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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O Casamento / Danielle Stel
O Casamento / Danielle Stel

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O Casamento

 

          

 

            O trânsito fluía a passo de caracol ao longo da Via Rápida de Santa Mônica, e Allegra encostou a cabeça ao banco do Mercedes 300 azul-escuro; a este ritmo, nunca mais chegaria ao seu destino. Não tinha nada de especial para fazer até chegar a casa, mas parecia-lhe sempre um incrível desperdício de tempo estar ali encurralada no meio do trânsito.

            Esticou as longas pernas, suspirou e ligou o rádio. Sorriu quando começou a tocar o último som de Bram Morrison. O cantor era um dos seus clientes na firma de advogados; há mais de um ano que o representava. Allegra tinha muitos clientes importantes. Concluíra o curso de Direito em Yale, há quatro anos, e aos vinte e nove era nova associada da Fisch, Herzog & Freeman, uma das firmas de advogados mais importantes de Los Angeles. O apoio jurídico à gente do mundo do espetáculo sempre fora a sua paixão.

            Havia já algum tempo que Allegra percebera de que queria cursar Direito. Depois de dois anos de férias de Verão em New Haven, na primeira fase da sua estada em Yale, só fugazmente admitira que talvez gostaria de vir a ser atriz, o que não teria surpreendido ninguém da família, mas também não lhes teria agradado. A mãe, Blaire Scott, escrevia e produzia um dos espetáculos de televisão que mais êxito alcançara e que estava há nove anos no ecrã. Era uma comédia, cheia de malícia, mas com alguns momentos sérios e umas pitadas de drama da vida real. Durante sete anos atingira o pico das audiências e valera sete Emmies à autora. O pai, Simon Steinberg, era um ilustre produtor de cinema, responsável por alguns dos filmes mais importantes de Hollywood. Ganhara três Oscar da Academia e uma reputação lendária associada aos êxitos de bilheteira. Por outro lado, ainda mais importante, era uma das raridades de Hollywood, um homem simpático, um cavalheiro, um ser humano verdadeiramente decente. Simon e Blaire constituíam um dos casais mais invulgares e respeitados da indústria cinematográfica. Trabalhavam muito e tinham uma família a sério, à qual dedicavam grande parte do seu tempo. Allegra tinha uma irmã de dezessete anos, Samantha. “Sam”, como era conhecida, estava terminando o ensino secundário, era modelo e, ao contrário de Allegra, queria ser atriz. Só o irmão, Scott, que acabara de ingressar em Stanford, parecia ter escapado por completo ao mundo do espetáculo. Estudava Medicina e sempre quisera ser médico. Hollywood e a sua alegada magia não atraíam Scott Steinberg.

            Com vinte anos, Scott já vira o suficiente do mundo do espetáculo e considerava até que Allegra fizera um disparate ao optar por tal ramo do direito. Scott não queria passar o resto da vida preocupando-se com a bilheteira, as receitas ou as audiências, pretendia especializar-se em medicina desportiva e ser cirurgião ortopédico. Era uma atividade interessante e natural: quando alguém fraturasse um osso, ele tratava-o. Sabia bem a ansiedade por que passara o resto da família com estrelas arrasadas e erráticas, atores excêntricos, gente desonesta que desaparecia de repente e investidores quixotescos. É certo que também haviam pontos altos, que se ganhava bom dinheiro e que todos pareciam adorar o que faziam. A mãe tirava enorme prazer do seu programa televisivo e o pai produzira alguns grandes filmes. Allegra gostava de ser advogada das estrelas e Sam queria ser atriz, mas, quanto a Scott, bem podiam tirar daí o sentido.

            Sorriu com os seus botões, pensando no irmão, ao som dos últimos acordes do disco de Bram. Até Scott ficara impressionado quando lhe dissera que Bram era um dos seus clientes. Era um herói! Allegra nunca divulgava o nome dos seus constituintes, mas Bram falara nela durante um programa especial com Bárbara Walters. Carmen Connors, uma loura explosiva que pretendia ser a nova Marilyn Monroe, também era sua cliente. Tinha vinte e três anos, nascera numa pequena cidade do Oregon e era uma cristã fervorosa. Começara como cantora, entrara em dois filmes seguidos e revelara-se uma atriz sensacional. A CAA falara-lhe na firma e um dos sócios mais velhos apresentara-a a Allegra. Criara-se de imediato uma empatia entre ambas, e agora ela era a menina querida de Allegra, literalmente, às vezes, mas a jovem não se importava.

            Ao contrário de Bram, que estava chegando aos quarenta e trabalhava no mundo da música há cerca de vinte anos, Carmen ainda era relativamente nova em Hollywood e parecia estar sempre afogada em problemas: encrencas com namorados, homens que se apaixonavam por ela e que a moça afirmava mal conhecer, seguidores obcecados, publicitários, cabeleireiros, tablóides, paparazzi e potenciais agentes. Carmen nunca sabia como havia de lidar com eles, e Allegra já estava habituada a atender os seus telefonemas a qualquer hora do dia ou da noite, mas sobretudo a partir das duas da madrugada. Muitas vezes, a jovem beldade era assaltada por terrores noturnos e tinha sempre medo que alguém entrasse em casa à força e lhe fizesse mal. Allegra conseguira controlar, em parte, o seu pavor recorrendo a uma empresa de segurança que vigiava a casa durante a noite, a um alarme extremamente sofisticado e a dois cães de guarda muito agressivos. Eram rottweilers e Carmen tinha medo deles, mas a verdade é que os possíveis assaltantes e seguidores também a assustavam. No entanto, apesar destas medidas, continuava telefonando para Allegra no meio da noite, só para lhe dar conta dos problemas que estava  encontrando, ou às vezes apenas para desabafar. Allegra não se aborrecia; já estava habituada, mas os amigos comentavam que ela era mais uma babá do que uma advogada. Porém, Allegra sabia que isto fazia parte do seu trabalho com celebridades. Vira o que os pais passavam com as estrelas e já nada a surpreendia. Apesar de tudo, adorava a sua profissão, e o mundo do espetáculo agradava-lhe em particular.

            Enquanto esperava que o trânsito avançasse, apertou outro botão do rádio e de súbito pensou em Brandon. Por fim, os automóveis recomeçaram a andar. Às vezes, quando regressava de uma reunião ou de um encontro com um cliente, levava uma hora para percorrer os quinze quilômetros que a separavam de casa, mas também já estava acostumada a isso. Gostava muito de viver em Los Angeles, e era raro aborrecer-se por causa do trânsito. Baixara a capota do carro. Na tarde quente de janeiro, os seus longos cabelos louros brilhavam com os últimos raios de sol. Estava um dia típico do sul da Califórnia, o gênero de tempo de que sentira a falta durante os sete longos invernos que passara em Yale, quando freqüentava a Faculdade de Direito. Depois do ensino secundário em Beverly Hills, a maioria dos seus amigos tinham ido para a UCLA, mas o pai preferira que ela fosse para Harvard. Allegra optara por Yale, embora nunca se tivesse sentido tentada a ficar no Leste depois da licenciatura. Toda a sua vida estava na Califórnia.

            Ao acelerar, pensou em telefonar a Brandon para o escritório, mas depois resolveu esperar até chegar em casa. Às vezes, no caminho, respondia do carro a alguns telefonemas de trabalho, mas nesse dia apetecia-lhe chegar em casa e descontrair-se um pouco antes falar com ele. Tal como o seu próprio dia de trabalho, também o dele era muito agitado, e às vezes piorava para o fim, quando se reunia com clientes que tinha de acompanhar ao tribunal no dia seguinte ou participava em reuniões com outros advogados ou juizes. Brandon era advogado de defesa, litigante, especializado em crimes de colarinho branco, na sua maioria delitos federais que envolviam bancos, desvio de fundos e extorsões. ‘Direito a sério’, como ele dizia, e não o que ela fazia, acrescentava, num tom jovial, mas até Allegra era obrigada a reconhecer que a atividade dele era muito diferente da sua. Também a personalidade dele era muito distinta. Brandon era muito mais tenso, muito mais grave, e tinha uma visão mais intensa da vida. Durante os dois anos de namoro com ele, a família de Allegra acusara Brandon Edwards mais de uma vez de não ter muito sentido de humor. Tratava-se de uma verdadeira falha de caráter para eles, que, na sua maioria, eram capazes de atitudes ousadas.

            No entanto, havia muitas coisas que Allegra apreciava em Brandon, nomeadamente o interesse que ambos nutriam pelo direito e o fato de ele ser firme e digno de confiança. Também lhe agradava saber que tinha uma família. Brandon casara há dez anos, quando ainda estava na faculdade. Fora para Boalt, na Universidade de Berkeley, Joanie, a namorada, engravidara pelo que se vira obrigado a casar com ela, e ainda se ressentia disso. Em certos aspectos, Joanie continuava muito ligada a ele, depois de dez anos de casamento e de dois filhos, e, às vezes, Brandon dizia detestar ainda não ter conseguido divorciar-se dela, que se sentia preso e que lamentava ter sido obrigado a casar de repente por Joanie estar grávida. Tinham duas filhas pequenas. Depois de acabar o curso, Brandon fora trabalhar para uma das firmas de advogados mais conservadoras de São Francisco. Só por acaso é que o haviam transferido para o escritório de Los Angeles, pouco depois de ele e Joanie terem chegado a acordo quanto a uma separação judicial. Conhecera Allegra três semanas depois de chegar à cidade, através de um amigo comum, e há dois anos que saíam juntos. Ela amava-o e adorava as filhas dele. Joanie não gostava de deixá-las vir a Los Angeles, e por isso em geral era Brandon que se deslocava a São Francisco para vê-las. Sempre que podia, Allegra acompanhava-o. O único problema era que, ao fim de dois anos, Joanie ainda não conseguira arranjar emprego e argumentava que a sua ausência de casa seria muito traumática para as filhas. Dependia totalmente de Brandon e continuavam em litígio por causa da casa e do apartamento nos arredores de Tahoe. De fato, em dois anos, pouco fora resolvido, o divórcio ainda não dera entrada no tribunal e os acordos financeiros não estavam concluídos. De vez em quando, Allegra importunava-o, insistindo no fato de ele ser advogado, mas não ter conseguido obrigar a mulher a assinar um contrato. Porém, não queria pressioná-lo. De momento, a situação de ambos teria de ficar como estava, num compasso de espera, e só poderia evoluir quando ele quebrasse todas as amarras com Joanie.

            Pensando em Brandon, virou para Beverly Hills e perguntou a si própria se ele teria vontade de ir jantar fora. Sabia que estava a preparar-se para um julgamento, e era mais do que provável que quisesse ficar trabalhando no escritório até tarde. Mas Allegra não podia se queixar; também passava muitas noites a trabalhar, embora não fosse preparando-se para julgamentos. Os seus clientes eram escritores, produtores, realizadores e atores, e ela fazia-lhes tudo, desde contratos a testamentos, desde negociar acordos até gerir-lhes o dinheiro ou tratar-lhes do divórcio. A componente legal da sua atividade era o que mais lhe interessava, embora reconhecesse que, com clientes famosos, ou pelo menos do mundo do espetáculo, tinha que estar disposta a tratar de todos os aspectos das suas vidas complicadas, e não apenas dos contratos.

            Mas às vezes Brandon não compreendia isso. Aquele meio continuava a ser um mistério para ele, apesar de Allegra ter tentado explicar-lhe várias vezes. Porém, ele dizia que preferia exercer advocacia para ‘gente normal’ e em circunstâncias legais que entendesse como a sala de audiências de um tribunal federal, por exemplo. Esperava vir a ser juiz federal e aos trinta e seis anos já se mostrava razoavelmente ambicioso. O telefone tocou no carro quando Allegra descrevia uma curva. Por instantes, teve esperança que fosse Brandon, mas não, era Alice, a secretária. Trabalhava na firma há quinze anos e era uma verdadeira tábua de salvação para Allegra. Muito sensata e inteligente, tinha um modo apaziguador e maternal de lidar com os clientes mais irascíveis.

            — Olá, Alice, o que há? — perguntou Allegra, sem tirar os olhos da estrada e ajustando o bocal do telefone.

            — A Carmen Connors telefonou agora mesmo. Pensei que quisesse saber. Está muito aborrecida. Vem na capa do Chatter.

             O Chatter era um dos tablóides mais repugnantes do mercado e há vários meses que andava a comer Carmen viva, apesar dos sucessivos avisos e ameaças de Allegra. Mas eles sabiam até onde podiam ir e eram mestres na arte de não ultrapassar os limites. Paravam sempre onde deviam, para não ser processados.

            — O que temos agora? — perguntou Allegra, de sobrolho franzido, aproximando-se rapidamente da pequena casa que os pais tinham ajudado a comprar quando terminara o curso. Já lhes pagara o que devia e adorava a sua casinha nos arredores de Doheny.

            — O artigo fala numa orgia em que ela participou com um dos médicos, o cirurgião plástico, segundo creio.

            A pobre Carmen caíra na asneira de ter saído com ele uma vez. Jantaram no Chasen’s e, segundo o que contara a Allegra, nem sequer houvera sexo, e muito menos uma orgia.

            — Oh, pelo amor de Deus! — exclamou Allegra entre dentes, entrando no jardim da sua casa com um ar de enfado. Tem aí algum exemplar?

            — Compro um quando for para casa. Quer que lho deixe aí?

            — Não tem importância, vejo-o amanhã. Estou em casa. Amanhã telefono para Carmen. Obrigada. Mais alguma coisa?

            — A sua mãe ligou. Queria saber se você podia ir lá jantar na sexta-feira e confirmar que vai ao Globo de Ouro no sábado. Disse que contava com a sua presença.

            — Claro. Sorriu e deixou-se ficar sentada no carro. Ela sabe que vou.

            Tanto o pai como a mãe tinham sido nomeados nesse ano, e Allegra não perderia a cerimônia por nada deste mundo. Convidara Brandon há mais de um mês, antes do Natal.

            — Acho que ela só queria ter a certeza de que você vai.

            — Eu também lhe vou telefonar. É tudo?

            — Sim.

            Eram seis e quinze. Allegra saíra do escritório às cinco e meia, o que era cedo para ela, mas levava trabalho para casa e, se não se encontrasse com Brandon, teria tempo para fazê-lo.

            — Até amanhã, Alice. Boa noite. — disse Allegra, tirando a chave da ignição.

            Pegou na pasta, fechou o carro e entrou  correndo. A casa estava vazia e às escuras. Atirou a pasta para cima do sofá, acendeu as luzes e dirigiu-se para a cozinha.

            À sua frente, a vista da cidade, lá em baixo, era espetacular. Anoitecera e as luzes cintilavam como jóias. Enquanto bebia um copo de água mineral, deu uma vista de olhos na correspondência. Algumas faturas, uma carta de Jessica Farnsworth, uma velha amiga da escola, uma mão-cheia de catálogos, uma série de papelada sem importância e um postal de outra amiga, Nancy Towers, que se encontrava esquiando em St. Moritz. Jogou quase tudo fora, e, enquanto bebia, reparou nos tênis de Brandon, e sorriu; a casa parecia sempre mais animada quando ele lá deixava as suas coisas. Brandon também tinha o seu apartamento, mas passava muito tempo com ela. Gostava da sua companhia e dizia-lhe, mas também deixava bem claro que não estava pronto para assumir qualquer compromisso. O seu casamento fora demasiado redutor e traumático. Receava cometer outro erro e talvez fosse por isso que demorava tanto a divorciar-se de Joanie. Mas Allegra tinha tudo o que desejava. Dissera-o várias vezes à psicóloga e aos pais. E tinha apenas vinte e nove anos. Não sentia pressa de casar.

            Pôs a correspondência de lado e puxou os longos cabelos louros para trás. Ligou a secretária eletrônica e sentou-se num banco de bar, junto da bancada. A cozinha, toda em mármore branco e granito preto, estava impecavelmente limpa e arrumada. O chão era de mosaicos pretos e brancos alternados, como num tabuleiro de xadrez, e Allegra fitou-o enquanto ouvia as mensagens. Como já esperava a primeira era de Carmen, que parecia ter estado a chorar. Disse qualquer coisa incoerente acerca do artigo, que a situação era injusta e que a avó ficara muito incomodada. Nessa tarde, telefonara a Carmen, de Portland. A jovem atriz não sabia se Allegra era de opinião que se movesse um processo, mas pensava que deveriam falar no assunto e pedia-lhe que lhe ligasse assim que chegasse em casa ou que tivesse um momento livre. Nunca lhe passava pela cabeça que Allegra tinha direito aos seus momentos de privacidade. Carmen precisava dela para resolver os seus problemas e só pensava nisso, o que não significava, no entanto, que fosse má pessoa.

            A mãe telefonara outra vez, convidando-a para jantar na sexta-feira, tal como lhe dissera Alice, e lembrando-lhe a cerimônia de atribuição dos Globos de Ouro nesse fim-de-semana. Allegra sorriu ao ouvir a voz da mãe, que parecia verdadeiramente entusiasmada. Talvez fosse porque o pai também fora nomeado, mas, de qualquer modo, disse que Scott vinha de Stanford com Sam e que esperava que Allegra fosse à cerimônia com eles.

            A mensagem seguinte era de um professor de tênis que Allegra andava evitando há algumas semanas. Começara as lições várias vezes, mas não tinha tempo para continuar. Tomou nota do nome dele, para lhe telefonar e, pelo menos, explicar o motivo que a levava a desistir.

            Seguiu-se uma mensagem de um homem que conhecera nas férias. Era atraente e trabalhava para um estúdio importante, mas não estava fazendo jogo limpo. Sorriu ao ouvir aquela voz forte. Ele deixou o nome e disse que esperava que Allegra lhe telefonasse, mas ela não tinha intenção de fazê-lo. Não estava interessada em sair com outro homem, exceto Brandon, que era o terceiro caso amoroso importante na sua vida. O anterior durara quase quatro anos e abrangera o seu último semestre na Faculdade de Direito e os dois primeiros anos como advogada em Los Angeles. Também se licenciara em Yale e era diretor, mas, passados quatro anos, não se comprometera com ela e acabara por ir para Londres. Pedira-lhe que o acompanhasse, mas Allegra estava cheia de clientes na Fisch, Herzog & Freeman nessa fase, e não pôde ir  com ele. Pelo menos, foi o que ela disse. Porém, mesmo que tivesse chegado à conclusão que não deveria largar um bom emprego e segui-lo até ao fim do mundo, a verdade é que ele se recusara a fazer promessas e até a falar do futuro. Roger vivia ‘para o presente, no presente’. Divagara muito sobre o carma, frivolidades e liberdade. E, após dois anos de terapia, Allegra tivera realmente o bom senso de não ir atrás dele para Londres. Ficara em Los Angeles e conhecera Brandon dois meses depois.

            E ainda antes de Roger houvera um professor casado de Yale. Allegra envolvera-se com ele durante o último ano do curso, e fora um caso pródigo em volúpia, entusiasmo e paixão. Nunca conhecera ninguém como ele, e só conseguiram pôr termo à situação quando Tom pediu uma licença sabática e percorreu a pé o Nepal durante um ano. Levou a mulher e o filho pequeno e, quando voltaram, ela estava grávida outra vez. Nessa altura Allegra já andava com Roger, mas criava-se sempre certa tensão quando os caminhos de ambos se cruzavam. Pouco depois, sentira-se aliviada quando ele fora dar aulas para Northwestern. Tom desejara-a ardentemente, mas nunca conseguira traduzir o seu desejo em qualquer espécie de projetos claros para o futuro. Tudo o que ele via, quando olhava para a longa estrada que tinha à sua frente, era Mithra, a mulher, e o filho, Euclid. Agora era pouco mais do que uma recordação no passado de Allegra, cuja psicóloga só falava dele para lhe lembrar que a relação de ambos nunca incluíra promessas de futuro.

            — Não sei ao certo se deveria incluí-las, tendo eu vinte e nove anos — respondera ela mais do que uma vez. A verdade é que eu nunca quis casar.

            — Não é essa a questão, Allegra retorquia sempre a Drª. Green num tom firme.

            A terapeuta era de Nova Iorque e tinha uns grandes olhos negros, que às vezes perseguiam Allegra depois das sessões. Já há quatro anos que se encontravam, com algumas interrupções pelo meio. Allegra sentia-se bem com a vida, embora estivesse sujeita a muitas pressões, como as expectativas da família e da firma de advogados e o grande volume de trabalho.

            — Alguém já quis casar com você? —  perguntara a Drª. Green mais do que uma vez, apesar de Allegra afirmar sempre que a questão não tinha importância.

            — O que interessa isso, se eu não quero casar?

            — Por quê? Porque é que não quer um homem que deseje casar com você, Allegra? O que se passa?

            Ela não dava tréguas.

            — Isso é uma estupidez! O Roger teria casado comigo, se tivesse ido com ele para Londres, mas eu não quis. Tinha muito que fazer aqui.

            — O que a leva a pensar que ele teria casado? —  A Drª. Green parecia um pequeno furão, metia-se em todos os cantos e farejava todas as pistas, todas as partículas de poeira aparentemente inofensivas, ou insetos. Ele alguma vez lhe disse?

            — Nunca falamos no assunto.

            — Isso não lhe dá que pensar Allegra?

            — Que importa? Já foi há dois anos — respondia ela, irritada. Detestava quando a Dr.ª Green a pressionava demasiado com perguntas. Isso é um disparate!

            Ela era muito jovem para casar, e nesse momento estava demasiado absorvida pela sua carreira para pensar em casamento.

            — E com Brandon? —  A Dr.ª Green adorava fazer dele cavalo de batalha. E Allegra detestava falar-lhe acerca do namorado. A psicóloga não compreendia as motivações dele nem sabia até que ponto ficara traumatizado por se casar quando a mulher engravidara. Quando é que ele avança?

            — Quando resolverem a questão dos bens e do dinheiro explicava sempre Allegra com toda a sensatez, falando como uma advogada.

            — Porque não dividem eles os encargos financeiros e se divorciam? Depois podem passar o tempo que quiserem  resolvendo a questão dos bens...

            — Por quê? Qual é a vantagem da divisão? Não é obrigatório que nos casemos.

            — Pois não. Mas ele quer? E você, Allegra? Já alguma vez falaram nisso?

            — Não precisamos falar, compreendemo-nos perfeitamente um ao outro. Estamos ambos ocupados, temos ambos carreiras importantes e, afinal, só estamos juntos há dois anos!

            — Há pessoas que se casam muito mais depressa do que isso, ou muito mais devagar. A questão é saber se você se voltou a envolver com um homem que não quer assumir um compromisso. Os olhos castanhos e vivos da Dr.ª Green fitavam os olhos verdes de Allegra.

            Claro que não a respondia, tentando evitar o olhar penetrante da sua interlocutora, mas sem êxito. Ainda não chegou o momento.

            Então a Dr.ª Green fazia um aceno de cabeça e ficava à espera do que Allegra diria a seguir.

            As trocas de palavras eram quase sempre as mesmas. Conheciam-se há dois anos, mas Allegra já não tinha vinte e sete nem vinte e oito anos, mas sim vinte e nove, e Brandon separara-se há dois anos. As filhas, Nicole e Stephanie, tinham onze e nove anos, e Joanie ainda não conseguira arranjar emprego. Continuava dependente de Brandon para tudo o que precisava. E, tal como ele, Allegra explicava a situação pelo fato de Joanie não ter experiência profissional. Desistira da faculdade para ter a Nicky.

            De fato, a voz de Nicole foi a que se seguiu na secretária eletrônica de Allegra. A menina esperava que ela fosse com o pai a São Francisco no fim-de-semana. Disse que tinha saudades dela, e esperava que estivesse tudo  correndo bem e que conseguissem ter tempo para ir patinar. ‘E, oh!... Está bem... Adoro o casaco que me mandou no Natal... Ia te escrever um bilhete, mas esqueci-me e a mamãe disse... ’ Seguiu-se um silêncio embaraçoso quando a menina de onze anos tentou recuperar a compostura, ‘dou este fim-de-semana. Adeus... Gosto muito de você... Oh!... Sou a Nicky. Adeus.’ A garota desligou e Allegra ainda sorria quando ouviu a mensagem de Brandon. Ficaria trabalhando até tarde e ainda  estava no escritório quando lhe telefonou. A mensagem dele era a última.

            Allegra desligou o aparelho, acabou de beber a água, jogou a garrafa no lixo e pegou no telefone para ligar para o escritório dele.

            Estava sentada no banco da cozinha, com as pernas compridas enroscadas à volta dele enquanto fazia a ligação. Era alta, magra e bela, mas não tinha consciência disso. Vivia há muito tempo num mundo de gente com um aspecto extraordinário e na sua vida eram mais importantes as coisas do espírito do que as da beleza do rosto e do corpo. Nunca pensava nisso, o que por vezes a tornava ainda mais atraente. Percebia-se facilmente que não dava importância à aparência, que se concentrava por completo nas pessoas que a rodeavam.

            Brandon atendeu ao telefone particular ao segundo toque e mostrou-se atarefado e distraído. Era fácil perceber que estava  trabalhando.

            — Brandon Edwards — disse.

            Allegra sorriu. Ele tinha uma voz profunda e sensual e ela gostava particularmente do seu tom. Brandon era alto, louro e com o cabelo bem aparado, como um aluno do liceu. Talvez fosse um pouco conservador na maneira de vestir, mas Allegra não se importava; havia nele qualquer coisa de saudável e de muito honesto.

            — Olá, recebi a sua mensagem — disse num tom enigmático, mas ele reconheceu-a logo. Como foi o seu dia?

            — Interminável respondeu, esgotado.

            Allegra não lhe falou no seu. Ele interessava-se muito pouco pela empresa dela e agia sempre como se considerasse que o seu ramo do direito era mais absurdo do que legal.

            — Tenho um julgamento para a semana e estou perdendo um tempo dos diabos com o trabalho de investigação. Terei muita sorte se conseguir sair daqui antes da meia-noite.

            Brandon parecia mesmo exausto.

            — Quer que te leve alguma coisa para comer? — perguntou ela com um sorrisinho. Podia aparecer aí com uma pizza.

            — Prefiro esperar. Tenho aqui um sanduíche e não quero interromper o trabalho. Compro qualquer coisa quando acabar, se não for muito tarde e você ainda me quiser receber...

            Allegra sentiu o calor na voz dele e respondeu com um sorriso.

            — Eu te quero sempre. Vem à hora que te apetecer. Também trouxe trabalho para casa. Guardava na pasta os documentos para a próxima tournée de concertos de Bram Morrison. Tenho muito com que me entreter.

            — Ótimo. Até logo.

            Foi então que ela se lembrou.

            — Oh! A propósito, Brandon, hoje recebi uma chamada da Nicky. Deve ter confundido as datas, porque julgou que nós íamos a São Francisco. Isso é para a próxima semana, não é?

            No fim-de-semana seguinte, Brandon acompanhava-a a festa dos Globos de Ouro, e no outro iam a São Francisco ver as crianças.

            —Por sinal... Eu... Eu devo ter-lhe falado nisso... Pensei que faria sentido lá ir antes do início do julgamento. Depois não poderei ausentar-me durante uns tempos, ou pelo menos não o devo fazer.

            Brandon parecia desajeitado ao tentar explicar a situação e Allegra franziu a sobrancelha, apreciando a vista da janela da cozinha.

            — Mas não podemos ir esta semana! O papai e a mamãe foram nomeados, além de três dos meus clientes. Entre estes figurava Carmen Connors. Esqueceu-se ?

            Allegra nem podia acreditar que Brandon tivesse mudado de idéias. Ela andava  falando no assunto desde o Natal!...

            — Não, mas julguei... Agora não tenho tempo para conversar sobre esse assunto, Allie, senão fico aqui toda a noite. Porque não falamos disso mais tarde?

            A resposta dele não a deixou descansada. Por instantes, ficou pensando, antes de telefonar à mãe.

            Blaire passava a semana inteira gravando o seu programa, como era habitual, e à noite estava cansada, depois de horas e horas em palco, mas ficava sempre satisfeita ao saber da filha mais velha. Viam-se com freqüência, embora menos nos últimos tempos, desde que Allegra andava com Brandon.

            Blaire reiterou o convite para o jantar de sexta-feira e disse-lhe que o irmão, Scott, também estaria lá. A vinda dele a casa constituíam momentos importantes para a família, e não havia nada de que Blaire gostasse mais que de um serão na companhia de todos os filhos.

            — Ele também vai aos Globos de Ouro? — perguntou Allegra, que gostava sempre de vê-lo.

            — Fica em casa com a Sam. Diz que estas cerimônias são mais divertidas na televisão. Pelo menos, vê-se todas as pessoas que quer, em vez de ser empurrado pela multidão e não conseguir descobrir atrás de quem correm os repórteres.

            — Talvez tenha razão.

            Allegra riu com a descrição. Sabia que Sam gostaria muito de ir, mas os pais não queriam expô-la, ou pelo menos a mantinham o mais longe possível da avidez da imprensa. Muito menos ela iria ao Globo de Ouro ou ao Oscar da Academia. Todas as jovens estrelas de Hollywood lá estariam, assim como os repórteres. Os pais só tinham aceitado que fosse modelo porque ninguém sabia quem ela era quando a via nas fotografias. Desfilava com o nome de Samantha Scott, o apelido de solteira da mãe, e, apesar de esta ser muito conhecida, Scott passava mais despercebido que Steinberg. Toda a gente em Hollywood sabia quem era Simon Steinberg e teria feito tudo para tirar fotografias à filha.

            — De qualquer modo, lá estarei garantiu Allegra. Já não sabia ao certo se Brandon iria, por isso não falou no assunto à mãe, porém Blaire perguntou-lhe. Não era segredo que Brandon não era das pessoas de quem Blaire mais gostava, nem Simon. Preocupava-os que ele saísse com a filha há dois anos e ainda não se tivesse divorciado da mulher.

            — O príncipe Brandon também vem? — perguntou Blaire com uma irritação óbvia na voz.

            Allegra hesitou. Não queria discutir com a mãe, mas também não gostara do que ela dissera, nem do seu tom.

            — Ainda não tenho a certeza — respondeu em voz baixa, que, no entanto, pareceu muito alta à mãe. Estava sempre o defendendo, e não devia fazê-lo, pelo menos perante Blaire. Está preparando-se para um julgamento e talvez tenha que trabalhar este fim-de-semana.

            Em sua opinião, não era da conta da mãe que ele fosse ver as filhas a São Francisco.

            — Não acha que podia interromper o trabalho por uma noite? — perguntou Blaire, cética, e o seu tom de voz teve o condão de exasperar Allegra.

            — Porque não deixa pra lá, mamãe? Tenho a certeza que ele fará o possível e, se puder, vai.

            — Talvez seja melhor pedir a outra pessoa que te acompanhe. Não há motivo para que vá sozinha. Assim você não se diverte...

            Blaire ficava aborrecida sempre que Brandon deixava Allegra só quando tinha outros planos, trabalho a mais ou disposição a menos. Ela fazia sempre o que era mais conveniente para ele, aceitava a situação com desportivismo, e Blaire não percebia por que.

            — Eu divirto-me de qualquer maneira — respondeu Allegra tranquilamente. Só quero lá estar quando você e o pai receberem os prêmios acrescentou, com orgulho.

            — Não diga isso, que dá azar — replicou Blaire, supersticiosa.

            Mas havia poucas coisas que pudessem dar azar a Blaire Scott e a Simon Steinberg. Ambos já tinham ganhado vários Globos de Ouro, o que não só lhes dava prestígio como era empolgante. Além disso, nos últimos anos, a atribuição dos Globos de Ouro prenunciava muitas vezes o que a Academia faria em Abril. Era uma noite muito importante em Hollywood e os Steinberg estavam entusiasmados.

            — Você vai ganhar um, tenho a certeza. Ganha sempre! — O Globo de Ouro era um troféu invulgar, porque tanto era atribuído em televisão como em cinema, e por isso qualquer dos membros do casal Steinberg o podia ganhar, e isso já acontecera várias vezes. Allegra sentia-se muito orgulhosa dos pais.

            — Deixa os elogios — disse a mãe, sorrindo, também orgulhosa da filha.

            Allegra era uma moça formidável. Entre ela e Blaire havia uma ligação especial, que sempre as mantivera muito unidas.

            — E na sexta-feira? Vem jantar?

            — Amanhã eu confirmo, se não se importa. Queria falar dos planos de Brandon com ele e ver o que o namorado pretendia fazer acerca de São Francisco. Se ele ficasse, Allegra gostaria que fosse jantar com ela na casa dos pais, mas concluiu que seria mais fácil negociar tudo de uma vez e adiou a conversa para a manhã seguinte. Passaram alguns minutos  falando de Scott, de Sam e do pai. Depois Blaire explicou-lhe que resolvera inserir uma nova personagem no programa e que a idéia fora muito bem recebida pela estação de televisão. Aos cinqüenta e quatro anos, Blaire ainda era muito bela e cheia de idéias novas e empolgantes. Adorava o que fazia e produzira outro espetáculo antes deste na mesma estação. Nos últimos nove anos, alcançara um êxito estrondoso com o seu programa atual, Buddies, mas os níveis de audiência tinham oscilado um pouco nesse ano, e ninguém duvidava de que os Globos de Ouro dariam uma ajuda. Desta vez Blaire queria mesmo ganhá-lo.

            Blaire Scott era alta e magra como Allegra e tinha um corpo de modelo. O cabelo era ruivo natural, mas há muito que adquirira um tom louro-morango que passava quase sem a ajuda de tinta. Há um tempo fizera uma operação nos olhos e mandara esticar a pele do pescoço há uns anos, mas nunca se submetera a um lifting ao rosto. Era invejada por todas as suas amigas e, ao vê-la envelhecer com tanta graciosidade, Allegra sentia-se esperançada no futuro. ‘O segredo está em não exagerar’, dizia ela às filhas com toda a naturalidade, falando de cirurgia plástica, mas Allegra apostava que a mãe nunca o faria. Considerava que era uma perda de tempo contrariar a natureza. ‘Esperem alguns anos e pensarão de maneira diferente’, afirmava Blaire com um ar sábio. Estava realmente convicta do que dizia, mas por fim, aos quarenta e três anos, o olhar do público obrigara-a a contrariar os seus planos e a fazer uma operação nos olhos e, aos cinqüenta, no pescoço E a verdade é que não parecia ter mais de quarenta e cinco. ‘Fica tudo estragado quando os outros sabem a nossa idade’, gracejava ela às vezes, embora não desejasse verdadeiramente esconder a idade, mas apenas manter-se atraente aos olhos de Simon. Aos sessenta anos, o marido continuava a ser o homem encantador que sempre fora. Quanto muito, afirmava Blaire, estava ainda melhor do que quando se casara.

            — Está mentindo — dizia ele, sorrindo sempre, com um ar triunfante, quando ouvia estas palavras.

            Allegra adorava estar com os pais. Eram pessoas afáveis, inteligentes e felizes, e espalhavam o bem-estar à sua volta.

            Eu quero um homem como ele disse uma vez à Dr.ª Green, embora com receio que a psicóloga invocasse Freud, mas esta não o fez.

            — Eu diria que é uma boa decisão, avaliando pelo que me contou do casamento dos seus pais. Acha que conseguiria conquistar um homem como ele?  — perguntou-lhe a Dr.ª Green de chofre.

            — Claro que sim — respondeu Allegra prontamente, mas ambas sabiam que não falava a sério.

            Allegra prometeu telefonar à mãe a dizer-lhe o que resolvera acerca do jantar de sexta-feira logo que soubesse quais eram os seus planos. Depois lembrou-se de falar com Nicole, mas mudou de idéia; talvez Joanie não gostasse. Foi buscar um iogurte já encetado na geladeira, começou a comê-lo e telefonou para Carmen. Esta estava completamente histérica, como acontecia sempre que surgia um novo artigo a seu respeito nos tablóides. No entanto, desta vez Allegra foi obrigada a concordar que a notícia era estúpida. Afirmava-se que ela participara numa orgia em Las Vegas com o seu cirurgião plástico. Este ter-lhe-ia dado um novo rosto, um novo nariz, um novo queixo e teria feito implantes mamários e lipoaspiração.

            — Como é que eu podia ter feito tudo isso? — perguntou ela, com um misto de surpresa e de ingenuidade, e, como sempre, escandalizada por verificar até que ponto a imprensa estava disposta a mentir a seu respeito.

            Como sucedia com todas as celebridades, as pessoas afirmavam que haviam estado na escola com ela, que eram as suas melhores amigas, que tinham viajado na sua companhia e, evidentemente, uma legião de homens asseguravam que tinham dormido com ela. Há pouco tempo, duas mulheres tinham afirmado o mesmo, o que deixara Carmen lavada em lágrimas. Parecia-lhe muito injusto que as pessoas estivessem tão empenhadas em inventar histórias a seu respeito.

            — É o preço da fama — recordava-lhe sempre Allegra com doçura, pensando que era difícil acreditar que tivesse apenas mais seis anos do que Carmen.

            A jovem estrela parecia tão ingênua em alguns aspectos, tão inconsciente do mal que espreitava em toda a parte e tão admirada com o aproveitamento jornalístico. Continuava a achar que todos eram seus amigos e que ninguém pretendia magoá-la Exceto às duas da madrugada, quando acreditava facilmente que metade de Los Angeles estava à porta, pronta a entrar-lhe em casa à força e a violá-la Por fim, Allegra contratara uma governanta interna e aconselhara Carmen a deixar uma luz acesa junto à porta do seu quarto. Tinha medo da escuridão e assustava-se por não ver nada lá fora.

            — Ouça, você não tem idade para já ter feito tudo isso — disse Allegra, sossegando-a mais uma vez quanto ao artigo do Chatter.

            — Acha que mais alguém chegará a essa conclusão? Eu limitei-me a tirar uma verruga da testa — redargüiu, desconsolada, assoando-se outra vez e pensando em tudo aquilo que a avó lhe dissera quando telefonara de Portland. A velhota acusara-a de ter coberto a família de vergonha e dissera-lhe que Deus nunca lhe perdoaria.

            — É claro que sim. Leu a página seguinte.

            — Não, por quê? — perguntou Carmen, esticando o corpo perfeito no sofá, sem largar o telefone.

            — Talvez na página seguinte digam que uma mulher deu à luz quíntuplos em Marte E, duas páginas mais à frente, que uma mulher deu à luz um macaco num disco voador. Se acreditarem nessas tretas, o que importa que digam que você fez uma remodelagem no rosto aos vinte e três anos? Mande-os à fava, Carmen, tem que endurecer um pouco, caso contrário eles te deixarão doida.

            — Já estão — retorquiu ela, desesperada. Falaram durante cerca de uma hora e por fim Allegra desligou e foi tomar uma ducha. Estava secando o cabelo quando Brandon chegou.

            Enquanto ele subia a rampa, Allegra apareceu à porta, de roupão turco, com o cabelo molhado a cair-lhe pelas costas e sem maquiagem. De certo modo, era ainda mais bela quando não estava arrumada, e Brandon gostava do seu aspecto natural, fresco e sensual.

            — Uau! — exclamou, beijando-a. Entrou atrás dela e Allegra fechou a porta à chave. Eram dez da noite. Ele tinha um ar exausto; deixou cair a pasta no hall e abraçou-a. Valeu a pena trabalhar até tarde — disse Brandon, beijando-a e passando a mão por dentro do robe turco. Allegra estava nua por baixo.

            — Está com fome? — perguntou ela no intervalo de dois beijos.

            — Estou morrendo de fome... — respondeu Brandon, referindo-se a ela e não ao jantar.

            — O que te apetece? —  perguntou a jovem, rindo-se, enroscando as pernas nas dele e despindo-lhe o casaco.

            — Peito, creio eu... Ou talvez perna respondeu ele com voz rouca.

            Beijou-a de novo e um minuto depois estavam sentados na cama dela. Enquanto desabotoava a camisa, Brandon fitava-a com um olhar de desejo. Parecia cansado, depois de um longo dia de trabalho, mas nem por isso estava mal disposto. Nem sequer queria falar com ela; apetecia-lhe apenas devorar o seu corpo.

            Allegra ajudou-o a despir a camisa e ele tirou as cuecas. Pouco depois estavam ambos nus, deitados na cama e a fazer amor, envolvidos na luz suave que Allegra deixara acesa. Brandon sentiu-se completamente inebriado por ela. Uma hora mais tarde, quando já estavam saciados e se preparava para dormir, sentiu-o levantar-se e despertou.

            — Aonde vai? —  perguntou Allegra, virando-se e abrindo os olhos para admirar o esplendor do seu corpo, alto, esguio e dourado. Estavam bem um para o outro e eram tão parecidos que por vezes algumas pessoas julgavam tratar-se de irmão e irmã.

            — É tarde — respondeu ele em tom de desculpa, apanhando lentamente as roupas do chão.

            —  Vai para casa?

            Allegra ficou admirada e sentou-se na cama, olhando para ele. Brandon mostrou-se atrapalhado quando ela lhe fez a pergunta. Nem sequer haviam falado um com o outro, só tinham feito amor, e Allegra não queria que ele fosse embora.

            — Julguei... Amanhã tenho de sair cedo e não queria te acordar.

            Parecia pouco à vontade, ansioso por ir embora. Fazia aquilo muitas vezes.

            — E o que importa que tenha que levantar cedo? Eu também. —  Allegra mostrou-se ofendida com o seu abandono. Tem aqui camisas lavadas. Eu também preciso de me levantar cedo. É tão agradável dormirmos juntos...

            Era agradável e Allegra sabia que Brandon também gostava, mas também sabia que às vezes ele preferia voltar para o seu apartamento. Gostava do seu espaço próprio, das suas coisas; nos dois últimos anos, dissera-lhe várias vezes que lhe agradava acordar na sua própria cama, apesar de ser raro fazerem amor na casa dele. Vinha sempre para ali, para casa dela, mas, ao mesmo tempo, gostava de voltar para a dele. Esta atitude levava-a a sentir-se usada, e dispensada, e era particularmente penoso o sentimento de solidão que a assaltava depois de Brandon sair e ela ficar sozinha na sua própria casa. Segundo afirmou à psicóloga, sentia-se abandonada. Porém, não queria pedir-lhe fosse o que fosse, nem forçá-lo a ficar, se ele não quisesse. Estava apenas muito desiludida.

            — Gostaria que ficasse Brandon —  disse em voz baixa, mas não acrescentou mais nada quando ele foi tomar ducha e voltou para a cama.

            Para Brandon, era mais fácil ficar do que discutir.

            Nessa noite, quando estavam deitados lado a lado, Allegra olhou para ele e sorriu. Talvez houvesse coisas a aperfeiçoar na relação de ambos, como o divórcio dele e a sua preferência por dormir só, mas não lhe restavam dúvidas de que o amava.

            Obrigada por ficar disse baixinho, abraçada a ele. Brandon tocou-lhe ao de leve na face e beijou-a. Pouco depois começou a ressonar.

 

            Na manhã seguinte, Allegra levantou-se antes de o despertador tocar, às seis e quinze. Fora a hora que Brandon determinara. Este se levantou e foi lavar os dentes e barbear-se, enquanto Allegra, nua, foi para a cozinha fazer café.

            Às seis e quarenta e cinco Brandon estava sentado à mesa, completamente vestido. Allegra pôs-lhe à frente dois pãezinhos e uma xícara de café fumegante.

            — Que belo serviço tem este restaurante! — exclamou ele, satisfeito. E gosto muito da farda das empregadas... acrescentou, admirando o corpo de Allegra quando ela, ainda nua, se sentou do outro lado da mesa, na sua frente.

            — Você também está com um ótimo aspecto —  disse ela, admirando-lhe o terno cinzento-escuro.

            Brandon comprava tudo o que vestia nos Brooks Brothers. De vez em quando, ela tentava levá-lo a um estabelecimento Armani ou Rodeo Drive, na esperança de modernizá-lo um pouco, mas esse não era o seu tipo. Brandon era cem por cento Wall Street.

            — Eu diria que estás lindo para esta hora da manhã. —  Allegra sorriu no meio de um bocejo e serviu-se de café. Só precisava estar no escritório às nove e meia. A propósito, o que vai fazer esta noite?

            Fora convidada para uma estréia e, como Brandon tinha o julgamento para preparar, não sabia se poderia acompanhá-la. Duvidava, e também não desejava ir.

            — Tenho que trabalhar. Acabou-se a brincadeira. Disse aos outros tipos que ficaria por lá até à meia-noite respondeu ele, quase em pânico ao lembrar-se de tudo o que tinha para fazer.

            A preparação de um julgamento era sempre assim, e por isso é que Allegra gostava que a sua firma tivesse uma equipE de litigantes, o que a dispensava de todo o trabalho deste gênero. Competia-lhe apenas colaborar com eles e fornecer-lhes informações. De certo modo, o que fazia era mais simples. Era uma atividade criativa, à sua maneira, mas não implicava as exigências brutais que o trabalho de defesa ao nível federal impunha a Brandon.

            — Quer vir para cá quando acabar? — perguntou, tentando não parecer suplicante. Gostaria que ele fosse para casa ao seu encontro, o que o jovem nem sempre estava disposto a fazer, e ela não o queria pressionar.

            — Adoraria —  respondeu Brandon, pesaroso, mas não posso. Quando acabar, estarei extenuado. Tenho de ir a casa.

            — Os meus pais convidaram-nos para jantar na sexta-feira —  disse ela; sabia que a mãe também acabaria convidando-o, só para agradar à filha, mesmo que não gostasse dele.

            — Na sexta-feira à noite vou ver minhas filhas —  respondeu Brandon com ar despreocupado, acabando de comer um dos pãezinhos. Já te tinha dito.

            — Julguei que não falava sério —  replicou ela, admirada. E o Globo de Ouro? Havia esperança no olhar de Allegra. Eles são importantes!...

            Eram para ela, mas não para Brandon.

            — Também a Stephanie e a Nicky são importantes. Tenho de ir vê-las antes do julgamento respondeu ele com firmeza.

            — Brandon, há meses que te falei no Globo de Ouro. Eles significam muito para mim e para os meus pais. E a Carmen também foi nomeada. Não posso esquecer tudo isto para ir a São Francisco objetou, tentando aparentar serenidade. Eram sete da manhã.

            — Compreendo que não possa ir. Não estava esperando que fosse —  disse ele, perfeitamente calmo.

            — Mas estou eu esperava que você viesse comigo — insistiu ela, com uma ponta de irritação na voz, apesar dos seus esforços. Quero que você vá!

            — Essa expectativa não é razoável, Allegra. Já te disse que não posso, expliquei-te o motivo. Não vejo vantagem em estarmos a repetir o assunto. Por quê?

            — Porque é muito importante para mim! Ganhou fôlego, tentando não se zangar com ele. Tinha de haver uma maneira de resolver o problema a contento de todos. Olha, porque não vai à entrega dos prêmios comigo e vamos os dois a São Francisco no domingo? Que tal te parece?

            Allegra parecia totalmente vitoriosa, entusiasmada por haver encontrado uma solução racional, mas ele abanou a cabeça e bebeu um gole de café antes de retrucar.

            — Esse plano não resolve, Allie, desculpe. Preciso de mais de um dia para estar com elas. Não posso fazer isso.

            — Por quê?

            Sentiu que ia desatar a chorar e tentou controlar-se.

            — Porque elas precisam de mais tempo, e, francamente, eu também preciso falar com a Joanie acerca do apartamento de Squaw. Ela quer vendê-lo.

            — Isso é ridículo! —  explodiu Allegra, perdendo, por fim, o controle. Podem tratar do assunto pelo telefone. Pelo amor de Deus, Brandon, não tem feito mais nada que não seja falar com ela do apartamento, da casa, do carpete, do carro e do cão nos últimos dois anos! Esta cerimônia dos prêmios é importante para nós! Allegra incluía a sua família, mas Brandon não se deixou comover. Para ele, a situação tinha a ver com a sua própria família, que era constituída pela ex-mulher e as duas filhas. Não vou desistir de você a favor da Joanie! — acrescentou ela abruptamente.

            — Pois não. Brandon levantou-se, sorrindo, sem querer deixar-se influenciar por ela e mostrando-o claramente. E a Stephanie e a Nicky?

            — Elas compreendem, se explicar.

            — Duvido. E, de qualquer modo, não se trata de uma opção.

            Brandon fitou-a com firmeza e Allegra encarou-o, incapaz de acreditar que ele a deixaria para ir a São Francisco.

            — Quando volta? — perguntou, consternada por dentro e muito contrariada.

            Mais uma vez, sentia-se abandonada e um pouco assustada, mas sabia que não podia ceder a estes sentimentos. Brandon ia ver as filhas em São Francisco, não era propriamente sua intenção desiludi-la. Acontecia, ponto final! No entanto, porque se sentia tão mal com a decisão dele?

            Allegra não conseguiu perceber a resposta de Brandon, nem sequer concluir se devia ficar furiosa ou triste por ele não a acompanhar à cerimônia dos Globos de Ouro. Seria assim tão importante? Teria o direito de fazer tais exigências?

            E por que motivo é que as reações dele eram sempre tão confusas quando estavam em causa as necessidades dela? Seria, como afirmava a Dr.ª Green, porque não queria admitir para si própria que ele se comportava de forma errada? Estaria rejeitando-a, ou apenas fazendo o que tinha que fazer? E porque é que nunca conseguia responder a estas perguntas?

            — Volto, como sempre, no último avião de domingo à noite. Chego às dez e quinze. Posso estar aqui por volta das onze assegurou ele para acalmá-la.

            Foi então que Allegra se lembrou que não estaria em Los Angeles.

            — Esqueci-me de te dizer que vou para Nova Iorque no domingo à noite. Fico lá toda a semana, até sexta-feira.

            — Então também não poderia ir comigo a São Francisco — replicou ele, descontraído.

            — Podia partir de lá, se quisesse. Se fôssemos no domingo.

            — Isso é ridículo! — exclamou ele, ignorando o plano dela e pegando na pasta. Você tem o seu trabalho, Allie, e eu tenho o meu, e às vezes basta que nos comportemos como pessoas adultas!

            De súbito, esboçou um sorriso melancólico. Nesse momento, ambos se aperceberam de que não se veriam durante dez dias, até ao outro fim-de-semana.

            — Quer aparecer esta noite e ficar aqui, já que vou estar tanto tempo sem te ver?

            Allegra desejava que ele o fizesse, mas, como era habitual, Brandon colou-se ao seu plano original. Era raro alterá-lo.

            — Não posso, sério. Quando acabarmos, estarei demasiado cansado. Não seria muito divertido, e não vale a pena eu vir  só para dormir, não acha?

            Mas era precisamente neste ponto que ambos discordavam.

            — É claro que vale! Não tem obrigação de me distrair. Dizendo isto, Allegra pôs-se na ponta dos pés, passou-lhe os braços pelo pescoço e beijou-o.

            — Te vejo na próxima semana, querida  — afirmou ele friamente, depois de beijá-la. Telefono esta noite e amanhã antes de ir para São Francisco

            — Quer ir jantar na casa de mamãe na sexta-feira, antes de partir? —  perguntou ela, furiosa consigo própria por estar suplicando. Era exatamente o que sabia que não devia fazer, mas não conseguiu refrear-se. Desejava estar com ele.

            — O mais provável era perder o avião, como aconteceu da última vez, e depois as meninas ficam aborrecidas.

            — As meninas? —  perguntou ela, erguendo a sobrancelha e esforçando-se por não disparatar. Ou a Joanie?

            — Ora, Allie, não seja má. Bem sabe que não posso. Eu tenho um julgamento, e você de ir  à Nova Iorque, eu tenho duas filhas em São Francisco. Ambos temos as nossas obrigações. Porque não fazemos o que temos que fazer e nos encontramos depois, descontraídos?

            Ele falava de modo que tudo parecesse razoável, mas havia uma parte de Allegra que não aceitava as coisas assim, a mesma parte que ficava desiludida quando ele não estava presente, como sucederia na cerimônia da entrega dos prêmios, ou quando ia para casa depois de fazerem amor e dormia sozinho. Pelo menos, passara a última noite com ela, e Allegra lembrou-se que devia estar grata por isso e não o aborrecer mais com o fim-de-semana.

            — Amo você —  disse-lhe, quando ele a beijou à porta, recuando para que ninguém a visse nua.

            — Eu também — respondeu ele, sorrindo. Divirta-se em Nova Iorque. E não esqueça de levar roupa quente. Li no Times de hoje que irá nevar.

            — Ótimo!

            Allegra tinha um ar desolado ao vê-lo afastar-se e acenou-lhe quando ele entrou no carro. Fechou a porta e foi espreitá-lo da janela do quarto até ele descer a rampa em marcha atrás. Sentiu-se mal ao vê-lo partir. Havia qualquer coisa que não estava bem, mas não sabia o quê. Seria o fato de ele não alterar os seus planos, ou de ir ver outra vez Joanie, com as filhas, ou seria apenas porque era obrigada a ir sozinha à cerimônia dos Globos de Ouro e a explicar-se aos pais? Talvez fosse por saber que não o veria durante dez dias... Tudo isto lhe criava um sentimento de infelicidade.

            Foi para o banheiro e abriu o chuveiro. Ficou ali durante muito tempo, com a água a escorrer pelo rosto, pensando nele e perguntando a si própria se Brandon se modificaria.

            Ou continuaria a preferir dormir sozinho, a achar que era muito incômodo aparecer depois do trabalho, mantendo-se casado com Joanie eternamente? Deixou que as lágrimas se misturassem com a água quente e disse com os seus botões que era um disparate aborrecer-se. Não conseguiu encontrar respostas para as suas questões.

            Estava exausta quando saiu da ducha, meia hora depois. Talvez Brandon já tivesse chegado ao escritório, mas parecia-lhe tão estranho que ele ainda estivesse na cidade, que passasse dois dias sem o ver. E, no entanto, quando tentava explicar-lhe sentimentos como este, quando lhe dizia que precisava da sua companhia ou que queria estar com ele, Brandon parecia não a entender.

            — Porque lhe parece que isso acontece? —  perguntava-lhe sempre a Dr.ª Green.

            — Como vou saber? —  retrucara Allegra mais de uma vez.

            — Acha que se deve a falta de empenho da parte dele? —  insistia, em geral, a Dr.ª Green. Talvez não se importe tanto com você como você com ele... Ou talvez não seja capaz de assumir o tipo de compromisso que você pretende —  insinuava com subtileza, insistindo num tema familiar que enervava Allegra.

            — Porque ela dava sempre a entender que os homens da vida de Allegra se entregavam pouco? Por que motivo este era um tema recorrente e porque é que continuava a dizer que se tratava de um padrão. Allegra ficava mesmo aborrecida.

            Jogou fora o resto dos pãezinhos de mirtilo. Brandon comera quase todos e ela não tinha fome. Fez um café fresco e depois foi se vestir. Por volta das oito e meia estava pronta para sair e ainda dispunha de algum tempo antes de enfrentar o trânsito na auto-estrada. Olhou para o relógio. Sabia que a mãe devia ter saído para o estúdio às quatro da manhã, mas deixou-lhe uma mensagem na secretária eletrônica, confirmando que iria jantar com eles na sexta-feira e que iria sozinha. Tinha a certeza que, quando chegasse, haveria comentários, sobretudo se lhes dissesse onde estava Brandon, mas, pelo menos por enquanto, não teria de ouvir nada.

            Em seguida, fazendo um esforço de memória, ligou para um número de Beverly Hills que metade das mulheres americanas trocaria por um braço. Eram amigos desde os catorze anos, tinham namorado durante seis meses quando andavam na escola secundária, e desde então havia mantido uma boa amizade. Ele atendeu ao segundo toque, como sempre, exceto quando estava ‘ocupado’ ou ausente, e Allegra sorriu ao ouvir aquela voz conhecida, que só ela não considerava insuportavelmente sensual.

            — Olá, Alan, sou eu, não se irrite...

            Allegra sorria sempre quando falava com ele. Alan era uma pessoa especial.

            — A esta hora? — Alan surpreso ao ouvir a voz dela, mas Allegra sabia que o amigo costumava levantar-se bastante cedo. Terminara um filme em Bancoc e passaria três semanas em casa. Allegra também sabia que ele acabara recentemente um romance com a atriz inglesa Fiona Harvey; conforme o seu agente. O que andou fazendo ontem à noite? Foi presa? Está  telefonando para eu te pagar a fiança?

            — Exatamente. Vai buscar-me à esquadra de Beverly Hills daqui a vinte minutos.

            — Nem pense nisso! Todos os advogados deviam estar na cadeia! Por mim, pode ficar aí.

            Alan tinha trinta anos e o rosto e o corpo de um deus grego, mas, além disso, era inteligente e genuinamente bem formado. Era um dos amigos mais íntimos de Allegra e o único homem de quem se lembrara para acompanhá-la à festa da entrega dos prêmios. Sorriu ao recordar que Alan fora seu namorado no passado. A maioria das mulheres americanas daria tudo para conhecê-lo.

            —  O que vai fazer no sábado? —  perguntou de chofre, balançando o pé como uma criança e fazendo um esforço para não pensar em Brandon, ou para não permitir que tal a aborrecesse.

            —  Você não tem nada com isso, muito obrigado — respondeu ele, fingindo-se ofendido.

            — Vai sair com alguém?

            — Por quê? Tem a intenção de apresentar-me mais uma das suas terríveis colegas? Acho que a última bastou, minha malvada!

            — Ora, não me aborreça! Não era uma namorada, e você bem sabe. Precisava de um especialista em direito peruano, e é isso mesmo que ela é, portanto não me chateie. Por sinal, soube que te deu, gratuitamente, uma consulta que valia três mil dólares, por isso não se faça de vítima.

            — Quem é que se fazendo de vítima? —  Alan mostrou-se reservado, fingindo-se escandalizado com a linguagem dela.

            — Você, e não respondeu à minha pergunta.

            — Vou sair com uma menina de catorze anos que talvez me atire para a prisão. Por quê?

            — Preciso de um favor.

            Allegra podia dizer-lhe tudo sem artifícios nem rodeios. Gostava dele como de um irmão.

            —  Que novidade! Precisa sempre de um favor. Quem é que quer o meu autógrafo desta vez?

            —  Ninguém, absolutamente ninguém. Preciso do teu corpo.

            —  Essa é uma proposta que me intriga...

            Nos últimos catorze anos, desde o fugaz namoro de ambos, pensara mais de uma vez em aproximar-se dela, mas Allegra nutria por ele sentimentos tão fraternos que Alan nunca conseguira tomar a iniciativa. No entanto, era bela e inegavelmente inteligente e Alan gostava dela mais do que de qualquer outra mulher no mundo. No fundo, talvez fosse esse o problema.

            — No que está pensando exatamente em relação a este corpo velho e decrépito?

            — Em nada que seja agradável, juro. —  Deu uma gargalhada. Também não é assim tão mau, por acaso. Preciso de companhia para a festa de entrega dos Globos de Ouro. A mamãe e o papai foram nomeados, e a Carmen Connors também, uma das minhas clientes. E há mais dois que são candidatos. Tenho de estar presente e não gostaria ir sozinha.

            Allegra estava sendo honesta com ele, como sempre, uma qualidade que Alan muito apreciava nela.

            — O que aconteceu ao... Como é que ele se chama? — Alan sabia perfeitamente o nome de Brandon e também dissera várias vezes a Allegra que não gostava dele. Considerava-o frio e petulante. Ela estivera várias semanas sem falar com ele por causa disso, mas depois se habituara, porque Alan não perdia uma oportunidade de lhe dizer o que pensava; porém, desta vez poupou-a.

            — Tem de ir a São Francisco.

            — Que simpático da parte dele, Al! Que grande sentido de oportunidade! Que tipo afável! Foi ver a mulher?

            — Não, estúpido, foi ver as filhas. Tem um julgamento que começa na segunda-feira.

            — Não sei se estou percebendo a relação... — replicou Alan com frieza.

            — Ele não poderá ir ver as filhas durante duas semanas, por isso quer visitá-las agora.

            — Cancelaram os vôos de São Francisco para Los Angeles? Porque é que os anjinhos não podem vir cá ver o papai?

            — A mãe não permite.

            — O que te deixa solitária, não é?

            — Sim, e foi por isso que te telefonei. Pode ir? — perguntou ansiosa.

            Seria divertido ir com ele. Aliás, era sempre divertido estar com Alan. Era como se voltassem os dois à adolescência. Contavam anedotas, riam de tudo e por nada e faziam muito barulho.

            —  É um sacrifício, mas acho que, se for obrigado a isso, posso alterar alguns planos... — disse ele, suspirando.

            Allegra riu.

            — Mentiroso! Aposto que não tem nada para fazer!

            — Ai isso é que tenho! Por acaso, ia jogar boliche.

            — Você?! — Allegra riu ainda mais. Cinco minutos depois estaria rodeado de gente. Não pode jogar boliche...

            — Um dia te levo, para acreditar em mim.

            — Está combinado. Adorarei ir — respondeu, radiante. Como era habitual, ele salvara-a. Não iria à festa sozinha.

            Alan Carr era um amigo com o qual podia contar sempre.

            — A que horas vou te buscar, Cinderela?

            Alan parecia satisfeito com a combinação. Gostava sempre de estar com ela.

            — Aquilo começa cedo. Seis horas?

            — Estarei lá.

            — Obrigada, Alan disse ela, com sinceridade. Agradeço-te muito.

            — Não seja tão agradecida, pelo amor de Deus!Você merece um tipo melhor do que eu... Merece que esse palerma te leve, se é o que deseja, portanto não me agradeça. Pense na sorte que eu tive. É assim que deve pensar. Do que você precisa é de mais afirmação. Onde foi buscar essa humildade? É demasiado inteligente para isso. Gostaria muito de te ensinar uma ou duas coisas sobre esse assunto... Ele não sabe a sorte que tem. São Francisco, o raio que o parta!

            Alan começou a resmungar e Allegra riu,  mas sentia-se mil vezes melhor.

            — Tenho de ir trabalhar. Até sábado. E por favor, tente manter-se sóbrio, combinado?

            — Não seja meiga! Não admira que não consiga arranjar quem vá com você!...

            Brincavam um com o outro. Ele bebia bastante, mas era raro embriagar-se e nunca se portava mal. Ambos gostavam de brincar. Allegra sentiu-se de novo confiante a caminho do emprego. Alan devolvera-lhe a boa disposição.

            Durante o dia, esqueceu a tristeza que a invadira de manhã. Encontrou-se com uns agentes ligados à tournée de Bram, tratou de alguns pormenores relativos à segurança de Carmen, reuniu-se com outro cliente por causa da custódia dos filhos e, ao fim do dia, ficou admirada ao verificar que nem se lembrara de Brandon. Continuava lhe desagradar que ele não a acompanhasse à cerimônia de entrega dos Globos de Ouro, mas pelo menos não se sentia tão mal como de manhã. E, ao pensar nisso, concluiu que não fora razoável. Ele tinha o direito de ir ver as filhas, e talvez estivesse certo. Talvez ambos tivessem que pensar nas suas carreiras, cumprir os seus compromissos e encontrar-se nos momentos livres. Não era um modo de vida muito romântico, mas era o possível nesta fase. Afinal, talvez não fosse assim tão mau, ela é que devia ser demasiado exigente, como ele insinuava de vez em quando.

            — É isso que você pensa? — perguntou-lhe a Dr.ª Green nessa tarde, durante a consulta semanal.

            — Não sei bem o que penso — admitiu Allegra. Sei o que quero, mas, quando falo com o Brandon, é como se estivesse a ser pouco razoável e exigindo demasiado dele. Não sei quem é que tem razão ou se estou assustando-o.

            — É uma hipótese interessante —  observou a Dr.ª Green com frieza. Porque julga que o assusta? 

            —  Porque ele não está preparado para aquilo que eu pretendo de uma relação, ou para o que eu quero dar.

            —  Acha que está disposta a dar mais? Por quê? —  insistiu a Dr.ª Green, interessada.

            —  Acho que gostaria de viver com ele, mas creio que isso o assusta de morte.

            —  O que a leva a dizer isso?

            A Dr.ª Green começava pensar que Allegra estava fazendo progressos.

            —  Acho que ele está assustado porque quer voltar para o seu apartamento, à noite. Nunca passa a noite em minha casa, se puder evitá-lo.

            —  E quer que você vá com ele? É uma questão de território?

            —  Não. —  Allegra abanou a cabeça lentamente. Diz que precisa do seu próprio espaço. Uma vez confidenciou-me que, quando acordamos juntos de manhã, se sente como se estivesse casado. E como o casamento não foi uma boa experiência para ele, não quer repeti-la.

            —  O Brandon tem de se libertar disso, caso contrário passará o resto da vida sozinho. Compete-lhe fazer essa opção. Mas as opções dele afetarão o relacionamento de vocês, Allegra.

            —  Eu sei, mas não quero apressá-lo.

            —  Já lá vão dois anos —   retorquiu a Dr.ª Green, discordando. Chegou o momento de ele mudar algumas coisas. A menos que você esteja satisfeita com a situação atual disse ela, sempre oferecendo opções a Allegra. Se é isso que pretende, então não temos queixas, não é verdade? É assim?

            —  Não sei. Não me parece  —  respondeu Allegra, nervosa. Eu queria mais. Não me agrada quando ele se retira para o seu mundo ou quando vai a São Francisco sem mim.

            E depois admitiu uma coisa que a fazia sentir-se estúpida.

            —  Às vezes preocupo-me com a ex-mulher dele, tenho medo que a Joanie consiga fazê-lo voltar. Ela ainda depende muito dele. Creio que é por isso que o Brandon não se quer comprometer.

            —  Bem, o melhor que ele tem a fazer é decidir-se um destes dias, não acha, Allegra?

            —  Penso que sim respondeu Allegra, com cautela, mas não acho que esteja certo fazer-lhe ultimatos.

            —  Porque não? —  perguntou a Dr.ª Green, afoita.

            —  Ele não ia gostar.

            —  E depois?

            A psicóloga pressionava Allegra, tal como gostaria que ela pressionasse Brandon.

            —  Ele pode terminar a relação se eu insistir demasiado.

            —  E qual seria o resultado? —  perguntou a Dr.ª Green.

            —  Não sei  —  respondeu Allegra, com ar assustado. Era uma mulher forte, todavia, nunca se sentia suficientemente forte na presença de Brandon, como se não tivesse amado dois homens antes dele. Tinha medo, e por isso recorria à Dr.ª Green há quase quatro anos.

            —  Se a relação terminar, você ficará livre para conhecer outra pessoa que esteja mais disposta a assumir um compromisso. Isso seria assim tão mau?

            —  Talvez não —   respondeu Allegra com um sorriso ansioso, mas seria muito assustador...

            —  Com certeza, mas você havia de ultrapassar a situação. Ficar sentada à espera que Brandon se digne abrir as portas do céu pode ser mais prejudicial para si do que o receio que tem de conhecer alguém disposto a amá-la, Allegra. É um assunto para pensar, não acha? —   perguntou ela, trespassando Allegra com o olhar e terminando a sessão com o habitual sorriso caloroso.

            De certo modo, era como se fosse ao encontro de uma cigana para lhe ler a sina. Ao sair, tentou passar em revista tudo o que dissera; havia coisas de que se lembrara e outras que tentara desesperadamente recordar, mas de que se esquecera. No entanto, de um modo geral, as sessões faziam-lhe bem e, ao longo dos anos, ambas tinham analisado o seu pendor para se envolver com homens que não conseguiam, ou não queriam, amá-la. Era um padrão muito antigo na sua      vida e Allegra não gostava de pensar nele, e ainda menos de falar. Ao fim de todo este tempo, tinha esperança de se melhorar.

            Voltou para o escritório, resolveu alguns assuntos pendentes e a sua última reunião do dia foi com Malachi O’Donovan. Era um amigo de Bram Morrison, também uma estrela do rock, com menos projeção do que ele, mas igualmente muito importante. Nascera em Liverpool, mas o casamento dera-lhe acesso à cidadania americana. A mulher chamava-se Rainbow, e tinham duas filhas, Swallow e Bird. Allegra já estava habituada a estas bizarrices. Muito pouco do que se dizia ou fazia no mundo do rock a surpreendia.

            O’Donovan tinha uma história complicada de detenções e drogas, dois assaltos e uns quantos processos judiciais confusos. Passara algum tempo na prisão ao longo dos anos e parecia muito intrigado com Allegra. A princípio reagiu em termos sexuais, mas, como ela o ignorou e se limitou propositadamente às questões de natureza profissional, acabou por se acalmar e tiveram uma conversa muito interessante. Allegra estava convencida de que poderia ajudá-lo em alguns dos seus problemas jurídicos, a maioria dos quais provinham de uma tournée mundial que ele andava tentando organizar, embora estivesse afundando-se em complicações burocráticas e questões legais.

            —  Veremos o que se pode fazer, Mal. Entrarei em contato depois de receber os dossiês do seu advogado atual.

            —  Não se preocupe com o meu último advogado  —  disse ele, encolhendo os ombros à saída. É um idiota! —  acrescentou, no seu belo dialeto irlandês.

            —  De qualquer modo, precisamos dos seus papéis. Allegra esboçou um sorriso afetuoso. Telefono-lhe assim que souber alguma coisa.

            O’Donovan gostou muito dela. Morrison não o encaminhara mal. A advogada era inteligente e ia direita ao assunto, sem rodeios. Isso lhe agradava.

            —  Telefone-me quando quiser, filha  —  disse ele em voz baixa, quando Rainbow já estava junto do elevador.

            Allegra fingiu que não ouviu, voltou a entrar e fechou a porta do gabinete.

            Por fim, foi para casa já tarde. Esteve lendo uns processos e analisou alguns dos contratos de Bram. Carmen acabara de receber uma proposta muito interessante para rodar um filme que poderia ser muito importante para ela. Era um desafio, o que Allegra adorava.

            Estava bem-disposta quando chegou a casa e só então se lembrou que não soubera de Brandon durante todo o dia. Perguntou a si própria se ele teria ficado irritado por haver pressionado-o com a questão dos Globos de Ouro nessa manhã.

            Por volta das nove horas telefonou para ele no escritório e ele mostrou-se satisfeito ao ouvir a sua voz. Disse-lhe que trabalhara treze horas seguidas e que ia precisamente ligar-lhe.

            —  Comeu alguma coisa? —  perguntou ela, solícita, arrependida de ter se zangado com ele.

            Depois se lembrou do que a Dr.ª Green lhe dissera. Tinha o direito de esperar mais do que ele queria, ou conseguia, dar-lhe.

            —  Nos trazem sanduíches de vez em quando. Às vezes até nos esquecemos de  comer...

            —  Devia ir para casa e deitar-se em horas decentes  —   lembrou-lhe, desejando que ele fosse ao seu encontro. Mas desta vez não lhe perguntou nada, e ele não falou no assunto. Agradava-lhe voltar ao trabalho e ao convívio com os colegas.

            —  Te telefono amanhã antes de partir para São Francisco.

            —  Estarei na casa dos meus pais. Vou diretamente do escritório para lá.

            —  Nesse caso, talvez não telefone —   disse ele.

            Allegra teve vontade de gritar. Porque Brandon se  afastava de tudo de que ela gostava, principalmente da sua família? Estava tudo relacionado com a fobia do compromisso.

            —  Te telefono depois de chegar. Ligo para sua casa.

            —  Como quiser  —   respondeu ela com calma,  satisfeita por ter tido oportunidade de falar do assunto com Jane Green. As conversas de ambas tornavam sempre tudo mais simples, mais claro e menos dramático. Era tão simples, de fato... Ele não conseguia chegar até ela nem amá-la livre e abertamente. Alguma vez o conseguiria? Allegra queria casar com ele, se conseguisse divorciar-se e descontrair-se o suficiente para amá-la. Estava convencida de que ele a amava, à sua maneira, mas também era óbvio que se sentia fortemente limitado pelas recordações do que se passara com Joanie.

            —  Conseguiu resolver a questão dos Globos de Ouro? —  perguntou Brandon de repente, e Allegra admirou-se de ele falar nisso, de um assunto tão melindroso.

            —  Sim, está tudo bem  —   respondeu, sem se alongar mais, sem querer admitir perante ele que estava aborrecida.

            —  Vou com o Alan.

            —  Alan Carr?

            Brandon ficou escandalizado. Esperava que ela fosse sozinha, com os pais.

            —  Julguei que iria só com o seu irmão e os seus pais, ou coisa do gênero.

            Allegra riu da ingenuidade dele. A cerimônia dos Globos de Ouro era um dos acontecimentos mais sofisticados do ano e não um daqueles a que mais gostaria de ir com o irmão de vinte anos.

            Estou ficando um pouco velha para isso, sabe? Mas o Alan é uma boa companhia. Me  faz rir a noite inteira e diz grosserias acerca das grandes estrelas, mas todos o conhecem e o adoram.

            —  Nunca esperei que preenchesses o meu lugar com tanta facilidade   —  replicou ele, mostrando-se simultaneamente irritado e ciumento.

            Allegra riu. Talvez lhe fizesse bem.

            —  Eu preferia estar com você  do que com o Alan, em qualquer circunstância  —  afirmou, honestamente.

            —  Não se esqueça disso  —   disse ele, sorrindo. Mas que raio de cumprimento, Allie! Nunca pensei estar na mesma turma do Alan Carr!

            —  Bem, não deixes que isso te suba à cabeça —   retorquiu ela, provocadora.

            A conversa durou mais alguns minutos e depois desligaram, mas Brandon nunca se referiu à hipótese de passar a noite com ela. Allegra sentiu-se de novo deprimida quando se deitou e ficou pensando nisso. Tinha vinte e nove anos e um namorado que preferia dormir sozinho na sua própria cama do que estar com ela, pelo menos às vezes, senão quase sempre, e que não a acompanhava numa ocasião que era importante para ela, para estar com a ex-mulher e as duas filhas. Por muito que desse a volta ao assunto ou tentasse esquecer, sentia-se magoada. E sozinha. Brandon era muito reservado, à sua maneira, e, fossem quais fossem as necessidades dela, fazia sempre o que queria.

            ‘Você merece melhor.’ Nessa noite, ao deitar-se, a voz da Dr.ª Green ecoou na sua cabeça, mas não conseguiu lembrar-se se as palavras que ela dissera tinham sido mesmo estas ou se tratava apenas da idéia que ela transmitira. Porém, prestes a adormecer recordou o brilho intenso dos olhos castanhos da psicóloga, que a observava e reforçava a mensagem. ‘Eu mereço melhor’, repetiu em surdina... ‘Melhor... Mas o que quer isto dizer?’ E depois, de súbito, viu apenas Alan... Riu ... Mas estaria rindo dela? Ou de Brandon?

 

            A casa dos Steinberg em Bel Air era uma das mais bonitas da zona. Era grande e confortável, mas não palaciana. Fora a própria Blaire que a decorara há anos, quando haviam mudado, logo depois do nascimento de Scott. Blaire era exímia em restaurar objetos e  redecorar divisões para mantê-las frescas, limpas e modernas. Os filhos brincavam com ela porque a casa estava em constante remodelação.

            Mas Blaire gostava de dar-lhe um novo aspecto e usava muitas cores claras e alegres. O ambiente era acolhedor, elegante e informal. Era um local que todos gostavam de visitar. A vista do pátio e da sala era espetacular. E há vários meses que Blaire falava em substituir as paredes da cozinha por vidro. Porém, andava tão atarefada com o seu programa que ainda nem tivera tempo para isso.

            Allegra saiu do emprego e foi diretamente para lá. Como sempre, ao chegar sentiu-se envolvida pelo calor e pelo aconchego da família e da casa onde crescera. O seu quarto ainda estava como o deixara há onze anos, quando fora para a universidade. O papel da parede, os cortinados e a colcha da cama, de uma seda clara, cor de pêssego, tinham sido substituídos quando ela estava na Faculdade de Direito. Allegra passava lá uma noite de vez em quando, ou um fim-de-semana. Ir para casa e estar com a família era sempre divertido e relaxante. O seu quarto ficava no mesmo piso da suíte dos pais, que era constituída pelo quarto, por duas salas de vestir adoráveis e por dois escritórios que eles utilizavam quando tinham de trabalhar em casa, o que era muito freqüente. Nesse mesmo piso havia ainda dois quartos de hóspedes. Lá em cima, Sam e Scott tinham também as suas suítes e uma grande sala no meio. Partilhavam um televisor enorme, uma pequena tela de cinema, uma mesa de pool e uma fantástica aparelhagem sonora que o pai dera no Natal. Estar ali era o sonho de qualquer adolescente, e havia sempre pelo menos meia dúzia de amigas de Sam lá em casa, a falarem do colégio, dos planos para a faculdade e dos namorados.

            Sam encontrava-se na cozinha quando Allegra entrou, e era difícil não reparar como se tornara bonita no último ano. Sem mais nem menos, com dezessete anos e meio, o seu aspecto, que já era extraordinário, melhorara ainda mais. Tinha o toque de uma estrela, diziam os sócios do pai, e a mãe resmungava sempre quando os ouvia falar assim. A prioridade de Sam sempre foram os estudos. Blaire não se importava que ela tivesse uma curta carreira de modelo, mas não a entusiasmava a idéia de que a filha mais nova se tornasse atriz. Era uma carreira dura e, perante o que via diariamente, começava a pensar que seria preferível que Samantha se mantivesse à margem. No entanto, era difícil os pais conseguirem ser muito convincentes. Sam vivera sempre naquele meio e, de momento, só pensava em ser atriz. Tinha concorrido à UCLA, Northwestern, Yale e NYU pelo que tinham a oferecer no domínio do teatro, e, graças às suas excelentes notas, fora aceita em todas, mas, ao contrário de Allegra dez anos antes, não pretendia ir para o Leste. Queria ficar em Los Angeles e talvez até viver em casa. Decidira ir para a UCLA e já fora aceita.

            Na noite de sexta-feira, Sam estava comendo uma maçã quando Allegra entrou. Os cabelos louros caíam-lhe pelas costas como um lençol amarelo-dourado e os olhos eram grandes e verdes como os da irmã.

            —   Olá, menina. Como vai a vida?

            Satisfeita, Allegra deu-lhe um beijo e abraçou-a.

            —  Nada mal. Fiz uns desfiles esta semana para um fotógrafo inglês. Era um tipo agradável. Gosto dos estrangeiros; são simpáticos para mim. Em Novembro trabalhei com um francês que estava a caminho de Tóquio. Desta vez foi uma amostra para o Times de Los Angeles. E vi um trecho do novo filme de papai.

            Como todas as adolescentes, Sam tinha um discurso inconseqüente, mas Allegra compreendia-a.

            —  Como era o filme? —  perguntou, servindo-se de palitos de cenoura e cumprimentando Ellie com um abraço afetuoso.

            Ellie, que era cozinheira da família há vinte anos, expulsou-as da cozinha

            —  Era bom. É difícil dizer. Algumas cenas ainda não estavam no seu lugar... Mas era legal.

            E Sam também o era. Allegra sorriu ao ver a irmã subir as escadas aos saltos. Toda ela era pernas, braços e cabelo; lembrava um belo potro selvagem a saltar por cima de tudo. Parecia tão jovem e ao mesmo tempo tão espigada! Custava a acreditar como crescera depressa, mas a verdade é que era quase uma mulher. Há onze anos, quando Allegra saíra de casa para ir para Yale, Sam tinha apenas seis anos, e em certos aspectos todos continuavam a pensar nela como se fosse um bebê.

            —  É você? —  gritou a mãe do alto das escadas, espreitando por cima do corrimão.

            Blaire parecia pouco mais velha do que as filhas. O cabelo ruivo e sedoso estava penteado para cima, com duas canetas e um lápis espetados, e emoldurava-lhe o rosto. Vestia jeans e uma camisola preta de gola alta e calçava uns tênis pretos que comprara para Sam, mas que esta não usava. Parecia uma menina, e só quem se aproximasse é que via como era bela, como a idade passava por ela de uma forma suave e como a sua figura era esbelta como a das filhas.

            —  Como está, querida? —  perguntou, beijando Allegra e correndo para atender o telefone.

            Era Simon. Estava atrasado. Tivera um problema no escritório, mas chegaria em casa à hora do jantar.

            Fora a proximidade um do outro que os salvara das pressões de Hollywood ao longo dos anos, isso e o fato de terem uma relação maravilhosa. Blaire raramente o admitia, mas a sua vida era um caos quando o conhecera. Estava desesperada e, depois do casamento, foi como se tudo tivesse mudado para melhor. A sua carreira disparara e os bebês haviam chegado depressa e com facilidade, além de serem recebidos com muito amor. Blaire e Simon adoravam a casa, os filhos, as carreiras, e adoravam-se um ao outro. Não havia mais nada que desejassem, exceto, talvez, mais filhos. Ela tinha trinta e sete anos quando Sam nascera, o que já lhe pareceu demasiado tarde. E parou. Agora lamentava não ter tido pelo menos mais um, mas os três filhos davam-lhe uma grande alegria, apesar de uma ou outra briga com Samantha.

            Blaire sabia que ela era mimada, mas tinha bom coração. Era aplicada nos estudos e nunca fazia disparates. Se discutia com a mãe de vez em quando, isso era próprio da sua idade e da sua cultura.

            Assim que Blaire desligou o telefone, subiu as escadas, viu Allegra a espreitar pela janela do quarto e foi ao seu encontro.

            —  Pode voltar para casa quando quiser, bem sabe —  disse em voz baixa, observando a filha mais velha, que parecia surpreendentemente melancólica. Desejou perguntar se tinha acontecido alguma coisa, mas não se atreveu. Blaire ficava sempre preocupada quando via que Allegra não recebia apoio emocional suficiente de Brandon. Ele era tão independente em tudo e parecia tão inconsciente das necessidades e dos sentimentos da filha! Blaire fizera o possível por gostar dele nos últimos dois anos, mas não conseguira.

            —  Obrigada, mãe.

            A jovem sorriu-lhe e depois deitou na grande cama de colunas. Algumas vezes, sentia-se muito bem em estar ali, nem que fosse só por algumas horas, outras, desagradava-lhe a influência que a família ainda exercia nela. Sentia-se muito ligada a eles, e isso às vezes dava-lhe que pensar. Gostava tanto dos pais e dos irmãos e não cortara os laços que os uniam, como acontecia com outras mulheres da sua idade, mas porque deveria de fazê-lo? Brandon queixava-se que continuava demasiado presa a eles e que isso não era saudável nem normal, mas Allegra dava-se tão bem com a família, que a apoiava tanto! O que havia de fazer? Deixar de vê-los porque estava  chegando aos trinta anos?

            —  Onde está o Brandon? —  perguntou a mãe, tentando mostrar-se despreocupada. Notara que Allegra viera jantar sozinha, e tinha de admitir que se sentira aliviada, mas não disse nada, evidentemente. Ficou trabalhando até tarde?

              — Teve que ir a São Francisco ver as filhas — respondeu Allegra, num tom tão despreocupado como o da mãe, porém, ambas sabiam que aquilo era uma farsa para dar a impressão que nenhuma delas estava inquieta nem aborrecida.

            — Mas tenho a certeza que volta amanhã. Blaire sorriu, irritada por causa de Allegra; Brandon nunca estava presente quando ela precisava. Contudo, ficou admirada com a resposta da filha.

            — Por acaso, não. Tem de passar o fim-de-semana com elas. Começa um julgamento na segunda-feira e não sabe ao certo quando voltará a vê-las.

            — Ele não vai à cerimônia de entrega dos prêmios? Blaire ficou estupefata. Isto teria algum significado? Seria um dos primeiros sinais de ruptura? Tentou mostrar-se apenas admirada e não esperançosa.

            — Não, mas não tem importância mentiu Allegra, sem querer admitir como ficara transtornada. Sentia-se tão vulnerável ao admitir perante a mãe que tinha problemas com Brandon! Ficava tão frustrada quando se aborrecia com ele! A mãe nunca se zangava com o pai. A relação de ambos sempre fora perfeita. Vou com o Alan.

            — Que simpático da parte dele! — disse Blaire, lacônica, sentando-se numa cadeira confortável junto da cama.

            Allegra observava-a. Sabia que haveria mais e inevitáveis perguntas. Porque ele não se divorciava? Porque ia constantemente a São Francisco para ver a ex-mulher? A relação de ambos teria futuro? Já se apercebera de que ia fazer trinta anos?

            — Não fica aborrecida quando ele não te acompanha em ocasiões que são importantes para você?

            O olhar azul e límpido da mãe parecia querer trespassá-la até ao âmago da sua alma, e Allegra tentou impedi-la.

            — Às vezes, mas, como ele diz, somos os dois adultos, com bons empregos e muitas obrigações. Nem sempre podemos estar um com o outro, mas temos de compreender. Não vale a pena discutirmos por causa disso, mãe. Ele tem duas filhas noutra cidade e precisa de vê-las.

            — O que me parece é que não tem um grande sentido de oportunidade. Não é da mesma opinião?

            Ao ouvi-la, Allegra teve vontade de chorar. E a última coisa que desejaria nessa noite era defender Brandon. Estava aborrecida consigo mesma e não queria justificar o comportamento dele perante a mãe. Mas, no momento em que as duas mulheres trocavam um olhar, apareceu à porta um jovem alto, de cabelo preto.

            — De quem vocês estão falando mal? De Brandon, calculo, ou há alguma coisa de novo no horizonte?

            O irmão, Scott, acabara de chegar do aeroporto. Allegra levantou-se, com um sorriso enlevado. Ele avançou, sentou-se ao seu lado e abraçou-a.

            — Meu Deus, você está cada vez mais alto, exclamou ela com um gemido, enquanto a mãe os observava com um sorriso embevecido. Scott era muito parecido com o pai. Tinha um metro e oitenta e, felizmente, não devia crescer mais. Jogava basquetebol em Stanford. Que número calça agora? — gracejou Allegra. Os pés dela eram pequenos para a sua altura, mas Sam calçava trinta e oito e Scott quarenta e quatro, da última vez que lhe fizera a mesma pergunta.

            — Continuo a calçar quarenta e quatro, muito obrigado.

            Aproximou-se da mãe e abraçou-a. Em seguida, sentou-se no chão, conversando com as duas.

            — Onde está o pai?

            — Está a caminho, espero. Telefonou há um bocado. A Sam está lá em cima. E o jantar deve ficar pronto daqui a dez minutos.

            — Estou morrendo de fome! Scott tinha um aspecto formidável, e era óbvio que, pela maneira como o olhava, a mãe se orgulhava dele. Todos, aliás. Daria um excelente médico. Então qual é o palpite? — perguntou ele, virando-se para Blaire. Vai ganhar, como é habitual, ou vai envergonhar-nos?

            — Vou envergonhar-los, tenho a certeza. Blaire riu-se, tentando não pensar nos Globos de Ouro. Mesmo depois de tantos anos escrevendo e a produzindo programas de sucesso, as cerimônias de entrega dos prêmios deixavam-na sempre nervosa. Acho que seu pai é que nos vai encher de orgulho este ano disse, misteriosa, mas depois se calou.

            Daí a cinco minutos, Simon entrou na rampa da casa. Todos desceram as escadas  correndo e Blaire gritou a Sam que largasse o telefone e viesse jantar.

            Foi uma refeição animada. Os dois homens tentaram manter uma conversa séria e sobrepor-se à tagarelice das mulheres, feita de boatos, de novidades e de comentários acerca dos prêmios, e à catadupa de perguntas de Sam sobre Carmen como era ela, o que vestia, com quem saía. No meio daquilo tudo, Blaire recostou-se na cadeira com um sorrisinho e ficou observando-os, os seus três filhos e o marido, que amava há tantos anos. Tal como Scott, Simon era alto, moreno e elegante. Tinha sessenta e quatro anos e uma pequena madeixa de cabelos grisalhos nascia-lhe agora nas têmporas. As pequenas rugas à volta dos olhos eram sinais do tempo que só o tornavam ainda mais atraente. Era um homem de aspecto fabuloso e, só de olhar para ele, Blaire sentia um formigueiro no corpo. Porém, ultimamente, de vez em quando sentia-se triste, inquieta. Preocupava-a o fato de estar se modificando. Parecia que ele não mudava, que melhorava à medida que ia envelhecendo, mas Blaire sentia-se diferente; afligia-se mais do que antes, com o marido, com os filhos, com a carreira. Pensava que poderia tornar-se obsoleta e ficava apreensiva ao pensar que os seus níveis de audiência tinham baixado um pouco no último ano e que Samantha iria para a faculdade. E se ela fosse para o Leste ou resolvesse ficar a viver numa residência universitária, se escolhesse a UCLA? O que faria quando todos fossem embora? E se não precisassem mais dela?... Ou se perdesse o programa? O que seria dela quando tudo acabasse? E se a sua situação com Simon se alterasse? Mas sabia que isso era um disparate. De vez em quando, tentava falar do assunto com Simon. De repente, tinha tantos medos, acerca de si, da sua vida, do seu corpo... Fora apenas há um ou dois anos... Sabia que o seu aspecto mudara, por muito que os outros lhe dissessem o contrário. Estava envelhecendo às vezes era doloroso verificar que parecia ter-se modificado mais do que Simon. Era espantoso como o tempo passava tão depressa! Já tinha cinqüenta e quatro anos... Daí a pouco faria cinqüenta e cinco... E depois sessenta... Desejaria gritar  ‘Oh! Meu Deus, pára o relógio... Espera... Preciso de mais tempo!’ Parecia-lhe estranho que Simon não compreendesse isto. Talvez porque os homens tinham mais tempo, os seus hormônios não se alteravam de repente aos cinqüenta anos e o seu aspecto modificava-se de uma forma mais subtil. Além disso, podiam sempre optar por uma mulher com metade da idade deles e por mais meia dúzia de filhos, mesmo que não os desejassem, como Simon repetia sempre que Blaire lhe lembrava que ele ainda podia ter mais filhos e ela não. Ainda que o marido não estivesse interessado, tinha essa opção, o que tornava as coisas diferentes entre eles. Mas quando tentava dizer-lhe tudo isto, Simon limitava-se a responder que ela trabalhava de mais e estava sendo tola. ‘Pelo amor de Deus, Blaire, a última coisa que eu quero é mais filhos. Adoro os que temos, mas se a Sam não crescer depressa e não arranjar a sua própria casa um destes dias para poder ultrapassar a barreira do som, fico doido!’ Ele dizia isto, mas Blaire sabia que Simon também não queria que Sam saísse de casa: era o seu bebê. No entanto não percebia por que motivo era tudo muito mais fácil para ele, por que razão se preocupava menos com estas coisas, porque afligia tanto com as notas de Scott ou com o fato de Allegra ainda estar com Brandon, passados dois anos, e ele continuar casado com outra mulher Mas nenhum destes assuntos foi abordado durante o jantar. Conversaram acerca de outras coisas. Simon e Scott falaram de basquetebol, de Stanford e de uma possível viagem à China. E depois todos se referiram aos Globos de Ouro, e Scott brincou com Sam por causa do último rapaz que vira na companhia da irmã. Disse que era um bobão, e Samantha defendeu-o acaloradamente, embora garantisse que não gostava dele. Blaire anunciou que os níveis de audiência tinham subido outra vez, depois de uma breve queda no mês anterior, e que tencionava remodelar o jardim e a cozinha no Verão seguinte.

            — Isso é alguma novidade? — perguntou Simon para arreliá-la, trocando um olhar afetuoso com a mulher. Está sempre arrancando qualquer coisa e instalando outra! E, para todos os efeitos, eu gosto do jardim tal como está. Por que mudá-lo?

            — Descobri um jardineiro inglês fabuloso, e ele diz que consegue mudar tudo em dois meses. A cozinha é outra história... — respondeu Blaire, sorrindo. Espero que todos vocês gostem de surpresas. Entre Maio e Setembro passaremos a comer sempre na cozinha.

            Seguiu-se um protesto geral e Simon lançou um olhar cúmplice ao filho.

            — Creio que é precisamente na altura da nossa ida à China.

            — Vocês não vão a lado nenhum! — Blaire lançou um olhar penetrante ao marido. Este ano passamos o Verão inteiro furiosa, e eu não vou ficar sozinha outra vez!

            Todos os anos pai e filho faziam uma viagem juntos, em geral a qualquer lugar onde Blaire não pudesse ir ter com eles mesmo que tentasse, como Samoa ou Botswana.

            — Podem ir passar o fim-de-semana em Acapulco... —  Scott riu deles, e as brincadeiras, as altercações e as trocas de brincadeiras continuaram até às nove horas. Por fim, Allegra levantou-se e disse que tinha de ir para casa. Ainda precisava fazer serão.

            — Você trabalha demais  — observou a mãe em tom de censura.

            Allegra sorriu.

            — E você não, mamãe? — Blaire trabalhava mais do que todas as pessoas que ela conhecia e Allegra respeitava-a muito por isso. Vejo-os amanhã à noite na entrega dos  prêmios  — disse quando todos se levantaram da mesa.

            — Quer vir conosco? — perguntou a mãe. Allegra balançou a cabeça.

            — O Alan atrasa-se sempre e encontra um grupo de amigos para onde quer que vamos. Talvez ele queira ir a algum lado depois da festa. É preferível encontrarmos-nos lá, ou os deixaremos  doidos!

            — Vai com o Alan e não com o Brandon? —  perguntou Samantha, admirada.

            A irmã mais velha fez um sinal afirmativo.

            — Por quê?

            — Ele teve que ir a São Francisco ver as filhas  — respondeu Allegra com naturalidade. Era como se já tivesse explicado o mesmo um milhão de vezes, e estava ficando cansada.

            — Tem  certeza que ele não está dormindo com a ex-mulher? — inquiriu Sam, de chofre.

            Por instantes, Allegra ficou sem fôlego. Depois foi rápida na resposta, furiosa com a impertinência da irmã mais nova.

            — Esse comentário é maldoso e totalmente desnecessário. Devia ter cuidado com o que diz, Sam  — replicou, irritada.

—        Bem, não fique paranóica por causa disso  —  retorquiu Sam, toda eriçada. Talvez eu tenha razão, talvez tenha sido por isso que você ficou toda irritada com o que eu disse.

            — Pare com isso, Sam! — exclamou Scott, vendo como Allegra ficara transtornada. A vida sexual dele não te diz respeito.

            — Obrigada  — segredou-lhe Allegra mais tarde, quando lhe deu um beijo de boa-noite, mas, por outro lado, perguntou a si própria por que motivo o comentário de Sam a incomodara tanto. Seria precisamente o que ela pensava? O que receava? Claro que não. Joanie era dependente, dengosa, e Brandon dizia-lhe muitas vezes que a mulher deixara de o atrair. O problema não residia aí, mas era muito doloroso ser obrigada a defendê-lo. Era óbvio que toda a família pensava que ele devia estar ali, e Allegra também. E, no seu íntimo, sentia-se furiosa por ele não estar presente.

            Nessa noite, durante o caminho, não pensou noutra coisa, e, quando chegou em casa, estava de novo zangada com ele. Sentou-se e ficou pensando no assunto, fingindo que olhava para o trabalho. Por fim, resolveu telefonar para ele. Sabia de cor o número de telefone do hotel onde Brandon ficava e digitou-o com os dedos trêmulos. Talvez conseguisse convencê-lo a voltar, mas depois teria de explicar a Alan que ele não poderia levá-la, apesar de a amizade de ambos permitir que lhe dissesse fosse o que fosse. Se Alan ficasse irritado com ela, não deixaria de lhe dizer.

            Ligaram para o quarto de Brandon e Allegra ficou esperando. Eram dez da noite, mas ele não atendeu. Pediu que tentassem de novo, caso tivessem se enganado no número, mas era óbvio que ele não se encontrava lá. Talvez ainda estivesse em casa, falando com Joanie acerca do divórcio. Às vezes, depois de as filhas irem para a cama, os dois ficavam discutindo durante horas. Ao pensar nisso, vieram-lhe à cabeça as palavras de Sam. E Allegra enfureceu-se outra vez, com ele, por estar ausente, e com a irmã, por ter dito tal coisa. Não queria passar a vida a aborrecer-se por causa de Brandon nem sentindo-se insegura devido às insinuações de uma adolescente. Já lhe bastava o resto! Assim que desligou, o telefone começou a tocar e Allegra sorriu. Ficara histérica sem motivo. Talvez fosse Brandon, que acabara de regressar ao hotel. Mas não. Era Carmen, e estava chorando.

            — O que está acontecendo?

            — Acabo de receber uma ameaça de morte —! Carmen soluçava e dizia que queria voltar para Óregon, mas a sua carreira não era das que desapareciam com facilidade. Tinha contratos a cumprir e o mundo solicitava Carmen Connors.

            Allegra franziu a sobrancelha.

            — Como foi isso? — Tente acalmar-se e conte-me.

            — Chegou pelo correio. Hoje me esqueci de abrir a correspondência. Assim que cheguei a casa, depois de jantar, abri-a, e lá estava aquilo. Diz... Carmen debulhou-se em lágrimas outra vez. Diz que sou uma cabra e que não mereço viver nem mais uma hora. Afirma que sabe que eu ando enganando-o e que sou uma prostituta, e jura que vai me pegar.

            — Oh céus! — pensou Allegra. Esses é deveriam de temer. Os que imaginavam que tinham uma relação, ou uma espécie de direito, e que se sentiam enganados. Esses é que eram verdadeiramente perigosos, mas não queria assustar Carmen ainda mais.

            — Não parece ser ninguém que você conhece, não é? Alguém com quem tenha saído e que possa estar zangado porque não quis sair com ele outra vez?

            Pelo menos valia a pena fazer a pergunta, embora Allegra soubesse como Carmen era recatada. Apesar das notícias dos tablóides, a jovem atriz vivia como a Virgem Maria.

            — Há oito meses que não saio com ninguém, e os dois últimos tipos com quem saí eram casados —  respondeu ela, desolada.

            — É o que eu calculava. Acalme-se. Ligue o alarme  — disse Allegra tranquilamente, como se estivesse falando com uma criança.

            — Já liguei.

            — Fez bem. Chame o segurança do portão e fale sobre carta. Eu vou telefonar para polícia e FBI, e amanhã conversamos com eles. Não vale a pena fazer nada esta noite, mas, de qualquer forma, vou dar-lhes conhecimento do que se passa. O LAPD pode mandar patrulhar a área da sua residência de meia em meia hora. Porque não leva um dos cães com você para cama esta noite, para se sentir melhor?

            — Não posso... Tenho medo deles —  respondeu Carmen com nervosismo, e Allegra riu, o que aliviou a tensão.

            — É esse o objetivo. Eles assustariam qualquer pessoa. Pelo menos deixe-os à solta na propriedade. Sabe, talvez não passe tudo de fogo de palha, mas não custa nada ter cuidado.

            — Porque é que eles fazem estas coisas? — choramingou Carmen.

            Já recebera ameaças antes e ficara assustada, mas nunca alguém tentara verdadeiramente fazer-lhe mal. Era apenas conversa, e todas as pessoas célebres que Allegra conhecia tinham sido vítimas de ameaças uma vez ou outra. Passava depressa, mas não era agradável. Os pais também já as tinham recebido, e houvera uma ameaça de rapto contra Sam quando ela tinha onze anos. A mãe contratara um guarda-costas para acompanhá-la durante seis meses e ele fizera todos perderem a paciência, vendo televisão de noite e de dia e a entornar café nas carpetes. No entanto, se fosse obrigada a isso, Allegra contrataria um para vigiar Carmen. Por sinal, tencionava arranjar-lhe um para a cerimônia dos Globos de Ouro. Havia dois de que gostava particularmente. Recorria aos seus serviços com freqüência, e um deles era uma mulher.

            — É gente estúpida, Carmen. Querem atenção e julgam que, se tentarem aproximar-se de si, conseguirão um pouco de notoriedade. É um método doentio, mas faça o possível por não se preocupar demasiado. Vou tentar arranjar-lhe duas pessoas para a noite de amanhã, uma mulher e um homem, como se você fosse com outro casal declarou Allegra para sossegá-la. Já lidara com muitas situações deste tipo e conseguia sempre apaziguar os seus clientes.

            — Talvez eu nem vá... — disse Carmen, nervosa. E se alguém me der um tiro durante a cerimônia?

            Desatou a chorar outra vez e a falar em regressar a Portland.

            — Ninguém vai dar-lhe um tiro na cerimônia dos Globos! Pode vir conosco. Quem é o seu acompanhante?

            — Um tipo chamado Michael Guiness. Foi o estúdio que escolheu. Nunca o vi.

            Carmen parecia desanimada, mas Allegra apressou-se a encorajá-la.

            — Eu o conheço. É um bom companheiro.

            Michael era homossexual, mas muito apresentável, e um dos jovens atores que iam e vinham e que talvez pensassem que seria benéfico para a sua imagem serem vistos na companhia de Carmen Connors. A homossexualidade de Michael Guiness era um segredo bem guardado.

            — Eu trato de tudo. Acalme-se e tente dormir. Allegra sabia que, às vezes, Carmen passava a noite sentada vendo filmes na televisão porque se sentia assustada ou só.

            — Com quem é que você vai? —  perguntou Carmen casualmente, partindo do princípio de que seria com Brandon. Vira-o uma ou duas vezes e considerava-o respeitável, mas enfadonho. Ficou admirada com a resposta de Allegra.

            — Vou com um antigo colega de escola,  Alan Carr  — respondeu Allegra com prontidão. Estava se preparando mentalmente para telefonar para a polícia e FBI.

            — Oh, meu Deus! — exclamou Carmen, abismada. O Alan Carr? Está brincando comigo? Você estudou com ele?

            — Exatamente  — confirmou Allegra, divertida com a reação de Carmen. Era muito freqüente isso acontecer.

            — Vi todos os filmes dele!

            — Eu também, e deixe-me que dizer-lhe que alguns não prestam para nada. Realmente, alguns eram uma miséria, e ela sabia-o. Estou sempre dizendo que ele precisa de um novo agente, mas o Alan é muito teimoso.

            — Oh, meu Deus, ele é uma maravilha!

            — Melhor do que isso, é boa pessoa. Vai gostar dele. — Allegra perguntou a si própria se Alan se interessaria por Carmen. Talvez simpatizassem um com o outro, o que seria divertido para todos. Depois vamos tomar uma bebida, e levamos você  e Michael, se quiser.

            — Eu adoraria...

            Quando desligaram, Carmen sentia-se muito melhor. Allegra sentou-se a olhar pela janela e pensando como a vida era estranha. O maior símbolo sexual da América não saía com um homem há oito meses e recebia ameaças de morte de loucos que julgavam ser donos dela. Isto estava profundamente errado, no mínimo. Por outro lado, Carmen ficara tão impressionada por Allegra conhecer Alan Carr... De fato, era tudo um pouco confuso.

            Quando acabou de falar com Carmen, olhou para o relógio. Tinham estado ao telefone durante mais de uma hora. Era quase meia-noite. Tinha receio de ligar outra vez a Brandon àquela hora, mas resolveu fazê-lo. Talvez ele já tivesse tentado ligar quando ela estava ao telefone. No entanto, quando voltou a ligar para o hotel, Brandon ainda não havia regressado, por isso deixou-lhe outra mensagem, desta vez a pedindo que lhe telefonasse.

            Allegra foi para a cama à uma hora. Ainda não tivera notícias de Brandon, mas não quis voltar a tentar. Começava a sentir-se ridícula e fazia o possível por não pensar nas palavras de Sam. Não sabia o que Brandon andava fazendo, embora tivesse a certeza de que ele não dormia com Joanie. Porém, não imaginava onde é que poderia estar àquela hora. São Francisco era uma cidadezinha sonolenta e, pelo que Allegra vira, as pessoas recolhiam a casa as nove ou dez da noite. Com certeza não tinha ido a um clube noturno. Talvez estivesse discutindo com a ex-mulher por causa do apartamento nos arredores de Tahoe. Sam não tinha o direito de dizer aquelas coisas a respeito dele. Ficava furiosa só de pensar nisso. Porque é que todos eram tão desagradáveis para com Brandon? E porque é que se via sempre obrigada a defendê-lo e a responder às perguntas dos outros sobre o seu comportamento?

            O telefone não voltou a tocar, e por fim Allegra adormeceu, às duas da madrugada. Depois tocou as quatro, e ela levantou-se de um salto, com o coração em alvoroço, julgando que era Brandon. Mas era Carmen. Ouvira um barulho e ficara aterrada. Falava em surdina e estava tão assustada que as suas palavras mal faziam sentido. Allegra levou quase uma hora para acalmá-la outra vez e perguntou a si própria se deveria ir ao seu encontro. Contudo, Carmen insistiu que já estava bem. Mostrou-se envergonhada por serem cinco da manhã, mas Allegra assegurou-lhe que não tinha importância.

            — Vá dormir um pouco, senão fica com um aspecto horrível para a festa desta noite, e, como é provável que ganhe, tem de se apresentar bem. Agora volte para a cama disse Allegra, como se fosse uma irmã mais velha.

            — Está bem.

            Carmen riu, sentindo-se como se fosse uma criança. Cinco minutos depois de ela desligar, Allegra adormeceu. Estava extenuada. Só se mexeu às oito da manhã, quando Brandon telefonou, acordando-a.

            — Estava levantada? —  perguntou ele.

            Allegra fingiu que já tinha acordado e gemeu ao olhar para o relógio. Dormira menos de cinco horas e ressentia-se disso.

            — Levantei-me várias vezes aliás, disse ela, recuperando a compostura. A Carmen teve um pequeno problema.

            — Oh, pelo amor de Deus! Não sei por que continua a aturar essa situação absurda! Devia ter um serviço de atendimento, ou então desligar o telefone.

            Não estava na natureza de Allegra fazer tal coisa, que, além disso, também não era compatível com a sua profissão, mas Brandon nunca a entenderia.

            — Não faz mal, já estou habituada. Ela recebeu uma ameaça de morte. Ao olhar para o relógio outra vez, viu que eram oito e cinco e lembrou-se que tinha de telefonar para a polícia e para o FBI a participar o sucedido. Ia ter uma manhã atarefada. Onde esteve ontem à noite?

            Tentou não falar num tom de acusação e não pensar nas palavras de aviso de Sam.

            — Sai com uns amigos. O que aconteceu? Porque me telefonou duas vezes?

            — Por nada  — respondeu ela, sentindo-se logo na defensiva —  Só queria te dar as boa-noite. Julguei que tinha ido ver as meninas ontem à noite.

            Se não fora, porque partira para São Francisco na sexta-feira?

            — E era para ir, mas o avião chegou atrasado e a Joanie disse que elas tinham tido um dia cansativo, por isso telefonei a dois colegas com quem trabalhei. Andamos pelos bares e estivemos conversando. Às vezes, Allegra esquecia-se de que ele vivera naquela cidade. Pensei que tivesse acontecido alguma coisa quando cheguei e soube que havia telefonado, mas calculei que já estivesse dormindo a essa hora. Afinal, acho que podia ter feito como os seus clientes e ligar a qualquer hora do dia ou da noite..

            Brandon não concordava com os telefonemas que ela recebia de madrugada, mas a maioria dos clientes de Allegra só o faziam quando eram obrigados a isso.

            — Parece que você tem se divertido —  observou Allegra, tentando não se mostrar irritada ou desapontada, como na realidade estava.

            — É verdade. Às vezes, é divertido voltar a esta cidade. Ontem à noite, foi interessante. Já não ia àqueles bares há séculos! A situação não a atraía, mas talvez fosse divertido para ele encontrar-se com os amigos. Brandon trabalhava muito e era raro fazer uma coisa deste gênero. Vou buscar minhas filhas às nove. Prometi levá-las a Sausalito e talvez a Stinson. É pena que não possas estar aqui  — disse ele, mostrando-se de novo mais terno.

            — Esta manhã tenho que ir à polícia por causa da Carmen, e talvez ao FBI, porque a carta chegou pelo correio, e à noite vou à festa dos Globos de Ouro.

            — Deve ser divertido —  disse ele, mostrando-se totalmente desinteressado, como se nunca tivesse feito parte dos seus planos ir lá. Como correu o jantar ontem à noite?

            — Bem. O costume: os Steinberg no seu melhor e no seu pior. O Scott veio a casa e foi agradável. A Sam está muito desprendida. Acho que é da idade, mas não posso dizer que me agrade.

            — Isso é porque a sua mãe a deixa fazer tudo o que ela quer. Na minha opinião, acho que não é a melhor maneira de tratar uma menina mimada, e ela está ficando demasiado crescida para isso. Admira-me que o seu pai não se imponha!

            Na opinião de Allegra, Brandon estava sendo um pouco ríspido, e, apesar de não discordar totalmente dele, estava admirada por se mostrar tão crítico para com os seus irmãos. Ela tinha sempre o cuidado de não dizer nada desagradável acerca das filhas dele.

            — O meu pai adora-a. E, além disso, a Sam tem trabalhado mais como modelo nestes últimos tempos, talvez seja por isso que está tão cheia de si  e julga que pode fazer tudo o que deseja.

            Allegra continuava pensando nos comentários de Sam na noite anterior, e agora estava duplamente ofendida com a irmã por ela a ter preocupado sem motivo. Era curioso que as palavras de Sam a tivessem afetado, mas Allegra sabia que isso se devia ao fato de se sentir triste por Brandon ter ido passar o fim-de-semana a São Francisco.

            — Um destes dias, ainda arranja problemas por causa dos ares de modelos. Algum fotógrafo se mete com ela, ou lhe oferece drogas... Acho que tudo isso é muito pouco saudável para a Sam. Estou admirado por os seus pais a autorizarem a fazer tal coisa.

            Para Brandon, tudo se devia aos malefícios do mundo do espetáculo, em todas as suas formas e variantes. Mostrava claramente o seu desacordo e dizia muitas vezes que nunca permitiria que as filhas fossem modelos, atrizes ou fizessem qualquer coisa que as expusesse ao olhar do público. Sempre fizera Allegra sentir que tais atividades eram desagradáveis e pouco interessantes, apesar de os seus pais terem saído muitíssimo bem e ela se orgulhar disso.

            — Talvez tenha razão —  respondeu diplomaticamente, perguntando a si própria se eles seriam demasiado diferentes ou se essa idéia se deveria ao fato de ele estar longe. A verdade é que sentia que Brandon a abandonara.

            Às vezes era difícil afirmar, mesmo passados dois anos, que fizera a escolha correta. Quase sempre pensava que Brandon era o homem certo para ela, mas de vez em quando, como agora, sentia que eram dois estranhos.

            — Tenho de ir buscar as meninas —  disse ele. Te telefono logo à noite acrescentou, para acalmá-la.

            — Estarei no Globo de Ouro... — ela lhe lembrou  com doçura.

            — É verdade, tinha esquecido —  disse ele, e o modo como falou fez com que Allegra tivesse vontade de bater nele. Te telefono amanhã de manhã.

            — Obrigada. Depois, odiando-se por isso, acrescentou: Tenho pena que não possa ir...

            — Vai e divirta-se, de qualquer modo. O Alan Carr é melhor companhia do que eu para essas coisas. Pelo menos, sabe com quem fala. Eu, não. Vê lá como ele se porta, e diz-lhe que é a minha garota, Allie. Nada de graças... —  advertiu Brandon.

            Allegra sorriu, de novo enternecida. Ele falava a sério e amava-a, embora não se apercebesse da importância que as cerimônias de entrega de prêmios tinham para ela. Elas eram a sua vida, eram importantes para a sua família e para a sua profissão.

            — Vou sentir a sua falta. E, só para que saiba, preferia ir com você do que com o Alan...

            — Farei o possível por ir no próximo ano, querida, prometo. —  Brandon parecia sincero.

            — Está bem —  disse Allegra, desejando que ele estivesse na cama, a seu lado.

            Pelo menos, era um lugar em que nunca sentia as diferenças, apenas as semelhanças que havia entre eles. Sexualmente davam-se muito bem. E talvez o resto também melhorasse. Os divórcios nunca eram fáceis.

            —Divirta-se com as meninas, querido, e diga que tenho saudades delas.

            — Prometo. Amanhã te telefono. Vou estar atento ao noticiário desta noite.

            Allegra riu. Seria a última pessoa a ser vista. Não fora nomeada, nem era apresentadora; era apenas uma anônima insignificante que não interessava às câmaras, a menos que a filmassem, se o pai ou a mãe ganhassem, ou Carmen. Mas eles guardavam-se para os vencedores. A única coisa que poderia atrair as atenções para ela seria o fato de acompanhar Alan Carr, mas, sendo relativamente desconhecida, não acreditava que tal acontecesse. Duvidava que Brandon a visse.

            Desligaram, e Allegra sentiu-se melhor depois de falar com ele. Às vezes Brandon não compreendia o seu meio e era lento em organizar a sua vida, mas era um grande tipo, e era sempre obrigada a explicar a todas as pessoas que o amava. Era lamentável que não vissem as suas virtudes, como ela via.

            Levantou-se e ligou a máquina do café. Em seguida, telefonou à polícia, ao FBI e à empresa de segurança que guardava a residência de Carmen. Pouco depois encontrou-se com eles em casa da atriz e ficou satisfeita por verificar que estava sendo feito tudo para protegê-la. Tinha contatado os seus dois guarda-costas preferidos, Bill Frank e Gayle Watels, que haviam saído da equipe de operações especiais do LAPD. Felizmente estavam livres e aceitaram trabalhar com Carmen durante algum tempo. Iriam com ela à cerimônia dessa noite, e Carmen ficara aliviada por se saber tão bem protegida. Allegra mandara Gayle à casa Fred Hayman para fazerem um vestido, o que não era tarefa fácil, porque teriam de esconder o coldre e todas as suas armas, mas as senhoras da Fred Hayman estavam habituadas a tarefas invulgares.

            Allegra conseguiu chegar a casa as quatro e quinze, enquanto o cabeleireiro e a esteticista se ocupavam de Carmen. Mal teve tempo de tomar ducha, pentear-se e enfiar-se no vestido preto comprido e colado ao corpo que comprara para a ocasião. Era discreto, mas de muito bom corte, e atraía as atenções. Era uma criação de Ferre e tinha um fabuloso casaco branco de organdi. Depois pôs os brincos de pérolas e diamantes que o pai lhe dera quando completara vinte e um anos. O cabelo louro e sedoso, apanhado no alto da cabeça, caía-lhe numa cascata de rolos e caracóis e dava-lhe um ar sensual. Alan Carr chegou, estonteante no seu novo smoking Armani. Usava uma camisa de seda branca de colarinho estreito e sem gravata e penteara o cabelo preto para trás. Estava ainda melhor do que nas suas seis últimas fotografias.

            — Uau! —  exclamou Alan, antes que ela pudesse dizer o mesmo.

            O vestido de Allegra tinha uma abertura que deixava ver as meias de seda preta e calçava umas sandálias de cetim preto, de salto alto.

            — Acha que posso me portar bem com você assim? — perguntou, fingindo-se incrédulo.

            Allegra riu e beijou-o. Ele sentiu o seu perfume no pescoço e no cabelo e, tal como noutras ocasiões, perguntou a si próprio porque nunca tentara reacender a velha chama nos últimos anos. Começava pensar que podia surgir uma nova oportunidade para ambos, e Brandon Edwards que fosse para o inferno!

            —  Obrigada, senhor. Também está muito elegante —  declarou Allegra, admirando-o com um afeto genuíno. Está mesmo com bom aspecto!

            —  Não devia ficar tão admirada —   disse ele, rindo —  Não é delicado da tua parte.      

            —  Às vezes esqueço-me de como é bonito. Penso em você mais ou menos como penso no Scott.. Um menino grande, percebe? De jeans esfarrapados e tênis sujos.

 

            — Está deixando-me destroçado... Fique quieta! Adoro o seu aspecto  —  disse ele com admiração, baixando subitamente a voz e com uma expressão no olhar que ela não via desde os tempos em que tinham catorze anos e que pensava que não voltaria a ver.

            Allegra fingiu não se importar com isso

            —  Vamos? —  perguntou Alan, enquanto ela pegava numa pequena bolsa preta de cerimônia com um fecho de pérola e cristal de rocha.

            Tudo na sua aparência era perfeito e formavam um par muito elegante. Allegra sabia que estar com ele equivalia a serem constantemente perseguidos pela imprensa. Queriam saber quem ela era e se haviam ou não de desencadear uma onda de novos boatos acerca da vida sentimental de Alan Carr.

            —  Prometi à Carmen que íamos buscá-la —  explicou Allegra, quando saíram e se dirigiram para a limusine que os aguardava. Era grande e a jovem não tinha dúvidas de que havia espaço para todos. Fora Alan que a alugara, com o motorista, numa base anual. Fazia parte do seu contrato atual.

            —  Importa-se?

            — Acho que sim. Não fui nomeado, por isso não tenho pressa de chegar. Ouça, talvez nós pudéssemos ir para outro lado qualquer. Está demasiado bonita para perder o seu tempo com aqueles estúpidos e os idiotas dos tablóides!

            —  Comporte-se... —   disse ela em tom de admoestação.

            Alan beijou-a no pescoço, mas apenas por brincadeira.

            —  Vê como eu me comporto bem. Nunca despenteio uma mulher. Fui treinado por especialistas.

            Com um gesto elegante, ajudou-a a entrar no automóvel e Allegra deu-lhe um sorriso quando ele entrou atrás dela.

            —  Bem sabe que metade das mulheres americanas daria o braço direito, e o esquerdo, para estarem sentadas aqui ao seu lado. Sou mesmo uma garota de sorte, não sou?

            Sorriu e ele deu uma gargalhada, fingindo-se envergonhado.

            —  Não seja tola, Al. Eu é que tenho sorte. Está deslumbrante esta noite!

            —  Espere até ver Carmen. Está absolutamente de morrer!

            —  Ela não te chega aos calcanhares, minha amiga —   retorquiu Alan com ar galante.

            Porém, quando chegaram a casa de Carmen e entraram na rampa ficaram estupefatos. A atriz estava ladeada pelos guarda-costas que Allegra contratara. Bill parecia uma parede enfiada num smoking e Gayle tinha um ar afetado no seu belo vestido de lantejoulas cor de bronze, que lhe realçava a figura e o cabelo acobreado. O casaco, combinado, disfarçava completamente as duas armas que trazia, uma Walker-PPK.380 e uma Derringer. 38 Special. Foi Carmen que lhes fez perder o fôlego e que deixou Alan literalmente sem fala. Usava um vestido de seda vermelha, de gola alta e mangas compridas, que realçava cada curva do seu corpo perfeito. Tal como o de Allegra, tinha uma grande abertura, que revelava as suas pernas de deusa. Quando se virava, quase parecia que o vestido não tinha costas, e via-se a pele cremosa até às nádegas, bem torneadas. O cabelo, louro-prateado, estava preso atrás num elegante coque. Carmen tinha não só um aspecto terrivelmente sensual, como um toque de distinção. Parecia uma versão muito sexy e jovem de Grace Kelly.

            —  Uau! —  exclamou Allegra, falando pelos dois. Está fabulosa!

            —  Gosta? —  Carmen parecia uma menina rindo para eles, e ficou mortificada ao sentir que corara quando Allegra a apresentou a Alan. Tenho o maior prazer em conhecê-lo  —  disse ela, quase engasgando com as palavras.

            Alan abanou a cabeça e garantiu-lhe que também sempre quisera conhecê-la. Acrescentou que Allegra só fizera referências agradáveis a seu respeito, e Carmen sorriu para a advogada com um misto de gratidão e de prazer.

            —  Acho que ela lhe mentiu. Às vezes sou muito chata —  retorquiu, e todos soltaram uma gargalhada.

            É a natureza da profissão  —  desculpou-se Alan.

            Os dois guarda-costas instalaram-se em frente deles, de cada lado do televisor e do bar. Ao arrancarem, Allegra ligou-o, para ver quem ia chegando à cerimônia e, pouco depois, avistou os pais. A mãe estaca com um vestido de veludo verde-escuro e estava muito bela quando os Steinberg sorriram para os repórteres. O locutor explicava quem eles eram aos telespectadores que se encontravam em casa no momento exato em que a limusine parou junto do apartamento de Michael Guiness. O jovem estava à espera deles e saiu a correndo, cumprimentou a todos e saltou para o banco da frente, ao lado do motorista. Alan e Michael já tinham trabalhado juntos num filme, e Allegra apresentou-o a Carmen e aos guarda-costas quando partiram para o Hilton.

            —  Nunca fui à cerimônia do Globo de Ouro  —  disse Michael, entusiasmado por ir com eles.

            Era pouco mais velho do que Carmen, mas menos sofisticado e muito menos famoso do que ela, e, por instantes, Allegra pensou que, de certo modo, Carmen se aliava mais como acompanhante de Alan, porém, sabia perfeitamente que isso seria uma história fantástica para os tablóides.

            Ao aproximarem-se do Hilton, puseram-se na longa fila de limusines que esperavam despejar os seus passageiros reluzentes, como pedacinhos de isco atirados à água para excitar os tubarões que patrulhavam os oceanos. Centenas de repórteres empunhavam máquinas fotográficas e estendiam microfones e gravadores, tentando captar um momento, um olhar, uma palavra, junto de uma pessoa importante E lá dentro a multidão era ainda mais compacta. Havia pequenas áreas destinadas aos jornalistas e aos operadores de câmara para entrevistarem os nomeados ou qualquer ator sedento de publicidade que lhes concedesse uns minutos. Além deles, viam-se filas de fãs, encostados às paredes, de tal modo que o enorme hall estava reduzido a um minúsculo corredor através do qual as pessoas entravam no grande salão de baile, onde se encontravam todas as estrelas de televisão e de cinema conhecidas, de maior ou menor grandeza. Era um grupo extraordinário e mesmo entre os fãs que estavam lá fora, havia um ambiente de grande expectativa. Assim que cada limusine se aproximava e surgia um novo rosto, gritavam o seu nome ou aplaudiam, e dezenas de repórteres precipitavam-se, à luz de centenas de flashes das máquinas fotográficas.

            Carmen Connors ficou apavorada só de ver aquilo. Fora ao Globo de Ouro no ano anterior, mas, como agora era uma das nomeadas, sabia que a imprensa estava muito mais ansiosa por devorá-la. E como recebera uma ameaça de morte na noite anterior, sentia-se ainda mais nervosa com a atenção, a multidão e as câmaras.

            — Você está bem? —  perguntou-lhe Allegra, num tom maternal.

            — Sim  —  respondeu ela, quase num murmúrio.

            —  Deixe-nos sair primeiro, a mim e ao Bill, depois o Michael e a seguir você. A princípio, ficaremos entre você e as câmaras —   explicou Gayle tranquilamente, transmitindo uma sensação de proteção só pela maneira como pronunciou estas palavras.

            —  Nós formaremos a retaguarda  —   acrescentou Allegra para sossegá-la, mas sabendo que as atenções se concentrariam extremamente em Alan. Este fato poderia desviar um pouco o interesse suscitado pela presença de Carmen, mas também atrairia mais repórteres sobre eles. Não era possível evitar a imprensa naquele local. Havia centenas de pessoas à espera deles, talvez um milhar. Nós ficamos aqui, Carmen. Você tem de entrar na sala. Vai ver que se sente bem.

            Allegra lembrou-se que estavam lá muitas outras estrelas.

            —  Vai habituar-se a isto —  disse Alan, tocando ao de leve no braço de Carmen.

            Havia nela uma ternura que lhe agradava e uma vulnerabilidade que não via há anos, mas que o atraía bastante. A maioria das atrizes que conhecia eram muito frias.

            —  Não creio que alguma vez me habitue —  respondeu Carmen em voz baixa, fitando-o com os seus grandes olhos azuis.

            Alan teve vontade de abraçá-la, mas sabia que a chocaria com o seu gesto.

            —  Vai sentir-se bem —   reiterou ele, calmo. Não lhe acontecerá mal nenhum. Eu estou constantemente recebendo ameaças desse gênero. São doidos! Nunca cumprem o que prometem!

            Alan disse isto com uma confiança total, porém não fora exatamente o mesmo que o FBI afirmara essa tarde. Segundo eles, a maior parte das ameaças concretizadas, em geral, eram antecedidas de qualquer tipo de explicação, como aquela que Carmen recebera pelo correio: a convicção de que andava enganando o homem que lhe enviara a mensagem e que lhe devia alguma coisa, embora ela tivesse a certeza de que nem sequer o conhecia. Tal como Alan, também os agentes pensavam que a maioria das ameaças eram apenas o grito débil de pessoas confusas e incapazes, mas havia sempre uma que fazia o que prometia e causava uma verdadeira desgraça. A polícia e o FBI haviam recomendado que tivesse cuidado durante uns tempos e que tentasse evitar aparições públicas ou esperadas e locais muito concorridos. Mostrar-se nessa noite era demasiado arriscado, mas, por outro lado, ir ao Globo de Ouro fazia parte da sua profissão, e Carmen sabia-o.

            —  Eu estou aqui  —  disse ele baixinho, agarrando-lhe no braço e ajudando-a a sair ao encontro de Bill e de Gayle, os seus guarda-costas, e de Michael, que a esperava na calçada. Alan não tirou os olhos dela, nem Allegra.

            O efeito foi quase instantâneo quando uma centena de repórteres se precipitou para Carmen e a multidão começou a chamá-la com vozes estridentes. Allegra nunca vira uma coisa assim. Era como se tivessem sido apanhados por uma onda, ao olharem para ela. Allegra e Alan pensaram quando fora a última vez que Hollywood produzira uma estrela com o carisma de Carmen.

            —  Pobre menina! —  exclamou Alan, com pena dela. Conhecia bem a situação, mas nunca se sentira tão dominado por ela como lhe parecia que sucedia com Carmen. Era um pouco mais velho quando alcançara o seu primeiro grande êxito e, depois de adulto, nunca tinham conseguido pressioná-lo tanto nem aproveitar-se dele daquela maneira.

            —  Anda —   disse ele, agarrando Allegra, mas sem tirar os olhos de Carmen, tentando esquivar-se, abrir caminho e sorrir, enquanto os fãs, os repórteres e as câmaras a empurravam. Eram às centenas, e até a fila das limusines estava bloqueada. Ninguém conseguiu se mexer, até a massa humana que envolvia Carmen dispersar. Vamos ajudá-la acrescentou, e abriu caminho entre a multidão, onde os guarda-costas se debatiam e a polícia começara a mudar de posição.

            Michael Guiness estava perdido naquele mar de gente, com um ar completamente indefeso, mas, pouco depois, Alan aproximou-se, com Allegra agarrada a ele, e pôs um braço firme nos ombros de Carmen.

            —  Olá! —   exclamou, hábil, como se oferecesse para proporcionar um momento de descanso a Carmen.

            Assim que o reconheceu, a multidão entrou em delírio, gritando o seu nome e o de Carmen.

 

            —  Claro que sim... Claro que estou... Temos aqui uma vencedora... Exatamente... Muito obrigado... Feliz por estar aqui... Miss Connors será uma das nossas vencedoras esta noite...

            Alan não deixava de gracejar com eles, ao mesmo tempo em que abria caminho com os seus ombros de futebolista e continuava a andar, e, ao verem o que ele fizera, Gayle e Bill conseguiram passar à frente. Gayle esgueirou-se por baixo de vários arcos com os seus saltos de estilete, fingindo uma inocência total, e Bill exibiu toda a sua corpulência, abrindo caminho para que Carmen entrasse no edifício. O passo era lento, mas por fim conseguiram avançar, e Alan aproveitou a ocasião, agarrando-se a Allegra e a Carmen. Pouco depois estavam lá dentro e ouviram-se novos gritos dos fãs. Os repórteres acorreram de novo, aproximando as câmaras de televisão do rosto deles. Por instantes, Carmen virou-se para o lado, mas Alan agarrou-a com força e continuou a falar para mantê-la calma e a ajudar a avançar.

            —  Você está bem —   repetia constantemente, você está bem... Venha, agora, sorria para as câmaras. Todo o mundo está vendo-a esta noite!

            Carmen parecia romper a chorar, e Alan apertou-a ainda com mais firmeza. Por fim, com um último impulso, entraram no salão, vendo-se livres dos seus perseguidores. Uma das  abas do casaco de Allegra estava ligeiramente rasgada e a abertura no vestido de Carmen subira consideravelmente. Um fã agarrara-lhe mesmo a perna e outro tentara pegar seus brincos. Fora a confusão total, e Carmen tinha os olhos marejados de lágrimas quando chegaram ao salão

            —  Nem se atreva! —  disse-lhe Alan em voz baixa. Se lhes der a entender que está assustada, da próxima vez que a virem será pior. Tem de agir como se nada disto a incomodasse. Finja que gosta...

            —  Detesto —  replicou Carmen, deixando escapar duas lágrimas, que lhe rolaram pela face.

            Alan estendeu-lhe o lenço.

            —  Estou falando a sério. Tem de ser muito forte quando os encarar Aprendi isso há cinco anos. Se não, eles arrancam-lhe o coração e a seguir rasgam-lhe a roupa!

            Allegra fez um sinal afirmativo, grata por Alan as acompanhar. Talvez tivesse sido melhor assim. Brandon não teria prestado qualquer ajuda, quanto muito, teria irritado a imprensa e Michael ainda não entrara no salão.

            —  Ele tem razão, sabe? Você tem que dar a impressão que controla isto de olhos fechados.

            —  E se não conseguir? —  perguntou Carmen, visivelmente abalada, fitando Alan com ar de gratidão. Tinha vergonha de olhar para ele. Era tão belo e famoso! A verdade é que era tão famosa como ele, mas não o sabia, o que contribuía muito para o seu encanto.

            —  Se não conseguir, então não pertence a este mundo —  disse Alan em voz baixa.

            —  Talvez não pertença... —  respondeu ela tristemente, devolvendo-lhe o lenço. Tocara apenas nos olhos e ficara quase sem rímel.

            —  A América diz que sim. Acha que eles são mentirosos? —  perguntou Alan propositadamente, avistando um grupo de gente conhecida.

            —  Apresentou-os a todos. Allegra conhecia a maior parte. Bill e Gayle tinham-se afastado alguns metros, cientes de que o perigo diminuíra. Alan e Carmen estavam agora com os seus pares, com outras estrelas, produtores e realizadores.

            Pouco depois, os pais de Allegra juntaram-se a eles. Blaire beijou Alan, manifestou a sua satisfação por voltar a vê-lo e disse-lhe que gostara muito do seu último filme. Simon abanou a cabeça, desejando intimamente, como sempre, que Allegra se apaixonasse por ele.

 

            Alan era o tipo de genro com que todos sonhavam. Era belo e inteligente, de trato fácil e porte atlético. Simon e Alan tinham jogado golfe e tênis várias vezes e, quando ele e Allegra andavam na escola secundária, Alan vivera literalmente na cozinha dos Steinberg, mas nos últimos anos andara muito atarefado, e Simon não sabia se estava ali como acompanhante de Allegra ou de Carmen Connors. Parecia igualmente atento a ambas. Por fim entrou Michael, que encontrou um grupo de amigos e ficou  falando com eles a alguns metros de distância.

            —  Há muito tempo que não o víamos  —  queixou-se Simon a Alan, mostrando-se bem-humorado. Não se afaste dessa maneira!

            —  No ano passado, estive seis meses na Austrália, e antes disso passei oito meses no Quênia rodando um filme. Regressei há pouco da Tailândia. Nesta maldita profissão, andamos sempre a viajar. Para o mês que vem, vou para a Suíça. Às vezes é divertido, como sabe...

            Firmou um olhar cúmplice em Simon. Nunca trabalhara para ele, mas, como toda as pessoas em Hollywood, gostava muito de Simon Steinberg. Era um homem inteligente, simpático, comportava-se sempre como um cavalheiro e, tanto nos seus acordos como na sua palavra, era infalivelmente honesto. Em muitos aspectos, era parecido com Allegra, e estas eram as mesmas qualidades que Alan apreciava nela. Isso e o fato de ter umas belas pernas e uma figura que não lhe permitia pensar nela como uma irmã. Ao princípio da noite recomeçara a acalentar sonhos românticos com ela, mas, assim que Carmen aparecera, fora como se  tivessem retirado as entranhas. Não sabia se estava de cabeça para cima ou para baixo ou o que sentia por ela; só sabia que lhe apetecia pegar Carmen no colo e atravessar a multidão até chegarem a um lugar onde fosse possível ficarem sós durante muito, muito tempo, onde pudesse conhecê-la. Apesar da sua afeição por Allegra nos últimos quinze anos, nunca se sentira assim; desde que Carmen Connors entrara na limusine que não conseguia tirar os olhos dela.

            Allegra também reparara e sorriu-lhe. Achava que ele acertara em cheio, e depressa, e não sabia ao certo se importava com isso.

            —  Eu disse-te que ias gostar dela... —   murmurou em tom adulador no momento em que se encaminhavam para a mesa e uma dúzia de fotógrafos tiravam fotografias deles. Carmen e Michael estavam atrás deles e Bill e Gayle eram os últimos. Carmen vinha bem protegida entre todos eles, mas a imprensa andava atarefada com outras estrelas de primeira grandeza, embora nenhuma fosse tão bela.

            —  Porque é que me faz lembrar a Sam quando fala comigo dessa maneira? —  replicou ele, mostrando-se um pouco aborrecido e sem querer admitir perante ela nesse momento que estava enamorado de Carmen.

            —  Está me chamando de menina ou só a dizer-me que pareço ter dezessete anos? —   gracejou Allegra, quando outro fotógrafo, este do Paris Match, tirou uma fotografia.

            —  Estou a te dizendo que é uma chata, mas te amo mesmo assim  —  retorquiu ele, sorrindo, com um olhar pelo qual milhões de mulheres teriam dado a vida.

            —  Você é mesmo muito engraçado, sabe? —   continuou ela, com vontade de lhe dar um empurrão, mas sem se atrever a tal naquele lugar. Acho que a Carmen pensa o mesmo, para te dizer a verdade —   acrescentou, como uma irmã mais velha e onisciente.

            —  Talvez seja preferível não se meter nisso —   disse ele em tom de aviso. Desejava  beijá-la outra vez no pescoço e sentia-se completamente louco.

            Era ridículo. Durante quinze anos conhecera-a e amara-a sobretudo como um irmão, e agora, de repente, sentia-se de novo sexualmente atraído por ela e, ao mesmo tempo, pela sua cliente, aquela loura explosiva. Nada disto devia acontecer. Virou-se e pediu um uísque com gelo a um criado que estava passando. Precisava de uma bebida para aclarar as idéias, ou talvez só para se sentir um pouco menos atordoado.

            —  Não quero que fale no assunto com ela —   disse ele a Allegra quando se encaminhavam para a mesa que lhes fora destinada.

            Era uma mesa para dez pessoas: Allegra e Alan, Carmen e Michael, um produtor amigo do pai que ela conhecia há anos, a mulher, que fora uma atriz muito famosa nos anos quarenta, um casal de que Allegra nunca ouvira falar, o que era raro, e Warren Beatty e Annette Bening.

            —  Estou falando a sério, Allegra —   disse Alan outra vez. Não quero que interfira nem que tente provocar seja o que for.

            —  Quem é que disse que eu ia interferir? —   perguntou ela com uma inocência angélica, quando Carmen se aproximou.

            A jovem atriz estava um pouco mais à vontade e fitou Alan com os seus grandes olhos azuis e um sorriso aberto quando ele se sentou ao seu lado. Conversaram durante alguns minutos e depois Allegra afastou-se para ir cumprimentar uns amigos. Encontravam-se lá vários sócios da firma de advogados e quase todos os clientes mais importantes. Os pais tinham uma mesa cheia dos seus amigos mais íntimos, muitos deles diretores e produtores, além da estrela do último filme do pai. Estavam todos no seu ambiente, e também Allegra se sentiu totalmente à vontade ao atravessar a multidão, cumprimentando as pessoas que conhecia bem e rindo aqui e ali com um velho amigo. Na sua maioria, eram escritores, produtores ou diretores. Também havia gente dos estúdios e das televisões muito em evidência. Era uma noite realmente importante.

            —  Você está estonteante! —  comentou Jack Nicholson quando ela passou.

            Allegra agradeceu o cumprimento.

            Nicholson era um dos amigos mais antigos do pai. Ao passar por Barbra Streisand, Allegra saudou-a com um gesto de cabeça e ela correspondeu. Não sabia ao certo se Barbra a conhecia, mas conhecia a mãe, Blaire Scott. E Allegra ficou particularmente satisfeita por parar para conversar com Sherry Lansing. Era reconfortante verificar que muitos homens olhavam para ela com uma admiração ostensiva. De certo modo, Brandon era tão reservado que era raro receber dele este tipo de atenção. Mesmo no meio das estrelas, Allegra mantinha a sua a brilhar, o que não deixava de surpreendê-la.

            —  O que anda fazendo? —  perguntou Alan quando ela voltou. Passeando?

Não pode, se for a minha acompanhante. Esse tipo com quem sai te fez criar maus hábitos... Fingiu-se irritado com ela, mas Allegra sabia que estava a brincar.

            —  Ora, cala-se e porta-se bem! —  replicou, com um sorriso.

            Sentou-se e pouco depois foi servido o jantar. Após o café, as luzes diminuíram de intensidade, e eles foram para o ar, com a música, o espetáculo e o Globo de Ouro televisionado em todo o seu esplendor. Quando a cerimônia começou, os corações bateram mais depressa. Durante algum tempo, os apresentadores saltaram entre o cinema e a televisão. Começaram pelos prêmios menos importantes, mas logo no início da noite várias pessoas que Allegra conhecia foram homenageadas. Todos se apressavam a empoar o nariz e a pôr batom durante os intervalos de publicidade e, à medida que os prêmios eram entregues, as câmaras focavam os nomeados e enervavam ainda mais todas as pessoas. Por fim, chegou a vez da mãe de Allegra. Ela ganhara o prêmio para a melhor série de comédia durante tantos anos que Allegra não duvidava que voltaria a alcançá-lo. Trocou um olhar cúmplice com Alan e lamentou não estar mais perto da mesa dos pais, para pegar na mão da mãe em sinal de apoio. Era difícil acreditar que Blaire estivesse preocupada ao fim de todos aqueles anos, mas ela confessava-se sempre inquieta, e, quando Allegra viu o seu rosto no monitor, verificou que estava tão aterrada como os outros nomeados. Parecia em pânico. Em seguida, disseram os nomes, um por um. A música, o silêncio interminável, enquanto todos aguardavam... E depois o nome dela... Só que nesse ano, pela primeira vez depois de sete anos consecutivos de vitória, não foi o nome da mãe que se ouviu, mas o de outra pessoa qualquer. Allegra ficou petrificada, como sabia que a mãe ficara. Nem podia acreditar! Virou-se para Alan com os olhos cheios de lágrimas, a pensar nela, na dor e no desapontamento que devia estar sentindo nesse momento. Mostraram de novo a imagem da mãe no monitor, logo a seguir à do vencedor, que se dirigiu para o pódio. A expressão de Blaire era agradável e sorridente, mas Allegra percebeu que ela estava destroçada. Aquele desfecho refletia as preferências que o público manifestara através das audiências.

            —  Não posso acreditar... —  segredou a Alan, sentindo-se esmagada e desejosa de poder confortar a mãe. Porém, não era possível circular pela sala quando as câmaras estavam filmando.

            —  Nem eu, —  respondeu ele em voz baixa. Continua a ser um dos melhores programas da televisão. Sempre que estou em casa, vejo-o.

            Allegra sabia que ele estava falando verdade, mas sete anos de prêmios em nove era muito tempo. Chegara o momento de outra pessoa vencer. E era exatamente isso que Blaire Scott receava. Sentada no seu lugar, sentiu um peso no estômago; quando olhou para Simon, ele fez um gesto de cabeça e deu-lhe uma palmadinha na mão, mas Blair não sabia ao certo se o marido compreendia o que ela estava sentindo. Simon fora distinguido com o prêmio muitas vezes, mas as suas vitórias eram sempre acontecimentos diferentes. Não tinha um programa recorrente como ela, cujo padrão de excelência tivesse que manter, semana após semana, temporada após temporada. Em certos aspectos, o que Blaire fazia era muito mais difícil. Depois se lembrou que Simon também fora nomeado e tentou não ser tão egoísta, mas era difícil. Era como se estivesse perdendo em várias frentes, mesmo que mais ninguém se apercebesse disso.

            —  Espero que a minha mãe esteja bem —  disse Allegra, preocupada, à medida que a cerimônia avançava, e Alan comungava do mesmo sentimento.

            Allegra desejou que aquilo terminasse rapidamente, mas ainda havia muitos prêmios para distribuir. Era como se nunca mais acabasse! Depois foi a vez de Carmen. Os nomes para a melhor atriz de cinema foram lidos e as câmaras focaram de perto as nomeadas, uma por uma. Debaixo da mesa, Carmen apertava a mão de Alan, que a agarrava com força, esperando que ela ganhasse. E, de repente, foi a explosão do seu nome, as câmaras, os flashes, os aplausos. Quando Carmen se levantou e olhou para ele, Alan retribuiu-lhe o olhar, radiante, como se tivesse vivido unicamente à espera desse momento. De súbito Allegra percebeu que acontecera qualquer coisa especial nessa noite, algo de que nenhum deles se apercebera ainda, não sabia quanto tempo levariam a compreender, mas sentia que se criara uma espécie de magia entre eles.

            Alan estava de pé, à espera dela, quando Carmen voltou, rendida e sem fôlego, rindo e chorando ao mesmo tempo, agarrada ao seu prêmio. Abraçou-a e beijou-a no momento em que um dos fotógrafos disparou. Allegra apressou-se a puxar-lhe a manga e ele sentou-se rapidamente ao seu lado

            —  Tem cuidado avisou.

            Alan sabia que ela tinha razão, mas não fora capaz de se conter. Carmen estava tão entusiasmada que nem conseguia ficar quieta, e Allegra sentia-se tão feliz e orgulhosa dela que esqueceu um pouco a desilusão causada pelo fracasso da mãe. Em certos aspectos, era como se Carmen fosse a sua irmã mais nova. Allegra ajudara-a e acompanhara a sua carreira nos últimos três anos, quase desde que entrara na firma, e agora Carmen era uma das vencedoras. E bem o merecia!

            Seguiu-se mais uma hora de entrega de prêmios, e as pessoas começaram desejar ir para casa e a sentir que estavam ali há muito tempo. Depois foram entregues os prêmios finais: melhor ator de cinema, a contrapartida do galardão de Carmen, que foi para outro cliente da firma de Allegra. Melhor filme, melhor diretor e, finalmente, melhor produtor de filmes de longa-metragem. O prêmio do melhor produtor foi para Simon nesse ano, como já acontecera duas vezes, e Simon estava radiante quando subiu ao pódio, pegou no seu troféu e agradeceu a todas as pessoas, e em particular à mulher, Blaire, que seria sempre a número um para ele, como não deixou de frisar. Havia lágrimas no sorriso de Blaire quando olhou para o marido, e ele beijou-a quando voltou para a mesa.

            E por fim, nos últimos minutos, o prêmio humanitário, que não era atribuído todos os anos, mas só quando era verdadeiramente merecido por uma pessoa célebre do mundo do espetáculo. Foram exibidos trechos de vários filmes e enumeradas diversas obras ao longo de quarenta anos e, no fim, já todos tinham percebido de quem se tratava, exceto o laureado, que ficou pasmado ao ouvir o seu nome. Dessa vez Blaire levantou-se para aplaudi-lo e chorou ao beijá-lo. Era Simon Steinberg, que se encaminhou para o pódio.

            —  Meu Deus... Eu... Eu não sei o que dizer —  murmurou, profundamente comovido. Por uma vez, sinto-me incapaz de exprimir o que sinto. Se ganhei este prêmio e tenho a certeza que não o mereço foi graças a todos vocês  e à sua generosidade para comigo ao longo dos anos, à honestidade, à diligência, aos objetivos que me ajudaram a atingir e aos extraordinários momentos que partilhamos. Saúdo-vos a todos; agradeceu ao público, com os olhos marejados de água.

            Allegra sentiu as lágrimas a rolarem-lhe pela face, e Alan pôs-lhe o braço à volta dos ombros.

            —  Agradeço tudo o que foram para mim e fizeram por mim, tudo o que me deram. Vocês é que são seres humanos de privilégio, a par da minha mulher, Blaire, da minha filha Allegra e dos meus dois filhos que ficaram em casa, Scott e Sam, e de todos aqueles com quem trabalhei. Continuo a ser o seu humilde servo.

            Com estas palavras, Simon desceu do pódio e recebeu uma estrondosa ovação do público que se encontrava no grande salão de baile do Hotel Hilton. Era de fato um grande homem, e Allegra, ali de pé, chorou de alegria e de orgulho pelo pai.

            Fora uma noite maravilhosa, por vários motivos, e quando todos pegaram nas suas coisas, Allegra disse a Alan que queria ir falar à mãe. Alan concordou, assegurando que esperava por ela na mesa, com Carmen. Allegra foi encontrar a mãe no meio de um grupo de amigos e de colegas. Deu-lhe um grande abraço e disse-lhe que gostava muito dela.

            —  Sente-se bem? —   perguntou em voz baixa. Blaire tinha os olhos úmidos das lágrimas que vertera por Simon. Fora uma noite importante para ele, e sentia-se feliz pelo marido e suficientemente orgulhosa dele para esquecer o seu próprio desapontamento.

            —  Teremos de nos esforçar mais para o ano que vem —   afirmou aparentemente animada, mas Allegra viu algo no seu olhar que não lhe agradou, e quando a deixou e se aproximou do pai reparou que a mãe o fitava com nervosismo. Simon estava conversando com Elizabeth Coleson, uma diretora com quem trabalhara. Era uma inglesa fora do comum, porque apesar de ser muito nova, fora-lhe atribuído o título de ‘Lady’ na Inglaterra, em sinal de reconhecimento pelo seu enorme talento. Estavam ambos profundamente embrenhados na conversa, Simon ria e havia um toque de intimidade no modo como falavam. Não era nada de grave, mas Allegra sentiu qualquer coisa estranha ao observá-los. Depois, antes de poder concluir o seu raciocínio, o pai virou-se para trás e viu-a. Acenou-lhe imediatamente e apresentou-a como a única pessoa da família que tinha um emprego respeitável. Elizabeth Coleson deu uma gargalhada forte e rouca, apertando a mão de Allegra e dizendo que tinha muito prazer em conhecê-la. Era apenas cinco anos mais velha que Allegra e possuía aquela sensualidade comum nas inglesas, que é simultaneamente muito atraente e despreocupada, na medida em que não fazem qualquer esforço para serem sensuais, mas conseguem-no por completo. Ao observá-la, Allegra pensou que exalava sexo e talento. Parecia ter saído da cama naquele momento, o que levava os outros a interrogar-se se traria mais alguma coisa por baixo do vestido de noite azul-marinho, bastante simples e um pouco fora de moda. Era óbvio, mesmo para Allegra, que Simon gostava dela.

            Estiveram conversando durante alguns minutos, e Allegra disse ao pai que se orgulhava muito dele. Simon deu-lhe um abraço e um beijo, mas, quando os deixou, mantinha ainda aquela sensação incômoda em relação a Elizabeth. Regressou à sua mesa e, quando voltou a olhar, verificou que Blaire juntara-se a eles. Allegra sabia que fora uma noite difícil para a mãe, embora nunca o admitisse perante ninguém, nem sequer à filha mais velha. Estava muito preocupada com o seu programa. Ao fim de nove anos, era difícil continuar a mantê-lo interessante. Nos últimos tempos, a estação tinha perdido alguns anunciantes de vulto, devido à queda dos níveis de audiência, e o fato de o programa não ter sido premiado poderia agravar a situação.

            Mas, nessa noite, Allegra pareceu aperceber-se de outro tipo de inquietação no olhar da mãe, e perguntou a si própria se isso teria qualquer relação com Elizabeth Coleson ou seria simplesmente fruto da sua imaginação, e Blaire estaria apenas desolada por o seu programa não ter sido premiado. No caso da mãe, era difícil chegar a uma conclusão; Blaire era uma profissional e possuía um espírito desportivo insuperável. À saída, pelo menos uma dúzia de repórteres perguntaram-lhe como se sentia por não ter sido premiada. Ela exprimiu a sua satisfação pelo argumentista/produtor que ganhara o prêmio e a sua admiração pelo respectivo programa com a elegância que lhe era peculiar e realçou a importância que os prêmios do marido tinham para si e as suas excepcionais qualidades humanas, acrescentando que talvez fosse tempo de serem reconhecidos talentos mais novos.

            À saída, Carmen foi de novo assediada pelos fotógrafos, ainda mais do que na chegada, e os fãs entraram em delírio quando a viram. Lançaram-lhe flores, quiseram tocar-lhe e uma mulher, gritando o seu nome, atirou-lhe um urso de pelúcia que a ia atingindo na cabeça. Felizmente, Alan apanhou-o a tempo.

            —  É como no futebol —  disse ele, sorrindo, a Allegra.

            Para sua grande surpresa, gostara verdadeiramente da noite, e propôs a Allegra que fossem comer um hambúrguer em um restaurante estilo anos cinqüenta que conhecia e que convidassem Carmen e Michael.

            Levaram meia hora para entrar no carro e, já lá dentro, sentiram-se como que apalpados, maltratados e puxados por milhares de mãos e de repórteres.

            —  Céus! Acho que quero ser entregador no Safeway quando for grande —  resmungou Michael do banco da frente, com um gemido de cansaço, o que provocou uma gargalhada geral.

            No entanto, quando Alan sugeriu que fossem comer um hambúrguer, ele disse que se sentia exausto, porque estava gravando um filme e no dia seguinte tinha de chegar cedo ao estúdio. Se os outros não se importassem, iria para casa. Carmen concordou. Estava satisfeita por ir sair com Allegra e Alan.

            Deixaram Michael em casa e em seguida foram para o Ed ebevic’s, em La Cienega. Carmen lamentou não ter trocado o vestido de noite por uma camiseta e  jeans.

            — Eu também —   disse Alan com ar travesso, fazendo rir as duas mulheres. Por sinal, acho que você ficaria incrível de jeans. E se amanhã fosse comigo até Malibu, para eu saber se gosto mais de te ver de vestido de noite vermelho ou de jeans? Uma espécie de Cortejo de Miss América... Com os diabos, você podia ganhar o prêmio de Miss Simpatia... Ou o concurso de trajes de banho..

            Carmen riu e Allegra acompanhou-a. Instalaram-se num compartimento e alguns dos clientes viraram-se quando os dois guarda-costas se sentaram ao lado deles. Passava da meia-noite.

            Alan pediu um hambúrguer com queijo e uma cerveja com chocolate, o que fez lembrar a Allegra os seus tempos de juventude. Ela mandou vir um café e um pratinho de rodelas de cebola, sem mais nada. Todos riram da garçonete, vestida à dona de casa dos anos cinqüenta. Parecia mesmo Ethel em I Love Lucy.

            —  E você, Miss Melhor Atriz do Ano? —  perguntou Alan a Carmen, que riu.

            Dava-se bem com ela, comportando-se simultaneamente como um irmão mais velho e um herói romântico. Ao olhar para ele, Allegra foi obrigada a admitir que Alan era o homem que todas as mulheres desejavam. Porém, conhecia-o há demasiado tempo para levá-lo a sério ou para se deixar  apaixonar por ele; naquele momento, só desejava Brandon

            —  Quero torta de maçã e uma batida de morango—   respondeu Carmen, com um ar maldoso.

            —  Agora que todos ganhamos os nossos prêmios, para o diabo com as calorias! Dêem-me gordura antes que eu morra! —  exclamou Alan. Depois beliscou Carmen e olhou-a com admiração. Você foi espantosa esta noite, por sinal. Portou-se muito melhor do que eu me teria portado na sua idade. Esta coisa do estrelato é assustadora!..

            Só outra pessoa que vivesse sujeita às mesmas pressões e ao mesmo sofrimento é que poderia perceber verdadeiramente Carmen, embora Allegra também a entendesse, porque estava muito próxima dela.

            —  Sempre que eles se aproximam de mim, os fotógrafos ou os fãs, desejaria desatar a fugir e regressar ao Óregon —  disse Carmen, suspirando.

            —  Nem fale disso... —  Allegra rolou os olhos nas órbitas e depois a encarou mais a sério. O Alan tem razão, você foi estupenda. Senti-me muito orgulhosa de você.

            —  Eu também — assegurou Alan, baixinho. Por instantes, quando estava ali, tive medo que passassem por cima de você na entrada. Às vezes, a imprensa e a televisão descontrolam-se, não acha?

            No entanto, os guarda-costas que contratara tinham feito um bom trabalho, pensou Allegra, olhando para eles na mesa ao lado.

            —  A imprensa assusta-me mortalmente — confessou Carmen, cujas palavras não surpreenderam ninguém.

            Em seguida, Alan perguntou a Allegra como encontrara a mãe.

            —  Aborrecida, creio, embora não o admitisse. É demasiado orgulhosa para permitir que alguém se aperceba de que está sofrendo. E talvez os seus sentimentos sejam contraditórios. Sei que ficou feliz pelo meu pai, mas tem andado extremamente preocupada com o seu programa, e isto não vai ajudar. Quando fui falar com ela, estava elogiando o meu pai, e ele mostrava-se muito satisfeito. Creio que o prêmio humanitário significou muito para ele, ainda mais do que aquele que recebeu pelo filme.

            —  Simon merece-o —  afirmou Alan. Carmen deu um olhar melancólico a Allegra.

            —  Gostaria de entrar num dos filmes dele...

            —  Hei de falar-lhe nisso — prometeu.

            Talvez Simon também estivesse interessado nela. Carmen era um sucesso de bilheteira e o seu talento evoluía rapidamente. No entanto, Allegra não lhes falou em Elizabeth Coleson. Fora a primeira vez que vira o pai comportar-se daquela maneira, a não ser com a mãe. Talvez se tratasse apenas de admiração profissional, e talvez a expressão que detectara no olhar da mãe fosse simplesmente de emoção, depois de uma noite tão empolgante, tão cheia de ondas de orgulho e de desapontamento.

            Saíram do Ed Debevic’s às duas horas, depois de conversarem sobre o passado no ensino secundário de Beverly Hills e a infância de Carmen em Portland, que fora bem mais normal que a deles, por isso ela tivera mais dificuldade em adaptar-se à insanidade da sua vida atual, com tablóides e paparazzi, prêmios e ameaças de morte. É uma vida normalíssima, a nossa concluiu Alan com um ar divertido. Quando entraram na limusine puxou Carmen para o colo e ela não fez menção de lhe fugir.

            —  Querem que eu vá de um táxi. —  perguntou Alegra, divertida. Nas duas últimas horas, tornara-se ainda mais óbvio que se sentiam extremamente atraídos um pelo outro.

            —  E que tal o porta-malas? —  sugeriu Alan. Allegra entrou no carro e deu-lhe um encontrão, perante o riso de Carmen. De certo modo, invejava aquela amizade de longa data. Não tinha amigos assim em Hollywood, não tinha amigos, aliás, exceto Allegra. Só conhecia as pessoas com quem trabalhava e nunca mais voltava a ver depois de acabar de gravar um filme. Continuavam o seu caminho, tal como ela, e uma das coisas que mais lhe desagradava na sua vida em Los Angeles era a solidão e as saídas raras, exceto em noites como aquela, com um acompanhante escolhido pelo estúdio, tão entediado como ela. Foi o que lhes transmitiu no caminho para casa, ante o olhar espantado de Alan.

            —  Talvez metade dos homens americanos dessem a vida para sair com você  e ninguém neste país acreditaria que passa as noites em casa a ver televisão — disse ele, e Carmen acreditou que a vida romântica de Alan era muito menos empolgante do que a maioria das pessoas julgava, exceto algum romance ocasional, que fazia sempre sensação nos tablóides —  Bem, teremos que tratar—   disso afirmou, com o ar mais natural do mundo Carmen já concordara em ir com ele a Malibu no dia seguinte, agora tentava convencê-la a ir jogar boliche.

            Alan e Carmen pareciam estar caminhando para um novo romance. Allegra sentia-se feliz por eles, o que a fez pensar de novo em Brandon. Assim que entrou na cozinha, foi ouvir as mensagens que tinha na secretária eletrônica. Não esperava que Brandon tivesse telefonado, mas existia sempre essa possibilidade, nem que fosse para dizer que a amava.

            Três amigos e um dos sócios da firma tinham deixado mensagens, apesar de nenhuma delas ser urgente, nem sequer importante. Por acaso havia uma de Brandon. Telefonara só para dizer que se divertira muito com as filhas e que lhe ligaria no domingo. Não fez qualquer referência aos prêmios, não vira a cerimônia na televisão e não sabia nem disse nada acerca de Carmen nem do pai de Allegra. De repente, ao ouvi-lo, a jovem sentiu-se só outra vez. Era como se nunca tivesse feito parte da sua vida, a não ser quando ele próprio queria, e mesmo assim só em certa medida. Brandon era uma espécie de turista. E apesar da intensidade dos sentimentos dela e da duração da relação de ambos, existira sempre uma distância cuidadosamente estudada entre os dois.

            Desligou a secretária eletrônica e dirigiu-se lentamente para o quarto, tirando os grampos. O cabelo caiu em cascata pelos ombros, e, sem que soubesse porquê, vieram-lhe as lágrimas nos olhos quando abriu o fecho do vestido e o atirou para as costas de uma cadeira. Tinha vinte e nove anos e não sabia ao certo se algum homem a amara verdadeiramente. Sentiu uma estranha solidão quando se viu ao espelho do quarto de vestir, nua, perguntando a si própria se Brandon a amava, se seria capaz de alargar as fronteiras que definira para si próprio e ficar à sua disposição, como Alan estava pronto a fazer com Carmen. Era tão simples como isso. Alan e Carmen tinham-se conhecido nessa noite e ele tentava chegar a ela, sem medos nem hesitações. E ali estava Brandon, dois anos depois, como um homem no cimo de um rochedo, com receio de saltar, sem conseguir recuar e sem lhe querer dar a mão para a confortar. Estava sozinha. Era uma daquelas conclusões chocantes que faziam estremecer qualquer pessoa na escuridão da noite. Allegra estava completamente só. Tal como Brandon, onde quer que se encontrasse nesse preciso momento.

 

            O primeiro telefonema que Allegra recebeu no domingo de manhã foi o de Brandon. Ia jogar tênis com as filhas e queria ter a certeza de que a encontrava antes de ela sair. Sabia que a jovem partia para Nova Iorque nessa tarde e não queria deixar de lhe falar

            —  Como estão todos os teus? —  perguntou interessado.

            Allegra estranhou que ele não se tivesse dado ao trabalho de ver os noticiários. Podia tê-lo feito, pelo menos pelos seus pais, se não por Carmen, mas não disse nada para recriminá-lo; estava satisfeita por ele ter telefonado.

            —  Carmen ganhou o prêmio de melhor atriz de cinema e o meu pai o título de melhor produtor de filmes de longa-metragem. E também lhe concederam um prêmio especial por motivos humanitários, o que foi magnífico Foi ótimo! Infelizmente, a minha mãe... —   Suspirou ao dizer isto, lembrando-se da expressão de preocupação e de derrota que vira no olhar da mãe. Não ganhou nada e creio que isso a afetou muito.

            — Tem que aceitar essas situações com desportivismo, pelo menos — disse o namorado, melífluo.

            De repente, Allegra irritou-se com ele. O fato de Brandon não ter estado presente na cerimônia já era mau, mas o que lhe desagradava ainda mais era a insensibilidade que demonstrava para com a mãe dela.

            —  A situação é um pouco mais complexa do que isso, tem a ver com a existência de um programa, quer se ganhe ou não um prêmio. Neste último ano, ela tem lutado pela sobrevivência do programa, e isto pode ter provocado a perda de patrocinadores importantes.

            —  Isso é que é pior... — replicou Brandon, sem se mostrar particularmente compreensivo. Dá os meus parabéns ao teu pai.

            —  Prometo que o farei.

            Em seguida, contou-lhe como passara o dia com as filhas, e o modo como ele mudou de assunto começou a aborrecê-la. O fato de ter visto como Alan tratara Carmen na noite anterior, e até o modo como se comportara com ela própria, recordara-lhe como certos homens eram sensíveis, solícitos e protetores. Nem todos eram distantes ou propositadamente indiferentes como Brandon. Mostrava-se auto-suficiente e esperava o mesmo dela. Não queria que Allegra lhe exigisse fosse o que fosse. Pareciam dois barcos com rotas paralelas, mas consideravelmente distantes no oceano. A solidão que Allegra sentira na véspera apoderou-se de novo dela ao ouvi-lo. Nos últimos tempos, sentia-se cada vez mais ansiosa com a relação de ambos e abandonada quando não o tinha junto de si. Sempre ambicionara uma ligação como a dos pais, mas começava a duvidar que estivesse preparada para ela e que não continuasse a escolher homens que não estavam dispostos a assumir um compromisso, como sugerira a Dr.ª Green.

            —  A que horas partes para Nova Iorque? —  perguntou ele para puxar assunto.

            Allegra ia encontrar-se com um escritor muito importante e de grande sucesso. O agente pedira-lhe que o representasse num acordo que visava a realização de um filme, e ela marcara também outras reuniões em Nova Iorque. Teria uma semana muito atarefada e esperava estar envolvida em negociações de grande responsabilidade.

            —  Parto no vôo das quatro —  respondeu, mostrando-se triste, mas ele nem deu por isso. Ainda tinha de fazer a mala e queria passar por casa da mãe para vê-la, se tivesse tempo, ou pelo menos telefonar-lhe para se certificar de que ela estava bem depois da noite anterior. E também queria saber de Carmen. —  Fico no Regency de Nova Iorque.

            —  Eu te telefono.

            —  Boa sorte para o teu julgamento.

            —  Quem me dera conseguir um acordo! Seria muito melhor para o meu cliente, mas ele é muito teimoso —  queixou-se Brandon.

            —  Talvez mude de idéias à última hora disse Allegra.

            —  Duvido, e já fiz todo o trabalho mais pesado. Como era habitual, Brandon retirara-se para o seu mundo, para a sua própria vida, e Allegra sentia que tinha de conquistar a sua atenção.

            — Vejo-te no próximo fim-de-semana —  acrescentou ele, mostrando-se pesaroso de repente. Vou sentir a tua falta... Parecia surpreendido, e Allegra sorriu. Eram estas pequenas coisas que a mantinham agarrada a ele, sempre com esperança. Talvez a amasse, mas não tinha muito tempo e estava bastante traumatizado pelo que se passara com a ex-mulher. Era sempre esta a desculpa: um trauma provocado por Joanie. Allegra explicara esta situação mil vezes as  pessoas e  havia exemplos que eram muito óbvios para si, além de ser evidente que ele a amava.

            —  Eu já sinto a tua falta... —  murmurou ela, com a sensibilidade à flor da pele.

            Seguiu-se um longo silêncio

            —  Eu não podia ter feito outra coisa, Allie Tinha de vir para cá este fim-de-semana.

            —  Eu sei, mas ontem à noite senti a tua falta. Foi importante para mim.

            —  Já te disse que irei no próximo ano.

            Brandon parecia estar a ser sincero, e Allegra acabou por sorrir.

            — Fico à espera.

            Mas qual seria a situação deles no ano seguinte? Estaria Brandon divorciado? Já teriam casado? Haveria ele superado o medo de se comprometer? Existiam muitas perguntas que continuavam sem resposta.

            —  Te telefono amanhã à noite —  prometeu outra vez e, antes de desligar, falou-lhe ao coração. —   Te amo, Al disse em voz baixa.

            —  Eu também —  respondeu ela, fechando os olhos com força. Brandon estava ali para ela, embora tivesse que lidar com os seus próprios medos e obrigações. Cuide-se esta semana.

            —  Prometo. E você também —  disse ele, como se fosse igualmente sentir a falta dela.

            Ao desligar, Allegra esboçou um sorriso melancólico. O que ambos tinham não fora conquistado com facilidade, mas chegariam lá, apesar do que os outros pensavam. Precisava ser paciente. Brandon merecia-o.

            Em seguida, telefonou aos pais, felicitou de novo o pai e transmitiu-lhe os parabéns de Brandon. Depois pediu para falar com a mãe e sentiu ainda uma réstia de tristeza na sua voz.

            —  Sente-se bem? —  perguntou, com ternura.

            Blaire sorriu, comovida por a filha ter telefonado.

            —  Não! Vou cortar os pulsos esta tarde, ou talvez enfie a cabeça no forno!

            —  Então vá, antes que desmontem a cozinha —   replicou Allegra com um sorriso, satisfeita por ouvi-la  gracejar. A sério mãe, merecia aquele prêmio outra vez, e bem o sabe.

            —  Talvez não, querida, talvez seja o momento de dar oportunidade a outra pessoa. Este Outono tivemos muitos problemas com o programa.

            Um dos atores se despediu, cansado de fazer o mesmo papel há nove anos, e outros tinham pedido aumentos fabulosos quando renovaram os contratos. Alguns dos argumentistas também tinha se afastado e, como era habitual, o fardo caíra em peso sobre os ombros de Blaire.

            — Talvez eu esteja ficando velha... —   acrescentou Blaire, querendo fazer humor, mas algo no seu tom de voz preocupou Allegra. Fora semelhante ao que vira no olhar da mãe na noite anterior, e que a assustara. Perguntou a si própria se o pai teria apercebido disso e se também ficara inquieto.

            —  Não seja ridícula, mãe, ainda tem mais trinta ou quarenta anos à sua frente —  disse ela com otimismo.

            — Oh!, Deus me livre... — gemeu Blaire, só de pensar nisso. Depois soltou uma das suas gargalhadas de antigamente —   Talvez viva mais vinte, e depois fecho a loja.

            —  Eu encarrego-me —  disso afirmou Allegra, já mais aliviada em relação à mãe e a Brandon.

            Sentia-se muito melhor do que na véspera e quase desejava não ter que ir para Nova Iorque sem o ver. Gostaria muito de ter passado a noite com ele antes de partir.

Falou à mãe da ida a Nova Iorque, assegurando que voltaria no fim da semana. Contava sempre aos pais para onde ia.

            —  Te vemos quando voltar —  disse a mãe, agradecendo-lhe o cuidado.

            O telefonema seguinte foi para Carmen. Ainda não estava histérica, mas aproximava-se do pânico a passos largos. A imprensa assentara raízes em frente da porta principal da sua casa e, segundo Carmen, encontrava-se lá um verdadeiro batalhão, pronto a atacá-la se pusesse um pé de fora. Os guardas contratados por Allegra também lá estavam, mas Carmen temia que a imprensa invadisse a casa se ela abrisse a porta para sair. Era uma prisioneira na sua própria casa; não conseguira ir a lado nenhum desde a madrugada.

            —  Não há uma porta de serviço? —  sugeriu Allegra.

            Carmen respondeu que sim, mas lá também estavam alguns fotógrafos à espera, com câmaras de televisão de várias estações.

            —  O Alan passou por aí? —  perguntou Allegra, pensativa, tentando encontrar uma saída que não implicasse um grande confronto com a comunicação social.

            —  Ontem à noite falamos em ir a Malibu, mas ele não telefonou e eu não quis incomodá-lo — disse Carmen, mostrando-se hesitante, mas Allegra teve uma idéia e estava certa de que Alan não se importaria de ajudar Carmen.

            —  Tem alguma peruca que a modifique completamente?

            —  Tenho uma preta, bem engraçada, que usei no Dia das Bruxas do ano passado.

            —  Ótimo! Vá buscá-la, pois pode precisar dela. Eu vou telefonar ao Alan.

            Juntos, traçaram um plano. Ele aproximar-se-ia da porta principal num velho caminhão que tinha e que raramente utilizava. Ninguém o reconheceria, exceto se averiguassem a chapa de matrícula, mas nessa altura já eles iriam longe. Allegra sugeriu que também usasse uma peruca; Alan tinha muitas. Recomendou-lhe que fosse pelos fundos, fingisse que estava  namorando a empregada e depois arrancasse; com sorte, ninguém descobriria quem ele era, nem que Carmen o acompanhara.

            —  Ela pode ficar na casa de Malibu durante uns dias, até que a situação volte à normalidade — propôs Alan. Pelos cálculos de Allegra, Carmen iria gostar. Alan prometeu que iria buscá-la à uma hora e Allegra telefonou para Carmen. Esta mostrou-se de súbito envergonhada pelo fato de Alan ir buscá-la, dizendo que não queria abusar da simpatia dele.

            —  Não hesite, aproveite! — gracejou Allegra. Ele vai adorar!

            Alan chegou à uma hora em ponto, segundo lhe contaram mais tarde, com uma cabeleira loura que lhe dava um aspecto de hippie. O caminhão Chevrolet estava tão velho e estragado que ninguém reparou nele quando Alan abordou a criadinha mexicana de cabelo preto e curto, que vestia um top grosseiro e  jeans boca-de-sino. Carmen levava dois sacos de compras com as suas coisas e saíram ambos pela porta das traseiras sem que ninguém  prestasse atenção nem tirasse uma única fotografia. Fora a fuga perfeita. Dez minutos depois, telefonaram a Allegra de uma estação de serviço.

            —  Bom trabalho! —  exclamou ela, felicitando-os. Agora divirtam-se, os dois, e não se metam em encrencas durante a minha ausência.

            Allegra lembrou a Carmen que ficaria hospedada no Regency de Nova Iorque e que regressaria a Los Angeles no fim-de-semana seguinte. Antes de desligar, agradeceu a Alan por tomar conta de Carmen.

            —  Não se trata exatamente de um sacrifício... —  assegurou ele com sinceridade à sua velha amiga. Estaria mentindo se dissesse que era —  acrescentou, em voz baixa.

            Alan estava admirado com o que sentia por Carmen. Não sabia qual o rumo que as coisas iriam seguir entre eles, mas adorava a idéia de tomar conta dela na ausência de Allegra. Nem sequer tinham levado os guarda-costas. Seriam apenas eles os dois na casa de praia.

            —  Não se porte mal, está bem? Enquanto eu estiver fora, quero dizer. Ela é uma boa moça... É muito religiosa e é uma menina simpática... Não é como as outras que nós conhecemos.

            Allegra procurava as palavras certas, receando que ele se lançasse num caso leviano e que depois a deixasse.

            —  Eu compreendo, Al, não precisas de me dizer. Eu sei.  Vou portar-me bem. Juro... Mais ou menos, claro... Deu um olhar ansioso a Carmen, que andava lá fora, de um lado para o outro, de jeans e top. Ouve, Allie. A Carmen é diferente, eu sei... Nunca conheci ninguém como ela... Exceto você, talvez, e isso foi há muito tempo. É parecida conosco quando éramos jovens, honestos, sinceros, puros, antes de crescermos e nos tornarmos cínicos e um pouco intrigados com as pessoas que não estiveram à altura das nossas expectativas. Não a magoarei, Al, prometo. Creio.. Não importa... Vai para Nova Iorque e trata da tua vida. Um destes dias, quando voltares, falaremos de nós, como nos velhos tempos.

            —  Toma bem conta dela!

            Era como se lhe confiasse a irmã mais nova, mas sabia que Alan era boa pessoa, e algo na sua voz lhe disse que ele seria carinhoso com Carmen.

            —  Te adoro, Alle. Quem me dera que conseguisses arranjar alguém que fosse bom para você, em vez desse idiota, com a sua ex-mulher e o seu divórcio eterno! Isso não leva a parte nenhuma, Al, e você bem sabe.

            —  Vai passear! —  replicou ela, bem-humorada, e ele riu.

            —  Está bem, já percebi. Vai para Nova Iorque e descansa. Pelo menos isso te faz bem.

            Allegra riu e em seguida desligaram.

            Alan e Carmen tiraram as perucas e partiram para Malibu. Quando lá chegaram, a casa estava silenciosa, tranqüila, cheia de sol e completamente deserta. Carmen nunca vira um lugar tão bonito, e Alan sentiu-se feliz por estar na sua companhia, desejando, de súbito, ficar ali para sempre.

            Allegra partiu para o aeroporto. Telefonara a Bram Morrison antes de sair e deixara-lhe o nome do seu hotel em Nova Iorque. Ele gostava sempre de saber onde ela estava. Era uma das suas manhas. As outras pessoas poderiam contatá-la, se precisassem, através da firma.

            Embarcou pouco depois das três horas, em classe executiva, e ficou sentada ao lado de um advogado que conhecia de uma firma rival. Às vezes era fácil acreditar que o mundo estava cheio de advogados. Pelo menos, assim parecia. Era estranho pensar, ao voar para leste, que a essa mesma hora Brandon regressava a Los Angeles. Nesse momento seguiam rumos opostos.

            Allegra leu os documentos do acordo que iria ser assinado no dia seguinte, tomou alguns apontamentos e até teve tempo de dar uma vista de olhos por alguns jornais. Quando chegou a Nova Iorque já passava da meia-noite. Tirou a mala da esteira rolante e, quando saiu para apanhar um táxi, ficou admirada ao ver que estava um frio cortante. Por volta da uma hora entrou no quarto do hotel. Não tinha sono e gostaria de  telefonar para alguém. Eram apenas dez horas em Los Angeles, mas sabia que Brandon só chegaria a casa às onze. Tomou uma ducha, vestiu a camisola, ligou a televisão e deitou-se nuns lençóis imaculados. Era o luxo total, e havia algo de divertido e de adulto no fato de se encontrar num hotel de sonho em Nova Iorque em serviço.

            Gostaria de conhecer alguém a quem pudesse telefonar ou de ver um amigo. Nessa semana teria de se encontrar com o escritor, no dia seguinte, e depois com outros advogados e agentes. Ia ser uma semana atarefada, mas, à noite, não tinha nada que fazer a não ser ficar sentada no hotel a ver televisão ou lendo documentos. E, ali deitada naquela cama enorme, sentia-se uma criança, com um sorriso travesso, a comer os chocolates que lhe haviam deixado na mesa-de-cabeceira.

            —  De que ri? —   perguntou ao rosto que viu no espelho quando foi lavar os dentes. Quem te disse que era suficientemente crescida para ficar num lugar destes e para se encontrar com um dos escritores mais importantes do mundo? E se descobrirem quem você é, que não passa de uma menina pateta?

            De súbito, a idéia de que fora tão longe e assumira uma tão grande responsabilidade pareceu-lhe divertida. Riu de novo, lavou os dentes, voltou para a cama enorme e suntuosa e acabou de comer as trufas de chocolate.

 

            O despertador tocou às oito horas do dia seguinte. A luz ainda era escassa naquela manhã de Janeiro. Estava nevando em Nova Iorque, e ainda eram cinco horas na Califórnia. Allegra virou-se para o outro lado, com um suspiro, e por um ou dois minutos esqueceu onde estava. Depois, lembrou-se da reunião dessa manhã com o escritor. Era um homem muito mais velho, desconfiado de tudo o que fosse ligado ao cinema, mas o seu agente estava convencido de que daria um impulso à sua carreira nessa fase, visto que caíra na inevitável curva descendente, e Allegra fora a Nova Iorque para ajudar a convencê-lo a fazer o acordo, a pedido do agente. Este era tão ilustre como as pessoas que representava, e o fato de ter solicitado a Allegra que interviesse na assinatura do acordo era uma honra para ela e um passo importante para que viesse a tornar-se sócia da firma. Porém, ao virar-se na cama, a perspectiva de se encontrar com qualquer deles pareceu-lhe muito pouco atraente, por mais importantes que eles fossem. Estava um dia de frio e de neve, e teria preferido passar a manhã na cama.

            Enquanto tentava levantar-se, levaram-lhe o café da manhã e com ele os jornais do dia, depois de beber o café, de comer cereais e croissants com geléia e de dar uma olhadela aos jornais, a perspectiva de um dia em Nova Iorque pareceu-lhe quase excitante. O escritório do agente literário ficava em Madison Avenue e a firma de advogados em Wall Street. Entre ambos havia mil e um estabelecimentos, outras tantas galerias de arte e muita gente fascinante. Por vezes, estar em Nova Iorque era uma experiência inebriante. Havia tantas pessoas a fazer inúmeras coisas interessantes, uma profusão de acontecimentos culturais, óperas, concertos, exposições de todo o tipo, peças de teatro. Por comparação, Los Angeles parecia a província!

            Allegra vestiu um traje preto e um casaco forte e calçou umas botas para a reunião das dez da manhã. Chegou de táxi, agarrada à carteira e à pasta, e, ao entrar, lamentou não ter levado um chapéu: tinha o rosto dolorido do frio e as orelhas geladas.

            O elevador parou no último andar, totalmente ocupado pela agência. Nas paredes via-se uma coleção impressionante de obras de Chagall, Dufy e Picasso, alguns pastéis, um pequeno óleo e uma série de desenhos. Era óbvio que a agência estava se saindo muito bem. No meio da sala encontrava-se uma pequena escultura de Rodin.

            Não a fizeram esperar e viu-se na presença do diretor da agência, um homenzinho rechonchudo com um leve sotaque alemão. Chamava-se Andreas Weissman.

            —  Miss Steinberg.

            O homem estendeu-lhe a mão, observando-a com interesse, o aspecto anglo-saxônico e distinto de Allegra e os seus cabelos louros não puderam deixar de lhe chamar a atenção. Considerava-a muito bela e durante toda a reunião, antes da chegada do autor, sentiu-se fascinado por ela. Por fim, uma hora depois, apareceu um homem que aparentava cerca de oitenta anos, mas com a agudeza de espírito de um de quarenta. Jason Haverton era ágil, espirituoso e muito arguto. Ao olhar para ele, Allegra apercebeu-se de que devia ter sido muito bonito, porque era ainda bastante atraente. Durante uma hora, conversaram sobre a indústria cinematográfica em geral, e Jason Haverton perguntou-lhe se ela era da família de Simon Steinberg. Quando respondeu afirmativamente, Haverton manifestou-lhe a sua admiração pelos filmes do pai.

            Os dois homens convidaram-na para almoçar em La Grenouille, e só quando foi servido o prato principal é que começaram a falar de negócios. Jason Haverton admitiu perante Allegra que fizera o possível por evitar aquele acordo e afirmou que não estava de modo algum interessado em que um dos seus livros fosse adaptado ao cinema. Considerava que, na sua idade, era um ato de prostituição. Por outro lado, escrevia com menos freqüência do que no passado, os seus leitores já não eram jovens e o seu agente estava convencido de que vender um livro para um filme era uma maneira ideal de aumentar de novo o seu público e atrair leitores mais novos.

            —  Concordo com ele — disse Allegra, sorrindo para Haverton e depois para Weissman. Não será necessariamente uma má experiência para si.

            Allegra continuou a falar, realçando vários caminhos possíveis para minimizar o stresse do escritor e para tornar o acordo mais atraente. Haverton apreciou as suas palavras e ficou impressionado com ela. Era uma garota inteligente e uma boa advogada. E, quando veio o suflê de chocolate, já eram amigos e ele confidenciou-lhe que gostaria de tê-la conhecido há cinqüenta anos. Casara quatro vezes, mas, segundo afirmou, já não tinha forças para arranjar uma quinta mulher.

            —  Dão tanto trabalho... —  disse ele, com uma piscadela de olho que fez Allegra rir.

            Era fácil perceber por que motivo fora tão bem sucedido com as mulheres, era inteligente, divertido e tremendamente encantador Mesmo com a sua idade avançada, despertava uma atração especial. Vivera em Paris na juventude e a primeira mulher era francesa. As duas seguintes eram inglesas e a última, americana, também fora uma escritora célebre. Morrera há dez anos e, apesar de ter se envolvido com várias desde então, nenhuma conseguira levá-lo ao altar.

            —  Elas absorvem tanta energia, minha querida... São como cavalos de corrida demasiado frágeis, mas lindas de ver e insuportavelmente dispendiosas. Porém, proporcionam um enorme prazer.

            Haverton sorriu-lhe e Allegra sentiu-se derreter ao olhar para ele. Tinha vontade abraçá-lo, mas desconfiava que, se o fizesse, ele se atiraria a ela de boa vontade, como um gato a um rato que tivesse confiado demasiado no felino E Jason Haverton não era um gatinho de estimação, ainda tinha muito de leão, apesar dos seus oitenta anos. E era um leão muito atraente. Weissman divertia-se a observar o assédio. Eram velhos e bons amigos e partilhava da opinião de Jason: Allegra era uma garota extraordinária e não se admiraria se Jason tentasse cortejá-la. Mas ela parecia demasiado esperta para ele e, apesar de não usar aliança na mão esquerda, conseguia dar a impressão de que estava comprometida, por pequenas coisas que disse.

            —  Sempre viveu em Los Angeles? —  perguntou Jason enquanto bebiam o café e brincavam com o que restava do suflê.

            Ficaria surpreendido se a jovem respondesse afirmativamente. A verdade é que havia nela um requinte que lhe lembrava a Europa ou o Leste dos Estados Unidos, pelo menos. Mas ela surpreendeu-o.

            —  Sempre vivi em Los Angeles, exceto quando fui para Yale.

            Então deve ter uns pais extraordinários disse ele em tom de cumprimento.

            Allegra sorriu. Haverton já sabia quem era o pai dela e, ao observá-la, reconheceu que era muito parecida com ele, pelo menos em espírito: sensível e sincera, direta e moderada nas palavras, mas não nos sentimentos.

            —  A minha mãe também escreve —  explicou Allegra. Dedicou-se à ficção quando era muito nova e há vários anos que faz argumentos para a televisão. Tem um programa de muito êxito, mas creio que, ainda que não confesse, intimamente, lamenta nunca ter escrito um romance.

            —  Devem ser pessoas de grande talento —  observou ele, muito mais interessado nela do que nos pais, mas bastante intrigado com aquela bela jovem.

            —  E são. Mas o senhor também — replicou Allegra com um sorriso, desviando cuidadosamente a conversa para ele, o que muito lhe agradou.

            Weissman, admirado e fascinado, observava como ela lidava com Haverton. Era sábia e hábil e disse-lhe assim que o motorista do velho escritor o veio buscar e o levou para casa. Haverton saiu, acenando afetuosamente a Allegra, como se fossem velhos amigos, depois de ter concordado com a maior parte das condições do acordo que ela lhe propusera. O agente e a advogada voltaram para o escritório de Weissman, na limusine deste, para discutirem as cláusulas mais importantes do contrato.

            —  Foi fantástica com ele! —  afirmou Weissman, fascinado e também divertido.

            Era muito jovem, mas de raciocínio rápido, e possuía uma habilidade especial para lidar com as outras pessoas.

            —  É essa a minha profissão —  explicou ela, sem artifícios,  lidar com pessoas como ele. A maioria dos atores parecem crianças.

            —  E também os escritores —  assegurou Andreas, sorrindo. Allegra agradava-lhe

            Passaram duas horas trabalhando no acordo e na quantia que, na opinião de ambos, Haverton deveria receber. Por fim, Allegra disse que iria telefonar à empresa cinematográfica e que lhe comunicaria a resposta dos seus responsáveis. Talvez conseguissem concluir o acordo ainda nessa semana, antes de ela partir de Nova Iorque, na sexta-feira. Entretanto, tinha outras reuniões marcadas sobre outros assuntos, mas entraria em contato com Andreas logo que recebesse notícias da Califórnia acerca do filme de Jason.

            —  Quanto tempo fica por aqui? —  perguntou ele outra vez.

            —  Até sexta-feira, a menos que conclua tudo antes disso, mas creio que será boa idéia ficar enquanto trabalhamos nisto. Estou certa de que teremos algumas respostas na quarta-feira, o mais tardar. Andreas concordou com ela e depois escreveu um endereço numa folha de um bloco de apontamentos Hermes. Tudo nele era da mais requintada qualidade. Era um homem que apreciava o melhor em tudo, até nos clientes.

            —  Eu e a minha mulher daremos uma pequena festa esta noite. Um dos autores que represento acabou de escrever um livro importante, que, na nossa opinião, poderá mesmo ganhar um prêmio literário. Duvido que Jason esteja lá, mas irão alguns dos nossos clientes e penso que você irá gostar. Estendeu-lhe o papel com um endereço na Quinta Avenida e o número do telefone de sua casa e disse-lhe que aparecesse entre as seis e as nove horas dessa noite. Teriam muito prazer em recebê-la.

            —  É muito amável —  agradeceu Allegra. Gostara do tempo que passara com ele nessa tarde e apreciara o modo como Weissman trabalhara. Mostrara-se arguto e rigoroso e, além da educação e do encanto europeu, era um empresário brilhante, que sabia exatamente o que estava fazendo e não admitia situações absurdas. E Allegra apreciava isso nele. Ouvira boas referências a seu respeito e sempre conseguira bons acordos com os seus clientes.

            —  Experimente e apareça. Ficará conhecendo um pouco do meio literário de Nova Iorque e talvez se divirta.

            Allegra agradeceu-lhe outra vez e saiu do escritório pouco depois. Fora uma tarde inesperadamente agradável. Quando chegou à rua, a neve já tinha derretido. Atravessou o passeio devagar e apanhou um táxi para o hotel, onde tinha vários telefonemas a fazer para a Califórnia.

            Eram cinco horas quando concluiu todas as chamadas do quarto para começar as negociações com vista no filme sobre o livro de Haverton. Uma hora depois, após ter feito alguns apontamentos, ainda não resolvera se encomendaria o jantar ou iria à festa dos Weissman. Lá fora estava um frio gélido e ela só trouxera roupas de trabalho e dois vestidos de lã, e a idéia de apanhar frio outra vez não a seduzia, mas, por outro lado, encontrar algumas das figuras literárias locais parecia-lhe uma razão válida. Levou meia hora pensando no assunto, enquanto via o noticiário, e depois correu para o guarda-roupa. Resolvera ir à festa dos Weissman. Optou pelo seu único vestido preto. Tinha gola alta e mangas compridas e era muito elegante, porque se moldava a sua figura. Calçou sapatos de salto alto e penteou-se. Por fim, viu-se ao espelho. Comparada com as pessoas sofisticadas de Nova Iorque, receava parecer uma camponesa. As únicas jóias que trouxera resumiam-se a uma pulseira que a mãe lhe dera e uns brincos de ouro. Prendeu o cabelo atrás numa trança, pintou os lábios e voltou a vestir o casaco. Era velho e já vinha dos tempos da faculdade, quando ia ao teatro, mas pelo menos era quente, mesmo que não fosse bonito.

            Desceu ao átrio e o porteiro arranjou-lhe um táxi. Por volta das sete e meia, estava na esquina da Rua Oitenta e dois com a Quinta Avenida, em frente do Metropolitan Museum. Era um edifício de apartamentos antigo e elegante, com um porteiro e dois ascensoristas, vários sofás de Veludo vermelho-escuro e uma carpete persa que impedia que o som dos saltos altos ecoasse no chão de mármore da entrada. O porteiro disse-lhe que os Weissman moravam no décimo quarto andar, e saíram seis pessoas do elevador quando  ela entrou. Pareciam ter vindo da festa do agente literário, e Allegra pensou se não se teria atrasado de mais, mas depois lembrou-se que Andreas dissera que ela podia aparecer até às nove. Assim que chegou lá  em cima, ouviu o barulho. Ainda se ouvia bem, e pelo menos ficou sabendo que a festa continuava. Tocou à campainha e um mordomo veio abrir a porta. À primeira vista, estaria ali mais de uma centena de pessoas. Allegra ouviu um piano a tocar.

            Entrou, entregou o casaco e, olhando à sua volta, examinou o vestíbulo do elegante duplex. No entanto, foram as pessoas que lhe despertaram a atenção. Era um ambiente tipicamente nova-iorquino, com vestidos de cocktail, trajes cinzento-escuros e alguns tweeds. Todas as pessoas parecia entusiasmada e cheia de vida, como se tivessem mil e uma histórias para contar acerca dos muitos lugares que haviam visitado. Definitivamente, Allegra não estava na Califórnia. E, por uma vez, não reconheceu os rostos célebres. Sabia que estava junto de pessoas igualmente famosas, mas era um mundo diferente do de Hollywood, e fascinavam-na porque não as conhecia. Talvez soubesse a maioria dos nomes. Olhou à sua volta e viu Tom Wolfe e Norman Mailer, Barbara Walters, Dan Ratcher e Joan Lunden, e uma série de figuras ilustres rodeadas de editores, professores e escritores. Havia um pequeno grupo que, como alguém explicou, era constituído pelos curadores do Metropolitan Museum. O presidente da Christie’s também lá estava e um punhado de artistas importantes. Era o tipo de reunião que nunca seria possível em Los Angeles, porque não havia uma tão grande variedade de figuras ecléticas e sonantes. Em Los Angeles todos estavam envolvidos na ‘indústria’, como  chamavam, como se fizessem automóveis em vez de filmes, mas em Nova Iorque havia de tudo, desde cenaristas de teatro a atores da Broadway, a gerentes de armazéns e joalheiros importantes, misturados com editores, escritores e dramaturgos. Era uma combinação fascinante. Serviu-se de uma taça de champanhe... Observando-os, e ficou aliviada ao ver Andreas Weissman aolonge. Foi encontrá-lo na biblioteca, junto de uma janela que dava para Central Park, a conversar com o seu maior concorrente no mundo literário, Morton Janklow. Falavam de um amigo comum que havia sido cliente de Weissman e morrera há pouco tempo. Fora uma grande perda para a comunidade literária, como ambos reconheceram. Nesse momento, Andreas reparou em Allegra e foi ao seu encontro. De vestido preto e cabelo puxado para cima, tinha um ar mais austero do que nessa tarde. Era muito bela e jovem. Dirigiu-se lentamente para ele, com a taça de champanhe na mão. Tudo no seu andar era elegância e leveza, o que lhe fez lembrar o bailado e os quadros de Degas. Jason Haverton tinha razão, pensou Weissman com um sorrisinho discreto. Haverton telefonara-lhe mais tarde, para lhe dizer que Allegra não só era uma boa advogada como uma pessoa requintada. Gostara muito de almoçar com ela e confidenciou a Andreas que, se tivesse uns anos a menos, as coisas poderiam ser diferentes. Disse isto com malícia, o que fez o agente sorrir naquele momento, quando estendeu a mão a Allegra. Ela parecia atear fogo no coração dos homens, mesmo em pleno Inverno.

            —  Ainda bem que veio, — Allegra.

            Passou-lhe o braço pelos ombros com delicadeza e conduziu-a através da sala até junto de um grupo de convidados. Allegra reconheceu mais pessoas, nomeadamente o dono de uma galeria importante, uma modelo famosa e um jovem artista. Formavam um grupo muito heterogêneo, e era exatamente isso que lhe agradava em Nova Iorque. Era por este motivo que os nova-iorquinos nunca queriam ir para o Oeste; Nova Iorque era demasiado empolgante. Andreas apresentou-a a várias pessoas que se encontravam na sala e explicou que ela era uma advogada da gente do espetáculo de Los Angeles. Todos se mostraram muito satisfeitos por conhecê-la.

            Em seguida Andreas desapareceu, deixando-a com os seus novos amigos. Uma mulher mais velha chamou-a para lhe dizer que ela se mexia como uma bailarina. Allegra admitiu que fizera oito anos de bailado em criança, e alguém lhe perguntou se era atriz. Dois jovens muito elegantes disseram que trabalhavam nos Lehman Brothers, em Wall Street, outros num escritório de advogados que a contatara para uma entrevista durante a sua estada em Yale. Allegra tinha a cabeça rodando quando subiu ao andar superior para admirar a vista espetacular do parque e travar conhecimento com outros convidados. Às nove horas voltou a descer. A festa continuava animada, e acabara de chegar um novo grupo que parecia ser de empresários, acompanhados de igual número de mulheres elegantemente vestidas. Algumas usavam gorros de pele e todas estavam muito bem penteadas. Tinham um aspecto diferente do das mulheres de Los Angeles, com as suas plásticas, a sua aparência jovem e os seus cabelos louros. Estas eram mais graves, mais interessantes, com menos artifícios e menos maquiagem, mas com roupas caras, algumas jóias e rostos sérios e intensos. Também se viam algumas plásticas, e corpos tão esguios que pareciam lápis, mas na maioria eram pessoas que desenvolviam ações importantes e cuja presença era suficiente para influenciar o mundo. Allegra sentia-se fascinada por elas e pelas suas conversas. Falavam de temas interessantes e eram, de fato, pessoas inteligentes.

            —  Isto é formidável, não é? —  exclamou alguém atrás dela.

            Allegra virou-se e viu um homem observando-a, tal como ela examinara as outras pessoas que se encontravam na sala. Era alto e magro, de cabelo preto e com o aspecto aristocrático de um verdadeiro nova-iorquino. Estava vestido a rigor para a ocasião, com uma camisa branca, um terno escuro e uma conservadora gravata Hermes em dois tons de azul-marinho, mas havia qualquer coisa nele que não condizia com a sua expressão. Allegra não percebia se era a pele bronzeada, o brilho do olhar ou o sorriso aberto. De certo modo, parecia mais um californiano do que um nova-iorquino, mas esta descrição também não se aplicava bem. Não conseguiu reconhecê-lo, mas ele mediu-a de alto a baixo e também ficou fascinado por ela. Parecia integrada, mas algo nela denotava que não pertencia àquele ambiente. Ele gostava de freqüentar a casa dos Weissman; encontrava sempre as pessoas mais fascinantes, desde bailarinos a agentes literários, capitalistas e maestros. Era divertido misturar-se com eles, tentar adivinhar de onde tinham vindo e de quem se tratava. Era o que fazia nesse momento, mas sem resultado. Allegra tanto podia ser decoradora como médica. Também ela tentava adivinhar o que ele fazia e oscilava entre o corretor e o banqueiro. Ao fitá-lo com um ar pensativo, o homem reagiu com um sorriso aberto.

            — Estava tentando descobrir o que você faz, quem é e de onde vem — confessou. Adoro fazer esse exercício aqui, embora erre sempre. Talvez seja bailarina, a avaliar pelo modo como se mexe e como posiciona o corpo, mas aposto que é editora na Doyle Dane. Que tal?

            — Péssimo — respondeu Allegra, rindo, divertida com o seu jogo.

            Ele aproximou-se um pouco mais. Parecia ter um bom senso de humor e estar totalmente descontraído quando a olhou de frente.

            — Talvez não ande muito longe. Também escrevo muito. Sou advogada — acrescentou Allegra, retribuindo o olhar.

            Ele ficou surpreendido.

            —Em que tipo de firma? — insistiu, divertido com o jogo. Gostava muito de adivinhar o que as pessoas faziam, e em Nova Iorque havia um grande leque de atividades. A resposta a qualquer pergunta nunca era simples, e muito menos se estava relacionada com a ocupação de alguém. Calou-se e continuou a tentar adivinhar. Acho que é direito das sociedades, ou talvez algo muito sério, como direito da concorrência. Acertei?

            A hipótese pareceu-lhe pouco provável, porque ela era muito feminina e muito bela, mas agradava-lhe a combinação de uma bonita mulher envolvida numa atividade de grande responsabilidade.

            Allegra respondeu com uma gargalhada que o encantou. Tinha um riso alegre, uns cabelos incríveis e exalava ternura. Apostava que gostava do seu semelhante, embora nos seus olhos houvesse um toque de mistério. Eles diziam-lhe muito acerca de quem ela era e no que estava pensando. Era uma mulher de princípios, disso tinha a certeza, convicções firmes e talvez opiniões fortes, mas também tinha sentido de humor, ria muito e havia algo suave e feminino no modo como mexia as mãos. E tinha uma boca deliciosa...

            —  O que o leva a pensar que sou uma advogada sisuda? —  perguntou Allegra, rindo de novo. Nem sequer sabiam o nome um do outro, o que, aliás, parecia ser pouco importante. Gostava de falar com ele e de entrar no seu jogo de adivinhação. Pareço-lhe assim tão séria? —insistiu, curiosa quanto à resposta.

            Ele ficou pensando, observando-a atentamente, e depois abanou a cabeça. Allegra não pôde deixar de reparar no seu belo sorriso: era muito atraente.

            — Enganei-me — disse ele, corrigindo-se, com um ar pensativo. Você é uma pessoa séria, mas não trabalha num ramo sério do direito. E que tal uma combinação singular? Talvez represente pugilistas profissionais ou esquiadores. Acertei?

            Estava brincando e ela achou graça.

            — Porque concluiu que eu não estou nas sociedades nem na concorrência?

            — Você não é enfadonha. É séria e conscienciosa, mas tem uns olhos risonhos. Os tipos de direito das sociedades nunca se divertem. Então, eu tinha razão? Está no ramo do desporto? Céus, não me diga que é do ramo jurisdicional. Detestaria pensar que faz esse gênero de trabalho!...

            Recuou ao pousar o copo, e ela sorriu. Tinham sido uns momentos divertidos, e sentiu-se muito à vontade ao olhar fixamente para ele.

            — Estou no ramo do espetáculo, em Los Angeles. Vim cá falar com Mister Weissman acerca de um dos seus clientes e fazer outros contatos. Represento pessoas do mundo do espetáculo em geral, como argumentistas, produtores, diretores e atores.

            — Interessante, muito interessante... — observou, mirando-a de novo, como se tentasse concluir se todas as informações condiziam. E é de Los Angeles?

            Mostrou-se surpreendido com a resposta afirmativa de Allegra.

            — Sempre vivi lá, exceto os sete anos que estive em Yale.

            — Eu fui para uma faculdade rival — disse ele. Allegra levantou a mão.

            — Espere, agora é a minha vez. Esta é fácil. Você foi para Harvard. É do Leste, provavelmente de Nova Iorque, ou talvez Connecticut ou Boston. Piscou-lhe o olho. E andou num colégio interno... Exeter ou St. Paul’s.

            Ele riu do perfil ultra conservador, ultra previsível e totalmente elitista que ela descrevia. Não sabia se a responsabilidade de tal juízo cabia ao terno escuro, à gravata Hermes ou ao corte de cabelo recente.

            —Está perto. Sou de Nova Iorque. Fui para Andover e para Harvard. Ensinei em Stanford durante um ano e agora estou...

            Allegra interrompeu-o e levantou a mão outra vez, observando-o. Não tinha ar de professor, a menos que desse aulas na Faculdade de Gestão, mas era demasiado jovem e bem-parecido para isso. Se estivessem em Los Angeles, diria tratar-se de um ator, mas também parecia ser demasiado inteligente e isento de egocentrismo para isso.

            — Agora é a minha vez — lembrou ela. Já me disse muito. Talvez ensine Literatura em Columbia, mas, para ser honesta, julguei que fosse banqueiro, quando o vi.

            Ele fazia lembrar Wall Street e tinha um ar muito respeitável, apesar do olhar malicioso.

            — É o traje — admitiu ele, sorrindo, como se fosse seu irmão. Era quase tão alto como o pai de Allegra e havia algo familiar no modo como ria. Trouxe o terno para agradar à minha mãe. Ela disse que eu tinha de vestir qualquer coisa que me desse um ar respeitável, já que voltava a Nova Iorque.

            — Tem estado fora?  — perguntou Allegra.

            Ainda não lhe dissera se era banqueiro ou professor, e estavam ambos a divertir-se com aquele jogo. Por fim, os convidados começaram a sair. Haviam passado cerca de duzentas pessoas pelo apartamento dos Weissman, que parecia agora quase vazio, com cerca de metade.

            — Estive ausente durante seis meses, a trabalhar noutro lado — respondeu ele, dando-lhe uma pista. Detesto dizer-lhe onde.

            Parecia muito divertido com as coisas que haviam dito acerca um do outro e Allegra continuava a tentar adivinhar onde ele estivera e o que fazia.

            — Talvez a dar aulas na Europa?

            Ele abanou a cabeça

            —Noutro lugar qualquer?

            Allegra sentia-se confusa. Talvez o terno a tivesse induzido em erro. Quando o fitava nos olhos, percebia que ele tinha uma imaginação viva, e era óbvio que gostava de associar fatos.

            — Não ensino há muito tempo, mas não anda longe. Digo-lhe?

            —Creio que é preferível. Desisto A culpa é toda da sua mãe; acho que o traje me confundiu —  retorquiu, bem-humorada.

            —Compreendo perfeitamente. Comigo acontece o mesmo. Quando me vi no espelho, esta noite, quase não me reconheci. Por sinal, sou escritor... Sabe como é. Tênis rotos, pantufas de tapete inglesa, roupões velhos, jeans desbotadas e camisetas de Harvard todas esburacadas.

            — Bem me pareceu que você era desse gênero!

            Mas na realidade o terno ficava-lhe muito bem, e Allegra desconfiava que no guarda-roupas dele devia haver mais fatos do que camisetas rotas. Tinha um aspecto formidável e devia ter uns trinta e cinco anos. Na verdade, tinha trinta e quatro e vendera o seu primeiro livro para o cinema há um ano. O segundo acabara de sair e estava sendso alvo de críticas esplêndidas e vendendo muito bem, o que o surpreendia. Era muito literário, mas sentira que tinha de escrever. Andreas Weissman tentara convencê-lo de que o seu verdadeiro talento residia na ficção comercial, por isso estava prestes a escrever o seu terceiro livro e tentar alargar os horizontes.

            — Então onde esteve durante seis meses? A escrever numa praia das Bahamas?

            A situação pareceu-lhe muito romântica, mas ele riu da sugestão.

            —Numa praia, mas não nas Bahamas. Passei seis meses em Los Angeles, em Malibu, a adaptar o meu primeiro livro para um filme. Foi uma loucura ter aceitado escrever o argumento e a co-produção. Talvez não volte a fazer o mesmo, embora esteja certo de que ninguém me pedirá. Um amigo meu de Harvard está produzindo-o.

            — E já está de regresso?

            Parecia tão estranho que se cruzassem ali depois de ele ter passado seis meses em Los Angeles... Era espantoso que, no meio de tantas pessoas que se encontravam na festa nessa noite, eles se tivessem descoberto, ambos recém-chegados da Califórnia, atraídos como dois imãs.

            —  Estou aqui há uma semana para falar com o meu agente —   explicou ele. Tenho uma idéia para um terceiro livro e, se alguma vez terminar este maldito argumento em que estou trabalhando, fecho-me à chave durante um ano e escrevo-o. Já recebi uma proposta para fazer um argumento inspirado no segundo, mas não sei se estou disposto a isso. Não me sinto muito atraído por Hollywood e pela indústria do cinema. Ainda não sei se prefiro voltar para Nova Iorque, dedicar-me a escrever livros daqui em diante e esquecer os filmes. Ainda não decidi. Agora, a minha vida está um pouco louca.

            —Não há motivo para que não faça as duas coisas. Nem sequer tem de escrever os argumentos, se não quiser. Venda os livros e deixe que alguém o faça por você. Assim fica com mais tempo para escrever o seu romance.

            Era como se Allegra estivesse  aconselhando um dos seus clientes. Ele riu do seu ar sisudo.

            — E se me destroem o livro? — perguntou, inquieto. Ao ver a expressão no seu olhar, Allegra não conseguiu conter o riso.

            — Isso é mesmo conversa de escritor!... As aflições de entregar o seu bebê a desconhecidos. Não posso garantir que não venha a ter problemas, mas por vezes é uma situação menos cansativa do que ser você a escrever o argumento, já para não falar da co-produção.

            — Acredito. Caminhar sobre pregos é menos cansativo. As pessoas de lá estão me deixando doido! Não respeitam o texto, só se preocupam com o elenco, e talvez com o diretor, guião não significa absolutamente nada para elas. São muito hábeis com as palavras. Enganam, mentem, dizem o que lhes convém só para conseguirem o que querem. Acho que já estou  habituando-me, Deus me livre, mas a princípio quase fiquei doido!

            — O que me parece é que você precisa de um bom advogado em Los Angeles, ou talvez de um agente local que lhe dê a mão. Devia pedir ao Andreas que o apresentasse a alguém da CAA — disse ela, cheia de sentido prático.

            Ele sorriu e estendeu-lhe a mão.

            — Talvez pudesse telefonar-lhe — sugeriu, considerando a idéia muito atraente. Ainda não me apresentei. Aqui estou eu a me lamentar, desculpe. Sou Jeff Hamilton.

            Allegra olhou para ele e sorriu. Estavam muito perto um do outro no meio das pessoas, que eram cada vez menos na festa dos Weissman. Reconheceu o seu nome assim que o ouviu.

            — Eu li o seu primeiro livro. Gostei muito. Era uma obra séria, mas por vezes muito divertida. Impressionara-a e ficara-lhe na memória, o que era significativo. Sou Allegra Steinberg — acrescentou.

            — Não é da família do produtor, calculo...  — disse ele casualmente, ainda divertido com o jogo e com o fato de ambos viverem em Los Angeles.

            Mas ela apressou-se a corrigi-lo. Orgulhava-se da família, embora nunca puxasse dos galões.

            — Simon Steinberg é meu pai — respondeu tranquilamente.

            — Por acaso deu uma olhada pelo meu primeiro livro, e simpatizei muito com ele. Passou uma tarde inteira no escritório a dizer-me o que estava errado no argumento, e o que é engraçado é que concluí que tinha razão. Depois, fiz várias alterações propostas por ele. Sempre quis telefonar-lhe para agradecer, mas não tive oportunidade.

            — O meu pai é extremamente inteligente e tem vastos conhecimentos em relação a uma série de coisas disse ela — sorrindo. Deu-me muito bons conselhos ao longo dos anos.

            — Imagino.

            Jeff imaginava muita coisa, mas uma delas era voltar a vê-la nessa noite.

            Allegra começava a olhar à sua volta, apercebendo-se de que tinham saído umas dezenas de convidados enquanto continuavam a conversar.

            —  Acho que vou andando — disse, com pena. Já passava muito das nove da noite, a hora a que a festa deveria ter acabado.

            — Onde está hospedada? —  perguntou Jeff, ansioso por não a deixar fugir. Havia algo de invulgar nela, e teve de se conter para não lhe tocar.

            — Estou no Regency. E você?

            — Eu sou um menino mimado. Estou em casa da minha mãe, aqui na cidade. Ela foi fazer um cruzeiro e só regressa em Fevereiro. A casa é sossegada, mas muito agradável. Fica aqui perto.

            Seguiu-a até ao vestíbulo, a par de meia dúzia de outros convidados. Allegra pediu o casaco e Jeff tirou o sobretudo de um cabide, com um longo cachecol de lã.

            —Posso levá-la a algum lugar? — perguntou, esperançoso, depois de terem agradecido a festa a Mrs. Weissman.

            Andreas estava lá em cima, embrenhado numa conversa com dois jovens autores, com o ar de quem não queria ser incomodado. Deixaram-no, portanto, e desceram as escadas.

            —Vou para o hotel — disse ela, assim que entraram no elevador e começaram a descer. É só apanhar um táxi.

            Atravessaram o átrio lado a lado; sentiam-se bem juntos. Jeff abriu-lhe a porta, saiu atrás dela e depois lhe pegou suavemente no braço. Estava nevando outra vez e a calçada estava escorregadia.

            —Quer ir tomar uma bebida? Ou comer um hambúrguer? É cedo, e eu adoraria ficar  conversando com você  mais um pouco. Detesto conhecer alguém assim, entusiasmar-me com uma pessoa que depois logo vai embora... Parece-me inútil! Tanta energia e emoção para nada!

            Fitou-a, ansioso. Allegra parecia muito jovem, mas havia qualquer coisa nela que o fascinava. Não sabia o que era, porém, a verdade é que ela também parecia sentir-se atraída por ele. Ambos viviam em Los Angeles, os seus domínios de atividade cruzavam-se e pareciam ter muitas coisas em comum. Fosse como fosse, não queria deixá-la, por enquanto, e ela não tinha vontade de regressar ao hotel. Iria sentir-se muito só. E deixaram-se ficar ali, a olhar para a neve, de braço dado.

            —  Tenho de ir ler uns contratos — disse ela, sem entusiasmo. Haviam-lhe enviado por fax um monte deles nessa tarde, a respeito da tournée de Malachi O’Donovan, mas claro que poderia sempre lê-los mais tarde; esta ocasião parecia-lhe muito mais importante. Era como se ela e Jeff Hamilton ainda tivessem muito a descobrir acerca um do outro, uma história para contar, uma missão a cumprir, por isso acrescentou. Pensando melhor, seria bom comer qualquer coisa. O hambúrguer parece-me uma boa idéia.

            Satisfeito, Jeff chamou um táxi e deu ao motorista o endereço do Elaine’s. Enquanto vivera em Nova Iorque e escrevera o seu primeiro livro, freqüentara-o muitas vezes, e, sempre que voltava, gostava de passar por lá, para recordar os velhos tempos.

            —  Tive receio que não quisesse sair admitiu.

            Era bonito e tinha um ar de rapaz, os olhos brilhantes e o cabelo salpicado de flocos de neve. Sair com Allegra era muito importante para ele; queria saber mais coisas a seu respeito, do seu trabalho, da sua vida, do pai, que conhecera há uns meses. Não percebia por que motivo os caminhos de ambos nunca se haviam cruzado em Los Angeles. Era como se tivessem vindo a Nova Iorque para se conhecer, como dois planetas que acabassem por colidir. E Jeff sentia-se muito contente

            —  Saio pouco —  explicou ela, estou sempre trabalhando. Os meus clientes contam muito comigo.

            Demasiado, na opinião de Brandon, que detestava o excesso de serviços que lhes prestava, mas fazia parte da sua maneira de ser, daquilo que ela era, e agradava-lhe.

            —  Eu nunca vou a lado nenhum—   disse ele, pensativo, enquanto seguiam para leste. Escrevo quase sempre à noite. Gosto muito de Malibu. Às vezes, vou passear para a praia de madrugada; ajuda a purificar as idéias. Onde é que você vive?

            A jovem despertava-lhe a curiosidade e esperava vê-la mais vezes, mesmo antes de deixarem Nova Iorque.

            —  Vivo em Beverly Hills. Tenho uma casinha engraçada, que comprei quando voltei de Yale. É pequena, mas perfeita para mim. Tem uma bela vista e um jardim japonês quase só com pedras. Assim, não deixo morrer as plantas; quando é preciso, fecho a porta e vou-me embora. Como agora —   afirmou Allegra, sorrindo.

            —  Viaja muito? —  perguntou Jeff. Ela abanou a cabeça.

            Tento estar presente o mais que posso, pelos meus clientes, só viajo quando preciso de estar com eles noutro lugar qualquer. Dois são músicos. Às vezes encontro-me com eles durante as tournées, aqui e ali, um ou dois dias, mas estou quase sempre em Los Angeles.

            Allegra já prometera a Bram Morrison que tentaria ir visitá-lo, e, se Mal O’Donovan quisesse, faria o mesmo por ele. Eram duas tournées longas e cansativas, e Allegra já dera meia volta ao mundo só para apoiá-los, de Bancoc às Filipinas e a Paris.

            —  Por acaso conheço alguns? —   perguntou Jeff, de novo intrigado.

            Allegra falava deles como se fossem pessoas sagradas, que tivesse jurado proteger do mal, e, de certo modo, era o que fazia.

            —  Alguns...

            —  Está autorizada a dizer quem? —   insistiu.

            Pagou o táxi e entraram no Elaine’s. Estava cheio e barulhento, mas o maitrê  reconheceu-o logo e fez-lhe sinal de que lhe arranjaria lugar dentro de alguns minutos.

            —  Então que clientes são esses a quem é tão dedicada? —  O modo como falou fê-la sentir que Jeff compreendia o carinho que nutria por eles, o que não a surpreendeu. Estava a quilômetros de distância de Brandon, que reclamava sempre que ela concedia um momento livre aos seus clientes.

            —  É provável que conheça a maior parte, e alguns não se importam que saibam quem é o seu advogado. Posso dizer-lhe quais são. Bram Morrison e Malachi O’Donovan, Carmen Connors, Alan Carr, etc. Para citar alguns.

            Orgulhava-se deles como uma mãe-galinha e, ao observá-la, Jeff compreendeu-a e percebeu sua lealdade e  como era protetora, o que só aumentou a sua admiração.

            —  Está me dizendo que são representados pela sua firma ou que são seus clientes pessoais?

            Os nomes pareciam-lhe demasiado importantes para uma pessoa tão nova como ela, Allegra aparentava pouco mais de vinte e cinco anos. Mas ela riu da pergunta e ele adorou o seu sorriso.

            —  Não, esses são mesmo meus clientes explicou. Há outros, evidentemente, mas não posso revelar a sua identidade. Creio que o Bram diria a qualquer pessoa quem é o seu médico e o Mal também é muito livre a este respeito E a Carmen, então, está sempre dizendo aos jornais quem é que a representa!

            Parecia citar estes nomes com uma grande naturalidade. Eram as pessoas que preenchiam a sua vida

            —  Meu Deus, mas que grupo, Allegra! Deve sentir-se muito orgulhosa! —  exclamou ele com admiração. Há quanto tempo está na firma?

            Talvez fosse muito mais velha do que parecia, considerou, mas ela riu, adivinhando-lhe o pensamento.

            —  Há quatro anos. Tenho vinte e nove... Quase trinta. Falta pouco... lamentou-se.

            —  Eu tenho trinta e quatro e você faz-me sentir como se tivesse passado os últimos dez anos dormindo. É uma grande carga, eles não devem ser fáceis de representar...

            —  Alguns são —  disse ela, sempre ansiosa por ser simpática. E não seja ridículo! Você escreveu dois livros e está prestes a começar o terceiro, anda escrevendo um argumento e a co-produzir um filme. O que fiz eu? Nada, exceto representar um grupo de pessoas de talento, pessoas como você. Redijo-lhes os contratos, represento-os nas negociações, preparo-lhes as procurações e os testamentos, enfim, protejo-os sempre que posso. Creio que, de certo modo, é um trabalho criativo, mas, sejamos honestos, não se compara com aquilo que você faz, por isso não tenha pena de si acrescentou em tom de censura. A verdade é que eram ambos pessoas realizadas, que adoravam o que faziam.

            —  Talvez eu venha a precisar dos seus serviços —  disse ele, pensativo, lembrando-se da sua última conversa com Andreas Weissman nesse dia, de manhã. Se vender outro livro em Hollywood, necessito de um advogado para verificar os meus contratos, pelo menos.

            —  A quem recorreu da última vez? —   inquiriu Allegra, curiosa quanto à colaboração de Weissman.

            —  O Andreas orientou tudo daqui. Foi uma negociação muito direta, e não posso dizer que tenha ficado prejudicado. O acordo consiste numa quantia fixa por eu escrever o argumento e numa percentagem das vendas brutas, se o filme vingar. Como estou produzindo-o com um amigo, não quis me mostrar muito agressivo. Fiz mais pela experiência do que pelo dinheiro. Cometo muitas vezes este erro. Sorriu, mas não tinha aspecto de quem estava morrendo de fome. O terno que vestia era caro. Se voltar a fazer isso, quero uma compensação econômica maior, e não estou disposto a abdicar tanto da minha vida.

            —  Terei o maior prazer em analisar os seus contratos em qualquer altura. Allegra sorriu e, aparentemente, ele gostou da idéia. Bastante, por sinal.

            —  Agradar-me-ia muito —   retorquiu Jeff.

            Não sabia por que motivo Andreas nunca lhe falara nela nem se oferecera para apresentá-los. A verdade é que o editor nunca pensara que o seu protegido, o seu jovem escritor de sucesso, se sentiria atraído pela bela advogada loura de Los Angeles.

            Sentaram-se numa mesa ao fundo da sala e conversaram durante horas, sobre Harvard, Yale e os dois anos que ele passara em Oxford. A princípio detestara aquele ambiente, mas depois acabara por adorar. O pai morrera quando lá estava, e ele começara a escrever a sério depois disso. Falou também da desilusão da mãe por não ter sido advogado, como o pai, ou, melhor ainda, médico, como ela própria.

            Jeff descreveu a mãe como uma mulher muito forte, muito puritana, uma autêntica ianque. Tinha idéias definidas sobre ética e responsabilidade profissional e continuava a pensar que escrever não era um trabalho sério para um homem.

            —  A minha mãe é argumentista —  explicou Allegra, falando de novo nos pais e admirada por sentir vontade de partilhar os seus assuntos prediletos com Jeff.

            Havia muito de que falar, tanta coisa que lhe queria contar. Era como se tivesse passado a vida à espera que ele fosse seu amigo. Jeff estava totalmente em sintonia com o que ela sentia e pensava e era muito compreensivo. Nenhum deles queria acreditar quando olharam para o relógio e viram que era uma da manhã.

            —  Adoro o modo como o direito funciona, a sua lógica e a satisfação pela resolução dos problemas confidenciou ela. Às vezes confunde-me, mas é realmente aquilo de que mais gosto.

            Allegra sorriu, sem se aperceber de que estavam ambos de mãos dadas. Havia uma espécie de fogo no seu olhar quando pronunciou estas palavras, e Jeff deleitou-se a olhar para ela. Não se lembrava de ter sentido algo semelhante por ninguém num primeiro encontro.

            Do que gosta mais, Allegra? —  perguntou, com voz terna. De cães? De crianças? Do habitual?

            —  De tudo isso, creio. Especialmente da minha família. Ela é tudo para mim!

            Jeff era filho único e invejava as histórias que Allegra contava de Sam, de Scott e dos pais. Aliás, invejava-a em muitos aspectos. A sua própria família dispersara-se depois da morte do pai, e a mãe não era uma pessoa afetuosa. No entanto, era fácil perceber que Simon Steinberg era um homem terno e adorável...

            —  Um dia destes tem de ir conhecê-los —  sugeriu Allegra amavelmente. E ao Alan. É o meu amigo mais antigo. Alan Carr. Queria apresentá-lo a toda as pessoas, como uma criança! Ansiosa por dar a conhecer o seu novo e melhor amigo. Oh, não! Como sempre acontecia, Jeff reagiu imediatamente ao nome. Era impossível não o fazer.

            —  Ele é o seu amigo mais antigo? Não acredito!

            —  Foi meu namorado na escola secundária, no segundo ano. Desde então ficamos amigos.            

            Era estranho como Jeff parecia encaixar em tudo isto...! Gostava de ouvi-la falar do trabalho, da família, dos amigos. Era tão diferente de Brandon! No entanto, Allegra sentia que não era justo compará-lo com um desconhecido: não sabia nada dos subterfúgios, das fraquezas e das falhas de Jeff. Mas sentia-se tão bem com ele! Era muito estranho. E ele adorava a franquezae a total ausência de pretensiosismo de Allegra. Era o tipo de mulher que sempre admirara, e há muito tempo que não encontrava ninguém assim. Não se cansava de olhar para ela, e, à medida que noite se aproximava do fim, sentia-se cada vez mais impelido a pôr-lhe uma questão importante. A princípio pensou que talvez não fosse muito correto fazê-lo, mas agora percebia que era inevitável, tinha de lhe perguntar.

            —  Existe algum homem na sua vida, Allegra? Um homem que signifique algo, uma relação a sério, quero dizer. Além de Alan Carr.

            Sorriu, tremendo ligeiramente antes de ouvir a resposta.

            A jovem hesitou, indecisa quanto ao que havia de dizer. Ele tinha o direito de saber. Ou não? Haviam passado muito tempo falando um com o outro e era óbvio que se sentiam fortemente atraídos, mas não podia negar que Brandon era um elemento importante na sua vida, e sabia que tinha de falar nele a Jeff.

            —  Existe —  respondeu Allegra tristemente, olhando Jeff nos olhos.

            —  Era o que eu receava. Não estou admirado, mas tenho pena. É feliz com ele?

            A pergunta era importante. Se a resposta fosse afirmativa, ele ficaria de fora. Queria lutar pelo que desejava, mas não era estúpido nem louco, e não queria sair magoado.

            —  Às vezes sou —  respondeu ela, com sinceridade.

            —  E quando não é feliz com ele, qual é o motivo? —  perguntou-lhe com muito cuidado, ansioso por saber se ainda haveria uma oportunidade. Mesmo que percebesse que não tinha qualquer hipótese, não teria sido tempo perdido, congratular-se-ia sempre por tê-la conhecido. Gostava verdadeiramente dela.

            —  Ele tem atravessado um período difícil —  explicou Allegra, sempre ansiosa por desculpá-lo, e admirada com a freqüência com que o fazia. Está passando um mau bocado, tratando do divórcio. Aliás... Havia qualquer coisa no aspecto dela e no que dizia que não agradou a Jeff. Na verdade, está separado. Ainda não entregou o processo.

            Não percebia porque contara isto a Jeff, mas fazia parte da história. Ele fitou-a e fez outra pergunta.

            —  Há quanto tempo foi isso?

            Era como se soubesse que este dado era fundamental para a história. Allegra dera-lhe a entender e Jeff aproveitara a oportunidade.

            —  Há dois anos —  respondeu ela tranquilamente.

            —  Isso a incomoda?

            —  Às vezes, embora não tanto como parece incomodar as outras pessoas. Há dois anos que andam discutindo a partilha dos bens. Por sinal, o que me aborrece é sentir que ainda há coisas na nossa relação que precisam  ser aperfeiçoadas.

            —  Por exemplo?

            —  Ele ainda necessita de manter uma certa distância — respondeu Allegra honestamente. Tem receio de assumir um compromisso, e talvez seja por isso que ainda não se divorciou. Se alguém se aproxima demasiado dele, mesmo com subtileza, recua. Diz que está traumatizado por ter sido forçado a casar, e eu compreendo, mas não percebo porque hei - de pagar por isso ao fim de todo este tempo. A culpa não é minha!

            — Há algum tempo vivi com uma mulher assim — declarou Jeff com calma, lembrando-se de uma escritora de Vermont que o fizera terrivelmente infeliz. Nunca me senti tão só na minha vida!

            —  Eu sei disse Allegra em voz baixa, sem querer trair Brandon perante Jeff. Amava-o, queria casar com ele, e não lhe parecia justo falar dele a mais ninguém. E, no entanto, sentia que tinha de fazê-lo. Precisava conversar com Jeff acerca da sua relação com Brandon. Era como se tivesse essa obrigação, apesar de tê-lo conhecido só nessa noite.

            —  Ele tem filhos?

            —  Sim, duas filhas. Está muito ligado a elas, e as crianças são adoráveis. Têm nove e onze anos. Passa muito tempo com elas em São Francisco.

            —  E você também vai?

            —  Quando posso. Trabalho muitos fins-de-semana, em conjunto ao que se passa com os meus clientes. Podem receber ameaças de morte, estar rodando um filme, fazer novos acordos, tournées, etc.

            Eles mantinham-na ocupada, mas Jeff tinha a certeza que as ausências freqüentes de Brandon também contribuíam para aumentar a sua solidão.

            —  Não se importa que ele vá sozinho?

            —  Não é justo impedi-lo, se não o posso acompanhar. Ele tem o direito de ver as filhas.

            Allegra parecia estar na defensiva, mas Jeff sentia-se cada vez mais intrigado com o que ouvia. Desconfiava que ela não fosse feliz com aquele homem, ainda que não o admitisse nem perante si própria.

            —  Não se aborrece por ele andar agarrado à mulher há tanto tempo? —  perguntou abertamente.

            Allegra franziu o sobrolho e respondeu:

            —  Você parece a minha irmã!

            —  O que pensa a sua família?

            —  Não morrem de amores por ele... —  respondeu Allegra, suspirando.

            Jeff começava a gostar do que estava ouvindo. Talvez ela tivesse se apaixonado por Brandon numa determinada fase, mas não era de maneira alguma uma situação imutável, e muito menos com uma moça como ela. Allegra merecia mais, e a aprovação da família contava muito para ela. Qualquer pessoa percebia isso.

            —  Não me parece que eles compreendam —  lamentou-se Allegra. Depois de tudo o que passou, Brandon tem dificuldade em se comprometer, o que não significa que não se interesse, só não pode dar aos outros o que esperam dele.

            —  E você, o que espera? —   perguntou Jeff ternamente.

            —  O que os meus pais têm —  replicou ela, sem pensar. Amor e carinho um pelo outro e pelos filhos.

            —  Acha que ele lhe dará tudo isso? —  insistiu Jeff, pegando-lhe de novo na mão.

            Allegra não a retirou. Ele fazia-lhe lembrar algumas pessoas de quem gostava, como o pai, Scott e até Alan, mas não Brandon. Brandon era frio e distante, receava ser obrigado a dar. Jeff parecia disposto a fazê-lo abertamente. Não recuava, não tinha medo dela, do que ela pudesse sentir, ou mesmo do que ele próprio pudesse sentir se viesse a conhecê-la. Parecia tão desejoso de estar junto dela, de entrar na sua intimidade, que Allegra parecia ouvir as palavras da Dr.ª Green a ecoar na sua mente e sorriu para Jeff, sem motivo. Mas ele repetiu a pergunta:

            —  Acha que o Brandon lhe dará o que deseja, Allegra? Era importante para ele saber isto.

            —  Não sei —  respondeu ela francamente. Penso que fará o possível.

            Ou não faria? Brandon tentara assim tanto?

            —  Quanto tempo está disposta a esperar? —  perguntou Jeff. Allegra ficou atônita. A Dr.ª Green perguntara-lhe precisamente o mesmo e ela nunca conseguira responder.

            Porém, era preciso que Jeff soubesse o que ela sentia. Não queria enganá-lo.

            —  Eu o amo, Jeff. Pode não ser uma situação perfeita, mas o aceito como ele é. Esperei dois anos e posso esperar mais, se for obrigada a isso.

            —  Talvez tenha de esperar muito tempo —  disse ele, pensativo, ao saírem do restaurante.

            Era fácil perceber que a relação era problemática, mas também que Allegra ainda não estava pronta para abandoná-la. Porém, Jeff era um homem paciente e disse para si próprio que, se os caminhos de ambos tinham se cruzado, devia haver qualquer motivo para isso. E enquanto esperavam por um táxi sob a neve que caía, pôs-lhe um braço à volta do corpo e puxou-a para si.

            —  E você? —  perguntou ela, enquanto esperavam no frio, lado a lado, batendo com os pés no chão. Quem é que existe na sua vida?

            —  A minha diarista, Guadaloupe, a minha dentista, em Santa Mônica e a minha datilografa, Rosie —   respondeu Jeff.

            Allegra sorriu e olhou para ele, divertida com a descrição.

            — Parecem formar um bom grupo. Mais ninguém? Nenhuma jovem estrela deslumbrante, interrompida temporariamente das suas palavras, a  te olhar à luz das velas e a esperar que você acabe o trabalho?

            —  Ultimamente, não.

            Jeff sorriu de novo. Houvera mulheres a sério na sua vida e vivera com duas, mas nunca durante muito tempo. O único obstáculo que ele tinha de ultrapassar era Brandon, e não sabia bem o que havia de fazer para isso.

            Por fim, apanharam um táxi e entraram, aliviados por o automóvel ser confortável e estar aquecido. Jeff deu o endereço do Regency ao motorista e, quando este arrancou, puxou Allegra mais para si. Nenhum deles disse uma palavra, limitando-se a ver a neve a rodopiar à sua volta.

            O percurso até ao hotel era curto, e ambos lamentaram ter chegado tão depressa, mas era tão tarde que até o bar já fechara. Passava das duas da manhã. Allegra não quis convidá-lo a subir para não lhe causar uma impressão errada. Despediu-se dele no átrio.

            —  Gostei muito, Jeff —  disse, melancólica. Obrigada por esta noite maravilhosa.

            —  Também gostei muito. Pela primeira vez na vida, sinto que devo alguma coisa a Andreas Weissman. Soltaram uma gargalhada, e ele acompanhou-a ao elevador. Como vai ser o resto da sua semana? —  perguntou ele, esperançoso.

            Mas ela abanou a cabeça, desapontada.

            —  Muito atarefado.

            Nos quatro dias seguintes tinha almoços e reuniões. Precisava de trabalhar na tournée de Bram e voltar a ver Jason Haverton. Restavam-lhe as noites, mas tencionava fazer serão.

            —  E amanhã à noite? —  sugeriu. Allegra hesitou. Não devia aceitar.

            —  Tenho uma reunião numa firma de advogados em Wall Street até às cinco, e depois vou encontrar-me com um jurista. Não creio que esteja livre antes das sete retorquiu, pesarosa.

Desejava voltar a vê-lo, mas não sabia se o devia fazer, por causa de Brandon. Por outro lado, parecia-lhe que não havia razão para que não fossem amigos.

            —  Porque não lhe telefono? Vejo que está muito cansada. Talvez pudéssemos comer alguma coisa aqui, ou dar um Passeio a pé. Gostava mesmo de vê-la —  insistiu, olhando-a com ar carinhoso.

            Allegra sentiu que ele estava sendo sincero; e estava pedindo, estava decidido, mas não a pressionava.

            —  Não acha que seria confuso, Jeff? —  perguntou. Não queria ser desagradável para ninguém, nem para ele, nem para Brandon, nem para si própria.

            —  Não tem de ser; vamos ver como as coisas correm — respondeu ele honestamente. Eu não a pressionarei, mas gostaria de vê-la outra vez.

            —  Eu também. —   reconheceu ela. O elevador desceu e despediram-se.

            Telefono-lhe amanhã às sete horas lembrou-lhe com um aceno, quando as portas se fecharam.

            Já lá em cima, Allegra só conseguia pensar em Jeff. Perguntou a si própria se não fora infiel a Brandon pelo fato de haver estado com ele e de terem falado de certas coisas. Também não teria gostado que Brandon fosse jantar fora com outra mulher, mas parecia haver qualquer coisa predestinada naquela noite. Era como se estivesse escrito que o conheceria, como se precisasse dele na sua vida e estivessem condenados a ser amigos. Jeff compreendia tão bem o que ela dizia tudo, na verdade e ela sabia o que ele estava pensando ainda antes de o dizer.

            Quando entrou no quarto, ainda se sentia culpada. Havia uma mensagem de Brandon debaixo da porta, que pareceu lembrar-lhe a vida real. Pensou em telefonar-lhe, mas hesitou, devido ao adiantado da hora, embora fossem apenas onze e quinze em São Francisco. Por fim, despiu o casaco, sentou-se e ligou. Ele atendeu no segundo toque. Estava trabalhando para o julgamento do dia seguinte e mostrou-se surpreendido por ela telefonar tão tarde, mas parecia satisfeito por ouvi-la.

            —  Onde esteve esta noite? Mostrava-se mais curioso do que despeitado.

            —  Fui a casa do agente do Haverton e ficou muito tarde. Em Nova Iorque, estas coisas da literatura duram toda a noite.

            Era mentira, mas não lhe quis dizer que fora ao Elaine’s nem falar-lhe de Jeff. Havia sido honesta para com ele e dissera-lhe que tinha uma relação séria. Isso é que era importante e nada mais devia a Brandon. Não acontecera nada. Não se sentia obrigada a falar-lhe de Jeff.

            —   Está se divertindo? —  perguntou ele no meio de um bocejo. Há horas que estava trabalhando para o julgamento.

            —  Como vai seu trabalho?

            —  Muito devagar. Estamos começando a agarrar o júri. Quem me dera que o tipo se limitasse a confessar, para que fôssemos todos para casa!

            Desde o princípio que Brandon não gostara daquele caso.

            —  Quanto tempo calcula que isso dure se ele não o fizer?

            —  Duas semanas, no máximo. E já chega!

            Estavam a analisar uma vasta quantidade de material e Brandon contava com a colaboração de três assistentes. Era um crime de colarinho branco na sua versão mais complicada.

            —  Voltarei para casa antes de terminar, pelo menos.

            —  É provável que tenha de trabalhar este fim-de-semana —  disse ele com naturalidade, mas Allegra já esperava esta resposta. Também precisava ir ao escritório no sábado, para se inteirar do que se passara na sua ausência, e talvez conseguisse convencê-lo a descontrair-se um pouco no domingo.

            —  Não se preocupe. Estarei em casa na sexta-feira à noite.

            Allegra partia no vôo das seis e chegaria por volta das dez, hora da Califórnia. Talvez aparecesse na casa dele para lhe fazer uma surpresa.

            —  Eu entro em contato com você durante o fim-de-semana —  retorquiu ele com frieza.

            Allegra lembrou-se da conversa com Jeff à saída do Elaine’s. Detestava que Brandon a pusesse à distância.

            — Te telefono amanhã à noite —  acrescentou, maquinalmente. Estará no hotel a essa hora?

            —  Por acaso, tenho um jantar de trabalho —  respondeu Allegra, mentindo pela segunda vez. Porque eu não te ligo quando voltar? Não devo chegar tarde.

            Não podia sair todas as noites até às duas da manhã, caso contrário não conseguiria trabalhar, e tinha a certeza que Jeff entenderia a situação. Essa noite fora uma exceção, um daqueles invulgares encontros da alma em que duas pessoas descobrem que têm mil e uma idéias e sentimentos em comum, mas não podia ser assim todas as noites.

            —  Não trabalhe de mais —  disse Brandon com pressa, e desligou, pretextando que tinha de voltar ao trabalho. Nem sequer disse que a amava ou que sentia a sua falta, não prometeu ir buscá-la ao aeroporto nem ir a casa dela.

            A reação de Brandon trouxe de novo à superfície a fragilidade da relação de ambos. Apesar disso, Allegra perseverava sempre, porque o amava. Do que estava à espera? Perguntou a si própria. O que iria mudar, em sua opinião? Tal como afirmara Jeff, poderia ser obrigada a esperar muito, muito tempo. Talvez para sempre.

            Dirigiu-se lentamente para o quarto, pensando em Brandon e nos bons momentos que tinham passado juntos. Houvera muitos naqueles dois anos, e tentou esquecer as desilusões, como a dessa noite. Também tinham sido muitas, momentos em que ele não estivera presente, nem em corpo nem em espírito, em que não pronunciara as palavras que ela precisava ouvir ou não comparecera a acontecimentos que eram importantes para ela, como o Globo de Ouro. Allegra não sabia se pensava nisso nesse momento porque estava furiosa ou porque conhecera Jeff e desejava que as coisas dessem certo com ele e não com Brandon. Procuraria em Jeff tudo o que Brandon não era? Seria Jeff uma fantasia e a afinidade apenas fruto da sua imaginação? Allegra ficou ali, sem respostas, pensando em ambos e olhando lá para fora.

 

            Na terça-feira, quando o despertador tocou, às oito horas, e Allegra se levantou, Nova Iorque estava coberta por um manto de neve. Park Avenue encontrava-se repleta de montículos brancos que mais pareciam nata batida, e já havia crianças a saltar, a escorregar e  atirando bolas de neve umas às outras no caminho para a escola. Visto de cima, o espetáculo era divertido, e Allegra teve vontade de se juntar a elas.

            Passou o dia em reuniões e telefonou a Carmen Connors para saber se estava tudo bem.

            A governanta saíra, a secretária eletrônica permanecia ligada e Allegra admitiu que Carmen tivesse ido às compras ou não se encontrasse na cidade. Deixou-lhe uma mensagem, esperando que estivesse tudo correndo bem, e telefonou a Alice para saber se havia mensagens dela, mais ameaças ou outros problemas quaisquer.

            —  Ela nunca mais deu notícias desde que você partiu. Por sinal, todos os clientes de Allegra tinham mantido o silêncio. Mal O’Donovan deixara uma mensagem, mas partira de novo, e Alan pedia-lhe que lhe telefonasse quando regressasse à cidade. Além disso, encontrava-se tudo em ordem.

            —  Como está Nova Iorque? —  perguntou Alice.

            —  Toda branca respondeu Allegra.

            —  Não será por muito tempo...

            Na manhã seguinte, estaria toda negra e coberta de lama, mas entretanto proporcionava um belo espectáculo.

            Allegra almoçou com um advogado com o qual se correspondia há alguns anos, no World Trade Center, e passou o resto da tarde com os promotores de Bram e mais dois advogados. Em seguida regressou rápida ao hotel, onde se reuniu com outro advogado para discutir um acordo de licenciamento que envolvia Carmen. Alguém pretendia lançar um perfume e usar o seu nome, mas Allegra não gostara da idéia. O produto não era de alta qualidade e Carmen não tencionava ficar sentada em armazéns vendendo perfumes. Quanto mais pensava nisso, menos lhe agradava. Às seis e meia voltou para o quarto, extenuada devido à neve, durante o dia o trânsito fora um horror. Levara uma hora desde Wall Street até ao hotel e a perspectiva de se meter de novo naquela confusão para ir a qualquer lado era aterradora. Os táxis buzinavam, os automóveis derrapavam e os peões avançavam penosamente através da neve e da lama. Recomeçara a nevar. Central Park devia estar bonito, mas as ruas de Nova Iorque eram um pesadelo.

            Allegra leu as mensagens e tomou apontamentos. Carmen não respondera ao seu telefonema, mas Alice contatara a polícia e o FBI e não havia notícia de mais ameaças nem de outros problemas; estava tudo sob controle. Tinha uma mensagem de Bram, que queria saber a sua opinião acerca dos promotores, e vários faxes do escritório, mas nada de importante. O telefone tocou quando estava verificando as mensagens e Allegra atendeu-o inadvertidamente.

            —  Steinberg —  disse, distraída. Só depois percebeu que se enganara, mas a resposta do outro lado da linha foi instantânea.

            —  Hamilton. Como foi o seu dia? Parece atarefada...

            —  Muito. Passei-o quase todo lutando contra o trânsito.

            —  Ainda está trabalhando?

            Jeff não queria incomodá-la, mas gostava de ouvir a sua voz, mesmo que ela estivesse ocupada. Esperara o dia inteiro por aquele momento.

            Allegra sorriu ao escutá-lo. Hamilton tinha uma voz profunda, agradável e tremendamente sensual.

            —  Não, estava dando uma vista de olhos pelas mensagens e pelos faxes. Parece que está tudo calmo. Como passou o seu dia?

            —  Muito bem. O Weissman fez um bom trabalho negociando o novo contrato.

            —  Para o filme ou para o livro? Estou confusa, você tem muitos projetos.

            —  Olha quem fala! —  exclamou Jeff, rindo. O do terceiro livro. Vou deixá-la negociar o filme. Por acaso, falei-lhe no assunto, e ele achou que era uma ótima idéia. Disse-me que nunca fez tal sugestão porque pensava que eu estava prestes a sair da esfera do cinema, que odiava o meio, e não se enganava, mas parece que estou disposto a tentar de novo, pelo menos mais uma vez. Assegurou que você é uma advogada estupenda, mas eu não tenciono incomodá-la, a menos que seja obrigado a isso. Ele avisou-me que anda sempre atarefadíssima e tem vários clientes muito importantes. Riram ambos da advertência de Andreas.

            —  Estou impressionada —  replicou ela, divertida com o que Weissman dissera dos seus clientes.

            —  Eu também, Miss Steinberg. E quanto ao jantar? Ainda tem forças para comer, depois de todos esses acordos importantes?

            —  Não fiz um único acordo importante, hoje. Passei a tarde falando com advogados e com agentes musicais, e há pouco recusei um perfume com o nome de Carmen.

            —  Pelo menos é divertido. Como eram os tipos da música? Bastante fracos, não?

            —  Talvez, mas eram espertos. Gostei deles. Planejaram uma tournée incrível para o Bram. Se ele estiver em forma, acho que devia aproveitar.

            Jeff gostava de ouvi-la falar do que fazia, de escutar a sua voz, de saber as suas idéias e os seus interesses. Passara o dia inteiro pensando nela ou antes, não conseguira deixar de pensar nela e agradava-lhe tudo o que lhe dizia respeito. Era uma loucura. Mal a conhecia e, de repente, não conseguia tirá-la da cabeça. No entanto, Allegra também foi obrigada a admitir que, durante as reuniões dessa tarde, a imagem de Jeff lhe viera frequentemente a mente, e às vezes distraíra-se.

            —  O senhor afeta a minha vida profissional, Mister Hamilton. Esta gente de Nova Iorque vai julgar que eu sou uma toxicodependente da Costa Oeste! Esqueço-me constantemente do que dizem e estou sempre a pensar na nossa conversa, ontem à noite. Isto não é maneira de trabalhar.

            —  Pois não, mas sabe bem, não sabe? —  retorquiu ele. Sorriram ambos. Jeff teve vontade de lhe perguntar se tivera notícias de Brandon, mas não o fez, limitou-se a indagar se trouxera agasalho, umas calças, um gorro de lã e luvas.

            —  Por quê? —  Allegra não conseguia adivinhar qual o  motivo da pergunta, a menos que não quisesse que ela apanhasse frio, mas Jeff parecia ter qualquer outra coisa em mente. Passara a tarde inteira pensando nisso e esperava que ela tivesse trazido a roupa adequada.

            —  Tenho umas calças de lã, que vesti hoje, e um gorro, mas é muito feio.

            —  E não trouxe luvas? —  perguntou ele, solícito.

            —  Há vinte anos que não uso luvas.

            — Na verdade esquecera-se de trazê-las e passara o dia com as mãos enregeladas, devido às entradas e saídas constantes.

            —  Eu levo-lhe umas da minha mãe. Agrada-lhe qualquer coisa um pouco invulgar, ou prefere um programa fantasioso?

            Jeff partira do princípio de que ela queria jantar com ele, e não se enganava. Allegra levara o dia inteiro pensando nisso e convencendo-se de que não havia mal nenhum, apesar da sua relação com Brandon.

            —  Não é preciso fazermos nada de especial —  respondeu, tranqüila. Já tinha muitas ocasiões especiais na sua vida, nomeadamente quando saía com os clientes, ia a cerimônias de entrega de prêmios ou a jantares em Hollywood. Gostava de noites simples. O que tem em mente? —  acrescentou, simultaneamente entusiasmada e desconfiada.

            —  Vai ver... Vista roupa quente, calças e botas e o seu gorro feio. Encontramo-nos no átrio do hotel daqui a meia hora.

            —  O que será? Não terei motivos para me preocupar? Não irá levar-me para Connecticut ou Vermont, ou para qualquer lugar ainda pior?

            Allegra parecia uma menina prestes a dar uma escapadela.

            —  Não, mas por sinal bem gostaria de levá-la para qualquer lado. Não pensei nessa opção... Jeff riu, fascinado com a sugestão.

            —  E fez bem. Amanhã tenho que ir trabalhar.

            —  Eu sei. Não se preocupe, que não é nada que meta medo, apenas um divertimento à moda de Nova Iorque. Até daqui a meia hora.

            Jeff desligou. Allegra acabou de ler as mensagens e pensou em telefonar a Brandon, mas duvidava que ele já se encontrasse em casa ou que tivesse voltado para o escritório.

            Eram apenas quatro e meia na Califórnia. De súbito sentiu-se mal, ao pensar que o fato de lhe telefonar era uma obrigação, como tomar um medicamento, por exemplo. Era estranho sentir-se assim de repente, mas a verdade é que nutria certo sentimento de culpa por causa de Jeff, embora não tivessem feito nada reprovável até então e estivesse certa de que não o fariam.

            Encontrava-se no átrio à hora certa, de calças, casaco de frio e o velho gorro vermelho de esqui na cabeça. Através da porta giratória, viu que ainda estava nevando. As pessoas entravam e batiam com os pés no chão, para afastar a neve, e sacudiam o cabelo e os gorros, rindo umas para as outras, com flocos brancos nas pálpebras. Era divertido observá-las. De súbito, ao olhar lá para fora, avistou uma carruagem fechada, como uma antiga sege inglesa. Tinha janelas e teto e parecia muito confortável. Parou em frente do hotel e o cocheiro saltou para o passeio. O porteiro ajudou-o a segurar os cavalos e alguém saiu, entrando apressado no hotel. Quando chegou à porta giratória, Allegra viu que era Jeff, com um gorro de esqui parecido com o seu e uma parka bem quente.

            —  A sua carruagem aguarda-a    — disse radiante, com um brilho nos olhos, corado do frio. Enfiou a mão dela no seu braço e entregou-lhe um par de luvas brancas de angorá. Calce-as, que está um gelo lá fora.

            —  Você é incrível! —  exclamou, espantada. Jeff alugara a carruagem para ela. Ajudou-a a entrar, fechou a porta e em seguida cobriu-a com uma manta de pele. O cocheiro já recebera as devidas instruções. Não posso acreditar!

            Allegra olhava para ele, deslumbrada e muito comovida. Parecia uma garota que tivesse saído pela primeira vez com um rapaz. Sentou-se ao seu lado, aconchegou-se no interior da manta e Jeff pousou o braço nos seus ombros.

            —  Aceitei a sua sugestão: vamos a Vermont. Voltaremos na próxima terça-feira. Espero que isto não altere nenhum dos seus compromissos —  disse ele, deliciado.

            —  De modo algum.

            Sentada ao seu lado, Allegra sentia que poderia fazer tudo o que Jeff quisesse.

            —  Dirigiram-se lentamente para o parque e ele ajudou-a a calçar as luvas brancas de angorá. Eram confortáveis e quentes e as mãos da mãe de Jeff eram mais ou menos do tamanho das suas. Allegra fitou-o e os olhos de ambos encontraram-se. Ele era um belo homem e estragava-a com mimos

            —  Isto é maravilhoso, Jeff. Obrigada.

            —  Não seja boba —  retorquiu, atrapalhado. Pensei que devíamos fazer qualquer coisa especial, já que estava nevando.

            A carruagem aumentou ainda mais a confusão no trânsito já tão estrangulado. Por fim chegaram a Central Park South e em seguida dirigiram-se para norte, até alcançarem o rinque de patinagem de Wollman. A carruagem parou e Allegra olhou para a escuridão lá fora.

            —  Onde nos encontramos? —  perguntou, um pouco nervosa.

            Estava tanto frio e vento que nem os ladrões teriam se atrevido a sair. De súbito a porta abriu-se e o cocheiro ajudou-os a descer. Jeff olhou para ela, sempre deliciado.

            —  Sabe patinar?

            —  Mais ou menos. Não patino desde os meus tempos de Yale e não sou nenhuma Peggy Fleming.

            —  Quer tentar?

            Ela riu da idéia, que lhe pareceu divertida. Não conseguiu resistir e fez um sinal afirmativo.

            —  Adoraria.

            Correram para o rinque, de braço dado, e a carruagem ficou à espera. Jeff alugara-a até à meia-noite. Alugara também patins para ambos, e ajudou Allegra a apertar os seus. Em seguida deu-lhe a mão, mas ela conseguiu levantar-se bastante depressa. Jeff pertencera à equipa de hóquei de Harvard e era um excelente patinador. Deu uma volta rápida ao rinque, só para aquecer, e depois voltou para junto dela. Allegra patinava razoavelmente. Continuava  nevando e não se via mais ninguém à volta. Comeram cachorros-quentes, para ganhar forças, e beberam três copos de chocolate fumegante. Allegra estava divertindo-se muito, e ambos riam e brincavam como dois velhos amigos. Para ela, era como se estivesse com Alan, ou talvez um pouco melhor.

            —  Não me lembro de me ter divertido tanto —  declarou, quando se sentaram para descansar, porque os tornozelos estavam doloridos.

            —  De vez em quando, vou patinar em Los Angeles, mas os rinques da Califórnia são muito fracos. No ano passado experimentei em Tahoe, mas o rinque é bastante pequeno.

            —  Definitivamente, não é um esporte do Oeste. É pena. Eu gosto de patinar.

            —  Eu também. Allegra olhou para ele com uma expressão feliz. Jeff era aquilo a que Sam teria chamado uma ‘brasa’; era alto, viril e atlético, e parecia estar sempre rindo. Já nem me lembrava como é divertido —  assegurou, radiante, agradecendo-lhe outra vez.

            —  Pouco depois, ele foi comprar-lhe um pretzel e um chocolate quente. Não estava tanto frio, o vento abrandara, mas continuava nevando intensamente.

            — Amanhã a cidade estará intransitável, se isto continuar. Talvez os nossos compromissos sejam cancelados —  disse ele, animado, e Allegra riu-se, antevendo a situação. Ia encontrar-se com Haverton outra vez e falou no escritor a Jeff

            —  Gosto mesmo dele. Deve ter sido um terror na juventude, mas é um homem simpático, interessante e culto, e arguto como sempre. Allegra admirava-o e gostara de conhecê-lo. É curioso... Tudo parece ser muito mais civilizado aqui do que na Califórnia. Existe mesmo um meio literário, cheio de senhoras e de cavalheiros, e com gente erudita, que se comporta como deve ser e respeita as tradições. Lá são todos muito menos requintados. Às vezes, esqueço isso, mas volto para cá e lembro-me novamente. Na Califórnia, um homem como Jason Haverton não poderia existir. Seria atacado pelos jornais, receberia ameaças de morte e os tablóides insinuariam que tinha um caso com a enfermeira geriátrica.

            —  Quem sabe, Allegra? Sendo ele um velho, talvez isso desse algum sal à sua vida. Talvez gostasse.

            —  Estou falando sério —  disse ela. Tinham recomeçado a Patinar, e ele agarrava-a com força, com o pretexto de impedi-la de cair. Allegra não objetou, a situação agradava-lhe. É um mundo diferente, Jeff.

            —  Eu sei —  concordou ele, falando num tom mais grave. Para alguns dos seus clientes, deve ser difícil ter uma vida tão exposta, tão cheia de medos, de ameaças de morte e do assédio constante a si próprios e às famílias.

            —  Um dia isso também vai acontecer-lhe. Sucede a todos aqueles que fazem algum dinheiro e que são célebres. É um processo quase automático. Uma pessoa ganha uns dólares, torna-se famosa e alguém quer matá-la. É como no Oeste selvagem: pum, pum, e acaba tudo. E os tablóides também não são muito divertidos. Inventam qualquer mentira para aumentar as vendas e não se importam de magoar seja quem for.

            —  Você deve estar sempre a lidar com essa escória, dado os clientes que tem. Consegue fazer alguma coisa para protegê-los?

            —  Muito pouco. Aprendi com os meus pais a ser discreta, a levar uma vida honesta e a ignorar essas coisas, mas eles perseguem-nos, de qualquer maneira. Costumavam tentar tirar-nos fotografias quando éramos pequenos, mas o meu pai parecia um leão enjaulado, nunca  deixava, e, quando era obrigado a isso, recorria a medidas restritivas para nos proteger. Mas agora as coisas estão muito mais soltas, é preciso haver duas tentativas de assassinato para conseguir proteção Pouco antes de vir, tomei um grande susto com a Carmen, mas hoje falei com a polícia e com o FBI, e parece que a situação acalmou. Isso a aterroriza, pobrezinha. Às vezes, telefona-me às quatro da manhã só porque ouviu um barulho e ficou apavorada.

            —  Você deve dormir bastante... —  gracejou ele.

            Allegra riu. Não lhe disse que Brandon detestava aqueles telefonemas nem que protestava constantemente devido às intromissões dos seus clientes. Não lhe parecia correto queixar-se dele a Jeff, e também não lhe queria criar falsas esperanças, mostrando-se infeliz por causa de Brandon. Ainda estavam muito unidos Além disso, na semana seguinte Jeff regressaria a Los Angeles, e não haveria mais noites como aquela. Quanto muito, talvez almoçassem juntos uma vez por outra. Podia até apresentá-lo a Alan, ou mesmo aos pais. Sabia que Blaire iria adorá-lo, e Simon já o conhecia. Pareceu-lhe estranho pensar nisso, era como se o levasse a casa dos pais para estes lhe darem a sua aprovação.

            —  Em que está pensando? —  perguntou Jeff, fitando-a.

            Allegra tinha uns olhos expressivos e franzira o sobrolho. Hesitou antes de responder.

            —  Estava pensando que gostaria de o apresentar à minha família, e isso pareceu-me estranho, portanto procurava justificar a situação a mim própria.

            —  E tem de fazê-lo, Allegra? —  perguntou ele ternamente.

            —  Não sei. Terei?

            Ele não respondeu. Estavam no limite do rinque de patinagem, encostados no corrimão. Jeff olhou para ela, com a neve caindo sobre ambos, aproximou-se mais e beijou-a. Allegra ficou tão admirada que nem reagiu: ficou encostada a ele, para não cair, e depois retribuiu o beijo, deixando que o seu corpo se colasse ao dela. Quando pararam, estavam ambos sem fôlego.

            —  Oh... Jeff —  disse, baixinho, atordoada com o que tinham feito. Sentia-se de novo uma menina e, ao mesmo tempo, uma mulher.

            —  Allegra... —  Jeff murmurou o seu nome e abraçou-a de novo. Ela não ofereceu resistência.

            Por fim separaram-se e recomeçaram a patinar. Durante alguns minutos, nenhum disse uma palavra.

            —  Não sei se devo pedir desculpa por isto, mas não me agrada —  disse ele muito sério, olhando para Allegra enquanto patinava.

            —  Não tem de fazê-lo. Eu também o beijei —  respondeu ela tranquilamente.

            Então Jeff olhou-a bem de frente.

            —  Sente-se culpada em relação ao Brandon?

            Queria saber o que ela sentia. Estava apaixonando-se por Allegra, estava completamente enamorado dela, das suas idéias, dos seus princípios e dos seus sonhos, para não falar da sua beleza. Agradava-lhe estar com ela, abraçá-la, beijá-la e fazer amor com ela, e Brandon que fosse para o inferno!

            —  Não sei. —  respondeu a jovem o mais sinceramente possível. Não sei ao certo o que sinto. Por um lado, acho que deveria sentir-me culpada. Quero casar com ele. Há dois anos. Mas o Brandon é tão rígido, Jeff! Recusa-se a dar mais do que quer, e tudo o que faz é calculado, limitado e restrito.

            —  Porque é que pretende casar com uma pessoa assim; pelo amor de Deus? —  perguntou Jeff, irritado, parando de novo. A sessão estava quase terminando e as poucas pessoas que ainda se encontravam no rinque começavam a se retirar.

            —  Não sei. —  respondeu ela, lamurienta, cansada de explicar a mesma coisa a toda as pessoas e tentando justificar-se, até a si própria. Talvez porque tenho estado ao lado dele há tanto tempo, ou porque penso que ele necessita de mim. Creio que seria boa para ele. O Brandon precisa aprender a dar, a soltar-se, a não ter tanto medo de amar e de se comprometer...

            Os olhos de Allegra encheram-se de lágrimas quando se virou para Jeff. Tudo parecia tão estúpido em comparação com a generosidade dele!

            —  E se o Brandon não aprender, o que lhe resta. Que tipo de casamento será o seu? Possivelmente semelhante ao que ele teve com a ex-mulher, péssimo. Talvez fique sempre ressentido consigo por tê-lo obrigado a dar qualquer coisa que não está na sua natureza. Parece que foi isso mesmo que o aborreceu no primeiro casamento, e, no entanto, ainda nem sequer se divorciou. Quanto tempo irá durar essa situação? Mais dois anos? Cinco? Dez? Porque faz isto a si própria? É como se estivesse a castigar-se. Você merece muito mais, não acha?

            Era o que a mãe lhe costumava dizer, mas a voz de Jeff era mais clara.

            —  E se você for como ele. —  retorquiu, tristemente, verbalizando o seu pior receio, o seu maior terror. No fim, todos eram como Brandon, mas era assim que ela os escolhia.

            —  Acha-me parecido com ele neste momento? —  perguntou Jeff.

            Allegra riu através das lágrimas e respondeu

            —  Não, você me faz lembrar o meu pai, Simon Steinberg.

            —  Tomo essas palavras como um cumprimento —  afirmou Jeff sinceramente

            —  E são, é sério. Você me faz lembrar um pouco o meu irmão, e também o Alan —  acrescentou, com um sorriso triste, pensando em todos os homens bons da sua vida e não naqueles que eram prisioneiros da sua incapacidade de dádiva, como Brandon e outros antes dele.

            —  Já alguma vez tentou falar com alguém acerca disto? —  perguntou Jeff com ingenuidade.

            Ela riu.

            —  Ah, sim, o grande entendido da psicoterapia! E durante quanto tempo é que se suporta tal coisa? Faço terapia há quatro anos. Vejo a minha psicóloga às terças-feiras —  respondeu Allegra com naturalidade.

            —  E o que diz ela?... Ou prefere não falar nisso? —  continuou, hesitante.

            Ficava confuso que se mantivesse ligada a uma pessoa que lhe dava tão pouco. Até ela própria parecia ter consciência disso, embora tivesse reparado que o defendia muito, e parecia habituada a fazê-lo. Com certeza que outras pessoas lhe teriam já dito o mesmo.

            —  Não, não tenho problema em falar nisso —  respondeu Allegra abertamente, dando mais uma volta ao rinque ao lado de Jeff. Ela diz que é um velho problema, e é. Escolho homens que não são capazes de me amar, nem a mim nem a outra pessoa qualquer, mas creio que o Brandon é melhor do que os anteriores. Pelo menos, tenta.

            Jeff não sabia como os outros tinham sido, mas não ficou impressionado com o que ouviu acerca de Brandon.

            —  Como é que sabe? O que faz ele por si? —  perguntou, quase envergonhado.

            —  Brandon ama-me —  respondeu ela com obstinação. Pode ser tenso e retraído, mas, apesar disso, creio que me ajudaria, se eu precisasse dele.

            Allegra sempre se convencera disso, mas Brandon nunca tivera oportunidade de o provar.

            —  Tem a certeza? —  insistiu Jeff, contundente. Pense nisso. Quando é que ele a ajudou? Eu mal a conheço, mas começo a estar convencido de que ele a vai deixar ficar mal um destes dias. Nem sequer consegue divorciar-se da ex-mulher! De que está ele à espera?

            Porém, Allegra ficou tão triste com a pergunta que Jeff resolveu mudar de assunto.

            —  Desculpe, talvez eu esteja com ciúmes. Não tenho o direito de dizer estas coisas, mas a situação parece-me tão injusta! É difícil encontrar alguém por quem me interesse, e de repente surge você, com o Brandon a seu lado, como uma série de latas vazias atadas ao rabo de um gato. Acho que gostaria de me ver livre dele e simplificar a situação.

            Allegra riu da analogia e compreendeu as implicações.

            —  Eu percebo.

            Jeff tocara-lhe num ponto sensível, mas não o admitiria perante ele. Há dois anos que andava com Brandon e não ia acabar a relação por ele não a ter acompanhado à cerimônia do Globo de Ouro, por não lhe ter dito ao telefone que a amava, porque gostava de voltar para casa depois de fazer amor com ela nem porque conhecera um escritor belo e atraente em Nova Iorque. Não estava disposta a atirar a vida pela janela fora só porque alguém a levara para patinar. Jeff desarmara-a, e ela tinha consciência disso, mas esse fato nada tinha a ver com Brandon.

            Continuaram a patinar, de braço dado, até ao fim da sessão, e em seguida devolveram os patins. Allegra não disse uma palavra até voltarem para a carruagem. Jeff lamentou ter se excedido e convidou-a para ir até a casa da mãe para tomar qualquer coisa, mas Allegra considerou que era mais acertado regressar ao hotel. Já era tarde e tinha de se levantar cedo no dia seguinte.

            —  Prometo que me porto bem. Eu não devia ter dito aquelas coisas a respeito dele, Allegra. Desculpe.

            —  Sinto-me lisonjeada —  replicou Allegra, sorrindo, e muito gostaria que me renovassem o convite, mas amanhã tenho de me levantar cedo.

            Dizendo isto, reclinou-se no banco, nos braços dele, e Jeff imaginou como seria bom acordar a seu lado na manhã seguinte, porém não disse nada e limitou-se a ouvir o ruído dos cascos dos cavalos no pavimento e a ver a neve pela janela.

            —  É bonito, não é? —  perguntou, ternamente. Allegra fez um sinal afirmativo e sorriu.

            —  Adorei ir patinar. Obrigada, Jeff.

            O jantar fora mais do que criativo. Allegra apreciara todos os momentos passados com ele, mesmo quando fizera afirmações contundentes acerca de Brandon, e, por muito que isso a irritasse, compreendia perfeitamente as motivações de Jeff. Brandon continuava a ser merecedor de crítica, mas não era nele que Allegra pensava nesse momento, e sim em Jeff, enquanto a carruagem atravessava o parque em direção ao Plaza.

            —  Você patina bastante bem —  disse ele em tom de elogio, mas beija ainda melhor.

            Allegra reagiu com uma risadinha.

            —  Também você, e tem espírito desportivo. Recomeçaram a conversar e, quando saíram do parque, riam e falavam à vontade um com o outro. Assim que chegaram à porta do hotel, o cocheiro ajudou-os a descer; Jeff pagou-lhe e a carruagem afastou-se.

            —  Sinto-me uma espécie de Cinderela —  disse ela, observando os cavalos que desciam Park Avenue, coberta de neve, e devolvendo-lhe as luvas.

            —  E agora? Transformamo-nos em abóboras? —  perguntou ele, divertido e mais feliz do que nunca. Allegra era formidável.

            —  Foi tão divertido... Adorei!

            A situação fora perfeita, com a neve e a patinagem. Allegra olhou para ele e pensou em beijá-lo, roída pelo desejo. Jeff entrou a seu lado e esperou que o elevador descesse. Ficou admirada ao ver que ele entrara também, mas não disse nada. Subiram os dois lado a lado, em silêncio, até ao décimo quarto andar. Jeff seguiu-a até à porta do quarto e esperou que ela tirasse a chave do bolso. Allegra não o convidou a entrar e ficou ali olhando para ele, com um ar melancólico. Gostaria que a situação fosse diferente, que Brandon não existisse na sua vida há dois anos, mas era impossível negá-lo, e não estava em causa trocar uma relação por uma noite romântica na neve com um desconhecido.

            —  Deixo-a aqui —  disse Jeff, tão perturbado como ela. Não queria sair magoado, mas também não queria separar-se dela nem acreditar que desejava ou que tinha ou não tinha com Brandon.

            —  Ia desejar-lhe boa-noite, sem tencionar pressioná-la mais, quando ela deu um passo na sua direção, e Jeff não conseguiu conter-se. Puxou-a para si e beijou-a, apertando-a tanto que ela quase nem conseguia respirar. Mas Allegra gostou. Sentiu-se segura, protegida e desejada, embora soubesse que, se passasse a noite com ele, Jeff só quereria sair de manhã.

            Beijou-o de novo, tão cheia de desejo como ele; depois se afastou e abanou a cabeça tristemente.

            —  Não posso fazer isto, Jeff —  murmurou, com os olhos marejados de lágrimas.

            Jeff fez um sinal afirmativo.

            —  Eu sei. Nem eu queria tal coisa neste momento. Você passaria a odiar-me. Porque não nos deixamos ficar assim por enquanto, como num romance à antiga, com uns abraços e uns beijos, sem mais nada, ou talvez apenas como amigos, se é isso que deseja? Eu farei o que você quiser —  disse ele com ternura. Não me vou embora. Não se sinta pressionada.

            —  Nem sei o que sinto —  respondeu ela com sinceridade. Estou tão confusa... Olhou para ele com uma expressão verdadeiramente atormentada. Eu desejo-o... Também desejo o Brandon... Quero que ele seja o que nunca foi, mas acho que ele podia... E porque me aflijo? Porque faço isto? Não percebo o que estou aqui a fazer. Acho que estou apaixonando-me por você. Isto é real? Ou apenas um devaneio nova-iorquino? Não sei o que está acontecendo... —  disse ela, tropeçando nas suas próprias palavras.

            Jeff sorriu, enlevado, e beijou-a outra vez.

            Allegra não o afastou. Adorava beijá-lo, aninhar-se nos seus braços, estar junto dele, sentada numa carruagem, patinando...

            —  O que acontecerá quando voltarmos? —  perguntou. Estavam encostados à parede do lado de fora do quarto.

            Não se atrevia a levá-lo para dentro, porque não sabia se não acabariam na cama ao fim de cinco minutos, e isso não seria justo para ninguém, apesar de tentador. Conseguiria Jeff acompanhá-la, fosse qual fosse a vida dela? Era uma pergunta interessante.

            — Isto é tudo muito romântico, mas o que aconteceria quando eu tivesse de ir ao mercado comprar comida, quando a Carmen me telefonasse às quatro da manhã porque um cão derrubou um latão do lixo ou o Mal O’Donovan fosse preso por embriaguez e distúrbios em Reno e eu tivesse de me levantar da cama e ir ao encontro dele para  pagar sua fiança?

            — Eu iria com você. Nem mais nem menos. Não considero nada disso assim tão chocante nem impositivo. Até seria divertido para mim. Daria-me excelentes idéias para algumas das minhas aventuras na ficção comercial.

            — Não brinque. Isso equivale a ter meia dúzia de filhos adolescentes e rebeldes.

            — Acho que conseguiria sobreviver. Pareço-lhe assim tão frágil? Sempre fui muito flexível. Aliás, seria um bom treino para quando tivéssemos filhos, que fazem tudo isso, ou talvez não, se os educarmos bem.

            — O que é que está dizendo?

            Allegra parecia totalmente confusa e um pouco infeliz, mas tinha de reconhecer que era uma infelicidade agradável.

            — Que quero estar com você, que quero acompanhá-la, e ver o que acontece. Comigo passa-se o mesmo: estou apaixonando-me e não sei por que, mas também não quero perder nem devolver tudo a um tipo que, em minha opinião, não a aprecia nem a merece. Afastou com os dedos uma madeixa do cabelo sedoso de Allegra e fitou os olhos que conhecia apenas há dois dias, mas que já confiavam tanto nele. O que eu não quero é fazê-la infeliz, nem afastá-la. Deixemos estar tudo assim, por enquanto; as coisas acabarão por se resolver. Veremos o que acontece quando regressarmos a Los Angeles — disse Jeff, mostrando-se razoável.

            Aterrada, Allegra olhou para ele.

            — E se eu concluir que não poderemos voltar a ver-nos? — perguntou.

            Não seria solução continuarem a se ver e a beijar-se de vez em quando; Brandon decerto não iria gostar.

            — Espero que não tome essa decisão — respondeu ele, sem perder a calma.

            — Não sei o que fazer... — disse ela, sentindo-se como uma criança.

            Jeff sorriu, tirou-lhe a chave da mão e abriu a porta

            — Tenho algumas idéias, mas não creio que nenhuma delas seja apropriada, dadas as circunstâncias. Beijou-a de novo, provocando-lhe um estremecimento interior, e estendeu-lhe a chave, sem sair do corredor. E amanhã?

            — Tenho uma reunião com o Haverton e com os promotores e mais duas nos arredores. Depois lembrou-se que combinara jantar com um advogado que não tinha hipótese de se encontrar com ela de outra maneira. Seria um dia longo e não disporia de muito tempo para vê-lo. Acho que não estarei livre antes das nove, ou talvez mais tarde.

            — Telefono a essa hora.

            Jeff inclinou-se, beijou-a e desceu.

            Allegra sentiu-se em paz ao fechar a porta do quarto. Pensou em telefonar a Brandon, mas sentiu que não era capaz. Seria muito desonesto ligar e fingir que ficara sentada no quarto pensando nele. Sabia que tinha de deixar de ver Jeff, ou pelo menos parar de beijá-lo, mas a sensação de desistir de tudo era demasiado penosa. Talvez conseguisse encarar a situação como um interlúdio sem importância, com alguns beijos, e depois tudo voltaria à normalidade, quando ambos regressassem à Califórnia. Passou-se uma hora, e continuava a pensar no mesmo, quando Jeff telefonou. Deu um salto ao ouvir o toque e pensou em não atender: tinha a certeza de que era Brandon. Ele não ligara nesse dia e não havia mensagens de casa. Por fim resolveu atender, mas ao fazê-lo sentiu-se imediatamente culpada.

            —Alô?

            Parecia uma criminosa ao pegar no telefone, e Jeff deu uma gargalhada do outro lado.

            — Céus! Nem tente sequer jogar pôquer. Está com uma voz horrível,

            — É assim que eu me sinto, Jeff, profundamente culpada.

            Foi o que me pareceu. Ouça, você não fez nada de mal, os danos podem ser reparados. Não traiu a confiança dele e, se se sentir melhor assim, podemos fazer um intervalo. Era uma proposta sensata, mas custava-lhe muito fazer tal sacrifício. Jeff por seu lado, gostaria de vê-la tantas vezes quantas ela quisesse.

            — Acho que devemos fazer uma pausa — respondeu, desolada. Eu não agüento isto!

            — Você é uma mulher honesta. É uma pena... — gracejou ele, sem querer entristecê-la. Porém, era terrível pensar que não voltariam a encontrar-se.

            — Amanhã à noite não posso te ver — disse ela, recuperando a firmeza.

            Jeff sentiu um aperto no coração.

            — Compreendo. Telefone, se mudar de idéia. Allegra tinha todos os números dele.

            — Sente-se bem?

            Mal a conhecia, mas preocupava-se com ela.

            — Sim, só preciso recuperar o meu equilíbrio. Os dois últimos dias foram uma loucura total!

            — E muito agradáveis — acrescentou ele, recordando a boca dela e com receio de não voltar a beijá-la. Telefonara para dar boa-noite, mas acabara por proporcionar a oportunidade de fugir, o que contrariava o seu intento.

            — Os dois últimos dias foram maravilhosos — disse ela, pensando na patinagem, na carruagem e nos beijos que haviam trocado sob a neve. Ele virara a sua vida do avesso, e agora ela tinha de se concentrar na realidade e voltar para Brandon. Eu telefono acrescentou, com a voz entrecortada, pensando em Jeff e não em Brandon. Boa noite, Jeff.

            — Boa noite.

            Jeff não chegou a explicar porque ligara. Telefonara apenas para dizer que a amava.

 

            O dia de quarta-feira pareceu-lhe interminável. Tinha vários compromissos, tanto no centro da cidade como nos arredores, um almoço tardio e por fim um jantar de última hora com um especialista em direito fiscal que trabalhava para um dos seus clientes. Foi um dia longo. Ao sair do restaurante, em Park Avenue, para apanhar ar, pensou em Jeff pela milésima vez desde manhã.

            Mantivera-se firme, o que quase lhe custara a vida, mas não telefonara para ele. Não podia fazê-lo; os sentimentos de ambos estavam muito frescos, mas eram demasiado intensos. Era muito perigoso brincar com o fogo.

            No caminho para o hotel olhou casualmente para uma livraria e viu-o. Da contracapa de um livro, Jeff observava-a através da vitrine. Allegra parou e fitou aqueles olhos que lhe diziam tanto. Contrafeita, entrou no estabelecimento e comprou um exemplar.

            Já no quarto, pousou o livro na mesa a seu lado e ficou olhando para a fotografia. Por fim, guardou-o na pasta. Não havia mensagens, nem dele nem de mais ninguém. Tinha chegado um monte de faxes e, nessa manhã, as ligações telefônicas com Bram Morrison e Malachi O’Donovan haviam sido longas. Carmen deixara uma mensagem codificada a Alice, dizendo que estava bem, e tudo o resto parecia correr dentro da normalidade, só Bram é que tinha um problema, alguém fizera uma estranha ameaça a um dos seus filhos. Chegara pelo telefone, e a governanta espanhola mal percebera o que o homem dissera, mas o tom não era dos melhores. O próprio Bram ligara à polícia e contratara guarda-costas para proteger os dois filhos. Tal como Allegra explicara a Jeff, os problemas eram inúmeros, ameaças, decisões a tomar, tournées, licenças, exploração de todo o gênero e os intermináveis contratos.

            Mas nessa noite Allegra não encontrou consolo no trabalho; só conseguia pensar em Jeff. Por fim, às dez horas, ele telefonou.

            — Como foi o seu dia de trabalho?

            Tentou não se mostrar demasiado insistente, mas estava muito nervoso e com as palmas das mãos úmidas da transpiração. Só o fato de ouvir a voz dela e de não poder vê-la fazia-o sentir-se infeliz.

            — Não foi mau.

            Allegra falou-lhe de Bram, da tournée e da ameaça e Jeff ficou impressionado com o perigo que corriam os filhos do ator.

            — Essas pessoas estão doentes, deviam ir para a cadeia! E como foi o resto do dia?

            Allegra deu um olhar desolado à pasta, que estava do outro lado do quarto.

            — Comprei o seu livro.

            — Sério? — Jeff parecia satisfeito. Agradava-lhe saber que ela pensara nele. O que TE levou a comprá-lo?

            — Queria ter o seu retrato.

            Allegra parecia uma menina. Jeff riu e teve vontade de abraçá-la.

            — Eu podia passar por aí e mostrar-lhe o original... — sugeriu, animado.

            Foi a vez de ela dar uma gargalhada.

            — Acho que não devemos.

            — Como está o Brandon? — perguntou ele, por fim, depois de uma pausa. Detestava até ouvir o seu nome, mas queria saber se ela lhe telefonara.

            — Liguei agora a pouco. Ele tinha saído. Deve andar atarefado com o julgamento.

            — E nós, Allegra? — perguntou Jeff em voz baixa. Não conseguira concentrar-se, pensar ou fazer o que quer que fosse nessa manhã.

            — Acho que vamos continuar como estamos até aprendermos a controlar-nos—  respondeu ela.

            — Vou te comprar uma pistola de alarme para você disparar sempre que eu me aproximar. Garanto que não teria descanso!

            —  Sou tão má como você  —  disse ela, ainda com remorsos.

            — Não seja tão implacável para consigo mesma, pelo amor de Deus! Você fez tudo o que estava certo: impediu-me de avançar, mandou-me embora, disse que não voltaria a ver-me.

— Jeff enumerou-lhe as virtudes que detestava, mas sem deixar de respeitar a coragem e a ética de Allegra. Ela estava determinada a ser fiel.

            — Pois, eu fiz tudo isso, mas depois de tê-lo beijado várias vezes —           retorquiu, corrigindo-o.

            — Ouça, conselheira, beijar não é crime neste país. Tenha calma! Não estamos na Inglaterra vitoriana! Você fez o que estava certo e devia sentir-se satisfeita consigo mesma — lembrou-lhe Jeff, desejoso de que ela não fosse tão fiel a Brandon.

            — Não estou satisfeita Sinto-me mal e, ainda por cima, tenho saudades suas confessou Allegra.

            — Agrada-me ouvir isso — disse ele, radiante. Como vai ser o dia de amanhã, ou isso não interessa?

            — Muito ocupado, e sim, interessa.

            — á imaginava... — suspirou, deprimido. Quando regressa a Los Angeles?

            — Na sexta-feira.

            — Eu também. Podemos, ao menos, ir no mesmo vôo? Prometo não fazer nada de impróprio no avião.

            Allegra riu, mas a idéia não lhe pareceu a melhor. Porque haviam de se torturar? Era óbvio que não conseguiriam deixar de tocar-se.

            — Não me parece, Jeff. Talvez um dia possamos almoçar em Los Angeles.

            — Ora, ora, isso não chega — replicou ele, queixoso, merecemos mais. Não podemos ser amigos, pelo menos? Isto não faz sentido! Você não é uma freira, é uma mulher, e nem sequer está casada com ele! E, pelas suas contas, tal nunca viria a suceder, mas quando ela chegasse a essa conclusão e recuperasse a liberdade, o que estaria ele fazendo, onde viveria? O sentido de oportunidade era importante na vida, e Jeff não tencionava esperar que ela desistisse de Brandon. Naquele ritmo, levaria anos. Allegra, encontre-se comigo só mais uma vez antes de voltar. Por favor. Preciso vê-la!

            — Você não precisa, você quer argumentou ela.

            — Faço uma fita se você não concordar. Vou ao hotel e deito-me no chão do átrio. Levo a carruagem e o cavalo e entro pela porta giratória. Jeff fazia-a sempre rir, o que o deixava muito feliz. O que nos está fazendo, sua marota? O que se passa?

            — Estou mantendo a minha palavra, e honrando um compromisso.

            — Esse tipo não faz idéia do que é isso, e você bem sabe. Ele não a merece! Aliás, nem eu. Pelo menos me deixe levá-la ao aeroporto.

            — Eu telefono em Los Angeles. — respondeu ela com firmeza.

            — E diz o quê? Que não me vê por causa do Brandon?

            — Você prometeu que não me pressionava... — lembrou-lhe a jovem, sentindo-se esgotada.

            — Menti — retorquiu ele calmamente.

            — Você é impossível!

            — Vá ler o meu livro, ou olhar para a minha fotografia. Telefono amanhã à noite.

            — Não estarei.

            Allegra tinha de demovê-lo, embora contra a sua própria vontade.

            — Então telefono mais tarde.

            — Porque me pressiona deste modo?

            — Porque a amo.

            Fez-se um longo silêncio do lado dela. Jeff fechou os olhos e ficou à espera, ciente de que não devia ter dito aquilo.

            — Está bem, não a amo, foi um disparate. Gosto muito de você e quero conhecê-la melhor.

            Ouviu-se uma risadinha do outro lado da linha.

            — Allegra Steinberg, sabe que está me deixando doido. E como me vai representar se não me vir?

            — Você não tem qualquer acordo para fazer neste momento — disse ela.

            Jeff ficou furioso.

            — Então me arranje um! Que tipo de advogada é você?

            — Perdi o juízo, graças ao meu cliente mais recente.

            — Vá-se embora, volte para ele! E não quero voltar a vê-la. Além disso, patina mal — gracejou ele.

            — É verdade — reconheceu Allegra, rindo de novo. Ambos guardavam boas recordações da noite anterior

            Ao pensar nisso, custava-lhe a acreditar que não o via apenas há um dia: parecia-lhe uma eternidade! Como conseguiria sobreviver em Los Angeles se não se encontrassem?

            — Estava brincando, é uma excelente patinadora — disse ele com ternura. Aliás, tem uma série de atributos ótimos, e um deles é a fidelidade. Espero ter a sorte de encontrar alguém como você, um dia. As mulheres da minha vida sempre me deram a impressão de que a fidelidade incluía pelo menos meia dúzia de pessoas, ou a maioria dos habitantes do sexo masculino de uma pequena cidade. De qualquer modo, telefono amanhã à noite, Miss Steinberg — insistiu, com delicadeza.

            — Boa noite, Srtª. Hamilton — respondeu ela, aprumada. Tenha um bom dia amanhã. Falo com você à noite.

            Não podia dizer-lhe que não telefonasse; gostava muito de falar com ele, e a conversa representava um estímulo para ambos, o que era conveniente, porque o dia seguinte ia ser terrível.

            Choveu a cântaros. Allegra não conseguiu arranjar um táxi e o ônibus parou quando se decidiu tentar este meio de transporte. Todas as suas reuniões se prolongaram ou foram canceladas. Por volta das seis horas, quando chegou ao hotel, estava ensopada. De manhã fora convidada para jantar em casa dos Weissman, às sete e meia, e, para afastar Jeff da sua mente e não ficar sentada no quarto pensando nele, aceitara o convite. Ele enviara um ramo de rosas vermelhas logo de manhã. Ficara encantada ao ver as flores, mas, felizmente, ele não insistira. Allegra sentia que devia mais do que isso a Brandon e sabia que ele lhe era fiel; apesar das suas muitas falhas, a leviandade não era uma delas. Na verdade, estava admirada consigo própria em relação a Jeff, nunca acontecera ficar prisioneira de uma atração irresistível

            Regressaria a Los Angeles no dia seguinte, mas não falava com Brandon desde segunda-feira. Telefonara e deixara várias mensagens, mas ele saíra sempre ou fora para o tribunal ou estava em reuniões. Era irritante não conseguir falar com ele, mas concluiu que talvez fosse o seu castigo por não ter sido totalmente fiel. Procedera mal ao beijar Jeff e sabia que, se o voltasse a ver, não conseguiria resistir. Sentia-se triste, mas ao mesmo tempo, aliviada por saber que não estaria no hotel nessa noite, se ele telefonasse.

            Escolheu um vestido de lã vermelho e soltou o cabelo e depois enfiou a capa de chuva. Ainda tentou falar com Brandon mais uma vez antes de sair, mas voltaram a dizer que ele estava numa reunião, por isso deixou mensagem dizendo que telefonara. Em seguida desceu  correndo e pediu ao porteiro que lhe arranjasse um táxi.

            Esperou meia hora e acabou por chegar atrasada, tal como a maioria dos convidados, aliás, pelo mesmo motivo. Os Weissman esperavam catorze pessoas para jantar. Andreas já lhe dissera que Jason Haverton estaria presente, além de mais dois ou três escritores.

            Assim que entrou, foi apresentada a uma jovem muito atraente. Era uma escritora feminista bastante controversa, mais uma cliente de Andreas. Também lá estava um célebre locutor, um correspondente do New York Times, o diretor da CNN, com a mulher, e uma atriz da Broadway conhecida da sua mãe, que fez questão de a cumprimentar antes de se sentar. A mulher era muito respeitada e imponente e fez uma entrada arrasadora na sala, que foi observada por todos. Era o evento nova-iorquino perfeito para uma noite de chuva.

            Só faltava uma pessoa, e a campainha da porta tocou no último minuto. Allegra levantou a cabeça e, quando o convidado entrou na sala, reconheceu que devia ter adivinhado: era tão óbvio! Nenhum deles desconfiara, e Jeff ficou ainda mais admirado do que ela.

            — É o destino... — disse ele, fitando-a com um sorrisinho perverso.

            Allegra riu, aliviada, e muito mais satisfeita do que queria admitir, sem conseguir disfarçar o que sentia. Estendeu-lhe a mão como se tivessem acabado de se conhecer.

            —  Sabia de alguma coisa? —   perguntou, a meia voz, sentando-se ao seu lado. Tinha o cabelo molhado da chuva e estava muito atraente.

            — Claro que não — respondeu ela, denunciando com o olhar os sentimentos que procurava combater. Era uma sorte ele não a beijar em frente dos Weissman.

            — Diga a verdade. — Jeff gracejava com ela e divertia-se com isso. Foi você que combinou tudo? Não tenha vergonha de me contar.

            Allegra deu-lhe um olhar malévolo. Ele riu, inclinou-se, deu-lhe um beijo na face e foi buscar um uísque com água. Voltou pouco depois e sentou-se conversando com ela. Por fim, Jason Haverton aproximou-se. Estava satisfeito com o acordo que haviam conseguido e as suas reticências quanto à hipótese de um dos seus livros ser adaptado ao cinema tinham-se dissipado, em grande parte graças a Allegra

            — Ela é formidável! — afirmou o velho escritor, com admiração, aproveitando uma ocasião em que Allegra se aproximara de Andreas para dizer qualquer coisa. É excelente no que faz e muito bonita — acrescentou, fazendo acompanhar o elogio de um gim tônico.

            — Acabei de contratar os serviços dela — confirmou Jeff, divertido com a conversa.

            — Pode crer que vai fazer um bom trabalho — disse o velho para sossegá-lo.

            — Espero que sim — respondeu Jeff, quando Allegra se dirigia para junto deles.

            Foi uma noite interessante para todos e o final perfeito para a estada de Allegra em Nova Iorque. Jeff saiu com ela. Allegra desistira de mantê-lo à distância; era tão natural estarem juntos! E ele parecia tão feliz na sua companhia! Mostrava-se muito orgulhoso e protetor.

            — Quer ir tomar um suco a qualquer lado? — perguntou com ar inofensivo. Se confiar em mim, claro está.

            Os seus olhos transbordavam de ternura e amor.

            — Você nunca foi problema, o problema sou eu — respondeu, sorrindo, quando desciam no elevador.

            — Julgava que éramos ambos. Quer passar pela casa da minha mãe? Fica a três quarteirões daqui. Prometo portar-me bem, e, se me descontrolar, pode sair quando quiser.

            — Você me parece muito perigoso. Allegra riu das precauções de Jeff. Temos de saber lidar com isso, não acha?

            Mas a verdade é que nenhum deles conseguia fazê-lo. Desceram a Quinta Avenida debaixo do mesmo guarda-chuva, até chegarem ao apartamento.

            O vento estava forte e empurrava Allegra para o lado de Jeff. O prédio era muito semelhante àquele em que os Weissman viviam. Tinha um único apartamento em cada andar e o elevador dava em átrios particulares e individuais. Era um edifício pequeno e os apartamentos, apesar de não serem grandes, eram muito bem lançados, com uma vista soberba.

            No andar da mãe de Jeff, o chão do átrio era de mármore preto e branco. O mobiliário resumia-se a uma mesa e a uma cadeira antigas compradas num leilão da Christie’s. No interior do apartamento havia uma grande coleção de antiguidades inglesas. Quanto aos tecidos, brocados amarelos de grande requinte conviviam com sedas de tons cinzentos e com alguns chintz de cores sóbrias. Estava muito bem decorado, mas o ambiente era um pouco austero. Só num pequeno escritório com um sofá de couro é que Jeff e Allegra sentiram que poderiam sentar-se e conversar. Era a única divisão que agradava a Jeff. Allegra pegou numa fotografia da mãe dele e examinou-a com interesse. Era uma mulher alta e magra, muito parecida com o filho, mas tinha uns olhos tristes, os lábios finos, e era difícil imaginá-la sorrindo. Não parecia muito divertida, e neste aspecto era difícil compará-la a Jeff, cujo rosto era a imagem do riso e do bom humor.

            — Tem um aspecto muito sisudo — comentou Allegra com delicadeza, pensando como era diferente da sua família, em que todos riam e falavam alto, e da sua própria mãe, que era tão bonita.

            — Ela é uma pessoa sisuda. Não creio que tenha voltado a ser feliz desde que perdeu o meu pai — explicou ele.

            — Oh, que pena! — exclamou Allegra, embora com a sensação de que ela sempre fora assim.

            — O meu pai é que tinha senso de humor.

            — O meu também  — disse Allegra, mas depois lembrou-se que Jeff já o conhecia.

            — Sentou-se no sofá, ao seu lado, com um copo de vinho na mão, e estendeu as pernas, enquanto ele acendia a lareira.

            Fora uma semana longa e cansativa, mas também tivera os seus pontos altos, nomeadamente o passeio de carruagem e o rinque de patinagem, e até o jantar dessa noite. Tinham ficado sentados um ao lado do outro. Com Jeff à direita e Jason Haverton à esquerda, a conversa fora animada.

            — Esta noite diverti-me — disse, observando-o, satisfeita por estar ali com ele. E você?

            Jeff virou-se para ela e sorriu.

            — Claro, muito. Sabe, por acaso passou-me pela cabeça que você estivesse lá, mas nem sequer me atrevi a perguntar. Tive receio que não aparecesse, se soubesse que eu também fora convidado. Teria ido, em qualquer dos casos?

            Ela encolheu os ombros

            — Talvez. Nem sequer acalentei a esperança de que você estivesse lá. Ela destrói as nossas ilusões, não é?

            Na verdade, ficara tão feliz ao vê-lo que o seu coração dera um pulo. Por muito pouco razoável que isso fosse, estava a tornar-se impossível controlar os seus sentimentos E, contudo, havia sempre Brandon, escondido na sombra.

            — E agora? — perguntou Jeff sentando-se a seu lado com um copo de vinho na mão e passando-lhe o braço por cima dos ombros.

            Sentiam-se tão bem juntos, desde que se conheciam. E assim sentados lado a lado, no apartamento da mãe, o momento era perfeito, pensou Jeff.

            — Voltamos para Los Angeles e veremos o que acontece, acho eu — respondeu ela honestamente. Acho que tenho de dizer qualquer coisa ao Brandon.

            A situação era incontornável. De certo modo, Allegra sentia que tinha obrigação de lhe contar o que se passara. Ao rever Jeff percebera que não poderia manter o silêncio

            — Vai falar-lhe acerca de nós? — perguntou ele, escandalizado.

            — Não sei. Allegra ainda não se decidira. Talvez só precise dizer que me sinto atraída por outra pessoa, assim, o Brandon perceberá o que falta.

            — Francamente, acho que devia guardar isso para você. Veja o que sente por ele, o que você quer, o que não tem, e depois tire as suas conclusões.

            Aparentemente eram muitos os motivos de preocupação, ambos estavam cansados de pensar neles, por isso, a conversa derivou para outros assuntos, o seu novo livro, o contrato para mais um filme... Nessa noite, aceitara algumas sugestões de Jason, todas elas instigadas por Allegra.

            Jeff estava entusiasmado com a perspectiva de escrever outro livro, mas muito menos com a conclusão do argumento. Tencionava instalar-se em Malibu e começar a trabalhar assim que voltasse. Não tinha planos para o fim-de-semana.

            —  E você? —  perguntou, interessado.

            A lenha crepitava, e começavam  ficar com sono. A salinha estava quente e confortável, e Jeff sorriu, deliciado com a presença de Allegra. A casa da mãe sempre lhe parecera tão austera! Era agradável ver Allegra aninhada no sofá, a seu lado.

            — Preciso me organizar para o fim-de-semana. Allegra tinha de negociar o próximo filme de Carmen e precisava trocar impressões com Alan acerca de um novo acordo. Havia uma série de grandes e de pequenos projetos que exigiam a sua atenção. Nem sequer imaginava o que se teria acumulado na sua secretária durante a sua ausência!

            — Acho que vou trabalhar no sábado e talvez jante com os meus pais. No domingo vejo o Brandon.

            — Só no domingo? — Jeff ficou admirado. Ele não vai a casa de seus pais no sábado à noite? Não vai buscá-la ao aeroporto?

            — Não pode, está num julgamento. Diz que tem de trabalhar pelo menos até domingo, e não quer que eu o distraia.

            Jeff ergueu o sobrolho e bebeu mais um gole de vinho.

            — Pois eu adoraria que você me distraísse, Allegra — declarou, sorrindo. Telefone-me, se se sentir só. Mas não disse mais nada, e nenhum deles voltou a falar de Brandon.

            Ficaram sentados no sofá durante muito tempo e portaram-se bem, até que ele se levantou para ir buscar gelo. Allegra foi atrás dele. Na cozinha estava tudo imaculado e impecável; a mãe de Jeff era meticulosa e a governanta passara a semana inteira fazendo limpeza. Porém, assim que ele pousou o gelo no lava-louças e olhou para Allegra, não conseguiu refrear-se, aproximou-se dela e abraçou-a. Sentiu-a a tremer nos seus braços, com as pernas encostadas às suas, e pareceu-lhe que todo o seu corpo se derretia com o calor dela.

            — Oh! Céus, Allegra... Não sei como consegue pôr-me neste estado...

            Tivera muitas mulheres na sua vida, mas nenhuma lhe despertara tais sensações. Talvez fosse por saber que não a poderia possuir por enquanto, ou talvez nunca. Havia um sentimento simultaneamente amargo e doce no desejo de ambos. A boca dele encontrou a sua, e pouco depois ela estava encostada à parede. Jeff colou o seu corpo ao dela, mas Allegra não objetou. Desejava-o. No entanto, ele era o fruto proibido, e sabia que não podia ter.

            — Acho que devemos parar... — disse ela distraidamente, com voz rouca, acompanhando os movimentos do corpo de Jeff. Tinha o rosto e o pescoço em brasa. Jeff acariciava-lhe os seios enquanto a beijava.

            — Não sei se agüento isto... — murmurou ele, gemendo e tentando parar, mas sem conseguir.

            Por fim, devagar, penosamente, recuperou o controle. Fora um esforço tremendo, mas Jeff o fez por ela, porque acreditava que aquilo não era o que ela queria. As bocas de ambos continuavam coladas e a mão de Allegra deslizara lentamente pela perna dele. Era uma doce tortura.

            — Desculpe — sussurrou ela, com voz rouca.

            — Também peço desculpa — disse Jeff, desejoso de a possuir ali mesmo, no chão da cozinha, em cima da mesa, em qualquer lado, no silêncio do apartamento da mãe. Não sei quantas vezes conseguirei voltar a fazer isto.

            — Talvez a oportunidade não volte a surgir — replicou Allegra, tristemente. Daqui em diante passamos a encontrar-nos no Spago, em Los Angeles, para almoçar. Lá só poderemos conversar.

            — Que desilusão! Eu estava gostando — gracejou ele. Tocou-lhe de novo no seio, para atormentá-la, e depois a beijou.

            —  Estamos torturando-nos! —   exclamou, destroçada.

            Era tudo tão estúpido! E, todavia, Allegra não pôde deixar de perguntar a si própria se Brandon teria honrado as suas obrigações numa situação semelhante.

            — É divertido, mas perverso — disse Jeff, com um sorriso amarelo, tentando tirar o melhor partido da situação. Não estou interessado em repetir — afirmou, olhando-a bem de frente.

            Allegra perguntou a si própria se haveria um aviso implícito nas suas palavras.

            Jeff foi mostrar-lhe o quarto. Era uma divisão sombria, masculina, com cortinados  riscados e uma profusão de antiguidades inglesas. Conseguiram afastar-se da cama, o que foi um milagre, e riram disso enquanto percorriam o resto do apartamento.

            Pouco depois da meia-noite, Jeff levou-a ao hotel. Subiu com ela, e dessa vez entrou. Havia uma pequena sala de estar. Sentou-se e Allegra mostrou-lhe o livro. Pusera-o de pé, para ver a fotografia dele.

            — Perdemos o juízo, sabe? Eu ando correndo atrás de você como um menino, e você olha para a minha fotografia.

            Fora uma semana estranha para ambos, e, de certo modo, era como se tivessem estado num cruzeiro, longe da vida habitual e das obrigações diárias. Logo veriam o que aconteceria quando voltassem para casa. Por enquanto, era difícil imaginar.

            Jeff ficou mais um pouco, mas já tinham bebido e dito tudo o que podiam, restava-lhes despedirem-se, por uns tempos, pelo menos, ou para sempre. Esse momento chegara depressa para eles, mais depressa do que era habitual para a maioria das pessoas. Era pegar ou largar, deixar correr ou fugir, ou agarrar a oportunidade. Todavia, qualquer caminho que escolhessem seria doloroso.

            Jeff fez um esforço para se levantar e ficou olhando para Allegra durante muito tempo. Depois a abraçou; queria ficar com ela, protegê-la, estar à sua disposição, mas sabia que não podia.

            — Prometa que me telefona se necessitar de alguma coisa. Não precisa fazer nada por minha causa, não é obrigada a romper com ele, se não quiser, mas ligue-me, se precisar de mim.

            — Prometo. E você também anuiu, tristemente. Parecia uma despedida, e por enquanto nenhum deles sabia se aquele momento não passaria de uma simples recordação de uns dias em Nova Iorque, com neve e um passeio de carruagem à meia-noite.

            — Telefono quando receber a minha primeira ameaça de morte — gracejou ele.

            Allegra acompanhou-o à porta. Então Jeff abraçou-a de novo, fechou os olhos e aspirou o perfume dos seus cabelos.

            — Oh, como vou sentir a sua falta!

            — Eu também.

            Allegra nem sabia ao certo o que estava fazendo. Nada tinha sentido. Tentava agir de forma correta, mas tudo aquilo parecia um disparate.

            — Eu ligo só para saber como você está.

            Jeff iria dar uns dias para assentar e depois lhe telefonava para o escritório.

            De repente, ficaram sem palavras. Abraçaram-se uma última vez e beijaram-se. Por fim, Jeff saiu. Ela sentou-se na cama e chorou, já sentindo a sua falta. O telefone começou a tocar pouco depois, mas Allegra não atendeu. Receava que fosse Brandon.

 

            Allegra passou o dia seguinte numa roda-viva. Teve duas reuniões no centro da cidade e o avião partia às seis da tarde, o que implicava que teria de sair do hotel as quatro, ou talvez ainda mais cedo, se estivesse mau tempo e devido ao trânsito de sexta-feira. Telefonou a Andreas Weissman para se despedir e para lhe agradecer todo o apoio prestado durante aquela semana e os seus dois convites extremamente hospitaleiros. Ele reafirmou que fora um prazer conhecê-la, prometeu telefonar- para Los Angeles e agradeceu-lhe o seu trabalho com Jason.

            Fez a mala às pressas as três horas, depois de um almoço tardio, e por fim, com um misto de remorso e de pânico, resolveu telefonar a Brandon. Não falava com ele há dias e começava a sentir-se mal, ainda que, de um modo geral, Brandon nunca tivesse ciúmes nem se mostrasse preocupado com o que ela fazia em Nova Iorque. Sabia que estava trabalhando. E era verdade. Mas surgira Jeff, e Allegra continuava a interrogar-se se a sua vida alguma vez voltaria à normalidade. Jeff telefonara de manhã, quando acabara de se levantar, e o simples fato de ouvir sua voz fizera vir lágrimas aos olhos. Quisera apenas dizer que pensava nela e, apesar de não ter falado nisso, Allegra percebera que ele estava na cama e não pensara noutra coisa durante toda a manhã.

            Quando telefonou para o gabinete de Brandon, a secretária eletrônica estava ligada. Acionou o botão adequado que a pôs em contacto com a assistente e perguntou se ele estava no tribunal; ficou surpreendida ao saber que não.

            — Ele não está no julgamento? Alguma coisa teria corrido mal?

            — Chegaram a um acordo esta manhã.

            — Ótimo! Ele ficou satisfeito?

            — Muito — respondeu a assistente secamente.

            Allegra não gostava dela.

            — Nesse caso, diga-lhe que o vejo esta noite. Se quiser ir me buscar, chego no United 412. Aterrissamos as nove quinze; estarei em casa por volta das dez.

            — Ele não pode ir, parte para São Francisco às quatro horas.

            — Sim? Por quê?

            — Para ver a família, suponho respondeu a assistente num tom desagradável.

            Allegra ficou pensando no que ouvira. Brandon fora a São Francisco no fim-de-semana anterior e sabia que ela voltava nessa noite, mas como não falavam há dois dias, não sabia se haveria algum problema com as filhas.

            — Diga-lhe só que eu liguei — replicou Allegra com rispidez. Chego a casa por volta das dez. Ele que me telefone.

            — Sim senhora —  respondeu a outra com um sarcasmo evidente.

            Allegra já se queixara dela a Brandon, mas ele respondera que era uma ótima secretária e que gostava dela.

            Depois de desligar, Allegra ficou pensando. Brandon terminara o julgamento. Estava livre no fim-de-semana e ia a São Francisco. Dissera-lhe que não podia vê-la no domingo, mas talvez julgasse que ela tinha outros planos ou lhe pedisse que fosse ter com ele assim que chegasse, no sábado, por exemplo. Mas de que serviria? Seria uma canseira. Foi então que teve uma idéia. Telefonou para a companhia aérea e perguntou se havia lugar no vôo para São Francisco. Sabia onde Brandon ficava hospedado e iria encontrar-se com ele no hotel. Que grande idéia... Poderia fazer-lhe uma surpresa!

            Havia um vôo às cinco e cinqüenta e três, apenas sete minutos antes da sua partida para Los Angeles. Allegra sabia que conseguiria chegar a tempo. Reservaram um lugar na primeira classe, o único disponível, e ela agarrou-o. Valia a pena, só para ver Brandon. Precisava mesmo estar com ele depois de toda aquela loucura com Jeff nos últimos quatro dias. Talvez tudo não tivesse passado de uma ilusão romântica. Para ela, Brandon representava solidez, tempo e história. Estavam juntos há dois anos e acompanhara todo o seu processo de separação. Adorava as filhas dele e amavam-se, tinham uma vida em conjunto. O que acontecera entre ela e Jeff não passara de um lampejo de magia. Acontecia às vezes, mas não era suficiente para alicerçar uma vida, pensou Alegra com firmeza, enquanto ligava pedindo que fossem buscar sua bagagem.

            Não telefonara para despedir-se de Jeff. Sabia que ele partira num vôo anterior, e ficara tudo esclarecido entre ambos. Agora chegara o momento de se separarem e de verem o que aconteceria se voltassem a encontrar-se, mas não tencionava pôr em risco o seu futuro com Brandon, e congratulou-se com o fato de as coisas não terem ido mais longe. Teria sido um erro da sua parte, e o que se passara já causara remorsos suficientes. Contudo, resolveu não contar nada a Brandon; só serviria para magoá-lo. Sorriu, pensando como ele iria ficar satisfeito ao vê-la e como ela própria se sentiria feliz. Ainda pensou em deixar-lhe uma mensagem no gabinete, a avisá-lo que mudara de planos, mas concluiu que seria mais divertido fazer-lhe uma surpresa.

            Saiu do hotel e entrou na limusine que a aguardava. No caminho para o aeroporto, teve de enfrentar o trânsito da hora do rush na sua fase pior e por pouco não conseguia chegar a tempo. Teve de trocar o bilhete e despachar a bagagem e embarcou um minuto antes de fecharem as portas. O avião estava repleto e a maioria das comissárias pareciam de mau humor. No fim da semana todos estavam cansados e o avião ia demasiado cheio. O mau tempo provocou um atraso de meia hora na descolagem. No interior do aparelho, o ambiente era pesado e abafado, e o filme foi interrompido na classe econômica, o que irritou todas as pessoas.

            Allegra pegou no livro de Jeff e virou-o várias vezes, só para olhar para a fotografia. Havia algo de misterioso nos seus olhos, de familiar na sua boca, como se fosse transmitir qualquer coisa, ou desaparecer. Estava encostado em um prédio revestido de tijolo. Era uma ótima fotografia. Por fim, guardou o livro na mala.

            Quando chegaram a São Francisco, tiveram que esperar meia hora na pista por um terminal livre. Eram onze horas locais, duas horas mais tarde do que o previsto, e todos estavam exaustos. Fora um vôo típico dos tempos modernos, alimentação de má qualidade, falta de conforto, atrasos intermináveis e o conseqüente desagrado dos passageiros. Bem-vindos às viagens da nova era!

            Allegra encaminhou-se para a esteira rolante da bagagem e, apesar dos dissabores da viagem, havia qualquer coisa de divertido no fato de se encontrar ali inesperadamente. Era como se partilhasse um grande segredo. Não regressava a uma casa suja com a correspondência acumulada, não tinha de desfazer as malas nem de levar a roupa à lavanderia, não precisava ir para o escritório no sábado. Era como se recebesse um presente extraordinário Um fim-de-semana com Brandon, e nesse momento não necessitavam de mais nada, nem ele tinha que saber o que se passara. Allegra estava entusiasmada com a sua decisão

            Ao pegar na mala, porém, pensou de novo em Jeff. Já devia ter chegado a Los Angeles, à sua casa de Malibu. Como se sentiria. Dissera que telefonaria daí a uns dias, mas Allegra não sabia se atenderia a chamada. Precisavam ambos de digerir a loucura que se apoderara deles, e se se encontrassem seria ainda pior. Agora que saíra de Nova Iorque, estava determinada a fortalecer a sua decisão e a tentar esquecer tudo o que acontecera.

            Apanhou um táxi à saída do terminal e pediu ao motorista que a levasse ao Fairmont. Era um hotel antigo e imponente, onde Brandon gostava sempre de ficar. Em sua opinião, era uma aventura para as filhas e ficava perto de tudo. Allegra tentara convencê-lo a ir para um hotel menor em Pacific Heights, mas era difícil quebrar velhos hábitos e Brandon contrapunha sempre que as garotas adoravam o Fairmont.

            Àquela hora da noite, não levaram mais de vinte minutos para chegar à cidade. Allegra teve a sensação de que se deslocava debaixo de água quando o empregado lhe pegou na mala.

            — Fez reserva, senhora? — perguntou ele com ar solícito. 

            Com um sorriso frio, Allegra respondeu que ia ter com o marido.

            Calculava que ele estivesse dormindo a essa hora, mas a surpresa de vê-la ali compensaria. Tencionava pedir uma chave, entrar no quarto, despir-se e deitar-se na cama a seu lado. Gostaria de tomar uma ducha, mas não era justo fazer tanto barulho quando ele estava dormindo, guardaria o banho para o dia seguinte

            Eram onze e meia quando chegou à recepção, e no átrio as pessoas entravam e saíam. Havia vários restaurantes, onde pessoas de toda a cidade iam jantar: o Tonga Room, de comida oriental e polinésia, o Venetian Room, com orquestras de renome e artistas famosos, e o Mason’s, para refeições mais íntimas, mas Allegra só queria a chave do quarto de Brandon. 

            — Edwards, por favor — disse, mostrando-se distraída e afastando o cabelo dos olhos. Sentia-se desleixada com o casaco de frio que levara para Nova Iorque e a capa de chuva. Trazia o nécessaire numa das mãos, a pasta na outra, e tinha a mala a seu lado.

            —  Nome? —   perguntou a recepcionista, sem expressão.

            — Brandon.

            — Já deu entrada no hotel?

            — Tenho a certeza que sim. Chegou esta tarde. Apanhei o vôo de Nova Iorque para vir ter com ele.

            — E a senhora é?...

            A mulher olhou maquinalmente para Allegra.

            — A senhora Edwards.

            Sentia-se à vontade com a mentira, pois ficava sempre hospedada no Fairmont como Srª. Edwards. Era mais simples.

            — Obrigada, senhora Edwards. Quarto quinhentos e catorze.

            A recepcionista deu-lhe a chave e fez sinal ao carregador. Este pegou na mala e encaminhou-a para o elevador, oferecendo-se para levar os volumes menores, que entregou de bom grado; sentia-se desfalecer. Eram duas e meia da manhã, hora do Leste, e levantara-se às sete e meia. Além disso, a sua viagem fora fértil em emoções... Allegra afastou este pensamento e entrou no elevador, tentando reprimir um sorriso ao pensar na surpresa que iria causar a Brandon. Talvez ele nem sequer acordasse e só a visse de manhã, deitada a seu lado. Não sabia se já estava com as filhas ou se só as iria buscar no dia seguinte, mas desconfiava que elas já se encontrassem lá, e talvez fosse por isso que Brandon chegara tão cedo.

            O carregador abriu-lhe a porta e ela pediu-lhe que pousasse a bagagem do lado de dentro e a deixasse ali. Gratificou-o e levou o dedo aos lábios, com receio que Brandon estivesse dormindo. Tivera uma semana difícil, por causa do julgamento, e devia estar esgotado. Acendeu a pequena luz da sala da suíte e fechou a porta. Brandon era um bom cliente, e quase sempre o instalavam numa suíte com dois quartos pelo preço de dois quartos grandes. Allegra atravessou a sala. À luz difusa, com cuidado para não acordar ninguém, não se ouvia qualquer som no quarto ao lado. Brandon devia estar dormindo. A pasta dele encontrava-se junto da secretária, o casaco pendurado nas costas de uma cadeira, e viam-se vários livros e jornais espalhados. The Wall Street Journal, The New York Times, uma revista de direito e, debaixo da cadeira onde deixara o casaco, um par de sapatos e os mocassins que usava quando estava trabalhando. Era razoavelmente arrumado em casa, mas pouco cuidadoso nos hotéis.

            Allegra pousou as suas coisas e, com um sorriso, entrou no quarto às escuras, na ponta dos pés, só queria vê-lo, despir-se e deitar-se ao seu lado. Não havia luz, mas, quando os seus olhos se habituaram à escuridão, verificou que a cama estava vazia, com os lençóis afastados para trás, e viam-se chocolates em cima das almofadas. Brandon não se encontrava lá. Allegra perguntou a si própria se ele estaria com as filhas, a conversar com Joanie acerca dos bens ou se teria ido ao cinema. Por vezes gostava de ir ver um filme para se descontrair, sobretudo depois de uma semana atribulada ou de um julgamento, mas ficou um pouco desapontada por não o encontrar. Depressa se apercebeu de que teria tempo de tomar uma ducha, lavar a cabeça e descansar um pouco antes de ele voltar. Iriam para a cama juntos, provavelmente com um desfecho mais interessante. Ao pensar nisso, foi obrigada a expulsar Jeff da sua mente mais uma vez. Era ridículo, mas a verdade é que sentia que estava sendo infiel nesse momento Era uma situação completamente louca, mas Allegra procurou não pensar mais nele e acendeu a luz para se preparar.

            Despiu o casaco e foi pendurá-lo no roupeiro e, assim que se aproximou, percebeu por que motivo Brandon não estava na cama haviam-lhe dado a chave do quarto errado, aquelas roupas pertenciam a outra pessoa qualquer. Havia meia dúzia de vestidos de mulher, dois deles bastante vistosos, umas jeans e vários pares de sapatos. Ao ver aquilo, Allegra afastou-se rapidamente do roupeiro. Correu para a sala, para pegar nas suas coisas antes que os hóspedes voltassem e ficassem furiosos com a sua intromissão, mas, ao entrar lá, viu outra vez o casaco dele, e os sapatos, e ficou a olhar, atônita. Não tinha dúvidas: eram os de Brandon. E a pasta também era a dele. Teria reconhecido em qualquer lugar e, além disso, tinha as suas iniciais. Era o quarto de Brandon... Mas havia roupas de mulher no roupeiro... Allegra voltou atrás e verificou de novo, admitindo, por momentos, que fossem roupas suas e que Brandon as tivesse trazido na esperança de ela ir ter com ele, mas depressa percebeu que essa idéia era ridícula, pois se tratava de peças de vestuário de uma mulher dez ou doze centímetros mais baixa do que ela. Depois apalpou os vestidos, como se tentasse perceber por que motivo estavam ali. Sentia-se muito cansada e a sua mente recusava-se a aceitar o que os seus olhos viam.

            Em seguida entrou no banheiro e deparou com várias peças de maquiagem, chinelos dourados com penas brancas e uma camisola de renda branca quase transparente. Ficou a olhar para aquilo, estupefata, e só então sentiu o impacto do que tinha à sua frente: ele fora para São Francisco com outra mulher. Aquelas coisas não eram suas, nem pertenciam às filhas dele, que, de resto, não estavam ali. Só então é que reparou que, dessa vez, não lhe tinham dado uma suíte com dois quartos, como era habitual, para instalar as garotas, e as roupas de mulher que vira eram demasiado pequenas para serem de Joanie. Pertenciam claramente a outra pessoa. Mas quem? A pergunta ficou sem resposta. Ao olhar mais atentamente à sua volta, Allegra viu artigos de vestuário feminino espalhados por todo o lado, meias-calças em cima da cama, um  sutiã nas costas de uma cadeira, uma calcinha junto do lavatório... O que ele estava  fazendo? E há quanto tempo? Quantas vezes a enganara? Quantas vezes fora para São Francisco com outra pessoa e lhe dissera que queria estar sozinho com as filhas? Allegra nunca desconfiara, nem por um minuto, sempre acreditara nele, e ele enganara-a e mentira. E em Los Angeles tivera muitas oportunidades de fazer o mesmo. Ao pensar em tudo isto, o rosto de Jeff surgiu na sua mente. Deixara-se consumir pelo remorso por causa de meia dúzia de beijos e abandonara um homem que se mostrava seriamente interessado nela, tudo porque acreditava que estava ligada a Brandon pelo sentimento e pelo dever. E, entretanto ele era um impostor, um mentiroso! Allegra continuou olhando à sua volta, com os olhos marejados de lágrimas, mas não havia mais nada para ver, e não queria estar ali quando eles voltassem do jantar.

            Sentiu-se corar ao pensar em todas as vezes que o namorado se mostrara desinteressado e afirmara que precisava de ‘espaço’ e de ‘estar só’, sem combinar nada com ela. Não admirava: Brandon era um autêntico patife!

            Pegando em toda a sua bagagem atabalhoadamente, Allegra apressou-se a abandonar o quarto e correu para o elevador, rezando para não dar de caras com eles ao entrar. Desceu até à saída de Califórnia Street e, já na rua, tentou apanhar um táxi, mas não era tão fácil arranjar táxi em São Francisco como em Nova Iorque, e a maior parte deles esperavam em fila à porta principal do hotel. Porém, esse era o último lugar onde queria estar nesse momento: não desejava encontrar com Brandon quando ele voltasse sabia-se lá de onde e com quem! E ficou em Califórnia Street, agarrada às malas, a ver passar os bondes elétricos repletos de turistas. Mirou-os com os olhos cheios de lágrimas de raiva.

            Era inacreditável o que ele fizera! Enganara-a descaradamente! O mestre da fuga aos compromissos andara distribuindo a sua pessoa com a maior prodigalidade!

            Por fim avistou um táxi e largou a mala para lhe fazer sinal. O motorista saiu do automóvel para ajudar a arrumar a bagagem.

            — Muito obrigada — disse ela distraidamente, entrando no carro.

            — Para onde vamos?

            — Para o aeroporto — respondeu Allegra com voz trêmula, e cobriu o rosto com as mãos.

            — Sente-se bem, menina?

            Era um homem idoso e simpático, que teve pena dela. Parecia uma menina fugindo de casa.

            — Sim — murmurou, lavada em lágrimas.

            Dirigiram-se para o aeroporto, de onde saíra há menos de uma hora, e só então é que Allegra reparou que ainda tinha a chave do quarto na mão. Largou-a em cima do banco e espreitou pela janela, perguntando a si própria há quanto tempo é que a sua vida assentaria numa mentira. Brandon dissera-lhe tantas vezes que tinha de ir ver as filhas ou que precisava de espaço e de estar só! Naquele momento, porém, não sabia se ele a enganara desde o princípio ou se este era um velho truque que fazia parte do seu estilo de vida.

            Chegaram ao aeroporto em menos de vinte minutos e o motorista ajudou-a a sair do carro.

            — Para onde vai esta noite? — perguntou o homem afetuosamente.

            Era um velhote barrigudo e com um bigode farto. Allegra era jovem, muito bonita, e chorara até chegar ao aeroporto, e ele tinha pena dela e queria ajudá-la.

            Volto para Los Angeles respondeu Allegra, tentando recuperar a compostura. Mas era inútil. Tirou um lenço da mala e assoou o nariz. Desculpe... Eu estou bem acrescentou, em tom evasivo.

            — Filha, não parece... Mas tudo vai correr bem. Vá para casa. Amanhã ele vai arrepender-se do que fez disse o motorista carinhosamente, partindo do princípio de que ela tivera problemas com um homem. No entanto, Brandon nunca lamentaria tanto essa noite como ela.

            Agradeceu ao homem e dirigiu-se para o terminal, onde lhe disseram que perdera o último vôo, que partira para Los Angeles às nove horas. Já passava da meia-noite, e restava-lhe ficar no aeroporto à espera do primeiro avião da manhã. Nem sequer havia ninguém que lhe tomasse conta das malas! Sugeriram-lhe que fosse para o hotel do aeroporto, mas recusou a oferta: não lhe agradava ir para lado nenhum, queria apenas ficar ali sentada. Tinha muito em que pensar e, por uma fração de segundo, lembrou-se de telefonar a Jeff, mas não lhe pareceu certo queixar-se a ele depois do que acontecera em Nova Iorque. Fizera-o suar por cada um dos seus beijos, enquanto Brandon talvez tivesse passado a semana na cama, divertindo-se. Allegra não podia deixar de perguntar a si própria quem seria a mulher do Fairmont, mas ficara demasiado abalada para tentar procurar a sua identificação ou o nome em qualquer lado. O ambiente que encontrara era muito íntimo, com a roupa íntima e a camisola transparente espalhadas por todo o lado. Ainda não conseguia acreditar no que vira! Sentira-se uma intrusa, e ficara grata por eles não terem regressado quando se encontrava no quarto. Isso teria sido a gota de água, Ou, pior ainda, se ela tivesse entrado quando eles estavam na cama. O simples fato de pensar nisso a fez estremecer.

            Alugou um  armário e guardou as malas lá dentro para poder ir beber um café sem ter de arrastar a bagagem atrás. Pouco depois, começou a sentir-se mais calma. De vez em quando a raiva vinha à superfície, mas era quase sempre a tristeza que dominava. Pensou em telefonar à mãe a contar o sucedido, mas ela detestava de tal modo Brandon que não queria dar a satisfação de participar que ele sempre a enganara Ou não? Nunca viria a saber ao certo, e duvidava que Brandon fosse sincero para com ela. Nesse momento, nem sequer sabia que fora apanhado em flagrante.

            Allegra bebeu cinco cafés duplos e passou a noite acordada, lendo revistas, pensando nele e passeando de um lado para o outro. Por instantes pôs a hipótese de escrever uma carta e dizer tudo o que sentia, mas a atitude não pareceu suficientemente enérgica. Não sabia o que  faria. Podia ter voltado ao Fairmont ou telefonar para ele, para ver o que diria. Podia, aliás, ter feito muitas coisas, mas, acima de tudo, queria ir para casa e meditar no assunto.

            Por fim sentou-se olhando o nascer do sol e desatou de novo a chorar ao pensar nele. Às seis da manhã, quando embarcou no primeiro avião, sentia-se a enlouquecer. Era sábado e o avião não estava cheio, transportava apenas alguns empresários e duas famílias.

            A comissária serviu-lhe outro café e um pãozinho, em que nem sequer tocou: achava-se completamente destroçada! Estava viajando há mais de vinte horas e sentia-o bem na pele quando finalmente saiu do avião. Eram sete e dez. Apanhou um táxi. Aquele era o terceiro aeroporto por onde passava em menos de dois dias. Encostou a cabeça ao banco do carro, fatigada; às oito horas entrou em casa. Estivera fora sete dias, quase se apaixonara por um homem a quatro mil e quinhentos quilômetros de distância e descobrira que aquele a quem se dedicava há mais de dois anos a enganava. Fora uma semana dura, sobretudo desde a noite anterior, em São Francisco.

            Pousou a mala e olhou à sua volta. A empregada deixara-lhe uma pilha de correspondência em cima da secretária e a secretária eletrônica estava quase cheia quando  ligou. Havia as mensagens habituais da lavanderia qualquer coisa acerca de um casaco que não podiam limpar e de umas fronhas que se tinham perdido, de um  clube que solicitava a sua inscrição e da garagem onde comprava os pneus para o automóvel. A mãe telefonara na véspera para saber se queria ir jantar com eles no domingo e Carmen ligara comunicando que estava na casa de uns amigos; deixara um número que Allegra já conhecia, mas não se lembrava de onde. O último telefonema era de Brandon. Dizia que ia ver as filhas em São Francisco; haviam chegado a acordo no julgamento e este acabara cedo, e as garotas queriam mesmo que ele fosse. Tinha a certeza que estava cansada depois de uma semana em Nova Iorque e que precisava de se pôr a par do que se passara durante a sua ausência, por isso vê-la-ia no domingo à noite, quando regressasse. Allegra perguntou a si própria se ele se daria ao trabalho de voltar a ligar ou se pensaria que tinha cumprido a sua obrigação. Talvez ficasse à espera que ela o fizesse.

            Porém, Allegra não tencionava telefonar, nem a ele nem a ninguém, nesse momento. Queria estar só, lamber as feridas e resolver o que havia de fazer. Ainda não sabia ao certo se iria falar com ele, mas a situação fora muito clara, não havia dúvidas quanto ao que Brandon fizera, e não tencionava manter a relação.

            Desfez a mala e guardou as roupas; em seguida preparou uma torrada e um chá. Tomou uma ducha e lavou a cabeça, tentando relaxar, mas sentia uma dor constante e quase física no peito. Era como se algo se tivesse partido lá muito no fundo no momento em que vira o sutiã e a camisola transparente da namorada de Brandon.

            Telefonou para os pais às dez da manhã, mas ficou aliviada por não estarem em casa. Segundo Sam, tinham ido jogar tênis no clube. Allegra disse apenas que estava bem e que tinha regressado de Nova Iorque nessa manhã, mas não podia ir lá jantar no domingo, porque tinha muito que fazer.

            — Explica à mãe, está bem, Sam?

            — Claro — respondeu a irmã, maquinalmente. Allegra ficou preocupada, que a mãe não recebesse o recado. Às vezes era o que acontecia, quando Samantha tinha coisas mais importantes em que pensar, como uma festa, um rapaz ou uma ida às compras com uma amiga. Não te esqueças, por favor, está bem? Não quero que julgue que não respondi ao telefonema dela.

            — Ouve lá, Miss Importante, o seu recado não é assim tão especial, não acha?

            — Talvez sejam para a mamãe.

            — Acalme-se, que eu dou. A propósito, como estava Nova Iorque? Comprou alguma coisa?

            — Sim, um livro de um homem que conheci e com quem fui patinar —  pensou Allegra.

            — Não tive tempo para fazer compras.

            — Bolas! Isso não tem graça nenhuma!...

            — Não era propriamente uma viagem de turismo, estive trabalhando. Como está  mamãe?

            — Bem. Por quê?

            Sam ficou admirada com a pergunta, nunca lhe passara pela cabeça que houvesse qualquer problema. Aos dezessete anos, todo o mundo girava em torno dos seus interesses e, naquela fase, os pais ocupavam uma posição muito marginal.

            — Ela está bem, apesar de não ter recebido o prêmio?

            — Claro. Sam encolheu os ombros. Nem disse nada. Não me parece que se preocupe com isso!

            Estas palavras só provaram a Allegra que Samantha conhecia mal a mãe. Blaire era uma perfeccionista e uma vencedora, que se preocupava com os mais ínfimos pormenores. Tinha a certeza que sofrera muito por não haver ganhado o prêmio, mas era demasiado orgulhosa para admitir, e era evidente que Sam, com os seus dezessete anos, não tinha consciência dos sentimentos da mãe. Estava prestes a ingressar na universidade e só pensava em passagens de modelos e em fazer compras.

            — Diz que eu telefono quando tiver tempo e dá beijinhos também no papai.

            — Baaa!... Quer que tome nota de mais alguma coisa?

            — Desliga.

            — Está com uma disposição péssima!

            — Passei a noite inteira no aeroporto.

            Nem falou do que sucedera com Brandon; não lhe agradava ouvir disparates da boca de uma menina de dezessete anos!

            — Desculpa...

            — Tchau, Sam.

            Allegra já tinha a sua dose e, depois de desligar e de refletir um pouco, resolveu telefonar a Alan, mas o amigo não estava em casa e ninguém respondeu.

            Gostaria de trocar impressões com ele acerca do que acontecera. Alan não simpatizava com Brandon, mas era sempre justo, e também queria falar-lhe de Jeff, e ver se ele julgava que ela estava louca por se sentir tão atraída por um homem que era praticamente um desconhecido.

            Por volta do meio-dia, estava de tal modo esgotada que não conseguia pensar como devia ser, por isso desistiu e deitou-se na cama. Ninguém lhe telefonou e a campainha da porta não tocou. Brandon nem sequer ligou para saber se ela chegara bem de Nova Iorque. Acordou seis horas mais tarde. Lá fora já escurecera outra vez. Sentia-se como se tivesse um peso de dez toneladas em cima do peito e uma bola de boliche no estômago. Deixou-se ficar deitada durante muito tempo, a olhar para o teto, pensando em Brandon, e, ao recordar o que acontecera, as lágrimas rolaram-lhe lentamente pela face. A noite anterior fora desastrosa para ela, e nem sequer sabia o que faria. Não queria continuar, nem recomeçar, nem voltar a confiar em ninguém. Talvez Jeff fosse igual aos outros. Era só o que conseguia arranjar, homens que a evitavam e a magoavam, que não davam nada de si próprios e acabavam por fugir. O único homem na sua vida que nunca a magoara nem fugira dela era Simon Steinberg. Era o único em quem podia confiar e que se atrevia a amar. E tinha a certeza que ele nunca a trairia.

            Mas agora teria de se confrontar com Brandon. A situação era tão desagradável que nem suportava pensar nela. Não queria ver a cara dele, sobretudo os olhos, quando ele  mentisse, odiá-lo-ia por isso!

            Nessa noite nem se deu ao trabalho de comer e deixou-se ficar deitada, alternando as lágrimas com o sono. Meditou muito e só no dia seguinte, que era domingo, é que se levantou. Quando acordou, parecia que tinha levado uma sova; o corpo doía da cabeça aos pés, nem sabia bem por que, estava magoada por fora e por dentro e continuava a sentir o mesmo peso no peito. Não desejava conversar com ninguém, e, quando Carmen ligou, nem sequer atendeu. Carmen fartou-se de rir, sinal de que estava bem. Allegra não atendeu um único telefonema senão quando Brandon falou, às quatro da tarde de domingo.

            Levantou o fone assim que o ouviu; queria acabar com aquela situação. Ele dissera que podia ir ter com ela nessa noite, quando chegasse de São Francisco.

            — Olá, Brandon — disse, com calma.

            A mão tremia como vara verde, mas a voz não a traiu

            — Olá, querida, como está? Como foi o vôo de Nova Iorque?

            — Bom, obrigada.

            Mostrou-se fria, mas não zangada, e ele pensou que estava distraída com o trabalho. Às vezes sucedia o mesmo com ele, e por isso não estranhou. Telefonei na sexta-feira à tarde, mas ainda não tinha chegado continuou ele num tom descontraído.

            — Recebi a mensagem. Onde está? Allegra começava a ficar mais tensa.

            — Ainda me encontro em São Francisco — explicou ele sem dificuldade. Passei uns dias formidáveis com as meninas. Agora que o caso está resolvido, sinto que me tiraram um grande peso das costas.           

            — É ótimo! E, aparentemente, o fim-de-semana não ficara atrás... Ainda bem. Quando voltas para Los Angeles?

            — Pensei em ir no vôo das seis. Posso aparecer aí por volta das oito.

            — Está bem assentiu, sentindo-se como um autômato. Por fim, ele percebeu que se passava qualquer coisa de anormal.

            — Há algum problema? Não se mostrou preocupado, mas surpreendido. Em geral, ela era tão alegre! Ainda está cansada da viagem?

            — Sim, um pouco. Na verdade, nunca se sentira tão fatigada na sua vida. Até logo.

            — Até logo.

            Brandon hesitou um pouco, como se sentisse que devia dizer mais qualquer coisa do que era habitual, e, por uma vez, dispôs-se a dar um pouco de si. Era muito hábil quando queria disfarçar.

            — Allegra... Tive muitas saudades suas.

            — Também senti — respondeu ela, com os olhos marejados de lágrimas. Até logo.

            — Quer ir jantar fora?

            Allegra ficou admirada com a energia dele depois de um fim-de-semana com a Miss Camisola Transparente, ou talvez se tratasse de uma chama antiga e não precisasse de tanto zelo como ela julgava.

            — Por acaso, prefiro ficar por aqui.

            Não podia dizer-lhe o que queria num restaurante nem em qualquer outro lugar público. As quatro horas seguintes pareceram-lhe intermináveis: precisava tirar aquele peso do peito o mais depressa possível, para seu próprio bem.

            À tarde foi dar um grande passeio a pé e telefonou para os pais. Disse à mãe que tinha que ir ao escritório e ficar estudando uns contratos até tarde.

            — No domingo? Isso é ridículo! — retorquiu Blaire, preocupada com ela. A filha trabalhava de mais e parecia exausta.

            — Estive ausente durante uma semana, mãe. Apareço aí um destes dias.

            — Tome cuidado, insistiu Blaire, que, excepcionalmente, não perguntou por Brandon.

            Allegra ficou-lhe grata. Jantou um iogurte e deu uma olhadela ao noticiário, na televisão, mas depressa concluiu que nem sabia o que estava vendo e acabou por se ir deitar no sofá, esperando. Às oito e quinze ouviu-o subir a rampa e, quando o sentiu enfiar a chave na fechadura, sentou-se. Dera-lhe a chave há um ano.

            Brandon tinha um ar feliz e descontraído. Sorriu-lhe, aproximou-se dela e abraçou-a, mas Allegra evitou-o completamente e surpreendeu-o ao levantar-se para cumprimentá-lo. Recuou um passo para observá-lo melhor e procurou-lhe os olhos, mas não encontrou respostas às suas perguntas.

            Brandon ficou chocado. Em geral Allegra era tão meiga e simpática que se admirou por ela evitar seu abraço. Durante algum tempo, Allegra não disse uma palavra, e ficaram olhando um para o outro em silêncio.

            — Há algum problema? — perguntou ele, por fim.

            — Eu acho que sim. Você, não?

            Allegra não disse mais nada, mas reparou que um músculo do pescoço dele se retesara assim que ficara de sobreaviso.

            — O que isso quer dizer?

            — Talvez você deva explicar-me. De repente, tenho a sensação que se passaram várias coisas que eu não sabia, Brandon. Coisas de que devia ter me falado.

            — Por exemplo?... Ficou olhando para ela, já um pouco irritado, mas Allegra sabia que se tratava de uma defesa; fora apanhado e apercebeu-se disso antes de ela continuar a conversa.

            — Não sei do que está falando!

            Afastou-se para o outro lado da sala e, sem tirar os olhos dele, Allegra voltou a sentar-se.

            — É claro que sabe! Você sabe muito bem do que eu estou falando, só não sabes exatamente o que eu sei, aliás, nem eu. E é isso que quero saber agora! Quantas vezes e há quanto tempo? Com quantas mulheres tem ido para a cama? Anda enganando-me há dois anos ou começou há pouco tempo? Quando é que foi, Brandon? De repente, lembro-me de todas as vezes que foi a São Francisco, que me disse que queria estar só com as meninas ou que tinha de conversar com a Joanie. Isso para não falar da tua ida a Chicago  e do acordo que teria te levado a Detroit... O que vem a ser isto? Encarou-o com frieza; de repente, todo o sofrimento dos dois últimos dias se transformou em gelo. Por onde começamos?

            — Não faço a mínima idéia do que está falando —  disse ele, tentando fazê-la sentir-se ridícula, mas empalideceu e sentou-se, e Allegra reparou que tinha as mãos tremendo quando acendeu um cigarro.

            — Isto deve deixá-lo muito nervoso. Era como eu me sentiria, se estivesse no teu lugar continuou, sem tirar os olhos dele. A verdade é que não percebo o objetivo. Porque haveria de se incomodar? Nem sequer somos casados... Porque me enganou? Porque não telefonou na véspera e esclareceu tudo?

            — De que está falando? — insistiu Brandon, fingindo que não percebia. Gostaria de fazer sentir que estava a tresvariar, mas não se atreveu, pois percebeu logo que ela estava furiosa.

            — Estou falando do teu fim-de-semana no Fairmont. Com certeza que não quer me obrigar a dizer mais nada...

            Allegra nem imaginava como estava bela, com o cabelo louro caído sobre os ombros, umas  jeans e uma camiseta azul-marinho.

            — O que significa tudo isto?

            Brandon representava a farsa até ao fim, e Allegra olhou para ele com um desprezo total.

            — Muito bem, se quer eu que seja um pouco mais explícita... Se eu estivesse no seu lugar, acho que não faria o mesmo. Telefonei para o teu gabinete na sexta-feira, e a tua secretária disse-me que o julgamento terminara e que ia ver suas filhas em São Francisco. Estúpida como sou, resolvi fazer uma surpresa e troquei a minha passagem.

            Brandon empalidecia à medida que ela falava, mas continuava aparentando calma e  fumando o seu cigarro, franzindo o sobrolho.

            — Peguei o avião para São Francisco — prosseguiu Allegra. O vôo estava atrasado, mas poupo todos esses pormenores. Cheguei ao Fairmont por volta das onze e meia de sexta-feira e pensei que faria uma surpresa indo encontrar-me com você. Deram-me a chave do teu quarto quando eu disse que era a Senhora Edwards.

            Brandon ficou aborrecido e apagou o cigarro.

            — Não deviam ter feito isso!

            — Creio que não, concordou Allegra tristemente. A história não era agradável, e a fazia reviver tudo. De qualquer modo, entrei no quarto, e, pesando os prós e os contras, acho que tive sorte: você e a sua amiga tinham saído. A princípio, julguei que me enganara, mas depois reconheci a sua pasta e o seu casaco. Mas não reconheci tudo o resto. Não era meu, nem da Nicky, nem da Stephanie, nem da Joanie. De quem era então, Brandon? Devo dar-me ao trabalho de perguntar, ou ficamos por aqui e esquecemos tudo?

            Olhou para ele, sem se levantar. Brandon encarou-a, em silêncio, à procura das palavras para responder. Durante muito tempo, não as encontrou.

            — Não tinha nada que ir lá, Allegra — disse, por fim.

            Ela ficou atônita. Nem podia acreditar no que estava ouvindo!

            — Por quê?

            — Não foi convidada. Pensando melhor, talvez tenha tido o que merecia. Eu não venho a sua casa quando está fora em serviço. Não pertencemos um ao outro, não somos casados; temos direito à nossa própria vida.

            — Ai sim? — Allegra ficou olhando para ele, pasmada. Julguei que fôssemos mais ou menos namorados. Ou isso pertence ao passado. Se não vivemos juntos, então o que somos? Pensei que éramos ambos monogâmicos, mas parece que não!

            — Não devo explicações, não sou casado com você! — retorquiu Brandon, levantando-se.

            — Não, não é —  disse ela, observando-o. É casado com outra pessoa.

            — Isso é que te incomoda, não é? O fato de eu ter mantido a minha independência Não sou propriedade sua, nem de ninguém! Não é minha dona, Allegra! Nunca será, nem você, nem a sua família, nem ninguém! Eu faço apenas o que quero!

            Allegra nunca compreendera a extensão do ressentimento de Brandon, jamais imaginara que era isto que ele sentia.

            — Nunca quis que fosse minha propriedade! Eu só desejava te amar e talvez vir a ser sua mulher.

            — Não estou interessado nisso! Se estivesse, teria me divorciado. Mas nunca o fiz. Não percebeu?

            Allegra não só se sentia magoada como estúpida. A mensagem fora clara, tal como afirmara a Drª. Green, e ela a ignorara; não quisera ouvi-la, tal como não queria ouvi-la nesse instante. Porém, estavam ambos furiosos e, finalmente, tudo fora esclarecido. Era um momento muito doloroso.

            — Você se aproveitou de mim! — exclamou do outro lado da sala, em tom de acusação. Mentiu, me enganou! Não tinhas o direito de fazer isso! Eu fui decente com você, Brandon, isso não é justo!

            — Não sei o que é ser justo. Quem é que conhece que seja justo neste mundo? Não me venha com essa conversa! Tem que aprender a olhar por você, Allegra!

            — Foi para a cama com outra mulher e me disse que estava com as suas filhas! Que porcaria é ser essa?

            — É a minha vida, que só a mim diz respeito, são as minhas filhas! O que você sempre pretendeu foi meter o nariz em tudo! Eu nunca quis, e você sabia!

            — Não, não sabia — replicou ela, queixosa. Nunca percebi isso. E talvez devesse ter explicado antes de chegarmos a este ponto. Desperdiçamos dois anos da nossa vida!

            — Eu não desperdicei nada — disse ele, complacente, fiz exatamente o que quis.

            — Sai da minha casa! — exclamou Allegra, olhando para ele e falando a sério. Você é uma pessoa miserável, um mentiroso, um impostor, e eu é que tenho agüentado o teu peso morto emocional nos últimos dois anos! Não dá nada a ninguém, nem a mim, nem aos seus amigos, nem às pessoas que conhece, nem mesmo àquelas por quem finge interessar-se! Nem sequer dá nada às tuas filhas! Está muito preocupado que alguém dependa de você, te faça sentir alguma coisa ou te peça um compromisso! É um arremedo patético de um ser humano! Agora, saia da minha casa!

            Brandon hesitou por instantes, olhando para o quarto dela. Allegra levantou-se, encaminhou-se para a porta principal e abriu-a.

            — Ouviu o que eu disse? Sai. Não estou brincando.

            — Acho que ainda tenho algumas roupas no teu quarto

            — Eu envio-as pelo correio. Adeus

            Allegra ficou à porta, à espera que ele saísse. Brandon passou por ela como se quisesse estrangulá-la, sem um beijo nem um pedido de desculpa, um último olhar, uma ponta de remorso ou sequer um adeus. Era completamente insensível e as coisas que lhe dissera tinham-na deixado destroçada. Ao ouvi-lo Allegra percebera que nunca lhe havia sido fiel e que sempre fizera o que queria. Brandon fora egoísta e toda a paciência e ternura do mundo não chegariam para modificá-lo. E o pior tinham sido as palavras que nunca escutara da boca dele, o fato de não a ter amado. Porém, a sua atitude provara que a Drª. Green tinha razão, e Allegra não percebia porque tinha sido tão estúpida.

            Depois que ele saiu, sentou-se e ficou pensando durante muito tempo, por fim, desatou a chorar. Brandon era realmente um miserável e um egoísta, mas durante dois anos insistira em convencer-se que se amavam e doía-lhe terrivelmente ter-se enganado a respeito dele. Nem sequer se atreveu a telefonar à Drª. Green em busca de conforto, pois não a queria ouvir dizer que cometera o mesmo erro outra vez, e também não desejaria escutar da boca da mãe que o seu afastamento era uma bênção. Sabia agora que estava melhor sem ele, mas ainda lhe doía muito pensar que fora usada e enganada. Brandon estivera desinteressado nela e admitira-o claramente, sentado no sofá, fumando um cigarro e destruindo o que restava dos seus sentimentos. Allegra precisava de um ombro amigo para desabafar, alguém a quem confessar que tudo aquilo era injusto, que ele era um filho da mãe, mas não tinha ninguém. Estava sozinha tal como se encontrava quando o conhecera, rejeitada, só, abandonada pelo seu último amante. Estava convencida de que aprendera a lição desde então, mas aparentemente enganara-se, e isso era o pior. Nesse momento não era possível esconder a verdade

            Deitou-se na cama e ali ficou durante muito tempo depois que Brandon saiu, pensando nele, convencendo-se de que era melhor assim, lembrando-se do que sentira no quarto do Fairmont, mas, ao olhar para a fotografia deles em Santa Bárbara no ano anterior, quando as coisas corriam bem e estava tão apaixonada por ele, teve uma sensação de perda incomensurável.

            Por alguns momentos perguntou a si própria se Brandon voltaria a telefonar, se  manifestaria o seu arrependimento, se reconheceria que tinha sido injusto para com ela, mas já passara duas vezes pelo mesmo, e ninguém tomara essa atitude. Eles desapareciam depois  deixarem-na destroçada e atiravam-se para os braços de outra qualquer. Allegra vira  dois anos da sua vida saírem pela porta fora com Brandon Edwards.

            Mais tarde, teve de fazer um grande esforço para levantar e apagar as luzes. Olhou lá para fora e pensou nele. Sabia que podia ter telefonado a Jeff e dizer-lhe que estava livre, mas não quis. Precisava de tempo para fazer o luto de Brandon. Por muito que ele não prestasse nem fosse querido da sua família, continuava a amá-lo.

 

            Na segunda-feira depois da chegada de Nova Iorque, quando foi trabalhar, parecia que tinha passado por uma prensa. Estava pálida e com um ar cansado, e Alice comentou que parecia exausta e mais magra.

            — O que lhe aconteceu? — perguntou a secretária discretamente.

            Allegra encolheu os ombros; a situação continuava a ser muito penosa. Não podia deixar de pensar como fora tola. Há quanto tempo Brandon estaria enganando-a? Parecia uma atrasada mental! Ao longo do dia, porém, começou a perceber que, apesar de o seu orgulho ter sido ferido, não sabia exatamente até que ponto estava destroçada nem sequer qual a dimensão do amor que dedicara a Brandon. Isso é que era estranho. Sentia-se triste, mas não lamentava que tudo tivesse acabado. Durante a última semana em Nova Iorque questionara a sua relação com ele e começara a prestar atenção nas coisas de que as outras pessoas falavam, a distância, o desinteresse, a falta de intimidade, a indisponibilidade, que já não era surpresa, tivesse ele dez namoradas ou apenas mais uma. Nunca saberia quantas tinham sido, nem qual a seriedade dessas relações, mas o fato de elas terem existido não só a irritava como a fazia sentir-se ridícula.

            No entanto, por volta do meio-dia, estava tão atarefada com o trabalho que se acumulara que já nem pensava em Brandon. Bram adorou a tournée que ela e os promotores tinham organizado e Malachi telefonou-lhe da clínica de reabilitação para pedir dinheiro, mas, por solicitação da mulher, Allegra recusou.

            — Desculpe, Mal. Faça-me o mesmo pedido um mês depois da sua desintoxicação, e então falaremos nisso.

            — Para quem você trabalha, afinal  — perguntou ele, furioso.

            Allegra sorriu, tomando nota para a reunião seguinte.

            — Para você. Sabe muito bem que precisa fazer esse tratamento!

            Falou também da tournée e distraiu-o um pouco, antes de ele ir para a massagem e para a seção de terapia.

            —  Quem me dera ter tempo para essas coisas! Desabafou com Alice, enquanto engolia um iogurte e um café e examinava um contrato para um filme de Carmen que acabara de chegar.

            Parecia fabuloso e Carmen iria ficar deslumbrada: era um filme que a tornaria definitivamente numa grande estrela. Contudo, quando telefonou para casa de Carmen, respondeu-lhe a secretária eletrônica.

            — Onde diabo ela anda? —  resmungou Allegra entre dentes.

            Tentara todos os números de que dispunha, mas nenhum respondia. Fez um esforço para se lembrar de outros que Carmen lhe dera, de amigos, ou da avó, em Portland. Nunca tinha desaparecido daquela maneira e, em geral, telefonava para Allegra uma dúzia de vezes por dia, falando dos problemas mais comezinhos. Era um comportamento muito invulgar em Carmen Connors. Aparentemente, ninguém sabia onde se encontrava.

            Só o Chatter publicara uma notícia sobre ela depois da cerimônia do Globo de Ouro, com uma fotografia de Allegra de braço dado com Alan saindo do automóvel e Carmen atrás. O jornal dava a entender que Allegra era apenas uma acompanhante e que existia um grande romance entre Alan Carr e Carmen Connors. O engraçado é que, por uma vez, talvez tivesse acertado.

            Ao ler aquilo, Allegra lembrou-se de uma mensagem que recebera na secretária eletrônica de sua casa quando estava em Nova Iorque, com um número de telefone que lhe parecia familiar. Procurou o bloco de apontamentos na pasta: tomara nota do número, junto com vários outros, num pedaço de papel e enfiara-o ali. Levou algum tempo procurando-o, mas, por fim, o encontrou. Esquecera-o completamente, porém, ao olhar para ele, reconheceu-o de imediato: era o número do telefone da casa de Alan em Malibu. Carmen estava lá, e de súbito Allegra recordou-se que ele lhe oferecera a casa. Sorriu enquanto fazia a ligação. Foi Alan que atendeu.

            No fim-de-semana, Allegra telefonara para o apartamento  de Beverly Hills, mas ele não estava. Nem sequer se lembrara de ligar para Malibu, porque era raro o amigo ir para lá, nem supusera que pudesse estar lá com Carmen.

            — Olá... — disse num tom inocente, como se estivesse telefonando-lhe sem um motivo especial.

            — Não me venhas com subterfúgios  — disse ele, rindo. Conhecia-a muito bem. A resposta é: não tens nada com isso!

            — Qual é a pergunta? — retorquiu ela, dando uma gargalhada.

            Alan parecia feliz e até um pouco pateta. Allegra ouviu alguém a conversar e a rir do outro lado e teve a certeza de que era Carmen.

            — A pergunta é ‘onde é que esteve toda a semana’? A resposta é ‘não tens nada com isso’.

            — Deixe-me adivinhar... Em Malibu, com alguém que ganhou um Globo de Ouro este ano. Acertei?

            — Em cheio. Ela telefonou e deixou o meu número, portanto não é um detetive assim tão especial. Tinha uma pista.

            — E eu  não a aproveitei. Pareceu que conhecia o número, mas só agora vi a quem pertencia. Então como vai a vida na praia?

            Era bom ouvir de novo a voz de Alan. Allegra tivera vontade de lhe contar o que se passara com Brandon, mas nesse momento não quis falar no assunto, e muito menos estando ele junto de Carmen. Não gostava de partilhar os seus problemas pessoais com os clientes. Com Alan era diferente, eram amigos desde a infância.

            — A vida vai ótima  — Alan estava radiante, mesmo muito boa...

            Ao dizer isto, inclinou-se e beijou Carmen.

            — Não devia estar trabalhando?

            Allegra perdera seus últimos passos. Fora o agente de Alan na CAA que redigira o último contrato.

            — Não tenho intenção de trabalhar durante um ou dois meses. Continuo esperando a decisão final em relação ao filme.

            — Bem, tenho uma grande novidade para a Carmen. Talvez ela te passe à frente!...

            — Mesmo que aceitasse a proposta, Carmen só começaria a filmar em Junho.

            — Onde serão as filmagens?

            Alan tentou mostrar-se despreocupado, mas Allegra percebeu o seu interesse velado.

            — Aqui mesmo em Los Angeles, ao contrário de você. Os filmes dele eram sempre realizados em lugares muito distantes. O próximo seria na Suíça, mas há pouco tempo tinham-lhe proposto outro cujas filmagens decorriam no México, no Chile e no Alasca. Era um grande filme de aventuras, mas prometia ser muito trabalhoso e turbulento. O último fora rodado na Tailândia, e dois dublês tinham morrido. Agora com Carmen talvez ele deixasse de fazer o seu próprio trabalho dublê.

            — A Carmen sabe para onde vai?

            — Já lhe contei. Ela disse que iria comigo. Pelo menos a Suíça era um país civilizado, ao contrário da maioria daqueles em que Alan trabalhava.

            — Talvez acabe a tempo de assistir à filmagem do filme dela.

            — Iria certamente ser um grande êxito, e Allegra estava entusiasmada com a sua cliente.

            — Posso falar com a Carmen?

            — Ah é assim é? Quinze anos de amizade, um acompanhante para o Globo de Ouro, e agora me põe de lado como se eu fosse um trapo velho!

            — Não exatamente — replicou ela, rindo, de repente mais animada do que durante o resto do dia. Ainda se sentia triste e estúpida por causa de Brandon, mas o fato de ter esclarecido tudo e de se ter confrontado com ele dera-lhe mais força. Gostaria de contar tudo a Alan, mas ainda não estava preparada para isso. Precisava de tempo para admitir perante os outros que Brandon a enganara e que o desmascarara. Mas pelo menos fora ela a acabar. Não era mau...

            — Como estava Nova Iorque? Conseguiu bons acordos?

            — Alguns. Foi divertido. Havia montes de neve... E de Patinagem... E de beijos...

            — A neve não tem muita graça em Nova Iorque.

            Alan não percebeu por que motivo é que ela estava tão satisfeita.

            — Por acaso, fui patinar.

            — Ai sim? Hum, deve haver alguma coisa nos ar. Teve algum caso com aquele velho escritor de que me falou? Como se chama ele?... Dickens?... Tolstoi?

            — Jason Haverton. É um homem formidável! Não, não tive nenhum caso com o Haverton, idiota, apesar de ter gostado muito dele, mas talvez a idéia o agradasse.

            — Os velhos fazem qualquer coisa em troca de sexo, Al. Já devia saber isso, com a sua idade.

            — Anda a preparar o terreno? É isso?

            — Antipática! Não te fica bem ser malcriada para o seu namorado do colégio!

            — Já não é namorado de ninguém, exceto talvez da Carmen.

            Para não falar de milhões de mulheres em todo o mundo, claro, mas eram amigos há tanto tempo que Allegra não teve dificuldade em ignorar este fato.

            — Deixe-me falar com ela, ou tenho de aturar esta conversa a tarde toda? — insistiu, rindo.

            — Alan era impossível, mas adorava-o.

            — Vou perguntar se ela quer falar com você. A propósito, quando é que te vemos?

            Alan falava como se Carmen e ele fossem casados, e Allegra gostou de ouvi-lo.

            — Talvez este fim-de-semana, se não tiver mais nada que fazer.

            — Eu fiz a pergunta no singular, e não no plural Não incluí o morto.

            — Não seja desagradável para com o Brandon replicou, mais por hábito do que por sentimento. Ela também gostaria de ter oportunidade de ser dura para com Brandon, mas não estava preparada para falar nesse assunto a Alan.

            — Nunca sou antipático para com os mortos. Bem, tenta ver se se livra dele antes de irmos jantar. Ou talvez nós fiquemos por aqui. Vou passar para a patroa retorquiu, entregando o telefone a Carmen e beijando-a.

            Fez-se um longo silêncio e Allegra ficou à espera.

            Passara nove dias formidáveis com Alan, num isolamento total. Houve várias pessoas do lugar a reconheceram quando foi à praia, mas nenhuma a incomodou. Eram mais ou menos tão famosas como ela e estavam habituadas à presença de celebridades. Cruzavam-se com Nicholson, Streisand e Nick Nolte quase todos os dias, e com Cher, Tom Cruise e Nicole Kidman. Em Malibu, junto de Alan, Carmen Connors encontrava-se entre os seus pares, e a segurança era enorme.

            — Senti a sua falta — disse Carmen, apesar de ter andado muito ocupada.

            — Eu também. Nova Iorque estava uma loucura, mas adorei. Vamos a outro assunto: adivinhe o que eu consegui para você... Allegra estava tão entusiasmada que parecia uma menina.

            — Não sei. O perfume? Falou com eles em Nova Iorque?

            — Falei. É horrível. Você iria detestá-lo e teria de passar meses para vendê-lo. Esqueça! Não... Fez uma pausa, despertando-lhe ainda mais a curiosidade. E que tal um grande,  novo e suculento filme, com um papel que lhe valerá o Oscar da Academia? Aposto!

            — Uau! Quem é que entra?

            — Você! E nomeou mais cinco atores que deixaram Carmen sem fôlego. E que tal três milhões de dólares para a vencedora do Globo de Ouro deste ano? Que lhe parece?

            — Não acredito!

            Carmen correu a dar a notícia a Alan e voltou ao telefone.

            — Você merece — garantiu Allegra, perguntando a si própria por que motivo pensava que toda pessoa que conhecia tinha direito de alcançar o melhor, desde relações pessoais a filmes, e ela própria nunca se considerava digna de coisa alguma. Era uma questão interessante.

            — Gostaria que voltasse para falar com os produtores — acrescentou amavelmente.

            — Claro. Quando?

            — Diga-me qual a data que lhe convém, e eu marco a reunião. Olhou para o calendário.

            — Que tal na quinta-feira?

            — Ótimo! O Alan pode ir?

            — Se ele quiser...

            Alan fez sinal afirmativo a Carmen.

            — Ele diz que sim... E, Allie... Carmen hesitou, mas a questão era importante para ela nesse momento. Talvez da próxima vez eu e o Alan possamos fazer um filme juntos.

            — Céus! — pensou Allegra. Seria um acordo de grande monta, e nem sempre era fácil concretizar contratos desse tipo. Além disso, as americanas, para não falar das mulheres de todo o mundo, não iriam gostar que lhes atirassem à cara que o seu símbolo sexual preferido casara, e ainda por cima com Carmen Connors!

            — Podemos falar nisso. As coisas não são assim tão simples, mas podemos tentar. Qualquer dia. Se for uma situação que vocês levam a sério...

            O que Allegra não queria era que se definisse um acordo da ordem dos sete ou oito milhões de dólares para ambos, ou mesmo de dez milhões, visto que Alan entrava, e depois eles se separassem e se recusassem a entrar no filme ou, pior ainda, que este viesse a tornar-se num fiasco. Não precisava de mais dores de cabeça.

            — Vamos aguardar algum tempo.

            — Eu sei, está convencida de que acabaremos por nos separar — disse Carmen, compreendendo o ponto de vista de Allegra Mas não. Tenho a certeza! É o homem mais incrível que já conheci — continuou, baixando a voz num tom conspiratório. Não posso viver sem ele.

            — Como vão as ameaças? A situação acalmou?

            — Completamente. Carmen não fora para lado nenhum e, depois de ter ganhado o Globo de Ouro, até os tablóides a haviam deixado em paz. Sinto-me tão segura aqui

            Allegra sorriu. Quem não se sentiria seguro junto de Alan? Sam é que tinha razão, ele era uma ‘brasa’, e muito simpático.

            — Fico feliz pelos dois — disse Allegra sinceramente

            — Obrigada, Allie. Tudo isto se deve a você. Quer vir jantar conosco este fim-de-semana para celebrar?

            — Gostaria muito.

            — Que tal no sábado? No domingo o Alan gosta de ir jogar boliche.

            — Nesse caso, porque não vou no domingo? Adoraria vencê-lo!

            — Então vamos jogar boliche no sábado, se quiser. Mas tem de jantar conosco!

            — Quem é que cozinha? — gracejou. Carmen riu-se.

            — Nós os dois. Ele está me ensinando. E Allie... Carmen deu outra gargalhada nervosa. A sua vida estava apenas começando. Obrigada pelo filme.

            — Agradeça aos produtores, não a mim. Foram eles que me telefonaram. Estou convencida de que vai gostar.

            — Adorei!

— Até sábado. A menos que nos encontremos com os produtores antes disso.

— Telefone-me se precisar de alguma coisa.

            Mas Alan encarregaria de tudo. Carmen só ligara uma vez numa semana e deixara uma mensagem banal. A situação começava a estabilizar, o que também era bom. Allegra precisava de algum tempo para si própria, para lamber as feridas e compreender o que se passara.

            Dedicou a semana inteira ao trabalho e a encontros com os clientes. Carmen e Alan tinham ido a Los Angeles na quinta-feira e o acordo para o novo filme fora assinado. Nessa tarde, Allegra foi ao consultório da Drª. Green, preparando-se para ouvir novas acusações. Porém, teve uma agradável surpresa: a psiquiatra ficou orgulhosa com o modo como ela gerira a situação e só a censurou por não ter telefonado.

            — Porque não me ligou para conversarmos no fim-de-semana? Essa fase deve ter sido muito dura para você, sobretudo entre a sua ida a São Francisco e o regresso de Brandon, no domingo.

            — Tem razão, mas não havia muita coisa a dizer. O que mais me custou foi pensar que talvez ele sempre tenha feito o mesmo e que eu fui tão estúpida que nem dei por isso. Continuei a pensar que ele precisava de tempo, de espaço e de amor, mas a verdade é que não se importava comigo.

            — Talvez ele estivesse interessado em si corrigiu a Drª. Green. Agora Allegra exagerava em sentido oposto, devido à raiva que sentia por ter sido traída e por tê-lo encontrado com outra mulher Envolveu-se na medida das suas poucas possibilidades. Não é muito, Allegra, mas é alguma coisa.

            — Mas porque fui tão estúpida? Como é que posso ter sido tão idiota durante dois anos?

            — Porque quis ser. Você precisava de companhia e de proteção, É pena é que ele fosse um companheiro tão indisponível e que fosse você a protegê-lo. Foi um acordo muito desigual. E agora? Como está lidando com tudo isto?

            — Sinto-me irritada, estúpida, furiosa, independente, inteira, livre, arrependida e, ao mesmo tempo, nada arrependida, e com medo que o próximo não seja diferente. Talvez os homens sejam todos iguais, ou pelo menos aqueles com quem me relaciono. Creio que o que me assusta mais é pensar que isto pode acontecer outra vez, e outra, e outra, que estou condenada a  me prender a homens que não prestam...

            — Não tem de ser assim, e creio que desta vez você aprendeu alguma coisa.

            A psicóloga parecia mais confiante do que Allegra, o que a surpreendeu.

            — O que a leva a pensar dessa maneira?

            — Porque, assim que percebeu o que estava acontecendo, enfrentou a situação e deixou que a relação terminasse, quer tivesse sido ele a acabar ou você. Mas foi você. Você desmascarou-o e o Brandon desapareceu, como um verme num buraco. Pelo menos não fingiu que ele continuava a estar disponível, quando isso não acontecia. Foi um grande passo, Allegra.

            — Talvez — concordou, sem grande entusiasmo. E agora?

            — Você é quem sabe. O que pretende? Seja o que for, está ao seu alcance, se tiver confiança em si própria É com você, bem sabe. Pode encontrar uma pessoa formidável, se quiser.

            — Creio que conheci uma pessoa formidável em Nova Iorque, mas não tenho a certeza — disse Allegra, à cautela.

            Desconfiava de Jeff, agora que voltara. Aliás, duvidava de todas as pessoas, e talvez as recordações que tinha de Jeff não fossem tão fantásticas como tinham parecido. Se se sentira atraída, era porque ele era igual aos outros.

            — As relações à distância são outra maneira de evitar a intimidade lembrou-lhe a Drª. Green.

            Desta vez, Allegra sorriu.

            — Ele também trabalhando aqui. Embora seja de Nova Iorque, agora vive aqui.

            A Drª. Green apurou o ouvido.        

            — Que interessante! Fale-me dele.

            Allegra contou-lhe o que sabia e o que vira em Jeff, e o simples fato de lhe falar do passeio de carruagem e do rinque de patinagem deu-lhe a sensação de que tudo aquilo era irreal, mesmo aos seus próprios ouvidos, mas tinha saudades dele. No entanto, prometera a si própria não telefonar, por enquanto, e não o fizera. Depois do que acontecera com Brandon, precisava de tempo para a poeira assentar.

            — Por quê? Talvez isso o leve a pensar que você não está interessada nele disse a Drª. Green para encorajá-la. Parece ser muito simpático e normal. Porque não telefona?

            — Ainda não estou preparada. Allegra evitava a idéia, e nada do que a Drª. Green disse nessa tarde a convenceu. Preciso de um tempo, depois do Brandon.

            — Não, não precisa — replicou a Drª. Green, desarmando-a. Você levou dois anos  desculpando-o para todas as pessoas, e acabou de passar uma semana em Nova Iorque beijando um homem sempre que podia. Não me parece que esteja assim tão triste por causa do Brandon...

            Allegra sorriu. A psicóloga conhecia-a bem.

            — Talvez eu me ande escondendo.

            — Por quê?

            — Por estar assustada, creio eu — confessou Allegra. O Jeff parece tão fora de série que não quero sofrer outra desilusão. E se ele não for o que parece? Isso acabaria comigo!

            — Não, de modo algum. E se ele for humano? O que acontecerá? Será uma grande desilusão? Prefere-o como fantasia ou como contraponto do Brandon?

            — Não sei o que sinto por ele; só sei que, quando estou do seu lado, seria capaz de o seguir até ao fim do mundo. Confiei totalmente nele, e, agora que voltei para casa, acho que isso me assusta.

            — É compreensível, mas ao menos podia vê-lo.

            — Ele não me telefonou. Talvez tenha alguém.

            — Ou talvez ande atarefado, talvez esteja escrevendo ou receie intrometer-se, por você ter feito tanto alarido acerca da sua relação com o Brandon. Talvez tenha obrigação de lhe participar, pelo menos, que tudo acabou. Já seria alguma coisa...

            Mas Allegra preferia esperar e queria ver se ele telefonava.

            E foi o que aconteceu, na sexta-feira. Jeff ligou no fim da tarde, e parecia hesitante quando pediu para falar com ela, como se não soubesse se devia ter telefonado para o escritório. Quando Alice lhe disse que ele estava ao telefone, Allegra respirou fundo e pegou o aparelho com a mão trêmula; foi como se tivesse começado uma vida nova no momento em que ouviu sua voz.

            — Allegra?

            — Olá, Jeff. Como está?

            — Agora estou melhor. Eu sei que disse que não telefonaria, por enquanto, mas por você tenho trepado pelas paredes, por isso concluí que tinha de falar e que depois a deixaria de novo em paz algum tempo. Sinto mesmo a sua falta!

            Durante dois anos, Allegra suara para ouvir estas palavras da boca de Brandon, e com Jeff era tudo tão fácil! Teve remorsos por não ter telefonado, como sugerira a Drª. Green.

            — Também sinto a sua falta —  disse ela baixinho.

            — Como andam os seus protegidos, agora que voltou? Estão todos portando-se bem? Ou continua enfrentando ameaças de morte e afugentando tarados e paparazzi às quatro da manhã?

            — Por acaso tem sido uma semana calma. Exceto na sua própria vida, mas não se referiu ao assunto. E você? Como vai o argumento?

            — Muito mal. Não estou disposto a trabalhar desde que voltei. Acho que você me distraiu bastante.

            Seguiu-se uma pausa, e depois Jeff fez-lhe a pergunta que tinha em mente desde que saíra de Nova Iorque.

            — Como foi o seu fim-de-semana?

            — Muito interessante —  respondeu ela com frieza. Teremos de conversar sobre isso um dia.

            Allegra não queria falar do assunto no escritório.

            — Isso me soa a um encontro num futuro muito distante — disse ele tristemente. Esperara toda a semana para telefonar e ela parecia estar tão bem nesse momento. Morria de vontade de voltar a vê-la!

            — Não creio — respondeu Allegra tranquilamente. Tentou ser corajosa e lembrar-se das palavras da Drª. Green. O que vai fazer este fim-de-semana?

            Susteve o fôlego e ficou à espera. ‘Oh!, Meu Deus, faz com que ele não seja igual aos outros... ’

            — Isso é um convite?

            Jeff estava perplexo. O que fizera ela com Brandon? Mas teve receio de lhe perguntar e de estragar o momento.

            — Podia ser. Amanhã vou jantar com uns amigos em Malibu. Quer vir? É uma ocasião muito informal, de jeans e camisetas velhas. Talvez vamos jogar boliche.

            — Adoraria! — Jeff parecia maravilhado. Nem conseguia acreditar que ela o convidara.

            — Posso perguntar quem são os amigos, só por curiosidade, para não fazer figura de parvo quando lá chegarmos? Sabia o tipo de pessoas com quem ela se dava e tinha razão.

            — Alan Carr e Carmen Connors, mas não pode dizer a ninguém que os viu juntos. Estão escondidos em Malibu, para fugirem aos tablóides.

            — Tenho a certeza que consigo guardar segredo — prometeu Jeff, rindo. Ninguém lhe perguntaria tal coisa. Parece que vai ser uma noite deliciosa!

            — Não, não — disse Allegra, bem disposta. Eles são os dois uns péssimos cozinheiros, mas boas pessoas. Com sorte, vão comprar macarrão. Eu mesma vou fazer essa sugestão. A Carmen ainda não aprendeu a cozinhar e o Alan anda ensinando-a. Deve ser terrível!

            Deu uma gargalhada, feliz só por estar falando com ele, e ficaram conversando durante algum tempo sobre a semana que tinham passado um sem o outro.

            — Estava tudo bem quando você chegou? — perguntou Jeff, sinuoso.

            Allegra respondeu afirmativamente, embora tivesse percebido ao que ele se referia: queria saber de Brandon. Porém, parecia-lhe tão estranho contar o que se passara pelo telefone! A idéia não agradava. Seria mais fácil falarem do assunto no sábado, quando fossem para casa de Alan.

            A conversa durou mais alguns minutos e depois desligaram. Allegra passou o resto da noite pensando nele. Tencionava ir jantar com os pais nesse dia, mas eles tinham saído, por isso foi para casa, fez uns ovos mexidos e ficou pensando em Jeff e em Brandon. Não queria voltar a cometer o mesmo erro, não estava disposta a iludir-se e a enganar-se a si própria.

            No sábado, sentia-se muito calma quando Jeff chegou a sua casa, impecável, com um jeans desbotado, mas bem engomados, uma camisa branca grossa e um casaco. Continuava  vestindo-se à moda do Leste, o que ela adorava. Parecia saído de um anúncio de Ralph Lauren. Ela vestira umas jeans e uma blusa branca e pusera uma malha vermelha sobre os ombros.

            A princípio sentiu-se um pouco tímida na presença dele. Jeff olhou à sua volta, admirando a casa. Era como se recomeçassem tudo de novo, até que ele a puxou para os seus braços e a beijou.

            — Assim é melhor  — disse Jeff, baixinho. Esperei muito por isto.

            — Nove dias  — respondeu ela, num sussurro. Jeff abanou a cabeça.

            — Trinta e quatro anos. Há muito que estou à sua espera, Srtª. Allegra Steinberg.

            — Porque se demorou tanto? —  perguntou ela.          

            Jeff abraçou-a e sentaram-se no sofá admirando a vista. Allegra sentia-se completamente à vontade com ele, como se nunca se tivessem separado.

            — Não quero ser indelicado  — disse Jeff por fim, com cautela.

            Allegra foi buscar uma Coca Diet na cozinha e ele seguiu-a, sempre olhando à sua volta, mas não havia sinais de Brandon.

            — Onde está ele?

            — Quem?

            Allegra não percebeu a pergunta. O encontro com Alan e Carmen era em Malibu, e não em sua casa.

            — O Brandon. O meu rival. Jeff tinha curiosidade em saber o que acontecera e qual o motivo por que ela estava disponível numa noite de sábado: não lhe dera qualquer explicação ao telefone. Talvez Brandon estivesse em São Francisco. Ele foi-se embora?

            — Para sempre. Allegra sorriu com malícia. Parecia uma menina mimada que tivesse feito algo que não devia. Foi embora, sim. Acho que me esqueci de dizer.

            Jeff ficou olhando para ela e em seguida pousou o copo no balcão de granito.

            — Espere aí. Ele foi-se embora... Saiu de cena... Adeus... E você não me disse nada? Não acredito! Sua viborazinha! Abraçou-a de novo e apertou-a com força. Como se atreve a fazer-me uma coisa dessas? Desde ontem, quando telefonei e me convidou para jantar, que tenho tentado adivinhar. Porque não ligou para mim? Julguei que era esse o nosso acordo: telefonava-me se acontecesse alguma coisa.

            — Passou-se muita coisa desde que eu voltei, mas precisava de algum tempo para arrumar as idéias antes de telefonar.

            Jeff compreendeu, mas passara a semana sofrendo por causa dela. Teria gostado muito de saber que rompera com Brandon, e agora tinha mil e uma perguntas para lhe fazer.

            — Qual a pulhice que tenho a agradecer-lhe, se alguma vez o vir?

            — Aparentemente, várias de que eu não tinha conhecimento, mas a maior aconteceu quando fui a São Francisco e me apresentei no Fairmont, na sexta-feira à noite. Essa foi boa! Ele estava com uma mulher! De repente, percebi que sempre fizera o mesmo, e ele não deixou de confirmá-lo.

            — Bom tipo! Grandes princípios! Aprecio isso num homem! Boa fibra moral!

            Jeff estava brincando com ela, mas, no íntimo avaliava o que Allegra sofrera. Que humilhação! Que crueldade! No entanto, curiosamente, sentia-se satisfeito por isto ter acontecido, e tão depressa. Era o destino.

            — O problema é que eu também gosto de todos esses belos princípios, como a ética, a fidelidade, coisas enfadonhas que hoje já não estão na moda  — comentou Allegra, e parece que me iludo, convencendo-me de que as outras pessoas os têm. Infelizmente, costumo enganar-me. Parece que quase nunca acerto. A verdade é que, até agora, tenho escolhido sempre errados.

            — Talvez as coisas tenham mudado, finalmente  — disse Jeff, puxando-a mais para si outra vez, talvez o seu golpe de vista tenha melhorado.

            — Melhorou?... — perguntou Allegra com medo, desejosa de respostas e de confirmações.

            — O que acha?

            — Estou perguntando. Não creio que consiga passar por isso de novo, é a terceira vez que me acontece. Três fracassos! Não posso mais!

            — Não, Allegra  — disse ele, obrigando-a a virar o rosto para olhar para ela. Você está apenas começando, é um bebê. Isso foi tudo para ganhar experiência. Agora vamos ao que interessa. Desta vez vai conseguir... Bem merece...

            Os olhos de Allegra encheram-se de lágrimas, e dessa vez, quando ele a beijou, retribuiu o beijo do fundo do coração, sentindo que até aí desperdiçara os seus sentimentos. Mas Jeff tinha razão: dessa vez ia tudo dar certo. Ele era sincero e não a enganaria, tinha a certeza.

            Deixaram-se ficar sentados durante algum tempo e depois Allegra perguntou-lhe se queria ver a casa. Tinha a impressão que ele passaria ali muito tempo. Era uma sensação estranha, como se estivesse mostrando o seu novo lar.

            — Adorável... — disse Jeff, admirando o que ela fizera, o ambiente simples e confortável. Allegra também gostava muito da sua casa e sentia-se feliz por isso. Pouco depois, partiram para Malibu. Levaram quarenta e cinco minutos a chegar na casa de Alan. No caminho, Allegra falou sobre ele e das travessuras que ambos tinham feito juntos ao longo dos anos, e também de Carmen, mas, mesmo assim, Jeff ficou sem fala quando os viu. Carmen era de uma beleza invulgar, mesmo de camiseta e jeans. Tinha a mesma sensualidade sufocante de Marilyn, mas era muito mais bela, muito mais fascinante, e Jeff não estava preparado para conhecê-la. Quanto a Alan, era o mesmo que estar olhando para uma tela de cinema, mas com a vantagem de o ator estar vivo e a fitá-lo, rindo com aqueles dentes perfeitos, os olhos azuis incríveis e as feições tão bem modeladas. Lembrou-se de Clark Gable. Mas que par! Imaginou o que diria a imprensa quando soubesse. Especialmente os tablóides...

            Os anfitriões levaram-nos para dentro. Alan tinha feito tamales e guacamole e serviu uma tequilla a Jeff mas, apesar de se mostrar muito hospitaleiro, notava-se que estava um pouco confuso ao olhar para o companheiro de Allegra. Por fim, quando se viram a sós, não se conseguiu conter, e ela fitou-o com uma expressão maliciosa.

            — O que se passa, sua marota? Quem é ele? Onde está o soda? — Alan nunca se referia a Brandon em termos agradáveis ou amáveis, porque nunca gostara dele, mas desta vez Allegra não disse nada em sua defesa, limitou-se a sorrir. Este me agrada. O que fez ao outro? Matou-o?

            — Mais ou menos. Estava me enganando há dois anos, mais coisa, menos coisa explicou, resumidamente. Fui encontrá-lo com uma das namoradas no Fairmont, no fim-de-semana passado. Por acaso, não estavam no quarto, mas dei com o soutien, as calcinhas e a camisola transparente dela espalhados por todo o lado.

            — Porque não me disse, minha parva?

            Alan ficara magoado por ela não ter telefonado.

            — Precisava de tempo para me habituar à idéia —  respondeu Allegra, muito séria. Liguei uma vez, mas  você não estava em casa, e eu sentia-me tão mal que não me agradaria falar do Brandon com ninguém. Passei a semana  lambendo as feridas.

            — Dê graças a Deus! — disse Alan, com ar convicto, servindo-lhe uma soda. Allegra não queria tequilla. Esse sujeito a faria infeliz para o resto da vida, acredite.

            Allegra sabia agora que ele tinha razão; nesse momento, Carmen e Jeff foram ter com eles.

            — O que estão vocês tramando? —  perguntou Jeff, enlaçando Allegra, que esboçou um sorriso tímido. O que se passa aqui? Posso confiar neste homem? Diz a verdade, agora que eu sei ao que me arrisco. Receio não ter hipóteses de competir com ele. Será que constitui uma ameaça?

            Alan riu e apressou-se a sossegá-lo.

            — Não fui nos últimos quinze anos. Ela era muito louco aos catorze, mas só lhe consegui roubar meia dúzia de beijos lambuzados. Espero que, pelo menos nisso, tenha melhorado  — disse Alan, virando-se para Allegra.

            — Não tenho nada que agradecer. Você arranhava-me com a barba e deixava sempre em confusão com a minha mãe, safado!

            — E continua a fazer o mesmo, sabe? — afirmou Carmen, olhando para Allegra com ar compreensivo.

            Era divertido estarem juntos, os quatro, e Allegra nunca vira nenhum deles tão feliz.

            Alan fez tacos e tostadas para o jantar e Carmen preparou arroz-espanhol e uma boa salada. À sobremesa houve sorvete com creme de chocolate quente, e os quatro queimaram malvas na lareira, como se fossem crianças. Depois, foram dar um passeio pela praia, riram-se, conversaram e brincaram, entrando e saindo do mar, enquanto as ondas se espraiavam suavemente na areia, ao luar. Foi um serão encantador.

            Quando voltaram para casa, Carmen sorriu para Allegra e depois para Alan. Fitou-o com os seus grandes olhos azuis e segredou-lhe qualquer coisa. Perguntou se podia dar a notícia, e ele hesitou, olhando para a sua velha amiga e para Jeff, sem saber se ela aprovaria e se ele seria digno de confiança, mas concluiu que conseguiria enfrentar os dois, e Carmen mal conseguiu conter o seu entusiasmo.

            — Vamos casar em Las Vegas no Dia de São Valentim  — anunciou.

            Allegra fingiu que desmaiava e caiu para trás.

            O sonho de Cupido e o pesadelo de um advogado! Olhou para Alan com atenção, tentando apurar se aquilo era o que ele verdadeiramente desejava, e ficou convencida de que sim. Alan parecia seguro de si próprio e de Carmen, e Allegra nunca o vira tão feliz. Com trinta anos, devia saber o que lhe convinha.

            — Os jornais vão acabar com vocês! Espero sinceramente que usem outros nomes e vão incógnitos: ponham perucas, pintem o rosto, façam qualquer coisa. Vai ser a notícia do século! O casamento da princesa Di e do príncipe Charles não foi nada ao pé disto! Por favor, tenham cuidado.

            — Claro que sim  — garantiu Alan, e de súbito teve uma idéia: Quer ser a nossa dama de honra, ou testemunha, ou seja lá o que é? Em seguida olhou para Jeff, afável. Você também pode vir, se conseguir aturá-la até lá. Gostaríamos muito que estivesse presente.

            Alan fora generoso e Jeff ficou comovido com as suas palavras. Eram pessoas afetuosas e sinceras e passaram uma noite fabulosa. Não tinha sido pretensioso, nem intelectual, nem parecido com os salões de Nova Iorque, fora muito mais pé no chão, o que lhe agradara. Viera para a Califórnia precisamente por isso, mas esta gente era especial. Jeff gostava de ambos, e não conseguira tirar os olhos de Allegra durante toda a noite. Ainda não se convencera da sorte que tivera pelo fato de ela haver rompido tão depressa com Brandon.

            Passaram uma hora a falar do casamento, que se realizaria daí a duas semanas. Alan queria levar Carmen à pesca na Nova Zelândia, na lua-de-mel. Rodara lá um filme e adorara aquelas paragens. E ela queria ir a Paris, que ainda não conhecia.

            — Eu levo-o à Nova Zelândia, Jeff  — disse Alan, esfuziante, acendendo um cigarro. As pequenas podem ficar em casa enquanto nós vamos às compras.

            Mas, no meio das brincadeiras, Allegra não deixou de lembrar mais uma vez que tivessem cuidado. A imprensa faria da vida deles um inferno assim que descobrisse. Era fundamental que ninguém desconfiasse.

            — Como é que vocês vão para Las Vegas?

            — Pensei em irmos de carro  — respondeu Alan, com sentido prático.

            — Porque não alugo um trailer? O Bram usa um dos grandes. Vou ver se consigo arranjá-lo. É o meu Presente!

            Custaria cerca de cinco mil dólares irem nele para Las Vegas, mas o trailer era fabuloso e valia bem o dinheiro. Era como conduzir um iate ou um avião particular E, se o alugasse em seu nome, ninguém desconfiaria de nada.

            — Parece divertido  — admitiu Carmen. Alan cedeu e agradeceu à sua velha amiga

            Jeff e Allegra ajudaram-nos a arrumar a cozinha, puseram a louça na máquina, para a empregada tratar dela de manhã, e foram-se embora às onze horas. A Lua brilhava no céu. Jeff perguntou a Allegra se queria passar pela casa dele para conhecer, ficava apenas a alguns quarteirões. A princípio, Allegra hesitou, mas depois cedeu. Ainda era tudo muito novo para ela, e, de certo modo, sentia-se mais tímida com ele naquele momento do que em Nova Iorque. Fora tudo tão rápido. Tinham de aproveitar o máximo, enquanto era possível. Parecia que viviam um romance de sonho, mas temia que, de súbito, a realidade destruísse todas as suas esperanças. Allegra sabia que ambos levavam a sério a situação, mas era um pouco assustador, e ainda não se convencera de que Alan e Carmen iam casar

            — Apresentei-os há duas semanas  — explicou a Jeff, incrédula, ao pararem junto de uma casinha de praia bem conservada.

            — Isto é Hollywood. — exclamou ele, dando uma gargalhada.

            A verdade é que Alan e Carmen pareciam realmente talhados um para o outro. Casarem um mês depois de se conhecerem era arriscado, mas Jeff tinha a sensação de que a sua relação iria resultar, assim como Allegra.

            — São ambos pessoas formidáveis, embora eu preferisse que tivessem andado um pouco mais devagar

            A decisão não a surpreendia vinda de Carmen, mas sim de Alan. Em geral, era tão cauteloso. Talvez tivesse percebido que era a decisão certa para ele

            — Você vai mesmo ao casamento? —  perguntou a Jeff, seguindo-o em direção à porta.

            Jeff abriu-a e virou-se para Allegra, sem saber se havia de lhe pegar ao colo e entrar. Gostaria de fazê-lo, mas tinha receio de assustá-la com a seriedade do gesto, sobretudo depois de os amigos terem resolvido casar-se após quatro semanas de namoro.

            — Claro, se você quiser. Nunca fui a Las Vegas...

            — Vai ver! — exclamou Allegra, rindo-se. Ao lado de Las Vegas, Los Angeles parece Boston.

            — Estou ansioso  — disse ele, soltando uma gargalhada. Jeff estava ansioso por várias coisas, por tudo o que queria fazer e provar-lhe. Estavam apenas no princípio.

            Mostrou-lhe a casa: era pequena e asseada, e estava muito arrumada para um escritor. Havia um tapete de sisal no chão e sofás confortáveis forrados de sarja. Jeff alugara-a e, tal como ele, também a casa tinha um cunho muito oriental. Fazia-lhe lembrar Cape Cod, ou as casas de Verão de New England. Era perfeita para ele, um ótimo lugar para escrever ou para ler um bom livro num dia cinzento, em frente à lareira, sentado numa das poltronas de couro. No quarto, havia uma grande cama de colunas feita de toras de madeira, muito à moda do Oeste.

            O banheiro era enorme, com uma banheira de mármore com hidromassagem, e a cozinha rústica ampla, com uma mesa onde cabiam doze pessoas. Além disso, havia um escritório e um pequeno quarto de hóspedes. Era perfeita.

            — Como é que a descobriu?

            Allegra estava impressionada: arranjar uma casa em Malibu era quase o mesmo que encontrar uma agulha num palheiro.

            — Por sinal, pertence a um amigo que voltou para o Leste no Verão passado. Ele ficou contente por me alugar e eu fiquei satisfeito por a ter conseguido. Foi para Boston, e creio que acabará por vendê-la. Talvez eu a compre. Por enquanto, é alugada.

            Allegra olhou à sua volta, com um sorriso; a casa agradava a ambos e era muito diferente da de Alan, que lembrava mais Los Angeles e tinha um toque do Sudoeste.

            Foram dar um passeio pela praia, mas pouco depois a brisa obrigou-os a voltar para dentro. Sentaram-se no sofá e ali ficaram durante algum tempo, alternando a conversa com carícias. Era uma da manhã quando Allegra pensou em regressar à cidade. Detestava obrigá-lo a ir levá-la, mas tinham ido a casa de Alan no carro de Jeff e Allegra não tinha outra maneira de regressar a Beverly Hills.

            — Que estupidez a minha! — disse ela, desculpando-se. Devia ter vindo me encontrar com você aqui. É horrível obrigá-lo  ir levar-me!

            — Eu não me importo. É disso que é feita a Califórnia: conduzir.

            Era de trato fácil e bem-humorado, ao contrário de Brandon, que estava sempre irritado com qualquer coisa. A companhia de Jeff era tão agradável! Era como se já vivessem juntos há muitos anos. Tal como Carmen e Alan, também eles se sentiam completamente à vontade um com o outro.

            Beijaram-se outra vez, com mais fervor, e Allegra correspondeu. Era formidável estar sozinha com ele, com tempo, sem ter que ir para lado nenhum, sem pensar em mais ninguém... Era um verdadeiro luxo estarem juntos.

            — Se eu não me levantar já, nunca mais saio  — disse Allegra baixinho, quando ele a beijou de novo.

            — É essa a minha esperança  — respondeu ele em surdina.

            — Também a minha, mas acho que me devo ir embora —  insistiu ela, rindo.

            — Por quê? — perguntou Jeff, deitando-se a seu lado no sofá, sem que Allegra levantasse qualquer objeção.

            Durante algum tempo ficaram olhando para a lareira, que ele acendera ao entrar em casa. Era um ambiente acolhedor, com o mar banhando o areal, lá fora, e o brilho intenso do luar, mas Allegra só pensava em Jeff.

            — Julgaria que eu estava doido se lhe dissesse que a amava? — perguntou, fitando-a.

            Parecia tudo tão natural entre eles, como se estivessem destinados um ao outro... Fora isso mesmo que Allegra sentira assim que o vira em casa dos Weissman.

            — Não, de modo algum. Isso parece-lhe estranho? Para mim, é como se sempre o tivesse conhecido, como o Alan.

            — Quem me dera que nos tivéssemos cruzado nesse tempo! Aposto que era gira com catorze anos. — exclamou Jeff, imaginando-a com sardas, rabos-de-cavalo  e um aparelho nos dentes.

            — Eu também e os meus beijos lambuzados... Nós divertíamos-nos, e era tudo tão simples!...

            — Agora também é  — disse Jeff. Só é complicado quando está errado, e não é este o caso. A nossa relação está certa, e você sabe.

            — É? — perguntou Allegra, olhando para ele. Jeff puxou-a para si e beijou-a ainda com mais fervor. Às vezes sinto-me tão assustada! — confessou, à luz tênue da lareira.

            — Por quê?

            — Tenho receio de cometer novos erros ou de não estar com a pessoa certa. Não quero destruir a minha vida, como... Como algumas mulheres que casam com o homem errado e se arrependem para o resto da vida ou se consomem tentando alterar a situação. Não quero fazer uma coisa dessas!

            — Então não faça  — disse ele com naturalidade. Se ainda não o fez, porque havia de fazê-lo agora?

            — Tenho tanto receio de fazer o que está errado como o que está certo.

            Ao ouvir as suas palavras, Jeff teve a certeza de que aquela relação estava certa para ambos, que era o que eles precisavam. Chegara o momento; não valia a pena torturarem-se. Pegou nela ao colo com cuidado, levou-a para o quarto e deitou-a na cama de colunas, em cima da colcha de sarja. Era muito confortável. Allegra sentia-se segura junto dele e não fez qualquer gesto para se afastar. Ficou ali a observá-lo, com os seus grandes olhos verdes, e reagiu instantaneamente quando ele a beijou. A pouco e pouco, Jeff despiu-a, admirou o seu corpo, abraçou-a, beijou-a. A sua língua, as mãos, os olhos deleitaram-se com ela, e ela com ele. Fizeram amor durante horas e, por fim, Allegra adormeceu como um bebê nos braços de Jeff e só acordou no dia seguinte, quando o Sol ia alto no céu.

            Jeff levantou-se e foi preparar-lhe café da manhã. Levou à cama e em seguida acordou-a ternamente com beijos. Allegra abriu os olhos e fitou-o, sorrindo, deleitada. Nunca esqueceria aquela noite. Jeff tinha razão: chegara a hora de ambos.

            Tomaram o café da manhã e conversaram durante muito tempo. Depois levantaram-se, partilharam um banho longo e ocioso no Jacuzzi e foram dar um passeio pela praia. Avistaram Carmen e Alan ao longe, mas, antes que eles os vissem, voltaram para casa e fizeram amor outra vez. Passaram a tarde de domingo nos braços um do outro. Em casa de Alan, Carmen foi categórica:

            — Tenho a certeza que vi a Allegra esta manhã, a passear com o Jeff.

            — Eles foram-se embora ontem à noite  — disse Alan, corrigindo-a, já com os tiques de um marido. A Allegra não faria isso, pelo menos por enquanto. Ela leva algum tempo a fazer estas coisas, e creio que ainda está assustada por causa do Brandon

            — Garanto que os vi!

            Carmen tinha certeza. Ao fim da tarde, quando Jeff foi levar Allegra à cidade, passou pela casa deles. Estavam no jardim e Alan ficou admirado ao vê-los.

            — Olha! — apontou Carmen, quando o casal lhes acenou do carro.

            — Raios me partam! —  exclamou Alan ao vê-los. Desejou-lhes boa sorte. Jeff parecia ser bom homem e Allegra merecia o melhor que a vida tinha a oferecer. Gostava dela como de uma irmã.

            — Talvez tenhamos uma cerimônia dupla em Las Vegas  — disse Carmen, dando uma gargalhada, ao voltarem para dentro.

            Mas Alan duvidava.

 

            No início de Fevereiro, o volume de trabalho de Allegra era enorme. Tinha a tournée de Bram para preparar, o contrato do novo filme de Carmen para redigir, várias outras propostas de filmes para negociar e uma série de projetos pequenos e mais triviais da empresa para acompanhar. No entanto, estava sempre sorridente, e Alice nunca a vira tão feliz.

            Às vezes, quando tinha um intervalo ou um encontro ali perto, Jeff ia buscá-la para almoçar. Outras vezes, desapareciam misteriosamente na casa de Allegra, à hora do almoço. E quando regressava ao escritório, tinha de fazer um esforço enorme para se manter séria e se concentrar no trabalho: só pensava em Jeff. Nunca se sentira tão feliz. Pareciam talhados um para o outro, gostavam das mesmas coisas, dos mesmos livros, e partilhavam muitas idéias e interesses. Ele mostrava-se sempre amável e flexível e tinha um delicioso sentido de humor.

Depois da primeira semana de felicidade, quase toda passada na acolhedora casa de Jeff em Malibu, Allegra sugeriu que ele fosse jantar na casa dos pais, embora ainda não lhes tivesse participado a ruptura com Brandon.

            — Tem certeza? — perguntou Jeff, cauteloso.

            Estava louco por ela, mas não queria pressionar os acontecimentos. Sabia que era muito ligada à família e tinha receio que o seu aparecimento pudesse ser considerado uma intromissão.

            — Não seja palerma! A minha mãe adora que nós levemos amigos lá a casa!

            Sempre fora assim, desde que eram crianças. Os Steinberg gostavam de se ver rodeados pelos amigos dos filhos e sabiam fazer-lhes sentir que eram bem-vindos.

            — São pessoas tão ocupadas!

            Jeff hesitou; a idéia de estar sujeito à aprovação dos pais de Allegra deixava-o um pouco nervoso. Conhecer os pais de uma mulher nunca fora um dos seus passatempos favoritos e na sua idade, isso o fazia sentir um pouco ridículo.

            — Eu sei que eles vão gostar muito de te conhecer  — assegurou Allegra, com ternura.

            Apesar de todas as suas apreensões, Allegra conseguiu convencê-lo a ir jantar a casa dos Steinberg na sexta-feira.

            Quando foi buscá-la, Jeff apresentou-se de terno completo, muito à semelhança do que vestia quando o conhecera, em Nova Iorque: conservador, com um ar respeitável e muito elegante. No caminho para Bel Air, Allegra sorria-lhe de vez em quando: Jeff estava mesmo nervoso!

            — É por o meu pai ser uma pessoa importante ou só porque eles são meus pais? — gracejou Allegra.

            Parecia que voltara aos dezesseis anos, e a situação divertia-a. Allegra sabia que os pais iriam gostar muito de Jeff, tanto mais que detestavam Brandon. O pai tentava mostrar-se indiferente, mas a mãe odiava-o, e a verdade é que não se enganara a seu respeito.

            — Nunca me esqueço do que senti quando lhe enviei o meu primeiro livro. E se ele julga que é por isso que eu apareço?

            Jeff parecia um menino. Allegra riu e deu-lhe alguns conselhos.

            — Acho que ele vai descobrir e, em último caso, a minha mãe explica-lhe. Ela é muito inteligente  — disse Allegra. Era uma descrição acertada da mãe.

            Quando chegaram, Blaire estava examinando a planta da nova cozinha. Os papéis encontravam-se espalhados no chão da sala, e ela, agachada, explicava o seu conteúdo a Simon.

Blaire levantou-se, com um lápis enfiado no cabelo, e contemplou a filha mais velha com um sorriso carinhoso. Ficou admirada ao ver o seu companheiro, mas não fez comentários.

            — Olá, querida. Estou mostrando ao pai como vai ficar a cozinha  — disse, levantando-se e cumprimentando Jeff.

            Allegra avisara-a de que levaria outra pessoa para jantar e ela partira do princípio que era Brandon, mas teve o cuidado de disfarçar a sua surpresa. No entanto, queria saber quem era o companheiro de Allegra e estava morrendo de vontade de  fazer perguntas a respeito dele.

            Simon levantou-se e beijou a filha com um sorriso desolado.

            — Ela está mostrando-me o buraco que teremos no quintal nos próximos seis meses e a divisão vazia das traseiras, onde costumávamos tomar o café da manhã. O Verão vai ser um desastre nesta casa!

            Em seguida, apresentou-se a Jeff, com um ar natural, mas interessado. O sorriso afetuoso e o aperto de mão firme agradaram-lhe.

            — Conhecemo-nos há um ano  — explicou Jeff. O senhor teve a amabilidade de me receber por causa de um argumento que eu queria criar a partir de um livro que escrevi, Birds of Summer. Tenho a certeza de que não se lembra  — acrescentou, despretensioso e agradável.

            — Por acaso lembro-me. Simon abanou a cabeça com ar pensativo e sorriu. As suas idéias para o argumento eram muito boas, mas o plano tinha de ser mais trabalhado, tanto quanto me recordo. Acontece o mesmo com todos os livros.

            — Tenho trabalhado nele  — disse Jeff, um pouco pesaroso.

            Apertou a mão de Blaire com muita delicadeza. Em tudo se notava a sua boa educação.

            Pouco depois, Sam entrou na sala e sentaram-se todos conversando antes do jantar. Falaram da carreira de Jeff, da nova cozinha que Blaire planejava e de Hollywood em comparação com Nova Iorque. Jeff foi obrigado a admitir que sentia falta da vida nova-iorquina, mas havia muitas coisas na Califórnia que o atraíam; Allegra, sobretudo. A princípio, pensara em ficar por um ano e regressar a Nova Iorque para escrever o livro seguinte, e chegara mesmo a pensar em mudar-se para New England ou Cape Cod, mas, antes de ir fosse para onde fosse, tinha de iniciar o filme em Maio e talvez não o acabasse antes de Setembro. Allegra ficou ligeiramente preocupada quando ele explicou os seus planos. Só então se apercebeu de que Jeff poderia regressar ao Leste e ficou desanimada ao ouvir as suas palavras.

            — Não é uma boa notícia  — disse-lhe em voz baixa, quando foram jantar.

            Preocupava-a pensar na partida dele nesse momento, tão pouco tempo depois de se conhecerem e quando tudo parecia correr tão bem.

            — Estou aberto a sugestões... — segredou ele, e os seus lábios afloraram o pescoço de Allegra.

            — Espero que sim.

            Durante o jantar, Allegra divertiu-se ao ver que a mãe os observava. Queria saber quem ele era e onde tinha estado, o que era feito de Brandon e o que significava aquele homem para Allegra. No entanto, enquanto Jeff ali estivesse, não poderia perguntar nada à filha. O grupo era muito convival. Allegra reparou que Sam também olhava Jeff com atenção. Por fim, quando voltaram para a sala, a mãe chamou-a de parte e fez-lhe algumas perguntas.

            — Houve alguma mudança na sua vida, Allegra? — perguntou ela, quando Jeff e Simon se afastaram para trocar impressões sobre a indústria cinematográfica.

            Falavam de sindicatos, de quantias envolvidas na produção e de outros problemas, e Blaire sorriu, olhando para a filha. Queria saber toda a história. Era evidente que saltara alguns capítulos.

            — O que quer dizer com isso, mãe? — gracejou Allegra. As duas mulheres soltaram uma gargalhada e Sam rolou os olhos nas órbitas. Era fácil perceber que ele estava doido por Allegra.

            — Nunca julguei que assistíssemos ao fim do Brandon —  disse a mãe. Ele está em São Francisco este fim-de-semana, ou isto significa aquilo que eu julgo?

            Blaire não se atrevia a acalentar grandes esperanças.

            — Talvez...

            Allegra parecia uma Mona Lisa loura. Ainda não decidira nada, era demasiado cedo para fazer afirmações. Quisera apenas que os pais o conhecessem.

            — Podia ter dito alguma coisa. —. observou a mãe em tom de censura.

            Sam estendeu-se no sofá. Estava exausta e considerava que a vida sentimental da irmã era enfadonha, embora gostasse muito mais de Jeff que de Brandon.

            — Ele é muito mais legal que o Brandon  — declarou, com um interesse polido. O que aconteceu, Allie? O Brandon deu com os pés?

            — Isso não é maneira de falar! — repreendeu a mãe, franzindo o sobrolho e virando-se para Allegra. O que é que se passou, querida?

            Não conseguiu resistir à tentação de fazer a pergunta. Esperava que não tivesse acontecido nada de muito desagradável e sentia-se satisfeita por ele, aparentemente, se ter ido embora. Aliás, nunca acreditara que Brandon se interessasse verdadeiramente por Allegra. Sempre lhe parecera muito indiferente, distante e mesmo reprovador, e o fato de nunca se ter divorciado perturbava-a.

            — Acho que foi apenas o tempo... — respondeu Allegra, misteriosa.

            — Quando é que foi isso? — perguntou Sam, curiosa. Sentia que a irmã não estava a contar toda a história.

            — Há umas semanas. Conheci o Jeff em Nova Iorque. Allegra resolveu atirar-lhes um osso, a mãe ficou satisfeita. Gostava de Jeff e Simon também.

            — É muito bem-parecido  — apressou-se a dizer Blaire. Pouco depois, Jeff e Simon voltaram para dentro, ainda embrenhados na conversa sobre o filme.

            — Gostaria de ler o seu novo livro  — disse Simon, muito sério. Aliás, vou comprá-lo. Já saiu, não é verdade?

            — Sim, há pouco tempo. Acabei de fazer uma breve viagem promocional. Não percebo como tem tempo para ler, com tudo o que faz  — afirmou Jeff, impressionado com a conversa.

            — Eu me arranjo...

            Nesse momento, Simon fitou a mulher e Allegra percebeu de que ambos trocavam um olhar estranho; não era animosidade nem raiva, apenas um pequeno sopro de frieza. Allegra nunca vira nada daquilo e perguntou a si própria se algum deles estaria aborrecido, por causa da cozinha, por exemplo. O pai detestava o incômodo e a mãe adorava remodelações, o que provocava algumas fricções domésticas de vez em quando.

            Allegra não disse nada, mas quando entrou na cozinha, à frente da mãe, observou-a atentamente e não lhe pareceu que houvesse nada de grave entre eles. No entanto, Blaire andava muito cansada nos últimos tempos; estava preocupada com o programa, que a absorvia por completo.

            — O pai está bem? — perguntou tranquilamente, sem querer intrometer-se.

            Todos os casais tinham as suas discussões, de vez em quando, e talvez os pais estivessem aborrecidos.

            — Claro, querida. Por quê?

            — Não sei... Pareceu-me um pouco frio, esta noite. Deve ser a minha imaginação a trabalhar.

            — Talvez  — admitiu Blaire, despreocupada. Anda furioso por causa do jardim; gosta dele como está e não acredita que o que eu quero fazer o vá beneficiar.

            Era uma velha luta entre eles, e Allegra sorriu. Admitira que se tratasse de qualquer coisa desse gênero. Nunca havia nada mais grave entre eles.

            — A propósito, gosto do teu amigo. É inteligente, simpático e natural. Também é bonito. Blaire sorriu, enchendo um copo de água. Estou muito contente.

            Allegra riu. Sabia o que a mãe queria dizer. Estava aliviada por ver Brandon pelas costas.

            — Foi o que eu calculei  — disse Allegra.

            Não deixava de ser triste que todos estivessem tão satisfeitos por ela ter rompido com Brandon; parecia-lhe estranho que toda as pessoas tivesse visto o que ela não vira.

            — Isto foi uma espécie de furacão nas últimas semanas. Conhecemo-nos em Nova Iorque, na casa de um agente com quem me encontrei, e desde então temos estado quase sempre juntos. Olhou a medo para a mãe, que ficou comovida. O Jeff é tão bom para mim... Nunca conheci ninguém como ele... Exceto o pai.

            — Céus! — exclamou Blaire, fitando-a. Isto é mesmo a sério. As mulheres só comparam o pai ao homem com quem se casam!

            — Não exagere, mãe... — retorquiu Allegra, corando, envergonhada. Conhecemo-nos há três semanas!

            — É surpreendente como as coisas correm depressa quando aparece o homem certo!

            Ao ouvir estas palavras, Allegra lembrou-se de Alan e de Carmen, e sentiu-se tentada a falar deles à mãe, mas concluiu que não devia fazê-lo.

            Voltaram para a sala, para junto dos homens, e Sam foi telefonar a uns amigos. Jeff e Allegra ficaram até às onze horas. Conversaram, riram e passaram momentos muito agradáveis com os pais dela.

            Assim que eles saíram, Blaire sorriu para o marido.

            — Ora, vá lá, Blaire... Não tem importância... Não inventes... Ela mal o conhece!

            Simon riu-se, apercebendo-se do entusiasmo da mulher com o romance de Allegra.

            — Isso foi o que ela disse, mas você não está percebendo... O Jeff está louco por ela!

            — Tenho a certeza que sim, mas dá-lhe uma oportunidade antes de por um laço ao pescoço. Simon disse isto a brincar, mas no mesmo instante apercebeu-se de que não o devia ter feito. Não era isso que eu queria dizer... — acrescentou, tentando corrigir-se, mas era demasiado tarde.

            Blaire virou-lhe as costas, encolhendo os ombros; percebera exatamente o alcance das palavras do marido. Ele não costumava fazer aquele gênero de comentários, nem ela, mas, nos últimos tempos, reparara que faziam ambos o mesmo. Simon insistira que não era aquilo que queria dizer, mas ela não se deixava enganar. Ainda não houvera nenhum problema grave, mas de repente começavam a surgir pequenas sombras no casamento de ambos. Blaire estava convencida que sabia por quê, mas não tinha a certeza. E, quando olhou para o marido, sentiu-se desfalecer: não era nada definível, mas estava lá, como um fantasma que pairava sobre a casa e que lhe provocava um calafrio na espinha.

            — Vai para cima? — perguntou tranquilamente, com a planta da cozinha debaixo do braço.

            — Já vou —  respondeu ele.

            Depois, ao ver a expressão dela, Simon corrigiu:

            — Não me demoro nada.

            Blaire fez um gesto de cabeça e subiu as escadas, desolada. Não se abrira qualquer brecha grave, mas ultimamente surgira aquela estranha frieza entre ambos. Blaire perguntou a si própria se seria apenas uma fase passageira, uma pequena lombada na estrada, ou um sinal de que algo não estava bem. Porém, ainda não tinha a certeza.

            — Então, gostou dos meus pais? —  perguntou Allegra sem cerimônia, no caminho.

            Nessa noite ficavam em casa dela, porque era mais perto.

            — Acho que são formidáveis! — respondeu Jeff, sem disfarçar a sua admiração. Os pais de Allegra eram simples, afetuosos, simpáticos, interessados e uns ótimos companheiros. Contou a Allegra a conversa que tivera com Simon no quintal: Ele diz que quer ler o meu livro, mas pareceu-me que estava apenas a ser delicado. É agradável da sua parte.

            Ele adora fazer essas coisas. Está sempre encorajando os meus amigos com os seus filmes, as suas peças e os seus novos projetos. Essa atitude entusiasma-o e mantém-no jovem.

Com sessenta anos, Simon parecia dez anos mais novo. Ao pensar na mãe, Allegra franziu ligeiramente o sobrolho e acrescentou:

            — Por acaso, é a minha mãe que me preocupa.

            — Por quê? —  perguntou Jeff, admirado. Blaire era uma mulher bela, jovial, talentosa e bem sucedida, que dificilmente poderia suscitar preocupações. Além disso, gozava de boa saúde. Não percebia a inquietação de Allegra. Ela pareceu-me bem.

            — Sim, mas não tenho a certeza. Creio que o fato de não ter ganhado o Globo de Ouro este ano a afetou. O programa tem-lhe dado muitas dores de cabeça e... Não sei, é apenas uma sensação. Parece-me triste, por trás daquele sorriso e de todo o seu desportivismo.

            — Há qualquer coisa que a preocupa.

            — Perguntou-lhe?

            Pareceu-lhe uma boa solução, mas Allegra abanou a cabeça.

            — Sinceramente, não acredito que ela me diga. Perguntei-lhe se havia algum problema com o meu pai, porque ele me pareceu um pouco sério esta noite, mas respondeu-me que está furioso por causa do jardim.

            — Talvez seja só por isso  — disse Jeff, tranqüilizando-a. Eles trabalham muito, e isso tem um preço. São pessoas extraordinárias!

            Simon era o produtor mais importante de Hollywood e Blaire tinha um dos programas televisivos de maior êxito. Havia um nível a manter e não era de admirar que nenhum dos filhos tivesse optado por lhes fazer concorrência.

            — Eu gostei da Sam, a propósito.

            Sam tinha um aspecto espetacular e as suas opiniões, de tão jovens, eram revigorantes.

            — Também eu, às vezes  — respondeu Allegra, sorrindo, mas ultimamente anda muito saída da casca. Não é bom estar sempre sozinha com os pais; eles estragam-na com mimos. Era preferível quando eu e o Scott ainda vivíamos em casa, mas esse tempo já se foi. O meu pai derrete-se com a Sam, e ela sabe. A minha mãe é mais firme, mas a Sam dá-lhe a volta e faz o que quer. Eu nunca me atreveria a isso.

            — Creio que os pais se comportam sempre assim para com os filhos mais novos; tornam-se mais brandos depois de os mais velhos terem pago a sua fatura. Mas ela não me parece demasiado caprichosa; por sinal, foi muito educada.

            — Isso foi só porque te acha legal  — disse Allegra, sorrindo outra vez.

            — E se não achasse?

            Ignorava-te.

            — Então me sinto lisonjeado.

            Quando chegaram a casa de Allegra, foram logo para a cama. Estavam cansados e ela adorava ficar deitada a seu lado. As carícias raramente se ficavam pela castidade e depressa davam lugar à paixão. Eram momentos felizes e de manhã Allegra gostava de acordar junto dele. Às vezes, Jeff já se levantara para fazer café. Era a existência perfeita para os dois.

            No sábado de manhã, Alan telefonou e convidou-os para jantar.

            — Que vida esta! — comentou Jeff, enquanto Allegra, nua e com um avental de renda branca, lhe servia pãezinhos quentes com manteiga. Agora, aqui vai uma fotografia para os tablóides —  acrescentou, fingindo disparar uma máquina fotográfica, enquanto ela fazia uma pose provocante.

            Jeff puxou-a para o colo, o que teve resultados imediatos; pouco depois voltaram os dois para o quarto.

            Levantaram-se de novo ao meio-dia. Allegra não sabia o que havia de preparar para o almoço e Jeff comentou que não faziam mais nada além de comer e fazer amor.

            — Está lamentando-se? —  perguntou ela, mordendo uma maçã.

            — Claro que não! Adoro!

            — Também eu  — disse Allegra. Depois se lembrou do convite de Alan. E quanto ao jantar desta noite? Desejaria ir?

            Allegra não queria forçá-lo. Sabia que Jeff tinha os seus próprios amigos, mas a verdade é que engraçara com Alan e Carmen, o que a deixava muito satisfeita.

            — Por acaso, gostaria de ir  — respondeu ele, partilhando a maçã com ela. Era um fruto grande e sumarento. Jeff deu-lhe uma dentada e depois beijou Allegra. Os lábios dela tinham a cor da maçã e os seus beijos quase os iam levando de novo para o quarto.

            — Nunca conseguiremos fazer nada se continuarmos assim  — disse ela, rindo, enquanto ele lhe beijava o pescoço e a abraçava. Não faz mal. Vou telefonar ao Alan.

            Combinaram ir à casa de Alan em Malibu; mais tarde talvez fossem jogar boliche. Às sete horas, quando chegaram, Carmen estava a fazer pasta e Alan preparava o molho, fingindo que cantava ópera ao mesmo tempo. A cena provocou o riso geral e Jeff foi pôr a música para tocar.

            Estava uma noite bonita e perfumada, que convidava a comer lá fora, mas optaram por se sentar à mesa da cozinha, e, no fim do jantar, todos se queixaram por ter comido de mais. O molho do fettucane preparado por Alan estava delicioso.

            — Um dia destes, vou começar de novo a passar fome  — disse ele, com um gemido.

            — Iniciamos os ensaios no fim de Março e depois as filmagens em meados de Abril. Vamos para a Suíça, para os Alpes, como cabras-monteses.

            Era mais um filme de aventuras, com uma parte de leão para ele, e pagavam-lhe uma verdadeira fortuna.

            — Isso não vai ser perigoso? — perguntou Carmen, preocupada.

            — Não, a menos que eu escorregue  — respondeu Alan, mas Carmen não pareceu muito satisfeita, e Allegra ficou apreensiva ao ouvi-la dizer que queria acompanhá-lo. Iria criar-se uma situação difícil se ela insistisse em ir atrás dele; as mulheres que o faziam tornavam-se um autêntico estorvo e Alan era demasiado independente para aceitar tal coisa. Além disso, a maior parte dos locais de filmagem eram muito violentos para Carmen.

            — Mas, de qualquer modo, você estará filmando em Junho  — disse Allegra, tentando distraí-la, não terá tempo para ir com ele.

            — Eu podia ir passar lá seis semanas, antes de começarmos as filmagens.

            — Adoraria! —  afirmou Alan, encorajando-a.

            Allegra tinha quase a certeza de que ele se iria arrepender, mas a conversa derivou para outros assuntos. Depois da sobremesa banana split, desta vez, o suficiente para arruinar a dieta de qualquer pessoa Alan propôs que fossem jogar boliche à cidade. Adorava vaguear pelos bares e jogar pingue-pongue, como uma pessoa vulgar, e o boliche era um dos seus passatempos favoritos. Conseguiu convencê-los a sair e, no caminho para Santa Mônica, a conversa e as gargalhadas enchiam o Lamborghini. Era um carro blindado, construído como se fosse um tanque de guerra encomendado por um árabe importante. Havia apenas cerca de uma dúzia como aquele e Alan descobrira um exemplar vermelho e reluzente em São Francisco. O interior era todo em madeira e cabedal fino; na condução parecia um Ferrari e conseguia atravessar dunas de areia a mais de duzentos quilômetros por hora. Era um dos seus brinquedos preferidos e Alan era louco por ele. Era muito mais distinto do que a seu velho carrinho Chevrolet, mas também muito mais cômodo, e possuía uma sofisticada aparelhagem estereofônica. As pessoas ficavam espantadas ao vê-lo.

            — Onde é que arranjou esta coisa? —  perguntou Jeff. Nunca vira um automóvel como aquele.

            — No Norte. Foi construído para um príncipe do Kuwait que nunca lhe pegou. É completamente à prova de bala e as partes laterais são blindadas.

            Era uma bela máquina e Alan apreciava-a mais pela velocidade e pelo aspecto do que pela proteção que oferecia.

            Estacionaram junto do Hangtown Bowl e entraram para alugar os sapatos e reservar uma pista. Ficaram admirados ao ver que o recinto de boliche estava repleto. Disseram-lhes que esperassem, mas eles resolveram ir tomar uma cerveja.

            Vinte minutos depois, tinham uma pista disponível, e aproveitaram-na bem.

            Alan era muito bom e Carmen péssima, mas divertia-se sempre muito; Allegra não se saía mal e Jeff era um parceiro à altura de Alan. Enfim, todos gostavam daquele jogo, mas nenhum o tomava tão a sério como Alan. Adorava ganhar e reclamava constantemente a atenção de Carmen.

            — Estou atenta, querido, estou atenta  — dizia ela. Allegra reparou que as outras pessoas os observavam.

            A pouco e pouco se tinha juntado à volta deles, e era óbvio que não só haviam reconhecido Alan como Carmen.

            — Olá  — disse Carmen a um deles, totalmente inconsciente do seu aspecto.

            Vestira umas jeans brancas coladas à pele e uma camiseta também branca e justa, que lhe moldava o corpo. Apesar dos sapatos de boliche azuis-turquesa e castanhos, que eram feios, parecia uma rainha de beleza, e vários homens já com umas cervejas a mais se mostravam desejosos de agarrá-la.

            Sem dizer nada, Alan apercebera-se da situação e mantinha Carmen entre ele próprio e Jeff, mas a assistência também o observava e, pelo canto do olho, viu aproximar-se um rapaz forte de cabelo ensopado em gel que meteu conversa com Allegra.

            Allegra manteve a calma e não lhe deu grande importância. O rapaz fez-lhe perguntas sobre o carro que estava lá fora e ela disse que o tinham alugado para irem passear nessa noite; eram revendedores em Los Angeles, onde se fretavam automóveis antigos, Rolls-Royces ou Bentleys. Aliás, era possível alugar quase tudo, e era perfeitamente natural que fosse esse o caso do Lamborghini que se encontrava lá fora.

            — Aquela tem a mania que é esperta, não tem? — perguntou outro homem a Allegra, olhando para Carmen, que tentava ignorá-lo e concentrar-se no jogo. Nós sabemos quem ela é. O que é que julga que veio visitar os pobrezinhos esta noite? É um nojo!

            Allegra não respondeu e afastou-se, mas não quis irritá-los mais; estavam ambos embriagados e começavam a atrair as atenções das outras pessoas que se encontravam na pista.

            De repente, uma mulher pediu um autógrafo. Seguiram-se mais algumas e, num ápice, dezenas de pessoas empurravam Carmen contra uma mesa; antes que Alan se conseguisse virar para trás, um homem agarrou-o e deu-lhe um murro, mas estava demasiado bêbado para acertar no alvo, e, aplicando um golpe de karatê que aprendera com um dos duplos no seu último filme, Alan afastou-o facilmente.

            Porém, Allegra sabia muito bem como seria a seqüência daquele «filme». Freqüentava o meio há tempo suficiente para ter consciência de que estavam em apuros e, afastando-se de Jeff, dirigiu-se a um telefone público e ligou o 911. Ninguém reparou nela quando disse ao agente quem era, onde estava, quem a acompanhava e o que acontecera.

            — Falta pouco para que se arme uma desordem, e a Srtª. Connors pode ficar ferida — afirmou tranquilamente. Juntaram-se aqui umas cem pessoas que querem agarrá-la.

            — Vamos já para aí  — assegurou o agente, dando rapidamente as suas ordens a alguém através da rádio. Fique na linha, Srtª.  Steinberg. Como está o Sr. Carr?

            — Agüentando-se como pode neste momento... — Allegra vigiava-os do lugar onde estava. Não houvera mais agressões, mas a multidão, agitada, fechava o círculo à sua volta; queriam estar com eles, tocar-lhes, despi-los, empurrá-los. Enquanto Allegra observava a cena, Jeff apercebeu-se do que ela estava fazendo. Tentou aproximar-se, mas tinha receio de abandonar Carmen; havia muitos homens encostados nela, procurando agarrá-la, e alguém tentou arrancar-lhe uma manga da camiseta.

            Nesse momento entraram no bar três policiais, que se dirigiram para a pista de boliche. Percebendo o que se estava passando, agarraram os bastões, sem querer aumentar a confusão. Um aproximou-se de Carmen e o outro disse qualquer coisa a Alan. Pouco depois conseguiram afastar a multidão, mas algumas pessoas continuavam a puxar os cabelos de Carmen, tentando agarrá-la ou, pelo menos, tocar-lhe. Pouco faltou para se desencadear uma luta corpo-a-corpo entre os rufiões e a polícia; foram precisos dois agentes para  libertarem-na daquilo que parecia ser um charco de areia movediça. Nesse momento, uma mulher começou a gritar e atirou-se para os braços de Alan, suplicando-lhe que a beijasse. Era jovem, estava embriagada e tinha excesso de peso. Aquele era o sonho da sua vida, aproximar-se de Alan Carr, tal como arrancar a roupa a Carmen parecia ser o sonho de todos os homens que se encontravam no bar. Foram necessários os três polícias para libertar Carmen, Alan e Jeff, que se juntaram para sair do bar. Allegra tentou acompanhá-los, mas um dos bastões obrigou-a a recuar, e a multidão interpôs-se de novo entre eles. Jeff acenava freneticamente, mas ela não conseguia passar e ele tentava aproximar-se, sem conseguir. Os fãs, enlouquecidos pelo entusiasmo, não ajudavam.

            — Allegra! — gritou Jeff. Ela via-o, mas não o conseguia ouvir. Ela está conosco! —  bradou a um dos polícias

            Os dois homens obrigaram a multidão a recuar, formaram um cordão à volta de Allegra e conseguiram empurrá-la para a porta, atrás de Carmen e de Alan. Lá fora os aguardava outro policial. As mãos de Alan tremiam ao abrir a porta do carro. Os quatro agentes rodearam-nos, para eles entrarem, e, assim que os viram lá dentro, fizeram-lhes sinal para que se fossem embora o mais depressa possível. O susto acabara, e os quatro amigos mal tiveram tempo de lhes agradecer.

            O carro arrancou; pelo retrovisor, Alan viu a multidão enfurecida, enganada pelos alvos do seu afeto.

            — Céus, isto é sempre assim? —  perguntou Jeff, tentando endireitar a camisa e o casaco; pareciam náufragos, com a roupa rasgada e o cabelo em desalinho. Alguém arrancara o chapéu de Alan e lhe roubara os óculos escuros; Jeff perdera um sapato. Como é que vocês agüentam.

            Carmen choramingava e Allegra tentava consolá-la. Aquilo estava na natureza da besta que os idolatrava, e que os odiava, também: apoderava-se deles, devorava-os e, se não tivessem cuidado, destruía-os.

            — É assustador... —  disse Allegra, em voz baixa. Aquelas situações enervavam-na sempre, e Carmen detestava-as: ficava aterrada.

            — Parecem animais. Viram aquela gente? — perguntou com as lágrimas nos olhos, fitando Alan. Pouco faltou para me violarem! Um deles agarrou-se aos meus seios, e juro que senti a mão de alguém dentro da minhas calcinha. Que nojentos!

            Parecia completamente inocente ao queixar-se da invasão. Tinha enfrentado uma multidão esfomeada, lúbrica e furiosa: furiosa por não se ter apoderado deles. Aquela gente queria levá-los para casa, misturar-se com eles, tocar-lhes no corpo, roubar-lhes a alma.

            — Nunca mais vou jogar boliche... —  disse Carmen com um ar infantil. Detesto estas coisas!

            — Também eu  — admitiu Alan. Quem não detesta? Mas a verdade é que estava contrariado: gostava tanto de ir jogar boliche... Era por isso que muitas estrelas de cinema tinham pistas em casa, e recintos desportivos, rinques de patinagem e cinemas, porque não podiam ir a parte alguma, nem sair com os filhos, era impossível levar uma vida igual à das pessoas normais.

            — Vocês haviam de ver o que o Bram Morrison sofre nos concertos... — disse Allegra em jeito de consolação.

            Jeff continuava admirado por ela ter tido a presença de espírito de telefonar para a polícia, mas Allegra estava muito habituada àquelas situações e sabia o que fazia; apercebia-se quase instantaneamente de que as coisas iam correr mal, e em geral não se enganava, sobretudo se havia uma mulher pelo meio. Avisara Carmen disso tudo, dissera-lhe o que tinha a fazer e contratara uma pessoa para lhe ensinar a defender-se, mas nem por isso a situação era menos assustadora.

            — Obrigado por ter chamado a polícia, Al  — agradeceu Alan, um pouco deprimido. Era sempre degradante ser maltratado daquela maneira, ainda que as intenções fossem boas, a princípio.

            Nessa noite, quando regressavam, Allegra sentiu que causara uma boa impressão a Jeff, apesar de os acontecimentos no bar terem sido desanimadores. Alan deixou-os na casa de Jeff e pediu-lhes mais uma vez desculpa pela agitação dessa noite, mas Jeff e Allegra asseguraram-lhe que compreendiam, que lamentavam tanto como ele, e agradeceram o jantar a ambos.

            — Não sei como é que eles conseguem viver assim! Eles podem sair? Como pessoas normais? — perguntou Jeff, depois de Alan e Carmen se irem embora.

            — Vão às estréias, mas também aí têm de ser cautelosos.

            Em grandes acontecimentos, muito publicados, correm o risco de serem atacados com gravidade, e podem até nem sobreviver. Por vezes ficam feridos no meio de uma multidão como aquela. E de resto, se tentarem levar uma vida normal, acontece o mesmo desta noite, a menos que escolham lugares como o Spago. Lá é diferente

            Allegra sorriu. O Spago era o seu restaurante preferido e estava sempre cheio de estrelas. Aí ninguém se atreveria a incomodá-los, limitar-se-iam a admirá-los à distância.

            Mas num local como uma pista de boliche não havia fronteiras, e às vezes as coisas corriam mal. Felizmente, Allegra gerira a situação de uma forma admirável, pois estava habituada, desde os tempos em que vivia com os pais. Estes nunca tinham alcançado aquele tipo de fama, porque trabalhavam nos bastidores, mas as pessoas que eles conheciam, os atores, passavam sempre por cenas como as que Jeff presenciara nessa noite, e o mesmo acontecia com os seus clientes.

            — Fiquei morto de medo ao pensar que te podia perder no meio daquela gente  — disse ele.

            Entraram no quarto e começaram a despir-se. Era desagradável terem as roupas rasgadas e Jeff riu-se ao olhar para o pé

            — Que idiotas! Devem julgar que o meu sapato é do Alan!

            — Talvez um dia o recupere num leilão  — gracejou Allegra. Também estava aborrecida; multidões como aquelas eram sempre assustadoras, porque nunca se sabia se a situação se descontrolava antes de ser possível fugir.

            — Nem posso acreditar! Sinto-me uma verdadeira estrela. E francamente, Scarlett, cedo-te os louros  — declarou Jeff, deixando-se cair na cama com abandono.

            — Nem penses! — retorquiu Allegra. É por isso que sou advogada e não atriz. Não conseguirias vender-me essa treta por nada deste mundo. Eu não aturava aquilo nem por um minuto!

            — Mas desenvencilhaste-te bem  — disse ele, elogiando-a. Foi a única que se lembrou de chamar a polícia. Eu fiquei de boca aberta, pensando como havíamos de sair dali com vida.

            — O segredo está em telefonar depressa. Assim que vi aquilo, percebi imediatamente no que ia dar.

            Mas quando se deitou e se abraçaram, ainda afetados pelo que sucedera na pista de boliche, Jeff não pôde deixar de perguntar a si próprio o que iria acontecer quando fosse o casamento.

            — Se esta noite foi uma amostra do que pode acontecer, o que eles deviam fazer era casar numa ilha deserta.

            — Nos casamentos costuma ser pior. É aí que os fãs se excedem; ficam frenéticos. Os casamentos das celebridades são um pesadelo, quase tão maus como os concertos. Allegra riu, porém, ambos sabiam que a situação não era para brincar. Mas tenta falar nisso à Carmen! Recusa-se a acreditar em mim, e o Alan diz que ela deve casar-se como desejar. Tenho trocado impressões com vários peritos em segurança desde que nos participaram que vão casar.

            — E o que dizem?

            — Você verá —  respondeu ela com um sorriso enigmático; parecia a Mata Hari. Mas a segurança vai ser apertada, garanto-te. Bem, tanto quanto é possível em Las Vegas...

            — Porque será que começo a ter medo? — perguntou ele, puxando-a ainda mais para si por baixo da coberta.

            — Porque é inteligente. E se eles fossem espertos... Escapavam-se para outro lado qualquer, um lugar que não passasse pela cabeça de ninguém... Para uma cidadezinha perdida em alguma parte de South Dakota, por exemplo. O problema é que não seria muito divertido. Aí ninguém é importunado por desconhecidos.

            — Para a próxima, levo sapatos com cadarços disse ele, mais prudente depois daquela experiência.

            Mas, mesmo assim, Jeff ainda não estava preparado para o casamento de Alan Carr e Carmen Connors.

 

            O trailer que Allegra alugara foi buscar Alan e Carmen na casa de Jeff em Malibu. Ambos usavam  jeans e camisetas velhas; Carmen levava uma peruca castanha e um lenço e Alan escolhera uma preta. De óculos escuros, a mascar chiclete, simulavam um sotaque sulista. Jeff e Allegra, a condizer, também de perucas e com roupas leves de poliéster, iam muito mais bem vestidos do que os amigos, e quase tudo o que Allegra usava estava repleto de diamantes falsos.

            — Não sabia que a roupa era tão importante neste caso  — disse Jeff, divertido, ao vestir o traje. Mas uma coisa era certa,  ninguém reconheceria Alan nem Carmen.

            Sentaram-se numa grande sala apainelada, na parte traseira do trailer, contando anedotas e comendo sorvete. Sempre que se viam ao espelho, davam uma gargalhada. De vez em quando iam até à cozinha, onde havia queijo, fruta e sanduíches, e as senhoras usavam o banheiro de mármore rosa, mas nunca da banheira. Era o tipo de trailer geralmente utilizado por estrelas de cinema ou de rock; por sinal, estava muito bem conservado, pois pertencia a um particular. Allegra recorria a ele com freqüência; alugara-o uma vez como camarim para um dos seus clientes e para diversas viagens de estrada. Era um dos mais bem conservados e luxuosos, embora não se comparasse com o trailer de dois pisos do Eddie Murphy, cheio de antigüidades e de objetos preciosos, mas era bastante confortável, e os quatro amigos sentiam-se no ‘céu’, como diziam de vez em quando, a caminho de Las Vegas.

            Quando chegaram, foram diretamente para o hotel. Ficaram hospedados no MGM Grand, e, assim que os viram, os seis guarda-costas que os aguardavam no átrio misturaram-se com a multidão sem rosto que os envolvia. Eram duas mulheres e quatro homens e nem sequer se fizeram notados quando se instalaram nas suítes contíguas à de Alan e Carmen.

            Jeff e Allegra ficaram do outro lado do corredor. Allegra mantinha-se atenta aos tablóides, mas não vira um único fotógrafo à chegada. A relação de Alan e Carmen fora ventilada durante algum tempo não mais do que um mês e ninguém desconfiava que eles iam casar.

            Trocaram de peruca no hotel e ficaram todos ruivos, exceto Alan, que se transformou num louro oxigenado, o que o encantou.

            — Meu Deus! — exclamou Allegra, irônica. Fica horrível!

            — Mas eu gosto  — replicou ele, fingindo que brigava com ela e que lhe dava uma palmadinha. Em seguida voltou a pôr a peruca preta e imitou o Elvis.

            — Ainda bem que já tem a sua carreira  — disse Allegra, desapontada. Não creio que conseguisse emprego com esse aspecto!

            — Nunca se sabe, filha, nunca se sabe...

            Carmen desapareceu no quarto com o grande saco de plástico que trouxera; meia hora depois surgiu com um vestido de cetim branco curto e o cabelo penteado numa ‘banana’ fofa e coberto por um pequeno véu. A maquiagem, impecável, realçava-lhe o rosto, e as pernas compridas e esguias que a saia deixava ver eram ainda melhores. A transformação fora total e estava encantadora. Calçava uns sapatos de cetim branco de salto alto e o vestido era bastante decotado. Estava irresistível, e Alan ficou verdadeiramente emocionado ao olhar para ela. Ainda de jeans e peruca, foi trocá-las por um terno de linho e por uns sapatos ‘a sério’, mas resolvera casar com a peruca loura; assim teriam filhos louros, como ele dizia.

            — Está doido! — exclamou Carmen, beijando-o.

            Meia hora mais tarde apareceu o juiz de paz que Allegra contratara. Sabia que, se tivesse pedido ao hotel que o fizesse, a notícia surgiria nos jornais, o que ainda era possível, se o juiz reconhecesse Carmen. Os nomes de ambos teriam de figurar na certidão de casamento, mas então já seria demasiado tarde para prevenir alguém.

            Allegra resolvera manter o seu traje divertido. Por sinal, trouxera uma saia felpuda; vestira-a, pusera a cabeleira ruiva e calçara umas sandálias: ficara um mimo!

            — Estou ansioso por ver as fotografias do casamento... — disse Jeff, olhando para Alan.

            Allegra ficou comovida com o fato de Alan o ter convidado.

            — Também não está formoso!... —  retorquiu Alan, cortando as vazas a Jeff.

            Este vestira um casaco Ralph Lauren por cima de uma camisa de boliche e, tal como Alan, usava uma cabeleira loura.

            O juiz de paz não os reconheceu, mas pensou que eram completamente doidos. Despachou a cerimônia em menos de três minutos, declarou-os marido e mulher e assinou a certidão sem olhar sequer para os nomes. Chamara duas vezes ‘Carla’ a Carmen durante a cerimônia e ‘Adam’ a Alan. Assim que tudo acabou, Allegra serviu champanhe, encomendaram caviar e o casamento foi oficializado.

            — Carmen Carr... Gosto

            Allegra foi a primeira a pronunciar o nome da noiva e a segunda a beijá-la, depois de Alan.

            — Eu também  — disse Carmen, com lágrimas nos olhos.

            Continuava a desejar casar na igreja em Óregon, mas imaginava o circo que não seria, com paparazzi e helicópteros, fãs aos gritos e cordões de polícia. Não era possível.

            — Boa sorte  — disse o juiz de paz já à porta. Entregou a Alan a certidão de casamento e saiu correndo para ir celebrar mais umas dúzias de casamentos. Não fazia idéia de quem acabara de unir pelo matrimônio; para ele, eram apenas o Adam e a Carla.

            Uma hora depois desceram os quatro para ir jogar nos caça-níqueis. Allegra bateu discretamente à porta dos guarda-costas, à saída, e eles seguiram-nos. Foi uma operação sem mácula, e não houve problemas até quase à meia-noite, quando alguém reconheceu Carmen e lhe pediu um autógrafo. Carmen era sempre muito atenciosa nessas ocasiões e já tirara o véu, mas conservava o vestido de noiva. Pouco depois, alguém a fotografou, e Allegra percebeu que se aproximava o assalto.

            — Chegou a hora de partir, Cinderela  — disse em voz baixa. O coche te espera.

            Havia mais dois guarda-costas junto do trailer, onde ninguém voltara a entrar, exceto o motorista, que não sabia de nada.

            — É muito cedo... — lamentou-se Carmen, mas o cassino estava enchendo e a perspectiva de uma fuga precipitada, ou mesmo de uma aglomeração, não agradava a ninguém.

            «Olhem! A Carmen Connors casou-se agora mesmo... E o Alan Carr... Fotografias... Gritos... Guinchos... Apertos...» Nem pensar!

            — Venha daí, Sr. Carr, mexa esse traseiro! Esta é a minha noite de núpcias, e não vou ficar  jogando bingo!

            Alan beijou-a com firmeza e deu-lhe uma palmadinha. O grupo encaminhou-se para o trailer, que estava à espera. Ao subir os degraus, Carmen virou-se para Allegra e Jeff. Allegra ofereceu-lhe um ramo de flores brancas de plástico que deixara à guarda do motorista; Carmen atirou-o graciosamente do último degrau e Allegra apanhou-o. Apesar de toda aquela loucura e dos fatos estapafúrdios, estava de fato encantadora, e todo o grupo sorriu ao olhar para o casal. O motorista comentou que, com aquele vestido, ela parecia mesmo a Carmen Connors. Se não fosse o sotaque e o fato de ser um pouco mais alta, bem podia ser a atriz, confidenciara o homem a Allegra.

            — Sim, talvez  — disse ela, mostrando-se pouco convencida.

            Depois fecharam as portas. O trailer arrancou e os noivos disseram adeus a Jeff e a Allegra, que ficaram para trás com os guarda-costas. Ponto final. Tinham conseguido. Estavam em segurança. E não houvera problemas nem aparecera um único repórter. Allegra fizera um trabalho magnífico e Jeff estava mais impressionado do que nunca.

            — É um gênio — disse ele em jeito de cumprimento, ao verem o trailer desaparecer ao longe.

            Às quatro da manhã os noivos chegariam na casa de Alan. Restava-lhes pegar nas malas, mudar de roupa e partir para o Taiti no vôo das nove.

            — Foi legal, não foi? — disse Allegra, sorrindo. Estava satisfeita por tudo ter corrido tão bem; não queria que os tablóides estragassem a festa nem que os paparazzi os perseguissem

            — Eles não podiam ter feito um casamento a sério, não é mesmo? — perguntou Jeff, pensativo. Teria sido impossível, sem os disfarces e as perucas a privacidade da suíte, os guarda-costas ou mesmo o trailer das estrelas de rock. Fora tudo perfeito

            — Podiam  — admitiu Allegra, fora ela que afastara a idéia, em conversa com Alan, que convencera Carmen, mas teria sido um pesadelo, com helicópteros por toda a parte, fotógrafos e a comunicação social subornando os fornecedores. Daria mal resultado e a Carmen teria detestado

            Jeff fez um sinal afirmativo, já não se atrevia a discordar dela, pois a experiência na pista de boliche ensinara-lhe muita coisa acerca da maneira como viviam as estrelas. Apesar das vidas que todos invejavam e queriam para si próprios, nenhuma era fácil.

            — Pensei que assim seria mais divertido — acrescentou Allegra, lembrando-se de Carmen, tão bonita com o seu véu curto, e depois a atirar-lhe o ramo. Tenho de ir guardar isto —  gracejou, agitando o ramo na mão, quando regressaram ao hotel.

            Os guarda-costas haviam-se retirado discretamente. Já não eram necessários e a fatura seria apresentada à firma de advogados. Allegra agradecera-lhes no trailer, e depois eles tinham ido embora. Ela ficara só com Jeff e mais umas centenas de pessoas que se encontravam no átrio do hotel

            Voltaram para a suíte, passavam a noite em Las Vegas e de manhã regressavam a Los Angeles, numa limusine. A essa hora, Alan e Carmen já iriam no avião, a caminho do Taiti. Haviam combinado cuidadosamente como seria feito o anúncio do casamento, não diriam nada senão depois da lua-de-mel, para que não os descobrissem. Talvez alguém do hotel avisasse a imprensa, mas Bora Bora era muito longe e, na opinião de Alan, lá estariam a salvo. Quando voltassem, haveria uma conferência de imprensa de cinco minutos, com a presença de ambos, para anunciar o enlace e tirar fotografias. Dêem umas migalhas aos tubarões, um dedo do pé ou da mão, para eles ficarem satisfeitos, aconselhara Allegra.

            Nessa noite, aninhou-se nos braços de Jeff, feliz, pensando em Carmen e Alan. Ele era um dos seus melhores amigos, e era engraçado imaginá-lo casado.

            — Feliz Dia de São Valentim! — disse Jeff, baixinho.

            — Igualmente  — respondeu Allegra, virando-se e deixando que ele a abraçasse.

            Não se mexeu até de manhã. Sonhou que estava apanhando o ramo e que se ria por ele ser de plástico; porém, quando o agarrou, Jeff partiu num trailer e ela passou a noite inteira correndo para o alcançar. Nos seus sonhos, tal como na sua vida, as pessoas fugiam sempre dela. Mas isso acabara, pensou, ao acordar. Não nesse momento... E não com Jeff... Ele estava ali.

 

            Carmen e Alan regressaram de Bora Bora em meados de março, e dessa vez não conseguiram evitar os tablóides. A lista das nomeações para o Oscar da Academia fora publicada durante a sua ausência, e lá vinham os nomes de ambos. A imprensa estava presente em força quando saíram do avião, alguém da companhia aérea prevenira os jornalistas, mas os recém-casados estavam preparados. Muito bronzeados, tinham um aspecto fabuloso quando as máquinas fotográficas dispararam. Atravessaram lentamente a pequena multidão que os fora esperar ao aeroporto.

            Allegra alugara um carro para  ir buscá-los, e eles refugiaram-se lá dentro o mais depressa possível, depois de posarem para meia dúzia de fotografias Partiram na limusine e dois guarda-costas ficaram à espera da bagagem.

            Allegra também mandara comprar uma garrafa de champanhe para pôr no carro, e quando os noivos chegaram a casa de Alan, em Beverly Hills, encontraram-na cheia de flores. Porém, daí a uns dias a comunicação social começou a infernizar-lhes a vida, os fotógrafos vociferavam junto dos portões, enquanto os helicópteros pairavam sobre as suas cabeças, tentando captar imagens deles no jardim ou na piscina, e os tablóides contrataram pessoas para vasculharem o lixo. A situação era insuportável, o que os obrigou a mudar para Malibu, mas aqui ainda foi pior, e por fim esconderam-se em casa de Allegra por uns tempos. Jeff e Allegra foram passar uns dias com eles, e os quatro, de cabeleira postiça, freqüentavam restaurantes pequenos e pouco conhecidos no vale.

            — Não posso acreditar numa coisa destas —  disse Jeff, assustado com as intromissões que eram obrigados a enfrentar

            Continuava a dar os últimos retoques no seu guião. Ele e Allegra tinham passado um mês muito tranqüilo, interrompido apenas por mais uma ameaça a Bram Morrison, que dera que fazer a Allegra. A família dele fora de novo para Palm Springs, e Bram pedira a casa emprestada a um amigo, num lugar desconhecido. Nunca mais dispensara os guarda-costas, e uma série de artigos onde se lia que estava ganhando cem milhões de dólares com a tournée só contribuiu para agravar a situação. Todos queriam um pouco de ação, em troca fosse do que fosse, incluindo o rapto ou a chantagem.

            Alan e Carmen tinham regressado há duas semanas. Na tarde de primeiro de abril, Allegra e Carmen passaram duas horas discutindo os pormenores do novo contrato. Carmen deixara-o já assinado antes de partir para a lua-de-mel, mas havia alguns pontos sensíveis que Allegra pretendia analisar com ela, para apurar exatamente quais seriam as suas expectativas quando começasse a filmar. Precisavam falar do tipo de camarim que teria, dos horários, e havia que burilar todos os pequenos pormenores, para evitar crises desnecessárias.

            Já estavam quase acabando quando Carmen olhou para a sua advogada com um sorriso travesso, e Allegra lembrou-se que era o Dia da Mentira. Ao longo do tempo, tanto ela como Alan tinham pregado toda a espécie de partidas um ao outro nesse dia, e Scott, o irmão de Allegra, gostava particularmente de torturar a família nessa data. Aliás, estava admirada por ele não ter telefonado, pois todos os anos lhe pregava um susto, dizendo que estava no México, na prisão, casado com uma prostituta ou em São Francisco, fazendo sexo de grupo. Mas ela retribuíra-lhe na mesma moeda ao longo dos anos e, ao olhar para Carmen nesse momento, ocorreu-lhe que vinha a caminho mais uma mentira.

            — Há uma coisa que te quero contar  — disse Carmen com um grande sorriso.

            Allegra riu ainda antes de ouvir o que ela tinha para lhe comunicar.

            — Deixa-me adivinhar: você e o Alan vão-se divorciar. Ah, ah, hoje é o Dia da Mentira!

            Carmen sorriu; Alan já lhe pregara duas partidas nessa manhã. Primeiro dissera que estava à porta um ex-namorado dela, e depois que a mãe dele ia viver com eles durante seis meses. Ambas as novidades tinham provocado um choque em Carmen logo de manhã.

            — Não, não é nada disso  — objetou, subitamente envergonhada.

            Mas Allegra continuava desconfiada. À sua maneira, era muito parecida com Alan.

            — Vamos ter um bebê  — anunciou Carmen, radiante

            — Vão? Já? Allegra sabia que eles queriam ter filhos, mas julgava que esperariam um pouco mais. Carmen começava a trabalhar em junho; as filmagens duravam apenas três meses, mas agora a situação não seria fácil. De quanto tempo? — perguntou, sustendo a respiração, aterrada com a perspectiva de perderem o filme.

            — Só de um mês  — respondeu Carmen, embaraçada. O Alan disse que ainda era muito cedo para contar, mas eu quis dar-te a notícia E lembrei-me que talvez isso seja importante para o estúdio; estarei grávida de três meses quando começarmos, mas de seis quando acabarmos. Achas que eles vão rescindir o contrato?

            — Não tenho certeza —  respondeu Allegra, honestamente. Pode ser que consigam contornar a situação. Talvez não apareça mesmo até ao fim. Ainda bem que as filmagens não demoram mais tempo!

            Algumas levavam oito ou nove meses, o que, neste caso, teria sido um desastre, e Carmen era a personagem central, apesar de não aparecer sempre.

            — Talvez arranjem uma forma de solucionar as coisas. Farão tudo para consegui-lo... Bem sei como querem desesperadamente que você entre. Vou telefonar-lhes esta tarde —  prometeu Allegra, sorrindo. Parabéns... O Alan deve estar radiante!... Alan adorava crianças e sempre desejara ter uma mulher, uma família e um bebê. Que boa notícia! E não é mentira, espero!

            Carmen deu uma gargalhada.

            — Acho que não; pelo menos foi o que o médico disse... Fui lá ontem, para fazer uma ecografia. Havias de ver o coraçãozinho batendo: parece um feijão gelatinoso. Estou grávida de cinco semanas  — afirmou, com orgulho.

            — Custa a acreditar... — disse Allegra, sentindo-se de súbito muito velha.

            Carmen, com apenas vinte e três anos, tinha a perspectiva de uma grande carreira no cinema, e agora estava casada e ia ter um bebê; Allegra, por sua vez, quase com trinta, possuía apenas uma carreira que adorava e um homem que conhecia há pouco mais de dois meses, que ela amava, sem dúvida, mas quem sabia até onde iria aquela relação? Ainda estava tudo muito fresco, e a vida era incerta, traiçoeira.

            Sentou-se à secretária, sentindo-se melancólica e mesmo um pouco invejosa depois de Carmen sair, mas depressa concluiu que estava a ser estúpida; os amigos tinham direito à felicidade, e ainda havia muitas coisas para ela fazer na vida. Pelo menos já não estava com Brandon, à espera que ele tivesse a coragem de se divorciar de Joanie! Brandon só lhe telefonara uma vez desde que partira, para perguntar onde estava a sua raquete de tênis e a bicicleta de Nicky, pois as deixara na casa dela, e fora buscá-las no fim-de-semana seguinte. Jeff estava lá e Brandon mirara-o com curiosidade, mas não dissera nada. Parecia muito zangado com Allegra, agradeceu-lhe com frieza e saiu com  pressa. Assim mesmo! Dois anos, e o que restara fora uma bicicleta de criança e uma raquete de tênis, além de um grande vazio. Mas agora tinha Jeff, e a sua relação com ele era muito mais compensadora. Allegra encontrara em Jeff o que sempre desejara num homem compreensão, companhia, apoio emocional. Ele interessava-se pelo seu trabalho, gostava dos seus amigos e não tinha receio de se aproximar nem de amá-la. Passados dois meses, havia entre eles uma ligação profunda que Allegra nunca experimentara com ninguém, e muito menos com Brandon.

            Telefonou a Alan para lhe dar os parabéns, e ele mostrou-se satisfeito, mas um pouco envergonhado.

            — Eu disse-lhe que não contasse a ninguém por enquanto, mas acho que ela ficou entusiasmada quando viu o bebê ontem, na ecografia. Queria ir comprar um berço correndo...

            — Mas é preferível que eu saiba; tenho de avisar o estúdio. É melhor eles ficarem ao corrente da situação com antecedência —  disse ela com naturalidade, puxando os cabelos louros para trás e tentando esquecer o vazio e a inveja que sentira quando Carmen lhe dera a notícia. Não sabia o que se passava consigo; em geral, não era tão sentimental em relação a bebês. Talvez fosse apenas porque se tratava de Alan.

            — Acha que vai haver problema com eles?

            Alan estava preocupado; não queria estragar o contrato, mas agora era demasiado tarde; o bebê nascia em dezembro.

            — Espero que não. Eu aviso assim que lhes telefonar. Creio que, no caso especial deste filme, eles podem dar a volta. Se tencionassem mostrá-la em trajes de banho durante três meses, estaríamos em apuros, mas o guarda-roupa inclui uma série de casacos e de roupas largas.

            A ação decorria no Inverno. Havia algumas filmagens locais, e quase todas em interiores, mas, ainda assim, Carmen não seria obrigada a usar muitas roupas justas ao corpo.

            — Ela está mesmo entusiasmada, Al  — declarou o amigo, satisfeito, como se fossem o primeiro casal a realizar tal proeza.

            — Eu sei, foi uma ternura. Fez-me sentir velha, para ser sincera.

            E um pouco abandonada. Allegra conhecia Alan há muito mais tempo do que Carmen.

            — Qualquer dia te acontece o mesmo  — disse ele para consolá-la.

            — Espero que não. Riu e acrescentou, sem hesitar: Prefiro esperar pelo casamento, se puder.

            — Acho que devia agarrar o Jeff, antes que volte para o Leste. Ele é dos bons!

            — Obrigada, papai —  replicou Allegra, divertida com o conselho. Jeff era realmente dos bons, mas a decisão não cabia a Alan.

            — Fica à vontade... A propósito, ontem vi a Sam com uma pedra que até feria a vista!

            — Que pedra? — perguntou Allegra, empalidecendo.

            — O anel. O anel de noivado... Porque não me contaste? Ela parecia muito orgulhosa.

            — A Sam? — Allegra estava horrorizada. Ela não me disse nada. Está noiva. Desde, quando?

            — Desde ontem, segundo afirmou  — respondeu Alan com ar ingênuo.

            — De repente. — Allegra lembrou-se.

            — Raios! É mentira, não é? — perguntou, ansiosa, e ele riu. Te odeio!

            — Mas acreditaste em mim! Eu devia ter-te feito sofrer mais. É terrível!

            — E tu és parvo! Espero que tenha quadrigêmeos! — retorquiu com veemência.

            Alan enganava-a todos os anos, e ela acreditava sempre nele.

            Em seguida, telefonou para o estúdio e deu a novidade. Não ficaram loucos de alegria, mas agradeceram o aviso atempado e garantiram-lhe que o contrato se manteria, o que era uma boa notícia; iriam ter uma reunião com o diretor logo que possível para combinar como seriam as filmagens e tornear o ‘problema’.

            — Agradecemos muito  — disse Allegra.

            — Obrigada por nos ter avisado cedo —  afirmou a produtora. Era uma mulher de quem Allegra gostava muito e com quem já contatara várias vezes, embora não por causa de Carmen.

            — Vou dizer à Carmen que está tudo bem. Sei que ela vai ficar satisfeita, pois me pareceu muito preocupada.

            — Às vezes, temos de dar a volta à mãe-natureza. No mês passado trabalhei com a Allyson Jarvis, e ela tinha-se esquecido de nos dizer que estava a amamentar. Devia usar um quarenta e oito, e juro-lhe que julguei que nem sequer fôssemos capazes de meter o peito dela no filme!

            Riram. Em seguida Allegra telefonou para Carmen, garantindo-lhe que não perdera o filme.

            No entanto, ao fim do dia, quando foi para casa, sentia-se triste sem saber porquê. Não fora um mau dia, e as coisas tinham corrido bem para Carmen, apesar da gravidez, mas, mesmo assim, Allegra sentia-se abatida, e perguntou a si própria se não seria por causa do bebê. Talvez tivesse inveja deles, pensou, quando se dirigia para casa ao volante do carro, mas a idéia pareceu-lhe estúpida. O problema é que as vidas dos amigos pareciam tão realizadas, tão completas, enquanto a sua se assemelhava a uma obra em curso: continuava a ir ao consultório da Drª. Green, como sempre, ainda que a médica se mostrasse muito satisfeita com ela e impressionada com a sua relação com Jeff. Allegra ia meditando em tudo isto e reconheceu que se sentia feliz com ele, ao entrar na casa de Malibu. Nunca tivera uma relação como esta, nunca amara ninguém assim. Jeff era o homem que ela sempre desejara.

            — Tem alguém em casa? — gritou para o interior da casa, onde ficava o gabinete dele.

            Segundos depois Jeff apareceu, com um lápis atrás da orelha e um sorriso no rosto. Sentira a falta dela durante todo o dia; fartara-se de trabalhar e estava ansioso por voltar a vê-la.

Puxou-a para si e beijou-a longamente; qualquer frustração que Allegra pudesse ter sentido desvaneceu-se nesse mesmo instante.

            — Uau! Para que foi isso? Ou tiveste um grande dia à máquina de escrever, ou um muito mau.

            — Um pouco de ambos, como de costume. Senti saudades suas. Como foi o seu dia?

            — Bastante bom.

            Tirou uma Evian do frigorífico e deu-lhe uma cola. Depois lhe falou de Alan, do bebê e de Carmen.

            — Já? Foram rápidos! Deve ter havido farra em Bora Bora. Talvez devêssemos tentar fazer o mesmo na nossa lua-de-mel...

            — Quando eu me casar, serei tão velha que precisarei de uma cadeira de rodas, e não de um carrinho de bebê  — retorquiu ela, sorrindo. Sentia-se muito melhor e sabia que ele estava apenas brincando ao falar da lua-de-mel.

            — O que te leva a dizer isso?

            Jeff parecia interessado, quando se sentaram nos bancos da cozinha.

            — Tenho quase trinta anos, levei muito tempo construindo a minha carreira e ainda não cheguei onde quero, não sou sócia participante e tenho muito a fazer. Não sei... Há muito tempo que não penso em casamento  — respondeu, honestamente.

            Allegra limitava-se a viver o dia-a-dia e aceitava o que ia acontecendo. Parecia-lhe uma maneira mais realista de encarar a vida do que ficar sentada à espera do príncipe encantado e de casar de branco.

            — Sinto-me um pouco desiludido ao ouvi-la falar assim  — disse Jeff admirado, e com uma certa malícia.

            Allegra imaginou-se apanhada noutra partida do Dia da Mentira.

            — Por quê? Tencionas pedir hoje a minha mão? — perguntou, sorrindo. Ah! Hoje é Dia da Mentira!

            Jeff riu.

            — Por acaso, sim. Acho que o Dia da Mentira é uma boa ocasião para ficarmos noivos: ninguém sabe ao certo se estamos falando a sério ou não. Isso me agrada.

            — Que engraçadinho! O Alan já se antecipou —  redargüiu, muito descontraída, a beber a sua Evian. Era sempre divertido voltar para casa. Sentiam-se tão bem juntos!

            — O quê? Pediu-te em casamento hoje? Acho que é de muito mau gosto, se a mulher dele está grávida.

            — Não, parvo. Allegra riu de novo. Ele disse-me que a Sam tinha ficado noiva ontem. E eu acreditei. Devia conhecê-lo melhor, ao fim de todo este tempo. Faz-me o mesmo todos os anos e eu acredito sempre nele.

            Jeff sorriu. Estavam confortavelmente sentados na cozinha, ao pôr do sol.

            — Acreditava em mim se eu te pedisse hoje para casar comigo? — perguntou, inclinando-se mais para ela, quase a beijá-la.

            Allegra sorriu ternamente, pensando no que ele dissera.

            — Não, não acreditava  — respondeu, entrando no jogo de Jeff que abanou a cabeça.

            — Nesse caso, acho que terei de voltar a pedir amanhã  — disse ele, fingindo-se esmagado.

            Allegra riu outra vez e beijou-o, mas, de súbito, algo no olhar dele a levou a inclinar a cabeça para o lado e a fitá-lo com um ar intrigado.

            — Não está falando a sério, não é mesmo? Isto é tudo uma brincadeira, não é verdade?

            — Por acaso, seres casada comigo talvez tivesse o seu quê de brincadeira... Mas sim, estou falando sério. O que acha? Está fora de questão, ou gostaria de fazer a experiência durante cinqüenta ou sessenta anos? Eu tenho tempo, se quiser tentar...

            Jeff fitava-a com tal ternura que Allegra ficou sem fôlego ao perceber que ele estava a falar a sério.

            — Oh! meu Deus... Oh! meu Deus... — Levou as mãos à cabeça e por pouco não gritou ao olhar para ele. Está falando a sério?

            — É claro que estou falando a sério. Nunca propus casamento  a ninguém na minha vida. Pensei apenas que este seria um bom dia para fazê-lo. Assim nunca mais te esquecerias.

            — Tu és doido! — exclamou, atirando-se ao pescoço. Era incrível. Allegra conhecia-o há pouco mais de dois meses e, no entanto, aquela solução assentava-lhes que nem uma luva. Tivera outras relações de vários anos, que haviam derrapado, marcadas pelo afastamento, pela ausência de uma verdadeira intimidade, e agora estava ali com Jeff, e tudo parecia natural. Era espantoso!

            — Amo-te tanto murmurou, abraçando-o e beijando-o. Nunca fora tão feliz. Nesse momento, até o bebê de Carmen deixara de ter importância. Aquela situação era muito melhor; Jeff queria passar o resto da vida a seu lado e isso era o que ela sempre desejara. Era um sonho que se realizava, e parecia tudo tão fácil... Não se tratava de ‘funcionar’ ou de algo que tivesse que ser ‘resolvido’, nem tão-pouco necessitavam de ‘tentar’ ou de ‘pensar no assunto’. Allegra não precisava de psicoterapia para perceber que o desejava nem ele de dez, de dois ou de quatro anos para compreender que a adorava. Amavam-se, disso tinham a certeza, e iam casar-se.

            — Não me respondeu, sabe? —  lembrou-lhe ele. Allegra soltou um gritinho, deleitada, e desatou a correr pela cozinha como uma criança. Jeff deu uma gargalhada e ficou a observá-la.

            — Sim, respondi. A resposta é sim... Sim... Sim... Sim... Sim! — gritou, aproximando-se dele e beijando-o.

            — É Dia da Mentira. Eu estava a brincar  — disse Jeff, mas ela riu e não acreditou.

Nem tentes sequer escapar!

            Nesse momento, o telefone tocou. Era o irmão de Allegra.

            — Olá, Scott saudou, com naturalidade. O que há de novo? Pouca coisa.. Oh!, nada.. Eu e o Jeff ficamos noivos... Não, a sério! Não é mentira, juro!

            Allegra pareceu-lhe tão natural, que Scott não acreditou nela. Jeff ria ao ouvir a conversa.

            — És um monstro —  disse ele, em tom de reprimenda.

            — A sério! Estávamos aqui sentados e resolvemos casar... Sim, claro anuiu, quando o irmão lhe anunciou que também  ficara noivo. Escusado será dizer que não acreditara nela. A sério que não é mentira, a sério!...

            Mas Allegra ria, como se estivesse a fazer troça dele.

            — Bem, não te esqueças de me convidar para o casamento  — concluiu Scott com sarcasmo. A irmã estragara completamente o seu telefonema anual com o pretexto de se casar e ele tinha de regressar às aulas em Stanford.

            — Não acreditou numa única palavra, aposto disse Jeff, rindo-se.

            — Pois não, e vai resmungar quando perceber que eu estava falando verdade, ou já mudou de idéias? —  perguntou, fingindo-se preocupada.

            Jeff beijou-a.

            — Dá-me um dia ou dois. Nunca estive noivo, estou a gozar o momento.

            — Pois, também eu.

            Enquanto se beijavam, esqueceram o noivado e pensaram apenas um no outro. Ele despiu-lhe as calças e a blusa de seda e ela tirou-lhe os calções e a camiseta. Jeff tinha umas pernas grandes e morenas. Às vezes, a meio do dia, estendia-se na praia, quando precisava fazer um intervalo no trabalho. Allegra, por seu lado, era muito branca, magra e elegante. Já anoitecera quando acabaram de fazer amor na carpete da sala. Allegra riu ao olhar à sua volta.

            — Podemos continuar a fazer isto quando estivermos casados?

            — Estou contando com isso —  respondeu ele, com uma voz sensual.

            Levantaram-se no meio das roupas amontoadas e voltaram para o quarto. A noite já ia adiantada quando pensaram em jantar, em ir a qualquer lado ou mesmo no casamento.

            — Gosto de estar noiva  — disse Allegra.

            Levou uma embalagem de biscoitos para a cama e Jeff abriu uma garrafa de champanhe para comemorar.

            — Não devíamos telefonar a alguém? Não te parece necessário pedir a tua mão ao seu pai? —  perguntou, formal, fazendo um brinde.

            — Mais tarde. Saboreemos primeiro o momento, antes que fiquem todos loucos com a notícia.

            Em seguida, começou a pensar na logística.

            — Quando quer casar? — perguntou. A situação era mesmo divertida. Também ela nunca estivera noiva.

            — Não é da tradição ser em Junho? Eu gosto de tradições. Ainda devo estar filmando nessa altura, mas talvez seja possível. Desde que não te importe que a lua-de-mel fique para setembro... Seria muito mau? Prefiro não esperar tanto tempo pelo casamento.

            Dois meses já lhe pareciam de mais; estava ansioso por se ligar oficialmente a ela. Quanto a Allegra, a idéia de casar com Jeff daí a tão pouco tempo não a assustava, pelo contrário. Praticamente já viviam juntos; para quê esperar mais? Já desperdiçara muito tempo com pessoas que não lhe haviam dado nada em troca. Com Jeff não precisava aguardar: casaria nesse mesmo instante, se ele lhe pedisse.

            — Podíamos ir passar a lua-de-mel em Bora Bora. Talvez fôssemos tão felizes como o Alan e a Carmen disse ele, sorrindo.

            — Quer filhos assim tão depressa? — perguntou ela, admirada.

            — Sim, se estiver de acordo. Tenho trinta e quatro anos e você vinte e nove; não gostaria de esperar muito mais tempo. Quando te sentires preparada. Seria bom tê-los enquanto somos relativamente jovens, embora você seja mais nova do que eu, mas acho que seria formidável ter o meu primeiro filho aos trinta e cinco anos.

            — Talvez fosse melhor começarmos já. Faz aniversário daqui a seis meses e eu posso levar algum tempo para engravidar... Allegra estava a arreliá-lo, mas a verdade é que gostara de tudo o que ele dissera. Por sinal, adorara. Os meus pais convidaram-nos para jantar amanhã, a propósito. Podíamos aproveitar a oportunidade para dar a notícia, ou quer esperar mais um pouco?

            — Para quê? Não preciso de um período de nojo, conselheira. No que me diz respeito, a decisão está tomada, se estiver de acordo.

            — Talvez seja preferível experimentarmos outra vez, para nos certificarmos de que resulta. Uma espécie de exame de condução —  insistiu, arreliadora. Inclinou-se e beijou-o outra vez, enchendo a cama de migalhas, mas Jeff não se importou.

            — Tenciono fazer esse exame durante os próximos anos  — disse ele, beijando-a de novo.

            Pousou a taça de champanhe na mesa-de-cabeceira e recomeçaram a fazer amor. Por volta da meia-noite, sentiam-se felizes e exaustos.

            — Acho que vai dar cabo de mim antes do casamento —  queixou-se ele. Talvez seja melhor reconsiderar.

            — Não se atreva! — exclamou Allegra. Agora não pode voltar atrás; passa um minuto da meia-noite e o Dia da Mentira já acabou. Comprometeu-se comigo, Sr. Hamilton.

            — Aleluia! — exclamou Jeff, beijando-a.

            — Quer um casamento grande ou pequeno? — perguntou ela sorrindo, deitada na cama.

            — Não creio que tenhamos tempo para uma festa muito grande, porque só faltam dois meses, não acha?

            — Concordo. Quarenta ou cinqüenta pessoas no jardim da minha mãe seria o ideal. É tudo o que desejo. Ou talvez ainda menos... Calou-se e olhou para Jeff, envergonhada por não o ter consultado. A menos que queira convidar muitos amigos. Eu não tencionava decidir sozinha desculpou-se.

            — Não faz mal disse ele, sorrindo. A única pessoa que eu quero mesmo que esteja presente é a minha mãe. Tenho alguns amigos por aqui, mas não muitos, e os outros estão espalhados pelo Leste e pela Europa; seria um exagero esperar que venham de propósito à Califórnia. Acho que quarenta pessoas está bem. Tenho de telefonar à minha mãe para lhe dizer. Todos os anos vai à Europa em Junho e gosta de ser avisada com antecedência quando tem alterações a fazer.

            — Acha que vai ficar satisfeita? — perguntou Allegra, muito séria e um pouco inquieta. A fotografia da mulher que vira no apartamento de Nova Iorque assustara-a: tinha um ar tão austero e frio, tão diferente de Jeff ou do pai...

            — Tenho certeza. Há quatro anos que deixou de me perguntar quando é que eu me casava. Acho que desistiu quando passei dos trinta.

            Além de ter detestado todas as namoradas do filho nos últimos vinte anos... Mas Jeff sabia que a mãe iria gostar de Allegra. Quem não gostaria?

            — Estou ansiosa por contar à minha mãe —  disse Allegra esfuziante. Vai ficar tão feliz! Eles gostam mesmo de você.

            — Espero que sim. Virou-se para Allegra, muito sério, e beijou-a ternamente. Tomarei muito, muito bem conta de você para o resto da vida. Prometo.

            — Também eu. Prometo, Jeff. Estarei sempre a seu lado E de repente, quando estavam deitados na cama, lado a lado, de mãos dadas e falando dos seus planos, Jeff riu.

            — Porque não vamos de trailer a Las Vegas? Podíamos voltar a usar peruca e você atirava um ramo de orquídeas de plástico...

            A mãe dele morreria de susto, mas o casamento de Alan e Carmen fora muito divertido.

            — Tenho uma coisa a confessar a esse respeito  — disse Allegra. Se a minha mãe puder animar este casamento, fá-lo-á. Conta com isso. Talvez sejamos obrigados a ir a Las Vegas.

            Riram, felizes, e aninharam-se na cama, como duas crianças que planejassem uma grande aventura.

            No dia seguinte, quando foi para o emprego, Allegra estava tão entusiasmada que se esqueceu das chaves e teve de voltar atrás para buscá-las. Ganhou mais um beijo, e Jeff quase teve que a pôr na rua para ela não chegar atrasada à primeira reunião.

            — Vai-te embora... Vai! —  gritou. Desaparece! Vai. Disse-lhe adeus da pequena rampa, e ela ainda se estava a rir quando entrou na estrada. Nunca se sentira tão feliz!

            Passou a manhã a sorrir, parecia aquele gato proverbial que engolira o canário, mas não queria dar a notícia a ninguém senão depois de jantar com os pais nessa noite. Foi particularmente difícil encarar Alice e não contar nada a Carmen quando esta lhe telefonou. Carmen continuava nas nuvens por causa do bebê, mas, na opinião de Allegra, a sua notícia era ainda mais empolgante.

            Tentou que Jeff fosse almoçar com ela à cidade, mas ele disse que não podia; tinha que trabalhar muito no argumento.

            — Mas eu não posso almoçar com mais ninguém  — queixou-se. Não suportaria não dar a notícia. Tem de vir ter comigo.

            — Não, se quer que eu vá consigo esta noite, Srª. Hamilton.

            — Allegra gostou de ouvir estas palavras, e Jeff também. Escrevera ‘Allegra Hamilton’ várias vezes no seu bloco de apontamentos. Não brincava assim desde os catorze ou quinze anos, quando namorava com Alan.

            Por fim, resolveu descer Rodeo Drive e ir fazer umas compras, para ver se encontrava vestidos brancos bonitos ou trajes apropriados para um casamento no jardim da mãe. Foi às lojas Ferre, Dior, Valentino, Fred Hayman e Chanel, só para dar uma vista de olhos e ficar com uma idéia do que havia em branco, mas não encontrou nada. A Valentino tinha um belo traje de linho branco, mas não lhe pareceu suficientemente vistoso, e a Ferre uma blusa de organdi fabulosa, mas nada que desse com ela. No entanto, divertira-se. Nem podia acreditar: andava à procura do seu vestido de casamento, passados apenas dois meses de ter conhecido Jeff

            Apeteceu-lhe telefonar a Andreas Weissman, em Nova Iorque, para lhe agradecer.

            Pensou em não almoçar, mas depois resolveu passar pelo Grill para comer um sanduíche e beber um café. Em geral, encontrava gente conhecida, advogados da firma ou agentes da ICM, da CAA ou da William Morris. Também costumavam estar lá alguns atores e amigos. A comida era boa, o serviço rápido e a localização perfeita.

            Ao chegar, olhou em volta, à procura de um compartimento, e de repente avistou o pai ao fundo da sala; estava a rir, mas Allegra não via quem o acompanhava. Sentiu-se verdadeiramente tentada a ir contar-lhe a novidade, mas sabia que a mãe nunca lhe perdoaria tal coisa; tinha de esperar por essa noite, quando fosse jantar com Jeff a casa dos pais. De qualquer modo, podia ir cumprimentá-lo, e foi o que fez. Pôs o casaco azul em cima de uma cadeira da sua mesa e foi ter com ele. Vestia uma saia bege curta e uma camisa azul-clara e calçava uns sapatos Chanel beges, de salto raso, a condizer com a bolsa. Estava muito elegante e à moda, e como era habitual, mais parecia um modelo do que uma advogada.

            Assim que se aproximou do compartimento onde se encontrava Simon, este levantou a cabeça; ao deparar com a filha, ficou radiante. Só então Allegra viu com quem ele estava a almoçar. A princípio pareceu-lhe que já a encontrara antes e depois concluiu que se tratava da diretora com quem o pai estivera conversando na cerimônia do Globo de Ouro, Lady Elizabeth Coleson. Era uma mulher alta, muito jovem e bastante atraente. Tinha um riso profundo e sensual e era pouco mais velha do que Allegra.

            — Olá! Mas que surpresa! — exclamou o pai. Levantou-se, beijou-a e apresentou-a a Lady Elizabeth. Era uma mulher de talento e muito terra-a-terra, embora nada pretensiosa, e parecia estar a divertir-se na companhia de Simon. Esta é a minha filha Allegra  — disse ele a Elizabeth com um sorriso, explicando a Allegra que estavam falando acerca de um filme. Há meses que ando tentando convencer a Elizabeth a trabalhar comigo, mas até agora ainda não consegui lamentou-se, voltando a sentar-se.

            Allegra observou-os; pareciam completamente à vontade, como se fossem velhos amigos e tivessem passado muito tempo juntos. Simon perguntou-lhe se queria fazer-lhes companhia, mas Allegra respondeu que não desejava interromper a reunião.

            — Obrigada, pai. Tenho de voltar para o escritório daqui a pouco; passei por aqui só para comer um sanduíche.

            — O que andavas a fazer por estes lados? — perguntou ele. Allegra sorriu, morta por lhe contar, mas não podia.

            — Digo-lhe esta noite.

            — Combinado  — concordou Simon.

            Allegra apertou a mão de Elizabeth e voltou para a sua mesa. Pediu uma Salada César e um café, e um quarto de hora depois regressou ao escritório. Ao volante, deu consigo pensando no pai e em Elizabeth Coleson. Não sabia por que, mas sentira o mesmo que da última vez em que os vira juntos que se conheciam muito bem e que pareciam gostar muito da companhia um do outro. Perguntou a si própria se a mãe também simpatizaria com Elizabeth e resolveu perguntar. Em seguida, os seus pensamentos viraram-se de novo para o casamento. Tinha a cabeça cheia de idéias e nessa tarde telefonou três vezes para Jeff, só para rirem e conversarem sobre o seu segredo. Mal podia esperar e, nessa noite, quando ia a chegar na casa dos pais, sentiu-se prestes a explodir de entusiasmo.

            — Tenha calma... Tenha calma... —  disse Jeff para tranqüilizá-la.

            No entanto, também estava muito nervoso. E se levantassem objeções, ou pensassem que era demasiado cedo, ou não gostassem dele? Antes de saírem de Malibu, transmitira as suas preocupações a Allegra, que o achara ridículo, mas, mesmo assim, continuava apreensivo.

            O pai veio recebê-los à porta principal e explicou que Blaire estava ao telefone, na cozinha, a falar com o arquiteto. Pelo que Allegra podia ouvir, a conversa não era agradável: o homem acabara de lhe comunicar que, devido aos armários e aos azulejos que ela escolhera, seriam necessários pelo menos sete meses para acabar as obras, e Blaire não estava gritando com ele, mas pouco faltava.

            — Talvez tenhamos de passar seis meses em Bel Air disse Simon, meio a sério, meio a rir.

            Perguntou a Jeff o que queria beber e este pediu um uísque com água. Ao fim de alguns minutos de conversa agradável, apareceu Blaire, irritada e nervosa.

            — Mas que absurdo! — gritou ela ao marido, recusando uma bebida. Sete meses! Ele deve estar doido! Desculpa, querida... disse a Allegra; em seguida beijou-a e cumprimentou Jeff, tentando manter a compostura. Não posso acreditar!

            — Porque não deixamos a cozinha assim? — sugeriu Simon, com cautela, mas Blaire replicou que a achava fora de moda e que isso estava completamente fora de questão. Vou-me embora  — disse ele, baixinho.

            A mulher deu um olhar de censura e mudaram de assunto, mas Allegra mal se podia conter. Quando estavam sentados tranquilamente, antes do jantar, Jeff pousou os óculos e olhou para os pais dela.

            — Allegra e eu temos uma coisa a dizer... Ou melhor, a pedir-vos... Eu... Eu sei que não nos conhecemos há muito tempo, mas...

            Jeff nunca se sentira tão desajeitado na sua vida, parecia um menino, e Blaire fitava-o, incrédula, enquanto Simon lhe dava um sorriso; estava com pena dele.

            — Quer pedir-me o que eu julgo? — perguntou, tentando dar-lhe uma ajuda.

            Jeff lançou-lhe um olhar agradecido.

            — Sim, senhor. Parecia um menino de cinco anos sentado ali ao lado de Allegra, para pedir a mão dela aos pais. Nós gostaríamos... Nós vamos... Casar disse, tentando parecer de novo um adulto.

            — Oh, querida!

            Blaire correu a abraçar a filha, com lágrimas nos olhos. Depois Allegra olhou para o pai, que também tinha os olhos brilhantes, mas que parecia feliz pelos dois.

            — Papai?...

            Allegra também queria a bênção dele e percebeu que a tinha.

            — Aprovo do fundo do coração

            Simon deu um aperto de mão firme a Jeff. Os dois homens pareciam satisfeitos, como se tivessem acabado de fechar um negócio importante... Tratava-se do resto da vida de Jeff e de Allegra.

            — Obrigado  — agradeceu Jeff, sentindo um alívio enorme. Fora muito mais difícil do que julgara, apesar de os pais de Allegra terem facilitado muito a tarefa. No entanto, fora um momento assustador, que nunca mais esqueceria.

            Em seguida começaram todos a falar ao mesmo tempo, e quase não deram pelo anúncio do jantar. Não falaram de outra coisa durante a refeição. Samantha tinha saído com uns amigos, e o casamento foi o único tema de conversa.

            — Está bem, está bem  — disse Blaire depois do primeiro prato. Agora vamos aos pormenores. Quantas pessoas, quando, onde, que gênero de vestido, véu comprido ou curto..

            — Oh, meu Deus! — exclamou, enxugando os olhos com o guardanapo. Era uma das noites mais felizes da vida deles, e certamente também da de Allegra, que se esforçava por responder a todas as perguntas da mãe.

            — Queremos umas quarenta ou cinqüenta pessoas aqui em casa, no jardim. Nada de muito sofisticado, uma coisa íntima. Em junho  — disse Allegra, radiante, olhando para Jeff e depois para a mãe.

            — Deve estar brincando, querida, com certeza... — respondeu a mãe, sorrindo, mas Allegra deitou-lhe um olhar inocente, sem perceber o comentário.

            — Não. Falamos nisso ontem à noite e é assim que queremos.

            — Está fora de questão! — cortou Blaire, que mais parecia estar desempenhando o seu papel de produtora. Esquece! Não há contrato.

            — Mãe, isto não é o seu programa, é o meu casamento  — lembrou-lhe Allegra com delicadeza. O que quer dizer com isso de ‘esquece’?

            — Quero dizer que o jardim vai ficar completamente virado do avesso nas próximas duas semanas. Não haverá nada no quintal senão terra e a piscina até ao Outono, portanto o jardim não existe. E não pode estar falando a sério quando te referes a quarenta ou a cinqüenta convidados... Imaginas quantas pessoas conhecemos? Allegra, isso é uma loucura! Pensa nos seus clientes e em todos os seus amigos de escola, já para não falar dos amigos da família. E é claro que os pais do Jeff também hão de querer fazer os seus convites. Francamente, não vejo como conseguiremos ter menos de quatrocentas ou quinhentas pessoas! Talvez mais perto de seiscentas... O que significa que não pode ser aqui. E deve estar brincando quanto a junho; não se consegue organizar um casamento desses em dois meses. Allegra, agora falemos a sério, querida. Onde e quando é que vai ser?

            — Mãe, eu estou falando a sério  — insistiu Allegra, que começava a ficar tensa. Este é o nosso casamento, não é o seu, e nós não queremos mais de cinqüenta pessoas. É tudo. Para fazer uma coisa grande, temos de convidar muitas pessoas. Com quarenta ou cinqüenta, juntamos apenas os nossos amigos mais íntimos, o que terá mais significado para nós, e não são necessários seis meses para organizar um casamento de cinqüenta pessoas.

            — Para que me hei de eu incomodar? —  resmungou Blaire, aborrecida como Simon nunca a vira. A mulher exagerava em tudo, primeiro com o arquiteto e agora com o casamento da filha.

            — Mãe, por favor! — disse Allegra, à beira das lágrimas. Porque não deixa que sejamos nós a organizá-lo? Não é obrigada a fazê-lo.

            — Isso é ridículo! E onde se realiza o casamento. No seu gabinete?

            — Talvez. Podia ser na casa do Jeff, em Malibu. Seria o ideal.

            — Você não é uma hippie, é uma advogada, com uma série de clientes distintos, e os nossos amigos são muito importantes para nós, e para você. Voltou-se para Jeff, apelando à sua intervenção. Têm de pensar melhor no assunto...

            Jeff fez um sinal afirmativo e virou-se para Allegra.

            — Porque não falamos nisso esta noite e vemos o que podemos alterar? — disse ele tranquilamente, sob o olhar atento de Simon.

            — Eu não tenciono mudar nada. Nós já falamos no assunto e queremos um casamento com poucas pessoas, em junho, no jardim —  retorquiu Allegra, com veemência.

            — Não há jardim! — disparou a mãe. E eu estou filmando em Junho. Pelo amor de Deus, Allegra, porque está dificultando as coisas?

            — Não tem importância, mãe. Allegra afastou o guardanapo e levantou-se da mesa, olhando para Jeff com as lágrimas nos olhos. Nós vamos a Las Vegas. Não preciso que me faça isso. Só quero um casamento íntimo. Esperei trinta anos por ele, e quero fazê-lo à minha vontade e à do Jeff. Mãe. Nós é que vamos casar!

            Blaire ficou agitada ao ver como Allegra estava aborrecida e Simon tentou acalmar as duas

            — Porque não falamos nisso depois do jantar? Não é preciso enervarem-se dessa maneira  — disse ele, com calma.

            Mãe e filha acalmaram-se e Allegra voltou a sentar-se, mas era óbvio que a questão não ia ser tão simples.

            O resto da refeição foi um pouco tensa, e as duas mulheres mal falaram. Quando o café foi servido, na sala de estar, a discussão reacendeu-se. Allegra queria quarenta amigos e Blaire pensava que deviam ser quinhentos ou seiscentos convidados. Propunha o clube ou o Hotel Bel Air, e Allegra considerava que desse modo o seu casamento seria vulgar. Desejava que fosse em casa, ao que Blaire contrapôs que não conseguiria organizar um programa e um casamento ao mesmo tempo e que tentar fazê-lo em junho era ridículo. Pelo menos durante duas horas não se vislumbrou qualquer compromisso. Por fim, depois de as duas partes se terem desgastado mutuamente, Allegra, contrafeita, aceitou cento e cinqüenta pessoas, enquanto a mãe propunha duzentas e dizia que, se esperassem até setembro, durante as férias do programa, e quando as obras no jardim já estivessem concluídas, conseguiria fazê-lo em casa. Allegra hesitou durante muito tempo e consultou Jeff em voz baixa. A verdade é que não queriam esperar seis meses para se casarem, mas ele lembrou-lhe que estaria acabando o seu filme por essa altura e que poderiam partir imediatamente para a lua-de-mel, em vez de esperarem três meses após a boda; havia certa vantagem nisso. Muito contrariada, Allegra concordou, a pedido de Jeff.

            — Mas vai ser assim, mãe, não me pressione mais! Cento e cinqüenta convidados no jardim, em setembro. Ponto final! Nem mais uma pessoa! E só faço isto por si...

            Parecia que estavam a jogar ao Monopólio na presença dos dois homens. Simon deitou um olhar ansioso a Blaire.

            — Isso significa que posso ficar com a minha cozinha? Pelo que eles disseram esta noite, não conseguem instalar a nova até setembro.

            — Oh, cala-te! — disse Blaire ao marido, de novo furiosa. Mete-te na tua vida! Mas depois sorriu, acanhada.

            No entanto, daí a pouco, todos pareciam mais descontraídos; fora uma noite esgotante.

            — Não sabia que os casamentos eram tão importantes para a sua família  — desabafou Jeff, aceitando outro uísque, enquanto Simon se servia de um brande.

            — Nem eu  — admitiu Simon. O nosso foi bem simples, mas eu sei que a Blaire sempre desejou dar o melhor às nossas filhas.

            — Ela que faça isso com a Sam  — acrescentou Allegra ainda abalada pela discussão com a mãe. Eram ambas teimosas e o compromisso não fora fácil, mas, acima de tudo, detestava a idéia de esperar cinco meses pelo casamento.

            — Nós vamos nos arranjar... —  tranqüilizou-a Jeff, beijando-a.

            Allegra foi ter com a mãe à cozinha. Quando entrou, encontrou Blaire a assoar-se; estivera a chorar.

            — Desculpe, mãe  — disse Allegra, arrependida das palavras duras que proferira. Eu sei o que quero, mas não era minha intenção aborrecê-la.

            — Eu quero que o teu casamento seja bonito, que seja especial!...

            — Vai ser  — respondeu Allegra.

            O que importava era que Jeff estivesse a seu lado. Nesse momento, tudo aquilo lhe parecia uma estupidez e só lamentava que não tivessem fugido, como Carmen. Teria sido muito mais simples, e Allegra desconfiava que a situação fosse piorar.

            — E o vestido? — perguntou a mãe, mudando de assunto. Espero que me deixes ajudar-te a escolhê-lo...

            — Comecei a procurar hoje, à hora do almoço. Allegra sorriu e contou-lhe onde estivera, o que vira e o que queria. Na opinião da mãe, um vestido curto era uma boa idéia, mas a filha devia estar elegante, talvez com um grande chapéu, ou um pequeno véu.

            — Hoje, quando andava a ver as vitrines, encontrei o pai. Tive de morder a língua para não lhe dar a novidade, mas queria contar-lhe na sua presença, e na do Jeff, por isso não o fiz.

            — O que andava ele a fazer em Rodeo Drive? Blaire sabia que o marido detestava compras; era ela que lhas fazia.

            — Nada de especial. Estava no Grill, almoçando com a Elizabeth Coleson. Creio que o pai anda a tentar contratá-la para um dos seus filmes.

            Em seguida a conversa derivou para a presença, ou não, de damas de honra no casamento. Allegra ainda não tomara uma decisão, mas notou algo estranho no semblante da mãe. Quando voltaram para a sala, reparou que Blaire olhou de soslaio para Simon. Continuaram a falar do casamento e às onze horas o jovem casal foi-se embora. À saída, Blaire segredou qualquer coisa à filha, e Jeff, que também a ouviu, estranhou:

            — Tem de telefonar ao teu pai  — disse em voz baixa, quando estavam à porta.

            Allegra olhou para ela, pouco à vontade, e fez um sinal afirmativo. Pouco depois partiu com Jeff para Malibu. Estavam ambos exaustos com a primeira dose de preparativos para o casamento; fora um serão difícil.

            — O que queria a tua mãe dizer com aquilo? —  perguntou Jeff a caminho da auto-estrada.

            Allegra recostou a cabeça no banco e fechou os olhos.

            Devíamos ter ido a Las Vegas e telefonávamos depois observou, com ar exausto.

            — O que queria ela dizer com aquilo de ‘telefonar ao teu pai’? O que se passa?

            Allegra não respondeu. Ficou sentada, de olhos fechados, fingindo que estava a dormir, mas Jeff olhou para ela e apercebeu-se da tensão do seu silêncio. Não compreendia o que se estava a passar e tocou-lhe ao de leve na face.

            — Ouve, não me ignores. O que queria ela dizer? — Instintivamente sentira que se tratava de um assunto doloroso.

            Allegra abriu os olhos e fitou-o.

            — Não quero falar disso agora. Já basta por esta noite. Durante algum tempo, reinou o silêncio, mas Jeff recusava-se a ser posto à margem.

            — Allegra, o Simon não é teu pai?

            Seguiu-se uma longa pausa. Allegra procurava um escape, uma maneira de não lhe dizer. Detestava falar naquilo, mesmo com ele; era demasiado penoso. Abanou a cabeça tristemente, mas não olhou para Jeff limitou-se a espreitar pela janela.

            — A minha mãe casou com ele quando eu tinha sete anos.

            Para Allegra, era uma confissão terrível, algo que detestava aflorar ou admitir.

            — Não sabia —  respondeu ele, com cautela, sem pretender violar antigos segredos, mas ia casar com ela e queria ajudá-la, se pudesse, já que o assunto era tão doloroso como parecia, a avaliar pelo seu silêncio.

            — O meu ‘verdadeiro’ pai é médico e vive em Boston. Odeio-o e o sentimento é recíproco  — disse ela, olhando finalmente para Jeff.

            Era um assunto difícil e Jeff optou por não continuar a conversa naquele momento. Limitou-se a acariciá-la na face e, quando passou pelo semáforo seguinte, inclinou-se e beijou-a.

            — Seja o que for que tenha acontecido, quero que saibas que estou ao teu lado e que te amo. Nunca mais ninguém voltará a te magoar, Allegra.

            Ela tinha os olhos cheios de lágrimas quando ele a beijou e disse-lhe ‘obrigada’ em voz baixa. Não trocaram mais uma palavra até chegarem a Malibu

            Em Bel Air, os Steinberg encontravam-se no quarto, e Blaire observava Simon, que tirava a gravata.

            — Soube que almoçou hoje com a Elizabeth  — disse Blaire com frieza, fingindo folhear uma revista. Depois levantou a cabeça e olhou de novo para o marido. Julguei que isso tinha acabado.

            — Nunca começou  — respondeu ele tranquilamente, desabotoando a camisa e entrando no banheiro. Mas sentia a mulher atrás de si. Blaire seguira-o, e os seus olhos trespassaram-no quando se virou e deu de cara com ela. Já te disse que é uma relação estritamente profissional.

            Simon pronunciou estas palavras com muita calma, mas Blaire ficou desconsolada. Sentia-se tão velha só de olhar para o marido! Ele almoçava com mulheres da idade da filha, e continuava a ser tão atraente! E ela sentia-se tão gasta e tão pouco feminina! Era uma sombra do passado, mesmo em termos profissionais. E agora era a ‘mãe da noiva’... Sentia-se muito velha!

            — Também andavas a trabalhar com ela em Palm Springs? —  perguntou Blaire sem perder a calma.

            — Não me faças isso! — exclamou Simon, virando-lhe as costas. Recusava-se a entrar de novo no jogo dela; aquelas cenas começavam a tornar-se demasiado freqüentes. Estávamos apenas conversando, mais nada. Somos amigos. Acaba com a conversa, Blaire, por mim e por você. Deve-me isso!

            — Eu não te devo nada! —  retorquiu ela com os olhos cheios de lágrimas. Quando ia a sair dado banheiro, virou-se para trás e fitou-o de novo. Andas a propor-lhe fazer um filme? Foi o que a Allegra disse.

            — Foi o que eu lhe disse. Nós estávamos apenas conversando, mais nada. Ela vai regressar a Inglaterra.

            — E você? — perguntou Blaire, desolada. Vais filmar lá o seu próximo filme?

            — Vamos rodar o próximo filme no Novo México  — respondeu Simon. Saiu lentamente da banheiro e abraçou a mulher. Amo-te, Blaire, não te esqueças disso... Por favor, não me pressiones mais... Sairemos ambos feridos disto.

            Mas Blaire queria precisamente feri-lo, tal como ele a ferira quando descobrira que o marido tinha um caso com Elizabeth Coleson há seis meses. Simon fora muito discreto; mais ninguém soubera, a não ser ela. Blaire descobrira por acaso, quando alguém os viu em Palm Springs e lhe contou, sem se aperceber do que estava fazendo. Blaire compreendera imediatamente. Sentira um calafrio na espinha. E ele negara, claro, mas quando os viu  conversando um com o outro numa festa, durante alguns minutos, não lhe restaram dúvidas: tinham o aspecto daquelas pessoas que trocavam segredos na cama, à noite, e aparentavam a cumplicidade que nascia no quarto. Quando insistiu de novo com ele, Simon não disse nada, e ela percebeu que as suas suspeitas tinham fundamento.

            Allegra não soube. Ninguém soube. Blaire nunca contara a ninguém. Guardou o segredo, enquanto a sua alma definhava lentamente, como voltara a acontecer nessa noite, quando a filha lhe dissera que os vira juntos.

            — Porque tens de ir com ela para um restaurante? Porque não a recebes no teu escritório?

            — Porque, se o fizer, você pensaria que eu andava dormindo com ela. Achei que seria preferível vê-la em público.

            — O que seria preferível era não a ver, quaisquer que fossem as circunstâncias  — retorquiu Blaire sem perder a calma, sentindo uma lassidão apoderar-se-lhe do corpo e da alma, quando se sentou na cama. Talvez isso já não tenha importância... — acrescentou em voz baixa.

            Levantou-se, encaminhando-se para o seu quarto de dormir, e Simon não foi atrás dela. A situação estava tão difícil! Há meses que não dormiam juntos. Mesmo sem falarem no assunto, deixaram de fazê-lo assim que ela soube que ele tinha uma aventura. Blaire começava a envelhecer e sentia que o marido não a amava nem a desejava.

            Simon estava lendo quando ela voltou para o quarto, de camisola. Olhou-a com afeto. Sabia como a situação fora dolorosa para a mulher e lamentara-a terrivelmente, mas eram coisas que aconteciam, e não era possível anulá-las. Pesaroso, compreendia que Blaire nunca permitiria que ele esquecesse o que se passara. Talvez o merecesse. Aceitava o destino e mantinha a esperança de encontrar uma maneira de fazê-la sentir que continuava a amá-la. Porém, ela nunca acreditaria; agora, todas as suas atenções estavam concentradas em Elizabeth Coleson, ainda mais do que no seu programa de televisão. Simon perguntou a si próprio se o casamento de Allegra iria alterar a situação e deixá-la mais animada. Esperava que sim.

            — Estou contente pela Allegra —  disse, apaziguador. O Jeff é um tipo correto. Creio que será um bom companheiro para ela.

            Blaire encolheu os ombros; Simon também fora bom para si, durante mais de vinte anos, e agora tudo mudara. Haviam sido tão felizes, tão unidos! Consideravam-se especiais, incluídos no grupo dos que tinham alcançado a felicidade pela mão do destino, e, afinal, este acabara por lhes pregar uma partida. Agora tudo era diferente, a sua vida nunca mais seria a mesma, e Simon sabia isso, ainda que tivesse posto termo à relação depois de Palm Springs. Mas era demasiado tarde.

            Blaire enfiou-se na cama e pegou num livro; era o novo livro de Jeff. Comprara-o na semana anterior, e agora ele ia ser seu genro, embora mal pensasse nisso; o encontro de Simon com Elizabeth Coleson obcecava-a. Que mais teriam eles andado a fazer? Seria o almoço em público um disfarce descarado e enganador? Virou-se e olhou para o marido: Simon tinha adormecido de óculos e com o livro nas mãos. Ficou a observá-lo, sentindo que o sofrimento ocupava agora o lugar do amor de outrora. Há meses que era assim. Fechou-lhe o livro e tirou-lhe os óculos, perguntando a si própria se ele também adormeceria tão facilmente quando estava junto de Elizabeth Coleson.

            Guardou o seu livro e apagou a luz. Estava habituando-se à dor e à solidão. Aprendera a viver com elas, mas lembrava-se muito bem do passado, antes de as coisas terem mudado entre eles. E, ali deitada, ao recordar esse passado, fez um esforço para pensar no casamento de Allegra. Talvez fossem mais felizes do que ela e Simon, talvez a mão do destino nunca os tocasse. Blaire desejava-o sinceramente e, em silêncio, rezou pela filha.

 

            Na semana seguinte ao anúncio do noivado, a vida de Allegra no escritório parecia ter sido varrida por um furacão. Praticamente todas as pessoas que representava tiveram um problema qualquer, um novo acordo para fazer ou uma proposta de licenciamento que precisava ser analisada. Era como se alguém tivesse puxado uma corda em algum lugar e tentasse afogá-la.

            E quando Jeff telefonou à mãe para anunciar o noivado, a situação complicou-se ainda mais. O único comentário de Srª.Hamilton foi que a decisão parecia demasiado apressada, visto que nunca o ouvira falar de Allegra, e esperava que ele não viesse a arrepender-se. Depois de falar com Allegra durante alguns minutos, disse ao filho que gostaria que fossem a Nova Iorque, pelo menos por uns dias, para conhecê-la.

            — Devíamos lá ir antes de as filmagens começarem, em Maio  — sugeriu ele, depois de desligarem, mas Allegra não vislumbrava quando, pois tinha muito que fazer no escritório; no entanto, prometeu que arranjaria uma oportunidade nas semanas seguintes, desse por onde desse.

            A única coisa que não fez nessa semana, mais uma vez com o pretexto de que tinha muito trabalho, foi telefonar ao pai. Jeff evitava pressioná-la, mas ela já adiantara que os pais se haviam divorciado e que existia uma grande amargura entre eles. Vira-o poucas vezes nos últimos vinte anos, e nenhum dos encontros fora agradável. O pai parecia responsabilizá-la pelos atos da mãe.

            — Diz-me sempre que sou parecida com ela, que somos as duas insuportáveis e que não aprova o nosso ‘estilo de vida hollywoodesco’. Comporta-se como se eu fosse uma bailarina de rock e não uma advogada.

            — Talvez não saiba estabelecer a diferença...

            Jeff tentou introduzir uma nota de humor, mas era óbvio que Allegra não estava receptiva. A mãe dele também não simpatizava muito com Hollywood nem com aquilo que esse mundo, em sua opinião, representava, mas a situação com o pai de Allegra parecia ser muito mais grave, e Jeff tinha a impressão de que havia algo mais de que ela não falava. Contudo, teve o bom senso de esperar que desabafasse quando estivesse disposta a isso. Não podia deixar de perguntar a si próprio se fora por este motivo que Allegra sempre se envolvera com homens difíceis. Se o pai a rejeitara, talvez procurasse homens que fizessem o mesmo, e, se assim fosse, sofreria uma grande decepção com ele. A verdade é que não tencionava abandoná-la, pelo contrário, adorava os dias tranqüilos que passavam juntos, as tardes na cama, as muito raras manhãs de lazer.

            No fim-de-semana seguinte ao anúncio do noivado aos pais de Allegra, conseguiram finalmente passar uma noite tranqüila em casa, e no sábado até foram ao cinema. Deitaram-se assim que chegaram; nunca conseguiam resistir a fazer amor, e estavam quase a adormecer nos braços um do outro quando o telefone tocou.

            Jeff sentiu-se tentado a ignorá-lo, mas Allegra não conseguiu. Receava sempre que tivesse surgido algum problema grave a um dos seus clientes, e isso acontecia, às vezes, mas quase sempre era engano.

            —Alô? — disse, sonolenta, e por instantes reinou o silêncio do outro lado da linha. Ia a desligar quando ouviu um soluço. Alô? — repetiu, e ficou à espera. Quem fala? Fez-se de novo silêncio, a que se seguiu mais um soluço, e depois uma voz estrangulada do outro lado.

            — É a Carmen.

            — Está bem?

            Teria havido um acidente? Teria acontecido alguma coisa muito grave? Estaria ela ferida? Tê-la-ia Alan deixado? O que poderia ter sucedido?

            — Carmen, fala comigo  — disse Allegra, tentando não denunciar a irritação que sentia, enquanto Jeff suspirava a seu lado: sempre que Carmen e Alan discutiam, Carmen telefonava, histérica, e Jeff não gostava. Era muito amigo deles, mas considerava que não competia a Allegra resolver os seus problemas conjugais menores. Afinal, toda as pessoas os tinha, e a maioria não telefonavam aos advogados para estes os resolverem.

            — Ele vai-se embora... — conseguiu balbuciar Carmen Em seguida desatou a soluçar, e Allegra ouviu alguém a gritar

            — O que se passa? — perguntou, tentando transmitir-lhe calma através do telefone, mas sem êxito. Ele vai deixar-te

            — Sim...

            Carmen engasgou-se. Depois alguém lhe tirou o telefone da mão e Alan falou, irritado e exausto.

            — Eu não a vou deixar, pelo amor de Deus! Vou para a Suíça rodar um filme, e não vou morrer, nem ter uma aventura amorosa  — repetiu pela milésima vez nessa noite Vou trabalhar, mais nada! E, quando acabar, volto para casa! A minha vida é esta!

            Dizendo isto, devolveu o telefone à mulher, que, com um ataque de histerismo, chorava ainda mais.

            — Mas eu estou grávida...

            Allegra suspirou; agora entendia. Carmen não queria que ele partisse para ir rodar o filme, mas Alan tinha um contrato a cumprir, e dos bons. Não havia alternativa.

            — Ora, ora, Carmen, seja razoável, ele tem de ir. Tu podes ir lá visitá-lo antes de começares a trabalhar, em junho. Vai agora, pelo amor de Deus. Pode ir passar um mês antes de começarem as filmagens.

            De repente, os soluços pararam e fez-se silêncio.

            — Podia, não podia? Oh, meu Deus, obrigada, Allegra, gosto muito de ti!

            Talvez gostasse, mas Allegra não tinha a certeza de que Alan estivesse tão entusiasmado; quando queria, Carmen sabia ser cansativa e absorvente.

            — Amanhã telefono  —  disse Carmen com pressa, e desligou-lhe literalmente o telefone na cara.

            Allegra abanou a cabeça, apagou a luz e voltou para a cama, mas Jeff resmungou qualquer coisa para a almofada quando ela se aconchegou a ele.

            — Tem de dizer a essa gente que não te telefone de cinco em cinco minutos. È ridículo! Não sei como suportas uma coisa destas!

            Allegra percebia que a situação o incomodava, mas Jeff sabia que os seus clientes faziam aquilo há anos: Carmen, sem dúvida, e a mulher de Bram Morrison, e até Bram, quando precisava, e Malachi, sempre que estava pedrado ou embriagado e se convencia de que tinha um súbito distúrbio mental, e sobretudo quando se metia em confusão. E mesmo Alan. E os outros, também. Era assim em Los Angeles, e, se não telefonassem aos advogados, ligavam aos agentes.

            — Aqui é assim, Jeff. É difícil demovê-los.

            — Isso é neurótico! Afinal, o que aconteceu? Discutiram outra vez? Vai ser um casamento muito longo, se recebermos um telefonema à meia-noite sempre que discutirem acerca de quem vai pôr o lixo lá fora!

            Mas a verdade é que o lixo deles tinha que ser desfibrado e depois bem fechado num cofre com segredo, para ninguém o roubar.

            — Se você  não disser nada à Carmen, digo eu.

            — Ela não quer que o Alan vá para a Suíça na próxima semana, insiste para que fique em casa com ela e com o bebê.

            — Ainda não há bebê nenhum! — exclamou Jeff mais aborrecido do que nunca. Que estupidez! Está grávida há dez minutos e espera que ele fique em casa a fazer-lhe companhia durante nove meses?

            — Faltam só sete meses e três semanas. Ela está grávida de cinco semanas.

            Jeff gemeu outra vez e Allegra riu. Era, de fato, uma estupidez, mas era a realidade para Carmen.

            — Talvez fosse melhor dedicar-se ao direito da concorrência... — sugeriu.

            Por fim, resolveram não desperdiçar a oportunidade, já que estavam acordados. Jeff virou-se para Allegra e começou a fazer sérios avanços. Pelo menos, recuperou o bom humor. E dessa vez, quando adormeceram, não houve mais interrupções.

            Na semana seguinte, o Oscar absorveu a atenção de todos os clientes de Allegra, e Carmen andava atarefada fazendo planos para a viagem: ela e Alan partiam daí a dois dias.

            Tinham sido nomeados, e, apesar de nenhum deles estar esperando ganhar, a verdade é que a nomeação era importante para a carreira de ambos, mas Carmen estava completamente desinteressada da sua: nesse momento, só se preocupava com o bebê, e com Alan, é claro.

            Allegra e Jeff viram os Steinberg na cerimônia. O filme de Simon conquistou cinco Oscar, incluindo o de melhor filme, o que deliciou Allegra. A mãe também ficou radiante, mas Allegra continuava a notar nela certa tensão. Não sabia se era por causa do programa, se era apenas um estado de espírito ou imaginação sua, mas era mais uma sensação do que uma evidência. Quando falava nisso a Jeff, este jurava que não dava por nada.

            — Ela parece-me aborrecida, perturbada, triste ou outra coisa qualquer afirmava Allegra com convicção.

            — Talvez não se sinta bem ou esteja doente  — sugeriu ele, com sentido prático, mas Allegra ficou ainda mais preocupada.

            — Espero que não.

            Como era de prever, Alan e Carmen não ganharam qualquer Oscar, mas, aparentemente, nenhum deu importância ao assunto.

            Depois da cerimônia, Blaire não deixou de perguntar a Allegra se tinha telefonado ao pai para lhe comunicar o seu casamento.

            — Não, mãe, ainda não —  respondeu ela, com ar carrancudo.

            Escolhera um vestido prateado que lhe moldava o corpo e estava espetacular. A última coisa que lhe apetecia era ouvir falar do pai ou pensar sequer em telefonar-lhe.

            — Preciso saber, por causa dos convites insistiu Blaire.

            Allegra rolou os olhos nas órbitas.

            — Está bem, está bem, eu telefono-lhe. Depois pensou melhor e acrescentou:

            — Porque não liga para ele mãe e não l pergunta se ele quer que o seu nome figure nos convites? Por mim, não é essa a minha vontade, o Simon é que é o meu pai. Não preciso dele para nada! Porque não resolvemos não lhe telefonar? Devem ser vocês os dois a convidar. Eu já nem sequer uso o nome dele, portanto de que serve?

            As pessoas conheciam-na apenas por Allegra Steinberg, apesar de Simon nunca ter conseguido adotá-la oficialmente. Blaire não quisera discutir o assunto com o verdadeiro pai de Allegra, Charles Stanton. O nome Allegra Stanton nunca seduzira a filha.

            — E fique sabendo que não é ele que  vai me levar ao altar, é o pai!

            Antes que Blaire pudesse comentar as palavras da filha, a multidão separou-as. A imprensa e as pessoas que queriam felicitar Simon aglomeraram-se à sua volta.

            Mais tarde, quando os convidados começaram a dispersar, Allegra viu que Lady Elizabeth Coleson se aproximara do pai para cumprimentá-lo. Conversavam com à-vontade no meio de um grupo de pessoas e Blaire retirara-se discretamente para ir falar a uns amigos, mas Allegra reparou que ela olhava para Simon por cima do ombro e estava tensa. Começava a pensar se Jeff teria razão e a mãe não se sentiria bem.

            Em seguida dispersaram-se por diferentes festas. Allegra e Jeff foram a uma de Sherry Lansing, no Bistrô, logo a seguir à cerimônia, e depois a outra no Spago, mas nenhuma foi tão boa como as que Irving Lazar costumava dar nos bons velhos tempos. No entanto, divertiram-se bastante.

            Daí a dois dias, Carmen e Alan partiram para a Suíça, com um monte de malas, sacos e caixas. Parecia um circo ambulante a sair da cidade, mas, no meio daquilo tudo, Carmen estava em êxtase, porque ia com ele.

            — Não te esqueça de voltar a tempo  — lembrou-lhe Allegra, quando foi levá-los ao aeroporto.

            Alan parecia irritado com a quantidade de coisas que Carmen comprara, e a imprensa aparecera, depois de ter sido prevenida, como era habitual, o que só aumentava a tensão que rodeava aquela partida já de si caótica.

            Por fim, os representantes VIP da companhia aérea conduziram-nos até ao avião. Allegra conseguiu que Alan assinasse os últimos documentos que trazia na pasta e regressou à cidade em paz, na limusine, e até arranjou tempo para telefonar a Jeff. Que sossego!

            — Como foi? — perguntou Jeff quando atendeu.

            — Inacreditável, como de costume.

            — Levavam os trajes de poliéster e as perucas? Deviam tê-lo feito.

            — Tem razão  — concordou, rindo. O Alan levava uma espécie de urso que acompanha Carmen para todo o lado, e ela uma parka cor de areia e um traje colado ao corpo que fazia saltar os olhos das órbitas a qualquer pessoa. Continuo pensando que devíamos casar em Las Vegas, como eles fizeram.

            — Também eu. A propósito, hoje falei com a minha mãe  — disse Jeff, com cautela. Ela quer que vamos visitá-la. Gostaria de lá ir antes de começar o filme.

            A filmagem das primeiras cenas teria início daí a duas semanas e Allegra não sabia o que havia de fazer. Andava tratando de todos os pormenores de última hora para a tournée de Bram Morrison e a verificação dos acordos e dos contratos absorvia-a completamente. Além disso, conhecera Tony Jacobson, um amigo de Jeff dos tempos de Harvard; era co-produtor do filme, e estava ciente de que os dois tinham muito trabalho a fazer antes de iniciarem as filmagens. Não sabia como poderiam ir ao Leste, ainda que fosse para conhecer a mãe de Jeff.

            — Não vejo como, Jeff... Mas vou tentar, prometo.

            — Eu disse-lhe que iríamos lá no último fim-de-semana de Abril. Susteve o fôlego, rezando para que ela concordasse. A mãe já ficara aborrecida por ter pedido Allegra em casamento antes de ela a conhecer. Pode?

            — Hei-de poder, hei-de poder..

            Dois dias depois começava a tournée de Bram. Felizmente era local, mas, mesmo assim, a viagem iria obrigá-la a um grande esforço.

            — Aproveitamos o fim-de-semana. Vamos num dia e voltamos no outro, se preferir. Jeff queria fazer tudo o que fosse ao encontro da conveniência dela, mas essa ida era muito importante para ele, e Allegra não lhe podia negar tal coisa. Ele sempre a ajudara e se mostrara compreensivo. Allegra devia-lhe isso. Se quiser, no regresso podemos passar por Boston para ir ver o seu pai  — sugeriu, tentando ser eqüitativo.

            Fez-se silêncio, e depois Allegra disse:

            — Charles Stanton não é meu pai.

            Jeff estava ansioso por saber o porquê de tanto ressentimento e Allegra ainda não lhe contara, mas, nessa noite, o comentário dela deu-lhe oportunidade de fazer a pergunta, quando estavam a preparar o jantar. Haviam-se tornado uns verdadeiros especialistas. Ele cozinhava a carne e ela tratava dos acompanhamentos; era boa em legumes, saladas e toda a espécie de guloseimas saborosas e decorativas. Jeff adorava fazer bifes, costeletas e pratos de frango. Quando lhe voltou a pôr a questão, seguiu-se o silêncio habitual.

            — Talvez eu devesse deixar de te perguntar  — admitiu. Há duas semanas que Allegra evitava tocar naquele assunto, desde que ele ouvira falar no pai dela. Mas gostava de saber por que motivo é que isso é tão traumático para você. Talvez precisemos conversar. O que pensa a tua psicóloga? Já lhe perguntaste? —  insistiu Jeff com delicadeza.

            Allegra fez um sinal afirmativo.

            — Disse-me para eu te contar.

            Fez-se de novo silêncio, enquanto o servia de arroz e de brócolos; Jeff acrescentou o peixe cozido. Era um jantar muito agradável. Allegra fizera também pão de alho e uma salada.

            — Nem mais! — exclamou ele com um gesto exuberante, quando se sentaram.

            Allegra esboçou um sorriso triste. Estava pensando em Charles Stanton. Era como se Jeff lhe tivesse lido os pensamentos.

            — Porque o odeia tanto, Alie? O que te fez ele, ou à tua mãe?

            Jeff calculava que tivesse sido uma coisa terrível, mas Allegra encolheu os ombros e começou a comer.