Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O CAVALEIRO DAS CRUZADAS / Ana Seymour
O CAVALEIRO DAS CRUZADAS / Ana Seymour

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O CAVALEIRO DAS CRUZADAS

 

— Será impossível permanecer sentado no cavalo se continuar bebendo assim — disse Gervase de Palgrave, afastando a garrafa que a garçonete sorridente lhe oferecia.

O outro cavaleiro esparramado na cadeira a sua frente, franziu as sobrancelhas, piscou de modo exagerado e impediu que a jovem a seu lado se afastasse, segurando seu braço com mão firme. A garrafa de bebida espatifou-se no chão.

— Em nome de todos os santos, Nick, você está bêbado como um gambá! — exclamou Gervase, dando um pulo da banqueta na qual se sentava e passando as mãos nas pernas, onde o líquido respingara nas roupas. — Vou ficar cheirando como uma adega.

O companheiro permaneceu sentado, mas lançou um olhar de remorso para a jovem que os servira, murmurando com delicadeza, e temperando as desculpas com um sorriso:

— Lamento muito pelo estrago, minha querida. Não foi de propósito.

Como por encanto, toda a zanga que a moça sentia desapareceu do rosto redondo.

— Foi um acidente, meu senhor — respondeu, o olhar fixo no belo cavaleiro.

Mesmo após o cansaço de muitas semanas de viagem, as feições másculas de Nicholas de Hendry faziam com que todos o olhassem com admiração.

Enquanto a moça retirava a jarra molhada às pressas, e limpava o liquido derramado com a própria saia, Gervase voltou a sentar-se, resmungando com desagrado.

— O que há com você, meu amigo? Falta pouco para chegarmos a Hendry Hall, entretanto insiste em ficar aqui, nesta estalagem, como um coelho assustado na toca. Não está ansioso para rever sua família?

Os dois cavaleiros eram os únicos clientes na pequena estalagem que, na realidade, não passava de uma cervejaria, em nada comparável com o estabelecimentos grandes e animados que haviam visitado na longa viagem de volta à casa.

Nicholas fincou os cotovelos sobre a mesa, e ficou olhando para o fundo do copo que tinha à frente. Depois de uma longa pausa, suspirou, murmurando, sem erguer o olhar:

— É verdade...

Gervase pareceu contente por convencer o companheiro.

— Então, vamos embora, homem! Garanto que devem existir algumas damas ansiosas para rever seu rosto feio quando voltar para casa. — Com o canto do olho observou a jovem que os atendera e que não parava de encarar Nicholas. — Aliás, não precisa nem voltar para encontrar as que o admiram.

Nicholas tornou a sorrir para a jovem que ficou vermelha como um pimentão. Mexendo-se sem parar, nervosa e desengonçada, ela ficou segurando com força a garrafa de bebida em uma das mãos e a barra do vestido ensopado na outra.

— Será que os cavalheiros.., meus senhores... gostariam de mais cerveja?

Nicholas deu um suspiro, arrastando um banco para longe da mesa, com um certo esforço.

— Não, minha querida. Meu amigo tem razão. Já é mais do que tempo de voltar para casa. — Levantou-se, encarando o companheiro. — Aceitará a hospitalidade de Hendry Hall esta noite antes de prosseguir viagem, Gervase?

O outro rapaz inclinou a cabeça, concordando.

— Gostaria muito de conhecer seu pai. Vai se sentir orgulhoso de dar as boas-vindas para o filho herói.

Nicholas riu sem alegria.

— Quer dizer que o fato de termos sobrevivido na guerra nos transforma em heróis?

Gervase pegou as luvas que deixara sobre a mesa e levantou-se também, comentando:

— Todos os cruzados que retornam aos lares são heróis, Nick.

— Não vencemos nada de concreto, nada realizamos, somente enviamos alguns pobres pagãos a seus infernos pagãos. Mas, assim agindo, servimos ao Cristianismo e continuamos vivendo para contar a história. Sim, talvez você tenha razão, Gervase. Isso deve bastar para deixar meu pai orgulhoso e, assim sendo, não sei quem ficará mais atônito, ele ou eu.

Os dois cavaleiros dirigiam-se para a porta da estalagem, Nicholas um tanto cambaleante, procurando recuperar o equilíbrio.

Gervase amparou o amigo, passando uma mão por baixo do cotovelo de Nicholas, e perguntando:

— Por que seu pai ficaria atônito? Como não ficar orgulhoso de um filho como você? Cavaleiro soberbo, soldado invencível com uma espada na mão, raciocínio rápido, sem mencionar a aparência que fez inúmeros corações de donzelas se derreterem no caminho entre a Inglaterra e a Sicília.

— Aí está o problema, para ser exato, meu amigo. Meu pai sempre se aborreceu com o fato de o filho negligenciar os primeiros atributos que você mencionou, a favor do último.

— Ele desaprova que você seja um conquistador de belas mulheres?

Nicholas semicerrou os olhos ao deparar-se com a luz forte do sol.

— É um sentimento que oscila entre desaprovação e desgosto, creio. Sempre se queixou de que causei problemas com meus relacionamentos irresponsáveis.

Gervase observou Nicholas. Era um cavaleiro alto, magro e louro, apenas alguns anos mais velho que Nicholas, porém a expressão de seu rosto era muito mais ingênua e jovial. Os olhos azuis eram claros e inocentes. Acabou perguntando, em tom bastante curioso:

— Então, teve muitas mulheres em seus braços?

— Sim, muitas.

Estavam quase alcançando os cavalos, quando a jovem que os tinha servido na hospedaria veio correndo, porta afora, chamando-os:

— Desculpem, senhores.

Ambos voltaram-se para ela, e Gervase perguntou:

— O que foi, menina?

Sem despregar o olhar de Nicholas outra vez, a jovem ficou esfregando os pés no chão, demostrando, de modo claro, o embaraço pelo que precisava dizer.

— O patrão disse que precisam pagar pela cerveja derramada, meus senhores. Jamais pediria isso, mas estou cumprindo ordens.

Gervase olhou em direção da hospedaria que mal haviam deixado e, em seguida, encarou Nicholas, perguntando:

— Conhece o proprietário, Nick?

Nicholas balançou a cabeça em negativa, de modo lento, como se tentasse clarear as idéias.

— Já se passaram quase quatro anos. Não me recordo. Quem é seu patrão, minha querida? — Voltou-se para a jovem de modo interrogativo.

— Mestre Thibault, senhor — respondeu ela. — Não pediria, se dependesse de mim — repetiu, a voz baixa devido ao desconforto.

— Thibault, o cervejeiro? — perguntou Nicholas. — Phillip Thíbault é o dono desse lugar?

A jovem apenas balançou a cabeça, confirmando.

— A verdade é que você derramou mesmo a bebida, Nick — admitiu Gervase. — Pague o sujeito e vamos embora.

Porém Nicholas moveu a cabeça em negativa.

— Diga a mestre Thibault que falaremos diretamente com ele.

Muito bem, senhor.

Assim dizendo, como se parecesse muito aliviada com o final de sua missão, a jovem deu meia-volta e correu para a estalagem.

— Empresto uma moeda para você entregar ao homem — ofereceu-se Gervase -, contanto que possamos continuar a viagem.

Nicholas não respondeu ao amigo. Seu olhar parecia feito de brasas, enquanto o cravava na porta da hospedaria, mas a pessoa que de lá saiu, por certo não era Thibault, o taberneiro. Tratava-se de uma mulher, alta e delgada. Enquanto caminhava em direção aos dois homens, Nicholas pôde ver que tinha feições delicadas, nariz reto e pequeno, e as maçãs do rosto salientes.

Gervase observou-a vir em sua direção, o andar decidido e a postura agressiva, e perguntou um tanto sem folego, ao ouvido de Nicholas:

— Será uma de suas antigas conquistas, Nick? Porque me parece que a moça está um pouco zangada, seu olhar solta chispas de fogo.

— Não a conheço — respondeu Nicholas, também intrigado com a flagrante animosidade da jovem mulher.

E, de fato, a linguagem do corpo esbelto falava por si mesma: andar decidido, braços abertos ao Longo do corpo, cabeça erguida, e punhos cerrados. Parecia que avançava para um combate.

Ela nada disse até se encontrar a poucos centímetros de distância dos dois cavaleiros. Então, falou:

— Não quis acreditar quando me contaram, mas se trata mesmo de você. Pensamos que tivesse morrido. Aliás, tinha esperanças de que tivesse morrido de verdade.

Ao terminar de falar, manteve-se de maneira firme em frente aos dois homens, com as pernas um tanto separadas, como se fosse um soldado. Ergueu-se na ponta dos pés, e, em um gesto inesperado e surpreendente, cuspiu no rosto de Nicholas. Em seguida, deu meia-volta e regressou, do mesmo modo decidido, para a taberna.

Os dois cavaleiros ficaram olhando um para o outro em silêncio e atônitos com a cena que acabara de acontecer. Nicholas limpou o rosto com as costas da mão.

Por fim, Gervase quebrou o silêncio constrangedor com um sorriso amarelo.

— Meu amigo, pensando melhor, não quero que me aconselhe sobre questões do coração.

— Juro, Gervase, nunca tinha visto aquela moça antes — insistiu Nicholas, enquanto ambos cavalgavam lado a lado pela estrada poeirenta que conduzia a Hendry Hall.

Depois que a jovem mulher desaparecera dentro da taberna, Gervase pressionara Nicholas para que prosseguissem com a viagem de imediato, sem esperar para ver se o taberneiro iria surgir com a mesma agressividade encantadora.

Nicholas insistiu:

— Como poderia me esquecer de uma mulher como aquela?

— Mas ela parecia conhecê-lo muito bem.

— Sem dúvida, e pretendo esclarecer esse mistério, mas agora só penso em chegar a Hendry Hall.

Gervase sorriu para o amigo.

— Será que percebo, afinal, uma certa animação em rever o lar?

Nicholas mexeu-se sobre a sela, com desconforto, mudando de assunto.

— Disseram na taberna que pensavam que eu estava morto. Sem dúvida minha chegada será uma surpresa.

— Nós seis fomos dados como mortos quando não regressamos depois da luta.

Apenas seis dos duzentos cavaleiros que haviam partido quatro anos antes, de maneira orgulhosa, erguendo o estandarte da Rosa Negra, apenas seis regressavam. O ajuizado Simon, lider natural do grupo, Nicholas, o simpático, Bernard, de humilde proprietário rural a conquistador mortal, Guy, o proscrito que, por direito, era o filho de um grande senhor, Gervase, o inocente que fizera um juramento de eterna lealdade aos companheiros, acatado por todos os demais, e Hugh, cujos modos gentis disfarçavam a alma de guerreiro.

Ao ver que Nicholas continuava em silêncio, Gervase continuou:

— Pensei que as novas sobre nossa sobrevivência miraculosa faria com que as boas-vindas fossem mais calorosas.

— Hendry Hall não é um local alegre, Gervase, e talvez por isso desejei procurar diversões longe de casa.

— Por todos os santos, Nicholas, se todas as diversões que teve na vida forem parecidas com as boas-vindas dadas por aquela jovem na taberna, digo que encontraria ambiente mais amigo em meio às batalhas contra os infiéis.

Nicholas balançou a cabeça, perplexo.

— Você ainda se recusa a acreditar em mim. Não fui amante daquela mulher.

Naquele momento, o solar de pedras cinzentas surgiu à frente, ao contornarem uma curva na estrada, mas Nicholas continuava mergulhado nos próprios pensamentos, matutando que sempre gostara de donzelas de pele rosada, sorrisos agradáveis e modos livres. A mulher na taberna era forte, apesar do corpo delgado, e havia um brilho de aço em seu olhar.

— Creia-me, Gervase — murmurou, — eu me lembraria se tivesse tido um relacionamento com aquela moça.

 

Beatrice cantarolava de modo suave, enquanto embalava a criança nos braços: Era no mês de maio, quando os brotos verdes surgiam...

Gostava dessa hora do entardecer com o pequeno sobrinho, embora soubesse muito bem que, em breve, ele não mais seria um bebê. Já com mais de três anos, parecia crescer a olhos vistos a cada dia. Eram tempos difíceis, e os meninos tornavam-se homens em um piscar de olhos, pois precisavam trabalhar e lutar pela família desde muito jovens.

A porta do quarto se abriu com um rangido, e Phillip Thibault perguntou em voz baixa, dando um passo para dentro do aposento:

— Pretende ficar sentada aqui o resto da noite, filha?

— Flora tinha razão, pai — respondeu Beatrice, ainda movimentando a cadeira de balanço, e acariciando os cachos negros do menino com suavidade. — Bonito como o demônio, dizia ela. Olhos pretos que conseguem derreter o coração de qualquer mulher a quem dirigir sua atenção.

— Deveria descer para jantar, menina. Nada comeu desde hoje pela manhã e, mesmo assim, era de madrugada.

O olhar de Beatrice pousou no pai. Os olhos azuis pareciam lâminas de aço, e não havia traços de lágrimas no rosto.

— Bonito como o diabo e duas vezes mais cruel, garanto.

Phillip balançou a cabeça com tristeza.

— Coloque o pequeno Owen na cama e desça comigo. Gertie deixou uma perna de carneiro que já ficou ressecada, enquanto esperava por você.

— Deveria ter jantado, pai. Não tenho fome esta noite. Phillip cruzou o quarto com grandes passadas. O aposento de sua filha era grande, ocupando quase todo o segundo andar da taberna e hospedaria do Javali Dourado.

Costumara ser o quarto do dono da casa, mas quando Beatrice viera de York para cuidar da irmã, Phillip insistira em se mudar para o quarto menor nos fundos da taberna. E lá ficara, deixando que o aposento espaçoso servisse de dormitório da filha e do sobrinho. A cama enorme que Phillip compartilhara anos atrás e por pouco tempo com a mãe de Beatrice e Flora fora empurrada para um canto, e o restante do quarto era deixado livre para as brincadeiras do menino.

— Será melhor babá para a criança amanhã de manhã, após comer bem — disse Phillip com severidade, estendendo os braços para segurar o menino. — Owen acordará com o primeiro canto do galo, correndo de um lado para o outro, pedindo para passear, cheio de energia, e você estará como uma sonâmbula, dormindo sobre a mesa do café.

Owen resmungou ao ser erguido pelo avô, mas continuou adormecido. Beatrice observou, inquieta, enquanto Phillip atravessava o quarto. O pai já não era um homem forte e, às vezes, suas mãos e pernas tremiam tanto que quase perdia o equilíbrio. A jovem deixou escapar um suspiro de alívio quando Phillip colocou a criança no leito, sem maiores problemas.

— Não suporto pensar em comida enquanto ainda vejo aqueles olhos negros na minha frente — disse Beatrice.

— Então, afaste-os de sua mente — ordenou o pai.

— Não precisa manter nenhum contato com o cavaleiro Hendry.

— Quer dizer com sir Nicholas Hendry — corrigiu Beatrice com azedume. — Esquece que agora ele é um herói, retornando da Cruzada Sagrada?

Phillip segurou a mão da filha e a fez se levantar da cadeira, dizendo:

— Ele pode não ser um demônio tão perverso assim, se passou os últimos quatro anos à serviço do Senhor.

Beatrice deixou que o pai a conduzisse para fora do quarto.

— Acho mais provável que tenha passado os últimos quatro anos seduzindo todas as donzelas daqui até Jerusalém.

Phillip voltou a sacudir a cabeça devagar com desânimo, e empurrou a filha com delicadeza para que descesse a escada estreita até o salão da taberna.

— Esqueça-o, menina. Com sorte, estará tão ocupado em Hendry Hall que nunca mais veremos seu rosto.

 

Nicholas mordeu o lábio enquanto abraçava Gervase. O cavaleiro alto e magro segurou o ombro do amigo, dizendo, com voz carregada de emoção:

— Voltaremos a nos encontrar, companheiro.

Nicholas acenou que sim, sem nada dizer.

— Ficarei alguns dias, se precisar de mim, Nick. Caso necessite de ajuda para... você sabe... resolver os negócios de seu pai.

— Parece que foram bem resolvidos sem minha presença — respondeu Nicholas, sempre balançando a cabeça de modo inconformado. — Embora ainda não consiga acreditar. Sempre pensei que meu pai fosse muito forte para deixar que a morte o levasse tão cedo. Mal posso crer! Meu pai está morto!

— Não foi a volta ao lar que planejou, meu amigo.

— De modo algum.

Os dois cavaleiros afastaram-se, e Gervase aproximou-se do cavalo, dizendo:

— Agradeça sua mãe pela pousada que me deu na noite passada.

— Sim.

Gervase montou o ginete musculoso.

— Somos uma irmandade, você sabe, Nick, nós seis. Os Cavaleiros da Rosa Negra, os únicos que restaram para contar a história.

Nicholas ensaiou um fraco sorriso.

— Sei disso. Desculpe este adeus melancólico, Gervase, considero-o um irmão e sempre será assim.

— Não há nada para desculpar, Nick. Voltou para encontrar um lar cheio de tristeza. Levará algum tempo para se acostumar com a idéia de que, agora, é o senhor de Hendry Hall.

Nicholas voltou a sacudir a cabeça com desânimo. Não contara a Gervase toda a triste verdade que sua mãe lhe revelara na noite anterior, depois dos cumprimentos pela sua volta.

— Sim, levará tempo — respondeu com simplicidade. Bateu de leve na anca do cavalo. — Agora vá, meu amigo, cuidar de sua própria vida. Você também está regressando para um lar cheio de novidades.

Gervase sorriu com tristeza.

— Você me conhece como a um irmão, Nicholas. Mandarei uma mensagem quando houver retornado à minha casa.

Nicholas aquiesceu, forçando-se a sorrir também, enquanto o amigo partia. Dizer adeus ao último de seus companheiros de combate punha um fim à aventura que começara como um sonho havia quatro anos. Agora era tempo de acordar. O passado era passado. O cavalo de Gervase desapareceu na curva da estrada.

Nicholas deixou pender os ombros, e voltou-se para a mansão onde o esperava a mãe, recentemente viúva.

 

— É a terceira vez que invoca o nome do barão Hawse nos últimos cinco minutos, mãe — disse Nicholas em tom cansado. — Não ligo para o que o barão pensa sobre o caso. Quero sua opinião, como minha progenitora, conselheira e amiga.

Estavam no salão principal de Hendry Hall, com suas paredes cobertas por tapeçarias, armas antigas e armaduras decorando os quatro cantos. Brasões da família e antigos estandartes de guerra coloriam as paredes de pedra.

Lady Constance, senhora de Hendry Hall, mãe de Nicholas, era uma mulher pequena que parecia desaparecer ante a estatura do filho, mas seu olhar era firme e tinha a postura de uma grande dama.

Estava trajada de preto, devido ao luto recente, e seu olhar traduzia a tristeza que lhe ia no coração.

Tomou o lenço de renda que trazia na manga do vestido e encostou-o nos lábios. Um perfume suave de rosas e jasmins alcançou as narinas de Nicholas, que recordou-se de quando era criança e entrava correndo naquele salão, a fim de atirar-se nos braços da mãe. Haviam., sido tempos felizes.

— O barão Hawse tem sido um grande amigo, Nicholas — disse a senhora de Hendry Hall. — Se não fosse por ele, é provável que eu tivesse sucumbido também com a dor pela morte de seu pai, imaginando que você também morrera.

— Sei que deve ter sido muito dificil, mãe, mas agora voltei, e Hendry Hall pode retornar ao seu senhor de direito. Não gosto da idéia do espírito de meu pai ter sido enxotado pela presença de nosso vizinho do sul. Se bem me lembro, meu pai não gostava muito desse barão.

Constance evitou o olhar do filho e deu alguns pasaos, indo sentar-se em uma banqueta baixa, junto à lareira pequena, recente melhoria feita no espaçoso salão de Hendry Hall. Quando vivo, o pai de Nicholas, Arthur, fizera constantes reformas na mansão de pedra que começara como uma casa humilde, depois dos dias de William, o Conquistador.

Nicholas olhou a mãe com carinho. Em pouco anos, transformara~se de uma jovem senhora em uma mulher amadurecida pelo sofrimento, entretanto, sob o brilho mutante do fogo na lareira, o rosto não mostrava rugas, e os olhos continuavam brilhantes como os de uma adolescente.

Depois de um longo momento de silêncio, lady Constance voltou-se para o filho e disse:

— Que me lembre, você e seu pai viviam sempre às turras e pouco se entendiam. Como pode saber, com precisão, o que ele pensava? Como pode afirmar que não gostava do barão Hawse?

Nicholas hesitou um instante, e depois cruzou o aposento para sentar-se em frente à mãe, junto ao fogo.

— Sim, eu não me entendia bem com meu pai, e esse era o primeiro problema que havia decidido resolver quando voltasse para Hendry Hall. Quase não pensei em outra coisa neste último ano, enquanto lutávamos para voltar sãos e salvos.

Lady Constance inclinou-se em direção ao filho e, com meiguice, afastou uma mecha de cabelos rebeldes da testa ampla.

— Sei disso. Havia uma muralha entre vocês dois e que nunca foi derrubada. Mas, Nicholas, em meu coração sei que seu pai o amava muito.

Nicholas afastou-se do olhar da mãe e comentou:

— Sim. Amava-me tanto que passou meus direitos por nascimento para um homem de quem não gostava.

— Arthur pensava que você tinha morrido, Nicholas. E respeitava a posição do barão. Para Arthur era a coisa mais importante, só estava tentando me proteger.

Nicholas não respondeu de imediato, inclinando-se em direção ao fogo, e sentindo no rosto o calor amigo e aconchegante. O solar era muito grande e não conseguia afastar o frio cortante dos longos meses de inverno.

— Ainda não consigo acreditar... o barão Hawse é o senhor das terras dos Hendry e de Hendry Hall. — Nicholas ergueu o olhar para a mãe. — E é o senhor da dona de Hendry Hall também, do modo como fala dele.

— O único homem que foi meu senhor está morto, Nicholas, e talvez nunca mais volte a me envolver com outro.

— Entretanto, o barão procura uma esposa. Seria um enlace natural.

Por fim, Nicholas expressara o pensamento que rondava sua mente desde que a mãe lhe contara como Arthur, em seu leito de morte, passara por escrito suas propriedades para Gilbert, barão Hawse.

Um breve silêncio tomou conta do salão, onde só se ouvia o crepitar do fogo na lareira. Lady Constance suspirou, voltando a enxugar os lábios com o lenço de renda e, por fim, dizendo:

— Pode ser. Mas não penso em um novo casamento por enquanto. E ficarei de luto por seu pai durante um ano, antes de pensar em tal possibilidade.

Embora as palavras significassem uma recusa, algo no tom de voz da mãe fez Nicholas pensar que a idéia de se casar com o barão já lhe ocorrera. Aquele pensamento trouxe um sabor amargo em sua boca.

A perna ferida começou a doer e enrijecer. Nicholas esticou-a e levantou-se com certa dificuldade.

— Sem dúvida que merece ser feliz, mamãe, depois de suportar meu pai por todos esses longos anos. Mas pretendo lutar contra Hawse a respeito a posse das terras dos Hendry. Espero que não deixe seu coração interferir, pois mulheres costumam ser muito moles quando se trata de sentimentos.

Constance sorriu com tristeza.

— Antes que fosse para a guerra, meu filho, dizia-se que era especialista em assuntos femininos do coração. Confesso que rezei para que, com os anos, aprendesse um pouco também sobre a mente das mulheres.

— As Cruzadas me ensinaram muitas coisas, mãe. Nada mais existe do rapaz irresponsável e namorador que saiu daqui há quatro anos. Estou amadurecido.

— Fico feliz por ouvir isso.

Assim dizendo, lady Constance voltou o rosto para Nicholas, e seus olhos brilhavam com os reflexos das chamas na lareira.

— Mas as Cruzadas também me ensinaram a lutar minhas próprias batalhas. Hendry Hall pertence a mim, apesar dos documentos que meu pai assinou.

Assim falando, Nicholas esfregou a coxa dolorida pela velha ferida.

— O barão estará aqui amanhã — disse a mãe. — Não moveu ainda uma palha para incorporar os novos bens e títulos. Prometeu nada fazer até que se esgote um ano de luto. Talvez possamos chegar a uma solução pacífica.

— Pode ser. — Nicholas inclinou-se e beijou a testa de lady Constance. — Não se preocupe, mãe. Já teve muitos aborrecimentos desde a morte de meu pai. Agora que voltei para casa, quero vê-la sorrir de novo.

Lady Constance forçou-se a brindá-lo com um amplo sorriso, o primeiro desde que o filho voltara no dia anterior.

— Minhas preces foram atendidas, já que regressou são e salvo, meu filho.

Nicholas virou-se para partir, movendo-se com dificuldade, pois a perna doía. Quando se aproximou da porta para abri-la, uma batida do outro lado o fez parar. Abriu a porta e deparou com a criada particular da mãe.

A jovem respirava com dificuldade, por certo tendo acabado de subir às pressas a escada que conduzia do pátio principal para o salão. Arfando, disse:

— O senhor tem visitas, mestre Nicholas.

Nick relanceou o olhar para a mãe.

— Pensei tê-la ouvido dizer que o barão só viria amanhã.

— Não é o barão Hawse — interrompeu a jovem criada. — É uma dama. Não muito elegante, porém também não é simplória.

— Uma de suas antigas admiradoras, sem dúvida — comentou lady Constance com ar resignado. — Tinha certeza de que não demorariam muito tempo para saber que você havia retornado.

Nicholas franziu as sobrancelhas, curioso, e seguiu a criada escada abaixo.

 

As notícias que aguardavam por Nicholas o chegar ao lar, quase o haviam feito esquecer o incidente na taverna do Javali Dourado. Mas, mesmo antes de entrar no grande saguão e deparar com a moça alta esperando do outro lado do enorme aposento, já suspeitava de quem se tratava e não se surpreendeu.

De modo estranho, sentiu-se muito contente, pelo menos, teria oportunidade de descobrir o motivo da estranha reação emocional e dramática que a jovem tivera ao questioná-lo na taberna, na manhã anterior.

A moça ergueu o olhar, ao vê-lo aproximar-se. De novo, os olhos azuis pareciam furiosos, entretanto, dessa vez Nicholas teve oportunidade de observar que era um lindo olhar, assim como tudo o mais na jovem.

— Senhora — saudou, dando a entender que já a conhecia.

Quando a moça não respondeu de pronto, Nicholas decidiu ser direto:

— Possui mais trunfos que eu. Parece saber quem sou, porém continuo a ignorar sua identidade.

A jovem ergueu o queixo, respondendo:

— Vim aqui para conhecê-lo melhor.

Possuía uma voz melódica, observou Nicholas, apesar do tom frio.

— Então, admite que nunca nos conhecemos, senhora. E, mesmo assim, parece não simpatizar comigo. — Nicholas esfregou o queixo com a mão. — Tenho certeza de que, quando deixei o país, não era hábito deste povo saudar os recém-chegados cuspindo em seus rostos.

Beatrice estremeceu, não pensara que seria tão dificil encarar frente a frente aquele monstro. Seu pai discutira com ela sobre a visita, aconselhando-a a não ir a Hendry Hall, e talvez devesse lhe ter obedecido. Mas tinha seus motivos para querer se certificar de que Nicholas Hendry jamais poria os pés de novo nas cercanias da taberna do Javali Dourado. A lembrança do pequeno Owen surgiu de repente ante seus olhos, fortalecendo sua decisão.

— O gesto foi espontâneo — respondeu. — E não pretendo me desculpar. Creia que o sentimento que me levou a fazer tal coisa é muito justo.

Os olhos escuros de Nicholas brilharam zombeteiros.

— Creio na senhora.

A boa vontade do rapaz a desarmou, e Beatrice continuou:

— Então, já que acredita em mim, saiba que vim aqui para ter certeza que entendeu a mensagem.

Nicholas inclinou a cabeça para o lado, em um gesto de curiosidade, e a jovem prosseguiu:

— Não é bem-vindo à estalagem.

Dessa vez, Nicholas franziu a testa.

— Quem é a senhora? E por que está me ameaçando se for ao Javali Dourado que, se não me falha a memória, fica em terras alugadas por minha família?

Beatrice sentiu o rosto em chamas. Se desejava cumprir sua missão, devia ir até o fim.

— O dono daquela estalagem é meu pai, Phillip Thibault.

Nicholas piscou como se lembrasse de alguma coisa já há muito esquecida. Disse, em voz baixa:

— Você não é Flora.

— Então, lembra-se dela?

— Sim. A filha do cervejeiro. Mas a senhora não é ela.

— Flora era minha irmã — esclareceu Beatrice com voz tensa.

— Era?

Nicholas parecia abalado, e Beatrice gostou da reação.

— Flora morreu há mais de três anos.

O rapaz ficou desolado.

— Lamento muito ouvir tal coisa. — Ergueu o olhar para a visitante. O que aconteceu?

Beatrice engoliu em seco, tentando desfazer o nó que lhe apertava a garganta. Desejava demonstrar ódio por aquele homem, não tristeza. Por fim, respondeu com simplicidade:

— O senhor mesmo a matou.

O choque de Nicholas foi mais forte que aquele que sentira quando a jovem cuspira em seu rosto. Lembrava-se muito bem da doce Flora, fora seu último romance antes que partisse para as Cruzadas. Haviam tido apenas alguns breves encontros antes de se separarem. Recordava-se da meiga despedida, e lembrara-se das lágrimas de Flora durante todo o percurso em que cruzara o canal da Mancha.

“O senhor mesmo a matou”, dissera a jovem, o ódio ecoando em cada palavra.

Nicholas balançou a cabeça com vigor, a fim de clarear as idéias, e começou a sentir raiva também. Podia ter tomado liberdades com Flora Thibault, do mesmo modo como agira com outras mulheres naquela época irresponsável de sua vida, mas jamais lhe fizera mal, tinha certeza.

— Flora gozava de perfeita saúde quando deixei a Inglaterra — respondeu com frieza.

— Morreu de coração partido.

Nicholas voltou a sacudir a cabeça, sem poder acreditar no que ouvia. Corações partidos eram tema para os menestréis comporem suas músicas, e escritores escreverem seus romances, as pessoas não morriam daquilo. Talvez aquela jovem a sua frente, embora parecesse inteligente, fosse um tanto louca. Tal pensamento o fez falar com mais paciência.

— Flora sabia, desde o início, que teríamos pouco tempo juntos. Não posso acreditar que minha partida tenha-lhe causado tanto sofrimento.

— Se houvesse conhecido minha irmã de verdade, teria percebido que estava apaixonada pelo senhor, e que o amava com profunda sinceridade.

— Nós dois estávamos apaixonados, srta. Thibault, e ambos sabíamos que era apenas um namoro passageiro. Juro que sua irmã entendia isso tão bem quanto eu.

— Entretanto, está morta — replicou Beatrice, cada palavra soando como uma sentença declarada de culpa.

— Por acaso estava doente, ferida?

Beatrice ignorou a pergunta e continuou no mesmo tom de recriminaçao:

— Nada posso fazer para provar, sir Hendry, mas ouça bem: vim aqui pedir com polidez para que respeite a tristeza de meu pai e a minha. Nunca mais apareça nas redondezas da taberna do Javali Dourado!

— Vou falar com seu pai, senhora. Quero...

Beatrice ergueu a mão com autoridade.

— Temos muitos amigos no vilarejo, senhor. Se não acatar meu pedido, poderá perceber que as boas-vindas em suas propriedades não serão tão amistosas como deseja.

A expressão de Nicholas era de total surpresa. Que tipo de mulher era aquela que vinha ameaçar o senhor das terras, ordenando que se afastasse de uma parte de sua própria propriedade? Ou, pensou consigo mesmo, do que devia ser sua propriedade. Talvez já fosse do conhecimento público que o barão Hawse era o novo senhor de Hendry.

Levou algum tempo para comentar, por fim, disse:

— Voltei determinado a fechar antigas feridas, senhora, não as reabrir. Seu pai já foi muito bom para mim, e quero dizer-lhe que nada tive a ver com a morte de sua filha.

Beatrice não mais tremia, mas sua cabeça era um verdadeiro turbilhão de emoções. Preparara-se para um confronto agressivo com o antigo amante de sua irma. Ensaiara as palavras que diria ao assassino, mas sentia dificuldade, diante do comportamento sereno do rapaz.

Amassou o tecido do vestido, com mãos nervosas.

— Falo por mim e por meu pai. Seria uma gentileza para com uma família sofredora que ficasse longe de nós.

Os olhos quase negros de Nicholas estavam serenos e sérios. Nada havia neles do homem conquistador de quem Flora falara com tanta veemência.

— Então, satisfarei sua vontade e a de seu pai, srta. Thibault. Mas, por favor, diga a Phillip que compartilho de sua tristeza, chorarei pela doce Flora do mesmo modo que choro por meu pai falecido.

 

Com esforço, Beatrice atravessou o grande saguão e saiu pela porta que levava ao pátio. Nada ocorrera como esperara. Tivera esperanças de extravasar o ódio de quase quatro anos, com palavras duras e, no entanto, sentia remorso pela dor que trouxera ao senhór de Hendry com a notícia da morte de Flora.

O ar frio da primavera ajudou-a a clarear as idéias. Respirou fundo e principiou a andar mais devagar, em direção aos pilares de pedra que demarcavam a entrada de Hendry Hall.

Pelo menos, cumprira sua missão. Fizera-o prometer que não voltaria ao Javali Dourado, e era isso que importava.

O vilarejo de Hendry era pequeno. Quando Owen crescesse o suficiente para andar por conta própria, por certo cruzaria o caminho com o senhor de Hendry Hall. Mas, se dependesse dela, sir Nicholas nunca suspeitaria sobre seu parentesco com o menino.

Era surpreendente, pensou Beatrice, que nem ocorresse a Nicholas Hendry que a morte de Flora poderia ser resultado do parto de uma criança que ele produzira. Comportamento típico dos homem, pensou. Sentiu-se aliviada por perceber que o ódio voltava a dominá-la, não podia deixar de alimentar aquele sentimento por Nicholas Hendry.

Alcançou os pilares de pedra e olhou à esquerda, ouvindo o rumor dos cascos de um cavalo que se aproximava. Mesmo a distância, soube quem era o cavaleiro. O barão Hawse era uma visão familiar nos arredores. Suas terras circundavam as de Hendry, como se ele e não a família Hendry fosse o principal proprietário.

Beatrice parou e ficou aguardando. Não iria fazer uma reverência para o barão, mas também não desejava ser rude, dando as costas e indo embora.

— É a srta. Thibault, correto? — perguntou o barão ao se aproximar. — Veio tratar de algum negócio com lady Constance?

Beatrice resmungou alguma coisa incompreensível. Não entendia por que seus negócios poderiam ser da conta do barão, apesar de ele ser o homem mais importante do condado.

— Quanto a mim — continuou Hawse, ignorando a frieza de Beatrice -, vim ver o filho pródigo, o jovem Nicholas, que volta ao lar das guerras, são e salvo, apesar de tudo que se disse ao contrário. É mesmo um milagre, não é?

— Sim — respondeu Beatrice de modo lacônico.

O barão a olhou de maneira inquisitiva.

— Talvez tenha vindo ver Nícholas. Ele sempre foi namorador.

Gilbert Hawse era um homem grande que mal cabia na sela, mas sua constituição era forte, mão balofa, e tinha um ar másculo e decidido. Os únicos sinais da idade eram pequenas veias arroxeadas que lhe cruzavam o nariz grosso, seu rosto tinha um ar jovial, em contraste com os cabelos brancos como neve.

Embora nunca houvesse dito nada inapropriado para Beatrice, seu olhar sempre a fazia sentir um frio na espinha.

— Desejo-lhe um bom dia, senhor — disse Beatrice, ignorando as perguntas.

Voltou-se para a direção oposta de onde o barão viera, mas ele e o cavalo bloquearam-lhe o caminho.

— Então veio mesmo visitar Nicholas. Pensei que o rapaz preferisse moças de curvas mais generosas e cabeças vazias. Por certo, menosprezei-o.

O barão a observava, o olhar brilhando de curiosidade.

— Desculpe-me, barão Hawse, mas devo regressar à estalagem. Meu pai deve estar sentindo minha falta.

— Que bem me lembre, não vive aqui há muito tempo, senhorita. Foi criada por uma tia em York, creio? Veio um pouco antes da morte de sua irmã. Foi durante uma visita anterior que conheceu Nicholas Hendry?

Beatrice ficou surpresa com a quantidade de informação que o nobre possuía sobre sua família. Já ouvira falar com freqüência que o barão conhecia em detalhes as idas e vindas dos habitantes da região, não importava quão raras fossem, mas só naquele momento constatava que era verdade.

— Nada tenho a ver com Nicholas Hendry — respondeu com brusquidão. — E espero nunca ter. Agora, se me der licença, barão, tenho mesmo que ir embora.

Dessa vez Hawse não a impediu de se voltar para a estrada em direção ao vilarejo. Ficou sentado sobre a sela em silêncio, por algum tempo, vendo-a partir. Beatrice Thibault era uma mulher rara, tão bela de espírito quanto de aparência. Era-lhe conveniente saber que, adquirindo as terras de Hendry, ela era agora uma de suas arrendatárias.

Não era um fato muito conhecido em Hendry que seria o novo amo. Evitara tomar posse das terras em deferência à Constance, mas, em breve, o ano de luto terminaria, e ela seria sua esposa, depois de tantos anos de espera.

Então, não teria pejo em exercer seus direitos de senhor sobre as pessoas de Hendry. Talvez começasse com a explosiva srta. Thibault. Aquele pensamento o fez dar um sorriso de antecipação, cheio de malícia.

 

O grande saguão do solar ocupava toda a parte de trás do andar térreo. Possuía lareiras enormes em cada extremidade, outra das melhorias feitas por Arthur Hendry, e uma parte mais elevada na parte oeste para que os membros da família e seus convidados pudessem comer em uma mesa acima daquela destinada aos criados e visitantes mais humildes.

Nicholas acabara de ajudar a mãe a subir o único degrau para a longa mesa, quando ouviram barulho por detrás das enormes portas duplas à entrada do espaçoso aposento.

O rapaz voltou-se para ver a silhueta enorme de seu vizinho delinear-se no salão, os braços abertos.

— Não consegui esperar mais um dia para revê-lo, Nicholas!

Assim dizendo, o barão Hawse agarrou o jovem em um abraço muito apertado.

Nicholas tentou não fazer uma careta. Jamais gostara do barão, nem mesmo quando criança, mas, por causa da mãe, estava determinado a ser polido. Deixou que o outro o abraçasse, e depois deu um passo atrás.

— Bondade sua dar-se tanto trabalho, barão.

— De modo algum, meu jovem. Tendo seu pai partido, sinto que é meu dever estar aqui para saudá-lo. De volta do mundo dos mortos, hein? É raro um homem ter a oportunidade de dar as boas-vindas aos ressuscitados.

O grupo de vassalos que habitava o solar com os amos e que procurava seus lugares à mesa mais baixa, permanecia de pé, incerto, não querendo sentar enquanto o novo patão ficava ali com o nobre visitante.

— Jamais me considerei morto, barão — replicou Nicholas com frieza. — Embora tenha sentido o hálito da morte muito próximo, uma ou duas vezes. Quer nos dar o prazer de se sentar à mesa conosco?

— Claro, rapaz! Deveria ter estado aqui ontem à noite para seu jantar de boas-vindas. — Hawse lançou um olhar de reprovação para lady Çonstance, de pé junto à cadeira. — Poderia ter me avisado, minha cara.

Nicholas franziu o cenho, aborrecido, ao ver a mãe morder o lábio, envergonhada.

— Como pode imaginar, barão — disse, com voz tensa -, o ambiente que encontrei ao retornar não era exatamente festivo, para se pensar em visitas.

O barão deu um tapa amigável nas costas de Nicholas, subindo o estrado na frente do jovem.

— Sim, de fato, e é por isso que digo que deveria estar aqui para dar-lhe a notícia sobre a morte de seu pai. As mulheres não sabem lidar com esses assuntos. Sem dúvida, foi recebido com um mar de lágrimas.

Mais uma vez o nobre olhou para lady Constance que abaixou os olhos.

Nicholas lutou para não perder a paciência, lembrando-se de que o barão cuidara de sua mãe no momento da tragédia.

— O coração de minha mãe é muito doce para deixar de se enlutar com a morte do marido, barão Hawse. Não considero isso um defeito.

Seguiu Gilbert Hawse para o estrado superior, e começou a dirigir-se para o assento em frente à mãe, mas o barão parou no meio da mesa, puxou a cadeira destinada ao senhor da casa, e sentou-se. Nicholas abriu a boca, espantado. Na noite anterior, sentira-se desconfortável quando a mãe pedira que se sentasse no lugar do pai, mas ver o assento ocupado por um estranho parecia intolerável.

Olhou para a mãe. Os doces olhos castanhos imploravam-lhe para que não fizesse uma cena. Nicholas compreendeu que o barão Hawse já ocupara aquela cadeira antes e, quando o homem mais velho puxou uma tábua de carne para dividir o alimento com Constance, imaginou quanto ele já se apropriara da vida de Arthur Hendry.

Dando um sorriso confortador para a mãe, sentou-se à esquerda do barão e puxou um prato com carne para si. Não iria compartilhar seu alimento com aquele homem.

Uma vez acomodados os senhores, houve um súbito ruído no salão, enquanto os demais convidados sentavam-se e as servas começavam a mover-se em volta da mesa, com pratos de ensopados e coelho assado.

Nicholas comeu em silêncio, apenas respondendo às perguntas do barão. Mal saboreou o jantar que a mãe supervisionara na cozinha quase a tarde inteira. Ver o barão cravar os dentes na carne suculenta de coelho e oferecê-la para Constance, fez com que perdesse o apetite de vez.

Ouviu a voz suave da mãe interromper o fio de seu pensamentos.

— Tenho certeza de que gostará também, não é, filho? — Nicholas olhou de Constance para o barão. Ambos pareciam esperar por sua resposta.

— Desculpem — hesitou. — Do que eu gostaria?

— Visitar-nos no castelo de Hawse daqui a dois dias — respondeu o barão. — Se já se sentir recuperado da longa viagem.

— Pensei em começar visitando as terras de Hendry. Tenho um encontro com o administrador amanhã para rever as contas, e...

— Bem, então está perfeito — interrompeu o barão. — Poderá nos encontrar em Hawse no dia seguinte, e veremos como estamos com essa questão das terras. Tenho todos os documentos que seu pai assinou antes de morrer.

Nicholas estreitou os olhos, acrescentando:

— Papéis que assinou porque pensava que eu morrera.

A voz tonitruante do barão não arrefeceu.

— Claro! E é por isso mesmo que temos muito para discutir, você e eu. Discutiremos os planos de seu pai para este lugar.

Nicholas afastou o prato, deixando o coelho quase intocado.

— Os planos de meu pai para Hendry eram de passar as terras e todos os bens para seu filho único. Nenhuma discussão alterará esse fato.

Hawse sorriu.

— É claro. — Esticou a mão e apertou o braço de Nicholas com toda a força. — Tenho meus próprios planos para discutir com você, meu rapaz. Creio que encontraremos um modo de resolver nossos problemas. Venha me ver depois de amanhã.

— Nós dois iremos — disse Constance de modo rápido. — Seria rude recusar sua hospitalidade, meu senhor, depois de tudo que fez por mim.

Hawse voltou-se para lady Constance e deu-lhe um sorriso que, aos olhos de Nicholas, pareceu quase meigo.

Nicholas empurrou seu banco e levantou-se.

— Muito bem, daqui a dois dias, senhor, estarei no castelo Hawse. Agora, se me der licença, como o senhor mesmo disse, preciso me recuperar da viagem.

Sem mais uma palavra, virou-se e saiu do salão.

 

Nicholas ficou sentado, olhando pela janela de seu quarto para o luar que banhava o jardim. Era cedo para ir dormir, mas também não tinha vontade de conversar com ninguém, nem mesmo com os criados, portanto retirara-se para seus aposentos e não iluminara a tocha junto à cama.

A batida na porta foi tão suave que quase não a ouviu. Resolveu deixar quem quer que fosse sem resposta, mas então concluiu que talvez sua mãe precisasse de algo. Relutante, ergueu-se e atravessou o quarto até a porta. A visitante era uma mulher, mas não sua mãe.

Molie mudara pouco nos quatro anos em que não a vira, a não ser pelos seios que estavam ainda mais voluptuosos, esticando o tecido da blusa. Os olhos verdes brilhavam com intensidade, com a sensualidade que Nicholas conhecia muito bem.

— Ora, ora! Acabou voltando para casa, menino malvado! — Molie riu, passando-lhe os braços em volta do pescoço com tanta energia que o empurrou para dentro do quarto.

Apesar de não querer, Nicholas sentiu o desejo apossando-se de seu corpo, enquanto as curvas convidativas da criada colavam-se às coxas musculosas. Retribuiu o leve beijo e, com delicadeza, desvencilhou-se de seus braços, dizendo:

— Olá, meu bem.

Molie deu um passo atrás e esmurrou-lhe o peito de leve, com os punhos pequenos.

— Que vergonha, Nick! Não quero saber de palavras doces depois que me deixou sem nem mesmo um adeus.

Molie fora uma de suas namoradas mais bem-humoradas. Cinco anos mais velha, já possuíra uma enorme fila de amantes, e sabia muito bem que seu relacionamento com o filho do senhor de Hendry Hall seria apenas algo passageiro.

Nicholas sorriu-lhe, segurando-lhe a mão.

— Sempre será minha namorada, Molie, sabe disso.

A jovem passou-lhe a mão pelo pescoço com um gesto doce.

— Sim, Nick. Eramos loucos um pelo outro naqueles tempos, não?

De repente, Nicholas voltou a sentir o antigo entusiasmo. Passou uma das mãos em torno da cintura de Mollie, e puxou-a para si, murmurando:

— É verdade.

— Nick, não vim aqui por causa disso — disse Molie, afastado-se dele delicadamente. — Agora sou uma boa esposa.

Nicholas deixou cair as mãos como se houvessem sido queimadas.

— Esposa?

— Sim, nos últimos três anos. Já tenho dois filhos.

Nicholas piscou, estupefato.

— Bebês?

Molie riu e deu-lhe um tapinha amigável no peito.

— O que acha que acontece no celeiro, amo Hendry? O senhor sempre tomou cuidado, mas nem todos são assim. — Uma breve sombra empanou-lhe o sorriso, mas logo voltou a rir. — Sabia que um dia seria fisgada.

As palavras de Molie trouxeram mais tristeza ao coração de Nicholas. A alegre, sensual e tranqüila Molhie agora era esposa e mãe. Era difícil acreditar.

— Está feliz, Molie? — perguntou Nicholas, por fim. Seu marido é um bom homem?

Molie sorriu, acenando de modo positivo.

— Sim, Nick, é. Você o conhece. É Clarence, o padeiro. Nicholas tinha uma vaga lembrança de um homem grande e quieto, talvez vinte anos mais velho que ele, que dirigia a padaria no vilarejo e mandava pães frescos para o solar todos os dias. O homem parecia sempre estar rodeado por um aroma agradável de farinha e fermento.

— Então, estou feliz por você, Molie. Merece um bom homem e uma boa vida.

— Como todos nós, Nick — concordou ela com suavidade. — Bem, é melhor ir embora antes que comecem os mexericos.

Nicholas acenou em aprovação, ainda tentando visualizar Molie com duas crianças.

— Fico muito contente por você.

— E eu também por ver que está vivo e não é um fantasma. Mandei rezar uma missa por você, e eis que o vejo são e salvo.

— Uma missa?

— Quando disseram que tinha morrido, fui à igreja. Só voltei a entrar há outra vez quando me casei.

Nicholas sorriu.

— Obrigado, Molie.

— Cuide-se, Nick.

Ergueu-se na ponta dos pés, beijou-o com força nos lábios, e depois desapareceu.

Era tarde. Toda a atividade no pátio cessara havia muito, mas Nicholas ainda não estava pronto para deitar-se na cama e dormir. A visita de Molie o deixara ainda mais inquieto. Molie, tão alegre e generosa, estava casada e com filhos. Pelo menos ela estava feliz e, para todos os efeitos, sua antiga ligação com o dono da casa não lhe trouxera problemas. Porém, talvez outras mulheres que amara e abandonara não se sentissem tão felizes.

Nicholas imaginou como Flora o teria saudado se estivesse viva. Não podia imaginar que o recebesse como a irmã o fizera, Flora fora a essência da meiguice.

Nicholas suspirou e caminhou pelo quarto. Quando pensara que tudo estava perdido nas Cruzadas, jurara que, se um dia voltasse à Inglaterra, levaria uma vida mais digna. Consertaria as falhas que cometera com as mulheres, mostraria ao pai que era o tipo de filho que Arthur Hendry sempre desejara ter. Mas seu pai estava morto, e, pelo menos, uma de suas ex-amantes estava feliz no casamento e já o esquecera.

Mas ainda havia muito a fazer, e pretendia começar de imediato. Começaria pela manhã com o caso de Flora, precisava descobrir por que a jovem morrera e o que tivera a ver com a tragédia. Não poderia permitir que Beatrice Thibauht continuasse a desprezá-lo sem dar-lhe motivos para isso.

Só depois de tomar essa decisão, conseguiu dormir um pouco.

 

Ninguém conhecia as origens do vilarejo que antes se chamara Prado de Hendry e, depois, apenas Hendry. Os antigos contavam lendas de épocas remotas quando espíritos caminhavam pelas planícies e os druidas realizavam cerimônias ao norte. O nome era anterior à família Hendry e, por certo, muito mais antigo que a mansão homônima. Mas já que houvera várias gerações de Hendry ligadas ao lugar, terminando com a volta de Nicholas do reino dos mortos, como último descendente, o povo do vílarejo considerava natural render homenagens ao cavaleiro que lutara pelo Cristianismo na Guerra Santa.

Não havia ressentimentos entre nobres e plebeus. Os Hendry sempre haviam sido senhores magnânimos. Se por acaso uma família sentia-se pressionada na época da segunda coleta de impostos, jamais acontecia de ser despejada de suas terras por falta de pagamento. Pelo contrário, os Hendry davam um jeito de fazer com que algumas moedas extras surgissem na casa necessitada.

Depois da morte de Arthur, houvera uma certa consternação no vilarejo, à medida em que se espalhavam os rumores de que o barão da corte terminaria com as várias gerações de generosos Hendry, tomando posse das terras. Entretanto, enquanto os meses se passavam, sem mudanças, os rumores foram desaparecendo.

De qualquer modo, a súbita volta do filho de Arthur Hendry foi motivo de alegria no vilarejo, pelo menos nas casas onde não havia algum pai irado à espera de dar-lhe uma surra por ter feito sua filha sofrer.

Nicholas acordara antes do amanhecer, a cabeça pesada com a cerveja que tomara e que, afinal, o fizera dormir, depois da partida de Molie.

Mas a linda manhã de primavera e as saudações das pessoas do vilarejo enquanto andava pelas ruas, conseguiram reerguer-lhe o espírito. Ficou contente por se lembrar de muitos nomes. Saudou o ferreiro, o peixeiro, e as crianças que brincavam nas ruas e que ainda não conhecia. Aos poucos os quatro anos de ausência iam desaparecendo de sua mente. Dessa vez, voltou a dizer a si mesmo, levaria uma vida mais honrada do que levara quando fora jovem e irresponsável.

A igreja de pedras no final do vilarejo não mudara. Havia mais sepulturas no cemitério, é claro.

Nicholas amarrou o cavalo a um pilar do lado ensolarado da igreja, e caminhou pelo atalho em volta dos Jazigos. A coluna de pedra no centro do cemitério marcava o túmulo dos Hendry, mas Nicholas mal o olhou, o monumento era antigo. Gerações mais recentes da familia, incluindo seu pai, tinham sido enterradas em uma pequena cripta no subsolo de Hendry Hahl.

O sol da manhã não atingira aquele lugar, e Nicholas estremeceu de frio, enquanto caminhava em meio às lápides com nomes apagados pelo tempo. Sabia que Thibault não teria enterrado a filha sem a pompa necessária, e procurou pelo túmulo da família.

Primeiro, viu a lápide da mãe de Flora:

“Laurette, amada esposa”. Uma pedra sem inscrição encontrava-se ao lado, por certo à espera de Phillip, quando chegasse sua hora. Era o tipo de atitude que Nicholas esperaria daquele homem. Além da lápide em branco, encontrou a que procurava: “Flora, amada filha e irmã.”

Nicholas caminhou até aquele ponto, e ajoelhou-se. Deslizou a mão pela inscrição. Uma lembrança tão fria da moça calorosa que conhecera. Fechou os olhos e tentou visualizá-la, tivera um rosto belo e animado, mas a recordação era nebulosa. Lembrava-se de seu olhar brilhante quando a suspendera até seu cavalo, ela adorava galopar. Certa vez, na Terra Santa, Nicholas vira uma jovem montar, e pensara:

“Quando voltar à Inglaterra, vou comprar um cavalo para Flora, uma égua pequena, doce e gentil como a dona.”

Nicholas sentiu os olhos arderem e cerrou as pálpebras. Não derramara nenhuma lágrima pelo pai, mas agora elas chegavam, por Flora, a moça do rosto bonito do qual já não se lembrava com clareza.

Abriu os olhos e piscou, fungando. O velho ferimento na perna o insuflava a mudar aquela posição ajoelhada, mas Nicholas hesitou um momento, sentindo que devia fazer algo mais. Deveria ter colhido algumas flores silvestres na clareira antes de vir, pois Flora adorava flores. Fizera-lhe uma guirlanda, certa tarde, prendendo-a em seu pescoço e, rindo, proclamara-o “Rei do mês de Maio”.

Nicholas suspirou fundo e então, de modo impulsivo, tirou a corrente de prata que trazia em torno do pescoço. Dela pendia uma pequena cruz. Usara-a durante todos os anos que estivera lutando. Era seu talismã. Segurou-a na palma da mão por um instante, e colocou-a com gentileza sobre a grama, na base da Lápide de Flora, sussurrando:

— Descanse em paz, doce Flora.

Com a cabeça inclinada, não viu a mulher que se aproximava, mas ouviu de modo claro a pergunta indignada que soltou:

— O que faz aqui?

Um tanto desajeitado, Nicholas ficou de pé, resistindo à necessidade de esfregar a perna dolorida. A imagem mental da meiga Flora foi substituída pela visão real de sua irmã, o rosto afogueado de raiva.

— Vim com o objetivo de prestar meus respeitos à Flora, senhora.

— Não foi respeito que lhe demostrou quando estava viva!

Beatrice carregava as flores que Nicholas esquecera de trazer. Passou por ele, estendendo-as de modo uniforme sobre os túmulos da irmã e da mãe.

Nicholas observou-a e disse:

— Não vou desmenti-la, pois vejo que sofre muito por causa de sua irmã, mas repito que nunca desrespeitei Flora e que gostava muito dela.

Beatrice colocou a última flor e ergueu-se. Seus rostos ficaram a poucos centímetros de distância, e os olhos da moça brilhavam com intensidade. Por um momento, nada disseram. Por fim, Beatrice murmurou:

— Não vou discutir esse assunto parada junto ao túmulo de minha irmã, porém talvez o senhor me conceda o respeito de me deixar rezar sozinha.

Continuavam a cruzar olhares, e Beatrice tinha certeza que Nícholas Hendry tinha muito mais a contar do que dissera. Porém, depois de mais um instante, ele se virou e foi embora.

Beatrice permaneceu parada junto aos túmulos até vê-lo desaparecer na curva do caminho da igreja. Surpreendê-lo no pequeno cemitério, ajoelhado ante a lápide de Flora, deixara-a transtornada. Seria verdade que vira os olhos de Nicholas Hendry vermelhos de chorar? Não parecia se encaixar com a imagem que mantivera dele por todos aqueles anos. Chorar sobre o túmulo de sua irmã não era coisa que Nicholas Hendry faria.

Sacudiu os ombros e ajoelhou-se junto à lápide. Então, viu algo brilhando na grama. Levantando o objeto, examinou-o e arregalou os olhos. Era uma cruz de prata, suspensa por uma corrente. Durante a visita a Hendry Hall, no dia anterior, vira aquela cruz no pescoço de Nicholas Hendry.

Sentou-se na grama, chocada. Seria aquele o cavaleiro sem consciência que imaginara? Era aquele o homem que chorara junto ao túmulo da antiga amante e deixara sua corrente como um tributo?

Beatrice sentiu os olhos inundados de lágrimas.

— Ah, Flora... — murmurou. — Sabe que seu cavaleiro afinal voltou das Cruzadas? Viu-o aqui, irmãzinha? Deixou-lhe uma cruz benta.

Inclinou-se e encostou a face escaldante no chão úmido.

— Ajude-me a não odiá-lo, Flora. Faça-me compreender por que Nicholas Hendry ressuscitou dos mortos e você, não.

Então, deitou-se sobre a grama e chorou.

 

Owen brincava em sua gruta particular. Phillip a construíra com um velho barril de cerveja cortado no meio, de modo a tornar-se um perfeito esconderijo para um menino de três anos. Beatrice o vigiava com um olho, enquanto derramava com cuidado sebo quente nos candeeiros.

Naquela tarde não havia fregueses na taberna o que não era de estranhar, portanto ela mandara Gertie, a garçonete, mais cedo para casa.

Olhou para o pai, sentado no banco ao lado da lareira, e disse:

— Ele matou sua filha, e mesmo assim o defende.

— Não o estou defendendo, menina, mas Nicholas Hendry não matou Flora. — Phihlip ergueu olhar para o barril de onde saíam dois pés calçados, único sinal do menino lá dentro, e baixou o tom de voz. — Ela morreu de parto, assim como sua mãe. Ambas eram muito frágeis para ter filhos.

— Flora nunca morreria de parto se não fosse por causa de Nicholas Hendry!

— E sua mãe jamais daria à luz se não fosse por mim. Isso também me faz um assassino?

A voz falhou, presa pela emoção, e Beatrice sentiu uma pontada de remorso no coração. Deixando de lado a ocupação que fazia, atravessou o aposento em direção ao pai, e caiu de joelhos ao seu lado, passando-lhe os braços pelos ombros.

— Desculpe, meu pai. Não vamos mais falar de Nicholas Hendry. Gostaria de nunca mais ouvir e pronunciar esse nome.

— É pouco provável que isso aconteça. É o senhor das terras onde moramos e nosso vizinho. — Phihhip desvencilhou-se do abraço da filha, e voltou-se para ela, os olhos cansados, cheios de lágrimas. — Essa amargura de nada adiantará, Beady. Além do mais, ressentimento é como um verme maldoso dentro da pessoa, comendo-lhe as entranhas até que só reste uma casca no lugar do coração.

Um débil sorriso cruzou o semblante de Beatrice ao ouvi-lo usar o apelido de infância.

— Minha mãe foi a primeira pessoa a me chamar de Beady, não foi?

Philhip sorriu e afastou-lhe os cabelos da fronte.

— Sim, nossa pequena Beady. O que não daria para que ela a visse agora, uma mulher crescida, orgulhosa e bela.

As mãos lhe tremiam ao afastá-las dos cabelos da filha. Os tremores aumentavam a cada semana, observou Beatrice, com a costumeira mistura de tristeza e temor. O que ela e Owen fariam quando seu pai não mais estivesse por ali?

Abraçou-o de novo, e depois levantou-se ao ver que o barril começava a chacoalhar com fúria, de um lado para o outro. Uma cabeça pequena surgiu de seu interior.

— Sou um urso! — gritou o menino, os olhos escuros brilhantes.

Beatrice aproximou-se, abaixando-se junto ao barril.

— Um urso entrou em sua gruta, Owen?

O         menino acenou que sim, rindo.

— Era grande?

— Grande e feroz!

Owen era fascinado por ursos desde que o avô e a tia o haviam levado a uma feira em maio. Vira o pobre animal, desdentado e fraco, que mal conseguia erguer-se nas patas traseiras ou parecer feroz, mas fora uma maravilha para o menino.

— Lutou com ele? — quis saber Beatrice.

— Sim, e ele fugiu.

A criança e Beatrice olharam para a porta, como se imaginassem a fuga do animal feroz.

— Fico feliz — disse ela. — Ursos não são permitidos na taberna. Que tal um mingau depois de uma batalha tão perigosa?

Owen saiu do barril, e deu um salto mortal, indo parar no colo de Beatrice.

— Com um pedaço de bolo? — pediu, os olhos escuros suplicantes, em sua posição de cabeça para baixo.

Beatrice o fez ficar direito, e abraçou-o.

— Sim, ganhará seu pedaço de bolo, se terminar o mingau. Lutadores que querem vencer ursos devem se alimentar bem.

O menino a seguiu contente até uma das mesas. Os cabelos de Owen estavam despenteados por causa da luta com o urso imaginário e, com um gesto automático, Beatrice ajeitou-os. Se dependesse dela, o filho de Flora jamais teria que sofrer outras adversidades na vida, além de lutas com bichos criados pela fantasia. Com o canto do olho, observou o pai levantar-se do banco, tentando ocultar o grande esforço que fazia para conseguir realizar gesto tão simples.

Os três sentaram-se à mesa, e Owen recitou a prece que aprendera.

— Deus abençoe minha mãe Flora — disse com enorme rapidez, ansioso para devorar as guloseimas à sua frente.

Por certo, aquelas palavras pouco significavam para a criança, mas Beatrice achava o ritual confortador.

Philhip estendeu a mão sobre a mesa e pegou a de Beatrice.

— Não tenho a menor dúvida de que nossa Flora encontrou a paz no outro mundo, minha filha. Gostaria que você também a encontrasse nesta vida.

Beatrice afastou a mão com delicadeza, e começou a servir a comida.

 

Corria o rumor que, um século atrás, na Normandia, os Hawse eram meros camponeses que haviam escalado os níveis sociais primeiro tornando-se cavaleiros e, depois, demonstrando força e bravura em combate. De qualquer modo, era certo que o pai do atual barão Hawse recebera o título porque doara muitas terras depois dê regressar da malfadada Terceira Cruzada na qual o rei Ricardo acabara prisioneiro. Hawse pai atirara sua fortuna aos pés do irmão do rei, João, no momento certo, conseguindo a ajuda do novo monarca quando a maioria dos nobres da terra se rebelavam.

Gilbert, o presente barão Hawse, não era muito questionado sobre a linhagem dos Hawse, e seu poder sobre o condado era quase absoluto. Apenas as terras dos Hendry e o vilarejo com o mesmo nome, que suas propriedades circundavam, permaneciam sendo os únicos lugares que não dominava.

Agora esse problema fora resolvido com o controle das terras através da morte de Arthur Hendry e dos papéis que assinara, antes de morrer, embora Gihbert com prudência evitasse reivindicar as propriedades enquanto Constance ainda estava de luto.

Mais cedo ou mais tarde, pretendia ter a esposa de Hendry assim como suas terras, portanto, contrariando sua natureza, estava sendo muito paciente por causa de hady Constance.

Nicholas visitara o Castelo Hawse algumas vezes, quando jovem, e sua visão sempre o impressionava. Construído como uma fortaleza, embora os dias de conflitos entre normandos e saxões havia muito houvessem terminado, a estrutura de pedra e torres era circundada por uma muralha com ameias por todos os lados.

A medida em que seguia com a mãe pela ponte levadiça até o pátio interno, teve a sensação de que deveria estar com sua armadura com malha de metal que usara em todos os anos nas Cruzadas.

Entretanto, o barão nada tinha de guerreiro ao vir saudá-los à porta principal, sorrindo calorosamente.

— Bem-vindos a Hawse, amigos! — exclamou.

Uma mulher vinha logo atrás, tentando segui-lo com dificuldade. O barão olhou por sobre o ombro.

— Vamos há, Winifred.

Winifred era a única filha de Gihbert, uma jovem esguia que pareceu a Nicholas muito frágil, em comparação com a força do pai. Lembrava-se dela de modo vago, e surpreendeu-se ao vê-la ali. Era alguns anos mais velha que Nicholas e, por essa época, ele pensara que já estaria casada e dirigindo algum castelo em terras distantes.

— Sejam bem-vindos — disse Winifred, a voz tão baixa que mal se ouviu.

Os olhos estavam postos em Constance e mal olhou para Nicholas.

O jovem Hendry sempre tivera muita facilidade para pôr à vontade qualquer mulher. Tomou-lhe a mão fria e levou-a aos lábios.

— É bom revê-la, Winifred — disse com gentileza. — Tornou-se uma beleza durante o tempo em que estive ausente.

Winifred corou, agradecida, e, por fim, olhou Nicholas. A expressão do barão Hawse encheu-se de júbilo ao ver os dois jovens juntos, e tomou o braço de lady Constance.

— Vamos entrar — disse. — A mesa está posta com as mais finas iguarias disponíveis em Hawse para honrar meus convidados. Wínifred providenciou tudo.

— Bondade sua — murmurou Nicholas.

Olhou para a moça com o sorriso que sempre reservara para as mulheres que pretendia seduzir, e recebeu a resposta usual. O olhar de Winifred suavizou-se, e seus lábios se entreabriram.

Nicholas tratou de comportar-se. O jogo de sedução vinha-lhe com tanta espontaneidade como respirar, mas era melhor ser cauteloso. Winífred Hawse não era uma garota do vilarejo e não tinha a menor intenção de seduzi-la. Pelo contrário, estava empenhado em regenerar-se do modo como jurara no campo de batalha. Guardaria seus sorrisos para as avós das redondezas e para as freiras dos conventos.

Sua preocupação no momento era resolver o problema de suas terras. Baniria da cabeça todos os pensamentos sobre mulheres, até que tal assunto fosse resolvido. Sem querer, a imagem de Beatrice Thibault surgiu-lhe diante dos olhos, como estivera no cemitério, a poucos centímetros de distância.

— Ainda posso chamá-lo assim?

Nicholas ficou surpreso ao ouvir a voz suave de Winifred.

— Como disse?

— Ainda posso chamá-lo de Nick, como fazia quando éramos crianças?

Nicholas não se lembrava de Winifred alguma vez tê-lo chamado de Nick, mas sorriu.

— Ficaria ofendido se não o fizesse.

Ofereceu-lhe o braço, e ambos seguiram Gihbert e Constance para dentro do castelo.

 

— Estou apenas dizendo que deveria considerar a sugestão do barão — disse Constance ao filho, com meiguice.

Nicholas estava sentado nos pés da cama da mãe, como fora sempre seu costume, desde criança. Ela estava entre almofadas e travesseiros, um xale nos ombros, para protegê-la do frio da manhã.

Um fogo ameno crepitava na grande lareira do quarto, e mãe e filho estavam envolvidos pelo silêncio, naquelas primeiras horas quando o solar ainda começava a despertar para mais um dia. Em breve os criados estariam correndo de um lado para o outro, vozes se ergueriam no pátio, e cascos de cavalos bateriam nas pedras da entrada.

— Winifred é uma moça adorável. Gilbert Hawse fez uma proposta tentadora, oferecendo-a em casamento para você.

Nicholas suspirou.

— Sim, minha mãe, mas não desejo tomar esposa pois mal regressei para casa. Quero apenas resolver a questão das propriedades e assumir meu lugar de direito como senhor de Hendry. — Ergueu-se para ajeitar mais um cobertor sobre as pernas da mãe que começara a tremer. — Precisamos construir mais lareiras nesses salões.

Constance sorriu.

— Você parece ter herdado essa característica de seu pai. Ele estava sempre planejando ou fazendo mudanças por aqui.

— Pouco adiantará se herdar apenas uma das características e não as propriedades — resmungou Nicholas.

— O barão Hawse foi muito generoso fazendo essa oferta, Nicholas. Não encontrará melhor partido do que Winifred, em toda a Inglaterra. Algum dia poderá herdar todas as terras de Hawse.

— O barão ainda é muito viril para se casar de novo e ter outro filho — redargüiu Nicholas, observando a mãe com bastante atenção.

Lady Constance não esboçou reação alguma e sem demonstrar emoção, respondeu:

— É verdade. Mas permaneceu viúvo todos esses anos desde a morte da esposa. Outro herdeiro não parece ser assunto de muita importância para ele.

Nicholas não podia explicar por que a idéia de se casar com Winifred Hawse lhe parecia tão errada. A jovem não era feia, e seus modos eram graciosos e elegantes e era, conforme dissera lady Constance, herdeira de uma grande fortuna. Entretanto, a idéia de desposá-la parecia impossível para Nicholas. Para começar, era muito frágil, e não podia imaginar-se mantendo as brincadeiras sexuais que costumava fazer com suas antigas amantes, como no caso da curvilínea Molie.

— Não estou pronto para o casamento, mãe. E não precisarei me casar para obter o que é meu por direito.

Constance apoiou os pés no chão de pedra.

— Pense algum tempo no assunto, meu filho. Acabou de voltar para casa, e todas essas novidades surgiram de uma vez só com muita rapidez. Convidaremos o barão e a filha para jantar aqui no solar na próxima semana, e então veremos como se sente a respeito da jovem Winifred. Agora, vá chamar minha criada para ajudar a me vestir.

Assim dizendo, lady Constance ergueu-se e atravessou o aposento até o quarto de vestir, outra das melhorias de Arthur. Nicholas ergueu-se de sua posição junto aos pés da cama e foi chamar a criada particular da mãe.

A jovem de cabelos ruivos estava na copa com mais duas empregadas do solar. Pararam de conversar ao ver Nicholas entrar, e todas as três o olharam de cima a baixo, os rostos afogueados, brilhando com sorrisos ansiosos, e Nicholas, por um instante, desejou ser ainda o rapaz irresponsável de outros tempos, quando se aproveitaria da admiração desavergonhada das moças.

— Bom dia, senhoras — disse com um ligeiro inclinar de cabeça. — Pensei que a luz do sol fosse o brilho mais intenso desta manhã, até ver seus sorrisos.

Todas soltaram risadas nervosas e uma das moças, de quem Nicholas nem sabia o nome, fez uma reverência.

O jovem tratou de assumir um ar sério, e avisou a criada da mãe que ela a esperava, indo embora em seguida. O riso das três moças o acompanhou, enquanto atravessava o pátio, mas não teve vontade de voltar e escolher uma delas para suas brincadeiras sensuais. Para sua própria surpresa, percebeu que suas intenções de se tornar um homem responsável eram a pura expressão da verdade. Mudara, de fato. Desejava algo mais na vida do que se deitar nos montes de feno com uma das criadas da copa.

Não tinha certeza do que queria, de modo preciso, mas, por certo, não era casar-se com a filha do barão Hawse.

 

A fim de evitar o risco de deparar-se com antigas amantes que poderiam não se mostrar tão generosas e compreensivas com seus erros do passado como fora Molie, Nicholas prometera a si mesmo passar os próximos dias visitando as terras dos Hendry e as pessoas que ainda considerava como suas arrendatárias. Afastou da cabeça a oferta do barão de dar-lhe a mão de Winifred em casamento, e pediu à mãe que não voltasse a falar sobre o assunto até o programado jantar com os Hawse na semana seguinte.

A primavera estava em seu mais alto esplendor e, enquanto cavalgava nos arredores de Hendry Hall, Nicholas sentia o coração leve e feliz. O ginete grande e forte, contente por poder galopar com liberdade depois da difícil viagem, abria caminho como um raio. Nicholas comprara o garanhão na Terra Santa, quando sua montaria morrera sob uma lança árabe.

Soltou uma gargalhada, e inclinou-se sobre o pescoço do animal.

— Calma, Scarab! Está gostando de galopar sem um manto e sem uma armadura pesada, longe de infiéis sanguinários correndo a seu redor como loucos, não é?

Como se respondesse, o cavalo diminuiu o passo, passando a trotar com tranqüilidade. Nicholas atirou a cabeça para trás. O sol em seu rosto e o vento nos cabelos o faziam sentir-se bem pela primeira vez desde que voltara à Inglaterra.

Puxou as rédeas de Scarab ao alcançar o topo da colina que descortinava Hendry.

O vilarejo parecia um cenário extraído de algum conto de fadas, as casas em miniatura, vistas do alto, fumaça saindo das chaminés, e pessoas, como formigas laboriosas, andando de um lado para o outro. Os arvoredos agitavam-se ao vento frio de primavera, e pássaros cantavam sem parar.

A taberna do Javali Dourado erguia-se um pouco distante do vilarejo, perto da estrada principal que conduzia a Durleigh. O bom humor de Nicholas desapareceu como por encanto, ao observar o modesto estabelecimento. Com um suspiro, conduziu a montaria para o norte, a fim de examinar as terras por lá. Por mais que gostasse de rever Phillip Thibault, a irmã de Flora pedira-lhe que respeitasse a dor de sua família e os deixasse em paz. Pretendia fazer-lhe a vontade, pelo menos por algum tempo.

Mais tarde, quando se restabelecesse em Hendry e a posse das terras não fosse mais uma disputa, procuraria Phillip em particular. Sempre gostara do senhor bondoso, e sentia necessidade de assegurar-lhe que, apesar das acusações amargas de Beatrice, não provocara a morte de Flora. Que idéia daquela moça! Enveredou por um caminho por fora do vilarejo, encaminhando-se para a terceira das casas de madeira enfileiradas. Pelo menos ali, tinha certeza que seria bem-vindo.

Crescera sempre em contato como chalé humilde dos Fletcher, e lá se sentira tão bem quanto em Hendry Hall. Mais de uma vez um criado do solar fora mandado ali para chamá-lo, porque se esquecia das horas, e sua mãe ficava preocupada.

O lar dos Fletcher sempre lhe parecera mais feliz do que o seu próprio. Ranulf Fletcher e sua mulher, Enid, haviam criado sete filhos. Harold, um dos meninos do meio, tinha a mesma idade de Nicholas, e os dois eram como irmãos. Ranulf morrera quando os dois rapazes completaram dezesseis anos, e Harold assumira o negócio do pai. Por essa época, Nicholas fora enviado para ser pajem no castelo Durleigh, e a diferença social começara a pesar e afastar os dois amigos, porém o vínculo nunca se partira de modo definitivo.

Harold possuía uma oficina ao lado do chalé, e a fumaça cinzenta que saía do prédio lateral indicava que estava trabalhando.

Nicholas circundou a oficina a cavalo, chegando à porta. Harold estava debruçado sobre uma bancada, plumas espalhadas por todos os cantos.

Nicholas fez Scarab parar e ficou observando o velho amigo. Harold não parecia ter mudado muito desde a época em que os dois rapazolas haviam começado a observar as meninas do vilarejo.

Mas lady Constance anunciara a Nicholas que Harold agora estava casado e tinha um filho. Era difícil acreditar.

Como se sentisse o olhar às suas costas, Harold ergueu-se de repente. Semicerrou os olhos ante a luz do sol, e deixando a flecha que segurava cair ao chão, voltou-se e encaminhou-se para Nicholas.

— Soube que havia voltado, Nick! — exclamou. — Ressuscitado dos mortos, disseram, mas sempre garanti a todos que nenhuma lança sanguinária dos infiéis iria por fim à vida de Nicholas Hendry!

Nicholas apeou do cavalo e encontrou-se com Harold a meio caminho. Com uma leve hesitação, Harold parou e estendeu a mão ao amigo. Nicholas ignorou o gesto e, em vez disso, apertou o companheiro de encontro ao peito, sendo correspondido no abraço caloroso.

— Como é bom revê-lo, Harry! — exclamou o herdeiro de Hendry com um amplo sorriso.

Harold jogou a cabeça para trás e examinou o amigo de cima a baixo, com olhar crítico.

— Continua o mesmo — declarou por fim, dando um soco amigável no braço de Nicholas. — A única coisa é que ficou mais sólido, poderia até me vencer em uma briga.

— Sempre consegui vencê-lo, seu convencido!

Os dois velhos amigos sorriram um para o outro, as lembranças da juventude retomando, apesar dos caminhos diferentes que a vida os obrigara a seguir.

De brincadeira, Harold deu um leve chute na perna de Nicholas, como costumava fazer no passado, mas parou de sorrir ao ver o amigo perder o equilíbrio.

— Desculpe-me — sussurrou, um tanto envergonhado.

Nicholas balançou a cabeça, e tentou evitar uma careta de dor.

— Não é nada. Machuquei-me um pouco — explicou, esfregando a coxa.

Harold franziu o cenho.

— Flecha?

Nicholas voltou a balançar a cabeça em negativa, respondendo:

— Lança.

Harold assobiou.

— Então é mesmo um milagre que tenha voltado para nós. Talvez minha mãe estivesse certa em rezar por você.

— Como está Enid?

— Saltitante e parecendo uma jovem de vinte anos.

Nicholas riu.

— Fico feliz em ouvir isso. E o que é essa história sobre um novo Fletcher no vilarejo? Já vai assumir o lugar do pai?

Para surpresa de Nicholas, o rosto do amigo encheu-se de orgulho.

— É um menino, Nick. Quem diria que ter um filho fosse algo tão maravilhoso?

— Como se chama?

Harold hesitou por um instante, e então respondeu:

— Recebeu o nome de meu melhor amigo, que, confesso, pensei nunca mais rever neste mundo.

Nicholas engoliu em seco, tomado por uma enorme emoção, e sentindo as lágrimas quentes invadirem-lhe os olhos. Por um longo tempo nada respondeu, e depois deu um tapinha nas costas de Harold, dizendo:

— Bem, então me leve para conhecer o garoto. Deve ser um menino e tanto para ter esse nome.

 

— Talvez não venham até o chalé — disse Jannet Fletcher, apertando o braço de Beatrice para confortá-la.

As duas mulheres haviam ouvido um cavaleiro se aproximar, e, espiando pela fenda da janela fechada, haviam visto o encontro dos dois homens.

— Tenho certeza de que virão — replicou Beatrice.

— Harold vai querer apresentar sua mulher e seu filho. Jannet afastou-se da janela e relanceou o olhar pelo simples chalé, percebendo, de repente, que sua arrumação seria examinada. Retirou algumas roupas que estavam junto à lareira para secar.

— Bem, os meninos saíram com Enid, portanto não precisa recear que ele veja Owen.

Beatrice se afastou da janela, os braços cruzados sobre o peito, e a testa vincada por linhas de preocupação.

— Sua sogra pode voltar a qualquer momento com um menino de cada lado.

Jannet endireitou o corpo da limpeza que fazia e encarou a amiga.

— Bem, não poderá manter Owen afastado dele a vida inteira. Owen é um menino esperto e vivaz, e em breve percorrerá o vilarejo como todas as demais crianças.

Beatrice segurou os próprios braços, tentando mantê-los firmes. Que falta de sorte incrível estar visitando os Fletcher no exato momento em que Nicholas Hendry escolhera para aparecer por lá!

— Nicholas Hendry não pode vê-lo, Jannet. Ainda não. Acabou de saber da morte de Flora e, se conhecer a criança, poderá imaginar coisas.

Jannet pegou uma vassoura em um canto da lareira e varreu algumas cinzas em volta.

— Ninguém sabe que Owen é filho de Nicholas Hendry?

— Meu pai sabe. Mas você, Jannet, é a única pessoa fora da família que tem conhecimento disso.

— Você me fez jurar que não contaria a mais ninguém, mantive o juramento e não revelei o segredo nem a Harold.

Beatrice cruzou a sala e agarrou as mãos da amiga que seguravam a vassoura.

— Em especial a Harold, Jannet. Não conte a ele! É grande amigo de Nicholas. Promete?

            — Já prometi, Beatrice. Não a trairei, embora ache que deva reconsiderar sua decisão de manter isso em segredo. Nicholas poderia fazer muito bem a Owen. Mesmo sendo plebeu, o menino poderia tornar-se um escudeiro e depois um cavaleiro...

— Cavaleiro? Para ir lutar em terras distantes e voltar ferido ou mesmo não voltar? Não é a vida que desejo para ele.

Beatrice começou a andar de um lado para o outro, agitada. Jannet balançou a cabeça, preocupada, mas antes que pudesse dizer mais alguma coisa, ouviram a porta da entrada ranger. A luz do sol invadiu a sala, e em seguida a figura alta e forte de Nicholas Hendry entrou no pequeno aposento.

Harold vinha logo atrás, a mão no ombro do amigo.

— Jannet, é Nicholas, de volta da guerra. — Harold olhou por cima do ombro de Nick, semicerrando os olhos no lusco-fusco da sala. — Oh, Beatrice! Tinha-me esquecido de que veio nos visitar com...

Beatrice deu um passo à frente, agarrou o xale sobre a mesa e falou com pressa, interrompendo Harold:

— Já estava de saída.

Os dois homens entraram na sala, e Harold olhou em volta, curioso.

— Aonde estão os meninos?

— Saíram com Enid para passear na clareira — explicou Jannet de um só fôlego. Passou por Beatrice e cumprimentou Nicholas com um leve aceno de cabeça. — Como vai, sir Nicholas? Ouvi muito a seu respeito, dito por meu querido marido.

Nicholas olhava para Beatrice, mas ao ouvir Jannet, voltou-se para a esposa do amigo, cumprimentando-a também.

— Ainda não tivera a oportunidade de ouvir falar sobre a senhora, mas já sei que é uma jovem inteligente por ter escolhido um marido como Harold.

— Deixe disso, Nick! — protestou Harold. — Fui eu quem a escolhi, e não o contrário!

Nicholas sorriu, observando a sala modesta porém muito bem arrumada e limpa.

— É sempre a mulher quem escolhe, meu caro Harold. Não aprendeu nenhuma das lições que lhe ensinei?

Beatrice prestava pouca atenção à conversa. Estava determinada a escapar do chalé e ir até a clareira para interceptar Enid, antes que a velha senhora pudesse voltar com os dois meninos.

Acenou para os dois rapazes.

— Um bom dia para vocês, Harold e amo Hendry. Se me dão licença, devo partir.

Era a quarta vez que Nicholas encontrava Beatrice. Deu um passo ao lado para deixá-la passar, percebendo que a jovem continuava sendo muito fria, tanto na voz quanto na postura. De modo filosófico, ponderou que, pelo menos, não voltara a cuspir em seu rosto, dessa vez na frente de seus amigos.

Beatrice passou por ele como um raio, saindo porta afora. De maneira impulsiva, Nicholas disse a Harold:

— Já volto. — Seguiu a jovem para o lado de fora do chalé. — Espere um momento, srta. Thibault — chamou, enquanto a moça corria em direção à estrada.

Beatrice voltou-se, no rosto uma máscara de desagrado. Nicholas deu alguns passos para alcançá-la.

— O que deseja? — sibilou Beatrice. Nicholas suspirou fundo e perguntou de supetão:

— Será que existe algo que possa fazer para a impedir de me odiar tanto?

Beatrice piscou várias vezes, por certo surpresa com o inesperado da pergunta, e acabou por responder, embaraçada:

— Eu... não sei...

Nicholas entendeu sua confusão como um encorajamento.

— Pode ser que nos encontremos de novo, aqui no vilarejo, na igreja, ou então no túmulo de sua irmã, mas recuso-me a proceder como se houvesse uma muralha entre nós. Flora seria a última pessoa a desejar tal coisa, tenho certeza. Era uma alma muito gentil para tolerar inimizade de qualquer tipo.

Beatrice enrijeceu o corpo.

— Não preciso que me diga quem era minha irmã, amo Hendry. — A voz soou quase gentil.

— Não tive essa intenção — replicou Nicholas com suavidade. — Dizem que o relacionamento entre irmãs é muito especial.

O tom compreensivo e amigo de Nicholas pareceu surtir efeito, pois os olhos de Beatrice ficaram marejados de lágrimas.

— Sim, é verdade. Embora tenhamos sido criadas longe uma da outra, éramos muito amigas.

Pela primeira vez, a expressão da jovem era mais triste do que rancorosa, parecia mais meiga. Nicholas sentiu um desejo intenso de passar os braços ao redor de seus ombros e confortá-la, mas disse apenas:

— Flora falava com freqüência a seu respeito, no pouco tempo em que nos relacionamos. Lembro-me de modo muito vago de vocês duas quando eram bem pequenas e depois você foi mandada para York...

Beatrice tratou de engolir as lágrimas que ameaçavam cair e pareceu querer responder alguma coisa. Quando o alarido de vozes infantis a distância os distraiu, Nicholas percebeu que ela empalidecia.

— Preciso partir — murmurou Beatrice.

Antes que Nicholas pudesse protestar, girou nos calcanhares e começou a correr, descendo a estrada.

Nicholas a observou por alguns instantes, penalizado por perceber que a súbita onda de emoção a fizera fugir bem na hora em que estavam prestes a derreter parte do gelo. Concluiu que dera um passo para a reconciliação, sem saber ao certo por que tal idéia o deixava tão contente.

De súbito, lembrando-se do motivo de estar ali, voltou-se para o chalé dos Fletcher. Harold e Jannet esperavam por ele à porta, parecendo preocupados.

— Parece que já conheceu Beatrice — comentou Harold quando Nicholas se aproximou.

— Receio que ela não goste muito de mim. Se bem se recorda, Harold, tive um namorico com sua irmã Flora, um pouco antes de partir para as Cruzadas. Mal pude acreditar quando soube que morrera.

— Foi um duro golpe para Beatrice — disse Jannet. Ficaram em silêncio por alguns instantes, e então a jovem esposa falou com animação:

— Bem, aí vem meu garoto!

Passou por Nicholas, os braços estendidos, ao mesmo tempo em que um pequeno ser entrava como um raio porta adentro, e atirava-se em seu colo. Harold soltou uma gargalhada e falou com Nicholas:

— Aí está o menino.

Nicholas sorriu ante o tom de voz orgulhoso do amigo.

— Lindo menino.

Falou de modo automático, pois, na verdade, nem tivera oportunidade de ver as feições do garotinho que mal começava a andar, e que quase derrubara a mãe ao chão, com seu abraço vigoroso.

Era difícil acreditar que se tratava do filho de Harold, e que o menino que fora seu amigo, sempre irrequieto e traquinas, era agora um sério esposo e pai de família.

— E quando chega a vez de uma senhora idosa ser cumprimentada com respeito por um demônio como você, mestre Nicholas?

A voz de Enid soou igual a que se lembrava, antes de partir, quatro anos atrás, pensou Nicholas Voltou-se para ela com um amplo sorriso estampado no rosto.

— Quando vir uma senhora idosa, vou pensar a respeito — redargüiu. — Nesse meio tempo, quero abraçar minha jovem amiga Enid.

Assim falando, ergueu-a do solo, abraçando-a com força.

— Ponha-me no chão, Nicholas! Vai quebrar minhas costas doloridas — protestou Enid sem convencer ninguém, pois o tom de voz era cheio de alegria e prazer, e ria sem parar.

Em questão de segundos, lembranças queridas desfilaram diante dos olhos de Nicholas, nas quais Enid surgia, o rosto sempre alegre, fazendo bolos para os meninos, ralhando com eles, e participando de suas brincadeiras, a correr pelos prados como se fosse uma menina também.

Teve de reformular seus planos de visitar outras famílias no vilarejo naquele dia, pois os Fletcher insistiram para que ficasse para o almoço. O pequeno Nick já se refizera da timidez ao conhecer o estranho e já estava se divertindo nos ombros de Nicholas, do mesmo modo como fazia com o pai. Os dois amigos ficaram se revezando para brincar com o menino que era um verdadeiro terremoto, cheio de vivacidade e vigor.

Por fim, exausto, o pequeno deitou-se junto ao fogo e adormeceu.

— Você conseguiu acabar com ele, Harry — disse Jannet, a voz cheia de afeto.

Harold segurou a mão da esposa, apertando-a com um gesto de carinho. Ela o recompensou com um sorriso que tinha algo de sensual. Nicholas imaginou que quando a criança e Enid dormiam no quarto do sótão, Harold e Jannet aproveitavam muito bem a cama larga a um canto do quarto ali em baixo, e sentiu uma pontada de inveja.

A medida que cresciam, ambos os rapazes sabiam que Nicholas era o mais afortunado. Era o que tinha a bela mansão, a oportunidade de tornar-se um cavaleiro valoroso e de conhecer todo o vasto mundo. Mas, naquele momento, Nicholas pensou consigo mesmo que, ante o olhar satisfeito do amigo que ajudava a esposa a carregar a chaleira até a lareira, trocaria de lugar com Harold sem hesitação, abrindo mão de ser um cavaleiro e de ter se aventurado pela Terra Santa.

A riqueza que Harold encontrara era muito maior.

 

Nicholas sabia, pelo trabalho que a mãe estava tendo para o jantar, que ela esperava que concordasse com a oferta do barão Hawse e que pedisse a mão de Winifred em casamento. Depois de sua encantadora visita aos Fletcher, havia momentos em que Nicholas considerava a idéia plausível. Casar com Winifred, estabelecer-se, ter filhos, gozar das alegrias de um lar tranqüilo...

Significaria voltar a possuir as terras dos Hendry sem brigas, e Winifred por certo seria uma boa esposa. Se fosse muito frágil para constantes prazeres matrimoniais, sabia que não teria problemas em encontrar parceiras sensuais nas redondezas. Embora grande parte de suas ex-amantes, como Mollie, estivessem casadas, já vira duas moças no vilarejo que haviam dado a entender que gostariam de recomeçar um relacionamento apaixonado.

Suspirou enquanto levava Scarab para o estábulo.

Entregou-o ao cavalariço e voltou ao solar. Na verdade, estivera detestando a idéia do tal jantar no fim de semana, e agora que chegara o momento, ainda não estava pronto a dar a resposta que o barão esperava.

Sua incerteza o fizera demorar-se muito no passeio a cavalo de todas as tardes, e agora estava atrasado. Hawse e a filha já haviam chegado. Nicholas sabia que a quebra na etiqueta aborreceria sua mãe, mas não havia sinais de desaprovação em seu rosto, quando lhe sorriu, dando as boas-vindas e dizendo com calma:

— Nossos convidados estão aqui, Nicholas.

O barão, Winifred e lady Constance já estavam sentados à mesa. De novo, o nobre ocupara o lugar do senhor da casa: Nicholas sentiu que a raiva que dominara desde a desfeita anterior, tomava a invadir-lhe o coração. Lutou para controlar-se, enquanto voltava-se para Winifred e inclinava-se em uma reverência.

— Bem-vinda a Hendry Hall, senhora.

Winifred afastou o olhar. Os dedos finos pareciam pedaços de gelo, quando Nicholas os beijou. O rapaz apertou-lhe a mão entre as suas, franzindo o cenho.

— Está enregelada, senhora.

Fixou o olhar na lareira maior ao fundo, e depois olhou para a mãe.

— Precisamos pedir aos criados para avivar o fogo.

O barão, que não se levantara com a chegada de Nicholas, murmurou:

— Acalme-se, rapaz. Já dei as ordens. Estão trazendo mais lenha.

E, de fato, mal acabara de falar, as grandes portas do salão se abriram, e quatro homens entraram, cada qual com os braços cheios de toras de madeira para avivar as lareiras.

— Não pode deixar seu salão de banquetes frio como uma bola de neve quando há senhoras delicadas presentes — admoestou o barão. — Dei ordens para manterem as lareiras bem providas, de agora em diante.

Nicholas encarou a mãe, que apenas deu de ombros. Quase sufocando de raiva, sentou-se ao lado de Winifred que corou e, de modo tímido, ofereceu-se para compartilhar com ele a tábua de alimentos que haviam colocado a sua frente.

Nicholas mal provou a comida que sua mãe tivera tanto cuidado em planejar. Estava em sua casa, sentado a sua mesa e, mesmo assim, haviam-no feito sentir-se como um colegial a brincar de dono da casa, e que não estava se saindo muito bem. Seria assim que as coisas aconteceriam se aceitasse a oferta do barão 1 e se tornasse seu genro?

Percebendo que seria injusto lançar sua irritação sobre a pobre Winifred, fez várias tentativas para entabular conversa mas, como sempre, a jovem respondia com voz tão baixa que não conseguia ouvi-la, e continuava recusando-se a encará-lo.

— Não fazem um lindo par? — perguntou o barão a Constance em voz alta, olhando através da longa mesa para Nicholas e a filha.

— Sim, meu senhor — respondeu lady Constance com prontidão.

Para surpresa de Nicholas, Winifred mordeu o lábio e os olhos castanhos encheram-se de lágrimas. Inclinou-se para a jovem e disse em voz muito baixa:

— Não ligue para o que seu pai diz. Nem você nem eu somos fantoches para sermos comandados por ele.

Por um momento, Winifred ergueu o olhar e encarou seu anfitrião, a expressão do rosto cheia de gratidão. Parecia que começavam a se entender.

Nicholas pensou que se abria-se uma nova perspectiva, e achou divertido. Parecia que a filha de Gilbert Hawse não estava tão ansiosa para se casar com o filho de Arthur Hendry, afinal. Sufocou um riso irônico. Quando deixara a Inglaterra, abandonara mulheres que estariam dispostas a lutar entre si por sua causa. Desde que voltara, entretanto, encontrara uma que cuspira em seu rosto e outra que parecia aterrorizada ao mero pensamento de compartilhar a vida com ele.

De novo inclinou-se para a moça, sorrindo:

— Mas não pense que sou tão mau assim.

Winifred nada respondeu, continuando a observar a sopa.

O jantar parecia que nunca iria terminar.

Nicholas conseguiu controlar a raiva até a hora em que o barão e Winifred começaram a se despedir. A jovem já agradecera Constance e tocara a mão de Nicholas com dedos que continuavam muito frios, apesar do fogo reanimador das lareiras e da comida quente que fora servida. Então, Winifred desceu até a entrada do solar para que o criado a ajudasse a subir na montaria que a trouxera. Nicholas pensou que a jovem não devia ser boa amazona.

Outro rapaz dos estábulos trouxe o cavalo do barão Hawse, mas este parou um Instante e dirigiu-se a Nicholas.

— Fiz-lhe uma oferta justa, rapaz. Um tipo de proposta que qualquer cavaleiro nas regiões aceitaria de imediato, dando pulos de alegria. Sei que mal regressou da guerra, e ainda está se ambientando, mas se continuar a protelar uma resposta, terei que começar a considerar sua atitude como um insulto. — Semicerrou os olhos. — E, devo avisá-lo, não sou homem de agüentar insultos com bom humor.

Nicholas já estava cansado de ver e ouvir o barão Hawse proceder como se fosse o dono de Hendry, agir como patrão em sua casa e dizer-lhe o que fazer.

— Então, vamos resolver isso agora mesmo, barão. Recuso sua oferta. O senhor tem razão, sua filha pode ser considerada um prêmio para qualquer homem, mas não estou pronto para me casar ainda. E também não tenho certeza se Winifred estaria disposta a se casar comigo.

As veias no pescoço do barão pareciam querer saltar para fora de seu corpo.

— Winifred fará o que eu mandar, e você faria bem se agisse do mesmo modo. Do contrário, ficará sem nada!

Nicholas respondeu com calma:

— Vou pensar em seu conselho, senhor. Mas, pelo momento, continuarei aproveitando minha situação de solteiro.

— Seu pai tinha razão — dardejou o barão. — Teria sido melhor que não tivesse tido nenhum filho!

Voltou-lhe as costas, deixou que o criado o ajudasse montar no cavalo, e saiu a galope, esquecendo a filha para trás.

As últimas palavras pareciam pairar no ar frio da noite. Poderiam ser apenas produto do veneno do barão, mas Nicholas sabia, em seu coração, que era muito provável que seu pai, Arthur, houvesse dito aquilo a seu respeito.

Winifred partiu atrás do pai, desequilibrando-se na montaria, e desaparecendo na estrada. Muito tempo depois que a poeira assentara com a partida dos cavalos, Nicholas continuava ali parado, sem. se mover, olhando para o céu escuro e sem estrelas.

 

Lady Constance aconchegou-se mais ao manto, tentando se proteger contra o vento frio da primavera, enquanto atravessava o pátio até as estrebarias. Nicholas safra de casa antes do alvorecer e não regressara o dia inteiro. Já passava da hora do jantar. Com a testa franzida de preocupação, a dama ergueu o olhar para o céu escuro.

Preocupava-se com Nicholas do mesmo modo como quando era criança e sumia, de vez em quando, procurando os amigos e as brincadeiras no vilarejo. Constance sentia-se culpada por nunca poder ter-lhe dado irmãos e irmãs que lhe fizessem companhia e lhe dessem apoio.

Examinou o estábulo escuro. Apenas a luz de uma lanterna ao fundo iluminava um pouco o ambiente. Chamou:

— Nicholas?

— Sim, já voltei.

Andando com cuidado em meio à palha, lady Constance passou pelas baias, em direção à luz. Nicholas estava sentado em um banco, a armadura espalhada a seu redor. Passava uma espécie de graxa no peitoral que brilhava, apesar da luz difusa. Os odores fortes de cavalos, palha e esterco não pareciam incomodá-lo.

— Estava muito preocupada — disse Constance em tom aborrecido. — Não comeu nada o dia inteiro.

Nicholas ergueu o olhar.

— Desculpe, mãe. Não estou com fome.

— Já escureceu há muito tempo.

— Perdi a noção do tempo.

Os olhos escuros de Nicholas brilhavam, muito expressivos, fazendo a mãe perguntar:

— Por acaso está se sentindo mal?

— Não.

O rapaz voltou a baixar os olhos para a peça de metal que tinha nas mãos, e continuou a poli-la.

— Então, qual o problema, meu filho?

Nicholas encarou a mãe de novo e, dessa vez, havia chispas de ódio em seu olhar.

— Viajei até os confins do mundo, e voltei por conta própria, minha mãe. Não preciso nem de babá nem de enfermeira.

Constance bateu o pé no chão em sinal de frustração.

— Não pretendo ser sua babá ou enfermeira, mas sou sua mãe. E assim será enquanto estivermos vivos, quer lhe agrade ou não!

Nicholas sorriu de modo débil.

— Desculpe, mãe. Na verdade, não sei o que me apoquenta. Só sei que está tudo errado, e nada permanece como deveria. Pensei regressar a Hendry como um novo homem. Entretanto, descobri que Hendry foi quem mudou, enquanto permaneci o mesmo.

Constance franziu as sobrancelhas.

— A vida modifica tudo, Nicholas. Seu pai não pôde evitar a própria morte.

— Como também nunca conseguiu evitar o fato de não amar seu único filho.

Já não havia raiva no tom de voz de Nicholas. Colocou o peitoral da armadura ao seu lado, e pegou uma luva de metal que começou a polir com a mesma precisão mecânica.

A mãe estudou-lhe a expressão do rosto com olhar dolorido.

— Está enganado, Nicholas. Seu pai o amava tanto quanto era de sua natureza.

— De acordo com o barão Hawse, queria-me tanto bem ao ponto de desejar que eu não tivesse nascido.

Assim dizendo, Nicholas continuou a fazer círculos no metal, de maneira monótona.

Constance sentiu a voz embargada.

— Não acredito que o barão tenha dito algo tão cruel e falso.

— Pode negar, se quiser, mãe, mas essa história cheira à verdade.

Nenhum dos dois voltou a falar por alguns momentos. Afinal, Constance suspirou.

— Desejaria que seu pai ainda estivesse aqui, Nicholas.

— Sim. De modo que pudesse assinar os papéis negando-me todos os direitos, diante de meus próprios olhos?

— Já lhe disse, fez isso para me proteger e aos habitantes de Hendry. Como mulher, não poderia permanecer como dona e administradora de seus bens. Uma única lágrima escorreu dos olhos tristes de Lady Constance.

Nicholas ergueu a cabeça, viu-a chorar, e parou seu trabalho.

— Agora a deixei triste. Talvez papai tivesse razão. De qualquer modo, não pretendo mais incomodá-la.

— Do que está falando?

A voz de lady Constance estava alarmada.

— Sou um soldado agora, mãe, e esse me parece o melhor tipo de vida. Fui bom com as armas, você sabe, apesar do que meu pai possa ter pensado a meu respeito. Pensei em abandonar essa vida e encontrar uma nova aqui, mas parece que o destino tem outros planos para mim.

— As Cruzadas terminaram. Seu lugar é aqui.

— Sim, terminaram, mas o continente está repleto de senhores de terras que pagam muito bem pelos serviços de um guerreiro acostumado com as lutas.

Constance balançou a cabeça e retirou-lhe a luva de metal das mãos.

— Dizem que aqueles que vão para as Cruzadas a serviço da Cruz de Nosso Senhor retornam com distúrbios mentais. Dê tempo ao tempo. Entre e coma um bom bife. Amanhã será outro dia, alegre e animado, e depois de amanhã será ainda melhor.

Nicholas levantou-se e beijou a face da mãe.

— Seu bife pode erguer os mortos, minha mãe, mas temo que não consiga curar minhas feridas. Entretanto, entraremos juntos em casa e lamento tê-la feito chorar. Em breve não lhe darei mais preocupações.

 

— Nunca a vi tão melancólica desde que sua irmã faleceu — comentou Phillip com a filha. — Precisa esquecer Nicholas Hendry.

Beatrice sabia que o conselho do pai era sensato, mas como esquecer o cavaleiro recém-chegado quando via sua imagem cada vez que olhava para o sobrinho? A cada momento que passava com o pequeno Owen ficava pensando se o retorno de Nicholas Hendry significava que iria perder a guarda do menino.

Sentara-se com o pai no salão da taverna, em uma das mesas de cavalete. Era tarde. Gertie já fora embora havia muito tempo, e o local estava deserto, sem clientes.

— E se ele viu Owen na casa dos Fletcher?

— E daí? — perguntou Phillip, esticando a mão grande e cobrindo a da filha por sobre a mesa. — Beatrice, um dia sem dúvida Nicholas conhecerá o menino, precisa encarar esse fato.

Beatrice afastou a mão e desviou o olhar do pai.

— Talvez, ao crescer, Owen não fique tão parecido com o pai.

Phillip balançou a cabeça, exasperado.

— Sim, e talvez o chão se abra e enguia Nicholas Hendri, mas isso também não é muito provável que aconteça.

Beatrice encarou o pai.

— Decidi levá-lo embora.

Phillip empurrou o banco para trás, espantado.

— Embora?

— Voltarei a morar com tia Mildred. — E vendo a expressão cheia de pesar no rosto do pai, acrescentou: — Todos nós iremos.

— E abandonar a taverna?

Phillip fez um gesto amplo, abarcando todo o Lugar. Beatrice sabia que o pai trabalhara muito para subir da posição de cervejeiro a proprietário do Javali Dourado.

— Poderia vender este lugar e começar um novo negócio em York.

Phillip limitou-se a dar de ombros.

— Owen pertence a Hendry, Beatrice. Aqui é nosso lar, e é o Local onde sua mãe e sua avó estão enterradas.

— Levantou-se. — Venha, vamos dormir. Irá se sentir melhor pela manhã.

Beatrice olhou para o fogo na lareira, sem esboçar um gesto para se erguer. Fora feliz vivendo em Hendry e sabia que Owen amava muito o avô. Se levasse o menino para longe, faria o pai sofrer. Mas, se Nicholas Hendry descobrisse sobre o filho, tanto ela quanto Phillip poderiam perder o menino. Não via outra solução para o problema, precisava fazer planos para o futuro.

 

Nicholas acordou sobressaltado e sentou-se na cama.

Não conseguia enxergar nada no escuro, e levou um momento para se lembrar de que estava de volta à Inglaterra, em seu próprio quarto em Hendry Hall.

Sonhara que se encontrava na Galiléia, molhado e com frio, sob uma chuva terrível de inverno.

Voltou a deitar-se na cama e estremeceu, como se ainda pudesse sentir os tremores nos ossos, durante os longos invernos que passara nas Cruzadas, quando quase morrera. Se não fosse pelos poderes de cura de Gervase e a devoção de Bernard, o ferimento na perna o teria destruído.

E talvez tivesse sido melhor, pensou, sentindo uma onda de autopiedade. A mãe teria chorado um pouco, mas não precisaria mais se preocupar com o filho. A saudade a acompanharia por algum tempo, porém, aos poucos, a imagem de Nicholas desapareceria para sempre.

Bem, pelo menos ainda poderia lhe dar paz de espírito. Quando partisse de Hendry, lady Constance poderia retornar a sua vida sem preocupações a seu respeito, ninguém lamentaria a sua partida. Nicholas já não perda pertencia a Hendry Hallo. Seria melhor para todos.. Harold tinha sua nova família com que se preocupar, as jovens que cortejara haviam encontrado novos amantes, e a irmã de Flora e seu pai ficariam, sem dúvida, felizes por vê-lo fora do território.

Assim pensando, Nicholas fez um trejeito de desagrado no escuro, ao lembrar-se da perene hostilidade de Beatrice. Parecera que a capa de gelo se derretera um pouco quando haviam conversado em frente ao chalé dos Fletcher, entretanto, quando a jovem saíra correndo de repente, Nicholas ponderara que talvez houvesse se enganado.

Olhando para as paredes do quarto escuro, ainda podia ver-lhe o olhar sombrio e acuado.

Essa era a única questão que lamentava deixar indefinida. Gostaria de ter podido convencer a jovem que jamais fizera mal à Flora, e gostaria que Phillip ouvisse também. Talvez ainda não fosse tarde para isso e, pela primeira vez, desde que ouvira as palavras cruéis do barão Hawse, Nicholas sentiu que sua vida tinha um propósito.

Antes de partir da Inglaterra, deixaria tudo esclarecido. Faria uma visita ao Javali Dourado, quer os Thibault desejassem ou não ouvir sua explicação, pelo menos teria a satisfação de dá-la antes de partir, dessa vez para sempre.

 

Na época em que Nicholas cortejara Flora, Phillip era o cervejeiro da cidade, porém ainda não existia o Javali Dourado. Ele e a filha Flora moravam em uma casa modesta sobre uma colina, além do vilarejo, longe o suficiente para que o odor de malte e cevada não incomodasse os habitantes.

Nicholas lembrava-se de que Flora falava com freqüência sobre a irmã que fora enviada, ainda criança, para ser criada em York, onde a tia das meninas era abadessa no Convento de Santa Cecília. Mal se lembrava de ter visto Beatrice quando ainda eram todos muito pequenos.

— Beatrice sempre foi a mais esperta — dissera Flora. — Em York estuda com as freiras e os padres, fala e lê em latim.

Não havia inveja na voz de Flora e não era de sua natureza sentir-se menosprezada pelas oportunidades dadas à irmã. Entretanto, pensou Nicholas enquanto subia a estrada em direção ao Javali Dourado, nada a respeito de Beatrice Thibault dava a impressão de que fora educada por freiras. Em vez de doçura e recato, possuía um olhar direto e destemido. Em vez de corar, baixar os olhos e falar baixo como se esperaria de alguém ensinada por religiosas, parecia uma jovem acostumada com a liberdade, fazendo e dizendo o que bem entendia.

De modo estranho, apesar da constante hostilidade de Beatrice, Nicholas desejava revê-la. Decidira naquela manhã deixar Scarab em Hendry Hall e ir a pé até a taverna, como se caminhar tanto fosse uma espécie de penitência. diante de tal pensamento, riu consigo mesmo. Do que estava se penitenciando, afinal? Qual fora seu crime com os Thibault?

Ao enveredar pelo caminho que levava direto à entrada da taverna, lembrou-se da última vez que lá estivera, limpando o rosto por causa da cuspida de Beatrice. A moça não agia como se tivesse sido educada por freiras, de jeito nenhum, concluiu com secura.

O dia era ameno, e a porta da taverna estava escancarada. Com cautela, passou a cabeça pelo umbral. O estabelecimento parecia estar vazio, o que não era de surpreender, devido a ser tão cedo. Suspirando fundo, Nicholas deu um passo à frente e entrou.

Ante o som de passos no chão de madeira, Phillip surgiu de uma porta aos fundos. Quase não havia mudado, segundo Nicholas se lembrava, embora as rugas ao redor dos olhos estivessem mais acentuadas. O negociante pareceu surpreso ao ver de quem se tratava.

Nicholas apressou-se a falar.

— Mestre Thibault, embora talvez não se sinta contente por me ver, rogo que me conceda alguns minutos. Existe algo que preciso esclarecer entre nós e com sua filha também — acrescentou, olhando ao redor.

A taverna era um lugar muito agradável, com suas paredes limpas cobertas por tachos brilhantes de todos os tamanhos e tipos, e as prateleiras com os copos e vasilhas imaculadamente polidos.

Phillip caminhou até Nicholas, com expressão sóbria.

— Beatrice não está aqui, rapaz. Caso contrário, teria de pedir que fosse embora, pois sua presença a aborreceria muito.

— Não desejo irritar ninguém — garantiu Nicholas.

— Porém creio que ela faz uma idéia errada de quem sou, parece sempre tentar me responsabilizar pela morte de Flora. Gostaria de ter uma oportunidade para explicar...

Phillip ergueu uma das mãos com gesto autoritário, fazendo-o calar-se.

— Flora está morta, mestre Nicholas. Nada mudará isso. O melhor que pode fazer por Beatrice é deixá-la em paz. Quer dizer, ficar longe daqui.

Nicholas balançou a cabeça com teimosia.

— Vou falar com ela e com o senhor também.

Phillip esboçou um sorriso triste.

— Lembro-me de que sempre foi um rapaz cabeça dura. Beatrice não quer falar com você, entenda isso de uma vez por todas. Porém, eu o ouvirei, se deseja aliviar sua consciência.

Fez um gesto em direção a um dos bancos compridos e esperou enquanto Nicholas se sentava, franzindo a testa.

— Senhor, não vim aqui por minha causa. Ao ouvir isso, Phillip dirigiu-se à outra ponta do banco e sentou-se, fazendo a madeira estremecer, estendendo as pernas longas e perguntando com suavidade:

— Então, por que veio?

— Sua filha, Beatrice... — Nicholas fez uma pausa, escolhendo as palavras certas com cuidado, antes de continuar. — ...me acusou de ser responsável pela morte de Flora.

Phillip suspirou.

— Beatrice não se conforma em ter perdido a irmã. Em parte foi minha culpa por tê-las mantido separadas na infância. Beatrice chora tanto pelo futuro quanto pelo passado perdido. Mas eu estava só e viúvo, e não tinha certeza se poderia educar duas meninas. Então, decidi enviar Beatrice para ficar com minha irmã no convento.

— Mas ela está errada sobre Flora e eu. Jamais faria algo que pudesse magoar aquela jovem tão meiga. Demos nossos corações um ao outro por um breve período, e ambos sabíamos que não iria durar porque eu 1 iria para a guerra a qualquer momento.

O         olhar de Phillip era compreensivo e bondoso. Apoiou as mãos no banco, e inclinou-se para Nicholas.

— Creio que ela o amou mais do que imagina, filho. As donzelas costumam entregar o coração com maior facilidade que os homens. Mas, se isso serve de consolo, não o culpo por sua morte, e sei que transformou seus últimos dias em um tempo de felicidade, pois ela mesma me disse isso.

Nicholas sentiu um súbito nó na garganta, e engoliu com dificuldade.

— Agradeço por suas palavras, mestre Thibault, significam muito para mim. Não queria sair daqui sabendo que o senhor me julgava um rufião, e gostaria muito que pudesse convencer Beatrice disso.

— Um dia ela compreenderá. — Phillip levantou-se, e Nicholas notou que o corpo do ancião tremia com o esforço.

Também levantou-se, perguntando:

— Então, acha que não a poderei ver?

Phillip balançou a cabeça em um gesto de negativa.

— De nada adiantaria. Aliás, vou pedir-lhe que saia agora, meu filho, porque Beatrice deve voltar a qualquer momento, e não quero que o veja.

Nicholas surpreendeu-se com sua própria frustração, entretanto, não podia deixar de atender o taberneiro.

— Então, irei embora, mas gostaria que lhe transmitisse minhas saudações.

Phillip piscou.

— Apenas se Beatrice estiver de muito bom humor, senão poderá me atirar algum objeto, ao ouvir seu nome.

Nicholas sorriu.

— Ela possui um temperamento forte, já constatei.

— Mas um bom coração.

— Isso não tive o prazer de verificar, apenas acredito que seja verdade, já que é sua filha.

Estendeu a mão, e Phillip apertou-a com entusiasmo. Então, Nicholas voltou-se para ir embora. Quando se dirigia à porta, ouviu o tagarelar de uma criança pequena do lado de fora da taverna, e uma voz feminina respondendo com carinho. Sem que soubesse por quê, o coração de Nicholas começou a bater mais forte ao reconhecer a voz de Beatrice.

Phillip ficara estranhamente quieto. Nicholas observou-o de relance, intrigado com a atitude, e depois voltou a olhar para a porta, a tempo de ver um menino pequeno entrar.

— Vovô! — gritou a criança. — Vimos os cavalos bebendo água no regato!

Nicholas olhou do menino para Phillip, com grande espanto.

— Avô? — repetiu. — Este menino é seu neto?

Não precisou de uma resposta verbal, pois a criança atravessou a sala e atirou-se nos braços do senhor idoso que o ergueu e voltou-se para Nicholas.

— Chama-se Owen.

Beatrice parara à soleira da porta. Parecia sustentar o peso do corpo apoiando-se no umbral, o rosto branco como o de um fantasma.

— Então, este é seu filho, minha senhora? — Mesmo ao perguntar, Nicholas achava tudo aquilo muito estranho. Não ouvira nada a respeito de Beatrice Thibault ter um marido, mas, por certo, estava em idade de casar, e até mesmo de ser viúva. Talvez seu marido houvesse morrido.

Beatrice deixou a mão escorregar pela moldura da porta, e ficou ereta. Levou muito tempo para responder, mas por fim, disse:

— Não, Owen não é meu filho.

Nicholas olhou para Phillip, à espera de uma explicação, e então o taberneiro explicou, em tom grave:

— Owen é filho de Flora.

Apertou o menino nos braços, e depois colocou-o no chão, dizendo:

— Suba, meu neto, e vá brincar um pouco em seu quarto.

Era óbvio que, apesar de muito pequeno, o menino sabia que algo importante estava acontecendo, e que o avô, em geral sereno, estava muito agitado. Pegou a mão de Phillip.

— Então, vovô vem também.

O taberneiro balançou a cabeça, com paciência.

— Não, Owen. Sua tia e eu precisamos conversar com mestre Hendry. Só precisaremos de alguns minutos. Agora, suba.

Assim dizendo, deu um leve empurrão nas costas do menino que começou a andar devagar em direção à escada, mas voltou-se para olhar Nicholas, perguntando:

— O senhor é mestre Hendry?

As palavras tinham uma inflexão inocente, própria da infância, mas os olhos escuros do menino demonstravam uma inteligência viva. Nicholas sentiu que aquele olhar o trespassava como uma lança. Por um momento, ficou sem palavras. Então, como a criança continuasse a olhá-lo, conseguiu responder:

— Sim, sou Nicholas Hendry.

— Amigo do vovô?

— Sim, sou amigo de seu avô, e conheci sua mãe.

Ao dizer aquilo, Nicholas sentiu como se um raio o atingisse, um pensamento surpreendente passou-lhe pela mente, e quase o fez perder o equilíbrio. Seria possível? Será que aquele menino de voz suave e olhos escuros era filho de Flora e seu também?

Olhou para Beatrice que ainda estava parada à porta, parecendo ter sido atingida por uma tormenta A jovem repetiu as palavras do pai:

— Suba, Owen.

O menino ainda olhava para o estranho com curiosidade infantil e perguntou:

— É amigo de Owen também?

Nicholas esforçou-se por sorrir, apesar do coração bater de modo descompassado, e sentir-se sem ar.

— Gostaria de ser seu amigo, Owen, se você quiser. Satisfeito, o garoto fez um aceno de cabeça, e depois virou-se, subindo a escada como um raio. De repente, a taverna pareceu muito vazia.

Sem delongas, Nicholas perguntou:

— É meu filho?

Beatrice parecia ter-se dominado. Ajeitou as saias e entrou no salão, a expressão fria a qual Nicholas já conhecia muito bem, desde seu primeiro encontro.

— Seu? — perguntou ela. — Claro que não!

Nicholas passeou o olhar de Beatrice para Phillip, que abaixou o rosto.

— O menino tem cabelos e olhos negros. Flora era loura.

— Por certo não pensou que uma moça bonita como minha irmã ficaria sem pretendentes depois que você foi embora. Vocês homens são todos iguais! Todos pensam ser inesquecíveis!

Se não fosse pelo choque da idéia de que estivera frente a frente com seu próprio filho, Nicholas teria dado uma resposta espirituosa para o comentário. Mas, sob as circunstâncias, voltou-se para Phillip.

— Diga-me a verdade, meu velho amigo. Flora estava grávida de meu filho quando parti há quatro anos?

Phillip ergueu o olhar, depois voltou-se para Beatrice, antes de responder:

— Flora morreu solteira, sem revelar o nome do pai da criança.

— Então, o menino pode ser meu. — Nicholas sentia-se trêmulo por dentro, as mãos suadas.

De novo Beatrice falou com desdém:

— Não. Owen nasceu um ano completo após sua partida.

Nicholas encarou-a, tentando descobrir se mentiria sobre um assunto tão importante. Então, sustentou o olhar sem medo.

— Tem certeza?

A jovem ignorou a pergunta e comentou:

— Se bem recorda, mestre Hendry, pedi-lhe para não vir aqui em minha casa. Peço, então, que vá embora.

Ouviu-se um chamado do andar de cima.

— Vai subir, vovô?

Phillip aprumou-se e acenou para Nicholas.

— Seria melhor que partisse, meu rapaz.

Beatrice ficou parada em silêncio, encarando Nicholas. O rosto bonito parecia o de uma estátua de pedra.

Nicholas soltou um suspiro profundo.

— Não tenho a menor intenção de aborrecê-la nem a seu pai — Cumprimentou Beatrice e Phillip com um gesto de cabeça. — Adeus, senhora.

Como a moça não saía do meio do caminho, Nicholas passou por ela em direção à porta.

Beatrice continuou ali parada, sem virar-se para olhá-lo, até que Nicholas fez um aceno final e partiu da taverna.

 

O barão Hawse adiou a viagem as suas terras do norte, e apressou-se a ir para Hendry, em resposta a um apelo de lady Constance.

A dama recebeu-o no pequeno solário aos fundos do grande salão principal. Entretanto, ao tomar conhecimento da apreensão da senhora de Hendry Hall, o barão Hawse sentiu-se aliviado.

— É um fato conhecido, Constance querida, que muitos homens que vão para as Cruzadas voltam mudados para sempre. Acostumam-se com o modo de vida dos guerreiros e descobrem que não conseguem mais levar uma existência tranqüila e doméstica.

— Mas não creio que tenha acontecido o mesmo Nicholas — rebateu lady Constance.

Havia convidado o barão para se sentar, mas não conseguia ela própria ficar parada e, de modo agitado, caminhava de um lado para o outro enquanto falava.

— Sempre foi um rapaz muito gentil e afável, muito mais inclinado a rir do que guerrear.

— Você se lembra dele como um menino, Constance. Nicholas é um homem agora e, se diz que a vida de mercenário é o que lhe interessa, você deve aceitar o fato e deixá-lo fazer o que deseja.

— Nicholas poliu aquela armadura horrorosa e disse que vai partir ao amanhecer. — Lady Constance voltou-se para o barão com um olhar ansioso. — Poderia conversar com ele, por favor, e tentar dissuadi-lo dessa idéia ridícula?

Por um breve instante, uma faísca maliciosa brilhou nos olhos cinzentos do barão, mas manteve a expressão séria.

— Já conversei, minha cara. Tinha esperanças de que se unisse à Winifred, mas se é tão... desculpe-me, querida... tão cabeça-dura para perceber uma oferta interessante quando lhe fazem, entregue em uma bandeja de prata, por assim dizer, então merece a vida que deseja.

Constance ergueu os olhos para o teto alto de onde as pinturas de anjos compenetrados velavam a sala. Respirou fundo, e falou em tom apressado:

— Gilbert, não consigo parar de pensar que, se Hendry Hall ainda fosse de Nicholas, meu filho não partiria.

A expressão do barão tornou-se alerta.

— A solução teria sido bem simples. Tudo que tinha a fazer era casar-se com Winifred, e as terras seriam dele, como meu presente de casamento.

— Sim, mas...

A dama caminhou até onde o barão estava sentado, ficou de joelhos no chão de pedras, e cobriu-lhe as mãos com as suas.

— Gilbert, eu imploro! Nicholas é tudo que tenho na vida agora! Ficarei sozinha, se ele partir!

O barão Hawse não demonstrou a menor emoção. Moveu as mãos, de modo a cobrir as de lady Constance, e então se levantou, fazendo-a erguer-se também.

— Minha cara, está falando tolices. Jamais ficará só enquanto eu estiver a seu lado. — Deixou que o tom de voz se tornasse suave. — Constance, sabe muito bem que sempre a quis, mesmo antes que se casasse com Arthur. E já esperei por você mais tempo do que desejava, como jamais fiz por outra pessoa em minha vida.

Inclinou-se e beijou-a nos lábios, fazendo-a ficar surpresa com o gesto inesperado.

— Não ouvirei mais essa conversa boba sobre ficar sozinha. Assim que o período de luto terminar, você virá viver em Hawse comigo. Quanto a Nicholas, escolheu seu próprio destino. Deixe-o ir.

 

O barão decidiu demorar-se no caminho de volta a Hawse, percorrendo as terras de Hendry. O minúsculo vilarejo era uma agradável adição as suas imensas propriedades. Poderia abrir mão de Hendry Hall. Seria um bom presente a dar a um vassalo obediente, a qualquer momento, assim que conseguisse convencer Constance a ir morar com ele no castelo de Hawse. Sentiu o sangue ferver nas veias ao imaginar Constance em sua cama.

Estava mais velha, porém ainda a desejava, mais do que nunca. Conhecera-a quando era a filha de um cavaleiro de pouca importância que possuía algumas terras ao norte. Constance fora a mais linda jovem do norte da Inglaterra, e Gilbert Hawse a desejara com um desespero fora do normal.

Quando a jovem decidira casar-se com Arthur Hendry, desprezando-o, Gilbert sentira uma tremenda raiva durante meses. Fora a primeira vez na vida que não conseguira o que desejara, e jurou a si mesmo que isso nunca mais voltaria a acontecer.

O vilarejo de Hendry era próspero. Os arrendatários pagavam os aluguéis com pontualidade e não haviam se rebelado muito quando o barão impusera taxas extras havia pouco tempo, a fim de pagar uma dívida que contraíra com o rei. Na verdade, havia dito ao povo de Hendry que eram ordens de lady Constance que precisava do dinheiro por causa da morte do marido. Gilbert Hawse deixava que seus empregados lidassem com os moradores, e mal conhecia os habitantes de Hendry.

Chegou ao fim da rua e fez o cavalo dar meia-volta e passar em frente à taverna do Javali Dourado. Uma mulher e uma criança caminhavam na mesma direção. Tratava-se de Beatrice, a filha do taberneiro. Era uma das moradoras do vilarejo que o barão conhecia um pouco. Gilbert Hawse costumava observar as mulheres atraentes sob seu poder.

Parou o cavalo um instante para olhá-la.

Beatrice caminhava com passadas largas, e não com passos minúsculos como faziam as jovens dos círculos sociais que o barão freqüentava. O movimento livre da cabeça e dos braços dava a impressão de que estava saboreando a bela manhã e o ar da primavera.

O barão sentiu um desejo físico intenso percorrer-lhe o corpo. Aquela seria uma fêmea sensual em sua cama, pensou consigo, e já perdera muito tempo deixando-a em paz.

O olhar do nobre pousou sobre o menino ao lado de Beatrice. Teria se casado em York? Como ninguém lhe contara sobre isso? O pensamento fez com que franzisse a testa. Os maridos sempre complicavam seus casos amorosos.

Continuou a olhar a dupla até que alcançaram a taverna. Quando voltasse a Hawson, pensou, faria alguma sindicância. Um de seus empregados, Leon de Ryminster, era o homem que em geral utilizava para tratar de questões mais delicadas.

Beatrice Thibault ficou parada à porta da taverna por um longo momento. O barão passou a língua pelos lábios, observando o corpo bem-feito, a graciosidade da curva de suas costas, e o ondular dos quadris. Então, com um movimento brusco, fez o cavalo retornar para o caminho de Hawse. Chamaria Leon ao chegar, e ordenaria que procurasse descobrir tudo sobre a sra. Beatrice do Javali Dourado.

 

O sol de verão ainda brilhava no céu quando Nicholas retornou ao vilarejo naquele fim de tarde. Estivera cavalgando o dia inteiro sem destino, a cabeça cheia de pensamentos desencontrados. Nas primeiras horas, convencera-se de que suas suspeitas eram infundadas, que a intensa emoção que sentira ao olhar para o menino pequeno pela primeira vez não passara de interesse normal por uma criança bonita e inteligente. Mas então se lembrara como Beatrice ficara desnorteada ao vê-lo na taverna. Havia medo em seu olhar, e Nicholas lembrava-se de suas palavras quando viera a Hendry Hall. “Você a matou”, dissera. Talvez não tivesse sido um coração sofrido que matara Flora, mas sim um parto difícil para uma jovem de compleição tão delicada, ao dar à luz um menino robusto?

A pergunta ficara martelando seu cérebro durante horas, e Nicholas deixara que Scarab fosse galopando por onde desejasse. Por fim, suas andanças o tinham trazido de volta ao vilarejo e para a estrada que conduzia ao chalé de Harold Fletcher. Ao aproximar-se, a porta abriu-se, e o fabricante de flechas apareceu.

— Desculpe recebê-lo sozinho, Nicholas — disse Harold. — Já é tarde e minha boa esposa foi dormir com o pequeno Nick que pintou o sete o dia inteiro.

Nicholas apeou do cavalo, sentindo cãibras depois de tantas horas sobre a sela.

— Sou eu quem pede desculpas, Harry, por aparecer em hora tão imprópria.

Harold examinou o rosto do amigo em meio ao lusco-fusco.

— O que o atormenta, Nick? Parece que andou cavalgando com um demônio às costas.

Nicholas sacudiu a cabeça com força.

— Estou andando a cavalo desde a manhã.

— Por onde?

— Nenhum lugar específico. Apenas galopando pelas colinas.

Harold pareceu preocupado.

— Comeu?

Nicholas acenou que não.

Então Harold pegou as rédeas de Scarab e amarrou-o a um arbusto próximo. Depois, fez com que Nicholas o acompanhasse à oficina.

— Vá sentar-se no banco antes que desmaie de fome. Já volto.

Nicholas teve que inclinar a cabeça para entrar na oficina de teto baixo, e deixou-se cair no banco que Harold indicara. O amigo logo regressou com uma terrina de comida e uma pequena lanterna. Colocou a comida sobre a bancada em frente a Nicholas, ergueu a colher e disse:

— Coma.

— Não queria incomodá-lo...

— Coma — repetiu Harold em tom de comando. — Depois fale.

Após a primeira colherada, Nicholas percebeu que, na verdade, estava faminto. Ambos os homens ficaram em silêncio, enquanto o nobre terminava o ensopado quente.

— Obrigado, Harry — murmurou, raspando o último bocado.

Harold ficou sentado, observando o amigo.

— Agora me conte qual é o problema, Nick. Nicholas Hendry ficou olhando para o prato vazio por alguns segundos, antes de responder:

— Fui ao Javali Dourado hoje, e conheci o filho de Flora.

— Garotinho esperto, não é? — E Harold acrescentou, rindo — Quase tão brilhante quanto meu Nick.

— Quem é o pai da criança?

Ao fazer a pergunta abrupta, Nicholas viu-se prendendo o fôlego, mas Harold ficou confuso.

— Bem, parece que ninguém sabe. Chegamos à conclusão, no vilarejo, que deve ter sido algum viajante de passagem por Hendry, porque nenhum homem veio reivindicar o título de pai do menino, nem mesmo quando a pobre Flora...

Harold parou de falar, de modo súbito. Nicholas passou a mão pelo rosto.

— Harry, Flora e eu tivemos um breve romance antes que eu partisse para o continente.

Harold abriu a boca, surpreso.

— Nunca soube disso.

— Não, foi na época em que seu pai morreu, e você, de um dia para o outro, tornou-se um sério trabalhador. Se me lembro bem, nos víamos pouco naqueles dias.

Harold acenou concordando, ficou calado por um longo tempo, e depois perguntou:

— Está querendo dizer, Nick, que Owen é seu filho?

— Não sei. A irmã de Flora jura que não.

Harold inclinou a cabeça para um lado, ponderando.

— Beatrice não costuma mentir.

— Mas essa não é uma situação normal.

Ambos se entreolharam com seriedade.

— E verdade, Nick.

— Owen e seu pequeno Nick são amigos?

— Sim. Owen é um pouco mais velho que Nick.

— Mais velho quanto?

Harold fez uma pausa, como se contasse, e depois respondeu, devagar:

— Seis meses. Owen nasceu há pouco mais de três anos, no início da primavera.

— Nove meses depois de minha partida — disse Nicholas, como se falasse consigo mesmo, a cada minuto mais seguro de que o menino vivaz que conhecera pela manhã era sua própria carne e sangue.

— Sim, mais ou menos isso.

— Está certo quanto à data, Harry?

— Sem dúvida. Não esqueceria algo assim. Tínhamos acabado de descobrir que Jannet estava grávida, quando a pobre Flora faleceu dando à luz Owen. Só de pensar nisso, ficava acordado todas as noites, temendo por minha esposa, até que ela teve Nick, sã e salva.

— Então, Flora morreu de parto.

— Flora? Por certo que sim. — Harold pôs a mão no ombro do amigo. — Lamento, Nick.

Devagar, Nicholas ergueu-se do banco.

— Obrigado por me contar e pela comida.

Harold também se levantou.

— O que vai fazer?

— No momento, vou voltar para Hendry Hall. Pretendia partir amanhã de manhã para sempre, mas a situação mudou. Hendry Hall é meu lar e, um dia será o lar de meu filho.

— Claro que é seu lar, Nicholas! — exclamou Harold.

Poucas pessoas sabiam de modo concreto sobre as decisões que Arthur Hendry tomara antes de morrer, portanto Harold continuou.

— Mas o que pretende fazer a respeito do menino? — Tinha uma expressão preocupada. — Beatrice ama a criança como se fosse seu próprio filho, Nicholas.

— Já percebi, mas trata-se de meu filho, Harry, e pretendo ser um pai para ele.

Harold pegou a terrina sem nada dizer, e os dois homens caminharam para fora. Já estava escuro, e uma brilhante lua crescente surgia no céu pontilhado de estrelas. Uma coruja soltava seu pio tristonho.

Harold fez um esforço para aliviar o clima pesado.

— Então, voltou a me superar, Nick — comentou, apertando o braço do amigo. — Pensei que era o primeiro dos dois a produzir um rebento, e agora surge a novidade de que tem um filho mais velho que o meu.

— Mal posso acreditar Harold. Confesso que a idéia me deixa muito confuso.

Harold sorriu.

— Vai se acostumar, Nick. E não fique ansioso, será um excelente pai.

Nicholas desamarrou Scarab, de repente percebendo, com remorso, que mantivera o pobre animal galopando-o.

 

Na guerra, Scarab fora incansável, marchando compensá-lo com uma vida mais sossegada na Inglaterra.

— Já nem sei se sou bom em alguma coisa, Harry, quanto mais como pai. Mas o menino é meu, e pretendo reivindicar meus direitos.

Com um movimento ágil, montou no cavalo, o rosto severo e preocupado. Harold estendeu o braço e segurou a mão do amigo.

— Se fosse você, não tomaria nenhuma atitude precipitada, Nick. O menino tem um lar tranqüilo e feliz, o único que conheceu. Se tornar as pessoas que Owen ama suas inimigas, apenas conseguirá tornar a todos, inclusive você, muito infelizes.

Nicholas baixou o olhar para o amigo. Sentia-se moído pelo cansaço, porém as palavras sensatas de Harold Fletcher conseguiram sacudir seu torpor. Alguns momentos antes, quando tivera a confirmação que Owen era seu filho, sentira o impulso de galopar de imediato até o Javali Dourado e, agarrar a criança, levando-a consigo. Mas Harold tinha razão. Owen possuía um lar, um avô e uma tia para amar. Nicholas teria que sufocar a impaciência. Não estava mais em guerra, lutando contra os infiéis. A batalha presente não requeria força bruta, mas inteligência. E levaria o tempo que fosse necessário para vencê-la.

 

Constance parou à porta do quarto do filho, as mãos nos quadris.

— Se é sua intenção fazer com que me alegre com sua partida de novo, então está fazendo um bom trabalho!

Nicholas piscou, afastando o sono, e puxou o cobertor até o queixo, a fim de que seu corpo despido ficasse coberto de modo decente. Pelo sol que entrava no aposento, podia ver que a manhã já ia alta, mas mesmo assim, só estivera dormindo algumas horas, desde que voltara a Hendry Hall e caíra como um peso morto na cama.

— Lamento, mãe — resmungou, sentindo um gosto azedo que o fez lembrar-se do ensopado na casa de Harold, devorado no meio da noite, e mal digerido.

— Sempre gostou de fugir de casa, Nicholas. Costumava ficar desesperada, mas não farei mais isso. Esconda-se nos confins do mundo, se assim desejar, e fique esperando para ver se me importo e até se percebo sua ausência!

Nicholas sorriu para si mesmo. No passado, já se acostumara com as tempestades causadas pela fúria materna, para saber que se extinguiam logo e não causavam conseqüências. Sentou-se na cama de modo automático, esfregando a perna ferida que lhe doía um pouco depois do galopar incessante do dia anterior.

— Então, mãe, vou desapontá-la, porque não estou partindo.

Lady Constance piscou, surpresa.

— Não está?

— Mudei de idéia. Pretendo permanecer em Hendry Hall.

— Quando decidiu isso? E onde esteve ontem, da manhã até só Deus sabe que horas?

Dessa vez, Nicholas riu de verdade. De certa forma, ver a mãe ralhar porque se esgueirara em casa no meio da noite parecia fazê-lo voltar à juventude. Tornava a se sentir o jovem que ficava fora até de madrugada, namorando alguma garota do vilarejo. Parecia que nada havia mudado mas, na verdade, tudo estava diferente.

Aquela sensação era ilusória. Seu pai partira, sua mãe estava mais velha e triste, e ele se tornara mais realista.

Parando de rir, disse:

— Desculpe, mãe querida. Tinha coisas em que pensar e, como sabe, faço isso melhor quando fico sozinho. Foi irresponsabilidade minha não mandar um recado, e peço que me perdoe.

Constance deu um passo, avançando no quarto e olhando para o filho.

— Está falando a verdade, Nick? Não vai mesmo partir?

Nicholas acenou de modo afirmativo.

— Percebi que tenho assuntos a resolver aqui. Para começo de conversa, minha mãe está presente para ralhar comigo quando me comporto mal — acrescentou com um sorriso carinhoso.

Nada disse a respeito do outro assunto que o fizera mudar de planos sobre a partida. Por mais que desejasse reconhecer Owen como seu filho e começar a criá-lo sob seu teto, decidira nada revelar até resolver o problema com os Thibault.

Lady Constance dirigiu-se até o filho e colocou a mão em seu rosto, em um gesto carinhoso.

— Que os santos sejam louvados, Nick! Sei muito bem que sua chegada ao lar não foi feliz, mas sei que tudo poderá ser resolvido da melhor maneira possível. Se apenas concordar com o barão Hawse...

Nicholas parou de sorrir e interrompeu-a.

— Vou ficar aqui, mas não pretendo me casar com a filha do barão.

Constance mordeu o lábio e disse com voz ajuizada:

— É uma jovem meiga e bondosa.

— Sim. Nada tenho contra Winifred, apenas não desejo me casar.

— Falaremos com Gílbert. Tenho certeza de que irá sugerir outra coisa.

Nicholas fez uma careta ao ouvir a mãe usar o primeiro nome do barão, como se fossem íntimos. Não tinha a fé de Constance a respeito das soluções daquele homem. Todos os conselhos que dava convergiam para seus próprios interesses.

— Sei que tem certa estima por Hawse, mãe, mas também deve saber que pretendo lutar para reaver minhas propriedades.

Podia ver que Constance estava prestes a chorar.

— Durma em paz, meu filho.

Nicholas estendeu a mão, apertando a da mãe.

— Não se preocupe, querida. Saberei lidar com o barão. Assim que resolver esse assunto, você não terá mais nada a ver com ele.

Constance afastou o olhar do filho, evitando os olhos escuros e observadores. Por fim, murmurou:

— Talvez as coisas sejam um pouco mais complicadas.

— Em que sentido?

Então, lady Constance voltou-se para Nicholas e encarou-o.

— Posso estar apaixonada por ele.

 

Nicholas sentiu um aperto no estômago, ao conduzir Scarab em direção ao Javali Dourado. Enfrentara milhares de árabes que gritavam nos campos de batalha, com mais serenidade do que a demonstrada naquele momento. Agora que tinha certeza de que Owen era seu filho, sentia-se um feixe de nervos, ante a idéia de rever o menino. E se a criança antipatizasse com ele? Isso não era improvável, dada a atitude da tia.

Pensara em lhe trazer um presente, mas decidira que seria muito óbvio, dando a impressão de desejar comprar Owen com agrados. Entretanto, no último minuto colocara um doce na algibeira.

Estava mais frio do que no dia anterior, e a porta principal da taverna encontrava-se fechada. Imaginou se deveria bater mas, chegando à conclusão que, afinal, tratava-se de um local público, abriu a porta e entrou.

Mais uma vez o salão estava sem clientes, mas Nicholas de imediato olhou para o canto onde se encontrava Owen, sentado de pernas cruzadas no chão, colocando canecões de cerveja, uns sobre os outros. Não havia sinal de Beatrice nem de Phillip.

— Bom dia — disse ao menino.

Owen ergueu o olhar e apontou para Nicholas.

— Mestre Hendry!

Nicholas sentiu uma pontada de orgulho ante a boa memória do menino.

— Isso mesmo, Owen! Sou mestre Hendry, mas pode me chamar de Nick. É mais fácil.

Caminhou até à criança, agradecendo por ter tido muita sorte em encontrá-la sozinha. Agachando-se a seu lado, apontou para os canecões.

— O que está construindo?

Owen estava franzindo a testa, pensando no que Nicholas acabara de dizer, e acrescentou:

— Nick é meu amigo.

— Sim, quero ser seu amigo.

Mas o menino balançou a cabeça, impaciente.

— Nick — insistiu — é meu amigo.

De repente Nicholas entendeu qual era o problema.

— Ah! O pequeno Nick é seu amigo, certo?

Owen acenou que sim, e colocou mais um canecão sobre outros três. A pilha oscilou de modo perigoso. Nicholas adiantou-se e ajeitou-a para que não desabasse.

— Está construindo uma torre?

Owen pegou outro canecão.

— Um castelo. — Examinou com ar crítico a pilha de quatro canecões e, de modo evidente, resolveu não arriscar mais. — Com duas torres — acrescentou, colocando um quinto caneco ao lado da primeira pilha.

Nicholas soltou uma risada. O menino não era só inteligente como tinha bom senso também. Sentiu um calor enorme no peito, e percebeu que era orgulho paterno.

— É difícil construir um castelo com duas torres. Talvez o construtor devesse comer alguma coisa enquanto trabalha.

Assim dizendo, fez surgir o doce da algibeira, e foi recompensado com o olhar brilhante de Owen. Porém, antes de pegar a guloseima, a criança perguntou com educação:

— E para mim, não é?

— Sim, menino. Não conheço nenhum outro construtor de castelos na vizinhança.

Então Owen pegou o doce da mão de Nicholas e deu uma grande mordida, muito contente. Enquanto mastigava, olhou para o restante do doce, e dividiu-o em dois, estendendo um pedaço para Nicholas, dizendo:

— Mestre Hendry constrói castelos também.

— Obrigado, Owen. É bonito ver uma criança dividir que tem.

Com gesto solene, pegou o pedaço de doce já um tanto arrebentado, e levou-o à boca de uma só vez, achando que era o manjar mais delicioso que já comera.

— O que está acontecendo? — perguntou Beatrice com voz fria.

De repente, parecia que o ambiente fora invadido por um vento gelado de inverno.

Nicholas voltou-se para vê-la descendo a escada com uma expressão ultrajada no semblante.

Manteve o tom calmo e respondeu:

— Owen e eu estamos construindo uma torre.

— Um castelo — corrigiu Owen um tanto impaciente.

— É verdade, um castelo com duas torres.

Assim dizendo, Nicholas ficou de pé o mais depressa que pôde, sentindo dores na perna ferida.

Beatrice desceu os últimos dois degraus.

— Não tem o direito de estar aqui. — A voz tremia um pouco ao falar.

Nicholas deu um passo em sua direção, encarando-a.

— Creio que tenho, senhora. Acho que possuo todo o direito de construir um castelo com meu... — fez uma pausa significativa, antes de continuar — ...com Owen.

Beatrice fechou os olhos por um momento, voltou a abri-los e olhou para Owen.

— Meu querido, vá para o quintal e brinque um pouco lá.

O desapontamento de Owen era óbvio, e protestou com timidez:

— Mas... estou fazendo um castelo...

Entretanto obedeceu, ficando de pé.

— Deixe o menino terminar seu brinquedo, senhora — pediu Nicholas, aproximando-se de Beatrice e falando em voz baixa. — Aqui não é lugar para discutirmos nossas diferenças. Não com o menino como testemunha.

Owen observava os dois adultos, com olhar esperançoso, farelos de doce no canto da boca.

— Nada temos para conversar — insistiu Beatrice.

— Mas não vai me pôr fora daqui outra vez. Talvez este não seja o momento apropriado, mas iremos discutir essa questão. Isso, ou tomarei medidas mais firmes.

A raiva no olhar de Beatrice transformou-se em medo.

— Muito bem. Vamos conversar — disse ela, por fim.

Nicholas voltou-se para Owen e sorriu.

— Sua tia disse que pode continuar brincando aqui, menino.

Todo contente, Owen voltou a sentar no chão.

— Só até o meio-dia, Owen — avisou Beatrice. — Então Gertie chegará e vai precisar dos canecões de cerveja.

O menino concordou, muito feliz.

Nicholas perguntou:

— Gertie é a garçonete que nos serviu quando voltei para a Inglaterra?

— Sim. Trabalha na parte da tarde.

Ao falar, Beatrice corou, e Nicholas imaginou se estaria lembrando do modo como o recebera naquela ocasião. Embora os modos da moça não — houvessem mudado muito desde então, Nicholas sentia que parte da hostilidade desaparecera. Talvez ainda houvesse uma chance de alcançarem a paz, pelo bem de Owen.

— Pode vir até Hendry Hall para conversarmos?

Beatrice observava Owen brincando, e Nicholas surpreendeu-se ao ver que tinha os olhos marejados de lágrimas.

— Poderemos conversar lá com sossego — insistiu de modo delicado. — Ninguém precisa ouvir nossa discussão.

Beatrice permaneceu em silêncio por um longo momento, e por fim encarou Nicholas.

— Flora deixou seu filho aos meus cuidados — explicou com dureza. — Pretendo educá-lo do modo como ela gostaria.

— Flora ficaria orgulhosa com seu trabalho, senhora.

— É um ótimo menino em todos os sentidos. Não pretendo interferir, mas precisamos conversar — repetiu. — Pode vir a Hendry Hall hoje à tarde?

Beatrice concordou com um gesto de cabeça, afastando as lágrimas.

Nicholas fez menção de ir embora mas, de modo impulsivo, voltou-se para Beatrice outra vez.

— Pode vir jantar conosco?

A pergunta surpreendeu a ambos. Era comum os arrendatários do sexo masculino jantarem com os senhores, caso o homem tivesse certa importância na comunidade, sendo um líder ou algo assim. Mas jamais se ouvira dizer que uma mulher do vilarejo se sentasse a mesa do amo. Nicholas jamais fizera tal convite, e mesmo naquele instante, imaginou o que sua mãe pensaria a respeito.

— Está me convidando para jantar? — perguntou Beatrice, tão espantada que se esquecera das lágrimas.

Nicholas deu de ombros, como se aquilo fosse a coisa mais comum do mundo.

— Sim.

Beatrice relanceou o olhar para Owen que, muito contente, continuava a empilhar seus canecos.

— Não é costume. Por que faria isso?

Nicholas sorriu.

— Talvez seja minha estratégia de batalha. Nas Cruzadas costumávamos dizer que se um homem divide um pedaço de pão com outro, os dois não poderão mais ser inimigos.

Beatrice pareceu perdida nos próprios pensamentos por um momento e, por fim, disse:

— Não pretendo lutar contra o senhor, mestre Hendry, pois estou com a razão a meu lado. Entretanto, sim, jantarei em Hendry Hall esta noite.

 

— Meu Deus, senhora! O cavaleiro é muito bonito.

Gertie vira Nicholas ao chegar para o trabalho na taberna. O olhar dela brilhava, ao falar do cavaleiro que sorrira ao sair e a chamara de “minha cara jovem”.

Beatrice fez um muxoxo desdenhoso, e terminou de enxugar os canecos que a garçonete trouxera da copa. Fora uma tarde agitada na taverna o que, para o Javali Dourado, significava um pouco mais de seis clientes.

— Bonito de rosto, talvez, mas sem boas maneiras.

Gertie balançou a cabeça em desaprovação, ante aquelas palavras da patroa.

— Engana-se, ele tem boas maneiras também. Foi tão gentil no primeiro dia que aqui esteve... Seu companheiro também. Não vemos, todos os dias, pessoas tão educadas em Hendry.

— Bem, agora vai vê-lo muitas vezes. Voltou para ficar.

— Sim, e convidou a senhora para jantar. Imagine, sra. Beatrice! Talvez esteja apaixonado.

Beatrice colocou o último caneco sobre o balcão da cozinha.

— Tenho negócios a tratar com mestre Hendry, Gertie. Só isso. Pare de encher a cabeça com idéias românticas!

Gertie tinha apenas dezesseis anos, e era uma jovem amável e esperta. Beatrice suspeitava de que já tivera oportunidade de viver romances com os rapazes do vilarejo.

Gertie riu.

— É fácil ficar romântica, senhora, quando se trata de Nicholas Hendry.

— Depende de quem está falando. Para mim é impossível.

Assim dizendo, Beatrice enxugou as mãos na toalha, e virou-se para ir embora.

Gertie suspirou, enquanto a patroa subia a escada para ir ao quarto.

— Que pena...

Beatrice estava com dor de cabeça. Não conseguia entender como fora aceitar o convite absurdo de Nicholas Hendry, para jantar em Hendry Hall. Era óbvio que ele já conhecia a verdade. Era inevitável que acabasse descobrindo que Owen era seu filho. Mas a batalha, pensou Beatrice, enchendo-se de ânimo, não estava perdida. Owen era tão seu como se houvesse saído de suas próprias entranhas. Lutaria até o fim para conservá-lo a seu lado.

Então, o que acontecera para aceitar ir ao território inimigo? Sem dúvida a mãe de Nicholas ficaria escandalizada ao vê-la surgir em Hendry Hall. A menos que estivesse acostumada com o fato de o filho trazer para casa mulheres de todos os cantos. Se a reputação de Nicholas fosse verdadeira, tinha muitos casos amorosos, talvez todas já tivessem jantando em Hendry Hall.

Com um suspiro, Beatrice puxou a grande arca de debaixo da cama, abrindo-a. As roupas estavam cheirando a mofo, pensou, ao retirar vestidos, um a um.

Não era apenas por vaidade feminina que desejava estar bem trajada para o jantar daquela noite em Hendry Hall. Seus vestidos precisavam ser arejados, de qualquer maneira.

Fez cara de desagrado. Talvez, admitiu para si mesma, houvesse um pouco de orgulho e vaidade. Pouco ligava para o que Nicholas pensasse, mas importava-se com o fato de lady Hendry poder pensar que o filho convidara uma maltrapilha para jantar a sua mesa. Lady Constance era muito respeitada nas redondezas, e muito querida entre os habitantes do vilarejo, pois visitava os doentes e fazia caridade quando as famílias estavam necessitadas.

Era por causa de lady Hendry que vestiria o manto de seda que não voltara a usar desde que regressara de York, disse a si mesma, pela centésima vez. Beatrice ficou repetindo aquilo com seus botões, enquanto se sentava e escovava os cabelos castanhos até brilharem com intensidade.

Nicholas Hendry matara sua irmã e jamais deixaria de odiá-lo.

 

Constance ficou surpresa com o pedido de Nicholas, mas respondeu-lhe que ficaria contente em receber a sua mesa qualquer pessoa que ele desejasse. Saudou Beatrice como se a filha do taberneiro fosse uma rainha.

E, de fato, a chegada da filha de Phillip Thibault causara um grande impacto. Estava linda, trajando um vestido de seda azul simples, porém muito bem feito, e o manto do mesmo tom sobre os ombros eretos. Um a delicada corrente de prata, que pertencera à mãe, ornava-lhe o pescoço, sendo a única jóia que trazia.

Ao despir o manto para sentar-se à mesa, seus gestos foram tão elegantes como os de uma grande dama.

Nicholas, porém, não se sentia tão à vontade, O comentário que fizera para Beatrice sobre não desejar ser seu inimigo era verdade, mas já não tinha certeza se fizera bem em convidá-la para jantar.

Quando fizera a proposta, fora movido pela vaga idéia que era algo sensato recebê-la em Hendry Hall, no grande salão, pois Beatrice se sentiria intimidada pelo seu poder. Era uma moça inteligente e, por certo, perceberia que o ambiente que poderia ofertar a Owen era muito melhor do que a modesta taverna dos Thibauhlt.

Mas à medida em que o jantar se prolongava, parecia que era ele, Nicholas, quem estava em desvantagem. Beatrice comportava-se como uma pessoa da nobreza. Fora educada em um convento, aprendera latim e francês, e estudara história, o que explicava conhecer tanto sobre tantas coisas.

Por toda a refeição, respondeu aos comentários do anfitrião com frio desdém, ao passo que, quando lady Constance lhe perguntava sobre detalhes a respeito de sua vida em York, respondia com atenção, entusiasmo e boa vontade. Ao final do jantar, Nicholas estava de mau humor, ainda mais porque a perna lhe doía com uma intensidade que não sentia desde que fora ferido.

Nem ele nem Beatrice haviam comentado o assunto que a fizera vir a Hendry Hall, e Nicholas não tinha intenção de fazê-lo na frente da mãe. Depois de uma deliciosa sobremesa de tortas de mel, empurrou a cadeira do senhor do solar que ocupara, e levantou-se, esfregando a perna dolorida.

— Podemos ter nossa conversa agora, senhora, em outro aposento.

Beatrice também se levantou e voltou-se para Constance.

— Agradeço de coração o jantar maravilhoso, lady Hendry, e a agradável companhia. No vilarejo, as pessoas a chamam de a “senhora das graças”, e agora compreendo porque recebeu tal título.

Constance sorriu para a jovem.

— Minha cara, será bem-vinda a nossa mesa em qualquer ocasião.

Nicholas sentiu uma absurda pontada de ciúme ante o calor do sorriso de Beatrice para sua mãe. Sempre mantivera um controle frio em relação à moça, e ela insistia em ser hostil. Entretanto, era a tia de seu filho, e estava determinado a fazê-la mudar de idéia.

Dirigiram-se à outra sala. Embora já fosse quase noite, os últimos raios do sol ainda se filtravam pelas janelas altas, emprestando às paredes de pedra um brilho avermelhado. As pinturas no teto davam a ilusão de mobilidade, com as nuanças de luz.

Beatrice sentou-se em um banco de madeira, e Nicholas acompanhou-a, sentando-se na outra ponta. Aquela não seria uma discussão que poderia ser feita com cada qual a um canto da sala.

Nicholas respirou fundo e começou:

— Owen é meu filho.

Beatrice desviou o olhar.

— Já disse que não é.

— Desculpe, senhora, mas está mentindo. O menino nasceu nove meses depois que parti para as Cruzadas, e não conseguirá me convencer de que Flora procurou outra companhia masculina, assim que virei as costas. Estaria depondo contra sua irmã.

Seguiu-se um silêncio tão prolongado, que Nicholas pensou que a jovem se recusaria a falar, mas, afinal Beatrice o encarou e respondeu, com resignação:

— Nem quando partiu nem nunca. Flora o amava profundamente, e não teve outro amor.

Nicholas sentiu uma onda de triunfo invadi-lo. Em seu íntimo, tinha certeza de que Owen era seu filho, mas era delicioso ouvir a confirmação.

— Então, admite que a criança é minha.

Os olhos azuis de Beatrice faiscaram.

— É e não é. Meu pai e eu o criamos, somos a única família que Owen conhece.

— Sem dúvida. Fico agradecido que o menino tenha uma tia tão amorosa e um avô para velar por ele. Mas se eu estivesse aqui, por ocasião do nascimento, teria reclamado meus direitos há muito tempo.

— Verdade? — Beatrice aprumou-se com orgulho e majestade, no banco de madeira. — Teria se casado com minha irmã?

A pergunta ficou pairando no ar, como uma cortina entre ambos. Os dois sabiam que seria pouco provável que o filho de um senhor poderoso casasse com uma jovem do vilarejo, por mais respeitados que os Thibault pudessem ser nas redondezas.

Por fim, Beatrice sorriu com ironia.

— Foi o que pensei. Então, Flora teria o coração despedaçado de qualquer maneira. Quem sabe foi uma bênção ter partido logo.

A idéia de casar-se com Flora nunca passara pela mente de Nicholas, naqueles tempos, não costumava pensar em assuntos sérios como matrimônio. Por outro lado, também não se preocupava muito com os sentimentos que pudesse ter despertado nas jovens com quem compartilhava momentos de paixão. Teria mesmo despedaçado o coração de Flora como dizia a irmã? Era muito provável.

— Não podemos voltar atrás no tempo e mudar o passado, senhora — disse devagar. — Mas podemos tentar remediar os erros da juventude de modo que não se perpetuem no futuro. Não era um bom pretendente para sua irmã, mas desejo ser um bom pai para nosso filho.

A conversa estava sendo mais difícil do que imaginara. Nicholas mexeu-se no assento baixo, tentando encontrar uma posição confortável para a perna dolorida, o latejar se transformara em uma dor profunda. Mexeu-se de novo e deixou escapar um gemido involuntário, ao sentir uma fisgada de dor.

Beatrice olhou-o, intrigada.

— Algum problema?

Nicholas acenou que sim, mordendo o lábio para evitar gemer de novo, enquanto as pontadas se sucediam sem parar. Por fim, o espasmo arrefeceu, fazendo-o suspirar de alívio.

— Desculpe. São as lembranças das batalhas.

— Foi ferido?

— Sim. Por uma lança.

Beatrice examinou-lhe a perna com o olhar, vendo-o esfregar a parte dolorida para aliviar a dor, e então enrubesceu, ao dar-se conta de que estivera encarando uma parte do corpo de um homem para a qual uma jovem decente não deveria olhar.

Entretanto, tendo crescido em York, aprendera enfermagem com as freiras. Aliás, diziam que era uma excelente enfermeira. No convento, as que ficavam doentes ou sentiam alguma dor, com freqüência vinham procurá-la. Uma das maiores ironias da vida, no entender de Beatrice, e a maior tristeza, fora não poder salvar a irmã, apesar de todos seus conhecimentos médicos.

Reconheceu os sinais de dor nas feições tensas de Nicholas, e, por instinto, soube que poderia ajudá-lo. Porém, embora sempre houvesse considerado suas habilidades como uma missão sagrada, não se sentia inclinada a oferecê-las àquele homem. Sabia a intimidade que se estabelecia entre enfermo e enfermeira e não iria se expor a isso com Nicholas Hendry.

Entretanto, vendo seu sofrimento, não conseguia evitar aquela sensação especial que experimentava sempre que se encontrava junto aos que sofriam. Teve que fazer força para manter a voz indiferente.

— Pelo menos ficará curado, mestre Hendry. Minha irmã não teve a mesma sorte.

Por fim, a sensação de queimadura que sofria na perna e a implacável animosidade de Beatrice acabaram por fazer Nicholas perder o pouco de paciência que lhe sobrara.

— Mais uma vez repetirei que sinto muito por Flora. Se pudesse mover céus e terras para trazê-la de volta, o faria. Entretanto, está além de meu poder e do seu. O que posso fazer é assegurar-me de que seu filho... nosso filho... cresça nobre e forte como ela gostaria. Também não deseja isso para Owen? Quer me parecer, senhora, que nossos objetivos são os mesmos.

Beatrice não soube se foi a repentina onda de irritação em Nicholas que a fez repensar o problema, porém, de repente, viu-se prestando atenção às palavras. Durante anos mantivera a imagem de Nicholas s Hendry na mente, como um mulherengo irresponsável, mas tal impressão ia aos poucos se desvanecendo.

Percebia, por fim, que Nicholas desejava realmente ajudar a criar Owen e que tinha uma certa dose de responsabilidade. Verdade, a meta de ambos era possibilitar o melhor para a criança.

De súbito, lembrou-se de Flora em seu leito de morte.

“— Por favor, não odeie Nicholas — sussurrara Flora à Beatrice. — Tem bom coração.”

Beatrice prestara pouca atenção aquilo, ficara meses ouvindo a irmã tecer elogios ao cavaleiro que a amara e abandonara e, por isso, considerava a irmã uma iludida.

Beatrice encarou Nicholas. A raiva abandonara os olhos negros. A luz avermelhada do entardecer, as feições morenas eram másculas e belas. Se Flora se iludira, era fácil perceber por quê. Beatrice expressou-se com cuidado.

— Está certo, mestre Hendry. Ambos queremos que o menino cresça forte e feliz.

Nicholas pareceu relaxar no banco. Parou de esfregar a perna ferida e sorriu.

— Sinto que faz um grande esforço ao admitir algum bom sentimento em minha pessoa.

Beatrice também sorriu.

— É verdade.

Nicholas inclinou-se em sua direção.

— Desde o início lhe disse que não era um monstro, senhora.

— Já não o considero assim.

Nicholas ampliou o sorriso.

— É um começo.

— Entretanto, ainda o considero um mulherengo.

Mas não havia rancor no tom de voz de Beatrice ao dizer isso.

— Bem, devo admitir que não é a primeira a fazer tal comentário. Então, quem sabe, haja um fundo de verdade nisso...

Nicholas começou a esfregar a perna de novo, e Beatrice perguntou, sem se conter:

— Incomoda todos os dias?

Nicholas pareceu surpreso com a pergunta.

— Não. E que fui um estúpido, ontem cavalguei o dia inteiro, pois precisava meditar. Não é todo dia que um homem descobre que é pai.

— Acha que andar a cavalo prejudicou sua perna?

Nicholas deu de ombros.

— Acho que sim. A ferida estava úmida hoje pela manhã. Isso não acontecia havia muito tempo.

Beatrice franziu o cenho.

— Úmida? Não é bom sinal.

— Já convivo com isso há um ano. Um dia ficarei bom.

Depois de um momento de hesitação, Beatrice aproximou-se e colocou a mão na coxa de Nicholas. Era rígida como pedra e, por um segundo, Beatrice corou de novo, mas ao sentir o calor que se irradiava por baixo da túnica pesada, seu instinto de enfermeira superou a timidez.

— Está quente. Deveria cuidar disso, quem sabe lancetar a ferida.

Nicholas soltou uma risada seca.

— Uma lança foi o suficiente, muito obrigado. Ficarei sem cavalgar por alguns dias, e tudo voltará ao normal.

Se fosse um jovem do vilarejo, Beatrice seria mais incisiva. Prestaria pouca atenção a seus protestos, consciente de que os homens estavam sempre prontos a rejeitar cuidados médicos, em especial se fossem doloridos. Mas aquele era Nicholas Hendry, a quem jurara odiar por toda a vida e que agora a fazia mudar de idéia, através de alguma força misteriosa que ainda não compreendera.

Não perguntara como Nicholas calculara a data de nascimento de Owen. Havia várias maneiras pelas quais poderia ter descoberto. E, quem sabe, não era enfim uma grande tragédia. Poderia visitar Owen na taverna e ser um exemplo de masculinidade para o menino, poderiam brincar com jogos mais violentos que o avô já não podia enfrentar.

De repente, Beatrice resolveu partir, sair de Hendry Hall e afastar-se da presença de Nicholas, tão atraente, persuasivo, viril e... mulherengo.

— Precisamos resolver nosso problema, mestre Hendry. Devo entender que deseja reconhecer Owen como seu filho.

— Sem dúvida.

Beatrice voltou a sentir medo. Tinha sido mais fácil odiar Nicholas todos aqueles anos, do que ser sua aliada no presente.

— Sugiro que tente ser amigo de Owen mais um pouco, antes de se identificar.

Nicholas acenou de modo afirmativo.

— Concordo, quero fazer a coisa certa.

— Quando gostaria de revê-lo?

Nicholas não vacilou.

— Amanhã pela manhã.

Parecia estar ansioso. Não dava tempo à Beatrice para pensar em como a reviravolta nos eventos iria alterar a vida de Owen e a sua.

A jovem levantou-se, tentando controlar o tremor nos joelhos.

— Então, ficaremos esperando-o amanhã — disse.

— Por volta de onze horas.

Nicholas também se ergueu, os olhos negros perscrutando o rosto de Beatrice, um triunfo cauteloso transparecendo no sorriso.

— Meus agradecimentos. Não terá com que se arrepender.

Hesitou por um momento, em seguida ofereceu-lhe o braço para sair, como se Beatrice fosse uma nobre com uma liteira e um lacaio esperando à entrada. A moça olhou para o braço estendido, como se fosse uma arma apontada na direção dela. Aquela noite tinha sido muito perturbadora, não desejava tocar em Nicholas Hendry outra vez. Balançou a cabeça.

— Não precisa me conduzir até a porta. Conheço o caminho.

Virou-se e saiu, antes que Nicholas pudesse protestar.

 

O olhar de Phillip estava triste.

— Teria sido melhor se nunca a houvesse mandado buscar de York — confessou à filha. — Já poderia estar casada com um filho seu, a essa altura, caso não tivesse se apressado a regressar para o lado de sua irmã.

— Oh, pai, como pode pensar que ficaria em qualquer outro lugar do mundo a não ser junto de Flora em um momento como aquele? E sabe que amo Owen como se fosse meu próprio filho.

— Sim, mas ele não é, e esse é o problema.

Estavam trabalhando juntos na cozinha atrás da taverna, preparando um enorme pão que seria dividido em várias bisnagas e cozido no forno.

Em geral, Gertie ajudava na tarefa, mas a mãe da garçonete acabara de ganhar o terceiro filho, e precisava da jovem em casa.

Beatrice começou a levantar as mangas do vestido, preparando-se para sovar a massa.

— Talvez estejamos fazendo uma tempestade em copo de água. Nicholas parece ser mais razoável do que imaginei.

O pai balançou a cabeça de modo triste, e a afastou da mesa com gesto delicado.

— Vou sovar o pão, menina. E melhor ir tomar conta de Owen.

Beatrice observou as mãos do pai com ar de dúvida. Estava em um dos bons dias, e o tremor era quase imperceptível.

— Tem certeza? — perguntou.

Sabia que o pai, apesar de jamais admitir, adorava cozinhar.

— Sim. Vá correndo.

Beatrice dispôs-se a sair, mas voltou a encarar Phillip.

— Nicholas Hendry só quer vir fazer uma visita. É compreensível um homem desejar ficar perto do filho. Phillip mergulhou as mãos grandes na massa.

— Sim, é compreensível — concordou, mas a dúvida era evidente na expressão de seu rosto.

— E é bom para Owen também.

Phillip pegou a bola de massa e atirou-a sobre a mesa.

— Sim.

— Uma vez que descobriu nosso segredo, pai, ficou difícil impedi-lo de vir.

Mas Phillip não respondeu. Começou a sovar a massa de maneira ritmada. Beatrice suspirou. Na verdade, também estava preocupada com a visita de Nicholas Hendry. Por mais um instante observou o pai, a fim de certificar-se de que não precisava de ajuda. A visão do senhor idoso com farinha até na testa, fê-la sorrir.

Não o amava menos por não ter sido criada sob seu teto, compreendia que o pai se sacrificara, não a mantendo junto a si, a fim de dar-lhe uma oportunidade em York. De qualquer modo, sempre haviam se visitado com freqüência, e Phillip jamais deixara de se preocupar com seu bem-estar.

Beatrice imaginava se a preocupação no semblante querido do pai, naquela manhã, devia-se apenas ao neto. Phillip Thibault era muito observador e era provável que houvesse percebido que a filha voltara a vestir um dos melhores vestidos para a chegada do cavaleiro.

— Avisarei quando mestre Hendry chegar.

Phillip ergueu o olhar, sorrindo.

— Não é preciso, menina. Ele vem visitar Owen, não a mim nem a você.

 

Beatrice pensou em preparar Owen para a visita, mas mudou de idéia. Não era problema seu fazer com que a criança aceitasse o pai. Se Nicholas Hendry não tivesse a habilidade de lidar com o caso, seria uma prova de que tivera razão em pensar que o menino estava muito bem sem conhecer a realidade.

Entretanto, imaginava que um homem charmoso como Nicholas, que já encantara e seduzira tantas jovens do vilarejo, não teria problemas em cativar um garoto pequeno.

Enquanto pensava, a figura de Nicholas Hendry materializou-se na porta da taverna, olhou-a de relance, e procurou por Owen.

O pequeno lembrava-se do doce que ganhara, e ficou alegre quando Nicholas lhe deu outro. O cavaleiro trazia algo mais na mão que, com gesto rápido, escondeu atrás das costas, provocando a criança.

— Tenho um presente para você, rapazinho.

Owen sorriu, deliciado, curioso e cheio de ansiedade.

Beatrice observava a cena, sentindo-se uma intrusa. Depois de alguns segundos de provocação, Nicholas retirou a mão de detrás das costas, revelando uma vara com a pequena cabeça de couro de um cavalo, e rédeas em uma das pontas.

Owen exclamou:

— Um cavalinho!

— Sim, menino. E seu. Servirá até ter idade suficiente para montar um cavalo de verdade.

Owen ficou estático, mastigando o doce de modo automático, e Nicholas sorriu.

— É claro que galopar, e comer ao mesmo tempo requer muita habilidade. E melhor sentar-se e acabar seu pedaço de bolo.

Owen olhou para Beatrice procurando conselho, e a tia acenou para que obedecesse. Então, dirigiu-se a uma banqueta a um canto, seu lugar habitual. Continuou a comer o doce, mas o olhar não abandonava o cavalo de pau na mão de Nicholas.

— Tem rédeas de verdade, veja — disse Nicholas, erguendo-as para o menino. — Precisa usá-las, a fim de mostrar ao cavalo aonde deseja ir.

Owen acenou, compreendendo.

— Posso ir de cavalo até o vovô? — perguntou à Beatrice.

— Quando terminar de comer — disse ela.

Beatrice olhou para o cavalo. Mesmo daquela distância podia ver que a cabeça de couro era um trabalho de artesanato muito bem-feito e os florões que prendiam as rédeas pareciam ser de prata. Em voz baixa, comentou com Nicholas:

— É um brinquedo muito caro para ser dado a uma criança tão pequena.

— De modo algum! Foi feito para uma criança, senhora. Na verdade, para esta criança. — Apontou para si mesmo. — Foi meu quando era menino.

            No sorriso radiante, Beatrice pôde ver traços do menino que Nicholas fora.

Owen estufou a boca com a última migalha do doce, e depois pulou da banqueta como se fosse um prisioneiro libertado da cela. Dessa vez, não houve hesitação, e estendeu as mãos para o cavalo de pau, colocando-o entre as pernas. Era do tamanho exato.

Owen ergueu o olhar radiante para Nicholas que retribuiu o sorriso, e abaixou-se para ajudá-lo a ajustar a cabeça do cavalo e as rédeas de modo que pudesse dar a impressão exata de cavalgar. Quando Owen ficou preparado, Nicholas passou a mão pelos cabelos negros do menino.

— É preciso começar devagar, com cautela — alertou. — Apenas um trote lento e depois poderá tentar um galope.

Com cuidado, Owen deu alguns saltos, arrastando o brinquedo. Riu com satisfação e encarou Beatrice.

— Estou andando a cavalo, tia Beady.

— Sim, meu querido, posso ver. E um bravo cavaleiro.

Owen deu a volta no salão, gritando:

— Vamos, cavalinho! — Então parou para perguntar: — Posso ir a cavalo até à cozinha ver o vovô?

Lançou um rápido olhar a Nicholas, porém Beatrice apressou-se a responder:

— Pode ir mostrar seu presente, e depois volte logo. Não incomode o vovô enquanto faz o pão.

— Não vou incomodar — garantiu Owen, dando as costas e galopando para a porta.

Nicholas observou-o partir, o sorriso cada vez maior.

— Fico feliz que tenha apreciado o presente, era meu brinquedo favorito.

O sorriso dava-lhe um ar de garoto travesso e bonito. Beatrice voltou a sentir um frio no estômago, dessa vez com um pouco de medo.

Por mais que tentasse se convencer do contrário, estava apavorada com a idéia de sentir-se atraída pelo homem que, antes, julgara ser um monstro.

 

Leon de Ryminster era o mais devotado e o menos escrupuloso dentre os servidores do barão Hawse, e, em geral, era o escolhido para lidar com os assuntos mais desagradáveis que surgiam nas terras do nobre. Leon era também uma das poucas pessoas que sabia que os vastos domínios do barão tinham-lhe sido dados pelo falecido rei João, em troca de inúmeros atos contra a lei cometidos a serviço da coroa, sempre acobertados e já esquecidos.

— Tem certeza sobre isso?

O barão Hawse apoiou-se nos braços do cadeirão de madeira esculpida, na antecâmara onde costumava realizar seus negócios. Aproximou o rosto do vassalo que se sentava em um tamborete a seus pés.

— O menino não é filho dela?

— Sim, meu senhor. A criança pertence à irmã que morreu no parto. Beatrice é a tia.

— E quem é o pai da criança? — perguntou o barão.

— Tudo leva a crer que a irmã levou o segredo para o túmulo. Mas posso fazer mais pesquisas e descobrir para o senhor, se assim desejar.

Hawse encostou-se no cadeirão e sorriu.

— Não. Quem se importa com a paternidade de um pequeno bastardo! O principal é que não pertence à Beatrice. E não existem amantes em sua vida?

— Todos com quem conversei juram que não. Dizem que é muito rabugenta, culta e educada demais para os rapazes do vilarejo de Hendry.

— Então, trata-se de uma virgem voluntariosa. Que interessante! Foi pena até hoje nunca ter me importado muito com os arrendatários de Hendry.

O barão passou a língua pelos lábios.

— Devemos trazê-la até o senhor?

Leon mexeu as longas pernas, começando a ficar com cãibras, sentado no tamborete baixo.

— Não. Sem dúvida iria resistir e provocar problemas. Não posso arriscar uma situação dessas bem debaixo do nariz de lady Constance. Encontrarei um jeito qualquer. Vou pensar a respeito.

Leon hesitou por um momento, esperando para ver se a entrevista terminara, mas o barão Hawse parecia perdido em divagações agradáveis. Por fim, o amo voltou-se para ele e disse:

— Já percebeu que o melhor da festa é esperar por ela, Leon? Quanto mais anseia por alguma coisa, mais se aproveita quando a consegue ter.

Leon aquiesceu, sem mudar a expressão do rosto.

— Imagino que a srta. Beatrice deva ser uma mulher deliciosa — comentou o barão, mais para si mesmo.

— Sim, meu senhor.

E, mais uma vez, Leon mudou de posição, sentindo cãibras.

 

Nicholas vinha todos os dias, sem falhar uma só vez, logo após as orações da manhã, embora, como Beatrice observasse, não viesse da direção da igreja.

Um dia, trouxe uma carroça em miniatura de madeira pintada que fez Owen saltitar de encantamento. Em outro, trouxe um arco de metal e ensinou o menino a rodá-lo com uma vara. E a cada novo dia havia mais doces ou torradas com mel que saíam da bolsa que o cavaleiro trazia presa à cintura.

Owen estava fascinado com a nova presença masculina em sua vida, e desde a hora que acordava pela manhã, já começava a falar da visita de “mestre Hendry”.

Phillip acompanhava aquelas visitas com um sorriso benevolente, embora um tanto triste. Os tremores aumentavam a cada dia. Já não conseguia sentar no chão para brincar com o neto, como fizera no passado. Suas mãos já não tinham forças para arrastar a pequena carroça ou rodar o arco de metal. Somente as exclamações de alegria de Owen enchiam de calor seu velho coração. Os sentimentos de Beatrice eram ainda mais confusos que os do pai. Nos primeiros dias das visitas, tentara manter-se ocupada com pequenos afazeres, mas Owen sempre queria mostrar-lhe o novo brinquedo que ganhara e como sabia manejá-lo bem. Ela sempre acabava no centro das atividades, bem no meio de Owen e de Nicholas Hendry.

Após duas semanas de visitas, sentia-se exausta. Parecia difícil conciliar o sono à noite, e, mal conseguia adormecer, acordava, antes mesmo da aurora, antecipando a visita do nobre cavaleiro com tanta ansiedade quanto Owen.

— Não deve continuar trazendo presentes para o menino o tempo todo — reclamou certa manhã.

Nicholas naquele dia trouxera um jogo de damas, sem dúvida muito caro e muito além da compreensão de um menino da idade de Owen.

Nicholas encarou-a, surpreso com o tom de voz.

— Ainda não pretendo ensiná-lo a jogar, mas ele pode mover as peças do tabuleiro e fingir que joga. Em breve desejará aprender as regras.

— Até que esse momento chegue, já terá perdido a metade das peças. É um jogo de damas muito bonito para ser posto nas mãos de uma criança pequena.

Nicholas deu de ombros.

— Se Owen perder algumas peça, mandaremos fazer outras para repor.

Estavam sentados em uma das mesas de cavalete na taverna, observando o menino, esparramado no chão, brincando com as peças de pedra polida de seu novo jogo. O olhar de Beatrice encontrou o de Nicholas, e sua voz soou severa:

— Não é próprio para um menino de suas condições.

Logo percebeu que cometera um erro.

Nicholas ergueu a cabeça e falou com voz irritada:

— E que condições seriam essas, minha senhora? O primogênito de um cavaleiro proprietário de muitas terras?

Beatrice baixou o tom de voz, corrigindo:

— O filho bastardo de pai desconhecido.

Nicholas também baixou o tom de voz, acompanhando-a.

— O pai é desconhecido pelo simples fato de que a senhora me pediu para esperar até que Owen me conhecesse melhor. Talvez esse tempo já tenha chegado.

Beatrice sentiu um frio intenso na espinha.

— O que quer dizer com “conhecer melhor”?

Nos poucos dias em que Nicholas os visitava, compreendera que o cavaleiro tinha o poder de roubar Owen do Javali Dourado e de sua família, se assim o desejasse. Além do mais, Beatrice temia que perder Owen depois da morte de Flora fosse um golpe muito grande para seu pobre pai já tão debilitado.

Porém a resposta de Nicholas abafou seus temores, e a fez perder a postura rígida.

— Poderia mandar espalhar no vilarejo a notícia de que o menino é meu.

Beatrice replicou devagar:

— Muito bem. Prefere que eu conte ou devemos pedir aos Fletcher que anunciem a boa-nova? — Sorriu depressa. — Não é difícil espalhar boatos em um lugar tão pequeno quanto Hendry.

Nicholas retribuiu o sorriso, mas disse:

— Não estaríamos espalhando boatos, mas a verdade. Corrigiríamos um erro, se preferir.

— Sim.

Embora a cadeia de eventos que Nicholas desencadeara com sua volta a preocupasse, tinha que admitir para si mesma que Flora ficaria deliciada se soubesse Nicholas reconhecera Owen como seu filho que bateu na mesa com as mãos espalmadas, exclamando:

— Na véspera do dia de São João! Comunicaremos a notícia a todos, durante o festival.

Beatrice não entendeu de imediato onde Nicholas desejava chegar.

— De que maneira?

— Iremos juntos à feira, eu, você, Owen e Phillip, é claro. Todos que perguntarem o que faço acompanhando o neto do taberneiro, direi que o menino a meu lado é meu filho.

— A festa de São João é daqui a dois dias — sussurrou Beatrice.

— Certo! Já é hora de contar a verdade. Concorda?

Ambos voltaram-se para olhar Owen que, com cuidado, fazia uma estrada com as peças do jogo de damas, alternando as pretas e as brancas.

— Sim — respondeu Beatrice, de modo quase inaudível.

 

Como se prepara uma criança pequena para conhecer o pai? Essa era a pergunta que Beatrice se fazia ao colocar Owen para dormir, sob os cobertores aconchegantes.

— Vamos à feira amanhã? — perguntou o menino, já tonto de sono.

— Sim, meu amorzinho. Mestre Hendry irá nos levar.

— Mestre Hendry é amigo de Owen.

Beatrice suspirou. As pálpebras do menino se fechavam, pesadas. Não era o momento de fazer uma grande revelação, já que estava meio adormecido. Quando Nicholas desejara contar naquela manhã, pedira que a deixasse explicar a Owen a seu modo. Seria mais fácil quando estivesse sozinha com o sobrinho, pensou. Agora o dia quase terminara, e ela não cumprira a missão.

— Sim, Owen — redargüiu, acariciando os cabelos do menino da mesma cor dos de seu pai. — Sabe que mestre Hendry ficou muitos anos fora, lutando nas Santas Cruzadas?

Os olhos de Owen abriram-se mais.

— Lá onde comprou Scarab?

— Sim, isso mesmo, quando seu outro cavalo morreu.

Nicholas levara o filho para passear no belo alazão. Owen ficara tão excitado que quase caíra do alto da sela.

— Irá com Scarab amanhã para a feira?

— Acho que iremos a pé, querido. Não podemos todos montar em Scarab.

— Você e vovô vão a pé, e eu e mestre Hendry iremos montados em Scarab.

O sono parecia ter abandonado Owen e, de novo, Beatrice culpou-se por ter deixado a missão para a última hora.

— Creio que mestre Hendry nem trará o cavalo. Scarab não ficaria feliz na feira com tanta gente em volta. Agora queria lhe contar uma coisa sobre mestre Hendry.

Owen afastou os cobertores e sentou-se na cama, muito sério de repente. Era como se percebesse que a quilo que a tia iria lhe contar era de suma importância. Perguntou com voz cansada:

— O que há com mestre Hendry?

Beatrice lutou para escolher as palavras certas. De repente, desejou ter permitido que Nicholas contasse ao menino. Como explicar algo tão profundo para uma criança que nem tinha idade para saber como os bebês nasciam? Por fim despejou tudo de modo apressado:

— Mestre Hendry é seu pai.

Owen encarou-a sem acreditar.

— Papai? Meu papai de verdade?

— Sim. De verdade.

A expressão chocada de Owen dissolveu-se em um sorriso de júbilo, e Beatrice sentiu como se uma garra de ferro pressionasse seu coração. Owen voltou a perguntar:

— Meu pai?

— Sim.

Inclinou-se para a tia e enterrou o rosto em seu peito, enquanto ela o abraçava. Beatrice não tinha certeza, mas pensou que Owen estivesse chorando. Prendeu-o nos braços por um longo momento, e depois afastou-o, encarando o rostinho feliz e as faces gorduchas, de fato banhadas em lágrimas. Perguntou:

— Essa novidade o deixa contente, meu amor?

Já conhecia a resposta antes que visse o menino acenar com entusiasmo.

— Posso chamar mestre Hendry de papai?

— Sim.

— Posso contar ao Nick?

— Mestre Hen... seu pai quer contar ele mesmo para todo o mundo na feira de amanhã.

Os olhos de Owen brilharam. Pulando na cama, exclamou:

— Isso é melhor que montar Scarab!

— Mas agora precisa dormir para não ficar cansado quando seu pai vier pela manhã.

Owen pulou mais um pouco e depois, obediente, voltou a mergulhar sob os cobertores. De volta para o abrigo aconchegante, em breve voltou a ficar sonolento, murmurando, com voz pastosa:

— Nunca tive um papai...

— Bem, agora tem.

Owen voltou a acenar, concordando muito feliz, e então fechou os olhos, caindo em um sono profundo. Por muito tempo Beatrice permaneceu sentada, observando-o. Sentia-se aliviada por ver como a animação da criança fora ao auge, e depois sucumbira, como uma chama apagada, ante a vontade de dormir.

Ergueu-se e suspirou, atravessando o quarto e caminhando até sua própria cama. Não tinha tanta sorte quanto Owen. Gostaria de também poder descansar a noite toda para os festejos da feira, mas tinha certeza de que passaria muitas horas acordada, antes de conseguir conciliar o sono.

 

Os festejos de São João em Hendry haviam crescido ao longo dos anos, de uma pequena comemoração para uma enorme feira regional. O evento atraía malabaristas itinerantes, comedores de fogo, adestradores de ursos, mímicos e menestréis, todos personagens fascinantes para as crianças que nunca haviam saído dos arredores do vilarejo.

Não era a primeira vez que Owen comparecia à feira, e sua reação não desapontou os adultos que o acompanhavam. Corria de uma atração à outra, com a rapidez de um raio, e quando começou a ficar cansado, deixou que Nicholas o tomasse nos braços.

Cumprindo a promessa, Nicholas parava com freqüência para conversar com as pessoas e apresentar Owen como seu filho, suportando os olhares atônitos dos camponeses.

Owen chamava-o de papai com muita naturalidade, como se sempre houvesse feito isso, e Nicholas enchia-se de orgulho do menino. Beatrice não conseguia deixar de se emocionar com o evidente orgulho do cavaleiro.

Phillip oscilava de um lado para ao outro ao caminhar, quando chegaram ao fim das fileiras de barracas da feira. Nicholas foi o primeiro a notar a dificuldade do senhor idoso.

— Vamos fazer uma pausa aqui e experimentar as tortas dessa boa senhora.

Assim dizendo, Nicholas piscou para uma mulher de meia-idade que arrumava uma bandeja com tortas de carne.

— Procuramos por boa comida, senhora — comentou, inclinando-se sobre a bandeja e sentindo o aroma.

— E acho que chegamos ao lugar certo.

— Sem dúvida, meu senhor — riu a mulher, lançando um olhar curioso sobre seus acompanhantes. — Quantas serão? Para o senhor e sua esposa?

Beatrice ficou ruborizada, mas Nicholas pareceu não notar.

— Creio que quatro tortas. Quer experimentar, filho? — perguntou, dirigindo-se a Owen.

Beatrice olhou das tortas enormes para a criança pequena, porém Owen deu um gritinho de alegria.

— Sim, Owen quer torta também!

Nicholas tirou algumas moedas do bolso e entregou-as à mulher que passou tortas para Phillip e Beatrice. Depois inclinou-se sobre a bandeja, e pegou outra para Owen.

O menino correu para um canto, a fim de saborear o petisco, e logo se sujou de molho. Percebendo a bagunça que fizera, olhou para a.. tia buscando socorro, mas Nicholas já se abaixara e o limpava com um lenço.

— A primeira vez que se come dessas tortas é complicado — consolou. — Tem de segurá-la com cuidado, com as duas mãos.

Com delicadeza, tirou a torta de Owen e inclinou-a de modo que o molho não escorresse, e depois apertou os dedos minúsculos da criança a sua volta.

— Vá comendo as bordas, pedaço a pedaço, como se fosse um coelho roendo uma cenoura.

Owen seguiu os ensinamentos e começou a se deliciar com o quitute sem fazer tantos estragos na roupa nova que usava.

Nicholas ergueu-se, sorriu para o filho, e depois foi buscar sua torta.

— Vou mordiscar também — avisou a Owen. — Está vendo como se faz?

Beatrice observava a cena, fascinada. Nicholas podia ter pouca experiência como pai, mas parecia encarar a nova situação com muita naturalidade.

Após mais um agradecimento à senhora das tortas, o grupo seguiu caminho na multidão, até uma parte gramada, onde poderiam comer sentados e com tranqüilidade. Sem pedir permissão, Nicholas segurou o braço de Philip com firmeza, a fim de ajudá-lo a sentar-se.

Quando todos se acomodaram, Owen entregou sua torta pela metade a Nicholas, dizendo:

— Papai acaba de comer.

Nicholas soltou uma risada.

— É muita massa para um estômago tão pequeno, não é?

Com gesto rápido, colocou o menino no colo e terminou a torta com duas grandes mordidas.

— Precisa mordiscar dos lados, papai — ralhou Owen.

Nicholas voltou a rir com vontade, e rolou na grama, abraçando Owen de tal maneira que o menino esqueceu tudo sobre os hábitos alimentares do pai.

— Nick!

A voz de Harold Fletcher sobressaiu-se em meio a um grupo de pessoas que assistiam à apresentação de alguns acrobatas. Nicholas sentou-se na grama, ainda segurando Owen no colo, e semicerrou os olhos ante o sol forte. Então, ergueu a mão, acenando para Harold que se separara do grupo e caminhava em sua direção, seguido por Jannet e o pequeno Nick.

Owen desvencilhou-se dos braços do pai e saiu gritando, em direção ao amigo.

— Nick, tenho um papai também!

Nicholas ficou de pé, limpou um pouco de molho que caíra na túnica, e saudou o casal que se aproximava.

Beatrice levantou-se mais devagar, mas Phillip continuou sentado.

— Ouvimos as novidades, Nick — disse Harold, sorrindo. — Na verdade, a vila inteira não fala de outra coisa.

Jannet encarou Beatrice de modo ansioso.

— Juro, minha amiga, que nunca disse uma palavra a respeito.

Beatrice sorriu-lhe de maneira conciliadora.

— Sim, Jannet, sei disso. Foi tolice de minha parte acreditar que seria um segredo eterno.

Harold deu um tapa nas costas da Nicholas.

— Parabéns, papai! Tem um menino adorável!

Nicholas olhou na direção das duas crianças pequenas que estavam ocupadas, examinando um pedaço de fruta atirado no chão.

— Sim, é uma ótima criança.

Os dois homens ficaram trocando brincadeiras entre si, enquanto Beatrice e Jannet os observavam com tolerância feminina, sabendo como os membros do sexo masculino podiam, às vezes, ser muito infantis. Era como se os quatro formassem dois casais, divertindo-se juntos, na companhia dos filhos. Beatrice corou ante tal pensamento, descartando-o como absurdo.

O pequeno Nick correu para a mãe e puxou-lhe o braço. Jannet abaixou-se para ouvir o que a criança desejava lhe dizer, e depois ergueu-se, explicando:

— Estávamos indo em direção ao silo onde haverá uma apresentação de um urso dançarino. Nick gostaria que Owen também fosse. Por que não vamos todos?

Owen juntou-se ao amigo Nick.

— Urso, papai!

Nicholas sorriu.

— Não me importo de ver um urso dançar. — Voltou-se para Beatrice. — Vamos?

— Creio que...

Beatrice ia responder, quando Phillip interrompeu-a.

— Temo que meus velhos ossos já agüentaram tudo que podiam na feira, por um dia. Preciso voltar para casa.

Tentou erguer-se, mas oscilou e voltou a cair sentado.

— Pai! — exclamou Beatrice. — Sente-se mal?

De novo o velho senhor tentou se levantar e, dessa vez, Nicholas e Harold o ajudaram, cada um amparando-o em um braço.

— Não, estou bem. Apenas cansado, é tudo. Vocês jovens vão em frente e assistam ao espetáculo do urso.

Beatrice balançou a cabeça em negativa.

— De jeito nenhum! Vamos levá-lo para casa. Farei um pouco de chá.

— Certo — disse Nicholas. — O urso pode esperar.

A expressão Owen ficou consternada.

— Deixe Owen vir conosco — pediu Jannet. — Tomaremos conta dele até vocês voltarem para buscá-lo.

Nicholas e Beatrice entreolharam-se, como se consultassem um ao outro, e Phillip protestou:

— Não preciso de ajuda para ir para casa.

Beatrice decidiu a questão.

— Vá com Jannet ver o urso, Owen. Não saia de perto dos Fletcher e comporte-se. Viremos buscá-lo mais tarde.

Nicholas abaixou-se a abraçou menino.

— Seja bonzinho.

— Sim, papai.

Assim dizendo, Owen saiu correndo com o pequeno Nick e seus pais.

Nicholas aprumou-se, dirigindo-se a Phillip:

— Ficarei honrado em dar-lhe o braço, senhor, se precisar.

Phillip negou-se.

— Apenas caminhe a meu lado, meu jovem. Se não posso fazer uma pequena caminhada até minha casa, então saberemos que estou em um estado lastimável.

Beatrice mordeu o lábio, mas permaneceu em silêncio enquanto o pai se ajeitava e começava a caminhar em direção à taverna.

 

Phillip deixou que Beatrice fizesse um chá e depois o ajudasse a ir para a cama, insistindo para que a filha voltasse com Nicholas à feira. Nicholas oferecera-se para ir buscar Owen sozinho, porém o velho senhor fora enfático.

— Owen ficará desapontado se sua tia Beady não assistir ao espetáculo do urso.

Por fim convencida, Beatrice concordou em voltar ao vilarejo com Nicholas.

Ao saírem da taverna, comentou:

— Esse passeio foi cansativo demais para meu pai. Não deveria ter permitido que nos acompanhasse.

— Nada disso. Uma mulher, quer seja esposa ou filha, não deve tirar o orgulho de um homem — redargüiu Nicholas com suavidade. — Deve deixar que seu pai faça o que quiser enquanto puder, do contrário seu espírito morrerá antes do corpo.

— Pode ser que tenha razão. Meu pai é um homem orgulhoso e no instante em que se julgar incapaz, será o fim.

Beatrice andou devagar, encarando Nicholas com uma expressão respeitosa que ele nunca vira antes.

— Mal conhece meu pai, mestre Hendry. Como pode perceber essas coisas, e eu não?

O olhar de Nicholas cravou-se em um ponto distante.

— Durante as Cruzadas vi muitos homens perderem o desejo de continuar vivendo. Quando isso acontecia, logo morriam.

Pararam debaixo das árvores no início do vilarejo, sob as sombras da noite que se aproximava. Os sons de música e de vozerio chegavam até eles, vindos da feira, mas parecia que estavam em total solidão, longe da vista de todos.

Depois de um longo momento, Beatrice confessou:

— O senhor não é o homem que eu imaginava.

Nicholas estremeceu, afastando os pensamentos da guerra, e sorriu.

— Owen agora me chama de pai. Talvez a tia devesse seguir o exemplo e chamar-me de Nicholas. Quer me fazer esse favor?

As sombras do entardecer de verão emprestavam um ar irreal ao ambiente. O olhar de Beatrice era misterioso ao molhar os lábios e dizer:

— Nicholas.

Aquela simples palavra pareceu desencadear um turbilhão de emoções em Nicholas. Baixou o olhar, observando os seios sob o corpete do vestido, a cintura estreita. Não sentia desejo por uma mulher havia muito tempo, mas reconheceu imediatamente aquela sensação. Em pânico, tentou negar a verdade e lembrou-se que jurara ser um homem diferente. O antigo Nicholas seduzira Flora e a deixara com um filho que a matara no parto. Jurara que algo assim nunca mais voltaria a acontecer. Entretanto, ao sentir Beatrice caminhando a seu lado nas sombras, não conseguia evitar aquelas sensações. Desejava a irmã de Flora.

 

Beatrice sentia-se como se a pouca bebida que haviam consumido ao meio-dia, na feira, ainda fizesse sua cabeça rodar. Dissera seu nome, como Nicholas pedira, e a simples palavra desencadeara sentimentos confusos em seu íntimo. Era como se houvesse entregado um parte de si mesma àquele homem, como se o houvesse beijado, antes mesmo de seus lábios se encontrarem, em meio à floresta escura e silenciosa.

Nicholas a olhava de modo estranho, os olhos negros brilhando entre as sombras. Os lábios estavam entreabertos, e o olhar quente fixou-se na boca de Beatrice. Por um breve instante, ela pensou que Nicholas a beijaria de verdade, mas afastou a idéia como sendo absurda.

Riu de modo nervoso.

— Por que estamos parados aqui? Parece que os espíritos da floresta nos imobilizaram.

O sorriso de Nicholas também foi forçado.

— Vejo apenas uma criatura etérea nesses bosques, e é mais uma fada do que um espírito. Talvez a rainha das fadas, a julgar por sua beleza.

Sua voz soou baixa e rouca, e Beatrice prendeu a respiração. Era assim que Nicholas Hendry procedia, pensou, forçando o bom senso a prevalecer sobre as emoções. Era assim que derramava charme sobre as mulheres, até conseguir o que desejava. Fora isso que fizera com a pobre Flora.

Deu um passo atrás.

— Na verdade, não vejo nem espíritos, nem fadas, e nós tampouco veremos o urso se ficarmos parados aqui.

Com gesto rápido, Nicholas segurou-a pelos braços, impedindo-a de se afastar muito.

— Talvez não uma fada, mas, de qualquer modo, uma mulher linda.

Manteve o olhar preso em Beatrice por um longo tempo, enquanto ela lutava mais uma vez para conservar o autocontrole.

— Precisamos ir, senhor.

O cavaleiro de Hendry balançou a cabeça em negativa.

— Chame-me de Nicholas.

— Nicholas — repetiu Beatrice, — devem estar a nossa espera.

O sol por fim desaparecera. Uma brisa inesperada sacudiu o arvoredo, parecendo diluir os sons distantes que vinham do vilarejo. Nicholas inclinou-se e colheu um cravo que crescera junto às árvores e colocou-o entre os cabelos de Beatrice.

— Gostaria que fosse uma fada, neste entardecer, Beatrice — falou, pronunciando seu nome pela primeira vez. — E se eu fosse o rei dos espíritos da floresta, passaríamos esta noite de verão festejando.

— Não...

Mas antes que a jovem pudesse dizer outra coisa, Nicholas inclinou-se ainda mais e beijou-a nos lábios. Foi uma carícia leve e quente, que poderia ser feita por uma criatura mágica, e que a fez estremecer da cabeça aos pés.

Nicholas endireitou o corpo e afastou-se, dizendo:

— Desculpe-me.

Parecia triste, e Beatrice desejou consolá-lo. Encarou-a por mais um instante, e continuou:

— Talvez existam mesmo espíritos nesta floresta. Dizem que vêm à terra tentar os humanos.

De modo inconsciente, Beatrice ergueu os dedos até os lábios, ainda sentindo o calor do beijo.

— Se existem espíritos brincalhões, meu senhor, então nós dois fomos atingidos.

Nicholas pareceu surpreso ante aquelas palavras. Sua expressão suavizou-se e inclinou a cabeça para um lado, sorrindo.

— Talvez ainda estejam por perto. Contente por perceber que a tensão no ar se dissipava, Beatrice também tentou sorrir.

— Então, é melhor sairmos daqui — concluiu com firmeza.

Nicholas soltou um suspiro fingido.

— Dizem que na noite de São João as pessoas comuns podem agir de modo diferente.

— Acredito — respondeu Beatrice, de novo tocando os lábios. — Mas Owen vai ficar preocupado conosco.

A menção do nome da criança pareceu trazer os dois de volta à realidade.

— Sim.

Nicholas concordou com simplicidade, mas quando voltaram-se para ir embora, tomou-a pelo braço com delicadeza e não a soltou até chegarem ao vilarejo.

— Sim, Flora, a filha do cervejeiro. Lembro-me dela, uma moça muito bonita.

Nicholas acompanhara a mãe até o solário onde Constance aproveitava a manhã radiosa para terminar uns detalhes difíceis de sua costura.

— Sabe que morreu dando à luz uma criança, minha mãe?

Constance acenou que sim.

— Ninguém quis falar sobre isso depois que ela se foi. Parecia cruel enlamear a reputação de uma boa alma que partira, mas creio que nunca nenhum rapaz Ido vilarejo intitulou-se pai da criança.

— O menino é meu.

Constance deixou escapar um grito abafado, enquanto a agulha entrava profundamente em seu dedo. Errou o fio, confusa.

— Seu? Mas, você nem estava aqui...

— Foi concebido antes de minha partida, mãe. O menino agora tem mais de três anos. Seu nome é Owen.

Constance apoiou o trabalho de costura a seu lado, o banco, e levou o dedo com sangue à boca. Nicholas.

Sabia que ganhava tempo antes de falar.

— Meu filho, é muito nobre de sua parte reivindicar esse menino como seu, se é mesmo verdade que... conheceu sua mãe, mas você ficou ausente muito tempo. Como pode ter certeza...

— Tenho — interrompeu Nicholas. — Owen é meu filho.

Constance ficou em silêncio, e o rapaz continuou:

— Pensei que, de certa forma, ficaria feliz em saber que tem um neto, minha mãe.

Constance examinou o dedo machucado, apertando-o para ver se estancava o filete de sangue.

— Sem dúvida é uma notícia e tanto, Nicholas. Mas as circunstâncias não são ideais, como bem pode imaginar.

— A vida não é um sonho ideal, mãe. Mas meu filho é quase isso, é inteligente e adorável. Você ficará encantada.

— Se bem me recordo, mestre Thibault agora é proprietário de uma taverna.

— Sim, o Javali Dourado.

— Não é um lugar apropriado para se educar uma criança.

— Não há muito movimento. Os viajantes que passam por Hendry são poucos e ficam apenas um breve tempo por aqui. O menino é educado pela tia.

Algo no tom de voz de Nicholas fez Constance erguer a cabeça com gesto brusco.

— Sim, é claro. Beatrice. A jovem que convidou para jantar.

— Exato. Ela veio naquela noite para discutir o assunto sobre Owen.

— Gostei dela — disse Constance.

O choque inicial que a notícia lhe causara parecia ter passado, e Nicholas achou que a mãe aceitava os fatos com a habitual serenidade.

Nicholas não se sentara, apesar de Constance o ter convidado. Estava ansioso para sair e fazer sua visita diária à taverna, mas depois de seu comparecimento à feira, no dia anterior, levando Owen, decidira primeiro conversar com a mãe antes que essa ouvisse a história da boca de alguma criada.

— Vai gostar de Owen também, mãe. Posso trazê-lo aqui a Hendry Hall ainda hoje pela manhã?

Constance franziu o cenho.

— Não, hoje não. O barão Hawse virá nos visitar. Não queremos que fique com suspeitas.

Se o barão estava para chegar, Nicholas alegrava-se por ir embora, mas não gostou do comentário de Constance.

— Não é necessário deixá-lo com suspeitas, basta contar-lhe a verdade. Minha paternidade já não é um segredo.

Dessa vez lady Constance pareceu claramente preocupada.

— Meu filho, pense um pouco sobre essa história. A morte da jovem foi uma tragédia e talvez você queira tomar providências discretas quanto à criança, mas...

— Mãe, Owen é meu filho, e pretendo educá-lo para que se torne um cavaleiro. Não haverá nada de vergonhoso ou secreto nisso.

Constance cerrou os lábios.

— Sente-se, Nicholas — ordenou, após um momento.

— Estou sofrendo com torcicolo de tanto esticar o pescoço para cima.

Com impaciência, Nicholas ignorou o tamborete que lhe fora indicado e deixou-se cair no chão de pedra, junto aos joelhos da mãe. Deveria ter imaginado que aquela conversa seria mais difícil. Já tivera tempo de acostumar-se com a realidade, mas tudo era novo e chocante para sua mãe. Estendeu a mão e tocou a de Constance.

— Irá adorar o menino, mãe, prometo.

A expressão de lady Constance era de preocupação.

— Meu filho, o barão Hawse virá hoje pela manhã a meu pedido. Não queria preocupá-lo, mas ele tem me pressionado a respeito da questão das propriedades.

Nicholas riu com azedume, e Constance continuou.

— Disse que deseja fazer de novo sua oferta, sobre você e Winifred. Não é um bom momento para criarmos um escândalo. Peço-lhe, como um favor especial, para ser discreto com essa história sobre seu filho, até decidirmos o que for melhor.

— É tarde para isso. A menos que suponha que as centenas de pessoas que estavam na feira ontem fiquem de boca fechada.

Constance fechou os olhos e gemeu de leve.

Nicholas então se ergueu de modo brusco.

— Não se preocupe com isso, mãe. Lidarei com a criança e com o barão Hawse também. Na Terra Santa jurei que, se um dia voltasse para casa, poria minha vida em ordem, e pretendo cumprir o juramento.

Então, antes que Constance pudesse protestar, inclinou-se para beijá-la, e afastou-se depressa.

 

Gilbert Hawse chutou com a ponta da bota o criado que se ajoelhara a seus pés, usando a força necessária para fazê-lo cair de costas.

— Serei a última pessoa na Inglaterra a tomar conhecimento do que se passa sob meu próprio nariz? — vociferou.

— Dizem que ninguém sabia de nada até a feira de ontem, meu senhor. A moça nada havia contado e levara a verdade consigo para o túmulo.

Assim dizendo, Leon endireitou o corpo e voltou para junto da cadeira do barão.

— Deve ter contado à irmã e ao pai que contaram para aquele maroto que, por sua vez, divulgou a notícia aos quatro ventos. Foi muita falta de sorte Nicholas Hendry não ter morrido nas Cruzadas, conforme fora divulgado.

Leon lançou um olhar malicioso para o amo.

— Ele não teve ninguém que o ajudasse a morrer, como seu pai teve.

De novo o barão Hawse deu um chute no criado.

— Segure a língua, seu idiota tagarela!

Sem se perturbar, Leon voltou a se aprumar, justificando:

— Não há alguém aqui que nos ouça.

— Já lhe disse para nunca falar sobre a morte de Arthur Hendry! São águas passadas.

— Sim, meu senhor. Mas seu filho ainda vive.

O barão Hawse tomou nas mãos uma pintura do rosto de uma mulher feita em um pedaço de chifre de boi, que se encontrava na mesa ao lado.

— Sim, Constance — murmurou, sem prestar a menor atenção ao serviçal a seus pés. — Seu filho ainda vive. E o filho de seu filho. Vai ser bem mais complicado possuir as terras e você. Mas, no final, a vitória será ainda mais doce.

Mergulhou no silêncio. Leon esperou um longo tempo, até perguntar:

— Deseja que me livre da criança, senhor?

O barão pareceu surpreso ao ver que o empregado ainda se encontrava a seus pés.

— Não lido com assassinatos, Leon, já lhe disse antes. Quando Leon ergueu as sobrancelhas, confuso, o barão acrescentou:

— Pelo menos, não enquanto houver meios mais simples de obter o que desejo.

 

Devido a conversa com a mãe, Nicholas atrasou-se para a visita matinal à taverna. Ficou surpreso ao deparar com Owen sozinho, do lado de fora, cavalgando seu cavalo de pau da entrada até ao caminho que levava à taverna. Nicholas observou com orgulho como era bonito, os cabelos negros esvoaçando ao vento, e como já tinha a postura certa de um cavaleiro.

Sorriu consigo mesmo, murmurando entre os dentes:

— Já me tornei um pai coruja.

Owen soltou uma exclamação de alegria ao ver Nicholas. O cavalo de pau caiu ao chão com um estalo, enquanto o menino precipitava-se para os braços do cavaleiro. Nicholas ergueu-o, abraçando-o com força.

— Para onde ia a cavalo esta manhã, sir Owen? — perguntou ao colocar a criança de volta ao chão.

— Owen só ia ficar por aqui, não ia para a estrada — replicou o menino, com expressão assustada.

— Não, garoto, não tenha medo. Não vou ralhar com você. Sua tia lhe pediu para ficar por aqui?

— Disse para ir só da taverna até a estrada.

— Bem, direi a ela que estava obedecendo às ordens. Mas onde está Beatrice?

Nicholas não ouvia os ruídos habituais da manhã, vindos de dentro da taverna, e que lhe eram familiares.

De novo, Owen pareceu preocupado, e o rosto infantil adquiriu uma expressão compenetrada.

— Lá em cima. Vovô está muito doente. Nicholas ergueu o olhar para o segundo andar da taverna. Embora fosse um dia quente, nenhuma das janelas fora aberta. Alarmado, começou a caminhar em direção da porta, dizendo ao menino:

— Preciso ir ver sua tia Beatrice e seu avô.

Owen pareceu desolado.

— Papai não vai brincar comigo?

Ouviu-se a voz de Jannet Fletcher que vinha, a passo rápido, contornando a esquina:

— Hoje você vai brincar com o pequeno Nick. Quando viu Nicholas, parou para ajeitar algumas mechas dos cabelos louros que haviam escapado da touca. O exercício da caminhada colorira sua faces e, pela primeira vez, Nicholas notou, surpreso, que a esposa de Harold era bonita. Mas a surpresa maior não era saber que o amigo se casara com uma bela mulher, porém o fato de, só naquele instante, depois de já tê-la visto tantas vezes, ter observado isso.

Sim, de fato era um outro homem. As preocupações e a paternidade o haviam feito quase esquecer das belas mulheres.

Cumprimentou a esposa do amigo com uma inclinação de cabeça.

— Bom dia, sra. Fletcher.

Jannet retribuiu o cumprimento.

— Bom dia, mestre Hendry. Vim buscar Owen, prometi à Beatrice cuidar dele o dia inteiro.

Nicholas voltou a relancear o olhar para as janelas fechadas, perguntando:

— Há algo errado?

— Phillip não está nada bem.

— Vovô está muito doente — explicou Owen novamente.

Nicholas pensou em se oferecer para levar o menino a Hendry Hall, mesmo porque, em breve, pretendia que lá fosse o lar permanente do filho. Mas, como dissera a lady Constance, não desejava encontrar-se com o barão Hawse. Acenou para Jannet.

— Gentil de sua parte tomar conta de Owen.

— Não é problema. Owen é uma ótima criança. Na verdade, dá menos trabalho que o meu Nick.

Nicholas voltou-se para o menino.

— Vá com a sra. Fletcher e irei buscá-lo mais tarde.

— Com Scarab?

Nicholas riu.

— Sim, se assim deseja. Daremos uma volta a cavalo.

Jannet estendeu a mão para Owen, e voltou-se para ir embora com o menino saltitando ao seu lado. Deixando de sorrir, Nicholas encaminhou-se para a taverna.

O salão estava deserto, e o local encontrava-se imerso em total silêncio. Após um momento de hesitação, subiu a escada até o segundo andar.

O topo da escada conduzia a um corredor estreito. De um lado havia duas portas que levavam a dois dormitórios com várias camas que costumavam abrigar viajantes. Do outro, havia a porta de um quarto bem maior.

Beatrice estava sentada lá dentro, junto a cama onde Phillip dormia.

Quando viu Nicholas surgir, pareceu surpresa, e então pôs um dedo sobre os lábios, pedindo para que não falasse.

Lançou um rápido olhar em direção ao pai, ergueu-se e fez um gesto para que Nicholas a seguisse até o andar inferior.

Quando chegaram ao salão, disse:

— Desisti de esperá-lo hoje. Pensei que estivesse ocupado, depois de ter folgado ontem por causa da feira.

Aquelas palavras perturbaram Nicholas. Parecia que Beatrice esperara por ele como se fosse uma namorada no aguardo do amado, e se decepcionara quando não o vira aparecer. Mas, por certo, o que a jovem desejara dizer é que estava preocupada com a saúde do pai, e esperara que ele fizesse companhia a Owen.

— Owen disse que seu pai está doente.

— Creio que o passeio prolongado na feira foi demais para ele. — A voz de Beatrice denotava grande cansaço.

— Os tremores estão piores. Dormiu pouco toda a noite Dei-lhe uma poção hoje pela manhã e agora, por fim, está descansando.

— Uma poção?

— De uma planta chamada pulmonária. Colhi-a ontem, dia de São João, e dizem que nesse dia seus poderes são mais fortes.

Nicholas forçou-se a soar tranqüilo.

— Fala como um boticário, minha senhora. Também possui essa habilidade, além de dirigir a taverna, fazer cerveja e tomar conta da criança?

Foi recompensando com um breve sorriso, mas o olhar de Beatrice estava turbado pela preocupação.

— Aprendi a arte da cura com plantas com as freiras que me educaram — explicou. — Mas apesar de todo o seu enorme poder, não consegui salvar minha irmã. E agora... — a voz falhou — ...parece que pouco posso fazer para salvar meu pai também.

Lágrimas nublaram seus olhos, e Nicholas sentiu um desejo enorme de tomá-la nos braços e enxugar-lhe as faces com beijos. Entretanto, limitou-se a dizer com delicadeza:

— Tenho certeza que dá muito conforto a seu pai, Beatrice, tanto com suas ervas quanto com sua presença. Afinal, a cura decisiva está nas mãos do Senhor.

Beatrice aquiesceu.

— Sei disso. Rezo também, pois como a irmã Agnes costumava dizer no convento, o Senhor cuida do jardim, mas não custa dar-lhe uma ajuda e tirar algumas ervas daninhas, aqui e ali.

Beatrice voltou a sorrir e, como uma menina, fungou, para afastar as lágrimas. Nicholas comentou:

— A irmã Agnes parece ser uma mulher sábia. A ponta do nariz de Beatrice estava vermelha e os cabelos embaraçados, como se não houvessem visto um pente desde cedo, porém, aos olhos de Nicholas, pareciam muito atraente.

Beatrice suspirou profundamente.

— Sim, era mesmo. Também morreu. Desculpe, mestre Hendry, por incomodá-lo com meus problemas. Devo estar me tornando uma pessoa muito maçante.

Nicholas tocou-lhe o queixo com os dedos.

— Não me incomoda. E pensei que ontem tivéssemos acertado que nos trataríamos com menos formalidade, devia me chamar de Nicholas.

Beatrice corou, sem dúvida relembrando o breve beijo que haviam trocado. Afastou a lembrança da mente, e passou por Nicholas, dirigindo-se à lareira do outro lado do salão. O fogo estava quase morrendo, portanto começou a remexer nas brasas com um atiçador.

— Sim, tentarei me lembrar, embora precise lhe dizer, Nicholas, que jamais pensei em um dia chamá-lo pelo primeiro nome.

Nicholas aproximou-se por trás de Beatrice e replicou, com um leve tom de zombaria:

— Aposto que sempre pensou em me chamar somente de patife.

Beatrice soltou uma risada sufocada, e Nicholas percebeu como se sentia bem por ver que conseguira alegrá-la um pouco, e afastá-la de suas preocupações, mesmo que fosse por um breve momento.

Abaixou-se junto à caixa de lenha e pegou alguns gravetos para atirar no fogo fraco da lareira.

Ao ver o gesto, Beatrice agradeceu, sentindo-se perturbada com a proximidade de Nicholas.

— Obrigada.

— Tem suficiente lenha? Quer que vá buscar mais?

Beatrice voltou-se e encarou-o surpreendida.

— Jamais pediria que fizesse trabalhos domésticos.

— E por que não? Precisa de ajuda, com seu pai doente e acamado. Owen é um menino cheio de boa vontade, mas é muito pequeno para poder ajudar.

— Pensei em pedir a Harold Fletcher que me ajudasse, ou a algum rapaz do vilarejo.

Nicholas balançou a cabeça em um gesto impaciente, ergueu a caixa de lenha e esvaziou-a, atirando os últimos gravetos dentro da lareira.

— Nada disso! Dê trabalho para mim. Quem sabe consigo convencê-la de que não sou um biltre o tempo todo e, às vezes, posso até ser um bom sujeito, prestativo e útil.

Beatrice pareceu hesitar por um instante, uma expressão incrédula no rosto bonito, e por fim expressou seu pensamento:

— Não faria esse tipo de trabalho em sua própria casa.

— Talvez não, mas posso garantir que fiz coisas muito piores nas Cruzadas, atos de humildade, outros menos humildes, mas nem por isso me tornei uma pessoa ruim.

— Se está falando sério...

— Jamais falei com tanta seriedade em minha vida — replicou Nicholas com energia.

— Então, aceito sua oferta de ajuda.

Nicholas sorriu, adquirindo uma expressão jovial.

— Ótimo! O que devo fazer?

Beatrice continuou a observá-lo com ar de dúvida, e perguntou com voz lenta:

— Já ferveu malte para fazer cerveja?

 

No meio da tarde, as costas de Nicholas doíam de tanto recolher a cevada do chão do barraco onde se preparava a cerveja. Sua túnica estava suja de grãos fermentados, os olhos ardiam com o vapor espesso e incessante da mistura fervente, e a palma das mãos estavam vermelhas e esfoladas por manejar as chaleiras quentes, enquanto acrescentava o lúpulo.

— Creio que nunca mais tomarei cerveja na vida — comentou com Beatrice com um sorriso, fazendo graça da situação, enquanto ela vinha examinar o resultado de seu trabalho.

A jovem estivera indo e vindo, da taverna para o barracão, a manhã inteira, desdobrando-se entre o preparo da cerveja e os cuidados com o pai. Phillip se levantara e sentia-se melhor, mas Beatrice não o permitira descer a escada estreita para o térreo.

— Vi meu pai fazer cerveja durante muito tempo, entretanto, nunca havia percebido quanto era enorme o trabalho até quando ele não conseguiu mais fazer tudo sozinho. Papai costumava levar seis barris de cerveja para Ryminster todos os meses, já que não existem cervejarias por lá, mas nesses últimos meses, só conseguimos produzir o suficiente para abastecer Hendry.

Beatrice falava de modo casual e distante. Não parecia estar procurando por simpatia e apoio, entretanto Nicholas sentiu um estranho e novo desejo de protegê-la. Tendo crescido como filho único, jamais tivera muita oportunidade de ajudar ou compartilhar suas atividades com outras crianças. Mas, desde que voltara para casa das Cruzadas, preocupava-se com o bem-estar da mãe, e agora com o de seu filho, Owen. Era uma sensação nova e agradável. Voltou a concentrar-se nos comentários que Beatrice fizera, e perguntou:

— Sua garçonete não pode ajudar?

— Sim, quando não precisa ajudar a própria família.

— Não existe um homem no vilarejo que possa contratar para auxiliar seu pai?

Beatrice hesitou por um longo momento, perdendo a postura natural que adotara com Nicholas durante aquele dia, e enrijecendo o corpo.

— Há meses atrás, depois que seu pai morreu, o administrador de mestre Arthur dobrou as taxas. Por certo que não temos clientes o suficiente para cobrir as despesas, como também a taverna não duplicou as vendas da cerveja que fabricamos para compensar os gastos com os impostos. No final das contas, a taverna saiu muito cara, mas papai a adora.

Nicholas franziu o cenho e esfregou a perna que ficara dura com o contínuo agachar e inclinar durante o processo da fermentação da cerveja.

— Seu pai não apelou contra o aumento das taxas?

— Sim, mas de nada adiantou, e como Flora tinha morrido, meu pai ficou ocupado, tentando levar adiante seu negócio, a fim de não ter muito tempo para pensar na própria dor e na minha também, e servindo de pai para um menino sem pai. E tudo isso com a doença devorando-o, cada dia mais.

— Sim, imagino que Phillip tenha passado maus bocados, entretanto continua com o mesmo espírito positivo e bem-humorado do qual me lembrava, antes de partir para a guerra. O mesmo temperamento que achava tão encantador em Flora. Ela estava sempre feliz, não havia nuvens em sua vida.

Beatrice deu um pálido sorriso, enquanto as recordações voltavam.

— É verdade. Nós duas éramos diferentes nesse ponto. Flora jamais conseguia ver o mal em nada e em ninguém, enquanto sempre fui acusada de me exceder e de procurar por encrenca, devido a meu mau gênio.

— O mesmo temperamento que a leva a saudar estranhos cuspindo em seus rostos? — perguntou Nicho-las à queima-roupa.

Beatrice baixou a cabeça, corando, e esfregou a ponta do pé no chão enegrecido do barracão.

— Sim. Esse mesmo.

Ergueu o olhar para Nicholas. Mesmo nas sombras, a cor azul dos olhos se sobressaía como um céu de outono. As mãos de Nicholas ficaram suadas, enquanto as esfregava na túnica. Ergueu-as e, antes que se desse conta, tomou as faces de Beatrice.

— Pensou que eu fosse um monstro, como você mesma disse. Não a culpo.

— Obrigada por me entender — redargüiu Beatrice, com voz rouca.

Sua pele era macia como pétalas de rosa sob os dedos fortes. Nicholas deslizou as mãos para os cabelos ondulados e espessos que pareceram quentes e suaves ao toque. A jovem prendia a respiração.

— Então, talvez, não me culpe por isto.

Assim dizendo, Nicholas inclinou-se e, com toda a naturalidade, encostou os lábios aos de Beatrice. Mas, dessa vez não foi um rápido beijo como o que haviam trocado na saída da feira de São João. Naquele instante, a boca de Nicholas entreabriu-se, como se desejasse sugar algo de mágico do âmago de Beatrice. Fez com que a moça sentisse o mesmo, e uma onda de boas sensações os possuiu.

Nas Cruzadas, de vez em quando Nicholas cedera aos instintos e às necessidades do corpo, procurando por meretrizes. Porém, as sensações que sentia naquele instante eram’ bem diferentes, e não as experimentava havia anos ou, quem sabe, nunca antes.

O cheiro acre de farinha de malte amassada e levedo que invadia o barracão pareceu desaparecer, e Nicholas de repente sentiu apenas o perfume que vinha de Beatrice, a doçura de seus lábios e o aroma de lavanda dos cabelos ondulados. Afastou-se um pouco apenas para murmurar seu nome, de novo a beijando, enquanto Beatrice passava os braços ao redor de seu pescoço, primeiro hesitante, em seguida com ardor.

Por sua vez, Nicholas circundou-lhe a cintura, fazendo-a aproximar-se de seu corpo que estava excitado, desde que o beijo começara. Ergueu-a um pouco do chão, enquanto a sentia vibrar em seus braços.

Deslizou os lábios para o queixo macio e, em seguida, para o pescoço, abaixo da orelha. Um leve gemido o fez perceber que atingira um ponto sensível, e então a provocou com a ponta da língua.

Nicholas dominava a arte de fazer amor com mestria e naturalidade, e sabia excitar uma mulher quando a tinha, doce e entregue, entre os braços fortes e musculosos. A distancia, como se fosse um chamado, sua consciência lhe dizia para parar, mas recusava-se a obedecer. Sentia que iria continuar a doce invasão, até estabelecer uma intimidade total com Beatrice.

Porém, ela se afastou. Estivera com a cabeça pendida para trás, enquanto Nicholas beijava-lhe o colo, entre o pescoço e os seios, quando, de repente, cravou as unhas em seus braços, exclamando:

— Não!

Nicholas largou-a de imediato e deu um passo atrás, o desejo pulsando no corpo com violência.

— Desculpe...

Beatrice cruzou os braços, segurado-os com força, como se desejasse ordenar a si mesma que parasse de tremer, e encontrou o olhar de Nicholas. Depois de um instante, disse:

— Não foi apenas sua culpa.

Parecia tão infeliz que todo o desejo abandonou Nicholas. Contrito, falou:

— Não devemos falar de culpa. Só trocamos um beijo. Isso é normal entre um homem e uma moça.

— Não entre uma moça e o amante de sua irmã. O tom de voz de Beatrice soou cáustico, mas Nicholas logo suspeitou de que a base de seu aborrecimento fosse a vergonha. Tentou pensar em algo que a aliviasse, mas também não se sentia muito orgulhoso de seu próprio procedimento. Jurara solenemente, nos campos de batalha das Cruzadas que, se Deus o fizesse voltar com vida à Inglaterra, abandonaria a leviandade e levaria uma vida exemplar.

— Foi apenas um beijo — repetiu com pouca convicção, sem conseguir animá-la.

— Sim — disse Beatrice, afastando-se. — Portanto, se já se divertiu o suficiente por um dia, vou ver como meu pai está passando.

Recuperara o autocontrole e falava com força e serenidade, embora as mãos trêmulas traíssem sua agitação.

— Espere!

Nicholas gritou quando ela já chegava à porta do barracão.

Beatrice ficou imóvel, e Nicholas tentou, de modo desesperado, encontrar um assunto que a fizesse ficar ali e prestar atenção.

— Quero-lhe falar sobre as taxas. Pretendo fazer com que sejam diminuídas.

Beatrice pareceu congelar, como se houvesse levado um tapa, e Nicholas percebeu, de súbito, que escolhera as palavras erradas. Tentou consertar as coisas.

— Bem, se é verdade que foram aumentadas de modo injusto...

Beatrice aprumou-se, parecendo ficar mais alta, e voltou a caminhar em sua direção.

— Imagino, Nicholas Hendry, que seja seu hábito fazer-se pagar pelas mulheres de muitas maneiras diferentes, mas sinto desapontá-lo. Não estou à venda, e se estivesse, seria mais fácil me vender para Belzebu do que para você!

— Você me entendeu mal...

Mas as palavras de Nicholas morreram-lhe na garganta, porque Beatrice já saíra.

 

Ao final daquele dia, Beatrice já chegara à conclusão de que fora dura demais com Nicholas, como consigo mesma.

Owen fora para a cama, e dormia o sono dos anjos, depois de brincar o dia inteiro com o pequeno Nick. Phillip também mergulhara em um sono agitado. Beatrice insistira para que ficasse em sua cama, no mesmo quarto de Owen, de modo que pudesse vigiar os dois. Se fosse possível descansar, dormiria no chão, em frente ao fogo.

Passara aquela última hora olhando para as chamas na lareira, o calor das brasas fazendo-a recordar, vezes sem fim, os beijos que compartilhara com Nicholas no barracão, a força do corpo musculoso e viril contra o seu, e a sensualidade dos lábios experientes que deslizavam pela boca e pescoço, fazendo-a experimentar sensações jamais imaginadas.

Uma acha de madeira estalou no fogo, e Phillip mexeu-se, mas continuou dormindo. Beatrice sabia que deveria deitar-se e tentar dormir também, logo a nova manhã chegaria e com ela muito a ser feito, como sempre. Mas sua mente e seu corpo pareciam rodopiar, de modo incessante, os pensamentos cruzando-se com a rapidez de um raio, impedindo-a de sentir sono.

Bem-feito para Nicholas Hendry se o tratara mal, pensou, pela milionésima vez, talvez agora parasse de vir tantas vezes à taverna. Para todos os efeitos, Nicholas estava acostumado a seduzir mulheres. Agora que percebera que ela não seria a próxima a sucumbir a seus encantos, quem sabe desistiria da idéia de se tornar pai de Owen, e se afastasse de uma vez por todas.

Mas, em seu íntimo, Beatrice sabia que não era homem de desistir com facilidade, tanto da paternidade quanto...

Agora que o segredo sobre o menino fora descoberto, não podia impedi-lo de visitar a criança e, para ser sincera consigo mesma, precisava admitir que a vida se tornara muito mais excitante desde que Nicholas Hendry começara a fazer suas visitas diárias. E era a consciência desse fato que a impedia de dormir naquela noite. Mesmo antes dos beijos acontecerem, em meio ao aroma forte de malte e cevada, ficara muito claro que o encantador senhor de Hendry Hall em breve teria duas irmãs Thibault em sua lista de conquistas amorosas..

Com uma expressão aborrecida, Beatrice levantou-se, pegou uma flor murcha e amassada de dentro do corpete do vestido, e atirou-a às chamas. Fora a pequena flor que Nicholas colocara em seus cabelos, em meio às sombras da noite que caía, quando haviam deixado a feira de São João.

 

— Não lhe fará mal ir visitar Winifred, Nicholas — disse Constance com firmeza. — O barão Hawse foi generoso em permitir que tivesse tempo para se acostumar novamente com a vida de casa, antes de tocar no assunto de novo, mas o problema tem de ser resolvido.

— Não haveria problema a ser resolvido caso o barão concordasse que os documentos assinados no leito de morte de meu pai não são mais válidos, já que não morri no exterior, como meu pai pensava.

Nicholas tentava não soar impaciente. Não era justo culpar a mãe pelas ações do pai, mas desejaria que Constance não estivesse sempre defendendo o ponto de vista do barão.

Esperavam no grande salão pela chegada de Hawse e de Winifred. Nicholas não estava disposto a enfrentar aquele encontro, não desejava ver ninguém e, em particular, odiava a idéia de passar a noite tentando conversar com a filha tímida do barão.

Os vassalos iam e vinham às dezenas pelo salão, esperando para se sentar até que os convidados de honra chegassem. Nicholas reconheceu Molie e piscou. Por um breve instante, desejou ser um rapazola de novo, cuja única preocupação era saber com que moça bonita flertaria na noite. Naquela época, não pensava em assuntos de terras e propriedades, paternidade e responsabilidade. De repente percebeu que não era de admirar que seu pai se arrependesse de ter concebido um filho tão inútil.

Naqueles dias despreocupados, não sabia que uma mulher como Beatrice pudesse existir. Uma jovem que combinava inteligência, competência e caráter e, ainda, conseguia fazer com que se esquecesse de tudo quando seus corpos se aproximavam. Teria feito alguma diferença se houvesse conhecido Beatrice naqueles tempos?

Suspirou. Talvez seu pai tivesse razão e fosse uma pessoa desprovida de valor. Cometem um erro ao beijar Beatrice. Tivera um relacionamento amoroso com sua irmã e a deixara grávida. Que mulher poderia esquecer algo assim?

— Minha querida Constance!

O vozeirão do barão Hawse ressoou pelo solar. O humor de Nicholas piorou ao perceber como o rosto da mãe ficara resplandecente.

Lady Constance aproximou-se das visitas, a mão estendida. O barão inclinou-se para beijá-la, segurando-a tempo demais, então, voltou-se para Nicholas.

— Bem, meu jovem, sua mãe me contou que resolveu permanecer na Inglaterra, afinal.

Nicholas fez um gesto de cabeça concordando, trocou um aperto de mão com o barão e virou-se com polidez para Winifred que baixara a cabeça e parecia não ter posição, esfregando um pé no outro.

Era uma jovem assustada e nervosa, pensou Nicho-las. Quando lhe segurou a mão gelada para levá-la aos lábios, ela enrijeceu e ficou vermelha como um pimentão. Nicholas arrependeu-se do gesto, de imediato, mas, de qualquer modo, tomou-lhe a mão e fez de conta que a beijava, mas sem a tocar com os lábios.

O barão Hawse observava a cena e franziu o cenho, resmungando:

— Endireite o corpo, Winifred. Parece uma empregadinha, com a cabeça baixa desse jeito.

Winifred ergueu o olhar para Nicholas, obviamente humilhada pelas palavras cruéis do pai, fazendo o rapaz sentir-se envergonhado por ter tido o mesmo pensamento. Na verdade, concluiu, a moça não era tão apagada assim. O rubor nas faces a favorecia, trazendo alguma cor à pele pálida e fazendo os olhos brilharem mais.

Tentou amenizar a dor que ela sentira ante as palavras do barão, e replicou com galantearia:

— Por todos os santos, barão Hawse! A maioria dos se sentiria feliz por ter tal filha, tão recatada e bonita.

O barão ficou olhando para Winifred como se a visse pela primeira vez, e logo respondeu:

— É claro, é uma boa filha, embora muito quieta. O que, diga-se de passagem, para muitos homens é uma virtude em uma esposa, não é mesmo?

Ainda falando, deu um tapa no ombro de Nicholas. Constance pigarreou.

— Vamos nos sentar para cear? O assado vai esfriar.

Nicholas voltou-se para Winifred e indicou-lhe seu lugar, com um gesto de cabeça, mas evitou tocá-la outra vez, enquanto a jovem caminhava em direção à grande mesa.

Winifred segurou firme no braço de Nicholas, enquanto caminhavam pelo pátio em direção aos estábulos, fazendo-o pensar que, ou vencera a timidez, ou estava preocupada em não sujar os sapatos na lama.

O jantar parecera interminável, como Nicholas temera. Winifred respondera a todas suas perguntas com monossílabos e apenas ao final da conversa demonstrara um pouco de animação. O barão Hawse perguntara a Nicholas como conseguira Scarab.

Nicholas explicara que o obtivera na Terra Santa, e Winifred se aprumara, com um brilho de interesse nos olhos.

— Winifred gosta de cavalos — explicou o barão -, embora não tenha muita coragem para montar. Temo que tenha herdado o medo da mãe. — E lançou um olhar desdenhoso para a moça.

— Também gosto de cavalos — apressou-se a dizer Nicholas com atenção. — Gostaria de conhecer Scarab depois do jantar?

Winifred concordara, e, para alívio do jovem, o barão e sua mãe haviam recusado acompanhá-los. A moça parecia muito mais à vontade quando não estava na companhia do pai.

— É verdade então que gosta de cavalos? — perguntara à Winifred.

A jovem o fitara, o rosto animado.

— Sim. Passo muito tempo nos estábulos. Quando meu pai não está por perto, os cavalariços me deixam ajudar a tomar conta dos animais.

— Mas não sabe montar?

— Não. Apenas gosto de estar com os animais. — Pareceu hesitar como se resolvesse se devia ou não fazer uma confidência, e então se resolveu: — Às vezes converso com eles.

Nicholas sorriu.

— E eles respondem?

Mas logo se arrependeu pela brincadeira quando viu como a jovem ficou envergonhada.

Estavam à porta dos estábulos. Nicholas parou e segurou-a pelos ombros, fazendo-a encará-lo.

— Também converso com Scarab, o tempo todo.

Winifred o fitou surpresa.

— Verdade?

— Sim. E, mais ainda, nas Cruzadas poderia jurar que, uma ou duas vezes, ele me respondeu.

Winifred riu ante aquelas palavras, e o som da risada foi agradável, quase musical. Nicholas sorriu para a visitante.

— Deveria rir mais, Winifred, faz com que seu rosto pareça uma rosa desabrochada.

A jovem corou, e dessa vez não baixou logo o olhar. E um homem muito bom, Nicholas Hendry.

O         rapaz soltou-lhe os ombros e deu um passo atrás.

Aquelas palavras o haviam agradado, mas logo pensara em Beatrice. Por certo ela não concordaria com a doce Winifred.

A filha do barão pareceu perceber a mudança no humor de Nicholas.

— Não precisa ficar preocupado que eu tente convencê-lo a acatar os desejos de meu pai. Não quero me casar com você.

O         inesperado daquelas palavras tomou Nicholas de surpresa e, antes que pudesse evitar, perguntou:

— Por que não?

Winifred sorriu de modo delicado.

— Jamais conheci um homem mais gentil que você. Sabe me deixar muito à vontade, mas não estou disposta a me casar ainda. Talvez jamais o faça.

Nicholas mediu as próprias palavras com cuidado, dessa vez.

— Winifred, creio que um dia esse tempo chegará, e o homem que a conquistar terá muita sorte.

Winifred não baixou o olhar.

— A mulher que escolher terá muita sorte também, Nicholas.

Por um longo momento fitaram-se como bons amigos, e então Nicholas olhou para o céu.

— Em breve escurecerá. Vamos conversar com Scarab para saber se ele pode nos dar algum conselho sobre como lidar com os planos casamenteiros de seu pai.

Winifred voltou a rir, e ambos entraram nos estábulos.

 

Nicholas ficou surpreso ao descobrir que a hora que passara com Winifred nos estábulos o havia deixado muito mais bem-humorado. A jovem estivera muito à vontade, de uma maneira nova a seus olhos. Insistira em conhecer cada um dos cavalos em suas respectivas baias, e conversara com eles como se fossem seres humanos.

Sem o pai ao lado para monitorar e criticar cada gesto que fazia ou palavra que dizia, Winifred começara a falar com naturalidade e até mesmo a rir ante algumas piadas de Nicholas.

Logo no início, o rapaz lhe dissera que seu futuro esposo seria um homem de sorte, apenas por delicadeza, porém ao final da noite, compreendera que dissera a mais absoluta verdade. Suspeitava de que, caso Winifred pudesse sentir-se livre, sem o domínio do barão Hawse, seria uma moça vivaz e até mesmo feliz.

Mas assim que voltaram a juntar-se à lady Constance ao barão no solar, seus modos mudaram. A agradável companheira de alguns minutos atrás desapareceu, dando lugar à habitual moça apagada, tímida e medrosa.

A mãe de Nicholas também parecia mudar, ante a presença do barão Hawse. Não ficava intimidada com ele, como Winifred, mas dava a impressão de perder parte de sua usual serenidade, tornando-se aflita.

Nicholas chegou à conclusão que, de qualquer modo, seria muito melhor que o barão Hawse nada tivesse a tratar com os Hendry mas, era evidente, isso não correspondia à verdade dos fatos, como o próprio barão fizera questão de frisar ao despedir-se naquele noite.

— É hora de discutirmos como unir as terras de Hendry com as de Hawse — disse de modo seco, enquanto lady Constance estava ocupada, despedindo-se de Winifred. Nicholas respondeu:

— Creio que as coisas vão indo muito bem do jeito que estão.

— Não estou criticando sua administração, rapaz. O problema é que o luto por seu pai está acabando, e devemos providenciar para que seus desejos sejam cumpridos.

Nicholas enrijeceu o corpo, mas preferiu não começar uma discussão com o convidado.

— Desejo conversar sobre o assunto, barão, mas não na presença das senhoras.

Logo em seguida os Hawse partiram, e Constance retirou-se para seus aposentos. Nicholas demorou-se Um pouco do lado de fora do solar, admirando o espetáculo maravilhoso do céu noturno de verão, coalhado de estrelas. Lembrou-se, de modo vago e rápido, de estar sentado no deque do navio, de volta da Terra Santa, admirando o infinito ao lado de seus camaradas.

Todos tinham grandes expectativas para a volta ao lar. Afinal, eram heróis regressando da batalha. Mas em Durleigh, Simon fora recebido com notícias aterradoras e decepção. Nicholas, por sua vez, voltara para encontrar seu mundo muito mudado, com a morte do pai.

Bernard estava se recuperando da perna quebrada, e Nicholas ficou imaginando como estariam Gervase, Guy e Hugh.

Quando começou a esfriar, entrou em casa e subiu a escada para seu quarto, onde acendeu uma vela alta no castiçal preso à parede. Queimaria por algum tempo, e depois o quarto mergulharia na escuridão. Esperava, então, já ter adormecido, sem pesadelos com as lembranças de corpos apodrecendo no cerco de Damietta, ou com a dor da perna que costumava deixá-lo acordado até o alvorecer.

Ficou deitado na cama, sem se preocupar em despir-se, e cerrou os olhos, lembrando-se do rosto de Winifred quando se aproximara de Scarab. Fizera-o recordar Owen, quando lhe dava um doce. O cavalo forte e irascível com estranhos, ficara quieto e dócil como uma ovelha, deixando que a moça o acariciasse.

Então Nicholas oferecera-se para levá-la a passeio em Scarab antes que escurecesse, porém Winifred recusara.

— Não gosto de cavalgar — replicara, com uma risada nervosa. — Os cavalos são apenas meus amigos.

A vela na parede já começava a fraquejar, e Nicholas não conseguia conciliar o sono. Abriu os olhos e olhou para o teto, recordando as palavras de despedida do barão Hawse. O confronto se aproximava. Se desejava ficar com Hendry, para si e para Owen, teria que lutar, ou aceitar a oferta de matrimônio com Winifred. A idéia já não lhe parecia tão desagradável como a princípio pensara. Poderia continuar a administrar Hendry e deixaria sua mãe feliz.

Nicholas voltou a cerrar os olhos e, por fim, deixou que a mente fosse invadida pelas imagens que se recusara a ter durante toda a noite. A visão de Beatrice apareceu clara e imediata, os lábios intumescidos pelos beijos, e o olhar brilhante, cheio de paixão. Só de pensar naquilo, Nicholas sentiu uma enorme excitação sexual.

Em um instante de compreensão, percebeu que seria impossível casar com Winifred de Hawse por um motivo muito simples. Estava apaixonado por outra mulher.

 

— A mãe está sob a influência dele. Não tem sido receptiva a mim, desde que o filho voltou.

Gilbert Hawse falava mais consigo mesmo do que com Leon que havia meia hora estava nos aposentos do nobre, de pé, com toda a paciência, enquanto o barão, sentado na ponta da cama, tartamudeava sobre as diferentes maneiras de se aproximar do filho teimoso de Constance e conseguir, de modo definitivo, tudo que seu espírito ambicioso desejava, sem nenhuma restrição.

Leon ousou dar sua opinião:

— É pouco provável que o casamento com lady Winifred diminua a influência de Nicholas Hendry sobre a mãe.

O barão ergueu o olhar sombrio.

— Apenas o poria em meu caminho pelo resto da vida. Maldito seja por ter voltado a Hendry!

— É seu lar. Aonde mais iria? — argumentou Leon. Tudo a respeito do serviçal do castelo Hawse era inexpressivo. Leon possuía estatura mediana, não era gordo nem magro, e tinha feições comuns. Era impossível afirmar se seus cabelos, em outros tempos, haviam sido pretos ou louros, ou se sempre haviam tido aquela cor acinzentada e sem brilho. Os olhos também acinzentados raramente demonstravam alguma animação. Era um homem subestimado por todos, que passava despercebido, o que, de modo paradoxal, tornara-o o mais precioso dos servos aos olhos do barão. Gilbert Hawse balançou a cabeça em negativa.

— Tudo em Hendry agora é meu, e vejo que vai ser uma luta para manter as coisas desse modo, enquanto Nicholas estiver por perto.

Leon continuou ereto, sem se mexer, sem demonstrar cansaço por ficar de pé tanto tempo. Um rápido brilho de satisfação cruzou os olhos cinzentos, desaparecendo antes que alguém tivesse tempo de perceber.

— Então, vamos ter que dar um jeito nele?

Hawse encarou o servo.

— Isso despedaçaria o coração de Constance. Será que poderíamos provocar um acidente?

— Claro, senhor.

O barão perdeu-se em pensamentos por muito tempo. Por fim, disse:

— Tenho outra idéia. Primeiro tentaremos isso.

E contou seu plano a Leon.

O rosto do servo permaneceu impassível enquanto ouvia e, ao final, apenas disse:

— Como quiser, meu senhor.

O barão Hawse levantou-se e afastou as cobertas, deitando-se de modo pesado sobre a cama. Leon continuava esperando.

— Pode retirar-se — disse Hawse. — Mas volte bem cedo pela manhã. Acho que chegou a hora de você ir visitar o filho bastardo de Nicholas.

 

Beatrice ficou segurando a porta e encarou o homem sem expressão que batera em hora tão inconveniente.

— Sou Leon, empregado do barão Hawse, seu amo — anunciou o visitante com um tom de voz monótono e inexpressivo.

— Os senhores do vilarejo são os Hendry — redargüiu Beatrice com secura.

Não estava com vontade de ouvir comentários tolos e exibicionistas. Tivera outra noite mal dormida. Quando não se levantara para ajudar o pai que respirava com dificuldade, ficara revirando-se na cama ou sentada junto ao fogo, pensando em Nicholas Hendry e nos beijos que haviam trocado no barracão da cervejaria.

— Não — redargüiu Leon, sem alterar a voz. — Os Hendry não mandam mais. Agora tudo pertence ao barão Hawse.

Beatrice abanou a cabeça, tentando clarear as idéias e, ao mesmo tempo, afastar a irritação que aquele homem lhe transmitia.

— Sob que autoridade?

— Não compete à senhora questionar, moça. Vim falar com seu pai.

— Meu pai está doente. Converse comigo ou vá embora. Leon lançou um olhar por cima do ombro de Beatrice, vasculhando o salão.

— Muito bem — concordou. — Conversaremos lá dentro. E, assim dizendo, passou por ela e entrou na taverna, observando tudo a sua volta.

— Onde está o menino?

Beatrice começou a se sentir alarmada. Não sabia quem era aquele homem, que tinha uma atitude de quem se julgava no direito de dar ordens. O que queria no Javali Dourado? E o que sabia sobre Owen? Pela primeira vez considerou a possibilidade de ter agido mal ao permitir que a paternidade de Owen passasse a ser do conhecimento público. Perguntou com frieza:

— O que deseja aqui, de uma vez por todas?

Leon dirigiu-se até o pé da escada e olhou para cima.

— Disse que seu pai está doente? Qual o problema?

— Não pretendo responder a nenhuma pergunta, até esclarecer o propósito de sua visita.

— O barão Hawse gosta de conhecer todos seus arrendatários. Vai querer saber o que aflige Phillip Thibault, e como o menino se arranja sem um pai para educá-lo. — Lançou um olhar de esguelha para Beatrice. — O barão tem como ponto de honra, conhecer tudo a respeito de seus vassalos.

De modo vago, Beatrice recordou que por ocasião da morte de Arthur Hendry, houvera rumores que suas propriedades tinham sido doadas a um nobre de outro distrito, mas como tudo continuara como antes, esquecera-se da história.

— Que provas têm para me dizer que o barão Hawse é o novo senhor de Hendry?

— Verá quando os homens do barão começarem a coletar os impostos no mês que vem. Pelo que sei, os pagamentos do Javali Dourado estão em atraso.

Não havia como contestar o ar de autoridade do homem, nem que não estivesse familiarizado com os débitos da taverna, mas isso não lhe dava o direito de questionar sobre Owen.

— Pretendemos pagar o que devemos no mês que vem. E se isso concluiu o objetivo de sua visita, peço que me deixe retornar a meu pai. Vai precisar de ajuda para se levantar da cama.

Leon caminhou até Beatrice e, pela primeira vez, sorriu. Mas a expressão de fingida simpatia apenas produziu um frio na espinha da jovem.

— Então, seu pai está tão doente ao ponto de ficar na cama? Minha cara, é triste ver uma mulher bonita como você sem um homem para protegê-la.

— O estado de saúde de meu pai é temporário.

Leon observou-a por muito tempo, os olhos cinzentos parecendo os de um lobo.

— É melhor que procure um protetor antes que a condição de saúde de seu pai piore, senhora.

Dessa vez, o frio na espinha fez Beatrice estremecer, porém soube se dominar, e disse:

— Sei me proteger, senhor. Não preciso que alguém faça isso por mim.

Leon deu duas, passadas rápidas, e postou-se bem em frente à Beatrice que ficou de costas para uma das mesas de cavalete, as mãos apertando a madeira. O homem estava tão perto que podia sentir o cheiro de cerveja em seu hálito.

— Ouvi dizer que é uma mulher de temperamento forte, senhora. Por sorte é o tipo que agrada ao barão Hawse. Talvez devesse testá-la por mim mesmo, para saber se merece sua atenção.

Com gesto súbito, Leon avançou para Beatrice, agarrando-a pela nuca com a mão direita e, com a esquerda, segurando-lhe o seio. Fez com que se inclinasse para trás, por cima da mesa, e ameaçou beijá-la.

Depois de um segundo, quando foi tomada de total surpresa para reagir, Beatrice começou a lutar, afastando a cabeça de um lado para o outro, de modo que Leon apenas conseguiu beijar-lhe a orelha, em vez dos lábios.

Beatrice lutou contra o instinto de gritar bem alto, voltando a cabeça de modo a impedir o beijo. Leon encostou a parte inferior do corpo no seu, empurrando-a de modo doloroso, de encontro à mesa.

Em desespero, Beatrice bateu nas costas do homem com o punho fechado, mas Leon parecia não sentir os golpes.

— O que está acontecendo aqui? — gritou uma voz da porta.

Com enorme alívio, Beatrice viu que era Nicholas.

Leon soltou a cabeça da jovem e afastou-se um pouco.

— Não é de sua conta, Hendry — respondeu com calma. — E um assunto entre a srta. Thibault e eu.

Nicholas atravessou o salão do Javali Dourado, pôs a mão no ombro de Leon e empurrou-o para trás com toda sua força. O empregado do barão deu um passo em falso, desequilibrando-se, mas logo se recompôs.

Nicholas voltou-se para Beatrice.

— Você está bem?

A moça esfregou a nuca dolorida.

— Sim — respondeu — e estou feliz por vê-lo.

Leon parecia imperturbável.

— Beatrice Thibault não é mais sua arrendatária, mestre Hendry. Vim aqui a pedido do barão Hawse que é o dono das terras ocupadas pela família Thibault.

Beatrice percebeu, pelo olhar de Nicholas, que as palavras do criado o haviam perturbado.

— Verdade? — perguntou-lhe. — Não é mais o senhor de Hendry?

— Ainda existem assuntos a serem resolvidos — respondeu Nicholas, demonstrando estar aborrecido.

— Mas seja quem for o senhor das terras, este verme não tem o direito de molestá-la desse modo.

Leon esboçou um de seus sorrisos sem alma.

— Está enganado, Hendry. Foi a senhora quem se ofereceu, apenas decidi aceitar.

Beatrice engasgou, revoltada, mas antes que pudesse dizer alguma coisa, Nicholas fechou o punho e esmurrou o queixo do serviçal. Foi um golpe forte, mas Leon mal se moveu.

Nicholas ia repetir o gesto, quando, de repente, com uma agilidade felina, Leon chutou a perna ferida do nobre que, pego de surpresa com a dor, caiu por terra.

Beatrice ficou olhando, abismada. Examinou o salão à volta, procurando por alguma arma, mas Leon já passara por cima de Nicholas e caminhava para a porta.

— Continuaremos nossa conversa em outra ocasião, minha cara — disse à Beatrice. — Quanto a você, Nicholas Hendry, é bom lembrar-se de sua posição nessas terras. Vive em Hendry Hall pela bondade e tolerância de meu senhor.

Então virou-se e deixou a taberna antes que Beatrice ou Nicholas tivessem oportunidade de redargüir.

Nicholas sentou-se no chão, ainda preso pela surpresa do ataque. De alguma maneira, o empregado do barão Hawse conseguira adivinhar seu ponto fraco e o atingira bem onde a perna fora ferida. A dor lancinante o fizera cair de imediato, e continuava afligindo-o, fazendo-o perder a fala por alguns momentos.

Beatrice continuava encostada à mesa, segurando os braços, mas logo se aprumou, trêmula, e ajeitou as roupas. Ainda podia sentir a mão de Leon sobre os seios. Por um instante, pensou que iria sentir-se mal e vomitar, mas engoliu em seco, com força, e lutou contra a sensação desagradável.

Baixou o olhar sobre Nicholas, o rosto do jovem estava contorcido pela dor. Devia ser por causa da velha ferida, percebeu, já que o empregado do barão Hawse dera apenas um chute e não usara nenhuma arma.

Depois do encontro arrasador no barracão de cerveja, no dia anterior, pretendera evitar Nicholas Hendry por um certo tempo. Ficara acordada a noite inteira, planejando como ajudar o pai a descer para o salão e deixá-lo receber o cavaleiro quando viesse visitar Owen, de modo que ela não precisasse aparecer.

Mas os acontecimentos não tinham sido como o planejado e, mais do que isso, Beatrice nunca conseguira ficar indiferente ao sofrimento humano.

— Pode se mover? — perguntou.

Nicholas fez um gesto querendo dizer que sim.

— Não foi nada. Dê-me apenas um minuto.

Mas a voz soou tensa.

Beatrice estendeu-lhe as mãos, dizendo:

— Segure firme.

Depois de um instante de hesitação, Nicholas segurou-as e deixou que a jovem o erguesse. Uma vez de pé, equilibrou-se e soltou uma risada forçada.

— Jamais acreditará agora que lutei na Terra Santa depois desse fiasco, não é verdade?

Beatrice resmungou com desdém.

— As mulheres ligam muito menos para atos de bravura do que os homens pensam, Nicholas. Na verdade, não nos importamos muito com essas coisas e ficaríamos muito felizes se os homens encontrassem outra maneira de ocupar o tempo, além de ir às guerras.

Isso fez Nicholas sorrir com sinceridade. A dor desaparecia e já conseguia manter-se nos dois pés. Em breve as pontadas na perna diminuiriam por completo, já passara por isso antes. A medida que o sofrimento físico arrefecia, percebia que Beatrice continuava tremendo.

— Você está bem? — perguntou, o sorriso desaparecendo do rosto.

Ela aquiesceu.

— Foi sorte ter chegado na hora certa, Nicholas.

— O que aquele homem fazia aqui?

Beatrice o encarou com expressão séria.

— Até agora não sei. Talvez você saiba mais do que eu, mestre Hendry. Que história é essa do barão Hawse ser o novo proprietário das terras?

Nicholas esfregou a perna ferida.

— É uma questão de negócios. Pensei que o barão estivesse dando tempo ao tempo, mas agora parece que deseja resolver tudo sem demora.

— Tudo leva a crer que sim. Os aluguéis vencem dentro de um mês.

— Pouco me importo com os aluguéis — replicou Nicholas -, mas não permitirei que o barão mande seu empregado ao vilarejo para molestar os arrendatários. Não tem esse direito, mesmo que seja o amo.

Beatrice revirou os olhos, em um gesto de desespero.

— Ficou longe de casa por um longo tempo, mestre Hendry. Talvez tenha se esquecido de como funcionam as coisas na Inglaterra. Os amos têm direito a tudo que lhes agrade fazer, são os vassalos que não têm direito a nada, devendo ficar caiados e se submeterem sem reclamações.

Nicholas franziu o cenho:

— Está errada.

O         rosto de Beatrice parecia feito de pedra. Em vez da mulher afogueada, cheia de vida e calor que segurara entre os braços no dia anterior, voltara a ser a beleza temperamental que lhe tirara o fôlego a primeira vez em que a vira.

— Desculpe. Você, Nicholas Hendry, entre todas as pessoas, estaria em condições de lutar contra essa situação, porém não creio que seja o cavaleiro certo para isso.

Ambos sabiam que o comentário era injusto. Nicholas jamais se aproveitara de seus arrendatários do modo como Leon tentara fazer. Seu relacionamento com Flora nada tivera a ver com estupro ou malícia. Entretanto, era inegável, fora o filho do amo e senhor das terras, e Flora fora sua vassala. Beatrice tinha razão de sentir-se amargurada e, talvez, falara sem pensar.

Nicholas procurou uma resposta à altura, porém Beatrice já se dirigia para a escada, a fim de ver o pai. Ordenou:

— Sente-se naquele banco, mestre Hendry, e não se mova até eu voltar.

O tom de voz parecia o de uma mãe ralhando com uma criança travessa, e Nicholas voltou a sorrir, respondendo, em tom de brincadeira:

— Sim, mamãe.

Deixou-se cair com um certo alívio sobre o banco, estendendo a perna ferida.

Beatrice parou ao pé da escada, em atitude embaraçada, percebendo que exagerara na ordem e no tom de voz. Sorriu de modo breve.

— Preciso tomar conta de meu pai e de Owen. Depois será sua vez, mestre Hendry.

Nicholas ficou confuso, e repetiu:

— Minha vez?

Beatrice voltou a fazer um aceno de comando.

— Sim. Pretendo cuidar de sua perna ferida.

Então, subiu correndo a escada.

 

Beatrice já subira havia uma hora, mas Nicholas não se movia do banco. Para começar, a perna ainda latejava muito, mas, em especial, ficara porque desejava vê-la de novo, ouvir sua voz, assegurar-se de que não sofrera nenhum trauma depois da experiência desagradável daquela manhã com Leon. Sentia uma onda de raiva cada vez que lembrava da cena de Leon encurralando Beatrice de encontro à mesa que presenciara ao entrar no Javali Dourado.

Gostaria de ter torcido o pescoço do empregado do barão embora, do ponto de vista legal, pouco pudesse fazer. Beatrice tinha razão. Os vassalos quase não possuíam direitos sobre os amos. Era comum o senhor das terras, seu empregado fiel ou principal mordomo serem os primeiros a deflorar uma moça pobre do vilarejo, e as famílias nada podiam fazer a respeito.

Nicholas acabara de passar quatro anos na Terra Santa, tentando impor ao infiéis as regras e o controle dos bons cristãos, entretanto, agora que voltara ao torrão natal, pensava se o inimigo verdadeiro seria uma raça ou um povo, ou a injustiça que florescia tanto na Inglaterra como em qualquer outro lugar do mundo. Nicholas esperou ouvir os passos de Owen descendo a escada com Beatrice, porém esta desceu sozinha.

— Disse a Owen para ficar brincado lá em cima e tomar conta do avô — explicou. — Papai está sentado e bem melhor. Vou levar-lhe uma bandeja com o café da manhã, e descerei em seguida.

Dessa vez desapareceu apenas por alguns minutos, antes de retornar. Quando ressurgiu, trazia uma bolsa de linho branco. Tinha o rosto cansado à luz forte da manhã, e de novo Nicholas sentiu um estranho desejo de protegê-la contra tudo e todos, aninhando-a nos braços como se fosse uma menina perdida.

Beatrice era sozinha para tomar conta de um senhor doente e de uma criança pequena. E agora queria cuidar de sua antiga ferida também. Nicholas lutou para se levantar-se, determinado a não parecer um inválido.

— Se está tudo bem por aqui — disse, à guisa de despedida -, vou embora e voltarei para ver Owen mais tarde.

Beatrice lançou-lhe um de seus olhares observadores, que tudo diziam.

— Não vai a lugar algum antes que eu veja essa ferida. Agora que conseguiu tornar suas visitas o fato mais importante da vida de Owen, não quero que caia morto a qualquer momento.

O tom era frio, mas as palavras encheram de calor o coração de Nicholas. Manteve uma expressão neutra e respondeu:

— Como quiser, senhora.

Beatrice voltou a falar, sempre com aparente frieza:

— Consegue andar?

Nicholas acenou que sim.

— Então, siga-me.

Ela o conduziu pelo salão principal da taverna, passando pela copa, até o quarto nos fundos onde Phillip dormira antes que se mudasse para o quarto principal no segundo andar.

— Deite-se aqui — disse, indicando a cama que ocupava quase todo o pequeno aposento.

Nicholas sentiu-se pouco à vontade, percebendo que, ao mostrar o ferimento para Beatrice, criaria muita intimidade. Em geral, só tinha muita aproximação com uma moça quando seus propósito eram bem diferentes de um relacionamento entre paciente e enfermeira.

Porém Beatrice não parecia nem um pouco constrangida, enquanto Nicholas sentava-se na cama e olhava-a de modo incerto.

— Vou pegar uma banqueta.

Assim dizendo, Beatrice colocou a bolsa de linho na beirada da cama e deixou o quarto, voltando a seguir com um tamborete de madeira que colocou junto ao leito. Nicholas mal se movia.

— Sou uma enfermeira e não uma bruxa, mestre Hendry — explicou. — Não posso cuidar de sua ferida se não a vir.

— Não é uma visão agradável.

— Ferimentos infeccionados em geral não são bonitos de se olhar, não pretendo me divertir.

Apesar do tom de voz indiferente, Nicholas relutava em tirar a roupa na frente de Beatrice. Seus modos eram impessoais, como de qualquer enfermeira diante de um paciente, mas o rapaz tinha absoluta certeza de que ela se lembrava com muita nitidez do dia anterior e dos beijos que haviam trocado.

Por fim, após uma longa batalha interna, Nicholas deitou-se na cama e, de modo desajeitado, tirou a calça de lã e o calção que usava por baixo da túnica e do manto, deitando o corpo exposto da cintura para baixo. Arrumou a túnica longa a fim de cobrir as partes íntimas, porém o olhar de Beatrice estava pousado sobre o corte vermelho e inchado que se estendia por toda a coxa. Ao terminar logo acima do joelho, a ferida estava aberta. Um filete de sangue começava a descer pela perna.

Beatrice reteve a respiração.

— Há quanto tempo está assim?

Nicholas deu de ombros.

— Há meses. Parece fechar, e de repente algo acontece e começa a supurar de novo. A última vez foi em Durleigh.

Parou de falar. Não valeria a pena contar para Beatrice sobre a viúva que o fizera se retardar em Durleigh depois da volta da Terra Santa, embora houvesse ficado apenas porque a mulher fora muito insistente.

— Bem, está aberta de novo. O sangue é recente.

Assim dizendo, Beatrice procurou dentro da bolsa e retirou um rolo de linho. Pegando um pedaço, limpou o sangue da parte inferior da perna, e depois pressionou-o de modo delicado sobre a ferida. Nicholas fez um careta de dor.

— O empregado do barão foi responsável por fazer a ferida abrir de novo — continuou Beatrice, pressionando a mão macia sobre a coxa de Nicholas onde a ferida estava fechada, porém inchada e de cor vermelho púrpura. — Vai se abrir com facilidade outra vez.

Nicholas ficou de boca aberta.

— Abrir?

— Sim. Está muito infeccionada. Precisamos drená-la e aplicar emplastros de manjerona. Isso fará com que, de agora em diante, o processo de cicatrização continue, e o ferimento feche para sempre.

A idéia de alguém, de modo deliberado, abrir a ferida contra a qual lutava havia tempos, fez com que Nicholas de súbito desejasse virar-se de lado na cama e despejar para fora o café da manhã que tomara, porém, como não queria fazer papel de covarde, replicou com humildade:

— Tem certeza de que sabe o que está fazendo?

Beatrice acenou que sim, mal prestando atenção no rosto pálido do rapaz, e começou a preparar-se para a tarefa. Tirou uma pequena faca de osso da bolsa e cortou várias outras tiras de linho. Então, enquanto Nicholas desviava o olhar, principiou a abrir e limpar a ferida.

O tratamento era doloroso, mas suas mãos eram tão hábeis e delicadas, e fazia o trabalho com tanta rapidez e segurança, que todo o processo não levou mais do que poucos minutos para surpresa de Nicholas, que enfrentou um sofrimento físico bastante suportável.

— Faremos outro curativo amanhã pela manhã — anunciou Beatrice. — E depois de amanhã também. Após isso, a perna deverá ficar bem enfaixada por uma semana. Se tivermos sorte, quando tirarmos as bandagens, o vermelhão terá desaparecido, e por fim a ferida começará a fechar de modo correto. Enquanto isso, fique em repouso o máximo que puder. Acrescentei ervas ao curativo que aliviarão a dor.

Nicholas balançou a cabeça, abismado.

— O único enfermeiro que tive foi meu companheiro Bernard que me ajudou logo após ter sido ferido. Quando terminou de me medicar, eu havia desmaiado de dor.

— As mulheres suportam melhor a dor que os homens — explicou Beatrice, arrumando seu material de enfermagem.

Nicholas lutou contra o aborrecimento. Ela o tinha tratado como a um bebê, mas tinha que reconhecer que a perna já estava melhor, e sentia-se muito agradecido por isso. Também estava consciente de continuar semidespido na presença da jovem.

Estou em débito com você, Beatrice.

— Sim — concordou a filha do taberneiro, para surpresa de Nicholas.

Beatrice levantou-se, segurando a banqueta é a bolsa.

— Vista-se agora, mas tome cuidado para não mexer no curativo. Deve voltar amanhã para trocá-lo.

Assim dizendo, fez menção de sair do quarto.

— Espere — pediu Nicholas, sentando-se na cama. Quando Beatrice obedeceu, perguntou com seu belo sorriso:

— Como gostaria que pagasse minha dívida, senhora?

— Ainda não decidi — respondeu ela sem pestanejar.

E saiu do quarto.

 

Phillip falou com a voz cheia de preocupação:

— Creio que deve ir com Owen para York.

Depois da saída de Nicholas, Beatrice ajudara o pai a descer a escada, mas insistira para que ficasse sentado sem se mexer, enquanto limpava toda a taverna.

Havia pouco a fazer, pois recebiam apenas alguns fregueses, desde a feira de São João. A taverna sempre fora o sonho de Phillip Thibault, mas com poucos viajantes para passar a noite ali, o Javali Dourado servia mais como um ponto de compra da cerveja que a família fabricava. Quando a demanda caía, a taverna tinha prejuízo.

Beatrice imaginava se o pai também se preocupava com o pagamento dos aluguéis que venceriam no mês seguinte.

— Não vou deixá-lo sozinho tomando conta da taverna, meu pai — redargüiu com firmeza. — Não vou fugir só por causa do empregado de um nobre.

— Se não quer pensar em si mesma, que tal pensar em Owen? — argumentou Phillip. — Disse que aquele homem falou muito da criança. Sem dúvida quer dizer que o barão Hawse sabe a respeito da paternidade de Nicholas Hendry.

Beatrice recolocou a vassoura no lugar, perto da chaminé, e voltou-se para o pai.

— Owen não tem nada a ver com as sem-vergonhices dos nobres. Ele é nosso, seu e meu.

— É filho de Nicholas Hendry, e jamais poderemos esquecer isso.

Beatrice caminhou até o pai e beijou-lhe a face. A doença de Phillip parecia obedecer a ciclos, e esperava que agora entrasse em uma fase boa que durasse muito tempo. Apesar de todo seu talento para curar, pouco pudera fazer para ajudar o pai, porém seus instintos diziam-lhe que Phillip ficaria mais saudável por mais tempo se pudesse continuar vivendo em Hendry, administrando seu negócio no Javali Dourado. Se o levasse embora para viver em um quarto apertado na cidade, o declínio seria certo e rápido.

— Já não tenho tanto medo da filiação nobre de Owen como tinha antes. Acho que posso lidar com Nicholas Hendry, meu pai.

Phillip sorriu.

— Existem poucas coisas com as quais não pode lidar, Beatrice, mas mesmo você não pode mudar as regras sob as quais vivemos, e essas regras dizem que os ricos em geral obtém o que desejam.

— Sim, mas quando dois ricos querem a mesma coisa, precisam resolver o problema entre si. Esse tal de barão Hawse e os Hendry podem lutar pelas terras e nos deixar em paz.

Não dando tempo para réplicas, Beatrice desapareceu na copa, enquanto Phillip murmurava para si mesmo:

— Sim, deixe-os lutar, contanto que nem minha filha nem meu neto fiquem na linha de fogo.

 

Nicholas parou apenas para informar à mãe sobre onde iria, antes de galopar para o castelo Hawse. Lady

Constance fez tudo que podia para persuadi-lo a deixar a poeira assentar até o rompante de raiva passar e até que a perna ficasse melhor, antes de confrontar-se com o barão, mas seus rogos foram em vão.

— Beatrice me contou que Leon perguntou de modo específico sobre Owen, minha mãe — explicara Nicholas. — Pretendo descobrir o porquê do barão estar interessado em meu filho.

Já galopara muito, mas a perna comportava-se de modo excelente, graças aos cuidados de Beatrice. Valera a pena o embaraço momentâneo que sentira. Um sorriso aflorou aos lábios de Nicholas ao lembrar-se como ela fora mandona, como se o paciente não passasse de uma criança mimada.

Mas o sorriso desapareceu quando galopou ao redor do fosso seco que contornava o castelo Hawse, e atravessava os portões para chegar ao pátio interno. Vários homens armados vieram saudá-lo, com cortesia mas cautelosos. Quando pediu para ser levado à presença do barão, um capitão, que Nicholas já conhecia da visita anterior, deu um passo à frente, perguntando com delicadeza:

— O barão o aguarda, sir Nicholas?

— Não. Nem tampouco ficará feliz em me ver, creio. Entretanto, temos negócios a discutir.

O capitão ficou olhando para o visitante como se debatesse consigo mesmo se o deixava entrar ou não, quando Winifred surgiu do castelo e correu pelo pátio em direção ao grupo.

— Nicholas! — gritou. — Que gentil vir nos visitar. Estou tão contente em vê-lo!

Ao contrário da primeira visita que fizera, Nicholas sentiu que havia muita sinceridade na voz da moça.

Nicholas arriou do cavalo e ficou segurando Scarab pelas rédeas, enquanto Winifred encostava o rosto no focinho do animal, dizendo:

— Não fique com ciúme, Scarab. Também estou feliz por vê-lo.

O cavalo ficou quieto parecendo contente com a atenção. Nicholas observou:

— Você o conquistou, Winifred.

A jovem ergueu o olhar com um sorriso radioso que a tornava muito diferente da menina envergonhada e submissa de sempre.

— Sim, ele me conquistou também. Tem um espírito nobre — acrescentou, afagando o flanco do animal.

Como a coragem de Scarab o salvara da morte diversas vezes, Nicholas concordou de bom grado. Entretanto, embora gostasse de ficar conversando com Winifred, tinha um assunto desagradável a tratar.

— Preciso ver seu pai, minha cara. Pode tomar conta de Scarab enquanto faço isso?

Winifred concordou com um aceno de cabeça e conduziu o cavalo para longe, enquanto o mestre de armas, que ficara pacientemente no aguardo, observando Nicholas conversar com Winifred, conduziu-o para os aposentos do barão. Era claro que o homem percebera que se a filha do amo recebia Nicholas com tanta consideração, não seria ele quem o questionaria.

O barão Hawse estava sentado a uma mesa, observando alguns papéis. Ergueu o olhar quando Nicholas entrou. O capitão seguia, dois passos atrás, e fez uma ligeira mesura.

— Sir Nicholas pediu uma audiência, senhor.

Falou de modo rápido, como se temesse ser castigado pela interrupção. O barão sorriu contente, e fez um aceno para que o capitão se retirasse, dizendo a Nicholas, assim que ficaram a sós:

— Boa tarde, meu jovem. Que surpresa!

— Duvido de que seja, barão. Deveria estar a minha espera depois de ter enviado seu criado para espionar a respeito de meu filho.

— Seu filho bastardo, quer dizer — emendou Hawse com voz melíflua. — Existe uma diferença. As notícias correm com a velocidade de um raio.

— Não — rebateu Nicholas com firmeza. — O menino é meu filho, e apenas isso.

Hawse fez um gesto de cabeça como se concordasse.

— Que assim seja. Entretanto, poderá ter um certo trabalho para convencer sua esposa a respeito desse fato, quando resolver se casar, coisa que precisará fazer, mais cedo ou mais tarde, pois de que outro modo um cavaleiro sem terras consegue fortuna? Por sorte é um rapaz bem-dotado e poderá encontrar alguma viúva rica que o deseje como marido.

Tendo aprendido com a lição de Leon pela manhã, Nicholas estava determinado a controlar a raiva.

— Há pouco tempo me ofereceu sua filha em casamento, barão.

— Sim, foi uma atitude tola de minha parte. Não o culpo por não desejar a pobre garota, não tem vivacidade e só estaria à vontade em um convento, creio.

— Sua filha é uma moça maravilhosa e demonstra muita inteligência e espírito quando não é sufocada pelo poder do pai.

Antes de terminar de falar, Nicholas já se arrependera.

O barão limitou-se a sorrir, mostrando os dentes amarelados até às gengivas.

— Penso que não veio até aqui para dizer que aceita a oferta que lhe fiz, Nicholas, pois mudei de idéia. Pensei em ser generoso por causa de sua mãe, mas já que continua a me fazer oposição, decidi manter Hendry para mim mesmo. Tanto eu quanto você ficaremos felizes se for procurar fortuna longe daqui.

— Então devo entender que não pretende ser razoável sobre os desígnios de meu pai em seu leito de morte?

O barão pareceu enrijecer o corpo ante aquelas palavras, mas relaxou enquanto Nicholas continuava.

— Ele lhe deu as terras e bens porque pensava que o filho estivesse morto.

Hawse deu de ombros.

— Arthur o fez de livre e espontânea vontade, Nicholas. Como já lhe disse, com freqüência seu pai externava dúvidas a seu respeito, Então, por que não pensar que não teria feito a mesma coisa mesmo se soubesse que você continuava vivo?

Apesar do antagonismo entre ambos, Nicholas tinha certeza de que seu pai jamais o deserdaria, mas não valia a pena discutir o caso com o barão, quando não possuía provas concretas sobre o estado mental de Arthur Hendry em seus últimos dias de vida.

As paredes da sala pareciam úmidas e claustrofóbicas. Desejava sair do castelo Hawse e das vistas do sorriso falso do barão.

— Percebo que nunca chegaremos a um acordo sobre este problema — disse Nicholas. — Portanto, pretendo levar o caso ao rei.

Gilbert Hawse pareceu surpreso, e perguntou com suavidade:

— Agora?

— Sim. Dizem que é um homem justo, apesar de seus defeitos.

Hawse riu.

— Pode levar o caso ao Papa, pouco me importa,

Hendry. De nada adiantará. Tenho em minhas mãos os papéis que seu pai assinou, e uma testemunha acima de qualquer suspeita para provar que sou o legítimo proprietário da fortuna de Arthur Hendry.

Nicholas endireitou-se.

— E quem seria essa testemunha?

— Ora! Lady Constance, meu rapaz. Sua própria mãe!

Nicholas sentiu um gosto amargo na boca. O barão teria a coragem de chamar sua mãe para depor contra ele? A idéia fez seu sangue gelar nas veias, mas estava determinado a não demonstrar medo diante do barão sobre a eventualidade de algo assim suceder.

— Dependerá de minha mãe decidir o que declarar e quando, mas esse assunto será resolvido. — Assim dizendo, Nicholas deu um passo em direção à mesa e inclinou-se sobre ela, aproximando o rosto do barão. — Entrementes, ouça bem o que vou dizer: se o senhor ou qualquer um de seus criados chegar perto de meu filho ou de sua família materna outra vez, vão sé entender comigo.

Então, sem se despedir, voltou-se e saiu da sala.

 

— Já está muito melhor! — exclamou Beatrice com inegável satisfação. — Vê como o vermelhão quase desapareceu?

Nicholas agarrou-se à beirada da cama, a fim de não gemer quando ela mexesse na ferida, dizendo entre os dentes:

— É bondade sua ficar tão preocupada com minha saúde.

Beatrice ergueu o olhar da ferida.

— Apenas o orgulho normal de uma enfermeira ao ver que o tratamento está dando resultado.

Havia um brilho malicioso no olhar, apesar das palavras serem formais.

Nicholas resolveu entrar no jogo.

— Então, não importa a quem esteja tratando?

Beatrice voltou a dar atenção à ferida.

— Não importa mesmo.

O         tom de pouco-caso foi um tanto forçado. Nicholas persistiu:

— E faz diferença se a pele tratada for de homem ou de mulher?

Beatrice calcou os dedos na ferida de propósito, fazendo-o gemer ante a dor súbita.

— Não para uma enfermeira de verdade — replicou com frieza. — Agora fique quieto, senão perco a concentração e posso voltar a machucá-lo.

Nicholas obedeceu enquanto Beatrice terminava o novo curativo, do mesmo modo que fizera no dia anterior.

— Pronto! — anunciou por fim. — Talvez agora possamos deixar o curativo por dois dias seguidos.

— Agradeço de coração, Beatrice. Foi algo maravilhoso acordar hoje pela manhã quase sem sentir dor.

— Em breve a dor desaparecerá de todo. Se a ferida houvesse sido tratada desde o início, já estaria fechada.

— Não é fácil cuidar de um ferimento no campo de batalha.

Algo na voz de Nicholas fez Beatrice erguer o olhar de modo abrupto. O rapaz tinha uma expressão perdida no rosto, como se estivesse muito longe, envolto nas lembranças terríveis de terras distantes.

— Deve ter sido uma experiência horrível.. Você e seus companheiros foram muito corajosos.

— Não. Apenas tivemos sorte.

Nicholas fitou Beatrice. As recordações haviam posto um brilho intenso em seus olhos, e a moça sentiu-se arrastada para dentro daquela incandescência escura, e agarrou o banquinho onde sentava, para não cair.

Estava acontecendo de novo, pensou, com uma espécie de pânico. Do mesmo modo que ocorrera no barracão. Agora se sentava perto dele... e Nicholas estava semidespido.

Mentira ao responder que cuidar de uma mulher seria exatamente igual. A cada segundo sentia-se muito consciente das pernas esticadas de Nicholas, a sua frente, do corpo forte e musculoso à mercê de suas mãos. Afastou o rosto do olhar observador e começou a arrumar o material de enfermagem.

Nicholas comentou:

— É preciso mais coragem para enfrentar as adversidades diárias da vida.

O olhar de Beatrice permaneceu indiferente, já se esquecera da história das Cruzadas. Mas Nicholas continuou:

— Veja o caso aqui.

— Sim — respondeu ela de modo vago.

Precisava sair do quarto abafado antes que fizesse papel de boba. Seu pai dormia no andar superior, e Owen estava de novo com os Fletcher. Ela e Nicholas estavam sozinhos e, de súbito, Beatrice temeu pelo que poderia acontecer.

— Então, terminamos — disse afinal, levantando-se sem encará-lo. — Vou sair para que possa vestir-se e voltaremos a fazer o curativo daqui a dois dias.

Voltou-se para ir embora, mas Nicholas agarrou-lhe a mão, colocando os pés no chão.

— Não vá ainda. Não agradeci de modo correto.

Beatrice encarou-o, esperando pelo que viria.

— Fique mais um pouco. Por Deus que quando olho para seus olhos azuis percebo que um homem pode curar-se apenas admirando sua beleza, sem necessidade de ervas medicinais.

Assim dizendo, Nicholas puxou-a, fazendo Beatrice sentar-se na cama a seu lado.

Aquele cumprimento exagerado fez com que a moça voltasse a pensar no antigo Nicholas Hendry, e isso a ajudou a manter o autocontrole.

— Tenho trabalho a fazer, mestre Hendry — disse com frieza. — Além disso, está semidespido e não fica bem permanecermos aqui sentados, já que terminei o curativo.

Nicholas inclinou a cabeça para o lado.

— Então, a severa enfermeira Thibault foi embora e aqui está apenas a bela Beatrice, sentada a meu lado?

O comentário foi acompanhado por um sorriso tão encantador que Beatrice sentiu-se forçada a sorrir também.

— Pensei que estivesse agradecido à enfermeira Thibault.

— E estou. Mas às vezes ela parece um general, não acha?

Nicholas não soltara a mão de Beatrice, e começou a fazer círculos com o polegar na palma úmida. Beatrice desvencilhou-se, respondendo:

— Talvez ela seja assim com pacientes difíceis. Nicholas deixou-a livrar as mãos, mas inclinou-se em sua direção.

— A última coisa que este paciente deseja é ser difícil.

O tom de brincadeira fora substituído por uma rouquidão que denotava sinceridade.

Beatrice afastou-se um pouco, a fim de encará-lo nos olhos.

— Não é um doente difícil, mestre Hendry, mas me deixa pouco à vontade. — Olhou em volta do quarto. — Isto me deixa embaraçada... estar aqui sozinha com você.

Nicholas permaneceu em silêncio por algum tempo.

— Também me sinto estranho, minha cara, mas apenas porque me recordo da sensação de ter beijado seus lábios de coral.

As palavras pareciam carícias no corpo de Beatrice. Sem pensar, inclinou a cabeça para trás, e sentiu as mãos de Nicholas em seus cabelos, a boca ansiosa a sua procura.

Beijou-a com delicadeza, acariciando-lhe os lábios com a língua. Era uma sensação maravilhosa, e Beatrice gemeu de leve, rendendo-se à carícia, enquanto Nicholas continuava a beijá-la com a leveza de uma pluma, fazendo o sangue lhe ferver nas veias.

— Beatrice — murmurou, deixando cair às mãos.

Os olhos de Nicholas eram dois lagos negros, e de novo ela teve a sensação de que poderia se afogar neles.

A bolsa de linho branco contendo os apetrechos de enfermagem caiu no chão. Nicholas encostou-se na cabeceira da cama, a cabeça de encontro à parede, e puxou Beatrice para seus braços. Ela o ouviu gemer de leve, quando o corpo macio encostou-se na perna ferida, mas Nicholas a ergueu, colocando-a do outro lado da cama, de modo que só tocasse na perna sadia. De modo vago, a jovem lembrou que Nicholas estava quase despido, embora não conseguisse raciocinar com clareza.

Os beijos recomeçaram. Beatrice estava reclinada, e sentiu a pressão do corpo viril e musculoso sobre o seu. Nicholas passou um braço para amparar-lhe a cabeça, enquanto com a mão livre, iniciava uma exploração sensual no corpo de Beatrice. Primeiro percorreu-lhe a linha do queixo com os dedos, depois a curva do pescoço macio, depois deslizou até o bico de um dos seios rijos. Mesmo sob o tecido da roupa, ela sentiu o mamilo intumescer ante a carícia.

Os lábios de Nicholas também percorriam-lhe os olhos fechados e a ponta do nariz delicado. Sorria agora, o mesmo sorriso encantador de dentes brancos e lábios carnudos, enquanto um brilho cálido surgia no olhar escuro e turvo de desejo. Os cabelos negros de Nicholas estavam em desalinho.

Tendo crescido junto às freiras, depois partido para cuidar do pai e de Owen, Beatrice jamais tivera oportunidade nem pensara naquele tipo de relacionamento entre um homem e uma mulher. As sensações que experimentava eram novidade. Sentia os membros pesados, como se houvesse bebido demais, e principiava a sentir uma estranha e deliciosa pressão nas partes mais íntimas do corpo.

No fundo da mente, sabia que se permitisse que aquilo continuasse, estaria cometendo uma loucura, mas o corpo recusava-se a reagir, e a boca não pronunciava nem uma palavra de recusa.

Ao contrário, suas próprias mãos começaram a acariciar também o corpo de Nicholas. Já tocara muitas pessoas, tanto homens quanto mulheres, mas apenas com propósito de curá-las. Aquilo era diferente.

Passou os dedos pelo queixo áspero, e Nicholas presenteou-a com um novo sorriso e um beijo. Enquanto ele continuava a excitá-la com o calor de seus lábios, Beatice deslizou as mãos por debaixo da túnica, segurando-lhe as costas. Podia sentir a rigidez do físico atlético, e imaginou como seria vê-lo sem roupa alguma.

De repente, Beatrice baixou o olhar. As vestes de Nicholas tinham sido levantadas, fazendo-o surgir despido, da cintura para baixo, e revelando sua masculinidade em flagrante excitação. Desviou os olhos depressa a princípio, mas logo sentiu-se inclinada a olhar de novo, de modo irresistível.

Em um gesto quase inconsciente, deslizou as mãos das costas de Nicholas e tocou-o no ponto viril, sentindo a pele quente e aveludada.

Nicholas gemeu. Por um instante, Beatrice pensou ter machucado a perna ferida, mas logo percebeu que fora uma reação provocada pelo prazer. Nicholas atirara a cabeça para trás, e tinha os olhos fechados, fazendo-a sentir-se, de maneira um tanto estranha, muito poderosa.

Repleta de paixão, Beatrice continuou a acariciá-lo, percebendo quanto aqueles gestos excitavam Nicholas. Sorriu, encantada com as reações que provocava.

Nicholas entreabriu os olhos, e, com um gesto súbito, segurou-a pelos punhos, fazendo-a deitar-se na cama. Voltaram a se beijar, dessa vez de modo violento e apaixonado, sem a delicadeza do início. Beatrice esqueceu-se de tudo, a não ser da sensação maravilhosa dos lábios de Nicholas sobre os seus, seu corpo parecendo dissolver-se na cama, como uma massa quente.

— Querida — murmurou Nicholas.

Já não distinguiam um corpo do outro, — fundindo-se no desespero da sensualidade.

Entretanto, da mesma maneira como começara, de repente Nicholas afastou-se, fazendo Beatrice pouco a pouco retornar à realidade, olhando para as paredes brancas do pequeno quarto, e percebendo o silêncio ao redor. Voltando a sentir a brisa fria da manhã nas faces acaloradas, sentou-se na cama e encarou Nicho-las que lhe dera as costas.

— Machuquei sua perna?

Nicholas balançou a cabeça em gesto negativo, sem nada dizer.

Beatrice continuou sentada, em um silêncio surpreso. Por fim, Nicholas voltou-se para ela, e tomou-lhe as mãos, dizendo:

— Perdoe-me, Beatrice. Não pretendia que as coisas fossem tão longe. Não sou mais o mesmo homem que deixou a Inglaterra há tantos anos. — Parecia lutar a fim de encontrar as palavras certas, e por fim concluiu: — Acabei com os dias de namoricos fúteis.

“Namoricos fúteis”? Beatrice repetiu as palavras mentalmente, enquanto a surpresa se transformava em sofrimento e mágoa.

Nicholas percebeu que não soubera expor seus sentimentos com clareza, mas pouco fez para consertar o mal-entendido, continuando:

— Jamais deveria ter começado esta cena, em especial com você.

Beatrice juntou as mãos sobre o regaço, tentando não tremer e demonstrar sua fraqueza. Nicholas dissera: “em especial com você”. Sim, era a irmã de Flora. Como não percebera antes? Nicholas ainda amava a mãe de Owen, mesmo estando morta.

Engoliu em seco, sentindo-se angustiada e, com o pouco de dignidade que lhe restava, deslizou sobre a cama e levantou-se.

— Vista-se — ordenou a Nicholas, sem ousar encará-lo de novo. — O curativo que fiz pode muito bem durar por uma semana, portanto prefiro que não nos visite até lá.

Sentindo-se tonta, enjoada, e com as pernas fracas, saiu do quarto com muito cuidado.

 

Apesar de ter sido ela mesma a pedir que Nicholas não retornasse por uma semana, Beatrice passou o dia seguinte esperando por sua vinda. Sentia uma enorme necessidade de conversar com o rapaz. Não fazia sentido Nicholas Hendry ter-lhe inspirado todos aqueles sentimentos e sensações de sensualidade, desejo e paixão, se o tempo todo pensava em sua irmã morta. Entretanto, ele não aparecia, e ao final da tarde, Beatrice sentia-se frustrada e infeliz.

De novo seu pai estava fraco. Sentia-se horrorizada com a possibilidade de Phillip desejar se apagar como uma vela porque achava que era sua presença que obrigava Beatrice e Owen a ficar em Hendry.

Beatrice argumentou:

— Quero criar Owen aqui, meu pai. Gostaria de fazê-lo com você, mas sendo isso possível ou não, este é seu lar e meu também.

Phillip olhou para a linda filha com expressão triste.

— Agora que atraiu a atenção dos nobres, será mais seguro ir para longe deste lugar. Você e o menino poderão começar uma nova vida em York, minha filha. Sua tia a ajudará.

Beatrice lembrou-se daquelas palavras no momento em que ergueu o olhar das velas que fazia, e deparou com a figura corpulenta do barão Hawse que ocupava toda a moldura da porta. Levantou-se de um salto, enxugou as mãos no avental de couro e esperou que o nobre falasse. Talvez o barão houvesse parado no Javali Dourado para tomar um pouco de cerveja, mas a hipótese era pouco provável.

O         barão Hawse entrou na sala, olhando em volta como fizera Leon, seu criado, na visita anterior. Por fim, fixou o olhar sobre Beatrice.

— Bom dia, srta. Thibault. Os negócios são fracos no meio da semana, não é verdade?

— São fracos em qualquer época, senhor barão. O Javali Dourado não é como as tavernas das grandes cidades, nem está em construído em uma estrada muito freqüentada.

— Não chove em sua horta, verdade? Então, do que vivem? Você, seu pai e aquele menino?

Beatrice achou que ele tinha direito a fazer aquelas perguntas, se era verdade que as terras dos Hendry tinham-lhe sido doadas, mas sentiu-se desconfortável, tendo de suportar tal interrogatório.

— Vamos nos arranjando como podemos. Meu pai sempre foi o cervejeiro de Hendry e ainda é.

— Bem, então, quem sabe, eu possa provar um pouco dessa célebre cerveja?

Assim falando, o barão dirigiu-se para uma das mesas de cavalete e sentou-se, atirando o volumoso manto por cima dos ombros. Ao ver que Beatrice não se movia, ordenou:

— O que está esperando, menina? Traga-me cerveja! Como se acordasse de um sonho, Beatrice estremeceu, e dirigiu-se à copa, a fim de pegar uma jarra com cerveja, trazendo-a à mesa onde se encontrava o barão que a observava sem descanso, enquanto se movia de um lado para o outro.

— Com garçonetes como você, é surpreendente que os homens do vilarejo não venham aqui sempre.

As palavras eram um elogio bastante decente, entretanto Beatrice sentiu-se ofendida, como se houvesse levado uma bofetada. Colocou a jarra em frente do barão, e voltou-se para sair.

— Fique, senhorita — pediu o nobre. — Para ser sincero, não vim por causa da cerveja do Javali Dourado, mas para ter uma conversa consigo.

— Meu pai é o proprietário e não eu.

— Ouvi dizer que seu pai não está muito bem nos últimos tempos, e é você quem dirige tudo por aqui. Phillip está ficando entrevado, não é mesmo?

Beatrice não tinha a menor intenção de discutir a condição de saúde do pai com o barão Hawse, e respondeu:

— Vai indo bem.

— Então, onde está ele?

Beatrice suspirou. Não podia perder a calma e ser rude com um homem tão importante, mas desejou poder apenas lhe dar as costas e ir embora.

— Meu pai está lá em cima, ocupado com outros afazeres.

O barão aquiesceu com um gesto de cabeça, embora desse a entender que conhecia muito bem a situação de Phillip.

— E o menino?

Beatrice começou a sentir o mesmo calafrio na espinha que experimentara na presença de Leon. Parecia que seu pai tinha absoluta razão. O barão sem dúvida tinha um interesse muito especial em Owen.

— Está em visita a amigos — respondeu. — Assim tenho a tarde livre para fazer algumas tarefas, barão, portanto, se o senhor puder me dar licença...

Hawse ergueu uma mão com ar de comando, impedindo-a de continuar falando.

— Resumindo, seu futuro não é dos mais radiosos, srta. Thibault. Meu empregado me disse que se queixou de que os aluguéis são muito altos.

As palavras fizeram Beatrice calar-se. Talvez estivesse julgando mal o barão devido à experiência desagradável com o empregado. Seria possível que estivesse preocupado com seu bem-estar como arrendatária das terras?

Voltou a aproximar-se da mesa onde o nobre estava sentado, e respondeu com honestidade:

— Sim, barão Hawse, creio que quando os coletores de impostos souberam que este estabelecimento era uma taverna, imaginaram que meu pai estaria ganhando muito dinheiro, mas, como o senhor pode ver com seus próprios olhos... — Fez um gesto abrangendo o salão vazio — ...isso não corresponde à realidade. Meu pai pediu por uma redução, mas até agora não foi atendido.

O rosto do barão iluminou-se com um sorriso gentil.

— Parece que uma injustiça foi cometida.

As esperanças de Beatrice voltaram a crescer. Parecia, de verdade, que o barão Hawse simpatizava com seus problemas.

— Sim. Gostaríamos muito que seus homens revisassem a contabilidade de meu pai.

E então, palavras que há muito ansiava dizer para alguém com autoridade, começaram a jorrar de seus lábios.

— Não é que nos recusemos a pagar um aluguel justo. Tentei sugerir um plano no qual pagaríamos parte dos impostos com barris de cerveja. Isso nos aliviaria, e...

De novo o barão ergueu a mão em um gesto de comando, para que Beatrice cessasse com a torrente de palavras.

— Minha cara, não estou interessado em sua cerveja, nem em qualquer soma ridícula que este lugar pague em impostos.

Beatrice pareceu confusa.

— Não veio aqui hoje para discutir os impostos e o aluguel?

— Não. Vim falar sobre você, srta. Thibault, e sobre sua família.

A insegurança voltou com força, e Beatrice disse em um fio de voz:

— Não compreendo...

— Gostaria de libertá-la deste lugar. Como você mesma disse, não é um negócio lucrativo.

Beatrice franziu o cenho.

— Concordo, mas é nosso lar e ambiente.

— Sim, de fato.

Assim dizendo, pela primeira vez o barão ergueu a caneca com cerveja até os lábios, fazendo uma ligeira careta, como se a bebida não estivesse a seu gosto. Recolocou a caneca sobre a mesa, afastando-a para um lado. Beatrice percebia que aqueles leves insultos eram deliberados e calculados.

Com os membros enrijecidos e os punhos cerrados, falou entre os dentes:

— Achamos tudo aqui satisfatório, meu senhor.

O barão ergueu o olhar de modo súbito, e a encarou.

— Desejo fazer uma proposta. Sente-se, menina. Estou cansado de torcer o pescoço para olhá-la.

Zangada com o insistente tom de comando do nobre, e preocupada com o que tinha para ouvir, Beatrice sentou-se no banco em frente, perguntando:

— Que tipo de proposta?

O barão não tirava os olhos das bonitas feições de Beatrice, seus rostos estavam mais próximos, e daquela pequena distância, a jovem considerou Gilbert Hawse muito mais desagradável e perigoso do que antes.

— Chegou a meus ouvidos que o menino que mora com vocês é o filho bastardo de Nicholas Hendry.

— Owen é filho de minha irmã.

— Sim, cuja semente foi plantada por Nicholas, de acordo com as informações. Nega isso?

Não havia como, já que o próprio Nicholas fizera questão de propagar aos quatro ventos. Beatrice suspirou e respondeu:

— Não.

O barão fez um sinal satisfeito com a cabeça.

— Por motivos que não interessam a você, prefiro ver o menino longe daqui Imagino que gostaria de ir com ele.

— Irei para onde Owen for, mas...

— Estarei pronto a ajudá-la nessa mudança, estabelecendo-a em uma cidade em algum lugar, contanto que seja longe de Hendry. Isso a livraria de muitos problemas aqui.

Embora houvesse considerado aquela possibilidade durante toda a semana com seu pai, Beatrice sentiu a necessidade de revidar o sorriso estampado no rosto do barão.

— Não desejo sair de Hendry. Este é o lar de Owen e o meu também, e pretendemos ficar aqui.

O barão não moveu um músculo, continuando a sorrir.

— Não estou lhe oferecendo uma escolha, minha cara. Como o senhor das terras, poderei transformar sua vida em um verdadeiro inferno, de modo a obrigá-la a partir.

— Vai aumentar o aluguel ainda mais?

— Isso, ou... — Hawse trançou os dedos de modo lento, sobre a mesa. — Existem inúmeras maneiras. Os amos possuem direitos sobre os arrendatários, e tenho certeza de que sabe disso, querida.

Embora não houvesse esboçado um só movimento em sua direção, nem lançado o olhar lascivo de Leon, não deixou dúvidas de que as inúmeras maneiras as quais se referira tinham a ver de modo direto com ela mesma.

Beatrice afastou o banco e ergueu-se.

— Arrendatários e vassalos podem ter poucos direitos perante a lei, barão, mas eu e meu pai temos muitos amigos no vilarejo. Aconselho-o a pensar duas vezes antes de nos molestar.

A única evidência de raiva na expressão do barão Hawse foi uma veia que começou a saltar na têmpora. Sua resposta foi seca:

— Isso quer dizer que não aceita minha oferta de ajuda?

— Não estamos precisando de ajuda, já que não vamos sair daqui.

O barão levantou-se de modo lento, sempre com o sorriso estampado no rosto.

— Então, dou-lhe bom dia, srta. Thibault. Lamento não termos chegado a um acordo.

Beatrice ficou imóvel enquanto o barão voltava-se e saía da taverna. Não pagara pela cerveja, mas não pretendia chamá-lo de volta por isso. Pelo contrário, depois de vê-lo montar no cavalo e enveredar pela estrada, pegou a jarra quase cheia, foi até a porta, e despejou-a do lado de fora.

 

— Jamais pensei que esse dia chegaria — disse Harold Fletcher com um sorriso dirigido ao amigo de infância. — Foi sempre você o conquistador que despedaçava corações, Nick, e não o que era conquistado.

Nicholas não sorriu de volta.

— Ela não quebrou meu coração.

— Certo, mas o conquistou, o que é o primeiro passo para cortá-lo em pequenos pedaços, se bem conheço Beatrice. Não é a típica moça do vilarejo, Nicholas. E muito esperta para se deixar seduzir apenas por um sorriso cativante e palavras doces.

Nicholas não contara todos os detalhes de seu último encontro com a filha do cervejeiro. Não revelara que fora ele quem interrompera o interlúdio, e não Beatrice. Duvidava de que Harold acreditasse em tal história, conhecendo-o e sabendo como fora no passado.

Os dois amigos tinham subido as colinas ao norte de Hendry, onde costumavam ir caçar quando crianças.

O pai de Harold costumava dar-lhes flechas com a condição de que as devolvessem ao final do dia. Quando atingiam algum coelho ou perdiz, retiravam as flechas e as limpavam.

Naquele dia, a caçada era uma desculpa, embora carregassem arcos e cada qual levasse uma aljava com flechas sobre o ombro.

— A caça já não é legal nessas terras — alertara Harold ao deixarem o vilarejo. — Tudo pertence ao barão Gilbert Hawse.

— Pois deixe que me prenda — desafiou Nicholas. Entretanto, nenhum dos dois atirou naquela tarde, não se sentiam mais despreocupados e alegres como quando eram crianças.

— Não estou preocupado com meu coração, Harry, tuas sim com o de Beatrice e o de Owen. Ela tinha razão, naquele primeiro dia em que a vi. Causei de fato a morte de sua irmã, e deixei meu filho órfão durante todos estes anos.

Harold resmungou com pouco caso:

— E creio que também foi o causador de nossas perdas nas Cruzadas, meu amigo, já que se considera o bode expiatório do mundo.

Nicholas soltou um risada irônica.

— Não fiz tudo sozinho, tive alguma ajuda.

— Não é próprio de você fazer comentários tão sarcásticos, Nick. Se não soubesse que isso o aborrece, diria que está parecendo seu pai. Ele era uma pessoa bastante amarga.

Estavam sentados sob um grande carvalho, encostados no tronco colossal, olhando para a estrada lá embaixo.

— Ora, meu pai podia ter bom humor quando queria. Era apenas quando se referia ao filho que ficava aborrecido.

Harold não quis discutir o assunto, e após alguns momentos, perguntou:

— Revelou à Beatrice seus sentimentos?

Nicholas mexeu-se sobre a grama molhada.

— De certa forma, mas não tudo.

Harold balançou a cabeça, em desaprovação.

— Aí está seu erro. Isso foi algo que Jannet me ensinou muito bem. Precisa falar de maneira direta com as mulheres, senão de nada adianta. Todas as coisas que os homens acham melhor calar, as mulheres consideram muito importantes.

Nicholas riu.

— Então, transformou-se em um especialista na alma feminina?

— Não. Transformei-me em um marido.

Ambos voltaram as cabeças ao ouvirem o som de cascos de cavalo a distância. Podiam ver uma nuvem de poeira lá em baixo, na estrada, porém não distinguiam ainda o cavaleiro.

— É seu pesadelo, o barão — anunciou Harold após um instante.

Nicholas franziu o cenho. O barão vinha do lado do Javali Dourado, e isso o fez pensar em voz alta:

— Gostaria de saber por onde andou... sem dúvida esteve inspecionando suas terras malcuidadas. Vem de Hendry.

— Sim.

Aquela constatação fez Nicholas sentir um súbito mal-estar.

Harold perguntou:

— Saberá sobre Owen?

— Não é segredo para ninguém, e me encarreguei que assim fosse.

— Talvez tenha sido um erro divulgar com tanta liberdade, pelo menos antes de ter resolvido seus problemas com Hawse.

Talvez, mas está feito.      

Observaram em silêncio, enquanto o cavalo passava lá em baixo e rumava para oeste, em direção ao castelo de Hawse. Então, Harold disse:

— Pretende falar com Beatrice?

— E o que poderia dizer? Harold grunhiu de modo exasperado.

— Por todos os santos, Nick! Nunca precisou buscar por palavras em todos os anos que andou seduzindo mulheres atrás de cada árvore do condado e sobre o feno dos celeiros.

Nicholas parecia pensativo.

— Desta vez é diferente.

— Bem, então diga: “Beatrice...” — Harold fez uma pausa e recomeçou. — Não, apenas diga: “Beatrice querida, surgiu um sentimento em mim...” — Interrompeu-se e ficou de pé com um salto, pondo as mãos sobre o peito, e começando pela terceira vez: — Diga apenas: “Beatrice querida, não pode ter deixado de perceber que...”.

Nicholas também se ergueu de modo mais lento, e bateu no ombro do amigo.

— Obrigado de qualquer maneira, Harry. Talvez ainda me lembre do modo correto de falar com uma moça.

Harold deixou escapar um suspiro de alívio.

— Bem, é bom ouvir isso, Nick, pois creio que eu já me esqueci de como se fazem essas coisas.

 

Já era tarde. Phillip e Owen já tinham ido dormir havia várias horas, porém Beatrice continuava acordada, olhando para o fogo aceso no salão da taverna. Observou as velas que deixara inacabadas naquela tarde, e decidiu retomar o trabalho na manhã seguinte.

Não contara ao pai sobre a visita do barão Hawse, só iria aborrecê-lo. Resolvera ignorar as palavras ameaçadoras do nobre. Possuindo tantas propriedades e tendo tanto em que pensar, era difícil acreditar que fosse se importar com a vida da filha de um taberneiro e do filho ilegítimo de outro nobre.

Ficara aborrecido porque, com certeza, era um homem acostumado a ser obedecido nas mínimas exigências, porém Beatrice não acreditava que as ameaças fossem verdadeiras.

De qualquer modo, o incidente continuava a incomodá-la, não queria pôr a segurança de Owen em perigo. De certo modo, compreendia que teria sido mais sensato aceitar a oferta do barão, por certo o pai ficaria aliviado. As freiras em York sempre a haviam acusado de ser muito teimosa, e Beatrice achava que devia ser aquela característica que a fizera ser intransigente a respeito de deixar Hendry.

Bem, admitiu para si mesma com um suspiro, não fora somente sua teimosia, pois embora insistisse consigo mesma que ficava por causa da saúde do pai e felicidade de Owen, sabia haver outro motivo pelo qual relutava em partir, e era o mais absurdo de todos.

Uma acha de lenha estalou na lareira, assustando-a. As chamas dançavam como o brilho do olhar de Nicholas Hendry. Beatrice fechou os olhos, tentando afastar aquela visão perturbadora. Se tivesse um pouco de cérebro, teria aceitado a oferta de Hawse justamente para fugir de Nicholas.

O jovem deixara bem claro, no dia anterior, que não a queria, pelo menos não como desejara Flora. Entretanto, Beatrice não conseguia deixar de pensar nos doces momentos com Nicholas, na antiga cama do pai. Não conseguia afastar a memória dos beijos e das carícias que a tinham feito acordar para um mundo novo.

Então, de repente, como se o houvesse invocado através de um feitiço, Nicholas materializou-se a suas costas, a mão tocando-lhe os cabelos com gentileza. Beatrice deu um pulo, e teve que se segurar para não tropeçar na banqueta e cair no chão.

— Desculpe — apressou-se a dizer Nicholas. — Seus olhos estavam fechados e pensei que estivesse dormindo.

A mão firme segurou-a pelo ombro, e Beatrice viu que era de carne e osso, e não uma ilusão criada por sua mente. Ainda tonta, perguntou:

— O que faz aqui?

— É tarde, sei disso, mas preciso falar com você.

Moveu-se passando por Beatrice e postando-se do outro lado da lareira. Fez um gesto para outra banqueta, e perguntou:

— Posso me sentar a seu lado?

Ela aquiesceu. Já que não conseguira afastá-lo dos pensamentos, seria tolice mandá-lo embora de sua casa.

— Sobre o que deseja conversar?

Nicholas sentou-se, apoiando as mãos sobre os joelhos e observado o fogo, do mesmo modo como Beatrice estivera fazendo. Depois de um longo silêncio, disse:

— Vi o barão Hawse galopando da direção do Javali Dourado. Ele esteve aqui?

Beatrice fez o possível para esconder o desapontamento ante aquelas palavras. Nicholas viera por causa do barão, por certo estava apenas preocupado com o destino do filho. Fora uma idiota ao pensar que a visita era para ela. Respondeu com secura:

— Sim. Ofereceu-se para me ajudar a ir embora de Hendry.

— Ir embora? — repetiu Nicholas, parecendo muito confuso.

— Sim, ir para outro lugar. Com Owen e meu pai.

— Por que faria tal proposta?

— Para nos manter afastados de você, creio.

Nicholas estava abismado.

— Isso é absurdo! Não podem deixar Hendry! Owen é meu filho, e você... — Interrompeu-se. — E claro que essa idéia nem passou por sua cabeça?

— Na verdade, meu pai disse que se sentiria mais tranqüilo se deixássemos Hendry. Também acha que seria mais seguro para Owen.

Nicholas levantou-se e começou a caminhar de um lado para o outro do salão, na frente da lareira. O resto do aposento estava às escuras, pois Beatrice não se importara em iluminá-lo com velas.

— Não permitirei! — exclamou Nicholas. — Owen pertence a Hendry.

Beatrice teve um leve estremecimento ante o tom autoritário, mas não se sentia disposta a discutir um problema que ainda nem existia.

— Não disse que pretendia partir. Recusei a oferta de ajuda do barão.

Nicholas pareceu relaxar um pouco ante aquelas palavras, e voltou a sentar-se com um movimento pesado.

— O que o barão Hawse disse?

Beatrice deu de ombros.

— Não tem importância. Estava aborrecido. Creio que é um homem acostumado a ter todos seus desejos satisfeitos.

Nicholas lançou-lhe um olhar de admiração.

— Até se defrontar com a dona do Javali Dourado.

Beatrice deu um pálido sorriso, mas respondeu com firmeza:

— Farei o que for melhor para minha família. A admiração transformou-se em um olhar mais íntimo. Através do brilho das chamas na lareira, Beatrice sentiu como se Nicholas a houvesse tocado.

— Na realidade, não vim aqui falar sobre o barão — disse Nicholas.

O tom de voz rouco e emocionado a fez prender a respiração, e engolir em seco. Molhou os lábios.

— E sobre o que seria?

— Vim pedir-lhe desculpas.

— Por quê?

Nicholas voltou a se erguer e deu um passo adiante, aproximando o rosto de Beatrice.

— Por ser um grande idiota.

 

Harold o aconselhara a conversar com Beatrice usando de franqueza absoluta, mas agora que Nicholas via-se frente a frente com a mulher amada, não parecia algo adequado.

Ergueu-a do banco e abraçou-a. Primeiro a cobriria de beijos, pois sabia que, daquele modo, sua comunicação era quase perfeita.

Esperou que ela se opusesse, depois do modo abominável com que interrompera os momentos de paixão do dia anterior, mas Beatrice não se rebelou. O corpo delicado e macio moldou-se ao de Nicholas, como se nunca houvessem se separado.

— Querida — murmurou Nicholas, depois de beijá-la diversas vezes de modo carinhoso. — Não pensei em mais nada a não ser nisto, desde ontem. Quase não comi, não dormi...

— Nem eu — murmurou Beatrice.

Agora a mente de Nicholas estava mais clara e tranqüila do que no dia anterior, quando o corpo semidespido experimentara o toque inocente dos dedos de Beatrice, causando um torvelinho em seus sentidos. Dessa vez, estava determinado a ir devagar, embora, ante o contato do corpo da amada, já se sentisse de novo muito excitado.

— Foi errado o que fiz ontem — murmurou de encontro à face de Beatrice.

Parou de falar. Como poderia explicar o conflito de emoções que o fizera interromper as carícias de modo tão brusco no dia anterior, no pequeno quarto dos fundos? Escolheu bem as palavras e começou:

— Desde Flora...

Mas ao sentir que Beatrice enrijecia em seus braços, calou-se, engolindo uma maldição que lhe aflorava aos lábios. Não poderia ter encontrado pior momento do que aquele para mencionar o nome da irmã. Será que não tinha cérebro naquela cabeça estúpida?

Recomeçou:

— Jurei que, se um dia regressasse à Inglaterra, jamais voltaria a me aproveitar de uma donzela. Ontem, pareceu-me que iria quebrar o juramento, e voltei atrás.

Beatrice afastou-se um pouco dos braços que a prendiam, e encarou-o.

— Achou que estava se aproveitando de mim?

— Sim. Tenho mais experiência e sei que você já não iria resistir.

Beatrice sorriu.

— Não?

Nicholas retribuiu o sorriso, de modo incerto.

— Estava prestes a seduzi-la, menina.

— Talvez fosse eu quem o estivesse seduzindo, meu cavaleiro.

Em todas suas aventuras, desde que tivera catorze anos, tal idéia jamais ocorrera a Nicholas. Em um tom de voz um tanto ofendido, replicou:

— É sempre o homem que seduz.

— Acredita mesmo nisso? Mesmo depois de minha tática para fazê-lo tirar a roupa?

Nicholas sentiu o rosto em brasa. Precisava admitir que fora uma novidade ver-se deitado, semidespido, com uma mulher coberta até o pescoço pelas roupas. Estudou o rosto de Beatrice a fim de perceber se falava sério ou se o provocava. Ela sorria de modo demoníaco e irresistível.

Com a mente tão confusa, era melhor agir do que falar, decidiu Nicholas. Recomeçou a beijá-la, sentindo que Beatrice voltava a relaxar, moldando-se a ele com calor, e fazendo-o desejar tirar-lhe as roupas e sentir o contato macio de seu corpo.

— Seu pai e Owen estão dormindo?

Beatrice respondeu que sim, com um simples gesto de cabeça.

Então, ele a ergueu do chão, deixando-a surpresa com o gesto inesperado. Apesar de ser alta, Beatrice era uma pluma para os braços fortes e habituados às batalhas. A fim de assegurar-se de que teriam privacidade, Nicholas perguntou:

— Não há perigo de descerem?

— Não. — Beatrice o envolvera em seus braços, o olhar penetrante, embaçado e doce.

Nicholas sorriu.

— Então, você está a minha mercê?

Ela aquiesceu, feliz.

Nicholas voltou a carregá-la para o antigo quarto de Phillip, e encontrou a cama envolta na escuridão.

— Desejo vê-la, querida. Cada centímetro de seu corpo — sussurrou, acomodando-a sobre o leito. — Já volto.

Voltou ao salão da taverna e pegou dois castiçais com velas de cima das mesas, acendeu-as no fogo da lareira, e voltou ao quarto. Para sua surpresa e deleite, Beatrice despira o vestido pesado e sentava-se na cama apenas trajando as roupas íntimas que revelavam cada curva da parte superior do corpo. Nicholas ficou parado um instante, admirando a cena.

Não havia mesa no quarto, portanto colocou os castiçais no chão, com cuidado, um de cada lado da cama. Beatrice o observava com olhar divertido, e comentou:

— Parece um ritual pagão.

Nicholas riu, e o som da, própria risada pareceu-lhe o mais feliz que ouvira, desde a época de sua juventude.

— É uma grande cerimônia, quando duas pessoas resolvem se aproximar pelo amor. Nada sei se é pagã ou não.

Quando terminou de arrumar as velas, despiu o manto e tirou as botas, colocando-os lado a lado, de maneira metódica. Hesitou por um momento, e depois retirou a túnica também, revelando o tórax despido. Beatrice o observava com uma expressão de desejo. O sangue de Nicholas ferveu nas veias.

Juntou-se a ela na cama e tomou-a nos braços. De maneira gentil, fê-la deitar-se e recomeçou a beijá-la, sem a menor pressa. Beatrice semicerrou os olhos, e Nicholas beijou-lhe as pálpebras, depois o queixo, as faces, a testa, o pescoço, retornando aos lábios.

Beatrice emitiu um gemido arrastado de contentamento, e Nicholas continuou. Com as mãos, explorou-lhe o corpo por cima da roupa que ainda vestia, e depois disse:

— Quero sentir sua pele de encontro à minha, querida. Posso?

Quando Beatrice aquiesceu, ajudou-a a desfazer-se do restante das roupas. Por um instante, ela pareceu ficar muito encabulada. Nicholas apoiou a cabeça em um cotovelo e com a mão acariciou-a com simplicidade, devagar, com respeito, até Beatrice relaxar sob os toques e sorrir de novo.

À luz bruxuleante das velas, o corpo feminino parecia o de uma deusa de alabastro, mas não se tratava de uma estátua. A pele era quente e vibrante, respondendo ao estímulo dos dedos de Nicholas como um violino bem afinado.

Nicholas dedicou mais tempo aos seios rígidos, apertando os mamilos entre os dedos hábeis, inclinando-se e sugando-os com os lábios. Beatrice suspirou e gemeu de prazer.

Nicholas aguardou até que começasse a se mover sem descanso, as coxas ainda muito juntas, e então, com movimento rápido, despiu a calça e deitou-se sobre ela de modo que seus corpos ficassem colados. Beatrice estava à beira do clímax, mas Nicholas demorou-se, tocando-a com as mãos e o próprio corpo, até que ela emitiu um gemido mais profundo. Nicholas penetrou-a da maneira mais gentil e vagarosa que conseguiu.

O corpo jovem e flexível de Beatrice o acolheu com facilidade e, em breve, começaram a se mover no mesmo ritmo. Beatrice tocou-lhe o curativo na perna, como se tivesse receio de que sentisse dor, mas Nicholas nada parecia perceber. O pequeno quarto ao redor parecia diluir-se em fumaça, e todas as sensações, de repente, centralizaram-se nos dois corpos unificados. Beatrice gritou-lhe o nome, e Nicholas a abraçou mais forte, enquanto a jovem alcançava o máximo do prazer sensual.

Nicholas afastou-se e, fora do corpo de Beatrice, alcançou também o clímax. Depois, voltou a abraçá-la e beijá-la, retirando as mechas úmidas de cabelos que lhe caíam sobre a face. Seu corpo também estava suado, e estremeceu, de volta à realidade do quarto frio.

— Está bem, minha querida?

Beatrice o encarou, o olhar sonhador e sensual.

— Sim.

— Está com frio?

— Não.

Mas, apesar das palavras, começara a tremer também. Nicholas procurou pelo cobertor e cobriu a ambos, ficaram deitados, abraçados, sem se falar por muito tempo. Quando Nicholas pensou que já estivesse dormindo, Beatrice comentou:

— Foi muito melhor do que imaginara.

Nicholas riu, falando como se estivesse chocado:

— Que confissão é essa? Quer me dizer que andou pensando em como seria isso entre eu e você? Nunca imaginei que uma donzela tivesse esse tipo de pensamentos!

— Garanto que as donzelas pensam tanto nisso quanto os homens — replicou Beatrice.

Ao falar, sorria de modo travesso e irreverente, muito diferente da mulher prática e competente que Nicholas estava acostumado a ver.

— Então, você é uma autoridade no assunto, senhorita? — desafiou-a.

Beatrice soltou uma risada contagiosa e jovial.

Admito que já passei muito tempo pensando nessas... coisas, mas tenho pouca experiência prática, como você mesmo deve ter percebido.

Nicholas ficou sério.

— Suspeitei de que seria o primeiro. É verdade?

Beatrice acenou que sim. As faces ainda estavam rubras como conseqüência do ato de amor, mas Nicholas sentiu que estava corando de embaraço também. Inclinou-se e beijou-a nos lábios, com delicadeza, murmurando:

— Sinto-me honrado, querida.

Beatrice afastou-se dos braços fortes e sentou-se na cama, cobrindo a nudez com o cobertor.

— Ambos estamos honrados. Foi uma escolha mútua. O tom de brincadeira desaparecera de sua voz, percebeu Nicholas de modo acertado. Voltara a recuperar o auto-controle, e a ser a mulher que conhecera antes. Em um esforço para recuperar o clima de sedução, sentou-se a seu lado e segurou-lhe o lóbulo da orelha, sussurrando:

— Podemos voltar a nos honrar, um ao outro...

Mas, de alguma forma, o clima desaparecera. Beatrice tremia muito, apesar do cobertor, e inclinara-se na borda do leito a fim de recolher as roupas do chão. Nicholas a deteve, colocando-lhe uma mão no ombro, e fazendo-a virar-se para encará-lo.

— Beatrice? Alguma coisa está errada?

Como resposta, ela libertou-se do contato físico e recomeçou a recolher as roupas.

— Não. Vou me vestir antes que meu pai ou Owen apareçam sem avisar.

Nicholas franziu o cenho.

— Pensei tê-la ouvido dizer que dormiam a noite toda.

Beatrice evitou olhá-lo.

— Sim, em geral. Mas não quero correr riscos.

Passou o vestido pela cabeça e, de novo, Nicholas tentou descobrir o que a fizera mudar de atitude de modo tão repentino.

— Alguma coisa está errada — insistiu. — Por acaso a magoei?

Beatrice balançou a cabeça em negativa e levantou-se, erguendo um dos castiçais. Então, suspirou fundo e encarou-o.

— Não, Nicholas, não me magoou. Ao contrário, foi um dos momentos mais maravilhosos de minha vida, mas agora preciso de tempo para pensar no que tudo isso significou. Jamais pensei que algo assim acontecesse comigo.

Devagar, Nicholas começou a recolher as próprias roupas e a se vestir. Não estava plenamente satisfeito com a resposta que recebera. Aquela situação em nada se parecia com às vezes em que fizera amor com outras mulheres.

Segundo sua experiência passada, a jovem em geral, após o ato de amor, pedia por abraços e elogios. Então, ele partia com promessas sussurradas de um futuro encontro. Esse fora o modelo em todas as oportunidades, mesmo com Flora. Mas Beatrice era diferente de qualquer outra que já conhecera.

— Devo voltar pela manhã? — perguntou em tom incerto. — Não vejo Owen há dois dias.

— Se quiser.

A aparente indiferença machucou-lhe o orgulho masculino.

— Não se importa se venho ou não?

Já estavam completamente vestidos, e Beatrice segurava o castiçal com ambas as mãos.

—        Owen sempre fica feliz em vê-lo.

Nicholas olhou-a por um longo momento.

— Sim — replicou com secura. — Então, virei para visitar Owen.

— Todos nós gostamos de suas visitas.

Nicholas percebeu que seria o máximo que conseguiria.

— Então, não vai mais falar a respeito de ir embora de Hendry?

Beatrice mexeu-se, de modo desconfortável, deixando claro que desejava terminar com o encontro.

— Pretendo fazer o que for melhor por Owen e por meu pai.

— Quer dizer, ficar em Hendry.

— Pelo momento, sim. Creio ser o melhor lugar para nós.

Nicholas fez um gesto de cabeça, concordando. Pelo menos, aquele problema estava resolvido. Quanto a resolver o que acontecera entre os dois naquela noite, talvez precisasse de mais tempo. Paciência era uma virtude que jamais possuíra quando muito jovem, mas era outra lição que aprendera na guerra. Podia ser paciente, em especial se a recompensa valesse a pena.

— Então, irei embora agora e voltarei pela manhã — disse de modo despreocupado, embora não fosse assim que desejasse terminar com aquele encontro.

— Sim. Mas nós... — a voz de Beatrice morreu. — É claro que nada diremos a meu pai sobre sua visita desta noite.

Nicholas olhou-a de modo exasperado.

— Para uma donzela que passa tanto tempo pensando nessas coisas, parece ter ainda muito o que aprender.

Beatrice sorriu de modo furtivo, mas logo se virou e conduziu-o pelo salão da taverna, até a porta de entrada, dizendo, ao abri-la:

— Até amanhã.

Nicholas passou pelo umbral, e ao voltar-se para um último beijo de boa-noite, viu que Beatrice já fechara a porta, deixando-o sozinho no escuro.

 

Beatrice pensou se teria sido mesmo o que esperara, voltando a sentar-se junto à lareira no salão. Não tinha sono.

Naquela noite, soubera que chegara o momento de vivenciar o ato mais importante entre um homem e uma mulher e, do ponto de vista físico, fora tudo que sonhara.

Mas era uma mulher prática, com os pés no chão. Uma vez retomando ao bom senso, precisava descobrir a verdade de tudo aquilo. Nicholas amara Flora, e, quem sabe, ainda a amava, mencionara seu nome naquela noite, enquanto a abraçava. E mesmo se nunca houvesse conhecido sua irmã, era um nobre, fora do alcance de uma jovem plebéia.

Beatrice passou os braços ao redor do corpo e moveu-se para frente e para trás, cantarolando. Fechou os olhos, tentando bloquear a imagem do olhar de Nicholas à luz da vela e de seus corpos cheios de paixão.

Todos sempre diziam que Flora fora a mais meiga e delicada das duas irmãs. Beatrice era a mais esperta e eficiente mas, naquele momento, sentia-se apenas uma mulher frágil, vulnerável e insegura..

Mergulhou o rosto nas mãos e, mesmo assim, as imagens continuaram desfilando ante os olhos fechados. Não podia mais negar os sentimentos contra os quais lutava desde a primeira vez que se vira frente a frente com os olhos escuros de Nicholas Hendry. Amava-o, e não sabia o que fazer a respeito.

“Deveria ter aprendido a lição, querida Fora”, murmurou. “Precisava ter me mirado em seu. exemplo e percebido que o preço de entregar o coração às vezes é alto demais.”

 

O barão Hawse ofereceu um sorriso distraído para a filha que entrara na antecâmara e caminhava pelo chão de lajes, sem fazer o menor ruído, para postar-se em frente a sua mesa.

O         barão ergueu o olhar do mapa que examinava.

— Pensei que já houvesse se retirado para seus aposentos, Winifred.

— Estava na cozinha, discutindo o cardápio da semana com a cozinheira.

Hawse pareceu muito entediado, ao pressentir uma conversa sobre atividades domésticas, e tratou de encurtar a entrevista.

— Bem, o que deseja?

Winifred torceu as mãos em um. gesto nervoso, mas não evitou o olhar do pai.

— Mudei de idéia.

O barão Hawse piscou, surpreso com o tom de voz decidido da filha.

— E sobre o quê?

— Decidi aceitar o casamento com Nicholas Hendry, se for do agrado dele.

O barão recuou a cadeira e levantou-se.

— O que aconteceu para causar essa mudança?

Winifred deu de ombros.

— Acho-o gentil. Não é como os outros homens que conheci.

— Sem dúvida ele a conquistou com aquele olhar diabólico, assim como a metade das mulheres do vilarejo, pelo que ouvi dizer. Mas, não tem importância. E tarde demais, pois mudei de idéia também. — Deu a volta na mesa e postou-se em frente à filha, dominando-a com sua altura e corpulência. — Decidi que não vale a pena me desfazer de Hendry só para me livrar de você.

Winifred estremeceu, porém respondeu com uma insolência que jamais demonstrara na vida:

— Sou um fardo assim tão pesado para o senhor, meu pai?

O barão franziu o cenho ante o tom de voz de desafio.

— Filhas são sempre um estorvo. Primeiro, precisam ser protegidas, depois necessitam de um bom dote para arranjar marido. E o que um pai recebe em troca?

Winifred endireitou-se, o olhar, em geral distante, adquiriu um brilho de desafio.

— Alguns recebem muito em troca, conforme ouvi dizer. Embora seja difícil para o senhor compreender tal coisa, alguns pais recebem amor.

Então, sem esperar por resposta, deu meia-volta e saiu correndo do aposento, deixando o barão Hawse boquiaberto.

 

Nicholas olhou para a camada de calda grossa que se formara sobre o pudim a sua frente, e empurrou o prato para um lado, com uma careta de nojo.

— E a quinta caneca de cerveja que pede, desde que voltou para casa esta noite — observou lady Constance com suas maneiras tranqüilas. — Acredita que será o suficiente para libertá-lo dos demônios que o estão atormentando, seja lá por que motivo for?

— Se quer saber se pretendo me embebedar, minha resposta é sim.

— E acha que valerá a pena?

— Não.

Nicholas abanou a cabeça em negativa, e fez uma careta, pois o movimento brusco quase o fez cair do banco.

— Talvez eu possa ajudar, meu filho.

— Apenas se puder me dizer como faço para compreender as mulheres.

Lady Constance pareceu digerir o comentário por um momento, e depois soltou uma risada de estupefação.

— Isso é uma novidade! Será este o mesmo filho que encantava tantas moças que precisou fugir para as Cruzadas para escapar delas todas?

— O mesmo. Entretanto, parece que com o passar dos anos e minha idade avançada, perdi o toque mágico.

Lady Constance voltou a sorrir.

— Essa é boa! Se você está em idade avançada, poderia dizer o que eu sou?

Nicholas também sorriu sem muita vontade.

— Jovem e bonita como sempre, minha mãe. E apenas a dureza da vida que nos envelhece.

— E muita bebida, talvez. Vai comer seu pudim ou não?

Lady Constance falou no tom de voz impaciente da mãe ralhando com o filho menino.

Nicholas voltou a balançar a cabeça em um gesto cansado.

— Desculpe, mãe. Não consigo engolir nada esta noite. Constance inclinou-se para o filho por sobre a mesa, e tomou-lhe a mão.

— Fale-me a respeito, querido. É Winifred? Nicholas ergueu o olhar surpreso. Há vários dias nem pensava na proposta de casamento feita pelo barão Hawse. Mas, por certo sua mãe nada sabia sobre sua paixão por Beatrice Thibault. Embora estivesse a par de seus casos de amor passageiros, era provável que ficasse chocada ao saber que se apaixonara, no final das contas, por uma moça do vilarejo.

— Não, minha mãe. Winifred é uma boa moça que, sem dúvida, encontrará um marido digno de suas qualidades algum dia, sem precisar das manipulações do pai. Mas não será comigo que irá se casar.

— Então, do que se trata? De quem está falando? Nicholas afastou a mão da carícia materna, ergueu a caneca com cerveja, e tomou um grande gole.

— Não é muito importante já que, tudo leva a crer, a dama em questão não está mais interessada em minha pessoa. Sem dúvida é inteligente e astuta demais para se deixar envolver com um mau caráter como eu.

— De qualquer maneira, pretendo ouvir. Às vezes desabafar ajuda a clarear as idéias.

Nicholas fez um gesto de desânimo.

— Vou resolver o problema sozinho, obrigado. Mas existe uma coisa que gostaria de discutir com você, minha mãe, e temo que não seja o que está disposta a ouvir.

— Ouvirei qualquer assunto sobre o qual desejar falar, querido.

— Preciso saber quais são seus sentimentos em relação ao barão Hawse, minha mãe.

Lady Constance aprumou-se no banco. Depois de um instante, perguntou:

— Por quê?

— Porque Hendry pertence a mim... a nós... e pretendo lutar por nossas terras e propriedades.

— Com certeza que não está querendo dizer que irá usar de violência?

— Não. Vou levar o caso à corte.

— Mas a corte de justiça do distrito é presidida pelo barão Hawse.

— Irei a York e levarei minha queixa ao Tribunal Superior da Inglaterra e, se necessário, até o rei.

— O barão é um homem poderoso, Nicholas. Tem muitos amigos, tanto na corte quanto aqui no norte.

— E por isso que preciso de sua ajuda, minha mãe. Como viúva de Arthur Hendry, seu testemunho terá enorme influência no julgamento e, se ficar do lado dele, minhas chances serão mínimas.

Nicholas não esperava que a mãe ficasse contente com sua decisão de lutar contra o barão Hawse, mas apesar do que o nobre lhe dissera, tinha certeza de que a lealdade de lady Constance permaneceria com o filho. Portanto, seu coração tornou-se pesado como chumbo, ao vê-la lutar na dúvida da resposta a ser dada. Era evidente que o barão a dominava muito mais do que suspeitara.

Depois de um silêncio interminável em que parecia perceber a frustração de Nicholas, a dama falou:

— Meu filho, gostaria de vê-lo sempre aqui em Hendry, escolher uma esposa e educar lindos netos para mim, porém também gostaria de ver a paz reinando entre você e Gilbert. Como já lhe disse em outras ocasiões, ele tem sido maravilhoso comigo.

— Não é de admirar, já que nos roubou as terras debaixo do nosso nariz, minha mãe. Gostaria que acordasse de seu sonho e percebesse o homem que ele é de verdade.

Havia dor e sofrimento nos olhos meigos de lady Constance quando respondeu em voz baixa:

— Nicholas, o barão Hawse pediu-me para ser sua esposa, e concordei.

Nicholas retrocedeu, tomado de surpresa e desgosto. Quando conseguiu recuperar a voz, disse:

— Pensei tê-la ouvido dizer que não desejava casar-se outra vez.

— Mudei de idéia. Como sabe, Gilbert tem sido muito delicado comigo e um grande conforto.

— Você o ama?

A resposta veio devagar:

— E um adulto agora, meu filho, de modo que falarei com franqueza. Ele me faz sentir desejada, e compreendi que gosto dessa sensação.

Qualquer embaraço que Nicholas pudesse sentir ao ouvir a implicação íntima daquelas palavras da mãe, foi superado pela tomada de consciência da situação. Se lady Constance insistisse com aquele casamento, cimentaria o poder do barão Hawse sobre as terras de Hendry.

Estudou o rosto da mãe. Na vida tempestuosa que levara com Arthur Hendry, lady Constance sempre fora um porto tranqüilo. Se aquele casamento com Hawse era o que desejava, teria o direito de interferir?

Pensou por um momento e balançou a cabeça, em um gesto desanimado.

— Mãe, não acredito que esse matrimônio lhe traga felicidade. Hawse é um tirano que intimida as pessoas a sua volta. Até mesmo você fica intimidada em sua presença.

— Não é verdade!

— Mãe, o homem a deixou cega para a realidade!

Constance levantou-se da mesa.

— Lamento que você e Gilbert não tenham ficado amigos, Nicholas. Mas agora tenho minha vida, e pretendo vivê-la como bem entendo.

Observou-a deixar a sala, graciosa e elegante, parecendo ter metade da idade que realmente tinha. Sim, pensou Nicholas, sua mãe merecia encontrar a felicidade, mas estava errada ao supor que a encontraria com o barão Hawse. Tinha mais certeza daquilo do que tudo na vida.

 

Era quase meia-noite, e Leon fora acordado por seu pajem, porém não demonstrava sinal de irritação ao entrar na antecâmara do barão, cumprimentando-o:

— Boa noite. Mandou me chamar, senhor?

— Sim. Hoje fiz uma visita à filha do taberneiro. Foi como você disse. Ela é deliciosa.

— Creio ter dito que está no ponto para ser colhida, como uma fruta madura, senhor — corrigiu Leon.

— Certo, e pretendo ser o felizardo que colherá tal fruta.

A expressão de Leon continuou impassível.

— Muito bem, meu senhor. Quer que a traga até aqui?

— E complicado, devido ao envolvimento de Nicholas Hendry com a família Thibault. Se algo acontecer com a moça, Nicholas ficará sabendo, o que significa que lady Constance também saberá.

O         pequeno círculo de informantes e servos que gozavam da intimidade do barão há muito conhecia sua obsessão por Constance Hendry. Leon limitou-se a acenar com compreensão, e esperou que o nobre tomasse uma decisão, enquanto tamborilava os dedos sobre a mesa, perdido nos próprios pensamentos.

Depois de um longo tempo, Hawse continuou:

— Tentei convencer Beatrice a me deixar estabelecê-la em outra cidade, longe de Hendry. Seria mais conveniente tê-la afastada daqui e, desse modo, afastar o bastardo de Nicholas também. Mataria dois coelhos com uma só cajadada.

— Devo entender que a jovem não aceitou sua oferta, senhor?

Hawse balançou a cabeça com raiva.

— Nem quis ouvir tudo que eu tinha a dizer, aquela menina convencida!

Passados mais alguns instantes de silêncio, nos quais Leon continuou a esperar com paciência, o barão ergueu & olhar para o empregado e disse:

— Ora bolas, homem! Diga alguma coisa! Para que o estou pagando?

— Talvez a dama deva ser convencida a cooperar. Se Hendry já não é o lar adequado para ela e sua família, deveria sentir-se ansiosa em receber sua ajuda, senhor.

O         barão sorriu de modo malicioso e cruel.

— Creio que percebeu muito bem a situação, Leon. Aliás, sei que tipo de arma utilizar para torná-la cooperativa.

— O menino? — perguntou Leon.

— Sim — respondeu Hawse.

A expressão impassível de Leon modificou-se, quando um sorriso malicioso aflorou aos lábios finos.

 

Era um estranho dia de verão. A aurora surgira rubra pelo sol e, por volta do meio-dia, fazia muito calor. O ar estava carregado e parado, de modo que se podia ouvir o zumbido dos insetos voando pelo arvoredo. Seria um dia quente demais para o trabalho na cervejaria, decidiu Beatrice. Então, foi até o vilarejo para perguntar se Jannet e o pequeno Nick gostariam de dar um passeio até as colinas com ela e Owen.

Enid ergueu o olhar da roca onde fiava, e perguntou:

— Com vai seu pai, Beatrice?

— Está se sentindo melhor. Quase não tem tremores hoje. Não o deixarei caminhar conosco, pois seria muito cansativo, mas poderá ficar em casa sozinho por algumas horas.

A velha senhora levantou-se e recolocou o carretel na roca.

— Farei um passeio até o Javali Dourado para ver se Phillip precisa de alguma coisa, enquanto vocês jovens vão passar o dia nas colinas.

— Não é necessário...

Beatrice ia continuar, mas parou ao ver a expressão ansiosa no rosto de Enid. Mordeu a língua e emendou, sorrindo:

— Papai ficará encantado com sua visita.

Trocou um olhar de entendimento com Jannet, enquanto a senhora ajeitava os cabelos brancos e colocava sua melhor touca de renda antes de sair porta afora, com o passo apressado de uma menina.

— Será possível que uma mulher daquela idade possa ter sonhos românticos com um senhor como seu pai? — Jannet perguntou, quando Enid já se fora.

Beatrice sorriu.

— Enid ainda tem muita vitalidade, Jannet. Talvez mais que meu pai. Seria maravilhoso pensar que poderiam ainda usufruir da vida juntos. Ambos não têm companheiros há muito tempo.

Owen e Nick brincavam com um barril a um canto da sala, rolando-o de um lado para o outro e, em uma dessas viradas, o velho objeto de madeira espatifou-se fazendo muito barulho. O pequeno Nick começou a chorar de imediato, e Owen pareceu assustado. Jannet e Beatrice correram a confortá-los.

Quando a comoção foi controlada, Beatrice observou:

— E melhor que os levemos para fora, antes que destruam sua casa.

As duas mulheres e as crianças deram a volta pelos fundos do chalé, a fim de comunicarem a Harold os planos para o dia, e depois se encaminharam para o norte, enveredando pelos campos em vez de ficarem na estrada.

— Podemos subir em uma árvore?

Owen fez a pergunta enquanto corria de um lado para outro com o pequeno Nick, tentando alcançar as duas moças que caminhavam devagar.

Nick fez eco às palavras do amigo:

— Arvore!

— Veremos se encontramos uma com ramos baixos — respondeu Beatrice que aprendera a dosar suas promessas.

— Que bom! Árvore! — exclamou Owen.

Correu cheio de energia, seguido a uma certa distância por Nick que não conseguia ainda acompanhá-lo de perto.

Jannet e Beatrice riram diante de tanta exuberância, e a esposa de Harold sugeriu:

— Talvez eu e você possamos subir em uma árvore também, Beatrice.

A jovem Thibault balançou a cabeça, sorrindo ante tal disparate, enquanto caminhava mais rápido junto à amiga, para não perder os dois meninos de vista.

Nenhuma das duas percebeu os dois cavaleiros que as observavam, encobertos pelo arvoredo, a pouca distância.

 

Nicholas tentou ignorar as batidas na porta, mas essas se tornaram muito insistentes. Por fim, cambaleou para fora da cama, lutou contra a onda de náusea devido a quantidade de cerveja que tomara na noite anterior, e atravessou o quarto a fim de abrir a porta.

Molie estava do outro lado, carregando uma bandeja.

— Foi idéia de sua mãe, senhor — explicou com o costumeiro sorriso animado. — Disse que não comera nada ontem e que assim iria perder esse físico maravilhoso que tem.

Como sempre, a ousadia de Molie o fez sorrir.

— Não sei por quê, mas não consigo imaginar minha mãe dizendo tais coisas.

Molie inclinou a cabeça para um lado, fingindo pensar.

— Talvez eu não tenha entendido muito bem — admitiu. — Mas de qualquer maneira é verdade. Um homem forte precisa comer.

Empurrou a bandeja na direção de Nicholas, fazendo-o voltar para o quarto, e dizendo como se falasse com uma criança:

— Agora sente-se como um bom menino e coma um pouco.

— Com sinceridade, Molie, agradeço, mas não estou com fome.

— Eu também não estaria, se tivesse bebido um barril de cerveja, mas isso deixa seu cérebro embotado, Nick. É de alimento sólido que precisa.

Nicholas permitiu que Molie o empurrasse de costas, até se sentar na beira da cama com os lençóis e cobertas em desalinho. A jovem mulher colocou a bandeja ao lado.

— Está certo, Molie, tentarei comer alguma coisa. Obrigado pelo trabalho de ter trazido até meu quarto.

Disse aquilo para livrar-se da companhia, mas Molie cruzou os braços e ficou encarando-o como se fosse um general.

Nicholas ergueu o olhar para a ex-amante e mesmo aquele gesto leve provocou ferroadas de fogo em seu cérebro, embaçando-lhe a visão.

— Não sei se conseguirei comer sem vomitar tudo em seguida. — Gemeu.

Ao ouvir aquilo, Molie e sentou-se na cama e pôs a bandeja no colo.

— Claro que consegue, Nick. — Sua voz era aduladora, e segurou uma colher cheia de ensopado, levando-a à boca do cavaleiro. — Vamos lá. Tente.

Nicholas soltou uma risada sonora.

— Andei bebendo, Molie, mas não estou doente. Posso ao menos me alimentar sozinho.

Assim dizendo, tirou-lhe a bandeja do colo e colocou-a em seu próprio, começando a comer o ensopado. Depois das primeiras colheradas, a comida principiou a ter um gosto agradável.

Molie observava em um silêncio de aprovação, enquanto Nicholas terminava metade da terrina. Por fim, o rapaz disse:

— Pronto! Isso deve ser o suficiente para satisfazer a você e minha mãe.

Molie inclinou-se e examinou o interior da terrina.

— É melhor do que nada.

Com essa declaração, tomou-lhe a bandeja do colo, mas em vez de levantar-se para ir embora, sentou-se no chão, voltando-se para Nicholas, e passando as pernas por debaixo do corpo, como uma criança.

— Comida quente é a melhor coisa para um coração sofrido, Nick. E existe um outro remédio também. Lembra-se?

Inclinou a cabeça para um lado, de modo sugestivo. Nicholas não fazia idéia da idade de Molie, que vivia em Hendry desde que se conhecia por gente. Porém havia algo além da idade em seu tipo sólido que tornava impossível classificá-la em determinada faixa etária.

— Seu remédio foi muito bom para mim no passado, Molie.

A mulher suspirou de modo exagerado.

— Agora sou uma senhora séria, mãe de dois filhos. Acho que meus encantos ficaram no passado, verdade, Nick?

Ele hesitou, não desejando ferir os sentimentos dela, mas acabou concordando.

— Verdade.

Molie encostou a palma da mão calosa na face áspera pela barba.

— Você cresceu, Nick. Sempre disse a seu pai que seria um bom homem um dia, e acertei.

Nicholas piscou. A bebida ainda embaçava seus pensamentos, e as palavras de Molie pareciam fazer pouco sentido. Quando é que Molie, a criada, poderia ter mantido uma conversação com o arrogante e distante Arthur Hendry? Por certo entendera errado.

— Sou um homem maduro agora, Molie. Isso é certo. Quanto ao tipo, ainda estou para descobrir. Sabia que tenho um filho?

Molie sorriu com calor.

— Sim, já o conheci, Nick. E um menino lindo, como o pai.

Nicholas também sorriu. Não via Owen havia dois dias e sentia muita saudade. Não pretendia deixar de visitá-lo, quer Beatrice desejasse ou não. Ao contrário do que lhe acontecera, pretendia que seu filho crescesse com a ajuda e o carinho de um pai amoroso.

— Sim, Owen é bonito e mais inteligente do que muitos garotos de sua idade.

Molie pareceu divertida com o tom de orgulho do pai.

— Aposto que sim, Nick.

Nicholas baixou o olhar para a bandeja com metade da comida.

— Pode deixar isso aí, se quiser. Depois terminarei de comer, e levarei os pratos para a cozinha.

Molie acenou de modo satisfeito.

— As cores voltaram-lhe ao rosto quando começou a falar de seu filho, Nick. Talvez devesse ir visitá-lo sem demora. Garanto que a criança é o melhor remédio para os males que o afligem agora.

Nicholas inclinou-se e beijou a serva na face.

— Continua esperta e doce como sempre, meu bem. Molie ergueu-se de um salto, com a energia habitual, e encaminhou-se para a porta, dizendo:

— Cuide-se, Nick.

Nicholas ficou surpreso ao perceber que, ao voltar-se de costas, o sorriso de Molie era triste, como se sentisse nostalgia do passado, quando haviam feito amor nas dependências dos criados, atrás da cozinha.

— Obrigado, Molie — falou com gentileza.

Ela voltou a acenar satisfeita, e foi embora.

Nicholas ficou sentado na beira da cama por um certo tempo, e acabou erguendo a bandeja do chão, comendo o ensopado e esvaziando a terrina.

À luz radiosa da manhã, os pensamentos se clarearam e afastaram o perfume no qual estivera envolto, desde que voltara para casa, na noite anterior. De volta da taverna, bebera muito, sentindo-se confuso, tentando descobrir o que dera errado depois que havia feito amor com Beatrice.

A jovem ressentia-se pelo fato de Nicholas ter abandonado Flora, porém o nobre achava que começava a derreter o gelo, e que ela lhe perdoara. Entretanto, talvez Beatrice ainda se sentisse culpada por ter-se entregado, sabendo que fora o homem que desgraçara sua irmã. Talvez tivesse medo da reação de Philhip.

Considerando toda a situação, não era de admirar que se sentisse em conflito. Mas Beatrice era uma das mulheres mais inteligentes que já conhecera e, sem dúvida, a mais independente. Também não era o tipo de pessoa que permitisse que o fantasma de tragédias passadas a impedisse de viver a própria vida de maneira plena.

Nicholas decidiu que precisava ser paciente para deixá-la pôr os pensamentos e sentimentos em ordem.

Quando terminou de se vestir, percebeu que assobiava uma balada que os menestréis viajantes haviam tocado para ele e Beatrice na feira de São João, no dia em que a beijara pela primeira vez. Já recuperara o bom humor, embora o peso na cabeça ainda o lembrasse dos pensamentos sombrios da noite anterior.

Decidiu que iria procurá-la. Seria um dia de muito calor, talvez pudesse levar Beatrice e Owen para um passeio no campo. Depois, encontrariam um local para estender um cobertor sobre a grama, e quando Owen estivesse ocupado com seus folguedos, roubaria um beijo de Beatrice.

Diria que não se preocupasse, pois tudo ficaria bem entre eles dois. Contaria que Flora, tão meiga e generosa quando na terra, devia estar muito feliz, no Paraíso, vendo a felicidade que sentiam um com o outro.

Declamar aquele discurso para si mesmo o fez rir, parecia um menino fazendo a corte à primeira namorada.

Nicholas continuou a assobiar a balada o tempo todo, enquanto descia correndo a escada, despedia-se da mãe de modo apressado, e corria para os estábulos.

 

Beatrice e Jannet decidiram deixar os dois meninos gastar toda a enorme energia nas pequenas pernas, e correr à vontade. As duas jovens sentaram-se no chão, enquanto Owen e o pequeno Nick corriam de um lado para o outro, trazendo-lhes flores silvestres que as duas começaram a trançar em guirlandas.

— Cuidado para não irem muito longe — gritou Jannet.

As duas cabecinhas desapareceram em uma ladeira, colina abaixo. Beatrice e Jannet esticaram o pescoço para não perdê-los de vista, mas logo os meninos reapareceram.

— Beatrice, você não quer admitir, mas está apaixonada.

— Oh, Jannet! Como posso amar o homem que seduziu minha irmã e cujo filho lhe causou a morte?

Jannet trançou a haste de uma flor, antes de responder com cuidado:

— Não se aborreça, mas não tenho muita certeza se Nicholas amava Flora. Do modo como Harry conta, antes de partir para as Cruzadas, Nicholas Hendry amou muitas mulheres, mas tudo de brincadeira.

De modo estranho, que a deixou envergonhada, Beatrice sentiu um tremor de satisfação percorrer-lhe o corpo ante as palavras da amiga, mas não tinha certeza se a idéia de que Nicholas não amara Flora diminuía sua culpa.

Mesmo se ele não estivesse apaixonado por sua irmã, Flora o amara, sem dúvida nenhuma. Se convencera a inocente jovem a se entregar a sua luxúria, quem poderia garantir que não estava usando a mesma estratégia agora? Seria um grande e merecido castigo se terminasse abandonada e grávida, do mesmo modo que a irmã.

— Isso mostra o patife que Nicholas Hendry é, Jannet. Seria uma tola se entregasse meu coração a um homem como esse.

Falava de modo despreocupado, a fim de não despertar suspeitas em Jannet.

— Harry disse que Nicholas mudou muito desde que voltou.

— Claro! A guerra sempre muda os homens, e agora é o senhor do castelo, já que o pai morreu. Mas no que se refere às moças.... Mulherengos são sempre mulherengos. Isso nunca muda.

Beatrice parou de falar de maneira brusca e, nervosa, espetou o dedo no espinho de uma flor. Suspirou, enquanto Jannet a estudava com o canto do olho.

— Em minha opinião, a mulher certa modifica um homem desse tipo.

Beatrice balançou a cabeça com vigor, demonstrando não concordar.

— E melhor que eu fique a léguas de distância de Nicholas Hendry se desejar manter a sanidade mental. Porque, devo admitir, é um demônio com aquela beleza máscula.

Jannet riu.

— Vocês dois formariam um belo casal.

— Mesmo se Nicholas conseguisse amar alguém de verdade, esse alguém não seria eu. E um nobre cavaleiro, e não passo da filha do cervejeiro da vila.

— Você dirige o Javali Dourado, como uma verdadeira mulher de negócios. Não seria um casamento fora do comum, já aconteceram outros do gênero.

O pequeno Nick correu para a mãe, trazendo quatro flores esmigalhadas que lhe entregou com orgulho.

Beatrice relanceou o olhar colina abaixo. De repente, sentiu um frio no estômago.

— Onde está Owen, Nick?

O rosto de Jannet ficou preocupado, e olhou ao redor, procurando pelo amiguinho do filho.

— Owen! — gritou.

Beatrice ergueu-se de um salto, as flores caindo a seu redor, como uma chuva colorida. Apertou os olhos devido ao sol forte, e voltou-se de um lado para o outro, também chamando por Owen.

O menino parecia ter desaparecido da face da terra. Beatrice agachou-se e segurou a mão do pequeno Nick, repetindo:

— Onde está Owen?

O pequeno parecia preocupado, e disse:

— Owen fugiu.

Jannet repetiu a pergunta, mas não conseguiram nenhuma outra informação da criança muito pequena.

Jannet tentou acalmar a amiga.

— Seu sobrinho é um menino destemido e vivaz, foi apenas explorar as redondezas. Vamos encontrá-lo.

— Você procura por ali, e eu por aqui — disse Beatrice, a voz muito calma, nada revelando do medo que sentia.

— Talvez esteja entre aquelas árvores ali adiante.

Jannet tomou o pequeno Nick nos braços e foi para o lado leste da colina, enquanto Beatrice ia para oeste. Tentou acalmar as batidas do coração dizendo a si mesma que por certo Jannet tinha razão. Owen adorava explorar e, sem dúvida, aventurara-se um pouco mais longe do que pretendera.

A colina onde haviam se sentado era muito descampada, mas logo abaixo havia um bosque cerrado. Owen devia estar oculto por alguma árvore.

Beatrice desceu em ziguezague, sem esquecer de olhar para todos os cantos. A cada instante chamava por Owen, e podia ouvir Jannet fazendo o mesmo, do outro lado da colina.

Já alcançara quase o sopé e nenhum sinal do menino. As árvores agora eram cerradas e grandes. Se Owen fora para o meio da floresta, pensou, sufocando um soluço de pânico, levariam horas para encontrá-lo. Ela e Jannet teriam de retornar ao vilarejo e pedir ajuda.

O desespero apossava-se de sua voz ao gritar de novo:

— Owen! Onde está você, querido?

De repente, um homem saiu de detrás de uma árvore.

— Chocante o modo como é fácil se perder uma criança ativa como aquela, não é?

O barão Hawse falava em um tom assustadoramente calmo e condescendente.

Beatrice prendeu a respiração.

— Onde está ele?

O barão ergueu a mão, em um gesto para que se calasse.

— Tentei avisá-la, minha cara, procurei fazê-la entender que um outro clima, em outra cidade, poderia ser mais saudável para sua família.

Voltara a apresentar o leve sorriso de superioridade, mas Beatrice estava muito assustada para sentir raiva. Os joelhos estavam fracos, e fazia um esforço enorme para manter a voz serena.

— O que fez com meu menino?

O barão deu alguns passos em sua direção.

— Então, deseja reivindicar o bastardo como seu?

— Owen é meu sobrinho de sangue, mas em meu coração é como se fosse meu filho.

— Certo. — Hawse aproximou-se mais, o rosto grande quase tocando o de Beatrice. — E, é claro, deseja vê-lo em segurança, pelo que tentei fazê-la aceitar minha oferta de... digamos assim... proteção.

— Só desejo do senhor que me devolva o menino são e salvo.

— E um mundo cruel, srta. Thibault, em especial para uma criança sem pai para protegê-la.

— Owen tem pai.

— E acha que protegerá o menino? Nicholas Hendry nunca pensou em ninguém além de si mesmo e seus prazeres. Pode estar se divertindo com a novidade de ser pai, mas quando se casar com. minha filha, ele...

Parou de falar de modo deliberado e inclinou a cabeça fingindo simpatia, ao ver Beatrice empalidecer.

— Não sabia? Minha Winifred está muito apaixonada por Nicholas e, é claro, trata-se de um grande partido para ele.

O rosto embrutecido adquiriu uma expressão de pena.

— Oh, minha querida jovem! Espero que o patife não tenha brincado com seus sentimentos. Nicholas Hendry não é homem para ser levado a sério por mulher alguma.

Beatrice deu um passo atrás, demonstrando intenção de subir a colina de novo, a fim de se afastar do hálito fétido do barão Hawse.

— Pouco me importo com quem o mestre Hendry se casará. Só quero Owen. Onde está ele?

— Está a salvo, Beatrice. Sabe, mantive-o seguro para você.

Seguiu-a até o pé da colina e passou-lhe a mão sobre o rosto. Beatrice estremeceu de repulsa, porém, manteve a aparente calma, não podia dar-se ao luxo, naquele momento, de irritar o barão mais ainda. Precisava pensar em Owen.

— Sou um homem poderoso, minha cara, e posso fazer muito pelas pessoas que são boas comigo.

A voz era untuosa, e o contato da mão cabeluda provocava arrepios em Beatrice, porém precisava descobrir mais sobre o paradeiro do sobrinho.

— Por favor, barão. Onde está ele?

Gilbert Hawse colocou dois dedos sobre os lábios e assobiou de modo agudo. Em meio a um amontoado de árvores, Leon emergiu com Owen debatendo-se em seus braços. O homem pôs o menino no chão, e Owen correu em direção à Beatrice.

— Não gosto daquele homem, tia Beady — choramingou a criança.

Beatrice enlaçou-o com força, fechando os olhos e deixando escapar um suspiro de alívio.

— Agora está tudo bem, Owen. Não se preocupe.

— Voltou a encarar o barão. É desprezível usar uma criança desse modo!

Hawse sorriu.

— Foi apenas para lhe mostrar como uma mulher e uma criança são vulneráveis quando não têm quem tome conta delas.

Ouviu-se a voz de Jannet chamando, de cima da colina. Beatrice voltou-se, e acenou para a amiga, surpresa ao ver Nicholas a seu lado.

O barão também pareceu espantado, e nada contente com aquela visão. Falou depressa:

— Vou fazê-la voltar a sua guirlanda de flores, Beatrice, e espero que reconsidere minha oferta com cuidado. Como viu pela pequena demonstração de hoje, é fácil para as crianças se meterem em encrencas. Com minha proteção, jamais terá que se preocupar com a segurança de Owen outra vez. Prometo.

Agora que tinha o sobrinho de volta, são e salvo, a fúria de Beatrice não podia mais ser controlada.

— Não preciso de sua proteção, barão Hawse! Nem a de qualquer outro homem. Meu pai e eu temos muitos amigos neste vilarejo, e, pelos santos, se algo acontecer com Owen, verá o que é ter inimigos.

O barão escutou-a, com um brilho estranho de admiração no olhar.

— Por Júpiter! Você é uma mulher e tanto, minha cara! Faríamos um belo par.

Beatrice engoliu em seco, e dardejou:

— Nem em um milhão de anos!

Por alguns segundos, o barão ficou de cenho fechado, mas logo voltou a sorrir, confiante.

— Veremos — redargüiu em tom macio.

Então, como Nicholas e Jannet, com o pequeno Nick nos braços, começavam a descer a colina em sua direção, o barão voltou-se e foi embora. Quando Nicholas alcançou o sopé da colina, o nobre e Leon haviam desaparecido.

Jannet quis saber:

— Owen está bem?

Beatrice ainda segurava o menino entre os braços, como se não suportasse deixá-lo, porém Owen desvencilhou-se ao ver Nicholas. A jovem deixou-o ir, vendo-o correr a abraçar o pai.

— Está bem. Apenas correu para muito longe.

Não tinha certeza se desejava revelar os detalhes da conversa com o barão, pelo menos até entender tudo que o homem dissera e avaliar o real perigo que Owen corria.

Mas Nicholas vira o barão e, com o cenho carregado, quis saber mais.

— O que Hawse fazia aqui?

— Estava só de passagem, creio.

— Homem feio e mau — disse Owen, enterrando o rosto no peito do pai.

Nicholas olhou do menino para Beatrice.

— Do que ele está falando?

— O empregado do barão o assustou, acho. Não é de surpreender, o homem assustaria até o diabo.

Para alívio de Beatrice, Nicholas não perguntou mais nada. Ao contrário, voltou a atenção para Owen e Nick, Logo fazendo-os rir, o incidente já esquecido.

Quando todos já estavam a caminho do chalé dos Fletcher, Nicholas virou-se para Jannet e pediu:

— Poderia pedir-lhe o favor de cuidar um pouco de Owen? — Olhou para Beatrice. — Tenho algumas coisas para conversar com sua tia.

 

Depois que o medo inicial provocado pelo sumiço de Owen desapareceu, o cérebro de Beatrice continuou se preocupando com as outras coisas que o barão Hawse lhe dissera, em particular com sua declaração de que Nicholas Hendry estava comprometido com sua filha Winifred.

Nicholas jamais mencionara tal detalhe mas, era evidente, pensou Beatrice com amargura, por que um cavaleiro dono de terras iria se preocupar em mencionar seus planos de casamento com uma humilde moça de vilarejo, sua própria arrendatária?

Caminhando pelo campos de volta ao chalé dos Fletcher, observou-o caminhar à frente com Owen e o pequeno Nick, parecendo tão criança quanto eles. As incessantes risadas infantis misturavam-se ao riso profundo de Nicholas, chegando até aos ouvidos das duas mulheres que seguiam logo atrás.

Beatrice sentia uma dor no peito, Fora tão irresponsável quanto a irmã. Apaixonara-se por Nicholas Hendry, e seria abandonada com nada a não ser um coração partido para lembrá-la de seu erro por toda a vida.

Pelo menos, pensou com tristeza, saíra-se melhor do que Flora. Mesmo no meio da inconsciência das novas sensações sensuais que a possuíam, percebera que Nicholas tomara cuidado para não repetir o engano que cometera com sua irma. Dessa vez não haveria nenhum bebê ilegítimo para revelar sua humilhação.

Quando chegaram ao lar dos Fletcher, Beatrice já decidira que o único caminho a seguir seria afastar-se de Nicholas Hendry. O cavaleiro poderia visitar Owen quando ela não estivesse por perto. Também pediria aos FLetcher que a avisassem de suas visitas, para que não fosse até lá, e nunca andaria por perto de Hendry Hall.

Ao chegarem à porta do chalé, Jannet perguntou:

— Você concorda, Beatrice?

— O que disse? — perguntou a jovem de modo vago, pois estava muito envolvida nos próprios pensamentos.

— Deixar Owen aqui para que você e Nicholas possam conversar a sós.

— Não! — Beatrice percebeu que gritara, e abaixou o tom de voz ao ver que os dois meninos a olhavam espantados. — Nada tenho a conversar com mestre Hendry.

Assim dizendo, lançou a Nicholas um olhar enviesado. O jovem pareceu magoado apenas por um breve momento, e logo sua expressão ficou sombria de raiva.

— Lamento insistir, mas tenho coisas a dizer-lhe, senhorita.

Jannet olhava de um para outro, sem nada entender. Perguntou, com um sorriso nervoso:

— Bem... que tal se eu ficar com os dois pequenos e deixá-los resolverem seus problemas?

Nicholas e Beatrice falaram ao mesmo tempo, cada qual defendendo seus motivos.

— Sim!

— Não!

Jannet cruzou os braços e esperou. Começava a se divertir com aquela situação e gostaria muito de saber o que ocasionara o novo preconceito da amiga contra o senhor de Hendry.

Owen veio correndo até Beatrice e puxou-lhe a saia.

— Posso ficar com Nick, tia Beady? Vamos brincar com nossos cavalos.

O belo cavalo de pau que Nicholas dera a Owen fora duplicado pelas mãos hábeis de Harold, de modo que agora os dois meninos brincavam de cavalgar sempre juntos. Embora os brinquedos consistissem de pouco mais do que duas varas compridas, para as crianças eram a diversão mais atraente que existia, sendo que Owen sentia um orgulho especial em A cavalgar o “corcel" que pertencera ao pai.

Beatrice tentou arranjar uma desculpa plausível para evitar o colóquio com Nicholas.

— Tivemos um longo dia, cheio de sustos e...

O rostinho de Owen encheu-se de desapontamento, obrigando a tia a mudar de atitude.

— Está bem. Pode ficar até a hora do jantar. Depois voltarei para buscá-lo.

Os meninos partiram como um raio, em direção aos folguedos. Jannet soltou um suspiro de alívio, e disse de modo rápido:

— Bem, vou procurar por Harry.

E também desapareceu atrás da casa.

Nicholas e Beatrice viram-se a sós, olhando um para o outro de modo desconfiado. Por fim, ele perguntou:

— Por que não quer conversar comigo?

— Creio que nada temos para conversar.

— Sempre existe o assunto sobre meu filho.

— O que há com Owen?

Nicholas balançou a cabeça irritado.

— Não aqui. — Apontou para Scarab que pastava por perto. — Vamos cavalgar?

Beatrice olhou em volta. Nem sinal de Jannet ou de Harold. Podia ouvir os gritos felizes das crianças no quintal do chalé. Com um suspiro concordou, e seguiu Nicholas até o cavalo, em silêncio. Quando o viu trançar as mãos para que apoiasse o pé e montasse, murmurou:

— Nunca andei a cavalo antes.

Nicholas sorriu.

— Não me preocupo. Acho que é capaz de fazer qualquer coisa.

Beatrice percebeu que, de modo velado, falava do ato de amor que haviam vivido, mas tratou de ignorar o comentário e concentrou-Se em se posicionar na sela, um tanto desajeitada, ao mesmo tempo em que Nicholas montava também.

Quando começaram a se mover, Beatrice percebeu que não era tão mau assim. Escorregou um pouco na sela, indo aninhar-se no peito de Nicholas. Se não estivesse andando a cavalo com um patife, matutou, até que seria muito divertido.

Após alguns instantes percebeu que iam na direção de Hendry Hall. Perguntou, de modo abrupto:

— Para onde vamos? Preciso voltar para meu pai na taverna.

Não podia ver o rosto de Nicholas, mas sentia que sorria, quando respondeu:

— — Seu pai está muito bem, querida. Fui até o Javali Dourado a sua procura e encontrei Philip agitado e feliz, recebendo a visita de Enid ~ue o paparicava sem parar.

As novidades deixaram Beatrice contente, mas redargüiu:

— Não sou sua “querida”, mestre Hendry.

Nicholas nada disse, e continuaram a cavalgar em silêncio completo.

Não haviam chegado a Hendry Hall quando Nicholas seguiu por um desvio na estrada, em um atalho coberto de grama.

— Para onde vamos? — Beatrice perguntou ansiosa.

— Apenas até um lugar onde poderemos conversar sem sermos interrompidos, longe da minha e de sua casa.

Acabaram chegando a um pequeno chalé encravado na floresta bem atrás de Hendry Hall. A minúscula moradia não era visível da estrada e parecia estar desabitada. Uma velha estradinha que conduzia até a porta estava coberta de vegetação.

— Descobri este lugar quando era menino — explicou Nicholas, desmontando e estendendo os braços para ajudar Beatrice a apear.

A jovem desceu e, por um breve instante, os dois ficaram abraçados, sentindo o calor que os unia.

Desvencilhando-se, Beatrice disse:

— Não deveria estar aqui sozinha com você.

Nicholas ergueu as sobrancelhas negras.

— Não acha que é tarde para pensar em cerimônia entre nós dois?

Beatrice passara a noite anterior acordada, relembrando cada detalhe dos momentos de amor que passara com Nicholas. Chamara a si mesma de tola uma centena de vezes, e decidira que uma momentânea fraqueza da carne não a transformaria na mais recente conquista do cavaleiro, a ser acrescentada à longa lista já existente.

Forçara-se então a recordar as longas horas passadas junto ao leito de morte de Flora, ouvindo a pobre irmã tecer louvores ao homem que a desgraçara.

As notícias que o barão Hendry lhe dera sobre o noivado de Nicholas fortalecera sua resolução, envolvendo-a em uma armadura de aço.

Portanto, nada poderia explicar por quê, naquele momento, olhava para Nicholas e senta o coração pulsar com força, tremendo da cabeça aos pés.

— Nunca fui muito preocupada com cerimônias, mestre Hendry, e acho que você também não. Apenas desejo evitar um encontro que poderá ser desagradável para nós dois.

Nicholas parou de sorrir. Segurou-lhe o braço e aproximou o rosto.

— E isso que tem me preocupado, minha jovem. A menos que alguma fada me tenha feito sonhar, eu e você passamos momentos inesquecíveis juntos, e nada desagradáveis. E agora quero saber o que deu errado e por que me olha como se eu houvesse chutado seu cachorro de estimação!

Beatrice sentia o aperto suave no braço como se fosse uma fornalha que a consumisse. Com voz débil, respondeu:

— Teria sido melhor para nós dois se tudo não tivesse passado de um sonho.

Nicholas balançou a cabeça, aborrecido.

— Foi algo mágico, Beatrice, mas não uma quimera.

Beatrice mordeu o lábio e desviou o olhar, perguntando:

— Por que me trouxe aqui, Nicholas?

O jovem olhou em volta, como se parecesse surpreso ao ver-se ali.

— Venha — disse com brusquidão.

E, agindo como quem não admite negativas, tomou-a pela mão e levou-a para dentro do chalé.

Parecia haver um único cômodo. A entrada, havia uma mesa e quatro cadeiras que ocupavam um grande espaço, uma delas com a perna quebrada. Uma arca pequena estava junto à porta no chão, e não existiam estantes nem armários. A única outra peça de mobiliário era uma cama grande, encostada na parede. Estava coberta por úm pano, e havia um cheiro de mofo que dominava o ambiente.

— Ninguém mora aqui? — Beatrice quis saber.

Nicholas acenou em negativa.

— Pelo que sei, nunca foi habitada, embora pertença às terras dos Hendry. As vezes brincava aqui quando criança e ficava pensando em minha vida, horas seguidas. Se não conhecesse meu pai tão bem, acharia que era o local de seus encontros amorosos.

Beatrice lançou-lhe um olhar de esguçlha.

— Por certo foi conveniente quando você cresceu.

Falou com malícia, mas logo desejou ter mordido a língua. Ficou pensando se trouxera Flora para lá.

Nicholas a observava com um sorriso moroso nos lábios sensuais.

— Então, é esse o problema, minha querida?

Tomou-a pelos ombros e a fez sentar-se na cama, de modo gentil, sentando-se ao lado.

— E por isso que ficou tão fria de repente, ontem à noite? Estava pensando nas outras mulheres de minha vida?

Beatrice desviou o olhar. A abordagem era muito simplista. Mas como poderia lhe explicar os sentimentos que a tinham assaltado, a mistura de ciúme, culpa e medo de sofrer? Por fim, respondeu:

— Qualquer mulher seria uma tola de entregar o coração a uma pessoa como você, Nicholas Hendry.

Nicholas estremeceu ante aquela declaração, porém não se deu por vencido, podia entendê-la. Beatrice estava com ciúme. Sua grande habilidade para atrair o sexo frágil e os cuidados que tomava para não magoar nenhuma mulher o tornaram um especialista no assunto.

Mexeu-se na cama, e encarou-a de frente.

— Quero que me ouça. Jamais trouxe outra a este lugar. — Ergueu uma das mãos, para impedi-la de replicar. — Havia outros locais onde podia me divertir, pois não nego que, antes de ir para a guerra, não vivi uma vida de monge.

Beatrice riu sem vontade, ao imaginar o absurdo que seria se Nicholas Hendry fosse padre.

— Mas a guerra é responsável por muitas mudanças em um homem — prosseguiu Nicholas com voz baixa e persuasiva. — Não sou o mesmo que partiu para as Cruzadas, quatro anos atrás.

Beatrice parecia prestar atenção às palavras, pois pelo menos não o interrompia, portanto Nicholas continuou a defender sua causa.

— Não estou mais interessado em casos de amor passageiros, como quando era muito jovem. Tal idéia já não me fascina. Desde que regressei à Inglaterra...

— Fez uma pausa, lembrando-se do rosto atraente da viúva em Durleigh, a imagem dançando ante seus olhos. Resistira aos avanços ardentes da mulher por quase uma semana, até sucumbir à fraqueza, quando embebedara-se com cerveja. — Desde que regressei a Hendry — corrigiu -, só estive com você. Não olhei para outra mulher, e nem desejo outra

A princípio Beatrice relutou em acreditar naquelas palavras, porém a sinceridade na voz de Nicholas por fim começou a amolecer seu coração. Não era possível que fosse tão falso, parecia falar com tamanha honestidade... O barão Hawse mentira a respeito do noivado de Nicholas e sua filha, e isso não era dificil de acreditar. Fora uma tola por crer naquele homem asqueroso e seu sorriso hipócrita.

Pensou em contar a Nicholas sobre a história do barão, mas distraiu-se ao vê-lo mover-se mais para perto e tomar-lhe as mãos.

— Diga-me que não deixará meus pecados do passado interferirem e arruinarem o que existe entre nós, Beatrice. Sei que é pedir muito, já que sua própria irmã...

Parou quando Beatrice tocou-lhe os lábios com os dedos, dizendo com meiguice:

— Cale-se, Nicholas. Não vamos falar de Flora agora. — Fez uma pausa e olhou em volta, preocupada.

— Tem certeza de que nunca a trouxe aqui?

O riso de Nicholas foi feliz e aliviado.

— Não — respondeu, abraçando-a. — Nem ela nem nenhuma outra, menina ciumenta! Você é a primeira que desejei trazer a este esconderijo da infância.

— Fico feliz.

Nicholas rolou na cama, derrubando Beatrice consigo. Ela desejaria ouvi-lo acrescentar que seria a primeira e única, mas Nicholas já se ocupava em tirar-lhe a roupa e nada mais havia a ser dito no momento.

Beatrice também não sentia necessidade de falar quando seus lábios se encontraram e as mãos de Nicholas começaram a busca frenética e experiente por seu corpo. Tocou-a nos seios, apertando os mamilos rijos, e depois seus dedos acariciaram partes mais íntimas.

Parou de beijá-la por um momento para observar-lhe o rosto enquanto a acariciava de modo a deixá-la louca de desejo. Beatrice cerrou os olhos e entregou-se às sensações voluptuosas, sem se envergonhar por Nicholas perceber o efeito que causava.

Em poucos minutos, vibrava de paixão, e sorria, deliciada, abrindo os olhos.

Nicholas retribuiu o sorriso, murmurando:

— E tão sensual, meu amor... Uma mulher muito ~quente.

Beatrice deixou-se prender em— seus braços, o corpo entregue às carícias. Em breve sentiu a rigidez de Nicholas contra a pele, e os beijos recomeçaram, incessantes.

— Gostaria de ir mais devagar, querida, mas não consigo esperar...

As carícias tornaram-se febris. Beatrice gemeu, encorajando-o, e Nicholas penetrou-a. Dessa vez ela sabia o que iria acontecer. Eram como um único corpo e as sensações transcendiam o campo físico, alcançando o âmago de seu ser.

— Meu amor — sussurrou Nicholas, junto a seu ouvido.

As palavras penetravam no íntimo de Beatrice, enquanto a intensidade dos movimentos aumentava. Quando alcançaram o clímax sensual juntos, Nicholas repetiu -seu nome muitas vezes, esquecido do mundo ao redor.

Pouco a pouco, tudo foi voltando ao normal, e Beatrice tornou a observar as quatro paredes do minúsculo chalé, o forte odor de mofo dos lençóis, o frio das paredes ao redor. Nicholas jazia sobre seu corpo, imóvel e pesado. Beatrice tentou se mover, e ele abriu os olhos. Sorriu de modo preguiçoso, perguntando:

— Vai me dizer que foi um outro sonho causado pelas fadas do bosque? Se disser, acreditarei.

Beatrice soltou uma risada alegre, estranhando o som, pois não cçstumava rir assim.

— Foi você quem me encantou, cavaleiro, não as fadas.

Nicholas a beijou.

— Fico feliz por isso. Entretanto, creio que fui ajudado por seres mágicos de outro mundo, do contrário não teria conseguido conquistá-la.

Beatrice afastou-se e perguntou:

— Não são palavras muito humildes para um homem com sua reputação?

Nicholas riu.

— Esqueceu do modo como me recepcionou a primeira vez que nos encontramos?

Beatrice corou e respondeu com seriedade:

— Estava preparada para odiá-lo, Nicholas. E, por um certo tempo, foi isso que fiz.

Nicholas também assumiu uma expressão mais séria.

— Sim, tinha suas razões, é algo que jamais poderemos esquecer. Mas fico muito feliz que tenha mudado seus sentimentos a meu respeito.

De novo a puxou para seus braços, mas as palavras sérias e a memória -de Flora haviam mudado o clima de intimidade. Depois de uns minutos, Beatrice disse:

— Preciso mesmo voltar para o Javali Dourado. Papai deve estar se perguntando o que aconteceu comigo.

Nicholas não argumentou quando ela sentou-se na cama e começou a recolher as roupas do chão. Logo em seguida, seguiu seu exemplo. Vestiram-se em silêncio, até que o cavaleiro disse:

— Antes de levá-la de volta, gostaria de esclarecer um assunto.

Beatrice ergueu o olhar, surpresa. Olhou para os lençóis amassados onde haviam acabado de fazer amor, e sorriu:

— Pensei que já houvéssemos resolvido muito bem.

Nicholas retornou o sorriso de modo breve.

— Sim, resolvemos essa parte, mas queria falar sobre Owen.

Beatrice franziu o cenho.

— O que há com ele?

— Não gostei de vê-lo hoje nos braços do empregado do barão. Aquela cena não ficou bem explicada e, de qualquer modo, não desejo Hawse se metendo com meu filho.

Beatrice sentiu um tremor percorrer-lhe a espinha.

— Nem eu, portanto estamos de acordo.

— Decidi que o melhor para todos nós seria se ele fosse morar em Hendry Hall.

Beatrice, que amarrava o cinto do vestido, quase perdeu o equilíbrio.

— Viver lá?

— Sim. As coisas entre eu e o barão começam a ficar... — Nicholas fez uma pausa. — Iria me sentir melhor se tivesse Owen sob meus olhos.

O último vestígio da paixão desaparecera, enquanto Beatrice sentia a raiva voltar com ímpeto.

— O que o faz pensar que estaria mais segu7ro com você do que comigo e o avô? Pelo que sei, é você quem está às turras com o barão. Levar o menino para morar em Hendry Hall seria envolvê-lo em suas disputas.

Nicholas deu um passo na direção da jovem, percebendo de modo claro que voltara a enervá-la.

— É claro que você e Phillip poderiam ir visitá-lo sempre que desejassem. Nicholas tentou um tom persuasivo. — Em Hendry Hall temos empregados que olharão por Owen o tempo todo e...

— No Javali Dourado não há necessidade de servos para cuidarem de Owen. Ele tem uma tia e um avo para educá-lo e amá-lo.

Nicholas estendeu a mão e acariciou-lhe uma mecha de cabelos. -

— Não quero deixá-la zangada, meu bem, apenas...

Beatrice voltou a interrompê-lo.

— Bem, para quem não está tentando me aborrecer, fez um ótimo trabalho. O lar de Owen é o Javali Dourado, e não vamos mais discutir o assunto.

Beatrice sabia que devia estar com uma aparência muito irritada, e Nicholas começava a se exasperar também.

— Owen é meu filho — disse ele, em tom conciliador. — Sou o membro mais próximo de sua família. E resolverei o que é melhor para ele.

Beatrice ergueu os braços em um gesto de raiva e desespero.

— Foi por isso que me trouxe aqui, neste ninho de amor, Nicholas? Pensou que fazer amor comigo me faria mudar de idéia e concordaria em abandonar minha criança?

— Owen não é sua criança.

Beatrice não conseguia acreditar que aquelas palavras cruéis vinham da boca que há pouco a beijara com tanta paixão e meiguice. As frases do barão voltaram-lhe a mente, como punhaladas.

“Nicholas Hendry não é homem para inspirar confiança em mulher alguma. Só pensa em seus próprios interesses.”

Talvez tivesse razão, afinal de contas.

Afastou-se quando Nicholas se aproximou de novo, tentando apagar as palavras duras que dissera.

Beatrice manteve os pés bem plantados no chão, pôs as mãos nos quadris e o encarou com firmeza.

— Está errado, Nicholas. Owen é dez vezes mais meu do que seu. Estava presente quando nasceu, embalei-o nos braços, caminhando horas seguidas de um lado para o outro do quarto, enquanto sua mãe agonizava. Alimentei-o e tomei conta dele, vesti-o, ensinei-lhe tudo que sabe, e brinquei com ele, enquanto seu pai estava ausente em uma guerra em terras distantes, e nem sabia de sua existência. Owen é meu, senhor cavaleiro das Cruzadas! E pretendo mantê-lo a meu lado.

Beatrice respirava com dificuldade ao terminar o pequeno discurso, sentindo claustrofobia dentro do pequeno chalé. Só pensava em escapar dali, correr para a casa dos Fletcher, encontrar Owen e prendê-lo em seus braços, a fim de assegurar a si mesma que sempre o teria consigo.

Mas não tinha certeza se encontraria o caminho em meio à floresta. Não sabia direito onde estava localizado aquele chalé escondido, portanto era forçada a esperar enquanto Nicholas também se acàlmava.

— Minha querida — começou Nicholas, mas mudou de tática ao vê-la enrijecer o corpo. — Beatrice, até hoje você foi tudo para Owen, assim como Phillip. Em especial você que foi mãe e pai para o menino e fez um trabalho excelente, educando-o. Não estou tentando separá-la de Owen. Só desejo levá-lo para um local onde estará a salvo, em especial agora. Existem coisas que preciso...

Interrompeu-se ao vê-la virar o rosto, demonstrando que não queria ouvir seus argumentos. Beatrice perguntou com frieza:

— Vai me levar para casa agora ou devo voltar sozinha?

Nicholas suspirou.

— Vim aqui hoje para esclarecer tudo entre nós.

— E pensou em resolver tudo tirando meu menino de meus braços? — Beatrice o encarou e perguntou com amargura.

— Não. Fazendo amor do jeito como fizemos.

Beatrice ficou rubra de indignação.

— É evidente! É a maneira com que sempre resolve as pendências em sua vida, não é mesmo? Depois que inicia uma mulher nesses talentos que maneja tão bem, consegue tudo dela!

Nicholas balançou a cabeça em negativa.

— Não foi essa minha intenção.

Beatrice o encarou dentro dos olhos.

— Não acredito em você.

Então, voltou-se e saiu do chalé. Poderia levar metade da noite para encontrar o caminho de casa, mas valeria a pena, para não ter que passar nem um minuto a mais na companhia sedutora e enganosa de Nicholas Hendry.

 

Quando Nicholas, após vestir as roupas de modo apressado, conseguiu alcançar Beatrice, a jovem estava tomada pela fúria. Ainda tentando compreender como voltara a perder uma batalha que já julgava ganha, tentou raciocinar com ela, porém Beatrice apenas pedira, com grande frieza, que a reconduzisse ao Javali Dourado.

A volta transcorreu de modo muito diverso, com Beatrice rígida na garupa de Scarab, e nenhuma palavra foi trocada, ainda mais porque Nicholas temia sua reação. O que teria feito de errado? O que teria dito de tão grave para deixá-la de novo aborrecida? Amaldiçoava em voz baixa o mistério da alma feminina.

Depois de deixá-la na taverna sem receber nem mesmo uma palavra de despedida, o cavaleiro retornou sem pressa a Hendry Hall, e viu-se conversando com o cavalo.

— O problema é o seguinte, Scarab — falou junto ao ouvido do animal. — As mulheres pensam de modo diferente dos homens. Costumava me considerar um perito em assuntos femininos mas, com essa criatura em particular, pareço sempre fazer e dizer a coisa errada.

E claro que Scarab não deu nenhuma resposta sábia, mas também não se voltou com raiva para o dono, portanto, no geral, pensou Nicholas, era melhor companhia, no momento, do que qualquer filha de taberneiro.

Em tempos passados, talvez Nicholas fizesse confidências com a mãe, mas depois de lady Constance ter admitido que iria se casar com o barão Hawse, uma muralha se erguera entre os dois, feita de frieza e um certo ressentimento.

Já não havia a espontaneidade que sempre existira entre mãe e filho. Em especial, Nicholas achava que ConStance não iria entender o estranho pânico que o dominara ao ver Owen, ao pé da colina naquela tarde, esperneando nos braços de Leon.

De uma maneira inexplicável, mas simples e direta, não confiava no barão Hawse nem em seu empregado, e não desejava nenhum dos dois perto de seu filho.

Talvez não tivesse usado de muita sutileza, e feito a sugestão de maneira muito abrupta para Beatrice.

Deveria ter levantando o assunto de modo mais paciente, passo a passo. Quem sabe poderia ter primeiro falado da guerra que estava para começar ente ele e o barão, a respeito dos direitos sobre Hendry. Agora a jovem estava zangada demais para ouvi-lo.

Chegou ao pátio interno de Hendiy Hall e conduziu o cavalo para os estábulos. Era quase hora do jantar e não havia empregados circulando por ali, portanto desmontou sem ajuda e conduziu Scarab para uma das baias.

— Quanto tempo devo dar a ela, Scarab? — perguntou enquanto removia a sela e começava a escovar o pêlo lustroso do belo animal. — Acha que estará mais calma pela manhã?

Scarab moveu a cabeça com impaciência, e voltou-se para o outro lado.

— Se fosse você, esperaria? Talvez seja o mais sensato a fazer. Ou, quem sabe, a demora aumentará a raiva que ela sente por mim. Beatrice parece uma chaleira em ebulição, você sabe.

Retirou a manta do dorso do animal e ficou parado, como se de fato esperasse algum tipo de resposta ou conselho.

O animal relinchou ruidosamente.

Por fim, Nicholas soltou uma risada rouca e abafada, e, com o ancinho, ofereceu uma boa porção de feno para o cavalo, comentando:

— Oh! Você é bem esperto, recusando-se a dar sua opinião. Em questões do coração, é melhor deixar que os interessados resolvam seus problemas.

Deu um tapa afetuoso nas ancas de Scarab e virou-se para sair dos estábulos.

Winifred Hawse estava parada à porta, o rosto pálido e grave. Sorriu de modo trêmulo.

— Então, você conversa mesmo com seus cavalos.

Nicholas ficara muito surpreso, mas logo se recuperou.

— Sim, em particular quando tenho dúvidas para as quais não encontro .respostas.

Winifred acenou de modo triste como se entendesse muito bem o que Nicholas queria dizer.

— Também me vejo muitas vezes com esse tipo de perguntas.

Nicholas sorriu de modo afável e caminhou em sua direção.

— Pode falar com Scarab, se quiser. Não gosta muito de dar opinião, mas é um bom ouvinte.

— Como você, Nicholas.

O jovem surpreendeu-se de novo com aquelas palavras, sentindo-se um tanto sem jeito. Como Winifred mudara! Não era mais o ratinho assustado que mal conseguia erguer os olhos do chão. Agora se externava com maior desenvoltura, e perdera muito da antiga timidez. Decidiu dar uma resposta evasiva.

— Sempre sou um bom ouvinte quando quem fala é uma bela moça.

Winifred riu.

— Bem, mudando de idéia, acho que de vez em quando é um bom ouvinte, mas, na maioria das vezes, é um galanteador, Nicholas Hendry. De qualquer modo, acho mais fácil conversar com você do que com qualquer outro homem que conheço.

O modo direto com que Winifred se expressava era diferente de tudo que esperara ouvir da jovem quieta e inibida que conhecera.

— Tenho certeza de que existem muitos rapazes que adorariam manter uma conversação com você, Winífred, se lhes desse oportunidade.

— Talvez. Em geral não tenho chance de descobrir isso quando meu pai está por perto. Só há pouco tempo consegui coragem para pensar em como a vida seria boa se conseguisse me separar dele, mas parece que é tarde demais.

— Tarde?

— Pensei que seria meu salvador, Nicholas. Estou falando da idéia de nosso casamento.

Nicholas piscou, estupefato, e escolheu as palavras com cuidado.

— Mas já conversamos sobre isso, Winifred. Concordamos com o fato de que não existe amor entre nós.

O sorriso da jovem era triste, quando estendeu a mão e tocou-o na manga.

— Não se preocupe, Nicholas. Sei que não sou a mulher de quem falava com tanto entusiasmo com seu cavalo, há alguns momentos. E uma moça de sorte, a sua Beatrice!

Nicholas surpreendeu-se, e Winifred sorriu.

— Fique tranqüilo. Não é de minha conta, mas sei que ama a tia de seu filho. Uma mulher observadora percebe as coisas.

— Mas isso não depõe contra você, Winifred. Também merece o amor, e qualquer homem que a desejar será um felizardo.

Winifred balançou a cabeça com desânimo.

— Não precisa tentar me confortar, Nicholas. Embora meu pai sempre diga que sou um traste e que ninguém irá se interessar por mmi, sei que tenho valor. Um dia um homem descobrirá isso, e a ele darei meu coração.

Nicholas procurou, de modo desesperado, novas palavras para animá-la. Winifred fora se modificando e se tornando mais forte a cada dia, ante seus olhos, e em pouco tempo.

Tinha razão. Faria um homem muito feliz a seu lado, se aquele pai odioso não vivesse esmagando seu espírito, e não conseguisse aniquilá-la antes que um grande amor surgisse.

Infelizmente, receava estar colaborando para que perdesse o pouco de autoconfiança que adquirira. Podia ler a frustração em seu olhar, já a vira nos olhos de outras garotas a quem abandonara. Em tempos passados, fora muito frio e insensível em relação a isso, porém naquele instante, a expressão nos meigos olhos castanhos de Winifred fazia sua consciência doer.

— Se precisar de ajuda para combater seu pai, Winifred, quero que saiba que pode contar comigo. Gostaria de ser seu amigo.

Ela estremeceu ante aquelas palavras, e respondeu:

— Sei disso e o agradeço, Nicholas. Também serei sua amiga. Agora é melhor voltar para o castelo, antes que dêem pela minha falta.

Nicholas olhou para pátio, buscando ver sua liteira, e acabou perguntando:

— Como chegou até aqui?

Winifred apontou para uma pequena égua baia que comia grama ali perto.

— Vim a cavalo.

Nicholas não pôde conter a admiração. Que garota aquela Winifred!

— Sozinha e a cavalo?

— Bem, não se trata de um burrico, como pode ver. — Winifred sorriu. — E claro que Castanha não se compara com Scarab, mas é pequena e de bom gênio, perfeita para mim que ainda estou aprendendo a montar.

— Parabéns! — exclamou Nicholas com sinceridade e carinho. — E um feito e tanto! Você tem muita coragem.

Winifred pareceu satisfeita com o cumprimento. Olhou por cima do ombro, enquanto se dirigia até a Castanha, e disse:

— Mas ainda falo com os animais.

Nicholas a seguiu é ajudou-a a montar na égua Castanha que era o ideal para uma principiante, pensou consigo mesmo ao vê-la afastar-se. Era uma jovem esperta e tinha muita fibra para procurar desvencilharse do jugo cruel do pai.

Nicholas observou Winifred se afastar montada em Castanha, e depois voltou-se para a entrada da casa, com um suspiro de frustração. A última coisa que desejava era aumentar as tristezas da jovem filha do barão.

Tratou de convencer-se de que na verdade Winifred desejava livrar-se do pai, através do casamento, e que não o amava de fato. Seu desapontamento teria vida breve e logo seria esquecido. Voltara das Cruzadas com um juramento de mostrar seu valor e ser bom para todas as pessoas que encontrasse, mas era uma promessa que até agora não conseguira cumprir.

Para onde quer que se virasse, pensou, parecia que só semeava tristeza, frustração e mal-entendidos.

 

Quando Beatrice chegou a casa, Eníd já preparara o jantar de Phillip. O casal de idosos estava sentado um ao lado do outro, em um banco, comendo sua refeição como se fossem casados. A velha senhora não parecia nem um pouco cansada de tanta atividade na taverna o dia inteiro. Pelo contrário, observou Beatrice, parecia contente e lépida como uma menina de quinze anos. Phillip também desmanchava-se em sorrisos.

O bom humor dos dois acabou por dissipar o estado de espírito negativo de Beatrice. Sorrindo, a jovem pensou que a afeição entre duas pessoas de fato era o melhor remédio para a eterna juventude.

Aproximou-se do casal, perguntando, em tom agradável:

— Correu tudo bem por aqui hoje?

— Sim — respondeu Enid com uma risada sonora.

— Mandei Gertie para casa, e disse que, se algum cavaleiro simpático passasse por aqui, eu mesma o servina.

Beatrice voltou a sorrir, achando graça na situação.

— E passou algum?

Enid fingiu desânimo.

— Não, vieram somente alguns rapazes do vilarejo tomar a cerveja da tarde, e eu os servi.

Phillip tratou de aproveitar a oportunidade e fazer um elogio bem masculino:

— A mais bela garçonete que já tivemos no Javali Dourado.

Eníd corou como uma menina ante o primeiro namorado.

Beatrice observava a cena com olhar surpreso, seguindo os movimentos de um e de outro, sem conseguir acreditar no que via e ouvia. Se não soubesse muito bem que ambos haviam passado dos sessenta anos, diria que estava diante de uma donzela e de um jovem rapaz, empenhados no flerte inicial de um futuro namoro.

Suspirou, negando-se a admitir que sentia uma pontada de inveja, aquilo seria um sentimento absurdo. Há muito tempo chegara à conclusão que o amor romântico não existia. Sua experiência com Nicholas Hendry era uma prova viva disso.

Tinha certeza de que Nicholas estava comprometido com a filha do barão Hawse e apenas a levara ao chalé escondido na floresta para... aproveitar-se mais um pouco, pois sabia que estava apaixonada. Desejara apenas abrandá-la para poder dar-lhe a notícia sobre roubar Owen. Os homens eram uns patifes!

Nicholas Hendry conseguira levá-la para a cama duas vezes e, mesmo assim, pretendia casar-se com outra e privá-la da única alegria em sua vida: o pequeno sobrinho. Apenas ao pensar naquilo, Beatrice sentia o sangue ferver.

— Vou buscar Owen — disse, de repente, ansiosa para voltar a sentir o menino em seus braços. — Quer que a espere para acompanhá-la de volta ao chalé, Enid?

Phíllip balançou a cabeça em um gesto negativo, cheio de energia, o que voltou a fazer Beatrice pensar em um rapaz de dezoito anos.

— Eu mesmo levarei a ara. Fletcher para casa.

Beatrice o encarou atônita.

— Há mais de uma semana que só caminha do barracão para a taverna e vice-versa.

Phillip sorriu.

— Tive uma recuperação miraculosa. Enid é uma verdadeira feiticeira.

Acompanhou o comentário com um olhar de admiração para a velha senhora, que voltou a corar como uma menina, dando-lhe uma cotovelada gentil.

— Você é um galanteador, Phillip Thibault! Phillip? Enid? Onde estava a cerimônia de antes entre os dois? Beatrice virou-se para sair, sentindo-se mais confusa do que nunca. Até o dia anterior haviam-se tratadó sempre de Asenhor ~ Asenhora@... Talvez as fadas brincalhonas da florestas das quais Nicholas sempre falara houvessem se mudado para o Javali Dourado e haviam atirado um feitiço em seu pai e na avó Fletcher.

Talvez isso explicasse, pensou, suspirando, por que sua própria história de amor finalizara. As fadas haviam perdido o interesse nela.

 

Constance Hendry e Molie trocaram um olhar de irritação. Nícholas acabara de beber um jarro com cerveja, o segundo que solicitara naquela noite.

Molie voltou-se para o jovem, perguntando:

— Devo avisar a cozinheira para que não se preocupe com o assado, já que você só pretende beber hoje?

Constance não chamou a atenção da jovem criada pela insolência porque, Nicholas tinha certeza, pensava da mesma maneira. Além disso, desde que Nicholas se conhecia por gente, Molie nunca fora considerada uma criada comum.

Estava acostumada a dizer o que pensava, e sua mãe parecia não ter problemas com sua insubordinação.

Depois da sexta ou sétima caneca de cerveja, Nicholas começava a encarar Molie com outros olhos, achando-a muito bonita. A idade apenas intensificara suas formas sensuais e sua beleza exuberante.

Quando menino, Molie fora a primeira mulher a iniciá-lo nas artes do amor, e seus seios fartos tinham-lhe parecido a obra mais linda do Criador. Agora depois de todas suas viagens, concluiu, já um tanto bêbado, seus seios continuavam sendo magníficos.

— E tudo de que um homem precisa, Molie querida — disse com um sorriso tolo, e o olhar embaçado. — Um pouco de cerveja e o coração de uma boa mulher. Não é isso que proclamam os. poetas?

Molie deu de ombros e começou a limpar o tampo da mesa, enxugando a cerveja que caíra e corria para as bordas, ameaçando sujar o chão.

— Os poetas só dizem bobagens, seu tolo.

Ergueu o olhar para Constance, balançando a cabeça com gesto desanimado, mas a nobre senhora já se levantara, evitando sujar o vestido com os respingos da bebida. Nicholas permaneceu sentado, indiferente ao que se passava a sua volta, e à cerveja que já lhe molhava a roupa.

— Levante-se, Nicholas — ordenou-lhe a mãe. — Ajude Molie a limpar essa bagunça.

Nicholas obedeceu devagar, erguendo-se um tanto oscilante.

— Desculpe, menina — disse à Molie. — Não me sinto muito bem, não sei por quê.

— Por uma boa razão — retrucou a serva, erguendo o jarro vazio e mostrando-o a Nicholas. — E foi o último gole que bebeu hoje à noite.

Nicholas segurou-a pelo pulso.

— Se não posso beber, então irei me consolar de outra maneira.

Constance o observava com olhar sofrido.

— Filho, talvez deva chamar outro empregado para pô-ho na cama. Sei sobre os demônios que o atormentam desde que voltou para casa, mas tenho certeza que não serão afastados com a bebida ou uma vida irregular e debochada.

Nicholas voltou a sentar-se de maneira pesada, fincando os cotovelos na mesa úmida.

— Não são demônios, minha mãe — respondeu com amargura. — Pessoas de carne e osso é que estão transformando minha vida em um verdadeiro inferno. Meus vizinhos roubaram as terras às quais tenho direito, apenas porque me ausentei, lutando na Guerra Santa. E minha mãe deu sua lealdade a esse vizinho, passando por cima do próprio filho. — De modo automático estendeu a mão até a jarra de cerveja e encontrando-a vazia, a depôs de novo sobre a mesa, com gesto violento.

— E uma jovem que às vezes me deseja e, no momento seguinte, cospe em meu rosto.

Tanto lady Constance quanto Molie o encaravam com expressão de pena e desgosto ao mesmo tempo. -Se o pai pudesse vê-lo naquele instante, pensou Nicholas, iria sentir-se vingado e satisfeito com os prognósticos que fizera sobre o filho.

Nicholas piscou, tentando afastar a névoa dos olhos, firmou-se na mesa com a palma das mãos abertas, e levantou-se. Dessa vez as pernas não falharam, a ferida estava quase totalmente cicatrizada. Isso, pelo menos, devia à Beatrice.

Uma vez firme sobre os dois pés, fez uma mesura exagerada para a mae.

— Desculpe-me — disse. — Hoje não estou sendo a melhor das companhias.

Então saiu da sala, caminhando do modo mais digno que conseguiu.

As duas mulheres o seguiram com o olhar por certo tempo, e depois Molie perguntou:

— Quer que vá ter com ele, senhora?

Constance balançou a cabeça em negativa.

— Não. Sei muito bem que se importa com ele e que até o ajudou a seu modo, mas creio que compreende que já não é a mulher de quem Nícholas precisa.

— Talvez não, mas ele precisa de algum conforto. É um homem agora, porém na verdade nada mudou. Ainda se martiriza com as palavras duras que ouviu do pai no passado.

— Sim, e eu deveria ter conversado com ele a esse respeito há muito tempo, antes que tudo isso acontecesse.

Molie pareceu surpresa.

— Vai lhe contar sobre o pai?

— E hora de Nicholas conhecer a história verdadeira.

— Toda a história? — perguntou Molie ansiosa, os olhos muito abertos.

Em resposta, Constance soltou uma risada seca e desprovida de alegria.

Molie disse:

— Que Deus a proteja, senhora. Poderia me humilhar em praça pública a cada dia de minha vida, e mesmo assim não conseguiria retribuir tudo que fez por mim, e tudo que lhe devo.

Constance balançou a cabeça em sinal de pesar.

— Nada me deve, Mohlie. Porém, se acha que está em débito, pague sua dívida mantendo-se afastada de Nicholas. Ainda é uma mulher sedutora, e percebo muito bem quanto meu filho está vulnerável a seus encantos.

Molie fez um gesto de consentimento.

— Pode ser que a senhora tenha razão. Ficarei longe do rapaz.

— Obrigada — disse Constance.

— Oh, senhora! Sabe muito bem que se me ordenasse chegar junto ao portões do inferno de olhos abertos, eu o faria sem titubear.

Lady Constance sorriu de modo triste, ante a veemência da criada.

— Você já esteve há e voltou, Molie. Não a faria percorrer esses caminhos de dor outra vez. E também não quero ver meu filhQ ser lançado às chamas.

— Se encontrei o caminho de volta do inferno, foi graças à senhora e jamais me esquecerei disso.

— Então me ajude apenas com isso, Molie. Fique longe de Nicholàs até que ele decida em definitivo o que deseja fazer da vida.

— Sim, minha senhora. — Molie falou com determinação. — Farei isso, fique tranqüila.

 

— Com toda a sinceridade, meu senhor, deveria esquecer aquela moça. Deixe que eu lhe encontre uma linda garota do vilarejo para satisfazer seus desejos.

Eram raras as ocasiões em que Leon emitia sua opinião para o amo, porém o barão Hawse estava mergulhado nesse problema havia tempo demais.

Estavam de novo na antecâmara do nobre, esse sentado à mesa, e Leon de pé a sua frente.

O barão esfregou as mãos como se sentisse frio, embora a noite estivesse quente.

— Ela é magnífica, sabe disso. Enfrentou-me na colina e quase retornou as ameaças, cheia de coragem.

— Poderia encontrar-lhe uma moça dócil, que estivesse sempre pronta a satisfazer suas vontades.

O barão encarou seu empregado com olhar de desprezo.

— Aí está uma lição que você nunca aprendeu. O prazer não está em ser satisfeito, mas em conquistar. Seria o maior dos deleites conquistar uma mulher tão forte e combativa quanto Beatrice Thibault.

Leon suspirou.

— E quanto à lady Hendry?

— Constance é uma dama. Não dá atenção aos escândalos que circundam seu filho. E, é claro, sempre fechou os olhos para as escapadelas daquele seu marido tolo até que lhe fiz o favor de matá-lo. Concluí, nesses últimos dias, que mesmo que descubra sobre Beatrice e eu, não creio que se dê ao trabalho de se preocupar com meu caso com uma arrendatária, mesmo que a moça seja a guardiã de seu neto.

— Então, está determinado a deitar-se com Beatrice Thibault?

As pupilas do barão estreitaram-se, parecendo carvões em brasa, escuras e ameaçadoras.

— Já lhe dei minhas ordens, Leon. Traga-a aqui.

— Sim, meu senhor. — O servo fez uma reverência, mexendo-se de modo embaraçado, e perguntando depois de um segundo. — E isso é tudo, senhor?

O barão dispensou-o com um gesto de mão.

— Sim, vá.

Do lado de fora da porta da antecâmara, Winifred encostava-se na parede de pedra fria do corredor, tentando recuperar o folego. Estivera a caminho dos aposentos do pai, quando o ouvira falar com o criado de confiança e parara. Viera no impulso do momento, depois da conversa com Nicholas, a fim de pedir ao barão que a deixasse partir, mas as palavras que ouvira, vindas dos aposentos do pai a fizeram gelar de espanto.

O que o barão quisera dizer sobre ter matado o marido de Constance Hendry? E essa mulher que desejava para amante e que chamara de Beatrice? Por certo tratava-se da moça que conquistara o coração de Nicholas.

Como todas as demais pessoas do condado, Winifred ouvira falar do filho ilegítimo de Nicholas Hendry, e sabia que a criança vivia com a tia no Javali Dourado. Certa vez, vira Nicholas à entrada da taverna, conversando com Owen e Beatrice. Percebera o olhar eloqüente que lançara à moça, e soubera, com instinto feminino, que ele a amava.

Não conhecia a srta. Thibault em pessoa, mas tendo ouvido os planos sinistros do pai a seu respeito, sentia-se enojada e com medo.

Ouviu os passos de Leon no chão de pedra e forçou-se a não mover as pernas trémulas. Esgueirando-se pelo cantos, antes que o empregado pudesse vê-la ao sair dos aposentos do barão Hawse, escondeu-se em um vão escuro e lá ficou nas sombras.

Leon passou a seu lado sem notá-la, imerso na responsabilidade de sua nova missão.

Winifred ainda respirava com dificuldade, tremendo de medo e ansiedade, mas não havia tempo a perder. Fechou os olhos por um momento, encostando a cabeça na parede fria. Precisava avisar Nicholas sobre as intenções sombrias do pai. Sempre soubera que o barão Hawse era impiedoso, mas seria verdade que assassinara o pai de Nicholas?

Winifred inclinou-se para frente, apertando o ventre com as mãos, e lutando contra o temor e a raiva.

Após um instante, endireitou o corpo e respirou de modo profundo, tentando se acalmar. Não tinha tempo para ficar doente, como uma donzela frágil e impotente, disse a si mesma, tomada de energia. Precisava encontrar Nicholas.

 

Não houve resposta quando bateu à porta, mas esta não estava trancada, portanto Constance a abriu, lançando um olhar para o interior do quarto. Nicholas estava deitado na cama, mas não dormia. As velas ainda estavam acesas, e o aposento cheirava a cerveja.

— Não trocou as roupas molhadas, meu filho.

— Costumava dormir sob a chuva, minha mãe, durante a guerra.

— Mas já não está no campo de batalha, Nicholas.

O         rapaz sentou-se na cama.

— Pelo menos, não contra os pagãos. Agora a guerra é outra.

— E contra ninguém mais — acrescentou lady Constance, caminhando e sentando-se ao lado do filho na cama~ — A menos que esteja em guerra consigo mesmo.

Nicholas olhou para a chama da vela na cabeceira, que parecia dançar, produzindo sombras fantásticas nas paredes.

— Veio aqui para ralhar comigo, minha mãe? Na verdade, esperava por carinho e compreensão esta noite.

— Por parte de Molie?

Nicholas sorriu de modo cansado e um tanto cínico.

— É um dos métodos mais antigos para esquecer a maldade do mundo.

— Sim. Um pouco de diversão sob as cobertas faria com que se esquecesse dos problemas por uma noite ao menos, mas quanto à Molie? Parece que, afinal, a pobre mulher encontrou um pouco de paz e felicidade na vida. Destruiria tudo isso por um momento de prazer egoísta? Será uma maldição masculina nascer sem consciência?

Nicholas se encolheu sob os lençóis, como se houvesse levado uma bofetada da mãe. Jamais ouvira Constance, sempre tão delicada e elegante, falar daquela maneira.

— Perdão, mãe. Fico feliz por ver que Molie encontrou um bom homem e nada faria para arruinar seu casamento, juro. Jamais faria valer meus poderes de amo sobre ela.

Lady Constance inclinou a cabeça sobre o peito, encurvando os ombros, e parecendo, naquele gesto, transformar-se em uma anciã. Deu uma palmada de leve no joelho de Nicholas.

— Sim, meu filho, sei disso. Você tem as feições de seu pai, mas nenhum traço de seu caráter.

Nicholas não entendeu muito bem aquelas palavras. Seu pai sempre gostara de lançar-lhe no rosto que nada tinham em comum, porém sua mãe nunca antes expressara tal pensamento. E o que tudo aquilo tinha a ver com Molie?

Vendo a expressão confusa nos olhos de Nicholas, lady Constance deve ter percebido que o filho nada entendera, e que seu discurso não estava fazendo sentindo. Suspirou de modo profundo, acomodou-se na cama e disse:

— Há muito tempo deveria ter falado sobre isso com você, Nicholas.

Muito curioso e sentindo uma espécie de mau presságio, Nicholas perguntou:

— Falar sobre o quê?

Lady Constance fez uma breve pausa e deu de ombros.

— Talvez seja melhor primeiro trocar de roupa, e depois ir se encontrar comigo no solário. Não será fácil para mim falar desse assunto, mas é justo que saiba. Fui capaz de perdoar muitas coisas em Arthur pelo bem e paz de nosso lar, mas jamais lhe perdoarei pelo modo como tratou seu único filho.

Nicholas ensaiou dizer alguma coisa, mas a mãe o impediu, levantando-se da cama e dizendo:

— Vou esperá-lo lá em baixo, meu filho. Deixe-me contar-lhe minha história, e depois responderei a todas suas perguntas.

 

— Cheguei à conclusão de que está certo, pai — disse Beatrice a Phihhíp, sentando-se junto à mesa no espaçoso quarto do segundo andar.

Já colocara Owen em sua pequena cama.

— Agora temos uma novidade — comentou Philhip com bom humor mas um tanto distraído, enquanto preparava umas estacas de madeira, feitas com velhos barris, para escorar as paredes do barracão. — Estou certo sobre o quê, minha filha?

— Penso que deveríamos pegar Owen e nos mudarmos para York.

Phihhip parou de cortar a madeira com a faca, e encarou Beatrice.

— Bem, isso é uma grande surpresa!

— Sim. Decidi que será o melhor.

Philhip tinha uma expressão grave.

— E o que acha que Nicholas Hendry dirá a respeito dessa mudança de atitude?

— Pouco me importo com o que venha a dizer ou achar. Sou eu quem decido... nós, eu e você, quem decidimos onde morar.

— Concordo quanto a mim e você, mas teremos uma discussão com Nicholas a respeito de Owen.

— Owen é nossa criança.

Phihhip colocou a faca de lado e um pedaço de madeira sobre a mesa.

— Não, filha. Owen é o filho de Nicholas Hendry e de Flora, sua irmã. E bom que não se esqueça disso.

Esquecer? Beatrice pensava nisso o tempo inteiro. Se Nicholas estava determinado a levar Owen para viver em Hendry Hall, havia pouco que pudesse fazer do ponto de vista legal, para impedi-lo.

Relanceou um olhar para a pequena cama onde apenas se via a cabeleira revolta de Owen, surgindo sob as cobertas.

— Somos sua família.

— Sim — concordou Philhip com calma. — E por esse mesmo motivo devemos ter certeza de que, seja lá o que fizermos, será para o bem dele. Agora me conte por que de repente quer fugir para York quando sempre foi contra essa idéia que eu mesmo sugeri.

Beatrice não desejava contar sobre a conversa que tivera com o barão, pois Phillip mostrava-se tão fraco nos últimos tempos, mas naquela noite parecia bem melhor, lembrando o homem forte e decidido que fora no passado.

Suspirou fundo, e começou a contar tudo, as palavras jorrando sem parar, até chegar ao ponto em que Nicholas ameaçara levar Owen para morar em Hendry Hall.

Apenas omitiu o interlúdio que vivera com Nicholas no chalé abandonado da floresta, e que agora parecia mais um sonho do que um fato real.

Quando terminou de ouvir, Phihhip apertou os lábios e em seguida disse:

— Lamento saber que você e Owen tenham atraído a atenção do barão. Houve um tempo em que achei que a fuga seria a melhor solução, mas agora sou eu quem mudou de idéia.

Beatrice balançou a cabeça em um gesto de impaciência.

— A ameaça agora não é só por parte do barão, mas de Nicholas Hendry também.

— Sim, mas Nicholas tem um interesse positivo na criança, e, a menos que esses meus olhos cansados me enganem, creio que tem interesse em você também. Nega isso?

O         rubor nas faces de Beatrice impediram qualquer negativa, entretanto replicou:

— Ele é um nobre, e sou uma vassala.

— Estranhos casamentos já aconteceram neste mundo — observou Phihhip.

— Nicholas já está comprometido com a filha do barão Hawse.

PhiLhip arregalou os olhos.

— Onde obteve tal informação?

— Do próprio barão.

Phihhip Thibault soltou uma risada sarcástica.

— Não confiaria em nada que aquele homem dissesse, filha. Perguntou a Nicholas se isso é verdade?

Beatrice negou de modo relutante.

Phihhip voltou a fazer seu trabalho, usando a faca nas estacas de madeira.

— Bem, aí está. Vi o modo como Nicholas olha para você. E o olhar de um homem interessado que não presta atenção em outras mulheres.

Seria verdade que seu pai estava certo e que o barão mentira? As dúvidas assolavam a mente de Beatrice, e um fio de esperança começou a surgir em seu coraçao atormentado. Oh, se pudesse ser possível! Uma jovem humilde como ela teria condições de aspirar a ser algo mais para um nobre do que apenas sua amante?

— Você nunca teve papas na língua, minha filha, e jamais temeu esclarecer assuntos nebulosos — continuou o pai. — Acho que agora não é momento para ficar tímida.

Tais palavras fizeram surgir um sorriso pálido no rosto de Beatrice.

— Talvez tenha razão, meu pai. Preciso fazer a pergunta a Nicholas antes de julgá-lo.

Philhip concordou com um aceno satisfeito, e recomeçou os movimentos ritmados de cortar a madeira.

Beatrice olhou para a janela vendo a brisa sacudir o arvoredo. Um tanto temerosa, perguntou ao pai:

— Devo ir ainda esta noite falar com Nicholas?

PhihLip continuou a tirar lascas da madeira.

— De nada adianta retardar decis~,es para outro dia.

— Ficará bem sozinho por algumas horas?

Por um breve instante, Philhip ergueu o olhar do trabalho, dizendo:

— Vá procurá-Lo, filha.

Era só o que Beatrice desejava ouvir. Levantou-se de um salto, e foi dar um beijo na testa do pai.

— Voltarei antes que escureça.

Assim dizendo, falando e agindo de modo rápido, saiu correndo do quarto.

 

— Molie não foi a primeira — disse hady Constance, o sofrimento por trás das palavras encoberto pela expressão vazia em seu rosto. — Tudo começou logo depois que você nasceu, e por um certo tempo não julguei que Arthur estivesse errado. A parteira que me ajudou disse que conceber outra criança poderia me matar. Depois disso, Arthur não ocupou mais o mesmo quarto comigo. Era demais pedir que um homem se abstivesse dos carinhos de uma mulher para sempre.

Nicholas encostou-se no banco duro. Ainda tentava apreender o significado das surpreendentes palavras que sua mãe dizia. Seu pai, tão severo e pomposo com... Molie? A jovem generosa e amorosa que fora a primeira a iniciá-lo nas artes do sexo fora a amante de seu pai?

Lady Constance fez menção de continuar seu penoso relato, mas Nicholas interrompeu-a.

— Meu pai sempre desaprovou e criticou meu comportamento desregrado...

Constance acenou que sim, o rosto duro como pedra.

— Sim. Creio que via suas próprias falhas, quando o criticava.

Nicholas sacudiu a cabeça, como se tentasse pôr as idéias no lugar. Os efeitos da cerveja haviam desaparecido, mas sentis-se tonto.

— Então, se Molie foi amante de meu pai... por que ainda... — Interrompeu-se sem saber como continuar.

— Por que ainda trabalha em nosso lar? — finalizou Constance.

Nicholas acenou, querendo dizer que era exatamente essa a pergunta.

— Molie tinha apenas treze anos quando... atraiu o olhar de seu pai. Era órf~ e só no mundo. Jamais a culparia por nada que aconteceu.

— O estranho é Molie ter querido ficar aqui — comentou Nicholas, ainda surpreso com as reviravoltas que haviam ocorrido em uma casa que, até aquele instante, julgara conhecer tão bem.

— Sim, é estranho, e mais fora do comum ainda o fato de eu e ela termos ficado... bem... podemos dizer amigas, depois que...

Constance parou de falar de maneira abrupta. Vendo que a mãe não continuava seu relato, Nicholas exigiu:

— Depois do quê?

Constance voltou a respirar fundo, como se o que tivesse a contar agora fosse muito penoso.

— Não sei se faço bem em lhe contar essas coisas, meu fdho. Talvez fosse melhor que continuasse a imaginar seu pai como o homem que ele tentou demonstrar ser.

— O parâmetro da virtude que fora castigado com um filho transviado? — perguntou Nicholas de modo sarcástico. — Não, mãe, acabaria descobrindo a verdade, mais cedo ou mais tarde.

Lady Constance olhou para as próprias mãos que mantinha sobre o regaço.

— Molie ficou grávida, porém Arthur não quis enfrentar o escândalo. Forçou-a a visitar um herbanário, um indivíduo que conhecia muito sobre ervas medicinais, mas que quase a matou, fazendo-a abortar. A pobre moça não passava de uma criança, na época.

NichoLas inclinou a cabeça para trás e cerrou os olhos.

— Coitada de Molie — murmurou. — Nunca soube. Ela jamais falou a respeito.

— Nunca falou com ninguém. Ficou aqui em Hendry e agora tem seu marido padeiro e dois filhos bonitos e saudáveis. Ofereci-me várias vezes para ajudá-la a se estabelecer em algum outro lugar, mas Molie diz que Hendry é seu lar.

— E é mesmo — replicou Nicholas com suavidade. Ambos permaneceram em silêncio por um longo período. Por fim, Constance disse:

— Desculpe, filho. Aumentei o peso de seus aborrecimentos que já eram muitos.

Nicholas ajeitou-se no banco.

— Não, mãe, pelo contrário. Tirou um peso dos meus ombros. Durante todos os anos em que senti a desaprovação de meu pai, não percebi que tinha pecados tão graves quanto os meus.

— Talvez mais graves — corrigiu lady Constance.

— Sim, tem razão. Porque jamais permitiria que uma criança minha fosse impedida de nascer nas mãos de um curandeiro com ervas e poções.

Constance sorriu, dizendo com satisfação:

— Owen é um menino lindo. Jáo conheci a distância, e quero abraçá-lo em breve.

— Sem dúvida. — Nicholas ergueu-se. — E se conseguir que a bela e teimosa tia pare de discutir o tempo suficiente para me ouvir, pretendo educá-lo aqui em Hendry Hall.

Lady Constance teve um gesto de surpresa, levando as mãos ao peito.

— Creio que a srta. Thibault não gosta dessa idéia.

— Tem razão. Precisa ser convencida a respeito.

Constance sorriu.

— Convencer as mulheres sempre foi uma de suas especialidades, meu filho, mas a srta. Thibault não se parece com a maioria das moças que conquistou. Como pretende dobrá-la?

Nicholas riu e inclinou-se junto ao ouvido da mãe, sussurrando de modo conspirador.

— Planejo me casar com ela.

 

Nicholas mal alcançara os estábulos, quando ouviu o tropel de um cavalo aproximando-se. Virando-se em direção da estrada, ficou surpreso ao ver Winifred, galopando. Parecia ansiosa, mas mantinha-se sobre a sela com muita segurança e razoável mestria.

Quando o cavalo diminuiu o passo e parou a alguns metros de distância, Nicholas foi saudá-la com um amplo sorriso, brincando:

— Tornou-se uma amazona tão experiente que agora não dá descanso ao cavalo nem de dia nem de noite?

Winifred não respondeu à provocação amigável. Em vez disso, respirou fundo.

— Vim para conversar com você, Nicholas. Sobre seu filho e sua... amiga.

Nicholas ficara muito surpreso ao perceber que Winifred sabia a respeito de Owen, embora suspeitasse que havia tantos mexeriqueiros no castelo Hawse quanto no resto do condado.

Dessa vez não se espantou, mas estudando a expressão no rosto de Winifred, percebeu que havia algo de muito errado. A ansiedade da jovem ia muito além de meros comentários de viharejo.

Nicholas estendeu os braços para ajudá-la a desmontar.

— Agora acalme-se, mocinha, e me conte o que a perturba tanto.

Winifred respirava com dificuldade, embora Nicho-las não soubesse dizer se era devido à agitação em seu íntimo ou ao galope desabalado. De modo rápido e sucinto, Winifred repetiu o que ouvira do lado de fora dos aposentos do barão Hawse.

Enquanto ouvia o relato, o rosto de Nicholas tornou-se cada vez mais sombrio.

— Bastardo! — exclamou entre os dentes, quando Winifred terminou a história, com a revelação de que fora o barão quem causara a morte de Arthur Hendry.

— Desculpe, Winifred. Sei que se trata de seu pai, mas é um homem mau e, agora sabemos, também é devasso e assassino.

Winifred concordou com um gesto de cabeça, o olhar esgazeado e cheio de desespero.

— Sim. Passei toda minha vida tentando amá-lo, mas agora chega! Não viverei mais no castelo Hawse, mesmo que para isso tenha de ir para um convento.

— De algum modo a justiça deverá ser cumprida, tanto para você quanto para mim. E bem-vinda para ficar em Hendry Hall o tempo que desejar. Seria capaz de repetir sua história em um tribunal e, quem sabe, diante do rei?

De repente, Winifred pareceu encolher e voltar a ser um ratinho assustado, mas acabou aquiescendo com um gesto silencioso e o olhar banhado em lágrimas.

Nicholas deu-lhe um sorriso encorajador.

— Parece que nem eu nem você fomos premiados no que se refere a nossos pais, Winifred, mas não deixaremos que isso arruíne o resto de nossas vidas, deixaremos?

Winifred parecia insegura, mas voltou a concordar, com um gesto forte de cabeça.

— Antes de resolvermos que medidas tomar contra seu pai, precisamos alertar Beatrice. Vamos juntos?

— Sim. — Winifred tentou sorrir com bravura. — Já conheço de longe essa moça que conquistou a você e a meu pai. Talvez possa aprender algumas coisas com ela.

— Não precisa de lições, Winifred. Tenho o pressentimento de que quando se libertar do jugo de seu pai, irá conquistar quantos homens quiser.

Ajudou-a a montar de novo e, em seguida, foi buscar Scarab. O sol começava a se pôr no horizonte, mas calculou que ainda haveria tempo de chegar à taverna do Javali Dourado antes do escurecer.

 

Beatrice não tinha muita certeza do que pretendia fazer em Hendry Hall àquela hora tardia, mas sabia que a esperança dada pelas palavras de seu pai a inspiravam para não sossegar até ver-se diante de Nicholas.

Tomaria a estrada mais curta para a mansão, subiria a colina e atravessaria a campina, em vez de ir pela estrada principal. Desse modo chegaria ao lar de Nicholas antes de o sol se pôr atrás das montanhas.

Parou um minuto no topo da colina. O exercício da subida ao ar livre e quente do final de tarde a fazia respirar com dificuldade, mas a descida seria menos cansativa, e a brisa já começava a soprar esfriando a temperatura. Estaria bem mais descansada quando chegasse aos portões de Hendry Hall.

Lançou o olhar para baixo, em direção à mansão, evitando os raios vermelhos do sol que se punha bem atrás das torres.

Dois cavaleiros montados em seus respectivos corcéis saíam dos portões naquele instante. Um deles era Nicholas. O outro era uma mulher, e Beatrice levou apenas alguns segundos para perceber que se tratava da filha do barão Hawse.

Ergueu a mão a fim de proteger os olhos do clarão do sol, desejando estar enganada, mas não havia dúvida. O casal ia galopando lado a lado, e Beatrice observou Nicholas inclinar-se para a companheira e ajeitá-la na sela, em um gesto protetor e cavalheiro. A jovem parecia muito à vontade com a gentileza.

Beatrice sentiu uma pontada de desilusão atingir o âmago de seu ser. Desilusão e algo mais. Continuando a observar a cena, viu Winifred pousar a mão enluvada no braço de Nicholas que retribuiu o gesto carinhoso, afagando-lhe os dedos.

Então, aquele era o “monstro de olhos verdes” de que ouvira falar, pensou Beatrice, sentindo-se um tanto ridícula. Reconheceu no ciúme o sentimento que podia destruir uma mulher e transformar homens em assassinos.

Ficou parada no alto da colina e observou o casal desaparecer na curva da estrada. A expressão de seu rosto parecia talhada em pedra, mas os olhos estavam secos.

Era evidente que o barão Hawse dissera a verdade. Nicholas estava noivo de sua gentil e elegante filha, e Beatrice fora tola e insensata ao imaginar que o tempo que Nicholas passara em sua companhia fora mais do que uma simples aventura, e um relacionamento casual e passageiro.

— Que assim seja — gritou em voz alta, ecoando de modo sinistro na quietude da colina.

Então, voltou-se e começou a descer a colina, de volta para a taverna.

 

O sol já desaparecera no horizonte quando Nicholas e Winifred alcançaram a porta do Javali Dourado. Nicholas podia ver uma luz no andar superior, mas a entrada estava fechada e tudo parecia estar mergulhado no silêncio da noite.

Desembainhou a faca de caça que trazia na cintura e usou o cabo para bater na porta. Depois de um momento, as janelas do andar de cima se abriram, e Phillip emergiu, perguntando:

— Quem está aí?

Nicholas deu um passo atrás para tornar-se visível, e olhou para cima.

— Nicholas Hendry, mestre Thibault. Peço perdão pela inconveniência da hora, mas preciso falar com Beatrice sem demora.

Phillip pareceu surpreso.

— Pensei que já houvesse conversado com minha filha, rapaz.

— Eu a vi esta tarde, mas...

— Não — interrompeu o velho senhor, a expressao do rosto de súbito preocupada. — Quero dizer hoje à noite. Beatrice foi procurá-lo em Hendry Hall.

Nicholas trocou um olhar com Winifred, que ainda não desmontara do cavalo.

— Quando foi que saiu? — perguntou, ficando tão preocupado quanto Phillip.

— Bem antes do pôr-do-sol — respondeu Phillip, perscrutando o horizonte. — Não deixaria que saísse no meio da noite.

Nicholas sentiu uma estranha sensação de dedos gelados apertando-lhe a garganta.

— Beatrice nunca chegou a Hendry Hall — anunciou. — E também não a vimos na estrada.

— Vou descer.

Assim falando, Phillip começou a fechar as janelas, mas Nicholas o deteve, abanando a cabeça em negativa.

— Não. E provável que tenha tomado o caminho da colina. Iremos procurá-la. Fique aí com Owen. Ele está dormindo?

— Sim. Como um anjo.

— Ficará bem tomando conta dele ou devo ir até ao vilarejo para buscar Gertie?

Phillip agitou as mãos de modo nervoso.

— Estou bem e Owen também está. Concentre-se em encontrar minha filha.

Enveredaram colina acima no escuro, mas não viram sinal de Beatrice. Winifred prontificou-se a voltar para o castelo Hawse para saber se o barão tinha conhecimento do paradeiro de Beatrice, mas Nicholas a impediu.

— Não permitirei outra jovem vagando no escuro — disse, cada vez mais agitado.

Examinaram a estrada que conduzia ao vilarejo, e pararam um pouco no chalé dos Fletcher para checar se, por acaso, Beatrice fora para lá.

— O pobre Phillip deve estar desesperado — disse Enid. — Preciso ficar com ele.

Combinaram que Harold levaria Enid ao Javali Dourado, enquanto Nicholas e Winifred voltavam a Hendry Hall para ver se Beatrice lá chegara naquele meio tempo.

— Depois de deixar minha mãe na taverna, irei encontrá-los em Hendry Hall — disse Harold ao amigo, e Nicholas apertou-lhe a mão, sentindo-se grato.

Mesmo em meio as suas preocupações, pensou que sorte tinha de ter amizades tão leais. Nem tudo estava perdido.

Agora estavam envoltos na escuridão da noite, apenas uma pálida lua brilhava no céu, iluminando a estrada enquanto Nicholas e Winifred voltavam para Hendry Hall.

Mal penetraram no pátio, Nicholas apeou de Scarab ainda em movimento, e correu para a entrada.

O grande salão estava muito iluminado. Como passava da hora de sua mãe se recolher, Nicholas percebeu que algo acontecera para fazê-la ficar acordada. Ficou imóvel, soltando um suspiro de alívio. Sem dúvida, encontraria lady Constance no solário, conversando com Beatrice. O que acontecera era que ele e Winifred haviam se desencontrado da jovem no lusco-fusco do entardecer.

Mas ao cruzar o salão e chegar à entrada do solário, não foi Beatrice quem viu conversando com sua mãe, sempre tão elegante e digna no papel de dona da casa. Ali estava seu companheiro de armas, Bernard.

 

Bernard levantou-se com certa dificuldade, ao ver Nicholas entrar, um amplo sorriso iluminando-lhe o semblante.

Nicholas encarou o amigo com ar de espanto, enquanto o observava atravessar o salão, com o andar quase normal.

— Então, sua perna quebrada sarou!

— Sim, não foi nada de mais com parado ao que passamos quando fomos’ resgatar Hugh em Jerusalém.

Parecia que o jovem forte e de estátura muito elevada estava prestes a se lançar em um mar de reminiscências, portanto Nicholas o interrompeu.

— Desculpe se não o recebo em minha casa com a atenção que deveria, meu amigo. Fico feliz em vê-lo bem e saudável, mas estou com um sério problema urgente para resolver. — Voltou-se para lady Constance e perguntou: — Por acaso viu Beatrice Thibault hoje à noite, minha mãe?

Constance ficou imóvel, parecendo perplexa.

— Beatrice aqui? Pensei que tinha ido procurá-la.

— E fui, com Winifred, mas Phillip me disse que, na mesma hora,~ela saíra para vir me procurar. Houve um desencontro.

— Não será a primeira vez que uma dama procura seu filho no meio da noite, minha senhora — brincou Bernard, sem entender a gravidade e a tensão por trás daquelas palavras formais.

Winifred adiantou-se, surgindo na frente de Nicho-las, e acrescentou:

— Devemos ter passado por ela no sentido contrário da estrada.

O         olhar de Bernard passou do amigo para a visitante e iluminou-se com admiração.

— Ora, ora! Boa noite, minha senhora.

Fez uma mesura discreta e voltou-se para Nicholas, erguendo uma sobrancelha, e murmurando em voz bem baixa, apenas para ser ouvido pelo amigo:

— Duas, Nick?

Nicholas refutou a brincadeira com um gesto impaciente de mão, e fez as apresentações.

— Bernard, esta é Winifred, filha de Gilbert, barão Hawse. Winifred, este rapaz sem modos é meu companheiro de armas, sir Bernard.

O         visitante voltou a inclinar-se em uma reverência cheia de admiração, acrescentando:

— Ex-cavaleiro da Rosa Negra, minha senhora, a seus serviços.

— E bom que esteja aqui — disse Nicholas com voz tensa. — Posso precisar de sua ajuda.

Por fim, Bernard começou a perceber que havia uma séria preocupação atormentando Nicholas.

— Qual é o problema?

— Parece que perdi uma dama — Nicholas respondeu em tom irônico.

— Isso é novidade — observou Bernard, mas dessa vez o tom não era de brincadeira. — Estou as suas ordens, Nicholas, para o que der e vier. Sabe disso.

Nicholas aquiesceu, agradecendo o companheiro com um gesto mudo, e os dois trocaram um olhar de entendimento apenas possível entre duas pessoas que enfrentaram juntas o que há de pior na vida. Acabou respondendo com simplicidade:

— Sim, eu sei.

— O que está acontecendo, meu filho? — quis saber Constance.

A expressão em geral serena desaparecera do semblante da nobre dama, que apertava as mãos em um gesto nervoso.

Nicholas voltou-se para a mae.

— Sente-se de novo por um momento, mamãe. Você e Bernard.. Winifred’ tem uma história muito interessante para contar.

 

Beatrice tentou afrouxar as cordas que prendiam suas mãos por trás das costas. Sabia que se encontrava em algum lugar dentro do castelo Hawse, mas o aposento estava às escuras e de nada valeria tentar descobrir. Não ouvia nenhum som do Lado de fora da porta.

Não pudera ver o rosto dos homens que a haviam capturado. Começara a escurecer, e só conseguira Lutar por poucos segundos, antes que lhe colocassem sobre a cabeça uma espécie de capuz que só fora removido quando a atiraram naquele quarto o qual, tudo levava a crer, era sua prisão.

Não tinha a menor dúvida sobre quem era o responsável pelo seu rapto. A qualquer minuto esperava ver a porta se abrir e ouvir a voz untuosa do barão Hawse. Bem, pensou consigo mesma, não ia ficar esperando com humildade até isso acontecer.

Seus pés não estavam amarrados, portanto podia caminhar livremente pelo aposento, mas a única luz existente para guiar seus passos era um facho estreito que surgia por debaixo da porta. Teria que explorar o ambiente tateando, o que não era nada fácil, com as mãos amarradas atrás das costas.

Os homens a haviam atirado sobre uma cama estreita, que parecia preencher todo um lado do quarto. Beatrice deslizou o corpo pela cama, e parou na parede seguinte que parecia não ter nenhum móvel encostado. Depois de mais alguns passos cautelosos, tropeçou em algo no chão. Agachou-se de modo desajeitado e tateou com dificuldade, percebendo tratar-se de uma arca, fechada com uma tramela de metal.

Manuseando com cuidado, conseguiu abri-la. Tinha esperança de encontrar algum tipo de arma, mas desapontou-se ao perceber que lá dentro só havia roupas. Por certo não passava de uma arca com vestidos velhos.

Ficou sentada no chão por um minuto, e depois deslizou >os dedos pela tampa. Pela primeira vez, desde que fora aprisionada, seus lábios esboçaram um sorriso. O fecho de metal era afiado como uma faca.

Levou muito tempo para cortar as cordas e, quando terminou, os ombros lhe doíam com o grande esforço mas, por fim, suas mãos estavam liberadas.

Deu um salto ficando de pé, e começou a examinar o quarto, às cegas, procurando por algo que servisse de arma. Não tinha certeza do que aconteceria quando o barão resolvesse aparecer, mas pretendia estar preparada.

 

Constance implorara para que esperassem até o amanhecer, mas Nicholas insistira que, caso Beatrice estivesse no castelo Hawse, não deixaria que passasse a noite lá, à mercê do barão.

Bernard concordara.

— Creio que devemos ir ainda esta noite, mas iremos preparados, meu amigo.

Assim dizendo, desapareceu no andar de cima, indo para o quarto que Lady Constance lhe preparara ao chegar. Quando voltou, Nicholas olhou-o, muito surpreso. Bernard envergava a armadura e sobre essa o manto com o símbolo da Rosa Negra, o mesmo que Nicholas e seus camaradas haviam usado na guerra quando conquistaram a cidade de Damietta.

Na mão, Bernard trazia uma ameaçadora cimitarra. Quando perdera a espada na batalha, o cavaleiro tirara a cimitarra das mãos de um inimigo caído. Tornara-se sua marca registrada, à medida que ganhava a reputação de ser um dos soldados mais destemidos do grupo. Sua visão ameaçadora e viril deu a NichoLas uma sensação de confiança na vitória.

Por um momento, nenhum dos dois homens falou. Então, NichoLas disse:

— Uma última batalha, meu amigo.

Bernard concordou com um aceno solené.

Impaciente, Nicholas não tinha certeza se devia perder tempo vestindo-se como Bernard. Mas, por fim, por insistência da mãe, também envergou a malha de ferro e o manto muito usado que pensara nunca mais tirar da arca onde, agradecido, guardara-o após retornar ao lar.

Os dois cavaleiros juntos eram uma visão imponente, enquanto se despediam das duas mulheres. Ambos eram grandes e pareciam ainda maiores com as armadúras largas e os mantos prateados, com as bordas vermelhas e negras e o distintivo da rosa negra que fora o símbolo de sua unidade.

Winifred oferecera-se para ir com eles ao castelo Hawse, esperando poder tornar o pai mais razoável, mas Nicholas recusara.

— É muito perigoso, minha jovem. Temo que, se o barão não hesitou em cometer tantas crueldades, já não existe a possibilidade de usar de bom senso. Gilbert nada conseguirá fazer para me prejudicar, tenho certeza absoluta.

Lady Constance adiantou-se, pedindo:

— Então, levem-me com vocês. Gilbert nada fará contra mim, garanto.

Nicholas balançou a cabeça em negativa.

— Não, mãe. Jamais correria esse risco.

Constance olhou de um cavaleiro para o outro.

— Mas não pensam em enfrentar sozinhos o barão e seus homens armados, apenas contando um com o outro.

Nicholas e Bernard trocaram um sorriso de entendimento.

— Havia apenas cinco de nós quando arrancamos Hugh da fortaleza mais bem guardada de Jerusalém, lady Constance — explicou Bernard. — Garanto que dois de nós serão suficientes para lidar com um barão inglês.

As duas mulheres fizeram um gesto de desânimo ante a arrogância bem masculina dos dois cavaleiros, mas quando perceberam que não os convenceriam a esperar ou recrutar ajuda com os empregados de Hendry Hall ou com os homens do vilarejo, desistiram e desejaram-lhes boa sorte.

 

Era como nos velhos tempos, estavam cavalgando noite adentro em dois belos cavalos, os mantos com a Rosa Negra ondulando ao vento. Como nos velhos tempos, também, Bernard inclinou-se para Nicholas e perguntou, em tom de pouco-caso:

— Então, qual é o plano quando chegarmos ao castelo, companheiro?

Nicholas soltou uma risada.

— Pensei que você tivesse um.

Bernard balançou a cabeça em negativa.

— Estou só acompanhando. Além do mais, minha perna ainda, não está muito estável, você sabe.

Nicholas ergueu os olhos para os céus, em desalento.

— Agora é que me diz isso! Pois saiba que também ainda estou com a minha perna ruim, devido ao ferimento.

Bernard deu de ombros.

— Para o inferno nossas pernas! Vamos apenas chegar ao castelo e exigir que devolvam a moça. Em nome do rei. Nossa aparência é bem assustadora, garanto.

Nicholas tinha uma expressão de dúvida.

— Hawse poderá dizer com toda a simplicidade que não sabe do paradeiro de Beatrice.

Cavalgaram em silêncio por mais alguns minutos, e. então Bernard disse:

— Já é noite alta. É provável que não haja mais do que um ou dois soldados de guarda na porta do castelo. Podemos nos livrar deles, esgueirarmos para dentro da fortaleza, encontrarmos sua dama e partirmos com ela antes que alguém perceba.

— O castelo parece uma verdadeira catacumba, cheio de meandros e labirintos. Jamais a encontrare-. mos com facilidade.

Bernard suspirou.

— Precisávamos de um pouco daquele pó negro do Oriente que usávamos em Jerusalém. Aquilo sim daria resultado.

Nicholas suspirou, frustrado.

— Acredita mesmo que correria o risco de levar Beatrice aos ares?

— Sim, tem razão. Talvez não seja um bom plano. A lua já ia alta no céu, iluminando a estrada poeirenta como um facho de prata. O silêncio era deprimente, e nem mesmo a brisa soprava. Nicholas ergueu-se na sela e olhou para todos os lados.

— Bem, meu amigo — disse, por fim. — É melhor que pensemos em algo depressa, pois fazendo a curva no sopé da colina, estaremos frente a frente com o castelo de Hawse.

 

Depois de muito discutirem, resolveram apenas confiar em seu instinto, amparados pelos anos de convivência militar. Sem perguntar, cada um parecia saber muito bem o que o outro estava pensando. Bernard sentia quando Nicholas precisava de ajuda antes mesmo que o amigo o soubesse, e vice-versa.

Se os soldados do barão estivessem acordados, sua aproximação audaciosa seria fatal. Mas, como dissera Bernard, a maioria dos homens devia estar dormindo.

Havia dois guardas sonolentos nos portões do castelo e um outro, quase adormecido, no pátio interno Tomados de surpresa, os guardas demonstraram pouca resistência. Nicholas amarrou e amordaçou os dois nos portões, enquanto Bernard dominava o terceiro, que jazia no chão, com a cimitarra do cavaleiro junto ao pescoço.

— Já me viu decepar a cabeça de um homem, Nicholas? — perguntou Bernard em tom de pouco-caso.

— Sim, uma ou duas vezes em Damietta, certo?

A voz de Nícholas também soou tranqüila, como se o comentário fosse o mais normal do mundo.

— E lembra-se da visão? Nada bonita, não é mesmo?

— Sim, sem dúvida.

Bernard inclinou-se sobre o guarda esparramado no chão.

— Duvida, meu bom amigo, que se ousar respirar muito forte, terá que ser enterrado em duas covas?

O homem abanou a cabeça, tremendo de medo.

Bernard afastou-se e o fez ficar de pé. Segurou-o firme, ainda com a cimitarra encostada a seu pescoço, enquanto Nicholas, tendo terminado de amarrar os outros dois, perguntava:

— Uma mulher do vilarejo de Hendry foi trazida aqui esta noite. Para onde a levaram?

O homem balançou a cabeça com desânimo e tentou falar, mas Bernard o fez calar-se, apertando-lhe o pescoço.

— Não diga nada, meu amigo. Apenas nos Leve até ela. Nós o seguiremos. Se virmos alguém ou se você emitir qualquer som, então o aconselho a fazer o sinal da cruz bem depressa, enquanto sua cabeça ainda estiver presa ao pescoço.

Seguiram para dentro do castelo, o pobre soldado tremia tanto que sentia dificuldade em andar.

Nicholas e Bernard caminhavam de modo mais cauteloso possível, dentro das armaduras. Algumas tochas acesas iluminavam os corredores mas, para todos os efeitos, tudo levava a crer que os habitantes do castelo dormiam a sono solto.

A ansiedade de Nicholas crescia a cada passo. Beatrice desaparecera havia muitas horas. Se o barão Hawse a houvesse molestado...

Deram a volta por trás do salão principal, e ali o guarda parou, olhando com pavor para a cimitarra de Bernard, e balançando a cabeça.

— O que há, homem? — perguntou Nichoias aborrecido. — Onde está ela?

— Juro, meus senhores, que não sei de nada. Vi quando a trouxeram para o castelo, é verdade, mas não sei para onde a levaram.

Nicholas e Bernard trocaram um olhar exasperado. Bernard perguntou com um sorriso demoníaco:

— Devo arrançar a cabeça deste homem apenas por garantia?

O olhar alucinado do pobre soldado acompanhou a linha curva da cimitarra.

Nicholas pegou um pedaço de corda sob o manto e atirou-o para Bernard.

— Amarre-o. Começarei a procurar.

Sentiu um momento de pânico ao olhar para o enorme corredor que ligava os fundos ao grande salão principal. Principiava a amanhecer. Logo os demais guardas do castelo começariam a despertar. Como encontraria Beatrice naquele labirinto de corredores e quartos?

A parte posterior do salão principal parecia estar apinhada com soldados adormecidos. Podia-se ouvir seu ressonar através da parede. Nicholas avançou com muito cuidado pelo corredor, logo atrás dos homens adormecidos. Concluindo que era provável que os cômodos destinados ao barão e aos familiares ficassem no andar superior do castelo, encontrou uma escada circular e começou a subir.

A fraca luz que vinha do corredor abaixo começou a desaparecer à medida que Nicholas galgava os degraus em caracol, ficando em total escuridão. Por um breve momento pensou em descer e procurar por uma tocha, mas cada instante era precioso para ser desperdiçado. Encontraria um pouco de luz no segundo andar.

Tateando ao longo da parede a fim de se guiar, continuou a subir, tomando cuidado para que a malha de ferro que usava não encostasse nas pedras frias e flzesse ruído. Adquirira a habilidade de mover-se sem fazer nenhum barulho, apesar da armadura pesada que sempre usara na Guerra Santa, em especial quando os cavaleiros da Rosa Negra haviam resgatado Hugh das prisões de Jerusalém.

De repente em meio ao silêncio sepulcral, Nicholas ouviu sons inconfundíveis de passos sobre sua cabeça, acima da escada. Enrijeceu o corpo e, sem emitir o mais leve ruído, desembainhou a espada com ambas as mãos.

Os passos se aproximavam. Ergueu a espada, pronto a dar o golpe, mas no último instante ficou parado, com a arma no ar. Os passos eram leves. Talvez pertencessem a uma indefesa criada cuja responsabilidade era a de ordenhar as vacas e trazer o leite para o desjejum, antes que as pessoas do castelo acordassem. Fosse lá quem fosse, precisava impedir a madrugadora de prosseguir em seu caminho.

Passou a espada para uma das mãos e estendeu o braço livre, no momento em que uma silhueta escura o alcançava. Sem dúvida se tratava de uma mulher. Arrastou-a pela escada e tampou-lhe a boca para que não gritasse.

Com uma força fora do comum, ela libertou-se das mãos fortes de Nicholas, e falou entre os dentes:

— Deixe-me ir, seu bruto!

A espada de Nicholas caiu nos degraus da escada produzindo um som agudo de metal. Arregalando os olhos, só conseguiu dizer, em um ïnisto de assombro, alívio e alegria:

— Beatrice!

— Nicholas! — exclamou a jovem, também muito surpresa.

Endireitando o corpo e ajudando-a a erguer-se, Nicholas perguntou:

— Como chegou até aqui?

— O ferrolho da porta do quarto onde me trancaram estava enferrujado. Consegui abri-lo depois que livrei as mãos com...

Ele a interrompeu com um beijo desajeitado em meio à escuridão.

— Você não tem preço, minha querida! — exclamou cheio de felicidade. — Mas ainda precisamos sair daqui.

Tentou recuperar a espada no escuro, encontrou-a, e tomou a mão de Beatrice para conduzi-la escada abaixo. Bernard esperava no último degrau, e saudou o amigo com um sussurro zangado.

— Acho que não chegou a fazer barulho suficiente para acordar a guarda toda, Nick. Qúer que eu traga uma orquestra para animar o ambiente?

Então percebeu a presença de Beatrice logo trás de Nicholas, e seu tom de voz ficou mais suave.

— Oh! Vejo que encontrou sua dama.

— Sim. Aliás, foi ela quem me encontrou. Já vencemos metade da batalha, meu amigo. Agora tudo o que temos a fazer é escapar daqui e salvar nossas peles.

Não havia tempo para apresentações cerimoniosas. Bernard fez um leve aceno para Beatrice, e os três começaram a descer de novo o corredor, passando pelos homens adormecidos no grande salão. Bernard parou um instante para se certificar de que os guardas que amarrara ainda estavam bem seguros.

Ao saírem para o pátio, os primeiros clarões da aurora começavam a colorir o céu. Nicholas voltou-se para Beatrice e sorriu.

— E o início de uma nova vida para nós dois, meu amor.

Ela retribuiu com um amplo sorriso, mas havia uma certa tristeza em seu olhar que Nicholas não teve tempo para decifrar. Tratou de dizer:

— Vamos! Precisamos deixar este lugar.

Já estavam quase alcançando os portões de fora quando Beatrice abafou uma exclamação, ao mesmo tempo em que Bernard anunciava:

— Os primeiros guardas que deixamos aqui desapareceram.

Da torre próxima, os mesmos dois soldados surgiram correndo, acompanhados por um terceiro homem, o empregado de confiança do barão, Leon, empunhando uma espada. Nicholas gritou:

— Deixe-o comigo!

Bernard mostrou os dentes brancos em seu sorriso de demônio lutador e respondeu:

— Eu fico com os outros dois.

Leon avançava rapidamente. Parecia não ter medo da espada de Nicholas quando as armas dos dois se entrechocaram, cada golpe e arremesso seguido de perto por outros, tilintando no pátio deserto como sinos de uma catedral.

Bernard livrou-se dos dois guardas sem grandes problemas, deixando-os inconscientes, jogados na lama. Endireitando o corpo, voltou-se para o amigo, sorrindo, e observando a luta.

— Não o deveria ajudar? — perguntou Beatrice.

— Nicholas não precisa de ajuda, senhora — foi a resposta segura.

Porém parecia que, em poucos momentos, todos iriam precisar de muita ajuda, quando gritos soaram e portas se abriram em toda a volta do castelo. Um grupo de soldados semivestidos emergiu de uma delas.

Bernard perguntou com muita calma:

— Será que poderia se apressar um pouco, Nick?

Nicholas relanceou um olhar para o companheiro, o que permitiu que Leon o atingisse nas costelas com a parte achatada da espada. Ante o golpe, Nicholas desequilibrou-se, mas logo se aprumou.

Um brilho de triunfo luzia nos olhos cinzentos de Leon. As suas costas, os soldados haviam chegado na metade do pátio.

Beatrice gritou, implorando:

— Ajude-o!

Mas Bernard continuou impassível.

Nicholas cerrou os dentes, respirou fundo, sentindo a dor do golpe, e arremessou a espada. A ponta da arma atingiu Leon na garganta. O brilho no olhar cinzento desapareceu de imediato, como uma vela que se apaga.

Nicholas ficou parado um instante, vendo o corpo do servo do barão Hawse cair na poeira do chão. Então, Bernard segurou-o pelo braço, apressando-o.

— Vamos, Nick! Os soldados já desceram da torre e não estão se aproximando com a intenção de nos convidar para o café da manhã.

O duelo com Leon não durara mais do que alguns poucos minutos. Voltando ao momento presente, Nicholas segurou a mão de Beatrice e, juntos, os três atravessaram os portões com a velocidade do vento, ao encontro dos cavalos.

 

Lady Constance e Winifred correram para a porta principal a fim de saudá-los, no momento em que Scarab e a musculosa montaria de Bernard atravessavam o pátio em direção aos estábulos. Nicholas ajudou Beatrice a desmontar, apeando também, e segurando as rédeas.

A mãe perguntou, ansiosa:

— Estão todos bem?

Nicholas fez uma careta de dor.

— Posso ter quebrado uma ou duas costelas, mas sobreviverei.

Constance abafou um grito com as costas da mão.

— Você lutou com o barão?

— Não. Com seu empregado de confiança, Leon.

— Ex-empregado — corrigiu Bernard. — Agora deve estar acertando as contas com Lúcifer no inferno, graças à habilidade de Nicholas com a espada.

As três mulheres pareciam a ponto de desmaiar, e Bernard olhou em volta, imaginando o que dissera de tão errado.

Constance passou um braço pelo ombro de Beatrice.

— E você, minha filha — disse. — Gilbert... — pareceu escolher as palavras. — Ele a machucou?

Beatrice também abraçou a nobre senhora.

— Não. Escapei antes que algum mal me fosse causado, e encontrei Nicholas e Bernard ao tentar sair do castelo.

Procurou Nicholas com o olhar. Winifred postara-se ao lado do rapaz e colocara a mão sobre o manto da Rosa Negra, com gesto delicado, tocando-lhe as costelas.

A visão fez Beatrice estremecer de ciúme e tristeza. Com um tom de voz amargo, não conseguindo se dominar, disse:

— Sem dúvida poderia ter fugido do castelo bem quieta, por conta própria, sem derramamento de sangue, caso esses dois não houvessem chegado como dois elefantes em uma casa de louças, fazendo um barulho tremendo.

Mal terminara de falar, envergonhou-se das palavras ferinas. Falara movida pelo despeito, e fora muito injusta. Nicholas e o amigo haviam corrido risco de vida para salvá-la, e suas frases arrogantes a faziam parecer uma jovem estúpida e mal-agradecida.

Engoliu em seco e afastou as lágrimas que teimavam em cair, acrescentando:

— Mas arriscaram a vida por minha causa,, e agradeço.

Caminhou até Bernard.

— Sou Beatrice Thibault, meu senhor, e tem minha profunda gratidão por ter me salvado das mãos do barão Hawse.

Fez uma reverência, e quase perdeu o equilíbrio, revelando o estado de fraqueza em que se encontrava.

Bernard amparou-a pelo braço.

— Foi apenas mais um dia de trabalho para um espadachim, minha senhora. Fico feliz por tê-la ajudado.

A expressão de Nicholas ficara sombria ao ouvir as palavras ríspidas de Beatrice, enquanto ela raciocinava que dissera um monte de tolices por causa do ciúme, o “monstro de olhos verdes”, como sempre.

A visão da elegante filha de Gilbert Hawse demonstrando sua compaixão e solidariedade, tinha-a atingido como uma faca afiada no peito. Quando Nicholas a encarou, tratou de desviar o olhar.

Constance disse, pondo fim ao constrangimento:

— Vocês estão muito cansados. Vamos entrar, comer e beber alguma coisa, e depois irão descansar um pouco. A menos que... — Seu olhar preocupado dirigiu-se para a estrada à frente. — ...estejam sendo perseguidos.

Bernard fez um gesto de negativa, movendo a cabeça de um lado para o outro.

— Ninguém veio atrás de nós. Teríamos ouvido o som dos cascos dos cavalos na estrada.

Constance aquiesceu com um gesto brusco.

— Bem, então, se me acompanharem até o salão, providenciarei alimento.

Nicholas continuava olhando para Beatrice. Com voz inexpressiva, disse:

— Não estou com fome, minha mãe. Enviarei uma mensagem a Phillip Thibault dizendo que encontramos sua filha e que ela está sã e salva. Depois irei dormir.

— Mas, filho, precisa se alimentar e dar uma olhada nessas costelas quebradas.

Nicholas fez um gesto de negativa.

— Desculpe-me, Bernard — disse, dirigindo-se ao amigo. — Depois que dormirmos um pouco, demonstrarei quanto estou feliz por tê-lo conosco e pela ajuda que me deu.

Então encaminhou-se para o interior da mansão. Um silêncio constrangedor dominou a todos, como um manto pesado e escuro. Constance voltou-se para Beatrice.

— Talvez fosse melhor ir conversar com ele, minha cara.

Beatrice olhou da mãe de Nicholas para a filha do barão.

— Eu devo ir ter com ele? — perguntou surpresa.

— Tem certeza? — E fez um movimento leve e rápido com a cabeça, indicando Winifred.

Por um breve instante as três mulheres pareceram confusas e embaraçadas.

Então, Bernard achou melhor dizer alguma coisa à Beatrice.

— Parece-me certo que a amada de um cavaleiro deve ser a pessoa indicada para cuidar dele, minha senhora. Pelo que entendi até agora, a senhora é essa pessoa.

— Mas NíchoLas está noivo desta dama e... — redargüiu Beatrice com simplicidade, indicando Winifred.

Tanto lady Constance e Winifred a interromperam ao mesmo tempo.

— Não está.

— Não estamos.

Beatrice piscou diversas vezes, tentando digerir a informação. Depois de um instante perguntou:

— Isso é verdade?

Constance sorriu-lhe com brandura.

— Nicholas está apaixonado por você, minha criança. Disse-me com todas as palavras que deseja desposá-la.

Beatrice mal acreditava no que ouvia e perguntou:

— E a senhora concordaria com tal enlace?

— Não posso pensar em alguém melhor para a felicidade de meu filho e... de meu neto que ainda não estreitei nos braços.

Beatrice oscilou um pouco, e Bernard voltou a ampará-la com mão firme.

Winifred falou com sua voz tranqüila e cheia de calor humano:

— E verdade. Eu também o ouvi falar do amor que sente pela senhora.

— Mas seu pai, o barão Hawse, disse-me que...

Winifred sorriu de modo tristonho.

— Meu pai não é um homem honrado, para minha tristeza. Diz o que lhe agrada e lhe é conveniente, sem pensar na verdade e sem se importar em evitar magoar o próximo.

Quando Beatrice afinal acreditou no que lhe diziam, começou a tremer, e não apenas por causa da brisa fria do início da manhã. Por fim, com voz embargada pela emoção, disse:

— Vou procurá-lo.

Constance inclinou-se e tomou-lhe a mão fria entre as suas.

— Venha, minha filha. Primeiro precisa comer algo quente e tomar um pouco de vinho. Depois poderá correr para meu filho temperamental.

Sorriu com malícia carinhosa, e acrescentou, olhando para Beatrice com o canto do olho.

— Aliás, em matéria de temperamento forte, vocês dois se completam. Ambos parecem um vulcão em ebulição.

Beatrice baixou o olhar, um pouco envergonhada, mas já amando com muita ternura a mãe de Nicholas.

 

O manto da Rosa Negra jazia amarfanhado no chão, ao lado da cama de Nicholas. Partes da malha de ferro estavam espalhadas pelo quarto. Pelo menos, via-se que alguém o ajudara a remover a pesada armadura, pensou Beatrice, enquanto entrava com cautela no aposento e fechava a porta.

Nicholas estava deitado na cama, ainda vestindo a calça e a túnica. Embora adormecido, mexia-se de modo nervoso, e seu rosto apresentava uma expressão de desconforto.

Beatrice aproximou-se da cama e sentou-se na beirada, colocando a mão sobre a fronte do rapaz, para ver se estava com febre. Para seu alívio, sentiu-a fresca. Mas as costelas quebradas iriam dificultar seus movimentos, dali para diante.

— Nicholas — sussurrou.

Ele abriu os olhos, mas levou um momento para focalizá-los no rosto de Beatrice. Quando a reconheceu, fechou-os de novo, dizendo, como uma criança que fora contrariada:

— Estou dormindo.

Beatrice não pôde deixar de rir com aquela atitude.

— Sim, mas trouxe bandagens para segurar as costelas. Sente-se e tire a túnica.

Nicholas reabriu os olhos.

— Não precisa se dar a esse trabalho, srta. Thibault.

Beatrice suspirou, resignada.

— Está zangado comigo, e tem toda a razão. Foi errado, injusto e ingrato de minha parte criticar o modo como me libertou do barão Hawse.

Nicholas cerrou os olhos.

— Creio que estava certa. Poderia ter dado conta do problema sozinha como faz com tudo em sua vida. Sempre a considerei uma mulher extraordinária e muito capaz.

Beatrice voltou a suspirar.

— Sim, eu era a eficiente, mas Flora era a menina meiga que atraiu o olhar de um bravo homem.

Ao ouvir aquilo, Nicholas franziu as sobrancelhas, abriu os olhos e piscou diversas vezes.

— Está brincàndo, não está?

Beatrice torceu as tiras de bandagem que trouxera consigo entre os dedos.

— Brincando?

Nicholas apoiou-se com uma das mãos e sentou-se na cama, fazendo uma careta de dor.

— Acha mesmo que sua irmã era mais atraente para o sexo oposto do que você?

Beatrice foi tomada de surpresa.

— Pelo menos para você foi.

Nicholas olhou para o teto do quarto, como se pedisse auxílio divino, e fez um gesto de impaciência, murmurando mais para si mesmo do que para Beatrice:

— Essa mulher perdeu o juízo!

— Quer me dizer que ainda não ama minha irmã de certa forma e que não pensou nela quando... estivemos juntos?

Nicholas mexeu-se na cama de modo a encará-la de frente.

— Beatrice, você estava em York quando parti para as Cruzadas, só a conheci quando era uma menina de tranças. Flora foi uma moça meiga, uma linda flor que me honrou com sua companhia e me confortou quando estava para partir para a guerra, naquilo que representou o “canto do cisne” de minha juventude. Infelizmente, devido a minha inexperiência na época, deixei-a grávida, e isso foi sua desgraça. Mas Flora não foi nem nunca poderia ser o grande amor de minha vida nem a companheira com quem gostaria de partilhar minha existência até o fim. Existe apenas uma mulher que encontrei e que se enquadraria nesse papel, entretanto, ela tem sido muito dificil de ser conquistada e exasperante demais.

Beatrice perguntou com cuidado:

— E, devo pensar, que essa mulher é Winifred Hawse? Nicholas voltou a olhar para o teto, sacudindo a cabeça em negativa, de modo irritado.

— Bem — continuou Beatrice. — Talvez então você não tenha sido explícito o suficiente com essa sua dama. A maioria das mulheres gosta de ouvir as verdades de uma maneira bem clara.

Nicholas observou-a, a expressão do rosto mais suave.

— Já faz algum tempo que tento dizer a essa dama que a amo, mas ela continua se esquivando, sendo raptada e...

— Diga de novo! — interrompeu Beatrice em tom de comando.

— Ela foge e...

Beatrice bateu com o pé no chão, de modo impaciente.

— A outra parte!

Nicholas esboçou um sorriso lento, e repetiu:

— Eu a amo.

Beatrice mergulhou o olhar no de Nicholas, as lágrimas rolando livremente pelas faces.

— Não sou nobre nem tenho fortuna...

Nicholas a fez calar-se, colocando um dedo sobre seus lábios.

— É a dona do Javali Dourado, a mais maravilhosa taverna de Hendry, e é tia e guardiã do menino mais extraordinário de toda a Inglaterra. Por outro lado, no momento, sou um ex-Cruzado, abatido e combalido, sem terras ou riquezas.

Beatrice sorriu.

— Talvez seja melhor eu procurar por um partido mais conveniente.

— Sem dúvida que sim, minha senhora, mas não fará isso, porque conheço um segredo que guarda no coração.

— E qual seria?

Nicholas tomou-lhe o rolo de linho das mãos, inclinou-se e beijou-a, murmurando lhe ao ouvido:

— Gosta de dizer que é enfermeira, mas, sob qualquer pretexto insignificante, está sempre tentando me deixar sem roupa.

 

Durante os dois dias que se seguiram à fuga do castelo de Hawse, esperaram pela revanche do barão.

Bernard, embora estivesse ansioso para partir para o castelo de Dassett a fim de cuidar de seus próprios negócios, insistiu em ficar em Hendry, caso Nicholas necessitasse de mais ajuda.

Quando, por fim, Nicholas e Beatrice saíram do quarto, doze horas depois que a jovem lá entrara para cuidar dos novos ferimentos, o cavaleiro enviou Molie para buscar Owen e Phillip e trazê-los a Hendry Hall.

Molie correra a cumprir sua missão, mas voltara trazendo apenas Owen e, piscando o olho de modo malicioso, disse:

— O velhinho falou que queria deixar a filha um pouco a sós com você, Nick, mas se quiser minha opinião, acho que ele é quem deseja uns tempos sozinho com a viúva Fletcher.

Nicholas pensara em falar com Molie sobre as verdades que sua mãe lhe contara, mas quando a jovem continuou a tratá-lo com a costumeira familiaridade carinhosa e brusca, percebeu que a criada já não desejava nem precisava de seu apoio. Vivia feliz com o marido e os filhos, e o passado triste ficara para trás.

Nicholas pensou que precisava, dali por diante, tomar cuidado com o que dizia à Molie, à Winifred, e à qualquer outra mulher com idade abaixo de oitenta anos, de modo a soar o mais inocente possível. Agora que se entendera com Beatrice, não deixaria que nada estragasse sua felicidade ao lado dela.

Mesmo a certeza de que o barão Hawse não deixaria o assunto morrer tão facilmente, não apagava a alegria do jovem casal e de Owen, que fora para Hendry Hall e explorava cada canto, cheio de animação, consciente de que aquele era seu novo lar.

A alegria dos três era contagiante, e toda a mansão borbulhava de energia e de ânimo renovado. Mas... ainda esperavam os acontecimentos.

Tudo aconteceu no terceiro dia e de maneira muito inesperada. Bernard, que olhava pela janela, foi o primeiro a vê-lo. Correu para fora do quarto, e gritou para o alto da escada, buscando ser ouvido por Nicholas que desaparecera em seus aposentos com Beatrice pela terceira vez naquele dia.

— É Simon, Nick! Está vindo para Hendry Hall!

Um segundo depois, Nicholas surgiu no topo da escada, vestindo-se de modo apressado. Os dois jovens saíram para o pátio onde Simon Blackstone, cavaleiro da Rosa Negra, cavalgava em direção aos portões de Hendry Hall.

Correram a seu encontro, sorrindo. Nicholas gritou:

— Bem-vindo a Hendry!

Mas o entusiasmo arrefeceu ao se aproximarem de Simon e ver a expressão séria no belo rosto.

— Que cara triste é essa para vir visitar seus amigos, senhor xerife?

Assim dizendo, Bernard tentava ser jovial. Depois de muitas aventuras ao regressar, Simon fora nomeado xerife de Durleigh.

— Não vim fazer uma visita social — disse Simon, fazendo o cavalo parar junto a uns pilares. Olhou para Nicholas. — Vim aqui para prendê-lo, em nome do rei, pela morte de Leon de Ryminster.

Nicholas e Bernard entreolharam-se, espantados. Então, o amo de Hendry Hall ergueu os olhos para Simon.

— Não sou assassino, meu amigo, como bem deve saber.

Simon apeou do cavalo.

— Não importa o que penso. Existem testemunhas, e o barão Hawse fez uma queixa para o rei contra você.

Hesitando por um momento, Simon aproximou-se e estendeu a mão para Nicholas.

— Por tudo que é mais sagrado, Nick! Temi que um de seus romances afinal o houvesse metido em encrencas, mas vejo em seus olhos que está dizendo a verdade.

— E nos meus também — disse Bernard entre os dentes, adiantando-se para cumprimentar Simon.

Então, os três olharam para a estrada de onde se aproximava um grupo de cavaleiros.

— Pedi para vir na frente — explicou Simon — a fim de evitar violência.

A maioria dos cavaleiros envergava as cores de Hawse. O barão liderava o grupo. Nicholas olhou para Simon, com um gesto de interrogação.

— Meu homens vêm logo atrás — acalmou-o Simon.

— Ninguém aqui fará justiça com as próprias mãos. A essa altura. Beatrice já chegara e unira-se ao grupo. Nicholas murmurou-lhe:

— Não precisava vir aqui.

A jovem olhou para o barão que vinha bufando sobre a sela, cansado pela cavalgada e respondeu de modo simples:

— Vou ficar.

Nicholas passou-lhe um braço pela cintura, e então voltou-se para Simon.

— Esse que aí vem é o homem que deveria prender, pela morte de meu pai, Arthur Hendry.

O         barão acabara de entrar pelos portões e, ao ouvir a acusação, o rosto afogueado pela corrida tornou-se pálido, porém redargüiu com sarcasmo:

— Esse vilão contará com a mentira para salvar o próprio pescoço. Cumpra seu dever, xerife!

— Sou testemunha da inocência de Nicholas Hendry

— bradou Beatrice. — Nicholas matou o empregado do barão em legítima defesa, ao salvar-me deste homem. — Apontou para Gilbert Hawse. — Esta é a pessoa que me raptou.

Simon virou-se e encarou o barão que continuou no papel de ofendido, exclamando indignado:

— Olhe para os dois! Ela é a amante do assassino! Seu testemunho de nada vale.

Da porta principal da mansão, ouviu-se a voz firme de urna mulher:

— Mas o meu vale.

Todos os olhares voltaram-se para Winifred, seguida por lady Constance, que descia os degraus em direção ao pátio. Um murmúrio ergueu-se em meio à tropa do barão Hawse.

Simon perguntou a Nicholas:

— Quem é a dama?

A própria Winífred respondeu, aproximando-se dos homens.

— Sou Winifred, filha de Gilbert, barão Hawse. Sou testemunha de que, há três dias, os homens de meu pai prenderam esta mulher e a levaram, de modo ilegal, para o castelo Hawse. Os cavaleiros Nicholas e Bernard foyam resgatá-la.

As veias no pescoço do barão pareciam querer arrebentar.

— Cale-se, sua gata acanhada e insignificante! — o barão gritou.

Winifred não piscou nem moveu um só músculo.

— Não, meu pai. Fiquei calada quase toda minha vida, mas não protegerei um criminoso. — Voltou-se para o xerife. — Ouvi meu pai admitir que matou Arthur Hendry a fim de entrar na posse dos bens dos Hendry.

— Vilão sem-vergonha!

Todos os empregados de Hendry Hall haviam se reunido em frente à mansão, e Nicholas reconheceu a voz de Molie em meio à pequena multidão. Outros a acompanharam em seus protestos.

Com decisão, Simon tomou as rédeas da situação antes que se transformasse em um tumulto irrefreável. Os homens de Hendry estavam a sua frente, e os guardas de Hawse atrás. Emitiu um assobio, e, de imediato, a tropa foi cercada por seus próprios homens, armados com arcos e flechas.

— O rei em pessoa julgará a questão — sentenciou Simon.

Constance deu um passo adiante, e todos se calaram, ante seu andar imponente e sua postura digna e soberana.

— O rei também ouvirá meu testemunho. Hawse enganou meu marido fazendo-o passar as terras para seu nome, e a morte de Arthur não foi natural. O curandeiro do vilarejo garantiu-me, em segredo, que fora envenenado. Disse-me ele que as características da morte de meu marido eram de envenenamento. — Olhou para o barão, com olhos incendiados de revolta.

— Teimosa, recusei-me a acreditar que tal monstruosidade pudesse ser verdade.

Hawse olhava para Constance com um ódio indisfarçável.

— Sempre foi uma tola sonhadora, senhora. Poderia ter o mundo a seus pés, todas as riquezas, se ficasse comigo. Agora poderá desfrutar da viuvez, sozinha e abandonada.

Simon olhou para as três mulheres que haviam formado um bloco único de desafio, e que se postavam bem atrás de Nicholas e de Bernard.

Sorriu como costumava sorrir no passado, e brincou:

— Parece que as damas sempre estão de seu lado, Nick.

— Falam a verdade — redargüiu Nicholas.

Simon o fez calar-se com um gesto de mão. Sua voz soou cheia de autoridade:

— As evidências são claras, e os testemunhos autênticos e irrefutáveis, dado o caráter íntegro das testemunhas.

Apontou para o barão Hawse.

— Prendam este homem e que aguarde pelo veredicto do rei.

Com a rapidez de um raio, os soldados do xerife

circundaram o barão e seu cavalo, afastando-o de seus homens. Um dos soldados de Simon tirou-lhe as rédeas das mãos e outro apontou-lhe uma espada, enquanto um terceiro amarrava seus pulsos atrás das costas.

Simon voltou-se para seus velhos amigos.

— Companheiros! — O tom era brincalhão. — Será que não podiam ficar longe de encrencas por mais de um mês? — Piscou para Nicholas. — Dessa vez, eu também tenho uma dama a minha espera.

Nicholas também sorriu, abraçando o xerife com força. Então afastou-se, enquanto Simon voltava a montar no cavalo e fazia um sinal para seus homens o seguirem com os presos.

 

Toda a família estava reunida no solário, e, aos olhos de Nicholas, aquele aposento nunca parecera tão iluminado. Até os anjos pintados no teto pareciam sorrir com mais vigor.

Constance sentava-se ao lado de Beatrice, ensinando a futura nora a bordar uma tapeçaria.

O olhar de Beatrice cruzou o aposento à procura de Nicholas, brilhando, cheio de amor, ao vê-lo.

— Isso nunca será tão divertido quanto traduzir um trecho de literatura do latim, mas vou me esforçar.

Owen brincava a um canto com o pequeno Nick que viera visitá-lo. Os dois meninos usavam miniaturas do manto prateado com rosas negras no peito. Duelavam com espadas de madeira, uma reta e outra curva como a de Bernard.

O cavaleiro aproximou-se de Nichõlas.

— Bem, chegou a hora de partir, Nick.

— Espero que tudo esteja bem no castelo de Dassett

— disse Nicholas, a expressão alegre desaparecendo ante a iminente partida do grande amigo.

Bernard aproximou-se mais, e Nicholas levantou-se.

— Fique tranqüilo, amigo. Pretendo voltar a Hendry em breve. Lorde Odo me prometeu um belo dote e sua filha em casamento, mas talvez uma outra dama já tenha conquistado meu coração.

Falara em voz alta para ser ouvido por Winifred que bordava a um canto, mas que ficou ruborizada ao ouvir as palavras do cavaleiro. Ergueu o olhar e sorriu-lhe com carinho.

— Gostaria de ir com você e ajudá-lo no que fosse preciso, meu amigo, mas... — O olhar de Nicholas percorreu o salão ensolarado, olhando as pessoas que mais amava no mundo. — Tenho uma família agora.

Bernard riu.

— E verdade. Quem diria, Nick! E uma bela família, diga-se de passagem. Não precisa se preocupar comigo, não haverá problemas.

Despediu-se das senhoras, e depois encaminhou-se para os dois meninos. Ambos pararam de brincar com as espadas, e Bernard agachou-se ao lado deles.

— Vejo que ambos são bravos guerreiros — disse, colocando as mãos sobre a cabeça de Owen. — Mas, lembrem-se, para serem cavaleiros da Rosa Negra deverão também ser honrados e confiáveis.

Os meninos concordaram com um gesto solene de cabeça, os olhos muito abertos e admirados.

— Bons garotos — despediu-se Bernard. Beatrice, lady Constance e Winifred ergueram-se para acompanhar os dois homens até os estábulos onde Bernard montou seu alazão.

— Adeus, amigo — disse Nicholas.

Manteve as mãos erguidas em uma saudação muda, até Bernard sumir na estrada, pegando o caminho para o sul. Constance e Winifred retornaram ao solário.

— Sentirei sua falta — disse Beatrice com suavidade. — Seus companheiros de armas são fabulosos.

— Sim. Temos um vínculo especial. — Virou-se e abraçou-a. — Mas, na verdade, estou gostando de minha nova companheira muito mais do que o antigo grupo.

Beatrice sorriu.

— Fico feliz em ouvir isso.

Nicholas inclinou-se e beijou-a no pescoço.

— Para ser franco, não me importaria de ter minha companheira entre os braços neste exato minuto.

— Devo voltar à aula de tapeçaria — disse Beatrice em tom sentido.

Nicholas riu.

— O estudo que tenho em mente é outro. Cobriu-lhe a boca com os lábios, fazendo-a entreabri-la, e continuando o beijo até senti-la excitada entre os braços.

— Precisamos esperar até a noite, meu amor, senão sua mãe começará a pensar que sou... — Beatrice protestou.

Nicholas interrompeu-a com novos beijos. Quando Beatrice gemeu, afastou-se, olhou em torno do estábulo deserto, e ergueu-a nos braços.

— Para onde está me levando? — murmurou Beatrice ao vê-lo caminhar.