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O CASO TUTANKHAMON / Christian Jack
O CASO TUTANKHAMON / Christian Jack

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O CASO TUTANKHAMON

 

            George Edward Stanhope Molyneux Herbert, visconde de Porchester, chamado Porchey pelos seus raros íntimos e considerado pelos invejosos como o futuro Lord Carnarvon, deu um soco na cara do marinheiro grego que recusou obedecer às suas ordens. A bordo do seu iate Afrodite, era o único patrão e não admitia que se lhe atravessassem no caminho, mesmo que uma violenta tempestade semeasse o pânico no meio da tripulação.

            O grego levantou-se atordoado.

            — O seu cozinheiro está tramado... faria melhor em tomar conta do leme.

            — Uma crise de apendicite não é uma condenação à morte. Deveria saber, meu amigo, que a Afrodite é uma deusa do mar; durante a operação, entrego-lhe o barco e a tripulação.

            Desdenhando do incrédulo, Porchey desceu ao seu camarote onde instalou o doente; estimava muito aquele cozinheiro brasileiro, contratado por ocasião da sua última volta ao mundo.

            O homem torcia-se com dores.

            Na coberta, a maioria dos marinheiros tinha-se ajoelhado e rezava, Porchey detestava aquele género de manifestações, característico de uma falta de autodomínio. Quando aprendeu a navegar no Mediterrâneo, em frente da vivenda que seu pai possuía em Porto Fino, na Riviera italiana, o visconde Porchester nunca apelara para o Todo-Poderoso. Ou vogava sozinho, ou se afogava sozinho, sem importunar uma assembleia ocupada em tarefas mais importantes do que a assistência a um navio em perigo.

            Deu a beber, ao cozinheiro, metade de uma garrafa de um excelente uísque, depois sentou-se ao piano e tocou as Invenções a duas vozes, de João  Sebastião Bach. A mistura de álcool com aquela música serena acalmava o paciente; se não sobrevivesse, partiria com derradeiras sensações de qualidade.

Antes de morrer, a mãe de Porchey tinha exigido dele que, de acordo com a educação que recebera no castelo de Highclere, não visse nem ouvisse nada de ordinário nem de vil. Ao preparar-se para abrir a barriga de um brasileiro, que devia ter um ou dois crimes na consciência, o visconde desculpou-se junto da alma da sua genitora.

            O doente, com o olhar febril, ousou perguntar:

            — Já... já alguma vez operou?

            — Uma boa dúzia de vezes, meu amigo, e sem nenhum fracasso. Descontraia-se e tudo correrá bem.

            Grande leitor, falando o inglês do Trinity College de Cambridge, o alemão, o francês, o grego, o latim e compreendendo alguns idiomas raros da bacia mediterrânica, Porchey tinha lido, efectivamente, manuais de cirurgia e tinha ensaiado mentalmente uma operação ao apêndice, pesadelo dos navegadores que partissem para travessias longas. Fora por isso que se munira de um estojo cirúrgico digno de um profissional.

            — Feche os olhos e pense numa boa refeição ou numa mulher bonita.

            Um sorriso brejeiro dilatou os lábios grossos do cozinheiro.

            Porchey aproveitou aquele instante de fraqueza e atingiu-o com uma marretada na nuca. Algumas rixas nos bares escusos de Cabo Verde e das Antilhas tinham-no ensinado a aperfeiçoar aquela técnica de anestesia.

            Operou com mão segura, pensando na epidemia de sarampo que quase o levara; à guisa de remédio, borrifavam-no com água gelada a fim de fazer baixar a febre. Em Eton, o tratamento não era nada melhor; a partir dos primeiros segundos, o visconde tinha detestado os professores pretensiosos, além de cheios de um saber inútil. Trabalhava à sua maneira e ao seu ritmo, indiferente às notas e às sanções; era por isso que o classificavam de preguiçoso, ao passo que desenvolvia um formidável poder de concentração e uma total independência de pensamento. Coleccionador de selos, de chávenas de porcelana, de gravuras francesas e de serpentes em boiões, aborrecia-se profundamente com a leitura de clássicos, quer se tratasse de Demóstenes, o maçador; de Séneca, o desmancha-prazeres ou de Cícero, o toleirão; no Trinity College tinha, contudo, encontrado uma ocupação apaixonante: restaurar as madeiras à sua custa. O director, escandalizado, tinha-se queixado a seu pai da atitude intolerável de um membro da velha aristocracia terrena, guardiã dos valores e da tradição, que Porchey espezinhava com satisfação.

            Ao jovem nobre, desportista consumado, restava apenas descobrir o mundo, descobrir a África do Sul, a Austrália e o Japão, passar de um continente ao outro em busca de um ideal que lhe fugia. Quando a existência lhe parecia muito aborrecida, mergulhava nos livros de história; a antiguidade atraía-o, por causa do seu carácter grandioso, tão oposto à mentalidade pequeno-burguesa em que a Europa se enterrava.

            O Egipto fascinava-o; não tinha ultrapassado o homem, integrando-o no colossal e construindo templos à medida do universo? Contudo, tinha evitado a terra dos faraós como se um receio respeitoso, pouco frequente nele, o impedisse de penetrar em território desconhecido.

            O visconde examinou o seu trabalho com satisfação.

            — Nada mal... nada mal mesmo. Não juro que saia bem, mas o manual estava correcto; decididamente, nada vale um bom livro.

            Aproximava-se a hora do jantar. O visconde mudou de roupa, optando por um casaco branco e umas calças de flanela cinzenta; não esqueceu o boné de capitão e tornou a subir à coberta onde a tripulação continuava a rezar no meio da tempestade.

            — Deus é bom — observou o aristocrata. — O Afrodite atravessou aquela pequena borrasca e ninguém caiu à água.

            Vários marinheiros se precipitaram para junto dele.

            — Calma, senhores. O nosso cozinheiro está agora livre do seu incómodo apêndice; provavelmente, não estará em estado de preparar as refeições e teremos de nos desembaraçar como pudermos até à próxima escala. Que este incidente não os impeça de voltarem aos seus postos.

            Ao leme do iate, o herdeiro dos Carnarvon tinha uma postura distinta. Com a fronte alta e larga, coroada por uma cabeleira quase ruiva, o nariz de boa raça, o bigode cortado na perfeição, o queixo bem marcado, tinha o rosto de um conquistador, partindo para o infinito.

            Apenas Porchey sabia que a imagem enganava; teria, de boa vontade, delapidado uma parte da sua herança para dar um sentido à sua vida. A inteligência, a cultura, a fortuna, a possibilidade de fazer o que lhe apetecia, como lhe apetecia... nada disso lhe destruía o sentimento de ser vazio e inútil.

            O grego berrou.

            — O cozinheiro está vivo! Eu vi, abriu os olhos!

            O visconde encolheu os ombros.

            — Eu só tenho uma palavra, meu caro. Não tinha prometido salvá-lo?

 

            O homem observava o jovem Howard Carter havia meia hora.

            Elegante, fino, tinha um rosto severo e um olhar inquisidor.

            Howard, aproveitando um dia bonito, tinha colocado o cavalete num campo onde uma égua amamentava o seu potro; o Norfolk beneficiava de um fim de Verão excepcional, e oferecia cem temas de quadros. Aos dezassete anos, o jovem seguia o rasto do pai e contava tornar-se como ele, pintor animalista; em vez de o mandar para a escola da terra, tinha-lhe ensinado a ler, a escrever, a desenhar e a pintar; cavalos e cães eram os motivos principais. Embora tivesse irmãos e irmãs, sentia-se filho único, só ele era capaz de receber a mensagem do artista; de lhe perpetuar a descendência e de provar que podia viver da sua arte. Por isso trabalhava com perseverança, encarniçando-se a aperfeiçoar o mínimo pormenor.

            Embora tivesse nascido em Londres, no bairro de Kensington, a 9 de Maio de 1874, Howard Carter passara a sua infância em Swaffham, uma pequena aldeia cuja calma verdejante amava.

            Na véspera à noite, tinha-se produzido uma espécie de milagre pela primeira vez, um dos seus quadros quase o satisfazia. O cavalo cabriolava, os seus olhos riam, vivia; era verdade que faltava finura às suas patas e que a cabeça deveria ser aperfeiçoada. Mas a mão tornava-se firme: a profissão manifestava-se. O homem colheu um cólquico que enfiou na botoeira, e deu alguns passos em direcção ao adolescente que se levantou e o olhou sem baixar os olhos, espezinhando a sua educação. Continuou a sua marcha lenta através da erva, não receando manchar de verde o seu belo fato de aristocrata, e parou em frente da aquarela que examinou estendendo o pescoço como uma ave de rapina.

            — Interessante — concluiu. — Chama-se, ao que julgo, Howard Carter?

            O jovem detestava as maneiras dos ricos: entre eles, quantos salamaleques, para se dirigir a palavra. Ao inferior, bastava dar ordens num tom desdenhoso.

            — Não o conheço. Não é da aldeia.

            — Uma vez que não há ninguém para nos apresentar, à excepção daquela bonita égua ocupada noutras tarefas, fique sabendo que me chamo Percy E. Newberry, e que temos uma amiga comum. Teria a amabilidade de me desenhar um pato?

            Ele estendeu uma folha de papel.

            — Mas... Porquê?

            — A nossa amiga comum, Lady Amherst, que mora no palácio vizinho, falou-me de si como de um pintor notável. Comprou três telas suas. A sua égua pode considerar-se perfeita, mas um pato, é outra coisa...

            Furioso, Howard pegou no papel e, em menos de cinco minutos, esboçou um pato de pescoço verde, de grande perfeição.

            — Lady Amherst tinha razão; aceitaria desenhar e colorir, para mim, gatos, cães, gansos e uma quantidade de outros animais?

            A desconfiança do artista permanecia intacta.

            — Será, por acaso, coleccionador?

            — Professor de egiptologia na universidade do Cairo, no Egipto.

            — É longe, não é?

            — Muito longe. Londres ainda é mais perto.

            — Porquê Londres?

            — Porque a nossa bela capital alberga o British Museum; gostaria de o levar lá.

            O maior museu do mundo... o pai tinha-lhe falado nele muitas vezes. Talvez um dia, algum dos seus quadros lá fosse exposto!

            — Não tenho dinheiro. A viagem, o alojamento...

            — Está combinado. Aceita deixar a sua família e o seu país durante um mês... três meses?

            As andorinhas brincavam no céu; na orla da floresta, um picanço depenicava a casca de um carvalho. Abandonar Norfolk, separar-se dos irmãos, despedaçar a infância... Atirou com o cavalete.

            — Quando partimos?

            Vários meses de trabalho ininterrupto, debruçado sobre a sua mesa, a reproduzir hieróglifos onde figuravam não só animais mas também seres humanos, objectos, edifícios, sinais geométricos e muitos outros aspectos dessa língua que os Egípcios consideravam como sagrada: como um escriba, Howard Carter aprendia a desenhá-la antes de a compreender; traçar essas palavras de autoridade transformava-lhe a mão e o pensamento. Respeitava escrupulosamente os modelos que o professor Newberry lhe facultava; a pouco e pouco, aprendera a escrever como os antigos tinham escrito.

            Isolado num escritório, limitado a um pequeno quarto, não convivia com ninguém. O British Museum e os seus gentlemen afectados intimidavam-no; preferia a companhia dos hieróglifos.

            Um manto de chuva gelada cobria Londres. O professor Newberry convocou-o; sobre a sua secretária estavam os desenhos de Howard Carter.

            — O seu trabalho satisfaz-me inteiramente. Gostaria de passar a ser o mais jovem membro do Egypt Exploration Fund?

            — Que cargos implica essa distinção? — Percy E. Newberry sorriu.

            — Para ser franco, Howard, tem o carácter mais desconfiado e mais independente que o Criador colocou no meu caminho. O destino decidirá. No que diz respeito à fundação científica privada, que ficaria feliz por o acolher, tem por vocação o estudo das artes do Egipto antigo e um melhor conhecimento da sua civilização.

            Se bem que Howard Carter tivesse decidido não deixar transparecer qualquer emoção, arrebatou-o uma vaga de entusiasmo.

            — É... é maravilhoso! Portanto vou continuar aqui a desenhar hieróglifos!

            — Receio que não.

            Newberry revelou-se-lhe subitamente como um demónio saído do Inferno, a fim de o torturar. Ao alcance da sua mão havia um tinteiro. O professor apercebeu-se da sua intenção.

            — Nada de gestos irreflectidos, Howard; a situação é delicada.

            — Terei cometido um erro? Mandar-me embora porquê?

            — Reage sem saber; esse entusiasmo poderia trazer-lhe bastantes preocupações.

            — Os conselhos ficam para depois; primeiro, a verdade!

            Percy E. Newberry, com as mãos cruzadas atrás das costas, voltou-se para a janela do escritório e observou a chuva a cair.

            — O pato dos hieróglifos é um bicho venenoso, Howard; uma vez que nos mordeu é para toda a vida.

            — Eu aceito desenhar milhares de patos.

            — Aceita também sacrificar tudo a esses voláteis?

            A posição não o assustou.

            — Quando se tem a felicidade de encontrar verdadeiros amigos, conservam-se.

            O professor Newberry voltou-se novamente para o adolescente.

            — Pois bem, senhor Carter, ei-lo arqueólogo. Só resta um pormenor a regularizar.

            — Qual?

            — As suas malas. Embarcamos amanhã para o Egipto.

 

            Da Alexandria, Howard Carter não viu nada; o professor Newberry estava com pressa de apanhar o comboio para o Cairo. Logo que deu os primeiros passos no solo do Egipto, o jovem sentiu-se liberto de dezassete anos de Inglaterra e de uma família que desapareceram nas brumas do esquecimento. Só, mas subitamente embriagado pelos milénios de uma civilização imortal, começava a viver.

            Transportando duas preciosas malas do professor, cheias do seu material científico, não teve sequer vagar de saborear um Oriente colorido e perfumado.

            O caminho de ferro, linhas telegráficas, um serviço postal, uma estação barulhenta... Não escondeu o seu espanto.

            — É verdade, Howard, o Egipto moderniza-se. Acaba infelizmente de adoptar o árabe como língua oficial da administração e de autorizar um jornal pregando a independência. Que loucura! Sem nós, o país seria condenado à ruína e à miséria. Essa maldita gazeta recebeu o nome de al-Ahrâm. A Pirâmide. Que profanação... por felicidade, os extremistas não têm futuro algum. Acabarão na prisão, à fé de Newberry!

            Abandonando o professor à sua vindicta, contemplou as paisagens do Delta, casamento de água e de terra; as aldeias, construídas sobre colinas, dormiam ao sol. Coortes de pássaros brancos sobrevoavam extensões verdejantes povoadas de canaviais; camelos, pesadamente carregados, avançavam com um passo majestoso pela crista dos diques que dominavam os campos de trigo. Com o nariz colado à janela do comboio, passava de deslumbramento em deslumbramento.

            — Esqueces-te de fazer esboços.

            Envergonhado, tirou o caderno de desenho para fora e começou a trabalhar.

            — O trabalho, Howard! Só o trabalho conta. Tu, agora, és um cientista, mesmo que ignores tudo. Contenta-te em anotar e analisar; se te deixas envolver pela magia deste país, perderás a alma.

            Dez raças, cem línguas, mil cores de turbantes, uma multidão compacta de Egípcios, de Sírios, de Arménios, de Persas, de Turcos, de Beduínos, de Judeus e de Europeus, mulheres veladas de negro, burros carregados de luzerna ou de barro, os telhados das casas em mau estado, atafulhados de detritos, dos cheiros de excrementos misturados com o perfume das especiarias, solos lamacentos, pequenas lojas abertas num lanço de parede, o fumo dos fornos ao ar livre, onde se coze a carne e o pão, milhafres rapaces voando em redor do alimento, dentro do cesto que as camponesas traziam à cabeça, um sonho louco, grandioso, inumano: assim lhe apareceu o Cairo, a mãe do mundo.

            Ficaram num hotel do centro da cidade que se parecia, traço a traço, com um estabelecimento londrino; o professor encomendou sopa e porrídge para o jantar. Esgotado, encantado, Howard adormeceu, escutando as vozes ininterruptas da grande cidade. Às cinco da manhã, Newberry sacudiu-o sem contemplação.

            — A pé, Howard! Temos um encontro.

            — Tão cedo?

            — O funcionário que temos de seduzir, trabalha, à segunda-feira, das seis às onze; se perdermos a ocasião, perdemos uma semana.

            Abriam os primeiros cafés; nas ruas, quase desertas, os transeuntes pareciam cheios de frio. O ar vivo varria as nuvens e deixava aparecer um Sol pálido, cujos primeiros raios poisavam sobre os inúmeros minaretes: em frente da grande mesquita de Méhémet Ali, foi rendida a guarda.

            Percy E. Newberry meteu por um beco sórdido atafulhado de gaiolas, de restos de aves e amontoado de detritos; as casas, meio abatidas, inclinavam-se umas para as outras, ao ponto que os moucharabiehs se tocavam, permitindo às donas de casa trocarem confidências sem saírem. Atravessaram, a grandes passadas, o bairro miserável, passaram em frente dos mercadores de laranjas e de cana-de-açúcar; atrás de um sicômoro escondia-se a entrada de um palácio degradado, que dois homens de idade guardavam. Cumprimentaram o professor, que se contentou com um aceno de cabeça e se enfiou por uma escada, noutros tempos sumptuosa.

            Um núbio, com uma vestimenta vermelha, comprida, acompanhou-os à porta de um escritório que um dos seus compatriotas, tão musculoso como ele, vigiava.

            — Sou o professor Newberry. Previna Sua Excelência da minha chegada.

            “Sua Excelência”, um pequeno tirano de bigodes, com o rosto sacudido por tiques, aceitou recebê-los. O seu antro[1] estava cheio de pilhas de cadernos e de notas administrativas, no meio dos quais pontificava como um paxá. Em virtude da exiguidade do local, era impossível introduzir-lhe cadeiras; ficaram, pois, de pé, em frente do funcionário.

            — Encantado por o tornar a ver, professor. Posso ser-lhe útil?

            — Vossa Excelência é detentor da chave da minha salvaguarda.

            — Que Alá nos proteja. Quem é esse rapaz?

            — Howard Carter, o meu novo assistente.

            — Seja bem-vindo ao Egipto.

            Howard inclinou-se desajeitadamente. Pronunciar as palavras “Vossa Excelência” estava acima das suas forças; porque seria que um sábio como Newberry perdia o seu tempo com aquele homenzinho sentencioso?

            — A sua família está de boa saúde, Excelência?

            — Muito boa, professor; constato que a sua saúde está também florescente.

            — Menos do que a sua.

            — Lisonjeia-me; conta voltar ao Médio Egipto?

            — Se agradar a Vossa Excelência.

            — Agradava-me, professor, agradava-me! As autorizações de estada encontram-se no cimo daquela pilha, à sua esquerda. Gostaria tanto de as assinar e de lhas dar...

            Percy E. Newberry empalideceu.

            — Há perturbações na região?

            — Não, não... as povoações locais estão calmas.

            — As estradas não estão seguras?

            — Não há nenhum acidente a lamentar.

            — Esclareça-me, Excelência.

            — As despesas administrativas... Aumentaram muito nestes últimos meses. A quantia que pagou antecipadamente, deixou de pertencer à realidade, infelizmente.

            O professor pareceu aliviado.

            — Vossa Excelência estaria de acordo em me precisar o montante desse aumento?

            — O dobro.

            Percy tirou da algibeira do casaco um maço de libras esterlinas e ofereceu a Sua Excelência, que se desfez em agradecimentos. Abriu um cofre mural e nele arrumou, cuidadosamente, o seu pecúlio. Fechada a porta, condescendeu em entregar as autorizações.

            O núbio trouxe café turco; trocaram-se banalidades enquanto ele foi saboreado. Ao sair desta entrevista, Howard manifestou o seu furor.

            — É corrupção!

            — Um cerimonial, Howard.

            — Nunca cederei a semelhante chantagem.

            — Na Europa, a corrupção dissimula-se sob a capa da política e da justiça; aqui, é uma instituição. Cada coisa tem seu preço; mas será preciso conhecer o bom. Senão, passarás por um imbecil e perderás a cara, isto é, tudo.

            Um riso sarcástico animou o peito do professor.

            — Tendo em consideração o tesouro que vais descobrir, não paguei caro.

           

            — Um tesouro, diz? — interrogou Porchey, céptico.

            O cozinheiro reiterou a sua afirmação, numa mistura de português e de inglês bastante desagradável ao ouvido.

            — Um enorme tesouro!

            — Jóias?

            — Anéis, colares, diamantes, esmeraldas... foram os piratas que os esconderam.

            O futuro Lord Carnarvon observou o mapa.

            — Em que ilha?

            — Lançarote.

            — Não me fica em caminho.

            — Não perca esta ocasião, meu senhor.

            Lançarote... o nome dessa ilha das Canárias, ressoava de uma maneira estranha na memória do aristocrata. Concentrou-se no seu passado de estudante e fez-se luz; tinha sido ali, numa das pontas do mundo, para onde retirara um castelão escocês arruinado, apaixonado por astrologia, mulheres exóticas e vinho branco.

            A mil quilómetros ao sul da Europa, e a cento e quinze da costa africana onde os antigos situavam os Campos Elíseos, onde os bem-aventurados saboreavam um eterno sol e onde também os amadores do maravilhoso localizavam a Atlântida!

            “Ilhas afortunadas”: assim baptizavam as Canárias entre marinheiros de longo curso; ilha de púrpura, dizia-se da estranha e severa Lançarote, imenso campo de lava pontuado de vulcões de encostas esfarrapadas.

            O Afrodite atracou ao Arrecife, a custo de mil dificuldades; a chuva fustigante, um vento violento, correntes perigosas e um canal estreito tornaram a manobra delicada. Porchey aguentou o leme e, uma vez mais, evitou o naufrágio. O cozinheiro brasileiro refugiara-se numa ladainha em que a Virgem Maria estava a par de um demónio africano.

            Desolada e hostil, Lançarote não se parecia nada com a idéia que um inglês correctamente educado podia ter do paraíso. Lançada a âncora, Porchey serviu-se de uma barca local, que o levou a um porto miserável onde apodrecia um brigue de piratas; sobre o vazio de um mar deserto velava uma torre fortificada, e alguns canhões enferrujados preparavam-se para atirar inutilmente sobre fantasmas de corsários.

            — Onde se encontra o teu tesouro?

            — Na capital, Teguise — respondeu o cozinheiro brasileiro.

            Porchey alugou, a peso de ouro, uma campana conduzida por um mago, camponês local com um chapéu de palha, de abas largas, na cabeça, e tão conversador como um pedaço de lava.

            Os insulares ainda não tinham inventado as estradas; assim, os veículos puxados por uma mula e um camelo, que se davam bem, caminhavam sem pressa numa pista cheia de pedras, através de uma paisagem devastada em que nenhuma árvore conseguia crescer.

            O aristocrata reparou que o cozinheiro ficava cada vez mais nervoso.       — És um ingrato. Operei-te com êxito e gostarias de me furar a pele.

            — Eu? Mas porquê?

            — Receio que a minha bolsa te interesse mais do que o meu estudo inédito sobre os vasos etruscos.

            — Senhor... estais a pôr em mim os vossos pensamentos...

            — Resumindo a situação, os teus amigos esperam-me atrás de algum cacto, na firme intenção de me tirar a vida e os meus guinéus.

            A tez do brasileiro tornou-se esverdeada.

            — Um cavalheiro far-te-ia falar antes de te suprimir.

            — Vós sois um deles, milord!

            — Por vezes, gosto de me abandalhar.

            O cozinheiro saltou em terra e escapuliu-se. O mago não abrandou o passo, indiferente às querelas dos estrangeiros. Como Porchey não podia, contudo, preparar ele mesmo as refeições, teria necessidade de contratar um moço de cozinha para não mostrar a sua incompetência culinária.

            Teguise, a capital, era um burgo miserável, de casas brancas e baixas, acometidas de um sono milenário. Não era ali que Porchey descobriria a paixão que queimaria o seu tédio.

            A casa do governador, com varandas de madeira, imperava na praça principal em que dormitavam, sob os seus chapéus, alguns velhos camponeses. Um homem vestido de branco dissertava com vinhateiros, que gabavam a qualidade dos seus produtos. Porchey reconheceu o seu condiscípulo, apesar da gordura e de uma barba mal cortada.

            — Estou feliz por te tornar a ver, Abbott.

            — Porchey! Sobreviveste ao colégio?

            — Mais ou menos.

            — Vens instalar-te aqui? As raparigas são um bocado desconfiadas, mas o vinho branco é excelente! Cepas que crescem na lava... um gosto incomparável! Prova-me isto! — O líquido era de um amarelo-brilhante.

            — Razoável – apreciou. Porchey não suporta a comparação com um bourgogne, mas pode salvar uma situação desesperada.

            — Continuas a ser tão exigente... É evidente que te hospedo!

            A noite foi agradável; Abbott serviu uma carne de vaca grelhada e um arroz-doce.

            — Eu não estou infeliz aqui; não acontece nada e eu vou  desaparecendo docemente.

            — Tens sorte, Abbott.

            — Eu conheço-me, não presto para nada e desenvolvo essa qualidade. — Tu, és diferente... Uma vez elaborei o teu tema astral, lembras-te?

            Abbott voltou com uma série de zodíacos quadrados onde tinha disposto planetas.

            — Sol e Mercúrio em Caranguejo, Júpiter em Aquário... o passado e o futuro, a tradição e a invenção. Ainda não deixaste de nos espantar, Porchey!

            — Que Deus te ouça!

            Ligeiramente tocado pelo vinho branco, o futuro Lord Carnarvon teve dificuldade em adormecer. Quando a cama abanou, compreendeu que tinha abusado daquele vinho delicioso; quando as paredes do quarto tremeram, começou por pôr em dúvida a competência do arquitecto, e foi depois até à varanda.

            A lua cheia oferecia uma luz prateada. Ao longe, um penacho de fumo saía de um vulcão.

            Abbott apareceu na varanda da esquerda.

            — Uma erupção — anunciou guloso.

            A terra continuava a tremer; um clarão vermelho brotou da montanha em chamas. Uma corrente de lava galgaria em breve a encosta.

            — Esplêndido — observou Abbott. — Que será mais excitante do que viver às portas do inferno?

            — Ultrapassá-las — respondeu Porchey

 

            Foi em Beni-Hassan que Howard Carter viveu a sua primeira noite egípcia. Naquele lugar, esquecido do Médio Egipto, floria ainda a alma dos nobres do Médio Império, cujas tumbas escavadas no cume de uma falésia dominavam o Nilo. Num nível inferior, um cemitério muçulmano e pequenos jardins à beira do rio; em ilhotas cobertas de erva brincam garças. O ar era transparente; o pôr do Sol surpreendeu-o quando copiava uma inscrição hieroglífica.  

            Sentado num escarpado, fixou o disco avermelhado que se escondia rapidamente no horizonte; ouro, púrpura e lilás disputavam entre si a supremacia, antes de ceder à luz desencarnada das estrelas.

            Uma paz de um outro mundo acalmou-lhe o coração, acabara-se a bruma, a chuvinha, o macadame luzidio de chuva, de smog, acabaram-se os tristes cortejos de homens sérios e com pressa de ganhar a vida para melhor a perderem, mas ficara a luz, o rio divino e o tempo parado.

            Tinha encontrado a sua terra; o seu destino pertencia-lhe.

            — Lembremo-nos, Howard, da crítica de Pescennius Níger aos seus soldados: “Têm a água do Nilo e pedem vinho!” Não desfazendo nesse valoroso guerreiro romano, proponho-lhe saborear este excelente produto da terra.

            — Obrigado, professor!

            Percy E. Newberry examinou o seu colaborador com ansiedade.

            — Tens uma cara esquisita; sofrerás de alguma doença?

            — Quem bebeu água do Nilo, tornará a beber, afirma o provérbio; não peço mais nada.

            Sem admitir recusa, o professor encheu os copos. No campo das escavações de Beni-Hassan era dia de descanso, logo a ocasião de melhorar o normal. As condições de existência eram duras, mas dormir no local representava a vantagem de estar com a mão na massa, mal o Sol nasce, e de poder desenhar sem qualquer outra preocupação, além da busca da perfeição. O traçado egípcio, aparentemente tão simples, requeria um extraordinário domínio, mas Howard Carter não deporia armas antes de ter esgotado a totalidade dos seus recursos.

            — Trabalhas demais, Howard.

            — O trabalho, professor, não é o essencial?

            — Não me tomes por um idiota. Quando o teu dia termina, começas outro; não contente de desenhar e de pintar, passas a noite a ler.

            — A história antiga do Egipto apaixona-me. Será isso um crime? Se a memória não me falha, foi o senhor quem me apanhou com o pato dos hieróglifos.

            — Quem poderia chamar-te à razão?

            Howard abriu um pano da tenda onde almoçavam.

            — Esta paisagem contempla-nos mais do que nós a contemplamos, cada minuto me absorve mais, me alimenta, me faz sentir que a morte é um fruto de eternidade. Aqueles túmulos estão vivos, professor; venero aqueles defuntos sorridentes representados nas paredes. Os seus olhos nunca se fecharão.

            — Não te fies, Howard; estás a tornar-te um velho egípcio. Abandonar a nacionalidade britânica é uma infâmia.

            Alguém subia o atalho; rolavam pedras sob os seus sapatos. Inquieto, Newberry saiu da tenda.

            — Ele ousou — murmurava ele — ele ousou...

            O homem trepava com regularidade. Tinha o rosto comido por uma abundante barba branca, poderia ter cinquenta ou cem anos. Seco, quase descarnado, com a pele bronzeada, avançava em terreno conquistado.

            — Gostas de me tornar a ver, Percy?

            O professor respondeu num tom glacial.

            — Quem não ficaria encantado por receber Sir William Flinders Petrie, o maior dos egiptólogos?

            — Por uma vez não se engana. Esse rapaz, de rosto desconfiado, é Howard Carter?

            Petri encarou-o como se se tratasse de um animal destinado a ser abatido.

            — É o meu assistente.

            — Já não é. A partir deste momento, entra ao meu serviço. — Howard cerrou os punhos.

            — Eu não sou uma mercadoria. Por muito Petrie que seja, eu sou um homem livre; o meu patrão é o professor Newberry.

            Sir William sentou-se num bloco, em frente do Nilo e do suave campo de Beni-Hassan.

            — A liberdade é uma ilusão moderna, meu rapaz; neste mundo só existe uma realidade; há os que dirigem e os que obedecem. Hoje, pertenço à primeira categoria e tu à segunda. Faço tenção de te ensinar a tua profissão; não podes sair daqui.

            — E se eu o mandar para o diabo?

            — Não serás o primeiro; Petrie é indestrutível. Se recusares, o nosso amigo Newberry será obrigado a voltar para Inglaterra com os teus belos desenhos e contigo de brinde.

            O professor enraivecia mas não ousava protestar.

            — É uma chantagem odiosa.

            — Espera-me um enorme trabalho e preciso de colaboradores entusiastas e competentes, mesmo que tenham mau feitio. Não esperes ter tempo para reflectir; vou imediatamente para o meu barco. Ou me segues ou renuncias ao Egipto.

            Petrie desceu a encosta com a agilidade de uma cabra. Breve desapareceria. Newberry pôs a mão no ombro do rapaz.

            — Não tens escolha, Howard. Segue-o.

            — Mas o senhor...

            — Petrie é o melhor. Graças a ele, tornar-te-ás um verdadeiro arqueólogo.

            Um inglês nunca chora. A fim de esconder as suas lágrimas, Howard Carter, com a sua pasta de desenhos e a sua caixa de aquarelas por única bagagem, lançou-se na descida com risco de partir o pescoço.

 

            Um pouco antes do pôr do Sol, o céu tornou-se sépia; umas nuvens ocre encheram o horizonte e formaram um zimbório ameaçador.

            — Corramos para o interior do barco e tapemos todas as aberturas ordenou Petrie.

            O vento foi mais rápido do que os arqueólogos; soprando com uma violência de fim do mundo, era acompanhado de uma chuva de areia que se infiltrou no menor interstício. Se bem que estivessem ao abrigo, os olhos ardiam-lhes; Sir William obrigou Carter a tapar a cabeça com uma coberta e a permanecer prostrado. O camarote do velho esquife era tão pouco hermético que a areia depositou-se nas camas, nos móveis e em cada peça de louça.

            Passadas dez horas de fúria, o khamsin acalmou, deixando uma camada esbranquiçada sobre as casas da aldeia, junto das quais tinham atracado.

            No dia seguinte, o vento do deserto desencadeou turbilhões que velaram o Sol e os impediram de sair.

            — Quanto tempo irá durar este cataclismo?

            — Três dias, três semanas ou três meses, Howard; aproveitemos para verificar os teus conhecimentos.

            Sir William submeteu-o a um interrogatório egiptológico que pôs as suas lacunas em evidência.

            — Ser ignorante a esse ponto é uma farsa, meu rapaz.

            — Não tive a sorte de frequentar a universidade.

            — Estou-me nas tintas. A tua sorte é estares aqui; uma vez que não sabes nada, não aprendeste nada errado.

            Desvendou-lhe as regras de gramática, deu-lhe frases simples para traduzir e fez-lhe memorizar as listas das palavras; depois, mostrou-lhe os resultados da investigação.

            — Os egiptólogos são borboletas ou toupeiras, Howard; voam de lugar em lugar, sem nada ver, ou então limitam-se a ponto de se demorarem dez anos sobre um caco de cerâmica. Eu ponho em ordem a trapalhada que os séculos acumularam.

            Carter sentiu, subitamente, um respeito imenso por Sir William, pela sua atenção extrema pelos monumentos, pela sua vontade de transmitir a sua ciência. Os seus caracteres nunca se aliaram, mas o seu amor comum pelo Egipto favoreceu um diálogo que durou até ao dia da Primavera em que o mestre fez descobrir Tell-el-Amarna ao discípulo.

            Nessa planície desértica, entre o Nilo e a falésia, tinha sido edificada a cidade do sol, a efémera capital de Akhenaton, a herética. Petrie não gostava dela e considerava-a decadente.

            Aquela vastidão desolada apertou o coração de Howard. Subitamente, viu o grande templo a céu aberto, o palácio branco com rampas ornadas de frescos, lagos de água fresca, o viveiro regurgitando de pássaros exóticos, viu o rei e a grande esposa Nefertiti na sua carruagem de prata, aclamados pelos seus fiéis, viu os embaixadores da Ásia e da Núbia apresentar os seus tributos ao par real.

            — Sonhar é inútil, Howard; a realidade dá-nos demasiado trabalho.

            Obediente, mudo, mediu os traçados das casas arrasadas até aos alicerces; enquanto aplicava as técnicas rigorosas de Sir William, não cessou de pensar no faraó maldito cuja obra tão encarniçadamente tinha sido destruída. A despeito da luta conduzida pelas acácias e os sicômoros, apesar dos canais de irrigação, o deserto triunfava; concedia ao Nilo uma faixa fértil, mas lançava-se no assalto das terras logo que o homem mandriava.

            — Estás a progredir, Howard — admitiu Petrie. — mas toma cuidado com essa morte luminosa que se chama deserto. Os árabes tiveram medo dele; julgam-no povoado de monstros, de génios maus e de forças incontroláveis. Deverias escutá-los.

            Petrie dormia, Howard partiu só pelo deserto, em direcção ao Ocidente; precisava de dialogar com aquele lugar selvagem, arrancar-lhe o seu segredo. O calor breve se tornaria insuportável mas ele não o receava; além, naquela areia infinita, ao fundo de um rio seco, esperava-o o fantasma de Akhenaton.

            O sol atingia o zénite. Ao fim de quatro horas de caminho, distinguiu um acampamento. Um beduíno, armado de uma espingarda, obrigou-o a entrar na tenda do chefe.

            — Quem és?

            — Howard Carter. Trabalho no lugar de El-Amarna.

            — Com Petrie?

            — Exactamente.

            O chefe falava um excelente inglês.

            — Petrie... um sábio escrupuloso que nunca compreenderá nada do Egipto. Para ele tudo são números, medidas, cálculos, inventários... tu és muito jovem. Que procuras tu?

            — O túmulo de Akhenaton.

            — Descalça-te, os meus servos vão lavar-te os pés. Depois, dividiremos as tâmaras, o borrego assado e beberemos leite de cabra.

            Grande favor lhe era concedido; seis crianças prestaram homenagem a seu pai e mantiveram-se em silêncio a seu lado, esperando que tivesse absorvido o primeiro bocado antes de se servirem. O chefe, de uns sessenta anos de idade, adoptou a postura do escriba.

            — Não te lances a direito sobre o obstáculo, Howard Carter; toma um caminho sinuoso, aprende a perder tempo, fortifica-te com a tenacidade dos justos, desposa as curvas da paciência e chegarás à tua meta.

            — Será que a conhece?

            — Mo é o túmulo de Akhenaton que fica perto daqui.

            — Leva-me lá?

            — É inútil; os larápios destruíram-no. Busca o filho do seu espírito, aquele que lhe sucedeu e de que os homens perderam o rasto. Eis o destino, Howard Carter: descobrir um tesouro, o mais fabuloso de todos os tesouros. Mas quem ousaria defrontar tantos perigos?

            O chefe levantou os olhos para um futuro que só ele descerniu.

            — Fala mais — suplicou Carter.

            — Atinge a cidade destruída e começa a procurar sem pressa e sem trégua; tenta levantar o véu e recorda-te: se um dia se passar sem que tenhas aprendido alguma coisa que te ensine a aproximar-te mais de Deus, que esse dia seja maldito. Quem procura essa sabedoria é mais amado por Deus do que o maior dos heróis da guerra santa.

            Com nervosismo, Carter examinou os manuais da história egípcia que Petrie pusera à sua disposição; Sir William surpreendeu-o a meio da noite.

            — Eis-te de volta... onde te escondias?

            — Quem é o filho de Akhenaton?

            — Ele só teve filhas.

            — O seu sucessor? Estes livros são tão confusos.

            — O período é mal conhecido. Eu apostaria num reizinho completamente obscuro: Tutankhamon.

            — O seu túmulo foi descoberto?

            — Ainda não.

            — Poderá ter sido aberto perto do de Akhenaton?

            — É mais provável no Vale dos Reis; sérios indícios autorizam a pensar que Tutankhamon, no fim da heresia, tivesse voltado a Tebas. Mesmo o seu nome, que significa “símbolo vivo de Amon” prova que venerava de novo o todo-poderoso Amon. Em que é que essas velhas querelas teológicas te interessam?

            — Quero descobrir o túmulo de Tutankhamon.

            — Quem te meteu essa ideia na cabeça?

            — Um chefe beduíno revelou-me o meu destino no deserto.

            — Ah! Esse velho louco que pretende conhecer a localização da sepultura de Akhenaton... julga-se um adivinho. Sossega: nenhuma das suas predicções se realizou. Esquece a sua profecia e assenta em finalidades sérias; todos os túmulos do Vale dos Reis foram pilhados há muitos séculos. O lugar já não apresenta o menor interesse para um arqueólogo.

            Percebendo a sua confusão, Petrie entendeu por bem dever confortá-lo.

            — Gostaria de te confiar uma missão delicada, Howard. O meu colega suíço Naville em breve trabalhará em Dar el-Bahari, e precisará da colaboração de um aquarelista para reproduzir os quadros e os baixos-relevos do templo da rainha Hatshepsut.

            Carter anuiu sem manifestar entusiasmo, se bem que tivesse vontade de gritar a sua alegria: Dar-el-Bahari não se encontrava na margem ocidental de Tebas, mesmo ao pé do Vale dos Reis?

 

            Quando Porchey se voltou, notou a marca dos seus passos na areia imaculada da baía do Oriente. A ilha de S. Martinho, refúgio de piratas e traficantes, oferecia vastas praias solitárias, sobrevoadas por pelicanos. Água verde límpida, vento firme, sol morno... o futuro Lord Carnarvon não se importava com isso. Se escolhera aquela escala, na charneira das Grandes e das Pequenas Antilhas, não era para se banhar mas a fim de acrescentar uma peça de escolha à sua colecção de personalidades: o último dos Arawaks, os primeiros índios que lá tinham vivido.

            Descoberta em 1493 por Cristóvão Colombo, São Martinho tinha caído no esquecimento antes de, em 1029, ser ocupada pelos Franceses, seguidos, em 1631, pelos Holandeses e, em 1633, pelos Espanhóis, contra os quais Peter Stuyvesant lutou em vão. A ilha tinha sido propriedade de uns e de outros, ao sabor das guerras e dos combates. Os Ingleses tinham mantido correctamente o seu papel, antes de cederem a melhor parte aos Holandeses e a menos rica aos Franceses.

            Porchey rememorou o itinerário que lhe tinha indicado um antilhano exilado nas Canárias: deixou a praia em direcção ao monte Vernon e passou em frente de uma casa em ruínas que as térmitas tinham roído. Os muros dos fortes e das mais belas moradas tinham sido regularmente abatidos, como se a paz fosse impossível naquele aparente paraíso.

            O aristocrata lera com interesse a narrativa do irmão Ramon Pane, irmão pregador da ordem de São Jerónimo e companheiro de viagem de Colombo; explicava a maneira como os Arawaks, depois de terem absorvido cohoba, uma droga alucinogénea, entravam em contacto com os deuses e os demónios que teriam depois de esculpir na pedra e na madeira. Essas esculturas tornavam-se muito perigosas; sob pena de serem amaldiçoados e de caírem doentes, os seus autores deviam oferecer-lhes mandioca todos os dias. Ora o último dos Arawaks pretendia ter visto o grande deus e tinha-o portanto fechado numa forma que revelava a sua verdadeira natureza. Uma ligeira excitação animava Porchey, que um britânico razoavelmente céptico pudesse contemplar o Criador merecia a animosidade.

            No tempo dos Arawaks, a ilha ignorava o crime; viviam nus e pescavam. A chegada dos Caraíbeos, que vieram da selva do Amazónias, tinha posto fim a esse período tranquilo. Violentos e cruéis, tinham exterminado os Arawaks e tinham-se alimentado da sua carne. Processo chocante, segundo Porchey, que lamentava a falta de elegância desses Caraíbeos, cujo nome, transformado em Caraíbas, não significava senão canibais. Quando se tem a sorte de descobrir um povo feliz, será necessário devorá-lo?

            Segundo a opinião geral, os Arawaks tinham sido aniquilados; que subsistisse um, era quase um milagre. Milagre... eis o único fenómeno que interessava Porchey. À força de o perseguir por todos os cantos do mundo, acabaria por encontrá-lo?

            Porchey meteu por um caminho muito estreito, caminhou ao longo do sopé do monte Vernon, e enfiou por uma pequena floresta de que emergiam coqueiros. No lugar previsto, perto de uma árvore morta que espessos cipós encerravam, descobriu uma cabana coberta por um telhado de palmas; sentada em frente de uma porta, uma velha negra cozia arroz numa panela de barro. O seu domínio estava escondido sob hibiscos, cretones e alamedas; a poucos passos, cultivava um canteiro quadrado de batatas-doces e de couves.

            Como não havia ninguém para fazer as apresentações, Porchey foi obrigado a revelar uma parte da sua identidade. A enumeração da totalidade dos seus títulos pareceu-lhe supérflua.

            — Chamo-me Mammy disse a velha.

            — Será a última dos Arawaks?

            — Fui criada com sopa de ervilhas e nunca ninguém me insultou.

            — A minha intenção não é essa; não possuirá uma escultura? — Mammy sorriu.

            — Também tu te deixaste apanhar! A lenda atrai aqui dois ou três visitantes por ano... Quem poderia fechar Deus dentro de um ídolo?

            — Os Arawaks tentaram.

            — Já morreram... Gostaria de comer em paz.

            Porchey reconheceu a legitimidade desse desejo; abandonou Mammy e tomou a direcção da capital francesa, Marigot. Mesmo graças à colaboração de um burro e do seu dono, não chegou antes da noite.

            O lugar não se parecia com Londres nem com Roma. A rua principal, a única que existia, era bordada de casas de madeira pintada, cuja solidez deixava muito a desejar. No termo da artéria, o oceano; à esquerda, a câmara; à direita, a escola e a esquadra. Como pessoa importante conseguiu um primeiro andar com uma galeria.

            Porchey levou a efeito um inquérito minucioso, consultou arquivos e interrogou as autoridades. A sua busca do último dos Arawaks traduziu-se por um fracasso; tinha sido vítima de uma mentira.

            No dia seguinte, assistiu a um baile onde as raparigas atiravam aveia para o solo, a fim de se poder escorregar quando se dançava; encantado por um instante, o aristocrata depressa se aborreceu, abandonou a assembleia e sentou-se à borda da água. Os alíseos sopravam com força, dobrando os coqueiros.

            — Estás à espera de alguém? — perguntou uma garota risonha, com uma flor de hibisco no cabelo.

            — Talvez.

            — Como se chama?

            — Não sei.

            — É um amigo?

            — Um amigo... sim, encontraste a palavra certa. Um amigo em quem terei confiança, um homem verdadeiro, capaz de se sacrificar pelo seu ideal.

            A garota partiu a correr.

            Olhando-a, Porchey perguntou a si mesmo se o amigo sem nome viria do céu, do oceano ou da terra, se tinha nascido num país próximo ou distante e se conseguiria extinguir a sua vagabundagem num olhar cúmplice.

 

            O comboio partiu da estação do Cairo, com um barulho infernal, às vinte horas precisas; os viajantes berravam, riam, chamavam-se e corriam de um compartimento ao outro. Entalado entre um notável obeso, apoiado sobre a sua bengala, e uma matrona de véu e vestida de preto, Carter pensava na despedida gelada de Petrie. Sir William estimava ter-lhe ensinado as bases da arqueologia tal como a tinha praticado; dotado de sólidos conhecimentos históricos, capaz de decifrar certos textos hieroglíficos, o jovem estava apto, segundo sua opinião, a começar uma brilhante carreira de que Dar el-Bahari seria uma etapa decisiva.

            Carter sentia-se órfão. Depois de ter perdido Newberry, era abandonado por Petrie. O destino condenava-o à solidão? Contudo, no termo dessa nova viagem estava Tebas! Tebas e o Vale dos Reis, que interrogaria até que ele lhe confiasse os seus segredos.

            Uma família jantou; puseram-se sobre os bancos pepinos, folhas de alface, ovos cozidos, e esvaziaram-se jarros de água-pé sem parar de falar alto e forte. O pai, saciado, tirou os chinelos, encostou-se a um saco e conseguiu adormecer apesar do concerto de gritaria. Quando três baixos funcionários se decidiram a ocupar o compartimento, a fim de manter um conciliábulo, fumando charutos, Carter foi obrigado a fugir; o cheiro daquele tabaco teria condenado os seus pulmões à asfixia. Por felicidade, pôde atingir a plataforma.

            Só, frente à noite estrelada, viveu a sua mais bela viagem de caminho de ferro. Graças à fraca velocidade do comboio, o vento era suave; respirar foi uma delícia. Saboreou cada milha como uma oferenda celeste. As horas passaram num instante.

            Subitamente, o oriente tingiu-se de vermelho; no coração de uma ilha de chama, o jovem Só desencadeou um combate vitorioso contra as trevas; meteu-se oiro no meio do verde das palmeiras, as searas ondularam sob a brisa da manhã, o Nilo saiu do seu torpor.

            Apareceu a estação de Luxor, poeirenta e esmagada pelo sol; o comboio parou debaixo de uma ponte metálica. Apressados, os viajantes brotaram dos vagões a gesticular; apanhado pela tormenta, Carter seguiu o fluxo humano. Peões, mercadores ambulantes, burros, entremisturavam-se num caos movediço. Habituando-se à algazarra, enfiou-se numa nuvem de areia, e, sem dúvida, também de eternidade, proveniente das pedras, dos templos ou dos túmulos. Liberto da barafunda, parou na frente de uma cozinha ao ar livre e consumiu favas quentes misturadas com arroz. Aquela sólida refeição dar-lhe-ia a energia necessária para o dia inteiro.

            Sem dúvida que se devia ter apresentado ao empregado que, no cais da estação, brandia um cartaz com o nome dele, a fim de o conduzir junto de Naville; mas não tinha vontade de discutir com qualquer pessoa. Era-lhe preciso, em primeiro lugar, lidar com aquela luz ao mesmo tempo terna e violenta. O seu olhar não se pôde soltar da montanha tebana, imperando sobre a margem do Ocidente; àquela hora, era cor-de-rosa e azul.

            No embarcadouro, chamou um falucheiro; combinado o preço da passagem, depois de uma longa discussão em que Carter utilizou os seus rudimentos de árabe, a embarcação lançou-se no Nilo. Ultrapassou um barco carregado de camponeses e de animais, meteu-se na corrente e atingiu, demasiado depressa, a margem oposta. Esta curta travessia foi um momento de extrema felicidade, um rito repetido milhares de vezes durante milénios, que ele tornou a viver com a veneração de um discípulo ouvindo a mensagem de um mestre invisível, exprimindo-se pelo sopro do vento que a vela branca purificava.

            Um mercado animava a margem esquerda; vendia-se lá trigo, centeio, favas, pistácios, frangos em gaiola e tecido. À volta de um adivinho, que traçava na areia sinais estranhos, empurravam-se basbaques. Vários burriqueiros o assaltaram e lhe propuseram os seus serviços; escolheu um ruço de olhar malicioso e bonita pelagem.

            — Onde queres ir? — perguntou o burriqueiro.

            — Ao Vale dos Reis.

            — É longe. Será caro.

            — Eu conheço exactamente a distância e o preço; se queres ser meu amigo, não procures enganar-me.

            Depois de um diálogo cerrado com a sua consciência, o homem rendeu-se à opinião de Carter. Partiram com um passo lento para o vale das maravilhas, atravessaram um campo risonho onde cresciam trigo, luzernas, trevo, lupino e algodão. Gamos e dromedários passaram por eles, indiferentes.

            O guia parou em frente dos colossos de Mémnon, dois colossos reais bastante degradados.

            — Grande mistério — resmungou ele — são génios temíveis. Por vezes, cantam.

            — Calaram-se desde que os Romanos os repararam.

            — Não! É o bom ouvido que falta.

            Reteve a lição. Com Petrie, tinha estudado uma “sabedoria” do Antigo Império, em que o velho escriba afirmava que a escuta é a chave da inteligência. Os Egípcios não chamavam, às orelhas, “as vivas”?

            Continuando o seu caminho, passaram ao longo da aldeia de Gurnah. Em frente das casas de terra brincavam crianças sujas, meio nuas; algumas sorriram-lhe, outras fugiram. Sentiu que, por detrás do rosto amável dos fellabs, escondiam-se segredos que era melhor terem-se deixado escondidos na escuridão das caves ou nos recantos da montanha. O seu trabalho consistiria, portanto, em escavar, em buscar e em desenterrar. Deixaram o templo de Séti I, abandonado a rebanhos de cabras e invadido de ervas daninhas, e meteram-se pela estrada que conduzia às tumbas.

            Com brutalidade, as culturas desapareceram; imediatamente, o deserto iniciou-se, sem qualquer transição. Areia, calor e aridez repeliam toda a presença humana, animal ou vegetal; aqui, reinava como senhor absoluto o mineral, celebrando grandiosas bodas com o Sol. Nada do que Carter tinha visto anteriormente se comparava com aquele universo que dominava o cimo do Ocidente, semelhante a uma pirâmide. Na fulgurância do instante, soube que passaria ali os mais belos anos da sua vida.

            A luz queimava-lhe os olhos; o burro afrouxou o andamento, ao avançar por entre as muralhas de calcário. Penetrou num país de apocalipse, em que parecia concentrada a matéria-prima utilizada aquando da criação do mundo. Passo a passo, enterrou-se num desfiladeiro escaldante; de uma parte e de outra, encostas escavadas pelas enxurradas, rasto de violentas chuvas. Cada uma das pedras estava carregada de memórias; não tinham elas assistido às procissões funerárias que, dantes, metiam por esse mesmo caminho?

            Desceu do burro; o pobre ruço tinha-o aguentado tempo de mais. Chegou a hora de ultrapassar a porta do Vale, fenda no tempo e no espaço, onde o poder mais enigmático preservava a glória dos deuses.

            Deserto dos desertos, solidão absoluta, silêncio infinito... Como descrever esse lugar de verdade onde qualquer actividade humana era imprópria? Sentiu que as almas dos reis mortos velavam sobre as suas moradas.

            Nem uma só sepultura, afirmava-se, tinha escapado aos ladrões; incrédulo, ia de cave em cave. Infelizmente, todas tinham sido pilhadas, esvaziadas de toda a sua mobília e dos seus tesouros.

            Tornadas celas de monges, por ocasião do triunfo do cristianismo, as tumbas, desdenhadas pelos novos invasores muçulmanos, tinham acolhido chacais e morcegos que substituíam agora turistas admirados e apressados.

            Acostumando-se aos sortilégios do Vale, visitou os monumentos com relevos e pinturas admiráveis, enterrou-se debaixo da terra e voltou à luz, trepou encostas, percorreu atalhos, encheu os olhos com aquela visão do além talhada por mão humana na pedra.

            Quando os raios do poente o embrenharam, o cansaço dissipou-se. A montanha do Ocidente tornou-se leve, os blocos gigantes perderam o seu peso, o último oiro do dia uniu-se às claridades prateadas da terra. Trepou até uma crista dominando o Vale, sentou-se numa pedra chata e pensou nas palavras de Volney pronunciadas ali mesmo: À minha volta, tudo dizia que o homem não é nada senão pela sua alma: rei pelo pensamento, frágil átomo pelo seu invólucro, a esperança única de uma outra vida pode torná-lo vencedor nessa noite contínua contra as misérias da sua existência e o sentimento da sua origem celeste... esses hieróglifos, essas figuras, estão em toda a história dos conhecimentos humanos: os padres do Egipto não os confiaram aos abismos senão para os subtrair à desordem do globo. Parecia como se eu fosse guiado pela luz da lâmpada maravilhosa, e no mesmo instante ser iniciado em algum mistério.

 

            A sua silhueta desenhou-se num raio de Lua; com a cabeça coberta por um turbante, vestido com um galabieh, era alto e bem constituído. Tinha uma pistola à cinta.

            — Não tem o direito de passar aqui a noite — declarou em inglês.

            — O meu nome é Howard Carter; sou arqueólogo.

            — O meu é Ahmed Girigar; pertenço aos serviços de segurança.

            — Não sou nenhum ladrão.

            — É o senhor que tem de ser protegido, senhor Carter. Será que tem consciência do perigo?

            — À parte a imbecilidade e a malevolência, não estou a ver.

             Ahmed Girigar sentou-se ao seu lado.

            — B’ism-illab-ma’sba’llah, que Deus desvie o mal disse com gravidade esses inimigos são temíveis, mas não deveria negligenciar as seitas de ladrões instalados nas colinas de Gurnah. Pilham os camponeses e saqueiam os estrangeiros.

            — Não me sinto estrangeiro; este Vale é meu.

            — Terá obtido a concessão?

            A concessão... um nome mágico significando que teria o direito de procurar aqui, por toda a parte que desejasse.

            — Não passo do assistente de Naville.

            — O suíço que trabalha em Dar el-Bahari? — Ficou admirado.

            — Parece conhecer na perfeição a casta dos arqueólogos.

            — O meu pai era reis; eu caminho no seu rasto e quero, como ele, dirigir equipas de operários em busca de tesouros. Espero encontrar aquele que amará bastante este Vale para lhe consagrar a sua vida; a esse, se a souber cativar, ela falará.

            — Li os trabalhos de Belzoni.

            Ahmed Girigar sorriu.

            — Estranho investigador... um gigante animado por uma paixão furiosa! Não sonhava senão com proezas tumultuosas e forçava as portas das tumbas a golpes de maço. Utilizar o dinamite não o desanimava.            Depois de Champollion, explorou a fundo o Vale. Conheço de cor a sua conclusão: “É minha firme opinião, que depois dos meus trabalhos, não haverá mais nenhuma tumba a descobrir.”

            Carter desempenhou o papel do advogado do diabo, esperando ouvir palavras de esperança. Ahmed Girigar não o desiludiu.

            — Opinião prematura de um homem apressado.

            — Um pioneiro como ele não deixaria contudo a presa pela sombra.

            — Certamente... mas faltava-lhe paciência. O Vale foi ferido, humilhado; agora, cala-se e esconde-se. Só um ser escrupuloso, encarniçado até à teimosia, poderá levantar o véu do tempo e da areia que ele estendeu sobre o seu mistério. Ninguém nos ouve, porque não somos fellahs, pobres pessoas sem instrução; mas percorremos todos os dias esses caminhos e estamos à escuta dessas pedras. Agora, senhor Carter, é preciso partir; senão, serei obrigado a instaurar-lhe um processo verbal por visita ilícita.

            — Tornaremos a ver-nos.

            — Se Alá o quiser.

            Ahmed Girigar viu afastar-se o jovem inglês. Inclinou o busto e, ao levantar-se, aproximou a mão estendida da boca e da fronte; cumprimentava assim uma personagem importante que ignorava ainda a grandeza da sua vocação.

            O templo de Dar-el-Bahari, “a maravilha das maravilhas”, encostava-se a uma falésia esmagada de sol; em frente do edifício de terraços, um deserto escaldante substituía os pomares, os lagos de água pura e as plantações de árvores de incenso, que a rainha Hatshepsut tinha trazido do maravilhoso país de Pount. Carter dirigiu-se para o pórtico de Anúbis, o deus encarregado de conduzir os mortos nos belos caminhos do outro mundo. Ali trabalhava o seu novo patrão.

            O acolhimento de Edouard de Naville não foi dos mais calorosos; apertado no seu fato colonial, recebeu-o com indiferença.

            — Perdeu o comboio?

            — Não, senhor.

            — Ah... o meu criado não teria segurado bem alto o cartaz com o seu nome?

            — Segurou, senhor.

            — Nesse caso, porque não se lhe dirigiu?

            — Houve uma urgência. Poderei começar a trabalhar?

            Naville designou os baixos-relevos.

            — Obras-primas incomparáveis gravadas por um artista com a mão tão fina e leve que o tempo as apagará em breve... devemos publicá-las, a fim de as conservar na memória da humanidade. Será preciso desenhar tudo e tudo pintar, Carter; um trabalho de romano.

            — Mais de egípcio, não acha? — Sorriu e o gelo quebrou-se.

            — A aquarela será o melhor processo. Também reproduzirá os textos.

            — Na condição de que os decifremos juntos. Quero aprender.

                        Eles apertaram as mãos; para um inglês e um suíço, esta manifestação de cordialidade raiava a indecência.

            A noite caía sobre Luxor. Clarinetes acompanhavam cantos melancólicos, o último barco atracava, os candeeiros dos cafés acendiam-se. Sentado no terraço do Winter Palace, Carter bebia uma cerveja em companhia de Naville.

            — Esta “urgência” que demorou a sua chegada... quereria esclarecer-ma?

            O arqueólogo suíço parecia-lhe ser um homem de honra. Menos severo do que Newberry, menos augusto do que Petrie, a sua atitude não era doutrinal; Carter concedia-lhe toda a sua confiança.

            — Há alguns meses que tomo notas sobre o Vale dos Reis. Já enchi dois grandes cadernos; cada descoberta é reportoriada, quer se trate de uma tumba, de uma múmia ou de um simples vaso. Estou longe do fim, mas quero saber tudo sobre as escavações.

            — Em que perspectivas? Belzoni já a explorou completamente. Deploro os seus métodos; meter dentro uma porta antiga com pancadas de aríete, ou disparar sobre os concorrentes não são processos da melhor inspiração. Mas enfim... numa época em que não se hesitava em se entrematarem para se roubar um escaravelho, efectuou, contudo, um bom trabalho.

            — Eu também o admiro; era, como eu, de origem modesta e, tinha sacrificado tudo à sua paixão. Mas meteu a direito na sua frente, sem se preocupar com ínfimos pormenores que poderiam revelar a existência de outros tempos.

            — Vou decepcioná-lo, Howard; a opinião de Belzoni foi confirmada por sábios meticulosos e ponderados como o alemão Lepsius. Apenas exumou uns pobres vestígios e abandonou-se definitivamente à exploração do Vale.

            — É insensato! Está de acordo com o facto que todos os faraós da décima oitava e décima nona dinastias estejam lá enterrados?

            — É provável.

            — Falta um certo número ao chamamento, hão-de convir.

            — O argumento é perturbante, em que soberanos está a pensar?

            — Em uma boa dezena... e principalmente em Tutankhamon.        Estampou-se no rosto de Naville um esgar de decepção.

            — Esse reizinho sem importância? O seu reinado foi tão curto e tão baço... quanto a mim, foi enterrado ou queimado, como Akhenaton. Esse pequeno monarca estava demasiado ligado à heresia.

            — Não foi coroado em Karnak, como os maiores reis?

            A pergunta embaraçou o suíço.

            — É possível...

            — Reinou quase dez anos acrescentou Carter, entusiasta e não sabemos nada a seu respeito, como se devesse continuar a ser o mais secreto faraó da história. Nenhum objecto que lhe dissesse respeito circulou ainda nos mercados de antiguidades.

            — Pressinto a sua conclusão precipitada: tumba inviolada.

            Nos olhos de Carter, a chama foi eloquente.

            — A juventude é louca, é um dos seus encantos... mas deveria continuar uma carreira séria, Howard. Pense primeiro na sua reputação. Não é nem um sábio de boa família nem um aristocrata suficientemente rico para obter a concessão do Vale dos Reis; esqueça-a.

 

            Ao fim de vários anos de viagem, o visconde de Porchester e futuro conde de Carnarvon, desfiava algumas recordações com um antigo jóquei, duas vezes terceiro no derby de Epsom. A conversa desenrolava-se na sala das traseiras de uma taberna sórdida de Constantinopla, ao abrigo dos ouvidos indiscretos; muito nervoso, o jóquei não parava de se voltar.

            — Quem lhe indicou este lugar?

            — Um pirata genovês. Afirmou-me que seria o senhor o homem da situação.

            — Talvez... Aristocrata?

            — Tanto quanto se possa ser, meu caro; é assim e ninguém pode fazer alguma coisa contra isso.

            — Vou fazê-lo pagar caro.

            — Estou habituado; em contrapartida, exijo um serviço impecável.

            Porchey, vestido de comandante, bebia um café turco; o antigo jóquei tratava dos nervos com álcool de rosas.

            — Quando quer encontrar-se com Abdul O Maldito?

            — O mais cedo possível.

            — Está na cidade, nesta semana, mas o seu emprego do tempo está sobrecarregado. Porque deseja vê-lo?

            — Para o ver.

            — Perdão?

            — Não é o maior bandido do Bósforo, um gatuno de génio e um estratega de primeira força?

            — É verdade, mas...

            — Pois bem, meu caro, fique sabendo que colecciono entrevistas com indivíduos fora do vulgar nos registos mais diversos. Depois de tantos périplos, acho melhor conhecer o nosso velho planeta. A África do Sul divertiu-me durante alguns dias, o Japão, uma semana, a França uma noite, os Estados Unidos um mês inteiro; agora, a geografia cansa-me. Procuro a companhia das pessoas mais afastadas da minha condição, como se passa consigo, por exemplo, que ignora a que ponto os aristocratas são presumidos e maçadores. Quanto aos grandes deste mundo, que a minha defunta mãe me queria ver frequentar, esses não pensam senão em mentir. O senhor também, note...

            —  Eu? Mas porquê?

            — Porque não conhece Abdul O Maldito e tenta subtrair-me algum dinheiro de uma maneira que eu qualificaria de desonesta.

            — Isso é falso! Sirvo-lhe de agente de ligação.

            — Nesse caso, diga-lhe que o encontrarei amanhã, à meia-noite, no ângulo sul do velho porto, a fim de completar a minha galeria de retratos.

            O herdeiro dos Carnarvon levantou-se, evitou cumprimentar o seu interlocutor, e saiu da taberna assobiando uma velha canção gaulesa.

            À hora e no lugar marcados, Porchey viu aproximar-se um barco em que dois homens remavam em cadência e sem barulho.

            Pensou no pai que esperava o seu regresso ao castelo de Highclere; o velho lord censurava ao filho as suas idas e vindas incessantes, um amor excessivo pelas viagens e aquele hábito detestável de aparecer e desaparecer sem prevenir. Que o seu comportamento não fosse o de um futuro conde, encarregado de um dos mais respeitáveis domínios da Inglaterra, Porchey admitia-o de boa vontade; mas como acalmar de outra forma a impaciência de viver e o aborrecimento supremo que lhe roía a alma? Devorando o espaço, tinha esperado apaziguar a sua fome, e não tinha conseguido senão exaltar o seu spleen. Uma existência oca e inútil: eis o que os oceanos e os mares não conseguiam preencher. Só um ser humano, talvez, acalmaria os seus tormentos, abrindo-lhe um caminho inesperado. Aquele messias seria Abdul O Maldito?

            Aqueles marinheiros arvoravam uma cara absolutamente patibular: barbudos, mal barbeados, com os cabelos gordurosos e a roupa viscosa, ordenaram-lhe que descesse no seu esquife bastante degradado. Um homem de bom senso teria hesitado, Porchey correu o risco.

            Da água verde subiam odores fétidos; com as mãos apertadas sobre os remos, os dois turcos apressaram o andamento.

            — Onde vamos?

            — Vamos além — respondeu o mais velho num mau inglês.

            — Portanto, verei Abdul O Maldito.

            O barbudo troçou.

            — Admirar-me-ia.

            — Porquê esse cepticismo?

            — Porque Abdul está longe daqui. Acabámos por apanhá-lo; é a sua vez de ser presa dos abutres.

            — Trata-se inegavelmente de um facto novo que modifica a situação. A melhor solução consiste em voltar ao porto.

            O barco imobilizou-se.

            — Nem pensar.

            — Não tem razão, meu amigo.

            — Não somos vossos amigos.

            — Isso alegra-me de certo modo.

            — É um homem rico...

            — É verdade.

            — Traz consigo uma grande quantia em dinheiro.

            — Deveria chegar para comprar o seu belo navio.

            — Infelizmente, meu príncipe, temos outras intenções.

            — Chame-me visconde.

            — A fortuna encontra-se no saco que está aos seus pés?

            — Exacto.

            — Deixe ver.

            — E se eu recusar?

            — Morrerá afogado.

            — Sinistro destino para um marinheiro experimentado... E se aceitar?

            — Nadará até ao cais e ficará livre, por um banho.

            — Esquece-se, meu caro, que um bom capitão não sabe nadar e que fica a bordo até ao último momento.

            O ladrão enervou-se.

            — Abra esse saco.

            — Abrir as malas de um honesto viajante é uma acção condenável; no seu lugar, renunciaria.

            — Obedeça.

            O visconde tirou do saco uma magnífica pistola de prata que apontou para os seus agressores.

            — Convém preveni-los que sou um dos melhores atiradores do Reino Unido; com mais treinos, teria obtido o primeiro lugar.

            Os dois turcos mergulharam imediatamente na água turva.

            — Que pena — lamentou o aristocrata. — Falhei mais uma ocasião de me aperfeiçoar.

 

            Carter pensava todos os dias no Vale dos Reis de que estava tão perto e tão afastado. Dar el-Bahari não lhe concedia repouso. Impossível dar livre curso à sua imaginação: cada aquarela devia reproduzir com fidelidade uma cena de oferenda, um barco vogando no Nilo ou uma coluna de hieróglifos. Não pintava para seu próprio prazer, mas a fim de transmitir às gerações futuras o esplendor de um templo onde reinava Hator, com o seu sorriso mágico. Fazer renascer no papel o rosto da deusa foi uma emoção tão intensa que, acabada a obra, a sua mão tremeu; incapaz de prosseguir o trabalho, pediu a Naville autorização para deixar o lugar por algumas horas.

            Onde recrear-se, senão no templo de Luxor cujas colunas, as mais esguias do Egipto, levavam a alma até ao céu? Tomou, pois, o barco dos camponeses onde, como de costume, reinava um alegre alvoroço. Ninguém explicava como, num espaço tão reduzido, se amontoavam tantos homens, animais e mercadorias, as mulheres aproveitavam a travessia para se reunirem e tagarelar. Saberiam aquelas boas muçulmanas que uma egípcia cristã tinha lançado a moda do vestido negro, nos primeiros séculos da nossa era, com a intenção de chorar a morte de Cristo?

            Quando seres animados e inanimados ocuparam o seu lugar, a ponto de já não mexerem sequer um polegar, o barco agitou-se, adoptou uma atitude ponderada porque, segundo as escrituras, a pressa provém do Diabo.

            A meio do rio, viu-a.

            Com cerca de vinte anos, com um longo vestido vermelho, o pescoço ornado de um colar de lápis-lazúli, uma pulseira de ouro no pulso direito, tinha um rosto muito fino, compridos cabelos negros e olhos verdes-água. A borda das pálpebras estava sublinhada com um traço preto; as unhas das mãos e dos pés nus dentro das sandálias, estavam tingidas com hena. Estavam separados por um camponês de abdómen saliente, com pressa de chegar ao cais para lá vender um carregamento de cebolas e de favas.

            — O meu nome é Howard Carter — anunciou com uma voz que se pretendia firme — desculpe-me de lhe dirigir a palavra de uma maneira tão desembaraçada, mas parece-se com a deusa Hator que acabo de pintar em Dar el-Bahari. É... é perturbante encontrar uma deusa viva.

            Pareceu contrariada, mas consentiu em lhe responder.

            — Nunca se deve elogiar uma mulher em termos excessivos, senhor Carter; poderia atrair o mau olhado sobre ela e ofender o seu marido.

            — É casada?

            — Ainda não. Será por acaso arqueólogo?

            — Preparo a publicação do templo de Dar el-Bahari.

            — É magnífico! Falo frequentemente dele aos meus alunos.

            — Será que é professora?

            — Sou professora benévola na minha aldeia; por vezes enfermeira e mesmo guia de turistas, quando calha.

            — Daí o seu óptimo inglês.

            — Fala árabe?

            Tentou algumas frases de cortesia, começando pelo indispensável “Em nome de Deus clemente e misericordioso” que devia inaugurar qualquer discurso. O seu sorriso encantou-o.

            — Não está mal... era preciso progredir.

            — Aceitava-me como aluno?

            O barco abrandou a marcha; seguiu-se um movimento de multidão. Todos se preparavam para desembarcar, com uma impaciência pouco oriental. Desesperado à ideia de a perder, deu umas cotoveladas e foi um dos primeiros a sair da estação. Mal a avistou dirigiu-se para junto dela.

            — Posso acompanhá-la?

            — Vou para casa.

            — Se chamássemos uma carruagem? Far-me-ia descobrir o campo e a sua aldeia?

            Apanhada de surpresa, aceitou subir para uma carruagem rutilante; ele escolhera um cavalo de boa saúde e bem tratado que galopou sem custo. Saíram rapidamente da pequena cidade e penetraram no universo imutável dos campos e dos canais de irrigação, sem mudança alguma, havia milénios. Durante o trajecto manteve-se silenciosa.

            À beira da aldeia, ordenou ao cocheiro que parasse.

            — Chamo-me Raifa. Quer tomar um chá, senhor Carter, ou regressar à cidade?

            — Decida você.

            Seguiu-a. Passaram entre a eira, para a ceifa, e o forno público, onde as mulheres coziam pães redondos enquanto outras tiravam água do poço próximo. Cães errantes, um tanto hostis, observavam-nos. Escondida num palmeiral, a aldeia de Raifa compunha-se de casas baixas de terra amassada, sem electricidade nem água corrente; nos telhados, palmas entrançadas e tijolos de bosta de vaca seca que servia de combustível. Meteram por becos estreitos e poeirentos que formavam um verdadeiro labirinto. Ao pé da mesquita, cujo minarete emergia por cima da massa compacta das moradas, havia homens que desfiavam o terço.

            Raifa morava na mais bonita casa, ao lado da do presidente da câmara; sobre a porta pintada de azul, um ferro de cavalo e uma mão de Fátima, destinada a afastar os espíritos maus. Rodearam-nos cerca de vinte crianças; as meninas brincavam com bonecas de trapo, os rapazes empurravam-se. Atraídos por aquela agitação, cabritos pedincharam alimento. Raifa acalmou aquela “malta” e empurrou a porta do seu domínio.

            Na primeira divisão, de chão de terra batida, dormia um burro; uma velha desdentada, de vestido preto roto, amassava farinha. Assustada à vista do ocidental, puxou o pano para cima da cabeça, não deixando ver senão a fenda dos olhos. Raifa deu-lhe ordem para preparar chá e convidou-o a entrar numa segunda divisão bastante ampla, de chão lajeado. Ao longo das paredes havia almofadas e banquinhos de várias cores.

            — Sente-se, senhor Carter.

            — Vive só?

            — Vivo com o meu irmão Gamai. É proprietário terrícola e perceptor.

            A sua voz entristeceu quando pronunciou o nome dele.

            — Gosto muito dele mas... por vezes é violento. Deve mostrar-se severo e chicotear os maus pagadores. Gamai é muito agarrado às tradições e não apreciaria nada a sua presença aqui. Na aldeia, consideram-me uma mulher demasiado livre; por felicidade, disponho do amparo do presidente da câmara que eu tratei de uma infecção... Há tantos infelizes e doentes... é dever de uma mulher aliviar a sua miséria.

            A velha criada trouxe o chá e os bolos de mel. Apareceu um jovem robusto, de pele muito morena, de sobrancelhas pretas e desgrenhadas que se juntavam e formavam uma barreira inquietante. Na sua mão direita, um chicote.

            — Saia daqui. Não tem o direito de estar só com a minha irmã.

            Não corresponder ao seu convite teria sido um insulto.

            — O meu nome é Carter, estou a cumprimentá-lo. Permita-me que me despeça.

            Indiferente ao furor de Gamai, Carter poisou o copo de chá de menta, levantou-se e deixou a casa. Na entrada, uma cobra erguida travou-lhe a passagem.

            — Não tenha medo — recomendou Raifa — mora connosco e vem pedir leite.

            Voltou-se para o irmão.

            — A nossa serpente só se mostra aos amigos sinceros; devias sentir-te tranquilizado, Gamai.

            Quando Carter saiu da aldeia, as mulheres de véu soltaram uma lengalenga de yuyus, fazendo ondular a língua contra o céu da boca, a fim de exprimir a alegria.

            Alguns dias mais tarde, os seus passos levaram-no para o Rameseum, o templo dos milhões de anos de Ramsés II. O edifício tinha sofrido muito; no grande pátio, aberto na frente da sala de colunas, jazia o maior colosso que se esculpira. Intacto, e de pé, pesava mais de mil toneladas. O fanatismo e a estupidez tinham chegado a deitá-lo abaixo, senão a aniquilá-lo; o seu rosto, iluminado do ouro-avermelhado do poente, continuava a exprimir um poder sereno.

            Um rebanho de cabras pretas e brancas pastava no sítio, Carter enfiou-se entre os blocos espalhados e os bosques de tamargueiras, tendo o cuidado de evitar as ervas picantes, e sentou-se sob a folhagem de uma acácia que floria no meio das ruínas.

            Depois do seu encontro com Raifa, tinha deitado fora uma dezena de aguarelas falhadas. Incapaz de esquecer a jovem, desamparado, não conhecia ninguém a quem se confiar. Tornar a vê-la obcecava-o; se, realmente, o irmão fizesse queixa dele, Naville seria constrangido a mandá-lo embora. Detestava conflitos e não sonhava senão com a publicação do “seu” templo, contudo corria o risco. O guarda do sítio, aproximou-se com um pau na mão.

            — Tenha cuidado; aqui as serpentes não são raras.

            Com o rosto sem idade, enrugado e de gestos lentos, sentou-se num bloco coberto de hieróglifos e olhou na direcção do poente.

            — Não procura o túmulo de um rei desconhecido?

            — Quem lho disse?

            — O vento sopra com força e o meu ouvido é muito apurado.

            — Ouviu falar de objectos com o nome de Tutankhamon?

            — Nem mercadores nem gatunos os possuem. Nada mais normal... o grande Ramsés não destruiu o seu templo e pilhou o seu túmulo a fim de apagar todo o rasto daquela época maldita?

            Aquelas declarações consternaram-no, o aviso daquele gaffir contava mais do que o dos egiptólogos.

            — Siga o seu caminho, senhor Carter, sem se preocupar com uns e outros; não se transforme num gatuno nem num coração de pedra. Se não fosse inglês, dava-lhe um talismã para o proteger contra os inimigos que, na sombra, se preparam para o prejudicar. Mas os Ingleses não acreditam em Deus.

 

            — Deus te proteja, meu filho; esses dois bandidos poderiam ter-te assassinado.

            — É prudente acreditar nele de vez em quando — reconheceu Porchey.

            — Donde vens tu, desta vez?

            — De Constantinopla.

            — Encontraste algum personagem importante?

            — Devia encontrar-me com Abdul O Maldito, mas o encontro foi adiado.

            O velho conde de Carnarvon levantou os olhos ao céu.

            — Porchey! Porchey! Quando deixarás de correr mundo?

            — Quando ele deixar de girar, não importa em que sentido. Descanse, pai; sinto que está cansado.

            Porchey chamou o chefe de serviço que reanimou o lume na chaminé do grande salão; depois, serviu ele mesmo um uísque ao pai e zelou por que estivesse confortavelmente instalado num cadeirão de coiro de encosto alto.

            — Desde que a tua mãe desapareceu que tenho muitas preocupações com o teu futuro; que procuras, meu filho?

            — Ignoro-o.

            — Tantas viagens feitas não te deram ainda uma resposta?

            — Anedotas, nada de essencial. Não importa quem possa vogar nos oceanos e atravessar os continentes; o que eu julgava ser uma proeza não passava de mais uma banalidade. Já recebeu livros novos de História?

            — Manuais maçadores provenientes do British Museum; empilhei-os no teu escritório.

            — É o melhor dos pais.

            — Aceitarias jogar uma partida de xadrez?

            — Depois da sua sesta, de boa vontade.

            Entre duas chuvadas, Porchey passeou no imenso parque de Highclere. O castelo era austero; as torres maciças, rectangulares e ameiadas davam-lhe o aspecto de uma fortaleza medieval, fechada sobre o seu passado e as suas tradições. O visconde apreciava aquele carácter grandioso e mais ainda o enconto dos relvados tratados na perfeição por um exército de jardineiros. Uma numerosa criadagem, dedicada e fiel, zelava pela integridade do domínio. De pai para filho, era uma honra servir os Carnarvon e preservar uma das mais belas propriedades de Inglaterra.

            Porchey repousava, caminhando horas nas suas terras acompanhado dos seus cães de caça; meditava debaixo dos cedros-do-Líbano, andava ao longo do lago que dominava um belvedere de mármore branco, aventurava-se por entre as moitas de pilriteiro, em busca de alguma caça, trepava as colinas cobertas de carvalhos e de faias. Highclere era uma terra ao abrigo das convulsões do tempo e das sociedades humanas. Ninguém, na aristocracia britânica, compreendia porque razão o futuro conde de Carnarvon não passava dias felizes naquele paraíso.

            Porchey voltou quando a noite caiu, ordenou que alimentassem os seus cães e refugiou-se na sua biblioteca, uma das mais vastas e das melhor fornecidas do Reino Unido. Tudo o que tinha sido escrito sobre a história antiga estava ali reunido; deitando um olhar divertido a duas estranhas relíquias, a secretária e a cadeira utilizadas por Napoleão I, a quando da sua permanência forçada na ilha de Elba, o visconde hesitou a sentar-se lá. Por respeito pelo inimigo, contentou-se com um assento mais vulgar e debruçou-se sobre um estudo consagrado à cerâmica oriental. O pai abriu a porta da biblioteca.

            — Será que te esqueceste de mim?

            — Perdoe-me.

            — Prefiro ver-te estudar finanças e emprego.

            — Como igualá-lo neste domínio?

            — Meu filho, breve deixarei de aqui estar.

            — Tretas! Tem a construção de um carvalho.

            — Estou a envelhecer, Porchey, devias ter isso em conta.

            A partida de xadrez foi jogada em frente da grande chaminé; um espesso nevoeiro envolvia as torres do castelo. Lord Carnarvon tinha feito servir uma garrafa de Dom Pérignon e torradas com caviar, presente de um ministro russo. O filho empregava-se numa abertura siciliana das mais clássicas.

             — Estás a progredir.

            — Durante as minhas travessias, tenho tempo para estudar os melhores tratados.

            — Deveríamos ter uma discussão séria.

            — Como queira.

            Não sem inquietação, Porchey verificava que o pai estava a enfraquecer. Dantes, teria utilizado as suas peças com mais agressividade.

            — Quanto tempo ficarás em Highclere?

            — É o género de pergunta a que eu sou incapaz de responder. Depende da humidade, da atmosfera, do meu humor, de uma ideia que passa...

            — Permite-me exigir mais. Concebeste um projecto preciso?

            — À reflexão, sim.

            — Qual?

            — Não gosto de me abrir.

            — Insisto, Porchey.

            — Pois bem... vai admirar-se, mas conheço mal a Itália, principalmente o Sul do país. Nápoles é uma cidade bem atraente.

            — Nápoles! Um covil de ladrões e de assassinos.

            — Precisamente... Gostaria de encontrar o chefe da Mafia.

            — Porchey! Tens consciência de...

            — Completamente, pai. Não corro qualquer perigo, uma vez que se trata da minha colecção de retratos; não penso em tratar dos negócios.

            O velho lord deitou abaixo o rei.

            — Renuncio a compreender-te e não imploro senão um só favor: inicia-te no bom caminho deste domínio. Seria a minha maior alegria de velho.

            — Prometo-lhe: Highclere permanecerá propriedade dos Carnarvon e o mais belo domínio da terra.

            — Deus seja louvado, meu filho.

            Logo que o pai adormeceu, Porchey consultou os documentos administrativos e financeiros que tinha posto no seu escritório. Bastou-lhe uma noite para assimilar os principais pontos e aperceber-se de que a fortuna familiar era gerida com a maior seriedade; assim, a partir do dia seguinte, tomou a direcção de Nápoles.

 

            Por detrás da fachada leprosa da casa de Gurnah, escondia-se um pátio com pavimento de calcário; ao centro, havia um poço. Aos lados, banquetas de madeira e cofres cobertos de estofos. Sentado numa cadeira de espaldar baixo, o senhor da terra, de galabich vermelha, deslumbrante de brancura, observou Carter com uma curiosidade mesclada de crueldade. Um turbante escondia-lhe metade da testa; os lábios finos contrastavam com o queixo espesso. Howard sentiu o personagem habituado a dar ordens que não se discutiam.

            Naville não tinha aconselhado aquela visita ao chefe do clã Abd el-Rassul, a poderosa mafia tebana que, havia decénios, pilhava os túmulos, espoliava os viajantes imprudentes e não hesitava em se desembaraçar dos seus adversários mais incómodos. Mas o arqueólogo suíço estava, ele mesmo, na origem da diligência de Carter, dado que o tinha alimentado longamente do acontecimento que, no ano de 1881, sobreviera em Dar-el-Bahari: quarenta múmias reais tinham sido encontradas no coração de uma cave escavada na falésia! Os verdadeiros arqueólogos eram os Abd el-Rassul; tinham entrado no esconderijo alguns anos mais cedo, bem decididos a vender as suas descobertas no decorrer dos meses, obtendo o máximo de proveito. Amuletos e jóias circularam no mercado de antiguidades, primeiro em pequeno número, depois em tão grande quantidade que atraíram a atenção da Polícia.

            Um dos membros do clã confessou, uma vez submetido a um interrogatório apertado pelo erudito francês Maspero; salvas as múmias reais, partiram de barco para o Cairo, sobre aclamações de fellahs concentrados nas margens.

            Uma hipótese inquietante atravessara o espírito do pesquisador; era por isso que ele defrontava o bandido mais assustador do Egipto.

            — Quarenta múmias reais da décima oitava à décima nona dinastia... era mesmo o tesouro?

            Abd el-Rassul acenou afirmativamente com a cabeça.

            — Guardou silêncio durante seis anos?

            — Prestámos juramento, senhor Carter, e estávamos encorajados, Mustapha Agha Ayat, agente consular de Inglaterra, da Rússia e da Bélgica, garantia-nos a sua protecção. Por causa dele, perdemos muito dinheiro. Quando as múmias saíram do buraco, tive vontade de atacar o cortejo... mas os polícias eram demasiado numerosos e alguns sabiam atirar. Malech!

            Malech podia traduzir-se “é assim, tinha de acontecer, e não há nada que o impeça”, a palavra servia de talismã para resolver pela inacção os problemas mais delicados.

            — Tenho de lhe fazer outra pergunta.

            Abd el-Rassul franziu o sobrolho.

            — Polícia?

            — Arqueólogo.

            — Foi o que me disseram e não me agrada nada. Quem o envia?

            — Ninguém.

            — Um europeu é sempre empregado de alguém.

            — O meu patrão é Edouard Naville.

            — Esse não o temo; evita escavar as areias. E o senhor?

            — Eu desenho, pinto.

            O gatuno pareceu tranquilizado.

            — Quando encontrou as múmias, não encarou a hipótese de as vender?

            — A carne de múmia tem menos valor do que antigamente; depois da fundação da dinastia dos Abd el-Rassul, faz setecentos anos, nós preferimos o ouro.

            — Quarenta múmias em 1875, aquando da vossa descoberta, 40 em 1881, aquando da chegada de Maspero ao lugar do esconderijo. É belo demais. Não desapareceu nenhuma entretanto...

            — Nenhuma.

            Pelo seu ar desdenhoso, que significava que ele poderia ter sido um gatuno melhor, Carter soube que ele dizia a verdade. Subitamente, o seu olhar tornou-se feroz.

            — Seja esperto, senhor Carter, e não mude de actividade; sobretudo, não brinque aos buscadores de tesouros. Essa imprudência pode acarretar-lhe graves aborrecimentos.

            A ameaça não impressionou Carter, perante uma maravilhosa esperança: a múmia de Tutankhamon não dormiria no seu túmulo, ainda inviolado?           

            Caminhos sinuosos contornavam os tapetes de trevo e as sombras de campos de favas; as sakehs[2]  gemiam em cadência, entrelaçamentos de jasmim coavam o sol. Debaixo das palmeiras, havia burros que buscavam um pouco de frescura; Raifa e Howard Carter abrigavam-se dos raios demasiado ardentes num bosque de sicômoros e contemplavam o verde dourado do campo.

            Gamai foi chamado a Quena pelo seu superior hierárquico; a jovem tinha aproveitado a ausência do irmão para atravessar o Nilo e ir ter com Carter a Dar el-Bahari. Como Naville partira para o Cairo, a fim de resolver os seus problemas administrativos, Howard estava livre para passear com ela.

            Ela evocou a pobreza dos seus compatriotas, as epidemias que levavam as crianças mais fracas, a bilharziose endémica, à qual sucumbiam tantos camponeses; insurgiu-se contra o dia de um rapaz: escola corânica, onde aprendia o livro santo, trabalho nos campos, onde conduzia os bois, refeições frugais, à base de queijo e de biscoitos, períodos de sono demasiado curtos. Raifa sonhava com escolas brancas e crianças felizes; Carter desaconselhou-lhe a Inglaterra. Ficou horrorizada por saber que garotos de dez anos morriam de esgotamento nas minas de carvão.

            Confessou-lhe o seu gosto cada vez mais intenso pela vida lenta dessa natureza imutável em que a luz reinava como senhora absoluta; tinha aprendido a poisar os pincéis e a ver os pica-peixes agarrar as suas presas, os rebanhos de gamos de cornos curvos avançarem por caminhos poeirentos, as mulheres andarem com bilhas à cabeça. Os mochos castanhos e as corujas de asas largas, visíveis de dia, tornavam-se familiares.

            Raifa obrigou-o a falar-lhe em árabe e rectificou os seus erros ao fim da tarde, durante uma semana tão curta, levou-o a tomar chá a uma quinta onde um dos seus amigos tateava a aguarela. Majestoso, no seu vestido branco comprido, com um pau na mão, vinha buscá-los à beira do deserto, acompanhado de dois cães. Introduzia-os na sua casa de terra seca ao lado da qual, entre dois caniçados, tinha instalado o seu atelier.

            A chaleira, sempre cheia, estava colocada sobre o fogareiro da cozinha ao ar livre; a esposa preparava bolos de mel que os cães cobiçavam. O pintor apresentou Carter aos seus inúmeros amigos, camponeses, burriqueiros, guardas de túmulos, mercadores ambulantes, funcionários e mesmo polícias; depressa foi integrado na sociedade de Gurnah e da margem ocidental de Tebas. Próximo dos pobres, partilhou das suas alegrias e das suas tristezas.

            O horizonte tornou-se laranja e violeta. O Nilo tornou-se prateado. Um voo de patos selvagens acompanhou os faluchos que voltavam ao cais. Era o primeiro pôr de Sol a seu lado.

            A montanha sagrada enfeitava-se com pregas azuis e cor-de-rosa, formava o tecido em que se drapearia até de madrugada. Animava as palmeiras uma brisa muito suave; do alto do seu poleiro, como de costume, os guardas dos campos começavam a sua vigilância.

            Sentados à borda do rio, espreitavam o nascer das estrelas. Carter identificava a Ursa Maior, as circumpolares e a polar.

            — Falas bem árabe; podes desembaraçar-te sem mim.

            — É impossível; escapam-me muitos cambiantes.

            — Gamai volta esta noite.

            Ele não ousou retê-la; as palavras pareceram-lhe supérfluas. Beijou-lhe as mãos, ela corou e fugiu.

            Enquanto um barco a trazia de volta à margem dos vivos, ele ficava na dos mortos. O calor era tão agradável que dormiria fora de casa, junto do templo de Dar el-Bahari, a fim de se atirar ao trabalho logo que nascesse o Sol. No seio da colina desértica, crivada de cavernas, encontrou uma tumba pilhada que lhe serviu de quarto.

            Longe do mundo, sonhou com a felicidade.

 

            O telegrama tinha apanhado Porchey em Nápoles, no dia seguinte ao da sua decepcionante entrevista com o chefe da Mafia.

 

“Regresse o mais depressa possível a Highclere. Seu pai está moribundo.”

O intendente.

 

            Esquecidas as aventuras italianas... Sem perder um instante, Porchey tinha atravessado a Europa.

            Sobre o castelo abatiam-se trombas de água. Apertado no seu impermeável forrado de pele, penetrou no grande hall de estilo neogótico onde se tinham reunido os criados.

            O intendente avançou para ele.

            — Senhor conde... como dizer-lhe...

            — Quando aconteceu?

            — O seu pai morreu na noite passada, durante o sono. Tinha recebido os últimos sacramentos e relido o seu testamento. Em nome de todo o pessoal, apresento-lhe os meus mais sinceros pêsames e asseguro-lhe a nossa inalterável fidelidade à sua linhagem.

            — Onde se encontra ele?

            — No seu quarto.

            Porchey passou a noite junto do pai. Tinha sido precisa aquela morte para interromper a sua vagabundagem e obrigá-lo a fixar-se em Highclere, de futuro objecto dos seus cuidados; sentindo-se órfão, privado de conselhos que não ouvia mas que o tranquilizavam, chorou. Não sobre si mesmo, não sobre as ocasiões perdidas de aprender mais de um ser experiente, mas sobre aqueles demasiado raros momentos em que um pai e o filho compreendem que vieram da mesma cepa e foram talhados na mesma madeira.

            Porchey acabava, também ele, de morrer.

            Velório, enterro, costumes e mímicas de circunstância, desfile contristado dos membros da família e dos amigos... o quinto conde de Carnarvon dobrou-se com dignidade às exigências do cerimonial. Apesar da sua juventude, a aristocracia considerava-o apto para cumprir os seus deveres.

            Aos vinte e três anos, George Herbert tornava-se um nobre muito rico, à cabeça de um domínio de 36 000 acres.

            Mais experimentado do que queria deixar transparecer, isolou-se durante um longo mês, passeou com os seus cães, deu voltas a cavalo, caçou a raposa e leu com atenção os cadernos financeiros e administrativos de seu pai. Este estudo esclareceu-o sobre o papel eminente que o velho lord desempenhara na política do seu país; desse modo, não ficou surpreendido por receber um pedido de audiência emanado do gabinete do primeiro-ministro de Sua Majestade.

            O emissário era um personagem austero de cerca de quarenta anos; o fato escuro às riscas, as suíças grisalhas e o rosto gelado, sem qualquer expressão, conferiam-lhe o ar de respeitabilidade indispensável a uma carreira impecável.

            — Naquelas penosas circunstâncias, Lord Carnarvon, fique  sabendo que o Governo e eu apreciamos o seu gesto. Teríamos admitido a sua recusa.

            — Teria voltado dez vezes ao ataque... de preferência abrir imediatamente a caixinha das surpresas.

            A expressão chocou o emissário; com o seu sentido inato da diplomacia, mudou de assunto.

            — O seu pai pertenceu ao gabinete Disraeli, onde se tornou um político ilustre. Escrupuloso, não se afastou um milímetro do caminho do dever.

            — É absolutamente extraordinário, admitamo-lo; além do mais, é verdade. Estou bastante satisfeito que a Inglaterra reconheça os méritos de um dos seus filhos mais leais.

            — Infelizmente, esse grande servidor do Estado deixou de o ser. Mas o Estado continua a existir.

            — Não duvido.

            — Obrigado pela sua compreensão, Lord Carnarvon. Tanta maturidade enche-me de admiração.

            — A mim também. Devo-a, sem dúvida, às minhas viagens.

            O emissário coçou a garganta com distinção.

            — É precisamente um dos pontos que dá lugar à minha visita. Dada a sua nova posição e as responsabilidades que, um dia ou outro, desempenhará, seria melhor...

            — Que fosse sedentário? Não conte muito com isso.

            — Ninguém lho pede.

            O aristocrata ficou intrigado. A conversa começou a interessá-lo.

            — O seu pai era um dos pilares da melhor sociedade; mantendo a ordem e a moral, encorajou a acção do Governo e participava da maneira mais resoluta na construção do país. Espero que não trairá a sua memória e que prosseguirá a sua obra.

            — Se o Governo não atraiçoa a minha confiança, porque se anularia a descendência dos Carnarvon?

            O emissário conteve um suspiro de satisfação.

            — É muito diferente de seu pai, Lord Carnarvon; ele só gostava do seu domínio, o campo inglês e Londres. Em contrapartida, o senhor apregoa um gosto pronunciado pelo exotismo. Segundo as informações que nos chegaram, deu várias vezes a volta ao mundo e encontrou personalidades... diversas.

            — Terei sido espiado?

            — Observado, de tempos a tempos, como qualquer homem de futuro.

            — Que concluiu?

            — Que é corajoso, lúcido e capaz de se safar das situações mais escabrosas.

            — Demasiados elogios anunciam um desastre.

            — Uma vez que conta tornar a partir para terras distantes, como supomos, aceitaria ser útil a Inglaterra?

            — Estranha sugestão, na verdade.

            — Cabe-lhe escolher o destino que lhe convém; não fazemos tenção de lho impor. As autoridades ficariam lisonjeadas por conhecer a sua opinião sobre os países que atravessará. Essas preciosas indicações ajudá-las-ão a manter a paz. Olhares como o seu são indispensáveis.

            — Neste último ponto, partilho da sua opinião; terei a liberdade de decidir no que diz respeito aos outros?

            O emissário tossicou.

            — Bem entendido, Lord Carnarvon, bem entendido... mas como duvidar do seu patriotismo?

            — O seu tacto é perfeito.

            — Vou mandá-lo acompanhar. O Império poderá contar consigo?

            — Mesure pour mesure[3], dizia Shakespeare.

 

            Uma dúvida medonha apoderou-se de Carter: a múmia de Tutankhamon não se encontraria no “lote” Abd el-Rassul, mal identificada? Interrogou Naville sem descanso, e extirpou-lhe a verdade. O esconderijo real não passava de uma modesta cave, de tecto baixo; as múmias, dissimuladas à pressa tinham sido enfaixadas sem grande cuidado. Algumas tinham mudado muitas vezes de morada. Decerto que a vontade encarniçada dos seus salvadores tinha-se traduzido por um real sucesso dado que os mais ilustres faraós tinham escapado à destruição; mas o relato da descoberta “arqueológica” fê-lo estremecer.

            Em dois dias, os funcionários do Serviço das Antiguidades tinham esvaziado a sepultura sem efectuar um mapa nem anotar a posição dos preciosos despojos, transferidos à pressa, para um barco! Talvez as etiquetas tivessem sido perdidas, aquando dessa incrível mudança, talvez identidades tivessem sido misturadas.

            Naville compreendeu que a obstinação de Carter fosse a mais forte. Autorizou-o a permanecer uma semana no Cairo e entregou-lhe uma carta de recomendação.

            Aqueles que baptizavam o Museu do Cairo de “caverna de Ali Baba” não se enganavam; nele se acumulavam os tesouros saídos da terra do Egipto, sarcófagos, estátuas, figurinhas funerárias, esteias e tantos outros objectos que mereceriam, cada um deles, um estudo atento. Percorrendo as galerias poeirentas, Carter descobriu obra-prima após obra-prima; quantos anos seriam precisos para as valorizar e lhes dar um quadro digno da sua beleza? Mariette teria certamente ficado feliz de dispor de tanto espaço, ele que abafava no seu pequeno museu de Bulaq; mas quatro mil anos de história mereciam melhor.

            Com o espírito acalmado, Carter conseguiu, no entanto, segurar a língua quando ele se apresentou naquela manhã como único responsável administrativo do serviço. Recebeu-o com amabilidade, depois de ter tomado conhecimento da missiva do patrão.

            — Deseja examinar as múmias do esconderijo de Dar el-Bahari... nada mais fácil. A sala está aberta ao público.

            — Gostaria de estar só.

            — Ah... posso autorizá-lo a ficar depois do fecho. Digamos... uma hora?

            — É muito pouco.

            — Poderia conhecer a razão da sua diligência?

            — Receio que tenham sido feitas confusões e misturas.

            O funcionário levantou os braços ao céu.

            — Não é o primeiro! As circunstâncias da descoberta foram um pouco... agitadas. Procederam ao exame atento das múmias numerosos sábios preocupados; fique certo de que todas foram identificadas com a maior precisão.

            — Seria que... Tutankhamon faria parte do número dos que se salvaram?

            — Não conheço esse faraó.

            — Disporá de documentos sobre as escavações do Vale dos Reis?

            — Cadernos e jornais conservados pelos arqueólogos desde o século XVIII... foram mais de cinquenta. Hoje, uma coisa se sabe: o Vale já não tem nenhum segredo.

            — Não sou da sua opinião.

            — Está enganado. Esquece-se de que os ladrões profissionais de Gurnah desencadearam uma forte concorrência aos pesquisadores e aos sábios. Nenhum tesouro lhes pôde escapar. Contudo, se quiser consultar os nossos arquivos...

            — É mesmo a minha intenção.

            Depois de ter subido a escada monumental, Carter entrou com respeito na sala, onde repousavam, para a eternidade, os corpos dos reis do Novo Império; vazia e silenciosa, parecia hostil a qualquer presença profana. Teria gostado de cobrir de tiras aqueles cadáveres descarnados, substituí-los nos seus sarcófagos e subtraí-los à curiosidade mórbida de um público irónico ou assustado.

            Dois rostos conservavam um incrível poder: o de Séti I, o construtor do templo de Abidos, e o de Ramsés II. Estavam ancorados numa transfiguração de que traziam prova; quem os contemplava, sabia que o Egipto vivia para além do tempo.

            O exame das múmias reais corroborou as declarações do funcionário: a múmia de Tutankhamon não tinha sido descoberta.

            Nem túmulo, nem múmia: Tutankhamon não passará de uma miragem?

            Carter despejou os arquivos do Museu e tomou nota dos trabalhos efectuados pelos pesquisadores sem obter um só indício sobre o rei ou a localização da sua última morada. Nem rumor nem boato falso, como se nunca tivesse existido. Por um lado, esse silêncio perturbava-o; por outro, alimentava as suas esperanças.

            De passagem pelo Cairo, alguns colegas admiraram-se de o ver trabalhar dia e noite; um deles convidou-o para jantar. Repudiou secamente a proposta; água, um pãozinho e alguns frutos lhe bastariam. O seu verdadeiro alimento era aquela documentação que ninguém tinha examinado com cuidado.

            Na manhã do último dia da sua escapada pelo Cairo, foi recompensado dos seus esforços: um arqueólogo anónimo tinha consagrado um estudo manuscrito com a chancela da necrópole real, representando o chacal Anúbis por cima de nove personagens ajoelhados e peados. O Egipto simbolizava assim o triunfo do conhecimento sobre as forças do mal; amarradas, incapazes de agir, davam graças ao deus encarregado de abrir as portas do além e de conduzir os iniciados até à luz. Era por essa razão que tal chancela era colocada no acesso às tumbas do Vale dos Reis e em mais lugar algum. Teria ele um dia a oportunidade de lhe tocar com o dedo?

            Com a imagem para sempre gravada na memória, prosseguiu a leitura, interrogando-se sobre um fenómeno curioso: a entrada de certas tumbas tinha ficado bem visível, marcada por uma majestosa fachada; noutros casos, as caves tinham sido tapadas e dissimuladas atrás dos aterros, como se as tivessem querido tornar inacessíveis. Se o túmulo de Tutankhamon existisse, pertenceria a essa última categoria; seria, sem dúvida, necessário desaterrar toneladas de areia, antes de a livrar.

            Um documento anexo tinha-se juntado ao estudo: o começo de um papiro relatava a agressão de Seth contra seu irmão Osíris, depois tratava de um sinistro assunto, uma série de maldições ao encontro dos violadores de sepulturas reais!

            Traduziu e retraduziu os hieróglifos; receando iludir-se, consultou dois conservadores e um adido científico alemão em estágio no Museu. Todos três confirmaram a sua interpretação. Segundo a cota do papiro, talvez fosse possível recolher um outro fragmento e obter a continuação do texto.

            Carter deveria ter voltado a Tebas e recomeçado o seu trabalho, mas a excitação era demasiado forte; obteve autorização de prosseguir as suas buscas nas reservas do Museu, onde dormitavam obras admiráveis, das quais algumas não tornariam a sair das trevas e do esquecimento.

            Depois de numerosas tentativas infrutíferas, foi de novo abençoado pelos deuses do Egipto; segurava nas mãos a segunda parte do papiro, enfeitado com a mesma cota a que tinha sido acrescentado um bis. A separação dos dois fragmentos parecia bizarra; com efeito, esse género de incidente era dos mais frequentes. Porquê ligar a tão modestos vestígios?

            O texto decifrava-se sem grande dificuldade:

            “Só eu vigiei a construção da tumba de Sua majestade ao abrigo de todos os olhares e de todas as orelhas. Ninguém o viu, ninguém o soube. Zelei escrupulosamente, de modo a fazer a mais perfeita das obras; ultrapassa a dos antepassados e fará falar dela muito depois de mim.”

            A exaltação atingia o seu cúmulo; não se tratava do acto oficial, dizendo respeito à construção da sepultura de Tutankhamon, tornada inviolável por uma acumulação de blocos e, sobretudo, pela preservação de um segredo bem guardado através dos séculos?

            Não restavam mais do que alguns sinais a decifrar, os nomes do rei e de seu mestre-de-obras.

            Trémulo, com a fronte coberta de suor, Carter fechou os olhos e tentou controlar a respiração. Essa emotividade pareceu-lhe indigna de um sábio; subitamente enraivecido, defrontou a realidade.

            A decepção foi dilacerante.

            O mestre-de-obras chamava-se Ineni, o faraó Tutmés I, primeiro monarca a escolher o Vale dos Reis, a fim de subtrair a sua morada de eternidade aos gatunos. O soberano tinha assim inaugurado uma tradição respeitada pelos seus sucessores das décima oitava, décima nona e vigésima dinastias. Graças a Tutmés, o lugar selvagem da margem oeste era chamado para uma fama universal. Mas Tutankhamon permanecia inacessível.

 

            — Os Ingleses são uns monstros! — declarou Raifa, com o os olhos cheios de cólera.

            Howard Carter tomou-lhe as mãos com doçura.

            — Nem todos.

            — Sim, todos!

            — Eu também?

            — Tu já és só metade inglês! É à tua metade egípcia que eu falo.

            Sentados na borda de um canal, assistiam ao banho dos búfalos que se agitavam na água; crianças nuas nadavam a seu lado, divertiam-se a trepar às suas costas e a mergulhar.

            Abbas II Hilmi acabava de suceder a seu pai, o kbédive[4] Teufique, que liderava o país. O khédive, fraco economista, tinha endividado o Egipto, a ponto de o submeter ao controlo da Inglaterra que, sem dificuldade, tinha afastado a França, pronta a descorrer mas incapaz de agir. Abbas II Hilmi, favorável aos nacionalistas, tinha-se lançado no caminho da emancipação; o cônsul-geral de Inglaterra tinha-se empenhado em cortar o mal pela raiz, com grande zanga de Raifa e dos Egípcios, persuadidos de que a sua terra devia libertar-se do jugo estrangeiro.

            — O Egipto precisa de nós, Raifa; bem o sabes.

            — Recuso-me a compreendê-lo e proíbo-te de manter essa posição.

            A indignação ficava-lhe bem. Howard não tinha certamente vontade de falar de política; olhá-la, quer estivesse doce ou zangada, encantava-o. Um mês depois do seu regresso a Dar el-Bahari, quando Naville o ameaçou de o mandar para a tropa se recomeçasse a desertar do campo de trabalho, Raifa tinha fugido da sua aldeia, aproveitando as obrigações do irmão, ocupado a cobrar os impostos nos confins do campo. Durante uma semana, ver-se-iam de manhã e à noite, à sombra de uma palmeira, escondidos num bosque de sicômoros ou numa cabana de caniços, na orla de um campo. Teriam tanto a dizer-se, se o khédive Teufique não tivesse a desastrada ideia de morrer.

            — É preciso mandar embora os Ingleses; esses invasores são responsáveis pela miséria do meu povo.

            — Foram os Turcos que arruinaram o Egipto — lembrou Carter irritado.

            — A Europa modificou a nossa maneira de viver; nunca deveríamos ter aceitado a perfuração do canal de Suez.

            — A Inglaterra opôs-se.

            — Porque receava perder o controlo da rota das índias! Queria lá saber da desgraça do povo... só contam os seus interesses económicos.

            — Exageras, Raifa. Abrindo-se para a Europa, o Egipto começou uma revolução agrícola; já não depende da cheia para sobreviver, uma vez que pratica a irrigação perene.

            — Pôr constantemente os fellahs a trabalhar, torná-los mais escravos... será um progresso? Por causa dessa forma de irrigação, o parasita que transmite a bilharziose proliferou nos canais onde os camponeses tomam banho, lavam a roupa e a loiça. Antigamente, a água era pura; hoje, leva-lhes a morte! O verme ataca o fígado e o baço, gasta o organismo; depois o sangue substitui a urina, e é a agonia! Porque haveríamos nós de amar aqueles que nos inocularam esse veneno?

            — Porque me amas tu?

            A brutalidade da pergunta assustou-o: lamentou logo tê-la feito. Já ela se levantava, fugia, desaparecia. Newberry, Petrie e Naville tinham-no avisado contra o seu carácter impulsivo, sem obter a mínima melhoria.

            Mas Raifa não retirou as suas mãos.

            — Perdoa-me.

            — Que mal me fizeste, Howard?

            — Não te devia ter agredido assim.

            — Penas e remorsos não se parecem; não terias tu sido sincero?

            Ele quase se irritou outra vez, mas o sorriso dela desarmou-o.

            — Nunca me confundiram dessa maneira.

            — Ninguém se tinha ainda apaixonado por ti.

            Os dedos deles entrecruzaram-se; ele não soube que dizer nem que fazer. Como declarar a sua paixão a uma jovem árabe, que gesto fazer? Na frente de uma lady, o seu instinto ter-lhe-ia talvez indicado a conduta a seguir. Aqui, na borda do Nilo, sob o Sol de Outono, a cem passos de um casal de gamos gozando o seu banho, o seu saber de arqueólogo não o ajudava nada.

            — Gostaria de pintar o teu retrato.

            — O Corão proíbe-o; deveria estar de véu. Guarda-me no teu coração mas não conserves os meus traços.

            — Serias uma outra.

            — Recuso. Criarias um génio mau.

            Durante a tarde, passearam num campo deserto. Raifa evocou a lembrança do pai, um lavrador morto muito novo. Howard descreveu-lhe o campo de Norfolk.

            Quando o sol declinou, pararam perto de um chaduf[5], Raifa deitou sobre os pés poeirentos o conteúdo de um balde de água e apercebeu-se que a tinta de hena tinha, em parte, desaparecido. Contrariada, receando perder a sua pureza e ser a presa de espíritos errantes, arrastou-o até um grupo de casas onde chamou uma mulher velha que trabalhava uma preciosa massa. As folhas ovais da hena, arbusto parente do ligustro, dava flores em cacho, análogas às do lilás; eram moídas e reduzidas a pó, antes de se tornarem num cosmético e numa protecção mágica.

            Acocorada, com as pernas dobradas sobre si, Raifa tingiu as unhas dos pés. Ao olhá-la, teve a sensação de roubar alguns instantes da sua intimidade.

            Ela olhou para trás.

            Assustada, levantou-se e encostou-se contra o muro da casa de adobe. Num barulho de cascos e uma nuvem de poeira, Gamai imobilizou o cavalo entre ela e Carter. À cintura, a kurbash, um chicote de pele de hipopótamo.

            — Tinha-o proibido de ver a minha irmã.

            — Raifa é uma mulher livre.

            — Cão de inglês! Julgas podê-la conspurcar?

            O cavalo empinou-se; Carter não se mexeu uma polegada.

            — Respeito a sua irmã; gostamos de conversar um com o outro.

            Ele agarrou no chicote e fê-lo estalar várias vezes.

            — Depois da correcção que te vou inflingir, não terás mais vontade de falar.

            — Só um cobarde chicoteia um homem desarmado; bate-te com os punhos, se tiveres coragem.

            Gamai largou o kurbash e saltou para o chão.

            Mais alto e mais largo de ombros do que Carter, ignorava que um pequeno camponês inglês se aperfeiçoa na arte do boxe desde que aprende a andar; Howard tinha aprendido as regras à sua custa e repetido uma vasta escala de golpes permitidos e proibidos. Gamai atacou-o unicamente com a força do desdém; foi o seu erro. Uma defrontação bem conduzida não dura muito tempo; dois uppercuts, um no queixo, outro no plexo, deixaram-no zonzo, com um joelho em terra.

            Carter estendeu-lhe a mão.

            Cuspiu.

            — Que o ódio do Profeta caia sobre ti!

            Dobrado pela dor, Gamai conseguiu escarranchar-se na sua montada e foi-se embora.

            Raifa rompeu em soluços.

 

            Carnarvon releu o artigo do Times consagrado ao Sudão. Os observadores melhor informados prediziam perturbações graves e lembravam as acções brilhantes de Kitchener, o único soldado capaz de restabelecer uma paz durável. O conde não teria podido explicar porque é que aqueles barulhos de botas o perturbavam mais do que de costume; se bem que ele se defendesse delas era sujeito a visões premonitórias. “Sudão” e “Sangue” soavam-lhe hoje como termos indissociáveis.

            No começo daquele soberbo Verão de 1895, tais pensamentos eram incongruentes; dentro de algumas horas, um rico aristocrata de vinte e nove anos festejaria o seu aniversário, tomando por esposa Miss Almina Wombwell, jovem e frágil pessoa, semelhante a um modelo de Greuze. Memorável 26 de Junho, na verdade, que veria uma magnífica cerimónia em Santa Margaret, em Westminster, depois um banquete dos mais convencionais em Lansdowne House. Almina, terna e enternecedora no seu vestido de gaze com estrelas, de esmeraldas e diamantes, apareceria como uma espécie de vítima expiatória oferecida ao lutador por fim acalmado.

            A idade da razão, murmurava-se à volta de Carnarvon; outros tinham-na atingido com menos felicidade. Ele, titular, rico e culto; ela, inteligente, doce e bela. Um casal ideal prometido a um êxito certo, temperado com dois ou três filhos que fariam honra aos pais.

            Por um lado, o conde apreciava a situação; por outro, detestava-a. Ao contrário de tantos outros homens, não sentia nenhuma angústia perante o amanhã e dever-se-ia alimentar de uma perfeita beatitude; mas o gosto dos grandes espaços não o abandonava. Almina não sentia qualquer atracção pelas viagens. O castelo de Highclere era um universo apto a encher uma existência inteira; ela desejava um filho e uma filha, desejava educá-los com calma, dar-lhes uma educação tradicional e ocupar-se o melhor possível de um marido fora do vulgar.

            Sem que ela lho confessasse, Carnarvon estava persuadido de que a noiva tinha a intenção de o transformar e de o livrar daquela sensação de vazio e de inutilidade que o mergulhava frequentemente no inferno; tornar-se pai de família seria uma etapa decisiva do processo.

            Tinha saudades do bom tempo em que Porchey procedia segundo a sua fantasia, passava dois meses no mar à procura de uma tempestade, conversava com bandidos num bar esquisito do fim do mundo e perdia-se no desconhecido, a vagabundagem não encontraria a sua justificação nela mesma? Mas Porchey tinha desaparecido, cedendo o lugar a George Herbert, quinto conde de Carnarvon.

            O criado de quarto apresentou-lhe um smoking.

            — O senhor conde deveria preocupar-se com as horas. Seria lamentável que o senhor conde chegasse atrasado.

            — Lamentável, para quem?

            O criado de quarto inclinou-se e retirou-se.

            — Lamentável — repetiu Carnarvon sonhador. — E se eu não fosse feito para o casamento?

            Os momentos de ternura, passados ao lado de Almina, brotaram na sua memória. Estava sinceramente apaixonado por ela, e não se casava sob constrangimento. Contudo, tinha vontade de fugir, de saltar para a ponte do primeiro barco e de dizer adeus à Inglaterra.

            A alma do pai falou-lhe.

            Aquela fuga, característica de Porchey, não era digna de Carnarvon. A sua desesperança não se alimentava do seu egoísmo, do seu apego exclusivo à pessoa dele, às suas próprias alegrias e às suas próprias penas? Uma mulher e filhos: eis o que se seguiria do nada em que se enterrara.

            Obrigado a preocupar-se com o destino de outrem e com a prosperidade do seu domínio, Lord Carnarvon tomaria o caminho certo.

            Perspectiva pouco animadora, na verdade; teria preferido casar com Almina, na crista de uma vaga, na encosta de um vulcão ou então no fundo de um vale perdido do Novo Mundo, com índios nus por testemunhas.

            Cercado por todos os lados, o conde armou um combate de honra. Desdenhou o smoking, enfiou um casaco de sarja azul e pôs um chapéu de palha.

            O criado de quarto, espantado, resmungou algumas palavras indistintas à entrada do quarto.

            — Ora bem, meu amigo, teria perdido a língua? Se algum pormenor o choca, seja franco.

            — O... o chapéu do senhor conde está ao contrário.

            Carnarvon viu-se ao espelho.

            — Exacto. Faz-me pensar em o aumentar; sem a sua judiciosa intervenção, teria feito escândalo.

           

            Toda a casa esperava o feliz acontecimento com impaciência; a esposa de Lord Carnarvon tinha certamente concebido um macho. Logo às primeiras horas, o parteiro e as “comadres”, tinham acorrido ao castelo de Highclere.

            Instalado na biblioteca, o conde lia um trabalho de André Chevrillon, intitulado Terras Mortas; no regresso de uma viagem ao Egipto, a propósito do Vale dos Reis, escrevia:

            Outros faraós dormem ainda no seio da montanha, ao fundo de hipogeus que o homem nunca perturbou depois do dia em que a porta foi fechada. Dormem sob a guarda dos deuses. Belo efeito literário, absurdidade arqueológica; sabia-se há muito tempo que aquele lugar sinistro tinha entregado todas as suas múmias e todos os seus tesouros, quer aos gatunos quer aos egiptólogos. Aquele Chevrillon, como tantos franceses, tinha a alma romântica demais.

            Os passos do carteiro ressoaram no corredor.

            Carnarvon interrompeu a sua leitura.

            — Parabéns, senhor conde; tem um rapaz.

            — Chamar-se-á Henry, viverá muitos anos e será o sexto conde de Carnarvon.

            — Deus o ouça.

            Logo que abraçou Almina e o filho, Carnarvon foi para Londres. Esperavam-no no Foreign Office[6], no banco e em dois escritórios da City; mas descurou esses encontros de uma aflitiva banalidade e passou várias horas num barracão dos subúrbios norte em companhia de uma equipa de mecânicos. Mal se ouviam falar, tão ensurdecedor era o barulho do motor.

            — Esse inconveniente não perturbou o conde, que descobrira a sua nova paixão: o automóvel.

 

            Enquanto Kitchener, depois de ter vencido o califa Abdullah, em Ondurmão[7], conseguia reconquistar o Sudão e obrigava o comandante francês Marchand a abandonar a Inglaterra, Carter reflectia sobre os túmulos do Vale dos Reis. Que possuíam eles em comum? Uma porta de acesso, um corredor enterrando-se na terra, uma antecâmara e a sala do sarcófago; por vezes um poço destinado a recolher as águas de chuva a fim de simbolizar o oceano primordial e a tumba de Osíris. Nas paredes, relevos e quadros evocavam as etapas da ressurreição de Faraó e as mutações da sua alma.

            Infelizmente, as dimensões dessas sepulturas eram muito variáveis, indo de alguns metros a mais de uma centena! Nessas condições, impossível prever as de Tutankhamon. Além do mais, havia a certeza de que a imortalidade repousava sobre dois elementos: um templo e uma tumba; mas o templo de Tutankhamon tinha desaparecido... se é que alguma vez existira.

           

            A sexta-feira era o dia de repouso no Egipto, salvo para Howard Carter; livre da sua tarefa em Dar el-Bahari, durante algumas horas, consagrava esse muito breve lazer a completar os seus cadernos sobre o Vale, decidido a coleccionar tudo o que tivesse sido escrito ou declarado.

            A Primavera resplandecia. Laranjeiras, madressilvas e jasmins floriam, tais como os campos de luzerna e de favas; o calor aumentava, as sombras diminuíam, a poeira parecia estender o seu império. Um pouco cansado, abandonou os seus papéis e passeou ao longo do Nilo.

            Havia cinco meses que não via Raifa; tentar dirigir-lhe a palavra, tê-la-ia posto em perigo. Não cessava de pensar nela e lutava com a maior energia para não a roubar ao irmão.

            Subitamente, apareceu a seu lado. De momento não a reconheceu, porque pusera um vestido de um azul-vivo; tinha os cabelos presos num véu que lhe cobria a fronte. O andar traiu-a, antes que tivesse pronunciado uma só palavra.

            — Raifa... porquê correr este risco?

            — O meu irmão foi promovido; foi nomeado para Assuão. Hoje, Howard, é o primeiro dia de Primavera e a festa de Cham en-nessim, (o perfume da brisa); não poderia existir momento mais doce para um reencontro, se aceitares esquecer o teu trabalho.

            — Esse grave assunto merece reflexão.

            O seu sorriso encantou-lhe a alma.

            —  Trouxe-te um turbante e uma galabieh.

            — Essa moda parece-me pouco britânica.

            — Será bastante cómoda para se confundir na multidão e passar despercebido. E, além disso... quero saber se um certo Howard Carter deseja mudar de aparência a fim de me provar a sua afeição.

            Por felicidade, não havia nenhum espelho nas paragens e não viu a sua indumentária de mau gosto.

            Cham en-nessim recolhia o fervor popular; os citadinos invadiam o campo, famílias inteiras lançavam-se na estrada e almoçavam à borda do Nilo. Rapazotes e miúdas usavam, com orgulho, fatos e vestidos novos, de cores vivas, entravam nas casas de portas largamente abertas e, em troca de ovos cozidos coloridos, recebiam pombos, peixe salgado ou laranjas. Os vendedores de jasmim e de rosas obtinham um franco sucesso; flutuavam no ar perfumes de noivado.

            Raifa era uma fada. Quase lhe fez esquecer o Vale dos Reis: perdido numa multidão em júbilo, feliz como uma criança, Howard Carter soltou-se da sua habitual desconfiança e seguiu o mais encantador dos guias. Ela lembrava-lhe que aquele país tinha sido, num passado longínquo, um lugar de festas e de júbilo em que cada um colhia o prazer de viver.

            Quando os citadinos retomaram o caminho da cidade, Raifa não lhe restituiu a sua liberdade e conduziu-o até à sua aldeia, onde alguns lampiões furavam a noite nascente; esgotadas, as crianças adormeciam. Eles entraram na casa silenciosa.

            — Espera-me aqui —  ordenou ela, abandonando-o num quarto garrido, com paredes brancas e verdes.

            Carter sentiu subitamente a garganta apertada; tinha-o introduzido nos seus aposentos privados, o que constituía uma falta à moral local. Como sair daquela armadilha? Incapaz de descobrir uma escapatória, encheu-se de paciência.

            Ela tornou a surpreendê-lo.

            Sem véu, descalça, vestida com uma saia que parava acima dos tornozelos e um bolero dourado que deixava aparecer o ventre, segurava na mão direita um darabuka, tamborim em forma de vaso com o fundo coberto de pele. Perfumada com jasmim, dona de um desejo tanto mais ardente quanto era contido, expressou a sua juventude e a sua beleza, oferecendo-lhe uma dança do ventre, herdada de uma arte requintada, vinda pela Rota da Seda. Com movimentos muito lentos, quase imperceptíveis no começo, formou círculos em volta de um eixo invisível; o corpo de Raifa, esbelto e maleável, teve subtis variações. Os tornozelos deram o ritmo, os seios animaram-se, as ancas estremeceram.

            Nem por um momento ela deixou de o olhar, enquanto ele nem sabia onde pôr os olhos; aquela visão inflamava-o mas não conseguiu confessar-lhe a sua paixão. Raifa desapertou o bolero, deixou cair ao chão o pedaço de tecido e aproximou-se dele com um passo lascivo; ela abandonou o tambor, tomou-lhe a mão e puxou-o contra si.

 

            Deveria tê-la repelido, convencê-la que cometiam uma loucura, não aceitar aquela aventura sem saída... mas Raifa era enfeitiçadora, com a sua pele cheirosa, o seu desejo ardente. As suas mãos fizeram deslizar a saia ao longo das ancas; desastrado, ele crispou-se. Com uma ondulação, ela ajudou-o. Nua, continuou a dançar e arrastou-o para o centro de um turbilhão de beijos e de carícias. Mergulhado nos seus cabelos negros, embriagado com a água dos seus olhos, ofereceu-lhe um amor semelhante à cheia do Nilo, subindo ao assalto das margens.

 

            Naquela manhã do dia 9 de Março de 1898, Howard Carter foi arrancado aos braços de Raifa por um rumor que, depois de ter crescido de aldeia em aldeia, esteve em todos os lábios. Com uma voz agitada, o escrivão público explicou aos papalvos como um arqueólogo francês, Victor Loret, acabava de descobrir, no Vale dos Reis, uma tumba intacta contendo o sarcófago de um rei desconhecido.

            Pela janela aberta, que um cortinado velava, Carter não perdeu uma só palavra; a sua jovem amante, sorridente no seu meio-sono, sonhava com outras fantasias.

            — Onde vais, Howard? O dia mal rompeu.

            — O Sol já vai alto, Raifa. Dormimos muito.

            — Dormimos?

            Ele abraçou-a ternamente.

            — Concedes-me autorização para visitar uma múmia?

            Longe dela, a sua jovialidade desapareceu. A notícia tinha-o perturbado; quando aquele mesmo Loret, no dia 12 de Fevereiro, atingiu o sarcófago vazio de Tutmés III, o Napoleão egípcio, um pressentimento apoderou-se de Carter. Aquele francês tinha o direito de pesquisar no Vale! Para mais, a sorte parecia acompanhá-lo... não teria ele posto a mão na tumba de Tutankhamon?

            Quando Carter chegou ao lugar da descoberta, onde uma dúzia de gaffirs faziam guarda, Loret tinha partido para Luxor. O inglês desejava pedir-lhe a natureza exacta das maravilhas que ele arrancava das trevas; na sua ausência, restava-lhe convencer os cérberos a deixá-lo enfiar-se na caverna dos tesouros.

            Como todos eles conheciam Carter, a sua tarefa foi fácil, e obteve depressa o seu acordo. Passando por uma brecha feita na porta murada, acesso indiscutível a uma sepultura real, caminhou iluminando-se com um archote. Sem a sua fraca luz, teria caído num poço largo e profundo. Teve de voltar à superfície e pedir uma escada; atirando-a através do buraco aberto, estabeleceu uma ponte de ocasião que lhe permitiu ultrapassar o obstáculo. Impaciente avançou a passos apressados em direcção à sala do sarcófago.

            Este último estava bem no seu lugar.

            Aproximou-se dele com respeito, receando encontrar o faraó que o obcecava, desde a sua chegada à terra dos deuses.

            No interior da cuva, um rei repousava. Na cabeça tinha um ramo de flores; aos pés uma coroa de folhagem. Pela primeira vez, um pesquisador ressuscitava um monarca egípcio, no próprio lugar onde, graças aos ritos, vivia eternamente.

            E esse pesquisador não era Howard Carter.

            Com os olhos fechados, a respiração curta, concentrou-se; era inútil atrasar por mais tempo o instante em que deveria decifrar as inscrições e ficar a saber o nome do faraó. Nunca tinha recuado perante a realidade; uma vez que o seu sonho se desfazia, quis ao menos prestar homenagem a Tutankhamon.

            Aproximou o archote dos hieróglifos e observou os anéis elípticos que continham a palavra fatal. Leu “Amon”... mas não Tutankhamon! Aquela múmia, aquele sarcófago, aquela tumba pertenciam a Amenófis II, soberano que as suas proezas no tiro ao arco e no remo tinham tornado célebre.

            De novo sereno, alegre como um garoto que ganhou ao jogo, sentou-se uns longos minutos no chão poeirento do sepulcro; a sua derrota transformava-se em vitória. Loret provava que algumas caves intactas permaneciam escondidas nas entranhas do Vale... Entre eles, Carter sentia-o, sabia-o, figurava a de Tutankhamon.

            O seu archote iluminou a entrada de um quarto; no interior, múmias reais em número de nove! Foi de novo tomado pela angústia; o seu rei seria um dos habitantes daquele novo esconderijo?

 

            Cada uma daquelas veneráveis relíquias lhe revelou o seu nome; por felicidade, Tutankhamon faltava ao chamamento!

            Com o seu trabalho em Dar el-Bahari bastante adiantado, Carter ocupou os seus tempos livres, interrogando sem interrupção o lugar de Dar el-Mendich, muito perto do Vale; aí, numa pequena aldeia, tinham vivido os artesãos que, no maior segredo, construíam e decoravam as tumbas reais. A sua comunidade beneficiava de um sistema jurídico especial e dependia directamente do vizir, o primeiro ministro de Faraó.

            Que restava de Dar el-Mendich? Um templo, as fundações das casas e o traçado das ruas, e as tumbas dos entalhadores de pedra, dos pintores e dos desenhadores. Tinham sido extraídos de uma fossa imensa, milhares de pedaços de calcário que serviam de molde aos aprendizes.

            Atravessando a praça central da aldeia, perto do poço onde as mulheres vinham buscar água, Carter pensou na animação que ali reinava havia três mil e quinhentos anos; os artesãos partiam daquele porto de paz, rodeado de solidão e de extensões desérticas, por onde rondavam as hienas, para seguirem um caminho que conduzia ao Vale dos Reis. Britadores, entalhadores de pedra, pintores, escultores e desenhadores repousavam, de boa vontade, a meio caminho, em cabanas rudimentares, antes de voltarem para casa, na “praça da verdade”, segundo o nome egípcio de Dar el-Mendich.

            Altas falésias verticais, rochedos, areia, um anfiteatro silencioso tornavam o lugar austero; flutuava ainda no ar morno o entusiasmo dos construtores. Longe dos homens do seu tempo, Carter sentia-se próximo daqueles seres cuja alma sobreviveria através da perfeição das suas obras. Um deles tinha cavado a tumba de Tutankhamon; talvez tivesse também gravado algum texto ou deixado algum indício susceptível de o pôr no caminho. Era por isso que, depois de vários meses, examinava cada parede e cada pedra.

 

            Quando ele saía da cave do mestre-de-obra Sennedjem, que, sobre a parede pintada, ceifava nos paraísos do além, em companhia da esposa, esbarrou com um homem corpulento, calvo e de bigodes, de mãos gorduchas e olhar duro, por detrás dos óculos de lentes redondas, vestido à europeia com a distinção de um nobre.

            — Howard Carter?

            — Não tenho o prazer de o conhecer.

            — Gaston Maspero, director do novo Serviço das Antiguidades.

            Carter deixou cair o caderno de desenho. Assim, encontrava de imprevisto o papa da egiptologia, o descobridor dos Textos das Pirâmides, o pesquisador de Abidos, de Saqqara, de Karnak e de Edfu, o detective que tinha trazido à luz o esconderijo de Dar el-Bahari, o autor da história antiga dos povos do Oriente clássico, professor em Paris, no Colégio de França, com vinte e sete anos de idade, numa palavra, o erudito, em frente do qual, os pesquisadores de todo o mundo se inclinavam.

            Não tinham razão. Maspero tinha deixado o Egipto para seguir a sua carreira, depois de ter dirigido uma missão permanente no Cairo, durante muito tempo; Carter nunca partiria...

            — Está então de regresso... Por quanto tempo?

            — A vantagem dos meus cinquenta e três anos, senhor Carter, e de quarenta anos de egiptologia, é ter a experiência dos homens e do terreno. Hoje, possuo poderes que antigamente me recusavam, e que não me deixariam contar.

            — Parabéns pela sua nomeação, senhor director.

            Com as mãos cruzadas atrás das costas, bem assente sobre as pernas, Carter devia parecer um estudante, pronto para ouvir a sentença do júri.

            Maspero tirou os óculos e limpou-lhe as lentes com um lenço fino.

            — A situação não é contudo tão fácil: Kitchener e a Inglaterra puseram a mão no Sudão, enquanto Mustafa Kamil e o Partido Nacional exigem a partida dos Ingleses.

            — Simples provocação sem amanhã.

            — O Egipto conta hoje sete milhões de habitantes contra três em 1820; as famílias fazem cada vez mais filhos a fim de os mandarem trabalhar nos campos de algodão. Amanhã, serão uns patriotas e pregarão a independência.

            — Será que está zangado com a Inglaterra?

            — Pelo contrário! Para não lhe esconder nada, foi o cônsul-geral britânico, Lord Cromer, que apoiou fortemente a minha nomeação.

            — Isto significa que Loret...

            — O meu antecessor, embora francês, era um fraco arqueólogo. De facto, mexeu-se muito e fez algumas descobertas dignas de interesse.

            — Não acabou ele de desobstruir a tumba de Amenófis I, a mais antiga do Vale?

            Maspero varreu o argumento com as costas da mão.

            — Loret escava em cima do joelho, não tira nenhuma fotografia, rabisca notas ilegíveis. Mas há coisas mais graves, Carter: as “tumbas Loret” são abertas a todos os ventos, circula-se muito nelas... demais. Alguns objectos terão desaparecido por ocasião de transacções ilícitas; arqueólogos ingleses e alemães pronunciaram a palavra tráfico e criticaram vivamente Loret junto das autoridades. Eis porque apelaram para mim. Aceites as minhas condições morais, financeiras e materiais, volto a tomar as coisas em mão, mesmo se o meu compatriota for acusado, decerto, sem razão.

            ­— “As coisas”? ...quer dizer: todos os lugares!

            — Todos os lugares, repartidos por cinco distritos administrativos, que serão geridos com o maior cuidado por cinco inspectores locais e um número crescente de guardas. As sociedades científicas, os institutos e os afortunados especiais obterão as licenças de escavação, se eu assim o entender, de acordo com um comité consultivo internacional.

            — Consultivo...

            — Apercebe-se bem das intenções: o poder executivo, o único que conta, sou eu. Era tempo de pôr em ordem esta confusão. Que idade tem, Carter?

            — Vinte e seis anos.

            — Há quanto tempo trabalha no Egipto?

            — Há quase nove anos.

            — Fala árabe?

            — Vários dialectos.

            Maspero, por fim satisfeito com a limpeza das suas lentes, tornou a pôr os óculos.

            — Os rumores que lhe dizem respeito eram, pois, fundados. Pretende-se também que a região tebana não tem segredos para si.

            — Desta vez, o rumor é excessivo; gostaria que fosse verdade.

            — Ainda por cima, modesto... isso passa-lhe. Senhor Carter, nomeio-o inspector-geral do Alto Egipto e de Núbia, tendo por cargo ocupar-se dos monumentos. A sua cadeira administrativa será em Luxor. Naturalmente, exijo relatórios regulares.

            Gaston Maspero fez menção de se ir embora, parou e voltou-se.

            — Ah, esquecia-me... um homem da sua importância deve andar muito mais bem vestido; tem uma deplorável tendência para cair na moda indígena. Rectifique imediatamente a sua maneira de vestir, porque entra em funções desde já.

 

            Lord Carnarvon, o mais feliz dos homens; aos trinta e quatro anos era um aristocrata rico, festejado e amimado, dentro em breve pai de um segundo filho. Hábil gestor, via aumentar as suas contas bancárias de uma maneira regular e não conhecia qualquer preocupação quotidiana. A quem o quisesse ouvir, pretendia que a vida era um desporto em que o mais hábil vencia se soubesse apreciar um quadro de mestre como o porte de um cavalo de corrida; extrair um bronze antigo do antro de um antiquário excitava-o tanto como uma caçada à raposa levada segundo a tradição.

            Membro do Jockey Club, Carnarvon passava longos dias ocupado com uma das cavalariças mais janotas de Inglaterra; vencedor de numerosas corridas, começava a cansar-se daquele amontoado de êxitos. A sua consciência retomava os seus direitos: feliz, não o era senão no exterior de si próprio. Ainda conseguia afogar-se numa paixão mas, logo que ela fraquejava ou se esvaziava de um pouco de substância, aborrecia-se.

            O automóvel, a velocidade, o ar vivo que lhe batia nas faces, as milhas que desfilavam sob as rodas, as curvas em que a arte do piloto se revelava... eram os seus novos entusiasmos. Foi em França que comprou os seus primeiros bólides, antes que a Inglaterra se interessasse por eles; por ocasião da sua primeira passeata, deveria ter-se feito anteceder de um peão portador de uma bandeira vermelha. Naquele ano que inaugurava o século XX, a mecânica progredia depressa e obrigava o proprietário de Highclere a mudar frequentemente de carro. Apaixonado pelo risco, mas nunca insensato, o conde tinha assegurado os serviços de um motorista profissional, Edward Trotman, com o qual partilhava a condução dos veículos; quando se sentia cansado, Carnarvon evitava pegar no volante.

 

            Naquela manhã, na estrada alemã que conduzia a Schwalbach, onde se encontraria com a esposa, o aristocrata sentia-se em excelente forma. Sentado ao seu lado, o motorista sofria de uma coriza.

            — O ar livre vai curá-lo. Edward. Não há micróbio que resista.

            — Deus o oiça, senhor conde; os olhos choram-me, não me sentia em estado de conduzir. O senhor, contudo, deitou-se bastante tarde.

            —  Aquela recepção estava enfadonha; um professor vienense expôs as teorias de um certo Freud, autor de um livro recente sobre a interpretação dos sonhos. Não só inepto como perigoso; se um certo número de universitários idiotas ou crédulos propagam essas teorias, difundirão uma peste de que o mundo se livrará com dificuldade. Esse Freud é o pior dos pesadelos.

            — Tome cuidado, senhor conde; esta estrada não é senão uma sucessão de viragens.

            — Tem razão, Edward, eu desconfio das curvas. Provocaram todos os acidentes registados até este dia. Sabe o que me propôs um milionário turco? Comprar campos de algodão no Egipto! Parece que os proprietários terráqueos fazem fortuna, constituindo imensos domínios em detrimento de pequenos camponeses encurralados na miséria ou obrigados a abandonar os seus bocados para se amontoarem no Cairo. A nossa época perde a cabeça e nós vivemos numa panela de bruxas; a tampa acabará por nos saltar à cara.

            Edward Trotman espirrou; a sua coriza atafulhava-lhe o espírito ao ponto de o distrair de qualquer visão planetária. Carnarvon concentrou-se na sua condução; o nevoeiro e as chuvadas tinham tornado o piso escorregadio. Não podia impedir-se de pensar na sua recente conversa com um novo emissário do Governo britânico; já não lhe propunham ser um agente de informações benévolo, mas muito belamente de se tornar um especialista oficial do Oriente, e de iniciar uma carreira política que o levaria muito longe; o Foreign Office precisava de personalidades como a dele. Uma nova paixão, talvez, quando o automóvel lhe parecer fastidioso.

 

            Carnarvon passou uma lomba da estrada a grande velocidade; Edward Trotman saiu do seu assento e agarrou-se ao braço do conde para recuperar o equilíbrio.

            — Perdoe-me, senhor conde.

            — Eu é que lhe tenho de pedir desculpa, Edward. Vou afrouxar.

            A sucessão de viragens obrigou o condutor à prudência; finalmente, uma longa recta, permitiu-lhe libertar a energia do motor.

            — Este veículo arrasta-se; era preciso...

            Carnarvon não acabou a sua frase. Dois carros de bois, saindo de um atalho, cortaram a estrada, indiferentes ao automóvel que carregava sobre eles. Já não dispondo da distância necessária para travar, o conde deu um golpe de volante, saiu da via, e subiu para o talude. Um pneu rebentou. Trotman teve a sorte de ser cuspido enquanto o carro, caindo em viés num fosso enlameado, se voltava sobre Carnarvon.

            Edward Trotman ficou a dever a sua salvação a um espesso casaco que lhe amorteceu o choque; pouco preocupado com eventuais ferimentos, voou em socorro do patrão. Assustado, verificou que Carnarvon tinha a cabeça enterrada na lama; sozinho não tinha a força de deslocar o carro e de arrancar o conde a uma morte enlameada.

            Trotman correu a gritar. Os camponeses, responsáveis pelo acidente, estavam imóveis no meio da estrada.

            — Venham depressa! Preciso de vocês.

            Dois, de entre eles, fugiram.

            — Se fogem, serão acusados de crime!

            Os alemães não compreendiam o discurso do inglês, mas o seu tom ameaçador convencia-os de o seguir.

            O rosto de Carnarvon estava irreconhecível. Apoderando-se de um balde de água, que um camponês transportava, Trotman deitou-lhe um pouco sobre o nariz e os lábios, tirando-lhes a lama; depois, dirigindo a manobra, ordenou aos alemães que empurrassem o carro. Eles rabujaram; Trotman alterou-se, agarrou um pela gola e obrigou-o a ajudá-lo. Um segundo ajudou-os enquanto um terceiro, tomando consciência da gravidade da situação, partiu à procura de socorro.

            O veículo era pesado; primeiro, não se mexeu. Sob o impulso de um inglês desenfreado, os camponeses serviram-se dos seus recursos. Por fim, a carcaça metálica mexeu-se.

            — Empurrem, por Deus!

            Carnarvon estava livre; mas tinha parado de respirar. Agarrando-o pelas axilas, Trotman tirou-o da sua mortalha.

            — Fale comigo, senhor conde... fale comigo, suplico-lhe! — O motorista estendeu o patrão sobre o talude.

            — Mais água...Wasser, bittá

            Trotman deitou o conteúdo do balde sobre a cabeça de Carnarvon. O líquido gelado provocou uma reacção; as pálpebras levantaram-se, os lábios tremeram e retomou consciência.

            —  Está vivo, vivo!

            O olhar parecia perdido. Com uma voz muito fraca, Carnarvon conseguiu fazer uma pergunta que espantou o motorista.

            — Matei alguém?

            Trotman não teve tempo para responder: o conde caiu em coma.

 

            De três peças às riscas, lacinho de borboleta às pintas, lenço branco, chapéu de abas largas de fita preta, cigarreira, sapatos de lona branca: Howard Carter parecia um verdadeiro inspector das antiguidades, respondendo às exigências da melhor tradição britânica e de Gaston Maspero.

            Assim vestido, impunha sem dificuldade a sua autoridade nos diferentes depósitos de que era responsável.

            Esta promoção enchia-o de à-vontade; correu de Edfu a Komombo, de Abu Simbel a Luxor, de El-Kab a Hermonthis; como não ficar maravilhado em frente dessa miríade dos templos, de baixos-relevos e de estátuas que era preciso preservar, como não ter vontade de levantar toneladas de areia a fim de trazer para o dia novos monumentos? Mas os seus pensamentos levavam-no sempre para o Vale dos Reis, agora colocado sob o seu controlo. Infelizmente, não lhe podia consagrar o essencial do seu tempo; Maspero, que não se interessava nada por aquele lugar considerado como esgotado, não o teria aceitado.

            Tirando argumento das descobertas de Loret, Carter conseguiu no entanto captar o interesse do patrão que aceitou uma visita de rotina pelos lugares.

            — A tumba da rainha Hatshepsut: não é apaixonante?

            — Interessante mas vazia. Uma sepultura sem objectos e sem tesouro... uma velha sedutora estragada e sem atractivos.

            — Estou persuadido de que haverá maravilhas ainda escondidas, aqui mesmo.

            — Sonhos, Carter! Este Vale já não é mais do que uma desolação.

            — Gostaria de dirigir uma grande campanha de escavações.

            — O Serviço das Antiguidades é pobre —  objectou Maspero —, o meu orçamento está tapado. As quantias estão afectadas na manutenção dos monumentos conhecidos.

            — Tenho a certeza...

            — Isso basta. Se quiser pesquisar, comece por se tornar rico; contrate uma boa centena de operários e desembolse vários milhões de libras esterlinas. Será capaz?

            Furioso, Carter mordeu os lábios.

            — A minha única fortuna é o salário que o senhor me deposita.

            — Pois bem, saiba ao menos poupá-la e esqueça este lugar sinistro. O Vale está morto, Carter; não se enterre nele.

            De manhãzinha, Luxor tem um cheiro a café e a jasmim; a montanha cor-de-rosa da margem do Ocidente e o mundo dos deuses misturam-se aos humanos num silêncio luminoso. Quando o Sol se manifestou, encontrou Carter junto de uma pequena mesquita, rodeada de roseiras e de hibiscos; no interior, um velhote lia o Corão. Pássaros bebiam numa gamela colocada junto da entrada, guarnecida de mármores e de mosaicos.

            Vestida à europeia, Raifa parou a um metro do amante.

            — Porque me marcaste encontro aqui?

            — Está muito impressionante, senhor inspector. Eu preferia-o numa roupa mais modesta, mas hei-de habituar-me.

            — Não tenho escolha possível.

            — Sacrificavas-me às tuas novas funções?

            — Raifa...

            Tomá-la nos braços e apertá-la contra si... em plena rua, era impossível.

            — Será necessário torturar-me assim?

            — Não o merecerás? O meu irmão vive em Quena, tu tornaste-te uma pessoa importante, somos livres, tu e eu, e afinal deixámos de nos ver, se o teu trabalho se transformar numa amante, Howard, afastá-lo-ei. Amo-te e quero casar contigo.

            Aquela exigência não o surpreendeu; temia-a e esperava-a.

            — És egípcia, eu sou inglês...

            — Existe uma solução: converte-te ao Islão. Olha para aquela mesquita; tudo nela é paz e serenidade.

            — É verdade, mas...

            — Terás apenas cinco obrigações a cumprir; a profissão de fé no Deus único, as orações quotidianas, a caridade, o jejum e a peregrinação a Meca. Aceitas, Howard?

            Brilhava-lhe nos olhos uma louca esperança.

            — Preciso de reflectir.

            — Compreendo, Howard; Deus é o maior, eu louvo a sua perfeição. Saberá iluminar-te.

            Gaston Maspero deu um murro na secretária.

            — É um verdadeiro escândalo, senhor Carter! Quero a verdade.

            — Os meus relatórios não o satisfizeram, senhor director?

            — São precisos, concisos e em constante progresso; a esse ritmo, breve será o melhor dos meus inspectores.

            — Hei-de mostrar-me digno da sua confiança.

            — Na condição de acabar com as suas extravagâncias.

            —  A minha existência é consagrada ao trabalho.

            — Bem o desejava, Carter! É um homem novo, cheio de ardor... viver solitário seria um erro. Luxor está povoado de europeias encantadoras que poderá encontrar.

            — O meu trabalho...

            O rosto de Maspero tingiu-se de púrpura.

            — Não o impede de frequentar uma certa Raifa.

            — Tão vermelho como o seu interlocutor, não recuou em frente do assalto.

            — Quem me traiu?

            — Toda a gente o sabe, Carter! Junto da gentalha europeia de Luxor, está a ser a troça e a vergonha, ao mesmo tempo... tanto mais que o seu funesto projecto o conduz, só por si, à decadência.

            — A que se refere?

            — Não se faça burro! A sua “noiva” espalha por toda a parte, que está decidido a converter-se ao Islão.

            Muito direito, com o olhar fixo, Carter fez-lhe frente.

            — O casamento tem esse preço.

            — Não haverá casamento. A sua conversão seria a pior das inépcias; os muçulmanos não o aceitarão e os europeus rejeitá-lo-ão. Essa mulher será obrigada a deixá-lo e terá perdido o seu emprego, que digo eu? A sua vocação! Escute-me, Howard: as religiões apodrecem o homem. Fui expulso da Escola Superior porque tinha tomado posição a favor de Sainte-Beuve, livre pensamento e livre exame. Depois, fui reintegrado e não cessei de lutar para livrar a ciência da coleira de crenças que a sufoca; não soçobre por causa de uma loucura da juventude!

            — Raifa deseja oficializar a nossa união. Iniciou-me neste país, à sua língua, aos seus costumes; o meu êxito é-lhe, em grande parte, devido.

            — Incorrigível romantismo! O êxito de um ser não é devido senão ao seu próprio talento e à sua capacidade de utilizar as circunstâncias o melhor possível. Começo a conhecê-lo bem, meu rapaz; se vencer, ninguém lhe ficará grato. Por causa do seu lamentável gosto pela rectidão, terão inveja e ciúme de si.

            Aquele decidido fatalismo muçulmano não divertiu Maspero.

            — A aventura terminou.

            — Não creio, senhor director. Atraiçoar o amor de uma mulher seria uma indignidade a que não me posso acomodar.

            Por detrás dos óculos, o seu olhar tornou-se glacial.

            — A primeira qualidade de um sábio é dobrar-se à realidade. Ignora um facto maior: o irmão de Raifa acaba de voltar a Luxor. A irmã fez-me chegar uma carta em que ela me pede para intervir num sentido definido: que cesse de a importunar. Senão, o irmão fará queixa de si.

            — Quero ler esse documento.

            Maspero estendeu-lho.

            — Esse texto foi escrito sob coacção... é evidente.

            — Pouco importa, põe fim a essa ligação indecente. Agora, inspector Carter, regresse aos seus campos. Os monumentos precisam de si; durarão muito mais tempo do que essa egípcia.

 

            —  Quero a verdade exigiu Carnarvon.

            O cirurgião hesitou.

            — Está salvo, senhor conde; não será o essencial?

            — Não. Não creio ter perdido o meu sangue-frio e recomendo-lhe que conserve o seu.

            Carnarvon revivia o instante em que, na hospedaria mais próxima do local do acidente, tinha aberto de novo os olhos, em presença da esposa, do motorista e de vários médicos. Infelizmente o seu olhar estava turvo; alguns minutos mais tarde, cobria-o um véu negro.

            — Estou definitivamente cego?

            — Não creio, senhor conde.

            — Os meus ferimentos?

            — Pernas queimadas, fracturas nos maxilares, caixa torácica arrombada, comoções e contusões diversas.

            — Grau de gravidade?

            — Não é de desprezar.

            — Quando poderei andar?

            — Dentro de três ou quatro meses, mas... com uma bengala.

            — Correr?

            — Tem de lhe renunciar.

            Carnarvon não tornaria a navegar e não se lançaria mais nos oceanos à conquista de uma impossível liberdade.

            — Sinto uma dor atroz nos braços.

            — Estão fracos; acabarão por reencontrar a sua completa função. Contudo...

            — Continue.

            — Serão necessárias várias operações; ser-lhe-á preciso ter coragem e paciência, senhor conde.

           

            O parque de Highclere verdejava sob um pálido Sol de Primavera; Carnarvon tentava jogar golfe e prolongar cada dia a duração do seu percurso. Recuperadas as suas capacidades de visão, sentia-se mais apto a lutar contra a adversidade. Irritado pela sua falta de energia, regressou ao castelo.

            Almina esperava-o à entrada.

            — Não renuncie, meu querido; é preciso viver. Para mim, para o seu filho e para a sua filha que acaba de nascer.

            — Estou cansado.

            — A reeducação será longa. O seu médico...

            — Um mentiroso, como todos os médicos. A minha reeducação nunca mais acabará; sofrerei até ao fim dos meus dias.

            Almina olhou o marido com ternura e beijou-lhe as mãos.

            — Tem certamente razão; para mim, isso não muda nada.

            — Gostar de um inválido... será isso possível?

            — Mas não é um inválido.

            — Nem mesmo a sua ternura pode modificar a realidade; ando com dificuldade, esforços ridículos cansam-me, a minha existência passada foi uma sequência de coisas absurdas e já não tenho futuro. Triste balanço, não lhe parece?

            — Balanço inexacto, senhor conde. A experiência acumulada é insubstituível, a sua família venera-o e as suas primeiras fotografias provam um real talento.

            Carnarvon alegrou-se.

            — Estão boas, realmente?

            — Verifique o senhor.

            Tão depressa quanto pôde, Carnarvon dirigiu-se ao quarto escuro, instalado numa ala do castelo. A fotografia, a sua nova paixão, exigia uma minúcia de que se julgava incapaz; depois das primeiras tentativas medíocres, hesitava em continuar. A sua última série pareceu-lhe correcta; nitidez, enquadramento, composição imortalizavam o parque de Highclere.

            — Fotografaremos pois —  murmurou.

            Numerosas cartas afluíam do mundo inteiro; organismos oficiais e círculos de amadores felicitavam-no pelas suas fotografias e propagandeavam o seu nome em toda a Inglaterra; amanhã Carnarvon seria um fotógrafo de talento reconhecido.

            — A sua entrevista, senhor conde.

            Carnarvon hesitou; não deveria ter aceitado aquela visita. Sentado na cadeira de Napoleão I, recebeu o seu visitante na biblioteca. O homem do fato preto cumprimentou o castelão.

            — Londres ainda se lembrará de um aristocrata acidentado.

            — Está a recompor-se muito bem, senhor conde, as suas infelicidades pertencem ao passado. A maioria dos membros do Governo espera a sua entrada na política.

            Carnarvon levantou-se e disse uma cinquentena de versos de Macbeth; o seu interlocutor ficou impassível.

            — Eu aprecio Shakespeare, mas...

            — Ouviu-me bem?

            — Espero que sim.

            — Nesse caso, reparou.

            — Não compreendo.

            Carnarvon voltou as costas ao emissário do Governo.

            —  A sua discrição honra-o mas é inútil; as sequelas do meu ferimento no maxilar acarretam-me um defeito de locução que só os meus parentes podem suportar. Imagina-me declamando, fazendo um discurso e desencadeando risos? Os humoristas não tardariam em me escarnecer, e a minha carreira morreria como o pinto na casca.

            — Engana-se, senhor conde; esse defeito só existe na sua imaginação.

            — Não se lisonjeia um homem diminuído.

            — O senhor não o é. A sua coragem forçou a admiração de todos; um homem da sua têmpera tornar-se-ia um dirigente de primeiro plano.

            — Eu aceito a adversidade, o ridículo não.

            — Deixe-me expor o plano que os meus amigos e eu próprio preparámos para a sua eleição.

            — É inútil: não desejo nenhum mandato.

            — É insensato! Não se vai, contudo, enterrar aqui e...

            — O meu destino não pertence ao Governo de Sua Majestade; a nossa conversa terminou.

            Ter sido inútil e tornar-se mais inútil ainda... Carnarvon tornou a examinar aquele pensamento que nem o amor da esposa nem o dos filhos, nem a devoção dos criados afugentavam. Sofrendo de intoleráveis dores de cabeça, não encontrava repouso senão no centro do seu domínio, sob os cedros-do-Líbano; concentrar-se era tão penoso que devia interromper frequentemente as suas leituras ou a sua actividade de fotógrafo. Durante as refeições, mantinha enormes silêncios, ausente dele mesmo como da conversa.

            Aos trinta e quatro anos, o brilhante conde de Carnarvon era um homem acabado, quanto mais o ajudavam mais ele se desprezava. Depender da ternura dos seus, ou de uma simples bengala, levava-o para o inferno; se o suicídio não fosse uma tremenda falta de gosto, ter-se-lhe-ia resignado.

            Os seus cães foram os melhores terapeutas. Fiéis no instante como na duração, atentos aos seus menores gestos, não lhe reclamaram senão a sua presença e longos passeios a seu lado; aprendeu a suportar os seus sofrimentos e a não continuar a chorar a saúde perdida. A vida foi menos cinzenta, o desespero menos denso. Que o horizonte se tivesse estreitado como negá-lo? Mas o aventureiro sentia que uma outra porta se abriria no céu, que um outro caminho se ofereceria. Cabia-lhe a ele preparar-se.

 

            O escritório de Carter, em Gurnah, não era grande nem luxuoso, mas representava um extraordinário êxito e a possibilidade de estabelecer um plano de buscas para vários anos, plano em que estava incluído o seu querido Vale.

            Instalado ao fundo de um local rectangular, onde imperavam dois ventiladores, recebia pouco, preferindo a companhia dos trabalhos de erudição à dos insuportáveis perguntadores. Os seus três subordinados, nativos da aldeia vizinha, tinham a missão de afastar os importunos; desta forma, as banquetas encostadas às duas compridas paredes ficavam, com frequência, vazias.

            Com um mapa e um lápis, como era fácil pesquisar o Vale! Carter tinha vontade de o furar em lugares diferentes e previa várias centenas de operários a trabalhar, cujos cantos alegres seriam o prelúdio da descoberta. Mas faltavam-lhe aqueles milhares de libras esterlinas sem os quais não se poderia abrir nenhum estaleiro.

            —  Dois dos seus compatriotas desejariam vê-lo, senhor inspector.

            —  Como se chamam?

            — Recusam-se a dizê-lo, e pretendem possuir informações que lhe interessarão ao mais alto nível.

            A curiosidade levou-o a conceder a entrevista. Os dois ingleses eram homens maduros, de rosto burilado e traços grosseiros: teria jurado que se tratava de dois irmãos.

            — Moramos em Luxor — declarou o primeiro — e o Vale intriga-nos. É por isso que solicitamos a autorização de escavar.

            — Falaram em informações...

            — Primeiro a nossa autorização.

            — São arqueólogos?

            O segundo avançou.

            — Trabalhámos com Loret; isso deveria bastar-lhe.

            — Não organizam um tráfico de antiguidades?

            — Não é ilegal.

            — Actualmente, é. Na qualidade de inspector desta região, reprovo essas práticas e condenaria os seus autores.

            Os dois homens consultaram-se com o olhar e recuaram.

            — Não partam tão depressa, senhores, as informações?

            — Enganámo-nos, nós...

            — Ou falam, ou são considerados culpados.

            A ameaça fê-los parar.

            — Vou ajudá-los, senhores. Se desejam uma licença de escavação, é porque já conhecem o sítio onde darão o primeiro golpe de picareta. Suponho que Loret tinha marcado a entrada de uma tumba; quando soube da sua destituição, preferiu tapá-la.

            Nem um nem outro protestaram; Carter tinha posto o dedo na ferida.

            — Aqui está um mapa do Vale. Indiquem-me o lugar e desapareçam.

            Tinham-se reunido numerosos operários à entrada do Vale, movidos por algum pressentimento; em virtude de um instinto secular, mobilizavam-se à aproximação de um acontecimento.

            — Procurem o chefe dos guardas —  exigiu Carter. Fendendo as linhas, o reis avançou.

            — Ahmed Girigar! Subiu de posto.

            — À sua semelhança, senhor Carter; estou feliz por poder trabalhar consigo.

            — Eu também.

            — Quando começamos?

            — Imediatamente; preciso de homens experientes.

            Ahmed Girigar seleccionou os melhores; distribuiu as suas ordens com calma e foi imediatamente obedecido.

            Dirigiram-se para a falésia; Carter seguiu à cabeça apressado em chegar àquela tumba inédita.

            O trabalho foi rápido e fácil; Poucos blocos grandes, cascalho, areia... e a cavidade! Abria-se sobre uma escada bastante larga, em excelente estado. Nenhuma inscrição a dar o nome do proprietário. Logo que Carter meteu pelo corredor direito e alto, seguido de Ahmed Girigar, soube que a sepultura tinha sido violada. O quarto funerário, de forma oval era uma obra notável, embora o sarcófago, desprovido de textos, não estivesse terminado.

            Ajoelhou-se e apanhou uma roseta.

            — Olha, Ahmed. Provém de um pedantife de ouro incrustado de pedras preciosas: as deusas que pintei em Dar el-Bahari usavam umas semelhantes.

             Aquela tumba, como tantas outras, devia conter riquezas fabulosas; só subsistiam algumas magras relíquias, em nome de um conservador de Tebas, Sennefer, e de sua esposa; Carter atribuiu o número 42 à última morada deles.

           

            Os dois eruditos saboreavam pombo grelhado num restaurante típico de Luxor; o primeiro era francês, o segundo inglês.

            A egiptologia ao vivo, tanto para um como para o outro, só representava uma etapa; a carreira deles levá-los-ia para postos de professor em Paris e em Londres, longe de um país de que não gostavam.

            — Leu o último tomo dos Anais do Serviço das Antiguidades? — perguntou o francês.

            — Este Carter, apesar de ser meu compatriota, começa a exasperar-me.

            — Não é único! Indispõe a comunidade científica. Que ideia deslocada... Divulgar essa tumba 42, onde não existe o mínimo tesouro!

            — Se o deixam, redigirá relatórios sobre as sepulturas violadas e sobre os menores buracos do Vale: ridiculariza os seus antecessores e põe os seus colegas em má posição. Planos, sumários, desenhos! Como se nós não tivéssemos outras preocupações... Esse Carter queria esmagar-nos debaixo de um trabalho inútil. É ambicioso, vingativo e excessivo, sem dúvida porque vem de um meio pobre.

            — Impedi-lo-emos de ser prejudicial, meu caro colega.

            — Estou feliz com este entendimento cordial, ou Carter dobra ou quebra.

            Carter teve consciência de que perturbava os hábitos de um grupo de preguiçosos e de incapazes, para os quais o Egipto e a egiptologia não eram mais do que passatempos um pouco snobs; quem procurava a verdade do passado devia conceder-lhe tantos cuidados como na observação do presente e na preparação do futuro.

            Um mês depois da descoberta da tumba 42, Ahmed Girigar solicita uma entrevista ao abrigo de ouvidos indiscretos. Depois de ter fechado o seu escritório, Carter juntou-se a ele num vale desértico onde, por ocasião das chuvas de trovoada, se formava uma torrente.

            — Quatro operários que trabalhavam para Loret confessaram uma tentativa de roubo.

            — Em que tumba?

            — Uma sepultura desconhecida que o francês tornou a tapar como sendo a 42. Os quatro homens tentavam introduzir-se nela quando um affrit os incomodou; é um espírito muito agressivo que lhes torceria o pescoço e os impediria de respirar.

            — Indicaram a localização?

            — Eu levo-o lá.

            O reis conduziu Carter até à pequena ravina que guardava a tumba de Ramsés XI; mostrou-lhe uma concavidade na areia onde estavam acumulados estilhaços de pedra.

            — Convoca operários e escavemos.

            A quinze pés abaixo dos destroços, um poço foi descoberto; ao fundo, havia uma porta intacta! Ahmed Girigar notou o entusiasmo de Howard Carter.

            — Não se regozije tão depressa; Loret já lá entrou.

            Inquieto, Carter enfiou-se no interior; no tecto, ninhos de vespas em barro, característicos dos túmulos tebanos, violados há muito tempo.

            Dois caixões de madeira, cobertos de resina branca, e um terceiro, branco, contendo uma múmia, pertenciam a cantores do templo de Karnak; entre as ligaduras, folhas de mimosa, de lotus e de “persea”... De Tutankhamon, nem rasto.

 

            —  Senhor inspector, venha depressa! É grave, muito grave!

            O graffir estava transtornado; uma coluna acabava de se abater sobre a tumba de Séti I, a mais bela e a maior do Vale.

            Carter dirigiu-se ao local a fim de verificar os estragos e de tomar medidas de urgência. Mais uma vez, ficou deslumbrado por essa capela “sistina” do egipto antigo; esplendor dos quadros que pareciam terminados no dia anterior; perfeição dos hieróglifos que narravam a perigosa viagem do Sol no mundo subterrâneo, e presença das divindades que, ajudando o faraó a renascer, provocavam uma emoção intensa. Vinha frequentemente recolher-se perante a representação de Nut, a deusa do céu, mulher enorme de corpo coberto de estrelas; a noite, engolia o astro do dia que ela punha no mundo todas as manhãs.

            Carter não teve ocasião de se consagrar ao estudo daqueles frescos inigualáveis; foi-lhe necessário escorar a parte abatida com troncos de madeira, fechar a tumba ao público e dirigir-se a toda a pressa para casa de Maspero.

            O director do serviço, cansado da cidade, tinha instalado o seu quartel-general num barco, uma dahabiya, que dava pelo nome de Míriam. Podia deslocar-se facilmente de um lugar para o outro, servindo-se do Nilo, à maneira dos antigos. Maspero, cujo pequenino escritório estava atravancado de uma pilha de cadernos, parecia de mau humor.

            — Que se passa no Vale, Carter? Parece que a tumba de Séti está meio destruída!

            — O rumor exagerou um pouco o incidente, mas o caso não é de desprezar: uma coluna ruiu. Os trabalhos de restauro estão já em curso.

            — E os turistas?

            — Visita proibida.

            Maspero, recostado, baloiçou no seu cadeirão.

            — Ah, os turistas! Que súcia!... Duas mil pessoas por ano no Vale, uma verdadeira colónia instalada em Luxor, de Dezembro a Abril, uns tagarelas, uns agitados e uns doentes que vêm apanhar sol e degradar os monumentos!

            O director do serviço adoptou uma posição mais augusta e fixou o seu inspector com serenidade.

            — É realmente a sua opinião, Carter? Os seus propósitos?

            — Na palavra como no espírito. Essas pessoas não pensam senão em exibir-se nos hotéis de luxo, em namoriscar, em trocar cartões de visita; andam de recepção em recepção, jogam ténis e bridge, inventam sem cessar uma nova distracção. Incluem, infelizmente, no seu programa, um piquenique obrigatório no Vale dos Reis e uma visita às tumbas. Não lhe concedem o menor interesse e ainda menos respeito; os seus guias escurecem as paredes com o fumo de archotes, e cada um diverte-se a tocar nos relevos. Impõem-se medidas drásticas, senhor director, se quer salvar esses tesouros inestimáveis.

            — Em que pensa?

            — Agir, agir!

            — É fácil de dizer! Conta proibir aos turistas o acesso ao Vale?

            — Porque não o tempo de o escavar?

            — Está escavado, Carter.

            — A descoberta da tumba 42 e a dos três cantores de Amon, que usará o número 44 na minha lista, não provará o contrário?

            O argumento fez vacilar Maspero; depressa retomou a compostura.

            — Caves violadas, reutilizadas, desprovidas de mobiliário e de belos objectos... descobertas bem modestas que só interessam a um apaixonado como o senhor! Meta na cabeça que centenas de ladrões passaram por ali e apenas deixaram migalhas. Que propõe para as tumbas mais visitadas do Vale?

            — Construir pequenos muros a fim de preservar as estradas das quedas de pedras e das águas torrenciais, abrir caminhos a fim de canalizar a vaga de visitantes e instalar balaustradas nas tumbas para as impedir de se colarem às paredes.

            Maspero abriu um caderno.

            — Hum... é executável... O meu orçamento permite-o.

            — Não é tudo; resta o essencial.

            — O essencial esperará: já não tenho dinheiro.

            — É portanto preciso lutar contra o negro de fumo.

            — Como?

            — Utilizando a electricidade nas tumbas principais.

            — A electricidade! Quem lha fornecerá?

            — Um gerador, no Vale.

            Maspero, irritado, partiu o lápis.

            — É um revolucionário, Carter. Deixe-me trabalhar em paz.

            — Obterei autorização?

            — Não insista.

            Mal a notícia se espalhou, os turistas afluíram: graças à luz eléctrica, podia-se enfim admirar a totalidade dos baixos-relevos. Carter não tinha repelido a massa de curiosos, mas a supressão dos archotes e a colocação de guardas asseguravam a salvaguarda dos monumentos; durante algumas horas foi constrangido a transformar-se em guarda das galés e de acalmar alguns excitados que berravam a sua satisfação de ver o progresso insinuar-se no Vale.

            Com a noite, voltava a calma; sentado num dos cabeços que dominavam as tumbas reais, Carter saboreava a solidão e os momentos de graça em que tinha a sensação de comungar com a alma dos reis vencedores da morte.

            Os guardas não se aventuravam nas trevas do Vale, povoado de demónios que tornavam louco, cego e mudo; ignoravam as formas hieroglíficas capazes de os reduzir a nada. Por vezes, um mocho ou um morcego roçavam-no; uma raposa galgava uma encosta, em busca de uma presa.

            A esperança crescia. Em virtude da ausência de grafitos, Carter sabia que nenhum viajante grego ou romano havia visitado as tumbas 42 e 44, fechadas desde a Antiguidade; por consequência, sepulturas importantes ainda se escondiam sob a areia. Tinham-se contentado com escavações activas, satisfeito com resultados espectaculares, depois tinha-se estimado, de forma arbitrária, que o Vale emudecesse para sempre.

            Olhando-a com atenção, apercebeu-se que quase nada era natural naquela paisagem grandiosa. Aqui, trinta pés de estilhaços de calcário; ali, as rochas transformadas e caminhos arranjados pelos pedreiros; acolá, enormes montes de entulho de pesquisadores modernos... e essas enormes falésias, essa pirâmide dominadora não teriam sido talhadas por mão de homem?

            Quantas toneladas teria sido preciso deslocar para trazer à luz a fachada de uma tumba real inviolada, que talvez não existisse senão na sua imaginação? Essa dúvida dilacerou-o. Ainda não era digno do Vale.

 

            Golfe, fotografia, passeios com a mulher e os filhos, longas sestas e tardes de leitura na biblioteca de Highclere. A vida de palácio que Lord Carnarvon levava pesava-lhe cada vez mais. Ao contrário das afirmações dos médicos, as sequelas do seu acidente não se apagavam. Sofria do maxilar e das costas, arrastava a perna e passava noites em claro.

            Almina continuava doce e paciente apesar do humor do marido se degradar; já não tinha espírito, não brincava com o filho e a filha, conservava-se em silêncio durante horas. A jovem aproveitou um raio de Sol que iluminava o parque para abrir o coração.

            — É como se estivesse na prisão, querido.

            — Começo a odiar-me, Almina.

            — Por causa dos ferimentos?

            — Um homem diminuído não merece viver.

            — Está a dizer coisas absurdas.

            — Sou inválido.

            — É teimoso.

            — Ousaria afirmar que ainda sou capaz de comandar um iate, de conduzir um carro de corrida ou de deitar abaixo um lutador de feira?

            — Esse género de proezas é desprovido de interesse, numerosas pessoas mais ou menos medíocres são capazes de as desempenhar. Ser o quinto conde de Carnarvon, em contrapartida, é uma missão fascinante; não é a sua opinião?

            Carnarvon fixou o Sol, ao ponto de ficar encandeado.

            — Recuperou o pleno uso dos seus olhos; essa cura deveria encorajá-lo a lutar. Os Carnarvon sempre desafiaram a adversidade com uma coragem notável e notada; fará excepção à regra?

            George Herbert baixou a cabeça. Comovida, a esposa aproximou-se dele.

            — Perdoe-me. Magoei-o.

            — Tem razão: porto-me como um cobarde.

            — Não seja injusto consigo mesmo e fique sabendo que o admiro.

            Lord Carnarvon voltou-se para a esposa.

            — Sem si teria renunciado.

            — Se a minha presença pode abreviar a sua cura, não hesite em abusar dela.

            — Preciso de solidão, Almina; é nela que encontro forças.

            — Respeitarei a sua inclinação, na condição que cumpra uma promessa: melhorar a sua pontuação no golfe.

            Carnarvon, apesar das suas dores por vezes fortes, obrigou-se a manejar os clubs e a percorrer longas distâncias de um buraco ao outro. O rigor dessa ascesse teve por consequência afastar os pensamentos tristes; conquistar uma mobilidade, mesmo relativa, tornava-se uma finalidade exaltante; a satisfação do jogo e uma série de partidas apimentaram o esforço.

            Ver vir ter com ele o emissário do Governo foi, contudo, uma surpresa.

            — Parabéns, Lord Carnarvon; está a tornar-se um excelente golfista.

            — Tenho demasiado nervosismo nas aproximações e falta de precisão no drive; mas não desespero.

            — Um dia tão agradável convida aos projectos do futuro.

            — O meu está atrás de mim.

            — Permita-me estar em desacordo consigo; mesmo se renunciar a uma carreira política declarada, existem outros meios de servir o seu país. Não poderemos evocar as suas recordações do Oriente?

            — Preferia, sem dúvida, as minhas análises políticas.

            — Antes de tomar decisões, o Foreign Office consulta os melhores peritos; o secretário de Estado gostaria de almoçar consigo.

            Antes do desastre, Carnarvon teria respondido com uma observação irónica; agora, aquele convite divertia-o.

            Quando o marido aceitou dirigir uma caçada à raposa, e a autorizou a organizar um grande jantar em Highclere, Almina soube que o quinto conde de Carnarvon tinha reencontrado a sua condição e a sua vontade de viver. Se bem que se obstinasse a recusar o uso do smoking e que aparecesse com o seu casaco preferido, de sarja azul, teve ditos de espírito e observações acerbadas usando do seu habitual talento.

            — Se não fosse um dos nobres mais ricos do reino — perguntou uma baronesa — quem teria gostado de ser?

            Carnarvon não reflectiu muito tempo.

            — Alguém como Schliemann.

            — Pintor ou jockey?

            — Nem um nem outro. Arqueólogo.

            — Que feia profissão! Poeira, calor, suor... Que descobriu ele, o vosso Schliemann?

            — Tróia.

            — A cidade de Homero, é isso?

            — Se quiserem.

            — Seria capaz de descobrir uma cidade inteira, cheia de ouro e escondida na areia?

            — Correndo o risco de a desapontar, baronesa, receio que não. A sua pergunta não passa de uma brincadeira e a minha resposta de um sonho.

            O marido de Lady Almina estava atrasado para o jantar. Depois de uma espera conveniente, começou a inquietar-se. Como o criado de quarto de Lord Carnarvon beneficiava da sua noite de folga, teve de ir ela mesma à biblioteca.

            — Esqueceu-se da hora?

            — Receio que sim.

            — Qual é a causa dessa perturbação?

            — O grande livro de um francês sobre o antigo Egipto.

            — Como se chama esse importuno?

            — Gaston Maspero.

            — Conta convidá-lo para Highclere?

            — Vive no Egipto.

            — Que horror! Deve ser insuportável... o Inverno lá, segundo parece, é agradável; mas as outras estações são caniculares. Como será preciso ser constituído para suportar esses climas inumanos?

            — Ignoro-o, Almina. Não conheço o Egipto.

            — Deu, várias vezes, a volta ao mundo.

            Carnarvon fechou o volume e levantou-se.

            — Um génio mau afastou-me desse país mágico.

            — “Génio mau”, “magia”... estará a tornar-se supersticioso!

            O conde ofereceu o braço à esposa: andaram a passos lentos pelo corredor fora, na direcção da casa de jantar.

            — O nosso mundo é mais misterioso do que parece; atravessam-no forças ocultas, mesmo se os nossos olhos não se apercebem delas. Os Egípcios estudavam-nas à maneira dos nossos cientistas.

            — Este trabalho é uma calamidade! Não só provoca o seu atraso mas também lhe dá pensamentos curiosos. Esqueça esse Maspero, o Egipto e os seus demónios, e venha saborear o salmão preparado pelo seu cozinheiro.

            O conde desempenhou as suas obrigações com o espírito ausente.

 

            — Carter —, anunciou Maspero com determinação — temos de proceder a uma operação de prestígio que dará ao seu Serviço das Antiguidades uma famosa reputação. O novo Museu do Cairo reagrupará as colecções existentes no Egipto; graças ao estabelecimento de um catálogo geral, procederemos ao inventário de todos os objectos, da mais pequena estatueta ao colosso.

            — Programa magistral.

            — Graças ao seu encorajamento. O catálogo é essencial.

            Carter não compartilhava dessa opinião; num país como o Egipto, o mais importante era pesquisar e descobrir, mas Gaston Maspero não desistia do seu credo.

            — Na qualidade de inspector da região tebana, confio-lhe duas missões prioritárias: a primeira consistirá em conduzir até ao Museu do Cairo as múmias reais, escondidas na tumba de Amenófis II.

            — Farão, pois, parte da colecção. — A observação irritou o director.

            — Ficou descontente com a minha decisão!

            — A segunda missão?

            — Um rei autêntico, no mercado das antiguidades, possui um valor incalculável; dado que Amenófis repousava no seu sarcófago de origem, tratem de o tornar a pôr lá. Os turistas poderão admirar um verdadeiro faraó no seu verdadeiro túmulo.

            Apanhado de surpresa, Carter balbuciou:

            — Oferece-me... oferece-me uma imensa alegria!

            Teimoso, Maspero tornou a mergulhar num caderno.

            — Despache-se. Mesmo as múmias detestam esperar.

            A inumação de Amenófis II, o rei do braço vigoroso e da valentia incomparável, foi um momento de felicidade que iluminou a jovem carreira de arqueólogo de Howard Carter. Lá fora, o céu estava de um azul suave, atravessado por uma luz doce que incitava ao recolhimento. Ajudado por Ahmed Girigar e alguns guardas, deslocou-se sem barulho pelo caminho tomado por esse mesmo faraó três mil e quinhentos anos antes.

            Era um dos seus antepassados que eles transportavam, com precaução e respeito, um ser ao mesmo tempo próximo e distante, homem e deus. Os seus passos levantavam uma fina poeira que o vento do norte levava. Nem uma palavra foi pronunciada até à entrada do túmulo; talvez os guardas recitassem as orações muçulmanas com o seu coração. Carter pensou no ritual da abertura da boca que fazia reviver a morte, tornando-lhe a dar o uso do verbo.

            Quando depuseram o caixão no seu sarcófago, conteve as lágrimas com dificuldade; celebrando essas exéquias fora do tempo, teve a sensação de efectuar um acto justo.

            Muito tempo depois do fim da cerimónia, sonhou, só na penumbra, com os faustos de um tempo em que a morte era luminosa.

            A pouca distância do templo de Luxor, um velho palácio particular abrigava um dos últimos haréns do Egipto. Dantes povoado de mulheres lascivas, objecto de todas as atenções do potentado local, aquele estabelecimento definhava a olhos vistos; a pintura dos mucharabiehs escamava-se e os estuques tornavam-se leprosos.

            Howard empurrou a porta de fechaduras enferrujadas, persuadido que esbarraria com um eunuco armado de uma moca; só lá havia uma dezena de pobres diabos que fumavam haxixe. Um horrível cheiro a cebola frita provava que aqueles hóspedes, pouco decentes, também lá cozinhavam.

            Porque lhe teria Raifa marcado encontro num lugar tão sórdido? Leu de novo o bilhete que um rapazote lhe tinha trazido: não havia dúvida possível. Tentou interrogar os locatários; embrutecidos pela droga, não lhe responderam. Irritado, arripiava caminho no momento em que a porta se abriu sobre Raifa.

            Os seus olhos verde-água, a doçura do seu rosto e a elegância do seu porte aprisionaram-no na rede dos seus encantos, que ela sabia tão bem desenvolver: o harém decadente transformou-se num palácio de maravilhas onde brilhavam dourados.

            — Vem — disse ela, tomando-lhe a mão. Subiram a correr ao primeiro andar.

            Arrastou-o para um quarto forrado de veludo vermelho, onde imperava um leito com baldaquim que um raio de Sol iluminava, através do mucharabieh.

            — Ninguém nos importunará; Gamai não conhece este lugar.

            — Amo-te, Raifa.

            — Prova-o, Howard.

            O seu desafio exigia uma pronta réplica; Raifa não resistiu muito tempo.

           

            Por ordem de Maspero, Carter tinha sido constrangido a inspeccionar o Sul da província de Tebas e de lá marcar os vestígios arqueológicos; aquele trabalho meticuloso afastou-o do Vale e de Raifa.

            Um mês depois do começo desta missão, foi surpreendido por um telegrama: o director do serviço pedia-lhe para voltar para Luxor primeiro do que nada.

            Maspero recebeu-o no seu barco, omitindo os cumprimentos usuais.

            — O caso é grave: a tumba de Amenófis foi violada, a sua porta quebrada, a múmia martirizada.

            A indignação emudeceu Carter.

            — Os primeiros ladrões do século XX... é inaudito! Quem teria sido bastante abjecto para profanar este venerável despojo?

            ­— Bem entendido que chamei a Polícia. O inquérito foi tão rápido como decepcionante: o guarda não viu nada; nenhuma testemunha, nenhum rumor, nenhuma pista. Ocupe-se da múmia, Howard, e repare os estragos.

            — O culpado...

            — Esqueça o culpado, não o identificaremos. Já somos bastante ridículos.

            Este drama permitia a Carter voltar ao Vale, mesmo se as circunstâncias fossem consternadoras; antes de ultrapassar a entrada, tinha tomado a decisão de recomeçar o inquérito.

            A Primavera fazia fugir os turistas que temiam o calor, depressa sufocante, no centro do circo montanhoso; os raros visitantes empurravam-se em frente da entrada do sepulcro vítima dos gatunos, como se esperassem um novo drama. Com a ajuda de Ahmed Girigar, Carter afastou-os a fim de examinar à vontade os lugares do crime.

            A porta de ferro, colocada pelo serviço, tinha sido forçada por um instrumento fácil de identificar: uma pequena alavanca para forçar fechaduras.

            — Quem a possui em Gurnah?

            — O ferrador — respondeu o reis.

            Interrogaram o artesão que afirmou ter sido roubada, mas mentiu pretendendo ignorar a identidade do culpado. Carter voltou à tumba e, sob o olhar espantado de Ahmed Girigar, tomou moldes de gesso de pegadas bastante suspeitas.

            — Conheces alguém que as possa identificar?

            — Um guarda de camelos. Percorre as pistas do deserto desde a sua juventude e repousa em Gurnah entre duas viagens; o estudo das pegadas é a sua distracção preferida, quer se trate de um animal ou de um ser humano.

            O perito não o desiludiu. O seu diagnóstico foi formal: se ele queria verificá-lo, bastava-lhe passear em frente da casa dos Abd el-Rassul. Carter não hesitou. As suas investigações semearam a perturbação entre os membros do clã; foi convidado a mostrar as moldagens ao seu chefe.

            — O que significa esta manobra, senhor Carter?

            — Demonstrar quem estava à cabeça do grupo de gatunos que profanou a tumba de Amenófis II. É por isso que todas as testemunhas se calam, inclusivamente o guarda, seu cúmplice.

            O rosto de Abd el-Rassul endureceu.

            — Não insista. Não chegará a nada.

            Nessa mesma noite, depois da oração, Carter voltou com um grupo de polícias que procederam a uma escavação a preceito, cujo resultado ultrapassou as suas esperanças: colares, figurinhas funerárias, ligaduras de múmias, fragmentos de relevos recortados à serra, provenientes de várias tumbas que provavam a culpabilidade do clã.

            Abd el-Rassul não negou.

            O processo teve lugar alguns dias mais tarde; o tribunal de Luxor estava cheio. Carter compareceu como testemunha. O presidente interrogou-o longamente; ele descreveu as etapas do inquérito que tinha conduzido à culpa.

            — Onde estão as provas, senhor Carter?

            — Nas mãos da Polícia, Excelência.

            — Engana-se.

            — Eu fui testemunha, Excelência. Uma quantidade de peças arqueológicas foram apanhadas na cave de Abd el-Rassul.

            — É inexacto. O processo verbal não o menciona.

            — Excelência...

            — Em virtude da ausência de provas, o tribunal declara Abd el-Rassul inocente.

            Maspero e Carter tornaram a colocar o corpo de Amenófis II no seu sarcófago; de futuro, os visitantes que estivessem por baixo da cave, contemplariam o faraó na sua postura hierática, pronto a viajar no outro mundo.

            — Não fique desiludido, Carter; nunca conseguirão pôr o clã na cadeia, e ninguém o conseguirá.

            — Não suporto a injustiça.

            — Que quer dizer?

            — Quando não se pode abater um inimigo, mais vale aliar-se a ele.

 

            Highclere tornava-se um dos centros da vida cultural britânica. Despeitado por não se curar mais depressa, e incapaz de empreender viagens longas através do mundo, Lord Carnarvon convidava para a sua mesa artistas, escritores e historiadores, naquele ano de 1902 em que Pélleas, de Claude Debussy, revolucionava a música. A esposa insistiu em oferecer igualmente hospitalidade a homens políticos, a financeiros e a nobres, satisfeitos de defrontar o espírito incisivo do senhor do lugar.

            Um coronel reformado, grande amador de caça e especialista do espírito militar, lançou-se na apologia das conquistas britânicas.

            — Somos os garantes da paz mundial. Quando não nos batemos para preservá-la, construímos. Assim, no Egipto...

            — Teremos erigido uma nova pirâmide? — inquiriu Carnarvon.

            — Muito melhor. Uma barragem.

            — No Assuão, não é verdade?

            — Graças a essa obra de arte, a felicidade da população está assegurada.

            — Não tenho tanto a certeza.

            Indignado, o coronel poisou o garfo.

            — Como pode duvidar?

            — Fazendo passar o Egipto do ciclo natural da inundação à irrigação perene, modificamos brutalmente hábitos milenários e substituímo-los por técnicas que são mal compreendidas e mal utilizadas.

            — O progresso, Lord Carnarvon, o progresso.

            — Acha que a espécie humana está realmente em progresso? Pensa que os bairros pobres de Londres sejam uma melhoria em relação aos templos da Antiguidade, que os nossos pensadores sejam superiores a Platão, Lao-Tsen, Buda ou ao arquitecto da grande pirâmide?

            O coronel reajustou o colarinho polido da sua camisa.

            — São opiniões... revolucionárias.

            Lady Almina desviou a conversa, evocando a última representação do Sonho de Uma Noite de Verão, onde a Royal Shakespeare Company se mostrara, mais uma vez, fiel à sua reputação.

            Uma vez saídos os convidados, só junto do marido em frente do lume brilhante na chaminé do grande salão, achou bom intervir.

            — Não foi demasiado longe?

            — O mundo é absurdo minha cara, e a Inglaterra delira.

            — Não está no coração de um formidável império que garante o equilíbrio dos povos?

            — Não por muito tempo.

            — O que é que subentende?

            — O futuro interessa-me tanto como o passado. Durante essa interminável convalescença, tive tempo de ler os jornais e os estudos dos especialistas. O império está a fender-se, Almina; amanhã decompor-se-á. As suas colónias reclamarão a independência.

            — O nosso Exército reduzirá ao silêncio os causadores de perturbações.

            — Tentará, infelizmente.

            — Infelizmente?

            — Opor-se a um rio cujo caudal aumenta de hora para hora é uma estupidez; é melhor canalizá-lo. Mas os homens políticos não pensam senão no seu interesse do momento; como habitualmente, tomarão consciência da realidade quando for demasiado tarde.

            Carnarvon colocou uma acha na lareira onde as chamas compunham uma dança com figuras constantemente renovadas.

            — Os seus pensamentos são horríveis, querido; deprimem-no.

            — Pelo contrário.

            — Não... não vai encabeçar um partido de oposição.

            O conde apertou ternamente a esposa contra si.

            — A Inglaterra é uma pequena ilha que se toma por um continente; sabe bem que detesto a pequenez e que não me agitarei nela.

            — Não me tranquiliza nada; teria concebido um projecto...

            — Insensato? Ainda não. O meu estado físico proíbe-me de encarar uma nova volta ao mundo como solitário, mas não posso ficar imóvel, semelhante a uma água estagnada.

            — Como ousa falar assim? Pense nos seus filhos, no seu domínio, em mim mesma?

            — Sou feliz e infeliz, Almina; eis o meu drama. Amo-a, amo o meu filho e a minha filha, amo esta terra... mas há um outro amor em mim, que não consigo nomear e que me abafará se não conseguir expressá-lo.

            — É tão difícil compreendê-lo, meu querido.

            — Concedo-lho; para mim próprio é uma tarefa sobre-humana.

            Almina enroscou-se no marido.

            — Jure-me que não voltará a deixar Highclere.

            — Um Carnarvon nunca foi acusado de perjúrio.

            Almina reteve as lágrimas; era possível lutar contra um inimigo declarado, quer se se tratasse de uma amante ou de uma ambição, mas não contra a presença invisível que roía a alma de George Herbert. Como ele, sentia que acontecimentos imprevisíveis perturbariam a existência sossegada à qual o amarraria com todas as suas forças.

            Adormeceu nos braços dele.

            O conde manteve-se acordado, pensando nos horizontes distantes que aquele maldito acidente lhe tinha feito perder para sempre. Tinha-se submergido no conforto familiar sem reservas mentais, com o desejo de esquecer a aventura; a sua lucidez obrigava-o a verificar a derrota. A resposta, a única resposta que esperava da vida, continuava a fugir dele: para que destino estava talhado?

 

            — Recuso.

            Maspero fez-se vermelho de cólera.

            — Não tem nada a recusar, Carter! Sou eu que dirijo o serviço, e sou eu que decido.

            — Na qualidade de inspector tebano, julgo ter uma palavra a dizer.

            — Tem de executar as minhas ordens, ponto final!

            Casaco de tweed, calças de flanela, camisa engomada e lacinho às pintas, davam a Carter a força bastante para resistir a Maspero. Aos vinte e nove anos tinha-se tornado uma personalidade de todo o Luxor e já não reagia como um garoto assustado.

            — Mesmo quando se engana?

            Glacial, o director do serviço levantou-se, contornou a secretária e fez-lhe frente.

            — Explique-se, senhor Carter.

            — Como cientista, parece-lhe que pesquisar o Vale dos Reis é inútil.

            — É verdade.

            — Porquê dar uma licença de escavação a Theodore Davis, um amador sem experiência?

            — Porque esse senhor possui uma qualidade maior: a fortuna. O serviço não terá de desembolsar um soldo. Pelo contrário, receberá algum dinheiro a título de homenagem e levantará a sua parte sobre eventuais descobertas.

            — O dinheiro... é pois o único critério? Se esse personagem massacrar o lugar e o tornar impróprio a qualquer estudo científico, que teremos nós ganho?

            — As suas elucubrações são desprovidas de qualquer fundamento. O que o incomoda, Carter, é que esse senhor é americano: como todo o inglês, detesta os Estados Unidos. Eu tenho necessidade de assegurar o financiamento do Serviço.

            — Ao preço da destruição do Vale?

            — Decerto que não, uma vez que é inspector e que isso é da sua competência.

            — O que significa?

            — Que participará nas escavações de Davis.

            — Nem pensar.

            — Não seja estúpido, Carter.

            — Um profissional não pode submeter-se às vontades de um amador.

            — Não se trata de submissão, mas de colaboração.

            — É pior ainda; não colaborarei com o inimigo. Permita-me que me retire.

            Enclausurado no seu escritório, Carter chorou de raiva. Não só o Vale lhe escapava mas também caía nas mãos de um advogado americano, desejoso de ocupar a sua reforma, implicando com as sombras dos faraós. Carter possuía a experiência, sentia-se pronto a explorar aquela terra sagrada com amor e atenção, e um intruso roubava-lhe a finalidade da sua existência, com o apoio das autoridades!

            A própria Raifa não conseguiu consolá-lo; mostrou-se fraco amante, incapaz de esquecer a catástrofe. Com ódio, tinha batido com a porta do quarto e, sem dúvida, rompido a sua ligação com ela, abandonando-a, nua, e soluçando, no harém desalojado.

            A sua vida ruía.

            Só Ahmed Girigar podia ainda penetrar no seu antro. Trazia-lhe água, frutos e bolachas, que ele comia sem apetite.

            Um visitante conseguiu contudo forçar a porta.

            — Professor Newberry!

            — Prazer em ver-te, Howard.

            — Basta de congratulações: é Maspero que o envia?

            — Obstinares-te é ridículo, Howard. O Egipto precisa de ti.

            — Mas o serviço precisa de Davis.

            — Conheço-o e desejo favorecer um encontro; não é um homem fácil, é preciso prevenir-te. Dá-me a honra de aceitar. Controlando as suas actividades, salvarás o Vale; esse ideal exige que te sentes em cima da tua vaidade.

            — Terei merecido essa injustiça?

            — Pouco importa. Bate-te com as tuas armas.

            A má educação dos Americanos não era uma lenda; Theodore Davis apertou brutalmente a mão de Carter com a segurança do caçador persuadido que abateria a sua presa ao primeiro tiro.

            — Então, é você o cientista? Tem ar disso.

            Theodore Davis, de estatura média, dava uma impressão de extrema fragilidade; não se deslocava sem uma bengala, escondia a garganta com um lenço branco e cobria a cabeça com um chapéu de abas largas. O seu calção de cavaleiro, os seus jodhpurs e as suas polainas faziam-no parecer-se com um cavaleiro que perdera o cavalo. Um bigode abundante alargava-se como asas de pássaros e comia-lhe a parte de baixo do rosto; atrás das lentes dos pequenos óculos, o olhar era agressivo.

            — Tenho sessenta e cinco anos e não desejo tornar-me arqueólogo, senhor Carter.

            — Nesse caso, o Vale dos Reis não o seduzirá.

            — O direito aborrece-me, procurar diverte-me. Tenciono trazer à luz uma grande quantidade de tumbas cheias de estátuas, de sarcófagos, de múmias e de objectos magníficos: vai ajudar-me. Fique a saber que tenho o hábito de ser obedecido e que tenho horror em discutir com os meus subordinados.

            Newberry achou que era urgente intervir.

            — Howard não é precisamente seu subordinado, meu caro Davis; o termo assistente seria mais apropriado. O Serviço das Antiguidades deseja ajudá-lo no seu generoso empreendimento.

            — Generoso mas não gastador! Eu paguei a minha dízima, quero resultados. Cabe-lhe a si jogar, Carter; mande construir uma casa perto do lugar, quanto a mim, morarei num barco no Nilo. Estarei ao fresco e passearei à minha vontade.

            — O seu plano de escavações, senhor?

            — Um plano? Para quê? Desenrasque-se... Enquanto se espera pelos primeiros resultados, vou repousar para Assuão. Parece que a cidade é atraente.

            No fim do Inverno de 1902, Carter dirigiu uma equipa de uns sessenta homens que escavavam por conta de Theodore Davis. Aproveitando essa mão-de-obra, fez desobstruir os dois lados da estrada que conduzia ao Vale e se revelava muito estreita em função do número crescente de turistas; depois, atacou uma zona de uma centena de jardas situadas entre as tumbas de Ramsés IV e de Ramsés II.

            A sorte sorriu-lhe; descobriu a sepultura de um casal, que a água tinha degradado. No fundo, os vasos canopos e uma caixa pintada de amarelo, contendo uma tanga de guerra, de cabedal. Devidamente prevenido, Davis voltou a Assuão e esbarrou com Maspero. O director do serviço exigia os objectos a fim de os enviar para o Cairo; Davis recusou. Segundo os costumes, voltavam ao escavador que contava oferecê-los a um museu americano. Maspero enfureceu-se. Davis pagou. O serviço não precisava de dinheiro?

            O americano, repousado, tinha concebido um plano de escavações aberrantes, caracterizado por uma total ausência de método; tentou dirigir ele próprio uma equipa, deu ordens incoerentes, agitou-se em todos os sentidos e apenas conseguiu macular de poeira o seu fato preto. Carter seguiu-o, como sombra protectora e discreta; nem ele nem o reis Ahmed Girigar protestaram, Davis procedia de maneira estúpida mas inofensiva; a Primavera e os calores quebraram o seu entusiasmo.

            Maspero não acreditou nos seus olhos. Releu por uma terceira vez o relatório confidencial de Carter sobre o Verão que acabara de passar em Inglaterra.

            — Será um sonho Carter?

            — Não, senhor director. Mrs. Goff atribui-nos fundos destinados à restauração da tumba de Séti II, e o industrial Robert Mond à de Séti I.

            — Apaixonados pela arte egípcia?

            — Consegui fazê-los entender o interesse do nosso trabalho.

            — Está a tornar-se diplomata! Eu, ofereço-lhe a electricidade e Abu Simbel.

            Desiludido pela pobreza dos resultados uma pequena tumba abrigando duas múmias de mulheres e patos mumificados Davis passou a estação de Inverno em Assuão.

            No princípio do mês de Janeiro de 1903, Carter ofereceu-se um longo passeio a cavalo pelo lugar de Dar el-Bahari. Subitamente, as patas da sua montada enterraram-se na areia e o cavaleiro saltou pela cabeça do cavalo. Nem o animal nem o  arqueólogo ficaram feridos; mas este último só tinha olhos para o buraco milagroso que breve mandou alargar pela sua equipa.

            A cento e cinquenta metros da entrada do corredor, havia uma porta selada. Do outro lado, uma cave que não continha mais do que um caixão vazio e um bloco embrulhado num pano. Carter tirou-o com cuidado: protegia uma grande estátua de Mentuhotepe II, vestido de branco e usando a coroa vermelha. A última morada do faraó de rosto severo recebeu imediatamente o nome de Bab el-Hosan, (a tumba do cavalo).

            Na ausência de Davis, Carter tentou uma experiência; Ahmed Girigar tinha-lhe assinalado a localização de dois poços cheios de objectos miniaturais, utensílios e peças de baixela marcadas com o nome de Tutmés IV; um depósito de fundação! A sua presença provava que a sepultura do rei devia estar próxima; ora ela não figurava no seu resumo, o único exaustivo alguma vez estabelecido. Um quadriculado sistemático dos arredores deveria rematar.

            A 18 de Janeiro de 1903, descobriu uns degraus largos e uma porta. Apesar da sua necessidade de ir mais longe, Carter respeitou o contrato assinado com o escavador oficial: Davis devia entrar em primeiro lugar. Tentou em vão juntar-se a ele; saído em excursão, não se podia encontrar. Ninguém sabia onde tinham amarrado o seu barco. Pensando-se livre das suas obrigações morais, Carter desceu até à tumba.

            A largura do corredor, talhada com arte, pressagiava maravilhas. A qualidade das pinturas confirmava essa primeira impressão que, infelizmente, breve se transformou em decepção: milhares de fragmentos juncavam o solo. Entre bocados de faiança azul jazia uma corda que os gatunos tinham utilizado. Carter passou o poço, avançou na massa de destroços e parou, horrorizado, em frente de uma criança de carnes escuras, de pé e imóvel! Não, não tinha acabado de ser arrancado ao sono da morte; não, não era um espectro vingador, mas uma infeliz múmia despojada das suas ligaduras e atirada contra uma parede. Perturbado, Carter sentiu ódio pelos profanadores que tinham martirizado o pequeno príncipe.

            A abertura oficial da tumba de Tutmés IV teve lugar no dia 3 de Fevereiro de 1903, em presença de Maspero; os operários de Carter contiveram uma multidão de curiosos. Davis pavoneava-se.

            — Eis a minha primeira tumba, senhor Maspero.

            — Felicitações.

            — A sua confiança estava bem colocada, tinha a certeza de obter resultados.

            — A propósito... onde está Carter?

            — Mesmo atrás de si.

            — Bem, bem... está tudo pronto para a nossa visita?

            — Dispus umas tábuas por cima dos estilhaços de antiguidades —, indicou Carter — mas o avanço arrisca-se a ser penoso por causa da poeira.

            — É lamentável: outros aborrecimentos?

            — A alma errante de um pequeno príncipe cujos gatunos perturbaram o último sono.

            Davis sentiu-se pouco à vontade.

            — O Carter está a brincar — declarou Maspero. — As múmias não têm qualquer poder maléfico.

            O americano lançou um olhar assassino ao inglês.

 

            — Será prudente, doutor? Uma viagem tão comprida!

            — É indispensável, Lady Almina. O conde Carnarvon restabelecer-se-á mais depressa se beneficiar, todos os invernos, de um clima quente e seco. O Egipto oferecer-lhe-á uma verdadeira cura de juventude; deve evitar qualquer risco de bronquite. Senão, as suas dificuldades respiratórias agravar-se-ão e deixarei de responder pela sua saúde.

            Lady Almina inclinou-se. Até então, tinha conseguido destruir o desejo de vagabundagem do marido; uma vez que a sua própria existência estava em jogo, não o devia impedir de partir.

            Uma chuva glacial caía sobre Highclere; na véspera, a neve tinha ficado deposta nos troncos altos dos cedros. No bali do castelo, Lord Carnarvon contava as malas; constatava, divertido, que a mulher o tinha equipado para uma expedição de vários anos.

            Escondida atrás de uma tapeçaria, olhava-o. Os seus cabelos, de um loiro ruivo, estavam mal penteados, formando contraste com o bigode impecavelmente cortado; a juventude tinha abandonado o rosto altivo, contudo animado de uma alegria certa. A aventura, amante do lord, reaparecia, enfeitada com mil atractivos que não possuíam nem a esposa mais afectuosa nem dois filhos jovens, nem o mais belo domínio de Inglaterra. Carnarvon apertou o cinto do casaco. Quando abraçou a esposa, ela sentiu que o espírito do conde se encontrava já na terra dos faraós.

            Inaugurado em 1895, o Bristol era um dos mais belos hotéis do Cairo. Uma espécie de pudim arquitectónico, apresentava uma entrada com colunas que respondia às exigências de conforto e de elegância britânicas. Desde o começo da sua estada, Carnarvon vivia um sonho digno das Mil e Uma Noites; as suas dores diminuíam, a sua vista melhorava, as suas forças cresciam. Saboreava o ar puro e o sol como se fossem guloseimas, passeava durante horas nas ruas do Cairo, fosse a pé fosse de carruagem.

            Absolutamente sem querer, participou no Ramadão, desde o nascer ao pôr do Sol. Por brincadeira, aplicou-se a não se alimentar, a não fumar, a não se zangar, a não dizer palavrões, a não mentir e a não invejar os outros. Essa ascese afastava a alma da materialidade e abria-a aos pensamentos espirituais. O conde não ficou decepcionado: uma nova vontade de viver passou a morar nele. Esperou com impaciência o iftar, o momento da ruptura do jejum, em que as lojas fechavam muito cedo e em que as ruas se esvaziavam enquanto se iluminavam as centenas de mesquitas da cidade. Luzes em triângulos, em losangos e em meias-luas iluminavam cúpulas e minaretes.

            Carnarvon parava em frente de uma cozinha ao ar livre, acendia um cigarro, bebia um sumo de alperche e comia com apetite arroz com pedaços de carne, salada e fatias recheadas de favas quentes. Por volta das duas horas da manhã, não recusava os cabelos-de-anjo ou um bolo de pistacha, antes de voltar ao hotel e de dormir até ao meio-dia, indiferente aos tocadores de tambor que acordavam a população, a fim de que ela se alimentasse antes do aparecimento da luz.

            Dois dias antes do fim do Ramadão, uma velha lady não hesitou em abordá-lo no hall do Bristol.

            — Não será o senhor o quinto conde de Carnarvon?

            — Tenho essa honra.

            — Ah! A minha memória continua muito boa... Conheci bem o seu pai e parece-se muito com ele. Que país curioso, não é verdade? Raríssimos relvados que a seca ameaça, uma dramática ausência de aguaceiros e uma penúria crónica de nevoeiro. Conhece o Cairo?

            — É a minha primeira visita.

            — Voltará todos os anos; esta cidade, querido amigo, é uma droga. É verdade que mudou e que acolhe demasiados turistas... Porque é que também hiberna?

            — Para me curar e dar um sentido à minha vida.

            — Então vá procurar! Parece que o solo arrecada maravilhas. Um homem novo deve ter uma finalidade e agarrar-se a ela mesmo durante os seus ócios; um inglês inactivo trai o seu país.

            Pesquisar, cavar a terra, desenterrar os tesouros esquecidos... a ideia aflorava Carnarvon desde a infância, mas não tinha conseguido formulá-la com nitidez. Aquela velha lady não seria o seu destino mascarado? As suas palavras obcecaram-no. Desdenhando as ruas e as festas, correu os ministérios e as administrações a fim de se informar sobre o regime das escavações. Breve se apercebeu de que só o dinheiro contava; um americano rico, Theodore Davis, não acabara de obter a concessão do Vale dos Reis, se bem que não tivesse qualquer experiência arqueológica? Enquanto o conde saboreava uma perca do Nilo, à sua mesa do Bristol, um colosso barbudo sentou-se em frente dele sem lhe pedir autorização. Sobrecasaca preta, calção vermelho e botas com esporas davam-lhe um ar marcial.

            — Receio que se tenha enganado?

            — É o Lord Carnarvon e eu chamo-me Demóstenes. Pelo menos, hoje; no meu ofício, é prudente mudar o nome.

            — Veria inconveniência em que o fizesse sair do hotel?

            — Quer investigar? Não serve de nada.

             A carne do rosto de Demóstenes era amarela e flácida, as mãos tremiam-lhe e o olhar perdia-se por vezes no vazio. Carnarvon conhecia esses sintomas, observados em bares mal afamados: o homem drogava-se com haxixe.

            — Se quiser adquirir raridades, dirija-se a Demóstenes.

            — Será porventura versado em arqueologia? 

            O colosso abafou um riso espesso.

            — Depois de ter sido padre anglicano no Cairo e vendedor de aguardente de contrabando na Alexandria, descobri uma ocupação melhor: vendo múmias. Peças em bom estado, extraídas das tumbas autênticas. É caro mas vale a pena.

            — É provável. Onde as descobre?

            — Devagarinho, meu príncipe. As minhas fontes são sagradas; e se discutíssemos o preço?

            — De acordo, mas não aqui.

            — Então, onde?

            — No posto de Polícia mais próximo.

            Demóstenes, com os lábios subitamente exangues, levantou-se.

            — Nunca nos encontramos. Não tente causar-me aborrecimentos; aqui estamos no Egito, não na Inglaterra.

            — A existência não tem o mesmo preço.

            — Múmias autênticas... será que ainda existem?

            A grandes passadas, o colosso atravessou a sala do restaurante; à passagem, empurrou o chefe de mesa que trazia um pudim a Carnarvon.

            — Se me é permitido um conselho, milord, deveria desconfiar desse personagem. É um grego corrompido, por vezes ladrão, informador da Polícia e talvez um pouco assassino.

            — O segundo anjo bom do meu dia; este grego e a velha inglesa merecem a minha eterna gratidão.

            O chefe de mesa pousou o pudim. Em certas circunstâncias, era preferível manter-se rigorosamente ao serviço.

            Lord Carnarvon repudiou a sobremesa e contemplou uma vela até depois da meia-noite; como era sublime, para uma vida que saía do nada, tomar por fim um sentido.

 

            Naquele ano de 1903, especialistas e turistas só falavam da descoberta de um esconderijo num dos pátios de templo de Karnak. O arquiteto francês Legrain opinava que seriam precisos vários anos para trazer à superfície os milhões de objetos piedosamente escondidos, depois de terem sido utilizados pelos padres.

            Esse sucesso confortou Davis, dando-lhe a idéia de que uma descoberta espetacular estava ao seu alcance.

            Convocou Carter para o seu barco amarrado em Luxor. Enervado, andava para trás e para diante, martelando o soalho com os tacões das suas botas.

            — O importante, Carter, são as rainhas do Egito. Se as tumbas dos faraós foram pilhadas, as das suas esposas foram talvez poupadas.

            — Peça a concessão do Vale das rainhas.

            — Está demasiado arruinado; refiro-me às soberanas enterradas no Vale dos Reis. Existem, não é verdade?

            Carter foi da mesma opinião.

            — A grande Hatshepsut fascina-me; pretende-se que a sua tumba nunca foi explorada a fundo. Será verdade?

            O inglês concordou novamente.

            — Entre lá, Carter; tenho a certeza de que contém um tesouro.

            O americano tinha subestimado a dificuldade; com a sua equipe de operários, Carter percorreu 192 metros debaixo da rocha, meteu por um corredor interminável, no meio da poeira e da escuridão. A golpes de enxó, avançaram na massa de restos que obstruía a galeria. A decepção foi à medida do esforço; na câmara funerária devastada, apenas subsistiam dois sarcófagos vazios, um destinado à rainha, o outro a seu pai, Tutmés I.

            Quando Davis pôde chegar junto de Carter, graças a uma bomba de ar ter sido posta ao serviço, este pintava uma aquarela que restituía o aspecto arruinado do lugar santo.

            — É contudo uma boa prova — observou ele — divulgarei esta tumba e mencionarei a sua coragem.

            Apertaram a mão à americana. O essencial, para Carter, era dispor de uma equipa cada vez mais qualificada e que ele formaria segundo os seus pontos de vista, mesmo que Tutankhamon persistisse em fugir dele.

           

            — Quero casar-me — disse Raifa. —  Discuti longamente com o meu irmão e ele caiu em si; ninguém pode lutar contra o amor.

            — Receio que sim — objetou Carter.

            — Trabalhei e possuo os elementos do meu dote; os móveis, os utensílios de limpeza e os lençóis, vou traze-los e não terás vergonha de mim. Se fosses muito pobre, contentavas-te em dar-me 25 piastras; mas és um personagem respeitado, Howard! Deves-me um belo dote.

            — Nesse ponto preciso, eu...

            Ela colocou-lhe um dedo sobre a boca.

            — Na véspera do meu casamento, estarei depilada; o meu irmão, que desempenhará o papel do pai, pedir-te-á a tua proteção. Depois da tua jura, dar-me-á ao meu futuro esposo, tomaremos lugar nos tronos. Na nossa frente, haverá um tabuleiro de flores, de doces, de carne assada e de especiarias, quero muitos cantores e dançarinos! Será o mais belo casamento alguma vez celebrado em Luxor. Dentro de mil anos, ainda se falará nele.

            Aninhou-se contra ele. A câmara do harém desalojado, assumiu um ar de palácio, onde o sonho mais louco transportava dois amantes num leito de rosas.

            — Tens a certeza de ter convencido Gamai?

            — Que importa Gamai!

            — Desempenhará o papel de teu pai, recorda-te!

            — Desempenhá-lo-á. Ninguém pode resistir a uma mulher apaixonada; nem mesmo tu, Howard Carter.

            — Tudo bem, pesado...

            Uma careta de interrogação desencadeia o seu furor.

            — Sê sincero. Exijo-o.

            — Tudo bem pesado, tens razão.

           

            O Mena House, antigo pavilhão de caça do quediva Ismail, transformado em hotel de luxo por ocasião das festividades para celebrar a abertura do canal de Suez em 1869, acolhia as mais ricas famílias do Cairo e hóspedes de classe. A Inglaterra tinha-o elevado à condição de colônia, dado que os sujeitos de Sua graciosa Majestade dispunham de um médico, de um capelão e de uma enfermeira britânica, bem como de uma biblioteca de seiscentos volumes.

            Naquela tarde de Primavera, Carter fora convidado para o Mena House, para lá gozar do seu triunfo. A fama do inspetor tinha atingido o Cairo, onde a boa sociedade organizava um jantar em sua honra; o desenhadorzinho de Norfolk tornava-se um arqueólogo reconhecido e invejado, que os importantes gostavam de ver à sua mesa. A desobstrução das grandes tumbas da rainha Hatshepsut e do rei Merenptah, feita com tanta rapidez como rigor científico, fazia de Carter o melhor pesquisador em atividade.

            Ele estava orgulhoso e triste. Orgulhoso do trabalho realizado que adorava, mas triste por perder o seu tempo em mundanismos quando o seu diálogo com o Vale mal começara e a busca de Tutankhamon requeria todos os seus esforços.

            Antes de ir para o Mena House, situado junto do planalto de Gize, subiu à grande pirâmide. Com algumas frases muito secas, afastou os mercadores de falsas antiguidades e os beduínos desejosos de alugar burros e camelos; levantando os olhos para o alto do fabuloso monumento, relembrou a página de Chateaubriand, que Newberry lhe tinha lido:

 

Não é pelo sentimento do seu nada que o homem erigiu um tal sepulcro, foi pelo instinto da sua imortalidade: esse sepulcro não é o limite que anuncia o fim de uma carreira de um dia, é o limite que marca a entrada de uma vida sem termo; é uma espécie de porta eterna,construída sobre os confins da eternidade.

 

            Abandonou, contrariado, a grande pirâmide por um jantar mundano. Pediram-lhe que contasse as suas proezas, e lamentaram-no por engolir tanto pó.

            Um advogado britânico levantou uma taça de champanhe.

            — Ao nosso novo Arquimedes! Tê-lo-ão informado da mais fabulosa das descobertas?

            — Não... em que sítio?

            — Em Luxor, meu caro, na sua ausência.

            Carter fez boa figura, apesar da sua inquietação.

            — Bem! Fazê-los enlaguescer mais tempo seria cruel. Trata-se de uma tumba.

            Carter apertou nervosamente o guardanapo.

            — No Vale dos Reis?

            — Precisamente.

            A mesa inteira tornou-se silenciosa.

            — Trata-se de uma tumba real?

            — Ignoro, mas nunca foi aberta.

            — Sabe-se... o que ela contém?

            — Sabe-se.

            O advogado exprimiu-se com ênfase.

            — Sabe-se graças a três camelos brancos que saíram da cave, portadores de montões de ouro e de jóias!

            A assistência, encantada, desatou a rir. Carter levantou-se lívido.

            — Desculpem-me deixá-los tão cedo; a idiotice corta-me o apetite.

            Raifa, ensonada, enrolou-se em Carter que acariciou os seus cabelos e a beijou no pescoço.

            — Quando nos casamos, Howard?

            — Breve.

            — Amanhã?

            — Restam pormenores a regularizar.

            — O meu dote?

            — Tenho de falar com Maspero.

            Gaston Maspero estava de bom humor; bebia uma chávena de café e comia um biscoito redondo recheado de cebolas e de feijões.

            — Prazer em vê-lo, Carter; por sua causa, não dormi.

            — Posso saber a razão desse incidente?

            — A qualidade do seu trabalho. É o mais brilhante dos meus inspetores e a sua contribuição aos serviços é absolutamente notável. O seu êxito deve-se ao seu trabalho encarniçado e a uma excelente formação: o conhecimento do terreno, a prática do árabe, o dom de dirigir operários, um sentido artístico agudo.

            — Tantos elogios inquietam-me. Que escondem eles?

            — Uma promoção, meu caro Howard! Aos trinta anos, está absolutamente designado para ocupar um posto-chave: inspetor chefe do Baixo e do Médio Egito. Pirâmides serão consigo!

           

            Depois de seis meses de trabalho encarniçado no sítio de Saqqara, tinha a sua primeira noite de repouso.

            Quantos hectares restavam pesquisar nessa imensa necrópole onde Maspero tinha descoberto as pirâmides, cujas câmaras secretas estavam cobertas de hieróglifos? Da modesta morada do inspetorado, onde se tinha instalado, Howard Carter gozava de um panorama sem igual; de um lado, o deserto e os monumentos de eternidade; do outro, o palmeiral da antiga Mênfis. Freqüentemente, era penoso arrancar-se à sua contemplação e perder-se nos meandros do quotidiano; mas tinha consciência da sua tarefa e desejava executá-la sem desfalecimento, mesmo sofrendo de estar afastado do seu querido Vale.

            Na véspera da sua partida para o Norte, Raifa lançara-se ao seu pescoço a chorar. Não tinha tentado confortá-la. Um e outro sabiam que aquela separação seria longa. Certamente, durante os seus períodos de folga, Carter voltaria a Luxor, mas não podia prometer-lhe casamento.

            Despeitada, jurou-lhe fidelidade; ele recusou aquela jura que ela não consentiu em retomar.

            A solidão convinha a Saqqara, dominada pela pirâmide dos degraus de Djoser, o primeiro monumento de pedra erigido na terra do Egito. Os faraós e os nobres repousavam aqui havia mais de cinco milênios, formando uma comunidade invisível, cuja realidade permanecia, contudo, perceptível a cada instante.

            Sentado numa cadeira, ao abrigo do vento, Carter pensava em Raifa, na doçura dos seus abandonos, quando viu acorrer um guarda.

            — É preciso vir imediatamente, senhor inspetor.

            — Que se passa?

            — Uns franceses... querem visitar o Serapeum.

            — Lembre-lhes que o local está fechado.

            — Recusam.

            — Como, recusam?

            — Creio... que não estão em si.

            Irritado, apressou o passo em direção ao Serapeum, conjunto de galerias subterrâneas onde se encontravam os gigantescos sarcófagos dos touros sagrados. Em frente da entrada, dois guardas disputavam-se com turistas meios bêbedos. Um deles, um homem embriagado com uns cinqüenta anos, tratou o seu interlocutor de “porco árabe” e de “filho de uma cadela”. Antes de Carter poder intervir, um guarda empurrou-o; seguiu-se uma zaragata geral que ele interrompeu com grande custo.

            — Quem é o senhor? — interrogou uma mulher morena, despenteada e agressiva.

            — Howard Carter, inspetor das Antiguidades.

            — Estou feliz por encontrar enfim um responsável! Queríamos ver o Serapeum quando estes macacos nos atacaram. Queriam mesmo fazer-nos pagar bilhetes de entrada.

            — Peço-lhe que seja correta, minha senhora; esses guardas são meus subordinados e obedecem às minhas indicações. A esta hora não tem o direito de estar no local.

            — De quem é que está a troçar? Somos europeus e o nosso amigo foi selvaticamente agredido!

            — Ordenamos-lhe que mande parar esses selvagens.

            Um bigodaças, vermelho de cólera, ladrou como um rafeiro.

            — Eu paguei e quero ser reembolsado! Está tudo às escuras aí dentro, e nem mesmo nos deram luz!

            — Voltem para casa e tomem todos um duche frio.

            — Isto não fica assim, Carter! Apresentaremos queixa.

            Maspero parecia muito incomodado.

            — Apresentaram queixa contra si, Carter. Pancadas e ferimentos ...é grave.

            — É completamente inexato . Um dos meus guardas, insultado de uma maneira odiosa, reagiu de maneira normal.

            — Normal? Socando um turista francês?

            — Um bêbedo perigoso que foi apenas empurrado. Eu deponho a favor da minha equipe.

            — É completamente inútil; os seus adversários já obtiveram o apoio do cônsul-geral de França que exige reparação.

            — Creio ter compreendido mal.

            — Porém, é simples, Carter; graças à minha intervenção, evito o processo. Bastará que se desculpe junto do cônsul, desse grupo de turistas e que penalize a sua guarda.

            — Está fora de questão. Que esses bêbedos apresentem as suas desculpas ao guarda, isso é que era justiça!

            — Não se trata de justiça mas de diplomacia! Facilite-me a tarefa e não se obstine.

            — Não faço tenção de me rebaixar perante mentirosos.

            — Não tome as coisas assim, que diabo! Peço-lhe algumas palavras, mais nada.

            — É demais, senhor diretor.

            — Não seja teimoso; o caso pode envenenar-se.

            — A razão está do meu lado; a justiça triunfará.

            Como Maspero não obtinha a rendição de Howard Carter, os queixosos solicitaram uma entrevista com Lord Cromer, o alto-comissário britânico, o homem forte do Egito; concedeu crédito à mentira e tomou partido contra Carter. O jovem arqueólogo não era estimado pela melhor sociedade.

            Quando Maspero o convocou de novo, estava muito triste.

            — Recebi instruções formais: despedimento imediato do guarda e as suas desculpas. Lord Cromer estará aqui dentro de alguns minutos a fim de o ouvir.

            — Portanto, poderei dizer-lhe a verdade.

            — Não o ouvirá; a sua opinião está formada.

            — Então é um imbecil.

            — Carter! Não se apercebe da gravidade da situação. Tem de ceder, senão...

            — Senão o quê?

            — Serei constrangido a aceitar a sua demissão.        

            Carter estava atordoado.

            — O senhor, Gaston Maspero, não cometerá essa malvadez!

            — Algumas frases, Howard, apenas algumas frases conciliadoras e esqueceremos esse drama absurdo.

            Lord Cromer irrompeu pelo escritório do diretor de serviço. Não concedeu sequer um olhar a Carter e dirigiu-se diretamente a Maspero.

            — Está regularizado?

            — Quase, senhor alto-comissário.

            — Que Carter formule imediatamente as suas desculpas, que serão relatadas por escrito e entregues às pessoas a que dizem respeito.

            Instalou-se um pesado silêncio. Lord Cromer não o suportou mais do que trinta e sete segundos.

            — Está a brincar com a autoridade que eu encarno, senhor Maspero?

            — Howard Carter está pronto a reconhecer os seus erros, mas a injustiça...

            — A minha opinião é construída sobre fatos, não sobre sentimentos. Qualquer discussão é supérflua; que Carter se incline ou que se demita.

            Lord Cromer não ouviu o som da voz de Howard Carter; quando a porta bateu, teve um sobressalto.

 

            Aos primeiros frios, a disposição de Carnarvon mudou. De comum aborrecido, assobiou ao ler ou a passear, gracejou à mesa, brincou mais com os filhos. Nevoeiros gelados e chuva regozijaram-no ao ponto mais alto; as suas dores desapareceram e andou durante várias horas no parque do castelo ,

apesar da proibição do médico.

            No regresso de uma das suas fugas, a esposa não conseguiu esconder a sua inquietação por mais tempo.

            — O seu banho está a arrefecer; apresse-se a tomá-lo.

            — Uma atenção delicada, minha querida; segundo dizem os camponeses, o Inverno será duro.

            — Porquê tantos riscos? O frio e a umidade não lhe são aconselhados.

            O conde baixou os olhos.

            — Tenho uma confidência muito delicada a fazer-lhe, Almina.

            — Não tem o costume de ser tão prudente.

            — A situação justifica as minhas precauções oratórias.

            — Não ouso compreender...

            Carnarvon voltou-se.

            — Apaixonei-me. Estou loucamente apaixonado.

            Lady Almina fechou os olhos.

            — Deus impõe-me uma prova terrível. Aceito-a. Como se chama ela?

            — Já não é muito nova.

            — É ao menos de família nobre?

            — Real.

            — Mas... o seu nome?

            — O Egito faraônico.

            — Não tem esse direito!

            — É muito sério, minha querida. Como recomenda o meu excelente médico, parto amanhã para o Cairo.

            Lord Carnarvon reencontrou com alegria, nesse fim de ano de 1904, as ruelas animadas do Cairo. Aquela estada que ele tinha esperado com impaciência, iluminava a sua existência.

            Permitia-lhe escapar a numerosos mundanismos londrinos, e de não assistir às representações de Puccini, músico lacrimejante e tagarela, que ele detestava.

            O conde desejava fazer um programa de escavações, mas não possuía nenhuma experiência nesse domínio; consultou pois os serviços do alto-comissário, tornado o verdadeiro senhor do Egito graças ao entendimento amigável entre a França e a Inglaterra, que se puseram de acordo sobre a divisão da África do Norte e do Próximo Oriente; à França voltava nomeadamente Marrocos, que ela ocupava em plena liberdade, à Inglaterra, o Egito. Uma única restrição, mas de vulto: o posto de diretor do Serviço das Antiguidades reservava-se, como no passado, a um francês.

            Por isso, Carnarvon marcou um encontro com Gaston Maspêro.

            — Gostaria de obter uma autorização para escavações. — Maspero limpou os óculos redondos; o pesadelo recomeçava.

            Uma vez ainda, seria preciso inclinar-se na frente de um amador de posses cujo principal argumento científico era a espessura da sua conta bancária.

            — Nada de mais simples; basta assinar um formulário.

            — Quais são as minhas obrigações?

            — Praticar escavações num terreno pertencente ao Egito, não construído, afastado das culturas, livre de impostos, fora de uma zona militar e não atribuído ao serviço público. Se fizer uma descoberta importante, por exemplo, um túmulo, deve prevenir o serviço.

            — Posso lá penetrar em primeiro lugar?

            — Na condição de ter um inspetor a seu lado. Dispõe de dois anos para me fornecer um relatório sobre as suas atividades.

            — Que se passa com as múmias?

            — Continuam propriedade do Egito, da mesma maneira que os sarcófagos. No que diz respeito aos outros objetos, procederemos a uma divisão razoável.

            — Que entende por “razoável”?

            Maspero conteve com dificuldade um acesso de cólera. Decerto uma cláusula do contrato especificava que o conteúdo de uma tumba inviolada não seria dividida entre o responsável pelas escavações e o Estado; mas não se descobririam mais tumbas intactas e, em caso de milagre, a cláusula seria inaplicável.

            — Pois bem... conforme a importância e o valor dos objetos, procederemos a uma discussão entre cavalheiros.

            — Nada de mais razoável — concedeu Carnarvon.

            — Esquecia-me do essencial: as escavações serão efetuadas a seu encargo e sujeitando-se aos seus perigos.

            — Perfeito.

            — Um pormenor ainda: que sítio escolheu?

            O conde foi apanhado de improviso.

            — Não acreditará em mim, mas nunca pensei nisso. É o meu segundo Inverno no Egito e só conheço o Cairo: indicar-me-ia um lugar propício?

            Maspero estava atordoado.

            — Em toda a parte, senhor conde, será preciso escavar por toda a parte... Luxor é um lugar atraente e bastante apreciado pelos seus compatriotas; não faltam zonas inexploradas na região.

            Carnarvon seguiu o conselho de Maspero e deu-se bem. Planou na Tebas antiga, foi reduzido, como cada visitante, ao estado liliputiano na sala de colunas gigantes de Karnak, saboreou a luz de Luxor, passeou de falucho no Nilo, meditou debaixo da acácia do Rameseum, sentiu a grandeza dos faraós em Medinet-Habu, maravilhou-se cem vezes ao contemplar as pinturas das tumbas. O Egito penetrava nele, moldava a sua alma, desenvolvia-lhe uma sensibilidade nova.

            Antes de abrir um campo de trabalho, quis impregnar-se daquela beleza que cansava o tempo e oferecia uma alimentação sem par.

            Enquanto saboreava um chá de menta, num botequim da margem oeste, um colosso barbudo cumprimentou-o, tirando o chapéu branco.

            — Senhor Demóstenes... que feliz surpresa.

            — Posso sentar-me?

            — Vejo que aprendeu as boas maneiras.

            Com o seu casaco preto, calças vermelhas e as suas botas altas, o traficante de antiguidades não passava despercebido.

            — É um homem de palavra, senhor conde, uma vez que não me causou qualquer aborrecimento.

            — Tenho uma dívida para consigo.

            — Não lhe emprestei dinheiro.

            — Uma dívida de ordem moral.

            — Ah... não tem interesse. Vem comprar múmias?

            — Encontrá-las.

            — Onde?

            — Nas profundezas da terra.

            — Escavar! Que boa piada! Perderá a sua fortuna. Tenho tudo o que precisa e a bom preço; este país está podre.

            — A Inglaterra torná-lo-á são.

            — Decerto que não. A nova lei impõe o fecho dos locais insalubres e perigosos... por outras palavras, a falência geral. As manufaturas locais e os ateliers estão mal; trusts internacionais vão ocupar o lugar e provocar um descontentamento que acabará mal. O tráfico, eis o futuro! Aproveite bem as suas férias de Inverno; o Egito não será sempre inglês. Desculpe-me: estão à minha espera.

            Demóstenes, cada vez mais gordo, levantou-se como um elefante e afastou-se, bamboleando-se.

            Louco ou visionário? Ninguém, no Foreign Office, partilhava dos seus pontos de vista; mas os diplomatas de carreira não passavam o seu tempo a enganar-se?

 

            Prostrado ao lado de mendigos adormecidos, Howard Carter deixara de ser inspetor do Serviço das Antiguidades. Lord Cromer tinha pedido e obtido a sua cabeça, obrigando Maspero a despedi-lo. Quinze anos de trabalho encarniçado e, subitamente, a decadência definitiva. Sem emprego, sem indenização sem economias, incapaz de partir em busca de um outro trabalho, Carter sentia-se desfeito. Perdendo o seu posto, afastava-se para sempre do Vale dos Reis e de Tutankhamon. O seu sonho desabava e a sua vida perdia o sentido. Contudo, não lamentava a sua atitude; a injustiça era o pior dos males e nunca a aceitaria.

            Um homem de estatura média, vestido à ocidental, com o rosto redondo ornado de um pequeno bigode, parou na sua frente.

            — Não é Howard Carter?

            — Já não sou nada.

            — O meu nome é Ahmed Ziuar... guiou-me até Saqqara. Conhece o meu país melhor do que eu, como se gostasse mais dele do que eu. Estou ao corrente do drama; permita-me que o admire, senhor Carter.

            O inglês, incrédulo, levantou os olhos.

            — Onde faz tenção de morar, no Cairo?

            — Não sei.

            — Eu não passo de um pequeno funcionário, mas disponho de um pequeno quarto desocupado; terei muito prazer em lho oferecer. Poderá dormir, recuperar forças e preparar-se para o futuro.

            Quando Deus fecha uma porta, abre uma outra.

            Carter levantou-se. Não tinha o direito de ser indigno diante de um homem de qualidade.

            Instalado à esquina de uma rua, Carter observava as idas e vindas dos cairotos, o portador de água, o vendedor de bolos, a mãe de família com um cesto na cabeça e um bebê nos braços, o burro carregado de luzerna. Tentando esquecer-se de si próprio, deitou sobre a tela essas cenas sem importância, testemunhos preciosos de uma existência monótona e tranqüilizadora.

            Basbaques e garotos aglutinaram-se à sua volta e observaram-no a trabalhar; um europeu ofereceu-lhe algum dinheiro. Ainda que reticente, aceitou. Tornado pintor de estilo, ganhou a quantia necessária para pagar o aluguer do seu quartinho de hóspede num bairro pobre; situado no último andar de um imóvel degradado, ofereceu-lhe um porto de paz, depois do dia passado no meio do barulho incessante da cidade. O ladrar dos cães perturbavam freqüentemente a noite; estendido na cama, com os olhos abertos, lembrou-se daquele tempo maravilhoso em que trabalhava em sítios grandiosos.

            A nostalgia foi mais forte. Voltou a Saqqara, pintou a pirâmide com degraus, o deserto, as mais belas cenas das tumbas do Antigo Império; turistas apreciaram os seus quadros e as suas aquarelas. Não contente por vender essas pequenas obras, guiou-os pelos lugares dantes postos sob a sua proteção; a sua reputação cresceu e breve se tornou um mentor apreciado dos visitantes mais atentos.

            A arte e as gorjetas não o tornaram milionário; aprendeu a contentar-se com pouco e escondeu a sua pobreza sob um aspecto impecável. Escreveu com freqüência a Raifa, mas rasgou as cartas, não suportanto a idéia de lhe confessar a verdade. Quis que ela conservasse na memória a imagem de um Carter feliz e respeitado. Uma outra atividade se desenvolveu. Ao correr dos meses, compradores mais ou menos crédulos pediram-lhe para avaliar estatuetas ou fragmentos de relevos que eles encontravam nos suks; a maioria eram peças falsas, mas algumas eram autênticas. A reputação de Carter estendeu-se; consultavam-no no próprio momento de fazer os negócios.

            Passou o melhor das suas folgas junto da pirâmide com degraus, fascinado pela austeridade da mãe de toda a arquitetura egípcia. Numerosos esboços não lhe deram satisfação; como dar o impulso dos gigantescos degraus de pedra que sobem ao assalto do céu?

            A areia estalou. Um turista aproximou-se e imobilizou-se atrás dele.

            — O seu talento está intacto , Howard.

            A voz de Gaston Maspero fê-lo estremecer.

            — Como está, senhor diretor?

            — Vai sobrevivendo, segundo me disseram?

            — Informaram-no bem. O serviço vai progredindo?

            — Sem si, marca passo. Os amadores suplantam-nos.

            — Theodore Davis, por exemplo.

            — A sua equipe está orgulhosa da sua última proeza: uma tumba intacta.

            — O pincel hesitou.

            — Um tesouro?

            — Um belo mobiliário funerário: cofres, cadeiras, vasos e dois caixões de bom tamanho contendo as múmias bem conservadas dos parentes da rainha Tiyi.

             Rainha Tiyi, a esposa de Amenófis III é mãe do rei herético, Akhenaton... estes personagens conheceram o jovem Tutankhamon, cuja sombra voltava a tocá-lo ao de leve. Tiyi era talvez sua mãe.

            — Davis quer divulgar, mas não é capaz; é por isso que me pede para o ajudar. Aceitei mas tenho necessidade de um desenhador. Aceitaria esse trabalho, Howard?

            Davis e a sua equipe, em que se incluía um jovem arqueólogo, Burton, ocupavam uma pequena casa à entrada do pequeno vale ocidental do Vale dos Reis; construída em pedra e em barro, à sombra da falésia, era invisível aos visitantes. Quatro pequenos quartos, uma casa de jantar, uma reserva para as

antiguidades, um quarto escuro, um escritório, uma cozinha compunham essa morada em que velava, permanentemente, um guarda. O americano recebeu Carter numa das suas celas de monge, sem água nem eletricidade; vestido de preto, parecia um anjo exterminador.

            — Deve-me o seu regresso a Luxor. Em troca, exijo a mais extrema discrição; o desenho, de acordo, mas nenhuma intervenção no processo das escavações. Já não é inspetor e eu formei uma equipa competente que não tem necessidade de qualquer conselho. Além disso, não quero nenhum aborrecimento: as autoridades britânicas não apreciariam a sua presença aqui. Feche-se no escritório que Maspero põe à sua disposição e contente-se de divulgar com fidelidade os objetos que os meus assistentes lhe levarão. Comentários?

            — Nenhum.

            O Inverno de 1906 foi semelhante aos outros invernos: doce, calmo e soalheiro. A fortuna de Carter não melhorava nada; algumas peritagens, por ocasião das transações de objetos de proveniência mais ou menos lícita, proporcionaram-lhe um pecúlio suficiente. A sua principal atividade, não remunerada, consistiu em desenhar os suntuosos móveis de madeira descobertos por Davis na tumba dos sogros de Amenófis III. Não esperava que esses grandes dignitários, de origem modesta, estivessem presentes no Vale reservado aos faraós; essa anomalia confortou-o com a idéia que os egípcios tinham concedido uma grande importância ao período antecedendo a subida ao poder de Tutankhamon. Porquê ter ocultado o seu reino e dissimulado a sua tumba com tantos cuidados?

            Quando as noites se tornaram frescas, embrulhou-se numa cobertura de lã e leu a produção científica que Maspero punha à sua disposição. Enfureceu-se freqüentemente; os arqueólogos trabalhavam mal e os historiadores raramente verificavam as suas fontes, contentando-se em acumular cópias, a fim de obterem cadeiras universitárias, distribuídas ao peso do papel impresso e das relações mundanas. A competência, a coragem, a honestidade? Virtudes estúpidas que conduziam à mediocridade social.

            Bateram à sua porta.

            — Está aberto.

            Ela entrou, encantadora. Os olhos maquiados, os lábios brilhando de um vermelho leve, os cabelos negros caindo em volutas sobre os ombros. Imobilizou-se à entrada.

            — Aceitas tornar a ver-me?

            — Raifa...

            Ficou incapaz de se mexer. Avançou, sem deixar de o olhar.

            — Estou bonita?

            Ele tomou-a nos braços e apertou-a até lhe faltar o ar.

            — Já não sou nada, Raifa. Perdi o meu posto de inspetor e estou pobre.

Estou-me nas “tintas”... se tu soubesses até que ponto me estou nas “tintas”!

Gamai nunca aceitará um mendigo como marido da irmã.

            — Eu contento-me em ser tua amante... amo-te Howard.

As palavras cederam o lugar às carícias.

            Quantas horas de amor tinham perdido por causa da sua vaidade?

           

            O operário debruçou-se, tirou uma grande pedra, desimpediu um amontoado de pedras e cavou levemente à mão. Junto de um rochedo, num buraco, tinha divisado uma espécie de relâmpago.

            Os raios de Sol refletiam-se sobre uma superfície brilhante. Debruçando-se, julgou avistar uma linha azul entre dois pedaços de calcário; uma vez solta, revelou-se como sendo o rebordo de uma taça envernizada, antigamente coberta de ouro.

            O operário chamou o seu chefe que alertou Theodore Davis. O americano considerou o objeto com desdém.

            — Não merece uma fotografia. Leve-a a Carter que nos fará um desenho. Depois do que, enviá-la-emos ao Museu do Cairo. É necessário gratificá-los de vez em quando.

            Saindo do grupo de turistas a que se tinha misturado, Carter examinou o lugar onde a taça de faiança azul tinha saído da terra. No seu entender, devia conter bolinhas de natrão, utilizadas com substância purificadora, quando do ritual da abertura da boca que torna a dar vida à múmia; por outras palavras, durante as exéquias reais! No primeiro exame, a sua convicção foi estabelecida: tratava-se de um esconderijo. Um padre tivera o cuidado de dissimular o precioso objeto.

            Três dias depois, tentou em vão desenhá-la; as suas mãos tremiam demais. Na taça havia um texto: “Que o deus perfeito dá a vida!”; os hieróglifos, colocados no cartucho[8], a saber, o sol, o cesto e o escaravelho seguido dos três pauzinhos do plural, lia-se: “A luz divina é a soberana das transformações”[9]

            Esses sinais, sem importância aos olhos de Davis, perturbavam Carter, ao ponto de lhe fazer perder o sono: não compunham eles o nome de coroação de Tutankhamon?

            Agora, a sua certeza tomava um aspecto científico. Aquele modesto objeto provava que as exéquias do misterioso faraó tiveram lugar no Vale e que estava enterrado aí, algures nas areias.

 

            Lord Carnarvon assistiu ao cocktail de inauguração do Winter Palace, o novo hotel de luxo de Luxor.

            Construído no coração da pequena cidade, frente ao Nilo, exibia pretensiosamente a sua fachada amarela, que contrastava com o verde das palmeiras e o branco da mesquita e das casas vizinhas; o conde não apreciou nada aquele amontoado de estuque e de gesso, vestindo uma carcaça metálica.

            Luxor tornava-se a presa dos mercadores e de hordas estúpidas; com o guia Baedeker na mão, os turistas invadiam as lojas cheias de falsos escaravelhos, leques e chapéus. Contingentes desembarcavam ao andamento vivo dos barcos fretados pela agência Cook, percorriam os templos a passo de carga, ao chamamento do apito, ou dos sinos, tornavam a subir a bordo e vestiam-se para o almoço.

            Carnarvon, que tinha recebido o cognome de Lordy, contentou-se com um casaco de Yatcbman com botões de metal; deu-lhe um ar marcial que desmentiu a sua amabilidade perante os indígenas. Fugindo aos europeus, foi convidado de todos os paxás locais.

            Aprendeu a conhecer o Egito do interior e desembaraçou-se rapidamente em árabe; esses preliminares pareceram-lhe indispensáveis antes de se lançarem numa busca, em boa e devida forma.

            — Se continua a desejar uma concessão — declarou Maspero — tenho uma a propor-lhe: um lugar inexplorado no alto da colina de Xeque Abd el-Gurnah. Com um pouco de sorte, poderá descobrir um pequenino túmulo; não se esqueça de me prevenir.

            — Eu tenho sorte — respondeu Carnarvon. — Quando poderei começar?

            — A partir da semana que vem, se o desejar.

            — Entendido. Anulo uma entrevista e dirijo-me até à margem oeste.

            O funcionário do Foreign Office, que trabalhava em Luxor sob a “capa” de mercador de sementes, lá estaria às suas expensas e relhas. O conde não recusava comunicar-lhe as suas impressões sobre o país mas não aceitava estar a seu soldo.

            O Xeque Abd el-Gurnah não tentou seduzir Lordy: sol a pique, poeira, vento de areia e sorriso divertido dos aldeões não tinham nada de encantador. No momento de começar a escavar, o aristocrata apercebeu-se de que não era fácil improvisar-se arqueólogo. Porquê escolher aquele lugar de preferência a um outro? Fiando-se no seu instinto, deu ordem aos seus dois operários para deslocarem uma grande pedra achatada e de enterrarem o ferro da sua pá de escavar, o fâs, no terreno em declive. Quando estivessem cansados, substituía-os. Manejar o utensílio, derreou-lhes as costas mas atraiu a sua simpatia; depois de terem dividido bolos, cebolas e tomates, desenvolveram um novo ardor.

            De mais a mais, Lordy dispunha de um aliado de grande valor: uma cadela terrier, Susie, que não aceitara deixar o dono; a fim de não trair a sua afeição, Carnarvon levara-a para o Egito, contando mais ou menos com o seu faro e a sua capacidade de perseguir uma presa até ao seu próprio covil; mas Susie, de orelhas em forma de V, caindo junto das faces, perdera toda a agressividade e não gostava senão de se instalar contra as pernas de Lordy, sentado num cadeirão de verga, ao abrigo do pó. Muito ciumenta, não permitia a ninguém que se aproximasse sem seu consentimento.

            Pouco antes do pôr do Sol, os fellahs caíram sobre o que parecia ser a boca do um poço funerário.

            Estavam tão excitados como o conde e dominaram com grande custo o seu desejo de irem até ao mais fundo. A partir da manhã seguinte, um delegado do Serviço das Antiguidades foi até lá; tão despeitado como Carnarvon, verificou que o poço se resumia a um buraco vazio.

            Como o destino lhe tinha piscado o olho, o conde não se desencorajou; durante seis semanas, afincou-se no lugar do seu primeiro sucesso. O poço estava ligado a um túmulo e, apesar das nuvens de areia, abundantes suadelas e uma falta de agilidade certa, o conde enfiou-se na cavidade. Um operário passou-lhe um archote que iluminou um pequeno caixão: no interior, havia uma múmia de gato. Susie manifestou uma discreta reprovação.

            Carnarvon reconheceu a insignificância da sua proeza: centenas de despojos de felinos atravancavam já as reservas dos museus. Esses pouco brilhantes princípios incitaram-no contudo a perseguir as suas investigações na grande extensão lisa que se alongava na frente do templo de Dar el-Bahari: buracos por aqui e por ali, um calor cada vez mais sufocante e uma ausência total de resultados.

           

            — Há quatro anos que passa os invernos no Egito, meu querido... não está cansado?

            — Pelo contrário, Almina.

            — O que é que o atrai?

            — Um trabalho da mais alta importância.

            — Essas buscas de amador?

            — Amador... tem razão. É preciso pôr fim a essa prática ridícula.

            A esposa de Lord Carnarvon tomou-lhe o braço:

            — Isso significa que renuncia à sua viagem e que fica em Highclere.

            — Isso significa que me vou tornar profissional.

           

            — Está satisfeito com as suas atividades arqueológicas, senhor conde?

            — Não estou nada, senhor Maspero.

            O diretor do Serviço das Antiguidades franziu o sobrolho. Naqueles últimos meses, os aborrecimentos acumulavam-se, os novos inspetores não tinham as qualidades de Carter e o tráfico de antiguidades recomeçara. Difundiam-se numerosas críticas contra o sábio francês; acusavam-no de conceder demasiada importância ao estudo da história, de desprezar a arqueologia, de conceder licenças de escavações a torto e a direito sem se preocupar com a qualidade dos requisitantes, e de deixar partir numerosos objetos para os museus estrangeiros.

            — Será que foi importunado?

            — Creio que me menosprezou. Na qualidade de conde de Carnarvon que sou, não disponho do saber e menos ainda da técnica necessária para levar a bom termo o meu empreendimento. Desenterrar múmias de gatos não me basta; faço questão de trabalhar de uma maneira séria.

            — A sua equipa de operários...

            — Obedece às minhas ordens. Como as minhas diretrizes não têm valor, contenta-se em fazer buracos que não conduzem a nada. Esqueça um instante os meus títulos e a minha fortuna; dê-me a assistência científica de que preciso.

            Maspero tirou os óculos, limpou-os lentamente e rabiscou um nome no mata-borrão de que acabara de se servir. Hesitou em pronunciá-lo. Carnarvon sentia uma real paixão, ou não passava de uma borboleta esvoaçando de uma distração para à outra?

            — Conheço um egiptólogo que poderia ser-lhe útil.

            — Um homem experiente?

            — Tem mais de quinze anos de trabalho no Egito. Fala árabe, sabe dirigir equipas e não ignora nenhum dos costumes locais.

            — Como se chama essa pérola rara?

            — Howard Carter.

            — Há um pormenor que me intriga: porque é que esse brilhante rapaz não é o seu colaborador direto?

            — Foi-o, e felicitei-me por isso. Carter estava destinado a uma grande carreira; mas o seu caráter íntegro e a sua falta de diplomacia conduziram-no a excessos lamentáveis.

            — Despediu-o?

            — Constrangido e forçado, uma vez que se recusava submeter-se a uma obrigação administrativa.

            — De que ordem?

            — Apresentar as suas desculpas a turistas franceses culpados de brutalidades, é certo, mas apoiados pelo alto-comissário britânico.

            — Parece-me simpático, o seu Carter. Terei hipótese de lhe agradar?

            — Não lho garanto.

            — Como vive ele?

            — Muito mal; vende algumas telas, pratica peritagens e colabora “para a cidade” em trabalhos científicos. Não o considere, no entanto, como uma presa fácil.

            —Onde mora ele?

            — Em Luxor. Deseja encontrá-lo?

            — Hoje mesmo

 

            Pouco depois das dezoito horas, Carter entrou no bali do Luxor Hotel. Maspero tinha insistido muito para que ele saísse do seu antro e fosse àquele encontro para que o convidava um certo aristocrata, Lord Carnarvon. Segundo a opinião do diretor do serviço, esse rico aristocrata contava com ele; Carter não acreditava no que ouvia. Mais um desses amadores pretensiosos, ávidos de estátuas e de múmias, desejosos de obter uma opinião de técnico sobre as suas últimas aquisições. Carnarvon não era melhor do que Theodore Davis, cada vez mais incompetente, à medida que avançavam as suas escavações no Vale dos Reis, sem a menor lógica.

            Um homem franzino, quase descarnado, de fato azul, avançava para o arqueólogo.

            — É o senhor Carter, presumo? Eu sou o Conde de Carnarvon.

            Junto do aristocrata, um terrier de pêlo branco e preto parecia hostil.

            Carter inclinou um pouco a cabeça. O seu interlocutor, de rosto cansado, apoiava-se numa bengala; a mão direita metida na algibeira do casaco amarrotado, exprimia-se com uma certa dificuldade. A parte de baixo do rosto tinha a marca de um antigo ferimento.

            —  Vamos sentar-nos, está bem?

            — Aprecio a sua companhia, mas gostaria que a nossa conversa fosse o mais breve possível; o trabalho espera-me.

            —  Obrigado por me conceder alguns minutos do seu precioso tempo, senhor Carter; espero que não fique decepcionado.

            O Luxor Hotel era um enclave inglês onde os turistas usufruíam dos serviços de um médico e de uma enfermeira vindos de Londres, e podiam jogar ao bilhar depois de terem andado de bicicleta, com o assento escorado num selim britânico.

            O empregado trouxe dois cálices de porto e uma tigela de água para a Susie.

            — É o melhor arqueólogo da sua geração, senhor Carter, e o que melhor conhece o Egito; vê-lo privado de campo é injusto.

            — A injustiça não conduz o mundo?

            — É bem amargo.

            — Maspero deve ter contado a minha história.

            — O talento merece recompensa; gostaria de trabalhar comigo?

            — Não creio.

            Carnarvon conservou a sua calma.

            — É melhor confessar-lhe que sou inválido, senhor Carter; antes do meu acidente de automóvel, corria os mares e não recuava diante de qualquer aventura. Agora, sou incapaz de me desembaraçar sozinho.

            — Precisará de um carregador de malas? Nesse caso, receio estar inapto.

            —  Não tem a espinha maleável.

            — Não cessa de se retesar.

            —  Estará de acordo, contudo, em ouvir-me?

            — As minhas peritagens não são grátis.

            — Não sou um turista; o Egito tornou-se a paixão que ilumina a minha existência. Todos os invernos aqui estou e todos os invernos gosto mais de cá estar.

            — Regozijo-me por si.

            — Isso não chega; estou convencido de que, sob o seu solo, dormem tesouros.

            — Ora aí está... escavar buracos diverti-lo-ia?

            — Comecei, mas preciso de um perito. O senhor, Howard Carter.

            — Qual é exatamente a sua finalidade?

            — A mais bela coleção de antiguidades egípcias privada. O meu castelo de Highclere é digno de abrigar obras-primas saídas desta terra sem igual; quero o melhor e o mais belo.

            — O investimento seria enorme.

            — É mais fácil obter dinheiro do que uma estátua autêntica. Escumei todos os mercadores e não encontrei senão falsificações ou bagatelas, como desfalcar o Museu do Cairo é contrário aos meus princípios, só me resta obter uma concessão.

            — Onde?

            — Na margem Oeste. Xeque Abd el-Gurnah, Dar el-Bahari... um fiasco.

            Carter sorriu.

            — Simples falta de técnica, senhor conde. A margem dos mortos é selvagem, implacável; é preciso... é preciso cativá-la, aprender a sua linguagem, não perturbar a sua serenidade.

            — Está muito místico.

            — Se não compreende isto, torne a partir para Inglaterra. O Egito é um mundo secreto, com quatro milênios. Nós somos uns intrusos, demasiado apressados e ignorantes. A sua coleção, é melhor esquecê-la.

            Carter levantou-se.

            — Não bebe porto? É uma excelente produção.

            — A vida não nos é meiga; nela contraí uma doença de estômago e não bebo álcool antes do jantar.

            — Havemos de nos entender nesse ponto; o meu médico proibiu-mo.      — Poderemos conversar à beira do Nilo?

            — Vai perdoar-me a minha lentidão. Arrasto uma perna.

            Lord Carnarvon já estava de pé; Susie aceitou o passeio. Caminharam ao longo do rio-deus.

            — Conheço a sua paixão, senhor Carter. — O ataque supreendeu-o.

            — Ter-se-á informado a meu respeito?

            — Eu não contrato um colaborador de ânimo leve. O seu colega Georges Legrain acaba de desenterrar um documento que lhe deveria interessar: uma esteia cujo texto se deve ao rei Tutankhamon. Esse monarca desconhecido indica que voltou a Tebas depois da heresia, e que restabeleceu os cultos tradicionais a fim de tornar a dar felicidade e prosperidade.

            Instalou-se um longo silêncio, enquanto avançavam lentamente. Essas revelações confirmavam, de uma mmaneira definitiva, a existência do faraó Tutankhamon, que certos egiptólogos continuavam a negar. Apresentava-se mesmo como um poderoso monarca, apto a governar e a fazer-se obedecer.

            — A tumba de Tutankhamon... é a sua obsessão, senhor Carter. Em Luxor, todos o sabem, mas todos troçam de si.

            —  Costuma uivar com os lobos?

            — Aceite trabalhar comigo: procurará a sua tumba e belos objetos para a minha coleção.

            — Projeto irrealista.

            — Porquê?

            — Porque a minha tumba se esconde no Vale dos Reis e a concessão foi concedida a Theodore Davis.

            — Simples hipótese, meu caro; o seu Tutankhamon talvez se dissimule noutro lugar. É talvez por isso que a sua última morada ainda não foi identificada.

            Carter receava ouvir essas palavras.

            — A nossa vida não tem sentido senão na condição de ser orientada em direção ao impossível. No seu caso, um rei desaparecido; no meu, obras-primas enterradas. Se aliássemos as nossas loucuras, talvez nos tornássemos razoáveis.

            O rio dormitava; nas trevas da margem do Ocidente, o cimo velava sobre o Vale.

            — Volto à minha pintura. O resto já não me interessa.

            — É um homenzinho muito pândego, Carter! Theodore Davis é um americano pretensioso e autoritário; julgam que me pareço com ele e não têm razão.

            — O senhor é rico e eu sou pobre.

            — Mas é sábio e eu sou ignorante. Ocupar-me-ei das finanças e o senhor das escavações.

            — Davis contratou um jovem arqueólogo que deve obedecer às ordens do patrão.

            — Pôr em paralelo um multimilionário do Novo Mundo e um conde britânico educado na mais pura das tradições não tem sentido algum. Repito-lhe: é o senhor, e mais ninguém, quem dirigirá a nossa equipe. Eu só lhe peço resultados.

            Carter sacudiu negativamente a cabeça.

            — Já não acredito em milagres; as minhas aquarelas bastam-me.

            Carnarvon espetou a bengala na frente de Carter e impediu-o de avançar. Susie sentou-se no meio deles.

            — A sua recusa significa que não tem qualquer confiança nos seus meios.

            O arqueólogo corou.

            — Conheço a margem do Ocidente melhor do que ninguém; passou a ser a minha terra.

            — Prove-o.

            Quando Carter brincava no campo com os seus pequenos camaradas, eles não cessavam de chamar mentirosos e exploradores aos nobres; tinha então jurado nunca se tornar criado de um desses grandes senhores.

            — Está a travar-me a passagem, Lord Carnarvon.

            — Peço-lhe que interrompa o seu estúpido diálogo interior e que cumpra a sua vocação.

            “Peço-lhe”... O proprietário do domínio de Highclere a pedir-lhe a ele, Howard Carter, pintor e arqueólogo licenciado, exilado e sem fortuna.

            — Com um caráter como o seu, a existência deve ser um combate quotidiano; isso agrada-me, senhor Carter. Continue a ser intransigente e sem fraquejar consigo mesmo; senão, aborrecer-me-ia. Diretor da missão Carnarvon: agrada-lhe o título?

            Escavar de novo, não voltar a desabar sob o peso das dificuldades materiais, demonstrar que os seus métodos são os bons, tornar a partir em busca de Tutankhamon... Carter mordeu os lábios para não responder. Susie afastou-se um instante do dono e pousou a sua trufa junto da barriga da perna de Carter; o conde sorriu.

            — Existe um último ponto, absolutamente capital — continuou Carnarvon — disponho de uma arma que lhe falta de vez em quando. Sem ela, está condenado a enfraquecer. Estou pronto a oferecer-lhe.

            — Qual?

            — A sorte.

 

            Os tetos de cedro eram ornados de centenas de motivos, desenhando na madeira versículos do Corão; esse trabalho, de uma extrema delicadeza, tinha exigido o concurso de uma dezena de escultores que se mataram a trabalhar durante mais de cinqüenta anos.

            — Gosta da minha casa, senhor Carter?

            — Admiro-a.

            Ahmed Bey Kamal, sensível à lisonja, colou o olho direito à luneta astronômica que lhe permitia observar o nascer da Lua do Ramadão.

            — Esta velha casa é propícia ao recolhimento; e por isso juntei nela livros e documentos herdados da minha família.

            Ahmed Bey Kamal era um erudito modesto que se comprazia no estudo dos documentos raros; pouco falador, abria a sua porta com parcimônia.

            — Porque veio perturbar a minha solidão, senhor Carter?

            O britânico hesitou; em certas circunstâncias, a sinceridade confundia-se com a grosseria. Mas não sabia mentir.

            — Os rumores pretendem que está a ponto de publicar um livro espantoso. Eis o seu título exato: O Livro das Pérolas Enterradas e o Mistério Precioso a Respeito das Indicações, dos Esconderijos, das Descobertas e dos Tesouros.

            — Os rumores pretendem que poderia ser um ladrão de tumbas.

            Carter levantou-se, ultrajado.

            — Sou arqueólogo e desejo ressuscitar um faraó esquecido: será uma infâmia?

            O tom de Ahmed Bey Kamal adoçou-se.

            — Que deseja saber?

            — O livro mencionará a existência de uma tumba real cuidadosamente dissimulada?

            O erudito consultou o seu manuscrito.

            — A tradição evoca uma tumba escondida na montanha; quem chegar lá deverá fazer fumigações e escavar o solo. Descobrirá uma placa munida de um anel de bronze; depois de a ter levantado, descerá até um grande subterrâneo e passará três portas. A última abre-se sobre uma grande sala onde se erguem doze armários cheios de moedas de prata, de armas e de objetos preciosos. Em frente da mais alta, uma pedra preciosa alumia como um candeeiro aceso: junto dela, está uma chave. Quem a utilizar para abrir o armário, conhecerá uma alegria celeste: aparecer-lhe-á um rei deitado numa cama de ébano, ornada de ouro e incrustada de pérolas. Perto do corpo, estarão todas as riquezas do Egito.

            As mãos de Carter tremiam.

            — O manuscrito será mais preciso?

            — Receio que não.

            — Não haverá a mínima indicação geográfica? Nenhum nome de faraó?

            Ahmed Bey Kamal abanou negativamente a cabeça.

            Carter instalou a sua casa de apoio numa plataforma que dominava um cruzamento de caminhos, a vinte minutos de distância do Vale dos Reis; construída com tijolos, de forma quadrada, a modesta morada abria-se no sítio de Dar Abul el-Naga. Tumbas e templos, construídos no deserto, conservavam a memória de fastos desaparecidos; os camponeses respeitavam a orla das culturas como uma fronteira sagrada.

            O arqueólogo levantava-se cedo; saía do seu quarto, com o teto em forma de cúpula, e empurrava a porta, peça autêntica, proveniente de um chalé inglês e provida de uma fechadura do Suffolk, na qual tinha inteira confiança. Depois de se ter alimentado com frutos secos, chá, um bolo, e um nascer do Sol, de que não se saciava, Carter caminhava até Dar el-Bahari que tinha escolhido como primeiro sítio para as “escavações Carnarvon”.

            Na manhã desse décimo dia de trabalho, recomeçava a lenta ladainha dos portadores de cabazes cheios de entulho; sob a ordem de Carter, escavavam, desentulhavam e despejavam os fragmentos longe do estaleiro. Carnarvon chegava a meio da manhã; apoiado na bengala, com a mão direita na algibeira do fato cinzento, observava o vaivém dos operários. Com um rigor militar, Carter resumia os trabalhos da véspera.

            — Nunca faltará a poeira neste país.

            — Nem tumbas, Lord Carnarvon. Creio que nos aproximamos.

            — Uma sepultura, já?

            — Não exige resultados?

            — Aprendi a mostrar-me paciente. Devo confessar que me surpreende?

            — Não seja demasiado otimista; a entrada acaba de ser liberta. Poderei pedir -lhe que entre, na qualidade de proprietário, numa tumba intacta?

            A cave abrigava vários sarcófagos; um deles de um branco brilhante, estava coberto com um véu. Junto dele, havia uma coroa de flores. Carnarvon, comovido, apanhou-a.

            — Significa que o morto conseguiu a sua ressurreição — precisou Carter.

            — Eu começo a conseguir a minha.

            Carter apressou o andamento do seu burro e entrou a galope no Vale dos Reis. O ano de 1907 começava bem mal, dado que a equipe Theodore Davis se gabava de ter dado à luz uma tumba extraordinária.

            Quando circulava esse tipo de notícia, Carter dirigia-se imediatamente para os locais.

            Davis, com o seu fato poeirento, mantinha-se em frente da entrada. Postado sobre as suas pernas curtas, de bigodes conquistadores, dirigiu-se ao intruso.

            — Até melhor informação, Carter, deixou de ser inspetor do serviço. A sua presença aqui não se impõe; ignora que Weigall o substituiu?

            — É um incapaz. A quem pertence esta cave?

            O rosto redondo do americano animou-se com um sorriso.

            — Gosto das rainhas e as rainhas amam-me. Olhe, caro amigo, olhe!

            Com nervosismo, o antigo advogado baixou-se para entrar num corredor onde jaziam painéis de madeira cobertos de ouro fino.

            — Estas peças estão muito estragadas; era preciso restaurá-las depressa. Caso contrário, desfazer-se-ão em pó.

            — Avancemos, Carter; há coisas mais interessantes.

            Um caixão de ouro estava colocado no chão do quarto funerário. Incrustado de pedras semi-preciosas, já não tinha rosto. Tiveram o cuidado de impedir qualquer identificação.

            — É a rainha Tiyi, a esposa real de Amenófis III e a mãe de Akhenaton o herético! A mais bela descoberta jamais efetuada no Vale!

            — Conclusão precipitada, senhor Davis. É preciso notar a posição dos objetos, fotografar, não desprezar qualquer pormenor não...

            — O patrão sou eu, e a tumba é minha. Ponha-se a andar.

            Carter deu à tumba o número 55. Apesar dos seus conselhos, Davis tinha conduzido a escavação de uma maneira desastrosa. Nenhum relatório arqueológico, nenhuma tentativa de restauração e, para coroar o empreendimento, uma “limpeza” antes da fotografia. Vandalismo oficial que Maspero e os seus inspetores se esqueciam de sancionar.

            Quando um ladrãozinho de Gurnah lhe propôs um vaso cheio de folhas de ouro e uma parte do colar de ouro da múmia, Carter soube que conseguia uma bela desforra. Comprou os objetos a um bom preço e foi ter com Davis cuja sesta foi perturbar.

            — Está a enervar-me, Carter!

            O inglês pousou as preciosas relíquias aos pés do americano.

            — É para vender.

            — Donde tirou isso?

            — Há membros da sua equipe que o roubam e que pilham as tumbas enquanto escavam. Trago-lhe os seus bens...

            Acendeu um cigarro e queimou o indicador, esquecendo-se de soprar o fósforo.

            — Eu... eu compro-lhe...

            — Não ousava esperá-lo; a sua contribuição é bem-vinda.

            Quando Carter se voltou de costas, o americano tentou retê-lo.

            — Conto com a sua discrição.

            — Porquê?

            — A minha reputação... a da minha equipe...

            Carter voltou-se e olhou o seu interlocutor nos olhos.

            — Exijo a verdade. Que se encontra nesse sarcófago?

            Davis apertou os punhos.

            — Os peritos contradizem-se. Para uns, trata-se de um corpo de homem, para os outros de mulher... tenho a certeza de que é a rainha Tiyi.

            Carter agarrou Davis pelas bandas do casaco.

            — Existe alguma prova, uma só prova que permita identificar Tutankhamon?

            — Largue-me Deus do céu! Não, juro que não!

            Carter soltou-o.

            — Será capaz de se calar? — pediu o americano com uma voz fraca.

            — Desprezo-o, Davis.

            Carnarvon sacudiu o fato e tomou a sua pose.

            — Estou apresentável?

            — Perfeito, senhor conde — apreciou Carter. — Quando tiver muito calor, previna-me.

            — Talvez não tenha tempo. Se cair, saberá que desmaiei. A Susie nos alertará.

            Sentado em frente do seu cavalete, o inglês esboçava o retrato do patrão no sítio de Dar el-Bahari, ao lado da segunda tumba que acabava de descobrir para o castelão. Não se tratava, segundo dizia Carnarvon, senão de uma espécie de estábulo onde um pequeno proprietário terrícola tinha armazenado os seus livros de contas e posto o seu burro ao abrigo do sol, mas esses princípios não seriam prometedores?

 

            Carnarvon e Carter jantaram no Luxor Hotel; o Outono de 1907 estava suave e luminoso.

            — O pombo estava um pouco duro, meu caro Howard, e está sem apetite. O Vale dos Reis estará a pesar-lhe no estômago?

            — Davis é um iconoclasta.

            — A sua reputação não pára de crescer; uma tumba inédita por ano, é um belo score.

            Carter espetou a faca no pombo grelhado; àquele ritmo, receava que o americano caísse por acaso em cima da tumba de Tutankhamon e a massacrasse com a sua desenvoltura habitual.

            — Davis acumula uma quantidade de destroços e sobretudo não tem qualquer respeito pela arte egípcia; se continua, acabará por destruir o sítio.

            — Porque não pedimos nós a concessão do Vale?

            — Maspero não no-la concederá nunca; Davis paga bem demais e obtém excelentes resultados.

            — Sempre a obsessão do vosso Tutankhamon... que significa ao certo, o seu nome?

            — Símbolo vivo do deus enterrado.

            — Vivo é encorajador; enterrado, é aborrecido. Quanto tempo reinou ele?

            — Nove ou dez anos.

            — Casado?

            — Com uma filha de Akhenaton.

            — Filhos?

            — Provavelmente não.

            — Ações de vulto?

            — Nada de conhecido, à parte a esteia descoberta por Legrain este ano. Tutankhamon apresenta-se lá como um monarca poderoso, justo e generoso.

            — As lisonjas clássicas... Porque desapareceu ele da história?

            Carter esbarrava contra esse problema insolúvel.

            — Tenho a certeza que ele repousa no Vale.

            — Sem se afastar do seu ideal, meu caro Howard, gostaria que pensasse mais na nossa exploração comum; estou impaciente por ver algumas belas estátuas nos corredores de Highclere.

            Enquanto o seu arqueólogo dirigia a manobra, o conde de Carnarvon encontrava, num salão de Winter Palace, um personagem afetado vindo de Londres como turista. A sua ligação com o Foreign Office, normalmente exibida com ostentação, só era conhecida do seu interlocutor. A entrevista que ele solicitara justificava-se; numa aldeia do Delta, oficiais ingleses que vieram caçar pombos tinham-se enganado no alvo e morto uma velha camponesa. O incidente tinha sido provocado por um motim, seguido de uma severa repressão. Normalmente, a calma regressava bastante depressa; daquela vez, as reações populares endureciam e as relações entre o Governo egípcio e a Administração britânica envenenavam-se.

            Mustafa Kamil, um jornalista de formação francesa, logo anarquista, tinha-se atrelado à reorganização de um partido nacional preconizando a evacuação das tropas inglesas. Por felicidade, morreu antes de semear uma nova agitação.

            A evocação desses acontecimentos não deixou Carnarvon indiferente. Quanto a Susie arreganhava os dentes.

            — Esses dramas são prelúdio de perturbações graves — profetizou ele.

            — Lord Cromer, o nosso alto-comissário, restabeleceu contudo a ordem.

            — Com uma violência inaceitável que engendraria a violência.

            — Pensa que a sua ação...

            — Cromer é limitado e não compreende nada da evolução deste país. A sua partida seria uma excelente notícia.

            — Nas altas esferas, essa hipótese foi encarada. Na qualidade de perito...

            — Sou muito favorável.

            — Que preconiza para o que se segue?

            — Solte a rédea.

            — O laxismo não é uma política.

            — A repressão também não.

            O emissário, perturbado, abreviou as suas férias. A situação revelava -se mais perigosa do que ele imaginava.

           

            Os assistentes de Theodore Davis chamaram o patrão. Depois de terem desimpedido uma cave cheia até ao teto de lama seca, em resultado das chuvas torrenciais que se abatiam por vezes no Vale, acabavam de extrair da sua ganga uma figurinha desprovida de inscrições e um cofre de madeira. Embora estivesse partido, competia ao americano tirar-lhe as folhas de ouro que continha.

            Davis amuou. Uma tumba minúscula, um modesto tesouro. Juntando as parcelas de folhas de ouro, viu aparecer um faraó no seu carro, depois o mesmo rei, despedaçando a cabeça de um libanês com a sua maça, enquanto a esposa o encorajava.

            — Medíocre — pensou ele. — Que significam aqueles hieróglifos?

            Ninguém era capaz de os decifrar.

            — Poderíamos pedir a ajuda de Carter — propôs um dos assistentes.

            Davis não hesitou; como tinha prometido ao inglês assinalar-lhe as descobertas mais importantes, a fim de preservar um entendimento cordial, iria preveni-lo sem tardar. Além disso, traduzia o texto.

            Howard Carter acorreu. Contemplando as folhas de ouro, identificou imediatamente um trabalho da décima oitava dinastia; a voz faltou-lhe quando leu o nome do faraó guerreiro e caçador.

            — Tutankhamon...

            Pela décima vez, Carter explicou a Carnarvon que a estatueta, a caixa de madeira e as folhas de ouro tinham sido roubadas na tumba de Tutankhamon, antes de serem depostas numa cave desviada a que o arqueólogo dera o nº 58.

            — Tutankhamon e a esposa, sob os meus olhos, esplêndidos, radiosos... desta vez não há mais dúvida nenhuma! O rei está no Vale. E é esse Davis, esse incapaz que se aproxima dele!

            — Não gostaria de abalar as suas convicções, Howard, mas essas pequenas coisas de ouro provam mais a pilhagem de uma tumba real do que a sua preservação. No meu entender, é um indício desastroso.

            — Ousa... ousa utilizar esse argumento?

            — Receio ter razão.

            — Recuso essa razão.

            Durante os dias que se seguiram a esta conversa assim interrompida, Carter desenvolveu um ardor que esgotou os seus operários; os cabazes enchiam-se e esvaziavam-se em vão. Depois de um começo promissor, a missão enterrava-se. Quando atacava o sopé de uma colina, onde amontoados de fragmentos de calcário deixavam esperar por uma sepultura entulhada, Carter esbarrou com Theodore Davis trocista. Com o chapéu enterrado na cabeça, lenço branco a contrastar com o fato preto, o americano bamboleava-se como que bêbedo. Carter ajustou o seu lacinho à borboleta e encarou-o. Davis divertiu-se a traçar círculos na areia com a bengala.

            — É um tipo catita, Howard; uma vez que segurou a língua, mantenho os meus compromissos.

            — Uma nova tumba?

            Uma gota de suor orvalhou a fronte de Carter.

            — Intacta?

            — Mais ou menos.

            — Um rei?

            — Este.

            Davis tirou da algibeira um pedaço de tecido no qual estava escrito: “Tutankhamon, ano 6” a pouco e pouco, o misterioso faraó saía da sombra.

            — De onde vem esse tecido?

            O americano levantou a bengala, como um maestro.

            — Ainda não compreendeu? Da tumba de Tutankhamon, certamente!

            — Impossível! — gritou Carter, magoado até à alma.

            — Então, meu caro colega! É preciso render-se à evidência. Venha visitá-la, a sua famosa tumba; eu vou na sua frente.

 

            Davis, subitamente desembaraçado como nos seus bons tempos, levou Carter até à colina situada sobre o túmulo de Séti II. À entrada da sua nova descoberta, havia operários a fazer a guarda.

            O inglês, tão nervoso como intrigado, teve lágrimas de desespero.

            — Entre, Howard, e veja com os seus olhos.

            Carter avançou; aceitando o convite do americano, avaliava o seu sucesso. O que viu espantou-o.

            — Mas... é um simples esconderijo!

            — Aparentemente — retorquiu Davis. — Seja mais científico meu caro colega.

            Carter penetrou na pequena divisão escavada na rocha; não media mais de um metro de lado e a sua altura atingia apenas dois metros. No solo, havia louças e secos.

            — Não é uma tumba real — pensou Carter aliviado.

            — Isso é que é! Examine a rolha dessa garrafa.

            O inglês leu os hieróglifos: o modesto objeto estava carimbado com o nome de Tutankhamon.

            — Tiremos ambos a conclusão — propôs Davis — acabo de descobrir a tumba desse pequeno monarca e de resolver assim um enigma irritante.      Carter irritou-se.

            — A sua posição é estúpida! É um esconderijo, Davis. E mais nada! Nenhuma tumba real se parece com isto!

            — Acalme-se e reconheça a sua derrota; não será o fairplay uma especialidade britânica?

            — Onde está o selo da necrópole real? Onde se encontra o sarcófago? Se continua a defender as suas inépcias, os egiptólogos mais ignorantes rirão na sua cara. Deixe-me examinar o conteúdo desses jarros.

            Davis pôs-se à defesa com o corpo.

            — Nem pensar! Venha amanhã à recepção que eu organizo na minha casa de apoio e conhecerá finalmente o tesouro de Tutankhamon!

            Davis havia vinte anos que não se ria com tanto gosto.

            Os quartos da casa de apoio tinham sido limpos, o escritório e o armazém das antiguidades arrumados, a cozinha e a sala de jantar lavadas a balde, sem respeito pela preciosa mercadoria.

            Toda a equipe de Davis fazia segurança na frente do gabinete do guarda.

            O americano fumava cigarro sobre cigarro, andando de um lado para o outro. Com uma sacudidela, limpou a cinza que não deixava de se acumular no seu fato preto. O sucessor de Lord Cromer, Sir Eldon Gorst, cônsul-geral da Inglaterra, já estava atrasado meia hora.

            Howard Carter mantinha-se retirado; foi o primeiro a avistar a carruagem que, lentamente, subia a estrada.

            Theodore Davis precipitou-se ao encontro do mestre oficioso do Egito; com o seu concurso, tornar-se-ia o mais célebre dos arqueólogos e poderia transferir para os Estados Unidos as mais belas peças arrancadas ao deserto.

            Davis apresentou os membros da sua equipe ao ilustre visitante, evitou Carter, e fez-lhe o elogio de um personagem que o britânico encontrava pela primeira vez.

            Herbert E. Winlock, conservador-adjunto do departamento do Metropolitan Museum of Art, de Nova Iorque, vinha negociar a compra de antiguidades. Quase calvo, baixote, de olhar muito vivo, estava sempre em movimento; alguns dos seus colegas comparavam-no a um gnomo e temiam o seu espírito crítico e as suas graças ácidas. Com bom humor, Winlock gabou as excelentes relações entre o seu país e a Inglaterra e desejou que o almoço satisfizesse o paladar do seu convidado.

            Davis, Winlock e o cônsul-geral trocaram banalidades à mesa de honra, armada no interior da casa de investigações, enquanto Carter, sem apetite, petiscava com os membros da equipe americana. Logo que a refeição terminou, Davis mandou trazer os jarros e os sacos armazenados na tumba de Tutankhamon, que tinha descrito a Sir Eldon Gorst sem o obrigar a uma visita de pouco interesse.

            O pesquisador americano lançou-se num discurso atrapalhado, em que se gabava de ser o primeiro a desvendar um tesouro antigo na frente de um personagem oficial, cuja cultura lhe permitiria apreciar o acontecimento pelo seu justo valor.

            Davis tirou a rolha do primeiro jarro, selado com lama seca e pedaços de papiro; tirou de lá uma pequena máscara pintada de amarelo para imitar a cor do ouro. Estalaram alguns aplausos.

            Encorajado, Davis esvaziou o segundo jarro; apenas continha tiras de linho. O americano passou rapidamente a um terceiro, de onde extraiu fragmentos de ossos de pássaros e de outros pequenos animais. Envergonhado, continuou num ritmo acelerado. O espólio revelou-se miserável: destroços vegetais pedaços de louça, trapos, colares de flores, natrão. Nenhuma jóia de ouro.

            — A arqueologia é uma arte — observou o cônsul-geral — por vezes conduz ao sucesso, por vezes à derrota. Será certamente mais feliz numa próxima vez, senhor Davis; da minha visita, apenas recordarei um fato: a refeição estava perfeita.

            Quando a carruagem desapareceu numa nuvem de poeira, o americano atirou com o chapéu ao chão e espezinhou-o.

            O Sol punha-se sobre a casa de apoio que Davis e a sua equipe tinham desertado. Herbert E. Winlock debruçou-se sobre o magro tesouro-que Sir Eldon Gorst tinha desdenhado.

            — Conta comprar esses despojos? — perguntou Carter.

            — Não sou seu inimigo e aprecio o seu trabalho. Davis só gosta do grande espetáculo; estes miseráveis objetos contam uma história. O senhor pode compreendê-la.

            Intrigado, Carter ajoelhou junto de Winlock.

            — Repare bem... estas ligaduras devem ter sido cortadas quando se fez o enfaixamento da múmia real. Com estes trapos, um padre limpou o corpo. O natrão foi utilizado para a mumificação; durante a cerimônia, quebravam-se vasos a fim de aniquilar magicamente as forças das trevas.

            — O enterro de Tutankhamon... eis a sua prova.

            — É a minha opinião; as inscrições que subsistem oferecem-nos uma identificação certa.

            — E o resto?

            Winlock refletiu tomou o peso a alguns ossos.

            — Não se tratará dos restos de um jantar? Por ocasião de um banquete celebrado pelos participantes nas exéquias, estes comiam aves.

            Carter contemplou com um novo olhar os colares florais, os troncos de acácias e as centáureas.

            — No ritual, furavam obrigatoriamente ornamentos florais...

            — Não falta nem o último pormenor. — Winlock exibiu uma vassoura de caniços. — Quando o banquete terminou, um padre serviu-se deste objeto para apagar as marcas dos passos dos convidados e abandonar a tumba ao eterno silêncio.

            O pôr do Sol tingiu de rosa-alaranjado as colinas mais próximas do Vale dos Reis.

            — Uma descoberta única, Carter: os restos do último jantar em honra do seu Tutankhamon. Vou levá-los para Nova Iorque e provarei a validez da nossa hipótese.

            — Disse... nossa?

            — Obstine-se, meu caro. Agora, é absolutamente certo que Tutankhamon foi enterrado no Vale.

 

            Howard Carter folheou a obra de Davis, desatou a rir e deitou-a pela janela da sala de hotel onde Lord Carnarvon lhe oferecia chá.

            — Não aprovo o seu gesto, Howard. Por um lado, poderia magoar um inocente; por outro, um livro merece mais respeito.

            — Não é um livro mas um churrilho de idiotices! Leu o livro? A Tumba de Tutankhamon! Esse estúpido americano obstina-se. E não é tudo: obteve a colaboração de Maspero.

            Carnarvon saboreou um muffin de uma qualidade razoável.

            — O diretor do serviço contentou-se em redigir uma notícia sobre a vida de Tutankhamon, isto é, sobre o nada.

            — Contudo, quero vê-lo e dizer-lhe aquilo que penso.

            — O seu chá está arrefecer.

            — A mentira é uma coisa insuportável.

            — A humanidade também, Howard; deveria fazer parte do fogo. O seu inimigo está no auge da glória; Maspero tem de admitir que, desde 1903, descobriu uma quinzena de tumbas.

            — Seria razão bastante para abrir uma Sala Theodore Davis no Museu do Cairo?

            — Seria indispensável expor as descobertas. Em vez de incomodar o nosso bom Maspero e de bater com as portas, não deveria encarar a seqüência da nossa própria campanha de pesquisas?

            Carter levou a chávena de chá aos lábios.

            — Seja objetivo, Howard; Davis é um colosso de pés de barro. Grost não gostou nada da sua encenação falhada; não se desloca um cônsul-geral para lhe mostrar uma máscara de gesso e trapos velhos. Se o americano não continua a desentulhar pelo menos uma tumba por ano, a sua reputação corre o risco de ser demolida.

            Os meios científicos desdenhavam de Carter e detestavam Davis. A este último reprovavam também o caráter precipitado das suas publicações e o ridículo do seu último trabalho. Era evidente que não se podia tratar de uma tumba real, fosse ela a do obscuro Tutankhamon. Era opinião geral que o americano tinha dado um passo em falso.

            Carter dirigia com entusiasmo a sua própria equipe; nenhum sucesso notável coroava os seus esforços.

            Era verdade que tinha desenterrado uma tábua coberta por um texto relatando a guerra de libertação conduzida pelo rei Kamose contra os Hicsos, invasores asiáticos que tinham ocupado o país no fim do Médio Império. O valor histórico dessa modesta relíquia, à qual Carter deu o nome de Tábua Carnarvon, divertiu durante algum tempo o senhor de Highclere; dividia o seu tempo entre breves permanências no campo e longas entrevistas com personalidades egípcias. Lordy tornava-se a pouco e pouco uma personagem-chave do país; cada um apreciava o seu sentido diplomático, a sua capacidade de escuta e o seu conhecimento dos arquivos. O Foreign Office, que esbarrava por vezes com a independência de espírito do quinto conde de Carnarvon, regozijava-se contudo com a sua franqueza e a sua lucidez.

            Que um observador da sua qualidade mantivesse um olhar sobre os propósitos do cônsul-geral, satisfazia alguns membros do Governo de Sua Majestade; os altos funcionários em exercício no estrangeiro eram tomados por vezes por tiranos.

            A rede de espionagem de Carter funcionava às mil maravilhas. Graças aos guardas do Vale que ele conhecia havia muito tempo, seguia passo a passo as escavações de um Davis cada vez mais agitado. O americano não se recompunha da sua desastrosa prestação: à guisa de represália, tinha despedido vários membros da sua equipe e buscava encarniçadamente cada montículo e cada sopé de colina. Provaria, mais uma vez, que era o melhor e que só, era capaz de descobrir novas tumbas.

            Fevereiro de 1908 terminava quando um gaffir, ofegante, avisou Carter que a equipe de Davis estava a ponto de entrar numa cave intacta. O inglês deixou o seu próprio campo e chegou ao Vale a toda a pressa.

            Davis, de cigarro na boca, olhou-o com desdém.

            — Ei-lo já aqui, Carter! Fique satisfeito; desta vez apanhei o seu maldito reizinho!

            O americano mandou buscar as folhas de ouro encontradas na entrada do hipogeu. Carter leu os nomes de Tutankhamon e do seu sucessor, Ay, cuja sepultura tinha sido identificada.

            — Isso não prova nada.

            — Verá!

            Foram necessários três dias para tirar os fragmentos de pedra que enchiam o vasto túmulo a que se chega por uma escada larga. À medida que os operários evacuavam o entulho, Davis trazia para a luz admiráveis pinturas murais de cores intactas; o seu brilho e a sua frescura faziam crer que tinham acabado de ser feitas. Mas o americano apenas via um pormenor: o nome do faraó proprietário do lugar, onde não subsistia tesouro nenhum. Não se tratava de Tutankhamon, mas de Horemheb.

            Carter rejubilava.

            Horemheb, general chefe sob o reino de Akhenaton, tinha continuado a ocupar o seu posto quando Tutankhamon tomara o poder. Sempre igualmente poderoso durante os dois curtos anos em que o velho cortesão Ay tinha passado a ser senhor das Duas Terras, Horemheb tinha subido ao trono. A tumba nº 55 atribuída a Akhenaton, a tumba de Ay, essas duas, não tinham sido destruídas por Horemheb; porque teria ele exercido uma vingança cega contra Tutankhamon? A menos que o jovem rei não se tivesse tornado culpado de uma proeza que tivesse justificado o apagamento do seu nome e a destruição dos seus monumentos.

            Davis acumulava as aldrabices. Não só não redigia relatórios científicos sobre as suas escavações mas também proibia aos seus assistentes que os publicassem; vozes cada vez mais numerosas se elevavam contra os métodos precipitados do americano.

            O Inverno de 1909 tinha começado mal para Carnarvon. Cedendo ao requerimento de Carter, persuadido de ter esgotado o sítio de Dar el-Bahari, tinha aceitado abrir um campo no Delta onde se exumam por vezes estátuas esplêndidas. Fracasso violento e dias perdidos, em resultado de uma estação fria e úmida em regiões onde os templos tinham sido desmontados pedra por pedra; com o regresso ao calor, a equipe tentou trabalhar perto de Sais, mas uma invasão de cobras tinha-a dissuadido.

            Enquanto Carnarvon, depois de numerosas conversas com políticos do Cairo e da Alexandria, voltava a Inglaterra, Carter regressava a Luxor. Não lhe chegara nenhuma mensagem; já sabia que, pela primeira vez, a estação de escavações de Davis revelara-se totalmente infrutuosa.

            Abandonando o centro do Vale, o americano tinha explorado em vão as ravinas e as falésias que bordavam o vale do oeste, antes de se perderem em valezinhos igualmente estéreis.

            Despeitado, com um ar sombrio, Davis afirmava a quem o rodeava que o Vale dos Reis já não escondia senão montículos de areia.

           

            Lady Carnarvon via, com receio, aproximar-se o fim do Outono de 1910. Breve, George Herbert mandaria fazer as malas.

            — Esse concerto agradou-lhe?

            — Estou horripilado! Esse senhor Stravinski e o seu Pássaro de Fogo fazem um alarido que não tem relação alguma com a música. Os meus ouvidos ainda zumbem.

            — Parece cansado.

            — A umidade rói-me. É tempo de partir para o Egito.

            — A sua filha vai queixar-se outra vez da sua longa ausência.

            — Evelyn é sensível e inteligente, compreende as minhas razões profundas.

            — Não tenho assim tanto a certeza.

            — Vai ver... um dia partilhará o meu amor pelo Egito.

            Lady Carnarvon parou de lutar. Ninguém era mais obstinado que o esposo.

            Carter esperava pelo patrão no cais da estação de Luxor. Pelos seus olhos faiscantes, o conde soube que o seu arqueólogo tinha obtido um belo sucesso. Já há muito tempo que os dois homens evitavam as banalidades e entendiam-se com um olhar. Susie manifestou a sua alegria lambendo as mãos de Carter.

            — Uma tumba?

            — A do fundador do Vale dos Reis, senhor conde. Mergulhei no estudo do Papyrus Abbotte, tenho a certeza que a sepultura de Amenófis está ao alcance da mão. Seria uma fantástica descoberta.

            — Esqueceu-se de Tutankhamon?

            — Penetraremos em duas tumbas invioladas.

            — Belo otimismo: o que é que o prende?

            — Tenho contatos com informadores... difíceis de manejar.

            Carnarvon levantou as sobrancelhas.

            — Melhor dizendo, gatunos. Tenha cuidado consigo, Howard; Susie, habituou-se à sua companhia e não gostaria de o perder de uma maneira brutal.

 

            A sala das traseiras do café estava cheia de fumo e empestava a alho; Carnarvon sentou-se a uma mesa onde dois clientes tinham abandonado as suas chávenas de café. O aristocrata, com o seu casaco de sarja azul e as suas calças amarrotadas, não parecia um turista rico. Encomendou um chá de menta que não tinha intenção de consumir, e esperou pela chegada de Demóstenes.

            O colosso barbudo permanecia fiel ao seu chapéu branco, à sua sobrecasaca preta e às suas calças vermelhas. Um criado trouxe-lhe imediatamente um licor à base de sementes de cânhamo e bloqueou a entrada do local com cadeiras.

            — Eis-nos sossegados, Lord Carnarvon.

            — Porque me queria ver com urgência?

            Demóstenes bebeu um golo da sua droga favorita; as suas mãos tremeram. As suas pálpebras inchadas acentuavam o seu aspecto doentio.

            — Porque está em perigo de morte.

            — Desagradável notícia! É hipótese ou certeza?

            — Está incomodar, senhor conde. Certos egípcios de alto nível não apreciam nada as suas intervenções, e alguns ingleses que possuem interesses financeiros no país, ainda menos.

            — Somos sempre traídos pelos nossos, meu caro Demóstenes. Teve rumores de intenções mais... precisas.

            — Não, apenas persistentes. Isso merece bem um bakchich?

            — Sem dúvida alguma.

            Um maço de libras esterlinas mudou de mãos.

            — A sua comissão será mais consistente se as suas informações forem mais completas.

            — Impossível, senhor conde. Estimo muito a miserável pele; como me é simpático, alertei-o. Agora compete-lhe atuar.

            Demóstenes esvaziou o copo e deixou o café cambaleando.

            À mesma hora, numa casa térrea de Gurnah, Howard Carter tomava café com um dos seus gaffirs do Vale dos Reis, que Davis tinha contratado para vigiar o último campo.

            O homem, de uns cinqüenta anos de idade, era um dos mais temíveis gatunos do clã Abd el-Rassul, que lhe ofereceu uma proteção eficaz. Graças a esse apoio, o gaffir podia vender algumas belas peças, desprezadas pelos arqueólogos.

            — Onde está Davis?

            — Explora os recantos desconhecidos do Vale.

            — Com êxito?

            — Enfurece-se cada vez mais; Deus tirou-lhe a sorte. Desejava adquirir essas peças?

            O gaffir desdobrou um grande lenço. Aparentemente, tratava-se de sardônicas e cornalinas gravadas; numa delas, uma cena de jubileu mostrando Amenófis III, pai ou avô de Tutankhamon, e sua esposa Tiyi sob a forma de esfinge alada.

            Para Carter, o mais difícil começava: a negociação duraria várias horas.

            Carnarvon examinou o pequeno tesouro que Carter lhe trazia; ter aquelas jóias antigas na palma da mão, tomar-lhes o peso, tocá-las com a ponta dos dedos, proporcionava-lhe um real prazer.

            — Parabéns, Howard! Um tesouro de Amenófis I?

            — Infelizmente, não! Mas é proveniente do Vale.

            O conde franziu o sobrolho.

            — Parece-me que não temos direito algum de lá fazer escavações?

            — Comprar não é proibido.

            — Davis não se importa?

            — Davis está muito deprimido: não fez nenhuma descoberta de há dois anos para cá, publicações más, uma equipe que se desloca. Creio que está a ponto de se ir embora.

            Carnarvon torceu alguns pêlos do bigode.

            — Se estou a compreendê-lo, a operação Vale dos Reis começou?

            Carter sorriu.

            — O ideal é o único fogo que nunca se extingue; dê-me os meios de o atingir e farei de si um homem feliz.

            — Curiosas palavras, Howard; o multimilionário não sou eu?

            — Esquece-se que Tutankhamon e os seus tesouros breve estarão ao alcance da minha mão.

            — E a sua famosa tumba de Amenófis I?

            — Estou no seu rasto.

            Theodore Davis irrompeu pelo escritório onde Maspero conversara com Lord Carnarvon; o egiptólogo francês levantou-se.

            — Que significa esta intervenção, senhor Davis?

            — Porque está o conde de Carnarvon aqui?

            — Os meus encontros só a mim dizem respeito.

            — Vou dizer-lhe, Maspero: Carnarvon quer obter a concessão do Vale dos Reis e despojar-me do meu campo.

            — E quanto será isso? O senhor é um homem idoso e cansado, senhor Davis; tantos anos passados no Vale esgotaram-lhe a curiosidade.

            O rosto redondo de Theodore Davis tornou-se vermelho de cólera.

            — Foi esse maldito Carter, que atua como seu intermediário... Ele quer o Vale, mas não é bastante rico para o comprar! Tenha a certeza que não o conseguirá.

            Maspero tentou mostrar-se conciliador.

            — Que importância tem? Não há mais nada para encontrar; as suas escavações provaram-no de uma forma definitiva.

            — Pouco importa; não quero que Carter toque num só calhau do Vale.

            — Porquê tanto ódio? — interrogou Carnarvon.

            A pergunta surpreendeu Davis. Acendeu um cigarro e passeou de um lado para o outro.

            — Porque... porque é Howard Carter.

            — Isso é pouco — observou Maspero.

            — Perturba o sistema, empurra os hábitos, encarniça-se a seguir o rasto de um rei sem interesse e de uma tumba que não existe! Esse tipo tem um feitio impossível... julga que o Vale lhe pertence desde sempre. O seu caso é para um psiquiatra.

            — E se ele tivesse razão? — sugeriu Carnarvon.

            Desconcertado, o americano bateu com o punho na secretária de Maspero.

            — Comigo vivo, Carter não dará uma só enxadada no Vale! Não tem o direito de exigir a minha concessão, senhor Maspero.

            — É exato, mas...

            — Nenhuma das tumbas que escavei o foi de maneira definitiva.

            — Portanto, recomeço; quer ciência?

            — Vai tê-la. Inspecionarei os meus sepulcros metro a metro. Assim, Carter compreenderá que não abandonarei mais os lugares.

            Davis saiu do escritório batendo com a porta.

            Desolado disse Maspero

            — Esperava mais compreensão.

            — Que fazer?

            — Infelizmente, nada. O Vale pertence a Davis.

           

            Carnarvon olhou-se no enorme espelho. Sentado num cadeirão confortável, com o peito coberto por um imenso guardanapo branco, viu o barbeiro inclinar-se para a sua face esquerda, cobri-la com espuma e levantar uma navalha inglesa que ele tinha amolado num pedaço de cabedal.

            — Ibrahim está doente?

            — Um resfriamento, senhor conde. Estou a substituí-lo.

            O barbeiro tinha a mão segura. A lâmina deslizava sobre a face e a espuma foi atirada para a tigela da barba de fabricação inglesa, também ela.

            — O ar está um pouco fresco esta manhã.

            — Não é obrigado a conversar comigo, meu amigo.

            O barbeiro estendeu a espuma na face direita.

            — Não tenho a certeza que a nomeação de Lord Kitchener como cônsul-geral seja apreciada pelos Egípcios. É um homem duro, que não compreenderá as aspirações do nosso povo.

            — Será que é especialista em política internacional?

            A lâmina pousou no pescoço.

            — Deveria ouvir-me, senhor conde.

            — Porquê?

            — Porque esta navalha é uma arma temível e que o senhor está sem defesa.

            A pistola que aponto ao seu abdómen é uma prova do contrário; não faça nenhum falso movimento.

            — Serei mais rápido que o senhor.

            — O futuro o dirá; escuto-o.

            A lâmina tinha-se imobilizado. A voz do barbeiro tornou-se mais surda.

            — Dado que é um amigo do Egito, senhor conde, dissuada Kitchener de empreender uma repressão contra os partidários da independência.

            — Empresta-me poderes que eu não possuo.

            — Contudo tente; a sua influência é considerável. Se lutar ao nosso lado, evitaremos um banho de sangue. Senão...

            A lâmina retalhou a carne.

            — Quem o envia?

            — O povo, senhor conde. Não esqueça.

            O falso barbeiro retirou-se.

            Carnarvon tirou a toalha branca e passou a mão pelas faces barbeadas de uma forma impecável.

            Se continuassem a importuná-lo, precisaria de se munir de uma arma de fogo que tinha simulado com o indicador e o médio.

            Nesse ano de 1912, que ficaria conhecido como o do naufrágio do Titanic, o Egito tinha passado a ser inglês. A velha terra dos faraós pertencia, a partir de agora, à Grã-Bretanha. A operação tinha-se desenrolado sem aparente traumatismo, graças a alguns homens de diálogo, na linha dos quais figurava o quinto conde de Carnarvon.

            Howard Carter tinha outras preocupações. Dava os últimos retoques a um livro de que era cosignatário com o patrão, Cinco Anos de Explorações em Tebas. O trabalho provava aos especialistas que a sua colaboração com o multimilionário britânico se traduzira por um trabalho sério, embora pouco espetacular. Com orgulho, Carter ofereceu o volume a Maspero.

            — Excelente, Howard; estou feliz por o ver de novo conquistando.             — Sinto a sua falta.

            — Por causa dos roubos?

            — Exatamente.

            — Roubam as tumbas, retalham os baixos-relevos, partem as estátuas para transportarem melhor os pedaços... as seitas organizadas são cada vez mais ativas, eis a deplorável realidade! Os clientes são numerosos e ricos.

            — Eu sei! — rugiu Maspero. — Poderiam ter posto um freio a esses tráficos! À minha volta só há corrupção e laxismo. É por isso que tomei a decisão de fazer votar uma lei contra as escavações clandestinas.

            — Crê na sua eficácia?

            — Mandarei vigiar os sítios e vigiar a mão-de-obra nos campos; as medidas mais simples são por vezes as mais positivas.

            — Contem comigo para os ajudar.

            Os dois homens apertaram as mãos.

            Theodore Davis entrou numa cólera violenta, tratou os colaboradores de incapazes e de imbecis, depois refugiou-se no seu quarto. Ninguém ousou entrar na casa de apoio onde, havia duas estações, reinava um aspecto sinistro.

Davis já não conseguia descobrir novas tumbas. Tinha de se contentar em desentulhar caves conhecidas havia muito tempo e de regularizar questões de arqueologia sem interesse. Ele, o mais ilustre dos comanditários, tornara-se a chacota dos seus adversários e dos seus colegas; os membros da sua própria equipe começavam a criticá-lo. Cada dia estalavam querelas a propósito de tudo e de nada; o período dos grandes êxitos estava longe. Mas um Theodore

Davis poderia renunciar?

            Havia uns quinze dias que Carter não tinha qualquer notícia do Vale. Só os turistas freqüentavam o sítio mais célebre onde toda a atividade arqueológica parecia extinta. Os seus informadores calavam-se; não havia nenhum contato com os gaffirs que pretendiam conhecer a localização da tumba de Amenófis I.

            Carter almoçou com Raifa em casa do amigo deles pintor. Apesar da sua insistência, a jovem recusava sempre a posar; ser fechada no seu próprio retrato parecia-lhe pior do que a morte.

            Raifa não evocava mais o casamento; contentava-se com a fidelidade do seu amante, de momentos de ternura roubados ao seu trabalho e ao seu sonho, com um amor sincero que o tempo não gastava. No Inverno, não procurava encontrá-lo; Carter estava votado a Carnarvon e trabalhava com um furor e uma constância que assustavam os seus colegas. Quando o calor se tornava insuportável, era preciso interromper as buscas no terreno e entregar-se a trabalhos de inventário e de arquivo; tornava-se mais acessível, aceitava vê-la, esquecer um pouco livros, documentos e relatórios. Conseguia arrastá-lo para longos passeios a que, a pouco e pouco, ele se confiava, confessava amargura, dúvida, esperança.

            Assim decorria a existência deles, ao ritmo do Nilo, assim se tecia a sua paixão sob o olhar dos génios da margem do Ocidente.

            — Pareces inquieto.

            — Um pouco de cansaço, Raifa.

            — Não acredito.

            — Tens razão. Estou inquieto.

            — Que receias?

            — O Vale não me liga importância. Está aí, ao alcance da minha mão e recusa-me. Contudo, sabe que o conheço melhor do que ninguém; estará morto, Raifa? Terá contado todos os seus segredos?

            O dono da casa interrompeu-os.

            — Um homem procura-te, Howard; afirma que é urgente e importante.

            — Um habitante de Gurnah?

            — Não, um europeu.

            Carter pediu desculpa a Raifa. O visitante inesperado não era outro senão Theodore Davis; com o chapéu enfiado até meio da testa, o fato preto coçado, os johdpurse, as polainas poeirentos, quase metia dó.

            — Perdoe-me de o incomodar... queria falar-lhe.

            Carter não estava habituado a tais deferências.

            — Vamos até à colina; estaremos lá sossegados.

            O Sol ia alto no céu; o ar vivo rosava as suas faces. Sob os seus passos, a areia estalava bem como o cascalho e os fragmentos calcários.

            — Tenho setenta e cinco anos, estou doente e cansado; o Vale gastou-me. Talvez se vingue, uma vez que desvendei todos os seus mistérios.

            — Sabe bem que não.

            — Sabe bem que sim, Carter. Todas as tumbas reais foram descobertas.

            — A de Tutankhamon, não.

            — Um simples esconderijo para um reizinho... as folhas de ouro provam-no. Apesar da nossa rivalidade, estimo-o e posso afirmar-lhe, sem qualquer pensamento reservado, que é a minha última convicção. Foi mesmo nesta modesta cave que Tutankhamon foi inumado. Alguns gatunos terão destruído o sarcófago e a múmia. Não se encarnice numa busca inútil; o seu talento merece melhor. Há cinqüenta sítios inexplorados que o esperam.

            — Tenho encontro marcado com Tutankhamon e cumprirei os meus compromissos.

            — A vossa fantasia... eu deixo isto.

            Carter imobilizou-se, estupefato.

            — Tomei a decisão de deixar o Egito e de renunciar à minha concessão. Na minha idade, convém repousar.

            Carter continha mal a sua alegria.

            — O Vale... o Vale está livre?

            — Tenha um pouco de paciência, restam formalidades a cumprir. Mas, com efeito, sê-lo-á dentro em breve.

            O inglês fechou os olhos.

            — É... fabuloso!

            — Não se regozije depressa demais. Por um lado, talvez não obtenha a minha sucessão, por outro, não colherá senão uma carcaça vazia. O Vale entregou todos os seus tesouros.

            — Impossível.

            — Tê-lo-ia prevenido.

 

            — Lord Carnarvon não poderá recebê-lo — declarou a enfermeira inglesa com desdém.

            — Está doente? — perguntou Carter.

            — Por favor, senhor! Com que direito...

            — O do seu principal colaborador.

            A enfermeira encolheu os ombros.

            — As visitas estão proibidas.

            — Para mim, não; queira anunciar-me.

            — Não é possível.

            Exasperado, Carter empurrou o “cérbero”, abriu a porta do quarto, e pôs-se em frente da cama em que repousava Carnarvon. À cabeceira, Susie velava.

            — Saia imediatamente! — berrou a enfermeira. Febril, de rosto cansado, o conde ergueu-se.

            — Calma, enfermeira; o doutor Carter era esperado.

            Ela abandonou a luta com uma expressão afetada.

            — Tenho uma notícia formidável!

            — A tumba de Amenófis I, finalmente?

            — Melhor; o próprio Vale! Davis renuncia; é nosso.

            De braços pendentes, Carnarvon atirou a cabeça para trás.

            — Receio ter de renunciar eu também.

            — De que sofre?

            — De uma infeção estranha; os médicos não percebem nada.

            — Confie em mim.

            Duas horas mais tarde, Carter estava de volta em companhia de Raifa. A enfermeira deitou-lhes um olhar dubitativo mas não ousou intervir.

            Carnarvon sentia-se demasiado fraco para protestar; Raifa deu-lhe água a beber, sobre a qual tinha soprado um dervixe, esfregou-lhe a fronte com ervas cheirosas e pôs-lhe sobre o peito um amuleto portador de um versículo do Corão. Depois fechou as portas de madeira das janelas, correu os reposteiros e, sem pronunciar palavra, saiu do quarto.

            O conde saboreava o seu segundo kebah com um belo apetite e esvaziou uma caneca de cerveja preta. Susie apreciou o carneiro assado.

            — O apetite voltou, meu caro Howard; a sua curandeira é notável.

            — Compreenda a minha impaciência... Que deu a sua entrevista com Maspero?

            — Nada.

            — Como, nada?

            — Os desejos de Davis não se tornaram realidade. Oficialmente, conserva a concessão, mesmo não encarando mais qualquer trabalho no Vale.

            — Contudo, abriu-se com Maspero?

            — A si, e só a si. O diretor de serviço está convencido que sonhou.

            — Juro-lhe que...

            — É inútil, Howard; Davis deu-lhe falsas esperanças.

            — Parecia-me sincero.

            — O senhor é um grande arqueólogo mas um fraco conhecedor da natureza humana; o seu adversário engodou-o.

            — Tenho a certeza do contrário; Davis está gasto. Já não tem vontade de lutar contra o Vale.

            — Esperemos que tenha razão.

            Durante a estação 1913-1914, Carnarvon esteve muito ocupado no Cairo; seguiu de perto a evolução política de um Egito que, graças a uma lei orgânica, dispôs de uma assembléia legislativa de sessenta membros eleitos e de vinte e três nomeados pelo Governo. Naturalmente que só detinha um poder: criar novos impostos diretos; mas foi um passo para a independência, cujo campeão, Zaghlul, não hesitou mais em afirmar a sua convição. Desejoso de evitar confrontações diretas, Carnarvon multiplicou as conversas confidenciais e favoreceu os contatos entre os responsáveis pelos dois campos. A Inglaterra mostrou-se primeiro atenta e conciliadora; mas, 1914, viu a situação degradar-se. As autoridades britânicas endureceram a sua posição. Vários contingentes de soldados reforçaram a presença militar estrangeira; as casernas receberam um material moderno.

            O povo murmurou. Os diferendos entre nações européias não o interessavam, mas os soldados estrangeiros, armados até aos dentes, guardavam os edifícios públicos das grandes cidades e desfilavam em país conquistado.

            Carter ficava indiferente às convulsões que se anunciavam. Na Primavera de 1914 foi à casa de apoio de Theodore Davis, a fim de encontrar o último dos seus assistentes ainda a trabalhar.

            Henry Burton, chamado Harry, era inglês e tinha trinta e cinco anos. Vestido com fatos clássicos que o seu alfaiate londrino expedia para “H. Burton, tumbas reais, Luxor”, arvorava um rosto severo; ninguém o ouvira rir nem brincar. Meticuloso, mesmo maníaco, queria que os seus cabelos pretos fossem colados ao crânio achatado e que o seu lenço de peito fosse de uma brancura imaculada.

            As apresentações foram glaciais.

            — Howard Carter, arqueólogo de Lord Carnarvon,

            — Henry Burton, fotógrafo de Theodore Davis; faça favor de entrar.

            Na parede, fotografias de esfinges, pirâmides, tumbas e paisagens inglesas, onde relvados verdes se alimentavam de uma chuva generosa.

            — A casa está um pouco em desordem; não tenho tempo de a arrumar.

            — Queira desculpar o caráter improvisado da minha visita; procedi sobre um impulso.

            — Admitamo-lo. Deseja visitar o meu quarto-escuro?

            — Com prazer.

            Carter admirou o material que Burton tinha instalado; sem dúvida alguma, era o melhor profissional que operava no Egito.

            — Posso convidá-lo para almoçar, senhor Carter? Acabam de me mandar salsichas de Oxford, um coelho com cogumelos, cerveja alemã e bicarbonato de soda.

            A refeição desenrolou-se num ambiente mais cordial. Burton revelou, não sem orgulho, que as suas fotografias saíam no Illustrated London News e que contava unir-se à expedição do Metropolitan Museum em Dar el-Bahari.

            — Davis voltará ao Egito?

            — Não. Retirou-se para a sua residência de Newport, de onde me enviou as suas ordens: localizar a área entre a tumba de Merenptah e a de Ramsés VI. Procedi a algumas sondagens, sem resultado; não disponho nem de homens nem do material indispensável. Um combate de retaguarda... a missão de Davis terminou.

            Carter dominou com grande dificuldade a sua excitação. Davis não lhe tinha mentido.

            — Leu os últimos números do Daily Mail e do Westminster

            — Gazetté? As notícias são desastrosas, caro amigo. Na nossa velha Europa, as tensões aumentam; espero que os governantes sejam bastante ajuizados para evitar horríveis conflitos.

            — A mensagem de Davis... seria a última?

            — Sem dúvida alguma.

            Um barulho estranho intrigou os dois homens. Primeiro julgaram que se enganavam; depois renderam-se à evidência: a chuva, uma chuva batida, torrencial, abatia-se com uma violência inaudita sobre o Vale dos Reis e formava torrentes furiosas, carregando lama e cascalho. Em menos de uma hora, as tumbas de Ramsés II e de Ramsés III foram inundadas e obstruídas por um amontoado de fragmentos.

            — Não terei tempo de as desimpedir — declarou Burton, abatido. — Aquele lugar é maldito.

            Carter meditava à entrada do Vale, quando dois homens, com um ar sombrio, se dirigiram para ele. Um deles, Mohamed Abd el-Gaffir, era um dos informadores que afirmavam conhecer a localização da tumba de Amenófis I. Imobilizou-se a um metro do arqueólogo e mostrou-lhe o conteúdo do seu cabaz: pedaços de vasos de alabastro.

            — Vendo — declarou com gravidade.

            — Onde encontraste esse tesouro?

            O ladrão contraiu-se; Carter devia ajudá-lo.

            — A tumba que me prometeste?

            Abd el-Gaffir baixou os olhos.

            — Existe um poço?

            — Existe; ao centro.

            — Fundo?

            — Muito fundo.

            Carter exultava; tratava-se pois de uma tumba real!

            — Leva-me lá.

            — Terá de pagar.

            — Serás recompensado.

            — Uma parte para os vasos, outra para a tumba.

            — Está bem.

            Uma breve negociação permitiu fixar os preços, depois Abd el-Gaffir guiou Carter por um atalho a pique, atrás de Dar Abu el-Naga. A cave fora cavada num valezinho sombrio e isolado, escondido em relação ao Vale. Um bloco escondia a entrada; o arqueólogo e o gatuno deslocaram-se com dificuldade. Esse esforço acalmou Carter, febril por causa da idéia de penetrar no sepulcro intacto de Amenófis I, o criador do Vale dos Reis.

            Logo que o archote iluminou a tumba, Carter censurou-se pela sua ingenuidade. Milhares de cacos de vasos de cerâmica e de alabastro juncavam o solo; Abd el-Gaffir e os seus acólitos tinham-se entregado a uma pilhagem sem regra antes de negociar aquele esqueleto. Amenófis não tinha escapado à rapacidade dos vampiros.

            Despeitado, Carter comprou, para Carnarvon, as mais belas peças que Abd el-Gaffir guardava para ele, e expediu um relatório ao seu patrão; insistiu sobre a importância arqueológica da descoberta e sobre o fato de que o conde Carnarvon tinha identificado a localização secreta da última morada de um ilustre faraó.

 

            Completamente calvo, de bigodes brancos, corpulento, de olhar severo e com as mãos gorduchas, Maspero não dissimulava o seu cansaço.

            — Passados, dentro em pouco, sessenta e oito anos que andam no ar, as minhas asas começam a cansar-se, meu caro Howard; vejo aproximar-se o momento de as fechar. É com esse sentimento do fim inevitável que eu procuro terminar, senão tudo o que tinha sonhado fazer pelo menos quase tudo aquilo que comecei. Infelizmente, os dias têm apenas vinte e quatro horas e a empreitada administrativa encurta-mas de tal maneira, que tenho muita dificuldade em encontrar de tempos a tempos as horas que tinha necessidade para levar a termo todos esses trabalhos.

            — Provavelmente será com eles como muitas coisas humanas: muita ambição para pouco proveito.

            — Posso testemunhar, a meu favor, que não desencorajei qualquer verdadeira vocação por culpa de uma severidade pedante, vaidosa ou deslocada.

            — Nesse caso, encoraje a minha.

            — Que quer ainda, Carter?

            — O Vale.

            — O Vale, sempre o Vale!

            Maspero levantou-se e olhou pela vigia do seu barco ancorado perto do Museu; tinha amontoado livros, documentos administrativos e anotações tomadas durante os anos em que tinha reinado como mestre incontestado sobre o Serviço das Antiguidades. Era o escritório que ele preferia; dava-lhe a sensação de estar sempre em viagem, de não se fixar na respeitabilidade; de um erudito cumulado de honrarias.

            — Davis é o proprietário da concessão.

            — Renuncia e eu quero-o.

            — Porquê, Carter?

            — Porque é a minha vida; creio nele.

            — Agora a fé! Eu, perdi-a... No começo, cria verdadeiramente na unidade do deus egípcio, na sua imaterialidade, na sublimidade do ensinamento que os seus padres davam: tudo era sol para mim. Agora, sou céptico. Os fatos, só os fatos, e todas as religiões num pé de igualdade!

            — Desolado de o desapontar: a minha fé no Egito está intacta.

            — É jovem; renunciará às suas ilusões.

            — Nunca perderei o caminho do Vale.

            Maspero apoderou-se de um caderno e brandiu-o junto do rosto de Carter.

            — As minhas notas são formais! As areias do Vale foram remexidas em todos os sentidos. Nem uma só tumba real falta ao chamamento.

            — A de Tutankhamon...

            — Quimera!

            — Mesmo que eu tenha de deslocar toneladas de terra e de cascalho, hei-de encontrá-la.

            — Não tem qualquer prova da sua existência.

            — Claro que sim: uma taça de faiança com o nome do rei, uma folha de ouro com a sua efígie e uma parte do material funerário utilizado aquando das suas exéquias.

            — Retomar as escavações no Vale, vão fazer-lhe perder tempo e dinheiro; Carnarvon tirou-o do inferno, reconheço-o, mas a sua colaboração já não tem qualquer sentido.

            — É meu amigo; precisa de mim, eu preciso dele. Vários setores do Vale, escondidos debaixo de entulhos antigos ou recentes, não foram explorados.

            — Só descobrirá pequenos objetos sem valor; não reembolsarão o investimento de Carnarvon. A conclusão de Davis é formal: o Vale está despojado dos seus segredos.

            — Um só ausente: Tutankhamon. Porquê negar a evidência? Na cadeia de reis, ele é o único elo que falta.

            — Reizinho sem poder e sem sepultura... eis a verdade.

            — O senhor já escreveu o contrário. Dê-me a concessão; não terá de lamentar.

            — Já o lamento; merece melhor do que uma obsessão. Os papéis encontram-se em cima da mesa, à esquerda.

            Carter apertou ao peito os preciosos documentos; naquele mês de Junho de 1914, tornava-se proprietário oficial do Vale dos Reis. Aos quarenta e um anos, realizava o seu sonho mais louco.

            — Volto para França — declarou Maspero. — Não nos tornaremos a ver.

            Carter entrou na casa de apoio de Theodore Davis, abandonada havia pouco tempo; Burton tinha-se integrado na equipe americana de Dar el-Bahari: quartos, escritório, casa de jantar...estava tudo vazio. O fotógrafo, que tinha levado as suas fotografias e deixado as paredes nuas, só tinha esquecido um calendário.

            Cada dia estava tomado, até ao fim de Junho.

            O Verão ardente não incomodava Carter; era verdade que lhe faltava esperar algumas semanas antes de receber a autorização oficial das escavações, onde ele as desejava, nesse Vale com que sonhavam todos os arqueólogos; mas cada gaffir conhecia já o nome do novo senhor daqueles lugares.

            O pôr de Sol de uma noite de Julho, acariciava a fronte de Raifa encostada ao ombro de Carter; tinham-se amado com o fogo de uma paixão sempre renascente, contra a qual lutava em vão o irmão da egípcia.

            — Queria um filho, Howard.

            — O Vale espera-me.

            — Como podes tu comparar esse amontoado de pedras mortas ao ser que nascerá do nosso amor?

            — Não estão mortas... estremece nelas uma outra vida que o tempo não pode gastar.

            — Este sítio põe-te doido.

            — É o meu destino; não tenho o direito de lhe fugir.

            — Só gostas desses túmulos, desses reis desaparecidos, desse silêncio que me faz medo...

            Apertou-a mais contra ele; calaram-se os dois. Raifa não protestaria mais, não tornaria a pedir a Carter mais alguma coisa além dele próprio. Devia tê-lo deixado, ter casado com um homem da sua raça e dar-lhe muitos filhos; mas aquele inglês, vindo de outro planeta, continuava a fasciná-la.

            Tão exigente com ele próprio como com outrém, recusando compromissos e baixezas, encarniçado a perseguir o mais insensato dos ideais em risco da sua existência, o seu amante era um predestinado, um daqueles seres chamados a desempenhar, nesta terra, uma função que os ultrapassa, Carter não podia sair do caminho eterno traçado antes dele e para ele; se se afastasse um só passo, enfraqueceria como uma flor estragada. Era assim, e não seria de outra maneira.

            Como lutar contra uma amante de três milênios de idade, jovem como o Sol da alvorada, que se chamava Vale dos Reis?

           

            Os conselheiros militares britânicos consultaram-se com o olhar; o coronel que presidia à reunião apercebeu-se dos seus pensamentos.

            — Vejamos, meus senhores! O conde de Carnarvon é um conselheiro benévolo, não tem outra finalidade senão a grandeza da Inglaterra.

            — Nesse caso — protestou um jovem graduado — porquê inundar-nos de relatórios estúpidos?

            — Pensaríamos ler as profecias de um iluminado!

            O conde não se afastou da sua calma.

            — Há um ano que os ponho em guarda. A guerra acontecerá e o Egito não escapará ao conflito.

            — Ontem, o herdeiro do trono da Áustria foi assassinado em Serajevo; temia um incidente desse género. Os Balcãs inflamar-se-ão; e a vez das grandes potências chegará.

            Os protestos estalaram, pontuados de exclamações: “Ridículo”, “vergonhoso”, “estúpido”. O coronel julgou necessário pôr fim à confrontação.

            — O pessimismo é um mau conselheiro, Lord Carnarvon; agradecemos-lhe, contudo, a sua colaboração.

            A 28 de Julho de 1914, a Áustria declarava guerra à Sérvia.

            Carter, não se aguentando mais, tinha apanhado o comboio para o Cairo; Carnarvon só o recebeu em 1 de Agosto, dia em que a Alemanha declarou guerra à Rússia. Se bem que o conde parecesse muito preocupado, Carter conseguiu convencê-lo a ir falar com Maspero e a arrancar-lhe o último formulário que lhe permitiria escavar a seu modo.

            O seu entusiasmo decidiu Carnarvon; o Vale dos Reis apresentava outros atrativos que não os dos futuros campos de batalha, onde o aristocrata via já a juventude européia entredespedaçarse, por causa da vaidade e da tolice de políticos cegos. Maspero estava lívido.

            — Estou doente, senhores; a França curar-me-á. Julgava nunca mais o ver, Carter; amanhã, terei deixado este escritório, o Serviço das Antiguidades e o Egito.

            — Vamos recordá-lo — disse Carnarvon comovido — antes da sua partida, poderia assinar o último documento que nos falta?

            Gaston Maspero sentou-se à sua secretária.

            — Ao fim de catorze anos, passados à frente daquele serviço, durante o meu segundo mandato, pus fim à rivalidade franco-britânica no terreno das antiguidades. Como recusar coroar essa bela obra? Beneficiarão, pois, do meu último ato oficial.

            O erudito redigiu, em papel livre, um contrato entre o serviço e Lord Carnarvon; durante dez anos, o aristocrata, que confiava a direção científica das escavações a Carter, podia explorar o Vale dos Reis como entendesse. Se tumbas reais intactas fossem descobertas, permaneceriam propriedade do Egito; o conde guardaria, contudo, obras cujo valor correspondesse ao montante das suas despesas.

            Na noite de 13 de Agosto, Carnarvon recebeu um Carter inflamado que acabava de terminar a redação do seu plano de trabalho; não lhe faltariam menos de trezentos homens para desimpedir os montículos de areia, de pedras e de fragmentos que cobriam as partes virgens do vale.

            O conde leu-o com atenção.

            — É demasiado tarde, Howard.

            Carter tornou-se lívido.

            — Mas ainda nem sequer começámos...

            — A desgraça desencadeia-se sobre o mundo, meu amigo. Hoje, a Inglaterra declarou guerra à Áustria.

           

            Carnarvon tinha seguido os conselhos de Kitchener que lhe pedia que deixasse o Egito o mais depressa possível e que voltasse para Highclere, a fim de transformar o seu imenso domínio em hospital de campanha. De regresso às suas terras, o conde apercebeu-se que duzentas e cinqüenta e três pessoas dependiam mais ou menos diretamente dele; o seu principal dever consistia em assegurar a sua subsistência. Lady Almina, feliz por reencontrar o marido, mas inquieta com o futuro, temia a falta de víveres: assim, o conde ordenou que as batatas ficassem nos campos, o trigo nos celeiros, e que se transformassem as pastagens em terras de lavradio.

            Estabeleceu ele próprio um plano de racionamento, e dirigiu-se solenemente à sua gente a fim de que qualquer rapina fosse evitada, sob pena de exclusão definitiva do domínio.

            Quando os primeiros oficiais feridos no combate chegaram, Highclere estava pronto a acolhê-los.

            Carnarvon pensava no Egito, no sonho louco de Carter, que uma guerra mundial desfazia, naquele Vale que mais uma vez lhe fugia, mas afugentava essas emoções a fim de se concentrar numa só tarefa: lutar contra a barbárie alemã ameaçando a Europa inteira.

            O táxi parou diante da entrada de Highclere; Lady Almina tentou reter o marido.

            — É uma verdadeira loucura, meu querido; renuncie a partir, suplico-lhe.

            — Quero combater.

            — O seu estado físico é muito mau e já ultrapassou a idade do recrutamento; o Exército não pode aceitar o seu concurso.

            — Tenho que ir ao Ministério da Guerra; graças aos meus conhecimentos de francês, farei um excelente oficial de ligação. O meu amigo, o general Maxwell, levar-me-á para a frente.

            — Esquecerá o seu filho e a sua filha?

            — Nem por um momento; nunca admitiriam que o pai recusou a bater-se.

            Carnarvon beijou a esposa e sentou-se na banqueta de trás do carro.

            Não longe de Londres, uma dor fulgurante atacou-lhe o ventre; com a testa molhada de suor, os lábios crispados, tentou resistir. O sofrimento foi mais forte. Despeitado, furioso contra si mesmo, pediu ao motorista que o levasse para Highclere onde a mulher o acolheu com a mais doce das ternuras. O conde, decidido a tornar a partir o mais depressa possível, consentiu em repousar alguns dias.

            Uma semana mais tarde, a mesma dor reapareceu, ainda mais violenta. Com a transferência dos soldados feridos, o castelo ficara deserto. Pelos sintomas, Almina identificou uma crise de apendicite aguda; conseguiu obter um carro e, com a ajuda de um criado, acompanhou o marido à capital. No hospital diagnosticaram uma peritonite. Carnarvon, quase inconsciente, foi logo transportado para a sala de operações.

            — Não sei se o seu marido sobreviverá — declarou o cirurgião.

                       

            — Chama-se Howard Carter?

            — Exato.

            O oficial superior não apreciava nada a atitude orgulhosa daquele personagem vestido com um blazer e umas calças de flanela; parecia um aristocrata demasiadamente habituado a viver afastado das realidades do mundo.

            — Já não tem idade de ir para a frente bater-se, senhor Carter, mas ainda pode servir o seu país.

            — Estou às suas ordens.

            — Está nomeado mensageiro do rei e desempenhará esta função no Médio Oriente; o Foreign Office confiar-lhe-á diversas missões.

            — Como quiser.

            — Isso não é uma resposta de soldado.

            — Sou arqueólogo.

            O oficial superior pôs um comentário na coluna reservada à administração militar: “Espírito independente; tendência para a indisciplina. A vigiar.”

            Em 18 de Dezembro, a Inglaterra decretou que o Egito deixava de ser vassalo da Turquia, aliada dos alemães, mas protetorado britânico. Em 19, o quediva Abbas II Hilmi, de tendências nacionalistas demasiado marcadas, foi deposto e substituído por Hussein que, a despeito do título sonoro de sultão, obedeceria às ordens do alto-comissário inglês. O Cairo tornar-se-ia uma base

operacional importante, e o esforço de guerra seria imposto, sem condescendência, à população egípcia. Se necessário, a lei marcial seria aplicada.

            Convocado para as 8 e 30, Carter chegou um pouco depois das 11 horas. O oficial superior falou-lhe com veemência.

            — É intolerável, senhor Carter! Não cumpriu nenhuma das missões que lhe foram confiadas, e não liga importância às autoridades!

            — As instruções que recebo são absurdas.

            — Como ousa...

            — Os funcionários que as distribuem estão fechados nos escritórios e esquecem-se de pôr o nariz de fora.

            — Disciplina e obediência são as maiores virtudes do soldado; não tem de criticar as ordens. Espero as suas desculpas.

            — Reconheça de preferência os seus erros. Depois, desempenharei a minha missão como convém, e à minha maneira.

            O oficial superior levantou-se.

            — Está demitido, Carter.

            Alguns meses depois do começo do conflito, não havia vencedor. Na Europa, começava uma interminável guerra de trincheiras, onde os soldados morriam em condições abomináveis; no Oriente, os Turcos tinham fechado os estreitos.

            Com os movimentos livres, Carter tinha voltado a Luxor onde dividia o seu tempo entre Raifa e a visita sempre renovada das tumbas reais. O risonho Egito mergulhava na tristeza e na angústia; a maior parte dos campos estava fechada, muitos jovens arqueólogos tombavam no campo da honra, longe do Sol do Alto Egito e das suas pedras luminosas.

            Carter passava longas horas solitárias no Vale, esse Vale que lhe pertencia e que não podia escavar com as mãos nuas. O desânimo conquistava-o; sem a presença de Carnarvon, sem a sua magia conquistadora, sentia-se abandonado. Porque se mostrava o destino assim tão cruel? No momento de saborear o fruto cobiçado durante anos, este retirara-se brutalmente.

            Alguns prediziam que aquela guerra duraria dez anos, talvez mais, que o Egito seria invadido por hordas de turcos e de alemães, que os monumentos seriam arrasados e que os túmulos serviriam de entrepostos para munições.

            Numa manhã fria de Dezembro, Carter pensou em renunciar. Escreveria uma comprida carta a Carnarvon para lhe explicar que o Vale se recusava para sempre. Com o coração num torno, entrou pela milésima vez na tumba imensa de Séti I, e deixou-se agarrar pelas cenas rituais e os textos esotéricos que cobriam as paredes. Acolheram-no deuses e deusas, pronunciando as palavras de vida gravadas na pedra, à medida que o seu olhar pousava sobre os hieróglifos. Sem dar por isso, Carter identificou-se ao Sol, que se enterrava no outro mundo, e defrontava os mistérios dos quartos escondidos com esperança de renascer; o astro moribundo atravessava doze aterradoras regiões onde reinavam trevas, génios agressivos, uma serpente decidida a destruir a luz. O viajante ultrapassou as portas, e passou por cima do poço fundo de onde subia a energia das primeiras idades; leu, nas paredes, O Livro do Dia e O Livro da Noite e recitou as fórmulas da abertura da boca.

            Penetrou na sala do ouro, em que imperava a alma do Sol e o espírito de faraó, seu mensageiro, ressuscitado dentro do sarcófago; o de Séti I, transportado para Inglaterra, deixava um vazio cruel. Carter jurou a si mesmo nunca desnaturar uma tumba roubando-lhe o coração, essa pedra de regeneração que o Egito nomeava, não caixão mas “fornecedor de vida”. Levantando os olhos, admirou as representações da deusa do céu, dos astros, dos planetas e dos decanos; quem vencia a morte voltava para a luz de onde tinha saído e confundia-se com a própria origem do universo.

Desorientado, Carter escreveu a Carnarvon:

 

Um estudo superficial da mitologia e da religião egípcia poderia concluir que temos feito

progressos. Mas se temos capacidade para admirar e compreender a sua arte, perdemos

qualquer sentimento de superioridade. Pessoa alguma, dotada de sensibilidade, negará que

a arte egípcia tenha incorporado o essencial. Com todo o nosso progresso, somos incapazes

de o pressentir. O Egito é o horizonte da eternidade, o Vale detém o segredo. É por isso

que devemos continuar. Eu fico aqui e espero-o.

 

            Lord Carnarvon examinou jornais e telegramas. A situação evoluía mal. Os submarinos alemães conseguiam organizar o bloqueio da Inglaterra, e as ofensivas aliadas, mal preparadas, não desembocavam em nenhum sucesso de envergadura. Por entre a vaga de más notícias, a carta de Howard Carter tinha trazido um pouco de luz. O Vale... o conde sonhava com ele agora. Representava um paraíso inacessível em que a loucura dos homens se extinguia junto das moradas de eternidade.

            — Querido! Prometeu-me que não se levantava.

            Lady Almina, irritada, pediu ao esposo que voltasse para a cama.

            — Preciso de trabalhar um pouco.

            — Quando se sofre de pleuresia, tem-se sobretudo necessidade de repouso e de calor.

            — Não estou doente.

            — Não está a ser razoável! Tenha cuidado com a sua saúde.

            O criado de quarto interrompeu a discussão:

            — Um envelope urgente, senhor conde.

            — Quem o envia?

            — O Ministério.

            Carnarvon leu o documento; aterrado, caiu sobre o cadeirão.

            — Que se passa? — perguntou a esposa.

            — Os Turcos e os Alemães acabam de atacar o canal de Suez. Amanhã, invadirão o Egito.

           

            Howard Carter terminou o inventário dos objetos descobertos na tumba de Amenófis III e limpou-lhe completamente o interior; ali, como noutro lugar, Davis tinha-se contentado com um trabalho sumário. Graças a uma exploração meticulosa e sistemática, Carter tinha reencontrado cinco depósitos de alicerces intactos, em frente da tumba; centenas de utensílios em miniatura estavam empilhados em poços talhados no calcário, misturados com areia e cobertos com cascalho, fato surpreendente, as inscrições não mencionam Amenófis III, mas seu pai Tutmés IV, que servia assim de começo e de fundação a seu filho.

            Os barulhos do ataque germano-turco, contra o canal de Suez, chegaram com dificuldade aos seus ouvidos; não desconfiando da sua vitória, soube, sem surpresa, que as tropas britânicas tinham repelido o invasor e continuavam a luta no Sinai e na Palestina.

            À hora em que as comunicações marítimas estavam interrompidas, e onde a falta de venda e a baixa de preço do algodão para exportação empurravam o Egito para a miséria, Carter tinha-se comprometido resolutamente num diálogo interrompido com o Vale dos Reis. Seria de futuro a sua única preocupação e a sua única razão de ser.

            No fim de Fevereiro de 1915, desenterrou os últimos restos do mobiliário funerário da rainha Tiyi, ilustre esposa de Amenófis III e talvez a mãe de Tutankhamon; quando segurava nas mãos duas figurinhas de alabastro com a efígie da soberana,. Carter soube da morte de Theodore Davis, tão apaixonado pela grande dama. O americano não tinha sobrevivido muito tempo ao seu abandono do Vale. Mais exigente do que a mais ciumenta das amantes, impunha aos seus amores uma fidelidade absoluta.

            Howard Carter esqueceu o mundo exterior. Enquanto os países da Europa se entredespedaçavam, escreveu aos conservadores de museus, a fim de elaborar um catálogo dos objetos descobertos nas tumbas reais, reuniu trabalhos e artigos consagrados ao Vale, leu as primeiras relações de viagens dos primeiros exploradores, estudou os antigos mapas.

            Nada do que se tinha passado no sítio lhe escapava; interrogou uma quantidade de habitantes de Gurnah, palavreou com gatunos, despojou montes de relatórios de escavações. Afinou o seu instrumento de trabalho todos os dias: um imenso mapa do Vale dos Reis, onde estavam localizadas todas as tumbas. Respirou ao ritmo do Vale, tornou-se sensível às menores pulsações, espreitou as suas mais íntimas reações.

            Carter estava morto para si próprio; no seu casamento de amor com o mistério, tinha feito dádiva do seu ser.

            No começo da Primavera de 1916, Lord Carnarvon, eleito presidente do Camera Club, alimentava uma nova esperança: a de atingir por fim a frente, na qualidade de conselheiro do Royal Headquarters Flying Corps, no departamento da fotografia aérea. Decerto, não se bateria de armas na mão mas, detectando a presença inimiga no terreno, poderia facilitar o avanço dos aliados, enquanto prosseguia a aterradora batalha de Verdun, em que os franceses chegavam a bloquear a ofensiva alemã, ao preço de dezenas de milhares de mortos.

            O Egito, cuja moeda tinha sido ligada à libra esterlina, parecia escapar ao caos, se bem que a população sofresse cada vez mais privações. Era preciso que aquela guerra, a mais bárbara e a mais destruidora alguma vez levada a efeito na história da humanidade, acabasse o mais depressa possível; Carnarvon estava pronto a oferecer a sua vida para salvar milhões de jovens mandados para o matadouro.

            Mais uma vez a sua saúde falhou. Apenas três dias depois do contrato, foi obrigado a voltar a Highclere. Deprimido, à beira do desespero, recebeu a afeição da esposa e dos filhos; mas foi a carta de Carter que o reasserenou: o amigo distante acabava de realizar uma bela proeza.

            Num Luxor deserto, vazio de personalidades e de oficiais, o mais pequeno acontecimento assumia proporções consideráveis. Quando correram rumores anunciando a descoberta de um fabuloso tesouro muito perto do Vale, as imaginações inflamaram-se. Se os veleidosos se contentaram em sonhar, os gatunos profissionais preocuparam-se em verificar os rumores e, principalmente, em se apoderar das riquezas.

            Dois grupos rivais, depois de terem feito falar os denunciantes que cederam às primeiras torturas, chegaram no mesmo momento ao lugar cobiçado; a briga foi violenta e o sangue correu.

            Assustado com a idéia de que aquele conflito degenerasse ao ponto de abrasar a margem oeste, os edis alertaram Carter. Este último não hesitou um instante; recrutou uma dezena de operários que escaparam ao recrutamento. Se bem que a noite caísse, não adiou a expedição. Foi preciso avançar num terreno difícil para atingir uma abertura ao fundo de um pequeno vale, a mais de cem metros de altitude, entre paredes abruptas.

            Carter tropeçou numa corda que pendia sobre a fenda; apurando o ouvido, apercebeu-se de barulhos fáceis de identificar: os gatunos estavam a trabalhar. O inglês decidiu não arriscar a vida dos seus companheiros, cortou a corda dos ladrões e substituiu-a por outra, graças à qual desceu. Quando chegou ao fundo do sepulcro, a setenta metros abaixo de entrada, meteu por um corredor que descia e esbarrou com oito homens armados que o observaram com susto.

            — Podem escolher disse-lhes em árabe. Ou tornam a subir com a minha corda e desaparecem, ou ficam aqui e morrem.

            Os gatunos hesitaram; conheciam a reputação de Carter e sabiam que não recuaria diante de ninguém. Um após outro, tornaram a subir, abandonando os seus archotes.

            O arqueólogo ficou só. Teve ainda tempo para refletir, perante a surpreendente localização daquela tumba tão bem escondida; devia, sem qualquer dúvida, acabar num tesouro que todos os gatunos de Gurnah cobiçavam. Carter mergulhou num corredor de 16 metros de comprido que

terminava numa esquina um ângulo reto, voltou ao canto direito e meteu por um segundo corredor em declive, que conduzia a um quarto funerário cheio de cascalho. Os gatunos tinham escavado nele um túnel, por onde Carter se enfiou rastejando.

            Tutankhamon... o nome tantas vezes esperado estaria inscrito no sarcófago?

            Vinte dias foram necessários para desimpedir o sepulcro, Carter tinha feito instalar um sistema de polés e uma rede, na qual descia até à cave. Nenhum tesouro, nenhum objeto precioso, mas um sarcófago de grés dedicado a Hatshepsut, soberana de todos os países, filha de rei, irmã de rei,

Mulher do deus grande esposa do rei, senhora dos dois países. Acabava de descobrir uma outra sepultura da rainha Hatshepsut, escavada por essa grande senhora, antes de ela se tornar faraó.

            Tutankhamon permanecia inacessível; mas o Vale continuava a falar.

            A 30 de Junho de 1916, dois anos depois de ter deixado o Egito, Gaston Maspero presidia à sessão da Academia das Inscrições e Belas-Letras, de que era o secretário perpétuo. Pensava nesses maravilhosos anos consagrados ao estudo dos monumentos e à reorganização do Serviço das Antiguidades, perseguido pela recordação do filho, morto no campo de batalha, recordava-se também do mais insubmisso dos arqueólogos, esse Howard Carter, que um sonho insensato obcecava desde a sua adolescência.           Enganava-se sem dúvida; mas quantas vezes o Egito tinha desvendado os seus mistérios a homens daquela têmpera? Subitamente, desfaleceu.

            — Meus caros colegas — disse com uma voz trémula — peço-lhes que me desculpem... não me sinto muito bem.

            Alguns instantes mais tarde, Gaston Maspero estava morto.

           

            No Outono de 1917, Lord Carnarvon pôde enfim dar grandes passeios no parque de Highclere.

            Junto dos cedros-do-Líbano, adquiriu a certeza de que os aliados ganhariam aquela interminável guerra. No fim de 1915, a ofensiva alemã tinha-se saldado por um fracasso em Verdun; 360 000 homens tinham sido mortos nos campos franceses, quase outros tantos no adversário.

            Quando, a 6 de Abril de 1917, os Estados Unidos declararam guerra à Alemanha, o conde já não duvidava do desfecho final.

            O Egito sofria. Realmente, já estava ameaçado pelo inimigo; as forças inglesas, que tinham ficado senhoras da antiga terra dos faraós, breve se apoderariam de Bagdad e de Jerusalém. Mas a economia de guerra mergulhava o povo na desgraça; traduzia-se numa enorme inflação por privações constantemente crescentes. Os Ingleses tinham posto a mão nos organismos de produção e suscitavam um sentimento de revolta que os militares não apreciavam na sua justa medida; num país onde, por causa do conflito e da miséria, se contavam mais mortes do que nascimentos, as piores convulsões eram de recear.

            Contudo, a decisão de Carnarvon estava tomada. A despeito dos conselhos e das prevenções, o conde encorajava Carter a começar a campanha de escavações, de que ele tinha proposto o plano, em Agosto de 1914.

            Enquanto a Europa, inquieta e fascinada, assistia à derrocada do regime dos czares e à revolução dos bolchevistas, Carter, indiferente aos acontecimentos exteriores ao Vale, atravessava o Nilo e desembarcava na margem do Ocidente. Sob a proteção do cimo rosa e azul ao nascer do Sol, dourado ao meio-dia, vermelha e laranja ao poente, o arqueólogo lançava-se na aventura que desejava sempre mais ardentemente: a inauguração da sua primeira campanha de escavações.

            Carter subiu até à casa que ocuparia, no cume de uma colina dominando o Nilo e admirando o Vale; junto de uma fonte degradada. Com uma chave de madeira abriu a porta, depois de ter trepado os degraus de uma escada de mármore. No interior havia um relógio britânico, um piano, numerosas almofadas, esteiras, tapetes, um candeeiro de petróleo, uma braseira, um forno de pão, em barro, e uma banheira metálica, numa palavra, o conforto necessário. Alguns buracos no telhado exigiam uma reparação; mas havia tarefa mais urgente: escolher um reis, um chefe de equipe corajoso e competente.

            Bateram; Carter abriu.

            — Tu, Ahmed Girigar, meu amigo!

            — Sobrevivi e estou pronto a trabalhar consigo. A sorte sorriu-me de novo. Convém organizar aqui a sua existência; terá necessidade de um secretário, de um palafreneiro, de um cozinheiro, de um porteiro, de um carregador de água, de um...

            — Não, Ahmed; não preciso de ajuda.

            — Não é nada próprio; como não conseguirei fazê-lo mudar de opinião, ocupar-me-ei de si. É inútil tentar dissuadir-me: também sou muito teimoso.

            Os dois homens abraçaram-se.

            — A partir desta noite, arrume os seus fatos com cuidado e principalmente do direito. Os demônios da noite podiam entrar para dentro deles e impedi-lo-iam de se levantar.

            — E shams, effendil O sol, senhor!

            Ahmed Girigar trazia o café e um cachimbo, a fim de que Carter se levantasse com o pé direito.

            O arqueólogo estava tão impaciente que engoliu depressa demais o pequeno-almoço; depois de se arranjar rapidamente, subiu para o burro que o

conduziria ao Vale. O novo senhor do sítio tinha-se vestido cuidadosamente para a sua aparição em frente dos seus operários: fato de lã de três peças, lacinho borboleta às pintas, lenço de peito branco, chapéu de abas largas e cigarreira. Ahmed Girigar mostrara-se à altura da sua reputação; uma longa procissão de portadores de cestos esperava ordens à entrada do Vale. Ainda não tinham tirado os seus galabiehs, cantavam e falavam alto.

            — Negociei seis dias de trabalho por semana precisou o reis repouso à sexta-feira. Onde quer escavar?

            Carter pensou no plano abandonado que tinha apanhado na casa de apoio de Davis, transformada em reserva de antiguidades! Graças às anotações da equipe do americano, tinha completado o seu próprio plano, refletido longamente e tomado uma decisão: abriria um campo onde Davis tinha parado a sua exploração, exatamente no triângulo definido pelas tumbas de Ramsès II, Merenptah e Ramsés VI. Estava persuadido de que, nas montanhas de destroços acumulados no decorrer das escavações anteriores, encontraria numerosos objetos destinados à coleção privada de Carnarvon, e talvez os indícios que o orientariam em direção à tumba de Tutankhamon.

            Carnarvon, sensível aos argumentos de Carter, deu o seu acordo. Saber que a mais bela e a mais louca empresa da sua existência começava em terra distante, sob o Sol dos deuses, restituiu-lhe o vigor; na tormenta, o horizonte aclarava.

            Uma comoção intensa apoderou-se de Howard Carter quando viu a longa fila de operários em trajes menores pôr-se em andamento, uns enchendo os cabazes e os cestos de cascalho, os outros esvaziando-os; um aguadeiro, com o odre ao ombro, ia de trabalhador em trabalhador.

            Cantos ritmavam a manobra lenta e regular, que o reis vigiava, sendo as suas ordens seguidas à risca. Descalços, com o corpo coberto de suor, esses homens ganhavam alguns pennies por dia e consideravam-se bem pagos; os mais experientes usavam alviões, a fim de atacarem os montes artificiais. Do

Serviço de Antiguidades, ainda órfão depois da morte de Maspero, Carter obtivera um; nas calhas pré-fabricadas, os operário se empurravam a vagoneta aberta e com básculo. A pequena via férrea podia ser facilmente deslocada, segundo as exigências da escavação em curso, e facilitava a evacuação dos destroços para fora da área estudada e, principalmente, fora do próprio Vale, para um lugar já explorado. Desaterros, dejetos, blocos rejeitados... eis o que apavorava Carter. Os seus antecessores não se tinham preocupado senão em escavar à pressa, e às cegas, sem se preocuparem em limpar o Vale agora atafulhado de massas de terra e de pedras.

            O primeiro mês de trabalho desenrolou-se em condições penosas; frio vivo de manhãzinha, calor sufocante ao meio-dia, poeira que se colava à roupa e à pele. Um cálculo aproximado não fez recuar Carter; seria preciso deslocar várias centenas de milhares de metros cúbicos de areia e de cascalho, a fim de se conseguir uma proeza que nenhum arqueólogo tinha tentado antes dele: atingir a própria rocha, o chão mineral do Vale, e assegurar-se assim que nenhuma entrada do túmulo lhe escaparia.

            Logo que um objeto aparecia, logo que um fragmento antigo emergia do magma, Carter anotava a sua descrição na primeira lista exaustiva que nenhum arqueólogo alguma vez pensou em elaborar de maneira tão precisa. Os ostraca, pedaços de calcário que serviam de modelo aos aprendizes de escribas, nunca tinham registado, infelizmente, qualquer indicação sobre Tutankhamon.

            No princípio de 1918, o campo parecia organizado na perfeição; mas Ahmed Girigar arvorava uma cara preocupada, Carter interrogou-o.

            — Alguns operários querem interromper o trabalho.

            — Porquê?

            — Porque está sempre presente... Normalmente, os arqueólogos não vêm ao terreno tantas vezes e durante tanto tempo.

            — Eles habituam-se. E que mais?

            — Os objetos... Habitualmente, retiram uma parte que tornam a vender. Os seus colegas fechavam os olhos.

            — Comigo é diferente; têm de renunciar a roubar.

            — Será preciso negociar.

            — Impossível, Ahmed.

            — Nesse caso, aumente-os.

            — Fixa tu mesmo a quantia e anuncia-lhes a boa notícia.

            Carter estremeceu ao examinar o plano muito antigo de uma tumba real, traçado pela mão do mestre-de-obras que o construiu. O texto hieroglífico e as lendas evocavam a “morada de ouro” onde repousava o corpo de luz de Faraó; animada pelas cores dos frescos e a presença da enéada divina, abrigava um sarcófago que protegia as capelas. Como imaginar os tesouros acumulados, uma vez que todas as tumbas do Vale tinham sido violadas?

            Todas menos uma.

            Carter tinha interrogado os vendedores de antiguidades, desde os ladrõezitos de Gurnah até aos antiquários com casa própria. Nenhuma peça do mobiliário fúnebre de Tutankhamon estava em circulação: por conseqüência, ninguém tinha pilhado a sepultura.

            O arqueólogo dormia pouco; pensava no trabalho do dia seguinte, numa melhor utilização da estaca e do cordel, à maneira dos antigos, a fim de respeitar proporções e distâncias entre os monumentos, e em melhor compreender os dispositivos do Vale. Em cada dia, era preciso aprender a pensar como o arquiteto egípcio, a viver como ele a alma da pedra.

            Sentado no terraço da casa de apoio, Carter divisou um estranho personagem que subia o atalho quando o Sol declinava. O colosso barbudo cansava-se; os últimos raios faziam reluzir o vermelho das suas calças. A sinistra sobrecasaca preta suscitava a imagem de um predador em busca da presa. Arquejando, imobilizou-se a alguns passos de Carter.

            — Gostaria de lhe falar.

            — Já o encontrei em Luxor... quem é o senhor?

            — Demóstenes, mercador de antiguidades.

            Carter ofereceu um assento ao visitante noturno.

            — Quer beber alguma coisa?

            — Alguma coisa forte.

            — Lamento, só tenho água.

            — Paciência.

            — Estou ocupado, senhor Demóstenes; poderia indicar-me as razões da sua diligência?

            — Aqui tudo é tão calmo, tão tranqüilo... ninguém diria que está em perigo.

            Carter ajustou o lacinho.

            — Ameaças?

            O colosso protestou com bonomia.

            — Preferivelmente, informações confidenciais. O senhor não tem só amigos.

            — Surpreende-me.

            — Eu, sou um amigo; pode dar-me a sua confiança.

            — De que perigo fala?

            Demóstenes pareceu embaraçado.

            — Prejudica o pequeno e o grande comércio... A sua equipe de operários tornou-se incorruptível, o seu reis só crê em si, e o Vale está interdito ao negócio. É uma situação extremamente embaraçosa, senhor Carter; se entrássemos num acordo, evitar-lhe-ia muitos aborrecimentos.

            — Não entendo muito bem a sua posição... Desejaria ser contratado como escavador?

            As sobrancelhas de Demóstenes franziram-se.

            — Assim não se safa, Carter. Tem de me vender objetos; depois, farei calar a concorrência.

            — A moral científica proíbe-mo.

            — Em arqueologia nunca houve moral. Tudo se comprou e tudo se vendeu.

            — Menos eu, caro senhor. Tenha a bondade de tornar a descer esse caminho o mais depressa possível; se bem que não tenhamos a mesma categoria no boxe, eu apostaria contudo na minha rapidez e na precisão dos meus golpes.

            Demóstenes recuou.

            — Não tem razão, Carter; neste mundo, a integridade nunca triunfa.

            — Não é preciso esperar para empreender, nem conseguir para perseverar.

            — Ficará desfeito.

            Os operários prostaram-se na direção de Meca, tocaram no chão com o nariz e a testa e pronunciaram as palavras rituais: “Deus é o maior, louvo a Sua perfeição”; depois deitaram um olhar por cima dos ombros para venerarem os anjos caídos.

            Um homem de bela estatura, fino e elegante, com rosto de uma beleza antiga, ornado de uma cabeleira, de um bigode e de uma barba branca, esperou pelo fim de uma oração antes de atravessar o campo e de ir cumprimentar Howard Carter.

            — Parabéns, é muito tolerante.

            — Julgo que ainda não fomos apresentados.

            — Conheço-o bem, senhor Carter; o meu ilustre antecessor, Gaston Maspero, falou-me freqüentemente de si.

            Carter inteiriçou-se. O homem dos olhos muito vivos, enterrados nas órbitas, era, pois, o novo diretor do Serviço das Antiguidades, Pierre Lacau, de cuja recente nomeação fora informado.

            Corriam numerosos rumores a seu respeito; alma danada dos jesuítas, apaixonado de administração e de regulamentação, erudito de memória excepcional, lia os textos mais árduos com uma desconcertante facilidade. Untuoso, meticuloso, de uma calma inalterável, não se parecia nada com Maspero, que o tinha, contudo, designado como sucessor, em virtude das suas

competências técnicas.

            Carter soube também que Lacau seria um inimigo temível. A sua frieza tornou-o repelente à primeira vista.

            — Disseram-me que tinha empreendido uma vasta campanha.

            — Pode verificá-lo, senhor diretor.

            — Quais são os seus objetivos?

            — Fazer falar o Vale.

            — Acredita na existência de uma sepultura inviolada?

            — Existem presunções.

            — Em caso de descoberta, será necessário avisar-me imediatamente.

            — Cortesia elementar.

            — Não, meu caro colega: obrigação profissional. A minha posição é muito delicada.

            — Porquê?

            — Maspero era um homem muito generoso, demasiado generoso... não contesto a sua autorização, mas os tempos mudam e devo zelar pelas riquezas que saem do solo egípcio.

            — Seja mais claro.

            — Ora bem... a divisão das peças históricas parece-me ser uma heresia. O conteúdo de uma tumba real, intacta ou devastada, não deverá pertencer ao

serviço?

            — Lord Carnarvon investiu muito dinheiro nas escavações que eu dirijo; foi-lhe prometido uma indenização sob a forma de obras de arte.

            — Decerto, decerto... mas esses hábitos deploráveis devem cessar. Mesmo as peças dobradas deverão ficar no Egito.

            — Que pensa conceder ao conde?

            — Mas... o prestígio, senhor Carter, o prestígio! Já é muito.

            — Receio que não vá ficar nada satisfeito com os seus futuros regulamentos.

            — Futuros... mas em vigor dentro em breve. Conto consigo para os mandar aplicar de forma escrupulosa.

            — Senão?

            O olhar de Pierre Lacau tornou-se penetrante.

            — Não tem boa reputação junto dos egiptólogos, senhor Carter, consideram-no demasiado independente, revolucionário, mesmo... e o seu percurso aparece um tanto caótico. Ninguém lhe nega competência, embora os seus projetos sejam um pouco levianos.

            — A minha carreira tê-lo-á intrigado?

            — Eu guardo listas e redijo fichas, muitas listas e muitas fichas; é o único método científico que permite estar informado.

            — Nunca me teria dado esta concessão, pois não?

            — Gaston Maspero mostrava-se demasiado liberal para com os arqueólogos estrangeiros, mas o que está feito, está feito. O importante será respeitar os novos regulamentos. Estou persuadido de que a nossa colaboração será frutuosa. Até breve, senhor Carter.

 

            Muito atento aos relatórios de Carter, Carnavon não tardou em reagir. Uma vez que o Serviço das Antiguidades, obrigatoriamente dirigido por um francês, tentava voltar com a palavra atrás, convinha escavar um canal de derivação. Por isso, encontrando, em Londres, o diretor do Metropolitan Museum, falou com ele do futuro da sua coleção privada. Em virtude da sua fortuna, do seu conhecimento do Egito e dos seus grandes projetos, o conde aparecia como um dos maiores colecionadores do século. Revelou ao americano que Carter e ele tinham começado a acumular um verdadeiro tesouro, proveniente das escavações já efetuadas, e de negociações acerbas com mercadores de antiguidades da região tebana. Eles não desejavam dispor daqueles magníficos objetos, dos quais, os mais belos pertenciam a princesas da corte do Egito; assim, propôs ao Metropolitan Museum apresentar-se como comprador, com a maior discrição. Ainda era preciso convencer Carter, mas havia um homem que parecia designado para essa transação: Herbert Winlock.

            No fim do mês de Janeiro de 1918, um número bastante grande de turistas visitava de novo a antiga Tebas, como se a guerra tivesse acabado. Contudo, o Exército alemão não baixava a cabeça e alguns prediziam novas ofensivas mortíferas.

            Howard Carter tinha progredido. Junto da tumba de Ramsés VI, no ângulo oriental, um buraco de uma profundidade de trinta pés testemunhava a atividade incessante da sua equipe que, ao fim de esforços consideráveis, tinha atingido o leito da rocha. Pela primeira vez, podia-se contemplar o solo do Vale tal ele se apresentava na origem. Enfurecendo-se contra os curiosos que se debruçavam com risco de partirem o pescoço, Carter mandou construir pequenos muros de proteção em torno da fossa.

            Doze pés abaixo do nível da porta de entrada da tumba de Ramsés VI, uma descoberta enigmática: lajes de pedra cobertas de troncos e de caniços que, sem dúvida alguma, eram casas de operários, construídas, de forma sumária, sobre blocos de sílex. O arqueólogo desenterrou alguns ostracas, dos quais um datava do reino de Ramsés II, pérolas de vidro, fragmentos de folha de ouro e um vaso contendo o corpo seco de uma serpente, considerada como protetora do lar.

            Essa instalação provava que os artesãos tinham trabalhado na construção de uma tumba que forçosamente se escondia por baixo; as moradas exploradas, seria, pois, preciso continuar a escavar.

            Quando ele se preparava para iniciar aquela nova fase da aventura, Carter recebeu um funcionário do Serviço das Antiguidades. Em virtude da afluência turística e das suas recaídas econômicas, pediam-lhe para não cortar o acesso à tumba de Ramsés VI, uma das mais belas e mais visitadas do Vale.

            A estação quente aproximava-se, os operários estavam cansados... Carter aceitou interromper a escavação.

            — Prazer em tornar a vê-lo, Howard.

            — Também eu, Herbert.

            Winlock e Carter almoçaram na casa da margem do Ocidente, de onde os ingleses contemplavam, com uma alegria sempre crescente, os sítios mágicos que os tinham enfeitiçado para sempre.

            — A minha proposta convém-lhe, Howard?

            — Recebi as instruções de Lord Carnarvon e conformo-me com elas.

            — Está muito obediente... Tenho a impressão de que a personalidade de Lacau não o seduziu nada e que a guerra entre a Inglaterra e a França está a ponto de recomeçar.

            — O que não é da minha vontade.

            — O Metropolitan Museum está decidido a adquirir os mais belos objetos da coleção que está a juntar para Lord Carnarvon.

            — São todos magníficos.

            — Pois bem, compraremos a totalidade. O conde falou de colares, pulseiras, taças, escaravelhos, espelhos...

            — Pode examiná-los como quiser.

            — Tenho ordem de negociar diretamente consigo e de guardar segredo até que esses objetos sejam expostos no Metropolitan.

            Os dois homens selaram o acordo erguendo o seu copo.

            — E Tutankhamon?

            — Não há, infelizmente, nenhuma pista séria. Mas está aqui perto, tenho a intuição.

            A 21 de Março de 1918, os Alemães lançaram uma ofensiva formidável, na Picardia, Carnarvon, feliz por ter consolidado a situação material de Carter graças às comissões que receberia, vendendo a pouco e pouco os objetos da sua coleção aos Americanos, duvidou da sua lucidez quando o inimigo progrediu em Flandres e sobre o Marne. O destino da guerra estava a jogar-se.

Na sua casa de apoio, guardada noite e dia por uns homens de que Ahmed Gingar garantia a honestidade, Carter tinha desdobrado o seu mapa do Vale dos Reis. Contemplava-o durante horas, verificava e tornava a verificar as suas anotações, assegurava-se que tinha coberto bem os lugares onde escavações, grandes e pequenas, tinham sido praticadas. Como escapar a uma esmagadora realidade?

            Precisaria de cavar o menor recanto, não deixar um pouco de terreno inexplorado, logo recortar o Vale por setores e não esquecer nenhum.

            Com a afeição de um pai, Carter vigiava o Vale a fim de lhe evitar aborrecimentos e depredações.

            Afirmava a si próprio que os guardas desempenhavam o melhor possível a sua missão e faziam digressões de inspeção inesperadas; na véspera, tinha expulsado um americano que, com um pote de alcatrão na mão, traçava o seu nome nas paredes de um túmulo. Esse vândalo e os seus semelhantes teriam merecido a prisão; dantes, degradar um monumento sagrado era considerado como o mais grave dos crimes.

            A Primavera viu voltar a doce Raifa que, com a paciência das mulheres do Oriente, empreendeu reconquistar o amante; mas ele pareceu-lhe mais distante, quase inacessível, mesmo se a sua paixão parecesse intacta. A egípcia duvidou da sua beleza; cuidou mais a sua maquiagem, multiplicou os artifícios da sedução, tornou-se terna como uma noiva do paraíso. Carter amava-a, mas o seu espírito permanecia longe dali. Compreendeu que a sua mais temível rival, o Vale dos Reis, se tinha apoderado do coração daquele que ela não renunciaria a defender daquelas correntes absurdas. Como podia um homem fazer amor com pedras, areia e tumbas?

            Carter examinava a localização das suas futuras escavações, quando viu acorrer Ahmed Girigar.

            O reis não tinha costume de ceder à precipitação; o caso devia ser grave.

            — Venha depressa.

            — Que se passa?

            — Um drama, em sua casa... desconheço os pormenores.

            Os dois homens treparam até à casa de apoio. Na entrada, um dos guardas enxugava o sangue que corria da cabeça do colega.

            — Surpreenderam um gatuno — explicou ele. — Tinha entrado pelas traseiras; batemo-nos, conseguiu fugir.

            — Identificou-o? — perguntou Carter.

            — Não.

            — Onde estava ele?

            — Na sala grande; tinha começado a enrolar o mapa.

            — Obrigado pela sua coragem.

            — Malech — respondeu o guarda, fatalista. — Que Deus afaste o mal.

            Carter, tenso, verificou os estragos. Nada tinha sido roubado e o mapa estava intacto.

            — Eu pago os cuidados indispensáveis ao ferido e quero um guarda suplementar atrás da casa indicou ao reis.

            — Quem é culpado?

            — É bastante fácil de adivinhar; este documento não pode interessar senão aos meus caros colegas. Querem intimidar-me e impedir-me de continuar.

            — Porque habitará o ódio no coração dos homens?

            — Malech — respondeu Carter.

 

            Em Gurnah, clãs e famílias observavam-se; a aldeia tinha as suas próprias leis e a sua própria hierarquia.

            A calma reinava quando cada um recebia o que lhe era devido; em caso de conflito, os chefes das seitas faziam reinar uma justiça sumária. Assim, em geral, ninguém pensava sair da linha. Ora, o velho Mahmud, que alimentava com dificuldade a esposa, acabava de tomar uma segunda. Por outras palavras, tinha enriquecido e ninguém sabia como. Um dos informadores da Polícia, lembrando-se que Mahmud tinha trabalhado numa equipe de operários do Vale dos Reis, achou por bem avisar os seus superiores que informaram Carter imediatamente. A origem da riqueza de Mahmud não podia ser senão rapina e, mais grave ainda, uma pilhagem de que só ele era beneficiário.

            Acompanhado de um polícia, Carter fez uma visita ao velho; como este se recusava a responder às perguntas, os inquiridores decidiram interrogar a nova esposa que trabalhava num campo.

            Assustada, fugiu e tentou atingir o embarcadouro onde o funcionário a apanhou. Histérica, gritou durante uma dezena de minutos; quando se acalmou, Carter falou-lhe com doçura.

            — É a esposa de Mahmud?

            — Sou, sou.

            — Porque não larga esse cesto?

            — É meu!

            — Queria ver o seu conteúdo.

            — Não, é meu!

            O polícia foi constrangido a intervir e arrancou-lhe o preciso objeto; no interior, havia uma pequena estatueta de madeira. Carter examinou-a com atenção.

            — É autêntica. Quem ta deu?

            — Mahmud.

            — Ordenou-te que a vendesses?

            — Sim.

            — Onde a encontrou?

            — Não sei.

            Carter e o polícia trouxeram a mulher para Gurnah; o esposo fechou-se num mutismo que nada parecia poder quebrar. O arqueólogo recorreu à última arma: comparecer diante do mudir que governava a província. A reputação do magistrado aterrorizava os seus administrados; não se afirmava que, para se livrar das quadrilhas de gatunos, mandava tapar com pequenos paus a entrada das grutas em que eles se escondiam e lançava-lhes fogo? Muitos morriam asfixiados, preferindo a morte à tortura.

            Foi um Mahmud a tremer que entrou na casa do governador. Primeiro julgou que o terrível personagem estava ausente; ao fundo da grande sala imperava uma enorme banheira de onde saíam colunas de vapor. Emergiu, subitamente, uma cabeça a escorrer água. Quando os olhos negros fixaram Mahmud, o velho soltou um grito de pavor. És um gatuno afirmou o mudir e vou cortar-te os membros.

            Mahmud ajoelhou-se.

            — Não, por piedade!

            — Se queres escapar ao castigo, indica-me a localização da tumba que pilhaste!

            O velho, de cabeça baixa, fartou-se de falar.

            Carter e Ahmed Girigar treparam em direção ao vale perdido. “Tumba inviolada”, tinha revelado o mudir; segundo Mahmud, está cheia de riquezas.” Foi por isso que o arqueólogo decidiu não prevenir ninguém antes de verificar ele próprio. De noite, munidos de cordas, os dois homens escalaram o pico rochoso que as descrições precisas do velho lhes tinham permitido identificar.

Verificaram que uma laje tinha sido colocada sobre um buraco que se enterrava na rocha; Girigar deslocou-a. Carter encordoou-se e começou a descer; a passagem tinha sido talhada de forma grosseira e terminava com uma peça minúscula donde fugiram morcegos. Nas paredes, apenas desbastadas, nenhuma marca de inscrição nem de pintura; aquela pobre cavidade nunca contivera nenhum objeto antigo. Furioso, Carter tornou a subir.

            — Mahmud troçou de nós.

            Ahmed Girigar parecia inquieto.

            — Sombras, para ali... não desçamos pelo mesmo caminho.

            Um tiro estalou, a bala raspou a orelha direita de Carter. O reis puxando a sua pistola da algibeira do galabieb, atirou na direção que lhe parecia certa e protegeu a retirada de Carter. O arqueólogo conhecia os culpados. Tinha feito mal em desdenhar do aviso de Demóstenes e tinha caído num laço organizado

de maneira notável; o velho Mahmud tinha desempenhado o seu papel na perfeição. Quem não teria acreditado nas suas confissões? Amanhã, gatunos profissionais fomentariam um novo atentado, mais maquiavélico ou mais brutal. Para pôr fim àquela ameaça, havia uma só solução: dirigir-se ao chefe dos bandidos. Por isso, Carter pediu audiência junto do chefe do clã Abd el-Rassul.

            O acolhimento foi tão solene como da primeira vez; o temível personagem ofereceu carneiro grelhado, tâmaras e leite fresco. Durante a refeição, Carter contentou-se em abordar assuntos tão neutros como a pesca no Nilo ou as dificuldades milenares da irrigação; cabia ao seu anfitrião dar os primeiros passos, o  que ele fez fumando por um cachimbo turco.

            — A sua presença honra-me, senhor Carter; agora é o senhor o dono do Vale.

            — Um sítio que requer todas as suas atenções.

            — A minha família freqüenta-o há várias gerações; temos um direito de propriedade.

            — O passado é o passado.

            — Quem não respeita o passado é indigno do presente.

            — O meu papel consiste em preservar o Vale de toda a pilhagem.

            — Desempenha-o bastante bem.

            — Demasiado bem, para o seu gosto.

            — Conhece bem os meus gostos.

            — Não me terei tornado... incômodo?

            — Há quem o afirme.

            — Não afirmam também que conviria livrarem-se de quem incomoda?

            — É muito possível.

            — O meu desaparecimento não o contraria nada.

            — A vida e a morte estão nas mãos de Alá. À mão do homem substitui-se freqüentemente à de Deus. É o destino.

            — Seria inconveniente perguntar-lhe se é o verdadeiro autor da tentativa de assassínio de que fui alvo.

            — Efetivamente.

            — Fique sabendo que prefiro morrer a renunciar.

            — Porquê tanta obstinação, senhor Carter?

            — Porque o Vale dos Reis é o meu destino; foi lá que a mão de Deus me tocou. Deixá-lo condenar-me ao nada.

            Abd el-Rassul pareceu abalado por tanta determinação.

            — Se me impede de comprar e de vender, senhor Carter, como alimentaria a minha gente?

            — A opinião geral é que o Vale está esgotado; o seu solo já não esconde mais nenhum tesouro. Os vestígios arqueológicos não lhe proporcionarão qualquer benefício.

            — Tenho uma pergunta a fazer-lhe: estenderá o seu poder a toda a margem do Ocidente?

            — Só o Vale é que me interessa.

            — Façamos um pacto: os meus homens não intervirão e ninguém ousará atacá-lo. Mas não me importunará mais, para além do seu domínio, e não tornará a chamar a Polícia.

            — Que assim seja.

            — Que Alá seja nossa testemunha.

 

            Durante a última semana de Setembro de 1918, os Aliados lançaram uma quádrupla ofensiva em Champagne, Argonne, sobre Somme e Flandres; dessa vez, Carnarvon ficou persuadido de que as tropas alemãs não resistiriam e que essa abominável guerra, em que oito milhões de homens tinham morrido, breve teria fim.

            Infelizmente, a saúde do conde não melhorava; sentia-se incapaz de suportar as fadigas de uma longa viagem. Como o Egito estava longe!... Dia após dia, Carnarvon seguiu o curso dos acontecimentos que uma sociedade camponesa, esfomeada e esgotada, agitava. Quando, a 30 de Outubro de 1918, a Turquia capitulava, o movimento nacionalista começou a organizar-se. O conde sublinhou-lhe o vigor por ocasião das suas conversas com o emissário do Foreign Office, que não deixava de o consultar regularmente; prudentemente, Londres começou a contradizer alguns altos funcionários britânicos demasiadamente rígidos. Os velhos residentes de pulso de ferro tinham a espinha exageradamente dura para preparar o futuro.

            Depois do armistício, assinado a 11 de Novembro, em Rethondes, o Egito lembrou-se de que tinha ficado fiel aos Aliados; o sultão Fuad não escondeu a sua ambição de obter uma rápida independência no fim das negociações com a Inglaterra. Saad Zaghlul assumiu a chefia de uma delegação de compatriotas, o Wafd, que pediu ao auto comissário britânico a autorização para ir a Londres, a fim de solicitar a libertação do Egito. À maneira de resposta, foi deportado para Malta.

            Carnarvon, que lutava tanto quanto possível contra a epidemia mundial de gripe, lamentou essa decisão e multiplicou as medidas de prudência; a Primeira Guerra Mundial tinha quebrado uma ordem internacional que alguns julgavam inabalável e modificou as mentalidades em profundidade. Em que tormenta se encontraria o Egito?

            — É preciso compor as coisas — disse Ahmed Girigar. Carter dominou a sua cólera.

            — Compor... o que é que isso significa? Os meus operários são os mais bem pagos do país!

            — Não é só uma questão de dinheiro.

            — Eu respeito os homens, Ahmed; será que me comportei como um tirano?

            — É exigente, mas justo.

            — Nesse caso, porquê interromper o trabalho?

            — O país está exposto a convulsões; os meus compatriotas querem a independência.

            — Não me preocupo com política... e o Vale não quer saber disso!

            — A repressão não extinguiu as aspirações do povo; decuplou-as. Rebentaram motins aqui e ali, uma campanha de desobediência civil foi largamente seguida.

            — Em que me diz respeito toda essa agitação?

            — Esquece-se de que é estrangeiro e inglês.

            — Que aconselhas?

            — Abrande as suas atividades durante algum tempo; quando a calma tiver voltado, tornaremos a pôr a equipe a trabalhar.

            — E se a calma não voltar?

            — Deus decidirá.

            O haxixe quase não acalmou Demóstenes. Como podia o seu plano ter falhado? Sem a falta de jeito dos atiradores, Carter não estaria agora neste mundo e o tráfico teria recomeçado como dantes. O mercador ter-se-ia encarniçado de boa vontade, mas as ordens do clã Abd el-Rassul eram formais: o Vale dos Reis tornava-se um domínio reservado ao inglês. Mas ninguém proibia que se arruinasse a sua reputação.

            Demóstenes não se dirigiria a Lacau, o diretor do serviço, que teria recusado receber um indivíduo tão pouco recomendável; era-lhe preciso infiltrar-se de uma maneira mais subtil, adquirindo a confiança dos empregados subalternos. Os mais acessíveis eram inspetores locais a quem a personalidade de Carter fazia sombra; vê-lo retirar-se seria uma viva satisfação, que numerosos egiptólogos partilhariam, importunados pela independência e a capacidade de trabalho do colega. Por causa de energúmenos dessa espécie, não se acusavam os eruditos de ficarem limitados ao seu escritório em vez de conhecerem a experiência do terreno?

            A arma de Demóstenes seria o fel. Ao correr dos meses difundiria falsas informações, primeiro insignificantes, depois cada vez mais comprometedoras; o seu primeiro peixe era um inspetor egípcio de meia-idade, cuja carreira estagnava num setor medíocre do Alto Egito.

            O grego enfiou na algibeira de um funcionário um envelope cheio de notas.

            — Porquê esse gesto?

            — A sua documentação sobre as múmias foi-me preciosa.

            — Simples artigos...

            — Em Luxor, estão tão mal informados.

            — Contudo, têm o famoso Carter!

            — Um curioso arqueólogo, na verdade!

            — Curioso? Impossível, quer dizer! As suas exigências científicas são insuportáveis; se devesse divulgar a mínima peça saída da areia, onde iríamos parar?

            — Ele também tem outras preocupações.

            — Quais?

            — São apenas rumores — murmurou o grego —, mas pretende-se que vende objetos, por sua própria conta, sem prevenir Carnarvon.

            — Tem provas?

            — São apenas rumores — repetiu o grego.

            Raifa não se embalava com ilusões. Se Howard lhe concedia tantos passeios no campo, era porque as ameaças de sublevação popular lhe atrasavam o trabalho no Vale; logo que a agitação tivesse caído, voltaria para o seu verdadeiro amor.

            A deportação de Saad Zaghlul tinha acalmado numerosos espíritos, conscientes de que a Inglaterra reagiria com a maior firmeza assim que as veleidades de independência se tornassem mais ostensivas.

            Não era no Cairo que se moldava a nova ordem mundial mas em Washington, em Londres e em Paris.

            O Egito devia dobrar-se às decisões que, do exterior, lhe imporiam, mesmo se os corações mais ardentes, como o de Raifa, estivessem mortificados.

            O ano de 1919 acometeu, com o seu calor, os últimos contestatários; desembaraçar-se do peso da Inglaterra e da sua administração parecia utópico. Continuava-se a tagarelar, mesmo a conspirar, mas atirava-se com a revolução para mais tarde.

            — Quando retomarás as tuas escavações?

            —  No Outono; esta agitação fez-me perder um tempo precioso.

            — É a cólera de um povo, Howard!

            — Não me tomes por um cego, Raifa; estou consciente. Compreende o meu combate como eu compreendo o teu; a minha concessão é limitada e tenho de fazer falar o Vale.

            —  Porquê, Howard?

            — É um fogo, no mais profundo de mim, uma exigência a que não me posso subtrair. O Vale chama-me constantemente, e não consigo ainda traduzir a sua mensagem.

            — Fazes-me medo.

            — Seremos livres de escolher o nosso caminho?

            — A maioria dos seres são; tu és o servo de uma força contra a qual nada pode lutar.

            Sentaram-se à sombra das palmeiras, perto de um poço.

            — Não recuses a minha ajuda, Howard; por vezes, sinto-te tão só. A lutar contra o invisível, não dispersarás as tuas forças?

            — Um faraó dorme nas trevas do esquecimento; por vezes, creio ouvir a sua voz. O invisível... sim, tens razão, por vezes, é o invisível que me atrai, do outro lado dessa muralha de rochas e de desaterros. Passarei o obstáculo, prometo-te.

            Raifa não precisava daquela promessa; enrolou-se ternamente contra Carter e saboreou a doçura do fim do dia.

 

            Lady Almina, de acordo com o desejo do esposo, tinha organizado um jantar de treze convidados. A sala de jantar era apenas iluminada por velas. Não conhecia nenhuma das pessoas, cuja presença lhe pareceu um tanto bizarra; mulheres idosas usando vestidos sarapintados e homens barbudos. Um deles arvorava um turbante. Quando foram instalados, segundo o plano de mesa do conde, Lady Almina ousou interroga-lo em voz baixa.

            — Quem são estas pessoas?

            — Os melhores médiuns de Londres.

            — Os iluminados, em Highclere? Mas porquê...

            Carnarvon pousou o indicador nos lábios da mulher.

            — Recolhamo-nos, minha cara; o caso é sério.

            Durante o jantar, a fina flor da vidência britânica comportou-se de maneira honrosa; o conde notou mesmo uma certa propensão para a guloseima na maior parte dos seus membros. Habituado a sondar os seres com o olhar, fixando-se em certas atitudes ou gestos, depressa distinguiu dois charlatões, vários desequilibrados e um louco. Uma mulherzinha morena, que levava o seu atrevimento até parecer-se com a rainha Vitória, em velha, intrigou-o; comia pouco, falava menos ainda e olhava constantemente para a

chama de uma vela, a ponto de se hipnotizar.

            Levantada a mesa, Lord Carnarvon exibiu um plano do Vale dos Reis e uma folha em que Carter tinha inscrito em hieróglifos os nomes de Tutankhamon.

            — Concentrem-se meus amigos e chamem os espíritos. O rei, cujos nomes estão aqui, está enterrado neste sítio? Se for sim, pode precisar o local?

            Um silêncio pesado agarrou a assembléia. Uns fecharam olhos, os outros formaram um gesto de oração, outros ainda recolheram-se sobre uma bola de cristal ou cartas de Tarot. A sósia da rainha Vitória continuou a fixar a chama.

            — Este monarca é um atlante — proferiu o homem do turbante o seu corpo está escondido sob as águas.

            Como Carnarvon o tinha classificado na categoria dos charlatões a sua visão não o importunou nada; sucederam-se outras revelações do mesmo tipo, sem nenhuma relação com o Vale ou o reino de Tutankhamon.

            Subitamente, a pequena mulher morena pediu a palavra; tinha uma voz grave, que subia do ventre.

            — Um faraó... um faraó que morreu jovem... tudo brilha, tudo resplandece à sua volta... a sua alma esconde-se, escapa-nos... uma porta selada... ninguém a pode abrir, ninguém lá deve entrar! Lá está o segredo, o grande segredo!

            A vidente desmaiou e caiu no sobrado. No mesmo instante, o chefe de mesa entrou na sala de jantar.

            —  Senhor conde... acaba de ser cometido um roubo na biblioteca!

            Carnarvon abandonou os médiuns e precipitou-se para o local do crime. Um rápido exame deu-lhe a saber que o malfeitor se tinha atirado à sua coleção de objetos egípcios; desprezando os mais preciosos, só se tinha apoderado de uma folha de ouro de Tutankhamon. Lady Almina, assustada, agarrou-se ao marido.

            — Um roubo em nossa casa, é horrível! Mas quem...

            —  Ou o espírito do faraó, ou um especialista.

            Segundo informações recentes, uma indiscrição teria permitido ao British Museum conhecer o pacto secreto havido entre o conde e os americanos; o furor dos egiptólogos, que desdenhavam do trabalho de Carnarvon e do de Carter, considerado sonhador e fanático, ter-se-ia traduzido dessa forma brutal?

            Habituado à perfídia e às suas inúmeras manifestações, o senhor de Highclere julgou a hipótese plausível.

            Preferiu, contudo, crer que a alma de Tutankhamon se revoltava à idéia de ser perturbada no seu sono e fazia-lhe um sério aviso.

            Que poderia ser mais excitante?

           

            — O emissário do Foreign Office apreciou a excelência do Porto.

            — Colheita especial — lembrou Lord Carnarvon.

            — Notável.

            — A sua visita, caro amigo, significa que as minhas últimas análises foram tomadas em consideração.

            — Fizeram mesmo algum barulho.

            — Agradável ou desagradável?

            — Os dentes de alguns responsáveis dos nossos serviços secretos rangeram; para eles, o Egito não estava perto da independência.

            — Enganaram-se, como é costume; senão, a Inglaterra teria conservado o domínio do mundo.

            — Eis uma opinião quase subversiva; sabe que tem muitos inimigos?

            — Muitos inimigos ingleses, muitos amigos egípcios; são estes que terão a última palavra, creia-me.

            — Não esqueça, contudo, que é de nacionalidade inglesa, Lord Carnarvon, e que deve defender os interesses do seu país antes dos de um povo distante, com costumes tão diferentes dos nossos.

            — Ameaça disfarçada?

            — Louvamos o seu espírito crítico e a sua franqueza, mas não desejamos que ultrapasse o limite do razoável.

            — Onde o fixa?

            — Cabe-lhe ser prudente.

            — Faço o que devo: arranje-me um meio de transporte para o Egito.        

             O emissário estremeceu.

            — Torna a partir?

            — A guerra terminou e a minha saúde melhora; terá esquecido que obtive a concessão do Vale dos Reis?

            — Excelente cobertura que lhes permitirá retomar múltiplos contatos com as personalidades egípcias.

            — Cobertura? Não, meu caro, mais do que isso...

            — Que quer dizer?

            — Quem ousaria falar de vocação com um alto funcionário?

           

            Carter passeava de um lado para o outro no cais do porto da Alexandria. O barco que vinha de Inglaterra estava anunciado; a bordo dele, havia Lord Carnarvon, de regresso à terra dos faraós depois de tantos anos de ausência. Carter estava ainda mais nervoso do que de costume, por causa das más notícias transmitidas pela rádio. O navio não se parecia nada com um paquete de cruzeiro; tratava-se de um barco de transporte de tropas, munido de um pára-minas mas desprovido de qualquer conforto. Tinham-se arranjado à pressa uns camarotes estreitos sem ter havido tempo de proceder a uma limpeza em regra e a uma indispensável desinfecção. Numerosos viajantes tinham estado gravemente doentes durante a travessia e falava-se mesmo de duas mortes; por isso, Carter, conhecendo a saúde medíocre do conde, roia de inquietação. Por causa de um tempo horroroso no Mediterrâneo, o barco tinha-se demorado e, durante um dia, as autoridades portuárias tinham mesmo temido um naufrágio. Mas o canto das sereias anunciava enfim a chegada! O rebocador entrou em ação e, rapidamente, os primeiros passageiros desembarcaram.

            Na confusão, Carter procurou em vão Carnarvon. Reencontravam-se famílias, pais abraçavam os filhos, mulheres os maridos; a alegria estalava, sem comedimento. Tinha decorrido perto de uma hora; o vazio da passarela oferecia o mais consternador dos espetáculos. O conde não tinha, pois, sobrevivido e aquele barco degradado formava a mais sinistra das mortalhas.

            Provavelmente, jazia no seu camarote, incapaz de se levantar? No momento em que Carter se decidia a subir para bordo, avistou Lord Carnarvon.

            Muito frágil, de andar hesitante, tinha no rosto as marcas de um profundo cansaço; a mão direita levantou o chapéu de abas largas, destapando os cabelos loiro-ruivos que flutuaram um instante ao vento. Lord Carnarvon jogava sempre com aquela elegância natural que fazia dele um personagem insubstituível; sob a carapaça do aristocrata transparecia a generosidade e a paixão.

            Susie correu para Carter que a acariciou com ternura.

            Apesar da felicidade que sentiu com aqueles reencontros, foi um outro sentimento que o invadiu.

            Carnarvon não estava só.

            Vinha de braço dado com uma esplendorosa jovem.

 

            O casal desceu lentamente a passarela. Um chapéu preto em forma de sineta escondia a cabeleira da rapariga de rosto radioso, apenas saído da infância; o casaco cinzento de grandes bandas, pesado e austero, era contudo acrescido de um decote que deixava adivinhar formas encantadoras. A saia comprida e as meias pretas ainda aumentavam a seriedade excessiva do conjunto.

            — Estou feliz por vê-lo, Howard; esta é a minha filha, Lady Evelyn.

            Os grandes olhos negros cativaram o olhar de Carter. Como podia uma mulher ser ao mesmo tempo, tão bela e tão terna, tão pudica e tão atraente?

            — Então, Howard, será que perdeu a língua no Vale?

            — Perdoe-me... a emoção.

            — Muito prazer em conhecê-lo, senhor Carter; o meu pai não fala senão de si em Highclere, e desse rei misterioso de que esqueci o nome.

            — Viajar é indispensável para conhecer bem a humanidade; foi por isso que decidi trazer Eve. — Susie estava de acordo.

            — Não teria sido eu que insisti, ao ponto de gastar a sua paciência lendária?

            — Esse ponto é muito delicado para ser tratado a correr.

             Entre o pai e a filha reinava uma cumplicidade risonha; Carter sentiu-se estúpido, incapaz de encontrar a palavra certa! Relatou, com precipitação, os seus últimos trabalhos no Vale, enquanto os carregadores se ocupavam das bagagens.

            — Lady Evelyn, deseja ver os mais belos sítios do país?

            — Estou com calor — confessou ela. — Mas como vestir-me de outra maneira? Li que uma mulher se devia dissimular sob fatos espessos e até velar o rosto.

            — Só as camponesas são muito estritas, em certos campos muito recuados. Na cidade, os fatos europeus não chocam ninguém.

            — Maravilhoso! Tive razão de encher as minhas malas.

            — Eu optei por outros conteúdos — revelou o conde — , depois destes anos de privação, sonhei que mesmo um arqueólogo tão exigente como Howard Carter não desdenharia de alguns prazeres simples. A nossa casa de apoio breve estará equipada com vinho francês, conhaque, cerveja inglesa, tabaco e do melhor café; quando nos batemos contra o mistério, é preciso ganhar forças.

            Do Cairo a Medinet el-Faium, Lord Carnarvon e a filha beneficiaram de uma viatura com motor, conduzida por um motorista tão depressa hesitante, como audacioso; depois, o conde escolheu uma carruagem em bom estado, puxada por cavalos bem tratados.

            — Onde me leva? —  perguntou ela, perdida numa multidão barulhenta.

            — Ao paraíso.

            Logo que saiu da cidade, onde canais tornados esgotos faziam reinar um cheiro pestilencial, o carro meteu por caminhos de terra batida, bordados de jardinzitos. A jovem admirou-se com a exuberância da paisagem, enfeitada de palmeiras-tamareiras, limoeiros, loureiros ou hibiscos; a sua surpresa foi ainda maior quando descobriu o lago Kerum, imensa reserva de água arranjada pelos faraós e de onde a província de Faium extraía a sua fertilidade.

            — Tem razão... o paraíso deve parecer-se com este lugar.

            Almoçaram à borda do lago, onde se pescavam excelentes peixes. Susie saboreou uma variedade de truta com evidente satisfação. Bruscamente, Lady Evelyn parou de comer.

            — Acolá, junto da barquinha, está um homem a tomar banho!

            Carnarvon levantou a cabeça.

            — É inegável!

            — Mas está nu!

            — Não tenho nenhuns calções para lhe fornecer. Ou mudas de lugar, ou aceitas a fatalidade.

            — Julguei que os muçulmanos tinham banido a nudez, mesmo no banho.

            — As mulheres, sim, os homens, não; sobretudo, nesta região onde conservaram velhos costumes.

            No tempo dos faraós, nadava-se nu, e trabalhava-se da mesma maneira nos campos.

            — Observar as supervivências faz parte da aprendizagem de uma futura arqueóloga, não é verdade?

            — Não mudarei de lugar.

            O conde levou a filha a sítios que os turistas não freqüentavam, como o templo de Medinet Maadi, admirável vestígio de uma grande cidade escondida nas areias, ou o santuário ptolomaico de Kasr Karum, de pedras loiras e quentes. Erraram nas margens do lago, mataram a sede à sombra das palmeiras e foram acolhidos em várias moradas da aldeia onde lhes ofereceram bolinhos e chá de menta.

            — O senhor Carter parecia zangado por o ver —  partir observou ela.

            — Zangado é uma grande palavra; desejava mostrar-te, o mais depressa possível, o Vale. O que é que eu estou a dizer?! ... o seu Vale.

            — Quando iremos lá?

            — Breve. Quis preparar-te para esse choque, fazendo-te experimentar as maravilhas deste país. O Vale é outro mundo feroz, hostil e grandioso.

            — Dir-se-ia que lhe faz medo!

            — Um pouco, confesso. Só fala de morte e de eternidade em termos tão fortes que a alma fica cativada.

            A alguns quilômetros ao norte de Medinet el-Faium, camponeses armados de forquilhas fizeram parar a carruagem. Estabeleceu-se um diálogo muito vivo entre eles e o cocheiro. Carnarvon, que falava mal o árabe mas compreendia numerosos termos, percebeu o essencial. Um motim. Os independentistas molestaram polícias e querem atacar estrangeiros.

            Lady Evelyn apertou o braço do pai.

            O cocheiro propôs ao conde mudar de estrada e continuar a pé, se fosse preciso; em várias aglomerações, a cólera do povo estalava. O paraíso tingia-se de sangue.

            Lord Carnarvon foi recebido por um colaborador próximo do marechal Allenby, o auto comissário que reinava no Egito.

            — Não controlarão os movimentos da multidão durante muito tempo predisse o conde.

            — Não seja tão pessimista.

            — Acalme o jogo, ou abrasar-se-á o país inteiro.

            — Que propõe?

            — Liberte Zaghlul.

            — Nem pense nisso.

            — Fez dele um mártir; os discursos dos seus partidários são cada vez mais violentos.

            — Se sai da prisão, não conseguiremos pará-lo.

            — Pelo contrário, esgotar-se-á.

            — Aposta bem perigosa.

            — É a única saída possível. Zaghlul é muito mais temível na prisão; e não é a nossa única preocupação.

            O funcionário, já contrariado, retratou-se mais.

            — Seja mais explícito.

            — A dívida do Egito permanece considerável; os países vencidos, Alemanha, Áustria e Hungria, já não fazem parte da Caixa encarregada de a gerir. Por causa da Revolução, a Rússia retirou-se; restam os Italianos, os Franceses e nós. Se não exagero, esse triunvirato não durará muito tempo; será preciso um vencedor.

            — Segredo de Estado, Lord Carnarvon.

            — Segredo de Polichinelo. Se a Inglaterra não quer cair no ridículo, ela que restabeleça a paz.

            Carter, despeitado, sentiu-se só. Carnarvon e a filha, ocupados no Cairo, não concediam interesse algum aos seus trabalhos. Uma calma precária, ao voltar ao Alto Egito, tinha-lhe contudo permitido retomar as suas escavações em torno da tumba de Ramsés IV, depois em frente da de Tutmés III, mas as primeiras sondagens não forneciam nenhuma pista interessante.

            No fim de uma semana decepcionante, Carter passeava ao longo do Nilo, em Luxor, quando foi abordado por um dos mais famosos mercadores de antiguidades clandestinas da margem de oeste, um homem jovem e barbeado, pertencente ao clã de Abd el-Rassul.

            — Tinha-lhe prometido um lote de escaravelhos.

            — Exatamente.

            — Agora, já não tenho medo de ser denunciado, dado que me prometeu não avisar a Polícia.

            — Na condição de nem um só objeto sair do Vale dos Reis.

            — Maldito seja quem trai a sua palavra.

            — Onde estão os teus escaravelhos?

            — Já não os tenho; um outro comprador propôs-me um; preço melhor.     — Se os quiser, terá de me pagar o dobro.

            — Quem se permitiu...

            — Não se zangue, senhor Carter. O comércio está assim. Espero a sua resposta até amanhã.

            Estupefato, Carter seguiu o mercador a boa distância. Quem se divertiria a fazer subir os preços daquela maneira, e a intervir nas relações estabelecidas há muito tempo e só capazes de salvar alguns objetos?

            O homem entrou no Winter Palace; saiu de lá alguns minutos mais tarde com um americano que Carter reconheceu imediatamente: Herbert Winlock! O inglês continuou a sua espionagem e esperou que a conversa terminasse para abordar o amigo.

            — Perdoe a minha brutalidade, Herbert, mas aquele tipo propôs-lhe um lote de escaravelhos?

            — Propôs, mas...

            — Pertencem a Lord Carnarvon.

            O americano apalpou as bochechas, divertido.

            — Por outras palavras, esse bandidozito procura interromper o circuito normal e pôr-nos um contra o outro.

            — Receio que sim.

            — Vou, portanto, devolver-lhe. O Metropolitan Museum comprometeu-se a não atrapalhar em nada as transações do seu patrão, na condição de que a mais bela parte da sua coleção volte para nós; não tem de que se queixar, julgo eu?

            —  A comissão que eu recebo põe-me ao abrigo da necessidade durante algum tempo.

            — Melhor. Não tenha receio; a regra do jogo permanece sem alteração. — Aqui para nós, diverte-me bater os ingleses no seu próprio terreno e de abater na sombra o British Museum.

            Winlock corou.

            — Desculpe... esquecia-me de que é inglês.

            Carter não protestou.   Inglês, ainda o seria?

            Carnarvon triunfou modestamente. A libertação do líder independentista tinha acalmado os espíritos; Zaghlul discorria livremente e com veemência, as palavras sobrepunham-se à ação. Ao sair do escritório do alto-comissário, onde o tinham encorajado vivamente a prosseguir a sua tarefa, o conde sentiu as pernas fugirem-lhe. O coração falhou e começou a respirar mal. O plantão correu em seu socorro. Susie ladrou.

            — Chamem a minha filha. Depressa...

            No barco de regresso, Evelyn tratou do pai que teria de sofrer uma intervenção cirúrgica em Inglaterra.

            Evelyn lutou contra o desespero que o ameaçava.

            — Carter deve estar desencorajado — disse ele. — Vinha trazer-lhe o meu apoio e nem a Luxor chegamos.

            — Não passa de um adiamento; logo que esteja de pé, voltaremos. O Egito fascina-me tanto quanto a si.

 

            Durante todo o mês de Janeiro de 1920, Carter deslocou os montes de destroços que atafulhavam os contornos da tumba; de Merenptah, filho e sucessor de Ramsés II. Graças aos carris, o trabalho avançou depressa. Em frente da entrada da tumba, de Ramsés IV, Carter descobriu cinco depósitos de alicerces, que continham utensílios em miniatura, pérolas, placas de faiança, e quatro grandes fossas fechadas. Um tal dispositivo deixava esperar que se tratasse de um esconderijo; infelizmente estavam vazios.

            Carter batia o pé. Não podia acusar-se senão a ele, dado que não lhe faltavam homens nem material.

            Tantos esforços despendidos para tão magros resultados... Apesar da sua obstinação e do seu sentido do método, estava longe de igualar as provas de Theodore Davis. Por momentos, desesperava; não precisaria de se render às razões da quase totalidade dos egiptólogos, persuadidos de que o Vale estava esgotado?

            A deterioração da saúde do conde agravava o sentimento de fracasso; tudo se ligava contra o arqueólogo, Carnarvon acreditava ainda num grande sucesso? Não se tinha sequer dado ao trabalho de levar a filha a Luxor.

            Um telegrama, recebido a 24 de Janeiro, fez Howard lamentar ter duvidado do patrão: Carnarvon anunciava a sua chegada a meio de Fevereiro. O arqueólogo convocou imediatamente Ahmed Girigar e pediu-lhe que redobrasse o ritmo; seria concedido um prêmio especial aos operários, a fim de desimpedirem os contornos da tumba de Ramsés II, onde podiam estar dissimulados objetos preciosos.

            Quando o conde se apresentasse no campo, Carter não teria as mãos vazias.

           

            Lady Almina repudiou o Egito a partir dos seus primeiros passos na terra dos faraós. “O mais belo país do mundo”, segundo a expressão do marido, não passava de um gigantesco reservatório de moscas onde reinava um Sol insuportável e onde sopraram ventos que transportavam poeira e faziam enxaquecas. Que encanto se poderia encontrar nessas extensões planas, onde palmeiras franzinas lutavam contra a seca, nesses desertos escaldantes e inóspitos, nesses jardinzitos miseráveis e mal-amanhados, que desculpas se podiam conceder àquelas pessoas preguiçosas e sujas que passavam todo o seu tempo sentadas a fumar cachimbo?

            Quanto mais descia para o Sul, menos Lady Almina esperava uma chuva aturada e vales verdejantes. Enfiada numa saia de lã, não parava de se queixar.

            — É indispensável ir a Luxor?

            — Felizmente, é.

            — Felizmente! Como é que podem apreciar esta região e os selvagens que nela habitam?

            — Sabe que nos consideram analfabetos?

            Lady Almina sobressaltou-se.

            — Com que direito, santo Deus!

            — Aos olhos deles, fazemos tudo ao contrário; andamos com sapatos nos lugares santos, tiramos os chapéus dentro de casa e, principalmente, escrevemos no sentido errado, da esquerda para a direita, enquanto um letrado redige da direita para a esquerda.

            — Esses argumentos são tão absurdos que prefiro calar-me.

            As proximidades do Vale dos Reis apavoraram a esposa de Lord Carnarvon. O caos de rochas, o aspecto impiedoso das falésias esmagadas de sol e o silêncio mineral deram-lhe o sentimento de sair do mundo dos vivos e de entrar num universo resolutamente hostil onde ela não tinha lugar. Quando Howard Carter veio ao seu encontro, pareceu-lhe a aparição de um demônio surgido de uma das tumbas escavadas no rochedo; o impecável fato de três peças, o lacinho borboleta às pintas e o ar do personagem tranqüilizaram-na. Lidava com um compatriota, ilhota de civilização naquela desolação.

            Saudações e apresentações foram feitas segundo o costume, Lady Evelyn, conservou-se ligeiramente afastada; depois, seguido de Susie, Carter fez o trio visitar a tumba de Séti I.

            Aconselhou a Lady Almina que remetesse a um operário o seu pesado  capacete colonial, munido de um véu, mas ela recusou secamente. Com um elegante fato de cabedal envernizado e coberta de jóias, avançava com dificuldade por causa dos saltos altos. Lady Evelyn, que tinha prevenido a mãe que se tratava de uma excursão no deserto e não um garden-party, contentara-se com uma camisola decotada, uma saia escocesa e uma sombrinha.

            Carter descreveu com entusiasmo a viagem do Sol no outro mundo, e as suas transformações sucessivas, de uma morte aparente à ressurreição ofuscada.

            Intrigada, Lady Almina continuou na defensiva; uma boa cristã e uma aristocrata, nascida no país mais requintado do mundo, não tinha o direito de admirar as obras bárbaras de uma religião ultrapassada. A casa de apoio reavivou a sua animosidade.

            — Como pode viver neste quadro rebarbativo, senhor Carter? Esta morada é indigna de um gentleman!

            — É por isso que devemos melhorá-la — declarou Lady Evelyn com uma voz suave. — Amanhã serão entregues malas cheias de tapetes, mosquiteiros, cortinados e candeeiros de petróleo. Pensei mesmo numa vassourinha para lutar contra a poeira dos túmulos.

            — A nossa estada será bem mais agradável —  julgou o conde — , uma vez que os alimentos prometidos já foram encaminhados.

            — A nossa estada! —  insurgiu-se Lady Almina. — Não me vai obrigar a viver aqui?

            — Com certeza que não, minha cara; está uma suite reservada no melhor hotel de Luxor. No que me diz respeito, passarei algumas noites nesta casa.

            Lady Evelyn não ousou formular o seu desejo; como ela teria gostado, também, de passar um tempo no Vale! Tinha herdado o gosto pela aventura e pelas situações inesperadas. Quando se lhe acrescentava o perfume do mistério , sentia-se animada pela paixão de conquistar. Ser proprietária, aos vinte anos, do mais famoso sítio do Oriente, não seria o mais incrível dos milagres?

            Howard Carter verificou o vinco das calças, reapertou o laço borboleta, cortou um pêlo rebelde que desacreditava o seu bigode e desceu ao seu campo onde o esperava uma prova temível. Naquela manhã do mês de Março, devia mostrar ao Carnarvon o resultado dos seus enormes trabalhos de desimpedimento que tinham custado bem caro ao conde. O arqueólogo só tinha uma certeza: nenhuma tumba se escondia ali onde as escavações tinham sido conduzidas com o maior cuidado. Estátuas, colares de ouro, figurinhas funerárias, nada; que mostrar a Lord Carnarvon, senão o rochedo, fragmentos

de utensílios usados pelo construtor e as fundações de pequeninas casas onde trabalhavam? O triângulo delimitado pelas sombras de Ramsés VI, de Ramsés II e de Merenptah, de que Carter tanto; esperava, revelava-se estéril. Não tinha, pois, preenchido a sua primeira missão: enriquecer a coleção privada do

conde.

            A conselho da filha, Lady Almina tinha aceitado vestir-se mais levemente; sem abandonar o casaco escuro e a saia cinzenta muito severa, tinha consentido em trocar a lã pelo algodão. Por vezes, surpreendia-se a saborear o Sol de Luxor e mesmo a passear de falucho no Nilo, mas censurava-se esses momentos de abandono. A seu lado, Lady Evelyn estava deslumbrante: chapéu às flores, vestido branco, colar de pérolas, sublinhavam o brilho da sua juventude. O conde, apoiado na bengala, olhou o relógio.

            — Chegou a hora, Howard; mostre-nos as suas descobertas.

            Dentro de alguns instantes, Carter deveria defrontar a vergonha. Tentaria demonstrar o valor científico das escavações : empreendidas, com a certeza de que os Carnarvon depressa bocejariam de aborrecimento.

            A alguns passos da última cavidade escavada pela sua equipe, Ahmed Girigar murmurou algumas palavras ao ouvido de Carter.

            — Tens a certeza?

            — Tenho.

            Mais distendido, Carter fez os seus convidados caminharem ao longo do campo; as duas mulheres ficaram espantadas com a dimensão dos trabalhos, o conde permaneceu silencioso. Depois de meia hora de explicações técnicas, interrompeu o arqueólogo.

            — Essas montanhas de rocha deviam esconder objetos magníficos; estamos impacientes de os admirar.

            Carter trouxe-os até ao buraco fundo à volta do qual Ahmed Girigar tinha colocado vários guardas.

            — Vamos viver juntos a coroação de uma escavação anunciou com orgulho. Bem ao fundo, existe um esconderijo. Quer descer em primeiro lugar, Lord Carnarvon, e extrair o tesouro?

            — Esse privilégio compete-me — declarou Lady Almina, perante a estupefação geral. — Não fiz esta comprida viagem para nada; uma vez que enfiamos uma fortuna nesta região, eu é que devo apreciar as nossas aquisições.

            Lady Almina meteu-se com intrepidez no declive. Incomodado, desastrado, Carter tentou ajudá-la; ela foi mais rápida do que ele e, a custo de algumas escorregadelas, atingiu a sua finalidade.

            — Como devo proceder?

            — Pois bem... à mão.

            Sem hesitar, a aristocrata mergulhou as mãos na terra venerável, mistura de areia e de fragmentos rochosos; breve desprendeu o gargalo de um jarro. Louca de alegria, tirou-lhe toda a ganga, brandiu-o com uma exaltação que tomou a assistência.

            — Um jarro de alabastro! É esplêndido!

            Carter pegou na obra-prima. Sem esperar a sua autorização, cavou novamente. O esconderijo continha treze soberbos jarros com o nome de Ramsés II e de seu filho Merenptah. O destino acabava de salvar Howard Carter, oferecendo a Carnarvon as mais belas peças descobertas no Vale desde que ele financiava as escavações.