Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O CASO REMBRANDT / Daniel Silva
O CASO REMBRANDT / Daniel Silva

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Por acaso, Timothy Peel foi o primeiro a saber que o forasteiro tinha vol­tado para a Cornualha. Fez essa descoberta numa quarta-feira chuvosa, pouco antes da meia-noite, em meados de setembro. E só porque recusara edu­cadamente os apelos persistentes dos colegas de trabalho para ir à farra do meio da semana no Godolphin Arms, em Maracaju.

Peel nem imaginava por que ainda se davam o trabalho de convidá-lo. Para falar a verdade, ele nunca fizera muita questão da companhia de gente que bebia. E nessa época, sempre que pisava num pub, havia pelo menos uma pes­soa sob o efeito do álcool que o importunava querendo conversar sobre o "pe­queno Adam Hathaway". Seis meses antes, num dos resgates mais dramáticos da história da Instituição Real Nacional de Botes Salva-Vidas, Peel arrancara o garoto de 6 anos da arrebentação traiçoeira da enseada de Sennen. Os jornais o coroaram como herói nacional, mas ficaram estupefatos quando o homem de 22 anos, de ombros largos e aparência de astro de cinema, se recusou a dar sequer uma entrevista. O silêncio de Peel incomodava seus colegas, pois qualquer um teria aproveitado a oportunidade para ter alguns instantes de glória, mesmo que fosse para recitar velhos clichês a respeito da "importância do trabalho em equipe" e das "grandes tradições de um serviço digno de orgulho". Também não pegou bem com os residentes do Oeste da Cornualha, que estavam sempre atrás de um bom motivo para se vangloriar sobre algum garoto local e esfregar um caso desse tipo na cara dos ingleses nobres da parte chique do país. De Falmouth Bay até Lands End, a simples menção do nome Peel invariavelmente provocava reações de perplexidade. "É um sujeito meio estranho", diziam. "Sempre foi. Deve ter sido o divórcio dos pais. Ele nunca conheceu o pai verdadeiro. E aquela mãe! Sempre andou com os tipos errados. Lembram do Derek, o dramaturgo que vivia enchendo a cara de uísque? Parece que ele costumava bater no rapaz." Esses eram os boatos em Port Navas.

A parte sobre o divórcio era verdade. Sobre as surras, também. De fato, a maior parte das fofocas sobre Peel tinha um pé na realidade. Mas nada daquilo tinha qualquer coisa a ver com sua recusa em aceitar o papel de herói. O silên­cio de Peel era um tributo ao homem que conhecera brevemente muito tempo antes. Um homem que vivia no cais de Port Navas, na velha cabana do capataz próxima à fazenda de ostras. Um homem que lhe ensinara a navegar e a conser­tar carros antigos, que tinha lhe falado sobre o poder da lealdade e a beleza da ópera. Um homem com o qual aprendera que não havia qualquer razão para se vangloriar apenas por fazer o próprio trabalho.

O nome do homem tinha uma sonoridade estrangeira poética, mas Peel sempre pensou nele apenas como o forasteiro. Ele fora o cúmplice de Peel, seu anjo da guarda. E, mesmo tendo partido da Cornualha havia muitos anos, às vezes Peel ainda esperava que retornasse, como quando tinha 11 anos. Ainda guardava o desgastado diário que manteve das idas e vindas do forasteiro, assim como as fotos das misteriosas luzes brancas que costumavam iluminar a cabana dele à noite. Mesmo agora, conseguia visualizá-lo no leme do seu adorado ve­leiro de madeira, vindo de Helford Passage após uma longa noite sozinho no mar. Nessas ocasiões, Peel sempre esperava na janela do quarto, com o braço erguido num cumprimento silencioso. E o forasteiro, ao vê-lo, piscava os faróis duas vezes em resposta.

Havia poucas lembranças dos dias em Port Navas. A mãe de Peel se mudara para Bath com o novo amante. Dizia-se que Derek, o dramaturgo bêbado, estava vivendo em uma choupana numa praia no País de Gales. E a velha cabana do capataz fora completamente reformada e agora pertencia a londrinos ricos que apareciam nos fins de semana, davam festas barulhentas e estavam sempre berrando com os filhos mimados. Tudo o que restou do forasteiro foi seu veleiro, que ele deixou como um legado para Peel na noite em que fugiu da Cornualha com paradeiro desconhecido.

Agora, anos depois, naquela quarta-feira chuvosa em meados de setembro, o barco balançava no ancoradouro com o movimento das marés, as ondas ba­tendo gentilmente no casco, quando um inesperado ruído de motor fez Peel se levantar da cama e ir até seu lugar de sempre na janela. Lá, espreitando a escuri­dão úmida, ele avistou um Range Rover cinza metálico cruzando a rua devagar. O veículo parou na frente da velha cabana do capataz e ficou com o motor em ponto morto por um momento, as lanternas encharcadas e os limpadores de para-brisa se movendo em ritmo constante. Então, de repente, a porta do mo­torista se abriu e surgiu uma figura com uma capa de chuva verde-escura e uma boina impermeável puxada para baixo até as sobrancelhas. Mesmo àquela dis­tância, Peel reconheceu de imediato o forasteiro por causa de seu jeito de andar, com o passo confiante e determinado parecendo impulsioná-lo sem qualquer esforço em direção à beira do cais. Parou ali por um momento, evitando cau­telosamente a iluminação da única lâmpada, e observou o veleiro. Em seguida desceu rápido a escadaria de pedra até o rio e desapareceu de vista.

Primeiro Peel se perguntou se ele tinha voltado para pegar o barco. Mas esse medo passou quando o forasteiro reapareceu segurando um pequeno embrulho na mão esquerda. Tinha o tamanho aproximado de um livro de capa dura e parecia envolto em plástico. A julgar pela camada de limo na superfície, o pacote estava escondido havia um bom tempo. Já tinha ocorrido a Peel uma vez que o homem podia ser contrabandista. Talvez fosse mesmo, afinal.

Foi então que Peel reparou que ele não estava sozinho. Alguém o aguardava no banco do carona do Range Rover. Peel não conseguiu discernir o rosto, ape­nas uma silhueta e o contorno de cabelos rebeldes. Sorriu pela primeira vez. Parecia que o forasteiro tinha afinal arranjado uma mulher.

Ouviu o baque abafado de uma porta se fechando e viu o veículo dar um solavanco brusco para a frente. Se corresse, teria tempo de ir falar com ele. Em vez disso, tomado por um sentimento que não experimentava desde a infância, ficou ali na janela, imóvel, com o braço erguido num cumprimento silencioso. O carro ganhou velocidade e por um momento Peel temeu que o forasteiro não tivesse visto o sinal. Mas de repente o automóvel reduziu a marcha e os faróis piscaram duas vezes antes de passar por baixo da janela de Peel, desaparecendo na noite.

Peel continuou ali por mais um instante, escutando o barulho do motor su­mir no silêncio. Então voltou para a cama e puxou as cobertas até o queixo. Sua mãe havia partido, Derek estava no País de Gales e a velha cabana do capataz tinha sido ocupada por estrangeiros. Mas, naquele momento, ele não estava só. O forasteiro tinha retornado à Cornualha.

 

 

 

 

Embora o forasteiro não soubesse disso, a partir daquela noite duas séries distintas de eventos já conspiravam para atraí-lo de volta ao campo de batalha. Uma delas se desenrolava por trás das portas trancadas dos serviços secretos internacionais de inteligência, enquanto a outra era o assunto da vez da imprensa mundial. Os jornais a chamavam de "verão dos roubos", a pior epidemia de furtos de obras de arte na Europa em muitas décadas. Por todo o continente, pinturas de valor inestimável desapareciam com uma rapidez impressionante. Os angustiados mestres do universo da arte diziam estar chocados com a onda de roubos, embora os verdadeiros profissionais da lei admitissem que era surpreendente que ainda houvesse qualquer quadro para ser roubado. "Se você pendura 100 milhões de dólares numa parede com pouca segurança", disse um oficial da Interpol, "é só uma questão de tempo até que algum ladrão tente levá-los embora."

A ousadia dos criminosos só estava à altura da sua competência. A habili­dade deles era inegável. Mas o que a polícia mais admirava em seus oponentes era a disciplina ferrenha. Não havia vazamento de informações, nenhum sinal de intrigas internas, nem sequer um único pedido de resgate, pelo menos ne­nhum pedido verdadeiro. Os ladrões roubavam com freqüência mas com crité­rio, nunca levando mais do que um único quadro por vez. Não eram amadores procurando trabalhos rápidos nem integrantes do crime organizado atrás de uma fonte de dinheiro. Eram ladrões de arte no sentido mais puro da expressão. Um detetive exausto chegou a prever que os quadros roubados naquele longo e quente verão provavelmente permaneceriam desaparecidos por anos, se não décadas. Na verdade, ele achava que havia uma boa probabilidade de nunca mais serem vistos pelo público.

Até a polícia ficava maravilhada com a variedade de técnicas dos ladrões. Eles eram como grandes jogadores de tênis capazes de vencer em vários tipos de quadra na mesma semana. Em junho, os criminosos recrutaram um segurança insatisfeito no Museu Kunsthistorisches, em Viena, e realizaram um furto noturno de David com a Cabeça de Golias, de Caravaggio. Em julho, optaram por um ousado ataque de competência militar em Barcelona e levaram do Museu Picasso o Retrato da Senhora Canais. Apenas uma semana depois, o adorável Maisons à Fenouillet desapareceu tão silenciosamente das paredes do Museu Matisse, em Nice, que a aturdida polícia francesa se perguntou se a pintura tinha criado pernas e saído por conta própria. Em seguida, no último dia de agosto, houve uma operação impecável de arrombamento e furto na Galeria Courtauld, em Londres, que lhes rendeu o Auto-retrato com a Orelha Cortada, de Vincent van Gogh. O tempo total da operação foi de impressionantes 97 segundos - mais impressionantes ainda considerando-se que um dos ladrões parou por um momento, quando saía pela janela do segundo andar, para fazer um gesto obsceno em direção ao voluptuoso Nu Feminino, de Modigliani. Naquela noite, o vídeo da segurança já rodava em toda a internet. Segundo o perturbado diretor da Courtauld, foi um final previsível para um verão absolutamente terrível.

Os roubos geraram uma série de críticas em relação à segurança dos museus internacionais. Uma reportagem do Times relatou que uma análise interna feita havia pouco tempo pela Galeria Courtauld originara uma séria recomendação para que o Van Gogh fosse realocado em um lugar mais seguro. Mas as análises foram rejeitadas, pois o diretor da galeria gostava do quadro onde estava. Na esteira do Times, o Telegraph produziu uma série de ótimos artigos referentes às dificuldades financeiras enfrentadas pelos grandes museus da Grã-Bretanha. Revelou que a Galeria Nacional de Londres e a Tate não tinham sequer se dado o trabalho de fazer seguro para suas coleções, preferindo confiar em câmeras de segurança e vigias mal pagos para proteger as obras. "Não deveríamos nos perguntar como as grandes obras de arte desaparecem das paredes dos museus", declarou o renomado negociante de arte Julian Isherwood, "e sim por que isso não acontece com mais freqüência. Pouco a pouco, nossa herança cultural está sendo saqueada."

Os raros museus com recursos para aumentar a segurança o fizeram rapida­mente, mas os que tinham dinheiro apenas para o essencial só conseguiram ins­talar grades nos portões e rezar para não serem os próximos na lista dos ladrões. Porém, quando setembro chegou ao fim sem qualquer ocorrência, o mundo da arte deu um suspiro coletivo de alívio e se convenceu de que o pior havia pas­sado. Os meros mortais já estavam tratando de questões mais importantes. Com as guerras no Iraque e no Afeganistão ainda em andamento e a economia global indo mal das pernas, poucas pessoas tinham energia para se indignar com o su- miço de quatro retângulos de tela cobertos de tinta. A líder de uma organização beneficente internacional estimou que o valor somado das peças desaparecidas poderia alimentar a África por anos. Não seria melhor se os milionários fizes­sem algo mais útil com sua fortuna do que forrar suas paredes e encher seus cofres secretos com obras de arte?

Essas palavras eram uma heresia para Julian Isherwood e sua irmandade, que dependiam da ganância dos ricos para seu sustento. Mas eles tinham um público mais receptivo em Glastonbury, a antiga cidade de peregrinos a oeste de Londres, em Somerset. Na Idade Média, os cristãos formavam verdadeiros rebanhos para ver a famosa abadia de Glastonbury e admirar a sagrada Árvore de Espinhos, que teria brotado quando José de Arimateia, discípulo de Jesus, deitou seu cajado no chão no ano 63 da era cristã. Agora, quase dois milênios depois, a abadia era apenas uma gloriosa ruína, com os restos de sua fachada outrora sublime deixados ao relento num parque como túmulos erguidos para uma fé moribunda. Os novos peregrinos de Glastonbury raramente se davam o trabalho de visitar o local, preferindo subir as encostas da montanha mística conhecida como Tor ou passear pelas lojas do movimento Nova Era que ficavam na High Street. Alguns iam em busca de si mesmos. Outros, atrás de uma mão para guiá-los. E poucos realmente estavam à procura de Deus. Ou ao menos de uma cópia razoável Dele.

Christopher Liddell não tinha ido à cidade por nenhuma dessas razões. Ele chegara ali por causa de uma mulher e permanecera por causa de uma criança. Não era um peregrino. Era um prisioneiro.

Fora Hester quem o arrastara para lá. Hester, seu maior amor, seu pior engano. Cinco anos antes ela tinha exigido que saíssem de Notting Hill para que ela pudesse encontrar a si mesma em Glastonbury. Mas, ao se encontrar, Hester desco­briu que o segredo de sua felicidade era dispensar Liddell. Talvez outros homens tivessem se sentido tentados a partir, mas, embora Liddell fosse capaz de viver sem Hester, não conseguia imaginar a vida sem Emily. Era melhor continuar em Glastonbury e aturar os pagãos e os druidas do que voltar a Londres e se tornar uma lembrança desbotada na memória de sua única filha. Assim, Liddell enter­rou sua tristeza e sua revolta e seguiu em frente. Era dessa forma que ele lidava com todas as coisas. Era um homem confiável. Mas achava que essa não era a melhor coisa que um homem podia ser.

Glastonbury não era completamente desprovida de encanto. Um deles era o café Hundred Monkeys, adepto da culinária vegetariana e sustentável desde 2005, o lugar favorito de Liddell. Ele estava na mesa de sempre, protegido por um exemplar do jornal Evening Standard aberto à sua frente. Na mesa ao lado, uma mulher de meia-idade lia um livro chamado Crianças Crescidas: A Disfunção Secreta. Num canto nos fundos, um profeta calvo vestido de branco fazia um sermão para seis pupilos extasiados sobre alguma coisa relacionada ao espiritualismo zen. Na mesa próxima à porta, um homem de cerca de 30 anos com a barba por fazer tinha as mãos aninhadas embaixo do queixo em um gesto con­templativo. Seus olhos passeavam pelo quadro de avisos, coberto com as boba­gens de sempre - um convite para entrar para o Grupo Viver Positivamente de Glastonbury, um informe de um seminário grátis sobre a dissecação de corujas, um panfleto de sessões de cura tibetanas -, mas ele parecia examinar tudo com uma atenção incomum. Uma xícara de café continuava intocada à sua frente, ao lado de um caderno de anotações aberto, também intocado. Um poeta em busca de inspiração, pensou Liddell. Um polemista esperando pela fúria.

Liddell o examinou com seu olhar experiente. Ele vestia uma calça jeans esfarrapada e uma camisa de flanela, o uniforme de Glastonbury. O cabelo era escuro e puxado para trás num rabo de cavalo curto e espesso, e os olhos, de um castanho bem escuro e com um suave brilho. Usava um relógio com cor­reia de couro grossa no pulso direito e várias pulseiras baratas de prata no esquerdo. Liddell esquadrinhou os braços e antebraços em busca de tatuagens, mas não encontrou nenhuma. Estranho, já que em Glastonbury até mesmo vovós exibiam suas tatuagens com orgulho. Por ali uma pele imaculada era algo raro como o sol no inverno.

A garçonete apareceu e deixou a conta no meio do jornal de Liddell, de forma provocante. Era alta e bastante bonita, com o cabelo claro repartido no meio e um crachá com o nome GRACE preso no suéter justo no corpo. Desde a partida de Hester, Liddell perdera a capacidade de conversar com mulheres desconhecidas. Além do mais, havia outra pessoa em sua vida agora. Era uma garota tranqüila, que perdoava os defeitos dele e sentia-se grata por sua afeição. Acima de tudo, precisava dele tanto quanto ele precisava dela. Era a namorada perfeita. A amante perfeita. E era o segredo de Christopher Liddell.

Pagou a conta em dinheiro - estava em guerra com Hester por conta dos car­tões de crédito; na verdade, por conta de praticamente tudo - e foi em direção à porta. O poeta-polemista rabiscava furiosamente no caderno. Liddell passou por ele e saiu do café. Uma névoa incômoda se formava na rua e de algum lugar a distância ele ouviu a batida de tambores. Então lembrou que era quinta-feira, quando acontecia a noite da terapia xamã com batuques no espaço cultural Assembly Rooms.

Atravessou a rua e passou em frente à entrada da Igreja de St. John, depois da pré-escola da paróquia. No dia seguinte, à uma da tarde, Liddell estaria lá entre mães e responsáveis para buscar Emily. Por ordem judicial, tinha se tornado pouco mais que uma babá. Duas horas por dia era o tempo a que tinha direito, o que quase não dava nem para uma volta no carrossel e um lanche na loja de doces. Era a vingança de Hester.

Entrou na Church Lane. Era um beco estreito, com paredes altas de pedra cinzenta nos dois lados. Como sempre, a única lâmpada estava queimada. Liddell vinha pensando em comprar uma pequena lanterna, como a que seus avós usa­vam durante a guerra. Pensou ter ouvido passos e olhou por cima dos ombros na direção da escuridão. Chegou à conclusão de que não era nada, só coisa de sua cabeça. Você é muito bobo, Christopher, chegou a ouvir Hester dizendo. Você é muito bobo.

No final da viela começava uma área residencial de pequenas casas geminadas de um andar. Henley Close ficava no extremo nordeste, com vista para um campo esportivo. Os quatro chalés eram um pouco mais espaçosos que a maio­ria dos outros na vizinhança e tinham jardins cercados por muros. Na ausência de Hester, o jardim da casa 8 tinha assumido um ar melancólico de descaso que começava a atrair olhares feios do casal de vizinhos. Ele colocou a chave na fechadura e girou. Ao entrar no corredor, foi recebido pelo apito do alarme de segurança. Digitou o código no teclado - a data de nascimento de Emily - e subiu as escadas para o andar de cima. A garota o esperava lá, envolta na escu­ridão. Liddell acendeu a luz.

Ela estava sentada numa cadeira de madeira, com um xale de seda cravejado de pedras cobrindo-lhe os ombros. Brincos de pérolas balançavam em suas ore­lhas e uma corrente de ouro despontava na pele pálida de seus seios. Liddell es­ticou o braço e acariciou sua bochecha. Os anos tinham marcado seu rosto com rugas e amarelado a pele antes branca como cera. Não importava. Liddell tinha o poder de curá-la. Num tubo de ensaio, preparou um líquido incolor - duas porções de acetona, uma de éter metílico e dez de solução mineral - e umedeceu a ponta de um cotonete com ele. Ao passá-lo sobre a curva dos seios, olhou direto em seus olhos. A garota o encarou de volta, seu olhar sedutor, os lábios formando um meio sorriso divertido.

Liddell jogou o cotonete no chão e pegou outro. Foi então que escutou um barulho que soou como o estalido de uma fechadura. Ficou imóvel por um instante, depois virou o rosto em direção à escada e gritou: "Hester? É você?" Sem receber qualquer resposta, mergulhou o novo cotonete na poção e o passou mais uma vez, com cuidado, nos seios da garota. Alguns segundos depois ouviu outro som, dessa vez mais próximo e claro o suficiente para Liddell se dar conta de que não estava mais sozinho.

Virando o corpo com rapidez em cima do banco, vislumbrou uma figura no patamar ocultada pela sombra. A pessoa deu dois passos à frente e entrou com calma no estúdio de Liddell. Calça jeans e camisa de flanela, cabelo escuro preso num rabo de cavalo curto e espesso, olhos escuros: era o homem do café Hundred Monkeys. Obviamente, não era nem poeta nem polemista. Tinha uma arma na mão, apontada para o peito de Liddell. Liddell tentou agarrar o frasco de solvente. Era um homem confiável. E por isso logo estaria morto.

 

O primeiro sinal de que algo estava errado aconteceu na tarde seguinte, quando Emily Liddell, de 4 anos e 7 meses, saiu da pré-escola da paróquia St. John e não encontrou ninguém para buscá-la. O corpo foi achado pouco depois e no fim da tarde a morte de Liddell já havia sido oficialmente declarada como homicídio. O boletim inicial da rede de notícias BBC de Somerset infor­mou o nome da vítima, mas não chegou a mencionar sua profissão ou possíveis motivos para o homicídio. A Rádio 4 decidiu ignorar a história, assim como os jornais nacionais "de qualidade". Só o Daily Mail publicou uma descrição do assassinato, um pequeno texto em meio a uma infinidade de notícias sórdidas ao redor do país.

Como resultado, a morte de Christopher Liddell quase passou despercebida pelo mundo artístico de Londres, já que poucos de seus ilustres integrantes se sujeitavam a manchar os dedos com o Daily Mail. Mas esse não era o caso de Oliver Dimbleby, um atarracado negociante de reputação duvidosa da rua Bury que nunca se envergonhara de suas raízes proletárias. Dimbleby leu a respeito do assassinato de Glastonbury durante o café da manhã e à tarde já alardeava a notícia a qualquer possível interessado no bar do Green's Restaurant, um lugar na rua Duke onde os comerciantes se reuniam para celebrar os triunfos e chorar as derrotas.

Uma das pessoas que Dimbleby encurralou foi o próprio Julian Isherwood, proprietário único da Isherwood Fine Arts, localizada no número 7-8 da Mason's Yard, em St. James, Londres, uma galeria que só às vezes dava lucro, mas nunca era monótona. Ele era "Julie" para os amigos e "Julie Suculento" para os parceiros no crime ocasional de bebedeira. Era um homem contraditório. Perspicaz, mas imprudente. Brilhante, mas ingênuo. Reservado como um espião, mas com uma confiança nos outros que beirava a estupidez. De forma geral, porém, era uma pessoa divertida. Na verdade, para a maior parte dos freqüentadores do mundo artístico de Londres, a Isherwood Fine Arts sempre fora considerada uma galeria de qualidade. Passara por altos impressionantes e baixos gravíssi­mos, e parecia que uma conspiração estava sempre ocorrendo por trás de sua fa­chada cintilante. A culpa das constantes turbulências do negócio de Isherwood era seu lema simples e repetido com freqüência: "Pinturas primeiro, negócios depois", ou PPND, para abreviar. A fé indevida de Isherwood no PPND às vezes quase o levava ao colapso financeiro. De fato, alguns anos antes suas limitações econômicas tinham se tornado tão sérias que o próprio Dimbleby fizera uma tentativa grosseira e desajeitada de comprar a galeria. Era um dos muitos inci­dentes que os dois preferiam fingir nunca ter acontecido.

Mas mesmo Dimbleby ficou surpreso com a expressão de choque que domi­nou o rosto de Isherwood no instante em que ele ficou sabendo do assassinato em Glastonbury. Isherwood conseguiu se recompor rapidamente. Então, depois de balbuciar algo absurdo sobre uma tia doente que precisava visitar, engoliu seu gim-tônica e saiu apressado.

Retornou de imediato à galeria e telefonou, agitado, para um contato de confiança no Esquadrão de Artes e Antigüidades da Scotland Yard. Uma hora e meia depois, a pessoa retornou. A notícia era ainda pior do que Isherwood esperava. O Esquadrão de Artes prometeu fazer o melhor possível, mas, ao encarar o abismo dos balanços financeiros da galeria, ele concluiu que não teria escolha a não ser tratar da questão pessoalmente. Sim, já passara por crises antes, mas agora era sério. Poderia perder tudo aquilo pelo que tinha trabalhado e espectadores ino­centes pagariam um preço alto por sua tolice. Isso não era jeito de terminar uma carreira - não depois de tudo o que conquistara. E absolutamente não depois de tudo o que seu pobre pai tinha feito para garantir sua sobrevivência.

Foi essa memória tão inesperada do pai que levou Isherwood a pegar o tele­fone de novo. Começou a discar um número, mas parou no meio. Raciocinou que era melhor não avisar com antecedência. Melhor aparecer de surpresa na porta.

Colocou o fone no gancho e verificou sua agenda do dia seguinte. Só três compromissos pouco promissores, nada que não pudesse ser adiado. Isherwood passou uma linha grossa por cima de cada entrada e escreveu um nome bíblico no topo da página. Encarou o nome por um instante e então, percebendo seu erro, riscou-o com alguns movimentos firmes da caneta. Coloque a cabeça no lugar. No que estava pensando, Julie? No que diabo estava pensando?

 

O forasteiro não se hospedou na velha cabana perto de Helford Passage, mas num pequeno chalé sobre o penhasco oeste da península do Lagarto. Tinha visto o lugar pela primeira vez do convés de seu barco quando estava a 1,5 quilômetro de distância da terra firme. O chalé se erguia no ponto mais distante da enseada de Gunwalloe, cercado por flores roxas e grama alta. Atrás dele havia um campo em declive atravessado por cercas vivas e à direita se estendia uma praia na qual um velho navio encalhado jazia adormecido logo abaixo da arrebentação traiçoeira. Perigosa demais para banhistas, a enseada atraía poucos visitantes além dos andarilhos ocasionais ou pesca­dores nativos que apareciam na época das percas. O forasteiro se lembrava disso. Também lembrava que a praia e o chalé tinham uma semelhança curiosa com um par de pinturas feitas por Monet na cidade costeira francesa de Pourville. Um desses quadros fora roubado de um museu na Polônia e continuava desaparecido.

Naturalmente, os habitantes de Gunwalloe não sabiam de nada disso. Sabiam apenas que o forasteiro tinha se apoderado do chalé em circunstâncias muito incomuns: um contrato de aluguel de 12 meses pago à vista, sem discussão nem negociação, com todos os detalhes supervisionados por um advogado de Hamburgo do qual ninguém nunca ouvira falar. Ainda mais surpreendente era o desfile de carros estranhos que acontecera no vilarejo logo após a transação. Sedãs pretos chamativos com placas diplomáticas. Viaturas da delegacia local. Veículos Vauxhall de Londres com homens de ternos cinza-escuros iguais. Duncan Reynolds, aposentado havia 30 anos do trabalho na ferrovia e considerado o cidadão mais experiente de Gunwalloe, observara os homens que fizeram a apressada inspeção final na propriedade, na tarde anterior à chegada do forasteiro. "Aqueles rapazes não eram seguranças comuns", disse, "eram profissionais, se entendem o que quero dizer."

O forasteiro era claramente um homem numa missão, embora ninguém em Gunwalloe tivesse a menor idéia de qual poderia ser. As impressões foram sendo formadas no decorrer das breves saídas dele em busca de suprimentos. Os homens mais velhos acharam que ele tinha um quê de soldado e algumas jovens admitiram considerá-lo atraente - tão atraente, aliás, que alguns homens começaram a desenvolver uma grande antipatia por ele. Os tolos tinham a idéia de segui-lo, porém os mais sábios aconselhavam cuidado. Apesar da estatura relativamente baixa do forasteiro, era claro que ele saberia se virar em caso de necessidade. Comece uma briga com ele, alertavam, e provavelmente sairá com alguns ossos quebrados.

Sua exótica companheira, por outro lado, era completamente diferente. Ao contrário dele, era exuberante e calorosa. Sua beleza excepcional acrescentava um toque de classe e um ar de conspiração internacional às ruas do vilarejo. Quando estava de bom humor, seus olhos pareciam emitir luz própria. Mas às vezes mostrava uma tristeza bem evidente. Dottie Cox, da loja local, dizia que a mulher devia ter perdido alguém próximo havia pouco tempo. "A pobre garota tenta esconder", afirmava Dottie, "mas está de luto."

Ninguém tinha dúvida de que o casal não era britânico. Seus cartões de cré­dito tinham sido emitidos com o sobrenome Rossi e com freqüência eles eram vistos conversando em italiano. Quando Vera Hobbs, da padaria, enfim juntou coragem para perguntar de onde eram, a mulher respondeu de maneira eva­siva: "De Londres, principalmente." O homem, no entanto, permaneceu num silêncio obstinado. "Ou ele é muito tímido ou está escondendo alguma coisa", concluiu Vera. "Aposto na segunda alternativa."

Se havia algo sobre o forasteiro com que todos no vilarejo concordavam, era sua postura protetora em relação à mulher. Segundo eles, talvez fosse um pouco protetora demais. Nas primeiras semanas após a chegada do casal, ele não fi­cava a mais de poucos centímetros de distância dela. Mas no início de outubro começaram a surgir sinais sutis de que a mulher estava se cansando de sua presença constante. Pouco tempo depois, ela começou à ir ao vilarejo muitas vezes sozinha. Quanto ao forasteiro, quem o observasse poderia supor que ele tinha se condenado a caminhar solitário pelos penhascos da península do Lagarto para sempre.

No início, as excursões eram breves. Mas gradualmente ele começou a fazer longas marchas, que o mantinham distante por várias horas. Protegido por seu pesado casaco verde-escuro e com a boina puxada até as sobrancelhas, ele andava na direção sul ao longo dos penhascos até a enseada Kynance e a ponta da península, ou na direção norte, atravessando Loe e seguindo até Porthleven. Às vezes parecia perdido em pensamentos e em algumas ocasiões adotava a atitude alerta de um escoteiro em missão de reconhecimento. Vera Hobbs concluiu que ele estava tentando se lembrar de algo, teoria que Dottie Cox achou cômica. "É muito óbvio, Vera, sua velha tola. O pobre coitado não está tentando se lembrar de nada. Está tentando esquecer."

Duas questões ajudaram a aumentar ainda mais o clima de conspiração em Gunwalloe. A primeira dizia respeito ao homem que aparecia pescando na enseada sempre que o forasteiro estava fora em uma de suas caminhadas. To­dos em Gunwalloe concordavam que ele era o pior pescador da história - na verdade, a maioria dos habitantes acreditava que ele na verdade não era um pescador. E também havia a questão da única pessoa que visitava o casal, um garoto da Cornualha de ombros largos que parecia um ator de cinema. Depois de muita especulação, foi Malcolm Braithwaite, um pescador de lagostas apo­sentado que estava sempre cheirando a maresia, que identificou o rapaz como o garoto Peel. "Aquele que salvou o pequeno Adam Hathaway na enseada de Sennen e depois se recusou a dizer uma palavra a respeito", lembrou Malcolm. "O garoto esquisito de Port Navas. A mãe costumava descer a mão nele. Ou será que era o namorado dela?"

O surgimento de Timothy Peel levou a especulações cada vez maiores a res­peito da verdadeira identidade do forasteiro, grande parte das quais conduzida sob o efeito do álcool no Lamb and Flag Pub. Malcolm Braithwaite achava que o forasteiro era um informante se escondendo na Cornualha sob proteção po­licial, enquanto Duncan Reynolds enfiara na cabeça, por alguma razão, que ele era um desertor russo. "Que nem aquele sujeito, Bulganov", insistia, "o pobre coitado que encontraram morto no distrito das Docas há alguns meses. Espero que nosso novo amigo seja mais cuidadoso, ou vai acabar sofrendo o mesmo destino."

Mas foi Teddy Sinclair, dono de uma excelente pizzaria em Helston, que elaborou a teoria mais controversa. Enquanto procurava alguma coisa na internet, acabou encontrando um velho artigo do Times sobre Elizabeth Halton, a filha do ex-embaixador americano que tinha sido seqüestrada por terroristas ao correr no Hyde Park. Agitadíssimo, Sinclair mostrou a matéria a todos, junto com uma foto desfocada dos dois homens que tinham conduzido o resgate dramático na manhã de Natal na abadia de Westminster. Na época, a Scotland Yard alegara que os heróis eram agentes da Divisão de Operações Especiais S019. O Times, no entanto, relatou que eram oficiais do serviço de inteligência israe­lense e que o mais velho, que tinha o cabelo preto e era grisalho nas têmporas, era ninguém menos que o notório espião e assassino israelense Gabriel Allon. "Olhe para ele com atenção. E ele, estou falando. O homem que está morando na enseada Gunwalloe é o próprio Gabriel Allon."

Isso gerou a onda de risadas mais barulhenta no Lamb and Flag desde que Malcolm Braithwaite, bêbado, se ajoelhara e declarara seu amor eterno por Vera Hobbs. Quando a ordem enfim foi restaurada, um humilhado Teddy Sinclair amassou o artigo e o jogou no fogo. Embora nunca fosse saber, sua teoria a respeito do homem que vivia no final da enseada estava certa.

Se o forasteiro estava ciente do minucioso exame pelo qual passava, não deu nenhum indício disso. Cuidava da bela esposa e caminhava pelos penhascos em meio à ventania, parecendo ora tentar se lembrar de algo, ora tentar esquecer. Na segunda terça-feira de novembro, ao se aproximar do extremo sul da en­seada Kynance, viu um homem alto de cabelos grisalhos parado na varanda do Polpeor Café, na ponta da península. Mesmo de longe pôde notar que o sujeito o encarava. Gabriel parou e colocou a mão no bolso do casaco, sentindo o con­forto da pistola Beretta 9mm. Nesse momento, o homem começou a balançar os braços num cumprimento exagerado. Gabriel soltou a pistola e seguiu em frente, com o vento do mar urrando no ouvido e o coração batendo como um tambor.

 

- Como você me encontrou, Julian?

Chiara me disse que você estava vindo para esta região.

Gabriel encarou Isherwood, incrédulo.

Como acha que eu encontrei você, queridinho?

Ou você arrancou a informação da diretora-geral do MI5 ou Shamron lhe disse. Aposto que foi Shamron.

Você sempre foi um garoto esperto.

Isherwood colocou leite em seu chá. Vestia um traje adequado para o campo, com roupas de lã e tweed, e seus cachos grisalhos, normalmente compridos, pareciam ter sido aparados havia pouco tempo, um sinal certeiro de que tinha uma nova mulher em sua vida. Gabriel não conseguiu evitar um sorriso. Sempre ficava impressionado com a capacidade de Isherwood para o amor. Era equivalente apenas ao seu desejo de encontrar e adquirir quadros.

Dizem que existe uma terra perdida por aí em algum lugar - comentou Isherwood, gesticulando em direção à janela. - Pelo visto vai daqui até as ilhas Sorlingas. Reza a lenda que, quando o vento certo sopra, dá para ouvir os sinos da igreja de lá.

É conhecida como Lyonesse, a Cidade dos Leões, e não passa de um mito local.

Como o mito sobre o arcanjo que vive nos penhascos da enseada Gunwalloe?

Não vamos nos deixar levar por alusões bíblicas, Julian.

Sou um negociante de obras de arte italianas e holandesas. Alusões bíblicas são meu ganha-pão. Além do mais, é difícil não se deixar levar num lugar como este. É um pouco isolado demais para o meu gosto, mas entendo a atração que sempre exerceu sobre você. - Isherwood desabotoou o sobretudo. - Eu me lem­bro daquela cabana adorável que você tinha em Port Navas. E daquele garotinho detestável que costumava tomar conta dela quando você não estava. Qual era mesmo o nome dele?

Peel - informou Gabriel.

Ah, sim, o jovem Peel. Ele era como você. Um espião nato, aquele rapaz. Me deu um trabalhão quando fui procurar pela pintura que tinha deixado com você. - Isherwood fez uma cara pensativa. - Um Vecellio, não era?

Gabriel assentiu.

Adoração dos Pastores.

Um retrato maravilhoso - disse Isherwood, com um brilho nos olhos. - Meu negócio estava por um fio. Aquele Vecellio foi o golpe de sorte que man­teve meu disfarce por mais alguns anos, e você deveria estar trabalhando na restauração. Mas em vez disso desapareceu da face da Terra, não foi? Sumiu sem deixar vestígio. - Julian franziu a testa. - Fui um tolo por me misturar com você e seus amigos de Tel Aviv. Vocês usam pessoas como eu. E, quando terminam, nos jogam aos lobos.

Esquentou as mãos na chaleira de alumínio. Seu sobrenome e seu porte in­gleses ocultavam o fato de que ele não era, ao menos tecnicamente, um cidadão britânico. De nacionalidade e passaporte, sim. Mas era alemão de nascimento, francês de criação e judeu de religião. Só um punhado de amigos de confiança sabia que Isherwood tinha chegado a Londres como uma criança refugiada em 1942, depois de ser carregado pelas montanhas nevadas dos Pirineus por dois pastores bascos. Ou que seu pai, o renomado comerciante parisiense de arte Samuel Isakowitz, fora assassinado no campo de concentração de Sobibór, junto com sua mãe. Embora Isherwood tivesse guardado com cuidado os segredos do passado, a história da sua fuga dramática durante a ocupa­ção nazista da Europa chegara aos ouvidos do lendário espião israelense Ari Shamron. E em meados de 1970, durante uma onda de ataques terroristas palestinos contra alvos israelenses na Europa, Shamron recrutara Isherwood como um sayan, um ajudante voluntário. Ele tinha apenas um dever: ajudar a construir e a manter o disfarce de um jovem restaurador de arte e assassino chamado Gabriel Allon.

Quando você falou com ele? - perguntou Gabriel.

Com Shamron? - Isherwood deu de ombros, num gesto ambíguo. - Cruzei com ele em Paris há algumas semanas.

A expressão de Gabriel deixou claro que ele não acreditou nem por um ins­tante no relato de Isherwood. Ninguém cruzava com Ari Shamron. E aqueles que o faziam dificilmente viviam para contar a história.

Onde em Paris?

Jantamos em sua suíte no Ritz. Só nós dois.

Que romântico.

Na verdade, não estávamos completamente sozinhos. O guarda-costas dele também estava lá. Pobre Shamron. Tão velho quanto os Montes da Judeia, mas ainda assim seus inimigos o perseguem sem trégua.

Ossos do ofício, Julian.

É, acho que sim. - Olhou para Gabriel e deu um sorriso triste. - Ele é teimoso como uma mula, e quase tão charmoso quanto uma, também. Mas parte de mim aprecia o fato de ele ainda existir. Outra parte vive com medo do dia inevitável de sua morte. Israel nunca mais será o mesmo. Nem o King Saul Boulevard.

O King Saul Boulevard era o endereço do serviço de inteligência interna­cional de Israel. O nome comprido e deliberadamente enganador tinha muito pouco a ver com a verdadeira natureza da tarefa realizada ali. Quem trabalhava lá se referia ao lugar como O Escritório, nada mais.

Shamron nunca vai morrer, Julian. Shamron é eterno.

Eu não teria tanta certeza, queridinho. Ele não me pareceu muito bem.

Gabriel tomou um gole do chá. Fazia quase uma década que Shamron deixara o cargo de chefia e, mesmo depois de todo esse tempo, ele ainda intervinha nas questões do Escritório como se fosse seu feudo particular. Os postos estavam cheios de oficiais recrutados e treinados por ele - membros que operavam sob um mesmo credo e usavam os mesmos jargões, todos criados por Shamron. Embora não tivesse mais uma posição ou um título formal, ele continuava sendo a mão invisível que guiava as políticas de segurança de Israel. Nos corredores do Gabinete de Segurança israelense, era conhecido como o Memuneh, a pes­soa encarregada. Por muitos anos dedicou suas capacidades formidáveis a uma única missão: convencer Gabriel, que considerava um filho teimoso, a assumir seu lugar de direito na sala de diretor do King Saul Boulevard. Gabriel sempre resistiu, e depois de sua última missão Shamron finalmente lhe deu permissão para deixar a organização a que servia desde a juventude.

Por que você está aqui, Julian? Tínhamos um acordo. Quando eu estivesse pronto para trabalhar, faria contato com você, não o contrário.

Isherwood se inclinou para a frente e colocou uma das mãos no braço de Gabriel.

Shamron me contou o que aconteceu na Rússia - disse, com delicadeza. - Deus sabe que não sou nenhum perito, mas duvido que até mesmo você tenha capacidade para se livrar de uma lembrança como essa.

Gabriel observava as gaivotas flutuando como pipas sobre o topo da penín­sula. Sua cabeça, porém, estava na floresta de bétulas a leste de Moscou. Ele estava ao lado de Chiara na beira de uma cova recente, as mãos atadas nas costas e os olhos fixos no cano de uma pistola de calibre grosso. Quem segurava a arma era Ivan Kharkov, oligarca russo, financiador internacional, traficante de armas e assassino. Aproveite a visão de sua mulher morrendo, Allon. Gabriel piscou e o pensamento se foi.

O que Shamron lhe contou?

O suficiente para eu saber que você e Chiara têm todo o direito de se tran­carem naquele chalé e nunca mais saírem. - Isherwood ficou em silêncio por um instante. - É verdade que ela estava grávida quando foi capturada naquela rua na Úmbria?

Gabriel fechou os olhos e assentiu.

Os seqüestradores de Ivan deram várias doses de sedativo para ela no cami­nho da Itália até a Rússia. Ela perdeu o bebê quando estava no cativeiro.

Como ela está agora?

Como uma pintura restaurada. Na superfície, parece maravilhosa. Mas por baixo... - A voz de Gabriel se perdeu. - Ela teve seqüelas, Julian.

Graves?

Tem dias bons e ruins.

Li nos jornais sobre o assassinato de Ivan. A polícia francesa parece conven­cida de que ele foi morto por ordem do Kremlin ou por um rival irritado. Mas foi você, não foi, Gabriel? Foi você que matou Ivan na entrada daquele restau­rante chique em Saint-Tropez.

O fato de eu estar oficialmente aposentado não significa que as regras te­nham mudado, Julian.

Isherwood encheu a xícara de chá e mexeu, pensativo, no canto de um guardanapo.

Você fez um favor ao mundo matando aquele homem - disse, soturno. - Agora precisa fazer um favor a si mesmo e à esposa maravilhosa que tem. Está na hora de você e Chiara voltarem ao mundo dos vivos.

Nós estamos vivos, Julian. E muito bem, aliás.

Não, não estão. Você está de luto. Fazendo um shivah prolongado pelo filho que perdeu na Rússia. Mas pode caminhar pelos penhascos daqui até Lands End, Gabriel, e isso não vai trazer aquele bebê de volta. Chiara sabe disso. E é hora de você começar a pensar em alguma coisa além de um oligarca russo chamado Ivan Kharkov.

Algo como uma pintura?

Exatamente.

Gabriel deu um suspiro profundo.

Quem é o artista?

Rembrandt.

Qual é a condição do quadro?

É difícil dizer.

Por quê?

Porque, no momento, ele está desaparecido.

Como posso restaurar um quadro desaparecido?

Acho que não fui claro. Não preciso que você restaure um quadro, Gabriel. Preciso que você o encontre.

 

Caminharam pelos penhascos em direção ao farol da península, os dois homens totalmente diferentes entre si, suas figuras contrastando uma com a outra. Isherwood tinha as mãos nos bolsos do casaco de tweed e as pontas de seu cachecol de lã balançavam como bandeiras ao vento. Paradoxalmente, ele falava sobre o verão - uma tarde abafada em julho, em que visitara uma mansão no vale do Loire para buscar a coleção de um homem que falecera, um dos lados macabros da vida questionável de um negociante de arte.

- Um ou dois quadros eram minimamente interessantes, mas o resto era só porcaria. Quando eu estava indo embora, meu celular tocou. Era ninguém me­nos que David Cavendish, um conselheiro artístico de milionários e uma pessoa um tanto dúbia, para falar de uma forma educada.

O que ele queria?

Tinha uma proposta para mim, do tipo que não dá para discutir pelo tele­fone. Insistiu que eu fosse vê-lo imediatamente. Estava numa casa emprestada na Sardenha. Esse é o estilo de Cavendish: é um eterno hóspede. Nunca paga por nada. Mas prometeu que a viagem valeria a pena. Também insinuou que a casa estava cheia de garotas bonitas e abastecida com ótimos vinhos.

E aí você pegou o primeiro vôo?

O que mais eu podia fazer?

E a proposta?

Ele tinha um cliente que queria se desfazer de um retrato importante. Um Rembrandt. Muita grana envolvida. Nunca tinha sido visto em público. Disse que esse cliente não queria colocar o quadro em leilão. Preferia tratar da questão de forma particular. E queria ver a obra pendurada em um museu. Cavendish quis dar a impressão de que o sujeito era uma espécie de filantropo, mas é mais provável que simplesmente não suportasse a idéia da pintura na parede de outro colecionador.

Por que você?

Porque, pelos baixos padrões do mundo da arte, sou considerado um mo­delo de virtude. E, apesar de todas as minhas falhas no decorrer dos anos, de alguma forma fui capaz de manter uma reputação excelente entre os museus.

Se eles soubessem... - Gabriel balançou a cabeça. - Cavendish chegou a dizer o nome do vendedor?

Ele inventou uma besteira qualquer sobre uma linhagem nobre esquecida de um lugar ao leste, mas não acreditei em uma só palavra.

E por que uma venda privada?

Você não está sabendo? Nestes tempos incertos, as vendas privadas estão com tudo. Primeiro, e mais importante, porque asseguram o anonimato com­pleto do vendedor. Lembre-se, querido, que uma pessoa não costuma se separar de um Rembrandt porque ficou cansada de olhar para ele. Uma pessoa se separa de um Rembrandt porque precisa de dinheiro. E a última coisa que alguém rico quer é anunciar ao mundo que não é mais tão rico. Além do mais, levar um quadro a leilão é sempre arriscado. Duplamente arriscado, no panorama atual.

Então você aceitou cuidar da venda.

Obviamente.

Qual foi a comissão?

Dez por cento, divididos meio a meio com Cavendish.

Isso não é muito ético, Julian.

Não tive escolha. Meu telefone parou de tocar no dia em que a Dow Jones caiu abaixo dos 7 mil pontos. E não sou só eu. Todo negociante em St. James está sentindo o aperto. Todos menos Giles Pittaway, claro. De alguma forma, ele sempre dá um jeito de atravessar as tempestades.

Suponho que você tenha obtido uma segunda opinião a respeito da tela antes de colocá-la à venda.

Na mesma hora - disse Isherwood. - Afinal, eu precisava ter certeza de que era de fato um Rembrandt, não um quadro no estilo de Rembrandt.

Quem fez a autenticação?

Adivinhe.

Van Berkel?

É claro.

O Dr. Gustaaf van Berkel era amplamente reconhecido como a maior auto­ridade do mundo em Rembrandt. Também atuava como diretor e juiz chefe da Comissão Rembrandt, um grupo de historiadores de arte, cientistas e pesquisadores cuja vida era dedicada a garantir que todo quadro atribuído a Rembrandt tivesse sido de fato pintado por ele.

Van Berkel foi vago, o que era previsível - explicou Isherwood. - Mas quando mostrei as fotos ele concordou em interromper seu trabalho e ir até Londres para ver a pintura. O entusiasmo em seu rosto me disse tudo que eu pre­cisava saber. Mas ainda tive que esperar duas semanas agonizantes até que Van Berkel e sua câmara de estrelas dessem o veredito. Eles decretaram que o quadro era autêntico e poderia ser vendido como tal. Fiz Van Berkel jurar segredo e até o obriguei a assinar um termo de confidencialidade. Em seguida, peguei o pri­meiro avião para Washington.

Por que Washington?

Porque a Galeria Nacional de Arte estava terminando de preparar uma exposição de Rembrandt. Um bom número de proeminentes museus americanos e europeus tinha concordado em emprestar suas obras, mas ouvi rumores sobre uma bolada de dinheiro que tinha sido reservada para novas aquisições. Tam­bém fiquei sabendo que queriam algo que pudesse gerar algumas manchetes. Algo estimulante, que conseguisse atrair uma multidão.

E o seu novo Rembrandt servia como uma luva.

Assim como meus ternos feitos sob encomenda, queridinho. Na verdade, conseguimos fechar um acordo em pouco tempo. Fiquei de entregar o quadro em Washington, totalmente restaurado, em seis meses. Então o diretor da Gale­ria Nacional de Arte revelaria sua conquista ao mundo.

Você não mencionou o preço da venda.

Você não perguntou.

Estou perguntando agora.

Quarenta e cinco milhões. Esbocei um contrato em Washington e me dei ao luxo de passar uns dias com um amigo especial no Hotel Eden Rock, em Saint Barths. Depois voltei a Londres e comecei a procurar por um restaurador. Precisava de alguém bom. Alguém discreto. Por isso fui até Paris para ver Shamron.

Isherwood encarou Gabriel, esperando uma resposta. Sem receber nenhuma, parou de andar e observou as ondas quebrando nas pedras da ponta da península.

Quando Shamron me explicou que você ainda não estava pronto para vol­tar à ativa, fiquei relutante mas aceitei outro restaurador. Alguém que agarrou a oportunidade de limpar um Rembrandt perdido de longa data. Um ex-restaurador da Tate que tinha passado a trabalhar por conta própria. Não era tão elegante quanto minha primeira escolha, mas era de confiança e bem menos complicado. Nada de terroristas ou traficantes de armas russos. Nenhum pe­dido para tomar conta do gato de um desertor no fim de semana. Nenhum cadáver aparecendo na história. Até agora. - Isherwood se virou para Gabriel. - A não ser que tenha desistido de ver os noticiários, estou certo de que co­nhece o final da trama.

Você contratou Christopher Liddell.

Isherwood assentiu, contemplando o mar.

É uma pena que você não tenha aceitado o trabalho, Gabriel. A única pes­soa a morrer teria sido o ladrão. E eu ainda teria o meu Rembrandt.

 

Cercas vivas acompanhavam a trilha estreita que partia da ponta da penín­sula em direção ao norte e ocultavam o campo ao redor. Isherwood dirigia bem devagar, o corpo alto curvado sobre o volante, enquanto Gabriel olhava pela janela em silêncio. - Você o conhecia, né? Gabriel assentiu, distraído.

Fomos aprendizes de Umberto Conti, em Veneza. Liddell nunca foi com a minha cara.

- Isso é compreensível. Ele deve ter ficado com inveja. Liddell era talentoso, mas não estava à sua altura. Você era a estrela, todo mundo sabia.

Era verdade. Christopher Liddell chegara a Veneza já como um artista ha­bilidoso - mais habilidoso que Gabriel -, mas nunca obteve a aprovação de Umberto. O trabalho de Liddell era metódico e minucioso, mas desprovido da paixão que Umberto via sempre que o pincel de Gabriel tocava a tela. Um­berto tinha um conjunto mágico de chaves que podiam abrir qualquer porta em Veneza. Costumava arrastar Gabriel de seu quarto tarde da noite para observar as obras de arte da cidade. Liddell ficou furioso quando soube dos ensinamen­tos noturnos e pediu que o convidassem. Umberto recusou: o aprendizado de Liddell se limitaria às horas diurnas. As noites pertenciam a Gabriel.

Não é todo dia que um restaurador de arte é brutalmente assassinado no Reino Unido - disse Isherwood. - Dadas as circunstâncias, deve ter causado certo impacto.

Basta dizer que eu li a história hoje de manhã com um interesse mais do que passageiro. E nenhuma das matérias mencionava um Rembrandt perdido, recém-descoberto ou não.

Isso porque o Esquadrão de Artes e Antigüidades da Scotland Yard orien­tou a polícia local a manter o roubo em segredo, pelo menos por enquanto. Esse tipo de publicidade só dificulta a recuperação, pois tende a atrair pessoas que não estão de fato em posse do quadro. Até onde o público sabe, o motivo por trás do assassinato ainda é um mistério.

E seria bom que permanecesse assim - completou Gabriel. - Além do mais, a última coisa de que precisamos é anunciar ao mundo que restauradores particulares mantêm quadros tão valiosos em lugares tão pouco seguros.

Esse era um dos muitos segredos sujos do mundo da arte. Gabriel sempre trabalhara em locais isolados, mas em Nova York e Londres não era incomum entrar no estúdio de um restaurador de elite e encontrar dezenas de milhões de dólares em quadros. Se a temporada de leilões estivesse chegando, o valor das obras podia ser estratosférico.

Fale mais sobre a pintura, Julian.

Isherwood olhou com expectativa para Gabriel.

Isso significa que você vai aceitar o trabalho?

Não, Julian. Significa que eu quero saber mais sobre a pintura.

Por onde você quer que eu comece?

Pelas medidas.

Tem 104 por 86 centímetros.

Data?

1654.

Painel ou tela?

Tela. A contagem de fios é consistente com as telas que Rembrandt usava na época.

E quando foi a última restauração?

Difícil dizer. Cem anos atrás, talvez mais. A pintura estava bem gasta em alguns lugares. Liddell achou que seria necessária uma quantidade substancial de retoques. Estava preocupado com o prazo.

Gabriel perguntou sobre a composição.

Em termos de estilo, é similar a outros retratos daquele período. A mo­delo é uma jovem atraente de cerca de 30 anos. Está usando apenas um xale de seda. Existe um elemento de intimidade na pintura que deixa claro que ela era importante para Rembrandt. Ele trabalhou com um pincel bastante carregado, numa velocidade considerável. Em alguns lugares, parece que chegou a pintar alla prima, sem ter feito nenhum tipo de teste antes.

Sabemos quem ela é?

Não tem nada que a identifique especificamente, mas a Comissão e eu concordamos que se trata da amante dele.

Hendrickje Stoffels?

Isherwood assentiu.

A data da pintura é significativa, porque é o mesmo ano em que Hendrickje deu à luz a filha de Rembrandt. É claro que a Igreja holandesa não viu isso com bons olhos. Ela foi levada a julgamento e condenada a viver com Rembrandt como uma prostituta. Ele nunca se casou com ela.

Isherwood parecia sinceramente incomodado com isso. Gabriel sorriu.

Se eu não o conhecesse melhor, Julian, acharia que você está com ciúme.

Espere até vê-la.

Os dois homens ficaram em silêncio no caminho para o vilarejo do Lagarto. No verão o lugar ficava cheio de turistas. Agora, com as barracas de suvenires e as sorveterias fechadas, pairava uma tristeza no ar.

O que me diz sobre a procedência?

Tem lacunas aqui e ali. Assim como a sua procedência, Gabriel - acrescen­tou Isherwood, com um olhar de confidência. - Mas não há nenhuma reivindi­cação feita em relação a ela. Pedi que o Registro de Obras Perdidas fizesse uma busca discreta para ter certeza.

O escritório de Londres?

Isherwood assentiu.

Então eles também sabem sobre a pintura? - perguntou Gabriel, com desconfiança.

A função deles é encontrar quadros, querido, não roubá-los.

Continue, Julian.

Supostamente a tela permaneceu na coleção particular de Rembrandt até sua morte, quando foi vendida pela corte de falências para ajudar a pagar as dívidas dele. De lá, circulou por Haia por um século, mais ou menos. Fez uma breve incursão pela Itália e voltou à Holanda no início do século XIX. O dono atual a comprou em 1964 da Galeria Hoffmann, em Lucerna. Aquela linda jovem passou a vida se escondendo.

Atravessaram um túnel de árvores úmidas cheias de hera e seguiram na dire­ção de um vale profundo, com uma igreja antiga de pedra na parte mais baixa.

Quem mais sabia que a pintura estava em Glastonbury?

Isherwood pensou a respeito.

O diretor da Galeria Nacional de Arte, em Washington, e minha transpor­tadora. - Hesitou e então acrescentou: - Acho que cheguei a mencionar alguma coisa para Van Berkel.

Liddell tinha outras obras no estúdio?

Quatro - respondeu Isherwood. - Um Rubens que ele tinha acabado de restaurar para a Christies, um outro que talvez seja um Ticiano, uma paisagem de Cézanne... muito boa, por sinal... e alguns nenúfares caríssimos de Monet.

Suponho que também tenham sido roubados.

Isherwood balançou a cabeça.

Só o meu Rembrandt.

Mais nenhuma obra? Tem certeza?

Confie em mim, querido. Tenho certeza.

Saíram do vale e voltaram para o terreno aberto. A distância, dois enormes helicópteros navais flutuavam como zepelins sobre uma base aérea da Marinha. A cabeça de Gabriel, no entanto, estava focada numa única pergunta: por que um ladrão que estivesse com pressa levaria um retrato imenso de Rembrandt em vez de uma obra menor de Cézanne ou Monet?

A polícia tem alguma teoria?

Suspeitam que Liddell deve ter surpreendido os ladrões no meio do roubo. Quando a coisa ficou feia, o mataram e puseram as mãos na pintura mais próxima, que por acaso era a minha. Depois da onda de roubos deste verão, a Scotland Yard está bastante pessimista a respeito das chances de recuperação. E a morte de Liddell complica as coisas. Agora esta é uma investigação de assassinato.

Qual é a previsão de pagamento da seguradora?

Isherwood franziu a testa e tamborilou no volante com um dedo, nervoso.

Você acabou de chegar ao cerne do meu dilema.

Que dilema?

Atualmente, o dono de direito do Rembrandt continua sendo o cliente não identificado de David Cavendish. Mas quando eu tomei posse da pintura, ela deveria ter sido incluída na minha cobertura de seguro.

A voz de Isherwood se perdeu. Tinha uma nota melancólica que Gabriel já ouvira muitas vezes antes. Em geral acontecia quando estava com o cora­ção partido ou quando tinha sido forçado a vender um quadro de que gostava muito. Mas normalmente significava que ele estava com problemas financeiros. De novo.

O que você fez desta vez, Julian?

Bom, este ano tem sido difícil, não é, queridinho? Quando o mercado de ações cai, o mercado imobiliário quebra e, consequentemente, as vendas de itens de luxo diminuem. O que um pequeno negociante independente como eu deveria ter feito?

Você não avisou à seguradora sobre o quadro, avisou?

Os prêmios são tão caros... E aqueles corretores são uns parasitas. Você sabe quanto isso teria me custado? Eu achei que poderia...

Dar um jeitinho?

Algo assim. - Isherwood ficou em silêncio. Quando voltou a falar, sua voz ti­nha uma nota de desespero que não estivera lá antes. - Preciso da sua ajuda, Ga­briel. No momento eu sou pessoalmente responsável por 45 milhões de dólares.

Não é esse o meu trabalho, Julian. Sou um...

Restaurador? - Isherwood olhou para Gabriel com ceticismo. - Nós dois sabemos que você não é um restaurador de arte comum. Também é excepcionalmente bom em encontrar coisas. E, desde que nos conhecemos, nunca lhe pedi um favor. - Ele fez uma pausa. - Não existe mais ninguém a quem eu possa pedir isso. Se você não me ajudar, estarei arruinado.

Gabriel bateu a mão de leve na janela para avisar a Isherwood que estavam se aproximando da mal sinalizada curva para Gunwalloe. Tinha que admitir que o apelo o comovera. O pouco que sabia sobre o caso lhe dizia que não se tratava de um ladrão de arte comum. Além disso, sentia uma incômoda culpa pela morte de Liddell. Como Shamron, Gabriel fora amaldiçoado com um senso exagerado de certo e errado. Seus maiores triunfos profissionais como agente de segurança não tinham sido conquistados à mão armada, e sim por meio de sua vontade inflexível de expor os erros cometidos e corrigi-los. Ele era um restaurador no sentido mais autêntico da palavra. Para Gabriel, o caso era como uma pintura danificada. Deixá-lo em sua condição atual, escurecido por um verniz amare­lado e com cicatrizes do tempo, não era uma opção. Isherwood, claro, sabia disso. Também sabia que tinha um aliado poderoso: o Rembrandt falava por ele.

Uma escuridão profunda caíra sobre a costa da Cornualha quando chegaram a Gunwalloe. Isherwood não disse mais nada enquanto guiava seu Jaguar ao longo da única rua do vilarejo e se dirigia ao pequeno chalé no final da enseada. Ao virarem na entrada, várias lâmpadas de segurança se acenderam instantaneamente, inundando a paisagem com uma forte luz branca. Parada na va­randa, com o cabelo escuro balançando ao vento, estava Chiara. Isherwood a observou por um instante e depois analisou a paisagem.

Alguém já lhe disse que este lugar parece exatamente com uma paisagem de Monet?

Talvez a garota do correio tenha mencionado. - Gabriel olhou para Chiara. - Eu gostaria de poder ajudá-lo, Julian...

Mas...?

Não estou pronto. - Fez uma pausa. - Nem ela.

Eu não estaria tão certo a respeito desta última parte.

Chiara entrou no chalé. Isherwood entregou a Gabriel um grande envelope marrom.

Ao menos dê uma olhada. Se ainda assim não quiser o trabalho, vou en­contrar alguma pintura bacana para você restaurar. Alguma coisa desafiadora, como um painel italiano do século XIV bastante empenado e com danos sufi­cientes para manter essas suas mãos mágicas ocupadas por vários meses.

Restaurar um quadro desses seria mais fácil que encontrar o seu Rembrandt.

Sim - concordou Isherwood. - Mas não seria tão interessante.

 

O envelope continha ao todo dez fotografias: uma foto da pintura inteira e nove closes detalhados. Gabriel as espalhou enfileiradas no balcão da cozinha e examinou cada uma com uma lente de aumento. - O que você está vendo? - perguntou Chiara.

O modo como ele carregou o pincel.

- E...?

Julian estava certo. Ele pintou com muita rapidez e bastante paixão. Mas duvido que tenha trabalhado alla prima. Estou vendo pontos onde ele fez as sombras primeiro, deixando-as secar antes de continuar.

Então é mesmo um Rembrandt?

Sem dúvida.

Como você pode ter tanta certeza só de olhar para uma foto?

Trabalho com pinturas há séculos. Sei reconhecer o que vejo. Esse não é apenas um Rembrandt, mas um Rembrandt excepcional. E está dois séculos e meio à frente de seu tempo.

Como assim?

Dê uma olhada no modo como a tinta foi aplicada. Rembrandt foi um impressionista antes de o termo sequer existir. É uma prova da sua genialidade.

Chiara pegou uma das fotos, um close do rosto da mulher.

Linda. E a amante dele?

Gabriel levantou uma sobrancelha, surpreso.

Eu fui criada em Veneza e fiz mestrado em história do Império Romano. Entendo um pouco de arte. - Chiara olhou novamente para a fotografia e balançou a cabeça. - Ele a tratava mal. Devia ter se casado com ela.

Você parece Julian falando.

Julian está certo.

A vida de Rembrandt foi complicada.

Onde foi que eu já ouvi isso mesmo?

Chiara deu um sorriso malicioso e colocou a foto de volta no balcão. O in­verno da Cornualha tinha suavizado o tom da sua pele mediterrânea e a umi­dade do mar acrescentara cachos a seus cabelos. Estavam presos com uma fivela na altura da nuca e caíam por suas costas na forma de uma grande nuvem casta­nho-avermelhada com mechas acobreadas. Ela era 2 centímetros mais alta que Gabriel e fora abençoada com ombros quadrados, uma cintura fina e as pernas compridas de uma atleta nata. Se tivesse sido criada em outro lugar que não Ve­neza, poderia ter se tornado uma nadadora ou tenista profissional. Mas, como a maioria dos venezianos, Chiara considerava disputas esportivas algo para se ver tomando um café ou aproveitando uma boa refeição. Quando alguém precisava de exercício, era só fazer amor ou caminhar até as balsas para tomar um sorvete. Segundo ela, só os americanos se exercitavam por obrigação, e o resultado disso era uma epidemia de ataques cardíacos e crianças obesas. Descendente de ju­deus espanhóis que fugiram de Veneza no século XV, Chiara acreditava que não havia mal que não pudesse ser curado com um pouco de água mineral ou uma taça de um bom vinho tinto.

Abriu a porta de aço inoxidável do forno e tirou lá de dentro uma panela laranja grande. Quando removeu a tampa, o vapor quente encheu o chalé in­teiro com o cheiro de vitela assada, cebola, erva-doce e vinho doce da Toscana. Ela inspirou profundamente, tocou a superfície da carne com a ponta do dedo e deu um sorriso satisfeito. O descaso de Chiara por exercícios físicos só se igualava à sua enorme paixão por cozinhar. E agora que estava oficialmente aposentada do Escritório, tinha pouco a fazer além de ler e preparar refeições extravagantes. Tudo o que Gabriel precisava fazer era expressar seu apreço de forma apropriada e dar sua atenção completa. Chiara acreditava que comer com pressa era um desperdício. Alimentava-se da mesma forma como fazia amor: lentamente e à luz oscilante de velas. Lambeu a ponta do dedo e colocou a tampa de volta na panela. Depois que fechou o forno, virou-se e viu Gabriel observando-a.

Por que você está me olhando assim?

Só estou olhando.

Algum problema?

Ele sorriu.

Não, nenhum.

Ela franziu a testa.

Você precisa de alguma coisa para ocupar sua cabeça além do meu corpo.

Falar é fácil. Quanto tempo nós temos antes do jantar?

Não o suficiente para isso, Gabriel.

Eu não estava sugerindo isso.

Não? - Ela simulou uma expressão triste. - Estou desapontada.

Abriu uma garrafa de vinho, serviu duas taças e empurrou uma na direção de Gabriel.

Que tipo de gente rouba quadros?

Ladrões, Chiara.

Acho que você quer ir dormir com fome.

Deixe-me reformular. O que eu estava tentando dizer é que não importa, realmente, o tipo de gente que rouba quadros. O fato é que eles são roubados todo dia. Literalmente. E as perdas são imensas. De acordo com a Interpol, algo entre 4 e 6 bilhões de dólares por ano. Depois do tráfico de drogas, da lavagem de dinheiro e do tráfico de armas, o roubo de obras de arte é o empreendimento criminoso mais lucrativo que existe. Já foram roubadas pinturas de Ticiano, Rubens, Leonardo, Caravaggio, Rafael, Van Gogh, Monet, Renoir, Degas... Os

ladrões de arte pilharam algumas das criações mais belas da humanidade. E, de forma geral, não fizemos nada para impedi-los.

Mas quem são esses ladrões?

Alguns são aventureiros incompetentes atrás de emoção. Outros são crimi­nosos comuns tentando ficar famosos por um roubo extraordinário. Mas, infe­lizmente, há alguns que são verdadeiros profissionais. E da perspectiva deles, a relação risco-recompensa está totalmente a seu favor.

Recompensas altas e riscos baixos?

Riscos extremamente baixos - disse Gabriel. - Um segurança pode atirar num ladrão durante um roubo a banco, mas até onde sei ninguém jamais levou um tiro tentando roubar um quadro. Na verdade, facilitamos bastante a vida dos ladrões.

É mesmo?

Em 1998, um ladrão entrou na sala 67 do Louvre, cortou O Caminho de Sèvres, de Corot, da moldura e saiu andando. Só uma hora depois alguém se deu conta de que o quadro não estava mais lá. E por que isso aconteceu? Por­que a sala 67 não tinha câmeras de segurança. A autópsia oficial foi ainda mais constrangedora. Responsáveis do museu não conseguiram sequer compilar uma lista completa de funcionários, ou mesmo fazer uma contagem precisa das obras. A análise oficial concluiu que seria mais difícil para um ladrão roubar qualquer loja de departamentos em Paris do que a maioria dos museus famosos de qualquer lugar do mundo.

Chiara balançou a cabeça, surpresa.

O que acontece com o quadro depois que ele é roubado?

Depende do motivo. Alguns ladrões só querem lucro imediato, e o jeito mais rápido de converter um quadro em dinheiro é devolvendo-o em troca da recompensa. Recompensa não, resgate. Como quase sempre o montante é uma fração pequena do valor real do quadro, os museus e as companhias de seguro ficam mais do que satisfeitos em participar do jogo. E os ladrões sabem disso.

E quando o motivo não é o lucro imediato?

Existe uma discussão no mundo da arte e das forças da lei a respeito disso. Algumas obras acabam sendo usadas como uma espécie de moeda de troca no mercado negro. Um Vermeer roubado de um museu em Amsterdã, por exem­plo, pode acabar nas mãos de uma gangue de tráfico de drogas na Bélgica ou na França, que por sua vez pode usar o quadro como garantia ou pagamento à vista em troca de um carregamento de heroína na Turquia. Uma única pintura pode circular dessa forma por anos, passando de um criminoso para outro, até alguém decidir trocá-la por dinheiro. Enquanto isso, o quadro sofre danos hor­ríveis. Um Vermeer de 400 anos é um objeto delicado. Não gosta de ser enfiado em malas ou enterrado em buracos.

Você concorda com essa hipótese?

Em alguns casos ela é incontestável. Em outros... - Gabriel deu de ombros. - Basta dizer que nunca conheci um traficante de drogas que preferisse um qua­dro a dinheiro vivo.

Então qual é a outra teoria?

Que quadros roubados acabam pendurados nas paredes de homens muito ricos. Um exemplo: cerca de dez anos atrás, Julian estava discutindo os detalhes finais de uma transação com um bilionário japonês na mansão dele, próxima a Tóquio. Em determinado momento, o colecionador pediu licença para atender a uma ligação. Julian, como era de se esperar, se levantou e foi dar uma olhada em volta. No final de um corredor, viu um quadro que lhe parecia familiar e que até hoje ele jura ser o Chez Tortoni.

O Manet roubado do Gardner? Por que um bilionário assumiria um risco desses?

Porque não se pode comprar o que não está à venda. Lembre-se de que a maioria das obras-primas nunca vai entrar no mercado. E para alguns colecionadores, homens acostumados a conseguir o que querem, o inatingível pode se tornar uma obsessão.

E se alguém assim estiver com o Rembrandt de Julian? Quais são as chances de encontrá-lo?

Uma em dez, na melhor das hipóteses. E as chances de recuperação caem vertiginosamente se não for encontrado logo. As pessoas estão atrás daquele Manet há duas décadas, por exemplo.

Talvez devessem procurar no Japão.

Não é má idéia. Mais alguma?

Não chega a ser uma idéia - disse Chiara, com cuidado. - Só uma sugestão.

E qual é?

Seu amigo Julian precisa de você, Gabriel. - Chiara apontou para as foto­grafias espalhadas ao longo do balcão. - E ela também.

Gabriel ficou em silêncio. Chiara pegou a foto que mostrava a tela inteira.

Em que ano ele pintou esse quadro?

1654.

O mesmo ano em que Hendrickje deu à luz Cornelia?

Gabriel assentiu.

Acho que ela parece grávida.

É possível.

Chiara examinou a imagem com atenção por um momento.

Sabe o que mais eu acho? Que ela está guardando segredo. Acho que sabe que está grávida mas ainda não teve coragem de contar para ele. - Chiara olhou para Gabriel. - Isso soa familiar para você?

Acho que você teria dado uma boa historiadora da arte, Chiara.

Eu fui criada em Veneza. Eu sou uma historiadora da arte. - Olhou para a foto de novo. - Não posso deixar uma mulher grávida enterrada num buraco, Gabriel. Nem você.

Gabriel pegou seu celular. Ao digitar o número de Isherwood, escutou Chiara cantando suavemente. Ela sempre cantava quando estava feliz. Foi a primeira vez que Gabriel a ouviu cantar em mais de um ano.

 

A placa na vitrine da loja dizia ANTIGÜIDADES CIENTÍFICAS. Embaixo havia diversas fileiras de microscópios antigos, câmeras, barômetros, telescópios, topógrafos e óculos arrumados meticulosamente. Todos os dias, antes de abrir a loja, Maurice Durand passava alguns instantes inspecionando a dispo­sição das peças em busca de qualquer imperfeição. Mas não naquela manhã. O mundinho bem organizado de Durand estava sendo perturbado por um problema, uma crise de proporções gigantescas para um homem que dedicara toda a vida a evitar problemas e crises.

Ele destrancou a porta, mudou a placa de FECHADO para ABERTO e foi para o escritório nos fundos da loja. Assim como o próprio Durand, o cômodo era pequeno e organizado, sem o menor traço de estilo. Depois de pendurar o casaco com cuidado no gancho, esfregou as costas na base da coluna, onde sofria de uma dor crônica, antes de se sentar para ver seus e-mails, o que fez com pouco entusiasmo. Maurice Durand era, em si, uma espécie de antigüi­dade. Aprisionado pelas circunstâncias de uma época sem encantos, tinha se cercado com símbolos de conhecimento. Considerava a correspondência ele­trônica um incômodo desagradável, mas necessário. Preferia papel e caneta à névoa etérea da internet e lia as notícias de vários jornais enquanto tomava café na sua cafeteria favorita. Na opinião de Durand, a internet era uma praga que matava tudo o que tocava. Temia que algum dia ela viesse a destruir a An­tigüidades Científicas.

Durand passou a maior parte da hora seguinte trabalhando na longa fila de pedidos e consultas recebidos do mundo todo. A maioria de seus clientes estava bem consolidada, mas havia alguns relativamente novos. Sempre que Durand lia a correspondência, sua mente se distraía com outras questões. Por exemplo, ao responder ao e-mail de um antigo cliente que vivia na rua P no distrito de Georgetown, em Washington, não pôde deixar de pensar no pequeno museu localizado a alguns quarteirões de distância. Certa vez chegou a receber uma proposta lucrativa para se apropriar do principal quadro da galeria: Almoço na Festa do Barco, de Renoir. Mas, após uma análise minuciosa - Durand era sempre minucioso recusou. O quadro era grande demais e as chances de sucesso eram muito pequenas. Só aventureiros e mafiosos roubavam quadros grandes, e Durand não era nem uma coisa nem outra. Era um profissional, e um verdadeiro profissional nunca aceita um trabalho que não pode realizar. Essa era uma forma de desapontar os clientes, e Maurice Durand nunca desa­pontava os clientes.

Isso explicava seu temperamento ansioso nessa manhã, bem como sua preocupação com a cópia do jornal Le Figaro na mesa. Não importava quantas vezes lesse o artigo marcado por um triângulo vermelho perfeito, os detalhes não mudavam.

Restaurador de arte britânico bastante conhecido... levou dois tiros em sua residência em Glastonbury... motivo do assassinato não está claro... nada foi roubado...

Era a última parte - nada foi roubado - que mais perturbava Durand. Releu o texto, em seguida pegou o celular e discou. O mesmo resultado. Já tinha ligado dez vezes para aquele número. Nas dez vezes, fora condenado ao purgatório da caixa postal.

Durand desligou o telefone e olhou para o jornal. Nada foi roubado... Não ti­nha certeza se acreditara. Mas, dadas as circunstâncias, não tinha escolha a não ser investigar a questão pessoalmente. A parte ruim era que ele seria obrigado a fechar a loja e viajar para uma cidade que era uma afronta a todas as coisas que ele considerava sagradas. Pegou o celular de novo e dessa vez tentou outro número. Uma gravação atendeu. Claro. Durand revirou os olhos e solicitou à máquina uma passagem de primeira classe no vôo matinal para Marselha.

 

Quando o arranjo foi concluído, todos os envolvidos concordaram que nenhuma missão já empreendida em busca de uma obra de arte roubada tinha começado de forma similar. Isso porque apenas alguns minutos após aceitar o trabalho, Gabriel Allon, o assassino e espião israelense aposentado, fez uma ligação discreta para ninguém menos que Graham Seymour, vice-diretor da Agência Nacional de Inteligência e Segurança britânica, o MI5. Ao ouvir o pedido de Gabriel, Seymour contatou o ministro do Interior, que por sua vez entrou em contato com o chefe da polícia de Avon e Somerset, alocado na sede policial em Portishead. Foi aí que o pedido encontrou a primeira resistência, que desapareceu assim que o chefe de polícia recebeu outra ligação, dessa vez da sede do governo. Mais tarde nesse dia, Gabriel conquistou uma vitória pequena, mas significativa: um convite para visitar a casa e estúdio de seu velho conhecido de Veneza, Christopher Liddell.

Acordou na manhã seguinte e encontrou o outro lado da cama vazio. Isso era incomum, já que quase sempre despertava antes de Chiara. Ficou deitado por um tempo ouvindo a água do chuveiro correr, até que se levantou e foi à cozinha. Depois de preparar uma grande xícara de café com leite, ligou o laptop e deu uma olhada rápida nas notícias. Por força do hábito, leu as manchetes do Oriente Médio primeiro. Uma garota de 16 anos tinha realizado um bombardeio suicida num mercado lotado no Afeganistão, uma explosão misteriosa num lugar re­moto do Iêmen tirara a vida de três líderes de alto escalão da Al-Qaeda e o pre­sidente do Irã, que estava sempre sob os holofotes, tinha feito mais um discurso incendiário sobre varrer Israel da face da Terra. Liderado pela nova administração em Washington, o mundo civilizado murmurava ameaças veladas a sanções enquanto em Jerusalém o primeiro-ministro israelense alertava que a cada hora que passava os iranianos chegavam mais perto do poder nuclear.

Gabriel leu esses relatos com uma sensação esquisita de deslocamento. Ti­nha dedicado mais de 30 anos à proteção do Estado de Israel e, por extensão, aos seus aliados ocidentais. Mas agora, tendo enfim convencido o Escritório a liberá-lo, a única coisa que podia fazer era ficar perplexo pelas notícias que lia. Qualquer arrependimento pela aposentadoria, no entanto, evaporou rapi­damente quando Chiara entrou na cozinha, com o cabelo ainda úmido e a pele resplandecente. Gabriel a observou por cima da tela do computador e sorriu. Por um instante, ao menos, ficou mais do que satisfeito em deixar os problemas do Irã e do território islâmico em mãos alheias.

Às 9h15, Gabriel e Chiara entraram em seu Range Rover e saíram da enseada Gunwalloe. O trânsito era moderado e o tempo mudava toda hora. Em um momento, o sol brilhava e, no instante seguinte, caía um temporal. Passaram por Truro às dez, por Exeter às onze, e ao meio-dia se aproximaram do sudoeste de Glastonbury. A primeira vista não parecia ser mais que uma próspera e tediosa cidade mercantil inglesa. Só quando chegaram à rua Magdalene a verdadeira personalidade da Glastonbury moderna se revelou.

Em que lugar do universo nós estamos? - perguntou Chiara.

Vênus - respondeu Gabriel.

Estacionou na Henley Close e desligou o motor. Esperando do lado de fora da casa 8 estava o detetive Ronald Harkness, do Departamento de Investiga­ção Criminal da Delegacia de Polícia de Avon e Somerset. Tinha a pele curtida pelo sol e vestia um blazer surrado. A julgar pela sua expressão, não se sentia satisfeito por estar ali, o que era compreensível. As Forças Maiores tinham conspirado contra Harkness e o instruído a receber na cena de um crime ainda em aberto uma dupla de investigadores chamada Rossi. As Forças Maiores também tinham exigido que Harkness lhes oferecesse total cooperação, respondesse a todas as perguntas com sinceridade e desse aos investigadores de arte todo o seu apoio. Além disso, disseram-lhe que ele talvez reconhecesse o Sr. Rossi. Nesse caso, deveria ficar de boca fechada e manter os olhos fixos no chão.

Depois de uma rodada de apertos de mão, Harkness deu ao casal dois pares de luvas e sapatilhas de polipropileno para colocarem por cima de seus calçados e os conduziu pelo jardim malcuidado. A porta da frente tinha um aviso que proibia todas as visitas não autorizadas. Gabriel vasculhou o batente atrás de evidências de entrada forçada, em vão, e em seguida, entrando na sala de estar, sentiu um vago cheiro do que reconheceu como acetona. Harkness fechou a porta. Gabriel verificou o teclado de segurança instalado na parede.

É um sistema de alta tecnologia - explicou Harkness, percebendo o in­teresse de Gabriel. - A última atividade foi registrada às 18h53, no dia do as­sassinato. Acreditamos que tenha sido a vítima voltando do jantar. Depois de ativar o sensor da porta da frente, o Sr. Liddell digitou o código para desarmar o alarme. Infelizmente, não reiniciou o sistema depois de entrar na casa. De acordo com a companhia de segurança, ele raramente reiniciava. Achamos que o ladrão sabia disso.

Ladrão?

O detetive assentiu.

Temos uma suspeita inicial. Parece que o criminoso passou os últimos três dias em Glastonbury vigiando a propriedade e a vítima antes de agir. Na ver­dade, ele e o Sr. Liddell jantaram juntos na noite do assassinato. - Harkness se corrigiu. - Bom, não exatamente juntos. Dê uma olhada nisto.

Tirou duas fotos de uma câmera de circuito de segurança do bolso do ca­saco e deu-as a Gabriel. A primeira mostrava Christopher Liddell saindo de um café chamado Hundred Monkeys às 18h32, no dia do assassinato. Na segunda aparecia um homem com um rabo de cavalo espesso, vestido com calça jeans e camisa de flanela, deixando o mesmo café três minutos depois.

Temos mais algumas fotos que foram tiradas perto da Igreja St. John e da pré-escola. É lá que a filha de Liddell estuda. Uma pena. É uma garota adorável.

Nenhuma do assassino perto da casa?

Infelizmente a área coberta pelas câmeras de segurança termina algumas ruas antes desta. - O detetive examinou Gabriel com atenção. - Mas imagino que tenha notado isso quando chegou, senhor...

Rossi - informou Gabriel.

Ele examinou o rosto do suspeito e passou as fotografias para Chiara.

Ele é britânico? - perguntou ela.

Achamos que não. Ele ficou com um grupo Nova Era num campo deserto a uns 3 quilômetros da cidade. Disseram que ele falava inglês com um sotaque francês carregado e tinha uma moto. Disse que se chamava Lucien. As garotas gostaram dele.

E imagino que ele não tenha aparecido em mais nenhuma imagem de câ­mera de segurança desde o assassinato, certo? - perguntou Chiara.

Nem de relance. - Harkness pegou as fotos da mão dela e olhou para Gabriel. - Por onde o senhor gostaria de começar?

Pelo estúdio.

Fica no sótão.

O detetive os conduziu por uma escada estreita e parou no pé do segundo lance de degraus. Estava coberto por marcadores de evidência amarelos e uma boa quantidade de sangue seco. Gabriel olhou de relance para Chiara. Seu rosto estava inexpressivo.

Foi aqui que encontraram o corpo de Liddell - explicou Harkness. - O estúdio fica no segundo andar.

Ele passou com cuidado por cima dos marcadores de evidência e começou a subir a escada. Gabriel foi o último a entrar no estúdio e esperou paciente­mente que o detetive acendesse as lâmpadas de halogênio que Liddell usava para trabalhar. A intensa iluminação branca era um incômodo familiar, assim como tudo naquele quarto. De fato, com algumas pequenas mudanças, Gabriel poderia ter confundido aquele estúdio com o seu próprio. No centro havia um tripé com uma câmera Nikon apontada para o cavalete recentemente de­socupado. A direita do cavalete estava um pequeno carrinho amontoado com recipientes contendo diversos tipos de pincéis de vários tamanhos. Gabriel re­conheceu um deles, o Winsor&Newton série 7, como o favorito de Umberto Conti, que sempre dizia que um restaurador habilidoso poderia fazer qualquer coisa com ele.

Gabriel pegou uma das garrafas de pigmento: alizarina laranja, que costu­mava ser fabricada pelas Indústrias Químicas Imperiais Britânicas e agora era quase impossível de se obter. Misturada com tons pretos transparentes, produ­zia um brilho único. O estoque pessoal de alizarina de Gabriel estava perigosa­mente baixo. O restaurador dentro dele quis colocar a garrafa no bolso, mas, em vez disso, a pôs de volta no lugar e verificou o piso do cômodo. Diversos outros marcadores de evidências estavam espalhados ao redor da base do carrinho.

Encontramos cacos de vidro perto de dois cotonetes pequenos de algodão. Também há resíduos de algum tipo de mistura química líquida. O laboratório ainda está trabalhando na análise.

Diga ao laboratório que é uma mistura de acetona, éter metílico e solução mineral.

O senhor parece bem certo disso.

E estou.

Mais alguma coisa que eu deva saber?

Foi Chiara quem respondeu:

Provavelmente seus técnicos vão descobrir que a proporção da mistura é de duas partes de acetona, uma parte de éter metílico e dez partes de solução mineral.

O detetive assentiu, demonstrando respeito profissional. Ficou claro que começava a se questionar sobre a verdadeira identidade dos dois "investigadores de arte" que tinham amigos no MI5 e na sede do governo.

E os cotonetes de algodão? - perguntou.

Gabriel levantou do carrinho um pino de madeira do tamanho de um lápis para demonstrar.

Liddell tinha começado a remover o verniz manchado da pintura. Ele pas­sava um cotonete ao redor da ponta deste pino e o girava suavemente sobre a superfície do quadro. Quando o cotonete já estava manchado, jogava-o fora e pegava outro. Provavelmente estava trabalhando quando o ladrão entrou na casa.

Como o senhor pode ter certeza?

Um bom restaurador sempre limpa o estúdio no fim de uma sessão de tra­balho, e Christopher Liddell era um bom restaurador.

Gabriel olhou para a câmera fotográfica. Estava conectada por um cabo a um Mac de tela grande, localizado no canto de uma mesa antiga de biblioteca com incrustações de couro. Ao lado do computador havia uma pilha de mono­grafias a respeito da vida e da obra de Rembrandt, incluindo o indispensável Rembrandt: As Pinturas Completas, de Gustaaf van Berkel.

Eu gostaria de ver as fotos que ele tirou do quadro.

Harkness tentou pensar em uma razão para protestar, mas não encontrou nenhuma. Com Chiara olhando por cima de seu ombro, Gabriel ligou o computador e abriu uma pasta nomeada "Rembrandt, Retrato de uma Jovem". Encon­trou 18 fotografias, incluindo várias que tinham sido tiradas depois que Liddell começara o processo de remoção do verniz. Três das imagens pareciam focadas num par de linhas finas - uma perfeitamente vertical, outra perfeitamente ho­rizontal - que convergiam a poucos centímetros do ombro esquerdo da mulher retratada. Gabriel já tinha encontrado vários tipos de vincos de superfície ao longo de sua carreira, mas aqueles eram incomuns tanto na suavidade como na simetria. Era óbvio que as linhas também tinham intrigado Liddell.

Havia mais uma coisa que Gabriel precisava ver no computador. Era dever de todo restaurador manter um registro dos procedimentos realizados em uma pintura, especialmente no caso de uma tão importante como um Rembrandt recém-descoberto. Embora Liddell ainda estivesse no início do processo de restauração quando foi morto, era possível que tivesse registrado suas observações iniciais. Sem pedir permissão, Gabriel abriu o programa de texto e acessou o documento mais recente. Tinha duas páginas e estava escrito na prosa precisa e acadêmica de Liddell. Gabriel leu rapidamente, mantendo uma expressão in­decifrável. Resistindo ao impulso de clicar em imprimir, fechou o arquivo e a pasta com as imagens.

Algo incomum? - perguntou Harkness.

Não - disse Gabriel. - Nada.

Tem mais alguma coisa que o senhor gostaria de ver?

Gabriel desligou o computador e respondeu:

Só uma.

 

Eles pararam lado a lado na beira do patamar e observaram em silêncio o sangue seco.

Tenho algumas fotos - informou o detetive mas são imagens fortes.

Gabriel estendeu a mão em silêncio e pegou a pilha de impressões de 8 por 10 centímetros: Christopher Liddell com os olhos arregalados, uma abertura de saída na base da garganta e um pequeno ferimento de entrada no centro da testa. Harkness novamente observou Gabriel com atenção, intrigado pela ausência de qualquer demonstração de repulsa ao ver um cadáver assassinado de forma brutal. Gabriel passou as fotos para Chiara, que as examinou com a mesma imparcialidade antes de devolvê-las ao detetive.

Como podem ver - disse o detetive -, Liddell levou dois tiros. Ambas as ba­las atravessaram a vítima e foram recuperadas, uma da parede e a outra do chão.

Gabriel avaliou a parede primeiro. O buraco de bala estava a cerca de um metro do chão, do lado oposto do lance de escada que descia do estúdio.

Suponho que esse seja o tiro que atingiu o pescoço.

Exatamente.

Nove milímetros?

O senhor entende de armas, Sr. Rossi.

Gabriel olhou para cima, na direção do estúdio.

Então o assassino disparou do topo da escada?

Ainda não temos um relatório definitivo, mas o ângulo do ferimento, combinado com o ângulo no qual a bala penetrou a parede, indica isso. O legista disse que o tiro acertou a vítima na nuca, estraçalhando a quarta vértebra cervical e partindo a medula espinhal.

Gabriel olhou mais uma vez as fotos da cena do crime.

A julgar pelas queimaduras de pólvora na testa de Liddell, o segundo tiro foi disparado à queima-roupa.

A alguns centímetros de distância - concordou Harkness. Em seguida en­carou Gabriel e acrescentou, de forma provocativa: - Imagino que um assassino profissional se refira a esse disparo como o tiro de segurança.

Gabriel ignorou o comentário e perguntou se algum dos vizinhos tinha rela­tado o som de tiros. Harkness balançou a cabeça.

Então o atirador usou um silenciador? - questionou Gabriel.

Parece que sim.

Gabriel se agachou e, inclinando a cabeça de lado, examinou a superfície do patamar. Logo abaixo do buraco de bala na parede viu uma série de pequenos flocos de gesso. E mais alguma coisa... Ficou de cócoras por mais um instante, imaginando a morte de Liddell como se tivesse sido pintada pela mão de Rembrandt, e em seguida disse que já tinha visto o suficiente. Assim que o detetive apagou a lâmpada da cena do crime, Gabriel abaixou o braço e arrastou com cuidado a ponta do indicador coberto com luva pelo chão. Cinco minutos de­pois, ao entrar no automóvel com Chiara, tinha a luva no bolso do casaco virada pelo avesso.

Você acabou de cometer um crime muito sério - disse Chiara quando Ga­briel ligou o motor.

Tenho certeza de que não foi o último.

Espero que tenha valido a pena.

Valeu.

Harkness ficou parado diante da porta como um soldado, com as mãos para trás e os olhos acompanhando o carro de Gabriel enquanto ele deixava Henley Close numa velocidade completamente inaceitável. Rossi... Harkness soube que era uma mentira no instante em que o anjo desceu da carruagem. Foram os olhos que o entregaram, aquelas tochas verdes incansáveis que pareciam enxer­gar através das pessoas. E aquele andar... Movia-se como se tivesse acabado de cometer um crime, ou como se estivesse prestes a cometê-lo. Mas o que o anjo estava fazendo em Glastonbury? E por que estava fazendo perguntas sobre o paradeiro de uma pintura desaparecida? As Forças Maiores haviam decretado que essas perguntas não deveriam ser feitas. Mas Harkness podia ao menos especular. E talvez um dia pudesse contar aos colegas que tinha apertado a mão de uma lenda. Tinha até uma lembrança da ocasião: as luvas usadas pelo anjo e por sua linda esposa.

Harkness as tirou do bolso. Estranhamente, só encontrou três. Onde estava a quarta? Vendo os faróis traseiros do Range Rover desaparecerem na curva, teve sua resposta. Mas o que deveria fazer? Correr atrás dele? Exigir a luva de volta? Não podia fazer nada. As Forças Maiores o haviam instruído a dar ao anjo toda a liberdade. Então ele continuou lá parado, em silêncio e com os olhos fixos no chão, perguntando-se o que o anjo tinha escondido naquela maldita luva.

 

Gabriel espiou a ponta de seu dedo indicador esquerdo.

O que é? - perguntou Chiara.

Chumbo branco, cinábrio e talvez um toque de lazulita natural.

Flocos de tinta?

Também consigo ver fibras de tecido.

Que tipo de tecido?

Um pano de linho pesado que era usado para cobrir colchões e velas de na­vio na Holanda no século XVII. Rembrandt o usava para confeccionar suas telas.

O que a presença de flocos de tinta e fibras no chão significa?

Se eu estiver certo, significa que estamos procurando um Rembrandt com um buraco de bala.

Gabriel assoprou o material da ponta do dedo. Estavam indo na direção oeste, seguindo por uma rua de faixa dupla que atravessava as colinas de Poldem. Logo à frente um sol laranja se punha sobre o horizonte, suspenso entre duas finas camadas de nuvem.

Você está sugerindo que Liddell reagiu?

Gabriel assentiu.

A evidência estava lá no estúdio.

Que evidência?

Os cacos de vidro e o resíduo químico, para começo de conversa.

Você acha que a solução foi derrubada durante a briga?

É pouco provável. Liddell era esperto o suficiente para saber que não devia se meter numa briga física com um ladrão armado. Acho que usou o solvente como arma.

Como?

Baseado no resíduo no chão, acho que Liddell jogou o solvente no rosto do ladrão. Teria provocado queimaduras sérias nos olhos e o cegado por vários segun­dos, tempo suficiente para Liddell fugir. Mas ele cometeu um erro e o levou junto.

O Rembrandt?

Gabriel assentiu.

É grande demais para segurar com uma só mão, o que significa que ele teria precisado agarrá-lo pelas duas extremidades verticais - explicou Gabriel enquanto demonstrava, agarrando o volante dos dois lados. - Deve ter sido di­fícil carregar o quadro descendo aquela escada estreita, mas Liddell quase con­seguiu. Estava a uns dois passos do patamar quando o primeiro tiro o acertou. A bala saiu pela frente de seu pescoço e, se eu estiver certo, atravessou o quadro antes de entrar na parede. A julgar pela composição e pela tonalidade dos flocos de tinta, eu diria que o disparo atravessou o lado direito do rosto da mulher.

É possível restaurar um buraco de bala?

Totalmente. Você ficaria surpresa com as coisas estúpidas que as pessoas fazem com quadros. - Gabriel fez uma pausa. - Ou por quadros.

O que você quer dizer?

Christopher era um romântico. Quando estudamos juntos em Veneza, ele se apaixonou diversas vezes. E sempre acabava com o coração partido.

O que isso tem a ver com o Rembrandt?

Está tudo nos registros da restauração - explicou Gabriel. - Eram cartas de amor. Christopher enfim tinha se apaixonado por uma mulher que não poderia magoá-lo. Estava obcecado com a garota naquela pintura, e acho que morreu porque não conseguiu abandoná-la.

Só tem uma coisa que não entendo - comentou Chiara. - Por que o ladrão não levou nenhum dos outros quadros, como o Monet ou o Cézanne?

Porque era um profissional. Foi atrás do Rembrandt e levou o Rembrandt.

O que vamos fazer agora?

Às vezes o melhor jeito de encontrar um quadro é descobrir onde ele esteve.

Por onde começamos?

Pelo começo - disse Gabriel. - Em Amsterdã.

 

Se Maurice Durand tivesse alguma inclinação à introspecção, o que não era o caso, talvez concluísse que o percurso de sua vida tinha sido determi­nado no dia em que ouviu pela primeira vez a história de Vincenzo Peruggia.

Carpinteiro proveniente do norte da Itália, Peruggia entrou no Louvre na tarde de 20 de agosto de 1911, um domingo, e se escondeu num armário. Saiu na manhã seguinte bem cedo, vestido com um uniforme de funcionário, e an­dou até o Salão Quadrado. Conhecia bem o cômodo, pois alguns meses antes tinha ajudado a construir uma cobertura especial de proteção sobre a obra mais famosa do museu, a Mona Lisa. Como era segunda-feira, dia em que o Louvre não abria para o público, ficou com o salão inteiro à sua disposição. Levou só alguns segundos para tirar o pequeno painel de Leonardo da parede e carregá-lo até uma escadaria próxima. Pouco depois, com o quadro escondido embaixo do uniforme, Peruggia passou por um posto de segurança vazio e saiu pelo vasto pátio central do Louvre. Assim, a obra de arte mais famosa do mundo desapa­receu na manhã parisiense.

O que tornou o feito ainda mais notável foi o período de 24 horas que se passou antes que alguém se desse conta de que a pintura não estava mais no museu. Quando o alerta enfim foi emitido, a polícia francesa lançou-se em uma busca implacável, embora um tanto ridícula. Um dos primeiros suspeitos foi um pintor de vanguarda chamado Pablo Picasso, detido em seu apartamento em Montmartre apesar de estar a centenas de quilômetros de Paris no momento do crime.

Finalmente os policiais franceses conseguiram rastrear Peruggia, mas logo o isentaram de qualquer suspeita. Se tivessem se dado o trabalho de investigar o enorme baú que ele tinha no quarto, a busca pelo Mona Lisa teria terminado. Em vez disso, a pintura permaneceu escondida ali por dois anos, até que Perug­gia tentou ingenuamente vendê-la para um negociante conhecido em Florença. Ele foi preso, mas passou apenas sete meses na cadeia. Alguns anos depois, seu retorno à França foi autorizado. Estranhamente, o homem que executou o maior roubo de arte na história abriu uma loja de quadros em Haute-Savoie, onde viveu sem aborrecimentos até sua morte.

Maurice Durand aprendeu várias lições importantes com o estranho caso de Peruggia. Aprendeu que roubar grandes obras não era tão difícil quanto se imaginava, que as autoridades eram bastante indiferentes a crimes desse tipo e que as penas, em geral, eram leves. Mas a história de Peruggia também estimulou a vontade de Durand. A Antigüidades Científicas lhe pertencia por direito - a loja tinha sido de seu pai, e do pai de seu pai -, mas sua grande paixão sempre fora a arte. E, embora houvesse lugares piores para passar o dia do que o oitavo distrito de Paris, a loja não lhe propiciava uma maneira particularmente interessante de ganhar a vida. Às vezes Durand se sentia um pouco como as bugigangas alinha­das na pequena vitrine: elegantes e razoavelmente atraentes, mas que, em última análise, só serviam para juntar poeira.

Foi essa combinação de fatores, 25 anos antes, que impelira Durand a roubar seu primeiro quadro do Museu de Belas-Artes em Estrasburgo: uma pequena natureza-morta de Jean-Baptiste-Siméon Chardin que ficava num canto pouco freqüentado pelos guardas e visitantes. Com uma navalha, Durand cortou a pintura da moldura e a colocou em sua valise. Mais tarde, voltando de trem a Paris, tentou recordar as emoções que experimentara no momento do crime e se deu conta de que fora pura satisfação. Foi então que percebeu que possuía os atributos de um ladrão perfeito.

Assim como Peruggia, Durand manteve o troféu em seu apartamento, em Pa­ris - não por dois anos, mas por dois dias. Ao contrário do italiano, ele já tinha um comprador aguardando, um colecionador de baixa reputação que estava em busca de um Chardin e não se preocupava com detalhes sem importância como a procedência. Durand foi bem pago, o cliente ficou feliz e uma carreira nasceu.

Era uma carreira caracterizada pela disciplina. Durand nunca roubava qua­dros para receber resgates ou recompensas, mas para vender. No início, deixava as obras-primas para os sonhadores e tolos e focava nas pinturas de fama intermediária de artistas renomados e em obras que poderiam ser confundidas com quadros que não tinham problemas de procedência. Embora ocasionalmente roubasse de pequenos museus e galerias, fazia a maior parte do trabalho em casas de campo e castelos, que eram mal protegidos e repletos de obras valiosas.

De sua base de operações, em Paris, ele construiu uma extensa rede de con­tatos, chegando a vender para negociantes em Hong Kong, Nova York, Dubai e Tóquio. Aos poucos, começou a mirar em alvos mais difíceis - obras-primas de museus avaliadas em dezenas ou, em alguns casos, centenas de milhões de dólares. Mas sempre agia com base em duas regras simples: nenhum quadro era roubado a menos que houvesse um comprador esperando e os negócios só eram fechados com pessoas conhecidas. O Retrato com a Orelha Cortada, de Van Gogh, estava agora pendurado na parede do palácio de um xeque árabe que tinha uma inclinação por violência com facas. O Caravaggio passara para um dono de fábricas em Xangai e o Picasso estava nas mãos de um bilionário me­xicano bastante íntimo de alguns cartéis de drogas nacionais. Os três quadros tinham uma coisa em comum: nunca mais seriam vistos pelo público.

Não é preciso dizer que já fazia muitos anos que Maurice Durand não rou­bava um quadro pessoalmente. Era uma profissão para jovens, e ele se aposen­tara depois de uma invasão noturna a uma pequena galeria na Áustria. A ação lhe causara um ferimento nas costas que o deixara com dores constantes. Desde então tinha sido forçado a usar os serviços de profissionais de aluguel. O acordo não era o ideal por razões óbvias, mas Durand tratava seus homens de campo dè forma justa e os pagava muito bem. Como resultado, nunca tivera uma complicação desagradável. Até agora.

Os melhores vinhos da França eram produzidos no sul do país e, na opinião de Durand, os melhores ladrões também, principalmente no antigo porto de Marselha. Ao descer na estação St. Charles, Durand ficou contente ao constatar que a temperatura estava vários graus mais alta que em Paris. Andou apressado sob o sol brilhante ao longo do bulevar dAthènes e virou à direita seguindo em di­reção ao Porto Velho. Era quase meio-dia. Os barcos de pesca tinham voltado das rondas matinais e as bancas de aço que se alinhavam no lado leste do porto continham toda espécie de criatura marinha horrenda prestes a se tornar sopa nas mãos dos chefs de cozinha da cidade. Normalmente, Durand teria parado para observar o conteúdo de cada banca com um apreço que só um francês seria capaz de sentir, mas dessa vez ele caminhou direto para a banca de um homem de cabe­los grisalhos vestido com um suéter esfarrapado de lã e um avental de borracha. O sujeito parecia um trabalhador respeitável que ganhava a vida pescando num mar temporariamente desprovido de peixes. Mas Pascal Rameau era tudo menos respeitável. E não pareceu surpreso ao ver Maurice Durand.

Como foi a pesca, Pascal?

Merde - resmungou Rameau. - Parece que a gente consegue menos a cada dia que passa. Daqui a pouco... - repuxou os lábios para baixo numa expressão gaulesa de desgosto - não vai ter nada além de lixo.

Culpa dos italianos - disse Durand.

Tudo é culpa dos italianos - afirmou Rameau. - Como estão suas costas?

Duran franziu a testa.

Na mesma, Pascal.

Rameau fez uma expressão compassiva.

As minhas também. Não sei por quanto tempo ainda vou conseguir traba­lhar no barco.

Você é o homem mais rico de Marselha. Por que vai para o mar toda manhã?

Sou um dos mais ricos. E vou pela mesma razão por que você vai para sua loja. - Rameau sorriu e olhou para a valise de Durand. - Trouxe o dinheiro?

Durand assentiu.

Não é aconselhável carregar grandes somas em espécie por Marselha - comentou o pescador. - Você não sabe que esta cidade está cheia de ladrões, Maurice?

Ladrões muito competentes - concordou Durand. - Pelo menos costuma­vam ser.

Um negócio como o nosso pode ser imprevisível.

Não era você que sempre dizia que derramar sangue é ruim para os negó­cios, Pascal?

Isso é verdade. Mas às vezes é inevitável.

Onde ele está?

Rameau inclinou a cabeça para a direita. Durand caminhou pelo cais do Rive Neuve, o rio novo, até o centro do porto. Mais ou menos na metade do caminho que descia pela marina estava um iate batizado de Mistral. Sentado no deque, com os pés apoiados na borda do navio e os olhos ocultos por óculos escuros, encontrava-se um homem com o cabelo escuro até os ombros preso num rabo de cavalo espesso. Seu nome era René Monjean, um dos ladrões mais talentosos de Durand e normalmente o mais confiável.

O que aconteceu na Inglaterra, René?

Tive complicações.

Que tipo de complicações?

Monjean tirou os óculos de sol e encarou Durand com olhos da cor de sangue.

Onde está o meu quadro? - quis saber Durand.

Onde está o meu dinheiro?

Durand ergueu a valise. Monjean colocou os óculos e se levantou.

 

Você devia procurar um médico, René. Acetona pode causar danos permanentes à córnea.

E quando o médico perguntar como a acetona veio parar nos meus olhos?

O médico não ousaria perguntar isso.

Monjean abriu a porta da pequena geladeira na cozinha do barco e pegou duas garrafas de cerveja Kronenbourg.

É um pouco cedo para mim, René.

Monjean colocou uma das garrafas de volta e deu de ombros. Esses caras do norte... Durand sentou na mesinha.

Não havia nenhum outro jeito de lidar com a situação?

Acho que eu poderia ter deixado o sujeito escapar e ligar para a polícia, mas não me pareceu uma boa idéia. - Fez uma pausa e acrescentou: - Para nenhum de nós.

Não dava para nocautear o cara?

Não sei nem como consegui acertar o tiro. Não conseguia ver nada quando puxei o gatilho. - Abriu a garrafa. - Você nunca...

Se atirei em alguém? - Durand balançou a cabeça. - Nunca nem andei armado.

O mundo mudou, Maurice. - Monjean olhou para a valise. - Você tem al­guma coisa para mim?

Durand abriu as travas e tirou vários maços de notas de 100 euros.

Sua vez, René.

Monjean abriu um armário com fechadura e tirou lá de dentro um tubo de papelão de mais ou menos 12 centímetros de diâmetro por um metro de comprimento. Removeu a tampa de alumínio e balançou o tubo várias vezes de cabeça para baixo até que 8 centímetros da pintura estivessem pendurados para fora.

Cuidado, René, você vai danificar a pintura.

Acho que é um pouco tarde para se preocupar com isso.

Monjean desenrolou o quadro sobre a mesa de centro. Durand o encarou, horrorizado. Logo acima do olho direito da mulher havia uma perfuração que parecia ter sido feita por um lápis. O xale dela estava manchado com algo escuro, assim como seus seios.

Diga que isso não é sangue.

Eu poderia, mas não seria verdade - respondeu Monjean.

De quem?

De quem você acha?

Monjean deu um longo gole na cerveja e explicou tudo.

É uma pena que você não tenha mirado com mais cuidado - comentou Durand. - Podia tê-la acertado bem entre os olhos.

Examinou o buraco, depois lambeu a ponta de um dos dedos e o esfregou na superfície da pintura até borrar um pouco do sangue.

Parece que vai sair fácil - disse Monjean.

Deve sair.

E o buraco de bala?

Conheço um homem em Paris que talvez seja capaz de consertá-lo.

Que tipo de homem?

O tipo que produz falsificações.

Você precisa de um restaurador, Maurice. Um restaurador muito bom.

No cerne de todo bom restaurador existe um falsificador.

Monjean não pareceu convencido.

Posso lhe dar um conselho, Maurice?

Você acabou de atirar num Rembrandt avaliado em 45 milhões de dólares. Mas, por favor, René, fique à vontade.

Essa pintura é encrenca na certa. Toque fogo nela e esqueça o assunto. Além do mais, sempre podemos roubar outra.

Estou tentado a fazer isso.

Mas...?

Tenho um cliente aguardando, e meus clientes esperam que eu entregue a mercadoria. Além do mais, René, não entrei neste negócio para destruir qua­dros. Especialmente quadros tão belos como este.

 

No mundo competitivo do comércio de obras de arte, havia um princípio sagrado: procedência. O registro por escrito da transferência de posse de uma pintura significava tudo. Teoricamente, negociantes não vendiam quadros sem uma procedência confiável, colecionadores não os compravam e nenhum restaurador decente poria as mãos numa obra sem saber por onde ela tinha andado e sob que condições havia sido pendurada. Mas depois de muitos anos conduzindo investigações de procedência, Gabriel não se surpreendia mais com as vidas secretas que algumas das obras de arte mais procuradas do mundo levavam. Ele sabia que quadros, assim como pessoas, às vezes mentiam sobre seu passado. E sabia que, com freqüência, essas mentiras revelavam mais do que as supostas verdades contidas nos pedigrees impressos. Tudo isso expli­cava seu interesse pela Galeria De Vries Fine Arts, provedora de obras de arte holandesas e belgas de qualidade desde 1882.

Ocupando um prédio majestoso mas um tanto taciturno com vista para o canal Herengracht, a galeria sempre se apresentara como a própria imagem de estabilidade e boas maneiras, embora um breve vislumbre das partes mais obscuras de seu passado mostrasse uma história muito diferente. Lamentavelmente, nada era mais obscuro do que sua conduta durante a Segunda Guerra Mundial. Algumas semanas após a rendição da Holanda, Amsterdã foi inundada por hordas de ale­mães em busca de pinturas holandesas. Os preços dispararam tão rapidamente que cidadãos comuns logo começaram a vasculhar seus armários em busca de qualquer coisa que pudesse ser vista como uma obra dos grandes pintores dos séculos XVI e XVII. A Galeria De Vries recebeu os alemães de braços abertos.

Seu melhor cliente era ninguém menos que Hermann Göring, que comprou mais de 12 quadros na galeria entre 1940 e 1942. A equipe considerava Göring um negociante astuto e apreciava secretamente seu charme maroto. De sua parte, Gõring dizia aos colegas em Berlim que nenhuma maratona de compras em Amsterdã seria completa sem uma parada na requintada galeria em frente ao Herengracht.

De Vries também desempenhou um papel proeminente na história do Retrato de uma Jovem, de Rembrandt. Duas das três ocasiões registradas em que a pin­tura mudara de mãos no século XX foram vendas intermediadas pela galeria. A primeira acontecera em 1919 e a segunda, em 1936. Ambas foram privadas, de forma que a identidade do comprador e do vendedor eram conhecidas apenas pela própria mediadora. De acordo com as regras de negociação do mundo da arte, tais transações deveriam permanecer confidenciais por toda a eternidade. Mas em algumas circunstâncias - com o passar do tempo ou uma quantia su­ficiente de dinheiro - um negociante poderia ser convencido a abrir seus livros de registro.

Gabriel confiou essa delicada tarefa a Julian Isherwood, que sempre desfru­tara de uma relação profissional cordial com a Galeria De Vries, apesar de seu passado questionável. Isherwood precisou de várias horas de negociações intensas por telefone, mas finalmente convenceu Geert de Vries, bisneto do fundador, a entregar os registros. Ele nunca revelaria a Gabriel o preço exato que pagara pelos documentos, limitando-se apenas a dizer que tinha sido bastante alto. "Existe algo de que você deve sempre se lembrar sobre negociantes de arte", afirmou. "Eles são as mais baixas criaturas de Deus. E épocas de turbulência econômica como esta trazem à tona seu pior."

Gabriel e Chiara monitoraram os estágios finais da negociação instalados numa charmosa suíte no Hotel Ambassade. Após receberem a notícia de que o trato fora finalizado, deixaram o lugar separados e assim fizeram a breve caminhada ao longo do Herengracht em direção à galeria, Chiara em um lado do canal e Gabriel no outro. Geert de Vries tinha deixado fotocópias dos registros na recepção em um envelope grosso com o nome "Rossi". Gabriel o guardou na mala e desejou, em italiano com um sotaque inglês acentuado, uma boa tarde para a recepcio­nista. Ao sair do prédio, viu Chiara encostada num poste na margem oposta do canal. Seu cachecol estava posicionado de forma a sinalizar que ela não tinha visto nenhum tipo de vigilância. Chiara o seguiu até um café no Bloemenmarkt e bebeu um chocolate quente enquanto ele verificava os documentos com cuidado.

- Existe uma razão para os holandeses falarem tantas línguas: a deles é indecifrável.

Você consegue entender?

A maior parte. A pessoa que comprou a pintura em 1919 era um banqueiro chamado Andries van Gelder. Ele deve ter sido atingido gravemente pela Grande Depressão. Quando vendeu a obra, em 1936, sofreu uma perda considerável.

E o dono seguinte?

Um homem chamado Jacob Herzfeld.

Garotos holandeses costumam se chamar Jacob?

Não, é mais comum usarem Jacobus.

Então ele era judeu?

Provavelmente.

E quando foi a venda seguinte?

Em 1964, na Galeria Hoffmann, em Lucerna.

Na Suíça? Por que Jacob Herzfeld venderia sua pintura na Suíça?

Aposto que não foi ele quem fez a venda.

Por quê?

Porque, a não ser que Jacob Herzfeld tenha tido muita sorte, provavelmente não estava vivo em 1964. O que significa que é bem possível que tenhamos aca­bado de descobrir um buraco enorme na procedência do quadro.

O que vamos fazer agora?

Gabriel colocou os documentos de volta no envelope.

Descobrir o que aconteceu com ele.

 

O Retrato de uma Jovem, óleo sobre tela de 104 por 86 centímetros, foi pin­tado numa casa ampla a oeste do centro antigo de Amsterdã. Rembrandt adquiriu a propriedade em 1639 por 13 mil florins, uma soma imensa mesmo para um pintor de seu porte, o que eventualmente o levaria à ruína financeira. Na época, a rua se chamava Sint Antonisbreestraat. Posteriormente, devido a uma mudança na demografia da vizinhança, seria rebatizada de Jodenbreestraat, ou rua larga judaica. A razão pela qual Rembrandt escolhera viver nesse lugar foi por muito tempo assunto de debates. Será que ele cultivava uma afinidade secreta pelo judaísmo? Ou optara por residir no distrito por ser o lar de vários outros pintores e colecionadores? Em todo caso, um aspecto é indiscutível: o maior pintor da Idade de Ouro holandesa viveu e trabalhou entre os judeus de Amsterdã.

Pouco depois da morte de Rembrandt, várias sinagogas foram construídas próximo ao início da Jodensbreestraat, ao redor da Visserplein e da Meijerplein. Os prédios de tijolos vermelhos de alguma forma sobreviveram à ocupação nazista da Holanda, mas isso não aconteceu com a maior parte das pessoas que os freqüentavam para rezar. O Museu Histórico Judaico, principal guardião das memórias daqueles tempos horríveis, foi erguido em meio a um complexo de quatro sinagogas asquenazes antigas. Depois de passar pelo detector de metais na entrada da frente, Gabriel perguntou pela seção de pesquisas e foi encami­nhado para o subsolo. Era um espaço moderno, limpo e bem iluminado, com mesas compridas e uma escadaria interna em espiral que levava aos arquivos nos níveis superiores. Como já era tarde, só havia ali um único arquivista, um homem alto de 40 e poucos anos com cabelos louro-avermelhados.

Sem entrar em detalhes, Gabriel disse que procurava informações sobre um homem chamado Jacob Herzfeld. O arquivista pediu que ele soletrasse o sobrenome e foi até um terminal de computador. Um clique do mouse abriu a ferramenta de pesquisa do banco de dados. O funcionário digitou o nome e o sobrenome de Herzfeld e clicou novamente.

Talvez seja este. Jacob Herzfeld, nascido em Amsterdã em março de 1896, morto em Auschwitz em março de 1943. Sua esposa e sua filha foram mortas na mesma época. A criança tinha só 9 anos. - O arquivista se virou para Gabriel. - Eles devem ter sido uma família rica. Moravam em um ótimo lugar na Plantage Middenlaan. E bem perto daqui, do outro lado do Wertheim Park.

Existe algum jeito de saber se algum membro da família sobreviveu?

Não por este banco de dados, mas vou verificar nos arquivos.

O homem saiu por uma porta. Chiara vasculhou as estantes enquanto Gabriel se sentou em frente ao computador e passou os olhos pelos nomes dos falecidos. Salomon Wass, nascido em Amsterdã em 31 de maio de 1932, assassinado em Sobibór em 14 de maio de 1943... Alida Spier, nascida em Roterdã em 20 de setembro de 1915, assassinada em Auschwitz em 30 de setembro de 1942... Sara da Silva Rosa, nascida em Amsterdã em 8 de abril de 1930, assassinada em Auschwitz em 15 de outubro de 1942... Esses eram apenas três dos 110 mil judeus holandeses que foram colocados em vagões de carga e despachados para o leste a fim de se­rem assassinados e queimados. Só um quinto dos judeus holandeses sobreviveu à guerra, a menor porcentagem de todos os países ocidentais ocupados pelos alemães. Diversos fatores contribuíram para a taxa de mortalidade do Holo­causto na Holanda, entre eles o apoio entusiasmado de integrantes da sociedade holandesa. Na verdade, desde policiais que prendiam judeus até trabalhadores ferroviários que os transportavam para a morte, os cidadãos holandeses foram ativos em praticamente todos os estágios do processo. Adolf Eichmann, o dire­tor encarregado da Solução Final, diria a respeito de seus ajudantes locais: "Foi um prazer trabalhar com eles."

O arquivista voltou, segurando uma única folha de papel.

Achei que tinha reconhecido o nome e o endereço. Existe uma outra filha que sobreviveu. Mas não acho que ela vá querer falar com o senhor.

Por que não? - perguntou Gabriel.

Nós temos uma conferência anual aqui em Amsterdã focada nas crianças que se mantiveram escondidas durante o Holocausto. No ano passado, fiquei encarregado do processo de registros. - Ele ergueu a folha de papel. - Lena Herzfeld participou da primeira sessão, mas foi embora pouco depois do começo da reunião.

O que aconteceu?

Quando pedimos que escrevesse suas memórias da guerra para nossos ar­quivos, ficou muito agitada e irritada. Disse que tinha sido um erro vir. Depois, nunca mais a vimos.

Esse tipo de reação é comum - disse Gabriel. - Alguns sobreviventes levam anos até conseguir falar sobre as suas experiências. E alguns nunca conseguem.

Isso é verdade - concordou o arquivista. - Mas as crianças escondidas estão entre as vítimas menos compreendidas do Holocausto. Suas experiências foram marcadas por um tipo específico de tragédia. Na maior parte dos casos, foram postas sob os cuidados de estranhos completos. Seus pais estavam tentando salvar suas vidas, mas que criança consegue entender o fato de ter sido deixada para trás?

Entendo - disse Gabriel. - Mas é muito importante que eu consiga falar com ela.

O arquivista avaliou o rosto de Gabriel e pareceu reconhecer algo que já tinha visto antes. Deu um sorriso triste e lhe entregou a folha de papel.

Não diga a ela onde você conseguiu o endereço. E tenha o cuidado de tratá-la com gentileza. Ela é frágil. Todas elas são um pouco frágeis.

 

O arquivista contou tudo o que sabia para Gabriel e Chiara. Lena Herzfeld tinha trabalhado como professora no sistema estadual de ensino holandês, nunca se casara e vivia logo na esquina da antiga casa de sua família. Era uma rua pequena com um parque verde frondoso de um lado e um conjunto de casas do outro. A dela era uma pequena construção estreita com uma porta preta também estreita no nível da rua. Gabriel levou a mão até a campainha, mas hesitou. Ela ficou muito agitada e irritada... Depois, nunca mais a vimos. Pensou que talvez fosse melhor deixá-la em paz. Sabia por experiência própria que mexer com as memórias de um sobrevivente podia ser semelhante a atravessar um lago congelado. Um passo em falso e a superfície pode rachar, com resultados desastrosos.

Qual é o problema? - perguntou Chiara.

Não quero fazê-la passar por isso. Além do mais, ela não deve se lembrar de nada.

Ela tinha 9 anos quando os alemães vieram. Ela se lembra.

Gabriel não se moveu. Chiara apertou a campainha por ele.

Por que você fez isso?

Ela foi àquela conferência por uma razão: ela quer falar.

Então por que ficou tão chateada quando perguntaram sobre a guerra?

Provavelmente não perguntaram do jeito certo.

E você acha que eu vou conseguir?

Sei que vai.

Chiara levou a mão até a campainha novamente, mas parou quando escutou o som de passos no corredor. A luz externa se acendeu e a porta se abriu alguns centímetros, revelando uma mulher miúda e reservada toda vestida de preto. Seu cabelo grisalho estava bem penteado e seus olhos azuis eram claros e atentos. Ela encarou os visitantes com curiosidade e então, percebendo que não eram holandeses, falou num inglês impecável:

Posso ajudá-los?

Estamos procurando por Lena Herzfeld - informou Gabriel.

Sou eu - respondeu ela calmamente.

Gostaríamos de saber se podemos conversar com você.

Sobre o quê?

Seu pai. - Gabriel fez uma pausa e acrescentou: - E sobre a guerra.

Ela ficou em silêncio por um momento.

Meu pai está morto há mais de 60 anos - disse ela, com firmeza. - E quanto à guerra, não há nada para falar.

Gabriel olhou para Chiara, que o ignorou e perguntou de maneira gentil:

Você pode falar conosco a respeito do quadro, então?

Lena teve um sobressalto, mas logo recuperou a compostura.

Que quadro seria esse?

O Rembrandt que seu pai tinha antes da guerra.

Acho que você está me confundindo com outra pessoa. Meu pai nunca teve um Rembrandt.

Teve, sim - argumentou Gabriel. - Ele comprou a pintura da Galeria De Vries Fine Arts, em Herengracht, em 1936. Tenho uma cópia do comprovante de venda, se você quiser ver.

Não tenho desejo algum de ver isso. Agora, se me dão licença, eu...

Então pode ao menos dar uma olhada nisto?

Sem esperar pela resposta, Gabriel colocou uma fotografia da pintura nas mãos dela. Por vários segundos, o rosto de Lena Herzfeld não expressou ne­nhuma emoção além de uma vaga curiosidade. Então, pouco a pouco, o gelo começou a rachar e lágrimas lhe escorreram pelas bochechas.

Você se lembra agora, Srta. Herzfeld?

Faz muito tempo, mas sim, eu me lembro. - Ela enxugou uma lágrima do rosto. - Onde você conseguiu isto?

- Talvez seja melhor conversarmos lá dentro.

Como você me encontrou? - perguntou ela cheia de medo, com o olhar ainda fixo na fotografia. - Quem me traiu?

Gabriel sentiu como se uma pedra tivesse aterrissado no seu coração.

Ninguém a traiu, Srta. Herzfeld - disse ele, suavemente. - Somos amigos. Você pode confiar em nós.

Aprendi ainda criança a não confiar em ninguém. - Ela ergueu os olhos da foto. - O que vocês querem de mim?

Apenas sua memória.

Faz muito tempo.

Alguém morreu por causa dessa pintura, Srta. Herzfeld.

Sim - afirmou ela. - Eu sei.

Devolveu a fotografia para Gabriel. Por um momento, ele temeu ter ido longe demais. Em seguida a porta se abriu mais alguns centímetros e Lena Herzfeld deu um passo para o lado.

Trate-a com gentileza, Gabriel lembrou a si mesmo. Ela é frágil. Todas elas são um pouco frágeis.

 

Gabriel soube no instante em que entrou na casa de Lena que ela sofria de alguma espécie de transtorno. A casa era organizada, limpa e esterilizada, mas havia um tipo de loucura. A primeira evidência do distúrbio foi o estado da sala de estar. Como a maior parte das salas holandesas, era pequena como um quadro de Vermeer. No entanto, por meio de uma engenhosa disposição da mobília e de uma cuidadosa escolha da cor - um branco claríssimo -, ela tinha conseguido evitar a impressão de amontoado ou claustrofobia. Não havia espe­lhos decorativos, tigelas com doces, recordações ou sequer uma fotografia. Era como se Lena tivesse sido colocada naquele lugar desconectada de tudo: sem pais, sem ancestrais, sem um passado. Gabriel pensou que a casa dela não era um lar, mas uma ala hospitalar na qual tinha se internado para uma estadia permanente.

Lena insistiu em fazer chá. Veio, como era de se esperar, numa chaleira branca e foi servido em xícaras brancas. Ela também fez questão de que Gabriel e Chiara a tratassem apenas pelo primeiro nome. Explicou que tinha trabalhado como professora numa escola estadual e por 37 anos fora chamada apenas de Srta. Herzfeld, tanto por alunos como por colegas. Ao se aposentar, descobriu que queria seu nome de volta. Gabriel atendeu a todos os seus pedidos, em­bora de vez em quando, por educação ou respeito, acabasse lançando mão da formalidade do sobrenome. Quando chegou o momento de se apresentar e de identificar a jovem atraente ao seu lado, decidiu que não seria possível corresponder à honestidade de Lena. Então, tirou uma antiga identidade falsa da car­tola e inventou uma história para acompanhá-la. Hoje ele era Gideon Argov, funcionário de uma pequena organização particular que conduzia investigações a respeito de finanças e outras questões relacionadas a propriedades que surgi­ram depois do Holocausto. Dada a natureza delicada dessas investigações, assim como os problemas de segurança decorrentes delas, não seria possível entrar em maiores detalhes.

- Você é de Israel, Sr. Argov?

Nasci lá, mas vivo principalmente na Europa agora.

Em que lugar da Europa, Sr. Argov?

Dada a natureza de meu trabalho, em todos os lugares.

E sua assistente?

Nós passamos tanto tempo juntos que seu marido está convencido de que somos amantes.

E são?

Amantes? Não tenho tanta sorte, Srta. Herzfeld.

Lena, Sr. Argov. Por favor, me chame de Lena.

Os segredos dos sobreviventes não se entregam com facilidade. Eles ficam escondidos atrás de portas trancadas e são acessados com grande risco por aqueles que os possuem. Isso queria dizer que os procedimentos daquele dia consistiriam numa espécie de interrogatório. Gabriel sabia que a maneira mais garantida de fracassar seria pressionando demais. Começou com o que parecia ser um comentário casual a respeito de quanto a cidade tinha mudado desde a sua última visita. Lena respondeu falando sobre Amsterdã antes da guerra.

Seus ancestrais tinham ido para a Holanda em meados do século XVII a fim de escapar dos massacres realizados pelos cossacos na Polônia oriental. Embora a Holanda tivesse uma tradição de tolerância em relação a recém-chegados, os judeus eram excluídos da maior parte dos segmentos da economia holandesa e forçados a se tornar comerciantes. A maioria dos judeus de Amsterdã era bem pobre. Os Herzfeld trabalharam como vendedores ambulantes e donos de lojas até o final do século XIX, quando Abraham Herzfeld entrou para o ramo de diamantes. Ele passou o negócio para o filho, Jacob, que empreendeu uma expan­são rápida e bem-sucedida. Jacob se casou com uma mulher chamada Susannah Arons em 1927 e se mudou de um apartamento apertado na Jodenbreestraat para a espaçosa casa na Plantage Middenlaan. Quatro anos depois, Susannah deu à luz a primeira filha do casal, Lena. Dois anos depois eles tiveram outra filha, Rachel.

Embora nos considerássemos judeus, nossa família estava bem assimilada e não era muito religiosa. Acendíamos velas no sabá, mas geralmente só íamos à sinagoga nos feriados. Meu pai não tinha barba nem usava quipá, e não fazíamos comida kosher. Eu e minha irmã freqüentávamos uma escola holandesa comum. Muitos de nossos colegas nem sabiam que éramos judias. Especialmente eu. Para o senhor ter uma idéia, quando eu era jovem tinha cabelos loiros, Sr. Argov.

E sua irmã?

Ela tinha olhos castanhos e lindos cabelos escuros. Como os seus - acres­centou, olhando para Chiara. - Se não fosse pela cor dos nossos olhos e cabelos, minha irmã e eu poderíamos passar por gêmeas.

O rosto de Lena assumiu uma expressão triste. Gabriel sentia-se tentado a forçar um pouco o assunto, mas sabia que seria um erro. Então pediu a Lena que descrevesse a casa da família na Plantage Middenlaan.

Tínhamos uma vida confortável - disse ela, parecendo grata pela mudança de assunto. - Poderia-se dizer até que éramos ricos. Mas meu pai não gostava de falar sobre dinheiro. Ele dizia que não era importante. E, de fato, ele só se permitia um luxo: adorava pinturas. Nossa casa era cheia de obras de arte.

Você se lembra do Rembrandt?

Ela hesitou e então assentiu.

Foi a primeira grande aquisição dele. Meu pai o pendurou na sala de estar. Toda tarde se sentava na poltrona para admirá-lo. Meus pais se amavam, mas meu pai gostava tanto da pintura que às vezes minha mãe fingia ter ciúme. - Lena deu um sorriso fugaz. - Adorávamos aquele quadro. Mas pouco tempo depois que ele chegou à nossa casa, as coisas começaram a dar errado no mundo à nossa volta. Noite dos Cristais, Áustria, Polônia. E, finalmente... nós.

Lena contou que, para muitos residentes de Amsterdã, a invasão alemã em 10 de maio de 1940 foi inesperada, já que Hitler tinha prometido poupar a Holanda se o país se mantivesse neutro. Nos dias caóticos que se seguiram, os Herzfeld fizeram tentativas desesperadas de fuga, primeiro por navio e depois pela estrada para a Bélgica. Falharam, claro, e na noite do dia 15 estavam de volta à casa na Plantage Middenlaan.

Nós estávamos presos - disse Lena. - Junto com outros 140 mil judeus holandeses.

Diferentemente da França e da Bélgica, que foram colocadas sob o controle militar alemão, Hitler decidiu que a Holanda seria submetida a uma administração civil. Para isso, encarregou o comissário do Reich Arthur Seyss-Inquart, um anti-semita fanático que governou a Áustria depois da sua anexação, em 1938. Os decretos começaram a surgir depois de alguns dias. Primeiro, uma ordem aparentemente inofensiva proibiu judeus de servirem como anunciadores de ata­ques aéreos. Em seguida, os judeus receberam a ordem de evacuar Haia, a sede do governo da Holanda, e desocupar as áreas costeiras consideradas sensíveis. Em setembro, todos os jornais judaicos foram banidos. Em novembro, todos os judeus empregados pelo serviço civil holandês, inclusive aqueles que trabalha­vam nos sistemas de educação e telefonia, foram demitidos. Então, em janeiro de 1941, veio o decreto nazista mais ameaçador: todos os judeus residentes na Holanda tinham quatro semanas para se registrar no censo holandês. Aqueles que se recusassem seriam presos e poderiam ter suas propriedades confiscadas.

O censo forneceu aos alemães um mapa indicando o nome, o endereço, a idade e o sexo de quase todos os judeus na Holanda. Nós, ingenuamente, demos a eles a chave para nossa destruição.

Seu pai fez o registro?

Ele pensou em ignorar a ordem, mas no fim decidiu que não tinha escolha a não ser obedecer. Vivíamos num endereço proeminente na área judia mais acessível da cidade.

O censo foi seguido por uma série de novos decretos que serviram para iso­lar, humilhar e empobrecer os judeus holandeses. Eles foram proibidos de doar sangue, de entrar em hotéis, de comer em restaurantes, de ir ao teatro, de visitar bibliotecas públicas, de assistir a exposições de arte, de trabalhar na bolsa de valores. Não podiam mais ter pombos. As crianças judias foram barradas nas escolas "arianas". Os judeus foram obrigados a vender seus negócios a não judeus, a entregar todas as suas coleções de arte e jóias, com a exceção de alianças de casamento e relógios de bolso, e a depositar seu patrimônio no Lippmann, Rosenthal & Company, ou LiRo, um banco que antes era administrado por ju­deus e tinha sido tomado pelos nazistas.

A ordem mais severa de todas foi o Decreto 13, emitido em 29 de abril de 1942, que forçava todos os judeus com mais de 6 anos a usar uma estrela de davi amarela sempre que estivessem em público. O distintivo deveria ser costurado - não preso por alfinete, mas costurado - sobre o peito esquerdo da vestimenta externa. Para agravar o insulto, os judeus tinham que pagar 4 centavos holandeses por cada uma das estrelas, junto com sua preciosa provisão de roupas.

Minha mãe tentou fingir que era um jogo, para não nos alarmar. Quando as usávamos na vizinhança, fingíamos ter muito orgulho. Não me convenceu, claro. Eu tinha acabado de fazer 11 anos e, ainda que não soubesse o que estava por vir, tinha consciência de que estávamos em perigo. Mas fingi pelo bem da minha irmã. Rachel era jovem o suficiente para ser enganada. Ela adorava sua estrela amarela. Costumava dizer que podia sentir os olhos de Deus quando a usava.

Seu pai obedeceu à ordem de entregar as obras de arte?

Ele entregou todas, menos o Rembrandt. Tirou o quadro da moldura e o escondeu num pequeno espaço no sótão, junto com um saco de diamantes que guardou depois de vender o negócio para um concorrente holandês. Minha mãe chorou quando nossas relíquias deixaram a casa, mas meu pai falou para ela não se preocupar. Nunca vou esquecer suas palavras: "São só objetos", disse ele. "O que importa é que temos uns aos outros. E isso ninguém pode nos tirar."

Mas os decretos continuaram surgindo. Judeus foram proibidos de sair de casa à noite. Não podiam mais entrar nos lares de não judeus nem usar telefones públicos. Não podiam andar em trens nem em bondes. Então, em 5 de julho de 1942, o Escritório Central de Emigração Judaica de Adolf Eichmann despachou avisos para 4 mil judeus informando que tinham sido convocados para "prestação de serviços" na Alemanha. Era mentira, claro. As deportações haviam começado.

Sua família recebeu ordem para se apresentar?

A princípio, não. Os primeiros nomes escolhidos foram de alemães judeus que tinham buscado refúgio na Holanda após 1933. Só fomos convocados na segunda semana de setembro. Disseram que deveríamos nos apresentar na Estação Central de Amsterdã e recebemos instruções muito específicas a respeito do que levar na bagagem. Lembro-me da expressão do meu pai. Ele sabia que era uma sentença de morte.

O que ele fez?

Subiu até o sótão para pegar o Rembrandt e o saco de diamantes.

E depois?

Arrancou as estrelas das nossas roupas e fomos nos esconder.

 

Chiara tinha razão a respeito de Lena Herzfeld. Depois de anos em silêncio, ela estava pronta para falar sobre a guerra. Não se apressou para contar o segredo terrível enterrado no passado. Em vez disso, falou devagar, de forma metódica, como uma professora ensinando uma matéria complicada. Gabriel e Chiara, observadores experientes das emoções humanas, não fizeram nenhuma tentativa de forçar o processo. Ficaram em silêncio no sofá branco de Lena, com as mãos no colo, como uma dupla de alunos atenciosos.

Vocês conhecem a palavra holandesa verzuiling? - perguntou Lena.

Acho que não - respondeu Gabriel.

Era, explicou, um conceito exclusivamente holandês que tinha ajudado a preservar a harmonia social em um país bastante dividido entre tradições católicas e protestantes. A paz foi mantida não pela interação, mas pela separação ab­soluta. Se uma pessoa fosse calvinista, por exemplo, leria um jornal calvinista, compraria carne de um açougueiro calvinista, torceria para times de esporte calvinistas e mandaria seus filhos para escolas calvinistas. O mesmo valia para católicos e judeus. Amizades entre católicos e calvinistas eram incomuns. Entre judeus e cristãos de qualquer tipo, eram praticamente inexistentes. Verzuiling foi a principal razão pela qual tão poucos judeus conseguiram se esconder dos alemães por muito tempo depois que as batidas e deportações começaram. A maior parte não tinha a quem pedir ajuda.

Mas esse não era o caso do meu pai. Antes da guerra, ele havia feito um bom número de amigos fora da comunidade judaica, por causa dos negócios. Tinha um homem em particular, um senhor católico chamado Nikolaas de Graaf. Ele morava com a esposa e quatro filhos numa casa perto de Vondelpark. Imagino que meu pai tenha lhe dado uma quantia substancial de dinheiro, mas eles não fa­lavam dessas coisas. Nós chegamos à casa dos De Graaf pouco antes da meia-noite no dia 9 de setembro, um de cada vez, para que os vizinhos não percebessem. Vestíamos três conjuntos de roupas de uma vez, pois não nos atrevíamos a andar pela cidade com malas. Um esconderijo já estava preparado no sótão. Subimos a escada e a porta foi fechada. Depois disso... foi noite por muito, muito tempo.

Ela fez uma pausa e então prosseguiu:

O sótão não tinha nenhum conforto além de alguns cobertores velhos que tinham sido esticados no chão. Toda manhã, a Sra. De Graaf providenciava uma bacia de água para nossa higiene básica. O banheiro ficava no andar de baixo, e por motivos de segurança os De Graaf nos pediram que nosso uso se restrin­gisse a duas vezes diárias por membro da família. Falar num tom mais alto que um sussurro era proibido, e não podíamos nos comunicar verbalmente à noite. Roupas limpas eram providenciadas uma vez por semana e a comida era limi­tada ao que quer que os De Graaf conseguissem poupar de suas próprias rações. O sótão não tinha janelas. Não podíamos usar luzes ou velas, nem mesmo no sabá. Em pouco tempo, toda a família Herzfeld passou a sofrer de má nutrição e de estresse psicológico por causa da exposição prolongada à escuridão. Ficamos brancos como fantasmas, e muito magros. Quando a Sra. De Graaf cozinhava, o cheiro subia até o sótão. Depois que sua própria família comia, ela nos le­vava nossa porção. Nunca era suficiente, mas é claro que não reclamávamos. Eu sempre tive a impressão de que a Sra. De Graaf estava muito amedrontada pela nossa presença. Ela mal nos olhava e nossas idas ao andar de baixo a deixavam agitada. Para nós, eram o único intervalo da escuridão e do silêncio. Não podíamos ler, pois não havia luz. Não podíamos ouvir rádio ou falar, pois o barulho era proibido. De noite, escutávamos as incursões alemãs e tremíamos de medo."

Os alemães não conduziam as batidas sozinhos. Tinham ajuda das unidades especiais da polícia holandesa, as Schalkhaarders, e de uma força criada pelos alemães conhecida como Polícia Auxiliar Voluntária. Considerados fanáticos caçadores de judeus que não deixavam que nada impedisse o cumprimento de suas cotas notur­nas, os policiais auxiliares eram, em sua maioria, membros da SS holandesa e do Partido Nazista holandês, Quando o processo de deportação começou, recebiam 7,5 florins por cada judeu que prendiam. Mas conforme as deportações foram esgotando os judeus da Holanda e as presas se tornaram mais difíceis de encon­trar, a recompensa foi aumentada para 40 florins. Em um período de guerra e privação econômica, era uma quantia significativa de dinheiro, que levava mui­tos cidadãos holandeses a fornecer informações sobre judeus escondidos.

Este era nosso maior medo: sermos traídos. Não pelos De Graaf, mas por algum vizinho ou conhecido que soubesse de nossa presença. Meu pai estava muito preocupado com os filhos dos De Graaf. Três deles eram adolescentes, mas o menino mais novo tinha a minha idade. Meu pai temia que o garoto contasse sobre nós a um dos colegas da escola. Você sabe como são as crianças. Dizem coisas para impressionar os amigos, sem entender muito bem as conseqüências.

Foi isso que aconteceu?

Não - disse Lena, balançando a cabeça. - No fim das contas, os meninos nunca falaram uma palavra sequer sobre nossa presença. Foi um dos vizinhos que nos entregou. Uma mulher que vivia na casa ao lado.

Ela ouviu vocês no sótão?

Lena ergueu a cabeça para o teto com os olhos cheios de medo.

Não - respondeu, enfim. - Ela me viu.

Onde?

No jardim.

No jardim? O que você estava fazendo no jardim, Lena?

Ela começou a responder, mas enterrou o rosto nas mãos e chorou. Gabriel a segurou com firmeza, perplexo pelo silêncio repentino dela. Lena Herzfeld, a filha da escuridão, a filha do sótão, ainda era capaz de chorar sem emitir qualquer som.

 

O que ouviram em seguida foi a confissão de Lena Herzfeld. Sua transgressão tinha começado como um pequeno ato de desobediência cometido por uma criança desesperada que só queria tocar a neve. Ela não tinha planejado a aventura. Aliás, até o momento ela não sabia o que tinha feito com que acordas­se nas primeiras horas do dia 12 de fevereiro de 1943 ou de onde tinha vindo o impulso de se levantar em silêncio da cama e descer a escada do sótão. Lembrava que o corredor estava completamente escuro. Mesmo assim, não teve dificulda­de para chegar ao banheiro. Tinha dado aqueles mesmos sete passos duas vezes por dia nos últimos cinco meses. Aqueles sete passos eram seu único exercício, o único intervalo da monotonia do sótão. E a única chance de ver o mundo lá fora.

Tinha uma janela ao lado da pia. Era pequena e redonda, com vista para o jardim atrás da casa. A Sra. De Graaf insistia que a cortina ficasse fechada enquanto estivéssemos no banheiro.

Mas você desobedecia?

De vez em quando... Eu era só uma criança.

Eu sei, Lena - tranquilizou-a Gabriel, compreensivo. - Me conte o que você via.

Eu via o brilho da neve fresca à luz da lua. Via as estrelas. - Olhou para Gabriel. - Tenho certeza que parece bastante banal para você, mas para uma criança que tinha ficado trancada num sótão por cinco meses era...

Irresistível?

Parecia o paraíso. Um pedaço pequeno do paraíso, mas ainda assim o paraíso. Eu queria tocar a neve. Queria ver as estrelas. E parte de mim queria olhar direto nos olhos de Deus e perguntar por que Ele tinha feito aquilo conosco.

Ela analisou a expressão de Gabriel, como se estivesse avaliando se aquele estranho que tinha aparecido na sua porta era digno de ouvir essa lembrança.

Você nasceu em Israel? - perguntou.

Ele respondeu não como Gideon Argov, mas com a verdade.

Nasci numa colônia agrícola no vale de Jezreel.

E seus pais?

A família do meu pai é de Munique e minha mãe nasceu em Berlim. Ela foi deportada para Auschwitz em 1942. Seus pais foram para a câmara de gás assim que chegaram, mas ela conseguiu sobreviver até o fim. Participou da Marcha em janeiro de 1945.

A Marcha da Morte? Meu Deus, ela deve ter sido uma mulher extraordiná­ria para sobreviver a essa provação. - Encarou Gabriel por um instante e então perguntou: - O que ela lhe contou?

Minha mãe nunca falou sobre isso, nem mesmo comigo.

Lena assentiu, compreensiva. Em seguida, depois de uma longa pausa, des­creveu como tinha descido em silêncio a escadaria da casa dos De Graaf e esca­pado para o jardim. Estava sem sapatos e a neve era muito fria através das meias. Não importava, porque a sensação era maravilhosa. Ela agarrou a neve em pu­nhados e respirou fundo o ar gelado, até a garganta começar a queimar. Abriu os braços e começou a girar, para ver as estrelas e o céu em forma de caleidoscópio. Rodou e rodou, até começar a ficar tonta.

Foi só então que percebi o rosto na janela da casa vizinha. Ela parecia assustada, realmente assustada. Imagino a impressão que causei. Eu era um fantasma, uma criatura de outro mundo. Segui meu primeiro instinto, que foi correr de volta para dentro, mas acho que isso provavelmente piorou as coisas. Se eu tivesse ficado calma, ela podia ter achado que eu era um dos De Graaf. Mas quando comecei a correr eu me entreguei, e também o resto da minha família. Foi como gritar com toda a força que eu era uma judia escondida. Daria na mesma se eu estivesse usando minha estrela amarela.

Você contou o que aconteceu aos seus pais?

Eu queria, mas estava com muito medo. Só deitei no meu cobertor e es­perei. Depois de algumas horas, a Sra. De Graaf nos levou a bacia de água e eu soube que tínhamos sobrevivido à noite.

O resto do dia tinha sido igual aos 155 anteriores. Eles se limparam o melhor que puderam, ganharam um pouco de comida, fizeram duas viagens cada até o banheiro. Na sua segunda viagem, Lena ficou tentada a espreitar pela janela na direção do jardim, para ver se suas pegadas ainda eram visíveis na neve. Em vez disso, deu os sete passos de volta até a escada e retornou à escuridão.

Era um sábado. Ã noite, falando em sussurros, a família Herzfeld recitou as três bênçãos - mesmo não dispondo de velas, pão ou vinho - e rezou para que Deus a protegesse por mais uma semana. Alguns minutos depois, as incursões cbmeçaram: botas alemãs em ruas de pedra, integrantes da Schalkhaarder gritando ordens em holandês.

Normalmente, os grupos de batidas passavam direto por nós e o som ia ficando mais fraco. Mas naquela noite foi diferente. O som ficou cada vez mais forte, até a casa inteira começar a tremer. Eu sabia que estavam vindo atrás de nós. Era a única que sabia.

 

Lena caiu, exausta, num silêncio prolongado. Gabriel viu que uma porta se fechara na mente dela. De um lado, havia a mulher idosa vivendo sozinha em Amsterdã; de outro, a criança que sem querer tinha traído sua família. Gabriel sugeriu que continuassem outro dia. E parte dele se perguntou se deve­riam mesmo continuar. Com que propósito? Por uma pintura que provavel­mente estava perdida para sempre? Mas ficou bastante surpreso quando Lena insistiu em seguir adiante, exigindo contar o resto da história. Ela garantiu que não fazia isso pelo bem do Rembrandt, mas por si mesma. Precisava explicar quão dura tinha sido sua punição por aqueles breves momentos roubados no jardim. Ela necessitava desse resgate. Assim, pela primeira vez na vida, Lena descreveu como a família tinha sido arrastada do sótão diante do olhar cons­trangido dos filhos dos De Graaf. E como tinham sido levados de caminhão até, de todos os lugares possíveis, o Hollandsche Schouwburg, um dos teatros mais glamorosos de Amsterdã.

O lugar tinha sido transformado pelos alemães num centro de detenção para judeus capturados. Não era mais como eu lembrava, obviamente. Os assen­tos tinham sido retirados da orquestra, os lustres, arrancados do teto, e cordas pendiam como forcas sobre o que restava do palco.

Suas lembranças eram como um pesadelo. Imagens de integrantes da Schalkhaarder rindo ao contar histórias sobre as caçadas do dia. Imagens de um jovem que tentou fugir e apanhou até perder os sentidos. Imagens de uma dúzia de homens e mulheres idosos que tinham sido arrancados da cama numa casa de repouso e estavam sentados, calmos, em suas roupas de dormir surradas, como se aguardassem pelo começo de algum espetáculo. E imagens de um ho­mem alto vestido todo de preto andando como um deus sobre o palco, com um retrato de Rembrandt numa das mãos e um saco de diamantes na outra.

O homem era da SS?

Era.

Você chegou a descobrir o nome dele?

Ela hesitou.

Eu descobri depois, mas não vou dizer.

Gabriel assentiu de um modo apaziguador. Lena fechou os olhos e conti­nuou. O que ela mais lembrava a respeito do homem, explicou, era o cheiro de couro vindo de suas botas recém-engraxadas. Seus olhos eram de um castanho profundo, o cabelo, escuro e muito oleoso, e a pele, amarelada e pálida. Tinha modos aristocráticos e era surpreendentemente cortês.

Não era um caipira do vilarejo com um uniforme bacana. Era um homem de boa família. Um homem da alta sociedade alemã. No começo, conversou com meu pai num holandês impecável. Então, vendo que meu pai sabia alemão, passou a falar nessa língua.

Você falava alemão?

Um pouco.

E conseguiu entender o que estava acontecendo?

Em parte. O homem da SS deu uma bronca no meu pai por violar os decre­tos referentes aos bens dos judeus, tais como jóias e obras de arte. Em seguida, informou que tanto os diamantes como o Rembrandt teriam que ser confisca­dos antes da nossa deportação para os campos de trabalho. Mas tinha uma coisa de que ele precisava antes disso. Queria que meu pai assinasse um papel.

Um documento de confisco?

Ela balançou a cabeça.

Uma nota de venda. Não dos diamantes, só do Rembrandt. Ele queria que meu pai vendesse o quadro. Por 100 florins. A serem pagos no futuro, claro. Cem florins... Menos do que os caçadores de judeus ganhavam por uma boa noite de batidas.

Você chegou a ver o contrato?

Ela hesitou e então assentiu.

Os alemães eram precisos em tudo, e registros eram algo muito importante para eles. Registravam tudo. O número de pessoas assassinadas diariamente nas câmaras de gás. O número de sapatos que sobravam. O peso do ouro arrancado dos mortos antes que eles fossem jogados no crematório.

A voz de Lena se perdeu novamente e por um instante Gabriel achou que ela tivesse mudado de idéia e se recolhido. Mas ela se recompôs com rapidez e continuou. Lena Herzfeld tinha escolhido Gabriel e Chiara para escutarem seu testemunho, e não desistiria disso.

Só depois eu compreendi por que o homem da SS queria a assinatura do meu pai. Roubar um saco de diamantes é uma coisa, mas roubar uma pintura, especialmente um Rembrandt, é bem diferente. Irônico, não? Mataram 6 mi­lhões de pessoas, mas ele queria uma nota de venda para o Rembrandt do meu pai, um pedaço de papel para alegar que tinha obtido o quadro legalmente.

O que seu pai fez?

Ele se recusou. Mesmo hoje, não consigo imaginar como teve coragem. Disse ao homem da SS que não tinha ilusões sobre o destino que nos aguardava e que sob circunstância alguma assinaria qualquer coisa. O homem da SS pare­ceu bastante surpreso. Acho que nenhum judeu ousava falar daquela forma com ele havia muito tempo.

Ele ameaçou seu pai?

Na verdade, muito pelo contrário. Por um instante, pareceu perplexo. De­pois olhou para Rachel e para mim e sorriu. Disse que os campos de trabalho não eram lugar para crianças. Disse que tinha uma solução. Uma troca. Duas vidas por uma pintura. Se meu pai assinasse a nota de venda, Rachel e eu sería­mos libertadas. No início meu pai resistiu, mas minha mãe o convenceu de que ele não tinha escolha. Falou que ao menos eles teriam um ao outro. Finalmente, meu pai mudou de idéia e assinou os papéis. Havia duas cópias, uma para ele e outra para o homem da SS.

Os olhos de Lena brilharam com lágrimas e suas mãos começaram a tremer. Não de tristeza, mas de raiva.

Mas assim que o monstro conseguiu o que queria, mudou de idéia. Disse que tinha se expressado mal, que não teria como levar duas crianças, só uma. Apontou para mim e disse: "Aquela. A loira de olhos azuis." Essa foi a minha sentença.

O homem da SS instruiu os Herzfeld a se despedirem uns dos outros. "E se­jam rápidos", acrescentou, com a voz cheia de falsa cordialidade. A mãe de Lena e sua irmã choraram ao abraçá-la pela última vez, mas seu pai conseguiu manter a compostura. Segurando Lena bem próximo a si, sussurrou que a amaria para sempre e que um dia, em breve, estariam todos juntos novamente. Em seguida, Lena sentiu o pai colocar algo no bolso do casaco que ela vestia. Alguns segundos depois, o monstro a tirava do teatro. "Continue andando, Srta. Herzfeld. E, o que quer que faça, não olhe para trás. Se olhar para trás uma única vez, vou colocar você no trem para ir junto."

E o que acham que eu fiz? - perguntou.

Você continuou andando.

Exatamente. A Srta. Herzfeld continuou andando. E nunca olhou para trás. Nenhuma vez. Nunca mais viu a família. Em três semanas, estavam todos mortos. Mas não a Srta. Herzfeld. Ela estava viva porque tinha cabelos loiros. E sua irmã tinha sido transformada em cinzas porque os dela eram escuros.

 

Lena voltou a se esconder. Sua odisséia começou no prédio do outro lado da rua do teatro, na Plantage Middenlaan, 31. O edifício tinha sido uma creche para crianças da classe operária, mas fora transformado pelos nazistas num segundo centro de detenção reservado para crianças e bebês. Durante o período das deportações, centenas de pequenos foram contrabandeados para fora do país em caixas e sacos de batata e entregues à resistência holandesa.

O homem da SS me acompanhou pessoalmente até a enfermaria e me dei­xou aos cuidados da equipe. Fiquei surpresa por ele ter realmente mantido parte de sua palavra, mas ele tinha conseguido a pintura. A guerra estava cheia dessas contradições inexplicáveis. Num instante um monstro sem coração e no outro um homem capaz de um mínimo de decência humana.

Lena foi levada para a Frísia, no noroeste da Holanda, no porta-malas de um carro e entregue a um casal sem filhos, ativo na resistência holandesa. Lá, ganhou um novo nome, e o casal disse aos vizinhos que ela tinha ficado órfã no bombardeio alemão de Roterdã, em maio de 1940. Como eram calvinistas devotos, faziam-na ir à igreja aos domingos, para manter as aparências, mas dentro da segurança do lar Lena foi encorajada a manter a identidade judaica.

Você pode achar isso difícil de compreender, mas eu me considero uma das sortudas. Muitas crianças que foram escondidas por famílias cristãs tiveram experiências horríveis. Mas eu fui tratada com gentileza e carinho.

E quando a guerra terminou?

Eu não tinha para onde ir. Fiquei na Frísia até os 18 anos. Então fui para a universidade e finalmente me tornei professora. Pensei muitas vezes em emigrar para Israel ou para os Estados Unidos, mas acabei decidindo ficar. Senti que era minha obrigação permanecer em Amsterdã junto com os fantasmas dos mortos.

Você chegou a reivindicar a casa da sua família?

Isso era impossível. Depois da guerra, o governo holandês decretou que os direitos dos donos atuais eram iguais aos dos antigos proprietários judeus. O que significava, na prática, que a não ser que conseguisse provar que o homem que tinha comprado nossa casa havia agido de má-fé, eu não podia desalojá-lo. Além do mais, eu não tinha prova de que meu pai tinha sido dono da casa, nem mesmo de que ele fora assassinado. Ambas seriam exigidas pela lei.

E o Rembrandt?

Acabei considerando a mulher naquela pintura uma cúmplice no assassi­nato da minha família. Nunca mais quero vê-la.

Mas você ficou com o recibo - disse Gabriel.

A criança do sótão o encarou com um olhar desconfiado.

Não foi isso que seu pai colocou no seu bolso, quando vocês se despediram?

Ela não respondeu.

E você ficou com ele enquanto se manteve escondida, não foi? Você o guar­dou porque era a única coisa que tinha do seu pai. - Gabriel ficou em silêncio por um instante. - Onde está o recibo, Lena?

Na primeira gaveta do meu criado-mudo. Olho para ele toda noite antes de dormir.

Você o daria para mim?

Por que você pediria uma coisa dessa?

Seu Rembrandt está em algum lugar. E nós vamos encontrá-lo.

Aquele quadro está coberto de sangue.

Eu sei, Lena. Eu sei.

 

Eram quase onze da noite quando saíram da casa de Lena Herzfeld. Caía uma forte chuva. Chiara queria pegar um táxi, mas Gabriel insistiu em ir andando. Ficaram parados por um bom tempo em frente ao teatro Hollandsche Schouwburg - agora um memorial para todos os que haviam sido aprisionados lá -, antes de se dirigirem à antiga moradia do Rembrandt, no fim da Jodenbreestraat. Gabriel ficou impressionado com a proximidade do lugar. No máximo um quilômetro. Estava certo de que o passo seguinte na investiga­ção seria mais comprido que isso.

Quase não tinham fome, mas comeram num restaurante silencioso próximo ao hotel, falando sobre qualquer coisa que não fosse a história de horror que ti­nham acabado de ouvir, e foram dormir pouco depois de uma da madrugada. O sono de Chiara foi cheio de pesadelos, embora, para sua surpresa, Ivan Kharkov tivesse sido substituído como protagonista por um homem de preto tentando puxar uma criança de seus braços. Ela se forçou a acordar e viu Gabriel sentado na escrivaninha do quarto, com a luminária acesa, escrevendo furiosamente numa folha de papel.

O que você está fazendo?

Volte a dormir.

Eu estava sonhando com ele.

Eu sei.

De manhã, enquanto Gabriel ainda dormia, ela descobriu o produto do tra­balho noturno dele. Anexado ao recibo da pintura estava um documento com várias páginas, escrito nas folhas do hotel com a caligrafia canhota de Gabriel. No topo da primeira página estavam a data e a cidade, seguidas pelas palavras "O testemunho de Lena Herzfeld". Chiara folheou os papéis rapidamente, atô­nita com o que lia. Abençoado com uma memória infalível, Gabriel tinha criado uma transcrição palavra por palavra da conversa inteira. E na última página escreveu uma breve nota para si mesmo.

Algumas vezes o melhor jeito de encontrar um quadro é descobrindo onde ele esteve.

Encontre Kurt Voss.

Encontre o quadro.

 

Existem poucas coisas mais insuportáveis em trabalhar num jornal do que as reuniões gerais marcadas para as cinco da tarde de uma sexta-feira. Metade dos presentes já está pensando nos planos para o fim de semana, enquanto os outros estão atrasados nos prazos e ansiosos com as tarefas ainda por fazer. Dessa vez Zoe Reed não se encaixava em nenhum dos dois grupos, embora sua mente já tivesse, de fato, começado a vagar.

Assim como quase todas as pessoas reunidas na sala de reuniões no quinto andar do Financial Journal, Zoe já tinha escutado aquilo várias vezes. A seção de negócios internacionais, apesar de seu antigo prestígio, era agora um fracasso financeiro. A circulação e os rendimentos de publicidade estavam afundando num poço sem fundo. O jornal não estava só deixando de gerar lucros. Estava perdendo dinheiro num ritmo alarmante e insustentável. Se a tendência se mantivesse, sua empresa controladora, a Latham International Media, não teria es­colha a não ser colocá-lo à venda. Ou, o que seria ainda mais provável, fechar as portas. Enquanto isso, as despesas da redação teriam que ser cortadas até o osso de novo. Nada de almoços caros com as fontes, nada de viagens não aprovadas e nada de assinaturas de outras publicações. Desse momento em diante, os re­pórteres do periódico poderiam obter suas notícias do mesmo modo que todas as outras pessoas no mundo - pela internet, de graça.

O portador desse relatório deprimente era Jason Turnbury, editor-chefe do jornal. Ele andava pela sala de reuniões como um matador, com a gravata calculadamente afrouxada e o rosto ainda bronzeado pelas férias recentes no Caribe. Jason era um foguete, uma estrela corporativa com uma habilidade inigualável para se esquivar dos problemas iminentes. Se houvesse sangue a ser derramado por conta do caixa moribundo do jornal, não seria o dele. Zoe tinha certeza de que Jason estava se preparando para assumir um grande escritório na sede da Latham. Ela sabia disso porque, contrariando todo o seu bom senso, eles ha­viam tido um breve caso. Embora não tivessem mais nada um com o outro, ela ainda era sua confidente e com freqüência Jason buscava seus conselhos e sua aprovação. Portanto, a ligação que recebeu dele cinco minutos depois do fim da reunião não a surpreendeu.

Como me saí?

Foi um pouco exagerado para o meu gosto. Com certeza as coisas não estão indo tão mal.

Estão piores. Pense no Titanic.

Você não pode esperar que eu faça meu trabalho sem um orçamento ade­quado para viagens e entretenimento.

As novas regras se aplicam a toda a redação. Inclusive você.

Então eu me demito.

Ótimo. Isso me deixa com uma pessoa a menos para mandar embora. Na verdade, duas. Meu Deus, você ganha uma fortuna aqui...

Isso é porque eu sou especial. Está até escrito no meu cargo: correspondente investigativa especial. Foi você que me promoveu.

O maior erro da minha carreira.

Na verdade, foi seu segundo maior erro, Jason.

A frase foi dita com a inteligência ácida característica de Zoe. Grave e opres­siva, sua voz era um dos sons mais temidos no mundo dos negócios londrino. Ela costumava reduzir presidentes de empresa arrogantes a nada e transformar até mesmo os advogados mais ferozes em idiotas. Um dos grupos de jornalistas investigativos mais respeitados de Londres, Zoe e seu pequeno time de repórteres e pesquisadores já tinham acabado com inúmeras empresas e carreiras. Expuseram esquemas corruptos de contabilidade, práticas de troca de informa­ção privilegiada, crimes contra o meio ambiente e inúmeros casos envolvendo subornos e comissões ilegais. E, apesar de a maior parte de suas investigações se relacionar a companhias britânicas, não eram incomuns suas denúncias de malabarismos corporativos em outros países europeus e nos Estados Unidos. Durante o caótico outono de 2008, Zoe passara várias semanas tentando provar que uma empresa de gestão de patrimônio administrada por um estrategista altamente respeitado consistia, na verdade, em uma grande fraude. Quando ela estava a 48 horas de confirmar a história, Bernard Madoff foi capturado por agentes do FBI. A reportagem que Zoe já estava fazendo garantiu ao Financial Journal uma enorme vantagem sobre seus concorrentes quando o escândalo foi detonado, embora, em seu íntimo, ela nunca tivesse se perdoado por não ter denunciado Madoff antes das autoridades. Ferozmente competitiva e implacável com aqueles que quebravam qualquer tipo de regra, Zoe Reed tinha prometido nunca mais deixar um negociante corrupto escapar de suas garras.

No momento, ela estava na etapa final de uma investigação que desmascara­ria um deputado do Partido Trabalhista que tinha aceitado no mínimo 100 mil libras em pagamentos ilícitos da Empire Aerospace Systems, uma das principais empresas de equipamentos bélicos da Inglaterra. O departamento de imprensa do Financial Journal tinha avisado às redes de noticiários que Zoe estava trabalhando em algo grande e já havia reservado espaço na BBC, na CNBC, na Sky News e na CNN International. Ao contrário da maior parte dos repórteres de mídia escrita, Zoe sabia perfeitamente como agir em frente às câmeras. Além disso, era sempre a pessoa mais atraente no estúdio. A BBC estava tentando roubá-la do jornal havia anos e ela tinha ido recentemente a Nova York para uma reunião com executivos da CNBC. Zoe poderia quadruplicar seu salário com um simples telefonema, o que significava que não estava disposta a ouvir um sermão de Jason Turnbury a respeito de cortes no orçamento.

Quer saber por que suas novas medidas de contenção vão tornar impossível a realização do meu trabalho?

Querer, eu não quero, mas se você fizer questão de dizer...

Como você sabe muito bem, Jason, minhas fontes trabalham para as companhias que eu investigo, e elas têm que ser seduzidas para me dar as informações. Você realmente espera que eu convença um executivo sênior a trair sua empresa com um sanduíche de presunto num bar de esquina?

Você deu uma olhada no seu formulário de despesas do mês passado antes de assiná-lo? Eu poderia ter contratado dois editores iniciantes com o dinheiro que você gastou só em refeições em restaurantes caros.

Algumas conversas não podem ser feitas por telefone.

Concordo. Então por que não continuamos esta pessoalmente no Café Rouge, tomando um drinque?

Você sabe que não é uma boa idéia, Jason.

Estou sugerindo um drinque cordial entre dois profissionais.

Isso é bobagem e você sabe muito bem.

Jason não se incomodou muito com a rejeição dela e logo mudou de assunto.

Você está vendo televisão?

Ainda podemos ver televisão ou isso é considerado um desperdício da va­liosa eletricidade corporativa?

Coloque na Sky News.

Zoe mudou o canal e viu três homens parados diante de um amontoado de repórteres no complexo das Nações Unidas em Genebra. Um era o secretário- geral da ONU, o segundo era uma estrela do rock irlandês que trabalhava incansavelmente para erradicar a pobreza na África e o terceiro era Martin Landesmann, um financiador milionário baseado em Genebra que tinha aca­bado de anunciar a doação de 100 milhões de dólares para serem investidos na produção de alimentos no Terceiro Mundo. Não era o primeiro gesto desse tipo que ele fazia. Chamado de "São Martin" tanto por seus detratores quanto por seus defensores, Landesmann já tinha doado no mínimo um bilhão de dólares de seu próprio dinheiro para vários órgãos de caridade. Sua imensa fortuna e sua generosidade só se igualavam à sua tendência à reclusão e ao seu desprezo pela imprensa. Landesmann tinha dado apenas uma entrevista em toda a sua vida. Para Zoe.

Quando foi isso?

Hoje de manhã. Ele não quis responder a nenhuma pergunta.

Estou surpresa que tenham conseguido convencer Martin a aparecer.

Não sabia que vocês se tratavam pelo primeiro nome.

Na verdade, não falo com ele há meses.

Talvez esteja na hora de renovar seu relacionamento.

Eu já tentei, Jason. Ele não está interessado em falar conosco.

Por que você não liga para ele agora?

Porque estou indo para casa tomar um banho bem demorado.

E o que vai fazer no resto do fim de semana?

Terminar de ler um livro medíocre, assistir a alguns DVDs, talvez fazer uma caminhada em Hampstead Heath, se não estiver chovendo...

Que tédio!

Eu gosto de tédio, Jason. Por isso sempre gostei de você.

Vou estar no Café Rouge em uma hora.

Ótimo. Vejo você na segunda de manhã.

Ela desligou o telefone e viu Martin Landesmann sair da sala de conferências em Genebra, o cabelo prateado reluzindo com o flash de centenas de câmeras, e sua deslumbrante esposa, uma francesa chamada Monique, ao seu lado. Para um homem que prezava a privacidade acima de tudo, Landesmann sem dúvida alguma sabia como causar uma tremenda impressão nas raras ocasiões em que aparecia em público. Este era um de seus talentos especiais: sua habilidade inigualável para controlar o que o mundo via e sabia a seu respeito. Zoe tinha cer­teza de que sabia mais sobre Martin Landesmann do que qualquer repórter no mundo, mas ainda assim reconhecia que muitos aspectos dele e de seu império financeiro continuavam além de seu alcance.

A imagem de Landesmann foi substituída pela do novo presidente norte-americano, que divulgava uma iniciativa para melhorar as relações entre os Estados Unidos e um de seus inimigos mais implacáveis, a República Islâmica do Irã. Zoe desligou a televisão, olhou para o relógio e falou um palavrão. Já passava das seis. Seus planos para o fim de semana não eram tão sem graça quanto tinha levado Jason a pensar. Na verdade, eram bastante ambiciosos. E agora ela estava atrasada.

Verificou os e-mails e limpou a caixa postal do telefone. Às 18h15 já estava vestindo o sobretudo e atravessando a sala da redação. Do interior do grande escritório com fachada de vidro, Jason admirava sua vista magnífica do rio Tâmisa. Percebendo a presença de Zoe, girou numa pirueta e fez uma tentativa nada discreta de atrair a atenção dela. Zoe baixou o olhar para o carpete e entrou num dos elevadores.

Enquanto descia até o saguão, ela examinou seu reflexo nas portas de aço inoxidável. "Você foi deixada na nossa porta por ciganos", sua mãe costumava dizer. Parecia a única explicação razoável para uma criança com descendência anglo-saxã vir ao mundo com cabelos pretos, olhos castanho-escuros e pele morena. Quando criança, Zoe tinha muita vergonha de sua aparência. Mas quando chegou a Cambridge já sabia que se tratava de algo valioso. Seu físico a desta­cava na multidão, assim como sua inteligência evidente e seu senso de humor afiado. Jason foi atingido como um raio na primeira vez em que ela entrara em seu escritório. Contratou-a no mesmo instante e alavancou a subida dela na hierarquia corporativa. Às vezes, Zoe admitia para si mesma que sua aparência tinha sido útil à carreira. Mas ela também era mais esperta que a maioria dos colegas. E ninguém na redação trabalhava com mais afinco que ela.

Quando as portas do elevador se abriram, Zoe viu um grupo de repórteres e editores reunidos no saguão decidindo onde seria a sessão de bebedeira da­quela noite. Passou discretamente, com um sorriso educado - tinha conhecidos na equipe, mas nenhum amigo - e saiu do prédio. Como sempre, passou pelo Tâmisa em direção à estação de metrô da rua Cannon. Se estivesse de fato indo para casa, pegaria um trem circular no sentido oeste para Embankment e faria a transferência para a linha norte em direção a Hampstead. Em vez disso, entrou no trem sentido leste e seguiu até a estação St. Pancras, o novo terminal lon­drino para os velozes trens Eurostar.

Guardada na abertura externa da pasta de Zoe estava uma passagem para o trem das 19h09 até Paris. Ela comprou várias revistas antes de passar pela verificação de passaportes e em seguida foi até a plataforma de embarque, onde as pessoas já entravam nos vagões. Encontrou seu assento em uma cabine de primeira classe e em pouco tempo foi presenteada com uma boa taça de cham­panhe. Ler um livro medíocre, assistir a alguns DVDs, talvez fazer uma cami­nhada em Hampstead Heath, se não estiver chovendo... Nada disso. Ela olhou pela janela enquanto o trem partia lentamente da estação e viu uma mulher atraente de cabelos escuros a encarando. Esta é a última vez, cigana, pensou. A última vez mesmo.

 

Poucas pessoas perceberam a chegada de Eli Lavon em Amsterdã no dia seguinte, e aquelas que perceberam o confundiram com outra pessoa. Esse era seu talento especial. Considerado o melhor profissional de vigilância que o Escritório já produzira, Lavon era um fantasma em forma de homem que tinha a habilidade camaleônica de se transformar em qualquer coisa. Seu maior trunfo era sua anonimidade natural. A primeira vista, parecia inofensivo, mas na realidade era um predador inato capaz de seguir um agente de inteligência altamente treinado ou um terrorista experiente por qualquer rua no mundo sem atrair a menor atenção. Ari Shamrom gostava de dizer que Lavon poderia, se quisesse, desaparecer enquanto apertava sua mão. Isso não estava longe da verdade.

Foi o próprio Shamron, em setembro de 1972, que apresentara Lavon a um jovem artista promissor chamado Gabriel Allon. Embora ainda não soubessem, ambos tinham sido selecionados para participar daquilo que se tornaria uma das missões mais celebradas e controversas já realizadas pela inteligência israelense: a operação Ira de Deus, criada para caçar e assassinar os envolvidos no massacre das Olimpíadas de Munique. Na terminologia baseada no hebraico que a equipe usava, Lavon era um ayin, um rastreador e especialista em vigilância. Gabriel era um aleph. Armado com uma pistola Beretta calibre 22, ele matou seis dos terroristas da organização Setembro Negro responsáveis pelo atentado em Munique. Sob a pressão implacável de Shamron, eles perseguiram suas presas através da Europa Ocidental por três anos, eliminando-as tanto à noite como em plena luz do dia, vivendo com o receio constante de a qualquer momento serem presos e condenados como assassinos. Quando finalmente voltaram para casa, as têmpo­ras de Gabriel estavam grisalhas e seu rosto envelhecera 20 anos. Eli Lavon, que tinha sido exposto aos terroristas sem reforços por longos períodos de tempo, passou a sofrer de inúmeros distúrbios relacionados ao estresse e desenvolveu vários problemas de estômago que o incomodavam até hoje.

Quando a operação Ira de Deus foi formalmente dissolvida, Gabriel e Eli não queriam mais nem ouvir falar de trabalho de inteligência e assassinatos. Gabriel se refugiou em Veneza, restaurando pinturas, enquanto o parceiro partiu para Viena, onde abriu um pequeno escritório de investigações chamado Inquéritos e Reivindicações da Guerra. Operando com um orçamento curto, foi capaz de rastrear milhões de dólares em bens saqueados no Holocausto, além de ter exercido um papel significativo na investigação de um acordo multibilionário entre bancos suíços. As atividades de Lavon lhe renderam alguns amigos, mas também muitos inimigos: em 2003, uma bomba explodiu dentro do seu escritório, deixando-o gravemente ferido e matando dois de seus funcionários. Lavon nunca tentou reconstruir o escritório na Áustria, optando em vez disso por retornar a Israel e se entregar a sua paixão original, a arqueologia. Agora ocupava o cargo de professor adjunto na Universidade Hebraica de Jerusalém e freqüentemente se envolvia em escavações ao redor do país. Duas vezes por ano, Lavon ia à Acade­mia do Escritório e dava palestras aos novos recrutas sobre a fina arte da vigilân­cia. Sempre lhe perguntavam algo sobre seu trabalho com o legendário assassino Gabriel Allon. A resposta de Lavon era sempre a mesma: "Gabriel de quê?"

Tanto por treinamento como por temperamento, Lavon era inclinado a tra­tar objetos delicados com cuidado, e foi dessa forma que pegou a folha de papel que recebeu na sala de estar da suíte no Hotel Ambassade. Examinou-a por al­gum tempo na iluminação fraca antes de colocá-la na mesa de centro e olhar de maneira inquisitiva para Gabriel e Chiara sobre seus óculos meia-lua dourados de leitura.

Achei que vocês dois estivessem se escondendo de Shamron nos confins da Cornualha. Como diabo conseguiram isso?

É verdadeiro? - perguntou Gabriel.

Com certeza. Mas de onde veio?

Gabriel fez um relato da investigação até o momento, começando com o aparecimento inesperado de Julian Isherwood na península do Lagarto e concluindo com a história de Lena Herzfeld. Lavon ouviu com muita atenção, seus olhos castanho-escuros se alternando entre Gabriel e Chiara. Terminada a nar­rativa, estudou o documento de novo e balançou a cabeça.

Qual é o problema, Eli?

Passei anos procurando por algo parecido com isto. Só você mesmo para tropeçar numa coisa dessas por acidente.

Algo parecido com o quê, Eli?

A prova da culpa dele. Ah, sim, encontrei fragmentos de evidências circunstanciais espalhados pelos cemitérios da Europa, mas nada tão incriminador quanto isto.

Você reconhece o nome?

Kurt Voss? - Lavon assentiu lentamente. - Pode-se dizer que o capitão da SS Kurt Voss e eu somos velhos amigos.

E a assinatura?

Para mim, é tão reconhecível como um Rembrandt. - Lavon olhou para o documento. - Conseguindo ou não encontrar o quadro de Julian, você já fez uma grande descoberta, que precisa ser preservada.

Eu ficaria muito satisfeito em confiar o documento às suas habilidosas mãos, Eli.

Imagino que isso tenha um preço.

Algo simples - disse Gabriel.

O quê?

Me fale sobre Voss.

Com todo o desprazer. Mas peça um café, Gabriel. Sou um pouco como Shamron: incapaz de contar uma história a seco.

 

Eli Lavon começou com os fatos básicos da biografia apavorante de Kurt Voss.

Nascido em uma família de comerciantes de classe média alta em Köln no dia 23 de outubro de 1906, Voss foi mandado à capital para estudar, graduando-se em direito e em história na Universidade de Berlim, em 1932. Em fevereiro de 1933, semanas após a ascensão de Hitler ao poder, juntou-se ao Partido Na­zista e foi designado para a Sicherheitsdienst, ou SD, o serviço de segurança e inteligência da SS. Trabalhou por alguns anos na sede, em Berlim, compilando dossiês sobre inimigos - reais ou imaginários - do Partido. Ambicioso em todos os quesitos, Voss começou a cortejar Frieda Schuler, a filha de um proeminente oficial da Gestapo, e em pouco tempo eles se casaram numa casa de campo nos arredores de Berlim. O comandante da SS Heinrich Himmler foi convidado, as­sim como o chefe da SD, Reinhard Heydrich, que tocou uma serenata no violino para o casal. Um ano e meio depois, Frieda deu à luz um filho. O próprio Hitler enviou uma nota de congratulação.

Logo Voss se entediou com o trabalho na sede da SD e deixou claro para seus aliados mais influentes que estava interessado em uma posição mais desa­fiadora. Sua oportunidade surgiu em março de 1938, quando as forças alemãs invadiram a Áustria sem encontrar oposição. Em agosto, Voss foi designado para o Zentralstelle für jüdische Auswanderung, o Escritório Central de Emigra­ção Judaica, em Viena. O serviço era liderado pelo impiedoso oficial da SS que mudaria o rumo da vida de Voss.

Adolf Eichmann - disse Gabriel.

Lavon assentiu lentamente. Eichmann...

O Escritório Central de Emigração Judaica estava sediado em um palácio vienense ornamentado que tinha sido tomado da família Rothschild. As ordens de Eichmann eram de limpar a Áustria da extensa e influente população judaica através de um programa de fuga forçada. Em qualquer dia da semana, os esplêndidos salões antigos e os amplos corredores do palácio ficavam superlotados de judeus ansiosos por escapar da virulenta onda de violência antissemita que var­ria o país. Eichmann e sua equipe estavam mais que dispostos a indicar a saída, desde que eles pagassem uma tarifa considerável.

Foi uma imensa operação de pilhagem. Judeus entravam por um lado com dinheiro e bens e saíam pelo outro com nada além de suas vidas. Os nazistas posteriormente se refeririam ao processo como o "modelo de Viena", que foi considerado um dos melhores feitos de Eichmann. Na verdade, Voss mereceu boa parte do crédito, se é que é possível chamar isso de crédito. Ele nunca saía do lado de Eichmann. Os dois costumavam perambular pelos corredores do palácio vestindo os uniformes pretos da SS como um par de jovens deuses. Mas havia uma diferença entre eles: Eichmann era abertamente cruel com suas vítimas, enquanto aqueles que conheciam Voss costumavam ficar perplexos com seus bons modos impecáveis. Ele sempre se portava como se achasse todo aquele processo de um enorme mau gosto. Mas era só um disfarce. Voss era um negociante astuto. Identificava os mais ricos e os chamava a seu escritório, para uma conversa particular. Invariavelmente, acabava com o dinheiro deles no bolso. Quando deixou Viena, Kurt Voss era um homem rico. E estava só começando.

No outono de 1941, com o continente tomado pela guerra, Hitler e seus ca­pangas mais antigos decidiram que os judeus deveriam ser exterminados. A Eu­ropa tinha que ser expurgada de leste a oeste, com Eichmann e seus "especialis­tas em deportação" operando as alavancas da morte. Os saudáveis eram usados para trabalho escravo. Os outros - jovens demais, velhos, doentes e inválidos - eram imediatamente sujeitos a um "tratamento especial". Para 9,5 milhões de judeus vivendo sob o domínio alemão direto ou indireto, foi uma catástrofre, um crime inimaginável.

Mas não para Voss - disse Lavon. - Kurt Voss encarou isso como uma oportunidade de negócios que surge uma vez na vida.

Quando o verão fatal de 1942 começou, Voss e o resto da equipe de Eichmann estavam baseados em Berlim, no número 116 da Kurfürstenstrasse, um prédio imponente que, para o deleite de Eichmann, tinha sido sede de uma sociedade judaica de ajuda mútua. O Departamento IVB4, como ficou conhecido, reunia os homens que mantiveram girando as engrenagens do projeto de assassinato em massa de alcance continental.

O escritório de Voss ficava no mesmo corredor do de Eichmann - disse Lavon. - Mas ele raramente podia ser encontrado lá. Atuava em várias frentes ao mesmo tempo. Aprovava as listas de deportação, supervisionava as batidas e disponibilizava os trens necessários para transporte. E, é claro, também cuidava de expandir seu lucrativo negócio paralelo, roubando as vítimas até o último centavo antes de enviá-las para a morte.

Mas a transação mais rentável de Voss aconteceria no final da guerra, no úl­timo país a ser consumido pelas chamas do Holocausto: a Hungria. Quando Eichmann chegou a Budapeste, tinha um único objetivo: encontrar cada um dos 825 mil judeus e enviá-los para a morte em Auschwitz. Já seu ajudante de confiança, Kurt Voss, buscava algo diferente.

A indústria Bauer-Rubin - explicou Lavon -, uma sociedade formada por judeus muito bem assimilados, a maioria convertida ao catolicismo ou casada com mulheres católicas. Dias depois de chegar a Budapeste, Voss reuniu todos eles e explicou que seus dias estavam contados. Mas, como sempre, tinha uma proposta. Se a Bauer-Rubin fosse transferida para seu controle, ele concede­ria aos donos e suas famílias passagem segura para Portugal. Como você pode imaginar, todos concordaram de imediato com os termos. No dia seguinte, um sócio chamado Samuel Rubin acompanhou Voss em uma viagem para Zurique.

Por que Zurique? - perguntou Gabriel.

Porque, por segurança, era lá que estava guardada a maioria dos bens da companhia. Voss desfez a empresa em pedaços e transferiu tudo para contas que controlava. Quando conseguiu satisfazer sua ganância, deixou Rubin partir para Portugal e prometeu que os outros seguiriam em breve. Isso nunca aconteceu. Rubin foi o único sobrevivente. O resto foi parar em Auschwitz, junto com 400 mil judeus húngaros.

E Voss?

Voss voltou para Berlim na véspera do Natal de 1944. Mas, com a guerra praticamente perdida, ele e os assassinos de Eichmann foram tratados como párias, mesmo por alguns dos colegas da SS. Enquanto a cidade tremia sob os bombardeios aéreos dos Aliados, Eichmann transformou seu covil numa fortaleza e começou a destruir os documentos mais comprometedores. Por ser advo­gado, sabia que esconder tantos crimes daquela magnitude não seria possível, especialmente com evidências distribuídas ao redor de um continente inteiro e milhares de sobreviventes esperando para contar suas histórias ao mundo. Em vez de tentar esconder tudo, usou o tempo que tinha para fins mais produtivos: juntar todo o dinheiro sujo e se preparar para fugir.

Eichmann se encontrava totalmente despreparado quando o fim chegou. Ele não tinha documentos falsos, dinheiro, nem lugar para onde ir. Mas esse não era o caso de Voss. Ele tinha um novo nome, diversos esconderijos e, como era de se esperar, uma boa soma em dinheiro. No dia 30 de abril de 1945, a noite em que Hitler cometeu suicídio no bunker da Chancelaria do Reich, Kurt Voss des­truiu o uniforme da SS e escapou do escritório na Kurfürstenstrasse. De manhã já tinha desaparecido.

E o dinheiro?

Também sumiu. Assim como as pessoas a quem pertencia.

 

Gabriel Allon já tinha enfrentado o mal em muitas formas: terroristas, negociantes de armas e homicidas russos, assassinos profissionais que derramavam o sangue de estranhos por malas cheias de dinheiro. Mas nada podia ser comparado aos genocidas - homens e mulheres - que cometeram o maior assassinato em massa da história. Eles tinham sido uma presença constante, ainda que não reconhecida, na casa em que Gabriel passara sua infância, no vale jezreel, em Israel. E agora que a noite caíra sobre Amsterdã, o fantasma deles tinha rastejado para dentro da suíte no Hotel Ambassade. Incapaz de suportar sua companhia por mais tempo, Gabriel levantou-se de repente e disse a Eli e Chiara que precisava continuar a conversa fora do hotel. Caminharam às margens do Herengracht sob a iluminação amarelada, Gabriel e Lavon lado a lado e Chiara seguindo vários passos atrás.

Ela está perto demais.

Ela não está nos seguindo, Eli. Está só nos protegendo.

Não interessa. Está perto demais.

Quer parar um pouco e dar algumas instruções básicas a ela?

Ela nunca me ouve. É inacreditavelmente teimosa. E bonita demais para o trabalho de campo. - Lavon olhou de relance para Gabriel. - Nunca vou enten­der o que ela viu num fóssil como você. Deve ter sido seu charme natural e sua disposição.

Você estava prestes a me contar mais sobre Kurt Voss.

Lavon parou para deixar uma bicicleta passar. Estava sendo conduzida por uma jovem que segurava o guidão com uma das mãos e enviava uma mensagem de texto com a outra. Lavon deu um sorriso passageiro e continuou sua aula.

Mantenha isto em mente, Gabriel: nós temos muitas informações sobre Voss agora, mas no pós-guerra mal sabíamos o nome do desgraçado. E, quando entendemos a verdadeira natureza de seus crimes, ele já tinha desaparecido.

Para onde ele foi?

Para a Argentina.

Como ele chegou lá?

Adivinhe.

Através da Igreja?

É claro.

Gabriel balançou a cabeça. Até hoje, os historiadores debatem se o papa Pio XII, o controverso pontífice da época da guerra, ajudou os judeus ou desviou os olhos de seu sofrimento. Mas eram as ações de Pio depois da guerra que Gabriel achava mais condenáveis. O santo padre nunca pronunciou sequer uma palavra de pesar ou arrependimento sobre o assassinato de 6 milhões de seres humanos, parecendo muito mais preocupado com os criminosos do que com as vítimas. O papa não só era um crítico declarado do Julgamento de Nuremberg. Tam­bém tinha permitido que os sagrados escritórios do Vaticano fossem usados para uma das maiores fugas em massa da justiça na história. Conhecida como a trilha dos ratos do Vaticano, possibilitou que centenas, se não milhares, de criminosos de guerra nazistas escapassem para santuários na América do Sul e no Oriente Médio.

Voss chegou a Roma com a ajuda de velhos amigos da SS. No caminho, se hospedou em pequenas pousadas ou esconderijos, mas também conseguiu abrigo em monastérios franciscanos e conventos.

E depois que chegou?

Ficou num vilarejo adorável na Via Piave, 23. Um padre austríaco, mon­senhor Karl Bayer, cuidou muito bem dele enquanto a Pontifícia Comissão de Assistência providenciava os arranjos da viagem. Dentro de poucos dias, obteve um passaporte da Cruz Vermelha em nome de Rudolf Seibel e uma autorização de entrada na Argentina. Em 25 de maio de 1949, embarcou no North King, em Gênova, e zarpou para Buenos Aires.

O nome do navio me parece familiar.

Porque é. Tinha outro passageiro a bordo que também recebeu ajuda do Vaticano. Seu passaporte da Cruz Vermelha o identificava como Helmut Gregor. Seu nome real era...

Josef Mengele.

Lavon assentiu.

Não sabemos se os dois chegaram a se encontrar durante a travessia. Mas sabemos que a chegada de Voss ocorreu de forma mais tranqüila que a de Mengele. Pelo visto o Anjo da Morte disse aos oficiais de imigração que era um técnico, mas sua bagagem estava cheia de documentos médicos e amostras de sangue da sua época em Auschwitz.

E Voss tinha alguma coisa interessante na bagagem?

Algo como uma pintura de Rembrandt? - Lavon balançou a cabeça. - Até onde sabemos, ele foi para o Novo Mundo de mãos vazias. Registrou-se como pregoeiro público e logo foi aceito no país. Seu mentor, Eichmann, chegou no ano seguinte.

Deve ter sido um encontro e tanto.

Na verdade, eles não se deram muito bem na Argentina. Encontraram-se para tomar um café algumas vezes no centro de Buenos Aires, mas pelo visto Voss não apreciava a companhia de Eichmann. Eichmann tinha passado muitos anos se es­condendo, trabalhando como lenhador e fazendeiro. Não era mais um jovem deus que tinha o destino de milhões de pessoas na palma da mão. Tinha se transformado em um trabalhador comum que precisava de emprego. E estava cheio de amargura.

E Voss?

Ao contrário de Eichmann, ele tinha freqüentado a universidade e em um ano estava trabalhando como advogado numa empresa que atendia a comuni­dade germânica na Argentina. Em 1955, sua esposa e seu filho conseguiram fu­gir da Alemanha e a família se reuniu. Para todos os efeitos, Kurt Voss teve uma vida de classe média comum mas confortável no bairro de Palermo, em Buenos Aires, até sua morte, em 1982.

Por que ele nunca foi preso?

Porque tinha amigos poderosos. Amigos na polícia secreta, no exército etc. Depois que conseguimos colocar as mãos em Eichmann, em 1960, ele saiu de cena por alguns meses. Mas, de forma geral, o homem que colocou a família de Lena Herzfeld em um trem para Auschwitz viveu a maior parte da vida sem medo de ser preso ou extraditado.

Ele chegou a falar publicamente sobre a guerra?

Lavon deu um sorriso débil.

Talvez você ache difícil de acreditar, mas ele deu uma entrevista para a Der Spiegel alguns anos antes de sua morte. Como era de se esperar, defendeu sua inocência até o fim. Negou ter deportado pessoas. Negou ter matado pessoas. E negou até ter roubado qualquer coisa.

Então o que aconteceu com o dinheiro que Voss não roubou?

Existe um consenso entre os especialistas de restituição do Holocausto, inclusive eu mesmo, de que ele nunca conseguiu tirar os bens da Europa. Na verdade, o destino exato da fortuna de Kurt Voss é considerado um dos grandes mistérios não resolvidos do Holocausto.

Alguma idéia de onde possa estar?

Ora, Gabriel, não preciso nem dizer.

Suíça?

Lavon assentiu.

A SS via o país todo como um cofre gigante. Nós sabemos, pelos registros do OSS, o escritório de serviços estratégicos americano, que Voss visitou Zu­rique com freqüência no decorrer da guerra. Infelizmente, não sabemos com quem ele esteve ou em que banco realizou as transações. Enquanto estava em Viena, trabalhei para uma família cujos ancestrais tinham sido espoliados por Voss no Escritório Central de Emigração Judaica em 1938. Passei anos indo de porta em porta em Zurique atrás daquele dinheiro.

- E?

Nenhum vestígio, Gabriel. Nenhum. Até onde o setor bancário suíço sabe, Kurt Voss nunca existiu. Nem sua fortuna saqueada.

 

Eles foram parar, coincidentemente, no fim da Jodenbreestraat. Gabriel parou por um instante do lado de fora da casa onde Hendrickje Stoffels tinha posado para seu amante, Rembrandt, e lhe fez uma pergunta: como o seu retrato, roubado de Jacob Herzfeld em Amsterdã, em 1943, acabou na Galeria Hoffmann, em Lucerna, 21 anos depois? Ela não tinha como esclarecer, claro, então Gabriel formulou a pergunta para Eli Lavon.

Talvez Voss tenha se livrado dele antes de escapar da Europa - respondeu.

Ou pode tê-lo levado para a Argentina e enviado para a Suíça depois, para ser vendido discretamente. - Lavon olhou para Gabriel e indagou: - Quais são as chances de a Galeria Hoffmann nos mostrar o registro da venda de 1964?

Nenhuma - disse Gabriel. - A única coisa mais reservada que um banco suíço é uma galeria de arte suíça.

Então suponho que só nos reste uma opção.

E qual é?

Peter Voss.

O filho?

Lavon assentiu.

A esposa de Voss morreu alguns anos depois dele. Peter é o único que so­brou. E também é a única pessoa que pode ter alguma idéia do que aconteceu com a pintura.

Onde ele está?

Continua na Argentina.

Qual é a inclinação política dele?

Você quer saber se ele é um nazista como o pai?

Só estou perguntando.

Poucos filhos de nazistas compartilham as crenças dos pais, Gabriel. A maioria sente uma profunda vergonha, incluindo Peter Voss.

E ele realmente usa esse nome?

Quando o pai morreu, Peter abandonou o nome falso e conseguiu cons­truir uma boa reputação no negócio de vinhos da Argentina. Tem uma vinícola muito bem-sucedida em Mendoza. Parece que produz alguns dos melhores ró­tulos do país.

Fico feliz por ele.

Procure não ser tão duro, Gabriel. Peter Voss tentou expiar os pecados do pai. Quando o Hezbollah explodiu o centro comunitário judaico AMIA, em Buenos Aires, há alguns anos, alguém enviou uma imensa doação anônima para ajudar na reconstrução. Por acaso sei que foi Peter Voss.

Você acha que ele vai falar comigo?

O sujeito é muito reservado, mas já deu entrevistas a um bom número de historiadores proeminentes. Agora, se vai aceitar receber um agente israelense chamado Gabriel Allon é outra história.

Você não ficou sabendo, Eli? Eu me aposentei.

Se você está aposentado, por que estamos andando por Amsterdã numa noite tão fria? - Diante do silêncio do amigo, Lavon ofereceu a própria resposta:

Porque nunca acaba, não é, Gabriel? Se Shamron tivesse tentado tirá-lo da aposentadoria para caçar um terrorista, você o teria mandado passear. Mas isso é diferente, não é? Você ainda vê aquela tatuagem no braço da sua mãe, aquela que ela sempre tentava esconder.

Já terminou de me analisar, professor Lavon?

Conheço você melhor que qualquer outra pessoa no mundo, Gabriel. Me­lhor até que aquela mulher bonita caminhando atrás de nós. Sou o mais pró­ximo que você tem de uma família, além de Shamron, claro. - Lavon fez uma pausa. - Ele mandou lembranças, a propósito.

Como ele está?

Extremamente infeliz. Parece que a Era Shamron está chegando ao fim. Ele fica enfurnado em sua casa em Tiberíades sem nada para fazer. Pelo visto, está deixando Gilah doida. Ela não sabe quanto tempo ainda vai agüentar.

Achei que a promoção de Uzi significasse que Shamron teria carta branca no King Saul Boulevard.

Shamron também achava. Mas, para a surpresa de todos, Uzi decidiu que quer ser dono do próprio nariz. Almocei com ele há algumas semanas. Bella operou uma bela mudança no coitado. Ele mais parece um presidente de em­presa do que um chefe do Escritório.

Meu nome surgiu na conversa?

Só de passagem. Algo me diz que Uzi aprecia o fato de você estar escondido no fim do mundo, na Cornualha. - Lavon olhou para ele de relance. - Algum arrependimento por não ter aceitado o emprego?

Eu nunca quis o emprego, Eli. E estou contente de verdade por Uzi.

Mas talvez ele não fique tão contente ao saber que você está pensando em ir à Argentina para falar com o filho do braço direito de Adolf Eichmann.

O que os olhos não vêem o coração não sente. Além do mais, vai ser uma viagem muito rápida.

Onde foi que já ouvi isso? - Lavon sorriu. - Se você quer minha opinião, Gabriel, acho que o Rembrandt já deve estar além do alcance. Mas, se está convencido de que Peter Voss pode ajudar, deixe que eu vou à Argentina.

Você está certo sobre uma coisa, Eli. Ainda consigo ver a tatuagem no braço da minha mãe.

Lavon suspirou pesadamente.

Me deixe ao menos dar um telefonema para ver se consigo marcar o encon­tro de vocês. Não quero que você vá até Mendoza e volte de mãos vazias.

Discretamente, Eli.

Só trabalho dessa forma. Só me prometa que você vai tomar cuidado lá. A Argentina está cheia de tipos que adorariam ver sua cabeça num prato.

Eles chegaram à Plantage Middenlaan. Gabriel conduziu Lavon até uma rua transversal e parou antes da pequena casa estreita com a porta preta também estreita. Lena Herzfeld, a filha da escuridão, estava sentada sozinha na reluzente sala branca sem passado.

Você lembra o que Shamron nos disse a respeito de coincidências quando éramos crianças, Eli?

Que só os idiotas e os mortos acreditam nelas.

O que você acha que ele diria sobre o desaparecimento de um Rembrandt que já esteve nas mãos de Kurt Voss?

Não ia gostar da idéia.

Você pode ficar de olho nela enquanto eu estiver na Argentina? Nunca me perdoaria se algo acontecesse. Ela já sofreu demais.

Isso já estava nos meus planos.

Seja cuidadoso com ela, Eli. Lena é frágil.

São todas frágeis - disse Lavon. - E ela nem vai saber que estou aqui.

 

A empresa de segurança Zentrum Security, localizada em Zurique, operava com base numa crença simples. Pela quantia adequada de dinheiro e den­tro das circunstâncias apropriadas, aceitava praticamente qualquer trabalho. Seus detetives conduziam investigações e checagens de antecedentes de pessoas físicas e jurídicas. Uma unidade de contra-terrorismo oferecia consultoria sobre a proteção de recursos e publicava um importante boletim diário informando os níveis das ameaças mundiais em andamento. A unidade de proteção oferecia seguranças uniformizados para empresas e agentes à paisana para pessoas físi­cas. A divisão de segurança em informática era considerada uma das melhores da Europa e os consultores internacionais conseguiam permissão para que seus clientes fizessem negócios nos cantos mais perigosos do mundo. A com­panhia também tinha seu próprio banco privado e mantinha uma caixa-forte na Talstrasse utilizada para a armazenagem de bens de natureza delicada dos clientes. De acordo com a última estimativa, o valor dos itens no cofre excedia os 10 bilhões de dólares.

Ocupar as várias divisões da Zentrum com pessoal qualificado era um grande desafio, já que a empresa não recebia currículos. O processo de recrutamento era sempre o mesmo. Primeiro os caçadores de talentos da companhia identi­ficavam alvos de interesse. Em seguida, sem o conhecimento do alvo, condu­ziam uma verificação discreta mas abrangente de antecedentes. Se o alvo fosse considerado "adequado", um time de recrutadores partia para a investida final. Sua tarefa era facilitada pelos salários e benefícios oferecidos, que eram muito melhores que a média do mercado. Os executivos da Zentrum podiam contar nos dedos de uma das mãos o número de alvos que já tinham recusado uma proposta. O quadro de funcionários da empresa era altamente qualificado, mul­tinacional e multi-étnico. A maior parte deles servira ao exército, à polícia ou aos serviços de inteligência de seus respectivos países. A Zentrum exigia fluência em ao menos três línguas, embora o alemão fosse o idioma oficial da empresa e, portanto, um pré-requisito para o emprego. Quase não havia demissões e fun­cionários desligados dificilmente encontravam novos empregos.

Assim como os serviços de segurança a que tentava se igualar, a Zentrum tinha duas facetas: uma era revelada ao mundo com relutância e a outra era cuidadosamente mantida em sigilo. Esse braço oculto da empresa lidava com o que classificava como "serviços especiais", na verdade um eufemismo: chantagem, suborno, intimidação, espionagem industrial e "acerto de contas". O nome da unidade nunca aparecia nos arquivos da companhia e não era mencionado nos escritórios. Os poucos selecionados que conheciam sua existência eram chamados de Kellergruppe, o grupo do porão, e seu chefe era conhecido como o Kellermeister. Havia 15 anos que a posição era ocupada pelo mesmo homem, Ulrich Müller.

Os dois agentes que Müller enviara para Amsterdã estavam entre os mais experientes de sua equipe. Um deles era um alemão especializado em trabalhos com áudio e o outro, um suíço com talento para fotografia. Pouco depois das seis da tarde, o agente suíço tirou uma foto do israelense magro com as têm­poras grisalhas que entrava no Hotel Ambassade acompanhado pela mulher alta de cabelos escuros. No instante seguinte, o alemão ergueu um microfone parabólico e o apontou para o terceiro andar do hotel, na direção do lado es­querdo da fachada. O israelense apareceu na janela e observou a rua por um momento. O suíço tirou uma última foto e depois viu as cortinas serem fecha­das rapidamente.

 

A garoa matinal tinha deixado a escadaria da rua Chappe úmida, Maurice Durand parou no alto dos degraus, massageando a área dolorida de sua coluna lombar, e seguiu pelas ruas estreitas de Montmartre até o prédio na rua Ravignan. Olhou para cima por um instante, na direção das janelas amplas do apartamento no último andar, antes de baixar os olhos para o interfone. Cinco dos nomes estavam em letras impressas. O sexto tinha sido escrito à mão com uma letra inconfundível: Yves Morel...

Durante uma única noite, 22 anos antes, esse nome esteve nos lábios de todos os colecionadores importantes de Paris. Mesmo Durand, que costumava manter distância da parte mais legítima do mundo da arte, sentiu o impulso de comparecer à estreia promissora de Morel. Os colecionadores o declararam um gênio - um sucessor digno de talentos como Picasso, Matisse e Vuillard - e no fim da tarde todos os quadros na galeria já tinham sido reservados. Mas tudo mudou na manhã seguinte, quando os todo-poderosos críticos de arte de Paris deram seu veredito. Reconheceram que sim, o jovem Morel tinha uma habilidade téc­nica notável. Mas em seu trabalho faltavam ousadia, imaginação e, talvez o mais importante, originalidade. Dentro de horas, todos os colecionadores retiraram suas ofertas e uma carreira que parecia destinada ao estrelato desabou vertigi­nosamente.

A princípio, Yves Morel sentiu raiva. Raiva dos críticos que o atacaram e dos donos de galerias que se recusaram a deixá-lo mostrar seu trabalho novamente. Mas a maior parte desse sentimento ficou reservada aos ricaços medrosos que foram convencidos com tanta facilidade. "São ovelhas", declarava Morel para qualquer um disposto a ouvir. "Farsantes cheios da grana que provavelmente não saberiam a diferença entre uma pintura genuína e uma falsificação." Por fim, o pintor de habilidade técnica notável cujo trabalho supostamente carecia de originalidade resolveu provar seu argumento se tornando um falsificador. Agora suas pinturas estavam nas paredes de mansões ao redor do mundo e até mesmo em um ou dois museus pequenos. Elas tinham tornado Morel um ho­mem rico - mais rico que alguns dos tolos que as compraram.

Embora Morel não vendesse mais suas falsificações no mercado aberto, fazia trabalhos esporádicos para amigos do submundo da arte. Um desses amigos era Maurice Durand. Na maioria das vezes, Durand aproveitava os talentos de Morel em peças de substituição para usar em roubos nos quais uma cópia do quadro original era deixada em seu lugar, de modo que o dono continuasse achando que sua amada obra de arte estava segura. De fato, quando Durand entrou no estúdio de Morel, o falsificador dava os retoques finais num Manet que logo seria pendurado em um pequeno museu belga. Durand inspecionou a tela com admiração antes de puxar o Rembrandt de um tubo comprido de papelão e colocá-lo com delicadeza na mesa de Morel. O homem assobiou entre os dentes.

Merde.

Concordo plenamente.

Suponho que seja um Rembrandt original.

Durand assentiu.

Assim como o buraco de bala, infelizmente - completou ele.

E a mancha?

Use a imaginação, Yves.

Morei se inclinou na direção da tela e esfregou a superfície devagar.

O sangue não é nenhum problema.

E o buraco de bala?

Vou ter que acrescentar um pedaço novo de tela ao original e depois retocar uma parte da testa. Quando terminar, vou cobrir com uma película de verniz colorido para combinar com o resto do quadro. - Morel deu de ombros. - Os pintores dessa época não são exatamente meu ponto forte, mas acho que con­sigo dar um jeito.

Quanto tempo vai levar?

Umas duas semanas. Talvez mais.

Tenho um cliente esperando.

Você não gostaria que seu cliente visse isto. - Morel tocou no buraco de bala com a ponta do dedo. - Acho que também vai precisar de um novo reves­timento. Parece que o último restaurador usou uma técnica em que a cola só é colocada nas bordas da pintura.

Não é o procedimento mais usado?

Não. Nos revestimentos tradicionais, a cola é espalhada por todo o verso da tela.

Por que será que ele fez isso?

É um pouco mais fácil e bem mais rápido. - Morel deu de ombros. - Talvez ele estivesse com pressa.

Você consegue fazer esse tipo de coisa?

Revestir uma pintura? - Morel pareceu vagamente ofendido. - Eu revisto todas as minhas falsificações para parecerem mais antigas do que são. Só para constar, não é um processo livre de riscos. Uma vez destruí um Cézanne falso.

O que aconteceu?

Coloquei muita cola. Atravessou a tela.

Tente não fazer isso neste, Yves. Ele já tem problemas suficientes.

Pois é - disse Morel, franzindo a testa. - Se isso fizer você feliz, posso tirar esse revestimento das bordas agora. Não vai demorar. Você é quem sabe.

Não fico feliz há 12 anos.

Por causa das costas?

Durand assentiu, sentando-se numa poltrona manchada de tinta. Morel colo­cou a pintura na mesa, virada para baixo. Usando a ponta de uma faca, separou primeiro a parte superior esquerda do revestimento da borda e em seguida fez a mesma coisa com o resto. Em 10 minutos tinha terminado.

Mon Dieu!

O que você fez com o meu Rembrandt, Yves?

Eu não fiz nada, mas alguém fez. Venha cá, Maurice. É melhor você dar uma olhada.

Durand foi até a mesa. Os dois ficaram parados lado a lado, encarando a parte de trás da tela em silêncio.

Me faça um favor, Yves.

Qual?

Coloque isso de volta no tubo e esqueça que eu estive aqui.

Tem certeza, Maurice?

Tenho.

 

O vôo 4286 da LAN Airlines desceu lentamente do nebuloso céu argentino em direção à cidade de Mendoza e aos picos distantes dos Andes. Mesmo a 20 mil metros de altura, Gabriel viu os vinhedos se expandindo numa faixa verde interminável ao longo do vale deserto. Olhou para Chiara. Ela estava com o assento de primeira classe reclinado, seu belo rosto relaxado. Tinha permanecido nessa posição durante a maior parte da longa viagem partindo

de Amsterdã. Gabriel estava com inveja. Como acontecia com a maioria dos agentes do Escritório, a carreira dele tinha sido marcada por viagens constantes e mesmo assim ele nunca alcançara a capacidade de dormir em aviões. Passou o longo vôo transatlântico lendo um dossiê sobre Kurt Voss preparado às pressas por Eli Lavon. Incluía a única fotografia conhecida de Voss no uniforme da SS - um instantâneo tirado pouco depois de sua chegada a Viena - e um retrato que apareceu na Der Spiegel pouco antes de sua morte. Se Voss foi atormenta­do por uma consciência pesada no final da vida, conseguiu esconder bem das lentes da câmera. Parecia um homem em paz com o passado. Um homem que dormia bem à noite.

Uma comissária de bordo acordou Chiara e a instruiu a pôr o assento na vertical. Em poucos segundos ela voltou a dormir profundamente, e se manteve assim mesmo após o avião tocar o chão do aeroporto de Mendoza. Dez minutos depois, ao entrarem no terminal, estava repleta de energia. Gabriel caminhava ao seu lado com as pernas pesadas e um zumbido nos ouvidos pela falta de sono.

Passaram pela alfândega no começo da manhã e não tiveram nenhuma formalidade para tratar além do aluguel de um carro. Na Europa, essas tarefas menos dignas costumavam ser responsabilidade de mensageiros e outros auxiliares de campo do Escritório. Mas ali, na distante Mendoza, Gabriel não teve escolha a não ser ficar na longa fila formada no balcão. Apesar da confirmação impressa, seu pedido por um carro pareceu surpreender a atendente, que por mais que tentasse não conseguia achar a reserva no computador. Resolver a questão se tornou uma provação de meia hora, exigindo diversos telefonemas e várias manifestações de irritação com a tela do monitor. Finalmente um carro se materializou, um Subaru Outback que tinha se envolvido em um incidente infeliz durante uma viagem recente pelas montanhas. Sem se desculpar, a aten­dente lhe entregou a papelada e lhe passou um sermão severo sobre o que o seguro cobria e o que não. Gabriel assinou o contrato, o tempo todo se per­guntando que tipo de incidente infeliz ele seria capaz de infligir no carro antes de devolvê-lo.

Com as chaves e a bagagem em mãos, Gabriel e Chiara saíram no ar seco. A Europa estava coberta com o frio do inverno, mas no hemisfério sul era pleno verão. Gabriel encontrou o carro no pátio da locadora. Depois de vasculhar o veículo em busca de explosivos, os dois entraram e partiram para a cidade. O hotel estava localizado na praça Itália, que ganhou esse nome por ser uma re­gião onde muitos imigrantes italianos se estabeleceram no final do século XIX e começo do XX. Ao entrar no quarto, Gabriel sentiu-se tentado a ir direto para a cama recém-arrumada. Em vez disso, tomou um banho, vestiu roupas limpas e em seguida voltou para o saguão. Chiara estava no balcão da recepção procurando por um mapa das vinícolas locais. Depois que o recepcionista conseguiu providenciar um, viram que a Bodega de la Mariposa, a vinícola de Peter Voss, não estava indicada em nenhum lugar.

O dono é uma pessoa muito reservada - explicou o recepcionista. - Não disponibiliza degustações nem visitas.

Temos uma hora marcada com o senor Voss - explicou Gabriel.

Ah! Nesse caso...

O recepcionista circulou um ponto no mapa que ficava a cerca de 7 quilô­metros dali na direção sul e indicou a rota mais rápida. Do lado de fora, um trio de mensageiros trocava comentários sobre as péssimas condições do carro alugado. Ao verem Chiara, todos correram ao mesmo tempo a fim de abrir a porta para ela, deixando Gabriel ocupar o assento do motorista sem qualquer ajuda. Ele tirou o carro da vaga e passou meia hora passeando pelas avenidas tranqüilas do centro da cidade, procurando sinais de que estivessem sendo se­guidos. Sem ver nada que chamasse atenção, dirigiu-se para o sul. Percorreram um arquipélago de vinhedos e vinícolas até alcançarem um portão elegante de pedra e aço com a placa PARTICULAR. Do outro lado do portão, encostado num automóvel utilitário branco, estava um segurança de ombros largos com um chapéu de caubói e óculos de sol com lentes espelhadas.

Senor Allon?

Gabriel assentiu.

Seja bem-vindo. - O segurança deu um sorriso amistoso. - Venha atrás de mim, por gentileza.

Gabriel esperou o portão se abrir e seguiu o utilitário. Não levou muito tempo para entender como a Bodega de la Mariposa, que significa "adega das borboletas", tinha ganhado esse nome. Uma grande nuvem de borboletas voava sobre os vinhedos e no amplo pátio de cascalho da mansão neo-renascentista. Gabriel e Chiara estacionaram à sombra de um cipreste e seguiram o segurança por um saguão que parecia uma caverna até um corredor largo, que dava em um ter­raço voltado para os picos nevados dos Andes. Ali havia uma mesa com queijo, salsichas e figos, água mineral da região e uma garrafa do vinho Bodega de la Mariposa Reserva 2005. Encostado no corrimão, resplandecente em suas botas de montaria, de couro e recém-engraxadas, estava o capitão da SS Kurt Voss.

Bem-vindo à Argentina, Sr. Allon - disse ele. - Estou muito contente com sua visita.

 

Não era Kurt Voss, obviamente, mas a semelhança física entre pai e filho era marcante. Não havia dúvida de que a figura vindo na direção deles pelo terraço podia perfeitamente ser o mesmo homem que Lena Herzfeld vira caminhar no palco do teatro Hollandsche Schouwburg com um retrato de Rembrandt numa das mãos e um saco de diamantes na outra.

Peter Voss era um pouco mais elegante que seu pai no final da vida. Tinha a aparência mais austera e um pouco mais de cabelo, já todo branco. Em uma inspeção mais cuidadosa, Gabriel viu que suas botas não eram tão brilhantes como pensara de início. De um marrom escuro, estavam cobertas com uma fina camada de poeira pela cavalgada vespertina. Ele apertou as mãos dos dois calorosamente, inclinando-se um pouco ao cumprimentá-los. Em seguida, conduziu-os à mesa ensolarada. Enquanto se acomodavam, ficou claro que Peter Voss estava ciente do efeito que sua aparência exercia sobre os convidados.

Não precisam desviar os olhos - disse ele, em tom conciliador. - Como podem imaginar, estou acostumado a ter pessoas me encarando.

Não foi minha intenção, Herr Voss, mas...

Por favor, Sr. Allon, não precisa se desculpar. Ele era o meu pai, não o seu. Não falo dele com freqüência, mas quando falo sempre acho melhor ser sincero. É o mínimo que posso fazer. O senhor fez uma longa viagem e estou certo de que teve um bom motivo para isso. O que gostaria de saber?

A forma direta como Voss fez a pergunta pegou Gabriel de surpresa. Ele tinha, em certa ocasião, interrogado um criminoso de guerra nazista, mas nunca falara com o filho de um. Seus instintos o alertaram a agir com cautela, assim como fizera com Lena Herzfeld. Mordiscou um figo e, em um tom informal, perguntou quando Voss tinha ficado sabendo das atividades de seu pai durante a guerra.

Atividades? - repetiu Voss, incrédulo. - Por favor, Sr. Allon, se vamos ter uma conversa franca sobre meu pai, não devemos medir as palavras. Ele não se dedicou a atividades. Cometeu atrocidades. E, respondendo à sua pergunta sobre quando eu fiquei sabendo, isso aconteceu aos poucos. Nesse aspecto eu acho que sou igual a qualquer filho que descobre que o pai não é quem dizia ser.

Voss serviu três taças do vinho tinto e contou sobre dois incidentes que ocorreram com apenas uma semana de intervalo quando ainda era adolescente.

Eu estava em Buenos Aires, voltando para casa da escola, e parei num café para encontrar meu pai. Ele ocupava uma mesa no canto e conversava discreta­mente com outro homem. Nunca vou esquecer a expressão no rosto daquele ho­mem quando me viu: choque, horror, orgulho, surpresa, tudo ao mesmo tempo. Tremia um pouco quando apertou minha mão. Disse que eu me parecia muito com meu pai quando eles trabalhavam juntos, nos velhos tempos. Se apresentou como Ricardo Klement. Tenho certeza de que sabe seu nome verdadeiro.

Adolf Eichmann.

Em carne e osso - confirmou Voss. - Pouco tempo depois, fui até uma padaria muito freqüentada por refugiados judeus. Uma das senhoras na fila, quando me viu, ficou muito pálida e histérica. Achou que eu fosse meu pai e me acusou de ter matado a família dela.

Voss pegou a taça de vinho, mas mudou de idéia e a pousou de volta na mesa.

Finalmente, descobri que meu pai era de fato um assassino. E não um assas­sino comum, mas um homem com o sangue de milhões de pessoas nas mãos. O que o fato de ser capaz de amar alguém que tinha cometido tantas atrocidades dizia a meu respeito? O que dizia a respeito de minha mãe? Mas a pior parte, Sr. Allon, é que meu pai nunca reconheceu seus pecados. Ele nunca sentiu ver­gonha. Na verdade, ele teve bastante orgulho de seus feitos até o fim. Quem carrega seu fardo sou eu. E sinto sua culpa todos os dias. Estou completamente sozinho no mundo agora. Minha esposa morreu há muitos anos. Nunca tive­mos filhos. Por quê? Porque eu temia o mal que havia em meu pai. Quis que sua linhagem terminasse comigo.

Voss pareceu exausto pela confissão. Assumiu um silêncio reflexivo, o olhar fixo nas montanhas distantes. Enfim se voltou para Gabriel e Chiara e disse:

Mas tenho certeza de que vocês não vieram de tão longe até Mendoza para me ouvir condenando meu pai.

Na verdade, eu vim por causa disto.

Gabriel colocou uma foto do Retrato de uma Jovem na frente de Voss. A imagem ficou na mesa por um momento, intocada, como um quarto convidado esperando encontrar um motivo para entrar na conversa. Então Voss a ergueu com cuidado e a examinou à intensa luz do sol.

Sempre me perguntei como era - disse, distraidamente. - Onde está agora?

Foi roubado há algumas noites na Inglaterra. Um homem que eu conheci muito tempo atrás morreu tentando protegê-lo.

Lamento muito ouvir isso - disse Voss. - Infelizmente, acredito que seu amigo não tenha sido o primeiro a morrer por causa desse quadro. E também acho que não será o último.

 

Em Amsterdã, Gabriel ouvira o testemunho de Lena Herzfeld. Agora, sen­tado num amplo terraço à sombra dos Andes, fazia o mesmo pelo único filho de Kurt Voss. Peter Voss decidiu começar sua história pela noite de outu­bro de 1982, quando recebeu uma ligação da mãe dizendo que seu pai havia morrido. Ela pediu ao filho que fosse até a casa da família em Palermo. Disse que precisava lhe contar algumas coisas. Coisas que ele deveria saber sobre seu pai e a guerra.

Nos sentamos ao pé do leito de morte do meu pai e conversamos por horas. Na verdade, foi minha mãe quem falou a maior parte do tempo - acrescentou Voss. - Eu praticamente só escutei. Foi a primeira vez que entendi completa­mente a dimensão dos crimes do meu pai. Ela me falou sobre como ele tinha usado o poder para enriquecer, sobre como tinha roubado as vítimas antes de enviá-las para a morte em Auschwitz, Treblinka e Sobibór e sobre como, numa noite em que nevava muito em Amsterdã, tinha aceitado um retrato de Rem­brandt em troca da vida de uma única criança. Para piorar as coisas, havia pro­vas de sua culpa.

Provas de que ele tinha adquirido o Rembrandt por coerção?

Não só isso, Sr. Allon. Provas de que ele havia lucrado selvagemente com o maior ato de assassinato em massa da história.

Que tipo de provas?

O pior tipo - disse Voss. - Provas escritas.

Peter continuou dizendo que, como a maior parte dos homens da SS, seu pai havia sido meticuloso em registrar todas as suas atividades. Assim como os comandantes dos centros de extermínio tinham conservado arquivos volumosos documentando seus crimes, o capitão da SS Kurt Voss manteve uma espécie de balanço no qual anotou cada uma de suas transações ilegais. Os rendimentos foram escondidos em dezenas de contas na Suíça.

Dezenas, Sr. Allon, pois a fortuna do meu pai era tão vasta que ele achou que seria insensato colocar tudo em apenas uma conta ostensivamente grande.

Durante o final da guerra, conforme os Aliados se aproximavam de Berlim pelo leste e pelo oeste, Kurt Voss condensou o livro de registros em um docu­mento que detalhava as origens do dinheiro e as contas correspondentes.

Onde o dinheiro estava escondido?

Em um pequeno banco particular em Zurique.

E a lista de números das contas? - perguntou Gabriel. - Onde ele a guardou?

A lista era perigosa demais para ser mantida. Era tanto a chave para uma fortuna como uma acusação por escrito. Então meu pai a escondeu onde pen­sou que nunca seria encontrada.

Naquele instante, num lampejo de clareza, Gabriel entendeu. Ele tinha visto a prova nas fotos que encontrara no computador de Christopher Liddell, em Glastonbury - as duas linhas finas, uma perfeitamente vertical, outra perfeitamente horizontal, que convergiam a alguns centímetros do ombro esquerdo de Hendrickje. Kurt Voss tinha usado o Retrato de uma Jovem como um envelope, possivelmente o envelope mais caro da história.

Ele a escondeu dentro do Rembrandt?

Exatamente, Sr. Allon. Ficou escondida entre a tela original e a segunda tela colada atrás dela.

Qual era o tamanho da lista?

Três folhas de papel de seda, escritas pelo meu pai.

E como foram protegidas?

Foram seladas em um revestimento de papel-manteiga.

Quem fez o serviço para ele?

Nos anos que meu pai passou em Paris e Amsterdã, conheceu um bom nú­mero de pessoas envolvidas na Operação Especial Linz, os saqueadores de arte de Hitler. Um deles era restaurador. Foi ele que inventou o esconderijo. Quando terminou o serviço, meu pai pagou pelo favor matando-o.

E a pintura?

Durante sua fuga da Europa, meu pai fez uma breve parada em Zurique, para encontrar com o banqueiro que cuidava de sua fortuna. Ele deixou a pin­tura em um cofre. Além dele, só havia uma pessoa que sabia o número da conta e a senha.

Sua mãe?

Peter Voss assentiu.

Por que ele não transferiu o dinheiro direto para a Argentina na mesma hora?

Porque era impossível. Os Aliados monitoravam todas as transações finan­ceiras conduzidas pelos bancos suíços. Uma grande transferência de dinheiro e outros bens de Zurique para Buenos Aires teria levantado uma bandeira ver­melha. Quanto à lista, meu pai não se atreveu a tentar levá-la com ele durante a fuga. Se tivesse sido preso no caminho para a Itália, o documento o teria con­denado à morte. Não teve escolha a não ser deixar o dinheiro e a lista para trás, até a poeira baixar.

Quanto tempo ele esperou?

Seis anos.

Até o ano em que o senhor e sua mãe deixaram a Europa?

Isso - disse Voss. - Quando meu pai enfim conseguiu nossa passagem, ins­truiu minha mãe a fazer uma parada em Zurique. O plano era que ela pegasse a pintura, a lista e o dinheiro. Na época, eu não entendi o que estava acontecendo, mas lembro que fiquei esperando na rua quando minha mãe entrou no banco. Dez minutos depois, quando saiu, pude ver que estivera chorando. Perguntei o que tinha acontecido, mas ela mandou que eu me calasse. Depois disso, en­tramos em um bonde elétrico e ficamos andando em círculos pelo centro da cidade. Minha mãe ficou o tempo todo olhando pela janela e repetindo: "O que vou dizer ao seu pai? O que vou dizer ao seu pai?"

A pintura tinha sumido?

Voss assentiu.

Tinha. A pintura, a lista e o dinheiro. O banqueiro falou que as contas nunca existiram. "A senhora deve ter se enganado, Frau Voss", disse ele. "Talvez seja outro banco."

E como o seu pai reagiu?

Ele ficou furioso, claro. - Voss fez uma pausa. - Irônico, não é? Meu pai ficou furioso porque o dinheiro que tinha roubado tinha sido roubado dele. Pode-se dizer que o quadro se tornou sua punição. Ele escapou da justiça, mas se tornou obcecado pelo Rembrandt e por encontrar a chave para a fortuna escondida nele.

Ele tentou de novo?

Mais uma vez - respondeu Voss. - Em 1967, um diplomata argentino con­cordou em ir até a Suíça como representante dele. Pelo que acertaram, metade do dinheiro recuperado seria entregue ao tesouro argentino e o diplomata fica­ria com uma comissão.

E o que aconteceu?

Pouco depois que o diplomata chegou à Suíça, deu notícias dizendo que tinha se encontrado com o banqueiro do meu pai e estava confiante de que seria bem-sucedido. Dois dias depois, seu corpo foi encontrado flutuando no lago Zurique. A polícia suíça chegou à conclusão de que ele escorregara de um dique enquanto admirava a paisagem. Meu pai não acreditou. Estava convencido de que o homem tinha sido assassinado.

Quem era o diplomata?

Seu nome era Carlos Weber.

E o senhor, Herr Voss? - perguntou Gabriel, após uma longa pausa. - Che­gou a procurar pelo dinheiro?

Para ser honesto, eu considerei a possibilidade. Achei que talvez existisse alguma forma de devolvê-lo às vítimas do meu pai, alguma forma de reparação. Mas no fundo eu sabia que se tratava de uma missão impossível. Os gnomos de Zu­rique guardam seus tesouros secretos com muito cuidado, Sr. Allon. Os banquei­ros podem parecer limpos e arrumados, mas a verdade é que são imundos. Depois da guerra, os banqueiros suíços dispensaram pessoas que tiveram a audácia de ir atrás dos próprios depósitos, não porque os bancos não tivessem dinheiro, mas porque não queriam devolvê-lo. Que chance o filho de um assassino teria?

O senhor sabe o nome do banqueiro de seu pai?

Sei - respondeu Voss, sem hesitar. - Walter Landesmann.

Landesmann? Por que esse nome me soa familiar?

Peter Voss sorriu.

Porque o filho dele é um dos financistas mais poderosos da Europa. Aliás, ele apareceu no noticiário outro dia mesmo. Algo sobre um novo programa para combater a fome na África. Ele se chama...

Martin Landesmann?

Peter assentiu.

Que tal essa coincidência?

Não acredito em coincidências, Herr Voss.

Voss ergueu sua taça de vinho em direção ao sol.

Nem eu, Sr. Allon. Nem eu.

 

Gabriel e Chiara deixaram a vinícola seguidos por uma nuvem de borbo­letas e retornaram a Mendoza. Naquela noite, jantaram em um pequeno restaurante ao ar livre em frente ao hotel na praça Itália.

Você gostou dele, né? - perguntou Chiara.

Voss? - Gabriel assentiu. - Mais do que eu pretendia.

A questão é: você acredita nele?

É uma história extraordinária - respondeu Gabriel. - E eu acredito em cada palavra. Kurt Voss era um alvo fácil. Um notório criminoso de guerra, um homem procurado. A fortuna ficou parada no banco de Landesmann por mais de 20 anos, rendendo mais a cada dia. Em algum momento Landesmann decidiu que Voss nunca iria voltar e se convenceu de que podia ficar com o dinheiro. Então fechou todas as contas e destruiu os registros.

E uma fortuna em bens roubados no Holocausto desapareceu - comentou Chiara, com amargura.

Assim como as pessoas a quem um dia pertenceu.

E a pintura?

Se Landesmann tivesse bom senso, a teria queimado. Mas não teve. Era um desgraçado ganancioso. E mesmo em 1964, antes que os preços das obras de arte subissem vertiginosamente, o quadro valia bastante dinheiro. Desconfio que ele o tenha confiado à Galeria Hoffmann, de Lucerna, e providenciado uma venda discreta.

Ele sabia sobre a lista?

Para descobrir, teria que ter separado as duas telas. Mas não tinha nenhuma razão para fazer isso.

Então o documento ainda estava dentro do quadro quando ele foi vendido, em 1964?

Sem dúvida.

Tem uma coisa que não entendi - continuou Chiara. - Por que matar Car­los Weber? Afinal, Landesmann tinha se livrado discretamente da esposa de Voss quando ela foi atrás do dinheiro. Por que ele não fez o mesmo quando Weber apareceu em Zurique?

Talvez pelo fato de a visita de Weber ter sido semioficial. Lembre-se de que ele representava não só Voss, mas também o governo argentino. Isso o tornou perigoso. - Gabriel fez uma pausa. - Mas suspeito de que outra coisa tenha transformado Weber em uma ameaça ainda maior: ele sabia sobre o Rembrandt e a lista de números de contas escondida dentro dele. E deixou isso claro para Landesmann durante o encontro.

E Landesmann se deu conta de que estava com um problema sério - com­pletou Chiara. - Pois quem quer que estivesse em posse do Rembrandt também teria provas de que a fortuna de Kurt Voss tinha sido escondida no banco de Landesmann.

Gabriel assentiu.

É óbvio que Landesmann disse algo para encorajar Weber, com a intenção de mantê-lo em Zurique por tempo suficiente para arquitetar sua morte. Depois

da queda de Weber no lago Zurique, ele deve ter começado uma busca frenética pelo quadro.

Por que ele não voltou à Galeria HofFmann e perguntou pelo nome da pes­soa que fez a compra em 1964?

Porque na Suíça uma venda particular significa uma venda particular, mesmo que se trate de pessoas como Walter Landesmann. Além do mais, dada a situação precária em que ele estava, certamente teria evitado chamar a atenção dessa forma.

E Martin?

Acredito que em algum momento o pai tenha confessado os pecados ao filho e que Martin tenha ficado responsável pela busca. Aquele Rembrandt cir­culou por aí como uma bomba-relógio por mais de 40 anos. Se algum dia tudo viesse à tona...

O mundo de Martin seria destruído.

Gabriel concordou.

No mínimo, ele se veria afogado num mar de processos. No pior dos casos, poderia ser forçado a entregar centenas de milhões, ou até mesmo bilhões, de dólares em indenizações.

Parece um bom motivo para roubar a pintura - disse Chiara. - Mas o que vamos fazer agora? Walter Landesmann está morto faz tempo. E não podemos simplesmente bater à porta do filho dele.

Talvez Carlos Weber possa nos ajudar.

Ele foi assassinado em Zurique em 1967.

No que se refere aos nossos interesses, um acontecimento favorável. Lem­bre-se de que, quando diplomatas morrem, seus respectivos governos têm que investigar. E invariavelmente produzem relatórios.

Não temos a menor chance de obter do governo argentino uma cópia do inquérito conduzido sobre a morte de Weber.

Isso é verdade - concordou Gabriel. - Mas conheço alguém que talvez possa fazer isso por nós.

E quem seria essa pessoa?

Gabriel sorriu e disse:

Alfonso Ramirez.

Após o término da refeição, quando ambos andavam de mãos dadas pela praça escura em direção ao hotel, um arquivo de áudio digitalizado foi despachado para a sede da Zentrum Security, em Zurique, junto com várias fotos de vigilância. Em uma hora a sede respondeu com uma série de instruções concisas, o endereço de um apartamento no bairro de San Teimo, em Buenos Aires, e o nome de um certo ex-coronel que trabalhara para a polícia secreta argentina na época mais sombria da Guerra Suja. O aspecto mais intrigante do comunicado, no entanto, era a data da volta dos agentes para casa. Deveriam deixar Buenos Aires na noite seguinte. Um deles seguiria para Paris pela Air France, e o outro, para Londres, pela British Air. Nenhuma razão que explicasse a necessidade dos voos distintos foi fornecida. Não era preciso. Os dois agentes eram veteranos e sabiam ler as entrelinhas dos comunicados misteriosos emitidos pela sede administrativa. Uma ordem de en­cerramento de caso tinha vindo de cima. Histórias falsas estavam sendo criadas e estratégias de saída, sendo arquitetadas. Ao vislumbrarem a mulher parada por um momento no balcão da recepção do hotel, os dois pensaram que era uma pena o que teriam que fazer. Ela parecia encantadora sob o luar argentino.

 

Na noite de 13 de agosto de 1979, Maria Espinoza Ramirez, poeta, vio­linista e famosa dissidente argentina, foi lançada do compartimento de carga de um avião militar de transporte voando milhares de quilômetros acima do Atlântico Sul. Segundos antes de ser empurrada, o capitão encarre­gado da operação abriu sua barriga com um facão, um ato final de barbárie para garantir que seu corpo se enchesse de água rapidamente, de forma a per­manecer para sempre no fundo do mar. O marido de Maria, o proeminente jornalista dissidente Alfonso Ramirez, só ficaria sabendo do desaparecimento da esposa vários meses depois, pois naquele período também estava nas mãos dos capangas do governo. Se não fosse pela Anistia Internacional, que travara uma campanha incansável a fim de chamar atenção para o seu caso, Ramirez provavelmente teria sofrido o mesmo destino que a mulher. Em vez disso, após mais de um ano em cativeiro, ele foi libertado com a condição de nunca mais escrever sobre política. "O silêncio é uma tradição da qual a Argentina pode se orgulhar", disseram os generais na época de sua soltura. "Achamos que o senor Ramirez é inteligente o bastante para descobrir seus benefícios óbvios."

Outro homem talvez tivesse acatado o conselho dos militares. Mas Alfonso Ramirez, alimentado pela fúria e pela dor, travou uma destemida guerra contra o governo. Sua luta continuou após a queda do regime, em 1983. Entre os mui­tos torturadores e assassinos que Ramirez ajudou a expor nos anos seguintes estava o capitão que tinha lançado sua esposa ao mar. Ramirez chorou quando os juizes condenaram o oficial. E chorou novamente depois de alguns instantes, quando sentenciaram o criminoso a apenas cinco anos de prisão. Na frente do tribunal, Ramirez declarou que a justiça argentina jazia no fundo do mar junto com os restos dos desaparecidos. Ao chegar em casa naquela tarde, encontrou seu apartamento destruído e a banheira cheia de água. No fundo estavam diver­sas fotos de sua esposa, todas cortadas ao meio.

Tendo se estabelecido como um dos ativistas de direitos humanos mais proeminentes na América Latina e no mundo, Alfonso Ramirez voltou sua atenção para a exposição de outro aspecto trágico da história da Argentina: seus estreitos laços com a Alemanha nazista. Santuário do Mal, sua obra-prima histórica de 2006, detalhou como um acordo secreto entre o governo de Perón, o Vaticano, a SS e o serviço de inteligência americano permitiu que milhares de criminosos de guerra conseguissem abrigo na Argentina após o conflito. Também conti­nha um relato de como Ramirez ajudara o serviço de inteligência israelense a desmascarar e capturar um criminoso de guerra nazista chamado Erich Radek. Entre as muitas particularidades que Ramirez deixou de fora estava o nome do legendário agente israelense com quem trabalhara.

Embora o livro tivesse transformado Ramirez num milionário, ele resistiu ao impulso de se mudar para a área nobre ao norte de Buenos Aires e continuou residindo no bairro de San Teimo, no sul. Morava em um prédio grande que tinha uma estrutura de estilo parisiense, com um pátio no centro e uma escadaria em espiral ladeada por dois corrimãos. O apartamento servia como residência e escritório, e seus quartos estavam atulhados com dezenas de milhares de documentos e dossiês. Dizia-se que os arquivos pessoais de Ramirez rivalizavam com os do governo. Mesmo assim, depois de tantos anos vasculhando o passado obscuro da Argentina, ele nunca digitalizou nem organizou de nenhuma forma sua vasta documentação. Ramirez acreditava que a segurança residia na bagunça, uma teoria que ele provara verdadeira por experiência própria. Em diversas ocasiões tinha voltado para casa e encontrado os arquivos remexidos, mas nenhum dos documentos importantes chegara a ser roubado por seus adversários.

Na sala de estar havia uma pequena área livre de entulhos, e foi ali que Rami­rez recebeu Gabriel e Chiara. Apoiado em um canto, exatamente onde Maria o tinha deixado na noite em que fora capturada, estava o violoncelo empoeirado dela. Acima, na parede, havia duas páginas de poesia escritas à mão emoldura­das junto com uma fotografia de Ramirez da época em que ele saíra da prisão. O sujeito da foto não lembrava em quase nada a figura emaciada que era agora. Alto, com os ombros largos, parecia mais um operário do que um homem que trabalhava com palavras e idéias. Sua única vaidade era a exuberante barba grisalha, que na opinião de críticos de direita o tornava uma mistura de Fidel Castro com Karl Marx. Ramirez não se ofendia com essa comparação. Comunista assu­mido, ele reverenciava a ambos.

Apesar do mar de papéis insubstituíveis que mantinha no apartamento, Ra­mirez era um fumante imprudente e distraído, sempre deixando cigarros acesos em cinzeiros ou soltos nas beiradas de mesas. De alguma forma ele se lembrou da aversão de Gabriel a fumantes e conseguiu segurar a vontade de dar uns tragos mesmo conversando sobre assuntos que iam do estado da economia da Argentina ao novo presidente americano e o tratamento dispensado por Israel aos palestinos, que, naturalmente, considerava deplorável. Enfim, quando as primeiras gotas da chuva vespertina começaram a formar poças no peitoril da janela, ele se lembrou da tarde, muitos anos antes, em que tinha levado Gabriel até os arquivos do Escritório de Imigração Argentino. Lá, em uma caixa roída por ratos com arquivos quase desintegrados, eles descobriram um documento indicando que Erich Radek, presumido morto havia muito tempo, estava na realidade vivendo sob um pseudônimo no primeiro distrito de Viena.

Me lembro de uma coisa específica daquele dia - disse Ramirez. - Tinha uma garota linda que nos seguia numa lambreta aonde quer que fôssemos. Ela ficou de capacete o tempo todo, então não cheguei a ver seu rosto. Mas me lem­bro das pernas com bastante clareza. - Ele olhou de relance para Chiara, e então para Gabriel. - Obviamente, o relacionamento de vocês ia além do profissional.

Gabriel assentiu, deixando claro pela sua expressão que não estava disposto a levar o assunto adiante.

Então, o que os trouxe à Argentina desta vez?

Fomos a uma degustação de vinhos em Mendoza.

Encontraram algo interessante?

O Bodega de la Mariposa Reserva.

O 2005 ou o 2006?

O 2005.

Já provei. Aliás, tive a oportunidade de conversar com o dono dessa viní­cola em diversas ocasiões.

Você gosta dele? - quis saber Gabriel.

Gosto - respondeu Ramirez.

E confia nele?

Tanto quanto confio em qualquer um. E, antes de levarmos isto adiante, talvez seja melhor estabelecermos as regras básicas desta conversa.

As mesmas da última vez. Você me ajuda agora, eu ajudo você depois.

Do que exatamente você está atrás?

De informações sobre um diplomata argentino que morreu em Zurique em 1967.

imagino que esteja se referindo a Carlos Weber. - Ramirez sorriu. - E, considerando sua viagem recente até Mendoza, suponho que esteja em busca da fortuna perdida do capitão da SS Kurt Voss.

Ela existe, Alfonso?

É claro que existe. Foi depositada no Banco Landesmann, em Zurique, en­tre 1938 e 1945. Carlos Weber morreu tentando trazê-la para a Argentina, em 1967. Tenho documentos que provam isso.

 

Havia apenas um problema: Alfonso Ramirez não fazia idéia de onde tinha escondido os documentos. E pela meia hora seguinte, enquanto vasculha­va cômodo por cômodo, levantando capas empoeiradas e franzindo a testa ao analisar pilhas de papéis desbotados, ele recitou os detalhes do currículo infame de Carlos Weber. Educado na Espanha e na Alemanha, Weber era um ultranacionalista que servira como conselheiro de política externa para o desfile de ofi­ciais militares e políticos fracos que governaram a Argentina na década anterior à Segunda Guerra Mundial. Profundamente antissemita e anti-democrata, ele se inclinara de forma natural na direção do Terceiro Reich e criara laços estreitos com vários oficiais importantes da SS - laços que o deixaram em uma posição ideal para ajudar criminosos de guerra nazistas a encontrarem refúgio.

- Ele foi um dos elementos centrais do maldito acordo. Tinha uma relação próxima com Perón, com o Vaticano e com a SS. Weber não ajudou os assassinos nazistas a chegarem aqui por pura bondade. Realmente acreditava que eles podiam ajudá-lo a construir a Argentina de seus sonhos.

Ramirez abriu a primeira gaveta de um armário de metal e passou os dedos rapidamente pelas abas de dezenas de pastas.

Existe alguma chance de a morte dele ter sido um acidente? - perguntou Gabriel.

Nenhuma - respondeu Ramirez, enfático. - Carlos Weber era conhecido por ser um excelente atleta e ótimo nadador. Não há nenhuma possibilidade de ele ter caído no lago e se afogado.

Bateu a gaveta do armário e abriu a seguinte. Um instante depois, sorriu e pegou uma pasta, triunfante.

Aqui está. Era esta que eu estava procurando.

O que é?

Cerca de cinco anos atrás, o governo anunciou que ia divulgar outro lote dos arquivos nazistas. A maior parte era lixo. Mas os arquivistas soltaram uma ou duas pérolas. - Ramirez ergueu a pasta. - Incluindo estas.

O que são?

Cópias dos telegramas que Weber enviou da Suíça durante sua viagem, em 1967. Dê uma olhada.

Gabriel pegou os documentos e leu o primeiro despacho:

 

POR FAVOR, INFORME AO MINISTRO QUE MINHA REUNIÃO FOI PRODUTIVA E QUE ES­PERO UM RESULTADO FAVORÁVEL EM BREVE. POR GENTILEZA, ENVIE TAMBÉM UMA MENSAGEM SIMILAR AO INTERESSADO, POIS ELE ESTÁ BASTANTE ANSIOSO POR NO­TÍCIAS DE QUALQUER ESPÉCIE.

 

Weber claramente se referia à reunião que teve com Walter Landesmann - explicou Ramirez. - E "interessado" é uma referência óbvia a Kurt Voss.

Gabriel leu o segundo despacho:

 

POR GENTILEZA, INFORME AO MINISTRO QUE O BANCO LANDESMANN LOCALIZOU AS CONTAS EM QUESTÃO. ALERTE O TESOURO PARA AGUARDAR UMA TRANSFERÊN­CIA DE FUNDOS EM POUCO TEMPO.

 

No dia seguinte, Carlos Weber foi encontrado morto. - Ramirez pegou uma pilha de arquivos volumosos presos por fechos de metal e elásticos gros­sos. Segurou-os em silêncio por um momento e depois disse: - Preciso avisar, Gabriel. Todo mundo que vai atrás desse dinheiro acaba morto. Estes arqui­vos foram montados por um amigo meu, um repórter investigativo chamado Rafael Bloch.

Judeu?

Ramirez assentiu.

Na universidade ele era comunista, como eu. Foi preso por um curto período de tempo durante a Guerra Suja, mas seu pai pagou um suborno altíssimo e conseguiu garantir sua libertação. Rafi teve uma sorte incrível. A maioria dos judeus que foram presos nunca teve chance.

Continue, Alfonso.

Rafi Bloch era especialista em matérias financeiras. Ao contrário de grande parte de nós, ele estudava algo útil, principalmente economia e negócios. Rafi sabia ler e entender um livro-razão e sabia rastrear transferências de fundos. E nunca aceitava um não como resposta.

Isso é hereditário.

Sim, eu sei - assentiu Ramirez. - Ele passou anos tentando provar o que tinha acontecido com o dinheiro. Mas ao longo do caminho encontrou outra coisa. Descobriu que todo o império Landesmann era corrupto.

Corrupto? Como?

Rafi nunca entrou em detalhes comigo. Mas, em 2008, ele finalmente se sentiu confiante com a história.

O que ele fez?

Foi até Genebra para conversar com um homem chamado Landesmann. Martin Landesmann. E nunca mais voltou.

Ramirez disse que, pensando em retrospecto, um jornalista com a experiência de Rafael Bloch deveria ter agido com um pouco mais de cautela. Mas, dada a reputação pública impecável do homem em questão, ele se permitiu acreditar, ingenuamente, que não corria nenhum risco.

O primeiro contato foi efetuado na manhã do dia 15 de outubro - uma li­gação telefônica feita por Bloch do seu quarto de hotel para a sede da Global Vision Investments exigindo uma entrevista com o presidente. O pedido foi recusado e deixaram claro para Bloch que inquéritos posteriores não seriam bem recebidos. Bloch respondeu de forma imprudente, com um ultimato. A não ser que conseguisse uma entrevista, levaria o material para Washington e o mostraria aos comitês e agências governamentais apropriados.

Isso pareceu atrair a atenção da pessoa no outro lado da linha e uma reunião foi agendada para dois dias depois. Rafi Bloch não conseguiu comparecer ao encontro - nem a qualquer outro lugar. Um alpinista encontrou seu cadáver na primavera seguinte nos Alpes franceses, decapitado, com as mãos amputadas, completamente congelado. O nome de Martin Landesmann nunca chegou a ser mencionado na investigação.

 

Com o primeiro raio, a eletricidade caiu. Eles se juntaram na semiescuridão da sala e folhearam os documentos de Rafael Bloch enquanto o prédio inteiro chacoalhava com os trovões.

Por trás de toda grande fortuna existe um grande crime - disse Ramirez.

Honoré de Balzac - completou Chiara.

Ramirez assentiu, olhando para ela com admiração.

Ele poderia estar falando de Walter e Martin Landesmann quando escreveu essas palavras. Em seu leito de morte, Walter Landesmann deixou um pequeno banco particular em Zurique como herança para o filho, um banco com uma boa quantia de dinheiro sujo no balanço. E Martin o transformou em um impé­rio. - Ramirez dirigiu-se a Gabriel. - O que você sabe a respeito dele?

De Landesmann? - Gabriel deu de ombros. - Sei que é um dos homens mais ricos do mundo, mas gosta de fazer o papel de bilionário relutante. - Ga­briel franziu a testa em um gesto de concentração. - Me ajude a lembrar o nome da fundação dele.

Um Só Mundo - disse Ramirez.

Ah, sim, como eu poderia esquecer? - perguntou Gabriel, com sarcasmo. - Os seguidores devotos de Landesmann o consideram uma espécie de profeta. Ele prega o perdão a dívidas, a responsabilidade corporativa e o uso de energia renovável. Também está ligado a uma série de projetos de desenvolvimento em Gaza que o levaram a formar laços estreitos com o Hamas. Mas duvido que isso incomode seus amigos de Hollywood, da mídia ou dos círculos políticos esquerdistas. Para eles, Martin Landesmann nunca dá um passo em falso. Ele tem o coração puro e objetivos nobres. E um santo. - Gabriel fez uma pausa. - Esqueci alguma coisa?

Só uma. É tudo uma grande mentira. Bom, não tudo. São Martin tem mui­tos amigos e admiradores influentes, mas duvido que mesmo as ovelhas de Hollywood ficariam ao seu lado se descobrissem a verdadeira fonte de sua for­tuna e de seu poder. Quanto às atividades beneficentes, são fruto do capitalismo mais primitivo e implacável: São Martin polui, minera e explora para financiar a maior parte delas.

Dinheiro faz o mundo girar, Alfonso.

Não, meu caro. Como está escrito na Bíblia, "o amor pelo dinheiro é a fonte de todo o mal". E a fonte da riqueza de São Martin é um mal indescritível. Foi por isso que ele se livrou do banco do pai menos de um ano depois de sua morte. E foi por isso que se mudou de Zurique para as margens do lago Genebra. Queria fugir da cena do crime e se desfazer das raízes germânicas. Você sabia que ele se recusa a falar alemão em público agora? Só se expressa em inglês e francês.

Por que você nunca foi atrás da história?

Eu pensei nisso.

Mas...?

Havia coisas que Rafi sabia e que não colocou nos documentos, informa­ções que eu nunca consegui obter sozinho. Resumindo, eu não tinha os meios necessários. São Martin tem bolsos muito fundos e é um filho da mãe controverso. Para investigá-lo adequadamente, seria preciso contar com os recursos de uma agência governamental poderosa. - Ramirez olhou para Gabriel com um sorriso astuto nos lábios. - Ou talvez de um serviço de inteligência.

Alguma chance de você me deixar ficar com os telegramas?

Sem problemas - disse Ramirez. - Você pode até pegar os documentos de Rafi emprestados. Mas isso vai ter um preço.

E qual seria?

Quero saber o resto da história.

Pegue uma caneta.

Se incomoda se eu gravar, pelo bem da precisão?

Você só pode estar brincando, Alfonso.

Desculpe - disse Ramirez. - Esqueci com quem estou falando.

Já eram quase três da tarde quando terminaram, o que deixou Gabriel e Chiara em cima da hora para pegarem o voo da KLM de volta a Amsterdã. Ramirez se ofereceu para levá-los ao aeroporto, mas Gabriel insistiu em pegar um táxi. Despediram-se na porta do apartamento e desceram rapidamente pelas escadas em espiral, com os telegramas e os documentos de Rafi Bloch bem guardados na mochila de Gabriel.

Os eventos dos próximos segundos se repetiriam sem parar na mente de Gabriel ao longo dos meses que viriam. Infelizmente, eram imagens que ele já tinha visto muitas vezes antes - imagens de um mundo que pensara enfim ter deixado para trás. Outro homem talvez não tivesse notado os sinais de alerta - a maleta grande no canto do saguão que não estivera lá antes, a figura musculosa com cabelos loiros e óculos de sol saindo com pressa para a rua, o carro espe­rando na calçada com a porta aberta -, mas Gabriel notou todos. Sem dizer uma palavra, passou o braço pela cintura de Chiara e a arrastou pela porta.

Nem ele nem Chiara conseguiriam se lembrar do som da explosão. Percebe­ram só a escaldante onda de ar e a sensação de desamparo de serem arremessa­dos na rua, como brinquedos atirados por uma criança malcriada. Caíram lado a lado, Gabriel com o rosto no chão e as mãos cobrindo a cabeça e Chiara de lado, com os olhos apertados por causa da dor. Gabriel conseguiu protegê-la da chuva de alvenaria e vidro quebrado, mas não da visão de Alfonso Ramirez. Ele estava deitado no meio da rua, com as roupas enegrecidas pelo fogo. Ao redor deles flutuavam milhares de pedaços de papel, os documentos insubstituíveis dos arquivos de Ramirez. Gabriel rastejou até o lado dele e pressionou os dedos em seu pescoço para checar se havia pulsação. Em seguida se levantou e voltou para perto de Chiara.

Você está bem?

Acho que sim.

Consegue ficar em pé?

Não sei.

Precisa tentar.

Me ajude aqui.

Gabriel ergueu-a com delicadeza, depois pegou a mochila e colocou no om­bro. Os primeiros passos de Chiara foram instáveis, mas quando as sirenes começaram a soar, a distância, ela já estava andando pela rua devastada rapidamente. Gabriel conduziu-a até virarem uma esquina, depois pegou o celular e digitou um número que sabia de cor. Uma calma voz feminina atendeu em hebraico. Na mesma língua, Gabriel recitou uma frase-código seguida de uma série de números. Em poucos segundos, a mulher perguntou:

Qual é a sua emergência?

Preciso de uma extração.

Quando?

Imediatamente.

Está sozinho?

Não.

Quantas pessoas no grupo?

Duas.

Qual é a sua localização?

Avenida Caseros, San Teimo, Buenos Aires...

 

No Aeroporto Ben Gurion existe uma sala conhecida por pouquíssimas pessoas. Fica à esquerda do controle de passaportes, atrás de uma porta não identificada que está sempre trancada. Suas paredes são feitas de uma imi­tação da pedra calcária de Jerusalém e os móveis, típicos de aeroporto: cadei­ras e sofás negros de vinil, mesas modulares, lâmpadas modernas baratas de iluminação implacável. Há duas janelas, uma virada para a rua de macadame e a outra com vista para o salão de chegadas. Ambas são de vidro espelhado de alta qualidade. Reservada a funcionários do Escritório, a sala é a primeira parada para agentes retornando dos campos de batalha secretos no exterior, o que explica o constante cheiro de cigarro, café queimado e tensão masculina. A equipe de limpeza já tentara, em vão, todos os produtos imagináveis para elimi­nar o odor. Assim como os inimigos de Israel, o cheiro não pôde ser derrotado de nenhuma forma convencional.

Gabriel já havia entrado nessa sala, ou em diferentes versões dela, muitas vezes. Já tinha chegado triunfante e também já cambaleara fracassado porta adentro. Ali ele já fora festejado e consolado, e uma vez entrara em uma cadeira de rodas, com um ferimento de bala no peito. Normalmente quem estava ali para recebê-lo era Ari Shamron. Agora, quando Gabriel passou pela porta com Chiara ao seu lado, deu de cara com Uzi Navot. Ele perdera mais de 10 quilos desde a última vez que Gabriel o vira e usava um par estiloso de óculos que o deixava com a aparência de um editor de revista de moda. O cronômetro de ferro inoxidável que ele cos­tumava usar para imitar Shamron tinha sido substituído por um relógio robusto que combinava com o terno azul-marinho feito sob medida e a camisa branca com colarinho aberto. A metamorfose estava completa. Qualquer traço do agente endurecido pelo trabalho de campo fora cuidadosamente apagado. Uzi Navot era agora um homem de escritório, um espião no auge da carreira.

Navot os encarou em silêncio por um instante, com uma expressão genuína de alívio no rosto. Então, convencido de que Gabriel e Chiara não tinham so­frido ferimentos graves, sua expressão endureceu.

- Esta é uma ocasião especial - disse ele. - Como chefe, é minha primeira crise com funcionários. Não é nenhuma surpresa o fato de você estar envolvido. Mas, por outro lado, a questão foi bem simples, considerando seus padrões ele­vados: só um prédio inteiro em ruínas e oito mortos, incluindo um dos críticos sociais e jornalistas mais proeminentes da Argentina.

Eu e Chiara estamos bem, Uzi, obrigado por perguntar.

Navot fez um gesto conciliador, indicando que preferia manter o tom cortês da conversa.

Entendo que sua posição esteja um tanto indefinida no momento, Gabriel, mas não existe ambigüidade nenhuma quanto às regras que devem governar suas ações. Como seus passaportes e identidades ainda são gerenciados pelo Escritório, você deve me notificar quando for viajar. - Navot fez uma pausa. - Você se lembra de ter feito essa promessa, certo, Gabriel?

Gabriel assentiu, admitindo sua derrota nesse ponto.

Quando você pretendia me contar sobre sua pequena aventura?

Era um assunto particular.

Particular? Essa palavra não existe quando você está envolvido. - Navot franziu a testa. - E que diabo você estava fazendo no apartamento de Alfonso Ramirez?

Nós estávamos atrás de uma pintura de Rembrandt - disse Gabriel. - E de um monte de dinheiro.

E eu achando que seria algo monótono. - Navot respirou fundo. - Suponho que você tenha sido o alvo da bomba, não Alfonso Ramirez.

Imagino que sim.

Algum suspeito?

Só um.

Eles entraram na limusine blindada de Navot, com Chiara sentada entre os dois como uma cerca protetora, e seguiram para a Rodovia 1 no sentido de Jerusa­lém. Navot pareceu intrigado quando Gabriel começou o relato, mas no final da história ele estava com os braços cruzados no peito e uma expressão óbvia de reprovação no rosto. Navot era assim: um agente de campo veterano, treinado para esconder as emoções, mas nunca capaz de disfarçar quando estava aborrecido.

É uma história fascinante. Mas o objetivo de sua pequena excursão era encontrar a pintura de seu amigo Julian Isherwood, e você não parece ter feito progresso algum nesse sentido. Parece que também pisou em alguns calos de gente importante. Você e Chiara têm sorte de estar vivos. Aceite meu conselho: esqueça esse caso definitivamente. Julian vai sobreviver. Volte para sua cabana de frente para o mar na Cornualha. Viva sua vida. - Navot fez uma pausa e perguntou: - Era isso que você queria, não era?

Gabriel deixou a questão sem resposta.

Isso pode ter começado como uma busca por um quadro roubado, Uzi, mas se tornou algo muito maior. Se tudo o que descobrimos estiver certo, Martin Landesmann está sentado numa pilha de dinheiro roubado. Ele e o pai mata­ram várias pessoas para proteger esse segredo, e alguém acabou de tentar nos assassinar em Buenos Aires. Mas não tenho como provar isso sozinho. Preciso...

Dos recursos do Escritório? - Navot o encarou, incrédulo. - Talvez você não saiba, mas neste momento o Estado de Israel está enfrentando ameaças mais sérias. Nossos amigos no Irã estão prestes a se tornar uma potência nu­clear. No Líbano, o Hezbollah está se armando para uma guerra total. E, caso as notícias não tenham chegado até a Cornualha, não estamos desfrutando de grande popularidade internacional hoje em dia. Não é que eu não leve suas des­cobertas a sério, Gabriel, mas temos outras coisas com as quais nos preocupar.

Chiara falou pela primeira vez:

Talvez você mudasse de idéia se conhecesse Lena Herzfeld.

Navot ergueu a mão de forma defensiva.

Escute, Chiara, num mundo perfeito nós iríamos atrás de todos os Martin Landesmann que estivessem soltos por aí. Mas não estamos em um mundo perfeito. Se estivéssemos, o Escritório fecharia as portas e poderíamos passar o resto de nossos dias com pensamentos puros.

Então o que devemos fazer? - perguntou Gabriel. - Lavar as mãos e esque­cer a questão?

Deixe Eli lidar com isso. Ou repasse o assunto para os cães de caça das agências de restituição do Holocausto.

Landesmann e seus advogados vão esmagá-los como moscas.

Antes eles que você. Dado seu histórico, você não é exatamente o candidato mais apropriado para enfrentar um homem como Landesmann. Ele tem amigos muito importantes.

Eu também.

E eles vão renegá-lo assim que você tentar derrubar um homem que dis­tribui tanto dinheiro quanto Landesmann. - Navot ficou em silêncio por um instante. - Vou dizer algo de que provavelmente me arrependerei depois.

Então talvez não deva dizer.

Navot não deu ouvidos ao conselho de Gabriel.

Se tivesse assumido o cargo de diretor, como Shamron queria, seria você que tomaria essas decisões. Mas você...

E isso que você está fazendo, Uzi? Me colocando no meu lugar?

Não fique se achando, Gabriel. Minha decisão é baseada na minha neces­sidade de estabelecer prioridades, e uma dessas prioridades é manter boas rela­ções com os serviços de segurança e inteligência da Europa Ocidental. A última coisa de que precisamos é uma operação dissidente mal elaborada contra Martin Landesmann. Esta conversa está oficialmente encerrada.

Gabriel olhava em silêncio pela janela enquanto o carro virava na rua Narkiss. Perto do fim do quarteirão havia um pequeno prédio de calcário em grande parte oculto por um enorme eucalipto que crescia no jardim. Quando o auto­móvel parou na entrada, Navot se remexeu desconfortavelmente no assento. Confrontos pessoais nunca tinham sido seu forte.

Sinto muito pelas circunstâncias, mas seja bem-vindo. Suba as escadas e tente não chamar a atenção por alguns dias, até termos uma chance de resolver a bagunça em Buenos Aires. E tente descansar. Não me leve a mal, Gabriel, mas você está com uma aparência terrível.

Não consigo dormir em aviões, Uzi.

Navot sorriu.

É bom saber que algumas coisas não mudam.

 

Na tarde da volta imprevista de Gabriel Allon para Jerusalém, Maurice Durand estava completamente arrependido de já ter ouvido o nome Rembrandt van Rijn ou pousado os olhos no retrato de sua jovem e linda amante. Sua complicação agora era dupla: estava em posse não só de uma pin­tura manchada de sangue danificada demais para ser entregue ao cliente, como também de uma lista muito antiga de nomes e números que estava lhe cau­sando dores na consciência desde o primeiro momento em que a vira. Decidiu lidar com um problema de cada vez. Metódico como era, não conhecia outra maneira de agir.

Cuidou da primeira questão enviando um e-mail curto para um endereço do Yahoo. Disse que a Antigüidades Científicas sentia muito, mas o item requisitado pelo cliente não tinha chegado no prazo. Acrescentou, ainda, que infeliz­mente nunca chegaria, pois estava em um armazém que passara por um trágico incêndio e agora era pouco mais que uma pilha de cinzas. Considerando que a mercadoria era única e, portanto, insubstituível, a Antigüidades Científicas não tinha escolha a não ser reembolsar imediatamente o total do depósito do cliente - 2 milhões de euros, uma cifra não inclusa na mensagem - e oferecer as mais sinceras desculpas por qualquer inconveniente causado por essa revira­volta inesperada.

Agora que tinha tratado do primeiro dilema, Durand voltou sua atenção para as preocupantes três páginas de papel de má qualidade que encontrara den­tro da pintura. Dessa vez, escolheu uma solução mais antiquada: uma caixa de fósforos. Acendeu um e o ergueu até o canto inferior da primeira página. Nos segundos seguintes, hesitou com o fogo a apenas um centímetro da folha. Os nomes no papel o impediram de seguir em frente.

Katz, Stern, Hirsch, Greenberg, Kaplan, Cohen, Klein, Abramowitz, Stein, Rosenbaum, Herzfeld...

O fósforo se apagou, soltando fumaça. Durand acendeu outro, mas também não conseguiu prosseguir. Não se deu o trabalho de fazer uma terceira tentativa. Colocou o documento de volta no revestimento de papel-manteiga e o guardou no cofre. Em seguida, pegou o telefone e digitou um número. Uma mulher atendeu no primeiro toque.

Seu marido está em casa?

Não.

Preciso ver você.

Seja rápido, Maurice.

 

Angélique Brossard era bastante parecida com as estatuetas de vidro alinhadas na vitrine de sua loja. Pequena, delicada e agradável à vista, desde que o olhar não fosse muito demorado nem muito crítico. Durand a conhecia havia quase 10 anos. Sua ligação se enquadrava no que os parisienses chamavam polida­mente de cinq à sept, uma referência às duas horas no final da tarde reservadas por tradição ao adultério. Ao contrário dos outros relacionamentos de Durand, esse era, na medida do possível, livre de complicações. Os dois davam e rece­biam prazer e a palavra amor nunca era pronunciada. Mas isso não significava que faltasse afeição ou comprometimento à sua ligação. Uma frase descuidada ou um aniversário esquecido poderia deixar Angélique furiosa. Quanto a Du­rand, ele tinha aberto mão havia muito tempo da idéia de casamento. Angélique Brossard era o mais próximo de uma esposa que ele teria em toda a sua vida.

Os encontros dos dois sempre aconteciam no sofá do escritório de Angélique. Não era largo o suficiente para fazerem amor de forma adequada, mas depois de vários anos de uso constante eles haviam adquirido a experiência necessária para usar o espaço limitado da melhor forma possível. Naquela tarde, no entanto, Durand não estava com cabeça para romance. Obviamente desapontada, Angélique acendeu um cigarro e olhou para o tubo de papelão na mão de Durand.

Você me trouxe um presente, Maurice?

Na verdade, queria saber se você pode fazer algo por mim. Ela deu um sorriso sacana.

Estava só esperando você pedir.

Não é isso. Preciso que você guarde isto para mim. Ela olhou de novo para o tubo.

O que tem aí dentro?

É melhor você não saber. Só guarde em algum lugar onde ninguém possa encontrar. Com temperatura e umidade relativamente estáveis.

O que é, Maurice? Uma bomba?

Não seja boba, Angélique.

Ela tirou um pedacinho de tabaco da ponta da língua, pensativa.

Você está guardando segredos de mim, Maurice?

Eu nunca faria isso.

Então o que tem dentro do tubo?

Você não acreditaria se eu dissesse.

Tente.

É um retrato de Rembrandt que vale 45 milhões de dólares.

Sério? E tem mais alguma coisa que eu deva saber?

Tem um buraco de bala nele, e está coberto de sangue. Ela soprou uma baforada de fumaça na direção do teto.

Tem alguma coisa errada, Maurice? Você não parece bem hoje.

Estou só um pouco distraído.

Problemas com os negócios?

Pode-se dizer que sim.

Meus negócios também vão mal. Todos estão com dificuldades. Nunca pensei que fosse dizer isso, mas o mundo era um lugar muito melhor quando os americanos ainda eram ricos.

É - concordou Durand, distraído. Angélique franziu a testa.

Tem certeza de que está bem?

Estou ótimo - garantiu Durand.

Algum dia você vai me contar o que realmente tem no tubo?

Confie em mim, Angélique. Não é nada.

 

Descrever a influência de Ari Shamron na defesa e segurança de Israel eqüi­valia a descrever a importância da água na formação e na manutenção da vida. Em muitos aspectos, Ari Shamron era o Estado de Israel. Depois de lutar na guerra de reconstituição do país, ele passou 60 anos protegendo-o de uma horda de inimigos que queriam destruí-lo. Sua estrela brilhava mais forte nas épocas de crise. Ele entrou nas cortes de reis, roubou segredos de tiranos e matou incontáveis inimigos com as próprias mãos ou pelas mãos de homens como Gabriel. Porém, mesmo com todas as conquistas de Shamron, o que o transformou num ícone foi um único ato. Em maio de 1960, numa noite chuvosa, ele saltou do banco de trás de um carro na Argentina e capturou Adolf Eichmann, o grande responsável pela logística do Holocausto e superior imediato do capitão da SS Kurt Voss. De certa forma, todos os caminhos levavam a Shamron desde que Gabriel entrara na casa de Lena Herzfeld. Na verdade, todos os caminhos sempre levavam até ele.

O papel de Shamron nas questões de Estado tinha sido reduzido drastica­mente nos últimos anos, assim como o seu domínio. Agora o único lugar onde ele tinha uma função de alguma importância era a casa amarela com vista para o mar da Galileia, e mesmo lá servia principalmente como subordinado de Gilah, sua esposa, que já sofria havia muito tempo com sua presença. Shamron transformara-se na pior coisa que um homem que já foi poderoso poderia ser: indesejado e desnecessário. Era considerado uma praga e um incômodo, alguém a ser tolerado, mas em geral ignorado. Era, em resumo, um servo.

Sua disposição melhorou consideravelmente quando Gabriel e Chiara telefonaram de Jerusalém se convidando para jantar. Ele estava esperando no saguão quando chegaram, os olhos de um azul pálido brilhando com um entusiasmo travesso. Apesar da curiosidade óbvia sobre a razão do retorno súbito de Gabriel a Israel, conseguiu se controlar durante o jantar. Falaram dos filhos de Shamron, da nova vida de Gabriel na Cornualha e, como qualquer pessoa faz atualmente, do estado lamentável da economia mundial. Shamron tentou abordar os as­suntos de Uzi Navot e King Saul Boulevard por duas vezes, e em ambas Gilah conduziu a conversa com habilidade para águas menos turbulentas. Na cozinha, em um momento em que conseguiu ficar a sós com ela, Gabriel lhe perguntou discretamente sobre a condição de saúde de Shamron.

Nem eu consigo lembrar tudo o que tem de errado com ele - disse Gilah. - Mas não se preocupe, Gabriel. Ele vai sobreviver. Shamron é eterno. Agora vá se sentar com ele. Você sabe como sua companhia o deixa feliz.

Existe um ar de família nos serviços de inteligência de Israel que poucos estrangeiros são capazes de compreender. Na maior parte dos casos, grandes ope­rações são concebidas e planejadas não nas protegidas salas de reuniões, mas nas casas dos envolvidos. Poucos locais já haviam desempenhado um papel mais proeminente nos segredos de guerra de Israel - ou na vida do próprio Gabriel - que a ampla varanda com vista para o mar da Galileia. Agora o lugar também era digno de nota por ser o único onde Gilah permitia que Shamron fumasse seus horríveis cigarros turcos sem filtro. Ele acendeu um, sob as objeções de Gabriel, e se acomodou em sua cadeira favorita, voltada para a massa negra das colinas de Golã. Gabriel ligou os dois aquecedores e se sentou ao seu lado.

Chiara está linda - disse Shamron. - Mas isso não é nenhuma surpresa. Você sempre teve talento para restaurar coisas bonitas.

Shamron deu um pequeno sorriso. Ele tinha sido o responsável por enviar Gabriel a Veneza para estudar a arte da restauração, mas sempre ficara impressionado com a habilidade de seu protegido de pintar como os artistas anteriores aos séculos XVI e XVII. Em sua opinião, o talento extraordinário de Gabriel com o pincel era equivalente a um truque de magia ou ilusionismo. Era algo a ser explorado, assim como seu dom peculiar para aprender idiomas e sua capa­cidade de sacar a pistola Beretta do coldre e ficar em posição de tiro no espaço de tempo que a maioria dos homens leva para bater palmas uma vez.

Agora vocês só precisam ter um bebê - acrescentou Shamron.

Gabriel balançou a cabeça, estupefato.

Você não acha que está passando dos limites?

Não - respondeu Shamron, sem hesitar.

Pelo menos você é honesto.

Só quando me convém. - Shamron deu um longo trago no cigarro. - Fiquei sabendo que Uzi está dificultando as coisas para você.

Como isso chegou aos seus ouvidos?

Ainda tenho várias fontes no King Saul Boulevard, apesar de Uzi ter deci­dido me jogar para escanteio.

O que você esperava? Achou que ele ia lhe dar um grande escritório no último andar e ter um lugar reservado para você nas reuniões de planejamento?

O que eu esperava, Gabriel, era ser tratado com um certo grau de respeito e dignidade. Eu conquistei esse direito.

Conquistou, Ari. Mas posso ser sincero?

Cuidado. - Shamron envolveu o pulso de Gabriel com sua mão enorme e o apertou. - Não sou tão frágil como pareço.

Você suga o oxigênio de qualquer sala em que entra. Toda vez que pisa no King Saul Boulevard, todos querem idolatrar você.

Você está tomando o partido de Uzi?

Eu nem sonharia com isso.

Garoto esperto.

Mas você deveria ao menos considerar a possibilidade de Uzi ser capaz de administrar o Escritório sem sua intervenção constante. Afinal, foi por isso que você o recomendou para a função, em primeiro lugar.

Eu o recomendei porque o homem que eu realmente queria não estava disponível. Mas esse é um assunto para outra hora. - Shamron bateu o cigarro na beira do cinzeiro e olhou de esguelha para Gabriel. - Você não se arrepende?

De jeito nenhum. Uzi Navot é o diretor do Escritório e vai continuar sendo por muito tempo. É melhor você aceitar esse fato. Caso contrário, seus últimos anos nesta terra vão ser cheios de amargura.

Você parece Gilah falando.

Gilah é uma mulher sábia.

É, sim - concordou Shamron. - Mas se você está tão satisfeito com a forma como Uzi está conduzindo as coisas, o que está fazendo aqui? Certamente não percorreu toda essa distância até Tiberíades só pelo prazer da minha compa­nhia. Você está aqui porque quer algo de Uzi que ele não vai dar. Por mais que eu tente, não consigo descobrir o que pode ser. Mas estou chegando perto.

O que você sabe?

Sei que Julian Isherwood contratou seus serviços para rastrear um retrato desaparecido de Rembrandt. Sei que Eli Lavon está de olho numa senhora em Amsterdã. E sei que você está na cola de um dos homens de negócios mais bem- -sucedidos do mundo. O que eu não entendi direito é como isso tudo se liga.

Tem algo a ver com um velho conhecido seu.

Quem seria?

Eichmann.

Shamron esmagou lentamente o cigarro.

Estou ouvindo, Gabriel. Pode continuar.

Ari Shamron, único sobrevivente de uma grande família judaica da Polônia e a pessoa que capturara Adolf Eichmann, sabia muito sobre as questões pendentes do Holocausto. Mas até ele pareceu impressionado com o que Gabriel lhe contou.

Era a história de uma criança holandesa escondida, um assassino que trocava vidas por propriedades e uma pintura manchada com o sangue de todos os que tentavam encontrá-la. Oculto dentro da pintura havia um segredo letal: uma lista de nomes e números, a prova de que um dos impérios de negócios mais poderosos do mundo fora construído a partir dos bens saqueados dos mortos.

Uzi Navot tem razão em relação a uma coisa - observou Shamron quando Gabriel terminou. - Você deveria ter nos avisado sobre seus planos de viagem. Eu poderia ter providenciado uma escolta para vocês na Argentina.

Eu estava atrás de uma pintura perdida, Ari. Não achei que fosse precisar de escolta.

Talvez você simplesmente estivesse no lugar errado na hora errada. Afinal, Alfonso Ramirez era uma das poucas pessoas no mundo com quase tantos inimigos quanto você.

Pode ser - reconheceu Gabriel. - Mas não acredito nisso. Nem você, Ari.

E verdade, não acredito. - Shamron acendeu outro cigarro. - Você conse­guiu montar um caso impressionante contra Martin Landesmann em pouco tempo. Só tem um problema: você nunca conseguirá provar nada num tribunal.

Quem falou em tribunais?

O que exatamente você está sugerindo?

Que encontremos um meio de convencer Martin a se redimir pelos peca­dos de seu pai.

Do que você precisa?

Dinheiro, recursos e pessoal para montar uma operação em solo europeu contra um dos homens mais ricos do mundo.

Parece que vai sair caro.

Vai. Mas, se eu for bem-sucedido, a operação vai cobrir os próprios custos.

A idéia pareceu interessar Shamron, que ainda agia como se os custos operacionais saíssem de seu próprio bolso.

Imagino que seu próximo pedido vá ser trabalhar com sua antiga equipe.

Era o que eu ia dizer.

Shamron observou Gabriel em silêncio por um momento.

O que aconteceu com o guerreiro cansado que sentou nesta mesma varanda há pouco tempo e me disse que queria fugir com a esposa e abandonar o Escri­tório de uma vez por todas?

Ele conheceu uma mulher em Amsterdã que só está viva porque seu pai deu um Rembrandt para Kurt Voss. - Gabriel fez uma pausa e depois completou: - A única questão é se você vai conseguir convencer Uzi a mudar de idéia.

Uzi? - Shamron balançou a mão com desdém. - Não se preocupe com Uzi.

O que você vai fazer?

Shamron sorriu.

Eu já mencionei que os avós do primeiro-ministro eram da Hungria?

 

Uzi Navot tinha herdado muitas tradições dos oito homens que serviram como diretores antes dele, incluindo um café da manhã privado com o primeiro-ministro uma vez por semana no escritório dele em Jerusalém. Navot considerava esses encontros muito úteis por lhe proporcionarem a oportunidade de informar a seu principal cliente as operações em andamento sem precisar competir com os líde­res dos outros serviços israelenses de inteligência. Em geral era Navot quem mais falava, mas na manhã após a peregrinação de Gabriel a Tiberíades o primeiro-ministro estava surpreendentemente expansivo. Apenas 48 horas antes, estivera em Washington para seu primeiro encontro com o novo presidente americano, um ex-acadêmico e senador saído da ala liberal do Partido Democrático. Como previsto, o encontro não correra bem. De fato, por trás dos sorrisos amarelos e apertos de mãos forçados, uma tensão palpável se formara entre ambos. Ficou claro que o relacionamento próximo que o primeiro-ministro desfrutara com o último ocupante do Salão Oval não seria reproduzido na nova administração. Definitivamente, haviam ocorrido mudanças em Washington.

Mas nada disso o surpreende, certo, Uzi?

Ainda na época da transição já sabíamos que isso ia acontecer - disse Na­vot. - Era óbvio que o laço de operações especiais que criamos com a CIA após o 11 de Setembro não seria mantido.

Laço de operações especiais? - O primeiro-ministro encarou Uzi com um sorriso de pôster de campanha. - Me poupe do jargão corporativo, Uzi. Gabriel Allon manteve praticamente um escritório na CIA durante a última administração.

Navot não respondeu. Estava acostumado a viver sob a sombra de Gabriel. Mas agora que tinha alcançado o ponto mais alto da comunidade de inteligência israelense, não gostava de ser lembrado das muitas façanhas do rival.

Fiquei sabendo que Allon está na cidade - disse o primeiro-ministro. - Também ouvi que ele se envolveu em alguns problemas na Argentina.

Navot pressionou os dedos nos lábios com força. Um interrogador treinado teria visto no gesto uma tentativa transparente de disfarçar o desconforto. O pri­meiro-ministro também viu dessa forma. Estava claramente apreciando o fato de ter conseguido surpreender o chefe do seu serviço de inteligência internacional.

Por que você não me falou sobre Buenos Aires? - perguntou ele.

Não achei necessário incomodá-lo com os detalhes - justificou-se Navot.

Eu gosto de detalhes, Uzi, especialmente quando envolvem um herói nacional.

Vou me lembrar disso na próxima vez, primeiro-ministro.

Navot não disfarçou a falta de entusiasmo. O primeiro-ministro tinha falado com Shamron. Navot esperava algo do tipo por parte do velho havia algum tempo. Mas como proceder? Tomou sua decisão cautelosamente.

Existe algo que o senhor esteja querendo me dizer, primeiro-ministro?

O chefe do governo encheu a xícara de café e, com o olhar contemplativo, acrescentou algumas gotas de creme. Era óbvio que queria dizer algo, mas não parecia estar com pressa para abordar o assunto. Em vez disso, começou um extenso ser­mão sobre os fardos da liderança em um mundo complexo e perigoso. Disse que às vezes as decisões eram influenciadas pela segurança nacional e outras vezes, por conveniência política. No entanto, ocasionalmente se tratava de um simples caso de certo e errado. Deixou essa última afirmação no ar por um momento an­tes de erguer o guardanapo de linho do colo e dobrá-lo decididamente.

A família do meu pai veio da Hungria. Você sabia disso, Uzi?

Acho que o país todo sabe disso.

O primeiro-ministro deu um sorriso passageiro.

Eles viviam em um vilarejo horroroso nos arredores de Budapeste. Meu avô era um alfaiate. Não tinham nada em seu nome além de dois castiçais de prata para o sabá e um cálice para o kiddush. Sabe o que Kurt Voss e Adolf Eichmann fizeram antes de colocá-los num trem para Auschwitz? Roubaram o que tinham e então lhes deram um recibo. Eu ainda tenho esse documento. Guardo-o como um lembrete da importância do empreendimento que chamamos de Israel. - Ele fez uma pausa. - Você compreende o que estou dizendo, Uzi?

Creio que sim, primeiro-ministro.

Mantenha-me informado, Uzi. E lembre-se: eu gosto de detalhes.

Navot entrou na antessala e foi abordado de imediato por vários membros do Knesset que esperavam para ver o primeiro-ministro. Alegando um problema não-especificado que exigia sua atenção imediata, ele apertou algumas das mãos mais influentes e deu tapinhas em algumas das costas mais importantes antes de bater rapidamente em retirada em direção aos elevadores. Sua limusine blin­dada o aguardava do lado de fora, cercada pela equipe de segurança. A chuva torrencial que caía do céu cinzento combinava perfeitamente com a situação. Sentou-se no banco de trás e soltou a maleta no chão. Quando o carro partiu, o motorista procurou os olhos de Navot pelo espelho retrovisor.

Para onde, chefe? King Saul Boulevard?

Ainda não - respondeu Navot. - Precisamos fazer uma parada antes.

O eucalipto perfumava toda a parte oeste da rua Narkiss. Navot baixou o vidro do carro e olhou para as portas duplas no terceiro andar do prédio de calcário. De dentro do apartamento vinha uma melodia abafada. Tosca? La Traviata. Ele não sabia. Nem se importava. No momento, odiava todas as óperas e qualquer um que as ouvisse com paixão exagerada. Num lampejo de insanidade, considerou voltar ao escritório do primeiro-ministro e apresentar sua demissão imediata. Em vez disso, abriu o celular criptografado e teclou um número. A melodia parou. Gabriel atendeu.

Você não tinha o direito de agir pelas minhas costas - disse Navot.

Eu não fiz absolutamente nada.

Nem foi preciso. Shamron fez por você.

Você não me deixou escolha.

Navot deu um suspiro exasperado.

Estou aqui na frente.

Eu sei.

De quanto tempo precisa?

Cinco minutos.

Eu espero.

A melodia voltou. Navot fechou a janela e se deliciou com o silêncio absoluto do interior do automóvel. Nossa, como ele detestava ópera.

 

O único nome não mencionado naquela manhã em Jerusalém havia sido o do homem que tinha dado início a tudo: julian Isherwood, dono e proprietário da Galeria Isherwood Fine Arts, localizada no número 7-8 da Mason's Yard, em St. James, Londres. Isherwood não estava sabendo de nenhuma das muitas pesquisas e descobertas de Gabriel. De fato, desde que obtivera um conjunto de registros de venda amarelados em Amsterdã, seu papel na história tinha sido reduzido ao de um espectador preocupado e desamparado. Ocupava seu tempo ocioso acompanhando a parte britânica da investigação. A polícia conseguira manter o roubo fora dos jornais, mas não tinha pistas em relação ao paradeiro da pintura ou à identidade do assassino de Christopher Liddell. Os detetives balbuciavam, na defensiva, que não se tratava de um amador atrás de lucro rápido, e sim de um profissional.

Como ocorre com todos os homens condenados, o mundo de Isherwood ti­nha sido reduzido. Ele participava de alguns leilões, expunha alguns quadros e tentava, em vão, se distrair flertando com sua jovem recepcionista mais recente. Porém, dedicava a maior parte do tempo planejando o funeral de sua própria carreira. Ensaiou o discurso que faria para o detestado David Cavendish, conselheiro de arte de milionários, e até produziu o rascunho de uma confissão de culpa que eventualmente teria que enviar para a Galeria Nacional de Arte, em Washington. Imagens de fuga e exílio também ocupavam seus pensamentos. Talvez uma pe­quena casa nas colinas da Provença, ou uma cabana na praia na Costa Rica. E a galeria? Nos piores momentos, Isherwood se imaginava tendo que abandoná-la nas mãos de Oliver Dimbleby. Oliver sempre cobiçara a galeria. Agora, graças ao Retrato de uma Jovem, óleo sobre tela de 104 por 86 centímetros, ele poderia ficar com ela sem nenhum custo além de ter que arrumar a bagunça de Julian.

Era tudo uma grande tolice, claro. Isherwood não estava prestes a passar o resto da vida no exílio. Nem permitiria que sua amada galeria caísse nas mãos sujas de Oliver Dimbleby. Se tivesse que enfrentar um fuzilamento público, o faria de cabeça erguida. Uma vez na vida, seria corajoso. Como seu velho pai. Como Gabriel Allon.

Por coincidência, essas eram as imagens que ocupavam seus pensamentos quando viu uma figura solitária se aproximar pelo chão úmido de pedras da Masorís Yard com o colarinho virado para cima a fim de se proteger do frio do fim do outono. O homem tinha cerca de 30 anos, um físico de tanque de guerra, e vestia um terno preto. Por um instante Isherwood temeu que fosse algum tipo de cobrador violento, mas após alguns segundos se deu conta de que já o tinha visto antes. Ele trabalhava no departamento de segurança de uma certa embai­xada localizada no sul de Kensington - uma embaixada que, lamentavelmente, fora forçada a contratar muitos outros como ele.

Um momento depois, Isherwood escutou a voz arrastada da recepcionista anunciando que um certo Sr. Radcliff gostaria de vê-lo. Parecia que o Sr. Radcliff, obviamente um pseudônimo, tinha alguns minutos livres entre um compro­misso e outro e queria saber se poderia dar uma olhada nas obras da galeria. Isherwood costumava negar esse tipo de visita surpresa, mas naquela manhã, por razões óbvias, abriu uma exceção.

Cumprimentou o homem com cautela e o levou para a privacidade da sala de exibição no andar superior. Como suspeitava, a visita do Sr. Radcliff foi breve. Ele só franziu a testa para um Luini, estalou a língua para um Bordone e pareceu confuso com uma paisagem brilhante de Claude.

- Acho que gostei - disse ele, entregando um envelope a Isherwood. - En­traremos em contato. - Em seguida, baixou o tom de voz para um sussurro e acrescentou: - Siga as instruções com cuidado.

Isherwood levou o sujeito até a porta e entrou no lavabo para abrir o envelope com tranqüilidade. Tinha um recado curto. Leu uma vez e depois teve que ler novamente, para ter certeza. Apoiando-se na pia em busca de equilíbrio, foi tomado por uma imensa onda de alívio. Embora Gabriel não tivesse encontrado a pin­tura, havia descoberto uma informação crucial. A busca original de Isherwood pela procedência do quadro não revelara que ele fora roubado durante a Se­gunda Guerra Mundial. Portanto, o dono de direito do quadro não era o cliente misterioso de Davi d Cavendish, e sim uma senhora em Amsterdã. Para Julian Isherwood, a descoberta significou que sua nuvem de ruína financeira tinha sido dissipada. Normalmente, questões envolvendo obras de arte roubadas podiam se arrastar por anos, mas Isherwood sabia por experiência própria que nenhum tri­bunal decente no mundo o forçaria a indenizar um homem por uma pintura que não era dele por direito. O Rembrandt continuava desaparecido e talvez nunca fosse encontrado. Mas» em resumo, não era mais problema de Isherwood.

Seu alívio, no entanto, foi logo seguido por uma profunda pontada de culpa - pela tragédia da família Herzfeld, uma história que ele compreendia bem demais; pelo destino de Christopher Liddell, que tinha sacrificado a vida tentando proteger o Rembrandt; e também pela situação em que Gabriel Allon se encontrava, Parecia que na missão para recuperar a pintura, Gabriel tinha conquis­tado um inimigo poderoso. E, mais uma vez, parecia ter caído sob o encanto de Ari Shamron. Ou talvez tivesse sido o contrário.

Leu o recaio urna última vez e em seguida, como instruído, tocou-o com a chama de um fósforo. Em um instante o papel se desfez numa bola de fogo, sem deixar traços de cinzas. Isherwood voltou para o escritório com as mãos tremendo e se sentou, animado, na mesa. Você podia ter me avisado sobre o papel inflamável, queridinho, pensou. Quase tive um infarto.

 

A operação começou para valer quando Gabriel e Chiara chegaram à sala 456C. Era uma câmara subterrânea localizada três níveis abaixo do saguão do King Saul Boulevard que já tinha servido como despensa para com­putadores obsoletos e móveis gastos e costumava ser usada freqüentemente pelos funcionários noturnos para aventuras românticas. Agora era conhecida pelo Escritório todo como o covil de Gabriel.

Uma faixa de luz fluorescente azulada brilhava por baixo da porta fechada, e do lado oposto da sala vinha o murmúrio entusiasmado de vozes. Gabriel sorriu para Chiara, digitou o código no teclado e eles entraram. Por alguns segundos nenhuma das nove pessoas espalhadas ao redor das escrivaninhas pareceu notar a presença da dupla. Então um único rosto se voltou e boas-vindas entusiasma­das se seguiram. Quando o barulho diminuiu, Gabriel e Chiara percorreram lentamente a sala, cumprimentando cada membro da lendária equipe.

Lá estavam Yossi Gavish, um acadêmico de Oxford que trabalhava como analista para o Departamento de Pesquisa, e Yaakov Rossman, do Departamento de Questões Árabes de Shabak, um ex-agente com o rosto marcado por cicatrizes agora responsável por treinar homens para se infiltrar na Síria. Havia também Dina Sarid, especialista em terrorismo do Departamento de História, que aparentava carregar o peso de seu trabalho para onde quer que fosse, e Rimona Stern, uma ex-oficial de inteligência militar que viera a se tornar sobrinha de Shamron por casamento e agora estava designada para a força-tarefa especial no Irã. Lá estavam Mordecai e Oded, uma dupla de agentes de campo que serviam em todas as frentes, e dois especialistas em computadores do Departamento Técnico - dizia-se que nenhum servidor ou banco de dados no mundo estava imune a eles. Eli Lavon, que tinha chegado de avião de Amsterdã na véspera, depois de passar a vigia de Lena Herzfeld para um time de segurança local, também estava presente.

Nos corredores e nas salas de reuniões do King Saul Boulevard, esses homens e mulheres eram conhecidos pelo codinome Barak - "relâmpago" em hebraico -, devido à sua capacidade de preparar e atacar rapidamente. Eles conduziam operações juntos, com freqüência sob condições de enorme estresse, em cam­pos de batalha secretos de Moscou ao Caribe. Mas um membro do time não estava presente. Gabriel olhou para Yossi e perguntou:

Onde está Mikhail?

Ele estava afastado.

E onde está agora?

Atrás de você.

Gabriel se virou e viu uma figura esguia parada à porta e inclinada para den­tro da sala, com olhos de um azul cristalino e um rosto frágil e pálido. Nascido em Moscou, filho de pais cientistas dissidentes, Mikhail Abramov tinha ido para Israel ainda adolescente, semanas antes do colapso da União Soviética. Descrito por Shamron certa vez como um "Gabriel sem consciência", Mikhail entrara para o Escritório após servir nas forças especiais Sayeret Matkal, onde assassi­nara diversos líderes terroristas do Hamas e do Jihad Islâmico Palestino. Criara um vínculo eterno com Gabriel e Chiara nas horas aterrorizantes que comparti­lharam nas mãos de Ivan Kharkov, numa floresta próxima a Moscou.

Achei que você estivesse na Cornualha - disse Mikhail.

Comecei a ficar um pouco indócil lá.

Fiquei sabendo.

Você está disposto a encarar isso?

Mikhail deu de ombros.

Sem problemas.

Sentou-se em seu lugar habitual, no canto esquerdo do fundo da sala, en­quanto Gabriel analisava as quatro paredes. Estavam cobertas com fotos e re­latórios de vigilância e mapas de ruas - tudo relacionado aos 11 nomes que Gabriel tinha escrito no quadro-negro no verão anterior. Onze ex-agentes da KGB que haviam sido assassinados por Gabriel e Mikhail. Ele apagou os nomes do quadro com a mesma facilidade com que tinha apagado os russos da face da Terra e os substituiu por uma fotografia ampliada de Martin Landesmann. En­tão se sentou num banquinho de metal e contou uma história a seu time.

Era uma narrativa de ganância, desapropriação e morte que se estendia ha­via mais de meio século e ia de Amsterdã a Zurique, passava por Buenos Ai­res e voltava às elegantes margens do lago Genebra. Os protagonistas eram um quadro de Rembrandt escondido havia muito tempo, uma fortuna em bens do Holocausto que fora roubada duas vezes e um homem conhecido pelo mundo inteiro como São Martin, que era tudo menos santo. Gabriel disse que, assim como uma pintura, São Martin era uma ilusão executada de forma bastante eficiente. Por baixo do verniz reluzente e das pinceladas imaculadas na superfície havia camadas de sombras e mentiras. E talvez existisse uma obra inteira oculta, esperando para ser trazida à tona. Eles atacariam São Martin focando nas men­tiras. Onde houvesse uma, haveria outras. Eram como fios soltos na beira de uma tela. Era só puxar o certo e o mundo inteiro de São Martin se desfaria em pedaços.

 

O grupo se dividiu em dois para investigar a vida dele. Martin, se soubesse disso, teria achado apropriado. Dina, Rimona, Mordecai e Chiara fica­ram responsáveis pela vida privada extremamente reservada e pelo trabalho filantrópico, enquanto o resto do time assumiu a tarefa hercúlea de desconstruir o vasto império financeiro. O objetivo era encontrar evidências de que São Martin estava ciente de que sua imensa fortuna tinha sido construída sobre os pilares de um grande crime. Eli Lavon, veterano de muitas investigações simi­lares, sentiu um desespero íntimo em relação às chances de sucesso do grupo. O caso contra Landesmann, embora tentador para um leigo, estava em grande parte baseado nas memórias desbotadas de poucas pessoas. Sem a documenta­ção original do Banco Landesmann ou uma admissão de culpa do próprio São Martin, qualquer alegação de transgressão poderia ser, em última instância, impossível de provar. Mas, como Gabriel insistiu em deixar claro para Lavon, eles não estavam necessariamente atrás de provas legais, mas sim de qualquer coisa que pudessem usar para abalar minimamente as estruturas do mundo de São Martin.

No entanto, a prioridade de Gabriel era cuidar de Uzi Navot. Poucas horas após a primeira reunião do grupo, Navot tinha emitido uma diretiva geral para todos os líderes de departamento instruindo-os a cooperar plenamente com o time. Porém, essa ordem escrita foi logo seguida por uma verbal exigindo que todos os pedidos por recursos fossem deixados na mesa de Navot, onde ine­vitavelmente criariam raízes até receber sua assinatura. O comportamento de Navot apenas reforçava sua indiferença. Quem testemunhava seus encontros com Gabriel os descrevia como tensos e breves. E durante as reuniões diárias de planejamento, Navot se referia à investigação de Martin Landesmann apenas como o "projeto de Gabriel". Ele se recusou a batizar a iniciativa com um codinome adequado. A mensagem, embora cuidadosamente disfarçada, era ciara para todos que a ouviam. O caso Landesmann era uma latinha que Navot pre­tendia chutar ladeira abaixo. Quanto a Gabriel, sim, ele podia ser uma lenda, mas pertencia ao passado. E qualquer um que fosse tolo o suficiente para ficar do lado dele inevitavelmente enfrentaria a fúria de Uzi.

Conforme o time foi progredindo, no entanto, as coisas começaram a mudar. Os pedidos de Gabriel passaram a sair mais rápido da mesa de Navot e logo os dois conversavam pessoalmente com freqüência. Chegaram até a ser vistos no restaurante do Escritório almoçando juntos uma galinha cozida no vapor e vegetais. Os poucos afortunados que conseguiam permissão para entrar no círculo de Gabriel descreviam um entusiasmo palpável da parte dele. Aqueles que trabalhavam sob sua pressão implacável até podiam ter outra opinião, mas, como sempre, a mantinham para si mesmos. Gabriel só exigia lealdade e trabalho duro do time, e o recompensava com discrição absoluta. Consideravam-se uma família - tempestuosa, briguenta e às vezes disfuncional -, e gente de fora nunca ficava sabendo dos segredos da família.

A verdadeira natureza do projeto era conhecida apenas por Navot e por al­guns de seus assessores mais importantes, mas uma rápida olhada para dentro do pequeno covil da equipe era suficientemente esclarecedora. Um diagrama complexo do império mundial de São Martin ocupava uma parede inteira. No topo estavam as empresas diretamente controladas pela Global Vision Investments, sediada em Genebra. Na linha inferior havia uma compilação de com­panhias administradas por subsidiárias conhecidas da GVI e, mais abaixo, uma série de empreendimentos que atuavam como intermediários em outros países.

O diagrama comprovava o argumento de Alfonso Ramirez de que, apesar de toda a boa vontade corporativa de São Martin, ele estava engajado numa busca inescrupulosa por lucros financeiros. Havia uma fábrica têxtil na Tailândia que fora intimada diversas vezes pelo uso de trabalho escravo, um complexo quí­mico no Vietnã que tinha destruído um rio nos arredores e um centro de reci­clagem de navios de carga em Bangladesh que era considerado um dos pedaços de terra mais poluídos do mundo. A GVI também controlava um agronegócio brasileiro dedicado à destruição diária de várias centenas de acres da floresta amazônica, uma empresa de mineração africana que estava transformando um pedaço de Chade numa bacia de poeira e uma companhia de perfuração marí­tima coreana responsável pelo maior desastre ambiental da história do mar do Japão. Até Yaakov, que tinha testemunhado a pior face da humanidade, ficou chocado com o enorme abismo entre as palavras de Landesmann e suas ações.

Se Landesmann sentia algum incômodo com as contradições existentes em seus negócios, não o demonstrava em público. A parede oposta ao diagrama na sala 456C retratava um homem justo e esclarecido, que já tinha conquistado muita coisa na vida e estava ansioso para retribuir à altura. Lá estavam Martin, o filantropo, e Martin, o homem misterioso da responsabilidade corporativa. O Martin que dava remédios aos doentes, água a quem tinha sede e construía abrigos para os sem-teto, às vezes com as próprias mãos. Ele aparecia ao lado de primeiros-ministros e presidentes, e também na companhia de atores e mú­sicos. Discutia agricultura sustentável com o príncipe de Gales e compartilhava suas preocupações sobre a ameaça do aquecimento global com um ex-senador norte-americano. Lá estava Martin com sua família fotogênica: Monique, a linda esposa francesa, e Alexandre e Charlotte, seus filhos adolescentes. E, final­mente, lá estava Martin fazendo sua peregrinação anual ao Fórum Econômico Mundial, em Davos, a única vez em que o oráculo falava com o povo. Se não fosse por Davos, a legião de seguidores devotos de São Martin poderia pensar que seu profeta havia feito um voto de silêncio.

Não teria sido possível elaborar um retrato tão completo de Martin em tão pouco tempo se não fosse pela ajuda de uma pessoa que nunca chegou a pisar na sala 456C. Seu nome era Rafael Bloch e sua contribuição foi uma arca do tesouro formada pelos arquivos reunidos durante sua longa e por fim fatal in­vestigação sobre Martin Landesmann. Bloch forneceu várias peças do quebra-cabeça, mas foi Eli Lavon quem desenterrou o verdadeiro prêmio e Rimona Stern quem ajudou a decifrá-lo.

Enterradas numa pasta não identificada estavam diversas páginas de anota­ções referentes à Keppler Werk GmbH, uma pequena empresa de metalurgia sediada na cidade de Magdeburgo, na antiga Alemanha Oriental. Parecia que Landesmann tinha comprado a companhia em segredo em 2002 e investido milhões para transformar aquela construção em péssimo estado numa obra de arte da tecnologia moderna. Aparentemente, as linhas de montagem da Keppler eram responsáveis pela manufatura de algumas das válvulas industriais de maior qua­lidade da Europa, enviadas para clientes ao redor de todo o mundo. Foi a lista desses clientes que soou o alarme, pois a cadeia de distribuição da Keppler correspondia exatamente a uma rota mundial de contrabando bastante conhecida pelos analistas do Escritório. A trajetória começava no cinturão industrial da Europa Ocidental, seguia pelas terras da antiga União Soviética e atravessava os caminhos navais da Costa do Pacífico até alcançar seu fim, na República Islâmica do Irã.

Foi esse achado, feito no quarto dia de trabalho do time, que levou Gabriel a anunciar que tinham descoberto o fio solto de Martin. Uzi Navot imediatamente batizou a operação de Obra-prima e se dirigiu à rua Kaplan, em Jerusalém. O primeiro-ministro queria detalhes, e Navot enfim tinha algo importante para compartilhar. O projeto de Gabriel não se restringia mais a um retrato perdido de Rembrandt e a uma pilha de bens roubados no Holocausto. Martin Landes­mann estava mancomunado com os iranianos. E só Deus sabia com quem mais.

Na noite seguinte, Martin Landesmann se tornou alvo de uma vigilância ativa, ainda que a distância, por parte do Escritório. A operação começou em Mon­treal, num hotel no centro da cidade que sediava uma festa de caridade em nome de alguma causa com a qual São Martin supostamente se importava. Os observadores tiraram diversas fotos de Landesmann quando ele chegou à festa - acompanhado por Jonas Brunner, seu chefe de segurança particular - e diver­sas outras quando foi embora. Quando o viram novamente, ele saía de seu jato particular no Aeroporto Internacional de Genebra e entrava no assento traseiro de um Mercedes Maybach 62S blindado, que o levou direto para a Villa Elma, sua mansão - que parecia um palácio - às margens do lago Genebra. Logo descobriram que Martin quase nunca ia à sede administrativa da GVI, no Quai de Mont-Blanc. Villa Elma era sua base de operações, o verdadeiro centro nervoso de seu vasto império e o repositório de seus muitos segredos.

A partir do momento em que a operação de vigilância começou, passou a ge­rar um fluxo constante de informações, em sua maioria inútil. Os observadores tiraram muitas fotos bonitas de Martin e gravaram um trecho ocasional de áu­dio capturado a distância, mas seus esforços não produziram nada que pudesse efetivamente ser usado. Martin tinha conversas que eles não conseguiam escu­tar com homens que não conseguiam identificar. Era como ouvir uma canção sem letra.

O cerne do problema era a incapacidade, apesar de repetidos esforços, da equipe técnica de penetrar nos sistemas blindados de computador da GVI, ou mesmo de invadir o celular do qual Martin não se separava. Sem nenhum aviso prévio em relação aos inúmeros compromissos de Martin, os observadores de Gabriel eram apenas uma matilha de cães perseguindo uma raposa astuta. Só os planos de voo preenchidos pelos pilotos de Martin traíam seus movimentos, mas nem essas informações tinham muito valor. Depois de dez dias vigiando Landesmann, Gabriel anunciou que não queria ver mais nenhuma foto dele en­trando ou saindo de um avião. Aliás, ficaria feliz se nunca mais visse o rosto do homem. O que precisava era de uma abertura para seu mundo privado. Uma forma de acesso a seu telefone. A seu computador. E para isso ele precisava de um cúmplice. Considerando a segurança ostensiva de Martin, seria impossível introduzir uma pessoa nova. Gabriel precisava da ajuda de alguém próximo a Martin. Precisava de um agente infiltrado.

 

Após uma semana inteiramente dedicada à busca, o time encontrou seu primeiro candidato potencial enquanto vigiava a luxuosa cobertura de Martin no número 21 do Quai de Bourbon, na parte norte da ilha de Saint-Louis, em Paris. Ela foi levada ao prédio num Mercedes às 21h05. Tinha cabelos castanhos curtos e estilosos e olhos grandes, que reluziam com uma inteligência evidente. O time de vigilância a avaliou como uma mulher confiante e, depois de ouvi-la se despedir do motorista, britânica. Ela digitou o código de entrada no teclado como se já tivesse feito aquela visita muitas vezes e desapareceu porta adentro. Viram-na no­vamente na janela do apartamento duas horas depois, admirando a vista do Sena com Martin. A intimidade entre os dois, somada ao fato de que ela estava nua da cintura para cima, não deixou dúvidas sobre o tipo de relacionamento que tinham.

A mulher foi embora na manhã seguinte, às 8h15. Os observadores tiraram mais uma série de fotos quando ela entrou no banco de trás de um Mercedes e a seguiram até a estação Gare du Nord, onde embarcou no trem Eurostar das 9h13 para Londres. Depois de três dias de vigilância, Gabriel tinha seu nome, seu endereço, seu telefone e sua data de nascimento. E, mais importante, sabia onde ela trabalhava.

Foi a última informação - o lugar onde ela trabalhava - que fez com que Uzi Navot a declarasse de imediato "flagrantemente inadequada" para recru­tamento. Na verdade, durante a discussão acalorada que se seguiu, um Navot exasperado disse, mais uma vez, coisas das quais se arrependeria depois. Além do bom senso de Gabriel, ele questionou também sua sanidade.

- É óbvio que o vento da Cornualha afetou seu cérebro - afirmou. - Não recrutamos gente como ela. Evitamos a todo custo. Risque-a da sua lista. Encontre outra pessoa.

Ao ouvir o discurso de Navot, Gabriel demonstrou uma calma impressio­nante. Refutou os argumentos pacientemente, tranqüilizou os medos de Navot e o lembrou das muitas defesas formidáveis de Martin. Segundo ele, a mulher que tinham visto em Paris era o proverbial pássaro na mão. Disse que, se a soltassem no vento, poderiam se passar meses até outro candidato aparecer. Navot finalmente cedeu, como Gabriel estava certo de que faria. Considerando os laços comerciais secretos de Martin com os iranianos, ele não era mais uma latinha que podia ser chutada ladeira abaixo. Tinham que lidar com ele, e rápido.

A natureza mundial dos pecados de Martin, combinada com o passaporte da recruta em potencial, significava que não seria possível para o Escritório prosseguir sozinho. Um parceiro era necessário. Talvez dois, por garantia. Navot emitiu os convites e os britânicos concordaram de imediato em atuar como anfitriões. Gabriel tinha um último pedido, e dessa vez Navot não teve objeções. Assim como não se deve levar uma faca para um tiroteio, sabia que ninguém deveria partir para a guerra contra um homem como Martin Landesmann sem Ari Shamron ao seu lado.

 

Muitos anos atrás, Maurice Durand tinha encontrado um artigo de jor­nal sobre o caso de Christoph Meili, um segurança particular que teve o azar de ser designado para trabalhar na sede do Union Bank da Suíça, na Bahnhofstrasse, em Zurique. Enquanto fazia suas rondas numa tarde de janeiro de 1997, o cristão devoto, pai de dois filhos, entrou na sala de trituradores de papel do banco e encontrou duas caixas grandes cheias de documentos anti­gos, incluindo vários livros-razão com transações detalhadas conduzidas entre o banco e a Alemanha nazista. Meili achou a presença do material naquela sala bastante suspeita, uma vez que semanas antes os bancos suíços tinham sido proibidos, por lei federal, de destruir documentos da época da guerra. Sentindo que havia algo errado, escondeu dois livros dentro da camisa e os contrabandeou para sua modesta casa nos arredores de Zurique. Na manhã seguinte, entregou os documentos ao Centro Cultural de Israel, e foi aí que seus problemas começaram.

O diretor do centro convocou na mesma hora uma coletiva de imprensa para denunciar o Union Bank pela eliminação deliberada de registros. O banco ale­gou que a destruição foi um erro lamentável e culpou de imediato o arquivista. Quanto a Christoph Meili, ele foi sumariamente demitido e se tornou alvo de uma investigação criminal para verificar se ele tinha violado as leis de sigilo bancário suíças ao roubar os registros da época da guerra. Meili foi aclamado ao redor do mundo como um herói, mas em sua terra natal foi perseguido por denúncias públicas e ameaças de morte. Para o constrangimento da Suíça, o segurança que agiu baseado em sua consciência teve que contar com o asilo político que o Senado norte-americano lhe providenciou e foi discretamente realocado com a família em Nova York.

Na época, Maurice Durand concluiu que as ações de Meili, embora admirá­veis e corajosas, tinham sido, em última análise, imprudentes. Isso tornou ainda mais estranho o fato de Durand decidir que não tinha escolha a não ser trilhar um caminho similar. Ironicamente, suas motivações eram idênticas às de Meili. Embora monsieur Durand fosse um criminoso de carreira que violasse com freqüência dois dos mandamentos mais sagrados de Deus, ele se considerava um homem muito espiritual e honrado, que tentava agir baseado em um de­terminado código de conduta. Esse código nunca permitiria que ele aceitasse dinheiro em troca de uma pintura manchada de sangue nem que escondesse o documento encontrado dentro da tela. Fazer isso não seria apenas um crime contra a história, como o tornaria cúmplice de um pecado mortal.

Havia, no entanto, dois aspectos a respeito do caso de Meili que Maurice Du­rand estava determinado a não reproduzir: a exposição pública e a ameaça de perseguição. O erro de Meili, concluiu, tinha sido confiar em um desconhecido. Isso explicava por que, um pouco mais tarde, Durand decidiu fechar sua loja antes do horário habitual e ir entregar pessoalmente um binóculo de teatro do século XVIII a uma de suas clientes mais estimadas, Hannah Weinberg.

Com 50 anos de idade e sem filhos, madame Weinberg tinha duas paixões: sua coleção impressionante de óculos franceses e sua campanha incansável para livrar o mundo de qualquer forma de ódio racial e religioso. A primeira paixão de Hannah a tinha ligado à Antigüidades Científicas. A segunda a levara a fun­dar o Centro Isaac Weinberg para o Estudo do Antissemitismo na França, que tinha esse nome em homenagem ao seu avô paterno, preso durante a Quinta-Feira Negra, em 16 de julho de 1942, quando todos os judeus em Paris foram reunidos e levados para o extermínio em Auschwitz. Atualmente Hannah era considerada a mais proeminente militante de memórias da França. Sua luta con­tra o antissemitismo tinha lhe rendido uma legião de admiradores - incluindo o presidente francês -, assim como muitos inimigos determinados. O Centro Weinberg era alvo de ameaças constantes, assim como a própria Hannah. Por isso, Maurice Durand era uma das poucas pessoas que sabiam que ela morava no antigo apartamento de seu avô, no número 24 da rua Pavée, no quarto distrito.

Ela aguardava por Maurice no alpendre, vestida com um suéter escuro, uma saia plissada de lã e meias grossas. Tinha listras grisalhas no cabelo escuro e um nariz estreito e adunco. Cumprimentou Durand calorosamente com beijos nas duas bochechas e o convidou para entrar. Era um espaço amplo, com um saguão solene e uma biblioteca ao lado da sala de estar. O apartamento tinha diversos móveis antigos cobertos com brocado desbotado, um relógio de cobre imitando ouro sobre uma prateleira e cortinas de veludo grosso nas janelas. O objetivo da decoração era criar a impressão de uma era passada. De fato, por um instante Durand sentiu como se estivesse em um anexo da Antigüidades Científicas.

Durand entregou os binóculos de ópera solenemente a Hannah e falou sobre mais um bom número de peças interessantes que esperava receber em breve. Então abriu a maleta e disse, como se tivesse acabado de lhe ocorrer:

Eu me deparei com alguns documentos interessantes há alguns dias, madame Weinberg. Queria saber se a senhora teria um minuto para dar uma olhada.

Que documentos?

Para ser honesto, não tenho idéia. Imaginei que talvez a senhora soubesse.

Ele entregou o revestimento de papel-manteiga a Hannah e observou en­quanto ela pegava as delicadas folhas de papel.

Estava escondido dentro de um telescópio que comprei há algumas sema­nas - explicou. - Encontrei enquanto fazia alguns reparos.

Que estranho - comentou ela.

Também achei.

De onde veio o telescópio?

Se não se importar, madame Weinberg, eu prefiro não...

Ela ergueu uma mão.

Não precisa dizer mais nada, monsieur Durand. Seus clientes esperam dis­crição absoluta de sua parte.

Obrigado, madame. Eu sabia que a senhora entenderia. Então... do que se trata?

Os nomes são claramente judeus. E é óbvio que tem algo a ver com di­nheiro. Cada nome está relacionado com um valor em francos suíços, além de um número de oito dígitos.

O papel parece ser da época da guerra.

Ela tocou o canto de uma página com cuidado.

E é. Pode-se ver pela baixa qualidade. Aliás, é um milagre que as páginas ainda estejam intactas.

E os números de oito dígitos?

Difícil dizer.

Durand hesitou.

É possível que sejam números de contas bancárias de alguma espécie, ma­dame Weinberg?

Hannah ergueu os olhos.

Contas bancárias suíças?

Durand deu um sorriso humilde.

A senhora é a perita, madame.

Na verdade, não sou nenhuma especialista. Mas com certeza é possível. - Ela estudou as páginas novamente. - Mas quem compilaria uma lista assim? E por quê?

Talvez a senhora conheça alguém capaz de responder a essas perguntas. Alguém no Centro Weinberg, por exemplo.

Nós não temos ninguém focado em questões puramente financeiras lá. E se o senhor estiver certo quanto ao significado dos números, estes documentos precisam ser vistos por alguém com conhecimento sobre o comércio bancário suíço.

Por acaso a senhora conhece alguém assim, madame?

Tenho certeza de que posso encontrar alguém qualificado. - Hannah o ob­servou por um momento, então perguntou: - É o que deseja, monsieur Durand?

Ele assentiu.

Mas tenho um pequeno favor a pedir. Eu agradeceria se fosse possível man­ter meu nome em segredo. Por causa de meu negócio, entende? Alguns de meus clientes podem...

Não se preocupe - interrompeu-o Hannah. - Seu segredo está a salvo co­migo. Isso ficará estritamente entre nós. Dou a minha palavra.

Mas a senhora entrará em contato se descobrir algo interessante?

Naturalmente.

Obrigado. - Maurice fechou a maleta e deu um sorriso conspiratório: - De­testo admitir, mas sempre adorei um bom mistério.

Hannah observou Maurice Durand da janela de sua biblioteca até que ele desapareceu na escuridão ao longo da rua Pavée. Então analisou a lista de nomes.

Katz, Stern, Hirsch, Greenberg, Kaplan, Cohen, Klein, Abramowitz, Stein, Rosenbaum, Herzfeld...

Ela tinha dúvidas quanto à credibilidade da história de Durand. De qualquer forma, tinha feito uma promessa. Mas o que fazer com a lista? Precisava de um especialista. Alguém que soubesse algo sobre bancos suíços. Alguém que soubesse de todos os segredos e intrigas do passado.

Abriu a primeira gaveta de sua escrivaninha de trabalho - uma mesa que tinha pertencido ao seu avô - e pegou uma chave solta, que abria uma porta no fim de um corredor escuro. A porta levava a um quarto de criança. O quarto antigo de Hannah, parado no tempo. Uma cama com dossel de renda. Pratelei­ras cheias de bichos de pelúcia e brinquedos. Um pôster desbotado de um galã americano. E, pendurado sobre uma rústica penteadeira francesa, envolto por sombras, havia um quadro. Marguerite Gachet ao Piano, de Vincent van Gogh. Muitos anos atrás, ela o emprestara a um homem que tentava encontrar um terrorista - um israelense com nome de anjo. Ele tinha lhe dado um número pelo qual poderia ser encontrado em caso de urgência, ou se ela precisasse de um favor. Talvez fosse hora de renovar essa amizade.

 

A sala de reuniões era imensa, assim como a mesa retangular reluzente que percorria praticamente todo o seu comprimento. Shamron ocupou o lugar designado, parecendo menor sentado na grande cadeira giratória executi­va, e observou o rio próximo à majestosa sede do MI5. Gabriel se sentou ao seu lado, com as mãos no colo, olhando para os homens à sua frente. À esquerda, vestido com um blazer que não lhe caía bem e uma calça amassada de gabardine, estava Adrian Carter, diretor do Serviço Clandestino Nacional da CIA. A direita estava Graham Seymour, diretor adjunto do MI5.

Os quatro homens ao redor da mesa representavam uma espécie de irman­dade secreta. Embora todos fossem leais a seu respectivo país, os laços estreitos formados entre eles transcendiam o tempo e as vontades fugazes de seus mestres políticos. Eles faziam as tarefas desagradáveis que ninguém mais estava disposto a realizar e deixavam para se preocupar com as conseqüências depois. Tinham lutado uns pelos outros, matado uns pelos outros e, em alguns casos, sangrado uns pelos outros. Ao longo de muitas operações conjuntas, todas conduzidas em condições de extremo estresse, tinham desenvolvido a capacidade misteriosa de adivinhar os pensamentos uns dos outros. Como resultado, era dolorosamente óbvio para Gabriel e Shamron que o lado anglo-americano da mesa estava tenso.

Algum problema, cavalheiros? - perguntou Shamron.

Graham Seymour olhou para Carter e franziu a testa.

Como se costuma dizer por aí, fui lançado aos cães.

Por Adrian?

Não - interveio Carter rapidamente. - Nós veneramos Graham. É a Casa Branca que está irritada com ele.

É mesmo? - Gabriel olhou para Seymour. - Esse é um feito e tanto, Graham. Como você conseguiu essa proeza?

Os americanos cometeram uma falha de inteligência ontem à noite. Uma falha significativa - acrescentou. - A Casa Branca agora está completamente fo­cada no controle de danos. Pessoas estão perdendo a cabeça, apontando o dedo umas para as outras... E a maior parte delas parece estar apontando para mim.

No que exatamente consistiu essa falha?

Um cidadão paquistanês que tem casa no Reino Unido tentou realizar um bombardeio suicida num voo de Copenhagem para Boston. Felizmente ele era tão incompetente quanto o último camarada, e os passageiros internacionais parecem ter se tornado bastante adeptos de resolver problemas com as próprias mãos.

Então por que alguém estaria irritado com você?

Boa pergunta. Nós alertamos os americanos há vários meses que esse cara estava se associando com extremistas conhecidos, e provavelmente sendo preparado para um ataque. Mas, de acordo com a Casa Branca, não fui enérgico o suficiente nos alertas. - Seymour olhou para Carter. - Suponho que poderia ter escrito um artigo no New York Times, mas achei que pareceria um pouco exagerado.

Gabriel olhou para Carter.

O que aconteceu?

A pessoa da nossa equipe que incluiu o nome dele no banco de dados de possíveis militantes terroristas cometeu um erro de grafia.

Então ele nunca entrou na lista de restrição a voos?

Exatamente.

Graham Seymour balançou a cabeça, exasperado.

Tem um escoteiro norte-americano de 10 anos que não consegue tirar seu nome da lista de restrição a vôos, enquanto eu não consigo colocar o nome de um extremista conhecido. Pior ainda: deram um visto sem limite de permanên­cia para ele e permissão para entrar em um avião com passagem só de ida e com pó explosivo na mochila.

Isso é verdade, Adrian? - perguntou Gabriel.

Em poucas palavras, é sim - confessou Carter, mal-humorado.

Então por que descontar em Graham?

Conveniência política - respondeu Carter, sem hesitar. - Caso você não tenha notado, há pessoas poderosas ao redor do nosso novo presidente que gos­tariam de fingir que não existe uma guerra contra o terror em curso. Aliás, não tenho mais permissão para dizer estas palavras. Então, quando algo realmente acontece...

As pessoas poderosas ao redor do seu presidente saem em busca de um bode expiatório.

Carter assentiu.

E escolheram Graham Seymour? - falou Gabriel, incrédulo. - Um amigo e aliado leal que esteve do seu lado desde o começo da guerra contra o terror?

Eu usei esse argumento com o conselheiro de contraterrorismo do presi­dente, mas ele não está disposto a me ouvir. Pelo visto, o emprego dele está em perigo no momento. Quanto a Graham, ele vai sobreviver. É a única pessoa na inteligência ocidental que está no cargo há mais tempo que eu.

O celular de Seymour vibrou suavemente. Ele despachou a chamada para o correio de voz com um botão, em seguida se levantou da cadeira e foi até a mesa para pegar uma xícara de café. Estava vestido, como sempre, com um terno cinza feito sob medida e uma gravata listrada. Tinha o rosto harmonioso e cabelos abundantes e grisalhos, o que o fazia parecer um modelo de anúncios de bugigangas caras. Embora tivesse atuado por algum tempo como agente de campo, passara grande parte da carreira trabalhando atrás de portas trancadas na sede do MI5. Graham Seymour lutava contra os inimigos da Inglaterra sem sair da agência, participando de exposições informativas e lendo dossiês.

Como está a busca pelo Rembrandt? - quis saber ele.

Evoluindo - informou Gabriel.

Fiquei sabendo.

O que você sabe, Graham?

Sei que após sair do estúdio de Christopher Liddell com uma luva cheia de evidências, você seguiu para Amsterdã. De lá, viajou para a Argentina, onde dois dias depois uma das vozes da consciência política mais importantes do país morreu em um ataque a bomba. - Seymour fez uma pausa. - Foi um inimigo antigo ou você já conseguiu um novo?

Acredito que tenha sido Martin Landesmann.

Não diga. - Seymour tirou um fiapo invisível de algodão da calça.

Você não parece muito surpreso com isso, Graham.

Não estou.

Gabriel olhou para Adrian Carter e viu que ele estava rabiscando em seu caderno de notas.

E você, Adrian?

Carter ergueu os olhos.

Vou dizer apenas que nunca me curvei diante do altar de São Martin. Mas por favor, Gabriel, nos conte o que mais aconteceu. Uma boa história me faria bem depois do dia que eu tive hoje.

Adrian Carter podia ser facilmente subestimado, um atributo que lhe servira bem no decorrer de sua carreira na CIA. Não havia quase nada em sua aparência comum ou em seu comportamento que sugerisse que ele supervisionava o aparato de inteligência secreta mais poderoso do mundo - ou que antes de ascender a esse cargo tinha lutado em campos de batalha secretos da Polônia à América Central, com uma passagem pelo Afeganistão. Desconhecidos confundiam-no com um professor universitário ou um terapeuta. Quando alguém pensava em Adrian Carter, imaginava um homem apresentando uma tese acadêmica ou es­cutando um paciente falar sobre seus problemas íntimos.

Mas era o fato de ser um ótimo ouvinte que o diferenciava dos rivais menos promissores da CIA. Ele se sentou imóvel durante praticamente toda a narra­tiva de Gabriel, com as pernas cruzadas e as mãos embaixo do queixo. Só se moveu uma vez, para pegar o cachimbo. Isso fez Shamron se sentir à vontade para pegar seus próprios cigarros, apesar da tentativa hesitante de Seymour de lembrar que era proibido fumar no MI5. Como já tinha escutado a histó­ria de Gabriel antes, Shamron passou o tempo inspecionando os arredores com desdém. Tinha começado a carreira num prédio com poucos recursos além de eletricidade e água corrente. A grandeza dos monumentos da inte­ligência britânica sempre o surpreendia. Ele achava aquilo um desperdício de dinheiro.

Só para constar - disse Graham Seymour ao final do discurso de Gabriel você já conseguiu violar diversos aspectos do nosso acordo. Permitimos que você residisse no Reino Unido com a condição de estar aposentado e seu tra­balho se relacionar apenas a arte. A questão saiu desses termos quando você voltou à sua antiga carreira depois do episódio da bomba em Buenos Aires. E também quando seu primeiro-ministro autorizou uma investigação completa sobre Martin Landesmann. Que, a propósito, já vem tarde.

O que você sabe sobre Martin que o resto do mundo desconhece?

Alguns anos atrás, o departamento de administração fiscal do Reino Unido deu início a um esforço em larga escala para descobrir indivíduos britânicos que escondiam rendimentos em paraísos fiscais estrangeiros. No decorrer da investigação, ficou claro que uma quantidade enorme de cidadãos, muitos com fontes de renda questionáveis, tinham depositado dinheiro em um local cha­mado Meissner Privatbank, em Liechtenstein. Depois de algumas pesquisas, concluiu-se que o Meissner não era um banco, mas um sistema para uma ope­ração maciça de lavagem de dinheiro. E adivinhe quem era o proprietário?

A Global Vision Investments, de Genebra?

Sim, através de diversos negócios de fachada e subsidiárias, claro. Quando os caras do departamento fiscal estavam se preparando para divulgar suas descobertas, esperavam um belo tapinha nas costas. Só que, para sua surpresa, receberam uma ordem superior para interromper a investigação e o caso foi abandonado.

Deram algum motivo para isso?

Nenhum que alguém tenha ousado dizer em voz alta - disse Seymour. - Mas ficou claro que o governo britânico não quis arriscar o fluxo de investimen­tos suíços no Reino Unido começando uma disputa pública com um homem considerado o patrono da responsabilidade empresarial na Suíça.

Carter bateu o cachimbo como um martelinho de juiz no cinzeiro e começou a colocar mais fumo no recipiente.

Quer acrescentar alguma coisa, Adrian? - perguntou Gabriel.

A Zentrum Security.

O que é isso?

Uma firma de segurança corporativa sediada em Zurique. Alguns anos atrás, diversas companhias americanas que faziam negócios na Suíça estavam convencidas de que eram alvo de espionagem empresarial. Elas entraram em contato com a administração da CIA pedindo ajuda. E a administração discretamente jogou o problema no meu colo.

- E...?

Descobrimos que todas as companhias envolvidas na queixa tinham sido alvo da Zentrum. Essa não é uma simples empresa de armas, guardas e portões. Além do rol habitual de serviços de proteção, também possui um negócio lucra­tivo de consultoria em países estrangeiros.

E isso quer dizer o quê?

Que ela negocia acordos entre seus clientes e entidades estrangeiras, sejam elas privadas ou públicas.

Que tipo de acordo?

O tipo que não pode ser conduzido de forma tradicional - explicou Carter. - E adivinhe a quem a Zentrum Security pertence.

À Global Vision Investments.

Carter assentiu.

Eles chegaram a negociar algum acordo para uma empresa chamada Kep­pler Werk GmbH, de Magdeburgo, na Alemanha?

O nome Keppler nunca apareceu no nosso radar - afirmou Carter. - Mas, como você sabe, milhares de empresas internacionais têm negócios no Irã atual­mente. Nossos amigos na China encontram-se entre os piores infratores. Estão dispostos a fazer negócios com qualquer um. Mas a Alemanha não fica atrás. Todo mundo quer a sua fatia no mercado, e em tempos como este ninguém abre mão desse desejo por causa de algo tão banal como as ambições nucleares do Irã. Ao menos 700 empresas germânicas têm negócios no país, e muitas delas são produtoras de equipamento industrial sofisticado. Há anos nós imploramos aos alemães que reduzam suas relações comerciais com os iranianos, mas eles se recusam. Alguns dos nossos maiores aliados estão mancomunados com o Teerã por uma simples razão: ganância.

É irônico - disse Shamron. - O país que nos deu o último Holocausto está negociando alegremente com o país que nos promete o próximo.

Os quatro homens caíram num silêncio constrangedor. Foi Gabriel quem o quebrou.

A questão é se Martin Landesmann está despachando material delicado para os iranianos pela porta dos fundos - refletiu ele. - Se for o caso, precisamos saber duas coisas. O que exatamente está vendendo para eles? E como a merca­doria está chegando até lá?

E o que você propõe para descobrir isso?

Entrar na operação dele.

Boa sorte. Martin tem um negócio muito bem controlado.

Não tanto como você imagina. - Gabriel colocou uma foto de vigilância na mesa. - Sabe quem é ela?

Quem não sabe? - Seymour bateu na foto com o dedo indicador. - Mas onde você tirou essa foto?

De fora do apartamento de Martin em Paris. Eles passaram a noite juntos.

Tem certeza?

Quer ver mais fotos?

Meu Deus, não! - disse Seymour. - Nunca gostei de operações envolvendo relacionamentos afetivos. Elas podem ser muito complicadas.

A vida é complicada, Graham. É isso que garante nosso emprego.

Talvez. Mas se esse seu recrutamento não for tratado com cuidado, não ficarei empregado por muito tempo. - Seymour olhou para a foto e balançou a cabeça devagar. - Por que Martin não podia ter se apaixonado por uma garçonete, como todos os outros mulherengos?

Ele tem um excelente gosto.

Eu, se fosse você, esperaria até conhecê-la para emitir qualquer julgamento a respeito. Ela tem certa reputação. É bem possível que recuse sua oferta. - Seymour fez uma pausa e acrescentou: - E, naturalmente, há outra possibilidade.

Qual seria?

Ela pode estar apaixonada por ele.

Não vai mais estar quando eu tiver terminado.

Não tenha tanta certeza. As mulheres têm a habilidade de fechar os olhos quando se trata das falhas de seus amados.

É - concordou Gabriel. - Já ouvi isso antes.

 

A operação Obra-prima se tornou uma cooperação americano-britânico-israelense às 11h45 do dia seguinte, quando Graham Seymour saiu da sede do governo do Reino Unido com a última autorização necessária guarda­da na mala. A velocidade com a qual o acordo foi concluído deixou clara a alta reputação que Seymour tinha junto ao governo britânico. Também foi, como Seymour posteriormente admitiria, uma demonstração bastante ardilosa da boa e velha política de ordem prática. Os figurões chegaram à conclusão de que, se Martin Landesmann caísse, havia boas chances de muito dinheiro britânico cair junto. Pelos seus cálculos, valia mais a pena fazer parte da operação de Gabriel do que ficar apenas assistindo. Caso contrário, talvez não sobrasse nada da carcaça financeira de Martin além de alguns trocados.

Por enquanto os americanos estavam satisfeitos com o papel de confidentes e conselheiros. De fato, algumas horas depois do encontro entre os serviços na Thames House, na sede do MI5, Adrian Carter partiu para a CIA, em Langley, em seu jato executivo Gulfstream V. Gabriel Allon não tinha um avião particular nem qualquer intenção de deixar aquela operação nas mãos de uma só pessoa, mesmo um amigo confiável como Graham Seymour. Tinha encontrado o alvo e pretendia fechar o negócio pessoalmente. Isso criou certo problema para os advogados do MI5. Depois de muita deliberação, eles declararam que sim, era permissível que o agente de um serviço de inteligência estrangeiro participasse de uma conversa como essa. Mas apenas após ser notificado, em termos muito claros, das questões legais envolvidas no processo.

Foi por isso que pouco depois das duas da tarde Gabriel se viu de novo à enorme mesa da sala de reuniões do nono andar, dessa vez confrontado pelo que parecia ser o departamento jurídico inteiro do MI5. Após uma breve revisão dos passos de Gabriel em solo britânico - o dossiê que tinham produzido era impressionantemente completo os advogados determinaram as regras de participação na operação Obra-prima. Dada a natureza delicada da profissão do alvo, o recrutamento teria que ser tratado com extremo cuidado. Não poderia haver coerção de nenhum tipo, nem o menor vestígio de qualquer coisa que pudesse ser interpretada como chantagem. Toda ação de vigilância israelense do sujeito em solo britânico deveria ser encerrada imediatamente. E qualquer vigilância futura dele em solo britânico, caso aprovada, só poderia ser executada pelo MI5.

Agora assine isto - disse um dos advogados, colocando na mão de Gabriel um vistoso documento e uma vistosa caneta de ouro. - E que Deus o ajude se violar sequer uma palavra.

Gabriel não tinha nenhuma intenção de fazer isso - ao menos por enquanto então rabiscou algo ilegível na linha indicada e se retirou para a sala de espera. Lá encontrou Nigel Whitcombe, um jovem agente de campo do MI5 com quem tinha trabalhado duro contra Ivan Kharkov. A aparência educada de Whitcombe ocultava uma mente tão perversa quanto a de qualquer criminoso experiente.

Estou surpreso por vê-lo inteiro - disse.

Eles conseguiram conduzir o processo sem deixar nenhuma marca.

São bons nisso. - Whitcombe colocou de lado uma edição de duas semanas atrás do jornal The Economist e se levantou. - Vamos descer. Não queremos perder o primeiro ato.

Pegaram um elevador até o andar mais baixo do prédio e seguiram por um corredor mal iluminado até uma porta de segurança com a placa CENTRO DE OPERAÇÕES. Whitcombe digitou o código no teclado e entrou com Gabriel. Em frente à porta havia uma parede com monitores grandes, observados por um grupo seleto de experientes agentes de operação. A cadeira com o nome SEYMOUR estava vazia, o que não era nenhuma surpresa, já que o homem que normalmente a ocupava estava, naquele momento, preparando-se para uma volta bastante precoce ao trabalho de campo. Whitcombe tocou o braço de Gabriel e indicou uma imagem de circuito interno na tela no centro da parede.

Aí vem sua garota.

Gabriel ergueu os olhos a tempo de ver um sedã molhado de chuva passar pelo portão de segurança de um prédio comercial moderno de aparência aus­tera. No canto inferior esquerdo da tela constava a localização da câmera: Wood Lane, Hammersmith. Dez minutos depois, Whitcombe apontou para uma ima­gem diferente na parede de vigilância, vinda diretamente da British Broadcasting Corporation. Um dos técnicos aumentou o volume a tempo de ouvirem o apresentador do noticiário lendo a introdução.

"Novas alegações foram feitas hoje..."

Whitcombe olhou para Gabriel e sorriu.

Algo me diz que teremos uma tarde interessante - disse ele.

 

O fato de Zoe Reed, considerada uma das maiores estrelas da imprensa britâ­nica, ter passado as últimas horas antes de seu recrutamento banhada pelo bri­lho lisonjeiro dos refletores de TV foi um ótimo exemplo do estado deplorável em que se encontrava o jornalismo impresso. Ironicamente, suas aparições na­quela tarde acabariam se tornando um grande constrangimento para o governo britânico, já que envolviam alegações de que mais um deputado do Partido Trabalhista estava envolvido no escândalo de subornos da Empire Aerospace Systems. A BBC tinha colocado as mãos na matéria primeiro, seguida pela Sky News, pela CNBC e, finalmente, pela CNN International.

Foi ao sair do estúdio da CNN, localizado no número 16 da rua Great Marlborough, que Zoe teve o primeiro indício de que sua noite talvez não seguisse de acordo com os planos: o carro e o motorista contratados pelo Financial Journal para levá-la às diversas emissoras de televisão onde tinha aparições ao vivo agendadas haviam desaparecido. Enquanto pegava o celular, um homem de meia-idade vestido com um sobretudo se aproximou e informou-lhe que, devido a um problema de agendamento, outro automóvel tinha sido designado para ela. Era uma limusine Jaguar reluzente parada no lado oposto da rua. An­siosa para voltar para casa depois de um longo dia, Zoe apertou o passo sob a chuva e subiu no banco traseiro sem hesitar. Então percebeu que tinha compa­nhia. Sentado ao seu lado, com um celular ao ouvido, estava um homem ele­gante com um rosto harmonioso e cabelos abundantes e grisalhos. Ele baixou o aparelho e olhou para Zoe, como se a estivesse aguardando.

Boa noite, Srta. Reed. Eu me chamo Graham Seymour. Trabalho para a Agência Nacional de Inteligência e Segurança, e, apesar de não ter feito nada para isso, fui promovido. Você pode checar essa informação falando com a pessoa que está aguardando no outro lado da linha. - Ele passou-lhe o celular. - É minha diretora-geral. Acho que você vai reconhecer a voz dela, já que a entrevistou no mês passado. Você foi um pouco dura com ela, na minha opinião, mas o artigo ficou interessante.

É por isso que estou aqui?

Claro que não, Srta. Reed. Você está aqui porque temos um problema sério, que envolve a segurança do país e de todo o mundo civilizado, e precisamos da sua ajuda.

Zoe ergueu o telefone cautelosamente até o ouvido.

Boa noite, Zoe, minha querida - disse uma voz feminina familiar. - Pode ter certeza de que está em muito boas mãos com Graham. Sinto muito por atra­palhar seus planos, mas não tive escolha.

Na sala de operações da Thames House houve um suspiro coletivo de alívio quando viram o Jaguar fazer a curva.

Agora a diversão vai começar - comemorou Nigel Whitcombe. - É melhor corrermos ou vamos nos atrasar para o segundo ato.

 

O esconderijo ficava no fim de um beco sem saída em Highgate, em um prédio vitoriano de três andares feito de tijolos vermelhos com chami­nés em cada um dos cantos do telhado. Gabriel e Nigel Whitcombe tinham chegado primeiro e estavam sentados em frente a um painel de monitores no estúdio quando Zoe Reed entrou pela porta principal. Uma dupla de mulheres policiais de aparência dócil pegaram sua capa de chuva, sua pasta e seu celular e em seguida Graham Seymour a conduziu à sala de estar. O aposento tinha o ar úmido e confortável de um clube privado londrino. Contava inclusive com uma pintura terrível sobre a lareira retratando uma caçada. Zoe a examinou com uma expressão ligeiramente confusa e então, a convite de Seymour, se sentou na poltrona de couro.

Seymour foi até uma mesinha que tinha diversos comes e bebes e serviu duas xícaras de café com a garrafa térmica. O cuidado com que realizou essa tarefa era um reflexo preciso de seu ânimo no momento. Zoe Reed não era um alvo comum de recrutamento. Sim, ela estava em uma posição vulnerável por conta de seu relacionamento com Martin Landesmann, mas Seymour sabia que não podia explorar isso de forma alguma. Tinha consciência de que se agisse dessa forma não apenas colocaria sua própria carreira em risco, como poria a per­der qualquer chance de obter aquilo de que mais precisavam. Como qualquer veterano, Seymour estava ciente de que o que levava a recrutamentos bem-sucedidos, assim como a interrogatórios bem-sucedidos, era a manipulação dos aspectos dominantes da personalidade do alvo. E Graham Seymour sabia duas coisas cruciais a respeito de Zoe Reed: que ela desprezava qualquer forma de corrupção e que não tinha medo de homens poderosos. Também suspeitava que ela não fosse o tipo de mulher que reagiria bem ao descobrir que tinha sido enganada. Mas a maioria das mulheres era assim.

Era esse campo minado de emoções humanas que Graham percorria agora, com uma xícara de café quente em cada mão. Deu uma para Zoe e então, como se tivesse acabado de lhe ocorrer, pediu que assinasse o documento na mesa à sua frente.

De que se trata?

É o Ato de Segredos Oficiais. - O tom de Seymour era quase pesaroso. - Você precisa assiná-lo antes que continuemos esta conversa. A informação que estou prestes a lhe dar não pode ser divulgada no jornal. Na verdade, assim que tiver assinado...

Serei proibida de discutir a questão até mesmo com membros da minha família. - Ela o encarou com um olhar sarcástico. - Sei tudo a respeito do Ato de Segredos Oficiais, Sr. Seymour. Com quem o senhor acha que está lidando?

Com uma das jornalistas mais respeitadas e bem-sucedidas da Inglaterra, e é por isso que investimos esforços tão grandes para garantir que esta conversa permaneça confidencial. Agora faça a gentileza de assinar, Srta. Reed.

Isto não vale nem o papel em que foi impresso. - Sem receber nenhuma resposta, Zoe deu um suspiro exasperado e assinou o documento. - Pronto - disse, empurrando o papel e a caneta para Seymour. - Agora que tal me dizer exatamente por que estou aqui?

Nós precisamos da sua ajuda, Srta. Reed. Nada mais.

Seymour tinha escolhido as palavras com cuidado. Eram um apelo ao patriotismo sem a necessidade de mencionar uma palavra tão fora de moda. Ele recebeu exatamente a resposta que queria.

Ajuda? Se precisavam da minha ajuda, por que não me ligaram e pediram? Por que os jogos de espionagem?

Nós não poderíamos entrar em contato abertamente, Srta. Reed. É bastante possível que alguém a esteja monitorando e ouvindo suas ligações.

Quem poderia estar me monitorando?

Martin Landesmann.

Seymour tentou mencionar o nome de forma tão casual quanto possível.

Mesmo assim, o impacto foi instantaneamente visível no rosto de Zoe. Suas bochechas ficaram vermelhas, mas logo voltaram à cor natural. E, embora não tivesse percebido, ela tinha acabado de responder a duas das perguntas mais urgentes de Gabriel: estava constrangida com o relacionamento com Martin Landesmann e era capaz de lidar com pressão.

Isso é algum tipo de piada? - perguntou, com a voz calma.

Sou o diretor adjunto do MI5, Srta. Reed. Não tenho tempo para nada, muito menos para piadas. Você deve ficar sabendo desde já que Martin Landes­mann é alvo de uma investigação conduzida pelo Reino Unido em cooperação com dois de nossos aliados. E também precisa saber que você não é um alvo, de forma alguma.

Que alívio - disse ela. - Então por que estou aqui?

Seymour progrediu com cuidado, de acordo com o roteiro.

Ficamos sabendo que você e o Sr. Landesmann têm um relacionamento íntimo. Gostaríamos de usar o seu acesso a ele para nos ajudar na investigação.

Eu entrevistei Martin Landesmann uma vez. Não acho que isso se encaixe na categoria de...

Seymour ergueu a mão, interrompendo-a. Estava preparado para isso. Aliás, não esperava nada menos. Mas a última coisa que queria era colocar Zoe em uma posição em que se sentisse inclinada a mentir.

Obviamente, isto não é um tribunal, Srta. Reed. Você não tem nenhuma obrigação legal de falar conosco e eu certamente não estou aqui para julgar ninguém. Deus sabe que todos já cometemos erros, inclusive eu. Com isso em mente, precisamos ser honestos um com o outro. Não temos muito tempo.

Zoe pareceu considerar essas palavras com cuidado.

Por que o senhor não começa? Seja honesto comigo.

Ela o estava testando - Seymour entendeu isso. E aproveitou a oportunidade sem hesitar, mantendo um tom de distanciamento profissional.

Sabemos que há aproximadamente 18 meses você conseguiu uma entre­vista exclusiva com o Sr. Landesmann, a primeira e única entrevista desse tipo que ele já deu. Sabemos que está envolvida emocionalmente com ele. Também sabemos que vocês se encontram com alguma regularidade e que a última vez aconteceu no apartamento dele na ilha de Saint-Louis, em Paris. - Seymour fez uma pausa. - Mas nada disso tem importância.

Dessa vez Zoe não fez nenhuma tentativa de negar os fatos. Em vez disso, deu tuna demonstração de seu famoso temperamento.

Não tem importância? - disse, indignada. - Há quanto tempo vocês estão me seguindo?

Nós nunca a seguimos.

Lá se vai a honestidade...

Estou sendo honesto, Srta. Reed. Nós soubemos de seu relacionamento por acaso. Martin Landesmann estava sob vigilância quando você foi ao aparta­mento dele. Infelizmente, você foi pega na mesma rede que ele.

Agora que tinha desistido de negar, Zoe recorria à indignação, recurso muito apreciado pelos jornalistas no mundo inteiro.

Mesmo que tenham descoberto isso por acaso, o senhor não tinha o direito de agir com base nesse fato.

Na verdade, tinha. Posso lhe mostrar a assinatura do ministro do Interior, se quiser. Mas, só para que fique claro, não temos interesse em sua vida privada. Nós a chamamos aqui porque temos informações delicadas. Informações que compartilharemos com você, se nos ajudar.

A promessa de Seymour de informações privilegiadas não aplacou nem um pouco a raiva de Zoe.

Na verdade, acho que está na hora de ter uma conversa com meu advogado.

Isso não será necessário, Srta. Reed.

Que tal minha editora?

A Latham? Acho que eles não gostariam de ser arrastados para urna situa­ção dessas.

Será? E como o senhor acha que o público britânico reagiria à revelação de que o MI5 está espionando repórteres?

Após anos sendo perseguido pela imprensa, Seymour ficou tentado a ressal­tar que o público britânico provavelmente se interessaria mais pelo caso de Reed com Martin do que por mais um escândalo monótono envolvendo o MI5. Em vez disso, ergueu os olhos pensativamente para o teto e deixou o nervosismo da negociação se dissipar. No silêncio do estúdio no andar de cima, os dois ho­mens sentados em frente aos monitores tiveram reações diferentes ao diálogo. Nigel Whitcombe temia que Zoe fosse uma causa perdida, mas Gabriel viu sua rebeldia como um bom sinal Como Ari Shamron sempre dizia, um recruta que concorda muito rápido é um recruta no qual não se pode confiar.

Infelizmente - continuou Seymour Martin Landesmann não é o homem que você pensa que é. Aquela imagem reluzente não passa de um disfarce cuidadosamente construído. E você não é a primeira a ser enganada. Ele está envolvido em lavagem de dinheiro, evasão fiscal, espionagem corporativa e coisas muito piores. - Seymour deu um tempo para Zoe absorver suas palavras. - Martin Landesmann é perigoso, Srta. Reed. Extremamente perigoso. E, tirando você, ele não gosta de jornalistas, mas não por causa de uma falsa modéstia, e sim porque não gosta de gente investigando seus negócios. Um de seus colegas repórteres descobriu isso há pouco tempo, quando cometeu o pecado de fazer a pergunta errada a Martin. O homem está morto.

Martin Landesmann? Um assassino? Você está louco? Martin Landesmann é um dos homens de negócios mais respeitados e admirados do mundo. Meu Deus, ele é praticamente...

Um santo? - Seymour balançou a cabeça. - Já li tudo sobre as boas ações de São Martin no seu artigo. Mas eu, se fosse você, adiaria a canonização dele até ver todas as evidências. Pode ser difícil de aceitar, mas ele a enganou. Estou lhe oferecendo uma chance de ouvir a verdade.

A palavra "verdade" teve um impacto em Zoe. Observando seu rosto através dos monitores, Gabriel achou que tinha detectado os primeiros sinais de dúvida em seus olhos.

O senhor não está me oferecendo nada - retrucou ela. - Está é tentando me chantagear. Será que não vê nada anti-ético nisso?

Eu passei toda a minha carreira trabalhando para o MI5, Srta. Reed. Aprendi a não lidar com as coisas em termos absolutos, mas a procurar o meio-termo. Vejo o mundo não da forma como eu gostaria que fosse, e sim como é de verdade. E, só para constar, não a estamos chantageando ou pressionando de forma alguma. Você simplesmente tem uma escolha.

Que tipo de escolha?

Opção um: você pode concordar em nos ajudar. Seu trabalho terá um âm­bito extremamente limitado e uma duração curta. Ninguém saberá de nada, a não ser que você opte por violar o Ato de Segredos Oficiais, o que, obviamente, a desencorajamos a fazer.

E a segunda opção?

Eu a levo para casa e fingimos que esta conversa nunca aconteceu.

Ela pareceu incrédula.

E o que acontece com todos os podres que o senhor e seus aliados descobri­ram? Vou dizer o que acontece: vão parar em uma bela pasta ao alcance de mãos poderosas. Se algum dia eu sair da linha ou fizer algo que irrite o governo de Sua Majestade, o conteúdo dessa pasta será usado contra mim.

Se esse fosse o caso, Srta. Reed, nós teríamos usado esse conteúdo para evi­tar que você revelasse o escândalo da Empire Aerospace. Mas não é assim que as coisas funcionam no mundo real, só em filmes de má qualidade. O MI5 existe para proteger o povo britânico, não para oprimi-lo. Não somos os russos, pelo amor de Deus. E você tem a minha palavra de que o material ao qual se refere será destruído no instante em que sair daqui.

Ela hesitou.

E se eu ficar?

Vai escutar uma história convincente de um homem muito interessante. - Seymour se inclinou para a frente na cadeira e apoiou os cotovelos nos joelhos com os dedos das mãos entrelaçados. - Você tem a reputação de uma perfeita profissional, Srta. Reed. Conto com ela para nos ajudar a deixar para trás qualquer sentimento negativo que esta conversa possa ter provocado. Tudo o que você pensa que sabe sobre Martin Landesmann é mentira. Esta é a sua chance de derrubar um homem de negócios corrupto e perigoso agindo de dentro da situação. Também é uma oportunidade de ajudar todos nós a vivermos com um pouco mais de segurança.

No estúdio, Nigel Whitcombe e Gabriel observavam os monitores, esperando a resposta dela. Whitcombe diria, posteriormente, que sentiu que estavam todos perdidos. Gabriel, não. Ele viu um espírito como o seu em Zoe, uma mulher amaldiçoada com uma noção exagerada de certo e errado. Qualquer coisa que ela já tivesse sentido por São Martin estava se dissolvendo sob o peso das pala­vras de Seymour. Gabriel pôde notar isso em sua expressão e em seu tom de voz decidido quando ela encarou Graham Seymour direto nos olhos e perguntou:

E esse homem muito interessante? Quem é?

Ele está ligado a um serviço de inteligência estrangeiro. O fato de se dispor a se encontrar com você, considerando que é uma jornalista, é uma evidência da seriedade com que todos estamos encarando esta questão. Devo ressaltar de antemão que é bastante possível que você o reconheça, mas sob nenhuma circunstância deve escrever sobre ele ou sobre as coisas que ele lhe contar. Aliás, preciso ainda dizer que seria completamente descabido fazer qualquer pergunta pessoal. Ele não responde a esse tipo de questão. Nunca.

Você ainda não disse o que quer que eu faça.

Vou deixar que ele mesmo diga. Posso chamá-lo, Srta. Reed? Ou devo levá-la para casa?

 

Gabriel entrou na sala em silêncio. A princípio, Zoe pareceu não notar sua presença. Então virou a cabeça devagar e ficou observando-o por um momento, com evidente curiosidade, metade do rosto iluminada pelo abajur e a outra metade oculta pela sombra. Estava tão imóvel que, por um instante, Gabriel imaginou estar olhando para um retrato. Em seguida, ela se levantou e lhe ofereceu a mão.

Eu me chamo Zoe - disse. - E você, quem é?

Gabriel lançou um olhar rápido para Graham Seymour antes de estender a mão.

Sou um amigo, Zoe. E também um grande admirador do seu trabalho.

E está fugindo da minha pergunta.

Seymour estava prestes a intervir, mas Gabriel o impediu com um aceno discreto.

Acho que fugir de perguntas é um mal comum entre homens como Graham e eu. Exigimos honestidade dos outros, mas nos escondemos atrás de mentiras.

E você pretende mentir para mim hoje?

Não, Zoe. Se estiver preparada para ouvir o que tenho a dizer, será apenas a verdade.

Estou preparada. Mas meu único compromisso é ouvir sua história, nada mais.

Você tem algum problema em assumir compromissos, Zoe?

Não - retorquiu ela, sem desviar os olhos. - E você?

Na verdade, as pessoas dizem que sou comprometido até demais.

Com o quê?

Eu me importo com algumas das mesmas coisas que você, Zoe. Não gosto de homens poderosos que se aproveitam dos fracos. Não gosto de homens que pegam coisas que não lhes pertencem. E realmente não gosto de homens que fazem negócios com governos que falam abertamente sobre varrer o meu país do mapa.

Ela olhou para Seymour e de volta para Gabriel.

É claro que você está se referindo ao Irã.

Estou.

O que significa que é israelense.

Sou.

E quem é o outro país envolvido nesta operação?

Os Estados Unidos da América.

Fascinante.

Ela se sentou e o examinou por alguns instantes, sem falar nada.

Tem alguma pergunta que queira me fazer, Zoe?

Qual é o seu nome?

Acho que você já sabe.

Ela hesitou, percorrendo o rosto dele com os olhos, e então disse:

Você é Gabriel Allon, que resgatou a filha do embaixador americano na abadia de Westminster,

Se não me falha a memória, os homens que resgataram Elizabeth Halton eram agentes da Divisão de Operações Especiais S019.

Essa foi a história criada para encobrir seu papel na operação. Os seqüestradores exigiram que você entregasse o dinheiro do resgate. Pretendiam matar você e Elizabeth Halton ao mesmo tempo. Nunca ficou claro como vocês conse­guiram escapar. Houve rumores de que você torturou o líder da célula terrorista até a morte num campo ao norte de Londres.

Você realmente não devia acreditar em tudo o que lê nos jornais, Zoe.

Isso é verdade. - Seus olhos se estreitaram. - Então os rumores estão certos? Você de fato torturou aquele terrorista para salvar a vida de Elizabeth Halton?

E se a resposta for afirmativa?

Como jornalista ortodoxa de esquerda, eu ficaria horrorizada.

E se você fosse Elizabeth Halton?

Nesse caso, acho que torceria para que o desgraçado sofresse bastante antes de você acabar com ele. - Ela o estudou com cuidado. - Então, vai me dizer o que aconteceu naquele campo?

Que campo?

Zoe franziu a testa.

Então quer dizer que você pode conhecer todos os meus segredos mais sombrios e eu não posso saber nada sobre você?

Não conheço todos os seus segredos.

Tem certeza? - O tom dela foi sarcástico. - Que outras coisas terríveis você gostaria de saber sobre mim?

Por enquanto não quero saber nada. Só quero que ouça o que tenho a dizer. É uma história sobre um quadro perdido de Rembrandt, uma fortuna em bens roubados no Holocausto, um repórter argentino chamado Rafael Bloch e uma empresa chamada Keppier Werk GmbH, de Magdeburgo, na Alemanha. - Gabriel fez uma pausa e então acrescentou: - Uma empresa controlada secretamente por Martin Landesmann.

Parece algo que poderia vender alguns jornais. - Ela olhou de relance para Graham Seymour. - Imagino que tudo isso também esteja no Ato de Segredos Oficiais que assinei, certo?

Seymour assentiu.

Que pena - disse ela.

Zoe olhou para Gabriel e pediu que ele lhe contasse o resto da história. Ficou tocada com a vida de Lena Herzfeld, fascinada pelo tormento de Peter Voss e com o coração partido pelas mortes de Rafael Bloch e Alfonso Ramirez. Mas foi a comprida lista dos pecados de Martin Landesmann que mais a horrorizou. Gabriel viu o ceticismo que ela tinha demonstrado mais cedo dando lugar à raiva - um sentimento que parecia pulsar com mais intensidade a cada nova revelação que ele fazia.

Você quer dizer que Martin Landesmann está vendendo equipamentos fundamentais para o programa nuclear iraniano?

É disso que suspeitamos, Zoe.

Suspeitam?

Como você deve saber, existem poucas certezas no trabalho de inteligência, mas o que descobrimos foi o seguinte: que Martin está vendendo equipamento industrial avançado para o Irã através de uma rede de contrabando nuclear patrocinada pelo Estado, que ele está ganhando uma quantia extraordinária de dinheiro dessa forma e que está fazendo um esforço enorme para manter isso em segredo. Em um momento no qual os iranianos estão desenvolvendo rapi­damente a capacidade de criar armas nucleares, não podemos nos dar ao luxo de ficar no escuro. É fundamental descobrirmos exatamente o que Martin está vendendo. - Fez uma pausa. - E, para isso, precisamos de você.

De mim? Tudo o que sei sobre o negócio de Martin está naquele artigo que agora o Sr. Seymour diz estar errado. O que eu poderia fazer para ajudá-los a descobrir o que ele está vendendo aos iranianos?

Mais do que imagina - disse Gabriel. - Mas, antes de falarmos disso, exis­tem algumas coisas que eu preciso saber.

Por exemplo?

Como aconteceu, Zoe? Como você se envolveu com um homem como Martin Landesmann?

Ela deu um sorriso torto.

Talvez os costumes sociais sejam diferentes em Israel, mas aqui na Ingla­terra algumas coisas ainda são consideradas privadas. A menos que você seja um político ou um jogador de futebol famoso, claro.

Posso assegurar, Zoe, que não tenho o menor desejo de saber detalhes ínti­mos de seu relacionamento.

E o que você gostaria de saber?

Vamos começar com algo simples: como vocês se conheceram?

Zoe fez uma expressão pensativa.

Foi dois anos atrás, em Davos. Martin tinha acabado de fazer seu discurso anual, e tinha sido maravilhoso. Escrevi minha matéria na sala de imprensa e segui para o Hotel Belvedere. Lá, foi o de sempre: estrelas de cinema e políticos tro­cando figurinhas com os homens de negócios mais ricos do mundo. É nos coque­téis e nos bares dos melhores hotéis de Davos que as coisas realmente acontecem.

E Martin estava lá?

Ela assentiu.

Ele e sua comitiva estavam bebendo em um canto, protegidos por um muro de guarda-costas. Eu pedi uma taça de vinho e imediatamente me vi numa conversa chatíssima sobre o perdão a dívidas com um ministro das Finanças da África. Depois de dez minutos, queria cortar os pulsos. Então senti um toque no ombro. Era um cara loiro de terno escuro e corte de cabelo militar, com sotaque alemão. Disse que se chamava Jonas Brunner, que trabalhava para o Sr. Landesmann e que seu patrão queria saber se eu gostaria de tomar um drinque com ele. Aceitei, natu­ralmente, e alguns segundos depois estava sentada ao lado do homem em pessoa.

E o que o homem queria?

Eu o estava perturbando havia meses atrás de uma entrevista. Ele queria conhecer a mulher mais persistente do mundo. Ao menos foi o que me disse na época.

Por que um homem de negócios em sã consciência iria querer lhe dar uma entrevista?

Não seria esse tipo de artigo. Eu pretendia fazer algo diferente das minhas investigações destrutivas habituais. Minha idéia era escrever sobre um homem de negócios que estava fazendo algo decente com seu dinheiro. Disse a Martin que queria que meus leitores conhecessem a pessoa por trás dessas ações.

Mas a conversa de vocês naquela noite foi confidencial?

Completamente.

Sobre o que vocês falaram?

Curiosamente, sobre mim. Martin queria saber mais sobre meu trabalho, minha família, meus passatempos. Qualquer assunto que não tratasse dele.

E você ficou impressionada?

Deslumbrada, para ser sincera. Seria difícil não ficar. Martin Landesmann é lindo e tem uma fortuna inimaginável. E é um dos poucos homens que já co­nheci que não gosta de falar apenas sobre si mesmo.

Você se sentiu atraída por ele?

Na ocasião, fiquei intrigada. E lembre-se de que eu estava atrás de uma entrevista.

E Martin?

Ela deu um sorriso breve.

À medida que a noite foi passando, ele começou a me paquerar. De uma forma bem discreta, bem subentendida, bem Martin. Enfim perguntou se eu gostaria de jantar com ele em sua suíte. Disse que seria uma chance para nos conhecermos melhor. Quando eu disse que não achava que seria apropriado, ele pareceu bastante chocado. Martin não está acostumado a ouvir recusas.

E a entrevista?

Achei que tivesse perdido minha chance. Mas acabou acontecendo o oposto. Scott Fitzgerald estava certo em relação aos ricos, Sr. Allon. Eles são diferentes de nós. Querem tudo. E, se não conseguem algo, isso só faz com que queiram mais ainda.

E Martin queria você?

Parece que sim.

Como ele tentou convencê-la?

Com discrição e persistência. Ligava a cada dois dias, só para bater papo e trocar idéias. Política britânica. A política monetária do Banco da Inglaterra. O déficit norte-americano. - Ela fez uma pausa e acrescentou: - Assuntos bem estimulantes.

Nada pessoal?

Não naquele momento. Depois de um mês, ele me ligou tarde da noite e disse uma única palavra: sim. Peguei o próximo voo para Genebra e passei três dias dentro da bolha de Martin. Mesmo para uma repórter calejada como eu, foi uma experiência inebriante. Quando o artigo saiu, foi um terremoto. Virou leitura obri­gatória para homens de negócios e políticos ao redor do planeta. E consolidou mi­nha reputação como uma das jornalistas financeiras mais importantes do mundo.

E Martin gostou do artigo?

Na época em que saiu, não fiquei sabendo.

Ele não ligou nenhuma vez?

Não, ficou em silêncio total. Confesso que fiquei desapontada quando não tive notícias dele. Estava curiosa para saber o que tinha achado da matéria. Finalmente, duas semanas após a publicação, ele telefonou.

Para quê?

Disse que queria comemorar o fato de ser o primeiro homem de negócios a sobreviver à caneta devastadora de Zoe Reed e me convidou para jantar. Até sugeriu que eu levasse um acompanhante.

Você aceitou?

No mesmo instante. Mas não levei um acompanhante. Martin e eu jantamos aqui em Londres. Depois ele me levou até o hotel em que eu estava hospedada. E em seguida... - Sua voz se perdeu. - Em seguida fui para a cama com ele.

E não pensou no conflito com sua ética jornalística? Não sentiu nenhuma culpa por dormir com um homem casado?

Claro que tive conflitos. Cheguei a jurar para mim mesma que nunca aconteceria novamente.

Mas aconteceu.

No dia seguinte.

E vocês começaram a se ver regularmente depois?

Ela assentiu.

Onde? - perguntou ele.

Em qualquer lugar, menos Londres. Sou muito conhecida lá. Nos encontrávamos em Paris, em Genebra, no chalé dele em Gstaad...

Como vocês se falavam?

Como o resto das pessoas, Sr. Allon. Os meios de comunicação de Martin são bastante seguros.

Por uma boa razão - disse Gabriel. - Algum plano de vê-lo no futuro?

Depois do que você acabou de me contar? - Zoe riu. - Na verdade, eu fiquei de encontrá-lo em Paris daqui a quatro dias. Uma semana depois tenho uma viagem de trabalho a Genebra, para a festa de gala de Natal de Martin na Villa Elma. Todo ano, 300 pessoas muito ricas e muito sortudas têm permissão para passar algumas horas dentro do santuário de Martin. O preço é uma contribui­ção de 100 mil euros para a fundação Um Só Mundo. Mesmo assim, ele sempre recusa centenas de ofertas de participação. Eu vou de graça, claro. Martin gosta de me levar lá. - Fez uma pausa e então acrescentou: - Monique é que não deve gostar muito.

Ela sabe sobre você?

Sempre achei que ela desconfiasse de algo. Martin e Monique fingem ter um relacionamento perfeito, mas na verdade o casamento é uma farsa. Eles moram debaixo do mesmo teto, mas de maneira geral têm vidas completamente separadas.

Ele já chegou a falar sobre deixá-la para ficar com você?

Tenho certeza de que você não é tão antiquado assim, Sr. Allon. - Ela fran­ziu a testa. - Estar com Martin Landesmann é muito emocionante. Ele me faz feliz. E quando terminar...

Ele volta para a vida dele e você volta para a sua?

Não é isso que sempre acontece?

Imagino que sim - disse Gabriel. - Mas talvez não seja tão fácil para você.

Por que você acha isso?

Porque você está apaixonada por ele.

As bochechas de Zoe assumiram um tom intenso de vermelho.

É tão óbvio assim? - perguntou, em voz baixa.

Desculpe, mas é.

E você ainda quer me usar?

Usar você? Não, Zoe, eu não tenho a intenção de usá-la. Mas ficaria hon­rado se você concordasse em se unir à nossa operação como uma parceira in­tegral. Prometo que vai ser uma experiência única. E você verá coisas que ne­nhum outro repórter britânico já viu.

- Talvez seja uma boa hora para me dizer exatamente o que quer que eu faça, Sr. Allon.

Preciso que você vá encontrar Martin no apartamento dele em Paris mais uma vez. E preciso que me faça um favor enquanto estiver lá.

Alguns minutos após a meia-noite, a limusine Jaguar transportando Zoe Reed e Graham Seymour fez a curva, se afastando do esconderijo em Highgate. Ga­briel saiu cinco minutos depois, acompanhado por Nigel Whitcombe. Seguiram para o sul pelas ruas silenciosas de Londres, Whitcombe tagarelando com en­tusiasmo e Gabriel se limitando a emitir um murmúrio de concordância de vez em quando. Ele saltou do carro no Marble Arch e foi a pé até o apartamento do Escritório com vista para o Hyde Park, na Bayswater Road. Ari Shamron espe­rava ansioso na mesa de jantar, em meio a uma nuvem de fumaça de cigarro.

E então? - perguntou.

Temos nossa agente.

Quanto tempo para prepará-la?

Três dias.

Shamron sorriu.

Então sugiro que comece logo.

 

Era um prazo perigosamente curto, mesmo para um serviço de inteligência acostumado a trabalhar sob pressão. Tinham apenas três dias para trans­formar uma repórter investigativa britânica numa espiã profissional. Três dias para prepará-la. Três dias para lhe ensinar os aspectos básicos do papel. E três dias para ensiná-la a realizar dois procedimentos críticos: um envolvendo o telefone celular criptografado de Martin Landesmann, um Nokia N900, e o outro ligado a seu laptop Sony Vaio Z Series.

A tarefa ficou ainda mais difícil pela decisão de Gabriel de deixar os compromissos de trabalho de Zoe inalterados, a fim de evitar qualquer ruptura dela com sua rotina diária. Isso significava que ela estaria disponível para o time apenas durante poucas horas por noite, já exausta pelo trabalho no escritório. Graham Seymour manifestou discretamente suas dúvidas sobre o sucesso da empreitada, assim como os americanos, que passaram a acompanhar os procedimentos de perto. Mas Gabriel se manteve firme. Zoe tinha um encontro com Martin em Paris dentro de três dias. Mudar a data poderia suscitar suspeitas da parte dele. Enviá-la muitas vezes para a cama do empresário com a cabeça cheia de segredos poderia condená-la ao mesmo destino de Rafael Bloch.

Gabriel optou por se encontrar com ela diariamente no esconderijo em Highgate, um território familiar, embora na primeira aula de Zoe o lugar já não guar­dasse nenhuma semelhança com o que costumava ser: um clube londrino privado. Suas paredes tinham sido cobertas por mapas, fotografias e diagramas, e os quartos estavam ocupados por um grande grupo de israelenses que mais pareciam universitários do que talentosos agentes de inteligência. Eles cumprimentaram Zoe com cordialidade e em seguida se reuniram em torno da mesa de jantar para uma refeição rápida. A simpatia demonstrada pelo time de Gabriel era verdadeira, em­bora os nomes deles não fossem. Zoe se dirigiu espontaneamente para perto do bem-vestido e bem-educado Yossi, embora tivesse demonstrado um claro interesse pela mulher atraente com cabelo comprido escuro que dizia se chamar Rachel.

As imensas restrições operacionais forçaram Gabriel a abrir mão dos méto­dos normais de treinamento e criar um verdadeiro curso intensivo em espio­nagem básica. Começaram logo após o jantar, quando Zoe foi colocada numa espécie de esteira rolante que a levou de sala em sala. Ensinaram-lhe os funda­mentos de contra-vigilância e comunicação impessoal, a se mover em público e a esconder as emoções. Chegaram até a lhe dar algumas aulas de auto-defesa. "Ela é naturalmente agressiva", disse Rimona a Gabriel, pressionando um saco de ervilhas congeladas contra um olho inchado. "E tem um cotovelo esquerdo feroz."

Zoe era uma aluna talentosa, mas eles não esperavam menos que isso. Ao final da primeira noite o time declarou, unânime, que ela era uma aprendiz impressionantemente rápida, o que era uma grande bênção, considerando a qualidade dos recrutas anteriores. Com as habilidades de uma repórter de elite, ela era capaz de arquivar, classificar e lembrar enormes quantidades de informação em uma velo­cidade incrível. Mesmo Dina, que tinha todo um banco de dados de terrorismo no cérebro, ficou impressionada com a memória de Zoe. "Ela está acostumada a trabalhar com prazos", observou. "Quanto mais pressionamos, melhor ela reage."

Sua última parada era sempre o pequeno estúdio no andar de cima. Lá, so­zinha com Gabriel, ensaiava repetidamente os procedimentos que constituíam o principal objetivo de seu recrutamento. Gabriel garantiu que, se ela agisse conforme o combinado, o mundo de Martin seria um livro aberto. Porém, se cometesse qualquer erro, acabaria com a operação inteira e colocaria a própria vida em imenso perigo. Ela devia sempre esperar que o lobo estivesse à espreita, só aguardando o momento de flagrá-la no ato supremo de traição. Derrotar Martin exigiria velocidade e discrição. A parte da velocidade foi fácil, mas a da discrição foi mais trabalhosa. Finalmente, quase no fim da segunda noite, Zoe a dominou: uma gravação do ensaio não revelou nada audível ao ouvido humano.

O treinamento rápido de Zoe, no entanto, era só uma das preocupações de Gabriel. Ainda era preciso alugar veículos, colocar agentes extras em posição e conseguir um apartamento seguro na margem direita do Sena, próximo ao Hôtel de Ville. E, considerando o alto grau de envolvimento dos ingleses, Gabriel teria que comparecer a muitas reuniões de alto escalão. O time do MI6 - o Serviço Secreto de Inteligência britânico - especializado no Irã conseguiu um lugar na mesa de planejamento, assim como os representantes do Ministério das Relações Exteriores e do Ministério da Defesa. Na verdade, cada vez que Gabriel entrava na Thames House, a multidão parecia maior. Havia riscos óbvios em trabalhar tão próximo a serviços de inteligência irmãos, como o fato de que esses serviços estariam tomando notas detalhadas de cada decisão operacional que vissem. A exposição de Gabriel aumentou, já que ele estava vivendo e trabalhando dentro de um esconderijo do MI5. Embora Graham Seymour tivesse negado estar ouvindo os preparativos, Gabriel tinha certeza de que cada palavra proferida pelo time estava sendo gravada e analisada pelo MI5. Mas esse era o preço a ser pago pela cooperação britânica contra Martin Landesmann. E por Zoe.

Gabriel se manteve fiei ao acordo original da operação e, com certa má von­tade, permitiu que Graham Seymour ficasse responsável pela vigilância de Zoe. Apesar das objeções dos advogados, Seymour estendeu a zona de cobertura ao telefone e ao computador de Zoe no escritório do Financial Journal. As interceptações de suas chamadas e de seus e-mails não revelaram nenhuma espécie de indiscrição ou indecisão de sua parte nem qualquer contato por parte de Martin Landesmann que não tivesse sido reportado.

Na última noite de Zoe no esconderijo, ela parecia ainda mais focada que nas anteriores. E, se tinha qualquer temor em relação ao que a esperava, não deu nenhum sinal. Pisou resoluta na esteira rolante de Gabriel e foi levada pela última vez de sala em sala. A noite terminou, como sempre, no estúdio do andar de cima. Gabriel apagou as luzes e observou atentamente o último ensaio dela.

- Pronto - disse ela. - Quanto tempo levei?

Dois minutos e 14 segundos.

E isso é bom?

Muito bom.

Você escutou alguma coisa?

Absolutamente nada.

Estamos prontos?

Ainda não. - Gabriel acendeu as luzes e a observou, pensativo. - Não é tarde demais para mudar de idéia, Zoe. Nós podemos encontrar outra forma de colocar as mãos nele. E prometo que nenhum de nós ficará chateado com você.

Mas eu sim. - Ela ficou em silêncio por um momento. - Você tem que saber uma coisa a meu respeito, Sr. Allon. Quando tomo uma decisão, não mudo de idéia. Nunca quebro promessas, e detesto cometer erros.

Nós dois sofremos do mesmo mal.

Eu já desconfiava.

Zoe pegou o telefone que tinham usado no ensaio.

Algum último conselho?

Meu time a preparou muito bem, Zoe.

Isso é verdade. - Ela ergueu os olhos e encarou Gabriel. - Mas eles não são você.

Gabriel pegou o aparelho da mão dela.

Quando chegar a hora, se mova em silêncio, mas com rapidez. Não ande na ponta dos pés, como um ladrão. Visualize as ações antes de agir. E não pense nos guarda-costas. Nós cuidaremos deles. Você só deve se preocupar com Martin. Martin é sua responsabilidade.

Não sei se vou conseguir fingir que continuo apaixonada por ele.

Os seres humanos são mentirosos natos. Iludem os outros e agem dissimuladamente centenas de vezes por dia, sem se dar conta. Martin Landesmann é um mentiroso extraordinário. Mas, com a sua ajuda, podemos vencê-lo em seu próprio jogo. A mente é como um recipiente, Zoe. Podemos enchê-la e esvaziá-la de acordo com a nossa vontade. Quando você entrar no apartamento dele amanhã à noite, nós não existiremos. Apenas Martin. Você só precisa estar apai­xonada por ele mais uma noite.

E depois disso?

Você volta para a sua vida e finge que nada disso aconteceu.

E se eu não conseguir fazer isso?

A mente é como um recipiente, Zoe. Vire-o e a memória escorrerá.

Ao dizer isso, Gabriel a conduziu ao andar de baixo e a ajudou a se sentar no banco de trás de um Land Rover do MI5. Como sempre, Zoe ligou o celular para tratar de questões de trabalho durante o breve percurso até sua casa, em Hampstead. Como o celular tinha passado alguns minutos nas habilidosas mãos de Mordecai mais cedo naquela noite, os agentes agora tinham acesso a altitude, latitude, longitude e velocidade do percurso de Zoe. Também puderam escutar tudo o que ela disse para o guarda-costas do MI5 e monitorar uma ligação dela para seu editor, Jason Turnbury. Cinco minutos depois do final da chamada, já tinham baixado os e-mails, as mensagens de texto e qualquer registro de atividade on-line dela nos últimos meses. Além disso, tinham obtido dezenas de fo­tografias, inclusive uma de seis meses antes que mostrava Martin Landesmann sem camisa tomando sol na varanda de seu chalé em Gstaad.

A presença dessa fotografia no telefone de Zoe provocou uma discussão feroz entre os integrantes do time de Gabriel, que usaram um hebraico coloquial que nenhum ouvinte do MI5 jamais seria capaz de traduzir. Yaakov, um homem cheio de complicações em sua vida particular, propôs o fim imediato da operação.

Só há uma razão para uma mulher guardar uma foto dessas: ela ainda está apaixonada por ele. E se você a enviar ao apartamento dele amanhã à noite, ela vai afundar todos nós.

Mas foi Dina, especialista em dor de cotovelo, que convenceu Yaakov a não ser tão radical.

Às vezes uma mulher gosta de olhar para um homem que odeia tanto quanto para um homem que ama. Zoe Reed odeia Martin mais do que já odiou qualquer outra pessoa na vida. E ela quer acabar com ele tanto quanto nós.

Curiosamente, foi a própria Zoe quem resolveu a questão. Uma hora depois, Martin telefonou para ela de Genebra para dizer que estava ansioso para vê-la em Paris. A ligação foi breve e a performance de Zoe, exemplar. Quando desligou, ela entrou em contato com o esconderijo imediatamente para relatar a chamada e em seguida foi para a cama, tentar dormir por algumas horas. Quando ela desligou o abajur, os agentes ouviram uma palavra que deixou pouco espaço para dúvidas em relação aos seus sentimentos verdadeiros por Martin Landesmann: "Desgraçado..."

Na manhã seguinte, quando Gabriel chegou à Thames House, parecia que o governo britânico inteiro estava esperando na sala de reuniões do nono andar. Depois de suportar uma hora de um interrogatório rigoroso, Gabriel foi obri­gado a jurar solenemente que, caso fosse capturado em solo francês, não diria nada a respeito do envolvimento britânico ou americano no caso. Como não viu nenhum documento para assinar, ergueu a mão direita e em seguida saiu depressa pela porta. Para sua surpresa, Graham Seymour insistiu em lhe dar uma carona até a estação St. Pancras.

A que devo a honra? - perguntou Gabriel quando o carro entrou na Horseferry Road.

Gostaria de dar uma palavrinha com você em particular.

Sobre o quê?

O celular de Zoe. - Seymour olhou para Gabriel e franziu a testa. - Você assinou um acordo para nos deixar cuidar da vigilância e o violou no instante em que viramos as costas.

Você realmente achou que eu ia mandá-la para o apartamento de Martin sem cobertura de áudio?

Só me prometa que o sinal vai ser desativado assim que ela pisar em se­gurança no solo britânico. Até agora conseguimos evitar atirar no próprio pé. Prefiro que isso continue assim.

O melhor jeito de atirarmos no próprio pé seria perder o contato com Zoe em Paris amanhã à noite.

Mas isso não vai acontecer, vai, Gabriel?

Não se a operação correr do meu jeito.

Seymour contemplou a Thames House pela janela do carro.

Não preciso lembrá-lo que várias carreiras estão em nossas mãos, inclusive a minha. Faça o que for necessário para conseguir o computador e o telefone de Landesmann, mas garanta que nossa garota volte inteira para casa.

Esse é o plano, Seymour.

É - disse Seymour, distante. - Mas você sabe o que se diz sobre planos perfeitos. As vezes eles acabam muito mal. E se tem uma coisa que o governo britânico não gosta é de desastres. Especialmente os que acontecem na França.

Você gostaria de vir junto e supervisionar pessoalmente?

Gabriel, você sabe muito bem que estou proibido por lei de operar em solo estrangeiro.

Como você consegue reunir qualquer informação de inteligência com to­das essas regras?

Não somos como vocês, Gabriel. Somos britânicos. Gostamos de regras.

 

Assim como tinha acontecido com praticamente todos os aspectos da operação Obra-prima, a escolha da localização do posto de comando operacional também foi assunto de tensas negociações. Por razões de espaço e regulamento, o centro de operações do MI5 foi considerado impróprio para um empreendimento estrangeiro, mesmo que fosse em um lugar tão próximo quanto Paris. O MI6 fez uma proposta previsível para acolher o evento em sua sede, em Vauxhall Cross, oferta sumariamente rejeitada por Graham Seymour, que já estava perdendo a luta para manter seu glamoroso rival fora de uma operação que considerava sua. Como os israelenses não tinham um centro de operações em Londres - ao menos nenhum declarado -, res­tou apenas o americano. Comandar a ação de um lugar pertencente à CIA fazia sentido por razões tanto políticas como técnicas, já que os recursos dos Estados Unidos em solo britânico eram muito superiores aos da própria Grã-Bretanha. De fato, após sua última visita à colossal instalação subterrânea da CIA, Seymour tinha concluído que os americanos seriam capazes de conduzir uma guerra inteira sob o solo da praça Grosvenor sem que o governo britânico sequer ficasse sabendo.

Quem permitiu a construção desse lugar? - tinha perguntado o primeiro- ministro britânico.

O senhor mesmo - respondera Seymour.

Agora que tinham determinado a localização, ainda havia a questão dos convidados. Como Seymour temia, a lista dos que desejavam participar tinha crescido incrivelmente. Ficara tão grande, aliás, que ele teve que lembrar seus parceiros que o que estava prestes a acontecer seria uma operação de inteligência, não a estreia de uma peça de teatro. Além disso, uma vez que a operação provavelmente produziria muitas informações confidenciais, teria que ser con­duzida com um cuidado extraordinário. Seymour declarou que outras agências seriam informadas dos resultados, mas sob nenhuma circunstância poderiam estar presentes quando as informações fossem obtidas. A lista de convidados seria limitada aos principais participantes - as três agências integrantes da ir­mandade secreta que fazia as tarefas desagradáveis que ninguém mais estava disposto a fazer e deixava para se preocupar com as conseqüências depois.

Embora a localização exata do centro de operações da CIA em Londres fosse cuidadosamente mantida em segredo, Graham Seymour tinha quase certeza de que ficava cerca de 12 metros abaixo da esquina sudoeste da praça Grosvenor. Ele sempre se divertia ao pensar nisso, já que em qualquer dia da semana centenas de pessoas atrás de vistos faziam fila bem em cima de suas instalações, incluindo o terrorista muçulmano que tentara atacar o solo americano. Como o lugar não existia oficialmente, não tinha um nome oficial. Aqueles que o conheciam, no entanto, referiam-se a ele como o Anexo e nada mais. Seu ponto central era a sala de controle, parecida com um anfiteatro, cheia de telas grandes capazes de projetar imagens de praticamente qualquer local do planeta. Em um cômodo adjacente havia uma sala de reuniões envidraçada e à prova de som chamada carinhosamente de Aquário, com uma dúzia de cubículos cinza reservados para uma série de agências americanas envolvidas em contraterrorismo e coleta de inteligência. Até mesmo Graham Seymour, cuja incumbência princi­pal ainda era a contraespionagem, mal conseguia se lembrar de todas que exis­tiam. Na opinião dele, os serviços de segurança norte-americanos eram muito parecidos com os automóveis norte-americanos: grandes e ostentosos, mas em última análise ineficientes.

Pouco depois das seis da tarde, Seymour enfim conseguiu acesso ao anexo. Adrian Carter estava sentado em sua cadeira de sempre na sala de controle, com Ari Shamron à sua direita, parecendo prestes a ter uma crise de abstinência de nicotina. Seymour se acomodou em seu lugar habitual, à esquerda de Carter, e observou os monitores. Na tela central havia uma imagem de circuito fechado de televisão mostrando a parte externa do Financial Journal, onde sua futura agente infiltrada, Zoe Reed, trabalhava.

A rotina de Zoe naquele dia, ao contrário da de seus colegas do jornal, tinha sido acompanhada em detalhes pelos serviços de inteligência de três nações. Eles sabiam que o dia dela tinha começado mal, com o atraso de 20 minutos da pavorosa linha de metrô Northern Line. Sabiam que ela tinha chegado ao escritório às 9h45, parecendo profundamente incomodada, que almoçara com uma fonte num bistrô exótico perto de St. Paul e que passara por uma farmácia no caminho de volta para comprar alguns itens pessoais, que não conseguiram identificar. Também sabiam que Zoe tinha sido forçada a passar várias horas desagradáveis com um advogado do Financial Journal por causa de uma ameaça de processo por difamação por parte da Empire Aerospace, devido ao seu artigo recente. E que, em seguida, fora arrastada para o escritório de Jason Turnbury para ouvir mais um sermão sobre suas despesas, que tinham superado as do mês anterior.

Zoe finalmente saiu da sede do jornal às 18hl5, alguns minutos depois do que Gabriel esperava, e chamou um táxi. Não por coincidência, imediatamente surgiu um que a levou em altíssima velocidade até a estação St. Pancras. Ela passou pelo controle alfandegário em tempo recorde e seguiu para a plataforma de embarque, onde foi reconhecida por um banqueiro libertino do City Bank que se dizia seu maior fã.

Zoe temeu que o homem se sentasse ao seu lado no trem, mas relaxou ao ver que sua companheira de viagem acabou sendo a garota quieta de cabelos escuros de Highgate que dizia se chamar Sally. Outros quatro membros do time também estavam no vagão de Zoe, incluindo a figura élfica com cabelos finos que ela conhecia como Max e o inglês elegante que se apresentara como David. Nenhum deles se deu o trabalho de informar ao centro de operações na praça Grosvenor que Zoe tinha entrado no trem. Os monitores na sala de controle se encarregaram disso.

- Até aqui tudo bem - disse Shamron, encarando as telas. - Agora só falta nosso ator principal.

Quando, porém, Shamron proferiu essas palavras, os três espiões chefes já sabiam que Martin Landesmann estava preocupantemente atrasado. Depois de começar o dia remando por uma hora nas águas calmas do lago Genebra, ele embarcou em seu jato particular com vários de seus principais assessores para uma breve viagem até Viena. Visitou o escritório de uma grande firma austríaca de produtos químicos e saiu do prédio às três da tarde, debaixo de uma neve fraca. Nesse momento os deuses decidiram colocar uma pedra em cima dos planos da operação, pois quando Landesmann e sua comitiva alcançaram o aeroporto de Schwechat os esparsos flocos já tinham se transformado em uma autêntica nevasca austríaca.

Pelas próximas duas horas, São Martin ficou sentado com uma serenidade de monge na área VIP do aeroporto vienense, enquanto seus assessores trabalha­vam arduamente a fim de conseguir permissão para a decolagem. Todos os da­dos meteorológicos disponíveis indicavam um atraso prolongado ou até mesmo o fechamento do aeroporto. Mas por algum milagre o jato de Martin recebeu a única permissão da noite e às cinco e meia seguia para Paris. De acordo com as ordens de Gabriel, nenhuma foto foi tirada quando Martin e sua comitiva desembarcaram no Le Bourget e entraram num comboio de sedãs Mercedes Classe S pretos. Três dos carros seguiram para o Hôtel de Crillon e um deles se dirigiu ao elegante prédio cor de creme na ilha de Saint-Louis.

Para Gabriel Allon, parado na janela do esconderijo no apartamento do lado oposto do rio Sena, a chegada de Martin Landesmann foi uma ocasião importante, já que foi a primeira vez que o agente viu sua presa ao vivo. Martin saiu do banco de trás do carro com uma elegante mala de couro na mão e entrou sozi­nho no prédio. Martin, o homem do povo, pensou Gabriel. Martin, que estava a poucas horas de se tornar um livro aberto. Como quase todas as suas aparições públicas, essa também foi breve, embora tivesse deixado uma impressão marcante. Mesmo Gabriel não pôde deixar de sentir certa admiração profissional pela perfeição do disfarce de Martin.

Ele ergueu seus binóculos de visão noturna e inspecionou o campo de bata­lha. Yaakov estava num sedã Peugeot estacionado na margem do rio, Oded em um Renault parado na rua estreita ao lado do prédio de Martin e Mordecai em uma caminhonete Ford próxima a uma das extremidades da ponte Marie. Os três ficariam de vigília a noite inteira, assim como os três homens no Mercedes Classe S preto estacionado em frente ao número 21 do Quai de Bourbon. Um deles era Henri Cassin, o motorista habitual de Martin em Paris. Os outros dois eram guarda-costas profissionais que trabalhavam para a Zentrum Security. Naquele instante, Gabriel escutou um ruído agudo de estática. Abaixou os binócu­los e se voltou para Chiara, que estava inclinada sobre um laptop, monitorando a transmissão de áudio em tempo real do celular de Zoe.

Algum problema?

Chiara balançou a cabeça.

Parece que o trem está passando por um túnel.

Onde ela está?

Menos de um quilômetro ao norte da estação.

Gabriel voltou para a janela e ergueu os binóculos. Martin estava parado na beira da varanda na cobertura, contemplando o rio, com o celular Nokia pres­sionado contra o ouvido. Alguns segundos depois, Gabriel escutou um toque de dois tons vindo do computador de Chiara, seguido pela voz de Zoe.

Oi, querido.

Onde você está?

Chegando na estação.

Fez uma boa viagem?

Não foi má.

E o seu dia?

Indescritivelmente horroroso.

Qual o problema?

Advogados, querido. Os malditos advogados são o problema.

Alguma coisa que eu possa fazer para ajudar?

Realmente espero que sim.

Até já.

A ligação foi encerrada. Chiara ergueu os olhos da tela do computador e disse:

Ela é boa.

É. Mas é fácil mentir pelo telefone. Pessoalmente é muito mais difícil.

De seu posto na janela, Gabriel viu que Martin falava ao celuiar de novo, mas dessa vez ele não pôde escutar a conversa.

Zoe já saiu do trem? - perguntou ele a Chiara.

Acabou de pisar na plataforma.

E está indo na direção certa?

Sim, a uma velocidade considerável.

Garota esperta. Agora vamos torcer para que ela chegue ao carro antes que alguém consiga roubar sua mala.

 

Zoe nunca tinha entendido por que o Eurostar de Londres a Paris, conhecido como a ligação ferroviária mais glamorosa do mundo, terminava num buraco como a estação Gare du Nord. Já era um lugar inóspito durante o dia, mas às 22h17 de um dia frio de inverno era definitivamente apavorante. Havia copos de plástico e embrulhos de comida no chão ao redor de lixeiras transbordantes, viciados perambulando sem destino e imigrantes exaustos cochilando em cima da bagagem amassada, esperando por trens que levavam a lugar nenhum. Saindo na escuridão da praça Napoléon III, Zoe foi imediatamente abordada por nada menos que três pedintes. Abaixando a cabeça, passou por eles sem uma palavra e entrou no banco de trás de um sedã preto com o nome Reed na janela.

À medida que o carro avançava, Zoe sentia o coração bater mais forte. Por um instante, considerou pedir ao motorista que a levasse de volta à estação. Então olhou pela janela e viu a forma reconfortante de uma motocicleta sendo conduzida por alguém de capacete. Reconheceu os sapatos. Pertenciam ao agente esguio com cabelos loiros e olhos cinzentos que falava com sotaque russo.

Zoe olhou para a frente e contornou educadamente as tentativas do motorista de começar um diálogo. Ela não queria conversa fiada com um desconhecido. Não agora. Tinha coisas mais importantes na cabeça. As duas tarefas que ti­nham sido a razão do seu recrutamento. As duas tarefas que transformariam a vida de Martin num livro aberto. Ela ensaiou uma última vez, então fechou os olhos e fez o possível para esquecer. Gabriel tinha lhe ensinado uma série de exercícios simples. Truques de memória. Truques do ofício. Seu trabalho seria mais fácil pelo fato de não ter que fingir ser outra pessoa. Ela só tinha que voltar no tempo alguns dias, até o momento antes de ser atraída ao carro de Graham Seymour. Tinha que se tornar a Zoe anterior à revelação. A Zoe anterior à des­coberta da verdade. A Zoe que estava escondendo um segredo de seus colegas do jornal. Que estava arriscando sua reputação por um homem conhecido pelo mundo todo como São Martin.

A mente é como um recipiente, Zoe. Podemos enchê-la e esvaziá-la de acordo com a nossa vontade...

Assim, foi essa versão de Zoe Reed que saiu do carro e deu boa-noite ao motorista. E foi essa Zoe Reed que digitou de cabeça o código de entrada no teclado e entrou no elevador elegante. Não existe um esconderijo em Highgate, disse a si mesma. Nenhum inglês bem-vestido chamado David. Nenhum assassino de olhos verdes chamado Gabriel Allon. Naquele instante, havia apenas Martin Landes­mann. Martin, que estava parado na porta de seu apartamento com uma garrafa do vinho favorito dela na mão. Martin, com os lábios pressionados contra os seus. Martin, dizendo quanto a adorava.

Você só precisa estar apaixonada por ele mais uma noite.

E depois disso?

Você volta para a sua vida e finge que nada disso aconteceu.

A notícia da chegada de Zoe piscou nas telas do centro operacional às 21h45 no horário de Londres. Desobedecendo ao regulamento, Ari Shamron imediatamente acendeu um de seus cigarros turcos fedorentos. Nada a fazer agora além de esperar. Deus, como ele odiava esperar.

 

Ele estava usando um suéter de caxemira cinza-escuro, calças cor de carvão e mocassins de camurça pretos. Junto com os brilhantes cabelos grisalhos e os óculos prateados, a combinação de roupas escuras lhe dava um ar sério. Zoe pensou que era daquele modo que ele gostava de ver a si mesmo, como um livre-pensador e intelectual europeu, isento das noções de convencionalismo. Alguém completamente diferente do filho de um banqueiro suíço chamado Walter Landesmann. Zoe se deu conta de que seus pensamentos estavam indo para territórios perigosos. Você não sabe nada sobre Walter Landesmann, lembrou a si mesma. Nada sobre uma mulher chamada Lena Herzfeld, um cri­minoso de guerra nazista chamado Kurt Voss ou um retrato de Rembrandt com um segredo perigoso. Agora, havia apenas Martin. O Martin que ela amava. Que tinha aberto a garrafa de vinho e agora estava servindo a bebida cor de mel em duas taças.

- Você parece distraída, Zoe. - Ele lhe deu uma taça e ergueu a própria. - Saúde.

Zoe brindou com Martin e tentou recuperar a compostura.

Sinto muito, Martin. Me perdoe. Meu dia foi horroroso.

Como dias horrorosos não faziam parte da vida de Martin, a tentativa dele de fazer uma expressão compassiva não foi muito bem-sucedida. Ele bebeu mais um gole de vinho e colocou a taça na beira da bancada comprida com tampo de granito no centro da cozinha. Era iluminada engenhosamente por uma linha de lâmpadas de halogênio embutidas, uma delas reluzindo sobre Martin como um holofote. Ele deu as costas a Zoe e abriu a geladeira, que tinha sido bem abastecida pela governanta naquela tarde. Tirou vários recipientes brancos de comida pronta e os arrumou numa fileira organizada ao longo do balcão. Ela se deu conta de que tudo o que Martin fazia era de maneira organizada.

Sempre achei que podíamos falar sobre qualquer coisa, Zoe.

E podemos.

Então por que você não quer me contar sobre seu dia?

Porque tenho muito pouco tempo com você, Martin, e a última coisa que quero é entediá-lo com os detalhes cansativos do meu trabalho.

Martin a observou, pensativo, com o olhar que sempre usava quando respon­dia às perguntas pré-aprovadas em Davos, e começou a abrir os recipientes. Suas mãos eram pálidas como mármore. Mesmo agora, parecia surreal observá-lo se dedicando a uma tarefa tão doméstica. Zoe percebeu que era tudo parte da ilusão, assim como a fundação, as boas ações e a posição política da moda.

Estou esperando.

Para ficar entediado?

Você nunca me deixa entediado, Zoe. - Ele ergueu os olhos e sorriu. - Aliás, você nunca deixa de me surpreender.

O Nokia tocou uma melodia suave. Martin o pegou do bolso e deu uma olhada no identificador de chamadas, franzindo a testa. Guardou o aparelho sem atender.

Você estava dizendo...

Que eu posso ser processada.

Pela Empire Aerospace?

Zoe ficou genuinamente surpresa.

Você lê os artigos?

Leio tudo o que você escreve, Zoe.

Claro que lê. Então ela se lembrou dos primeiros momentos constrangedo­res do encontro com Graham Seymour. Nós não poderíamos entrar em contato abertamente, Srta. Reed. É bastante possível que alguém a esteja monitorando e ouvindo suas ligações...

O que você achou dos artigos?

Convincentes. E, se os executivos da Empire e os políticos britânicos forem mesmo culpados, devem ser punidos de acordo.

Você não parece convencido.

Da culpa deles? - Ele ergueu uma das sobrancelhas, pensativo, e colocou uma porção de vagens num canto da travessa retangular. - É claro que eles são culpados, Zoe. Só não entendo por que todos em Londres fingem estar surpre­sos. Quando alguém está no negócio de venda de armas para países estrangei­ros, pagar propinas para políticos faz parte do jogo.

Talvez - concordou Zoe -, mas isso não faz com que seja certo.

Claro que não.

Você já se sentiu tentado?

Martin colocou duas fatias de quiche ao lado das vagens.

A fazer o quê?

Pagar propina para garantir um contrato com o governo.

Ele sorriu e acrescentou algumas fatias de peito de frango fatiado na travessa.

Acho que você me conhece bem o suficiente para saber a resposta. Somos muito cuidadosos com as empresas que adquirimos. E nunca chegamos nem perto de fornecedores de produtos militares ou fabricantes de armas.

Não, pensou Zoe. Só de uma fábrica têxtil na Tailândia que usa trabalho es­cravo, um complexo químico no Vietnã que destruiu todos os rios num raio de 150 quilômetros e um agronegócio brasileiro que estava acabando com as mes­mas florestas tropicais que Martin tinha jurado defender até a morte. Sem falar na pequena malha industrial em Magdeburgo, na Alemanha, envolvida numa troca ágil mas discreta com os iranianos. Seus pensamentos estavam voltando para águas perigosas. Evite isso, lembrou-se.

Martin colocou algumas fatias de presunto na travessa e levou a comida até a sala de jantar, onde uma mesa já tinha sido posta. Zoe parou na janela com vista para o Sena antes de se sentar no lugar de sempre. Martin completou a taça dela. Depois de encher a própria taça, perguntou sobre a base do suposto processo.

Desconsideração maliciosa da verdade - disse Zoe. - A baboseira de sempre.

É um golpe de relações públicas?

Do pior tipo. Eu descobri a história toda.

Conheço bem o presidente da Empire. Se quiser que eu fale com ele, tenho certeza de que posso...

Resolver a questão?

Martin ficou em silêncio.

Isso poderia ser um pouco estranho, Martin. Mas agradeço sua consideração.

A diretoria está apoiando você?

Por enquanto. Mas Jason Turnbury já está cavando minha cova.

Jason não vai continuar no emprego por muito tempo.

Zoe olhou surpresa para Martin.

Como diabo você sabe disso?

Eu sei de tudo, Zoe. Não aprendeu isso ainda?

Ela sentiu as bochechas começarem a queimar. Deu um sorriso exagerado e disse:

Você sempre diz isso, querido. Estou começando a acreditar.

E deveria. Deveria saber também que seu jornal está pior do que você pensa. Jason tem um bote salva-vidas esperando por ele na sede da Latham, mas acho que o resto da diretoria estará entregue à própria sorte, assim como a equipe editorial.

Quanto tempo temos?

Sem um comprador ou um investimento financeiro significativo... Não muito.

Como você sabe de tudo isso?

Latham me abordou na semana passada perguntando se eu queria comprar o jornal.

Você está brincando. - A expressão de Martin deixou claro que não era o caso. - Isso tornaria nosso relacionamento mais complicado do que já é, Martin.

Não se preocupe, Zoe. Eu disse que não tenho interesse. A imprensa ocupa só uma pequena parcela da nossa estratégia geral de investimentos no mo­mento, e não acho vantajoso comprar um jornal que mal consegue se manter de pé. - Pegou o celular. - Como você espera que as pessoas paguem por algo que podem conseguir de graça?

E o Journal?

Tenho a impressão de que vocês vão conseguir um bote salva-vidas.

De quem?

Viktor Orlov.

Zoe reconheceu o nome. Viktor Orlov tinha sido um dos primeiros oligarcas russos a faturar bilhões vendendo os valiosos bens do antigo Estado soviético enquanto os russos comuns lutavam para sobreviver. Como a maior parte dos oligarcas da primeira geração, Viktor não era mais bem-vindo na Rússia. Agora vivia em Londres, numa das casas mais valiosas da cidade.

Viktor conseguiu o passaporte britânico há alguns meses - informou Martin. - Agora ele quer um jornal britânico no mesmo pacote. Acha que ser dono do Journal vai garantir a posição social que ele tanto deseja em Londres. Também quer usá-lo como arma para atingir os adversários no Kremlin. Se for bem-sucedido, sua publicação nunca mais será a mesma.

E se ele não nos comprar?

O jornal não vai durar muito. Mas lembre, Zoe, você não escutou isso de mim.

Eu nunca escuto nada de você, querido.

Realmente espero que não.

Zoe sorriu. Ficou surpresa com sua facilidade de cair no padrão familiar do relacionamento. Tentou não resistir a esses sentimentos, assim como tentou não pensar no celular ao lado do cotovelo de Martin ou no laptop sobre a bancada da cozinha.

Você o conhece bem?

Bem o suficiente. - Martin espetou sua comida com o garfo. - Ele me for­çou a convidá-lo para o evento beneficente na Villa Elma, semana que vem.

Como ele conseguiu isso?

Preenchendo um cheque de um milhão de euros para a Um Só Mundo. Não gosto de Viktor nem da forma como ele conduz seus negócios, mas pelo menos você vai ter uma chance de conhecer seu novo chefe pessoalmente. - Ele a encarou com seriedade. - Você ainda pretende ir, certo, Zoe?

Acho que isso depende da minha segurança lá.

Do que você está falando?

De sua esposa, Martin. Estou falando de Monique.

Monique vive a vida dela e eu vivo a minha.

Mas talvez ela não vá gostar de ver a vida que você leva desfilando na cara dela em um vestido Dior com o decote mais escandaloso que já vi.

Você recebeu meu presente?

Sim, Martin, recebi. E você realmente não devia...

Claro que devia. E espero que o use na semana que vem.

Tenho certeza de que meu acompanhante vai adorar.

Ele baixou os olhos para o prato e perguntou casualmente quem Zoe preten­dia levar à festa.

Jason queria ir de novo, mas ainda não decidi.

Talvez você possa levar alguém com quem já não tenha se relacionado.

Eu e Jason não tivemos uma relação, Martin. Cometemos um erro.

Mas ele obviamente ainda gosta muito de você.

Ela lhe lançou um olhar brincalhão.

Martin Landesmann, acho que você está com ciúme.

Não, Zoe, não estou. Mas não quero ser enganado.

Ela ficou séria.

Se você quer saber se existe outro homem na minha vida, Martin, a resposta é não. Para o bem ou para o mal, só tenho você.

Tem certeza?

Absoluta. E, se estiver interessado, estou mais do que disposta a provar.

Termine seu jantar, Zoe.

Ela sorriu.

Já terminei.

Meia hora depois, no apartamento do outro lado do Sena, Gabriel estava inclinado sobre o computador, com os punhos nas têmporas e os olhos fechados, ouvindo. Em algum lugar dentro dele, enterrado sob milhares de mentiras e cicatrizes de incontáveis feridas, havia um homem comum que queria desesperadamente abaixar o volume. O profissionalismo o impedia. Pensou que era para o bem dela. Para sua proteção. Desculpe, Zoe. Precisa ser feito.

Para se distrair, ele foi até a janela com os binóculos de visão noturna e checou a localização das tropas. Yaakov estava no Peugeot, Oded no Renault e Mordecai na caminhonete Ford. Mikhail e Yossi tomavam cerveja com um grupo de jovens no cais. Rimona e Dina estavam sentadas em duas lambretas próximas ao Hôtel de Ville. Deu um toque em cada um deles por meio do rádio criptografado. Responderam um por um, vivos e alertas, os soldados da noite de Gabriel.

A última parada do tour de Gabriel pelo campo de batalha foi a entrada do prédio cor de creme no número 21 do Quai de Bourbon, onde um dos guarda-costas da Zentrum andava devagar sob a iluminação da rua. Sei como você se sente, pensou Gabriel. A espera pode ser infernal.

 

O luar que entrava pela janela sem cortinas projetou um retângulo de luz azul pálida sobre os lençóis desarrumados de cetim da enorme cama de Martin Landesmann. Zoe estava deitada, imóvel, escutando os ruídos do trân­sito da madrugada ao longo do Sena. Em algum lugar, um casal bêbado travava uma briga barulhenta. A respiração de Martin se acelerou por um momento, então voltou ao ritmo normal. Zoe olhou para o relógio no criado-mudo. A hora não tinha mudado desde a última vez que verificara: 3h28...

Observou Martin com atenção. Depois de fazerem amor pela segunda vez, ele tinha recuado com uma discrição conjugai para seu lado da cama e caído num sono satisfeito. Não mudava de posição havia quase uma hora. Estava deitado de bruços, coberto até a cintura, com uma das pernas encolhida e uma das mãos esticada na direção de Zoe. Quando dormia, seu rosto adotava uma expressão peculiar de inocência infantil. Zoe se sentiu compelida a desviar os olhos. A briga do casal na rua tinha terminado, substituída agora por vozes masculinas murmurando em alemão. Tentou se convencer de que não era nada, só a mudança de turno das 3h30 da Zentrum Security.

Não pense nos guarda-costas, recomendara Gabriel na última noite em High-gate. Nós cuidaremos deles. Você só deve se preocupar com Martin. Martin é sua responsabilidade.

Martin ainda não tinha se movido. Nem Zoe. Só o relógio.

3H32...

Quando chegar a hora, se mova em silêncio, mas com rapidez. Não ande na ponta dos pés, como um ladrão...

Ela fechou os olhos e visualizou a localização dos quatro itens de que precisaria para completar sua tarefa. Dois deles - seu telefone celular e o pen drive - encontravam-se em sua bolsa, no chão ao lado da cama. O celular Nokia de Martin ainda estava na mesa de jantar e o laptop Sony continuava na bancada da cozinha.

Visualize as ações antes de agir. Quando estiver em um lugar seguro com o telefone e o computador dele, faça exatamente o que eu disse e Martin não terá mais segredos...

Ela alcançou a bolsa, pegou o telefone e o pen drive e levantou da cama em silêncio. Suas roupas estavam espalhadas pelo chão. Ignorando-as, foi até a porta na ponta dos pés, com o coração batendo forte, e saiu para o corredor. Contrariando as orientações de Gabriel, não pôde evitar dar uma última olhada em Martin. Ele ainda parecia dormir profundamente. Zoe encostou a porta e percorreu o apartamento sem fazer barulho, em direção à sala de jantar. Os pratos ainda estavam na mesa, assim como o telefone de Martin. Ela o pegou e seguiu para a cozinha, ligando para o próprio celular no caminho. Gabriel atendeu após o primeiro toque.

- Desligue. Conte até 60. Comece a agir.

Zoe interrompeu a ligação assim que entrou na cozinha. Na escuridão, con­seguiu discernir apenas a silhueta do laptop preto no final da bancada. Martin tinha deixado o computador no modo de espera. Zoe o desligou e inseriu o pen drive em uma das entradas USB. Em seguida, pegou o celular dele de novo e olhou para a tela, contando mentalmente: 25... 26... 27... 28...

 

Depois que terminou de falar com Zoe, Gabriel informou ao restante do time pelo rádio que a operação estava em andamento. Apenas Mordecai tinha uma tarefa a realizar naquele momento: ligar o aparelho que repousava no banco do carona de sua caminhonete Ford. O aparato era, em termos básicos, uma torre de celular numa maleta, projetado para fazer o telefone de Martin funcio­nar na rede do Escritório, mas mantendo a aparência de que ainda operava na rede comum. O sinal, enquanto o aparelho ficasse focado no prédio do Quai de Bourbon, obstruiria temporariamente quase todo o serviço de celulares na Ilha de Saint-Louis. Naquele instante, qualquer inconveniência para os clientes da telefonia francesa era a menor das preocupações de Gabriel. Ele estava na janela do apartamento, encarando a escuridão do quarto de Martin Landesmann e contando em silêncio: 57... 58... 59... 60...

Agora, Zoe, agora...

Como se tivesse escutado o pensamento de Gabriel, Zoe começou a digitar um número no celular de Martin. Era uma combinação que havia ensaiado cente­nas de vezes no esconderijo em Highgate. Um número que conhecia tão bem quanto o seu próprio. Depois do último dígito, apertou o botão para chamar e levou o telefone ao ouvido. Um único toque soou, seguido por vários bipes agudos. Zoe olhou para a tela. Uma caixa de diálogo apareceu, perguntando se ela desejava aceitar uma atualização de software. Apertou SIM na tela de toque. Alguns segundos depois, outra mensagem: DOWNLOAD EM PROGRESSO.

Zoe colocou o telefone com cuidado na bancada e ligou o laptop de Martin, pressionando a tecla F8. Em vez de ligar normalmente, o computador entrou na tela de inicialização. Ela clicou na opção de mudar o modo de inicialização e deu um comando para que o computador inicializasse utilizando o software contido no pen drive. O laptop obedeceu sem nenhuma objeção e em poucos segundos uma mensagem apareceu na tela informando que um upload estava em andamento. Devido ao peso - cada bit dos dados armazenados no disco rígido de Martin -, a ação levaria uma hora e 15 minutos. Infelizmente, era necessário deixar o pen drive na entrada USB durante o processo inteiro, o que significava que Zoe teria que fazer uma segunda viagem à cozinha para removê-lo quando a operação estivesse concluída.

Diminuiu o brilho da tela e pegou o celular de novo. A atualização de software estava completa. Agora era só reiniciar o sistema, ou seja, desligar o telefone e ligá-lo novamente. Após fazer isso, Zoe verificou o registro das últimas chamadas. Não havia nenhum sinal da ligação que ela havia feito. De acordo com a lista, a última chamada efetuada pelo telefone tinha acontecido às 22h18, quando Martin ligara para Monique, em Genebra, e a última ligação havia sido recebida enquanto ele preparava o jantar. Zoe olhou para o número.

Monique...

Colocou o telefone de volta no modo de espera e abriu a geladeira. Na pra­teleira de cima encontrou uma garrafa de um litro de água mineral. Pegou-a e fechou a porta devagar, seguindo então para a sala de jantar, onde ficou apenas por tempo suficiente para recolocar o celular de Martin no lugar onde o tinha encontrado. Ao voltar para o quarto, encontrou a porta entreaberta, como tinha deixado. Martin continuava deitado imóvel na cama, a pele pálida de seu torso reluzindo à luz do luar. Andou na ponta dos pés até seu lado da cama e soltou o celular na bolsa. Entrou embaixo dos lençóis de cetim e olhou para Martin. Seus olhos se abriram subitamente e a expressão dele não parecia mais infantil.

- Estava começando a ficar preocupado, Zoe. Onde você estava?

Existem momentos, mesmo nas operações mais simples, em que o tempo para. Gabriel tinha passado por esses momentos com mais freqüência que a maioria dos agentes de inteligência. E certamente passou por um às 3h36 em Paris, enquanto esperava Zoe Reed, correspondente investigativa especial do respeitável Financial Journal, responder à pergunta de seu amante, Martin Landesmann. Ele não avisou os agentes de Londres sobre o potencial problema. Não avisou o time. Em vez disso, ficou parado na janela do apartamento, com os binóculos nos olhos, Chiara ao seu lado, e fez o que todo agente de campo experiente faz num momento desses: prendeu a respiração.

O silêncio pareceu durar uma eternidade. Depois, ouvindo a gravação, descobriria que tinha se estendido só por três segundos. Ela começou reclamando que estava morrendo de sede e depois deu uma bronca de brincadeira em Mar­tin por jogar toda a roupa dela no chão na pressa de despi-la. Finalmente, su­geriu diversas coisas que poderiam fazer agora que ambos estavam acordados.

Mais uma vez, o homem comum que existia em algum lugar dentro de Ga­briel queria desesperadamente poder não escutar. Mais uma vez, o profissionalismo o impedia. Portanto, ficou na janela do apartamento, com sua esposa ao lado, ouvindo Zoe Reed fazer amor pela última vez com o homem que Gabriel a tinha convencido a odiar. Ouviu, também, uma hora e 15 minutos depois, Zoe se levantar da cama de Martin para recuperar o pen drive do computador - um pen drive que tinha transmitido o conteúdo do disco rígido de Martin para um prédio vitoriano de tijolos vermelhos em Highgate.

Os parceiros de Gabriel em Londres nunca chegariam a escutar as gravações daquela noite em Paris. Não tinham nenhum direito de fazer isso. Ficariam sabendo apenas que Zoe saiu do prédio na Ilha de Saint-Louis às 8h15 do dia seguinte e entrou no banco de trás de um Mercedes com motorista e o nome Reed na janela. O carro a levou direto para a estação Gare du Nord, onde foi novamente abordada por vários pedintes e viciados enquanto passava pelas bilhe­terias em direção ao trem. Um ucraniano com dreadlocks no cabelo e uma ja­queta de couro coberta de lama foi o perseguidor mais persistente. Finalmente, ao ser confrontado por um homem com cabelos escuros curtos e cicatrizes no rosto, a deixou em paz.

O mesmo homem se sentou ao lado de Zoe no trem. O passaporte falso da Nova Zelândia o identificava como Leighton Smith, embora seu nome real fosse Yaakov Rossman, um dos quatro membros do time de Gabriel que acompanharam Zoe em seu retorno a Londres. Ela passou a maior parte da viagem lendo jornais e, quando chegou à estação de St. Pancras, foi discretamente devolvida à custódia do MI5. Levaram-na de táxi para o trabalho e tiraram diversas fotos quando ela entrou no prédio. Como prometido, Gabriel ordenou que a escuta digital no telefone de Zoe fosse desativada e em poucos minutos ela desapare­ceu da rede de vigilância global do Escritório. Poucos membros da operação Obra-prima se deram conta disso, porque já estavam todos escutando a voz de Martin Landesmann.

 

Até certo ponto, redes de computador e aparelhos de comunicação podem ser protegidos de invasões externas. Mas, se o ataque ocorrer de dentro - ou pelo acesso aos aparelhos em si -, há pouco que o alvo pode fazer para se defender. Com apenas algumas linhas de programação bem-feitas, um telefone celular ou laptop pode ser convencido a contar os segredos mais íntimos do seu dono e continuar fazendo isso por meses, ou mesmo anos. As máquinas são espiões perfeitos. Não exigem dinheiro, elogios ou amor. Seus motivos estão acima de qualquer suspeita, já que não possuem nenhum próprio. São con fiáveis, seguras e dispostas a trabalhar pelo tempo que for preciso. Não ficam deprimidas nem bebem demais. Não têm cônjuges reclamões nem filhos que as desapontem. Não sentem solidão ou medo. Não ficam cansadas. Sua única fraqueza é se tornarem obsoletas. Em geral, são descartadas apenas porque algo melhor foi criado.

Um ataque de inteligência do porte do que estava sendo conduzido contra Martin Landesmann era empolgante, mas rotineiro no mundo da espionagem do século XXI. Tinham acabado os dias em que a única opção de escuta era plan­tar um transmissor de rádio à bateria na casa ou no escritório do alvo. Agora os alvos carregavam transmissores voluntariamente, na forma de celulares e outros dispositivos móveis. Agentes de inteligência não tinham mais que recarregar baterias fracas, já que os próprios alvos faziam isso. Também não precisavam passar horas intermináveis sentados em postos de escuta monótonos, uma vez que as informações adquiridas por dispositivos sem fio podiam ser transmitidas pela internet para computadores em qualquer lugar do mundo.

No caso da operação Obra-prima, esses computadores estavam em um pré­dio vitoriano de tijolos vermelhos localizado no fim de um beco sem saída em Highgate, um bairro de Londres. Depois de trabalharem dia e noite preparando a operação em Paris, Gabriel e seu time passaram a trabalhar dia e noite para separar e analisar o material obtido. Em um piscar de olhos, a vida de um dos homens de negócios mais reclusos do mundo tinha se tornado um livro aberto. Como Uzi Navot diria ao primeiro-ministro durante seu café da manhã sema­nal: "Aonde quer que Martin vá, nós vamos junto."

Eles escutavam suas ligações, liam seus e-mails e espiavam sobre seu ombro enquanto ele navegava na internet. Fechavam negócios, almoçavam e iam com ele a festas, guardados no bolso de sua camisa. Dormiam, tomavam banho e faziam exercícios com ele. Chegaram até a ouvir uma briga dele com Monique devido às viagens freqüentes que fazia a Paris. Acompanharam-no numa ida a Estocolmo, onde foram forçados a agüentar uma noite excruciante ouvindo as composições de Wagner. Sabiam sua localização exata no planeta a qualquer momento. Se estivesse em movimento, sabiam a velocidade com a qual se locomovia. Também descobriram que São Martin gostava bastante de ficar sozinho, isolado no escritório na Villa Elma, uma ampla sala localizada no canto sudeste da mansão com vista para o lago Genebra exatamente 377 metros acima do nível do mar.

Existe uma desvantagem óbvia na coleta de uma quantidade tão vasta de informações de inteligência: a possibilidade de uma peça importante do quebra- cabeça se perder num tsunami de dados irrelevantes. Gabriel se esforçou para evitar essa armadilha garantindo que ao menos metade do time permanecesse focado no verdadeiro prêmio da operação em Paris: o laptop de Martin. O acesso não se limitou ao material contido no computador na noite da operação. Na verdade, através de uma sofisticada façanha da engenharia, a máquina en­viava automaticamente uma atualização cada vez que dados eram acrescentados ou removidos de seu sistema. Isso significava que sempre que Martin abria um documento, o time de Gabriel também o abria. Além disso, programaram o computador para transmitir as imagens capturadas pela sua câmera embutida a cada meia hora. A maior parte dos vídeos era silenciosa e escura. Mas cerca de uma hora por dia, quando Martin usava o laptop, parecia estar olhando diretamente para dentro do esconderijo em Highgate, observando os agentes de Gabriel enquanto eles vasculhavam os segredos de sua vida.

O conteúdo do computador de Martin estava criptografado, mas as barreiras logo caíram sob o ataque dos dois gênios da informática formados no Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Assim que atravessaram as muralhas de segurança, o laptop rapidamente expeliu milhares de documentos que expunham as atividades internas do império Landesmann. Embora fossem informações que valeriam milhões de dólares para os muitos concorrentes de Martin, não serviam de quase nada para Gabriel, pois não revelavam nenhum dado novo re­ferente aos vínculos da GVI com a Keppier Werk GmbH nem indicavam o que a Keppler estava vendendo em segredo para os iranianos. Gabriel tinha apren­dido a não focar no que era visível na memória de um computador e sim no que não estava mais aparente: os arquivos temporários que flutuavam como fan­tasmas pelo disco rígido, documentos descartados que tiveram uma vida breve antes de serem jogados na lixeira. Arquivos nunca são realmente deletados de um computador. Assim como resíduos radioativos, podem viver para sempre. Gabriel orientou os técnicos a concentrarem os esforços na lixeira de Martin, especialmente em uma pasta fantasma que permanecera, até aquele momento, imune a qualquer tentativa de recuperação.

O time de Gabriel não trabalhou sozinho. Na verdade, como a operação Obra- prima era uma iniciativa internacional, a disseminação do conteúdo adquirido com muito esforço também foi internacional. Os americanos recebiam os dados por uma conexão segura entre Highgate e a praça Grosvenor. Já os britânicos, depois de alguma disputa interna, decidiram que o MI6 era o destinatário ló­gico, já que o Irã era responsabilidade sua. No entanto, Graham Seymour con­seguiu garantir a liderança geral da operação e o MI5 se manteve como o ponto dos encontros noturnos dos diretores. O clima era, de forma geral, amistoso, embora cada lado da mesa tivesse teorias diferentes sobre as intenções dos ira­nianos, estilos diferentes de análise e prioridades nacionais diferentes. Para os americanos e ingleses, um Irã nuclear representava um desafio regional. Já para Israel, se tratava de uma ameaça existencial. Gabriel nunca se alongava muito na discussão dessas questões. Seu foco não era esse.

A última parada que fazia na sede do MI5 era sempre no cubículo sem ja­nelas de Nigel Whitcombe, que tinha assumido o controle da vigilância de Zoe Reed. Apesar dos perigos potenciais envolvidos na vigilância de uma jornalista britânica, Whitcombe aceitara a tarefa sem reservas. Assim como praticamente todas as pessoas ligadas à operação Obra-prima, ele tinha desenvolvido uma espécie de paixão adolescente por Zoe e apreciou a oportunidade de admirá-la por mais alguns dias, mesmo que de longe. Os relatos diários da vigília não revelavam nenhuma transgressão nem evidências de que ela tivesse quebrado o acordo de qualquer forma. Cada vez que Martin entrava em contato, ela informava aos agentes. Chegou inclusive a enviar para o MI5 uma mensagem curta que ele tinha deixado em sua secretária eletrônica.

O que ele disse? - perguntou Gabriel.

O mesmo de sempre. "Adorei o tempo que passamos juntos, querida. Não vejo a hora de encontrá-la em Genebra na semana que vem, querida." E alguma coisa sobre um vestido. Não entendi essa parte. - Whitcombe ajeitou a papelada na mesa. - Em algum momento vamos ter que decidir se ela deve comparecer à festa de Martin ou se seria mais conveniente ter um acesso súbito de gripe suína.

Sei disso, Nigel.

Posso dar minha opinião?

Se fizer questão...

Gripe suína.

E se a ausência dela deixar Martin desconfiado?

É melhor um Martin Landesmann desconfiado que uma repórter investigativa britânica morta. Isso pode atrapalhar minha carreira.

Já era quase meia-noite quando Gabriel voltou ao esconderijo em Highgate. Encontrou o time trabalhando duro e uma mensagem intrigante do King Saul Boulevard esperando em sua caixa de e-mails criptografada. Parecia que uma velha conhecida de Paris queria falar com ele. Ao ler a mensagem pela segunda vez, Gabriel se forçou a ficar calmo. Sim, era possível que fosse o que eles procuravam, mas provavelmente não seria nada. Um engano, pensou. Uma perda do tempo que já era escasso. Ou essa podia ser a primeira onda de boa sorte desde que julian Isherwood aparecera na Cornualha pedindo que ele encontrasse um retrato per­dido de Rembrandt. Alguém teria que verificar. Mas, considerando as exigências da operação Obra-prima, teria que ser outra pessoa que não ele. Tudo isso explica por que Eli Lavon, um mestre da vigilância, arqueólogo e rastreador de bens perdidos do Holocausto, voltou a Paris na manhã seguinte. E por que, no mesmo dia, pouco depois de uma da tarde, estava andando na rua des Rosiers, vinte passos atrás de uma militante de memórias chamada Hannah Weinberg.

 

Ela virou a esquina na rua Pavée e desapareceu dentro do prédio no número 24. Lavon percorreu a rua duas vezes em busca de indícios de que estivesse sendo seguido antes de parar em frente ao edifício. A lista ao lado do interfone identificou a residente do apartamento 4B como madame Bertrand. Lavon pressionou o botão e olhou com uma expressão simpática para a câmera.

Pois não?

Eu gostaria de falar com a madame Weinberg, por favor.

Um momento de silêncio, então:

Qual é o seu nome?

Eu me chamo Eli Lavon. Sou...

Sei quem você é, monsieur Lavon. Só um instante.

A porta foi aberta. Lavon passou pelo pátio interno úmido, entrou no saguão e subiu as escadas. Esperando no corredor do quarto andar, com os braços cruzados, estava Hannah Weinberg. Ela deixou que Lavon entrasse no apartamento e fechou a porta com cuidado. Então sorriu e estendeu a mão em um cumprimento formal.

E um prazer conhecê-lo, monsieur Lavon. Como pode imaginar, você tem muitos admiradores no Centro Weinberg.

O prazer é todo meu - disse Lavon. - Tenho observado a senhora a dis­tância. Seu centro está fazendo um trabalho maravilhoso aqui em Paris. Sob condições cada vez mais difíceis, é preciso que se diga.

Fazemos o possível, mas ainda não é o suficiente. - Seu rosto assumiu uma

expressão de tristeza. - Lamento muito pelo que aconteceu em Viena, monsieur Lavon. A bomba afetou a todos nós muito profundamente.

Essas questões são complicadas - respondeu Lavon.

De ambas as partes. - Hannah deu um sorriso. - Aceita uma xícara de café?

Sim, eu adoraria.

Ela o conduziu à sala de estar e seguiu para a cozinha. Lavon olhou em volta, observando os imponentes móveis antigos. Tinha trabalhado na operação que colocara Hannah Weinberg no radar do Escritório e conhecia a história de sua família muito bem. Também sabia que num quarto no final do corredor havia um quadro de Vincent van Gogh chamado Marguerite Gachet ao Piano. A san­grenta operação envolvendo a obra de arte pouco conhecida fora uma das mui­tas idéias de Gabriel Allon que Lavon se esforçava para esquecer. Ele reprimiu a lembrança quando viu Hannah voltar com duas xícaras de café com leite. Ela ofereceu uma a Lavon e se sentou.

Imagino que esta não seja uma visita social, certo, monsieur Lavon?

Certo, madame Weinberg.

Você veio atrás dos documentos?

Lavon assentiu e deu um gole na bebida quente.

Não sabia que você estava ligado à... - A voz de Hannah se perdeu.

A quê?

A inteligência israelense - completou ela, à meia-voz.

Eu? Pareço mesmo adequado para esse tipo de trabalho?

Ela o observou com atenção.

Acho que não.

Depois da bomba em Viena, voltei a me dedicar ao meu amor verdadeiro, a arqueologia. Estou trabalhando na Universidade Hebraica de Jerusalém, mas ainda tenho muitos contatos no campo de restituição do Holocausto.

Então como ficou sabendo dos documentos?

Quando a senhora ligou para a embaixada aqui em Paris, na mesma hora eles entraram em contato com um amigo meu que trabalha no Yad Vashem. Ele sabia que eu vinha a Paris para tratar de outros negócios e perguntou se eu poderia cuidar do assunto.

E que tipo de negócio o trouxe a Paris?

Uma conferência acadêmica.

Sei.

Hannah tomou um gole do café.

Os documentos estão aqui, madame Weinberg?

Ela assentiu.

Posso vê-los, por gentileza?

Ela o observou por cima da xícara de café como se estivesse avaliando a veracidade do que dizia, então se levantou e foi à biblioteca. Quando voltou, segu­rava um invólucro desbotado em uma das mãos. Lavon sentiu o coração bater um pouco mais forte.

Isso é papel-manteiga? - perguntou ele, tão casualmente quanto foi capaz.

Ela assentiu.

Foi assim que chegou até mim.

E os documentos?

Estão aqui dentro. - Ela passou o invólucro para Lavon e disse: - Tome cuidado. O papel é bastante frágil.

Lavon ergueu o revestimento e removeu as três páginas de papel de seda com cautela. Em seguida, pegou os óculos de meia-lua com os dedos tremendo um pouco e leu os nomes.

Katz, Stern, Hirsch, Greenberg, Kaplan, Cohen, Klein, Abramowitz, Stein, Rosenbaum, Herzfeld...

Herzfeld...

Encarou o nome por mais um instante, então ergueu os olhos lentamente para Hannah.

Onde a senhora conseguiu isto?

Infelizmente, não posso dizer.

Por que não?

Porque prometi confidencialidade completa à pessoa.

Acho que a senhora não deveria ter prometido isso.

Ela notou a mudança no tom de voz de Lavon.

Você parece saber algo sobre esse documento.

Sei, sim. E também sei que muitas pessoas morreram por causa dele. Quem quer que tenha lhe dado isto está correndo muito perigo, madame Weinberg. Assim como a senhora.

Estou acostumada com isso. - Ela o observou em silêncio. - Você estava falando a verdade quando disse que um amigo do Yad Vashem lhe pediu para vir aqui?

Lavon hesitou.

Não, madame, não estava.

Quem o enviou?

Um amigo em comum. - Lavon ergueu a lista. - E ele precisa saber o nome da pessoa que lhe deu isto.

Maurice Durand.

E o que o monsieur Durand faz da vida?

Ele tem uma pequena loja de instrumentos científicos antigos. Disse que achou os documentos enquanto fazia reparos em um telescópio.

Não diga - disse Lavon, com ceticismo. - A senhora o conhece bem?

Já fiz negócios com ele muitas vezes ao longo dos anos. - Ela apontou para uma mesa de madeira circular coberta com dezenas de binóculos de teatro. - São uma das minhas paixões.

Onde fica a loja dele?

No oitavo distrito.

Preciso vê-lo imediatamente. Hannah Weinberg se levantou.

Eu levo você.

 

O Centro Weinberg ficava logo na esquina da rua des Rosiers. Hannah e Lavon pararam lá para fazer diversas cópias da lista e trancá-las em um lugar seguro. Então, com o original dentro da mochila de couro de Lavon, pegaram o metrô até a rua de Miromesnil e fizeram a caminhada de dois minu­tos até a Antigüidades Científicas. A placa na porta dizia ABERTO. Lavon passou um momento admirando a vitrine antes de testar a maçaneta. Estava trancada. Hannah tocou a campainha e logo alguém veio atender.

O homem que os recebeu tinha mais ou menos a mesma altura e o mesmo peso de Lavon, embora o resto fosse totalmente diferente. Enquanto Lavon estava vestido com várias camadas de roupas amassadas de baixa qualidade, Maurice usava um terno azul elegante e uma gravata larga cor de vinho. O ca­belo de Lavon era ralo e despenteado, e as madeixas de Durand, curtas e bem- arrumadas. Ele deu dois beijinhos em Hannah Weinberg e ofereceu uma mão surpreendentemente forte a Lavon. Quando Lavon retribuiu o cumprimento, experimentou a desagradável impressão de estar sendo analisado por um profissional. E teve a sensação de que Maurice se sentiu da mesma forma.

Sua loja é muito bonita, monsieur Durand.

Obrigado - respondeu o francês. - Considero-a meu porto seguro.

Para protegê-lo de quê, monsieur?

Da modernidade - retrucou Durand imediatamente. Lavon deu um sorriso compreensivo.

Acho que me sinto da mesma forma.

É mesmo? E qual é o seu campo de atuação, monsieur?

Arqueologia.

Fascinante - comentou Durand. - Quando eu era jovem, tinha muito inte­resse em arqueologia. Na verdade, cheguei a considerar seguir carreira nessa área.

E por que não seguiu?

Por causa de toda aquela sujeira. Infelizmente, não gosto de sujar minhas mãos - explicou Durand.

Realmente isso seria um problema.

Um problema enorme. E o senhor se especializou em quê, monsieur?

Arqueologia bíblica. Faço a maior parte do meu trabalho em Israel. Durand arregalou os olhos.

Na Terra Santa?

Lavon hesitou, então assentiu.

Sempre quis conhecer aquele lugar pessoalmente. Onde o senhor está trabalhando agora?

Na Galileia.

Durand pareceu sinceramente comovido.

O senhor é religioso, monsieur Durand?

Muito. - Ele observou Lavon com atenção. - E o senhor?

Às vezes.

Durand olhou para Hannah.

Aquele carregamento de binóculos de teatro finalmente chegou. Separei as melhores peças para a senhora. Gostaria de vê-las agora?

Na verdade, meu amigo tem um assunto que precisa discutir com você.

Durand voltou a observar Lavon. Não demonstrava nenhuma emoção além de uma curiosidade moderada, embora Lavon tenha sentido novamente que o sujeito o estava avaliando.

Como posso ajudá-lo?

Podemos conversar em particular?

Sim, é claro.

Durand gesticulou em direção à porta nos fundos da loja. Lavon entrou no escritório primeiro e ouviu a porta sendo fechada atrás de si. Quando se virou, a ex­pressão no rosto de Maurice Durand estava muito menos agradável do que antes.

Muito bem, de que se trata tudo isto?

Lavon tirou o invólucro de papel-manteiga da mochila.

Disto.

Durand não desviou os olhos de Lavon.

Dei esse documento à madame Weinberg com a condição de que ela man­tivesse meu nome em segredo.

Ela tentou. Mas a convenci a mudar de idéia.

O senhor deve ser muito persuasivo.

Na verdade, não foi difícil. Tudo o que precisei fazer foi explicar quantas pessoas foram mortas por causa destes três pedaços de papel.

A expressão de Durand permaneceu a mesma.

A maioria das pessoas se sentiria desconfortável ao escutar algo assim - observou Lavon.

Talvez eu não seja tão fácil de assustar, monsieur.

Lavon colocou o invólucro de volta na mochila.

Fiquei sabendo que o senhor encontrou o documento dentro de um telescópio.

Uma peça do século XVIII. Bronze e madeira. Um Dollond, de Londres.

Estranho - observou Lavon -, porque tenho certeza de que até bem pouco tempo estava escondido dentro de uma pintura de Rembrandt chamada Retrato de uma Jovem. Também sei que o quadro foi roubado e que um homem foi morto durante o roubo. Mas não é por isso que estou aqui. Não sei como o senhor obteve este documento, mas deveria saber que existem pessoas muito perigosas que estão atrás dele. E elas acham que estes papéis ainda estão dentro do quadro. - Lavon fez uma pausa. - Entendeu o que estou tentando dizer, monsieur Durand?

Acho que sim - assentiu Durand, com cautela. - Mas não sei absolutamente nada sobre um retrato de Rembrandt. Ou sobre nenhum outro, aliás.

Tem certeza, monsieur?

Infelizmente, sim.

Mas o senhor deve ouvir coisas por aí de vez em quando. Ou pode ter parceiros de negócios que ouvem coisas por aí. Amigos que possam saber o paradeiro da pintura.

Não costumo fazer negócios com pessoas dessa área. Elas tendem a despre­zar homens como eu.

Lavon entregou um cartão de visitas a Durand.

Se por acaso o senhor ouvir qualquer informação sobre o Rembrandt, qual­quer informação mesmo, monsieur, por favor ligue para este número. Posso garantir confidencialidade completa. Esteja certo de que a recuperação do qua­dro é nosso único interesse. E tome cuidado. Eu não gostaria de saber que algo desagradável aconteceu com o senhor.

Durand colocou o cartão no bolso, obviamente ansioso para encerrar a conversa.

Gostaria de ajudar mais, monsieur, mas infelizmente não existe nada que eu possa fazer. A não ser que precise de mais alguma coisa, eu realmente preciso voltar à loja.

Não, nada. Obrigado pela sua atenção.

Disponha.

Durand abriu a porta para ele. Lavon começou a sair, então parou e se virou.

Na verdade, monsieur Durand, tem mais uma coisa.

O quê?

Apenas lembre-se de que Deus vê tudo. Por favor, não O decepcione.

Vou me lembrar disso, monsieur Lavon.

Eli Lavon e Hannah Weinberg se separaram ao anoitecer na praça da Concórdia. Hannah pegou o metrô de volta ao Marais, enquanto Lavon fez a curta caminhada até o número 3 da rua Rabelais, onde ficava a embaixada israelense. Lá, usando sua autoridade como participante da operação Obra-prima, instruiu o oficial res­ponsável a designar uma equipe de segurança para proteger Hannah e um time de vigilância para seguir Maurice Durand. Então pediu um carro com motorista para levá-lo ao aeroporto Charles de Gaulle. "E se certifique de que o motorista esteja armado", completou Lavon. "Talvez algum dia eu possa explicar o motivo."

Ele conseguiu um assento na classe econômica no voo da Air France para Heathrow das 20h50 e às onze da noite estava seguindo, cansado, pela calçada que levava ao esconderijo em Highgate. Assim que entrou, deu de cara com o time inteiro em uma barulhenta comemoração. Olhou para Gabriel e perguntou:

Alguém poderia me dizer o que está acontecendo?

Válvulas, canos, bombas a vácuo, foles, autoclaves, sistemas de alimentação e retirada, conversores de freqüência, invólucros de motor, bombas molecula­res, rotores, ímãs.

Ele está vendendo centrífugas?

Não só centrífugas - explicou Gabriel. - São Martin Landesmann está ven­dendo para os iranianos tudo de que eles precisam para construir máquinas de enriquecimento de urânio.

E eu achando que meu dia tinha sido bom.

O que você conseguiu?

Nada importante. - Lavon ergueu o invólucro de papel-manteiga. - Só a lista das contas bancárias de Kurt Voss em Zurique.

 

A fazenda ficava cerca de 75 quilômetros a oeste de Washington, onde as primeiras colinas de Blue Ridge começavam a aparecer na beira do vale do Shenandoah. Os residentes de The Plains, uma fantástica aldeia localizada ao longo da rodovia John Marshall, achavam que o dono da propriedade era um advogado rico e poderoso de Washington com vários amigos importantes no governo, o que explicaria as limusines pretas e os utilitários que eram vistos passando pela cidade com freqüência, às vezes nos horários mais inesperados.

Numa manhã gelada em meados de dezembro, vários desses veículos, um número muito maior do que o habitual, foram vistos nas redondezas. Todos eles fizeram o mesmo percurso: pegaram a esquerda no posto de conveniência da BP, viraram à direita após a trilha ferroviária e então seguiram reto por mais ou menos 1,5 quilômetro pela estrada municipal 601. Como era sexta-feira e o Na­tal estava chegando, os habitantes da aldeia acharam que a fazenda sediaria um retiro de fim de semana para o pessoal de Washington - o tipo de encontro no qual lobistas e políticos se reúnem para trocar dinheiro e favores, além de dicas para melhorar a técnica no golfe e a vida amorosa. Mas os rumores não surgi­ram por acaso: foram plantados por uma divisão da CIA que possuía e dirigia a fazenda através de uma empresa de fachada.

O portão de segurança ostentava uma elegante placa de bronze na qual se lia HEWITT, nome escolhido aleatoriamente por um dos computadores da CIA. Do outro lado do portão se estendia uma rua de cascalho, com um riacho do lado direito e um amplo pasto à esquerda. Ambos estavam soterrados em mais de meio metro de neve, conseqüência de uma nevasca catastrófica que tinha atingido a região e paralisado o governo federal. Como acontece com quase tudo hoje em dia, a tempestade gerou um debate furioso em Washington. Quem achava que o aquecimento global não passava de uma grande mentira aprovei­tou as condições meteorológicas para validar seu argumento, enquanto os pro­fetas das mudanças climáticas diziam que se tratava de mais uma evidência dos perigos enfrentados pelo planeta. Os espiões profissionais da CIA não ficaram surpresos com a divisão de opiniões. Eles sabiam muito bem que duas pessoas poderiam olhar para o mesmo conjunto de fatos e chegar a conclusões total­mente diferentes. Essa era a natureza do trabalho de inteligência. Na verdade, era a natureza da própria vida.

No final da rua de cascalho, sobre uma colina com árvores baixas, erguia-se uma casa de campo com varanda nos dois andares e telhado de cobre. A neve na pista circular tinha sido retirada na noite anterior. Mesmo assim, não havia espaço suficiente para acomodar a frota de sedãs e utilitários. De fato, a entrada estava tão apinhada de carros que o último a chegar não conseguiu alcançar a casa, o que foi um problema, já que levava os participantes mais importantes da conferência. Como resultado, eles não tiveram escolha a não ser abandonar o automóvel e caminhar penosamente sobre a neve pelos últimos 45 metros. Gabriel foi na frente, com Uzi Navot logo atrás e Shamron no fim da fila, segurando o braço de Rimona.

A entrada da delegação israelense gerou uma rodada de aplausos cautelo­sos por parte do numeroso grupo que já estava reunido na casa. Os britânicos tinham enviado apenas dois agentes - Graham Seymour, do MI5, e Edmund Radcliff, do MI6 -, mas os americanos não foram tão contidos. A CIA estava representada por Adrian Carter, Sheperd Cantwell - diretor adjunto para ques­tões de inteligência - e Tom Walker, principal analista de assuntos referentes ao Irã. O Escritório de Inteligência Nacional mandara um homem chamado Blanchard e a Agência de Defesa de Inteligência, um de nome Redmond. Cynthia Scarborough, do Conselho de Segurança Nacional, e Steven Clark, do FBI, também estavam lá, embora ninguém soubesse como o Departamento Federal de Investigação conseguira um convite para a conferência. Era um dos muitos mistérios da operação Obra-prima.

Todos ocuparam seus lugares ao redor da mesa de jantar, com pilhas de li­vros pretos contendo resumos das informações e xícaras de café fraco à frente. Adrian Carter fez alguns comentários introdutórios antes de ligar o PowerPoint. Um mapa do Irã apareceu na tela, com quatro localizações claramente ressalta­das e rotuladas. Carter apontou com uma caneta laser vermelha para cada uma delas, lendo seus nomes.

- Bushehr, Arak, Isfahan, Natanz, os principais locais do programa nuclear iraniano. Nós conhecemos essas instalações muito bem, mas permitam que eu faça um breve resumo. Bushehr é a estação de energia nuclear construída com a ajuda dos russos e alemães. Isfahan é uma estação de conversão, onde o urânio bruto é transformado em gás hexafluoreto e óxido de urânio. Arak é uma usina de água pesada. E Natanz, claro, é a principal instalação de enriquecimento de urânio do Irã. - Carter fez uma pausa e acrescentou: - Ao menos de acordo com os iranianos.

Carter baixou a caneta laser e se virou para encarar os espectadores.

Nosso governo suspeita há muito tempo de que essas quatro localizações são apenas a ponta do iceberg, e de que os iranianos também estão construindo uma rede de usinas subterrâneas de enriquecimento. Agora, graças aos nossos amigos de Tel Aviv, parece que podemos provar nossas desconfianças. E acredi­tamos que Martin Landesmann, presidente da Global Vision Investments, esteja ajudando os iranianos nesse processo.

Carter olhou para a delegação israelense.

Embora todos nós tenhamos passado as últimas 72 horas olhando para as mesmas informações que coletamos de Landesmann, Rimona Stern foi a primeira a conseguir ligar os pontos. Para quem não a conhece, Rimona é uma ex-major da Força de Defesa Israelense, uma excelente agente de campo e uma das analistas de inteligência mais experientes do país. Também é sobrinha de nin­guém menos que Ari Shamron. Portanto, aconselho a todos que andem na linha.

Shamron sorriu e olhou para Rimona com atenção quando ela se levantou e tomou o lugar de Carter na frente da sala. Sem uma palavra, passou para a imagem seguinte do PowerPoint. Era outro mapa do Irã, só que dessa vez apenas uma localização estava marcada.

A cidade sagrada de Qom...

Rimona começou dizendo que foi em Qom que encontraram a prova de que os mulás estavam mentindo. A cidade acabou com qualquer esperança de que o programa nuclear do Irã tivesse algum outro propósito além da produção de armas. Por que outra razão o país ocultaria uma instalação de enriqueci­mento de urânio nas profundezas de uma montanha no deserto? E por que se recusaria a revelar a existência da usina à Agência Internacional de Energia Atômica, agente fiscalizador das Nações Unidas? Mas, como Rimona ressaltou, Qom tinha um problema irritante: fora projetada para abrigar apenas 3 mil centrífugas. E, se as centrífugas fossem as IR-1 iranianas, a cidade só seria ca­paz de manufaturar urânio enriquecido suficiente para produzir uma bomba a cada dois anos, o que não era o bastante para transformar o país numa potência nuclear plena, como desejava.

O que significa que Qom é inútil - disse Rimona. - A não ser, é claro, que haja outras como ela espalhadas pelo país. Duas instalações com 6 mil IR-1 funcionando ao mesmo tempo poderiam produzir material suficiente para fazer uma bomba por ano. Mas e se houver quatro instalações e 12 mil centrífugas? Ou oito instalações e 24 mil centrífugas?

Foi Tom Walker, a contraparte de Rimona na CIA, que respondeu:

Nesse caso o Irã seria capaz de produzir urânio enriquecido suficiente para construir um arsenal nuclear efetivo em questão de meses. Eles podem expulsar os inspetores nucleares do país e romper os laços com as agências nucleares. E se a cadeia de instalações secretas estiver bem escondida e protegida, não há praticamente nada que possamos fazer para impedi-los.

Certo - concordou Rimona. - Mas e se as centrífugas não forem porcarias instáveis como a IR-1? E se forem similares aos modelos P-2, usados pelo Paquistão? Ou até melhores? E se tiverem sido projetadas na Europa, calibradas de acordo com os mais altos padrões e manufaturadas sob condições que impeçam o acúmulo de impurezas como poeira?

Dessa vez foi Adrian Carter quem respondeu:

Nesse caso, veremos um Irã nuclear em muito pouco tempo.

Sim. E acredito que é exatamente isso que está acontecendo. Enquanto o mundo civilizado conversava, hesitava, adiava e trocava apertos de mão, os ira­nianos trabalhavam em segredo para conquistar suas velhas ambições nuclea­res. Eles estão comprometidos com as práticas enganadoras clássicas de khodeh e taqiyya. Blefaram, mentiram e ganharam tempo até abrir caminho em direção a um arsenal nuclear. E Martin Landesmann ajudou em cada etapa do processo. Ele não está vendendo só as centrífugas para os iranianos. Está vendendo as bombas a vácuo, as válvulas e os sistemas de alimentação cruciais que ligam as centrífugas entre si. Em outras palavras, Martin Landesmann está abastecendo a República Islâmica do Irã com tudo o que é necessário para a construção de usinas de enriquecimento de urânio.

Como? - perguntou Carter.

Assim - respondeu Ramona.

 

O próximo mapa da apresentação retratava a massa de terra da Eurásia se estendendo da Europa Ocidental ao mar do Japão. Espalhada pela Alemanha, pela Áustria, pela Suíça e pela Bélgica havia uma constelação de empresas, mais de dez companhias industriais e tecnológicas, incluindo a Keppier Werk GmbH, de Magdeburgo. Todas elas estavam ligadas por linhas pontilhadas levando à cidade de Shenzhen, no sul da China, sede da XTE Hardware and Equipment.

E adivinhem quem é o dono da XTE Hardware and Equipment? - desafiou Rimona.

A Global Vision Investments - respondeu Adrian Carter.

Por meio de diversos negócios de fachada e subsidiárias, claro - acrescen­tou Rimona, com um sorriso sarcástico. - O Sr. Landesmann também tem um sócio poderoso, uma firma chinesa de capital privado sediada em Xangai que acreditamos ser nada menos que uma empresa de fachada para o Ministério de Segurança do Estado.

O serviço secreto chinês - murmurou Steven Clark, do FBI.

Exatamente. - Rimona caminhou até o mapa. - A operação de Landesmann é muito similar ao programa nuclear iraniano a que ela atende. É dispersa, bem escondida e contém sistemas de redundância e contingência. E a melhor parte é que São Martin é completamente intocável, pois toda a cadeia de suprimentos é baseada em tecnologias de dupla utilização vendidas em segunda mão. Martin é esperto demais para vender as centrífugas direto para os iranianos. Em vez disso, vende as peças componentes para a XTE Hardware and Equipment. Em seguida, os chineses vendem o produto final para empresas em Dubai e na Ma­lásia, que por sua vez o entregam para o Irã.

Você sabe dizer há quanto tempo isso está acontecendo? - perguntou Cynthia Scarborough, do Conselho de Segurança Nacional.

Não precisamente, mas podemos fazer uma estimativa. Sabemos que Landesmann comprou a Keppier Werk em 2002 e começou a acrescentar outras firmas de tecnologia industrial ao seu grupo secreto pouco tempo depois.

Então estamos falando de anos - concluiu Scarborough.

Vários anos - retrucou Rimona.

O que significa que é possível que a cadeia secreta de instalações de enriquecimento já esteja ao menos parcialmente completa?

E a nossa hipótese. E o comportamento recente dos iranianos parece con­firmar essa suposição.

Que tipo de comportamento?

Para começar, estão cavando túneis como toupeiras. As fotografias de sa­télite que vocês tiraram mostram que eles estão transferindo cada vez mais seu programa nuclear para o subsolo. E não só em Qom. Construíram novos complexos de túneis em Isfahan e Natanz, e estão trabalhando em várias outras localizações, incluindo Metfaz, Khojir e Parchin. Cavar túneis em encostas de montanhas não é fácil. E com certeza não é barato. Achamos que estão fazendo isso por uma razão óbvia: esconder as usinas e protegê-las de ataques.

O que mais? - perguntou Shepard Cantwell, da CIA.

Natanz - disse Rimona.

O que tem Natanz?

Os iranianos moveram quase duas toneladas de urânio pouco enriquecido, praticamente o estoque inteiro, para uma instalação acima do solo. É quase como se estivessem nos provocando para atacá-los. Por que assumiriam um risco desses?

Imagino que você tenha uma teoria.

A economia do Irã é instável. Os jovens se encontram tão inquietos que estão dispostos a morrer protestando nas ruas. Achamos que os mulás podem realmente estar tentando atrair um ataque para restabelecer sua legitimidade com o povo iraniano.

Mas eles estão dispostos a perder duas toneladas de urânio pouco enrique­cido no processo?

Talvez, se tiverem outras instalações secretas funcionando a pleno vapor. Nesse caso, um ataque contra Natanz lhes daria uma desculpa para expulsar os inspetores das Nações Unidas e renunciar à participação no Tratado de Não Proliferação Nuclear.

O que lhes possibilitaria buscar um arsenal nuclear abertamente - salientou Cynthia Scarborough. - Assim como os norte-coreanos.

Exatamente, Srta. Scarborough.

E qual é a sua recomendação?

Rimona desligou o PowerPoint.

Impedi-los, é claro.

 

Existe um momento em reuniões desse tipo no qual aqueles que juntam as informações de inteligência se separam dos que a analisam. Esse momento chegou no fim da apresentação de Rimona, quando Adrian Carter se levantou e começou a procurar distraidamente por seu cachimbo nos bolsos do paletó. Quatro outros homens também se levantaram e o seguiram pelo corredor central até a sala de estar. A lareira estava acesa. Shamron aqueceu as mãos manchadas no calor das chamas antes de se sentar na cadeira mais próxi­ma. Navot se sentou ao seu lado e Gabriel ficou em pé, andando devagar pelos cantos da sala. Graham Seymour e Carter ocuparam lados opostos do sofá, o primeiro em uma pose de comercial de loja de roupas e o segundo como um médico se preparando para dar más notícias a um paciente terminal.

Quanto tempo? - perguntou Carter, finalmente. - Quanto tempo até eles conseguirem fechar o negócio e construir a primeira arma nuclear?

Gabriel e Shamron deixaram a resposta para Uzi Navot.

Até a Agência Internacional de Energia Atômica finalmente concluiu que os iranianos já têm capacidade para construir uma bomba. E, se conseguirem comprar centrífugas de ponta de Martin Landesmann, vão precisar gerar um abastecimento constante de combustível...

Quanto tempo, Uzi? - repetiu Carter.

Um ano, no máximo. Talvez antes.

Carter carregou seu cachimbo.

Só para registrar, cavalheiros, meus superiores na Casa Branca ficariam gra­tos se vocês puderem se abster de atacar as instalações nucleares iranianas agora e em qualquer momento no futuro.

A Casa Branca deixou seus sentimentos muito claros para nós.

Estou repetindo apenas para que não haja qualquer confusão.

Não há. E, aproveitando que estamos falando abertamente, ninguém tem menos vontade de atacar o Irã do que nós. Não estamos lidando com mais uma facção da Organização para a Libertação da Palestina aqui. Trata-se do Império Persa. Se atacarmos, eles vão atacar de volta. Já estão armando o Hezbollah e o Hamas para uma guerra por procuração e preparando as redes de terror ao redor do mundo para ataques contra alvos israelenses e judeus.

Também vão transformar o Iraque num caldeirão flamejante e o Golfo Pér­sico em uma zona de guerra - acrescentou Carter. - O preço do petróleo vai disparar, o que vai afundar a economia global. E o mundo vai culpar vocês, naturalmente.

Sempre culpam a gente - disse Shamron -, já estamos acostumados.

Carter acendeu o cachimbo com um fósforo. Sua próxima pergunta foi feita através de uma nuvem de fumaça.

Vocês têm certeza sobre a conexão chinesa?

Já estamos de olho na XTE há algum tempo. Os memorandos que esca­vamos no laptop de Martin só confirmaram nossas suspeitas. - Navot fez uma pausa. - Mas não creio que você esteja surpreso com o envolvimento da China nessa questão.

Nada que a China faça hoje em dia me surpreende. Especialmente quando se trata do Irã. O país é o segundo maior fornecedor de petróleo para a China, e os gigantes da energia controlados pelo Estado chinês investiram dezenas de bilhões de dólares em desenvolvimento de petróleo e gás iraniano. Para nós está muito claro que os chineses não encaram o Teerã como uma ameaça, mas como um aliado. E não estão nem um pouco preocupados com a possibilidade de um Irã nuclear. Aliás, a idéia pode até mesmo agradá-los.

Eles acham que isso vai reduzir o poder americano no Golfo Pérsico?

Exatamente - concordou Carter. - E, como os Estados Unidos possuem uma dívida de centenas de milhões de dólares com a China, não podemos nos manifestar. Nós os procuramos em diversas ocasiões para reclamar sobre armas e materiais proibidos fluindo de seus portos para o Irã, e a resposta foi sempre a mesma. Eles prometem investigar a situação, mas nada muda.

Não estamos sugerindo recorrer aos chineses - observou Navot. - Nem à Suíça, à Alemanha, à Áustria ou a qualquer outro país envolvido na rede de distribuição. Já sabemos que é uma perda de tempo. O interesse nacional e a simples ganância são grandes trunfos. Além do mais, a última coisa que queremos é confessar aos suíços que estamos espionando um de seus homens de negócios mais proeminentes.

Quantas centrífugas vocês acham que Martin já vendeu aos iranianos?

Não sabemos.

Quando foi o primeiro carregamento?

Não sabemos.

E o último?

Não sabemos.

Carter abanou a nuvem de fumaça à sua frente para longe.

Muito bem, então. Por que não nos diz o que vocês sabem?

Sabemos que o relacionamento tem sido lucrativo e que continua a existir. Mas o mais importante é que sabemos que em um futuro próximo um carrega­mento grande está agendado para ir da China a Dubai e de lá para o Irã.

Como vocês conseguiram essa informação?

Estava em um arquivo temporário que resgatamos do disco rígido de Mar­tin. Era um e-mail criptografado que ele recebeu de alguém chamado Ulrich Müller.

Carter sugou a ponta de seu cachimbo em silêncio.

Müller? - perguntou, finalmente. - Vocês têm certeza?

Absoluta - respondeu Navot. - Por quê?

Porque deparamos com Herr Müller quando investigamos a Zentrum Security. Ele era do serviço secreto suíço e um canalha de primeira categoria. Martin e Müller se conhecem há muito tempo. Müller faz o trabalho sujo de Martin.

Como administrar uma rede de tráfico nuclear que se estende da Europa Ocidental até o sul da China e de volta ao Irã?

Faria sentido Müller agir como laranja de Martin nesse negócio. Martin não iria querer os iranianos nem perto da GVI. Seria melhor para ele deixar alguém como Müller cuidar dos detalhes.

Carter parou de falar, alternando o olhar entre Navot e Shamron. Gabriel ainda estava dando voltas pela sala.

Os comentários finais de Rimona deram a entender que os senhores têm uma idéia do que fazer em seguida - disse Carter. - Como seus parceiros nessa iniciativa, Graham e eu gostaríamos de saber em que estão pensando.

Navot olhou para Gabriel, que finalmente parou de andar.

O material que coletamos do laptop de Martin foi útil, mas limitado. Ainda há muitas coisas que não sabemos, como o número de unidades envolvidas, as datas de entrega, o método de pagamento, as empresas de remessa etc.

Suponho que saiba onde pode encontrar essa informação.

Num computador localizado na margem oeste do lago Genebra - respon­deu Gabriel. - Trezentos e setenta e sete metros acima do nível do mar.

Na Villa Elma?

Gabriel assentiu.

Uma invasão? - perguntou Carter, incrédulo. - É isso que você está suge­rindo? Invadir uma das residências mais protegidas da Suíça, um país conhe­cido pela vigilância excessiva de seus cidadãos?

Sem receber resposta, Carter se virou de Gabriel para Shamron.

Não preciso lembrá-lo das armadilhas de operar na Suíça, preciso, Ari? Aliás, estou me recordando de um incidente há cerca de dez anos, quando um time inteiro do Escritório foi preso ao tentar grampear o telefone de um suspeito de terrorismo.

Ninguém está falando em invadir a Villa Elma, Adrian.

Então o que vocês têm em mente?

Foi Gabriel quem respondeu:

Daqui a quatro dias, Martin Landesmann dará uma grande festa de arreca­dação de fundos para 300 dos seus amigos mais próximos e mais ricos. Preten­demos comparecer.

É mesmo? E como vocês vão entrar? Vão se vestir de garçons e se esgueirar cozinha adentro com canapés e caviar, ou estão pensando em simplesmente derrubar os portões?

Vamos como convidados, Adrian.

E como vão conseguir isso?

Gabriel sorriu.

Já temos um convite.

Zoe? - perguntou Graham Seymour.

Gabriel assentiu.

Por acaso você se lembra das palavras âmbito limitado e duração curta?

Eu estava lá, Graham.

Ótimo - disse Seymour. - Então talvez se lembre de que fizemos uma pro­messa. Pedimos a Zoe que realizasse uma tarefa simples. E dissemos que depois de completar o serviço, ela poderia seguir em frente com sua vida, com a certeza de nunca ter que lidar com nossos problemas novamente.

A situação mudou.

Então você quer que ela invada um escritório muito bem protegido no meio de uma grande festa? Fazer isso já seria difícil e perigoso para um agente vete­rano. Para uma recruta novata e sem experiência... impossível.

Não vou pedir que Zoe invada o escritório de Martin, Graham. Tudo o que ela tem que fazer é aparecer na festa. - Gabriel fez uma pausa e então acrescen­tou: - Com um acompanhante a tiracolo, é claro.

Um acompanhante que você vai providenciar?

Gabriel assentiu.

Algum candidato? - perguntou Adrian Carter.

Sim, um.

Imagino que você não esteja pensando em armar um encontro entre ela e Ari ou Eli Lavon, então só sobra Mikhail.

Ele fica ótimo de terno.

Tenho certeza de que sim. Mas passou por maus bocados na Rússia. Está pronto para algo desse porte?

Gabriel assentiu.

Ele está pronto.

O cachimbo de Carter tinha se apagado. Ele imediatamente colocou mais tabaco e acendeu um fósforo.

Preciso lembrar que agora temos acesso a tudo o que Martin faz pelo computador e por telefone? Se a operação em Genebra que você propõe falhar, po­demos perder tudo.

E se Martin decidir mudar de telefone, ou seu serviço de segurança fizer uma varredura no laptop e descobrir softwares que não deveriam estar lá?

Aonde você quer chegar?

Nossa janela para dentro do mundo de Martin poderia se fechar num piscar de olhos - raciocinou Gabriel, estalando os dedos para ilustrar o argumento. - Temos uma chance de entrar na Villa Elma de forma inteligente. Considerando o que sabemos sobre a proximidade dos iranianos de uma arma de destruição em massa, parece que nossa única alternativa é aproveitar essa chance.

Seu argumento é convincente, Mas esta discussão não vai levar a lugar ne­nhum a não ser que Zoe concorde em voltar. - Carter olhou para Seymour. - Ela vai concordar?

Acho que pode ser convencida. Mas o primeiro-ministro vai ter que apro­var a operação pessoalmente. E não tenho dúvida de que meus rivais do MI6 vão exigir um papel na operação.

Eles vão ter que ficar de fora - decretou Gabriel. - Essa ação é nossa, Graham, não deles.

Vou dar o recado - disse Seymour, indicando com os olhos o homem do MI6 na sala de jantar. - Mas tem mais uma coisa que ainda não discutimos.

O quê?

O que você propõe que façamos se encontrarmos o carregamento de centrífugas?

Se encontrarmos as centrífugas... - A voz de Gabriel se perdeu. - Basta dizer que as possibilidades são ilimitadas.

 

Gerald Malone, presidente executivo da Latham International Media, deu o golpe às três da tarde no dia seguinte, na forma de um e-mail para todos os funcionários do Financial Journal escrito em sua prosa monótona característica. Pelo visto, esforços recentes para controlar os custos tinham se mostrado insuficientes para manter o jornal como um negócio viável em seu formato atual. Portanto, a administração da Latham não tinha escolha a não ser impor reduções drásticas e imediatas de pessoal. Os cortes seriam profundos e abrangentes, e a divisão editorial sofreria o maior número de perdas. O time investigativo especial liderado por Zoe Reed, porém, conseguiu se manter visi­velmente imune a qualquer medida. Esse foi o presente de despedida de Jason Turnbury, que estava prestes a se unir ao mesmo grupo administrativo que tinha acabado de reduzir o Financial Journal às ruínas.

Assim, foi com um grande sentimento de culpa que Zoe ficou na sua mesa naquela tarde, assistindo ao tradicional empacotamento de bens pessoais que se seguia a qualquer demissão em massa. Enquanto ouvia os discursos de despedida pontuados por lágrimas, pensou que talvez fosse hora de deixar o jornal e aceitar o emprego na televisão que a aguardava em Nova York. E, não pela pri­meira vez, pegou-se em devaneios sobre o notável grupo que tinha conhecido no esconderijo em Highgate. Surpreendentemente, sentia falta da companhia de Gabriel e de seu time de uma forma que nunca imaginou. Sentia falta da determinação deles para atingir seus objetivos e da crença inabalável de que sua causa era justa, sensações que ela costumava ter quando entrava na redação do jornal. Porém, mais do que qualquer outra coisa, sentia falta da atmosfera de cumplicidade do esconderijo. Algumas horas por noite, ela tinha sido parte de uma família - barulhenta, briguenta, petulante e às vezes disfuncional, mas ainda assim uma família.

Por razões que não eram claras para Zoe, parecia que a família a tinha abandonado. Durante a viagem de trem para Paris, o agente com cabelos curtos escuros e cicatrizes no rosto a parabenizara discretamente por sua eficiência, mas depois ninguém mais dera qualquer sinal de vida. Nenhum telefonema, nenhum e-mail, nenhum encontro encenado na rua ou no metrô, nenhuma convocação à sede do MI5 para agradecer pelos serviços prestados. Às vezes tinha a sensação de estar sendo vigiada, mas talvez fosse apenas uma ilusão. Para Zoe, acostumada com a recompensa instantânea do jornalismo diário, a parte mais difícil era não saber se seu trabalho tinha feito diferença. Sim, ela tinha consciência de que a operação em Paris havia corrido bem, mas não fazia a menor idéia se tinha produzido o tipo de inteligência de que Gabriel e Graham Seymour precisavam. Chegou à conclusão de que provavelmente nunca saberia.

Quanto aos seus sentimentos por Martin Landesmann, lembrou-se de ter lido certa vez que o prazo de recuperação pelo fim de um relacionamento amo­roso é igual ao período de duração do relacionamento em si. Porém, Zoe desco­briu que o tempo pode ser radicalmente reduzido quando o ex-amante vende, em segredo, materiais proibidos para a República Islâmica do Irã. Seu ódio por Martin agora era intenso, assim como o desejo de cortar relações com ele. Infe­lizmente isso não era possível, já que sua vida particular agora era uma questão de segurança nacional. O MI5 tinha pedido que ela mantivesse as linhas de co­municação abertas, de forma a evitar qualquer suspeita por parte de Martin. O que ainda não estava claro, no entanto, era se desejavam que ela comparecesse à festa de gala beneficente de Martin em Genebra. Zoe não tinha a menor vontade de entrar na casa de Martin. Aliás, nunca mais queria vê-lo.

Seus pensamentos foram interrompidos por Jason Turnbury, que apareceu na redação para pronunciar o discurso obrigatório pós-massacre sobre a honra que tinha sido trabalhar com um grupo tão talentoso e dedicado de jornalistas.

Quando terminou, os funcionários começaram a encher lentamente os eleva­dores como sobreviventes confusos de um desastre natural. A maioria deles foi direto ao Anchor, o histórico bar que ficava ao lado do prédio do Financial Journal, e começou a encher a cara. Zoe se sentiu inclinada a dar uma passada lá, mas logo se viu desesperada para escapar dali. Secou alguns olhos úmidos, deu tapinhas em ombros curvados e saiu à francesa para a chuva pesada que caía na rua.

Não havia nenhum táxi disponível, então ela atravessou a ponte Southwark a pé. Um vento gelado uivava no rio Tâmisa. Zoe ergueu o guarda-chuva com­pacto, inútil contra a chuva que vinha na diagonal. Ao chegar ao fim da ponte, reconheceu uma figura familiar parada na calçada, parecendo indiferente ao clima. Era o homem de meia-idade que tinha feito o contato inicial com ela na noite em que fora recrutada. Quando se aproximou, ele cobriu a boca com a mão, como se estivesse tossindo. No mesmo instante, uma limusine se materia­lizou e parou ao lado de Zoe. A porta de trás se abriu e Graham Seymour acenou para que ela entrasse.

Ouvi dizer que cabeças rolaram no seu jornal agora há pouco - comentou Seymour quando o carro começou a andar.

Tem alguma coisa que você não saiba?

Estava passando na BBC.

Entraram à esquerda na Upper Thames.

Eu pego o metrô do outro lado.

Preciso conversar com você.

Imaginei.

Gostaríamos de saber se você tem planos para o fim de semana.

Um livro medíocre. Alguns DVDs. Talvez uma caminhada em Hampstead Heath, se não estiver chovendo.

Parece bastante tedioso.

Eu gosto de tédio, Sr. Seymour. Especialmente depois da operação em Paris.

Temos algo um pouco mais emocionante para você, se estiver interessada.

O que o senhor quer que eu faça agora? Invada um banco? Derrube uma célula terrorista da Al-Qaeda?

Tudo o que você tem que fazer é ir a uma festa e estar linda.

Acho que consigo fazer isso. Vou ter que seguir algum planejamento?

Sinto muito em dizer que sim.

Então, de volta a Highgate?

A princípio, não. Você tem um jantar marcado no Mirabelle antes.

Com quem?

Seu novo namorado.

É mesmo? Como ele é?

Jovem, bonito, rico e russo.

Ele tem um nome?

Mikhail Danilov.

Que nobre.

Na verdade, ele não tem nada de nobre. E é justamente por isso que vai estar ao seu lado quando você entrar na casa de Martin Landesmann no sábado à noite.

 

Como tudo ligado à operação Obra-prima, o relacionamento deles acon­teceu em uma velocidade vertiginosa. Eles almoçavam juntos, olhavam as vitrines na rua New Bond, andavam pelos mercados de Covent Garden e até foram vistos de mãos dadas numa matinê no cinema da praça Leicester. Por ser muito discreta no trabalho em relação à sua vida pessoal, Zoe não mencionou ninguém novo em sua vida, embora todos achassem que seu humor no escri­tório havia melhorado muito. Isso levou a uma onda de especulações absurdas por parte dos colegas quanto à identidade de seu novo namorado, assim como à fonte de sua óbvia fortuna. Alguém sugeriu que ele tinha enriquecido traba­lhando com imóveis em Moscou antes da crise. Outra pessoa disse que a fonte do dinheiro era o petróleo russo. E de algum lugar da redação surgiu o boato completamente infundado de que ele era um traficante de armas - assim como o recém-falecido Ivan Kharkov, que Deus tivesse piedade de sua alma miserável.

A equipe do Financial Journal nunca chegaria a conhecer a identidade verdadeira do russo alto e bonito que acompanhava Zoe pela cidade. Também não descobriria que o novo casal passava a maior parte do tempo isolado, dentro de um prédio vitoriano de tijolos vermelhos localizado no fim de um beco sem saída em Highgate. Qualquer dúvida que Zoe pudesse ter sobre o sucesso da operação em Paris foi eliminada segundos após seu retorno, já que a primeira voz que ouviu ao entrar na sala de estar foi a de Martin Landesmann. Vinha das caixas de som de um computador no canto da sala e continuaria fluindo, praticamente ininterrupta, pelos próximos três dias de preparação. Embora Zoe estivesse feliz por seu trabalho ter dado certo, achou a presença constante da voz de Martin perturbadora. Pensou que ele merecia, sim, ter seus assuntos mais íntimos invadidos, mas não pôde deixar de se sentir inquieta quanto aos ilimitados poderes de vigilância detidos pelos serviços de inteligência mundiais. A tecnologia móvel tinha dado aos governos a capacidade de monitorar as palavras, os e-mails e, até certo nível, mesmo os pensamentos dos cidadãos como num filme de ficção científica. O admirável mundo novo tinha chegado.

A equipe de agentes trabalhando no esconderijo era em grande parte a mesma, com duas adições dignas de nota: um octogenário de olhos aquosos e um homem de cabelos avermelhados e físico de lutador. Zoe percebeu logo de cara que eram figuras de autoridade. Nunca ficaria sabendo, no entanto, que eram o ex-chefe e o chefe do serviço de segurança secreto israelense.

Embora seu papel em Genebra fosse, em grande parte, garantir a entrada na propriedade de Martin, Zoe precisava estar preparada para o pior panorama possível. Assim, seu treinamento relâmpago se focou basicamente no aprendizado de uma história trágica. Era a história de um russo bonito chamado Mikhail Danilov, por quem Zoe tinha se apaixonado. Ele havia se aproveitado da vulnerabilidade dela, manipulando-a para que o convidasse à festa de Martin. Gabriel toda hora pontuava que essa história seria a única proteção de Zoe no caso de a operação fracassar. Por isso os passeios pela rua New Bond e por Covent Garden, e a tarde no cinema. "Guarde cada detalhe sórdido nessa sua memória formidável", aconselhou Gabriel. "Aprenda a história como se fosse uma reportagem escrita por você mesma."

Ao contrário da maior parte das preparações intensivas, a de Zoe não foi uma via de mão única. Na verdade, numa curiosa inversão de papéis, Zoe foi capaz, ao longo das sessões finais em Highgate, de contribuir significativamente para o planejamento, por ser a única entre os presentes que já tinha colocado os pés na residência encantadora à beira do lago. Foi Zoe quem descreveu o protocolo de entrada no portão da frente, na rua de Lausanne, e foi ela quem demonstrou a provável localização dos seguranças de Martin dentro da mansão. Shamron ficou tão impressionado que pediu para Navot considerar mantê-la na folha de pagamento do Escritório.

Algo me diz que nossos parceiros britânicos podem não gostar da sugestão - respondeu Navot.

Parcerias entre serviços de segurança são como casamentos baseados na atração física, Uzi. Cheios de paixão por um tempo, mas quase sempre termi­nam mal.

Não sabia que você era conselheiro matrimonial, chefe.

Sou um espião, Uzi. Sei tudo sobre os mistérios do coração.

A presença de tantas personalidades fortes num espaço tão pequeno podia ter sido um convite ao desastre. Mas, de forma geral, a atmosfera no decorrer dos três dias intensos de preparação se manteve civilizada, ao menos quando Zoe estava presente. Gabriel retomou o controle do planejamento operacio­nal, mas foi Navot quem representou o Escritório nos encontros entre agências na sede do MI5. Em muitos sentidos, era como se Navot fosse uma debutante sendo apresentada à sociedade, e quem testemunhou sua conduta durante as reuniões ficou impressionado com seu foco e seu domínio sobre as questões que apresentou. Todos concordaram que o Escritório parecia estar em boas mãos - a não ser, claro, que a promissora carreira de Navot estivesse para sair dos trilhos por causa de algum desastre nas margens do lago Genebra.

Foram as lembranças de desastres passados que assombraram Gabriel du­rante os dias em Highgate. Ele não parava de alertar os integrantes do time para que não achassem que o jogo já estava ganho por causa do sucesso obtido na operação em Paris. Eles agora estariam no território de Martin. Portanto, todas as vantagens seriam dele. Como seu pai, Martin tinha se mostrado disposto a recorrer à violência quando ameaçado. Assassinara um repórter para manter em segredo seus negócios com o Irã e certamente mataria de novo, mesmo que se tratasse de uma repórter com quem dividia a cama.

Mas, de vez em quando, até Gabriel fazia uma pausa e se surpreendia com o percurso improvável que tinha percorrido para alcançar esse ponto - um per­curso que começara em Amsterdã, na sala de estar de Lena Herzfeld. Gabriel quase não parava de pensar em Lena e mantinha a lista de nomes e números de contas bancárias sempre ao seu lado. Katz, Stern, Hirsch, Greenberg, Kaplan, Cohen, Klein, Abramowitz, Stein, Rosenbaum, Herzfeld... Shamron se referia a eles como os membros invisíveis do time de Gabriel.

Shamron demonstrou uma moderação admirável dentro do esconderijo, mas todo dia, sentado num banco de madeira em Parliament Hill, passava uma hora compartilhando com Gabriel seus receios sobre o caminho a ser seguido pela operação. Tinha começado o último encontro expressando sua preocupação com o homem principal de Gabriel.

A operação inteira depende de uma decisão de Mikhail. Ele vai conseguir entrar no escritório de Martin e permanecer lá por uma hora e 15 minutos sem que ninguém note sua ausência? Se ele tomar a decisão errada, essa festa vai entrar para a história.

Você acha que ele pode ser agressivo demais?

Não necessariamente. Mikhail estava no fundo do poço quando voltou da Rússia. Quase tão mal quanto você e Chiara. Depois do que passou naquela floresta, talvez não consiga assumir os riscos necessários para fazer o que deve ser feito.

Ele foi treinado pelo Sayeret e pelo Escritório, Ari. Não vai ser Mikhail Abramov que vai entrar na Villa Elma amanhã à noite. Vai ser Mikhail Danilov, milionário russo e acompanhante de Zoe Reed.

Era mesmo necessário dar 100 mil euros do meu dinheiro para a fundação de Martin?

O Sr. Danilov insistiu.

Não diga.

Ele quis causar uma boa primeira impressão. E também não é o tipo de homem que goste de ser visto como um aproveitador. É muito rico, e sempre paga pelo que consome.

Vamos torcer para que o Sr. Danilov tome a decisão certa em relação a aces­sar ou não o computador. Não só pelo bem dele, mas pelo de Zoe, sem contar o de seu amigo Uzi Navot. - Shamron acendeu um cigarro. - Fiquei sabendo que ele já conquistou muitos amigos e admiradores no MI5 e no MI6.

E quanto a você?

Admito que fiquei impressionado com a estréia de Uzi na cena internacio­nal. Se essa operação der certo, vai ser um dos maiores triunfos na história do Escritório. E pensar que Uzi tentou acabar com ela antes mesmo que pudesse alçar voo. - Shamron olhou para Gabriel. - Talvez da próxima vez ele não deixe o ego ficar no caminho quando você estiver tentando lhe dizer algo.

Gabriel não respondeu.

Notei que você não incluiu sua esposa no time de Genebra - disse Shamron. - Imagino que não tenha sido por esquecimento.

Ela não ficou satisfeita, mas quero que esteja aqui com você e Uzi.

Talvez você devesse fazer o mesmo. - Shamron fumou em silêncio por al­guns instantes. - Não preciso lembrar que você agiu na Suíça há pouco tempo, ou que na ocasião houve uma grande carnificina envolvida. É possível que os suíços estejam cientes de suas visitas recentes ao país. Se qualquer coisa der er­rado amanhã à noite, pode ser que demore um bom tempo para que eu consiga tirar você de lá.

Não vou deixar nenhuma outra pessoa encarregada da operação em Gene­bra, Ari.

Imaginava que você diria isso. Só tente se lembrar do 11o mandamento: não seja pego.

Mais algum conselho?

Traga Zoe de volta viva. - Shamron largou o cigarro no chão. - Não quero que a noite de estréia de Uzi em Londres seja a última.

 

Se havia uma dificuldade operacional com que o Escritório sofria, era a questão dos passaportes. Na maioria dos casos, agentes secretos israelenses não podiam portar passaportes israelenses, já que cidadãos de Israel não têm permissão para entrar em países alvo, ou então, como no caso da Suíça, são encarados com desconfiança pelas autoridades locais. Portanto, após uma rodada de intensas negociações, ficou decidido que os oito membros do time de Genebra viajariam com passaportes falsos americanos. Foi um gesto generoso mas necessário, pois garantiu que a operação não desse com os burros n'água já no controle alfandegário. Mesmo assim, Gabriel foi precavido e enviou o time para Genebra em três vôos diferentes, seguindo três rotas distintas, como o Escritório costumava fazer. Algumas tradições são difíceis de superar, mesmo num mundo globalizado.

Gabriel pegou o vôo KLM 1022, que partiu do Aeroporto Internacional de Londres e chegou ao Aeroporto Internacional de Genebra às dez da noite, após uma breve parada em Amsterdã, que Gabriel achou adequada. Ele tinha um passaporte americano que o identificava como Jonathan Albright e uma pilha de cartões de visitas que diziam que trabalhava para um banco de investimentos sediado em Greenwich, Connecticut. Levou roupas que não lhe pertenciam e avaliações de desempenho que não compreendia. De fato, quando Gabriel saiu do esconderijo em Highgate naquele dia pela última vez, carregava apenas mentiras, com exceção do olhar da linda mulher de cabelos escuros que o observava da janela do segundo andar e da lista de nomes e números de contas guardada com cuidado no compartimento com zíper de sua mala de mão.

 

Os primeiros caminhões apareceram nos portões da Villa Elma às nove da manhã. Daquele momento em diante começaram a chegar numa corren­te ininterrupta, despejando seus carregamentos no gracioso pátio de entrada de Martin Landesmann como os despojos de uma guerra distante. Havia caixas de vinho e destilados e baús com gelo cheios de siris frescos vindos direto do Alasca. Havia carrinhos com pilhas de mesas e cadeiras e caixas de madeira polida cheias de porcelana, cristal e prata. Havia equipamentos musicais para uma orquestra inteira, um pinheiro de 15 metros para decorar o saguão de entrada e luzes suficientes para iluminar uma cidade de porte médio. Uma equipe de técnicos audiovisuais chegou carregando um projetor de qualidade cinematográfica e, no final da tarde, apareceram duas mulheres vestidas de bege levando uma dúzia de animais silvestres à beira da extinção que São Martin estava supostamente tentando preservar, gastando para isso uma pequena fortuna. Quanto ao projetor, Martin pretendia entediar os convidados com o documentário de uma hora sobre os perigos do aquecimento global que produzira. O contexto era um tanto irônico, visto que a Europa estava passando pelo inverno mais rigoroso dos últimos tempos.

A intensidade dos preparativos na Villa Elma era o oposto da tranqüilidade no Grand Hotel Kempinski, localizado no Quai de Mont-Blanc, a cerca de 1,5 quilômetro do lago. No saguão ornamentado, sob um teto baixo repleto de luzes pequenas, funcionários e camareiros conversavam em voz baixa, como se esti­vessem cercados de crianças adormecidas. A lareira a gás decorativa aquecia o salão vazio, enquanto relógios de ouro e colares de pérolas reluziam, sedutores, nas vitrines de lojas desertas. Mesmo às três da tarde, horário em que antes o salão fervilhava de atividade, o silêncio era opressor. Na opinião da diretoria, o declínio recente nos negócios se devia ao clima e ao colapso do mercado imobiliário num determinado emirado do Golfo conhecido por seus excessos. Para piorar a situa­ção, havia pouco tempo os eleitores suíços tinham ofendido muitos dos patronos mais generosos e confiáveis do Kempinski ao aprovar um veto nacional proibindo a construção de minaretes. Assim como a maior parte dos habitantes de Genebra, a gerência estava começando a se perguntar se o confiável empreendimento de negócios popularmente conhecido como Suíça tinha ficado para trás.

Foi por isso que todos ficaram felizes quando Zoe Reed, a jornalista britânica que estava nas telas de TV no mundo inteiro, entrou no saguão do Kempinski às 15h15 acompanhada pelo russo coberto de ouro chamado Mikhail Danilov. Após se hospedarem em quartos separados, o Sr. Danilov enviou uma camisa e um smoking para passar na lavanderia e foi à academia do hotel para uma sessão de exercícios que posteriormente algumas testemunhas definiriam como apavorante. Já a Srta. Reed passou alguns minutos passeando pelas lojas no sa­guão e então seguiu para o salão de beleza, onde cortou o cabelo e se maquiou para o evento na Villa Elma. Havia duas outras clientes no salão, além de uma mulher que tinha estado no esconderijo em Highgate. Sentado na sala de espera encontrava-se o inglês elegante que Zoe conhecia como David, folheando uma revista Vogue com uma expressão de tédio conjugal e resmungando algo a res­peito da qualidade do serviço de quarto.

Eram quase cinco horas quando Zoe deixou o salão e subiu para seus aposen­tos, onde começou a se vestir para a festa. Seu acompanhante ocupava o quarto ao lado do seu e a três portas de distância estava um homem que se hospedara com o nome de Jonathan Albright, vice-presidente executivo de uma empresa chamada Markham Capital Advisers, de Greenwich, em Connecticut. Seu nome verdadeiro era Gabriel Allon, claro, e ele não estava só. Sentado no lado oposto da pequena mesa encontrava-se Eli Lavon. Assim como Gabriel, ele usava fones de ouvido e encarava atentamente a tela de um laptop. O áudio que Lavon ouvia vinha do celular grampeado de Zoe, e o de Gabriel, do telefone de Martin Landesmann. Zoe estava assistindo ao noticiário da BBC que ia ao ar de hora em hora, enquanto Martin discutia os preparativos de segurança para o evento com Jonas Brunner, seu guarda-costas particular.

A reunião dele terminou às 17h03. Martin teve uma conversa breve com o encarregado do planejamento da festa e se encaminhou à sala localizada no canto sudoeste da Villa Elma. Gabriel ouviu os oito toques familiares do código de segurança quando Martin os digitou na fechadura digital - oito números que logo estariam entre Mikhail e os segredos mais bem guardados de Martin. Alguns segundos depois, escutou o som da porta do escritório se abrindo e fe­chando, seguido pelo ruído dos dedos de Martin no teclado do computador. Parecia que Martin ainda precisava trabalhar um pouco antes da festa. Gabriel também. Passou o fone de ouvido para Eli Lavon e saiu do quarto.

Um aviso de FAVOR NÃO INCOMODAR estava pendurado na maçaneta. Gabriel bateu duas vezes, parou e bateu mais duas vezes. Zoe abriu a porta depois de alguns segundos e o observou pela abertura da corrente de segurança.

O que é? - perguntou ela, fingindo irritação.

Pode abrir, Zoe. Nós varremos seu quarto enquanto você não estava. Está limpo.

Zoe destrancou a porta e deu um passo para o lado. Estava descalça, usando o roupão de banho branco do hotel.

É isso que você vai usar hoje? - perguntou Gabriel.

Preferiria isto ao vestido que Martin me deu.

Ele pode ficar desapontado se você não o usar.

Ele e todos os outros homens na festa.

Gabriel foi até a mesa onde estava o celular de Zoe. Pegou-o, pressionou o botão para desligar e esperou até que a tela ficasse preta.

Tem algo sobre o meu telefone que eu deva saber?

É só uma precaução.

Claro - disse ela, num tom sarcástico. - E eu vim até Genebra só por causa dos belos olhos de Martin Landesmann.

Gabriel colocou o telefone de volta na mesa sem dizer nada.

Só não se esqueça de desativar isso quando tudo terminar. - Ela se sentou na beira da cama. - Você nunca me disse o nome.

Do quê?

Do procedimento que realizamos no celular e no computador de Martin.

Foi inventado no final do século XVII, Zoe. Nem eu sei o nome correto.

E como vocês chamam?

Cada técnico chama de uma forma. Nós chamamos de apoderação.

Como assim, apoderação?

Quando conseguimos pôr as mãos no telefone de um alvo, nós o possuí­mos. Quando conseguimos acessar suas contas bancárias, as possuímos. Quando acessamos o sistema de segurança da casa dele, também o possuímos. E se Mikhail conseguir entrar no escritório de Martin hoje...

Vamos conseguir encontrar as centrífugas?

Gabriel ficou espantado com o uso do "vamos".

Isso - confirmou ele com um aceno de cabeça. - Se tivermos sorte, talvez encontremos as centrífugas.

Quais são as chances?

Difícil dizer.

Suponho que seus homens já tenham feito operações similares antes.

Gabriel hesitou, então respondeu:

Existe uma guerra que não é mais tão secreta se desenrolando na Europa há algum tempo, Zoe. Envolve os iranianos e empresas européias de alta tecnolo­gia. E os computadores dos vilões são uma das nossas melhores armas.

Me dê um exemplo.

Não vou lhe dar um exemplo.

Nem se for hipotético?

Tudo bem. Digamos que um cientista nuclear iraniano hipotético participe de uma conferência hipotética em Berlim. E digamos que nosso cientista hipo­tético tenha anotações num computador hipotético sobre como construir uma ogiva nuclear.

Nesse caso fica difícil acreditar quando o presidente iraniano diz que tem um programa nuclear de fins estritamente pacíficos.

Exato.

E eles estão construindo uma ogiva?

Sem dúvida - respondeu Gabriel. - E estão chegando mais perto a cada dia que passa. Mas, para serem uma potência nuclear eficaz, precisam de um fornecimento estável de urânio altamente enriquecido. E, para isso, precisam de centrífugas. Centrífugas boas. Que não deem defeito. Que tenham uma velocidade de rotação confiável. E que não estejam contaminadas.

As centrífugas de Martin - disse Zoe, em voz baixa.

Gabriel não respondeu. Zoe deu uma olhada no relógio no criado-mudo.

A não ser que você vá me ajudar com o vestido, acho que vou ter que pedir licença.

Só mais um instante. - Gabriel se sentou. - Lembre-se, Zoe, quando Mi­khail fizer a parte dele, é importante que você não aparente estar desacompa­nhada. Agarre-se a alguém. Comece uma conversa. A pior coisa que você pode fazer é ficar quieta ou parecer nervosa. Seja a alma da festa. Entendeu?

Acho que consigo fazer isso.

Gabriel sorriu, mas logo ficou sério.

Agora me diga mais uma vez o que vai acontecer se Mikhail for pego.

Eu devo renegá-lo. Devo dizer que ele me manipulou e me convenceu a levá-lo comigo. E em seguida saio da festa o mais rápido possível.

Mesmo que isso signifique deixar Mikhail para trás.

Ela ficou em silêncio por um instante.

Por favor, não me faça dizer isso.

Diga, Zoe.

Mesmo que isso signifique deixar Mikhail para trás.

Não hesite, Zoe. E não olhe para trás. Se um dos seguranças de Martin ten­tar agarrá-la, faça um escândalo, para que todos na festa saibam que está acontecendo alguma coisa. Ele não terá escolha a não ser deixar você sair. - Gabriel fez uma pausa, então acrescentou: - Entendeu, Zoe?

Ela assentiu.

Diga.

Eu vou fazer um escândalo. E vou deixar Mikhail para trás.

Ótimo. Alguma dúvida?

Zoe balançou a cabeça. Gabriel se levantou e lhe entregou o celular.

Ligue quando eu sair. E fique com ele por perto.

Gabriel se dirigiu à porta.

Na verdade, tenho uma dúvida, Sr. Allon.

Ele parou e se virou.

O que aconteceu naquele campo nos arredores de Londres?

Não existe um campo nos arredores de Londres. E também não existe um esconderijo em Highgate. A mente é como um recipiente, Zoe. Vire-o e a memória escorrerá.

Gabriel saiu do quarto sem dizer mais nada. Zoe ligou o celular e começou a se vestir.

Entre os muitos desafios logísticos enfrentados pelo time, havia a questão da aquisição de um automóvel adequado para levar Zoe e Mikhail à festa. Foi impossível alugar um carro em Genebra, já que os outros convidados de Martin já tinham alugado todos os veículos de luxo das redondezas. A única opção, então, foi comprar um carro às pressas. Gabriel se encarregou da tarefa e escolheu um Mercedes Classe S preto completo, usando um cheque de uma das contas operacionais de Navot em Zurique para pagar. Quando as notícias da aquisi­ção chegaram até Highgate, Shamron teve um ataque. Como se não bastasse o Escritório ter gasto 125 mil dólares num carro, tinha que ser um carro alemão.

O Mercedes chegou graciosamente ao estacionamento circular do Kempinski às 18hl5, com Yaakov ao volante. Parecia estar dirigindo um navio-petroleiro singrando por mares traiçoeiros. Quando completou a manobra, informou ao porteiro que tinha ido pegar o Sr. Danilov. O porteiro chamou o Sr. Danilov, que por sua vez chamou a Srta. Reed e o Sr. Albright, da Markham Capital Advisers. O Sr. Albright despachou na mesma hora uma mensagem criptografada a seus superiores em Londres: PARTIDA IMINENTE. Em seguida, olhou para a tela do computador. Uma luz vermelha piscava no canto sudeste da Villa Elma, 377 metros acima do nível do mar.

 

A mensagem de Genebra piscou nas telas do centro operacional da CIA nos subterrâneos da praça Grosvenor. Sentados em seus lugares habituais na fileira de trás estavam Graham Seymour, Adrian Carter e Ari Shamron. Contrariando a tradição, receberam naquela noite dois membros adicionais da equipe Obra-prima: Uzi Navot e Chiara Allon. Os cinco encaravam as telas como passageiros esperando por um voo atrasado. Shamron já estava reviran­do seu velho isqueiro nos dedos, nervoso. Duas voltas para a direita, duas para a esquerda...

Alguém sabe a definição da palavra iminente?

Que está prestes a acontecer - sugeriu Graham Seymour.

Pendurado perigosamente sobre a cabeça de alguém - acrescentou Adrian Carter.

Shamron franziu a testa e olhou para Chiara, que digitou alguns caracteres em seu laptop. Um instante depois, outra mensagem apareceu nas telas na frente da sala.

PARTIDA EM ANDAMENTO...

Qual é o problema? - perguntou Shamron.

O zíper de Zoe emperrou.

E quem consertou?

O Sr. Albright, da Markham Capital Advisers.

Shamron sorriu. Duas voltas para a direita, duas para a esquerda...

 

Mikhail parou diante dos elevadores do sexto andar do Grand Hotel Kempinski e avaliou sua aparência no espelho decorativo de vidro fumê. Estava vestido de forma simples mas elegante, com um smoking, uma camisa social lisa e uma gravata-borboleta tradicional. O paletó tinha uma costura especial para acomo­dar as duas peças de equipamento eletrônico que ele levava na lombar. Para que o nó de sua gravata ficasse pronto, foi necessário um esforço conjunto envol­vendo três agentes da inteligência israelense e uma dose considerável de histeria pré-operacional.

Ele se aproximou do espelho, ajeitou o topete louro e examinou o rosto. Era difícil acreditar que se tratava do mesmo garoto que vivera nos prédios abandona­dos em Moscou. Um garoto que tinha apanhado e levado diariamente cusparadas de outros russos apenas por ter sido amaldiçoado com o nome do chefe de sua família. Um garoto que se mudara para Israel com os pais dissidentes e aprendera a lutar. Mas essa noite ele lutaria de uma forma diferente, contra um homem que fornecia suprimentos para que os mulás do Irã realizassem suas maiores fantasias. Esta noite ele não seria Mikhail Abramov. Seria um russo de verdade, com um nome russo respeitável e uma boa soma de dinheiro nos bolsos russos.

Escutou uma porta se fechando no corredor. Zoe apareceu segundos depois, espetacular em seu vestido Dior. Mikhail beijou-a nas duas bochechas em frente às câmeras do hotel e deu um passo para trás a fim de admirá-la.

Algo me diz que hoje você vai ser o centro das atenções.

Antes eu que você.

Mikhail riu, conduzindo Zoe para dentro do elevador. No saguão, Yossi e Rimona tomavam café perto da lareira enquanto Dina e Mordecai conversa­vam com o recepcionista sobre restaurantes. Mikhail ofereceu o braço a Zoe e a levou em direção à entrada do hotel. Um porteiro os abordou, parecendo preocupado.

Temos um pequeno problema, Sr. Danilov.

Que problema?

Um excesso de veículos.

Pode ser um pouco mais claro? - perguntou Mikhail, usando o tom impa­ciente natural dos ricos, russos ou não. - Estamos atrasados para um compro­misso importante.

O porteiro se virou e apontou através da porta giratória para o Mercedes Classe S. Yaakov estava ao lado da porta traseira, com a mão na maçaneta. Ti­nha a expressão completamente neutra.

Aquele é o seu carro, Sr. Danilov.

Então qual é o problema?

O porteiro apontou para um segundo Mercedes, um Maybach 62S. Dois homens bem-vestidos com sobretudos escuros estavam parados ao lado do porta-malas, com as mãos nos bolsos. Mikhail reconheceu o mais velho pelas foto­grafias de vigilância. Era Jonas Brunner.

E aquele carro - continuou o porteiro - veio buscar a Srta. Reed.

Quem o enviou?

O Sr. Martin Landesmann.

Faça-me um favor, então. Informe aos cavalheiros que a Srta. Reed e eu vamos à festa juntos, no meu carro.

Eles parecem fazer muita questão de levá-la.

Mikhail instruiu Zoe a esperar no saguão e saiu do hotel. Jonas Brunner foi em sua direção e se apresentou.

Você poderia me dizer o que está acontecendo? - perguntou Mikhail.

O Sr. Landesmann programou seu trajeto até a Villa Elma. Perdoe-nos por não ter avisado com mais antecedência. Foi um lapso da nossa parte.

Nossa?

Eu trabalho para o Sr. Landesmann.

Fazendo o quê? - perguntou Mikhail, apesar de já saber a resposta.

Sou uma espécie de ajudante pessoal - respondeu Brunner, de forma evasiva.

Sei. Bem, por favor agradeça ao Sr. Landesmann pela generosidade, mas vamos usar nosso próprio carro.

Acho que isso deixaria o Sr. Landesmann profundamente ofendido. - Brunner estendeu a mão em direção ao Mercedes Maybach. - Por favor, Sr. Danilov. Tenho certeza de que o senhor e a Srta. Reed se sentirão muito confortáveis.

Mikhail se virou e olhou para Zoe, que o observava pelo vidro como se achasse a cena toda meio divertida. Não era, claro. Na verdade, levou Mikhail a ter que tomar sua primeira decisão da noite muito antes do que tinha pre­visto. Recusar a oferta poderia causar desconfiança, mas aceitá-la os deixaria sob o controle de Martin desde o início. Mikhail Abramov queria insistir em ir no próprio carro, mas Mikhail Danilov sabia que não tinha escolha a não ser aceitar. Caso contrário, a noite teria um começo tenso. Olhou para Brunner e conseguiu dar um leve sorriso.

Nesse caso, ficaremos honrados em ir em seu carro. Devo dispensar meu motorista ou precisarei dele para voltar ao hotel?

Nós os traremos de volta quando a festa terminar, Sr. Danilov.

Mikhail se virou e gesticulou para que Zoe saísse. Brunner abriu a porta de trás do Maybach e sorriu.

Boa noite, Srta. Reed.

Boa noite, Jonas.

A senhorita está linda.

Obrigada, Jonas.

Yaakov esperou o carro fazer a curva no Quai de Mont-Blanc e em seguida levou o microfone de pulso aos lábios.

Você ouviu isso?

Ouvi - respondeu Gabriel.

O que devo fazer?

Siga-os. Com cuidado.

 

Trinta segundos depois, uma nova mensagem piscou nas telas abaixo da praça Grosvenor. Shamron encarou Navot.

Quanto aquele carro me custou, Uzi?

Cento e vinte e cinco mil dólares, chefe.

E quanto Mikhail doou para a fundação de Martin?

Cem mil euros.

Uma vez eu roubei um caça russo por menos que isso, Uzi.

O que quer que eu faça, chefe?

Garanta que o carro dure a noite inteira. Quero meu dinheiro de volta.

 

Eles seguiram no sentido norte ao longo da margem do lago, atravessando o elegante e monótono quarteirão diplomático de Genebra. Zoe estava sentada atrás do motorista, com as mãos no colo e os joelhos inclinados para o lado. Mikhail ocupava o lugar atrás de Jonas Brunner, observando o lago em silêncio.

É a primeira vez que vem a Genebra, Sr. Danilov?

Não. Por quê?

O senhor parece muito interessado no lago.

Sempre gostei muito dele.

O senhor vem à cidade com freqüência, então?

Uma ou duas vezes por ano.

A negócios?

Existe outra razão para vir a Genebra?

Algumas pessoas vêm passar as férias.

Sério?

E você interroga todos os convidados de Landesmann, Herr Brunner? Ou só os amigos da amante dele?

Se Zoe estava pensando o mesmo, não deixou transparecer. Voltou carinhosamente os grandes olhos castanhos para Mikhail, depois os virou para a frente de novo. Estavam chegando ao Jardim Botânico. Passaram pelo Palácio das Nações, que parecia flutuar em meio à neblina como um navio grandioso. Mikhail voltou a olhar pela janela e percebeu que Brunner o observava pelo espelho lateral.

O Sr. Landesmann me pediu que agradecesse pela generosa doação que o senhor fez para a Um Só Mundo. Quer falar com o senhor pessoalmente, se tiver a oportunidade.

Isso realmente não é necessário.

Tente dizer isso ao Sr. Landesmann.

Vou tentar - respondeu Mikhail, jovialmente.

Brunner pareceu não entender a ironia. Ele se virou, rígido, pelo visto tendo concluído o interrogatório, e murmurou algumas palavras em alemão no microfone de pulso. Tinham deixado o quarteirão diplomático para trás e estavam seguindo pela rua de Lausanne. Cercas vivas altas e muros de pedra se alinha­vam nos dois lados da rua, ocultando alguns dos imóveis mais caros e exclusivos do mundo. Os portões pareciam ficar cada vez mais ostentosos conforme se afastavam do centro de Genebra, embora nenhum fosse páreo para a elegância imponente da entrada na Villa Elma. Uma guarita de estuque de dois andares se erguia à direita, com sua torre despontando logo acima da linha bem aparada da cerca viva. Havia uma fileira de limusines na rua, esperando que os seguranças da Zentrum Security lhes dessem autorização para entrar. Brunner gesticulou ao motorista para que desse a volta.

Vendo o Mercedes se aproximar, os guardas abriram passagem e o deixaram passar direto pelo portão. Logo à frente, no fim de uma entrada de veículos comprida e cercada de árvores, a Villa Elma reluzia como um bolo de casamento. Outra fila de limusines se estendia desde a entrada, com os escapamentos soltando fumaça. Dessa vez Brunner orientou o motorista a entrar na fila. Em seguida olhou para Zoe por cima do ombro.

Quando quiser ir embora, Srta. Reed, fale com um dos seguranças e nós traremos o carro. - Em seguida, olhou para Mikhail. - Espero que tenha uma ótima noite, Sr. Danilov.

Também espero.

O carro parou na entrada da mansão. Mikhail saiu e ofereceu a mão a Zoe.

O que acabou de acontecer lá dentro? - sussurrou Zoe, enquanto seguiam para a entrada.

Acho que seu amigo Martin Landesmann acabou de marcar seu território.

Foi só isso?

Estamos aqui, não estamos?

Ela deu um rápido apertão no braço dele.

Você lidou muito bem com a situação, Sr. Danilov.

Não tão bem quanto você, Srta. Reed.

Entraram no ruidoso saguão e logo foram cercados por uma multidão de empregados em trajes formais. Um deles pegou o sobretudo de Mikhail, enquanto outro ficou com o xale de Zoe. Então, após receberem um cartão de boas-vindas com letras em relevo, entraram em uma pequena fila de recepção composta por mulheres cheias de jóias e homens cheios de inveja.

Parado ao pé do espetacular pinheiro coberto de luzes estava São Martin Landesmann, em toda sua glória. Martin, do aperto de mãos atencioso. Martin, da confiança discreta. Martin, do aceno solícito. Monique e os filhos pareciam meros acessórios, assim como o discreto relógio de pulso caro e luxuoso e os dois guarda-costas da Zentrum parados atrás dele com um desinteresse encenado. Monique era 2 centímetros mais alta que Martin. Estava com os cabelos compridos escuros presos e usava um vestido sem mangas que valorizava seus braços esguios. Martin parecia ignorar sua beleza. Tinha olhos apenas para os convidados. E, momenta­neamente, para a famosa repórter britânica que estava a 2 metros de distância, ao lado de um milionário russo chamado Mikhail Danilov. O Sr. Danilov entregou o cartão de boas-vindas à atendente na frente da fila. Em seguida, baixou os olhos para o chão de mármore e esperou que ela chamasse seu nome.

Existe uma foto do encontro que se seguiu. Foi tirada de surpresa por um dos fotógrafos contratados para o evento e posteriormente, no decorrer de uma investigação internacional conduzida após a conclusão da operação, seria roubada de seu computador. Em retrospectiva, a foto se mostrou uma profecia incrivel­mente precisa dos eventos que se seguiram a ela. A expressão de Martin estava muito séria para uma ocasião de tanta alegria, e uma ilusão de ótica causada pelo ângulo da câmera fez com que seus olhos parecessem fixos em Mikhail e Zoe ao mesmo tempo. Monique não estava olhando para eles. Na verdade, sua elegante cabeça estava virada na direção oposta.

A foto não registrou a rapidez do encontro, embora a gravação de áudio o tenha feito. Com apenas 15 segundos de duração, foi obtida não de uma, mas de duas fontes: o telefone celular na bolsa de Zoe Reed e o Nokia N900 que, contrariando os insistentes pedidos de Monique, estava guardado no bolso do paletó de Martin. Gabriel escutou a gravação três vezes e em seguida enviou a men­sagem para Londres, enquanto Zoe e Mikhail se misturavam aos outros convi­dados da festa. A orquestra tocava "Vejam, o herói conquistador está vindo", de Händel. Até Zoe teve que rir.

 

Não muito longe da Villa Elma, na rua de Lausanne, existe um posto de conveniência. Como a maior parte das estações de serviço suíças, é exageradamente limpo. Também tem uma pequena padaria cujos pães e doces, contrariando todas as expectativas, estão entre os melhores da cidade. Quando Yaakov chegou, o pão já não estava muito fresco, mas o café tinha acabado de sair. Comprou uma xícara grande com leite e açúcar, uma caixa de chocolates e um chiclete, em seguida voltou para o carro e se acomodou atrás do volante para uma longa espera. Ele deveria estar dentro da Villa Elma com os outros motoristas de limusine, mas Martin causara uma mudança nos planos. Será que tinha sido um gesto inocente ou ele havia acabado de afundar a operação in­teira com uma simples manobra? De qualquer forma, Yaakov estava certo de uma coisa: Mikhail e Zoe agora encontravam-se trancados dentro da cidadela de Martin, cercados por seus guarda-costas e à sua completa mercê. Não era exatamente o que tinham planejado em Highgate. Engraçado como isso sempre parecia acontecer.

 

Era a festa de Martin, mas foi a noite de Zoe. Ela brilhou. Encantou. Resplandeceu. Arrasou. Foi uma estrela. Não escolhera assumir esse papel. A escolha tinha sido feita para ela. Zoe se destacou naquela noite porque era diferente. Não possuía nem comprava coisas. Não emprestava dinheiro nem extraía petróleo do mar do Norte. Nem sequer era rica. Mas era linda. E inteligente. E aparecia na televisão. E podia usar sua famosa caneta para transformar qualquer pessoa na sala no próximo Martin Landesmann, não importava quão terríveis fossem seus pecados íntimos.

Zoe escutou muito e falou apenas quando necessário. Quando tinha alguma opinião, não a emitia, já que, a seu ver, era a última jornalista no mundo que tentava realmente manter o trabalho separado das opiniões políticas pessoais. Ela flertou com o jovem dono de uma gigante americana de softwares, foi apal­pada por um príncipe árabe dono de uma fortuna incalculável e deu sábios con­selhos a ninguém menos que Viktor Orlov, o novo dono do Financial Journal. Um bilionário recluso de Milão propôs a Zoe acesso completo a seu império financeiro em troca de uma história favorável e um ator britânico famoso por sua militância na área da agricultura sustentável suplicou que ela promovesse sua causa. Para o desprazer de Monique Landesmann, Zoe foi até convidada pelas mulheres vestidas de bege a segurar um filhote de lince eurasiático durante o discurso de Martin sobre espécies animais ameaçadas de extinção. Quando o felino esfregou o focinho na bochecha de Zoe, 150 homens suspiraram alto, desejando fazer o mesmo.

No decorrer da noite, o elegante Mikhail Danilov não saiu do lado de Zoe. Ele parecia contente em apenas ficar à luz de seu brilho, embora também tenha apertado muitas mãos, distribuído muitos cartões de visita lustrosos e aceitado vários convites vagos para futuros almoços em Londres. Era o acompanhante perfeito para uma mulher como Zoe: confiante o suficiente para não se sentir ofuscado pela atenção recebida por ela e mais que disposto a ficar em segundo plano. De fato, apesar de sua beleza notável, ninguém pareceu se dar conta da ausência do Sr. Danilov quando os 300 convidados lotaram o grande salão de baile para assistir ao filme de Martin.

O salão tinha sido convertido numa sala de projeção, com fileiras de cadei­ras dobráveis coloridas dispostas em um arco-íris e a logomarca onipresente da fundação Um Só Mundo projetada no telão. Um palanque fora montado na frente da tela e estava vazio, esperando pela graciosa presença de Martin. Zoe se sentou numa cadeira no fundo da sala e em instantes o príncipe árabe ocu­pou o lugar ao lado do dela. Ele tocou sua coxa enquanto tentava convencê-la a escrever um artigo sobre alguns acontecimentos interessantes que se passavam atualmente na indústria petrolífera saudita. Zoe prometeu considerar a questão e tirou a mão do príncipe de sua perna no momento em que Martin subiu no palanque, arrancando aplausos dos convidados.

Ela já tinha visto essa performance muitas vezes em Davos, mas isso não fez com que fosse menos convincente. Martin assumia o tom de professor num segundo e de revolucionário no outro. Exortou os colegas magnatas a colocarem a justiça social acima do lucro. Falou de sacrifício e trabalho. Pediu fronteiras e corações abertos. E reivindicou um mundo regido por novos princípios sociais, baseados não na aquisição material, mas na sustentabilidade e na dignidade. Se Zoe não soubesse a verdade sobre Martin, teria ficado tão enfeitiçada quanto as outras 300 pessoas na sala. E talvez tivesse aplaudido com o mesmo vigor quando Martin terminou. Em vez disso, conseguiu se forçar a produzir ao me­nos um aplauso educado e olhou em volta da sala quando as luzes se apagaram. A logomarca da fundação Um Só Mundo se dissolveu e foi substituída por um ardente sol laranja castigando um trecho seco de deserto. Um violino tocava uma melodia sombria.

- Algo errado, Srta. Reed? - perguntou o príncipe árabe.

Parece que perdi meu acompanhante - disse Zoe, recompondo-se com rapidez.

Que sorte a minha.

Zoe sorriu e disse:

Você não adora filmes sobre os perigos da produção de combustíveis fósseis?

Quem não adora? - perguntou o árabe.

O deserto deu lugar a uma vila costeira submersa em Bangladesh. Zoe olhou para o relógio com discrição e marcou o tempo. Noventa minutos, Gabriel tinha dito. Se Mikhail não estiver de volta em 90 minutos, entre no carro e saia. Mas havia um problema com o plano. Zoe não tinha nenhum carro além da limusine de Martin. E alguém da Zentrum Security estaria ao volante.

 

Ironicamente, foi o próprio Martin Landesmann, graças ao telefone grampeado que tinha no bolso, que falou para o time Obra-prima sobre a escadaria dos fundos que ia da cozinha para seu escritório particular. Ele fazia esse caminho toda manhã depois de remar por uma hora no lago, passando dos 377 metros acima do nível do mar para os 381 metros. Em algumas manhãs, parava em sua suíte no caminho para falar com Monique, mas em geral seguia direto para o escritório e digitava os oito dígitos na fechadura eletrônica. Oito números que logo estariam entre Mikhail e os segredos mais bem guardados de Martin.

O primeiro desafio de Mikhail foi passar despercebido para a cozinha. A tarefa foi facilitada pelos próprios seguranças com ternos escuros de Martin, que estavam vigiando as portas e os corredores levando a partes da mansão em que os convidados não eram bem-vindos. A entrada da cozinha estava completamente desprotegida e o corredor que levava a ela tinha um fluxo constante de garçons apressados correndo em ambas as direções. Nenhum deles olhou duas vezes para o loiro esguio que entrou na cozinha carregando uma bandeja de prata vazia. Também não pareceram se dar conta quando ele deixou a bandeja num balcão e subiu a escadaria dos fundos como se fosse algo rotineiro.

Graças à mágica da tecnologia de posicionamento global, Mikhail conhecia cada centímetro do caminho. No topo da escadaria, virou à direita e caminhou por 11 metros ao longo de um corredor mal iluminado. Depois virou à esquerda e chegou a portas duplas que davam em uma pequena extensão levando à en­trada do escritório de Martin. Como era de se esperar, estavam destrancadas.

Mikhail empurrou uma das portas, passou rápido e a fechou atrás de si. O es­paço estava numa escuridão absoluta, e era exatamente disso que ele precisava para o primeiro passo da invasão. Tirou uma pequena lanterna ultravioleta da costura especial no paletó e iluminou o teclado da fechadura eletrônica com o feixe azulado. A luz fantasmagórica revelou as digitais de Martin no teclado. Cinco das te­clas numéricas estavam marcadas - 2, 4, 6, 8, 9 -, além do botão de confirmação.

Mikhail removeu rapidamente a parte de cima do teclado, revelando o cir­cuito eletrônico por baixo, e pegou outro item do paletó. Do tamanho de um tocador de mp3, tinha um teclado numérico próprio e dois fios com pequenas presilhas nas pontas. Mikhail ligou o aparelho e prendeu as presilhas na fiação exposta do teclado de Martin. Então pressionou os mesmos cinco números - 2, 4, 6, 8, 9 -, seguidos pelo botão de confirmação. Em menos de um segundo o aparelho alimentou o chip de memória com todas as combinações possíveis dos números e a fechadura se abriu instantaneamente. Mikhail tirou o aparelho e colocou a cobertura do teclado no lugar antes de entrar no escritório e fechar a porta em silêncio. Do outro lado da parede havia um teclado idêntico. Mikhail o iluminou por um instante com a luz ultravioleta e pressionou o botão para trancar. Ouviu o barulho do travamento da porta.

Como o espaço do lado de fora, o escritório estava na escuridão completa. Mikhail não precisava de luz. Sabia que o computador estava localizado a exatos 4 metros de distância seguindo em frente e ligeiramente à direita. Martin o tinha desligado antes de sair, mais cedo naquela noite. Tudo o que Mikhail precisava fazer era inserir o pen drive Sony numa das entradas USB e manter a tecla F8 pressionada enquanto ligava o computador. Com alguns comandos, o conteúdo do disco rígido de Martin começou a fluir pelo espaço cibernético à velocidade da luz. Um aviso apareceu na tela: TEMPO RESTANTE DE UPLOAD: 1:14:32... Nada a fazer além de esperar. Colocou o fone de ouvido do rádio transmissor em mi­niatura e olhou para a tela.

Estão recebendo? - perguntou.

Estamos - respondeu Gabriel.

Não se esqueçam de mim aqui.

Pode deixar.

Gabriel desligou. Mikhail ficou sentado sozinho na escuridão, vendo a conta­gem regressiva na tela do computador.

TEMPO RESTANTE DE UPLOAD: 1:13:47...

 

O computador que recebia os dados da Villa Elma estava na sala de reuniões com paredes de vidro conhecida como Aquário, no centro de operações londrino. Na tela surgiu uma mensagem idêntica à do computador de Martin. Shamron foi o único que não viu isso como um motivo para comemorar. A experiência o impedia. Assim como a situação. Ele tinha um agente trancado no escritório de Martin, sete agentes sentados num hotel de luxo em Genebra e um sedã Mercedes estacionado num posto de gasolina em um dos bairros mais seguros do mundo. E além disso, é claro, havia o pequeno problema de uma famosa re­pórter britânica assistindo a um filme sobre aquecimento global ao lado de um príncipe árabe. O que pode dar errado?, pensou Shamron, girando o isqueiro nas mãos nervosamente. O que será que pode dar errado?

 

Tinham sido meses humilhantes para a pequena Confederação Suíça, como ficou claro pelo silêncio fantasmagórico que dominava a Bahnhofstrasse, em Zurique, naquela mesma noite úmida de dezembro. Levados à beira da insolvência, os maiores bancos do país tinham sido forçados à vergonha de contar com um pacote de ajuda governamental. Percebendo a fraqueza dos bancos, os coletores de impostos estrangeiros clamavam para que eles rompessem o sigilo que protegia seus clientes havia séculos. Os banqueiros de Zurique, porém, que estão entre as criaturas mais astutas do mundo, tinham instintivamente se recolhido e aguardavam com paciência o fim da tempestade. Estavam certos de que a situação melhoraria, pois sabiam que os banqueiros americanos não conseguiriam susten­tar suas alegações de superioridade moral. Afinal, qualquer um podia dizer o que quisesse sobre a ganância suíça, mas ela nunca afundara o planeta inteiro numa recessão. Essa seria para sempre uma conquista unicamente americana.

Mas a economia, como um ecossistema, é algo dinâmico: o que ameaça uma espécie não é necessariamente maléfico a todas elas. Na verdade, pode com freqüência significar uma oportunidade, como era o caso do empreendimento localizado no prédio cinzento na Kasernenstrasse, às margens do canal Sihl. Esta era a beleza da segurança corporativa: problemas tendiam a ser esquecidos pelo ciclo de negócios.

Surpreendentemente, o Kellergruppe de Ulrich Müller não funcionava em um canto escondido na sede da Zentrum. Muito pelo contrário. Ocupava um conjunto de escritórios espaçosos na cobertura, uma prova da contribuição significativa feita pela unidade para os negócios da empresa. Vários funcionários experientes estavam trabalhando naquela noite, supervisionando cautelosa­mente duas delicadas operações. Uma delas era um trabalho de chantagem em Berlim e a outra, um "encerramento de caso" na Cidade do México. O assunto no México era particularmente delicado, já que envolvia um promotor público que estava metendo o nariz em assuntos que não eram da sua conta. O Kellergroupe tinha terceirizado um assassino profissional local usado com freqüência por líderes do narcotráfico mexicano para realizar o serviço sujo. Esse era o mé­todo de operação preferido do grupo. Sempre que possível, usavam os serviços de profissionais e criminosos experientes que não faziam idéia de para quem estavam trabalhando. Dessa forma, nas raras ocasiões em que as coisas não saíam como planejado, a exposição da empresa e o dano potencial eram reduzidos.

Apesar da natureza sensível das operações em Berlim e na Cidade do Mé­xico, Ulrich Müller não estava na sede da Zentrum naquela noite. Em vez disso, por razões que ainda desconhecia, estava parado num estacionamento deserto muitos quilômetros ao sul do centro da cidade, ao longo da margem oeste do lago Zurique. O ponto de encontro tinha sido escolhido por um homem cha­mado Karl Huber, ex-subalterno de Müller no Dienst für Analyse und Prävention, mais conhecido como DAP, o serviço secreto suíço. Huber disse que tinha algo importante para contar, que não podia ser discutido pelo telefone ou num quarto fechado. Parecia preocupado, mas isso não era novidade.

Müller olhou para o relógio de pulso e quando ergueu os olhos viu um carro vindo do sul. Era Huber, bem no horário marcado. O carro entrou no estacionamento com os faróis ensopados e parou a alguns centímetros de distância. Müller franziu a testa. Como sempre, o profissionalismo de Huber era irretocável. Um instante depois o homem do DAP subiu no banco do carona com um laptop na mão, agindo como se alguém tivesse acabado de morrer.

Qual é o problema, Karl?

Isto.

Huber ligou o laptop e clicou num ícone. Segundos depois eles ouviram a voz do dono da Zentrum tendo uma conversa extremamente particular com a esposa. Ficou claro, pela qualidade do áudio, que o diálogo estava acontecendo pessoalmente e sendo captado por um microfone a muitos metros de distância. Müller escutou apenas por um instante e em seguida, com um gesto brusco da mão, instruiu o ex-funcionário a interromper a gravação.

Onde você conseguiu isso?

Huber olhou para o teto do carro sem dizer nada.

Onyx?

Ele assentiu.

Qual a fonte?

O celular de Landesmann.

Por que o serviço secreto suíço está escutando uma conversa particular de Martin Landesmann?

Não estamos. Mas é óbvio que alguém está. E a pessoa conseguiu acessar mais do que só o celular dele.

O que mais?

O laptop.

Müller ficou pálido.

O que você está vendo?

Tudo, Ulrich. Tudo mesmo.

Onyx?

Huber assentiu.

Onyx.

 

Eles estavam se referindo ao sistema de interceptação por satélite do DAP. O Onyx era uma versão reduzida do programa Echelon da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos e tinha a capacidade de captar comunicações globais por linhas fixas, celulares e internet. Assim que foi concluído, em 2005, o programa descobriu um dos segredos mais explosivos do mundo, quando uma base nos Alpes Suíços interceptou um fax entre o ministro das Relações Exteriores egípcio e seu embaixador em Londres. O documento acabou ajudando na descoberta das prisões secretas da CIA para terroristas suspeitos da Al-Qaeda. Apesar das circunstâncias, Ulrich foi obrigado a reconhecer a ironia da situação. O Onyx tinha sido criado com o propósito de roubar segredos dos adversários da Suíça. Agora, pelo visto, o sistema tinha tropeçado nos segredos do homem de negócios mais importante do país.

Como o Onyx encontrou isso? - perguntou Müller.

Os computadores encontraram. Eles encontram tudo.

Quando?

Pouco depois que o disco rígido de Martin foi captado pelos satélites, o sistema de filtragem do Onyx acusou várias palavras-chave. O material chamou atenção e foi entregue a um analista na Zimmerwald, para verificação. Depois de investigar por algumas horas, o analista descobriu que o telefone de Martin também estava grampeado. Meu escritório acabou de ser notificado, mas o Onyx está monitorando a transmissão há vários dias e o material está sendo enviado ao DAP para uma análise mais profunda.

Müller fechou os olhos. Era um desastre iminente.

Há quanto tempo o celular está grampeado?

É difícil dizer. - Huber deu de ombros. - Pelo menos uma semana. Talvez mais.

E o computador?

A equipe do Onyx acha que ambos foram grampeados ao mesmo tempo.

Quais foram as palavras-chave que chamaram atenção?

Palavras relacionadas a certos materiais sendo enviados para um determi­nado país no lado leste do Golfo Pérsico. Palavras relacionadas a uma empresa chinesa chamada XTE Hardware and Equipment, sediada em Shenzhen. - Huber fez uma pausa e então perguntou: - Já ouviu falar em alguma dessas coisas?

Não - disse Müller.

Landesmann tem alguma relação com essa história?

Müller ergueu uma sobrancelha.

Não sabia que esta era uma visita formal, Karl.

Não é.

Müller pigarreou.

Até onde sei, o Sr. Landesmann não tem nenhum interesse numa empresa chamada XTE Hardware and Equipment, em Shenzhen, na China.

E bom saber. Mas acho que o DAP suspeita que ele tenha.

Do que você está falando?

Meu chefe está sendo pressionado para exigir uma investigação completa.

Você não consegue impedir isso?

Estou tentando.

Tente com mais afinco, Karl. A empresa está pagando muito bem para ga­rantir que coisas assim não aconteçam com os nossos clientes. Isso vale em do­bro para o chefe.

Huber franziu a testa.

Por que você não fala um pouco mais alto? Acho que a estação do Onyx em Vaiais não conseguiu pegar essa.

Müller não respondeu.

Tem uma coisa a seu favor - informou Huber. - O DAP e a Polícia Fe­deral vão ficar bastante relutantes em abrir uma investigação potencialmente embaraçosa num momento como este, ainda mais envolvendo um homem tão amado quanto seu chefe. Martin é o santo padroeiro da Suíça. E você pode ter certeza de que os amigos dele no governo vão pensar duas vezes antes de tomar qualquer atitude que possa manchar sua reputação. Martin é bom para este país.

Mas...?

Sempre existe a chance de a história vazar para a imprensa, da mesma forma que aconteceu com o fax dos egípcios. Se isso acontecer... - Huber fez uma pausa. - Como você sabe, essas questões tendem a criar vida própria.

A Zentrum vai ficar muito grata se você conseguir manter isso longe da imprensa, Karl.

Quão grata?

Vamos transferir o dinheiro na segunda de manhã.

Huber fechou o laptop.

Tem mais uma coisa para levar em consideração. Quem quer que tenha feito isso é excepcionalmente bom. E teve ajuda.

Que tipo de ajuda?

Alguém de dentro, com acesso ao telefone e ao computador de Martin. Eu, se fosse você, começaria a elaborar uma lista de possíveis suspeitos. E algemaria cada um deles num detector de mentiras até descobrir quem é o responsável.

Obrigado pelo conselho, Karl, mas nós preferimos métodos mais sutis.

Huber deu um sorriso sarcástico.

Tente dizer isso a Rafael Bloch.

Ulrich Müller voltou para o centro de Zurique a uma velocidade considerável, remoendo as implicações do que tinha acabado de ouvir. Alguém de dentro, com acesso ao telefone e ao computador... Embora fosse possível que Martin estivesse sendo traído por um funcionário, Müller achou que a chance era pequena, já que toda a equipe da GVI era submetida a cuidadosas investigações de antecedentes e análises recorrentes de segurança. Suspeitava de que o traidor fosse alguém muito mais próximo de Martin. Alguém que compartilhasse a cama com ele regularmente.

Estacionou na Kasernenstrasse e subiu para a cobertura. Um agente do Kellergruppe tentou informá-lo sobre os últimos acontecimentos nas operações em Berlim e na Cidade do México. Ele passou pelo funcionário sem dizer uma palavra e entrou no escritório. O computador estava ligado. Hesitou por alguns segundos, então pediu a lista de convidados para o evento beneficente da Um Só Mundo que estava ocorrendo na Villa Elma naquela noite. A Zentrum tinha feito uma verificação rotineira de segurança nos 300 convidados. Próximo ao fim da lista, Müller encontrou o nome que estava buscando. Pegou o telefone e começou a digitar o número do celular de Martin. Percebendo seu engano, apagou os dígitos e ligou para Jonas Brunner. Ele atendeu depois de três toques, com um sussurro.

Onde você está? - perguntou Müller.

Na sala de projeção.

Que barulho é esse?

O filme do Sr. Landesmann. Müller praguejou baixinho.

Você está vendo a repórter britânica? Brunner ficou em silêncio por alguns segundos.

Ela está no fundo da sala.

O acompanhante está com ela? Outro momento de silêncio.

Na verdade, não o estou vendo.

Merda!

Qual é o problema?

Müller não respondeu na mesma hora. Em vez disso, deu uma série de ins­truções precisas ao guarda-costas e então perguntou:

Quantos homens você tem aí?

Quarenta.

Müller desligou o telefone e ligou para o departamento de transportes da Zentrum.

Preciso de um helicóptero.

Qual é o destino?

Vou saber quando estiver no ar.

Para quando precisa?

Já.

 

Para um homem de seu tamanho, Jonas Brunner era surpreendentemente silencioso. Nenhuma cabeça se virou quando ele caminhou até o lado de Martin. Nenhuma sobrancelha se ergueu quando murmurou algumas palavras no ouvido do chefe. Martin pareceu assustado com a notícia por um instante, mas logo recuperou a compostura habitual e colocou uma mão pálida no bolso do paletó. O celular Nokia apareceu. A tela piscou por um segundo e apagou quando o telefone foi desligado. Martin o entregou de imediato a Brunner, então se levantou e seguiu o segurança para fora da sala de projeção. A essa altura, vários convidados o observavam com atenção, inclusive a famosa repórter britânica sentada ao lado do príncipe árabe dono de uma riqueza incalculável. Quando Martin saiu da sala, ela voltou a assistir ao filme e tentou desesperadamente não deixar seu medo crescente transparecer. Ele deve estar entediado, disse a si mesma, sem muita convicção. Zoe sempre sabia quando Martin estava entediado. Ele não estava entediado. Estava furioso.

Gabriel tirou o fone de ouvido, verificou a conexão e o andamento da transmissão e deu alguns toques no teclado. Então olhou para Lavon, frustrado.

Você ainda está captando o áudio do telefone de Zoe?

Com clareza. Por quê?

Porque o de Martin acabou de cair.

Alguma informação do GPS?

Nada.

Ele deve ter desligado o telefone.

Por que faria isso?

Boa pergunta.

O que vamos fazer?

 

Gabriel digitou cinco palavras no computador e clicou em enviar. Em se­guida, acessou o fone de ouvido de Mikhail.

Acho que estamos com um problema.

Que problema?

Gabriel explicou.

Algum conselho? - perguntou Mikhail.

Fique firme.

E se os homens dele entrarem aqui?

Puxe o fio da entrada USB imediatamente.

E o que faço com ele?

Gabriel desligou.

 

A mensagem de Gabriel apareceu na tela do centro operacional londrino: Martin desligou celular... aguardando instruções... Adrian Carter praguejou. Uzi Navot fechou os olhos e soltou o ar com força.

As pessoas desligam o celular o tempo todo - comentou Graham Seymour.

Isso é verdade - disse Navot. - Mas não Martin. Ele nunca faz isso.

É o seu homem lá dentro, Uzi. Isso significa que a decisão é sua.

Quanto tempo falta para a transmissão do computador de Martin?

Vinte e um minutos e alguns segundos.

Quais são as chances de já termos o que precisamos?

Não sou nenhum especialista, mas diria meio a meio.

Navot olhou para Shamron, que devolveu o olhar com firmeza, como se qui­sesse dizer que são momentos assim que constroem carreiras.

Quero mais que meio a meio - decretou Navot.

Então vamos esperar? Navot assentiu.

Vamos.

 

Mikhail foi em silêncio até a janela, abriu a cortina alguns milímetros e espiou o jardim de Martin. A altura era de 7 metros e havia um guarda vigiando o perímetro. Mas isso não tinha nenhuma importância, porque as janelas do escritó­rio eram à prova de bala e não abriam. Mikhail voltou para a mesa e verificou o andamento na tela do computador de Martin: 18:26... 18:25... 18:24... Agüentando firme, pensou. Mas e Zoe?

Jonas Brunner e a equipe de segurança operavam de um escritório no andar tér­reo da mansão, não muito longe da cozinha. Ele conduziu Martin para dentro da sala e discou o número de Ulrich Müller.

Por que eu tive que desligar o telefone?

Porque está grampeado.

Grampeado?

O celular está transmitindo sua vida para o mundo, Martin. E seu compu­tador também.

O rosto já pálido de Landesmann perdeu toda a cor.

Quem fez isso?

Ainda não tenho certeza. Mas acho que a pessoa pode ter ido hoje à sua festa atrás de mais alguma coisa.

Do que você está falando?

Müller explicou suas suspeitas. Landesmann escutou em silêncio, então bateu o telefone.

O que o senhor quer que eu faça, Sr. Landesmann?

Encontre aquele russo.

E quanto a Zoe?

Me dê alguns de seus homens. Eu cuido dela.

 

Brunner não demorou muito para ter certeza de que Mikhail Danilov, o acompanhante de Zoe Reed, não estava na sala de exibição da mais nova produção da Um Só Mundo. O tempo de ausência do Sr. Danilov não era claro, nem sua localização atual, embora Brunner tenha decidido rapidamente por onde come­çar a busca.

Tomou a sábia decisão de não ir sozinho, levando quatro dos seus homens mais fortes. Subiram pela escada dos fundos com um ar tão indiferente quanto possível. Assim que estavam fora de vista, cada homem sacou uma pistola SIG Sauer P226. Do topo da escada, seguiram em silêncio pelo corredor, o som de seus passos abafado pelo carpete grosso. Onze metros depois, pararam e viraram à esquerda. As portas que davam no espaço do lado de fora do escritório estavam fechadas. Brunner as abriu sem o menor ruído, entrou e parou em frente à fechadura eletrônica, com a mão sobre o teclado. Era ali que o silêncio seria inter­rompido. Mas não havia escolha. Brunner digitou os oito números e pressionou ENTER. Em seguida, colocou a mão na fechadura e esperou as travas se abrirem.

 

Martin voltou à sala de exibição quando o filme estava terminando e se sentou ao lado de Monique.

Tem algo que preciso lhe contar - disse com suavidade, olhando para a tela.

Talvez não seja a melhor hora nem o melhor lugar para isso, Martin.

Na verdade, acho que é.

Monique olhou para ele.

O que você fez?

Preciso da sua ajuda, Monique.

E se eu recusar?

Podemos perder tudo.

 

O homem que avançou sobre Jonas Brunner e os outros seguranças como um predador tinha duas vantagens. Uma delas era a visão - após quase uma hora no escritório, seus olhos já estavam acostumados com o escuro - e a outra era o treinamento. Sim, Brunner e seus homens eram todos veteranos do exército suíço, mas o russo esguio com olhos azuis glaciais havia integrado o Sayeret

Matkal e, portanto, era um perito em Krav Maga, a arte marcial dos serviços militares e de inteligência israelenses. O que falta a essa luta em beleza é muito bem compensado por sua eficiência e brutalidade. A doutrina é simples: movimento contínuo e ataque constante. E, uma vez que a batalha começa, só termina quando o oponente está no chão, precisando de cuidados médicos urgentes.

O russo lutou com coragem e praticamente em silêncio. Quebrou dois narizes usando a palma da mão, fraturou um osso malar com uma cotovelada ágil e deixou uma laringe tão danificada que seu dono teria um chiado na voz pelo resto da vida. Mas, finalmente, foi dominado pelo maior número e pelo peso somado de seus oponentes. Quando o imobilizaram, Brunner e seus homens agrediram o adversário com crueldade, até que ele perdesse a consciência. No instante em que isso aconteceu, ouviram uma grande salva de palmas vindo do andar de baixo. Brunner se perguntou por um instante se os aplausos eram para ele. Mas não eram. O documentário da Um Só Mundo tinha acabado de terminar e São Martin estava se deleitando com a bajulação dos convidados.

Gabriel não escutou os aplausos, apenas a luta violenta que os precedeu. Em seguida, ouviu a voz de Jonas Brunner ordenando aos homens que levassem o Sr. Danilov discretamente para o porão. Quando o sinal de rádio foi cortado, Ga­briel não se deu o trabalho de tentar restaurá-lo. Em vez disso, ligou para o nú­mero de Zoe e fechou os olhos. Atenda o telefone, Zoe, atenda o maldito telefone.

 

Zoe estava saindo discretamente da sala quando sentiu um toque no ombro. Ao se virar, deu de cara de forma inesperada com Monique Landesmann, que estava com um sorriso amigável no rosto. Zoe sentiu as bochechas começarem a queimar, mas conseguiu sorrir.

Acho que não fomos devidamente apresentadas, Zoe. - Monique estendeu a mão. - Martin me falou tanto sobre você... Ele tem muita admiração pelo seu trabalho.

Se houvesse mais homens de negócios como seu marido, Sra. Landesmann, acho que eu não teria muito sobre o que escrever.

Zoe não tinha certeza de como as palavras tinham saído, mas pareceram agradar Monique.

Espero que tenha gostado do filme. Martin tem muito orgulho dele.

E com razão.

Monique colocou uma mão cheia de jóias no braço de Zoe.

Tem algo que preciso discutir com você, Zoe. Podemos ter uma conversa rápida em particular?

Zoe hesitou, sem saber como agir, então concordou.

Ótimo - disse Monique. - Venha comigo.

Ela conduziu Zoe pelo salão até duas portas altas, e então por um corredor de mármore iluminado por lustres. No final havia uma pequena sala ornamen­tada parecida com algo que Zoe tinha visto numa visita ao Palácio de Versalhes. Monique parou na entrada e, sorrindo, gesticulou para que Zoe entrasse. Zoe não chegou a ver a mão que cobriu sua boca na mesma hora, nem o braço que a agarrou. Tentou lutar, mas foi inútil. Quis gritar, mas mal conseguia respirar. Enquanto os guarda-costas a levavam da sala, ela conseguiu virar a cabeça e lançar um olhar de súplica para Monique. Mas a esposa de Martin Landesmann não chegou a vê-lo. Já estava de costas, voltando à festa.

 

Martin estava no centro da sala de recepção, cercado, como sempre. Monique foi até o lado dele e passou um braço pela sua cintura.

Tudo certo? - perguntou Martin.

Tudo ótimo, querido - sussurrou Monique, dando um beijo em sua boche­cha. - Mas, se você me trair de novo, me encarrego de destruí-lo pessoalmente.

 

O centro operacional londrino estava silencioso como uma igreja quando a última mensagem de Gabriel chegou. Adrian Carter e Graham Seymour, ambos anglicanos, tinham a cabeça inclinada para a frente e os olhos fechados, como se rezassem. Shamron e Navot estavam um do lado do outro, Navot com os braços musculosos cruzados no peito e Shamron girando o isqueiro entre os dedos ansiosamente. Chiara estava no Aquário, verificando o conteúdo do disco rígido de Martin Landesmann.

Martin não se atreveria a matá-los dentro da casa - afirmou Carter.

Não - concordou Shamron. - Antes ele vai fazer com que sejam levados para os Alpes. Aí vai matá-los.

Talvez seu time possa interceptá-los na saída da Villa Elma - sugeriu Seymour.

Devo lembrá-lo de que existem quase 200 automóveis pretos de luxo estacionados lá, e que todos sairão mais ou menos ao mesmo tempo? Além disso, Martin tem acesso ao lago e a vários barcos velozes. - Shamron fez uma pausa. - Alguém sabe onde conseguir um barco numa noite gélida de dezembro em Genebra?

Eu tenho amigos no DAP - informou Carter, sem muita convicção. - Ami­gos que em algumas ocasiões nos ajudaram bastante em nossos esforços contra a Al-Qaeda.

Eles são seus amigos - disse Navot não nossos. E posso garantir que o DAP adoraria esfregar nossos narizes numa grande pilha de merda.

Considere a alternativa, Uzi. É melhor você e seu serviço sofrerem um pouco de constrangimento do que perder um dos seus melhores agentes e uma das jornalistas mais famosas da Inglaterra.

Isso não tem nada a ver com orgulho, Adrian. Tem a ver com manter quase toda a minha melhor equipe fora de uma cadeia suíça.

Se eu ajudar, talvez eles não acabem na cadeia.

Você esqueceu quem é o homem sentado num quarto no Grand Hotel Kempinski neste momento? - Sem obter qualquer resposta, Navot continuou: - Não estou disposto a colocar o destino de Gabriel e do resto do time nas mãos dos seus amigos no DAP. Se existe algum acordo a ser feito, será feito por nós.

A operação é sua, Uzi. O que você sugere?

Navot se voltou para Shamron.

Qual é a percentagem do disco rígido de Martin que nós conseguimos antes de a transmissão ser interrompida? - perguntou Shamron.

Mais ou menos 90%.

Nesse caso, posso dizer que as chances de encontrar algo interessante aumentaram drasticamente. Eu, se fosse você, traria os técnicos de Highgate para cá e os mandaria começar a vasculhar as informações como se suas vidas dependessem disso. - Navot olhou para Seymour e perguntou: - Quanto tempo eles devem levar para chegar aqui?

Com uma escolta policial... Vinte minutos.

Dez seria melhor.

Seymour pegou o telefone. Shamron caminhou calmamente até o lado de Navot.

Posso fazer uma sugestão, Uzi?

Por favor.

Tire Gabriel, Eli e o resto do time do Kempinski antes que a polícia suíça apareça.

 

Os degraus eram feitos de pedra e desciam em espiral até as entranhas da man­são antiga. Os pés de Zoe não chegaram a tocá-los. Cinco dos melhores homens da Zentrum a carregaram pela escuridão, quatro deles segurando as extremi­dades de seu corpo e um abafando seus gritos e pedidos de ajuda. Zoe estava suspensa com a barriga para cima e a cabeça à frente, de forma que pôde ver os rostos de todos os seus algozes. Conhecera todos eles em uma outra vida: sua vida antes da revelação. Antes da verdade. Antes da Keppler Werk GmbH, de Magdeburgo, na Alemanha, e da XTE Hardware and Equipment, de Shenzhen, na China. Sua vida antes de Gabriel...

A escada levou a uma passagem com paredes úmidas e teto arqueado. Zoe teve a sensação de estar flutuando por um túnel. Mas não tinha uma luz no final, só o cheiro do lago. Ela começou a se debater violentamente. Um dos guardas reagiu apertando seu pescoço de uma forma que paralisou seu corpo inteiro.

No final da passagem, colocaram-na no chão e a prenderam com fita isolante, primeiro os calcanhares, depois os pulsos e por fim a boca. Em seguida um guarda-costas imenso a ergueu sobre o ombro e a carregou por outra pas­sagem até uma pequena sala escura, com um cheiro forte de poeira e mofo. Lá, colocou-a de pé e perguntou se ela conseguia respirar. Quando Zoe assentiu, levou um forte soco no estômago. Ela se dobrou inteira e caiu no chão de pedra, lutando para recuperar o fôlego.

E agora? Consegue respirar agora, Srta. Reed?

Ela não conseguia. Não era capaz de respirar. Não era capaz de ver. Não era capaz nem de ouvir. Tudo o que podia fazer era se contorcer em agonia e assistir, impotente, às luzes explodindo em seu cérebro privado de oxigênio. Não soube dizer quanto tempo ficou nesse estado. Só soube, em algum momento, que não estava mais sozinha. Deitado de bruços no chão, ao seu lado - inconsciente, bem amarrado e coberto de sangue -, estava Mikhail. Zoe empurrou o ombro dele com a cabeça e tentou acordá-lo, mas ele não se mexeu. O corpo de Zoe começou a tremer com um medo incontrolável e seus olhos se encheram de lágrimas.

 

Naquele mesmo instante, Jonas Brunner estava sentado sozinho no escritório, olhando para os itens que tinha na mesa à sua frente. Uma carteira com cartões de crédito e documento de identidade no nome de Mikhail Danilov. Uma chave de quarto do Grand Hotel Kempinski. Uma lanterna ultravioleta. Um pen drive Sony. Um pequeno aparelho eletrônico com teclado numérico e fios com presilhas. Um rádio em miniatura com fone de ouvido de fabricação indeterminada. Analisados em conjunto, os objetos só podiam significar uma coisa: o homem que jazia cheio de sangue e inconsciente no porão da Villa Elma era um pro­fissional. Brunner pegou o telefone e compartilhou sua conclusão com Ulrich Müller, que estava sobrevoando Zurique naquele momento.

Quanto tempo ele ficou sozinho no escritório?

Não sabemos ao certo. Uma hora, talvez mais.

Qual era o estado do computador?

Estava ligado e conectado à internet.

Onde eles estão agora?

Brunner respondeu.

Você consegue tirá-los da casa sem ninguém perceber?

Sem problemas.

Tome cuidado, Jonas. Ele não agiu sozinho.

O que vamos fazer depois que os tirarmos da propriedade?

Gostaria de fazer algumas perguntas a eles. Em particular.

Para onde devemos levá-los?

Para o leste - instruiu Müller. - Você conhece o lugar.

Brunner conhecia.

E quanto a Monique e Martin? - perguntou ele.

Assim que os convidados forem embora, quero que você os coloque no helicóptero.

Monique não vai ficar feliz.

Monique não tem escolha.

A ligação foi encerrada. Brunner suspirou e desligou o telefone.

 

Dada a natureza sofisticada da clientela do Kempinski, mudanças nos procedimentos eram a norma, não a exceção. Mesmo assim, a onda de fechamentos de conta antecipados que inundou a recepção naquela noite foi incomum. Primeiro foi o casal americano que alegou ter uma criança passando mal. Em seguida veio o par de britânicos que discutiram entre si com amargura do mo­mento em que saíram do elevador até enfim entrarem no Volvo alugado. Cinco minutos depois, surgiu a figura dócil com cabelos desgrenhados que pediu um táxi para a estação de Cornavin, e em seguida um homem elegante com têmporas grisalhas e olhos verdes que não disse nada enquanto o recepcionista fechava sua conta. Ele tolerou a espera de cinco minutos pelo Audi A6 alugado com uma paciência admirável, embora estivesse claramente incomodado com o atraso. Quando o carro chegou, jogou as malas no banco de trás e deu uma gorjeta generosa ao manobrista antes de partir.

Não foi a primeira vez que a equipe do Kempinski foi enganada pelos clien­tes, mas nunca houvera nada parecido com o que aconteceu naquela noite. Não existia nenhuma criança passando mal nem qualquer razão legítima para a briga entre o casal com passaportes britânicos. Na verdade, só um deles nascera na Grã-Bretanha, e havia muito tempo trocara de nacionalidade. Dez minutos depois de saírem do hotel, ambos os pares se posicionaram ao longo da rua de Lausanne, junto com o motorista do caríssimo Mercedes sedã Classe S. Quanto ao homem de olhos verdes e têmporas grisalhas, seu destino era o Hotel Metrópole. Só que, ao chegar à recepção, ele não era mais Jonathan Albright, de Greenwich, em Connecticut, e sim Heinrich Kiever, de Berlim, Alemanha. Quando entrou no quarto, pendurou o sinal de favor não incomodar na porta e estabeleceu contato de forma segura com o time redistribuído. Eli Lavon chegou dez minutos depois.

Alguma novidade?

Só uma - disse Gabriel. - Os primeiros convidados estão começando a ir embora.

 

Zoe pensou ter ouvido o som de passos se aproximando. Se eram cinco homens ou 500, não tinha como saber. Estava deitada imóvel no chão úmido, com a cabeça ainda encostada no ombro de Mikhail. A fita adesiva ao redor de seus pulsos tinha interrompido a circulação do sangue, e parecia que havia mil agulhas pinicando suas mãos. Ela estava tremendo de frio e de medo. E não só por si mesma. Zoe calculou que estava trancada no porão havia pelo menos uma hora e Mikhail não tinha recuperado a consciência. Pelo menos ele ainda estava respirando, profunda e regularmente. Zoe imaginou que estava respirando por ele.

Os passos chegaram mais perto. Ela ouviu a porta pesada do porão se abrir e viu um feixe de luz se mover pelas paredes e por fim parar em seus olhos. Por trás da luz, reconheceu a silhueta familiar de Jonas Brunner. Ele examinou Mikhail com desinteresse e então tirou a fita da boca de Zoe. Ela começou a gritar imediatamente e Brunner a silenciou com dois fortes tapas na cara.

O que diabo você está fazendo, Jonas? Isso é...

Exatamente o que você e seu amigo merecem - interrompeu ele. - Você mentiu para nós, Zoe. E, se continuar mentindo, sua situação só vai piorar.

Minha situação? Você está louco, Jonas?

Brunner sorriu.

Onde está Martin? - quis saber ela.

O Sr. Landesmann - corrigiu-a Brunner - está ocupado se despedindo dos convidados. Ele me pediu para acompanhar você. Vocês dois.

Nos acompanhar? Olhe para o meu amigo, Jonas. Ele está inconsciente. Precisa de um médico.

Vários dos meus melhores homens também. E ele vai ver um médico quando nos disser para quem trabalha.

Ele trabalha para si mesmo, seu idiota! E um milionário.

Brunner sorriu de novo.

Você gosta de homens com dinheiro, não gosta, Zoe?

Se não fosse por homens com dinheiro, Jonas, você estaria preenchendo multas de estacionamento em algum vilarejo de merda nos Alpes.

Zoe não viu o golpe chegando. Foi uma pancada com as costas da mão que fez sua cabeça virar até bater no pescoço encharcado de sangue de Mikhail. Ele pareceu se mexer, mas então voltou a ficar inerte. A bochecha de Zoe estava explodindo de dor e ela sentiu gosto de sangue na boca. Fechou os olhos e por um instante pareceu que Gabriel estava sussurrando em seu ouvido. Você é Zoe Reed, dizia ele. Você faz picadinho de gente como Martin Landesmann. Ninguém lhe diz o que fazer. E ninguém encosta em você. Ela abriu os olhos e viu o rosto de Brunner flutuar por trás da luz da lanterna.

Para quem você trabalha? - perguntou ele.

Para o Financial Journal de Londres. O que significa que você acabou de bater na porra da mulher errada, Jonas.

Esta noite - disse Brunner, como se estivesse falando com um aluno de raciocínio lento. - Para quem você está trabalhando esta noite, Zoe?

Não estou trabalhando esta noite, Jonas. Vim aqui a convite de Martin. E estava me divertindo muito até você e seus capangas me agarrarem e me tranca­rem neste buraco dos infernos. O que diabo está acontecendo?

Brunner a estudou por um instante, então olhou para Mikhail.

Você está aqui porque esse homem é um espião. Nós o encontramos no escritório do Sr. Landesmann durante a exibição do filme. Ele estava roubando informações do computador dele.

Um espião? Ele é um homem de negócios. Um comerciante de petróleo, ou algo do tipo.

Brunner segurou um pequeno objeto prateado diante dos olhos de Zoe.

Você já viu isto antes?

É um pen drive, Jonas. Todo mundo tem um.

Isso é verdade. Mas a maior parte das pessoas não tem estas coisas. - Brun­ner ergueu uma lanterna ultravioleta, um aparelho com fios e presilhas nas pontas e um rádio em miniatura com fone de ouvido. - Seu amigo é um agente profissional de inteligência, Zoe. E acreditamos que você também seja.

Você deve estar brincando, Jonas. Eu sou uma repórter.

Então por que você trouxe um espião à casa do Sr. Landesmann hoje?

Zoe olhou bem nos olhos de Brunner. As palavras que disse não eram dela.

Tinham sido escritas para ela por um homem que não existia.

Eu não sei quase nada sobre ele, Jonas. Nos conhecemos em uma festa. Ele deu em cima de mim. Me comprou coisas caras e me levou a bons restaurantes. Me tratou muito bem. Pensando bem...

O quê, Zoe?

Talvez nada daquilo tenha sido real. Talvez ele tenha me enganado.

Brunner acariciou a bochecha machucada de Zoe, que se encolheu.

Eu queria acreditar em você, Zoe, mas não posso deixá-la ir embora sem confirmar sua história. Como uma boa repórter, com certeza você entende que preciso de uma segunda fonte.

Em alguns minutos, meu editor vai me ligar para perguntar sobre a festa. Se ele não conseguir falar comigo...

Vai supor que você está tendo uma ótima noite e deixar uma mensagem na caixa postal.

Mais de 300 pessoas me viram aqui hoje, Jonas. E, a não ser que você me leve de volta rapidinho, nenhuma delas vai me ver saindo.

Isso não é verdade, Zoe. Todos nós a vimos ir embora, inclusive a Sra. Landesmann. Você e ela tiveram uma conversa muito agradável pouco antes de você e o Sr. Danilov entrarem no carro e voltarem para o hotel.

Você esqueceu que nós não temos um carro, Jonas? Foi você que nos trouxe.

Isso é verdade. Mas o Sr. Danilov insistiu para que seu motorista viesse buscá-lo. Imagino que o chofer também seja um agente de inteligência. - Brunner deu um sorriso sem qualquer humor. - Permita que eu lhe apresente os fatos da vida, Zoe. Seu amigo cometeu um crime sério em solo suíço hoje, e espiões não recorrem à polícia quando as coisas dão errado. Isso significa que você pode sumir da face da Terra e ninguém nunca vai saber o que aconteceu.

Eu já disse, Jonas, eu não...

Sim, sim, Zoe - zombou Brunner -, eu escutei na primeira vez. Mas ainda preciso daquela segunda fonte.

O sujeito fez um gesto com a lanterna e vários de seus homens entraram no porão. Cobriram a boca de Zoe com fita isolante de novo e então a envolveram com firmeza em cobertores grossos de lã, até que ela não conseguisse mais se mexer. Dominada pela escuridão sufocante, Zoe só conseguia enxergar uma coisa: Mikhail deitado no chão do porão, amarrado, inconsciente e com a camiseta coberta de sangue.

Um dos guardas perguntou se Zoe conseguia respirar. Dessa vez ela não respondeu. Os homens da Zentrum Security pareceram achar isso engraçado e Zoe escutou risadas ao ser erguida do chão e carregada pelo porão, como se estivesse sendo levada direto para a própria cova. Mas não foi numa cova que a colocaram, e sim no porta-malas de um carro. Quando o automóvel deu a partida, Zoe começou a tremer descontroladamente. Não existe um esconderijo em Highgate, disse a si mesma. Nenhuma mulher chamada Sally. Nenhum inglês elegante chamado David. Nenhum assassino de olhos verdes chamado Gabriel Allon. Existe apenas Martin. O Martin que ela tinha amado. O Martin que a estava mandando às montanhas da Suíça para ser assassinada.

 

Os convidados da Villa Elma começaram a ir embora aos poucos a partir da meia-noite, mas em 15 minutos o estacionamento ficou repleto de aço e vidros escurecidos. Como Shamron tinha previsto, Martin e seus homens tiveram uma grande vantagem, já que quase todos os carros que deixavam a festa eram pretos e de fabricação alemã. Cerca de dois terços dos veículos viraram à esquerda, na direção do centro de Genebra, enquanto os outros pegaram a direita, seguindo para Lausanne e Montreux. Posicionada em três carros esta­cionados ao longo da rua, a equipe de Gabriel observava o fluxo em busca de qualquer coisa incomum: dois homens no banco da frente; um automóvel em alta velocidade; muito peso no eixo traseiro da carroceria.

Duas perseguições chegaram a ser empreendidas, mas foram canceladas. Dina e Mordecai seguiram um sedã BMW por vários quilômetros ao longo da margem do lago, enquanto Yossi e Rimona foram atrás de um Mercedes SL con­duzido a esmo por Genebra, aparentemente em busca de outra festa. No posto de conveniência, Yaakov não viu nada que valesse a pena seguir. Ficou pa­rado, com as mãos apertando o volante, repreendendo-se por ter deixado Zoe e Mikhail saírem de seu alcance. Passara anos controlando informantes e espiões nos piores buracos da Cisjordânia e na Faixa de Gaza sem que nenhum deles fosse morto. E agora estava prestes a sofrer a primeira perda de sua carreira logo ali, nas pacíficas margens do lago Genebra. Impossível, pensou. Loucura.

Mas era possível, e a probabilidade de isso vir a acontecer parecia maior a cada transmissão sussurrada feita pela equipe desesperada de Gabriel ao novo centro de comando, no Hôtel Métropole. Era Eli Lavon que se comunicava com a equipe e enviava as atualizações para Londres. Gabriel monitorava as transmissões do posto de observação na janela, com o olhar fixo nas luzes da Villa Elma que iluminavam a outra margem do lago como fogueiras.

Pouco depois da uma da manhã, as luzes foram apagadas, sinalizando o tér­mino oficial da festa de Martin. Algum tempo depois, Gabriel escutou a rotação de hélices e viu um helicóptero descer em direção ao gramado da Villa Elma. Permaneceu ali por pouco mais de um minuto antes de decolar e seguir para o leste, sobrevoando o lago. Lavon se juntou a Gabriel na janela e observou o veículo desaparecer na escuridão.

Você acha que Mikhail e Zoe estão lá?

É possível - afirmou Gabriel -, mas, se eu tivesse que adivinhar, diria que são Martin e Monique.

Para onde você acha que estão indo?

A essa hora... só consigo pensar em um lugar.

 

Ao chamado de Graham Seymour, os dois técnicos de informática do Escritório levaram apenas 15 minutos para ir do esconderijo em Highgate à praça Grosvenor. Logo se juntaram a eles quatro investigadores de processamento de dados do MI5 e uma equipe de especialistas no Irã da CIA e do MI6. À meia-noite, horário de Londres, havia mais de uma dúzia de agentes dos quatro serviços de inteligên­cia amontoados ao redor dos computadores no Aquário, supervisionados por Chiara. Já os quatro integrantes mais experientes da operação Obra-prima con­tinuaram em seus postos, encarando com semblantes sombrios as mensagens de atualização que chegavam aos monitores.

Parece que nosso rapaz decidiu fugir da cena do crime - comentou Sey­mour, com as mãos na cabeça. - Vocês acham que há alguma possibilidade de Mikhail e Zoe ainda estarem dentro daquela mansão?

Não é impossível - opinou Adrian Carter -, mas Martin não me parece o tipo de pessoa que dá ponto sem nó. O que significa que o cronômetro está rodando.

Isso é verdade - concordou Shamron -, mas temos vários elementos a nosso favor.

Tem certeza? - perguntou Seymour, incrédulo, gesticulando em direção aos monitores. - Porque, daqui onde estou sentado, parece que Zoe e Mikhail estão prestes a desaparecer sem deixar vestígios.

Ninguém vai desaparecer - decretou Shamron. Depois acrescentou, desanimado: - Pelo menos não imediatamente. - Acendeu um cigarro. - Martin não é burro, Graham. Ele vai querer descobrir exatamente para quem Mikhail e Zoe estão trabalhando, e vai querer saber o tamanho do estrago. Conseguir esse tipo de informação leva tempo, especialmente quando se trata de um homem como Mikhail Abramov. Mikhail vai dar trabalho. Foi treinado para isso.

E se eles decidirem cortar caminho? - perguntou Seymour. - Quanto tempo você acha que Zoe consegue agüentar?

Estou com Graham - disse Carter. - Acho que o único jeito de conseguir os dois de volta é fazer um acordo.

Com quem? - quis saber Navot.

A esta altura, nossas opções são bastante limitadas. Ou ligamos para o DAP ou lidamos direto com Martin.

Você já parou para pensar na possibilidade de não fazer diferença? Afinal, é da Suíça que estamos falando. O DAP existe para proteger os interesses não apenas da Confederação Suíça, mas também de sua oligarquia financeira. E não necessariamente nessa ordem.

E não esqueça - observou Shamron - que Landesmann é dono da Zentrum Security, que está cheia de ex-agentes do DAP. Isso quer dizer que não podemos ir falar com Martin despreparados. Se fizermos isso, ele poderá reunir todo o governo suíço para protegê-lo. E podemos perder tudo aquilo pelo que lutamos.

As centrífugas? - Seymour respirou fundo e encarou a fileira de relógios digitais do centro operacional. - Permitam-me deixar algo muito claro, cava­lheiros. O governo britânico não tem a menor intenção de permitir que qual­quer coisa aconteça, esta noite, com uma das cidadãs mais proeminentes da Inglaterra. Portanto, o governo britânico irá às autoridades suíças sozinho, se necessário, para garantir um acordo em troca da liberdade de Zoe.

Um acordo independente? É isso que você está sugerindo?

Não estou sugerindo nada. Estou dizendo que minha paciência tem limites.

Você se esqueceu, Graham, de que não é o único com um cidadão em risco? E de que, recorrendo ao DAP, você exporia toda a nossa operação contra Martin?

Eu sei disso, Ari. Mas, para mim, Zoe é mais importante que seu agente. E que sua operação.

Não tinha percebido que somos os únicos envolvidos aqui - disse Navot, ácido.

Seymour não respondeu.

Quanto tempo você vai nos dar, Graham?

Até as seis da manhã pelo horário londrino. Sete da manhã pelo horário de Genebra.

Não é muito tempo.

Eu sei. Mas é isso que posso oferecer.

Shamron se virou para Navot.

Infelizmente, a equipe em Genebra não tem mais utilidade para a operação. Aliás, a essa altura, é nosso maior risco.

Retirada?

Imediata.

Eles não vão g