lembro da humidade do cascalho, no pátio da escola, por baixo das minhas sapatilhas de ginástica e de como as folhas assopradas pelo vento torna vam escorregadios os claustros perto da capela enquanto eu fugia imprudentemente dos meus inimigos, entre duas aulas. Resvalei e detive- me abruptamente enquanto os meus perseguidores se afastavam assobiando, porque ali, no meio do pátio, estava o nosso temível director a falar com um homem alto de chapéu de coco, uma visão rara já nessa altura, de modo que parecia um pouco um actor em trajo de cena - uma impressão que não era muito errada, pois nunca mais o vi de chapéu de coco. No topo da colina, trazia uma bengala ao ombro como um soldado de espingarda. Eu não fazia ideia de quem seria, nem sabia, é claro, que na noite anterior, segundo ele disse, me ganhara num jogo de gamão com o meu pai.

Escorreguei tanto que aterrei sobre os joelhos aos pés dos dois homens, e quando me levantei o director olhava-me friamente por baixo das sobrancelhas grossas. Ouvi-o dizer:

- Penso que é este que deseja: Baxter Três. #lÉs o Baxter Três?

- Sim, senhor - respondi.

O homem, que eu nunca cheguei a conhecer por outro nome mais permanente do que Capitão, disse:

- O que é que significa Três?

- Ele é o mais novo dos três Baxters - respondeu o director -, mas nenhum deles é aparentado.

-Isso coloca-me numa situação embaraçosa - disse o Capitão. - Qual deles é o Baxter que eu quero? O primeiro nome, por mais improvável que pareça, é Victor. Victor Baxter. - os dois nomes não combinam muito bem. Aqui não temos muito tempo para nomes próprios. Chamas-te Victor Baxter? - perguntou-me o director rispidamente.

- Sim, senhor - respondi, após alguma hesitação, pois não tinha grande vontade de admitir um nome que tentara, sem grande êxito, esconder dos meus colegas. Sabia muito bem que Victor, por qualquer razão obscura, era um nome inaceitável, como Vincent ou Marmaduke. Bom, então suponho que este é o Baxter que pretende. A tua cara precisa de ser lavada, rapaz.

A moralidade austera da escola impedia-me de dizer ao director que eu tivera a cara lavada até os meus inimigos a terem salpicado com tinta. Vi o Capitão observando-me com uns olhos castanhos, amistosos, e, pelo que mais tarde ouvi dizer, inconstantes. Tinha o cabelo de um preto tão escuro que bem podia ser pintado, e o nariz, comprido e estreito, fazia-me lembrar um par de tesouras ligeiramente abertas, como se o nariz se estivesse a preparar para aparar o bigode militaresco imediatamente por baixo. Pensei que me tinha piscado o olho, mas nem quis acreditar. Segundo a minha experiência, os adultos não piscavam o olho, excepto uns aos outros.

- Este cavalheiro é um antigo aluno, Baxterdisse o director. - E do tempo do teu pai, segundo me diz.

- Sim, senhor. Pediu-me licença para te levar a passear esta tarde. Trouxe-me uma carta do teu pai, e como hoje não têm aulas à tarde não vejo razão para não dar o meu consentimento. Mas tens de estar de volta na tua residência às seis. Este senhor compreende isso.

- Sim, senhor director.

- Podes ir.

Virei costas e principiei a caminhar em direcção à aula, para a qual já estava atrasado.

- O que eu queria dizer é que podes ir com este senhor, Baxter Três. A que aula faltas?

- Relígias. Ele quer dizer Religião - disse o director ao Capitão. Olhou irado para a porta do outro lado do pátio, da qual emergiam sons selvagens, e afastou a capa preta para trás do ombro. - Pelo que oiço, não perdes muito se não fores.

Com grandes passos abafados, dirigiu-se para a porta. As botas - usava sempre botas - não faziam mais barulho do que chinelos de quarto.

- O que é que se passa ali dentro? - perguntou o Capitão.

- Acho que estão a chacinar os amalecitas - respondi.

- És amalecita?

 - Sou. Então é melhor irmo-nos embora.

Ele era um desconhecido, mas não senti nenhum medo. Os desconhecidos não são perigosos. Não tinham o poder do director ou dos meus colegas. Um desconhecido não é permanente. É fácil uma pessoa ver-se livre de um desconhecido. A minha mãe morrera havia alguns anos - nem nessa altura podia ter dito quantos tinham passado; o tempo passa a um ritmo muito diferente quando se é criança. Eu vira-a no seu leito de morte, pálida e tranquila, como uma figura numa sepultura, e quando ela não reagiu ao meu beijo formal na testa apercebi-me, sem grande choque doloroso, de que ela fora juntar-se aos anjos. Nessa altura, antes de andar na escola, o meu único medo era o meu pai, que, segundo a minha mãe me contava, havia muito aderira ao grupo de oposição do local para onde ela fora agora. "O teu pai é um demónio", gostava de me dizer, e os seus olhos perdiam o fastio habitual e iluminavam-se de repente, por um momento, como um fogão a gás.

O meu pai, lembro-me bem, veio ao funeral vestido de preto dos pés à cabeça; tinha uma barba a condizer com o fato, e eu procurei-lhe a cauda por baixo do casaco, mas não vi nada, embora isto não me tivesse tranquilizado muito. Não o vira muitas vezes antes do dia do funeral, nem depois, pois raramente vinha a minha casa, se se podia chamar casa ao apartamento numa vivenda geminada chamada The Laurels, perto do Parque de Richmond, para onde fui viver depois da morte da minha mãe. Penso que foi na refeição que se seguiu ao funeral, que ele encheu a irmã da minha mãe de xerez até ela prometer abrigar-me durante as férias.

A minha tia era uma mulher agradável, mas bastante enfadonha e, como é compreensível, nunca se casou. Também ela, nas poucas ocasiões em que falava dele, se referia ao meu pai como o Demónio, e comecei a sentir por ele um nítido respeito, embora o temesse, pois ter um demónio na família era, afinal, uma espécie de distinção. Um anjo aceita-se confiadamente, mas o Demónio, nas palavras do meu livro de orações, "vagueia pelo mundo como um leão enfurecido, coisa que me fazia pensar que talvez fosse por essa razão que o meu pai passava muito mais tempo em África do que em Richmond. Agora que se passaram tantos anos, começo a perguntar-me se ele não teria sido um bom homem, à sua maneira, coisa que hesito dizer do Capitão, que me tinha ganho ao gamão, segundo ele dizia.

- Onde vamos agora? - perguntou-me o Capitão. - Não esperava que fosses libertado com tanta facilidade. Pensei que houvesse uma quantidade de papéis para assinar. Segundo a minha experiência, há quase sempre papéis para serem assinados. Ainda é cedo para almoçar - acrescentou.

- quase meio-dia - disse eu.

Pão com doce e chá às oito da manhã deixavam-me sempre com fome.

- O meu apetite só começa à uma, mas a sede chega sempre pelo menos meia hora antes. No entanto, meio-dia está bem para mim, mas tu és muito novo para ir a um bar. - Olhou para mim de alto a baixo. - De certeza que não te deixariam entrar. Até és pequeno para a idade.

- Podemos ir passear - sugeri sem entusiasmo, porque os passeios eram obrigatórios na escola, aos domingos, e geralmente implicavam a chacina de alguns amalecitas.

- Para onde?

- Temos a High Street, ou o jardim público, ou o castelo. Parece que me lembro de ver, quando vinha da estação, um bar chamado Swiss Cottage. Sim, perto do canal. Julgo que posso confiar em que fiques cá fora à espera enquanto eu engulo um gim tónico. Não demoro nada.

No entanto, esteve lá dentro durante meia hora, e agora penso, com a sabedoria da idade, que deve ter engolido pelo menos três.

Entretive-me perto de um depósito de madeira e observei as algas verdes do canal. Senti-me muito feliz. Não estava nada espantado com a vinda do Capitão - aceitei o facto. Acontecera como um dia bonito entre duas semanas de chuva. Acontecera porque acontecera. Perguntei a mim mesmo se seria possível construir uma jangada com as tábuas do depósito e navegar nela até ao mar. É claro que um canal não é um rio, mas certamente que um canal tinha de acabar num rio, pois vivíamos - pelo que percebi das aulas de geografia - numa ilha e os rios acabam sempre por desembocar no mar. Podia-se fazer uma vela com a minha camisa, mas também havia a questão das provisões para uma viagem longa.

Estava mergulhado nos meus pensamentos quando o Capitão saiu do Swiss Cottage e me perguntou de repente:

- Tens algum dinheiro?

Contei o que restava da minha última semanada, que era sempre paga pelo encarregado da minha residência aos domingos. - talvez porque nesse dia as lojas estavam sempre fechadas e fora do alcance da tentação; nem a pastelaria da escola estava aberta ao domingo. Ele não se apercebia da oportunidade que o domingo oferecia para se fazer operações financeiras complicadas: para o pagamento de dívidas, para se arranjar empréstimos forçados, para se fazer cálculos de juro e para a comercialização de bens não desejados.

- Três xelins e três dinheiros e meio - disse ao Capitão. Não era uma quantia assim tão pequena nesses dias antes do sistema decimal, na altura em que o dinheiro ainda era relativamente estável. O Capitão voltou a entrar no bar e eu comecei a reflectir sobre qual das moedas estrangeiras iria precisar de levar comigo na viagem. Cheguei à conclusão de que as moedas de oito reales seriam as mais práticas.

- O homem não tinha troco - explicou o Capitão quando voltou.

Nessa altura ocorreu-me que ele talvez tivesse ficado sem dinheiro. Mas quando me disse "E agora, um bom almoço no Swan Inn", convenci-me de que estava enganado. Nem a minha tia me tinha levado alguma vez ao Swan Inn: chegava sempre à escola com sandes feitas em casa, embrulhadas em papel vegetal, e com um termo cheio de leite quente. "Não confio em refeições preparadas por desconhecidos", dizia-me frequentemente. E acrescentava: "E pelos preços que cobram nos restaurantes, vê-se que não são refeições honestas. "

O bar do Swan Inn estava cheio quando chegámos, e o Capitão instalou-me a uma mesa num anexo que, aparentemente, fazia de restaurante e por isso a lei permitia que me sentasse ali. Vi-o trocar algumas palavras com o estalajadeiro, e a sua voz explícita e autoritária atravessou o burburinho do bar.

- Dois quartos individuais para passar a noite - ouvi-o dizer. Por um momento, perguntei a mim mesmo quem iria juntar-se a ele, mas o meu espírito deambulou para coisas mais interessantes, pois nunca na vida estivera num bar e sentia-me fascinado. Toda a gente ali tinha tanta coisa para dizer e todos pareciam estar de bom humor! Pensei na jangada e na longa viagem que planeara, e pàrecia-me que tinha chegado ao outro lado do mundo, à cidade romântica de Valparaíso, e que estava na pândega com marinheiros estrangeiros que tinham atravessado os sete mares. É um facto que estavam todos de colarinho e gravata, mas talvez fosse preciso uma pessoa vestir-se convenientemente para ir a terra, em Valparaíso. Aminha imaginação foi ajudada por um pequeno barril no balcão, que eu supus conter rum, e uma espada sem bainha - sem dúvida um alfange - que estava dependurado na parede sobre a cabeça do dono, a servir de decoração.

- Um gim tónico duplo para a mesa - disse o Capitão - e qualquer coisa gasosa para o rapaz.

Admirei-o por ele estar completamente em casa num lugar como este, estava à vontade em Valparaí so. O fumo do tabaco, trazido por uma corrente de ar causada por uma porta aberta, esvoaçava à volta da minha cabeça, e inspirei-o com prazer. O Capitão disse ao dono:

- Não se esquece de que tem a minha mala guardada atrás do balcão, pois não? Agradecia que a mandasse para o meu quarto. Eu e o rapaz vamos dar um passeio depois do almoço. Ora diga-me, estão a passar algum filme apropriado?

- O único filme que está em exibição - respondeu o homem - é um já bastante antigo. Chama-se A Filha de Tarzan, e não sei se é apropriado. Há uma rapariga que faz amor com um macaco, creio eu.

- Há matinée? Sim, hoje é sábado, por isso vai haver uma às duas e meia.

O Capitão veio ter comigo à mesa. Pegou na ementa e disse-me:

- Salmão fumado, para começar. Depois preferes uma costeleta de porco ou de borrego?

Foi o próprio dono que nos trouxe o que eu supus ser o gim tónico e a bebida gasosa, que se revelou ser uma laranjada. Depois de aquele se afastar, o Capitão fez-me uma pequena prelecção.

- Lembra-te de que nunca é tarde para aprender com um homem como eu, que já andou muito. Se estás com falta de dinheiro, coisa que acontece frequentemente na minha idade, nunca bebas ao balcão, a não ser que tenhas marcado quarto antes, senão pedem-te logo o dinheiro. Essa laranjada e o meu gim vão para a conta do almoço e o almoço vai para a conta do quarto. - O que ele me disse na altura não significava nada para mim. Só mais tarde pude apreciar a previdência do Capitão e ver que ele estava, à sua maneira, a tentar preparar-me para uma vida nova.

Comemos uma bela refeição, embora o salmão me tivesse feito sede, e o Capitão, quando viu o meu olhar ávido para o copo vazio, mandou vir outra laranjada.

- Temos de dar um passeio - disse ele -, nem que seja para deixar sair os gases. - Começava a perder o temor reverencial que sentia por ele e aventurei-me a perguntar-lhe:

- É capitão de navio? - Mas respondeu que não que não gostava do mar, era do exército. Ao lembrar-me do empréstimo que me pedira no Swiss Cot tage, eu estava ansioso por ver se ele teria dificuldade em pagar, mas tudo o que fez foi pegar na conta e escrever o nome e um número, que me explicou ser o número do quarto. Reparei que escreveu "J. Victor (Capt. )". Pareceu-me uma coincidência estranha que o seu apelido fosse igual ao meu nome próprio, mas ao mesmo tempo causou-me uma sensação confortável, a sensação de que finalmente tinha encontrado um parente de quem eu podia gostar - um que não era nem anjo, nem demónio, nem tia.

Após este belíssimo almoço, o Capitão começou a falar com o proprietário sobre o jantar que comeríamos a seguir.

- Queremos que seja cedo - disse. - Um rapaz da idade dele deve estar na cama às oito.

- Vejo que sabe educar uma criança.

- Tivemos de aprender da maneira mais dificil. Sabe, a mãe dele morreu.

- Ah! Tome uma aguardente, Capitão, por conta da casa. Não é fácil para um homem fazer o papel de mãe.

- Nunca recuso uma boa oferta - disse o Capitão, e um minuto depois já estavam a brindar por cima do balcão.

Ocorreu-me que nunca tinha visto ninguém menos maternal do que o Capitão.

- São horas, cavalheiros, são horas - gritou o dono, e acrescentou num tom confidencial para o Capitão: - É claro que isto não é para si, Capitão, que é hóspede do hotel. Posso dar ao seu miúdo outra laranj ada?

- É melhor não - respondeu o Capitão. - Muito gás, sabe. - Descobri com o passar do tempo que o Capitão tinha uma forte aversão aos gases. sentimento que eu compartilhava, pois à noite, no dormitório, havia demasiados colegas meus que gostavam de exibir o vigor dos seus peidos.

- Quanto a jantar cedo - disse o Capitão.

- Geralmente não servimos refeições quentes antes das oito. Mas se não se importar de comer alguma coisa saborosa e fria. - Até prefiro. Digamos um franguinho frio é uma fatia de fiambre...?

- E talvez uma saladinha verde? - sugeriu o Capitão. - Um rapaz em crescimento precisa de verduras, era o que a mãe dele sempre dizia. Para mim, bom, vivi demasiado tempo nos trópicos, onde uma salada pode significar disenteria e morte. No entanto, se ainda tiver um pouco daquela tarte de maçã.

- E um bocadinho de queijo para acompanhar?sugeriu o dono com uma espécie de entusiasmo para boas obras.

- Para mim não, à noite não pode ser - respondeu o Capitão. - São os gases, mais uma vez. Bem, agora vamos andando. Vamos dar uma vista de olhos pelos cartazes do cinema. Disse que era A Filha de Tarzan, não foi? Geralmente, sabe-se pelas fotografias cá fora se o filme é próprio para crianças. Se não for, vamos dar um passeio, e eu talvez dê um pulinho à sessão da noite quando o rapaz estiver deitado.

- Vire à esquerda, à saída, e depois é logo a uns cem metros, do outro lado da rua.

 - Até logo - retorquiu o Capitão e saímos, mas para minha surpresa virámos logo à direita.

- O cinema é por ali - disse eu.

- Não vamos ao cinema.

Fiquei desiludido e tentei tranquilizá-lo.

- Muitos dos rapazes externos já foram ver A Filha de Tarzan.

O Capitão deteve-se.

- Dou-te uma escolha - disse. - Se insistes, vamos ver A Filha de Tarzan e depois tens de voltar para a. o que foi que aquele imbecil pretensioso lhe chamou?. para a tua residência, ou então não vamos ver o filme e tu não voltas para a residência.

- Para onde vou?

- Há um comboio para Londres às três da tarde.

- Podemos ir até Londres?

- Mas quando é que voltamos?

- Não voltamos, a não ser, é claro, que queiras ver A Filha de Tarzan.

- Não tenho assim tanta vontade de ver A Filha de Tarzan. - Muito bem. É este o caminho para a estação, rapaz?

- Sim, mas o Capitão devia saber.

- Porque raio havia eu de saber? De manhã tomei outro caminho.

- Mas o director disse que é antigo aluno.

- É a primeira vez que venho a esta maldita terra.

Pôs-me a mão no ombro e eu senti bondade quando me tocou. - Quando me conheceres melhor, rapaz, perceberás que eu nem digo a verdade exacta. Tanto como tu, espero - disse.

- Mas eu sou sempre apanhado.

- Ah, tens de aprender a mentir convenientemente.

- De que serve uma mentira se é descoberta?

- Quando eu digo uma mentira, ninguém a distingue da verdade dos Evangelhos. Às vezes, nem eu sei.

Descemos uma rua chamada Castle Street, que passava pela escola, e fiquei apavorado com a ideia de que eu pudesse estar enganado e que o director viesse a correr pelo pátio com a capa aberta, como a vela de uma pinaça, e nos apanhasse aos dois. Mas tudo estava o mais sossegado possível.

Perto do Swiss Cottage, o Capitão hesitou por uns instantes, mas a porta estava fechada - o bar tinha encerrado. Um miúdo gritou-nos de uma das barcas pintadas que havia no canal - os miúdos das barcas gritavam sempre aos miúdos da escola. Eram como o cão e o gato - a inimizade era barulhenta, mas nunca chegava a morder.

- E a sua mala no hotel? - perguntei.

- Não tem lá nada a não ser um par de tijolos.

- Tijolos?

- Sim, tijolos.

- Vai-se embora sem eles?

- Porque não? Uma pessoa pode sempre apanhar alguns tijolos quando são precisos, e a mala é velha. Malas velhas com algumas etiquetas coladas inspiram confiança. Especialmente etiquetas de países estrangeiros. Uma mala nova parece roubada.

Ainda estava espantado. Afinal, eu sabia o suficiente sobre a vida para saber que, mesmo que ele tivesse um bilhete de ida e volta, teria de pagar o meu. Todo o meu dinheiro já tinha ido no Swiss Cottage para ajudar a pagar os gins tónicos que ele bebera. E depois, havia o almoço que comêramos. . . um festimnão tinha na memória nenhuma refeição que se lhe comparasse. Tínhamos quase chegado à estação quando eu disse:

- Mas não pagou o almoço, pois não?

- Valha-te Deus, rapaz! Assinei a conta. Que mais querias que eu fizesse?

- O seu nome é mesmo Victor?

- Oh, às vezes é uma coisa, outras vezes é outra. Não seria muito divertido se se andasse sempre com o mesmo nome desde que se nasce até à morte, pois não? Baxter, por exemplo. Não é o que eu chamaria um nome lindo. Já o tens há muitos anos, não é?

- Doze.

- Tempo de mais. No comboio arranjaremos um nome melhor para ti. Também não gosto de Victor, já que falámos disso.

- Mas que hei-de chamar-lhe a si?

- Chama-me Capitão, a não ser que eu te diga o contrário. Pode haver alturas em que eu quero que me chames Coronel. Pai também pode dar jeito em determinadas situações. Embora prefira evitá-lo. Eu digo-te quando surgir uma situação dessas, mas penso que em breve perceberás sozinho. Vejo que és um rapaz inteligente.

Entrámos na estação e ele não teve dificuldades em arranjar dinheiro para o meu bilhete: "Meio simples, terceira classe, para Euston". Ficámos com um compartimento só para nós e isso deu-me coragem para lhe dizer:

- Pensei que não tivesse dinheiro.

-O que é que te fez pensar semelhante coisa?

- Bem, aquele almoço todo que comemos, pelo qual o Capitão só assinou a conta, e parecia que também precisava de dinheiro no Swiss Cottage.

- Ah - disse ele -, essa é outra coisa que tens de aprender. Não é que eu não tenha dinheiro, mas preciso de o guardar para as coisas essenciais.

O Capitão instalou-se a um canto e começou a fumar um cigarro. Olhou duas vezes para o relógio. Era um comboio muito lento e, de cada vez que parávamos numa estação, sentia alguma tensão no assento da janela à minha frente. O magro e moreno Capitão fazia-me lembrar uma mola que uma vez me saltara dos dedos quando estava a desmontar um relógio velho. Em lillesden, perguntei-lhe:

- Está com medo?-

- Medo? - retorquiu espantado, como se eu tivesse empregado uma palavra que o obrigasse a consultar o dicionário. Assustado - traduzi.

- Rapaz - retorquiu -, eu nunca estou assustado. Estou alerta, é diferente.

- Sim.

Sendo um amalecita, compreendi a distinção, e senti que talvez começasse a conhecer o Capitão um pouco melhor.

 

Em Euston tomámos um táxi para uma viagem que me pareceu muito longa - nessa altura não sabia se nos dirigíamos para leste, oeste, norte ou sul. Apenas supus que esta viagem de táxi era uma das coisas essenciais para as quais o Capitão guardava o seu dinheiro. Mesmo assim, quando chegámos ao nosso destino - a um número qualquer numa rua em curva e poeirenta onde os contentores do lixo não tinham sido esvaziados - admirei-me por ele esperar que o táxi se fosse embora, seguindo-o com o olhar até estar fora de vista. Depois começámos a andar em sentido inverso durante muito tempo pelo caminho por onde viéramos. Ele deve ter sentido uma pergunta no meu silêncio e na minha obediência, porque me respondeu, embora de modo insatisfatório.

- O exercício faz-nos bem aos dois - disse-me. E acrescentou: - Sempre que tenho tempo faço um pouco de exercício.

Não podia fazer mais nada senão aceitar a sua explicação, e penso que, de certo modo, a prontidão com que a aceitei preocupou-o ligeiramente, pois, à medida que caminhávamos lado a lado, virando aqui e ali, principiou de modo casual a quebrar o silêncio, numa tentativa demasiado óbvia de iniciar conversa.

- Suponho que não te lembras da tua mãe - disse.

- Lembro-me sim, mas ela já morreu há muito tempo, sabe.

- Sim, é verdade. O teu pai disse-me

Mas nunca chegou a dizer o que foi que o meu pai lhe dissera.

Devemos ter andado pelo menos meio quilómetro

antes de ele falar outra vez.

- Tens saudades dela?

As crianças, penso eu, geralmente mentem por medo, e não parecia haver nada nas perguntas do Capitão que me fizesse ter medo dele.

- Nem por isso - respondi.

Emitiu um grunhido, o qual, segundo a minha limitada experiência, entendi como sendo uma nota de

desaprovação - ou talvez de desilusão. Os nossos

passos no passeio mediam a extensão do silêncio que

se estabelecera entre nós.

- Espero que não venhas a ser difícil - disse-me

fialmente.

- Difícil?

- Quero dizer que espero que sejas um rapaz normal. Ela ficaria desiludida se não fosses um rapaz

normal.

 - Não percebo.

- Eu diria que um rapaz normal teria saudades da

mãe.

- Eu não a conheci muito bem - disse     eu. Não tive tempo.

Deu um suspiro prolongado.

- Espero que venhas a ter - disse ele. - Espero

bem que venhas a ter.

Mais uma vez caminhou em silêncio, mergulhado

em pensamentos, e depois perguntou-me:

- Estás cansado?

- Não - respondi, mas só o disse para lhe agradar, pois eu estava cansado. Teria gostado de saber

quanto ainda tínhamos de andar.

- Ela é uma mulher maravilhosa - disse o Capitão. - Verás isso assim que olhares para ela, se tiveres algum sentido de crítica em relação às mulheres. Mas, na tua idade, como podes ter? E claro que terás de ter paciência com ela. Dar-lhe um desconto. Ela sofreu muito.

A palavra "sofrer" significava para mim, naquela altura, os salpicos de tinta na minha cara, os quais ainda lá estavam (o Capitão, ao contrário do director, não reparava nessas coisas), o sinal visível de ser um amalecita, um pária.

A razão por que me tornara um pária na escola não era nada clara para mim - devia-se em parte, talvez, ao facto de o meu nome ter transpirado, mas penso que também estava ligada à minha tia e às suas sandes, ao facto de ela nunca me levar ao restaurante, como os pais pareciam sempre fazer quando vinham visitar os filhos. Alguém andara a espiar-nos, suponho, quando nos sentávamos à beira do canal a comer sandes e a beber, nem sequer laranjada ou coca- cola, mas leite quente de um termo. Leite! Sem dúvida que alguém tinha espiado o leite. Leite era para bebés.

- Percebes o que eu estou a dizer?

Acenei afirmativamente, é claro - não podia fazer mais nada. Talvez esta mulher estranha se revelasse outra amalecita, se era verdade que sofrera. Havia mais três amalecitas na minha residência. No entanto, nunca fizemos um plano de defesa - cada um detestava o outro por ser um amalecita. Um amalecita começava eu a perceber - era sempre um solitário.

- Viramos ao fundo da rua - disse o Capitão. - Precisamos de ter cuidado.

Depois de virarmos, ele disse:

- Ganhei-te lealmente. - Não fazia ideia a que se referia. Acrescentou: - Ninguém no seujuízo perfeito tentaria enganar o teu pai. De qualquer modo, é dificil fazer batota ao gamão. O teu pai perdeu-te numa partida leal.

- Ele é um demónio, não é? - perguntei.

- Bem, suponho que pode ser descrito desse modo - replicou o Capitão -, mas só quando o enganam. - Acrescentou: - Sabes como é. Mas claro que não sabes, como é que havias de saber? Nenhuma criança se atreveria a enganá-lo.

Chegámos finalmente a uma rua onde algumas das casas tinham sido pintadas e outras estavam em processo de demolição, mas pelo menos havia contentores de lixo. As casas, como agora sei, eram vitorianas, com degraus que davam para a cave, ejanelas no sótão, quatro andares mais acima. Havia degraus que davam para as portas da frente, e algumas portas estavam entreabertas. Era como se a rua, que se chamava Alma Terrace, não tivesse ainda decidido se ia subir para o mundo ou descer. Parámos numa casa com o número 12-A, porque suponho que ninguém gostaria de viver no número 13. Havia cinco campainhas ao lado da porta, mas alguém tinha posto fita-cola sobre quatro, para mostrar que não estavam a funcionar.

- Lembra-te do que eu te disse - observou o Capitão. - Fala baixinho porque ela assusta-se com facilidade. - Mas, enquanto ele hesitava com o dedo perto da campainha que restava, deu-me a impressão, já nessa altura, que ele próprio estava um pouco assustado. Tocou uma vez, mas deixou o dedo na campainha.

- Tem a certeza de que ela está? - perguntei, pois

a casa tinha um ar desabitado.

- Ela sai pouco - disse ele -, e além disso já está

a escurecer. Ela não gosta do escuro.

Voltou a tocar com o dedo, agora duas vezes, e ouvi movimento na cave. Depois acendeu-se uma luz.

- Tenho a chave, mas gosto de a avisar. Ela chama-se Liza, mas quero que a trates por mãe. Ou mamã, se preferires.

- Porquê?

- Oh, um dia destes falamos disso. Agora não i; entender, e além disso não há tempo.

- Mas ela não é minha mãe.

- É claro que não. Não estou a dizer que é. Mãe apenas um termo genérico.

- O que é genérico?

Penso que ele tinha prazer em usar palavras difíceis - uma espécie de exibicionismo -, mas, como vi a aprender mais tarde, era mais do que isso.

- Ouve, se não estás contente podemos apanhar comboio de regresso. Chegas à escola quase a ten po. Só um bocadinho atrasado. Eu vou contigo, arranjo uma desculpa.

- Quer dizer que eu não tenho de voltar? Nem amanhã?

- Não precisas de voltar mais se não quiseres. estou a fazer-te uma pergunta.

Agarrava-me o ombro com a mão e eu sentia tremer. Ele parecia ter medo, mas eu não tinha medo nenhum. Já não era um amalecita. Estava livre do medo e sentia-me preparado para tudo, quando a porta da cave se abriu.

- Não quero voltar - disse-lhe.

 

Mesmo assim, não estava preparado para o rosto muito jovem e pálido que nos espreitou através da penumbra da cave iluminada pelos poucos uatts de úma esfera nua. Aos meus olhos, não parecia ser mãe de ninguém.

- Trouxe-o - disse o Capitão.

- A quem?

-Ao Victor. Mas acho que vamos mudar isso e chamar-lhe Jim.

Nunca me ocorrera a possibilidade de mudar o meu detestado nome assim tão facilmente, simplesmente escolhendo outro.

- O que foi que tu fizeste? - perguntou ela ao Capitão, e até eu detectei o medo que havia na sua voz.

Empurrou-me ligeiramente em direcção aos degraus da cave.

- Desce - ordenou-me. - Diz-lhe o que te disse para dizeres. E depois dá-lhe um beijo.

Dei um passo muito curto através do lintel e murmurei: "Mãe". Foi como aquele primeiro ensaio embaraçoso que eu recordava numa peça da escola, na qual me deram o papel mais insignificante, uma peça chamada Sapo da Mansão do Sapo, mas isso foi antes de alguém ter descoberto que eu era um amalecita. Quanto ao beijo, fui incapaz.

- O que foi que tu fizeste? - repetiu ela.

- Fui à escola e trouxe-o de lá para fora.

- Só assim? - perguntou.

- Só assim. Sabes, eu tinha uma carta do pai dele.

- Mas como...?

- Ganhei-o de modo absolutamente leal, Liza, juro. Não se pode fazer batota num jogo de gamão.

- Tu és a minha perdição - disse ela. - Nunca pensei que fizesses uma coisa destas.

Eu pensei. se as coisas tivessem sido de outro modo...

- Podias mandar-nos entrar e dar-nos uma chávena de chá.

- Oh, pus a chaleira ao lume assim que tocaste à campainha. Já sabia o que tu querias.

Na cozinha, ela mandou-me sentar de um modo um tanto brusco. Havia duas cadeiras duras e uma poltrona. Por isso segui o exemplo do Capitão e sentei-me numa das duras. A chaleira, no fogão, eomeçava a deitar por fora.

- Não tive tempo de aquecer o bule - disse ela.

- Não me faz diferença nenhuma - disse o Capitão, na minha opinião de um modo um tanto sombrio.

-Ai, faz, faz.

Eram-me ambos desconhecidos, mas já gostava mais deles do que da minha tia, para não falar do director, nem do Sr. Harding, o encarregado da minha residência, nem dos rapazes que eu conhecia. Eu sabia, de alguma maneira, que eles não estavam à vontade um com o outro e eu queria ajudá-los se pudesse.

- Comi um almoço excelente - disse eu.

- O que foi que ele te deu?

- Oh, só um bocadinho de peixe - disse o Capitão.

- Isso foi só a entrada - continuei - e o peixe era salmão fumado.

Eu sabia que salmão fumado era importante porque tinhã dado uma olhadela à ementa e vi o preço do salmão. Era muito mais caro do que a costeleta de porco.

- Onde é que arranjaste dinheiro para pagar isso?- perguntou ela. - Não estás assim tão folgado, pelo menos de manhã não estavas.

- Dei-lhes em troca aquela mala velha que tu me emprestaste - respondeu o Capitão.

- Aquele traste, mas aquilo não valia dois tostões furados. - Tinha lá dentro três pares de meias, demasiado esburacadas para mim, e um ou dois tijolos. O estalajadeiro ficou bastante satisfeito e até me pagou uma aguardente.

- Oh, por amor de Deus - disse ela -, senta-te e bebe o chá. O que achas que seria de mim se tu fosses preso?

- Não me tinham lá muito tempo - disse o Capitão. - Tanto quanto me tiveram lá os Hunos, e nessa altura tive de atravessar a Alemanha toda. Os Scrubs são aqui mesmo ao lado, comparado com o sítio onde eu estava.

- E tu estás vinte anos mais velho.

-  Oiçam! Tocou alguém à porta?

- Isso são os teus nervos, Liza.

- Ninguém nos seguiu, eu certifiquei-me disso. Bebe o chá e não te preocupes. Vais ver, vai tudo correr bem.

- O que é que eles vão fazer quando virem que ele não volta?

- Bem, eu deixei uma carta do pai dele ao director. É provável que ele lhe escreva, mas duvido que o velho se dê ao trabalho de responder. Sabes muito bem que ele não gosta de escrever, e não vai querer envolver-se em problemas, e, depois, suponho que o director escreverá à tia do rapaz, se tiver a direcção, e ela não sabe de nada.

- E depois vão à polícia. Rapaz raptado. Estou a ver os títulos dos jornais.

- Ele não foi raptado, Liza. Saiu por sua própria vontade com um amigo do pai. As propinas são sempre pagas antecipadamente. que lhes importa? É claro, vamos ficar de olho nos jornais uma ou duas semanas. Não queres voltar para a escola, pois não, Jim?

- Acho que prefiro ficar aqui - disse eu, embora ainda não tivesse a certeza, mas parecia a coisa mais amável para dizer.

- Estás a ver, Liza? Tal como eu te dizia. Ele é todo teu. Agora és mãe. Uma mãe a sério, Liza.

- E onde é que o vou deitar? Só temos aquele quarto.

- Tens toda a casa por onde escolher, estás encarregada da casa. Tens as chaves.

O dia, que tinha começado mal na escola, acabou sem dúvida com uma sensação de excitação e de mis tério. Andámos por toda a casa, desde a cave até ao sótão. Era como explorar África. Cada quarto, quando aberto, tinha o seu segredo individual. O Capitão, como um carregador nativo, transportava uma pilha de cobertores. Dei-me conta de que nunca tinha visitado uma casa inteira. A minha tia vivia num apartamento do primeiro andar e mantinha- se à distância dos vizinhos.

Naquele tempo (não sei qual é o hábito agora) deixava-se sempre alguma coisa num quarto desocupado para que o senhorio pudesse dizer que estava mobilado. Por isso pude escolher entre três camas diferentes em três quartos diferentes, um sofá com mau aspecto noutro, e uma poltrona suficientemente grande para se dormir. Mas o que me fascinava eram os rastos dos antigos hóspedes, que tinham sido expulsos, talvez sem prévio aviso, ou que tinham fugido durante a noite por sua própria vontade. No chão do sótão havia um exemplar de uma revista muito velha e rasgada chamada Lilliput, sobre a qual me detive tempo suficiente para eles notarem.

- Queres dormir aqui? - perguntou Liza, mas estava demasiado longe da cave e do contacto humano, por isso respondi:

- Não.

- Traz a revista contigo, se quiseres - disse o Capitão. - Quem acha guarda, lembra-te disso. É uma das leis básicas da natureza humana.

Tínhamos começado pela parte de cima da casa e descemos pesadamente para os pisos inferiores. Noutro quarto, por cima de uma mesa frágil, encontrava-se um caderno de apontamentos com páginas de linhas, no qual alguém fizera as suas contas. Ainda me lembro de alguns lançamentos - haviam assentado umas coisas chamadas bolos de um dinheiro (o que é que se compra agora por um dinheiro, mesmo com o novo dinheiro?). Pareciam ser muito do gosto do dono do caderno e havia uma nota ("Extravagância") marcada com um ponto de exclamação: "Almoço no ABC, dois xelins e três dinheiros. " Com um olhar rápido para o Capitão, pus o caderno no bolso. Tinha muitas páginas em branco, e pensei que isso podia vir a ser-me útil. Já tinha ambições literárias, que não confiara nem à minha tia nem ào meu pai. Já lera As Minas de Salomão quatro vezes, e pensei que se alguma vez fosse a África, como o meu pai, escreveria um diário sobre as minhas aventuras.

- Porque é que não vive aqui ninguém? - perguntei-lhes.

- Os donos mandaram toda a gente embora - disse Liza - porque querem demolir a casa. Estou aqui para impedir ocupações até os donos terem a licença.

Abriu outra porta - era um dos quartos com cama, e no linóleo estava um pente partido e uma madeixa de cabelo grisalho.

- Morreu aqui uma velhinha - disse ela. - Tinha oitenta e oito anos e morreu no dia do aniversário. - Voltou a fechar a porta, rapidamente, e, para meu grande alívio, devido à coincidência, continuámos. Aquele também era o meu dia de anos, embora ninguém o soubesse na escola. O "Demónio" raramente se lembrava, e a carta da minha tia chegava geralmente com vários dias de atraso com um vale de correio de cinco xelins.

Finalmente, escolhi o quarto com o sofá porque estava suficientemente perto da cave para eu ouvir os movimentos dos outros ocupantes humanos. Tinha uma pequena mesa e, na parede, havia uma fotografia de um homem vestido com umas roupas esquisitas, que, não sei por que razão ainda me lembro, se chamava Sr. Lunardi e se preparava para subir a um balão no Parque de Richmond - mais outra coincidência estranha, visto a minha tia viver ali. A rapariga, que comecei a conhecer como Liza mais do que como mãe, trouxe da cave uma caçarola para servir de penico, e o Capitão tirou de um armário uma bacia e um jarro rachado. "Sabão", pensou ele em voz alta, e continuou a rebuscar.

Dei-me conta de uma necessidade ainda maior.

- Não tenho pijama - disse-lhe.

- Oh! - exclamou Liza num tom de consternação absoluta, e parou de arranjar o sofá. Foi como se uma falha fatal tivesse sido subitamente descoberta nos seus planos para o meu futuro, e apressei-me a tranquilizá-la.

- Não tem importância - disse, pois tive medo de que me mandassem de novo para o mundo dos amalecitas por falta de pijama. - Eu durmo de camisa e de calças.

- Isso não pode ser - disse Liza. - Não é saudável.

- Não te preocupes - disse o Capitão. Olhou para o relógio. - As lojas já devem estar fechadas, mas se estiverem eu trato disso logo pela manhã.

- Eu cá me arranjo. A sério - disse eu, pois pensava que sabia até que ponto ele estava com falta de dinheiro.

- Ela fica aborrecida se tu não tiveres pijama - disse o Capitão, e Liza e eu ficámos em silêncio, ouvindo a porta da casa a fechar-se por detrás dele.

- Os pijamas são caríssimos.

- Ele tem sempre dinheiro para as coisas essenciais, pelo menos é o que ele diz. Não sei como o consegue.

Fora um dia muito estranho, que começara tão inesperadamente no pátio da escola. Sentei-me no sofá em cima da pilha de cobertores, e Liza sentou-se ao meu lado.

- Que homem tão estranho - disse eu.

- E um homem muito bom - respondeu ela.

E eu, claro, não sabia o suficiente para o negar. Sentia-me sem dúvida mais feliz aqui do que lá, do que em todos os "lás", incluindo o "lá" da minha tia, em Richmond.

- Eu gosto dele à minha maneira - disse ela -, e tenho quase a certeza de que ele gosta de mim... à sua maneira. Mas às vezes faz umas coisas por mim que me assustam. Se lhe dissesse que queria um colar de pérolas aposto que me aparecia com um. Talvez não fossem pérolas verdadeiras, mas também podiam ser, e como é que eu poderia saber? Tu, por exemplo...

- Ele é simpático - disse eu. - Deu-me duas laranjadas.

- E salmão fumado. Oh, lá simpático é ele. Sim, é um homem bom. Seria incapaz de o negar. E pode contar-se com ele, de certa maneira, à sua maneira. Quanto ao pijama, ele traz-te um, de certeza. Mas onde é que o terá ido arranjar?

Meia hora mais tarde ouvi a campainha tocar uma vez e depois uma segunda - e reparei na intensidade com que ela esperou a terceira - e ali estava ele, trazendo o pijama por embrulhar. Não era o pijama que eu escolheria, nem naquela idade - porque, por qualquer razão, detestava cor de laranja -, e aquele pijama não só era às riscas cor de laranja como tinha laranjas nos bolsos. (Só gostava de laranjas em forma de laranjada, mas até ao bebê-la fechava os olhos para não lhe ver a cor. )

- Onde o arranjaste? - perguntou ela.

- Não houve dificuldades - respondeu, como agora talvez usasse a frase "não houve problemas".

Será só com os olhos de hoje que eu consegui ver naquele momento um certo desvio nos seus? A memória é enganadora. Do que eu tenho a certeza, ou meia certeza, é que ele me disse:

- Horas de ir para a cama, Jim.

- Ele tem de ser Jim?

- Qualquer nome que tu quiseres, querida. Escolhe.

Tenho a certeza, pelo menos, de me lembrar correctamente daquela palavra "querida que não era ha bitual nem na escola, nem em casa da minha tia, nem sequer, apercebi-me mais tarde, entre eles.

Deitei-me no sofá com as calças vestidas depois de amachucar o pijama cor de laranja para disfarçar.

 

No dia seguinte, acordei com a voz de uma mulher desconhecida a chamar por alguém com o nome de "Jim. Não fazia ideia do sítio onde estava. Procurei debaixo da cama o penico familiar, mas não o encontrei, apenas uma caçarola na carpeta, e olhei com espanto para os dois lados da cama em busca das divisórias de madeira que, no dormitório da escola, separavam as camas, mas não estavam lá. Pela primeira vez em anos, encontrei-me completamente sozinho - sem vozes, sem respirações pesadas, sem peidos. Só a voz da mulher, lá em baixo, a chamar "Jim". Quem era o Jim, ? Então vi o pijama no chão e, com relutância, vesti-o.

Enquanto descia as escadas em direcção à cave, os estranhos acontecimentos do dia anterior atropelaram-se no meu espírito - não conseguia compreendê-los, embora estivesse bastante feliz, porque, pelo menos, não estava na escola, mas sentia-me completamente perdido neste novo mundo. Creio que um rapaz daquela idade talvez não dê tanta importância à felicidade como à necessidade de saber onde se situa. Fora um amalecita - não, certamente, um amalecita feliz -, mas o que era mais importante para mim do que a felicidade era o facto de saber qual a minha posição exacta na vida. Sabia quais eram os meus inimigos e sabia como evitar o pior nas suas mãos. Mas agora... empurrei a porta ao fundo das escadas e quem me enfrentou não era uma mulher, mas uma rapariga pálida e preocupada, talvez com pouco mais do que o dobro da minha idade.

- Gostas dos ovos bem ou mal cozidos? - perguntou-me.

- Mal - respondi. E acrescentei: - Quem é o

Jim?

- Não te lembras? - perguntou-me. - O Capitão disse-me para eu te chamar Jim. Importas-te?

-Oh, não - disse eu. - Prefiro ser Jim do que...

- Do que quê?

- Prefiro ser Jim - repeti, cauteloso, pois os nomes têm uma certa e estranha importância. Não se pode confiar neles até os ter experimentado. Por que razão tinha eu vergonha de me chamar Victor e porque tinha consentido tão facilmente em ser Jim?

- Onde está o Capitão? - inquiri, só para mudar de assunto.

- Algures - respondeu ela -, não faço ideia.

E levou-me para a cozinha, onde principiou a ferver a água para o meu ovo.

- Ele vive aqui? - perguntei.

- Quando está cá - respondeu -, sim, mais ou menos. - Talvez a resposta tivesse sido um pouco enigmática, até para ela, pois acrescentou: - Quando conheceres melhor o Capitão, verás que não vale a pena fazer-lhe perguntas. O que ele quer que tu saibas, ele diz-te.

- Não gosto muito deste pijama - disse eu.

- Está um bocado para o pequeno.

- Não é isso. É a cor, e as laranjas.

- Ora - respondeu -, deve ter sido o primeiro que ele arranjou.

- Não podemos trocar?

- Não somos milionários - replicou indignada. E disse: - O Capitão é um homem muito bom, lembra-te disso.

- É engraçado. Tem o mesmo nome que eu.

- Qual? jim? Não, o meu nome verdadeiro, Victor - acrescentei com relutância, e olhei com atenção para ver se ela sorria, mas não o fez. Disse:

-Oh, deve tê-lo pedido emprestado. - E atarefou-se com o meu ovo.

- Ele pede emprestado muitos nomes?

- Quando eu o conheci, tinha um nome com muita classe, Coronel Claridge, mas mudou depressa. Disse que não conseguia viver à sua altura.

- Qual é o nome dele agora?

- És muito curioso, não és? Não faz mal fazeres-me perguntas a mim, mas não faças isso com o Capitão. As perguntas preocupam-no. Uma vez, disse-me: "Liza, toda a vida me fizeram perguntas. Dá-me um bocadinho de descanso, está bem?" Por isso agora dou-lhe descanso, e tu deves fazer o mesmo.

- Mas como hei-de tratá-lo?

- Trata-o por Capitão, como eu. É um nome que espero que mantenha sempre. - Subitamente, os seus olhos iluminaram-se, como se tivesse entrado numa sala com uma grande e brilhante árvore de Natal com bolas e pacotes misteriosos dependurados.

- Ouve. Estás a ouvir? - perguntou. - São os passos dele nos degraus da cave. Reconhecê-los-ia entre mil, mas ele diz que tenho de esperar que toque três vezes, um toque comprido e dois curtos, até lhe abrir a porta. Como se eu não soubesse que é ele antes de tocar a primeira vez.

Estava à porta antes de acabar de falar, e ouviram-se três campainhadas - a comprida e as curtas. Depois a porta abriu-se e ela comprimentou-o com uma mistura de alívio e de queixa como se ele tivesse estado fora durante um ano. Observei-os com curiosidade. Suponho que estava a ver a complexidade do amor humano pela primeira vez na vida, mas o que me impressionou, já nessa altura, foi a brevidade da manifestação deste amor. O que ficou depois em ambos foi timidez e uma espécie de medo.

- O rapaz - disse ela, e desprendeu-se.

- Sim, o rapaz - disse ele.

- Queres um ovo?

- Se não te der muito trabalho. Eu só vim cá para ver.

- Sim?

- Para ver se tu e o rapaz estavam bem. Penso que ficou e que tomou o pequeno-almoço connosco, mas não me lembro muito bem de mais nada, nem se ele ainda lá estava quando caiu a noite.

 

Cerca de uma semana depois dessa noite - podiam ser duas ou três ou até quatro (o tempo, ao contrário do que se passava na escola, corria sem se dar conta) - voltámos a ver o Capitão, e as circunstâncias foram um tanto estranhas. Aprendera muito durante a sua ausência, coisas que nunca aprendera na escola como fritar salsichas e a maneira de as picar antes de as pôr na frigideira, e como partir o ovo sobre a frigideira para fazer ovos com presunto. Também me familiarizara com o padeiro e com o homem do talho, pois a minha mãe adoptiva mandava-me frequentemente às compras - tinha uma estranha relutância em sair de casa, embora todas as manhãs se convencesse a ir até à esquina comprar um jornal, mas depois voltava a correr como um rato para o seu buraco. Não sabia por que razão ela comprava o jornal, pois era impossível que conseguisse, com o tempo que dedicava a cada um, ler mais do que os títulos. Só agora me apercebo de que, todos os dias, ela esperava encontrar, em letras grandes, um título como "Mistério do rapaz desaparecido" ou "Estranho desaparecimento de criança", e no entanto, quando acabava de os ler, metia-os no fundo do cesto dos papéis. Uma vez explicou-me:

- O Capitão é um homem muito arrumado. Não gosta de jornais velhos a sujarem a casa.

Mas eu sabia que ela estava a esconder dele os seus medos, porque isso mostraria uma falta de confiança na sapiência dele, e esta dúvida podia ferir-lhe o orgulho. Pois, à sua maneira, ele era um homem muito orgulhoso, e ela tornara-se uma parte essencial do seu orgulho - e também uma parte da sua timidez. Amor e medo - medo e amor -, sei agora como estão inextricavelmente ligados, mas estavam ambos para além da minha compreensão na idade que eu tinha. E mesmo agora, como posso ter a certeza de que os compreendo verdadeiramente?

Vinha a sair da padaria, no fim dessa semana - se é que foi só uma semana - quando encontrei o Capi tão à minha espera cá fora. Meteu a mão no bolso e olhou para um florim e uma moeda de um xelim. Levou algum tempo a decidir-se pelo xelim.

- Entra outra vez e compra dois éclairs: ela gosta

de éclairs - disse-me. Quando voltei, sugeriu: - Vamos dar uma volta. - E foi o que fizemos; demos

uma volta por várias ruas em silêncio absoluto. Depois, o Capitão disse: - É pena que não tenhas dezasseis anos.

- Porquê?

- Nem sequer podes passar por dezasseis.

Andámos todo o comprimento de outra rua até ele voltar a falar.

            -De qualquer modo, penso que é aos dezoito.

Confundo sempre a idade.

Continuei sem perceber.

-Esse é o mal deste maldito país - acrescentou. - A falta de privacidade. Não há maneira de

um homem falar em sossego com um menor. Está

muito frio para ir para o parque, e a Liza não me perdoava se apanhasses uma constipação. Não te deixam

entrar em bares. As casas de chá não estão abertas,              pelo menos não servem nada que um homem possa beber. Eu posso ir a um bar, mas a ti não te deixam entrar. Podemos beber uma chávena de chá, mas chá a mais (não digas isto à Liza) fàz-me mal e não me servem o que eu quero. Por isso só nos resta continuar a andar. Em França é diferente.

- Podemos ir para casa - sugeri. Comecei a usar

a palavra casa conscientemente pela primeira vez:

nunca tinha considerado o apartamento da minha tia

a minha casa.

- Mas é sobre a Liza que eu quero falar. Não posso falar em frente dela.

Ficou silencioso outra vez durante um par de ruas.

            Depois perguntou:

- Estás a ter cuidado com esses éclairs, não estás?

Não esborraches o saco. Parecem tubos de pasta de

dentes quando se apertam.

Assegurei-lhe que não estava a esborrachar os éclairs.

- Ela gosta muito de éclairs - disse-me -, e não quero que se estraguem.

Continuámos a andar, cerca de cem metros, antes de ele voltar a falar.

- Quero que lhe digas - voltou ele -, mas com cuidado, hã, que eu vou estar fora um mês ou dois.

- Porque é que não lhe diz o Capitão?

 - Não quero entrar em explicações. Não gosto de mentir à Liza, e a verdade só a preocuparia. Mas diz-lhe, diz-lhe que dou a minha palavra de honra que volto, a minha palavra de honra, não te esqueças de dizer isso, e que tudo vai correr bem. Só isso. E diz-lhe que lhe mando saudades, não te esqueças, saudades.

Parou e perguntou num tom ansioso:

- Sabes onde estás? Sabes o caminho de volta?

 - Sim - respondi -, o talho é na esquina a seguir a esta. Já lá fui muitas vezes.

- Bem, filho, então despeço-me. Tenho de me ir embora.

No entanto, parecia estar com pouca vontade de ir. Perguntou-me:

- Vocês dois estão a dar-se bem?

- Oh, sim - respondi -, muito bem.

- Trata-la por mãe, como eu te disse?

- Ela Quer que eu a trate por Liza.

- Oh, isso é mesmo da Liza. Gosta que as coisas sejam sempre correctas e verdadeiras. Eu admiro-a por isso, mas o problema é que o correcto e o verdadeiro podem por vezes ser um pouco perigosos. Por exemplo, é mais seguro se a tratares por mãe, e não Liza. Se as pessoas te ouvem tratá-la por mãe, aceitam a situação. Não fazem perguntas.

- Ela diz que isso pode dar azo a que perguntem de onde apareci.

Reflectiu um pouco sobre a minha resposta e depois disse:

- Sim. Não tinha pensado nisso. Talvez ela tenha razão. Ela pensa nas coisas convenientemente. Apren            deu isso na escola do sofrimento, a pobre Liza. Aquele demónio do teu pai...

- Ela conhece o meu pai? - perguntei com curiosidade, pois eu próprio mal me lembrava dele.

- Conheceu-o, em tempos, mas não lhe fales dele.

Quero que ela se esqueça. - Repetiu "que se esqueça... ", e acrescentou: - E lá me ia esquecer da coisa mais importante. - Tirou um sobrescrito do bolso e disse: - Dá-lhe isto e diz-lhe que se houver algum problema, se tiver falta de alguma coisa... que o dê a quem ela sabe.

- A quem ela sabe - repeti eu. Era uma mensagem difícil de memorizar, como uma frase de uma lição de gramática.

-Ela está feliz contigo em casa? - perguntou.

- Parece satisfeita - respondi.

- Não quero que ela se sinta só, nunca. Ela fala de

mim alguma vez?

-Oh, sim - disse. - Está sempre a pensar

quando é que o Capitão volta. Fica à escuta dos passos.

- Penso - disse ele com uma espécie de dúvida humilde - que ela gosta um bocadinho de mim. A sua maneira, claro.

Lembrei-me daquele tom de voz que usou quando, por sua vez, ela me disse (acabara de lhe entregar o sobrescrito e de lhe dizer que ele lhe mandava saudades)

- Acho que ele gosta muito de mim, à sua maneira. - Nenhum deles parecia ter muita certeza da ma            neira do outro. - Tu gostas dele, não gostas?    - acrescentou.

Parecia que nós três, naquela altura, andávamos a

pensar muito.

- Tens de conhecer o Capitão - repetiu ela, e falou com um tom tão sincero que ainda hoje me lembro exactamente da frase que usou. Era como se, por um momento, me tivesse revelado um segredo importante que ajudasse a explicar o que já era um passado misterioso e aquilo que, num futuro igualmente misterioso, provavelmente viria a acontecer.

 

O futuro imediato não foi muito imediato, pois não me lembro agora quanto tempo passou até voltar a ver o Capitão e não me recordo do seu regresso. Foi ao cabo de semanas ou de meses? Não importa, a minha me mória dá um salto para uma noite em que ele me levou ao cinema para vermos um filme - penso que se chamava King Kong. (já nessa altura era um filme antiquíssimo até aos meus olhos de criança, mas lembro-me do comentário que o Capitão fez ao comprar os bilhetes: "Neste velho ninho de pulgas podem-se ver todos os filmes velhos, e os filmes velhos são sempre os melhores. ") Havia pouca gente no cinema, pois ainda era muito cedo, mas teve muito cuidado ao escolher os assentos - um pouco à frente de mais para a minha vista - e perguntei se podíamos ir mais para trás. A resposta foi "Não", expressa com firmeza, e eu concluí que o Capitão ficara míope com a idade, pois um homem na casa dos quarenta era para mim tão velho como as pirâmides. O King Kong, se é que era o King Kong, escalava os arranha-céus levando nos braços uma rapariga loura, de cujo nome não me lembro. Toda a gente estava contra ele - a polícia, os soldados, até os bombeiros, se bem me lembro. A rapariga dava pontapés, mas rapidamente se tornou tranquila.

- É uma história óptima - sussurrou o Capitão ao meu ouvido direito.

- Sim.

Na história, creio que as autoridades - fossem elas quem fossem - até meteram aviões em acção contra o King Kong, que naturalmente me interessava muito mais do que o peso que carregava.

- Porque não a deixa cair? - perguntei.

Suponho que pareci ao Capitão muito desumano, pois ele respondeu asperamente:

- Ele ama-a, rapaz. Não percebes que ele a ama?

- Mas claro que eu não percebia. Vira-a dar pontapés ao King Kong, e, quanto a mim, amar era muito semelhante a gostar, com a diferença de que podia envolver alguns beijos, e na minha opinião os beijos tinham pouca importância. Os beijos tinham sido impostos na minha pessoa pela minha tia, mas, no entanto, nem o gostar nem o amar podiam certamente envolver pontapés. Uma pessoa dava um pontapé a um inimigo de modo a magoar. Eu sabia isso muito bem, embora nunca tivesse desejado magoar ninguém, excepto um rapaz chamado Twining, que tornara a minha vida de amalecita uma miséria, num período que agora parecia a anos de distância.

Reparei numa coisa estranha quando as luzes se acenderam. Vi que o Capitão tinha lágrimas nos olhos. Tive pena do King Kong, mas não a esse ponto. Afinal, ele era o mais forte e podia ter retribuído os pontapés - coisa que eu não podia ter feito com o Twining, que era dois anos mais velho do que eu. Concluí que o Capitão estava perturbado por outro motivo, e perguntei-lhe:

- Passa-se alguma coisa?

- O desgraçado - disse-me -, toda a gente estava contra ele.

- Eu gostei do King Kong, mas porque é que ele levava a rapariga por todo o lado, quando ela não gostava dele?

- Como sabes que ela não gostava dele?

- Porque lhe deu pontapés.

- Um pontapé ou outro não quer dizer nada. É uma atitude de mulher. Ele amava-a, disso podes ter a certeza.

Outra vez aquela palavra sem significado: "amor". Quantas vezes a minha tia me perguntara: "Amas- me?" E claro que eu respondia sempre que sim. Era a maneira mais fácil de fugir a uma situação difícil. Não lhe podia responder: "És uma seca do caraças. " Era boa mulher, à sua maneira, mas agora não podia deixar de comparar as sandes dela com o almoço que o Capitão me tinha oferecido no Swan. Já sabia que gostava do Capitão, e aquela doce palavra "amor", com as suas exigências misteriosas, nunca surgiria entre nós, disso tinha a certeza.

Caminhámos juntos um bocado, à saída do cinema, e numa esquina ele deteve-se e perguntou-me, como já tinha feito antes:

- Sabes o caminho para casa? - A palavra "casa" ainda me fazia hesitar um pouco, embora eujá começasse a usá-la em fase experimental. Era a palavra que a minha tia usava sempre, e naquelas breves ocasiões em que eu vira o "Demónio" ele também a usava, claro, ao dizer: "Horas de ir para casa, rapaz. " Em bora se referisse apenas a apanhar o comboio para Richmond a caminho da casa da minha tia.

- Para casa? - disse eu.

- Para casa da Liza - insistiu, e tive a sensação de que, de certo modo, o tinha desiludido, mas não sabia como.

 - Está bem - respondi. - É só três ruas mais adiante. Não vem?

- É melhor não. - Pôs-me um jornal nas mãos e disse: - Dá-lhe isto. Diz-lhe para ler a segunda pági na, mas para não se preocupar. Não vai haver problema nenhum.

Assim, fui para o sítio que eles tanto queriam que eu chamasse casa, embora ficasse um pouco desiludido por ele não vir comigo.

 

Amar e gostar - deve ter sido difícil para uma criança da minha idade aprender a distinguir as duas coisas. Até mesmo anos mais tarde, quando o desejo sexual começou a ter o seu papel, encontrava-me na dúvida se amava tal rapariga ou se gostava apenas dela por causa do prazer que partilhávamos a dada altura.

Quando regressei a casa, levando comigo o jornal, tinha quase a certeza de que gostava do Capitão, mas ainda tinha muitas dúvidas quanto a Liza. Ambos eram misteriosos para mim, mas, ao passo que achava interessante o mistério do Capitão, o mistério de Liza era uma espécie de desilusão; havia a sensação de que faltava algo entre nós.

Dei-lhe o jornal e o recado, mas guardou o jornal dentro de uma gaveta da cozinha, e eu sabia que não o iria ler enquanto eu ali estivesse.

- O que é que há na segunda página? - perguntei-lhe descaradamente.

- Que segunda página?

- Do jornal. Ele disse que tinhas de ler a segunda página.

- Ah, isso é uma graça dele - respondeu, e começou a pôr a mesa para o jantar.

Nessa noite não consegui dormir e, quando já estava tudo em silêncio, desci até à cozinha em bicos de pés. Encontrei o jornal ainda no cesto dos papéis e levei-o para o meu sofá-cama.

No entanto, não virei logo para a página que o Capitão indicara. Estava demasiado excitado. Senti- me como se estivesse prestes a descobrir algo de importância vital sobre o Capitão. Ele próprio confessara, no dia em que nos conhecemos, que nem sempre dizia a verdade, mas, aos meus olhos jovens, um jornal continha invariavelmente a verdade, a verdade dos Evangelhos. Quantas vezes no passado ouvira eu a minha tia exclamar, acerca de um acontecimento extraordinário, mesmo inconcebível, como o nascimento de um hipopótamo ou de um rinoceronte no jardim zoológico de Londres "Claro que é verdade. Vem nos jornais!"

Ainda vejo a primeira página do Telegraph - o Capitão lia sempre o Telegraph (o Telegraph, creio agora, condizia com o chapéu de coco, a bengala e o bigode aparado - era um adereço para o ajudar a criar uma personagem). Um título apresentou-se diante dos meus olhos em letra grande, transmitindo uma notícia completamente desinteressante - talvez a queda de um governo -, não posso fingir que me lembro. Se ao menos tivesse sido um assassínio... mas não era nada que impressionasse o espírito de um miúdo de doze anos. Mas duas histórias na segunda página ficaram na minha mente até hoje: uma era sobre um suicídio perfeitamente horrível - um homem que se encharcou em petróleo e deitou fogo a si próprio com um fósforo, e a outra tratava de uma coisa a que chamaram roubo de um gang. Os gangs faziam parte da minha imaginação: os amalecitas eram um gang. Aparentemente, um gang tinha atado e amordaçado um ourives num bairro chamado limbledon. Este tinha estado a trabalhar até tarde, "a fazer o inventário",  quando um homem de "porte militar" bateu à porta e perguntou o caminho para Baxter Street - uma rua desconhecida em limbledon. Depois de o homem se virar e antes de o ourives ter tempo de fechar a porta, o gang apareceu e, quando se foram embora, levaram todo o stock, avaliado em vários milhares de libras. Não havia provas de que o homem de porte militar estivesse relacionado com o assalto, e a polícia pedia que ele viesse testemunhar de modo a ajudar nas investigações. Pensava-se que o mesmo gang estava re lacionado com um outro assalco que se dera algumas semanas antes.

Desci sorrateiramente os degraus e voltei a colocar ojornal no cesto, e depois, deitado no sofá com o sono ainda muito longe, achei estranha a coincidência de a rua, que diziam não existir, ter o meu nome. No dia seguinte, a minha mãe adoptiva parecia incomodada e apreensiva. Deu-me a impressão de que temia uma visita estranha. Tocaram por duas vezes à campainha e ela mandou-me atender, enquanto esperava ao fundo das escadas com uma expressão ansiosa no rosto. Da primeira vez era o leiteiro e da segunda alguém que se tinha enganado no número. Nessa noi te, a meio do jantar - como sempre o meu prato favorito, hamburger com um ovo a cavalo -, Liza começou a falar subitamente, a propósito de nada, com uma espécie de ferocidade, como se estivesse a contradizer um comentário meu (mas eu estivera tão calado como ela).

- Ele é bom homem - disse ela. - Nunca faria nada que fosse realmente mau. Não está na sua natureza. Devias saber isso.

- Saber o quê?

- Às vezes ele é demasiado bom para viver neste mundo.

- Assusta-me.

Foi durante a seguinte ausência prolongada do Capitão que Liza começou a preocupar-se com a minha educação.

- Devias estar a aprender coisas - disse-me, enquanto bebíamos uma chávena de chá.

- Que coisas?

-  Quase tudo - respondeu. - Como fazer somas.

- Nunca fui grande coisa a fazer somas.

- Ortografia.

- Não dou muitos erros.

 - Geografia. Se o Capitão voltasse, ele ensinava-te isso. Sabes que ele é um homem muito viajado.

- Ele anda a viajar agora?

- Penso que sim. Com certeza não deitou fogo a ele próprio, pois não?

- Por amor de Deus, claro que não. A que propósito?

- Vinha no Telegraph que ele te mandou.

- Então leste o jornal?

- Sim.

- E não disseste nada. Falta de sinceridade da tua parte. O Capitão quer que tu sejas sincero. Ele diz que um dia ficas tu a tomar conta de mim, quando ele se for embora.

- Ele já se foi embora.

- Ele quer dizer ir-se embora de vez.

- Sentirias muito a falta dele, não é?

- Era pior que morrer. Eu quero ser a primeira a ir.

- Mas ele diz que eu tenho de tomar conta de ti.

- Acho que foi por isso que ele te trouxe para cá. Para ter a certeza de que eu não me vou embora primeiro.

- Estás muito doente? - perguntei com a curiosidade fria própria da minha idade.

- Não, mas já estive. Isso foi quando ele me viu pela primeira vez; veio ao hospital com o teu pai. Às vezes, quando ele olha para mim, fita-me de um modo que parece assustado. Como se eu estivesse ainda doente, deitada naquela cama. Depois eu fico aborrecida com ele. Não quero que se assuste por minha causa. Pode fazer qualquer coisa precipitada.

Esta conversa talvez fosse a segunda lição sobre aquilo que o amor pode significar entre dois adultos. O amor - isto era bastante claro para mim naquele momento - significava medo, e suponho que era esse mesmo medo que fazia Liza sair de casa muito cedo todas as manhãs para comprar o Telegraph e ficar a saber o pior - a consequência temida de algo que ela lera na segunda página. Mas quando voltava para a segurança da sua cozinha, não sabia para onde olhar, tinha de passar todas as páginas, até as desportivas e de economia, e já não escondia de mim o facto de que procurava alguma notícia do Capitão com uma apreensão fatídica.

Não posso alegar que todos estes pormenores, que tão esforçadamente tento reconstruir, sejam necessariamente verdadeiros, mas agora que estamos separados sinto-me levado por uma paixão compulsiva a fazer com que estas duas pessoas vivam outra vez diante dos meus olhos, a voltar a tirá-las das sombras e pô-las a representar os seus tristes papéis, tão perto da verdade quanto possível. Sei muito bem que posso estar a entrelaçar os factos com a ficção, mas sem nenhuma intenção de trair a verdade. Acima de tudo, quero torná-los claros para mim, para que continuem a viver tão visivelmente como duas fotografias colocadas numa prateleira ao lado da minha cama. Mas eu não tenho uma única fotografia de nenhum deles. Porquê esta obsessão? Do Capitão há dez anos que não sei nada, e quanto a Liza, de quem me afastei voluntariamente, só a vejo de tempos a tempos, sempre com um sentimento de culpa. Não é devido a qualquer amor que sinta por eles. É como se os tivesse tomado, bastante a sangue-frio, como personagens de ficção para satisfazer este meu desejo apaixonado de escrever.

 

A campainha tocou, mas só uma vez - e esse não era o sinal do Capitão.

- Queres que vá eu? - perguntei.

- Se calhar é o carteiro. Ele veio quando tu saíste para comprar o jornal. Não vás.- Talvez seja uma das vizinhas.

A campainha tocou uma segunda vez.

- Vêem luz na cave - disse-lhe.

- Cabras bisbilhoteiras - disse Liza. - Aquela senhora Lowndes do vinte e três perguntou-me quem tu eras. Eu estava lá fora a limpar os degraus. Disse-lhe que eras meu filho e que tinhas estado a viver com o pai até ele morrer. Sabes o que ela me perguntou? "Porque é que ele não anda na escola?"

A campainha tocou pela terceira vez, de modo mais imperioso.

- Que foi que lhe respondeste? - perguntei.

-Eu disse: "Tem aulas particulares. " Mas acho que não acreditou.

A campainha voltou a tocar, duas vezes.

- E se for a polícia? - disse Liza.

- A fazer o quê?

- É melhor ires ver. Tem cuidado. Se te perguntarem pelo Capitão, dizes que não o conheces, nunca o viste, e que não está aqui.

Subi da cave, devagar e com nervoso, e dei tempo a que a campainha voltasse a tocar. Depois abaixei-me e espreitei pelo buraco da fechadura, mas só vi um pedaço de sobretudo cinzento. Abri a porta e ali estava o meu pai.

- O "Demónio"! - exclamei sem me conter.

O meu pai era um homem corpulento e de barba branca, com uns belos dentes para a sua idade, mas talvez estivessem recobertos de porcelana. Brilhavam

agora em duas filas, de uma maneira bastante genial.

- O "Demónio pode entrar? - perguntou, e eu

desviei-me para ele entrar.

- Liza! - chamou, olhando para o alto das escadas - Liza!

- Ela está na cave - informei-o, e ele dirigiu-se

cuidadosamente escada abaixo, degrau a degrau, pois

as escadas eram estreitas, e os seus pés grandes.

- Ah, és tu - disse Liza. Ela estava de pé, perto da mesa da cozinha, com um cutelo na mão mas isso era só porque estava a meio da lavagem da louça.

- Como é que soubeste?

- Recebi um postal ilustrado do Roger.

- Do Roger?

- Era uma fotografia da Catedral de Bruges. Pediu-me para vos ir ver no caso de precisarem de aju da, visto ele estar fora há tanto tempo.

- Quem é o Roger? - perguntei.

- Oh, esquecia-me. Ele gosta que o tratem por Capitão, não é? - Virou-se para mim. - Tens estado a causar uma série de problemas, Victor.

O nome enfureceu-me.

- Agora sou o Jim - disse-lhe.

- Bem, foi a tua mãe que escolheu Victor. Nunca gostei desse nome. Soava um bocado a gabarolice.

Acho que foi porque nasceste num dia qualquer de Maio, quando celebramos o dia em que os alemães se renderam.

- Não foi nada. Eu nasci em Setembro.

- Oh, então deve ter havido outra razão qualquer.

Talvez ela pensasse que ter-te a ti foi a vitória dela... Sobre mim. Eu não estava com grande vontade de ter um filho.

- Bom, agora sou o Jim.

- Jim é ligeiramente melhor, mas ainda é um bocado a deitar para o vulgar.

- Não precisamos da tua ajuda - interrompeu

Liza.

- Quem me dera que aquele palerma me tivesse dito antes onde vocês estavam escondidos. Ter-me-ia poupado muito trabalho em relação ao Victor. Oh, está bem, ao Jim, se preferires. Primeiro foi a tua tia, e depois um idiota chamado Bates. Escreveu-me uma carta inacreditável. Disse que era o teu director. Nunca tinha ouvido falar dele. Sempre paguei as propinas a um tipo a quem eles chamam tesoureiro. Mas a tua tia foi a pior de todos eles. Como é que estás, rapariga?

- Estou bem.

- Não tiveste mais problemas com os teus interiores?

- Não.

- O que é que se passa com o Roger, isto é, com o Capitão?

- Está a cuidar de nós. Não precisas de te preocupar. Podes crer que está a cuidar de nós convenientemente.

- Em Bruges?

- O trabalho dele exige que esteja fora, de tempos a tempos.

- Trabalho? O Capitão? Não me faças rir.

Olhou à sua volta, para a cozinha.

- Não me ofereces uma chávena de chá, Liza, pelos bons velhos tempos?

- Senta-te, já que insistes.            

Apercebi-me de que ele não estava minimamente intimidado com a relutância dela.

- Suponho que está outra vez metido em sarilhos.

- Já agora tira o casaco, se vais beber uma chávena de chá.

- Não, não. Não vou demorar-me muito. Sou ave de arribação, Liza. Mas o teu Capitão foi um pouco longe de mais, ao raptar o rapaz. Não admira que esteja escondido em Bruges.

- Ele não está escondido em Bruges. E não o raptou. Ele ganhou-to ao jogo. Leal e honesto, num jogo de gamão. Não se pode fazer batota ao gamão.

- Ainda não foi inventado um jogo em que não se possa fazer batota. De qualquer modo, não foi gamão quejogámos, foi xadrez. É dificil fazer batota ao gamão, mas ao xadrez... especialmente depois de um ou dois copos. Um de nós fica um bocado cansado. A atenção começa a falhar. Troca-se uma peça, e eis que de repente é xeque-mate. O Roger, sabes, tem uma maneira de trocar os pormenores. Até esse nome de Capitão, como tu lhe chamas. Ele era sargento, e não capitão, quando os alemães supostamente o apanharam, e duvido que o tenham promovido a oficial em cativeiro. Se é que alguma vez esteve em cativeiro, nesse tipo de cativeiro. Ele tem muita imaginação.

- Não acredito em ti. Sempre tiveste inveja dele.

- Mas também não tem muita importância, pois não? Se ele quer ser capitão, embora fosse um tanto perigoso apoderar-se do rapaz.

- Ele não se apoderou dele. Sabes isso muito bem. Ganhou-o ao gamão.

- Já te disse que foi xadrez que jogámos, e nem sequer a isso ganhou sem fazer batota.

- Tu escreveste-lhe uma carta para ele dar ao director, dizendo que ele o podia levar.

- Sim, por uma tarde, para lhe oferecer um almoço e levá-lo ao cinema. Enfim, não vamos discutir por causa de pormenores ínfímos como este, Liza. Mas por que razão é que ele o fez?

- Não queria que eu me sentisse sozinha. Ele pensa nos outros.

- Talvez tenhas razão. É uma pena que não pudesses ter o teu próprio filho.

- Disso a culpa é tua.

- Sabes muito bem que não querias aquele que perdeste, Liza. Deita as culpas ao atrasado mental do médico, não a mim.

- Não queria nenhum filho de quem tu fosses o pai, disso podes ter a certeza.

Naquela época, esta discussão escapou-me completamente e manteve-se um mistério ainda durante muitos anos, de modo que foi uma discussão sem significado para mim, esta que agora tento reproduzir, e o que escrevo agora tem de ser baseado nos meus conhecimentos posteriores. Naquele momento, tudo o que me preocupou foi a fúria reprimida de Liza. Sabia que ela estava magoada e que fora o "Demónio" quem a magoara. Não havia sombra de dúvida no meu espírito sobre quem era o culpado. - Porque não se vai embora? - disse eu ao "Demónio. E pondo na voz toda a coragem que possuía, acrescentei: - Não é bem-vindo aqui.

- Olha quem fala. Eu sou o teu pai, rapaz. E ela é a minha mãe - disse eu, pronunciando a palavra, pela primeira vez, com uma sensação de confiança e triunfo.

-Bravo! - exclamou o "Demónio. - Bravo!

- Aí tens o chá. Bebe-o - disse-lhe Liza.

- Se pudesses pôr mais um torrão de açúcar. Esqueceste-te de que sou guloso, Liza.

- Não quero lembrar-me de nada sobre ti. Está aí o açucareiro. Tira os torrões que quiseres.

- Talvez fosse melhor esqueceres também o Capitão, se te queres esquecer de mim. Afinal, se não fosse eu não o terias conhecido.

- Isso é verdade e agradeço-te por isso, mas por mais nada no mundo.

- Oh, vá lá. Não fui assim tão mau para ti, ou fui?

- Fizeste-me ter um nado-morto, e ele deu-me o Jim.

- Só espero que consigas ficar com o teu Jim.

- Oh, não preciso do teu dinheiro para nada. O Capitão...

- Não me referia ao dinheiro, Liza, mas aviso-te de que a tia anda atrás dele. Até já fala em contratar um detective particular.

- E suponho que lhe vais dizer onde nós estamos.

- Achas que sou assim tão diabólico, Liza? Não, prometo-te que não direi nada à tia dele, nada! Faz-me lembrar demasiado a minha mulher, só que é muito pior. Tenho a certeza de que cuidarás melhor do rapaz do que ela alguma vez o fez. - Acabou de beber o chá e olhou para o fundo da chávena como se estivesse a ler a sina. - Podes não acreditar, Liza, mas eu gostava de ajudar - acrescentou.

- Não acredito em ti.

- E no entanto acreditas nele.

- Tenho boas razões para isso.

- Ora, ele tem andado a contar-te muitas histórias. Eu também costumava acreditar nelas. Não é o que eu chamaria um homem de palavra. Até o bigode. De que cor o usa agora?

 

Mas constatei que o bigode desaparecera por completo, algumas semanas mais tarde, quando corri pelas escadas acima e abri a porta, pois a campainha tocara o correcto, seguro e muito esperado código. Penso que, na ausência do Capitão, uma espécie de afecto entre mim e Liza crescera um pouco dentro de nós.

Começava a gostar bastante dela, mas ainda com o afecto facilmente transferível de uma criança; e era possível que o afecto dela fosse uma reacção quase automática ao meu, podendo facilmente desaparecer. Mas era o Capitão que ocupava o nosso espírito e a nossa conversa: " O Capitão que diz sempre. " u Sabes, o Capitão disse-me um dia que quando estava prisioneiro. "

E, no entanto, não era o Capitão que conhecêramos aquele que estava à espera que lhe abrissem a porta. Podia ser também capitão, mas capitão de navio, alto e barbudo, sem uma bengala ao ombro como uma espingarda, mas empunhando-a como uma arma contra piratas. Olhei para ele de boca aberta, e nem sequer me desviei para o deixar entrar. Por detrás dele, à borda do passeio, estava um automóvel.

- Um automóvel! Aquilo é seu? - perguntei-lhe.

- Claro que é meu - respondeu-me com brusquidão. - Onde está a Liza? A Liza está boa?

Afastou-me para o lado e desceu os degraus a dois e dois. Vi-os cumprimentarem-se. Ela avançara dois ou três passos em direcção a ele, mas detiveram-se a um metro de distância. Não se beijaram: nem sequer se tocaram, como se tivessem medo um do outro depois dos meses de separação.

- Deixaste crescer a barba - disse ela.

- Sim.

- Porquê?

- Pareceu-me mais sensato. - Pôs-lhe a mão no ombro. - Estás boa, Liza?

- Eu estou boa, mas tu...

- Nada de preocupante.

Beijaram-se finalmente - não aquele tipo de beijo apaixonado que eu vira apenas uma vez em King Kong e que fixara na memória para sempre, mas um pequeno beijo temeroso em ambas as faces, como se até esse gesto pudesse ser perigoso para o ente amado, como se fosse infeccioso. Virei-me para fechar e trancar a porta, olhando mais uma vez para o automóvel e sentindo alguma desilusão. Quando me juntei a eles na cozinha, ela estava a preparar o inevitável bule de chá que, como eu agora sabia, ele só bebia para lhe agradar.

- Então o Demónio" apareceu - observou o Capitão.

- Sentou-se onde tu estás agora.

O Capitão moveu-se com constrangimento na cadeira dura como se sentisse o calor deixado pelo corpo do meu pai e isto lhe ferisse a susceptibilidade.

- Que tinha ele para dizer?

- Disse que me queria ajudar.

- E que lhe respondeste?

- Que não precisava da ajuda dele.

O Capitão continuou a mover-se com constrangimento na cadeira.

- Talvez isso não tivesse sido sensato, Liza.

- Eu não quero a ajuda dele.

- Suponho que também não confia em mim.

- Oh, isso de certeza.

-De qualquer modo, algum dinheiro regular, mesmo da parte dele, evitava-te muita ansiedade. Eu não posso estar sempre cá.

- Até agora temo-nos governado bem.

Não afirmo que me lembre correctamente dos pormenores desta conversa. Há algumas palavras que recordo, mas invento muitas mais, de modo a encher os espaços em branco entre as palavras deles, na ânsia de sentir de novo nos meus ouvidos o som das suas vozes. Acima de tudo, quero compreender os dois únicos seres nos quais eu reconhecia o que suponho ser possível descrever como uma espécie de amor, um amor que até hoje, certamente, eu próprio nunca senti. Pelo menos de uma coisa tenho a certeza: ouvi-o, ao cabo de uma longa pausa, perguntar-lhe: "Ele voltou a fazer-te infeliz?" E a sua resposta rápida: "Não pode. Agora já não."

O Capitão ficou connosco naquela noite? Pela natureza das coisas nunca o teria sabido - eles eram demasiado discretos. Quando fui para a cama tentei ficar acordado enquanto ouvisse as suas vozes lá em baixo, para ter a certeza de que não estava só. Também fiquei à escuta do barulho de um automóvel a afastar-se, mas adormeci antes de as vozes se calarem. Só sei que na manhã seguinte ele estava lá para o pequeno-almoço e lembro-me desse pormenor porque, pela primeira vez, se levantou a questão da minha es colaridade.

Penso que se falou nisso porque, quando mejuntei a eles, fiz-lhe uma pergunta sobre o automóvel.

- É mesmo seu?

- Claro que é meu.

- De que marca é?

- É um Morris Minor.

- É um carro bom?

- Não é um Rolls Royce. Mas é suficiente, por agora.

- Ensina-me a guiá-lo?

- Não. Na tua idade é contra a lei. E falando de lei - acrescentou para Liza -, acho que existem leis em relação à escolaridade, mas diabos me levem se eu sei quais são. O Jim sabe ler e escrever, que mais precisa um rapaz? O resto aprende-se com a vida. Seja como for, há coisas que eu lhe posso ensinar melhor do que qualquer professor.

- Ciências?

- Oh, não sei muito de ciências. Mas não estou a ver o Jim a tornar-se cientista.

- Religião?

- Isso é coisa para as mulheres ensinarem. Para tu lhe ensinares.

- Eu também não sei muito sobre religião.

- Dá-lhe uma Bíblia, e ele que a leia sozinho. Não se pode forçar a religião num rapaz, Liza. Ou uma pessoa aprende pela vida fora, ou não aprende.

- Suponho que tu não aprendeste.

- Então supões mal. Já te disse que, quando atravessei os Pirenéus depois de fugir, encontrei um mosteiro. Não me pediram papéis nem foram à polícia. O que por lá vi era tudo disparate, é claro, mas eram bons homens, pelo menos foram bons para mim. Quando não se é bom homem, respeita-se os homens bons. Eu preferia morrer com um homem bom perto de mim. Um homem bom ensina uma quantidade de disparates, e um homem mau ensina a verdade. Mas qual é a diferença quando se está a morrer? Não sou eu que vou ensinar disparates ao rapaz. Ele que leia a Bíblia e forme a sua própria opinião. Eu ensino-lhe geografia.

- E depois há as línguas. Não quero que um filho meu seja mais ignorante do que os outros.

- Muito bem, Liza. Disseste.

- Disse o quê?

- Nunca o tinhas dito.

- Um filho meu. Bem, de certo modo penso que agora o é.

- Quanto às línguas não há problema, Liza. Compra-lhe os discos de auto- aprendizagem do alemão, do espanhol. Por acaso tenho umas noções dessas duas línguas, e tu sabes porquê. Posso ajudá-lo conforme for avançando.

E foi assim que felizmente escapei à escola, pelo menos por mais uns tempos, e comecei o que se pode chamar uma educação particular. As aulas não eram muito regulares: dependiam da disponibilidade do Capitão, que estava muitas vezes ausente. Eram de certo modo secretas - o que as tornava mais agradáveis, pois os vizinhos viam-me sair a horas certas para a escola e nunca viam os meus regressos rápidos e furtivos para as aulas dadas no meu quarto. Procurávamos assim evitar que chegassem rumores aos ouvidos das autoridades. Deste modo, sem saber exactamente porquê, eu já estava, à minha maneira, a seguir as pisadas ilegais do Capitão.

Lembro-me pouco das aulas de línguas; tenho apenas a sensação de que o Capitão estava bastante mais à vontade em alemão do que em espanhol, talvez porque, se o que ele me contou era verdade, passara muito mais tempo como prisioneiro na Alemanha do que como fugitivo em Espanha. Isto também afectava as suas lições de geografia. Eram lições nascidas da experiência de um viajante em circunstâncias um tanto invulgares e talvez fossem mais vividas do que os conhecimentos superficiais e em segunda mão de um professor normal.

Tentarei reproduzir parte de uma lição típica de geografia.

- Se quisesses ir da Alemanha para Espanha, como é que ias? - perguntou- me.

- Ia de avião - respondi.

- Não, não, isso é contra as regras. Estamos ajogar uma espécie de jogo. Como o monopólio. Há uma guerra, por isso neste jogo tens de ir a pé.

- Porque não de carro?

- Não tens carro.

Eu ainda estava perplexo com o automóvel dele. Se o pagou, onde teria arranjado o dinheiro, ou teria sido como o almoço de salmão fumado?

O Capitão comprara um atlas escolar. Abriu-o à minha frente, e penso que ficou aliviado por eu saber ler um mapa, com todos os seus símbolos e cores que indicam rios, caminhos de ferro e montanhas, com uma facilidade razoável.

- Suponho que entrava pela França.

- Ai, isso não entravas! A França está ocupada pelo inimigo. Há alemães por todos os lados.

Fiz nova tentativa.

- Bélgica - sugeri.

- Isso é melhor. Também há alemães aí, mas deram-te uma morada, estás a ver. Uma casa segura. Um pouco como esta cave. Numa cidade chamada Liège. Procura Liège.

Soletrou-me o nome e eu encontrei-o, mas ainda me sentia um pouco desorientado.

- Porque quero ir para Espanha?

-  Porque é um país neutro, e daí podes passar para Portugal e depois para Inglaterra.

- Onde é Portugal?

Depois de procurar um pouco, encontrei Portugal.

- Portugal está do nosso lado - explicou -, mas antes tens de chegar a Espanha. Como é que fazes isso?

Agora que percebia que a geografia era uma espécie dejogo de guerra, começou a agradar-me imenso. Olhei para o mapa com atenção. Teria de atravessar a França de alguma maneira, apesar dos alemães.

- Exactamente. Descobres que nessa casa estão escondidos, como tu, quatro oficiais da Força Aérea e também está uma rapariga corajosa, da idade da Liza, que vai com vocês. De comboio até aos Pirenéus. Os Pirenéus são montanhas. Procura-os.

Isto levou mais tempo, pois confundi-os pelo caminho com as Ardenas.

- Mas por que razão os alemães não nos impedem?

- Ela tem papéis falsos para todos vocês. Os outros falam um bocadinho de francês. Mais do que os alemães, de qualquer modo. Tu não sabes francês, por isso ela põe-te uma ligadura à volta do queixo, manchada de sangue, para não poderes falar. Foste ferido por uma bomba, diz ela a toda a gente, e está encarregada de ti. Quanto aos outros, ela diz que os conheceu no comboio, e ficaram amigos. Conseguem passar Paris em segurança e mudam de comboio. Saem finalmente num sítio chamado Tarbes. - Soletrou o nome. - Procura Tarbes.

Para mim, tratava-se apenas de um jogo e não o tomei como um pedaço de história. Até hoje, não sei o que era verdade na história do Capitão, mas não há dúvida de que gostava das lições de geografia, especialmente quando atravessei os Pirenéus à noite, descalço na neve, escutando o ruído de sucção feito pelas botas das patrulhas alemãs. Todas as posteriores lições de geografia desapareceram da minha memória, de modo que, mesmo hoje, não consigo visualizar Espanha e Portugal tão claramente como a Alemanha Federal, Bélgica e França, mas em Espanha a lição de geografia por vezes fundia-se numa lição de história.

O Capitão tinha uma simpatia especial por Drake e por Sir Henry Morgan. Eram piratas - disse ele - que navegavam pelos sete mares em busca de ouro.

- O que é que eles faziam com o ouro?

- Tiravam-no aos espanhóis.

Falou das caravanas de mulas que transportavam o ouro através do Panamá, desde o Pacífico até ao Atlântico (marcou a rota no mapa), e de como Drake lhes fazia emboscadas pelo caminho. - Eram ladrões?

- Não, já te disse. Eram piratas.

- O que é que os espanhóis fizeram?

- Lutaram com todas as forças. Eram verdadeiros desportistas.

- Morreram pessoas?

- As pessoas também morrem em combates de boxe. - Ficou calado durante bastante tempo, mergulhado nos seus próprios pensamentos. Depois disse: - Os ladrões roubam insignificâncias. Os piratas roubam milhões. - Fez- se outro prolongado momento de reflexão. - Suponho que os ladrões também podem ser considerados piratas, mas em negócios muito pequenos. Não tiveram nem a sorte nem a oportunidade dos piratas.

Esta lição específica seria interrompida por um grande número de silêncios e alguns nomes geográficos. Quando tentei que ele entrasse demasiado depressa em Portugal, falhei. Ao cabo de um silêncio, continuou:

- Se eu tivesse dinheiro, gostava de ir onde foi o Drake, para o Panamá, e para todos esses países onde havia ouro, mas a Liza não seria feliz, não se sentiria em casa. Enfim, talvez um dia.

Pus um dedo no mapa e disse pela segunda vez:

- E Portugal. Como é Portugal?

- Uma aglomeração de sardinhas. - Duvido que algum de nós tenha compreendido verdadeiramente o termo. - Esquece Portugal. Ensinaram-te poesia na escola, rapaz?

Comecei a recitar um poema que me obrigaram a decorar na escola. Agora já não me lembro, mas era sobre o corajoso Horácio a defender uma ponte qualquer.

- Prefiro de longe o King Kong - interrompeu-me. Depois, acrescentou como quem pede desculpa: - Em regra, não sou muito dado a poesia, mas há um poema, que tenho presente na cabeça, de um tipo chamado Kipling. Oh, na tua escola não o compreenderiam. "Corajoso Horácio" - repetiu ele com desprezo. - Que nome para pôr a um homem. Kipling escrevia o que um homem sente, pelo menos o que sente um homem como eu. Parece que fala comigo. Talvez se a Liza sentisse o mesmo, já há muito nos teríamos ido embora daqui e estaríamos confortavelmente ricos e em segurança.

- Não estão em segurança aqui? - perguntei.

Não respondeu à minha pergunta - pelo menos não o fez directamente. Disse:

"Abençoadas as ilhas tal e tal, onde nunca chegam os mandados de captura

Abençoadas as repúblicas justas,

Que dão abrigo a um homem. "

- Isso é poesia? - perguntei.

- Isto é poesia, Jim, poesia verdadeira. Transmite-nos qualquer coisa. Que vão para o diabo com o seu corajoso Horácio. Sabes com que sonho?

Não sei por que razão, respondi:

- Com tartarugas?

- Tartarugas! Não sonho com tartarugas. Porque raio havia de sonhar com tartarugas? Eu sonho quando estou acordado, não quando estou a dormir. Sonho com todo o ouro que o Drake roubou das mulas no Panamá. Sonho que somos os três ricos, ricos e em segurança, e sonho que a Liza pode comprar tudo o que lhe apetecer.

- Ela também tem esse sonho?

- Sei muito bem que não, e não me parece que goste que eu sonhe com isso.

Faço os possíveis por descrever uma lição típica dada pelo Capitão, mas sei muito bem que a minha descrição não pode ser concretamente correcta. Passou pela memória, e a memória rejeita e altera, tal como o Capitão pode ter alterado muitos factos quando contava as suas experiências da guerra. Por vezes, Liza sentava-se connosco durante as lições, e reparei que a sua história favorita - a da fuga para Espanha -, que chegava a ocupar um lugar nas lições de línguas, bem como nas de geografia (numa ocasião até tentou um pouco de história contemporânea), se tornava mais pormenorizada quando ela estava presente, e os pormenores nem sempre coincidiam; era como se ele quisesse tornar a história mais interessante tendo Liza na audiência. Pensei, por vezes, que ele talvez mentisse um pouco propositadamente. Por exemplo, quando me descreveu a fuga com os companheiros através dos Pirenéus, disse-me (disso tenho a certeza) que se deitavam no escuro a ouvir o ruído que faziam as botas da patrulha alemã, mas mais tarde, quando Liza estava presente, acrescentou um pormenor dramático, dizendo que uma pedra se deslocara e lhe caíra sobre o tornozelo, e que até hoje, no tempo húmido, a dor voltava e obrigava-o a coxear, coisa que nunca o tinha visto fazer.

 

A barba não durou mais de que uma ou duas semanas. Uma manhã, quando desci para o pequeno-almoço, deparei com o Capitão a rapá-la. Talvez porque estivesse a assobiar ao mesmo tempo, cortou-se duas vezes.

- Nunca me senti à vontade de barba - disse- me. - Lembra-me sempre aqueles dias fuliginosos nos Pirenéus. Aí ninguém podia fazer a barba. De qualquer modo, a Liza não gosta. Diz que lhe pica.

Voltou-se, com a navalha na mão, para o sítio onde Liza estava a fazer o chá e mostrou-se.

- É assim que gostas, Liza?

- Não gosto de te ver sangrar.

- Um bocadinho de sangue não faz mal a ninguém. - Esta foi uma frase que com toda a certeza usou, pois manteve-se no meu espírito durante anos, embora não faça ideia porquê. Foram também as últimas palavras que me lembro de lhe ouvir dizer durante algumas semanas, pois nesse dia não veiojantar, e na manhã seguinte não estava ao pequeno-almoço.

- Onde está o Capitão? - perguntei.

- Como hei-de saber? - respondeu Liza num tom de voz que, quando penso nisso agora, relembro quase como um grito de desespero.

- Mas ele disse que íamos ter outra lição de história - queixei-me, com a desilusão egoísta própria da minha idade, e, tal como eu temia, a lição foi substituída por uma de religião, dada por Liza.

As lições de religião tiveram muito menos êxito comigo. É claro que na escola, com os amalecitas, frequentei aquilo a que os meus colegas chamavam urelígias, mas tinha uma noção muito vaga dos acontecimentos do Novo Testamento, à excepção do nascimento na estalagem (não certamente na estalagem onde serviam gim tónico), da crucificação e da ressurreição. Tudo isto me impressionou como uma história de fadas com um final feliz pouco provável. (Nunca acreditei realmente que a Cinderela se casasse com o Príncipe. )

Liza obedecera às instruções do Capitão e comprara-me uma Bíblia num alfarrabista, pela qual eu passava os olhos de vez em quando, mas achava a linguagem antiquada muito difícil, e a história da concepção da Virgem confundia-me. Uma noite, antes de Liza desligar a luz por cima do meu sofá, pedi-lhe que me explicasse.

- Sempre pensei que virgem queria dizer...

 Mas ela interrompeu-me rapidamente e deixou-me na escuridão. Pensei que talvez não gostasse de falar de bebés, porque não tinha conseguido ter um dela, e era óbvio que a palavra "virgem" também a embaraçava.

Mesmo assim - para agradar ao Capitão - pedia-me todos os domingos que lhe lesse um trecho da Bíblia em voz alta, mas em breve descobri uma maneira de fugir a esta rotina, escolhendo por duas vezes passagens que ela não conseguiria explicar. Assim, comecei a ler aquela parte chamada o Velho Testamento, e isto, à excepção da história dos amalecitas, tinha sido muito pouco falado em "relígias".

Primeiro, perguntei-lhe se a Bíblia era um livro sagrado, ela respondeu:

- Claro que é.

Por isso, li-lhe o seguinte:

- "E tu, filho do homem, pega numa faca afiada, pega numa navalha de barba, e fá-la passar sobre a tua cabeça e sobre a tua barba: depois pega numa balança para pesar e dividir o cabelo. Um terço queimarás com fogo no meio da cidade, pegarás noutro terço e golpeá-lo-ás com uma faca, e o outro terço espalharás ao vento. Também pegarás em alguns des ses e atá-los-ás às tuas saias. " Achas que o Capitão estava a fazer isto quando se cortou ao barbear- se? - perguntei. - As saias de quem. ? - Mas Liza já se tinha ido embora antes de eu acabar a frase.

A segunda vez que li em voz alta, dei com uma

passagem excelente. Isto é difícil - disse eu. - Há palavras que não entendo. Ajudas-me? - E comecei a ler: - "E os babilónios chegaram-se a ela no leito de amor e mancharam-na com a sua devassidão, e ela ficou conspurcada. Então descobriu as suas próprias devassidões e descobriu a sua nudez. E no entanto multiplicou a sua devassidão, procurando lembrar os dias da suajuventude em que se prostituía na terra do Egipto. " Provavelmente, pronunciei mal a palavra "devassidões", mas seja como for Liza saiu sem explicar as palavras e nunca mais me pediu que lesse em voz alta.

 

Desta vez, quando o Capitão regressou, vinha outra vez de bigode, embora fosse de outro estilo e de uma cor diferente daquela que eu conhecera. Já estava bastante escuro quando o toque convencional soou, e mal tivéramos tempo de nos cumprimentar quando a campainha tocou de novo - imperiosamente. Habituara-me a considerar os toques das campainhas como uma forma de código, e este tinha algo de familiar, mas uma coisa era certa: não podia ser o Capitão, pois este estava na cozinha, à escuta, sustendo a respiração. Eu tinha boa memória e, ao terceiro toque, já tinha quase a certeza de que aquele som imperioso indicava que o meu pai estava lá fora.

- Não tenho a certeza - disse eu -, mas acho que é o "Demónio".

- Não abras a porta - disse Liza.

- Não, deixa entrar o estupor - contrapôs o Capitão. - Não temos medo dele.

Eu tinha razão. Era o meu pai, e não vinha sozinho, o que era muito pior. A minha tia estava com ele.

- Com que então estás aqui, Victor - rosnou a minha tia.

Suponho que devo ter estremecido ao ouvir o nome odiado e quase esquecido.

Penso que o meu pai reparou no meu medo.

- Desculpa, Jim - disse, e dei-lhe algum crédito por se ter lembrado, desta vez, da minha mudança de nome. - Tive de a trazer, pois viria de qualquer modo.

- Quem é esta mulher? - perguntou a minha tia com altivez.

O meu pai dera-me uma certa coragem. A Liza é a minha mãe - disse eu, com ar de desafio.

- Estás a insultar os queridos defuntos. - A minha tia sempre teve o estranho costume de, em certas alturas, falar como um livro de orações. Suponho que ganhou o hábito com tanta ida à igreja.

- Penso - disse o "Demónio" - que devíamos sentar-nos todos e discutir este assunto de modo calmo e civilizado.

- Quem é este homem e o que está ele aqui a fazer?

- Não tem olhos para ver? - respondeu Liza, finalmente. - Está a tomar uma chávena de chá. Há algum mal nisso?

- Como é que se chama?

- Capitão - disse eu.

- Isso não é nome. Seria muito melhor, Muriel, se te sentasses - sugeriu o meu pai.

O Capitão puxou de uma cadeira e a tia sentou-se à borda como se tivesse medo que o seu traseiro fosse infectado por qualquer um de nós que se tivesse sentado lá pela última vez. - Contratou um detective particular - disse-nos o meu pai. - Não sei como ele chegou aqui. Alguns desses tipos são muito espertos, e é provável que os vossos vizinhos tenham falado.

- Eu sei qual foi - disse Liza.

- Pediu-me que viesse com ela. Disse que tinha medo de violências.

- Medo? - perguntou o Capitão. - Aquela com medo?

- Raptores - ripostou a minha tia com violência.

- Então, então - disse o "Demónio" -, não estás a ser nada justa, Muriel. Eu disse-te que foi um jogo limpo e que ele ganhou.

- Disseste-me que tinha feito batota.

- Claro que fez batota, Muriel. Eu também fiz. As mulheres - disse, dirigindo-se ao Capitão - não compreendem o objectivo de um jogo como o xadrez. De qualquer modo, expliquei-lhe que legalmente sou eu que tenho a custódia do rapaz e que dei autorização à Liza.

- A minha irmã pediu-me, no seu leito de morte, para cuidar...

- Eu sei, e nessa altura consenti, mas isso já foi há muito tempo. Tu própria disseste no ano passado que estavas cansada de ter essa responsabilidade.

- Não estava demasiado cansada para cumprir o meu dever. Já é tempo de tu cumprires o teu. - Voltou-se para Liza. - O rapaz não está a receber qualquer educação. Há leis que regulam isso.

- Não há dúvida que tens um bom detective, Miriam - disse o "Demónio".

- Muriel! Já devias de saber o meu nome depois de tantos anos.

- Desculpa, Muriel. Muriel e Miriam sempre me pareceram a mesma coisa.

- Não vejo semelhança.

- O Jim está a receber lições em casa - disse Liza.

- Vai ter de dar satisfações ao responsável da educação local.

- Que sabe ele disto?

- Vai saber tudo do que precisa depois de eu falar com ele.

- Quem é que está a ensinar o Victor?

- Eu - disse o Capitão. - Ensino-lhe geografia e história. Deixo a religião com a Liza. Já sabe somar, subtrair e multiplicar. É tudo do que uma pessoa precisa. Não me parece que a senhora saiba muito de álgebra.

- Quais são as suas qualificações, senhor. senhor. ?

-Chame-me Capitão, minha senhora. É assim que todos me chamam.

- Qual é a capital da Itália, Victor?

- A geografia moderna não lida com nomes, minha senhora. Isso é antiquado. A geografia ensina a viajar pelo mundo. Diz-lhe, Jim, como se vai da Alemanha para a Espanha.

- Primeiro vou para a Bélgica, depois Liège. Aí, apanho o comboio para Paris, e em Paris apanho outro para Tarbes.

- Onde fica Tarbes?

- Como vê, minha senhora, também não sabe nomes, mas o Jim sabe sair de Tarbes, continua, Jim.

-  Depois de Tarbes, atravesso os Pirenéus. À noite.

- Que disparate! Que queres dizer com "atravesso à noite"?

- Atento ao barulho das botas alemãs chapinhando na neve.

Receio bem que esta frase foi o fim da minha educação particular. Semanas mais tarde, dei comigo numa escola local. Não fui infeliz nessa escola, pois não era um amalecita. Tinha uma sensação de liberdade enquanto atravessava sozinho as ruas de Londres, como se, tal qual os homens que passavam por mim, estivesse a caminho do escritório ou do emprego. As lições não eram tão interessantes como as do Capitão, mas já aprendera que não podia confiar neste para receber lições regulares, nem de geografia.

 

Penso que foram passados dois anos ou mais depois de eu começar a escola que aconteceu a mais longa separação entre nós. Era sábado à tarde e eu não tinha escola. Liza saíra para comprar pão e, uma vez sem exemplo, deixara-me sozinho com os meus livros de estudo. Então, a campainha tocou. Não era o código do Capitão nem o do meu pai. Era um toque calmo, tranquilizador, até amigável. A pessoa esperou delicadamente algum tempo até voltar a tocar, e tocou novamente sem exigências. Eu sabia que Liza nunca abriria a porta a ninguém que não fosse o Capitão, mas agora a decisão era minha.

Perguntei através da porta:

- Quem é?

- Abra a porta, por favor. Sou da polícia - respondeu uma voz.

Senti-me entusiasmado e orgulhoso com este meu primeiro contacto social com uma força à qual, por vezes, sonhara juntar-me um dia e, assim, deixei-o entrar.

Não parecia um agente da polícia; não trazia uniforme, o que me desiludiu um pouco. Na realidade, de uma forma estranha, fez-me lembrar o Capitão. Ambos vestiam roupas vulgares, como um disfarce, e perguntei-me se não seria um irmão desconhecido que tivesse aparecido por ali.

- Queria falar com o teu pai - disse.

- Ele não vive aqui - disse-lhe sem mentir, porque logicamente pensei que se referisse ao "Demónio ".

- Onde está a tua mãe?

- Saiu para comprar pão.

- Acho que é melhor esperar por ela.

Sentou-se na única poltrona e pareceu-me, cada vez mais, um parente em visita.

- És um rapaz de palavra? - perguntou.

Pensei que era melhor ser rigoroso nas minhas respostas, visto estar a falar com alguém da polícia.

- As vezes - respondi.

- Onde é que o teu pai vive quando não está aqui?

- Nunca está aqui - disse.

- Nunca?

- Oh, esteve aqui uma ou duas vezes.

-Uma ou duas vezes? Quando é que isso foi?

- A última vez, há cerca de dois anos.

- Não é lá grande pai, então.

- A Liza e eu não gostamos de o ter cá.

- Quem é a Liza?

- A minha mãe. - Lembrei-me mais uma vez que devia ser sincero. - Bem, uma espécie de mãe -, acrescentei.

- Que queres dizer com uma "espécie de mãe"?

- A minha mãe morreu.

O polícia suspirou. Queres dizer que a Liza morreu?

Não, claro que não. Já lhe disse. Foi à padaria. Meu Deus, que criança complicada. Espero que essa tua "espécie de mãe" volte depressa. Tenho umas perguntas a fazer-lhe. Se o teu pai não mora aqui, onde é que mora?

- Acho que a minha tia me disse uma vez que era um sítio chamado Newcastle, mas a minha tia vive em Richmond - continuei a falar e a dar- lhe todas as informações que podia, de modo a mostrar-lhe a minha boa vontade - e não se dão lá muito bem. Ela chama-lhe o "Demónio".

- Acerca disso - disse ele -, a julgar pelo que me contaste, é capaz de ter razão. - Nessa altura, a porta lá em cima abriu-se e ouvi os passos de Liza nas escadas.

Algo me obrigou a gritar:

- Liza, está aqui um polícia.

- Eu também podia ter-lhe dito isso – comentou ele.

Liza entrou com um ar agressivo, segurando um pão como se fosse um tijolo que se preparasse para arremessar.

- Um polícia?

Ele tentou tranquilizá- la. Só queria fazer-lhe umas perguntas, minha senhora. Não demora tempo nenhum. Penso que pode dar-nos uma ajudinha.

- Eu não ajudo nenhum polícia, acabou-se. Estamos a tentar encontrar um cavalheiro que dá pelo nome de Coronel Claridge.

Não conheço nenhum Coronel Claridge. Não ando com coronéis. Nunca conheci um coronel. Está a imaginar um coronel a entrar numa cozinha destas? Olhe ali para o fogão. Nunca se viu um coronel com um fogão destes, nem morto.

- As vezes, ele usa outros nomes, minha senhora, Victor, por exemplo.

- Já lhe disse que não conheço nenhum coronel nem nenhum Victor. Não leva nada de mim.

Sempre me interroguei o que poderia ter acontecido depois desta visita e o que teria acontecido antes que a tivesse provocado. Passariam vários anos antes de voltar a ver o Capitão. Nessa altura as suas visitas eram curtas e eu nem sempre estava presente. Por vezes, quando voltava da escola, reparava apenas numa chávena de chá por acabar.

Tinha saudades dele? Não me lembro de nenhuma emoção, talvez um forte desejo ocasional de que acontecesse algo interessante. Começara a amar o Capitão, esse suposto pai que estava agora distante de mim como o meu pai verdadeiro? Amava Liza, que cuidava de mim, que me dava uma alimentação correcta, que me despachava para a escola à hora certa e me recebia com um beijo impaciente? Amava alguém? Sabia o que era o amor? Sei-o agora, anos mais tarde, ou será o amor apenas algo que li nos li vros? O Capitão voltou, é claro, acabava sempre por voltar.

Agora que deixei Liza e abandonei aquilo a que aprendera a chamar casa, só sei das suas ausências indirectamente, quando a visito. Por vezes passa um ano, outras vezes dois. Nunca a ouvi queixar-se. Uso sempre o mesmo código quando toco à campainha, pois de outro modo tenho a certeza de que nunca me deixaria entrar. Penso que espera sempre que seja o Capitão a tocar e não eu. As minhas visitas só coincidiram três vezes com as suas, e sei bem que pensava que eu ainda vivia em casa. Foste às compras? - perguntou-me uma vez, num tom amigável e desinteressado. Outra vez, interrogou-me superficialmente sobre o meu trabalho como jornalista.

- Não te obriga a ficares fora até tarde? - perguntou. - Sabes como a Liza detesta a escuridão.

Numa ocasião em que ele foi, por acaso, o primeiro a sair, Liza pediu-me:

- Nunca lhe digas que já não vives aqui. Não quero que se preocupe comigo. Já tem preocupações que cheguem.

Porque me fui embora e a deixei? Talvez me tornasse demasiado impaciente com a comédia que Liza representava cada vez mais frequentemente durante as longas ausências do Capitão. Sentia que ela fazia isto para o proteger de censuras, e só o aguentei enquanto parecia provável que ele regressasse um dia para viver connosco. Não estava habituado a ter uma mãe. Só conhecia o papel de uma tia, e detestava-o, e talvez começasse a considerar Liza como uma tia, mais do que como uma mãe substituta. Suportava-a enquanto o Capitão lá estivesse. Este nunca tentou fazer de pai. Era um aventureiro, pertencia àquele mundo de Valparaíso com o qual eu sonhara em criança, e, como a maioria dos rapazes, eu reagia, penso eu, à atracção do mistério, da incerteza, da ausência da monotonia, " monotonia que é a pior faceta da vida em família.

Recuso-me a sentir remorsos por a ter deixado. Tenho a certeza de que ele lhe manda dinheiro enquanto está fora, e, curiosamente, sinto que estão a envelhecer juntos sem mim, embora ultimamente seja raro ele lá estar. Sempre me interroguei se talvez. . .

 

Sempre me interroguei. Sobre que seria que sempre me interroguei, i, pergunto a mim próprio ao ler este relato da nossa vida juntos, um relato que começara a escrever anos antes, mas que abandonara quando saí de casa. Não encontrei resposta à minha pergunta.

Soube pela polícia que Liza estava no hospital em estado grave e por isso fui àquilo que ainda chamava com relutância a minha casa, para fazer todas as coisas cansativas que são necessárias quando uma pessoa se prepara para a morte de um parente. Não havia nenhum parente verdadeiro a quem pudesse entregar esta desagradável tarefa. Liza quase morrera num estúpido acidente ao atravessar a rua vinda do padeiro, onde, durante anos, fora meu dever ir buscar o pão. Apolícia encontrou- lhe no bolso uma carta para mim, uma carta onde tipicamente me lembrava de me vacinar contra a gripe, e a sua morte iminente deu-me uma sensação passageira de culpabilidade por a ter deixado, pois se não o tivesse feito seria eu a ir buscar o pão e o acidente nunca teria acontecido. No hospital, falando com dificuldade, disse-me para destruir uma quantidade de cartas que não queria que fossem lidas por desconhecidos.

Não sei porque as guardei - disse-me. - Ele escreve sempre tanto disparate. Não digas ao Capitão que estou aqui - acrescentou.

- E se ele aparecer.

- Não aparece. Na última carta falou no ano que vem, ou no outro. - disse. - Sê bom para ele. Ele sempre foi bom para nós - acrescentou.

Mencionei a palavra proibida:

- Ele ama-te?

- Oh, o amor! Estão sempre a dizer que Deus nos ama. Se isso é amor, prefiro um pouco de bondade.

Estava preparado para as suas cartas, mas fui apanhado um pouco de surpresa quando deparei com esta história inacabada - ficção, autobiografia? - que escrevi aqui. Encontrava-se por baixo de várias pilhas de cartas guardadas por Liza, ordenadamente agrupadas e atadas com elásticos, na gaveta da cozinha que era destinada aos guardanapos e objectos esquisitos e inúteis, conhecidos em dias passados por panos.

A princípio nem sequer reconheci a minha própria letra, tão legível fora no passado. Agora, com a passagem dos anos e com todo o trabalho apressado que implica o jornalismo barato, reportagens de acontecimentos triviais para um jornal que no fundo desprezo, a minha letra tornou-se praticamente ilegível.

Houve um período na minhajuventude em que alimentei a vã ambição de vir a ser o que eu considerava um verdadeiro escritor e suponho que foi nessa altura que comecei este fragmento. Talvez tenha escolhido a forma que pudesse ter qualquer interesse para os outros, pois sabia muito pouco do mundo exterior. Devo ter deixado este esboço - ou o quê?quando abandonei subitamente e com vergonha a minha vida na cave, aproveitando a oportunidade numa das raras ausências de Liza, e levei comigo uma pequena parte do dinheiro que encontrei no seu quarto. Ainda ficava o suficiente, disse a mim próprio, para se aguentar até chegar a próxima prestação do Capitão. Ainda nunca lhe falhara, e pensei que a pequena contribuição que extorquira era justa. Liza gastaria certamente muito mais comigo nos meses que se seguiriam, e, agora que me ia embora, ela teria o próximo cheque só para si, para se entreter - não que ela alguma vez se entretivesse com dinheiro.

Era evidente que Liza lera o meu manuscrito (quando o li, fiquei satisfeito ao verificar que não continha nenhuma crítica pungente aos seus cuidados maternais), pois rabiscara na última página, com a sua caligrafia pouco literária, o que poderia muito bem ter servido de epitáfio convencional na lápide do Capitão, ou talvez tencionasse que fosse uma réplica final a todos os polícias que tinham ido lá a casa incomodá-la com perguntas: "Seja como for, digas o que disseres sobre o Capitão, ele foi muito bom para nós dois. Ele era (o "era, fora riscado), "ele é um homem muito bom. Como era característico, não uti lizou aquela expressão misteriosa - uamor; ficava para a lápide apenas este reconhecimento desafiador da virtude do Capitão. Teria alguma vez existido amor fisico (interroguei-me se era este o significado por detrás do meu ponto de interrogação?) entre estas duas estranhas pessoas, que eu conhecera tão mal em criança?

 

Achei muito estranho encontrar-me sozinho na cave sombria, naquela rua degradada de Camden Town, a ler um documento que compusera havia tantos anos, e depois, uma a uma, dei uma vista de olhos pelas cartas que até ali nunca vira, escritas pelo Capitão, todas elas guardadas nos seus sobrescritos com selos estrangeiros. Em breve descobri que fora muito contra a vontade do Capitão continuar a enviá-las para a casa de Camden Town. O Capitão fora bom para nós, pelo menos em intenção. Durante as suas longas ausências, escrevera com alguma regularidade,  embora raramente o fizesse com uma morada mais precisa do que uma posta- restante. O último desaparecimento de que eu fora testemunha ocorrera pouco tempo antes da visita de mais outro agente à paisana. Depois disto, chegava um pequeno embrulho com intervalos de dois ou três meses, umas vezes com uma carta, outras não, mas sempre com dinheiro ou objectos de valor. O embrulho era atirado para a caixa do correio por uma mão desconhecida que antes tinha tocado na campainha o sinal de código.

- Não gosto disto. Não o suporto - comentou Liza uma vez. - Não é justo. Era um segredo entre ele e eu. Quando toca, eu penso. talvez seja desta. e nunca é. Às vezes, este código parece-me ser a úni ca coisa que realmente partilhámos. - E acrescentou atenciosamente: - Além de ti, claro.

Depois o dinheiro deixou de vir alguns meses, e as cartas também. Felizmente, o dono da casa não obteve autorização para a demolir, como tencionava, e três dos quartos dos andares superiores foram, de má vontade, alugados mobilados. Por isso Liza recebia uma série de gorjetas e extras. De outro modo, teríamos de sobreviver, mais propriamente do que viver, com o que Liza ganhava como porteira.

Ao virar as cartas, lembrei- me de quando, finalmente, aparecera uma, sem mais nem menos, com um selo espanhol e o carimbo de um local na Costa Brava. Continha uma quantia muito mais elevada do que alguma vez ele mandara - um cheque de três mil libras de um banco da Suíça - e recordei a exclamação de desânimo de Liza.

- Que horror! O que fez ele? Ainda é apanhado.

Mandam-no para a prisão durante anos e anos. Mas, se outra razão não houvesse, a ausência de um

tratado de extradição com a Espanha, nessa altura, salvou-o de tal destino.

 Encontrei esta carta entre as primeiras da pilha e li-a  pela primeira vez. Soube pela data que chegara pouco tempo antes de eu sair de casa e ir trabalhar como assistente de repórter num jornal, emprego que ganhara, apesar da minha juventude, devido a um relato bastante aceitável de um estranho acidente que nunca acontecera realmente. Talvez o título que dei ao artigo tivesse chamado a atenção do director: "Feitiço contra o Feiticeiro". Receei que o director verificasse a fonte que eu falsamente indiquei, mas escolhi bem a ocasião de entregar o meu artigo, pois o jornal ia imediatamente para a tipografia, e o director estava ansioso por o meter na primeira e única edição antes de a história sair nos títulos dos gigantes, do Mail ou do Express. Até ali fora suficientemente ingénuo para partilhar a opinião de Liza de que o que importava num jornal era a verdade, mais do que o interesse do leitor, e o meu êxito ajudou a curar a minha ingenuidade.

Quando vim dar a Liza a boa notícia do meu emprego - ainda melhor aos meus olhos devido à pequena mas inteligente vigarice que usara (que senti que o Capitão aprovaria), encontrei-a sentada na cozinha com a carta que agora seguro na mão.

Embora Liza me tivesse dito para destruir as cartas, não tinha tenções de o fazer, pelo menos até as ler todas. É claro que, na próxima visita ao hospital, tranquilizá-la-ia - "nunca as tirei dos sobrescritos, atirei-as logo para o fogão". Não tinha nenhum sentimento de culpa. Aqueles dois fizeram de mim o que eu era. Tinha o direito de conhecer os meus criadores.

"Minha querida Liza, comecei a ler, "vou-me outra vez embora, o mais depressa possível, assim que meter esta carta no correio. Espanha já não é o que era, por isso vou para onde sempre quis ir, para as repúblicas justas, onde uma pessoa pode fazer fortuna sem complicações nem aborrecimentos, e pode ser que não te escreva tão cedo e as cartas levem algum tempo a chegar. Por isso, não fiques ansiosa. Estou a lutar com firmeza, mas não aguento imaginar-te ainda a viver nessa cave miserável ano após ano. Já era

boa altura de o Jim arranjar um emprego e de contribuir. Usa este cheque para arranjares qualquer coisa melhor. Gostava que o cheque fosse maior, mas tenho de guardar algum dinheiro para a viagem e para organizar a minha vida, embora isso não deva demo rar muito tempo lá no sítio para onde vou. Assim que me instalar dou-te o número da minha caixa pos tal e juro que muito em breve te enviarei um cheque muito mais elevado, o suficiente para que tu possas

vir ter comigo ao sítio onde estiver instalado. Tenho saudades tuas, e preciso de ti, Liza, todos estes anos sem ti têm sido horríveis, e às vezes não consigo dormir à noite de tanto me preocupar contigo. As tuas cartas não me esclarecem muito. Nunca foste pessoa de se queixar, nem quando o Demónio te magoou. Acredita que já não falta muito para estarmos juntos. Quanto ao Jim, é claro que pode vir contigo, se quiser. Não gosto que viajes sozinha. Diz-lhe que oiço as campainhas das mulas a caminho - ele percebe ao que me refiro. O teu Capitão. P. S. - Começa a cair-me o cabelo. Em breve estarei glabro. É sempre assim quando estou sem ti. Reparei que a palavra "amor" continuava a faltar, e que raio queria dizer glabro? Fui ver ao dicionário quando voltei para o meu quarto e encontrei como resposta "destituído de pêlos". Fazia algum sentido, desta vez, ao contrário da maioria das palavras complicadas que ele gostava de usar.

Liza não me mostrara a carta nessa altura, mas mesmo depois dos anos que passaram ainda me lembro das lágrimas nos seus olhos no dia em que recebeu o cheque, e de como me disse, com uma espécie de desespero:

- Ele escreve tanta tolice! Não tenho tempo para estes disparates.

-Pareces infeliz - disse-lhe. - Más notícias?

- Oh, isto é porque estive a cortar cebola. Que quer ele dizer com ouvir as campainhas das mulas?

- Suponho que há mulas em Espanha.

- Mas já se foi embora de Espanha, e nem sequer diz para onde. E glabro? - acrescentou. - O que quer dizer glabro? Nunca percebo estas palavras grandiosas que ele usa. Mas ele sempre foi assim.

um homem instruído.

Seja como for, foi levantar o cheque e deu-me uma parte, mas recusou-se a deixar a cave.

- Não vou viver como uma ricaça à sua custadisse uma vez. - Vou poupar tudo o que puder até ele tocar à porta.

Tanto quanto soube, nunca recebeu o endereço da nova caixa postal para responder, e ao cabo de um ano começou a falar dele no passado, como se tivesse morrido. Mesmo que estivesse na prisão, teria arranjado forma de me escrever.

Levei as cartas e o meu rascunho inacabado para o apartamento de duas divisões pelo qual trocara o outro de uma só sala, no Soho, depois de receber a minha parte do cheque, e, nas semanas que se seguiram, li as cartas várias vezes. Era como se estivesse a olhar com os olhos de outra pessoa, para a mulher moribunda que fora a minha mãe adoptiva e, à medida que a espreitava nas entrelinhas, o mistério aumentava. Que mantivera aqueles seres tão unidos, e ao mesmo tempo tão estranhamente afastados? Por duas vezes na minha vida, depois de sair de casa, dei comigo sentindo-me o que eu chamo apaixonado, e de ambas as vezes o caso acabara (no que me dizia respeito) bastante bem, e esperava cada vez com mais confiança uma terceira rapariga que ainda não encontrara. Com ambas as raparigas, houvera, durante breves ausências, uma troca do que se pode chamar,  penso eu, cartas de amor. (Guardara as cartas das raparigas como prova do meu êxito, e imaginei que elas, com orgulho idêntico, tivessem provavelmente guardado as minhas.) Não havia, certamente, falta da palavra amor" nestas cartas, e havia imensas referências aos prazeres que partilháramos, mas quando li as cartas do Capitão dei comigo a entrar numa terra desconhecida onde o idioma me era totalmente estranho, e mesmo quando uma palavra era idêntica a uma da minha língua parecia ter um significado com pletamente diferente.

"Na noite passada sonhei contigo, Liza. Tinhas herdado uma fortuna e compraste um carro, e o pior de tudo foi que eras uma condutora péssima e eu tinha a certeza que terias um acidente terrível e que irias outra vez para o hospital e eu não sabia onde. Acordei com a sensação de que estavas muito longe, por isso escrevo esta carta porque não há mais novidades, boas ou más, além deste sonho funâmbulo, mas, por favor, não percas a esperança. "

Esta foi uma carta anterior àquela com o selo de Espanha. Também fui ver ao dicionário a palavra "funâmbulo". Penso que deve tê-la ligado a palavras como "fúnebreu ou "funéreo", pois o significado verdadeiro, "equilibrista", não fazia certamente sentido. Não era tão instruído como Liza pensava.

Outra carta principiava assim: "Por favor, por favor, não te preocupes, como julgo que acontecerá, com a quantia daquele cheque. Um dia hei-de fazer uma fortuna que iremos todos partilhar. Mas talvez seja mais seguro para ti - porque não quero que te preocupes com pessoas a fazerem-te outra vez perguntas - que passe os futuros cheques ao portador.

Se fosse a ti, não abriria uma conta - é sempre melhor ter dinheiro em numerário e ninguém vai assaltar a tua humilde cave. Por enquanto os cheques vão assinados por Carver. Nunca gostei de Cardigan – é demasiado honorífico - e já estou farto de Victor. Nem o Jim gosta desse nome, e tem razão para isso. Mas não precisas de te preocupar, aqui está tudo óptimo, a não ser as saudades que tenho de ti. Esta carta vai muito comercial e monótona, mas tu sabes bem as outras coisas que eu não quero escrever hoje. És a minha vida, Liza, lembra-te disso. Uma pessoa tem de ter um objectivo na vida, e tu és o meu objectivo. O teu Capitão. P. S. - De qualquer modo, gostava que saísses dessa cave e que não desses a morada ao Demónio, que a desses só aos correios para enviarem as cartas. Não respondas a esta até eu te indicar a caixa postal de Carver, porque penso que vou mudar de sítio outra vez.

Esta deve ter sido a última carta que Liza recebeu antes de ir para o hospital; o carimbo postal era indecifrável e o selo colombiano.

Escolhi outra carta ao acaso. Senti que estava por qualquer razão válida apenas para mim - em busca de esclarecimento, e lembrei-me do que o meu pai me dissera sobre as mentiras do Capitão. Mas que tinha o Capitão a ganhar mentindo a Liza, perguntei a mim mesmo, estando ele tão longe? Quando vivia com uma rapariga senti muitas vezes a necessidade de mentir - para manter a relação mais algum tempo -, mas que tipo de relação permaneceria intacto quando três mil quilómetros se interpunham? Porquê continuar com esta comédia? Ou seria uma comédia que o Capitão representava a si próprio para fugir à sua solidão? Era possível que a carta que escolhi para ler a seguir, com data anterior, sugerisse uma explicação parcial.

"Tu pareces ser a única pessoa além de mim que eu pude ajudar um pouco. A muita gente parece que só fiz mal. Fico assustado quando penso que um dia posso fazer-te mal a ti, como fiz mal aos outros. Preferia morrer agora do que deixar isso acontecer mas talvez a minha morte te prejudicasse mais do que a minha vida. Querida Liza, falo com mais facilidade

com um bocado de papel do que com a boca. Talvez devesse viver num quarto ao lado do teu e apenas escrever-te recados. "

Perguntei a mim mesmo por que razão o Capitão tinha sempre esta necessidade de estar longe da mulher que amava. Recearia realmente o mal que Lhe pudesse causar?

"Algumas vezes, quando quisesses falar comigo, a maçaneta da porta girava e tu entravas - nem que fosse só para me dares uma chávena de chá. Eu ficaria

a observar a maçaneta a girar, embora o chá não me caísse nada bem. Agora só bebo uísque. É melhor para o estômago, e o chá, que me faz pensar em ti,

parece-me demasiado funâmbulo. Aquela palavra novamente.

Como sempre, havia um P. S. como se tivesse relutância em dobrar o papel e metê-lo no sobrescrito: "Não tenhas medo, Liza. Estou só a brincar. Um uísque às seis da tarde. Não estou a transformar-me num alcoólico. Não posso. Para o tipo de trabalho que estou a fazer tenho de estar com a cabeça fresca. u

"Que trabalho", interroguei-me. A palavra "interrogar" parecia surgir com demasiada frequência no meu espírito.

Para mim, estas eram as cartas de amor mais estranhas do mundo, se é que eram verdadeiramente cartas de amor e não apenas a expressão de uma amizade profundamente sentimental. Despertaram a minha curiosidade. Lera apenas a metade de uma vida partilhada e queria ler a outra metade. Que tipo de resposta teria recebido o Capitão, do outro lado do mundo?

Talvez fosse a velha ambição de ser um "escritor verdadeiro", que estava latente em mim, e a curiosidade de um aspirante a escritor, que me fez ir, em seguida, falar com aquele demónio familiar, o meu pai. Quero continuar esta narrativa e encontrar uma conclusão melhor do que "interrogo-me talvez".

Tinha uma boa desculpa - afinal, era justo informá-lo do estado grave de Liza. Mas, mesmo que ela já tivesse morrido, eu não teria visto a necessidade de fazer mais do que informar o meu pai do seu funeral - se se pudesse chamar funeral à meia hora que teria de passar no forno crematório, talvez com dois comerciantes e um dos inquilinos que por vezes lhe pedia que fizesse a limpeza.

E assim escrevi ao meu pai, nada Lhe dizendo sobre o estado de Liza, pois isto podia privar-me da única desculpa para um encontro. Limitei-me a sugerir que, da próxima vez que o "Demónio" viesse a Londres, nos devíamos encontrar. Tinha, é claro, outra razão.

Estava a ficar com falta de dinheiro. Se Liza morresse, eu não tinha direito aos seus "bens" (empreguei a palavra com ironia), aquela conta desconhecida na qual ela talvez tivesse depositado mais do que uma vez, contra o conselho do Capitão, cheques passados ao portador. Se ela tivesse obedecido às suas instruções haveria certamente mais dinheiro do que as poucas libras que encontrara na gaveta do quarto. No entanto, não havia em lado nenhum sinais de um livro de cheques, a não ser que o tivesse com ela quando deu entrada no hospital.

Antes de receber resposta do meu pai, fui de novo à cave e encontrei outra carta, que fora empurrada por baixo da porta, com um selo do Panamá.

O Capitão escreveu: "Envio outro cheque do Carver ao portador. Desta vez são mil e quinhentas libras. Não é tanto como eu queria mandar, mas é o suficiente para fazeres as malas e te meteres no avião até à cidade do Panamá. Há dois voos semanais vindos de Londres, mas tens de mudar em Nova Iorque e não me agrada muito que passes por Nova Iorque, especialmente sozinha. Há boas razões para que não o faças. É melhor apanhares o avião para Amesterdão e vires directamente de lá. A viagem é longa, por isso vem em primeira classe e toma uma ou duas taças de champanhe para dormires com mais facilidade. Manda um telegrama para o Carver, Apt. 361cidade do Panamá, a dizeres o dia e a hora de chegada, e aqui o velho estará impacientemente à espera que o teu avião aterre. Não te preocupes com o Jim. É bom que ele fique uns tempos sozinho, e não tardará muito a juntar-se a nós. Trataremos disso juntos. Acho que Lhe consigo arranjar aqui um emprego dentro de algumas semanas. Diz-lhe que as mulas vêm carregadas e já estão próximas, mas não posso esperar que elas cheguem para vires ter comigo. Em breve serei um homem rico, Liza, juro, e tudo o que tenho será teu e dele. Estou tão excitado com a tua vinda que não consigo dormir. Vem depressa e torna o Carver deleitoso." Penso que avaliava as palavras pelo som, e desta vez, quando fui verificar, o som não andava muito longe do significado.

Levei comigo a carta e o cheque quando fui encontrar-me com o Demónio no Reform Club, como ele propusera. Reparei como o meu pai tinha envelhecido nos anos que passaram desde que viera a nossa casa acompanhado pela minha insuportável tia.

Cumprimentou-me ao balcão com uma censura:

- Porque não me disseste que a Liza estava no hospital?

Respondi-lhe com igual aspereza:

-Não pensei que estivesse interessado. Como soube?

- Aquela tua tia sempre soube tudo. Talvez um dos inquilinos lhe tenha dito. Suponho que não acreditas que o Demónio tenha algum sentimento humano. Devia acreditar? Oh, esquece. Bebe qualquer coisa. Suponho que bebes. Afinal, és meu filho.

Não estava habituado a mais do que cerveja, que era tudo o que podia pagar, mas o meu espírito desviou-me subitamente para o Capitão, para o nosso primeiro dia juntos, e eu disse: Um gim tónico.

- Uma vodca grande para mim - disse o meu pai ao empregado do balcão, e acrescentou por cima do ombro: - Quando tiveres a minha idade aprenderás a não diluir álcool de qualidade em gasosa.

- Não vim aqui para aprender a beber. Afinal porque foi que vieste? Dinheiro? Não, cá me arranjo. Com dificuldade, mas cá me arranj o. E o teu amigo, sabes a quem me refiro, que nome usa ele agora? Está muito triste por causa da Liza?

- Agora dá pelo nome de Carver, e ainda não sabe da Liza. Está algures no Panamá.

- Panamá? Então desta vez é que se pôs ao abrigo. Que fez ele para ir para tão longe?

- Parece que a vida lhe corre bastante bem. Tenho aqui uma carta que chegou com um cheque depois de a Liza ir para o hospital. Quer que ela vá ter com ele, e que eu vá mais tarde.

Entreguei o sobrescrito ao Demónio. Estes países pequenos têm sempre uns selos tão bonitos! Não devem ter muito mais para venderdisse o meu pai. E acrescentou: - Não tem carimbo. Alguém a trouxe em mão própria.

Dirigiu-se a um sofá, onde se sentou a ler a carta. Telegrafaste ao Carver, apartamento trezentos e sessenta e um? - perguntou.

- Ainda não. Tenho estado a pensar no que fazer com o cheque se a Liza morrer. Acha que o rasgue?

- Nunca se deve rasgar dinheiro - disse o meu pai. - O dinheiro é sempre bom. O dinheiro não tem moralidade. É melhor não telegrafares a contar-lhe da Liza. Pode anular o cheque.

Pareceu-me mais interessado no cheque, o qual examinou atentamente, do que na carta. Continuou a pensar em voz alta:

- Passado ao portador? É raro ver isto hoje em dia. Porque não o passou em nome dela? Talvez tenha pensado que as finanças fossem atrás dela. Ou se calhar é só pelo segredo. Ele adorava segredos.

Parecia sentir prazer com o toque do cheque.

- Banco de Londres e Montreal. Morada no Panamá. Espero, para teu bem, que a filial de Londres to aceite.

- Ele mandou-o para a Liza, não para mim.

- Ele devia-me cinquenta libras. Se levantasses o cheque podias pagar-me. Só cinquenta, em mil e qui nhentas.

Era óbvio que a ideia o divertia.

- Isso não seria vigarizá- lo?

- E como é que achas que ele arranjou o dinheiro? Ganhou- o? Duvido que o Capitão (é esse o nome permanente que vocês lhe dão, não é?), duvido que ele alguma vez tenha ganho dinheiro honestamente em toda a sua vida. Anda, vamos almoçar e ponderar cuidadosamente este aspecto moral tão interessante.

Pela segunda vez, dei comigo a principiar uma refeição com salmão fumado. O seu sabor evocou-me agradavelmente o Capitão.

O meu pai estava calado (talvez cismasse sobre a questão da moralidade). Assim, para fazer conversa perguntei pela saúde da minha tia.

- Não podia estar pior - disse o meu pai. No ambiente respeitável do Reform Club, pensei que seria boa educação mentir.

- Lamento - disse eu.

Na realidade - continuou o meu pai com satisfação -, morreu anteontem. Logo depois de me telefonar a dizer que a Liza estava no hospital. Foi uma cabra até ao fim. Não te deixou nada, nem a mim. Foi tudo para uma instituição de cães vadios.

- Não esperava nada dela. Afinal. Era bem pior do que a irmã, a tua mãe, e isto é dizer muito. Deves a mim o facto de ela não ter posto a polícia atrás de ti - só um detective particular. Eu disse que lutaria contra qualquer problema que le vantasse. Eu tinha a custódia legal. Por isso, tudo o que pôde fazer foi tentar provar, com o detective, que a Liza não era competente. Felizmente para ti, não conseguiu.

- E perdeu-me num jogo de xadrez? Ou era gamão? Belo pai que eu tive.

- Sabia que não eras feliz com a tua tia. E nessa altura eu estava a braços com bastantes dificuldades financeiras. Tinha pago todas as propinas da escola, e havia outras razões. A Liza é boa rapariga e desejava muito ter um filho. Eu não. Um já chegava e sobrava. O médico foi muito caro e fez mal o trabalho. Quanto ao Capitão, não é mau tipo, à sua maneira. Um bocado mentiroso, é claro, e um bocado batoteiro. Não se pode confiar nele em questões de dinheiro, mas em quem se pode confiar quando se trata de dinheiro? Fiz o melhor que pude por vocês dois, ao deixar-te com a Liza, e não podes dizer que tenha dado mau resultado. Especialmente se o cheque tiver cobertura. Se souberes esconder o teujogo, ganharás mais com ele do que alguma vez ganharias comigo.

- Tudo o que ele nos disse era mentira?

- Não sei quais as que vos contou. Sempre teve um repertório bastante grande.

- Como ele fugiu aos alemães.

- Bem, suponho que deve ter fugido se alguma vez esteve prisioneiro, e penso que talvez tenha estado.

-Usa palavras estranhas. Geralmente, quando vou ver ao dicionário não fazem sentido.

- Uma vez disse-me que o único livro que tinha para ler na prisão era uma metade de um dicionário de inglês. A outra metade tinha sido usada para limpar o rabo. Bom, com um "deleitoso" deve ter lido até aos " dês ".

- Sim. Mas também há alguns "efes". Uma vez empregou uma palavra de que não me lembro, que significa uequilibrista".

- Havia agás

- Acho que havia um.

-Suponho que essa metade do dicionário não chegava aos "jotas".

- Como é que fugiu?

Esperava pelo menos ouvir outra vez aquela história dos Pirenéus.

- Nunca entrou em pormenores. Os pormenores são perigosos quando se mente. Mas penso que era bastante ágil de pernas. Digamos que foi assim que nos conhecemos.

O empregado veio tirar os pratos, e por uns momentos o meu pai ficou absorto na ementa.

- A carne assada fria é sempre boa quando se gosta dela mal passada, como eu gosto. E podemos confiar no vinho da casa - disse. Se em tempos teve dificuldades financeiras, esse parecia um problema que conseguira resolver satisfatoriamente.

- Como se conheceram? - perguntei. Era o Capitão que me interessava, não o meu pai.

- Foi depois de a tua mãe morrer. Não posso dizer que sentia a falta dela; havia anos que nos dávamos mal. Na realidade, demo-nos mal desde o teu nascimento, o qual, desculpa que o diga, foi na altura um erro psicológico, bem como um pouco de descuido da minha parte. Bom, depois disso, digamos que andei por aí e comecei a viver com a Liza, embora não chamasse àquilo viver, antes deixar o tempo passar. Era uma rapariga simpática, sabia que aquilo não ia durar muito, e o cirurgião é que teve a culpa, embora a tua tia, evidentemente, me culpasse pelo que tinha acontecido, e a Liza ficou muito perturbada. Só quando a perdeu me apercebi de que ela queria tanto a maldita criança.

-Perguntei-lhe acerca do Capitão, não da Liza.

- Pois foi. Pois foi. Como é que ele se chama agora?

- Não viu na carta? Carver. É melhor ficarmos por Capitão. É mais fácil de recordar.

- Queres saber como o conheci? Estou a confundir ligeiramente as coisas. É o que me faz o almoço. Verás quando chegares à minha idade. O espírito vagueia, e foi isso que me aconteceu no jogo de xadrez que jogámos depois de um bom jantar. Porque terá ele dito que foi gamão? Às vezes penso que só mente por mentir. Ou então quer manter tudo oculto.

- Oculto de quê?

- Oh, não digo que seja necessariamente da polícia. Talvez dele próprio. O que é que estávamos a dizer?

- Ia contar-me como o conheceu.

- Ah, sim, por acaso foi entre Leicester Square e Covent Garden, no metropolitano. Digamos um local adequado, o metropolitano. Era já tarde, quase meia-noite, e havia pouca gente à volta. Na realidade, só eu à espera de ir buscar-te, um homem a ler o jornal e um rapaz, um rapaz mesmo, não podia ter mais de dezasseis anos, que se chegou a mim e disse: "A bolsa ou a vida. " (Suponho que ouviu isso na televisão ou numa revista de crianças. ) Eu ri-me e virei as costas. Ouvi um tilintar no chão, e vi uma faca caída. E uma voz disse: "Desanda, parvalhão", e era o Capitão, percebes. Ágil de pernas, como te disse. Depois disse- me: "Os jovens é que são perigosos.

Não pensam duas vezes. " É claro que lhe agradeci, e no dia seguinte encontrámo-nos para tomar um copo perto do local de acção, no Salisbury, em St. Martin's Lane. Aí, disse-me que vinha para norte, por causa de um emprego perto da minha casa, e, é claro, convidei-o para passar a noite. O facto é que passou comigo quase uma semana e não parecia com pressa de começar a trabalhar, se é que havia algum emprego. E foi assim que conheceu a Liza. Ela já estava de quatro meses, e eu nunca soube que ele estava assim tão interessado nela. Não estava exactamente com o seu melhor aspecto. Bom, já sabes como continua a história.

- Sei muito pouco. Ela foi com ele, depois de fazer o aborto. Deve ter-lhe escrito assim que recuperou.

- Devo dizer que foi um alívio para mim, pois ela não estava em grande forma quando saiu do hospital.

- Mas vocês eram amantes. Deve ter sido um bocado chocante. - Não diria amantes, mas companheiros de cama. Devias deixar palavras tais como "amantes" para as colunas sociais. Ela tinha-me enganado quando tentou ter a criança. Talvez tivesse pensado em casamento, mas eu não queria nada disso. Disse-lhe que lhe pagava um aborto, mas não um filho. Um filho já chegava: tu. Aquele aborto da Liza custou-me muito caro, nessa altura em que ainda não era totalmente legal, e não foi culpa minha quando as coisas correram mal e ela soube que não podia ter mais filhos. Suponho que se sentiu desesperada e lembrou-se do Capitão. Ele tinha sido muito convincentemente simpático. Ele sabe ser muito convincente, especialmente quando mente.

- Não teve ciúmes?

- Ciúmes da pobre Liza? Nem pensar nisso. Deixa-me ver a carta outra vez.

Leu a carta com mais atenção do que da primeira vez.

Que raio quer ele dizer com as mulas? Não é do tipo de se dedicar à agricultura.

- Penso. Claro que não tenho a certeza. quando eu era miúdo ele falava-me do Drake, que se apoderava das caravanas de mulas que transportavam ouro através do Panamá.

- Panamá. caravanas de ouro. achas mesmo que. . . ? Ah, não me parece que ainda haja caravanas de ouro. É só uma maneira de falar. bem.

- Bem o quê?

- Penso que ele pensa. - Pareceu-me que um "pensar" fez surgir quase imediatamente outro "pensar". Os "pensares" reproduziam-se como coelhos. . . ou aquela outra palavra "interrogar".

- E o que pensas tu? - perguntou o meu pai.

- Penso que ele acha que está prestes a fazer muito dinheiro. - Duvido que o Capitão alguma vez o consiga. Mas voltando ao cheque. Pensa - pensar outra vez? - que devia levantá-lo? Se ela morrer.

- Eu não esperava até lá. Tu podes cuidar melhor do dinheiro do que a póbre Liza. Mas tem cuidado. Ele é o tipo de homem que pode ser perigoso. Não sei porque digo isto. Uma espécie de instinto. E a maneira como enfrentou o rapaz no metropolitano. Metropolitano. Ele próprio é do estilo que opera no metropolitano. Sej a como for. Viveste com o Capitão durante bastante tempo. Achas que ele hesitaria em levantar um bom cheque que podia ser cancelado se houvesse algum atraso?

Meditei neste assunto e achei que o "Demónio" tinha razão.

Ao sair do clube perguntei-lhe:

- Vai visitar a Liza?

- Não - respondeu -, não me fazia nenhum bem, e a ela podes ter a certeza que também não.

 

Levantei o cheque com alguma dificuldade (penso que telefonaram para o Panamá, e a diferença de sete horas no fuso horário não deve ter ajudado). Tinha um certo sentimento de culpa, mas apenas o suficiente para que desaparecesse rapidamente depois de pagar as cinquenta libras ao meu pai. Até me dei ao luxo, com a força da minha nova riqueza, de comer salmão fumado e de beber Bordeaux seco num restaurante do Soho, onde normalmente não teria dinheiro para ir. Mas mesmo assim constatei não ter desfrutado da minha refeição solitária tanto quanto esperava.

            Não era por causa do dinheiro; creio que foi o ter-me apercebido de que nem sequer escrevera ao Capitão para lhe dizer que Liza estava doente, provavelmente a morrer.

Pouco depois desta minha pequena comemoração,  chegou outra carta pelo correio expresso. Entregaram-ma assim que me sentei para tomar o pequeno-almoço de chá e torradas, e não comi nem bebi até  ler por duas vezes.

"Minha querida Liza, talvez seja melhor não vires para já. Há dificuldades - problemas - e não quero que te sintas minimamente incomodada. Espero que tenhas levantado o cheque que te mandei, porque não posso mandar-te outro por enquanto, por causa das   dificuldades. Escrevo-te assim que puder, e será em breve, juro-te. Diz ao Jim que também não se preocupe. As mulas continuam a caminho, mas há alguns buracos na estrada. Buracos inesperados e por vezes profundos. Quem me dera que esta carta não fosse tão prática, pois tudo o que quero é dizer-te quanto sinto a tua falta. Sinto a tua falta a todas as horas do dia. Mas já não falta muito, Liza, tenho a certeza de que não falta muito. O teu Capitão. " E depois vinha o inevitável P. S. " Antes de te deitares, pensa em mim. " Primeiramente, escrevera "quando te deitares", e depois, por qualquer razão misteriosa, trocou o "quando" pelo "antes", a não ser que estivesse a evitar uma conotação sexual. "Juntos não éramos muitas vezes infelizes, pois não?" Era uma pretensão muito modesta vinda de um amante, pensei eu. Se é que ele era de facto um amante. Talvez fossem mentiras fáceis de um homem decidido a manter uma mulher sossegada e à distância.

Uma comparação surgiu-me no espírito e tirei de uma pasta que tinha na secretária o rascunho de uma carta que escrevera havia dois anos. Fazia sempre um rascunho das cartas de amor, e esta era destinada a uma rapariga chamada Clara a quem, na altura, eu pensava amar: interroguei- me - de novo me interroguei - se o Capitão também teria o costume de fazer rascunhos, e talvez tivesse mandado a versão errada, pois a sua carta parecia verdadeiramente ser um primeiro esboço que não se destinava a ser lido. Afinal não havia nenhum mal em fazer rascunhos. Quando escrevia um artigo, fazia rascunhos. Em ambos os casos - numa carta de amor ou num artigo - esforçava-me por causar o máximo efeito no leitor. Até um poeta, disse a mim próprio, faz rascunhos, e nenhum crítico o condena por falta de sinceridade. Um poeta guarda frequentemente os seus rascunhos e estes, por vezes, são publicados depois da sua morte. A avaliar pela versão final, se isto era uma versão final, os rascunhos do Capitão, pensei eu, seriam de facto muito rudimentares e seria pouco provável que encontrassem um editor que os publicasse.

Li a minha própria carta com uma certa nostalgia. Começava assim: "Sempre que me deito" (fiquei surpreendido  com a semelhança que esta frase tinha com a do Capitão) "estendo a mão e tento imaginar que te toco nos sítios onde mais te agrada".

Bem, pensei, a minha carta certamente nada tinha de poética - destinava-se, por muito grosseira que seja a expressão, a excitar-me a mim e também a Clara. À minha maneira, escrevera com tanta sinceridade como o Capitão, talvez ainda mais. Não deixara nada de fora em nome do bom gosto. Escrevera para o prazer de nós dois, e o bom gosto que fosse para o diabo.

Mas porque é que me sinto tão irritado com o Capitão? perguntei a mim mesmo. E apercebi-me de que o que sentia era uma certa vergonha ao comparar as duas cartas. Seria porque já não queria estender a mão para tocar em Clara quando me deitava e já nem sequer me dava ao trabalho de lhe escrever? Deixei-a ou melhor, deixámo-nos um ao outro - poucas semanas depois de escrever aquela carta. Segundo a minha experiência, o amor era como uma crise de gripe e uma pessoa recompunha-se com rapidez. Cada relação amorosa era como uma vacina. Ajudava a aguentar a crise seguinte com mais facilidade.

Li a carta do Capitão pela terceira vez. "Sinto a tua falta a todas as horas do dia. " Pelo menos esta frase era impossível que fosse verdade, mas por que razão insistia o Capitão em escrever tais mentiras sentimentais quando não havia nada a ganhar com elas, estando ele tão longe, no Panamá, e ela enfiada na cave de Camden Town? Durante quantos anos escrevera ele estas cartas enganadoras? Eu apenas escrevera os meus exageros durante meses. Quem era mais mentiroso? Era certamente o Capitão, que aprisionara Liza com as suas mentiras e lhe roubara a liberdade como preço da sua lealdade.

A minha irritação contra o Capitão permaneceu, até começar a perguntar a mim mesmo se aquilo não seria apenas a voz da minha inveja, a inveja de uma pessoa que nunca sentiu amor verdadeiro por ninguém.

Chegou uma mensagem. Fui ao hospital. Liza entrara em coma e morrera no dia seguinte. Restava apenas enterrá-la. Não deixara testamento: se tinha dinheiro, estava em qualquer conta desconhecida. Convenci-me de que não lhe devia nada, depois de pagar as contas necessárias, e alguns dias mais tarde mandei um telegrama a Carver para a misteriosa palavra Apt e assinei uLiza". Disse para comigo que seria mais simpático ser eu a dar a notícia ao Capitão. O telegrama dizia: "Jim partiu para o Panamá. Ele explicará. Hora de chegada, número do voo, etc. Com amor. " Risquei as palavras "Com amor". Era improvável que ela as empregasse.

Estava cansado do jornalismo à tarefa. O meu desejo de ser escritor reviveu. Até retomei e corrigi esta história que escrevera na infância. Um dia talvez encontrasse um editor. Não pude prever o final, mas penso que posso, pelo menos, actualizar a história, e foi isso que fiz. Continuá-la-ei como faria com um diário, e quem sabe a conclusão que lhe darei quando me encontrar com o Capitão nesse território desconhecido do Panamá.

 

Decidi seguir o conselho que o Capitão dera a Liza e comprei o bilhete para o Panamá via Amesterdão. Teria sido muito mais fácil e rápido para mim, e nada mais caro, ir por Nova Iorque, mas achei melhor obedecer às suas instruções. Ele falara de dificuldades, fosse qual fosse o significado desta palavra, e fui um pouco preocupado durante toda a interminável paragem em Curaçau, fiquei dentro do avião a trabalhar neste meu velho livro, para o actualizar. Não me apetecia descer, nem que fosse por uma hora, para o desconhecido.

Ao todo, foi uma viagem de doze horas desde Amesterdão: quando cheguei havia gelo nos canais da cidade e quando me fui embora havia neve nos campos. Depois disto avançámos regularmente através da escuridão em direcção ao Sol.

Se o Capitão tivesse a possibilidade de ler o que escrevo agora, saberia o quanto continuei a interrogar-me sobre ele - ele é para mim um eterno ponto de interrogação que nunca obterá resposta, como a existência de Deus, e assim, como fazem todos os teólogos, continuo a escrever de modo a dar voltas à questão sem nenhuma esperança de resposta. Durante a viagem, mal olhei para outra coisa que não fosse o manuscrito no meu colo e deixei os auscultadores no banco ao meu lado quando exibiram um filme, pois precisava de silêncio para pensar, precisava-o com uma espécie de gula. As imagens silenciosas não perturbaram os meus pensamentos, pois eram sempre iguais quando olhava para o ecrã: homens barbudos a cavalo atacando a tiro homens barbudos a pé, e continuando a cavalgar furiosamente.

Um mentiroso e um vigarista, foram estes os nomes que o "Demónio praticamente chamara ao Capitão, sem qualquer vestígio de condenação na sua voz, como se estivesse a descrever, com uma exactidão científica, uma forma interessante de vida humana, e no entanto foi deste mentiroso e vigarista que Liza e eu dependemos durante anos, e nem uma vez nos falhou. Era a coisa mais próxima daquilo que eu considerava um pai, embora nunca tivesse tido consciência da necessidade de um pai, e pensava que tinha passado razoavelmente bem sem ele. Não era certamente para ir de encontro a um pai que eu estava agora no avião - ia, sim, em direcção a um bando de mulas carregadas de ouro caminhando ao longo de um caminho pedregoso, vindas do Pacífico, ia em direcção à aventura, e o meu espírito, à medida que o avião atravessava a costa atlântica do Panamá, por cima da espessa e impermeável floresta de Darien, desviou-se para a única outra aventura de que me lembrava ter acontecido na minha vida. Senti novamente a mesma expectativa excitada que experimentara em rapaz enquanto esperava pelo Capitão à porta do Swiss Cottage: olhava novamente para os troncos no depósito de madeira ao lado do canal enquanto o avião me transportava, como a jangada que planeara usar, em direcção ao oceano Pacífico, onde a cidade de Valparaíso se deve erguer com os pés no mar e onde marinheiros barbudos bebem nos bares. Agora ia ao encontro deles. Era como se revivesse a minha vida  ao contrário, em direcção àquele sonho de infância no dia em que deixei para sempre de ser um amalecita.

Então, subitamente, o avião inclinou-se em direcção a uma planície líquida, lisa e azul, que eu supus ser o Pacífico. A floresta rendia-se às ruínas daquele velho Panamá que Morgan, o pirata, destruíra, e mo mentos depois o avião rolava suavemente sobre o alcatrão em direcção a uns edifícios que se assemelhavam aos de qualquer outro aeroporto.

Depois de passar pela imigração e pela alfândega, procurei o Capitão, mas não havia ninguém que se lhe parecesse. A minha mala estava pesada e pousei-a. Saíram poucos passageiros no Panamá (o avião seguia para Lima) e em breve fiquei completamente só no salão, sentindo-me abandonado. O meu telegrama para o Apt não teria chegado? Ou talvez - seria bastante provável - o Capitão se tivesse entretanto mudado para outro local.

Devem ter passado uns bons dez minutos enquanto estive ali parado sem saber o que fazer nem para onde ir. Começara a aperceber-me de quão louca fora a minha viagem, quando apareceu no salão uma figura nova, que, após alguma hesitação, se dirigiu lentamente a mim. À medida que se aproximava, tive tempo de pensar que nunca vira um homem tão alto e tão magro. As calças pareciam ser uma segunda pele. Também era estreito - ombros estreitos, ancas estreitas -, até os olhos estavam demasiado juntos. Parecia uma caricatura de um suplemento de jornal.

Quando chegou ao pé de mim, disse: O seu nome é Jim?

 Sim.

- O seu voo - disse, em tom de acusação, como se eu fosse o piloto - chegou com doze minutos de avanço. - Haveria de me aperceber mais tarde de como ele era zeloso pela exactidão, especialmente em relação aos números. Não creio que confiasse num computador para fazer cálculos com mais correcção. Qualquer outra pessoa teria dito dez minutos de avanço ".

- Sim. - Senti a necessidade de pedir desculpa. Lamento. - Chamo-me Quigly. Pediram-me que viesse buscá-lo.

Havia um ligeiríssimo sotaque americano na sua fala, uma espécie de eco de uma terra distante, algo que podia ter apanhado depois de uma estada demasiado longa do seu país natal, fosse este qual fosse.

- Onde está o Capitão? - perguntei-lhe.

- Qual Capitão? - antes de eu poder responder-lhe, acrescentou:

- O senhor Smith pediu-me que lhe dissesse que lamentava não poder vir, mas teve de se ausentar por uns tempos. Reservou um quarto para si.

- O senhor Smith?

- Disse-me que tinha um telegrama a informá-lo da sua vinda.

Concluí correctamente que o Capitão mudara novamente de nome, e desta vez para Smith. Parecia-me um nome um tanto humilde depois de Victor, Claridge ou mesmo Carver. Esperava, para meu próprio bem, que não tivesse baixado de nível.

- Vai estar fora muito tempo?

- Isso não sei dizer. Dois ou três dias? Duas ou três semanas? - Números, outra vez. - O senhor Smith é um homem muito ocupado.

- Trabalha com ele?

Tal como o Capitão, parecia não gostar de perguntas, pois não respondeu a esta.

- Se só tem essa bagagem, podemos ir embora.

- Para onde?

- Para o Hotel Continental. É melhor tomar as refeições lá. O senhor Smith arranjou uma conta a crédito no hotel.

Compreendo a razão por que os meus pensamentos regressaram nervosamente a uma mala que continha dois tijolos, mas verifiquei que o Continental era um hotel mais importante do que o Swan Inn, e a reputação do senhor Smith era, certamente, ainda mais elevada, pois fui cumprimentado como um hóspede estimado. No elevador, durante a subida até ao décimo quarto piso, o recepcionista perguntou se a minha viagem fora boa e se me encontrava bem de saúde. O senhor Quigly ficou calado durante todo o tempo. À porta do meu quarto estava sentado um jovem que trazia um coldre de pistola preso ao cinto.

- Este é o seu guarda-costas - disse o senhor Quigly com uma voz que me pareceu conter uma certa desaprovação.

- Um guarda-costas para quê?

- Disseram-me que o coronel Martínez assim o quis.

- Quem é o coronel Martínez?

- Oh, deixo que seja o senhor Smith a explicar-lho. Não sei nada dessas coisas.

Depois surgiu uma disputa a respeito de uma chave que não entrava na fechadura do meu quarto. Tentámos os três, em vão. Ou me deram a chave errada, ou a si o quarto errado - disse o senhor Quigly. Virou-se para o guarda-costas e disse-lhe num espanhol suficientemente simples para eu compreender:Vá lá abaixo dizer-lhes. Veja qual é o quarto certo.

O homem respondeu que era o senhor Quigly quem devia de ir. Ele tinha outras ordens. O nome do coronel Martínez voltou a surgir. Ele tinha de esperar aqui. Com o Senor. o Senor. Ele era o meu guarda-costas. Disseram-lhe que não deixasse sozinho o Senor. Estava evidentemente atrapalhado com o meu nome.

Tentei transmitir, com o pouco espanhol que me restava das lições do Capitão, que eu próprio podia ir. Vi que nenhum deles ficou contente com a ideia, e finalmente descemos os três do piso que, por razões supersticiosas, fora numerado décimo quarto.

Afinal o erro não estava na chave, mas sim no nú mero do quarto. A etiqueta com o número soltara-se e extraviara- se. O meu era o quarto exactamente igual, com o número catorze (superstição, mais uma vez), num corredor idêntico no andar debaixo. Ao ver o interior, o senhor Quigly exclamou:

- É claro que ele lhe deu o seu próprio quarto.

Está ali a nódoa na alcatifa, onde, se bem me lembro, entornou uma bebida. Suponho que quis salvaguardar o quarto de estranhos, na sua ausência.

Era, por certo, suficientemente grande para nós

dois, pensei, se eu dormisse no sofá. Na realidade, fiquei surpreendido com o luxo do quarto, que não condizia com a personalidade do Capitão, excepto talvez nos dias em que chamava a si mesmo Coronel.

Havia um bar e um frigorífico cheio de garrafas pequenas. Perante isto, sugeri que tomássemos todos uma bebida. O guarda-costas recusou, talvez por razões profissionais, como faria um motorista de táxi, mas o senhor Quigly aceitou imediatamente. Com um copo na mão parecia tornar-se um pouco mais humano. Instalou-se no sofá enquanto o guarda-costas ficou de pé como uma sentinela, junto à porta. Senti-me mais prisioneiro do que protegido.

O senhor Quigly bebeu a sua garrafinha de uísque puro, mas não falou. Apenas lambeu os lábios, de forma contemplativa. Dirigi-me à janela que dava sobre uma grande curva da cidade desconhecida. Vi pouco mais do que arranha-céus que pareciam competir uns com os outros em altura, e entre eles contei quatro bancos. Para meter conversa comentei para o senhor Quigly:

- Parece-me que estamos no bairro bancário.

- Toda a cidade é um bairro bancário - disse o senhor Quigly -, à excepção dos bairros da lata. Creio que existem cento e vinte e três bancos internacionais. - Números exactos, mais uma vez. Seguiu-se um longo silêncio. Acabei a minha bebida antes de voltar a falar:

- Este deve ser um hotel muito caro, senhor Quigly.

- Não há hotéis baratos no Panamá - respondeu o senhor Quigly, na minha opinião mais com orgulho do que a criticar.

Pensei no cheque avultado do Capitão, que me trouxera até aqui, e na sua frase habitual sobre a caravana de mulas.

- O Capitão, digo, o senhor Smith, deve viver muito bem - disse.

- Não me pergunte a mim como ele vive. Eu não sei. Pergunte ao senhor Smith - respondeu o senhor Quigly, e acenou com a cabeça de modo cauteloso na direcção do guarda-costas. - Sei muito pouco sobre as actividades do senhor Smith.

- E no entanto, ele pediu-lhe que tomasse conta de mim. Somos amigos - respondeu o senhor Quigly -, mas não somos muito íntimos. Posso ser-lhe útil ocasionalmente, e ele aprecia-o. Tenho a certeza de que com o tempo a nossa amizade crescerá, pois temos interesses comuns.

- Mulas? - perguntei-lhe.

- Que quer dizer com mulas?

- Oh, esqueça - disse eu. - Faz alguma ideia de quando ele voltará?

- Nenhuma. Mas não tem por que se preocupar. Já lhe disse, ele arranjou- lhe uma conta a crédito na recepção. Enquanto estiver no hotel não precisa de gastar dinheiro, basta assinar uma nota.

Passaram-se muitos anos desde que vira o Capitão pela última vez, mas lembrei-me de novo da outra nota que ele assinara depois do salmão fumado e da laranjada.

- E agora - disse o senhor Quigly - peço que me desculpe. Tenho de me ir embora. Negócios a tratar. Tem o meu número de telefone neste cartão e pode telefonar-me se tiver algum problema. Estendeu os dedos frios e compridos para me apertar a mão, um aperto de mão seco e rápido, e fiquei sozinho com o meu guarda-costas.

Felizmente, ele sabia um pouco de inglês, que eu podia completar com o pouco que sabia de espanhol, e em breve, nas horas que passámos juntos, ambos melhorámos a nossa linguística. Isto foi bom, porque durante os próximos dias demonstrou ser um companheiro bastante agradável. Gostava dele muito mais do que gostei do senhor Quigly. Tomávamos as refeições juntos no restaurante do hotel, onde as paredes estavam decoradas com cordas e os empregados serviam marisco vestidos à marinheiro. O facto de Pablo andar armado não parecia causar mais admiração do que os fatos de marinheiro; o revólver podia fazer parte da mesma decoração romântica, que, pensei eu, condizia com o Valparaíso do meu sonho infantil. Foi no segundo dia que senti que a nossa camaradagem podia aguentar uma pergunta sincera.

- Pablo - perguntei-lhe sobre o meu copo de vinho chileno -, por que razão me guarda?

- Ordens do coronel Martínez.

- Quem é esse coronel Martínez?

- O meu patrão. - Usou a palavra no meu idioma.

-Mas porquê? Corro alguma espécie de risco?

- O senhor Smith - disse - tem uma série de inimigos.

- Porquê? Em que anda ele metido?

- Tem de lhe perguntar isso quando ele regressar.

Mas passaram muitos dias antes de isso acontecer. Para fugir ao tédio, pedi a Pablo não só para me guardar - de quê? - mas também para me mostrar a cidade. Era uma cidade de colinas íngremes e tempestades de chuva torrencial que duravam menos de um quarto de hora e, no entanto, causavam Niágaras em miniatura pelas ruas abaixo, deixando os automóveis atolados. Era também uma cidade de bairros de lata, como o senhor Quigly mencionara - não só de bancos. O bairro que se chamava, ironicamente, Hollywood era um contraste chocante devido ao facto de as barracas arruinadas, em que pousavam os abutres e em que famílias inteiras viviam amontoadas na intimidade da miséria absoluta, estarem situadas a poucas centenas de metros dos bancos, onde as janelas altas brilhavam ao sol da manhã, e mais chocante ainda era olhar para a Zona Americana à distância apenas da largura de uma rua e ver os relvados bem tratados e as vivendas caras, nas quais nenhum abutre estaria interessado em pousar. No nosso lado da rua, que se chamava Rua dos Mártires, assim denominada, segundo Pablo me contou, devido a um conflito antigo entre os fuzileiros americanos e os estudantes, uma pessoa estava sujeita à lei panamense, enquanto do outro lado estaria na Zona Americana e poderia ser preso por qualquer infracção à lei americana ejulgado em Nova Orleães. Cada vez me interrogava mais sobre o que tinha levado o Capitão a instalar-se nesta cidade, pois não havia qualquer sinal de ouro fora dos cofres dos bancos internacionais, e eu duvidava da sua capacidade de assaltar um banco.

Um dia, Pablo conduziu-me ao longo de toda a imaculada zona verde. Mais estupefacto ficava ao ver que tais riquezas existiam à vista de tamanha miséria sem um empregado da alfândega ou um guarda fronteiriço que impedisse os habitantes de Hollywood de lá entrar. Não me lembro das palavras que usei para exprimir o meu espanto, mas recordo a resposta de Pablo.

- Isto não é só o Panamá. Isto é a América Central. Talvez um dia... Bateu com a mão no coldre que tinha à cintura. - São precisas armas melhores do que um revólver, compreende, para mudar as coisas.

O facto de partilhar as refeições com o meu guardião ajudou-me a conhecê-lo e a gostar cada vez mais dele, e à medida que crescia a minha amizade descobri que podíamos conversar sobre coisas que ultrapassavam a zona decente da discrição. Sabia que ele conhecia bem o Capitão, pois fora seu dever guardá-lo como fazia agora comigo. Fora o desconhecido coronel Martínez que lhe dera ordens para o fazer. Referia-se sempre ao Capitão como Senor Smith e eu adoptei o nome.

Quando atravessávamos a Zona Americana para ver um pouco das zonas mais rurais do Panamá que existia do outro lado desta fronteira inexistente, perguntei-lhe abruptamente:

- Quem são os inimigos do Senor Smith? - Mas a sua resposta foi omissa: um acenar de mão em di recção a um campo de golfe e a um grupo de polícias com imaculados uniformes americanos, a observar os jogadores. Não alargou o seu gesto, como se considerasse que não estava trair o seu patrão desde que não utilizasse palavras.

Ficava comigo todos os dias até à hora de dormir e nunca descobri onde passava as noites. Não o fazia certamente à porta do meu quarto, pois já o verificava. Talvez confiasse que eu não fosse para a rua depois de lhe dar as boas-noites, pois avisara-me que as ruas eram perigosas quando escurecia.

- Não é tau mau como em Nova Iorque - disse-me -, mas é mau, muito mau, mesmo assim.

O que é que se pode esperar quando as pessoas vivem em tamanha miséria? - Achei que Pablo tinha os predicados de um verdadeiro revolucionário, se lhe dessem o chefe correcto.

O senhor Quigly continuava a ser muito mais misterioso para mim. Sentia um antagonismo entre ele e Pablo, e pus-me, instintivamente, do lado deste. Pelo menos trazia a arma à vista, mas eu duvidava que o senhor Quigly arranjasse lugar para aquele tipo de arma dentro do apertado fato norte-americano. Interroguei-me por que razão o Capitão lhe pedira que me fosse buscar - talvez porque a sua língua fosse o inglês, e o Capitão, que fora meu professor, sabia como era fraco o meu espanhol. O senhor Quigly telefonava-me regularmente, por volta das oito e meia da manhã, geralmente do telefone do salão de baixo, mesmo que não tivesse nada de especial para dizer. Da primeira vez, justificou estas horas matinais dizendo que ia a caminho do escritório, que não ficava longe do hotel. Isto deu-me a oportunidade de lhe perguntar o que fazia. Senti na linha uma pequena hesitação.

- Sou correspondente.

- Correspondente?

- Correspondente financeiro.

Pensei imediatamente nas caravanas de mulas do Capitão e perguntei-lhe: Negoceia com ouro?

- Não há ouro no Panamá - respondeu. E acrescentou: - Nunca houve ouro. Isso era uma lenda. O ouro vinha de outro lado.

As nossas breves conversas acabavam sempre com a pergunta se eu tinha notícias do senhor Smith. Mas não tinha nenhuma.

À medida que crescia a minha amizade com Pablo, aventurei uma ou duas perguntas a propósito do senhor Quigly.

Não o compreendo. Não é o tipo de pessoa em que o meu pai confiaria. - Aceitara a história de que o senhor Smith era meu pai desde que percebi que tanto Pablo como o senhor Smith depreendiam este parentesco. No meu passaporte, é claro, constava o nome de Baxter, mas talvez pensassem que a minha mãe tivesse casado por duas vezes.

- Acho que o senhor Smith não confia muito nele respondeu Pablo.

- Então porque lhe pediu que fosse buscar-me ao aeroporto?

Pablo não tinha solução para este problema. Cerca de uma semana depois da minha chegada, o senhor Quigly convidou-me inesperadamente para jantar. Nessa noite parecia outro senhor Quigly, não só em disposição. Parecia mudado até fisicamente, pois agora vinha vestido com um casaco de chumaços, que o tornava mais espalmado, mas menos estreito, e as calças pareciam menos apertadas. Disse uma piada obscura que eu não compreendi, embora ele tivesse rido, ou antes, dado uma risadinha para consigo. A sua amizade com o Capitão pareceu-me ainda mais inexplicável.

- Vou levá-lo a um restaurante peruano - disse-me. - Têm um pisco sour excelente.

- O Pablo não vem connosco?

- Disse-lhe que esta noite seria eu o seu guarda- costas. Prometi não o perder de vista.

- E o coronel Martínez?

- Dei uma gorjeta ao Pablo (só desta vez) e concordou em esquecer o coronel. Uma gorjeta vale muito no Panamá, mesmo em círculos muito ele vados.

- Costuma andar armado?

- Não. Não. No meu caso não há perigo. Consideram-me um ianque honorário, e ninguém, especialmente neste momento, faria mal a um ianque.

Nunca bebera pisco sour, e quando íamos no terceiro senti claramente o seu efeito. O próprio senhor Quigly tornou-se quase jovial.

- Não tem notícias do seu bom e errante pai?perguntou.

Os pisco sours tinham-me baralhado.

- Oh, o "Demónio" nunca escreve - respondi.

- Não iria ao ponto de lhe chamar "Demónio, "disse o senhor Quigly, após o que me pareceu ser uma consideração calculada -, talvez por vezes um pouco malicioso.

Achei melhor não explicar o mal-entendido.

- O "Demónio" é uma piada de família - expliquei.

- Dou-me muito bem com ele, mas, claro, não partilho todas as suas ideias.

- Será que pode dizer-se isso de alguém? Evitou a minha pergunta.

- Quer outro pisco sour?

- Será sensato? Uma pessoa não pode ser sempre sensata num mundo como este, ou pode?

Foi nessa noite que me senti mais perto de gostar do senhor Quigly. Parecia tornar-se menos estreito de cara e de corpo a cada pisco sour que eu bebia.

- Tenciona ficar muito tempo? - Esta foi a pergunta mais directa que o senhor Quigly me fez, e nessa altura já tínhamos abandonado os pisco sours e estávamos a meio de uma garrafa de vinho chileno. Nos curtos intervalos entre as bebidas, falara um pouco como um guia turístico, aconselhando-me a visitar as ilhas Cocos com os seus habitantes índios que usavam brincos de ouro - ouro? - e o Hotel lashington na zona americana de Colón, onde ele garantia a qualidade do ponche de rum, que não era de fiar na costa pacífica do Panamá. Depois disse-me que no Norte havia uma estanciazinha nas montanhas, muito agradável, se eu quisesse passar um fim- de-semana fora ("Arranjava-lhe umas condições especiais"), e como podia ter ele esquecido de mencionar uma das mais raras atracções do Panamá, as rãs douradas, que podiam ser vistas num local cujo nome me esqueci, muito perto do outro lado da Zona Americana? A sua conversa parecia cada vez mais um guia de bolso para turista, uma definição de mim próprio, que eu pressentia.

- Mas eu não me considero em férias - disse

eu. - Espero encontrar um emprego.

- Talvez com o senhor Smith?

- Talvez com o senhor Smith - e rapidamente

corrigi -, com o meu pai.

- Nunca percebi muito bem o que o seu pai faz, mas parece ter boas relações com a Guarda Nacional. A avaliar pelo facto de o coronel Martínez lhe dar um guarda-costas.

O senhor Quigly desviou novamente o assunto para o guia turístico e falou de uma ilha chamada Tobo so, que valia bem uma visita, onde não era permitida a entrada de carros e havia um cemitério de anglo-saxões há muito esquecido, enterrado algures na sel va. Só voltou a ser pessoal quando acabámos o vinho.

- Trabalho aqui para um jornal americano - disse-me. Como correspondente financeiro. O Panamá é muito útil como centro de notícias de todo o panorama da América Central. Estão a acontecer muitas coisas ultimamente: na Nicarágua, Guatemala, El Sal- vador, muitos problemas por todos os lados. Da maneira como as coisas estão a correr, o meu jornal gosta de ter um correspondente que não seja rigorosamente americano. Felizmente, tenho passaporte britânico, embora tenha saído de Inglaterra aos dezasseis anos. Os americanos não são muito populares por aqui, por causa da Zona. O senhor Smith disse-me que você também esteve no jornalismo.

Trabalhava num jornal regional - disse eu. Saí sem avisar. Então suponho que não tornam a aceitá-lo? Foi um bocado arriscado vir ter com o seu pai, não acha?

O vinho dera-me propensão para as confidências.

Pensei que talvez tivesse sido um pouco injusto para com o senhor Quigly. A avaliar pelas suas cartas, parece que isto é um bom sítio para se fazer dinheiro. E claro que ele sempre foi um tanto optimista. - E acrescentei, descuidadamente: - Desde que o conheço.

- Na realidade, desde que nasceu – comentou o senhor Quigly com o primeiro sinal de sentido de humor que alguma vez mostrara.

Decidi, afinal, ser sincero - talvez o vinho também funcionasse assim.

- Ele não é o meu pai verdadeiro - admiti -, é uma espécie de pai adoptivo.

- Muito interessante - respondeu o senhor Quigly, embora eu não visse o interesse que podia ter para ele a minha história familiar. Talvez tenha lido uma pergunta nos meus olhos, pois acrescentou: Pelo menos, com um pai adoptivo assim, não precisa de se preocupar com aquela afirmação tão injusta que vem naquilo que eu gosto de chamar a Bíblia Profana: Os pecados dos pais revivem nos filhos. - Soltou uma risadinha para a última gota de vinho chileno que restava no copo. Parecia que encontrara finalmente uma oportunidade de dizer a graça que guardava na manga há muito tempo, e penso que ficou desiludido por eu não me ter rido.

- E se bebêssemos outra garrafa desta pinga chilena? - sugeriu.

- Para mim não. Já não consigo beber mais.

- Ah, um homem sensato! Talvez tenha razão embora. . .

Este parecia o momento em que também eu podia tirar partido do vinho para extrair alguma informação.

Tenho-me interrogado - disse - por que razão o meu pai, chamemos-lhe assim, lhe pediu para me ir buscar.

A resposta foi a que esperava depois de falar com Pablo. Pensou que o seu espanhol não fosse suficientemente bom para lidar com o guarda-costas. Compreende, com os meus contactosjornalísticos, já pude ajudá-lo uma ou outra vez. Ele também já teve as suas dificuldades, embora não fossem linguísticas.

Recordei que o Capitão avisara Liza para não tomar o caminho mais fácil e mais barato até ao Panamá, via Nova Iorque.

- Com os americanos.

- Ah, e outros também. Como lhe disse, não sei exactamente qual é o seu negócio.

- Seja como for, tem um quarto caro.

- Não se pode avaliar nada por aí. Há actividades neste país onde é compensador parecer-se rico a curto prazo. Espero sinceramente que ele arranje um emprego que considere adequado. E compensador. Ser-se compensado é, no fim de contas, a coisa mais importante.

O senhor Quigly olhou para o relógio de pulso e disse com a sua exactidão habitual:

- Dez e dezassete. - Depois chamou o empregado e pediu a conta, que assinou depois de um estudo cuidadoso dos números. Até verificou o número de pisco sours. - Despesas de representação - disse, e voltou a dar uma risadinha. - Antes de nos despedirmos - acrescentou - gostaria de lhe dizer o quanto apreciei a sua companhia. Um compatriota inglês. Nestas terras, por vezes uma pessoa sente-se um pouco só. É bom ouvir-se falar a própria língua.

- Certamente que tem imensos americanos da Zona com quem conversar.

- Sim, sim, mas não é o mesmo. Quero dizer-lhe

uma coisa (e não é só o vinho chileno a falar): se tiver alguma dificuldade em arranjar emprego, eu talvez possa ajudar. Ou se precisar de uma actividade suplementar. Comigo, às vezes surgem umas histórias e eu nem sempre posso estar no local. Dava-me jeito um assistente. Creio que no círculo jornalístico de onde você vem chamam a isto um suporte. Meio tempo, quando muito, meio tempo. Claro que não quero interferir em nenhuma combinação que o senhor Smith lhe possa ter arranjado.

A porta do hotel, disse-me: Tem o meu número de telefone. Entre em contacto comigo quando quiser. - Algo no seu tom de voz me fez sentir que estava finalmente a revelar todo o objectivo daquele jantar. Mas não precisava de ter consumido tantos pisco sours. Eu sabia muito bem que iria precisar de ajuda quando o Capitão soubesse da morte de Liza.

 

Duas noites depois, quando já estava cansado de passear com Pablo pelas ruas do Panamá e de passar por uma dúzia ou mais dos cento e vinte e três bancos (não tinha vontade de voltar para os bairros de lata de Hollywood, onde fôramos perseguidos por um drogado que nos queria vender droga em dólares), o meu guarda-costas deixou-me no quarto, mas voltou instantes mais tarde com a notícia de que o senhor Smith tinha chegado, que estaria no hotel dentro de meia hora e que a sua função de guarda- costas estava cumprida. Agora, o Senor Smith pode cuidar de si. O coronel Martínez retirou-me do cargo.

Tinham-se passado muitos anos desde que vira o Capitão pela última vez, e senti-me como se estivesse à espera de um desconhecido ou, de facto, de uma personagem que só existia nas páginas daquele meu manuscrito juvenil, em que ainda continuo a trabalhar. Existia melhor ali no papel do que na memória. Por exemplo, se me tentasse lembrar das ocasiões em que me levou ao cinema, só King Kong me vinha à memória, porque registara essa recordação através da escrita. Quando pensava nas suas chegadas anteriores depois de uma longa ausência - demasiado frequentes durante a nossa vida em comum - só via no meu espírito, porque a descrevera por palavras, aquela chegada inesperada com o rosto barbudo, ou o desconhecido, que depois me levara a almoçar salmão fumado, a falar com o director da escola. Novamente procurava recriar esta minha personagem na minha tentativa lamentável de me tornar um "verdadeiro escritor".

Assim, quando a porta do quarto se abriu, senti-me de novo no Swan Inn e procurei um homem mais jovem, pedindo que lhe levassem para o quarto a sua mala contendo dois tijolos. Não ficaria minimamente surpreendido por descobrir que a mala que pousou pesadamente na cama contivesse tijolos semelhantes: o que me surpreendeu foi a idade do Capitão, a cara enrugada e gasta de um velho. Não tinha barba nem bigode, e isto parecia evidenciar mais as profundas rugas entrecruzadas na pele, e o cabelo era cinzento nos sítios onde não era branco.

- Então, Jim - disse, estendendo uma mão obviamente tímida -, é bom ver-te outra vez depois de tanto tempo, mas gostava que não estivesses aqui sozinho. - Quase repetiu em eco os meus próprios pensamentos ao dizer: - Estás muito mais velho. E acrescentou: - É estranho, não é, que a Liza não esteja aqui para nos fazer uma chávena de chá, mas suponho que agora já deves querer algo mais forte. Uísque, gim?

O seu amigo senhor Quigly tem andado a ensinar-me a beber pisco sours, mas preferia uísque. Lembrando-me do passado distante, quase disse "gim tónico ".

O Capitão dirigiu-se ao bar. Quigly é um conhecido - disse-me -; não lhe chamaria um amigo. - Enquanto preparava dois uísques, virado de costas para mim, talvez para eu não ver a ansiedade que lhe ia nos olhos, perguntou:Como está a Liza?

Penso que ninguém me pode culpar por não lhe responder com a simples verdade: "Morreu". E foi talvez nesse preciso momento que decidi perigosamente adiar o mais possível falar-lhe da sua morte.

Afinal, não lhe devia nada. Não era verdade que o seu único interesse por mim residia apenas no seu desejo de dar a Liza o que ela não podia ter - um filho? Mas apercebi-me muito bem de que ainda tinha difi culdades a enfrentar. Não fazia ideia da frequência com que ela costumava escrever-lhe. Como podia explicar agora o seu silêncio absoluto? Sabia que, inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, a verdade viria ao de cima, mas em primeiro lugar tinha de arranjar uma maneira de me estabelecer com segurança neste mundo desconhecido antes de ele saber que eu lhe mentira.

- Não muito bem - disse eu.

- O que queres dizer com isso?

- Teve um pequeno acidente. Foi atropelada. A caminho da padaria. Teve de ir para o hospital.

- Que tipo de acidente?

Contei-lhe uma versão modificada da verdade, sem as consequências.

- E vieste para aqui, deixando-a sozinha no hospital. . . ?

Quase lhe disse: "Ela está habituada a estar sozinha. " Mas detive-me a tempo quando ele acrescentou:

- És o seu único companheiro.

Lembrei-me de que ela nunca lhe tinha escrito para lhe contar da minha deserção, com medo de o preocupar, nem queria fazer-lhe qualquer tipo de pressão para ele regressar. Assim, continuei a mentir cuidadosamente.

- Insistiu para que eu viesse. Deu-me o dinheiro para o bilhete, porque ela não vinha. Tenciona vir mais tarde. Assim que os médicos consentirem.

As mentiras e as evasivas começaram a multiplicar-se e não conseguia reprimi- las.

- Mas não esperava que ela viesse. Escrevi-lhe a dizer para não vir ainda. Para esperar mais um pouco. Por causa das dificuldades.

- Pensou que eu lhe pudesse ser útil.

- Detesto pensar que está no hospital, doente e sozinha.

- Talvez já tenha voltado para casa.

- Sim. Para casa, como tu dizes. Para aquela cave sinistra.

- Ela foi feliz lá. À sua maneira. À espera que o Capitão voltasse.

- Graças a Deus que te tinha a ti, mas agora. Se eu pudesse apanhar o próximo avião para a Europa, mas não posso. Prometi. Talvez esteja livre dentro de um mês, tenho quase a certeza, mas um mês é muito tempo para uma pessoa que está doente e só.

Bebeu uma grande golada de uísque.

- Eras sempre tu quem ia buscar o pão. Onde estavas quando se deu o acidente?

- Estava a trabalhar.

- Ah, sim, claro. Arranjaste aquele emprego no jornal. Ela escreveu-me a dizer como estava satisfeita por tu não andares pela casa sem fazer nada. Uma coisa de que ela gostava era esperar que tu chegasses à noite.

Nunca tinha pensado antes como ambos o enganáramos.

Juntos, escaváramos um buraco capaz de esconder a verdade mais profundamente do que um túmulo. Mas havia uma verdade que, mais cedo ou mais tarde, teria de ser desenterrada - a verdade da sua morte. Ele não poderia continuar a acreditar indefinidamente que ela não respondesse às suas cartas.

Bebi, mas o uísque não me ajudou a desenvencilhar aquele enigma.

O Capitão serviu-se de um segundo copo de uísque.

-Já não bebo chá - disse -; a verdade é que nunca gostei muito. Para mim, o chá pertence a um único lugar do mundo, ao dela. - Estava, penso eu,   a tentar aliviar a tensão entre nós, que talvez atribuísse às nossas diferentes ansiedades, talvez mesmo uma mudança na nossa relação. Já não éramos um homem e um rapaz: ele era um homem muito mais velho e eu tinha deixado completamente de ser um rapaz.

- Que te pareceu o Quigly? - perguntou.

- Não consegui compreendê-lo. Por que razão lhe pediu para me ir buscar?

- O Pablo sabe pouco inglês, e pensei que o teu espanhol. . . bom, nunca avançámos muito, pois não?

Pelo menos o Quigly podia explicar-te algumas coisas.

- Não explicou nada.

- Refiro-me ao hotel, ao quarto, como devias pôr as coisas na conta, e o que é melhor para comer nesta cidade de vistas curtas. Não pude ir buscar-te. Estava numa missão importante. Precisavam muito de mim.

- Não era a polícia? - perguntei, só para parecer que considerava de pouca importância aquele passado ambíguo que a Liza e eu partilháramos com ele.

- Oh, não, agora não é com a polícia que tenho dificuldades.

- Mas ainda há dificuldades?

- Há sempre. Não me importo com as dificuldades. A vida não valia a pena sem elas. Receio bem que só possas dormir no sofá, agora que estou cá.

-Habituei-me a dormir no sofá em Camden Town. E não era tão confortável como este. Suponho que desta vez trouxeste pijama?

Fiquei satisfeito por ver que também pensava naquele passado longínquo sobre o qual escrevi.       No passado não havia armadilhas a evitar, e podíamos falar livremente um com o outro. Graças a Deus, não é cor de laranja - disse eu.

- Mas aceitaste vesti-lo na primeira noite.

- Assim que a casa ficou em silêncio, despi-o e dormi nu.

- E deves tê-lo amarrotado para a Liza não perceber, não? - Consegui rasgá-lo irremediavelmente, para não ter de o vestir outra vez depois de ser lavado.

- Sim, lembro-me de que a Liza ficou furiosa porque eu tive de comprar outro. Eu não era o único que tinha uma vida dupla, e tu começaste a tua ainda mais novo do que eu.

- Mas continuou a viver assim - disse eu. Afinal qual é o seu trabalho?

- Não tenho a certeza se será seguro tu saberes, por enquanto. Seguro para quem?

- Para nós dois.

- O senhor Quigly sabe?

Tive relutância em omitir o título "senhor" ao falar

de Quigly. Parecia distanciar-me do homem.   Era

quase um adjectivo de desprezo.

- Ah, ele gostava de saber, mas nunca se pode

confiar num jornalista, se é que ele o é.

- Eu era jornalista há uma semana.

- Espero que não fosses do tipo do Quigly.

- Qual o tipo do senhor Quigly?

- Ele diz-se correspondente financeiro, mas é ávido por todos os tipos de informação. Não tenho a certeza se a utiliza sempre no seu jornal. É um homem que tens de vigiar.

- Quer que seja eu a vigiá-lo? É esse o tipo de trabalho que tenciona dar-me?

- Talvez. Pode ser. Quem sabe? Seja como for, já é tarde para estarmos a falar, e estamos cansados. Tomemos mais um uísque e vamos dormir. Pelo menos tu podes dormir. Quero primeiro escrever a Liza e dizer-lhe que chegaste bem.

Por um instante quase podia acreditar que estava a pôr-me à prova, para ver por quanto tempo eu continuava a minha mentira de que ela estava viva, mas claro que não era esse o caso. Acrescentou:

-Tento sempre escrever-lhe antes de dormir, mesmo que não envie a carta. Quando o dia acaba posso esquecer as dificuldades e pensar só nela. E foi ao som da caneta sobre papel que acabei por adormecer.

 

Foi por acaso, ou nesse momento julguei que fosse, que me encontrei com o senhor Quigly na manhã seguinte. Quando acordei, a cama do Capitão estava vazia, e na cadeirajazia a carta para Liza ainda aberta e sem selo, talvez porque tencionasse acabá-la na noite seguinte depois do trabalho - que trabalho? -, ou talvez nem tencionasse mandá-la. Fui tentado momentaneamente a lê-la - tinha lido tantas das suas cartas ultimamente que quase adivinhava o conteúdo desta. Teria certamente os mesmos sentimentalismos pouco convincentes. Mesmo assim senti-me ligeiramente orgulhoso por me conter. Pareceu-me reduzir um pouco o meu sentimento de culpa pela minha grande mentira.

Mal tinha saído do hotel, sem outro objectivo que o de passar o tempo, quando o senhor Quigly surgiu caminhando na minha direcção. Visto os quatro bancos  estarem dentro de um perímetro de cem metros, a coincidência era facilmente explicável - na realidade, foi explicada assim mesmo pelo senhor Quigly. Fui levantar dinheiro para despesas de representação, e incluí-o a si nelas - disse ele.

- A mim? não percebo.

- Queria pagar-lhe um pequeno avanço.

- Para quê?

- Talvez me possa ajudar numa notícia que estou a escrever para o jornal.

- Não vejo como.

- De jornalista para jornalista.

- Isto tem alguma coisa a ver com - hesitei no nome - o senhor Smith?

- Não directamente.

- Lamento, não o posso ajudar - respondi-lhe. E afastei-me verdadeiramente de mau humor, sem aceitar o dinheiro.

 

Enquanto escrevo esta narrativa, começo a aperceber-me de que existe um grande lapso na minha história. Certamente eu devia ter sentido algum desgosto com a morte de Liza. Durante todos aqueles anos após a minha chegada inesperada com o Capitão, ela representara o seu papel de mãe adoptiva muito correctamente, com o que parecia ser um afecto natural e mesmo, ocasionalmente, uma irritação também natural, e com muito mais habilidade do que alguma vez a minha tia demonstrara. Não podia queixar- me da vida que levei com ela. O Capitão achava que ela precisava de um filho para completar a sua felicidade e aliviar a solidão que ele concluía que ela sentia durante as suas frequentes ausências. Talvez tivesse agido mal - talvez tivesse apenas acrescentado uma responsabilidade.

Como se pode ter a certeza dos sentimentos dos outros? Seguramente, ela nunca fora possessiva, e mesmo em criança posso ter apreciado este facto, até sem grande consciência disso. Foi esta sua atitude que me permitiu desprender-me sem escrúpulos quando chegou a altura da minha independência, embora continuasse a representar a comédia de um filho cumpridor dos seus deveres, visitando-a uma vez por semana - se não aparecesse nada mais interessante para fazer. Agora devo encarar a verdade desse lapso na minha história. Quando me disseram no hospital que ela morrera não senti mais emoção do que aquela que sentia quando a deixava depois da visita semanal, de regresso ao meu apartamento de uma divisão no Soho. Se existiu alguma emoção foi a de alívio, de um dever cumprido.

Deixou realmente um objecto no hospital - uma carta endereçada apenas com o nome do Capitão, pois era provável que se tivesse esquecido do número do Apt. , que nenhum de nós compreendia. Quase a abri, mas uma razão um tanto fria impediu-me de o fazer. Ia ter com o Capitão; não podia entregar-lhe uma carta aberta e pensei que entregar-lha poderia ser uma maneira de o fazer ciente da morte dela e até de me desculpar de ter utilizado o seu cheque para ir ter com ele. Mas agora era tarde de mais. Rasgara-a sem a ler e deitara os bocados num caixote do lixo à saída do hospital.

 

Foi imprudente da minha parte ter despachado o senhor Quigly tão abruptamente, pois estava aborrecido com aqueles dias longos e solitários nesta cidade que me era desconhecida. Teria mesmo gostado que Pablo voltasse e, se o misterioso coronel Martínez supôs que o Capitão se encarregaria de me guardar, por que razão se ausentara ele logo após ter regressado? E, de qualquer modo, de que me servia um guarda-costas? Não me sentia em perigo no meio dos bancos internacionais quando ia cambiar algum dinheiro meu - ou melhor, o que restava do dinheiro de Liza. Os guarda-costas e os bancos não pareciam pertencer ao meu mundo, nem ao do Capitão. Talvez apenas o senhor Quigly se sentisse à vontade entre eles.

Mas não fiquei só durante muito tempo. O Capitão até se desculpou pela ausência quando entrou no quarto. Tive de resolver uns problemas - disse-me. Agora podemos divertir-nos sem preocupações e vou mostrar-te algumas das maravilhas do Panamá.

- Os bancos não, por favor. Nem os bairros de lata. Disso já vi de mais. Há algumas maravilhas?

- As ruínas - disse. - Dão-nos uma lição.

- Que lição? Para dizer a verdade, não sei. - A frase "para dizer a verdade" era uma frase-chave do Capitão.

Liza e eu trocáramos muitas vezes olhares irónicos ao ouvi-la, pois a verdade e o Capitão não se coadunavam facilmente. Apesar de tudo, talvez neste caso ele procurasse mesmo a resposta verdadeira, visto ter ficado de pé durante muito tempo, num silêncio respeitador, no meio das ruínas costeiras da cidade velha que Sir Henry Morgan destruíra havia mais de trezentos anos.

- Chama a isto maravilha? - disse eu para quebrar o silêncio. - Não passam de um monte de pedras partidas. - Nunca o vira tão calado como agora.

- O que é que disseste?

- Acha estas ruínas uma maravilha? É claro que são bastante melhores do que os arranha-céus dos bancos, mas maravilha?

- Pensa bem - disse o Capitão - no trabalho que deve ter dado, naquela altura, transformar estes edifícios em ruínas. Que perda de tempo. Agora, eu podia destruir esta igreja numa questão de segundos, se é que é uma igreja.

- De que maneira?

- Do ar, com um par de bombas. Se tivesse um avião. Sir Henry Morgan não tinha. Na realidade - desta vez não disse "para dizer a verdade" -, eu até tenho uma avionetazinha. Em segunda mão, claro. - Interroguei-me se a palavra "realidade" teria para o Capitão o mesmo significado que a palavra "verdade" e seria igualmente pouco fidedigna, e não lhe respondi. Prefiro o Drake ao Morgan - continuou o Capitão, fixando as ruínas, segundo me pareceu com alguma melancolia. - O Drake ficou com o ouro e matou alguns espanhóis, mas não destruiu nenhuma cidade. É verdade, posso mostrar-te a Tesouraria Espanhola em Portobello exactamente como era no seu tempo.

- Mas conte-me do seu avião.

- Oh, esquece. Não tencionava falar-te do avião. Distraí-me. Não tem importância. É um passatempo idiota que eu tenho. Um homem tem de ter um passatempo.

Um avião parecia-me ser um passatempo muito dispendioso e fiquei a pensar onde teria arranjado dinheiro para o comprar. Terá mais uma vez assinado um pedaço de papel?

Soube nessa noite, quando a conversa tomou um rumo mais perigoso, que aquilo a que chamara distracção era mais importante do que eu pensava. Tudo correra bem a princípio. O passado era uma zona de segurança, e parecíamos empenhados em descobrirmo-nos um ao outro de modo inofensivo, depois de tantos anos de ausência.

Cheguei mesmo a sondar um pouco esses anos duvidosos e as visitas inexplicadas da polícia, de que tão bem me lembrava. Lembra-se daquela altura em que esteve fora durante meses e depois voltou de barba?

O Capitão riu-se.

- Lembro-me, enganei-os bem nessa altura.

- E depois veio uma notícia no Telegraph.

- Que memória a tua.

- Bem, sabe, aqui há uns anos queria ser escritor e escrevi muitas das coisas que aconteceram. Depois do acidente da Liza, encontrei o manuscrito e li-o. Sobre o roubo e o homem que a polícia andava à procura. Um homem de porte militar.

- Sim, também li isso. Deu-me gozo! Agora já não diriam o mesmo de mim, e no entanto ainda sou um homem que luta, à minha maneira. Bons tempos, mesmo quando foram difíceis. Nessa altura, trabalhava com mais três. Não eram de fiar, e enganavam-me quando podiam, mas não podia dar-me ao luxo de escolher parceiros. Não havia outros. Queria arrancar Liza daquela cave sinistra e dar-lhe um lar verdadeiro, e dói-me pensar que vai ter de voltar para lá depois de sair do hospital.

Tentei interromper a direcção arriscada em que seguia o seu espírito.

- Então, era o homem de quem falavam no Telegraph?

- Claro que era.

- E queriam apanhá-lo por roubo?

- Quando se fala de jóias no valor de quase três mil libras, não é roubo, é assalto.

- Então era um assaltante?

- Tal como o Drake o foi. O Drake, não o Morgan. Eu não destruí cidades. Nunca fiz verdadeiramente mal a ninguém.

- E o ourives?

-Ora, não lhe fizemos mal nenhum. Tivemos muito cuidado ao atá-lo. Não estava a ter muito lucro e deve ter ficado satisfeito por receber o dinheiro do seguro. Essa gente faz sempre bons seguros. Seja como for, era uma coisa que eu tinha de fazer.

- Porquê?

- Tinha as minhas responsabilidades. A Liza e tu.

- A Liza sabia?

- É uma rapariga esperta e penso que deve ter adivinhado muita coisa. Eu não tinha muitos segredos para ela. Só algumas coisas pequenas, para não a preocupar. Tudo o que eu quis era que ela fosse feliz, e juro que um dia ainda o será.

- Porque estava sempre a mudar de nome?

- Nessa altura era mais uma brincadeira do que uma coisa a sério. Até quando era pequeno gostava de gozar, com os polícias. Não gosto de polícias.

Perguntei-lhe, desta vez realmente interessado:

- Que nome tinha quando nasceu?

- O meu nome é Brown.

- E agora é Smith - disse eu, divertido. - Está a aproximar-se da verdade, da verdade simples.

- Bem, desta vez foram os meus amigos que me escolheram o nome. Queriam uma coisa de que se pudessem lembrar. Achavam que Carver era difícil, mas Smith também é um bocado difícil de pronunciar. Os latinos não gostam do "th".

Levantou-se para nos preparar mais dois uísques.

- Já estou a falar de mais. É por ter estado tão só durante tanto tempo.

- Quem são esses seus amigos?

- Gente boa. Eu tento ajudá-los, mas tentamos não nos ver muitas vezes. Estamos prestes a fazer uma coisa muito importante, e cada um de nós trabalha sozinho a maior parte das vezes. Excepto aqueles que lutam mesmo.

- Para apanhar as caravanas de mulas?

- Exactamente, as caravanas de mulas.

- E o senhor Quigly está metido nisso?

- Deixa o Quigly fora disto. Não confio muito nele.

- Dá-me a impressão que nenhum de vocês confia no outro. Porque são amigos?

-Já te disse que não somos amigos. É um jogo. Um jogo sério, como o xadrez ou o gamão. Trocamos peças, peças pouco importantes, embora de certo modo tudo possa levar algo importante. Para os amigos dele ou para os meus. Vá lá. Acaba o uísque. São horas de ir para a cama, para o sofá, digo. Vou só escrever mais uma ou duas linhas à Liza. É um hábito que não quero perder nunca.

Deitei-me, mas custou-me muito a adormecer. Fiquei a observar o Capitão a escrever uma linha e depois a parar, a escrever outra linha e a parar mais como uma criança a fazer um exercício difícil do que como um homem a corresponder-se com a mulher que amava, uma mulher que já estava morta.

 

O que me intrigou mais foi ele ter falado do avião, e pensei que se continuasse com este assunto adiaria o momento em que o acaso lhe revelasse a morte de Liza. Era provável que até o senhor Quigly pudesse ajudar. Quando acordei, o Capitão já se tinha ido embora, mais uma vez, e deixou apenas um recado a dizer que pusesse as refeições na conta do hotel e, se possível, tudo o que quisesse comprar. "Volto antes de anoitecer. É só um pequeno voo fuliginoso." Também meteu cem dólares no sobrescrito e lembrei-me das remessas misteriosas que Liza recebia, durante a minha infância. depois de se ouvir à campainha o sinal de código. Não senti gratidão - estava até enfurecido,  pois não desejava gastar o seu dinheiro; preferia muito mais ganhá-lo de alguma maneira, nem que fosse com o senhor Quigly. Não tinha a morada deste, pois o cartão só trazia o número de telefone. Até o facto de o Capitão usar incorrectamente a palavra             "fuliginoso" me irritou.

Furioso como estava, mandei vir pelo telefone o maior pequeno-almoço de que me lembrei e deixei metade por comer. Depois desci para o vestíbulo do hotel e vi o senhor Quigly erguendo-se de uma cadeira junto à porta.

- Mas que feliz coincidência - disse ele. - Vim até aqui apenas para descansar um pouco. Com este calor. O seu pai está em casa?

- Um hotel não é uma casa - respondi. Ainda estava de mau humor. - Foi fazer um pequeno voo.

- Ah, esses voos! Às vezes é muito difícil apanhá-lo.

- Quer apanhá-lo?

- Oh, gosto sempre de conversar um bocadinho com ele. Tem umas ideias próprias que me interessam. Mesmo quando não concordamos.

Mostrei-lhe o recado do Capitão.

- Que raio quer dizer fuliginoso? - perguntou o senhor Quigly. Já soube, mas esqueci-me. Não ando com o dicionário atrás. De qualquer modo, um dicionário não ia adiantar nada. Acho que ele só se importa com o som. Engana-se nos significados.

Confiei ao senhor Quigly a história que o Demónio, me contara sobre o campo de prisioneiros e o dicionário meio destruído. Quando fala não costuma usar palavras destas, mas quando escreve são elas que dominam.

- Como um poeta?

- Não tem muito de poeta. - Mas pensei subitamente: "Será que foi do Capitão que eu herdei este desejo irritante de ser escritor?" Não foi certamente do "Demónio" nem da minha mãe, e comecei a sentir uma certa vergonha por poder estar a trair, junto do senhor Quigly, aquele que, de certo modo, me perfilhou. No meu desejo de encontrar palavras, não me assemelhava um pouco ao Capitão, na sua busca permanente das mulas que transportavam o ouro?

O senhor Quigly interrompeu os meus pensamentos.

- Sabe que tinha pensado em vir visitá-lo - disse. - Ontem, estive em contacto com o meujornal e eles concordaram, em princípio - deu ênfase à palavra "princípio" -, que trabalhasse como meu assistente, por seiscentos dólares pagáveis no primeiro dia do mês, e podendo ambos pôr termo ao acordo a qualquer altura, sem aviso prévio.

- Não compreendo. Para fazer o quê?

- Oh, é provável que lhe surjam pequenas histórias que encaixem no final dos artigos. Por vezes tenho de me ausentar por uns dias, e nessa altura pedia-lhe que ficasse de olho nas coisas. Num local como este as notícias podem aparecer de repente. O Panamá é um local curioso. Um pequeno estado capitalista com um general socialista, dividido ao meio pelos americanos. Você e eu, sendo ingleses, podemos compreender as dificuldades que podem surgir aqui. É como se a Inglaterra estivesse dividida entre o norte e o sul com os americanos no meio. Os americanos não compreendem a indignação, porque trazem muito dinheiro. O Panamá seria pobre sem eles, por isso esperam ser amados, mas em vez disso têm inimigos. O dinheiro faz inimigos, bem como amigos.

Reparei, não pela primeira vez, que dizia certas palavras ("americano" era uma delas) com um ligeiro sotaque ianque.

- É inglês? - perguntei.

- Pode ver o meu passaporte - disse. – Nascido em Brighton. Não se pode ser mais inglês do que isto.

- Só que - desculpei-me, pois estava ele, afinal, a tentar ajudar-me? - por vezes a sua pronúncia.

- Uma pronúncia atlântica - admitiu. - Sabe, passei anos nos Estados Unidos a aprender o meu ofício.

- Ofício?

- A ser correspondente financeiro, e agora aqui estou, num país com cento e vinte e três bancos, e um general socialista a governá-lo. Seria fácil transformar um correspondente financeiro num correspondente político, e até num correspondente de guerra, num abrir e fechar de olhos. Seria muito útil para o meujornal ter duas pessoas neutras a fazer as reportagens daqui.

- Porque não contrata o Capitão? Ele já teve muitas experiências por esse mundo fora.

- Que Capitão?

- É um nome que nós lhe chamamos sempre. Refiro-me ao meu pai.

- Oh, ele está muito ocupado com o negócio dele, seja este qual for.

- E o avião. Por acaso não sabe onde ele guarda o avião?

- No aeroporto, suponho.

- Sim, suponho que sim. Foi uma pergunta idiota. Só que nunca o vi por aí. É claro que existem dois aeroportos, o nacional e o internacional, e geralmente eu uso o internacional.

- Então quer que lhe pergunte?

- Não, não, esqueça. Uma curiosidade vã. Bom, para dizer a verdade não é completamente vã. No meu ofício pode sempre acontecer precisar-se de um pequeno avião. Posso pagar bem, quero dizer, o meu jornal pode pagar bem, e por aqui encontram-se tão poucos aviões particulares.

-Já lhe pediu?

Um dia peço-lhe, se realmente precisar, e tenho a certeza de que estará sempre pronto a ajudar-me. Afinal, é um compatriota, e nesta zona prefiro confiar num inglês do que num ianque.

- Porquê, se trabalha com eles?

- Oh, não me refiro aos tipos do jornal, mas nesta zona o jornalismo não é um negócio simples. Uma boa história pode ser por vezes um pouco perigosa. Há pessoas que podem não a querer ver publicada. Por isso, de certo modo, é reconfortante ter outro inglês. . .

A nossa conversa, de certo modo, parecia estar a andar em círculos, e verifiquei que, por qualquer razão, não acreditei numa palavra que dizia. Penso que o senhor Quigly se apercebeu da minha desconfiança. Disse:

- Aqui estou eu a dizer disparates em vez de tratar da minha vida. Hoje tenho muito que fazer.

- E o que tem de fazer hoje?

- Uma história. Se não temos uma história para lhes apresentar quase todas as semanas, acham que não valemos o que nos pagam. Devo admitir que às vezes mais valia inventar.

Compreendia muito bem o seu raciocínio, pois não fora desse modo que obtivera o meu primeiro empre go? Talvez fosse esta única vez em que senti a possibilidade de uma certa camaradagem com o senhor Quigly. Teria gostado, se ele tivesse sido mais específico, de o ajudar. Dei um passo em direcção à secretária da recepção para entregar a minha chave e ouvi a sua voz por detrás de mim:

- Bom, vou-me embora. Até breve. - Mas quando me voltei já ele tinha saído, desaparecido no ar húmido e pesado do Panamá, repleto da chuva diâria prestes a cair.

Tenho uma coisa para te mostrar - disse-me o Capitão. Cortara-se ao fazer a barba e inclinava-se em direcção ao espelho para examinar o golpe. Lembrei-me daquela ocasião, anos atrás, quando ele fizera um golpe no rosto ao rapar a barba.

- Não devia ter rapado a barba - disse eu -, agora não seria preciso barbear-se.

- Isso foi há muitos anos, e de qualquer modo a Liza não gostava da barba. Quando regressei, disse-me que parecia outro homem, um homem que ela não conhecia.

- Não me parece que fosse a barba o que a incomodava.

- Acho que tens razão. Mas admira-me que tenhas reparado nisso naquela idade.

- Ela tinha medo que, sem barba, a polícia o apanhasse. Se se barbeasse.

- Tens razão, mais uma vez. Mas agora as coisas são diferentes. Não estou a lidar com polícias ingleses. Eles estão habituados a coisas simples, como assassínios ou roubos de jóias. As pessoas aqui não se deixam enganar por uma barba ou um corte de cabelo. Tenho de ter muito mais cuidado do que isso. Aqui, é tudo política. - O Capitão afastou-se do espelho e disse: - Graças a Deus, aqui não corro o perigo de ir para a prisão. Corro só o perigo de morrer.

- Santo Deus, porquê? Porque há-de uma pessoa preocupar-se com a morte? De qualquer modo, a morte é inevitável. Por isso, porquê preocupar-me? Se tudo correr bem, quando me for embora finalmente, a Liza será uma mulher rica. Ela nunca quis ser rica.

- Oh, esquece a palavra rica. Quero que ela tenha segurança, só isso, se me acontecer alguma coisa.

O coração parava-me todas as vezes que ele falava de Liza, pois algum dia teria de saber da sua morte. Arrependi-me mais uma vez de não lho ter dito logo de início.

- Aqui a aposta é mais elevada - continuou, enquanto se barbeava - do que aqueles milhares de libras em jóias. Por isso, as penas são muito maiores. Pelo menos para aqueles que pensam que a morte é uma pena maior do que a prisão. Mas eu sei o que é a prisão. Bastou-me durante a guerra. Raios, voltei a cortar-me! Passa-me a pedra-ume. Nunca teria fugido daquele campo de prisioneiros alemão se achasse que a prisão era melhor do que a morte.

- Então essa história é verdadeira? - perguntei.

- Claro que é verdadeira. Porquê?

- O meu pai pensava que muitas das suas histórias eram mentiras.

- Oh, o "Demónio" é que gostava de mentir, eu não. E ganhei-te ao gamão, não ao xadrez. E toda aquela história de fugir pelos Pirenéus e os monges espanhóis? De que outro modo podia ensinar-te o pouco espanhol que tu sabes? E como podia eu safar-me aqui se não soubesse espanhol?

- E as mulas?

- Hoje - disse ele, virando-se solenemente do espelho e erguendo a gilete como um padre ergueria a hóstia - vou mostrar-te uma das mulas no seu próprio estábulo. Só tu e eu saberemos onde fica o estábulo, excepto, é claro, alguns dos meus amigos verdadeiros, que, espero, nunca me trairão. - Limpou a gilete e voltou a olhar para mim. - É um grande segredo - disse. - Tu és um dos meus amigos verdadeiros, não és?

Alguém me poderia censurar por lhe responder:

"Sim, claro" Pois, agora que Liza morrera, se ele não era meu amigo, quem, rigorosamente, neste mundo o era?

Metemo-nos no carro do Capitão - um Renault não muito caro - e afastámo- nos da cidade, para bem longe dos bancos e dos bairros de lata. Entrámos sem ser controlados na Zona Americana, passámos pelos campos de golfe, pelos quartéis e pelas igrejas. O Capitão nomeou algumas das igrejas à medida que passávamos por elas - a Igreja Comunitária de Colo Solo, a Igreja Bíblica da Encruzilhada, a Nazarena, a dos Mórmones, a do Evangelho dos Quatro Rectângulos. Mais de sessenta - disse ele, confirmando a matemática de Pablo -, mas não são tantas como os bancos.

- Coco Solo - protestei, pensando em coca-cola -, essa foi inventada por si.

- Inventada não, mas talvez tivesse indicado o edificio errado. Podia ser a das Testemunhas de Jeová, ou do Primeiro Isthian. São um povo muito religioso, estes ianques. Esqueci-me de te mostrar a Livraria Argosy. Essa é perfeitamente original. É a única livraria da Zona. É claro que com tanta religião, para não falar dos deveres militares, têm muito pouco tempo para ler.

Saímos da Zona em direcção à esquerda, tal como à entrada, sem sermos controlados, e virámos - ia dizer para norte, mas os pontos cardeais no Panamá podem ser confusos até para um geógrafo. Por exemplo, quem iria adivinhar que o canal corre do Atlântico para o Pacífico mais ou menos de oeste para leste? Tudo o que lembro agora do nosso passeio foi uma grande vedação, na estrada por onde passámos, que exibia um plano de uma cidade ainda por começar, que aparentemente seria construída um dia pelo Banco de Boston. Havia somente alguns postes de iluminação ao longo das estradas cimentadas, que não levavam  a lado nenhum, excepto a um amontoado de cabanas à beira do Pacífico.

- Aqui - disse o Capitão - viramos à direita. E gostaria de que te esquecesses de onde estamos acrescentou rapidamente enquanto levava o carro por cima de uma vala e sobre uma quantidade de ervas e arbustos da altura de um homem. Daí, saímos para uma pequena pista de descolagem que, até para os meus olhos de amador, parecia muito gasta pelo uso.

- Ali está ela - proclamou o Capitão com um tom de orgulho inconfundível quando parou o carro e apontou para uma avioneta estacionada no terreno irregular.

- Parece um bocado velha - comentei.

- Treze anos, mas é suficientemente segura. Se eles a deixassem em paz. - Ficou calado durante bastante tempo, e pensei que talvez estivesse a cismar no "eles". . . fossem "eles" quem fossem, mas enganei-me. Quebrou o silêncio: - Não deves falar dela quando lhe escreveres, a ela.

Senti-me confundido com todos estes "eles" e " elas ".

- Falar de quem?

- Da avioneta, claro. Ela ficaria preocupada.     "Uma avioneta preocupa-se?", pensei eu.

Ficou sentado ao volante em silêncio, durante algum tempo, e tive medo de o incomodar, pois o silêncio, na minha situação, era mais seguro do que as palavras.

Finalmente falou.

- Ela vai ficar bem.

- O médico disse. - comecei, mas desta vez apercebi-me de que se referia à avioneta e não a Liza. Felizmente, parecia não ter ouvido as minhas palavras, aquelas palavras perigosas que talvez pudessem ter aberto a porta e deixar entrar a verdade. Verifico-a depois de todos os voos - disse. -  Não é que eu tenha medo que ela tenha algum problema, mas não posso dar-me ao luxo de falhar aos outros.

- Os outros?

Não me ouviu, pois o seu espírito já estava voltado para outra direcção.

-Já lhe escreveste a dizer que chegaste bem?

- Oh, sim, escrevi - disse eu, pois era óbvio que desta vez não estava a falar da avioneta.

- Quando aprendeu a pilotar? - perguntei-lhe.

- Foi quando voltei para Inglaterra. Já estava farto da maldita infantaria. Mas depois a guerra acabou, quando eu estava a passar os exames. Não fiz aviação a sério. Nunca pensei que me fosse útil até vir para aqui. Mas nesta terra descobri que queria um avião.

- Para quê?

- Para ser verdadeiramente útil aos meus amigos. Eles necessitavam de um avião. Para transportar coisas de que precisam muito, mas que não se podem levar por terra. Queres dar uma volta?

Olhando para a avioneta em segunda mão com treze anos de idade, teria gostado imenso de dizer "não, mas não tive coragem e acenei afirmativamente com a cabeça.

Ao aproximarmo-nos da avioneta, a cada passo que eu dava ela parecia tornar-se mais velha e frágil. No máximo, só devia haver lugar para três além do piloto, mas, quando nos chegámos perto, o Capitão deteve-se e deu um passo atrás. Fixava a avioneta com reverência, como se se tratasse de um objecto sagrado capaz de responder às suas preces, ou como um homem olha para a mulher que envelheceu ao seu lado, mas que ainda é digna da sua admiração pela maneira habilidosa como lidou com o tempo.

- Sabes o que eu gostava de lhe fazer? - perguntou-me.

- Não. O quê?

Gostava de lhe pintar as asas como eles pintam aqui os autocarros. Já os viste nas ruas com as suas paisagens coloridas, até com Nossas Senhoras a quem se pode rezar. Não que eu seja crente, mas pensa como ela ia ficar bonita.

- Então porque não a pinta?

- Oh, não pode ser. Tornar-se-ia demasiadamente identificável. Talvez o faça um dia, quando me reformar disto e não a usar mais para trabalhar. Estou mesmo a ver a Liza sentada ali no assento do piloto olhando para as árvores pintadas nas asas ou aqui ao nosso lado, a dizer uma oração a Nossa Senhora por nós. Numa das asas pintava-se uma paisagem, e na outra uma Nossa Senhora.

- Disse reformar-se. reformar-se de quê? - Mas a esta pergunta não me deu resposta.

- Podíamos dar uma volta juntos, só por prazer disse ele - Não há aqui ninguém que nos veja descolar. - E, apesar dos meus receios, descolámos depois de muitos solavancos.

Lembro-me daquele voo muito claramente - muito mais do que dos acontecimentos que registei ante riormente, que são muitas vezes deturpados pelo toque da imaginação. Voámos em silêncio sobre a floresta de Darien, com o contínuo tapete verde-escuro por baixo, sem sequer uma pequena lágrima à superfície. Uma vez acenou com a cabeça - em direcção a leste, oeste, sul? É impossível dizer, na geografia confusa do Panamá. E comentou:

- Ali vê-se a Colômbia. Onde tudo isto começou.

Mas eu não fazia ideia do que ele queria dizer com " tudo isto".

Chegámos ao Atlântico e depois virámos e descemos a baixa altitude sobre uma pequena aldeia junto ao mar.

- Nombre de Dios - disse o Capitão. Vi um velho canhão deitado na erva e uma debandada de aldeões que não deviam estar habituados a aviões, pois só um helicóptero poderia aterrar ali. O Drake está enterrado aqui? Não. O corpo está ao largo de Portobello, mais para cima.

Mas havia um poema que eu li na escola: "Caído sob o canhoneio na baía de Nombre de Dios."

- Os poetas nunca acertam com as coisas. O Drake está enterrado no fundo do mar ao largo de Portobello, perto do local onde os espanhóis guardavam o ouro.

Depois dirigimo-nos para o Pacífico e não se disse uma palavra durante muito tempo. Interroguei-me por onde andariam os seus pensamentos, mas assim que começámos a descer descobri pelo menos o caminho que estavam a tomar, e para mim era um caminho muito perigoso.

Já avistávamos as ruínas quando ele começou a falar.

- Sinto-me ansioso em relação à Liza. Já devia te escrito.

- O correio para o Panamá é muito lento.

- Não é assim tanto. Às vezes duas semanas, talvez. Se alguma coisa corresse mal, eles têm a minha morada?

Hesitei em falar.

- Eles quem?

- Os médicos, claro, as enfermeiras.

Passávamos sobre a grande Ponte das Américas e um amontoado de navios esperavam para entrar no canal.

- Sim - disse-lhe. - Têm. - Apt. qualquer coisa, pensei, pois já não me lembrava do número.

Senti que estava a aproximar-me perigosamente do final da estrada de mentiras pela qual seguira tão imprudentemente. Mando um telegrama a um amigo a perguntar, se quiser - disse-lhe.

Sim. Faz isso.

O problema era que eu não tinha nenhum amigo que soubesse o suficiente para me ajudar nesta menti ra. Até me ocorreu pedir ajuda ao senhor Quigly. Lutava por mais algum tempo, tempo para me libertar da minha dependência em relação ao Capitão.

A avioneta saltava sobre a erva grosseira do seu esconderijo quando ele voltou a falar.

- Despacha-te. Manda um telegrama assim que chegares ao hotel.

- Vou directamente aos correios.

- Não é preciso. Há sempre bichas nos correios. Manda-o do hotel.

A minha fúria acumulava-se - fúria pela minha própria cobardia. A irritação assobiava-me dentro do estômago durante todo o caminho para o hotel, do mesmo modo que uma chaleira ao lume assobia quando chega ao ponto de ebulição. Senti que ele não confiava em mim, e isso enfurecia-me ainda mais porque sabia muito bem que não era digno de confiança. Porque haveria de ser? Defendia-me. Um homem que fora procurado tantas vezes pela polícia por causa dos delitos que cometera no seu país, e que estava agora metido Deus sabe em que actividade criminosa neste estranho país de bancos e pobreza, merecia alguma confiança?

No hotel, levou-me à recepção e mandou que lhe trouxessem um impresso para telegramas e depois debruçou-se sobre mim enquanto eu tentava improvisar. Achei que podia confiar em que os correios ingleses não devolveriam para o Panamá um telegrama que não fosse entregue. Mas que nome devia indicar? Vieram- me à cabeça todas as alcunhas do Capitão, que bloquearam a minha imaginação. Victor, Carver, Cardigan, Smith.

O Capitão estava impaciente.

- Com certeza que conheces alguém! Não tens amigos em Londres?

Browne, escrevi, lembrando-me do seu nome original, e Browne com um "e parecia tornar o nome mais plausível. Acrescentei o número e a rua onde tinha o meu estúdio. No telegrama pedia a Browne que telefonasse para o hospital e enviasse para o hotel notícias sobre a saúde de Liza. O Capitão ainda estava a olhar por cima do meu ombro e perguntei com uma irritação não disfarçada:

- Isto serve?

- Sim, acho que sim. Podia ser um pouco mais glabro.

A palavra tinha para ele uma variedade de significados que eu desconhecia.

Subimos para a inevitável cerimónia nocturna em que as garrafas de uísque em miniatura eram retiradas do frigorífico do hotel.

- Tenho de acabar a minha carta para a Lizadisse-me, e, com o sabor do uísque, a prudência fugiu-me por instantes.

- Espero que ela possa lê-la - respondi, imaginando como explicar a falta de cartas.

A mão tremeu-lhe ao ponto de entornar o copo.

- Que raio queres dizer com isso? Disseste que foi um pequeno acidente.

-Sim, sim, parecia pequeno.

- Que queres dizer com parecia?

Tentei endireitar-me.

- Bem, sabe, com o choque. Numa certa idade.

- Ela não é velha - interrompeu com uma nota de ferocidade. E, evidentemente, apercebi-me de que na idade dele a velhice só começa muito depois, e além disso todos aqueles anos de separação provavelmente não existiram para ele.

- Não, não. Não foi isso que quis dizer. Mas a fúria cresceu dentro de mim. Afinal, não estava apenas a proteger-me a mim, estava a protegê-lo a ele da verdade, mas se ele queria a verdade.

- Não devias ter deixado a Liza sozinha se ela estava pior do que me disseste.

- Ela queria que eu viesse. Ela pediu-me para vir.

-Estava a pensar em mim. Nunca pensa nela. Não devias ter vindo.

- Se não me quer aqui. - Não fazia ideia de como acabar a frase, mas ele acabou-a por mim.

-Tens de regressar. Imediatamente. Amanhã compro-te o bilhete. Há um voo depois de amanhã.

- E se eu não quiser ir?

-Não te dou nem mais um tostão se ficares. O teu lugar é junto da Liza.

-Não preciso do seu dinheiro. Ofereceram-me um emprego.

- Um emprego? - exclamou incrédulo, como se eu tivesse dito "uma fortuna". - Quem?

- Um amigo seu.

- Não conheces nenhum amigo meu.

- O senhor Quigly.

 - Quigly! Não te atrevas.

Deu um passo na minha direcção e pensei que se preparava para me bater. Recuei em direcção à porta e atirei-lhe a verdade como um copo de vitríolo.

 - Não há ninguém para quem voltar. A Liza morreu.

 

Não esperei para ver a aflição do seu rosto. Não tive vontade de ter pena daquele homem, e, assim, dirigi-me rapidamente para as escadas, não esperando sequer pelo elevador, não fosse ele vir atrás de mim. Tinha medo dele, mas, ao descer os quatro lanços de escada a correr, não senti a mínima culpa e fiquei contente por encontrar a porta do elevador aberta no oitavo andar. Tudo o que fizera por mim, excepto naquele dia distante na escola, fizera-o por Liza. Não lhe devia qualquer obrigação. Eu mentira para ganhar a minha independência, mas quantas vezes mentira ele para ganhar a sua, se de facto era independente agora?

No vestíbulo peguei no telefone e, pela primeira vez, liguei para o número que o senhor Quigly me dera, mas respondeu-me uma voz desconhecida com um sotaque genuinamente ianque.

- O senhor Quigly está?

- Quem fala?

- Smith, Jim Smith.

Houve uma pausa e ouvi novamente a mesma voz, uma voz pouco amigável, na minha opinião; era como se eu tivesse interrompido uma conversa íntima.

- Diz que lhe telefona amanhã de manhã.

- Se ele está aí, não posso falar com ele, por favor? - implorei. - Diga-lhe que é urgente.

Após outra pausa demorada, foi o senhor Quigly que respondeu.

- O que é, senhor Smith?

- Não é o senhor Smith. É o Jim.

- Jim? O filho. - A complexidade do nosso parentesco aumentava a cada momento.

- Ah, é você.

- Sim, sou eu.

- O que é tão urgente?

- Não lhe posso dizer pelo telefone. Posso ir ter consigo? Mas não tenho a sua morada.

- É difícil recebê-lo aqui. Espere. Deixe-me pensar um instante. Vá ter àquele restaurante dentro de um quarto de hora. Aquele que tem os pisco sours. Lá podemos falar em privado.

Pousei o telefone e saí para a noite, incerto do meu caminho e do meu futuro. Os bancos erguiam-se à minha volta como lápides gigantescas, iluminados apenas nos andares de baixo pelas luzes das casinhas dos ricos que se encontravam entre eles. Virei várias esquinas erradas, sempre com medo de me encontrar subitamente naquele outro Panamá de sujidade, penúria e drogas, ou de que, ao atravessar uma rua, me encontrasse num país completamente diferente, os Estados Unidos da América. Nem me lembrava do nome do restaurante. Não se viam muitos táxis e não havia praças, e só repetindo as palavras "restaurante" e "Peru" a vários transeuntes consegui chegar finalmente ao local do encontro.

O senhor Quigly ainda não tinha chegado. Pedi um pisco sour, que paguei do que restava do dinheiro que Liza me dera, e esperei com impaciência e apreensão. O restaurante estava quase vazio e havia muito pouca gente nas ruas, nas quais, segundo Pablo me avisara, os assaltos eram frequentes à noite. Embora bebesse devagar, acabei o meu sour muito antes de um táxi se aproximar e o senhor Quigly aparecer à entrada da porta. O sour não ligou bem com o uísque dentro do meu estômago, e o senhor Quigly pareceu-me mais estreito do que nunca.

- Desculpe o atraso - começou. - No meu trabalho o inesperado pode sempre acontecer. - Parecia escolher as palavras com o cuidado lento de um escritor de primeira num jornal de qualidade. - Vejo que já bebeu um pisco sour. Posso oferecer-lhe outro?

- Foi um erro - disse eu. - Não liga bem com o uísque.

- Então outro uísque. Eu próprio talvez beba um. Para mim, esta tem sido uma noite em seco.

- Não, não quero beber nada - disse-lhe. Quero dizer-lhe que discuti finalmente com o Capitão.

- O Capitão?

- O homem a quem chama Smith.

O senhor Quigly não respondeu logo. Parecia imerso em reflexão, e quando respondeu fê-lo num tom de repreensão.

- Isso teria sido mesmo necessário?

- Vai comprar-me o bilhete para voltar para casa. Quer que tome o primeiro avião que houver.

- E você?

- Eu não quero ir. Disse-lhe que me tinha oferecido um emprego.

- E que disse ele a isso?

-Ficou furioso. Tive medo dele. Vim-me embora.

O senhor Quigly pareceu de novo imerso em pensamentos. Nesta altura, eu já sabia que ele não era um homem impulsivo. Talvez estivesse a calcular em números como fizera no aeroporto, não dez mas doze. Finalmente, voltou a falar.

- Devo dizer que estou um bocado desorientado. Porque é que ele ficou tão zangado? Parece-me que foi um pouco precipitado em falar do emprego. Ainda não está nada decidido. Afinal, é seu pai. Tem o direito.

- Mas ele não é meu pai. Ganhou-me ao gamão, ou ao xadrez. O Demónio diz que foi ao xadrez.

- Quem é o Demónio"?

- O meu verdadeiro pai.

- Bom, bom - disse o senhor Quigly. – Acho que é melhor esclarecer-me um pouco as coisas antes de tomarmos uma decisão em relação ao emprego. Não sou eu quem tem a última palavra, sabe. Há outras pessoas que tenho de convencer.

Contei-lhe o mais rapidamente possível a minha

história e a de Liza e a nossa vida com o Capitão e os seus frequentes desaparecimentos e mudanças de nome. Também lhe falei da morte de Liza e confessei que mentira ao Capitão.

Surpreendeu-me o seu comentário quando acabei.

- Mas isso é uma história de amor.

- Não sei se é de amor - disse eu. Bom, pelo menos pareciam, como direi, precisar um do outro. Suponho que se pode chamar a isso amor.

O senhor Quígly falava como se tivesse tido tão pouca experiência nesse campo como eu e se baseasse no que ouvia dizer.

- Que acha que ele fez para vos manter? Um homem solteiro que toma a seu cargo uma família. Não é uma coisa fácil.

- Nunca soubemos exactamente o que ele fazia, mas a polícia parecia estar sempre interessada nele.

- Também já me interroguei muitas vezes - disse o senhor Quigly. - Parece ganhar muito dinheiro com aquela avioneta. Voos fretados, penso eu.

- Mas transporta o quê?

- Bom, penso que sei a resposta para isso. E como arranjou ele a avioneta?

- Disse-me que tudo começou na Colômbia.

-Sim, ouvi um colega meu em Caracas dizer qualquer coisa. Provavelmente drogas. Nada de muito grave, imagino. Não eram drogas duras. Só marijuana. Coisas de crianças. Depressa abandonou o tráfico e veio para aqui. Talvez fosse demasiado perigoso ou talvez a sua consciência. Terá ele consciência? De qualquer modo, duvido que tenha pago a avioneta, porque sei, através do meu colega, que se há país onde ele não voltará nunca é à Colômbia. Penso que deve ser procurado pelos antigos camaradas.

- Parece saber muita coisa. Pensei que fosse só correspondente financeiro.

O senhor Quigly soltou a sua risadinha brusca, uma risadinha tão estreita como ele próprio. Não continha humor, e se continha era um humor tão apertado como as suas calças.

- As finanças entram em tudo - disse. - Política, guerra, casamento, crime, adultério. Tudo o que existe no mundo tem qualquer coisa a ver com o dinheiro. Até a religião. O padre tem de comprar o pão e o vinho e o criminoso tem de comprar a arma ou a avioneta.

- Acha que o tráfico de drogas acabou?

- Tenho a certeza. Não estaria protegido pelo coronel Martínez se estivesse metido no tráfico de drogas, e ele está protegido.

- Quem é esse coronel Martínez?

- Bem, é difícil dizer exactamente quem ele é. É um oficial importante da Guarda Nacional.

- Você está protegido?

- Tanto quanto sei, não se trata exactamente de me protegerem, mas estão interessados em mim. Está a ver, trabalho para um jornal americano. costumam suspeitar do tudo o que é americano.

- Para que serve um avião velho como o do Capitão?

- Oh, não pode transportar material muito pesado, mas não é de material pesado que as guerrilhas precisam.

- Guerrilhas? No Panamá?

- Não, não. Não é no Panamá, mas conhece aquele ditado "O inimigo do meu inimigo, meu amigo é". As pessoas aqui detestam a Zona. Na Nicarágua estão a lutar contra Somoza e em El Salvador lutam contra os esquadrões da morte, e tanto o Somoza como os esquadrões da morte têm a ajuda dos Estados Unidos.

- E você o que faz no meio disto tudo?

- Já lhe disse. Sou apenas um correspondente financeiro. O meujornal não é muito importante, mas tenho a certeza de que as minhas informações são lidas até no Wall StreetJournal. É claro que sou inglês. Sou neutro, mas notícias são notícias. Mesmo notícias de coisas pequenas. As coisas pequenas têm de ser compradas algures, não é verdade? Os ianques,  evidentemente, dizem que vêm da Rússia ou de Cuba. Qualquer pessoa que lute contra um ditador controlado por eles é considerado comunista. É uma maneira útil para explicar as coisas ao grande público e talvez tenham razão. Não seria possível dizer que o seu amigo Israel estaria pronto a vender alguns tanques aos "seus amigos ditadores. Finanças, como vê, finanças em tudo. Sou um correspondente financeiro e preciso de dados.

Fiquei surpreendido com o senhor Quigly. Apesar de todas as suas evasivas e abstracções, desta vez foi admiravelmente franco.

- E está disposto a dar-me um emprego? - desafiei-o.

- Diria um pequeno pagamento enquanto consulto o meu editor. Quer outro uísque?

Aceitei, pois o uísque soltara, certamente, a língua do senhor Quigly. Segurava-o numa mão, sem sequer o beber. Olhou para o copo como um médium à procura de uma imagem na bola de cristal. Finalmente, talvez tivesse visto a imagem que procurava. Disse:

- Considero o seu pai, ou seja, o senhor Smith ou o Capitão, como você lhe chama, como um amigo que esperava conhecer muito melhor. Ajudando-o a si, pensei que podia indirectamente ajudá-lo a ele. Podemos ajudar-nos uns aos outros em pequenas coisas. Tenho muita pena de saber que discutiu com ele. E acrescentou com uma crueza inesperada: - Afinal, ele está nisto pelo dinheiro, como eu, e podíamos facilmente trabalhar juntos. Vendo bem, tudo isto não passa de um negócio financeiro. Os meus amigos podiam pagar-lhe muito mais do que a guerrilha. Viu a avioneta dele?

- Levou-me a dar uma volta.

- Sempre me perguntei a mim mesmo onde a guardaria ele. Talvez me pudesse dar uma pista.

Ainda estava confundido, não penso que foi só o uísque que me embruteceu.

- A pista que eu quero é onde posso passar a noite disse eu. - Suponho que haja hotéis baratos no Panamá.

- Não aconselho hotéis baratos no Panamá. Mas não se preocupe. Para lhe dizer a verdade, é com o senhor Smith que tenho de me preocupar. Ele pode ser precipitado. Gostava de ver o seu pai, desculpe, o senhor Smith, e tentar reparar essa discussão desnecessária. Talvez que, com a fúria, se tenha metido na avioneta. Se não estiver no hotel. Onde diz que ele guarda a avioneta?

Não tinha dito nada, mas agora disse-lho da melhor maneira que pude. Foi o plano daquela vila por construir que lhe chamou a atenção.

- Aí? Que estranho. Em que abrigo? Oh, há uma espécie de cabana.

As bebidas também me tinham soltado a língua e dado livre curso à minha curiosidade.

- O que eu não compreendo é como vocês dois poderiam trabalhar juntos. Não me disse nada claramente, mas percebo que estão em campos opostos.

- Não há campos opostos quando se trata de dinheiro. Ele não trabalha por uma causa. Trabalha pela sua mãe adoptiva, e ela agora está morta. Já não precisa de dinheiro para ela. Não precisa de dinheiro para si. A si, arranjo-lhe todo o dinheiro de que necessitar. Precisa de um pouco para ele, claro, e posso ajudá-lo nisso, se ele me ouvir.

- Como?

- Pago-lhe bem por qualquer notícia que me der.

Reparei que o senhor Quigly empregava sempre a palavra notícia, nunca informação. Talvez pensasse que era uma palavra mais inofensiva.

- Acha bem que eu o vá ver logo de manhã?perguntou o senhor Quigly. - Já deve ter tido tempo de pensar bem nas coisas. Na mudança de situação. Na morte da sua mãe, como se chama ela? Liza?

- Faça o que quiser. Não serve de nada. Nunca me perdoará ter-lhe mentido.

- Talvez consiga mostrar- lhe um ângulo novo da questão.

- Ele não confia em si.

- Em mim, talvez não. Mas em finanças, confia- se num banco. Eu podia ser o seu banco.

Estava cansado daquelas duas palavras, banco e fi nanças. Quero dormir.

No fim, o senhor Quigly foi muito amável. Encontrou-me um quarto não muito longe dali e pagou aquela noite adiantada. Antes de se ir embora pediu-me que lhe chamasse Fred.

- Chamo-me Cyril - disse -, mas os meus colegas verdadeiros chamam-me Fred. - Parecia que estava a pôr a sua assinatura (verdadeira ou falsa) num acordo, e eu não conseguia evitar sentir que "Cyril" lhe ia muito melhor do que o coloquial "Fred.

 

Acordaram-me por volta das dez, dizendo-me que havia uma chamada para mim.

- Daqui fala Fred - disse uma voz, e durante muito tempo não consegui lembrar-me de quem era Fred. - Quigly - explicou a voz com impaciência. Estou no Hotel Continental. Por favor venha imediatamente.

- Não posso ir imediatamente. Não estou vestido.

-Então vista-se depressa, por favor. - Falou quase como se já fosse meu patrão.

Encontrei-o à minha espera no vestíbulo e levou-me para onde o porteiro não pudesse ouvir-nos.

- Foi-se embora - disse.

- Embora para onde?

- Isso queria eu saber. O porteiro tem uma carta para ele. Com um selo inglês. Interessante. Peça-lhe que lha entregue. Diga que vai ter com ele. E peça-lhe que lhe dê a chave do quarto. A mim não ma dão, mas eles sabem que você partilhava o quarto com ele e ainda está reservado.

- Para que quero eu a chave, ou você?

- Pode haver indicações.

- De quê?

- Do que ele anda a fazer.

- Pensava que sabia, algo a ver com armas.

- Como jornalista - disse, ainda fiel àquela máscara inverosímil -, quero pormenores.

- Se são financeiros - disse eu, em tom de troça -, interessarão ao Wall Street Journal.

Mas não se apercebeu da minha provocação.

- Sim, as finanças dele são de grande interesse, e quem o financia. Talvez a carta nos dê uma pista.

Cedi e fui buscar a carta e a chave. Não tive dificuldade. Provavelmente o porteiro pensou que eu tinha passado lá a noite. No quarto que eu partilhara com o Capitão, o senhor Quigly movimentou-se ra pidamente.

- Não pode ter ido longe - disse. - Volta esta noite. - E pegou num pijama por dobrar, pousado no sofá.

-Era eu que usava o sofá. Esse pijama é meu.

- Ah! - Não ficou desiludido, pois virara uma almofada na cama. - Então este é o dele. Vai dar ao mesmo. Ele espera regressar.

- Fica satisfeito?

- Fico. É muito mais fácil estar de olho nele aqui. Suponho que tenha tomado a rota habitual. Sobre a Costa Rica. Depois atravessa a fronteira para largar as armas algures na região de Estelí onde os sandinistas são mais fortes.

- Nem sequer sei a que país se refere.

- Veja dentro do armário, enquanto eu procuro no cesto dos papéis.

Obedeci-lhe. Também começava a estar interessado. Nunca seguira tão de perto as actividades do Capitão, o que nos mantivera, a mim e a Liza, numa espécie de semiconforto ao longo de tantos anos. O mais perto que estive do que o senhor Quigly chamava "notícia era aquele artigo que lera no Telegraph sobre um homem "com um porte militar" que perguntara o caminho para Baxter Street na loja do ourives. Baxter Street e Estelí, dois locais desconhecidos que vinham à superfície com tantos anos de distância.

- Onde fica Estelí - perguntei.

-Já lhe disse. Onde a Guarda Nacional de Somoza é mais fraca e os sandinistas são mais fortes.

- De que país está a falar?

- Parece ser um tipo ignorante. Não sabe que há uma guerra civil na Nicarágua? Pelo menos ajude-me e veja dentro do armário.

- Não há lá nada. Só um fato e umas camisas.

- Nada nos bolsos?

 Nada - menti, pois na realidade havia uma car ta que eu metera sorrateiramente num dos meus bolsos sem olhar para a morada. Ainda não era empregado do senhor Quigly, disse para comigo. Um quarto por uma noite, sem sequer um mísero pequeno-almoço, a nada me obrigava.

- É óbvio que tenciona voltar - disse o senhor Quigly -, mas talvez possamos interceptá-lo antes de partir. Eles disseram que só se foi embora há meia hora. Não pode ter ido longe naquele velho Renault e o carro não aguenta com muito arsenal. Talvez algumas granadas. Não é que sirvam de muito contra os tanques de Somoza fornecidos pelos Estados Unidos. Não despreze as notícias financeiras. São maravilhosamente complexas. Aquele selo inglês. Não disse que a mulher morreu? Então quem é o correspondente?

- Agora não interessa. Temos de agir depressa. Se o apanharmos com granadas antitanques na avioneta,  não vejo como o coronel Martínez o possa encobrir sem um escândalo. E um escândalo calhava bem aos ianques assim como ao meu jornal, evidentemente. Qualquer jornal adora um escândalo.

- Mas onde quer ir?

-À avioneta dele, claro. Você sabe onde ele a guarda.

Uma noite quente e perturbada num pequeno hotel com uma almofada dura e uma janela que não abria mantivera viva a minha fúria contra o Capitão. Por isso não hesitei. Ganharia o meu prémio.

Pela primeira vez, o Mercedes do senhor Quigly impressionou-me. Quando me foi buscar ao aeroporto, eu estava demasiado cansado para reparar nele. Sentei-me ao seu lado e indiquei-lhe o caminho com alguma incerteza - por cima da grande ponte, passando pelas instalações militares da Zona, pelas igrejas, pelos campos de golfe, pelas vivendas elegantes, e novamente para dentro do Panamá, até chegarmos ao plano da cidade inexistente.

- Aqui vá devagar - disse-lhe. - Temos de virar algures.

Obedeceu, mas os seus pensamentos estavam noutro sítio.

- Se o apanharmos, o escândalo pode dar cabo do Tratado do Canal. O Senado ficaria satisfeito.

- Que Tratado do Canal?

Ignorou a minha ignorância.

- E o Congresso também. - E acrescentou:Aquela carta com o selo inglês. Leia-ma enquanto conduzo.

- Não me parece que ele goste que eu lhe entregue um sobrescrito aberto. Tenho a forte sensação de que vamos chegar tarde de mais. Talvez não o voltemos a ver.

- Está bem. Como queira. Não abra a carta até chegarmos (o que é que lhe chama?) à pista de descolagem. Ou não seria mais adequado dizer à pista de fuga? Se ele não estiver lá, não vejo razão para não a abrir. Mesmo que volte, nunca saberá que havia uma carta. Não lhe interessaria a si. Conheço a escrita no sobrescrito. É de uma morta.

- Uma morta?

- A Liza.

- Ah, então esqueça. Ele sabe o tempo que as cartas levam a chegar ao Panamá. Pare aqui. Tenho quase a certeza de que é este o sítio.

Olhei para os arbustos e vi o rastro deixado pela passagem do Renault. Seguimo-lo aos sobressaltos até ver a pista e a cabana vazia.

- Deus do Céu! - exclamou o senhor Quigly. Nunca o ouvi proferir uma expletiva tão forte. O terreno é um bocado mau, não acha? Não me agradaria ter de aterrar aqui, nem descolar, e se calhar com uma carga de mísseis antitanques.

Ficou sentado a olhar, por uns instantes, e depois pôs o motor a funcionar.

- Tenho de voltar para mandar um telegrama.

- Notícias financeiras?

- Não anda longe - respondeu, com a cautela habitual.

Conduziu-me de volta, num silêncio sorumbático e pesado, enquanto eu me interrogava se usaria alguma espécie de código nos telegramas, talvez algo tão simples como o código do livro, sobre o qual eu lera em rapaz um romance de espionagem. O espião e os seus correspondentes escolhiam uma frase de um livro combinado, talvez uma edição das obras completas de Shakespeare, que daria uma grande escolha de linhas para jogar, e o código era, de alguma forma, baseado nessa frase e na ordem das palavras. Tentei imaginar que estilo de livro o senhor Quigly e os seus americanos teriam escolhido. Não seria Updike. Updike era demasiado curto para ser seguro. Talvez tivesse optado por um clássico dos grandes, como E Tudo o Vento Levou.

No Continental, o senhor Quigly quebrou o silêncio.

- Não vale a pena ficar desconfortável - disse. O quarto que partilharam ainda está reservado. Até pode usar a cama. Telefono-lhe assim que tiver notícias dele.

Fui buscar a chave ao porteiro, que me disse:

- Há uma mensagem telefónica para o seu pai. E li-a no elevador. "Por favor, telefone para o escritório do coronel Martínez." Bom, pensei, o coronel Martínez terá de esperar muito tempo pela resposta.

As duas cartas por ler, nos bolsos, pesavam-me no espírito. E assim que fiquei sozinho abri imediatamente a que me estava legitimamente dirigida. Primeiro saiu um cheque e um bilhete de avião e depois a carta. Espantou-me o seu tamanho e, à medida que ia lendo, o seu conteúdo. Algo depois de todos aqueles anos de discrição fizera-o finalmente falar, e esse algo era evidentemente a morte de Liza.

"Jim, andaste a mentir-me todos os dias desde que chegaste, e só Deus sabe porque não continuaste. Suponho que ias esperar até eu te arranjar um emprego para viveres à minha custa, como tens feito durante todos estes anos. Tive-te comigo por causa da Liza, mas a Liza morreu. Não quero voltar a ver a tua cara, traz-me muitas recordações da Liza. Tens aqui o teu bilhete para voltares para Londres e um cheque que te aguentará durante algumas semanas se o levantares aqui antes de te ires embora; é o tempo de arranjares um emprego em Londres. Não tens lugar aqui. Mas o último conselho que te dou e a minha última responsabilidade é de te avisar que te mantenhas afastado desse Quigly. Lamento ter-lhe pedido que te fosse buscar, mas ele está sempre por aí e pronto para fazer-me pequenos favores. É a maneira de se manter em contacto comigo. É pago para isso pelos patrões, e raios os partam a todos. De mim nunca levaram nada que valesse um tostão.

Não tens razão nenhuma para confiares em mim. Sei isso muito bem. Eu também tenho sido um mentiroso, mas nunca menti nem a ti nem à Liza, apesar do que o velho "Demónio" te possa ter dito - só aos chuis. É uma história fuliginosa, bem sei. Quando comecei, não roubava para ficar rico. Roubava sem objectivo. Era um jogo, um jogo arriscado como a roleta. Na guerra, uma pessoa começa a gostar do perigo. Naquele campo alemão, aborreci-me de morte com a segurança, e quando atravessei a fronteira aborreci-me com a paz do mosteiro espanhol. Quando regressei a Inglaterra, aprender a voar foi tão fácil como tirar a carta de condução. Mal tinha começado a voar, veio a paz. Nenhum perigo, nenhuma excitação glabrosa. Por isso roubava. Isso divertia-me o suficiente até conhecer o "Demónio" e ver a pobre Liza no hospital, e o filho que ela tanto queria morto dentro dela, por ordem do "Demónio". Não sei se ela gostava verdadeiramente de mim. Era uma rapariga honesta e não me parece que tivesse gostado de usar a palavra amor falsamente. Desde essa altura tenho feito o jogo do perigo só por ela, para que um dia pudesse ter segurança quando eu morresse. Quando me disseste que ela tinha morrido, soube que já não precisava mais de mim. Nunca me arrisquei seriamente desde que conheci a Liza, mas agora todas as minhas responsabilidades acabaram. Agradeço a Deus, se é que ele existe, por me ter concedido pelo menos isso. Não estou infeliz, já não pode acontecer à Liza nada de mal, ela está livre, e eu estou livre fi nalmente, e também estou livre de ti. Voltei a fugir do campo de prisioneiros. Há uma coisa útil que eu posso fazer pelos meus amigos, agora que a Liza morreu, e posso correr todos os riscos que quiser. Por ti, já fiz o suficiente. Não quero que me escrevas. Não lerei nada do que me escreveres. Traíste a Liza. Não esperes por mim quando receberes esta carta. Vai-te embora e não voltes mais.

Assinou "o Capitão, o Coronel, o Major, o Sargento, Senor Smith, com um ponto de exclamação depois de cada nome. Perguntei a mim mesmo porque não teria acrescentado o seu nome verdadeiro mas supus que quisesse manter fora de uso pelo menos um dos seus nomes. Afinal de contas, ele e eu nunca fomos mais do que desconhecidos desde aquele seu gim tónico e o almoço de salmão fumado. Todo o seu interesse residia em Liza e, ironicamente, havia a carta dela, que chegara tarde de mais para ele a ler e que poderia tê-lo feito ciente da sua morte mais suavemente do que eu o fizera. Lamentei isso e, no entanto, achei a sua carta difícil de digerir.

Abri a carta que ele agora iria ler. Liza não era dada a escrever cartas compridas, e esta era muito curta. Escreveu assim:

"Querido Capitão, sei que o médico e a enfermeira estão a tentar não me dizer que em breve morrerei. Por isso escrevo agora o que sempre fui muito tímida para dizer. Amei-te desde o dia em que foste ver-me ao hospital com o "Demónio". Tinhas perdido um botão da camisa e os teus sapatos precisavam de uma boa engraxadela. Foste o homem mais bondoso que eu conheci em toda a minha vida. Liza.

Esta carta espantou-me. Afinal, sempre havia alguma espécie de amor entre eles. Seja o que for que essa frase signifique, parecia mais durável do que os casuais interlúdios sexuais que eu, à minha maneira, desfrutara. Deitado no sofá, no quarto do Capitão, à espera do sono que demorava a vir, senti uma punhalada de ciúme. Lembrar-se do botão que faltava, ao longo de todos aqueles anos de ausências inexplicadas, era algo que ultrapassava a minha imaginação, e fui tomado por uma sensação raivosa de inferioridade. Estava fechado do lado de fora, um amalecita, mais uma vez.

Mesmo assim, guardei a carta. Podia dar-lhe prazer e amansar a sua fúria se ele voltasse, mas enquanto adormecia estava zangado com ambos e com todo o mundo inexplicável que eles representavam. Tive um sonho estranho em que caminhava ao longo de uma estrada irregular em direcção a um bosque denso e escuro que recuava à medida que eu avançava. Tinha, por qualquer razão, de entrar naquele bosque, e sentia-me cada vez mais exausto até ser acordado pelo telefone, ao lado da cama do Capitão. Hesitei em levantar o auscultador. Receava ouvir a voz do Capitão, mas era o senhor Quigly.

- É o Jim?

- Sou.

- Estou a ligar há muito tempo. Quatro minutos e meio. - Sempre aquela exactidão para os números. Talvez fosse uma qualidade da profissão.

- Estava a dormir.

- O coronel Martínez telefonou-me. Foi a primeira vez que o fez. Deve ser importante. Quer vê-lo. Mandou buscá-lo àquele sítio onde o levei, mas você não estava lá. Está a ouvir?

- Estou. Como é que ele soube onde eu dormi? Pergunte-lhe. O trabalho dele é saber. Pablo vai a caminho para o ir buscar. Não lhe diga nada.

- Ao Pablo?

- Não, não. Ao coronel Martínez, claro.

Bateram à porta e desliguei. Estava farto do senhor Quigly. Abri a porta e era Pablo.

 

Em toda a parte parecia haver sentinelas, a quem Pablo teve de mostrar o salvo-conduto - aos portões do quartel-general da Guarda Nacional, à porta do edificio para onde entrámos, à porta da sala de espera onde fomos anunciados. Pablo não disse uma palavra e sentou-se ao meu lado, em silêncio. A pressão do seu revólver contra a minha anca incomodava-me e tornei-me impaciente.

- O coronel Martínez parece ser um homem mui         to ocupado - disse eu, mas Pablo não respondeu.

Quando finalmente chegou a minha vez, Pablo deixou-me à porta, e olhei com curiosidade para o coronel, ao fundo da sala. Nenhum polícia o teria descrito como um homem com porte militar. Tinha uma cara simpática, pálida e ansiosa, e quando se levantou para me cumprimentar vi que era baixo e ligeiramente atarracado.

- Desculpe tê-lo feito esperar, senhor Smith disse, falando em inglês, devagar e com cuidado, e contudo com aquele sotaque ianque causado talvez por viver toda uma vida próximo da Zona Americana.

- Baxter - corrigi, e ele baixou o olhar e remexeu nuns papéis sobre a secretária.

- Senhor Baxter - corrigiu-se.

Depois fez-se uma longa pausa. Teria ele esquecido o objectivo da minha ida ali, tal como esquecera o meu nome verdadeiro? De qualquer modo, senti que gostava muito mais dele do que do senhor Quigly.

Reflectia uma inocência que eu não teria associado a um uniforme militar - ou ao de um polícia.

- Sente-se, senhor Baxter - disse. – Estamos um pouco preocupados com o senhor Smith, com a sua ausência inesperada. Era para nos fazer um pequeno serviço, mas parece que desapareceu sem deixar rasto. - Foi incomodado por uma ligeira tosse, que, com toda a conveniência, cobriu o meu silêncio.

- Evidentemente, sabemos que é amigo do senhor Quigly. - A primeira pessoa do plural, como ele a empregou, parecia abranger toda a Guarda Nacional, e por instantes surpreendeu-me o trabalho que tiveram para reparar num estrangeiro insignificante, até me lembrar de Pablo. É claro que ele devia ter-lhes comunicado.

- Não sou bem um amigo - respondi.

-O senhor Quigly é um jornalista excelente disse o coronel -, e como trabalha para um jornal de gringos tem acesso a informações que nos são vedadas. Pensámos que talvez pudesse ter-lhe dito qualquer coisa que pudesse indicar. Estamos ansiosos por ter notícias do senhor Smith.

Pensei na carta, mas obedeci às instruções do senhor Quigly.

- Não tenho nenhuma notícia - respondi.

- Foram ambos vistos ontem de manhã no Hotel Continental e supusemos que andavam à procura do seu pai. Pensámos que ele talvez lhe tivesse dito qualquer coisa.

Ignorei o pequeno erro de informação sobre o meu parentesco com o Capitão e disse: Nem uma palavra. Ele não estava lá. Já tinha partido.

- Sim, sim, havia partido, já sabemos, e a avioneta também. Mas pensei que anteriormente lhe tivesse dado alguma indicação. Garanto-lhe que estamos preocupados com a sua segurança, senhor Baxter. Com os olhos pousados sobre os papéis, disse em voz baixa, como se tivesse vergonha de ter de dar uma informação valiosa: - Foi visto a levantar voo, mas seguiu na direcção errada.

- Na direcção errada? Não foi na direcção que lhe tinha sido ordenada.

Fez-se uma longa pausa enquanto o coronel olhava fixamente para os papéis. Pensei: "Terá ele tomado também a direcção errada?"

As dúvidas no meu espírito perturbavam-me e tentei resolvê-las com o que parecia, até aos meus ouvidos, nesta sala silenciosa, uma pergunta grosseiramente directa.

- Quem lhe deu as ordens? O coronel ou o senhor Quigly?

O coronel Martínez ergueu os olhos para mim e deu um pequeno suspiro, como que aliviado do peso da discrição.

-Ah, sim, o senhor Quiglyl! Que sabe exactamente sobre o senhor Quigly?

- Sei que me ofereceu um emprego.

- Vai aceitá-lo?

- O senhor Smith deixou-me uma carta com um cheque. Quer que volte para casa imediatamente.

- E vai voltar?

- Quero dizer-lhe antes o que tenciono fazer.

- Só espero que, para vosso bem, isso seja possível - disse o coronel Martínez.

Estava completamente desnorteado.

- Não sei o que quer dizer com isso - respondi-lhe. - Ele fez alguma coisa errada? Está na prisão?

- Claro que não. Ele é nosso amigo. Damos grande valor a todo o trabalho que ele tem feito para nós. Precisamos dele. - Outra vez aquele maldito verbo "precisar".

- E que tem o senhor Quigly a ver com tudo isto?

- Bem, eu não descreveria o senhor Quigly como sendo amigo dele.

- Mas - o nome fazia-me sempre hesitar - o senhor Smith pediu ao senhor Quigly que me fosse buscar quando eu cheguei.

- Oh, agradava-nos muito que o senhor Smith tivesse um certo contacto com o senhor Quigly. Não dizemos nada contra o senhor Quigly. Se decidir trabalhar com ele, a decisão é sua, mas, se isso acontecer, talvez lhe possamos dar alguns conselhos. O conselho que lhe daria agora é simplesmente esperar. Não tome uma decisão até voltar a falar com o seu pai, como espero que aconteça.

Deu umas pancadinhas nos papéis sobre a secretária e ergueu-se com um sorriso amistoso, para mostrar que a entrevista - interrogatório? - estava a acabar. É claro que lhe comunicaremos assim que tivermos notícias do seu pai - disse.

Mas não foi o coronel Martínez que me deu as primeiras notícias. Foi o senhor Quigly, duas horas mais tarde, ou, como certamente ele diria, duas horas e doze minutos mais tarde. Eu voltara para o quarto do Capitão no hotel, pois não tinha outro sítio para onde ir. Deitei-me no sofá, mas não consegui adormecer. Tudo o que me restava para passar o tempo era pensar - e como, pensei, como dei voltas às coisas no meu espírito preocupado e retorcido. Era como se estivesse de punho estendido - em criança, fizera isto muitas vezes para Liza - para dobar uma meada de lã e me mexesse descuidadamente e emaranhasse a lâ.

Por que razão estavam inquietos com a ausência do Capitão - uma ausência de apenas algumas horas? Se a história que me contara era verdadeira, a sua vida não estivera cheia de ausências desde aquela primeira ausência do campo de prisioneiros alemão? O senhor Quigly e o coronel temeriam uma traição? Mas a sua vida não fora cheia de traições? Aparentara amar Liza e, no entanto, deixara-a continuamente por razões que nunca explicou. Quem era este Somoza, de quem o coronel Martínez falou, e quem eram os sandinistas? Apercebi-me muito bem de que era profundamente ignorante do que podia estar a passar-se nestas regiões desconhecidas. Omeu trabalho como jornalista restringira-se a uma área muito pequena de Inglaterra. Uma vez, para uma história, viajara até Ipswich, seguindo a pista de uma estranha e um tanto cómica fábula de um ladrão. O Capitão também era um ladrão. O meu espírito deambulou novamente para a frente e para trás, e a lã emaranhou-se ainda mais. E Quigly? Quem era Quigly? O que era Quigly?

Na altura em que me interrogava sobre estas questões que eram as mais dificeis de resolver, o telefone tocou. Soube imediatamente o que diria a voz do outro lado da linha (seria certamente a palavra de código "Fred"), por isso deixei tocar durante muito tempo. De certo modo, aquele som era um alívio: as perguntas detiveram-se e a lã soltou-se-me dos pulsos.

Finalmente, o telefone deixou de tocar e, após um breve intervalo, aconteceu o que eu esperava: bateram à porta. Senti que tinha de a abrir e, evidentemente, era o senhor Quigly. - Telefonei lá de baixo. Disseram-me que estava cá em cima. Porque não respondeu?

- Estava ocupado a pensar, senhor Quigly. Ou devia chamá-lo Fred?

- Isto não é uma brincadeira, Jim. Tive más notícias, más notícias. O seu pai, desculpe, quero dizer o senhor Smith, morreu. - Ocorreu-me num ápice que pelo menos o senhor Quigly não procurara ganhar tempo, como eu fizera quando o Capitão me falava de Liza. Fiquei-lhe muito grato por isso. De um modo estranho, parecia desanuviar o ambiente. Não precisava de fingir um desgosto que não sentia.

- Tem a certeza? O coronel Martínez disse que me dava notícias dele.

-Ah, provavelmente ainda não sabe. O senhor Smith tomou a direcção errada. - Exactamente as mesmas palavras que o coronel Martínez empregara comigo.

- Quer dizer que se ele tivesse tomado a direcção certa.

- O coronel Martínez teria sabido onde ele se encontrava e agora estaria vivo.

- Qual era a direcção errada?

Uma direcção praticamente suicida. Já devia ser improvável que voltasse. Penso que não

queria voltar. Só quis ajudar os amigos e morrer.

- De que modo podia ajudar os amigos?

- Porque teria morto também o Somoza. Deixaria alguma vez de ser um estrangeiro nesta região do mundo, onde não conseguia lembrar-me dos nomes.

- Oh, o presidente Somoza sobreviveu, para agradar aos meus amigos.

Então pensei: "Agora está tudo acabado, a nossa discussão e a sua vida. "

O senhor Quigly prosseguiu:

- Não corria perigo da nossa parte. Queríamos que continuasse vivo. Nem que fosse só para saber onde largava as armas.

- O que quer dizer com a direcção errada? Como

morreu ele?

- A avioneta despenhou-se perto do bunker de Manágua onde o Somoza tem passado as noites ultimamente. A avioneta devia estar cheia de explosivos até acima, mas tudo o que conseguiu foi matar-se e partir algumas janelas do Hotel Intercontinental, que fica do outro lado da rua. Mais ninguém se magoou, só ele.

- Oh, ele não se magoou - disse eu. - Está livre de mim e da Liza e dos outros todos.

- Os outros? Todos os que precisavam dele.

- A sua morte foi um desperdício. À sua maneira, ele até foi um pouco útil para nós. Que vai fazer, Jim? - Hesitou no nome próprio.

- Deixou-me dinheiro suficiente para voltar para casa.

- E vai?

- Não tenho casa. - Não foi com uma atitude de autocomiseração que usei esta frase: tratava-se, friamente, da constatação de um facto. Eu era como um homem sem passaporte, só com um cartão de residência.

- Tenho a certeza de que posso arranjar-lhe as coisas, se ficar - disse o senhor Quigly. - Sabe que tem bastante valor, Jim. - Desta vez não hesitou com o nome. - Afinal, ele era o seu pai, e talvez através de si possamos contactar e falar com alguns dos seus antigos amigos. 

- Mas ele não era meu pai.

- Ah, sim, esqueci-me, mas não há necessidade de sermos tão rigorosos, Jim.

- E o coronel Martínez?

- Tenho a certeza que também será seu amigo, se lhe der oportunidade. Não precisa de tomar partido por um de nós. Isso é uma coisa que teremos de discutir juntos. Pode ser útil a ambos. Tenho a certeza de que, se ficar, tudo se pode arranjar satisfatoriamente.

Senti-me perdido no meio de todas as suas ambiguidades. Eram como uma estrada rural cheia de curvas e postes de sinalização que há muito tivesse sido abandonada pelo grande trânsito. Por um momento, dei comigo a ansiar pelas grandes auto-estradas e pelo estrondo dos camiões pesados.

- Vá-se embora, senhor Quigly. Quero ficar só.

O senhor Quigly hesitou.

- Mas nós somos amigos, Jim. Vim aqui como amigo.

- Está bem, está bem - concordei sem convicção, de modo a ver-me livre dele, e foi-se embora. Mas antes de sair deixou cair um sobrescrito em cima da cama.

Para o caso de estar com falta de dinheirodisse, e saiu de novo para a cidade dos cento e vinte e três bancos.

"Então aqui é óbvio que se paga em dinheiro até pela amizade, pensei ao abrir o sobrescrito. Meti o dinheiro no bolso - cinco notas de duzentos dólares, e ouvi o telefone a tocar. Desta vez era Pablo.

- O coronel Martínez quer voltar a vê-lo. Tem notícias para si - disse.

Divertiu-me dizer-lhe: Não precisa de se incomodar a receber-me. Já sei da notícia. Através do senhor Quigly.

Houve um longo silêncio na linha. Imaginei Pablo, no gabinete do coronel Martínez, transmitindo-lhe esta notícia e esperando resposta. Finalmente chegou.

- O coronel Martínez diz que em todo o caso é importante que venha cá. Imediatamente. Mandou-me ir aí buscá-lo de carro.

 

Enquanto espero por Pablo, passo o tempo a acabar esta narrativa. Estando o Capitão morto, qual é o objectivo de a continuar? Apercebo-me mais do que nunca de que não sou um escritor. A ambição de um verdadeiro escritor não morre com a sua personagem principal.

E agora? Tenho um bilhete de volta para Londres (mas posso devolvê-lo) e os dólares que o Capitão e o senhor Quigly me deixaram. Deverei seguir o conselho do senhor Quigly e entrar num mundo de segredos e de perigos que me levarão sei lá onde? Não me censuro. O Capitão foi o responsável. Ele sabia no que se metia cuando roubou as jóias, quando despenhou a avioneta. Às vezes, quando penso no Capitão, imagino que, de uma maneira estranha, demonstrará um dia ter sido o meu pai verdadeiro, nem que seja pela herança de ilegalidade que injectou na minha corrente sanguínea. Lembro-me outra vez do sonho que tive a noite passada, antes de o senhor Quigly me acordar, com um pormenor adicional do qual me esquecera. Tudo o que ficou no meu espírito quando acordei foi o caminho escuro pelo qual seguia em direcção a um bosque denso, mas agora recordo a razão da minha caminhada. Seguia duas mulas que paravam continuamente para pastar. Não levavam nada no dorso, e eu não fazia ideia porque as perseguia. É claro que o Capitão saberia. Quantas vezes me falara daquelas mulas, mas na versão dele transportavam sempre sacos de ouro.

Uma pessoa pode odiar o seu próprio pai e, embora talvez siga as suas pisadas, será ainda ódio o que sentirei. Em comparação com Liza, eu não significava nada para ele. Cuidou dela até à sua morte, mas a mim dei xou-me este legado isento de sentimentos: um bilhete de regresso a um lugar que deixei para sempre, e se ficar aqui tenho a certeza de uma coisa: não voltarei a escrever. A campainha do meu quarto está a tocar. Tenho quase a certeza de que é Pablo para levar-me ao coronel Martínez, e depois que faço? Direi ao senhor Quigly o que se passou entre mim e o coronel? Aceito o dinheiro do senhor Quigly? O coronel oferecer-me-á dinheiro ou apenas conselhos? O Capitão ter-me-ia aconselhado segundo a sua própria experiência, mas ele está morto e em segurança e, de qualquer modo, poderia ter confiado nele? Só se importava com Liza, se alguma vez se preocupou com ela. Ambos fomos um peso para ele. E então lembrei-me de King Kong e das palavras que o Capitão empregara quando observei o King com o seu fardo - um fardo que lhe dava tantos pontapés que eu me interroguei por que razão ele não a deixava cair para a rua, lá em baixo: "Ele ama-a, rapaz, não compreendes isso?" Talvez nunca tenha compreendido a natureza do amor. Talvez. quem me dera tê-lo visto uma vez mais, ou não lhe ter mentido no início.

 

Quando voltei para este quarto, depois de me avistar com o coronel Martínez, encontrei na cozinha uns bocados de papel rasgado dentro do cesto dos papéis, que tinham escapado tanto a mim como ao senhor Quigly. Provavelmente ele concluíra que tudo o que tivesse importância teria sido queimado ou rasgado. Era um profissional.

Julgo que estes pedaços de papel faziam parte da carta que o Capitão me deixara e talvez ele pensasse que expunham demasiadamente a sua fraqueza. Juntei-os e transcrevo-os agora em conclusão deste meu livro falhado, que nunca ninguém publicará nem lerá.

"De que é que eu preciso? Porque raio sou sempre eu aquele de quem precisam? Uma vez, havia uma velha numa rua de Manchester, e eu precisava muito mais do pouco que eu tinha do que ela, mas suponho que não era culpa dela o facto de não conseguir sentir esta minha necessidade, e de eu sentir a sua. No entanto, não é natural. Se eu tivesse a força do King Kong.

A última frase era completamente ilegível. É estranho que também ele se tenha lembrado do King Kong.

Já chega de tanto disparate. Tenho mais de mil e dez dólares (contei-os como o senhor Quigly), bem como o dinheiro que o Capitão me deixou e o bilhete que posso trocar. Faço uma linha por baixo deste rascunho antes de atirar tudo isto para dentro do mesmo cesto de papéis, onde quem quiser o pode encontrar. A linha significa Fim. Agora não dependo de ninguém e sigo as minhas próprias mulas em busca do meu próprio futuro.

 

O coronel Martínez olhou para o senhor Quigly com uma sombra de divertimento no olhar. Desta vez, chegámos ao quarto do senhor Smith antes de si - disse. - Encontrámos o embrulho no cesto dos papéis. O jovem tê-lo-ia mesmo deitado fora porque não fazia tenções de escrever mais? Mas então, porque não o destruiu? Duvido de que alguma vez venhamos a descobrir a verdadeira razão. Vai a caminho algures, sabe-se lá para onde. O meu tradutor apenas teve tempo de se ocupar das últimas páginas, que começam com a chegada dele ao Panamá, quando se encontra consigo. É nessa altura que a narrativa se torna interessante. O rapaz parece ter tido algum talento e é pena que não tenha continuado a escrever, visto que é uma ocupação segura. Quis falar consigo porque há muitas referências a si neste. chamamos-lhe romance, senhor Quigly.

- Bom, eu era amigo do pai.

- Um amigo não muito íntimo, segundo cremos.

- Bem, prestei-lhe frequentemente pequenos favores. Como quando fui buscar o Jim ao aeroporto.

- E soube da notícia da morte do senhor Smith antes de nós, por isso talvez não o tenhamos levado suficentemente a sério, senhor Quigly. Avisou a gente de Somoza, em Manágua, da rota que ele tomou?

Como podia eu saber?

- Pois é. Quem me dera poder responder a isso: como? Outra pergunta: quem é King Kong.

- King Kong?

- Um nome de um código, talvez.

 Não faço ideia. No meu jornal não usamos códigos.

- E com certeza que não tem notícias do Jim?

- Receio bem que tenha imitado o pai com demasiado rigor.

- Só o vi uma vez desde que o pai morreu.

- Geralmente o senhor é muito meticuloso em relação aos números, senhor Quigly. Pense outra vez.

O senhor Quigly pensou outra vez.

- Bom, talvez devesse ter dito duas vezes.

- Ofereceu-lhe emprego, não é verdade?

- Não estava nada decidido. Era um trabalho como assistente. Tinha muito pouca experiência.

- Pergunto-lhe outra vez: quem era King Kong?

- Uma espécie de macaco, se bem me lembro.

- Um macaco?

- Talvez um gorila, não me lembro exactamente.

O coronel Martínez emitiu um pequeno suspiro, que podia significar desespero.

-Tem passaporte inglês, não é verdade senhor Quigly?

- Sim.

- E um visto americano?

- Sim. Tenho de visitar o meu jornal de vez em quando em Nova Iorque.

- Com certeza sabe que no próximo mês vai ser assinado o Tratado do Canal, pelo presidente Carter e pelo

general Torrijos, e nessa altura a maior parte da Zona Americana estará nas nossas mãos.

- O general fez um bom trabalho. Parabéns.

- É importante que não ocorram problemas antes de o Tratado ser assinado em Washington.

Temos lá inimigos. Com certeza que compreende isso.

- Claro. No entanto, sinto uma certa responsabilidade. O pretenso pai. digamos, seria em parte responsável se aconteceu alguma coisa ao jovem. Mas o senhor e eu também temos a nossa parte de responsabilidade.

- Não sou responsável por nada. Provavelmente pagou ao pai dele de vez em quando e, como deve saber, eu também lhe paguei. Gostava que não continuasse a chamar ao senhor Smith pai dele.

- Desculpe, somos ambos um pouco imprecisos. O verdadeiro nome do senhor Smith era Brown. De qualquer modo, porque se preocupa, coronel? Provavelmente, o Jim está a caminho de Londres. Disse-me que talvez voltasse para casa. O Smith deixou-lhe um bilhete. Segundo parece, como casa não é grande coisa.

- Sejamos sinceros um com o outro, senhor Quigly. O senhor sabia, não é verdade, que o Smith tinha tomado aquilo a que eu chamei direcção errada?

- Como podia eu saber?

- Acho que fez um bocado de teatro quando foi à procura da avioneta. Já tinha avisado a Guarda Nacional e Somoza. Eles abateram-no antes de atingir o bunker. Porquê? Deviam saber que os sandinistas não tinham avioneta.

- Aí engana-se, coronel. Sabiam certamente da avioneta do Smith. Tem estado a largar armas na região de Estelí há bastante tempo.

- Seria o senhor que os avisou disso?

- Não interessa. Agora já tem pouca importância, excepto.

O coronel Martínez fixou o manuscrito pousado na secretária. Quem me dera saber mais inglês. Suponho que vou ter de mandar traduzir tudo. A palavra King Kong pode ser importante.

- Sou um homem muito ocupado, coronel. Se não tiver mais perguntas.

-Não tenho mais perguntas. Só um pequeno conselho, Senor Quigly. Com a assinatura do Tratado do Canal a poucas semanas de distância, desejamos ansiosamente, como lhe disse, que não haja quaisquer problemas. Bem sei que não é cidadão americano, mas o senhor sabe como o Senado em Washington pode ser muito difícil. Teriam todo o prazer em arranjar uma desculpa para sabotar o tratado e o próprio presidente. Por isso gostaria de lhe pedir um favor. Para sua própria segurança, e também para a nossa, tenha a bondade de fazer as malas e

atravessar a Avenida dos Mártires para entrar naquilo que ainda é os Estados Unidos. Senão, os meus colegas talvez possam pensar que é necessário organizar qualquer coisa. Refiro-me evidentemente a um acidente.

O coronel Martínez emitiu um suspiro de alívio quase inaudível quando, sem discussão, o senhor Quigly se levantou para partir. Ele sabia bem que o senhor Quigly não era um homem de coragem.

 

Quando o senhor Quigly saiu, o coronel Martínez chamou o tradutor e sentou-se de novo à secretária para estudar as páginas do manuscrito, à procura nelas da chave para três perguntas: às ordens de quem tinha o senhor Smith tomado a direcção errada com as armas, não para o Norte mas para Manágua? Onde estava agora o filho? E por que razão este deixara para trás o manuscrito? (O nome de Baxter persistia em fugir-lhe da memória. ) Ojovem sabia que Pablo o iria buscar. Teria então planeado que Pablo encontrasse os papéis no cesto onde, talvez de propósito, os deitou? A última parte da tradução, que começava com a narrativa da chegada do rapaz ao Panamá, era a única que lhe interessava. Quando deu uma vista de olhos pelo original, apesar de o inglês ser fraco, compreendeu o bastante para se aperceber de que o interesse principal devia residir nos contactos com Quigly. Os papéis eram mais como notas resultantes de uma longa auto-interrogação, e o nome estranho de King Kong chamou-lhe imediatamente a atenção. Agora tinha à sua frente a tradução completa desta última parte em espanhol. Lida superficialmente, não respondia a nenhuma das suas perguntas, e não se podia esperar que o Senor Quigly identificasse King Kong. Falara de um macaco ou um gorila. Talvez isso fosse uma pequena brincadeira, embora o Senor Quigly não fosse um homem dado ao humor.

Um toque à porta fê-lo erguer-se. Pablo entrou e fez a continência.

- Encontrámos-Lhe a pista, meu coronel - disse.

- De quem?

- Baxter. -

Pablo tinha melhor memória do que ele para nomes estrangeiros.

- Está vivo?

- Está vivo. Depois de conseguir o visto, reservou lugar num avião para Valparaíso, com mudança em Santiago.

-Valparaíso. Que coisa estranha. O Chile não nos diz respeito, e o pai não tinha nada a ver com o Chile, disso tenho a certeza, e, tanto quanto sabemos, o Quigly também não, embora evidentemente os americanos estejam completamente envolvidos com Pinochet. Mas certamente que não mandariam um amador como esse jovem para um lugar desses. E, no entanto, arranjou o visto sem dificuldades. Pergunto a mim mesmo se deveríamos deixar que o Senor Quigly fique. - Hesitou por apenas um momento. - Não. Ainda bem que nos vamos ver livres dele. É muito possível que seja mais fácil trabalhar contra o próximo correspondente financeiro. Apesar de tudo, porquê Valparaíso?

Tocou nos papéis empilhados em cima da secretária, como se o mero contacto com eles pudesse co municar-lhe alguma resposta à sua questão. Depois, pensou em voz alta: "King Kong. Este nome King Kong persegue-me. King Kong é a única pista que temos. Poderia ser um livro de código elementar, o único que eles teriam confiado a um amador como aquele? Talvez uma personagem de Shakespeare. Uma frase famosa que até os gringos poderiam reconhecer. Bom, o rapaz foi-se embora. Não pode prejudicar-nos. Mesmo assim. gostava de desvendar esse código. King Kong. O coronel Martínez quase cantou o nome. Não sou perito, mas será que temos aí uma pista para a palavra de código que o Quigly talvez use nos telegramas que envia para o jornal? Temos muitas arquivadas. Em todo o caso, vale a pena preservar este manuscrito. Um dia talvez seja útil publicá-lo, para que o mundo o possa ler. Só depois de o Tratado do Canal ser assinado em segurança e no caso de precisarmos de expor o Senor Quigly e os seus patrões gringos quando tentarem quebrar o acordo, como certamente farão". - Uma ideia atravessou o seu cérebro, e deu uma pequena gargalhada. - Que surpresa para o rapaz ver o seu livro publicado em espanhol! Quem sabe se não ganhará o prémio cubano para a melhor obra sobre a espionagem americana.

A ideia do prémio cubano agradou-lhe de tal modo que ignorou o telefone quando este tocou.

- Tenho a certeza de que se o general recomendar o livro ao Fidel. oh, raios partam!. - Levantou o auscultador e o rosto enevoou-se-lhe. Desligou e sentou-se em silêncio por um momento. Depois disse ao tradutor num tom de tristeza:

- O filho seguiu o pai.

- Mas o pai morreu.

O filho também. Nunca chegará a ver Valparaíso. Um acidente a caminho do aeroporto. Se é que foi, de facto, um acidente, coisa de que duvido. Torna-se ainda mais importante que continue a tradução, por mais irrelevantes que possam parecer as primeiras partes. A questão principal permanece: O quê ou quem é King Kong?

 

                                                                                            Graham Greene

 

                      

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