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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O CASTELO DAS SOMBRAS / Candace Camp
O CASTELO DAS SOMBRAS / Candace Camp

 

 

                                                                                                                                                

  

 

 

 

 

 

Em O castelo das sombras, segundo livro da Trilogia dos Aincourt, o leitor passa a conhecer a história de Richard, o duque de Cleybourne. Após perder a esposa, Caroline Aincourt, e a filha, a pequena Alana, em um trágico acidente às vésperas do Natal, Richard torna-se um homem solitário e amargo. Em profundo estado depressivo, Richard parte para seu castelo no campo. Mas, com a chegada de Jessica Maitland e Gabriela Carstairs, seus dias de autocomiseração estão contados. Pouco antes de morrer, o general Streathern, tio-avô de Gabriela, ordenou que a menina ficasse sob a custódia de Richard, que a protegeria do lorde de Vesey, seu cruel sobrinho-neto interessado em roubar a herança da prima. Com a missão de entregar a menina sã e salva para Richard, Jessica parte para o castelo do duque, afastando Gabriela de um ambiente nefasto.

Mas Richard não tem a menor intenção de ser responsável por uma órfã, até mesmo porque isso o faz lembrar a filha. Por outro lado, ele se sente cada vez mais atraído por Jessica, tornando-se vulnerável à insistência dela para que proteja a menina. Com a chegada de lorde Vesey ao castelo, a situação fica ainda mais complicada.

Ele está decidido a reivindicar a guarda de Gabriela, o que coloca Richard em uma posição desconfortável, e para complicar ainda mais, uma pessoa aparece morta. Agora, Richard e Jessica unem forças para descobrir quem é o assassino, ao mesmo tempo em que têm de resistir à paixão incontrolável que surge entre eles.

Com boas doses de suspense e sensualidade, toques de humor e personagens bem construídos, em O castelo das sombras o leitor saboreia uma história deliciosa, ambientada na Inglaterra do século XIX, escrita por Candace Camp, uma das maiores autoras de romances históricos de todos os tempos.

 

 

 

 

 

 

O duque de Cleybourne iria para casa para morrer.

Decidira isso na noite anterior, enquanto estava de pé em seu escritório, olhando para o retrato de Caroline, que Devin pintara para ele como presente de casamento. Richard fitara a pintura, e a outra, menor e menos satisfatória, da filha deles, e pensara no fato de que era dezembro e o aniversário da morte das duas estava chegando.

A carruagem derrapara, capotara na estrada escorregadia coberta de gelo e caíra no lago, quebrando a camada de gelo por cima da água. Acontecera poucos dias antes do Natal.

Ainda conseguia sentir o cheiro dos galhos de abeto que decoravam a casa para a festa. Permanecera nas narinas dele durante toda a sua doença e convalescença, como o odor en-joativo da morte, mesmo depois que os galhos foram levados para baixo e queimados.

Fazia quatro anos que isso acontecera. Sabia que a maioria das pessoas achava que ele já deveria ter superado a tragédia. As pessoas devem lamentar durante um período razoável de tempo, depois recompor-se e seguir em frente. Mas ele não fora capaz. Francamente, não tinha vontade.

Deixara sua propriedade rural, passando a morar na casa ducal em Londres, e não voltara ao castelo Cleybourne durante todo esse tempo.

Mas na noite passada, ao olhar o retrato, pensou em como estava cansado de se arrastar dia após dia, e lhe ocorrera, como um raio dourado de esperança, que não tinha de continuar assim. Não havia necessidade de viver os dias superficialmente até que Deus, em sua misericórdia, resolvesse levá-lo. Os Cleybourne eram uma família de vida longa, geralmente chegando aos 80 e, às vezes, aos 90 anos. E Richard tinha pouca fé na misericórdia de Deus.

Tinha fé nas pistolas e em sua mão firme. Seria o mensageiro de sua própria passagem e também o anjo negro da vingança.

Então, chamou o mordomo e lhe pediu para arrumar tudo para a viagem. Voltariam para o castelo, disse, e sentiu-se um pouco culpado quando o velho sorriu exultante. Os empregados, que se preocupavam com ele, ficaram satisfeitos, achando que finalmente tirara o manto de luto, e arrumaram tudo com alegria e rapidez.

E era verdade, disse para si mesmo. Acabaria com o luto. Da forma e no lugar mais adequado: onde a esposa e a filha haviam morrido, e ele não as salvara.

 

Lady Leona Vesey ficava bonita quando chorava. E estava fazendo isso agora... copiosamente. Rios de lágrimas jorravam de seus olhos e escorriam pelo rosto enquanto segurava a mão enrugada do velho homem deitado na cama.

— Ah, tio, por favor, não morra — disse ela com voz de lamentação, os lábios trêmulos.

Jessica Maitland, que estava do outro lado da cama do general Streathern, perto da sobrinha-neta dele, Gabriela, olhava fixamente para lady Vesey com desprezo. Achava que o desempenho dela era digno de um palco. Jessica tinha de admitir que Leona ficava encantadora quando chorava, um talento que Jessica suspeitava que ela passara anos aperfeiçoando. Soubera que lágrimas funcionavam muito bem com os homens. Jessica detestava lágrima, e quando não conseguia segurá-las, as liberava na solidão e na calma de seu quarto.

Claro, Jessica, uma mulher extremamente justa, tinha de admitir que lady Leona Vesey também era bonita quando não estava chorando. Era uma das belezas reinantes em Londres há alguns anos — embora fosse considerada escandalosa demais para freqüentar as melhores casas — e, se estava chegando aos últimos anos desse reinado, o brilho dourado da luz de velas no quarto escuro escondia qualquer efeito que o tempo e a vida desregrada lhe haviam causado.

Lady Vesey era opulenta, ombros delicados e seios saindo pelo decote cavado do vestido, mais adequado como traje de noite do que para visitar um velho parente doente. A pele era macia e tinha o tom do mel, complementando os cachos dourados presos no topo da cabeça e os olhos redondos cas-tanho-claros. Fazia Jessica lembrar-se de uma gata manhosa e mimada, embora se transformasse em algo parecido com uma leoa quando ficava furiosa, como ontem, quando dera um tapa em uma empregada desajeitada que derramara chá em seu vestido.

Naquele momento, Jessica quis dar um tapa em Leona, mas, sendo apenas a governanta da casa do general, manteve a boca bem fechada. Embora, em épocas normais, Jessica mantivesse a casa funcionando com eficiência, Leona não estava acima dela apenas na condição social, mas, por ser esposa do sobrinho-neto do general, também tinha algum parentesco. Desde o momento em que ela e lorde Vesey entraram na casa, Leona assumira o controle, tratando Jessica como empregada.

— Ah, tio — dizia Leona agora, enxugando as lágrimas com o lenço de renda. — Por favor, fale comigo. Fico destruída ao vê-lo dessa maneira.

Jessica sentiu Gabriela ficar tensa a seu lado, e sabia no que a menina estava pensando: que o general não tinha nenhuma relação real com lady Vesey, sendo tio-avô do marido dela, e que lady Vesey podia estar tudo menos destruída ao ver o general deitado naquela cama, prestes a morrer.

Nos seis anos em que Jessica estava na casa do general, os Vesey visitaram-no poucas vezes e, quando o faziam, geralmente as visitas eram acompanhadas de um pedido de dinheiro.

Jessica tinha poucas dúvidas de que o dinheiro os trouxera até a cabeceira do velho homem agora. Menos de uma semana antes, o general Streathern recebera uma carta contando da morte de uma velha e querida amiga. Ficara de pé e havia dado um grito muito alto. Depois erguera a mão até a cabeça e caíra no tapete. Os empregados levaram-no para a cama, onde permanece deitado desde então, inerte e aparentemente insensível a tudo e a todos à sua volta. Apoplexia, diagnosticara o médico, balançando a cabeça com tristeza, e tendo pouca esperança de recuperação, dada a idade avançada do general. Jessica tinha certeza de que os Vesey correram para a cabeceira dele porque tinham esperança de serem citados no testamento.

Jessica fizera de tudo para deixar de lado a antipatia por lorde e lady Vesey. Afinal, eram os únicos parentes vivos de Gabriela, além do general, e, como tal, sabia que era provável que lorde Vesey se tornasse tutor de Gabriela se o general realmente morresse, o que parecia mais provável a cada dia.

Dizia para si mesma que parte da antipatia por lady Vesey originava-se na beleza voluptuosa da mulher. Jessica crescera muito magra, com cabelos rebeldes cor de cenoura, os olhos e a boca muito grandes num rosto muito fino. Quando adolescente, era mais alta que todas as meninas, e a maioria dos meninos também, desengonçada e esquisita, sem esperança de ser feminina perto das moças pequenas e delicadas à sua volta. E apesar de ter se transformado em uma mulher adulta, de o rosto tornar-se cheio e suave e de o cabelo ter adquirido um tom ruivo vibrante, transformando-se assim em uma mulher extremamente atraente e escultural, Jessica ainda sentia pontadas de inveja e incomodada perto de mulheres como Leona Vesey, que usavam a feminilidade como arma.

Também admitia que prejulgara a mulher por causa das cartas de Viola Lamprey, a única amiga que ficara ao lado de Jessica durante o escândalo que envolvera seu pai. Viola casara-se um pouco tarde, mas surpreendentemente bem, tornando-se lady Eskew três anos antes, e agora vivia na nata da sociedade londrina. Ela e Viola continuaram a se corresponder por anos depois do escândalo, e Viola adorava divertir Jessica com as histórias espirituosas dos escândalos e extravagâncias dos ricos.

Lorde e lady Vesey normalmente eram alvo de fofoca. Dizia-se que ele gostava muito de mulheres jovens e que ela mantinha um caso bem "secreto" com Devin Aincourt havia mais de uma década. Poucos meses atrás, as cartas de Viola chegaram cheias das histórias que estavam circulando por Londres sobre o casamento repentino de Aincourt com uma herdeira americana e o subseqüente término, por Aincourt, não por lady Vesey, do duradouro caso. As senhoras de Londres estavam extasiadas. Leona Vesey tinha poucas amigas, já que costumava insinuar que poderia facilmente roubar-lhes os maridos ou pretendentes.

Jessica sabia que não devia julgar lady Vesey com base em fofocas. Afinal de contas, ela mesma, certamente, fora alvo de muitos comentários injustos dez anos antes. Quando os Vesey chegaram, fizera um esforço para ver lady Vesey sem preconceito e julgamento. Mas logo ficou claro para ela que a fofoca não denegrira a lady o suficiente. Leona Vesey era egoísta, vaidosa e geniosa. Desdenhava de todos que estivessem em uma posição mais baixa que a sua, e só era agradável com quem achava que poderia ajudá-la, geralmente homens. Os Vesey estavam aqui havia apenas três dias, e Jessica mal conseguia suportar ficar no mesmo cômodo que eles.

Sentiu Gabriela ficar tensa a seu lado e suspeitou que a menina estivesse prestes a soltar sua raiva sobre Leona, então deu o braço para Gabriela, lançando-lhe um olhar de advertência. Estava preocupada com o futuro de Gabriela. Se o general morresse, e se sua tutela fosse dada aos Vesey, a vida dela já seria dura o suficiente mesmo sem ter conquistado a inimizade de lady Vesey.

— Ah, por favor, tio — disse Leona, a voz ainda falhando enquanto se debruçava sobre a figura imóvel do velho, muito pálido sob a luz fraca. — Por favor, diga uma palavra de adeus para mim.

De repente, os olhos do homem se abriram. Leona soltou um leve grito e deu um pulo. O general encarou-a com olhos de falcão.

— Que diabos você está fazendo aqui? — perguntou ele, a voz mais rouca e fraca que o normal, mas com visível irritação.

— Ora, tio — disse Leona, recuperando parte da compostura, embora a voz ainda estivesse um pouco ofegante. — Vesey e eu viemos porque soubemos que o senhor estava doente. Queríamos estar com o senhor.

O velho encarou-a por um longo momento.

— Mais provável que estivessem com medo de perder a parte de vocês da propriedade. Bem, tenho novidades para você. Não vou morrer. E mesmo que fosse, não deixaria nada para você e aquele seu marido.

— Tio... — Lorde Vesey, que estava de pé um pouco atrás da esposa, tentou uma risada indulgente. — O senhor vai passar a ideia errada para as outras pessoas. Elas não sabem como o senhor gosta de piadas...

— Eu não estava falando com você — respondeu o general abruptamente, parecendo mais forte a cada momento. — Droga! Ninguém convidou vocês. Malditos inconvenientes!

— Ah, vovô! — explodiu Gabriela, incapaz de segurar-se por mais tempo. — O senhor está bem! Achamos que fosse morrer.

O general virou a cabeça e viu Gabriela de pé do outro lado da cama, Jessica atrás dela, e sorriu.

— Ora, acha que eu faria uma coisa dessas? — perguntou ele, esticando a mão para a menina.

Lágrimas jorraram dos olhos de Gabriela, e ela se inclinou para pegar a mão do tio-avô.

— Estou tão feliz que esteja bem. Estávamos com muito medo.

— Tenho certeza que estava, Gaby. — O velho homem apertou a mão dela com apenas uma fração de sua força. — Mas não precisa. Ainda estou respirando.

Olhou para o pé da cama, onde estavam o médico e o vigário da aldeia, fitando-o com perplexidade.

— Não graças a você — continuou o general Streathern, falando com o médico. — Vá embora. Vocês parecem dois corvos parados aí. Não estou morrendo.

— General, o senhor não deve se agitar — disse o médico com a voz calma. — Ficou inconsciente por quase uma semana.

— Não, não fiquei. Acordei ontem a noite, mas voltei para dormir.

— Deve ter sido o som da voz de lady Vesey que penetrou em você — disse o vigário, com um sorriso admirado na direção da mulher.

— Humm! — respondeu o general. — Bem, você era um tolo quando era jovem, Babcock, não havia por que se esperar que estivesse melhor agora que está velho. Essa voz chata mais provavelmente me mandaria embora do que me faria voltar.

— O quê!? — exclamou Leona, colocando as mãos na cintura, indignada. — Que ótimo. Deixamos Londres e viemos até este lugar esquecido por Deus só porque soubemos que estava doente. E é assim que nos agradece?

— Não pedi que viessem — disse o general, sensato. — Ninguém pediu. Vieram porque esperavam receber dinheiro. É a única razão pela qual vocês sempre colocaram os pés nesta casa, e da última vez eu disse para não voltarem. Tudo que posso dizer é que vocês são uns malditos descarados por continuarem vindo aqui. Você é uma fofoqueira coberta de musselina, Leona, e agradeço a Deus por não ser minha parente de sangue. Gostaria de poder dizer a mesma coisa do inútil com quem é casada. — Parou o discurso tempo suficiente para lançar um olhar malévolo para lorde Vesey. — Agora saiam. Não quero mais ver as caras de vocês dois.

— Talvez seja melhor voltarmos para nossos aposentos — sugeriu lorde Vesey à esposa, parecendo um pouco mais pálido do que alguns momentos antes.

— Seus aposentos? Estão hospedados aqui? — O rosto do general corou de modo alarmante.

— Ora, sim, claro — respondeu Leona. — Onde mais poderíamos ficar?

— Eu disse a vocês que não eram bem-vindos nesta casa — replicou o general, esforçando-se para sentar.

— Por favor, general, acalme-se — pediu o médico, dando a volta na cama para colocar as mãos em seus ombros e deitá-lo de novo. — Terá outra apoplexia se não se cuidar.

— Que diabo! — O general Streathern olhou para o médico, mas não teve força para desafiá-lo. — Quero os dois fora da minha casa, entenderam?

— Mas, general — protestou o vigário. — Lorde Vesey é seu sobrinho. E lady Vesey...

Ele parou de forma abrupta quando o general fixou o olhar nele.

— Esta é minha casa — disse friamente. — E eu digo quem fica e quem sai. Não me diga quem devo receber em minha casa, Babcock.

— Não, claro que não, general — disse o vigário, forçando um sorriso. — Não quis ser presunçoso. Só que... eles vieram de tão longe, e onde poderiam ficar?

— Convide-os para ficar com você, se gosta tanto deles.

O reverendo Babcock deu uma risadinha, um som que pareceu irritar ainda mais o irascível velho.

— Há uma hospedaria em Lapham — disse ele, citando a aldeia local. — Que fiquem lá se querem tanto permanecer aqui. Mas me recuso a deixar que me torturem com choro e lamentações e que deixem meus empregados descontentes. Nada pior do que ver as empregadas chorando pelos cantos porque ele está perseguindo-as e tomando liberdades ou porque ela está gritando com elas ou dando tapas. Se um homem não pode ter paz quando está prestes a morrer por uma semana, então não sei o que será do mundo.

— É claro que pode ter paz — disse o médico com calma, lançando um olhar expressivo na direção de lorde e lady Vesey. — Meu lorde...

— Sim, sim, claro. — Lorde Vesey deu um sorriso que mais parecia o rigor mortis de um defunto. — Qualquer coisa para fazer o general se sentir melhor. Lady Vesey e eu vamos embora agora mesmo.

Pegou a mão da esposa e os dois saíram do quarto. O general virou-se para Jessica.

— Jessica, certifique-se de que eles partam.

— Claro, general — disse Jessica com um sorriso. — Ficarei feliz com isso. — Olhou os outros que continuavam no quarto. — Gabriela, vigário, por que não deixam o general conversar com o médico agora?

O clérigo estava, obviamente, ansioso para deixar o quarto — se era porque temia o general ou porque esperava encontrar lady Vesey, Jessica não tinha certeza. Gabriela atravessou o corredor feliz, mantendo uma conversa constante com Jessica.

— Ah, srta. Jessie, não é maravilhoso? Eu tinha tanta certeza que o vovô ia morrer! Eu devia saber que ele era mais forte que uma apoplexia.

Jessica sorriu para a menina. Aos 14 anos, Gabriela prometia se tornar uma linda mulher. Embora ainda fosse magra e sem formas como os meninos, havia uma leveza no andar que prometia uma graça futura, a pele era fresca e cremosa, o rosto, bem-feito e brilhante, com grandes olhos cinza e nariz empinado.

Jessica estava feliz em ver sua pupila tão feliz, mas no fundo não conseguia deixar de ter dúvidas. O general podia ter acordado e parecer ele mesmo. Mas Jessica notara, mesmo que Gabriela não o notasse, que o lado esquerdo do rosto do velho homem não se movera muito enquanto ele falava, e a mão esquerda não se curvara para corresponder ao aperto de

Gabriela. Ele ficara inconsciente por algum tempo e, pelo menos, estava destinado a ficar mais fraco do que o normal. Era um homem idoso, e os idosos são sempre suscetíveis a febres e tosses, principalmente quando estão enfraquecidos por uma enfermidade.

Ela se preocupava com o general, não apenas porque gostava dele, mas também porque sua doença repentina mostrara como Gabriela era vulnerável. Menor de idade, órfã, ela poderia muito bem ser deixada à mercê de pessoas como os Vesey. Jessica cuidara de Gabriela, fora sua acompanhante, professora e confidente desde que a menina tinha oito anos, e a amava como se fosse sua própria irmã. Mas, aos olhos do mundo, era apenas uma empregada e, se o general morresse, quem quer que fosse o tutor de Gabriela poderia acabar com seu emprego, e ela não teria recursos. Preocupava-se com o assunto desde que o general adoecera.

Gabriela foi para o andar de cima prometendo estudar, algo que havia negligenciado durante a doença do tio-avô, e Jessica foi para a cozinha, onde encontrou o mordomo, Pierson, e informou-o da recuperação miraculosa do general e da subseqüente expulsão dos Vesey. Sabia que nada poderia deixar os empregados mais felizes do que estas duas notícias.

Como esperava, o mordomo ficou radiante quando ela contou o que acontecera no quarto do general e assegurou que designaria duas empregadas, e não uma, para arrumar as malas dos Vesey, e iria pessoalmente escoltá-los até a carruagem.

Jessica voltou aos quartos no andar de cima, onde ficavam seu quarto e o de Gabriela, separados por uma sala de estudo. Ao passar pelo quarto dos Vesey, escutou o som de algo quebrando, seguido pela voz furiosa e estridente de Leona e da menos estridente, mas não menos furiosa, de lorde Vesey. Jessica sorriu para si mesma e continuou a caminhar.

O médico foi embora, e pouco depois, lorde e lady Vesey também deixaram a casa. Humphrey, o criado pessoal do general, ficou ao lado do idoso o resto do dia e, naquela noite, depois de muita resistência, foi descansar enquanto Jessica, o mordomo ou a empregada assumiam o posto ao lado do leito do doente.

O general dormiu a maior parte do tempo, acordando de vez em quando, reclamando de fome e devorando, primeiro, uma tigela de consome, depois mingau e, finalmente, exigindo uma sopa substanciosa. Com cada exigência ou acesso de raiva, os empregados se acalmavam mais. O general estava ficando cada vez mais normal.

Jessica visitava o general todas as manhãs e noites, e observava melhoras todas as vezes. Estava muito feliz, não apenas por Gabriela, mas porque gostava dele. Quando foi atingida pelo escândalo, e seu pai foi expulso do exército, a maioria dos conhecidos e amigos deles, até o homem que ela achara que amava, viraram as costas para ela, menos o general Streathern. Ele foi prestar condolências quando seu pai morreu, uma cortesia que poucos outros amigos militares se dignaram a cumprir.

A morte do pai deixara Jessica sem um tostão. Recusara-se a procurar a ajuda da família do pai, que o desprezara depois do escândalo. Por um tempo, ficou com o irmão da falecida mãe, mas fora uma situação insustentável. Ele tinha cinco filhas, todas se aproximando da idade de se casar e debutando. A última coisa de que precisavam era mais uma mulher em casa, e Jessica, cujo pai a educara para ser decidida e independente, estava acostumada a administrar a casa, não apenas morar resignadamente em uma. Jessica e o tio não se davam bem, e ela logo percebera que não poderia morar com eles. Surgiram-lhe vários cargos como governanta ou acompanhante, mas geralmente era considerada jovem demais, atraente demais ou marcada demais pelo escândalo para ser contratada, e quando era, geralmente tinha de sair por causa do assédio de algum homem da casa.

Por ironia, Jessica percebera que ela, que passara a adolescência como uma menina palerma, desajeitada e feia, tinha se transformado de alguma forma em um objeto incômodo de luxúria masculina. Sabia que o desenvolvimento tardio de seu corpo tinha algo a ver com isso, mas tinha dificuldade de reconhecer que o excesso de cabelos ruivos era um atrativo para os homens, e que suas feições, que haviam sido muito grandes para o rosto, tinham amadurecido e se transformado em uma beleza atordoante. Então, de forma um tanto cínica, ela colocava a culpa por atrair os homens no fato de que não estava mais sob a proteção do pai. Em resumo, eles a desejavam porque achavam que agora era um alvo fácil; uma mulher que estava à disposição porque tinha de trabalhar para viver.

Desanimada e amarga, parou de se candidatar a cargos de governanta e tentou se sustentar com o bordado. Tinha mãos e olhos bons para o trabalho com as agulhas, e quando reprimiu seu orgulho e humildemente mostrou seus trabalhos, várias mulheres ricas pagaram por bonitos bordados. Ainda assim, era um sustento mínimo e difícil, e havia horas em que se desesperava. O inverno era a pior época, já que gastava mais, pois precisava aquecer seu pequeno quarto. Tentava economizar carvão, mas não conseguia trabalhar bem com os dedos congelando. Certo inverno, uns seis anos antes, a quantidade de bordados que conseguia produzir diminuiu, e ela ficou doente, tendo de parar de trabalhar por uma semana. De repente, viu-se à beira de um desastre, e foi forçada a pensar em voltar a morar com o tio ou mesmo pedir ajuda à teimosa família do pai.

Foi quando o general apareceu à sua porta, um improvável e grosseiro anjo de misericórdia, e lhe ofereceu um emprego como acompanhante e governanta de sua sobrinha-neta Gabriela, cujos pais tinham morrido um mês antes, deixando o general como tutor. Na mesma hora, o general pensou em Jessica, com quem mantivera contato ao longo dos anos. Na verdade, havia muito tempo que ela suspeitava que ele estava por trás de alguns bônus e presentes que recebera de clientes no decorrer dos anos. Jessica aceitou o emprego com alívio e alegria, e nunca se arrependeu da decisão.

Sua estada com o general era feliz. Logo passou a amar sua pupila e foi cuidando cada vez mais da administração da casa. Os empregados contavam com ela para receber conselhos e ordens. Logo o general percebeu sua competência e ficou feliz em deixar as "coisas de mulher" por conta dela. Jessica gostava de sua vida, e era quase como se Gabriela e o general fossem sua família. Não teria ficado mais preocupada com o idoso e mais feliz por ele estar se recuperando da doença se fosse seu próprio avô.

Após mais um dia de convalescença, o general informou a seu criado pessoal que não precisava de uma "maldita babá sentada ao meu lado e me olhando a noite inteira", e mandou que ele fosse para a cama e acabasse com a vigília noturna. Na manhã seguinte, o general mandou Humphrey procurar

Jessica e pedir que fosse a seu quarto. Ela deixou Gabriela com uma redação para fazer e foi ver o general, perguntando-se o que ele queria. Conhecendo o general, podia ser qualquer coisa, desde uma conta da casa até um jogo de xadrez para aliviar o tédio.

Nesse caso, não foi nenhum dos dois. O general Streathern estava sentado na cama, parecendo muito mais forte do que na véspera. Sorriu quando viu Jessica, e ela notou que a expressão ainda não atingia o lado esquerdo do rosto. O braço esquerdo também estava sobre o colo e não se mexia enquanto ele falava. Mas a cor estava muito melhor, e o olhar, mais alerta, e quando falou pareceu muito com o homem de antes.

— Bem, menina, você também me deu como morto? — rosnou.

— Fiquei muito preocupada — admitiu Jéssica, desconfiada.

— O senhor ficou inconsciente durante uma semana, general — comentou Jessica. Crescera dizendo o que pensava, fora a forma como o pai a treinara, e ficara muito aliviada ao perceber que o general era o mesmo tipo de homem.

Ele riu.

— Sempre posso contar com você para me dizer a verdade, Jess. — Deu um tapinha na cama. — Sente-se onde eu possa olhar para você sem quebrar meu pescoço.

Jessica sentou-se na beirada da cama, fitando-o.

— Fico muito feliz em ver que eu estava errada.

— Eu também, minha menina. — O general Streathern suspirou. — Tenho de confessar que também me assustei. Não ia admitir para aqueles miseráveis, mas sei que cheguei muito perto da morte, posso sentir isso. — Ele bateu no braço esquerdo. — Sabe, não estou com movimento completo aqui. — Balançou a cabeça. — É assustador ver seu cérebro atacando seu corpo.

— Imagino que sim. Mas o senhor está melhor agora. E talvez o braço fique mais forte.

— Espero que sim. É irritante. Mas não tão irritante quanto acordar e encontrar aquele canalha do Vesey em meu quarto. Não sei como minha irmã pôde produzir um neto daqueles. Nada errado com a filha dela, mas a linhagem dos Vesey sempre teve sangue ruim. Eu disse para Gertie que não podia sair coisa boa dali, mas não estava ao alcance dela. O genro sempre teve minhocas no lugar do cérebro.

— Sinto muito por eles estarem aqui.

— Não foi culpa sua. Mas disse ao Pierson para não deixá-los entrar de novo. Agora que ele recebeu minhas ordens, vai mantê-los fora daqui. E se ele fraquejar, você deve lembrá-lo do que eu disse.

— Pode deixar.

— Ver Vesey me deu um choque. — O general ficou quieto por um momento, olhando para as mãos. Não era o tipo de pessoa que falava dos sentimentos pessoais, um militar até a raiz dos cabelos. — Fez com que eu pensasse. Eu poderia morrer. Tenho 72 anos. Já tive muito tempo na Terra. Acho que sempre pensei que pudesse afastar isso. Mas foi pura sorte desta vez. Quando li aquela carta e soube que Millicent tinha morrido...

— Tenho certeza que deve ter sido um choque saber da morte de sua amiga.

— Foi mesmo. — A tristeza caiu sobre as feições do homem idoso. — Eu a amava, entende?

— Claro.

— Não, quero dizer que realmente a amava. Eu a amei por quase cinqüenta anos.

Surpresa, Jessica olhou intensamente para o general. Havia uma suavidade nos olhos que ela pouco vira ali.

— Ela era casada com outro homem. Não era um sujeito ruim. Eu o conhecia. Eu a conheci em uma festa de lady Albernethy. Eu tinha 34 anos na época. Não havia me casado. Estava ocupado demais com minha carreira para pensar em coisas como essas. Depois que vi Millicent, soube que nunca me casaria. Uma coisa terrível com que conviver, saber que eu ficaria extasiado se um homem bom morresse. É claro que ele morreu, muitos anos depois. Mas, na época, já estávamos velhos. Acostumados a ser amigos, com nossas vidas estabelecidas, e nenhum de nós estava disposto a abrir mão disso. Foi suficiente para nós, nos últimos anos, apenas nos vermos de vez em quando e manter a correspondência. Mas eu teria feito qualquer coisa por ela.

Ele ficou sentado, perdido em pensamentos. Jessica também continuou em silêncio, tentando absorver essa nova imagem do velho e severo militar como um devotado homem apaixonado, amando uma mulher que não podia ter.

— Ah, bem. — O general pareceu afastar os pensamentos. — Não foi por isso que a chamei aqui. Não diretamente. O fato é que, quando li aquelas linhas, senti uma dor terrível na cabeça, e depois só me lembro de acordar aqui com aquela idiota da Leona chorando em cima de mim. Agora percebo como fui presunçoso todos esses anos, achando que poderia lutar contra a morte como se ela fosse um soldado inimigo. Eu não podia fazer nada. Tive apenas sorte por voltar. Da próxima vez, posso não ter tanta sorte.

Jessica não sabia o que dizer. O general estava certo, e era difícil dar uma resposta otimista.

— Setenta e dois. Alguns diriam que já estava na hora de eu perceber que não sou invencível. — O general soltou um risinho. — A questão é Gaby. Já pensei nela em meu testamento, não se preocupe com isso. E o pai dela também deixou muitos bens. Ela terá muito dinheiro. Mas precisa de mais do que isso. Precisa de alguém que a ame.

— Ficarei com ela, general. Prometo. O senhor sabe o quanto gosto dela.

O general sorriu e Jessica ficou triste de ver como um lado do lábio dele não se curvava como o outro.

— Eu sabia que podia contar com você. Mas quero me certificar que você saiba o que fazer se algo acontecer comigo. Nomeei um tutor em meu testamento. O mesmo homem que o pai dela nomeou como sucessor se alguma coisa acontecesse comigo. Não o conheço bem, mas era amigo do pai dela e tem a reputação de ser um homem honrado. Ele cuidará do dinheiro e do bem-estar dela. Acabei de escrever uma carta para ele. Ali...

Apontou para a pequena mesa ao lado da cama, onde estava uma carta, lacrada com cera vermelha com o selo do general.

— Pegue. Quero que escolte Gaby até a casa dele se algo mais acontecer comigo. Entregue a ele essa carta, assim como o testamento. Nela, eu peço que ele continue com você. Disse que Gaby confia em você.

— Farei isso. Não se preocupe. Mas vamos esperar que não seja necessário. O senhor se recuperará e viverá para ver o casamento de Gaby, tenho certeza.

— Espero que sim. Mas ainda não disse tudo que tenho a dizer. Depois que Gaby estiver com o novo tutor, não me preocuparei. Ele é um homem poderoso e influente, o duque de Cleybourne. Vesey não conseguiria fazer nada contra ele. Mas, até lá... tenho medo de Vesey.

— Lorde Vesey? Mas, se o senhor nomear outra pessoa como tutor dela, isso certamente acabará com qualquer perigo que venha dele.

— Não contaria com isso, em se tratando daquele homem. — Os lábios do general Streathern se curvaram. — Ele é vil, e a esposa não é melhor. Não confiaria que ele não seqüestraria Gaby se tivesse a chance. Não deixei nada para ele, e ele adoraria colocar as mãos no dinheiro de Gaby. E aquela bruxa da esposa dele é capaz de virar um homem honesto do avesso com um dedo. Não confio neles. — Franziu a testa e depois continuou, devagar: — Eu não encheria seus ouvidos com esta história, mas você precisa saber a extensão da crueldade dele. O homem é um libertino, e ouvi dizer que ele tem uma... preferência por meninas. Meninas da idade de Gaby.

Jessica prendeu a respiração.

— General! O senhor quer dizer que... acha que ele...

— Não sei até que ponto ele pode ir, mas também não ficaria surpreso com a profundidade de sua depravação. Digamos apenas que seria mais seguro se ela nunca ficasse sob o controle dele, nem mesmo por um dia. — Lançou um olhar astucioso para ela por baixo das espessas sobrancelhas brancas. — Seu pai foi um dos melhores soldados que eu já comandei.

— Obrigada, general. — Jessica sentiu a emoção engasgar na garganta.

— Conto que você tenha o mesmo espírito dele.

— Espero e rezo para que eu tenha — respondeu Jessica, acrescentando com firmeza: — O senhor pode contar comigo para mantê-la longe de lorde Vesey.

— Ótimo. — Ele relaxou, recostando-se nos travesseiros. — Obrigado, Jessica. Se eu morrer, agora ou daqui a algum tempo, ele virá como um abutre. Leve-a embora daqui assim que meu testamento for lido. Deixe tudo pronto para partir. Você me entende, não é?

— Sim, sem perda de tempo. Juro para o senhor. Eu e ela partiremos imediatamente após a leitura do testamento, mesmo que isso signifique deixar a bagagem para depois.

Ele assentiu.

— Você é uma moça esperta, sensata. Sei que posso confiar em você. Leve-a para o duque de Cleybourne. A propriedade dele fica em Yorkshire, perto da cidade de Hedby, a não mais que dois dias de viagem de carruagem.

— Farei isso. — Jessica pegou a mão do homem idoso. — Mas, se Deus quiser, isso não acontecerá nos próximos anos, e Gaby já será uma mulher casada.

— Se Deus quiser.

Era tarde da noite e a casa estava escura, todos acomodados em suas camas, quando uma porta lateral se abriu em silêncio e um vulto entrou. O homem parou por um momento, imóvel e atento, depois moveu-se do mesmo modo silencioso pelo corredor até as escadas dos empregados que levavam ao segundo andar. Mais uma vez, esperou, imóvel, no topo das escadas, procurando algum som antes de seguir até a porta que procurava. Abriu-a e olhou para dentro. Não havia sinal nem do criado pessoal do general nem da enfermeira.

Entrou e fechou a porta com suavidade, depois atravessou o quarto até ficar ao lado da cama. Parou um instante, fitando o homem idoso. O general parecia tão frágil que, por um momento, ele se perguntou se isso era realmente necessário. Afinal de contas, o homem quase morrera. Sempre havia a possibilidade de que ele não recobrasse a saúde, então o general Streathern não representaria perigo para ele.

Enquanto olhava, os olhos do homem idoso abriram-se, como se ele sentisse a presença do observador. Os olhos estreitaram-se.

— Você! — exclamou com a voz áspera. — Que diabos está fazendo aqui? Eu não disse que...

— Sim, sim, eu sei — disse o homem mais jovem, baixinho. — Que nunca o incomodasse com minha presença. Mas achei melhor conversar com o senhor. As coisas mudaram.

— Sim, mudaram. — O general sentou-se encostado nos travesseiros. A visita inesperada percebeu que fazer isso foi uma luta para ele.

— Quis me certificar que o senhor não estava pensando em fazer nada tolo.

— Quer dizer revelar o que realmente aconteceu? O que o faz pensar que eu não revelaria? — respondeu o general, de forma um tanto insensata. — Não tenho mais motivos para manter segredo.

— Existe o pequeno problema de o senhor não ter trazido o problema à tona anos atrás, quando ele era importante. Não faria bem para sua imagem. Seu nome estaria arruinado.

— Talvez seja melhor assim — lembrou o velho homem com dificuldade.

— Fácil dizer quando está prestes a morrer. Por outro lado, eu tenho muitos anos pela frente e não desejo viver com a marca do escândalo.

— Seria pior que isso.

— Mesmo? Acho que não. Apenas a sua palavra contra a minha, e o senhor é um velho tolo que acabou de sofrer uma apoplexia. Todos pensariam que seu cérebro simplesmente não está mais funcionando bem.

—Ah, eles acreditariam em mim—disse o general Streathern, o desprezo e o ódio iluminando seus olhos. — Eu tenho provas.

Os olhos do outro homem estavam tão gelados quanto os do general estavam acalorados. Examinou o velho homem por um momento, depois disse:

— Bem, sinto por saber disso.

Rapidamente, pegou um travesseiro na cama e colocou sobre o rosto do velho homem. O general lutou, mas já estava fraco devido à doença, e não demorou muito até que a luta terminasse. O visitante esperou mais um longo momento, depois levantou o travesseiro e colocou-o junto com os outros. Ajeitou o homem idoso na cama de forma que não ficasse sentado, mas parecesse que morrera em paz enquanto dormia.

Olhou rapidamente em volta do quarto, e só então se deu conta: se o general realmente tivesse provas contra ele, ainda poderia estar em perigo. Contraiu o maxilar e olhou para o velho imóvel na cama, a fúria tomando conta dele. O velho idiota o deixara tão furioso que agira apressadamente. Deveria tê-lo feito revelar onde estavam e quais eram as provas antes de matá-lo.

Foi até a arca do outro lado do quarto e começou a procurar, percebendo, enquanto fazia, como seria difícil encontrar o que precisava. Para começar, havia a possibilidade de não haver prova nenhuma, de o general estar apenas blefando, querendo assustá-lo. E se o bode velho tivesse dito a verdade, ele ainda não sabia em que consistiam as provas. Era um objeto? Um papel? Independentemente do que fosse, tinha certeza que o general teria escondido em algum lugar. Um cofre era a opção mais provável, então procurou pelo quarto, mas não encontrou nenhum, sabendo, enquanto procurava, que era mais provável que o cofre ficasse no andar de baixo, no escritório ou na sala de fumo do velho, ou mesmo onde guardavam as preciosas pratarias. Encontrá-lo seria uma tarefa imensa na melhor das hipóteses. À noite, com a casa cheia de pessoas que poderiam acordar e descobri-lo, era quase impossível.

Enquanto pensava nisso, escutou o som de uma maçaneta girando. Correu para um canto escuro perto do armário e esperou, prendendo a respiração. Escutou o velho homem arrastando os pés pelo quarto e viu a luz fraca de uma vela. Felizmente, a luz não chegava perto de onde ele estava. Entretanto, conseguiu ver as feições de um homem com quase a mesma idade do general, vestindo uma camisola. O criado pessoal do general, pensou.

O empregado parou ao pé da cama e ficou ali por um momento. Depois começou a franzir a testa e foi para perto da cama para ficar ao lado do general. Prendeu a respiração e soltou um gemido baixo.

— Ah, não, ah, meu lorde, não!

Gemeu de novo, depois virou-se e saiu do quarto quase correndo.

O intruso não ficou muito atrás. Correu para a porta depois do empregado e o viu arrastando os pés com pressa pelo corredor, gemendo e gritando:

— Ele se foi! O general está morto!

O intruso não parou; apenas deslizou pelo corredor na direção oposta, em direção à escadaria principal, e saiu da casa.

 

A carruagem parou, e Jessica puxou a cortina para esquadrinhar na escuridão, uma pergunta nos lábios. Assim que viu o que estava à frente, a pergunta morreu sem ser respondida. O cocheiro parara, sem dúvida, assim como ela teria feito, por causa de um vulto enorme e escuro na frente deles. Era uma estrutura maciça de pedra cinza-escuro, obviamente construída séculos antes, em uma época de lutas freqüentes, e aumentada no decorrer dos anos até que fosse uma construção imensa, com paredes de pedra pura, ameias e torres nor-mandas. Tochas queimavam nos dois lados da entrada, pouco ajudando para diminuir a escuridão. A parte rural era dominada por sombras e presságios. Castelo Cleybourne.

Não era difícil para Jessica acreditar que era a propriedade rural de uma família rica e poderosa. Nem era difícil imaginar o lugar sendo sitiado, com máquinas de guerra tentando derrubar seus muros maciços, soldados nas ameias atirando flechas nas tropas embaixo. O mais difícil era imaginá-lo como um lugar acolhedor para se trazer uma adolescente que acabara de perder o último parente querido. Não conseguiu evitar um suspiro.

Talvez tenha sido um erro, afinal, agir apressadamente sob as ordens do general. Ficara tão emocionada quando o criado pessoal dele correra pelos corredores, espalhando a notícia de sua morte, que imediatamente começou a preparar Gabriela e a si própria para a viagem até o novo tutor da menina. A morte do general Streathern, que aconteceu logo após as palavras aparentemente proféticas dele, a deixara assustada e chocada, dando ao que ele falou uma importância sinistra. Será que ele previra que a morte viria tão rápido? Será que previra outras coisas, que o fizeram querer levar Gabriela para longe das mãos de lorde Vesey?

Ficara sentada com Gabriela o resto da noite, abraçando a menina enquanto ela chorava sua tristeza, até que finalmente caiu em um sono agitado. Jessica ficara ao lado da menina, cochilando um pouco na cadeira de balanço ao lado da cama, pensando no general e permitindo que suas próprias lágrimas rolassem pelo homem que fora tão bom com ela, ficando a seu lado quando todo o resto da sociedade a desprezara. Não chorava por alguém assim desde a morte do pai, dez anos antes.

Na manhã seguinte, revelara para Pierson, o mordomo, as últimas instruções do general, e ele imediatamente designou duas empregadas para arrumarem as roupas e outros objetos necessários de Gabriela para a viagem. Ele não teria ignorado as ordens do general de jeito nenhum, assim como os outros empregados, mas Jessica podia ver nos olhos dele que concordava com o general sobre a sensatez de afastar Gabriela de lorde Vesey.

Jessica fora providenciar seus afazeres, cuidando dos preparativos para o funeral e comunicando a todos que precisavam ser avisados sobre a morte do velho homem, incluindo lorde Vesey, na hospedaria da aldeia, mesmo que parecesse uma facada no peito pensar no provável prazer daquele homem repugnante com a notícia. Escrevera cartas aos amigos do general, contando sobre a morte dele, e outra para o duque de Cley-bourne explicando a situação, enquanto os outros empregados faziam os preparativos necessários na casa: colocar panos sobre as portas, virar os espelhos para a parede, cobrir as maçanetas das portas. Todos os momentos que sobraram, Jessica os passou com Gabriela, tentando amenizar a dor da nova morte e da separação.

A menina estava pálida e com os olhos fundos, mas calma, não cedendo às lágrimas de novo até os últimos momentos do funeral. O coração de Jessica sofria pela menina. Gabriela passara por mais tristeza do que uma menina de 14 anos deveria suportar: perder os pais aos oito anos e, agora, perder o homem que fora um avô para ela, seu único parente vivo, já que não se podia contar com lorde Vesey. Só lhe restavam Jessica e o estranho que seria seu tutor.

Apesar da tristeza da menina, Jessica sabia que tinha de explicar a ela por que tinham de partir o mais breve possível. É claro que não explicou a depravação de lorde Vesey, julgando inadequada para os ouvidos de uma jovem, assim como excessivamente assustador. Entretanto, não precisou justificar a partida. Assim que Gabriela soube que iriam embora, para evitar lorde Vesey, ficou ansiosa para partir.

— Eu o odeio — disse Gabriela com veemência. — Sei que é errado. Ele é mais velho e merece respeito... mas ele me dá arrepios. A forma como me olha... é como se uma cobra cruzasse meu caminho.

— Eu entendo. É uma analogia adequada — concordou Jessica. — Ele é um homem cruel. Seu tio-avô também achava isso. Você nunca deve ficar sozinha com ele. Se ele entrar em um lugar, você sai.

— Farei isso.

No funeral, Leona chorou de forma encantadora. Jessica perguntou-se por que a mulher se incomodava, já que o general estava morto. Será que tinha esperança de influenciar o advogado que leria o testamento? Ou será que era simplesmente incapaz de deixar passar uma oportunidade de chamar a atenção de todos?

A própria Jessica lutou para não chorar, sentando-se ao lado de Gabriela e segurando sua mão. Sabia que precisava ser forte, para o bem de Gabriela, mas não podia deixar de se lembrar da bondade que o general Streathern demonstrara para com ela, até que finalmente não conseguiu mais conter as lágrimas e chorou também, lágrimas silenciosas escorrendo pelo rosto.

Depois, na sala de visitas formal da casa do general, o advogado dele, sr. Cumpston, leu o último desejo e o testamento para eles. Jessica não se surpreendeu ao saber que o idoso deixara a casa e toda sua fortuna para Gabriela, e nada para os Vesey. Foi o que ele lhe dissera. Entretanto, ficou chocada ao saber que ele deixara para Jessica sua caixa de madeira marchetada favorita, contendo várias recordações, assim como uma quantia em dinheiro. Ela fitou o advogado, perplexa, alheia aos olhares malévolos que os Vesey lhe lançaram. Sabia que não era uma grande quantia, comparada com a fortuna de Gabriela. Tinha certeza que Leona consideraria isso uma mera esmola. Mas era suficiente, se fosse investido com sabedoria, para dar a Jessica uma forma de se sustentar pelo resto da vida. Não precisaria racionar nem poupar, e nunca mais ficaria dependente dos outros. Significava a libertação da existência dolorosa e freqüentemente humilhante na qual o escândalo com seu pai a mergulhara, e seu coração se encheu de gratidão pelo general.

Lorde e lady Vesey, como ela esperara, protestaram contra o conteúdo do testamento longa e vigorosamente.

— Sou sobrinho dele! — reclamara lorde Vesey. — Tem de haver um engano. Ele não teria deixado dinheiro para o mordomo, para o criado pessoal e... para ela... — Apontou de forma insolente para Jessica. —... e nada para um parente!

— É por sua causa! — acrescentou Leona, olhando para Jessica com ódio. — Acho que todos sabemos por que ele deixou dinheiro para você, não é? O tipo de serviço que você prestava para o velho...

— Lady Vesey! — exclamou o sr. Cumpston, chocado. — Como pode dizer isso do general? Ou da srta. Maitland?

— Com muita facilidade — retrucou Leona com desdém. — Não sou uma camponesa inocente como o senhor.

— Fui amigo do general Streathern por muitos anos — respondeu o sr. Cumpston. — Eu o conhecia bem, e sei que não havia nada vergonhoso entre ele e a srta. Maitland. Ele explicou todos os seus desejos para mim.

— Ele foi influenciado por ela! — reclamou Leona, o rosto adorável contorcido de forma bem menos encantadora. — Por ela e por aquela menina! — Apontou para Gabriela. — Elas o convenceram a nos excluir.

— Isso mesmo — concordou lorde Vesey. — Influência indevida, foi o que aconteceu. Ele era idoso e frágil. Provavelmente, não sabia o que estava fazendo. Levarei isso ao tribunal.

— Muito bem, lorde Vesey — disse o advogado com um suspiro. — Certamente pode fazer isso. Mas acho que vai simplesmente jogar seu dinheiro fora. O general estava em plena posse de suas faculdades mentais até ser acometido pela apoplexia naquele dia, e existem muitas pessoas respeitadas nesta comunidade que podem testemunhar isso. As testemunhas do testamento foram sir Roland Winfrey e o nobre sr. Ashton Cranfield, que estavam visitando o general na época. Eles também podem testemunhar a capacidade do general de saber o que estava fazendo, e acho que o senhor achará poucos que contestariam a palavra desses senhores.

Lorde Vesey deu um sorriso de escárnio, mas ficou quieto. Jessica não tinha uma opinião muito boa sobre a inteligência dele, mas suspeitava que até lorde Vesey perceberia que havia pouca esperança com dois homens tão respeitáveis como testemunhas contra ele. Leona e ele deixaram a casa logo depois, e Jessica sinceramente esperava que fosse a última vez que ela e Gabriela os veriam.

Obediente à sua promessa ao general, ela e Gabriela também partiram naquela tarde, após empacotar as últimas coisas, colocar em um baú a linda caixa de madeira que o general lhe dera e despedir-se dos empregados da casa com lágrimas nos olhos, prometendo mandar notícias quando chegassem à casa do novo tutor de Gabriela.

Viajaram a noite inteira, parando apenas para trocar os cavalos em estalagens no caminho. Ela e Gabriela dormiram da melhor forma que puderam na barulhenta carruagem, sendo acordadas com freqüência por solavancos e sobressaltos. Embora a carruagem fosse bem equipada e o mais confortável possível, era uma viagem difícil, e um alívio sempre que paravam em uma hospedaria para trocar os cavalos e podiam sair um pouco para esticar as pernas, livres do constante movimento do coche.

Agora que chegavam à fortaleza do duque, na noite seguinte, Jessica ficou mais uma vez consternada. O castelo não parecia um lugar acolhedor.

— Já chegamos? — perguntou Gaby, puxando a cortina e olhando para fora. Prendeu a respiração quando viu a sombria estrutura. — Nossa... parece algo saído de um livro... você sabe, dos romances que o vovô não gostava que eu lesse. Não parece que tem fantasmas e vilões?

— E pelo menos um monge maluco — acrescentou Jessica secamente, ficando satisfeita quando a menina soltou um risinho. — Podemos prosseguir?

— Ah, sim. Parece muito interessante.

Jessica sorriu para a menina. Era incrível como Gabriela estava lidando tão bem com a situação. Jessica tinha certeza que muitas outras moças já teriam tido um ataque de nervos, devido aos eventos dos últimos dias.

Ela mandou o cocheiro prosseguir e acomodou-se em seu lugar. Esperava que o duque de Cleybourne não ficasse ofendido pela chegada noturna. Não era a melhor hora para importunar alguém, mas esperava que ele entendesse a urgência delas. Era uma pena, pensou ela, que o pai de Gabriela e o general tivessem escolhido alguém com linhagem e classe social tão altos para ser o tutor da menina. Temia que ele fosse arrogante a ponto de ser difícil conversar com ele. Jessica fora criada em bons círculos: o irmão do pai era barão e o pai da mãe, também. Mas havia uma longa distância de um duque, o título mais alto que alguém podia ter abaixo da realeza. Alguns duques eram até da realeza. Temia que ele a dispensasse, achando que a educação e o treinamento de Gabriela não fossem bons o suficiente para um duque. No entanto, manteve esses pensamentos para si mesma, não querendo preocupar Gabriela.

A carruagem passou pela entrada, parou por um momento, depois atravessou o pátio. A entrada algum dia fora o muro externo do castelo, supôs Jessica, com portões enormes que eram fechados à noite, mas nos tempos modernos não havia mais portões, só a entrada. Do lado de dentro dos muros, havia um pequeno pátio revestido de pedras. O cocheiro parou em frente aos degraus na frente da casa, depois desceu para ajudar Gabriela e Jessica a saírem.

A casa era imponente, os degraus de pedra gastos pelo tempo levavam a uma porta grande de madeira belamente entalhada. Ocultando seus sentimentos, Jessica subiu a escada, Gabriela logo atrás, e bateu com firmeza à porta da frente, que foi aberta quase imediatamente por um assustado lacaio.

— Pois não?

— Sinto muito incomodar a uma hora dessas. Sou Jessica Maitland, e esta é Gabriela Carstairs. Estamos aqui para ver o duque de Cleybourne.

O jovem empregado continuou a encará-las sem expressão.

— O duque? — perguntou finalmente.

— Sim. — Jessica imaginou se o homem não era bom da cabeça. — O duque. A srta. Carstairs é sobrinha-neta do general Streathern. O pai dela era amigo do duque.

— Ah, entendo. — O lacaio franziu a testa mais um pouco, mas se afastou, permitindo que elas entrassem. — Sentem-se, por favor, que vou avisar Sua Alteza que as senhoritas estão aqui.

Jessica percebeu que não havia sido a mais agradável das saudações. Seu constrangimento aumentou. E se a carta tivesse atrasado e o duque ainda não a tivesse recebido? Elas tinham viajado muito rápido, e era possível que tivessem passado à frente da correspondência.

O lacaio saiu por alguns instantes, e quando voltou, foi com outro homem, mais velho, que veio em direção a Jessica.

— Sinto muito, srta.... Maitland, não é isso? Meu nome é Baxter. Sou o mordomo. Receio que esta não seja uma boa hora para ver Sua Alteza. Afinal, são nove horas da noite, um tanto tarde para uma visita.

— Mandei uma carta para ele — disse Jessica. — Ele não a recebeu? Expliquei as circunstâncias de nossa chegada.

— Eu, ah, não tenho certeza, chegaram cartas, mas não sei se ele as leu ou não. Parece que Sua Alteza não estava esperando as senhoritas.

— Sinto muito se ele não recebeu a carta. Mas se ele a recebeu e apenas não leu, seria uma boa idéia se ele fizesse isso agora. Explicará tudo. Sei que deve parecer estranho, mas realmente preciso vê-lo. Peço que volte e diga que é imperativo que conversemos. Viajei uma boa distância. Ele é tutor dela.

O homem fitou Jessica de forma um tanto cética.

— Tutor?

— Sim. —Jessica endureceu a voz o máximo que pôde.

O mordomo fez uma reverência e saiu, mas voltou poucos minutos depois, parecendo desculpar-se.

— Sinto muito, senhorita, mas Sua Alteza está inflexível. Ele não é o tipo de pessoa que gosta de contatos sociais. Sugeriu que a senhorita procure o administrador da propriedade, o sr. Williams, amanhã.

— O administrador da propriedade! — A raiva subiu à cabeça de Jessica. Estava cansada, com sede e com fome, além de suja, pela poeira da estrada. Só queria se lavar, depois cair na cama e dormir bastante. Era irritante que o duque detestavelmente orgulhoso não tivesse nem a cortesia de recebê-la. Durante os anos desde a morte de seu pai ela se acostumara ao menosprezo e à desconsideração, às pequenas e dolorosas agulhadas de humilhação que os ricos e poderosos freqüentemente infligiam. Mas eles sempre aumentavam sua ira, e este era muito pior, porque estava menosprezando Gabriela também.

Olhou para a pupila e viu que o bonito rosto de Gaby estava pálido e apreensivo. Ela, com certeza, estava preocupada que seu tutor não tivesse simpatia por ela, que se recusasse a ser seu tutor ou, ainda pior, fosse severo. Ver as mãos de Gabriela se contorcendo no colo atiçou mais ainda a cólera de Jessica.

— Sinto muito que seja inconveniente para seu patrão vir aqui embaixo para conhecer uma órfã que foi colocada sob seus cuidados — retrucou Jessica. — Mas receio que ele não tenha alternativa quanto a isso. Ele é o tutor de Gabriela, não o administrador da propriedade, e eu desejo falar com ele. Viajamos um dia e meio para vê-lo, e não tenho nenhuma intenção de voltar para a aldeia a esta hora para conseguir um quarto na hospedaria.

O mordomo mexeu-se nervosamente sob os olhos cintilantes de Jessica.

— Sinto muitíssimo, senhorita...

— Pare de dizer isso! Apenas me diga onde ele está e eu mesma darei o recado.

Os olhos do homem arregalaram-se de horror.

— Senhorita! Não, não pode...

Mas suas palavras caíram no vazio, já que Jessica passava por ele, dizendo para Gabriela:

— Espere aqui, Gaby. Voltarei em um instante.

O mordomo correu atrás dela, agitando as mãos com nervosismo.

— Mas a senhorita não pode... Sua Alteza não está recebendo. Já é muito tarde.

— Sei bem que horas são. E, francamente, não me importo se Sua Alteza está recebendo ou não. Tenho a intenção de falar com ele e não sairei desta casa até que faça isso — disse Jessica enquanto atravessava o enorme salão central além das escadas. — Suas únicas opções são me dizer onde ele está ou deixar que eu grite por ele — informou ela por sobre o ombro.

— Gritar? — Parecia que o homem ia desmaiar de horror com a idéia. — Srta. Maitland, por favor...

— Olá? — chamou Jessica em voz alta, colocando as mãos em volta da boca. — Estou procurando o duque de Cleybourne.

O mordomo ofegava atrás dela.

— Não! Senhorita, não deve fazer isso, não é certo.

— E é certo um homem ignorar suas obrigações com um amigo morto, dizer para uma menina de 14 anos de idade que acabou de perder todas as pessoas de quem gostava que ela deve voltar para passar a noite em uma hospedaria e conversar depois com o administrador da propriedade? Posso ser inconveniente, mas não sou cruel.

Ela foi em direção ao corredor principal, que levava ao salão central, gritando de novo:

— Cleybourne!

No final do corredor, uma porta se abriu e um homem saiu. Era alto, com cabelo preto grosso e desgrenhado e olhos quase tão escuros quanto o cabelo. As maçãs do rosto eram grandes e pronunciadas, o maxilar, firme, e as bochechas, encovadas. Vestia calças e camisa, sem paletó nem gravata, e o botão de cima da camisa estava aberto. Olhou através do corredor para Jessica.

— Que diabos está acontecendo aqui? Quem está fazendo essa algazarra?

— Eu estou — respondeu Jessica, andando em direção a ele com firmeza.

— E quem é você?

—Jessica Maitland, cuja mensagem o senhor ignorou.

— Sinto muito, Alteza. — O mordomo correu em direção a ele, ofegante.

— Não se preocupe, Baxter. Posso cuidar disso sozinho. — O homem oscilou um pouco, colocando a mão no batente da porta para se equilibrar.

— O senhor está bêbado! — exclamou Jessica.

— Não estou, não — contestou ele. — De qualquer forma, minha sobriedade não é da sua conta, srta. Maitland. Ainda não estou disponível para qualquer debutante que chegue com uma mãe ambiciosa e queira se alojar na minha casa. Desde que o tolo do Vindefors se casou com a menina que se alojou em sua casa depois de um acidente, toda mãe avarenta está tentando imitá-la.

— Não faço idéia do que o senhor está falando — disse Jessica com impaciência. — Mas não tem nada a ver comigo ou com meu objetivo aqui, como o senhor saberia se tivesse escutado o que seu mordomo disse.

O homem levantou as sobrancelhas. Jessica tinha certeza que ele estava acostumado a não escutar o que o mordomo dizia ou teria contestado, dada sua posição.

— Sinto muito — disse ele de forma fria.

— Deveria mesmo — replicou Jessica. — A srta. Carstairs e eu fizemos uma viagem longa e difícil, e é demais escutar que devemos sair e procurar uma hospedaria a esta hora da noite.

— Pode-se dizer que é demais esperar que um estranho acolha alguém a esta hora. — O duque cruzou os braços, en-carando-a. — E quem é a srta. Carstairs?

— Ela é filha de um homem que o considerava um amigo — respondeu Jessica. — Um amigo tão bom que o nomeou tutor dela.

Cleybourne deixou os braços caírem e encarou-a.

— Roddy? Roddy Carstairs? Está dizendo que a filha de Roddy Carstairs está aqui?

— É exatamente o que estou dizendo. Não recebeu minha carta? Ou simplesmente não se incomodou em lê-la?

Ele piscou, depois disse:

— Que diabo!

Ele virou e entrou no cômodo do qual saíra. Jessica seguiu-o. Era um escritório decorado com masculinidade em tons de marrom e bronze, com cadeiras de couro, uma escrivaninha maciça e paredes de madeira escura. Havia um fogo baixo na lareira, a única luz no ambiente além do lampião em cima da escrivaninha. Uma decantadeira e uma taça estavam na escrivaninha, testemunhas silenciosas do que o duque estava fazendo no escritório mal iluminado. No canto na escrivaninha, havia uma pequena pilha de cartas.

Cleybourne mexeu nelas e puxou uma. A caligrafia de Jessica enfeitava a frente, e ela continuava selada. Ele quebrou o selo e abriu-a, aproximando o papel do lampião para ler.

— Posso dizer o que a carta diz. Sou a governanta da srta. Carstairs, Jessica Maitland, e o tio-avô dela, general Streathern, faleceu alguns dias atrás, deixando a menor de idade totalmente órfã. Como o senhor foi nomeado no testamento do pai dela como seu tutor se o tio faltasse, o general achou que o senhor era o homem apropriado para se tornar tutor dela após sua morte.

O duque praguejou baixinho e jogou a carta de Jessica na mesa. Olhou para ela de novo, ainda com a testa franzida.

— A senhorita não parece com nenhuma governanta que eu já tenha visto.

A mão de Jessica foi instintivamente até o cabelo. O cabelo ruivo e encaracolado tinha vontade própria, e, independentemente de quanto ela tentasse domá-lo em um coque que fosse adequado a uma governanta, ele conseguia se soltar de alguma forma. Agora, ela percebia, após a longa viagem na carruagem, que parte dele estava solta do coque e contornava-lhe o rosto com cachos selvagens vermelhos como fogo. O chapéu também estava fora do lugar. Sem dúvida, estava um horror. Constrangida, puxou o chapéu e tentou endireitar o cabelo, procurando um grampo para prendê-lo, e o resultado foi que mais cabelo caiu-lhe sobre os ombros.

Os olhos de Cleybourne foram involuntariamente para a cascata brilhante de cabelo, brilhando sob a luz do lampião, e algo se contraiu em seu abdômen. Os cabelos dela fariam um homem querer mergulhar as mãos neles, o que não era o tipo de pensamento que Richard normalmente tivesse sobre uma mulher.

Desde a morte de Caroline, ele se trancara e se afastara do mundo, evitando principalmente a companhia de mulheres.

O som musical das gargalhadas, o toque dourado da luz de uma vela sobre os ombros femininos nus, o sopro do perfume... tudo fazia com que se lembrasse do que tinha perdido, e ficava enraivecido sempre que olhava para elas. A única mulher que via com regularidade, além das empregadas, era a irmã da esposa, Rachel. Talvez ela fosse a mais dolorosa de se ver, entre todas as mulheres, já que se parecia muito com Caroline: alta, com cabelo escuro, olhos verdes como grama, mas ele gostava demais dela para evitá-la, e era a única pessoa em todo o mundo que compartilhava sua tristeza.

Mas nunca, em quatro anos, desde a morte de Caroline, ele olhara para uma mulher e sentira uma pontada de puro desejo. Ah, houve vezes em que sentira as necessidades naturais de um homem, mas foram apenas questões de instinto e da quantidade de tempo que tinha se passado desde que experimentara o prazer do corpo de uma mulher. Não tinha sido despertado por causa do cabelo ou das curvas do ombro ou do som da voz de uma mulher em particular.

Parecia absurdo sentir isso agora, com essa governanta megera. Meu Deus, ela era bonita, viva e diferente, com olhos surpreendentemente azuis e pele pálida e macia, e a cascata selvagem de cabelo... e sua imagem alta e escultural não conseguia ser completamente apagada pelo vestido simples e escuro que usava. Mas também era ruidosa, estridente e completamente sem modos. Ele não sabia se já tinha visto uma mulher com modos menos femininos.

Não a queria em sua casa, nem ela nem a menina, de quem ela dizia que ele era tutor. Ele viera para cá para terminar seus dias neste lugar onde a vida parou quatro anos antes, embora o coração continuasse a bater. Como poderia fazer isso com essa mulher e uma menina boba em casa com ele?

— Como posso saber que isso é verdade? — perguntou ele abruptamente. — Que provas a senhorita tem?

Jessica tentara sem sucesso prender o cabelo em um nó, mas finalmente deixou isso de lado. Ela se empertigou com as palavras dele.

— Eu detestaria ser tão desconfiada quanto o senhor — disse ela de forma sarcástica. — Primeiro, o senhor supõe que somos algum tipo de caçadoras de marido e agora duvida que realmente é tutor de uma pobre menina órfã.

— As pessoas aprendem a desconfiar quando passam por experiências difíceis — disse Cleybourne simplesmente. — Então? Se sua história é verdadeira, deve haver provas.

— Claro que há provas. — Jessica colocara o testamento e a carta do general dobrados no bolso quando saiu da carruagem, e agora os pegou, entregando-os ao duque. — Aqui está o testamento do general e uma carta que ele escreveu para o senhor, explicando as circunstâncias. Não tenho, porém, uma cópia do atestado de óbito dele comigo, se duvida que ele realmente esteja morto.

Cleybourne apertou os lábios e pegou os papéis dela. Seus olhos passaram pelo testamento até encontrar a cláusula que o nomeava tutor da sobrinha-neta do general Streathern, Gabriela Carstairs, filha de Roderick e Mary Carstairs. Ele suspirou, dobrando o testamento. Pobre Roddy. Lembrava-se bem de quando o amigo e a esposa morreram, ambos abatidos por uma febre letal que varrera o Sul da Inglaterra naquele ano. A jovem filha deles sobrevivera apenas porque o médico insistira que ela e a babá ficassem isoladas no quarto da menina, sem visitar os pais.

Ele abriu a carta e leu, apertando os olhos para decifrar os rabiscos de um homem idoso e doente. Em determinado ponto, ele exclamou:

— Vesey é o único parente vivo dela! Meu Deus!

— Exatamente. —Jessica ficou aliviada com a reação dele ao nome de Vesey. Da forma como vinha agindo, ela temera que ele decidisse entregar Gabriela ao lorde Vesey em vez de ele mesmo se envolver com ela. — O general tinha medo que lorde Vesey tentasse tirar a tutela dela do senhor... só não sei exatamente como. Foi por isso que ele insistiu que partíssemos imediatamente após a leitura do testamento e viéssemos diretamente para cá. Foi uma viagem longa e exaustiva. Gabriela está muito cansada.

— Sim, claro. — Os olhos dele estremeceram, e ele percebeu pela primeira vez os círculos escuros de exaustão e preocupação embaixo dos olhos dela. — A senhorita também, posso imaginar. — Suspirou e colocou os documentos na escrivaninha. — Bem, não há nada a fazer a não ser hospedá-las aqui, claro. — Ele parou, depois acrescentou formalmente: — Desculpe-me pela recepção quando chegou. Não tinha idéia de quem a senhorita era. Eu... todo mundo pode lhe dizer que não sou um homem sociável.

Jessica pensou em responder que isso não era nenhuma novidade para ela, mas segurou a língua. O homem podia ser esnobe e rude, mas não queria ofendê-lo tanto para que não tirasse Gabriela de seus cuidados. Ela engoliu o orgulho e disse:

— Obrigada, Alteza. Estamos em débito com o senhor.

— Mandarei Baxter acomodá-las para a noite.

— Obrigada. —Jessica foi em direção à porta, então parou e virou-se para ele. — Eu... suponho que o senhor queira conhecer sua pupila. Devo trazê-la aqui?

— Não! — A resposta dele foi rápida e inflexível, e o rosto, que tinha de alguma forma relaxado, de repente ficou duro como pedra. Aparentemente, ele percebeu a grosseria da resposta, então acrescentou: — Quero dizer, acho que seria melhor se não fosse agora. Tenho certeza que a srta. Carstairs está um tanto cansada da viagem. Conhecer-me seria apenas mais um fardo desnecessário para ela.

Jessica encontrou os olhos dele por um longo momento sem vacilar.

— Muito bem — disse ela em voz baixa. — Até amanhã, então.

— Até amanhã.

Ela virou e foi para a porta, passando por Baxter, que estava esperando, preocupado, no corredor. Escutou o duque chamar o mordomo enquanto voltava para o hall de entrada, com a cabeça fervendo. Achava que o homem podia ter feito a cortesia de pelo menos conhecer a nova pupila! A mera educação levaria a maioria das pessoas a cumprimentá-la, mesmo que não esperassem ou quisessem ter tal fardo em cima dos ombros.

Viu que Gabriela estava esperando por ela, sentada sozinha no banco de mármore perto da porta da frente. O lacaio estava parado a poucos metros dela, quase como se fosse um guarda-costas. Gabriela estava balançando os pés, arrastando-os no mármore de uma forma que, em circunstâncias normais, Jessica teria chamado sua atenção. Mas, do jeito como as coisas estavam, só conseguia pensar em como Gabriela parecia magra, jovem e perdida, e seu peito se apertou com compaixão.

— Gabriela.

A menina virou-se, levantando os pés com apreensão. Jessica sorriu para ela.

— Está tudo esclarecido agora — disse ela com toda alegria e confiança que conseguiu reunir. — O duque ainda não tinha lido minha carta, por isso não estava entendendo por que estávamos aqui. Você sabe, foi tudo feito com tanta pressa...

— Claro. Mas agora está tudo bem? — O rosto de Gabriela se iluminou. — Ele quer que fiquemos?

— Claro. —Jessica omitiu a relutância do homem em concordar que elas ficassem. Por mais que não gostasse dele, não queria influenciar os sentimentos da pupila em relação a ele.

— Ele lembrou de seu pai com afeto e pesar. Acho que foi apenas pego de surpresa, sem esperar que tivesse acontecido alguma coisa ao general.

— Vou conhecê-lo agora? — Gabriela sacudiu a saia e começou a se endireitar.

— Não, acho melhor esperarmos para isso. Ele mostrou muita consideração e achou que você devia estar muito cansada para conhecer alguém agora. Amanhã será muito melhor.

— Ah. — O rosto de Gabriela apagou. — Bem, acho que seria melhor mesmo conhecê-lo quando eu estiver com uma aparência melhor. — Parou, depois continuou, curiosa: — Que tipo de homem ele é? Como ele é? Alto, baixo, bondoso...?

— Na aparência, ele é bonito — admitiu Jessica, afastando os outros pensamentos, menos positivos. — É alto e moreno.

— Pensou nele, o pescoço moreno à mostra onde a camisa estava desabotoada, a largura dos ombros e do peito, não devendo nada a paletós com ombreiras que alguns homens usavam, os penetrantes olhos escuros, a saliência das maçãs do rosto. — Bem, é o tipo de homem que chama atenção.

— Então ele tem a aparência que um duque deve ter?

— Ah, sim.

— Que bom. Estava com medo que ele fosse baixinho e gor-dinho. Você sabe, aqueles que têm dedos que parecem salsichas com anéis.

Jessica teve de rir.

— Isso é pouco provável no duque de Cleybourne.

— Fico feliz. E ele é agradável? Quero dizer, não é arrogante?

— Ele não pareceu fazer cerimônia — disse Jessica com cuidado. Não queria descrever a recepção fria ou a aceitação relutante, mas também não queria pintar um quadro muito positivo para Gabriela não se decepcionar profundamente quando o conhecesse. — Pelo tipo de homem que é, acho que devemos esperar para conhecê-lo melhor. Afinal, é difícil determinar em um encontro tão rápido.

— Sim. Claro. — Gabriela assentiu. — Poderei dizer muito mais quando conhecê-lo amanhã.

— Claro. — Certamente, pensou Jessica, o duque estaria com um humor melhor na manhã seguinte. Pensaria na carta do general e em seu velho amigo Carstairs, e já teria aceitado a situação, talvez estivesse até satisfeito com a idéia de criar a filha de Carstairs. Ele não seria tão rude ao ponto de não convidar Gabriela para ir a seu escritório para uma primeira conversa.

Elas não tiveram de esperar muito até o mordomo vir procurá-las. Jessica ficou satisfeita em ver que o homem fez uma reverência não apenas educada, mas com certa ansiedade, como se estivesse feliz em dar as boas-vindas à menina.

— Srta. Carstairs. Meu nome é Baxter. Sou o mordomo de Sua Alteza. Estou encantado em conhecê-la. Lembro-me muito bem de seu pai. Era um homem bom.

O rosto de Gabriela se iluminou com um sorriso.

— Obrigada.

— As empregadas já arrumaram seus quartos. Sinto muito que estejamos tão malpreparados para a visita. Mas espero que tudo esteja ao agrado das senhoritas.

— Tenho certeza que estará — respondeu Gabriela com outro sorriso estonteante, e o rosto do velho homem suavizou-se ainda mais.

Ele as levou até os quartos, que eram afastados, longe dos outros, nos fundos da casa, no terceiro andar. Era um conjunto grande e alegre de cômodos, com uma sala central de estudos bem grande e três quartos menores.

O quarto de Gabriela era muito bonito, mas um pouco infantil para ela, com uma colcha bordada amarela e dossel de renda sobre a cama, e papel de parede com rosas amarelas. Havia uma cadeira de balanço ao lado da cama, assim como uma cômoda, uma mesa e cadeiras brancas.

O quarto de Jessica, ao lado do de Gabriela, era muito mais austero, com apenas uma pequena cômoda de carvalho para as roupas e uma cama estreita, também de carvalho, mas Jessica não esperava nada mais. Quartos de governantas, em geral, não eram nem grandes nem acolhedores. Pelo menos, este tinha uma pequena lareira, o que não fora o caso em nenhuma casa em que Jessica ficara.

Assim que colocou os olhos sobre a cama, sentiu o cansaço tomar conta, e tudo que conseguiu fazer foi lavar o rosto e vestir a roupa de dormir. Finalmente, com um suspiro agradecido, acomodou-se entre os lençóis e fechou os olhos.

Amanhã será melhor, repetiu para si mesma, e adormeceu, pensando no impertinente duque.

 

Lady Leona Vesey cruzou os braços e olhou para o marido como se ele fosse um rato que acabara de entrar na sala. Estavam sentados na sala de estar da suíte no Grey Horse Inn no início da tarde, esperando o almoço ser trazido. Leona já estava cansada do serviço incerto e das instalações simples de uma hospedaria de aldeia. Como se isso não fosse irritante o suficiente, lorde Vesey acabara de lhe contar que iam voltar para a casa do general.

— Você ficou louco? — perguntou ela com uma voz sarcástica, o tom mostrando que já tinha a resposta para a pergunta. — Por que diabos íamos querer voltar para a casa do general... Sinto muito, devo dizer a casa daquela bastarda? Não tenho vontade alguma que batam a porta na minha cara.

O marido lançou um olhar mal-humorado para ela. Passara a noite após a leitura do testamento do general confortando-se com uma grande garrafa de vinho do Porto e, como conseqüência, esta tarde sua língua parecia estar coberta de pêlos e a cabeça povoada por um exército de minúsculos gnomos martelando.

Lorde Vesey não gostava da esposa a maior parte do tempo. Neste momento, estava deliciando-se com visões em que colocava as mãos em volta do pescoço dela e apertava até seus olhos saltarem para fora.

— Não vão bater a porta na nossa cara.

— Seu cérebro, obviamente, não está funcionando por causa do vinho. Não se lembra? O general nos colocou para fora.

— Sim, você conseguiu que isso acontecesse — concordou lorde Vesey.

— Eu? — perguntou Leona, arregalando os olhos. — Eu consegui? Você era sobrinho-neto do homem. Foi você quem fez ele desconfiar de você.

— Ah, mas você deveria saber como enrolar um velho de olhos fechados. Lembra? — Vesey sorriu cruelmente enquanto recordava das confiantes palavras da esposa quando souberam que o general Streathern estava em seu leito de morte.

Pessoalmente, lorde Vesey nunca admirara a aparência da esposa. Casara-se com ela por ser a única mulher no reino que era indiferente a seus pequenos pecados e que ficava até feliz em deixá-lo seguir seu próprio caminho... contanto que ela também pudesse seguir o dela. Outros homens faziam de tudo para aproximar-se dos seios volumosos de Leona, mas ele achava tal luxúria grotesca. Preferia uma silhueta esbelta, flexível... como a da menina Gabriela. Inconscientemente, passou a língua pelos lábios ao pensar nela. Além do mais, Leona estava velha demais. Era o doce viço da juventude que ele preferia, e não havia nada melhor do que ser o primeiro a pegar a fruta.

Ele apreciou tanto o olhar de contrariedade de Leona que continuou:

— Esta é a segunda vez, você sabe. Primeiro, você arruinou o caso com Devin no último verão, e agora nem conseguiu despertar o interesse de um velho. Minha querida, temo que esteja perdendo seu jeito. Ou é a idade que está chegando, não acha?

Os olhos de Leona foram tomados por chamas e o rosto se contorceu em uma careta. Queria pular sobre ele, com as garras para fora, e machucá-lo. Mas sabia que Vesey era tão covarde que provavelmente começaria a gemer e a gritar, e alguém viria correndo. Seria muito constrangedor deixar que todos da hospedaria vissem a criatura desprezível que seu marido era. Então, contentou-se em dizer:

— Como se você soubesse o que um homem de verdade deseja! Você não passa de um degenerado!

— Meu Deus, pensar que você conhece tal palavra! — Vesey arregalou os olhos de forma zombeteira. — Tem se deitado com algum homem das palavras?

Leona zombou dele. Vesey mal era um homem. Fora para sua cama umas poucas vezes, no início do casamento, em uma frágil tentativa de fazer um herdeiro, como se algum deles se importasse com isso! Ela logo esclarecera o assunto. Não tinha nenhuma intenção de ficar gorda com o filho de ninguém, e esforçava-se para impedir que isso acontecesse. Ela considerara a noite de amor deles patética, nada parecida com a paixão que Devin lhe proporcionava. Até hoje, seus olhos brilhavam ao pensar nas habilidosas carícias dele. Nenhum outro homem fora capaz de fazê-la gemer e estremecer como Dev, e nesses últimos meses vinha sentindo muito a falta dele. Não importava com quantos homens, de lordes a trabalhadores, ela tentara substituí-lo, nenhum provara ter a energia ou a habilidade dele... uma mente criativa.

O que mais doía era o fato de que Vesey estava certo. Ela realmente arruinara a coisa toda com Devin. Superestimara seu poder sobre ele. Fora ela quem sugerira que ele se casasse com a herdeira americana. Mas como poderia saber que a mulher pálida e socialmente desastrosa ficaria linda? Em vez de Devin pegar o dinheiro da mulher e gastar com Leona em sua busca pelo prazer, ele sossegara com ela na estúpida propriedade que tinha em Derbyshire, e Leona fora deixada sem nenhum tostão e sexualmente frustrada. Tudo isso a deixara com um mau humor permanente.

— Isso não importa agora — disse ela, irritada. — Não recebemos nada no testamento do general, e o melhor que podemos fazer é voltar para casa. Mal posso esperar para me ver longe daqui. Não entendo como alguém consegue suportar viver no campo.

— Ah, mas teremos a chance de ganhar alguma coisa, minha querida... muita coisa, na verdade, se tivermos a coragem de aproveitar o momento.

— Aproveitar que momento? Do que está falando? Vesey suspirou exageradamente.

— Você realmente é tão pouco sagaz? Podemos ter sido enganados em nossa herança, mas Gabriela só tem 14 anos. Sua fortuna será administrada pelo tutor. Se eu fosse o tutor dela, teríamos uma grande quantia à nossa disposição. E eu estou bastante disposto a me oferecer para... hum, cuidar para que a menina tenha uma educação apropriada.

Leona revirou os olhos.

— Você é um porco, Vesey. Além disso, é estúpido. Ela já tem um tutor. E o duque de Cleybourne não é um homem com quem você queira cruzar.

Vesey deu de ombros.

— Você está pensando no duque como ele era. A verdade é que, nos últimos quatro anos, ele tem sido uma sombra do que era. Você sabe que ele ficou recluso depois que a esposa morreu. Acha que alguém assim receberá uma adolescente em casa? Ele não precisa do dinheiro dela, é muito rico. Além disso, é nobre demais para pensar em usar o dinheiro dela em benefício próprio. Não, ela será apenas um aborrecimento para ele, e estou disposto a apostar que ele ficará feliz em passar esse fardo para outra pessoa.

— Não se esse alguém for você.

— Não estou dizendo que eu seria a primeira escolha de Cleybourne. Nunca fomos amigos... ele é muito chato. Mas, se eu já estiver na casa, digamos, em posse da menina, e ele vir que será uma batalha na justiça recuperar a guarda dela, bem, será muito mais fácil deixar que eu seja o tutor.

— O que o faz pensar que estará com a posse da menina? Eles não vão nos deixar nem entrar.

— Leona, quem vai nos impedir? Os empregados não terão coragem de impedir minha entrada. O velho está morto agora, afinal. Eles não têm mais a autoridade do general por trás deles. Não ousarão dizer não para um lorde, principalmente porque sabem que, se a menina não chegar à maioridade, eu herdarei tudo como único parente vivo. Acredite em mim, eles não arriscariam me ofender.

— A menina pode dizer para eles não nos deixarem entrar.

— Uma menina de 14 anos? Ela não teria coragem nem esperteza.

— A governanta dela é uma fera.

— Pode ser, mas é apenas uma governanta. Também não fará frente a um lorde. Quando eu aparecer na porta, eles não saberão o que fazer, exceto recuar e me deixar entrar. Estando na casa e com a menina sob controle, estaremos em vantagem. Vou apelar para ser nomeado tutor dela. Como único parente vivo, tenho uma boa causa e, além disso, não acho que Cleybourne contestará. Por que ele se importaria? Nem conhece a menina.

Leona olhou para o marido, em dúvida. A coisa toda era bem menos certa do que Vesey fazia parecer. Por outro lado, estavam à beira da ruína financeira. De fato, já estavam deslizando ribanceira abaixo há algum tempo. Seus credores estavam ficando cada vez mais insistentes, e a última vez que Leona fora a uma costureira, a maldita mulher simplesmente se recusara a fazer outro vestido até que Leona pagasse sua dívida. Qualquer possibilidade de aliviar a situação deles valeria a pena.

—Tudo bem — concordou ela. — Vamos para a maldita casa. Pelo menos, se eles baterem com a porta na nossa cara será divertido.

Houve uma batida à porta e, sem esperar por permissão para entrar, o dono da hospedaria abriu-a e entrou no cômodo, carregando uma grande bandeja.

— Boa tarde, meu lorde. Minha lady. Aqui está o almoço.

A esposa dele veio atrás, carregando outra bandeja, e juntos eles arrumaram toda a comida na mesa. Leona olhou para a comida farta mas tinha certeza que era simples como todas as refeições que fizeram na hospedaria nos últimos dias. Nunca, pensou, apreciara tanto sua cozinheira de Londres.

— Ah, Sims, peça que tirem minha carruagem depois que comermos. Eu e lady Vesey vamos nos mudar para a casa do general.

— Claro, meu lorde. Vão até lá para resolver tudo, certo? Garanto que eles ficarão felizes em vê-los depois do ladrão na noite passada.

— Ladrão? — Vesey olhou perplexo para o dono da hospedaria. — Do que está falando?

— Ora, na casa do general, meu lorde. Achei que o senhor soubesse. Achei que era por isso que estava indo para lá, para garantir que a casa esteja segura.

— O que aconteceu?—perguntou Leona. — O que roubaram? Sims balançou a cabeça robusta.

— Aí que está. Não levaram muita coisa. Quebraram o cofre e espalharam as coisas que estavam dentro, mas Pierson não sabia exatamente o que o general guardava ali. Acham que sumiram algumas jóias. Abriram todas as gavetas na escrivaninha do general e mexeram em todos os papéis... o senhor sabe, o testamento do general, e todos os tipos de papéis de negócios. Quebraram algumas coisas. O lugar está uma bagunça, foi o que meu sobrinho me disse. Ele foi fazer uma entrega lá, e a cozinheira contou. Ele disse que o mordomo quase teve um ataque de nervos ao ver aquilo. O general ainda nem esfriou na cova.

Ele suspirou de forma lúgubre.

— Isso é triste. Não respeitam mais os mortos. Bem, pelo menos a menina estava bem longe de lá. Imaginem como ela teria ficado assustada.

— Bem longe? — repetiu lorde Vesey com a voz abafada.

— Ora, sim. — O homem olhou diretamente para Vesey. — O senhor não sabia? A jovem lady e sua governanta partiram ontem à tarde, após o funeral. Foram para a casa do tutor, parece que algum duque em Yorkshire. Achei que soubessem de tudo isso.

— Sim, claro. Estava apenas distraído com sua história. Sei muito bem disso. Ela foi para o castelo Cleybourne.

— Isso, é esse o lugar. — O dono da hospedaria assentiu. Afastou-se da mesa, dando um sorriso simpático para lorde Vesey. — Bem, aqui está, meu lorde. Tenham uma boa refeição.

— O quê? Ah, sim, claro.

— E pedirei que peguem a carruagem.

— Ah, sim, faça isso.

O dono da hospedaria seguiu a esposa para fora do quarto, fechando a porta, e Vesey mergulhou na cadeira com um suspiro. Leona olhou fixamente para ele com um sorriso malicioso.

— Eu diria que isso leva todos os seus planos por água abaixo — disse ela sem nenhuma compaixão.

— Que inferno! O que fez aquela menina sair correndo para Cleybourne dessa forma?

— Hummm. Talvez ela soubesse o que você estava planejando.

— Que absurdo! — Vesey, que se considerava bem esperto, lançou um olhar irado para a esposa. — Nem eu mesmo sabia do plano até alguns minutos atrás. Como ela poderia saber?

Leona deu de ombros.

— Bem, independentemente do que tenha acontecido, você não conseguiria pegá-la agora. Pelo menos, vamos poder voltar para Londres.

Ela foi até a mesa e olhou para a comida. Vesey continuou na cadeira, mordendo o lábio inferior de modo pensativo.

— Talvez não... — disse ele após um momento, levantan-do-se e dando uma volta ao redor da mesa, parecendo satisfeito consigo próprio.

— Do que está falando? — perguntou Leona, mal-humorada. — Não voltar para Londres? Espero que não esteja mais pensando em ir até a casa do general.

— Não. Principalmente com pessoas entrando e saindo, pegando coisas. Estava pensando em ir para Yorkshire.

Leona encarou-o.

— Não pode estar falando sério. Yorkshire? Cleybourne? Acha que pode arrancar a menina do duque?

— Arrancar? Claro que não. Não seja ridícula. Mas perguntar não fará mal nenhum. Como disse antes, qual a utilidade que aquela menina tem para Cleybourne? Ele, provavelmente, adoraria se livrar dela. Como vamos passar por lá a caminho de Londres...

— Um pouco fora do caminho, não acha? Vesey afastou com a mão a objeção.

— Eu poderia me oferecer para tirar a menina dele. Parente de sangue. Ele pode ficar convencido com o raciocínio.

— Sinceramente, duvido disso. — Leona acreditava pouco na capacidade de seu marido em convencer alguém. — Cleybourne sempre foi do tipo honrado, não um puritano como Westhampton, claro. Ele gostava de se divertir antes de se casar com a irmã de Dev, mas o casamento acabou com ele. — Ela parou, parecendo pensativa. — Mas tem vivido como monge desde que Caroline morreu.

Vesey olhou para ela.

— Do que está falando?

— Bem... talvez ele não esteja imune a um pouco de persuasão feminina. Quanto tempo faz desde que Caroline morreu... três, quatro anos? É muito tempo. Não ouvi nenhum boato de que ele estava tendo um caso com alguém, nada.

Lorde Vesey sorriu.

— Você acha que ele está pronto para ser agarrado?

Os olhos dourados de Leona estavam brilhando de expectativa.

— Um viúvo solitário... noites de inverno em volta de uma lareira aconchegante... é um alvo muito fácil para alguém com meus talentos.

Quanto mais pensava nisso, mais Leona gostava da idéia. Cleybourne era um homem bonito, alto, com ombros largos e rico. Seduzi-lo e levá-lo para a cama não seria nenhum sacrifício para ela, e seria prazeroso ter um novo e indulgente amante. Ela não sabia se ele entregaria a menina para Vesey, mas isso era secundário para Leona. O mais importante era a perspectiva de conseguir um amante apaixonado para mimá-la com presentes caros.

— Não sei, Leona — advertiu Vesey. — Ele é amigo dos Aincourt, e você sabe o que eles pensam de você.

Os olhos de Leona brilharam.

— Não me importo se ele é íntimo da repugnante lady Westhampton. Ela é irmã de Dev e isso nunca o manteve longe da minha cama. Confie em mim, algumas horas com Cleybourne e ele estará correndo atrás de mim. Alguns dias e ele estará disposto a me dar o que eu quiser.

Lorde Vesey sorriu.

— Bem, então, coma, e partiremos para Yorkshire.

Jessica acordou na manhã seguinte com o humor muito melhor. Uma boa noite de descanso geralmente era o melhor antídoto para os medos e as dúvidas de alguém. Olhando pela janela do quarto para os campos de Yorkshire, cobertos pela luz fraca do sol de inverno, ela acreditou nas palavras tranqüilizadoras que dissera para Gabriela na noite anterior. Tinha certeza de que, esta manhã, o duque de Cleybourne seguiria o caminho honrado e aceitaria ser tutor da menina e daria boas-vindas a ela. Ele apenas fora pego de surpresa.

Jessica tomou o café-da-manhã com Gabriela, conversando sobre como explorariam a casa naquele dia. Mais tarde, naquela manhã, quando um empregado veio à suíte com um chamado do duque, ela o seguiu até o andar de baixo com um passo lento.

O lacaio levou-a ao mesmo escritório em que ela conversara com Cleybourne na noite anterior, depois fez uma reverência e saiu do cômodo, fechando a porta. O duque de Cleybourne estava sentado atrás de sua mesa maciça, vestido de modo mais formal do que na noite anterior, usando paletó e gravata branca. Levantou-se quando ela entrou e, com um gesto, indicou-lhe uma cadeira em frente à escrivaninha.

— Srta. Maitland.

— Sua Alteza.

— Por favor, sente-se.

Ao olhar para o rosto dele, parte do bom humor de Jessica evaporou-se. À luz do dia, ele estava tão bonito quanto parecera na noite anterior, à luz fraca da vela, mas a expressão estava ainda mais implacável. Perguntou-se, rapidamente, se o homem sabia sorrir.

— Pensei muito nesta situação — começou Cleybourne com um tom de voz pesado. — E cheguei à conclusão de que não seria bom para a srta. Carstairs ser minha pupila.

Jessica ficou tensa, e suas mãos seguraram o braço da cadeira, como para se prender a ela.

— Sinto muito. Talvez eu tenha entendido mal. Está dizendo que vai nos mandar embora? O senhor deixará Gabriela nas mãos de Vesey?

Estava pensando em mil coisas ao mesmo tempo enquanto falava, pensando em como poderia fugir com Gabriela antes que ele entregasse a menina para Vesey. Para onde poderia ir? Como poderia protegê-la?

Cleybourne corou, e seus lábios se apertaram.

— Meu Deus, não, não tenho a intenção de entregá-la para aquele canalha! Como pode perguntar isso?

— Como não? — respondeu Jessica acaloradamente. — Não sei nada sobre o senhor, exceto que se recusa a ser o tutor dela.

— Não é exatamente isso. É apenas que... bem, quando o pai dela escreveu o testamento, as circunstâncias eram diferentes. Minha esposa ainda estava viva e minha... — Ele parou de forma abrupta e ficou de pé, empurrando a cadeira para trás. — Mas minha casa é de solteiro hoje em dia, srta. Maitland — continuou, afastando-se dela. — Não é um bom lugar para uma jovem. Ela precisa de uma mulher guiando-a, alguém que possa planejar seu debute e apresentá-la à sociedade, ensinar-lhe todas as coisas que uma menina prestes a se tornar mulher precisa saber. Eu estaria completamente perdido em relação a qualquer uma dessas coisas.

— Ela tem a mim, senhor — disse Jessica, ficando de pé também. — Posso ser apenas uma governanta, mas tive meu debute em Londres. Fui criada como Gabriela deve ser criada. E quando chegar a hora de ela debutar, o senhor, com certeza, tem alguma parente: irmã, mãe ou tia, que esteja disposta a guiá-la através das águas da sociedade de Londres.

— Soluções improvisadas, srta. Maitland — disse ele em um tom de voz mais articulado, encarando-a do outro lado da mesa. — Não tenho dúvidas de que é excelente professora.

Entretanto, ela precisa de mais do que isso. Ela deve ter a companhia e a liderança de uma mulher mais velha, com mais experiência na sociedade. Não posso oferecer isso, nem a senhorita.

— Neste momento, ela precisa de conforto e força, e isto é mais importante do que o que ela vai precisar daqui a quatro anos. Ela precisa de um lar, um lugar ao qual pertença, onde seja bem-vinda. Ela perdeu os pais seis anos atrás e agora perdeu o homem que considerava um avô. Ela não tem família, já que não vou considerar lorde Vesey.

— Claro que não. Mas eu também não sou da família dela.

— Não, mas era amigo do pai dela. O senhor é o homem que ele queria que fosse seu tutor. Por causa disso, ela confia no senhor. E o general também queria que o senhor fosse o tutor dela. Ele confiou no senhor. Não leu a carta? Ele temia que Vesey tentasse...

— Não deixarei que Vesey fique com ela. Já lhe disse isso. Não estou colocando vocês duas na rua. — Cleybourne franziu a sobrancelha. — Droga! A senhorita é uma mulher irritante. Já disse: encontrarei um lugar adequado para ela. Minha cunhada, talvez, escreverei a Rachel para saber se ela e o marido podem criar Gabriela. É claro que ficarão aqui até que eu encontre um lugar apropriado, e garanto que, se Vesey insistir no assunto, cuidarei dele.

Jessica ia começar a discutir com ele, mas parou e apertou os lábios, controlando a raiva. Tinha de ficar com Gabriela; esta era a coisa mais importante, principalmente se esse homem fosse se livrar da menina. Já o pressionara o quanto ousava. Não podia ofendê-lo tanto a ponto de ele dispensá-la.

— Muito bem, Sua Alteza.

O duque levantou a sobrancelha, surpreso com a obediência dela.

— Sim. Bem, estamos combinados, então.

— Posso trazer Gabriela para conhecê-lo agora?

— O quê? — Um olhar estranho, quase de medo, cruzou-lhe o rosto, e ele logo balançou a cabeça. — Não. Eu... acho melhor não nos conhecermos.

— O quê? —Jessica estava perplexa demais para não encará-lo. — O senhor não vai ao menos conhecê-la?

— Será melhor para ela.

— Como pode ser melhor para ela? — perguntou Jessica, a raiva aumentando com muita força para ela ser prudente. — Saber que o senhor não vai nem vê-la? Que não pode ser importunado?

— Basta, srta. Maitland! — Os olhos escuros dele brilhavam. — Devo lembrar-lhe de que sou o tutor dela e a decisão é minha. Ela não deve se afeiçoar a este lugar. Esta não será a casa dela. Será mais fácil para ela ir embora dessa forma.

— Quer dizer mais fácil para o senhor! — replicou Jessica, de forma acalorada.

Richard arregalou os olhos, perplexo, e Jessica percebeu, então, que fora longe demais. Mas, no momento seguinte, para surpresa dela, o duque soltou uma curta gargalhada.

— Não consigo imaginar como era governanta, srta. Maitland, com a língua afiada que tem.

Jessica levantou um pouco o queixo.

— O general Streathern aprovava o discurso direto.

— Não acredito que ele aceitasse insubordinação. Olhando Cleybourne bem nos olhos, Jessica disse, tranqüilamente:

— O general não era um homem que usava seu poder sem sabedoria.

Cleybourne olhou-a por um longo momento. Finalmente, disse:

— Obrigado. Isso é tudo.

Jessica, resistindo ao impulso de fazer uma reverência sarcástica, apenas assentiu e saiu do escritório. Por dentro, estava fervendo. O homem não tinha sentimentos! Atravessou o corredor, mal percebendo para onde estava indo, e com o rosto tão sério que uma empregada que limpava a mesa saiu rapidamente de seu caminho.

Sabia que não podia ir até Gabriela naquele estado. Tinha de inventar alguma forma de apresentar a decisão de Cleybourne à menina sem magoá-la, e, neste momento, tudo que saísse de sua boca seria a verdade nua e crua. Decidiu que uma caminhada seria a única forma de diminuir a ira, então desceu as escadas dos fundos e saiu por uma porta para o sol fraco de inverno.

Na mesma hora, percebeu seu erro: estava frio demais para ficar do lado de fora sem um casaco. Mas não podia voltar para pegar o casaco lá em cima sem encontrar com Gabriela. Decidiu que uma volta pelo jardim seria suficiente.

Já estava no meio do caminho para o centro do jardim quando passos na pedra atrás dela fizeram com que parasse e virasse. Uma pequena mulher, enrolada em uma manta, estava vindo em sua direção, e sobre um braço havia outra. Ela sorriu ao aproximar-se de Jessica.

— Srta. Maitland, imaginei que acharia muito frio aqui fora, por isso trouxe-lhe uma manta.

Jessica pegou o abrigo, agradecida.

— Obrigada, srta....

— Brown. Mercy Brown. Sou a governanta. — Os olhos dela brilhavam felizes, combinando com o sorriso. — E devo confessar que foi mais curiosidade do que bondade que me fez vir até aqui. Quero conhecê-la desde que Baxter me contou sobre sua chegada com a pequena.

Jessica sorriu para a mulher.

— É um prazer, srta. Brown, independentemente do motivo. Mas a srta. Gabriela já não é tão pequena.

— Ah, bem, mas ela era bebê da última vez em que a vi. Era uma coisinha linda, e Baxter me disse que ainda é.

— Sim, ela é muito bonita. E também tem bom coração. A governanta sorriu ainda mais.

— Fico feliz em escutar isso. Será muito bom ter uma pessoa jovem na casa de novo. Será bom para o patrão também.

— O duque? Não muito. Ele pretende mandá-la para outro lugar assim que puder — disse Jessica de forma rabugenta.

— Não! — A srta. Brown parecia aflita. — Ele não disse isso.

— Quase isso. Ele disse que aqui não é o "lugar apropriado" para uma menina, por que ele é solteiro. É o homem mais arrogante, irritante... não posso imaginar por que o general achou que ele cuidaria de Gabriela. Com certeza, foi iludido pelo senso de honra e dever do duque.

— Ah, não, ele é um homem honrado! — protestou a mulher mais velha. — E ele não se esquivaria de suas obrigações.

— Hummm — respondeu Jessica em tom de descrença. — Contanto que não seja inconveniente para ele, imagino.

— Não deve julgá-lo de forma tão severa — disse a governanta com convicção. — O duque é um bom homem. De verdade. Você tem de entender... ele teve uma história triste. As coisas que aconteceram com ele deixaram-no... bem, um tanto recluso, mas ele não tem maldade alguma.

— Do que mais podemos chamar quando ele rejeita uma menina órfã cujo último parente vivo acabou de morrer, que lhe foi confiada por um homem que era seu amigo? O pai dela e o general Streathern confiaram nele para cuidar de Gabriela, mas ele não admite ser incomodado. E planeja mandá-la para qualquer pessoa que cuide dela no lugar dele.

Jessica olhou para a governanta e viu um olhar de muita tristeza em seu rosto. A mulher balançou a cabeça, dizendo:

— Ah, pobre homem. Deve ser por causa de Alana. Sem dúvida ele não consegue suportar estar perto de uma menina de novo. — Ela olhou para Jessica. — Por que não vem comigo até minha sala para se aquecer com uma xícara de chá? Contarei sobre Sua Alteza e explicarei por que, bem, por que ele é como é.

Jessica concordou prontamente, impelida pela curiosidade e pelo frio. As duas mulheres viraram-se e refizeram os passos de volta para a casa, onde a governanta pendurou as mantas e levou Jessica por um corredor até a cozinha e depois até uma aconchegante sala de estar que era domínio da governanta. Uma palavra para a empregada enquanto passavam e, poucos momentos depois, ela entrou com um bule de chá, xícaras e uma cestinha de pães.

Os pães estavam deliciosos, e alguns goles do chá forte e doce aqueceram Jessica quase imediatamente. Recostou-se na confortável poltrona para escutar a srta. Brown.

— Conheço Sua Alteza desde menino. Assim como Baxter e a maioria dos empregados mais velhos — começou, os olhos castanhos brilhando com afeto. — Sempre foi um menino maravilhoso. E depois que cresceu não podia ser um patrão melhor ou mais bondoso. Quase dez anos atrás, ele se casou com Caroline Aincourt, filha do duque de Ravenscar. Um excelente casamento, família tradicional, bom nome, porém, mais que isso, Sua Alteza era completamente apaixonado. A srta. Brown soltou um pequeno suspiro, o olhar distante.

— Ah, mas ela era uma beleza. Uma duquesa em cada centímetro. Alta e admirável, com cabelos negros e olhos verdes. Independentemente de suas outras qualidades, os Aincourt são muito bonitos. Há um retrato dela no salão central. Eles eram muito felizes. Ah, os momentos que tivemos no castelo! Sempre tínhamos hóspedes, às vezes por semanas. Bailes, jantares e todo tipo de diversão. Sua Alteza era um homem sociável.

— O duque? — perguntou Jessica sem acreditar. A outra mulher assentiu.

— Ah, sim. Tenho certeza que não acredita ao vê-lo agora. Mas ele gostava de companhia. Não era do tipo irresponsável ou rebelde, entende? Ele sempre cumpriu com os deveres e se interessou por seus assuntos, mas gostava de uma festa. E a duquesa! Bem, ela brilhava nos bailes. Era sempre o centro das atenções. Eles tiveram uma filha, Alana.

— Uma filha? Ele não disse nada sobre ela. Disse que a esposa tinha morrido, mas...

A srta. Brown assentiu, os olhos escurecendo um pouco.

— Ah, sim, ele teve uma filha. — Sorriu para si mesma. — Ah, ela era uma maravilha. Muito animada, sempre interessada em tudo, mas ninguém conseguia se enfurecer com ela porque era iluminada. Só precisava sorrir e dizer que sentia muito e todos a perdoavam. Depois que ela nasceu, eles passavam ainda mais tempo aqui, indo a Londres apenas para a alta temporada. O duque achava que era melhor criar uma criança aqui no campo, entende? A srta. Alana nem dormia na suíte dela. Sua Alteza achava que era muito longe: não conseguiriam escutar se ela chorasse. Ela ficava em um quarto perto dos pais, e a babá dormia em uma cama no mesmo quarto.

— O que aconteceu? Quero dizer, o que mudou tudo?

— As duas sofreram um acidente de carruagem. A duquesa e a pequena morreram.

— Ah, que horror.

A governanta assentiu, os olhos enchendo-se de lágrimas ao lembrar.

— Sua Alteza estava em um cavalo do lado de fora da carruagem. Era inverno, antes do Natal, na verdade, esta mesma época do ano. — Ela suspirou. — Eles, provavelmente, estavam indo rápido demais. De qualquer forma, a carruagem capotou quando fizeram uma curva. Rolou por uma ribanceira, e a duquesa foi jogada para fora. O pescoço dela quebrou, e ela morreu na mesma hora. Mas a carruagem com a pequena rolou ribanceira abaixo até o lago.

Jessica prendeu a respiração, horrorizada.

— Ah, não! Que terrível!

— Havia uma fina camada de gelo cobrindo o lago, mas é claro que o coche quebrou-a. Sua Alteza foi atrás dela. O cocheiro disse que foi uma visão lamentável, como ele mergulhou várias vezes na água escura e gelada. Finalmente, trouxe a menina para cima e carregou-a até a margem, mas era tarde demais. A doce criança estava morta.

Lágrimas de compaixão brotaram nos olhos de Jessica quando imaginou a terrível cena: o pai frenético, o lago congelado, a noite escura e gelada. Conseguia imaginar a carruagem virada, os cavalos assustados, a linda mulher morta no chão e o duque jogando-se na água gelada em uma desesperada procura pela filha, emergindo finalmente com seu corpinho imóvel.

— Ele carregou aquela menina nos braços o caminho todo até a casa, e quando entrou, segurando-a... nunca esquecerei do rosto dele naquela noite. Nunca vi nada tão triste. Mal conseguimos tirar a menina de seus braços e colocá-lo na cama. Ele teve uma febre horrível. Não é de admirar que, depois de entrar na água gelada e vir andando no frio congelante até em casa, ele também quase tenha morrido. O criado pessoal dele, Noonan, Baxter e eu cuidamos dele. Durante dias, achamos que também íamos perdê-lo, e então passaram-se semanas até ele ficar bem. Ficou tão abatido que mal dava para reconhecê-lo, e isso é um fato. Envelheceu anos naquelas semanas.

— Pobre homem. — Por mais que tivesse deixado Jessica furiosa, o coração dela estava cheio de pena por ele. Ele sofrera muito: a perda de uma esposa amada já era triste o suficiente, mas perder a filha adorada ao mesmo tempo parecia quase impossível de suportar.

— Sim. — A governanta soltou um suspiro e inclinou-se para a frente para encher as xícaras de chá novamente. Após um momento, continuou: — Depois disso, ele mudou. Não só na aparência. Mas no jeito de ser. No início, só ficava sentado em uma poltrona e olhava pela janela. Não parecia se importar se viveria ou morreria. Não queria ver ninguém, não deixava o vigário nem chegar perto dele e não tolerava o médico. A única pessoa que tinha mais sorte com ele era lady Westhampton, irmã da esposa dele. Ele via o irmão da duquesa também, lorde Ravenscar. O único lugar aonde ia era o cemitério. Foi terrível... terrível... Ficamos todos muito preocupados com ele. Finalmente, um dia, disse que ia voltar para Londres. Ficamos felizes, achando que tinha decidido continuar a vida. — Ela parou, as lágrimas brilhando nos vivos olhos castanhos.

— E ele não continuou? — perguntou Jessica após um momento.

A governanta balançou a cabeça.

— Mais tarde ele disse ao criado pessoal que foi apenas porque não suportava mais viver nesta casa. Esta é a casa da família, pertence aos duques de Cleybourne desde 1246. E ele morou nela a vida inteira. Mas não vinha para casa havia quase quatro anos.

— Mas, certamente, ele saía mais, morando em Londres. Tinha uma vida mais cheia, mesmo não conseguindo enfrentar esta casa.

— Não. Como eu gostaria que ele tivesse saído mais! Baxter escrevia para mim todo mês contando as novidades de Sua Alteza e dos empregados. Apenas alguns poucos empregados e eu ficamos aqui. A maior parte foi com ele, então ficávamos ansiosos por notícias de todos. — Ela sorriu. — Somos próximos, como uma família, entende? Então, eu escrevia para Baxter, e ele para mim, e compartilhávamos as notícias com os outros. A triste verdade é que, por todo aquele tempo, Sua Alteza ficou tão recluso em Londres quanto ficava aqui. Ele encontra os parentes e amigos de vez em quando, se eles vêm visitá-lo. Nunca visita os outros, e não vai a festas. Baxter disse que nem foi visitar o clube. Ele se afastou do mundo. E lady Westhampton, a irmã da duquesa, está preocupada com ele. Ela disse a Baxter que ultimamente ele está ainda mais melancólico. Claro, esta época do ano é a pior para ele.

— Mas ele voltou para cá — comentou Jessica. — Certamente, é um bom sinal.

— Esperamos que sim. Eu fiquei muito feliz. Mas ele... bem, é educado e bondoso como sempre, mas tem uma tristeza que faz meu coração doer só de olhar. Às vezes, me pergunto por que ele voltou para casa.

— O que quer dizer?

A outra mulher franziu a testa.

— Não tenho muita certeza, senhorita. Mas sendo esta época do ano e tudo... não posso deixar de pensar que talvez ele tenha vindo para casa para morrer.

— Para morrer? —Jessica ergueu as sobrancelhas, surpresa. — Mas ele ainda é jovem. Não deve ter nem 40 anos ainda.

— Não, senhorita. Ele tem 35. Mas...

— Certamente, você não quer dizer que... —Jessica parecia chocada. — Realmente acha que ele pode estar pensando em... se ferir?

Sua companhia pareceu ainda mais preocupada.

— Não sei. Não quero pensar nisso. É um homem forte, mas às vezes temo que ele tenha cedido ao desespero. Acho que talvez ele esperasse que um dia, estando em Londres, longe daqui, a dor fosse começar a amenizar. Talvez tenha ficado com o coração tão sofrido que tema que isso nunca aconteça. Acho que lady Westhampton também teme isso. Ela pediu a Baxter para cuidar bem de Sua Alteza. Não que ele algum dia faria menos que isso, e a lady sabe disso. Foi um gesto de preocupação com ele.

Ela suspirou e balançou a cabeça com firmeza.

— Não, não vou pensar nisso. Mas foi por esse motivo que fiquei tão feliz ao saber, esta manhã, que você e a jovem senhorita tinham chegado. Acho que uma criança em casa é exatamente o que ele precisa. Ela trará vida ao lugar de novo, e alegria. Mas quando você me disse que ele não ia ficar com ela, nem queria vê-la... — Suspirou de novo. — Ah, é uma coisa triste. Acho que ele deve sentir que não vai suportar ver uma menina aqui. A srta. Gabriela é mais velha que a filha dele seria, mas, mesmo assim, seria uma forma de ele se lembrar de tudo que perdeu.

— Então é por isso que ele deseja encontrar outra pessoa para ser tutor no lugar dele. Sinto muito. Eu o julguei mal. — Jessica franziu a testa. — Pobre homem. Achei que fosse apenas sombrio e anti-social. Não fazia idéia que tal perda estava no cerne de suas ações.

Pensou no rosto bruscamente esculpido do duque: as linhas salientes das maçãs do rosto e do maxilar, quase lúgubres em sua severidade, os olhos escuros e contemplativos, as linhas tensas do corpo; e agora conseguiu perceber a tristeza que existe por trás disso tudo.

— É uma pena que ele tenha decidido mandar Gaby embora — continuou Jessica. — Acho que você está certa. Ela pode ser tudo de que ele precisa na vida. — Ela suspirou. — Ah, bem, terei de explicar isso a Gaby da melhor forma possível.

Após Jessica sair da sala da governanta, andou até o salão central, que se estendia através do meio da casa, desde a porta da frente, com a escadaria no centro. Tinha dois andares e fora a sala principal do castelo no início. Era aqui que a governanta dissera que havia um retrato da duquesa.

Obviamente, os primeiros retratos não eram dela, já que eram de homens com roupas das eras Tudor e Stuart. Chegou à pintura de uma mulher com peruca branca, e então, após essa, havia um retrato de uma jovem mulher com um vestido moderno. Jessica parou, certa de que era a Caroline do duque. Era linda, mesmo admitindo-se a tendência aduladora dos retratos. Alta e esbelta, ela sorria de forma amistosa para quem a via. Tinha uma covinha em uma bochecha, e os olhos verdes brilhavam. Estava de pé ao lado de uma cadeira, a mão fina descansando no encosto, e a seus pés estava um spaniel, cuja coloração preto-e-branca refletia os cabelos negros da mulher. Estava vestida com um veludo verde que realçava seus grandes olhos, e um magnífico anel de esmeralda brilhava no dedo.

Era fácil ver por que Cleybourne era tão apaixonado por ela. Parecia o tipo de mulher que tinha os homens jogados a seus pés, fazendo declarações de amor. Jessica fitou-a com certa fascinação. Nunca possuíra o charme que era evidente nessa mulher. Uma adolescente sem graça, Jessica se tornara uma mulher desajeitada, e sua língua afiada e modo franco afastaram muitos possíveis pretendentes. Nunca tivera o dom que mulheres como a duquesa pareciam possuir naturalmente, a habilidade de flertar e se divertir, de seduzir homens com um olhar ou com um sorriso. Sua tia, que a apresentara à sociedade quando tinha 18 anos, costumava desesperar-se com ela, declarando que nunca conseguiria um marido se persistisse em conversar com os homens sobre a guerra na Europa em vez de sorrir como as outras moças. Tia Lilith, ela lembrava, ficara tanto extasiada quanto impressionada quando Darius se interessara por ela. Jessica deu um pequeno sorriso torto ao lembrar-se que ela também ficara um pouco surpresa.

Afastando as lembranças, virou-se e começou a subir as escadas. Era inútil pensar no passado. Não conheceria o tipo de felicidade do casamento com que sonhara quando era menina, mas, graças à benevolência do general, seria capaz de viver sem precisar racionar e poupar, ou depender dos outros. Tinha sua independência e tinha Gabriela, e teria uma vida bem agradável.

Jessica virou na cama, suspirando. Era tarde, e Gabriela fora dormir pelo menos uma hora antes. O sono, porém, fugia de Jessica.

Não era por falta de cansaço físico. Baxter oferecera-se para mostrar-lhes a casa, e ela e Gabriela passaram a maior parte do dia perambulando com ele. Surpreendentemente incansável para um homem de sua idade, o mordomo mostrara o castelo inteiro, até entrando nas alas que não eram usadas e nas celas cavernosas que um dia tinham sido as masmorras e depósitos do castelo. Gabriela gostara especialmente da última parte da visita, estremecendo com um prazer óbvio com as histórias horripilantes de Baxter sobre as masmorras. Depois disso, ele as apresentou ao jardineiro-chefe, que lhes ofereceu um passeio igualmente detalhado pelos jardins e pelas áreas remotas. No final do dia, até Gabriela estava completamente esgotada. Jessica ficara grata pelo exercício, após dois dias dentro de uma carruagem, e achara que dormiria com facilidade.

Em vez disso, assim que a cabeça tocou o travesseiro, começou a pensar em todos os problemas e ciladas que estavam à frente delas. Virara e se debatera na cama por quase uma hora.

Finalmente, admitiu para si mesma que não conseguiria dormir logo. Levantou-se da cama e vestiu o penhoar por cima da camisola. Decidiu ler um pouco, na esperança de que isso a ajudasse a dormir. Achava que se lembrava do caminho até a biblioteca, que Baxter mostrara mais cedo.

Verificou a pupila, depois saiu da suíte e desceu as escadas até a biblioteca. Ao aproximar-se, viu uma luz saindo do escritório do duque, que ficava próximo da biblioteca. Hesitou por um momento, não querendo ver Cleybourne de novo. Pensou em voltar pelas escadas sem um livro, mas, em vez disso, andou na ponta dos pés, esperando que ele nem notasse quando ela passasse.

Ele não teria notado, percebeu ela ao olhar para dentro do cômodo, já que não estava olhando para fora, mas o que ela viu fez com que parasse. Fitou o escritório.

Cleybourne estava sentado à escrivaninha, a cabeça apoiada nas mãos, os cotovelos apoiados na mesa. Em um lado, havia uma decantadeira de bebida alcoólica e um copo pela metade. Em frente a ele, um estojo aberto com pistolas de duelo. Enquanto Jessica observava, ele pegou uma das pistolas. Um arrepio subiu-lhe pela espinha. A governanta estava certa. O duque ia se matar!

 

Jessica ficou tão chocada que, por um momento, não soube o que fazer. Sua primeira reação seria para entrar correndo, suplicando-lhe para não fazer aquilo. Mas algo a deteve, disse que essa não era a maneira de tirar o duque de Cleybourne de seu humor negro. Hesitou, lembrando-se das duas conversas que tivera com o homem. Depois prosseguiu, cruzando os dedos para que seu segundo impulso estivesse certo.

— Bem — disse ela friamente ao entrar no escritório. Atrás da mesa, a cabeça do duque levantou em surpresa. — Então é por isso que está rejeitando Gabriela. Ela interferiria em seus planos de suicídio.

Richard franziu a testa, estreitando os olhos.

— Eu não estava... maldição.

Passara a noite no escritório, bebendo mais do que devia. A chegada dessa maldita mulher irritante arruinara seus planos. Obviamente, não poderia fazer o que viera para casa fazer até que providenciasse para que Rachel ou outra pessoa cuidasse da menina que de repente fora colocada sob sua custódia. Já escrevera a Rachel, mas levaria dias, até semanas, para receber uma resposta. Depois disso, ainda levaria mais tempo até que ela chegasse e pegasse a menina — e se ela e Michael não quisessem se responsabilizar por ela? Então, teria de procurar outra pessoa. Era claro que teria de ficar neste lugar maldito por meses, rodeado de lembranças: ouvindo a gargalhada de Alana, vendo seu rosto, dormindo na mesma cama onde um dia Caroline deitara-se com ele...

Começara a beber, na esperança de amenizar um pouco a dor. Não estivera prestes a se matar. Não era tão irresponsável assim. Pegara o estojo de pistolas apenas para olhá-las. Pensou que teria de limpá-las, mas, antes que pudesse fazer isso, essa bruxa entrara em seu escritório. Ela, claro, tiraria as piores conclusões de suas ações. Richard não conseguia se lembrar de ter conhecido alguém tão irritante.

Desde o primeiro momento que Richard a vira, quando ela vinha pelo corredor gritando seu nome imperiosamente, como se ele fosse um criminoso, ele a detestara. Era rude e desagradável, e o olhava com frio desdém, ao qual não estava acostumado, especialmente de uma mulher. Nunca fora do tipo cheio de cerimônias, de exigir o respeito devido à sua posição. Sabia que era uma pessoa fácil. Sua mãe costumava reclamar da forma relaxada como tratava os empregados e de não se dar a auto-importância apropriada a um duque. Mas, com Jessica Maitland, ele se via querendo lembrá-la de seu título, apagar o olhar de desdém do rosto dela.

— Que diabos a senhorita está fazendo aqui? — rosnou. — Cada vez que me viro, lá está a senhorita, metendo o nariz em meu escritório.

— Não é verdade, pois é a terceira vez que o vejo. Respondendo à sua pergunta: eu não consegui dormir e estava a caminho da biblioteca quando o vi aqui, olhando para as armas.

Jessica aproximou-se da escrivaninha dele e olhou para as pistolas, mantendo a voz fria e suave.

— Bonito trabalho.

— Sim. Foram presente de meu pai.

— Ah. Tenho certeza de que ele ficaria satisfeito ao saber o que pretende fazer com elas.

— Eu pretendia limpá-las — respondeu Richard. — Não que seja da sua conta.

— Temo que seja da minha conta. O fato de o senhor ser o tutor de Gabriela faz com que seja. Se não fosse isso, eu, francamente, não me importaria se o senhor colocasse um ponto final em sua existência. Algumas pessoas simplesmente não têm coragem para enfrentar a vida. Faz parte de sua constituição; suponho que haja pouca coisa que possam fazer a respeito.

A fúria tomou conta de Richard com tanta força que ele pulou, empurrando a cadeira para trás.

— Como ousa dizer que sou um covarde?

A mulher era um verdadeiro gavião: língua venenosa e garras afiadas. O fato de ser bonita, com a pele branca como leite e com os cachos ruivos selvagens caindo soltos sobre os ombros, de alguma forma deixava sua natureza rude ainda pior. Vendo-a ali, as curvas suavemente guardadas em um penhoar azul-escuro que deixava seus olhos de um azul ainda mais intenso e puro, o cabelo solto e rebelde, ela parecia o tipo de mulher que fazia um homem pensar apenas em levá-la para a cama, e então ela abria a boca e tudo que ele queria fazer era sacudi-la.

O humor dele piorou ao perceber que ela o fazia pensar em sexo. Não quisera nenhuma outra mulher desde a morte de Caroline, não de uma forma específica. Era irritante e irônico que essa mulher rude lhe provocasse essa tensão na virilha.

Jessica, vendo a raiva que acendeu o rosto do homem, ficou satisfeita com seu plano de ataque. Protestar e raciocinar não o deteriam, pensara ela, sabendo que os fiéis empregados dele e, com certeza, seus amigos e parentes já tinham feito muito isso. Enfurecê-lo, porém, funcionava como um feitiço, arrancando-o da melancolia. Ela deu de ombros.

— Bem, este não é o ato de um homem corajoso: pegar o caminho mais fácil, deixando seus entes queridos chorando por ele.

— O caminho mais fácil? Você não sabe nada sobre isso! Não me conhece e não sabe como minha vida tem sido.

Ela ergueu as sobrancelhas.

— Sim, tenho certeza que tem sido difícil para o senhor, sendo um homem bonito e rico e possuindo um dos títulos mais altos da terra. Posso ver por que se deixa levar pelo desespero.

Os olhos dele brilharam com uma luz vermelha, e Richard teve de fechar as mãos, formando punhos, para não pegá-la pelos ombros e sacudi-la.

— Você não sabe do que está falando. Não sabe nada a meu respeito.

— Talvez eu não saiba. Mas sei sobre a minha vida. Sei que até os 18 anos eu vivia feliz e tinha uma vida privilegiada. Venho de uma boa família. Tinha um pai zeloso. Tive o debute que o senhor mencionou que Gabriela deveria ter. Fiquei até noiva de um vistoso tenente. Então, de repente, essa vida me foi arrancada quando meu pai foi expulso do Exército. Talvez o senhor não se lembre, já que não freqüentávamos os círculos sociais de um duque. Meu pai era o major Thomas Maitland, e ele foi um soldado honrado e íntegro por toda a vida. Depois foi rejeitado, perdeu o título e a honra, que eram sua vida. Ninguém mais nos recebia. Meu noivo terminou o noivado.

A família dele não queria estar associada a tal escândalo. Meu pai, o melhor dos homens, se transformou. Começou a beber e a andar com más companhias. Morreu três meses depois, em uma briga na taberna pública, e como minha mãe já tinha morrido, fiquei sozinha, sem dinheiro, sem perspectiva, sem sequer um bom nome. Perdi tudo. Tornei-me governanta, e como o senhor comentou, não fui bem-sucedida em me curvar diante dos outros, então, como conseqüência, quase morri de fome. Apenas a bondade do general me salvou.

— Meu Deus. Sinto muito. Eu não sabia.

— E conheço a vida de Gabriela — continuou Jessica. — Ela já viu mais tristeza do que qualquer um na idade dela deveria ter visto. Ficou órfã quando tinha oito anos, e agora seu único parente de verdade, o homem que ela amava como a um avô, lhe foi tirado. Ela foi enviada para um estranho, mas nem ele a quer, mal pode esperar para entregá-la a algum outro estranho, porque ela representa muito problema.

— Droga! — resmungou Cleybourne, e o rosto, que se suavizara com compaixão durante a descrição de Jessica dos eventos de sua vida, ficou duro e furioso mais uma vez. — Não é isso! Não estou rejeitando a menina. Não é porque ela representa muito problema.

— Ah, não, certo. Esqueci. É porque ela pode arruinar seus planos de acabar com a própria vida. E ninguém deve ter permissão para fazer isso, não é mesmo?

— Está se excedendo, srta. Maitland.

— Estou? Sinto muito. Sei que está acostumado a lidar com seus dedicados empregados, que fariam qualquer coisa pelo senhor, que se preocupam com o senhor, que quase me convenceram que deve ser um homem melhor do que eu pensei, para gostarem tanto do senhor. Bem, não sou sua empregada. O general Streathern me contratou, e quando ele morreu, confiou a mim o bem-estar de Gabriela. O senhor pode não querer responsabilidade sobre ela, mas eu a aceito de bom grado, e não tenho a intenção de deixar que o senhor estrague ainda mais a vida dela se matando enquanto ela está em sua casa. Se não tem coragem para aceitar a vida e seus problemas, se gosta tão pouco de seus empregados que os deixará tropeçar em seu sangue e em seu corpo uma manhã dessas, está tudo bem por mim. Mas peço que não faça isso até que Gabriela vá embora.

— Basta! — O rosto de Cleybourne estava pálido e inflexível, os olhos brilhando de fúria.

Muitos teriam desanimado ao ver sua raiva, mas Jessica continuou calma, encarando-o, os braços cruzados. Ele era um pouco assustador, mas ela o provocara deliberadamente, buscando tal reação. Não recuaria agora.

— A senhorita é uma cobra venenosa com a língua afiada, e quero que saia do meu escritório agora mesmo — continuou Cleybourne, a voz baixa e furiosa. — Na verdade, srta. Maitland, se não fosse pela inadequação de uma menina da idade da srta. Carstairs morando aqui sem uma governanta, eu a expulsaria desta casa imediatamente.

— Não tenho dúvida de que faria isso, mas, como eu disse, minha obrigação de cuidar de Gabriela foi dada diretamente pelo general e não me esquivarei de tal tarefa, por menos que o senhor aprecie.

— Saia do meu escritório agora. E reze para que eu a veja o mínimo possível durante o tempo em que estiverem aqui.

— Com prazer, Sua Alteza. — Jessica inclinou um pouco a cabeça, depois virou-se e saiu do escritório, a cabeça empinada e as costas eretas. Atrás dela, escutou o ruído de alguma coisa pesada na escrivaninha do duque, seguido de uma série de xingamentos, cortados pela batida da porta.

Não haveria mais nenhum pensamento sobre se matar esta noite. Jessica sabia. Cleybourne estaria muito ocupado pensando nas formas prazerosas de matá-la. Sorrindo para si mesma, foi em direção ao quarto, a idéia de ler fora esquecida.

O livro que Richard jogara na escrivaninha depois que a srta. Maitland saiu do escritório não adiantou muito para aliviar seu mau humor, nem o barulho da porta batendo. Na verdade, deixaram-no sentindo-se um pouco infantil. Andou de um lado para o outro pelo escritório durante algum tempo, mas isso também não o acalmou, e finalmente desistiu e subiu para ir para a cama. Lá, Noonan conseguiu irritá-lo ainda mais, reclamando sobre o Porto que respingara na manga de seu casaco, mas, claro, não podia descarregar seu mau humor no homem. Noonan estava com ele desde que mal deixara de usar calças curtas, e seu olhar de dignidade ferida fazia Richard sentir-se o pior dos monstros.

Baxter, claro, era ainda pior. Caroline costumava rir e dizer que era o único homem que ela conhecia que era controlado pelos empregados. Mas não conseguia ser duro com os homens idosos, nem com a srta. Brown. Os três praticamente o criaram, muito mais que seus pais. E Nurse, claro. Ele a acomodara em um pequeno chalé com uma sobrinha cuidando dela; estava tão mal da cabeça que quase não reconhecia as pessoas, mas ainda o reconhecia.

Levou mais de uma hora para adormecer. Ficou pensando nas coisas que deveria ter dito à venenosa srta. Maitland. Imaginou qual era o primeiro nome dela, depois disse para si mesmo que devia ser Medusa, para combinar com sua natureza. Pensou com muita alegria em despedi-la. Encontraria outra mulher para cuidar da menina, e depois diria à srta. Maitland, com calma e frieza, que não precisaria mais de seus serviços. Sorriu ao pensar na reação dela.

Mas ele sabia, mesmo enquanto pensava, que não faria isso. A srta. Maitland estava com a menina há algum tempo, e a pobre criança já suportara o suficiente sem perder sua companhia dos últimos anos. Sentia-se culpado o suficiente por mandar a menina para outra pessoa. Não conseguia parar de pensar no fato de que Carstairs a confiara a ele, e sabia que, na verdade, estava decepcionando o amigo. Na época em que Roddy morrera, teria pego a menina com alegria e a criado com Alana, mas o tio-avô dela era a primeira alternativa, claro. E agora... bem, não suportava pensar em ter uma menina em casa de novo. Era verdade que ela era mais velha que Alana, mas sabia que seria uma lembrança constante do que perdera.

De qualquer forma, ela estaria melhor com Rachel e Michael. Eles não tinham filhos, e ele suspeitava que Rachel sentia muito a falta deles. Ela receberia Gabriela de braços abertos. Eram boas pessoas e criariam a menina muito melhor do que um viúvo mergulhado em tristeza. Estava fazendo a coisa certa, sabia, independentemente do que aquela governanta rude dissesse.

Pensar nela fez com que rangesse os dentes de novo. Ocorreu-lhe, mais uma vez, que uma governanta não deveria ter a aparência da srta. Maitland. Governantas não tinham cabelos ruivos encaracolados que convidavam os homens a tocá-los, nem grandes olhos azuis como o céu de verão, nem doces curvas por baixo do suave penhoar de veludo. Uma governanta apropriada, de fato, nunca teria se aproximado de um homem usando penhoar!

Em resumo, era a pessoa mais inadequada para ser governanta, e ele se perguntava se deveria investigá-la mais. Ela mencionara o escândalo com o pai; ele mal se lembrava do fato, já que estava recém-casado na época e envolvido com a nova esposa para prestar atenção em escândalos militares. Mas o major Maitland vinha de uma boa família; seu irmão era barão, se Richard se lembrava corretamente, e a família nunca tinha sido manchada por um escândalo antes. Pensou que talvez tivesse havido boatos de traição, e, então, quando o homem morreu, houve um consenso de que não era nenhuma surpresa, era o tipo de fim que poderia se esperar para um homem que fora expulso do Exército poucos meses antes. Sem dúvida, o irmão fizera o melhor para encobrir o fato.

Claro, pensou Richard, não usaria os erros do pai contra a filha, embora muitos pudessem fazê-lo. Sem dúvida, a vida dela fora difícil depois do escândalo. Ele conhecia a língua venenosa das mulheres da sociedade, e não tinha dúvidas de que ela havia sido condenada ao ostracismo. O noivo ter terminado com ela deve ter sido outro golpe. Não era de admirar que tenha ficado dura e amarga. Era uma vida difícil para uma mulher sem meios de se sustentar. Deve ter tido de depender da generosidade dos familiares, e isso podia ser uma vida cruel. A única forma que uma mulher podia fazer uma vida respeitável era sendo governanta, mas deve ter sido um golpe amargo para alguém que um dia freqüentara os melhores círculos. Nem deve ter sido fácil, imaginou, alguém com a aparência dela conseguir e manter um emprego.

Poucas mulheres estavam dispostas a introduzir uma beleza ruiva em suas casas.

Mas, mesmo sentindo pena dela, ele se lembrava do olhar de desdém que ela lhe lançara naquela noite, a forma irritante como o acusara de rejeitar Gabriela. Dissera que ele era um covarde! A pena sumiu rapidamente antes de outro acesso de fúria.

E tudo foi embora, os pensamentos rodando e rodando até que, finalmente, caiu em um sono inquieto.

Então sonhou com ela.

No sonho, ele estava andando em um longo corredor. Não reconhecia o lugar, mas sabia que fazia parte do castelo. Uma mulher estava parada na frente de uma janela alta no final do corredor, a luz entrando pelo vidro. Era alta, a silhueta contra a janela, e o vestido branco, com o sol refletindo nele, revelava-lhe as suaves curvas do corpo. Ele acelerou o passo.

Ela virou-se quando ele se aproximou, e enquanto chegava mais perto, viu que era a governanta da menina. O cabelo ruivo solto sobre os ombros em uma cascata vermelha. Os olhos azuis estavam radiantes e seu rosto era delicado, com uma expressão que ele nunca tinha visto antes. Ela sorriu devagar e ele sentiu isso em seu âmago.

Depois, de alguma forma, não estavam mais no corredor, mas em uma cama, e ela estava embaixo dele, nua e entregue. Seus seios enchiam a mão dele, extremamente macios, os mamilos enrijecidos. Ela se movia embaixo dele, sua voz um leve gemido. Ele sabia que ela o desejava, e isso aumentava seu próprio desejo. Ele estava quente e excitado, ansiando por ela.

Ela afastou as pernas, e ele penetrou entre elas, gemendo.

O som de seu próprio gemido o acordou. Os olhos se abriram e, por um instante, ele encarou a cabeceira da cama, confuso.

O corpo estava molhado de suor, os pulmões ofegantes, e estava tenso de desejo e dolorosamente insatisfeito.

Meu Deus! Que brincadeira sem graça — poderia ele realmente desejar aquela bruxa de cabelos ruivos?

Richard sentou-se, passando os dedos pelo cabelo. A governanta! Mal podia acreditar que realmente sonhara com ela, e um sonho tão quente e lascivo. Suas veias estavam pulsando, a virilha, doendo: e tudo por uma mulher que despertava sua ira.

Ela era irritante, o deixava furioso. Mal a conhecia, nem sabia seu primeiro nome, mas não gostava do que conhecia. Ela era arrogante, presunçosa, pouco feminina. Richard parou. Tinha de mudar esse pensamento: ela era pouco feminina nos modos. A aparência era deliciosamente cheia de curvas, mesmo sob os vestidos simples e escuros que usava. A aparência dela era... linda.

Ele suspirou, deitando-se na cama e olhando para cima sem ver nada. Por um momento, permitiu-se pensar na aparência dela: os rebeldes cachos cor de fogo, os brilhantes olhos azuis, a pele clara e macia como cetim. Pensou nela como apareceu no sonho, o calor em seus olhos que ele nunca vira, a delicadeza dos lábios cheios de desejo. Lembrava-se da sensação de tê-la embaixo de si, a excitação de tocá-la.

Praguejando, sentou-se de novo. Que diabos estava fazendo? Como podia pensar nela? Sonhar com ela?

Fazia anos desde que tivera esse tipo de sonho com alguma mulher que não fosse sua esposa. Desde o momento em que conhecera Caroline, fora fiel a ela. Não fora necessário muito esforço; francamente, não desejara nenhuma mulher a não ser Caroline. E depois da morte dela, nunca mais se importara com nada nem com ninguém. Não se interessara por nenhuma mulher, e as poucas vezes em que sentira desejo, fora apenas um instinto animal, desejo sem direção ou, às vezes, como agora, em sonhos. Mas, nesses sonhos, era com Caroline que ele fazia amor, e acordava não apenas suando, mas chorando também.

A culpa tomou conta dele. Amava apenas Caroline, desejava apenas Caroline. Mesmo colocando de lado o fato bizarro de que a governanta fora o objeto de sua imaginação, estava chocado por ter sonhado com outra mulher. Mas sabia que, se fosse honesto, teria de admitir que tinha pensamentos ardentes com a srta. Maitland mesmo quando estava acordado e racional. Sabia que outros diriam que sua esposa já estava morta havia quatro anos, que era natural ele achar outra mulher atraente e até mesmo pensar no prazer de ir para a cama com ela. Menos de um ano antes, lembrou-se, seu cunhado Devin dissera que fora Caroline quem tinha morrido, não Richard, e que ninguém esperava que ele nunca mais olhasse para outra mulher.

Mas, como ele disse para Dev na época, sentia-se como se também tivesse morrido naquela noite, quatro anos antes. Sem a esposa e a filha, a vida era formada de cinzas, e todo dia trazia as mesmas atividades vazias e sem vida, que não serviam para nada exceto dizer que sobrevivera outro dia.

Então, como podia sentir desejo por outra mulher agora? Caroline era a única mulher que ele amava, que poderia amar.

O sonho fora uma aberração, disse a si mesmo. Era bizarro e irreal, e claramente o oposto do que sentia. Afinal, não gostava nem um pouco da mulher. O desejo, pensou ele, deve ter sido gerado de alguma forma estranha pela raiva intensa que sentia pela srta. Maitland. Não entendia, mas devia ser a razão. Era o mesmo tipo de coisa que acontecia quando alguém ria quando queria mesmo era chorar ou gritar. Tinha de ser. Qualquer outra coisa era impossível.

Suspirando, deitou-se, virando de lado, e tentou fazer a mente pensar em outra coisa além da srta. Maitland. Percebeu que o sono ainda estava distante.

Na noite seguinte, Richard estava sentado em seu esplendor solitário à mesa de jantar. Olhou para a extensão da brilhante mesa de mogno e pensou, não pela primeira vez, em como era tolice sentar-se sozinho para comer em uma mesa que ficava em uma sala na qual cabia um pequeno exército de pessoas. Um grande enfeite de prata adornava o centro da mesa, cheio de frutas, e candelabros de prata tão pomposos quanto o centro de mesa estavam espalhados; havia velas acesas. Dois lacaios estavam a postos para o caso de Richard precisar de algo que não estivesse ali.

Richard sabia que faria mais sentido arrumar a mesa em uma das salas menores do andar de baixo e comer lá, mas Baxter, claro, ficaria horrorizado com a idéia de ele não jantar formalmente. Havia, afinal, certos padrões a manter quando se trabalhava para um duque.

Richard começou a mexer na sopa, perguntando-se inutilmente onde a srta. Maitland fazia suas refeições — acreditava que na suíte, com sua pupila. Devia ser difícil para ela, pensou, viver naquele limbo ocupado pelas governantas, onde não se era nem empregado nem um membro da família, principalmente para alguém como ela, que vinha de uma boa família e até passara uma temporada em Londres. Com certeza, ela devia sentir falta da vida que tivera; sem dúvida, essa era uma razão para ela ter se tornado tão rabugenta!

Ele fez uma careta, imaginando por que permitira que ela entrasse em seus pensamentos. Até agora, estava de bom humor.

Quando acordou esta manhã, ainda se sentia desgostoso, e decidira que uma boa cavalgada seria a única forma de livrar-se da raiva que sentia. Então, depois do café-da-manhã, foi até os estábulos e montou em seu garanhão, Poseidon.

Primeiro, cavalgara de modo rápido e enérgico, que era exatamente como o cavalo queria. As cavalgadas que fazia em Londres eram muito monótonas para Poseidon, e ele costumava pensar, cheio de culpa, que deveria vender o animal para alguém que cavalgasse mais com ele, mas amava o cavalo e não suportaria abrir mão dele. Era uma sensação boa estar sobre ele de novo, rasgar a estrada ou pular uma cerca. Após alguns minutos, uma certa paz começou a tomar conta de Richard, e ele diminuiu o ritmo do cavalo para um passo mais lento.

Fora a primeira vez que cavalgara por suas terras em quatro anos, e começara a olhar em volta com interesse, percebendo as mudanças nas fazendas: novas cercas e muros que tinham caído, casas que não existiam antes, um riacho que mudara de curso. Estava frio, mas revigorante, e apesar de o céu estar cinza, com nuvens de inverno, a terra estava linda. Era seu lar.

Passara por Jem Farwell, um de seus arrendatários, que insistira que ele fosse a sua casa conhecer a família e ficar para o almoço. Teria sido rude recusar, então resolveu ficar e comer com eles, depois conversar com os vizinhos que o viram passar. Ficou emocionado com a evidente alegria por seu retorno ao castelo Cleybourne, e foi gostoso sentar-se perto da lareira na pequena mas aconchegante casa e escutar o que acontecera nos últimos quatro anos: nascimentos, mortes e casamentos.

Quando conseguiu sair, já era final da tarde, e ele voltou para casa de bom humor; as irritações anteriores haviam desaparecido.

Gostaria de não ter pensado na governanta, já que isso estragou seu humor. Pior, como se seus pensamentos tivessem-na evocado, achou ter escutado a voz dela em algum lugar no corredor.

Com um suspiro, pousou a colher e fez um gesto para levarem a sopa. Um lacaio surgiu para pegar a tigela, e o outro habilmente serviu o próximo prato: uma travessa de peixe assado elegantemente arrumado pela cozinheira. Assim que ele colocou a travessa na mesa, na frente de Richard, o som da maçaneta da porta da frente soou, silenciado pela distância e pelas paredes.

Richard franziu a testa. Quem viria visitá-lo a esta hora da noite? Lembrou-se da chegada tarde da noite da srta. Maitland e suspirou de novo, suspeitando que isso também era culpa dela.

Serviu-se de um pedaço de peixe, determinado a ignorar o que estivesse acontecendo na porta da frente, mas era impossível evitar o som das vozes, mesmo que não conseguisse entender o que era dito.

Depois, destacando-se claramente, veio a voz da governanta, dizendo em um tom de voz chocado:

— Lorde Vesey!

— Que inferno! — exclamou Richard, ficando de pé e jogando o guardanapo na mesa. Saiu da sala e atravessou o salão central.

A srta. Maitland estava ao pé das escadas, fitando o grupo reunido na porta da frente. Lá, embora Richard mal pudesse acreditar, estavam lorde e lady Vesey, entregando seus mantos para um lacaio infeliz.

— Maldição! — exclamou Richard, com algo menos que hospitalidade, e lançou um olhar em direção a Jessica como se ela fosse responsável pela presença do casal. — Que diabos está fazendo aqui, Vesey?

Vesey, que estava alisando o paletó, virou-se para Richard com um sorriso estreito.

— Ah, aí está você, Cleybourne. Achei que esta fosse sua casa. Estava um pouco perdido. Sabia que você não se incomodaria em nos hospedar por uma noite.

Richard encarou-o, sem palavras. Ao lado do marido, Leona sorria de forma íntima e encantadora.

— Olá, Richard.

Richard virou-se para olhar Jessica que estava parada e pálida aos pés da escada, fitando os Vesey como se tivesse visto um fantasma. Ela virou para ele, os olhos arregalados e, pela primeira vez, não sabia o que dizer.

— Ah, que inferno — disse Richard de forma indelicada. — Bem, entrem, então. Acabei de me sentar à mesa para jantar.

— Ah, exatamente do que eu estava precisando — disse Vesey com um sorriso, seguindo em frente. — Estou faminto.

Ocorreu a Richard, então, que estava destinado a fazer a refeição com lorde e lady Vesey e, surpreendendo até a si próprio, virou-se para as escadas.

— Por que não se junta a nós, srta. Maitland? — perguntou ele tranqüilamente, e seu sorriso disse a Jessica que ele sabia que ela não gostaria de participar daquele jantar. Jessica franziu o cenho.

— Ah, eu não posso.

Enquanto ela falava, lady Vesey disse:

— A governanta? Sinceramente, Richard, que engraçado. Não pode estar falando sério.

Richard olhou para Leona sem expressão.

— Estou.

As palavras de Leona foram o suficiente para impelir Jessica a aceitar o convite, apesar de sua rejeição anterior.

— Obrigada, Alteza, adoraria me juntar aos senhores. Leona lançou-lhe um olhar de vigorosa antipatia, e seu olhar desceu pelo vestido simples e escuro de Jessica de forma significativa.

— Você não se veste para o jantar?

— Somos muito informais aqui no campo — respondeu Richard.

— Felizmente, não é mesmo, lady Vesey? — disse Jessica com a voz animada. — Tenho certeza que deve estar se sentindo imunda da viagem.

— Sim — disse Leona desatentamente, depois abriu um lindo sorriso para Richard, dando um passo à frente com a mão esticada, forçando Richard a oferecer-lhe o braço para acompanhá-la até a sala de jantar. — Richard, já faz anos desde que o vi. Está com uma aparência ótima.

Richard lançou um olhar superficial na direção dela.

— A senhora também, lady Vesey, mas, claro, eu nem precisava dizer isso.

— Mas é muito melhor quando é dito. — Leona sorriu para Richard com um olhar malicioso.

— Estou surpreso de vê-los longe de Londres — comentou Richard enquanto caminhava para a sala de jantar, onde Baxter, sempre eficiente, já mandara os lacaios arrumarem os lugares à mesa. — É difícil imaginá-los no campo.

— Você também. Todos sabem que raramente deixa a cidade — respondeu Leona, sentando-se de forma a oferecer a Richard uma visão completa de seus fartos seios. Jessica, assistindo, pensou amargamente que era um milagre os seios da mulher não saírem completamente do vestido, de tão baixo que era o decote.

— O que os trouxe para estes lados? — Richard olhou para o marido de Leona, que entrou na sala logo atrás deles e sentou-se do outro lado de Richard.

Jessica olhou rapidamente em volta, pensando em qual seria o menor dos males: sentar-se ao lado de Vesey ou de sua esposa. Um dos lacaios decidiu por ela puxando uma cadeira ao lado de Vesey.

— Tenho certeza que a governanta lhe contou, não? — respondeu Vesey de forma casual. — Viemos para o funeral do general Streathern. Meu tio-avô, entende?

Richard percebeu que a forma como Vesey referiu-se à srta. Maitland como "a governanta" deixou-o irritado, um detalhe óbvio de que ela não era importante o suficiente para saber seu nome. Richard, que sabia o nome de todos os seus empregados e arrendatários, sempre desprezara tal esnobismo.

— A srta. Maitland — disse ele de forma acentuada — me disse que vocês eram parentes de minha pupila.

— Sim. Primos. Menina encantadora — falou Vesey de modo arrastado. — A propósito, onde está ela? Por que não janta conosco? Deixaria a mesa equilibrada, não é verdade?

— Ela já jantou — disse Jessica sem emoção. Não acrescentou que também já o fizera. A perspectiva de vários pratos de comida nesta companhia não era atraente. Perguntou-se se poderia dizer que estava se sentindo mal e fugir da mesa. Entretanto, queria escutar tudo que fosse dito entre o duque e Vesey, então afastou a idéia.

Vesey olhou para Jessica como se estivesse chocado pelo fato de ela saber falar.

— Mesmo? Bem, talvez eu possa apresentar meus respeitos a ela depois que comermos.

— Ela estará dormindo.

— Nunca soube que era tão chegado à família, Vesey — comentou Richard enquanto um lacaio levava embora a travessa agora fria de peixe.

— Bem, você sabe... Sou o único parente que ela tem agora.

— Triste — murmurou Richard.

— Sim — continuou Vesey, sem perceber a ironia no comentário do duque. — Ninguém do lado do pai dela. Claro que lady Vesey e eu teríamos ficado felizes em cuidar da menina. Não temos filhos.

— Não que eu tenha idade suficiente para ser mãe dela — comentou Leona. — Mas, mesmo assim, eu adoraria ajudar a introduzi-la na sociedade, quando a hora chegar.

— Ah, mas tenho certeza que isso será muito penoso para uma mulher tão encantadora quanto a senhora, lady Vesey — disse Richard. — Eu mesmo cuidarei disso quando chegar a hora.

Os lábios carnudos de Leona curvaram-se em um sorriso sedutor.

— Não seria nada penoso, Richard. Coloco-me inteiramente à sua disposição. — Não havia como não entender a ambigüidade das palavras dela, mas Cleybourne ignorou-as educadamente, concentrando-se em seu prato.

A conversa seguiu o mesmo curso durante a aparentemente interminável refeição, com Vesey trazendo à tona em todas as oportunidades o assunto da pupila de Richard, e Leona flertando loucamente com ele, e nenhum deles referindo-se a Jessica. Se o duque tivera esperança de usá-la para desviar a atenção dos Vesey, pensou Jessica, errara completamente. No que dizia respeito àquele casal, ela não existia.

Leona aproveitou todas as oportunidades possíveis para tocar no braço de Cleybourne, e freqüentemente colocava a mão no peito ao exclamar sobre alguma coisa, como se para chamar a atenção para a curva exuberante dos seios. Em determinado ponto, Jessica teve certeza de ver a mulher puxar sorrateiramente o decote ainda mais para baixo. Ela percebeu, com enorme prazer, que Richard parecia não notar nenhum dos artifícios de lady Vesey. No final da refeição, Jessica podia ver que os lábios exuberantes de Leona estavam ficando cada vez mais finos de irritação. Era uma visão que fazia o jantar quase valer a pena.

— É gentil de sua parte nos hospedar — comentou Vesey em determinado momento.

— Mesmo? É gentil de sua parte falar. Vesey soltou uma pequena risada.

— Você sempre gostou de uma brincadeira, Cleybourne.

— E exatamente por que eu os hospedaria, lorde Vesey? — continuou Richard.

— Bem, estamos perdidos, entende?

— Ficarei feliz em mostrar-lhes o caminho certo.

— Mal podemos viajar agora. Está escuro.

— Há uma hospedaria em Hedby.

— Está lotada.

— Entendo.

— Sim, temo que estejamos presos aqui.

— Aparentemente. — Richard olhou para Jessica, que o fitava consternada. Fez um leve movimento nos ombros para ela.

Quando a refeição finalmente acabou, Cleybourne direcionou os Vesey para Baxter, sugerindo educadamente que eles sem dúvida gostariam de descansar agora. Leona, com um olhar intenso para Richard, disse que duvidava que conseguisse dormir logo, e Vesey, mais uma vez, perguntou sobre Gabriela. Richard, porém, sorriu e simplesmente ignorou as indiretas dos dois, instruindo Baxter a cuidar deles.

— Não pode deixar que fiquem aqui! — disse Jessica assim que os Vesey saíram da sala, virando-se para encarar Cleybourne.

Richard levantou uma sobrancelha.

— Não posso?

— Ah, sei que é o senhor de sua casa e de suas terras, então pode fazer o que quiser. Mas é tolice. É perigoso. Não deve permitir que aquele homem chegue perto de Gabriela.

— Não sei o que Vesey pretende aqui. Mas posso garantir que não vai conseguir — disse Richard com um sorriso fraco nos lábios. — Vesey é um covarde. Além disso, o que ele poderia fazer? Seqüestrá-la? Debaixo do meu teto?

—Não duvido de nada. O general Streathern não confiava nele, e era seu sobrinho. Foi por isso que ele me mandou vir correndo com Gabriela para cá, porque temia o que Vesey poderia fazer. Ele é... bem, não é apenas o dinheiro de Gabriela. Ele também... existem outras razões pelas quais ele não deve ficar perto de uma menina da idade de Gabriela... —Jessica parou, corando.

— Sim. Conheço as preferências de Vesey, embora deva dizer que é um pouco estranho a senhorita saber dessas coisas.

— É só ver a forma como ele olha para ela para saber que há algo errado com ele — respondeu Jessica. — Além disso, o general achava que eu deveria saber para poder entender como ele realmente é perigoso.

— Vesey é desprezível — concordou Richard. — Mas ele nunca ousaria tentar nada com uma menina sob minha proteção.

A senhorita, obviamente, não tem receio de passar por cima de mim, mas, como regra, as outras pessoas têm. Eles são um incômodo, mas apenas isso. Não precisa se preocupar, garanto. Agora, se me dá licença, depois de ter de passar a noite com lorde e lady Vesey, gostaria muito de me trancar em meu escritório. Sozinho.

Como se ela o tivesse forçado a suportar os Vesey a noite toda! Jessica observou-o sair da sala. Bem, por mais que o duque de Cleybourne se orgulhasse em dizer que Vesey não ousaria passar por cima dele, Jessica não estava disposta a deixar a vida de Gabriela depender inteiramente da opinião presunçosa que Cleybourne tinha acerca de si mesmo. Virando-se, foi em direção à suíte, onde pretendia trancar a si mesma e a Gabriela durante a noite.

 

Richard passou o resto da noite no escritório, examinando as contas da propriedade. O administrador trouxera os livros assim que ele voltara ao castelo, mas Richard não se incomodara em vê-los. Pareciam não ter importância, em comparação com seus planos. Mas, hoje, cavalgando pela terra e conversando com seus arrendatários, ficara um pouco curioso sobre as fazendas. Como pretendia passar o resto da noite sozinho no escritório, imaginou poder examinar a contabilidade.

Após aproximadamente uma hora, houve uma batida à porta, e antes que Richard pudesse responder, ela se abriu, e lorde Vesey colocou a cabeça para dentro.

— Ah, aqui está você, velho camarada. Sabia que devia estar escondido em algum lugar.

Parecendo satisfeito consigo mesmo pela dedução, Vesey entrou no escritório e fechou a porta. Richard soltou um gemido.

— Não lhe ocorreu que eu poderia estar escondido por um motivo?

— Mesmo? Por qual motivo?

— Estava buscando um pouco de solidão.

— Verdade? — respondeu Vesey de forma indiferente enquanto se sentava em uma poltrona de couro no outro lado da mesa de Richard. — Nunca gostei disso para mim.

— Apenas uma das muitas formas em que somos diferentes.

— Ele se recostou, olhando para Vesey, que estava olhando ao redor do cômodo. Finalmente, após um longo silêncio, ele sugeriu: — Bem?

— Bem, o quê?

— O que está fazendo aqui? Sei que não está aqui pelo prazer da minha companhia, e como não tenho nenhum prazer na sua, seria mais objetivo você apenas me dizer porque está aqui e depois sair. Por que está no castelo? Por que está sentado aqui neste momento? — Tinha certeza da resposta, claro, mas raciocinou que o melhor plano de ação seria simplesmente encará-lo de frente e acabar com isso.

— É disso que eu gosto — disse Vesey, tentando um sorriso jovial. Em seu rosto pálido e magro, havia uma expressão bizarra. — Um homem que vai direto ao assunto. O motivo para eu estar aqui é me oferecer para livrá-lo da menina.

— Quem?

Vesey olhou para ele de forma esquisita.

— Você sabe. Minha prima.

— Qual é o nome dela?

O rosto de Vesey ficou branco.

— Nome? Ah, bem, Carson, não... Carstairs. É isso!

— O primeiro nome.

— Como eu deveria saber? — Vesey franziu a testa. — Que diferença faz qual é o nome dela?

— Isso faz com que eu imagine por que você pode querer me livrar" de alguém que aparentemente é uma estranha.

— Ah, bem, quanto a isso, ela é minha prima, entende? De segundo ou terceiro grau, não sei bem. Não importa. Sou a única família que ela tem.

— Ela tem minhas condolências.

O hóspede fitou-o, confuso, mas continuou com o jogo.

— Sim, bem, claro. Triste o que aconteceu com o velho e tudo mais. — Ele parou, depois acrescentou, no caso de Cleybourne querer tal informação: — O general Streathern, você sabe.

— Sim, eu sei.

O rosto de Vesey clareou.

— Claro. Bem, de qualquer forma, temos o mesmo sangue. A menina deve ficar com seus parentes, e, é claro, eu cumpro minhas obrigações.

— Ah, suas obrigações, entendo.

— Claro. Não pode ser algo que alguém na sua posição queira assumir, criar uma jovem menina. Sem esposa para cuidar dela. Apenas um fardo para você. Então... — Levantou as mãos, afastando-as em um gesto de generosidade. — É por isso que estou disposto a levá-la, entende? É muito para se pedir a alguém que não é da família?

— E tenho certeza que a grande fortuna dela não tem nada a ver com sua decisão — disse Richard com uma voz insinuante que teria prevenido qualquer um menos estúpido do que lorde Vesey.

Vesey olhou para ele um pouco incerto.

— Ah, bem...

Richard levantou-se da cadeira, inclinou-se e fixou as mãos na mesa à frente.

— Deixe-me ser bem claro, Vesey. Eu não deixaria nem um cachorro sob os seus cuidados, muito menos uma menina. Conheço muito bem seus vícios, e sua esposa tem menos instinto maternal que um lobo. Não existe possibilidade de eu abrir mão de ser tutor de Gabriela em seu benefício. O fato de você estar pensando que estou disposto a isso é um insulto para mim, e se tocar neste assunto de novo comigo, prometo que o expulsarei. Fui claro? Mais pálido que o comum, Vesey levantou-se da cadeira.

— Não precisa gritar, querido camarada. Foi apenas uma sugestão. Não posso imaginar por que você se importaria.

— Porque tenho escrúpulos. Mas não espero que entenda isso. Agora, faça a gentileza de se retirar de meu escritório antes que eu ceda aos meus instintos mais básicos e o coloque para fora pelas orelhas.

Vesey deu a volta na poltrona, lançando um olhar cuidadoso para Cleybourne.

— Não precisa brigar. Estarei fora daqui em um segundo. Vesey abriu a porta e saiu para o corredor. Richard fez uma careta e recostou-se na cadeira, parabenizando-se por pelo menos essa provação ter terminado. Sabia que Vesey tentaria persuadi-lo a abrir mão de Gabriela, mas agora o canalha sabia a opinião de Richard sobre o assunto, portanto, desistiria e iria embora no dia seguinte.

Mas suas esperanças de não ter mais assuntos com os Vesey dissipou-se poucos minutos depois, quando a porta se abriu sem nem mesmo uma batida e lady Vesey entrou. Por um momento, tudo que Richard conseguiu fazer foi olhar. Leona trocara de vestido e agora estava usando algo de musselina clara tão transparente que conseguia ver seus mamilos rosados por baixo do tecido. A camisola com cintura alta levantava seus seios fartos, fazendo-os parecer que iam pular para fora a qualquer momento. O cabelo caía em cachos artificiais por cima da protuberância dos seios.

— Richard! — exclamou ela, fingindo surpresa. — Não sabia que ainda estava acordado. Vim em busca de um livro. — Atravessou o escritório na direção dele, os quadris balançando de forma provocante. — Não estava conseguindo dormir...

— Mesmo? — Richard levantou-se e puxou a corda que fazia tocar um sino. — Uso meu escritório mais para o trabalho do que para leituras prazerosas. A maior parte dos livros está na biblioteca. Vou pedir que um lacaio lhe mostre onde fica.

O riso de Leona foi baixo e rouco.

— Você é um brincalhão, Richard. — Aproximou-se dele e colocou a mão em seu peito. — Não preciso de um lacaio. Preferia que você mesmo me mostrasse.

— Sim, bem, estou mesmo indo para a cama agora.

— Mesmo? Isso parece interessante. — Leona fitou o rosto dele, os olhos dourados cheios de promessas sexuais. — Não gostaria de companhia?

— Estou acostumado a dormir sozinho, lady Vesey. Naquele momento, a porta se abriu e seu criado pessoal entrou, vindo em resposta ao chamado pelo sino.

— Alteza?

— Ah, Noonan. Lady Vesey aparentemente não está conseguindo dormir. Dê a ela um copo de leite quente. E mostre onde fica a biblioteca.

— Certamente, Alteza.

— Pronto. Sem dúvida agora a senhora conseguirá dormir. Uma boa noite, minha lady. — Fez uma reverência para Leona, depois virou e foi em direção à porta, deixando-a parada e sem palavras.

Jessica e Gabriela passaram a manhã seguinte fazendo lições na sala de aula da suíte, na esperança de que, quando terminassem, os Vesey já teriam deixado a casa, a caminho de Londres. Já era quase meio-dia, e Gabriela estava ficando cansada de conjugar verbos em francês, quando se assustaram com um grito penetrante.

Jessica ficou de pé em um pulo e saiu correndo da suíte, Gabriela logo atrás dela. Enquanto Jessica corria, escutou um grito de homem:

— Socorro! Ajudem-me aqui! Leona, minha querida, você está bem?

A única resposta que recebeu foi um gemido. Jessica olhou para Gabriela, tomada de suspeita. As duas desceram as escadas devagar. Quando chegaram à plataforma e olharam para baixo, para o salão principal, viram Leona Vesey deitada aos pés da escada. O marido ajoelhado ao lado dela, segurando sua mão.

Dois lacaios tinham acabado de chegar à cena e, enquanto Jessica continuava olhando, o duque entrou dizendo:

— Que diabos está acontecendo? Quem gritou?

Os empregados reunidos olhavam fascinados para o corpo estendido de Leona. Naquele momento, ela soltou um gemido e levantou um pouco a cabeça.

— O que... O que houve?

— Você caiu, minha querida — respondeu lorde Vesey. — Já estávamos prestes a partir, você estava descendo as escadas, talvez um pouco rápido demais, e seu pé deslizou e você caiu. Graças a Deus, ainda está viva.

Richard aproximou-se, franzindo a testa, e abaixou-se ao lado dela.

— Consegue se mexer, lady Vesey?

— A-acho que sim. — Leona colocou uma das mãos na cabeça em um gesto digno de palco. — Ah, querido, estou um pouco tonta. Richard, me ajude a levantar.

Ela esticou o braço para ele, e quando ele fez o mesmo, ela se inclinou na direção dele de modo engenhoso, de forma que ele a abraçasse enquanto ela se sentava. Levantando-se, ele a puxou consigo. Mais uma vez, ela colocou a mão na cabeça e jogou-se sobre ele, gemendo.

— Só um momento — murmurou ela, e olhou para Richard com olhos arregalados. — Está tudo girando. Devo ter batido com a cabeça.

Jessica rodou os olhos com repulsa e trocou outro olhar com Gabriela, que parecia igualmente suspeitar. Continuaram a descer as escadas até estarem quase no mesmo nível dos outros.

Leona, com os olhos fechados e o rosto pálido, recostou-se no peito do duque. Ele ficou tenso, parecendo profundamente desconfortável.

— A senhora consegue andar, lady Vesey? — perguntou, tirando o braço dela.

— Posso tentar... se você me ajudar. — Agarrou-lhe o braço quando ele tentou se afastar e apoiou-se nele enquanto dava um passo cambaleante para a frente. Soltou um gemido, e Cleybourne segurou-a para não cair.

— Ah, não! — lamentou ela, deitando a cabeça no peito largo dele. — Não consigo andar! Acho que quebrei meu tornozelo.

As palavras trouxeram uma expressão tão sombria ao rosto de Cleybourne que Jessica teve de prender o riso.

— Ah, não! — exclamou Vesey. — Ah, minha querida, Precisamos chamar um médico. Meu querido Cleybourne...

— Sim, sim! — respondeu ele, virando-se para um dos empregados. — Blake! Mande um dos rapazes do estábulo buscar o dr. Houghton. — Virou de volta com um suspiro, ainda segurando o corpo de Leona.

— Melhor voltar para a cama, querida — anunciou lorde Vesey de forma pesarosa. — E pensar que estávamos prestes a continuar nossa viagem.

— Sim — concordou Richard secamente. — Uma coincidência incrível.

Vesey fitou-o suavemente. Leona aproveitou a oportunidade para passar o braço em volta do pescoço de Cleybourne.

— Por favor, Richard, me carregue. — Os olhos estavam bem abertos e suplicantes, a cor realçada pelas lágrimas não derramadas. — Dói muito andar.

— Sem dúvida. — Richard olhou de novo para os empregados. — Hobbs, Williams. Por favor, carreguem lady Vesey até o quarto dela no andar de cima. — Entregou-a para os dois lacaios, dizendo para Leona: — Mandarei uma das empregadas para ajudá-la.

Jessica segurou outro riso por conta da expressão perplexa de lady Vesey enquanto Richard a deixava nas mãos dos dois empregados.

— Não tenho dúvida que você vai querer ficar com ela até que o médico chegue, Vesey — continuou Richard.

— O quê? Ah, claro, acho que sim. — Lorde Vesey não pareceu feliz com a idéia, mas virou e seguiu os dois empregados pelas escadas enquanto eles se davam as mãos e carregavam lady Vesey.

Os olhos de Leona fixaram-se nos de Jessica quando o grupo passou por elas na escada, e seu olhar estava cheio de veneno. Jessica não tinha certeza se o rancor em seu olhar era direcionado inteiramente a ela ou apenas uma fúria generalizada pela forma brusca como o duque de Cleybourne se esquivara de carregá-la para cima. Jessica virou para o pé das escadas. Cleybourne estava olhando para ela.

— Acredito que nossos hóspedes ficarão conosco um pouco mais do que esperávamos — disse ele com evidente falta de satisfação.

O olhar dele saiu de Jessica para Gabriela, que estava um degrau acima. Seus olhos afastaram-se rapidamente, e ele virou, dizendo:

— Baxter! Mande uma das empregadas ver lady Vesey.

— É melhor mandar uma que não se importe em levar um tapa — disse Jessica com firmeza, irritada pelo fato de ele ter desconsiderado Gabriela.

— Como? — Richard virou de novo.

— Lady Vesey parecia estar nervosa... sem dúvida o "tornozelo quebrado" está doendo. E já observei que ela é propensa a descontar seu nervosismo nos empregados.

Richard fitou-a por um momento, depois disse para Baxter:

— Mande Katy, e diga a ela que se lady Vesey der um tapa nela, tem minha permissão para quebrar-lhe o outro tornozelo.

Com estas palavras, saiu rapidamente.

Jessica virou para Gabriela, tentando imaginar o que poderia dizer para diminuir a dor por Richard não ter falado com ela. Gabriela estava parada olhando Cleybourne se afastar, e havia uma solidão dolorosa nos olhos cinza da menina que fez o coração de Jessica se apertar.

— Sinto muito, Gaby — começou ela, esticando a mão para pegar o braço da menina.

— Por que ele não gosta de mim? — perguntou a menina, olhando para a mentora e amiga.

— Não é isso. Por favor, acredite em mim.

— É sim. Tem de ser. Ele não me conhece ainda. Não falou comigo. Esta foi a primeira vez que o vi, a não ser de longe.

— Foi muito rude da parte dele. Mas ele não é um homem sociável. Está acostumado a uma vida solitária. Eu soube que nos últimos anos ele viveu como um ermitão, jamais saindo ou vendo alguém, com exceção de umas poucas pessoas.

— Não peço que ele converse muito comigo — explicou Gabriela com sinceridade. — É só... Ele era amigo do meu pai! Eu queria... Eu achava que ele fosse me querer por causa disso. Que ele fosse querer me criar. De certa forma, achei que seria um pouco como ter um pai de novo. Quero dizer, sei como deve ser, pelo menos um pouco, ter uma mãe. Porque você tem sido uma mãe para mim. E eu achei que ele pudesse ser como um pai. Ou pelo menos algo parecido com um pai.

Emocionada, Jessica passou o braço pela cintura da menina e abraçou-a.

— Você é como se fosse uma filha para mim. Mas talvez o duque simplesmente não consiga ser assim. A governanta me disse que ele teve uma grande tristeza na vida. A esposa e a filha dele morreram quatro anos atrás, e, aparentemente, ele ainda não se recuperou do golpe. Acho que é isso que faz com que ele evite conversar com você. Acho que é muito doloroso para ele porque a filha está morta e ele sente saudade dela.

— Ah! — Gabriela olhou para Jessica e, embora ainda houvesse tristeza em seu rosto, havia também um pouco de alívio. — Então não sou apenas eu que ele não quer por perto... seria qualquer menina.

— Acho que ele não quer isso porque tem medo da... dor que poderia sentir. Mas, sim, tenho certeza que ele seria assim com qualquer jovem, menino ou menina. E ele também está pensando em você. Por mais rude, teimoso e cabeça-dura que seja, acho que ele quer fazer o que for melhor para você. Ele sabe que nunca sai, as pessoas nunca vêm visitá-lo, seria uma vida muito solitária para você e não a prepararia bem para o futuro. Tenho certeza que ele está certo, será melhor para você ficar com um casal. Um pai e uma mãe. Quando seu pai fez o testamento, o duque era casado. Sem dúvida, seu pai tinha a intenção de que você fosse criada por marido e mulher, não por um viúvo.

— Acho que sim.

— E ele tem razão em dizer que, em pouco tempo, quando tiver 18 anos, você vai precisar da experiência de uma lady que freqüente os melhores círculos da sociedade. Um homem nunca conseguiria isso, nem uma governanta. Posso ensinar-lhe algumas coisas, mas você precisa que uma mulher experiente esteja lá com você nas festas, ajudando e tomando conta de você.

— Mas não ligo para essas festas estúpidas!

—Não liga agora. Mas, acredite em mim, em poucos anos, elas serão o centro da sua vida. Sinto muito. Sei que é difícil agora. Você quer ter uma casa, um lugar ao qual pertencer, ter uma família de novo. Mas será melhor esperar um pouco e ter uma casa apropriada, e não ter de partir e ficar com outra pessoa daqui a uns anos para que possa ter um debute apropriado. O duque mencionou a cunhada dele, e pelo que a governanta me disse, parece ser uma ótima mulher. Então, isso pode ser muito melhor.

— Talvez — admitiu Gabriela de má vontade.

— Agora, acho que já tivemos todas as emoções possíveis para hoje. Está na hora de voltarmos para nossos livros.

Gaby suspirou e concordou, e as duas viraram e subiram as escadas.

Jessica não ficou surpresa que, pelo resto do dia, lady Vesey tivesse conseguido mudar o ritmo da casa. Manteve os empregados ocupados subindo e descendo as escadas até seu quarto para responder ao toque do sino. Queria comida; queria bebida; nada que era servido estava bom; precisava que os travesseiros fossem afofados; os lençóis da cama tinham de ser trocados... a lista parecia interminável.

Finalmente, Leona percebeu, após muitas horas presa na cama sozinha, que, enquanto conseguisse ficar no castelo Cleybourne, também estaria completamente incapaz de jogar seu charme para o duque. Esperara que ele fosse até o quarto dela ver como estava, o que ele não fizera nem uma vez. Quando ela perguntou por ele, a empregada respondeu que estava ocupado no escritório, examinando os livros com o administrador da propriedade.

No meio da tarde, Leona decidiu que precisava mudar de cenário e fez os lacaios carregarem-na para baixo. Ficou deitada no divã azul de veludo em uma das salas de estar, as saias arrumadas de forma atraente sobre as pernas, com apenas um pedacinho do tornozelo aparecendo enquanto apoiava o pé machucado em um travesseiro. A luz do dia não era sua luz favorita, já que tendia a revelar todas as pequenas linhas que uma vela teria escondido, mas, pelo menos, as cortinas das altas janelas estavam abertas em uma perspectiva do sul, e nenhum pouco da luz direta do sol recaía sobre onde ela estava.

Ainda assim, percebeu ela, o duque não apareceu para visitá-la, e ela estava cada vez mais entediada e irritada. Finalmente, teve de se contentar em conversar com Vesey, que foi ver como ela estava. Ele teve a idéia de mandar uma das empregadas chamar a governanta e a menina.

— Seria natural, você sabe, que os primos da menina tivessem algum interesse nela. As crianças sempre são chamadas para falar com parentes velhos e chatos.

— E você está querendo me enganar a esse respeito? — perguntou Leona com uma voz pouco cordial.

— De jeito nenhum, minha querida. Estou apenas dizendo que não me importaria em ver a menina. Poderíamos ter a chance de nos tornar amigos dela, digamos assim. Fazer com que ela se sinta importante por conversar conosco.

— Bem, o que se diz para uma criança? — queixou-se Leona. — Passei a vida inteira evitando-as.

— Não a vida inteira — comentou o marido. — Você já foi criança. Na época, ficava rodeada de outras crianças, como deveria ficar.

— E tenho certeza que eram muito chatas. Vesey, você não ajuda em nada. E a governanta? Não quero ter de conversar com ela.

— Bem, com quem mais você vai conversar, então? Com os empregados? Pelo menos, aquela ruiva vem de uma família decente. O tio também é lorde.

— E ela é uma governanta? Que tolice.

— Não, é verdade. Houve algum escândalo anos atrás envolvendo o pai dela... e todos viraram as costas para ela, claro. Mas um pouco de escândalo não deveria aborrecê-la, querida.

Leona fez uma careta.

— Tenho certeza que não foi um escândalo interessante. Ela é a srta. Sem-graça. — Suspirou, pensando em passar o resto da tarde na companhia de Vesey. — Ah, então mande chamá-las.

Vesey ficou feliz em obedecer, e poucos minutos depois Jessica e Gabriela entraram na sala. Elas pareciam, pensou Leona, elegantes como uma agulha, e tão chatas quanto, mas talvez fosse engraçado assistir Vesey fazer papel de bobo tentando conquistar a menina.

Jessica e Gabriela sentaram-se em frente a Leona, Jessica entre Gabriela e a poltrona em que Vesey já estava sentado quando elas entraram. Jessica pensara em não atender ao chamado arrogante de Vesey. Gabriela ficara assustada de estar na mesma sala que ele. Mas, raciocinou Jessica, ela e Gabriela não poderiam evitá-los por dias a fio. E se não descessem para fazer uma visita formal agora, era bem provável que Vesey fosse até a suíte chamá-las. E, certamente, não queria ficar presa com ele lá, onde não poderia pegar Gabriela e sair quando quisesse. Então, no final, trouxera Gabriela para a sala de estar azul.

Aparentemente, Baxter se incumbira de avisar Cleybourne da iminente conversa delas com os Vesey, pois dois minutos depois da entrada delas o duque também entrou.

Olhou em volta da sala. Lorde Vesey, que estava prestes a sentar-se em uma poltrona mais perto de Gabriela, ficou quieto onde estava. Jessica endireitou-se na cadeira, encarando Cleybourne com um ar quase desafiador, e ao lado dela no sofá, Gabriela lançou um olhar nervoso para a governanta. Leona, alheia a todos os outros, sorriu para Cleybourne e endireitou-se no divã, apenas para realçar as formas exuberantes do corpo reclinado.

— Richard — disse ela com uma voz baixa e íntima —, que menino malvado você foi, me deixando sozinha o dia todo.

— Quase sozinha — respondeu Richard, olhando para os outros. — Srta. Maitland. Srta. Carstairs. Vesey.

Gabriela dirigiu-se a Jessica.

— Posso sair agora? Preciso terminar minha lição.

— Claro, minha querida.

Jessica também se levantou quando Gabriela ficou de pé e apressou-se para sair da sala.

— Também devo me retirar. Por favor, me dêem licença.

— Não, esperem — disse Cleybourne. — Fiquem aqui. Quero conversar com a srta. Carstairs.

Jessica encarou-o, surpresa demais com as palavras dele para fazer algo que não fosse assentir e sentar-se.

Cleybourne virou-se e seguiu Gabriela até o corredor, al-cançando-a ao pé da escadaria.

— Srta. Car... Gabriela! Espere.

Gabriela congelou, um pé no primeiro degrau, e virou-se. Lembrando-se de seus modos, fez uma pequena reverência e disse:

— Sim, Alteza?

— Tive a impressão que você saiu da sala porque eu entrei — começou Cleybourne.

— Sinto muito. Fui rude? — Gabriela olhou para ele, insegura. — Não tive a intenção. Foi só que, bem, achei que o senhor não ia gostar se eu ficasse lá.

Uma expressão de vergonha cruzou o rosto de Cleybourne.

— Tive medo que esse fosse seu motivo. Sinto muito se passei essa impressão. — Parou, depois continuou, um pouco tenso: — Eu a segui até aqui pois queria me desculpar.

— Queria? — Gabriela olhou para ele perplexa.

— Sim. Percebi que eu... que fui muito rude com você esta manhã. Eu apenas fiquei surpreso ao vê-la e... não sabia o que dizer. Tenho pensado nisso desde então, e sinto, bem, como se eu fosse um monstro para você.

— Ah, não — garantiu Gabriela. — No início, achei que o senhor não gostasse de mim, mas a srta. Jessica me explicou.

Então este era o nome dela: Jessica. Combinava com ela. Jessica... Repetiu o nome em sua mente.

— Explicou? E o que a srta. Jessica disse?

— Ela me disse que o senhor não quer ficar comigo porque é melhor para mim... que eu devo ter como tutor um homem casado, para que a esposa possa me criar.

— Exatamente. — Richard soltou um suspiro aliviado, de alguma forma surpreso que a governanta tivesse apoiado sua história. — Você vai precisar de uma mulher que possa apresentá-la à sociedade de forma apropriada.

Lançou um olhar rápido para Gabriela. Não tinha ainda olhado de verdade para ela, apenas visto de longe. Não quisera vê-la. Mas não podia deixar de fitá-la agora.

Era mais velha do que Alana seria se estivesse viva. Alana teria apenas sete anos, metade da idade da menina. Ainda assim, não conseguia olhar para ela, nem pensar nela, sem se lembrar da filha morta. Alana teria essa idade em mais sete anos; ele tentava imaginar como ela ficaria.

Era cada vez mais difícil evocar a imagem de Alana em sua mente. Ela desaparecera de sua vida há mais anos do que ela vivera antes de morrer. Longe dele há mais tempo do que ele convivera com ela. Mesmo assim, causara um impacto maior do que qualquer outra pessoa já tinha causado... ou jamais causaria, acreditava ele.

O colorido de Gabriela era diferente. O cabelo de Alana, como o de seus pais, era negro, e os olhos eram castanho-claros. O pequeno e alegre rosto, com bochechas rosadas e redondas, também era muito diferente. Esta menina olhava para ele de forma solene, os olhos cinza arregalados no rosto em forma de coração, uma moldura de cabelo liso e castanho caindo à volta.

— Mas eu disse a ela que achava isso ridículo — continuou Gabriela, arruinando as esperanças dele de que ela tivesse entendido e aceitado suas razões para procurar um novo tutor. — Deve ser mais fácil encontrar uma pessoa adequada para me apresentar à sociedade daqui a quatro anos do que convencer alguém a assumir minha guarda por mais sete.

— Seria melhor para você ficar com a mesma pessoa — começou ele de forma persuasiva, mas a voz falhou quando Gabriela lançou-lhe um olhar cético.

— E foi por esse motivo que não quis me conhecer? Que nunca estava no mesmo lugar que eu? O senhor nem falou comigo.

Embora ela falasse em um tom calmo, não conseguia esconder completamente a pontada de dor na voz. O coração de Richard se apertou.

— Sinto muito — disse ele de novo. — Eu estava sendo muito egoísta. Eu... não parei para pensar no que você devia estar pensando. Garanto que não vê-la não teve nada a ver com você ou com não querer que fique aqui.

— A srta. Jessica me disse que o senhor teve uma filha, e que ela morreu. Ela disse que era por causa disso. É isso mesmo? Porque não sou como ela?

— Não. Não tem nada a ver com você. A culpa é toda minha. Acho que tinha medo de como me sentiria ao vê-la, ao tê-la por perto. Entende o que quero dizer?

— Você ficaria triste em me ver? Ele assentiu.

— Era o que eu temia. Que ver outra criança, mesmo de uma idade diferente, fizesse com que eu me lembrasse de Alana. E a dor seria pior.

— Sinto muito. Não quero fazer com que se sinta mal. Ele deu um sorriso fraco.

— Não faz. A verdade é que não é de Alana que lembro quando olho para você. É de seu pai.

— Mesmo?

— Sim. Os olhos dele eram como os seus. Ele costumava olhar para mim dessa mesma forma quando eu sugeria algum plano idiota. Geralmente, era mais sensato que eu. Mas depois sorria, e os olhos dele brilhavam, e o canto da boca se levantava... sim, assim mesmo.

Gabriela riu, os olhos brilhando.

— Mesmo? Eu realmente pareço com ele?

— Seus olhos são iguais aos dele. Em tudo mais, você parece com sua mãe. Que era, devo acrescentar, uma mulher muito atraente.

— Era mesmo — concordou Gabriela, uma pontada de orgulho na voz. — Mas eu não sabia que me parecia com ela. O general dizia que sim, mas eu não conseguia ver. Achei que talvez ele só dissesse para ser educado.

— Bem, não precisa se preocupar com isso a meu respeito — garantiu Richard —, já que ambos sabemos que não costumo ser muito educado.

Gabriela riu.

— Eu gosto de você.

— Gosta? Então você é uma pessoa bondosa, já que agi com você de forma abominável.

— Você estava triste por causa da sua filha. Eu entendo. Também estou triste por causa do general.

— Sinto muito.

— Às vezes, quando acordo de manhã, esqueço e acho que tenho de dizer algo para o vovô. Depois me lembro que ele se foi. — Ela parou. — Acontece isso com você?

— Acontecia com freqüência logo depois. Eu acordava e pensava: "Vou levar Alana para uma cavalgada esta manhã." Ou: "Tenho de contar a ela sobre os novos filhotinhos no canil." Então eu lembrava que não podia. — Ele abaixou o olhar e assentiu. — Mas melhora com o tempo. Agora, quase nunca acontece.

Ele disse isso para confortar Gabriela, mas depois ficou chocado com a verdade das palavras. Ficara tão acostumado com sua tristeza que mal tinha notado como melhorara.

— Que bom. — Gabriela sorriu e subiu um degrau. — Prazer em conhecê-lo.

— O prazer é todo meu. — Ele já ia virar, mas parou e disse: — Talvez...

— Sim? — Gabriela olhou para ele, ansiosa.

— Eu ia dar uma volta pelo jardim quando Baxter me disse da reunião na sala de estar. Acho que eles não sentirão minha falta se eu fizer isso agora.. Talvez você... queira me acompanhar. Posso contar-lhe sobre seu pai. Você gostaria?

— Ah, claro! — Gabriela bateu palmas, os olhos brilhando. — Gostaria mais do que qualquer outra coisa!

Richard sorriu.

— Certo. Então vá pegar seu casaco e sairemos pela porta dos fundos.

 

Os minutos arrastaram-se enquanto os três ocupantes da sala de estar formal permaneciam sentados, tensos, falando pouco, cada um perdido em seus próprios pensamentos. Jessica não conseguia imaginar aonde o duque fora. Parecera que tinha a intenção de seguir Gabriela e falar com ela. Jessica ainda tinha esperanças que ele decidisse aceitar a menina. Sabia que, apesar de Gabriela ter aceitado a distância de Cleybourne com dignidade, a menina adoraria se ele lhe desse um pouco de atenção. Por outro lado, não podia deixar de considerar terrível o fato de ele ter deixado para Jessica o fardo de aturar a companhia dos Vesey.

Lorde Vesey falou pouco, claramente entediado, e embora lady Vesey falasse, era sempre sobre si mesma, principalmente sobre a inconveniência de ficar deitada em uma cama com o tornozelo machucado.

— O médico disse que não está quebrado — disse ela, as sobrancelhas levantadas mostrando que não confiava na capacidade dele. — Mas não sei como pode não estar... Uma mera torção não poderia doer tanto.

Jessica olhou para o tornozelo de Leona, levantado sobre um travesseiro, a bainha do vestido escorregando para revelar a encantadora parte descoberta.

— Extraordinário como seu tornozelo está tão pouco inchado ou roxo — comentou secamente.

Leona estreitou os olhos ao mirar Jessica.

— É mesmo, não é? Sou muito sortuda nesse aspecto.

— Bem, os médicos do campo nem sempre são os melhores — compadeceu-se Jessica. — Talvez deva ir para Londres... para que possa procurar um médico melhor.

Uma antipatia intensa cruzou os olhos de Leona.

— E talvez você deva aprender a manter a boca fechada quando está na companhia de seus superiores.

— Ah, eu faço isso — respondeu Jessica com calma. Levou um momento para Leona entender o insulto que Jessica acabara de lhe fazer. Então, antes que pudesse dar uma resposta furiosa, ouviu passos no corredor, e Duncan, um dos lacaios, entrou na sala irradiando alegria.

— Alteza! Lady Westhampton chegou. — Ele parou, olhando ao redor da sala, confuso.

Uma mulher alta entrou na sala atrás dele. Usava um manto de lã preto, enfeitado com pele, o capuz puxado para trás para revelar o rosto. Era uma mulher marcante, com olhos verdes brilhantes e cabelos tão negros quanto o manto.

— Rich...

Ela também parou ao ver que Cleybourne não estava na sala. Seu olhar caiu sobre Jessica, confuso, depois foi até Leona. Ficou tensa, uma sobrancelha elegantemente arqueada mostrando perplexidade. A surpresa que teve ao ver lady Vesey era de evidente desagrado.

— Perdoe-me, minha lady — desculpou-se Duncan. — Achei que o duque estivesse aqui. Vou encontrá-lo e dizer que a senhora chegou. Posso guardar seu abrigo?

— Obrigada — disse a mulher com um sorriso gracioso, tirando o manto e entregando-o ao homem antes de virar-se para encarar Leona. O elegante vestido era de um verde-esmeralda vivo que fazia seus olhos parecerem ainda mais verdes.

— Bem, lady Vesey. — A voz era quebradiça e sem vida como folhas no inverno. — Devo dizer que é uma surpresa encontrá-la aqui. — Assentiu rapidamente em direção ao marido de Leona. — Lorde Vesey.

Virou-se para Jessica com uma voz cuidadosamente neutra.

— Olá. Sou Rachel, lady Westhampton. Sou cunhada de Cleybourne.

— Prazer em conhecê-la. Sou Jessica Maitland.

— Ela é uma governanta — disse Leona, fazendo pouco caso.

— Governanta? — repetiu Rachel, pasma.

— Sim. O duque é tutor de minha pupila.

A outra mulher pareceu ainda mais perdida. Olhou para Leona, como se procurando confirmação, e lady Vesey deu de ombros.

— Verdade. A menina é parente de Vesey.

— Entendo — respondeu lady Westhampton, embora estivesse claro pelo tom de voz que não entendia. — É um prazer conhecê-la, srta. Maitland. Estou um pouco assustada, confesso. Cleybourne não tinha me dito que era tutor de uma menina.

— Obrigada. É uma honra conhecer a senhora também. Sua Alteza fala muito bem da senhora. E o duque se tornou tutor da srta. Carstairs, minha pupila, muito recentemente.

— Então foi por isso que ele veio para o castelo... para encontrar a pupila. — Rachel pareceu aliviada. — Ele me mandou um bilhete dizendo para onde estava indo, mas não dizia por quê.

— Ele não estava nos esperando — explicou Jessica. — O duque e o pai de Gabriela eram amigos, e o pai dela morreu.

— Ah! Quer dizer que a menina é filha de Roddy Carstairs?

— Sim.

— Mas Roddy morreu anos atrás.

— Exatamente. Quando os pais de Gabriela morreram, o pai dela nomeou o tio-avô dela, general Streathern, como seu tutor, com o duque de Cleybourne como tutor caso o general lhe faltasse.

— Entendo.

— Sou governanta de Gabriela há seis anos, desde que ela foi morar com o general Streathern. Infelizmente, ele faleceu alguns dias atrás.

— Ah, sinto muito. — Rachel sentou-se ao lado de Jessica no sofá, o rosto solidário. — Pobre menina.

— Verdade. — Jessica assentiu, pensando que gostava de lady Westhampton. — Foi uma época muito triste para ela. O tio-avô era mais como um avô para ela. — Continuou explicando a designação do duque de Cleybourne como tutor de Gabriela no testamento e suas instruções para que Jessica trouxesse a menina imediatamente para o castelo Cleybourne.

— Então Richard será o tutor dela? — Rachel parecia satisfeita. — Que ótimo, isso será muito bom.

— Espero que sim — respondeu Jessica de forma ambígua.

A outra mulher percebeu o tom e franziu um pouco a testa. Começou a falar algo, depois parou, olhando de Jessica para os Vesey.

— Então... vocês quatro viajaram juntos? Leona riu de uma forma estranha para uma lady.

— Não, claro que não. Viemos em nossa carruagem.

— Nós nos perdemos e acabamos aqui, entende? — explicou Vesey.

— Foi uma grande coincidência — acrescentou Jessica.

— Imagino que sim. Jessica continuou.

— Lady Vesey caiu e machucou o tornozelo esta manhã.

— Então, obviamente, tivemos de ficar aqui — disse Vesey. — Não poderia fazer Leona viajar com o tornozelo machucado.

— Claro que não. — Rachel olhou de forma cética para o tornozelo levantado de Leona.

Irritada, Leona puxou o vestido para cobrir o tornozelo.

— Estou sentindo muita dor — anunciou ela. — Vesey, chame o lacaio. Acho que devo subir para descansar de novo.

— Claro, minha querida. — Vesey levantou-se rapidamente para cumprir a ordem.

Jessica tinha certeza de que, como Gabriela não estava mais aqui, Vesey tinha tão pouca vontade de continuar na sala quanto Leona tinha de ficar lá sem o duque. Lady Westhampton e Jessica assistiram com uma mistura de irritação e diversão à grande produção para tirar lady Vesey da sala. Foram necessários dois lacaios, uma empregada para carregar o travesseiro e os sais aromáticos dela, e lorde Vesey para direcionar a comitiva, e isso se prolongou por muitos minutos, terminando com um toque final cômico, com a empregada voltando para a sala para pegar o xale que Leona deixara para trás.

Quando, finalmente, eles foram embora, Rachel virou-se para Jessica.

— Estou muito feliz em conhecê-la, srta. Maitland. A idéia de Cleybourne ser um tutor me agrada muito. Acho que trará vida à existência dele, dará a ele uma... uma...

— Razão para viver? — disse Jessica, sem parar para pensar. Lady Westhampton arregalou os olhos e prendeu a respiração.

— O que quer dizer? — Colocou a mão no braço de Jessica. — Algo aconteceu? Richard...

— Sinto muito — disse Jessica rapidamente, amaldiçoando mentalmente sua língua solta. — Não deveria ter dito nada. Não pensei. Não queria deixá-la alarmada.

— Prefiro ficar alarmada do que desavisada. Por favor, me diga por que disse isso.

— Conversei com a governanta do duque uma manhã dessas, logo depois que cheguei. Eu estava chateada porque o duque não queria ser o tutor de Gabriela.

— Quer dizer que ele recusou?

— Ele disse que encontraria outra pessoa. Na verdade, mencionou o nome da senhora.

— Meu? — Lady Westhampton parecia surpresa, depois pensativa. — Bem, suponho que eu poderia... mas seria muito melhor se ele assumisse isso.

— A srta. Brown pensa da mesma maneira. Ela me explicou o que aconteceu quatro anos atrás e por que ele poderia não querer uma menina por perto.

A mulher assentiu com tristeza.

— Sim. Richard nunca se recuperou das mortes de minha irmã e de minha sobrinha. Ele as amava profundamente.

— Ele não queria nem conhecer Gabriela. Disse que achava que seria melhor para ela, já que iria para outra casa.

— Ah, não! — Rachel parecia chocada. — Não sei por quem sinto mais, por Richard ou pela pobre menina.

— A srta. Brown falou-me que a senhora disse para Baxter que o duque estava... bem, ela parecia achar que a senhora temia que ele pudesse fazer algum mal a si mesmo.

— É verdade — disse Rachel com sinceridade. — Amo muito Richard. Ele é como um irmão para mim. Os últimos quatro anos foram difíceis para ele. E nos últimos tempos, pareceu piorar ainda mais, como se finalmente tivesse desistido de ter esperança que sua vida pudesse melhorar. Então, quando meus empregados entregaram-me o bilhete dele, fiquei terrivelmente preocupada. Fazia tanto tempo que ele não morava aqui... e nesta época do ano, o aniversário da morte de Carol. Isso me deu calafrios. Foi por isso que vim. Estava visitando meu irmão Dev e sua nova esposa, e planejava viajar para a Mansão Westhampton para as festas. Mas fiquei tão preocupada...

— Posso ser sincera com a senhora, lady Westhampton?

— Claro, gostaria que fosse.

— Acho que seus medos não são injustificados.

Um espasmo de dor cruzou as lindas feições de Rachel.

— Ele planeja se matar?

— Fui até a biblioteca uma noite para pegar um livro e passei pelo escritório dele. Estava sentado à escrivaninha, com o estojo o de pistolas na frente. Disse que queria apenas limpá-las. Mas a forma como olhava para a arma na mão, depois do que a srta. Brown me contou...

— Ah, não! Tinha tanto medo disso. Havia alguma coisa no bilhete... Senti como se ele estivesse se despedindo, e não apenas para as festas.

— Acho que pode ser por isso que ele está se recusando a ser tutor. Talvez até seja o motivo por que ele não quer conhecê-la.

Seria realmente melhor para ela não conhecê-lo se ele estará morto em algumas semanas.

— Ou dias. — Rachel demonstrava uma tristeza infinita. — Ah, pobre Richard. Não sei o que fazer. Pensei em convidá-lo para passar o Natal conosco, mas tenho certeza que não irá. E se ele já decidiu se autodestruir...

— Acho que ele não vai fazer nada parecido com isso com Gabriela em casa.

— Sim, ele é um homem muito responsável.

— Acho que vai adiar pelo menos até que tenhamos ido embora. Quando ele encontrar outro tutor.

— Posso influenciar isso. Se ele me pedir, posso simplesmente dizer não, e ele terá de encontrar outra pessoa. Ou talvez... — O rosto dela se iluminou. — Posso dizer a ele que é uma tarefa muito difícil, e claro que envolveria meu marido, então preciso perguntar a opinião de lorde Westhampton. Posso enrolá-lo assim até depois do Natal. Então, se eu recusar, ele terá de procurar outra pessoa, e isso levará mais tempo. — Ela suspirou. — Gostaria que pudéssemos impedi-lo em vez de apenas atrasá-lo.

— Eu não perderia as esperanças, minha lady. Na outra noite, quando achei que ele estava prestes a se matar, consegui distraí-lo.

— Distraí-lo? — Rachel pareceu um pouco confusa. Jessica assentiu.

— O duque e eu... bem, tenho a tendência de irritá-lo de alguma forma.

— Richard? — Rachel parecia impressionada. — Mas ele é um homem tão afável. Não é mais sociável, admito, mas nunca foi difícil.

— Sem dúvida ele não é, com outras pessoas, mas não gosta de meus modos. De minha franqueza. Acabamos discutindo todas as vezes que conversamos.

— Ah. Entendo.

— Foi assim que consegui distraí-lo. Eu o critiquei por tentar fazer isso consigo mesmo, e ele ficou um tanto furioso, e tivemos uma discussão acalorada. No final, ele bateu a porta.

— Meu Deus.

— Mas isso afastou-o dos pensamentos de morte. Rachel fitou Jessica por um longo momento, uma insinuação de sorriso começando a se formar nos cantos da boca.

— Então, esta é sua estratégia... mantê-lo furioso o tempo todo?

Jessica riu.

— Acho que infelizmente nem eu sou capaz de fazer isso. Ainda assim, ele saiu para cavalgar pela propriedade ontem, o que Baxter pareceu achar um ótimo sinal. Foi a primeira vez que fez isso desde que voltou para casa. Se pudermos fazê-lo participar mais da vida, acho que seria bom para ele. Às vezes, quando estamos cercados de muitas pessoas dedicadas, elas podem tentar afastar nosso fardo, ser solidárias, e dessa forma nunca temos de recomeçar e continuar nossas vidas.

— Talvez você esteja certa. Ele é um homem muito amado. Talvez o tenhamos protegido demais.

— E se ele pelo menos conhecer Gabriela, fará um bem enorme para ambos. — Ela parou, depois acrescentou com um sorriso malicioso: — Além disso, agora que lady Vesey está aqui, terei muita ajuda para mantê-lo irritado.

As palavras dela provocaram uma gargalhada em Rachel.

— O que aquela mulher está fazendo aqui? Sei que Richard não suporta nenhum dos dois. Ele, certamente, não os convidou para ficar aqui.

— Podemos dizer que eles se convidaram — explicou Jessica. — Chegaram ontem à noite, dizendo que tinham se perdido quando estavam viajando de Norfolk para Londres.

— Eles passaram por Yorkshire? Jessica deu de ombros.

— Eu não disse que lorde Vesey era bom em inventar histórias. Entretanto, aqui estavam eles, e já era tarde, e o duque acabou permitindo que passassem a noite. Deveriam partir esta manhã, mas, ao descer as escadas, parece que a lady caiu e machucou o tornozelo. "Quebrou o tornozelo", como ela diz.

Jessica continuou descrevendo a cena que testemunhara ao pé da escadaria naquela manhã, imitando os Vesey com tal perfeição que lady Westhampton logo estava rindo a valer.

— O descaramento daquela mulher não tem limites — disse Rachel finalmente. — Mas não entendo por que eles estão fazendo isso. Ela, certamente, não espera seduzir Richard. Quero dizer, sei que ela está procurando um homem rico para ajudá-la a sustentar seus caprichos agora que Dev se foi, mas... Richard? Será que ela não sabe que ele a despreza? Como todos na família.

De repente, a fofoca que a boa amiga de Jessica, Viola, contara fazia sentido. Viola tinha dito que lady Vesey tivera um caso público de anos com o conde de Ravenscar, Devin Aincourt, e que ela o perdera meses atrás para uma herdeira americana. A sociedade inteira estava fofocando a respeito. Agora Jessica percebeu que o "irmão Dev" de quem lady Westhampton falava era Devin Aincourt, que ficara sob o feitiço de lady Vesey por muito tempo... e a esposa dele não era ninguém menos do que a herdeira americana que a maior parte da sociedade londrina gostaria de parabenizar por levar a melhor sobre lady Vesey.

— Acho que lady Vesey teria dificuldades em imaginar que algum homem poderia não sucumbir a seu charme — respondeu Jessica. — Certamente, ela flerta muito com ele sempre que está por perto. — Com um sorriso, acrescentou: — Percebi que o duque evitou ficar por perto hoje.

— Eu devia imaginar — disse Rachel. — Ainda assim, por que ela escolheria Richard? Não pode simplesmente ter sido um acidente eles pararem aqui. E quem levaria o marido em uma tentativa de sedução?

— Ah, não. Não foi acidente. Não sei exatamente o que lady Vesey pretende ganhar com tudo isso, mas sei por que lorde Vesey está aqui. — Explicou o relacionamento repugnante de Vesey com Gabriela, assim como seu desejo de ser o tutor dela no lugar de Richard. — Então, acho que quando descobriram que tínhamos vindo para cá imediatamente após o funeral, ele decidiu nos seguir. Talvez ele ache que a mulher conseguirá convencer o duque a dar Gabriela para ele.

— Como se Richard fosse pensar em uma coisa dessas! — exclamou Rachel, indignada. — Por mais que não queira ser tutor dela, Richard jamais deixaria alguém nas mãos de uma cobra como lorde Vesey.

— Eu sei. No início, fiquei com medo que ele fizesse isso, quando não quis ser o tutor de Gabriela, mas acabei percebendo que ele é honrado demais para fazer isso, e muito consciente da verdadeira natureza de Vesey.

Foram interrompidas por Baxter, que trazia uma grande bandeja de prata com um bule de chá e xícaras, assim como travessas de sanduíches e bolos indispensáveis para o chá da tarde.

— Achei que a senhora apreciaria um refresco, minha lady — disse, sorrindo para Rachel.

— Obrigada, Baxter. Você está certo, como sempre. É bom vê-lo.

Baxter colocou a bandeja na mesa de centro em frente ao sofá.

— É bom ver a senhora também, lady Westhampton. Sei que Sua Alteza ficará feliz ao vê-la aqui. Mandei um lacaio buscá-lo. Ele estava caminhando no jardim com a srta. Gabriela.

— Gabriela! — exclamou Jessica, admirada.

Baxter virou-se para ela com um sorriso e um olhar expressivo.

— Sim, senhorita. Exatamente.

As palavras dele foram confirmadas um momento depois, quando o próprio duque entrou na sala, Gabriela logo atrás.

— Rachel!

Pela primeira vez desde que o conhecera, Jessica viu o rosto de Cleybourne iluminado por um sorriso. Era incrível, pensou, como o homem era bonito quando sorria. A felicidade modificava suas feições de forma sutil, amenizando as linhas um tanto fortes de suas bochechas e maxilar. O estômago de Jessica deu uma curiosa reviravolta ao vê-lo.

— É maravilhoso vê-la — disse ele enquanto cruzava a sala em direção a lady Westhampton, que se levantara quando ele entrou na sala. Colocou as mãos nos ombros dela, sorrindo, e deu-lhe um beijo no rosto.

Jessica teve outra sensação bem menos prazerosa. De repente, ocorreu a ela que o duque poderia nutrir sentimentos por lady Westhampton que não fossem precisamente fraternais. Lady Westhampton parecia muito com a irmã falecida; mesmo Jessica, que não conhecera a duquesa, conseguia ver a semelhança nas feições das duas mulheres. Talvez lady Westhampton não fosse tão marcante quanto a esposa de Cleybourne fora. Os traços de Rachel eram mais suaves e, de alguma forma, mais submissos. Mas o cabelo e os olhos eram da mesma cor e os rostos eram suficientemente parecidos para qualquer um perceber que eram irmãs. E, tendo um parentesco tão próximo, deviam ter outras semelhanças, modos e tom de voz, até a risada.

Amando a esposa da forma como Cleybourne parecia ter amado, parecia razoável para Jessica que ele se sentisse atraído por essa mulher que o fazia lembrar tanto da esposa. Será que ele nutria sentimentos por ela?

Ele virou-se, e seu olhar encontrou Jessica. Ela se levantou, sentindo-se de repente inconveniente. Ele devia estar decepcionado por encontrá-la aqui, pensou ela, e ficou surpresa pelo fato de que a idéia doía.

— Sinto muito. Tenho certeza de que gostariam de ficar sozinhos. Se me derem licença...

— Não, não saia — protestou lady Westhampton. — Ainda nem tomamos nosso chá. Diga para ela ficar, Richard.

— Claro que deve ficar, srta. Maitland. Vamos tomar o chá. — Cleybourne parecia quase jovial. Virou e esticou a mão na direção de Gabriela, acenando para ela dar um passo à frente. — Rachel, permita-me apresentar-lhe Gabriela Carstairs, filha de Roddy Carstairs. Lembra-se dela?

— Claro que sim. A srta. Maitland estava justamente me falando de você, Gabriela. — Rachel deu um sorriso caloroso.

— É um prazer conhecê-la.

— Encantada em conhecê-la, minha lady — respondeu Gabriela, fazendo uma reverência perfeita.

— Você se parece muito com sua mãe — continuou Rachel.

— Mas tem alguma coisa de Roddy Carstairs em seus olhos.

— Foi exatamente o que o duque disse — respondeu Gabriela, feliz.

— Venha, sente-se e vamos tomar um chá. — Rachel começou o ritual de servir chá a todos. — Espero que esteja gostando do castelo, Gabriela. Pode ser um pouco medieval, eu acho.

— Está errada, Rachel. É um lugar bem aconchegante — disse Cleybourne.

Rachel riu.

— Claro, se você acha uma pilha de pedras aconchegante.

— Faz com que me lembre do castelo de um livro que li — opinou Gabriela. — Exceto que aquele era na França, e havia um conde malvado morando nele.

— É precisamente o tipo de lugar onde pode-se esperar encontrar um conde malvado — concordou lady Westhampton, com um brilho nos olhos. — E talvez um ou dois fantasmas.

— Ah, sim. E masmorras. Tem masmorras aqui. Baxter nos mostrou.

— Celas — disse Cleybourne com firmeza, mas havia um sorriso em seus lábios. — São apenas celas. Pode ter havido alguns prisioneiros aqui, mas não são masmorras.

Ele olhou para Jessica, que o estava fitando. Jessica. Sabendo seu nome agora, ele percebia que queria pronunciá-lo. Os olhos dela estavam azul-claros e fixos enquanto o olhava, e havia algo neles que sempre fazia com que ele se sentisse como se ela pudesse ver através dele. Richard, de repente, lembrou-se do sonho que tivera na outra noite e do olhar dela, fitando-o com paixão. Ele ruborizou e afastou o pensamento rapidamente.

— Estou muito surpreso em vê-la aqui, Rachel. Achei que fosse voltar para Westhampton para o Natal.

Rachel se surpreendeu com a mudança brusca de assunto.

— Ora, vou voltar. Mas, como sabe, parei primeiro para ver Dev e Miranda. Foi lá que recebi seu bilhete sobre sua intenção de vir para o castelo Cleybourne. Então achei que era uma oportunidade perfeita para eu aparecer a caminho de Westhampton e ver se conseguia convencê-lo a passar o Natal comigo e com Michael.

— Parece um caminho muito longo sair de Derbyshire para Lake District passando por Yorkshire — comentou Cleybourne secamente, sorrindo um pouco para tirar a mordacidade de suas palavras.

— Bem, você me conhece. Michael diz que não tenho senso de direção — respondeu Rachel com calma.

— É muita delicadeza sua me convidar. No entanto, sinto que devo recusar.

— Claro, vejo agora que tem hóspedes. Ou melhor, novas moradoras. E é claro que é importante para Gabriela passar o Natal em sua nova casa.

Jessica se perguntou se ele contaria para lady Westhampton que não tinha intenção de ficar com Gabriela. Era a abertura perfeita. Observou com muito interesse quando o duque assentiu, depois afastou o olhar sem dizer uma palavra. Jessica sentiu seu coração dar um pulo. Será que ele não tinha mais a intenção de pedir a lady Westhampton para ficar com Gabriela, afinal? Vê-lo chegando com Gabriela dera esperanças a Jessica. Será que ele realmente caminhou com ela pelo jardim? Isso, certamente, significava que ele amolecera em relação à menina.

— Ah, sim. — Richard mexeu-se em seu assento, mostrando desconforto. Passara a maior parte da manhã escrevendo e reescrevendo uma carta a Rachel pedindo que ela e Michael aceitassem a guarda de Gabriela. Fora difícil encontrar as palavras certas para explicar por que não poderia ficar com a menina. Agora ele achava que era igualmente difícil explicar a questão pessoalmente.

É claro que não poderia dizer nada a esse respeito com Gabriela na sala. Esperaria até mais tarde, e talvez, então, as palavras viessem com mais facilidade.

Terminaram o chá, distraindo-se com aquele tipo de conversa que geralmente ocorre entre um grupo de estranhos, discutindo a viagem de lady Westhampton de Derbyshire e as condições da estrada, e se o céu cinza de inverno produziria neve logo. Cleybourne perguntou sobre o irmão de Rachel e sua nova esposa, e Rachel, sorridente, revelou que Miranda, lady Ravenscar, estava esperando um grande acontecimento para a primavera.

— Então, claro, ela não pôde viajar. Se não, eu teria tentado trazê-los para passar o Natal em Westhampton também — explicou Rachel. — Mas, mesmo assim, acho que eles não teriam vindo. É o primeiro Natal deles juntos em Darkwater.[1]

— Darkwater! — exclamou Gabriela. — Ah, sinto muito. Não queria interromper. É só que... é um nome tão sombrio. Também traz maus presságios?

— Quer dizer como o castelo Cleybourne? — implicou Rachel. — Não, não é sombrio de forma alguma. O nome vem de um lago próximo, onde a água é tão escura quanto a noite. Mas a casa em si é iluminada, com pedras quentes e bem aconchegante e bonita. Eu cresci lá, e adoro o lugar. Entretanto — acrescentou com um sorriso —, existe uma maldição.

— Mesmo? — Gabriela parecia extasiada.

— Mesmo.

— Que tipo de maldição? — perguntou Jessica, quase tão intrigada quanto a pupila.

— Ah, uma maldição de família. Aconteceu na época do rei Henrique VIII. Um convento próximo foi colocado abaixo e as terras foram dadas ao nosso ancestral, conde de Ravenscar, como pagamento por sua lealdade ao rei. Disseram que o abade foi arrastado para fora do lugar, e o amaldiçoou, dizendo que ninguém da nossa família, ninguém que morasse "dentro das paredes feitas com essas pedras", jamais conheceria a felicidade.

— Desde o século XVI? — Jessica não conseguiu evitar o tom de ceticismo na voz.

Lady Westhampton riu.

— Parece um longo tempo para uma família ser infeliz, não é? De qualquer forma, parece que Dev quebrou a maldição. Ele e Miranda estão muito felizes. Ouso dizer que nenhuma maldição teria qualquer chance contra a nova lady Ravenscar.

Richard riu.

— Dev me disse que ela é um dínamo. Suponho que ela o mantenha na linha.

— Ela tem uma energia de tirar o fôlego, e é muito eficiente e prática também. Mas ela compreende Dev e o ama profundamente. Ele retomou a arte de novo.

— Eu sei. Ele me mandou um retrato de Miranda. Aparentemente, um dos muitos que pintou. Foi feito com maestria, como sempre foi seu trabalho. Mas agora está mais maduro.

— Sim. Existe uma nova intensidade de emoção nele. Graças a Miranda.

— Bem, ela sempre será uma santa para você — disse Richard com um tom um pouco implicante —, já que afastou a maldita Leona.

— Ela salvou Dev — disse Rachel simplesmente.

— Sim, acho que ela o salvou. E sempre temos de ser gratos por isso.

— Quanto a Leona — continuou Rachel, implacável —, não posso acreditar que deixou que ficasse em sua casa. Nem Vesey.

— Adoraria que eles não estivessem aqui — respondeu Richard em um tom de voz profundamente sentido. — Mas a srta. Maitland é prova de que não consegui me livrar disso. A pura audácia deles faz com que cheguem muito longe. Sei que ela fingiu a queda.

— Quer dizer que não acredita que ela tenha machucado o tornozelo? — perguntou Jessica, os olhos dançando.

Cleybourne lançou-lhe um olhar sarcástico.

— Tenho certeza que o tornozelo dela não está mais machucado do que o coração por causa de Dev, mas não posso provar. O médico disse que não quebrou, mas ela gemeu e chorou, sem dúvida desabotoando os primeiros botões do corpete, e ele decidiu que devia ser uma torção. — Ele fez uma careta. — Bem, não se pode ficar com o tornozelo torcido por muito tempo. Se Deus quiser, ela vai ficar tão entediada que eles vão partir logo. Não consigo imaginar o que eles estão querendo fazer. Já disse para Vesey que jamais vou deixá-lo com a guarda de Gabriela.

— Claro que não. É um absurdo — concordou Rachel. Jessica olhou para Gabriela e viu satisfação em seu rosto, e mais do que um toque de adoração. Só podia esperar que Cleybourne decidisse continuar como seu tutor. Podia ver que Gabriela ficaria arrasada se ele a enviasse para outra pessoa.

Já tinham terminado o chá e Jessica pediu licença para ela e Gabriela, dizendo que estava na hora de voltarem para suas lições. Lady Westhampton despediu-se delas, dizendo os gracejos usuais com evidente sinceridade.

— Gostei da srta. Maitland — disse Rachel para o cunhado. Observou-o cuidadosamente enquanto continuou: — Embora ela não pareça uma governanta. Ela é muito bonita. Não concorda?

Richard, cujos olhos permaneciam na porta pela qual Gabriela e Jessica tinham passado, olhou para Rachel.

— O quê? Sim, acho que sim — respondeu com uma casualidade estudada. —Jamais gostei muito das ruivas.

— Ela também parece educada.

— Educada? Não sei se eu a descreveria assim. Mas ela vem de uma boa família, se é isso que está dizendo. O tio é lorde, mas o pai se envolveu em algum tipo de escândalo muitos anos atrás, perdeu o dinheiro e a posição.

— Que triste.

— Sim. Por isso ela se tornou governanta.

— Bem, eu gosto dela — reiterou Rachel. — Ela tem um jeito direto, mas é bem agradável também, e tem muito senso de humor.

Richard riu com desdém.

— Ah, ela certamente é direta. É a mulher mais direta que eu já tive o desprazer de conhecer.

— Não gosta dela? Ele grunhiu.

— Ela diz tudo que pensa, sem a menor delicadeza ou tato. Gosta de discutir e é teimosa ao extremo. Não consigo imaginar como conseguiu manter o cargo de governanta. O general Streathern devia ser o patrão mais paciente e menos exigente do país.

— Acha que ela não é uma boa governanta? — perguntou Rachel com inocência. — Talvez, então, deva se livrar dela. Você não gostaria que sua pupila tivesse uma governanta malpreparada e inadequada.

— Não posso fazer isso — protestou Richard. — Ela está com a menina desde que tinha oito anos. Gabriela já perdeu gente suficiente na vida. Não poderia tirar-lhe a srta. Maitland também.

Ele hesitou. Agora, sabia, era a hora de dizer à cunhada que não planejava ser o tutor de Gabriela. Afinal, era uma das razões principais para não querer mandar a governanta de Gabriela embora. Rachel, certamente, entenderia por que ele não queria ficar com a menina por perto, uma lembrança constante de sua própria perda. Claro, não doera tanto quanto pensara conhecer Gabriela e conversar com ela. Houvera um pouco de dor, isso era inevitável, mas ela era tão diferente de Alana em idade e aparência, tão ela mesma, que após alguns minutos percebera que não estava mais comparando-a à filha morta, mas simplesmente vendo-a como ela mesma. Podia não ser o horror que ele temera tê-la por perto todos os dias.

Mas, lembrou-se, ainda havia o problema de levar seus planos adiante. Não poderia pegar a pistola e buscar a paz até que tivesse tirado Gabriela e a srta. Maitland de casa. Seria uma coisa muito cruel de se fazer com uma menina tão jovem.

E aqui estava Rachel, apresentando-lhe a oportunidade perfeita para pedir que ela e Michael assumissem a tarefa no lugar dele; todavia, não conseguia fazer isso. Era muito abrupto, ele achava; esta era a razão para sua relutância. Deveria dar a Rachel mais tempo para conhecer Gabriela e gostar dela. Rachel aceitaria prontamente a guarda da menina se já tivesse passado a gostar dela. O raciocínio fazia sentido, mesmo havendo uma dúvida dentro dele.

De sua parte, Rachel observava o cunhado travar alguma batalha interna. Gostava muito dele, e teria gostado de ajudá-lo, mas estava certa de que neste momento seria melhor se não ajudasse. Não tinha certeza de que a srta. Maitland estava certa sobre o fato de terem mimado muito Richard, que ele precisava ser desafiado. Mas suspeitava que o que ele precisava era exatamente da srta. Maitland. Ela o vira olhando para a governanta de uma forma diferente de como o vira olhando para qualquer outra mulher. A srta. Maitland podia irritá-lo, mas Rachel achava que ela também o intrigava. E não acreditou nem por um momento no desinteresse dele, como se não tivesse percebido que mulher formidável ela era. Havia algo velado em seu tom quando falava da mulher, ou com ela.

Havia o fato do escândalo, claro, mas, francamente, Rachel não se importava se a srta. Maitland já estivera envolvida em um escândalo se ela pudesse ajudar Richard a sair da dor profunda em que estava vivendo nos últimos quatro anos.

Quase desejou não precisar ir a Westhampton passar o Natal. Seria bem interessante ficar aqui e assistir ao que aconteceria.

 

No andar de cima, Gabriela estava animada com o passeio com o duque.

— Ele foi tão gentil, srta. Jessie, e me contou histórias sobre meu pai. Até pediu desculpas! Disse que havia sido rude e que não agira corretamente. Pode imaginar?

Jessica sorriu para a pupila, gostando da felicidade explícita no rosto de Gabriela. As bochechas estavam coradas, os olhos brilhavam, e ela falava com sua antiga vivacidade. Era comovente ver o peso de sua tristeza esquecido por um momento.

— Foi muito bom da parte dele — disse Jessica. — Exatamente o que ele deveria ter feito.

— Ele também não foi esnobe. Poderíamos achar que um duque seria, não é mesmo? Mas ele não pareceu orgulhoso nem convencido. Apenas triste. Ele me contou sobre a filha dele e como pensava que machucaria conhecer-me, porque eu faria com que se lembrasse dela. Mas, depois, me convidou para uma caminhada. Você acha que agora ele mudará de idéia e nos deixará ficar? — Gabriela olhou para Jessica cheia de esperança.

Jessica deu de ombros.

— Não sei. Lady Westhampton está aqui, e acho que é ela e o marido que ele espera que fiquem com você. Ele pode pedir a ela.

— Ela pareceu muito agradável — admitiu Gabriela.—Mas eu prefiro ficar aqui. E você? Gostei do duque.

— Bem, imagino que lady Westhampton tenha de consultar o marido sobre esse assunto antes de dar qualquer resposta, e talvez nas próximas semanas o duque mude de idéia.

— Espero que sim.

Jessica decidiu que seria improdutivo tentar continuar com as lições esta tarde, então permitiu que Gabriela lesse até a hora do jantar. Jessica sabia que deveria usar o tempo para planejar as lições de Gabriela para a semana, mas também estava tendo um pouco de dificuldade em concentrar-se esta tarde. Finalmente, sentou-se para fazer algumas costuras, o que deixaria sua mente livre para ponderar os eventos da tarde.

Ficou surpresa quando uma das empregadas bateu à porta e entregou-lhe um bilhete dizendo que o duque estava solicitando sua presença no jantar desta noite. Havia suposto que agora que lady Westhampton chegara Cleybourne não precisaria usá-la para afastá-lo dos Vesey.

No entanto, compreendeu melhor, alguns minutos depois, quando lady Westhampton apareceu na suíte com sua criada atrás. A criada da lady carregava três vestidos nos braços, que lady Westhampton instruiu que esticasse sobre a cama de Jessica.

— Vai jantar conosco, não vai? — perguntou Rachel para Jessica.

— Vou. Parece que o duque espera que eu vá. Mas, realmente, não entendo por que é necessário.

— Que ridículo. Quero superioridade nos números, entende? Isso é importante quando Leona está por perto. E pode ter certeza que ela e o tornozelo "quebrado" farão de tudo para descer para a sala de jantar. E passará a noite inteira tentando monopolizar Richard. Ela é sempre assim, o que me deixará sem ninguém para conversar, com exceção de lorde Vesey. Você tem de ir para que eu possa manter uma conversa decente.

— Entendo. — Jessica sorriu, mas não pôde deixar de sentir certa decepção ao perceber que fora lady Westhampton que a queria lá, não Cleybourne.

— E presumi que você não tinha trazido nenhum vestido para um jantar formal — continuou Rachel.

Jessica pensou desanimada em seu melhor vestido preto. Ela se sentiria um corvo ao lado da estonteante beleza de lady Vesey.

— Então, pensei em lhe emprestar um dos meus.

— Ah, eu não poderia...

— Não seria nenhum incômodo. Francamente, quase nunca posso emprestar meus vestidos a alguém por causa da minha altura. Mas você também é alta, e eles devem servir. E como vai descer para uma sofrida refeição com lorde e lady Vesey, para me ajudar, me parece justo que eu a ajude.

Jessica hesitou, dividida. A visão dos encantadores vestidos em tons de pedras preciosas sobre a cama era tentadora. Um era de um veludo azul intenso, com a gola baixa, como os vestidos formais costumavam ser, mangas compridas, ombreiras e corpete justo. Soube na hora que combinaria muito com sua pele, realçando o intenso azul de seus olhos. Os outros dois não eram menos bonitos. Era claro que lady Westhampton tinha bom gosto para moda, e mais claro ainda que ela escolhera vestidos que ficariam bem com o cabelo ruivo e a pele branca de Jessica.

— Experimente-os. Tilly vai ajudá-la.

— Ah! Que lindos! — exclamou Gabriela da porta. Curiosa com a visita de Rachel, abandonara o romance que estava lendo e aproximara-se das duas. Agora ia em direção à cama e olhava para os vestidos, admirada. — Eles são lindos.

— Obrigada — respondeu Rachel. — Estou emprestando-os à srta. Maitland para usar no jantar, já que ela vai jantar conosco esta noite.

— Mesmo? — Gabriela sorriu para Jessica. — Que emocionante. Qual deles vai usar?

— Eu... bem, talvez eu devesse experimentar o azul. — Jessica mal conseguia esperar para ver como ficaria.

— Excelente. Gabriela e eu seremos as juradas. Por que não esperamos na sala de estudo e conversamos, Gabriela, enquanto Tilly ajuda a srta. Maitland a se vestir?

Jessica tirou o vestido simples e permitiu que a criada de Rachel a ajudasse com o vestido azul de veludo. Serviu quase com perfeição, e a sensação na pele era inebriante. As reações de Gabriela e Rachel foram tudo que ela poderia esperar, mas ela mesma não conseguia ver. O espelho sobre a cômoda no quarto era muito pequeno; afinal, não se esperava que governantas fossem vaidosas, e por mais que se virasse e mudasse de lugar, conseguia apenas ver partes dele. Nem o quarto de Gabriela tinha um espelho grande, então Lady Westhampton levou-as até seu quarto, no andar de baixo, onde havia um grande espelho oval.

— Oh... — suspirou Jessica, fitando o reflexo. Sabia que não havia como recusar usar o vestido agora. Neste momento, era a moça que costumava ser dez anos antes, não... melhor ainda, pois tais cores vivas não eram permitidas em moças muito novas. Ou talvez fosse a intensidade que havia em seu rosto agora, que não tinha aos 18 anos.

A pele clara brilhava em contraste com o vestido, cuja cor realçava o azul dos olhos. Com a cintura alta, o vestido valorizava as curvas fartas dos seios, e o decote era profundo o suficiente para permitir uma visão parcial da parte superior deles.

Rachel sorriu, sabendo que Jessica não se recusaria mais a usá-lo.

— Por que não deixa Tilly arrumar seu cabelo? Ela é fantástica com cabelos.

— Ela nunca tentou pentear o meu — respondeu Jessica com pesar. — Ele tem vontade própria.

— Agora você a desafiou. Sente-se aqui e vamos ver o que ela consegue fazer.

Então sentaram-se no quarto de lady Westhampton, Gabriela, Jessica e Rachel, conversaram e riram como meninas, enquanto Tilly fazia sua obra de arte no cabelo de Jessica. Quando terminou, Jessica teve de admitir que Tilly realmente era uma artista. Com uma fina fita azul e grampos estrategicamente colocados, ela domara e suavizara o cabelo encaraco-lado de Jessica em uma charmosa cascata de cachos.

— Mal posso esperar para ver a cara de Leona — disse Rachel com animação.

Elas tiveram esse prazer pouco depois, quando desceram juntas para o jantar. Cleybourne estava esperando na pequena sala de estar com lorde Vesey, parecendo tão satisfeito quanto uma pessoa poderia estar sendo obrigada a aturar a companhia de Vesey pelos últimos minutos. Vesey estava ocupado em um monólogo a respeito das qualidades de um Madeira que tomara recentemente na casa de lorde Bashersham, um discurso que, pela expressão de Cleybourne, aparentemente estava se estendendo tempo demais.

Quando elas entraram na sala, Cleybourne levantou-se, satisfeito.

— Rachel. Srta. Mait... — Virou-se na direção dela ao dizer seu nome, realmente enxergando-a pela primeira vez, e as palavras morreram em sua garganta. Fitou-a por um momento, depois pareceu perceber que a boca ainda estava aberta e fechou-a rapidamente. Limpou a garganta. — Srta. Maitland. Como estão encantadoras esta noite.

Ao lado de Jessica, Rachel escondeu um sorriso e disse, de forma casual:

— Ora, obrigada, Richard. Boa noite, lorde Vesey. — Foi notável como o cumprimento ao outro homem foi bem mais frio.

— Lady Westhampton. — Vesey fez uma reverência para Rachel e meneou a cabeça para Jessica.

Richard virou-se para Vesey.

— Tem certeza que sua esposa vai se juntar a nós, Vesey? Parece um esforço muito grande para uma pessoa que está se sentindo tão mal quanto ela.

— Ah, bem, vocês conhecem Leona — respondeu Vesey de forma vaga.

— Não muito — respondeu Richard rapidamente. — Por que não esperamos por ela na sala de jantar? Será mais fácil para os lacaios carregarem-na direto para lá.

Passaram os 15 minutos seguintes esperando inutilmente lady Vesey aparecer na sala de jantar. Lorde Vesey começou a expandir seu discurso para incluir as maravilhosas qualidades de um brandy.

Richard fez uma careta e cortou-o logo.

— Não é um assunto para se discutir na presença das ladies, Vesey. Rachel, conte-nos sobre o progresso de Ravenscar em Darkwater. Pelo que sei, eles têm a intenção de recuperar o lugar para ser o que era antes.

Rachel encarregou-se de fornecer uma descrição das reformas que estavam sendo feitas em sua antiga casa. Vesey recolheu-se em sua cadeira, aborrecido, levantando a colher para ver seu reflexo. Jessica tentou manter a conversa fluindo ao fazer perguntas, mas estava um tanto distraída pelo fato de Cleybourne estar olhando para ela durante toda a conversa. Podia sentir o olhar dele sobre si, e tentou imaginar no que ele estava pensando. Imaginou o que gostaria que ele estivesse pensando.

Finalmente, lady Vesey chegou, parecendo a Jessica um tanto ridícula sendo carregada por dois lacaios. Estava usando um vestido dourado fino que lhe realçava a pele, porém mais apropriado, na opinião de Jessica, para um baile em Londres do que para um tranqüilo jantar no campo. Diferentemente dos vestidos de veludo com mangas compridas de Rachel e de Jessica, adequados ao clima frio, o vestido dela cobria tão pouco quanto possível seus braços e colo. As mangas eram um sopro de um tecido fino através do qual dava para ver os ombros de Leona, e o decote era tão baixo que se tornava quase indecente. Jessica também viu, chocada, que era óbvio que Leona não usava anágua nem combinação por baixo do vestido, já que dava para perceber seus mamilos. Sua amiga Viola lhe falara que essa era a moda entre as ladies em Londres, algumas chegando ao ponto de molhar os vestidos para ajustar-se de forma mais provocativa aos corpos, mas esta era a primeira vez que Jessica via alguém vestido dessa forma.

— Lady Vesey — disse Rachel com inocência —, temo que pegará um resfriado usando um vestido tão fino. Quer que chame um empregado para pegar um xale para você?

Leona sorriu para ela com uma doçura tão falsa quanto a preocupação de Rachel.

— Não, está ótimo, lady Westhampton. Talvez você esteja com frio, mas sou uma criatura muito quente. — Lançou um olhar de lado para Richard ao dizer isso, e a conotação sexual de suas palavras ficou evidente.

Richard arruinou o efeito dizendo, de forma pragmática:

— Bem, espero que não se arrependa, lady Vesey. Não está acostumada ao inverno de Yorkshire. É bem provável que pegue um resfriado.

Jessica conteve um sorriso e disse, em concordância:

— Claro. Coisas desagradáveis: dor de cabeça, espirros, tosse e nariz vermelho.

Leona lançou um olhar de repúdio para Jessica e congelou, os olhos arregalando-se de surpresa, e seu olhar se transformou em puro descontentamento. Virou-se de novo para Richard, dando um sorriso brilhante.

Como Rachel previra, Leona tentou monopolizar a conversa durante a refeição. Mas Jessica teve a satisfação de notar que, mesmo enquanto Leona estava falando com Cleybourne, o olhar dele continuava sobre ela. Isso e os olhares rabugentos de Leona em direção a ela foram o suficiente para garantir o sucesso da noite.

Pediu licença quando o jantar terminou e subiu; por mais que gostasse de Rachel, Jessica recusava-se a submeter-se à presença maligna de lady Vesey a noite inteira.

Gabriela quis saber tudo sobre o jantar e as reações ao vestido de Jessica, e as duas conversaram enquanto Gabriela ajudava a desabotoar o elegante vestido que Jessica usara. Jessica vestiu a camisola e um penhoar por cima, depois foi até o quarto de Gabriela para colocá-la na cama e ler para ela durante alguns minutos, um ritual noturno mantido nos últimos seis anos, algo que elas achavam muito agradável.

Depois disso, a própria Jessica foi para a cama. Estava acostumada a levantar-se cedo, pois cuidava de uma criança há seis anos e, como conseqüência, geralmente deitava-se cedo. Mas, esta noite, teve problemas em pegar no sono depois de deitar. Ficou pensando na forma como Cleybourne encarou-a durante o jantar, e na forma como o olhar dele fazia com que se sentisse, a consciência que deixava seu corpo formigando. Era um homem impossível, claro, mas havia algo nele...

Demorou muito tempo até pegar no sono.

Um barulho intrometeu-se no inconsciente de Jessica, e ela abriu os olhos. Por um momento, permaneceu deitada, confusa e ainda meio sonolenta. Então, ouviu um barulho: uma cadeira sendo arrastada, como se alguém tivesse tropeçado nela. Alguém estava na suíte!

Lembrou-se, então, que não tinha trancado a porta da suíte esta noite, como fizera na noite anterior. Estivera preocupada demais com os próprios pensamentos sobre Cleybourne e com a noite.

Amaldiçoando silenciosamente sua desatenção, saiu da cama e atravessou o quarto na ponta dos pés. Com cuidado, girou a maçaneta, abriu um pouco a porta e esquadrinhou. O que viu deixou-a sem ar. Uma grande forma escura estava parada do outro lado da sala de estudo, na porta de Gabriela.

Jessica recuou, sua mão encontrou o jarro que ficava sobre a bacia. Parecia uma arma bastante adequada, então pegou-o. Abriu a porta, gritando o nome de Gabriela e entrou pela sala de estudo levantando o jarro acima da cabeça para atingir o intruso.

A figura na porta virou-se para encará-la quando já estava quase em cima dele. Instintivamente, ele levantou um braço e o jarro que Jessica estava abaixando bateu no pulso dele. Soltou um gemido de dor e saiu cambaleando. Jessica gritou quando a água que estava no jarro se derramou molhando a frente de sua camisola.

O intruso empurrou-a. Ela atingiu a mesa com a parte de trás da perna e caiu por sobre ela. O homem virou-se e saiu correndo da suíte. Jessica logo estava atrás dele, gritando por ajuda. Podia perceber que ele estava muito à frente; não conseguiria pegá-lo. Então arremessou o jarro sobre ele em uma última tentativa desesperada de pará-lo, e atingiu-o com um sonoro estrondo, depois o jarro espatifou-se no chão.

O homem cambaleou, mas conseguiu levantar-se, atravessar o corredor e chegar à escuridão da escadaria dos fundos. Jessica já ia atrás dele, mas, neste momento, Gabriela saiu pela porta da suíte com os olhos arregalados de medo, chamando o nome de Jessica, que se virou e preferiu tranqüilizá-la.

— O que foi isso? O que aconteceu? — perguntou Gabriela.

— Não sei bem. Havia... surpreendi alguém.

— Na suíte? — A voz de Gabriela aumentou, gerando um som histérico. — Por quê? Quem?

Escutaram passos e, um momento depois, Cleybourne apareceu nas escadas e correu na direção delas. Vestida apenas um calção e uma camisa desabotoada, obviamente vestidos às pressas. A uma distância dele vinha lady Westhampton, embrulhada no penhoar e carregando um lampião.

— Que diabos está acontecendo? — perguntou Cleybourne ao aproximar-se delas.

Jessica virou-se, dizendo:

— Havia um intruso na suíte. Eu o afugentei. Eu...

Ela parou abruptamente. O olhar do duque dirigiu-se para a frente de sua camisola, e ele estava hipnotizado, parecendo um homem que acabara de ser atingido por um golpe na cabeça. Jessica lembrou-se naquele momento que a parte da frente de sua camisola ficara molhada pela água no jarro. Estava grudando por cima de seus seios, moldando suas curvas e revelando os mamilos através do algodão branco, que estava quase transparente por causa da água.

— Eu... ah... — Cleybourne parecia não conseguir afastar o olhar da camisola dela e, por um momento, Jessica também não conseguiu se mover.

— Ele foi para aquele lado! — gritou Gabriela, sem perceber a repentina tensão no ar, e apontou para as escadas dos fundos.

Jessica recuperou os sentidos o suficiente para afastar o tecido molhado do corpo, corando ao dizer:

— É... é melhor eu me trocar.

Virou-se e entrou rapidamente na suíte no momento em que Rachel chegava. Atrás de si, escutou Cleybourne sair correndo, indo em direção às escadas dos fundos, e Rachel dizendo para Gabriela:

— Ah, pobre menina. Está tremendo. O que houve?

Jessica correu para a segurança de seu próprio quarto, fechando a porta, e apressadamente tirou a camisola molhada. Tinha certeza que seu rosto estava vermelho; sentia como se estivesse pegando fogo. Jogou a camisola no chão e vestiu o penhoar que deixara sobre a cadeira quando tinha ido dormir. Ah, por que não pensara em vesti-lo antes de sair para atacar o intruso?

Sabia que devia ter parecido uma assanhada, parada lá em frente ao duque, nua diante dos olhos dele. Fechou os olhos, sentindo os joelhos fracos ao lembrar-se da forma como ele a fitara, uma explosão de desejo e calor nos olhos dele. Ele a fitara de uma forma que nenhum outro homem a fitara antes, os olhos selvagens e ardentes. Claro, lembrou-se ela, ele vira mais dela do que qualquer outro homem.

E a forma como ele a fitara fazia com que se sentisse tão, tão...

Estremeceu, lembrando-se do calor que invadira suas entranhas, a repentina tensão e delicadeza em seus seios. Corou de novo, só de pensar nisso. Apenas podia esperar que ele não fizesse idéia das sensações que seu olhar havia despertado nela.

Como poderia encará-lo de novo? Sabia que tinha de encará-lo; na verdade, tinha de voltar para lá agora. Ele ia querer uma explicação para o que acontecera. E precisava cuidar de Gabriela também. Não podia se esconder aqui o resto da noite, esperando que tudo passasse.

Jessica amarrou a faixa do penhoar e endireitou os ombros. Superando a relutância com firmeza, abriu a porta e saiu para o cômodo principal da suíte. Parou logo. Cleybourne estava parado no meio do quarto, olhando em volta. Acendera o lampião e o colocara sobre a mesa. Virou-se à sua chegada.

Richard achou que tinha se preparado para ver Jessica de novo. Estava tão constrangido pela forma como agira antes, pasmo pela incoerência de ver os seios dela, nus por baixo da camisola molhada. Um homem entrara no quarto dela, sem dúvida deixando-a assustada, e tudo que ele conseguiu fazer foi ficar lá parado fitando-a, o desejo tomando conta de si.

Ela devia pensar que ele era um cafajeste, um libertino, por ter reagido daquela forma.

Voltara para falar com ela, determinado a sufocar o desejo, a se acalmar e permanecer sob controle, e demonstrar que ele não era a criatura lasciva que ela devia estar pensando. Mas um olhar sobre ela destruiu todas as suas boas intenções. Ela tirara a camisola molhada e vestira um penhoar. Estava completamente coberta agora, exceto pelo pequeno V de pele à mostra na parte superior do robe. Entretanto, aquele pequeno pedaço de carne onde o algodão branco normalmente estaria era o suficiente para revelar que ela estava nua por baixo do penhoar. Só de pensar nisso, um calor se espalhou pelo corpo dele. A boca de repente ficou seca e, por um momento, não conseguiu falar. Só conseguia pensar em desamarrar a faixa e puxar o robe.

— Bem, ah, srta. Maitland. — Ele procurava as palavras.

— Sim, Alteza? — Jessica tentou impedir o formigamento que começara ao vê-lo. Em seu constrangimento anterior, mal notara a forma como Cleybourne estava vestido. A camisa estava para fora das calças, aberta, deixando à mostra uma grande faixa de pele até a cintura. Ela percebeu a rigidez dos músculos, a linha estreita e escura de pêlos que descia em direção à cintura. O cabelo estava despenteado, grosso e escuro, e os dedos dela coçaram para colocar a mão nele e arrumá-lo.

— O que... aconteceu aqui?

— Infelizmente, sei tão pouco quanto o senhor — respondeu Jessica, lutando para manter a voz firme. — Escutei um barulho e acordei, escutei mais barulho e fui até a porta olhar. Vi... alguém parado do lado de fora da porta de Gabriela.

— O que ele estava fazendo?

— Não tenho certeza. Nada que eu pudesse ver. Escutando, talvez? Ou talvez prestes a abrir a porta. Não sei. Só pensei que Gabriela estava em perigo. Então peguei o jarro e corri na direção dele e consegui atingi-lo.

Ele ergueu as sobrancelhas.

— Você o atingiu? Correu para cima dele?

— Sim, claro. Para onde mais eu podia correr?

— Bem, fugir talvez.

— E deixar Gabriela com ele? — Jessica olhou para ele de igual para igual. — O senhor deixaria?

— Claro que não.

— Então, por que eu deveria?

— Porque é mulher. Poderia ter se machucado.

— Qualquer um poderia se machucar, até o senhor. Ser mulher não faz de mim uma covarde.

— Eu não disse que... — Ele apertou os lábios. — A senhorita tem notável competência para torcer minhas palavras. Eu estava... ah, droga! Esqueça.

— Onde estão todos? — perguntou Jessica. — Onde está Gabriela?

— Rachel levou-a até a cozinha para tomar uma xícara de chocolate quente. Mandei os empregados olharem em volta da casa, para tentar localizar para onde ele foi. Se é que ele veio de fora.

— E o senhor acha que veio de fora? Ou de dentro?

— Quer saber se foi Vesey? Não sei. Mandei empregados ao quarto dele, aparentemente, para checar seu bem-estar, mas, mesmo que ele esteja lá, isso não prova que não era o homem que esteve aqui. Durante a comoção, ele poderia facilmente voltar para o quarto e fingir que estava dormindo antes de os empregados chegarem lá. A senhorita lutou com ele. Acha que era Vesey?

— Não tenho certeza. Podia ser. Era mais alto que eu, mas não tão alto quanto o senhor. Devia ser da altura de lorde Vesey. Não consegui ver o rosto. Estava escuro e ele tinha alguma coisa amarrada em volta do rosto, cobrindo-lhe as feições. — Ela estremeceu um pouco. — Foi horrível, como se ele não tivesse rosto, nada, exceto os pequenos buracos nos olhos. Acho que isso era o mais amedrontador nele.

Ele deu um passo à frente.

— Sinto muito. Eu... não há desculpas para isso ter acontecido enquanto estão sob minha proteção. — O rosto dele ficou sombrio. — Se foi Vesey, ele se arrependerá disso, garanto. Quem tiver sido, vai se arrepender.

Ele parou, olhando para ela. Levantou a mão, como se fosse tocar seu rosto, depois deixou-a cair.

— A senhorita está bem? Ele a machucou de alguma forma?

— Não. Na verdade, acho que eu o machuquei mais. Um sorriso estremeceu os lábios dele.

— Isso não me surpreende. Vesey deveria ter pensado melhor antes de cruzar seu caminho.

Os olhos dela estavam arregalados e azuis, a pele clara estava brilhosa mesmo sob a luz fraca. Cachos sedosos caíam de sua cabeça. Richard pensou em tocar um dos cachos, de mergulhar suas mãos na bagunça. Quase podia senti-los roçando em seus dedos, macios como seda.

Com muito esforço, afastou o olhar.

— Vou verificar a suíte.

Ele entrou no quarto de Gabriela e examinou, depois virou-se e foi até a porta aberta do quarto de Jessica e entrou.

Jessica foi atrás. Richard olhou em volta, examinando o pequeno e árido lugar, a cama estreita, a pequena cômoda e uma cadeira dura. Não se lembrava que o quarto da governanta era tão pequeno e estéril. Ressentiu-se pelo fato de ela viver em tal quarto, e o incomodou ainda mais ser o responsável por ela estar aqui.

— Amanhã pedirei aos empregados para arrumarem quartos para vocês duas mais perto de mim. — Ele parou, depois acrescentou: — Será mais seguro. Esta suíte, tão afastada de tudo, é muito perigosa. Nem sei por que as colocaram aqui, para começar.

Jessica tinha quase certeza de que tinham sido colocadas ali exatamente porque Cleybourne queria que ficassem o mais distante dele possível, mas absteve-se do comentário.

— Esta noite, colocarei um lacaio na porta da suíte para assegurar que nada aconteça — continuou ele.

— Obrigada. É muita gentileza do senhor.

— Não sou exatamente o bicho-papão que a senhorita acha. — Ele hesitou. — Eu...

Cleybourne esticou a mão na direção dela, e desta vez, quase como se ela se mexesse contra sua vontade, a mão tocou o cabelo de Jessica. Era tão macio quanto imaginara, e a sensação dele em seus dedos fazia suas entranhas se contraírem. Engoliu, tentando pensar de modo coerente. Não sabia o que essa mulher tinha. Parecia capaz de roubar-lhe todos os pensamentos, independentemente da situação, de deixá-lo perdido em um emaranhado de emoções e sensações.

Ela olhou para ele, os olhos azuis arregalados e surpresos. Os lábios se abriram um pouco, macios e rosados. O olhar dele foi até a boca de Jessica, e sua mente encheu-se com a idéia de beijá-la. O desejo tomou conta dele, profundo e latejante, ao pensar naqueles lábios apetitosos, em tocá-la... Tentou desviar o olhar, tentou tirar a mão dos cachos sedosos e se afastar, mas não conseguiu. Em vez disso, inclinou-se para a frente, os dedos enrolando os cabelos dela, esmagando os cachos, os lábios aproximando-se dos dela.

Pôde sentir o ar entrando pelos lábios dela antes de tocá-los com os seus. Podia sentir o cheiro de lavanda que emanava dela. Richard tremeu um pouco, dividido entre a culpa e o desejo que aumentava em suas entranhas. Então, seus lábios roçaram os dela, e ele se esqueceu de tudo mais, exceto daquele desejo.

 

Os lábios dele pressionaram os dela, primeiro com gentileza, provando e provocando, experimentando a suavidade aveludada da boca de Jessica, o gosto de mel. Depois, ele estremeceu, assustado com a força do desejo que tomava conta dele, e passou os braços em volta dela, puxando-a para mais junto com força, enterrando seus lábios nos dela. Urgente e inclemente, sua boca uniu-se à dela, exigindo tudo que desejava.

Jessica perdeu as energias, perplexa pelo fluxo de sensações que invadiam seu corpo. Nenhum homem jamais a fitara daquela forma, nem a beijara assim. Nunca sentira o corpo de um homem pressionado contra o seu, de cima a baixo, de forma que seus seios ficassem achatados contra o peito dele, e seu abdômen sentisse a masculinidade dele. A boca de Richard consumia a dela, a língua excitando-a de formas jamais imaginadas. Ela estremecia e se agarrava a ele, perdida em um tumultuado mundo de prazeres.

Um som baixo e animalesco saiu do fundo da garganta dele, e suas mãos vieram a frente, entre os corpos dos dois, pegando os seios de Jessica. Ele acariciou-lhe os seios através do tecido do penhoar, fazendo o cetim mover-se pela pele dela. Os mamilos de Jessica enrijeceram e formigaram, e ela sentiu os seios inchados e ardentes. Outra ardência crescia dentro dela, quente e branda, e ela apertou as pernas, tentando amenizá-la.

Tinha consciência, ainda que estivesse surpresa, que queria sentir as mãos dele sobre seu corpo nu, embora soubesse instintivamente que isso não amenizaria a ardência entre suas pernas, apenas aumentaria.

A boca de Richard mexeu-se, trazendo outra onda de prazer, e a mão dele deslizou pelo seio por baixo do penhoar. As pontas dos dedos dele moviam-se levemente sobre o seio nu, provocando a pele macia, explorando o círculo lascivo e grande e encontrando o centro enrijecido. Ele pegou o pequeno mamilo entre os dedos e apertou-o. Jessica teve um espasmo de prazer e deixou escapar um gemido. Nunca sentira nada assim, nunca nem sonhara, mas descobriu que desejava, ansiava por isso...

Ele afastou os lábios dos dela, beijando-lhe o rosto e o pescoço. As mãos estavam por baixo do penhoar, puxando as laterais de forma que ele abriu, desfazendo o nó da faixa. Ele mordiscou o pescoço dela, beijando e banhando-o suavemente com a língua, enquanto as mãos desciam pelo corpo dela, deslizando por seus seios, barriga e quadril, pegando as nádegas redondas. As pontas dos dedos dele enterraram-se ali, fazendo com que Jessica gemesse, e pressionaram-na contra sua própria rigidez.

O desejo bruto apoderou-se de Jessica e ela estremeceu. Queria algo desesperadamente... não sabia bem o que... e soltou um gemido baixo.

— Por favor, ah... por favor, não...

Não sabia bem o que estava pedindo: se para ele parar com o prazer que era tão intenso que até doía ou se para ele dar uma chance para ela organizar as emoções confusas, ou simplesmente para ele não parar o que estava fazendo até que ela atingisse a coisa desconhecida que seu corpo buscava com tanto desespero. Independentemente do que fosse, a palavra atingiu-o como um golpe. Ele ficou imóvel, depois afastou-se com a respiração ofegante.

— Deus do céu!

Cleybourne deu um passo grande para trás. Encarou-a por um momento, o peito subindo e descendo com a respiração difícil.

— Ah, Deus, o que estou fazendo?

De forma abrupta, virou-se e saiu da suíte.

Jessica fitou-o por um momento, o corpo todo tremendo. Com as mãos trêmulas, puxou as laterais do penhoar, juntan-do-as, mantendo os braços juntos para fechá-lo. Mergulhou na cama, os joelhos de repente fracos demais para ficar de pé.

Sabia que devia recompor-se. Gabriela e Lady Westhampton estariam de volta a qualquer momento, e não podia deixar que a encontrassem nesse estado. Mas não conseguia nem imaginar como conseguiria recobrar a respiração normal. O que acabara de acontecer era por demais surpreendente, muito bizarro. Jessica não conseguia se lembrar de sentir nada tão intenso, nem com seu noivo, tantos anos antes. Não era amor, disse a si mesma; afinal, mal conhecia esse homem. Era desejo, supôs, nada mais, mas nunca se dera conta que o desejo podia ser tão poderoso.

O que fosse, sentia como se sua vida nunca mais fosse voltar a ser a mesma.

Fervilhando com frustração sexual, culpa e ódio por si mesmo, Richard desceu as escadas e foi correndo direto para o quarto de Vesey.

— Vesey! — rugiu ele, girando a maçaneta da porta do quarto e entrando.

Apenas Leona estava na cama, e ela sentou com um grito quando Richard entrou. Quando viu quem era, sorriu, dizendo:

— Ora, Richard, que surpresa agradável. Não esperava que viesse me visitar com tanta voracidade.

— Onde está... — começou Richard, olhando ao redor do quarto, depois encontrando lorde Vesey deitado no sofá, segurando um cobertor, com um olhar aterrorizado no rosto. — Eu deveria imaginar que ela não o deixava dormir na mesma cama que ela.

Richard foi até onde Vesey estava deitado e abaixou, agarrando-o pela gola da camisola e colocando-o de pé. Havia algo decididamente cômico na visão de lorde Vesey em uma camisola que revelava suas panturrilhas e com uma touca de seda na cabeça, mas Richard estava aborrecido demais para ter senso de humor.

— Maldito, Vesey! Vou arrancar seu coração!

— M-mas por quê? O que eu fiz?

— Você achou que eu não me importaria se entrasse sorrateiramente no quarto da menina? Achou que eu apenas olharia para o outro lado se você fosse para cima dela do seu jeito pervertido? Ou achou que realmente conseguiria roubá-la daqui bem debaixo do meu nariz?

— Na sua casa? — Vesey parecia genuinamente chocado. — Deve estar louco! Não sou estúpido, você sabe disso.

— Isso é questionável. — Com um suspiro de repulsa, Richard empurrou-o de volta para o sofá. — Essa é a única razão para eu ainda não ter acabado com você. Geralmente você pensa mais em sua própria proteção para tentar algo assim.

— Ele parou, depois continuou: — Que inferno, se não foi você, quem poderia ser? Vesey deu de ombros.

— Não sei. Algum empregado, talvez, que tenha gostado da governanta. Ela estava muito bonita esta noite, não estava?

Richard virou-se de novo para Vesey, o rosto sombrio de raiva.

— Não quero escutar nem menção ao nome dela vindo de sua boca. Entendeu?

Vesey ergueu as sobrancelhas.

— Não me diga, Cleybourne, que você também desenvolveu afeto pela prostituta.

— Maldito! — Richard pegou Vesey de novo pela camisola e levantou-o, torcendo o colarinho de forma a apertar a garganta de Vesey. — Estou avisando, Vesey, você está procurando problema. Nem todo mundo é tão egoísta e libertino quanto você. A srta. Maitland está sob minha proteção, assim como Gabriela. E estou avisando: se fizer alguma coisa a qualquer uma das duas... não descansarei até que o encontre e quebre cada um de seus ossos. Fui claro?

— Extremamente — grunhiu Vesey.

— Certo, então. — Richard abriu a mão, e Vesey caiu no sofá. Richard virou-se e saiu do quarto sem nem olhar para trás, batendo a porta.

— Bem — disse Vesey, esfregando o pescoço suavemente —, parece que o deixei nervoso, não foi?

— Claro que sim, seu imbecil — disse Leona, da cama. — Insinuar que um homem como Cleybourne poderia estar interessado por uma governanta maltrapilha. Que idéia absurda.

Lorde Vesey lançou um olhar sarcástico para a esposa.

— Claro, minha querida. Que tolice a minha.

Imediatamente após o café-da-manhã no dia seguinte, duas empregadas chegaram à suíte e começaram a levar as coisas de Jessica e Gabriela para baixo, onde estavam localizados todos os quartos principais. Baxter deu a Gabriela um quarto lindo e alegre que tinha vista para a estrada que levava ao castelo. Três janelas enormes deixavam entrar muita luz, e os móveis eram os mais delicados do castelo, feitos em branco e dourado. Havia uma escrivaninha na qual Gabriela podia fazer suas lições, e um pequeno sofá na parede oposta, sem mencionar o armário, a cômoda e o toucador, que eram mais do que suficientes para as necessidades dela.

O quarto de Jessica, do outro lado do corredor, era menor e tinha menos móveis, mas era bem aconchegante e agradável, com uma confortável poltrona ao lado da janela, que parecia o lugar perfeito para se acomodar e ler um livro. Havia um toucador com um grande espelho e, o melhor de tudo, uma linda lareira com um delicioso fogo aceso.

— É lindo — disse ela a Baxter com honestidade. — É muita bondade do duque me colocar aqui.

— Sua Alteza é o mais bondoso dos cavalheiros, você vai perceber — disse Baxter com um sorriso. — Ah, quase me esqueci. Ele me pediu para avisá-la que deseja vê-la esta manhã no escritório.

— Ah. — O pulso de Jessica acelerou o ritmo. — Claro.

Depois que o mordomo saiu, Jessica correu até o novo espelho. Endireitou o cabelo e prendeu alguns cachos teimosos que já tinham conseguido se soltar. Alisou o vestido. Não havia nada que pudesse fazer em relação a ele, pensou e suspirou. Como era governanta, não podia usar roupas elegantes. O que usara na noite passada era realmente muito atraente e caro para se usar mesmo em um jantar formal. Apenas o fato de lady Westhampton ter insistido o tornou aceitável.

Afastou os pensamentos de forma implacável. Não deveria se preocupar com a aparência, lembrou-se. Era governanta aqui, só isso. O fato de Cleybourne tê-la beijado na noite passada não significava nada. Não podia permitir que significasse algo. O que acontecera na noite anterior era um comportamento impetuoso e anormal. Não deveria ter deixado um homem beijá-la daquela forma, principalmente seu patrão. Com certeza, fora mais prazeroso que qualquer coisa que já experimentara ou imaginara experimentar. Fora pega completamente de surpresa.

Mas isso não continuaria, não poderia continuar.

Ainda assim, não conseguia sufocar a esperança e a animação que cresciam em seu peito enquanto descia as escadas até o escritório de Cleybourne. A porta estava fechada quando se aproximou, então bateu de leve e esperou o convite de Cleybourne para entrar.

Encontrou-o de pé atrás da escrivaninha, como se tivesse acabado de se levantar da cadeira, e as pontas dos dedos tocavam a mesa, como se para protegê-lo. O rosto estava marcado por linhas severas, e a expectativa dentro dela morreu.

Jessica parou em frente à escrivaninha dele, encarando-o com toda a calma que conseguiu reunir.

— Srta. Maitland, eu, ah, pedi que viesse aqui esta manhã porque sinto que... — Ele meio que desviou o olhar dela, fixando-o em algum ponto no escritório. — Devo me desculpar por meu comportamento ontem à noite. Foi imperdoável. — Virou-se, como se não suportasse mais ficar parado, e começou a andar de um lado para o outro enquanto falava. — O que fiz foi terrivelmente errado. Sou seu patrão. A senhorita mora nesta casa sob minha proteção. Não consigo expressar o quanto sinto por ter... me aproveitado de nossa situação.

Jessica ficou gelada, o arrepio se espalhando a partir do centro de seu ser. Não podia nem dizer o que estivera desejando secretamente que acontecesse. Não era ingênua o suficiente para achar que ele declararia sua paixão imortal por ela. Mesmo assim, vê-lo tão rígido e controlado, tão frio em relação a ela, era um golpe. É claro que um cavalheiro se desculparia por tê-la agarrado e beijado daquela forma, mas isso... ela sabia que isso era muito mais do que um pedido de desculpas. Cleybourne não apenas se arrependia por ter agido de maneira tão pouco cavalheiresca. Ela podia ver em seu rosto, na incapacidade de olhá-la direto no olho, que ele se arrependia também das emoções e do desejo que fizeram com que se comportasse daquela forma. Ele detestava o fato de tê-la desejado, desprezava a paixão por ela.

— Prometo que isso nunca mais acontecerá—continuou ele.

Jessica juntou as mãos. Estavam geladas. Não conseguia pensar em nada para dizer. Abaixou os olhos, incapaz de olhar por mais tempo para ele, de ter de testemunhar a recusa inabalável dele em encontrar seu olhar. Ele, obviamente, rejeitava o que tinham feito na noite passada. Talvez também ela rejeitasse, pela forma libertina como respondera aos beijos e carícias dele. Lembrava-se de pensar, apenas minutos antes, que agira de modo impróprio a uma lady. Imaginou se agora ele não a considerava mais uma lady, se a achava promíscua e atrevida.

Pensou também na forma como ele falara que era seu "patrão". Isso também a deixava amargurada. Ele não a via como uma igual, mas como alguém que trabalhava para ele. Claro, não era igual a ele a nível social, e agora percebia que fora errado deixar a amizade de lady Westhampton enganá-la a ponto de sentir que era do mesmo nível deles.

Não era, jamais seria. E, claro, fora uma tola em se permitir sonhar que a noite passada significara algo. Cleybourne era um homem que ainda amava a esposa falecida e, mesmo que não amasse, nunca poderia haver a esperança de alguma coisa entre eles, pelo menos nada honrado. Embora sua própria família fosse boa o suficiente, ela era apenas uma governanta, certamente não era alguém com quem um duque se casaria. E, pior, seu bom nome estava irrevogavelmente manchado pelo escândalo com o pai. Então, a paixão da noite passada, se tivesse permissão de continuar, não a levaria a lugar nenhum, exceto a ser amante dele, e não poderia viver assim. Nem Cleybourne era o tipo de homem que tornaria uma mulher imaculada como sua amante: ele era muito digno.

Fora inacreditavelmente tolo de sua parte, disse a si mesma, abrir caminho para o desejo na noite passada, e deveria ser grata pelo fato de o duque ser digno demais para se aproveitar de sua negligência moral.

Um silêncio intenso pesou sobre o escritório, e Jessica percebeu que ele devia estar esperando que ela falasse alguma coisa e saísse da sala. O assunto estava encerrado.

— Sim, claro — disse ela com uma voz monótona. — Obrigada, Alteza.

Forçou-se a levantar o rosto para olhá-lo nos olhos. A expressão dele era indecifrável. Esperava que suas palavras tivessem sido apropriadas; mal sabia o que tinha dito. Queria apenas sair dali naquele momento e ficar sozinha nas próximas horas.

— Se o senhor me dá licença...

— Certamente.

Ela virou e foi até a porta, dobrando os dedos sobre as palmas da mão até que as unhas lhe cortassem a pele. Manteve o passo lento e regular, orgulhosa demais para correr como um coelho, como tinha vontade de fazer.

Cleybourne observou enquanto ela saía, perguntando-se por que se sentia ainda pior do que antes, já que tinha feito exatamente o que deveria.

Jessica conseguiu ser dispensada do jantar com os outros adultos naquela noite, dizendo que não estava se sentindo bem. Tinha certeza que seu rosto completamente pálido e os olhos com olheiras convenceram lady Westhampton de que estava realmente doente. Rachel lhe disse que deveria mesmo deitar-se e descansar; provavelmente, estava exausta do susto da noite anterior.

Assim que Richard viu que Jessica não estava no jantar naquela noite, teve certeza que ela se afastara por causa dele e de seu comportamento abominável na noite passada. Esperara que suas desculpas acertassem as coisas entre eles, mas tudo fora tão difícil e estranho que ele se sentia como se tivesse piorado as coisas.

Agira completamente diferente de si mesmo na noite anterior. Nunca se sentira tão no limite de seu controle, tão incapaz de comandar suas ações. Aproveitara-se da situação, sedu-zindo-a — não, praticamente impondo-se a ela — quando estava tão fragilizada. Não fora o ato de um cavalheiro, e sentia-se ainda mais culpado por ter sido um cafajeste com Jessica do que pelo fato de desejar outra mulher que não fosse Caroline.

Richard ficara acordado a maior parte da noite pensando nisso e, quanto mais pensava sobre o que fizera, pior parecia; até esta manhã, quando se desculpara com a srta. Maitland, sentia-se tão baixo que mal conseguia olhá-la nos olhos. E ela fora tão submissa! Tão diferente dela mesma! Não teria ficado surpreso se ela o tivesse atacado, cheia de ódio, dizendo a ele exatamente o que pensava de seus desagradáveis avanços. Na verdade, era o que esperara. Em vez disso, ela olhou para baixo e falou com calma, indicações claras de como ele ferira sua confiança.

Tinha certeza que houvera outros homens que haviam tentado se aproveitar da posição impotente dela como governanta, e agora ela acharia que ele era como os outros. A idéia o deixava com náuseas.

Leona, claro, estava irritante como sempre, sorrindo para ele de modo malicioso e enfeitando-se toda, freqüentemente colocando a mão sobre o peito ou o pescoço, tentando chamar atenção para o farto busto. Olhando para ela com o vestido transparente, Richard perguntou-se como a mulher conseguia não morrer de frio no inverno.

Após o jantar, Richard fugiu para o escritório, mas não gostou de ficar lá sozinho com seus pensamentos, como ocorrera o dia todo. Saiu do escritório e andou sem rumo pelo corredor, parando no final para abrir as cortinas e olhar para a noite. O céu estava pesado, as nuvens ocultando as estrelas e a lua e, com as cortinas abertas, o frio atravessava o vidro. Baxter dissera para ele mais cedo que o jardineiro sentia o cheiro de neve no ar. Richard não sabia exatamente como o nariz magro do homem podia avisá-lo sobre a neve, mas nunca soubera de nenhuma previsão errada de Calhoun. Os ossos dele avisavam sobre chuva iminente, as fases da lua ditavam suas plantações e seus jardins eram os mais admiráveis da redondeza.

Richard fechou as cortinas de veludo e começou a subir as escadas para o quarto. Não estava com sono ainda, mas esperava que um tempo lendo tranqüilamente o levasse a isso. Girando a maçaneta da porta do quarto, entrou e deu vários passos antes de ficar imóvel e assustado.

— Que inferno!

Leona estava sentada na cama, os travesseiros arrumados atrás como apoio, as pernas enroscadas. Não estava vestindo nada.

— O gato comeu sua língua, Richard? — perguntou ela com a voz abafada, levantando os braços acima da cabeça e espreguiçando-se de forma a mostrar os grandes seios em seu melhor ângulo. — Por que não vem aqui olhar mais de perto?

— Você ficou louca? — questionou Richard. — Que diabos pensa que está fazendo?

— Bem, como você não foi me procurar — disse ela, fazendo um beicinho provocativo —, decidi que eu simplesmente deveria vir procurá-lo.

— Você não pensou que talvez houvesse uma razão para eu não procurá-la? — perguntou ele de forma severa, apressan-do-se em direção à cama. — Onde estão suas roupas? Não me diga que atravessou o corredor completamente nua?

Leona riu.

— Não. Embora isso certamente pudesse ter animado o dia dos lacaios. — Ajoelhou-se, colocando as mãos na cintura e virando a cabeça para um lado. — Então, vê alguma coisa de que gosta?

Cruzou os braços embaixo dos seios, levantando-os, e depois roçou os dedos nos mamilos, para que ficassem rijos.

— Vamos, Richard, não gostaria de me tocar? Ou talvez aqui... — Suas mãos deslizaram pelo corpo, acariciando o abdômen e descendo pelo quadril e pelas coxas.

— Pelo amor de Deus, Leona, saia da minha cama agora mesmo e vista suas roupas. E se alguém entrar?

— Quem faria isso?

— Bem, meu criado, por exemplo — respondeu rapidamente, procurando ao redor do quarto o que ela estava vestindo quando entrou.

Encontrou uma peça fina de roupa sobre a cabeceira da cama e jogou para ela.

— Aqui. Vista isso. Agora.

Leona jogou o vestido para o lado e levantou-se da cama, andando em direção a ele de forma sedutora.

— Não tenha medo. Eu não mordo. — Ela riu. — Bem, talvez só um pouquinho. Olhe para mim, Richard. Não sente que está ficando duro? Em um minuto, estará como uma rocha, prometo.

Esticou as mãos até o botão de cima da camisa dele e começou a desabotoá-la. Richard deu um passo para trás, e o botão soltou. Os olhos de Leona escureceram.

— É isso que você quer? — perguntou ela, rouca. — Que eu rasgue sua camisa?

— Não! — Richard sentia-se constrangido e mais do que um pouco tolo. — Leona, vai se arrepender disso pela manhã.

— Eu raramente me arrependo de alguma coisa.

— Você vai se arrepender de fazer papel de tola — respondeu de forma sombria. — E é exatamente isso que está prestes a fazer. Não vou me deitar com você, e se continuar a fazer isso, apenas nos deixará constrangidos.

— Não seja tão formal — disse Leona, passando o indicador de forma provocativa em volta do mamilo. — Venha. Podemos fazer o que você quiser. Quanto tempo faz, Richard, desde que esteve ao lado de uma mulher, desde que a sentiu a seu lado, apertando-se contra você? Posso garantir que nunca experimentou nada parecido com o que vai sentir comigo.

Esticou-se e pegou as mãos dele, puxando-as até os seios. Richard afastou-se, amaldiçoando-a. Virou-se e foi até o armário, abrindo-o e pegando uma de suas camisolas. Depois, virou-se, voltou até Leona e vestiu a camisola pelos ombros dela, juntando-a na frente, e colocou uma das mãos dela nas lapelas para mantê-la fechada.

— Adeus, Leona — disse simplesmente, pegando o cotovelo dela com firmeza e levando-a até a porta. — Como está insistindo nessa idiotice, devo dizer-lhe: não estou interessado em me deitar com você. Não sinto nenhum desejo por você. É uma missão perdida, e o que estiver esperando conseguir com isso, não vai funcionar. Agora saia.

Ele abriu a porta e empurrou-a para o corredor.

— A propósito, percebi que seu tornozelo ficou bom mira-culosamente. Acho que seria uma boa idéia você e seu marido partirem à primeira hora da manhã.

Leona ficou de boca aberta, pasma, as mãos caídas ao lado do corpo, deixando a camisola grande demais se abrir. Por um longo momento, ficaram ali parados se olhando. Richard pegou o braço dela, achando que teria de impeli-la corporal-mente pelo corredor até seu quarto.

Exatamente neste momento, ouviram passos no topo das escadas, e tanto Leona quanto Richard olharam para a escadaria. Jessica estava lá, virando no corredor em direção aos quartos, congelada no lugar. Vestia um de seus vestidos escuros simples, mas o cabelo estava caído e penteado para a noite, preso frouxamente na nuca com uma fita. Nos braços, segurava um livro.

Encarou o casal à frente, a mão de Richard pegando Leona, que estava vestida com um robe masculino aberto na frente de modo a revelar claramente sua nudez.

Jessica não conseguiu encontrar ar para respirar. Ele devia ter procurado Leona para afogar sua paixão!

Virou-se e afastou-se deles, sem saber para onde estava indo, desesperada apenas para fugir da cena que acabara de testemunhar. Não poderia seguir para seu quarto, pois isso significaria mover-se em direção a eles e não para longe, já que seu quarto ficava a apenas uma porta da de Richard. Escapou, então, para um lugar que conhecia, disparando pelo corredor, depois subindo as escadas estreitas para o andar de cima.

—Jessica! — exclamou Richard. Ia em direção a ela, mas virou para Leona. — Quero que vá embora! Amanhã! — disse com a voz grossa e o rosto ameaçador. — Agora volte para seu quarto!

Leona assentiu, muito assustada pelo olhar dele para fazer qualquer outra coisa. Apressou-se para seu quarto, e Richard atravessou o corredor atrás de Jessica. Acreditava que ela havia ido para a suíte e, quando chegou ao andar de cima, viu que a porta estava fechada e teve certeza de que estava certo.

Com passos largos, atravessou o corredor, pegou a maçaneta e girou-a, mas a porta não se abriu. Ela, obviamente, a trancara pelo lado de dentro. Sacudiu a maçaneta.

—Jessica. Abra a porta. Tenho de conversar com você. Jessica! Não era o que parecia. Droga, abra a porta!

— Vá embora! Tenho direito a minha privacidade — disse Jessica do outro lado da porta.

— Deixe-me explicar.

— Não precisa explicar para mim. O que o senhor faz é apenas da sua conta.

Ela estava certa, ele sabia. Não tinha obrigação nenhuma de se explicar para ela. Mas sabia que era intolerável ela achar que ele era um lorde lascivo que tentava se deitar com uma mulher por noite. Pior ainda, que ela achasse que ele desejara Leona esta noite da mesma forma como a desejara ontem.

— Tenho de falar com você. Não vou sair daqui até que abra esta porta — avisou ele.

— Então temo que vá fazer papel de bobo passando a noite no corredor — respondeu Jessica com firmeza. — Boa noite.

Richard escutou passos dentro do quarto, depois a porta interna se fechando. Ficou parado por um momento. Então, com um resmungo, virou-se e atravessou o corredor até as escadas.

 

Jessica acordou na manhã seguinte com neve. Caía em grandes flocos, e o solo já estava quase coberto de branco. Gabriela entrou saltitante no quarto de Jessica, antes de a governanta acabar de se vestir, falando sobre a neve.

— Não é lindo, srta. Jessie? Podemos sair para passear pela neve mais tarde? Eu simplesmente amo a neve, e você? — Foi até a janela de Jessica e olhou para fora, encantada com a cena. — Faz tudo parecer tão lindo, tudo branco... e também misterioso. Não acha?

— Misterioso? — questionou Jessica, enrolando o cabelo em um coque na nuca e prendendo-o com grampos. — Por que diz isso? É tão claro de se olhar, eu acho. Puro.

— Sim, mas é a forma como cobre tudo que a torna misteriosa. Você sabe, todas as moitas e muros, tudo que fica do lado de fora é simplesmente massa branca, e não sabemos exatamente o que é nada. Ou onde é seguro andar. Você pode passar por um pedaço de solo com neve e depois descobrir que cobre um lago congelado e cair dentro dele. E pode haver um buraco que parece sólido por causa da neve mas, se você pisar, cairá dentro dele.

— Que pensamentos mórbidos! Acho que está lendo muitos romances com monges malucos e condes malvados.

Gabriela riu, sem se ofender.

— Não. Nunca tem neve nesses romances. Está sempre chovendo. Ou eles moram em um penhasco acima do mar, que bate nas pedras abaixo.

— É verdade. E é sempre noite, sempre escuro.

— Com as velas tremeluzindo.

Houve uma batida à porta, que as assustou, e elas pularam, depois se olharam e começaram a rir.

— Entre — disse Jessica. Rachel abriu a porta, sorrindo.

— Bem, parece que todos estão animados esta manhã.

— É a neve. Ela me deixa feliz — disse Gabriela.

— É lindo, não é? Mas, acho que não é uma boa notícia para mim — disse Rachel, entrando no quarto. — Vim me despedir. Eu ia ficar mais um pouco, mas acho que agora devo ir o mais rápido possível.

— Não! — reclamou Gabriela, decepcionada. — Por favor, fique. A srta. Jessica e eu vamos caminhar pela neve mais tarde.

— Sim, deve ficar — reforçou Jessica. — Não deveria viajar na neve.

— Lorde Westhampton está me esperando antes do Natal — explicou Rachel. — Atrasei-me vindo para cá para ver o duque. E se cair muita neve e eu não conseguir partir? Michael ficaria preocupado.

— Entendo. Bem, sentimos muito vê-la partir — disse Jessica.

— Ah! Seus vestidos! Precisamos empacotá-los. Estão em meu armário.

Rachel sorriu.

— Ah, não se incomode. Tilly já empacotou minhas coisas, que já estão a caminho do coche. E eu tenho muitos vestidos em casa. Posso pegá-los da próxima vez que vier visitá-los.

Jessica protestou, sentindo-se culpada ao pensar em ficar com os vestidos dela por um período de tempo indefinido, mas Rachel insistiu, ignorando os protestos com um sorriso.

— Agora uma novidade que as deixará contentes — disse Rachel após um momento, mudando de assunto. — Não sou a única pessoa a partir hoje. Parece que também estão trazendo a carruagem de lorde e lady Vesey.

— Mesmo? — perguntou Gabriela, encantada.

— Sim. Richard está insistindo nisso. Acho que deve ter brigado com eles ontem à noite. Está soltando fogo pelas ventas esta manhã.

Jessica pensou em perguntar o que havia de diferente nisto mas guardou as palavras afiadas para si mesma. Lady Westhampton gostava muito do cunhado, e Jessica não queria ofendê-la.

Gabriela e Jessica desceram com Rachel até o salão principal, onde Richard estava esperando. Ele virou ao perceber a aproximação delas, e seus olhos pousaram em Jessica. Ela correspondeu ao olhar com frieza, ele franziu a testa, depois encarou Rachel.

— Suas malas já estão seguras no coche — disse ele. — Tem certeza que deseja partir com esta tempestade?

— Não é uma tempestade, Richard — disse Rachel com um sorriso. — É apenas neve.

— Baxter me disse que Calhoun acha que vai piorar, e ele nunca erra.

Rachel sorriu.

— É por isso que devo partir agora, antes que piore. Adeus, querido Richard. Cuide-se.

Ficou na ponta dos pés para beijá-lo no rosto. Depois, dirigiu-se para Jessica e Gabriela, que estavam um pouco atrás dela.

— Prometam-me que vão tomar conta dele.

Jessica percebeu o olhar significativo que a outra mulher lhe lançou, e assentiu. Sabia que lady Westhampton estava confiando nela para que não deixasse o duque fazer nada contra si mesmo. Rachel deu a mão para Jessica, e Gabriela deu um abraço impulsivo em Rachel, o que pareceu agradá-la de forma considerável.

Ela amarrou o chapéu e vestiu as luvas que a criada lhe entregara, depois permitiu que Baxter a ajudasse com o pesado casaco de lã. Tilly entregou a ela um regalo de pele para manter suas mãos aquecidas, e elas partiram, Richard acompanhando Rachel até os degraus da frente da casa e ajudando-a a subir na carruagem. Gabriela e Jessica enfrentaram o frio na porta da frente e acenaram enquanto a carruagem se afastava.

Jessica percebeu, antes de entrarem, que havia outro coche se aproximando, vindo do estábulo. Era a carruagem dos Vesey, e melhorou um pouco o humor de Jessica ver que Rachel estava certa: Richard estava fazendo com que lorde e lady Vesey fossem embora. Sabia que eles não iam embora por vontade própria.

Cleybourne entrou em casa de novo enquanto a carruagem descia a longa estrada, e Jessica e Gabriela viraram-se para as escadas.

— Srta. Maitland — disse Cleybourne enquanto fechava a porta. — Gostaria de conversar com a senhorita.

Jessica virou-se, mantendo uma postura calma.

— Sinto muito, Alteza, mas devo supervisionar as lições de Gabriela agora.

Gabriela lançou um olhar surpreso na direção dela. O fato de fazerem a lição não era incomum, mas era muito estranho uma governanta negar o pedido de seu patrão para uma conversa.

Cleybourne apertou os lábios com impaciência, mas apenas disse:

— E a que horas terminarão essas lições?

Jessica foi salva da resposta pela voz pouco doce de lady Vesey enquanto ela e o marido desciam as escadas.

— Aqui está você! Cleybourne, não posso acreditar que será cruel a ponto de nos jogar em uma tempestade como essa. — Fez um gesto dramático em direção à frente da casa. — E se morrermos de frio?

— Não morrerão — respondeu Cleybourne rispidamente.

— Sinceramente, Cleybourne — concordou Vesey. — Está um horror lá fora. Não é um bom tempo para se viajar.

— Logo ficará pior — garantiu a Vesey. — É por isso que devem partir imediatamente. Não quero que fiquem presos aqui por causa da neve por dias.

— Não posso acreditar que esteja fazendo tal monstruosidade — reclamou Leona, fazendo beicinho.

— Não sei por que não. Como se eu já tivesse sido particularmente agradável com vocês. — Ele virou de lado, dizendo para um dos lacaios: — Duncan, lorde e lady Vesey precisam de seus casacos.

O lacaio antecipara-se a ele, e se aproximou quase imediatamente para colocar o casaco sobre os ombros de Leona. Os olhos dela brilhavam de raiva ao olhar para Cleybourne. Não estava acostumada a homens que rejeitavam seus favores, muito menos a um que a colocava para fora como um parente constrangedor.

— Você é um tolo, Cleybourne — disse ela, fervendo de raiva, ao passar por ele, vestindo as luvas com movimentos violentos. — Você viverá para se arrepender deste dia.

— Já me arrependo — garantiu ele, seguindo os Vesey até a porta da frente.

Jessica aproveitou a oportunidade para escapulir pelas escadas, pegando Gabriela pelo braço e puxando a menina. Gabriela lançou-lhe um olhar irritado, de protesto.

— Queria vê-los partindo!

— Podemos ver lá de cima do seu quarto. Tem a vista para a estrada.

Correram para o quarto de Gabriela e ficaram na janela, olhando os flocos de neve aumentarem cada vez mais no pátio. Lorde e lady Vesey subiram na carruagem, com Leona lançando um último olhar fulminante para Cleybourne, que estava parado na porta da frente, e a carruagem foi para a estrada devagar.

Depois disso, Jessica arrastou Gabriela para a suíte para fazer as lições. Sabia que em algum momento teria de conversar com o duque; afinal, ele era seu patrão. Entretanto, tinha esperança que o encontro fosse adiado o máximo possível, até que atingisse o ponto em que não se sentisse como se fosse se desfazer em lágrimas quando olhasse para ele. Não queria ter de lutar para se controlar enquanto ele mencionasse que pagava seu salário, que ela estava ali apenas para cuidar de Gabriela e que não tinha o direito de questionar o comportamento dele nem de condenar o que ele decidia fazer ou com quem. Deus sabia que ela dissera estas coisas a si mesma várias vezes na noite passada.

A manhã arrastou-se enquanto elas faziam as lições de geografia, história e francês. Gabriela estava entediada e inquieta, ansiosa para sair. Felizmente, na opinião de Jessica, as janelas da suíte eram pequenas e altas, ou ela teria se levantado a cada poucos minutos para ir olhar a neve. Finalmente, quando Gabriela estava começando a reclamar do estômago vazio, Jessica fechou o livro e afastou-o.

— Certo. Por que não damos uma volta na neve antes do almoço?

Levou um tempo até que vestissem seus casacos para a neve, mas então correram pelas escadas e saíram pela porta dos fundos. O que viram fez com que perdessem o fôlego. A neve cobria todo o jardim dos fundos e estava caindo com mais intensidade que antes. Cercas e trilhos tinham uma crista com vários centímetros de neve, e ela formava montes em volta dos troncos dos arbustos. Tudo brilhava em branco, e a neve que caía limitava a visão a apenas alguns metros.

— Não é lindo? — exclamou Gabriela, levantando o rosto e colocando a língua para fora para saborear os flocos de neve.

— É. O jardineiro estava certo. A neve está ficando mais intensa.

Passaram pela lateral da casa, seguindo o caminho do jardim. Era difícil andar; tinham de tirar os pés de cada buraco profundo que faziam. Quando chegaram à frente e olharam a propriedade, a paisagem comum de montanhas fora transformada em um mar branco: céu e solo, tudo entre eles se misturando.

Escutaram a carruagem antes de vê-la, mas em um momento a forma escura do coche se tornou cada vez mais clara através da neve enquanto vinha pela estrada.

— Ah, não — reclamou Jessica.

— O quê? O que houve? — perguntou Gabriela, olhando para Jessica, depois para a carruagem. — É a...

— É — respondeu Jessica com repulsa. — Aquela é a carruagem dos Vesey.

O cocheiro estava quase coberto de neve, assim como malas e baús sobre a carruagem. Ele parou os cavalos, mas antes de conseguir pará-los lorde Vesey saiu de dentro dela, praguejando. Foi direto para a casa, sem nem mesmo virar-se para ajudar a esposa.

Assim que chegou aos degraus, a porta se abriu e um lacaio saiu, parecendo perplexo. Vesey rosnou algo para ele e empurrou-o para fora do caminho enquanto entrava na casa.

Jessica caminhou com dificuldade pela neve para estender a mão para ajudar lady Vesey, que com uma careta para Jessica aceitou a mão e saiu da carruagem. Sem nenhuma palavra de agradecimento, soltou a mão de Jessica e correu para a casa atrás do marido. Jessica, Gabriela e o lacaio seguiram-nos com curiosidade.

Quando entraram e fecharam a porta, Cleybourne estava atravessando o piso de mármore com passos largos na direção deles. Vesey, tirando o chapéu, jogou-o no chão em um ataque de fúria.

— Você quase nos matou! — gritou para Cleybourne. — A estrada está fechada. Vimos uma carruagem que deslizou para dentro de uma vala. A ponte sobre o Trysdale está fechada. Tivemos de dar meia-volta, algo bem difícil em uma estrada coberta de neve, devo dizer. Achei que nunca fôssemos conseguir voltar para cá.

— Quero ir para a cama — gemeu Leona. — Estou congelada, e será um milagre se não pegar uma pneumonia.

— E se acha que já não é ruim o suficiente viajar três horas pela neve em estradas traiçoeiras, então experimente fazer isso com Leona na carruagem, reclamando o tempo todo! — Vesey lançou um olhar malévolo para a esposa. — Pelo amor de Deus, vá para a cama logo e pare de resmungar.

— Sim, Duncan, leve-a para o quarto — disse Cleybourne de forma sombria. — Inferno.

Pela primeira vez, notou que Gabriela e Jessica estavam atrás de lorde Vesey.

— Que diabos vocês duas estão fazendo?

— Estávamos caminhando na neve — explicou Gabriela.

— Caminhando? Com esse tempo?

— Só em volta da casa. Tinha prometido a Gabriela que sairíamos um pouco para ver a neve depois das lições.

— Pelo amor de Deus, por quê?

— Porque é divertido — respondeu Jessica. — O senhor se lembra desse conceito, não é?

— Sim, eu me lembro. Só não vi a relação dele com deixar os pés encharcados e gelados e respirar o ar congelante.

Jessica abriu a boca para responder, mas parou, lembrando-se de algo de repente.

— Cleybourne!

— O quê? — Ele olhou para ela atentamente, percebendo o repentino tom de medo em sua voz. Nenhum dos dois percebeu que ela se dirigiu a ele como uma igual, não como uma empregada.

— E lady Westhampton? — perguntou Jessica, cada vez mais alarmada. — A estrada para o norte não está, provavelmente, bloqueada?

— Sim, acredito que esteja. — A preocupação brilhou nos olhos dele. — Então, por que ela ainda não voltou para cá?

— E se a carruagem dela saiu da estrada, como a que lorde Vesey viu? Ou quebrou uma roda, ou algo assim? Ela pode estar encalhada na neve.

— Vou encontrá-la — disse Richard concisamente e virou-se, chamando: — Duncan! Baxter!

Outro lacaio apressou-se.

— Sim, Alteza?

— Vá até o estábulo. Preciso de meu cavalo selado. E é melhor que um cavalariço vá comigo. Posso precisar de ajuda. Vou calçar minhas botas de cavalgada e já estarei lá.

Ele virou-se para Jessica.

— Você vai...

— Eu resolvo tudo por aqui — garantiu Jessica. — Mandarei arrumarem o quarto dela de novo e aquecerem a cama. Tudo.

Ele assentiu e subiu as escadas correndo. Gabriela virou-se para Jessica com os olhos arregalados e assustados.

— Você realmente acha que ela pode estar em perigo? Jessica deu um sorriso tranqüilizador.

— Acho que ela deve estar com mais frio do que qualquer outra coisa. A carruagem não deve estar indo muito rápido com este tempo, então, mesmo que tenha caído em uma vala, não deve ter machucado lady Westhampton. E elas tinham um cobertor para a viagem e estavam vestidas com roupas bem quentes. Tenho certeza que estão bem, e o duque logo as alcançará.

Por dentro, não se sentia tão segura quanto as palavras queriam demonstrar. Se as estradas estivessem tão ruins quanto Vesey dissera — e, por menos que confiasse nele, parecera genuinamente chateado —, havia muitas chances de uma carruagem sofrer um acidente ou atolar na neve. E embora lady Westhampton estivesse com roupas quentes e tivesse um cobertor na carruagem, esfriaria muito, principalmente depois que o sol se pusesse. O que era realmente preocupante era a possibilidade de ela ter se distanciado muito antes de algo acontecer, o que faria com que estivesse muito longe para Cleybourne encontrá-la.

Jessica também sabia que a possibilidade de ter acontecido um acidente devia estar pesando na mente de Cleybourne, uma vez que a tragédia que acontecera com ele quatro anos antes tenha sido nesta época do ano.

Também estava preocupada com a segurança de Cleybourne. Aparentemente, ele estava planejando cavalgar, o que o tornaria mais móvel e rápido, mas também o exporia completamente às forças da natureza. E como seria fácil seu cavalo escorregar e cair, talvez pisar em um buraco coberto de neve, como Gabriela dissera! Então, estaria exposto às forças da natureza a pé, uma perspectiva ainda mais perigosa. Era um pouco tranqüilizador o fato de ele pelo menos levar um cavalariço com ele.

Com esses pensamentos em mente, Jessica foi procurar a governanta da casa para informar-lhe dos acontecimentos dos últimos minutos e dizer-lhe para pedir para esquentarem a cama de lady Westhampton e para prepararem uma panela de sopa bem quente.

Realizou essa tarefa rapidamente e também disse algumas palavras tranqüilizadoras para os empregados sobre a volta da terrível lady Vesey. Então voltou para o salão principal, onde encontrou Baxter, que parecia pálido e mais velho que de costume.

— É uma coisa horrível, senhorita — disse, balançando a cabeça. — Ele foi atrás dela como se a morte estivesse sobre seus ombros. Sei que ele está pensando na duquesa e na pequena. Eu também. Em dois dias será o aniversário da morte delas. Os fatos se parecem tanto!

— Mas não é a mesma coisa. Não há nada que nos diga que as conseqüências serão as mesmas — garantiu Jessica. — Você deve ser forte pelo bem do duque. Ele precisará de você quando voltar para casa. É você quem mantém a casa funcionando.

Baxter deu um sorriso amarelo.

— Obrigado, senhorita, por dizer isso. A senhorita é... Foram interrompidos por uma batida repentina à porta, tão alta e inesperada que Jessica e o mordomo encolheram-se. Baxter correu para a porta, preocupado, e Jessica foi atrás dele. Nos degraus da porta, estavam dois homens, um pequeno, magro e nervoso, e o outro robusto, vestindo roupas quentes, mas não elegantes, um sobretudo velho, botas e luvas, um chapéu enterrado na cabeça e um cachecol amarrado em volta do pescoço e da parte inferior do rosto.

— Bom dia, senhor — disse o homem robusto, puxando o chapéu. — Sou da diligência. Parece que tivemos um acidente e viramos, eram dois bons jovens cavalheiros em uma carruagem ocupando mais espaço na estrada do que deveriam, foi isso, e nós começamos a derrapar, e bem, só sei que estávamos do nosso lado e a carruagem deles caiu na vala.

— Meu Deus! — disse Baxter, parecendo ainda mais frágil que no momento anterior. — Que coisa horrível. Bem, Sua Alteza não está em casa. Eu...

— Mandaremos alguém para ajudá-los — disse Jessica com firmeza para o homem. — Por que vocês dois não entram enquanto

Baxter manda alguém até o estábulo para preparar uma carruagem e um vagão e chamar alguns homens? Tenho certeza que o duque ia querer ajudar, não é, Baxter?

— Ah, sim, claro, senhorita. Está certa. — Baxter endireitou-se e assumiu uma expressão mais parecida com a de um mordomo. — Senhores, se quiserem me seguir, podem esperar na cozinha enquanto trazem o vagão, e a cozinheira providenciará comida quente e chá para vocês.

O homem robusto abriu um sorriso, dizendo:

— Isso é melhor do que podíamos esperar, é sim.

O outro homem sorriu de modo incerto, endireitando as lapelas do casaco de novo e colocando as mãos no bolso.

— Sim, senhorita, senhor. Muito obrigado.

— Está combinado, então. Baxter, informarei à srta. Brown o que está acontecendo.

— Obrigada, senhorita.

Baxter levou os dois homens até a cozinha, e Jessica os seguiu, depois afastou-se deles e foi em direção aos aposentos da governanta. Escutou a voz da srta. Brown antes de chegar à sala de estar e seguiu-a pelo corredor até o armário, onde a srta. Brown estava entregando lençóis e dando instruções a duas serviçais.

Assim que dispensou as serviçais, virou-se para Jessica, que sorriu se desculpando e dizendo:

— Parece que teremos mais hóspedes, srta. Brown. Explicou o que acontecera e a probabilidade de que, com as estradas bloqueadas, acabassem com a casa cheia de vítimas de acidentes. No início, a srta. Brown ficou surpresa, depois preocupada com a capacidade dos empregados em arrumar tudo para um grupo tão grande, mas quando se recuperou das notícias, Jessica pôde ver, pela determinação em seu rosto, que aceitara a chegada inesperada de visitantes como um desafio pessoal.

Jessica e Gabriela atiraram-se ao trabalho para ajudar, abrindo vários quartos e tirando a poeira, até terminando de arrumar camas, esticando o cobertor por cima. Mas nenhuma delas conseguia arrumar os lençóis de forma tão esticada quanto os padrões exigidos pela srta. Brown.

Enquanto os serviçais estavam alvoroçados com tanto trabalho, o duque estava cortando caminho pelos campos. Economizaria uns 15 minutos, apesar de ter tido de desmontar e atravessar um portão em vez de pular a cerca, por causa da dificuldade de cavalgar na neve. E não estava preocupado por não procurar naquele pedaço de estrada, pois tinha certeza que, se tivessem ficado presos tão perto do castelo, o cocheiro de Rachel teria atravessado a neve e já teriam chegado ao castelo agora.

O ritmo estava lento, e Richard era impulsionado pelo medo. Por que deixara Rachel sair esta manhã? Deveria ter percebido que era muito perigoso. Ficara distraído pelo que acontecera na noite anterior. Em vez de pensar no perigo, ficara pensando em como explicaria à srta. Maitland que não se deitara, nem quisera se deitar, com Leona, apesar das circunstâncias incriminativas em que Jessica os encontrara.

Seria culpa dele se algo acontecesse a Rachel. Mais uma vez, seria culpa dele.

Não podia deixar de se lembrar da noite, quatro anos atrás, e da visão chocante da carruagem fazendo a curva muito rápido, batendo e rolando ribanceira abaixo, em uma descida sem fim, até o lago congelado. Vivera anos naquele momento, assistindo sua vida chegar ao fim.

Desesperadamente, afastou as lembranças e continuou no ritmo mais rápido que o cavalo conseguia manter na estrada. Uma hora de tortura se passou sem nenhum sinal da carruagem de Rachel, ou, na verdade, nenhum sinal de que algum veículo passara por este caminho. A neve estava limpa e fresca, quaisquer marcas que poderiam ter estado ali mais cedo já tinham sumido.

Então, enquanto cavalgava na beirada de um pequeno morro, viu ao longe uma forma escura. Assumiu uma postura rígida, inclinando-se para a frente e olhando através da neve que ainda caía para ver o que era. Estava se mexendo, pensou ele, gradualmente ficando maior, e logo se distinguiu em formas distintas de movimento. Finalmente, ele conseguiu perceber que eram quatro cavalos vindo em sua direção, três deles com alguém em cima, e o quarto carregando uma trouxa inerte. Cavalos de carruagem, percebeu ele com um sorriso, sem freios nem selas. O cocheiro de Rachel estava montado em um, enquanto Rachel estava como uma lady em outro, como se estivesse em um silhão, e sua pobre criada quicava em cima do terceiro, agarrando-se com força à crina do cavalo, aos arreios ou ao pescoço, no que conseguisse. O quarto cavalo carregava algumas malas.

Cheio de alegria, Richard acenou e foi ao encontro deles.

Jessica observou com certa aflição enquanto a carruagem do duque parava no pátio, seguida pelo vagão, e um grupo de pessoas que emergiu dos dois veículos invadia a casa. Cleybourne ainda não tinha voltado, e ela estava ficando cada vez mais preocupada. Agora ocorreu-lhe a ela que provavelmente deveria se preocupar com o que o duque diria quando voltasse e visse que ela convidara vários estranhos para sua casa.

O vagão carregava a bagagem e os empregados que tinham ido para ajudar os passageiros. Os dois homens que vieram à casa para reportar o acidente estavam no vagão com eles.

Mais três pessoas desceram da carruagem. O primeiro a sair foi um homem esbelto, vestido com um terno preto simples e colarinho branco de pastor anglicano. Virou-se para ajudar duas mulheres a descerem. O grupo apressou-se para dentro, o pastor ajudando de forma solícita a mais velha das duas mulheres a subir os degraus.

— Obrigado, madame — disse o pastor quando todos estavam dentro de casa e a porta fechada. Fez uma pequena reverência para Jessica. — É muita bondade sua oferecer sua casa como refúgio para nós. Acho que as forças da natureza não favoreceram as viagens hoje.

— Acho que não — concordou Jessica. — Bem-vindos ao castelo Cleybourne. Infelizmente, o duque de Cleybourne não está aqui no momento, mas deve chegar logo.

— Ah, Deus — disse o padre com calma. — Está na estrada com este tempo? Tão inclemente.

— Sim, foi uma emergência. — Jessica apresentou-se, depois Gabriela, que estava atrás dela, observando os novos hóspedes com interesse, e por último a srta. Brown.

O pastor respondeu dizendo:

— Permita-me que me apresente, srta. Maitland, srta. Carstairs, sou o reverendo Borden Radfield. Estou no caminho de volta à minha paróquia.

Era um homem com boa aparência, pensou Jessica, um tanto jovem e bonito para um pastor. Como ele também parecia ser solteiro, Jessica suspeitou que as jovens de sua igreja deviam correr atrás dele freqüentemente.

Então ele começou a apresentar os outros passageiros. O homem magro e curvo era o sr. Goodrich. O outro homem que viera à casa em busca de ajuda era o cocheiro. A mulher mais velha era a srta. Pargety. Era pequena, com o rosto abatido e nariz fino e levemente recurvado que lhe dava, achou Jessica, a aparência de um pássaro. Um corvo, decidiu Jessica, pelo preto usado sem reservas no casaco, chapéu e luvas. O cabelo grisalho estava arrumado em cachos bem firmes que caíam nas laterais do rosto, um estilo muito infantil para uma mulher da idade dela. Sempre que ela falava, os cachos balançavam e quicavam.

— Não sei o que vamos fazer — disse a srta. Pargety, de forma queixosa, olhando para Jessica como se ela fosse responsável pelo transtorno. — Estou viajando à casa da minha irmã para o Natal. Realmente tenho de chegar lá.

— Infelizmente, parece que terá de ficar aqui por enquanto, srta. Pargety — respondeu Jessica. — Tenho certeza que sua irmã vai entender, por causa do clima.

— Bem, não sei como ela vai conseguir fazer tudo sem mim — disse a srta. Pargety com um tom de voz desanimado. — Ela vai ficar desesperada.

— Tenho certeza que ela, simplesmente, ficará aliviada ao saber que a senhorita está segura e não exposta ao tempo — disse a outra mulher, que então virou, sorriu para Jessica e apresentou-se como a sra. Woods.

A sra. Woods era uma mulher atraente, na casa dos 30 anos, com a pele azeitonada e macia e pesado cabelo escuro. Tinha a voz baixa e um pouco rouca, e havia um pouco de sotaque em sua fala. Jessica achou que parecia bem exótica para um nome tão simples como sra. Woods. O casaco e o chapéu eram verde-escuro, simples, mas bem feitos, e quando Baxter pegou seu casaco, Jessica viu que o vestido de viagem de lã marrom também era caro e elegante.

— Não teríamos tido problemas — continuou a srta. Pargety, pouco convencida com a tentativa da sra. Woods de acalmá-la —, se não fossem aqueles dois jovens. Eles foram imprudentes. Completamente imprudentes.

— Não há dúvida de que eles não estavam acostumados a lidar com os cavalos em tal estrada — disse o pastor, lançando um olhar de desculpas para Jessica e Gabriela.

— Onde estão os dois jovens? — perguntou Jessica. — Achei que eles também viriam. As estradas estão bloqueadas.

— Ah, sim. Eles não foram tão tolos a ponto de achar que poderiam continuar a viagem — disse o reverendo Radfield, com um sorriso fraco. — Mas os homens que a senhorita mandou conseguiram tirar a carruagem deles da vala. Só estava com uma roda fora da estrada, e estava em bom estado para viajar, então eles vieram nos seguindo. — Entende.

— Devem ser eles — disse o reverendo, virando-se em direção à porta ao som de vozes do lado de fora.

A porta da frente se abriu, e Cleybourne entrou, com os braços em volta de lady Westhampton, que se apoiava nele. Atrás deles, entraram a criada da lady e o cocheiro. Rachel estava pálida e tremendo, e Jessica correu até eles, seguida por Gabriela.

— Lady Westhampton! Deve estar congelada! Deixe-nos levá-la para cima.

— Obrigada. Estou bem. Foi uma experiência e tanto, mas tenho certeza que o pior não aconteceu. Graças a Deus Richard apareceu. Acho que teríamos nos perdido tentando voltar.

— Quem são essas pessoas? — perguntou Cleybourne de forma rude, olhando ao redor da entrada.

— Passageiros da diligência. Ela quebrou não muito longe daqui. — Cleybourne franziu a testa para ela, e Jessica respondeu ao olhar de forma branda. — Tinha certeza que se o senhor estivesse em casa teria insistido para que eles viessem para cá.

— Claro, claro — disse ele com impaciência. — Está tudo bem. Mas, neste momento, Rachel precisa ir para o quarto e se aquecer.

— Claro. Gabriela e eu vamos levá-la. A srta. Brown providenciará para que os outros hóspedes sejam levados para seus quartos.

Naquele momento, bateram à porta, e o lacaio abriu-a. Os dois jovens cavalheiros da descrição do cocheiro, Jessica teve certeza, entraram. Eram, obviamente, jovens da alta sociedade, vestidos com sobretudos com duas colunas de botões dourados, as botas polidas até brilharem como espelhos e, se as roupas não denunciassem seu status, a postura arrogante o teria.

— Lorde Kestwick — disse o que estava na frente, imediatamente percebendo que o duque era a pessoa mais importante no ambiente e fazendo uma reverência para ele.

O outro homem foi para o lado de Kestwick, dizendo:

— Sr. Darius Talbot.

Jessica assumiu uma postura rígida, arregalando os olhos, chocada. Foi tudo que conseguiu fazer para não gritar. Darius Talbotí O acompanhante de lorde Kestwick era ninguém menos que o homem do qual um dia fora noiva, o homem que a abandonara ao primeiro sinal de escândalo.

 

Foi tudo que Jessica conseguiu fazer para não se esconder atrás do duque para que Darius não a visse. Entretanto, fechou as mãos formando punhos e conseguiu permanecer onde estava. Darius sequer olhou para ela.

Sem entusiasmo, o duque cumprimentou os dois homens e apresentou Rachel, Gabriela e Jessica. Kestwick mal a olhou, mas Darius olhou em volta ao ouvir o som do nome dela e, quando a viu, ergueu as sobrancelhas. Ficou parado, encaran-do-a, perplexo.

Jessica decidiu fazer alguma coisa antes que ele falasse com ela, então pegou o braço de Rachel e, virando-se para Cleybourne, disse:

— Acho melhor eu acompanhar lady Westhampton até o quarto agora.

— Sim, claro. — Cleybourne entregou Rachel a ela, o rosto enrugado de preocupação. — Estarei lá em cima em um minuto para ver como está, Rachel.

Ela sorriu para ele.

— Estarei bem, tenho certeza.

Mas Jessica percebeu que Rachel apoiou-se nela com bastante força e ainda estava tremendo. Jessica ajudou-a a subir as escadas e atravessar o corredor até o quarto, fazendo o máximo para concentrar-se na condição de Rachel e não na presença de seu antigo noivo nesta casa. Parecia a maior falta de sorte ele aparecer aqui, e parecia que o grupo todo ficaria preso no castelo por vários dias.

Dentro do quarto de lady Westhampton, Jessica rapidamente ajudou-a a tirar o casaco e as botas, ambos um tanto encharcados pela neve. Em seguida, tirou o restante das roupas de Rachel e enrolou-a em uma toalha, depois colocou-a na cama. Uma serviçal aquecera os lençóis com uma panela quente, e havia uma garrafa com água quente na cama, como Jessica solicitara. Jessica colocou-a nos pés de lady Westhampton e puxou os cobertores até seus ombros.

Agora lady Westhampton estava tremendo de forma quase incontrolável, e os dentes rangiam.

— Sinto tanto. Eu... nem tinha percebido o quanto estava frio até entrarmos em casa.

— A senhora ficará bem agora. Espere só um pouco. — Jessica chamou uma serviçal, com a intenção de pedir chá quente para a paciente, mas logo em seguida uma serviçal entrou no quarto carregando uma bandeja com um bule de chá e xícaras, além de uma tigela de sopa quente.

As malas da lady ainda não tinham sido trazidas até o quarto, então Jessica rapidamente atravessou o corredor até seu quarto e pegou uma de suas quentes camisolas de flanela e um penhoar. Voltou para o quarto de Rachel e ajudou-a a vesti-las, depois aqueceu-a ainda mais com uma xícara de chá, seguida pela tigela da vigorosa sopa. Gradualmente, Rachel foi parando de tremer.

— A neve estava terrível — disse ela para Jessica. — Eu deveria ter dito a Stephens para voltar antes, mas acho que estava aflita com a teimosia de Aincourt. Já estava muito atrasada, e fiquei preocupada que o lorde Westhampton ficasse chateado. Ele, provavelmente, estava me esperando hoje. Agora nem posso mandar-lhe um bilhete.

— Bem, tenho certeza que seu marido ia preferir que a senhora estivesse segura do que arriscando a vida tentando chegar em casa a tempo.

— Claro. Sem dúvida. E Michael é um homem muito calmo — disse Rachel, com um tom que Jessica achou melancólico.

— Ele, provavelmente, vai perceber que fiquei aqui por causa da nevasca e não vai se preocupar. Ele é bem pragmático.

Ela contou a Jessica como eles finalmente fizeram a volta e estavam retornando para o castelo quando a carruagem saiu da estrada e ficou presa em uma vala. Sem ter certeza se alguém passaria por ali, o cocheiro desamarrou os cavalos e eles partiram, em cima dos animais.

— Eu estava com muito medo de nos perdermos. Tudo estava tão descaracterizado por lá, com a neve cobrindo tudo. Graças a Deus, Richard saiu para nos procurar.

— Ele ficou muito preocupado com a senhora. Rachel sorriu.

— É um bom cunhado.

Mas Jessica não pôde deixar de se perguntar se os sentimentos do duque por Rachel eram algo mais do que apenas de cunhado.

Gabriela veio ver como Rachel estava, e depois as duas saíram para dar a lady Westhampton uma chance de dormir. Voltaram para a sala de estudos; Gabriela tagarelando sobre a animação de ter hóspedes e neve.

Jessica afundou em uma poltrona e, embora respondesse à conversa de Gabriela, sua mente estava muito ocupada pelo fato de Darius Talbot estar na casa. Que capricho bizarro do destino!

Raramente pensava nele, e com certeza quaisquer sentimentos que um dia pudesse ter tido por ele já tinham morrido havia muito tempo. Na verdade, às vezes achava que a dor da traição que sentira depois de ele abandoná-la foi realmente um sentimento mais forte do que o amor que tivera por ele durante o noivado. Mas vê-lo aqui a deixara chocada. Era uma situação, no mínimo, constrangedora.

Mas, garantiu a si mesma, seria possível evitar ficar perto dele. Com todas essas pessoas, o duque, certamente, não teria necessidade de tê-la como amortecedor entre ele e os Vesey, e Rachel, pelo menos hoje, jantaria no quarto. Então, ela estaria livre para comer com Gabriela na suíte todos os dias. Agora desejava ainda estar dormindo no andar de cima, pois assim estaria mais distante de Talbot. Era muito provável que o encontrasse, já que seus quartos eram no mesmo andar. A srta. Brown talvez colocasse alguns dos hóspedes inesperados no terceiro andar, mas Jessica sabia que ela não colocaria Kestwick e Talbot lá, já que, obviamente, eram membros de uma classe superior.

Jessica decidiu que simplesmente teria de ficar no quarto o máximo de tempo possível até que eles partissem, embora ficasse irritada ao pensar em literalmente se esconder dele. Mas seria uma situação bastante desagradável ter de falar com ele! Ela achava que qualquer coisa seria melhor que isso.

É claro, lembrou-se, que Darius não teria muita vontade de falar com ela, talvez nenhuma. Se ele também tentasse evitá-la, talvez conseguissem não se encontrar.

Seus pensamentos foram interrompidos por Baxter, que veio procurá-la com o espinhoso problema de como colocar todos os hóspedes sentados à mesa de jantar. Jessica compreendia o dilema que ele estava enfrentando. Tinha certeza que a maioria dos passageiros do coche de correspondência nunca, no curso normal de suas vidas, se sentariam à mesa com um duque. Apenas Kestwick e Talbot tinham condição social para sentarem-se com Cleybourne, os Vesey e lady Westhampton, e Jessica, francamente, não tinha tanta certeza da condição social de Kestwick para saber onde colocá-lo entre o grupo de pessoas.

O cocheiro e seu assistente comeriam com os serviçais. Mas isso ainda exigia a colocação dos outros passageiros da diligência. Não se podia esperar que um homem do clero se sentasse com os serviçais, então ele teria de ficar na mesa do duque. E Jessica podia dizer, pela postura da solteirona, que ela ficaria horrorizada se fosse colocada em algum lugar que não fosse a mesa principal. A sra. Woods parecera distinta e certamente estava bem vestida. Goodrich, o homem que chegara com o auxiliar do cocheiro, se adequaria melhor com os serviçais, levando em consideração suas roupas, mas seria um erro terrível colocá-lo lá se ele não se encaixasse com o grupo. Jessica já passara por muitos constrangimentos como governanta para fazer qualquer pessoa passar por eles.

— E tem mais um agora, senhorita — disse Baxter, parecendo exausto.

— Outro? Quem?

— Um homem que chegou há pouco tempo em um cavalo. Seu nome é Cobb, e tenho certeza que também não sei qual é o lugar dele. Tem uma aparência rude, mas está bem vestido.

— Já perguntou ao duque? Afinal, é a mesa dele.

— Claro. Ele só disse: "Tenho certeza que fará o melhor, Baxter." — Ele suspirou. — Sua Alteza às vezes é muito igualitário. Realmente acho que ele não se importa com o lugar onde eles vão se sentar.

— Então eu diria para colocar todos na mesa principal e arrumá-los da forma que achar apropriado. Suponho que Kestwick é de uma classe superior à dos Vesey, mas, mesmo assim, não tenho certeza. O sr. Talbot, obviamente, não tem nenhum título, e tenho certeza que sua condição não é tão elevada quanto a dos outros. O restante... apenas coloque-os à mesa. Se ficarem ofendidos, não podemos fazer nada.

— Sim, senhorita, obrigado. — Baxter sorriu para ela, aliviado, e saiu.

Depois foi a Srta. Brown quem veio confidenciar suas preocupações sobre os quartos que arrumara e como os distribuíra, e Jessica fez o máximo para abrandar seus receios, garan-tindo-lhe que o que tivesse decidido não teria um reflexo negativo sobre o duque. Jessica não tinha certeza absoluta dessa afirmação, mas sabia que o duque não se importaria, de qualquer forma.

Quando acordou, lady Westhampton convidou Gabriela para jantar com ela em seu quarto, presumindo que Jessica jantaria no andar de baixo. Jessica decidiu que, para poupar trabalho aos serviçais, esperaria para comer depois que a refeição principal fosse servida na sala de jantar, e então iria até a cozinha e prepararia uma bandeja para si.

Estava sentada no quarto lendo e tentando ignorar o estômago vazio quando bateram à porta. Abriu-a, esperando encontrar a srta. Brown ou Baxter com outra questão sobre etiqueta, mas, para sua surpresa, era o próprio duque de Cley-bourne que estava parado à porta.

— Alteza! Eu... — Ela parou, sem saber o que dizer.

— Que diabos está fazendo aqui em cima? — perguntou ele de forma indelicada.

— E onde mais eu poderia estar? — controlou-se Jessica.

— Você deveria estar lá embaixo, comendo com todos os outros.

— Governantas não costumam comer com a família, Alteza, principalmente quando há convidados.

— Não são meus convidados — comentou Cleybourne. — Você os convidou. Esta é uma boa hora para parecer subserviente a mim, devo dizer. Onde está a srta. Maitland que assume a responsabilidade de administrar a casa e manda meus empregados resgatarem a diligência?

— O que o senhor queria que eu fizesse? — perguntou Jessica com raiva. — Que os deixasse na neve para morrerem congelados?

— Claro que não. Eu apenas... inferno, eles são um incômodo. Um deles fica o tempo todo fazendo caretas, piscando e limpando a garganta, e aquele tal de Cobb é um bêbado. Não pode esperar que eu tolere esse bando sozinho.

— Mas não está sozinho.

— Eu sei. Este é o problema. Já era ruim o suficiente quando eram apenas lorde e lady Vesey. Mas agora há aquela mulher que parece um pardal gorjeando, e Kestwick falando sobre polimento de bota, e aquele outro camarada, qual é o nome dele, é um bobalhão. — Terminou com um suspiro, depois olhou para ela e ergueu as sobrancelhas. — Então?

— Então, o quê?

— Você precisa se vestir e descer para jantar.

— O senhor não pode estar falando sério.

— Com certeza estou.

Jessica ficou em pânico ao pensar em sentar-se à mesma mesa que Darius.

— Mas... vai demorar um pouco.

— Esperaremos.

— O senhor não precisa de mim. Não sei como posso torná-los menos irritantes.

Cleybourne olhou para ela por um momento, perplexo, depois disse:

— Talvez não, mas meu humor vai melhorar consideravelmente ao saber que vai aturá-los também. Agora, vista-se. Vou esperá-la aqui fora.

Jessica fez uma careta e fechou a porta, depois foi até o armário e tirou um outro vestido que lady Westhampton lhe emprestara. Decidiu usar o de cetim marrom, que tinha um toque avermelhado que parecia refletir seu cabelo e aquecer sua pele clara. Deixou o cabelo no mesmo penteado simples que usara o dia todo, um coque na nuca. Não tinha nem tempo nem habilidade para elaborar os cachos que usara na outra noite.

Quando abriu a porta, Cleybourne, que estava sentado em um banco decorativo no corredor, ficou de pé, e houve algo no olhar dele, uma luz repentina, que fez com que ela sentisse um calor por dentro. Lembrou-se que não era nada para ele, a não ser uma serviçal, que ele se arrependia do impulso que o fizera beijá-la na outra noite, que ontem à noite ele estava se divertindo com a libertina Leona.

Richard pegou seu braço, os dois desceram as escadas até a sala de estar, onde todos estavam esperando. O olhar furioso no rosto de Leona quando Jessica entrou ao lado de Cleybourne foi suficiente para deixá-la feliz por ter concordado, mesmo que isso significasse ter de passar uma noite com Darius Talbot.

Foi um jantar estranho. Como Cleybourne dissera, o sr. Goodrich não conseguia ficar sentado parado. Ele olhava para os talheres de prata com apreensão e verificava com olhadelas de canto de olho para ver qual utensílio as outras pessoas estavam usando. Em frente a ele, estava sentado o homem que Jessica não vira antes, que ela acreditava ser o sr. Cobb que Baxter falara que chegara depois dos outros e sozinho. Era um sujeito baixo e atarracado, com um tronco grosso e ombros e braços grandes. Uma cicatriz decorava uma de suas bochechas, dando-lhe um estranho e constante sorriso, e seus olhos eram tão insípidos e sem emoção quanto uma pedra. Ele não disse nada, apenas comeu com uma lentidão metódica, olhando para os outros ao redor da mesa. Tinha de concordar com Cleybourne, ele parecia um "bêbado".

Leona, como sempre, usava um vestido que mais parecia com nada. A maioria dos olhos masculinos permaneceu no decote do vestido dela a noite inteira, Jessica acreditava que esperando que ele deslizasse mais um centímetro para mostrar seus mamilos. A solteirona que estava viajando para visitar a irmã, srta. Pagerty, passou a maior parte da noite encarando Leona, com um horror fascinado. A sra. Woods parecia indiferente aos modos e às roupas de Leona. Fez a refeição com uma dignidade silenciosa, observando todos os outros e falando pouco, embora uma ou duas vezes Jessica tenha percebido um sinal de desprezo em seu rosto ao olhar para Leona.

Leona parecia ter abandonado sua perseguição ao duque, pelo menos esta noite. Com uma mesa cheia de homens para quem se mostrar, ela estava mais radiante e provocativa que nunca. Flertou com todos, incluindo o reverendo Radfield, que parecia não se importar que os seios dela ameaçassem pular para fora do vestido a qualquer momento. A gargalhada rouca de Leona tinha uma qualidade íntima, como se ela estivesse sozinha com quem a escutava. Ela sorriu, exibindo suas covinhas, e declarou que todos os homens eram criaturas travessas, até que Jessica teve vontade de jogar alguma coisa nela.

Apenas um homem além de Cleybourne parecia imune ao charme de Leona. Darius ficou com os olhos em Jessica a maior parte da noite. Com cuidado, ela evitou olhar para ele, não querendo manter contato visual, mas podia ver pelo canto do olho que ele continuava mantendo o olhar nela.

Jessica tentou educadamente manter uma conversa com a sra. Woods e com a srta. Pargety, já que Leona estava exigindo a atenção de quase todos os homens à mesa. A sra. Woods sorria e respondia com educação sempre que Jessica se referia a ela, mas não fez mais que isso. Jessica tinha certeza que havia sotaque em sua fala, e devido ao cabelo cheio e escuro e à pele azeitonada, imaginava se a mulher era italiana, apesar do nome inglês.

A srta. Pargety, por outro lado, estava bem disposta a falar, e fez isso a refeição inteira, sem parar, reclamando da diligência, da neve, do frio, e agora esse atraso, entremeando as reclamações com divagações sobre a irmã e a falta de capacidade dela em preparar o Natal sem sua habilidosa ajuda. Quando a refeição chegou ao fim, Jessica já suspeitava que a irmã dela ficaria feliz com o atraso da srta. Pargety.

Assim que a refeição acabou e os hóspedes levantaram-se da mesa, Jessica conseguiu escapar. Não tinha nenhuma intenção de ficar presa na sala de música ou de estar com as outras mulheres enquanto os homens se retiravam para fumar e tomar um brandy. Com um sorriso para todos à volta, escapuliu pela porta e foi em direção às escadas.

— Jessica!

Ela parou, reconhecendo a voz, e virou-se devagar. Preferia continuar correndo, mas sabia que seria melhor enfrentá-lo agora e acabar com isso logo. Pelo menos não havia mais ninguém por perto; todos os outros hóspedes ainda estavam saindo da sala de jantar.

— Darius.

— Por favor, quero falar com você. — Aproximou-se dela e pegou-lhe o braço, conduzindo-a para a sala mais próxima, a sala de estar menor e menos elegante.

Jessica resistiu ao instinto de sacudir o braço para que ele a soltasse. Olhou diretamente para onde os dedos dele pegavam seu braço, afastando-se alguns passos.

— Eu... eu sinto muito. Apenas... — Havia gotas de suor surgindo na testa dele, e ele olhou em volta da sala como se algo nela fosse lhe dizer o que fazer em seguida. — Mal pude acreditar quando a vi esta tarde.

Jessica esperou, olhando para ele. Perguntava-se o que tinha visto nesse homem. Achava que era bonito, de uma forma comum, mas decididamente havia uma fraqueza nele, e ela se perguntou por que não notara isso quando eram noivos. O cabelo era castanho; os olhos, castanho-claros. Não era nem alto nem baixo, nem magro nem gordo, ele era, decidiu ela, um tipo sem descrição.

— Eu... ah, fiquei feliz em vê-la. Queria encontrá-la há anos, na verdade. Sei que me comportei mal antes, e quero me desculpar.

Dizer a você o quanto eu estava errado. Vejo isso agora. E espero que consiga me perdoar de coração. — Como Jessica não disse nada, apenas continuou olhando para ele com frieza, continuou: — Comportei-me como um... como um cafajeste com você. Não tenho desculpas, exceto que eu era jovem e tolo. Fiquei com medo que o escândalo com seu pai me afetasse e acabasse com minha carreira no Exército.

— Claro — respondeu Jessica. — Era de se esperar que você pensasse primeiro em si mesmo.

Ele hesitou, olhando para ela com incerteza, como se não soubesse como interpretar a afirmação.

— Eu... eu achei que não tinha escolha. Tinha de abrir mão do amor em prol do bom nome da minha família, em prol das minhas aspirações como militar. Olhando para trás, vejo agora que fui tolo por colocar minha carreira na sua frente. Espero que possa me perdoar. Eu ficaria muito feliz se você conseguisse... Se pudéssemos ser amigos de novo.

— Não tenho interesse nenhum em ser sua amiga, Darius — disse Jessica com a voz inexpressiva. — E, sendo franca, acredito que, depois disto, será muito improvável que nos encontremos de novo. Não aconteceu em dez anos, afinal. Não circulamos mais nos mesmos locais.

Ele teve a dignidade de corar um pouco com o comentário dela.

— Eu sei. Sinto muito que tenha tido de... de...

— Procurar um emprego? — sugeriu Jessica. — Está tudo bem. Não tento esconder o fato de que trabalho. Na verdade, existe algo muito satisfatório e libertador em saber que posso controlar meu próprio destino, em vez de depender de um pai, irmão ou marido para me sustentar.

Ele piscou, parecendo não saber como responder às palavras sinceras de Jessica.

— Darius... acredito que deva se sentir constrangido por estar nesta situação. Eu também me sinto. Mas não há necessidade de fingir algum tipo de sentimento que nenhum de nós sente, só porque queremos tornar a situação menos desagradável. Foi azar nos encontrarmos, mas a única coisa a fazer é simplesmente agirmos da melhor forma possível. Com um pouco de sorte, as estradas estarão limpas em alguns dias, então você e seu amigo poderão partir e nunca mais teremos nada a ver um com o outro. Enquanto isso, sugiro que fiquemos longe um do outro. Tornará as coisas mais fáceis de suportar.

Com isso, virou-se e saiu da sala.

—Jessica! — Darius foi atrás dela, mas parou na porta, vendo-a se afastar.

Jessica não olhou nem para a esquerda nem para a direita; seguiu diretamente para as escadas. Já estava quase lá quando a voz do duque a fez parar.

— Srta. Maitland!

Com relutância, ela parou e olhou para o lado. Cleybourne aproximou-se dela, lançando um olhar em direção a Darius Talbot, que na mesma hora voltou para a sala de estar.

— Esse camarada a estava incomodando? — perguntou Cleybourne ao parar em frente a ela.

— Não. Não é nada. Eu estava apenas indo para a cama. Não estou acostumada a ficar acordada até tarde.

Cleybourne franziu a testa.

— Vi seu rosto quando o sr. Talbot apresentou-se esta tarde. E neste momento você não parece como se "nada" tivesse acontecido. Talvez eu deva falar com ele.

— Não é necessário. Já cuidei dele. — Suspirou, percebendo que não conseguiria se livrar disso sem dizer nada ao duque. Ele, obviamente, assumia com seriedade a responsabilidade de proteger aqueles que moravam em sua casa. — O Sr. Talbot é alguém que eu conheci muitos anos atrás. Ele... eu... acredito que contei ao senhor sobre o escândalo envolvendo meu pai, e que depois disso não fui mais aceita na sociedade e que o homem de quem eu estava noiva terminou comigo, não querendo seu nome associado ao meu.

— Sim, você contou.

— O sr. Talbot é esse homem.

— Seu noivo? — Cleybourne ergueu as sobrancelhas, e suas palavras não foram o que ela esperava. — Que diabos você estava fazendo ao ficar noiva desse palhaço?

Uma risadinha escapuliu dos lábios de Jessica.

— Eu estava me perguntando isso esta noite.

— Bem, eu o vi como um bobo — continuou Cleybourne.

— Mas não tinha percebido que era um homem sem honra.

— Olhou para a sala de estar. — Vou pedir para ir embora. Jessica animou-se um pouco com a proteção dele.

— Obrigada, Alteza. Mas não pode fazer isso. Seria equivalente a matá-lo com este tempo. Ele não conseguiria chegar à aldeia ou a outra casa.

— Você, provavelmente, está certa — respondeu Cleybourne com um tom de arrependimento. — O que ele queria esta noite? Ele a estava importunando? Devo falar com ele?

Jessica balançou a cabeça.

— Não. Mas agradeço de novo. Ele... — Deu de ombros. — Ele disse que queria que fôssemos amigos. Desculpou-se pela forma como me tratou.

— Entendo. — Cleybourne observava o rosto dela com atenção. — E o que você disse?

Jessica fez uma careta.

— Disse que não desejava ser amiga dele e que achava que o melhor seria nos evitarmos. Então, pelo que pode ver, está tudo resolvido. Boa noite, Alteza.

— Não, espere, não está tudo resolvido. Estou tentando falar com você desde ontem à noite.

— Não há motivo para se explicar comigo — disse Jessica de forma tensa, lembrando-se do momento em que o vira com lady Vesey no corredor e da lâmina de raiva e dor que lhe atravessara o peito. — Sou apenas sua serviçal. Não me surpreende que o senhor tenha escolhido... ficar com... uma mulher de sua classe social.

— Da minha classe... — Ele franziu a testa, confuso. — Inferno! Foi isso que achou que eu disse ontem de manhã? Que você não estava à minha altura? Que não era boa o suficiente? Deus do Céu, mulher! Não achei que fosse tão tola!

— Tola? —Jessica arqueou uma sobrancelha, a voz ficando mais fria.

— Sim, tola — respondeu ele com a voz baixa e furiosa. — Você mora aqui. Trabalha para mim. Eu estaria me aproveitando... ao forçar minhas atenções sobre você. Era disso que eu estava falando, não de seu status. Não ligo a mínima para minha posição ou se você é governanta ou lavadeira. Mas, naquela noite, na suíte, quando eu... quando você... droga, eu estava me aproveitando de você e da situação. Agi como um cafajeste.

— Então procurou Leona. Faz sentido.

— Não procurei Leona! — Ele levantou a voz com raiva, depois parou, visivelmente se controlando. Continuou com a voz mais baixa: — É isso que estou tentando lhe dizer. Nada aconteceu entre mim e lady Vesey. Jessica arqueou uma sobrancelha, mostrando descrença.

— Sim, eu sei que parecia terrível. Ela estava usando apenas minha camisola, mas eu não tive nada a ver com isso. Bem, não com a falta de roupa. Eu a encontrei naquele estado quando entrei em meu quarto ontem à noite. Estava deitada me esperando — disse ele em um tom tão aflito que Jessica quase riu. — Sentada em minha cama, sem nenhuma roupa. Então, dei a ela minha camisola e empurrei-a para o corredor. Nunca a toquei... bem, quero dizer, exceto para empurrá-la para fora.

Richard olhou para Jessica. Detestava o fato de ser tão importante para ele que ela acreditasse no que estava dizendo. Detestava continuar pensando na noite em que a beijara. Parecia que estava traindo Caroline, como se tivesse deixado de amá-la, como se não fosse mais dela. Ainda assim, mesmo enquanto dizia para si mesmo que não deveria se sentir dessa forma, que não deveria se importar com o que a srta. Maitland pensava dele, sabia que se importava.

— Droga — disse ele, exasperado, a voz com uma pontada de amargura. — Não percebe que ver Leona nua não me fez desejá-la? Não da forma como um beijo me fez desejar você.

Jessica levantou a cabeça e encarou-o, chocada pelas palavras. Viu verdade em seus olhos, e viu também como ele detestava se sentir dessa forma. Olhou dentro dos olhos escuros, incapaz de afastar o olhar, mal conseguindo respirar. Ele queria beijá-la de novo, ela sabia, e também sabia que queria que ele fizesse isso. Cada nervo de seu corpo de repente estava vivo e pulsando, e inconscientemente ela se aproximou mais dele.

Ouviram gargalhadas no corredor, gargalhadas masculinas seguidas da voz provocante de Leona. Jessica e Richard pularam de susto, olhando com culpa na direção do som. Não havia ninguém no corredor; os hóspedes ainda estavam na sala de estar formal, mas tinham consciência de quantas pessoas estavam por perto, da pouca privacidade que tinham ali no meio do salão principal.

Jessica olhou de novo para Richard, o coração acelerado. Depois virou-se e saiu com pressa, subindo as escadas quase correndo.

 

Jessica parou na porta do quarto de Gabriela a caminho de seu próprio quarto e girou a maçaneta em silêncio. Estava trancada pelo lado de dentro, como instruíra Gabriela a fazer todas as noites. Foi até a porta seguinte e bateu de leve e, ao escutar o som da voz de Rachel, entrou.

Rachel sorriu para ela da cama, mas não foi um sorriso forte. Os olhos estavam lacrimosos, e ela admitiu que a garganta e a cabeça doíam um pouco.

— Acho que estou pegando uma gripe forte — admitiu, lamentando-se. — Eu sinto tanto. Tenho certeza que você precisará de ajuda com os hóspedes adicionais.

— Acho que sim, acredito que vamos ter de fazer alguma coisa para que não fiquem entediados. Que grupo ímpar eles formam. — Jessica divertiu Rachel nos minutos seguintes descrevendo o sr. Cobb, a srta. Pargety e os outros, e ficou satisfeita ao ver o humor de Rachel melhorando durante a visita.

Após um tempo, deixou Rachel para que ela pudesse descansar e atravessou o corredor até seu quarto. Olhou para a porta de Cleybourne, apenas uma depois da sua e perguntou-se se ele já estaria lá dentro. Afastou o pensamento, lembran-do-se de como era infrutífero, e começou a se arrumar para ir para a cama.

Vestindo uma de suas camisolas de flanela branca, simples, soltou o cabelo, suspirando de alívio, e penteou os espessos cachos ruivos. Deitou na cama, tremendo um pouco no quarto frio; o fogo na lareira estava aceso para a noite. Pensara que teria dificuldades para pegar no sono, já que nos últimos dias sua mente parecia vagar durante séculos, geralmente se preocupando com o duque de Cleybourne. Mas fora um dia cansativo, e ela pegou no sono rapidamente.

Já estava dormindo havia um tempo quando um barulho fez com que acordasse, os olhos se abrindo e o coração acelerado. Sentou-se, tentando lembrar-se do que a acordara. Fora o barulho da maçaneta girando? Não tinha certeza. Estava sonhando, e o sonho e a realidade estavam misturados.

Jessica levantou-se da cama, calçando os chinelos, vestindo o penhoar e amarrando-o. Atravessou o quarto em silêncio e ficou escutando, o ouvido encostado na porta. Não conseguiu ouvir nada. Destrancando a porta, abriu-a produzindo um estalo e esquadrinhou o corredor. Não havia nada lá, apenas o corredor escuro, iluminado somente pela fraca luz da lua vinda das janelas nas extremidades.

Ficou parada por um momento, olhando. Então, furtivamente, uma figura escura saiu das sombras de um lado do corredor e seguiu para as escadas, depois desapareceu escada abaixo. O coração de Jessica começou a palpitar loucamente no peito. Quem estava descendo as escadas a esta hora da noite? Seu primeiro palpite foi o intruso que entrara na sala de estudos na outra noite. Será que era Vesey? Não podia imaginar por que ele estaria andando sorrateiramente pela casa aquela hora da noite.

Sabia, porém, que ia seguir a figura secreta. Pensou em levar uma vela ou um lampião, já que a luz da lua vinda das duas janelas era fraca. Entretanto, uma vela acesa chamaria a atenção do homem que estava seguindo, então, não a levou. Todavia, pegou o castiçal pesado, avaliando o peso com a mão. Serviria como arma, pensou. Tirou a vela, colocou-a no bolso e, segurando firmemente a haste do castiçal, abriu mais a porta e saiu para o corredor.

Moveu-se com tanta rapidez quanto ousou, dada a escuridão, e logo chegou às escadas. Segurando o corrimão, desceu devagar, com medo de cair. Mais ou menos no meio da escadaria, escutou um barulho em algum lugar no salão principal, seguido de um xingamento rápido. Hesitou, depois continuou, o mais silenciosamente possível.

Quando acabou de descer as escadas, parou, olhando cuidadosamente à volta. O salão principal estava ainda mais escuro que o corredor no andar de cima. Atravessou-o devagar, com medo de bater em alguma coisa, como a pessoa que estava seguindo aparentemente batera. Chegou ao corredor no qual ficava o escritório de Cleybourne e entrou nele. Estava realmente muito escuro, pois não havia janelas com cortinas abertas à noite, e ela não viu as sombras mais escuras de uma mesa e um banco encostados nas paredes até que já estivesse praticamente em cima deles. Estava concentrada no espaço imediato à frente quando escutou um gemido alto no final do corredor, seguido de um ruído de algo se quebrando.

Levantou a cabeça e vasculhou as sombras escuras do corredor à frente. Houve um resmungo, seguido por um barulho seco e, um instante depois, uma figura escura saiu de uma porta no final do corredor e veio correndo em sua direção. Deu um passo para trás, mas não rápido o suficiente, e o homem bateu em seu ombro esquerdo, jogando-a para o lado. Ela bateu na parede, segurando na beirada da mesa para não cair.

Outro homem saiu do escritório atrás do primeiro, passando por ela com pressa com uma única olhadela surpresa antes de continuar. Esse homem ela reconheceu como Cleybourne, e foi quando ocorreu a ela que não vira nada do rosto da primeira figura, apenas escuridão, da mesma forma que não vira o rosto do homem que entrara na suíte.

Mesmo com esses pensamentos em mente, ela se afastou da parede e foi atrás dos dois homens. O primeiro chegara à porta da frente e a abrira, seguido por Richard um momento depois. Esquecendo-se dos delicados chinelos e da inadequação de seu penhoar para o clima do lado de fora, Jessica saiu atrás deles.

A misteriosa figura estava mais à frente, mas Richard aproximava-se rapidamente. A neve fazia com que todos ficassem mais lentos. O homem à frente foi para a lateral da casa, escorregando e caindo ao fazer a curva, depois levantando-se e correndo pela neve. Jessica virou atrás deles, amaldiçoando a desvantagem adicional da camisola e do penhoar. Estava tremendo de frio, mas não prestou atenção a isso, determinada a seguir os dois homens.

Richard alcançou o outro homem antes de ele chegar ao jardim dos fundos, pulando o último trecho, atingindo o homem e jogando-o no chão. As duas figuras rolaram na neve, agarrando-se, batendo e lutando. Esforçaram-se para ficar de pé, ainda envolvidos na briga.

A esta altura, Jessica quase chegara até eles. Agarrou sua arma, o pesado castiçal decorativo, esperando uma pausa na luta para que pudesse entrar na briga e usá-lo. Entretanto, na sombra da casa, com roupas escuras, era difícil distinguir os dois homens. Não conseguia olhar bem para nenhum dos rostos. Deu uma volta ao redor deles, ansiosa, tentando discernir as feições de Cleybourne. Um deles tropeçou em uma estátua de pedra enterrada sob a neve, e os dois caíram de novo.

Jessica rondava os homens em dúvida. O que estava embaixo conseguiu rolar, puxando o outro para baixo dele. Fechou as mãos em volta do pescoço do adversário e apertou, forçando-o para baixo. A lateral do rosto dele estava escura. O medo tomou conta de Jessica. O outro homem estava por cima, e Cleybourne estava sendo estrangulado! Agarrando o castiçal com ambas as mãos, abaixou-o com força na parte de trás da cabeça do homem que estava por cima.

Ele soltou um ruído e caiu no chão. O homem que estava por baixo saiu, e Jessica viu seu rosto pela primeira vez. Estava coberto por um cachecol escuro, apenas os olhos visíveis. Ela acertara o homem errado!

— Richard! — gritou ela, caindo de joelhos ao lado do corpo estendido e rolando-o freneticamente.

O outro homem fugiu para o jardim dos fundos. Jessica mal percebeu. Seu coração estava na garganta, olhando para a forma imóvel de Richard.

— Richard! — Ela agarrou seus ombros e sacudiu um pouco. Ele gemeu e abriu os olhos, que giraram um pouco e depois fecharam-se de novo.

— Ah, Deus! —Jessica deixou escapar um soluço. Acariciou o cabelo dele, lutando para não chorar. Como podia ter sido tão estúpida?, perguntou-se freneticamente. Acertara-o sem pensar, com medo que Richard estivesse morrendo. — Por favor, acorde. Ah, por favor.

Ocorreu-lhe uma idéia. Encheu a mão com neve e esfregou no rosto de Richard. O choque do frio molhado no rosto acordou-o de novo, e desta vez, embora os olhos tremessem um pouco, ficaram abertos.

— Jessica? — perguntou ele, fraco e confuso.

— Sim. Consegue se levantar? Você está bem?

— Eu... acho que sim. O que aco... — De repente, lembrou-se e perguntou: — Onde está ele?

Sentou-se, mas o movimento foi muito brusco, e ele oscilou. Jessica passou o braço em volta dos ombros dele para apoiá-lo.

— Ele foi embora. Fugiu. Sinto muito. Eu bati em você. Richard praguejou.

— Eu devia saber. — Cautelosamente, colocou a mão na cabeça. — Por que diabos você fez isso?

— Eu estava tentando ajudar!

— Bem, da próxima vez, não tente.

— Eu achei que fosse ele! — replicou Jessica, indignada. — Achei que você fosse o... bandido, ou o que quer que seja. Ele estava... quero dizer, você estava sufocando-o, mas achei que fosse você. Achei que ele estivesse matando você. Então bati nele — terminou, de forma pouco convincente. Levantou o castiçal para mostrar a ele.

— Meu Deus! Vou ficar com um galo de manhã. — Ele estremeceu, depois estremeceu de novo, e, naquele instante, Jessica também percebeu o quanto estava com frio ali, ajoelhada na neve.

— Venha. Levante. Precisamos entrar e examinar sua cabeça. Está machucado em mais algum lugar?

— Um ferimento na cabeça não é suficiente para você? — perguntou Cleybourne, rabugento.

— Não precisa ser rude — disse Jessica, ficando de pé e abaixando-se para ajudá-lo a se levantar. Mesmo sob a luz fraca, ela conseguiu ver que havia um talho em cima de uma sobrancelha, e o sangue escorrera dali, cobrindo um lado do rosto. Jessica percebeu o motivo por ter achado que ele era o bandido. O lado do rosto que conseguiu ver estava escuro com sangue, e ela achara que era a máscara do intruso.

Ele afastou a mão dela e ficou agachado, cambaleou, depois equilibrou-se e pôs-se de pé. Os joelhos quase dobraram, e Jessica deu um pulo para a frente para passar o braço em volta de sua cintura.

— Apóie-se em mim — ordenou. — Está machucado. Precisamos entrar e cuidar desse ferimento.

Ele não discutiu desta vez, apenas passou o braço pelos ombros dela. Voltaram para dentro, Richard apoiando-se nela apenas o suficiente para se manter equilibrado. Andaram devagar, mas finalmente chegaram à porta da frente da casa e subiram os degraus.

Dentro, estava mais claro do que quando saíram. Várias pessoas segurando velas estavam paradas em vários lugares ao longo da escadaria, observando-os. Dois lacaios, ainda de pijama, tinham entrado pelas escadas dos fundos e também estavam paralisados olhando com incredulidade para Jessica e Richard.

Jessica olhou para os rostos que estavam nas escadas. Gaby estava lá, parecendo assustada e empolgada, assim como a sra. Woods, o cabelo escuro e espesso caindo por seus ombros, e a srta. Pagerty, com uma das mãos no pescoço e uma expressão horrorizada no rosto. Por um longo momento, todos ficaram parados, olhando-se. Houve um barulho de pés pesados na escada do terceiro andar e, um momento depois, o sr. Cobb juntou-se aos outros.

— O que está acontecendo aqui? — perguntou ele com a voz rouca. — O que foi todo esse barulho? — Olhou para Richard e Jessica. — Está machucado, senhor?

— Sim, ele está — disse Jessica. — Preciso de ataduras e algo para limpar o ferimento.

— Está tudo bem — disse Richard concisamente, soltando o braço e endireitando-se. — Farei isso mais tarde. Neste momento, tenho coisas mais importantes para fazer. — Olhou para os lacaios assustados, dizendo: — Batam em todas as portas e olhem nos quartos. Vejam se algum homem está usando roupas molhadas de neve ou se tem roupas molhadas jogadas em algum lugar.

— Sim, Alteza — respondeu um dos lacaios, parecendo um pouco em dúvida.

— Alguns deles não vão gostar, senhor — avisou o outro empregado.

— Eu sei. Peça desculpas, mas diga-lhes que não há como evitar. Diga-lhes que invadiram a casa, e que eu mandei que vocês verificassem todos os quartos para ver se ele está se escondendo em algum lugar.

Na escadaria, a solteirona deu um grito.

— Tem alguém na casa? — Olhou em volta assustada, como se algo terrível pudesse estourar em cima dela a qualquer instante.

— Eu ainda não sei, srta. Pagerty. É provável que já esteja longe daqui. Mas temos de ter certeza.

— O que aconteceu? — perguntou Gaby, ofegante. — Era o mesmo homem?

— Precisa voltar para a cama, Gaby — disse Jessica com firmeza.

Como agora o duque já parecia capaz de ficar de pé sozinho, ela o deixou e foi até as escadas, com a intenção de não deixar as mulheres ficarem histéricas. Subiu as escadas, dando um braço para Gaby e o outro para a solteirona, que tremia.

— Vamos, vou levá-las para seus quartos — disse ela, lançando para a srta. Pagerty o que acreditava ser um olhar tranqüilizador. O bonito rosto da sra. Woods, ela notou, estava pálido mas calmo. Seria necessário mais do que um intruso, Jessica achava, para abalá-la. O sr. Cobb também não parecia assustado nem chateado; Jessica tinha a sensação de que cabeças sangrando não eram uma visão incomum para ele. Ou talvez a falta de surpresa dele fosse porque era ele quem estivera brigando com Cleybourne do lado de fora. Perguntou-se se ele tinha tido tempo para entrar na casa por outra porta e subir até seu quarto. Olhou para suas calças e percebeu que estavam secas; ele teria sido obrigado a trocá-las, porque o adversário de Cleybourne estaria tão molhado de neve quanto ele. Teria Cobb conseguido fazer tudo isso e aparecer nas escadas tão rápido quanto o fez? Jessica olhou para cima e viu que ele a estava observando. Virou-se, impelindo Gaby e a srta. Pagerty escada acima. Ambas estavam cheias de perguntas — Gaby sobre todos os detalhes do que acontecera e a srta. Pagerty sobre a possibilidade de haver alguém na casa esperando para machucá-la. Jessica fez o melhor que pôde para tranqüilizar a srta. Pagerty, entrando no quarto junto com ela e olhando ao redor, até no armário e embaixo da cama, para provar que não havia ninguém escondido ali.

— Apenas tranque sua porta agora e ficará bem — disse Jessica.

Ela saiu e escutou o estalo da chave na fechadura. Por algum motivo, estava sendo mais difícil satisfazer Gaby, mas Jessica respondeu a perguntas suficientes para acalmá-la por enquanto.

— Preciso voltar lá para baixo para conversar com o duque. Saberei mais depois disso — salientou Jessica.

—Tudo bem — concordou Gaby com um pouco de relutância. — Mas tem de me prometer que vai me contar amanhã.

— Contarei. Agora tranque a porta de novo. Prometa.

Gaby assentiu e Jessica saiu, esperando no corredor até escutar a chave girando. Depois apressou-se pelo corredor até seu quarto, fechando a porta e tirando o penhoar e a camisola. Estavam encharcados de neve e agarrados às suas pernas. Vestiu-se com pressa, colocando meias, uma anágua e um vestido de lã, com medo de Cleybourne ir para a cama antes que tivesse a chance de falar com ele. Não se incomodou em prender o cabelo. Sabia que provavelmente parecia uma mulher rebelde, com o cabelo solto caindo sobre os ombros e cachos em todos os lugares, mas não se importava. Queria descobrir exatamente o que tinha acontecido mais cedo.

Depois de acender uma vela nas chamas do fogo, saiu para o corredor e olhou na direção do quarto do duque. Não havia luz por baixo da porta. Esperava que isso quisesse dizer que ele ainda estava lá embaixo. Desceu as escadas com pressa e foi em direção ao escritório dele. Vários candelabros estavam acesos no caminho para o escritório, e havia muita luz nesse cômodo.

Quando chegou à porta, encontrou Cleybourne parado no meio do escritório, olhando em volta. Notou que ele também vestira roupas secas. Virou-se ao som da aproximação dela e não pareceu surpreso ao vê-la.

— Achei que você voltaria — disse simplesmente, depois voltou para a inspeção.

Uma pequena mesa estava virada; as coisas que estavam em cima dela, no chão, e alguns papéis tinham caído da escrivaninha dele. Vários quadros estavam desalinhados e as portas de uma estante pequena estavam abertas, revelando um cofre.

— Foi onde o encontrei — disse Cleybourne, apontando para a estante. — Nós lutamos, e eu acho que foi quando a mesa virou e as coisas caíram da escrivaninha. Nada mais parece fora do lugar. — Ele apontou para um dos quadros. — Procurando o cofre, acho.

— Isso faria sentido. — Jessica olhou para a estante. — O que acha que ele estava procurando?

Cleybourne deu de ombros.

— Não faço idéia. Alguma coisa no cofre ou alguma coisa que achava que estaria no cofre.

— Acha que era um ladrão comum?

— Talvez. Mas acho que não era um ladrão de fora da casa.

— Seria improvável — concordou Jessica. Pensara a mesma coisa. — Seria muito mais fácil entrar se não tivesse de enfrentar a neve. Deve ser alguém da casa. Mas quem?

— Não sei. Não tenho nem certeza da altura dele. Estava muito escuro, e ele tinha alguma coisa cobrindo o rosto. Acho que era mais magro e mais baixo que eu, mas não muito.

— Essa descrição se encaixaria com o sr. Cobb. Cleybourne assentiu.

— Não acho que tenha sido ele, embora seja meu primeiro suspeito. Mas, como eu disse, são apenas suposições. Não tenho certeza. — Abaixou-se para fechar a estante. — Por que você estava aqui embaixo?

— Ah, eu escutei um barulho, que me acordou. Não sabia bem de onde tinha vindo, então olhei no corredor e vi alguém descendo as escadas furtivamente. Aparentemente, era você.

— Isso mesmo. Não consegui dormir. Ficava escutando barulhos... portas abrindo e fechando. Juro: acho que metade das pessoas na casa estava entrando e saindo de seus quartos esta noite. Finalmente, saí para investigar no corredor e vi luzes lá embaixo. Fiquei curioso, então apaguei minha vela e desci. Ele deve ter me escutado porque, quando cheguei ao escritório, a luz tinha sido apagada. Eu o vi abaixado no cofre e o ataquei. Nós lutamos, mas ele escapou... e o resto você viu.

— Quem você acha que era?

— Não sei. Baxter e os outros empregados verificaram todos os quartos. Assim que desci, ele se reportou a mim. Todos estavam em seus quartos. Não pareciam molhados nem havia roupas molhadas jogadas. Quem quer que seja, se livrou das roupas ou escondeu-as muito bem para os empregados não verem. — Cleybourne fez uma careta. — É uma coisa detestável. Tenho certeza que é alguém desta casa, mas não faço idéia de quem seja.

— Parece particularmente estranho... por causa do outro invasor.

— É verdade. Muita coincidência. Poderia achar que era a mesma pessoa, mas eu estava certo de que era Vesey tentando tirar Gabriela daqui. Por que ele entraria em meu escritório? O que ele poderia esperar encontrar aqui?

— Não sei. Talvez ele ache que se pegar os papéis que o tornam o tutor de Gabriela...

— Mesmo assim ainda estaria no testamento original que já foi arquivado e lido.

— Sim. Não consigo ver que bem isso faria a ele. Além do mais, ele sempre pareceu muito covarde para invadir um cômodo, muito menos dois. Acho que ele não teria coragem para isso.

— Também acho. E eu o preveni depois do primeiro incidente. Disse-lhe o que eu faria se ele tentasse qualquer coisa. Não acredito que me desafiaria depois de um aviso claro. Ele é tolo, mas tem um bom senso de autopreservação.

— Também acho isso. Mas talvez ele esteja desesperado o suficiente para tentar qualquer coisa. O general me disse que não duvidava de nada em relação a Vesey, por mais desprezível que fosse. E uma vez me disse que Vesey estava mal financeiramente. Parece que deve muito dinheiro.

— Também escutei isso. Ele não ligaria para os credores, mas é um jogador inveterado. Deve estar ansioso para pagar suas dívidas para não ser cortado dos jogos. O estilo de vida dele é caro, e lady Vesey é tão libertina quanto ele... e perdeu o que achava que manteria suas roupas e jóias quando perdeu Devin no verão passado.

— Bem, acho que não há mais nada que possamos fazer esta noite — disse Jessica com relutância. Olhou para ele. — Tenho de limpar esse ferimento, você sabe.

Ele a fitou, achando engraçado.

— Também é médica, srta. Maitland?

— Não, mas já cuidei de alguns cortes e feridas... tanto como governanta quanto como filha de soldado.

— Tudo bem. Vou admitir sua experiência — disse ele com um sorriso fraco. — Baxter preparou uma bandeja de coisas para passar, mas primeiro quis verificar tudo aqui embaixo. A bandeja está lá em cima.

Ele apagou o lampião e os dois subiram, usando a vela que Jessica trouxera. Cleybourne atravessou o corredor até sua porta e abriu-a. Ao lado dele, Jessica hesitou por um instante. Poucas vezes tinha estado no quarto de um homem, certamente, não de um homem que não fosse seu pai ou o general. Parecia um lugar íntimo demais para ficar sozinha com um homem.

Cleybourne acendeu o lampião na mesa ao lado da porta. Jessica endireitou os ombros e entrou no quarto. Não havia nada de errado em estar aqui para cuidar da ferida dele, disse a si mesma; recusava-se a ser pudica em relação a uma coisa tão simples.

Baxter deixara a bandeja com ataduras e potes de ungüentos em uma mesa baixa ao lado de uma cadeira. Cleybourne foi nessa direção e sentou-se para que ela pudesse alcançar o corte. Jessica molhou um pano na bacia e torceu-o, depois começou a limpar o sangue encrostado no rosto.

Ficar tão perto dele deixava-a estranhamente sem ar. Olhou para a bochecha dele, onde estava limpando o sangue, recusando-se a olhá-lo nos olhos, mas sabia que ele a estava observando. Colocou a mão embaixo do queixo dele para firmar a cabeça enquanto removia o sangue, e seus dedos tremeram um pouco ao tocar a pele com barba.

Vasculhou a mente buscando algo para dizer, algum assunto para afastar os pensamentos do fato de que o estava tocando.

— E se não foi Vesey? Por que algum dos outros entraria em seu escritório?

— Para roubar alguma coisa. É o que presumo. Parece o motivo mais provável.

— Mas ele não poderia fugir com o que roubasse — salientou Jessica. — A neve está muito profunda. Devia saber que seria pego.

— Não faz sentido. Talvez estivesse procurando alguma coisa pequena. Mas o quê? E nenhum deles esteve aqui antes. Apenas Vesey. Nada faz sentido.

Jessica lavou o pano na bacia, depois começou a limpar o corte. Cleybourne esquivou-se e soltou um gemido breve e agudo.

— Isso é a ferida, não uma sujeira.

— Eu sei disso — respondeu Jessica. Acrescentou com certa hesitação: — Desculpe por tê-lo machucado.

O canto da boca dele se ergueu.

— Não me diga que está com a consciência pesada.

— Não, claro que não. Não tive a intenção de fazer isso. Mas eu... bem, sinto muito. — Franziu a testa um pouco preocupada.

Ele virou os olhos para ela.

— Eu deveria fazê-la sofrer um pouco por causa disso. Mas não vou. Suas desculpas foram aceitas. Não acho que seu golpe teria me apagado se ele já não tivesse me atingido com um peso de papel enquanto lutávamos no escritório.

— Não é de se espantar que tenha ficado tão tonto depois que o atingi.

Cleybourne olhou para ela. Jessica percebeu, então, como estava perto dele, que estavam sozinhos... e onde estavam. Ele estava tão perto dela que ela podia sentir o calor de seu corpo, a cabeça a apenas centímetros de seus seios. A menos de meio metro dela estava a cama dele, grande e decorada, dominando o quarto. A mente dela viajou de forma involuntária para os beijos dele na outra noite, para aquela noite em que ele se inclinara sobre ela em um momento de fraqueza, o braço quente e pesado em volta dos ombros dela. Jessica não podia negar que ficara agitada ambas as vezes.

Se ela se inclinasse poucos centímetros, seus lábios tocariam os dele. Lembrou-se com bastante clareza do gosto deles. Abruptamente, ela virou, indo até a bandeja que Baxter colocara na pequena mesa.

— O que são esses potes? — perguntou, embora tenha precisado limpar a garganta e perguntar de novo quando a primeira tentativa de falar falhou.

Relutante, Cleybourne afastou o olhar do rosto dela e olhou para os pequenos potes.

— Acredito que alguma coisa para passar no corte. A srta. Brown os prepara com ervas. — Ele deu de ombros. — Sempre usei o que eles me davam e nunca me fez mal.

— Tudo bem. — Jessica abriu um pote e lambuzou o corte de Cleybourne com a geléia escura e pegajosa. Depois, colocou a atadura em volta da cabeça dele.

Cleybourne olhou-se no espelho.

— Parece que fui à guerra — criticou ele.

— É um lugar difícil de colocar a atadura — comentou Jessica de forma um pouco defensiva. — Pelo menos deixe assim durante a noite.

Ela lavou as mãos na bacia e enxugou-as. Sabia que deveria sair agora. Não havia mais nenhum motivo para ficar.

— Alteza...

— Você poderia pelo menos me chamar de Cleybourne, agora que me atingiu na cabeça. Acho que já passamos da fase dos títulos, não? — Levantou-se, os olhos fixos no rosto dela. — Seria até aceitável se usássemos o primeiro nome.

Jessica sentiu o peito se apertar de repente; era difícil olhar nos olhos dele dessa forma e ainda se lembrar de respirar.

— Eu... não seria adequado.

— E você é sempre tão adequada! — O sorriso dele foi lento e gentil. Atingiu os nervos de Jessica como fogo. — Você já me chamou de covarde e de tolo, se me lembro bem. "Richard" parece suave em comparação a isso.

Ele levantou a mão até o rosto dela. O toque foi leve, a pele queimando com o calor. O olhar foi até os lábios dela, os olhos ainda mais escuros de paixão, e o polegar contornou suavemente o lábio inferior dela.

— Jessica.

Jessica sentiu os joelhos fracos. Era isso que queriam dizer, pensou ela, quando diziam que alguém estava desmaiando de prazer. Era essa sensação de falta de ar no peito, o tremor por todo o corpo que fazia com que as pessoas caíssem de joelhos, a queimação no estômago... e tudo isso por causa da proximidade irresistível de uma pessoa. Como seu nome nos lábios dele podia afetá-la tanto?

Por que se sentia como se fosse morrer se não recebesse esse beijo?

O rosto dele estava mais próximo, e ela fechou os olhos, dominada por uma ansiedade arrebatadora, aterrorizante. Então a boca dele cobriu a sua, e era ainda mais doce, mais suplicante do que se lembrava. Suave, depois inclemente, buscando, exigindo, o prazer se intensificando e se espalhando a cada momento.

Jessica soltou um suave gemido animal e pressionou-se contra o corpo rígido dele. Sentia uma necessidade que não conhecia até agora, uma necessidade tão intensa que era quase assustadora. Queria que ele a amasse, a conhecesse, a explorasse com a boca, as mãos e o corpo.

Richard abraçou-a bem apertado, o corpo tomado de prazer pela resposta livre dela, e pressionou-a ainda mais contra si. Não conseguia se lembrar quando fora a última vez que sentira essa necessidade arrebatadora. Queria mergulhar nela, penetrar fundo até que não houvesse nada mais além de seu prazer, nenhum pensamento nem sentimento, apenas Jessica.

Mergulhou as mãos no cabelo dela, sentindo o volume suave e perfumado e apertando-o nas mãos, sentindo-o escorregar como seda por seus dedos. Pensou nela deitada nua na cama, o cabelo espalhado de forma gloriosa à volta, apenas fogo, luz e delicadeza e, ao pensar nisso, o desejo o dominou.

Suas mãos desceram pelo cabelo dela até a curva das nádegas, e ele levantou-a até ele, apertando-a contra a rigidez dolorosa de seu desejo. Detestava as roupas que os separavam, queria sentir a carne dela na sua.

Jessica sentiu a rigidez dele e instintivamente soube o que significava. Havia uma queimação suplicante que pulsava entre suas pernas, e ela queria abri-las para ele, trazê-lo para dentro de si e satisfazer a ambos.

Ele andou com ela os poucos centímetros até a cama, e chegaram até a beirada, caindo no colchão, mergulhando ali. As pernas dele estavam entre as dela, tocando de forma ator-mentadora o centro de seu desejo. Jessica arqueou-se contra a coxa dele, roçando nele para abrandar a queimação. Ele se contraiu como se alguém tivesse encostado um ferro em brasa contra sua pele, e soltou um gemido. Seus dedos enterraram-se nas roupas de cama, pois temia machucá-la se encostasse nela agora, de tão forte que era sua necessidade de possuí-la, de dominá-la, de tê-la embaixo de si.

Moveu-se contra ela, incapaz de ficar imóvel, e seus lábios se afastaram dos dela para beijar-lhe o rosto, o pescoço, as orelhas. Os dedos dele tatearam a linha de botões que descia pela frente do vestido dela, puxando, abrindo-os, até arrancando os mais teimosos. Sua respiração produzia um som áspero na garganta, pesado e animalesco, e conseguia escutar a respiração ofegante de Jessica, excitando-o ainda mais. Ela gemeu, movendo a pélvis contra ele.

Algo estava se formando dentro dela, algo poderoso, inevitável. Ela o desejava, o desejava dentro de si, amenizando a queimação, desejava que ele fizesse algo com ela, mas não sabia bem o quê. Jessica nunca experimentara sensações tão quentes, desesperadas, prazerosas. Elas a excitavam e atormentavam, criando desejos novos e ainda mais fortes. Com cada coisa deliciosa que Richard fazia, a necessidade aumentava dentro dela.

Ele abriu o vestido dela, e a mão deslizou ali por baixo, contornando os seios, acariciando e brincando, pegando o mamilo entre os dedos e despertando-o. Jessica gemeu de desejo, pressionando-se contra ele, e suas mãos mergulharam no cabelo dele. Richard pegou um seio na mão, a carne áspera e calejada envolvendo-o sedutoramente com delicadeza e sensibilidade e, surpreendendo-a, gentilmente beijou o centro rosado do mamilo.

Jessica soltou um som de alguma coisa, parte desejo, parte satisfação. Depois, surpreendendo-a ainda mais, a língua dele contornou o botão de pele, deixando-o ainda mais rígido e formigando. Ela estremeceu, querendo mais, com medo que ele parasse, mas não parou. Em vez disso, com um suspiro de puro prazer, a boca de Richard começou a beijar seu seio, trazendo o mamilo para a cavidade quente e molhada da sua boca, acariciando-o com a língua enquanto os lábios sugavam gentilmente o seio.

Ela arqueou as costas, gemendo com a sensação de puro prazer, quase insuportável. Quando a boca de Richard puxou gentilmente seu seio, movendo-se em um ritmo suave, sem pressa, a perna dele pressionou com firmeza contra ela. Jessica moveu-se nessa direção, a pressão dentro de si se multiplicando, expandindo, aumentando para algo tão imenso que ela se sentia palpitando e desesperada. Seus dedos cravaram-se nos ombros dele, e ela gemeu seu nome, movendo o quadril em um ritmo instintivo, sem regra.

E, então, algo explodiu dentro dela com tanta força, energia e vivacidade que ela gritou, os olhos se abrindo de surpresa.

Richard levantou a cabeça e olhou para ela, vendo o prazer estampado em seu rosto, a vermelhidão subindo pelo pescoço e rosto. Sabia que ela atingira o clímax, e isso encheu-o de orgulho e triunfo, e ao mesmo tempo dominou-o com uma excitação quase incontrolável. Olhou para ela, cheio de emoções e sensações confusas, excitado quase além do suportável ao pensar na natureza apaixonada dela, em sua pureza, em sua resposta honesta, inocente.

Mas Jessica viu apenas a imobilidade e a surpresa dele, e soube que tinha feito algo errado. Soltou um gemido, a mão indo até a boca.

— Oh, não! Eu não devo!

Não se comportara como uma lady; sentira algo que nenhuma lady devia sentir. Nunca nas conversas de sua tia quando ia se casar com Darius, nunca entre todas as palavras de compromisso, de submissão e das necessidades mais baixas de um homem, houve qualquer menção a essa estonteante onda de prazer, essa explosão deliciosa e prazerosa de êxtase. A cama do casal, acreditara ela a partir de um sermão rápido e constrangido, era um lugar de, na pior das hipóteses, dor e vergonha, e na melhor, uma necessidade rapidamente saciada.

Apenas as mulheres mais baixas e depravadas podiam sentir isso, o tipo de mulher que os homens designavam como suas amantes ou que, como Leona Vesey, tinham casos ilícitos. Francamente, neste momento, Jessica não se importava em não ser o tipo de mulher que deveria ser; não parecia ser o caso. O que queria realmente era sentir aquela sensação maravilhosa de novo, ver o que mais podia sentir, que outras sensações deliciosas esperavam por ela, já que havia mais, ela tinha certeza. Queria... ah, milhares de coisas. Ver o corpo dele nu, sentir a pele dele sobre a sua, saciar a queimação entre as pernas, ver o mesmo tipo de prazer explodir nele.

Mas, olhando para Richard, teve certeza, com uma sensação repentina e horrível, que ele estava estarrecido pelo que ela acabara de fazer. Quase não tinha dúvida que a esposa dele nunca fora tão baixa, tão comum, para gemer e esfregar-se contra a perna dele, tudo menos implorar que ele a possuísse. A raiva pela preciosa Caroline a dominou. Caroline não teria estremecido com tanto desejo, tanta explosão de prazer... muito menos teria pensado em querer mais... e de novo...

Com um som baixo de dor e constrangimento, Jessica rolou para o lado, saindo de baixo dele. Richard, pulsando de paixão, lutando para se controlar, gemeu, enterrando os dedos na cama para não ir atrás dela, agarrá-la e colocá-la de novo embaixo de si. Queria possuí-la, penetrá-la, enfrentar o desejo até que estivesse satisfeito e tremendo de alívio.

Mas vira o horror estampado no rosto dela quando Jessica percebeu o que estava fazendo, o que estava prestes a fazer. Seria um cafajeste em possuí-la, em arrancar os últimos sinais de sua inocência, em usar a natureza apaixonada dela contra ela mesma e, ao fazer isso, arruinar o nome e a reputação dela.

Então ficou parado, lutando contra o desejo desesperado, enquanto ela saía de sua cama e corria para a porta. Com um gemido, ele rolou de lado e praguejou.

 

Richard amaldiçoou a neve na manhã seguinte. Isso o impediu de passar o dia o mais longe possível da casa, e era a única coisa que queria fazer. A cabeça latejava dos golpes que levara na noite anterior e do fato de não ter conseguido dormir antes que já estivesse quase amanhecendo. Não havia possibilidade de dormir quando sua cabeça estava cheia de pensamentos sobre Jessica deitada em sua própria cama no quarto ao lado. Para ele, parecia que Baxter a colocara ali apenas para atormentá-lo.

Era errado, disse a si mesmo, sentir-se dessa forma em relação à governanta de Gabriela, querer fazer com ela as coisas que desejava.

Por mais apaixonada que tenha sido a resposta dela na noite anterior, estava igualmente claro que ela era inexperiente. Virgem. Assim como sua esposa quando a levou para a cama pela primeira vez, na noite de núpcias. O fato de Jessica não ter reagido com medo como Caroline não significava que ela seria capaz de aceitar fazer amor sem arrependimentos ou escrúpulos. A aflição no rosto dela quando percebeu o que acabara de acontecer mostrou isso a ele; e ela nem conhecera um homem ainda, apenas sentira a paixão dentro de si.

E, Deus do Céu, que paixão! O simples fato de pensar nisso fazia seu sangue ferver de novo. Ela fora tão natural, tão indomada, tão inconscientemente sedutora... Não podia deixar de pensar em qual seria a reação dela se ele a despisse, a acariciasse, afastasse suas pernas e penetrasse fundo dentro dela.

Lembrou-se que não podia se dar ao luxo de pensar isso. Ela era uma mulher inocente, sob sua proteção. Seu desejo deveria ser protegê-la, não levá-la para a cama e seduzi-la. Ela não era como Leona, o tipo de mulher com quem se deita e depois esquece, nem o tipo de mulher que poderia ser sua amante, expondo-a ao desprezo do mundo educado. Mesmo se a sustentasse, para que nunca mais precisasse trabalhar para ninguém, ela não poderia viver dessa forma, sabendo que era uma mulher escondida, um escândalo. Não, Jessica era o tipo de mulher que devia receber amor e ter um marido dedicado, um casamento, filhos e tudo que uma mulher desejava.

Richard sabia que não podia dar a ela essas coisas. Nunca mais amaria de novo. Não poderia substituir Caroline, e casar-se com outra mulher que significasse menos para ele parecia um sacrilégio, um insulto a Caroline. Sentia-se baixo e culpado o suficiente por desejar outra mulher, mas casar-se de novo? Isso seria impossível.

Então, naquela manhã, trancou-se no escritório e tentou mergulhar nos livros que o administrador trouxera. Não teve sucesso, mas pelo menos conseguiu uma desculpa para ficar longe de todo mundo o dia inteiro... embora nem uma hora se passasse sem que pensasse no que a srta. Maitland estaria fazendo.

O que a srta. Maitland fez a maior parte do dia foi tentar deixar felizes — ou pelo menos sem queixas — os visitantes, que pareciam entediados. Normalmente, Rachel teria assumido as obrigações de anfitriã, sendo cunhada do duque, mas a gripe que a ameaçara na véspera chegara com força, e ela estava febril, com o nariz entupido e sentindo-se mal de uma maneira geral, então não podia ajudar com os hóspedes, por que também necessitava de cuidados.

Jessica entrou e saiu do quarto dela o dia todo, certificando-se que Rachel não estava precisando de nada e tomando os remédios que a srta. Brown preparara, e de que não estava entediada por causa da doença. Jessica tinha sorte de Gabriela gostar de Rachel e não gostar dos outros hóspedes, então a menina ficava feliz em passar o dia sentada no quarto de Rachel, conversando e às vezes lendo para ela. Ainda assim, ser companhia de uma pessoa doente não era o suficiente para manter Gabriela ocupada o tempo todo, e estando trancada dentro de casa como estava, ela freqüentemente procurava Jessica com reclamações de que se sentia entediada ou inquieta.

Não era surpresa alguma o fato de Leona ficar satisfeita em chocar a srta. Pagerty e tentar despertar o mesmo tipo de reação na sra. Woods, mas com pouco sucesso. Lorde Vesey passou a maior parte do tempo tentando vários jogos de sorte com os outros homens, mas ele, junto com os outros, começou a beber bem mais cedo do que era aconselhável, e Jessica temia o que poderia acontecer como conseqüência. Tivera muita experiência com homens que bebiam demais, já que passara a vida toda cercada de militares, e certamente não queria que ficassem bêbados e começassem a brigar entre eles. Com certa amargura, desejou que o duque saísse do isolamento no escritório e, pelo menos, vigiasse os outros homens.

Mas isso não aconteceu. Ela sabia que ele estava muito ocupado arrependendo-se de seus atos da noite anterior e tentando evitá-la, então não sairia de seu esconderijo. Soubera, desde o momento em que percebera o que estava fazendo, que ele se afastaria dela. Tinha certeza que ele estava horrorizado por seu comportamento libertino, sem dúvida bem diferente do de sua maravilhosa esposa. Jessica lançava um olhar sombrio para a duquesa toda vez que passava por seu retrato. A mulher era encantadora demais para qualquer outra mulher querer competir com ela, e Jessica sabia que ela não fora franca, geniosa ou chocantemente lasciva.

De fato, várias vezes durante o dia Jessica desejou não ser tão chocantemente lasciva ou, pelo menos, que sua lembrança dos beijos e carícias de Cleybourne fosse menos nítida. Era uma tortura pensar na sensação da mão dele na pele, no gosto da boca de Richard na sua ou no fogo que ele atiçara nela apenas ao escutar sua respiração ofegante. Mas também sabia que ele não admitiria isso, e certamente não faria de novo. Ele deixara claro, da última vez em que a beijara, que ficara horrorizado com a idéia de desejá-la. Sabia que ele não queria ficar com ela, e era estúpido querer ficar com ele. Jamais poderia possuí-lo, exceto como amante. Ele ainda era muito apaixonado pela esposa morta para se casar de novo, e se um dia se casasse, certamente não seria com alguém como ela, abaixo de sua condição social e com a marca de um escândalo. Tudo que ele sentia por ela era desejo, e se às vezes, durante o dia, ela brincava com a idéia de que isso poderia ser suficiente para ele, sabia que, na verdade, não seria. Por mais forte que fosse seu desejo, conhecia-se bem o suficiente para saber que suas emoções não poderiam ser deixadas de lado. Ela o desejava, e sabia que o desejava em todos os sentidos.

Isso era amor? Não tinha certeza. Parecia um absurdo pensar em amar um homem que conhecia há tão pouco tempo quanto conhecia o duque, além disso, um homem com quem ela geralmente tinha atritos. Um sorriso fraco chegou a seus lábios ao pensar nas discussões. Sempre havia algo especial em seus desentendimentos. Deixavam-na com uma sensação estranhamente revigorante.

Encostou-se na parede ao lado de uma janela, olhando para a paisagem fria e branca. Mas em sua mente estava vendo Cleybourne, os olhos brilhando, o rosto corado de raiva quando discutiam. Fazia com que pensasse na forma como os olhos escuros se acenderam com fogo na noite anterior. Sentia os seios pesados e tensos ao pensar nele em cima dela, segurando-a na cama. Fechou os olhos, imaginando como seria sentir todo o desejo dele, toda a intensidade de sua paixão. Sentiu uma repetição daquela pulsação entre as pernas, uma alusão àquela queimação.

Fazendo uma careta, abriu os olhos e afastou-se da parede, irritada mais uma vez por sua fraqueza e pelo inegável poder que Cleybourne tinha sobre ela. Saiu do quarto, determinada a não pensar mais nele. Atravessando o corredor, entrou na sala de estar, onde encontrou Leona se divertindo, a sra. Woods parecendo entediada e a srta. Pagerty sentada ereta na poltrona, as bochechas vermelhas de raiva ou de constrangimento, Jessica não sabia ao certo.

Percebeu que o reverendo Radfield também estava lá, examinando os dedos, o rosto inexpressivo. Olhou para Jessica quando ela entrou, e seu sorriso foi de muita doçura.

— Srta. Maitland, que gentileza se juntar a nós. Estávamos conversando sobre como o Natal está próximo e se algum de nós conseguirá chegar aos nossos destinos. Pessoalmente, eu sentiria muito se fosse obrigado a passar meu primeiro Natal longe de minha nova congregação.

A voz dele era suave e educada; o rosto, bondoso; e, por um instante Jessica olhou para ele achando que também vira uma pontada de humor. Seria uma boa coisa, pensou ela, um homem de Deus ter senso de humor, principalmente ao lidar com seu rebanho. Ele também era um mentiroso, suspeitou ela, já que Leona não parecia maliciosa e a srta. Pagerty chocada por uma discussão sobre o Natal. Supunha, porém, que homens do clero tinham de ser hábeis na arte da diplomacia, já que acreditava que na maioria das congregações havia pessoas que se gostavam tão pouco quanto lady Vesey e a srta. Pagerty.

— Sim, seria muito triste perderem o Natal — concordou Jessica, e foi quando lhe ocorreu uma idéia. — Na verdade — disse ela —, acabou de me ocorrer que estamos muito perto do Natal e ainda não decoramos o castelo. Se me permitem, vou falar com Baxter.

Encontrou o mordomo na sala de jantar principal, verificando a colocação dos talheres de prata feita por um serviçal.

— Baxter...

— Sim, senhorita. — O mordomo virou-se para ela com um sorriso. Embora, no início, ele tenha ficado um pouco surpreso pelos modos diretos dela, passara a gostar de Jessica e a confiar muito nela, principalmente nos últimos dois dias, com o desagradável problema dos muitos hóspedes inesperados.

— Não pude deixar de notar que não temos decoração de Natal no castelo.

O sorriso do mordomo se apagou.

— Não, senhorita.

— Não gostaria de acrescentar mais um serviço para os empregados em uma época assim, mas me ocorreu que colocar alguns enfeites de Natal poderia animar o espírito de todos.

Você poderia pedir para os jardineiros e cavalariços cortarem alguns galhos de árvores. Elas não ficam muito longe do jardim. Não precisariam andar muito pela neve. Tem algumas moitas de azevinho perto da porta dos fundos. E, de qualquer forma, os homens estão desocupados por causa da neve. Acho que todos se sentiriam bem se apenas sentissem o cheiro deles, não acha? E isso também manteria as hóspedes ocupadas. Poderíamos fazer arcos com fita vermelha e decorar um pinheiro, enfeitar os consolos das lareiras e as portas com guir-landas. Talvez alguns homens pudessem ajudar a pendurá-las. Primeiro, Baxter pareceu ansioso; depois, melancólico.

— Ah, sim, senhorita, traria luz para o castelo e, como disse, daria algo para as pessoas fazerem. Mas... bem, não celebramos o Natal aqui há anos.

— De forma alguma? — perguntou Jessica, surpresa.

— Ah, Sua Alteza não nos nega uma ceia de Natal. Ele nos dá presentes, claro. Mas não quer que a casa seja decorada. Magoa muito, entende? A casa estava toda decorada quando aconteceu o acidente.

— Ah. Isso é muito ruim. A srta. Gabriela ficará muito decepcionada. Crianças gostam tanto do Natal.

— É verdade, senhorita. — Os olhos dele ficaram tristes. — Nossa Alana adorava as festas. Sei que a srta. Brown contou à senhorita sobre a tragédia.

— Ela contou sim. —Jessica parou, depois perguntou: — O duque o proibiu de decorar a casa este ano?

— Bem, não — admitiu o mordomo, parecendo pensativo. — Ele fez isso no primeiro ano depois das mortes, claro; depois, no ano seguinte, quando perguntei, ele recusou, sem chance de discussão.

— Já se passaram quatro anos — comentou Jessica. — Talvez ele simplesmente tenha se acostumado a não ter decoração. Mas isso não significa que ele seria contra algumas guir-landas penduradas aqui e ali, alguns toques de azevinho e galhos de árvores. A srta. Gabriela e eu decorávamos a casa do general todos os anos nesta época, e eu estava pensando em como a deixaria feliz fazer isso aqui. É uma época muito triste para ela, você sabe, já que acabou de perder o tio-avô — acrescentou Jessica. — E tenho certeza que nossos hóspedes também devem estar se sentindo tristes, sabendo que podem perder o Natal com seus entes queridos.

— Seria ótimo para ela — refletiu Baxter. — Acho que não teria problemas se eu pedisse ao jardineiro para cortar alguns galhos. — O homem idoso sorriu, e Jessica pôde ver expectativa começar a brilhar nos olhos dele. — Só não sei o que Sua Alteza vai dizer — completou, não querendo se comprometer, parecendo dividido.

— Se ele falar alguma coisa com você, apenas diga que eu pedi — sugeriu Jessica. Não tinha certeza que Cleybourne gostaria da idéia da decoração. Mas não achava que ele culparia Baxter. Viria reclamar diretamente com ela. E, francamente, neste momento, não se importava com uma pequena discussão com o duque. Seria muito melhor do que ele se trancar no escritório o dia inteiro, ignorando-a.

— Estou certa que ele virá falar comigo se isso o desagradar — continuou ela, confiante.

— Claro, senhorita. — O mordomo virou-se e saiu apressado, sorrindo com a expectativa.

Não demorou muito para os empregados entrarem no clima das festas. Os jardineiros e cavalariços voltaram com os braços cheios de galhos e ramos de hera, e Jessica, Gabriela e a srta. Pargety passaram a maior parte do dia ocupadas, fazendo laços vermelhos e amarrando-os em guirlandas e entrelaçando folhas de azevinho e hera, com grupos de frutas vermelhas. Até Leona dignou-se a ajudar, encapando arame com fita vermelha para formar uma bola aberta para pendurar o visco, que era, conforme ela dissera a lorde Kestwick com um sorriso malicioso, sua planta natalina favorita. O visco foi pendurado na porta da sala de estar formal, e guirlandas foram colocadas nos corrimãos da escadaria e nos consolos das lareiras. Logo, o ar estava impregnado com o cheiro refrescante das guirlandas, e a casa adquiriu um ar festivo. A srta. Brown pegou um estoque de velas vermelhas, que foram espalhadas pela casa, às vezes enfeitadas com azevinho ou hera na parte de baixo.

Rachel, ao acordar de um cochilo vespertino, ouviu o bur-burinho e saiu do quarto, encontrando o andar de cima sendo decorado. Olhou em volta maravilhada para as velas vermelhas em cima das mesas e as guirlandas decorando os topos das portas. Depois disso, ela insistiu em sentar-se na cama, apesar da gripe, e ajudar Gabriela a entrelaçar azevinhos e frutas vermelhas para colocar nas velas.

— Está encantador — disse ela a Jessica com um sorriso. — Nem acredito que conseguiu convencer Cleybourne a deixá-la fazer isso.

— Não pedi — admitiu Jessica, bem animada. Rachel encarou-a.

— Ele não sabe?

— Não. — Jessica balançou a cabeça.

— Você é uma mulher corajosa.

Naquele momento, houve um berro no andar de baixo.

— Srta. Maitland!

Rachel e Jessica olharam-se. Jessica deu de ombros.

— Acho que ele acabou de descobrir.

Não parecendo nem um pouco preocupada, levantou-se e saiu do quarto.

Cleybourne não percebeu logo que a casa tinha sido decorada. Já estava quase nas escadas quando finalmente tomou consciência do aroma das guirlandas. Parou e, pela primeira vez, olhou à volta.

Havia guirlandas de folhagens amarradas nos corrimãos, enfeitadas aqui e ali com conjuntos de azevinhos e frutas vermelhas, e amarradas à madeira com fitas vermelhas brilhantes.

Olhou para a porta da frente, depois pelo corredor para a sala de estar, onde um visco pendia em uma bola de arame. Virou-se e voltou para o salão principal, pelo qual acabara de passar. Guirlandas contornavam a enorme lareira do outro lado do salão, onde sempre colocavam a árvore de Natal. Velas grossas vermelhas estavam sobre o consolo da lareira, envolvidas com folhas de azevinho e hera.

Virou-se ao som de passos e viu Baxter se aproximando, olhando para ele com tremores.

— O que significa tudo isso? — perguntou Cleybourne bruscamente.

— Boa tarde, Alteza. Gostaria de uma xícara de chá?

— Não, não gostaria. E nem tente me distrair. Que diabo toda essa folhagem está fazendo por toda a casa? Eu não disse que não queria nenhuma lembrança do Natal? — A voz estava gelada, os olhos escuros brilhando com ferocidade em um rosto muito branco.

— Ah, na verdade, não, senhor, não este ano. Já faz tempo desde que o senhor disse aquilo, e eu pensei, principalmente porque estamos de volta ao castelo, com a jovem senhorita e os outros hóspedes...

— Você pensou? — A voz de Cleybourne ficou mais intensa com a suspeita. — Até parece que foi você. Por que essa idéia não lhe ocorreu até aquela maldita governanta chegar aqui? Foi ela, não foi, que colocou essa idéia na sua cabeça, essa zombaria de...

— Não, Alteza! Não! — exclamou Baxter com a voz chocada. — Não é zombaria, senhor. Eu nunca...

— Eu sei que não. Assim como não mandaria fazer essas coisas sem a minha permissão. De alguma forma, aquela diaba o convenceu. — Como o empregado pareceu constrangido, sem responder, ele continuou: — Responda! Não foi ela?

O mordomo estava muito mais pálido que de costume quando respondeu:

— A srta. Maitland comentou que a jovem lady sentia falta da decoração, senhor, e ela está tão triste pelo tio-avô e tudo mais. E ela achou que a decoração daria aos hóspedes alguma coisa para fazer para passar o tempo.

— Onde ela está?

— E-eu... a vi pela última vez lá em cima, Alteza, com lady Westhampton.

— Ela é uma tola se acha que pode se esconder de mim embaixo das saias de Rachel. — Cleybourne virou-se e gritou para cima das escadas: — Srta. Maitland! Desça já aqui!

Jessica não demorou, mas também não correu. Andou no ritmo normal, o rosto calmo, as mãos juntas. Quando chegou à grande escadaria, viu o duque parado embaixo, as mãos na cintura demonstrando agressividade, os olhos escuros e brilhantes de raiva. O coração dela acelerou, mas forçou-se a descer as escadas sem pressa.

— Deseja me ver? — perguntou com calma ao se aproximar do último degrau.

— Não! — soltou Cleybourne. A calma dela o enfureceu. E o que o enfurecia ainda mais era perceber que, enquanto a observava se aproximar, só conseguia pensar em tirar os grampos de seu cabelo, destruindo o arrumado coque na nuca e deixando o volume cair sobre seus ombros como na noite passada. — Eu preferia não vê-la de novo — continuou ele. — Mas você me força a fazer isso. Está em todos os lugares, destruindo tudo.

— Sinto muito que pense dessa forma. — Como estava no primeiro degrau da escada, o rosto de Jessica estava no mesmo nível do de Richard. Se se inclinasse para a frente, seus lábios se tocariam. O pensamento em si era suficiente para acender a chama de desejo que corria por seu sangue. Esperava que o desejo não estivesse estampado em seu rosto.

— Talvez devêssemos ir a seu escritório para discutir isso com calma — continuou Jessica, levantando o olhar de forma significativa para onde estavam parados o sr. Cobb, a srta. Pargety e a sra. Woods no topo das escadas, observando com interesse. — Acho que está preocupando os serviçais e os hóspedes.

Cleybourne olhou para o salão principal e viu vários serviçais agrupados de um lado, ansiosos.

— Ah, inferno! — murmurou ele, e atravessou o salão principal e o corredor até o escritório.

Jessica seguiu-o, fechando a porta ao entrar. Virou-se para encará-lo.

— Talvez você queira se sentar.

Não, não quero. Droga, mulher! Qual é o seu problema?

— Nenhum, Alteza. Estou me sentindo bem. É o senhor que parece perturbado.

—Sim, estou perturbado. Não tem noção? Não tem vergonha?

— Sim, Alteza, acho que sou provida de noção. Quanto à vergonha, eu...

— Droga! — rosnou ele, cortando-a. — Você vem para cá, coloca o nariz onde não é chamada, dá ordens sem autorização, muda tudo...

— Sinto muito se ultrapassei os limites, senhor.

— Não sente nada. Ultrapassar os limites é exatamente o que você gosta de fazer. Faz isso o tempo todo. Dizendo a meus serviçais o que fazer. Dizendo a mim o que fazer. Droga, estávamos indo muito bem antes de você chegar aqui!

— Peço desculpas por discordar. Quando cheguei, esta casa era um lugar sombrio, sem coração, onde os serviçais estavam sempre tristes e preocupados, e o dono da casa estava pensando em fazer algo contra si mesmo.

— Eu não estava... — gritou Richard, depois parou abruptamente, apertando o maxilar e fechando as mãos em punhos. Estava admirado do quanto queria agarrar Jessica e sacudi-la. Por que tinha de ser tão difícil? Tão teimosa? Tão infinitamente desejável?

Ele precisou de um momento para se controlar, depois continuou, com a voz mais baixa:

— O que eu planejo fazer não é da sua conta, srta. Maitland. Assim como o estado da minha casa e os sentimentos dos meus serviçais, que, a propósito, são bem tratados e muito leais.

— É verdade, são mesmo — concordou Jessica. — E é exatamente por isso que estão tão tristes e preocupados. Eles se preocupam com o senhor e com sua dor. Sabem o quanto ficou para baixo e quão perto chegou de...

— Ridículo!

Jessica olhou-o de forma afável.

— Como acha que cheguei tão rápido à conclusão de que planejava atirar em si mesmo naquela noite? Foi por causa da preocupação dos serviçais.

Ele deu um passo para trás, juntando as sobrancelhas.

— Não, eles não poderiam saber.

— É claro que sabem. Serviçais sabem de tudo. Esta casa é o mundo deles, e você está no centro desse mundo. A vida deles depende do senhor. É claro que eles conhecem seus humores, seus sentimentos. Além disso, seus serviçais gostam muito do senhor.

— Aparentemente, não gostam tanto a ponto de seguirem minhas ordens — retrucou ele. — Eles sabiam que eu não queria essa decoração abominável por toda a casa. — Olhou para as folhagens em cima do consolo da lareira.

— Eu diria alegres, não abomináveis. Entretanto, o fato é que eles não ignoraram suas ordens. Quando os questionei, eles perceberam que já tinham se passado dois anos desde que lhes falara para não fazerem nada. Então salientei que, se ainda fosse importante, o senhor teria dito a eles este ano, e como não disse...

— Srta. Maitland, eu agradeceria se não instruísse meus serviçais a não respeitarem minhas ordens.

— Eu simplesmente mostrei que seria insensato esperar que as pessoas não celebrem o Natal por anos a fio.

— Está pisando em terreno perigoso.

— Mesmo? Bem, Alteza, diferentemente de seus serviçais, não vivo com medo do senhor e do seu humor. E, certamente, não vou fingir que o senhor é razoável quanto a toda essa história de Natal quando claramente não é.

— Meus serviçais não têm medo de mim.

— Não, eles têm medo de magoá-lo. Têm medo de levá-lo ao limite. Têm medo de...

— Certo! Entendo o que está dizendo. Mas sou o dono desta casa. Tenho o direito de decidir o que colocar e o que não colocar nela.

— Não tem direito de negar às outras pessoas as alegrias das festas de Natal. Precisa pensar em seus hóspedes, presos aqui, longe de casa durante o Natal.

— Eu não os convidei. Eles são um maldito incômodo, e eu gostaria que fossem embora.

— Tenho certeza que sim, mas eles não podem. Então terão de aproveitar da melhor forma possível, e acho que o senhor deveria fazer o mesmo. Certamente, não tem o direito de negar a Gabriela a alegria do Natal. Ela já passou por muita coisa. Não tem de passar o Natal mergulhada em um humor negro simplesmente porque o senhor é muito egoísta para deixar que as pessoas a seu redor sejam felizes. — Agora Jessica estava ficando acalorada com a discussão, o sangue correndo impetuosamente pelas veias, a energia dominando-a.

— Como ousa? — Cleybourne deu um passo largo na direção dela, os olhos flamejando de raiva.

Jessica endireitou-se, enfrentando a ira dele em vez de recuar, e disse:

— Ouso porque é a verdade. Ver as coisas de Natal o deixa infeliz, então as proíbe para todos na casa. Não por um ou dois anos, mas quatro.

— Não proíbo que tenham Natal. Eles podem...

— Onde? Como? Seus serviçais moram aqui, trabalham aqui. Acredito que tenham a igreja, onde podem encontrar um pouco de alegria e felicidade. Do contrário, a única alternativa é deixar o emprego, e eles gostam demais do senhor para fazer isso. Entretanto, Gabriela não trabalha para o senhor, nem eu. Por que ela teria de tolerar uma vida cheia de restrições como a sua e a de seus serviçais? Não vejo razão para Gabriela perder a alegria do Natal porque o senhor tem o coração duro demais para permitir alguns enfeites e um pouco de folhagem pendurada pela casa.

— Alguns enfeites e um pouco de folhagem? O lugar está coberto por eles!—resmungou Richard. Sentia-se pronto para explodir de raiva. Esta mulher era o maior maldito incômodo que já encontrara, e ele a olhava o tempo todo, lembrando-se de detalhes da noite passada... a suavidade dos seios dela sob a mão e como a respiração ficara presa na garganta quando ele brincara com o mamilo. Podia imaginar as pernas dela rodeando seu corpo enquanto a penetrava intensamente.

Richard virou-se, afastando-se dela, lutando para manter a voz sob controle. Finalmente, virou-se e disse em um tom de voz mais baixo:

— E devo lembrá-la que, apesar de a senhorita e Gabriela não trabalharem para mim, sou o tutor dela.

— O senhor abriu mão da guarda. Ele fixou o olhar penetrante nela.

— Até que eu tenha passado essa responsabilidade para outra pessoa, sou o tutor dela. E ambas estão morando em minha casa.

As palavras ficaram suspensas no ar, já que Jessica não disse nada, apenas encarou-o por um longo momento. Richard começou a perceber, com desconforto, que o que acabara de dizer soava arrogante, até uma ameaça.

— Sei que estamos aqui com sua permissão — respondeu Jessica, de um jeito que não mostrava nenhuma submissão. — E, claro, se preferir que seus serviçais tirem a decoração natalina, não há nada que eu ou Gabriela possamos fazer para mudar isso. É claro que explicarei sua posição a Gabriela. Entretanto, se quer que toda a folhagem e os enfeites sejam tirados, precisará falar com seus serviçais, não comigo. Como deixou claro, não tenho controle sobre eles. Sugiro que o senhor diga a eles para tirarem tudo.

Jessica encarou-o de forma desafiadora. Achava que conhecia o duque de Cleybourne bem o suficiente para saber que, no final, ele não teria coragem de decepcionar os serviçais dizendo-lhes para tirarem a decoração.

Ele olhou para ela com atenção, consciente do ritmo de sua pulsação, sabendo que, se permanecesse ali muito mais tempo, sua raiva ultrapassaria os limites, e ele agarraria e beijaria Jessica, e só Deus sabe onde isso iria parar.

— Que inferno! Deixe os malditos enfeites!

Virou-se e atravessou o escritório, abrindo a porta. Lá, sem nenhuma surpresa, encontrou um grupo de serviçais. Fez uma cara feia para eles e disse:

— Ah, acabem de pendurar as malditas coisas! Atravessou o corredor, deixando os serviçais transbordando de felicidade.

 

Jessica levou alguns momentos para se recompor o suficiente para sair do escritório. Sabia que todos estariam ava-liando-a em segredo, e estava determinada a parecer que não fora afetada pelo encontro com o duque.

Atravessando o corredor em direção ao salão principal, dirigiu-se a uma serviçal que estava tirando a poeira de uma mesa e subiu as escadas para o quarto. Uma vez lá dentro, suspirou longamente e mergulhou na cama. Pensou na cena que acabara de acontecer, mas, mesmo enquanto se lembrava da aparência de Cleybourne, sua mente percebia o fato de que algo estava diferente. Finalmente, o desconfortável pensamento penetrou sua consciência o suficiente para fazê-la levantar-se e olhar em volta do quarto. Algo parecia errado, mas o que era?

Seu olhar pousou na cômoda e continuou, depois voltou. A caixa de jóias não estava lá. Vasculhou todos os cantos do quarto e olhou de volta para a cômoda. Ainda estava sem a caixinha.

Jessica foi até a cômoda e começou a abrir as gavetas e a olhar dentro delas para ver se talvez uma serviçal, ao limpar, guardara a caixa de jóias. Mas não a encontrou em nenhuma gaveta, atrás da cômoda, embaixo da cama ou do armário, nem em qualquer outro lugar em que pudesse pensar em procurar.

Ocorreu-lhe que talvez Gabriela tivesse levado para seu quarto para brincar com as jóias. Já não fazia esse tipo de coisa havia quase um ano, mas fora um de seus passatempos prediletos quando era mais jovem. Ela gostava de pegar o medalhão que Jessica herdara da mãe e ler a inscrição na parte de dentro, e também gostava de colocar os braceletes, colares e broches de Jessica, ou colocar uma das travessas de cabelo, decoradas com madrepérola.

Jessica atravessou o corredor até o quarto de Gabriela e bateu à porta. Como não houve resposta, abriu e olhou em volta. Não havia nem sinal da caixa de jóias desaparecida. Então, seguiu o corredor até o quarto de lady Westhampton, onde encontrou Gabriela sentada em uma cadeira ao lado da cama de Rachel, lendo para ela. Ambas viraram-se e sorriram quando Jessica entrou.

— Que bom, você chegou — disse Gabriela, ficando de pé. — Lady Westhampton está gostando muito do livro, mas tenho de ir ajudar a srta. Pagerty com as guirlandas. Prometi que voltaria logo.

— Tudo bem. Eu lerei para lady Westhampton, se ela quiser — disse Jessica com um sorriso para a pupila. — É muita gentileza sua passar um tempo com a srta. Pagerty.

— Ela é muito exagerada, não é? — disse Gabriela com candura. — Mas é uma boa pessoa, contanto que não se preste muita atenção ao que ela fala.

— Gaby... você tirou minha caixa de jóias do meu quarto por alguma razão?

Gabriela pareceu surpresa.

— Não. Por quê? Sumiu?

— Sumiu. Não consigo encontrá-la em lugar nenhum. Achei que talvez você quisesse usar meu medalhão ou outra coisa.

Gabriela balançou a cabeça.

— Não. Já estou muito velha para essas coisas, você sabe.

— É verdade. Só não consigo imaginar... ah, bem, devo procurar em meu quarto de novo. Vá ajudar a srta. Pagerty. Ficarei com lady Westhampton.

Com um sorriso, Gabriela saiu do quarto. Jessica aproximou-se e sentou na cadeira ao lado da cama de Rachel.

— Como está se sentindo? Rachel suspirou.

— Excetuando o fato de que não consigo respirar sem abrir a boca, acho que estou bem.

— Ah, sinto muito.

— Os preparados da srta. Brown ajudaram bastante. Se Deus quiser, amanhã estarei me sentindo melhor. — Ela parou, franzindo um pouco a testa. — Tem certeza que sua caixa de jóias não está lá?

Jessica concordou.

— Tenho. Não há muitos lugares para estar, tinha esperanças que estivesse com Gaby. Mas...

— Não posso imaginar nenhum dos serviçais de Richard pegando. São todos pessoas boas e honestas, e trabalham para ele há muito tempo.

— Eu sei. Também não consigo achar que foi um deles. Mas, neste momento, há muitas outras pessoas na casa, e não tenho tanta certeza a respeito deles. Um ou dois deles são, francamente, um pouco desequilibrados.

— Mesmo? Conheci apenas a srta. Pagerty, quando veio pegar os laços que fiz à tarde.

— Bem, há um homem com uma aparência grosseira chamado Cobb. Acredito que ele seja capaz de quase qualquer coisa. E o sr. Goodrich está sempre muito nervoso. Faz com que as pessoas se perguntem por que está sempre tão sobressaltado. A sra. Woods também é um enigma. Não conhecemos nenhum deles de verdade. Acredito que um deles poderia facilmente ser um ladrão. O que é estranho, porém, é por que alguém escolheria minha pequena caixa de jóias? Tem muito valor para mim. Há um broche feito com o cabelo de meu pai, e minha mãe me deixou um medalhão que a mãe dela lhe dera. Tem o formato de um coração e, dentro, as iniciais de minha avó. Para mim, essas coisas são inestimáveis, e não suporto a idéia de perdê-las. Mas a caixa é pequena e não é cara, e minhas jóias não valem praticamente nada em termos monetários. Tenho certeza que qualquer mulher que esteja nesta casa agora tem mais e melhores jóias do que eu.

— É estranho mesmo — concordou Rachel. — Deve falar com Richard a esse respeito.

— Não sei se o duque estaria disposto a conversar comigo sobre qualquer coisa neste momento — disse Jessica de forma irônica.

— Ele não aceitou bem a decoração de Natal?

— Não, não aceitou. Ficou bem nervoso.

— Ah, querida. — Rachel pareceu preocupada. — Talvez devêssemos ter fingido que eu falei para os serviçais fazerem a decoração.

Jessica deu de ombros.

— Posso conviver com os acessos de raiva dele. De qualquer forma, tenho certeza que ele saberia que eu estava por trás disso. A senhora considera muito os sentimentos dele para ter feito isso. Mas ele não me colocou para fora, e não mandou que retirassem a decoração, então acho que tudo acabou bem.

— Mesmo? — O rosto de Rachel se iluminou. — Bem, isso é bom, não é? Ele está sofrendo há tanto tempo, eu... — Ela parou, depois disse com a voz baixa: — Às vezes acho que realmente somos uma família amaldiçoada, e que trazemos sofrimento para as vidas que tocamos.

— Ah, não, lady Westhampton! Não posso acreditar nisso!

— Por favor, me chame de Rachel. Não pode haver formalidades entre nós depois de ter ficado aqui comigo com todo aquele nariz vermelho e olhos lacrimejantes.

Jessica sorriu.

— Tudo bem, Rachel. E eu sou Jessica. Mas não pode acreditar que sua família seja amaldiçoada.

— Geralmente, tratamos isso como uma brincadeira, mas... — Rachel deu de ombros. — Nós, os Aincourt, nunca fomos muito felizes. Quem sabe, talvez isso tudo venha de nosso ancestral que expulsou o abade. Ou talvez seja apenas o pecado do orgulho passado de geração a geração, começando com ele.

— Orgulho? Perdoe-me, mas você não parece uma pessoa orgulhosa. Tem sido tão gentil comigo, e deve saber que eu...

— O quê? Que foi infortunada por ter um pai que se envolveu em um escândalo? Não é culpa sua, como não é culpa minha que meu pai fosse um tirano puritano que cortou o próprio filho de sua vida. Mas não acha que é por orgulho o fato de os casamentos da família sempre serem por promoção, nunca por amor? Sempre fizemos "bons" casamentos aos olhos do mundo. Casamentos por riqueza, posição, terras ou nome... ou por qualquer outra coisa que não fosse o coração. Como conseqüência, nunca fomos felizes.

— Mas sua irmã...

— Richard a amava. Sei disso. Mas não tenho tanta certeza se ela o amava. Ou talvez eu deva dizer que ela achou fácil amar um duque. Se Richard fosse um barão ou, Deus me perdoe, não tivesse nenhum título, não tenho tanta certeza se ela o teria amado.

— Ah. —Jessica olhou para a outra mulher, pálida, os olhos anuviados, olhando para um passado que, obviamente, trazia pouca alegria. — Sinto muito.

— Eu e meu marido temos um... casamento agradável, acho que a maioria das pessoas diria isso. Ele é gentil e não nega nada que eu queira. Sou livre para viver minha própria vida em Londres, e ele fica na fazenda com seus livros, correspondências e... todas as coisas que são importantes para ele.

— Rachel... — Em um impulso, Jessica inclinou-se para a frente, colocando a mão de forma tranqüilizadora sobre a de Rachel.

Rachel sorriu e disse com um pouco de tristeza:

— Sinto muito. Estou sobrecarregando-a com nossas vidas muito mais do que deveria. Deve ser a doença. Ela me deixa boba e fraca. Michael e eu entramos em nosso casamento sabendo o que era. Eu amava outro homem, alguém inadequado... não que houvesse algo errado com ele, mas não tinha dinheiro, ou qualquer futuro. Minha família precisava, sempre precisou, de dinheiro. Então, cumpri meu dever. Michael cumpriu o dele. E estamos... satisfeitos com nossas vidas.

Jessica, vendo a tristeza escondida nos olhos da outra mulher, não acreditou nem por um momento que Rachel estivesse satisfeita. Mas não discutiu isso, apenas apertou a mão dela com delicadeza.

— Acho que a vida de nenhum de nós acabou sendo como achamos que seria, como esperávamos que fosse — disse ela.

— Apenas aproveitamos da melhor forma possível o que conseguimos. O que mais podemos fazer?

— Você está certa, claro. — Rachel sorriu com doçura. — E, às vezes, as coisas acabam sendo ainda melhores. Dev casou-se pela família, para evitar que Darkwater afundasse, e eles acabaram se apaixonando.

— Bem. Aí está.

— Sim. Às vezes milagres acontecem. E fico muito feliz que um tenha acontecido com Dev. — Rachel parou, olhando para Jessica com atenção. — Espero que um milagre aconteça com Richard também.

— Também espero — concordou Jessica. Mas sabia, sentindo uma pontada de tristeza, que se esse milagre acontecesse com o duque de novo, era muito pouco provável que a envolvesse.

O jantar daquela noite não foi mais agradável, na opinião de Jessica, do que fora na noite anterior. Entretanto, foi mais animado, já que esta noite havia o tumulto da véspera para se discutir. Havia opiniões contraditórias sobre o fato de o intruso ter vindo de fora da casa ou de dentro, e sobre o que ele estava procurando.

A srta. Pagerty estava certa de que alguém de fora atacara o duque; Jessica achava que era mais um palpite do que qualquer outra coisa.

— Ontem à noite? — respondeu lorde Kestwick, erguendo uma sobrancelha de forma aristocrática e desdenhosa. — Mesmo? Que tipo de ladrão atravessaria toda aquela neve, sabendo que não conseguiria fugir?

— Isso mesmo, meu lorde — disse o reverendo Radfield de forma apaziguadora. — Mas por que alguém que estivesse aqui ia querer atacar Sua Alteza, sabendo que ficaria preso aqui por só Deus sabe quantos dias? Para mim, parece muito perigoso. —Ah, mas ele não levou nada, não é? — perguntou Kestwick com seu jeito arrogante, passando o guardanapo no canto da boca. — Não é verdade, Cleybourne?

— O quê? — Richard, que estava observando Darius lançar longos olhares para Jessica, virou-se para o homem à sua direita.

— O homem ontem à noite. Não roubou nada, correto?

— Não. Não dei falta de nada.

— Bem, se não era um ladrão, então o que ele queria? — perguntou lady Vesey, irritada por hoje não ser o centro das atenções. Nenhum seio à mostra podia competir com a excitação de um intruso.

— Não disse que não era um ladrão, minha adorável lady Vesey — disse Kestwick com um sorriso. — Minha teoria é que ele estava procurando o que gostaria de roubar antes de sair. Tenho certeza que não esperava ser pego, mostrando a todo mundo o que estava fazendo. O que acha, sr. Cobb?

Todos viraram para Cobb, sentado na outra extremidade da mesa.

— Sobre o quê, meu lorde? — perguntou ele com serenidade.

— Ora, senhor, minha teoria sobre o ladrão.

— Ah, deve ser um ladrão, meu lorde. Quanto ao que ele estava pensando, não faço idéia. — O rosto de Cobb, embora não estivesse desafiante, também não estava respeitoso.

— Eu... não gosto de toda essa conversa sobre ladrões — disse o sr. Goodrich, surpreendendo a todos. Jessica não se lembrava de ele dizer nada na noite anterior à mesa; sua atenção parecia totalmente ocupada pela disposição dos talheres de prata à sua frente. — Afinal, não sabemos se é um ladrão.

— Verdade, sr. Goodrich — disse o reverendo com uma voz suave. Embora Jessica não achasse que ele tenha dito algo particularmente admirável, acreditava que seus paroquianos deviam gostar de escutar seus sermões apenas por causa da voz agradável. — Não sabemos ao certo por que ele estava aqui, e sem dúvida não devemos difamar o pobre homem.

Jessica olhou para o duque e viu que ele enrijeceu o canto da boca. Suspeitava que Cleybourne gostaria de dizer algumas coisas — e outras — em relação ao intruso por causa do corte feio acima do olho.

— Engraçado, todas essas pessoas entrando nas casas — disse Vesey de forma arrastada.

Cleybourne olhou para ele, estreitando os olhos.

— O que quer dizer?

— Bem, houve uma onda de invasões recentemente, não é? Quero dizer, não entraram aqui algumas noites atrás? E houve a noite na casa do general.

Jessica franziu a testa.

— Do que o senhor está falando? Quando foi que alguém entrou na casa do general?

—Ah, depois de vocês partirem—disse Vesey de forma casual.

— O que aconteceu? Quem era? Vesey deu de ombros.

— Não sei. Você se lembra do que o dono da hospedaria disse, Leona? Foi ele que nos contou.

— Não me lembro — disse Leona, o tom de voz mostrando sua grande falta de interesse no assunto.

Vesey franziu a testa, obviamente esforçando-se para lembrar.

— Acho que ele disse que entraram no escritório ou na biblioteca, alguma coisa assim. Sabe, acho que ele disse que não deram falta de nada lá. Estranho, não?

— Definitivamente estranho. — Cleybourne juntou as sobrancelhas, demonstrando severidade. Olhou para Vesey e depois para Jessica.

Jessica ergueu um pouco as sobrancelhas, mostrando sua própria perplexidade. Citaria Vesey como o candidato mais provável para ambos os incidentes aqui no castelo. Mas parecia bizarro que ele chamasse atenção para a conexão entre os dois, e com o outro na casa do general. O que isso poderia significar? O que ele poderia querer com isso? Por outro lado, raciocinou ela, por causa da aparente capacidade mental de Vesey, talvez ele não tivesse nenhum objetivo, queria apenas falar. Ainda assim, não podia negar a possibilidade de ele tê-los trazido à tona porque não tinha nada a ver com eles e que falara apenas o que lhe passara pela cabeça, a peculiaridade de invadirem esta casa duas vezes, assim como a do general, em um espaço tão curto de tempo.

Se esse fosse o caso, então havia alguma outra coisa acontecendo, e Jessica não fazia idéia do que era. Perturbada pelo pensamento, continuou remoendo isso o resto do jantar, sem prestar muita atenção ao que era dito. Depois, ao sair da sala de jantar, surpreendeu-se quando alguém agarrou-lhe o braço e puxou-a para a sala de música, fechando rapidamente a porta depois de entrarem. Olhou para sua companhia, perplexa.

— Darius! O que está fazendo? Por que me puxou aqui para dentro?

— De que outra forma conseguiria falar com você? Passou o dia me evitando — disse ele quase com petulância. — Sempre que eu entro em algum lugar, você sai. Mal fala comigo. Nem olha para mim.

— Achei que tínhamos concordado em ficar fora do caminho um do outro — disse Jessica, com irritação na voz. — Será mais fácil para nós dois.

— Não para mim. Não quero evitá-la — protestou Darius. —Jessica, quando eu a vi de novo... percebi o tolo que fui por deixá-la partir.

— Por me deixar partir? — perguntou Jessica, surpresa. — Pelo que me lembro, você me escorraçou.

— Sei que a magoei — disse Darius. — E tem todo o direito de ter raiva de mim. Mas estou pedindo para me dar uma chance de me redimir.

— Chance de se redimir? Darius, é um pouco tarde para isso. Está tudo no passado; não há nada que possa ser feito a esse respeito. Não pode mudar o que aconteceu.

— Não, mas posso tentar reparar o que fiz. Se você me der outra chance, Jessica...

Ele deu um passo na direção dela, e Jessica recuou.

— Outra chance? Você ficou louco?

— Não! Acho que recuperei meu juízo. Senti saudade de você todo esse tempo, pensei em você, desejei-a.

Jessica olhou-o boquiaberta.

— Por dez anos?

— Isso.

— Que ridículo. Não sei o que há na sua cabeça, mas a idéia toda é absurda. Nem nos conhecemos mais. Não quero que "repare" nada para mim. Sim, eu já tive raiva, mas foi muito tempo atrás. Não estou mais com raiva. Eu... não sinto nada por você agora.

— Não! Isso não pode ser verdade! — exclamou Darius, surpreendendo-a ao aproximar-se e agarrar seu braço. — Não pode ter se esquecido de como era. Por mais que queira negar, deve se lembrar da doçura de nossos beijos.

Tudo que passou pela cabeça de Jessica ao escutar estas palavras foi a maneira como Richard a beijara na noite anterior, mas não podia descrever o beijo dele como doce... ardente talvez, ou formidável, abrasador, selvagem e inclemente, deixando marcas em sua alma, mas nada tão insípi-do quanto "doce". Ficou um pouco corada devido a seus pensamentos.

— Olhe só! — disse Darius, triunfante. — Eu sabia que você se lembrava.

— Não! — protestou Jessica, percebendo tarde demais a intenção dele.

Ele a puxou para si e beijou-a. Seus lábios pressionaram os dela com força, afastando-os até encontrar os dentes. Jessica colocou as mãos entre eles, mas os dedos dele estavam encravados em seus braços, segurando-a firme. Finalmente, exasperada, chutou-o na canela.

— Ai! — Darius levantou a cabeça, surpreso.

— Maldito! — disse uma voz masculina atrás deles, e a próxima cena que Jessica viu foi Cleybourne parado ao lado deles. Agarrou Darius pelo braço e jogou-o para longe de Jessica. Darius tropeçou, sacudindo os braços, e caiu de costas no sofá, rolando no assento e depois para o chão.

— Richard! — exclamou Jessica, espantada. Cleybourne não estava escutando. Com olhos furiosos, foi até a lateral do sofá para pegar Darius e colocá-lo de pé, depois acertou com o punho direito o maxilar de Darius, fazendo-o cair de novo.

— Pare. Por favor. Está fazendo uma cena!

— Você acha que me importo? Vou matar esse bastardo.

— Bem, eu me importo — disse Jessica, exasperada. — Não fará nenhum bem para minha reputação que todos da casa venham até aqui e encontrem vocês dois brigando. Todos saberão o que aconteceu.

Richard hesitou, depois soltou os braços.

— Está certo. — Lançou um olhar penetrante para Darius. — Pode agradecer a ela por salvar sua pele imprestável. Levante-se e saia daqui, e se eu o vir de novo perto da srta. Maitland, nada me impedirá. Entendeu?

— Sim, sim... — Darius estava se afastando dele um pouco hesitante enquanto se levantava. — Desculpe. Foi meu erro. Não percebi que ela era sua... que vocês dois eram...

Quando os olhos de Richard ficaram vermelhos e ele partiu para cima do homem de novo, Darius saiu correndo da sala. Richard ficou parado por um momento, ainda encarando a porta com agressividade. Então, fez um esforço óbvio para relaxar, sacudindo os braços, e olhou para Jessica.

— Você está bem?

— Estou. Não fazia idéia que ele ia... eu... como você sabia?

— Eu o vi puxando-a para a sala de música. Não precisei de muita inteligência para saber que não era para boa coisa. Eu teria entrado antes, mas aquela chata da Pargety me parou, reclamando sobre o intruso, e eu não podia deixar que ela me seguisse até aqui.

Rapidamente, foi até a porta e fechou-a, para o caso de alguém ter visto a saída impetuosa de Darius e vir investigar. Quando virou, Jessica não conseguia fitar seus olhos, constrangida pelo que ele testemunhara.

— Obrigada — disse ela, tensa.

— De nada. Francamente, foi muito bom bater em alguma coisa. Estava querendo fazer isso nas últimas três horas.

Jessica não pôde deixar de sorrir.

— Entendo. Sinto muito. Ele deu de ombros.

— Não precisa. Eu... não deveria ter gritado com você esta tarde. Eu estou... essas pessoas ao meu redor me deixam com os nervos à flor da pele.

— E eu achei que eu é que o deixava com os nervos à flor da pele.

Um sorriso cruzou os lábios dele rapidamente.

— Você também.

— Sinto que tenha testemunhado essa cena.

— Não precisa. Eu deveria ter jogado o cafajeste na neve assim que me disse quem ele era. Você acha que ele pode ter sido o intruso de ontem à noite? — A expressão de Richard de repente era de esperança.

Jessica riu.

— Sinto decepcioná-lo, mas não consigo imaginar Darius tendo coragem para fazer isso. Além disso, por que ele estaria bisbilhotando seu escritório? Para roubar alguma coisa? Ele não era um homem muito rico, mas tinha o suficiente.

— Certo — concordou Richard, desapontado. — Ele é tolo demais para armar alguma coisa, para planejar um assalto.

— Tolo? — Jessica levantou os cantos dos lábios, achando engraçado. — Está sendo um pouco severo, talvez. Afinal, mal conhece o homem.

O duque resmungou.

— Não preciso. É óbvio. Ele terminou o noivado com você porque teve medo de um escândalo. Só um tolo faria isso.

Jessica arregalou os olhos para ele, perplexa.

— Achei que não o acharia tolo por se afastar de mim. Como deve se lembrar, sou a "mulher mais irritante" que já conheceu.

— Não use minhas palavras contra mim — disse ele com um tom de voz meio zombeteiro, meio severo. — Você é muito irritante. Também é linda e apaixonada. — Ele parou, a mente voltando sem ser convidada para a noite anterior e para a paixão desenfreada que tomara conta dela ao seu toque, e de repente estava excitado. Seus olhos escureceram involuntariamente, e ele desviou o olhar dela.

Jessica viu o olhar dele antes de ser desviado, e isso fez com que seu corpo chamuscasse, mesmo enquanto se lembrava que ele a rejeitara por causa dessa mesma paixão.

— Ele tinha uma carreira no Exército — disse ela, pálida. — Não podia ter uma ligação de sangue com um oficial desgraçado.

— Qualquer homem que escolha uma carreira em vez do amor de uma mulher é um tolo — respondeu Cleybourne concisamente. — Não se tem nada sem amor. — Virou-se um pouco, ainda não olhando para ela. — Obviamente, ele se arrependeu de fazer isso.

— Não sei. — Jessica balançou a cabeça. — Eu... isso me deixa um pouco desconcertada. Fazia dez anos que não o via. Não posso acreditar que tenha ficado arrependido por seus atos todo esse tempo. Por que não me procurou antes? — Ela deu de ombros. — Acho que ele apenas está entediado, preso em uma casa com estranhos e sem nada para fazer.

Os olhos de Cleybourne faiscaram.

— Então ele tenta comprometer uma lady? Reconquistar seu afeto? Por causa do tédio? Você não devia ter me impedido.

— Não sei — respondeu Jessica, sendo honesta. — Mas acho difícil acreditar que ele ainda me ame. — Olhou para Cleybourne, acrescentando: — Ele não é o mesmo tipo de homem que você.

— Obrigado. Eu odiaria achar que me pareço com Talbot. O homem é um verme.

Jessica deu um sorriso fraco.

— Sim. Mas o que quis dizer, especificamente, é que ele não é um homem intenso. Leal.

As palavras dela animaram Richard. Não se sentira, hoje, um homem com sentimentos intensos e leais. Sentira-se um homem com desejo puro, controlando-se contra uma ameaça, sentindo-se culpado e mentalmente infiel. Escutar o respeito na voz de Jessica o acalmou e, como tudo mais nela, o excitou. Fechou as mãos ao dizer:

— Obrigado.

Não conseguia entender por que toda vez que estava perto desta mulher transformava-se em uma confusão de emoções embaralhadas, por que parecia que os nervos estavam à flor da pele, sensíveis e expostos, vulneráveis a sensações. Durante anos, sentira-se desconectado do mundo, enfraquecido pelo sofrimento, e agora, de repente, estava vivo de novo, consciente de cada dor ou prazer.

Ele falou, mais para se afastar dos próprios pensamentos do que qualquer outra coisa:

— Não me lembro do escândalo envolvendo seu pai, pelo menos não claramente.

Jessica deu de ombros. Não falara com quase ninguém sobre o escândalo que assolara sua vida. Todo mundo se esquivava do assunto ou por medo de magoá-la, como Viola e o general, ou por pura aversão. Os que quiseram falar com ela eram os fofoqueiros, os olhos brilhando de curiosidade, querendo alfinetar sua dor para proveito próprio. Permanecera um nó de dor dentro dela, enterrado embaixo de anos de sobrevivência.

Olhou para Cleybourne com incerteza, mas no rosto dele não havia animação, apenas a compreensão de uma vida de dor. Por um momento, não conseguiu falar, a emoção subindo-lhe até a garganta e fechando-a. Respirou fundo, depois disse:

— Não foi uma coisa muito clara. Ele... — Ela desviou o olhar, um pouco surpresa por ainda doer depois de tantos anos. — Ele foi expulso do Exército depois de muitos anos de serviço. Ninguém disse por quê. Surgiram boatos, claro, sendo que o favorito era que ele estava envolvido em atividades de traição.

Os olhos dela brilharam ao continuar:

— Mas ele não faria isso! Sei que nunca faria algo para trair a Inglaterra. Era um homem de extrema lealdade. Um soldado até o fim. Nunca faria algo para prejudicar o país. — Ela lutou contra as lágrimas. — Ele não me disse por quê. Eu perguntei. Estava magoada e furiosa com o que as pessoas estavam dizendo. Queria que ele revelasse a razão, para provar a todos que ele não era um traidor, que não fizera nada de errado. Ele me jurou que não tinha traído o Exército nem o país. Ele... me disse que sentia muito, que não me magoaria por nada neste mundo. E parecia tão triste, tão abatido, que eu não consegui pressioná-lo mais. Eu disse que acreditava nele. E acreditava, entende? Ainda acredito. Sei que, independentemente do que tenha acontecido, ele não fez nada de errado. Estavam errados. Tinham de estar.

Jessica parou, a voz sufocada pela emoção. Tentou se controlar e, quando conseguiu, Cleybourne aproximou-se, colocando a mão gentilmente sobre seu ombro. O gesto de conforto era demais para ela, e de repente as lágrimas dominaram-na. Começou a chorar, e parecia que, quanto mais tentava se controlar, menos conseguia. Soluçou, os ombros sacudindo, as emoções há muito tempo enterradas jorrando.

— Jessica... — Instintivamente, Richard passou os braços em volta dos ombros dela, puxando-a com delicadeza para perto de si. Ela deitou a cabeça em seu peito e chorou, as mãos enroscando-se em seu paletó.

Os braços dele estavam soltos em volta dela, afetuosos e tranqüilizadores, e ele inclinou a cabeça sobre a dela. Jessica achou que sentiu os lábios dele roçarem seu cabelo, mas o toque foi muito breve e suave para ter certeza. Finalmente, exausta por causa das lágrimas, ela parou por um momento, apoiada nele, sustentada por sua força, envolvida por seu calor.

Então, afastou-se, enxugando as lágrimas com as mãos, constrangida pela própria fraqueza.

— Sinto muito. Foi tolice minha.

— Não foi tolice nenhuma. Não há razão para se desculpar.

Jessica balançou a cabeça, incapaz de encontrar o olhar dele. Richard tinha sido gentil com ela, e se apoiar nele era muito bom, seguro e confortável. Ela sabia que era confortável demais, e um erro deliciar-se dessa forma. Seria pura insensatez passar a confiar em Cleybourne, assim como fora insensatez entregar-se ao prazer dos beijos dele na noite anterior.

— Foi tanto tempo atrás — disse Jessica, endireitando o cabelo e o vestido, procurando alguma coisa para ganhar tempo para se recompor. Ficou ereta e olhou nos olhos de Cleybourne, esperando parecer de novo calma e sob controle. — É uma tolice até pensar nisso. E ainda mais tolo incomodá-lo com isso.

— Você não me in...

— Estou me sentindo muito cansada — continuou Jessica rapidamente, interrompendo-o. — Se me der licença, acho que vou subir para meu quarto agora.

Cleybourne olhou para ela, franzindo a testa, depois fez uma pequena reverência.

— Claro. Como desejar, srta. Maitland.

Jessica virou-se e saiu da sala, os passos ficando mais rápidos enquanto se movia, até que quando chegou ao quarto já estava quase correndo. Por dentro, sabia que estava correndo... do perigo real que o duque de Cleybourne representava. Se não ficasse alerta, se não tivesse cuidado, havia a possibilidade real de se apaixonar por Richard. E seria a maior insensatez de todas.

 

Jessica acordou com aquela dor de cabeça que surge quando se chora até dormir, o que ela acreditava ser normal, já que fizera isso. Molhou um pano em água e lavanda e deixou-o nos olhos por alguns minutos para diminuir o inchaço. Então, levantou-se e vestiu-se, sabendo que nada lhe daria mais prazer do que voltar para a cama e ficar deitada o dia inteiro, mergulhada em autopiedade, mas estava determinada a não fazer isso. Recusava-se a viver com base em lamentações e conjecturas. Sua vida era o que era, e não podia negar o fato de que nunca seria considerada uma candidata apropriada para ser uma duquesa, assim como não podia negar o fato de que o duque de Cleybourne ainda era apaixonado pela esposa falecida. Disse a si mesma que tudo que podia fazer era seguir sua vida, aproveitá-la como era e não cometer o erro de se apaixonar por Richard.

Para alcançar esse fim, evitou-o o dia todo, passando a maior parte do tempo na sala de estudos com Gabriela ou no quarto com Rachel. Quando, inevitavelmente, o encontrou cara a cara no quarto de Rachel, pois estava lá jogando cartas com ela e Gabriela e ele entrou no quarto para ver Rachel, rapidamente lhe deu suas cartas e pediu licença dizendo que precisava ver os hóspedes.

Ela percebeu o estranho olhar que ele lhe lançou, mas fingiu não notar enquanto saía do quarto e descia as escadas.

Para não parecer que tinha mentido, inspecionou várias salas para certificar-se que nenhum dos hóspedes precisava de alguma coisa. Logo desejou não ter feito isso. Exceto por Darius Talbot, que ficou pálido e saiu da sala assim que ela entrou, todos pareciam ter algo a dizer.

A srta. Pagerty tivera dificuldade para dormir porque, segundo ela, as pessoas ficaram entrando e saindo de seus quartos a noite inteira, abrindo e fechando portas. Lorde Kestwick era petulante e estava entediado, já que se cansara de jogar com lorde Vesey e, Jessica acreditava, de flertar com lady Vesey. O sr. Goodrich queria saber quando poderiam ir embora, e o sr. Cobb, como sempre, parecia ligeiramente ameaçador. A sra. Woods estava inquieta, batendo com os dedos no braço da poltrona e começando a ficar mal-humorada quando Jessica tentou conversar com ela. Até o reverendo Radfield, com quem sempre podia contar para uma conversa agradável, parecia chateado. Apenas Leona, por incrível que pareça, não tinha reclamações. Parecia estar nas nuvens, o que levava Jessica a crer, cinicamente, que passara a noite com alguém que não era o marido.

Jessica ficou satisfeita ao deixar os hóspedes inesperados e voltar para o quarto. Ficou surpresa ao entrar no quarto e encontrar uma serviçal ali, uma menina com rosto cheio de sar-das chamada Flora, sentada na beirada de uma cadeira, com um pequeno saco no colo. Flora ficou de pé em um pulo assim que Jessica entrou, e a expressão preocupada em seu rosto aumentou.

— Srta. Maitland — começou ela. — Baxter me pediu para trazer isto para a senhorita. — Estendeu a mão com o saco na direção de Jessica, parecendo apreensiva. — Encontrei na sala de música, escondido atrás de uma poltrona. Foi assim que encontrei.

Com a curiosidade despertada, Jessica pegou o saco e abriu, olhando dentro dele. Havia vários pedaços de madeira, quebrados e lascados, assim como pedaços de metal e jóias. Ela olhou, depois soltou um gemido de angústia.

— Minha caixa de jóias! Flora assentiu com tristeza.

— Sim, senhorita. Reconheci de quando limpei seu quarto, mas não sei o que estava fazendo lá nem por que... por que está quebrada assim.

Jessica colocou a mão dentro do saco e encheu-a com os objetos que estavam ali: um broche, um colar, um brinco, dois ou três pedaços de madeira que um dia foram parte de sua caixa decorativa. Foi até a cama e jogou o restante do conteúdo em cima do colchão. Inclinou-se sobre as peças, separando suas pobres jóias dos pedaços quebrados da caixa. Não demorou para ver que estava faltando apenas um brinco.

— Não entendo...

—Nem eu, senhorita. Sinto muito pelo que aconteceu com a caixa. Era muito bonita.

— Sim. — Lágrimas encheram os olhos de Jessica. — Meu pai me deu quando eu tinha a idade de Gabriela. — Ela suspirou. — Ontem eu percebi que não estava no meu quarto, e não conseguia imaginar o que tinha acontecido. — Olhou de novo para a bagunça sobre a colcha. — Ainda não consigo. É óbvio que não pegaram as jóias, apenas um brinco, mas acredito que esteja perdido em algum lugar. Por que alguém roubaria uma caixa de jóias e não pegaria nenhuma jóia? E por que destruíram a caixa assim? Não estava nem trancada.

— Não sei, senhorita. É muito estranho. Também não consegui entender... nem por que estava na sala de música daquele jeito. Levei direto para Baxter, já que era tão estranho, mas ele também não entendeu nada e pediu para eu trazer para a senhorita.

Jessica virou-se para a caixa, tentando arrumar os pedaços de madeira em uma forma reconhecível. Era impossível. A caixa fora destruída sem possibilidade de conserto. Estremeceu ao pensar na raiva escondida por trás da destruição de um objeto tão pequeno e inócuo.

— Acredito que alguém deve ter roubado e, então, quando viu que não tinha valor, ficou furioso e destruiu — pensou ela. Ou fora destruída por puro ódio a ela, roubada e quebrada por nenhuma outra razão a não ser porque era dela? Esta idéia a deixou decididamente perturbada.

— Talvez, senhorita — respondeu Flora, depois acrescentou: —Não acredito que tenha sido nenhum de nós. Todos nós gostamos da senhorita, de verdade, e nenhum de nós roubaria nada, de qualquer jeito.

— Nunca achei que fosse um de vocês.

Elas se olharam, considerando a alternativa de ser um dos hóspedes. Finalmente, Flora disse:

— Foi uma maldade, senhorita.

— Sim, acho que está certa.

A serviçal fez uma reverência, reiterando como sentia pelo que acontecera, e saiu do quarto. Jessica ficou sentada na cama e olhou pensativamente para os pedaços da caixa de jóias. Havia algo decididamente estranho acontecendo por ali. Lembrou-se das palavras da srta. Pagerty sobre as pessoas entrando e saindo de seus quartos na noite anterior. O duque dissera algo parecido na noite em que encontrou o intruso no escritório. Não entendia o que isso tinha a ver com o resto, incluindo a caixa de jóias destruída, mas, com certeza, gostaria de descobrir quem entrara na sala de estudos naquela noite, assim como quem destruíra sua caixa de jóias tão querida.

A primeira coisa a fazer, decidiu, era passar a noite de hoje sentada e alerta, ver exatamente quem estava saindo do quarto e aonde estava indo. Poderia ficar sentada perto da porta e deixá-la um pouco aberta, mas decidiu que veria melhor se ficasse mais à frente no corredor. Havia um lugar perto das escadas onde poderia se esconder muito bem entre um grande vaso de plantas e uma mesa, e de lá teria uma visão melhor dos quartos. Colocaria um vestido preto simples e chinelos leves, pensou, para não ser vista nem ouvida. Se pelo menos houvesse uma maneira de esconder seu rosto pálido. Pensou em enrolar um cachecol preto em volta do rosto como o intruso fizera, depois descartou a idéia. Se alguém a encontrasse, poderia explicar o fato de estar no corredor; se fosse encontrada com o rosto escondido, seria bem mais difícil.

Quanto mais pensava a respeito, mais gostava do plano. Jessica era o tipo de pessoa que sempre preferia agir a ficar sentada esperando as coisas acontecerem. Passou a noite nervosa, fazendo todas as coisas que costumava fazer, com apenas metade da cabeça nelas; a outra metade, no que a esperava. Escutou a conversa de Gabriela com lady Westhampton sobre o dia e como fora divertido jogar cartas com ela e com o duque, depois vestiu-se para o jantar e passou para ver como estava lady Westhampton antes de descer.

A refeição foi como sempre: comida excelente e convidados pouco agradáveis. Mas esta noite Jessica prestou mais atenção que de costume à conversa, estudando cada um dos hóspedes e imaginando se tinham alguma coisa a ver com os eventos. Podia sentir os olhos do duque sobre ela de vez em quando, mas não olhou para ele, por medo de que ele pudesse ler algo em seu rosto que revelasse o que planejara para esta noite.

Depois, saiu sorrateiramente e foi para o quarto, onde tentou deitar e dormir um pouco antes de todos irem para suas camas e ela poder vigiá-los. Entretanto, estava empolgada demais para dormir, e depois de um tempo levantou-se e colocou o vestido mais escuro que tinha. Penteou o cabelo e deixou-o solto sobre os ombros, achando que se mantivesse a cabeça abaixada e deixasse o cabelo cair em volta poderia manter o rosto branco escondido atrás da cortina mais escura de cabelo.

Assim que ficou pronta, sentou na cadeira perto da porta e abriu uma fresta para ficar de olho no corredor. Havia silêncio lá fora e, depois de um tempo, viu um lacaio em sua ronda noturna apagando as velas que iluminavam o corredor. Depois que ele passou, o corredor ficou escuro. Jessica continuou esperando, encostando a cabeça na parede e olhando pela fresta da porta.

Abriu os olhos, piscando, e percebeu, contrariada, que o sono que não tivera mais cedo agora tomava conta dela. Não sabia ao certo por quanto tempo cochilara ou exatamente o que a acordara. O corredor do lado de fora estava escuro e parado, sem sinal de ninguém passando por ele.

Jessica abriu mais a porta e colocou a cabeça para fora, olhando para os dois lados do corredor. Não viu nem sombra de alguém, então saiu e fechou a porta silenciosamente. Com a cabeça baixa para esconder o rosto, moveu-se furtivamente pelo corredor sem fazer barulho. Já tinha quase chegado ao esconderijo quando pensou ter escutado um barulho atrás. Na hora em que começou a se virar para olhar, um braço segurou-a com firmeza por trás, segurando-lhe os braços e puxando-lhe a cabeça contra um corpo masculino, a mão cobrindo-lhe a boca.

Sentiu-se dominada pelo medo e enrijeceu o corpo. No momento seguinte, sentiu a respiração de alguém em seu ouvido, e uma voz baixa murmurou:

— Sou eu, Richard. Não grite.

Jessica largou-se sobre ele aliviada e assentiu com a cabeça. Ele a soltou e tirou a mão de sua boca, e ela virou e o encontrou observando-a com uma expressão estranha. Estava vestido todo de preto, a camisa branca e a gravata de costume substituídas apenas por uma camisa preta simples, sem colarinho e aberta no pescoço. Pegando-a pela mão, puxou-a alguns passos para trás pelo corredor e para dentro de uma alcova. Havia um banco acolchoado que atravessava a largura da alcova, e na parede acima havia uma janela estreita com um grosso vidro opaco, popular na era Tudor. A luz da lua atravessava o vidro, iluminando um pouco o pequeno recanto. Cleybourne apontou para o banco, e Jessica sentou. Ele sentou ao lado dela, olhou para os dois lados do corredor à frente deles e puxou as duas portas, fechando-as. As portas tinham um trabalho em madeira vazado, portanto podiam ver através delas, mas a alcova permanecia escondida.

Jessica olhou em volta, surpresa.

— Nem sabia da existência deste lugar — sussurrou. Passara pelo trabalho em madeira diversas vezes mas não percebera que havia algo por trás.

Richard assentiu e chegou mais perto.

— Fazia parte da defesa original do castelo, um lugar para um arqueiro se posicionar e atirar. — Apontou para a janela estreita acima deles. — Depois, eles cobriram com vidro e fizeram deste vão um lugar para se sentar. Mais tarde, alguma alma secreta colocou as portas.

Jessica assentiu. Olhou para ele, que também estava olhando para ela. Richard ergueu a sobrancelha de forma questionadora.

— Não vai me dizer o que está fazendo? Jessica suspirou.

— Eu ia me esconder perto das escadas, ao lado do vaso de plantas, para vigiar.

— Por quê?

Jessica arqueou uma sobrancelha.

— Pelo mesmo motivo que você, acredito. Há algo estranho acontecendo, e quero descobrir o que é.

— Acho que não há nenhuma maneira de convencê-la a voltar para o quarto e deixar que eu vigie.

Jessica não conseguiu segurar um sorriso ao balançar a cabeça. — Tenho algo em jogo aqui. Ele ergueu uma sobrancelha, dizendo:

— E o que seria?

Antes que ela pudesse responder, ouviram uma porta se abrindo no corredor, e ambos se aproximaram da tela, olhando através dos arabescos, primeiro para um lado, depois para o outro. Duas portas adiante, uma mulher vestida com uma camisola preta saiu silenciosamente para o corredor e fechou a porta. Era Leona Vesey, o cabelo castanho-claro solto e cheio de cachos de forma convidativa sobre os ombros.

Olhou para os dois lados do corredor, depois atravessou-o rapidamente, parando em uma porta e batendo tão de leve que Jessica nem conseguiu escutar, apenas viu o movimento de sua mão. A porta se abriu, revelando um homem vestindo calças e uma camisa aberta e para fora da calça. O homem era o reverendo Radfield.

Ele estendeu a mão, sorrindo para Leona, pegou-a pelo pulso e puxou-a para dentro. Leona entrou de boa vontade, com um risinho, jogando-se sobre ele, que fechou a porta.

Jessica olhou para Cleybourne, perplexa. Ele correspondeu ao olhar e deu de ombros. Voltaram seus olhares para o corredor. Nos minutos seguintes, nada aconteceu. Jessica, mantendo os olhos na direção das portas, estava consciente da presença de Richard a seu lado. O corpo robusto dele enchia o lugar, o ombro tão perto do dela que quase se tocavam. Podia sentir o calor dele, sentir o cheiro da espuma de barbear e do corpo masculino que era exclusivamente dele, escutar o som de sua respiração.

Ocorreu-lhe que ficar com ele assim dificultava sua decisão de evitá-lo. Ficarem sentados juntos no escuro era algo muito íntimo. Sempre que ele se aproximava para sussurrar alguma coisa em seu ouvido, a respiração dele atingia o cabelo e a pele dela, fazendo com que pequenas ondas de desejo atravessassem seu corpo. Ela não conseguia deixar de se lembrar dos beijos dele na outra noite e das deliciosas sensações que surgiam com seu toque. Jessica disse a si mesma que deveria voltar para o quarto; estava se colocando em perigo.

Um barulho no corredor fez com que ela pulasse. Olhou para fora e viu lorde Vesey fechando a porta e atravessando o corredor. Estava indo na direção do quarto de Gabriela, e Jessica sentiu Richard ficar tenso a seu lado quando Vesey parou em frente à porta de Gabriela. Ele esticou a mão, pegou a maçaneta e girou. Richard e Jessica ficaram de pé, prontos para abrir a porta e atravessar o corredor.

A maçaneta girou e parou. Estava trancada. Jessica suspirou aliviada e mergulhou de volta no banco enquanto Vesey dava de ombros, soltando a maçaneta e voltando para o corredor. Ele foi até as escadas e desapareceu.

— Aonde ele está indo? — sussurrou Jessica.

— Não faço idéia. Talvez eu deva segui-lo. Você poderia continuar aqui para vigiar e...

Ele parou quando outra porta se abriu. Ele e Jessica viraram-se mais uma vez. Desta vez, foi a sra. Woods que saiu do quarto. Ela, como os outros, olhou para os dois lados do corredor, depois saiu.

— Isso parece uma comédia francesa — murmurou Jessica. A sra. Woods parou em frente à porta que ficava a apenas duas portas de onde eles estavam. Como a porta ficava do mesmo lado do corredor, não conseguiram ver quem a abriu, mas ouviram o som quando se abriu e a sra. Woods entrou.

— Quem era? — perguntou Jessica.

— Não sei. Não consegui ver. Mas a porta é do quarto de Kestwick.

— Então lady Vesey está tendo um caso com o reverendo e a sra. Woods está se encontrando com lorde Kestwick. Será que Vesey foi encontrar alguém lá embaixo?

— Não há ninguém jovem o suficiente para ele, exceto Gaby, mas ele não conseguiu. — Richard suspirou. — Infelizmente, não consigo entender como alguns encontros românticos podem ter feito alguém invadir meu escritório. O que volta as possibilidades na direção de Vesey.

Ele olhou para o corredor.

— Estou quase temendo ir atrás dele e acabar encontrando com alguém, visto que o corredor está movimentado — disse ele secamente, depois levantou-se. — Bem, devo me aventurar lá embaixo atrás dele. Fique de olhos bem abertos.

Jessica assentiu, e Richard passou pela porta em silêncio. Em um momento, estava fora de seu campo de visão. Ela esperou, vigiando o corredor escuro, mas nada aconteceu. Imaginou o que Richard estava fazendo, se encontrara Vesey. Minutos se passaram. Exatamente quando estava começando a pensar em ir atrás de Richard, uma forma escura apareceu no topo das escadas. O coração dela disparou, mas, quando a sombra se virou e seguiu pelo corredor, Jessica reconheceu Richard.

Ele atravessava o corredor na direção dela. Houve o estalo de uma porta se abrindo. Richard girou e olhou por cima do ombro, depois deu mais alguns passos rapidamente e se escondeu entre o vaso de plantas e a mesa, onde fora a primeira intenção de Jessica ficar.

Jessica observou enquanto a sra. Woods mais uma vez entrou em seu campo de visão. Caminhou até sua porta, que ficava quase em frente ao lugar onde Richard estava se escondendo. Jessica prendeu a respiração, com medo que a mulher se virasse e o visse.

Mas ela não fez isso: apenas foi até a porta, abriu-a e entrou. Richard levantou-se e correu o resto do caminho até a alcova. Abriu a porta e entrou, se jogando no banco ao lado de Jessica.

— Graças a Deus — disse Jessica em voz baixa. — Achei que tivesse sido pego.

— Eu também. Fiquei me perguntando como explicaria à Sra. Woods o que estava fazendo me escondendo atrás de vasos de plantas em minha própria casa e espionando as pessoas.

Jessica sorriu.

— Parece mesmo absurdo. — Ela se aproximou, sussurrando: — Mas e Vesey? Você o encontrou?

— Encontrei. — O tom de voz dele era de repulsa. — O sujeito está vadiando em uma das poltronas do meu escritório, bebendo meu vinho do Porto. Bastardo insolente. — Ele olhou para Jessica. — Desculpe.

— Não precisa se desculpar — respondeu Jessica. — Não parece provável que ele estivesse lá tão calmo agora se tivesse sido ele mesmo que o revistou no escuro duas noites atrás.

— Só Deus sabe do que Vesey é capaz. — Richard ficou em silêncio por um momento, depois disse com calma: — Por que estava me evitando hoje?

— O quê? —Jessica olhou para ele, depois desviou o olhar. — Eu não estava.

— Em todos os lugares em que eu entrava, você não estava. — Richard passara a maior parte do dia vagando pela casa, sem nem perceber que a estava procurando até entrar no quarto de Rachel e sentir o peito ficar mais leve ao encontrar Jessica. Então, ela saíra na mesma hora, mal olhando para ele.

Jessica olhou para ele com frieza.

— Eu estava fazendo o que sou paga para fazer: ensinando Gabriela.

— Entendo. Mas isso não explica por que nem olhou para mim durante o jantar esta noite. — Aproximou-se dela, e quando Jessica virou-se para responder, encontrou o rosto dele a poucos centímetros do seu.

Ficou congelada, incapaz de se mexer, incapaz de pensar, sem perceber nada, exceto o quão intensamente desejava que ele a beijasse. Um calor surgiu em sua barriga, só de pensar na cena.

— Por favor...

Houve um leve tremor na voz dela, uma vulnerabilidade, que o apunhalou com um desejo, da mesma forma que fez com que quisesse passar os braços em torno dela e protegê-la.

—Jessica...

Pousou o dedo indicador no rosto dela, lentamente deslizando-o pela pele macia. Jessica fechou os olhos enquanto o prazer a dominava. Sabia que deveria fazer com que ele parasse, deveria protestar, mas sua língua parecia presa, os lábios incapazes de se mexer.

— Você é tão linda. — Ele abriu a mão, pegando o rosto dela. — Tão apaixonada. Na outra noite, eu...

— Não — disse Jessica com a voz engasgada, corando com as palavras dele. — Por favor, não. Eu sei que fui... Estou tão envergonhada por...

— Não! Não diga isso. Não pense nisso. Você não fez nada de errado. — disse, a voz baixa e ardente. — Eu agi errado. Eu fui um... um cafajeste por agir daquele jeito, de beijá-la sabendo que não tenho direito. Você não fez nada de errado. Foi encantadora... desejável... Foi tudo que um homem pode desejar. — A mão deslizou pelo cabelo dela, acariciando-o.

Os cachos enrolaram-se nos dedos dele, unidos e suaves, roçando na superfície áspera da pele dele, deixando-o com o desejo à flor da pele. Jessica olhou para ele, os olhos escurecidos, e ele teve dificuldade de se lembrar dos milhares de motivos por que não devia beijá-la. Só conseguia pensar em quão macios os seios dela pareceram em suas mãos, em quão delicioso era o gosto da pele dela em sua língua, em como ela se entregara a ele com confiança, desfazendo-se em paixão quando ele mal começara a lhe dar prazer. Pensou em como ela seria quando explorasse seu corpo completamente, quando lhe mostrasse o quanto ainda esperava por ela, em como tremeria, a pele pegando fogo, em como gemeria de alívio.

— Jessica... — A voz dele estava áspera de desejo quando se inclinou e a beijou.

Escutou o breve suspiro dela, sentiu a respiração dela em sua boca e estremeceu, enterrando os lábios com mais intensidade ainda. As mãos desceram até os ombros dela, puxando-a para si. Os braços de Jessica envolveram seu pescoço, e ela correspondeu ao beijo, a língua dela enroscando-se à dele. O sangue pulsava nas veias dela, fazendo a cabeça latejar. Os seios pareciam mais volumosos e tenros, e ela sabia que queria sentir as mãos de Richard neles. Tinha consciência de que estava agindo de modo desavergonhado, que devia ser uma terrível mulher libertina, mas, neste momento, não se importava. A única coisa que importava era o desejo tomando conta dela.

Suas mãos acariciaram as costas dele, explorando os rígidos músculos por baixo da camisa. Deslizou as mãos pelos ombros dele até o peito. Escutou quando ele prendeu a respiração de prazer enquanto seus dedos acariciavam-no, e o som a excitou ainda mais. Jessica lembrava-se dos lábios dele em sua pele, e de repente quis saboreá-lo da mesma forma, beijá-lo e acariciá-lo. Os dedos foram até os botões de cima da camisa dele, abrindo-os, e a mão deslizou por baixo do tecido, escorregando pela pele nua do peito dele.

Richard fez um movimento brusco, um leve gemido escapando de seus lábios, e Jessica logo começou a tirar a mão. Mas ele a segurou, interrompendo o movimento.

— Não — murmurou ele, a respiração ofegante. — Não pare.

Ele beijou o rosto dela, a orelha e o pescoço enquanto Jessica explorava seu peito. As pontas dos dedos dela deslizaram pelos mamilos masculinos. Circulou um com a ponta do dedo, satisfeita com a descoberta de que se contraía e enrijecia de desejo assim como os dela. Os dedos alisaram o triângulo de pêlos que havia no centro do peito dele e desceram ainda mais, seguindo até uma única linha que descia pelo estômago. A camisa impedia o movimento, e ela parou, frustrada, mas ele rapidamente desabotoou o resto, permitindo que a mão dela descesse mais.

Richard soltou um leve gemido quando Jessica colocou a mão sobre seu estômago e afastou as laterais da camisa, abrin-do-a. Ela empurrou o peito dele, e ele cedeu facilmente, recostando-se até tocar a parede. Ela continuou, inclinando-se para roçar os lábios no centro do peito dele. Richard soltou um som suave, as mãos fechadas, mas não se afastou, então Jessica sentiu-se estimulada a continuar. Beijou o peito dele até chegar ao mamilo, onde passou a língua como ele fizera no seu. Ele mergulhou as mãos no cabelo dela, apertando. Gentilmente, Jessica começou a sugar. O corpo dele ficou tenso, mas, quando Jessica começou a levantar a cabeça, ele a impediu.

Ela sorriu tocando a carne dele com a boca, excitada pela resposta, e moveu-se para o outro lado para começar a trabalhar naquele mamilo. Provocou-o com a língua, satisfeita pela forma como ele prendia a respiração e a pele queimava quando ela tocava algum ponto que o excitava particularmente. As mãos dela envolveram-no e subiram por suas costas por baixo da camisa enquanto a boca finalmente se apertava contra o mamilo. Ele estremeceu, gemendo o nome dela, e esticou o braço, desabotoando o vestido dela e colocando as mãos por baixo do corpete, segurando-lhe os seios.

De repente, ele a puxou para o colo para que ela ficasse montada nele, e enterrou o rosto entre seus seios. Segurando os volumosos montes brancos nas mãos, deleitou-se neles. Jessica sentia uma umidade jorrar entre suas pernas. Podia sentir a extensão do desejo dele pulsando através das roupas, e moveu-se instintivamente contra ele, buscando acalmar a ardência que crescia ali, quente, suave e vulnerável. As mãos dele desceram pela saia dela e moveram-se por baixo, deslizando pelas coxas até alcançar a curva das nádegas, e ele cravou as pontas dos dedos na carne macia.

Foi neste momento que um grito rompeu o ar.

 

Jessica e Richard se separaram ao escutar o som, e se olharam por um instante, atordoados.

Richard ficou de pé em um pulo e abriu as portas, correndo para o corredor. Jessica estava bem atrás dele. Correram em direção à escadaria, de onde parecia que o som tinha vindo, Jessica abotoando o vestido apressadamente. Por todo lado, em todo o corredor, as portas estavam se abrindo e havia um animado burburinho de vozes. Richard chegou ao topo das escadas e parou, e Jessica também parou bruscamente ao lado dele. Ambos olharam para baixo da longa escadaria. Jessica sentiu o estômago revirando e a cabeça de repente leve.

Uma mulher com cabelo escuro estava deitada no chão abaixo das escadas, a camisola azul-marinho emaranhada a sua volta. A cabeça estava virada para o lado em um ângulo pouco natural. Era a sra. Woods.

A mão de Richard segurou o braço de Jessica, os dedos cravando na pele dela.

— Não desmaie. Jessica assentiu de leve.

— Não vou desmaiar. Estou bem.

Richard desceu as escadas, Jessica atrás dele. Lá embaixo, ajoelhou ao lado do corpo e, sem necessidade, pegou o braço da mulher e sentiu o pulso. Era claro que o pescoço estava quebrado. Jessica ficou parada, olhando para o corpo sem vida da sra. Woods. Ela estava pálida.

Houve um gemido sem palavras acima deles. Jessica virou-se e olhou para cima. Os hóspedes estavam todos juntos no topo da escada, todos olhando para baixo, atordoados. Foi o reverendo Radfield quem fez o som. Estava congelado, olhando, o rosto branco e cheio de horror.

— Reverendo Radfield... — disse Jessica.

Por um momento, o homem não se moveu; então virou-se e olhou para ela, perplexo. Jessica assentiu de forma significativa para a Sra. Woods. Os olhos dele voltaram para o corpo e depois para Jessica, ainda sem compreender.

— Uma oração? — sugeriu Jessica.

— O quê? Ah! Sim, claro. — Ele desceu as escadas, seguran-do-se no corrimão para ter apoio.

Jessica supôs que ele nunca tinha visto uma morte violenta, dada a aparência dele. Certamente, o pastor já vira corpos de pessoas mortas antes, mas com certeza estavam mais arrumados que esse.

Ele se ajoelhou ao lado da sra. Woods e pegou a mão dela, segurando-a entre as suas. Começou a recitar um hesitante Pai-nosso, depois sentou-se nos tornozelos, enxugando o rosto com as costas da mão.

— Ela só deveria morrer mais adiante — murmurou ele, e colocou a mão da mulher de volta ao lado do corpo. Levantou-se e afastou-se, sentando em um degrau e encostando na balaustrada.

Lorde Vesey aproximou-se da escada vindo do salão principal, segurando uma vela, e parou, oscilando, olhando para a mulher.

— Meu Deus! — exclamou, perplexo. — Que diabos aconteceu aqui?

— Ela caiu? — perguntou uma voz de mulher do topo da escada. Jessica virou-se para ver. Era Rachel, parada com os braços em volta de Gabriela de forma tranqüilizadora.

— Não sei. — Richard ficou de pé, franzindo a testa. — Ela, obviamente, caiu da escada, só não sei se tropeçou... ou se foi empurrada.

Houve um gemido coletivo no topo da escada.

— Que diabo! — respondeu na mesma hora lorde Kestwick. — Por que disse isso? Quem a teria empurrado? Por quê? Está claro que ela escorregou e caiu.

— A esta hora da noite? É um pouco tarde para ela estar vagando pelas escadas. — Richard foi até lorde Vesey e pegou a vela, trazendo para perto do corpo e mais uma vez abaixan-do-se ao lado dela. — Há um corte no rosto dela, e está vermelho em volta. Para mim, parece que foi feito quando alguém a atingiu, empurrando-a escada abaixo.

A srta. Pagerty começou a chorar e lorde Kestwick disse, irritado:

— Veja o que você fez.

— Isso é ridículo! — exclamou Leona. — Richard, você está sendo melodramático. Por que ela não pode ter machucado e cortado o rosto enquanto rolava pelas escadas?

— É possível, eu acho... — Richard olhou para o grupo no topo da escada. — Alguém viu a sra. Woods cair?

Encontrou um silêncio intenso. Assentiu rapidamente.

— Tudo bem. Acho que temos de tratar disso como se fosse proposital. Estamos presos aqui por causa da neve. Não há como chegarmos à aldeia para chamar o juiz. Portanto, por enquanto, eu vou assumir o caso.

Levantou a cabeça e olhou em volta, vendo Baxter e os outros serviçais, que tinham se reunido a alguma distância deles.

— Baxter, ilumine um pouco o ambiente. Pegue cobertores e enrole o corpo. — Ele parou. — Por enquanto, dado o clima, o melhor seria colocar o corpo dela em um cômodo no exterior da casa. Deixe-o trancado para que fique seguro.

— Sim, Alteza.

— Precisamos reunir todos os fatos que conseguirmos agora mesmo — continuou Cleybourne, falando com os hóspedes. — Tenho certeza que nenhum de nós conseguiria voltar a dormir em seguida. Quero todos na sala de estar. — Quando um ou dois começaram a se virar, ele acrescentou rapidamente: — Não voltem para seus quartos, desçam direto para a sala de estar. Baxter... — Virou-se para o mordomo. — Mande uns dois lacaios lá para cima. Eles podem acompanhar todos para a sala de estar formal pela escada dos fundos.

— Muito bem, Alteza. — Baxter falou com os serviçais, e dois dos lacaios mais robustos subiram as escadas em direção ao grupo de pessoas, cuidadosamente contornando o corpo que estava estendido ao pé da escada.

— Cleybourne, veja bem — disse lorde Kestwick, o rosto corado. — O que você acha que está fazendo? Não pretendo ser acompanhado por seus lacaios. Vou voltar para meu quarto e...

— Não! — A palavra estalou no ar como um chicote. Cleybourne encarou Kestwick, o rosto parecendo pedra, e de repente cada centímetro de seu corpo era de um duque. — Ninguém vai voltar para os quartos. Todos vão para a sala de estar e esperar, e eu falarei com um de cada vez. Houve uma morte nesta casa, e não tenho a intenção de deixar isso passar sem uma investigação. Já que estão na minha casa, farão o que eu disser, e acho que não há muita possibilidade de saírem daqui agora.

— Como ousa?

— Pretende me desafiar, Kestwick? — perguntou Cleybourne com calma, e subiu um degrau da escada, as mãos fechadas.

O olhar de Kestwick foi até os punhos de Cleybourne, depois desviou. Pressionou os lábios e inclinou a cabeça de leve na direção do duque.

— Não. Claro que não. Como você disse, é a sua casa.

—Mas, Richard, isso é mesmo necessário?—reclamou Leona.

— Sim, minha lady, é necessário. — O sr. Cobb falou de repente, surpreendendo a todos. Deu um passo à frente do grupo. — O duque tem esse direito. Há algo estranho nessa morte, e essa é a verdade.

— O que você sabe sobre isso? — perguntou Darius Talbot, com desdém.

— Bastante, se deseja saber — respondeu Cobb com calma. Olhou para Cleybourne. — Sou detetive de polícia em Londres, Alteza, e ofereço meus serviços ao senhor neste caso.

— Um detetive! — deixou escapar Goodrich.

A srta. Pagerty ofegou e colocou a mão no pescoço de forma dramática. Gabriela olhou para o homem com interesse renovado. Jessica sentiu vontade de soltar uma risada ligeiramente histérica. De todos os hóspedes, acreditava que o sr. Cobb era o que tinha a maior probabilidade de ser um criminoso, e agora descobria que ele era um agente da lei!

Cleybourne avaliou o homem por um momento, depois disse:

— Muito bem, sr. Cobb, eu aceito. Pode ir até a sala de estar com os outros e acompanhá-los, um de cada vez, ao meu escritório; nós dois iremos interrogá-los lá.

Cobb assentiu.

— Certo, Sua Alteza.

Virou-se e começou a conduzir os hóspedes pelo corredor até as escadas dos fundos, ajudado pelos lacaios. Lorde Kestwick parecia que estava prestes a protestar de novo, mas Cleybourne abrandou-o com um olhar.

Jessica caminhou até as escadas, onde o reverendo Radfield permanecia sentado, encostado na balaustrada e olhando para o pé. Jessica inclinou-se e tocou seu ombro, dizendo com calma:

— Reverendo...

Ele a fitou com o olhar distante.

— Precisa ir com os outros. — Jessica apontou o topo das escadas, de onde os outros hóspedes estavam se dirigindo às escadas dos fundos.

— O quê? Ah. — Ele agarrou a balaustrada e se levantou, depois virou e subiu as escadas atrás dos outros.

Jessica virou-se para Cleybourne. Os olhos dele se acalmaram um pouco enquanto ela ia em sua direção.

— Acredito que você também vai desafiar minha autoridade — disse ele sem rancor.

— Ah, não, eu não faria isso — respondeu, sorrindo para ele.

Sabia que provavelmente era errado de sua parte e mostrava que não tinha a sensibilidade que uma dama deveria ter, mas, por mais triste e chateada que estivesse com a morte repentina da sra. Woods, não podia deixar de se sentir protegida e até feliz ao olhar para o rosto de Richard. Isso era amor?, perguntou-se. Será que já caíra na armadilha que jurara que evitaria? Ou isso era apenas a sobra da intensidade do desejo que sentira nos braços dele apenas alguns minutos antes na alcova? Independentemente do que fosse, ela percebeu que ele retribuiu o sorriso.

— Eu ia apenas comentar — continuou Jessica — que vai precisar de alguém para anotar o que os outros vão dizer. Para ter algo para mostrar às autoridades quando conseguirmos sair.

— Você está certa. — Ele parou, depois disse: — E não acredito que você conheça alguém que seja capaz de escrever com rapidez e precisão.

— Acontece que eu costumava ajudar o general a escrever suas memórias. Ele ditava e eu escrevia. Desenvolvi alguns códigos para tornar minha escrita mais rápida.

— Muito bem, então. — Surpreendeu-a ao pegar a mão dela e apertá-la de leve. — Para falar a verdade, eu gostaria muito de ter a sua opinião.

Por dentro, Jessica sentiu a animação que as palavras dele lhe causaram. Não tinha consciência de como isso fez seus olhos brilharem, mas Richard viu e ficou mais uma vez perplexo pela beleza dela. De repente, quis puxá-la para si e abraçá-la por um momento, mas tinha plena consciência da presença dos empregados ao pé da escadaria, então não o fez.

— Talvez você prefira ir para o escritório pela escada dos fundos também — sugeriu ele. — Colocarei um lacaio de guarda na porta do quarto da sra. Woods. Acho que seria uma boa idéia inspecioná-lo depois de falarmos com as pessoas.

Alguns momentos depois, eles estavam sentados no escritório, Jessica à mesa de Cleybourne com papel à frente e uma caneta no tinteiro, e Richard sentado em frente a ela em uma das duas cadeiras. O hóspede interrogado sentaria na outra cadeira, encarando-o, enquanto o sr. Cobb se sentaria em uma cadeira perto da porta, longe dos outros, mas com uma boa visão do rosto do interrogado.

O sr. Cobb estava indo em direção à porta para trazer a primeira pessoa, mas Richard o impediu.

— Espere, sr. Cobb, antes de começarmos, acho que devemos esclarecer uma coisa.

— Ah. O senhor deve querer ver minhas credenciais, garanto. — O homem colocou a mão no bolso de trás e tirou um papel, que entregou ao duque.

Richard leu com atenção e devolveu.

— Eu acho que, considerando as circunstâncias, tenho o direito de saber exatamente o que está fazendo aqui e por quê. Você não chegou com a diligência. Já planejava vir para esta casa antes da neve? Para quem está trabalhando?

Os detetives de polícia de Londres, Jessica sabia, eram contratados por cidadãos para descobrir quem cometera um crime.

— Não me importo em dizer, Alteza — disse o homem atarracado sem problemas. — Foi um sr. Joseph Gilpin que me contratou, um cidadão rico de Londres. Roubaram algumas jóias valiosas da casa dele, e ele me contratou para encontrá-las. Suspeitava que o ladrão fosse um professor de dança que contratara para as filhas. Eu tinha razões para acreditar que ele pegara a diligência para York, então estava seguindo-o.

— Quer dizer... a mesma diligência em que os outros hóspedes estavam? — perguntou Jessica.

O sr. Cobb olhou para ela e deu de ombros.

— Talvez, senhorita. Eu tinha razões para achar que sim. Ele não podia ter fugido muito antes. Se estava na diligência, então está nesta casa. Pessoalmente, acredito que seja o Goodrich. Ele faz o tipo nervoso. Sempre faz o possível para se manter bem longe de mim.

— Entendo.

— Claro — continuou Cobb, filosofando —se o sujeito pegou a diligência na véspera, então perdi o rastro dele, ainda mais com a neve me prendendo aqui.

— Um ladrão... — refletiu Richard. — Então você acha que Kestwick podia estar certo naquele jantar quando disse que era um ladrão no meu escritório na outra noite? Que estava procurando para decidir o que poderia roubar?

— Bem, ele é um ladrão audacioso — disse Cobb. — De acordo com o sr. Gilpin, ele morou com eles por duas semanas, depois roubou as jóias bem debaixo do nariz de todos. Não é o procedimento usual de entrar e sair da casa sorrateiramente no escuro. Se eu fosse um ladrão, senhor, e me visse em uma casa como a sua, acho que ficaria tentado a ver o que poderia encontrar para levar comigo. Principalmente, se eu me considerasse astuto. — Bateu de leve com o dedo na têmpora. — É isso que acaba com eles, posso garantir. Achar que são muito mais espertos que todos os outros. São traídos pelo orgulho.

O sr. Cobb saiu para trazer o primeiro hóspede para ser interrogado. Depois que ele saiu, Jessica disse:

— Acha que o ladrão do sr. Cobb tem alguma coisa a ver com o que aconteceu com a sra. Woods? Que é o mesmo que você surpreendeu no seu escritório?

Richard deu de ombros.

— Está tudo muito confuso. Nem tenho certeza se a sra. Woods simplesmente caiu, como todo mundo obviamente acredita. Mas aquele corte no rosto dela, e o avançado da hora...

A porta se abriu e lady Westhampton entrou. O interrogatório foi breve, já que ela fora para a cama mais cedo, cuidando da gripe, e não vira nem escutara nada até o grito da sra. Woods acordá-la. O interrogatório com Gabriela foi a mesma coisa, e Richard mandou a menina e lady Westhampton de volta para os quartos para descansar. Em seguida veio a srta. Pagerty, que estava ansiosa para falar. De fato, eles logo descobriram que era difícil fazê-la parar.

— Eu sabia que a mulher traria problemas — disse ela, balançando a cabeça para enfatizar. — Desde o início. Aparência de estrangeira. Garanto que era capaz de qualquer coisa. Entrava e saía do quarto altas horas da noite.

— A senhorita viu a sra. Woods sair do quarto dela? — perguntou Richard, inclinando-se para a frente com interesse.

— Não vi nenhum deles. Mas podia escutar. Era difícil uma pessoa decente conseguir pregar o olho: as portas ficavam abrindo e fechando.

— Mas não viu nem escutou especificamente a sra. Woods.

— Não — admitiu a srta. Pagerty com relutância.

— E os outros? Viu alguém saindo do quarto? Ou reconheceu alguma voz que escutou?

— Escutei aquela lady Vesey — disse ela, apertando os lábios. — Eu a escutei rindo, mas não vi para onde foi.

Terminaram os interrogatórios femininos com lady Vesey. Ela entrou e sentou, parecendo, pela primeira vez, submissa.

— Estou certa que não tenho nada importante para dizer, Cleybourne — disse ela, suspirando. — Não vi a mulher caindo. Vim correndo quando escutei o grito.

— E de onde você saiu? — perguntou Richard diretamente. Ela lhe lançou um olhar rápido, depois olhou para as mãos.

— Não entendo por que isso pode ser da sua conta.

— Se você estava com outra pessoa, isso provaria que não empurrou a sra. Woods pelas escadas — disse Richard.

Leona ofegou, ultrajada.

— Como se eu tivesse alguma coisa a ver com isso!

— Não vejo como poderia beneficiá-la—concordou Richard.

— Do contrário, suspeitaria mais de você. Ela estreitou os olhos.

— Não precisa me insultar, Cleybourne. Você sabe que não a empurrei escada abaixo. Por que eu faria isso? — Ela jogou o cabelo para trás, olhando para ele com certa provocação. — Bem, eu estava com alguém. Mas seria um escândalo. Não posso dizer.

— Acho que faço uma idéia — respondeu Richard.

— Duvido.

— O reverendo Radfield.

Leona encarou-o com os olhos arregalados.

— Como você...?

— O que quero saber é se vocês dois ainda estavam juntos quando a sra. Woods morreu.

— Tem de me prometer que não vai contar nada — disse Leona, mostrando-se relutante, depois deu de ombros e disse:

— Sim, estávamos juntos no quarto dele quando ela gritou. Então você sabe que não foi ele nem eu. Pessoalmente, duvido que a mulher tenha sido assassinada. Foi um acidente, e você gosta de ser intrometido. — Ela parou e acrescentou o que, para ela, devia ser o golpe mortal: — Não posso imaginar o que vi em você.

— Humm. Nem eu, lady.

Leona saiu rápido do escritório, e o sr. Cobb olhou para Cleybourne com respeito renovado.

— Bem, o senhor sabe das coisas, Alteza. Como sabia que ela e o reverendo estavam... — Ele hesitou, olhando para Jessica, e acrescentou: — Desculpe, senhorita.

296

— Porque eu estava vigiando esta noite. Depois de tudo que aconteceu, achei que seria uma boa idéia. — Ele apertou os lábios. — Infelizmente, não estava mais vigiando quando a sra. Woods morreu. — Manteve o olhar no detetive, cauteloso para não olhar na direção de Jessica.

— Isso não me surpreende — refletiu Cobb. — Essa mulher é do tipo que faz qualquer um se esquecer da batina.

Começaram a interrogar os homens depois disso, mas também tiveram pouco sucesso. O sr. Goodrich, piscando os olhos e se mexendo na cadeira, disse que estava na cama, dormindo profundamente, e não vira nem escutara nada. Lorde Vesey explicou que estava no andar de baixo, no escritório de Cleybourne o tempo inteiro, bebendo um pouco de vinho do Porto, e como o próprio Richard vira o fato, havia pouco a discutir.

O reverendo Radfield também professou não saber o que acontecera. Pálido e distraído, sentou-se desanimado, olhando a maior parte do tempo para o chão.

— Onde estava quando escutou o grito? — estimulou Richard.

— Ah, em meu quarto... lendo. — Ele se mexeu.

— Havia alguém com você?

Os olhos do homem arregalaram-se para Richard, e ele o encarou por um longo tempo, depois desviou o olhar.

— Por que... por que pergunta?

— É muito importante que diga a verdade agora, senhor — disse Richard, sem desviar o olhar do outro homem.

— Eu... bem, é que... — Ele limpou a garganta e olhou na direção de Jessica, que estava ocupada escrevendo suas palavras. Voltou a atenção para Richard. — Sim — disse finalmente com a voz baixa. — Havia alguém comigo. Eu... O senhor deve entender, não posso dizer quem era. Uma lady... o nome dela... não posso arruinar sua reputação.

— Entendo. Bem, é óbvio que não a conhece o suficiente para achar que poderia arruinar a reputação dela.

Radfield arregalou os olhos assustado.

— Alteza! — Os olhares dos dois se encontraram por um momento, e foi Radfield quem cedeu. Com um suspiro, ele se inclinou, apoiando os cotovelos nos joelhos e mergulhando a cabeça nas mãos levantadas. — Qual a utilidade disso? Claro, o senhor está certo... não há nada lá para ser arruinado. — Passou a mão pelo cabelo. — E pensar que eu estava com aquela prostituta enquanto ela estava se encaminhando para a morte!

O jovem parou, prendendo a respiração.

— Quando foi que lady Vesey saiu de seu quarto? Radfield balançou a cabeça, sem olhar para ninguém.

— Depois do grito. Nós escutamos e, então, corremos para o corredor, como todo mundo. — Ele finalmente levantou a cabeça, olhando para Cleybourne com uma expressão sofrida. — Eu me arrependerei desta noite a minha vida inteira.

Lorde Kestwick foi o próximo, e entrou no escritório nervoso.

— Cleybourne, o que está fazendo ao me deixar esperando todo esse tempo enquanto conversa com cada... — Ele parou quando o olhar pousou em Jessica. Virou-se para a porta e viu que Cobb o seguira até o escritório e fechara a porta e agora estava sentado em uma cadeira, reclinando-se e levantando as pernas da cadeira. — Que diabo! O que significa isto? Não me diga que espera que eu converse com você com... essas pessoas no escritório.

A expressão no rosto dele era de uma pessoa a quem se pediu para dividir espaço com ratos. Virou-se para Richard de forma arrogante.

— Veja, tenho um assunto a discutir com você. Você é um igual. Mas uma governanta? Um detetive?

—A srta. Maitland está aqui para anotar tudo, lorde Kestwick. Parece que ela tem experiência com isso. E acho que o detetive é uma pessoa particularmente apropriada para estar neste interrogatório. Afinal, existe a possibilidade de desonestidade.

Kestwick virou os olhos.

— Não sei o que se passa na sua cabeça. Quero dizer, Cleybourne, não acha que está sendo um pouco dramático a respeito disso tudo?

— Costumo achar a morte um evento dramático — respondeu Richard friamente.

— Mas, quero dizer, todos esses interrogatórios e suspeitas. Meu Deus, a mulher simplesmente tropeçou.

— Como sabe? — perguntou Richard com calma. — Você a viu?

— Claro que não! Eu estava em minha cama dormindo... como gostaria de estar agora.

— Você parece extraordinariamente frio a respeito da coisa toda, Kestwick — disse Richard de forma casual —, para um homem que recebeu a falecida recentemente em seu quarto.

— Que diabo! — exclamou Kestwick, e do outro lado do escritório, as pernas da cadeira do sr. Cobb bateram no chão fazendo um estrondo. Kestwick encarou Cleybourne por um longo tempo, depois disse com sarcasmo: — Então anda espionando seus hóspedes?

— Tenho sido cauteloso desde que encontrei um intruso neste escritório. — Richard parou, depois continuou: — Agora, poderia nos falar sobre a sra. Woods?

— Certamente que não! — respondeu o outro homem, o rosto assumindo linhas mais aristocráticas. — Isso não é da sua conta. E a reputação de uma mulher está em jogo.

— Como ela está morta, duvido que a reputação realmente importe agora. E quando alguém morre na minha casa, definitivamente, passa a ser da minha conta. Está se recusando a explicar? É isso que devo dizer ao juiz... que apenas o lorde Kestwick ocultou informações?

Kestwick deu um sorriso, mas disse:

—Tudo bem, então, sim. Tive um... encontro com essa mulher. Ambos somos adultos. E ela é... era... uma mulher atraente, uma viúva. Não seduzi uma inocente. Além disso, já que estava me espionando, acredito que também tenha visto a sra. Woods sair do meu quarto. Fui dormir depois disso. Não a vi mais até que você a encontrou estendida ao pé da escada.

Ele olhou para o duque por um momento, a expressão fria, até desafiadora.

— Sabe, Cleybourne, devo dizer que estou tentado a lhe perguntar onde estava quando tudo isso aconteceu. Fiquei surpreso por ter sido o primeiro a chegar às escadas.

Richard não disse nada, apenas assentiu para Cobb, que na mesma hora ficou de pé e abriu a porta para conduzir lorde Kestwick para fora.

— Droga! — disse Cobb, voltando para o escritório depois de Kestwick ir embora. — Esse aí não tem coração. E pensar que estava ao lado dele quando estávamos olhando para a pobre mulher. Nunca poderia supor que ele sequer falara com ela, e tinha acabado de... — Ele parou, balançando a cabeça. — Nunca vou entender os bem-nascidos.

— É injusto, sr. Cobb — disse Richard com um sorriso fraco —, achar que somos todos como lorde Kestwick. Não é o título que ele tem que o faz ser frio, sem coração. Infelizmente, ele está certo. Ela saiu do quarto dele e voltou para o dela. Eu vi. — Richard praguejou baixinho, afastando-se da mesa. — Se eu pelo menos tivesse continuado a vigiar! Cobb deu de ombros.

— Bem, todos temos de dormir, Alteza. Não há pecado nenhum nisso.

— Não. Claro que não. — Richard olhou para Jessica e logo desviou o olhar. — Ainda assim, é muito azar...

— Só há mais um para interrogar, Alteza — disse Cobb. — Posso trazê-lo?

— Pode. Embora eu duvide que o sr. Talbot tenha algo pertinente a oferecer — disse Richard.

Ele estava certo. Darius entrou e, exceto por um olhar inicial para Richard, passou o tempo todo olhando para qualquer outro lugar, exceto para o interrogador. Como era de se esperar, ele não vira nem escutara nada, e desconhecia o paradeiro da sra. Woods por toda a noite.

— Inútil — disse Richard com repulsa assim que Darius saiu. — Bem, acho que a única coisa que nos resta fazer é dar uma busca no quarto da sra. Woods.

Jessica ficou satisfeita ao perceber que ele não fez menção de excluí-la dessa atividade, mas pareceu achar que ela podia juntar-se a ele e ao sr. Cobb. Achou que o sr. Cobb olhou-a com curiosidade, mas, obviamente, não ousou questionar o duque.

Os três subiram para o quarto da sra. Woods, onde um lacaio estava de guarda ao lado da porta. Richard abriu a porta e entrou, acendendo o velho lampião que estava na cômoda.

Por um momento, ficaram parados hesitantes no meio do quarto, olhando em volta. Parecia macabro, uma violação da mulher, fazer uma busca nas coisas dela depois de morta. Finalmente, Richard suspirou e disse:

— Bem, não podemos evitar. Por menos que queiramos, temos de dar uma busca no quarto. Não sabemos nem de onde ela veio nem para onde estava indo, ou a quem devemos notificar sua morte.

Jessica assentiu e foi até o armário, abrindo-o. Havia apenas poucos vestidos pendurados. Ela não se incomodara em tirar muitas coisas do baú, supôs Jessica. O baú ao pé da cama tinha mais roupas.

— Olhe estes vestidos — disse Jessica, pegando um vestido de cetim rosa.

Cleybourne olhou.

— Muito bonito.

— Não, quero dizer, olhe como é diferente dos vestidos que vimos a sra. Woods usando. Ela usava cores escuras: marinho, verde-escuro, e eram muito simples. Estes vestidos são bonitos, tecidos caros, cores vivas, muita renda e bordados. É estranho ela ter tipos tão diferentes de roupas. E mais uma coisa...

Ela fechou o baú, atordoada por um pensamento.

— Não sei por que isso não me ocorreu antes. Estas roupas, e até as que ela usava diariamente, por mais que fossem simples e escuras, são de bons tecidos e bem-feitas. São caras.

— E por que uma pessoa que pode pagar por vestidos caros estava viajando em uma diligência? — perguntou Richard, completando o pensamento dela.

— Exatamente. —Jessica foi até a cômoda, apontando para o conjunto de toalete de prata colocado ali. — Isto também é caro.

— Qualquer pessoa pode passar por tempos difíceis — disse Richard. — Ela pode já ter tido dinheiro e perdido, mas ainda ter as coisas que comprou no passado.

— É verdade — concordou Jessica. Por um tempo, depois do escândalo, ela ainda tinha algumas jóias e vestidos que eram muito caros para sua situação. — Pode-se vender jóias e móveis, mas ninguém quer comprar vestidos de baile já usados.

Richard considerou as palavras dela, mas não disse nada, apenas continuou abrindo as gavetas da cômoda e tirando objetos.

— O reverendo Radfield não o surpreendeu pela forma estranha como estava agindo? — perguntou ela, pegando os vários potes e jarras que ele estava tirando das gavetas e examinando-os. É óbvio que a sra. Woods costumava usar cosméticos para manter sua aparência.

— Você quer dizer além de ter relações ilícitas com mulheres casadas?

— Isso. Ele ficou abatido demais quando ela morreu. Parecia que ia desmaiar. E errou um pouco na oração, e a última coisa que ele disse... que ela só deveria morrer mais adiante? Isso não é uma coisa religiosa. Tenho certeza que é de Shakespeare. Macbeth, acredito.

— Talvez ele seja literato. Não há dúvida de que não está acostumado a ver corpos de mortos todos os dias. — Richard lançou um olhar cínico para ela.—Você percebe, srta. Maitland, que se fosse uma mulher elegante teria desmaiado ou tido um ataque histérico ou alguma coisa do gênero.

— Sem dúvida. Entretanto, desmaios e ataques histéricos não são o comportamento adequado para a filha de um soldado — replicou Jessica, pegando um pote e abrindo-o. — Mas pode-se dizer que um padre já deveria ter visto um bom número de pessoas mortas ou morrendo.

— Mas talvez não de morte violenta.

— Verdade. Além disso, ele não poderia tê-la assassinado. É uma das poucas pessoas que não fez isso. Ele estava com Leona na hora.

— É verdade. E talvez o desconforto dele venha de saber que estava indo contra um dos Mandamentos — acrescentou Richard.

Jessica fechou o pote de uma maquiagem cor de pele usada por atores no palco e abriu outro. Continha o mesmo tipo de maquiagem, porém mais escura. Jessica congelou, a mente voltando para a mulher morta nas escadas.

— Ah, Rich... quero dizer, Alteza! Olhe isto! Richard olhou para o pote.

— Ela pintava o rosto. Sim, ela tem muitos cosméticos. Cremes, ruge e lápis preto.

— Sim, mas você não percebe? Ela usava cosméticos que faziam com que parecesse mais morena do que realmente era. Não se lembra de como ela estava pálida esta noite? Lembro-me de prestar atenção nisso.

— Ela estava morta.

— Eu sei. Foi o que pensei na hora. Mas, agora, vendo isto... acho que não. Naquela noite, quando você perseguiu o homem, ela estava nas escadas com os outros quando voltamos para casa, e lembro-me de achar que ela estava muito assustada porque estava muito pálida. Mas em ambas as vezes era noite e ela já tirara a maquiagem. E mais uma coisa... vi isso hoje, mas não tinha pensado nisso até agora. O cabelo dela também era mais escuro!

Ela pegou um outro pote que ele acabara de colocar sobre a mesa.

— Isto é tintura, que algumas mulheres usam no cabelo. Acho que ela estava tentando ficar com uma aparência diferente. Estava se disfarçando. Por que faria isso? Por que viajaria em uma diligência? A não ser que estivesse fugindo de alguma coisa... ou de alguém.

Richard franziu a testa.

— Talvez. É verdade que ainda não encontrei nada de natureza pessoal entre os pertences dela... nenhuma carta, livro ou...

— Santa Mãe do Céu! — Veio uma exclamação do outro lado da cama, e eles viraram para olhar para o sr. Cobb.

Enquanto estavam falando, ele estava bisbilhotando todos os cantos do quarto, abrindo portas e gavetas. Por fim, ele se ajoelhara ao lado da cama e aparentemente encontrara alguma coisa embaixo da cama, já que havia uma mala aberta à frente.

— O que é isso? — perguntou Richard. — O que você encontrou?

Cobb colocou a mão na mala e pegou uma caixa menor. Ele a abrira, então a tampa estava levantada, revelando o conteúdo da caixa: várias jóias de diamante e safira.

— Acho que encontrei meu ladrão de jóias.

 

— O quê? Tem certeza? — perguntou Richard, aproximando-se do outro homem, Jessica atrás.

— Ah, tenho. Havia um retrato da esposa do sr. Gilpin usando este colar de diamantes — disse Cobb com confiança, pegando uma das jóias e colocando-a sobre a cama. — E estes brincos também.

Colocou as jóias e a caixa sobre a cama, depois pegou mais coisas da mala: uma carteira de couro contendo uma quantia assustadora de moedas de ouro; outra, menor, de onde ele derramou muitas pedras preciosas, e mais uma bolsa de pano contendo mais jóias.

— Terei de pegar minha lista, mas tenho quase certeza que muitas dessas outras peças combinam com as descrições das jóias roubadas. Levaram uma boa quantia de dinheiro também. E estas outras jóias... poderia apostar que foram roubadas de alguma outra pessoa no passado e separadas de seus conjuntos para facilitar a venda. — Ele balançou a cabeça. — Uma mulher! Nunca pensei... Bem, isso invalida a teoria do professor de dança.

— Então ela é... era uma ladra — refletiu Richard. — Mas não pode ser ela que eu encontrei em meu escritório naquela noite. Não era com uma mulher que eu estava brigando. Ele não era tão grande quanto eu, mas era forte demais para uma mulher.

— Isso é um problema — concordou Cobb. — Mas também não podemos negar as evidências, Alteza. Estas são as jóias dos Gilpin.

— Essa história está cada vez mais confusa — disse Jessica. — Será que há um segundo ladrão? Será que está ligado à sra. Woods? Ou será que a pessoa que estava em seu escritório tinha motivos completamente diferentes? E ainda não fazemos idéia de quem matou a sra. Woods, se, de fato, alguém a matou.

— Você está certa — concordou Richard. — Está muito confuso. Acho que nenhum de nós está pensando mais com clareza. Sugiro irmos dormir agora e deixarmos isso para amanhã. Talvez as coisas pareçam mais claras até lá.

Concordaram que precisavam dormir. Levando as jóias e o dinheiro para o andar de baixo, Cobb e Richard colocaram-nos no cofre, e Richard trancou a porta do escritório por segurança. Foram para o andar de cima, onde Cobb se separou deles, indo para seu quarto no terceiro andar. Richard e Jessica atravessaram o corredor até seus quartos, um ao lado do outro no final do corredor.

Apesar da hora, Jessica sentia-se sobressaltada e desperta, a mente girando. Passara por tantas emoções esta noite: a raiva e a dor pelo que foi feito com sua caixa de jóias; a paixão que experimentara nos braços de Richard; depois, o medo que o grito da sra. Woods causara; seguido do choque e do horror de encontrar o corpo dela. Sentia como se suas emoções estivessem abertas e expostas.

— Não faço idéia de como vou conseguir dormir esta noite — pensou em voz alta. — Neste momento, me sinto como se nunca mais fosse conseguir fechar os olhos.

— Não me diga que a formidável srta. Maitland está com medo — disse Cleybourne com um sorriso.

— Nervosa, talvez. E confusa. Não consigo parar de pensar nisso, de me perguntar... E onde minha caixa de jóias entra nessa história toda? Tudo deve estar ligado. Não posso acreditar em tantas coincidências.

— Sua caixa de jóias? — perguntou Richard, parecendo confuso. — Do que está falando?

— Ah, sinto muito. Não tive a oportunidade de lhe contar. Nós nos distraímos no corredor. Foi por isso que decidi vigiar esta noite. Minha caixa de jóias sumiu ontem.

— Sumiu? Por que não me contou?

— Não sei. Acho que não pareceu muito importante. E eu não podia acreditar que alguém realmente a roubara. Não era valiosa. Todas as minhas jóias e a caixa, juntas, não valeriam mais do que algumas libras. Tinha mais valor sentimental. Fiquei pensando que, se alguém tivesse pego, veria o pouco valor e devolveria... ou que misteriosamente tivesse sido colocada no lugar errado e apareceria mais cedo ou mais tarde. Então, hoje, uma das serviçais a trouxe para mim. Tinha encontrado na sala de música. Não estava faltando nada, exceto um pequeno brinco, mas... — A voz fraquejou um pouco, mas ela seguiu em frente. — A caixa foi destruída em pedaços.

— O quê?

Jessica deu de ombros.

— Estava toda quebrada. As jóias estavam todas lá, mas a caixa estava destruída. Não consigo imaginar por que alguém faria tal coisa. — Lágrimas escorreram de seus olhos, e ela as enxugou de modo impaciente. — Desculpe. Deve me achar uma boba por dar tanta importância. Não é nada importante se comparado à morte da sra. Woods. Mas foi meu pai que me deu, e por isso eu gostava tanto.

— Claro. E é importante. Mostre-me.

— Está lá dentro. — Chegaram à porta de Jessica e pararam enquanto conversavam. Ela abriu a porta, fechando depois que entraram para terem privacidade, depois levou Cleybourne até a cômoda.

— Meu Deus! — exclamou Cleybourne quando viu o estado da caixa de jóias. Foi até a cômoda e pegou um ou dois pedaços, olhando para eles, atordoado. Virou-se para ela, franzindo a testa. — Foi realmente destruída. Por quê? Quem iria... — Ele parou, o rosto ficando iluminado. — Claro.

— Claro... o quê? —Jessica olhou-o, surpresa. — Sabe quem fez isso?

— Tenho um palpite. Seu ex-noivo.

— Darius? — Jessica ficou boquiaberta. — Por que diabos Darius pegaria minha caixa de jóias e a quebraria?

— Porque é sua. Porque é preciosa para você. Um ladrão teria pego as jóias e deixado a caixa, ou levado tudo para vender. Mas destruir a caixa e deixar as jóias... isso mostra muita raiva. Direcionada a você pessoalmente. Ele tentou reconquistar seu interesse, e como você o rejeitou, ficou enfurecido. Humilhado. Eu piorei as coisas batendo nele e avisando para não se aproximar de você. Ele quer feri-la e sabe que não pode fazer isso sem sofrer as conseqüências. Mas isso... é uma coisa secreta, uma forma de feri-la sem que ninguém saiba.

Jessica olhou para a caixa.

— Acho que, de certa forma, isso faz sentido. É que... bem, não consigo imaginar que Darius me dê tanta importância, mesmo que de forma negativa. Foi tanto tempo atrás, e foi ele quem terminou o noivado, não eu. Acho difícil acreditar que ele me amou por todos esses anos, ou que tudo voltou quando me viu aqui. Tenho certeza que ele não gostou de eu tê-lo rejeitado, e certamente não gostou de ser humilhado na sua frente, mas... — Ela deu de ombros. — Isso demonstra emoções tão violentas! Mesmo assim, você está certo, parece raiva direcionada a mim pessoalmente, e ninguém aqui me conhece. Bem, exceto você, e não acho que seja o tipo de destruir caixas de jóias.

— Ora, obrigado. Estou honrado por confiar em mim dessa maneira.

— O que torna Darius a pessoa mais provável.

— Essa violência... parece tão impetuosa e irracional. Isso me faz pensar se quem fez isso também não matou a sra. Woods.

— Darius? Ah, isso parece pouco provável.

— Não sei. Essa destruição me parece estar à beira da loucura. Com certeza, indica uma pessoa com personalidade violenta e falta de controle. Parece o tipo de pessoa que poderia muito bem matar alguém... se ela cruzasse seu caminho, digamos assim. Se for o caso... se foi o sr. Talbot, você está em perigo.

— Não. Não pode ser Darius — disse Jessica com firmeza. — Isso é impossível. Primeiro porque ele nem conhece a sra. Woods.

— Como sabe? Você não via o homem nem sabia o que andava fazendo durante dez anos.

— Mas não há nenhum indício de que ele a conhecesse. De qualquer forma, Darius não é um assassino. É fraco demais para matar alguém. Ele pode ameaçar, vociferar ou até destruir uma caixa de jóias. Mas não teria coragem de matar alguém.

— Não pense que só porque uma pessoa é fraca, ela não consegue matar alguém. Pelo contrário, considero o assassinato uma conseqüência da fraqueza. O assassino se livra de um problema pelo caminho mais fácil. Ele mata porque não tem força para enfrentar alguma coisa da forma que um homem forte enfrentaria. Ele mata por covardia, não por coragem.

— Talvez, mas nós ainda não temos motivo para supor que foi Darius. Não há nenhuma evidência. A única pessoa com quem sabemos que ela teve contato foi com Kestwick, não Darius.

— Por que está defendendo Darius? — Cleybourne franziu a testa.

— Por que está tão certo de que ele é culpado? — replicou Jessica.

— Você ainda gosta dele — acusou Richard. Jessica encarou-o, depois começou a rir.

— Sinto muito — disse ela após um momento. — É que isso é muito engraçado. Eu não gosto de Darius. De forma alguma. No princípio, sim, fiquei muito magoada quando ele terminou o noivado. Mas, olhando para trás, acho que nem naquela época foi tanto por amor, foi mais por orgulho ferido. Fiquei mais devastada pelo escândalo do meu pai. E a morte dele foi muito, muito pior. Agora, quando olho para Darius, me pergunto por que algum dia achei que estivesse apaixonada por ele. Foi muito melhor ele terminar. Eu teria sido muito infeliz se tivesse me casado com ele. É muito fraco. E eu, como você disse, sou muito atrevida e teimosa. Logo teríamos passado a nos odiar. — Ela parou, depois soltou um pequeno suspiro e acrescentou: — Acho que não sou do tipo que tem sentimentos tão intensos.

— Por que diz isso?

— Eu me recuperei do coração partido com muita facilidade. Não fiquei de luto como você. Eu não o amava da forma como você amava Caroline.

Richard fez uma careta.

— Não sou um bom exemplo de amor.

— Você é extremamente fiel e inflexível em seu amor por ela.

— Sou? — Havia uma amargura no tom de voz que surpreendeu Jessica, e ela o olhou com atenção. — Hoje faz quatro anos que ela morreu. E eu... mal pensei nela esta noite.

— Você tinha muitas coisas com que ocupar sua mente — lembrou Jessica. — Não é de admirar que não tenha pensado apenas nela e na morte dela.

— Não foram essas "coisas" que me fizeram esquecer. Eu simplesmente estava ocupado demais pensando em você.

Jessica sentiu como se não tivesse ar para respirar. Esforçou-se para pensar em algo para dizer.

— Não são pensamentos de um marido fiel — continuou ele, a boca virando com cinismo.

— Como pode dizer isso? Você chorou por ela durante quatro anos. Quando cheguei aqui, você ainda estava desesperado, tão triste por ela que estava a ponto de acabar com a própria vida. E não me diga que não estava. Eu o vi com a arma... vi seu rosto. Pode não ter tido a intenção de fazê-lo naquele momento. Mas queria. Planejava.

— Sim — admitiu ele. — Eu chorei durante quatro anos. Chorei por minha esposa, chorei por minha filha. Acima de tudo, chorei por mim mesmo. Fiquei desesperado. Mas sabe por quê? Não era amor puro e fiel. Foi porque... — Ele desviou o olhar, depois encarou-a de novo, o maxilar contraído como se estivesse se forçando a falar. — Eu quase fiquei louco de tristeza porque sabia que era culpa minha. Eu as matei. Jessica encarou-o, perplexa.

— O quê? Não. Não acredito nisso. Você matou sua esposa e sua filha?

— Devo dizer que as levei à morte. Dá no mesmo. Não éramos uma família viajando junta, comigo cavalgando do lado de fora da carruagem. Caroline tinha me abandonado. Planejava fugir com o amante. Ia fugir enquanto eu estivesse em uma viagem. A carruagem já estava carregada. Tinha escrito uma carta para mim explicando tudo. Mas eu arruinei os planos dela quando voltei para casa mais cedo da viagem. Senti falta delas... principalmente de Alana. Caroline e eu... eu a amava loucamente quando nos casamos. Mais tarde, acabei descobrindo que ela não correspondia ao meu amor da mesma forma. Tinha se casado comigo porque era o casamento mais vantajoso que poderia fazer. Era fácil decidir que amava um duque, mas não tão fácil continuar apaixonada por outra pessoa quando tinha de viver comigo.

— Ah, Richard... — Jessica esticou a mão e colocou-a no braço dele, que enrijeceu sob o toque dela. — Eu sinto tanto.

— Eu sabia que ela não me amava, e depois disso meu amor começou a esfriar. Mas ela ainda era minha esposa, e mãe da minha filha. Alana era a luz da minha vida. Senti saudades dela. Senti saudades de casa. Por isso voltei para casa dois dias mais cedo, e encontrei a carruagem carregada e pronta para partir. Caroline quase desmaiou quando me viu. Eu perguntei o que estava acontecendo. Ela inventou uma história sobre ter de visitar a família. Eu queria que deixasse Alana, mas ela se recusou. Queria que esperasse, disse que as acompanharia. Finalmente, ela admitiu a verdade. Tivemos uma discussão terrível. Eu disse que não a deixaria ir. Não havia chance de eu deixá-la levar minha filha. Ela disse que me odiava, que amava outro homem e que nunca seria feliz aqui. Eu disse que não me importava. Ela não podia tirar Alana de mim. Ela saiu correndo da sala, chorando. Ele balançou a cabeça.

— Primeiro, na minha arrogância, achei que ela havia subido para o quarto. Andei de um lado para o outro na sala de estar, tentando me acalmar antes de subir para ver Alana. Não queria que ela me visse tão furioso. Após alguns minutos, subi até o quarto dela, e encontrei a babá chorando. Ela me disse que Alana tinha ido embora e que Caroline não havia permitido que ela as acompanhasse. Então percebi que Caroline tinha me desafiado. Havia levado minha filha e partido. Fui atrás delas. Estava frio, havia gelo. Como era de costume, ela deixara para viajar muito tarde. Estava muito frio e escurecendo. Gritei para pararem. Se fosse meu cocheiro, ele teria parado, mas não era. Meu cocheiro tinha viajado comigo. Ela alugara uma carruagem com um cocheiro contratado. Então, quando Caroline lhe disse para ir mais rápido, ele obedeceu. Fez a curva muito rápido, e a carruagem saiu da estrada.

Richard praguejou baixinho e afastou-se dela, indo até a lareira. Ficou parado, olhando para o fogo, apoiado no consolo.

— É isso que me assombra — falou com a voz grossa, e os olhos cheios de lágrimas iluminados pelo fogo. — Se eu não as tivesse perseguido, elas não teriam morrido. Foi meu egoísmo, minha arrogância, minha teimosia. Eu as matei... porque queria que ficassem aqui.

— Ah, não, não... —Jessica foi até ele. — Não foi culpa sua. Caroline preferiu partir. Ela tentou fazer isso sorrateiramente e roubou sua filha quando você não estava aqui. Você não sabia... como poderia reagir sem raiva? Qualquer um teria ficado furioso. Qualquer um resistiria ao fato de ela querer levar sua filha embora. E foi ela quem fugiu em vez de ficar e tentar resolver as coisas. Ela foi egoísta de pegar sua filha e fugir. Isso não foi certo nem justo. Não é de admirar que você tenha ficado furioso. Como poderia saber o que aconteceria se fosse atrás delas? E ela errou muito em mandar o cocheiro ir mais rápido. Foi um acidente horrível, trágico. Elas não mereciam morrer, e você não merecia que elas fossem tiradas de você. Apenas aconteceu, como coisas horríveis às vezes acontecem. Não pode se culpar. Não pode ser infeliz pelo resto da vida como penitência!

Em um impulso, Jessica passou o braço pela cintura dele e recostou-se nele. Perturbado, ele a abraçou e trouxe-a para mais perto. O corpo dele estava retesado, rígido de tensão. Ela o abraçou também, acariciando-lhe as costas. Richard enterrou o rosto no ombro dela, soltando um gemido baixo de desespero. Seus ombros sacudiam enquanto os soluços tomavam conta dele, e ele se segurou a ela com mais força ainda.

Jessica ficou abraçada a ele, absorvendo a dor que emanava de seu corpo, os anos de culpa escondida. Tinha certeza que ele nunca contara a ninguém o que acabara de lhe contar; sem dúvida, ele guardara isso bem no fundo, odiando a si mesmo, corroído pela tristeza e pela culpa e achando que merecia isso como punição.

— Está tudo bem — murmurou ela, passando as mãos nas costas dele, para cima e para baixo. — Tudo vai ficar bem.

Ele fechou as mãos, pegando e apertando o vestido dela enquanto chorava. Já chorara antes por Caroline e Alana, e sempre que chorava, sentia a amarga onda de culpa, sabia que merecia toda a dor que sentia e ainda mais, e que nunca poderia se arrepender o suficiente para voltar atrás e não fazer aquela perseguição imprudente que levou as pessoas que amava à morte. Agora, pela primeira vez, chorava por si mesmo, pela dor que sentia, pela infelicidade amarga, quase insuportável, que fora sua vida nos últimos quatro anos.

— Alana não ia querer que você se culpasse. Sabe que não. Ela o amava como só uma criança consegue amar... de modo completo e feliz. Ela sofreria ao saber que você estava sofrendo. Tudo que ela ia querer era que você ficasse bem de novo, voltasse a ser feliz... independentemente de ela estar aqui ou não.

Ele a apertou com mais força ainda ao escutar essas palavras, quase a deixando sem ar, e ela escutou quando ele respirou fundo.

— Ah, Deus. Você está certa. Como você... você nem a conheceu. E ainda assim a compreende melhor que eu.

Afastou-se dela, enxugando as lágrimas do rosto, e olhou para Jessica, que sorriu para ele.

— Sei como é o sentimento de uma filha em relação ao pai. O escândalo com meu pai arruinou as vidas de nós dois. Havia momentos em que ficava com tanta raiva que queria gritar com ele, socá-lo. Ali estava eu, condenada por todos que conhecia, de repente à beira da falência, sem saber o que fazer ou para onde ir, e ele saindo à noite para se embebedar. Eu explodia com ele, implorava para me contar o que tinha feito e por quê, e ele me dizia que não podia. Depois, ele saía de novo. Às vezes, eu o odiava.

— Mas quando ele morreu — continuou ela —, achei que fosse me desfazer de dor. Eu me arrependi de cada palavra amarga que tinha dito a ele ou sobre ele. Era meu pai, e eu o amava, e até hoje não consigo acreditar que ele tenha feito algo errado. Daria tudo para tê-lo de volta. Estaria disposta a ser excluída da sociedade repetidas vezes se, de alguma forma, pudesse mudar os últimos meses e deixá-lo vivo e feliz. Agora sei que tudo que realmente importava era o quanto eu o amava. E espero desesperadamente que, onde quer que ele esteja, esteja feliz. É por isso que sei o que sua filha ia querer para você. Porque quero isso para meu pai.

Richard deu um suspiro longo e trêmulo, e levantou as mãos até o rosto dela, gentilmente roçando os polegares nas bochechas dela.

— Alana teria gostado muito de você.

— Acho que eu também teria gostado muito dela. Ele deu um pequeno sorriso.

— Tenho certeza que sim. Em alguns aspectos, ela era como você... destemida e honesta... e rude. E com o coração mole.

— Acho que talvez ela também seja como o pai nesses aspectos. —Jessica sorriu e ficou na ponta dos pés para dar um leve beijo nos lábios dele. — Você é um bom homem. Não deixe a tristeza e a culpa destruírem você.

Richard observou-a por um momento.

— Obrigado. — A voz estava rouca de emoção. — Você parece ter o hábito de me salvar. — Inclinou-se e devolveu o leve beijo, depois também beijou-lhe a testa. — Queira eu ou não.

Jessica riu.

— Que bom que eu estava lá quando você precisou de... digamos, ajuda. Não de ser salvo.

Ela levantou o olhar para ele.

— No fim, acho que você não teria usado aquela pistola, mesmo que eu não tivesse chegado. Mesmo que eu e Gabriela nunca tivéssemos vindo para cá. Você é muito forte, muito corajoso. Não teria feito aquilo.

— Não tenho tanta certeza quanto você. Jessica deu de ombros.

— Isso é porque você não se vê por completo como eu o vejo. Ele deu um sorriso torto.

— Acho que não é uma bonita visão.

— Talvez não seja bonita. — O sorriso de Jessica era afetuoso e divertido. — Entretanto, é atraente.

— Mesmo? — O tom dele combinou com o dela, e os olhos recaíram sobre os lábios dela. — Posso garantir que não tão atraente quanto o que vejo quando olho para você.

— Fico lisonjeada... — começou Jessica, mas as palavras foram cortadas pelos lábios que cobriram os seus. Ele a beijou com delicadeza e ternura, mas sua boca demorou-se, saboreando-a à sua conveniência. Quando, finalmente, levantou a cabeça, o coração dela estava acelerado e o rosto, corado.

— Jessica... — sussurrou ele, e então estava beijando-a de novo, os braços envolvendo-a, puxando-a para si.

O corpo inteiro dela estava em chamas, reagindo a ele, e ela ficou na ponta dos pés, os braços em volta do pescoço dele, e a boca ávida na dele. Ele soltou um gemido baixo, e suas mãos corriam pelas costas dela até o quadril, pressionando a pélvis dela contra a sua. Estava rijo, e isso a excitou.

Ele afastou os lábios dos dela, beijando-lhe o rosto, a orelha, o pescoço.

— Não devíamos — murmurou ele enquanto os lábios corriam pela pele dela.

— Não — concordou ela, sem fôlego.

— Jessica, me mande parar — disse ele, pegando o lóbulo da orelha dela entre os dentes e brincando com ele.

O calor aumentou entre as pernas dela.

— Diga para eu ir embora. — As mãos dele estavam apertando as nádegas dela, pressionando-a contra si.

— Não consigo... — Jessica estremeceu quando os lábios dele desceram pela lateral de seu pescoço, quentes e aveludados. — Não quero que vá embora. Quero que... — Ela soltou um leve gemido quando a língua dele mergulhou na cavidade de seu pescoço. — Fique... — disse ela, as mãos cravadas nos ombros dele. — Por favor, fique.

A mente dele ficou anuviada, como sempre acontecia com ela. Era difícil pensar em qualquer coisa a não ser na sensação de ter a pele dela sob seus dedos, ou no gosto que sua boca tinha, ou na beleza macia e sedutora de seus cabelos. Antes, com qualquer outra mulher, até mesmo Caroline, ele permanecera sob controle, o cérebro trabalhando além do desejo que corria pelo corpo. Mas, com Jessica, era sempre fogo, desejo e urgência, o cérebro lutando para segurar as necessidades devastadoras de seu corpo. A razão evaporava, e os pensamentos pareciam consistir em apenas imaginar como ela seria nua, ou como seria doce entrar nela e sentir suas pernas envolvendo seu corpo.

Ele levantou a cabeça e pousou as mãos nos ombros dela, virando-a gentilmente. E começou a abrir os botões que ficavam nas costas dela, as laterais do vestido separando-se e en-rolando-se, devagar, expondo de forma provocante, primeiro, o pescoço, depois, as costas. A cabeça dela estava inclinada, então o pescoço formava uma curva para a frente, e essa visão, frágil e vulnerável, aumentou seu desejo. Pousou os lábios no pescoço dela, a pele macia cobrindo o osso. Com gentileza, desceu beijando-lhe as costas até que seus lábios fossem impedidos pela camisola de algodão simples que ela usava.

Agora, a roupa estava aberta nas costas, as laterais afastadas uma da outra. Deslizou a mão por baixo do tecido, contornando-a até que as pontas dos dedos tocassem a barriga dela. Conforme ele avançava, o vestido abria ainda mais, deslizando pelos ombros e braços dela. Richard pressionou as mãos na barriga dela, puxando-a para trás até que estivesse grudada em seu próprio corpo. As mãos subiram por baixo do vestido, deslizando sob a camisola até alcançarem os seios. Enterrou os lábios no pescoço dela, beijando e mordis-cando, a respiração presa na garganta, enquanto os dedos acariciavam os seios e brincavam com os mamilos até ficarem enrijecidos.

Jessica ofegou, pressionando-se contra ele com mais força ainda, movendo o quadril de uma forma instintiva que atiçava mais fogo nele do que qualquer carícia experiente. Ele desfez o laço na frente da camisola dela e passou as mãos por baixo do tecido, pegando os seios nus nas mãos. A pele dela era macia e sedosa, atormentadora. Beijou-a na nuca, o cheiro dela enchendo-lhe as narinas. Seus lábios contornaram a linha da clavícula dela até os ombros, e depois as costas, e ele puxou o vestido pelos braços dela, deixando-a mais exposta a seus carinhos. Mas a camisola solta ainda o impedia e, com um gemido, ele a tirou pela cabeça, jogando-a para longe. Explorou as costas nuas com os lábios, enquanto as mãos brincavam com os seios. Jessica gemeu, tremendo sob o ataque a seus sentidos.

As mãos dele deslizaram para baixo, encontrando as aná-guas dela, e ele abriu as fitas e puxou-a para baixo. Elas caíram aos pés de Jessica, que, agora, não vestia nada além das calças e meias. As mãos dele acariciaram suas nádegas e voltaram para a barriga, por cima da roupa íntima e descendo pelas pernas. Jessica enrijeceu-se e gemeu com o toque, mas não se afastou. Estremeceu e recostou-se no peito dele, relaxando as pernas. Ele passou a mão entre elas, então, acariciando sobre o tecido, agora úmido de desejo. A evidência da reação apaixonada dela excitou Richard quase além da razão. Queria mergulhar nela na mesma hora e se aliviar, mas controlou-se.

Lembrava-se bem da resposta dela na última vez, e queria agora levá-la além, mostrar-lhe novas e mais formidáveis profundezas da paixão. Levantou-a para levá-la para a cama e deitou-a ali. Depois retirou as últimas peças de roupa que ela ainda usava, até que estivesse deitada completamente nua diante dele. Richard achava que nunca tinha visto nada tão encantador.

Observou-a, a paixão pulsando nas veias, enquanto tirava as próprias roupas, arrancando com impaciência os laços e botões e jogando as roupas para longe. Jessica estremeceu um pouco, e ele puxou os cobertores e cobriu-a, depois arrastou-se na cama e tomou-a nos braços. Era pequena e delicada perto dele e, por um momento, apenas ficou deitado ali, abra-çando-a e deixando as mãos explorarem o corpo dela. Mas a sensação da carne dela sob as mãos logo fez com que o sangue subisse até a cabeça.

As mãos de Jessica deslizaram pelas costas dele, descobrindo as curvas dos músculos, as saliências bruscas da clavícula, a linha acidentada da coluna. Escorregaram pela lateral do corpo dele até o quadril e mais abaixo. As pontas dos dedos eram como veludo acariciando a pele dele, suaves e sedutoras.

Richard rolou para ficar de lado e inclinou-se para beijar os seios dela. Com os dentes e a língua, explorou-os, enquanto as mãos vagavam mais embaixo, explorando a barriga e as coxas, e finalmente deslizando de forma provocante por entre as pernas. Jessica estremeceu ao toque, e suas mãos cravaram-se no braço dele.

Lentamente, os dedos dele subiram, provocando-a e ati-çando-a. Ele pegou o mamilo dela com a boca e sugou-o, enviando ondas de prazer pelo corpo dela. Então, os dedos finalmente chegaram ao centro do desejo dela, aprofundan-do-se nas dobras quentes e escorregadias, separando-as e acariciando com delicadeza, até que Jessica estivesse latejando e precisando de alívio. Ela sentiu o delicioso prazer crescendo dentro de si, arqueando-se sobre as mãos e os pés, querendo sentir o prazer invadi-la com uma torrente irresistível. Mas, desta vez, Richard levou-a até mais perto do limite, depois afastou-se, apenas para aumentar a excitação.

Jessica enterrou os dedos nele, quase soluçando, levantando o quadril contra a mão dele. Então, ele se colocou entre as pernas dela, sua masculinidade provocando os portões da feminilidade dela, até que finalmente a penetrou, rompendo o selo da virgindade em um rápido lampejo de dor. Por um momento, ele parou, depois começou a se mexer dentro dela, criando um prazer mais maravilhoso do que qualquer um que ela tivesse experimentado. Ela se moveu com ele, o corpo instintivamente acompanhando o ritmo dele. O corpo de Richard estava quente e suado contra o dela; a respiração ofegante. Ele murmurava o nome dela, e Jessica achou que jamais escutaria um som tão lindo.

Então, em um ímpeto ofuscante, a onda quente e escura de prazer tomou conta dela, e ela gritou, agarrando-se a ele. Richard gemeu, liberando suas sementes dentro dela, ambos perdidos em um turbilhão irracional de paixão, unidos de forma primitiva. Richard enterrou o rosto no pescoço dela até que, finalmente exausto, caiu sobre ela.

Rolando para ficar de costas, puxou-a para cima de si, abra-çando-a forte, nenhum dos dois capaz de falar. Envolvida pelos braços dele, rodeada pelo calor, Jessica mergulhou em um sono tranqüilo e sem sonhos.

 

O quarto estava gelado quando Jessica acordou na manhã seguinte. Abriu os olhos, piscando, e imediatamente sentiu os lençóis na pele nua. Estava sem roupas. De repente, lembrou-se do que acontecera aqui na noite anterior, e seu rosto corou só de lembrar, um pouco por constrangimento, um pouco por desejo.

Virou-se para olhar o outro lado da cama. Richard não estava lá. Ele não estaria, claro, lembrou-se. Era um cavalheiro digno demais para deixar perceberem que passara a noite com ela. Deve ter se levantado, se vestido e saído bem antes de os serviçais começarem a circular.

Jessica sentou-se, consciente de seu corpo de uma forma inédita, sentindo as diferenças, a delicadeza e a sensibilidade, a lembrança do prazer prolongando-se sensualmente pela pele e preenchendo-lhe os seios. Com um gemido de pura satisfação, ela se jogou no colchão, abrindo os braços e sorrindo tolamente para o teto. Sentia-se maravilhosamente jovem e experiente, tudo ao mesmo tempo. Nenhuma mulher, pensou, fora apresentada ao amor de forma tão mágica quanto ela na noite passada.

Amava Richard. Tinha certeza disso agora, tivera certeza na noite passada quando se desmanchara nos braços dele. Sabia que agora era uma mulher perdida, aos olhos da sociedade, mas, francamente, não conseguia se importar. Não conseguia sentir vergonha pelo que tinham feito na noite anterior, apenas alegria.

Ao procurar felicidade e amor nos braços de Richard, estava se condenando a uma vida de amante. Não importava o quanto Richard a desejasse, não importava o que ele tinha dito sobre seu casamento, ela sabia que ele ainda amava Caroline. Sabia agora que a tristeza dele, em parte, era por causa da culpa, mas isso não mudava o fato de que ele amara Caroline e chorara por ela durante anos. Se ele estivesse mais feliz agora, como ela esperava, se tivesse conseguido tirar o fardo de culpa dos ombros dele, não significava que ele tinha deixado de amar Caroline. Não significava que agora amava Jessica. Não, ela era realista o suficiente para saber que ele talvez nunca mais amasse ninguém da forma como amara Caroline.

E mesmo que, por algum milagre, ele viesse a amá-la, isso não queria dizer que casaria com ela. Era um duque, um dos títulos mais altos da realeza. Duques se casam com filhas de duques e condes; não se casam com a sobrinha de um barão, principalmente uma que foi maculada por um escândalo. Com a estirpe dele, Richard não podia se casar com alguém cujo pai fora expulso do Exército e depois morrera em uma briga em uma taverna, alguém que fora acusado de traição.

Não, não havia possibilidade de casamento. Ao aceitá-lo em sua cama, Jessica sabia que estava se colocando à margem da sociedade para o resto da vida. Mas isso pesava pouco em comparação a seu amor por Richard. Ela o amava e o desejava muito para negar esse amor a si mesma porque a sociedade desaprovaria. O pecado a preocupava, mas Jessica achava difícil acreditar que o amor que sentia por Richard fosse um pecado. E quanto à sociedade, sabia que podia viver sem ela. Graças ao generoso presente do general, podia se dar ao luxo de ignorar a opinião do mundo. Mesmo depois que a relação deles acabasse, ela teria condições de viver com conforto sem depender da aprovação de ninguém para sustentar-se, já que sabia que um dia o relacionamento acabaria, não podia se enganar a esse respeito. Os homens se cansavam das amantes; o desejo acabava. Ele poderia, um dia, decidir se casar para continuar a família. E ela seria posta de lado.

Não era uma perspectiva prazerosa, mas também não se esquivava dela. O amor que carregava em seu coração e a alegria de expressar esse amor tornavam suportável a possibilidade de uma vida sem ele mais tarde.

Afastou o pensamento e levantou-se para enfrentar o dia. Enfrentaria com prazer o que viesse.

Duas horas depois, Jessica estava sentada no quarto de Gabriela, empenhando-se para resolver complicadas equações de álgebra com ela quando escutou o som de uma conversa no corredor. Era uma das serviçais, e ela falava alto, quase freneticamente.

Jessica levantou-se em um pulo e foi até o corredor, seguida de perto por Gabriela. Encontrou duas serviçais, conversando, e elas se viraram empolgadas.

— Ah, senhorita! — exclamou uma delas, como se estivesse feliz por jogar o problema em cima de outra pessoa. — É o pastor.

— O reverendo Radfield? — perguntou Jessica, ficando ansiosa. — Alguma coisa errada com ele?

— Não. Pelo menos, não que eu saiba. Mas bati à porta dele com uma bandeja de café-da-manhã, e ele não respondeu, então abri a porta... e ele tinha sumido. Nem sinal dele.

— Talvez ele tenha se levantado cedo e descido.

— Não, senhorita, ele não estava junto com os outros que tomaram café na mesa. E ele gosta de tomar café no quarto, ele me disse. — Ficou um pouco corada, e Jessica suspeitou que a menina se afeiçoara ao belo pastor. — Acho que aconteceu alguma coisa com ele. Há algo estranho acontecendo aqui, senhorita. Nunca vi nada parecido.

— Vamos olhar o quarto dele. — Jessica atravessou o corredor até o quarto de Radfield e bateu à porta, seguida de Gabriela e das serviçais.

Como não houve resposta, abriu a porta e entrou. A cama ainda estava revirada, obviamente, ele dormira ali, mas não havia nem sinal de objetos pessoais, como escovas ou objetos de barbear, na cômoda. Franzindo a testa, Jessica foi até o armário e abriu. Não havia nenhuma roupa pendurada.

— Você sabe... o reverendo tirou as roupas da mala?

—Ah, sim, senhorita, ele guardava algumas coisas na cômoda.

Uma rápida busca nas gavetas da cômoda mostraram que estavam todas vazias, sem nenhum pertence dele. Jessica olhou para o canto, onde havia um baú e uma mala.

— Ele tinha mais bagagem?

— Sim, senhorita, uma bolsa de pano menor que essas. Claramente, a bolsa não estava ali.

— Acho que nosso reverendo pode ter fugido — disse Jessica sem embromação, e saiu do quarto.

Encontrou Cleybourne no escritório, e quando entrou ele olhou para ela e abriu um sorriso, os olhos se acendendo.

— Jessica...

Ele se levantou, vendo agora que ela estava com uma expressão preocupada.

— O que houve? Aconteceu alguma coisa?

— O reverendo Radfield não está no quarto. Parece que foi embora.

Richard olhou para ela sem entender.

— Do castelo? Está dizendo que ele foi embora do castelo? Jessica assentiu.

— É o que parece. A serviçal não o encontrou quando levou o café esta manhã, e parece que uma bolsa e várias roupas não estão lá. Acho que ele fugiu.

— Com este tempo? Isso é suicídio! Que diabo...

Não demorou muito para organizar uma busca pela casa, que não resultou em qualquer sinal de Radfield. Enquanto isso, Richard mandou selar dois cavalos e dois jardineiros saíram para procurar rastros em volta da casa. Antes de a busca pela casa terminar, um dos jardineiros voltou dizendo que havia rastros de alguém andando pela neve, pegando um atalho pelo campo até a estrada.

Richard levou o sr. Cobb com ele para procurar o homem, dizendo a Jessica sobriamente para manter os outros ocupados. Ela fez o melhor que pôde, embora a mente estivesse em Richard e no que estava acontecendo com o reverendo. Por que ele fugira? Certamente, parecia suspeito, como se tivesse fugido porque era culpado de um crime. Será que era realmente um pastor?

Na neve profunda, era fácil seguir pegadas, e dois homens a cavalo se moviam muito mais rápido do que um andando a pé. Não demorou muito para Cleybourne e Cobb voltarem trazendo o pastor. Jessica e a maior parte dos convidados estavam sentados na sala de estar formal. Rachel também estava lá, sentindo-se bem e entediada o suficiente para descer e ficar com os outros hóspedes.

Richard entrou com passos largos na sala, empurrando Radfield na frente, e Cobb vinha logo atrás. Com firmeza, Richard empurrou o pastor para uma poltrona. Radfield sentou-se, tremendo, parecendo completamente encharcado e infeliz.

— Agora, Radfield, se é que esse é mesmo seu nome — disse Richard de forma amarga —, acho que está na hora de nos dizer a verdade. Você matou a sra. Woods?

— Não! — Radfield olhou para ele com fúria. — Não, eu não a matei. Eu nunca a machucaria!

— O fato de fugir dessa maneira parece um pouco suspeito — salientou Richard. — Por que você sairia pela neve, arriscando a vida apenas para fugir, se não fosse o assassino? Se não temesse ser descoberto?

— É claro que eu temia isso! — gritou Radfield. — Estava claro que você e esse detetive me culpariam pelo assassinato dela! — Apontou para o sr. Cobb.

— Agora me diga: por que faríamos isso?

— Vocês sabiam sobre ela. Reviraram o quarto dela. Estavam prestes a encontrar... — Parou e recostou-se na poltrona, abaixando o olhar.

— Encontrar o quê? — estimulou Richard. — As jóias? Radfield levantou a cabeça e lançou um olhar fulminante para Cleybourne.

— Sim, claro, as jóias. Vocês estavam rodeando, esperando que eu cometesse um erro. E ela... ela se foi! — Lágrimas encheram os olhos dele.

Olhando para o belo jovem, Jessica sentiu uma vaga idéia surgir em sua mente. Franziu a testa, observando-o, a mente funcionando.

— Era sempre ela que sabia o que fazer — lamentou ele, desesperado. — Sem ela, eu... ficava perdido. Não sabia o que fazer.

— Você era sócio dela, não era? — falou Cobb pela primeira vez, dando um passo à frente e se aproximando do esbelto jovem. — Vocês roubaram aquele dinheiro do sr. Gilpin juntos, não foi? Não foi nenhum professor de dança de meia-idade, apenas você e aquela pistoleira...

— Não fale dela assim! — Radfield ficou furioso, ficando de pé em um pulo.

Cobb sorriu, dobrando os dedos com satisfação.

— Quer me bater, não é? Bem, venha, então. Ficarei feliz em lhe dar uma lição.

— Ah, sente-se — disse Richard irritado, colocando a mão no ombro de Radfield e empurrando-o de volta para a poltrona. — Não seja tolo. Não é páreo para ele, você sabe disso. — Richard virou-se e lançou um olhar para Cobb. — Não precisa bater nele para conseguir informações.

— E por que está sendo tão mole com o homem? — replicou Cobb. — Está claro que ele a matou. Eram sócios, tiveram uma briga e ele a empurrou escada abaixo. Ele não é páreo para um homem, mas poderia facilmente matar uma mulher.

— Eu não a matei! — gritou Radfield. — Por que não consegue entender isso? — Lágrimas jorraram de seus olhos e escorreram pelo rosto. Levantou as mãos trêmulas até a cabeça, passando-as pelo cabelo, a própria imagem do desespero. — Era a última pessoa que eu machucaria. Sim, ela era minha sócia. A única pessoa no mundo em quem eu confiava. Eu a amava!

Começou a soluçar. Richard olhou para ele, o rosto cheio de compaixão.

— Você era casado com ela?

— Não! — Radfield balançou a cabeça, soltando uma risada reprimida entre o choro. — Não éramos casados. Ela nem era minha amante, que com certeza é o que devem estar pensando.

A idéia que passara pela cabeça de Jessica um momento antes tomou forma agora, e ela disse gentilmente:

— A sra. Woods era sua irmã, não era? Radfield assentiu.

Richard olhou para Jessica, surpreso.

— Como sabia disso?

— Eu não sabia, imaginei. Um minuto atrás, quando os olhos dele se encheram de lágrimas, percebi que se parecia com alguém, e então me ocorreu a idéia. Sem a maquiagem para escurecer a pele, se o cabelo estivesse no tom castanho natural em vez de preto, ela se pareceria muito com o revê... quero dizer, sr. Radfield.

Radfield enxugou as lágrimas do rosto com as mãos.

— Bettina sempre cuidou de mim. Era muitos anos mais velha que eu. Estávamos sempre nos mudando, por isso não tínhamos outros amigos. E só podíamos contar um com o outro. Crianças incomodavam. Os outros membros da trupe não gostavam muito de nos ter por perto.

—Trupe? — perguntou Rachel. — Então, vocês eram atores? Ele assentiu.

— Nossos pais eram. Nós também, quando ficamos mais velhos.

— Claro! — Cobb bateu com a mão na coxa em triunfo. — Era o professor de dança de meia-idade, só que o homem era você!

— Isso. Éramos bons em disfarces. Tornava a fuga mais fácil, menos perigosa. Quem faria alguma conexão entre a loura bem-educada, que ensinava italiano à sra. Gilpin, e a sra. Woods? Ou o professor de dança grisalho e um pastor anglicano?

Ele suspirou, recostando na poltrona, e continuou, devagar:

— Era Bettina quem pensava nos trabalhos, quem designava os alvos e planejava o que íamos fazer. Eu apenas era bom em abrir cofres e esconder as coisas sem ninguém perceber. Às vezes, quando eu era mais jovem, explorava o público do lado de fora do teatro para ganhar dinheiro extra. Era muito mais fácil... e divertido do que ficar no palco. Eu odiava aquela vida. Bettina também. Ela foi embora quando tinha 16 anos, foi para Londres fazer fortuna. E conseguiu. Tornou-se uma cortesã muito bem-sucedida, entende? A melhor de Londres: Marie MacDonald.

— Meu Deus! — disse Darius do outro lado da sala. — Marie MacDonald!

Todos na sala viraram-se para olhar para Darius, que ficou vermelho e disse:

— Desculpem-me. Não quis interromper. Continue a história.

— Não tenho mais nada importante para contar — disse Radfield. — Marie era linda, famosa, mas também odiava aquela vida. Além disso, estava envelhecendo, quase 30 anos naquela época, e se envelhece mais rápido fazendo aquilo. Ela queria parar, então, depois de certo tempo, inventou esse esquema. Conhecia muitos homens ricos. Suas festas eram famosas por toda Londres e freqüentadas por alguns dos melhores nomes do país. Ela sabia quem realmente tinha jóias e quem só exibia mas não as tinha de verdade. Então, começamos... — Ele deu de ombros. — E éramos bons nisso.

Ele olhou para Richard, com súplica nos olhos.

— Então, como pode ver, eu jamais causaria qualquer mal a Bettina. Ela foi minha melhor amiga. A vida inteira. Não sou nada sem ela.

— Sabe, estou bem inclinado a acreditar em você — disse Richard.

— O quê? — Cobb virou-se e olhou para Cleybourne sem acreditar. — O homem é um criminoso.

— Ah, ele é um ladrão, é verdade. Você encontrou as jóias do sr. Gilpin e os ladrões que as roubaram. Posso até apostar que lorde Kestwick estava certo e foi você que eu encontrei no meu escritório.

— Sim, eu estive lá — respondeu Radfield, de forma um pouco mal-humorada. — Não podia esperar que eu resistisse à tentação de tentar pegar as esmeraldas Cleybourne quando vim parar aqui.

Richard arqueou uma sobrancelha.

— Algumas pessoas consideram que roubar um anfitrião é uma recompensa baixa por sua hospitalidade.

— Eu sei. — Radfield suspirou. — Tenho caráter fraco. Não tinha nada contra o senhor. Até parecia ser um bom homem. Mas as esmeraldas são famosas no mundo todo.

Richard fez uma careta e continuou.

— Entretanto, o fato de ele ser um ladrão não significa necessariamente que matou a sra. Woods.

— Ninguém matou, tenho certeza — comentou lorde Vesey. — Foi apenas um acidente.

— Concordo — acrescentou lorde Kestwick. — Está fazendo uma tempestade em um copo d'água, Cleybourne. A coisa toda é ridícula.

Richard olhou para os outros.

— Desculpem-me. Mas, se não se incomodarem, gostaria de falar com o sr. Radfield a sós. — Ergueu as sobrancelhas para Kestwick e para os outros, parecendo, naquele momento, um duque em todos os sentidos; com alguns resmungos, todos começaram a sair da sala.

— Você pode ficar, Cobb — disse ele para o detetive, que já estava na porta, furioso. — E, claro... — Cleybourne olhou para Jessica. — Vou precisar de alguém para tomar notas.

Jessica rapidamente sentou-se atrás da mesa e pegou uma folha de papel. Cobb assumiu a posição em frente à porta fechada, braços cruzados, como se pronto para qualquer tentativa de fuga de Radfield.

— Agora, sr... — Cleybourne parou. — Este é seu nome? Radfield?

— Na verdade, é meu primeiro nome. Radfield Addison. Pode chamar da forma que preferir. Em todos esses anos, atendi a quase qualquer nome.

— Tudo bem, sr. Addison. Digamos que eu acredite que não matou sua irmã.

— Não matei. Juro.

— Mas acredito que outra pessoa a matou. Têm acontecido alguns outros acidentes por aqui ultimamente, e a morte de sua irmã me parece suspeita. Se alguém a matou, estou certo de que gostaria de nos ajudar a encontrar o culpado.

— Claro. Faria qualquer coisa.

— Primeiro, quero que me responda honestamente. Estou tentando separar as várias coisas que aconteceram aqui. Você invadiu meu escritório na outra noite. Mas, antes disso, você invadiu a suíte de Gabriela e Jessica?

— O quê? Não. Por que eu faria isso? Não há nada de valor para se roubar lá. Além disso, nunca tinha visto este lugar antes de o coche quebrar. Antes de chegar aqui, eu estava na diligência, vindo de Londres.

— E desde que está aqui, por acaso, pegou uma pequena caixa de jóias do quarto da Srta. Maitland?

— Srta. Maitland? — Radfield olhou para Jessica. — A governanta? Por que eu pegaria alguma coisa que pertence a uma governanta? Isso é um absurdo.

— Só queria ter certeza. Agora, pode me dizer se sua irmã estava envolvida em alguma coisa mais enquanto estava aqui? Alguma coisa além do roubo das jóias.

— Quer dizer, se ela me ajudou a procurar em seu escritório? Não. Ela me recriminou no dia seguinte por fazer isso. Fazíamos de tudo para não sermos vistos conversando muito... não deveríamos nos conhecer, entende? Mas Bets foi até meu quarto depois da briga e me deu uma bronca. Estava com medo de eu ter nos comprometido. Que ficássemos expostos.

— Então, foi por isso que você a matou? — interpôs-se Cobb. — Por que ela lhe deu uma bronca? Não gostou, não foi?

Radfield girou os olhos.

— É claro que não gostei. Mas não a matei por causa disso. Ela já tinha dito a mesma coisa várias vezes antes. No caso de não ter irmãs, sr. Cobb, devo lhe dizer que irmãos mais novos estão acostumados a levar bronca de irmãs mais velhas. Além disso, ela estava certa. Eu não deveria ter feito aquilo. Eu tumultuei as coisas. Levantei suspeitas no duque. E, claro, Bettina já tinha descoberto que você era um detetive. Era uma moça esperta.

— Por que sua irmã foi ao quarto de lorde Kestwick na noite em que morreu? — perguntou Richard. — Ela lhe contou?

— Lorde Kestwick? — Radfield olhou para ele, surpreso. — O que o faz pensar que ela foi ao quarto dele?

— Eu vi. E ele admitiu. Disse que eles tiveram um encontro. O outro homem continuou encarando-o.

— Não acredito nisso. Deve estar enganado. Bets não exercia mais a profissão há anos. Além disso, o dinheiro que conseguiria por uma noite seria uma ninharia se comparado ao que havia no baú em seu quarto.

— Talvez ela não tenha feito por dinheiro.

— Por quê, então? Amor? Ela havia acabado de conhecer o homem. — Radfield sorriu com desdém. — Por prazer? Não. Ela não tinha prazer com isso. Fez muito tempo como trabalho, entende? Bets não gostava muito de homens, exceto eu. E, certamente, não gostava deles daquela forma. Uma vez, ela me disse que era apenas negócio, não prazer, e eu nunca soube que ela tenha aceitado algum homem desde então. — Olhou um pouco constrangido para Jessica. — Desculpe, srta. Maitland.

— Desculpas aceitas.

— E se, por alguma razão desconhecida, ela aceitasse algum outro homem, não seria um nobre. Ela odiava a maioria deles. Eram os que ela mais via antigamente, entende, e os desprezava. E Kestwick é o tipo que ela mais detestava: altivo, frio, convencido, não se importa com mais ninguém. Não consigo imaginar nada que pudesse convencê-la a ir para a cama com ele.

Richard olhou para ele pensativamente.

— Mesmo assim, ela foi ao quarto dele. Por que outro motivo ela iria ao quarto dele no meio da noite? Será que tinha algum outro plano? Talvez roubar alguma coisa dele?

Radfield considerou a idéia.

— Ela teria apreciado pegar alguma coisa de alguém como ele. Mas ela tinha acabado de me repreender por ter entrado em seu escritório, e eu só estava olhando. Não acho que ela considerasse que valeria o risco; o que se pode tirar de um cavalheiro que está viajando? Quero dizer, talvez um alfinete de gravata, um relógio, abotoaduras. Coisas pequenas. Lady Vesey seria um alvo mais provável.

— Claro, bem, você já estava abrindo esse caminho, não é? O homem teve a dignidade de corar.

— Não. Não da forma como está pensando. Eu só pensei que... nos sentimos atraídos um pelo outro, só isso. — Abaixou o olhar por um segundo, depois acrescentou: — Como eu disse, Bets e eu tentávamos não nos falar, para fingir que éramos estranhos que apenas se conheceram na diligência. Então eu via pouco a Bettina. Mas, pensando bem, a última vez em que a vi, quando estávamos conversando como estranhos antes do jantar, havia alguma coisa nela... parecia perturbada ou... talvez chateada. Não tenho certeza. Bets estava sempre calma. Independentemente do que acontecesse, ela não ficava perturbada. Mas, naquela noite, ela parecia um pouco... nervosa. Perguntei se estava bem, e ela disse que ficaria. Então alguém apareceu, e não pudemos mais falar nada que não se fala para um completo estranho.

— Certo. Bem, obrigado, sr. Addison. Sr. Cobb, acredito que planeje escoltar Addison até Londres assim que a neve derreter?

— Com certeza. Eu o manterei sob custódia a partir de agora, senhor. Devemos trancá-lo em um quarto... não aquele em que está ficando. Talvez a suíte, se não tiver problemas, sem janelas para escalar, e trancarei a porta.

— Muito bem. Fale com Baxter sobre isso.

Cobb prosseguiu e pegou o braço de Radfield com firmeza, levantando-o da poltrona e empurrando-o em direção à porta. Radfield, porém, parou no meio do caminho e virou-se para Richard.

— Está dizendo que lorde Kestwick a matou? É isso que acha?

— Francamente, não sei — admitiu Richard. — Só sei que ele a viu por um tempo antes de ela morrer, mas também sei que ela saiu do quarto dele e voltou para o dela. Não faço idéia do que aconteceu depois. Para onde ela estava indo ou quem, se é que havia alguém, estava com ela.

— O senhor... não vai deixar o caso morrer, vai? — perguntou Radfield. — Quero dizer, por ela ser quem era? Se alguém a matou, o senhor vai continuar procurando, não vai?

— Vou. Prometo.

O outro homem assentiu e deixou Cobb levá-lo para fora da sala.

— Bem. — Richard olhou para Jessica. — Isso foi certamente inesperado. Nunca podia imaginar... Acho que aquela roupa de pastor é um excelente disfarce, não é? Nunca olhei duas vezes para ele, mesmo quando soube que estava se divertindo com Leona. Achei que era um pastor ruim, mas, ainda assim, achei que era um pastor.

Jessica assentiu.

— Você estava certa — continuou ele. — Notei que você teve delicadeza suficiente para não dizer. Mas você comentou as inconsistências da atuação dele... a oração errada, citando Shakespeare em vez da Bíblia.

— Sim. Mas nunca imaginei que fosse um ladrão disfarçado de pastor — admitiu Jessica. — Nem sei o que achei... apenas que estava agindo de forma estranha.

— Por que você acha que ela foi ao quarto de Kestwick... supondo que o irmão esteja certo e ela não foi lá pelas mesmas razões que levaram Leona a visitá-lo?

Jessica balançou a cabeça.

— Não faço idéia. Parece um furto insignificante para ela. Cavalheiros não costumam viajar com muitas jóias. Ele, provavelmente, tinha algum dinheiro, mas, como disse Radfield, não faz sentido, já que ela criticou o irmão por tentar roubar seu escritório.

— Talvez ela tivesse padrões diferentes para si mesma e para ele. Ou talvez ele esteja mentindo sobre tudo isso. Talvez Cobb esteja certo, e foi ele quem a matou, e está simplesmente tentando jogar a culpa em Kestwick.

— Mesmo que ela quisesse roubá-lo, por que Kestwick a mataria por causa disso? Por que não apenas contar o que ela havia feito? Mandar prendê-la?

— Verdade.

Ficaram em silêncio por um momento, pensando, depois Richard disse:

— Percebi que o sr. Talbot reconheceu o nome.

— É mesmo. Ah, está pensando que foi ele por causa disso? — perguntou Jessica. — Por que ele a mataria apenas porque ela um dia foi uma cortesã famosa? Além disso, ele ficou claramente surpreso quando Radfield disse isso. Não podia tê-la reconhecido antes, senão não teria ficado surpreso.

— Talvez tenha sido uma encenação.

— Por que ele faria isso? Por que simplesmente não fingir que não a conhecia?

— E se Kestwick também a conhecia? — refletiu Richard, pensando em voz alta. — E se ele a reconheceu?

Jessica endireitou-se na poltrona, chocada com um pensamento.

— E se ele a reconheceu e ameaçou revelar quem era? Ela não ia querer que todos nós soubéssemos disso. Não ia querer que todos soubessem para não perder o status de viúva decente. Isso, no mínimo, teria feito o Sr. Cobb suspeitar dela, e Radfield disse que ela sabia que ele era um detetive.

— Sim, mas por que... ah, acho que entendo. E se ele ameaçou revelar sua verdadeira identidade e ela foi ao quarto dele pela razão que pensamos... apenas porque ele ameaçou contar tudo se ela não fosse?

Jessica olhou para ele.

— Isso explicaria tudo. Talvez seja por isso que ela estava tão nervosa... não queria fazer isso, mas precisava. Pobre mulher. — Ela parou, depois disse: — Bem, isso explicaria por que ela ia querer matar Kestwick. Mas não consigo entender que razão ele teria para matá-la.

— Verdade. — Richard suspirou. — Sinto dizer isso, mas temo não poder culpar Kestwick pelo assassinato. Entretanto, eu gostaria muito, já que ele é meu segundo suspeito depois do seu sr. Talbot.

— Ele não é meu sr. Talbot — protestou Jessica. — Detesto a idéia de abrir mão de Kestwick como suspeito. Mas também não consigo acreditar que foi o irmão. É óbvio que ele é bom em fingir, mas mesmo assim acho que está dizendo a verdade hoje.

— Talvez não seja nada. Talvez seja o que lorde Vesey disse: um acidente e nada mais. Talvez eu esteja me precipitando.

Talvez tudo seja coincidência. O intruso no escritório era Radfield. Talvez o intruso na suíte fosse Vesey, como pensamos inicialmente.

— E minha caixa de jóias foi destruída por Darius? Para mim, parece um número muito alto de coincidências.

— Isso também é verdade. Minha vida ficou bem complicada desde que você chegou.

— Eu? —Jessica ergueu as sobrancelhas. — Está me culpando por tudo isso?

— Minha vida era muito chata antes de você chegar.

— Bem, acho que devo avisá-lo que minha vida também não tinha assassinatos, roubos e intrusos. Também era um tanto chata. Então, eu poderia culpá-lo da mesma forma.

— Talvez seja a combinação. Somos voláteis demais para nos misturarmos. — A voz ficou rouca, e de repente ficou claro que não estava mais falando sobre a chegada dela.

— Mesmo? — perguntou Jessica, a respiração presa na garganta, e lentamente ficou de pé. — Está dizendo que preferia que nós não... que não deveríamos... — De repente, sentiu um aperto no peito.

— Não! — Ele também ficou de pé em um pulo, consternado. — Não, não foi o que quis dizer. Quis dizer... eu estava dizendo...

Richard deu a volta na mesa até onde ela estava e pegou suas mãos.

— Quis dizer que, quando estou perto de você, existe... sinto um calor que não consigo controlar. Mal consigo me reconhecer. — Olhou nos olhos dela, os olhos escuros brilhando intensamente. — Devo me desculpar por ontem à noite, por me aproveitar da situação. De você.

— Você não se aproveitou — disse Jessica com firmeza. — Eu sabia o que estava fazendo. Continuei porque quis. Não me arrependo.

— Honestamente? — Levou as mãos dela até a boca e beijou uma, depois a outra. — Fico feliz em escutar isso, já que não posso dizer que me arrependo do que fiz. Não me arrependo.

— Nem eu. — Olhou para ele, os olhos arregalados e brilhantes.

— Sinto como se pudesse me afogar em seus olhos — murmurou ele. Inclinou-se, ela foi ao seu encontro, e eles se beijaram, os lábios delicados e exploradores.

— Não consigo ficar longe de você — disse ele, beijando-lhe os lábios, os olhos, a bochecha. — Quero ficar com você de novo esta noite. Sei que não deveria...

Jessica colocou a mão nos lábios dele para que se calasse. Finalmente, tirou-a e disse:

— Também quero ficar com você esta noite. Quero você na minha cama.

Ele prendeu a respiração.

— Jessica... — Puxou-a para si, cheirando seu cabelo. — Acho que agora seria ainda melhor.

Jessica riu.

— Acho que pode estar certo.

Neste momento, houve uma batida à porta e eles se separaram, virando em direção ao som.

— Pode entrar — disse Richard, a voz rouca. A porta se abriu e Baxter apareceu.

— Alteza. — Ele entrou na sala, o rosto animado. — O senhor tem uma visita. Lorde Westhampton acabou de chegar.

Richard ficou boquiaberto.

— Lorde Westham...

— Sim, lorde Westhampton. — Um homem alto e louro apareceu à porta. Devia estar na casa dos trinta e poucos anos, com traços atraentes e calmos. Estava bem agasalhado com um sobretudo pesado, um cachecol em volta do pescoço e segurava um chapéu. Parecia um pouco cansado, e Jessica percebeu que havia neve na bota e na parte de baixo do sobretudo. — Sou eu, Richard.

— Michael! Meu Deus! — Richard soltou sua rápida risada e atravessou a sala para cumprimentá-lo afetuosamente, aper-tando-lhe a mão e batendo no ombro. — De onde você veio?

— Bem, de casa, na verdade — respondeu Michael, parecendo um pouco constrangido.

— De Lake District? Na neve? Está maluco? Como conseguiu chegar?

— Em alguns momentos, pareceu um pouco arriscado — admitiu o outro homem de forma amena. — Mas, uma vez que já estava na estrada, bem, voltar seria muito ruim também, então prossegui.

— Mas por quê? — Richard franziu a testa de repente. — Aconteceu alguma coisa? Há algo errado? Dev não...

— Não, não. Não há nada errado. Pelo menos, não comigo. Não agora que Baxter me garantiu que Rachel está segura.

— Ah, sim, ela está aqui por causa da neve. Não sabia que ela planejava passar por aqui na viagem de volta?

— Bem, ela estava demorando muito mais do que tinha previsto, e comecei a me preocupar, então pensei em ir a Derbyshire, só para me certificar que ela estava bem. Dev me disse que ela havia vindo para cá para convencê-lo a passar o Natal conosco, e eu me senti um tolo. Comecei a voltar para casa, mas aí veio a nevasca. Fiquei com medo de ela ter pego a nevasca no caminho, então decidi vir para cá. Só para garantir.

Jessica olhou para lorde Westhampton com interesse. Então este era o homem com quem Rachel tinha um casamento "agradável", mas sem amor. Para ela, parecia um pouco estranho que um homem que mantinha com a esposa um casamento educado mas distante entrasse em pânico ao ver que ela estava alguns dias atrasada e saísse à procura dela, ainda mais seguir pela neve que estava tão profunda que nem as diligências conseguiam passar.

Lorde Westhampton olhou para Jessica.

— Peço desculpas por interrompê-la, senhora.

— Não tem problemas, posso garantir — respondeu Jessica.

— Desculpe — disse Richard, virando-se para Jessica. — Esqueci de minhas boas maneiras. Srta. Maitland, este é meu cunhado, lorde Westhampton. Marido de Rachel. Michael, esta é a srta. Maitland. Ela é... bem, a governanta de minha pupila.

— Sua pupila? — Michael estava indo na direção de Jessica para cumprimentá-la, mas parou ao ouvir estas palavras e virou-se para Richard, exclamando com surpresa: — Eu não sabia que você...

— Michael? — Escutaram o som de passos apressados no corredor e a voz de Rachel chamando o marido.

Lorde Westhampton virou-se ao som da voz dela, e Jessica viu em seu rosto um traço de algo... esperança, excitação?... que ele rapidamente controlou. Rachel entrou correndo na sala, sem fôlego e corada, e parou bruscamente. Os dois ficaram lá parados, um olhando para o outro por um momento. Então Rachel engoliu em seco e prosseguiu, esticando a mão quase formalmente.

— Michael — disse ela, com apenas um leve tremor na voz.

— Eu não esperava você.

— Eu sei — respondeu ele com a mesma educação, trazendo a mão dela até os lábios em um gesto educado. — Peço desculpas pela intromissão.

— Ridículo! — disse Cleybourne decididamente.

— Não é uma intromissão — disse Rachel com calma. — Fiquei apenas surpresa por você ter vindo de tão longe.

— Bem, me ocorreu que você poderia ter ficado presa na neve em algum lugar entre nossa casa e aqui — explicou ele.

— Quase fiquei, mas felizmente Richard foi atrás de mim — explicou Rachel.

Jessica, observando-os, decidiu que era hora de sair. Esses três, velhos amigos e familiares não precisavam de uma estranha por perto.

— Com licença — disse ela. — Vou ver como está Gabriela. Foi um prazer conhecê-lo, lorde Westhampton. Fico feliz que tenha chegado em segurança.

Ele agradeceu e ela saiu da sala, consciente de que Richard virou-se para observá-la sair. Primeiro, pensou em Rachel e no encontro singularmente frio com o marido. Havia algo estranho e contraditório ali, e não podia deixar de pensar no que poderia ter acontecido entre eles. Mais de uma vez, achara que havia um sinal de tristeza nos encantadores olhos verdes de Rachel. Mas não conseguiu pensar nisso por muito tempo, na verdade, em nada, até que os pensamentos sobre Richard se apoderassem furtivamente de sua mente. Pensou que ele viria a seu quarto de novo esta noite, e a excitação tomou conta dela. Sabia que estava agindo de forma libertina, até depravada.

Procurou Gabriela e encontrou-a, por incrível que pareça, absorvida em um de seus livros.

— A princesinha da torre — disse ela, explicando o interesse, depois voltou para a história macabra.

Jessica foi para seu próprio quarto, pensando em continuar o tricô que começara outro dia, antes de os hóspedes chegarem, e trabalhar nele enquanto Gabriela fazia as lições. Quando entrou no quarto, a primeira coisa que viu foi a caixa de jóias destruída na cômoda. Foi até lá e começou a separar as jóias dos pedaços de madeira.

Perguntou-se onde colocaria suas poucas jóias agora. Era claro que não havia conserto para a caixa. Franziu a testa, pensando, e de repente se iluminou ao se lembrar da linda caixa de madeira marchetada que o general lhe deixara no testamento. Era muito grande para suas jóias, mas o colar e os brincos caberiam bem em um de seus compartimentos.

Jessica foi até o baú ao pé da cama, que ela deixara arrumado, sem saber se o duque as mandaria embora logo. Levantando a tampa, ela tirou os vestidos de verão que estavam dobrados por cima, inúteis nesta época do ano, e inclinou-se para procurar a elegante caixa. Era grande, uns 30 centímetros de comprimento, e quase o mesmo de largura, embora não fosse tão pesada quanto parecesse.

Colocou-a sobre a cômoda, passando a mão pela superfície, admirando-a. Virou a pequena chave para abri-la, mas, antes que pudesse levantar a tampa, assustou-se com um resmungo abafado no corredor.

Levantou a cabeça e virou-se, olhando para o corredor. Lorde Kestwick estava parado lá, olhando para ela, os olhos arregalados.

— Então é isso! — exclamou ele, e olhou dela para a caixa. — Uma caixa diferente!

Jessica olhou para ele sem entender.

— O que você...

Naquele momento, ela entendeu. Fora Kestwick quem destruíra sua caixa de jóias. Não compreendia nem um pouco, mas era claro que ele estava empolgado ao ver a caixa do general. Confundira a caixa de jóias com a que o general lhe dera. No momento seguinte, outras coisas se encaixaram: alguém invadira e procurara alguma coisa na casa do general, e depois alguém invadira a suíte. Será que o intruso estava atrás desta caixa?

— Foi você! — exclamou ela.

— Cale a boca! — Kestwick entrou rapidamente no quarto dela, fechando a porta. Os olhos dele brilhavam com uma maldade que Jessica nunca tinha visto. Ela deu um passo involuntário para trás, mas ele a pegou logo e esbofeteou-a com força, jogando-a no chão.

— Maldita! — A fúria dele parecia ainda mais terrível pelo fato de que falava com a voz baixa. — Sim, fui eu. E daí? A prostituta merecia!

Jessica, a cabeça girando do golpe que recebera, olhou para ele atordoada. O significado das palavras penetraram-na, e ela deduziu com um arrepio pelo corpo que lorde Kestwick matara a sra. Woods.

 

— Vagabunda intrometida! — continuou Kestwick. Jessica não sabia se ele estava se referindo a ela ou à sra. Woods. Ele se abaixou e agarrou o pulso de Jessica, puxando-a até ficar de pé. Arrastou-a para perto de si, passando um braço em volta dela, e com a outra mão puxou do bolso de trás uma faca pequena com a ponta afiada e colocou no pescoço dela. — Diga uma palavra e cortarei sua garganta aqui mesmo.

Ficaram parados assim por um momento em frente à cômoda, olhando suas imagens no espelho.

— O que eu vou fazer? — refletiu ele. — Não posso deixá-la ir agora. Como você sabia?

— Eu não sabia — respondeu Jessica, sendo honesta. — Quis dizer que foi você que destruiu minha pequena caixa de jóias. Que invadiu a casa do general e a suíte. Não sabia que você tinha matado a sra. Woods até agora, quando você disse.

Ele praguejou, apertando o braço em volta da cintura dela com crueldade.

— Bem, isso é inútil. Tenho de fazer alguma coisa com você.

— Por que fez aquilo? — perguntou Jessica. — O que queria com aquela caixa?

Ele ergueu a sobrancelha.

— Quer dizer que não sabe? Não encontrou?

— Encontrei o quê? Sei o quê? Não faço a menor idéia do que você está falando.

Ele soltou uma gargalhada que beirava a histeria.

— Deus! Não posso acreditar! Você não sabe!

— Não, não sei.

— Então, o velho tolo mentiu para mim... ou talvez tenha escondido muito bem para você não encontrar.

— Quem... o general? — Jessica encontrou os olhos dele pelo espelho, frios e vazios como os de uma cobra, e de repente soube com certeza que este homem também matara o general. — Ele não morreu de outra apoplexia, não é? Você esteve lá naquela noite, não foi? Fez alguma coisa com ele. Por quê?

— Fique quieta! Você fala muito. Tudo bem. Temos de fazer isso parecer um acidente... não! Tenho uma idéia muito melhor. — Os olhos dele brilharam com maldade. — Você vai escrever um bilhete confessando que matou Marie.

— Você já a conhecia antes — supôs Jessica. — Estávamos vendo pelo lado errado, não é mesmo? Você não a reconheceu e a ameaçou. Ela reconheceu você? Ela sabia algo a seu respeito, dos dias dela como cortesã. O que ela fez? Exigiu dinheiro para não contar?

Kestwick sorriu com desdém.

— Vagabunda tola! Como se eu fosse cair nas ameaças de uma prostituta como ela.

— O que ela sabia?

—Já disse para ficar quieta! — respondeu ele, mais uma vez apertando a cintura dela com tanta força que mal conseguia respirar. — Não importa o motivo. Agora, primeiro, você vai escrever o bilhete de suicídio. Vamos ver, como explicar por que você a empurrou pelas escadas? Talvez por vocês duas terem sido mulheres de vida fácil, e ela reconheceu você. Ela ameaçou contar a seu novo patrão. — Ele sorriu. — Ou devo dizer amante? Jessica olhou para ele pelo espelho, perplexa.

— Ah, sim — disse ele. — Percebi como ele olha para você. Foi tão tola a ponto de achar que ele a amava? Que ele se casaria com você? Ele nunca fará isso, você sabe.

— Está me dando conselhos românticos? — perguntou Jessica, estarrecida com o absurdo da situação.

— Apenas dizendo a verdade. Homens como nós não se casam com governantas, principalmente aquelas que estão dispostas a levantar a saia sem nada em troca.

— Não ouse se colocar no mesmo nível de Cleybourne! — exclamou Jessica, a raiva tomando conta dela. — Ele não se parece em nada com você, graças a Deus!

— Não? Bem, talvez eu deva ser gentil e deixá-la morrer com essas doces ilusões na cabeça. Agora, onde há papel?

— Está louco? Não tenho nenhuma intenção de escrever um bilhete de suicídio para você!

Ele pressionou mais um pouco a faca no pescoço dela, cortando uma fina linha vermelha.

— Vai, sim, se não quiser morrer.

— Por mais alguns minutos? E você realmente acha que eles vão acreditar que eu me matei com esse corte no pescoço?

Ele olhou para ela pelo espelho, e ela percebeu que ele adoraria matá-la naquele momento. Mas ele se controlou.

— Talvez esteja certa. Escreverei o bilhete por você quando eu voltar.

— Volt... — Mas Jessica não conseguiu pronunciar as palavras, pois ele jogou a faca na cômoda, ao lado da caixa, e passou a mão em volta de seu pescoço, apertando com força até que pontos pretos pairassem em frente aos olhos de Jessica e ela perdesse a consciência.

Jessica acordou sentindo dor no estômago. Também estava com muito frio. Abriu os olhos, soltando um leve gemido, e viu a neve branca abaixo de si. A cabeça doía, assim como o estômago, pressionado contra alguma coisa dura. Demorou um momento até perceber que Kestwick devia tê-la colocado sobre os ombros e estava carregando-a pela neve, a cabeça pendendo de um lado dele e o pé do outro. Cada passo que ele dava fazia sua cabeça sacudir e pressionava seu estômago. Fechou os olhos, lutando contra uma onda de náusea. Estremeceu. Estava terrivelmente frio fora da casa sem um casaco, mas pelo menos o frio estava fazendo com que recobrasse os sentidos com mais rapidez. Se não fizesse nada, Kestwick iria matá-la.

Chutou-o o mais forte que conseguiu, contorcendo-se, lutando e batendo as mãos nas costas dele. Abrindo a boca, ela gritou, mas sabia que o som cairia no nada nessa paisagem branca.

Kestwick tropeçou e jogou-a no chão, xingando. A neve amorteceu a queda, por isso não ficou completamente sem ar, mas, enquanto lutava para ficar de pé, ficou tonta.

— Cale a boca, sua maldita! — gritou Kestwick, agarrando-lhe o pulso e puxando-a, colocando a mão sobre sua boca.

Ele prosseguiu, meio puxando-a, meio arrastando-a, esforçando-se para andar pela neve que ia até seus joelhos. Os sapatos de Jessica ficaram encharcados rapidamente, assim como o vestido e as anáguas, e estava morrendo de frio. Era um pequeno conforto saber que ele estava tão pouco preparado para as forças da natureza quanto ela, já que não tivera tempo de ir até o quarto para vestir um casaco e colocar um chapéu.

Ela não conseguia se livrar da mão dele, mas tornou o plano dele o mais difícil e lento possível, na esperança de que alguém escutasse seus gritos ou percebesse seu sumiço. Pensou em Richard conversando animadamente com Rachel e Michael. Poderiam se passar horas até que ele percebesse que ela havia sumido. Ainda assim, lutava com fúria, determinada a não deixar Kestwick matá-la com tamanha facilidade. Não sabia o que ele planejava ou para onde estavam indo, mas ela lutava e afundava os pés, recuando com toda a força, contorcendo-se e virando-se para se livrar dele. Eles caíram mais de uma vez, mas ainda assim seguiram em frente.

Finalmente, chegaram a um lugar onde a neve estava mais baixa, e Kestwick jogou-a ali. Ela afundou e acabou encontrando uma superfície dura e macia. Gelo! Naquele momento, percebeu que estava em um lago congelado. Ele queria quebrar o gelo e afundá-la na água fria para morrer, puxada para baixo pelo peso da saia e das anáguas.

Horrorizada, ela ficou de pé em um pulo e arremessou-se para fora do gelo, agradecida por ele não ter quebrado. Kestwick soltou um rugido de raiva e agarrou-a, empurrando-a para o gelo e chutando-o com o calcanhar. Jessica agarrou com as unhas o rosto dele, que gritou, atracando-se com ela para controlar seus braços. Houve um estalo ameaçador embaixo dos pés deles.

De repente, de trás deles, veio um rugido de raiva e, no momento seguinte, alguém agarrou o colarinho de Kestwick e jogou-o para trás. Jessica olhou e viu Richard.

Ele a envolveu com os braços e puxou-a para fora do gelo. Kestwick soltou um grito incompreensível de raiva e frustração e avançou, investindo contra Richard e fazendo com que os dois caíssem sobre a superfície congelada do lago.

— Richard! — gritou Jessica.

Houve outro estalo mais alto quando os dois homens caíram sobre o gelo. Então, ele se quebrou, e os dois caíram na água. Jessica gritou o nome de Richard de novo e avançou, mas um homem segurou seu braço e afastou-a. Era lorde Westhampton, e ele correu para o lago, onde os dois homens ainda lutavam na água gelada.

Kestwick estava tentando afastar-se de Richard para alcançar o gelo e sair da água, mas Richard estava atracado a ele, tentando arrastá-lo para a margem junto com ele.

O gelo quebrava em todos os lugares em que tocavam. Kestwick empurrou Richard para baixo da água, mas ele conseguiu subir, agarrando Kestwick e jogando-o contra o gelo. Jessica assistia, frenética de preocupação, enquanto Michael chegava ao lago e tentava alcançar o ombro de Richard. Mas ele estava fora do alcance, e Michael olhou em volta rapidamente procurando algo para resgatar o amigo.

Jessica escutou o som de alguém atrás, virou-se e viu o sr. Cobb andando ruidosamente pela neve, e mais atrás vinham Rachel e Gabriela. Cobb carregava um porrete de uns 30 centímetros, que Jessica supôs ser sua arma, mas ele o usou agora como uma vara, entregando-o a Michael, que tinha braços mais compridos e se esticou para alcançar Richard com o porrete. Richard agarrou a outra extremidade da vara e Michael puxou-o em direção à margem, abaixando-se com Cobb para segurar o duque pelos ombros assim que estivesse perto o suficiente para tirá-lo da água. Richard afundou na neve, tossindo, e Jessica correu até ele, ficando de joelhos a seu lado.

— Você está bem? Oh, Richard!

Ele assentiu e sentou-se, puxando-a para os braços e abra-çando-a com força.

— Jessica... graças a Deus. Nunca fiquei tão assustado em minha vida. Achei que... Achei que fosse perdê-la.

— Não. Nunca.

Richard levantou o queixo dela e beijou-a, e de repente Jessica sentiu bem menos frio.

Atrás deles, Cobb e Michael viraram-se para tentar tirar Kestwick da água também. Mas Kestwick deu as costas e nadou para longe, ignorando os gritos de Westhampton. Os movimentos dele mostravam exaustão e eram lentos por causa do frio que penetrara nele e pela água que encharcava suas roupas e enchia suas botas, fazendo-o afundar. Chegou à beira da lâmina de gelo que cobria o lago e agarrou-a com as mãos. Levantou o corpo para fora da água, mas, com o peso repentino, o gelo quebrou e ele caiu na água de novo. O grande pedaço de gelo que tinha quebrado bateu em sua cabeça, e ele desapareceu sob a superfície.

— Kestwick! — gritou Westhampton. Virou-se para Cobb e deu de ombros. Estava claro que havia pouco que pudessem fazer. Kestwick estava longe demais para que pudessem puxá-lo.

— Richard! Jessica! Vocês estão bem? — Rachel estava perto deles agora. Tirou a capa e enrolou Jessica. — Pobrezinha. Deve estar congelada.

Se achou estranho ver Richard abraçando a governanta de sua pupila como se nunca mais fosse soltá-la, não comentou nada.

— Srta. Jessie! Srta. Jessie! — Gabriela também estava lá. — Você está bem? Eu o vi carregando-a para fora da casa, então corri para contar ao duque!

— Você foi uma menina muito esperta — disse Rachel, pu-xando-a e abraçando-a. — Se não fosse por você, não sei o que poderia ter acontecido.

— Por que ele a carregou aqui para fora? — continuou ela, virando-se para Jessica. — Foi ele quem matou a outra mulher?

Jessica assentiu, estremecendo e agarrando-se a Richard. Todos viraram para o lago onde Kestwick estava se debatendo. Lorde Westhampton estava correndo em volta do lago, Cobb ofegando atrás dele, desencorajando-o.

— Não pode tentar isso, meu lorde! Vai afundar como ele!

— Não posso ficar parado aqui e deixá-lo se afogar — protestou Westhampton. — Não importa o que ele tenha feito.

Michael pisou com cuidado sobre o gelo e começou a atravessá-lo. Rachel, de repente pálida, correu em direção ao sr. Cobb.

— Não! Michael, não!

A cabeça de Kestwick surgiu na superfície, e ele lutava, as mãos alcançando o gelo e escorregando. Houve um estalo no gelo, e de repente uma fenda começou a se formar, começando bem na frente de Kestwick e indo na direção de Michael. Rachel gritou, e o sr. Cobb teve de segurá-la para não correr para o gelo atrás do marido.

Michael, que agora estava perto de onde Kestwick se debatia, tentando flutuar, deitou no gelo para distribuir melhor o peso e rastejou para a frente.

— Pegue minha mão! — gritou para Kestwick, arrastando-se até a beira do gelo e esticando a mão para o outro homem. Kestwick debateu-se até Westhampton, segurando no gelo que estava a seu lado e tentando deslizar sobre ele de forma segura. Houve outro estalo alto, e o gelo na mão de Kestwick quebrou. Ele afundou de novo e não reapareceu.

Uma fenda apareceu na frente de Michael, e ele rastejou para trás rapidamente. O sr. Cobb abaixou-se e engatinhou sobre o lago, pegando o pé de Michael e puxando-o para trás no exato momento em que outra fenda se abria embaixo de Michael. Os dois homens rastejaram rapidamente para trás, enquanto o gelo na frente deles quebrava e flutuava sobre o lago. Chegaram à margem e jogaram-se na neve, sem fôlego.

Rachel, que estava parada, imóvel como uma estátua, caiu de joelhos, cobrindo o rosto com as mãos. Gabriela correu até ela, colocando os braços à sua volta e ajudando-a a se levantar, e quando lorde Westhampton e o sr. Cobb conseguiram se levantar tremendo e virar para voltar, Rachel já assumira uma expressão de calma.

— Estou congelando — disse apenas, virou-se e voltou para onde Jessica e Richard estavam. Os dois já estavam de pé e olhavam para o lago. Não havia nem sinal de Kestwick, e um longo momento se passou. Ainda nenhum sinal do homem. Todos sabiam que não havia chance de Kestwick ter sobrevivido. Já estava sob a água há muito tempo; jamais conseguiria subir com todo o peso das roupas e botas.

— Que tolo — disse Richard apenas. — Ele se foi. Vamos voltar para dentro antes de morrer de frio. Então tentaremos entender tudo isso.

Assim, uma hora depois estavam sentados na sala de estar. Gabriela, Rachel e uma serviçal vestiram roupas quentes e secas em Jessica e deram-lhe uma xícara de chá quente com bastante brandy. Agora ela estava sentada no sofá ao lado de Richard, que também já estava seco e aquecido. Todos os outros estavam espalhados em volta: Cobb, os Westhampton, a srta. Pagerty, o sr. Goodrich, Darius Talbot e até Radfield Addison, que Richard declarara merecer escutar o que conseguissem descobrir sobre o que acontecera com sua irmã, apesar de seu status de prisioneiro de Cobb. Gaby queixara-se por ser excluída da discussão, mas Richard e Jessica concordaram que o assunto não era apropriado para uma pessoa tão jovem.

Cada um deles segurava uma xícara de chocolate quente e escutava enquanto Jessica descrevia o que havia acontecido em seu quarto mais cedo, e como lorde Kestwick inadvertidamente tinha revelado que matara a sra. Woods, e depois admitido que também fora responsável pela destruição da caixa de jóias de Jessica, assim como pela invasão da casa do general e da suíte.

— Mas por quê? — perguntou Radfield, a voz tremendo cheia de lamentação. — Por que ele ia querer ferir Bets?

— Acho que ela ameaçou revelar alguma coisa sobre ele. Aparentemente, ela já o conhecia... de Londres. Mas ele não me disse o que era... ou por que a caixa era tão importante. Ainda não consigo entender.

— E talvez nunca entendamos — disse lorde Westhampton, pesaroso.

— Não se culpe, Michael — disse Richard. — Você fez todo o possível para salvá-lo. Ele assinou a sentença de morte quando nadou para mais longe.

Ele virou e fixou um olhar frio em Darius Talbot.

— Entretanto, acho que talvez seja possível descobrir um pouco mais sobre o que Kestwick estava fazendo. Sr. Talbot?

Darius, que estava sentado em uma poltrona o tempo todo como se fosse uma estátua, mexeu-se nervosamente e ficou ainda mais pálido sob o olhar de Cleybourne.

— Eu não sei — disse ele, a voz saindo grossa. Limpou a garganta e repetiu: — Eu não sei, juro.

— Você ajudou seu amigo Kestwick a invadir minha casa? E a casa do general?

— Não! — Darius juntou as mãos no colo. — Estou dizendo: eu não sabia de nada que ele estava fazendo. Eu... ele... eu o conheci no clube em Londres. Foi logo depois da morte da mãe dele, e eu ofereci minhas condolências. Ele disse que estava indo para Norfolk avisar a um velho amigo sobre a morte da mãe...

— Norfolk? — repetiu Jessica. — Quer dizer.., ele foi ver o general Streathern?

Darius assentiu.

— Sim. Eu... não fazia idéia que você estava lá, claro.

— Então a mãe de Kestwick devia ser a velha amiga cuja morte deixou o general tão abalado — refletiu Jessica. — Ele sofreu a apoplexia quando ele leu sobre a morte dela. Ele... gostava muito dela. — Não viu motivo para mencionar o que o general lhe contara sobre o amor pela mulher.

Darius deu de ombros.

— Não sei. Kestwick não falou muito a respeito. Disse apenas que tinha de ver o general e perguntou se eu gostaria de ir com ele. Fiquei... — Pareceu um pouco constrangido. — Fiquei um tanto satisfeito. Ele é conde e o pai era um homem importante no governo antes de morrer. Eu conhecia Kestwick de conversar, jogar cartas, mas não éramos o que se pode chamar de amigos íntimos. Fiquei lisonjeado quando ele me convidou para ir junto.

Ele gaguejou e parou, e Richard disse:

— Continue, sr. Talbot. O que aconteceu depois?

— Bem, fomos até uma cidade chamada Little Pilton.

— Não fica longe da casa do general — comentou Jessica. — Mas quando foi isso? Kestwick não visitou o general.

Darius olhou para ela, surpreso.

— Visitou sim. Ele visitou o general na noite anterior à morte dele. Soubemos no dia seguinte, e Kestwick ficou perplexo. Disse que o homem parecera estar bem de saúde na véspera, quando contou sobre a morte da lady Kestwick. Achou que a notícia devia tê-lo abalado mais do que demonstrou.

— O general já sabia da morte dela — disse Jessica diretamente. — Já sabia havia quase uma semana. Kestwick o matou. Não sei como nem por quê, mas vi isso nos olhos dele quando ele estava falando. Ele matou o general. Eu o acusei, e ele não negou.

— Isso é ridículo! — exclamou Darius.

— É mesmo? — replicou Jessica. — Kestwick não foi visitar o general. Pelo menos, não abertamente. Ninguém da casa o viu. Ele deve ter entrado furtivamente. E o matado. — Ela parou, depois acrescentou: — Mas por quê?

— Pelo que você falou, ele queria aquela caixa que o general lhe deixou — salientou Rachel.

— Sim. Mas por quê? O que há naquela caixa que a tornava digna de se matar por ela?

— Ele estava interessado demais em uma caixa — concordou Darius. — Ele... acho que foi por isso que ele quis vir até aqui antes de voltar para Londres. Ficamos em uma hospedaria perto daqui por um ou dois dias antes da neve.

—Isso deu a ele a chance de invadir o castelo e procurar a caixa.

— Acho que sim — disse Darius. — Eu não sabia que ele tinha saído à noite. Eu não conseguia entender por que estávamos aqui. Estava um tédio. Mas, bem, Kestwick não é o tipo de homem que se pode questionar. — Parou e suspirou, depois acrescentou: — Acho que ele planejou o acidente com a diligência. Eu... me pareceu na hora quase como se ele tivesse ido na direção deles. Decidi que ele não devia ser um bom condutor e, claro, eu não ia querer criticar as habilidades de um amigo.

— Humm. Principalmente um tão importante — acrescentou Richard.

Darius ficou ruborizado.

— Talvez eu tenha sido tolo. Mas não fazia idéia. Como poderia?

— Ele queria um jeito de entrar nesta casa para poder procurar com calma — supôs Richard. — Foi ele que sugeriu que você perturbasse a srta. Maitland?

De rosa, Darius ficou vermelho.

— Ele, bem... — Enterrou a cabeça nas mãos e disse em um tom de voz abafado: — Sim. Ele... me pediu para tentar descobrir que tipo de caixa Jessica ganhara do general. Ele me disse que tinha lido o testamento de Streathern. Só não sabia que, para fazer isso, ele havia invadido a casa. Ele disse que o general tinha deixado dinheiro e essa caixa para Jessica no testamento, e que Jessica e Streathern tinham... os dois tinham sido... — Parou e olhou para Richard.

Cleybourne correspondeu ao olhar friamente.

— Sugiro que não termine essa calúnia, sr. Talbot, ou muito provavelmente se verá na neve, com toda sua bagagem... e cuidando de algumas feridas. Acho que fui claro.

— Humm, sim. Certamente. Eu entendi, garanto — disse Darius rapidamente. — Eu nunca repetiria tal mentira, juro.

Agora percebo como ele estava errado. Mas, na época, confiei nele. Concordei em conversar com Jessica para ver se conseguia convencê-la a me contar sobre a tal caixa.

— Mas por quê? — perguntou Rachel, confusa. — O que há nessa caixa de tão importante?

— Exatamente! — exclamou Jessica. — Não havia nada na caixa além de algumas recordações do general: algumas medalhas, algumas jóias antigas, nada muito caro.

— Mas, obviamente, era importante para ele. Como Talbot não conseguiu cortejá-la, Kestwick roubou sua caixa de jóias da cômoda, sem dúvida achando que era a caixa em questão.

— Mas por que ele a destruiu? — perguntou Rachel? Darius balançou a cabeça.

— Não sei nada sobre isso. Nem sabia que ele havia pego até a srta. Maitland contar a respeito hoje.

— Acredito que ele estivesse expressando frustração e raiva — respondeu Richard. — O que quer que ele quisesse, estava com a caixa errada, então, obviamente, não encontrou. Por isso destruiu a caixa, em um acesso de raiva. O que quer que quisesse, o homem era um lunático.

O grupo se dispersou logo depois disso, indo para os quartos para se vestirem para o jantar. Jessica, cansada e um tanto frustrada por não saber por que lorde Kestwick fizera tudo isso, levantou-se da poltrona e foi na direção da porta, mas Richard impediu-a.

— Espere, por favor, srta. Maitland — disse formalmente,

— Gostaria de conversar com a senhorita por um instante, se não se incomodar.

— Não. Claro que não. —Jessica virou-se para ele. O rosto estava muito sério, e o coração dela se apertou um pouco. Ela se perguntava se ele ia dizer que se arrependia de tudo que acontecera entre eles, afinal, que tinha reconsiderado e percebido que provavelmente seria um escândalo... ou que não podia fazer isso em respeito à memória de Caroline.

Ela voltou para o sofá e sentou, preparando-se. Quando o último hóspede saiu, Richard fechou a porta e foi até Jessica. Sentou-se no sofá e virou, de forma que ficou muito perto dela. Por um longo momento, houve silêncio. Jessica olhou para ele, revestindo-se de coragem para o que ele estava prestes a dizer.

— Srta. Maitland, deve saber a consideração que tenho pela senhorita — começou ele.

Jessica olhou para ele sem entender.

— O quê? Por que está falando assim?

— Eu... bem, é uma ocasião... formal.

— O quê? —Jessica suspirou. — Por favor, Richard, apenas fale. Se não quer mais que eu fique aqui, simplesmente diga. Eu entendo. Mas não posso suportar toda essa introdução.

— Não ficar aqui? — repetiu ele sem entender. — O que quer dizer?

Jessica franziu a testa.

— Quero dizer, se não quer que eu continue sendo governanta de Gabriela. Se quiser que eu saia desta casa.

Ele olhou para ela, um sorriso maroto nos lábios.

— Srta. Maitland, entendo que é uma pessoa muito difícil. Sim, é verdade, não quero que continue sendo governanta de Gabriela.

Jessica abaixou o olhar rapidamente, incapaz de encontrar os olhos dele. A dor no peito era tão forte que levou um momento para ela registrar as próximas palavras.

— Entretanto — continuou ele —, não quero que saia desta casa. Nem agora nem nunca. Jessica... quero me casar com você.

Ela levantou a cabeça bruscamente.

— O quê?

— Estou pedindo para se casar comigo. Para ser a duquesa de Cleybourne.

Jessica ficou feliz por estar sentada, pois achou que os joelhos fossem se dobrar.

— Mas... mas... você não pode!

— Não posso? — repetiu ele. — E por que não posso, pode me dizer?

— Bem, é... um absurdo. Não somos do mesmo nível social.

— Que ridículo. Você vem de uma ótima família. E, de qualquer forma, não sei por que isso deveria fazer alguma diferença para você, se não faz nenhuma para mim.

— Sou uma governanta.

— Não é culpa sua se passou por momentos difíceis — disse ele.

— Mas duques não se casam com governantas.

— Ah, mas um duque se casa quando quer se casar. Essa é a melhor parte de ser um duque, entende? Posso me casar com quem eu escolher. Quem vai me repreender por isso?

—Mas, Richa