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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O CASO DA CRIANÇA DESAPARECIDA / Mimette Walters
O CASO DA CRIANÇA DESAPARECIDA / Mimette Walters

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O CASO DA CRIANÇA DESAPARECIDA

 

O tumulto perdeu o seu ímpeto quando as notícias sobre o massacre se espalharam pelos terrenos do bairro. Os pormenores eram vagos. Ninguém sabia quantas mortes tinham ocorrido, nem como tinham sido praticadas, mas castração, linchamento e um ataque com bastões haviam sido referidos. As ruas começaram a esvaziar-se rapidamente. Sentia-se uma culpa colectiva, mesmo não sendo expressa abertamente, e ninguém estava disposto a enfrentar uma acusação de assassinato.

 

Os jovens nas barricadas, que haviam mantido a polícia afastada com bombas incendiárias, encararam a situação da mesma forma. Mais tarde argumentariam, e com alguma razão, que não sabiam o que estava a acontecer mas, quando se começou a passar palavra sobre o ataque enlouquecido, também eles foram desaparecendo. Uma coisa era travar uma batalha honrada com o inimigo, outra muito diferente era ser acusado de auxiliar e incitar a insanidade da Humbert Street.

 

Os cabeçalhos dos jornais da manhã/seguinte 29 de Julho foram chocantes. «Turba ebriamente enlouquecida revolta-se»... «Pedófilo cruelmente assassinado»... «5 horas de selvajaria faz 3 mortos,

189 feridos»... O mundo exterior estremeceu de horror. Os jornalistas evocaram os suspeitos do costume. O Governo. A Polícia. Os assistentes sociais. Os responsáveis pela educação. Por todo o país, o moral dos serviços sociais atingiu o ponto mais baixo de sempre.

 

Porém, dos dois mil envolvidos nos tumultos, que se esforçaram por conseguir um relance da loucura assassina, nem um iria alguma vez admitir lá ter estado...

 


Do Director dos Serviços Sociais Terça-ffeira, 10 de Julho de 2001

 

Notificação Oficial para os Assistentes Sociais e de Saúde

 

Estritamente Confidencial Não deverá ser divulgado ao público

 

Realojamento: Milosz Zelowski, Humbert Street n.° 23, Bassindafe

 

anteriormente residente em Catlum Road, Portisfield.

 

Razão para mudança: Na mira dos residentes de^ortisfield após publicação de fotografia em jornal local. /

 

Estatuto: Pedófilo registado. Condenado por crime sexual

 

3 acusações ao longo de um período de 15 anos. Libertado em Maio 2001.

 

Ameaça à comunidade: Mínima. Natureza da infracção apenas sugere vigilância mínima.

 

Ameaça ao perpetrador: Grave.

 

A polícia alerta que Zelowski pode ser alvo de vigilantes se a sua identidade for revelada.


19-20 de Julho de 2001

 

APENAS ALGUNS MEMBROS do pessoal do Centro de Saúde Nightingale chegaram a ler o memorando que se referia à presença de um pedófilo no Bairro Bassindale. O memorando desapareceu sob uma pilha de papéis nos escritórios centrais, e acabou por ser arquivado por um dos funcionários administrativos, que partiu do princípio de que já tinha sido lido por todos. Para aqueles que o leram, era um documento sem nada de especial, que referia o nome e alguns pormenores de um doente novo. Para os restantes, era irrelevante, uma vez que isso não iria ou não deveria afectar a forma como lidariam com o homem.

 

Uma das assistentes sociais tentou fazer que o assunto fosse debatido numa reunião de pessoal, mas foi ignorada pela sua supervisora, que detinha a responsabilidade da agenda a tratar. Existiam antecedentes de hostilidade entre as duas mulheres nenhuma delas acreditava que a outra estivesse à altura do seu cargo o que pode ter prejudicado a forma como a supervisora lidou com o assunto. Estava-se no Verão, e todos queriam chegar a casa a uma hora razoável. Fosse como fosse, mesmo tendo os médicos concordado que era perigoso e irresponsável alojar um pedófilo num bairro cheio de crianças, não havia nada que pudessem fazer quanto a isso. A decisão do realojamento fora tomada pela-polícia.

 

/A mesma assistente social abordou a Dr.a Sophie Morrison, numa tentativa óbvia de fazer que a decisão da supervisora fosse revogada. Por essa altura, ela estava mais interessada em marcar pontos do que preocupada com o pedófilo, e Sophie Morrison, sendo ingénua e inexperiente em política de escritório, foi facilmente intimidada. Essa, pelo menos, foi a interpretação que Fay Baldwin fez da jovem alegre que se juntara ao centro dois anos antes.

 

Fay esperou pelo fim das consultas da tarde, efectuando então o seu bater habitual na porta de Sophie um rat-a-tat-tat de unhas quebradiças que produzia reacções idênticas em todos os seus colegas.

 

Podemos falar um bocadinho? perguntou ela alegremente, enfiando a cabeça no gabinete.

 

Receio que não disse Sophie, lançando-se freneticamente ao teclado e digitando repetitivamente «a ágil raposa castanha salta sobre o cão preguiçoso» para o monitor. Estou a pôr algumas notas em dia... e depois, casa. Desculpe, Fay. Que tal amanhã?

 

Não funcionou. Nunca funcionava. A mulher detestável esgueirou-se à mesma para o interior do gabinete e encostou à beira da secretária o seu traseiro magricela. Este estava arrumado, como de costume, numa saia de corte impecável; e, como de costume, não havia um único cabelo pintado fora do sítio. Ambos eram sinais exteriores e perfeitamente visíveis de que se considerava um modelo de eficiência e de profissionalismo, mas em proporção inversa ao que se passava dentro da sua cabeça. Era um círculo vicioso. Ela tentava desesperadamente agarrar-se à única coisa que dava algum sentido à sua vida o emprego. No entanto, o ódio pelas pessoas com quem convivia tanto os doentes como os profissionais atingira proporções desastrosas.

 

Sophie argumentara que a melhor medida a tomar seria aposentá-la antecipadamente e propor-lhe ajuda psiquiátrica de forma a que ela conseguisse lidar com o vazio que era a sua vida. O director do centro muito menos compreensivo para com virgens idosas e frustradas, cujo único talento era fazer mexericos preferia deixar as coisas como estavam. Ele previa que, em menos de três meses, se veriam livres dela de uma vez por todas. Se fosse uma das suas doentes, poderia ser diferente, mas ela rejeitara de forma coquete os médicos do Nightingale, favorecendo a concorrência do outro lado da cidade.

 

Eu nunca seria capaz de me despir em frente de pessoas conhecidas argumentara ela.

 

Como se alguém se preocupasse com isso.

 

Só vou demorar um minuto trinava agora Fay, na sua voz de menina. Pode dispensar-me sessenta segundos, não pode, Sophie?

 

Desde que não se importe que eu vá arrumando as minhas coisas ao mesmo tempo disse a médica, com um suspiro interior. Desligou o computador e fez deslizar a cadeira para trás, interrogando-se em qual dos seus doentes acabara de ter exercícios de dactilografia adicionados às suas notas. Era sempre a mesma coisa com Fay. Acabava-se por se fazer coisas que não se queria fazer, simplesmente para fugir à desgraçada da mulher.

 

Tenho um encontro com o Bob, às oito.

 

É verdade que se vai casar?

 

Sim assentiu Sophie, satisfeita por se encontrar em terrenos familiares. Finalmente consegui convencê-lo.

 

Eu não me casava com um homem relutante.

 

Foi uma piada, Fay. O seu sorriso desapareceu perante os cantos da boca virados para baixo da outra mulher. Bem, não é o que se pode chamar uma notícia bombástica. Puxou a trança, que lhe chegava à cintura, por cima do ombro e começou a desfazê-la com os dedos, inconscientemente chamando a atenção para a sua jovialidade inalterada.

 

Foi a Melanie Patterson que me contou disse Fay, ressentidamente. Teria mencionado o assunto a semana passada, mas ela disse que era suposto ser segredo.

 

Bolas! Bolas! Bolas!

 

Não quis arriscar, para o caso de o Bob mudar de ideias disse Sophie, concentrando-se na sua trança. Era uma grande injúria para com o seu noivo adorável, mas valeria a pena, se evitasse outra discussão com Fay sobre Melanie Patterson. Quase tinham chegado a vias de facto na semana anterior, e ela não queria repetir a dose.

 

Ela disse que a tinha convidado para o casamento.

 

Bolas! Bolas! E rebolas! Sophie levantou-se e dirigiu-se a um espelho na parede mais afastada. Tudo para evitar a censura no rosto da mulher.

 

Ainda falta uma eternidade mentiu. Os convites só vão ser enviados daqui a quatro semanas. Viu um ligeiro amenizar da expressão de Fay no espelho. Sobre o que queria falar? perguntou-lhe.

 

Bem, na verdade a Melanie também entra na conversa, por isso ainda bem que o nome dela veio à baila disse a mulher, de forma presunçosa. A Claire recusa-se a ouvir-me sobre isto... só diz que é um assunto que não tem discussão... mas eu não posso concordar com ela. Em primeiro lugar, eu levo o meu trabalho mais a sério do que ela. E, em segundo lugar, como a Melanie deixa os filhos dela à solta pela rua...

 

Sophie interrompeu-a.

 

Não faça isso, Fay avisou-a ela com uma aspereza invulgar. Você, na semana passada, deixou bem claro o que pensa sobre a Melanie.

 

Sim, mas...

 

Não. A jovem virou-se, e os seus olhos deixaram transparecer uma dose considerável de raiva.

 

Não vou falar outra vez sobre a Melanie consigo. Não vê que a Claire lhe estava a tentar fazer um favor, ao deixá-lo bem claro?

 

Fay empertigou-se de imediato.

 

Não o pode evitar disse ela. A responsabilidade por ela também é minha.

 

Sophie pegou na pasta.

 

Já não é. Pedi à Claire que designasse uma técnica mais nova para a Melanie. Ela ia dizer-lhe na segunda-feira.

 

A reforma deve ter-se aproximado repentinamente, pois o rosto extremamente empoado da mulher perdeu alguma cor.

 

Não pode reduzir a minha lista só porque não concordo consigo disse ela furiosamente.

 

Chamar cabra e puta a uma das minhas doentes e depois perder a cabeça quando a repreendi por causa disso, é um pouco mais sério do que não concordar ripostou Sophie friamente. É falta de profissionalismo, Fay.

 

É o que ela é sibilou a mulher. Você vem de uma boa família... devia ser capaz de o reconhecer. Voou-lhe baba da boca. Ela dorme com qualquer homem que mostre algum interesse... normalmente quando está bêbada... e depois anda para aí a pavonear-se como se fosse uma Madame, a dizer que está grávida outra vez... como se isso fosse motivo de orgulho.

 

Sophie abanou a cabeça. Não valia a pena discutir. Além do mais, ela detestava confrontos com esta mulher, pois tornavam-se invariavelmente pessoais. A vida de Fay afectara-lhe a forma de ver as coisas. Ela já devia estar a trabalhar no tempo em que a ilegitimidade era olhada de lado e as raparigas «que não passavam daquilo que eram» estavam escondidas em lares e eram tratadas com desprezo. Por isso, o seu estatuto de mulher de virtude teria contado para alguma coisa, em vez de a ter tornado um objecto de pena ou de escárnio. O mistério residia na razão por que escolhera a carreira de assistente social, embora, tal como o director gostava de realçar, quando ela começara a trabalhar, fazer sermões, censurar e treinar as massas sujas, fossem o ponto central da assistência social. Sophie abriu a porta do gabinete.

 

Vou para casa anunciou ela firmemente, recuando um passo e deixando claro que esperava que a outra mulher saísse primeiro.

 

Fay levantou-se, a boca mexendo-se descontroladamente, como a de uma idosa demente.

 

Bem, não diga que não a avisei disse ela de forma obstinada. Pensa que pode tratar toda a gente da mesma maneira... mas não pode. Eu sei como são estes animais... vi o estrago que eles fazem aos pobrezinhos de que abusam. É tudo tão escondido... tudo feito por trás de portas fechadas... homens nojentos e repugnantes... mulheres tolas que fecham os olhos ao que se está a passar... e tudo para quê? Pelo sexo. Cuspiu a palavra como se esta soubesse mal. Ainda assim... pelo menos as minhas mãos estão limpas. Ninguém pode dizer que eu não tentei. Caminhou rigidamente para fora do gabinete.

 

Com um franzir de cenho de preocupação, Sophie observou-a sair. Deus do céu! Animais...? Homens nojentos e repugnantes...? Fay perdera completamente a razão. Já era mau o suficiente acusar Melanie de ser uma rameira. Era cem vezes pior acusá-la, e aos seus homens, de abusarem de crianças.

 

Mas Sophie não fazia ideia de que um pedófilo fora alojado na porta ao lado da casa de Rosie e de Ben Patterson, de quatro e dois anos de idade.

 

O termo «bairro de esgoto» pode ter sido inventado para Bassindale, que se erguia como um monumento à engenharia social das décadas de 50 e de 60 do século XX, quando os projectistas haviam invadido a cintura verde, de forma a providenciar habitações subsidiadas aos que possuíam baixos rendimentos. Neste caso, oitenta hectares de mata, que faziam fronteira com a Herdade Bassindale, tinham sido submetidos ao machado e substituídos por cimento.

 

Deveria ter sido idílico. Um projecto válido, no esforço do pós-guerra pela igualdade e pela oportunidade. Uma possibilidade de melhoria. Casas de qualidade cercadas pela natureza. Ar puro e espaço.

 

Mas todas as estradas do perímetro que cercava os campos eram becos sem saída. Tal como os raios de uma roda de bicicleta, terminavam num aro sólido casas com muros de jardim feitos de tijoleira que protegiam as plantações circundantes e os rebanhos dos habitantes do bairro e dos seus cães. As únicas duas vias de acesso, a Bassindale Row e a Forest Road, faziam um arco sobre si próprias, criando um W invertido e que não estava ligado, providenciando quatro pontos de acesso através da cintura de betão que mantinha o bairro escondido do tráfego intenso na estrada principal. Vistas do ar, a Bassindale e a Forest pareciam os fios de suporte de uma teia de aranha, com um rendilhado de ruas e de becos sem saída como fios transversais. Do solo tal como era visto pela polícia eram os potenciais redutos que podiam transformar Bassindale numa fortaleza. O bairro era uma bomba-relógio forrada a cimento.

 

E por que não havia de ser?

 

A procura de habitações que se seguiu à explosão demográfica após a guerra levara a projectos pobres e a construções desleixadas. O resultado inevitável foi uma manutenção muitíssimo dispendiosa, sendo resolvidos apenas os problemas mais visíveis e flagrantes. As doenças eram endémicas, especialmente entre os mais jovens e os mais velhos, para quem as condições de humidade e de frio, juntamente com dietas pobres, enfraqueciam a saúde. As depressões eram comuns, tal como o era o vício dos comprimidos receitados.

 

Tal como a estrada para o inferno, Bassindale começara com boas intenções, mas agora pouco mais era do que um receptáculo para os rejeitados pela sociedade. Uma esponja constante do erário público. Uma fonte de ressentimento para os contribuintes, de irritação para a polícia e de desespero infindável para os professores e assistentes sociais que lá tinham de trabalhar. Para a maioria dos habitantes era uma prisão. Os idosos, frágeis e assustados, barricavam-se nos seus apartamentos; mães solteiras desesperadas e crianças sem pai mantinham-se afastadas de problemas, vivendo as suas vidas atrás de portas fechadas. Apenas jovens revoltados e alienados floresciam brevemente nesta paisagem estéril, percorrendo as ruas e controlando o tráfico de droga e a prostituição. Antes de, também eles, acabarem na prisão.

 

Em 1954, um vereador trabalhista idealista fizera que uma placa fosse erigida no fim da Bassindale Row Sul, o primeiro ponto de entrada após a estrada principal. Dizia, inofensivamente: «Bem-vindo a Bassimdale». Ao longo dos anos, a placa foi regularmente vandalizada com graffitis, sendo regularmente substituída pelo município local. Depois, em 1990, durante o último ano de mandato de Margaret Thatcher, o mesmo município, sob pressão para que reduzisse os gastos, cancelou o orçamento para a substituição de placas. A partir daí, permitiu-se que os graffitis continuassem, intocados pelos habitantes de Bassindale, que os viam como uma descrição mais verdadeira do local onde viviam.

 

BEM-VINDO A BAIRRO ASSI D

 

Bairro Ácido. Um local de privações, onde a instrução era pobre, as drogas endémicas e as brigas normais.

 

Fay Baldwin, revendo obsessivamente a rejeição que Sophie Morrison lhe transmitira no dia anterior, apertou violentamente o braço da pequena Rosie Patterson, de quatro anos de idade, para impedir que a criança limpasse as mãos e o nariz sujos ao fato acabado de vir da lavandaria de Fay. Esta encontrara a criança na rua, a brincar com o irmão, e não resistiu à oportunidade de dizer umas verdades à mãe grávida adolescente das crianças, especialmente uma vez que Melanie ainda não deveria saber que Fay seria substituída como sua assistente social.

 

Sentiu-se justificada ao encontrar a rapariga enrolada no sofá-cama, com um cigarro numa mão, uma lata de cerveja na outra e os Vizinhos a passar na televisão. A situação provava tudo o que sempre dissera sobre a incapacidade de Melanie como mãe. Menos fácil de aceitar era a forma como Melanie estava vestida, com um top e uns calções minúsculos, que mostravam umas longas pernas castanhas e uma barriga levemente arredondada pelo feto de seis meses.

 

A inveja corroeu a alma de Fay enquanto fingia para si própria estar chocada por ver alguém exibir-se de forma tão desavergonhada.

 

Assim não pode ser, Melanie foi o sermão severo que deu à rapariga. A Rosie e o Ben são muito pequenos para estarem a brincar sozinhos lá fora. Devias ser mais responsável.

 

Os olhos da rapariga continuaram colados à telenovela.

 

A Rosie sabe o que está a fazer, não sabes, meu amor? Diz à senhora.

 

Na binques ó pé do caros. Na binques com gulhas entoou a criança de quatro anos, dando uma palmada gratuita na cabeça do seu irmão de dois anos como que para mostrar que sabia tomar conta dele.

 

Eu disse-lhe disse Melanie com orgulho. É uma menina bonita, a Rosie.

 

Fay teve de invocar todo o seu autocontrolo para não dar um estalo à criatura descarada. Passara trinta anos neste buraco infernal, tentando transmitir noções sobre saúde, higiene e contracepção a várias gerações das mesmas famílias, e a situação estava a ficar cada vez pior. Esta tivera a primeira filha aos catorze anos, o segundo aos dezasseis e já estava grávida do terceiro antes de chegar aos vinte. Fazia apenas uma vaga ideia de quem eram os pais, pouco lhe importava, e largava regularmente os filhos com a sua própria mãe cujo filho mais novo era mais novo do que Rosie para ter uns intermináveis dias de folga, a fim de «pôr as ideias em ordem».

 

Era preguiçosa e sem instrução, e fora instalada nesta pequena casa porque a assistência social pensava que ela poderia transformar-se numa mãe melhor se estivesse afastada da influência «pouco positiva» da mãe. Era uma esperança vã. Ela vivia numa imundície inacreditável, estava regularmente pedrada ou bêbeda, e alternava entre um amor arrebatador pelos filhos, quando estava para aí virada, e pela sua total ignorância quando não estava. Dizia-se que «pôr as ideias em ordem» era um eufemismo para uma carreira intermitente (entre cada gravidez) como modelo mas, como não queria que o subsídio fosse cortado, nunca o assumiu.

 

Vão tirar-te os filhos se continuares a negligenciá-los avisou a mulher.

 

Pois, pois, blá, blá. Melanie lançou-lhe um olhar de entendida. Gostava que isso acontecesse, não gostava, Menina Baldwin? Ia fazer com que mos tirassem num piscar de olhos, se alguma vez encontrasse nódoas negras. Aposto que fica doente por nunca ter encontrado nenhuma.

 

Irritada, a mulher ajoelhou-se em frente da criança.

 

Sabes por que não deves brincar ao pé dos carros, Rosie?

 

A Mamã bata gente.

 

Melanie olhou-a zangada e deu um bafo no seu cigarro. Nunca te bati na vida, querida disse ela, descontraidamente. Nunca te vou bater. Não brincas ao pé dos carros porque são perigosos. É isso que a senhora queria que dissesses. Lançou a Fay um olhar maldoso. Não é verdade, Menina?

 

Fay ignorou-a.

 

Disseste que não devias brincar com agulhas, Rosie, mas sabes como é uma agulha?

 

Sei, pois. Um dos meus papás usa gulhas.

 

Aborrecida, Melanie balançou as pernas para fora do sofá e colocou a beata do cigarro dentro da lata de cerveja.

 

Deixe-a em paz disse à mulher. Você não é da polícia, nem é a nossa assistente social, por isso não tem nada que fazer inquéritos aos meus filhos sobre os pais deles. Eles estão saudáveis, levaram as vacinas e são pesados regularmente. Não precisa de saber mais nada. Percebeu? Não tem o direito de entrar por aqui adentro sempre que lhe apetece. Só há uma pessoa no Centro que pode fazer isso... e essa pessoa é a Sophie.

 

Fay levantou-se. Algures, nos recônditos da sua mente, uma voz interior dizia-lhe para ter cuidado, mas estava demasiado ressentida para lhe prestar atenção.

 

Os teus filhos têm estado no registo «de risco” desde que nasceram, Melanie explodiu. Isso significa que eu tenho o direito, e o dever, de os inspeccionar sempre que ache necessário. Olha para eles! Estão nojentos. Quando foi a última vez que qualquer um deles tomou banho, ou mudou de roupa?

 

A Assistente sabe que eu adoro os meus filhos e é só isso que interessa.

 

Se gostasses deles, tomavas conta deles.

 

E o que é que você sabe sobre isso? Onde estão os seus filhos... Menina?

 

Sabes muito bem que não tenho filhos.

 

Ora exactamente. Puxou a filha para junto de si, misturando o seu belo cabelo louro com o da criança. Quem é que te ama mais do que tudo, Rosie?

 

A Mamã.

 

E quem é que tu amas, querida?

 

A criança encostou o dedo aos lábios da mãe.

 

A Mamã.

 

E queres morar com a Mamã ou com a senhora? Lágrimas afloraram os olhos da pequenina.

 

Contigo, contigo berrou ela, lançando os braços em redor do pescoço de Melanie, como se esperasse ser arrancada dela a qualquer momento.

 

Está a ver disse Melanie à assistente social com um sorriso de triunfo. Diga-me lá agora que eu não tomo conta dos meus bebés.

 

Algo finalmente aconteceu dentro de Fay. Talvez a sua noite sem dormir começasse a fazer-se sentir. Talvez, simplesmente, as observações sobre uma vida vazia fossem a última gota. Meu Deus, és tão ignorante rebentou ela. Achas que é difícil manipular os sentimentos de uma criança? Gesticulou furiosamente na direcção da janela. Há um pedófilo nesta rua que te pode tirar a Rosie com uma mão-cheia de rebuçados, porque ela nunca aprendeu quando é que o amor é dado de forma honesta e quando é que não é. E quem é que a sociedade vai culpar, Melanie? A ti? Deu uma gargalhada seca. É claro que não... Vais chorar lágrimas de crocodilo enquanto as pessoas que verdadeiramente se preocuparam com a Rosie... eu e a tua assistente social, são crucificadas por a terem deixado com alguém tão inadequado.

 

Os olhos da rapariga estreitaram-se.

 

Acho que não me devia estar a dizer isso.

 

Por que não? É a verdade.

 

Então onde é que está esse pedófilo? Em que número?

 

Fay percebeu demasiado tarde que tinha ido longe de mais. Era uma informação confidencial e ela dissera-o num ataque de fúria.

 

O problema não é esse disse ela, de forma pouco convincente.

 

Uma merda é que não é! Se eu tenho um tarado a morar ao pé de mim, quero saber tudo. Saltou do sofá e encarou de cima a pequena solteirona. Eu sei que acha que eu sou uma péssima mãe, mas nunca lhes fiz mal, nem nunca vou fazer. A suj idade não mata um miúdo, nem uns palavrões, de vez em quando. Quase colou o rosto ao da mulher. Mas os tarados matam. Onde é que ele está? Como é que se chama?

 

Não tenho autorização para te dizer isso. Melanie fechou as mãos, formando punhos.

 

Quer que a obrigue a dizer-me? Aterrorizada, Fay recuou para a porta.

 

É um nome polaco disse ela cobardemente, antes de fugir.

 

Ela tremia quando entrou na Humbert Street. Como podia ter sido tão estúpida? Será que Melanie a iria denunciar? Será que seria feito um inquérito? Teria posto a sua reforma em risco? A sua mente consumia-se, procurando desculpas. A culpa nem tinha sido dela. Alojar um pedófilo no Bairro Ácido era uma ideia estúpida. Nunca poderia continuar em segredo. A prisão era o segundo lar dos homens do bairro. Alguém o iria reconhecer da altura em que cumprira pena. O medo dela começou a esbater-se. Se alguém perguntasse, diria que tinha ouvido dizer que já acontecera. Quem sabia onde começavam os boatos neste sítio? Os rumores mais ridículos espalhavam-se como fogo batido a vento. Ela até nem tinha dito nenhum nome a Melanie...

 

Com a sua confiança a desabrochar, começou a descer a rua, olhando de esguelha quando passou pelo número 23. Um homem idoso encontrava-se à janela. Ele encolheu-se quando os seus olhares se cruzaram, receando que reparassem nele, e ela sentiu-se justificada. Ele tinha um ar pálido e doente como uma larva de insecto e o instintivo arrepio de repulsa que ela sentiu desfez qualquer intenção de o avisar, ou à polícia, de que a vida dele corria perigo.

 

Fosse como fosse, ela odiava profundamente os pedófilos. Vira demasiadas vezes o seu trabalho nas mentes e nos corpos das crianças que lhes chamavam Papá.

 

Contribuição para o site da Internet Preocupação pelas Crianças artigo introduzido em Março de 2001

 

Morte da Inocência

 

No fim de um dos mais horríveis julgamentos de assassínio dos últimos dez anos, Marie-Thérèse Kouao, 44, e o seu namorado, Cari Manning, 28, foram condenados a prisão perpétua pela tortura e assassinato brutais da sobrinha-neta de Kouao, Anna Ctimbie, de 8 anos. Anna, nascida e criada na Costa do Marfim, fora confiada ao cuidado de Kouao por pais extremosos, após a tia assassina, que se apresentava à sua vasta família em África como sendo uma «mulher abastada e de sucesso», se ter oferecido para dar à criança uma vida melhor em Inglaterra. Na verdade, ela era uma vigarista que precisava de uma «filha» para manipular a segurança social.

 

A pequena Anna morreu devido a hipotermia e a subnutrição, após ter sido forçada a viver nua numa casa de banho, de pés e mãos atados, e coberta apenas com um saco do lixo. Ela estava presa como um cão, e era alimentada com restos que tinha de comer do chão. O seu corpo exibia 128 marcas de agressão, que Kouao, fazendo-se passar por mãe, conseguiu fazer crer a médicos e assistentes sociais terem sido auto-infligidas. Também conseguiu convencer líderes religiosos a levarem a cabo um exorcismo à criança traumatizada e atormentada, invocando a possessão por demónios.

 

Durante o julgamento, Kouao, que trazia consigo uma Bíblia para convencer o júri de que era uma mulher religiosa, disse que estava a ser atacada pelos outros presos da prisão de Holloway, onde se encontrava em prisão preventiva. Foi uma demonstração desavergonhada do duplo padrão por que esta assassina se regia. «Eles batem-me e partem as minhas coisas», chorou ela. «É muito difícil lidar com a situação.» Em resposta, a acusação exigiu furiosamente: «E será que foi fácil para a Anna lidar com aquilo que lhe estava a fazer?”

 

É tentador considerar Kouao uma aberração malévola, mas as estatísticas de assassinato infantil no Reino Unido (RU) mostram números alarmantes. Em média, morrem duas crianças por semana às mãos dos seus pais ou educadores, e outros milhares são tão gravemente maltratados que os estragos físicos e psicológicos se tornam irreparáveis. Em contraste, menos de cinco crianças por ano são mortas por estranhos.

 

Quando o News of the World, o jornal de maior tiragem do RU, lançou, no ano passado, a sua campanha para «desmascarar» pedófilos, em sintonia com a Lei de Megan dos EUA, publicando nomes, moradas e fotografias de prevaricadores conhecidos, as opiniões sobre a eficácia da campanha polarizaram-se. O público, chocado por um recente e horrível assassinato de uma criança cometido por um suspeito pedófilo, recebeu-a de braços abertos. A polícia, os agentes de liberdade condicional e os advogados de violação infantil argumentaram que era contraproducente, e que provavelmente forçaria os pedófilos a abandonarem a terapia e a esconderem-se, com receio de ataques por parte de vigilantes.

 

Os avisos rapidamente se tornaram reais. De acordo com um relatório elaborado por agentes de liberdade condicional, criminosos condenados por crimes sexuais por toda a Grã-Bretanha já tinham mudado de residência, alterado os seus nomes e interrompido os contactos com a polícia, ou estavam a considerar a hipótese de o fazer. Ainda mais alarmante foi o facto de, após a publicação no tablóide de domingo de 83 nomes, moradas e fotografias, bandos de vigilantes enraivecidos terem atacado os lares de alguns destes alegados pedófilos e terem causado tumultos nas ruas junto destas residências.

 

O alvo era, em quase todos os casos, uma pessoa inocente, quer por o jornal ter publicado uma morada errada ou desactualizada, quer por os vigilantes acreditarem que o proprietário se assemelhava a uma das fotografias. O incidente mais bizarro e alarmante foi a vandalização da casa e do carro de uma pediatra, levada a cabo por um arruaceiro ignorante, que pensou que «pediatra» é um médico que se especializa no diagnóstico e no tratamento de doenças de crianças era sinónimo de «pedófilo» um adulto que se sente sexualmente atraído por crianças.

 

No seguimento destes incidentes, o News of the Woríd interrompeu a sua campanha, após ter prometido no início «nomear e humilhar» todos os pedófilos do RU. «Agora a nossa tarefa vai ser forçar o governo a agir {de acordo com a lei de Megan]», disse o editor pronto para a batalha, «e vamos nomear e humilhar todos os políticos que nos barrem o caminho.”

 

O debate sobre como lidar com os pedófilos continua, mas as estatísticas mostram que milhares de crianças se encontram em maior perigo dentro das suas próprias casas do que na rua. Na sequência de um recente julgamento de pedófilos, acusados de distribuir imagens indecentes de crianças pela Internet, um porta-voz da polícia realçou um perturbador elemento doméstico na pornografia que agora está a ser veiculada. «A pornografia infantil inicial era filmada em estúdios», disse ele, «mas as imagens mais recentes parecem ter sido filmadas dentro da casa das crianças. Vêem-se brinquedos em fundo. Isto sugere que um ou ambos os pais estiveram envolvidos no crime.”

 

Por mais confortável que seja acreditar que apenas estranhos sádicos perseguem as crianças, devemos prestar atenção à pedofilia que se encontra mais próxima de nós. A pequena Anna Climbie foi violentada e assassinada pelas pessoas que deveriam estar a cuidar dela. Incontáveis bebés são abanados até à morte pelas mãos de educadores irritados. A linha da criança regista 15 000 chamadas por dia de crianças com problemas. A maior parte dos abusos sexuais é perpetrada no interior do lar. A maior parte dos pedófilos foram vítimas de abusos sexuais em crianças. A pornografia infantil existe porque os pais tomam parte nela, a vendem ou abandonam os seus filhos à mercê da corrupção.

 

Será que já estamos prontos para «nomear e humilhar» os verdadeiros criminosos?

 

Anne Cattrefl

 

20-26 de Julho de 2001

 

A SUSPEITA NA Humbert Street recaiu sobre o número 23, não por o inquilino ter um nome polaco, mas por um homem adulto se ter mudado recentemente. A casa pertencera a Mary Fallon, até que um dos seus cinco filhos morrera de pneumonia enquanto esperava por uma cirurgia devido a problemas cardíacos. O município negava quaisquer culpas, mas mudou apressadamente a família para o clima mais saudável do mais recente Bairro de Portisfield, que ficava a trinta quilómetros de distância, no outro lado da cidade, e era muito mais atraente, tendo beneficiado das lições aprendidas no Bairro Ácido.

 

Depois disso, o número 23 ficara vazio durante meses, com as janelas tapadas com tábuas, até que os funcionários municipais apareceram inesperadamente para arejar o local com um pouco do quente sol de Julho e para pintar as rachas e o bolor do estuque. Pouco tempo depois, o novo inquilino mudou-se. Ou inquilinos? Havia alguma confusão sobre quantas pessoas ali estavam. Os vizinhos do número

25 diziam que eram dois homens ouviam o som das conversas através das paredes mas apenas um saía para fazer compras. Um tipo de meia-idade com cabelo cor de areia, pele pálida e um sorriso tímido.

 

Também havia alguma confusão sobre quando e como tinham chegado, pois ninguém se lembrava de ter visto um camião de mudanças na rua. Espalhou-se o boato de que a polícia os tinha escoltado durante a noite, juntamente com a mobília, mas a velha Sr.a Carthew, do número 9, que se sentava à janela todo o dia, disse que eles tinham chegado numa carrinha, numa segunda-feira de manhã, e que tinham eles próprios ajudado o condutor a descarregá-la.

 

Ninguém acreditou nela, pois os seus dias maus eram mais numerosos do que os bons, e parecia improvável que ela estivesse lúcida o suficiente para saber que era uma segunda-feira, ou mesmo para recordar os acontecimentos posteriores.

 

O envolvimento policial era mais aceitável, por fazer sentido. Especialmente para os jovens, que viviam obcecados pela teoria da conspiração. Por que tinham os homens sido trazidos pela calada da noite? Por que nunca saía o segundo homem durante o dia? Porque era o rosto do homem que fazia compras tão pálido? Era uma contaminação. Como algo saído dos Ficheiros Secretos. Vampiros pervertidos que caçavam em bandos.

 

A Sr.a Carthew disse que eram pai e filho, invocando ter aberto a janela para lhes perguntar. Ninguém acreditou nela porque não existia uma única janela em todo o Bairro Ácido que uma velha tonta senil conseguisse abrir. Seriam precisos martelos e escopros para as arrancar dos caixilhos. E mesmo que tivesse sido capaz de abrir a janela, a casa dela ficava demasiado longe do número 23 para aquele tipo de amena cavaqueira.

 

A interpretação preferida era a de que eram homossexuais duplamente doentes, a partir desse momento e as mães com filhas suspiraram de alívio em silêncio, ao mesmo tempo que alertavam os rapazes para que tivessem cuidado. Os mais novos deixaram-se ficar por perto da casa por uns dois dias, gritando insultos e mostrando os rabos mas, como nada aconteceu e ninguém surgiu à janela, depressa se aborreceram e regressaram aos salões de jogos.

 

Às mulheres foi mais difícil perder o interesse. Continuaram a tecer comentários entre elas e a deitar o olho às idas e às vindas na Humbert Street. Algumas assistentes sociais responderam às perguntas, mas poucas mulheres acreditaram nas respostas, que eram pouco específicas e davam azo a várias interpretações.

 

É claro que eles não vão despejar aqui pervertidos, só porque este é um bairro de esgoto. Acredite em mim, se houvesse um pedófilo perigoso nesta área, eu seria a primeira a saber...

 

Talvez seja uma trama ignóbil para que vocês tenham mais cuidado com os vossos filhos...

 

Olhem, hoje em dia os pedófilos que cumpriram pena são constantemente vigiados. Vocês deviam preocupar-se é com os aspirantes a psicopatas que vêm do exterior...


Estas respostas foram repetidas incessantemente pela comunidade, sendo que ninguém era capaz de dizer o quão fidedigno era o discurso indirecto. Contudo, tornaram o simples facto de parecer não existir uma negação taxativa, como uma prova daquilo em que sempre acreditaram.

 

Existia um conjunto de regras no Bairro Ácido e outro para o resto do mundo.

 

Quinta-feira, 26 de Julho de 2001 número 21 da Humbert Street Bairro Bassindale

 

Melanie ofereceu uma chávena de chá a Sophie Morrison depois de a médica ter deixado que Rosie e Ben ouvissem o bater do coração do bebé pelo estetoscópio. Ela estava deitada no sofá, na sala de estar, rindo, enquanto os seus filhos pressionavam os dedos pequeninos contra a sua barriga, na esperança de conseguirem sentir o seu irmão ou a sua irmã a mexer.

 

Não são tão queridos? disse ela, lançando beijos para os caracóis louros, antes de balançar as pernas para o chão e de se levantar.

 

Aceito uma chávena disse Sophie com um sorriso, ao mesmo tempo que via dois rapazes adolescentes pararem de boca aberta, e olharem pela janela para a barriga nua e inchada de Mel. Tens público murmurou ela.

 

Tenho sempre disse a rapariga, puxando o seu top para baixo. Não se pode fazer nada neste sítio sem que o mundo inteiro e arredores esteja a ver.

 

A casa de Melanie era uma das casas intermédias da Humbert Street, que fora dividida cerca de trinta anos antes para criar duas casas mais pequenas, uma à frente e outra atrás. Uma solução mais sensata teria sido converter as propriedades em apartamentos, mas isso implicaria dividir as fachadas de forma a criar novas portas de entrada, e insonorizar os dois andares, o que seria muito dispendioso. Um inteligente qualquer do departamento de planeamento tivera uma ideia melhor. O seu argumento era o seguinte: seria mais rápido, mais barato e causaria um choque menor aos inquilinos, dividir as casas ao meio com paredes de alvenaria, preencher os espaços entre as casas de cada lado com novas portas de entrada e com escadas para cada casa mais pequena, e utilizar o corredor, as escadas e a soleira existentes para cozinhas e casas de banho.

 

Foi uma solução infeliz para toda a gente, criando três classes de inquilinos naquela rua. Existiam aqueles, como os homens do número 23, que tinham a sorte de ficar com uma casa completa e com um jardim. Aqueles, como a Avó Howard, que vivia na pequena casa por trás de Melanie, que também desfrutava de um jardim completo. E aqueles à frente, que tinham apenas um pedaço de relva e um muro pequeno entre eles e a estrada. Isto transformara Humbert Street num túnel de cimento, e o ressentimento era enorme, especialmente entre aqueles que não tinham qualquer acesso aos jardins das traseiras.

 

A Avó Howard ainda te dá problemas? perguntou Sophie, pegando no pequeno Ben ao colo e fazendo-lhe uma festa, enquanto a mãe dele se dirigia para a cozinha.

 

Oh, sim, está sempre a bater com o martelo dela na parede, por causa do barulho dos miúdos, mas desistimos do jardim. Ela nunca vai deixá-los brincar um bocadinho. O meu Jimmy tentou convencê-la antes de ter ido dentro por causa dos roubos, mas ela chamou-lhe preto e disse-lhe para desaparecer dali. Eu até nem me importava muito, mas aquilo é só ervas daninhas. Ela nem sequer vai lá.

 

Sophie fez uma festa, com as costas da mão, na face de Ben. Para ela, era de loucos que o Departamento de Habitação deixasse ficar uma idosa, que nunca saía, nas traseiras, quando duas crianças pequenas, que ansiavam por correr e brincar em segurança, estavam restritas à frente, mas não havia qualquer hipótese de argumentação. Era ponto assente que a Avó Howard fora inquilina do número 21a desde 1973, e tinha direito a ficar ali até morrer.

 

Como te tens estado a dar com a bebida e com os cigarros? Está a ficar mais fácil?

 

Acho que sim disse a rapariga alegremente. Reduzi os cigarros para cinco por dia, e a bebida a duas latas... uma ao almoço e outra ao jantar... às vezes duas. Mas já não me embebedo. Deixei-me completamente disso. Ainda fumo um charro de vez em quando, mas não faz grande diferença, porque não tenho dinheiro para isso.

 

Sophie estava impressionada. No início da gravidez a rapariga fumava quarenta cigarros por dia, e o ponto alto da sua semana era ficar completamente pedrada e bêbeda nos clubes, todos os sábados à noite. Mesmo dando margem para a ilusão do viciado, era um grande corte que ela parecia estar a manter com sucesso nos últimos dois meses.

 

Muito bem disse ela simplesmente, sentando-se no sofá e deixando espaço para que Rosie se sentasse ao seu lado.

 

Tal como Fay, ela pensava que ambas as crianças precisavam com urgência de um banho, mas eram miúdos robustos e confiantes, e não se preocupava muito com a sua saúde mental ou física. Na verdade, ela gostava que alguns dos seus pais de classe média pudessem aprender um pouco da forma como os Patterson criavam os seus filhos. Achava exasperante a forma como muitos desses pais criavam os filhos em ambientes desinfectados e livres de germes, e depois insistiam em fazer testes de alergia, pois os filhos tinham crises intermináveis de tosse e de espirros. Como se a lixívia fosse uma espécie de substituto para a imunidade natural.

 

Pois, bem, gostava que aquela vaca da Menina Baldwin pensasse o mesmo disse Melanie mal-humorada, quando regressou com as chávenas de chá. Ficou a olhar para mim cheia de raiva porque eu estava a fumar um cigarro e a beber uma cerveja, a ver os Vizinhos. Se ela tivesse perguntado, eu tinha-lhe dito que era o primeiro cigarro do dia, mas ela não é como a Sophie... Ela pensa sempre o pior das pessoas, quer tenha razão ou não.

 

Quando é que ela esteve aqui? perguntou Sophie, enquanto colocava Ben no chão para aceitar a chávena.

 

Melanie deixou-se cair ao lado dela.

 

Não me lembro... para aí na semana passada... quinta-feira... sexta. Estava com um humor de merda. A responder-me como se fosse um cãozito assanhado.

 

Então tinha sido depois de Fay saber que ia ser substituída, pensou Sophie irritada.

 

Ela mencionou que eu pedi a uma das assistentes mais novas para a substituir?

 

Não. Só me deu o sermão do costume. E como é esta nova?

 

Passada disse Sophie, enquanto dava um gole no chá. Cabelo cor-de-rosa... cabedal preto... botas Doe Martens... anda de mota... adora crianças. Vocês as duas vão dar-se às mil maravilhas.

 

É uma bela diferença daquela cara de cu. Melanie aninhou a sua chávena entre as mãos, fitando as profundezas leitosas e tentando decidir a melhor forma de fazer a pergunta que a atormentava. De forma subtil ou directa? Escolheu a subtil. O que acha dos pedófilos? indagou.

 

O que queres dizer com isso?

 

Tratava de um?

 

Sim.

 

Mesmo que soubesse que ele tinha feito alguma coisa aos putos?

 

Receio que sim. Sophie sorriu para a expressão de desaprovação da jovem. Não tinha grande escolha, Mel. É o meu trabalho. Não posso escolher os meus doentes. Mas afinal, por que perguntas?

 

Só pensei se tinha algum registado consigo.

 

Que eu saiba não. Eles não têm marcas pretas ao lado dos nomes. Melanie não acreditou nela.

 

Então por que é que a Menina Baldwin sabe sobre aquele aqui da rua e a Sophie não?

 

Sophie ficou verdadeiramente surpreendida.

 

Do que estás tu a falar?

 

Pensei que talvez me pudesse dizer o nome dele... ou pelo menos aquele que ele está a usar. Sabe, é que toda a gente pensa que ele chegou agora, mas eu, eu não sei se ele não tem estado sempre aqui. Fez um gesto com a mão na direcção da janela. Há um velho jarreta no número 8 que desapareceu por seis meses no ano passado, e depois disse que tinha estado a visitar a família na Austrália. Acho que pode ser ele. E está sempre a fazer festinhas à nossa Rosie, e a dizer que ela é muito bonita.

 

Sophie estava estupefacta.

 

O que disse exactamente a Fay Baldwin?

 

Que havia um pedófilo na nossa rua, e que ele vinha buscar a nossa Rosie sempre que tivesse vontade.

 

Deus do céu!

 

Como é que isso começou?

 

Da maneira habitual. Sermão... sermão... sermão. Tentou interrogar a Rosie sobre o pai, depois acusa-me de ser uma péssima mãe quando lhe disse umas verdades. Disse-lhe mais ou menos para ir à merda... depois... pum!... dá-me com essa do tarado que vai seduzir a Rosie com rebuçados. Assustou-me como o caraças, foi o que foi.

 

Sinto muito escusou-se Sophie, visões de processos a flutuarem à frente dos olhos. Foi depois de eu a ter despedido do teu caso, por isso ela talvez se estivesse a sentir infeliz. Mas ela não te devia ter provocado, especialmente dessa maneira. Suspirou. - Olha, Mel, eu não vou justificar o comportamento dela, mas ela tem alguns problemas neste momento. Está assustada com a reforma... sente que a sua vida é um pouco vazia. Esse tipo de coisas. Ela adorava ter casado e ter tido filhos... mas isso não lhe aconteceu. Consegues compreender isso?

 

Melanie encolheu os ombros.

 

Ela estava a foder-me o juízo, por isso fui buscar isso de ela não ter filhos. Ficou mesmo lixada. Começou a gritar comigo.

 

Sophie recordava-se da forma como Fay reagira quando tinham falado.

 

Esse assunto é delicado para ela. Levantou-se e pousou a chávena na mesa. Teve o cuidado de não mostrar como estava zangada. Conseguia imaginar a fúria do director se o centro fosse processado e tivesse de pagar uma compensação por «dor e sofrimento». Aquela maldita mulher devia ter sido internada há anos. Faz-me um favor, Mel. Esquece tudo aquilo que ela disse. Ela passou das marcas... não o devia ter feito. És demasiado sensata para dares importância àquilo que a Fay Baldwin diz.

 

Ela ficou assustada como a merda quando lhe disse que não devia andar a dizer aquelas coisas.

 

Não me surpreende. Sophie olhou para o relógio. Olha, eu tenho de me ir embora. Vou falar com a substituta da Fay, vou dizer-lhe o que se passou, e peço-lhe para vir cá o mais depressa possível. Podes falar sobre aquilo que quiseres com ela... é uma excelente ouvinte, e eu prometo que ela não te vai dar sermões. Parece-te bem?

 

Melanie levantou um polegar.

 

Porreiro. Esperou que a porta se fechasse e depois colocou a filha sobre o joelho. Estás a ver, querida. Isto é uma conspiração. Uma estúpida abre o jogo, porque é uma vaca frígida, e todos os outros fingem que não sabem nada. Recordou o terror de Fay enquanto fugia de sua casa. Mas a vaca frígida estava a dizer a verdade e o resto está a mentir.

 

A mensagem que Sophie deixou no gravador de Fay, quando voltou ao carro, foi uma descompostura descomunal.

 

Não me interessam quais sejam os seus problemas, Fay... para mim, a sua saúde mental ficaria muitíssimo melhor se amanhã o seu leiteiro lhe desse uma valente foda... mas se voltar a aproximar-se outra vez da Melanie Patterson, arrasto-a pessoalmente para o manicómio mais próximo e interno-a. Que raios pensava que estava a fazer, sua mulher estúpida, estúpida?

 

Meia hora depois, e a quilómetro e meio de distância, no Centro de Saúde Nightingale, a mão de Fay Baldwin tremia enquanto apagava a mensagem do voicemail. Melanie tinha-a traído.

 

Sexta-feira, 27 de Julho de 2001 Bairro Portisfield meio-dia

 

O CARRO ESTEVE estacionado durante vinte minutos junto da igreja Católica Romana em Portisfield. Várias pessoas passaram por ele, mas nenhuma olhou duas vezes. Mais tarde, houve quem o descrevesse como sendo um Rover azul, e quem dissesse que se tratava de um BMW preto. Uma mãe jovem, empurrando um carrinho de bebé, reparara num homem no seu interior, mas não era capaz de o descrever e, após o interrogatório da polícia, mudou de ideias e disse que poderia ter sido uma mulher com cabelo curto.

 

Ao fim dos vinte minutos, uma criança magra e de cabelo escuro abriu a porta do carro e sentou-se no banco do passageiro, inclinando-se para dar um beijo no rosto do condutor. Ninguém a viu fazer isso, embora a jovem mãe pensasse que podia ter visto uma menina, que correspondia a essa descrição, a virar a esquina da Allenby Road alguns minutos antes. Durante o mesmo interrogatório, ela vacilou, afirmando que talvez a menina fosse loura.

 

Tudo bem? perguntou o condutor do carro. A criança anuiu.

 

Compraste-me as roupas novas?

 

É claro. Alguma vez faltei a uma promessa? Os olhos dela brilharam com excitação.

 

São bonitas?

 

Exactamente o que pediste. Top Dolce & Gabbana. Saia Gucci. Sapatos Prada.

 

Porreiro.

 

Vamos?


A criança olhou para as mãos, subitamente hesitante.

 

Podes mudar de ideias sempre que quiseres, querida. Sabes que eu só quero que sejas feliz.

 

A criança anuiu novamente.

 

Está bem.

 

Sexta-feira, 27 de Julho de 2001 número 14 da Allenby Road, Bairro Portisfield 18 h 10 m

 

O SOL AINDA ia alto no céu às seis horas, e a paciência esgotava-se, enquanto as lojas e os escritórios com ar condicionado se esvaziavam para as temperaturas sufocantes daquela tarde de Julho. Trabalhadores cansados, ansiosos por chegarem a casa, destilavam em carros e autocarros sobreaquecidos, e a progressão de Laura Biddulph pela Allenby Road abrandou, enquanto ela se preparava para mais um assalto com os filhos de Greg. Ela não conseguia decidir o que era mais depressivo, um turno de oito horas na loja Sainsbury de Portisfield, ou ir para casa, ter com Miss Piggy e com Jabba, o Hutt.

 

Ela imaginava contar-lhes a verdade. O vosso pai é nojento.., Nem pensem que eu quero ser a vossa madrasta... Por um breve e glorioso momento, ela imaginava-se a fazê-lo, até que o bom senso regressava e ela recordava as suas alternativas. Ou a falta delas. Todas as relações eram construídas sobre mentiras, mas os homens desesperados tinham uma maior tendência para acreditarem nelas. Que mais poderiam fazer, se não queriam ficar sozinhos?

 

No exterior, a luz do sol dava um falso charme às casas municipais uniformes. No interior, Miss Piggy e Jabba estavam fechados na divisão da frente, com todos os cortinados corridos e a televisão em altos berros num dos canais de música. O fedor a gordura de salsicha invadiu as narinas de Laura ao entrar em casa, e interrogou-se sobre quantas visitas eles teriam feito à cozinha naquele dia. Se ela pudesse levar a sua avante, eles seriam trancados num armário, apenas com rações de pão e água, até perderem algum peso e ganharem alguma educação, mas Greg deixava-se consumir pela culpa que sentia pelos seus defeitos, por isso eles iam ficando mais gordos e mais mal-educados a cada dia que passava. Despiu o casaco de algodão, trocou os sapatos rasos de empregada de balcão por um par de chinelos que estava sob o cabide, e transformou a sua carranca sinistra no sorriso vazio e bonito que eles conheciam. Se pelo menos ela se desse ao trabalho de fingir preocupar-se, havia a hipótese de uma mudança.

 

Abriu a porta da sala, enfiou o nariz no ar quente e râncio, repleto de peidos de adolescentes, e gritou por sobre o barulho:

 

Fizeram o vosso jantar, ou querem que eu o faça? Era uma pergunta estúpida (pratos engordurados, com manchas de ketchup, estavam, como de costume, espalhados pelo chão) mas isso não fazia diferença. Fosse o que fosse que ela perguntasse, eles não iriam responder.

 

Jabba, o Hutt, um rapaz de treze anos com eczema galopante na zona em que o seu queixo duplo raspava no pescoço, levantou prontamente o volume da televisão. Miss Piggy, com quinze anos e com peitos que pareciam dirigíveis, voltou-lhe as costas. Era um ritual vespertino diário, que se destinava a rejeitar o projecto escanzelado de madrasta. E estava a funcionar. Se não fosse pela forma fácil como a sua filha aceitava as coisas Eles não são maus quando estamos sozinhos, Mamã já há muito tempo que ela teria desaparecido dali. Esperou que Jabba, o Hutt gritasse «baza daqui» para o ar outra rotina que nunca variava antes de ela, com alívio, fechar a porta e dirigir-se à cozinha.

 

Atrás dela, a televisão foi imediatamente colocada em silêncio.

 

Já cheguei, Amy gritou, enquanto passava pelas escadas. O que é que queres, querida? Queres douradinhos ou salsichas? O que eles odiavam era o amor, pensou ela, enquanto esperava que as palavras de escárnio abafadas «Querida... Querida... Mamã... Mamã» surgissem da sala. Os termos carinhosos deixavam-nos com inveja.

 

Mas desta vez as provocações não surgiram e, com um lampejo de alarme, ela espreitou para as escadas, esperando que os passos ruidosamente alegres da sua filha de dez anos se fizessem ouvir degraus abaixo, para se vir lançar nos braços da sua mãe. Sempre que isso acontecia, ela persuadia-se de que estava a fazer o mais acertado. Mas as dúvidas irritantes não desapareceram e, não havendo resposta, percebeu que se tinha estado a iludir. Chamou outra vez, mais alto, e depois subiu as escadas, dois degraus de cada vez, e escancarou a porta do quarto da criança.

 

Segundos mais tarde irrompeu na sala.

 

Onde está a Amy? exigiu.

 

Na faç’ideia disse Barry despreocupadamente, subindo outra vez o som do aparelho. Saiu, acho eu.

 

O que queres dizer com «saiu»?

 

Saiu... SAIU... Não está na merda da casa. Meu Deus! És estúpida ou quê?

 

Laura arrancou-lhe o comando remoto da mão e desligou a televisão.

 

Onde está a Amy? exigiu a Kimberley. A rapariga encolheu os ombros.

 

Na casa da Patsy? sugeriu, com uma inflexão crescente.

 

Bem, está ou não está?

 

Sei lá! Ela não telefona de hora a hora para me manter informada. O pânico na expressão da mulher convenceu-a a parar com as provocações. É claro que está.

 

Barry mexeu-se desconfortavelmente no sofá e Laura rodou na sua direcção.

 

O quê? exigiu ela.

 

Nada. Ele encolheu os ombros. A culpa não é nossa se ela não quer ficar com a gente.

 

Só que eu estou a pagar à Kimberley para tomar conta dela, não lhe estou a pagar para a mandar para a casa de uma amiga todos os dias.

 

A rapariga olhou-a maliciosamente.

 

Pois, bem, ela não é exactamente o anjinho que tu pensas e não há muito que eu possa fazer para a obrigar a ficar em casa, a não ser atá-la. Já não era sem tempo que lhe descobrisses a careca. Ela tem estado em casa da Patsy todos os dias desde o fim das aulas, e na maior parte das tardes só chega a casa um minuto antes de tu chegares. Tem uma piada do caraças ouvir-te a fazeres figura de parva. Começou a fazer uma imitação exagerada do discurso mais educado de Laura. Foste uma boa menina, querida? Praticaste o teu bailado? Gostas do que estás a ler? Amor... fofinha... Docinho da Mamã. Apontou dois dedos para a sua boca aberta. É completamente nojento.

 

Ela devia estar louca para deixar a Amy com eles...

 

Bem, pelo menos ela tem uma mãe cuspiu ela. Onde está a tua, Kimberley?

 

Não tens absolutamente nada a ver com isso. A raiva fê-la sentir-se cruel.

 

É claro que tenho a ver com isso. Eu não estaria aqui se ela não vos tivesse abandonado para ir fazer bebés com outro qualquer. Os seus olhos brilharam. Não que eu a censure por se ter ido embora. Como é que acham que ela se sente, por ser conhecida como a mãe da Miss Piggy e do Jabba, o Hutt?

 

Puta!

 

Laura deu uma gargalhada breve.

 

Pois. Mas pelo menos sou uma puta magra. Qual é a tua desculpa?

 

Deixa-a em paz disse Barry, zangado. Ela não tem culpa de ser pesada. É falta de educação chamar-lhe Miss Piggy.

 

Educação! repetiu ela, sem acreditar no que estava a ouvir. Meu Deus, tu nem sabes o que é que essa palavra quer dizer. Comida é a única palavra que tu percebes, Barry. É por isso que tu e a Kimberley são pesados. Acentuou sarcasticamente as palavras. E é claro que vocês não têm culpa. Se de vez em quando usassem alguma energia para limparem o vosso lixo, ainda se podiam sentir culpados apontou um dedo irado para os pratos sujos, mas vocês passam o dia a empanturrar-se e depois afastam-se da manjedoura como se um criado fosse limpar atrás de vocês. Quem é que vocês pensam que são, afinal?

 

Ela prometera a si própria que não faria isto. As críticas eram corrosivas, sugavam a auto-estima e devoravam a confiança. Em raros momentos de concordância entre ela e o marido agora memórias longínquas Martin dissera que isso era uma doença. A crueldade está no sangue, disse ele. É como o vírus do herpes. Fica adormecido durante um certo tempo e depois volta a acordar.

 

A casa é minha. Posso fazer o que eu quiser ripostou Barry furiosamente, os pés batendo no tapete, enquanto procurava apoio para se levantar do sofá.

 

As intenções dele não eram óbvias, mas era engraçado observá-lo. E foi ainda mais engraçado quando ela pousou a mão trocista na testa dele e o empurrou para trás.

 

Olha só para ti disse ela enojada, quando ele caiu de encontro às almofadas. És tão gordo que nem te consegues levantar.

 

Tu bateste-lhe acusou Kimberley de forma triunfante. Vou telefonar para a linha da criança... isso vai aprender-te.

 

Vê se cresces! disse Laura com um tom indiferente, enquanto lhe virava as costas. Eu não lhe bati, eu empurrei-o, e se alguém te tivesse ensinado a falar inglês correctamente, percebias a diferença. Esse vai aprender-te faz tanto sentido como o Barry dizer que esta casa é dele.

 

Sentiu-se uma deslocação de ar perceptível quando Kimberley saltou da sua cadeira e tentou agarrar na camisa da mulher.

 

A resposta instintiva de Laura foi espetar um estalo sonoro na cara da rapariga e fugir do alcance dela, mas existiu uma fracção de segundo em que reconheceram o ódio mútuo, antes de Laura pensar em fugir dali.

 

PUTA! PUTA! rugia a jovem furiosa, enquanto perseguia a mulher pelo corredor, em direcção à cozinha. Vou-te MATAR por isso!

 

Laura bateu com a porta e empurrou o ombro contra ela para impedir que Kimberley entrasse, o seu coração batendo furiosamente contra os pulmões. Estaria louca? Ela não se podia equiparar à rapariga em termos de tamanho, mas usou a força das suas mãos para impedir que a maçaneta girasse, apostando em que os dedos de Miss Piggy estivessem escorregadios por ter estado a enfiar batatas fritas na boca. Mesmo assim, foi uma guerra de desgaste que apenas chegou ao fim quando os painéis inferiores da porta começaram a estalar sob o assalto das botas de Kimberley, e Barry gritou que o pai os matava se ela a partisse outra vez.

 

Cuidadosamente, Laura foi soltando o seu aperto enquanto sentia que a arremetida abrandava. Apoiou as costas contra a madeira e inspirou fundo algumas vezes para se acalmar.

 

O Barry tem razão avisou. O Greg mesmo agora acabou de pintar a porta desde a última vez que vocês brigaram por causa dela.

 

Cala-te, puta! uivou a rapariga, com uma última pancada desanimada de um punho carnudo. Se és assim tão perfeita, por que é que a tua filha te chama ”Coiro»? Pensa nisso da próxima vez que começares com os «ooohs» e com os «aaahs», quando o meu pai tirar para fora a pila minúscula e patética. Céus, até a tua filha sabe que só dormes com ele para teres um tecto por cima da cabeça.

 

Laura fechou os olhos, recordando o riso de Martin da primeira vez que Amy utilizara a palavra. Sai das bocas das miúdas e dos bebés, troçara ele.

 

A renda é cara murmurou ela. O sexo é grátis. Por que outra razão estaria eu aqui?

 

A orelha de Kimberley devia estar encostada à porta fina como papel, pois cada nuance da sua voz atravessou-a nitidamente.

 

Vou dizer ao pai que disseste isso.

 

Então vai. Ela esticou o braço para o telefone de parede mas, com as costas contra a porta, ele encontrava-se fora do alcance dos seus dedos. Por que não lhe teria Amy dito que ia para casa de Patsy...? Será que a utilizava como refúgio...? Mas ele não vai ficar zangado comigo, Kimberley, ele vai ficar zangado contigo. Ele estava tão desesperado de solidão depois de a tua mãe se ter ido embora, que até tinha metido uma velha desdentada na cama se ela o aceitasse. De que lado achas que ele vai ficar se me tentares expulsar daqui?

 

Do meu e do Barry, quando lhe disser que o estás a usar.

 

Não sejas idiota disse Laura, esgotada. Ele é um homem. Está-se nas tintas para a razão pela qual eu durmo com ele, desde que eu o continue a fazer.

 

Quem te dera, escarneceu a rapariga.

 

Quantas mulheres é que já cá estiveram, Kimberley?

 

Montes delas disse ela, triunfante. Só por cá ficaste porque tu tiraste as cuecas para ele.

 

E quantas voltaram pela segunda vez?

 

Estou-me fodendo para isso. Só sei que tu voltaste.

 

Só porque estava desesperada disse ela lentamente. Se não estivesse, não havia nada que me convencesse a vir para cá. Ouviu a respiração pesada da rapariga. Achas mesmo que o teu pai não sabe disso?

 

Seguiu-se uma pausa perceptível.

 

Pois, mas ele não precisava de se ter metido com uma rameira disse a rapariga, de forma taciturna. Ele nem sequer me perguntou a mim nem ao Barry o que é que nós pensávamos sobre o assunto. Ele não pode... estás sempre na merda do caminho... sempre a falar do teu trabalho... a fazer a Amy mostrar a estúpida dança.

 

Na cozinha, talvez... nunca na sala. Vocês deixaram bem claro que eu não sou bem-vinda.

 

Pois, ’tá bem! Pareceu ouvir-se um soluço reprimido. Acho que disseste ao Pai que ele também não é.

 

Não precisei de o fazer. Tu e o Barry foram muito bem-sucedidos nisso.

 

Como?

 

Nunca baixando o volume... nunca o recebendo quando ele chega a casa... nunca comendo connosco... nunca saindo da cama antes de ele ir para o trabalho... Fez uma pausa. A vida não é de sentido único, sabes.

 

O que é que isso é suposto querer dizer?

 

Descobre por ti. Laura flectiu os dedos para relaxar os músculos. Vou dar-te uma pista. Por que é que a vossa mãe se recusou a levá-los com ela?

 

Kimberley rebentou outra vez.

 

Odeio-te, rosnou ela. Quem me dera que desaparecesses daqui e nos deixasses em paz. O Pai não vai gostar, mas o resto de nós vai ficar maravilhado.

 

Era verdade, pensou Laura com um suspiro interior, e se Amy não tivesse fingido que estava feliz, tinham-se ido embora há mais tempo. Não te preocupes, Mamã... A sério, fica tudo bem quando tu e o Greg não estão cá... Laura acreditara nela porque isso tornava a sua vida mais simples, mas agora amaldiçoava-se pela sua estupidez. Por que vai a Amy para casa da Patsy? perguntou ela.

 

Porque quer.

 

Isso não é resposta, Kimberley. Aquilo que a Amy quer não é necessariamente bom para ela.

 

A vida é dela declarou a rapariga à laia de motim. Ela pode fazer o que quiser.

 

Ela tem dez anos e ainda chucha no dedo à noite. Ela nem sequer consegue escolher entre douradinhos ou salsichas para o jantar, por isso como pode ela tomar decisões sobre a vida dela?

 

Isso não significa que ela tenha de fazer aquilo que tu dizes... Ela não pediu para nascer... Não és dona dela, porra.

 

Alguma vez disse que era?

 

O que fazes dá a entender isso... ’tás sempre a dar-lhe ordens... a dizer-lhe que ela não pode sair.

 

Não pode sair sozinha corrigiu Laura. Nunca disse que ela não podia ir contigo e com o Barry, desde que ficassem juntos. Cerrou os punhos furiosamente. Sabe Deus que já vos expliquei várias vezes, para evitar acidentes. A Amy está cá há menos de dois meses, e ainda tem dificuldade em lembrar-se da morada ou do número de telefone. Como é que ela volta para casa se se perder?

 

Ela não se perde por ir a casa da Patsy disse Kimberley sarcasticamente. Eles só moram a cinco portas daqui.

 

Ela nem devia lá estar.

 

Ela é uma bebé-chorona resmungou Kimberley, começando a amuar. Depois de um bocado começa a irritar-nos. Acho que ela deve ter algum problema. Está sempre na casa de banho, a queixar-se que lhe dói o estômago.

 

Laura abriu a porta de forma abrupta e forçou a rapariga a recuar.

 

Então quero o meu dinheiro de volta, Kimberley, porque raios me partam se te vou recompensar por um trabalho que não fizeste. Viu as horas no seu relógio. Tens cinco minutos para trazer a Amy cá para casa, e mais cinco para juntares as cinquenta libras que me tiraste, pelas duas semanas em que devias ter sido baby-sitter e não foste.

 

Algo nos olhos da mulher persuadiu Kimberley a recuar mais um passo, para mais próximo do irmão, que observava da porta da sala.

 

Gastei-as.

 

Então vamos até à caixa multibanco mais próxima e podes tirar o dinheiro das tuas poupanças.

 

Ah é? E se eu me recusar?

 

Laura encolheu os ombros com indiferença.

 

Sentamo-nos nas nossas bagagens e esperamos que o teu pai chegue a casa.

 

Os processos mentais de Kimberley eram lentos, especialmente quando não existia ligação de ideias.

 

O que são bagagens? perguntou ela estupidamente.

 

Malas? sugeriu Laura de forma sarcástica. As coisas onde arrumamos as roupas? Baixou as mãos para o lado do corpo, fingindo estar a carregar objectos pesados. Aquilo que as pessoas levam quando se põem a andar de uma casa?

 

Ah, esse tipo de bagagem. Os seus olhos brilharam subitamente. Quer dizer que te vais embora?

 

Assim que tiver o meu dinheiro. Kimberley estalou os dedos para o irmão.

 

Onde estão as cinquenta libras que o Pai te deu para a comida? exigiu ela de forma peremptória. Sei que ainda as tens, por isso vai buscá-las.

 

Barry olhou nervosamente na direcção de Laura.

 

Não.

 

A rapariga fez um gesto brusco na direcção dele.

 

Queres que te parta a merda do braço?

 

Ele deslocou-se para o corredor, formando punhos e preparando-se para se defender.

 

Não quero que ela se vá embora... pelo menos antes que o Pai chegue a casa. Acho que não tenho culpa, por isso não tenho de ficar com as culpas. O Pai ficou passado quando a Mãe se foi embora... e tu só fizeste pior quando disseste que estavas contente por ela se ter ido embora. És uma estúpida de merda, por isso és capaz de fazer o mesmo outra vez... e não culpo o Pai se ele te der uma sova... só qu’ele deve dar-me uma sova a mim também, e isso não é justo. Para uma criança normalmente taciturna, as palavras saíram-lhe em catadupa. Eu disse-te para tomares conta da Amy como deve ser, mas não ligaste porqu’és preguiçosa e és uma bruta. Faz isto... faz aquilo... lambe-me o cu, Amy... mas se disseres à tua mãe dou-te uma tareia. A pita tem medo de ti. OK, ela é um bocado chata, mas da maneira como tu te portas, não é de admirar que ela chorasse muito. O teu problema é que ninguém gosta de ti. Devias tentar ser mais simpática... assim tinhas mais amigos e eras diferente com as coisas.

 

Cala-te, estúpido!

 

Ele caminhou pelo corredor.

 

Vou procurar a Amy disse ele, abrindo a porta da rua. E acho bem que encontre o Pai na rua, porque lhe vou dizer que a culpa é toda tua.

 

Filho da puta! Cabrão! gritou Kimberley atrás dele, dando um violento pontapé na parede. Cobardezeco de merda! Voltou um rosto vermelho e irado para Laura, os ombros arqueados como os de um lutador de boxe. Mas os olhos estavam cheios de lágrimas, como se soubesse que acabara de perder a única pessoa que alguma vez fora leal para com ela.

 

Mensagem Policial para todas as esquadras

 

         27.07.01

         18.53

         ACÇÃO IMEDIATA

         Pessoa Desaparecida

 

Laura Biddulph/Rogerson do n.° 14 da Allenby Road, Portisfield, relata desaparecimento filha 10 anos idd

Nome da criança: Amy Rogerson (responde ao nome: Biddulph)

Altura: 1 m 45 cm aprox. Peso: 27 kg aprox.

Descrição: magra, cabelo castanho comprido, veste T-shirt azul e calças licra pretas

 

Vista pela última vez por vizinho saindo do n.° 14 da AHenby Road às 10.00

 

Pode dirigir-se a casa do pai em Sandbanks Road, Boumemouth

Nome do pai: Martin Rogerson

Notificar todos os veículos-agentes de ronda

Seguem informações adicionais...

Mensagem Policial para todas as esquadras

 

27.07.01 21.00

ACTUALIZAÇÃO Pessoa Desaparecida Amy Rogerson/Biddutph

Pode dirigir-se para The Larches, Hayes Avenue, Southampton

Residente no local durante seis meses com mãe até Abril

Dono-ocupante Edward Townsend temporariamente ausente em férias

 

Notificar todos os veículos/agentes de ronda

 

Seguem informações adicionais...

 

Sábado, 28 de Julho de 2001 número 14 da Allenby Road, Bairro Portisfield 01 h 15 m

 

AS RELAÇÕES NO interior do número 14 da Allenby Road tinham cessado completamente, e a mulher-polícia encarregue do apoio e do aconselhamento sugeriu que Laura Biddulph fosse mudada para uma casa vazia «segura», para evitar que rebentasse uma guerra. Irracionalmente, à luz das provas emergentes de que Amy desaparecera todos os dias durante as últimas duas semanas, apenas regressando à noite, Laura agarrara-se à esperança de que ela estivesse com o pai. Mas, quando foi informada de que uma busca efectuada à casa de Martin Rogerson não produzira qualquer resultado, e de que a polícia se dava por satisfeita que ele estivera o dia inteiro no seu escritório em Bournemouth, a esperança deu lugar ao medo e ela dirigiu a sua raiva para Gregory e para os seus filhos.

 

Agrediu-os violentamente com a língua, e a curiosidade policial sobre o que ela ali estava a fazer cresceu. Até mesmo o menos crítico dos agentes podia ver que existia uma disparidade chocante na idade, nível social, educação e atracção física entre ela e Gregory Logan e, mesmo não se podendo pensar a nível de química, a repulsa expressa abertamente em relação a ele e à sua família negava qualquer sentimento de proximidade entre eles. Com o passar da noite, ela tornou-se cada vez mais distante, ficando sentada contra a porta da cozinha e negando a entrada fosse a quem fosse, salvo aos agentes da polícia. Com os olhos raiados de vermelho devido à exaustão, ela aninhava um rádio no colo e erguia a cabeça repentinamente sempre que o nome de Amy era mencionado. Quando a conselheira sugeriu que fosse lá para cima para um muito necessário descanso, ela deu uma pequena gargalhada e disse que não era aconselhável. A não ser, é claro, que a polícia quisesse que Kimberley Logan morresse.

 

O ruído da rapariga estava a irritar toda a gente. Com uma energia aparentemente ilimitada, queixara-se em altos berros durante horas a uma segunda agente feminina sobre como ninguém gostava dela, como a sua vida era miserável e como nunca quisera fazer mal a ninguém. Recusou-se a sair do seu quarto, recusou-se a ser sedada e não podia, ou não queria, fornecer quaisquer informações sobre onde estivera Amy nas últimas duas semanas, dizendo que não era culpa dela se a miúda tinha mentido sobre o facto de ter estado com Patsy Trew.

 

O irmão dela sentou-se, taciturno, em frente da televisão, e ia-se atafulhando com sanduíches trazidas pela polícia, enquanto acusava Kimberley de estar a mentir. De acordo com ele, ela sabia desde quarta-feira que Amy não estava com a amiga. Patsy viera lá a casa um facto confirmado pela própria Patsy dizendo que não via Amy desde há dias e querendo saber onde ela estava. Kimberley dissera-lhe que «bazasse», porque não tinha nada a ver com aquilo.

 

A Amy já não gosta de ti dissera ela à criança, desatando-se a rir quando Patsy começou a chorar e fugiu dali.

 

Céus, a Amy é uma cabrazinha triste dissera ela a Barry ao regressar à sala. Aposto que está a amuar, enfiada num buraco qualquer, para poder fingir que tem amigos. Não admira que seja tão magricela. Só é alimentada quando a tipa vem para casa.

 

Um sargento-detective perguntara a Barry a razão por que não dissera nada disto à mãe de Amy. Porque a Kimberley lhe teria torcido o braço, disse ele, ou pior, teria impedido que ele fosse à cozinha. A Kimberley torcia o braço à Amy? Ele encolheu os ombros. Só uma vez. Depois disso, a Amy começou a sair sozinha todos os dias. Por que fez a Kimberley isso? Com um ar culpado, ele encolheu os ombros maciços.

 

Porque a Amy chorava quando chamávamos coiro à mãe dela admitiu. Isso irritava a Kimberley.

 

O pai deles, um condutor de autocarros de cinquenta anos com uma enorme pança de cerveja e uma compleição horrível, fez o melhor que pôde, embora em vão, para amenizar as coisas. De vez em quando chamava Laura pela porta da cozinha para dizer que a polícia trouxera mais sanduíches como se a comida fosse a linguagem do amor. Ele parecia incapaz de mostrar qualquer afecto verdadeiro, e a conselheira interrogou-se sobre quando teria sido a última vez que ele abraçara qualquer um deles. Ele fez poucas perguntas sobre Amy mais por medo das respostas, pensou ela, do que por não estar interessado e preferiu discorrer sobre o facto de a polícia perder tempo com os condutores em excesso de velocidade em vez de andar atrás de pedófilos. Se as coisas fossem à maneira dele, os sacanas seriam «castrados e pendurados com os caralhos na boca» um castigo medieval por heresia «porque os tarados deviam sofrer quando morrem». Ela pediu-lhe que baixasse a voz, receando o impacte que tais declarações poderiam ter em Laura Biddulph mas, tal como a sua filha, ele precisava de fazer barulho para se sentir corajoso.

 

Uma busca ao quarto de Amy reduzira o problema à polícia, pois nada parecia faltar, salvo a T-shirt azul e as calças pretas que se pensava que ela estivesse a usar. Ela era uma criança arrumada, que tinha um lugar para tudo, e duvidava-se de que tivesse fugido, pois tudo aquilo que ela valorizava o ursinho, a pulseira preferida, as fitas de veludo para o cabelo fora deixado no quarto. Até a caixa de dinheiro dela, contendo cinco libras, e a pequena colecção de livros escondidos debaixo do colchão. Por que os guardava ela ali?, perguntou a polícia à mãe da criança. Para evitar que Kimberley os rasgasse, por rancor, disse Laura.

 

Gregory fora entrevistado minuciosamente. Há quanto tempo Laura vivia ali? Dois meses. Onde a conhecera? Ela viajou umas quantas vezes no seu autocarro. Quem dera o primeiro passo?

 

Ele não. Ele achou que ela não olharia uma segunda vez para ele.

 

Quem sugeriu que ela se mudasse para lá? Ele não se lembrava. Tinha calhado em conversa, um dia. Ele ficou surpreendido quando ela disse que sim? Nem por isso. Eles tinham ficado a conhecer-se bastante bem durante aquele tempo. Como descreveria ele a sua relação com Amy? Boa. Como descreveria a sua relação com os seus próprios filhos? O mesmo. A Amy tinha viajado no autocarro dele? Uma ou duas vezes, com a mãe. Quem ele conheceu primeiro, Laura ou Amy? Laura. Ele conhecia o pai da Amy?

 

Não. A Laura contara-lhe como e onde ela e Amy tinham vivido anteriormente? Só que ela tinha estado numa relação abusiva.

 

Ele tinha a noção de que Kimberley andava a oprimir Amy? Não. Alguma vez ele tentara reconfortar Amy? Era capaz de ter passado o braço pelos ombros de Amy uma ou duas vezes. Ela gostou? Não disse que não tinha gostado. Poderia descrevê-la como sendo uma criança atraente? Era uma boa bailarina. Ela dançava para ele muitas vezes? Ela dançava para toda a gente... Gostava de se exibir. Alguma vez ele arranjara desculpas para ficar sozinho com ela? Que raio de pergunta era aquela?

 

As respostas de Laura confirmaram as de Gregory, salvo no que dizia respeito à relação dele com os filhos.

 

Ele não os suporta respondeu ela. Ele tem medo da Kimberley e despreza o Barry por ser um cobarde... mas ele próprio é um cobarde, por isso acho que faz sentido. Sempre foi muito delicado com a Amy. Acho que tem pena dela.

 

Ela estava a ser entrevistada na cozinha pelo mesmo indivíduo, o Inspector-Detective Tyler, que a interrogara seis horas antes para coligir informações sobre o pai de Amy. Agora, mais bem informado, ele estava sentado à mesa, ao lado da conselheira, e fazia perguntas a Laura para confirmar a relação dela com o marido. Talvez Laura soubesse o que se avizinhava, pois recusou-se a sair do chão ou a afastar-se da porta da cozinha, e a sua cabeça quase permanentemente baixa, com a sua cortina de cabelo escuro, fazia que fosse impossível ler a sua expressão. Isso deixava transparecer uma sensação de indiferença, ou pior, de engano.

 

Por que é que ele tem pena da Amy?

 

Eu disse-lhe que o pai abusava dela.

 

Isso era verdade?

 

Ela encolheu os ombros ao de leve.

 

Depende de como definirmos abuso.

 

Como é que a Laura o define?

 

Exercer poder sem amor.

 

Como em oprimir?

 

Sim.

 

Que é aquilo que acusou a Kimberley de fazer.

 

Ela hesitou antes de responder, como se receasse uma armadilha.

 

Sim concordou. Ela e o Martin são do mesmo género.

 

De que forma?

 

As pessoas inadaptadas precisam de exercer domínio.

 

Tyler recordou as suas primeiras impressões de Martin Rogerson, quando o homem abrira a porta em mangas de camisa e estendera uma mão amigável. Os polícias estavam habituados ao choque ou à evasão quando apresentavam os seus cartões toda a gente receava algo, ou sentia-se culpada por alguma coisa mas Rogerson não demonstrara nenhum desses sinais. Ele era vinte e cinco anos mais velho do que a sua esposa; estava perto dos sessenta; um advogado fanfarrão e confiante, simpático e com um aperto de mão firme. Certamente não aparentava ser o opressor inadaptado que a esposa estava a descrever.

 

De que forma oprimia Martin a Amy?

 

Não iria compreender.

 

Será que não? Outra hesitação.

 

Ele fazia-a implorar por atenção disse ela, por isso ela pensava que o amor dele valia mais do que o meu.

 

Era uma resposta tão improvável que Tyler acreditou nela. Recordava ter visto um cão maltratado rastejar sobre o ventre até ao rapaz que o estava a flagelar; recordava-se, também, que quando interviera, o cão tinha-o mordido.

 

E o seu era rejeitado? sugeriu ele. Ela não respondeu. Ele lançou, indiferente, a armadilha. Se sabia que a Kimberley a oprimia, por que deixava a Amy com ela? perguntou.

 

Laura usou a ponta de um dedo para desenhar círculos no chão. Cada um afastado. Cada um fechado. Tyler pensou quem eles poderiam representar. Martin? Ela própria? Amy? Distância?

 

Tenho andado a poupar para uma entrada para um apartamento disse ela a medo. É a única maneira de sairmos daqui... A Amy quer tanto quanto eu. Abriu a outra mão revelando um lenço encardido que pressionou contra os olhos. Ela estava sempre a dizer que a Kimberley era diferente quando estavam sozinhas. Eu sabia que ela estava a mentir... mas acreditava sinceramente que o pior que estava a acontecer era ela ficar sozinha no quarto o dia todo. E isso não parecia muito mau... não depois... Parou de falar, fazendo o lenço desaparecer novamente por entre os dedos, como se fosse roupa suja que tivesse de ser escondida.

 

Não depois do quê?

 

Ela demorou algum tempo até responder e ele sentiu que ela estava a inventar uma explicação.

 

A vida, só isso disse ela, com um tom fatigado. Não tem sido fácil para nenhuma de nós.

 

Tyler estudou a cabeça baixa dela por um momento, antes de consultar alguns apontamentos sobre a mesa.

 

De acordo com o seu marido, a Laura e a Amy não vivem com ele desde há nove meses. Ele disse que o tinha deixado por um homem chamado Edward Townsend e, pelo que sabia, continuava a viver com ele.

 

Ele está a mentir disse ela bruscamente. Ele sabe que o Eddy e eu nos separámos.

 

Por que iria ele mentir?

 

Ele é um advogado.

 

Isso não é resposta, Laura.

 

Ela afastou o comentário com um aceno da mão.

 

Era suposto eu informá-lo se a nossa situação se alterasse... mas não o fiz. É uma questão técnica. O Martin pode argumentar que, porque não soube por mim, eu agi contra o interesse da Amy ao ocultar informações.

 

Quem lhe poderia ter contado?

 

O Eddy. O Martin ainda é advogado dele. Ele fala mais com o Eddy do que alguma vez falou comigo. Deu uma pequena risada amarga. Ele é o conselheiro jurídico da empresa do Eddy. Estão sempre a falar um com o outro ao telefone.

 

Tyler ignorou aquilo por um momento. Há muito que as extravagâncias da natureza humana o tinham deixado de surpreender. Se estivesse no lugar de Rogerson, teria espancado o outro homem, assumindo, é claro, que ainda existia alguma paixão na relação. Por que não informou o Martin que deixara o Eddy?

 

Eu estava a tentar proteger a Amy. Era uma frase forte, pensou ele.

 

Existe algum outro abuso que não me tenha contado?

 

Não.

 

Tyler deixou que se desenvolvesse um silêncio, enquanto consultava mais uma vez os seus apontamentos. Era uma negativa muito decidida, e interrogou-se se ela se teria preparado para a pergunta. Ele esperara uma resposta bastante mais chocada, uma pressa para explicar a razão por que a sugestão não poderia ser verdadeira. Isto criou dúvidas na sua mente, especialmente por o seu marido ter reagido de forma muito zangada a uma questão semelhante.

 

Percorreu as linhas da página com o dedo.

 

De acordo com o seu marido, o Sr. Townsend está de férias neste momento. Foi para Maiorca com uma namorada. Ergueu o olhar, mas Laura não reagiu. Townsend é cliente do seu marido há mais de dez anos continuou ele. Um investidor de imóveis. Ele e a mulher divorciaram-se há dois anos. A Laura e ele começaram a relação pouco depois disso, e foi viver com ele em Outubro passado. Ele vive em Southampton. O seu marido concordou que a Laura ficasse com a custódia da Amy enquanto estivesse a viver com o Townsend. A única reserva que colocou foi que, se a relação falhasse, a Amy regressaria ao cuidado dele, até que o seu divórcio ficasse resolvido. Ele diz que a Laura devolveu todos os cheques de apoio enquanto esteve com o Townsend, e que não estava em posição financeira de manter a Amy por sua própria conta. Isto está correcto?

 

Ela levantou a mão num fraco gesto de protesto.

 

O Martin nunca foi assim tão... procurou uma palavra razoável.

 

Você estava a dormir com o amigo dele. Ele não iria ficar satisfeito.

 

Nunca esperei que ele ficasse foi tudo o que ela disse.

 

O que aconteceu, então?

 

As coisas não correram bem com o Eddy, por isso viemos para aqui.

 

Existe alguma razão para que as coisas não tivessem corrido bem? Remexeu com os dedos no cabelo em frente do rosto.

 

Nunca houve grandes possibilidades. Queríamos coisas diferentes da relação.

 

O que é que a Laura queria?

 

Uma forma de escape disse ela simplesmente.

 

Por que devolveu os cheques do seu marido?

 

Não teria sido um escape.

 

O que queria o Eddy?

 

Sexo.

 

É isso que o Gregory quer?

 

Sim.

 

Você trabalha depressa observou Tyler calmamente. Ainda no outro dia estava com um empresário em Southampton, e agora já está com um motorista de autocarro em Portisfield. Como é que isso aconteceu?

 

Ficámos num hotel durante cinco semanas.

 

Porquê?

 

Era anónimo.

 

Estava a esconder-se do Martin? Ela encolheu os ombros. Por que ele teria levado a Amy embora?

 

Sim.

 

Quem pagou o hotel?

 

Usei as minhas poupanças. Ela fez uma pausa. Não podia trabalhar porque não tinha ninguém com quem deixá-la, e estávamos a ficar sem dinheiro. É por isso que eu precisava de outra pessoa.

 

Ele olhou em redor da cozinha.

 

Porquê outro homem? Por que não dar o nome para a lista de realojamento e encontrar quem tomasse conta da Amy?

 

Ela recomeçou a desenhar círculos.

 

Não podia arriscar que a Amy contasse ao agente de realojamento sobre o pai. Se descobrissem que ela tinha outro sítio para viver, tiravam-na de mim. Uma pequena gargalhada escapou-se-lhe dos lábios. - Mas, fosse como fosse, o Martin é um snob. Eu sabia que ele nunca nos iria procurar ali, nunca lhe iria ocorrer que eu pudesse estar disposta a viver numa casa municipal e a trabalhar num supermercado só para me ver livre dele.

 

O que sente a Amy em relação a tudo isto?

 

Até a tua filha sabe que só dormes com ele para teres um tecto por ama da cabeça...

 

Não sei. Nunca lhe perguntei.

 

Por que não?

 

Já viu a casa do Martin? Avaliou-o com um olhar rápido. Qual escolheria se fosse uma rapariga de dez anos?

 

Rogerson fizera a mesma pergunta depois de descobrir onde Amy vivera durante os últimos dois meses.

 

A do seu marido, é claro, mas se é isso que ela quer, então devia ter tido a oportunidade de escolher. Ela tem os mesmos direitos que a Laura, e ser prisioneira de guerra entre os seus pais não é um desses direitos.

 

Se ela fosse prisioneira ripostou ela, estaria trancada em segurança no quarto dela, e nós não estaríamos a ter esta conversa.

 

Não foi isso que eu quis dizer, Laura.

 

Eu sei o que quis dizer murmurou ela, aumentando o volume do rádio para o afastar. Mas está a usar as palavras do Martin, por isso talvez devesse perguntar-lhe o que ele quer dizer com isso.

 

... duzentos residentes da área uniram-se à polícia durante a noite, nas buscas feitas aos locais vizinhos...

 

... a polícia acredita que Amy possa dirigir-se para a casa de seu pai, em Bournemouth...

 

...a ser pedido a proprietários da região a sul que procurem em barracões, garagens, frigoríficos abandonados, casas abandonadas... não se perdeu a esperança de Amy ter adormecido...

O porta-voz da Sociedade Nacional para a Prevenção da Crueldade para com as Crianças disse que, ao mesmo tempo que o desaparecimento de uma criança é uma tragédia terrível, o público deverá recordar que morrem duas crianças por semana devido a crueldade e a negligência dentro dos seus próprios lares...

Oporta-voz da polícia confirmou que todos os pedófilos conhecidos em Hampshire foram visitados nas oito horas que se seguiram ao desaparecimento de Amy...

 

... não há pistas...

 

SÁBADO, 28 DE JULHO DE 2001

10 h19 h


Sábado, 28 de Julho de 2001 Glebe Road, Bairro Bassindale

 

MELANIE PATTERSON PARTILHAVA um cigarro com a mãe, num banco no exterior do mercado na Glebe Road. Era um ritual inalterável dos sábados de manhã, durante o qual elas punham as novidades em dia, antes de irem juntas às compras. Era como nos velhos tempos, quando ainda viviam juntas. Gaynor esticava-se no sofá, com Melanie enroscada contra ela, e bebiam uma cerveja e dividiam um cigarro, e punham o mundo em ordem. Sempre tinham sido muito próximas e nunca perceberam os problemas que a Segurança Social lhes levantava devido às suas famílias cada vez maiores.

 

Gaynor era uma versão mais velha da sua filha, não tão alta, mas com o mesmo cabelo louro luxuriante e os mesmos olhos azuis brilhantes. O seu quinto filho, um rapaz, nascera seis meses após a sobrinha, Rosie, mas nenhuma das Patterson achara isto particularmente estranho. Não havia qualquer lógica em nenhuma das gerações. A bisavó de Melanie, ela própria mãe de dez filhos, só tinha nascido cinco anos depois da morte, durante a Primeira Guerra Mundial, do irmão mais velho, mas ela mantinha a fotografia dele ao lado da cama, e falava como se fosse mais próxima dele do que de qualquer um dos seus irmãos ainda vivos. E talvez fosse, pois os homens Patterson eram conhecidos pelas suas rixas e o sangue irlandês deles», costumava dizer a Bisavó, estabelecendo uma ligação ténue a um antepassado distante que atravessara o mar para Liverpool, durante o século XIX. «Eles preferem lutar do que ficar em casa na cama...» e as mulheres Patterson por arranjarem amantes para se distraírem ” Deus Nosso Senhor não nos teria dado úteros se não quisesse que os enchêssemos. ”

 

Era um ponto de vista partilhado por Melanie e pela sua mãe. As assistentes sociais mandonas podiam dizer o que quisessem sobre a contracepção, mas ter filhos era uma necessidade básica que ambas possuíam. Assim como a longa linha de mulheres antes delas. Nunca existira, entre as mulheres Patterson, a crença de que a satisfação pessoal residia em conseguir um emprego certo e em juntar dinheiro. O papel de uma mulher era ter filhos, especialmente quando existia alguém pronto a sustentá-los. Na verdade, a conquista mais perfeita de Gaynor era isto, a sua filha mais velha, que adorava e era adorada em igual proporção. Os homens iam e vinham na vida de ambas as mulheres, mas a ligação que partilhavam uma com a outra era inabalável. Elas concordavam em tudo. Amores, ódios, crenças, preconceitos, amigos e inimigos.

 

Ao saber por Melanie, no sábado anterior, que tinham sido instalados pedófilos apenas a uma porta de distância dos seus netos, Gaynor reagira com uma raiva previsível.

 

Deixa-nos loucos dissera ela. A Segurança Social não tem nada que enfiar psicopatas na tua rua e esperar que tomes conta dos miúdos vinte e quatro horas por dia. Isso só mostra que esses gajos são mais importantes do que tu, a Rosie e o Ben juntos... e isso não é justo, querida. Esse tipo de homens devia ser preso para sempre... ficava logo a questão arrumada. Inspirou no cigarro e passou-o à filha. Eu não quero que tu e os bebés estejam em perigo disse ela, com súbita decisão. Tens de vir para casa. Tu e os pequeninos podem ficar no quarto do Colin, e ele pode ficar com o Bry e com o Johnnie.

 

Mas Melanie abanara a cabeça.

 

O Jimmy deve sair daqui a dois dias. Ele vai tomar conta de nós. E eu acho que esses gajos é que deviam mudar-se, e não nós... que foi o que eu disse à vaca do Realojamento... a Segurança Social tem uma lata do caralho, disse eu, a darem-nos sermões sobre... fez o sinal de aspas no ar «como ser mãe», e depois despejam-nos uns pedófilos de merda no meio da rua, sem dizerem nada a ninguém. E depois diz-me para não dizer palavrões, ou desliga-me o telefone.

 

Não posso!

 

Foi mesmo assim que ela disse esta merda, e eu disse, se ela achava que dizer palavrões era pior do que assassinar criancinhas, então ela devia estar no psiquiatra. Aposto que ela gostava disso, disse eu, se a câmara lhe metesse uns quantos tarados ao lado dela. E depois começa a dar-me a treta do costume... ela não sabe do que é que eu estou a falar... a responsabilidade não era dela... eu devia perguntar era à minha assistente social. Eu estava completamente lixada e disse que se ela não os tirasse de lá ela própria, então a gente que morava na rua, íamos tirá-los a gente de lá. Pois, que eles não podem dar muita importância aos nossos filhos, se acham que não faz mal se uns velhos porcos podem andar a aproveitar-se deles sempre que têm vontade... e foi então que ela desligou...

 

Sete dias depois, alimentada pelas notícias da rádio e da televisão de que uma criança desaparecera em Portisfield, a opinião contra os pedófilos atingira níveis de histeria. Ficou a saber-se, cortesia de um carteiro que mostrara a um vizinho uma carta reendereçada, que a anterior morada dos homens fora Callum Road, Portisfield, por isso, na noite de sexta-feira, o mesmo vizinho telefonou à anterior residente do número 23, Mary Fallon, para descobrir o que ela sabia.

 

Mary fartou-se de falar. Portisfield estava pejada de polícias, a baterem a todas as portas, a mostrarem a fotografia da miúda, e a perguntarem se alguém a tinha visto ou se sabiam onde ela passara as últimas duas semanas. Estavam a falar sobre um «amigo» de que a família não sabia, mas até mesmo um atrasado mental conseguia perceber que «amigo» era um eufemismo para um animal de um pedófilo. Dois homens tinham sido despejados de Portisfield havia quase um mês, após um deles ter sido reconhecido através de uma fotografia, e Mary não era a única pessoa que dissera à polícia para irem à procura deles. A miúda vivera ao lado deles sabe-se lá durante quanto tempo, e os pedófilos sendo aquilo que são sempre à coca de crianças solitárias e vulneráveis podia-se apostar que a tinham escolhido para dar atenção. Não fazia sentido presumir que ela fosse usada no seu próprio bairro, quando o mais certo seria que a levassem de carro para outro lado qualquer todos os dias.

 

Mary ficou sem palavras durante cinco segundos inteiros, quando o amigo dela lhe disse que os pedófilos de Portisfield estavam a viver na antiga casa dela. Ela não podia acreditar. A casa delal A abrigar uns gajos daqueles! Que tipo de idiota decidira mudá-los para o Bairro? Viviam lá mais crianças do que adultos. Era como deixar um drogado a tomar conta de uma farmácia. Como é que os tinham descoberto? Já tinham tentado apanhar algum miúdo? Tinham carro? Saíam de casa todos os dias? Alguém tinha visto uma miúda magricela com cabelo escuro por lá?

 

As respostas às perguntas dela eram na sua maioria negativas, mas havia sempre espaço para a dúvida. A chegada dos homens fora tão secreta que dava azo a pensar-se que eles podiam ir e vir à vontade. O mais novo ia às compras ocasionalmente, sempre apressado e sem olhar para ninguém, mas quem podia dizer para onde ele se dirigia quando dobrava a esquina da Bassindale Row, ou se ele tinha um carro estacionado em segredo fora do bairro? O mais velho, de rosto pálido e cabelo preto, era visto à janela ocasionalmente, de pé na obscuridade e olhando mal-humorado para os transeuntes, mas quem sabia para onde ia à noite, quando as pessoas decentes estavam a dormir? Quanto a uma menina... bem, não a iriam trazer para casa à luz do dia, pois não?

 

Tinham sido feitos planos no início da semana para uma deslocação até à Humbert Street nesse sábado à tarde, para forçar a polícia a despejar os pervertidos, embora existisse uma irritação de certa monta por Portisfield não ter precisado de fazer nada tão dramático... ou enérgico. Isso marcava a diferença sobre a forma como se via os dois bairros um, moderno e progressista, o outro um gueto para as classes inferiores. O progressista queixava-se. O de classes inferiores manifestava-se.

 

Naturalmente, ninguém em Bassindale se deu ao trabalho de informar a polícia sobre o plano. A ideia era causar um choque aos bófias, para que estes mudassem os tarados, não lhes dando hipótese de proibir a manifestação e de prender quem quer que fosse para a frente com o protesto. Além do mais, havia tantos jovens do Bairro Ácido a cumprir pena ao fim-de-semana, em que tinham de levar a cabo serviços cívicos, que, se os bófias sentissem o cheiro de problemas, metade dos soldados de infantaria perder-se-ia, pois seriam trancados em celas até que passasse o perigo. Era um protesto de números. Quantos mais lá estivessem, mais poderosa seria a mensagem... e menor probabilidade de ser ignorada.

 

Com alguma justificação, Gaynor e Melanie orgulhavam-se de serem as líderes. Tinham sido elas a chamar a atenção da comunidade para os pervertidos. Tinha sido a sua determinação a criar um empenho recíproco por parte dos seus vizinhos. Tinham sido os seus esforços a transformar as ideias em acção. Além disso, a sua motivação era completamente altruísta. Elas acreditavam que o município estava a colocar as crianças em perigo ao introduzir pedófilos no bairro. Era um caso simples. Força-se as autoridades a livrarem-se dos pervertidos e os miúdos ficam a salvo.

 

O que lhes faltava era imaginação, pois nunca lhes ocorreu que a liderança lhes seria secretamente roubada, nem que uma marcha de protesto se poderia transformar numa batalha campal. Certamente não à luz do dia, num dos dias mais quentes do ano.

No entanto, tal como a polícia lhes poderia ter dito, os motins acontecem quando o calor desgasta os nervos.

 

Neste sábado, no banco no exterior do mercado, Melanie informava apressadamente a sua mãe do local e da hora em que os manifestantes se iriam encontrar nessa tarde.

 

Acima de tudo vão ser mulheres e miúdos adiantou ela, mas acho que vão lá estar para aí uns cem, e isso chega para fazer com que a bófia pare para pensar. O Jimmy também lá vai estar e, desde que eu e tU lá cheguemos antes, para pôr um bocadinho de ordem, as coisas devem correr bem. Ela podia ver que Gaynor lhe estava a prestar pouca atenção. Mãe, isto é importante insistiu ela com severidade. Se tu e eu não estivermos ao pé da escola a tempo de organizar isto, as coisas acabam logo. Sabes como é que eles são, aqui. Se não estiver lá ninguém para lhes dizer o que fazer, vão desaparecer para o bar.

 

Sim, sim, eu vou lá estar, querida. Suspirou. O problema é que eu estou preocupada com o nosso Colin. Aquele Wesley Barber tem andado por aí outra vez, e o Col sabe que eu não o suporto.

 

O Jimmy também o detesta... chama-lhe atrasado mental... diz que ele dá má fama aos pretos, porque está sempre pedrado com cristais de metano. Acho que te deves impor, mãe. O Jimmy acha que ele também anda a meter ácido, e se o Col entra nessa onda, vai ficar completamente fodido.

 

Oh, meu Deus! Gaynor passou a mão com preocupação pelo cabelo. O que devo fazer, querida? Ele ficou até às três da manhã com aquele merdas do Kevin Charteris. Eles andam a tramar alguma coisa, e eu não sei o que é.

 

É o que costumam fazer à sexta à noite disse Melanie. Juntam-se e apanham uma bebedeira. O Kev não é tão mau como o Wesley.

 

Gaynor abanou a cabeça.

 

O Gol estava completamente sóbrio. Estava tão zangada que esperei por ele... ele sabe que vai preso se o apanham outra vez a roubar, mas não disse onde tinha estado... foi-se embora e chamou-me puta chata.

 

Melanie pensou no seu irmão de catorze anos.

 

Talvez ande a levar alguma miúda para a cama sugeriu ela com um risinho. Isso não é uma coisa de que um tipo fale à mãe.

 

Mas não houve um riso de resposta por parte de Gaynor.

 

Acho que ele deve andar a roubar carros disse ela com um tom infeliz. Ele cheirava a gasolina, por isso deve ter estado num carro. Disse-lhe umas boas... disse-lhe que um dia destes ele se ia matar... ou que o matavam... e ele enfiou-se no quarto e mandou-me meter na merda dos meus assuntos.

 

Talvez eu devesse falar com ele.

 

Fazias isso, amor? Sabes que ele te ouve. Diz-lhe só que eu não quero que ele morra... preferia vê-lo na prisa que enrolado a um poste. Pelo menos assim tem hipótese de crescer e de ser alguém.

 

Falo com ele amanhã prometeu Melanie, assim que a gente se livrar dos tarados.

 

Pinder Street, Bairro Bassindale

 

A agente Hanson não pôde deixar de ver os graffitis quando virou para a Pinder Street. Tinham sido pintados a spray numa parede vazia no fim do quarteirão, em amarelos e cor-de-rosa fluorescentes «Morte aos Porcos» e por baixo encontrava-se a representação em cartoon de pés de porco cruzados na forma de uma suástica Nazi. Não estava ali no dia anterior, e ela forçou-se a ver o graffiti com o devido distanciamento. Não podia ser destinado a ela.

 

Estacionou junto do número 121 e saiu do carro, para tentar interrogar o jovem Wesley Barber, de quinze anos de idade, sobre um assalto por esticão que ocorrera no centro da cidade. Era uma hipótese remota. O modus operandi dele encaixava na perfeição o alvo fora uma idosa a sair da estação dos correios com a mala, recheada com o dinheiro da reforma, na mão mas a descrição da testemunha, «um rapaz negro enorme com olhos esbugalhados», não iria convencer um juiz de que Wesley, com o seu rosto angelical, era o culpado.

 

O rapaz tinha dificuldades de aprendizagem um psicopata juvenil metido com ácido e com metano, de acordo com o seu director de turma, que fechava os olhos às faltas do rapaz, para que este ficasse longe da escola mas tinha uma cara de santo. Todos se desesperavam com ele, incluindo a mãe, que passava a maior parte do tempo de joelhos na igreja, rezando por um milagre. Ele também nunca estava em casa quando a polícia batia à porta, por isso as hipóteses de se conseguir levar a cabo um interrogatório eram fracas.

 

Hanson ouviu gritar no fim da rua e ergueu o olhar para ver um grupo de jovens surgir à esquina, lutando uns com os outros e lançando insultos. Ela baixou o olhar apressadamente, receando desencadear um confronto, mas os rapazes retiraram-se rapidamente quando avistaram o carro da polícia. Mesmo assim, um deles gritou alto o suficiente para que ela conseguisse ouvir:

 

É só uma gaja sozinha, foda-se. Podemos dar cabo dela.

 

Ela apoiou a mão na porta do carro para recuperar o equilíbrio e olhou deliberadamente para o bando, como se estivesse a avaliar as suas opções. Sentia um medo terrível do Bairro Acido, e sempre sentira. Associava esse medo ao medo de cães. Pode seguir-se todas as indicações sobre qual o comportamento a ter mas, se o medo é a única emoção que se sente, então é medo que os animais pressentem. Uma vez tentara explicar isso ao seu chefe, mas ele repreendera-a.

 

Vais ter de passar mais tempo no Bairro do que noutro lado qualquer dissera-lhe ele. É a natureza da profissão. Se não vais conseguir aguentar, então é melhor desistires já, porque se te volto a ouvir chamar «animais» àquelas pessoas, arranco-te o coiro.

 

Ela não quisera que tivesse aquele sentido. Usara o medo de cães como analogia, mas o chefe dela não percebera, ou não quisera perceber. Ela precisava de ajuda, e a única ajuda que ele lhe dava era fazê-la enfrentar a sua fobia todos os dias. Em três meses ela passara tanto tempo sozinha no Bairro, que o seu medo intensificara-se até atingir as proporções da paranóia. Acreditava que era seguida e observada sempre que lá ia. Acreditava que os jovens caçavam em matilha, com a intenção específica de a apanharem desprevenida e desprotegida. Ela também acreditava, tal como um paranóico típico, que o seu chefe se encontrava por detrás da conspiração para a destruir. Ele enviava-a sempre sozinha...

 

Está aqui outra vez aquela mulher-polícia constatou a mãe de Wesley, espreitando através dos cortinados de rede. Vais falar com ela desta vez?

 

Ela sabia que ele fizera alguma coisa de mal. Percebia sempre que ele o fazia. Apesar das suas preces, ela sabia, no fundo do seu coração, que ele não tinha salvação. O padre dissera-lhe que ele consumia drogas, mas ela não acreditava nisso. Era o Coisa Ruim que estava dentro de Wesley, tal como fora Ele que estivera dentro do pai de Wesley.

 

Nem penses. Ela ’tá a tentar ligar-me a um gamanço. A Sr.a Barber lançou um olhar furioso ao seu filho.

 

Foste tu?

 

Claro que não disse ele num lamúrio.

 

Seu mentiroso de uma figa disse ela, batendo-lhe na cabeça com a mão gorducha. Quantas vezes é que já te avisei? Da próxima vez que roubares o dinheiro a uma velhota, quem vai atrás de ti pelo meio da rua sou eu.

 

Deixa-me ’tar uivou ele. Na fui eu, mãe. Por que é que nunca acreditas em mim?

 

Porque és filho do teu pai disse ela com asco na voz, virando-se para a janela e observando os nós dos dedos da agente Hanson ficarem brancos devido à força com que agarrava na porta do carro. Ela parece estar cheia de medo murmurou ela. O que é que tu e os teus amigos andam a tramar? O que é que era aquela gritaria toda?

 

Na tem nad’ a ver comigo mentiu ele, enquanto se dirigia ao corredor em bicos de pés, e se interrogava sobre o que diria a sua mãe se soubesse que ele tinha andado a encher garrafas com gasolina. Diz à chui que não sabes ond’eu ’tou. Correu para a porta das traseiras. A gente vê-se mais tarde, mãe.

 

Mas a Sr.a Barber estava mais interessada no rosto cor de cinza da jovem mulher-polícia. Com o coração pesado, pensou no que poderia Wesley ter feito desta vez para que a mulher estivesse com tanto medo de falar com ele.

 

Mensagem Policial para todas as Esquadras

28.07.01

 

12.32

Bairro Bassindale

 

Milosz Zelowski, 23 Humbert Street, relata distúrbios causados por jovens desde entrevista esta manhã ass: criança desaparecida

Carro patrulha 031 a responder

28.07.01

12.35

Bairro Bassindale

D.a J. MacDonald, 84 Forest Row Sul, relata ter avistado Amy Biddulph em Bassindale Row ontem 22 00

Relata 25 tentativas de telefonema

Linhas da polícia permanentemente ocupadas

 

28 07.01

 

12.46

Bairro Bassindale

Carro patrulha 031 afastado para entrevistar Dona J. MacDonald ass: possível ter visto Amy Biddulph

 

Sábado, 28 de Julho de 2001 número 21 da Humbert Street, Bairro Bassindale

 

JIMMY AMES TENTOU agarrar a cintura de Melanie quando ela colocava um prato de comida na mesa, mas ela foi demasiado rápida para ele, deslizando para fora do braço que a envolvia com uma pirueta graciosa. Rosie riu-se do outro lado da mesa.

 

Estás a ver, querida disse-lhe a mãe, eu disse-te que ele só ia pensar numa coisa quando o deixassem sair.

 

Não lhe devias dizer essas coisas censurou Jimmy. Ela é muito nova.

 

Ela tem de saber como são os homens retorquiu Melanie num tom severo, batendo na borda do prato dele com uma colher. Agora come para pores esse rabo a mexer. Não estás assim tão bêbado que não percebas o que se está a passar.

 

Ele era um negro enorme e bem-parecido, com a cabeça rapada, que passara quatro meses na prisão por uma série de delitos menores, e que não fazia tenção de voltar a ser preso. Dissera a Melanie que era por causa do seu filho que crescia na barriga dela, mas a verdade (que ele apenas admitia para si próprio) era que lhe era cada vez mais difícil cumprir as penas.

 

Pois, bem, eu não percebo, Mel disse ele irritado, afastando a colher com o dedo. Esta manhã havia um ambiente terrível nas ruas, e não estou a pensar andar lá perto se a bófia aparecer.

 

Eles não te vão prender por te manifestares afirmou ela. Estamos num país livre. Os protestos são permitidos.

 

Depende do tipo de protesto. Tu e a Gaynor estão erradas, se pensas que os drogados vão fazer aquilo que vocês disserem. Podemos acabar num motim, e essa merda é assustadora, Mel.


Então e a miúda? Ela foi vista no Bairro ontem à noite, e toda a gente acha que os tarados a têm.

 

Não sejas idiota disse ele com sarcasmo na voz. O que é que um par de tarados maricas quer com uma menina? Vá, diz-me.

 

Um pervertido é um pervertido declarou ela dogmaticamente.

 

Uma merda é que são. Se pensarmos assim, eu tinha ido para a cama com gajos na choldra porque não haviam gajas disponíveis. Tu gostas do que gostas, e não se pode fazer nada quanto a isso. O mesmo é válido para os pedófilos.

 

Como é que sabes?

 

Tenho miolos e uso-os. Bateu com o dedo no lado da sua cabeça. Tu e a Gaynor vão dentro por incitação se andarem para aí a lançar boatos de merda e se houver pessoas magoadas.

 

Talvez não saibas tanto como pensas que sabes.

 

Ele encolheu os ombros e inclinou a cadeira para olhar para ela.

 

Está bem. Quem é que viu a miúda e estava sob o efeito do quê? Diz-me que não foi aquele anormal, o Wesley Barber, que passou cinco horas numa nave extraterrestre, completamente pedrado, a ter o esperma ordenhado para fazerem uma super-raça. Sorriu perante a expressão dela. Aprende um bocadinho, querida, e deixa-me comer em paz. Eu não quero ir parar lá dentro outra vez por causa de uma miúda qualquer da classe média, que por esta altura já deve estar morta.

 

Ela deu-lhe um murro no braço.

 

Tens de lá estar, Jimmy. O encontro é na Escola, e se não fores comigo, as pessoas vão começar a falar.

 

Tu queres dizer é que as mulheres vão começar a falar corrigiu ele cinicamente. Qual é a novidade? É a única merda que fazem, excepto sentarem os cus e dar cabo do juízo aos homens delas.

 

És tão cobarde disse ela, tentando irritá-lo. Andas sempre a fazer de Mike Tyson, mas assim que há problemas viras-te e foges para o outro lado.

 

Pois, mas neste momento não me posso dar ao luxo de arranjar problemas disse ele, deixando cair novamente as pernas da cadeira para o chão, e espetando de mau humor o garfo na comida. Tenho uns negócios a andar, e ir dentro por andar a escorraçar um par de tarados não faz parte dos meus planos.

 

Assim ainda pensam que tens um fraquinho por eles. Ela estava preocupada com a sua reputação. O que diriam as pessoas se o seu homem não aparecesse depois de ela ter andado a dizer que ele era um tipo duro? Vão pensar que ficaste muito próximo deles na prisa, e que começaste a ter pena deles.

 

Jimmy mastigou em silêncio durante algum tempo, pensando se ela saberia o quão próxima estava da verdade. O seu primeiro companheiro de cela tinha-lhe dado a volta à cabeça, e Jimmy não se importava que o recordassem disso. O tipo era um professor de música, que estava no fim da pena, e ensinara Jimmy a ler música durante as três semanas que tinham passado juntos. Ele era um génio, sabia tudo o que havia para saber sobre jazi e conseguia usar a voz para imitar instrumentos musicais. No fim da terceira semana ele fazia a música de fundo do rap de Jimmy, e este estava a começar a planear uma carreira legítima na música. Até tinham uma demo rape a andar. Tudo corria bem até que se soube que o seu companheiro de cela tinha sido preso por fazer trabalhos de mão a alguns dos rapazes da escola onde estava. Dois dias depois tinham-lhe partido os dedos todos no chuveiro.

 

Jimmy precisou de algum tempo para ultrapassar o assunto. O filho da puta tinha tentado fazer-se passar por mais duro nas alas abertas, após ter sido transferido de uma prisão na Ilha de Wight. Ele dizia que estava preso devido a fraudes com cheques, que era o tipo de coisa que um homem com estudos poderia ter feito, mas alguém dera com a língua nos dentes provavelmente um guarda e ele acabou na unidade de prisioneiros vulneráveis por motivos de segurança. Jimmy nunca mais o viu, embora pensasse nele de tempos a tempos. Fora o único tipo que conhecera na prisão de quem tinha realmente gostado, e parecia-lhe triste que tivesse prazer em dar trabalhos de mão, quando a maior parte dos homens preferia ser o receptor.

 

As pessoas que pensem o que quiserem disse a Melanie, empurrando o prato em que mal tinha tocado. Tenho mais que fazer do que gritar insultos a tarados.

 

Escola Paroquial, Glebe Road, Bassindale Estate

 

Grupos de jovens bêbados já se reuniam em redor do pátio de entrada da escola, bebendo cerveja e inspirando-se para o confronto com os pervertidos. Entre eles, Wesley Barber saltava como um idiota, gabando-se de como ia assar tarados... incendiar a escola com bombas... assaltar o mercado... agredir bófias. Remexia-se excitado, como um cão ao sentir o cheiro de uma cadela no cio, e os outros rapazes troçavam enquanto ele dava golpes de karaté no ar, imitando Wesley Snipes em Homem Demolidor ou em Blade.

 

Bolas, Wesley, és um atrasado mental do caraças!

 

O que é que andaste a snifar, parvalhão?

 

Colin Patterson e Kevin Charteris arrastaram-no para longe.

 

Vê se te acalmas, foda-se disse Colin furiosamente. A minha mãe passa-se se te ouve a falar assim. Ela chama a bófia se pensar que vais fazer alguma coisa estúpida. É suposto ser um protesto, seu passado. Ele sentia-se corajoso por estar bêbado, já para não falar que o anormal estava carregado até aos olhos com toda a porcaria que os traficantes vendiam. Mesmo num dia bom, Wesley era louco como um cão raivoso e, regra geral, Colin mantinha-se afastado. Mas hoje era diferente. Hoje, tal como Kev dissera, eles precisavam de um maluco que fizesse o trabalho para Melanie.

 

Wesley agitou-se furiosamente para que o largassem.

 

’Cês d’sseram qu’íamos com’çar uma guerra com vampiros tarados gritou, como uma criança com uma birra, dar’ma lição aos filhos da puta. ’Tavam a mentir?

 

Rais’partam, desta vez a cabeça dele ’tá completamente fodida disse Colin. Olha p’ós olhos dele. Parecem os d’um zombie.

 

Kevin, o único dos seus amigos que tinha algum controlo sobre Wesley, passou um braço em redor do pescoço do rapaz e torceu-lhe o pulso atrás das costas. Vais fechar a boca, atrasado mental do caraças? silvou ele ao ouvido de Wesley. É que se não fechares, nem sequer te vais aproximar dos tarados. Nenhum de nós vai. O Col tem razão. Se a mãe dele perceber que há aqui problemas, não vai haver nenhum protesto, nem nenhuma guerra. Percebeste? Acaba-se a brincadeira... e tu levas uma tareia por lixares o dia a toda a gente.

 

A loucura nos olhos de Wesley desapareceu tão subitamente como havia surgido. Um lento sorriso pacífico espalhou-se pelo rosto dele. Eu ’tou bem asseverou ele. Na precisas de chamar-me atrasado mental, Kev. Já percebi. É só um protesto. O rosto assumiu a expressão doce que já tinha enganado um sem-número de juizes. Vamos só mostrar aos vampiros que já os topámos, certo?

 

Certo disse Kevin, largando Wesley e agarrando-lhe a mão num cumprimento. Vá lá, Gol, bate aí ordenou ele ao rapaz mais novo. Somos amigos, não somos?

 

Acho que sim disse Colin, aceitando uma palmada dolorosa na mão. Mas não estava bêbado o suficiente para deixar de reparar na faca de ponta-e-mola que Wesley agitava na outra mão.

 

Apartamento 506, Torre Residencial, Bairro Bassindale

 

Tenho de me ir embora anunciou a agente Hanson ao velho senil no sujo apartamento do quinto andar de uma das torres de Bassindale. Sinto muito não ter podido ajudar. A depressão pesava-lhe como se fosse a pedra de Sísifo. A visita fora inútil, tal como as outras que fizera naquele dia. Nada do que fazia tinha valor. Ela não tinha qualquer valor... uma agente sem autoridade.

 

O ar no apartamento era claustrofobicamente viciado, como se as janelas e as portas nunca fossem abertas. O Sr. Derry sentava-se numa obscuridade permanente, com os cortinados corridos para que o sol não entrasse, os olhos fixos nas imagens bruxuleantes da televisão sem som a um canto, como se as personagens das novelas fossem o seu único ponto de contacto com a realidade num mundo confuso. Falar com ele piorara-lhe a depressão, pois qualquer centelha de lucidez que o tivesse encorajado a telefonar à polícia naquela manhã morrera quando desligara o telefone.

 

Ele mexeu no seu aparelho auditivo.

 

O que disse? Ela levantou a voz.

 

Tenho de me ir embora.

 

Encontrou os rapazes?

 

Ela respondera à mesma pergunta com imensa paciência durante trinta minutos, mas desta vez ignorou-a. Não valia a pena falar com ele. Ele declarara o roubo de duzentas libras da lata de chá que tinha na cozinha, mas não fazia ideia de quando o dinheiro tinha sido levado nem de quem poderia ser o responsável. Tudo o que ele lhe conseguiu dizer foi que três rapazes um dia lhe tinham batido à porta mas, como não gostara do ar deles, não os deixara entrar. Ela chamou a atenção para a discrepância se eles não tinham entrado, não podiam ter roubado o dinheiro mas o velho foi insistente. Ele era capaz de detectar um fedelho larápio a dois quilómetros de distância.

 

Ela fingiu investigar, remexendo no lixo que estava na cozinha. Mas não havia nenhuma lata de chá apenas uma caixa de cartão de sacos de chá Tetley, cujo prazo de validade expirara meses antes nem nenhuma prova de que lá tivesse estado dinheiro nem que mais ninguém, para além dela, tivesse incomodado o pó daquela cozinha desde há meses. Ele podia ter estado a falar de algo que acontecera ontem... ou há cinquenta anos... pois o seu cérebro não se encontrava perfeito e a sua memória estava presa a uma demência cansativa que o fazia rever as suas obsessões em arcos sem fim.

 

Como seria capaz de tomar conta de si próprio? Quem olhava por ele? Sentiu-se soterrada pela miséria enquanto fitava os anos de gordura acumulada no fogão e a marca da sujidade na pia. Queria lavar as mãos, mas o cheiro que vinha dos canos deixou-a enojada. Germes pululavam por todo o lado. Podia senti-los a enterrarem-se na sua pele, a atacarem-lhe o cérebro, a minarem-lhe a sua capacidade de decisão. Qual o objectivo de viver assim? Qual o objectivo de viver de todo?

 

Esse pensamento percorrera-lhe a mente durante todo o tempo que passara a falar com ele, e interrogava-se se o teria verbalizado, pois ele rodeava-a agora impacientemente.

 

O que disse? exigiu ele outra vez, saliva a saltar-lhe da boca em gotas grossas. Fale mais alto, rapariga, não consigo ouvi-la.

 

Tenho de me ir embora repetiu ela, pronunciando as palavras de forma tão cuidadosa como um bêbado faria.

 

Ele franziu o cenho.

 

Quem é você? O que está aqui a fazer?

 

Quantas vezes ele lhe perguntara aquilo? Quantas vezes ela lhe respondera?

 

Sou uma agente da polícia, Sr. Derry.

 

Encontrou os rapazes?

 

Era como se estivesse a ouvir um disco riscado. Ela abanou a cabeça.

 

Vou fazer um pedido para que uma assistente social venha falar consigo disse-lhe ela. Ela irá avaliar as condições em que o senhor vive e provavelmente irá recomendar que seja mudado para acomodações vigiadas, onde vai receber mais cuidados e atenção do que aqueles que aqui tem.

 

Ele regressou à televisão.

 

Eles deviam ter enviado um homem disse ele contundentemente.

 

Desculpe?

 

Eu queria um polícia a sério... não uma criatura piegas com medo da própria sombra. Não admira que haja tanto crime neste sítio.

 

Foi a última gota. A cabeça doía-lhe desde que chegara ao bairro, e gritar através da surdez do Sr. Derry piorara a dor. Ela queria gritar com ele, dizer-lhe o que realmente pensava, mas era demasiado reprimida para fazer algo tão dramático.

 

Um homem não se teria incomodado a ouvi-lo ripostou ela com firmeza, preparando-se para se levantar.

 

Você acha que sim, não é? Bem, talvez eu não me incomode com fedelhas preguiçosas que preferem ficar sentadas em vez de fazerem o trabalho delas. O que tem a dizer em relação a isso, ha?

 

Ela odiava-o profundamente. Ele era senil, mal-educado e imundo. Tudo em que ela tocara neste sítio nojento deixara nela a sua marca.

 

O que espera que eu faça? perguntou ela. Que saia daqui e vá prender os primeiros três rapazes que encontrar só porque o senhor diz que lhe roubaram o dinheiro? Não há qualquer prova de que o senhor sequer o tivesse. Levantou-se abruptamente e fez um gesto com o braço trémulo que abarcou todo o quarto. O senhor não estaria a viver aqui se tivesse duzentas libras numa caixa de chá.

 

O movimento repentino dela assustou-o. Pegou no telefone pesado e antiquado que estava em cima da mesa ao lado da sua cadeira e brandiu o auscultador na direcção dela.

 

Afaste-se de mim gritou. Vou chamar a polícia. Quem é você? O que está aqui a fazer?

 

Ela sabia que ia desmaiar, mas existiu um momento de clareza em que viu o lado engraçado da situação.

 

Eu sou a polícia ouviu-se ela a dizer com uma voz divertida, antes de os joelhos cederem e cair na direcção dele.

 

Apartamento 406, Torre Residencial, Bairro Bassindale

 

A mulher idosa do apartamento por baixo do Sr. Derry fez uma pausa no meio do seu telefonema para escutar o baque sonoro que veio lá de cima.

 

Aquele velho senil anda outra vez a tramar alguma disse ela de mau humor à sua amiga. Se não tiver cuidado, vai deitar-me o tecto abaixo. O que é que achas que ele faz? Atira a mobília ao chão sempre que tem uma birra?

 

A amiga não estava interessada.

 

Oh, pelo amor de Deus, Eileen! gritou ansiosamente cinco andares acima. Por que é que não me ouves? Está a acontecer uma coisa terrível. Tenho estado a ver pelos binóculos do Wally e há rapazes por todo o lado. Achas que eles estiveram a beber?

 

Como queres que eu saiba?

 

Gostava que olhasses pela tua janela. Há centenas deles. Estão a virar carros ao contrário na entrada da Bassindale Row.

 

Eileen Hinkley ficou curiosa o suficiente para espreitar pelo cortinado, mas encontrava-se num nível inferior, e por isso a sua visão estava encoberta pelos telhados.

 

Chamaste a polícia?

 

Não consigo ligação. As linhas estão todas ocupadas.

 

Então liga para o 112.

 

É isso que eu tenho estado a fazer protestou a amiga, mas sempre que me transferem para a polícia ouço uma mensagem a dizer que eles sabem sobre os distúrbios em Bassindale e para não nos incomodarmos a dar conta disso.

 

Deus do Céu!

 

Exactamente. Mas não consigo ver polícias pelos binóculos. A sua voz subiu de tom graças ao medo. Vamos todos ser mortos. O que achas que devemos fazer?

 

Eileen olhou para o tecto quando uma porta a bater fez estremecer as porcelanas.

 

Trancar-nos dentro de casa e esperar que os problemas passem decidiu ela com firmeza, cruzando os dedos para ter sorte. Nunca se sabe... podemos acertar na lotaria. Talvez os malandros se matem uns aos outros... e nos deixem em paz.

 

Mensagem Policial para todas as esquadras

28.07.01

13.55

Bairro Bassindale

Milosz Zelowski (também conhecido como Nicholas Hollts), n.° 23 da Humbert Street, pede protecção ou remoção para casa segura

Aconselha-se alargamento recursos policiais

LINHAS DE EMERGÊNCIA EM CAPACIDADE MÁXIMA

28.07,01

14.01

Bairro Bassindale

Chamada anónima barricadas erguidas na Bassindale Row

Possível intenção impedir acesso a carros patrulha

LINHAS DE EMERGÊNCIA EM CAPACIDADE MÁXIMA

28.07.01

 

14.08

Bairro Bassindale

URGENTE

Carro patrulha 031 informa bloqueio todas rotas acesso a Bassindale

 

LINHAS DE EMERGÊNCIA EM CAPACIDADE MÁXIMA

 

Sábado, 28 de Julho de 2001 Bairro Bassindale

 

OS DOIS POLÍCIAS no carro-patrulha 31 observavam a construção dos bloqueios a uma distância segura. Tinham saído do bairro pela Forest Road Sul com a intenção de percorrer a estrada principal, regressando pela Bassindale Row Norte para verem o que se passava com Zelowski, na Humbert Street. Mas era demasiado tarde. Já não era possível passar pela Bassindale e, retrocedendo por onde tinham vindo, verificaram que todos os quatro pontos de entrada no bairro tinham sido bloqueados.

 

É bem feito disse o agente mais velho, colocando o rádio em modo de espera. Eu avisei-os de que o bairro podia ser transformado numa fortaleza se os sacanas ficassem zangados. Baixou o vidro e cuspiu para a berma de relva. Eu cá culpo quem o projectou. Deviam ter perguntado a opinião à polícia antes de construírem uma selva de cimento e de a terem enchido de vilões.

 

Pois, pois disse o seu colega, que já ouvira este comentário mil vezes. Estava a observar a cena através de um par de binóculos. Está bem organizado... deve ter sido coordenado para as duas horas. Assobiou pelos dentes. Acho que nos escapámos à justa... mais cinco minutos com a Macdonald e tínhamos ficado presos. Baixou os binóculos. Mas que raio se está a passar? exclamou. Quer dizer, se a Amy está ali dentro, por que é que estes idiotas estão a impedir que entremos?

 

O seu colega suspirou, exasperado.

 

Ela não está ali. Se a mulher nos tivesse conseguido dizer alguma coisa sobre o estilo de T-shírt que a miúda, estava a usar, talvez eu tivesse ficado convencido... encolheu os ombros mas que raio de resposta é: era azul? Ela estava a dizer-nos o que ouviu na televisão.

 

Eles já tinham discutido o assunto.

 

O que nós pensamos não está em causa, George, o que está em causa é o que é que aqueles tipos acenou com a cabeça na direcção dos jovens que erguiam a barricada pensam. Partindo do princípio de que eles pensam, é claro. Levantou os binóculos outra vez. Merda! Liga ao chefe e diz-lhe para mexer o rabo se não quiser o bairro todo queimado. Aqueles estúpidos estão a pôr gasolina dentro de garrafas, e metade deles têm cigarros na boca. Meu... Deus Observou uma criança, que não tinha mais de doze anos de idade, lançar uma garrafa para o seu amigo. Mas que raio de merda pensam eles que estão a fazer?

 

Sophie Morrison pensou o mesmo quando travou a fundo para evitar um bando de jovens bêbados na Glebe Road. Um deles levantou-lhe um dedo como se fosse culpa dela que ele estivesse demasiado bêbado para atravessar a estrada devidamente, e ela formou as palavras atrasado mental para ele através do pára-brisas. Ela esperava que ele ripostasse com um murro no capot uma resposta típica no Bairro Ácido mas um dos amigos dele puxou-o para o passeio e ela prosseguiu a marcha, levantando o seu próprio dedo. Ela viu o amigo sorrir amigavelmente pelo espelho retrovisor e transformou o dedo levantado num aceno de reconhecimento ao perceber que era um dos seus doentes.

 

Ela possuía um respeito saudável pelos habitantes daquele bairro assim como todos os profissionais mas não se sentia intimidada por eles. É claro que ela tomava as suas precauções. Conduzia com as janelas fechadas e as portas trancadas, protegia o telemóvel numa mala de médico, deixava claro aos seus pacientes que nunca andava com drogas, nem com cartões de crédito, nem com grandes quantidades de dinheiro, estacionava sempre em zonas bastante iluminadas e nunca andava por becos escuros à noite. Também andava sempre com um frasco pequenino de spray de pimenta no bolso das calças, frasco esse que, até à data, nunca tivera de utilizar.

 

Nos dois anos desde que começara a exercer a sua profissão, ela desenvolvera um surpreendente carinho pelo Bairro Ácido. Pelo menos as pessoas que aqui viviam eram abertas e não tinham vergonha dos seus problemas normalmente depressão, solidão, relacionadas com a bebida, com a droga ou com a prostituição enquanto a zona mais abastada da área de abrangência insistia em que o seu alcoolismo, a dependência dos Valiums e as DSTs eram sintomas de stresse. Ela achava a perda de tempo associada à respeitabilidade deles ao mesmo tempo entediante e irritante, e preferia a abordagem mais directa dos habitantes do bairro.

 

Dê-me algum Prozac, doutora, o meu homem está preso e os miúdos estão a dar-me cabo da cabeça...

 

Mas isso não fazia que fossem mais fáceis de tratar. Tal como com todos os pacientes, a maior parte do seu esforço era dedicado a convencê-los que mudar de modo de vida traria maiores benefícios do que as drogas, mas as respostas positivas no Bairro Ácido eram mais recompensadoras, pois era mais difícil que estes doentes as conseguissem.

 

Pela lei da natureza, a maioria dos seus doentes mais velhos eram mulheres e, quando lá fora pela primeira vez, ouvira a mesma coisa por parte de todas elas. Os seus maridos tinham morrido. Os seus amigos estavam em lares. Nunca saíam porque estavam inválidas ou tinham medo. Ou ambas as coisas. As suas únicas conversas eram mantidas com assistentes que eram demasiado jovens para saber do que estavam a falar, ou demasiado impacientes para ouvir.

 

Ela percebera rapidamente que tudo o que queriam era um pouco de bisbilhotice com os seus pares, de tempos a tempos e, convencendo três das mais activas a fazer uma compilação de números de telefone muito bem guardados, criara uma rede crescente de linhas de conversa, que permitia que elas pudessem conversar. Essa rede era conhecida como a «Chamada para a Amizade», e o interesse neste esquema atravessara o Atlântico, tendo as dúvidas mais recentes surgido de um complexo residencial na Florida.

 

O seu telefone tocou duas vezes, e ela emitiu um grunhido de irritação antes de parar o carro na berma da estrada. Dois toques era o centro, três o seu noivo. Rodou a combinação da tranca da mala, abriu o telemóvel e pressionou a tecla «l».

 

Acho bem que seja importante disse ela à recepcionista do outro lado da linha, porque prometi ao Bob que estava em Londres às seis horas.

 

Depende se ainda está em Bassindale ou não disse Jenny Monroe do outro lado. Se não estiver, vou tentar mandar o John para lá. O tipo parecia desesperado.

 

O que se passa com ele?

 

É o pai, diz que não consegue respirar. É asmático e está a ficar azul. O Sr. Hollis, no número 23 da Humbert Street. São doentes novos, foram registados há apenas duas semanas, por isso ainda não temos indicações sobre eles. O filho diz que ele tem setenta e um anos e que a saúde dele não é das melhores. Disse-lhe para chamar uma ambulância, mas ele disse que já fez isso, e que não apareceu ninguém. É óbvio que está a entrar em pânico. É capaz de lá ir?

 

Sophie olhou para o relógio. Já passavam duas horas do final do seu turno, mas a Humbert Street ficava já ao virar da esquina. Era a rua que tinha as estradas transversais que ligavam os dois percursos interiores, a Bassindale Row e a Forest Road. Percorreu mentalmente o caminho até lá. À esquerda no fim da Glebe para a Bassindale Norte, à direita para a Humbert, depois à direita para a Forest Sul até ao fim. Era a meio caminho de casa. Nesse caso não seria um grande atraso, partindo do princípio de que a visita não iria demorar muito tempo.

 

Onde está o John?

 

Na Western Avenue. A vinte minutos de distância.

 

Está bem Prendeu o telefone com o queixo e procurou uma caneta. Diga-me outra vez o nome e a morada. Anotou-os no seu bloco. Por que acha que a ambulância não apareceu?

 

Longe de mais, talvez. O tempo de resposta está a ficar cada vez pior.

 

Distraidamente, Sophie retirou do bolso das calças o frasco de spray de pimenta que se estava a enterrar na coxa.

 

Estava a pensar se não teria havido um acidente, ou qualquer coisa do género disse ela, largando o spray para dentro da sua mala. Há bocado estava um grande grupo de pessoas junto da escola.

 

Que eu saiba não aconteceu nada.

 

Muito bem. Se eu chegar atrasada e o Bob ficar zangado, culpo-a a si.

 

É o que faz sempre retorquiu Jenny bem-humorada, antes de desligar a chamada.

 

Mensagem Policial para todas as esquadras

28.07.01

14.15

 

Bairro Bassindale

LINHAS DE EMERGÊNCIA EM CAPACIDADE MÁXIMA

Ocupantes do n.° 105 da Carpenter Road relatam multidão reunida no pátio da Escola Paroquial

Rumores criança com descrição de Amy foi vista ontem à noite na Humbert Street

Possível alvo Milosz Zelowski, n.° 23 da Humbert Street

Zelowski não responde a telefone

Situação instável

LINHAS DE EMERGÊNCIA EM CAPACIDADE MÁXIMA

28.07.01

1417

Bairro Bassindale

URGÊNCIA MÁXIMA

Agente Hanson deve estar em Bassindale

NÃO RESPONDE

28,07.01

14.23

Helicóptero da polícia em espera

 

Sábado, 28 de Julho de 2001 número 23 da Humbert Street, Bairro Bassindale

 

O HOMEM PROTEGEU-SE atrás da porta meio aberta e murmurou algumas desculpas por ter chamado um médico num sábado à tarde. O pai dele estava a ter dificuldades para respirar, informou ele, agitando a cabeça na direcção do interior da casa. Falava num murmúrio, forçando a jovem a inclinar-se para a frente, e percebeu qualquer coisa sobre um «ataque de pânico» e sobre «os asmáticos serem rainhas do palco». Era uma descrição depreciativa de um homem, e Sophie partiu do princípio de que o murmúrio se devia a não permitir que o pai ouvisse o que ele estava a dizer.

 

Da rua banhada pelo sol atrás dela, a voz de uma criança gritou:

 

Ei, és o tarado porco! Vai-te foder! mas tais palavras eram normais no Bairro Ácido, especialmente vindas da boca de crianças, e Sophie ignorou-as. Salvo uma mão-cheia de miúdos no passeio oposto à casa, a rua estava vazia quando ela chegara, e a sua única preocupação era atender esta chamada o mais depressa possível. Entrou na casa e esperou que a porta se fechasse atrás de si.

 

O homem tinha um aspecto doentiamente pálido na obscuridade do corredor, onde o rosto dele pairava como uma lua nas sombras. Não querendo olhá-lo nos olhos, ela observou o fundo do corredor, não percebendo a forma como ele a examinou. Pensou nela como sendo uma rapariga pré-adolescente pequena e magra, e encolheu-se de encontro à porta, numa tentativa desesperada de evitar o contacto. Por que razão tinham eles enviado uma mulher? Ela permaneceu de pé, de costas viradas para ele, aguardando instruções, mas ele não tinha palavras, ante as ancas estreitas e a trança brilhante dependurada entre os ombros dela. Seria fácil confundi-la com uma criança, não fosse a postura confiante que assumia, ou a expressão adulta que irradiava quando se voltou para ele com impaciência e lhe disse para indicar o caminho.

 

Vocês são doentes novos recordou-o. Eu não sei em que quarto o seu pai está.

 

Ele abriu uma porta à direita, que dava para uma divisão onde os cortinados estavam corridos, e um candeeiro numa mesa lançava uma luz débil. A atmosfera estava fétida devido aos odores corporais do homem idoso e com excesso de peso que arfava num sofá, a garganta contrita gemendo com o esforço para absorver ar, os olhos assustados saltando da cabeça, receando que cada inspiração pudesse ser a última. Louvado seja Deus!, pensou Sophie com impaciência. Será que o filho não era normal? Ou seria um parricida? Não era preciso ser um génio para saber que pedir a um asmático que respirasse num forno era uma péssima ideia.

 

Ela agachou-se ao lado do sofá.

 

Estou aqui para o ajudar, Sr. Hollis disse encorajadoramente, enquanto pousava a mala no chão e abria os fechos. O meu nome é Dr.a Sophie Morrison. O senhor vai ficar bem. Ia falando para aliviar o medo que ele sentia e para injectar um pouco de normalidade numa situação anormal, e depois gesticulou furiosamente para que o filho abrisse os cortinados. Preciso de mais luz, Sr. Hollis, e talvez pudesse abrir as janelas, para entrar um pouco de ar fresco.

 

O pai ergueu uma mão angustiada em forma de protesto.

 

Ele não gosta que as pessoas estejam a olhar cá para dentro explicou o filho, ligando o candeeiro do tecto. Foi isso que desencadeou este ataque... ele viu uma cara à janela. Falava de forma hesitante, como se não tivesse a certeza da quantidade de informação que devia fornecer. Ele tem um inalador disse à médica, apontando para um tubo de plástico azul na mão fechada do pai, mas não serve de nada quando ele está neste estado. Não consegue suster a respiração o tempo suficiente para que as drogas façam efeito. Ele conseguia sentir o perfume da pele dela sobre o fedor do pai sujo. Damascos, pensou ele.

 

Há quanto tempo dura? perguntou Sophie, tocando no rosto do velho. Apesar do calor da sala, a pele estava pegajosa e fria, e ela ajoelhou-se ao lado do sofá, e procurou o estetoscópio dentro da mala.

 

Uma hora, com intervalos. Ele estava a começar a acalmar-se, até que as crianças começaram a gritar... Parou a meio da frase.

 

Ele queixou-se de dores no peito ou no braço esquerdo?

 

Não.

 

Quando foi a última vez que ele usou o inalador?

 

Quando estava mais calmo. Há trinta minutos, acho eu.

 

Está a tomar mais algum medicamento? Sedativos? Tranquilizantes? Medicamentos para a ansiedade?

 

Ele abanou a cabeça.

 

O velho tinha uma camisa branca larga, que alguém presumivelmente o filho tivera o bom senso de desabotoar, expondo o peito carnudo e cabeludo. Com pensamentos irónicos sobre toque indevido, Sophie desapertou-lhe a cintura das calças, de forma a arranjar espaço para o diafragma, e depois encostou o estetoscópio entre os caracóis do peito. Era como ouvir um batimento cardíaco ao lado de um martelo pneumático. Ela só conseguia ouvir o arrastar na garganta. Sorriu para os olhos repletos de pânico dele.

 

Qual é o nome de baptismo dele?

 

Franek. É polaco.

 

Ele percebe inglês?

 

Sim.

 

Ela apoiou as duas mãos no maxilar do homem e massajou suavemente o pescoço, inspirando profundamente pelo nariz e encorajando Franek a fazer o mesmo. Enquanto o fazia falou gentilmente, chamando-o pelo nome, acalmando medos, transmitindo confiança e, lenta mas perceptivelmente, o arfar frenético e hiperventilado começou a ficar mais espaçado, e um padrão mais calmo sobrepôs-se. Era um pouco de teatro, uma técnica aprendida para acalmar um doente, mas uma gota de água escorreu do olho direito do Sr. Hollis, como se a bondade fosse um bem raro na vida dele.

 

Ele nunca faria isso comigo disse o filho com amargura. Quer sempre um médico. Acho que ele não confia em mim o suficiente.

 

Sophie sorriu-lhe com simpatia, enquanto aquecia o estetoscópio entre as mãos, para depois o pousar sobre o coração do velho. Escutou com alívio o batimento que normalizava e depois apoiou-se nos calcanhares.

 

Não é que ele não confie em si explicou-lhe ela, observando o seu doente adormecer de exaustão, como uma criança depois de uma birra, mas ele sabe que os médicos têm medicamentos alternativos no caso de o acalmar falhar. Dobrou o estetoscópio e guardou-o na mala. Ele tem estes ataques muitas vezes?

 

De vez em quando. Normalmente consegue controlar a asma com o inalador, mas quando começa a entrar em pânico... Encolheu os ombros em sinal de impotência. É então que eu tenho de chamar um médico.

Disse que tinha sido uma cara na janela que desencadeou isto recordou-o ela. Porquê? Ele tem medo de ser roubado? Ele hesitou um pouco antes de baixar a cabeça em confirmação. Sophie levantou-se e olhou de forma sub-reptícia para o relógio. Precisava de estar em casa às três e meia se tinha alguma esperança realista de se encontrar com Bob em Londres às seis. Já alguma vez foi roubado?

Não, mas ele tem medo das sombras. É uma zona complicada. Isso não se podia negar, pensou Sophie com tristeza. Até o seu velho carro amolgado era um alvo quando ela não estava lá dentro. Durante o dia, ela estacionava junto das casas das suas pacientes idosas da «Chamada para a Amizade», esperando que fossem barulhentas o suficiente quando se aproximavam das janelas para ver quem era a visita e guardarem o carro ao mesmo tempo. Hoje, a vigilante era a Sr.a Carthew demência leve e artrite reumática embora a Humbert Street,

 

normalmente repleta de adolescentes desbocados, hoje estivesse estranhamente calma e ela tivesse ficado muito tentada a estacionar em frente da porta dos Hollis. Apenas o cuidado ganho à conta da experiência a tinha impedido.

 

Há algum sítio onde possamos falar sem o incomodar? perguntou ela, enquanto pegava na mala. Vou passar uma receita para um sedativo fraco, para o ajudar a passar o fim-de-semana, mas sugiro que o leve ao centro na segunda-feira, para vermos a medicação dele. Também lhe posso ensinar algumas técnicas de respiração que o podem ajudar.

 

O filho pareceu resignado, como se já tivesse ouvido tudo aquilo antes.

 

Podemos ir para a cozinha.

 

Ela seguiu-o pelo corredor e sentou-se à mesa.

 

Há quanto tempo moram aqui? perguntou, abrindo novamente a mala e retirando o bloco das receitas.

 

Há duas semanas.

 

Onde viviam antes?

 

Em Portisfield disse ele com relutância. Sophie ficou imediatamente curiosa.

 

Conhecia a miúda que desapareceu, Amy Biddulph? Tem passado nas notícias o dia todo. Acho que disseram que ela morava na Allenby Road.

 

Não. Ele tinha uma maçã-de-adão que pulava descontroladamente pela garganta. Nós morávamos na Callum Road... a cerca de seiscentos metros de distância.

 

Alguns pais são tão irresponsáveis disse Sophie sem simpatia na voz, enquanto passava a receita. De acordo com a rádio, ela desapareceu ontem de manhã, mas a polícia só foi alertada quando a mãe chegou a casa. Isso deixa-me louca. Quem é que deixa uma criança de dez anos passear pelas ruas, hoje em dia? Seguiu-se um momento de silêncio. O pai dela apareceu na televisão hoje de manhã. Estava lavado em lágrimas, a implorar a quem quer que tenha a Amy para a libertar. A maçã-de-adão deu outro salto violento.

 

A culpa não é sempre dos pais disse ele apressadamente. Não se pode controlar todos os minutos do dia de uma criança.

 

Ele parecia saber do que estava a falar, e Sophie interrogou-se se ele teria filhos. Se tinha, onde estavam eles?

 

Por que mudaram para Bassindale? Outra hesitação.

 

Em Portisfield andávamos a irritar-nos um ao outro, e a câmara disse que teríamos mais espaço se nos mudássemos para cá.

 

Têm sorte em não lhes terem dado uma daquelas casas pequenas. São horríveis.

 

Os olhos dele deslocaram-se até à janela.

 

Dissemos que não vínhamos se a casa pudesse ser mais pequena. Mas este sítio não é mau.

 

Ela apenas acreditou nele parcialmente. O tom de voz dava a entender que tudo naquela casa era «mau». Bassindale não era, definitivamente, o tipo de bairro para onde uma pessoa se mudasse voluntariamente.

 

Sinto muito murmurou ela com compreensão genuína. Os homens adultos não têm grande peso nas listas de alojamento. Imagino que tenham sido despejados por uma família com filhos em idade escolar?

 

Ele ficou grato pela ingenuidade dela.

 

Uma coisa desse género.

 

Então não me surpreende que o seu pai tenha ataques de pânico. Não deve ser fácil para nenhum de vocês.

 

A simpatia dela perturbava-o.

 

Não é mau de todo disse ele de forma defensiva. Pelo menos aqui temos um jardim.

 

Ela aquiesceu, estudando-o adequadamente pela primeira vez. Ele era uma daquelas pessoas que não se conseguem descrever, que não têm nada fora do normal para os olhos registarem, salvo a maçã-de-adão saltitante, e ela pensou se seria capaz de o reconhecer novamente se o encontrasse na rua. Até o cabelo não tinha cor, um gengibre deslavado que não tinha qualquer semelhança com os caracóis escuros e espessos que cobriam o pai.

 

E qual é o seu nome? perguntou ela.

 

Nicholas.

 

Ela sorriu de forma amigável.

 

Esperava algo polaco.

 

Fui baptizado Milosz.

 

É a forma polaca de Nicholas? Ele anuiu. Então de onde vem o Hollis?

 

Da minha mãe. Era o nome de solteira dela. Ele falava com frases curtas, como se considerasse a curiosidade dela intrometida, e Sophie ficou a pensar sobre a razão por que teriam ele e o pai trocado um apelido polaco por um inglês. Talvez por ser mais fácil de pronunciar por pessoas como ela?

 

Destacou o talão da receita e entregou-lho, aconselhando-o a deixar que o pai dormisse o mais possível.

 

Se o conseguir convencer a deixar algumas janelas abertas, isso pode ajudar acrescentou ela. O ar fresco vai fazer-lhe melhor do que aquele forno em que ele está neste momento. Preparou-se para se levantar. Quando ele acordar, devia pensar em mudá-lo para um quarto das traseiras.

 

Ele olhou para a receita e depois pousou-a na mesa.

 

Não tem medicamentos na sua mala?

 

Nunca os trazemos para o Bairro Ácido. Seríamos assaltados sempre que abríssemos a porta do carro. Observou-o lançar olhares nervosos para o corredor.

 

O que se passa? perguntou ela.

 

Não os ouve?

 

Ela escutou o som de vozes distantes na rua.

 

Está um pouco barulhento concordou, mas isso é normal, por aqui. Os miúdos não têm nada melhor para fazer, a não ser gritar uns com os outros, especialmente num sábado à tarde, quando começam a beber ao meio-dia. Ele não disse nada. São as férias da escola lembrou-o Sophie. Eles estão aborrecidos.

 

Ele ganhou fôlego como se fosse argumentar mas, em vez disso, abanou desconsoladamente a cabeça e agarrou novamente na receita, enfiando-a no bolso de trás das calças. Não valia a pena deixá-la ficar mais tempo.

 

Acompanho-a à porta.

 

Ela fechou a mala e levantou-se.

 

Um dos meus colegas vai estar de serviço durante a noite disse-lhe, mas se o seu pai tiver outro ataque, então é melhor chamar uma ambulância. Em circunstâncias normais, o tempo de resposta deles é melhor do que o nosso. A única razão para eu ter chegado tão depressa foi porque estava ali ao virar da esquina. De súbito, sentiu pena dele. Mas acho que não precisa de se preocupar. O medo deixa-nos exaustos. Provavelmente ele vai dormir a noite toda, e amanhã, quando a rua estiver mais calma, vai pensar para que foi aquele pânico.

 

Espero que tenha razão.

 

Se ele tomar um sedativo antes de se deitar, acho sinceramente que não vai ter qualquer problema garantiu-lhe ela, enquanto se dirigia, à frente dele, para a porta. Viu as horas novamente. A farmácia na Trinity Street está aberta até às seis, por isso tem muito tempo para lá ir antes que feche. Com um gesto impulsivo, ela parou em frente da porta da rua e ofereceu a mão para se despedir.

 

Parecia um passarinho pousado na palma da sua mão, e Nicholas fitou-a com um fascínio estranho. Queria continuar a agarrá-la, encher as narinas com o odor de alguém limpo, mas a sua mão tremia sob a dela, e ele puxou-a para longe.

 

Obrigado por ter vindo, Dr.a Morrison disse ele, estendendo o braço ao lado de Sophie para abrir a porta.

 

Houve um momento, pensou sempre Sophie depois daquela altura, em que ela poderia ter saído da casa, tão inocente e intacta como quando entrara. Mas o tempo para pensar fora tão curto uma fracção de segundo para tomar uma decisão que ela não sabia que tinha de tomar. Uma fracção de silêncio, enquanto a porta se abria, em que ela devia ter saído, mas não o fez porque o filho de um doente dissera obrigado, e ela fez uma pausa para lhe sorrir.

 

Mensagem Policial para todas as esquadras

LINHAS DE EMERGÊNCIA EM CAPACIDADE MÁXIMA

28.07.01

14.35

Bairro Bassindale

URGÊNCIA MÁXIMA

Chamada anónima telemóvel indica multidão + 200 pessoas entrando Humbert Street

Armadas com pedras e garrafas

Possivelmente cocktails Molotov

NÃO HÁ ACESSOS

 

SITUAÇÃO FORA DE CONTROLO

LINHAS DE EMERGÊNCIA EM CAPACIDADE MÁXIMA

28,07.01

14.37

Helicóptero da polícia a caminho

 

Sábado, 28 de Julho de 2001 número 23 da Humbert Street, Bairro Bassimdale

 

O QUE ACONTECEU a seguir foi completamente inesperado. Não havia qualquer defesa contra a explosão de som que embateu neles como uma onda, quando cem gargantas libertaram um urro de triunfo. Não havia qualquer protecção contra a pedra afiada que atravessou o ar e cortou a pele do braço direito de Sophie. Foi tão inesperado, tão chocante, que a sua reacção imediata foi bater com a porta e trancar-se dentro de uma prisão.

 

Ela ouvia-se a praguejar, mas as palavras foram afogadas sob uma chuva de pedras que ribombaram contra os painéis de madeira e a fizeram agachar-se enquanto se afastava do perigo. Viu a porta estremecer sob o assalto e gritou a Nicholas para que este fugisse. Ele fitou-a, a boca a abrir e a fechar como se tentasse dizer alguma coisa. Durante um momento terrível ela pensou que ele ia desmaiar, antes que o instinto tomasse conta dele, levando-o a gatinhar como se fosse um caranguejo na direcção dela. Agiam de acordo com os instintos mais básicos, arqueando o corpo como animais, reduzindo a área de alvo, a cabeça baixa, virados para o predador que se encontrava atrás da porta. Mesmo que algum deles tivesse tido tempo de pensar no que estava a acontecer, o som do fuzilamento agredia-lhes os ouvidos e entorpecia-lhes o discernimento.

 

Sophie olhou para a porta aberta da sala vendo um santuário, ignorando que o corredor sem janelas era mil vezes mais seguro. Com o coração rebentando no peito, ela forçou-se a endireitar-se e correu para a sala, pronta a bater a porta atrás de Nicholas. Percebeu que Franek estava de pé, até estendeu a mão para se apoiar na direcção dele, quando a janela explodiu para o interior, e estilhaços de vidro atravessaram os cortinados finos, deixando entrar manchas de luz do sol. Tudo aconteceu numa fracção de segundo, mas ela viu-o com tanta clareza que o quadro ficou impresso de forma indelével na sua mente. Belo, na forma como a luz atravessava a sala, trágico, no inevitável acontecimento seguinte. O assassinato de um velho.

 

A recordação nos seus sonhos era sangrenta, pois o terror da antecipação criou uma memória mais poderosa do que a realidade. Mas era uma memória falsa. Mesmo enquanto gritava um aviso agudo Fuja, fuja, fuja! e Franek se virava para olhar para ela, as adagas de vidro caíam inofensivas no chão, o seu impulso absorvido pelo tecido dos cortinados. Ele deve ter ficado visível para a multidão lá fora, pois as vozes ergueram-se novamente e, desta vez, reconheciam-se palavras individuais.

 

Animal...!

 

Cabrão...!

 

Tarado...!

 

Nicholas agarrou no braço do pai e arrastou-o para o corredor, gritando para que Sophie fechasse a porta.

 

A cozinha indicou-lhe ele, enquanto conduzia o seu pai, passando ao lado das escadas. Há lá um telefone.

 

Estava tudo a acontecer muito depressa. A razão de Sophie gritava que eles estavam a correr para uma armadilha, mas o ímpeto dos homens apavorados arrastou-a para a cozinha. Franek deixou-se cair no chão por baixo do lavatório, gritando em polaco ao seu filho e gesticulando furiosamente na direcção de Sophie. Nicholas respondeu com frases rápidas e duras, dizendo por gestos ao velho que se afastasse dela. Ele agarrou no telefone, batendo no descanso, procurando um sinal de marcação, e depois abandonou-o para barricar a porta da cozinha com a mesa.

 

O que está a fazer? A voz dela tremia com os nervos.

 

O telefone não dá sinal.

 

Ela gesticulou na direcção da porta.

 

Sim, mas eu não percebo o que está a acontecer. Por que estão as pessoas lá fora? Por que estavam a gritar com o seu pai?

 

Outra explosão de polaco de Franek.

 

O que está ele a dizer?

 

Que não há tempo para falar disse Nicholas, mudando um pequeno microondas para a mesa, para adicionar algum peso à frágil obstrução. Temos de fazer com que a barricada fique mais forte.

 

Franek falou do chão, desta vez em inglês.

 

Isto deixa nós seguros até vir ajuda, sim?

 

Não tenho a certeza. Ela lutou para controlar a voz. Por que estão eles aqui? Por que não está o telefone a funcionar?

 

Nicholas encolheu, incerto, os ombros. Acho que eles devem ter cortado a linha.

 

Porquê? Pegou no auscultador e pressionou-o contra a orelha. Por que haviam eles de fazer isto?

 

Porquê? Porquê? Porquê? disse o velho do chão. Fazes muitas perguntas. Sê útil. Ajuda Milosz bloquear a porta.

 

Mas... Sophie forçou-se a pensar. Talvez eu devesse tentar falar com eles? Se voltar à sala e gritar pela janela, posso dizer-lhes quem sou. A maior parte deles deve conhecer-me. Tenho vários doentes na Humbert Street. Uma delas mora na porta ao lado. Pode ser que esteja um polícia lá fora.

 

Não. O velho obeso levou a mão ao peito e inspirou ruidosamente. Tu ficas. Acrescentou algo em polaco.

 

O filho encolheu os ombros com pesar.

 

Ele tem medo de morrer.

 

Não é só ele ripostou Sophie energicamente, e, francamente, acho que ficarmos aqui escondidos não é solução. Vamos ser alvos fáceis se eles arrombarem a porta.

 

Ele diz que sente outro ataque a aproximar-se. Ela abanou a cabeça, furiosa.

 

Não se passa nada com ele gritou ela. Ele entrou aqui a correr como se tivesse dois anos. Seja como for, deixei a minha mala no corredor. Se Nicholas ficou surpreendido pela falta de simpatia dela, não o demonstrou. Em breve a polícia vai estar aqui. Nessa altura tudo vai ficar bem.

 

Sophie tentou escutar sons no corredor, mas apenas conseguiu ouvir gritos esporádicos e abafados, que pareciam vir do lado da janela.

 

A multidão pode entrar por trás? Nervosamente, ele seguiu o olhar dela.

 

São jardins. Tinham de derrubar as vedações para chegarem até nós. Interrompeu-se para escutar. É um eco que vem da estrada disse.

 

Sophie agarrou na ponta da mesa e desviou-a da porta. Sim, pois, eu não estou preparada para apostar nisso... e este pedaço de lixo não conseguia impedir uma criança de entrar. Com um gesto irritado na direcção de Franek, fazendo sinal para que ele se levantasse, ela girou a maçaneta e espreitou pela fresta. Ominosamente, os gritos da rua pareciam ter acalmado, mas as portas continuavam fechadas e não havia ninguém no corredor. Leve o seu pai lá para cima e eu vou buscar a minha mala. Vou espreitar pela entrada do correio para ver o que se está a passar.

 

Outra explosão de polaco de Franek, seguido pelo aperto de Nicholas no braço dela, arrastando-a para trás.

 

Eu vou buscar a mala disse ele. Tome conta do pai. Ela afastou-o com um safanão.

 

Largue-me!

 

Com um «desculpe» murmurado, ele largou-a imediatamente, apenas para sentir o pai dele tapar-lhe a boca com uma mão nojenta e agarrá-la em redor da cintura com a outra. Ele empurrou-a para as escadas, o calor do peito nu dele pressionando-lhe as omoplatas.

 

Vais ser boazinha, menina murmurou-lhe ele ao ouvido, ou parto-te a coluna como se fosse um pau. Vais ser nossa segurança até polícia chegar. Sim?

 

Sábado, 28 de Julho de 2001 sala de ocorrência, salão paroquial, Portisfield

 

AMY DESAPARECERA HAVIA vinte e quatro horas, e os telefones na sala de ocorrência tinham tocado sem parar desde que a sua fotografia fora exibida em blocos noticiosos da televisão. Ela fora vista por todo o Reino Unido, desde Land’s End até John O’Groats, e cada informação tinha de ser cuidadosamente investigada. As mais promissoras eram as que descreviam uma menina na companhia de um homem mas, no pico da época de férias, isto não era nada fora do vulgar. Os pais acompanhavam normalmente as filhas para comprarem comida em estações de serviço, ou ficavam na parte de fora da casa de banho das senhoras, enquanto a criança entrava. A frustração crescia, à medida que cada nova pista acabava por ser rejeitada.

 

Contrastando com este tipo de abordagem dispersa, que tais investigações criavam sempre, o foco de atenção dos esforços do Inspector-Detective Tyler e da sua equipa era descobrir onde Amy estivera nas últimas duas semanas. O padrão emergente era estranho. De acordo com Barry, ela saíra todos os dias às dez horas ele acordava sempre que a porta batia e voltava todas as tardes ao quarto para as seis, dizendo que tinha estado com Patsy. Mas quando Kimberley a confrontara na quarta-feira à tarde, dizendo que ela era uma mentirosa, Amy transformara-se numa «cabrazinha».

 

O rapaz parecia confuso enquanto descrevia a cena.

 

Normalmente ela era um bocadinho paranóica: chorava muito, não gostava de televisão, depois a Kim chamou-lhe mentirosa e ela ficou completamente passada. Deu pontapés e brigou, e só quando a Kim prometeu que não contava nada à mãe dela é que a Amy acalmou.

 

O acordo era que ela chegava antes da Laura, senão a Kim ficava sem o dinheiro por tomar conta da Amy.

 

Isto foi na quarta-feira? Barry anuiu. E ela cumpriu o acordo na quinta-feira à noite? Outro aceno. Algum de vocês tentou descobrir onde ela ia?

 

Mais ou menos. A Kim ’tava sempre a picá-la sobre ela enfiar-se num buraco, porque ela não tinha amigos.

 

Ela reagia?

 

Disse só que ficávamos com inveja se soubéssemos.

 

Os familiares de Laura Biddulph e de Martin Rogerson haviam sido entrevistados de um dia para o outro, sem qualquer resultado. Os pais de Rogerson viviam num lar para reformados em Brighton, e não viam a neta havia quase dois anos. Ela só cá veio daquela vez. O Martin queria fazer as pazes... não falávamos com ele desde o divórcio... mas a Amy era muito exigente... estava sempre a chorar. Nós pensámos que ela estava doente... estava sempre a ir à casa de banho com dor de barriga, mas não deixava que a ajudassem. Criança estranha... muito irritante... achamos que sai à mãe... Ela irritava o Martin. Pedimos que não a trouxesse novamente. Não, não fazíamos ideia de que ele e a Laura estavam separados. Os seus filhos de um casamento anterior nunca a tinham conhecido. Antes de ele casar avisámos que íamos ficar do lado da mãe... Que tipo de pai era ele? Distante... desinteressado... Sempre achámos que ele não gostava muito de nós... Ele batia-lhes se fossem desobedientes? Raramente... ele chegava sempre a casa muito tarde... essa tarefa era da mãe...

 

Os pais de Biddulph, reformados e a viver em Oxfordshire, perto da filha mais velha, também tinham visto Amy apenas uma vez, quando Laura a trouxera numa visita surpresa no Verão do ano anterior. Tal como a família Rogerson, eles apresentaram uma imagem de alienação em relação à filha que os decepcionara com o casamento. Foi o Sr. Biddulph quem mais falou.

 

Laura mencionou alguns problemas no casamento? Não o faria... tinha muito medo de ouvir «nós avisámos»... Eles não aprovavam Martin? É claro que não... era pouco melhor que um pedófilo... a levar uma menina-noiva como trofeu... Eles sabiam que Laura planeava deixá-lo? Não... surgiu do nada, quando ela telefonou a dizer que estava com outra pessoa... Tinham conhecido Townsend? Não... A Laura falou sobre ele? Acho que ela disse que ele era empreiteiro... A Amy falou sobre Martin enquanto esteve com eles? Não... não a encorajámos. A relação de Laura com a filha era carinhosa? Se está a perguntar que estavam sempre agarradas uma à outra, então não... A nossa família não é muito expansiva... Viram [ alguma coisa que sugerisse que Amy estava a ser maltratada fisicamente? Por quem... pelo Martin ou pela Laura? Qualquer um deles. A Laura não, de certeza... ela não é capaz de fazer mal a uma mosca... Quanto ao Martin... o homem é capaz de tudo... A irmã de Laura deu um brilho diferente às respostas.

 

A minha mãe tinha quarenta e oito anos quando a Laura nasceu. Ela pensava que já estava na menopausa quando, de repente, lá aparece uma filha. Eu tinha dezoito anos, e o meu irmão dezasseis. Achámos que era um pneu... sabe, a gordura desloca-se para sul, depois dos quarenta e cinco... e em vez disso aparece-nos a Shirley Temple. Sempre a cantar, sempre a dançar, e três vezes mais fofinha do que nós alguma vez fomos. Ela ficou completamente estragada. O pai estava quase reformado e de repente descobriu os prazeres da paternidade, enquanto a pobre da mãe foi relegada para segundo plano. O único culpado de ela ter casado com o Martin foi o pai. Ele ensinou-lhe como era fácil a uma menina bonita dar a volta aos homens mais velhos.

 

Continua a dar-se com ela?

 

Mal a conheço. É mais uma prima distante.

 

Tem inveja dela?

 

A irmã era uma esposa de lavrador entroncada, com faces batidas pelo vento e mãos endurecidas pelo trabalho.

 

Costumava ter admitiu, agora já não. Ela perdeu o brilho quando casou com o Martin.

 

Chegou a conhecer a Amy quando elas cá vieram?

 

Sim, sim. A Laura trouxe-a cá, uma noite.

 

O que achou dela? Sorriu com um certo cinismo.

 

É um clone da mãe. Sempre a cantar, sempre a dançar, quando acha que ganha alguma coisa com isso... calada que nem um rato quando acha que não. Ela seduziu o meu marido em dois segundos, por uma gorjeta de 50 pence. Ele achou-a a criança mais adorável que alguma vez tinha visto.

 

E você? Você também foi seduzida? Pensou por um momento.

 

De uma certa forma engraçada, acho que também fui. Ela parecia um macaco amestrado... sempre em cima de nós, quer quiséssemos, quer não. Isto é claramente a Laura. Nós só damos um beijo na cara de vez em quando, mas a Laura é incrivelmente táctil. Não tem nada a ver com os Biddulph. Fez uma pausa. Ou era corrigiu ela com uma nota de surpresa na voz. Pensando bem, não me lembro de que ela estivesse nada demonstrativa no Verão passado.

 

Os vizinhos em Portisfield estavam ansiosos por ajudar por vezes demasiado ansiosos mas revelaram ser uma desilusão a nível de informações. Aqueles que conheciam Amy não a tinham visto durante o período das duas semanas; os que não conheciam, enviavam a polícia atrás de pistas falsas.

 

’Cês deviam ir à casa no fim da Trinity Street... Há lá um tipo qu’anda sempre de roda dos parques dos miúdos... eu cá acho qu’ele merecia uma sova...

 

Vi a mãe umas quantas vezes... diss’à minha amiga: «Qu’é qu’aquele velho do Gregory quer c’uma mulher com metade da idade?” «Velho gaiteiro», responde-m’ela. A Kimberley vai ficar verde d’inveja. Vais ver. Na’tarda muito p’andarem ás turras uma c’a outra.

 

Por acaso vi uma menina muito parecida com a desta fotografia... muito bonita, com cabelo escuro comprido... Ela estava com um homem, num carro... pararam ao meu lado, no semáforo... acho que era um carro preto... não era um Mini nem um Rolls... são os únicos que consigo diferenciar...

 

A polícia ocupara o salão paroquial ao lado da igreja católica, em Portisfield, e instalara aí a sua sala de ocorrência. A um canto, o Inspector-Detective Tyler fez o relatório ao seu Superintendente, ao início da tarde de sábado.

 

Passa-se aqui alguma coisa muito estranha... não consigo perceber. A Biddulph está completamente fora de si... ora está aos berros com a Kimberley Logan, ora fica sentada como um zombie... depois recusa-se a sair de casa, ou exige que encontremos a filha. O Rogerson é o contrário... equilibrado, educado, composto, prontifica-se a fazer tudo o que lhe pedimos... depois rebenta em lágrimas assim que as câmaras apontam para ele.

 

Por que é que isso o surpreende?

 

Ele estava a contar anedotas antes de irmos para a conferência de imprensa. É completamente misógino. Agitou a mão para encorajar uma resposta. Qual é o único electrodoméstico que funciona a pontapé?

 

Não sei.

 

A mulher.

 

Humm. O Superintendente esfregou a mão na nuca, pensativo. Pode ser a forma de ele berrar, como a miúda Logan. Nem todos conseguem dizer e fazer a coisa mais acertada na altura certa. Fez uma pausa. Você diz que os pais se odeiam.

 

Tyler anuiu.

 

O Rogerson é bastante honesto em relação a isso, diz que a diferença de idades mostrava que não tinham nada em comum... diz que foi um idiota por ter casado com ela... devia ter visto o que provavelmente iria acontecer... que o Townsend era uma aventura à espera de acontecer. Ele admite que parte da culpa é dele, porque passava demasiado tempo no trabalho, mas diz que não guarda rancor, até sugere que está bastante satisfeito por se ter visto livre dela. Sorriu de forma cínica. Pelo menos isso é o que ele alega.

 

Não acredita nele?

 

Tyler pensou antes de responder.

 

Não sei. É demasiado insistente ao dizer que a sua única preocupação é o bem-estar da Amy, quando, e isso foi admitido por ele, não dá nenhuma ajuda à criança nem a vê há nove meses. Ele descarta-se de responsabilidades culpando a Laura por ter devolvido os cheques quando estava a viver com o Townsend, e depois por ter desaparecido completamente. Ele diz que ela está a manipular os sentimentos da criança para ter um ponto a seu favor quando chegar ao divórcio. Não deste nenhuma ajuda, ela não gosta de ti, não quer viver contigo... esse tipo de coisas.

 

Acontece. As crianças transformam-se em bolas de futebol nestas situações. É triste, mas não é invulgar.

 

Mas é essa a questão. Não vejo qual é o problema. É raro o pai ficar com a custódia, especialmente quando trabalha tanto como o Rogerson, por isso por que é que a Laura está convencida de que vai perder a filha? Não faz sentido. Deviam tentar uma custódia partilhada, e assim ficava toda a gente contente. Fez uma pausa para consolidar as ideias. Há mais uma coisa que não faz sentido na casa do Rogerson. Nunca se pensaria que uma criança lá morou. Não há brinquedos... a televisão é minúscula... não há cassetes de vídeo... não há um baloiço no jardim... objectos de porcelana valiosos por todo o lado. A Amy devia ficar apavorada por poder partir alguma coisa sempre que entrava numa divisão. Encolheu os ombros. Estou a pôr em causa se ele sequer queria um filho, quanto mais a custódia da miúda, se a mulher o deixasse de chatear.

 

Outro «humm». Quem não conhecesse o chefe partia do princípio de que ele estava a murmurar para si próprio. Quem o conhecia estava habituado a estas elipses verbais, com as quais ele tentava ganhar tempo para pensar. A maior parte dos seus subordinados adoptara esse hábito, embora tivessem o cuidado de não o imitar à frente dele.

 

Interessante. Fez algum comentário ao Rogerson? Tyler anuiu.

 

Antes da conferência de imprensa. Perguntei-lhe por que razão eles brigavam pela criança, quando a custódia conjunta teria resolvido o problema, e ele disse que concordava, mas que não podia fazer nada se a mulher não falava com ele.

 

Qual foi a reacção da Laura?

 

Ele é coerente e por isso é um advogado. Ou vice-versa.

 

Ela tem razão. Eles são todos uns malditos tubarões. O Inspector sorriu.

 

Mas tem de haver mais alguma coisa. Um deles tem o outro na mão, mas não sei porquê, nem sei quem. O meu palpite é que o Rogerson sabe algum podre sobre a mulher, possivelmente alguma coisa a ver com o Townsend, caso contrário ela não se teria vendido ao Logan para pôr um tecto sobre a cabeça delas.

 

O que sabemos sobre o Townsend?

 

Não muito. Está de férias em Maiorca com a namorada nova. O Rogerson continua a representá-lo, o que me parece um pouco bizarro. Era de se esperar que ele lhe tivesse dado um chuto depois de se ter metido com a mulher dele. Olhou para cima com as sobrancelhas erguidas.

 

A que nível? Pessoal? Negócios?

 

Ambos. A Laura diz que estão sempre a falar ao telefone um com o outro.

 

O Superintendente pareceu pensativo.


Talvez devesse virar a questão ao contrário e perguntar por que quereria o Townsend um homem que ele tinha enganado como advogado? Isso é mais interessante, não acha? Sugere que eles têm mais coisas em comum do que apenas a Amy e a mãe dela. Como por exemplo?

Segredos? Talvez sejam os homens que saibam algum podre um sobre o outro. Onde é a base dele? Que empresa é esta? Em Southampton. É uma empresa de construção chamada Etstone. O Rogerson deu-nos ambas as moradas. Desde ontem à noite que temos um carro à porta da casa do Townsend, para o caso de a miúda aparecer, e falámos com os vizinhos. Um ou dois lembram-se da Laura e da Amy, mas nenhum deles fez grande amizade com elas. Todos descreveram o Townsend como um jogador, uma mulher descreveu-o como «muito jeitoso», e disseram que passava muito tempo fora. Foi casado duas vezes. A primeira mulher durou três anos, a segunda apenas doze meses. Tem tido muitas aventuras, mas a Laura foi a única namorada que pôde mudar-se para casa dele. De acordo com a mesma mulher, ele está mais interessado em aventuras passageiras do que em relações. O Gary Butler, que a entrevistou, disse que ela foi de certeza uma dessas aventuras, e que não ficou muito satisfeita com isso.

 

Então ele é um bocado sacana?

 

Parece que sim. Não conseguimos falar com ninguém no escritório dele. Está fechado este fim-de-semana, e os gravadores não dão números de contacto. Ele deixou a morada do hotel em Maiorca com o vizinho do lado, para alguma emergência, por isso estamos a tentar contactá-lo. O gerente disse-nos que ele tem um carro alugado e que desapareceu para uma praia de nudismo ao fundo da costa. Esperam que ele regresse ao fim da tarde. Nessa altura vou tentar novamente.

 

Acha que ele está envolvido? Tyler abanou a cabeça.

 

Não vejo como possa estar. Ele tem estado ausente do país desde terça-feira, e a Amy tem desaparecido todos os dias. Estou só a atar as pontas soltas. Ele pode lançar alguma luz sobre o que se está a passar entre os pais.

 

Humm. O Superintendente estudou-o cuidadosamente por um momento. Você anda a caçar gambozinos, meu caro. O Rogerson esteve no gabinete o dia inteiro, a Biddulph estava a trabalhar e o Logan estava a conduzir o autocarro. O Rogerson podia ter pago a alguém para a raptar e para ficar com ela até que as coisas acalmassem... mas não tem nada a ganhar com isso. Ele não pode fazê-la aparecer uma semana ou duas depois e dizer que foi tudo um erro. Não há registo de maus tratos, e os professores da miúda dizem que é equilibrada e acima da média. Fez um gesto de impaciência. Estamos à procura de um psicopata. É a única explicação.

 

Tyler abanou a cabeça num sinal de frustração.

 

Então aonde é que a maldita miúda tem ido todos os dias? Com quem é que ela tem estado?

 

Um dos computadores da sala de ocorrências transmitia de forma rotineira as mensagens policiais das outras divisões.

 

Está a acontecer um tumulto em Bassindale anunciou o operador a Tyler, que se preparava para sair.

 

Porquê?

 

Parece que estão a visar um pedófilo.

 

Como é que ele se chama?

 

Milosz Zelowski. - Fez correr as mensagens. Mudou de Portisfield há duas semanas... foi entrevistado esta manhã... revistaram a casa... pediu protecção... aconselhou-se o alargamento dos recursos policiais... dizem que a Amy foi vista na rua dele ontem à noite... mais de duzentas pessoas estão aglomeradas à volta dele com pedras e garrafas... estão a erguer barricadas... uma agente no local não responde... o telefone do Zelowski está desligado... a situação está fora de controlo. Ergueu o olhar. É uma escolha terrível, Inspector.

 

  1. Procuramos a miúda ou protegemos o pedófilo? Não temos pessoal que chegue para as duas coisas.

 

Mensagem Policial para todas as esquadras

28.07.01

14.43

Bairro Bassindale

ACTUALIZAÇÃO Agente desaparecida Agente Feminina Hanson

Visitas agendadas de Hanson esta manhã W. Barber, 121 Pinder Street M. Furnow, 72 Harrison Way J. Derry, Apartamento 506, Torre Residencial

Chamada automática 4’... Barber 729431/Furnow 729071/Derry

725600

Não há resposta

 

Não há resposta

 

Não há resposta

 

Não há resposta

 

Não há resposta

 

Sábado, 28 de Julho de 2001 Torre Residencial, Bairro Bassindale

 

JIMMY JAMES FITOU furiosamente o aviso de «Fora de Serviço» nas portas do elevador na Torre Residencial e depois, para descarregar, deu um murro no metal marcado, onde uma espingarda de pressão de ar criara um V na pintura cinzenta. Ele andava atrás de um tipo do oitavo andar que lhe devia dinheiro, mas estabeleceu o limite na subida das escadas. Além do mais, o patife evitava-o desde quinta-feira, por isso, quase de certeza não estaria em casa. Talvez na rua, com os outros atrasados mentais.

 

O bloco estava assustadoramente sossegado. Num sábado normal, a escadaria de metal estaria a ressoar com os gritos das crianças, mas hoje elas estavam fechadas nos apartamentos, ou então estariam a perseguir a multidão, como se fossem seguidores de acampamentos. Nessa tarde, ele passara por um grupo de crianças de sete anos que entoavam cânticos junto da escola, onde os soldados de Melanie se reuniam. Pé do filho fora... pé do filho fora... Eles não sabiam o que deviam dizer pedófilo fora quanto mais o significado, e duvidava de que os adultos estivessem mais bem informados. Isso deixava-o deprimido. A ignorância deixava-o sempre assim.

 

Acendeu um cigarro e ponderou sobre as suas opções. Não se podia evitar o que estava a acontecer. Melanie tinha falado numa «marcha de protesto», mas o cheiro a gasolina no ar sugeria outra coisa. Ele fizera um desvio para observar um dos percursos de saída, e encontrou-o bloqueado com carros, alguns virados de lado, e todos com os depósitos de combustível abertos e com a gasolina retirada ou a escorrer pelo alcatrão. Viu rapazes a encher garrafas com gasolina e raparigas a

 

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enfiar trapos nos gargalos, e não era preciso ser Nostradamus para prever que se avizinhava uma batalha. Um carro da polícia solitário era visível no extremo da barreira e a ansiedade no rosto dos agentes espelhava a sua própria.

 

O pedófilo era apenas uma desculpa para os ressentimentos em ebulição das classes inferiores do Bairro Ácido. Eles eram os judeus no gueto, os negros nos bairros de cor, as pessoas sem voto nas matérias que se desenrolavam para além das suas fronteiras. E o irónico era serem quase todos brancos. Jimmy compreendia-os até certo ponto tal como qualquer negro no país mas também os desprezava pela falta de vontade de mudar. Ele tinha planos para levar Melanie e os miúdos para fora disto... encontrar um sítio qualquer em Londres onde pudesse endireitar-se e ser alguém na vida... ou pelo menos tivera, recordou-se sombriamente, até ter descoberto que nenhum dos seus contactos estava a fazer negócio naquele dia.

 

Pelo menos dois tinham tido o bom senso de sair do Bairro antes de as barricadas terem sido levantadas, e um terceiro recusara-se a abrir a porta. Por razões diferentes, nenhum deles queria problemas com a lei, e isso significava manterem-se longe de vista até que os problemas passassem. Longe da vista era longe da mente, e amanhã era um bom dia para voltar aos negócios. Jimmy estava rapidamente a chegar à mesma conclusão. Naquele momento, ele devia estar num comboio com dinheiro na mão e alguma coisa para vender, mas, à falta de ambos, a sua única alternativa era refugiar-se na casa de Melanie. Havia tempo suficiente para se endireitar quando os seus negócios estivessem concluídos, mas agora começava a ficar preocupado. Afinal talvez não tivesse sido muito boa ideia ter deixado que Mel e os miúdos fizessem o protesto sozinhos. Quem sabia o que os tarados do Bairro Ácido podiam estar a planear para a Humbert Street?

 

Esmagou o cigarro sob o calcanhar e espetou o dedo furiosamente contra o botão do elevador. Só precisava de que uma coisa corresse bem, mas nada funcionava naquele maldito lugar. Estava a insultar uma máquina inútil, mas, com um ruído metálico, as portas abriram-se. Pensou que a sua sorte mudara, até que viu o corpo no chão. Ah! Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus! Ele não parou para pensar... limitou-se a virar as costas e fugir.

 

No interior do número 23 da Humbert Street

 

Sophie encolheu-se a um canto e procurou no bolso um lenço para limpar o sabor da mão do velho dos seus lábios. Estava tão assustada que os dedos não respondiam, e premiu-os contra a parede para parar os tremores. O quarto tinha peças de mobiliário diferentes por todo o lado, e Franek estava de guarda à frente da porta, a cabeça inclinada para o lado, tentando ouvir o filho, que estava a arrastar algo pesado no patamar. Os olhos dele nunca deixaram o rosto dela, fitando-a longamente sem pestanejar, o que a forçava a fitá-lo também. E se ele se mexesse? E se ele a atacasse outra vez? As palavras da multidão ecoavam na sua mente. Animal... cabrão... tarado...

 

Nada fazia sentido. De onde viera a multidão? O que desencadeara tudo isto? A rua estava quase vazia há uma hora. Receio pela sua segurança coloriu-lhe os pensamentos e afastou-lhe da mente qualquer pensamento sobre o pedófilo de Melanie. Será que a tinham atraído para ali? Será que alguém a vira entrar e adivinhara que ela estava em perigo? Animal... cabrão... tarado... Então por que a tinham atacado quando ela tentara sair? E onde estava a polícia?

 

Era como tentar orientar-se no meio de nevoeiro. O seu pensamento estava paralisado pela malignidade do velho. Nada que ela imaginasse sobre ele podia ser pior do que a realidade. Ela sabia que ele estava a reviver a altura em que tinham chegado ao cimo das escadas, quando as mãos dele tinham estado sobre os seus seios e a erecção penetrante contra o seu rabo, sentiu que ele absorvia todo o sumo do mais ínfimo tremor que lhe dizia que ela também a estava a reviver. Ele deu um súbito passo em frente.

 

Eu mato-o avisou Sophie, a voz rouca devido à secura da garganta. Procurou o spray de pimenta no bolso e não pôde acreditar que, na única altura em que precisava dele, estava fechado dentro da mala juntamente com o telemóvel. Onde estava a mala dela? Será que Nicholas a tinha levado, ou estaria ainda ao lado da porta da rua?

 

Nicholas devia tê-la ouvido falar, pois gritou bem alto em polaco, e o seu pai virou-se relutantemente para olhar pela porta. Foi um súbito despertar uma libertação da hipnose. Procurou furiosamente ao seu redor uma arma, agarrando num par de cadeiras de costas duras, e dispondo-as à sua frente, puxando as costas firmemente contra as suas pernas.

 

Franek ouviu o arrastar da madeira pelo soalho.

 

Para quê isso? exigiu furiosamente. Achas que cadeiras vão salvar-te? Fazes melhor em ajudar Milosz mudar coisas pesadas para proteger porta. Ele tenta empurrar roupeiro do meu quarto. Isso é inútil apontou para as cadeiras, isto não é.

 

Ela ignorou-o para pegar numa jarra de vidro e numa velha pá de críquete, que pousou num dos assentos à frente dela, seguida por alguns livros de capa dura e por um prato de esmalte com uma borda ameigada.

 

Fazer o que digo. Ajudas Milosz.

 

Ela abanou a cabeça e ergueu a jarra com ambas as mãos. Atrás dele, viu a sua mala pousada contra o balaústre. Ele deu uma risada rouca.

 

Achas que vidro parte minha cabeça? Bateu com os dedos na testa. Duro como ferro. Achas que podes lutar com Franek? Olha para estes... formou punhos com as mãos e dançou na direcção dela como se fosse um lutador de boxe, lançando um murro simulado na direcção da face dela, um murro e ficas a dormir.

 

A reacção automática dela foi dar um passo atrás, recuar, evitar um confronto, mas não conseguiu, pois a parede estava encostada aos seus ombros. Humedeceu os lábios.

 

Então vá disse, numa voz enrouquecida pelo medo, porque lhe esmago a merda da cabeça se tentar.

 

Ele estava claramente tentado, pois os seus malignos olhos pequenos brilharam de excitação, mas abanou a cabeça. Coisas mais importantes para fazer. Ela lambeu os lábios outra vez. Isso é bom disse ele, gostando do que via. Agora estás muito assustada. Fazes o que o Franek diz.

 

Não até me dar a minha mala conseguiu ela dizer, enquanto abanava a cabeça na direcção do balaústre.

 

Ele seguiu-lhe o olhar.

 

Queres sempre a mala. Que está lá dentro?

 

Toalhetes anti-sépticos. Tenho de limpar este corte no braço. Ele ficou interessado o suficiente para pegar na mala, os dedos procurando imediatamente os fechos.

 

Primeiro ajudas Milosz, depois eu dou mala.

 

Não.

 

Ele franziu o cenho, como se não estivesse habituado a que lhe desobedecessem.

 

Fazes o que digo.

 

Não.

 

Queres que te magoe?

 

Ela encolheu os ombros de forma credível.

 

Eu sobrevivo, mas você não, se aquelas pessoas aqui entrarem.

 

Observou-o a puxar os fechos da mala. Está a perder tempo. É um fecho com combinação.

 

Frustrado, deixou cair a mala no chão.

 

Tu perdes tempo com tuas recusas.

 

Então vá você ajudar o Milosz disse Sophie, interrogando-se por quanto tempo mais as suas pernas aguentariam. É a sua pele que ele está a tentar salvar.

 

Queres tentar fugir? Pela janela, talvez? Ela abanou a cabeça.

 

  1. Ficas aqui. Saiu de forma abrupta.

 

Sophie baixou outra vez a jarra até ao assento e pousou a mão que tremia nas costas de uma das cadeiras. Seria uma armadilha? Será que ele estava escondido à espera dela? Preparou-se para correr para a frente e agarrar a mala... mas o medo reteve-a. Certamente a obediência era melhor? Neste canto podia proteger-se, agitando a pá de críquete se ele se aproximasse demasiado, cortando-lhe a cara com o vidro. Foi preciso uma enorme força de vontade para sair de trás das cadeiras. Todos os seus instintos gritavam que era uma má ideia. Obedece... submete-te... acalma-te... Mas ele fizera o que ela queria que ele fizesse deixá-la sozinha com a mala e o som de mobília a ser arrastada no patamar deu-lhe coragem.

 

Foi e veio numa fracção de segundo, agachando-se atrás das cadeiras e fazendo girar as combinações dos fechos. Despacha-te... despacha-te... despacha-te... Agarrou no telemóvel e carregou na tecla «l».

 

Jenny murmurou ela, enquanto olhava por cima dos assentos para o lado de fora da porta, é a Sophie. Não, não posso. Escute. Preciso de ajuda. Telefone à polícia. Diga-lhes que estou na última visita que me deu. Sim, o doente, Hollis. Ele aprisionou-me. Estão pessoas lá fora. Está tudo louco. Ele está louco. Acho que ele me quer violar... Interrompeu-se quando viu uma sombra deslizar pelos balaústres. Carregou apressadamente na tecla «Off», para o caso de Jenny telefonar de volta, enfiou o telemóvel na mala, agarrou num toalhete anti-séptico e trancou a mala. Não teve tempo de recuperar o spray de pimenta. Franek, o rosto pálido pelo esforço, introduziu a ponta de um roupeiro de carvalho pela porta. Que fazes? perguntou, desconfiado.

 

Ela retirou o toalhete da embalagem e pressionou-o contra o braço. A proteger-me da sua imundície. Viu Nicholas do outro lado do roupeiro. Não tem o direito de me prender assim disse-lhe ela. Aquela multidão lá fora não me quer a mim. A maior parte deles conhece-me. Sou a médica deles. Faria mais sentido se me deixassem falar com eles a vosso favor. Se me levarem a um quarto da frente, posso falar com eles através da janela. Posso tentar persuadi-los a chamarem a polícia.

 

A Polícia é culpada disse Franek furiosamente, forçando as palavras entre inspirações pesadas e arrastadas. Eles causam este problema a nós quando batem à nossa porta para fazer entrevista sobre menina desaparecida. Deixou que o filho empurrasse o resto do ” roupeiro para o interior, resmungando qualquer coisa em polaco antes de se deixar cair contra a parede.

 

Vai ter de o ajudar disse Nicholas, empurrando a porta e arrastando o roupeiro em frente dela. Ele não consegue respirar.

 

Sophie concentrou-se na limpeza do braço. Ela precisava de tempo para pensar. «Menina desaparecida...?” Amy Biddulph?

 

Por favor, Dr.a Morrison. Ele não devia ter levantado isto. É demasiado pesado para ele.

 

Ela olhou para Franek, que a observava sob as pálpebras semicerradas.

 

Não disse ela sem expressão. O seu pai prescindiu dos seus direitos como meu paciente quando me aprisionou. Isso dá-me o direito de pôr a minha segurança antes da dele.

 

Nicholas lançou-lhe outro sorriso escusatório, enquanto colocava mais peças de mobiliário em frente do roupeiro, para criar um espaço livre no meio da divisão.

 

Ele estava com medo de que a Dr.a nos deixasse. Senão não o teria feito.

 

Isso não é desculpa.

 

Ele aquiesceu, ajudando o pai a deslocar-se para o espaço sem nada e pousando-o no chão de encontro a algumas almofadas.

 

Ele não pensa como deve ser quando está assustado. Com um gesto surpreendentemente terno, retirou o cabelo do rosto do velho. Nenhum de nós pensa.

 

Havia alguma verdade naquelas palavras, pensou Sophie, recordando a sua retirada frenética pelo corredor. Se estivesse a pensar naquele momento, teria corrido na outra direcção e teria arriscado a porta da frente. Certamente ela teria mais aliados no exterior do que no interior. Será que tinha algum no interior? O seu pai passou as mãos imundas por mim toda e esfregou a erecção nas minhas calças disse ela directamente. É isso que chama «não pensar como deve ser»?

 

Ele suspirou, mais em resignação, pensou ela, do que de verdadeira surpresa.

 

Sinto muito disse ele inadequadamente.

 

Ela esperara uma explicação, mas parecia que apenas iria conseguir um pedido de desculpas. Pelo menos de momento.

 

Do rés-do-chão, abafado mas audível, ouviram o som de mais vidros a serem partidos.

 

Glebe Road, Bairro Bassindale

 

Jimmy abrandou ao chegar ao fim da Glebe Road e virou para a Bassindale Row Norte. À sua direita estava uma das quatro barricadas, densamente povoada por jovens bêbados que gritavam impropérios aos carros da polícia que se encontravam para além da barricada. Algumas centenas de metros à sua esquerda ficava a Humbert Street, com crianças a correrem excitadamente na entrada. Meu Deus do Céu! Se fosse esconder-se em casa de Mel, seria arrastado para a guerra contra os pedófilos, e se tentasse sair do Bairro, seria arrastado para a guerra contra a polícia.

 

O que fazer? Voltou por onde tinha vindo e encostou-se a uma parede para recuperar o fôlego. Do outro lado da estrada podia ver uma velhota a observá-lo pela janela. Um par de miúdos noutra janela. Olhos por todo o lado. Isso fê-lo pensar se alguém o teria visto a debandar da Torre Residencial como se fosse um Ben Johnson sob o efeito de esteróides. Devia parecer culpado de todos os pecados do mundo. Merda! Não devia ter entrado em pânico daquela maneira. Lembrou-se de que tocara no botão do elevador. Uma beata de cigarro com o seu ADN encontrava-se entre o lixo no chão. Seria suficiente para o prender por tentativa de assassinato.

 

Praguejando copiosamente, tirou o telemóvel e abriu-o. Ele não queria fazer isto. Não o podia fazer. Nenhum dos seus contactos se aproximaria dele se soubessem que estava a falar com a bófia. E ainda por cima não iria servir de nada. A ambulância não ia ser capaz de atravessar as barricadas.

 

Marcou o 112.

 

Mensagem Policial para todas as esquadras

 

LINHAS DE EMERGÊNCIA EM CAPACIDADE MÁXIMA

 

28.07.01

 

14.49

 

Bairro Bassindale

 

Jennifer Monroe, Centro de Saúde Nightingale, relata médica tomada como refém por Hotlis, n.° 23 da Humbert Street

 

Possível violação

 

N.” 23 da Humbert Street presentemente ocupado por Milosz Zelowski

 

Presumível wtgo Hollis

LINHAS DE EMERGÊNCIA EM CAPACIDADE MÁXIMA

ACTUALIZAÇÃO: Carro patrulha 031 contínua a informar todos os acessos Impedidos

Prosseguem negociações

Mensagem Policial para todas as esquadras

28,07.01 14,i3

Bairro Bassindale

Anónimo pede ajuda para agente ferida

Paramédico em linha

Agente Hanson presumivelmente única agente na área

 

Sábado, 28 de Julho de 2001 exterior do número 23 da Humbert Street

 

CORREU A PALAVRA de que alguém vira uma criança à porta do pedófilo, imediatamente antes de a primeira pedra ter sido lançada. Tal como num Jogo do Segredo, «uma mulher pequena com uma mala preta» transformou-se rapidamente em «uma menina com calças pretas», confirmando o boato de que Amy fora vista na Humbert Street no dia anterior. Além do mais, tinha lógica. Onde poderia ela estar, senão na casa de um homem que tinha sido seu vizinho em Portisfield até há duas semanas?

 

Existiam muitos indicadores que provavam que estavam errados. Os miúdos que andavam a entoar o cântico «tarado» desde há dias e que tinham visto uma mulher entrar às duas e meia. O surgimento de um carro da polícia junto do número 23 nessa manhã, presenciado pelos vizinhos, quando Milosz Zelowski fora interrogado e a sua casa revistada do rés-do-chão ao sótão, sem qualquer resultado. Outro carro com um autocolante de médico no pára-brisas, estacionado ao fundo da rua, que lá continuava uma hora depois. O facto pouco provável de um pedófilo que já fora condenado revelar a sua vítima ao olhar do público.

 

Mas faltava uma orientação à turba. Existiam demasiadas facções e demasiados líderes. Todos queriam ter a palavra. A juventude clamava por guerra. A idade por respeito. As mulheres por segurança. «Livrarem-se dos pervertidos» era o seu único grito de guerra, e os que o proclamavam mais alto eram as adolescentes que tinham bebido caneca atrás de caneca de cerveja com os namorados, mas cujos corpos mais frágeis eram menos capazes de absorver o álcool. Como se fossem peixeiras bêbadas, incitavam os rapazes a actos de agressão cada vez mais alucinados.

 

No rescaldo, «proteger a Amy» tornar-se-ia a desculpa para tudo o que haviam feito. Ninguém duvidava de que o pedófilo a tinha na sua casa. Era um facto assumido. Ela fora vista na rua. Fora vista à porta dele. A culpar alguém, então seria as autoridades. Não teria havido qualquer problema se os pedófilos não tivessem sido impingidos aos habitantes, já por si sitiados, do Bairro Ácido. Ninguém os queria. Por que haviam de querer? O Bairro albergava mães solteiras e crianças. Quem, se não as mulheres, podiam, ou iriam, proteger as crianças dos pervertidos?

 

Certamente a polícia, cuja noção de salvar jovens era prendê-los, não o faria.

 

Melanie empurrou as pessoas para o lado para irromper pela rua e confrontar o irmão de catorze anos e os amigos dele, que estavam a arrancar mosaicos e tijolos da parede baixa que cercava o minúsculo jardim em frente da sua pequena casa.

 

O que é que vocês pensam que estão a fazer? gritou ela, ao mesmo tempo que agarrava Colin pelo braço e o tentava arrastar. Esse é o único bocadinho de jardim que os miúdos têm para brincar. Quem é que vai reconstruir essa merda depois? De certeza não é nenhum de vocês.

 

Deixa-me em paz disse Colin irritado, libertando-se. É isto que tu querias, não é? Dar alguma coisa aos tarados para pensarem. Sorriu de satisfação quando Wesley Barber deitou abaixo os tijolos com um pontapé e deslocou outros três. Boa, Wes.

 

Melanie sentiu o cheiro da cerveja no hálito do irmão e viu o ar alucinado nos olhos de Wesley, que sugeria speeds ou coisa pior. Olhou agitadamente em seu redor, procurando Gaynor. Ela não podia acreditar no que estava a acontecer. Era suposto ser uma manifestação pacífica de mães e filhos com cartazes, mas aqueles que não moravam na Humbert Street tinham desistido no fim da Glebe Road, quando viram a barricada na Bassindale Row. Alguém ia ser morto, avisaram receosos, agarrando nas mãos dos seus filhos e regressando a casa. Gaynor tinha ido atrás deles para os tentar convencer a ficar, e essa fora a última vez que Melanie a vira.

 

Onde estava ela agora? perguntava-se a rapariga desesperadamente. Será que também tinha desertado? Essa possibilidade deixou-a em pânico. E a Rosie e o Ben? Ela levara-os ao encontro no pátio da Escola Paroquial Ben de carrinho, Rosie a pé mas, quando a «manifestação» chegou à Humbert Street, já estava fora de controlo, e ela enfiara os filhos para dentro de casa e dissera-lhes para ficarem a ver televisão até que as coisas acalmassem lá fora. Era um optimismo vão. A multidão crescia e agitava-se cada vez mais, e a sua casa ficava mesmo ao lado do número 23. Se idiotas bêbados como Colin começassem a atirar tijolos para todo o lado... Ela deu-lhe um murro no braço.

 

Estás a assustar a Rosie silvou furiosamente, ao ver o rosto branco da filha à janela. Tive de pô-la a ela e ao Ben lá dentro porque cá fora era muito perigoso.

 

Surpreendido, ele seguiu-lhe o olhar.

 

Bolas, Mel! Eles deviam ’tar na nossa casa. A Mãe disse qu’o Bry ia tomar conta deles. P’a qu’é qu’os trouxeste p’uma coisa destas?

 

Infeliz, ela encolheu os ombros.

 

Toda a gente trouxe os filhos... queríamos envergonhar a Câmara... mas os outros foram-se todos embora... e a mãe foi-se embora. Procurei por todo o lado.

 

És tão parva disse ele de forma incisiva, olhando para a mole humana que bloqueava cada extremo da rua. Nunc’ós vais conseguir passar. Estes gajos ’tão todos c’uma ganda bezana. S’um de vocês cai, eles esmagam-no.

 

Ela sentiu lágrimas a quererem brotar-lhe dos olhos.

 

Eu não sabia que isto ia acontecer. Era suposto ser uma manifestação.

 

Fostes tu qu’omeçastes disse-lhe ele. Tarados p’á rua, dissestes tu.

 

Mas não era assim protestou ela. Está tudo mal. Agarrou-lhe outra vez o braço. O que é que eu faço, Gol? Eu mato-me se acontece alguma coisa aos meus bebés.

 

No interior do número 23 da Humbert Street

 

Sophie estava imóvel no seu canto, à escuta. Não tinham sido partidos mais vidros, e imaginou que o som que tinham ouvido se devera aos restos da janela da sala a cair. Uma olhadela rápida ao relógio mostrou-lhe que fora atingida pela pedra havia uns bons trinta minutos, e dez desde que telefonara a Jenny, mas tudo o que conseguia ouvir era o burburinho abafado da multidão.

 

Não se ouviam sirenes da polícia. Não se ouviam megafones a berrar ordens. Não se ouviam gritos de medo. Não se ouvia o barulho da corrida dos amotinados em fuga.

 

Ela observava os homens sob as suas pálpebras semicerradas, a cabeça exaurida pelos intermináveis pensamentos que nela continuavam às voltas. Nicholas estudava o seu relógio como se, também ele, estivesse a pensar no que teria acontecido à polícia, mas Franek só tinha olhos para ela. O que poderia ele querer dela? «Vais ser nossa segurança até polícia chegar...» Será que ela era uma refém? Seria uma vítima? Seria ambas as coisas? Será que Franek se preocupava em como ela estava, desde que a presença dela mantivesse os perseguidores afastados? «Animal... cabrão... tarado...» Quão perigoso seria ele? Será que ele pensava que ela não teria coragem para fugir se ele a violasse? Será que ele tinha razão? O que aconteceria se os minutos de espera se transformassem em horas? Perguntas... perguntas... perguntas...

 

Ela desejava não se ter protegido tanto, pois a única forma de relaxar era encostar um ombro de cada vez à parede. Tentou reduzir os movimentos ao mínimo, consciente de que de cada vez que a seda da sua camisa se esticava sobre os seios, ele ficava mais excitado, mas estava a ficar exausta e o seu estômago apertava-se cada vez mais com nós de ansiedade, à medida que piorava a indecisão sobre o que fazer a seguir. O olhar em viés dele uma horrível perversão da admiração normal de um homem fazia-a sentir-se suja... e culpada... e dobrou os braços sobre o peito numa tentativa vã de se cobrir.

 

Ela nunca devia ter vestido um top sem mangas... estava a expor demasiada pele...

 

A Melanie estava errada... ele não podia ser um pedófilo... não estaria a olhar para ela daquela maneira se fosse um pedófilo...

 

O silêncio na divisão era insuportável. Assim como o calor. O cheiro do odor corporal do velho enchia-lhe as narinas e deixava-a com vontade de vomitar.

 

Forçou-se a falar.

 

Algo de errado se passa disse ela, a voz arrastada pela secura. Nicholas olhou nervosamente para a janela.

O quê?

Por esta altura já se devia ouvir sirenes.

Ele também concordava, pois a sua maçã-de-adão contorceu-se violentamente na garganta.

Talvez ninguém se tenha preocupado em dizer-lhes o que se está a passar.

Sophie percorreu o interior da boca com a língua. Por que não o fariam? retorquiu ela, num tom mais calmo. Nicholas olhou para o pai, mas o velho continuava a fitar Sophie, recusando-se a ser arrastado para explicações. Eles não gostam de nós disse Nicholas. Ela tentou a ironia. Já imaginava isso. Ele não respondeu. Eu também não gosto muito dos meus vizinhos do lado continuou ela, desesperada por manter a conversa, mas não ia ficar a assistir se uma multidão lhes estivesse a lançar pedras.

 

Estaria tudo bem se nos tivessem enviado uma ambulância. Eu e o pai podíamos ter saído os dois e não estaríamos em perigo.

 

Você sabia que isto ia acontecer? Encolheu levemente os ombros, de uma forma que ela podia interpretar da maneira que quisesse.

 

Por que não chamou a polícia?

 

Eu chamei disse ele, num tom miserável. Várias vezes. Nunca vieram.

 

Então chamou os médicos.

 

Ele aquiesceu.

 

Disse-lhes para não enviarem uma mulher, mas eles não ligaram.

 

Você disse que era uma emergência recordou-o ela, e o médico mais próximo estava a vinte minutos de distância. Confusa, abanou a cabeça. O que teria um homem sido capaz de fazer, que uma mulher não conseguisse?

 

Nada. Eu só não queria uma mulher envolvida... pelo menos, não uma como você. Fez um gesto de desespero com a mão. Mas agora é tarde de mais... não há nada que eu possa fazer.

 

Oh, meu Deus! O medo apertou-lhe os nós do estômago. O que estava ele a tentar dizer-lhe? Envolvida com quem? Com a multidão lá fora? Com o pai dele? O instinto disse-lhe que era com Franek, pois ficava com pele de galinha sempre que olhava para ele. Ele lembrava-lhe uma ratazana de esgoto imprevisível, mau, um foco de doenças, algo repelente e maligno. Tentou convencer-se de que era uma reacção à forma como ele se encostara a ela, mas sabia que não era verdade. Ele assustava-a porque ela não o podia controlar... e acreditava que nem o filho anormalmente submisso... Não há nada que eu possa fazer...

 

No exterior do número 23 da Humbert Street

 

Melanie pressionou o botão de remarcação do seu telemóvel pela décima vez nos mesmos minutos e ouviu a voz computadorizada pedir-lhe para deixar uma mensagem no voicemail de Jimmy.

 

Isto não faz sentido disse ela ao irmão. Ele não fica tanto tempo ao telefone nem quando está a falar no telefone fixo.

 

Então não o tem com ele.

 

Ela respirou fundo. Já tinham passado por isto várias vezes.

 

Já te disse. Eu vi-o pô-lo no bolso repetiu ela pacientemente. Ele encolheu os ombros.

 

Então ’tá desligado.

 

Ele não ia fazer isso, não se tem muitos negócios a andar.

 

Então foi palmado, e quem o palmou é quem ’tá a falar. O nervosismo tomou conta dela.

 

Quantas vezes tenho de te dizer? gritou. Ninguém gama nada ao Jimmy. Aconteceu alguma coisa, porqu’é qu’essa merda não t’entra na cabeça, em vez d’andares a dizer disparates?

 

Era a desculpa de que Colin estava à espera. Não tinha piada andar com a irmã tudo o que ela fazia era dar-lhe sermões e o chamamento dos seus amigos foi mais forte do que a responsabilidade indesejada de um sobrinho e de uma sobrinha. Enfiou-lhe um dedo por baixo do nariz.

 

Alguma vez tens d’estar errada disse-lhe ele. Se não foi roubado... s’ele não o deixou em casa... se não o tem desligado... se não o perdeu... então ele tem d’estar a falar com alguém. Virou-se. Mas eu ’tou farto desta merda, Mel. A confusão é tua... arranja-te tu.

 

No interior do número 23 da Humbert Street o velho conseguia ler os pensamentos de Sophie.

 

Achas que eu finjo pânico para fazer tu prisioneira disse ele subitamente. Ficas zangada por seres enganada. Talvez não sejas tão boa doutora.

 

Ela forçou-se a olhar para ele.

 

Foi o que você fez?

 

Os olhos dele brilharam com desprezo.

 

És tão inteligente, menina, descobre tu.

 

Ela encolheu os ombros, como que para lhe mostrar que a intimidação não surtia qualquer efeito.

 

Já o fiz. Você pode ter exagerado um pouco, mas a maior parte do que vi era genuíno. Você é definitivamente asmático. A respiração está a incomodá-lo neste momento... tem estado a incomodá-lo desde que mudou o roupeiro. Esboçou um sorriso. Devia usar o seu inalador antes que piore, Sr. Hollis. Ela observou-o a procurar nos bolsos das calças e permitiu-se um entusiasmo momentâneo quando os olhos dele se moveram nervosamente na direcção da porta. Era um pequeno triunfo o filho dele arrancara-o da sala demasiado depressa para que ele se lembrasse do inalador mas era um grande passo no seu percurso para recuperar um pouco de controlo. Acho que vai descobrir que o deixou lá em baixo acrescentou ela.

 

E? Passo bem sem ele.

 

Se conseguir. Ele bateu no peito.

 

São que nem pêro. Nada errado. Tu tentas assustar Franek. Tem toda a razão!

 

Não preciso de o fazer. Ela agitou o queixo na direcção da frente da casa. O que acha que vai acontecer quando meia tonelada de homens furiosos deitar abaixo a sua porta? Vai ficar com tanto medo que vai morrer de paragem respiratória.

 

Ele fungou, divertido, como se gostasse do espírito dela.

 

Tu ajudas se isso acontecer disse-lhe. É teu trabalho. Fizeste juramento de Hipócrates. Sophie abanou a cabeça. Levo-te a tribunal... processo-te por negligência. Esfregou o polegar no indicador. Faço-te ser despedida... ganho muito dinheiro.

 

Não vai conseguir disse ela.

 

Como sabes isso?

 

Assim que ouvir passos na escada, grito «violação». Se for a polícia, você vai parar à prisão. Se forem os seus vizinhos, eles desfazem-no.

 

Tu tentas... parto-te o pescoço... assim. Esmagou vértebras imaginárias com os seus dedos musculosos.

 

Nicholas mexeu-se, infeliz.

 

Isto é necessário? perguntou. O pai ignorou-o.

 

Não sabemos quanto tempo vamos ficar aqui disse Nicholas a Sophie. Não nos devíamos tentar dar bem?

 

A doce voz da razão, pensou ela.

 

Então deixe-me negociar por si. Isso faz muito mais sentido do que ficarmos sentados neste forno, a morrer de desidratação. Não temos água frisou ela.

 

Não vai demorar muito. A polícia vai estar aqui em breve. Podemos ser amigos até lá.

 

Amigos? Será que ele também era louco? O seu pai ameaçou matar-me.

 

E você ameaçou que ele ia ser desfeito recordou-a. Não é que a esteja a culpar... você está assustada... estamos todos assustados. Só não sei de que é que isso adianta. Faríamos melhor se nos sentássemos em silêncio, em vez de nos estarmos a atacar mutuamente. Pelo menos assim poderíamos ouvir o que se passa lá fora.

 

A inclinação dela era concordar com ele, pois o seu temperamento era, por natureza, afável. E também estava desesperada por se sentar e baixar a guarda. Talvez ele tenha visto a indecisão no rosto dela, pois estendeu a mão para puxar uma das cadeiras.

 

Não gritou ela, lançando a mão às costas da cadeira.

 

Ficava mais confortável aqui fora disse ele de forma persuasiva. Era um convite sedutor, e não passou despercebido a Franek, que

 

deu uma palmadinha de aprovação no ombro do filho. A desconfiança floresceu como louca na mente de Sophie. Seria Nicholas o procurador do seu pai? Seria uma variação do acto do polícia bom e do polícia mau? Seria o filho o sedutor? Será que isso explicava a sua submissão? Algures na confusão da sua mente, o bom senso dizia-lhe que deveria ser ao contrário. Era a pessoa com segredos escondidos que era vulnerável... o procurador com poder para chantagear quem detinha o controlo...

 

Prefiro ficar aqui disse ela com firmeza.

Ele não insistiu.

OK disse ele, afastando a mão. Diga-me se mudar de ideias.

Não vou mudar.

 

E Tu não assim tão dura disse Franek. Em breve cais para lado... puf... fez cair a mão na direcção do chão depois cabeça adormece e Franek toma as decisões. Ela não disse nada. Ele estu| dou-a com lubricidade, sorrindo quando ela apertou os braços novamente sobre o peito. Agora tu assustada troçou ele. | E estava. Não suportava a forma como ele sabia o que ela estava a pensar. Era como se ele soubesse os pontos de arranque do terror de uma mulher e reconhecesse as suas marcas na mais ínfima alteração da expressão. Era uma invasão. Um assalto brutal à determinação, colocando-a em guerra consigo própria, sobre se o deveria enfrentar ou tentar acalmar através do silêncio. Ela precisava desesperadamente de passar a língua pelos lábios; estavam completamente secos mas forçou-se a não o fazer. Ele veria isso como sendo mais um sinal de medo... e o medo excitava-o...

 

O pensamento rasgou-lhe a mente como se fosse um relâmpago.; O medo excitava-o. Por Deus, ela tinha sido tão lenta! Já tinham escrito livros sobre sacanas como este. Ela até se lembrava da definição do seu dicionário médico. «Sadismo prazer sexual e orgasmo derivado da provocação de dor ou de sofrimento aos outros, especialmente humilhação e tortura.”

 

Não era o seu peito que o excitava, era a culpa que ele lia no seu rosto sempre que os cobria. Não era o seu pénis contra o rabo dela de que ele se estava a lembrar, era da forma aterrorizada como ela limpara dos lábios o sabor da imundície dele. O merdas estava a ter gozo em humilhá-la. Talvez não sejas tão boa doutora...

 

Ela tinha de o enfrentar. Oh, Deus! Oh, Deus! Mas teria ela razão? Se pelo menos o Bob ali estivesse. Ele saberia. Ele era perito em sacanas como este. Pelo amor de Deus, ele tratava-os. Os olhos dela marejaram subitamente, com a recordação do seu noivo. Era suposto encontrarem-se, e ele nem sequer iria saber por que razão ela o deixara pendurado.

 

Fá-lo! Ela humedeceu os lábios e deixou cair as mãos para as costas da cadeira, olhando Franek de cima.

 

Fale-me sobre a mãe do Nicholas convidou-o ela. Diga-me quão assustada ela tinha de ficar antes que você conseguisse ter uma erecção.

 

Ele franziu furiosamente o cenho enquanto olhava para ela e disse algo a Nicholas.

 

Ele não percebe o que você quer dizer disse o jovem, baixando os olhos e recusando-se a olhar para ela.

 

Sim, mas você percebe ripostou ela, por isso traduza por mim. Pergunte-lhe o que ele tinha de lhe fazer para ficar com vontade? Atá-la? Bater-lhe até ela ficar com nódoas negras?

 

Nicholas abanou a cabeça.

 

  1. Eu digo-lhe. Eu soletro-o em palavras de uma sílaba. Ele é bronco como um calhau, mas deve conseguir perceber a palavra «sádico».

 

Um leve estreitar das pálpebras do velho disse-lhe que sim, ele tinha percebido.

 

Tu pára agora, antes que Franek fique zangado ordenou ele. Ela riu-se, terrivelmente satisfeita consigo própria, entusiasmada por ter acertado tão facilmente.

 

Então onde está agora mamã do Milosz? perguntou ela, inclinando-se para a frente e imitando grosseiramente a pronúncia dele. A foder outro?

 

É claro que ela não estava preparada. Nada na vida poderia tê-la preparado para a velocidade com que Franek saltou do chão e esmagou o punho na cara dela.

 

Sábado, 28 de Julho de 2001 Esquadra central da polícia de Hampshire

O INSPECTOR TYLER estava no seu gabinete na esquadra central quando recebeu uma chamada do Hotel Bella Vista, em Maiorca. Ouviu-se a algaraviada de uma telefonista e depois

 

O gerente disse que eu podia ligar-lhe para este telefone disse, â voz embargada pelas lágrimas de uma rapariga. Ele disse que você talvez me desse algum dinheiro porque estava a perguntar pelo Eddy. Tyler endireitou-se imediatamente e procurou uma caneta.

 

Está a falar de Edward Townsend? perguntou.

 

Sim choramingou ela. Ele é um sacana tão grande. O gerente diz que eu tenho de pagar a conta... mas é enorme... e eu não posso... A voz cedeu ante os violentos soluços.

 

Estou a falar com quem? perguntou ele pacientemente. A voz dela soava jovem de mais para poder pagar contas.

 

Franny Gough. Ele disse que me amava chorou. Ele disse que ia casar comigo. Não sei o que fazer... não tenho bilhete de avião porque ele não me deu nenhum... e o gerente não me deixa ir embora até que a conta seja paga. Ele levou o carro alugado... e não tenho maneira de chegar ao aeroporto... e se eu telefonar à minha mãe, ela mata-me. Ela estava sempre a dizer-me que ele não prestava... mas eu pensei que ela estava com inveja, porque o Eddy é da mesma idade dela e ela não consegue arranjar um homem...

 

Ele escutou a voz pateticamente imatura do outro lado da linha, que despejava os mesmos lamentos e equívocos que as raparigas vinham a despejar desde há séculos, e interrogou-se se ela seria tão crédula como parecia, ou se pensava que a ingenuidade era uma forma de conquistar a simpatia de um homem. E de quem? A sua ou a do gerente?

 

Quando é que ele partiu?

 

Ontem. Fiz tudo o que ele mandou... o senhor sabe, vesti-me bem... mas ele disse que não ficava bem porque o meu cabelo era muito curto...

 

Tyler tentou falar por cima dela.

 

Ontem a que horas?

 

Mas ela estava a todo o vapor e não ouviu a pergunta.

 

... por isso eu disse que usava uma peruca, mas ele ficou muito zangado, porque ele disse que os miúdos só usam perucas quando têm leucemia. Eu disse que ele estava a implicar comigo sem razão... é só um vídeo... mas ele disse que os homens não gostam de miúdas que parecem doentes... e agora odeio-o porque ele deixou-me aqui... e o gerente disse que eu podia ir para a prisão. Parou de falar num jorro de lágrimas.

 

Ele esperou que ela se acalmasse.

 

Que idade tens, Franny?

 

Dezoito murmurou ela.

 

Pela voz, diria que és mais nova.

 

Eu sei. Falou de forma hesitante, como se estivesse a medir as palavras. Também pareço mais nova... é por isso que o Eddy gosta de mim. Fiz dezoito anos em Maio. Pode perguntar ao gerente, se não acredita em mim. Ele ficou com o meu passaporte e diz que não mo devolve até que a conta seja paga.

 

Eu depois falo com o gerente. A que horas o Eddy se foi embora, ontem?

 

Ela assoou-se sonoramente para o auscultador.

 

Não sei. Quando eu acordei, ele já se tinha ido embora.

 

A que horas foi isso?

 

Ao meio-dia disse ela com relutância, como se dormir até ao meio-dia fosse um crime. Só chegámos ao hotel às duas da manhã, e fui logo deitar-me. Acho que ele se deve ter ido embora nessa altura, porque os lençóis do lado dele ainda estavam direitos.

 

Tyler pensou rapidamente. A que horas era o primeiro voo de Maiorca, à sexta-feira? Será que Townsend tinha chegado a Portisfield à hora de almoço desse mesmo dia? Partindo do princípio, é claro, de que ele era o homem que tinha sido visto no carro junto da igreja católica... e que Amy era a criança que tinha sido vista a dobrar a esquina. Demasiados imponderáveis.

 

Que tipo de carro conduz o Eddy em Inglaterra? perguntou à rapariga.

 

Um BMW preto. Esta manhã o gerente disse-me que tu e o Eddy estiveram numa praia de nudismo junto à costa. Por que é que ele disse isso, se estás sozinha desde ontem?

 

Mais soluços.

 

Eu não sabia o que fazer... escondi-me no quarto porque sabia que ia haver problemas se ele descobrisse que o Eddy se tinha ido embora. Ele estava desconfiado... estava sempre a perguntar-me se eu era filha do Eddy... por isso esta manhã fingi que o Eddy estava à minha espera no carro, e depois dei a volta ao hotel às escondidas e entrei pelas escadas de incêndio... pensei que conseguisse encontrar alguém para pagar... um tipo sozinho, sabe... mas estava com tanta fome que chamei o serviço de quartos... e depois o gerente veio bater à porta a dizer que a polícia de Inglaterra queria falar com a gente... por isso eu disse-lhe que o Eddy tinha ido embora ontem e ele ficou passado porque o Eddy não lhe tinha dado um cartão de crédito quando chegámos... ele disse que estava na mala e que o levava depois... mas nunca o levou... por isso o gerente arrastou-me para aqui para falar consigo... e eu não tenho dinheiro...

 

Tyler afastou o telefone do ouvido, esperando que o choro agudo dela diminuísse antes de voltar a falar. Se ele tinha percebido o que ela estava a dizer, e se ela estivesse a dizer a verdade...

 

Eu resolvo-te as coisas. Está bem? Ela animou-se de imediato.

 

Acho que sim.

 

Mas continuou ele com firmeza, quero que respondas a algumas perguntas antes de te ajudar.

 

Que tipo de perguntas? pergunta ela, desconfiada. Talvez eu não devesse falar consigo sem um advogado a ouvir a conversa.

 

Afinal não é assim tão ingénua...

 

Isso é contigo, Franny. Estou a investigar o desaparecimento de uma criança, e não estou preparado para desperdiçar tempo a ajudar-te, se não estiveres preparada para me ajudar.

 

Que criança?

 

O nome dela é Amy Biddulph. Ela desapareceu ontem.

 

Merda!

 

O Eddy falou nela?

 

Era só o que fazia disse ela, soando subitamente muito adulta. Era a Amy isto, a Amy aquilo. Não és parecida com ela, não falas como ela. Afinal de contas, quem é ela?

 

A filha da sua antecedente. Tem dez anos e cabelo escuro comprido.

 

Me-e-erda!

 

Qual é a cor do teu cabelo?

 

Castanho. Ele só gosta de morenas. Pelo menos é o que ele diz.

 

A mãe da Amy é morena. E muito bonita. Tal como a filha.

 

Ele que se foda, Eu disse que ele era um sacana.

 

Vais responder às minhas perguntas?

 

Outra longa pausa enquanto ela ponderava as suas opções.

 

Sim. OK. Ele não me fez favor nenhum.

 

Aquelas eram as palavras mais verdadeiras que ela dissera.

 

De onde partiram?

 

De Luton.

 

Em que companhia?

 

Na Easyjet.

 

Não são esses que vendem bilhetes pela Internet?

 

Mais ou menos. Não se compra um bilhete, apenas se fica com um número que confirma o lugar. O Eddy fez um bom negócio porque o avião não estava cheio.

 

Em que dia foi isso?

 

Na terça-feira.

 

E tinha-se ido embora outra vez na sexta-feira de manhã? exclamou Tyler surpreendido. Quanto tempo esperavas ficar aí?

 

Ela começou a berrar novamente.

 

Ele não disse... e eu não perguntei porque pensava que eram umas férias... sabe, duas semanas, ou assim. OK, eu sei que foi um bocado à última da hora... Tipo, no domingo estávamos na minha casa sem fazer nada e na terça-feira estávamos a caminho de Maiorca... mas não pensei que ele se fosse embora depois de três malditos dias, senão tinha-o feito dar-me o cartão de crédito. Quer dizer, isto é uma merda, não acha?

 

Ele marcou algum voo de regresso?

 

Não sei. Fez uma pausa para pensar no assunto. Provavelmente não, porque ele trouxe o computador portátil com ele. Ele disse que era suposto o sistema ser flexível, por isso pagava-se cada voo separadamente. Isso significa que se pode fazer marcações onde quer que se esteja.

Ele usa muito a et?

Sempre disse ela irritada. É mesmo chato com isso.

Sabes qual é o e-mail dele?

Só sei o dos negócios, townsend@etstone.com, tudo em minúsculas.

 

Quantos é que ele tem?

Aí uns seis... talvez mais. Ele usa códigos para que as pessoas não os leiam por acidente.; Por que é que ele se preocupa com isso?

 

São coisas de negócios confidenciais. Ele fica muito irritado quando as pessoas descobrem quais são os contratos que ele tem a andar.

 

Tyler alertou-se a si próprio para não tirar conclusões precipitadas. Era um dos perigos da profissão, algo a que os polícias no passado se referiam como um «palpite» ou «ter faro para os vilões». Resultara demasiadas vezes em compensações pesadas devido a falhas de justiça, quando se acabava por provar que os alegados criminosos eram inocentes, e o «palpite» se baseava em nada mais do que uma série de coincidências infelizes. Mesmo assim... uma atracção por mulheres de aparência jovem... vídeos... a Internet...?

 

Ele não queria que Franny estabelecesse ligações semelhantes, por isso mudou de assunto, fazendo-lhe uma série de perguntas inocentes, sobre quanta bagagem Townsend levara com ele e se deixara alguma coisa para trás. Depois:

 

Há bocado disseste qualquer coisa sobre «ser só um vídeo» disse ele despreocupadamente. Estavas a falar do quê?

 

Ela hesitou.

 

Nada de mais. Ele está sempre a filmar alguma coisa.

 

Que tipo de coisa? Ela não respondeu. Disseste qualquer coisa sobre usares uma peruca disse ele casualmente por isso teoricamente ele estava a filmar-te a ti.

 

Agora que estava mais calma, ela parecia menos disposta a entrar em pormenores.

 

São só coisas que faz para ele adiantou ela com relutância.

 

Pornografia?

 

Meu Deus, não! Ela parecia genuinamente chocada.

 

Então o quê?

 

Ele gosta de me ver em vídeo, quando eu não estou com ele.

 

Vestida ou despida?

 

O que é que acha? perguntou ela com sarcasmo na voz. Ele é um gajo, não é?

 

Noutras circunstâncias, Tyler poderia ter defendido o seu sexo, mas talvez a experiência que ela tinha de homens fosse tão limitada quanto o que o cinismo por trás da voz sugeria. Se assim fosse, tinha pena dela.

 

Foi por isso que te levou à praia de nudismo?

 

Acho que sim.

 

Ele filmou lá mais alguém?

 

Não. Inesperadamente ela riu-se. Ele disse que era toda a gente muito velha e muito gorda. Ainda por cima a maior parte era homens, e os homens não o excitam. As praias de nudismo é onde eles se vão engatar uns aos outros.

 

Tyler mudou outra vez de assunto. Porque é que ele se veio embora? Vocês discutiram?

 

Nem por isso. Ele estava um bocado irritante na quinta-feira à tarde.

 

De que maneira?

 

As tuas mamas são muito grandes... o teu rabo é muito grande... tens muita maquilhagem... pareces uma velha... Ela falava num cântico, como se tivesse decorado as suas falhas. Apanhei uma grande carga na quinta-feira à noite, por isso talvez se tenha fartado de mim concluiu ela com tristeza.

 

Tyler ouviu o sinal da auto-recriminação na voz dela e injectou um pouco de sarcasmo na sua.

 

Por que é que ainda acreditas naquilo que ele disse? perguntou ele. Ele é um vigarista. Deu a volta ao gerente e deixou-te a batata quente na mão. É esse o tipo de... aaah... gajo que te atrai? Porque se é, não tens um grande futuro à tua frente.

 

Mas ele é tão atraente argumentou ela, e era tão querido no início.

 

Os homens atraentes são sempre retorquiu Tyler friamente, tocando nos sulcos na sua testa, até que te levam para a cama e descobrem que não és mais excitante do que a última rapariga que tiveram.

 

Você até parece a minha mãe.

Há mais alguma coisa de que te lembres que me possa ajudar? Ele recebeu algum telefonema?

Ele tinha uma mensagem quando regressámos ao hotel. Estava num envelope que tinha sido enfiado por baixo da porta... ele pareceu muito excitado com isso. Mandou-me tomar duche, para poder telefonar a alguém... podia ter a ver com isso. Depois disse-me para ir dormir... disse que não lhe apetecia sexo. E eram duas da manhã? Sim.

O que dizia a mensagem? Não sei.

Tentaste encontrá-la depois de ele se ter ido embora? Talvez. -E?

 

Não estava no caixote do lixo.

Alguma vez lhe atendeste o telefone enquanto ele aí estava?

 

As chamadas eram todas para o telemóvel.

 

Ouviste alguma conversa que pudesse ser com uma criança?

Ele costumava sair do quarto. Uma pausa. A maioria pa reciam de negócios. Ele tem problemas com algumas das casas dele.

 

Que tipo de problemas?

 

Não sei. Ele ficava passado sempre que eu lhe perguntava... disse que as pessoas o estavam a roubar. Disse que ficava tudo resolvido na semana que vem.

 

Tyler fitou a parede do seu gabinete.

 

Com quem estava a falar? Com clientes? Com parceiros?

 

Não sei disse ela novamente.

 

Lembras-te se ele usou algum nome? Talvez ao início, quando atendeu?

 

Não ouvi.

 

Tenta lembrar-te, Franny disse Tyler pacientemente. É importante.

 

Mas era tudo tão chato choramingou ela. Uma vez houve qualquer coisa sobre contratos e datas. Acho que podia ser o advogado dele.

 

Tyler escreveu Martin Rogerson no seu bloco de notas, seguido de um ponto de interrogação.

 

O nome Martin diz-te alguma coisa?

 

Oh, sim assentiu ela numa recordação surpreendida. Ele disse: «Olá, Martin.”

 

Em que dia foi isso?

 

Na quinta-feira, acho eu.

 

Tyler susteve a respiração por um momento e depois pediu-lhe o número de telefone e a morada da mãe. Ela recusou-se, até que ele frisou que não fazia tenção de ser ele a pagar a conta, nem o contribuinte britânico.

 

És adulta e, por lei, isso torna-te tão responsável como o Townsend pelas dívidas em que incorreram. Não tens muito por onde escolher. Ou resolves tu o problema, ou peço à tua mãe que resolva por ti. Agora, onde é que ela vive?

 

De má vontade, a rapariga forneceu uma morada e um número de telefone em Southampton.

 

Ela mata-me disse novamente.

 

Duvido, mas vou fazer o que puder para aliviar as coisas. Pensou em dizer-lhe para mostrar alguma maturidade pela primeira vez na vida, mas achou melhor não. Se ela não aprendesse a lição sozinha, nada que um estranho pudesse dizer ao telefone a iria convencer. Em vez disso, disse-lhe que ficasse em Southampton quando regressasse, pois queria entrevistá-la pessoalmente, depois falou com o gerente do hotel durante cinco minutos, para se certificar da veracidade do que ela lhe contara e para confirmar alguns detalhes. Agradeceu-lhe pela disponibilidade e pediu-lhe que desse alguma comida à rapariga enquanto entrava em contacto com a mãe dela.

 

Não tenho esperança de que esta mulher queira a Menina Gough de volta disse o gerente, num inglês correcto, mas com uma pronúncia bastante acentuada.

 

Por que diz isso?

 

Neste país nenhuma mãe permitiria que a sua filha fizesse o que esta faz. Acho que a Senhora Gough não se interessa nada pela filha.

 

Centro de Saúde Nightingale

 

Fay Baldwin raramente ia ao Centro ao fim-de-semana, mas estivera a matutar no afastamento tirânico de Sophie e na mensagem contundente que deixara no gravador de chamadas, e no sábado desenvolvera uma fúria imensa. O facto de já ter havido outros médicos

que tinham afastado Fay de forma semelhante, deixando-a apenas com uma mão-cheia de clientes até à reforma, foi convenientemente esquecido. Desta vez ela planeava apresentar uma queixa formal, acusando a Dr.a Morrison de negligência em relação aos filhos de Melanie. Na sua lógica distorcida, a presença do pedófilo na Humbert Street estava intimamente ligada à conspiração para a afastar. Ela até se convencera de que fora a coragem que a levara a revelar a presença dele

 

na Humbert Street. A Dr.a Morrison não se preocupava de todo com as crianças. Ela provara-o ao recusar qualquer discussão sobre a existência do homem e depois acusando Fay de insanidade quando ela se atreveu a mencionar o facto. Pelo contrário, Fay apenas estava preocupada com os pequenos Rosie e Ben. Tal como devia estar. Era o seu trabalho enquanto assistente social. Como se atrevia uma médica a sobrepor-se à sua autoridade? Quem mais do que qualquer outra pessoa lutara para preservar a segurança e a inviolabilidade das crianças Patterson?

 

Ela não tinha muita vontade de que a sua presença fosse notada, no caso de Sophie ter espalhado o que ela fizera precisava de tempo para preparar o seu caso - por isso Fay planeava esgueirar-se para dentro do gabinete das assistentes sociais quando a recepcionista estivesse ocupada com um doente. Mas ficou sobressaltada ao encontrar a porta da recepção bloqueada por um polícia. Pior ainda ao ver a sala de espera sem nenhum doente e o Dr. Bonfield, o director do centro, de T-shirt e calções, de pé junto ao balcão de recepção com Jenny Monroe. Harry Bonfield e Fay não se davam bem, e ela ter-se-ia ido embora imediatamente, caso o agente não tivesse chamado a atenção para a presença dela. Deixe-a entrar gritou Harry. Ela é das nossas. Fez sinal a Fay com o braço para que esta entrasse, enquanto fitava o computador de Jenny. Sabe o que se passa com a Sophie? É um pesadelo. A polícia foi apanhada desprevenida... por isso estamos a tentar encontrar alguém que passe uma mensagem a quem quer que esteja à frente daquilo. Se ao menos aquela rapariga tonta não tivesse desligado otelemóvel... podíamos falar directamente... resolver as coisas a bem. Acenou com a cabeça na direcção do monitor. A Jenny está a ver a lista para ver se conseguimos descobrir alguém na Humbert Street com quem possamos falar... mas é inútil... Os doentes estão registados por nome e não por rua... é como procurar uma agulha num maldito palheiro. A minha doente mais próxima mora na Glebe Road, mas ela é surda como uma porta e não atende. Abanou a mão para que ela andasse mais depressa. Isto é uma crise, Fay. Alguma ideia? Humbert Street. Deve lá ter alguns clientes.

 

Fay poderia ter sido um pouco mais circunspecta, se Harry não se tivesse referido a Sophie como uma «rapariga tonta». Mas assim partiu do princípio de que Sophie estava em falta.

 

Eu tinha disse ela afectadamente. Já não tenho. Graças à Dr.a Morrison.

 

Harry franziu-lhe o cenho. De que raio estava esta mulher estúpida a falar?

 

O doente mudou-se?

 

Que eu saiba não.

 

Pode dar-nos um nome? sugeriu ele melifluamente. Quando estiver pronta, é claro.

 

Fay franziu os lábios, formando um apertado botão de rosa.

 

Melanie Patterson.

 

Ele bateu no ombro de Jenny e inclinou-se para a frente enquanto ela fazia descer a lista até ao «P».

 

Encontrei-a disse ele. Número 21 da Humbert Street. OK, a Sophie é a médica dela. O que acha? perguntou a Jenny.

 

A mulher mordeu o lábio.

 

Só tem dezanove anos informou ela, acedendo às notas sobre Melanie. Grávida de seis meses... dois filhos pequenos... mas parece conhecer a Sophie muito bem. Ela vai vê-la de duas em duas semanas para cuidados pré-natais. Abanou a cabeça. Não sei, Harry acrescentou ela preocupada. Podemos assustá-la e provocar um aborto.

 

As mulheres jovens não costumam ser assim tão frágeis, mesmo assim... Apontou para a caixa dos parentes próximos. Então e a mãe dela? Gaynor Patterson? Mora só a duas ruas de distância. Por que não lhe telefonamos e vemos se ela nos pode dar os nomes dos vizinhos da Melanie?

 

  1. Jenny marcou o número de Gaynor. Estou disse ela. Estou a falar com Gaynor Patterson?... Briony... Sim, é importante. Seguiu-se uma longa pausa, enquanto ela ouvia a voz do outro lado da linha. Pronto, querida, então por que é que não me dás os dois números e deixas que eu tente... Não, de certeza ela não vai ficar zangada. Costumas vir ao Centro de Saúde? Sabes quem é a dra. Morrison? Isso mesmo, a Sophie... Bem, eu sou a senhora que está sentada à secretária e que te chama quando é a tua vez de entrares. Riu-se. Exactamente... a velha com óculos. Boa menina. Escreveu no bloco de notas e depois ouviu novamente. Não, meu amor, promete que não vais à procura da mamã. É perigoso lá fora, e podes cair. Se eu conseguir ligar, digo-lhe que estás preocupada e que queres que ela vá para casa. Fica combinado?... Claro, eu telefono-te daqui a vinte minutos, mais ou menos. Sim, o meu nome é Jenny. Então adeus. Ergueu os olhos preocupados para Harry. A pobre da miúda está aterrorizada. Ela diz que era suposto ser uma manifestação de protesto, mas acha que aconteceu alguma coisa terrível, pois há grupos de miúdos a correr de um lado para o outro na rua dela, e só ouve gritos e berros. Ela tem medo de que tenha acontecido alguma coisa à mãe e à Melanie, porque elas estavam a liderar a manifestação. Apontou para o bloco de notas. Ela deu-me o número dos telemóveis, mas diz que tem tentado na última meia hora e que não consegue passar dos gravadores. Prometi que ia tentar por ela.

Harry passou uma mão preocupada pelo seu cabelo ralo, deixando-o a apontar para o céu em farripas.

Faz isso disse ele absorto. Afinal de contas, devem ser as pessoas com quem temos de falar. Se a manifestação foi ideia delas, devem poder fazer alguma coisa. Fez uma pausa. Não acredito nisto proferiu abruptamente. Miúdos sozinhos no meio de um maldito motim. Quem é que o começou? Digam-me. Sou eu que lhes torço o pescoço. Essa miúda disse se tinha tentado telefonar para casa da Melanie? Jenny anuiu.

 

Ela diz que a Rosie atendeu, mas que havia tanta gritaria que não ouviu o que ela estava a dizer... por isso desligou e tentou de novo. Da segunda vez o telefone estava ocupado, e ela acha que a Rosie não o desligou bem, o que quer dizer que provavelmente também estão sozinhos.

 

Que idade tem a Rosie? Jenny confirmou no monitor.

 

Quatro.

 

Deus do Céu! Ele levantou a voz. Já soube mais alguma coisa? perguntou ao polícia.

 

Sinto muito, Doutor. O jovem ergueu o rádio, que crepitava intermitentemente com mensagens. Continua o mesmo. O helicóptero continua a dizer que todos os carros estão imobilizados no exterior das barricadas. Isto não está nada bom. Também há uma mulher-polícia ferida... ferimentos na cabeça, e não conseguimos chegar até ela.

 

Cristo, que confusão! exclamou Harry. Vocês não podiam ter previsto isto? Que raio é que os levou a pôr este homem ali, afinal de contas? Vocês deviam ter percebido que a maior parte das pessoas daquele bairro iam partir automaticamente do princípio de que pedófilo quer dizer monstro. Lançou um olhar furioso na direcção de Fay, como se a considerasse responsável.

 

A boca dela abriu-se e fechou-se como se fosse um peixinho dourado, mas não saíram palavras.

 

Harry observou-a por um momento e depois ignorou-a.

 

Afinal o que é que ele fez para ser preso? Você diz que ele não é perigoso, mas que tipo de pedófilo é ele?

 

O polícia encolheu os ombros com tristeza. Só sei o que nos disseram antes de sair. Ele era professor numa escola privada e foi preso por três acusações de abuso sexual... Aconteceram ao longo de muito tempo... A primeira ocorreu há cerca de quinze anos... a última foi relativamente recente. Ele só se interessa por rapazes e a sentença não foi muito pesada porque a primeira vítima tinha dezassete anos, e as últimas duas dezasseis, e todos eles disseram que tinham consentido. Acho que se partiu do princípio de que ele estava feito se tentasse o mesmo no Bairro Ácido.

 

O que é que ele fez?

 

O jovem olhou com embaraço para as duas mulheres. Estimulou-os murmurou.

 

Que tipo de estimulação? exigiu Harry, com a insensibilidade de um médico. Oral ou masturbação?

 

Masturbação.

 

Em troca do quê? Do mesmo ou de penetração?

 

Nada.

 

O que é que quer dizer com nada? Como é que ele chegou ao orgasmo:

 

O polícia encolheu os ombros.

Nenhum dos rapazes teve de fazer nada. Por isso é que a sentença foi de apenas dezoito meses.

Confuso, Harry abanou a cabeça.

Então o prazer dele era dar?

Acho que sim.

 

Ele parece demasiado passivo para ser um violador.

Foi o que disse o meu chefe. Ele acha que a Dr.a Morrison está equivocada. Afinal de contas, é natural que ela fique assustada... quer dizer, nós sabemos que está uma grande multidão na rua... e uma das pessoas que telefonou diz que eles estavam armados com pedras. Digamos que o tipo lhe tenha posto a mão no braço para a sossegar... e digamos que ela presumiu mais do que aquilo que ele pretendia, porque sabia que ele era um criminoso sexual. Jenny falou enquanto marcava novamente os números.

 

Mas acho que ela não sabia protestou ela. Pelo menos eu não sabia. Fez uma pausa para organizar os pensamentos. Seja como for, qual deles é o pedófilo? O pai ou o filho? A Sophie foi muito específica. Ela disse que o doente a tinha aprisionado e queria violá-la... e o doente, de acordo com a informação que eu tinha, era o pai.

 

O polícia pareceu baralhado.

 

Pensei que era só um.

 

Nós temos de certeza dois registados.

 

Consulta as notas deles indicou Harry a Jenny. Vamos ver as idades deles.

 

Já fiz isso. Eles são doentes novos e os registos ainda não chegaram. Tudo o que temos são os nomes Francis e Nicholas Hollis, 23 Humbert Street, com um asterisco ao lado dos nomes e «Zelowski» entre parêntesis. Percorreu o ficheiro para prová-lo. Mas lembro-me de o filho dizer que o pai tinha setenta e um anos de idade... e assim sendo, já teria passado da idade de reforma de um professor, não é?

 

Harry lançou um olhar inquiridor ao polícia.

 

Que idade tem o seu pedófilo?

 

Não é assim tão velho. Eu vi uma fotografia dele. Acho que deve andar pelos quarenta.

 

Harry praguejou em silêncio.

 

Continua a telefonar disse a Jenny. E você ordenou a Fay, diga-me tudo o que se lembrar sobre a Melanie... nomes de namorados, amigas, pais dos filhos, qualquer pessoa que possamos contactar.

 

O que é que o está a preocupar? perguntou o agente.

 

Estou a pensar quem poderia ter ensinado ao seu pedófilo que dar prazer era um fim em si mesmo. Esqueça a idade e o sexo das vítimas, é um comportamento muito pouco natural... incrivelmente dócil. Isso sugere que as necessidades dele têm de ser sempre subservientes às de outra pessoa.

 

O pai?

 

Quase de certeza. Há demasiadas provas de que os rapazes de quem abusaram tornam-se, eles próprios, abusadores... e o agressor mais provável é o pai ou o padrasto. Ele abanou a cabeça. A forma de acção deste tipo sugere que o sexo o assusta. E se aprendeu isso com o pai... Subitamente os anos caíram em cima do médico.

 

Jenny tocou-lhe ao de leve na mão, enquanto ouvia novamente a gravação do telefone de Melanie.

 

A Sophie é uma rapariga forte disse ela. Ela não se vai submeter assim tão facilmente. Desta vez ela deixou uma mensagem, pedindo-lhe que ligasse de volta, com urgência. Agora vamos ter de deixar o telefone livre disse. Não vale a pena tê-lo ocupado, para o caso de a Melanie ligar de volta. Isso deixa-nos apenas uma linha operacional aqui, mais as linhas directas nos gabinetes. Acho que temos de nos espalhar e trabalhar separadamente. Olhou para Fay. Já pensou em alguém? Pode usar o computador no gabinete da Sophie para saber os números de telefone. Mas talvez seja melhor deixar-me fazer a chamada. A polícia não quer que digamos muito, para não tornar a situação ainda pior.

 

Mas... eu não percebo... qual situação? protestou Fay. É tudo muito bonito, dizer faz isto... faz aquilo... mas como posso fazer alguma coisa se não sei o que se está a passar?

 

Nem você nem ninguém redarguiu Jenny, a não ser que está a acontecer um motim em Bassindale. A polícia acha que está centrado neste homem com quem a Sophie está, mas ninguém sabe como se descobriu a identidade dele. Ele foi condenado como Zelowski, mas foi registado como Hollis, quando se mudou para Bassindale.

 

Algum idiota com uma grande boca e sem cérebro disse Harry sombriamente, dirigindo-se ao seu gabinete. Deviam levar um tiro... a pôr as pessoas em perigo desta maneira.

 

Concordo anuiu Jenny também sombria, regressando ao telefone e marcando outra vez o número de Gaynor. Reparou que o rosto de Fay ficara subitamente às manchas, mas não ligou, pois desta vez alguém respondeu do outro lado da linha.

 

Sábado, 28 de Julho de 2001 Esquadra Central da Polícia de Hampshire

 

TYLER ORDENOU A um dos seus sargentos que encontrasse Martin Rogerson e que o trouxesse à esquadra o mais depressa possível.

 

A Paula Anderson levou-o à conferência de imprensa, por isso contacte-a e veja se ainda estão na área. Quero-o aqui onde o possa ver, por isso diga à Paula para não aceitar desculpas. Se já o tiver levado outra vez para Bornemouth ou se estiver ainda a caminho, diga-lhe para o trazer já de volta. Percebeu?

 

Ela vai querer uma razão, chefe.

 

Uma pista nova... desta vez é promissora. Vou entrevistar a Laura na casa do Gregory Logan primeiro... olhou para o relógio o que dá à Paula cerca de uma hora de tolerância. Mas diga-lhe que quanto mais cedo melhor. Não vai fazer mal nenhum ao Rogerson ficar a olhar para os dedos por meia hora numa sala de interrogatório.

 

Chamou o sargento que interrogara os vizinhos de Townsend e analisou as notas que conseguira sobre os voos.

 

Veja se a Easyjet tem algum registo do regresso dele na sexta-feira de manhã. Deverá ter sido o percurso Palma-Luton. E eles que confirmem uma F. Gough. Ela viajou com ele na terça-feira, mas não sabe se ele marcou algum voo de regresso para ela. Descubra se ele tinha alguma reserva que alterou para sexta-feira. Assim fica a saber o dia em que ele pretendia regressar. Se ela tiver sorte, ele reservou-lhe um lugar no mesmo voo.

 

O sargento estava curioso.

 

É a nova namorada?

 

Diga-me você. Conseguiu um nome ou uma descrição, quando falou com a vizinha dele?

 

Ele abanou a cabeça.

 

Ela nunca a viu, apenas disse que a nova rapariga devia ser a razão para ele ter acabado com a Laura.

 

Ou com a Amy disse Tyler. Estamos a partir do princípio de que ele estava interessado na mãe.

 

O sargento franziu as sobrancelhas.

 

Não percebo, chefe.

 

De acordo com o gerente do hotel, a Franny Gough tem o aspecto e a voz de uma miúda de doze anos. É morena e franzina, e «muito bonitinha». As palavras são do gerente, não são minhas. Faz-lhe lembrar alguém?

 

Meu Deus!

 

Exactamente. O Townsend fez uns quantos vídeos dela numa praia de nudismo, mas desapareceu na sexta-feira de madrugada depois de ter falado com alguém chamado Martin e ter recebido uma mensagem... possivelmente um fax. Apontou para a morada de e-mail que Franny lhe dera. Experimente enviar um e-mail ao Townsend, para ver se ele morde a isca. Diga-lhe que tem de falar com ele sobre a Laura e a Amy Biddulph. Nada muito forte. Diga só que precisa dos nomes e das moradas de quem quer que elas tenham estado próximas durante o tempo em que viveram com ele.

 

Acrescento um número de contacto? Tyler anuiu.

 

Dê-lhe o meu telemóvel... diga que é o seu.

 

O que é que quer mesmo dele?

 

Quero saber o que é que andou a fazer nas últimas vinte e quatro horas disse Tyler, entrando no seu gabinete e fechando a porta atrás de si. Marcou o número que Franny lhe dera.

 

Estou? atendeu uma voz de mulher.

 

Sr.a Gough?

 

Sim.

 

Daqui fala o Inspector-Detective Tyler, da Polícia de Hampshire. Estou a telefonar-lhe por causa da sua filha.

 

Seguiu-se um pequeno silêncio.

 

O que é que ela fez agora?

 

Ele reparou que não existia preocupação pelo bem-estar da rapariga. Não houve um «Ela está bem?”, que era a reacção normal a uma chamada destas.

 

Ela foi abandonada num hotel em Maiorca, e o gerente diz que não a deixa sair até a conta ser paga. O gerente confirmou que o carro alugado e as posses do companheiro desapareceram, por isso é de crer que ela esteja a dizer a verdade.

 

Edward Townsend, suponho?

 

Foi esse o nome que ela me deu.

 

Ele ouviu um isqueiro a acender-se no outro lado da linha.

 

Como é que a Polícia de Hampshire se envolveu no caso?

 

Temos tentado contactar o Sr. Townsend por outro assunto. Quando o gerente descobriu que ele já tinha partido, pediu à Franny que falasse comigo.

 

Qual era o outro assunto?

 

Não havia razão para não o revelar, uma vez que em breve ela ficaria a saber pela própria Franny. Além do mais, ele precisava de informações.

 

A criança desaparecida, Amy Biddulph, viveu na casa dele durante seis meses.

 

Ela suspirou profundamente... ou expeliu uma baforada de fumo. Pela voz firme era difícil dizer se as emoções estavam envolvidas.

 

Eu avisei a Francesca disse ela, mas ela não me ouviu. É a idade. Ela acha que pode controlar tudo. - Soava desinteressada, como se estivesse a falar de uma estranha.

 

Conhece bem o Townsend?

 

Não. Dou-me bem com a primeira mulher dele. Ele puxou outro pedaço de papel.

 

Pode dizer-me o que sabe, Sr.a Gough? Talvez possa começar pela razão pela qual preveniu a sua filha contra ele.

 

Ele tem quarenta e cinco anos. Ela tem dezoito. Preciso de outra razão?

 

Tyler ancorou-se à agudeza da voz dela.

 

Existe outra razão?

 

Nada que eu esteja preparada para dizer a uma pessoa que nunca vi.

 

Eu sou polícia, Sr.a Gough, e tudo o que me disser será tratado confidencialmente. Isto é urgente. A Amy desapareceu há mais de vinte e quatro horas e se a senhora sabe alguma coisa que a possa ajudar, tem de nos dizer.

 

Só que o senhor não pode provar ao telefone que é polícia e eu não me posso dar ao luxo de enfrentar um processo por difamação.

 

Ela tinha razão, mas ele interrogou-se como alguém podia ficar tão insensível sobre o destino de uma criança. A senhora Gough não se imforma,

 

E Então vamos tratar de uma coisa de cada vez. Vou dar-lhe o número de telefone do Bella Vista, em Puerto Soller. O inglês do gerente é bom e ele está preparado para receber o número do seu cartão de crédito pelo telefone, para fechar a conta e tratar do regresso a casa da Francesca. Também lhe vou dar o número da telefonista daqui. Quando telefonar, pode confirmar as minhas credenciais e deixar mensagem para que eu lhe volte a ligar. Acha aceitável? Desta vez não havia dúvida em relação ao suspiro. Nem por isso. Ela é sua filha, Sr.a Gough. Do outro lado da linha ouviu-se rir baixinho. Eu sei. E gostava de poder dizer que não era. Poderia sentir-me menos culpada pelas minhas falhas. O senhor tem filhos, Inspector? Eles roubam? Eles bebem? Eles dormem fora de casa? Eles consomem drogas? As perguntas eram retóricas, pois ela não esperou pelas respostas. Paguei 5000 libras pela Francesca no seu décimo oitavo aniversário para liquidar contas de telemóvel e de compras postais, e para reembolsar os pais de duas amigas dela cujos cartões de crédito ela usara para encomendar coisas pela Net. Esqueci o que ela me roubara, e montei-lhe um apartamento para ela me poder provar que era responsável. O quid pró quo disto tudo era que ela nunca mais esperava que eu a fosse salvar de outro sarilho e que aceitava a vaga que lhe tinham oferecido na universidade. Em vez disso, ela desaparece para Maiorca com o ex-marido da minha melhor amiga e diz que a razão para eu estar zangada é que estou com ciúmes. Fez uma pausa. Por isso diga-me, Inspector. Se estivesse no meu lugar, o que é que faria se um polícia lhe telefonasse a dizer que a sua filha está metida em sarilhos... outra vez Tyler respondeu honestamente.

 

Mantinha-me fiel às regras que tinha estabelecido.

 

Obrigada.

 

Mas eu não estou no seu lugar, Sr.a Gough. Estou divorciado há mais tempo do que aquele que estive casado e não tenho filhos. Toda a minha experiência com raparigas da idade da Francesca foi prendê-las por roubo e por prostituição quando era polícia de giro.

 

Outro silêncio curto.

 

E?

 

Não me lembro de uma única que eu não tivesse prendido pelo menos duas vezes, embora a média de prisões por rapariga andasse mais perto das cinco ou seis vezes. Todas diziam que nunca mais iam fazer o mesmo... mas estavam de volta às ruas dias depois de terem sido libertadas, porque ficarem pedradas com o dinheiro que faziam com os roubos ou com a prostituição era mais rápido e mais fácil do que juntar a miséria que conseguiam ganhar como operadoras de caixa de um supermercado.

 

Ela não era uma mulher que apressasse o discurso.

 

Não percebo o que quer dizer murmurou após um momento. Ele estava a ficar irritado com os silêncios dela.

 

Estou a dizer que é difícil perder hábitos sem um incentivo forte, e poucos são os que conseguem à primeira. Quantas vezes já tentou deixar de fumar? perguntou ele de forma directa. - Uma vez? Duas? Acorda todas as manhãs e diz que hoje é que é?

 

Ela suspirou novamente.

 

Eu esperava que deixá-la responsável por si própria fosse um incentivo.

 

Ela não está pronta.

 

Ela tem dezoito anos.

 

Mas fala e comporta-se como se tivesse doze e não se dá a chave de um apartamento a uma criança de doze anos. Olhou para o relógio. Ele não tinha tempo para isto. Franny e os seus problemas podiam esperar. Olhe, eu vou dar-lhe os números de telefone à mesma, e a senhora é que sabe o que fazer com eles. Seja qual for a sua decisão, importa-se de telefonar à sua filha e explicar-lhe a situação? Há uma hipótese remota de ela ter um voo de regresso a casa, que um dos elementos da minha equipa está a confirmar neste momento. Vou pedir-lhe que lhe telefone a dizer o resultado. E também preciso de falar consigo novamente. Se não me tiver deixado uma mensagem até às seis da tarde, vou a Southampton interrogá-la... ou hoje à noite ou amanhã de manhã.

 

Tenho alguma alternativa? perguntou ela depois de ele lhe ter dado os números.

 

Ele ignorou a pergunta.

 

Só mais uma coisa. A senhora disse que era amiga da primeira mulher do Townsend. Parto do princípio de que não me vai dizer o nome e o número de telefone dela antes de confirmar o que eu disse, por isso fazia-me o favor de a contactar e pedir-lhe que telefone para a sala de ocorrências? Ela hesitou durante tanto tempo que ele pensou que tivesse desligado. Sr.a Gough?

 

Eu esperava que ela nunca descobrisse que a Francesca andava a dormir com o Edward disse ela, infeliz. Pensei que isto passasse e que ela nunca precisasse de ficar a saber.

 

Por que é que ela haveria de se importar?

 

Ela também tem uma filha disse ela, antes de cortar a ligação.

 

Centro de Saúde Nightingale

 

Harry Bonfield sentia-se relutante em telefonar aos pais de Sophie até ter falado com o noivo dela, Bob Scudamore, mas a morada dos pais era o único pormenor relativo a parentes próximos registado nas suas notas. Lembrou-se de um amigo psiquiatra em Londres, que Bob comentara uma vez ao jantar ser seu colega próximo, e um telefonema revelou o número de telefone de casa e do telemóvel de Bob. Não era a primeira vez que Bob abençoava a natureza de clube do Serviço Nacional de Saúde. Era o maior empregador do país, mas continuava a ser uma aldeia onde alguém conhecia alguém que nos podia pôr em contacto numa emergência.

 

A relação à distância que Sophie e Bob haviam mantido durante a permanência dela no Centro de Saúde Nightingale preocupara bastante Harry. Bob, cinco anos mais velho do que ela, encontrava-se numa posição bem alta no departamento de psiquiatria de um dos hospitais universitários de Londres, e Harry presumia que era apenas uma questão de tempo até que ele a pedisse em casamento e Sophie regressasse a Londres. Era cada vez mais difícil recrutar jovens médicos para a prática de medicina geral, e ele estava pessimista no que dizia respeito às hipóteses de manter uma das melhores que tinham atraído em anos.

 

Os seus piores pesadelos tinham-se concretizado dois meses antes, quando Sophie agitara um anel de diamante debaixo do seu nariz.

 

O que acha? perguntara ela. Sou ou não sou esperta?

 

O Bob?

 

Ela riu-se e deu-lhe um murro no braço.

 

Quem é que havia de ser? Raios partam, Harry, eu não tenho um armário cheio de amantes secretos, sabe!

 

Finalmente, ele levantou-se e puxou-a para um abraço caloroso.

 

É claro que és esperta. Ele é um óptimo rapaz. Só espero que saiba a sorte que tem em te ter. Quando é o grande dia?

 

Em Agosto.

 

Hum murmurou ele sombriamente. É esta a tua forma de me dizeres que vais entregar a carta de demissão?

 

É claro que não disse ela, surpreendida. Ofereceram um cargo em Southampton ao Bob. Há já muito tempo que ele andava à espera disto. O que significa que podemos finalmente viver juntos. É por isso que o estamos a tornar oficial. Perplexa, ergueu as sobrancelhas. Mas o que é que o levou a pensar que eu podia querer ir-me embora?

 

A estupidez tacanha da idade e o hábito entranhado, pensou ele secamente, enquanto se sentava novamente. Nunca lhe ocorrera que o homem se mudasse pela mulher, mesmo que se estivesse no século XXI.

 

Conseguiu encontrar Bob no seu apartamento em Londres.

 

O que posso fazer por si, Harry? disse o outro com tom afável. Está a telefonar para dizer que a Sophie vai chegar atrasada?

 

Não exactamente. Harry contou-lhe seca e sucintamente o que sabia. Não quis telefonar aos pais dela antes de falar consigo... E até deve ser melhor que seja o Bob a falar com eles. Fez uma pausa, à espera de confirmação. Óptimo. E também precisamos da sua ajuda. A Jenny diz que a Sophie tem sempre o cuidado de carregar o telemóvel, por isso achamos que ela o desligou porque não quer que aqueles homens saibam que ela o tem. Isso significa que há uma forte probabilidade de que ela telefone assim que tiver oportunidade... e ficaria mais satisfeito se aqui tivesse alguém qualificado para falar com eles e negociar a libertação dela.

 

Vou já para aí decidiu Bob. Falo com os pais dela durante o caminho.

 

Talvez não possamos esperar por si disse Harry com urgência na voz. Precisamos de alguém mais próximo. A polícia foi apanhada desprevenida... dizem que não o podiam prever... o motim rebentou não se sabe de onde... e eles estão completamente assoberbados com uma miúda que desapareceu a trinta quilómetros daqui. Temos aqui um agente jovem a tentar ajudar-nos, mas neste momento ele nem consegue falar com o gabinete de liberdade condicional. Isto está um caos total. Seria útil localizar o psiquiatra que escreveu o relatório pré-sentença do Zelowski, ou alguém que o tenha visto enquanto ele esteve preso. Posso dar-lhe as duas prisões em que ele cumpriu pena. São ambas relativamente próximas. Será que isso o ajudava a encontrar-me um nome? Ainda melhor, uma cópia do relatório? Bob não perdeu tempo.

 

Dê-mas disse ele. E dê-me também o número da sua linha directa e o número do fax do vosso serviço. Falo consigo assim que conseguir. Fez uma pausa imediatamente antes de desligar. Harry?

 

Sim.

 

Se ela telefonar antes de eu aí chegar, diga-lhe para não os provocar... especialmente aquele que a quer violar. Se ele é tão perigoso como você julga, isso só o vai excitar.

 

No exterior do número 9 da Humbert Street

 

Gaynor Patterson estava aterrorizada. Ela estava presa contra a parede de uma casa na Humbert Street, incapaz de avançar, incapaz de recuar. Não havia liberdade de movimentos, apenas a pressão da humanidade em seu redor, que empurrava para se manter de pé entre as casas e os carros estacionados ao longo do passeio. Pelo meio da rua, falanges de jovens carregavam em arremetidas caóticas, para chegarem ao número 23 e juntarem-se ao divertimento mas, a cada impulso dos seus corpos poderosos, uma onda de compensação espalhava-se pela multidão circundante, empurrando-a para trás.

 

Jovens tinham procurado protecção nos tejadilhos e nos capots dos veículos, mas estes eram refúgios precários. Sempre que uma onda embatia neles, os carros balançavam sobre a sua suspensão e perdia-se o equilíbrio. Era apenas uma questão de tempo, imaginou ela, antes que a ideia de virar os carros ao contrário e fazê-los girar sobre o tejadilho apelasse ao elemento mais selvagem da turba, e então as pessoas ficariam verdadeiramente magoadas.

 

A sua chamada frenética para o 112 a partir do seu telemóvel quinze minutos antes aumentara-lhe o medo, quando uma voz gravada a informou de que os operadores de emergência estavam sobrecarregados com chamadas que davam conta dos distúrbios em Bassindale. A polícia era incapaz de responder imediatamente. As chamadas relativas a outras emergências deviam continuar em linha. O conselho a todos os habitantes de Bassindale que não estivessem envolvidos nos distúrbios era permanecerem no interior das suas casas.

 

Gaynor, que vira imagens do desastre do Estádio de Hillsborough, em que fãs de futebol haviam sido impiedosamente esmagados por um estouro de pessoas atrás deles, ficou aterrorizada com a ideia de um súbito ímpeto catastrófico fazer que as pessoas junto à parede morressem sufocadas. Ela estava a dar o seu melhor para proteger quem se encontrava à sua volta na sua maioria raparigas jovens que tinham fugido para a extremidade em busca de segurança mas era cada vez mais difícil. Ficara rouca ao gritar, na tentativa vã de alertar para a sua aflição as pessoas que se encontravam no meio, mas a voz perdera-se por entre os berros dos jovens.

 

Desesperada para descobrir o que acontecera a Melanie, e após ter visto goradas as suas tentativas de contactar a filha para o telemóvel, ela dera-o a uma rapariga ao seu lado e dissera-lhe para continuar a pressionar a tecla «l» até que alguém respondesse.

 

Dá-me o telefone quando tocar disse ela, enquanto protegia a jovem com o corpo. Tentou atrair a atenção de um homem que se encontrava a cerca de vinte metros, que era grande o suficiente para chegar a elas, mas ele continuou a ignorar os seus gritos.

 

Cansada e em lágrimas, a rapariga desistiu após dez minutos.

 

Não vale a pena chorou, ninguém atende. Começou a bater em Gaynor, a claustrofobia tomando conta de si. Quero sair daqui! gritou. Quero sair daqui!

 

Gaynor deu-lhe um estalo com força.

 

Desculpa, meu amor murmurou ela, abraçando a criança enquanto esta se lavava em lágrimas, mas é muito perigoso. Tens de ficar aqui até eu pensar em alguma coisa. Mas o quê, pelo amor de Deus?

 

O telefone começou a tocar.

 

Ela arrancou-o das mãos da jovem, pressionando a palma da mão contra o outro ouvido, para conseguir ouvir por sobre a confusão.

 

Mel? És tu, querida? Estou farta de ligar. Estás bem? E a Rosie e oBen?

 

Sr.a Patterson?

 

Ah, merda! praguejou Gaynor desapontada, ela própria muito próxima das lágrimas. Pensei que fosse a minha filha.

 

Sinto muito. Daqui fala a Jennifer Monroe, do Centro de Saúde Nightingale. A Brion deu-me o seu número. Preciso de falar consigo com urgência.

 

Gaynor abanou a cabeça, sem querer acreditar.

 

Você deve estar a brincar. Ouça, meu amor, seja o que for, pode esperar. Mesmo que me queira dizer que eu tenho cancro terminal, não é tão urgente como o que está a acontecer aqui. Está tudo fora de controlo... não há sinal da merda da polícia... e eu estou presa contra uma parede com uns miúdos apavorados. Meu Deus, até parece Hillsborough. Devem estar mais de mil pessoas esmagadas só aqui neste bocadinho. Vou desligar. OK?

 

[ Não! gritou Jenny. Neste momento eu devo saber mais do que a senhora. Continue a falar comigo, por favor. Isto não tem nada a ver com medicina, Gaynor. Eu estou a tentar ajudá-la. A polícia não consegue entrar no bairro porque as estradas estão todas barricadas. Isso significa que você e a Melanie têm de encontrar um lugar seguro sozinhas, e se me deixar, pode ser que eu as consiga ajudar.

 

Então continue.

 

Sabe dizer-me onde está?

 

Na Humbert Street.

 

Em que sítio, exactamente? Você disse-me que estava presa contra uma parede.

 

Ao fundo da rua. No número 9. Tentámos bater à porta... mas a senhora lá dentro não regula bem e não nos deixa entrar... acho que a pobre vaca deve estar assustada.

 

Sabe o nome dela?

 

Sr.a Carthew.

 

OK, espere um pouco. Vou ver se ela está na nossa lista. Seguiram-se alguns segundos de pausa. Encontrei. Ela é uma doente da Sophie, e pertence ao esquema «Chamada para a Amizade». Outra pausa enquanto se ouviam vozes abafadas por uma mão em cima do bocal do telefone. Muito bem, Gaynor, o plano é o seguinte. Vou telefonar à Sr.a Carthew e, enquanto eu faço isso, quero que fale com um polícia que está aqui comigo. Ele tem estado a ouvi-la no altifalante e vai dizer-lhe o que fazer quando a Sr.a Carthew abrir a porta.

 

Está a perder o seu tempo, meu amor. Há anos que ela está gá-gá.

 

Vamos ver, está bem? Outra voz entrou em linha.

 

Olá, Gaynor. Fala o Ken Hewitt. Muito bem, o importante é não começar uma debandada. Se toda a gente ficar assustada, vão amontoar-se atrás de si, e isso só vai tornar a situação pior. O que nós precisamos é de uma saída controlada. Sabe dizer-me quantas crianças tem consigo?

 

Gaynor contou-as rapidamente.

 

Talvez umas dez.

 

Óptimo. Em primeiro lugar, quero que cada um desses miúdos entre com cuidado pela porta, para que as pessoas à sua volta não se apercebam do que se está a passar. Façam-no com muita calma. OK?

 

Sim.

 

Escolha os dois miúdos maiores e diga a um deles que crie uma passagem até ao jardim tirando a mobília do corredor e abrindo a porta das traseiras da Sr.a Carthew. Diga ao outro para ficar junto da porta da frente. O que estiver na porta da frente tem de ser forte... se houver um adulto por perto, tanto melhor. Ele ou ela vai fazer-lhe sinal quando o caminho estiver desimpedido e também vai agir como controlador, porque quando a saída estiver preparada, eu quero que você controle as coisas aí fora. Se demasiadas pessoas tentarem passar quando a porta se abrir, então você e quem quer que esteja lá dentro têm de fechar a porta e trancá-la. Se não o fizerem, as pessoas vão ficar esmagadas no corredor e a saída vai ficar bloqueada. Fique à porta e deixe passar apenas uma pessoa de cada vez. Tem de ser controlado. Percebeu?

 

Gaynor tinha um metro e sessenta e pesava cinquenta quilos. Como raio seria ela capaz de controlar uma debandada?

 

Sim.

 

Muito bem. Agora, eu estive a ver a planta da Humbert Street, e existem jardins que dão para os jardins da Bassett Road. O miúdo que você escolher para a porta das traseiras tem de começar a deitar vedações abaixo para arranjar espaço. Diga ao miúdo para se dirigir para a Forest Road Sul. As pessoas têm de começar a ir para casa... aliviar um pouco a situação... não podem deixar-se ficar nos jardins das traseiras.

 

OK.

 

Finalmente, não tente avisar sobre a saída. Quando as pessoas começarem a sentir a pressão a aliviar atrás delas, vão dirigir-se para o espaço vazio e vão descobrir a saída por elas. Isso vai fazer que a tarefa de as controlar seja muito mais fácil. Ele ficou em silêncio por um momento, enquanto ouvia Jenny dando-lhe instruções. Excelente. A Sr.a Carthew diz que vai destrancar a porta, mas precisa de tempo para ir lá para cima antes que você abra a porta. Ela tem medo de ser deitada ao chão. Ela tem um telefone portátil, por isso ela confirma com a Jenny Monroe quando estiver a salvo, e então eu dou-lhe luz verde. Percebeu?

 

Oh, meu Deus! O pânico irrompeu no peito de Gaynor. Mas eu ainda não expliquei nada disto aos miúdos.

 

Demore o tempo que for preciso disse ele calmamente. É importante que todos eles percebam o que estão a fazer. Diga-me quando estiver pronta.

 

Ela já conhecia uma das raparigas, Lisa Shaw, uma criança inteligente, que pertencia à turma de Colin. Ela não era grande o suficiente para servir de controladora, mas seria certamente capaz de desimpedir o corredor e de abrir caminho para a Forest Road. Ela anuiu imediatamente quando Gaynor explicou o que queria que ela fizesse. Mais acenos quando Gaynor salientou a todos a importância de uma «saída controlada», de forma a evitar que as pessoas se magoassem. Uma expressão completamente vazia quando tentou que a criança maior compreendesse o seu papel. Ela era uma gigante imatura com um cérebro lento e os olhos encheram-se de lágrimas quando Gaynor lhe pediu que controlasse a porta da frente.

 

Eu faço isso ofereceu-se Lisa. Ela pode ajudar-me. Os outros podem desimpedir o corredor. Sorriu para Gaynor. Não se preocupe. Eu faço que eles façam as coisas bem. O Col mata-me se você for esmagada. Ele acha que você é a Supermãe.

 

Mensagem Policial a todas as esquadras

28,07.01

15.33

Investigação pessoa desaparecida Amy Rogerson/Bíddulph

ALERTA A TODOS OS DISTRITOS

Procurado para interrogatório: Edward Townsend

Morada registada: The Larches, Hayes Avenue, Southampton

Visto pela última vez: Hotel Bella Vista, Puerto Soller, Maiorca

03.00, 27.07.01

 

Regressou a Londres Luton Sexta-feira manhã no Voo EZY0404, chegada 08.25

 

Veículo registado: BMW Preto W789ZVV

Possivelmente estará algures no Sul

Pode estar a viajar com uma criança

 

Sábado, 28 de Julho de 2001 Torre Residencial, Bairro Bassindale

 

JIMMY JAMES ESTAVA a perder a paciência com o paramédico do outro lado da linha. Ele tivera de esperar cinco minutos antes de o operador da ambulância responder, e agora a bateria estava a acabar. Que raio de serviço estavam estes vigaristas a gerir? Sempre que ele seguia uma instrução, o homem exigia mais. Colocara a agente em posição de recuperação e verificara as vias respiratórias em busca de bloqueios. Confirmara os sinais vitais principais respiração, batimento cardíaco, pulsação. Tentou reanimá-la sem sucesso.

 

E agora o filho da mãe estava a pedir-lhe que localizasse o ferimento.

 

Olhe, amigo, como é que quer que eu fale consigo e que descubra de onde ela está a sangrar ao mesmo tempo? gritou ele, fitando a mão direita, que estava coberta com o sangue da mulher. Sentiu a bílis subir-lhe à garganta. Não faz mal para si... você está habituado a isto... mas faz mal para mim, foda-se! Há sangue por todo o lado. Tenho de lhe desviar o cabelo e não posso fazer isso com a merda do telefone na mão. OK... OK... vou pousá-lo.

 

Colocou o telemóvel no chão, atrás de si e, com um gemido de repulsa, usou as duas mãos para afastar o cabelo louro manchado, na parte de trás da cabeça da mulher, onde o sangue que já estava a secar parecia ser mais abundante. Agarrou novamente no telefone e sentiu-o escorregar da mão. FODA-SE! rugiu. Ouviu as perguntas alarmadas do paramédico através do seu próprio praguejar. É claro que aconteceu alguma coisa vocifrou ele. Acabei de sujar o meu telemóvel todo de sangue. Sim... sim... desculpe, mas isto está a deixar-me enjoado. Eu tenho um problema com sangue, OK? Está bem... está bem... ela tem uma ferida na parte de trás da cabeça... não sei... cinco centímetros, talvez. Não sei se tem mais alguma... sem a virar não... ela tem cabelo comprido, pelo amor de Deus, e está a tapar-lhe a cara toda. Mais alarme. Não, é claro que não, eu não a vou virar... já me avisou o risco de empurrar osso para o cérebro. Fez uma careta. Ouça, amigo, o problema é mais o lixo... Este maldito elevador está tão porco que ela vai morrer de envenenamento do sangue se algum dos germes entrar dentro dela. Os tipos daqui mijam lá dentro, sabe. A culpa é da merda da autarquia... Se eles de vez em quando fizessem alguma coisa e mandassem alguém para limpar isto... OK... OK... vou fazer isso agora.

 

Pousou o telefone outra vez e retirou madeixas de cabelo do rosto da mulher. Ainda não o tinha visto, e ficou surpreendido com a beleza dela pálida e delicada, como uma boneca de porcelana vitoriana, com leves traços de cor-de-rosa nas faces, como que provando que ainda existia sangue dentro dela. Gentilmente, percorreu com as mãos a zona da cabeça que estava pousada no chão, mas os seus dedos não surgiram mais manchados de sangue do que antes.

 

Acho que só há aquele corte disse ele, pegando novamente no telefone, e parece que já está a ganhar postela... Não, é claro que não tenho um penso... Onde é que arranjava um penso num maldito elevador? Revirou os olhos para o céu. O que é que você quer dizer com vá procurar um estojo de primeiros-socorros? Ouça, amigo, eu sou preto como a noite e estou coberto de sangue. Pense melhor, OK... Eu não vou desatar a bater às portas deste sítio. Metade das pessoas daqui tem mais de oitenta anos e ficavam apavorados se um preto cheio de sangue e com os olhos esbugalhados lhes fosse bater à porta... e a outra metade são adolescentes Nazis que me enfiam uma faca nas costelas assim que me puserem a vista em cima. Eu estou no Bairro Ácido, pelo amor de Deus... não estou na merda das Seicheles. Pois... pois... pois... Se você é assim tão corajoso, então pinte a cara de preto e vá dizer àqueles sacanas nas barricadas que é meu primo. Vamos ver até aonde é que você chega. Olhou para o nível da bateria do telemóvel. Só tenho mais cerca de cinco minutos avisou, por isso é melhor pensar em alguma coisa depressa. Ele escutou e depois ergueu o olhar para os botões do elevador. As portas estão a abrir e a fechar bem, por isso acho que está a funcionar. Não, amigo... nunca ouvi falar... Que raio é a «Chamada para a Amizade»? Sr.a Hinkley... apartamento 406... quarto andar... Sim, acho que posso fazer isso...

 

desde que você fale com ela primeiro, para ela saber o que se está a passar. Disse o número do telemóvel. Volto a ligar o telefone daqui a cinco minutos... E não se esqueça de que saio dali para fora se ela começar a gritar... Estou a sentir-me péssimo... e não preciso de mais merdas. Ouviu mais um pouco. Por que é que eu não posso ficar anónimo? Que raio de diferença faz um nome? OK... OK... Diga à Sr.a Hinkley que me chamo Jimmy James e que moro no número 21 da Humbert Street. Não, ela não me pode procurar na merda da lista... Pelo amor de Deus! Porque eu acabei de sair da merda da prisão. É por isso.

 

No exterior do número 23 da Humbert Street

 

Colin surgiu subitamente junto do cotovelo de Melanie e gritou-lhe ao ouvido que era melhor ela fazer alguma coisa rapidamente, porque Kevin Charteris e Wesley Barber estavam a distribuir Molotovs aos amigos. Não os consigo parar, Mel. Eles estão completamente bêbados. Eu disse-lhes qu’a Rosie e qu’o Ben ’tavam dentro de casa, mas eles não ’tão interessados.

 

Ela fitou-o, alarmada.

 

O que é que estás a dizer?

 

Bombas incendiárias disse ele. O motim já ’tá planeado há dias... desde que tu e a mãe disseram qu’iam fazer a manif. O Kev e o Wes têm andado a encher as garrafas desde terça-feira. Acharam qu’a única maneira da gente se livrar dos tarados era deitar fogo aos gajos. Eu disse-lhes qu’o fogo s’ia espalhar p’à tu’ casa, mas eles disseram p’a m’ir foder. O Wes ’tá completamente pedrado. Ele é um estúpido do caraças... Tem andado a meter ácido e speeds e and’à falar de queimar a merda da rua toda.

 

O relato agiu como um despertador. Como se lhe tivessem despejado um balde de água gelada pela cabeça. Percebeu que não podia continuar à espera de que Jimmy ajudasse. Se queria que os filhos sobrevivessem, tinha de ser ela a protegê-los.

 

Onde é que eles estão?

 

Colin moveu a cabeça na direcção de um grupo amontoado junto do espaço semicircular no exterior do número 23.

 

Estão ali.

 

Em contraste com os engarrafamentos em cada lado da rua, o espaço em frente da casa do pedófilo, e ao lado desta, tinha permanecido relativamente livre, quase como se um cordão invisível mantivesse a multidão afastada. Até certo ponto isto era verdade, uma vez que quem se encontrava à frente, não querendo ser retirado do seu ponto de vista privilegiado, empurrava constantemente para trás, para contrariar a pressão traseira.

 

Isso permitira a Melanie guardar a sua porta, expulsando quem tentasse invadir esse espaço, mas isso não a deixava descansada, uma vez que a razão para esta defesa acérrima do espaço era a excitação. Tinha-se transformado na arena de combate onde os jovens mais violentos lançavam os seus tijolos e pedras para a sala de estar dos pervertidos, destruindo todos os valores, perante os «oohs» e «aahs» exultantes da multidão.

 

Fica aqui disse ela, enfiando o seu telemóvel na mão de Colin.

 

O que vais fazer?

 

Impedi-los anunciou ela destemidamente.

 

Ela carregou pelo alcatrão e agarrou um dos jovens pelos colarinhos.

 

Onde está o Wesley? exigiu ela. O rapaz tentou livrar-se dela mas, quando ele se desviou, ela viu Kevin Charteris agachado no chão, tentando acender um isqueiro teimoso, para incendiar um trapo embebido em gasolina enfiado numa garrafa. Oh, meu Deus! bramiu ela, agarrando-o pelo rabo de cavalo e pondo-o de pé com um puxão. O que é que tu julgas que estás a fazer, seu estúpido? Bateu-lhe na mão do isqueiro, arremessando-o ao chão. A minha casa fica na porta ao lado, e os meus filhos estão lá dentro.

 

Vai-te foder disse ele furiosamente, contorcendo-se para se libertar.

 

Ela bateu-lhe na cabeça com a outra mão e virou-o para o colocar de frente para os amigos dele. Vocês são malucos ou quê? exigiu ela. Onde é que arranjaram estas garrafas? De quem foi a ideia? Puxou a cabeça de Kevin para trás. Teve de ser tua e do Wesley, Kevin. Só vocês é que são assim tão estúpidos.

 

Porqu’é qu’implicas sempre comigo? disse o rapaz carrancudo, o rosto enrubescido pelo álcool. ’Tá tod’a gente a fazer o mesmo.

 

Melanie olhou em volta para confirmar se ele estava a dizer a verdade.

 

Isto vai tudo pelos ares e quem é que vai apagar o fogo? Achas que aqueles idiotas nas barricadas vão deixar passar os carros dos bombeiros?

 

A ideia foi tua, Mel acusou-a ele, conseguindo puxar o cabelo da mão dela e afastando-se. Dissestes que te querias livrar dos ta| rados e é isso que vais ter. Acenou com a cabeça para Wesley, que estava de pé por trás dela, e sorriu quando o rapaz lhe lançou outro isqueiro. A gente vamos deitar-lhes fogo p’a ti.

 

Ela lançou-se a ele, mas foi impedida por Wesley.

 

Então e a Amy? Queres queimá-la também?

 

Ela na’ ’tá lá.

 

Viram-na à porta.

 

Isso na’faz diferença disse ele, despreocupado. Se calhar até já ’tá morta debaixo do chão. É assim que funciona, Mel. Os tarados matam putos. Nós matamos tarados. Com outro grande sorriso, ele incendiou o trapo e mudou a garrafa para a mão direita, de forma a lançá-la contra a janela estilhaçada do número 23.

 

Ele pouco sabia sobre como construir um cocktail Molotov e, como estava bêbado, as suas reacções eram lentas. Não sabia o quão rapidamente o gargalo de uma garrafa iria aquecer quando a gasolina no interior se incendiasse, nem como um cocktail Molotov poderia ser perigoso para o lançador. O princípio por detrás de um tal dispositivo incendiário manter a gasolina contida na garrafa até que esta se estilhaçasse contra o seu alvo não era compreendido por amadores. Certamente Kevin não fazia ideia do valor das tampas de enroscar nem que deveria atar o trapo em redor do gargalo da garrafa, em vez de o enfiar lá dentro.

 

Ouviu-se um berro assustado da multidão à sua volta quando, com um grito de dor, ele largou a garrafa dos dedos queimados e ela se partiu na estrada, aos seus pés, envolvendo-o com chamas. Tal como as ondas numa piscina após a superfície ter sido perturbada, a debandada para fugir de perto dele espalhou-se em ondas frenéticas. Os amigos dele, eles próprios em chamas devido à sua proximidade da garrafa que explodira, cambalearam para trás, enquanto batiam nos braços, no peito e nos cabelos; mulheres e crianças gritaram ao serem pressionadas contra a sólida parede de pessoas atrás delas.

 

Apenas Melanie, protegida pelos corpos dos amigos dele, permaneceu onde estava, a sua atenção dirigida para a bola de fogo à sua frente.

 

Teve tempo de pensar que nem sequer gostava de Kevin Charteris. Ele era a má influência que fizera que Colin tivesse sido preso vinte vezes, por furto e por vandalismo, e era tão descontrolado que ajudara Wesley Barber a pôr a mãe por duas vezes no hospital.

 

Mas ela conhecia-o não era um estranho qualquer a arder e a voz da afinidade era poderosa.

 

Ela também estava a gritar não conseguia evitar, mas no meio da confusão, tivera o sangue-frio de despir o seu blusão e lançar-se sobre Kevin, embrulhando o cabedal à volta dele e usando o seu próprio peso para o forçar a cair. Fê-lo rolar de um lado para o outro para abafar as chamas, engasgando-se com o cheiro do fumo que saía do cabelo dele, os olhos a arder devido ao calor da gasolina em chamas no alcatrão. Viu as pessoas virem em seu auxílio, arrastando o rapaz da fonte do fogo, juntando mais roupas ao corpo que rolava, antes de ser puxada para trás e de sentir alguém a bater-lhe na cabeça.

 

Sua cabra estúpida soluçou o irmão dela enquanto lhe empurrava o rosto para o chão e se lançava para cima dela. Tens a merda do cabelo a arder.

 

No interior do número 23 da Humbert Street

 

O punho de Franek acertou na maçã do rosto de Sophie, fazendo-lhe estremecer o cérebro. O golpe era poderoso o suficiente para a deitar abaixo, mas a parede atrás dela manteve-a direita. O instinto fé-la ripostar, quando não havia qualquer esperança de conseguir fazer alguma coisa eficaz. Um segundo golpe iria fazê-la desmaiar. Ela respondeu com a única coisa que tinha à mão a cadeira empurrando-a com força contra ele e fazendo que o assento entrasse em contacto com os joelhos dele.

 

Não havia lógica nenhuma ela estava demasiado tonta para isso mas quando ele gemeu de dor, ela lembrou-se da jarra. Era atacar ou morrer. Agarrou a jarra pelo gargalo e esmagou-a contra a parede, lançando-a depois na direcção da cabeça dele, num movimento desesperado para a frente, como se fosse um bate-estacas.

 

Seu CABRÃO! gritou ela, enquanto brandia os restos afiados como lâminas pela cara dele. Ele levou as mãos aos olhos, o sangue escorrendo, e ela fez girar a jarra outra vez, cortando a pele dos dedos dele como se fosse a gordura serreada de um porco. AFASTE-SE de mim! rugiu ela, levando a outra mão ao gargalo da jarra e balançando-a para um golpe a duas mãos. AFASTE-SE! | Desta vez falhou-o completamente e a jarra voou-lhe das mãos, indo-se estilhaçar na parede mais afastada. Ela parecia uma louca. Praguejando. Berrando. CABRÃO! CABRÃO! CABRÃO! Espero que MORRA!

Estava a tentar agarrar a pá de críquete para bater com ela na cabeça | dele quando foi agarrada pela cintura e arrastada pelo filho.

 

Pare! Pare! gritou Nicholas. Quer matá-lo?

 

{ Sophie aninhou a pá numa mão e puxou a cadeira contra si com a outra, reordenando as suas defesas, agachando-se como um milhafre } num poste, observando como um furão. Não conseguia falar porque não conseguia respirar. Tal como acontecera antes a Franek, a adrenalina e o pânico tinham colidido no seu peito, roubando-lhe o oxigénio. Mas dentro da sua cabeça circulava um grito de ódio: Sim! Sim! [SIM!

 

Nicholas tentou que Franek afastasse as mãos dos olhos, mas o velho resistiu, embalando-se e lamentando-se para si próprio.

 

Acho que o cegou disse ele, virando-se para Sophie.

 

Ela ergueu a pá acima da cabeça, pronta para a usar se ele desse um passo em frente.

 

Eu não quero magoá-la protestou Nicholas, abrindo os braços num gesto de tréguas. Mas isto é demasiado absurdo. Por que continua a provocá-lo?

 

Ela não se mexeu, ficando apenas a observá-lo. Lá fora, as pessoas começaram a gritar de terror.

 

9 Humbert Street

 

Gaynor ouviu os gritos da sua posição junto da porta da Sr.a Carthew. Ergueu o olhar por um momento, pensando que podia ouvir Melanie, mas o som de um motor, algures à distância, distraiu-a.

 

Está a acontecer alguma coisa disse ela pelo telefone a Ken Hewitt, enquanto as pessoas iam passando por ela uma de cada vez.

 

O quê?

 

As pessoas estão a gritar disse ela receosa, e estou a ouvir um motor. Será a polícia a chegar?

 

Não creio. Seguiu-se uma breve pausa, e ela ouviu o rádio dele. Não consigo entrar em contacto neste momento disse-lhe ele calmamente. Continue assim, Gaynor. Quantos é que já passaram até agora?

 

Não sei. Talvez uns cinquenta. Era mais rápido se deixássemos passar dois de cada vez. Eles estão a começar a empurrar.

 

Não o faça pediu ele rapidamente. Não vai ser capaz de os controlar.

 

O aviso chegou tarde de mais.

 

Gritos de alarme, vindos do fundo da multidão que começara a fugir descontrolada da gasolina em chamas, espalharam o pânico no lado da rua onde Gaynor se encontrava. Assustadas, as pessoas em frente da porta começaram a empurrar para entrar e, incapaz de se aguentar, ela foi arrastada para dentro juntamente com elas. Agarrou-se desesperadamente à porta para se conseguir colocar por trás desta e depois empurrou Lisa e a criança grande na direcção do jardim.

 

Vão-se embora ordenou ela. Vão para casa.

 

Foram levadas pela enchente, e ela viu Lisa virada para ela enquanto era arrastada.

 

Olha para onde vais! gritou Gaynor atrás dela, encostando-se o mais possível à parede. Fica de pé! Mas a criança já tinha desaparecido.

 

Não havia nada que Gaynor pudesse fazer a não ser observar. Sentiu-se espancada e magoada pelas mãos que se agitavam à procura de equilíbrio enquanto os corpos eram impelidos pela porta, mas sabia que nunca seria capaz de fechar a porta sozinha, se acontecesse uma catástrofe. Nunca seria capaz de impedir o empurrar e o acotovelar das pessoas desesperadas que lutavam por se manter de pé. Nunca seria capaz de abrandar o seu ímpeto.

 

Ela era a responsável. Se não tivesse insistido na manifestação até se sentira orgulhosa de ser uma das suas líderes nada disto estaria a acontecer. Deu consigo a rezar:

 

Meu Deus, por favor, faz com que ninguém morra. Repetiu a prece uma e outra vez sem parar, como se a intercessão contínua fosse a única forma de manter a atenção de Deus. Mas ela sabia que Ele não estava a ouvir. Do fundo da sua mente espreitava a terrível culpa do católico que apostatou. Se tivesse sido uma pessoa melhor, se tivesse escutado os padres, se tivesse confessado os seus pecados, ido à igreja...

Centro de comando imagens do helicóptero da polícia.

 

A ligação de vídeo do ar para o centro de comando, a vinte quilómetros de distância, mostrou uma visão alarmante do que estava a acontecer no solo. A actividade concentrava-se em redor da Humbert Street e das barricadas nas quatro entradas para o bairro. Estimava-se que entre duzentas e trezentas pessoas estivessem concentradas na Humbert e à volta desta, com outros focos na Bassindale e na Forest, enquanto as barricadas atraíam um rio de recrutas, ao espalhar-se a informação da sua existência. A polícia estava impotente. Os acontecimentos tinham-nos apanhado de surpresa e não possuíam o número de elementos suficientes para responder.

 

Os observadores no centro viam incrédulos as imagens aéreas da Humbert Street, interrogando-se sobre qual o fado maligno que colocara o pedófilo numa rua onde a política de preenchimento das lacunas entre as propriedades para criar mais acomodações a tinham transformado numa armadilha cercada por paredes sólidas. Mais tarde iria levar a discussões e a recriminações, com a polícia a culpar os agentes camarários por estes se terem recusado a levar a sério os avisos sobre o acesso, e a câmara a culpar a polícia por não fazer o seu trabalho adequadamente. Por agora, tudo o que se podia fazer era observar a turba ignorante, desconhecedora do perigo em que se encontrava, a ser espremida impiedosamente num espaço demasiado pequeno para a receber.

 

O lençol de chamas, quando a bomba incendiária de Kevin Charteris explodiu, seguida pela onda de pânico que levou a multidão a fugir do alcatrão em fogo, foi registado claramente pela câmara. Era como se um íman gigante tivesse subitamente invertido os seus pólos e impelisse as pessoas para trás como se fossem limalha de ferro. Era visível o terror nos rostos voltados para cima das mulheres e das crianças enquanto embatiam umas nas outras ou eram forçadas contra as paredes constrangedoras das casas. Imagens revoltantes de jovens a caírem sob os pés ruidosos. Apenas a saída através da casa da Sr.a Carthew oferecia alguma esperança de vida, graças ao fluxo de pessoas que saíam como loucas para o jardim, do tamanho de uma toalha de mesa, das traseiras e atravessavam as vedações em busca da relativa segurança da Forest Road.

 

Um foco separado de actividade verificava-se no mercado cooperativo e nas lojas circundantes. Para o melhor ou para o pior, os gerentes tinham decidido encerrar aos primeiros rumores de problemas, e as grades de segurança que atravessavam as janelas sofriam agora violentos assaltos de machados, enquanto um bando de ladrões de cinquenta elementos tentava pilhar a mercadoria. Também esta actividade atraía recrutas, e grupos de jovens, com bonés para se disfarçarem do helicóptero que sobrevoava, acorriam à zona para apanharem quaisquer restos que os utilizadores de machados deixassem.

 

A forma como os carros haviam sido posicionados nas entradas mostrava claramente que existira algum planeamento prévio do motim. Isto não era um simples voltar ao acaso de veículos onde eles se encontrassem, mas sim a construção de fortificações sólidas, com a forma de cabeças de seta, e dispostas na direcção da estrada principal, numa tentativa deliberada de frustrar qualquer tentativa por parte da polícia de atravessar com carros blindados. Acendiam-se fogos nos jardins de ambos os lados, pilhas de pneus e de ramos verdes de árvore, ensopados em gasolina mais provas de um planeamento prévio que lançavam um fumo negro e espesso para os esquadrões antimotim, que lentamente se iam concentrando no outro lado da estrada principal.

 

Enquanto os agentes no centro de comando observavam as imagens, interrogavam-se sobre a razão da falta de um aviso prévio do planeamento de algo desta magnitude no Bairro Ácido. Continuava a partir-se do princípio de que a informação de que tinham um pedófilo entre eles levara o bairro à revolta uma opinião apoiada pelos relatórios dos assistentes sociais e dos agentes de realojamento mas as imagens não eram de todo claras, sobre se os jovens nas barricadas estavam ligados ao que se passava na Humbert Street, ou se estavam a aproveitar-se do descontentamento do bairro para iniciar uma guerra própria.

 

Foi uma mulher-polícia quem deu voz ao que a maioria dos agentes estava a pensar.

 

Vamos ser crucificados quando a imprensa descobrir isto.

 

Torre Residencial, Bairro Bassindale

 

Jimmy James e a Sr.a Hinkley miraram-se, desconfiados, quando as portas do elevador se abriram. Nenhum deles ficou impressionado. Ela tinha um ar ancestral. Ele tinha um ar matreiro. Ela tinha uma boca que deixava transparecer mau humor, com a forma de uma ferradura invertida. Ele era um peralvilho, coberto de jóias de ouro. Ela era como a tia dele... gostava de um bom sermão. Ele era um malandro... que não teria conseguido aquelas jóias de forma honesta.

 

O rosto dela suavizou-se ao olhar para a mulher-polícia.

 

Consegue colocá-la aqui? perguntou ela, apontando para a cadeira de rodas à sua frente. O nosso amigo, o homem da ambulância, disse que você devia mexê-la o menos possível... Se ela tiver uma fractura no crânio, o mais importante é evitar que cheguem lascas de osso ao cérebro dela.

 

Eu também sei disso disse Jimmy de dentes cerrados.

 

Então não faça nada à pressa... e tem de apoiar a cabeça dela com muito cuidado... como se fosse um bebé.

 

Os dentes dele surgiram num sorriso de lobo.

 

Com certeza, patroa.

 

O meu nome é Sr.a Hinkley.

 

Ela olhou-o nos olhos, desafiando-o a continuar a armar-se em parvo, e a semelhança com a tia intensificou-se. Mas ela era demasiado magra a irmã do seu pai era um pote e existia uma aparência de desalinho na Sr.a Hinkley, no seu cabelo branco liso, nos sapatos largos e no casaco de malha puído com punhos desfiados e cotovelos remendados, que implicava pobreza ou desmazelo.

 

Ele cedeu um pouco. Ela estava a fazer-lhe um favor ao aceitar ajudá-lo, e não tinha culpa de provirem de gerações e de culturas diferentes. Ele ofereceu uma mão suja de sangue. Sou o Sr. James... Jimmy para os amigos.

 

Ele não esperara que ela a apertasse; não ficaria melindrado se ela não o tivesse feito mas ela surpreendeu-o ao aceitá-la afavelmente entre as suas duas mãos.

 

Esplêndido. Para os meus eu sou a Eileen. Vamos continuar? Tenho pensos no meu apartamento. E também tenho instalações sanitárias.

 

Era óbvio que a cadeira de rodas lhe pertencia, pois ela segurou-se ao braço dele, caminhando com um coxear arrastado, enquanto ele empurrava a mulher-polícia para o interior do apartamento.

 

Fracturei a anca há dois anos explicou ela, e nunca mais consegui andar bem. Para aqui indicou ela, abrindo a porta do seu quarto. Deite-a na cama e eu vou ver o que posso fazer para lhe limpar o sangue do cabelo. O homem da ambulância explicou como havia de a deitar?

 

Sim. Ele olhou para a colcha creme com folhos, com fronhas de almofada a condizer.

 

É melhor eu tirar isto primeiro disse ele, estendendo a mão para puxar a colcha para trás.

 

Ela deu-lhe uma palmada na mão.

 

Não.

 

Vai ficar estragado avisou ele. Olhe para mim. Apontou para as suas roupas. Tenho a minha roupa toda fodida.

 

Ela fez-lhe sinal para ter cuidado com as obscenidades.

 

Eu tenho de dormir nesta cama disse-lhe. Se for preciso, deito fora a colcha.

 

Ele não viu a lógica. Mas é uma colcha boa. Por que não a deitamos num lençol, e depois só tem de fazer a cama outra vez?

 

Porque não consigo explicou ela mal-humorada, erguendo as garras resultantes da artrite. Vem cá uma pessoa todas as semanas fazer-me a cama e ela só volta na sexta-feira que vem. Receio que seja a realidade da velhice. Depender dos outros para fazer... e não muito bem, o que fazíamos tão bem há apenas alguns anos. É muito frustrante. Às vezes só me apetece gritar.

 

Ele afastou-a e retirou a roupa da cama até ficar apenas o lençol de baixo.

 

Eu faço-lhe a cama disse-lhe ele enquanto levantava cuidadosamente a mulher-polícia da cadeira e a deitava na posição de recuperação na superfície plana.

 

Ah! Antes de a ambulância aqui chegar já você se foi embora disse Eileen judiciosamente. Agora que está livre da responsabilidade, vai desaparecer daqui como se fosse um foguete.

 

É claro que ela tinha razão.

 

A minha mulher grávida e os dois filhos dela estão lá fora afirmou ele. Tenho de saber o que lhes aconteceu. Viu a desilusão nos olhos dela. A que horas costuma ir para a cama? perguntou.

 

Às nove.

 

- Então eu volto antes das nove. Negócio fechado?

 

A ver vamos hesitou ela, dobrando-se sobre a jovem e sentindo a pulsação no pescoço. Um negócio só é um negócio quando é respeitado. Apontou para uma casa de banho à esquerda. Está ali uma bacia de alumínio e um tabuleiro com algodão e desinfectante. Também está um rolo de ligaduras no armário, por cima do lavatório. Quero que encha a bacia com água morna e que traga tudo para aqui. Se desimpedir a mesinha de cabeceira e a puxar para a frente, podemos usá-la como superfície de trabalho.

 

Ele fez o que lhe fora pedido e observou enquanto ela começava a limpar o cabelo colado.

 

A senhora é enfermeira? perguntou ele.

 

Fui em tempos, até ter constituído família. Depois comecei a fazer trabalho voluntário com a Ambulância St. John.

 

É por isso que o paramédico sabia que me ia ajudar? Ele falou numa «Chamada para a Amizade».

 

É um clube telefónico para pessoas que não podem sair explicou ela enquanto humedecia algodão na bacia. Entre outras coisas, vamos telefonando àqueles que estão piores e, se não nos respondem, alertamos o serviço de ambulância. Eu sou uma das organizadoras, e por isso é que eles sabiam o meu número.

 

Então você é uma espécie de santa?

 

Valha-me Deus, não, só gosto de uma boa bisbilhotice. Ela ergueu o olhar por um momento e riu-se com a expressão dele. Pois, pois, tudo sobre os bons velhos tempos, e como a juventude de hoje em dia é horrível. Mas imagino que você também seja assim. Toda a gente com mais de setenta anos é senil. Não é isso que vocês pensam?

 

Por vezes admitiu ele. Verdade seja dita que são muito mal-educados... Agem como se toda a gente os tivesse de respeitar, quer mereçam quer não.

 

No nosso tempo, nós respeitávamos os mais velhos sem hesitar.

 

Pois, mas as coisas evoluíram. Já não se pode exigir isso. É preciso merecê-lo. Agitou os dedos num gesto à Ali G. Não é que eu tenha algum problema em respeitá-la, está a ajudar-me com isto, mas há outros que não teriam aberto a porta.

 

Duvido de que eu o tivesse feito se eles não me tivessem telefonado a dizer o que se passava. Você não é nem de longe o sonho de uma velhota, Jimmy. Limpou cuidadosamente em redor do longo golpe na cabeça da mulher-polícia, os seus dedos torcidos enrolados à volta do algodão. Pobre jovem. Quem lhe teria feito uma coisa assim?

 

Ela vai morrer?

 

Não creio. A pulsação está forte.

 

Ela perdeu uma quantidade enorme de sangue.

 

As feridas na cabeça sangram sempre muito, mas normalmente parecem pior do que são.

 

Ele invejava a calma dela.

 

Você está muito descontraída em relação a isto.

 

Não a ajudamos com gritos. Seja como for, o crânio não se fractura com facilidade. Acenou com a cabeça na direcção da casa de banho. Vá limpar-se ordenou-lhe, enquanto ponho uma gaze na ferida para a proteger. Quando acabar, traga-me os sais que estão na segunda prateleira do armário da casa de banho. É uma garrafa verde. Vamos ver se a conseguimos reanimar.

 

Mais tarde, Jimmy recordou sempre o que se passou como um pequeno milagre. Uma passagem da garrafa sob o nariz da jovem e ela abriu os olhos e perguntou onde estava. Por que faziam as pessoas aquilo?, interrogava-se. Seria a consciência mais uma questão de onde se estava em vez de quem se era? Será que é preciso ter a certeza de que nos encontramos em segurança antes de se conseguir ter a noção de qualquer outra coisa?

 

Fosse como fosse, o seu alívio foi intenso. Ele não queria que ela morresse. Não aprovava que se batesse em mulheres, nem mesmo em mulheres-polícias.

 

Eileen observou as emoções atravessarem o rosto dele e, com um «arrunf» rouco, bateu com as costas da sua mão no braço vestido de cabedal dele.

 

É a si que ela tem de agradecer.

 

Eu não fiz nada.

 

Podia tê-la deixado.

 

Foi o que fiz admitiu ele honestamente, até que me lembrei de que tinha deixado uma impressão digital na merda do botão do elevador. Ela franziu o cenho em sinal de desaprovação. Desculpe. Fico um bocado desbocado quando estou nervoso. Ela riu baixinho novamente.!

 

O homem da ambulância disse-me para esperar um preto grande ícheio de sangue que tinha acabado de sair da prisão e que não era capaz de falar sem dizer obscenidades. Os olhos dela brilharam perante a [surpresa causada pela sua descrição tão frontal. Ele disse que não sabia até que ponto era verdade, pois apenas estava a transmitir a sua descrição de si próprio... mas na opinião dele você era um herói e apostava que podia confiar em si. Ela viu um enrubescer escurecer-lhe as faces. Dê-me um beijo disse ela bruscamente, e depois vá procurar a sua amiga e os filhotes dela. Espero que estejam bem. Ele depositou-lhe um beijo na pele enrugada. E veja se cá está às nove terminou ela com severidade, ou nunca mais faço um negócio consigo.

No exterior do número 23 da Humbert Street

 

À auto-imolação de Keven Charteris seguiu-se a anarquia total. As pessoas debandaram em todas as direcções, esbarrando umas nas outras, lutando para fugirem do alcatrão em chamas. Espraiada na estrada debaixo do seu irmão, Melanie viu Kevin ser levado pelos seus amigos, que utilizavam o blusão de cabedal dela como maca, a pele da cabeça vermelha e em carne viva onde as chamas se tinham alimentado do brilhante rabo de cavalo ruivo. Ela afastou Colin e levou freneticamente as mãos à sua própria cabeça.

 

’Tá tudo bem disse-lhe ele. A maior parte ainda aí ’tá. Os dentes dela começaram a bater devido ao choque.

 

Eles deviam d-deixar o K-Kevin onde estava disse ela urgentemente. C-chama uma ambulância. Eu v-vi um p-programa que dizia que as p-pessoas podem m-morrer de choque.

 

Acho que eles acham qu’é melhor levá-lo p’rá barricada disse Colin inseguro. Há lá bófias qu’o podem levar p’o hospital.

 

Ela abanou a cabeça.

 

P-por que é que ele fez aquilo? Eu d-disse-lhe para não o fazer. N-não disse, Gol?

 

Pois, ’tá bem, mas temos de sair daqui disse Colin, pondo-a de pé. ’Tá tudo doido. Deus! Empurrou um corpo desembestado, deixando cair, sem dar por isso, o telemóvel de Melanie, que foi pisado pelos pés em debandada, e arrastou-a para o passeio. Não tarda nada vai haver uma luta.

 

Ela tremia dos pés à cabeça.

 

Não sei o que fazer chorou ela. E os meus bebés?

 

Tu vais-te fechar em casa com os putos, enquanto eu vou à procura do Jimmy disse ele decidido.

 

Ele v-vai ficar tão zangado comigo chorou ela. Ele disse que isto ia acontecer.

 

Pois, mas ele não vai ficar zangado até depois de tu ’tares a salvo ripostou Colin. E essa merda não interessa nada. Vá lá, mana, controla-te. Eu sei que não é fácil, mas tens de ser forte pela Rosie e pelo Ben. Os putos devem ’tar todos borrados. Agarrou-lhe os braços para lhe transmitir alguma da sua segurança, mas ela não estava a olhar para ele. Ele observou os olhos dela escancararem-se de horror, virou-se para ver para onde ela estava a olhar e viu Wesley Barber lançar outro Molotov em chamas para a porta do pedófilo.

 

Ah, merda exclamou ele num desespero choroso. Agora é que estamos mesmo fodidos!

 

Mensagem Policial para todas as esquadras

28.07.01

15.43

 

Bairro Bassíndale

ALERTA TOTAL

Esquadrão antimotim a postos

Entrada em Bassindale iminente

 

Aguardam-se ordens

 

ACTUALIZAÇÃO AGENTE HANSON

 

Situação controlada

ACTUALIZAÇÃO HUMBERT STREET

Saída controlada em funcionamento

Pânico registado

Possível ataque ao n.° 23

ACTUALIZAÇÃO DR.a MORRISON

Nenhum dado novo

 

Sábado, 28 de Julho de 2001 no interior do número 23 da Humbert Street

 

NICHOLAS EMBALAVA O seu pai no chão, apoiando-o em cima dos joelhos, numa paródia surreal da Pietà de Miguel Ângelo. O velho estava imóvel, o rosto virado para o peito do filho, minúsculos carreiros de sangue a secarem no pescoço. Ninguém falava. No silêncio extraordinário daquele quarto das traseiras, atafulhado de caixas por desempacotar e pequenas peças de mobiliário indesejadas relíquias da história da família Zelowski Sophie sentiu que, para aqueles homens, a conversação era um raro interlúdio no silêncio que dominava as suas vidas.

 

Noutro local, noutra altura, ela poderia ter confundido Nicholas com um monge. Existia algo muito ascético no seu rosto magro e sem expressão que parecia imune à paixão, e ela interrogou-se se ele aprendera sozinho a esconder os seus sentimentos, ou se não tinha sentimentos de todo. Ele estava a escondê-los, pensou ela, recordando a reacção de choque que ele mostrara à forma determinada como ela atacara o seu pai. As emoções puras assustavam-no.

 

Mas isso fazia dele um aliado ou um inimigo? Ela não era capaz de decidir, enquanto ouvia os gritos da multidão que ainda ecoavam no exterior. Ele apoiaria a versão dos acontecimentos dela ou do seu pai? À distância ela ouvia um helicóptero, e relaxou ligeiramente pensando que o salvamento estaria iminente. Será que interessava quem Nicholas ia apoiar? Será que ela ainda iria querer levar um processo para a frente, após tudo isto ter terminado? Ela odiava Franek assim tanto? Não estavam todos no mesmo barco? Completamente aterrorizados?

 

Estou a ouvir um helicóptero anunciou ela, reconhecendo na expressão de Nicholas que ele também o estava a ouvir. Acha que é a polícia?

 

Tem de ser.

 

Oh, meu Deus, espero que seja disse ela fervorosamente. Ele começou a desculpar-se.

 

A vida seria tão mais simples se nunca fizéssemos nada de que nos arrependêssemos. Mas as coisas acontecem... acidentes... pessoas no sítio errado na hora errada. Isto não faz que uma pessoa seja má... apenas sem sorte. Ergueu o olhar. Conhece a fábula do Esopo sobre o escorpião e o sapo? Sophie abanou a cabeça. O escorpião quer atravessar um rio, mas não sabe nadar e por isso pede boleia a um sapo. De início o sapo recusa-se, pois tem medo de que o escorpião o pique. O escorpião ri-se e diz que não é assim tão estúpido. «Se eu te picar, tu morres», diz ele ao sapo, «o que significa que eu também morro, pois eu não sei nadar.” Isto convence o sapo a fazer aquilo que o escorpião pede mas, a meio do rio, o escorpião acaba por picar o sapo à mesma. «Por que fizeste isso?” pergunta o sapo enquanto morre. «Não consegui evitar» explica o escorpião, «faz parte da minha natureza.” Tocou na cabeça do pai. Falar sobre a minha mãe deixa-o sempre zangado continuou ele. Se tivesse ficado quieta, como eu lhe pedi, ele não lhe teria batido.

 

Você quer dizer submeter-me... como você? Ela sorriu sarcasticamente. Não faz parte da minha natureza.

 

E mais simples.

 

Você é pior do que ele acusou-o ela. Ele é bruto... incivilizado... nojento... mas você abanou a cabeça, incrédula, você deixa que ele o faça. Que tipo de pessoa passa você a ser?

 

Ele encolheu ligeiramente os ombros, metaforicamente lavando as suas mãos.

 

Eu tentei avisá-la.

 

Como? Ela levou os dedos à face e tocou na carne inchada. Doía-lhe até ao osso, e pensou se estaria fracturado. Só me lembro de me terem dito que me calasse... que fizesse o que me estavam a mandar... que deixasse que o seu pai acreditasse que estava a controlar.

 

É a mesma coisa.

 

Ela perscrutou-lhe o rosto, procurando algo qualquer coisa que a convencesse de que ele não acreditava no que acabara de dizer. Não encontrou nada. Parecia que, segundo a filosofia dele, a responsabilidade pertencia toda à vítima. Nenhuma ao agressor.

 

Ele não lhe teria batido, se você não o tivesse feito perder a cabeça insistiu ele, como se quisesse provar o seu ponto de vista.

 

Sophie apertou com os dedos a pá de críquete.

 

Por que não o avisou a ele. Por que não lhe disse que lhe partia os braços se ele me tocasse outra vez?

 

Ele flectiu os dedos da mão direita e observou-os com uma espécie de fascínio estranho.

 

Isso não o teria impedido disse ele.

 

Por que não?

 

Ele não tem medo de mim.

 

Sophie ficou espantada, observando o filho manter o pai quiescente, esfregando-lhe os peitos carnudos. Ela não teria sido capaz de falar, mesmo que quisesse.

 

Centro de Saúde Nightingale

 

A linha directa de Harry Bonfield tocou cinco minutos depois de Bob Scudamore ter telefonado a dizer que se encontrava no seu carro e que esperava estar no Nightingale dali a hora e meia. Ele anunciara que um tal Dr. Gerald Chandler um bom tipo. Trabalha com o meu futuro patrão, em Southampton iria telefonar durante os próximos minutos.

 

Estou na Ilha de Wight, e estamos em época de férias afirmou Chandler pesarosamente. Mesmo que eu conseguisse colocar o meu carro num dos ferries, não chegava aí antes do Bob. Estou ligado, a vários níveis, às três prisões daqui, mas o meu trabalho é principalmente com seis criminosos em Albany. Ficou em silêncio por um momento, enquanto organizava as ideias. Lembro-me bem do Milosz Zelowski. Por acaso até gostava dele. É um homem tímido e relativamente agradável... um músico fantástico... está sempre a fugir para dentro da sua própria cabeça para ouvir jazz. Imaginário, é claro... reprodu-lo na totalidade para ele próprio... coisas que compôs, ou que ouviu. O perigo para a noiva do Bob é que ele é extremamente reprimido emocionalmente... É profundamente introvertido. Posso enviar-lhe por fax as minhas anotações sobre ele. Não são particularmente fáceis de ler... são uma transcrição manuscrita das cassetes que fiz das entrevistas que levei a cabo... mas vão dar-lhe uma ideia geral do tipo de pessoa com que está a lidar. O relatório dactilografado está no meu gabinete... não me importo de ir até lá, mas isso significa mais trinta minutos até o poder enviar.

Envie as notas pediu Harry, mas faça-me um resumo primeiro. Esta repressão torna-o perigoso? Será que ele pode violar a Sophie? Chandler considerou a pergunta cuidadosamente. Em circunstâncias normais, não disse ele. Ele não tem uma apetência sexual muito forte, e prefere, definitivamente, rapazes jovens. Considera toda a noção de penetração profundamente revoltante e prefere não ejacular se o puder evitar. É como a retenção anal nas crianças que se recusam a obedecer aos pais. Verter a sua semente causa-lhe ansiedade. O que não quer dizer que ele não se interesse pelo seu próprio orgasmo... mas é algo muito pessoal. Ele utiliza a masturbação dos outros como forma de manipulação. Em termos simples, uma pessoa a quem ele dê prazer fica sob o seu controlo enquanto continuar a ter: prazer com aquilo que ele faz. Os três rapazes que fizeram que ele fosse condenado por os molestar já se tinham iniciado em actividades homossexuais... todos eles admitiram isso. Também admitiram estarem apaixonados por Zelowski e que andavam a infernizar-lhe a vida... por isso ele deu-lhes o que queriam, de forma a controlá-los. Todos o descreveram como um homem sem emoções, o que não quer dizer que não se sentisse atraído por eles, apenas significa que ele mantinha os seus sentimentos muito bem escondidos.

 

Mas ele é um pedófilo?

 

Sim. Na medida em que sofre de uma perturbação psicossexual, que faz com que se sinta atraído por rapazes adolescentes. Mas duvido de que tivesse feito alguma coisa se os rapazes não o tivessem achado atraente primeiro. É fácil gostar dele. Diz muito pouco... escuta muito. Na prisão era um Samaritano. Costumava sentar-se durante horas a ouvir suicidas, a escutar os seus problemas. Ele compreende o medo e a dor interiorizados melhor do que muita gente.

 

Por que é que os rapazes o denunciaram?

 

Não o fizeram. Foi apanhado em flagrante com o último deles, e confessou os outros dois casos sob interrogatório. Foram os pais que insistiram na acusação, queriam alguém que pudessem culpar pela homossexualidade dos filhos, e o juiz fez dele um exemplo. É uma história comum. Vivemos numa sociedade puritana, que se recusa a reconhecer que as crianças têm impulsos sexuais. Hoje em dia, nenhum tribunal se atreveria a aceitar que um miúdo possa ser um sedutor, apesar das provas estatísticas que mostram que o Reino Unido tem a mais alta taxa de gravidez na adolescência da Europa. Ele parecia irritado. E curiosidade sexual, pelo amor de Deus... Há séculos que isso acontece, e leis arbitrárias que estipulam uma idade a partir da qual é legal ceder aos desejos não vão fazer a mínima diferença. Nós temos de persuadir... não de coagir.

 

Harry, que tinha de lidar com as consequências para as raparigas e para os pais alheados das gravidezes adolescentes, concordava com ele, mas aquele não era o momento para discutir o assunto. E em circunstâncias excepcionais? Será que ele a violaria na situação que vivem no momento?

 

É difícil dizer. Se compreendi o Bob, eles estão presos com o pai do Zelowski no interior de uma casa, com um motim a acontecer na rua.

 

Sim.

 

E a polícia acha que o Milosz é o alvo?

 

Sim.

 

É uma mistura explosiva. Eles devem estar todos muito assustados, por razões diferentes, e o medo é uma emoção poderosa. Como acha que a Sophie irá reagir?

 

Não sei. Ela é uma rapariga muito equilibrada, mas tem um feitio difícil quando a provocam. Não a estou a ver a ceder facilmente.

 

Foi o que o Bob disse.

 

Isso é bom ou mau?

 

Depende da reacção dos dois Zelowski. Concordo que o pai é o elemento mais perigoso para ela, mas o Milosz pode ficar excitado ao vê-la defender-se, especialmente se as emoções dele já estiverem agitadas devido ao receio que sente da multidão. Ele tem muito pouca experiência com mulheres. A mãe abandonou-o quando ele tinha cinco anos e, pelo que pude apurar, era bastante solitário na escola e no conservatório. Neste momento estou a tentar perceber qual a lógica de o pai estar com ele, quando uma das recomendações no meu relatório foi que o Milosz deveria cortar todos os laços com ele, como principal causa de abuso sexual. Imagino que ele estivesse demasiado assustado para viver sozinho, há muitos que são assim, razão pela qual a minha recomendação foi ignorada, mas foi muito estúpido por parte do agente de liberdade condicional dele. O que me preocupa é que o Milosz não vai fazer nada para evitar uma violação... e pode até sentir-se encorajado a tomar parte se estiver excitado o suficiente. Tudo depende da combinação de estímulos necessários para libertar as emoções dele. Meu Deus!

O que sabe sobre o pai dele?

Apenas o que ele próprio me disse. Está tudo nas anotações. Perguntei-lhe porque não tinha mencionado o abuso perpetrado pelo pai na defesa, ou no pedido de recurso, mas ele disse que não teria sido justo, pois o pai não sabia que o que estava a fazer era errado. E provavelmente é verdade. Ele diz que a família do pai era polaca, de origem cigana, e que foi educado numa cultura onde os machos dominantes estabeleciam as regras de comportamento no seio da família. í Pelo que o Zelowski me disse, parece bastante claro que o homem tem uma tendência sádica muito forte. Ele diz que se lembra de a mãe um dia ter sido espancada porque não cozinhava bem... por isso imagino que o sexo também deveria ser bastante brutal. Certamente o Milosz foi sujeito a uma dose considerável de violência até ter aprendido a utilizar a masturbação como forma de deflectir a fúria do pai. Harry sentiu-se indisposto.

 

Com cinco anos de idade?

 

Sim. É revoltante, não é? Mas nós estamos a lidar com um nível de inteligência muito baixo. Não existia uma atracção por crianças per se, apenas esperava que o filho preenchesse o vazio sexual que foi deixado após a partida da esposa. Uma criança assustada é sempre um alvo fácil, e é muito mais simples do que sair e iniciar uma relação nova. De acordo com o que o Milosz me disse, por isso não tenho provas independentes, o pai começou a percorrer as ruas e a frequentar prostitutas. Foi então que ele deixou de abusar do Milosz. Ele foi interrogado várias vezes após várias mulheres terem acabado no hospital com o rosto espancado, e o Milosz tinha sempre de providenciar um alibi. Fê-lo sempre, é claro, porque era a única forma de evitar voltar a sofrer abusos, mas disse que se sentia mal, pois recordava-o do que costumava acontecer à mãe. A polícia pode ter registos dos interrogatórios. Valerá a pena tentar?

 

Harry tomou nota.

 

O pai estava empregado?

 

Mais ou menos. Trabalhava como operário. Um tom sarcástico introduziu-se na voz de Chandler. Pelo que sei, mais para menos do que para mais. Segundo o Milosz, ele sofre de asma, por isso normalmente estava demasiado doente para ir trabalhar, mas a história não me convence. Eu diria que ele se estava a aproveitar do sistema.

 

Hum... Harry interrogou-se sobre quão genuíno teria sido o ataque de pânico dado pelo filho como razão para precisar de um médico. A mãe era polaca?

 

Não. Era inglesa. O Milosz tem muito poucas recordações dela, salvo ser loura. O pai não admite que se fale no nome dela. Ele nunca disse nada ao rapaz, a não ser que passou a guerra em Espanha para escapar à perseguição Nazi aos ciganos... foi para a Inglaterra no início da década de 50... e casou com a mãe para obter os direitos de residência. Disse-lhe que quando a conheceu, ela era uma prostituta, e que voltou ao mesmo depois de ter sido posta fora de casa, quando ele a descobriu na cama com outro homem.

 

Por que é que ela não levou o filho com ela?

 

Quem sabe? Não a deixaram? Não o podia sustentar?

 

O que é que ele sente sobre isso?

 

Segundo ele, nada... e por um lado, tem razão. Ele tem sido tão bem-sucedido em reprimir as emoções, que a rejeição por parte da mãe não parece pior do que a rejeição por parte de outra pessoa qualquer. Aprendeu a tirar as pessoas da cabeça... coloca música no lugar delas. Na verdade, ele revelou uma perturbação emocional maior com a recordação de ter sido despedido do departamento de música, do que de todas as vezes que falou sobre a mãe.

 

E por que lado está ele errado? Outra pausa para pensar.

 

Ele tentou cortar o pénis logo quando foi condenado... tentou serrá-lo com uma faca de plástico. É claro que não conseguiu, mas depois disse-me que fora uma tentativa séria de se castrar. Não explicou porquê, salvo que estava envergonhado, mas isso sugere claramente que possui algumas emoções relativamente poderosas que não admite ter.

 

- E o pai dele? O que é que o Milosz sente por ele?

 

Sente-se neutro. Nem o ama nem o odeia... embora imagine que seja a relação mais confortável que ele já teve. Tem controlado o pai desde os cinco anos, por isso o velhote não representa qualquer surpresa para ele. Foi por isso que eu achei que era melhor cortar com a dependência... não por o abuso continuar, parou quando o Milosz foi para a escola secundária, mas porque ele tem de exteriorizar os seus sentimen| tos, em vez de os mascarar dentro da cabeça com melodias jazz. Harry esfregou com ansiedade o cabelo, transformando-o num ninho de pássaro. Tudo isto encontrava-se bem para além de toda a sua compreensão da psique humana. Então como é que eu lido com eles? O que é que eu faço se o Bob não estiver aqui e se a Sophie passar o telefone a um deles e deixar que seja eu a fazer a negociação? Seguiu-se uma longa pausa.

 

De formas diferentes, eles são ambos perigosamente egocêntricos: um extrovertido e provavelmente sádico, procurando o seu prazer no exterior... o outro introvertido e reprimido, procurando o seu prazer no interior, o que sugere que nenhum deles irá ver a Sophie como uma pessoa. Apenas como um meio para atingir um fim.

 

Que fim?

 

O que quer que eles decidam... juntos... ou separadamente. Para um, ela pode ser um objecto de desejo. Para o outro, pode ser simplesmente a refém que os mantém a salvo. Talvez um a veja das duas maneiras. Talvez os dois o façam. Existem várias possibilidades, Harry. Você vai ter de ouvir o que eles dizem e tentar perceber.

 

Número 14 da Allenby Road, Portisfield

 

Pouco mudara na casa dos Logan, salvo por Kimberley ter parado de chorar. Barry e Gregory ainda estavam sentados, carrancudos, a ver televisão na sala de estar, e Laura continuava fechada na cozinha. Não havia forma de nenhum deles sair. Com as longas lentes focadas na porta da frente, os fotógrafos estavam acampados por trás de barreiras no fundo da rua, agarrados como sanguessugas ao desespero da família.

 

Laura mudara-se para uma cadeira à mesa, o seu rosto tenso e pálido exibindo a exaustão. Tyler abanou a cabeça suavemente ao abrir a porta e ver esperança a brilhar nos olhos dela.

 

Ainda não há notícias dela disse ele, puxando outra cadeira, mas isso é um bom sinal, Laura. Estamos bastante optimistas de que ela está viva.

 

Sim. Levou a mão ao coração. Acho que se ela estivesse morta, eu saberia.

 

Ele sorriu de forma encorajadora, deixando-a com as suas ilusões. Ouvira o mesmo sentimento ser expresso uma centena de vezes, mas o elo entre as pessoas que se amavam encontrava-se na mente, não no corpo, e a verdadeira dor apenas começava quando a morte era certa.

 

Tenho de lhe fazer mais algumas perguntas sobre o Eddy Townsend explicou ele.

 

Ela deixou a cabeça descair abruptamente para esconder os olhos e ele amaldiçoou-se por ter parado com as perguntas antes. Devia ter percebido que a obsessão dela por esconder as coisas era demasiado patológica para se limitar apenas a Rogerson. Mas interrogou-se sobre que segredos poderiam ser tão maus ou tão criminosos? para que ela estivesse a arriscar a vida da sua filha não os revelando. O que os poderia arrancar dela agora?

 

Suspeitamos de que a Amy possa estar com ele disse-lhe ele directamente. Ele regressou mais cedo de Maiorca, e ontem foi visto um carro semelhante ao dele em Portisfield, com uma criança que correspondia à descrição da Amy no banco do passageiro. Ela fitou-o com uma expressão tão fria nos seus olhos escuros, que ele soube que ela receara algo assim desde o início. Tenho de saber o que aconteceu, Laura.

 

Ela deixou cair o rosto nas mãos e pressionou as pálpebras com força com as palmas, como se quisesse afastar os seus demónios interiores. Quando falou, era como se uma barragem emocional tivesse rebentado.

 

Ele era tão elegante... tão querido... completamente diferente do Martin. Ele preocupava-se mesmo... comigo... com a Amy. Era tudo tão diferente... tão atraente... ele chamava-nos as suas pequenas princesas. A sua voz foi interrompida por um meio soluço, meio riso. Consegue imaginar como isso parecia, depois de ser tratada como uma empregada do Martin durante dez anos... a arranjar desculpas para o facto de estarmos na sua preciosa casa... a andar em bicos dos pés para que ele não desse por nós estarmos ali... a nunca abrirmos a boca para que ele não pudesse descobrir alguma coisa para criticar? Eu devia ter ouvido o meu pai... ele disse que o Martin só queria um trofeu... uma coisinha bonita pelo braço, algo que provasse que ainda conseguia pô-lo de pé... Deixou-se cair em silêncio. Tyler aguardou. Ele queria a história pelas palavras dela, não pelas dele. O Martin ficou possesso quando lhe disse que estava grávida continuou ela por fim, acusou-me de o ter feito de propósito. Eu sabia qual era o acordo... nada de filhos... por que é que eu não tinha tomado precauções? Ele tentou forçar-me a fazer um aborto... disse que se não o fizesse, me punha na rua sem um tostão. Uma gargalhada muito forçada. Por isso fui ter com um advogado rival para ver se conseguia ficar com a casa, se nos divorciássemos.

 

Desta vez o silêncio foi interminável, como se ela estivesse a rever todo o episódio na sua mente.

 

O que aconteceu?

 

Eles pertenciam à mesma loja maçónica. Eu já devia saber disso... Pelo que vejo, a classe trabalha toda com negócios duvidosos. Eu lavo-te as costas, tu lavas-me as minhas. Puxou o cabelo para a frente do rosto. Poupe o meu cliente... se quer que se feche os olhos, eu conheço este juiz... eu conheço aqueles polícias. A lei é corrupta.

 

Ele sentiu que tinha de defender os seus colegas.

 

As coisas não são exactamente assim, Laura. Um Mação está sujeito às leis, como qualquer outra pessoa.

 

Você também é Mação?

 

Não.

 

Então não os desculpe. Ele não queria perdê-la.

 

É justo. O que fez esse advogado?

 

Disse ao Martin a razão pela qual eu o tinha ido consultar... disse que eu parecia saber muito bem quanto ele tinha, e onde o escondera... avisou-o de que ele podia perder muito mais do que a casa se não tomasse precauções. A voz subiu de tom. Ele não estava a cuidar dos meus interesses, estava a cuidar dos interesses do meu marido. Eu podia ter ficado livre... ter ficado com um lar... podia ter educado a minha filha à minha maneira... o seu corpo foi percorrido por um arrepio... mas não foi o meu advogado que me disse isto, foi o Martin... depois... quando disse como eu tinha sido tola. Ele adorou a situação, sabe. Fê-lo sentir-se poderoso... vingar-se da mulherzinha patética que quase conseguiu levar a dela avante.

 

O que fez ele?

 

O Martin?

 

Sim.

 

Ela colocou as mãos por baixo da mesa.

 

Ofereceu uma reconciliação antes de os papéis de divórcio terem sido preenchidos... disse que não conseguia viver sem mim... alegou que fora o choque que o fizera reagir como reagiu. Meu Deus, fui tão estúpida. Cheguei mesmo a acreditar nele. Ele disse que queria fazer tudo o que pudesse pelo bebé... e eu fiquei contente. Não conseguiu manter as mãos escondidas durante muito tempo. Era demasiado expressiva. Bateu com os nós dos dedos uns nos outros como recriminação. Eu costumava culpar a gravidez... sabe, as hormonas descontroladas a deixarem-me tão desesperada por segurança que faria qualquer coisa... agora sei que sou assim. Prefiro iludir-me do que enfrentar a verdade.

 

Tyler interrogou-se subitamente se a teria avaliado mal. Ele pensara que ela fosse uma mulher inteligente até mesmo calculista que possuía algum controlo sobre os acontecimentos da sua vida. Agora via-a como um destroço, sem direcção, passiva, esperando que os acontecimentos a mudassem. Isso explicaria a sua tirada contra Gregory e os seus filhos, pensou ele. Ela estivera disposta a reprimir o ódio e a frustração indefinidamente, até que o desaparecimento de Amy permitira um confronto.

 

Por que não tentou o divórcio quando percebeu que a reconciliação não era genuína?

 

Ela abanou a cabeça.

 

Uma pessoa continua a tentar... continua a esperar que as coisas melhorem. Seja como for, eu senti-me culpada porque amava mais o bebé do que o amava a ele... e ele sabia disso. Tinha acontecido a mesma coisa no primeiro casamento dele.

 

Era por isso que ele não queria mais filhos?

 

Sim.

 

Mas é um tipo de ligação diferente, não é?

 

Não para alguém como o Martin. Ele tem de ser o centro das atenções.

 

O que é que acontece quando não é?

 

Transforma-nos a vida num inferno disse ela simplesmente. Ele observou-a por um momento, recordando as palavras dela da noite anterior.

 

Exercendo poder sem amor? sugeriu ele.

 

Sim. Um suspiro. É violência verbal. Um pingar constante de insultos. És estúpida... és burra... deixas-me envergonhado. Ele costumava dizer à Amy como eu era bronca... e depois fazia que ela dissesse alguma coisa inteligente para provar que ela saía a ele e não a mim. Ao fim de algum tempo começamos a acreditar nisso. Encolheu os ombros de forma infeliz.

 

A Amy acreditava nisso?

 

Não a censuro. Ela só queria a aprovação do pai. Por vezes desejava que ele me batesse, para poder provar que me maltratava... A confiança é muito fraca.

 

É por isso que gostava do Eddy Townsend? Porque ele lhe devolveu a sua confiança?

 

Ela anuiu.

 

Era tão fácil para ele. Ele costumava ir à nossa casa regularmente, em negócios, por isso sabia como o Martin era. Outra gargalhada seca.

 

Ele só precisou de ser agradável e eu transformei-o num santo. É patético, não é? Talvez o Martin tenha razão... talvez eu seja bronca.

 

Ou solitária sugeriu Tyler. Todos nós já passámos por isso. Não se devia menosprezar.

 

Ela pressionou as palmas das mãos outra vez contra os olhos e ele imaginou que ela estava a conter as lágrimas. Ele começou a aparecer quando o Martin não estava em casa... foi assim que o romance teve início. Depois disse que queria fazer vídeos meus, porque não aguentava estar longe de mim... precisava de alguma coisa que o recordasse de que eu o amava. A voz fraquejou. Oh, meu Deus! Fiquei tão lisonjeada. Acredita nisso? Que tipo de cabra triste se pavoneia nua em frente de uma câmara só porque um homem lhe diz que a ama?

 

Franny Gough, pensou Tyler sobriamente. Que raio de modus operandi. Convencer uma mulher de que a amamos, e depois fazer filmes com ela a masturbar-se. Será que alguma dessas mulheres perguntava o que acontecia a essas imagens? Será que lhes passava pela cabeça que podiam acabar na Internet, com milhões a babarem-se por causa delas?

 

Milhares todos os dias retorquiu ele, sem qualquer emoção. Os homens também o fazem. Não é nada de extraordinário. Nós somos fascinados pelos nossos corpos. Adoramo-los. Odiamo-los. A maioria de nós apenas quer saber como eles são na verdade... e não se consegue saber isso através de um espelho.

 

A gentileza dele arrasou-a. Demorou algum tempo até se recompor o suficiente para voltar a falar.

 

Mas eu devia ter imaginado.

 

O quê?

 

Que ele não me queria a mim... queria-a a ela. Estava sempre a pedir-lhe que dançasse para ele, ou que se sentasse no colo dele e lhe contasse histórias. Ela adorava isso... é o que ela quer estar sempre a fazer... a fazer as pessoas sorrirem. E eu pensava que homem fantástico ele é... tão paciente... tão gentil. O Martin ficava zangado quando ela se exibia. Isso roubava-lhe o protagonismo.

 

Quando é que se começou a preocupar com o Eddy? Ela entrelaçou os dedos no cabelo, puxando-o.

 

Quando o encontrei a fazer um vídeo dela no banho admitiu. Ele andava de mau humor há semanas, nada do que eu fazia lhe agradava, depois vi-o a olhar para ela... Voltou a ficar em silêncio.

 

Quando foi isso?

 

Duas semanas antes de nos virmos embora.

 

Por que não se veio embora imediatamente?

 

Eu não tinha a certeza. Ele tinha-a filmado por todo o lado, sabe... a brincar no jardim, a brincar em casa... sempre vestida. Pensei que estivesse a exagerar, porque sabia o tipo de vídeos que ele fazia comigo. E ela não parecia nada incomodada... pelo contrário... ela gostava de ser filmada... por isso não pensei que ele lhe pedisse para fazer nada de mal. Ergueu os olhos assombrados. Eu devia ter imaginado disse novamente.

 

O que aconteceu depois?

 

Nada de importante durante cerca de uma semana, e depois ele começou a ser indelicado com ela. Uma vez, depois da escola, ele quis que ela se sentasse ao seu colo, mas ela recusou e ele bateu-lhe. Depois disso, começou a implicar com ela por tudo e por nada.

 

Frustração sexual?, pensou Tyler. Será que ele considerava as crianças mais atraentes do que as substitutas com ar infantil? Ou seria uma criança filmada a masturbar-se mais rentável?

 

Perguntou-lhe porquê?

 

Não. Era um murmúrio.

 

Por que não? Os olhos dela encheram-se de lágrimas. Abriu a boca para dizer alguma coisa, mas as palavras pareciam ficar-lhe presas na garganta. Em vez disso abanou a cabeça. Estava demasiado assustada? Ela anuiu. Dele ou daquilo que ele ia dizer?

 

Pensei que ele nos fosse tentar manter lá conseguiu ela dizer.

 

Como podia ele ter feito isso?

Ela abanou a cabeça outra vez, mas se por não querer dizer ou por não saber, não era claro. Tyler permitiu que o silêncio se alongasse. A Amy adorava-o disse ela por fim. Se eu dissesse que a ia levar embora, ele tinha-lhe contado. O que teria ela feito?

 

Teria tornado a vida insuportável... como o Martin. Eles são muito parecidos. Outra longa pausa. Eu menti-lhe. Disse que o Eddy estava farto dela e que me tinha dito para a levar embora, antes que lhe começasse a bater.

E foi então que foram para o hotel? Ela pisava agora terreno mais seguro.

 

Sim.

 

O que achou a Amy disso?

 

Ela foi muito difícil durante alguns dias, mas só porque estava infeliz por deixar a escola sem dizer a ninguém. Preocupava-se que se estivéssemos sempre a mudar, nunca iria fazer amigos... estava sempre a perguntar por que não podíamos voltar a Bornemouth.

 

Para Southampton não?

 

Não. Ela nunca falou no Eddy.

 

Que explicação lhe deu?

 

Disse que se queria voltar a Bornemouth, ela teria de viver sozinha com o pai... e ela disse que preferia ficar comigo. Olhou para Tyler em busca de apoio. Ela não estava a mentir, sabe. Durante todo o tempo que estivemos a viver com o Eddy, o Martin nunca tentou vê-la nem contactá-la. Ela telefonou-lhe algumas vezes... mas ele estava sempre ocupado. Ela sabe que ele não gosta dela... não quis ficar com ele... pelo menos não sozinha... mesmo que isto fez um gesto com a mão que abarcou a cozinha também não fosse o que ela queria.

 

Quaisquer que tivessem sido os sentimentos de Tyler por Amy anteriormente mais objectivos do que emocionais, como admitiria para si próprio, se queria ser bem-sucedido no seu trabalho ele ficou espantado com a terrível confusão que a criança devia estar a sentir.

O que era o amor? A dependência resignada da sua mãe em relação aos homens? A indiferença do seu pai? A luxúria de Townsend? Amigos efémeros na escola? Seria um sorriso sinónimo de afecto? Será que ela dançava e contava histórias para se sentir querida?

 

O Eddy tentou contactá-la depois de se terem vindo embora? perguntou ele a Laura.

 

Não podia. Ele não sabia onde estávamos.

 

E o Martin também não? Laura abanou a cabeça. Será que a Amy teria dado o número de telefone daqui a algum deles? Ela escrevia cartas? Ela tinha os meios para pagar uma chamada ou para comprar um selo?

 

Ela cruzou os braços com força sobre o peito e balançou-se, infeliz.

 

Eu disse-lhe para não o fazer afirmou ela.

 

Mas não lhe perguntou?

 

Eu era demasiado... Eu esperava... Os olhos dela encheram-se outra vez de lágrimas. Ela acha que eu sou estúpida... e não suporto quando ela me mente.

 

Não, pensou Tyler, você prefere iludir-se a enfrentar a verdade. Pelo menos nesse ponto ela compreendia a sua própria maneira de ser, embora se alguma vez seria capaz de se perdoar por isso, fosse um assunto completamente diferente.

 

Barry disse que não se lembrava se Amy recebera alguma chamada em casa, mas concordou que, como ele e Kimberley dormiam até ao meio-dia, poderia ter havido um telefonema durante a manhã, antes de ela sair de casa. Ele disse que ela fizera pelo menos três chamadas a partir de um telefone público na cidade, durante a primeira semana de férias.

 

Foi antes de ela começar a desaparecer contou ele. A gente os três fomos ao centro umas quantas vezes. Ela fez uma no primeiro dia e duas no dia a seguir.

 

Como é que as pagou?

 

Telefonou a pagar no destinatário.

 

Ouviste o que ela disse? Ouviste o nome da pessoa?

 

Não.

 

Onde estavas?

 

Da primeira vez estava perto. Da segunda estava a quilómetros.

 

Então deves ter ouvido a primeira chamada. Tenta lembrar-te, Barry.

 

Ele encolheu os ombros.

 

Não estava interessado. A gente não ouve quando não está interessados. Mas ela estava a chorar, por isso foi uma vergonha. Ele sentiu-se intimidado perante o irritado franzir de cenho do Inspector. Pode ter sido alguém com um nome que começasse com «M», porqu’a Kim depois disse que era uma falta de educação do caraças tratar alguém pela inicial do nome.

 

Tyler foi ao primeiro andar confirmar a história com Kimberley e depois regressou à cozinha.

 

O que é que a Amy chama ao pai? perguntou ele a Laura.

 

Papá.

 

Não lhe chama «M», de Martin?

 

Não disse ela, relativamente chocada. Ele nunca a teria deixado.

 

Tyler imaginara isso.

 

«M» significa alguma coisa para si? Tanto o Barry como a Kimberley dizem que ela telefonou a alguém de uma cabina pública e chamou-lhe «M». Ela telefonou a pagar no destinatário, por isso devia conhecer bem com quem falou. Neste momento só consigo pensar em Em... diminutivo de Emma. Ela tinha alguma amiga na escola em Southampton, ou em Bournemouth, com esse nome?

 

Os últimos vestígios de cor desapareceram do rosto de Laura.

 

Ela engole os Ds murmurou ela. Ela estava a dizer Ed.

 

Sábado, 28 de Julho de 2001 no interior do número 23 da Humbert Street

 

SOPHIE PERDERA A noção do tempo, pois o seu relógio parara. Sempre que olhava para ele, mostrava o mesmo que quando ela tentara descobrir há quanto tempo tinha sido feita prisioneira. Existia tanto silêncio no quarto que ela sentia-se como se ali estivesse há dias. O som das pás do helicóptero ia e vinha. Os gritos da rua intensificavam-se e diminuíam como uma onda do público num estádio de futebol. Esforçou-se por tentar captar alguma coisa que lhe pudesse dizer o que se estava a passar.

 

Não era a polícia murmurou ela por fim. Por esta altura já eles teriam arrombado a porta e entrado.

 

Eles têm de desimpedir a rua primeiro disse Nicholas.

 

Era verdade, disse ela de si para si com determinação. Estas coisas demoravam mesmo tempo. Qual o comprimento de um pedaço de fio? Quantos polícias eram necessários para apaziguar um motim? Nicholas voltou à sua tarefa de fitar a parede à sua frente, apenas o ocasional salto dos seus olhos na direcção da porta traindo qualquer tipo de preocupação. Franek parecia estar a dormir.

 

Ela não conseguia compreender a compostura de Nicholas. Estaria o seu hábito de submissão tão entranhado que ele aceitava tudo sem uma única pergunta? Será que tinha falta de imaginação? Ou será que a dela era demasiado activa? Fez um esforço para erradicar as intermináveis hipóteses que atormentavam o seu cérebro à vez, mas era como tentar parar um cavalo desembestado. Não havia nada para fazer no silêncio opressivo no interior daquele quarto, a não ser rever os seus medos.

 

Por que estaria a resposta a demorar tanto tempo, se ela tinha dito a Jenny que receava ser violada? Será que estava a acontecer alguma coisa pior noutro lado qualquer? Supondo que a polícia não conseguia ali chegar... O que aconteceria? Quanto tempo teriam de permanecer assim? E se homens da multidão batessem à porta e dissessem que eram agentes da autoridade? Como poderiam Nicholas e Franek ser capazes de distinguir? Como seria ela capaz de distinguir? Será que devia gritar? Será que devia ficar quieta? E se o quarto fosse invadido? O que quereriam as pessoas lá fora? Assustar? Matar?; Ela tinha de falar para manter a sua sanidade. Você trabalha? perguntou a Nicholas.

 

Relutantemente, ele voltou a focar a sua atenção nela.

 

Já não.

 

O que é que você fazia?

 

Ensinava disse ele num tom neutro.

 

Ensinava o quê?

 

Música.

 

O que o levou a deixar o ensino?

 

Fui posto na rua.

 

Isto marcava o fim da conversa, a não ser que Sophie estivesse preparada para lhe perguntar por que tinha sido posto na rua. E não estava. Era uma área que ela preferia deixar por explorar. Ela não fazia ideia se Fay soubera verdadeiramente que existia um pedófilo na rua, ou se tudo não passara de um boato que se descontrolara, mas ela tinha de partir do princípio de que havia uma ligação entre o que Melanie lhe dissera e o que estava a acontecer no exterior.

 

Ela recordou o desconforto de Nicholas quando ela lhe perguntara se conhecera Amy Biddulph em Portisfield, e o comentário de Franek sobre a polícia lhes ter levantado problemas «por ter batido à porta e interrogado sobre a rapariga desaparecida». O receio de que o corpo da criança estivesse algures na casa ia tentando intrometer-se, mas ela repudiava-o, para evitar uma sobrecarga de pânico. A polícia teria procurado Amy, disse para si própria, e certamente não teriam deixado os homens sem qualquer acompanhamento se existisse alguma suspeita de que um deles, ou ambos, estavam envolvidos no desaparecimento.

 

Mas qual deles teria sido interrogado? A questão não podia ser repudiada assim tão facilmente. Ela queria que tivesse sido Franek, mas a razão dizia-lhe que fora Nicholas, e ela não desejava ouvi-lo confirmar. Apenas deixaria a situação ainda pior assim que os segredos eram revelados, eles perdiam a vergonha e ela preferia manter Nicholas como aliado, por mais imperfeito que fosse, a forçá-lo a revelar que era tão mau quanto o pai.

 

Mais uma vez o silêncio se arrastou. Mais uma vez ela deu consigo a concentrar-se nos sons que vinham do exterior. A direcção mudara. Parte parecia vir dos jardins.

 

Agora há pessoas a gritarem lá atrás! exclamou ela receosa. Nicholas também ouviu, pois olhou nervosamente para a janela.

 

Você disse que eles não podiam dar a volta sem derrubarem as vedações acusou-o ela.

 

Imagino que tenha sido isso que eles fizeram. A recusa dele em compreender as implicações deixava-a furiosa.

 

Então onde está a polícia? sibilou ela. Você está sempre a dizer que eles estão lá fora... mas onde? Eles não iam deixar a multidão andar a correr pelos jardins. Não é assim que isso funciona. Tem tudo a ver com contenção e canais de fuga controlados. Eles vedam estradas, atribuem saídas seguras. Fiz cursos disto... fazia parte do meu treino em emergências hospitalares.

 

Que diferença faz? redarguiu ele suavemente. Não podemos fazer nada a não ser esperar.

 

Ela fitou-o, incrédula.

 

E só isso? Escondemos a cabeça na areia e esperamos que o problema desapareça?

 

Ele esboçou um sorriso. Nunca nada é tão mau como nós pensamos que vai ser murmurou ele.

 

Não - ripostou, a tensão dominá-la. Normalmente é pior. Você sabe como é a dor de um cancro? Sabe a coragem que uma pessoa tem de ter para sofrer a agonia de ter os órgãos a serem corroídos por tumores? Espetou um dedo na direcção dele. Sabe quantos desses doentes querem matar-se? Todos. E sabe quantos se aguentam pelas suas famílias? Outro espetar feroz. Todos. Por isso nunca... nunca... nunca... me diga outra vez que nada é tão mau como nós pensamos que vai ser.

 

Sinto muito.

 

Não esteja sempre a pedir desculpa bradou ela. Faça alguma coisa.

 

Ele não pretendera que fosse uma desculpa. Falara com genuína compreensão. O medo dela era algo físico que precisava de expressão constante, e nada do que ele dissesse poderia acalmar esse medo. Ela nunca antes sentira um verdadeiro terror, não sabia que a tortura mental da antecipação era mil vezes pior que a breve dor da realidade. Mas isso não era algo que ele lhe pudesse ensinar. Ela teria de o aprender por si própria. Podemos vedar a janela com tábuas, para o caso de eles começarem a lançar pedras outra vez sugeriu ele. Ela olhou em seu redor para o quarto.

 

Com o quê? E como iríamos prender isso? Precisamos de pregos... de um martelo. É uma ideia estúpida. Fez uma pausa para organizar os pensamentos. Temos de saber o que se passa disse ela desesperadamente, e isso significa que estaríamos melhor num dos quartos da frente. Pelo menos poderíamos ver se há polícia lá fora. Vamos correr perigo devido aos vidros partidos onde quer que estejamos.

 

Ele deve ter concordado, pois colocou o seu pai numa posição sentada e soergueu-se com um movimento indeciso na direcção do roupeiro.

 

É um truque resmungou Franek, agarrando-lhe no braço para o impedir. Não ouças ela. Ela confunde-te com mentiras para fugir. O rosto dele estava manchado de sangue onde a jarra o cortara na testa, mas não havia qualquer problema com os olhos, que se prenderam novamente em Sophie.

 

Nicholas falou de forma agreste em polaco.

 

Franek respondeu-lhe e depois apertou mais o braço do filho, ficando com os nós dos dedos espetados para fora.

 

Fazemos como eu digo. Esperamos aqui, onde é seguro.

 

Não houve mais argumentação. A autoridade do velho era demasiado forte. Nicholas voltou a sentar-se ao lado dele, esfregando vigorosamente o braço quando Franek o largou.

 

Vamos ficar bem garantiu ele a Sophie. Estamos em Inglaterra. A polícia virá.

 

Glebe Road, Bairro Bassindale

 

Quando a Tia Zuzi perguntara a Jimmy, aos catorze anos, na sequência da primeira reprimenda policial por roubar numa loja, quem era a pessoa mais importante na vida dele, ele respondera:

 

Eu. A resposta dela fora ácida. É bom saber que confias num tolo dissera ela.

 

Ele sempre fora uma decepção para ela medíocre na escola; preferindo raparigas brancas a raparigas negras; trazendo vergonha para a família pelas suas refregas com a polícia; recusando-se a ir à igreja mas nunca ocorreu à Tia Zuzi que fosse parcialmente culpada pelo comportamento dele. Ela assumira o lugar da falecida mãe dele em casa de seu pai, e estabelecera um regime de depreciação desde o dia em que se mudara. Nada do que os seus três sobrinhos fazia estava bem feito.

 

Os dois irmãos mais novos de Jimmy tinham-se tornado retraídos e obedientes, lutando para se conformarem perante a visão da Tia Zuzi de como os homens deveriam ser trabalhadores, insignificâncias tementes a Deus que renunciavam à sua autoridade às mulheres que cuidavam das suas casas. Era algo de negro. E renunciar foi precisamente o que o pai de Jimmy fez. Aliviado por se encontrar livre de responsabilidades pela sua família crescente, todas as sextas-feiras ele entregara obedientemente à sua irmã o seu ordenado semanal, e depois desaparecia durante o fim-de-semana com o que conseguia roubar sem que ela desse por isso. Ela ridicularizava-o cruelmente quando ele finalmente regressava a casa, cheirando a mulheres e a bebida, e apenas lhe conseguia confirmar a ideia que ele tinha de que quanto menos tempo passasse com ela e com os filhos melhor.

 

Era um círculo vicioso do qual nenhum deles se conseguia libertar. A Tia Zuzi ressentia-se da sua condição de solteira, culpando os homens pela sua situação quer directamente, pois nunca nenhum mostrou qualquer interesse em casar com ela quer indirectamente, pois o seu irmão e os seus sobrinhos afectavam o estilo dela. O pai de Jimmy ressentia-se da presença dela na sua casa, mas compreendia que era um mal necessário, se queria que alguém cuidasse dos seus filhos. Isso levara a que todos se sentissem infelizes, especialmente Jimmy, que tinha idade suficiente para se recordar da mãe, e cuja rebelião contra o menosprezo impiedoso da sua substituta o levara, inevitavelmente, à prisão. Tal como, é claro, a Tia Zuzi previra que acontecesse.

 

Como tudo era diferente na família de Melanie, onde as crianças eram amadas incondicionalmente, e todas as transgressões desculpadas com um «ele/ela não fez por mal». Jimmy argumentara muitas vezes com Melanie e com Gaynor que este tipo de amor cego era tão mau como não haver amor nenhum.

 

Olhem para o Colin dizia ele. Ele é tão mau como eu era com a idade dele, mas eu levava uma tareia por causa disso e diziam-me que a Tia Zuzi nunca iria à prisão por minha causa, e vocês as duas vão logo a correr ter com os bófias para não o prenderem. Que tipo de men| sagem é que vocês estão a transmitir... que não faz mal arranjar pro| blemas?

Mas as tareias não fizeram com que deixasses de roubar, pois não, querido? ripostava Melanie. Só te deixaram pior. Por isso, para que é que queres que a minha mãe bata ao Gol? Não vês que é melhor deixar que ele cresça e se deixe disso naturalmente... sabendo que a mãe vai estar sempre pronta para defendê-lo?

 

O Col é um rebelde era a resposta de Gaynor. Não há legislação para isso. Alguns de nós são... outros não. Eu sou... a Mel é... Nós não gostamos que nos digam como devemos viver a nossa vida. E se essa maneira de pensar estiver na nossa natureza, não faz a mais pequena diferença se gostam ou não de nós... Continuamos sempre a ser rebeldes. A diferença é que, se gostarem de nós, vai haver sempre um sítio onde somos bem-vindos.

 

Jimmy continuava convencido de que existia um meio termo algo entre a palmatória pesada e o amor liberal incondicional mas o modo de vida dos Patterson era sedutor. Ele não via nem falava com o pai nem com a Tia Zuzi há cinco anos, embora se mantivesse regularmente em contacto com os irmãos, mas não conseguia imaginar um futuro sem Melanie e a sua grande família.

 

E era por isso que estava preocupado com eles neste momento. Circundou o recinto comercial, onde saqueadores pilhavam tudo o que conseguiam encontrar, e dirigiu-se à intersecção da Glebe Road com a Bassindale Row Norte. O cheiro a queimado no ar era muito forte e gritos distantes pareciam vir da Humbert Street, mas decidiu fazer um desvio rápido pela entrada de Bassindale, para ver quão perto estava a polícia de atravessar as barricadas.

 

Pelo que Eileen Hinkley lhe contara, cuja amiga observava através de binóculos do seu apartamento do nono andar na Torre Residencial um bocadinho tonta... perdeu o marido há um ano... acha que todos os que lhe vão bater à porta, a querem roubar... mais ou menos como o velho senil lá de cima, que atira a mobília de um lado para o outro quando mete na cabeça que foi roubado o fim do mundo, ou algo muito parecido, estava a acontecer, em plena luz do dia, nas ruas do Bairro Ácido.

 

Ela acredita piamente que os pecadores vão ser julgados no Dia do Juízo Final disse Eileen a Jimmy, mas isso só pode acontecer após a batalha entre o Bem e o Mal. Bateu, maldosamente, com uma garra na sua fronte. Ela está completamente doida, é claro, e muito confusa sobre como as coisas supostamente devem funcionar. Está sempre a dizer-me que vai ser salva porque já reservou um lugar entre os justos, e eu estou sempre a dizer-lhe a ela que está a viver na terra dos sonhos. Faz parte da natureza de qualquer religião estarmos todos condenados... teríamos de adorar todos os deuses para garantir um lugar no céu... mas ela não acredita em mim. Jimmy sorriu.

 

Quer dizer que mais vale sermos ateus e divertirmo-nos?

 

É assim que eu vejo as coisas assentiu ela alegremente. Pagamos por pecar... e pagamos por não pecar... por isso é melhor aproveitarmos enquanto podemos.

 

Fez-lhe um sinal de despedida com o dedo.

 

Vemo-nos mais logo.

 

Com súbita preocupação, ela pousou a garra no braço dele. Tenha cuidado, Jimmy. A minha amiga diz que gostava que fosse de noite.

 

Porquê?

 

Porque a polícia está a perder a batalha... e ela não saberia isso se não o pudesse ver. Aparentemente estão de arraiais montados na estrada principal, e não conseguem entrar no bairro. Os vândalos estão a deitar fogo a tudo o que vêem. Ela está aterrorizada... acha que vamos ser todos assassinados nas nossas camas... e isso apesar da confiança dela na sua própria salvação.

 

E você? Está assustada? perguntou-lhe ele.

 

Ainda não disse ela secamente. Mas neste momento apenas tenho a palavra dela para o que está a acontecer... e ela exagera sempre.

 

Neste caso não, pensou Jimmy, assustado, enquanto olhava para a cena de devastação à sua frente. O fim do mundo não era uma má descrição. Só faltavam os quatro lúgubres cavaleiros do Apocalipse a cavalgarem os seus garanhões pelo meio do fumo para que a fantasia se transformasse numa horrível realidade.

 

Carros virados na entrada do Bairro Bassindale ardiam violentamente, lançando para o ar um manto negro, oleoso e sufocante, que provinha dos pneus de borracha derretidos e da espuma de látex dos estofos do interior. Começara com um cocktail Molotov mal direccionado, que não acertara no alvo um veículo da polícia borrifando, em vez disso, a parte inferior exposta de um velho Ford Cortina, fazendo explodir o depósito de combustível. O vento que soprava dos terrenos irregulares por trás do bairro e que descia a esquina de cimento da Bassindale Row afastara o fumo denso dos jovens na barreira para os olhos da polícia, e a ideia de envolver os «porcos» com fumo que os cegasse foi prontamente adoptada.

 

Jimmy não foi o único a reconhecer que esta era uma política muito limitada. Aqueles que se encontravam na barricada ataram lenços em redor do nariz e da boca, prontos para quando o vento mudasse de direcção e transportasse a vantagem para o outro lado. Isso não os iria ajudar o fumo era demasiado denso e cáustico para que fosse filtrado pelo tecido e mais tarde a polícia argumentaria que as máscaras tinham sido utilizadas como disfarce e não como protecção.

 

Ali no terreno, Jimmy apenas previa que a prisão de todos os que fossem apanhados quando a barricada fosse atravessada era inevitável. Uma rajada de vento abriu um buraco no manto de fumo negro, oferecendo-lhe um vislumbre momentâneo do arsenal da polícia e das fileiras cerradas de uniformes negros dos agentes antimotim. Deus do céu!, pensou ele, deslizando para a sombra de uma porta. Parecia algo saído da Guerra das Estrelas.

 

Enquanto ele recuava, uma criança pequena correu rua abaixo na direcção da barricada e, perante um crescendo de gritos e assobios, lançou uma bomba ardente de gasolina pela abertura no fumo. A chama tremeluziu no seu arco como se fosse um fogo-fátuo, antes de se incendiar num lençol de chamas sobre o alcatrão à frente da polícia. Transmitia um décimo da beleza do fogo-de-artifício, mas mil vezes a excitação.

 

No exterior do número 23 da Humbert Street

 

O Molotov de Wesley Barber também acertara no alvo. Um lençol de chamas rugia na porta da frente da casa do pervertido, alimentando-se do óleo da tinta brilhante e derretendo-a em tiras reluzentes que escorriam pela porta. Para Melanie, que apenas vira incêndios nos filmes, isto era uma catástrofe. Uma deflagração assim nunca poderia ser contida. Assim que dominasse o número 23, demoraria apenas alguns minutos para passar para a casa da Avó Howard, no número 21a, chegando depois a Rosie e a Ben, no número 21.

 

Oh, meu Deus! Oh, meu Deus! - gritou ela, correndo para as chamas. Faz alguma coisa, Gol! Faz alguma coisa!

 

Ele tentou impedi-la, mas Melanie foi demasiado forte, e ele observou em desespero enquanto ela corria para o extremo da gasolina em chamas no caminho, numa tentativa vã de se aproximar da porta e de apagar o fogo com os pés. Se ainda tivesse o seu blusão, ela teria alguma protecção, ou poderia tê-lo utilizado como cobertor para abafar as chamas. Mas assim, tendo vestidos apenas uma T-shirt e uns calções, o calor foi demasiado para ela.

 

Com um urro de desespero, ela virou-se para proteger o rosto e caiu de joelhos em frente da multidão, soluçando histericamente, as mãos apertadas à sua frente numa pose de súplica.

 

O silêncio instalou-se. Wesley Barber preparava-se para acender uma segunda garrafa, mas viu esta ser arrancada das suas mãos por um dos seus amigos.

 

Aquela é a irmã do Gol Patterson vocifrou ele. Também queres qu’ela arda?

 

Wesley, lento de espírito e completamente dominado pelas drogas e pela adrenalina, berrou furiosamente para o silêncio:

 

Quem é que s’importa, foda-se? É só uma puta branca.

 

Todos o ouviram. Melanie ouviu-o claramente. Levantou-se, trémula, e limpou as lágrimas com as costas da mão. Transmitia mais autoridade do que imaginava, não só por ela e a sua família serem conhecidas no bairro, mas também por estar tão visivelmente grávida. Como habitualmente, a sua roupa, ou falta dela, mostrava mais do que ocultava, e ninguém interpretou mal a forma como a mão dela descaiu para proteger a barriga nua e inchada.

 

O meu bebé é preto gritou para Wesley. Também queres assassinar pretos? Esquadrinhou a multidão com um olhar fulminante. Foi para isto que vieram? Para verem atrasados mentais pedrados como o Wesley Barber matarem pessoas? Como é que alguém pode fugir se estas casas começarem a arder? Moram velhos e crianças nesta rua. Vão-se sentir orgulhosos quando começarem a trazer miúdos mortos nas macas? Será que se vão sentir bem quando isso acontecer? Era uma mensagem que as mulheres assimilaram. E Colin também. Com mais coragem do que pensava ter, ele percorreu os dez metros que o separavam da irmã, ficando ao seu lado e dando-lhe a mão, aliando-se publicamente a ela e opondo-se aos seus amigos. Era um símbolo poderoso do que dera início a tudo o que estava a acontecer o amor pela família e o desejo de proteger crianças e estas duas figuras frágeis, com um ar penosamente jovem e o rosto coberto de lágrimas, restauraram alguma sanidade.

 

Uma mulher negra de meia-idade abriu caminho por entre a multidão para se juntar a eles.

 

Continua assim, meu amor disse ela a Melanie. Estás a fazer o que é certo. Levantou a voz. Vamos embora, irmãs! gritou, com um berro profundo e rouco, muito mais dominante do que o tom mais agudo de Melanie. A ver se encontramos alguma solidariedade. Isto não tem nada a ver com a raça. Dominou Wesley com o olhar. E tu é melhor pores esse cu preto a mexer para casa, rapaz, antes que eu decida dizer à tua mãe o que tu chamaste a esta senhora. A Sr.a Barber é uma mulher decente e arranca-te a pele por causa disso.

 

Uma antiga colega de escola de Melanie afastou-se do seu namorado.

 

Estou de acordo respondeu ela, livrando-se da mão dele e correndo para ficar ao lado de Colin. Se não s’afastam, vão todos dentro por assassinato repreendeu ela a multidão. Isto é tudo completamente marado. A minh’avó mora três casas abaixo, e ela não vos fez nada. Ela não tem culpa que haja tarados na rua, mas se vocês os queimam, vão queimá-la a ela também.

 

Mais vieram juntar-se a eles, criando uma pequena linha de coragem em frente da porta em chamas. Evitou que mais bombas incendiárias fossem arremessadas, mas Wesley não foi o único a lamber os lábios excitado quando o pinho sob a tinta pegou fogo e começou a banhar-lhes as costas com fagulhas.

 

Jimmy desceu novamente a Bassindale Row, mas não tentou atravessar o engarrafamento no fim da Humbert Street. Em vez disso, passou ao largo e virou à direita para a Bassett, que era a estrada paralela seguinte. Também esta estava apinhada de pessoas, na sua maioria mulheres, paradas no passeio à porta de suas casas, procurando desesperadamente notícias da polícia. Onde estavam eles? Por que não estavam a fazer alguma coisa? Será que o Bairro Ácido não interessava? Corriam muitos rumores sobre bombas incendiárias. Tal como histórias sobre casas que se deixavam arder porque os carros dos bombeiros não conseguiam passar pelas barricadas.

 

Jimmy seguiu pelo meio da rua e fingiu ignorância sempre que alguém se dirigia directamente a ele. Se estavam assim tão preocupados, podiam fazer o que ele fizera e ir ver por si próprios. Quantos mais melhor. Mesmo se apenas metade destas mulheres decidissem fazer alguma coisa em vez de esfregarem as mãos e de se queixarem sobre a falta de acção da polícia, os miúdos na barricada ver-se-iam com um exército à frente e outro atrás, e provavelmente ir-se-iam embora com o rabo entre as pernas.

 

A Forest Road Sul estava agitada quando ele lá chegou, com pessoas assustadas, adolescentes, na sua maioria, a forçar a passagem pelo meio da rua para se afastarem da Humbert Street, e outras a forçar pelos passeios para lá chegar. As que estavam no meio gritavam.

 

Vão para casa, pelo amor de Deus...

 

Está fora de controlo...

 

Os miúdos estão a ser esmagados... Jimmy agarrou uma rapariga pelo braço.

 

O que se passa? perguntou-lhe ele. Assustada, começou a bater-lhe.

 

Larga-me, seu filho da mãe!

 

Não te quero fazer mal protestou ele. A minha namorada está ali. Melanie Patterson. Ela organizou a manifestação. Conheces a Melanie? Viste-a?

 

Ela respirou fundo.

 

A mãe dela está a ajudar as pessoas a saírem dali gaguejou, apontando para um intervalo na vedação, a cinquenta metros de distância. Ela está ali.;

 

E a Melanie? } Ela tentou soltar-se. Não sei choramingou ela, recomeçando a bater-lhe, os olhos em pânico. Não tenho nada a ver com isso. Só quero ir p’ra casa.

 

Ele libertou-a imediatamente e abriu caminho à força de ombros na direcção da vedação partida. Para ele tornava-se cada vez mais óbvio que não havia qualquer santuário naquele manicómio. A anarquia dominava. Mas o que queriam eles?, interrogou-se. Fazer desabar a casa em cima das suas cabeças? Destruir o pouco que tinham por umas meras horas de glória? Deixar as senhoras Hinkleys daquele mundo a apanhar os restos depois de a birra ter terminado? Será que sabiam?

Estava tudo louco. O mesmo número de jovens que forçava a entrada pela vedação vindos da rua lutava desesperadamente para sair, e Jimmy imaginou que os avisos aterrorizados dos que escapavam, longe de servirem de intimidação, estavam a estimular uma curiosidade mórbida. Abriu caminho para o interior, usando o seu vulto maciço para forçar a passagem, e olhou por sobre as cabeças protuberantes para ver o que estava a acontecer. Era um pandemónio, corpos competindo por uma posição no espaço confinado do primeiro jardim, alguns empurrando para um lado, outros empurrando para o outro. Viu uma amiga do irmão de Melanie, Lisa, a dez metros de distância, numa abertura na vedação seguinte, protestando furiosamente com um grupo de jovens. Ela estava lavada em lágrimas, tentando desesperadamente usar o seu peso irrisório para os impedir de forçar a entrada.

Enquanto Jimmy observava, um dos rapazes agarrou-a, puxando-lhe a camisa para a deslocar. Jimmy avançou, a sua figura imponente afastando jovens como se fossem pedaços de papel, observando enquanto a criança lutava com a ferocidade de uma tigresa para proteger a abertura. Bem jogado, rapariga, pensou ele, ao vê-la enroscar os braços aos postes de ambos os lados da abertura, pontapeando as canelas do rapaz com os seus pequenos pés ariscos.

 

Jimmy enganchou um braço à volta do pescoço do atacante da rapariga, dando uma pancada na mão dele para que soltasse a roupa de Lisa.

 

O que se passa aqui? exigiu ele, usando todo o seu peso para suportar a pressão dos corpos atrás de si.

 

Ela já deixou passar montes deles disse, carrancudo, um dos outros rapazes, por isso qual é o problema com a gente?

 

: Não os consegui impedir soluçou Lisa histericamente, esticando a camisa no peito liso. Vocês são todos uma cambada de ignorantes de merda. Vocês acham que isto tem piada. Jimmy olhou por cima dela, para o caos nos jardins por trás. Qual é o plano?; Ela respirou fundo para reprimir os seus soluços, ao perceber a urgência de o fazer perceber.

 

Arranjar uma saída para a Forest Road. Convencer toda a gente a ir para casa. Temos uma porta aberta na Humbert Street. A mãe da Melanie está lá. Ela disse p’ra fazer com que este lado ficasse aberto. Mas não está a resultar porqu’as pessoas ’tão sempre a empurrar pela vedação.

 

  1. Jimmy apertou ainda mais o braço em redor do pescoço do rapaz que estava a segurar e lançou a sua outra mão para agarrar o amigo carrancudo pela garganta. Faz sinal com a cabeça se sabes quem eu sou ordenou ele.

 

O jovem acenou com a cabeça.

 

Então não me lixes, porque eu já estou completamente lixado com o que se tem estado a passar. Isto é assim. A minha miúda e a família dela estão na Humbert Street e eu quero que eles saiam de lá. Vocês e os vossos amigos vão ajudar-me. Percebeste? Outro aceno.

 

Óptimo. Aliviou o aperto nos dois. Quantos são vocês? Seis? Sete?

 

Sete.

 

Escolheu os quatro maiores pousando-lhes as mãos nos ombros e posicionando-os em frente de Lisa na abertura.

 

Guardem isto ordenou ele. Se alguém passar por este lado, vou atrás de vocês e rebento-lhes com o focinho. Os seus dentes ficaram à mostra num esgar de lobo. Percebido? Mais acenos.

 

A Lisa vai mandar sair pessoas por trás de vocês. E vocês os três tocou nas cabeças dos rapazes restantes, vão ajudar a levar essas pessoas para a Forest Road. Isso quer dizer que têm de limpar esta área primeiro. Eu dou o arranque, e depois é com vocês. Está bem?

 

Eles não vão ouvir a gente protestou o rapaz cuja garganta ele tinha agarrado.

 

É claro que vão. Dêem-me esse bocado de cerca. Acenou com a cabeça na direcção de um pedaço de madeira afiada que se lascara quando o painel fora empurrado para criar a saída. Isto é o fim do mundo disse-lhes ele, e, pela primeira vez nas vossas vidas miseráveis, vocês estão do lado dos anjos. Encheu a boca de saliva, agarrou no pedaço de madeira com a mão carnuda e voltou-se, os olhos esbugalhados e a saliva a espumar na boca.;

 

AAH-AH-AH! rugiu ele, brandindo a lança por cima da cabeça, como se fosse Cetshwayo, o rei guerreiro, em Zulu. AAH-AH-AH!

 

Era assim que nasciam as lendas. Um tipo preto, enorme e louco a fazer a horda debandar. A retirada foi instantânea. Ninguém estava disposto a confrontar um maníaco.

 

Os olhos de Jimmy continuavam esbugalhados quando ele se voltou novamente para os jovens.

 

É melhor vocês estarem aqui quando eu trouxer a minha miúda cá para fora avisou-os, senão estão todos mortos.

 

Não havia discussão. Apenas um idiota argumentaria com alguém completamente alucinado.

 

Apertou o ombro de Lisa à laia de conforto enquanto passava por ela.

 

Grita se eles tentarem fugir. Vou estar à escuta. Ela fitou-o com olhos assustados, e ele piscou-lhe rapidamente o olho, encorajando-a. Não te preocupes, querida. Vai tudo correr bem.

 

Ela acreditou nele e retirou confiança daí... mas talvez não se sentisse assim se soubesse quão habitualmente Jimmy James estava errado.

 

Ele não teria estado tantas vezes na prisão, se ocasionalmente estivesse certo...

 

Sábado, 28 de Julho de 2001 no interior do número 23 da Humbert Street

 

O RUÍDO VINDO do exterior baixou repentinamente quando uma única voz de uma rapariga se elevou por sobre a multidão. Franek bateu no peito com satisfação.

 

É a polícia disse ele. Primeiro assustam... depois instalara ordem. É assim que as coisas funcionam.

 

Devíamos estar a ouvir megafones disse Sophie, atenta.

 

Estás sempre a discutir ripostou o velho, com raiva na voz. Por que não aceitas que Franek tem razão? É assim tão difícil? Onde está o teu respeito pelos mais velhos?

 

Você ainda não fez nada para o merecer disse ela ferozmente.

 

E que treta é essa voltou a imitar a pronúncia dele «Primeiro assustam... depois instalam ordem»? Quem o ouvir a falar até pensa que eles são a Gestapo. O que acha que eles acabaram de fazer? Acha que mataram um décimo dos homens para encorajar os outros?

 

Uma verborreia agitada de polaco.

 

Era melhor que não mencionasse a Gestapo aconselhou Nicholas, desconfortável. Muita da família dele morreu durante a guerra.

 

Uma boa parte da minha também redarguiu ela, indiferente.

 

Não há um único inglês hoje em dia que não tenha perdido avós, ou tios ou tias. Isso não passa no teste do «e depois». Tentar calar-me fazendo-me ficar embaraçada não vai tornar o que ele diz mais sensato. Ainda não se ouviram sirenes recordou ela a Nicholas.

 

Talvez eles não queiram piorar a situação.

 

Ela abanou a cabeça.

Teria acontecido alguma coisa insistiu ela. Eles sabem que vocês estão aqui. Não os teriam deixado aqui aterrorizados desnecessariamente

 

É claro que ela queria dizer «a mim». Não me teriam deixado aqui aterrorizada desnecessariamente. Franek fungou, irritado.

 

Já chega disto! Não interessa o que eles fazem, desde que mandem estes fez um gesto de desprezo na direcção da rua animais para as jaulas deles.

 

Um grito floresceu na cabeça de Sophie, e ela teve de se esforçar para o controlar.

 

Pensei que o animal fosse você ripostou ela. Animal...! Cabrão...! Tarado...! Realçou cada palavra. Não é isto que lhe estavam a chamar?

 

O que sabes seja sobre que for?

 

Sei que é você que está na jaula, Sr. Hollis. Nicholas pousou a mão no braço do pai, para o refrear.

 

Não faça isso, por favor implorou ele a Sophie. Não há necessidade.

 

Para mim há disse ela, furiosa. O seu pai está errado, e você sabe disso. Está a acontecer alguma coisa terrível lá fora... e nós estamos aqui sentados feitos idiotas, à espera de que aconteça, porque você não tem coragem de o confrontar.

 

Ele ergueu uma mão apaziguadora.

 

Ele tem de acreditar no que está a dizer murmurou ele. Isso faz que não entre em pânico. Enquanto médica, você devia perceber isso.

 

Certo, mas enquanto prisioneira dele, não percebo retorquiu ela, sucintamente. Por mim, quanto mais depressa ele tiver outro ataque de asma, melhor... e você bem pode fazer as honras da casa, porque eu não vou levantar um dedo para o ajudar.

 

O silêncio instalou-se novamente. Estes eram invariavelmente ditados pela recusa de Nicholas em responder, e Sophie interrogou-se se a falta de vontade de falar por parte dele seria uma forma de apatia ou uma forma de manipulação. Ele surpreendeu-a falando subitamente.

 

É errado abandonarmos os nossos princípios afirmou calmamente, sejam quais forem as circunstâncias.

 

Ela poderia tê-lo acusado de a tratar com condescendência, se ele não o tivesse dito de forma tão gentil.

 

Quais são os seus princípios? perguntou ela. Ele pensou por um momento.

 

Tolerância... conciliação... compreensão. Não creio que a provocação e a raiva levem a lado nenhum.

 

Nem Sophie, mas também não acreditava que ficar sentada de braços cruzados enquanto o pai dele a atacava se encaixava em qualquer daquelas directrizes. Era privilégio dela, enquanto vítima, oferecer a outra face; não dele, enquanto observador passivo que nem sequer tinha sido ferido.

 

Não é não se fazendo nada que se consegue conciliação disse ela. É algo activo... positivo... que implica trabalho. Temos de nos pôr entre as pessoas para evitar um confronto, não podemos ficar inactivos enquanto o confronto está a decorrer. É o que eu quero fazer com as pessoas lá fora... mas você não me deixa fazer isso, porque prefere ter-me como escudo para se esconder. E isso não é «compreensão» nem «tolerância». Fez uma pausa. É cobardia.

 

Ele não a olhava nos olhos, mas Franek riu-se.

 

Tu mais útil para nós aqui dentro disse ele. Tu deixa-nos divertidos com as birras. Tens tanto medo que não consegues fechar a boca por um minuto. Ergueu a mão e posicionou os dedos e o polegar de forma a imitar o bico de um pato. Quá... quá... quá. A tua mamã devia ter ensinado a fechá-la. Tu deixas um homem doido com os resmungos. Mas talvez não tenhas homem, não? Talvez fujam todos por seres tão mandona.

 

Por um momento ela fechou os olhos, inspirando profundamente pelo nariz. Deus, como ela odiava este velho...

 

O mundo mudou desde que você teve alguma coisa a ver com uma mulher, Sr. Hollis.

 

O que queres dizer com isso?

 

Ela avistou o olhar de aviso que Nicholas lançou na sua direcção, e apertou com mais força a pá de críquete.

 

A única mulher que se iria aproximar de um homem das cavernas como você cuspiu-lhe ela, teria de ser paga, e uma prostituta diria ou faria tudo, desde que lhe pagasse adiantado. Por isso não me diga como tornar uma relação bem sucedida... Você nem com o seu filho conseguiu fazer isso.

 

Os olhos dele trespassaram-na.

 

O Milosz dá-se bem com o papá... sempre deu. Pergunte a ele, se não acredita no Franek.

 

Não vale a pena disse ela. Ele já deixou bem claro que acredita em tolerar as pessoas, e presumo que você se encaixe na categoria que ele está preparado para tolerar, caso contrário não estaria a viver consigo.

 

Ora aí tens. Tu errada.

 

Mas eu não descrevo uma tréguas periclitantes entre um fanfarrão ignorante e violento e um homem que fica em silêncio como uma relação bem-sucedida. Ergueu uma sobrancelha sarcástica. Para si funciona, porque tem de acreditar na fantasia de que tem algum controlo, mas não funciona para o Nicholas se ele tiver de desligar os sentimentos para conseguir viver consigo. Olhou-o com desprezo. Por isso não me diga que estou errada, Sr. Hollis, se não sabe melhor do que eu o que é que o seu filho realmente pensa de si.

 

Ele espetou novamente o dedo na direcção dela.

 

Está calada agora... já não tens piada.

 

A verdade nunca tem disse ela, com uma risada fraca, especialmente quando se está predisposto a ataques de pânico.

 

Eu faço com que o Milosz te cale avisou-a ele.

 

Sophie analisou a cabeça baixa do filho dele e a forma como as suas mãos se agitavam no colo, e decidiu não o testar. Não conseguia deixar de pensar no telefonema que fizera, interrogando-se se Jenny percebera o que ela dissera. Os seus pensamentos eram um eco inconsciente da pergunta que as mulheres na Bassett Road faziam. Será que o Bairro Ácido não importava? Será que a violação não importava,?

 

Sentiu uma culpa terrível pelo seu próprio sentido de humor. A culpa devia ser dela. Jenny pensara que ela estava a brincar. Ela estava sempre a dizer piadas estúpidas sobre sexo. Achas que isso é grande? Devias ver o do elefante... são tão grandes que arrastam pelo chão... Se não lhe deres descanso de vez em quando, acaba por cair... A minha mãe sempre disse que um homem podia ficar excitado com a parte de trás do joelho de uma mulher... mas eu não acreditava nela...

 

Ela devia ter chamado a polícia directamente. Nenhum polícia pensaria que o grito de «violação» por parte de uma mulher era uma piada. Talvez ainda o devesse fazer? A indecisão assaltou-a novamente. O que fazer? O que fazer? O telemóvel era o seu trunfo. A sua única ligação com o mundo exterior. Se revelasse que o tinha, de certo Franek lho tiraria, para evitar que ela transmitisse a sua versão dos acontecimentos. Se não o revelasse, como poderia alguém saber o que se estava ali a passar?

 

Jardins entre a Humbert Street e a Bassett Road

 

Com Jimmy a persuadir e a ameaçar todos os intrusos a juntarem-se ao êxodo em direcção à Forest Road, os jardins entre a Forest e a casa da Sr.a Carthew começaram a desimpedir. Alguns dos inquilinos mais velhos, encorajados pela autoridade dele, emergiram para darem uma ajuda. Um velho soldado, envergando um capacete de latão e uma catana de ar ameaçador relíquias do seu serviço militar no Extremo Oriente ficou de guarda junto da vedação partida entre o número 9 e o número 11, enquanto Jimmy perseguia um bando de rapazes que se encaminhavam para as traseiras do número 23.

 

Pouco mais tinham do que dez ou onze anos de idade, e ele apanhou-os quando começaram a lançar pedras às janelas de uma casa com um labirinto de trepar no jardim. Chegou junto deles, insultando-os. Que raios estão vocês aqui a fazer? rugiu. Não sabem contar, estúpidos de merda! Este não é o número 23! O que é que este labirinto vos diz? Espetou o dedo na direcção da casa. Há crianças ali dentro. Vocês nem sabem de quem estão à procura, pois não? Rodeou-os e guiou-os de volta por onde tinham vindo, batendo-lhes nos ombros quando não andavam depressa o suficiente para o seu gosto.

 

O meu pai depois fala contigo disse um deles. Não podes andar a bater em miúdos.

 

Diz-me onde moras e eu poupo-te o trabalho vocifrou Jimmy, empurrando-o na direcção da abertura onde o velho soldado se encontrava. O teu pai pode pagar pelo que fizeste às janelas do meu vizinho. Já que falamos nisso, vocês podem todos dar-me os vossos nomes e moradas. Alguém vai pagar por estas vedações partidas, e garanto-vos que não vão ser as pessoas que aqui moram.

 

Deram corda aos sapatos e correram para a saída. Ele tocou no braço do idoso.

 

Você fica bem, amigo? Tenho de chegar à parte da frente. A minha namorada e os filhos dela foram apanhados no meio disto e eu quero ter a certeza de que eles estão bem.

 

Você não pode ir pela casa da Dolly Carthew avisou ele. O trânsito está a fluir na direcção errada. Ele era um racista convicto, com noções muito fortes sobre poluir a sua herança anglo-saxónica, e olhou, desconfiado, para o grande homem negro. Isso no seu blusão parece sangue.

 

E é. Jimmy registou a prudência. Há pessoas a serem gravemente feridas e não se consegue fazer passar as ambulâncias até elas. Conhece a Eileen Hinkley? Da Torre Residencial... costumava ser enfermeira... dirige a «Chamada para a amizade»? Estamos a usar o apartamento dela como centro de primeiros-socorros.

 

Ele deve ter dito as palavras mágicas Abre-te Sésamo pois o velho soldado aquiesceu.

 

Eu deixava-o passar pela minha casa se morasse na Humbert Street, mas moro na Bassett. Acenou com a cabeça na direcção do jardim da Sr.a Carthew, que fora destruído pelos pés que por lá tinham passado. É melhor deixar-me falar com a jovem Karen, do número 5. Se você for bater à porta, ela não a vai abrir, mas a mim ela vai escutar. Uniu as sobrancelhas numa linha intensa. Mas tem de me jurar que não deixa os rufiões entrarem por lá adentro quando sair pela frente. Ela é deficiente... Não quero que ela seja deitada ao chão por desordeiros.

 

Jimmy anuiu. Compreendo. O homem entregou-lhe a catana.

 

Fique aqui. Vou ver o que posso fazer.

 

Jimmy espetou a arma num dos postes da vedação e depois abriu o telemóvel, esperando que a bateria tivesse tido tempo de acumular uma pequena carga. Imaginou que tivesse passado pelo menos uma hora desde que saíra da Torre Residencial, mas quando olhou para o relógio, ficou espantado por ver que mal tinham passado trinta minutos. Não havia um pingo de vida no telefone e voltou a enfiá-lo no bolso, enquanto considerava as suas opções.

 

Não houvera tempo para criar um plano, mas avaliando o medo estampado no rosto das pessoas que saíam a correr pela porta das traseiras da Sr.a Carthew, imstalara-se um pandemónio na Humbert Street, e o mais acertado a fazer era sair dali o mais depressa possível. Será que seria fácil retirar Melanie e os miúdos? E Gaynor? Se era verdade que ela se encontrava a controlar a porta da frente da Sr.a Carthew, ele e Melanie não a podiam abandonar e fugir na direcção oposta.

 

O mais simples seria descobrirem uma maneira de chegarem aos jardins e encontrarem-se aí. Depois podiam dirigir-se para a casa de Gaynor e esconderem-se aí até que o tumulto terminasse. Mas não existia uma entrada pelas traseiras da pequena casa de Melanie, a não ser que ele atravessasse a parede que dava para a sala de estar da Avó Howard... e a velha miserável provavelmente estaria à espera dele do outro lado com um cutelo...

 

Uma mulher com uma criança pequena nos braços caiu na erva aos seus pés, lágrimas correndo-lhe pelas faces pálidas de morte.

 

Perdi a m-minha Anna gaguejou ela, antes de os seus olhos se revirarem para trás e ela cair para o lado, esmagando o bebé por baixo dela.

 

Ele arrancou a criança de baixo dela e aninhou-a nos seus braços, procurando em seu redor por uma menina pequena. ANNA! gritou ele. A MAMÃ ESTÁ AQUI! AN-NN-A! AN-NN-A! Ele não queria estar ali... tinha planeado tirar Melanie dali e começar de novo... devia estar a caminho de Londres com mercadoria! Quem o tinha nomeado guardião do seu irmão? AN-NN-A! ESTOU À PROCURA DE UMA MENINA CHAMADA ANNA! ALGUÉM A VIU?

 

Aqui disse um rapaz com o rosto marcado pelas lágrimas, empurrando uma menina imunda à sua frente. Ela caiu. O lábio inferior dele tremia. Eu também não sei onde está a minha mãe, senhor. Uma lágrima gorda correu-lhe pela face.

 

Com um suspiro, Jimmy esticou a palma da mão grande e aproximou-os aos dois do seu lado. Agora estão seguros disse-lhes.

 

Cinco minutos mais tarde, o seu amigo, o soldado, mostrou-se surpreendentemente prestável, recebendo o patético rebanho sob a sua asa. O grupo crescera com mais três rapazitos sujos, que se tinham separado dos amigos ou dos pais e que estavam demasiado assustados para vaguearem sozinhos por entre a multidão.

 

Assim que isto acalmar, levo-os para a minha cozinha e dou-lhes qualquer coisa para comer - disse ele rudemente. Agora vá. A jovem Karen está à sua espera. Mas lembre-se de fechar a porta atrás de si. Ela já está assustada o suficiente.


Não se preocupe. Jimmy estendeu a mão. Obrigado, amigo, fico a dever-lhe um favor.

 

O idoso aceitou-a.

 

É como a guerra disse ele melancolicamente. A adversidade realça o melhor das pessoas.

 

Pois anuiu Jimmy com uma ironia gentil, foi mais ou menos isso que a Eileen Hinkley disse.

 

A «jovem» Karen tinha sessenta anos, mais dez anos, menos dez anos, e sofria da doença de Parkinson. Encontrava-se numa cadeira de rodas e não conseguia falar, mas sorriu e acenou com a cabeça quando Jimmy lhe agradeceu e disse que ia confirmar que a porta ficaria bem fechada atrás dele. Ele queria perguntar-lhe se ela estava assustada...? Quem tomava conta dela...? Se se sentia sozinha...?

 

Mas não havia tempo. E, fosse como fosse, ela provavelmente também não teria sido capaz de lhe dizer.

 

As pessoas estavam a começar a pesar-lhe no seu coração como chumbo. De dívidas financeiras ele entendia. As emocionais eram terríveis. Era a síndroma dos seis graus de separação. Fios invisíveis que o ligavam a todo o maldito mundo. Mulheres-polícia... paramédicos... velhinhas mal-humoradas... senhoras deficientes... soldados loucos... miúdos... bebés... Ele preferia o anonimato.

 

Gaynor lançou mais um laço de seda em redor do seu pescoço, ao lavar-se em lágrimas quando ele apareceu ao seu lado.

 

Oh, meu Deus, Jimmy chorou ela, agarrando-se a ele. Graças a Deus... Graças a Deus. Rezei por um milagre.

 

A pressão aliviara após o primeiro massacre, pois o espaço livre criado na rua pelo êxodo súbito de cem ou duzentas pessoas persuadira as outras a ficarem onde estavam. Não podia durar muito. Existia demasiado tráfego a chegar inexoravelmente vindo da Forest Road para que a claustrofobia não atacasse novamente, e Jimmy, com mais uma cabeça de altura que Gaynor, conseguia ver o que se avizinhava.

 

Temos de ir embora disse-lhe ele, acenando com a cabeça para o corredor. Vá já para casa, e eu levo a Mel e os miúdos assim que os encontrar.

 

Ela abanou a cabeça.

 

Não posso disse ela obstinadamente. Alguém tem de ficar aqui, e tenho de ser eu, porque isto começou por minha causa. Mostrou-lhe o telemóvel. Tenho um polícia do outro lado. Ele diz que temos de manter esta saída aberta... pôr mais a funcionar, se possível... ou isso, ou fazer com que as pessoas deixem de entrar na Humbert. Enfiou-lhe o telefone nas mãos. Fala tu com ele, Jimmy implorou ela. Por favor. Pode ser que ele te diga como parar isto, antes que alguém morra.

 

Então e a Mel?

 

Os olhos de Gaynor turvaram-se com ansiedade.

 

Não sei. Separámo-nos. Ainda não parei de dizer a mim própria para ter fé nela. A tua senhora não é uma idiota, meu amor, e ela nunca ia deixar que acontecesse alguma coisa aos pequenos. As lágrimas começaram a surgir. Se queres que seja sincera, estou mais preocupada com o nosso Gol. Pousou uma mão sobre o peito, onde a dor se encontrava. Ele fica tão idiota quando bebe... mas o amor que sinto por ele é mesmo muito grande, Jimmy.

 

No exterior do número 23 da Humbert Street

 

Colin nunca estivera mais sóbrio. Ou mais aterrorizado. A sua pele estava a começar a ficar chamuscada através da T-shirt, e ele sabia que o fogo tinha de ser apagado ou o calor iria forçá-los a abandonar o seu posto e a casa acabaria por ser destruída à mesma. Não parava de olhar em volta para ver o quão rapidamente a madeira estava a ser consumida. Ele tinha uma ideia mais aproximada do que a irmã da forma como a combustão funcionava, reconhecendo que as chamas teriam de atravessar a porta antes de se apoderarem dos tapetes, dos rodapés e da mobília que se encontrava no interior, mas não fazia ideia de como impedir que isso acontecesse.

 

Perguntava-se por que não estariam os pervertidos a fazer nada. Será que não percebiam o que estava a acontecer? Não sentiam o cheiro a queimado? Se estivesse no lugar deles, estaria a despejar chaleiras de água pela caixa do correio enquanto ainda servisse de alguma coisa. Certamente percebiam que esta ínfima linha de pessoas não seria capaz de proteger a porta deles indefinidamente. Pensamentos insidiosos corroíam-lhe a mente. Será que os tarados estavam lá dentro?

 

Talvez se tivessem escapulido pelas traseiras. Estariam ele e Mel a proteger uma casa vazia?

 

Vou entrar pela janela e apagar o fogo pelo lado de dentro gritou ele ao ouvido de Melanie. Mas tens de fazer com qu’a linha aguente enquant’eu vou lá dentro, porque não quero qu’o Wesley atire uma bomba atrás de mim. Percebeste?

 

Talvez ela tivesse chegado a uma conclusão semelhante, pois anuiu de imediato. Os seus braços e ombros nus estavam de um vermelho brilhante devido ao calor, e tudo o que disse foi:

 

Mas despacha-te, OK?

 

Ele baixou-se atrás dela e descalçou o sapato para retirar os restantes fragmentos de vidro do caixilho da janela. Um frémito de curiosidade percorreu a multidão enquanto ele saltava para o interior da casa. O que estava ele a fazer? A proteger os pervertidos indo ficar ao lado deles? Ou a tentar fazer que eles se rendessem?

 

A voz de Wesley Barber elevou-se no ar.

 

O teu irmão vai ficar frito se não trouxer os tarados cá p’ra fora, puta.

 

Melanie forçou saliva para o interior da boca seca.

 

És tu quem vai ficar frito, Wesley, se acontecer alguma coisa ao nosso Gol. Vazo-te gasolina por cima e sou eu que acendo o fósforo.

 

No interior do número 23 da Humbert Street

 

Colin, que estava habituado a roubos, teve de se apoiar contra a ombreira da porta enquanto espreitava para o corredor. Os joelhos tremiam-lhe tanto que pensou que ia cair. Uma coisa era usar uma marreta numa porta das traseiras quando se sabia que os donos estavam fora, outra era ir ter com um par de pedófilos homossexuais quando se tinha quase a certeza de que eles estavam à nossa espera. Ele tinha agido sem pensar. E se fizessem dele refém? E se o violassem?

 

Me-e-erda!

 

Esforçou-se por captar algum som de vozes, mas era impossível abstrair-se dos ruídos do exterior. O cheiro da porta a arder era forte, e não queria acreditar que eles fossem deixar as coisas como estavam.

 

Onde é que eles estavam, foda-se? Atravessou silenciosamente a porta do quarto das traseiras do rés-do-chão, quedando-se para ouvir com atenção quando percebeu que não estava completamente fechada, mas se estava ali alguém, ele não os ouvia. Um olhar rápido pelas escadas mostrou que não estava ninguém emboscado no cimo, mas ele não se sentia inclinado a investigar. A sua cabeça estava repleta de imagens de filmes de vampiros nos seus caixões.

 

A porta da cozinha estava entreaberta e foi até ela em bicos de pés. Viu a ponta de uma mesa por trás da porta e imaginou correctamente que fora utilizada para a bloquear antes de alguém ter decidido abri-la outra vez. Mas porquê? Porque ainda ali estavam e queriam saber o que estava a acontecer? Ou porque não estavam?

 

E se não estivessem... então a porta aberta significava que os cabrões estavam algures atrás dele...

 

Virou-se rapidamente, o coração aos saltos por todo o seu corpo como um rato numa ratoeira. Teria fugido se não tivesse visto fumo a entrar pela fresta do correio. Tinha de fazer alguma coisa rapidamente ou Wesley e o seu bando deitariam fogo à casa assim que Mel fosse forçada a abandonar a porta, mas o medo dos pervertidos chocou com o medo do fogo que se encontrava no interior da sua mente, e ele ficou petrificado com a indecisão. Tal como a sua mãe fizera no fundo da rua, ele começou a rezar. Oh, meu Deus, por favor, faz com que os pervertidos não estejam na cozinha... Oh, meu Deus! Oh, meu Deus!

 

No quarto das traseiras, os três prisioneiros ouviram o tanque de água no sótão por cima deles começar a encher-se quando Colin abriu as duas torneiras do lava-louça na cozinha, iniciando o sistema.

 

Há alguém na casa disse Sophie. Franek começou a levantar-se.

 

Não se aproxime de mim avisou ela, erguendo a pá de críquete. Não vou ser o seu escudo. Não deixo que você me toque outra vez.

 

Ele não lhe prestou atenção, colocando-se numa posição agachada e fazendo um gesto ao seu filho para que alargasse a distância entre eles a fim de que fosse mais difícil para ela atacá-los aos dois ao mesmo tempo. Houve um momento, quando Nicholas se levantou, em que Sophie pensou que ele ia obedecer mas, em vez disso, voltou-se ao pai, pressionando com força a nuca de Franek, para que o rosto deste descesse até aos joelhos e o oxigénio fosse expelido dos pulmões. Seguiu-se uma breve luta, antes de o velho cair de lado no chão, sugando ar ruidosamente pela boca.

 

Ele entra em pânico muito facilmente foi tudo o que Nicholas disse.

 

Sábado, 28 de Julho de 2001 Centro de Saúde Nightingale

 

O AGENTE KEN Hewitt reconheceu o nome assim que Gaynor lhe disse que o «rapaz» da filha, Jimmy James, ficaria em linha no lugar dela. Hewitt fora um dos agentes responsáveis pelo mais recente período que James passara atrás das grades, e não se encontrava optimista em relação ao facto de o homem querer lidar consigo. A prisão estivera relacionada com acusações de roubos praticados em 1998, e baseara-se em informações recebidas da ex-namorada de James, que fora abandonada, como Hewitt agora percebia, pela filha de Gaynor Patterson. De uma forma típica das mulheres humilhadas, a ex acusara o amante.

 

James lutara como um demónio para resistir à prisão, livrando-se de polícias que lhe agarravam os braços como se fossem insectos, dizendo que estava limpo há doze meses, e que a sua nova namorada estava grávida. Nenhum desses argumentos teve grande efeito junto da autoridade. Ele teve sorte com o seu solicitador, que conseguiu manter o caso no tribunal de pequena instância, após convencer James a declarar-se culpado de três acusações, em troca da anulação de outras cinco, incluindo a agressão a agentes da polícia; e sorte durante o julgamento, tendo sido aceites provas fracas em como ele tivera uma ocupação remunerada durante doze meses, assentara para constituir uma família com a sua nova namorada, e estava a empreender uma tentativa genuína de alterar a sua vida. Mesmo assim, fora condenado a oito meses, dos quais teria de cumprir metade, apesar do seu optimismo inicial de que o serviço comunitário seria o desfecho mais provável.

 

Olá, Jimmy cumprimentava agora Ken, estreitando pesarosamente os olhos para Jenny Monroe. Fala o agente Ken Hewitt.

 

A voz de Jimmy ouviu-se claramente no altifalante.

 

Eu lembro-me de si. Você é um dos tipos que me prenderam da última vez. Um bacano jovem, de cabelo escuro.

 

Eu próprio. Você quase que me partiu o braço.

 

Pois, bem, sem ressentimentos. Escute, não é fácil ouvi-lo... há muito chinfrim aqui à volta... por isso fale alto e devagar, OK? Diga-me o que quer. A Gaynor disse qualquer coisa sobre abrir mais algumas saídas.

 

Preciso de que você vá para um telefone fixo, Jimmy. Pode ir até à casa da Sr.a Carthew, e ir ter com ela ao primeiro andar? Ela está no quarto. Vamos dizer-lhe que você vai até lá. Mas não deixe que mais ninguém o siga. Ela não é muito forte. Percebeu?

 

Claro. Estou a ficar muito bom nisto. Mas acho que quanto mais frágeis parecem, mais rijas são por dentro.

 

Do que é que ele estava a falar? perguntou Jenny quando a voz dele desapareceu do telemóvel, deixando apenas ouvir o ruído da multidão.

 

Hewitt abanou a cabeça.

 

Não faço ideia.

 

No interior do número 9 da Humbert Street

 

A Sr.a Carthew tinha olhos azuis um pouco absortos e faces salpicadas de cor-de-rosa. Estava sentada num cadeirão junto da janela e sorriu com doçura para Jimmy quando este surgiu à porta do quarto. Ela estendeu-lhe o telefone e gesticulou alegremente para a cena do exterior.

 

Estão todos a divertir-se? perguntou, como se estivesse a presidir a uma festa de rua.

 

Alguns deles estão concordou ele, levando o auscultador ao ouvido para dizer a Ken Hewitt que já chegara. Deu consigo a pensar que esta era mais uma senhora de idade que parecia viver na pobreza. Espreitadelas pelas portas abertas no primeiro andar, enquanto tentava encontrá-la, mostraram-lhe que os outros quartos estavam praticamente vazios, por isso a razão para viver sozinha numa casa grande o suficiente para alojar uma família era inexplicável. A maior parte das suas posses pareciam estar enfiadas neste único quarto, embora não existisse nada de valor a avaliação automática de Jimmy ao entrar na casa de outra pessoa apenas mobília utilitária, uma televisão velha e alguns ornamentos e fotografias.

 

Não se preocupe com a Sr.a Carthew dizia Ken Hewitt. Ela perdeu a noção do que se está a passar meia hora atrás... julga que é o fim da guerra... O dia da vitória na Europa. Ela obviamente vem e vai, porque estava com pôs mentis no início... mas achamos que é melhor concordar com ela para que não se assuste.

 

Ela está aqui completamente sozinha disse Jimmy, virando-se ligeiramente e cobrindo a boca com a grande mão que segurava o auscultador. Não me admira que ela vá e venha. Não há mobília nos outros quartos e ela não parece ter muitas visitas. Acho que só tem as recordações... e isso é muito triste.

 

Ela disse-nos que os filhos esvaziaram a casa há dois anos, quando ela entrou numa lista de espera para alojamento protegido, e nunca mais viu nenhum deles desde então. Mas é melhor não tocar no assunto. Foi por falar nos filhos que ela regrediu.

 

Tudo bem disse Jimmy, dando à Sr.a Carthew uma piscadela de olho encorajadora. É como eu digo, estou a ficar habituado. São todos assim. Tenho um velhote nas traseiras a guardar a vedação com um capacete na cabeça, a gritar coisas sobre a guerra e com uma catana na mão.

 

Hewitt voltou imediatamente a ser um polícia.

 

Acho que você não devia ter encorajado essa situação. Não me parece muito seguro.

 

Não é suposto ser seguro. É uma forma de dissuasão.

 

Ele pode ir parar a tribunal se alguém ficar ferido... por isso será que podia...

 

Deixe-se de merdas silvou Jimmy furiosamente, virando as costas à Sr.a Carthew para não a alarmar. Eu neste momento estou-me fodendo para aquilo que vocês vão fazer quando isto acabar, A culpa do que se passa é da bófia. Eu só estou aqui porque quero que a minha miúda saia daqui. E deixe-me que lhe diga uma coisa... nós não temos grandes alternativas... e um tipo que está disposto a convencer as pessoas a irem para casa parece-me muito melhor do que deixar as pessoas a matarem-se na merda da rua. Por isso não comece a deitar a sua responsabilidade para cima de mim. Eu não sou a merda da polícia... e não vou arcar com as culpas porque vocês foram idiotas de mais para não perceberem que vinha aí esta guerra. O meu velhote está a guardar uns quantos putos, e a fazer o melhor que pode para que a saída continue a funcionar... e se alguém ficar cortado às postas porque se aproximou de mais, então a culpa é dessa pessoa. Capish? Uma voz de mulher entrou em linha.

 

Jimmy, aqui fala a Jenny Monroe anunciou ela, de forma calma e equilibrada. Sou a recepcionista do Centro de Saúde Nightingale. A sua Mel e os filhos dela são doentes nossos... e a Gaynor e a família também. Posso explicar-lhe a razão pela qual o Centro de Saúde está envolvido e o que estamos a fazer? Estamos a tentar utilizar uma rede que uma das nossas médicas montou para encontrar pessoas na Humbert Street que possam estar preparadas para abrir a porta como fez a Sr.a Carthew. Infelizmente, a Sr.a Carthew estava um bocadinho confusa com os nomes...

 

Jimmy interrompeu-a.

 

Como se chama essa rede?

 

«Chamada para a Amizade.”

 

  1. Eu conheço isso. Há uma senhora na Torre Residencial chamada Eileen Hinkley, apartamento 406. Ela é uma das pessoas que sabe os números. Se ela não estiver na lista, o serviço de ambulância sabe como entrar em contacto com ela. Ela pode ajudá-los.

 

Seguiu-se uma breve pausa enquanto Jenny passava a informação a alguém que se encontrava com ela.

 

Isso é fantástico disse ela calorosamente. Um dos meus colegas está a telefonar-lhe neste momento. Muitíssimo obrigado.

 

É só isso? disse Jimmy, surpreendido por ser libertado tão depressa. Porque eu gostava muito de saber o que aconteceu à Mel e aos miúdos. Tirá-los daqui, se possível.

 

Não disse Jenny bruscamente, receando que ele a passasse novamente à Sr.a Carthew, por favor não se vá embora! Precisamos desesperadamente de ajuda. A voz dela subiu de tom. Alguém tem de comandar as coisas lá fora... trazê-los de volta à razão. Precisamos de quem controle as saídas. Precisamos... Ainda aí está?

 

Sim.

 

Ele ouviu o polícia murmurar longe do microfone:

 

Tem de pensar no quanto está preparada para lhe dizer... ela pode acabar por morrer se eles decidirem invadir a casa.

 

Do que é que ele está a falar? exigiu Jimmy. Quem é ela? Quem é que pode acabar por morrer?

 

Espere um pouco, por favor, Jimmy. Jenny abafou o microfone com a mão, mas estava suficientemente perto deste, para que o seu tom de voz agudo e muito agitado se ouvisse. Nada do que o polícia dizia era audível.

 

Isto é de loucos... Temos de confiar em alguém... Sim, mas a polícia não está a fazer nada... Oh, pelo amor de Deus!... É claro que ela se vai sentir mais confiante se lhe conseguirmos transmitir uma mensagem... qualquer pessoa ficava... Não, eu estou-me lixando para o cadastro dele... Se a Gaynor o aprova, então eu também o aprovo...

 

A voz dela regressou tão subitamente e com tanta força que Jimmy afastou o auscultador do ouvido. Posso confiar em si? A Gaynor parece confiar em si. Ela estava sempre a dizer, «Se pelo menos o Jimmy aqui estivesse».

 

A senhora não precisa de gritar. O volume está no máximo, por isso acho que a Sr.a Carthew é surda... viu a idosa a olhar para ele e a casa também não tem sótão, se é que me percebe. Fez uma pausa. Tem de me dizer o que quer antes de eu lhe dizer se pode confiar em mim. Não vou fazer nada que me possa levar outra vez para a prisão.

 

Jenny fez o esforço supremo de controlar as suas emoções agitadas.

 

Desculpe. Estamos todos muito preocupados. Preciso que me garanta que não vai repetir a ninguém aquilo que lhe vou dizer, Jimmy... nem sequer à Melanie nem à Gaynor. O Ken receia que se isto se souber, a multidão possa perder a cabeça e atacar a casa... e isso vai tornar a situação ainda mais perigosa. Parece que um miúdo qualquer já pegou fogo a si próprio com uma bomba incendiária e o helicóptero da polícia diz que há mais a prepararem-se para fazer o mesmo. Segundo eles, é só uma questão de tempo até que a casa vá pelos ares... e isso significa que toda a gente que está lá dentro irá pelos ares com ela... incluindo a Sophie.

 

Jimmy esforçou-se por perceber o que lhe estava a ser dito, adicionando-lhe o que já sabia.

 

Pensei que o nome da miúda era Amy disse ele. Uma pausa de confusão.

 

Estou a falar da Sophie... Sophie Morrison. Ele ouviu Ken Hewitt murmurar novamente por trás. Oh, meu Deus, não! Isto não tem nada a ver com a criança que desapareceu, Jimmy. A Sophie é uma das nossas médicas. Ela é a verdadeira razão pela qual nós nos envolvemos nisto. Ela telefonou-me, aflita, a dizer que tinha sido feita prisioneira pelos homens do número 23. Parecia extremamente assustada... disse que estava a ser... fez uma pausa, como se estivesse a escolher uma palavra atacada... depois desligou o telefone.

 

É ela que se vai casar daqui a duas semanas? Tenho a certeza de que é esse o nome que está no convite que eu e a Mel recebemos.

 

Sim.

 

A Mel está sempre a dizer como ela é espectacular... a Sophie isto... a Sophie aquilo.

 

Quase todos os doentes dela são do Bassindale e muitos são idosos. Ela é a médica que deu início à «Chamada para a Amizade», porque reconheceu o quanto alguns deles se sentiam sozinhos. Sei que provavelmente está a pensar que eu diria qualquer coisa para fazer que você a ajude, mas ela é mesmo boa pessoa, Jimmy, do tipo que marca a diferença nas outras pessoas. A voz tremeu-lhe. Ela não estaria agora naquela casa se não se importasse com os doentes dela. Era suposto ela ter saído ao meio-dia, mas atrasou-se porque acha que conversar é mais importante do que distribuir comprimidos. Depois eu pedi-lhe para responder a mais aquela chamada porque o homem estava em pânico... a voz dela cedeu completamente.

 

Estou a ver que você gosta muito dela.

 

Ouviu-se um nariz a ser assoado do outro lado da linha.

 

Nem sequer posso pensar que lhe possa acontecer algum mal.

 

Você disse que ela tinha sido «atacada» lembrou-a ele. Ela estava a falar dos homens na casa ou das pessoas lá fora?

 

Espere um pouco. Houve um longo silêncio antes de ela voltar a falar e ele desconfiou de que, desta vez, ela carregara no botão de «espera». Ela disse que um dos homens queria violá-la informou-o ela, e ela não é do tipo de pessoa que imaginaria uma coisa dessas.

 

Jimmy franziu o sobrolho, lembrando-se da sua conversa com Melanie.

 

Eu pensava que estes tipos eram pedófilos, por isso por que é que eles haviam de querer violar uma mulher? Além disso, eles devem estar borrados de medo, com metade do Bairro Ácido a gritar pela cabeça deles.

 

Ele esperou por uma resposta, que não veio, pois a voz do polícia voltou a fazer-se ouvir por trás.

 

Centro de Saúde Nightingale

 

Jenny desligou o altifalante e olhou zangada para Ken.

 

Pare de me dizer para ter cuidado com aquilo que eu lhe digo disparou ela. Pelo menos ele está lá. Pelo menos ele está a ouvir. O que é que a polícia está a fazer para salvar a Sophie? Nada... a não ser ficarem sentados a observar, porque têm medo de piorar a situação. Bem, eis o que eu penso... espetou o dedo na direcção dele se o Harry lhe explicar o tipo de perigo que ele provavelmente vai enfrentar... e se ele concordar em ajudar... nesse caso devemos todos ajoelhar-nos e darmos graças por alguém naquele maldito sítio ter mais coragem do que a porcaria da polícia.

 

No interior do número 9 da Humbert Street

 

Jimmy fez uma expressão de desagrado para a Sr.a Carthew quando voltou a ouvir a voz de Jenny.

 

Ouça, eu não estou a tentar minimizar a situação da doutora disse ele a Jenny, à laia de explicação do seu cepticismo. Aposto que a coitada da senhora está cheia de medo, mas isso não faz grande sentido, qualquer que seja a forma como encaramos a situação. Quer dizer, era preciso ser completamente estúpido para violar uma refém, quando a razão para se estar a ser atacado é porque se é um criminoso sexual. Iria fazer-se o contrário... fazer que ela fale por nós... convencer os drogados de que nós fomos tramados. Isso é algo que toda a gente no Bairro Ácido compreende.

 

A resposta surgiu na voz de um homem.

 

Daqui fala Harry Bonfield, Jimmy. Sou o médico director do Nightingale. Acredite em mim, nós também temos pensado nisso, por isso aconselhámo-nos com um psiquiatra. O que você descreveu é uma reacção razoável a um problema... e pode não ser necessariamente assim que estes homens vão agir. Estamos a receber informações do helicóptero da polícia, e eles dizem que não há sinal de ninguém nas janelas... que é o oposto do que se estaria à espera se os homens quisessem que a Sophie falasse por eles. Se assim fosse, iriam deixá-la bem visível, encorajá-la a chamar alguém e a dizer quem é, iriam usá-la como forma de dissuasão, o termo é seu, contra bombas incendiárias.

 

Talvez ela esteja com demasiado medo para o fazer.

 

Nós achamos que não. A Sophie é uma mulher inteligente, para além de ser dura. Ela sabe que muita gente naquela multidão a iria reconhecer, ou pelo menos saber quem ela é, especialmente se ela falar com essas pessoas. Não faz sentido que não a deixem negociar. Ela é uma das poucas pessoas que poderiam acalmar a situação.

 

Jimmy não conseguiu refutar o argumento.

 

Então o que acha que se está a passar?

 

É só uma hipótese, mas pensamos que o homem mais velho está a comandar as coisas. Não é ele o criminoso que foi condenado... esse é o filho, mas existem provas de que o pai é alguém que já em várias ocasiões cometeu abusos sexuais. Tanto a mulher como o filho sofreram às mãos dele, ele batia-lhes bastante, o que sugere uma veia sádica forte. Também frequenta prostitutas habitualmente: já foi preso e multado por aliciar prostitutas, e foi interrogado várias vezes depois de algumas mulheres terem dado entrada na urgência do hospital e referido a descrição dele. Nunca existiram provas suficientes para o condenar, ele usa nomes falsos e nenhuma das prostitutas estava disposta a enfrentá-lo em tribunal, mas definitivamente não é o tipo de homem que se quer como carcereiro de uma mulher jovem e bonita.

 

Jimmy recordou o comentário de Eileen sobre a sua amiga ser propensa a exageros. O médico estava a transformar este tipo num completo psicopata mas, se era esse o caso, então por que raio não estava ele atrás das grades? Jimmy suspeitava fortemente de que estas pessoas na segurança do Centro de Saúde estavam a manipular as suas simpatias para que fizesse algo que ele não iria querer fazer.

 

Tem a certeza de que tem razão sobre isso, Doutor? perguntou ele cinicamente. Quer dizer, primeiro diz-me que ele gosta de carne tenrinha de rapazes... depois diz que ele anda a bater a perna pelas ruas à procura de putas. Isso não faz sentido. Por que é que ele ia gostar do filho, se afinal o gosto dele é por gajas maduras?

 

Ouviu-se um riso divertido devido à linguagem colorida.

 

Quer o curso de três anos ou o resumo de um minuto? Não responda, Jimmy. Vou fazer o melhor que puder com o resumo. Uma pessoa com o tipo de desordem de personalidade de que este homem parece sofrer não possui um pensamento de futuro e não consegue antecipar as consequências negativas daquilo que faz. Além do mais, ele nunca se culpa a ele próprio. A culpa do desencadear da sua agressão ou frustração é das vítimas. Se, como eu acredito, a sua parafilia, isto é, desordem sexual, é o sadismo, então o medo das outras pessoas vai excitá-lo e, assim que estiver excitado, não vai sentir o mais pequeno interesse na vítima enquanto pessoa, apenas como gratificação imediata. Isto iria significar que o filho, que deve ter vivido em terror permanente, era tanto a razão para a excitação do pai como aquele que a iria satisfazer. Isso parece-lhe lógico?

 

Isso é uma grande merda disse Jimmy, enojado. Por que raio não foi o puto protegido?

 

Harry suspirou.

 

Porque há quarenta anos as pessoas não sabiam que este tipo de coisas acontecia.

 

Meu Deus! Que idade tem esse tipo?

 

O pai? Setenta e um.

 

E você acha que ele ainda é perigoso?

 

Infelizmente, sim... especialmente para alguém como a Sophie. Se ela estiver a discutir com ele e a tentar proteger-se, que é o que nós pensamos que ela está a fazer, ele vai raciocinar que tudo aquilo que acontecer vai ser por culpa dela.

 

Será que ele não vai ficar preocupado em ser tramado depois?

 

Depende do grau de excitação dele, e de até que ponto ele pense que ela é a responsável. Não estamos a falar de uma personalidade estável, Jimmy, nem particularmente inteligente. O melhor adjectivo seria comprazedor. O facto de nunca ter sido condenado por abuso quase de certeza o convenceu, na sua própria mente, de que tem o direito de se comportar dessa maneira. Ele até pode imaginar que a polícia concorda com ele. O homem é mais forte, logo, a autoridade do homem tem de ser respeitada. Harry fez uma pausa. Você tinha razão logo ao início, quando lhe chamou atrasado mental. Ponha tarado à frente e fica com uma ideia daquilo com que a Sophie está a lidar.

 

No interior do número 23 da Humbert Street

 

Sophie observou o velho contorcer-se no chão, esforçando-se por respirar. Se ela conseguisse deslocar o roupeiro, ou convencer Nicholas a fazê-lo por ela, poderia sair daquele malfadado quarto.

 

Deixe-me ir lá abaixo falar com quem está cá dentro de casa implorou a Nicholas. Agora, enquanto o seu pai não me pode impedir. Prometo que não me vou embora. Fico no fundo das escadas e não deixo que ninguém suba.

 

Ele olhou, indeciso, para a porta.

 

Você não vai conseguir evitar isso.

 

E claro que vou, se me der uma hipótese de falar com eles. Temos de começar a tentar ajudarmo-nos uns aos outros. Será que não percebe isso?

 

E mais seguro esperar pela polícia.

 

Uma apatia terrível roçou-lhe a mente, pois parte dela concordava com ele a parte hesitante que existe em todos nós, e que nos deixa mais corajosos perante o perigo que conseguimos ver do que daquele que não conseguimos. Ela quase se convenceu a si própria de que seria mais seguro ficar onde estava envolvida pela protecção falsa de quatro paredes de tijolo. Quem poderia dizer o que se estava a passar lá fora? Será que tinha assim tanta certeza de que alguém se ia dar ao trabalho de a ouvir? E se ela piorasse a situação?

 

Sentiu o olhar de Nicholas em si e recordou como os modos gentis dele quase a tinham seduzido antes. Raios partam! Raios partam! Raios partam! Ela não era assim tão fraca! O que diria Bob, se lhe contasse que tinha preferido arriscar a hipótese de violação por ter demasiado medo de sair de um quarto...

 

Para mim não é mais seguro ripostou ela com coragem, batendo com o pé para o irritar. Eu tenho amigos lá fora... pessoas que se preocupam comigo... ao contrário de si... e deste fez um gesto com o queixo na direcção de Franek monte de merda

Sinto muito. Oh, por favo-or!

 

Arranje alguma coragem disparou ela. Se a polícia viesse, já cá estava... e você tem de pensar por que é que só ouvimos um helicóptero. Isso não lhe diz que eles estão a tentar descobrir o que se está a passar? E por que é que eles têm de fazer isso se as ruas estão cheias de polícias? Pelo amor de Deus, você é um homem educado. Use a cabeça... pense... descubra por si próprio. É mais provável que sejamos atacados do que salvos.

 

Ele não disse nada, mas observou os movimentos de Franek começarem a acalmar, enquanto a respiração dele estabilizava.

 

Sophie falou ainda com mais urgência.

 

O seu pai não me vai deixar sair daqui disse ela. Ambos sabemos isso... e ambos sabemos porquê. Acho que você está a contar que vamos ser salvos antes de ele se descontrolar completamente, mas ele já me atacou duas vezes. Levou a mão à face inchada. O único motivo para eu não ter duas coisas destas foi o facto de você ter feito alguma coisa da terceira vez, mas ele não o vai deixar aproximar-se tanto outra vez. Por isso, o que acha que vai acontecer se ficarmos aqui mais cinco horas, Nicholas? Vai oferecer-se como saco de pancadas para me proteger? Ou vai enterrar a cabeça a um canto e deixar que o seu pai faça o que quiser comigo?

 

Ele enfiou as mãos nos bolsos e remexeu com a ponta do sapato no pó do chão.

 

Você não me tem em muito boa conta, pois não? disse ele. Que resposta devia ela dar? Sim? Não? Devia ser sincera ou devia mentir? Qual seria a psicologia dele? Esquizóide? Paranóico? À margem?

 

Acho que ele abusou tanto de si que você fica aterrorizado para fazer alguma coisa sem a autorização dele. Não posso fingir que o percebo, você é adulto e não devia estar a viver com ele, mas é um facto. Ela fez por abstrair da voz toda a emoção. Por isso, sim, você tem razão, não o tenho em muito boa conta. Analisou a cabeça baixa dele por um momento. O perigo para si está lá fora, Nicholas, e esconder-se aqui, à espera de ser salvo, é uma loucura. Você sabe alguma coisa sobre as pessoas que vivem neste bairro? Você disse que era uma zona dura... por isso imagine o que elas vão fazer a um pedófilo, se o apanharem antes da polícia.

 

Ele não pareceu ficar surpreendido por ela saber a razão para a multidão estar lá fora. Até pareceu aliviado por não ter de continuar a fingir.

 

Vão cortar-me o pénis disse ele, sem qualquer emoção. E eu acho que eles têm razão. Tentei fazer isso na prisão, mas impediram-me antes de conseguir causar danos graves. Hoje em dia ninguém pode automutilar-se... nem sequer os pedófilos.

 

Meu Deus do céu!

 

Você precisa mesmo de ajuda disse ela, igualmente sem emoção. O que é que se passa dentro da sua cabeça para pensar que é o seu pénis que tem de ser sacrificado?

 

Mensagem Telefónica

 

Para: De:

 

Recebida por: Data:

 

Inspector-Detective Tyier Sr.a Angela Gough Agente Drew

28.07.01

 

Hora da chamada: 15.46

 

A Sr.a Gough liquidou a conta da filha Francesca e reservou o regresso desta a casa num voo desta tarde. NB A reserva original de Townsend dizia respeito ao próximo Sábado 04.08.01. A Sr.a Gough pediu que a informação seguinte fosse transmitida ao Inspector Tyier.

  1. Ela não quer a responsabilidade de envolver a primeira mulher de Edward Townsend, mas está preparada para divulgar o que a amiga lhe disse ass: Townsend.

 

  1. Ele divorciou-se duas vezes. Em ambos os casos, a iniciativa pertenceu às esposas. No caso do divórcio da amiga (também ela em segundas núpcias, segundo crê) ele foi representado por Martin Rogerson.

 

  1. A razão oficial para o primeiro divórcio foi o adultério de Townsend com a mulher que se tornou a segunda esposa. A razão não-oficial foi a obsessão de Townsend pela sua enteada (com nove anos na altura do divórcio, agora com 17). Não há provas de que ele tenha abusado sexualmente dela a criança nega-o mas a mãe ficou perturbada por ter encontrado cassetes de vídeo da sua filha nua. Cassetes semelhantes foram feitas com a mãe antes do casamento, uma vez que Townsend disse que gostava de a ver quando ela não estava com ele. Ela encontrou outras duas cassetes de crianças que não conhecia.

 

  1. Rogerson e o solicitador da esposa chegaram a um acordo que resultou na questão do vídeo ser abandonada e na imposição de um acordo de silêncio. A Sr.a Gough acredita que Martin Rogerson ameaçou a esposa com a divulgação das cassetes, embora a sua amiga nunca o tenha dito abertamente. A esposa contínua a sentir-se culpada pelo seu silêncio, pois acredita que Townsend seja um pedófilo.

 

  1. A Sr.a Gough viu a fotografia de Amy na TV. Ela diz que a criança é muito parecida com a filha da amiga quando esta tinha a mesma idade.

 

  1. A segunda esposa de Townsend tinha uma filha de 8 anos de idade. Desse casamento a Sr.a Gough apenas sabe que durou menos de um ano.

 

  1. A Sr.a Gough avisou Francesca de que Townsend tinha um interesse pouco saudável por raparigas jovens. Francesca acusou-a de ter ciúmes pois não conseguia atrair homens. A Sr.a Gough agora arrepende-se de não ter utilizado a palavra «pedófilo».

 

  1. Drew

 

Sábado, 28 de Julho de 2001 Esquadra Central da Polícia de Hampshire

 

MARTIN ROGERSON ERGUEU, furioso, o olhar quando o Inspector-Detective Tyler entrou na sala de interrogatórios. Tinha um telemóvel encostado ao ouvido e não era claro se a sua raiva era dirigida a Tyler ou à pessoa do outro lado da linha. Com um rápido «adeus», ele fechou o aparelho e pousou-o na mesa à sua frente. A posição agressiva do seu maxilar denotava frustração, e Tyler teve um vislumbre do agressor que Laura descrevera de madrugada. Certamente não existia agora qualquer afabilidade falsa na sua expressão.

 

Tyler puxou uma cadeira e sentou-se à frente dele. Sinto muito por o ter feito esperar desculpou-se ele, com um sorriso agradável. Pensei que antes de receber a chamada estivesse a meio caminho de Bornemouth mas, pelo que soube, o senhor pediu à agente Anderson que o levasse a Southampton?

 

Colocou um tom ascendente na voz, mas Rogerson não estava com disposição de responder à questão nem ao sorriso.

 

Ela disse-me que era extremamente urgente, tinha alguma coisa a ver com uma pista nova disse ele, a sua pronúncia educada a cortar as palavras com impaciência, mas não podia ser assim tão urgente, pois não se importou de me deixar a olhar para uma parede vazia durante vinte minutos. Bateu no seu relógio, com o dedo em riste, como se fosse um bastão. O macho-alfa a tentar dominar. O senhor tem o número do meu telemóvel. Não podíamos ter feito isto pelo telefone? Tenho uma reunião em Southampton daqui a duas horas.

 

Então tem muito tempo. Fica a menos de trinta minutos de caminho. Tyler estudou-o com curiosidade e sentiu o calor da impaciência dele. Mas presumo que a sua filha seja mais importante do que uma reunião? A sua esposa nem descansa, para o caso de dizerem alguma coisa na rádio enquanto ela estiver a dormir.

 

Esse foi um golpe baixo, Inspector. O seu Sargento já me disse que vocês não encontraram nenhum corpo, e disse que isso era razão para se estar optimista. Esforçou-se por descontrair. Já sou advogado há tempo suficiente para não me preocupar com as coisas antes de haver necessidade... ao contrário da minha esposa, que se aflige demasiado e acaba sempre por descobrir que foi um desperdício de energia. Cruzou as mãos sobre o telefone e inclinou-se para a frente, para reduzir a distância entre eles. Fale-me sobre essa nova pista. É claro que farei tudo o que puder para ajudar.

 

Obrigado. Tyler fez uma pausa, imaginando com quem Rogerson estivera a falar ao telemóvel, e se a conversa fora a razão para o seu optimismo e para a sua impaciência. Tenho de lhe fazer algumas perguntas sobre Edward Townsend.

 

Os olhos do advogado estreitaram-se ligeiramente.

 

Que tipo de perguntas?

 

Como descreveria a sua relação com ele? É uma relação pessoal ou de negócios? Ou ambas?

 

O que tem isso a ver com a minha filha? Não havia razão para não lhe dizer.

 

Acreditamos que o Sr. Townsend possa ter estado envolvido no desaparecimento da Amy.

 

Isso é impossível. Era uma afirmação muito decidida.

 

Porquê?

 

Ele tem estado no estrangeiro desde terça-feira. Tyler olhou para o telemóvel.

 

Esteve a falar com ele agora? Ele faz parte da reunião que vai ter lugar daqui a duas horas?

 

Rogerson abanou a cabeça.

 

Não estou preparado para discutir os assuntos do meu cliente, Inspector, não sem a devida autoridade.

 

Então a reunião diz respeito aos assuntos do Sr. Townsend? O advogado cruzou os braços mas não disse nada.

 

Tyler observou-o por um momento.

 

Tratou de ambos os divórcios do Sr. Townsend?

 

Isso é relevante?

 

Apenas pergunto para confirmar que o senhor o representou. Rogerson não respondeu. É justo. O Inspector levantou-se. Na ausência de Townsend, a única pessoa que o pode confirmar é a primeira esposa dele, mas receio que isso signifique outra longa espera enquanto eu tento entrar em contacto com ela.

 

Com impaciência, Rogerson fez sinal para que ele se sentasse.

 

Sim, eu representei-o. Mas isso é tudo o que eu posso dizer. Se tiver outras perguntas relacionadas com o meu cliente, terá de as fazer directamente a ele.

 

É o que faremos, assim que o conseguirmos localizar asseverou Tyler, voltando a sentar-se. Sabe onde ele está, Sr. Rogerson?

 

Não.

 

Sabe de algum número de telefone onde o possamos contactar? O homem humedeceu os lábios.

 

Não. Não respondem do único número que eu tenho.

 

Tyler interrogou-se se ele estaria a mentir, mas por enquanto decidiu ignorar o assunto.

 

As perguntas dizem-lhe respeito a si, Sr. Rogerson, e àquilo que sabe sobre o seu cliente. Edward Townsend fez alguns vídeos muito questionáveis das enteadas, o que levou pelo menos uma das esposas a suspeitar de que ele fosse pedófilo. Como seu advogado, o senhor sabia que eles existiam. Importa-se de me explicar por que razão, sob essas circunstâncias, o senhor permitiu que a sua filha vivesse com ele?

 

A sua compostura fora definitivamente abalada. Estava a demorar a responder.

 

Não vou comentar isso, salvo para dizer que a sua versão dos acontecimentos é tão questionável quanto aquilo que diz serem esses alegados vídeos.

 

E por que razão continuou Tyler implacavelmente o senhor insistiu que ela voltasse aos seus cuidados se e quando Townsend se cansasse dela? Observou o rosto do outro homem perder toda a expressão. Ela foi um empréstimo, Sr. Rogerson?

 

Rogerson pegou no telemóvel e enfiou-o no bolso do casaco.

 

Não existe qualquer fundamento para este tipo de interrogatório, Inspector, e não faço qualquer tenção de responder. Sugiro que concatene alguns factos antes de tentar voltar a este assunto.

 

Creio que tenho bons fundamentos retorquiu Tyler calmamente. Bons o suficiente, na verdade, para o deter, caso o senhor tente ir-se embora. Foi a sua vez de se inclinar para a frente. O seu cliente, Edward Townsend, saiu de Maiorca ontem às seis da manhã, e um carro semelhante ao dele foi visto em Portisfield sete horas depois, com uma criança que correspondia à descrição da Amy no banco do passageiro. Quer fazer algum comentário?

 

A boca do homem abriu-se por um momento, mas o que quer que fosse que ele tencionava dizer permaneceu no silêncio. Parecia abalado, até mesmo para o olhar frio de Tyler.

 

Ele tem um interesse muito pouco saudável por raparigas jovens... especialmente pela sua filha. Pensamos que o senhor sabia isso antes de a Amy ter ido viver com ele. A tendência dele é fazer vídeos de crianças pré-adolescentes nuas. Ele possui vários endereços de email, todos codificados, estando apenas o endereço legítimo de negócios aberto a escrutínio. Ele esteve em Maiorca durante esta semana, a filmar uma sósia da Amy, e alguém chamado Martin telefonou-lhe na quinta-feira. Os assuntos eram tão delicados que a rapariga que estava com ele não pôde ouvir mas, após a chamada, Townsend regressou a Inglaterra. Quer contar-me o que lhe disse, Sr. Rogerson? Especialmente algo que possa ter a ver com a Amy.

 

Rogerson pensou um pouco.

 

Isto é absurdo. O senhor está a ir numa direcção completamente errada. Mesmo que tenha sido eu o Martin com quem ele falou, como poderia eu ter dito alguma coisa sobre a minha filha, se não falo com ela há meses?

 

Nega ter telefonado a Edward Townsend para Maiorca?

 

Nego certamente que eu tenha alguma coisa a ver com o desaparecimento da minha filha.

 

Tyler tomou nota da resposta do político.

 

Não brinque comigo, Sr. Rogerson disse ele bruscamente. Estamos a falar da vida de uma criança... da vida da sua filha. Falou com Townsend nas últimas vinte e quatro horas, quer pessoalmente quer ao telefone?

 

O homem fez uma pausa antes de responder.

 

Tenho tentado entrar em contacto com ele afirmou ele. O telemóvel dele ou está desligado ou não tem bateria. Interpretou correctamente a expressão do outro homem. Eu não tinha, nem tenho, qualquer razão para acreditar que a Amy esteja com ele disse, com firmeza. Queria falar com ele devido a negócios.

 

Tyler achou a expressão dele mais difícil de interpretar. Seria esta outra resposta evasiva quando um simples «não» teria sido suficiente?

 

Que negócios?

 

Que eu saiba, só existe um. A Etstone, a empresa de construção.

 

Pensamos que ele possa ter negócios na Internet. Sabe alguma coisa sobre isso?

 

Rogerson franziu o cenho.

 

Não.

 

Sabia que ele tinha regressado a Inglaterra ontem de manhã?

 

Não.

 

Quando esperava que ele regressasse? Uma pequena hesitação.

 

Não creio que ele me tenha mencionado uma data. Era mentira, pensou Tyler.

 

Temos informação de que ele marcara um voo de regresso para o próximo sábado.

 

O homem desviou o olhar.

 

Não sabia disso.

 

Tyler mudou o rumo da conversa abruptamente.

 

Há duas semanas, a Amy fez uma chamada a pagar no destinatário para alguém a quem se referiu como «Ed». Era o senhor, Sr. Rogerson?

 

Não.

 

Sabe quem poderia ter sido?

 

Não faço ideia. Como já disse várias vezes, há meses que não vejo a criança, nem tenho notícias dela.

 

A sua esposa sugeriu que ela estava a dizer «Ed» pois ela engole os Ds. Isso é algo que tenha ouvido a Amy a fazer enquanto ela vivia consigo?

 

Não.

 

Não, não reparou nisso, ou ela não o fazia? perguntou ele.

 

Ambos os casos. As exigências da minha profissão implicavam que ela já estivesse na cama quando eu chegava a casa, mas se a tivesse ouvido a fazer isso, tê-la-ia corrigido.

 

O senhor era chegado à sua filha, Sr. Rogerson?

 

Não muito. Ela foi sempre a filha da sua mãe. Tyler aquiesceu, como se a afirmação fosse razoável.

 

Então porque ameaçou afastá-la da mãe? perguntou ele. Porquê assustar Laura com uma batalha pela custódia?

 

Rogerson inspirou profundamente pelo nariz.

 

Já respondi a essa pergunta duas vezes... uma ontem à noite e outra antes da conferência de imprensa.

 

Responda mais uma vez, por favor.

 

Lançou mais um olhar ao relógio, reprimindo com dificuldade a sua irritação.

 

O acordo a que a Laura e eu chegámos foi que o quid pró quo por eu não levantar obstáculos a que ela levasse a Amy seria a promessa de que, se as circunstâncias em que ela se encontrava mudassem, o assunto da custódia seria resolvido em tribunal... com o desejo da Amy em primeiro lugar. Considerei que era razoável e responsável deixar que a criança escolhesse.

 

E ficava feliz por a ter de volta se ela o escolhesse?

 

É claro. Ela é minha filha.

 

Então por que não sabia ela disso? O homem franziu o sobrolho.

 

Não percebo a pergunta.

 

Se ela sabia que o senhor gostava dela, porque não lhe telefonou para a ir buscar quando Laura deixou Townsend?

 

Presumo que por não a terem deixado. Talvez, tal como a sua mulher, ele receasse armadilhas, pois a sua voz assumiu um tom de persuasão. Deixe-me reformular a pergunta, Inspector. Por que razão não estava a Laura pronta a testar o assunto em tribunal? Não acha que é uma boa prova de que ela sabia que a Amy me teria escolhido a mim?

 

Nem por isso ripostou Tyler sem-cerimónias. Gosto que as minhas provas sejam simples e directas. Se a Amy quisesse ficar consigo, ela teria telefonado. Há um telefone na casa dos Logan. Estava sempre disponível para ela fazer chamadas privadas depois de Laura e Gregory saírem para o trabalho todas as manhãs. Esta era uma criança atormentada. Insegura... solitária... a ser massacrada por quem tomava conta dela... a mentir à mãe para que Laura pudesse continuar a trabalhar, para poderem sair da confusão em que se encontravam. O senhor é pai dela, seria a pessoa óbvia para a ir salvar. Portanto, por que é que ela não o procurou para pedir ajuda?

 

Talvez ela tenha tentado e eu não estivesse em casa. Talvez ela não quisesse perturbar a mãe. As crianças têm razões complicadas para as coisas que fazem. Talvez não me quisesse perturbar a mim.

 

Tyler concordava com esta última afirmação, que era quase de certeza verdadeira, embora ele tivesse substituído «perturbar» por «excitar». Era a natureza da excitação deste homem que permanecia obscura.

 

Tenho duas teorias sobre este pseudo «acordo», Sr. Rogerson disse ele francamente. Uma é que a única utilização que o senhor alguma fez da sua filha foi como instrumento para agredir a sua esposa. Edward Townsend surgiu do nada, o senhor não fazia ideia que Laura tinha um romance com ele, nem que estava a pensar deixá-lo, por isso ganhou tempo para esconder os seus bens. Enquanto a ameaça de lhe retirar a Amy estiver presente, Laura fica demasiado assustada para se aproximar de um advogado, pois ela sabe, por experiências passadas, que está tudo contra ela.

 

Rogerson abanou a cabeça.

 

Por que não consegue simplesmente aceitar que eu levo a sério as minhas responsabilidades enquanto pai? Não fui eu que escolhi que a Laura tivesse um romance. Nem a Amy. Enquanto elas estavam com Edward Townsend, e apesar da insistência ridícula por parte da Laura de devolver os meus cheques, eu estava satisfeito por a minha filha estar a ser bem tratada. Eu conhecia o homem, sabia qual o nível de vida de que ele gostava. Não existia qualquer garantia numa segunda relação... como acabou por ser plenamente demonstrado. Mas interrogo-me se a Amy teria desaparecido se a minha mulher não tivesse quebrado as condições do nosso acordo.

 

Tyler não teve qualquer reacção perante todo este discurso notável.

 

A minha segunda teoria continuou ele, como se o homem não tivesse falado, é que o senhor estava disposto a emprestar a Amy ao Townsend por um período de tempo, provavelmente para que ele continuasse com o seu negócio. Com esse objectivo, o senhor permitiu que ele seduzisse a sua esposa, uma mulher que já não lhe interessava, com a única intenção de explorar a sua filha. A única condição seria a Amy ser devolvida quando o entusiasmo de Townsend desaparecesse... quer para abusar dela você próprio, quer para a oferecer a outros clientes. Qualquer que fosse o caso continuou ele com firmeza, sobrepondo-se à inalação de ar de Rogerson, o senhor foi activamente conivente na entrega de uma criança de dez anos a um homem que sabia ser pedófilo.

 

Os olhos de Rogerson brilharam com raiva reprimida.

 

O senhor está a pisar terreno muito perigoso avisou ele. Que bases tem para uma alegação dessas?

 

O senhor era o advogado de Townsend na altura do primeiro divórcio. O senhor ajudou a suprimir as provas da pedofilia dele.

 

Nego absolutamente essa afirmação.

 

Nega que existiam cassetes da enteada de nove anos nua, e que essas cassetes nunca foram mencionadas durante o divórcio?

 

Tudo o que eu direi é que certos assuntos foram ignorados segundo instruções da esposa, que não queria material comprometedor, que lhe dizia respeito, tornado público. Eu não tinha qualquer razão, a partir desse material, para acreditar que Edward Townsend fosse pedófilo. Eu acreditava, e acredito, que ele apenas se interessa por mulheres.

 

Tyler fitou-o com desdém.

 

Por que chorou a Amy quando a levou a visitar os seus pais? A mudança súbita fez escalar a irritação do outro homem. O que

 

é que isso tem a ver seja com o que for? disse ele bruscamente.

 

Foi numa ocasião em que a Amy estava sozinha com o senhor... sem a mãe dela.

 

O rosto dele fechou-se de imediato.

 

O que está o senhor a sugerir?

 

Só quero saber por que razão estava a Amy tão infeliz naquele dia, que fez que os seus pais pedissem que não a levasse novamente.

 

A criança chorou. Isso é assim tão fora do normal? A ocasião foi de mais para ela.

 

Porquê?

 

Que raios! Interrompeu-se para respirar fundo e acalmar-se. Porque os meus pais vivem numa casa de saúde, e uma grande parte dos pacientes tem Alzheimer afirmou ele, num tom mais calmo. Isso, para uma criança, é assustador.

 

Pensei que fosse uma casa de repouso.

 

Casa de saúde... casa de repouso... são muito parecidos.

 

As casa de repouso não fornecem alimentação a doentes de Alzheimer.

 

Seguiu-se um curto silêncio.

 

Então faz parte da natureza da minha filha ser tímida. O que quer de mim? Uma análise detalhada de um único dia na vida dela?

 

Tyler recostou-se na cadeira e esticou as pernas.

 

Mais ninguém a descreve como tímida, Sr. Rogerson. Sempre a cantar, sempre a dançar é a descrição que parece assentar-lhe melhor. Disseram-me que ela gosta de fazer as pessoas sorrirem.

 

Desta vez o silêncio foi longo.

 

Não vejo aonde quer chegar disse finalmente Rogerson.

 

As únicas outras pessoas que dizem que ela estava sempre a chorar são a Kimberley e o Barry Logan... e eles estavam sempre a atormentá-la sem piedade. Também dizem que ela estava sempre a fechar-se na casa de banho porque lhe doía o estômago. Os seus pais disseram a mesma coisa: ” estava sempre a ir à casa de banho com dores de estômago, mas não queria ajuda».

 

Não me lembro. Tyler observou os olhos do homem descerem outra vez até ao relógio, como se a única coisa que o preocupasse fosse a reunião em Southampton.

 

É um sintoma comum de abuso, Sr. Rogerson, especialmente nas raparigas. Idas intermináveis à casa de banho... recusa em deixar que alguém as ajude porque não querem que vejam as provas desse abuso. A nível físico, a dor no estômago pode ser devida a uma infecção no sistema urinário ou nos órgãos genitais. A nível psicológico, é um indicador provável de stress... possivelmente com base anoréctica ou bulímica, em que o vómito às escondidas é comum. A sua filha é muito magra. E também tem uma ansiedade obsessiva por agradar.

 

Rogerson fitou-o directamente nos olhos.

 

Está a acusar-me de abusar de crianças?

 

Estou interessado na altura em que visitou os seus pais, que se enquadra no período em que Laura e Townsend tinham a sua relação.

 

Então sugiro que fale com a Laura. Tal como apurou com sucesso nos últimos dez minutos, o meu contacto com a minha filha tem sido negligente desde que ela nasceu. Pousou a palma das mãos na mesa, preparando-se para se levantar.

 

Tyler espetou um dedo na mesa. Fique onde está ordenou sucintamente, ainda não acabei de falar consigo.

 

Rogerson ignorou-o. Pode crer que acabou retorquiu ele, levantando-se, a não ser que consiga apresentar alguma prova do que tem estado a dizer. Começou a virar-se.

 

Tyler levantou-se.

 

Pare, por favor, Sr. Rogerson. Vou prendê-lo por conspiração e incitação ao cometimento de indecências com crianças. Não tem de dizer nada, mas a sua defesa poderá ser prejudicada se...

 

O advogado virou-se rapidamente para ele, o rosto num esgar.

 

É o senhor quem devia parar ordenou, usando novamente o dedo como se fosse um bastão. Insisto que estas acusações sejam devidamente explicadas antes de o senhor fazer seja o que for.

 

... não mencionar, sob interrogatório, algo que mais tarde apresente em tribunal. Tudo o que disser poderá ser apresentado como prova. Fitou o outro homem. Como resultado da sua prisão, a polícia irá exercer o direito de revistar qualquer propriedade que ocupe ou que controle... incluindo os seus ficheiros de computador e o seu disco rígido. Percebe o que lhe acabei de dizer?

 

O rosto do homem não apresentava qualquer expressão, salvo um tique que fazia que a pálpebra esquerda tremesse sem parar. Ele optou por permanecer em silêncio.

 

Tyler esboçou um sorriso ao estender a mão.

 

O seu telefone, por favor, Sr. Rogerson.

 

Número 9 da Humbert Street

 

Jimmy escutou com um desânimo crescente o que Harry Bonfield o instava a fazer. Entrar no número 23 pela porta das traseiras e negociar a libertação de Sophie. Quer pelos seus próprios meios, quer tomando o telemóvel de Sophie, de forma a iniciar um diálogo entre os Hollis, Harry Bonfield e a polícia.

 

Ainda aí está? perguntou Harry, quando Jimmy não respondeu.

 

Sim, sim, estou a pensar. Outra pausa. OK, isto é aquilo que eu vejo. Vocês têm um psicopata e um pedófilo a borrarem-se de medo, porque metade do bairro está acampado à porta deles, e a única coisa que os pode impedir de serem desfeitos é a médica que eles aprisionaram. Não têm feito a coisa mais acertada, que seria usá-la como porta-voz, por isso estão a pensar pô-la à frente deles e cortar-lhe a garganta se alguém entrar por ali adentro. Além disso, eles podem já tê-la violado, quer por serem tão tarados que não foram capazes de se conter, quer na base de que quanto mais assustada ela estiver, menos provável será que se tente salvar quando chegar à hora H. Que tal, como resumo?

 

Diria que acertou na mosca.

 

Pronto, então qual vai ser a diferença quando eu entrar por ali adentro? Não vejo que faça grande diferença ser um tipo ou mil tipos. Estes Hollis vão estar à mesma com os nervos à flor da pele, e a senhora vai estar à mesma ameaçada. Eu não sei nada sobre este tipo de coisas, Doutor. Se eu fizer alguma coisa mal, a sua amiga morre. Tem a certeza de que não é melhor esperar pela bófia?

 

Ouviu-se mais alguma conversa de fundo. O Ken Hewitt diz que a brigada antimotim recebeu ordens para não atacar as barricadas, para evitar que as casas ao longo das ruas de entrada sejam incendiadas. Existem outros dois pelotões a circular os campos por trás do muro limítrofe, na parte de trás do bairro, mas prevêem que demore mais uma hora até reunirem um número suficientemente grande de elementos para poderem levar a cabo um ataque eficaz. Você é a nossa melhor hipótese, Jimmy. Harry fez uma pausa. Você é a nossa única hipótese. Não o quero pressionar mais do que já se deve estar a sentir, mas do helicóptero dizem que alguns rapazes começaram a lançar bombas incendiárias à casa. Neste momento pararam, devido a uma pequena linha de pessoas que estão a tentar protegê-la, mas não parece que vá aguentar muito tempo.

 

Quem está nessa linha?

 

Acima de tudo mulheres. Harry interrompeu-se para ouvir Ken Hewitt. Estão a ser lideradas por uma rapariga alta, loura e grávida.

 

Merda!

 

É a sua Melanie?

 

Parece.

 

Então devia ir ajudá-la disse Harry imediatamente. A Sophie iria querer que assim o fizesse... e eu também. Jimmy não respondeu. Acho que ele se foi embora disse a voz de Harry, do outro lado da linha.

 

Pelo amor de Deus, Doutor, tenha calma, OK! Estou a pensar. Será que nem isso posso fazer? Ele não pretendia uma resposta, por isso não ficou à espera dela Muito bem, o que vai acontecer é o seguinte. Esqueça as negociações. Em vez disso, eu vou fazer a esses dois sacanas uma oferta que eles não podem recusar. Acha que a Sophie tem coragem para vir comigo se me oferecer para os proteger e tirá-los do bairro? Sabe, parece-me que os problemas iam acabar mais depressa se a multidão pudesse entrar na casa e dar com ela vazia. Tudo o que fariam era dar cabo do sítio.

 

Como vai tirá-los do bairro?

 

Vou ao encontro dos bófias que vêm por trás. Respirou fundo de forma trémula, mostrando a quem o ouvia do outro lado o quão assustado ele estava. Deve ser mais seguro entrar no bairro do que dar a volta às barricadas. A acção está toda centrada na rua principal, e poucas pessoas sabem qual é o aspecto destes cabrões. Vamos parecer três tipos e uma rapariga a ir para casa. O que acha?

 

Parecia uma ideia muito arriscada, mesmo na teoria, mas tudo o que Harry disse foi:

 

É melhor do que qualquer coisa em que nós tenhamos pensado. Boa sorte.

 

Jimmy devolveu o telefone à Sr.a Carthew e depois correu escadas abaixo para o jardim.

 

Esquadra Central da Polícia de Hampshire

 

Ele usa iniciais para guardar os números constatou o sargento de Tyler enquanto percorria o menu do telefone de Rogerson, anotando letras e algarismos. É melhor estar certo em relação a este tipo, Chefe. Ele vai processar-nos até ao último centavo, se estiver errado... e o senhor pode ter a certeza de que é despedido.

 

Eu não estou errado retorquiu Tyler, que observava por cima do ombro dele. Você não viu a cara dele quando mencionei o disco rígido. Ele retirou qualquer coisa da Internet que o deixa embaraçado, e sabe que o vamos encontrar.

 

  1. ET. Parece isto. Gary Butler anotou os números no bloco e virou-o para o seu chefe. O que está a pensar fazer com isto?

 

Vou experimentá-lo disse Tyler, pegando no telefone fixo. Se o Rogerson estava a dizer a verdade, o Townsend não vai atender. Baixou a mão. Pensando melhor decidiu ele, vou usar o telefone do Rogerson. O sacana pode ser mais receptivo se vir o número do advogado a piscar.

 

- Vai matar o caso se não lhe disser quem é, Chefe.

 

Nós não temos caso disse Tyler com ar sinistro.

 

No interior do número 23 da Humbert Street

 

A tentativa de Colin de deitar água pela abertura da caixa do correio a partir do interior da casa foi pior do que inútil. A parte de cima da chaleira bateu na porta quando ele a inclinou e a maior parte do líquido escorreu para dentro da caixa. Espreitou rapidamente pela abertura, queimando os dedos na tampa de metal, e, alarmado, viu que Melanie e a sua linha tinham sido forçadas pelo calor a afastar-se da casa na direcção dos atacantes.

 

Correu de volta à cozinha e arrancou as cortinas dos armários do chão, procurando um balde, ou outra coisa qualquer que pudesse conter uma quantidade substancial de água. Encontrou uma selha de metal, que enfiou sob as torneiras abertas, enquanto continuava à procura. Um alguidar. Uma caixa tupperware grande. Substituiu o balde que transbordava e depois transportou com dificuldade os dez litros de água pelo corredor.

 

Chegara à conclusão de que a única coisa a fazer era abrir a porta e esvaziar o balde directamente sobre as chamas. Mas as mãos tremiam-Ihe enquanto destrancava a porta, pois sabia que seria um convite irresistível para Wesley Barber invadir a casa ou, pior, para lançar outra bomba incendiária.

 

Com Colin como alvo...

 

Relatório de Serviço de Ambulância

 

Ambulância N.°:

 

Data:

 

Hora de recolha:

 

De serviço:

 

512

 

28.07.01

 

15.55

 

  1. Parry, V. Singh

 

Detalhes do Paciente: (fornecidos por Andrew Fallon, amigo)

 

Nome: Kevin Charteris

 

Morada: Bassindaie Row, 206, Bassindale

 

Idade: 15

 

Parentes próximos: Mãe Sr.a M. Charteris, Bassindate Row, 206 (Indisponível quando os paramédicos tentaram contactá-la via telefone)

 

Relatório: Paciente trazido à ambulância no exterior da

 

barricada Morto à Chegada Tentativa de reanimação falhada Estimativa de 75% de queimaduras (2.° e 3.° graus) na cabeça e no corpo Morte devido a choque estimativa da hora: 10’ antes da chegada

 

Destino: Hospital Central de Southampton

 

JL2

 

Sábado, 28 de Julho de 2001 Esquadra Central da Polícia de Hampshire

 

O TELEFONE FOI atendido após o primeiro toque.

 

O que queres, Martin? Era a voz de um homem, e os sons de um motor e de tráfego disseram a Tyler que ele estava no carro, quase de certeza a usar um sistema de mãos livres. O volume com flutuações e as quebras intermitentes sugeriam que o sinal não era dos melhores.

 

Tyler era um imitador razoável, e o tom grave e arrastado de Rogerson não era difícil de simular com pequenas frases.

 

Onde estás? perguntou ele.

 

Em Inglaterra. A uma hora de distância... podes agradecer ao John Finch... disse-me o que... o vento. Era uma pronúncia londrina e ele estava zangado. As vogais mastigadas eram acentuadas pela corrente de ar, a sua irritação grande o suficiente para as tornar cortantes.

 

Tyler tapou o microfone com a mão e depois levantou-a ligeiramente.

 

... Amy.

 

Tenho pouca rede. Não consigo... -te bem. O que é que se passa com ela?

 

Polícia... interrogar-me.

 

A voz do homem surgiu com uma força súbita.

 

Pois, olha, sinto muito pela miúda, mas isso não muda nada. Dou cabo de ti se não estiveres no Hilton daqui a uma hora. A ligação foi cortada abruptamente.

 

Tyler desligou o telemóvel e entregou-o ao sargento.

 

Então? perguntou o outro homem.

 

O Inspector pressionou a cana do nariz com o polegar e com o indicador.

 

Se era o Townsend, então está a caminho do Southampton Hilton. E está completamente passado.

 

Com o quê?

 

Sabe Deus exclamou ele.

 

Acha que ele tem a Amy?

 

Tyler esfregou uma mão cansada no rosto.

 

Não parecia.

 

Jardins por trás da Humbert Street

 

Não havia nada que Jimmy pudesse dizer ao soldado, a não ser pedir-lhe que continuasse a guardar a vedação e impedir que alguém o seguisse. Viu desconfiança nos olhos do idoso, como se pensasse que Jimmy estava a salvar a própria pele, escapando através dos jardins vazios, em direcção à Bassindale Row, mas não havia tempo para explicações, nem fazia sentido estar a dá-las. A verdade seria repetida a outros e não acreditaria numa mentira.

 

Correu ao longo do percurso de vedações partidas que os rapazes haviam deixado, procurando nas traseiras das casas pela casinha da Avó Howard, no número 21a. Ela deixara-o entrar uma vez em que ele tentara fazer as pazes, e reparara nos ornamentos que ela tinha no parapeito da janela. Um em particular havia-lhe chamado a atenção, pois parecia valioso. Uma estátua em bronze, de tamanho considerável, de um cavalo empinado. Implorou a Deus que ainda lá estivesse, ou que a Avó Howard estivesse à janela, pois se não conseguisse localizar as traseiras da casa de Melanie, iria ser muito difícil encontrar o número 23.

 

Avistou o cavalo numa janela a duas propriedades de distância do jardim com a armação de trepar, e vislumbrou o rosto mal-humorado da Avó Howard quando atravessou o canteiro de ervas daninhas exageradamente grandes que ela guardava invejosamente mas onde nunca entrava. Isso fazia que a vedação seguinte fizesse fronteira com o número 23. Agachou-se na sombra de uma pequena macieira e inspirou fundo, para se acalmar, enquanto olhava para as janelas do quarto das traseiras e da cozinha, procurando sinais de movimento por trás do vidro.

 

Ele sabia que a disposição da casa seria idêntica à da Sr.a Carthew, o que significava que o único acesso era pela cozinha, mas ele não podia continuar ali indefinidamente, tentando descobrir se os homens estavam no rés-do-chão. A lógica dizia-lhe para agir com cuidado, trepar a vedação junto da casa e gatinhar ao longo da parede por baixo das janelas, arriscando que um olhar rápido para dentro de cada quarto para ver se estava ocupado não o denunciasse. O seu temperamento impelia-o a fazer o oposto. Enfrentar o problema de frente, saltar a vedação e arremeter contra a porta, pois, mesmo que seguisse a opção cuidadosa, a porta estaria, quase de certeza, trancada, e seria preciso uma carga com o ombro para a arrombar.

 

Resmungou para si próprio. Não importava o que escolhesse, seria a opção errada.

 

A vida era assim.

 

Esquadra Central da Polícia de Hampshire

 

Um pensamento semelhante percorria a mente de Tyler. A vida era um jogo de póquer. Jogamos as cartas? Ou tentamos reduzir as perdas? Não estava a ver Martin Rogerson a aceitar um pedido de desculpas, por isso tentar reduzir as perdas não era uma grande opção e, tal como acontecia com Jimmy, a sua natureza exigia acção.

 

Raios partam isto! vocifrou ele ao Sargento. Quero o Townsend detido para interrogatório. Ligue para Southampton e peca-lhes que o detenham quando ele chegar ao Hilton. Têm de lá estar no máximo daqui a meia hora. Diga-lhes que estamos a caminho e que falamos lá com ele. Se ele perguntar qual o motivo, eles que lhe digam que o nosso interesse está relacionado com o período de seis meses que a Amy passou em casa dele. Não quero espantá-lo. Aliás, diga-lhes que detenham todos os que chegarem para uma reunião com ele e com Rogerson. Vamos garantir que eles estão todos limpos antes de deixarmos um grupo de pedófilos à solta.

 

E o Rogerson?

 

Mantenha-o aqui. Butler parecia preocupado.

 

Tem a certeza daquilo que está a fazer, Chefe? Tyler esboçou um sorriso.

 

Não.

 

Então não devíamos...?

 

O MO do Townsend é uma porcaria, Gary. Tenho duas mulheres e cinco miúdas que foram filmadas nuas em vídeo. Enumerou-as pelos dedos. A primeira mulher... a primeira enteada... Laura... Amy... Franny... e duas desconhecidas. E essas são aquelas que sabemos. Ambas as mulheres acreditavam que as cassetes eram para o seu deleite privado, quando estava longe delas. Se assim era, por que começou ele a filmar as filhas delas assim que entraram na casa dele? E por que razão utiliza e-mails codificados?

 

Por que razão levar mulheres para viverem com ele? Porquê dar-se ao trabalho de casar? Porquê fingir com a Laura?

 

Tyler tocou com o dedo num parágrafo da mensagem da Sr.a Gough.

 

Ela diz que a Amy parece a primeira enteada com a mesma idade. Talvez seja algo pessoal. Talvez ele não consiga resistir a um certo tipo de criança. Magra, morena e com dez anos. Ele ficou furioso com a Franny Gough por ela ser muito desenvolvida.

 

Ou então é o Rogerson que está certo e foram as mulheres que o atraíram. O facto de ele as ter filmado parece confirmá-lo. Talvez ele tenha uma veia de artista... gosta das formas femininas... pré e pós-puberdade. Muitos de nós gostam, Chefe.

 

Está a dizer-me que gosta de espreitar meninas, Gary? Butler encolheu os ombros.

 

Nenhuma das mulheres disse que ele tinha abusado das filhas, só que tinha feito vídeos delas.

 

Para as explorar. Aposto consigo que ele é um pedófilo. E aposto também que o Rogerson sabe disso.

 

Pois, mas não é o pedófilo que levou a Amy. Não se esqueça de que ele estava com outra pessoa enquanto estava em Maiorca. A Kimberley e o Barry disseram que ela saiu de casa, como de costume, na terça, na quarta e na quinta. Vai abrir um buraco ainda maior para si se não libertar o Rogerson agora. Ele disse-lhe que ela não estava com o Townsend, e arranca-lhe a pele se ela aparecer morta na outra ponta do país, enquanto o senhor está ocupado a persegui-lo a ele e ao cliente dele.

 

Vai arrancar à mesma. O Inspector esfregou a nuca, os olhos semicerrados enquanto pensava. Quem é o «Em», se não for «Ed»? De quem era o carro preto se não era o do Townsend? Quem era a miúda que viram a entrar, se não era a Amy? Por que é que ele regressou mais cedo? Por que não voltou a casa? Onde é que ele tem estado nas últimas vinte e quatro horas?

 

Uma pergunta melhor será por que é que ele levou a Franny Gough para Maiorca se tinha a Amy debaixo de olho? Não faz sentido... pelo menos para mim.

 

Tyler olhou através dele, perdido em pensamentos.

 

Talvez tê-la «debaixo de olho» esteja correcto disse ele depois.

 

Ele sabia onde ela estava, sabia que ela ainda lá estaria quando ele regressasse. Olhou novamente para o sargento. Ele precisa de um fornecimento constante de raparigas, se tiver um site de pornografia fez ele notar, e a Franny disse que a viagem foi espontânea.

 

Mas porquê ir até Maiorca? Por que não filmar a Franny no apartamento dela?

 

Mudança de estratégia? Não queria que a Sr.a Gough fosse a correr para a polícia, devido ao que a primeira mulher lhe contara?

 

Tiros no escuro, Chefe. O senhor não pode prender pessoas por mero instinto. O Super vai estar em cima de si antes que o senhor dê por isso. O Rogerson já está a barafustar lá nas celas. Fez uma pausa. Diga-me uma coisa, por que iria o Townsend pôr tudo em risco raptando a miúda? O que estaria a Amy a planear fazer que o forçou a deixar a Franny e a regressar a casa? Como é que ele descobriu o que ela estava a planear? Uma miúda não podia pagar uma chamada para um telemóvel em Espanha a partir de um telefone público. Não faz sentido. Há demasiadas falhas.

 

Tem alguma ideia melhor? exigiu Tyler de mau humor.

 

Temos uma criança desaparecida e um suspeito de pedofilia que a conhece intimamente. Ele também tem uma relação demasiado estranha e próxima com o pai... se pensarmos que ele seduziu a mulher do tipo. Não diria que vale a pena investigar?

 

Apenas viu cepticismo nos olhos do outro homem, e acenou irritado com a cabeça na direcção da porta. Faça-me isso, Gary. Se eu estiver errado, estou errado. Neste momento, estou-me pouco borrifando... desde que a miúda apareça viva. A verdade é que ela parece-me uma fedelha insolente, de quem eu não vou gostar se alguma vez a conhecer. Não gosto que estejam sempre a cantar e sempre a dançar. Gosto de crianças que sejam normais... um pouco tímidas... que gostem mais de estar com outros miúdos do que com adultos, mas nunca estive no lugar da Amy. Não deve ser muito divertido ter de implorar por amor.

 

Jardim do número 9 da Humbert Street

 

O velho soldado observava as atitudes estranhas do negro de onde estava. Nenhuma das vedações era alta o suficiente para esconder Jimmy, enquanto este se baixava e avançava. Interpretou o que via da pior forma. Havia apenas uma razão para um homem olhar para janelas enquanto se esgueirava pelas traseiras das casas, antes de se esconder atrás de uma árvore para avaliar uma das habitações. O preto estava a aproveitar a oportunidade do motim para entrar numa propriedade que parecia vazia.

 

A indignação do velho soldado em ser cúmplice involuntário de um crime era colossal. Será que o homem pensava que ele era estúpido? Ou cobarde? Será que ele estava convencido de que um reformado iria ignorar o facto de os seus vizinhos estarem a ser roubados?

 

Ao ver Jimmy saltar a vedação, ele inclinou-se para retirar a catana do poste onde estava espetada e partiu atrás dele.

 

No interior do número 23 da Humbert Street

 

Para Colin, que se esforçava por tentar agarrar a tranca de metal quente com a sua T-shirt, o som da porta da cozinha a ser arrombada foi a gota de água. O medo paralisou-o. Todos os horrores que ele imaginara estavam a tornar-se realidade. Estava preso numa ratoeira... não podia fugir... não podia esconder-se... e a única coisa em que pensava era que nada disto estaria a acontecer se não tivesse ajudado Kevin e Wesley a fazer bombas incendiárias.

 

No primeiro andar, Sophie e Nicholas imobilizaram-se quando o choque da porta a ser arrombada por baixo deles fez estremecer as tábuas do soalho onde se encontravam. Concentraram toda a sua energia em ouvir, as cabeças inclinadas para perceberem algum som que pudesse ser traduzido em significado. Diz-se que mil pensamentos podem atravessar o cérebro em segundos. Nas mentes deles, existia apenas um.

Quem...?

 

A parte de trás da cabeça de Sophie embateu na parede antes mesmo de ela perceber que duas mãos fortes lhe tinham agarrado os tornozelos e puxado os pés. Ficou com a impressão confusa de uma cadeira a ser balançada na direcção do rosto de Nicholas, antes de se sentir ser arrastada para o meio do quarto e da mão imunda de Franek se alojar sobre a sua boca para abafar o grito que se estava a formar na sua garganta.

 

Ergueu o olhar para ele, os olhos grandes e redondos.

 

Ele baixou a boca até ao ouvido dela.

 

Queres que Franek te foda agora, pequenina? murmurou ele.

 

Jimmy ficou alarmado com as torneiras a correr e com os recipientes a transbordar que se encontravam no lava-louças. Não tentou perceber qual seria o seu uso, aceitou apenas que significavam que alguém estava por perto. Encolheu-se contra a parede ao lado da porta e tentou acalmar a respiração. Ouviu sons que vinham do andar de cima. Algo pesado a cair no chão. Madeira a arrastar sobre madeira, como se fosse mobília a ser movida. Os sons da Humbert Street chegaram até ele como se algures uma porta ou uma janela estivesse aberta. Chegou também o cheiro de madeira a arder e de gasolina.

 

Olhou novamente para as torneiras, somando dois mais dois. Bombas incendiárias. Água a correr. Não era difícil adivinhar que alguém estava a tentar apagar um fogo, nem que quem quer que fosse o tinha ouvido. Mas qual dos Hollis seria? O psicopata ou o tarado? E estariam à sua espera no corredor?

 

Num movimento fluido, ele puxou a mesa do meio da cozinha, escancarou a porta com um pontapé e agarrou no microondas com ambas as mãos, pronto para lançá-lo à cabeça de quem quer que ali estivesse fora.

 

Foi recebido com um urro de medo, que foi interrompido a meio.

 

Oh, Jimmy, foda-se gritou Colin, enquanto começava a chorar novamente. Pregaste-me um cagaço do caraças! Pensei que fosse

 

o tarado que vinha aí violar-me.

 

Tal era a reputação de Colin como ladrão que a primeira coisa em que Jimmy pensou foi que ele estivesse a assaltar a casa, até que viu o balde aos pés do rapaz. Pousou o microondas no chão e caminhou lentamente pelo quarto das traseiras e pelas escadas, olhando rapidamente para ambos como Colin fizera. Ficou com uma visão livre do quarto da frente, viu a devastação causada pelos tijolos, observou a janela partida e a multidão expectante no exterior.

 

O que se passa? perguntou, agarrando o rapaz pelos ombros e abraçando-o.

 

’Tá toda a gente doida chorou Colin. A merda da porta está a arder mas a chaleira não funciona. Limpou as lágrimas à manga. A Mel ’tá do outro lado, a tentar fazer com que eles não piorem as coisas, mas está a ser forçada a afastar-se porque ’tá muito quente. Eu ia abrir a porta e vazar água lá p’ra cima, mas ’tou cheio de medo c’o Wesley me mande uma bomba p’ra cima. O Kev já ardeu com’uma fogueira... metade da pele derreteu.

 

Jimmy tentou perceber o mais possível do relato.

 

Como é que entraste?

 

Pela janela.

 

  1. Ele não perdeu tempo com mais explicações. Eles já tinham incendiado a sala se quisessem fazer isso disse ele. Abre a porta. Eu trato do balde. Sentes-te capaz disso?

 

Sim.

 

Jimmy agarrou a asa do balde.

 

Mas não abras muito avisou ele, ou ficamos os dois torrados. Preparado? Vai.

 

Contudo, assim que a porta começou a abrir e as chamas lamberam a ombreira, ele percebeu que o fogo era demasiado intenso para um balde de água. Fechou-a outra vez com um pontapé e lançou a água contra a fenda entre a porta e a armação.

 

É tarde de mais reconheceu ele. Não vamos ser capazes de o apagar deste lado.

 

Colin começou a chorar novamente.

 

Oh, meu Deus, meu Deus! Que vamos fazer? S’a casa for pelos ares a da Mel também vai... e a Rosie e o Ben ’tão lá dentro. É por isso qu’ela tá a tentar c’os cabrões parem de mandar mais bombas.

 

Jimmy pensou rapidamente e depois levou-o para a sala de estar. Vai lá para fora e eu dou-te baldes pela janela. A Mel e a linha dela que te ajudem. Quando o fogo estiver apagado, diz-lhes para ficarem à frente da porta e da janela até eu fazer sinal que podem ir. Levou a mão à nuca de Colin e apertou-a encorajadoramente. És capaz, amigo?

 

Claro. Ele estava tão aliviado por Jimmy estar a controlar as coisas que não lhe ocorreu perguntar o que ele ali estava a fazer ou como sabia que Melanie criara uma linha em frente da casa do pervertido.

 

Centro de comando imagens do helicóptero da polícia

 

Os rostos não eram reconhecíveis do ar, mas o cabelo e as roupas eram. Os vândalos do recinto comercial tiveram o bom senso de usar bonés e de se livrarem das roupas imediatamente após o motim. Quem estava nas barricadas usava balaclavas e lenços e fez o mesmo. Nunca se identificou ninguém.

 

Mas as imagens de vídeo do que se passava na Humbert Street eram diferentes. Poucos acreditavam que o «vigilantismo» fosse um crime, e o helicóptero que sobrevoava o local atraía rostos e gestos de desafio, como que a dizer: é assim que a justiça deve ser administrada. Fora com os pervertidos. As regras são as mesmas para o Bairro Ácido e para Portisfield. Olho por olho. Dente por dente. Medo por medo.

 

Apesar de posteriormente negarem que lá tivessem estado, tivessem participado ou incitado ao assassinato, mais de cem pessoas foram identificadas através de fotografias reproduzidas a partir da gravação. Foi um exercício longo e duro, que levou mais de dois anos a completar, mas que acabou por não dar em nada, quando um jurado não reconheceu o primeiro réu a ser julgado, a partir da máscara de ódio a preto e branco granuloso que lhe foi apresentada. No julgamento, não havia qualquer semelhança entre o jovem limpo, bem-vestido e sorridente de dezoito anos no banco dos réus e o adolescente de ar maligno na imagem. Todos os casos seguintes foram anulados.

 

No fim, as únicas pessoas que admitiram ter tomado parte no que aconteceu foram as poucas corajosas que formavam a linha de Melanie Patterson. Tudo o que fizeram foi captado pela câmara do helicóptero, desde manterem afastados os lançadores de bombas incendiárias até apagarem o fogo e tentarem impedir o assalto, quando finalmente este aconteceu. Mas nenhuma delas apresentou provas directas contra indivíduos em particular. Tinham demasiado medo da violenta cultura de vingança dos bandos do Bairro Ácido.

 

A única excepção a este facto foi Wesley Barber.

 

Todos o nomearam.

 

Sábado, 28 de Julho de 2001 no interior do número 23 da Humbert Street

 

JIMMY FICAVA DE ouvidos abertos sempre que regressava à cozinha para encher o balde e as taças. Uma vez ouviu-se uma pancada abafada, como se a cabeça de alguém tivesse batido no chão; de outra vez, ele julgou ouvir vozes. No rés-do-chão, de certeza não havia ninguém. Na sua passagem para a sala de estar, ele escancarou a porta do quarto das traseiras e um reconhecimento rápido mostrou que estava vazio de pessoas.

 

Estava cheio de outras coisas. Uma caverna de Aladino de equipamento sonoro e de instrumentos musicais. Computadores. Sintetizadores. Mesas de mistura. Amplificadores. Teclado. Guitarras. Bateria. Até um saxofone. Para um homem como Jimmy, a tentação era forte. Um estúdio em potencial. Tudo de que ele precisava para se tornar honesto. Influenciou o seu pensamento a partir do momento em que o viu. Não queria que fosse destruído ou roubado. Queria-o para si próprio.

 

Na sua terceira viagem pela divisão, ele investigou a fechadura e descobriu uma chave na parte de dentro da porta. Demorou meio segundo a trancar a porta e a introduzir a chave no bolso. Não serviria de muito se os idiotas lá fora decidissem arrombá-la, mas poderia aguentar tempo suficiente para ele a arrombar e reivindicar o conteúdo para si.

 

Mais tarde, é claro, arrependeu-se de ter trancado a porta, pois eliminou o único esconderijo naquela malfadada casa.

 

Mas em retrospectiva é fácil ser-se prudente...

 

Sophie ficara mais arrojada à medida que a tarde ia avançando. Se Franek a conseguisse agarrar outra vez, ela dissera a si própria que lhe arrancaria os olhos com as unhas, que lhe daria uma joelhada nos testículos, morderia, arranharia, aleijaria. Certamente não iria desistir. Era melhor lutar até ao seu triste fim do que deixá-lo pensar que uma mulher era algo fácil. Que pensamentos tão corajosos. Retirados da ficção, não da vida real. Concebidos para aumentar a sua confiança enquanto estava de pé e segurava uma arma nas mãos. Impossíveis de implementar deitada de costas no chão.

 

Parecia uma borboleta pregada a um quadro, incapaz de se libertar. O peso do corpo dele mantinha-a naquela posição, as mãos dele prendendo as dela ao chão sobre a sua cabeça, os peitos carnudos e os cabelos encaracolados do peito dele abafando-lhe a boca e o nariz e impedindo-a de gritar. Ele tresandava a sujidade e a suor, e ela sentia a bílis do nojo e da derrota a chegar-lhe à garganta, ameaçando sufocá-la. Não conseguia dizer se fora o seu medo ou a força dele que lhe haviam roubado a energia. Apenas sabia que, se não queria ser novamente esmurrada, o mais acertado a fazer seria ficar deitada quieta e não o provocar.

 

Ele riu-se junto ao ouvido dela.

 

Tu gostas do resto regozijou-se ele. Preferes que Franek te foda do que te estrague a carinha linda. Mas talvez faço as duas coisas. Como te vais sentir então, menina? Feia? Suja? Vais fugir e esconder porque Franek te assusta? Isto é bom. Tu não respeitas um homem como deves respeitar.

 

Ela sentiu as suas mãos a serem aproximadas, para que ele as pudesse agarrar apenas com uma. Sentiu a outra mão dele descer até às suas calças e abri-las. E entretanto ia ouvindo alguém a deslocar-se no rés-do-chão. Seria Nicholas?, pensou ela. Será que ele se fora embora, deixando-a para o seu pai? Será que ele pensava que se não estivesse no quarto a sua responsabilidade seria menor?

 

Lágrimas de raiva ameaçaram brotar. Ela odiava profundamente o filho. Ele era um cobarde. Um cretino de duas caras. Por que a ouvira se não fazia tenção de a apoiar? Como se atrevia ele a abandoná-la? Como se atrevia ele a deixar que o pai despejasse a sua imundície para dentro dela?

 

Mais tarde, ela ponderaria sobre a ironia da raiva mal direccionada. Ela uma vez descarregara em cima de Bob por um paciente ter sido mal-educado mas, em vez de enfrentar o paciente, ela levara a sua fúria para Bob. Ele esperara calmamente que a tempestade se extinguisse por si própria, e depois murmurou que se ela planeava fazer da transferência de raiva um hábito, então devia começar a treinar boxe.

 

Todos sabemos que é mais seguro descarregar em cima das pessoas que não ripostam afirmara ele, mas essa é uma forma rápida de perder amigos. Tens de descobrir formas de lidar com a confrontação quando esta acontece.

 

Prefiro evitá-la.

 

Eu sei. É uma coisa de mulher. Tens medo de te fazer passar por tola.

 

Talvez o seu subconsciente se recordasse da conversa. Talvez, mais simplesmente, a realidade da mão perscrutadora de Franek tivesse rasgado a apatia e reanimado a determinação. Ela prometera a si própria que não iria submeter-se.

 

Mas o que seria isto que não submissão?

 

Ela virou o rosto para o lado e gritou um som penetrante e agudo que chegou a Jimmy, no rés-do-chão interrompido por um súbito golpe no rosto, quando Franek lhe largou as mãos e a esmurrou nos dentes.

 

Cala-te, puta rosnou ele, o rosto contorcido pela fúria, sangue a escorrer onde as unhas dela tinham arrancado as crostas das feridas. Queres que Franek faça o que fez à mamã do Milosz?

 

Ele ia batendo no rosto dela com o punho, uma e outra vez, como se ela fosse um pedaço de carne que precisasse de ser amaciado e, quando a consciência começou a desaparecer, ela percebeu que a mãe de Milosz estava morta.

 

Jimmy ouviu o grito enquanto transportava o balde pela soleira, o peito ardendo com o esforço de ir e vir a correr da cozinha.

 

Este tem de ser o último, Gol arfou ele. Tens de tomar conta das coisas. Quero que mantenhas aqueles sacanas afastados por, mais cinco minutos. Achas que consegues aguentar tanto tempo?

 

Colin ficou desconsolado.

 

O que vais fazer?

 

Tu não queres saber, amigo. Confia em mim, OK? Olhou por cima do rapaz para Melanie, que estava a reorganizar a sua linha perante ’ uma chuva de insultos de Wesley Barber e dos amigos. Ele permanecera em grande medida escondido da multidão pelo corpo de Colin, mas espalhara-se que um negro estava dentro da casa do pervertido. Os insultos tinham sido intermináveis enquanto eles se esforçavam para apagar o fogo. É o teu homem que está lá dentro, Mel...? O que é que está um irmão a fazer com os tarados...? Como é que deixaste que ele te metesse um bastardo preto na barriga se ele é um tarado...? Talvez tu também gostes de tarados...?

 

Afasta o atrasado mental de mim disse ele com um tom sombrio, porque eu arranco-lhe a cabeça se ele se aproximar de mim. Consegues fazer isso?

 

Colin parecia em pânico.

 

O que é que acontece se não conseguir?

 

Tranca-te com a Mel em casa com os miúdos. Venho buscá-los assim que puder. Deu uma palmada na palma da mão do rapaz. És um puto porreiro, Gol. Tens mais tomates e miolos do que aquele preto alguma vez vai ter.

 

Jardim do número 21a da Humbert Street

 

O velho soldado ouviu o grito de Sophie da sua posição na sombra da macieira mas, tendo apenas uma vaga ideia da razão para o motim no Bairro Ácido Andaram a mudar maricas para a Humbert Street ele partiu do princípio de que o negro era o responsável pelo terror da mulher. Ele não gostava de homossexuais, tal como outro homem qualquer, mas, disso ele tinha a certeza, eles não usavam mulheres nas suas práticas perversas.

 

Mas os selvagens usavam. Nenhuma mulher branca estava segura com um escarumba à solta. Trepou a vedação e agarrou na catana com as duas mãos enquanto se esgueirava até à porta da cozinha. Esta balançava incerta nas dobradiças, por ter sido arrombada por Jimmy, e era prova, se é que o idoso precisava dela, de que um homem forte estava dentro da casa.

 

No interior do número 23 da Humbert Street

 

Apesar do seu vulto, Jimmy subiu silenciosamente as escadas, as costas encostadas à parede, atento a qualquer movimento no patamar. A casa era uma réplica exacta da casa da Sr.a Carthew, com todas as portas abertas, excepto a do quarto das traseiras. Deslizou em redor do corrimão e agarrou a maçaneta com os dedos carnudos, tentando ouvir algum som.

 

Ouviu a voz de um homem, mas não percebeu o que ele estava a dizer. Era um trauteio. Suave e doce e lírico, numa língua que ele não compreendia. Girou a maçaneta e fez um pouco de pressão na porta, mas esta estava trancada e não se moveu. Praguejou sob a respiração. O que fazer? Dizer que estava ali e perder tempo com explicações? Ou arrombar outra porta?

 

Sentia o ombro estava dorido devido ao último esforço e não havia muito espaço na área apertada do patamar, mas o som do grito da mulher ainda ecoava na sua cabeça e ele não via que outra opção tinha, a não ser surpreendê-los. Como prova disso, ouviu-se uma repentina agitação no quarto, sapatos a rasparem no chão, uma peça de mobiliário a deslocar-se, como se um pé a tivesse empurrado, uma voz de mulher, abafada por uma mão, a dizer:

 

Não... não... não...! a pancada revoltante de um punho a bater em tecido macio. E depois outra vez o trauteio.

 

Ah, meu Deus do Céu!

 

Ergueu uma bota e, usando o balaústre como apoio, bateu com o calcanhar directamente na fechadura. Foram precisas cinco pancadas até que o encaixe se soltasse da ombreira, e apenas o suficiente para que a porta se encontrasse logo a seguir com uma obstrução. Exausto, Jimmy baixou a cabeça, e depois, respirando fundo, encostou o ombro ao painel e usou os seus cento e quinze quilos para mover a porta e o que quer que estivesse atrás dela.

 

Número 9 da Humbert Street

 

Foi com alívio que Gaynor ouviu dizer que estavam a abrir saídas ao longo de toda a Humbert Street. Embora na altura não o soubesse, a história de como a «Chamada para a Amizade» usou a sua rede para recrutar filhos, filhas, sobrinhas, sobrinhos e amigos que abrissem passagens para os jardins de ambos os lados transformou-se no aspecto positivo do terrível trauma do motim de Julho. Falava de um sentido de comunidade que perdurava até na mais fracturada das sociedades, e lançava uma semente de esperança para o futuro.

 

Na altura, como ninguém lhe dissera o contrário, Gaynor partiu do princípio de que Jimmy fora o responsável.

 

Eu disse que ele era um bom rapaz disse ela a Ken Hewitt quando ele lhe transmitiu as novidades. Então, vai deixar-me ir à procura da Mel e do Gol? Estou muito preocupada com eles. Já quase não tenho bateria, e acho que o pessoal que aqui está já percebeu o que tem de fazer. Há já muito tempo que ninguém se empurra uns aos outros.

 

Achamos que sabemos onde está a Melanie anunciou ele, repetindo a informação do helicóptero. O Jimmy disse que a descrição da rapariga loura parecia condizer com a Melanie. Também há um rapaz na linha. De mão dada com ela. A usar uma T-shirt dos Saints e calças de ganga azuis. Será o Colin?

 

Oh, graças a Deus, graças a Deus disse ela, a voz transformando-se num soluço. Eles estão bem?

 

Creio que sim assentiu Ken. Um dos agentes que tem estado a acompanhar as imagens tem-me mantido informado e, segundo as últimas informações, eles estavam a apagar um fogo no número 23, para impedir que se espalhasse. Eles são uns miúdos corajosos, Gaynor. Deve ficar orgulhosa deles.

 

Ela soltou uma gargalhada alegre, como se lhe tivessem retirado um peso dos ombros.

 

Eles são os meus bebés, querido. É claro que estou orgulhosa deles. Sempre tive orgulho neles. E então, onde está o Jimmy? Está com eles?

 

Houve uma pequena hesitação.

 

De momento não temos certeza. O telemóvel dele está desligado, por isso não conseguimos falar com ele.

 

E os pequenos? Onde estão eles?

 

Está a falar dos filhos da Melanie?

 

Pois. A Rosie e o Ben. Estavam com ela quando começámos a manifestação.

 

Não sabemos. Não estão com ela, por isso pensamos que ela os deve ter levado para casa. As coisas estão um bocado duras, onde eles estão, Gaynor.

 

De imediato, a preocupação assumiu novamente o controlo.

 

Oh, meu Deus! Ela olhou rua acima, mas não conseguiu ver nada através da multidão que ainda atravancava o alcatrão. O que se passa? Você disse qualquer coisa acerca de um fogo.

 

Alguns rapazes estão a tentar deitar fogo à casa com bombas incendiárias. Os seus filhos estão em frente da casa para os impedirem afirmou ele. Eu disse que eles eram corajosos, Gaynor.

 

Seguiu-se um longo período de silêncio.

 

Eu já devia saber que aquele sacana não estava a brincar disse ela, como se falasse consigo própria, antes de cortar a ligação.

 

No interior do número 23 da Humbert Street

 

Havia sangue no soalho e em gotas salpicadas pela parede. A sua visão fez regressar a náusea que Jimmy sentira no elevador da Torre Residencial. Isso, e o calor e cheiro terríveis do quarto. Odor corporal e o bafio da falta de uso. Pelo canto do olho, ele podia ver algo humano caído a um canto, mas toda a sua atenção estava centrada no homem e na mulher que estavam à sua frente, do outro lado do quarto.

 

Demorara tempo de mais, pensou. Demasiado tempo a ajudar a apagar o fogo. Demasiado tempo a arrombar a porta.

 

A mulher estava no colo do homem, como se fosse o boneco de um ventríloquo, os olhos fechados, o rosto espancado como ele não julgava ser possível, o queixo e o peito cobertos de sangue. Jimmy nem sequer conseguia ver se ela estava viva, salvo pelo sangue e pela saliva que borbulhavam dos lábios como ectoplasma. Ela devia ter lutado como uma tigresa. O rosto do velho estava arranhado e esgatanhado como se garras de cinco centímetros se tivessem enganchado na sua pele e a tivessem rasgado.

 

Achas que mato ela? Franek colocou uma mão sob o maxilar frouxo de Sophie e a outra em redor da nuca dela. Parto o pescoço dela se fazes um movimento. Ela fica viva se afastares os teus amigos até polícias chegar.

 

Jimmy não mexeu um músculo. Queria dizer alguma coisa, mas as únicas palavras que se formavam na sua mente eram obscenidades e recriminações. Ele não tinha avisado a merda do médico? Lembrava-se de o ter dito. Qual é a diferença entre um homem e mil? Você tem ali um cabrão tarado que a vai matar se eu fizer merda. Ele tinha-o dito, foda-se. Deus do Céu! Até a merda de um atrasado mental devia ter previsto que esta merda ia acontecer.

 

Percebes, preto? Ou és muito estúpido? exigiu Franek com irritação, perturbado pela boca aberta do homem e pelo ar de incompreensão estampado no rosto. Mato-a se te aproximas.

 

Jimmy viu uma frecha de prata surgir entre as pálpebras de Sophie. Lançou um breve olhar à figura caída no canto.

 

Percebo disse, com a voz rouca pela secura. Satisfeito, Franek aquiesceu.

 

Tu fica assustado indicou ele. Assim ela fica viva. Jimmy fez o que Sophie fizera várias vezes, percorreu o interior da boca com a língua para a descolar dos dentes.

 

O senhor é um homem morto se não vier comigo, Sr. Hollis disse ele.

 

Um lampejo de humor brilhou nos olhos do homem, como se tivesse visto uma ameaça e esta o divertisse.

 

A rapariga morta se tentas levar-me.

 

Não, o senhor não está a perceber. Injectou urgência na sua voz. Existem barricadas à volta do bairro e a polícia não consegue entrar. Há um motim no bairro todo. Há tipos na rua que o querem queimar vivo com bombas feitas com gasolina. Concordei em levá-lo a si e ao seu filho pelas traseiras, até à polícia no muro de perímetro. Tem cerca de trinta segundos para se decidir.

 

Mais divertimento.

 

Achas que Franek acredita nisso? Achas que Franek é tolo?

 

As pálpebras de Sophie começaram a estremecer com o regresso da consciência.

 

Pois disse Jimmy irreflectidamente, desejando poder arrancar o sorriso da cara dele. Ainda nunca encontrei um cabrão de um tarado que tivesse cérebro. São todos uma merda duns atrasados mentais. Qual é o gozo de rebentar com os dentes duma mulher? Qualquer monte de esterco é capaz de fazer isso.

 

Franek estreitou o aperto no pescoço de Sophie quando esta se começou a mexer.

 

Nós ficamos disse ele. Tu guardas a porta. Guardas a nós. Foi a vez de Jimmy sorrir.

 

Eles vão fritá-lo, Sr. Hollis. Tem miolos suficientes para perceber isso? Eu ficar aqui não vai fazer a mais pequena diferença, pois a única saída vai ser pela janela, e há gajos com facas à espera lá em baixo. Eles não gostam de tarados, e estão completamente pedrados. Vão cortá-lo às postas assim que olharem para si.

 

O olhar de Franek nunca fraquejou, mas não era claro para Jimmy se a razão dessa imperturbabilidade era falta de medo ou falta de compreensão. Não era possível que ele não ouvisse os gritos que vinham do exterior, os quais se haviam tornado mais altos e mais persistentes desde que a porta do quarto fora aberta. Jimmy conseguia distinguir Wesley Barber por sobre todos os outros, e isso preocupava-o, pois imaginava que Wesley se estivesse a aproximar da janela estilhaçada do rés-do-chão.

 

Tira o mano dali, Mel, ou a gente frita-o também...

 

Estás a chamar nomes feios ao homem errado, preto. Perguntas se o filho é doente? Perguntas se o filho faz isto? Não, cospes no papá e dizes que ele é culpado. Olhou para Jimmy com desprezo. Mas sou eu, Franek, que não faz nada mau e eu, Franek, que faz o que pode para manter a vida.

 

Ele nunca se vai culpar a ele próprio... Jimmy olhou novamente para o corpo ao canto.

 

Aquele é o seu filho? Ele está morto?

 

Bati-lhe com uma cadeira para longe da rapariga. Ainda não voltou a mexer.

 

Pois, bem, pode guardar essa ladainha toda para a bófia, Sr. Hollis. Não me consegue convencer de que as suas mãos estão limpas. Você tem de ser um tarado muito doente se está disposto a torcer o pescoço a uma mulher.

 

Não me dás hipótese. Sem a ameaça, não ouvias. Mas Franek não é quem queres. É Milosz que causa estes problemas. Milosz que faz coisas más. Os olhos do velho estreitaram-se à medida que a expressão de Jimmy se foi alterando. Por que estás assim? exigiu ele. O que estás a pensar?

 

Disseram-me que o seu nome é Hollis.

 

E?

 

É Zelowski, não é?

 

Que diferença faz um nome?

 

Jimmy formou punhos ao lado do corpo. Agora ele sabia porque existia um estúdio no rés-do-chão.

 

Uma diferença do caraças. Deus do Céu! Eu sei o que você fez. Não admira que o seu filho se mije sempre que a porta se abre. Você abusou de um miúdo de cinco anos, seu filho da puta.

 

Isso é mentiras.

 

Não me lixe! ripostou ele, furioso. Eu conheci o seu filho na prisão. Eu gostava dele. Milosz Zelowski. O melhor músico que eu já vi. A sua voz subiu de tom com a fúria. Eles partiram-lhe os dedos porque ouviram dizer que fazia trabalhos de mão, e só há um cabrão que lhe podia ter ensinado a fazer isso. Você saiume uma bela peça. Um corajoso do caraças quando são miúdos e mulheres. Cuspiu para o chão. Não tem tomates para se meter com homens.

 

O som da sua voz alterada fez que os olhos de Sophie se abrissem. O rosto dela estava voltado para Jimmy, mas ele não conseguia dizer se existia alguma compreensão neles, a não ser que estava quieta, aparentemente consciente de que qualquer movimento poderia ser perigoso. Ela fitava-o sem piscar, e ele teve a impressão de que ela estava a tentar dizer-lhe alguma coisa. Mas ele não sabia o que era.

 

Franek não estava impressionado.

 

Isso é para lutar comigo, sim? Achas que é fácil fazer Franek esquecer por que tem este bonito pescoço branco entre as mãos?

 

Se o torcer, sou eu que o mando pela janela.

 

Os olhos do velho brilharam novamente de divertimento.

 

Talvez eu não me importe. Talvez eu o faça à mesma. Talvez eu diga, vamos ver se um preto diz a verdade uma vez na vida. Observou vorazmente o rosto de Jimmy. Ah! exclamou ele, triunfante. Agora já não estás tão interessado em lutar. Talvez leves mensagens para Franek. Fazes com que os teus amigos vão para casa, para as jaulas deles. Dizes a eles que se Franek a salvo, rapariga a salvo. Vai. Faz o que Franek diz esticou um dedo para acariciar a face de Sophie, e a menina vive. Discute mais, e ela não vive.

 

Os olhos de Sophie escancararam-se de imediato, e desta vez a mensagem era clara. Não me deixe aqui. Ela estava mais alerta do que parecia, pensou Jimmy.

 

Ele já calculara que não seria capaz de atravessar a distância que os separava antes de Franek fazer girar as mãos. Podia arriscar que Sophie atacasse quando ele iniciasse a sua acção, ou que Franek não tivesse experiência suficiente para conseguir o que queria à primeira. Mas o risco era demasiado grande. Ele não tinha cartas porque não queria que ela morresse. Franek tinha as cartas todas.

 

Eles não me vão ouvir avisou ele.

 

Não discutas.

 

Eu sou preto e os pretos não são bem-vindos no Bairro Ácido. Fez um gesto com a cabeça na direcção da porta. Escute! Eles estão a dizer que me vão queimar também, só porque sou negro.

 

Desta vez um lampejo de dúvida tremeluziu no olhar de Franek. Não era provável que ele conseguisse perceber palavras individuais por entre os gritos, mas os sentimentos que Jimmy expressou eram idênticos à sua própria forma de ver os negros, por isso acreditou nele.

 

Jimmy acenou na direcção de Sophie.

 

A ela eles vão ouvir. Ela é médica deles. Se a levarmos até ao quarto da frente, ela pode falar com eles pela janela.

 

Franek abanou a cabeça obstinadamente.

 

Dá-te hipótese de a levares de mim. Vai. Faz o que eu digo. Talvez eles ouçam mais que pensas.

 

A raiva de Jimmy atingiu o seu limite. Ele não tinha tempo nem paciência para negociar, nem a predisposição mental que permitiria que um homem como aquele pensasse que ele aceitaria ordens placidamente. Bateu com o punho no roupeiro.

 

Ouve, filho da puta rugiu ele. Já estou farto de ti. É melhor acreditares que eu sou o único sacana nesta rua que não te quer matar. Tens uma hipótese de salvar a merda da tua vida, e é comigo. Vou entrar para ir buscar o Milosz, por isso larga a senhora e levanta esse teu eu gordo do chão.

 

Talvez Sophie esperasse um ultimato como este, talvez tivesse sentido a mão no seu maxilar ser afrouxada, pois deu um safanão súbito e esgueirou-se da prisão de Franek, gatinhando até Jimmy. Ele foi meio segundo mais lento a partir do que ela, mas mesmo assim conseguia ser muito mais rápido do que um homem de setenta e um anos de idade.

 

Apanhei-a disse ele, erguendo-a pela cintura e girando-a para a colocar atrás de si. Baixou a cabeça e abriu os braços, pronto para o confronto. E que tal, filho da puta? escarneceu ele. Queres tentar a sorte contra um preto?

 

Não confie nele disse a voz arrastada de Sophie atrás dele. Ele é louco. Acho que ele matou a mulher. Ele mata-o, se conseguir.

 

Franek deu uma risadinha.

 

Ela diz disparates disse ele. Ela rapariga muito estúpida. Blá-blá o tempo todo. Agora cumpre a promessa. Faz com que Franek fique vivo, como disseste.

 

Jimmy endireitou-se e deixou cair as mãos ao lado do corpo de forma convidativa.

 

Claro, chefe, mas não saio daqui sem o Milosz. Deu um passo na direcção do corpo enrolado do seu amigo, ouviu o grito angustiado de Sophie quando Franek saltou na direcção dele e plantou o punho no lado da cabeça do velho. É como eu disse murmurou ele, enquanto esfregava os nós dos dedos, até agora nunca conheci um tarado que tivesse miolos.

 

Sábado, 28 de Julho de 2001 no exterior do número 23 da Humbert Street

 

MELANIE INTERROGOU-SE SOBRE qual a razão por que Wesley e os seus amigos não os empurravam dali, simplesmente. Tudo o que tinham de fazer era arremeter contra a linha e entrariam pela janela, rápido como um piscar de olhos. Era estranho. Quase como se soubessem que Mel e Gol estavam correctos e eles errados. De uma forma exausta e abstracta, ela reproduziu os filmes da Guerra das Estrelas na sua mente, imaginando-se como a Princesa Leia e Gol como Luke Skywalker. Irmão e irmã cavaleiros Jedi. A força estava com eles.

 

Sentiu Colin abanar-lhe o braço.

 

Vais desmaiar? perguntou ele, alarmado.

 

Não, eu ’tou bem.

 

Ela não acreditava no Bem e no Mal. Apenas em gentileza quando nos apetecia; e idiotice quando estávamos pedrados. Por isso, talvez tenha sido a senhora negra ao seu lado, que estava sempre a dizer a Wesley que a mãe dele lhe ia dar cabo do canastro, que os manteve afastados. Ou o helicóptero, a pairar por cima deles. Ou os amigos dele, que também eram os amigos de Colin. Wesley era um atrasado mental, não havia ponta por onde lhe pegar. Pedrado com ácido. A dizer-lhe que ia fatiar as gónadas de Jimy quando o visse outra vez.

 

Bem, quem se importava com isso? O que tinha Jimmy alguma vez feito por ela, a não ser ter dado ao rabo e tê-la deixado sozinha com o filho dele? Ele não tinha vindo à manifestação... não estava lá para tomar conta dos miúdos quando ela precisava dele. Onde estava ele agora? A limpar a casa dos tarados dissera Gol. Há uma fortuna em aparelhagens no quarto das traseiras. Cabrão do caraças. Ele sempre pensara mais em dinheiro do que nela.

 

Colin agarrou-lhe outra vez no braço.

 

Bolas, Mel. De certeza que estás bem? Estás a balançar para um lado e para o outro, mana.

 

Os olhos esgotados dela encheram-se de lágrimas.

 

Acho que o Jimmy já não me ama, Gol. Onde é que ele tem estado este tempo todo? Por que é que ele não atendeu o telefone? Achas que ele anda metido com outra?

 

É claro que não. É só que ele tinha umas coisas p’ra fazer.

 

Que coisas? O que é que é mais importante do que eu e o bebé?

 

Coisas disse Colin, incerto. Mas também ele se sentia atormentado pela dúvida. Ele não podia acreditar que Jimmy pusesse aparelhagens à frente dele e de Mel. Eles eram família para ele, e toda a gente sabia que não se abandona a família.

 

No interior do número 23 da Humbert Street

 

Jimmy usou uma gravata do roupeiro para manietar as mãos de Franek à frente dele, antes de lhe dar um estalo para o acordar e de o pôr

de pé. Vamos embora disse-lhe. Vou levar o Milosz. Podes ficar ou podes vir embora. Se vieres, fazes o que te mandarem. Um movimento em falso e dou-te aos doidos. Capish? Desata-me.

 

Não. És um tarado do caraças e eu não confio em ti. Arrastou Milosz para o centro do quarto e depois ajoelhou-se para içar o corpo inanimado sobre o ombro, como se fosse um bombeiro a carregar alguém. Durante o processo não tirou os olhos de Franek. É contigo. Ou nos segues ou morres. Não vou voltar atrás por ti, e não te vou ajudar. Cometes um erro... alguém repara em ti... desapareço com o Milosz e com a Sophie. Percebeste?

 

Franek começou a respirar com dificuldade.

 

Pões-me em perigo com as mãos atadas.

 

Eu sei. É tramado, não é? Jimmy dirigiu-se para a porta, colocando a mão atrás de Sophie para a apressar. Aposto que foi isso que as prostitutas disseram antes de lhes dares um enxerto de porrada.

 

O velho soldado afastou-se apressadamente do fundo das escadas quando ouviu os passos arrastados de Sophie e o caminhar mais pesado de Jimmy no patamar. Ele ouvira vozes no quarto de cima, mas não fora capaz de perceber as palavras contra a agitação do exterior. Ele era idoso e estava desorientado e, como admitia plenamente para si próprio, extremamente assustado. Não percebera como era vasta a multidão na Humbert Street, nem como parecia furiosa.

 

Em ocasiões anteriores em que tinham surgido problemas embora nunca a tal escala estes eram invariavelmente a resposta ao tratamento duro da polícia. O Bairro Ácido albergava fortes ressentimentos contra as forças da lei, acreditando que era o escolhido para o tratamento brutal. Tinham existido batalhas em várias ocasiões, após líderes de bandos terem sido espancados com cassetetes, por a polícia afirmar que tinham resistido à voz de prisão. Tal como a maioria dos habitantes mais velhos do bairro, o soldado sempre acreditou na versão policial, mas agora ocorria-lhe que algo de muito mau deveria ter acontecido, para um número tão grande de pessoas se rebelar.

 

Arrependia-se de ter seguido o negro até uma armadilha. Fora o orgulho que o levara ali. A determinação em provar que ainda era um homem com quem se podia contar. Amaldiçoou-se pela sua própria estupidez. A sua esposa sempre gostara de dizer que ele perdera qualquer bom senso com que tinha nascido quando envergou a farda do Rei. Ter andado a passear uma arma nas selvas de Bornéu, dizia ela mal-humorada, não lhe conferia o direito de dar sermões a toda a gente pelos erros cometidos. Combater nunca levara a nada, a não ser à morte dos filhos de outras mulheres. Fora a causa de todas as discussões entre eles, pois ele não suportava que menosprezassem a sua única verdadeira conquista na vida.

 

Olhou desesperadamente em seu redor em busca de um esconderijo, mas não existia nenhum no corredor. O terror instalou-se no seu estômago como um rochedo. A porta para o quarto das traseiras estava trancada e ele não possuía velocidade suficiente para alcançar os jardins antes que o negro o apanhasse. Era Jimmy quem ele temia e o bando que estava com ele não os manifestantes na rua, que reconheceriam o «velho rezingão», que os repreendia todos os sábados à noite, por estarem bêbados e fazerem desordens perto da sua casa. Agarrando a catana junto ao peito, deslizou encostado à parede até ao quarto da frente e escondeu-se atrás da porta...

 

Jardins, Humbert Street

 

Gaynor decidiu não tentar ir contra a corrente da multidão, reconhecendo que todos os que não haviam aproveitado a oportunidade de fugir eram grandes e fortes o suficiente para se manterem firmes nos seus lugares. Em vez disso, ela correu pela casa da Sr.a Carthew e seguiu o percurso de Jimmy por trás das casas, pensando que, se estavam a abrir saídas ao longo da rua, ela poderia passar, evitar os amontoados e sair perto dos seus filhos.

 

As traseiras das casas apresentavam uma calma assustadora. Ela esperara que os jardins estivessem apinhados de pessoas assustadas e não percebia por que assim não era. Abrandou o passo. O som das pás do helicóptero no céu recordaram-na de que a polícia estava a observar tudo. Será que ela devia estar a fazer aquilo...?

 

Centro de comando imagens do helicóptero da polícia

 

A câmara de vídeo captou o rosto dela no jardim com a armação de trepar, enquanto aguardava a retirada de Jimmy do número 23. As instruções de Ken Hewitt tinham sido para confinarem as saídas ao lado da rua com os números pares, até que recebesse notícia de que Sophie e os Zelowskis tinham sido retirados. Houve um suspiro de alívio colectivo dos observadores quando emergiram três figuras, com o negro grande a transportar uma quarta ao ombro.

 

A lente seguiu-os enquanto se dirigiam à Bassindale Row, com Jimmy a deitar abaixo as vedações com uma bota certeira, e depois voltou a filmar a Humbert Street.

 

O que aconteceu ao tipo com o capacete? perguntou alguém.

 

Ninguém sabia.

 

Jardins, Humbert Street

 

Para Gaynor, três casas abaixo, Jimmy era inconfundível, a sair pela porta da cozinha. Por breves instantes, sentiu que conhecia a mulher ao lado dele, mas havia demasiado sangue no seu rosto para que pudesse ter a certeza. Ergueu a mão ao reconhecê-los, mas eles viraram à esquerda ao saírem pela porta, em direcção da Bassindale Row, e nem sequer olharam para ela.

 

Ela chamou:

 

JIMMY! mas ele estava ocupado a deitar abaixo as vedações e a correr para a seguinte, não a ouvindo.

 

Nem por um momento ela pensou que estava a observar o êxodo dos pedófilos. Mal pensara neles desde que o motim tivera início, salvo para se culpar por ter instigado a manifestação, e não sabia onde se encontrava em relação à pequena casa de Melanie, pois nunca antes tinha estado nos jardins. Apenas podia interpretar o que via de acordo com o que sabia, o que fez que esta fosse uma das saídas que Jimmy fora enviado para estabelecer.

 

Era óbvio que tinha havido um acidente. Ou algo pior. Outra bomba incendiária? Uma debandada? Era a única explicação para a pressa frenética de Jimmy, para o corpo sobre os ombros, para o sangue no rosto da mulher e para o homem idoso que os seguia, mantendo as mãos à sua frente como se estivesse ferido. Jimmy estava a evacuar os feridos.

 

O seu coração disparou com um receio imediato pelos seus filhos. Caminhou a medo, passando pela armação de trepar, esperando ver outras pessoas a saírem a correr atrás de Jimmy, mas tudo estava estranhamente sossegado. Ergueu o rosto outra vez para o helicóptero, protegendo os olhos do sol. Que raios estava a acontecer? Onde estava toda a gente?

 

Jimmy pousou Milosz no chão, atrás da vedação de um metro e oitenta que marcava a fronteira entre o jardim da última casa da Bassett Road e a Bassindale Row. Ele dirigira-se aos jardins da Bassett, esperando que a multidão que escoava da Humbert Street fosse ali menos numerosa, embora a gritaria ainda estivesse demasiado próxima para parecer seguro. Podiam ouvir pés percorrendo o alcatrão, pessoas a falar, até podiam sentir o cheiro do fumo dos cigarros acendidos pelos curiosos que observavam à distância. Ele viu o seu próprio medo reflectido nos olhos de Sophie e de Franek, enquanto levava um dedo aos lábios para que eles permanecessem calados.

 

Para Franek, cujo rosto estava tão branco e pastoso como o do seu filho, era uma indicação desnecessária. Deixou-se cair no abrigo oferecido pela vedação e cobriu a cabeça com as mãos, como se esconder-se atrás de painéis frágeis de madeira lascada o pudesse, de alguma forma, proteger da realidade aterradora da sede de sangue da turba. Nem Sophie nem Jimmy lhe prestaram atenção.

 

Jimmy ajoelhou-se ao lado de Milosz e respirou fundo várias vezes antes de conseguir falar.

 

Não sei se consigo levá-lo o caminho todo murmurou ao ouvido de Sophie. Ele pesa uma tonelada. Acha que está morto?

 

Ela estava agachada ao lado dele e pressionou as pontas dos dedos no pescoço de Milosz, antes de pousar a mão no peito dele a fim de sentir algum movimento.

 

Ele está desmaiado murmurou ela, puxando-lhe uma pálpebra para trás com a ponta do polegar, mas as respostas automáticas estão a funcionar... ele está a respirar e a pulsação é forte. Não é um traumatismo, senão ele já tinha acordado, por isso imagino que desta vez ele se tenha desligado completamente.

 

O que quer dizer com isso?

 

É a forma de ele lidar com o medo murmurou ela. Refugia-se dentro de si próprio. O pai dele está a fazer a mesma coisa ao tapar a cabeça. Enfiou as unhas dentro das narinas de Milosz e espetou-as no septo. As pálpebras dele estremeceram quando o sistema nervoso registou dor, mas não se verificou um regresso à consciência, como acontecera à mulher-polícia em resposta aos sais de Eileen Hinkley. Sinto muito murmurou ela escusatoriamente. Ele precisa de mais ajuda do que aquela que lhe posso dar neste momento. Mesmo que eu o conseguisse acordar, durante algum tempo ele estaria descoordenado de mais para andar.

 

Jimmy acenou com a cabeça na direcção da vedação.

 

Temos de ir para a Bassindale e temos de chegar ao muro do perímetro. Isso significa atravessar uma multidão que vem na outra direcção, o que vai ser muito difícil com um peso morto às costas e um par de aleijados a reboque. Desculpe, minha senhora, mas você está com um aspecto de merda acenou com a cabeça para Franek, e ele não está muito melhor. Não sei como vamos fazer isto. Basta um de nós cair e somos todos levados pela corrente.

 

O medo de Sophie regressou numa onda enorme. Ela não percebera que o que ele dissera a Franek no quarto do primeiro andar era a sério. Presumira que fora uma desculpa para os tirar da casa.

 

Oh, meu Deus disse ela, afastando-se dele e de Milosz. Eu não consigo fazer isto. A sério, não consigo. Não tenho coragem.

 

O doutor disse que tinha.

 

Que doutor?

 

Harry... da clínica... e uma mulher chamada Jenny. Eles acham que você é uma lutadora. Agarrou a mão dela para a impedir de se afastar mais. Você é a Sophie, certo? A médica da minha Mel. A senhora que começou a «Chamada para a Amizade». Aquela a cujo casamento nós vamos. Merda, rapariga! A Mel está à frente daquela casa a impedir que os atrasados mentais atirem Molotovs. Está a dizer-me que ela tem mais tomates que você?

 

Os olhos de Sophie encheram-se de lágrimas.

 

Melanie Patterson? Você é o Jimmy James? Ele anuiu.

 

Dei a minha palavra em como a tirava a si e a estes cabrões dali