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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O CEMITÉRIO DE RAPARIGAS / Miguel Esteves Cardoso
O CEMITÉRIO DE RAPARIGAS / Miguel Esteves Cardoso

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O CEMITÉRIO DE RAPARIGAS

 

Por acaso a mulher que matou as minhas namoradas é casada comigo. ‑ senão eu não contava. Nada. Nem estava aqui. Não teria maneira de saber. Nenhuma. Como é que poderia contar fosse o que fosse? Livra! Haverá pensamento mais triste?

O que vale é que posso. Posso e vou. Por outro lado, não é menos trágico que todas as coisas que se possam contar tenham menos força e interesse à medida que se tornam mais conhecidas. Para mais quando já se tenha contado tudo, como acabo de fazer. Pelo menos no que diz respeito a mim e à minha mulher. já somos dois. (É raro isto acontecer, mas devo estar doente: sinto‑me menos sozinho) como é que hei de dizer isto? Já soube. já sei. Vamos a isso.

Nota‑se: não é uma questão de tempo. Mas de repetição. Dez vezes ao dia, durante meses a fio, ouvi a história da minha mulher, de como cada namorada tinha sido morta e morrido, simultaneamente, sempre sem alterações, ou emendas, ou outra causa para alívio de qualquer espécie: os mesmos pormenores, contados no mesmo tom de voz, no mesmo ritmo, da mesma boca tão bonita, nunca mais ou menos bonita, (sem alívio também neste aspecto), fossem quais fossem as circunstâncias, foda‑se, não é concebível que pudesse ter sido mais chato, mas a verdade é que foi, dia após dia, uma ininterrupta chatice, como seria de esperar desde o princípio, conhecendo a minha mulher como eu conheço. Nisso é generosa, porque, infelizmente, deixa-se conhecer logo no primeiro encontro. É instantânea. Sabe-o e está‑se nas tintas. E depois não perdoa ‑ é duma coerência desumana: nunca mais varia.

E eu, à falta de alternativa, sigo pelo mesmo inaflitivo caminho, até ver. (Até ver! Quando serei capaz de abandonar estes tiques teimosos de expectativa?


Era tudo verdade. Eu já devia ter desconfiado. Mas prestar atenção não é o meu forte. Seria preferível, dado o prazo e o prolongamento, não ter sido. Ou vir‑se a saber mais devagarinho, por exemplo, em duas sessões consecutivas, não teria fodido mais, porque já não seria mau. Ao menos poder‑me‑ia chocar mais de uma vez, por uma questão de respeito, ou de culpa, ou de fascínio. Por muitos esclarecimentos que exigisse, estupidamente, claro, porque mais nenhuns havia por prestar, tal era a ingenuidade ou a esperança, ao princípio, a desatenção imediata, e paciência, da minha parte ‑ que ao longo dos primeiros dias, que idiota! E o que ela se ria? Bem. Isso não consigo esquecer. A minha mulher é muito certinha. Valha‑a Deus que, neste aspecto, tem muito que se lhe diga.

Nem tempo me deu para perguntar porquê. Explicou‑me logo tudo, tintim por tintim, desde o início, arrumando‑me a um canto, sem margem alguma, de manobra, ou capacidade interrogativa, ou de participação. O facto de ela não ter razão para ter feito aquilo que fez, na forma explícita de cinco assassinatos ‑ nem isso lhe pude fazer ver, ou lembrar, no caso de ela se ter esquecido, porque ela antecipou‑se, mal acabara de contar‑me pela primeira vez, e, antes que eu pudesse abrir o bico, afirmou que toda aquela maldade tinha sido, bem pensadas as coisas, em vão.

E assim continuou, durante meses, sempre com a mesma consciência de arrependimento e de perda de tempo, confessada com total coerência de substância e de registo, sem variar, independentemente do número de ocasiões em que repetiu a narrativa, o que se diria um milagre, caso não se conhecesse a minha mulher, o que é impossível, mesmo para quem não a conheça.

Acabei por aceitar. E fi‑lo quando ainda não me tinha dado conta que tinha começado, dada a rapidez dos relatos. As vezes, quando menos se espera, é maior a desilusão. E mais para mal meu do que para dela ‑ eis a verdade, em toda a sua injustiça. Que vergonha. Foi a única coisa que me ficou. É natural que me tenha afeiçoado a este único sentimento. Nisso, não tenho culpa. Eu teria preferido a culpa ‑ é mais respeitável ‑ mas a vida nem sempre corre como nós queremos, se é que chegamos a querer tal coisa, o que duvido, por uma questão de princípio e dado o grau menor de dificuldade que exige.

Nunca mais matou ninguém. Gostei. Mas, para quem queira saber da história, por não estar envolvido nela, não será

este um desenvolvimento bem‑vindo. É precisamente, logo por azar, o caso de toda a gente, menos meu e dela. E daí alguma gravidade em termos públicos que me obriga, agora que já tudo se passou e ela não fala mais nisso, a tentar explicar, após o conforto posterior de quase um ano de silêncio (nessa matéria), exactamente o que aconteceu. E agora à minha maneira. Finalmente. Eu sabia que iria chegar a minha oportunidade. Foi o que me aguentou, aliás, durante aqueles dias todos. Espero bem que já me tenha esquecido de alguma coisa. Se tenho uma obrigação ‑ então, considerando os limites miseráveis da minha intervenção, é essa. Eu isso admito. E folgo, sim, folgo, é a palavra certa, em dizê-lo. O pior é o resto. Mas a minha vida é muito chata e eu, para ser sincero, nem dou por isso. Se há uma regra na minha vida, é não prestar atenção.

Dito isto, dou razão à minha mulher numa coisa. A verdade é para se contar logo de uma vez. Não haja cá histórias.

pena, para quem não esteja envolvido. Mas, para mim, não. Se calhar fui influenciado por ela. Se assim foi, peço desculpa: fodi‑me. Foi sem querer. Quem é que se fode de propósito? Isto é, por si próprio, como fazem certos caracóis, segundo consta. Alguns achá‑los-ão patéticos, tendo‑os visto na televisão, mergulhando os pénis imaginários nas suas não menos imaginárias vaginas, em plena falta de qualquer espécie de preliminares ou de convívio, sem prazer que se veja, só para efeitos meramente reprodutivos, cujos carregam depois sobre o corpo, como é da laia deles, esse estigma, ou destino, de andar não só com a cona às costas, mas também com o caralho e os filhos, insignificantes até quando somados, não havendo, em tudo isto, qualquer escolha ou opção de vida, ou desculpa política.

Mas eu não. Eu aplaudo‑os. Sempre que posso, aplaudo- ‑os, ou lembro‑me deles. Alguns acharão triste que assim seja, isto para fingir que não são todos, o que está mais próximo da verdade, sabendo eu do que a casa gasta, não sendo esta a primeira vez, nem de longe, que conto uma história, ciente dos riscos que corro ‑ de que é, em suma, sempre a mesma merda.

Outros terão modelos mais caros, como esfinges ou coelhos ou o próprio Deus. Sorte deles. O meu é o caracol. É mais forte do que eu ‑ é vergonhoso confessá‑lo, bem sei, mas ja estou farto de me tentar armar no que não sou, e foder‑me, o mais das vezes imediatamente, logo no início. Sendo sempre a mesma merda cada vez que eu, por assim dizer, ponho os pauzinhos ao sol e me apronto a babar o meu caminho, mais brilhante e lento do que, por exemplo, curioso ou rápido ou rectilíneo. Que é sempre a mesma merda, sei eu. Caso me tivesse fodido, nem que fosse só uma vez, um pouco mais tarde já nem digo acabar por me foder, pois isso seria um sonho ‑ talvez eu agisse agora de modo diferente. Naquela sofriguidão de andar, mais impante, mais um bocadinho, com o meu quê de pressa, porque também o tenho, embora não o utilize, pelas razões que já apontei, com o devido alongamento, atendendo a que, desde o dia em que aprendi a falar e vi uma mulher a bater num mudo, mais não disse senão isso, «ó mãe, hoje vi uma mulher a bater num mudo, sem saber responder às perguntas que depois me fizeram, acerca das possíveis causas, circunstâncias e sequelas, nem poder, por muito que me aplicasse, acrescentar um único pormenor ou um toque de cor, inclusive o lugar onde ocorreu, e as horas, e outras coisas igualmente aborrecidas, ao ponto de ter sido repreendido e gozado pelos meus pais e irmãos, com excessiva compreensão e, para minha eterna vergonha, sem castigo. Foi tudo muito rápido, repetindo‑me ao longo dos anos, sem alívio nem sucesso, tanto mais que me habituei a foder‑me, logo à primeira oportunidade, mal abria a boca. Tenho a impressão de nunca ter continuado a falar em toda a minha vida. Mas nem por isso me calei. Se era essa a minha natureza, que melhor ‑ ou outra ‑ vingança poderia ter tido? Nunca soube. Talvez um dia.

O caracol pode foder‑se, há bilénios, sem sair do sítio ou de cima, como provam os fósseis, tão pornográficos quanto possível, que é, como se sabe, nada, desde que Deus criou os moluscos até ao nosso tempo. Mas não falta no mundo pornografia e, se acaso faltar, é a outros seres, que não os caracóis, que se devem pedir satisfações, ou mais ânimo, ou empenho, ou ainda mais nojento, o chamado amor à camisola. Alguém tem de gostar do caracol. Calhou‑me a mim ‑ paciência. Recorde‑se, porém, que muito facilmente poderia ter sido outro ser humano, com esta vontade ‑ não: ânsia ‑ de contar uma história, a foder‑se.

Sabendo‑se a complexidade da existência. Escusava de ter sido eu. Ao menos admita‑se, esta aleatoridade primitiva, sou

levado a dizer, claro, aproveitando a minha resignação face a esses desígnios.

Os caracóis têm um passo de que gosto muito. É necessário ‑ e nisso concordo com eles a cem por cento ‑ contrariar o mais que se possa a estúpida fatalidade, muito mais inteligente e perigosa que o sexo, da narrativa. Que remédio? Ainda estou a aquecer mas, pronto, reconheço, nada posso contra a humanidade inteira, e estando completamente sozinho, não me resta outra hipótese senão ceder, dizer que está bem, não é preciso gritar ‑ eu já sei do que a casa gasta. E o que gasta, em três palavras, é sem margem para dúvidas, vamos a isso.

Isto é assim: como vos disse. A minha mulher matou as minhas namoradas. E somos felizes. Mas não é por causa disso. É muito mais simples.

Quem me dera dizer que houve uma breve, ou melhor ainda, longa, sucessão de eventos que culminaram nesses actos violentos. É um gênero de sorte que desconheço ‑ da qual não posso falar, já que nada de parecido me foi alguma vez dado experimentar. E é por isso que dou apenas o que foi colocado à minha disposição e, desde jà ofereço, a quem esteja interessado, nem que seja tão pouco como eu, condenado como estou a um único prazer, minúsculo mais inegável; que é contar tudo quanto sei, a quem me queira ouvir, por se encontrar preso, talvez, não me importo ‑ mesmo que não haja ninguém; para mim é igual.

O que me é dado é apenas isto: antes de a minha mulher matar as minhas namoradas ‑ e, até certo ponto, depois

‑ aconteceram várias coisas, das quais fui quase sempre a única testemunha, dada a solidão da minha vida, fora as ocasiões em que tive a sorte de gozar um pouco de companhia, deliciosas todas elas, pelo menos para mim.

E, sendo assim, tal como venho contando constantemente, influenciado pelo estilo da minha mulher, repetindo‑me até ao estertor, sem variação. Agora, sim, aqueci, dei por mim a mexer‑me, nitidamente, conforme conta do rastro de baba aqui à minha beira, mesmo aqui, um, bom milímetro, e sinto‑me autorizado a fazer eco do que me é pedido, nem que só por mim, que é ‑ desta vez estou a falar a sério ‑ Vamos a isso.

Mas cuidado. Devagarinho. Não me pressionem. Isto é, caso vos seja impossível pressionar‑me, sabendo Deus apenas o quanto um estímulo, por muito fugaz e brejeiro, seria bem‑Vindo. Mas eu compreendo. Gostaria que isto ficasse claro, desde o princípio. Estou habituado. Ao menos isso. O que eu não sofreria se não estivesse. E até bastante. Mas enfim.

Quando uma coisa não tem por onde se pegue, e mesmo assim se quer pegar nela, não há altura certa, mas também não há outra que não seja esta: já. Esta já. Vai já esta. E é agora.

E, já agora, pega‑se nela, com uma única intenção: a de não a largar.

Assim peguei na minha vida, mesmo com medo que estivesse pronta. Arrisquei. Podia ser que contivesse ainda alguma coisa por descobrir ou acabar.

Que idade tinha eu na altura? Vinte e cinco ou seis anos. Talvez fosse tarde de mais. Mas só pegando na minha vida, naquele preciso momento, com toda a força que tinha, é que poderia saber se isso era ou não era verdade. E, enquanto não soubesse, tinha muito com que me entreter. Muito, quer dizer. Se calhar, muito pouco. Mas era a única coisa que tinha. Se era muito ou pouco, não sei, mas era toda a minha vida.

E que é assim:

Todas as manhãs lá vinha ela com outra estúpida história para me contar. Não havia dia em que não me acordasse, com os dedos e o corpo, doce e desastrado, cobrindo‑me dos pés à cabeça, sempre pela mesma ordem, como se fosse a única maneira, como se cada gesto estivesse há muito estabelecido, por algum plano anterior ao nosso primeiro encontro, tornado entretanto impossível de alterar. Nem sequer as histórias mudavam. As histórias estúpidas que, mal o amor acabasse de se fazer ela começava, inevitavelmente, a contar.

Isto durante meses a fio, ao ponto de não me lembrar do tempo em que ela não vinha. E para quê? Se havia coisa que não me cansava de perguntar, era essa. De nada me servia. Mas eu perguntava à mesma. Queria lá saber. Tanto mais que, às vezes, era ela a perguntar.

«Precisas assim tanto de mim?» «Muito pouco», respondia eu. «Então deixa‑me. Deixa-me em paz.» «Cala‑te. Tens toda a tarde e toda a noite para descansar. Fazes tudo o que te apetece, não fazes?» «E tu estás‑te nas tintas.»

«E que mal é que isso tem?» «Nenhum. Sei lá.»

«Então cala‑te. Cala‑te e deixa‑te estar.»

Era o que eu fazia. O que ela queria. Não era muito. Não era como se houvesse outra coisa qualquer para fazer.

«Assim não vamos a lado nenhum», disse eu uma vez. «Pois não. Assim é que é bom.» «Ai é?»

«Porquê? Querias que fôssemos a algum lado? «Não...»

«Então cala‑te.»

Estava sempre a mandar‑me calar. Em contrapartida, eu deixava‑a falar. E não falava pouco. Ela era incapaz de fazer uma coisa dessas. Mas eu não gostava de ouvi‑la. Repetia‑se muito. Regra geral, eram coisas importantes.

«Não te importas, pois não?», dizia ela. «Com quê?» «Com o facto de eu não te amar.» «Isso dizes tu», dizia eu. «Julgas tu.» «Se não me amasses, eu reparava.» «Se eu te amasse, eu sabia», dizia ela. «Se calhar não sabes.» «Não. Sabes tu.» «Quero lá saber», dizia eu.

«Nem queres saber, pois não?», dizia ela. «Mesmo que eu quisesse, tu não me dizias.» «Pois não.»

«Por isso é que acho estranho estares sempre a dizer que não me amas», dizia eu.

«Cala‑te e tira este braço daqui. Estás a magoar‑me.» «Al, desculpa ... », dizia eu, como cobarde que sou. «Dá‑me mas é um abraço.» «Outra vez?»

Era nisto que passávamos os dias. A bem dizer, as manhãs. Morávamos no mesmo prédio. Não era difícil. Eu no meu lugar cativo. Ela a apresentar‑se ao serviço. Simples. Sem grandes inconvenientes ou atractivos. Tudo entre nós era resumível. Despido. Desgraçado. Praticamente divertido. E pouco.

A casa dela ficava no andar de cima. Nunca lá entrei. Nunca calhou. As vezes apetecia‑me. Mas nunca o suficiente. Não por ela ser casada, porque isso tanto me fazia. O marido visitava-a de vez em quando, mas era um homem sensível, não se dava por ele. Ela ficava na mesma e ele, se calhar, sofria. Provavelmente o marido vinha trazer‑lhe dinheiro. Ou notícias de possíveis filhos. Fosse como fosse, ela não se deixava afectar. Na manhã seguinte, lá vinha, com a mesma cara com que tinha saído.

«Sabes quem é que esteve lá em casa?» «Deixa‑me adivinhar: o teu marido.» «Exacto.»

«Como é que está esse nosso amigo?»

«Na mesma. Nunca o viste?» «Não. Que carro é que tem?» «Varia», dizia ela. «Olha que giro.» «É, não é?»

«Gosto da ideia de teres um marido.» «Porquê?»

«Não te imagino sem um marido.,> «Ai agora já imaginas?» «Eu não disse que imaginava. Disse que não imaginavas «Se calhar tens medo», dizia ela. «É como queiras.» «Não sabes o que perdes.» «Então não me digas.» «Se soubesses as coisas que eu imagino ... dizia ela. «Guarda essas coisas para ti. Algum dia podem ser precisas. «Não notas?», perguntava ela. Acho que sim. É quando ficas muito calada, com os olhos baços e os dentes cerrados... o costume. «Se tu visses!»

«Perdia a tesão toda.» «Achas?»

«Toda? Acho que não», dizia eu. «És tão insensível.» «Foi Deus.» «Estou farta de falar do meu marido.» «Também eu.»

«Tu é que puxas sempre a conversa. «Ai é?»

«Se calhar nem dás por isso.» «Se calhar ... »

«Não tem mal ... » «Desculpa lá.» «Não se fala mais nisso.» «De que é que vamos falar, então?» «Sei lá! De ti... Nunca foste casado?» «Pensei nisso.» «Como é que se chamava?» «Rita.»

«O meu marido chama‑se Raúl.» «É pior ... »

«Pois é», dizia ela.

«Mas o que é que se pode fazer? «Nada. Era melhor Rita e Raúl que Raúl e Margarida.» «O que vale é que não se fica casado muito tempo.» «Depende da tua definição de "muito tempo" ... », disse

eu.

«Quanto menos uma pessoa se casa, menos custa.»

«Achas?»

«Não me digas que pensaste em casar outra vez.» «Porquê? Achas que fiquei traumatizado?» «Se calhar levaste com os pés ... », dizia ela. «Tens ciúmes? Porque é que toda a gente tem ciúmes de quem pensa em casar outra vez?»

«Eu? Ciúmes? Querias!» «Por acaso, até tinhas motivos para isso.» «ó filho. Deus queira que tenhas sido muito feliz!» «Feliz? Deves estar doida. Sabes lá o que eu passei.» «Não me digas que te partiu o coração ... » «Pior.»

«Como é que se chamava?», perguntava ela. «Não me lembro.» «Vá lá ... »

«Marisa.»

«E tu a dizeres mal de Raúl ... »

«Era o nome dela. Não posso mentir.»

«Eu era incapaz de me casar com uma pessoa chamada Marisa.»

«Olha que era muito bonita. E ficava bem: Marisa e Margarida.»

«Gostavas dela?»

«Punha‑me os cornos.»

«Por amor de Deus! Não te vais pôr a contar tintin por tintin o teu segundo casamento hipotético, pois não?» «Não», dizia eu.

«Porque eu não teria pachorra, digo‑te francamente», dizia ela. «Tem graça. Passa‑se o mesmo comigo e com o teu marido.» «Sou um bocado chata quando falo dele, não sou?» «Um bocado.»

«Nunca mais falo dele.»

«Vou mudar o disco», dizia eu.

«Por mim ... »

«Há alguma coisa especial que queiras ouvir?» «Qualquer coisa.» «Então, está bem.» «Desde que não te demores ... » «É um instante.» «Despacha‑te.» «Já está.»

«Anda ... »

«Aqui estou», dizia eu. «Queria que me desses um beijinho na boca.» «E por que não?» «Que raio de música é que puseste?», dizia ela. «é jazz.»

«Até aí já eu tinha chegado ... » «Não gostas?» «Não.»

«Pois. Ninguém gosta deste disco.» «Então porque é que estás sempre a pôr?» «Para ver se me habituo.» «Ah.»

«Não lígues.» «Está bem.» «Dá-me um beijinho», dizia eu. «Desculpa lá ... » «O que é que foi?»

«Não me consigo concentrar.»

«Eu tiro o disco.» «Já não vale a pena. Deixa estar.» «Sabes o que é que foi?» «O quê?»

«Foi aquela conversa toda sobre as pessoas com quem casámos, ou estivemos para casar ... »

«Temos de ser mais cuidadosos com o que dizemos», dizia eu. «Pensar duas vezes antes de falar.» «E falar menos.»

«Para não dizer ficarmos calados», dizia ela. «Tens razão.»

«Então está combinado.

«Está bem.»

E adeus.

Fartei‑me. Nem mais uma manhã. Ela que fizesse de conta que eu tinha morrido. Apaguem as luzes da cidade ‑ dêem‑me só mais um minuto. Apanharam‑me desprevenido.

Só trabalho à noite. Não tenho filhos. Não tenho mulher. Vêm uns amigos da escola. Aparece uma namorada. Mas é como se não estivesse aqui. Não lhes abro a porta. Não está em mim.

Não mais uma manhã. Repitam a noite anterior. Passem outra vez a noite que agora acabou. Preciso dela. Preciso da escuridão para me recompor. Apanharam‑me desprevenido. Tenho a casa desarrumada de mim. Não pertenço aqui. Se entrarem, tenham ao menos a galhardia de me deixar sair primeiro.

O que vale é a cidade ser bonita e o gato precisar de mim e a musica não me poder ouvir.

Lá vou fazendo o que posso e me prometi ‑ cada vez menos falta. Começou pelo céu e estendeu‑se a quem me quer tudo o que não depende de mim torna‑me um bocadinho mais livre.

Como é estúpido este desejo! E fácil culpá-lo de tudo quanto perdi...

Mas ‑ que se há‑de fazer ‑ é o que tenho de mais meu. Se calhar, imagino que me perseguem. Mas, de tanto fugir, era inevitável que um dia me sentisse, pelo bater na porta, pelas mãos no ombro, pelas palavras dos pedidos, verdadeiramente perseguido.

É sem vaidade que o sinto. Só sei quanto me esforcei para criar nos outros vontades, por vezes tão retorcidas e inverosí- meis que me custa acreditar que tenham pegado, ou tão aflitas que me dei conta da medida larga com que me excedi. Abri os buracos com as unhas dos dedos e engoli cada grão da terra que os outros pensam que guardo num armazém enorme dentro de mim.

Pelo menos não mudam as letras dos livros. São as coisas certas que me mantêm vivo: a estabilidade do álcool, a circulação das raparigas, o ar dos meus amigos, a segurança no vaivém, que por muito que demore, volta sempre, da saudade e do riso.

A solidão, bem entendida, como sendo única, como sendo sozinha, graças a Deus não existe. O que resta da companhia e do barulho do mundo, seja qual for o grau que atinja uma alma no sentido de ser desprovida, é sempre bastante. Abençoada seja a nossa fraqueza por isso.

Se um dia der comigo próprio demasiado livre, e se virar a minha tristeza contra mim, hei‑de sair e prender‑me outra vez a tudo o que ainda possa aceitar‑me ou pensar que precise do que dou. Por muito que me entregue e envelheça, ora entregando‑me, ora fugindo, não me há‑de faltar causa para me querer ver livre, nem força para me afastar dela. Isso não sei. Mas ‑ é forçoso que assim seja. ‑ acredito.

Se são estranhas as coisas que quero ‑ cansar‑me, ter sono, frio, fome, medo, juizo ‑ só o saberei quando as tiver. Enquanto não puder contar com essas e outras submissões, de modo a poder pôr‑me à prova e ver se consigo resistir‑lhes, é natural que me entretenha com tentações imaginárias, criadas à minha volta para que regressem a mim, como vontades que me perseguem e não consigo retribuir ou satisfazer, fingindo que só não o faço, não porque não seja capaz, que é verdade, mas porque não quero.

O que vale são as horas, haver sempre noite. E sítios onde poderia estar, que não saem do lugar, mesmo que eu nunca tenha lá ido. Isso e o facto que ou se está morto ou se vive. Cada coisa tem uma duração e só lhe fica bem o medo ou esperança que será, antes do que seria a probabilidade maior, repentina ou lentamente interrompida. Existe, por exemplo, esta pequena felicidade, em que penso ao ponto de ficar, pelo menos, um bocadinho feliz só de pensar nela, que seria eu morrer antes do meu gatinho.

Até hoje nunca consegui ser preso, a não ser por coisa ou pessoa em que trabalhei e que, por conseguinte, quis. Daí esta liberdade incompleta, esta solidão apinhada, o contentamento com tão pouco ‑ o sonho de chegar um dia em que não tenha de fazer nada, me sinta obrigado ao que não preparei nem quis. E a confiança infantil, com certeza infundada, que, quando me alcançar esse momento, serei capaz de fugir ‑ e de ser verdadeiramente livre.

O que é o mesmo que dizer começar a pensar nas coisas e pessoas que valem a pena e a vida ‑ e deixar de pensar nisso.

Nem sempre foi assim. Antes de nascer.

Existe uma rapariga que sabe como eu era dantes. De quem eu era. Infelizmente fui eu quem me dei. Nessa altura ainda havia uma pessoa inteira para eu lhe dar. Triste, mas inteira.

Andamos pelas ruas cheias. Não há mais ninguém a passear. Tanta era a pressa de quem passava que se diriam paradas. Deixando‑nos observá‑las, de cima a baixo, como se estivéssemos num museu de cera, sobre uma passadeira rolante que acelerava cada vez mais com cada figura, descontrolada, mas dalguma forma nossa, sensível às nossas vontades. Para sermos sinceros, era delicioso.

«Só nós!» Era esse o nosso refrão. «Só nós!» Era aí que a vergonha e a vaidade se encontravam.

Bastava entrar num café para as garrafas começarem a entornar-se e os empregados a discutir e os jornais a voar. Espalhávamos o caos como flores, sempre a surgir das mangas, incapazes de terminar. Poderíamos ter sido presos pelos desastres que provocámos, que não oferecíamos resistência, nem pediríamos piedade. Nem sequer os serviços de um advogado. Éramos foragidos. Criminosos a monte, pensáramos nós. Esta sensação de sorte e de impunidade tornava‑nos obviamente mais apaixonados.

Discutíamos constantemente. Nem tempo nem necessidade tínhamos para fazer as pazes. Não podíamos ser mais diferentes, mas não era por isso que nos resignávamos. Acreditávamos que podíamos e devíamos. Tanto inventávamos maneiras de tentar criar diferenças, e com tal sintonia de métodos e de intensidade, que muitas vezes caíamos, exaustos e indefesos, por um poço de conto de fadas, num plano já muito só de igualdade.

Estas são as coisas sem as quais não seria rentável ou possível viver.

Viveria sem álcool, mas só com muitos amigos e muitos livros e muito amor.

Viveria sem amigos, mas só com muito álcool.

Viveria sem amor, mas só com muitas namoradas.

Viveria sem namoradas, mas só se me deixassem todas em paz.

E à tarde trabalhava. Escrevia mais umas páginas do livro que me tinham encomendado: «Os Crimes Mais Violentos do Século XX». Eram imensos. Nem era preciso escolher. Por todos perpassava um monótono LeItmotiv de selvajaria. Os nomes e os sítios mudavam. Se pudessem, nem sequer isso fariam. De resto, era sempre a mesma chatice.

A noite ia ter com os meus amigos. Ou com uma namorada. Tanto fazia. Jantava, bebia imenso, ria-me um bocadinho. Depois saia. Embebedava‑me mais. Está por inventar uma maneira melhor de passar o tempo para quem não gosta. Levava os meus amigos a casa. Ou ia para casa duma namorada. Conforme calhava. Se me divertia ou não, era-me indiferente. O mais das vezes nem sequer me lembrava. Fazia o que tinha a fazer e vinha‑me embora. As namoradas não me chateavam. Não eram daquelas que nos pedem para «ficar». Essas topo‑as ao longe. Digo «Não, muito obrigado.» e mais nada. Gosto de raparigas desavergonhadas e que gostem pouco de mim. Levanto-me e elas soltam suspiros ensurdecedores de alívio, que me apaziguam a consciência e alento para me pôr a andar. E que, mesmo que me apetecesse, por uma questão de sono ou de calor humano, não podia ficar. Tinha de voltar para minha casa. Era impensável a Margarida entrar no meu quarto e não me encontrar. Porquê? Não faço ideia. Mas era mesmo assim e não me cabia a mim ter a veleidade de tentar compre- ender e muito menos explicar.

Um dos meus amigos está apaixonado por ela. Só a viu duas vezes. Chegou e sobrou. Deu para mais de trinta cartas. Pediu‑me autorização e tudo. Os homens são meticulosos nestas coisas, muito parvos.

«Gostas muito dela, não gostas?», perguntou-me. «Não... »

«Vá lá... eu não digo a ninguém ... » «Estou‑te a dizer!» «AI é?»

«Porquê? Estás interessado?» «Eu?»

«Sei lá! Tu és um pinga‑amor do pior que há ... » «Pois sou. Acho que estou apaixonado, disse ele. «já?»

«É um bocado foleiro, não é? Mas é verdade.» «Tu é que sabes.» «E ela... gosta muito de ti? Deve gostar ... », perguntou. «Que eu saiba, não.» «Estás a dizer isso para me animar ... » «Olha que, se fosse a ti, não me animava», disse‑lhe eu.

«A verdade é que estou bastante animado ... »

«Ai é?»

«Achas que dá para convidá‑la para jantar?» «Não. Ela não janta», disse eu. «Então o que é que faz?» «Não faço ideia.» «Ajuda‑me.» «Não ta posso apresentar ... » «Porquê?», perguntou‑me. «Era capaz de não gostar.» «Quem? tu? ou ela?» «Os dois.»

«De qualquer modo, estou apaixonado.» «Já vi que sim.» «Ela deve ser muito inteligente.» «pois deve», disse eu. «Vou mas é escrever-lhe uma carta», disse ele. «Então escreve.» «Posso mandá‑la para aqui?» «Não... Está bem... Podes.» «Achas que ela lê?» «Não.»

«Não me interessa. Se ela não ler esta, escrevo‑lhe outra.» «Força.»

«És um amigalhaço», disse ele.

Ela até achou graça. Leu a primeira carta até ao fim. A segunda é que não. E as outras, nem pensar.

«Ficas muito ofendido se eu deitar fora as cartas do teu amigo?»

«Por acaso, fico. Acho indecentes.

«Paciência ... »

E deitou-as todas fora. A minha frente. No meu caixote de lixo.

«Porque é que não as levas para tua casa?», perguntei. «És maluco?» «E se ele vê as cartas no lixo?» «Livra‑te delas já. É o melhor que, fazes», respondeu. «Livra‑te tu! Que lata!» «Ele é teu amigo, filho. Não é meu ... » «Dá cá então», disse eu. «És um querido.» «Então não.»

No dia em que o meu amigo João se curvou, decidiu casar‑se. Disse à noiva, uma daquelas da reserva territorial do liceu, que a despedida de solteiro teria de durar um mínimo de seis meses.

Ela recusou, embora não o amasse.

«Tenciono estar casado a vida inteira», protestou João. «O que é que são seis míseros meses ao pé disso?»

«Tu andas mas é a gozar comigo», disse ela, indiferente, já convencido.

«ó Margarida, meu amor», disse João. «É que tu não sonhas a quantidade de pessoas de quem me tenho de despedir ... »

Assim como se sofre quando se é apresentado, é delicioso ver alguém despedir-se. Nada na vida tem a vantagem de parecer‑se mais com a morte. E João tinha consciência disso. «Vem comigo para a cama», dizia às velhas namoradas, que já não o podiam ver à frente, «... Não me digas que não virias ao meu funeral ... »

A vida marca muito as pessoas. 24 horas por dia, dia após dia, não se faz outra coisa senão viver. Tudo tem uma consequência, à falta de melhor. Tudo tem um efeito, à falta de intenção. «Pensa nos teus netos», dizia ele, despindo a T‑shirt. «Pensa nas tuas filhas.»

As mulheres têm o vício de despedir‑se. Dá‑lhes alegria pensar que todas as vezes são as últimas, que todos os beijos são os primeiros. São puras. Os homens é que sofrem por causa disso. Eles é que são as putas deste mundo.

João começou pela namorada de quem gostou mais. E di-lo. Ela mastigou o rosbife. «Tenho seis filhos. Peso 92 quilos. Estás parvo ou quê?»

«Vem para a cama comigo», disse ele.

jantaram sem falar. Não comeram sobremesa. João chegou a perguntar: «Queres sobremesa?» Ela respondeu: «Acho que sobremesa é a palavra mais foleira que há.»

Ele foi levá‑la a casa. Morava longe. Tinha muitos filhos. «Obrigada», disse ela. «Desculpa não ter colaborado mais...,> «Deixa lá», disse ele, abrindo‑lhe a porta, ansioso por vê‑la partir. «Não te sintas culpada por isso.»

No dia seguinte, pensou em dar cabo de si. «Matarno‑nos, malta!», gritou em tom jocoso para com os seus botões, manuseando a espingarda do avô. Mas ainda faltavam cinco meses e três semanas.

A namorada, entretanto, é preciso dizer, apaixonou‑se. Conheceu um engenheiro naval numa loja de roupa. Meteu‑se com ela. Escolheu‑lhe duas camisolas e uma saia. «Mas que merda vem a ser esta?», pensou ela, por uma questão de decência. Balbuciou: «Desculpe?» Ele, por ser esperto, fingiu que não percebeu. Só disse: «Que Deus me perdoe... mas essa camisola fica‑lhe tão bem ... »

«Seja como for», respondeu ela, tirando o cartão de crédito da carteira e disfarçando a vontade insana de o beijar.

João passava a vida ao telefone.

«Não percebo...,>, dizia ele às antigas namoradas, « ... estás zangada ou não queres mesmo jantar?»

Mas a verdade não era uma nem outra ‑ elas é que não o queriam ver. Não se lembravam. De todo. Uma delas, mais atrevida, chegou a perguntar: «Mas diz lá, faz-me lá esse favor, quem és tu?»

«Sou o João!»

«Qual joão?»

Infelizmente há muitos Joões. Mesmo quando há só um.

Numa noite quente, fez‑se à estrada, em direcção ao Porto, onde estava muito frio. Bateu à porta da Teresa, da sua querida Teresa, com quem passara tantos anos, «enlevado» à falta de melhor palavra.

«Abre. Teresa! Sou eu!»

AS três da manhã, as vozes das pessoas na rua são aflitivas. Parece que morrerão se não forem imediatamente atendidas. Mas nem sempre se acode. A Teresa estava com o namorado de há três anos. Tinham tomado comprimidos para dormir. Nem sequer respondeu.

João voltou para Lisboa. «Que grande coisa é esta», perguntou no táxi que apanhou em Santa Apolónia, «que se chama solteiridão ou solteirismo, da qual um gajo, por mais que se esforce, não consegue despedir-se?»

Telefonou à noiva. A noiva disse‑lhe que tinha travado «amizade» com um engenheiro construtor naval. «Travar», disse João, quando ouviu os pormenores, «não é bem isso ... »

Desconfiou mas seguiu. Tinha pressa. Mas, por mais que João refizesse os seus passos, desde a adolescência até aos nossos dias, não encontrou uma única rapariga, por muito ranhosa que fosse, de quem despedir‑se.

«João! João!», chamava a noiva, perdida de amores pelo engenheiro com quem já tomava o pequeno‑almoço, o almoço, o lanche e o jantar todos os dias. «Porque desesperas tanto? Porque é que tanto insistes? Porque é que não cais na realidade? Porque é que não desistes? Porque é que não te despedes antes de mim?»

«Assim farei», disse ele, de cabeça pendurada. Mas não foi assim que fez. Entregou-se ao pai, à mãe e à família. Esqueceu‑se de escrever, de falar, de tomar banho. Ter-se‑ia entregado a Cristo, se Cristo o aceitasse. Mas pouca diferença fazia. Um lugar é um lugar. Uma família é uma família.

Mas poder‑se‑á fazer parte duma família toda a vida?

Foi com isto em mente que João, que ainda era novo, foi à procura de outra noiva e em Dezembro daquele mesmo ano, mais feliz que nunca, duma vez por todas, desistiu.

Era disto que a casa gastava. Com variantes. Até preferia assim, para ser sincero. Nada de complicações. Nada de passeios. Nada de projectos. Nada de amores. Poupem‑me. O que é bom é tudo aquilo que resta depois de se retirarem as coisas más. São imensas. O bom, por conseguinte, é pouca coisa. Mas é o que há.

Quando ela me deixava pousar a cabeça na barriga dela, era bom. Há quem a pouse para a cara da anfitriã. Mas eu prefiro ficar virado para os pés. A púbis é boa companhia. Parece o cabelo duma criança. Sobretudo quando é pêlo de arame, todo encaracolado. Gosto dos órgãos sexuais em posição de descanso. Reduzidos à sua insignificância, enternecem qualquer pessoa.

«Pareces um menino», dizia ela. «Tu também.»

«Não. Eu pareço uma mãe.» «Uma mãe adolescentes «Que não tem paciência para os filhos.» «De barriguinha lisa ... »

«Não tencionas adormecer aí em baixo, pois não?»

A vida é o preço que se paga pela arrogância de nascer. Podemos ser amados, quando somos muito miúdos, mas não somos precisos. Quanto mais, úteis. Só damos trabalho e pequenas alegrias, pelas quais não fazemos esforço nenhum. É um bom negócio. Não há maiores oportunistas que os bebés. Mesmo assim, a dependência é sempre uma situação difícil.

Haverá coisa mais vazia que uma casa cheia de livros? Ou mais cheia que uma casa com uma mulher lá dentro? Ou mais chata que uma vida que oscila entre esses dois estados extremos, como era a minha? Foi atendendo a isto, que acabei por mandá‑la embora e mudar de vida. Mas ele voltou na manhã seguinte. Tal era o respeito que me tinha.

«Estavas a dormir?», perguntou.

«Estava, não, estou.»

«Queres que te acorde?» «Tanto me faz.»

«Abre os olhos.»

«Pronto. Estás contente?», perguntei, furioso. «Estou», respondeu.

Nunca mais foi o mesmo.

Será pouco. Mas é típico. É raro haver muito que me aconteça. Escuso de estar a inventar. É assim, como vos digo. Não se pode pedir mais. Pelo menos a mim. Seria pedir muito. Admito. Não escondo. É ridículo. Mas eu próprio sou o primeiro a fazer pouco da minha vida.

Desastres bem‑vindos. O telefone a tocar. Uma rapariga parada que fala sozinha na fita do atendedor. A explicar os desejos e as formas de destruição mais recomendadas para o dia.

Não atendo. Bem me apetecia. Mas as raparigas sozinhas, quando decidem gravar o que dizem, não podem ser condenadas, tal é a beleza da expressão.

Acham sempre que estou em casa. Senão não vinham vinte minutos depois.

«Deixei‑te um recado ... »

É esta a senha de entrada.

Instala‑se. Quando uma rapariga se senta na minha sala, sinto‑me sempre como se tivesse acabado de alugar‑lhe a casa. Correndo o risco de expulsão, sorridente, tento sentar‑me também. A ideia de chá não me sai da cabeça. Sirvo‑o mentalmente.

Ela diz que vem só para falar. Só? Falar já é muito. Porque é que as raparigas fazem pouco desta actividade? «Desliga as luzes», acaba por dizer.

Desligo. De que me vale o meu ódio à escuridão?

«Vem para a cama.»

Vou. Isto assim nem é falar.

«Não quero fazer nada», diz ela, deitando‑se de costas, como se não virar‑se para mim fosse a prova que é verdade.

E faz de conta que adormece. Ou adormece mesmo. Eu sei lá.

«Não adormeças», digo eu baixinho. «Tenho de descansar, diz ela. «Eu vou-me levantar, mas «Abraça-me. Dá‑me só um abraço.» Dou‑lho. Tenho vontade de destroçá‑la.

«Tem calma, meu menino», diz ela. «Tu destroças‑me já ... »

Batem à porta. Ela salta para dentro do guarda‑roupa. As raparigas clandestinas são muito desconfiadas. Muito sensíveis ao ruído. Envergonham‑se facilmente. Coram no escuro.

Levanto-me e vou lá. É outra delinquente, saída da noite, foragida do sossego e da paz. Começa a despir‑se no corredor. Está com os copos. Mais magra. Mais bonita. Mais a cagar‑se. «Posso dormir cá?»

Deita‑se na cama e suspira.

«Há horas que sonho com este momento», diz ela. Poderia ter sido eu, devo confessar.

«Por onde é que tens andado?», pergunta ela. «Tenho estado aqui. E tu?» «Estive no Frágil, nos Pastorinhos ... » «Não. Ultimamente.» «Sei lá.»

«Sabes há quanto tempo não te vejo?» «E tu ‑ sabes?» «Há meses.»

«Porque é que estás aí especado? Vem‑te deitar.»

A rapariga no guarda‑roupa farta‑se de lá estar. Sai lentamente, como se do chuveiro.

«Tens companhias, diz a deitada. «Queres que me vá embora?»

«Não é preciso», diz a outra, como uma esposa atraiçoada, virando‑se para mim e dizendo: «Podias ter dito. Escusava de me esconder... És mesmo parvo!»

«Deixe lá», diz a outra. «Também não vou ficar ... » Isto sem se levantar.

Quando acontecem estas coisas, não intervenho. As raparigas resolvem estas situações rapidamente.

Uma estava vestida, levantada e sóbria, mas com o estigma de se ter escondido. Não a via há dois anos. A outra estava de cuecas, bêbada, deitada, a gozar o esquema que supunha ter estragado. A última vez que a vi foi o mês passado. Tivesse eu oportunidade de escolher entre as duas e estes dados não seriam suficientes para me aconselhar.

A vestida olhou para mim. Deve ter querido dizer «Nunca mais cá ponho os pés». Mas disse: «Gostei imenso. Telefono‑te amanhã.» E saiu. Acompanhei‑a à porta.

«Vai, vai ... », disse a nua.

«Chega aqui fora», disse a que se ia embora. E pregou‑me uma estalada. Pediu desculpa. Depois, deu‑me um beijinho, com um ar superior.

Doía‑me a cara. Mas estava escuro. Não se via. Quando voltei ao quarto, a outra rapariga tinha adormecido.

Finalmente, pude ir para a sala e continuar a ler o meu livro. Nem tudo é mau nesta vida maldita, em que nem a culpa nem o mérito é meu.

Quando me deitei, tentei acordá-la. Impossível. Mas não resisti. Comecei a tocá‑la distraidamente. Tanto insisti que acabei por me entusiasmar. Sem preconceitos. Sem cuidados especiais.

Cheguei a ter medo que acordasse de repente, tal era o reboliço. Se estivesse agostar menos, não me tinha importado. Mas estava a gostar. O prazer do ladrão. Demorei‑me dentro dela. Apeteceu‑me rir. «Se ela soubesse ... » Mas não fui muito longe, porque, se ela soubesse, também teria achado graça.

Na manhã seguinte, ela pôs uma mão nas cuecas e chamou‑me «cabrão». Tanto assim que podemos outra vez. Quando acabámos, ela disse: «Também era o que faltava ‑ sair daqui de mãos vazias.»

Tomámos o pequeno‑almoço. Sempre triste, depois de tanta alegria.

«Tens de vir mais», disse eu.

«Não posso. Tenho de ir à faculdade e depois vou jantar com os meus tios... o mais tardar, à meia‑noite estou cá.» «óptimo», disse eu.

Surpreendi‑me. Estava a ser sincero. E ela sabia.

Escusado será dizer, não apareceu. E tanto eu como ela tínhamos a certeza que ia aparecer. Fiquei zangado. Deitei‑me zangado. Dormi muito mal. Sempre à espera que ela chegasse.

Nunca pensei que gostasse tanto dela. Só faltou sofrer.

As minhas primeiras tinham seis anos. Andava de mãos dadas com as duas. Levantava‑lhes as saias e elas baixavam‑me os calções. Atrás da árvore, com o coração a bater. Assim se formou em mim uma ideia irrealista do amor, de que nunca mais consegui livrar‑me, graças a Deus.

Nunca me interessei por mais nada. Só por raparigas. Era nocivo. Esquecia‑me de mim. Era incontrolável. Era delicioso. Só por tabela me interessei por coisas directamente relacionadas com elas, como a literatura, a música e a filosofia, na medida que eram úteis ou relevantes à minha missão na vida, que era elas.

Como existem em grandes números, por onde quer que se vá, acabei por reconhecer na minha monomania uma forma de humanismo. Por outro lado, a quantidade de raparigas levava‑me a ter uma certa pressa, impedindo‑me de passar muito tempo com cada uma. Mas não acredito que, conhecendo bem uma mulher, se aprenda seja o que for sobre as mulheres em geral. É um preconceito fascista, inventado por aqueles desgraçados que têm de contentar‑se com um número reduzido de

raparigas mas teimam em participar em conversas masculinas.

Para eles, todas as mulheres são parecidas. Quando dizem «A minha mulher, por exemplo», é implícito que ela é, dalgum modo, representativa. Não percebem que o objectivo não é definir «a mulher», mas sim falar do maior número possível de mulheres. Não são as supostas semelhanças que interessam. São as diferenças. Para iguais e intermutáveis, já bastam os homens. Uma nova rapariga é sempre uma surpresa, o princípio de uma pequena vida. Tem tantas características originais que não podemos esquecê‑la, por muitos anos que tenham passado desde a última vez que a vimos. É um grande benefício, pelo qual jamais poderemos dar graças suficientes. As raparígas não substituem as anteriores. Acrescentam-se.

Esteja eu onde estiver, estou sempre acompanhado por uma multidão de raparigas. De modo algum pertencem ao passado. Pelo contrário, fazem‑se sentir. Estão ininterruptamente presentes. Ouço‑as a falar umas com as outras. São conversas interessantes. Só raramente falam de mim. Quando conheço uma nova rapariga, comentam‑na. Não lhes escapa nada. Não perdoam uma. São más. Têm imensa graça. Fazem‑me rir de mim próprio. Ajudam a relativizar o meu deslumbramento. Protegem‑me. Impedem-me de me apaixonar mais do que é estritamente inevitável.

Andam sempre bem vestidas. Não envelhecem. Não chateiam. Mantêm a personalidade. Não há o mínimo espírito de equipa ou qualquer outro tipo de solidariedade irritante. Não guardam rancor. São indiferentes à minha pessoa. Como se eu não existisse, porque são queridas. Pela minha parte, orgulho‑me de poder dizer que tratei‑as todas muito bem, sem favoritismos, independentemente da maneira como me trataram quando estavam comigo. Nalguns casos, muito bem.

Ao princípio, não tinha este apoio. Estava sozinho. Entregue a minha ignorância e curiosidade. As minhas namoradas ajudavam‑me a andar com elas, como seria de esperar. Não tinham ciúmes umas das outras. Até porque não estavam apaixonadas por mim como eu por elas. Assim aprendi muito cedo que a combinação ideal é um homem apaixonado e uma mulher nem por isso. Os homens gostam mais de amar, as mulheres de ser amadas. Os homens têm medo de ser amados. Apetece‑lhes fugir. As mulheres não gostam de se ver apaixonadas. Perdem o respeito por si próprias. E têm medo de sofrer e de serem vistas.

Podem ser disparates, mas são eficazes. Uma rapariga quer‑se livre, desprendida, sujeita apenas às vontades dela. Assim é mais fácil uma pessoa apaixonar‑se. E, quando chega a altura da despedida, é mais fácil deixá‑la, para mais.

Sempre me dei bem com as mulheres que se limitavam a achar‑me uma certa graça. Admiro‑as. Respeito‑as. Não faço nada que as possa eventualmente mudar. Se há uma qualidade que provoca paixão em mim é, sem dúvida, a indiferença. A combinação de tédio inteligente e beleza descuidada, é absolutamente irresistível. Aquele ar «eu sei lá ... » Aquele ar «tanto me faz ... »

Se é preciso amar, para tornar a experiência mais imprevisível e interessante, sou eu que me encarrego disso. Não estou cá para outra coisa. As raparigas só lhes peço que façam o que lhes apeteça, se possível sem disfarçar. É em estado bruto que mais me impressionam. Constrangidas, seja por amor ou como do de dever, perdem mais de metade do que

paixão ou sentido

são. É o egoísmo e o comportamento irresponsável que lhes dão dignidade. As mulheres ficam bem, é quando se riem. Perdem tudo quando se põem a chorar.

Acabei tudo com as minhas namoradas quando me apaixonei por uma rapariga mais velha. Era de seis anos a diferença de idades. Ela tinha treze anos. Eu tinha sete.

Era impossível. Mas eu sempre tive jeito para me resignar a todo o espectro humano de dificuldades. Maneira que nem sequer tentei falar com ela. Bastava‑me estar apaixonado e saber que tinha boas razões para isso. Nunca a incomodei. Amava‑a de mais para lhe causar embaraços. Ela não sabia da minha existência. Quer dizer, até sabia, da minha existência, porque a minha, resumia‑se a ela. Passava horas a olhar para o chão que tinha pisado, para a porta da sala de aulas, para o nome dela no quadro de honra. E às vezes via‑a mesmo. No recreio dos crescidos. A caminho da estação de comboios. No campo de hóquei.

Até consegui observá-la durante uma hora inteira, escondido atrás da porta, assistindo a uma aula de química. Via‑a a escrever, a acender o bico de Bunsen, a ajeitar os cabelos, a prestar atenção ao que o professor dizia. Coisa mais bonita da minha vida. Ataque cardíaco. Sobrecarga de todos os sentidos.

Sonhei, noite após noite, que ela aparecia quando eu estava a fazer ginástica, que atravessava o pavilhão inteiro para vir ter comigo, para me sussurrar «eu amo‑te» ao ouvido. Em casa, arranjava desculpas para poder deitar‑me cedo, tal era a ganância que o sonho se repetisse.

Se a intensidade e o grau de absorção são critérios determinantes, foi ela o grande amor da minha vida. E feliz, ainda por cima. Não precisou dum único gesto da parte dela. Crescia sozinho. A existência dela era, mais do que Suficiente, maravilhosa para mim. Por muito que a amasse, era incapaz de amá‑la tanto quanto ela merecia.

Estou nos meus dias.

Num desses dias hei‑de morrer.

injusto. Nem sequer vais dar por isso.

Gostaria de morrer contigo e mostrar‑te o quanto a vida não pôde com o que o meu coração me pediu.

A partir daí, nunca mais caí na asneira de pensar que o amor confere o direito de tentar envolver a pessoa que se ama. Pode estragar tudo. Ser rejeitado inquiria os sentimentos. Leva a fazer considerações mesquinhas sobre a inconsequência da nossa paixão. É feio perguntar se um amor vale ou não a pena. Uma paixão que faz exigências, que tem necessidades para satisfazer, exercendo pressão sobre uma pessoa incerta, revela uma alma sôfrega e ingrata. É pena, porque são quase todas assim (não as raparigas ‑ as paixões).

O número de pessoas que participam num amor nunca pode ser determinado. Serem duas, nem sequer é o caso mais frequente. Uma, duas, três, quatro... ninguém tem o direito de estabelecer o quórum. Todos os amores são diferentes. É muito estranho que duas pessoas se apaixonem uma pela outra. Em quantos casais se verificará esta improvável coincidência? Devemos desconfiar de todas as combinações que, para além de amorosas, ainda conseguem ser convenientes.

Quantas vezes, na minha vida, houve várias raparigas apaixonadas por mim, que aceitei como milagres e tratei com o devido carinho, sem ser preciso fazer grandes esforços para evitar que se levantassem problemas por causa disso? Poucas. Mas óptimas.

Se as pessoas estão vivas ou mortas, se nos conhecem ou não, se retribuem ou não o amor que lhes temos, se são só uma ou mais que as mães... são pormenores. O que importa é haver ali, nem que seja só num único coração, um amor verdadeiro. A partir daí é que as várias equações podem começar a ser levadas em linha de conta. Mas, comparadas com o amor em si, tendem a ser um tanto ou quanto entediantes.

Comecei muito cedo a correr atrás de raparigas, ouvindo‑as com atenção, respeitando as vontades delas à medida que as ia descobrindo, concentrando‑me numa de cada vez, sem fazer extrapolações. Assim aprendi que o amor existe só por si.

Não é o amor que nos faz felizes ou sofrer. A felicidade e o sofrimento vivem noutro mundo. Só por acaso se cruzam com o amor. Pela parte que me toca, odeio sofrer e não faço questão de ser feliz. O amor pode não fazer‑me feliz. Não me importo. Não pode é fazer‑me feliz. Não admito.

De qualquer forma, amar nem sempre é possível. Aliás, é muito raro. É por isso que me dedico, sobretudo, a gostar. Não percebo por que é tão menosprezado. Gostar é muito melhor do que dizem por aí. Quem é que não gosta, lá no íntimo dos íntimos, de gostar? Eu gosto. E gosto que gostem de mim. Pelo menos, é preferível a ser amado.

Se vejo uma rapariga a apaixonar‑se por mim, tiro logo a conclusão acertada: «Olha que pena ‑ mais uma que deixou de gostar de mim.» Faço tudo para dissuadi‑la e fujo, mesmo que não seja preciso. É que as pessoas primeiro apaixonam‑se, depois amam e, não tarda nada, começam a querer ser amadas também. Porquê? Que não lhes satisfaça só gostar, ainda percebo. Agora que não lhes chegue amar... é inaceitável. Para este gênero de pessoas, a ingratidão e a gula não têm limites. Quando sofrem, culpam‑nos. E, pior ainda, quando estão felizes, atribuem‑nos a responsabilidade. No fundo encostam‑nos à parede, como quem diz «Estás a ver? Tudo depende de ti.»

Quanto menos depender de mim, melhor para todas as partes envolvidas. Só há uma coisa preferível a ser independente ‑ é ninguém depender de nós. Quando dependem, dão uma machadada fatal na nossa independência. Isto é, se formos bons. Há pessoas maldosas, frustradas, fascistas, que tiram prazer do facto de terem poder sobre os outros que, dalgum modo, dependem deles. Vão ao ponto de criar e fomentar essas dependências. Geralmente são do sexo masculino. Valha‑nos ao menos isso.

As raparigas, por natureza e formação, gostam de ser independentes, o que alivia muito a carga geral da vida. E se não gostam, reprimem‑se, porque acham que não está certo. E não está. Quando se apaixonam, resistem corajosamente. As amigas ajudam-nas. Fazem‑lhes ver a triste figura que podem vir a fazer, caso fiquem submetidas às arbitrariedades da pessoa que amam. Não há homem que possa dizer duma mulher que «é minha». Ou melhor, lá dizer, dizem ‑ sobretudo à própria mulher, para consumo interno, a ver se pega ‑, mas sabem que é impossível.

Por estas e por outras é que me dou bem com as raparigas em geral. Não quero possuí‑las. Se elas se dão, não aceito. Quero é tê‑las emprestadas. E emprestar-me também. Com volta na ponta. De livre vontade. Com condições e cláusulas previamente estabelecidos. Sem ser preciso dizer nada. Com o prazer infantil de quem propõe «Tens para a troca?» É mais honesto. E menos comercial.

Muito amei sem ser amado. Passei a adolescência nisso. Foi tempo bem empregado. É certo que sofri, mas, não sendo correspondido, fi‑lo com toda a simplicidade. Eram assuntos que só a mim diziam respeito. Como ninguém me queria, nunca fui escravizado. Bem tentei. Mas, graças a Deus, ninguém aproveitou as inúmeras oportunidades que eu oferecia.

Cheguei aos dezoito anos com o amor‑próprío destroçado e a dignidade intacta. É uma combinação ideal. Não podia estar mais bem equipado para começar a namorar a sério.

Continuei a apaixonar‑me, é claro, mas já não era novidade. A memória dos meus amores impedia‑me de ficar excessivamente entusiasmado. Sabia que cada paixão não era a primeira ‑ muito menos a última. Sabia que não era de mim que dependia ser ou não ser amado. Mais que preparado, esta'do. Pela minha humildade. Pelo meu cepticismo.

Não havia nada que, à partida, eu não aceitasse. Isto é, quando me deixavam.

Quando acordo ela ainda está deitada na minha cama. Adormeceu de repente, não sei porquê, ainda estive acordado umas horas, mas ela continuava a dormir e, a certa altura, tomei comprimidos e desisti, esperando que ela acabasse por se levantar antes de mim, o que não aconteceu, e lixei‑me, porque dormiu quase doze horas; para mais acordando ao mesmo tempo do que eu ‑ se calhar estava a fingir, mas veio dar ao mesmo, àquele choque de não estar sozinho, feito de desorientação, tristeza e culpa, mas marcado, sobretudo, pela agonia egoísta do mau‑estar.

Não é que não goste de dormir com ela ‑ com ela ou qualquer outra, detesto. É que nem sozinho gosto de dormir quanto mais acompanhado. É uma falta de respeito, como ir ao cinema com uma pessoa, mas ambos estarem a ver um filme diferente, durante oito horas, sem se verem ou poderem falar.

Depois vem aquela chatice do «Dormiste bem?», cerimónia litúrgica que nunca varia e sempre aborrece, muitas vezes agravada pela narrativa dos sonhos que um e outro tiveram, seguida pelo resto da missa, pedidos de copos de água ou de leite, em vez de saírem da cama para lavar os dentes, uma foda parasitária e comodista sem um beijo decente, pequenos‑almoços demasiado bem servidos, emprésrimos de roupa lavada, conversas de cariz familiar, telefonemas ilibatórios, planos imediatos que ninguém quer fazer mas fica mal não cumprir e despedidas à luz acusadora e escandalizada do sol, ou da piedosa e santinha melancolia da chuva ou do cinzento do céu, chorando oralidade que presencia e, mais irritantemente ainda, perdoa, qual Virgem Maria, a quem ninguém pediu nada, mas insiste até à exaustão, tal é a força do hábito e da mania dela.

É um dia estragado pela boa‑educação contrariada de um e de outro. As vezes elas querem ir passear, mas é a única coisa que me recuso a fazer. Ficar em casa está fora de questão. Por isso proponho programas breves, como ir a uma livraria, onde me posso distanciar, esconder‑me nas secções limítrofes, demorando‑me muito, na esperança de lhes quebrar a resistência e do consolo reaturador do «Bem, então o melhor é despedir- mo‑nos aqui ... »

Há raparigas, não tão raras como se julga, que ficam. Essas são terríveis. Uma pessoa passa horas na rua e, quando volta, ainda lá estão, felicíssimas, sabe‑se lá por que mistura de vingança e de intimidade. Assim sendo, é mais difícil. O primeiro instinto é zangarmo‑nos, segundo a reacção primal do «Mas que merda vem a ser esta?», mas é tão baixo e arrogante que só com justa causa, sob provocação espontânea ou devidamente estimulada, nos podemos dar ao luxo de cedermos a ele.

O pior pesadelo já me aconteceu sete vezes ao longo da vida. É quando se instalam. Pode ser uma rapariga que se acabou de conhecer, que inventa uma história linda, como, por exemplo, ter de ir buscar as malas a casa do tio onde vive, porque vai viajar no dia seguinte, ou porque ele é um monstro que lhe atiraria as malas para a rua, caso ela não viesse dormir. Tem invariavelmente uma cara de anjo, três malas e dezoito sacos plásticos e nunca se encontram num andar inferior ao quinto, num prédio com elevador ou no mesmo concelho que o nosso.

Uma houve que, enquanto fodíamos, murmurava «Manolo... Manolo... » numa ladaínha interminável, que nem sequer uma interrupção para perguntar de quem se trata («É um modelo», «É um estúpido que me ama mas não tem coragem para assumir, e respostas ainda mais complexas) consegue desviar do seu longo curso. Mesmo depois de adormecer indecentemente, cheia de lágrimas e meas culpas, todas na base do «Não devia ter feito isto ao Manolo», o que era excessivamente severo, dado o pouco que ela fez; não se coibiu de continuar a invocar o nome do homem, cada vez que deixava de ressonar.

Fiquei a ler até às duas da tarde ‑ a hora-limite, já que eu tinha de ir à editora escolher as ilustrações para o meu livro e a minha namorada chegaria à minha casa às seis e meia, o mais tardar, isto tendo em conta que tardar era praticamente a única coisa reprimível que não fazia. Acordei‑a com um tabuleiro cheio de opções alimentícias, a abarrotar de torradas, iogurtes, morangos, biscoitos, queijos, croissants, pãezinhos.

E saí. Quando voltei, às cinco, ela já não estava lá, mas as malas sim. já não se pode confiar em ninguém? Fui depositar tudo na estação de Santa Apolónia e fugi, sabe‑se lá porquê. Porque é assim.

A rapariga que ficou sem nome, por ordem dela e com o meu consentimento, acabou por ficar com o meu, como seria de esperar.

O amor não tem pormenores. É grande de mais. Só tem generalidades.

Faz esquecer o que se fez. O amor que se teve ocupa toda a memória disponível e, mesmo assim alastra‑se e começa a sangrar.

Se calhar não fizemos nada. Tanto faz. Não são essas coisas que fazem falta. Não se concebe a vontade de repeti‑las. Não existe um único traço do instinto de matar. Ou de voltar. Só a esperança estúpida que o amor, depois de acabado, possa, apesar de isso, de alguma forma continuar.

Árvores e janelas, colchas, carros, jardins e outros lugares qualquer coisa em que se queira pensar ‑ tudo dá. Tudo existiu, ou não, mas nada pode servir ou ficar.

Basta saber que não fui eu, não foi, nunca mais será assim, para poder continuar a viver, como se nada se tivesse passado.

A quem o amor tocou, o passado torna‑se já.

Agora.

Ainda agora.

Há bocadinho.

Só um bocadinho de amor, já.

Insuficiente para nos deter. Mas o suficiente para continuar.

Não tenho vergonha de dizer que sou puta. É pena não haver outra palavra, um sinónimo masculino que servisse, mas lá está. Vivemos num mundo machista e é escusado tentar alterá‑lo. «Mulherengo» e «engatatão» são expressões mulherengas e engatatonas que os homens inventaram para se sentirem superiores às putas.

A verdade é que as mulheres, a começar pelas putas, são muito menos putas do que os homens. Não há aqui motivo de orgulho. Porque não é difícil. E porque há coisas bem piores do que ser puta. Como, para não ir mais longe, ser má pessoa.

Sou puta porque vou para a cama com qualquer rapariga que esteja para isso. E vou alegremente. E gosto. E não me arrependo nunca. Mesmo quando é assim‑assim, é muito bom. Independentemente de ela gostar ou não. É horrível, mas é verdade.

Se fosse só uma questão sexual, teria desculpa. Mas não é. Gosto das raparigas. Mesmo quando estão a fazer um frete. Enterneço‑me. Antes, durante e depois. E quando digo «depois», refiro‑me a nada menos do que ao resto da minha vida. patético. Adoro.

Sou tão puta que nem sequer preciso de ir para a cama com elas. Entrego‑me mentalmente. Agradeço a mais pequena atenção. Contento‑me com pouco. Há putas que se portam de maneiras diferentes, conforme a pessoa com quem estão. Respeitam o amor. Têm noção do que fazem. Eu não. Dou tudo a toda a gente. Não faço distinções. Não sou capaz de dosear o meu carinho. Dispenso-o, por inteiro, indiscriminadamente. Não tenho mão em mim. Nem vergonha de ser assim.

Sou tão puta que não sei foder sem fazer amor. A bruta, com o coração aberto. Ame ou não ame. Seja ou não amado.

O resultado é o mesmo. Lamento dizem Há qualquer coisa em qualquer rapariga, seja qual for a situação, que me comove. E que, por mais que tente, não consigo distinguir da tesão. Se é o amor que me dá tesão ou se é a tesão que me faz amar, sinceramente não sei dizer, por não compreender, na altura, a diferença entre as duas coisas.

Não compreendo a diferença entre raparigas bonitas e raparigas «boas». Todas as bonitas são «boas». Quase todas as «boas» são bonitas. E todas as raparigas feias são, antes de mais, raparigas. E, diga‑se de passagem, não menos difíceis de convencer. A grande diferença está em cada rapariga. Cada uma é um novo mundo. É por isso que é tão difícil não gostar de todas ‑ individualmente. É uma espécie de bênção, tendo em conta que vamos todos morrer.

Sempre que uma rapariga quis casar comigo, casei.

O casamento foi coisa em que nunca pensei. Nem sequer quando acabava. Para quê? já há tanta gente a pensar nisso. Ser marido ou ter mulher não é nada de transcendente. Ninguém deixa de ser quem é por causa disso. Quando muito, é uma maneira de estar mais à vontade, que torna as pessoas mais sinceras e menos atraentes. Não, não é solução. Nem sequer tem a dimensão necessária para ser problema. É uma mera desgraça. Indefesa, ainda por cima.

E se fôssemos por partes? Rapariga por rapariga. A começar por aquela que me vem acordar. Nunca se sabe. Pode ser importante.

Chama‑se Margarida. Diz‑se órfã de pai e mãe. De pai desde os oito anos. De mãe, dois anos depois. Um e outro vítimas de acidentes rodoviários. A mãe ainda sobreviveu ao primeiro. Mas o segundo, já com outro marido ao volante, malandro, não perdoou ninguém.

Herda uma fortuna. Vem para Lisboa, viver com os avós. Maternos e paternos dividem a tarefa entre eles. A miúda odeia‑OS. Salta duma casa para a outra, sempre com alívio, porque, cada vez que sai duma casa pensa que é impossível que a outra seja tão má.

Agarra‑se aos livros e atira‑se aos rapazes. Sempre com bons resultados. É a melhor e a mais promíscua da aula. Mas não dá confiança a ninguém. Sempre que acha que merece, porta‑se mal. Recusa‑se a mentir a seja quem for. Habitua‑se a passar longos períodos de silêncio e a ser castigada sem culpa formada. Prefere assim. Gosta de ser a única a saber o que faz. Descobre que mais vale ser inexplicável do que perdoada.

Aos dezoito anos sai das casas dos avós, compra uma mota, aluga um apartamento enorme, arranja uma empregada interna e entra para a faculdade. Matricula‑se em filosofia e apaixona‑se por um assistente, com quem acaba por viver durante uns meses, sem grande sacrifício ou agrado. Quando o põe fora de casa torna‑se amiga dele e passa a prezar a amizade acima de tudo o mais.

Cansa-se de ser promíscua e só vai para a cama com os verdadeiros amigos, à excepção do assistente. Começa a beber vodka em grande quantidade, mas sempre com o devido cuidado.

«Não sou egoísta», diz ela, «apenas tomo conta do que Deus me deu.»

«E Deus não te deu um coração?» «Acho que não.» «Faz‑te falta.»

«Dou-me bem sem ele.» «E os outros?», pergunta o homem. «Que passem bem. Não desejo mal a ninguém. Se toda a gente fosse feliz, não levantava objecções.,> «Mas não fazes nada por isso.» «Não fazer mal já não é mau.» «É comodismos, diz ele. «É bondade.»

«Isso é como dizer que não matar é uma virtude.» «Eu cumpro os dez mandamentos na íntegra.» «E os sete pecados mortais?» «Isso é de mais.» «Estás a ver?», pergunta ele, irritante. «Nem me lembro quais são ... »

«És difícil.»

«Sou impossível.» «Mas és irresistivel.» «Tens razão», diz ela. «Já não é mau», diz ele. «Mas não é nada de especial.» «É verdade», diz ele. «Cala‑te, então.»

Falamos pouco. Menos do que pecamos. Falar não nos diverte tanto. Falamos do que fazemos e pouco mais. Fora as histórias estúpidas que me conta, que me abstenho de repetir. Pede‑me para não as contar a ninguém. Mal ela sabe que eu nem sequer consigo ouvi-las.

Ambos vivemos pela negativa. Somos o que resta do que dizemos não ser. Gostamos do que fica depois de não fazermos todas as coisas de que não gostamos. Pode haver outras maneiras de viver. Mas nenhuma delas é a nossa e não estamos interessados em saber quais são.

Não sermos infelizes é o nosso único objectivo. Não é fácil. Ocupamos o tempo que temos a atingi‑lo. Se um de nós tem um problema, não caímos na asneira de pensar que o outro o possa resolver. Nem acreditamos tão‑pouco que o acto de desabafar provoca, só por si, uma medida de alívio. Se alguém se sente melhor depois de confessar uma coisa, é porque não dá a devida importância ao que fez. Gênero:

«Escondi os comprimidos de nitroglicerina do meu avô e uma semana depois ele morreu.»

«Porque é que me estás a contar isso?» «Para me sentir melhor.» «Porquê? Sentes‑te menos culpada?» «Não. Mas sinto‑me menos cobarde.»

Só os verdadeiros malvados gostam de revelar as maldades que praticam. Os malvados ocasionais aceitam o peso da culpabilidade. Não procuram partilhá‑la. Não esperam ser perdoados.

Tudo porque vivemos numa sociedade que dá um valor inusitado à honestidade. As pessoas são condicionadas para dizer o que lhes vai na cabeça, por muito mau que seja. Acham que os negros deveriam ser recambiados para África e não têm vergonha de o dizer. Quando alguém lhes diz que é uma ideia repugnante, encolhem os ombros e justificam‑se com um fatalismo arrogante: «O que é que queres que te diga? É o que penso ... »

Quando a sinceridade é considerada uma virtude, desconsidera-se o resultado que pode ter. Hider era sincero. Churchill era mentiroso. A maioria dos racistas é mentirosa. Sabem que os sentimentos deles são maldosos. Têm vergonha. Ou medo. O que já não é mau. Ter vergonha é uma virtude muito maior que ser sincero.

A verdade pode ser interessante, mas não é indispensável.

Não pode ser um valor universal. Tem de ser avaliada caso a caso. Como a mentira. Há muitas mentiras moralmente desejáveis, mas não é por isso que se diz que mentir é uma virtude.

Esta mania de procurar a verdade, seja ela qual for, constitui um dos grandes perigos do nosso tempo. Os actos de honestidade não deveriam ser automaticamente recompensados. Porque é que o homicida que confessa livremente ter morto outra pessoa tem uma pena mais leve que o homicida mentiroso? Porque é que o que se diz afecta a forma como se reage ao que se faz? A pessoa que sonha matar uma população inteira mas não faz mal a uma mosca é obviamente preferível à pessoa bondosa que, num acesso de fúria, pratica uma maldade qualquer.

No amor o mais importante é não fazer mal à outra pessoa. É secundário que se atinja este objectivo pela mentira ou pela honestidade. Infelizmente quase toda a gente odeia ser enganada. A malta quer saber a verdade, custe o que custar. Apesar de as verdades escondidas terem um custo muito elevado. Prefere saber a verdade e sofrer, a acreditar numa mentira e ser réliz. É coisa que não compreendo. Muito sinceramente. E se compreendesse, mentiria.

O que uma pessoa gostaria de ser, isto é, aquilo que gostaria que os outros acreditassem, é mais interessante e menos arriscado do que saber como é, «lá no fundo», mesmo supondo que seja possível. Coisa que, de resto, só com muita estupidez e boa vontade se compreende supor. Eu não consigo, nem me importo com isso.

As raparigas, por exemplo, são naturalmente desconfiadas. inútil lutar contra isto. Pelo contrário, faz com que seja menos condenável e mais fácil mentir. Se elas tendem a não acreditar, e nós não insistirmos em tentar convencê‑las, recorrendo a mentiras ainda maiores (as verosímeis são as mais imorais), as mentiras são apenas coisas que levemente se dizem, sem grandes expectativas, com a vaga intenção de facilitar a vida.

E quanto às mentiras delas, devem ser aceites com o mesmo respeito. Sem distinguir entre as que dizem para não nos magoar e as que dizem para nos magoar. Há uma tendência para acreditar mais nas segundas, provavelmente porque são apresentadas como a súbita revelação duma verdade. Para não falar na inexplicável preferência humana pelas verdades que supostamente custam mais a dizer e a aceitar. Como se a fealdade e a inconveniência fossem características da verdadeira verdade. Se alguém diz «Ele fez tudo para evitar o atropelamento do ladrão», a dúvida é sempre maior do que se dissesse «Ele confessou‑me que o atropelou de propósitos Vá lá saber‑se porquê. Se a verdade é assim tão desagradável, porque é que se lhe dá tanto valor?

Quase todas as mentiras são provocadas. As principais culpadas são as perguntas que se fazem. Se não se criasse a necessidade duma resposta, não seriam activadas. Se alguém tem um ódio patológico às mentiras, deveria restringir ao mínimo as perguntas que faz. Inexplicavelmente vota pelo comportamento contrário. Provoca mentira após mentira – mentiras que nunca teriam sido ditas ‑ tal é a ganância de chegar a uma verdade, que pode ser mentira, que o convença.

Eu cá não faço perguntas que corram o risco de estimular mentiras, nem tão‑pouco encorajo aquelas pessoas com tendência para confessar verdades que não contribuem para o meu bem- -estar. E espero que tenham a mesma gentileza para comigo. As vezes é trabalhoso e difícil, mas acaba sempre por compensar.

Se eu perguntar à Margarida se ela vai para a cama com o marido, o mal jà está feito, mesmo antes de ela responder. Se diz que sim, fico chateado. Se diz que não, fico na dúvida, o que é ainda pior. Maneira que não penso nisso. E, quando penso, tenho vergonha de ter pensamentos tão mesquinhos.

A Margarida tem outra metodologia, mas baseia‑se nos mesmos princípios.

Em vez de perguntar, faz afirmações habilmente concebidas para ficarem suspensas no ar.

«Deves ter muitas namoradas ... » «Adorava!», digo eu. «Então porque é que não tens?» «Não tenho tempo.» «Então não tens!» «Para ser sincero, o que não tenho é paciência.» «Estás a ficar velho.»

«Achas? Por acaso, estou cada vez mais esquisito ... »

«E tens pena, é?»

«Quando era mais novo, tudo o que vinha à rede ... »

«Al, poupa‑me as tuas reminiscências fascinantes! já sei que eras um garanhão, muito obrigada.»

«Tens razão. O que é que se ganha em falar dessas coisas?» «Nada. Cala‑te e chega‑te para ao pé de mim.»

Com passo triste cheguei a casa, vindo já não me lembrava de onde, tal era o estado em que há anos me encontrava, perdido, à falta de outra palavra, ou por me ter afeiçoado a esta palavra, perdido, ao ponto de não encontrar outra, senão esta, perdido, do mundo, da gente, de amores, obstinadamente, apesar dos esforços dos meus amigos, como se desta continuação, deste estado, eu dependesse mais do que a vida, que, desde o início, mesmo na meninice, nunca me interessou, a não ser por aí além. Mas do além, por muito que me predispusesse, nunca recebi notícias.

O importante é escrever.

Chego de uma longa linha de mulheres, amado por todos os meus cantos, de namoros e casamentos, qual deles o mais catastrófico, sem vontade de impedir que elas se apaixonassem, ou jeito para as interromper ‑ e a tudo isto acrescentei um único amor, vindo da minha parte, feito no meu próprio coração, e que de nada me serviu, senão para andar por aí, fugido do que já nem sequer me perseguia, tal a taxa de desistências, à falta de um gesto meu, como é que se costuma dizer?, de um contraponto que fosse.

O que me anima é esperar.

«Um dia» e tudo isso.

E não é um dia que está por vir, mas um que já veio, e que já se foi embora, sem eu dar por isso, era um dia de calor, estávamos sempre nus, e uma palavra escapou‑nos, no momento mais sossegado, que era, salvo erro, amor.

Que era, salvo erro.

Que eu já não salvo nada.

Que era, salvo erro, amor.

O rosto dela vai e vem, salta, rebenta e amansa, estende‑se pelos meus olhos, suja‑me, deixa‑me marcas e depois foge, voltando a esconder‑se onde há‑de aparecer outra vez ‑ quem me dera que fosse só como a maré. Mas não é. Tão simples.

O corpo é mais fixo; agarro‑me a ele, ou ele a mim ‑ é causa de mútua tristeza vir dar ao mesmo. Não haver ninguém a quem agradecer. Quem se possa culpar. Ou dizer que foi o primeiro. Daria jeito essa história humana de fui eu», «Não foste nada», «Foste tu que começaste», «á isso é que não foi», «Então está bem, pronto», «Mas quem és tu para te dares ao luxo de condescender?

Chora o rosto dela, frequentemente. Sinal, segundo diz, de uma alma qualquer. Que não a minha, claro. Eu não choro. Sofro, só. Mas tenho de informá‑la que estou a sofrer. Não está certo. Ela nunca acredita mas aprecia a confissão, à parte a falsidade. Consegue separar. Como se de um carinho se tratasse, inútil mas bem recebido ‑ é assim que pensa e eu, que remédio, tenho de viver conforme. Se quiser.

O corpo parece menos complexo, mas não é. Valha‑me ao menos não poder descobrir ou confirmar que é assim, quanto mais saber quanto ou porquê. As vezes é verdade que sinto o corpo dela a mudar, recuando pela pele, isolando‑se da minha, mas esse não, e um caminho, sob pena de partir ainda mais o coração, que me convenha seguir. E, dadas as circunstâncias, de um amor inventado pela consebida ausência dele, grande parte da minha atenção é prestada ao que me convém.

«Quais são os teus sítios?» «Quero lá saber!,«E os meus?»

«Muito menos.»

Muito menos do que quê? O amor, quando não se sente, é uma coisa que se faz bem. Mais ela do que eu. Abençoado seja o arroubo que arrasa a consciência e provoca o prazer imerecido do esquecimento é uma pausa, vinda do caos, na indiferença, com toda a teimosia que tem.

Entre nós, menos há do que a soma de mim e dela. Que maiores distracções que estes afazeres desobedientes que nos comprometem sem respeito pelo que queremos, ou pressa? Enquanto esperamos.

Demasiado cobardes para reter a mais pequena ideia do mais simples destino. Fica‑nos bem sermos fracos e deixarmo‑nos enfraquecer um pelo outro.

Basta aproximar‑me tanto dela que não consiga ver-lhe o rosto. Se eu pudesse, ao menos uma vez, vê‑lo ‑ não seria capaz. Aconteça o que acontecer, uma coisa é certa ‑ perder-me‑ei no momento em que souber o que, durante o fio de noites e dias, até hoje não soube o que perdi.

Não gosta de estar triste, mas gosta de ter pessoas tristes ao pé dela. É uma maneira de ficar feliz. Sente que não é a única a sofrer e faz tudo para as consolar. É uma bondade que tem, por muito mal que ela esteja. O coração é o mesmo grande coração de sempre, mas vira‑se para fora e dá‑se, como se tivesse deixado de lhe pertencer. Não é alívio nem distracção. O sorriso dela, vindo de uma tristeza permanente, chega a ser mais bonito do que ela, por muito difícil que isso seja. Só quem viu.

Eu vi muitas vezes. Senão me viciei, foi por pouco, por não ser completamente egoísta, coisa que eu julgava ser, comPletamente, antes de a conhecer mas, graças a ela e aos sorrisos dela, descobri que não era. já ela, estando triste, era impossível de consolar. As minhas tentativas punham‑na furiosa e a fúria não desviava a tristeza ‑ aumentava‑a. Dizia que faziam pouco dela, como se simples acções e palavras fossem capazes de mudar o mundo que lhe doía. Quando me esforçava mesmo, indo contra mim, e aguentando a fúria dela, os gritos, as ofensas, as injustiças, o mais que ela fazia era desistir e, deixando de me acusar, abraçar‑me e dizer que eu não tinha culpa. O que já era bom.

A tristeza dela fazia‑me mal porque tinha razão. Entristecia‑me, ao ponto de confundir a dela com a minha e à não saber se o que fazia para atenuá‑la era mais para meu bem do que para o dela, como se estivesse a falar comigo mesmo, o que é terrível.

A morte é fácil de fingir, desde que esteja vivo, e ausente, e triste. É preciso aproveitá‑la. Quando me ponho a passear no meu cemitério de raparigas, o que me faz saudades e feliz é o facto de estarem todas vivas, mas longe, podendo eu estar com elas, caso quisesse, sobretudo quando há outra rapariga, com a qual não quero estar, ao pé de mim.

A memória mais forte só surge quando se foge, sem razão, de quem nos quer prender. Ou fingimos querer. Chego a lembrar‑me da rapariga da qual quero fugir, como se fosse outra, que nunca conheci: o contrário daquela com quem estou, ou, melhor, semelhante. Quantas vezes fecho os olhos e mergulho na água fria até chegar ao calor que sinto, vindo da mulher que se deitou comigo, calor que eu aproveito e redistribuo, sem dificuldades, como se me tivesse transportado para outro corpo e outro sítio.

Penso pouco mais do que sinto ‑ mas é suficiente para me enganar. Elas nem sequer dão por isso, infelizmente.

«Estás triste?», pergunta a que calha estar aqui.

«Sim», digo eu, não a ela, claro, mas a todas aquelas que não estão, e que eu visito enquanto falo, de uma maneira adoecida, com a alma atirada, num sossego distante, ao caminho há tanto tempo escolhido por mim.

Deitado enquanto passeio, os meus lábios abrem-se para dizer os nomes das raparigas, para dentro da boca que estou a beijar. Sim. Isso sim.

O marido da Margarida está sentado em casa dela. Quando ela entra, levanta‑se, como se tivesse sido apanhado em flagrante delito. Pergunta se ela quer beber qualquer coisa. Ela diz que quer um gin‑tónico. Ele suspira. Não se lhe pode sugerir nada que ela não aceite imediatamente. Sobretudo se der trabalho a fazer.

«Onde é que estão os limões?», pergunta ele da cozinha.

«Devem estar aí em qualquer lado.

Ele começa a procurar. É sempre a mesma coisa. Os limões naquela casa não param quietos. Todos os dias mudam‑se para um novo sítio. Com medo dos ladrões. Idem aspas para o gin e para a água tónica. Como se não tivessem nada a ver um com o outro.

«E a água tónica?»

«Se houver, está na despensa, atrás dos Cornflakes., «Pode‑se saber porquê?»

«Pode-se, querido. As garrafas estão atrás dos Corriflakes porque foram compradas numa data anterior à compra dos Cornflakes.»

«Ah! Arrumas as coisas por ordem de entrada. já percebi.»

«óptimo.»

«Só mais uma pergunta. Quando é que compraste os limões? Deve ter sido há muito tempo, porque não os encontro em lado nenhum ... »

«Esquece, está bem? Eu bebo um whisky ... » «E o whisky ... ?»

«Está ao pé do Dolviran, no armário dos remédios.» «Obviamente!»

«Não sabias que eu estava constipada? Não sabias que, antes de me deitar, faço uma bebida quente, com whisky, mel, Dolviran e sumo de limão? já te esqueceste que eras tu que as fazias, quando vivíamos os dois aqui? Éramos tão felizes ... »

O marido encontra os limões ao pé do whisky. Faz o gin‑tónico com quantidades irrisórias de gin e de gelo e, em jeito de chapéu, põe uma rodela gigantesca de limão. Faz outro para ele. Com todos os cuidados. Para ficar perfeito. Como ela gosta.

Entra na sala com as bebidas. Ela repara na repentina boa disposição dele. Olha para a bebida que se prepara para lhe

oferecer. E pega na outra.

«É uma criancice, mas apetece‑me sempre mais beber o teu!»

«Olha que está muito forte ... »

«Paciência. Porque é que não te sentas?» o que ele faz. E, mal está sentado, pergunta à mulher se é verdade que ela anda a foder com o vizinho de cima. «Porque é que não lhe vais perguntar a ele?» «Porque não é com ele que estou casado.» «Precisamente. Nele, tu acreditavas.» «Andas ou não andas?» «Não.»

«Não acredito.» «Já sabia. Nesse caso, não me deixas alternativa.» «Então vá ... »

«Recuso-me a responder. «Então é verdade.» «Tu é que sabes.» «A mim é‑me indiferente ... » «óptimo. Assunto resolvidos «Só me irrita seres tão mentirosa «E a mim irritam‑me as tuas certezas.» «É que tu, francamente, não convences ninguém.» «Pois é. Por que será?» «Podes foder com o teu vizinho à vontade.» «A sério? Vou começar já amanhã!» «Eu é que não fodo mais contigo.» «Pois sim, filho.» «Vais ver. »

«Não. Tu é que vais.» «Vou‑me embora.» «E o cheque?»

«Não penses que vou continuar a subsidiar as tuas quecas com a vizinhança.»

«É melhor arranjares outra desculpa, sabes? É que vivemos num Estado de Direito, caso te tenhas esquecido, e o meu advogado é muito severo nestas coisas ... »

<,Toma lá.»

<,Obrigada.,>

O marido agarra‑a. Ela deixa‑se agarrar. Vão para a cama. Ele, contrariado. Ela, de livre vontade. Gosta de ir para a cama com o marido. Mais que ele com ela. De resto, é o único sítio onde consegue aturá‑lo.

Quando casaram, era ao contrário. Era tudo tão bom que nem um nem outro se importavam com o facto de serem um desastre na cama. Antes de se separarem, passavam as noites a tentar perceber porque é que o casamento tinha chegado ao fim. O que é que tinha mudado? Ele? Ela? A situação? Também não. Nada tinha mudado. Concluíram que foi por isso que o casamento acabou.

Nada desaparece e tudo se transforma, mas o casamento é uma excepção. Se não se transforma, se tudo fica na mesma, sobretudo se tudo for bom, desaparece completamente. Ninguém aguenta bom tempo todos os dias. E o casamento tem o indesejável efeito de impedir que as pessoas mudem. Sobretudo as preguiçosas e as cobardes, que nem sequer se esforçam. É mais fácil e divertido mudar de pessoa. Os seres humanos resistem a tudo, menos à variedade.

Ela era violenta. Ele era manso. Ela gostava de discutir. Ele não. Para mais, ela gostava dele como era. E ele dela. E ela odiava ser como era. E ele também. Admiravam‑se mutuamente. Ela gritava e ele sorria. Ela enternecia‑se e deixava de gritar. Ele ficava com pena que ela não continuasse. Ou então, ela queria discutir e ele, como gostava de vê‑la discutir e pensava erradamente que ela precisava, dava‑lhe troco. Só que não tinha jeito. Não a convencia. E ela ficava desiludida.

«Nunca mais saímos!», dizia ela.

«Tens razão», respondia ele. «Vamos sair.»

«Julgas que é assim tão simples? Eu sou alguma cadela que se leva a sair?»

«Não. O facto de não sairmos é sintoma dum problema muito mais grave.»

«O problema és tu!»

«Eu sei. Não me apetece sair.»

«E julgas que a mim me apetece sair?»

«Não. É esse o problema.»

«Ai a culpa agora também é minha?»

«A culpa é dos dois.»

«Odeio essa atitude. Como é que a culpa pode estar equitativamente distribuída? Daqui a bocado, estás a dizer que a culpa é da sociedade em que vivemos!»

«Eu não disse isso. Reconheço que a culpa é muito mais minha que tua.»

«Desculpa, mas é totalmente tua.» «Sei lá ‑ é bem capaz de ser.»

«Porque é que estás sempre a dar‑me razão?» «Porque costumas ter razão.»

«És mas é um preguiçoso e um cobarde. Não dás luta nenhuma, porque não tens paciência. Se soubesses como isso me irrita, condescendente de merda!»

«Não me puxes pela língua ... » «Ai que medo!»

«Já não suporto mais a tua arrogancia!»

«Julgas que é assim que me enganas? Odeio quando te pões a fingir!»

«Não. Agora quero mesmo discutir. «Não queres nada. És um querido. Eu é que sou uma megera. Não sei como é que Me aturas ... » «Eu amo‑te. Gosto de ti como és.» «E eu também. Desculpa lá.» «Dá‑me um beijinho.» «Está bem.»

Como gostavam tanto da maneira de ser um do outro, porque cada um odiava a sua própria maneira de ser, nem ela nem ele podiam ser como eram. E à medida que iam tentando deixar de ser, foram perdendo o amor um pelo outro. Ela queria ser como ele e ele queria ser como ela. Nem um nem outro percebiam porquê. Era um defeito inadmissível. Levantava um pequeno problema: se calhar nem ele nem ela não era quem parecia ser.

«Para ser como eu, já me basta a mim!» «É exactamente isso o que eu sinto em relação a ti!» «O teu problema é não gostares de ti próprio.» «E o teu também.» «Pois é. Assim não vamos a parte nenhuma.,, «Tens razão.»

«Devia ter percebido logo. Sempre achei muito esquisito que te apaixonasses por mim.»

«Eu também nunca percebi. «Era melhor que não me amasses. A mim chegava perfeitamente que fosse só eu a amar-te a ti.» «A mim também.» «O problema é que já não te amo.» «Não faz mal. Eu continuo a amar‑te a ti ... » «A sério?»

«A sério.»

«Então não me deixas outra hipótese senão acabar com tudo.»

«Assim é que eu gosto de ti!» «É pena ... »

Ela deixou‑o nesse dia. Ele saiu de casa na manhã seguinte, porque ela não tinha outro sítio para onde ir. Passada uma hora, ela voltou. Certificou‑se que ele tinha onde ficar. E gostou de ter a casa só para ela.

«Vem sempre que quiseres», disse ela. «posso?»

«Claro, que podes. Deves!» «Obrigado.» «Não. Eu é que tenho de agradecer.» «Está bem ‑ se insistires ... » «Insisto. Obrigada.» «De nada.»

«Então adeus.»

«Adeus não. Até à próxima.» «Pois. Até à próxima.»

Desligaram o telefone ao mesmo tempo. Ficaram ambos infelizes. Mas irreconciliavelmente infelizes.

Olhos onde se levantavam ventos da cor de tudo o que de verde tem o mar. Onde se vêem as ondas inclinadas, contrariando a maré, para se virarem e se porem a ver ‑se ao espelho, pela primeira vez, suspensas no momento em que começaram a crescer, numa infinita infância que não há.

Tão verdes e fixos que nem sequer precisam de olhar Que só se podem ver. Eram assim os olhos do meu amor. Tão cheios que só por milagre os poderia lembrar. Mesmo quando os via, sentia‑os escapar: eram os meus olhos pequenos já esgotados, onde só cabiam bocadinhos dos olhos dela. Tanto mais que estou, sem dúvida, enganado. Só sei daqueles olhos a metade. Se eram assim como digo? Talvez. Não sei. Sei lá.

A verdade é que o resto do rosto não conseguia passar.

A rapariga sem rosto e sem nome que eu adorava tanto que nem dava por isso, tão atento que me sentia distraído, ocupado com alguma tarefa trivial, mil vezes desempenhada, como se estivesse apenas a viver, a deixar passar o tempo, sem noção que estava prostrado, rendido, preso pela adoração do que via, num olhar sem desvios, começado não sei quando e impedido à nascença de alguma vez acabar.

Antes de ser assim, tive de passar por lá.

Até que, um dia, ela não apareceu. Não liguei. Ou, pelo menos, acho que não liguei. Habituei‑me a não me habituar a nada. Os únicos hábitos que tenho são os que dependem de mim. Todos os meus vícios são fáceis de satisfazer. Não me importo de ser dependente de coisas que existem em abundância, que podem comprar‑se a qualquer hora do dia. Tabaco, música, álcool, amêndoas, benzodiazepinas, jornais, aspirinas, livros, antidepressivos, café e outras coisas do género que não necessitem de contactos especiais e cuja disponibilidade não é variável.

Como é o caso da cocaína ou do sexo, infelizmente. Mas a vida é como é e é preciso aceitá‑la assim.

De qualquer forma, voltou no dia seguinte. Fizemos questão de não falar no assunto. Pressenti que ela talvez quisesse que a vinda dela fosse entendida como um regresso, porque estava invulgarmente bem-disposta. Mas não podia ser. Um regresso é sempre perigoso. Uma escusada alegria que nasce à custa duma tristeza mais escusada ainda decorrente da sobrevalorização sentimental da ausência. Todas as alegrias provocadas por tristezas são doentias. É como bater com a cabeça na parede só pelo prazer de ficar aliviado quando se pára.

Tivesse eu aceite a vinda dela como regresso, criar‑se‑ia um precedente que seria irresistivel repetir. A ausência é um grande poder, explorado por oportunistas. É como açambarcar açúcar para fazer subir o preço. É estranho o mundo em que as pessoas sempre presentes são fortemente penalizadas (ou mesmo recompensadas) por isso. «Lá está aquele chato outra vez», dizem. Mas quando aparece um chato que tem andado fugido, já é «Olha quem é! Onde é que tens andado?»

Para ser sincero, não me era indiferente se ela viesse ou não viesse. Mas tinha de criar essa impressão. Mesmo que ela se ressentisse. Antes ela que eu.

A verdade é que deixou de vir todos os dias ‑ ia dizer que começou a «faltar», mas é um verbo feio, que indica sentimentalismo dum lado e obrigação do outro. No início cheguei a pensar que se tratava duma manobra. Quereria ela racionar-se, para eu lhe dar mais valor? Não sabia que seria ineficaz? Se o Lexotan fosse ilegal e não tivesse a garantia de poder comprá‑lo quando quisesse, rapidamente me desabituaria, por muito que me custasse.

Por outro lado, ela não me conhecia. Dávamo‑nos como criminosos, protegendo as identidades para não as podermos revelar, caso um de nós fosse preso. Se ela deixasse de vir, ou se eu deixasse de a receber, seria mais difícil termos saudades. Saudades de quê? Do pouco que havia? Este era o raciocínio, pelo menos.

Quanto menos ela aparecia, mais procurava em mim sinais de reprovação ou de reprová-lo. Ou, pior ainda, as duas coisas juntas. A natureza humana é muito débil. As pessoas podem estar simultaneamente zangadas e felizes. Suportam, sem consciência dos riscos que correm, sentimentos contraditórios, ao ponto de pensar que estão ligados. Assim, quanto mais zangados, mais felizes se sentem. Quanto maior o sofrimento, maior o alívio. Passado pouco tempo, jà encaram a tristeza como um investimento, ou a alegria como uma recompensa, o que é o mesmo.

Quanto mais ela procurava, mais eu tinha de fingir. Infelizmente quem procura está mais à vontade do que quem disfarça. Criou‑se entre nós um desequilíbrio injusto e incómodo. Eu poderia ter reagido doutra forma, ausentando‑me também, dormindo fora, mas isso criaria uma situação de jogo, em que as nossas acções passariam a ficar submetidas à tirania das consequências e ao exercício da inteligência, perdendo o valor puro e próprio que tinham. O que se faz deve fazer‑se por se fazer e não para que outra coisa venha a conhecer. Sinto‑me sujo só de pensar em meios e fins.

Não sei o que ela espera de mim, mas eu não lho dei, nem ela recebeu. Não gostei nada de estar sob pressão. Nunca pensei que ela exercesse uma coisa dessas sobre mim. Mas, até aí, tudo bem. O pior é que eu também, apesar de todos os meus esforços, comecei a esperar coisas dela. Que ela deixasse de esperar coisas de mim, por exemplo. E, finalmente, dei comigo a esperar que tudo voltasse a ser como tinha sido.

Entrei em pânico.

Mudei‑me para casa duma namorada. Mas não consegui impedir-me de pensar, mal acordava, se ela tinha ido a minha casa nesse dia. A namorada reparou nesta minha ansiedade, para ela tão incaracterística, e fartou‑se de me ter em casa. Expulsou-me. E teve a lata de dizer que era para meu próprio bem.

«Vai lá resolver o que tens a resolver. Quanto mais cedo, melhor para ti e melhor para mim.»

«Não tenho nada para resolver. És parva?»

«Estás a ver? Nunca me trataste assim. Estás diferente.

Estás insuportável.»

«Isso é impressão tua ... » «E achas pouco?» «Posso voltar amanhã?» «Não.»

«Então?»

«Volta quando estiveres restabelecido. «Eu jà estou estabelecido. Que interesse é que tem eu restabelecer‑me se eu já estou estabelecido? «Tenho que me ir embora.» «Eu vou contigo.» «Eu espero enquanto fazes a mala.» «Não é preciso. Eu saio sozinho.»

«Não me custa nada.» «Não quero que fiques à espera por minha causa.» «Mas eu fico.» «Porquê? Não confias em mim?» «Claro que confio!» «Então?»

«Mas hoje não.»

Quando cheguei a casa dei comigo a pensar que talvez houvesse um recado dela. Só me apeteceu flagelar‑me. E fiquei deprimido pelo facto de me ter apetecido tal coisa. E mais ainda quando reparei que me tinha deixado deprimir.

A minha namorada tinha razão. Estava desestabelecído. E agora? Como é que se fazia? Entrei no quarto e, para meu grande desgosto, fiquei contente quando vi o recado dela em cima da cama. Tentei lê‑lo mais tarde. Mas, passadas umas horas, não resisti e abri o envelope.

O recado era: «Onde é que tens andado? Está tudo bem contigo? Espero que sim. Depois tento apanhar-te. Um beijinho, Margarida. P.S. Levei os iogurtes (acabou hoje o prazo) e uma garrafa de gin. Espero que não te importes. Outro beijinho, M.»

Porque é que se dá ao trabalho de justificar os iogurtes se também levou uma garrafa de gin? O gin não tem prazo de validade. É uma das grandes vantagens que tem. E, atendendo ao facto de eu não ter mais gin em casa, dei logo pela falta do gajo. E porque é que deixou um recado, se não tinha nada para dizer? Faz algum sentido deixar um recado com perguntas? Como se houvesse maneira de responder. E porque é que não havia de estar tudo bem? Será desconfiada? Será que sabe? E, mais insólito ainda, porque é que estou a ler outra vez este recado? Como é que consigo conceber que alguma coisa me tenha escapado? Decido que o melhor que tenho a fazer é dei- tar‑me. Tomo dois comprimidos e, mal começo a adormecer, tenho medo que me tenha deitado na esperança que ela apareça no dia seguinte, e compreendo, tarde de mais, que teria sido mais sensato ficar acordado. Se calhar.

Fosse a sorte estranha, ou menos minha, eu dava‑me à tua vontade e correria atrás dela e de ti, como se a velocidade me atrasasse a tristeza do ponto de poder deixá‑la, nem que por horas breves e bem‑vindas, atrás de mim.

Mas a sorte é tão tua e tão simples que, nem sonhando, consigo imaginar que depois pudesse ir buscá‑la, aquela tristeza de todos, que todos julgam ser só deles, pela vaidade que têm em tanto sofrer sem razão aparente, com o desprendimento que dá a força de se lembrarem que tinham sido recentemente felizes. A felicidade, mesmo enquanto passa, é mais parecida com o nosso coração do que toda a vida.

Se o meu amor em nada me pertencesse, e fosse simplesmente a tua pessoa, não como coisa que se sente, mas como alguém que se tem a alegria de saber que existe, tu que eu ficaria aqui fechado, andando com palavras à pancada com a tristeza que não ouve e não fala, mas se faz compreender e aceitar por mim, com a violência calada da certeza do que não pode mudar, nem afastar‑se, nem morrer antes de morrer a pessoa em que mora e se demora, achando-se essa tristeza pouca, pelo menos não mais pouca do que a vida.

Se não estivesse a perder o pensamento, que o coração vai roubando conforme quer, como se não descansasse enquanto a minha cabeça não ficasse vazia, e eu ficasse reduzido a pensar com os meus olhos e as minhas dores, num presente sem'fim, sujeito à escravidão do mais pequeno sentimento ‑ se assim não acontecesse, pensaria noite e dia na maneira de tornar o nosso amor em tempo ou em vida, nem que fosse uma casa pequena, fechada à chave, onde só os muros nos pertencessem, onde nos pudéssemos encostar, fechando os olhos ao mundo e, num minuto, devastarmo‑nos e destruírmo-nos para que partíssemos sossegados e tristes com razão, indistinguível da saudade, da alegria, sem manchas, que foi interrompida por toda a gente e todas as coisas do mundo ‑ menos nós.

A falta disto, faço como se só isto existisse e nunca hei‑de amar‑te menos por não ser assim, ou por não ser feliz, por te conhecer e por sentir‑me conhecido por ti.

De uma coisa tenho a certeza: que existe, mesmo ao pé de nós, à espera de uma oportunidade, uma tristeza, talvez menos magoadora, mas vazia e sozinha ‑ uma tristeza pior, muito pior, um pouco além, mas mesmo assim além, do meu, e do teu, e do que há‑de ser sempre o nosso amor.

Uma coisa é certa. Não estou apaixonado. Não estou a sofrer. Estou simplesmente ‑ como é que hei‑de dizer? ‑ abalado. É muito desconfortável. Mas será grave? Espero que não. É pena não haver livros sobre o abafamento. Nem sequer se pode falar acerca disso com o melhor amigo. O que é que se diz? «Sabes uma coisa? Tenho andado um pouco abalado ... » E ele, o que pode responder: «Então porquê, pá?» E pensará, com toda a certeza, que o caso é muito mais grave, que estou deprimido, que anda para aí rapariga na costa, que me está a pôr os cornos, como se eu não estivesse habituado a isso.

Passam‑se três dias. Registo algumas melhorias. Algum regresso, significativo, embora não espectacular, à normalidade. Se calhar, habituei‑me ao novo regime. Deus queira. O que não quer dizer que não continue preocupado e que isso não me irrite como me irrita também esta nova maneira de estar sempre a pensar em mim e, mais absurdo, achar que não e de todo desinteressante.

Entretanto, ela aparece e acorda‑me, como se nada se tivesse passado. E não passou. Tenho de me mentalizar. Recebo‑a com equanimidade. Apetece‑me abraçá‑la anormalmente. Ou menos ou mais, tanto me faz. Tenho que me esporear para me lembrar como é que costumo abraçá‑la. Estou doente.

Ela está contente. Como sempre. Tem os cabelos molhados. Como eu gosto. Empurra‑me para se poder deitar no meu lado, que ela julga ser o lado dela. Espreguiça‑se. Estuda o tecto. Deixa‑se estar. E depois vira‑se para mim. Ri‑se. E diz: «Bem... onde é que nós estávamos?»

«Acho que era aqui.» «Tens a certeza?»

«Absoluta.»

«Está bem. Eu acredito em ti.»

Fazemos amor. Varremos os pensamentos. Que voltam a cair quando acabamos. Intactos. Inteiros. Como se nenhuma interrupção os afectasse. Os dela sem se poderem saber. Os meus muito estranhos. Sobre o amor e o abuso. Impróprios para consumo. Mas fixos.

Não falamos. Mas o tempo passa como se falássemos imenso. Não se demora, como dantes demorava, quando ficávamos calados, de propósito, para fazer render os minutos, como se arrastássemos os pés contra a rotação do mundo. Como se fosse um poder que tivéssemos.

Nem sempre foi assim. Mas só assim posso falar por falar. Sem querer dizer mais do que digo. Podendo dizer menos e não ficar com contas por prestar. Só sabendo que nem sempre foi assim, que posso esquecer como era antes ‑ pelo menos o suficiente para estar aqui sem estar calado.

O nascimento é um substituto miserável da morte. Nasce sempre uma pessoa diferente e leva muito tempo. Não ocupa o mesmo lugar de quem morreu. E falo de qualquer morte porque, se fosse da morte verdadeira, nem sequer me dava à ingratidão e inutilidade de falar.

Há raparigas que morrem de livre vontade; outras que têm de se matar, até porque não nos deixam viver da saudade delas, forçando a presença e estragando‑nos a ilusão. Em último caso, quando nem uma coisa nem outra é possível, morremos nós. Fazendo disparates que nos custam os olhos da cara, indo contra o coração, fugindo, trabalhando diariamente para criar uma ideia que, parecendo certa a quem vem a tê-la, é logo tida como errada e nos envergonha até ao fim da memória.

Para me matar tenho de convencer a outra pessoa que não sou eu ‑ não só quem ela pensava ser eu, mas ainda menos, pior e mais surpreendente do que isso. Fingir que se é outro, um desconhecido de todos, ainda é mais difícil que o suicídio. E os efeitos secundários não perdoam. A tentação, quando se engana alguém, é ir atrás do engano, convencendo‑nos que tem um fundo de verdade ‑ mas não se consegue ceder a ela, porque não é suficientemente forte para duas pessoas, para mal do enganador.

As raparigas desconfiam tanto da verdade como da mentira. Até quando a verdade ou a mentira é feia. É um problema. Fazem de nós uma ideia em que a vida, depois dos primeiros momentos, não se intromete. É claro que estão à espera de ser desiludidas ‑ mas o facto de estarem à espera impede-as de ficarem verdadeiramente desiludidas. Se ao menos servisse para confirmar uma suspeita... Mas as mulheres são mais dadas à desconfiança, em abstracto, do que às suspeitas concretas. É difícil surpreendê‑las. Mesmo no bom sentido, que tanto apreciam ‑ quanto mais no mau.

Para as mulheres há sempre uma razão. Porque estão sempre a pensar. E o pensamento delas não tem limites. Nos homens a inteligência tem sempre um quê de esforço ‑ nas mulheres é natural. Nem dão por isso. Nasceram assim. Em certos casos chegam a lamentar‑se. Sabem que as prejudica. Não querem, ao contrário dos homens, ser superiores ‑ mas são. E não há nada a fazer.

Atendendo à maneira como se utiliza a palavra, pode e deve dizer‑se que nós, homens, somos mais femininos. Sem que elas ‑ ou nós ‑ sejam, pelo mais estúpido e rápido conseguinte, mais masculinas por causa disso. Só é estranho ao princípio. Depois habituamo‑nos. É a única coisa em que somos inexcedíveis, felizmente.

Como todos os homens, invejo a maneira como nunca se separam. São meninas e irmãs e mulheres e amantes e amigas sem ter que saltar, como nós temos de fazer várias vezes ao dia, de uma condição para a outra. Não as conhecêssemos e seria incrível. Seria melhor. Mas não. Somos obrigados a saber mais do que nos convém e só um louco ou um herói consegue odiar uma mulher ou, em casos extremos, duas. Elas têm o que nos falta ‑ sem terem culpa de nos ter roubado ‑ para sermos pessoas. E por muito que tentem e queiram, essa qualidade é intransmissível.

A prova, para nós homens, que isto é verdade é esta: sempre que falamos nestes termos, elas bocejam ou, quando são generosas ou estão bêbedas, riem‑se. Para elas não é importante ‑ porque existem e, mais do que sabido, é tão óbvio que nem perdendo tempo de propósito se consegue ouvir dizer estas coisas, quanto mais pensar nelas, quando há tantas outras, úteis e condignas e interessantes, a que o pensamento, para infelicidade e culpa de todos, não se aplica.

Fosse eu contar as vezes que matei, me matei e morri e não me admiraria nada sentir‑me como há muito me sinto, quase morto, para não dizer pior.

A vida das raparigas é a causa principal da nossa morte. Cada vez que pensam morrer, é como se morressem mesmo. Depois renascem. E esquecem‑se. E estão prontas para outra. É incrível. Mas eu acredito. Fui obrigado a acreditar. Escusado será dizer que, por mim, e tendo os meus interesses em conta, preferia nunca ter acreditado.

Por outro lado, esta miséria, espiritual ou lá o que é, é em si tão grande castigo que nos garante, por defeito, uma certa

impunidade. Há momentos até em que, mediante um cuidado entorpecimento dos sentidos, conseguimos confundir essa condição com ser livre. Não livre de, claro, mas livrepara. O que, não havendo liberdade para aqueles da nossa laia, não é nada mau. E tem uma vantagem, esta migalha de ilusão: irrita‑as.

As mulheres são superiores sem qualquer esforço ou mérito, porque não lhes custa nada deixar‑nos fazer as coisas que fazemos, como se fôssemos autores, ou obedecêssemos a uma decisão interior ou mais antiga do que nós, o sonho de qualquer homem estúpido, ao qual mesmo o mais sábio é inexplicavelmente sensível.

Que triste é a diferença ‑ e com que força o sentimos entre o que dizemos aos outros, incluindo‑nos a nós próprios nesse âmbito, que fizemos e acontecemos e foi assim, e aquilo que não somos capazes de deixar de saber. Havendo em nós um apego à verdade que não é, de modo nenhum, amor antes consequência inevitável de não podermos ir além do pouco que somos, mesmo quando há outras pessoas, que respeitamos, que nos dizem o contrário. Chegam a ser ofensivos. Se fossem eficazes, óptimo, não estaria para aqui a queixar‑me. Mas não são. Repetidamente. Se eu contasse as vezes em que não fui convencido, diante a minha absoluta abertura a esse tipo de argumentos, precisaria do maior computador do mundo pelo menos aquele que indesmentivelmente o fosse daqui a trinta ou quarenta anos.

Qual a única posição que se encontra ao dispor do homem? É estar sozinho. Com o mesmo espírito de quem está a morrer e não quer que as pessoas que gostam dele o vejam assim. Mais do que isso é uma maravilha impossível. Se aprendemos alguma coisa com a vida, através das mulheres que não se importam de nos ensinar, já que não correm qualquer perigo, e apesar dos muitos amigos que se tenham e se encarregam de tentar repor a nossa ignorância mais feliz, é o seguinte: Não se pode ter mais do que já se tem, por muito pouco que seja.

Isso eu aprendi. Por isso ausento‑me, fujo, engano e minto, me traio e desprezo, para alcançar a mais pequena impressão de, não digo dignidade, mas livre‑arbítrio; e, mesmo assim, com a consciência pesada, pronto, é tarde de mais, já foi dito.

Eu não amo as mulheres ‑ admiro‑as. Como todos os homens, tenho pena que o verbo <,admirar tenha sido destituído do magnífico sentido que, se calhar, nunca teve, mas seria merecido. Arroubo, deslumbramento, admiração ‑ que teimosia e mesquinhez se intrometeu para remover estas reacções da alma pequena em que não cabe a dimensão da astronomia? Foram os homens que mataram as palavras ‑ porque não lhes convinham. Pode ser feio, mas ‑ haja atenção e misericórdia é preciso.

Só um homem mata a mulher que lhe deu, ou dá, ou dará vida. Até porque não há mais ninguém para fazer o serviço.

Ninguém me compreende. Ainda bem. Não tem sido fácil. Se alguém perceber o que se passa comigo, quero ser o primeiro. Nada me amedronta mais do que aquela voz de «serial killer» a perseguir lentamente uma criança por um corredor alcatifado, a dizer «Eu conheço-te... eu conheço‑te ... » E, às vezes, como se não fosse redundante: «Tu a mim não me enganas ... »

Não quero enganar ninguém. Só não quero que me conheçam. Nem que pensem que me conhecem, porque não tenho maneira de saber se é verdade. Se eu me conhecesse, não me importava que pensassem que me conheciam, desde que não tivessem acertado.

Não me dou a conhecer, mas também não procuro convencer ninguém que sou diferente do que sou. Sou um indivíduo razoável. Se me fizerem uma pergunta à qual não queira responder, não minto. Digo que não sei. As vezes custa.

«Gostas de mim?»

«Claro que gosto.» «Mas gostas mesmo?» «Não sei ... »

«É porque não gostas.»

«Como é que sabes?»

«Sei.»

«Ah, então está bem.»

«Cabrão!»

«Desculpa?»

Gostava de me conhecer porque odeio surpresas. Não gostei nada de descobrir que tinha uma fraqueza pela Margarida. «Fraqueza». Está muito bem dito. «Fraquinho» é ridículo. Mais adjectivo que substantivo. Embora reconheça que esta fraqueza foi provavelmente antecedida por um fraquinho. Que passou à história. Infelizmente. Antes a palavra pior que o sentimento melhor.

Mas é tarde para começar a conhecer‑me. Teria de me conhecer praticamente desde que nasci. Ou conhecer alguém desse tempo que me pudesse apresentar. Só há a minha mãe. Mas ela ama‑me de mais para me conhecer. Se por acaso descobre alguma coisa acerca de mim de que não gosta, volta a tapá‑la. Consegue desconhecer‑me. Activamente. É como se eu fosse um santo. Tem uma imagem de mim.

O meu pai nem sequer chegou a conhecer a minha mãe. Tanto um como o outro diz que foi o outro que fugiu. Eu acredito na minha mãe. Não suporto a ideia de o meu pai ter sido abandonado.

As crianças muito amadas ficam despachadas quando ainda são pequeninas. As que não são passam a vida à procura do grande amor. Dão óptimas namoradas. E mais segundas oportunidades.

Desde que a Margarida começou a faltar ‑ é preciso coragem para usar este verbo ‑ sinto que a conheço. E se eu não estiver enganado?

Quando uma rapariga começa a surpreender‑nos, não há outra alternativa senão pensar que a conhecemos. Só o facto de não podermos prever o próximo passo leva‑nos a pensar que ela é imprevisível. E dalgum modo, conhecida. O pior é que ser imprevisível torna‑a mais interessante. E quanto mais interessante vai ficando, mais nós nos vamos interessando, com toda a perda de tempo e desperdício de pensamento que isso implica.

Se ficasse por aí, não seria grave. Mas o interesse por uma rapariga provoca em todas as outras uma reacção em cadeia. Uma a uma, começam, elas também, a surpreender‑nos. Como se se tivesse gerado uma situação de concorrência. A namorada com que vou viver expulsa‑me de casa. A outra, que costuma telefonar, deixa de telefonar só por eu lhe ter telefonado duas vezes seguidas. Ao dar‑me conta do processo em curso, decido ficar quieto, à espera que a normalidade seja restabelecida. Ao menos ela. Como ficar quieto é a minha especialidade, deveria ser fácil. Mas não é. Custa mais do que entrar em acção. Como é que pode ser?

As raparigas, que me pareciam tão diferentes, começam a assemelhar‑se. Dum modo uniforme, deixam de gostar tanto de mim. Começam a tomar decisões a meu respeito. Concordam todas que já não sou o que era. Dão‑me conselhos quase idênticos. E afastam‑se mal acabam de mos dar. Como se estivessem a comunicar através de mim. Como se eu fosse um pombo-correio, que seguram durante um minuto, enquanto me retiram a anilha para terem acesso ao recado e logo largam, janela fora, depois de terem tomado conhecimento do conteúdo. Como se eu tivesse pressa, ou alguma doença, ou um sítio alternativo para onde ir.

É uma má fase. Bem sei que este pensamento é a primeira página do livro de instrução primária onde se dão os primeiros passos no caminho acelerado para a depressão. Mas tenho esperança que a perfeita consciência deste facto me impeça de apanhar o vício de virar as páginas seguintes. Também sei que não devo tentar animar‑me. Deus me livre de ficar a vida inteira com essa responsabilidade.

Talvez uma rapariga antiga me faça bem. Uma que não esteja atravessada. Uma que se tenha esquecido completamente de mim. Felizmente não faltam candidatos. Percorro a secção caligraficamente correcta da minha agenda ‑ os primeiros nomes que inscrevi, em tinta da índia, no dia em que comprei a agenda. Escolho uma rapariga da qual ainda guardo um número aceitável de lembranças, certificando‑me que todas são irreconvertíveis em saudades.

Há dias em que me dá para a inteligência ‑ e a minha, para que não me doa e não a sinta, é arrancada a ferros e juramento verdadeiro.

A vida passou ao lado de mim, como um dia há‑de passar a tua. Foge dela sempre que puderes. Mas não faças como eu. Não te canses de fujir. E nunca dês o coração a quem não o quer.

Eu passei ao lado da vida porque quis, ou não fui capaz. Não tive família, não guardei amigos, não poupei, não percebi, não ajudei, não apareci. Tive um amor, mas só porque não o pude evitar. Nem cuidá‑lo, eu cuidei. Hoje guardo‑o como a única lembrança que tenho de ser vivo.

Evitei a vida como um pássaro que voa não se sabe como nem para onde, procurando apenas não pousar. Não passei pelas coisas, não compareci, inventei, fechei os olhos, menti, olhei de lado, disfarcei, sempre que pude, fugi. Hoje trago a alma branca, magoada de tanto protegê‑la. Mas não a vendi. As minhas intenções eram boas. Eu é que não as percebi.

Hoje faço 35 anos. Não dormi, acordei cedo, bebi uma caipirinha ao meio‑dia. Estou triste. Como deixei o coração cansar‑se assim de mim? Como consegui chegar aqui?

a única maneira que tenho de passar o dia. A vida não me cabe no coração. É como a morte, que não desejo ainda mas que já aceitaria.

Com o meu coração casado, cansado de gostar e de deixar de gostar. Cansado de lembrar e ver, de ver a lembrança à minha frente, e a felicidade atrás de mim, cansado do presente, de ver e de comparar uma com a outra. Cansado de discutir, de não explicar, não perceber, não ser percebido, de perdoar e não ser perdoado.

Cansado de sorrir do meu sorriso, da maneira que a lágrima tem de cair e secar, das portas, das janelas, do ar dentro das casas. Cansado de me animar, de me apanhar do meio do chão, de me meter no carro, de me servir, de me levantar.

Com o meu coração cansado de não saber o que sente, e de descobrir sempre de repente o que não sabe. Com o coração cansado de saber. Cansado de mentir. Cansado de esquecer. Mas coração, mesmo assim.

Um dia vou no vaivém dos barcos que vejo da minhajanela e atravesso o rio com eles. Um dia ponho os meus olhos num ponto do céu de onde nunca mais possam fugir, tão azul e tão longínquo, que eu nunca mais os possa reaver. Estou cansado de ver o mundo. Estou cansado de viver em casa. Tenho uma vontade muito pequena de morrer.

Um dia vou para as casas altas onde as coisas não se vêem. Ser como poeira num parapeito num mês sem vento. Estou cansado do que trago. Andorinhas aos ombros, os trabalhos que nunca hei‑de acabar, a solidão e o azar das minhas certezas, um amor sem solução e sem fim.

Um dia atiro a alma ao ar e serei friamente feliz.

Ninguém viu o meu coração. Eu não vi o coração de ninguém.

Não me lembro do que aconteceu e do que eu inventei. Mas um dia a minha alma foi contra a tua. Passámos dias inteiros agarrados. Não havia saída, nem dia, nem noite, nem eu, nem de lá,

nem vi ora. Era mais do que amor. O amor não é nada.

O amor desdiz-se. Desmente‑se. Só não se desfaz porque não pode. O amor fica. Mas a vontade de amar azeda e a pressa de ser amado vai passando. O amor fica, para nos lembrar da nossa fraqueza, da nossa doçura, da nossa humanidade. Para nos fazer mais pequenos do que pensámos. Para nos proteger da esperança.

O amor não é nada e não passa porque não pode. Nada disso se passou connosco. Era mais do que amor. Numa hora de amor envelhecemos vinte anos. Era mais perigoso, mais bonito, mais triste que o amor. Era a nossa vida a passar.

A vida é a única coisa que temos. Nada temos para a acomanhar.

O preço de estar contente foi sempre tão alto e eu paguei‑o sempre com esta dívida para comigo mesmo que se foi acumulando em mim até rebentar. Desde o dia pequenino em que escolhi o meu primeiro sorriso, em que diverti o curso da minha primeira lágrima. Era só água na minha cara, mas eu aprendi a torná‑la em ácido no meu coração.

No meu coração cansado, que eu queria desperdiçar contigo.

O meu coração dá‑te como morta, mas tenho a tua imagem, o teu rosto deitado sobre o meu como se dormisses sobre mim. Guardo‑a contra o tempo e contigo, para levar no moménto em que eu deixe de viver. Nós somos tão brancos. Com a tua escuridão e a minha cegueira, nós somos tão brancos e tão parecidos que me custa abrir os olhos e não te ver.

Morre a vontade, o dia, o curso da vida, o sopro, a melodia repetitiva que sustém, sem razão aparente, a sorte e a solidão de não estar morto.

Morre a alma, morrem as mãos. Morre tudo, menos o amor, que ainda nem sequer nasceu.

Chamava‑se Joana. o que diz aqui. Bem sei que continua a chamar‑se Joana, mas o pretérito imperfeito é apenas uma medida de segurança e não uma expressão lírica, como aquelas que dão início a uma história sentimental que nunca mais acaba.

Arranjo uma boa desculpa. Se possível remunerada. Decido convidá‑la para colaborar no meu livro de grandes crimes. Deixo‑me iludir que preciso duma perspectiva feminina. Não. Feminina não. Isso é muito machista. Duma outra perspectiva. Outra também não. Dá a ideia que qualquer uma serve. Da perspectiva dela. É isso. Apesar de tudo, ainda é a melhorzinha. Embora o principal problema continue a ser «perspectiva», gratuito, pretensioso e pouco apelativo.

Escrevo‑lhe uma carta em papel timbrado, claramente afectuosa. Depois experimento com papel normal, reduzindo proporcionalmente a afectuosidade. Antes seco e individualizado do que terno e empresarial.

Ela telefona. Uma rapariga a telefonar. É verdade. É refrescante. Uma rapariga que não sabe de nada!

«Joana!»

«Fernando! Como é que tu estás?»

«O que é que isso interessa? O que interessa és tu. Conta-me tudo. Como é que tu estás?»

«Olha, para começar, estou desempregada...» «Então podes vir trabalhar. «Ainda não percebi o que é que tenho de fazer ... » «É fácil ... »

«Mesmo que seja difícil... não sou assim tão estúpida.»

Pois. Estúpido sou eu.

«Não! É fácil explicar! É difícil fazer mas é fácil explicar. «Então explica lá.»

Eu sei lá. Não estava à espera duma resposta tão rápida.

Supus que dispusesse dalgum tempo para pensar...

«Não consigo explicar‑te pelo telefone.»

«Tenta.»

«Há livros que tenho de te mostrar... ilustrações ... » «Que tipo de livros?» «Relatos de crimes ... » «Policiais?»

«És parva? Acadêmicos.»

«Relatos acadêmicos de crimes?»

«Livros médicos. científicos. De psiquiatria forense e coisas do género.»

«Olha que eu não percebo nada dessas coisas ... »

Toma. Embrulha. Que é para não estares armada em boa. Policiais! Que grande lata. Depois deste tempo todo. Seria de esperar um mínimo de respeito ou de comedimento. De qualquer forma, estou lixado. Tenho de ir à biblioteca levantar uns livros com bom aspecto, inacessíveis, impenetráveis, policopiados.

«Nem tens de perceber... Preciso mesmo da tua ajuda, Joana. Senão não te estava a telefonar.»

«E não estás... fui eu que te telefonei, lembras‑te?»

«E ainda bem que telefonaste. Foi por isso que te escrevi. «Cala‑te. Pediste‑me para te escrever. Só que já sabes que não tenho paciência... Desculpa telefonar‑te assim sem mais nem menos ... Se calhar estou‑te a incomodar ... »

Código de raparigas. Decifração: «Não me digas que estás a viver com alguma gaja!»

«És parva? Ouve. Quando é que nos podemos encontrar? «Por mim, pode ser já ... » «Isso é bom.»

Péssimo.

«Deixa‑me só tomar banho.»

Porque é que dizem sempre «Deixa‑me ... »? Para parecer que eu é que sou o impaciente?

«Queres que te vá buscar?»

Erro. Muito em cima do «banho». Nuance sexual inoportuna. Nunca falha. Caio sempre. Deixa passar.

«Eu apanho um táxi.»

«óptimo. Fico à tua espera.»

«Se calhar nem me vais conhecer ... »

Táctica vetusta: ela cria a expectativa falsa de estar um caco, para depois surpreendê‑lo com a eterna juventude dela.

«Então toca seis vezes à campainha, deixa passar uns segundos e toca mais duas vezes a seguir ... »

«Ha! Há! Ha!»

Riso insincero. O melhor que há.

«Até à, Joana.»

«Até à. »

Pânico geral. Recolher jornais e copos. Espalhar livros. Abrir janelas. Fechar porta do quarto. Pôr panos da louça em cima dos locais de sinistros na cozinha. Tomar duche. Tirar

fotografias de assassinos das paredes. Vestir roupa acadêmica. É

Fazer gin‑tónico. Tomar Lexotan. Reprimir entusiasmo. Olhar para o relógio. Ficar ansioso. Quando é que o raio da rapariga chegará? Descomprimir. Pôr música. Tirar música. Voltar para o estirador. Voltar a ser quem era. Vai tudo correr bem. E, se acaso não correr, cagar.

Que estou eu para aqui a dizer?

Não tenho mais nada para fazer. Senão frases. Que não fazem mal, nem diferença, nem sentido.

Pensamentos que tive e já não podem fugir. Presos e depois abandonados e substituídos, ditos e contraditos conforme as circunstâncias, soltos, a correr atrás das coisas que me acabaram de acontecer, como perdigueiros perdidos nos próprios canis.

Têm desculpa. E direito a serem ditos. Porque nem sempre foi assim.

Nem sempre tive este tempo que tenho. Tive um tempo em que nada disto teria acontecido. Em que tinha mais do que fazer do que falar. A partir do dia em que uma rapariga fez o mesmo. Parou diante de mim. E, a partir daí, nunca mais parou. E parecia que nunca mais havíamos de parar.

Ah, pois houve. Houve um tempo assim. Quanto a isto, não haja dúvidas. Guardem-se todas aquelas que houver para tudo o que se passou a seguir, porque nem de longe hão‑de chegar, gastando‑se a última muito antes de se chegar ao fim.

Que nunca mais chega. Não fosse a vida mesmo assim. Se calha aos outros, porque não há‑de calhar a mim? E que outra maneira há de a evitar, senão fugir dela e vir para aqui, contá- ‑la o mais devagar que eu conseguir?

Estás tão gira! Que mau gosto que ela tinha, graças a Deus! Os homens costumam dizer, quando revêem uma ex‑namorada: «Eu sempre tive muito bom gosto ... » Como se fossem eles a escolher. O mau gosto das mulheres é a grande sorte dos homens. E a cegueira. E a teimosia, diante os avisos das amigas. E a coragem. E a irresponsabilidade. Não têm fim as qualidades e os defeitos das mulheres que nos favorecem, num contexto já de 1 favorável dado o domínio, infame mas inegável, do sexo masculino. Cá por mim, comporto‑me com o limite máximo de hipocrisia: sou contra o estado das coisas mas vou aproveitando, desesperadamente, fingindo que vai terminar no dia seguinte.

«Desculpa a desarrumação ... »

Meu Deus, como se deterioram as formas de receber visitas. Dantes, davam‑se razões à visita para elogiar a casa. Agora dão‑se desculpas. Se calhar, as razões são mais irritantes. Obrigavam os convidados a tecer considerações sobre a amenidade do local de acolhimento. Insinceras ou invejosas, certamente. Mas eram merecidas. As desculpas não dão trabalho e não requerem qualquer investimento imaginativo.

«O que é que te aconteceu? Eras tão arrumado ... » «Era?»

«Já nem te lembras! Está bonito ... » «Bem, o que é que queres beber?» «Fernando: o que é que se passa contigo?»

Pronto. Esta quer ligar‑se à rede. Desconfia dalguma

coisa. O problema das mulheres é que nem precisam saber qual é. Basta‑lhes desconfiar indefinidamente.

«Tinha saudades das tuas perguntas existenciais.» «Pois tinhas. Quero um gin‑tónico.»

«Não tenho gin ... »

«Não tens gin? Diz lá, não tenhas vergonha. O que é que se passa contigo?»

«Nada.»

«Fernando: há quanto tempo somos amigos?»

Contando os anos em que não nos vimos? Parece batota. Até porque nunca chegámos, a ser amigos, embora tenhamos falado nisso, durante os dois anos em que nos víamos de vez em quando. As raparigas insistem em classificar assim os namorados que abandonaram e os que ainda não calharam ser. Mas a grande verdade não é essa. É esta: a Margarida não foi capaz de sair de minha casa de mãos vazias. Dos iogurtes ao gin, como do haxixe à heroína, vai só um passo.

Entretanto, lembro‑me do problema que a Joana sempre teve: não gostar de mim. Era apologista e praticante do displicente conselho nacional que consiste na ideia «Se não gostas, come menos.» A princípio, não faz sentido, porque se não se gosta duma coisa, o melhor é não comer nada. Mas como a alimentação é uma das bases duma existência saudável ‑ e como, geralmente, não há mais nada para comer ‑ até está bastante bem visto. Ela, de facto, comia‑me menos do que eu queria. Fui, na vida dela, um mero molho de agriões. Porque é que eu a escolhi, dentre tantas outras? Porque, se calhar, as outras não eram assim tantas como isso. Amanhã corro com ela. Entretanto, tenho de lhe apresentar o trabalho duma forma nuclearmente dissuasora.

«Infelizmente, não te posso pagar grande coisa.» «Quero lá saber. Preciso é de fazer qualquer coisa.» «Mas eu sinto‑me mal se não ganhares o que mereces.» «ó Fernando: eu tenho dinheiro, está bem? Até te posso emprestar algum, se precisares. Precisas?»

«Não. Obrigado.»

«Deves precisar. Senão não andavas a pagar tão mal às pessoas.»

«Eu não pago mal! Não sou nenhum explorador.

«Então quanto é que pagas? Diz. É‑me indiferente. Se tiveres pouco dinheiro, paga‑me o que puderes e não se fala mais nisso.»

Acabo por lhe propor uma fortuna. A brincadeira vai‑me sair cara. E o trabalho que me vai dar arranjar qualquer coisa para ela fazer? É bem feito. E tem a vantagem de me distrair. Há quanto tempo não me distraio?

A única coisa que tenho feito ultimamente é divertir‑me, divertir‑me, divertir‑me. Pois é.

«Não me digas que estás a escrever um livro sobre serial

killers. É doentio. E, ainda por cima, já não há pachorra.»

«Se são serial ou não, não me interessa. O meu livro é sobre

killers em si. É muito mais clássico do que pensas.»

«E tu que ias dedicar‑te só ao teatro ... »

«E dedico‑me ... »

«Há anos que não se vê uma peça tua!»

«É o tempo que tem demorado esta que estou a escrever agora ... »

«Mostra.»

«Não está pronta.»

«É sobre quê?»

«O que é que achas?» «É sobre serial killers ... » «Claro!»

«ó Fernando ‑ quando é que vais deixar de te iludir?»

Que mamas. Que cara linda. Porque é que, quando as mulheres começam a meter‑se na nossa vida, tomamos sempre consciência dos atributos físicos delas? Será por estarem distraídas? Somos cobardes para isso. Ou será que, quanto mais sérias ficam, mais giras se tornam? As mulheres odeiam que se lhes diga «Adoro‑te quando estás zangada!», mas tem um fundo de verdade. Faltam é homens com a coragem suficiente para informá‑las. Zangadas ficam interessantes, atraentes, sem dúvida, mas menos giras que em estado de repouso. Não. O que faz ressaltar a beleza é a seriedade. Por isso é que, quando as mulheres não estão a ser sérias e apenas fingem estar zangadas, ficam na mesma. Por isso, e não por quaisquer considerações puritanas, é que existe em Portugal o culto da rapariga séria.

Começamos a «trabalhar». Ela cheira a spray de casa‑de‑banho, mas não me incomoda. É contrabalançado pelo facto de estar tão perto de mim. Os dois debruçados sobre o estirador, como se estivéssemos à espera que passassem os ciclistas. Que bom. Que bicho me mordeu para não me ter apaixonado por ela no momento em que a conheci?

«Não estás a prestar atenção», diz ela.

«Ouve lá ‑ eu é que te estou a explicar. «Então porque é que estás calado?» «Estou a pensar.»

«Ai, desculpa. Enquanto pensas vou aproveitar para ir à casa de banho.»

já é qualquer coisa. Quando uma mulher começa a ir à nossa casa‑de‑banho, não há nada que a faça parar...

Margarida...

Se é da Margarida que me lembro, não sei, Deus queira que eu nunca venha a saber se é verdade.

Rezo para que seja ela por quem espero. E não alguém que não possa voltar, por quem não posso correr o risco de, no meu segredo, esperar.

Não tem de ser a Margarida. Mas tem de ser uma rapariga apresentável, que possa estar presente, que não esteja no passado aonde eu não chego, que possa aparecer já.

Sempre o mesmo luto de manhã. Não pode ser. Eu desentristeço, dizendo que não pode ser. As minhas raparigas não morrem. Foram, com certeza, outras, mais doutros, que morreram. Se a vida se deixasse misturar com a vontade ‑ nem que fosse só um bocadinho, só durante os momentos de acordar e de adormecer ‑ seria feliz. Mas nem sequer com o pensamento se mistura. Está à espera de quê? Que eu saia deste sítio e do que sou? A vida é estúpida. Não tem ideia de quem vive. Não está, nunca esteve, certa. Então no meu caso. Eu que tanto queria e tentei ser outra pessoa, que mesmo de mim me perdi.

Não era muito longe uma vez ‑ se ao menos disto eu conseguisse esquecer‑me.

Se me deixassem em paz, não digo comigo próprio, claro, mas sem mais ninguém, escusava de lutar ‑ seria uma guerra só minha, uma guerra bem melhor, o cessar‑fogo mais violento que eu já vi, se mais ninguém pudesse ver – e compreender, muito menos intervir.

Todas as tristezas do futuro seriam então muito alegres, não só por não as poder conhecer, e resistir com facilidade a adivinhá‑las, mas também porque talvez nunca acontecessem. Que sossego ter um futuro branco, como um mapa do mundo onde só constassem os sítios em que já estive. Melhor: aqueles onde tenho a certeza de ter ido, mas, de resto, misericordiosamente, por laxismo ou inteligência, esqueci. E, quanto às cidades prometidas, onde nunca irei, nem sozinho sequer ‑ por que hão‑de ser bonitas? Eu sei que não são.

Tratam‑me por «meu amor» mais as que fazem o favor de não me amar, do que aquelas que me amam contra vontade, contra ambas as vontades, para grande desgosto delas. Menos delas do que meu ‑ mas enfim... há um certo cavalheirismo que persiste. Mal começam a amar‑me, perdem a razão e, ao perdê-la, despedem a minha. Passa a vontade de amá‑las, que à falta de amor, ainda é a consolação mais bonita que se pode ter. já não é nada mau pensar em amar, ou que se ama; ter pena de se ser como é e a esperança de um dia lembrarmo‑nos como se tivesse acontecido quando for suficientemente tarde. É isto que elas destroem com o maior prazer, cheias de todos os direitos que julgam ter adquirido só por amar e que anulam os nossos de um dia para o outro, prolbindo‑nos até de reclamar, dada alguma obscura equivalência entre a queixa e a ingratidão. São como aquelas casas pobres que há séculos não têm amo e das quais não apetece ser hóspede, quanto mais senhor.

Certa noite, sentindo-me farto, perguntei a uma rapariga isenta de sentimentos por mim por que me chamava «meu amor». Ela respondeu que era só por hábito. Que não queria dizer nada. Fiquei na mesma. Conhecíamo‑nos há dois dias. Ela esclareceu‑me logo que era só porque podíamos. Que o hábito era dela e não tinha nada a ver comigo. Acrescentou que «meu amor» correspondia ao darling nos bastidores teatrais da Inglaterra. Riu‑se e disse: «Não te preocupes.» Era mesmo isso que eu queria ‑ que quero sempre ‑ ouvir, mas e rara a pessoa que mo diga.

Quantas? Durante quanto tempo? Gostam de perguntar estas coisas. Como se alguém fizesse contas, ou tivesse tempo ou vaidade para isso. Fico sempre zangado. Os números têm de ser verdadeiros. Desconhecê‑los não é desrespeitá‑los. Não se pode é mentir.

Preciso de um dia de intervalo. O problema é: entre quê? As raparigas ficam sempre nas margens da minha vida. Nunca

ao centro. Perseguem‑me, de perto, enquanto eu tenho de prosseguir. Eu sou um filme que passa sem nada se passar ‑ elas são os furos da película.

A noite é muito mais comprida quando se tem de ouvir outra pessoa a falar, ou senti‑la a mexer‑se, ou a envolver‑nos em qualquer outra espécie de ocupação. Quando não diz nada, a noite tem o tamanho que tem ou, se calhar, segundo a ética popular, deveria ter. E quando nem sequer cá está, é só ligeiramente mais curta, muito menos do que se esperaria. É precíso estar muito atento para reparar. Em contrapartida, o tempo passa muito depressa quando se está à espera que não venha alguém que não se queira ver.

«És mesmo... uma lampreia!», disse‑me uma delas. Há duas qualidades que não podem negar às raparigas: ter graça e, ao mesmo tempo, fazer pensar. Isto no capítulo dos elogios, claro. E antes de bater com a porta. Devem saber quanto gosto de ser deixado, deixado a escrever, deitado sobre o que escrevo acerca do que acaba de acontecer (apesar de nem sequer ter começado, dado o aborrecimento que me causa enquanto acontece, é mais do que suficiente). Acontece o mesmo quando saio de casa ‑ mal chego onde fui, fico morto por chegar a casa ou da cama ‑ para escrever e tornar verdadeiro o que poderia ter acontecido caso tivesse ficado mais tempo num sítio, ou me levantasse mais cedo. Só se pode imaginar o que não se sabe. Pode ser patético, mas eu não acho. Cada vez que acontece uma coisa ou aparece uma pessoa, seja ou não um prazer, não interessa ‑ e mais um atentado à liberdade.

Ao menos a tristeza, ao contrário da felicidade, não se esconde não cansa e, quando passa, pede sempre licença e promete voltar, igualzinha ao que era, como se nunca se tivesse ido embora ‑ tanta é a memória que a tristeza tem de nós que é tal e qual como se nos respeitasse.

«O amor pode ser tudo o que em toda a vida não há.» Desta também me lembro. De nada serve perguntar «Como?» As raparigas tendem a associar a verdade àquilo que não se pode explicar ‑ ou, na maioria dos casos, sequer dizer. Lembro‑me muito bem. Ela estava a lavar os cabelos, em plena batalha contra eles, espremendo‑os como se quisesse matá‑los e, cada vez que penso no que me disse, preciso de abraçá‑la.

Sou um comprimido. As pessoas tomam‑me sem reflectir. Nem sequer tenho a honra de poder dizer que fui eu próprio que me comprimi. Sou aquilo em que as pessoas me tornaram, para ser pequeno, portátil e fácil de engolir. O efeito é geralmente apreciado ‑ mas nunca agradecido. Para elas, não só não sou o autor de mim, como nem sequer colaborei na equipa anónima que me descobriu por acaso, no dia em que alguém se esqueceu de lavar os tubos de ensaio.

Quanto mais tento falar ou ouvir o que me dizem, maior se torna a minha fé na linguagem gestual. Não há conversa, por mais sincera e bem‑intencionada, longa e esclarecedora, que valha um péssimo e breve abraço. Tem a alma um tempo certo para se dar a ver, outro para se entregar, e outro ainda para se reaver, uma vez entregue e arrependida de nunca mais se poder entregar, ao descobrir que pode fingir entregar‑se, com o mesmo resultado, sem se perder. Por outras palavras: diga‑se o que se disser, por perfeita que seja a expressão, qualquer abraço explica mais e mais facilmente se compreende, recolhendo as palavras como uma esponja a apanhar água suja, repondo a incerteza verdadeira e a limpeza. Há abraços que nos atiram pelo tempo adentro, para onde já estávamos antes de dizer a primeira palavra, bem, ou, pelo menos menos mal, mas sem saber.

São estas ideias antigas que agora mandam em mim. já namorei muitas raparigas e, verdade se diga, não são muito diferentes no que dizem, senão no que pensam e pensam fazer. Resumindo: abraço‑me a elas e seja o que Deus quiser.

A corça fugiu. Estava eu noutra terra, já esquecido dela e um relâmpago, ou coisa parecida, assim de Merda, daquelas em que ninguém confia, avisou‑me, quando já era tarde para voltar, quanto mais apanhá‑la, como é costume com avisos desta natureza. Parecem ameaças já concretizadas, castigos que, mal nos começamos a defender deles, já sofremos.

A coisa alta e loura, que eu mantinha à distância das estrelas, virou a cabeça de repente. Aquele meu corpo deitado onde o deixei, com a pele levantada sempre que os meus dedos não passassem por ela, a minha criança amada, que me sugou todo o sangue e arranhou‑me a cor toda do coração, e só por ser mais fraca e pequena me deixou enfim partir ‑ levou‑se de onde estava. Muito tarde e depressa. Eu não queria acreditar. Fez o que disse ‑ mas apenas disse, eu não acreditei, nunca acreditei não foi isso que eu pensei que ela tinha prometido.

Não vai durar muito tempo ‑ mas quem me vai devolver este tempo de ter fugido e o tempo, mesmo depois de um dia, que já durou? Combinámos. Eu lembro‑me, no meio dos gritos, de arrependimento, de prazer, de proximidade da morte de um no outro, no susto repetido do nosso amor, de uma combinação que fizemos à falta de mais nada, senão um dia ter o desprendimento e a inteligência e a coragem de fugir, como eu há tantos anos tenho fingido fazer, sem sequer convencer‑me a mim.

Casa saída do sítio, paredes velhas, , num corredor pequeno e sem portas que abençoávamos mesmo quando estávamos afastados um do outro. ‑ de que me vale saber que depressa estará outra vez cheia, que me vai amar ainda mais, quando já me amava de mais, mesmo quando eu precisava que me amasse, se está agora neste tempo que só agora existe ‑ e eu tão longe ‑ fazia?

Fosse o esquecimento como o perdão ‑ e eu esqueceria. Não há mágoa que sossegue no seu merecimento, por maior que seja. Fugiu a doença a que se habituou a minha alma. Eu, pelo

menos, por muito mal que lhe tenha feito, sempre quis, mas nunca acreditei que pudesse curar-me. Abandonei‑me, é verdade, mas sempre levado por ela, fosse parar aonde fosse ‑ não há um único lugar no mundo do qual me possa orgulhar ter lá chegado só por mim.

Eu estava ao cuidado dela. Ela estava ao meu. Foi por isso que fugi. É por isso que ela não podia fugir.

Quando voltar, será à mesma amor, mas não há‑de encontrar o coração sacana e livre que acreditava nela até ao fim. Voltará. Mas virá de uma vida que não foi nem dela nem minha. Nunca mais a quero. Eu queria ser o que sou, o amor dela, como eu era e sou e serei. Não quero ser alguém que o coração dela não aceitou, como aqui aceitava, que aprende que não pode fugir, em vez de já saber, como ela sabia ‑ alguém que, por 'da cá aquela palha, ela pôs à prova ‑ e só depois escolheu. Eu

não escolhi. Quem a amou como eu a amei pode com tudo menos o que não era preciso ‑ ser escolhido.

Quando voltar, serei feliz. Mas já não serei eu.

‑Margarida.

Pensa o marido. Marido o quê? Há quanto tempo foi? Agora é apenas o Francisco. O eremita. O notório onanista do 9.o frente. Cinto castanho de karaoké. Mestre do microondas. Tudo graças à mulher. Qual mulher. Margarida. Qual Margarida. Aquela puta. Se não fosse ela, nunca teria descoberto a aprazível javardice, o prazer ajavardado, a verdadeira solidão.

Ela ficou com a nossa empregada. Ou vice‑versa. Não foi uma escolha difícil. Quem aguenta os meus prazos de validade? Cuecas: 72 horas. Pizzas: 1 semana. «A Bola», »Record» e «Jogo»: até 1998. Filosofia geral: «deixa estar que pode ser preciso» e, para géneros alimentícios: «deve estar bom.»

A Margarida nem sequer tentou reformar‑me. Foi directamente para a repressão, criando uma tensão dolorosa entre a minha natureza e o meu comportamento. Se me tivesse amado, teria feito o esforço de me ir adaptando gradualmente, com paciência e jeitinho.

Acabou por ser melhor assim. Quando fiquei sozinho pude reencontrar‑me, não só sem dificuldade, mas com grande prazer.

Traiu‑me com o meu melhor amigo. Por amor? Não. Por preguiça, porque estava ali à mão. Sabendo muito bem que um amigo com que se trai um marido torna-se automaticamente o melhor. Nunca se ouviu dizer: «Ela fugiu com o meu segundo melhor amigo.» Não tem a mesma força. Podem sempre responder: «Bem, pelo menos ficaste com o melhor ... »

E depois, como se me servisse de consolação, traiu o meu melhor amigo com um homem que ele nem sequer conhecia, de quem acabei por ficar amigo, para ver se o tornava menos atraente aos olhos dela. jantámos juntos e tudo.

Envergonhadíssimos. Ela não. Nós. Ela batia com os dedos na mesa e fazia ora cara de enfastiada, ora cara de desiludida. Eu dizia coisas propositadamente humilhantes, como «Até gosto de ser encornado por ti. És um gajo porreiro.», para que ele reagisse duma forma inevitavelmente mais abjecta, gênero

«ó pá, se eu soubesse que eras tu o ex‑marido da Guida, juro‑‑te que não tinha feito o que fiz.»

Mas a Margarida, em vez de fazer fita, tipo «Olha, muito obrigada!», não ligava. Acho que não gostava muito dele. E isso, combinado com a ausência de amor‑próprio, dava‑lhe uma total invulnerabilidade. Quando, à força de tanto o aturar, comecei a engraçar sinceramente com o rapaz, ela correu com ele. Nem sequer me deu a satisfação da simultaneidade. Podia ter corrido com ele quando chegámos do futebol, esse formidável espectáculo, que gosto de apreciar sozinho, com os meus charutos, agasalhado pelo fanatismo humano da multidão e ao qual só levo um amigo com quem tenha atingido um grau quase sexual de intimidade.

Mas não. Havendo simultaneidade, eu poderia pensar que tinha intervido na decisão dela. Está quieta. Esperou mais umas semanas, para que eu compreendesse, duma vez por todas, que não tinha importância na vida dela.

Seguiram‑se tantos outros homens que acabei por perder os ciúmes e a vontade de a reconquistar. Por um lado, tinha pena, porque ela fartava‑se rapidamente de todos e, deixando de falar a sopeira que trago na minha alma, que só me tem trazido problemas, «nunca alcançou, ou nunca soube o que era, tanto faz, a verdadeira felicidade. Este meu sentimentalismo repele as mulheres. Provoca‑as. A Margarida assanhou‑se uma vez: «Qual é a diferença entre a verdadeira felicidade e a falsa? Estúpido!» Expliquei‑lhe que a verdadeira baseava‑se em sentimentos verdadeiros e sinceros, que era geralmente mais duradoura que a falsa, menos espectacular, menos excitante, mas mais realista, bla bla bla. Em boa verdade, nem me deixou explicar. Só o facto de lhe querer explicar foi quanto bastou para dar um berro e sair.

Mas tinha pena dela. Hi hi. Pobrezinha, a saltar dum homem para outro, sempre insatisfeita. E, por outro lado, tinha um certo nojo. É uma combinação de grande utilidade. Pode ter‑se ciúmes duma mulher de quem se tenha pena. Mas não de quem se tenha nojo. Por outro lado, pode ter‑se vontade de reconquistar uma mulher de quem se tenha nojo.

É fácil. Estou a pensar num período prolongado de quarentena, rico em irrigações vaginais e colónicas, incluindo pelo menos duas lavagens menstruais sinceras ‑ ou seja, um teste de castidade absoluta tanto no mês que termina como no seguinte, por razões de segurança, Habilidade e, por que não dizê‑lo já, de futura performance. Completa-se o tratamento com muitos duches, a aquisição de cuecas e soutiens a granel e a renovação gradual do guarda-roupa, a começar pelas peças mais susceptíveis de terem servido para fins de ordem psico-sexual.

Consegue-se. Com amor, consegue‑se. O nojo não é nenhum bicho de sete cabeças. Terá, quando muito, seis: a boca, o pescoço, os seios, a vagina e o ânus, ficando a sexta zona à discrição de cada um, já que todos temos a nossa pancada. A minha, por exemplo, são os rebentos, louros e rniudinhos, que crescem em surdina onde a nuca se despede dos cabelos, idealmente em airoso rabo de cavalo. Como os da Margarida.

Mas já a pena é mais complicada. É concebível que um homem tenha pena da mulher que ama? Para amá‑la como deve ser, não pode prescindir da pena de si próprio. Quem ama suspira «Coitado de mim!» e não «Coitada desta gaja!». Não se pode ter piedade, por muito que se queira e se tente. Ainda por cima se a pena é como a minha: uma pena enjoada, como a que se tem por um leproso, sentida mas... quanto mais longe, melhor. A compaixão e a repugnância coexistem sem a menor dificuldade. É lamentável, mas a humanidade é mesmo assim.

Seja como for, a minha repugnância compungida pela Margarida protegeu‑me, selando hermeticamente os sentimentos que me pudessem magoar, sem perigo de qualquer contacto com a realidade. Finalmente pude enfrentá‑la num plano de igualdade.

Comecei a visitá‑la. Sempre ao princípio da tarde, para não haver surpresas. A primeira vez que lá fui, fizemos amor, por uma questão de respeito, ambos conscientes da nossa trágica incompatibilidade sexual, com realismo, sem falsas expectativas, para, segundo a minha própria interpretação, ímpartilhável por ela, «provarmos um ao outro que nada tinha mudado entre nós».

Mas mudou. Foi bom. Nunca a vi tão assustada. Estava fora de si. Até perguntei, depois, se tinha sido por minha causa. Beijou‑me na boca e disse-me que sempre tinha sabido que nos íamos dar bem na cama. Achei estranho. Nunca fui bom na cama. Sou sentimental de mais. Não existe em mim o mais leve indício de animalidade. Sou todo humano.

Se calhar era ela, depois de tantas experiências, que tinha aprendido como é que se tira partido de um homem mau na cama. Não me podia queixar. Até porque, tal como ela disse, eu era «o homem da vida dela». Não foi só isso que disse, mas gosto mais assim. O facto de ela ter acrescentado «se o critério for o tempo entre a primeira e a última vez que fodi» não me incomodou.

Sentia‑me um homem novo. Foi a única coisa de que não gostei.

Só isso? Nem mais uma vírgula. É como vos digo. Acontece. Regista‑se. Intervalo. Espera‑se. Mais um bocadinho. Até acontecer outra coisa. Acontece. Regista‑se. Não sai disto. Bem sei que podia expor‑me mais. Andar por aí. Espicaçar as ocasiões. Espremer as pessoas por quem passo, para ver o que é que dão. Mas não é assim que sou. É escusado fingir que não. Nem o contrato que tenho comigo mo permitia. Nisso é muito claro. Está a acontecer? Deixa acontecer. Aconteceu? Regista. E se não acontece nada? Nessa matéria é muito específico: Aguenta‑te. Espera. Por amor de Deus, não pegues na caneta. Tudo menos entrares em delírio. E está certo. Nada a apontar. Quem sou eu para reclamar? Está estipulado. Faz muito bem. Faz sentido.

Todos os dias acordo mais perto do sítio onde adormeci até no tempo dou comigo à mesma hora, sem resposta do relógio, como se não tivesse dormido, passado a noite num momento, enquanto olho para os ponteiros, que não há maneira de se mexerem, mesmo dormindo.

Mais do que a morte, que faria sentido, não consigo esquecer‑me da mais pequena parte da vida, embora feche os olhos, e espere, quanto posso, que o tempo passe ‑ mas o tempo não me perdoa e, todas as noites, se calhar é bonito, pára e espera comigo.

A manhã não sobe, a tarde não se distingue. A cama nunca está fresca nem morna ‑ permanece ou muito quente ou muito fria. Quanto mais me deito mais me sinto levantado, de olhos abertos, encostado ao meu lado da porta, como uma camada de tinta, com uma premonição de sinos. A verdade é que não descanso enquanto não acontecer uma coisa que não quero mas que em vão adivinho.

O silêncio não me pertence. É o ruído do que tu não fazes, de não vires, de não estares, como se não desses sequer por faltar, e a culpa fosse sempre minha.

Tivesse eu um dia por que esperar, ou uma pessoa qualquer, mesmo não sendo tu, descansaria um bocadinho.

Contra ti.

Mesmo que a Margarida fosse para a cama com três homens nunca pensaria «Tenho de admitir que sou uma rapariga com sorte.» Muito menos com três homens por dia. O sexo é muito bom, grande novidade, mas não é um bem precioso. Não era culpa dela que as pessoas não aproveitassem todas as oportunidades que tinham, nem tão‑pouco que não criassem aquelas que não eram capazes de surgir sem uma ajudinha. Porque é que havia de se sentir «privilegiada»? Eufemismo de merda. O que eles queriam era que ela se sentisse culpada.

«Tenho todos os defeitos que existem, excepto a culpa.» Era essa a posição oficial dela desde os treze anos. Acontecesse o que acontecesse, nunca tinha culpa. Teve só uma vez e odiou. Para mais, obrigaram‑na a reconhecer que tinha. jurou que nunca mais. Mas não era injusta. Também se recusava a atribuir culpa a quem quer que fosse, natural ou sobrenatural, concreto ou abstracto. Para ela, ninguém tinha culpa de ter nascido. Nem de ser como era. Todos estão constrangidos. Todos são livres. E pronto.

Os homens eram irritantes. Quanto mais inseguros, mais convencidos. Recusavam‑se a aceitar que faziam parte de uma sequência irrelevante. Achavam sempre que eram um princípio ou um fim. No mínimo, um intervalo. Uma pausa que marcava a diferença. Não lhes bastava ser diferentes. Queriam mais. Queriam ser importantes.

E sempre que visitava a Margarida, lá vinha ele, bem disposto e mal vestido, falar um bocadinho comigo. Dizia frequentemente que não estava ali como marido, não fosse eu esquecer‑me momentaneamente. Que faria ele se estivesse? A mesma coisa. Nada. A especialidade dele.

Se fosse capaz de concebê-lo como vítima, não seria difícil engraçar com ele. Mas há qualquer coisa num homem recém-vindo, de testículos vazios, que me irrita. Um ar superior, de quem já está despachado, uma inexplicável alegria, sempre mais acentuada nas criaturas miseráveis por força do hábito, para quem uma fodinha constitui um triunfo do indivíduo solitário sobre a sociedade inteira.

No caso dele, havia a agravante de ter dormido com a mesma mulher que eu, criando‑se uma solidariedade indesejável, tacitamente estabelecido, que não era mais que uma coincidência genital. Tal como os vizinhos nas casas germinadas. Que culpa tinha eu que tivéssemos sido convaginados?

Tive sempre o cuidado de tratá‑lo com o devido desrespeito, para que não estivesse à vontade, mas ele era insensível. Portava‑se como se eu não existisse.

Eu como se só ele existisse. Uma injustiça. Uma desigualdade inaceitável em democracia. Repetida.

Até certa altura, convenci‑me que aquela presença era o «preço» dalguma coisa que eu teria feito. Tentei entrar no espírito do povo, a ver se conseguia compenetrar‑me que lhe tinha «comido a mulher» ou lá o que é.

Mas «comida» como? Faltava alguma fatia à Margarida? Não estava ela sempre acabada de sair do banho ‑ ou do forno ‑ sempre pronta a comer? As mulheres não são comestíveis. Quando muito, ficam uns minutos com ar de terem comido, que os homens confundem, não sei porquê, com o ar de quem foi comida.

E porque é que me havia de sentir culpado? Fiz alguma coisa que ele não tenha feito? Era sempre ela que vinha a minha casa. Nunca a incitei. Bem gostaria, mas ela não deixava.

Enfim, decidi que não devia nada ao marido dela. E um dia pedi-lhe para nunca mais voltar a minha casa. Ele ficou contentíssimo. Como se eu tivesse confessado que tinha inveja dele. Com a tendência triunfalista que ele tinha, foi com satisfação que se despediu de mim, como quem cumprimenta um adversário derrotado, só lhe faltando dizer «Deixe lá, que para a próxima vai ser melhor ... »

Mal por mal, preferia que não se tivesse ido embora. Nunca me senti tão humilhado ‑ não digo na minha vida, nem tão‑pouco em minha própria casa, mas, vá lá ‑ na minha opinião.

Digo isto como se tivesse sido sempre assim.

Menti.

Se estas coisas acontecerem? Receio bem que sim. Tenho medo que tenham acontecido. E que as tenha descrito tal qual as vivi. Como se não tivesse mais nada para fazer. Não terei tido? Receio que não. Estou a mentir. Eu sei que não tinha. Por isso é que isto é assim, como vos digo.

Porque nem sempre foi.

Se tivesse sido, tinha mais que fazer do que estar aqui, a dizer o que me vai acontecendo, como vos digo.

Ainda dura muito?

Nunca mais chega ao fim.

Numa maré baixa, veio ter comigo alguém do meu sangue. Deixava que não olhasse para ele. Deixou que o tratasse mal. E, em troca, agarrei‑me a ele e dei‑lhe o meu amor. Era uma mulher do meu sangue. De um sangue futuro. Fizesse o que fizesse, sabia que tinha pena de mim e que podia confiar nela. Tinha chegado uma mãe, sem ser a minha. E eu era a escolha estranha.

Pergunto muitas vezes a mim próprio porque é que estou fechado em casa há mais de três semanas, mesmo sabendo que não vou responder. A verdade é que estou naquela categoria irritante que aparece nos inquéritos sob a designação de «Não sabe, Não responde».

Gostaria de saber quem é que não responde porque não sabe, quem é que sabe e diz que não sabe, quem é que sabe mas não responde, e quem é que simplesmente não responde porque não lhe apetece. Pensando bem, estou numa categoria à parte: pergunto mas nem sei nem respondo.

Nem sequer sei se quero saber. E, muito francamente, não é verdade que pergunte a mim próprio seja o que for, qualquer que seja a altura, quanto mais muitas vezes. É só porque fica bem um indivíduo interrogar‑se. Mostra uma certa audácia. Se eu disser «Mas o que é que estou aqui a fazer?», fica‑se com a ideia de que, de um momento para o outro, me dei conta que não estava ali a fazer nada e que isso não podia continuar assim.

Mas eu sei que não estou aqui a fazer nada e isso não me incomoda. Pelo contrário, conforta‑me. Não havendo outra coisa que quisesse estar a fazer em vez desta, que nem sequer precisa de ser feita, por ser nada.

As pessoas é que me fazem coisas, coisas que eu não queria que fizessem. A Margarida, por exemplo, faz‑me falta. Faz‑me amaldiçoar o dia em que entrou na minha vida. Faz‑me fazer a seguir. Se tenciona vir. Ou não. Se pensar no que vai, considera que a «última» vez que veio se pode considerar a última. Ou não. Se a última vez foi apenas a vez mais recente. Por muito afastada no tempo que esteja. Se é que ainda se pode dizer que foi, dalguma forma, recente. Ou não.

Perdi a noção do tempo. De propósito. Estava‑me a chatear. Quando se tem a noção do tempo o tempo, demora mais a passar. Assim vai passando. Depressa não, evidentemente. Mas menos devagar. Suponho eu. Porque não sou capaz de fazer a comparação, pelo facto de não me lembrar. Por alguma razão perdi a noção do tempo. Para poder supor que passa menos devagar, sem ter a certeza, mas também sem ter uma hipótese de descobrir que não é verdade.

Estou cheio de gás. Estou com a corda toda. Como é que sei? Porque está tudo fechado. Porque são seis da manhã. Porque amanhã tenho de acordar cedo.

Os milhares de restaurantes abertos pesam‑me no estômago e tiram‑me a fome. Tenho de esperar que fechem para me vir o apetite.

Apaixono‑me quando dou com os pés a uma namorada e ela não desata a chorar.

Só me afeiçoo aos objectos pessoais que não consigo encontrar.

Lembro‑me sempre das pessoas que certamente já se esqueceram de mim.

É frequente ter saudades de quem nunca conheci.

Só adormeço ao som do despertador a tocar.

Estou a desenvolver uma espécie de personalidade indiscutível. Dantes não era assim. Não tinha esta consistência.

Acusavam‑me disso. Nunca sabia para onde me havia de virar. As pessoas perdiam a paciência. Deixavam de me convidar. Mas eu ia na mesma. Era gajo para isso.

O isolamento fez‑me bem. Era demasiado influenciável. Ninguém podia passar por mim na rua sem me deixar uma impressão muito forte. Favorável, sempre, claro.

Deixando‑me aqui ao cuidado de mim próprio, permiti‑me expandir, soltar‑me, sem medir as consequências e, mais tarde, quando se faziam sentir, não fazia ideia se eram graves. Podem ter sido graves. Atendendo ao meu estado. Por mim tudo bem. O que interessa é que vou fugir.

A Margarida vem‑me buscar amanhã. Tenho a certeza. Tudo indica que sim. Isto não pode durar. já não aguento. Se eu soubesse que seria assim, não me tinham apanhado cá. Tão cedo. Ah pois não. Podiam me ter dito. Eu devia ter perguntado. Como se houvesse alguém ali, disponível, a quem perguntar. Está quieto. Faz como eu. Eu também estou.

Trabalhar é que não é comigo. Serviu‑me de muito a minha fama de trabalhador. Viu‑se. Passei os dias a corrigir e a aperfeiçoar trechos publicados, de livros escolhidos ao calhas. A passar tudo para discurso indirecto. Ou para o condicional. A melhorar.

O dia está quase a nascer. Todos os dias é a mesma merda. Mas tenho medo de me deitar. É a aproximação da claridade. A polícia. Os primos que tenho em França. Alguém para me examinar. Neste estado. É de propósito. Treinam‑nos para tirar-nos das situações delicadas. E depois queixam‑se quando partimos. apanham o gosto.

Não é por mim. Por mim, até ficava. Mas tenho de pensar no meu futuro. Se ainda há por aí alguma coisa que me cabe. Depois de devidamente vasculhado. Quando as cartas estiverem na mesa, sempre quero ver quem é que sabe. Um dia tenciono contar o que me está a acontecer, para que lhes pese na consciência. Por muito reduzida que seja, há-de restar um bocado.

E mesmo a Margarida. Não pode ficar imune. Não emergirá sem um arranhão desta desgraça, se eu tiver voto na matéria, como em tempos tive, quando era menos obcecado. Nem me lembro do que ela fazia aqui nesta casa, quando eu era mais descontraído e ela amava‑me. Esqueço‑me sempre das coisas que interessam. Na altura, sei que um dia hei‑de querer recordar aquele momento, tal é o impacte, mas ainda ele não passou e escapa‑me de repente.

Não deveria ter fechado as portas todas. Sinto-me mais fechado. Quero fugir, mas sei que basta‑me abrir a porta da rua para ser assoberbado por uma vontade louca de voltar. E eram mais três semanas neste estado. E quando chegasse a Margarida eu estaria menos em mim do que agora. Pode ser pouco, mas faz‑se sentir. Ninguém, mais do que eu, sabe o quanto esta pequena confissão corresponde à mais pura das verdades.

Acabou a garrafa de whisky. Há mais de uma semana. Pois continua como estava, acabada. Apetece‑me beber um whisky de quinze em quinze minutos, sem falta, desde que bebi o último, só por beber, sem vontade. Podia ser pior. Quando é que não pode? Isso gostaria eu de saber. Amanhã logo se verá. Eu fico à espera. Não saio daqui. Ela já sabe onde me encontrar. Desde que isso fique claro, não há motivo para nos zangarmos. Vou‑me matar.

Concedessem‑me um único desejo e seria este: que as coisas não acontecessem tanto. Mesmo quando não acontecem eu sou afectado. Supunha que estando aqui sozinho as coisas acontecessem menos, ou mais devagar, ou pelo menos, uma de cada vez. Sou um romântico.

Os acontecimentos sucedem‑se com uma velocidade cada vez maior, um copo de leite que se enche e logo se esvazia, uma vaga ideia do que a Margarida terá dito da última vez que cá esteve que, mal me ocorre, logo desata aos saltos, perseguindo‑se a si própria, à procura da palavra perdida; uma cor num canto que desaparece quando me viro para vê‑la; ganham balanço e a pressa imobiliza‑me, até me ultrapassarem ‑ não é assim que se diz? Ultrapassado pelos acontecimentos, sem sequer a consolação de alguma vez ter corrido ao lado deles.

Não suporto a música das coisas já acontecidas. E, quando dava por elas a acontecer, ensurdeciam‑me. Houvesse, ao menos, um intervalo, para me inteirar, para me recompor, e não me queixaria. Pior que perder é não saber o que se perde. Ter e não ser capaz de reter. Presenciar e não ter força para retribuir. Um sinal de vida. Uma prova de que estava lá. E que vi. O que passou por mim. Nem que fosse só para ficar com uma razão para chorar.

De nada serve uma tristeza que, em vez de passageira, é descontínua. Mal por mal, antes a mais inverosímil impressão de alegria. Até com um acesso de esperança eu arranjaria maneira de me governar. A desilusão é um sacrifício que se faz bem, estando prevenido, quanto mais habituado, como é o meu caso, a jusante dos dias.

Há raparigas tão aterrorizadas pela tristeza que são felizes o ano inteiro, por força de se fecharem tanto, tal a vontade vem ao de cima, como um nenúfar que se desprendeu do fundo de tamanha teimosia. Assim flutuam pela vida fora, recolhendo a chuva como quem recebe uma visita.

Caso da Catarina, para não ir mais longe, não porque não quisesse, mas porque não podia.

Também por ela se aproxima. E vem sozinha. Com aqueles olhos que não tinha mais ninguém, invadidos por erva daninha. Sem remédio e sem socorro, tão verdes que se poderiam considerar resolvidos. Caída no meu peito, a despir os braços que vem pousar, vazios, em cima de mim.

Num Deus‑te‑guarde de cansaço e fantasia. Alheada e inteirinha. De toda a vida, minha e dela, protegida. No meu cuidado manso. Sem um aviso, sem um pedido. Rendida à segurança da minha pele, que só ela tornava no tamanho certo para recolhê‑la, lenta, comprida e macia.

Sempre tentei corresponder, e nunca escondi o espanto nem a devoção ao amor que eu não largara. A Catarina esteve cá mais de dois anos cheios de dias. Manhãs de lume, à luz das noites que paravam e corriam, nem reparávamos a que mundo e a que casa pertencíamos.

Fosse esse o meu amor e eu compreenderia. Nunca um desacerto, nunca um erro, nunca uma palavra desentendida ou dita em cima doutra, ou desperdiçado, ou não querida. Catarina: seja minha a tua paz.

É só por pouco tempo. A qualquer momento, tudo pode mudar. Eu hei‑de esquecer-me de quem espero. Basta‑me reconhecer que mais nada faço se não esperar. E como me ocupa e satisfaz. Perder a vergonha e convencer-me que tudo quanto vejo e sinto não é mais do que a verdade.

Vão morrendo as minhas raparigas. Aquelas que ainda há pouco seguiam em risonho cortejo atrás de mim. Diante da campa da Catarina, curvo o corpo inteiro, consciente que é ela que está viva, que morreu em vez de mim.

Ocupam o cemitério inteiro, quietas e caladas, tiradas do meu livro, das páginas ilustradas onde as fotografei enquanto dormiam. Como mais ninguém sabe que morreram, sou o único no jardim, andando de campa em campa, de manhã até à tarde, e da tarde até à noite, fazendo visitas que nos mesmos momentos passam a ser elas a fazer‑me a mim.

Aproveito bem a liberdade que se concede aos esquecidos, que consiste em lembrar sem ser interrompido, sem realidade que me constranja, sem obrigação de distinguir a memória da imaginação, há muito mistas, inseparáveis em quaisquer circonstâncias, para meu grande alívio, numa operação conjunta de salvamento do que depois de mim restou.

Só no cemitério de raparigas me sinto vivo e fora de casa, sem ter de me mexer, quanto mais sair daqui. É um terreno seco, tão vasto que não deve ter fim, sem nada ao longe, nem sequer o céu. Pela parte por onde ando, apenas duas árvores, encostadas uma à outra, o suficiente para ser jardim, mães duma sombra maior que a soma de ambas, lençol estendido sob a minha cabeça deitada, de luz acabada de lavar, fresca, sem cor, limpa.

Lápides de papel, de tinta amarelecida, sem nome e sem datas, voam de uma campa para outra ou vêm cair aos meus pés, quando páro um bocadinho, quando me canso, ou hesito, ou deixo de procurar, e desisto, pedindo‑me para seguir caminho, sabendo quanto preciso de não fazer outra coisa se não isso.

Não havendo marinha para navegar as lágrimas nem praias onde chegar, de nada me serve fazer o esforço de chorar. Levanta‑se uma ventania inútil da lembrança e só me resta virar‑lhe as costas e deixar‑me levar e ir embora, a fingir que se torna tarde.

Nunca fui sentimental até ao fim do que poderia ter sentido. Serviam‑me os sentimentos dos outros para fazer de conta que estava a participar. Apanharam‑me desprevenido. Daí estes improvisos, de principiante sem mestre nem tempo para aprender. A repetir a mesma simulação falhada, esta fraude encoberta que jamais se descobrirá, que não causará prejuízos a ninguém, nem benefícios, a não ser a quem a vai perpetrando, incapaz de as contabilizar.

A minha Ana. Só tendo saído da minha vida é que digo assim os nomes das raparigas. Com reticências. E um sopro no coração. A sensação de posse ocupa‑me de tal maneira que só depois de desaparecer posso dar‑me ao luxo de passar aos pensamentos de propriedade. São como terras da minha infância, há pouco perdidas, que me ponho a reconstruir, mais bonitas do que eram, com a mesma força com que me recuso a visitá‑las desde que passaram para outras mãos. Mãos em que nunca penso, todas elas anónimas, indiferentes e iguais.

A minha Sofia. A faísca dos fusíveis. A rainha do quadro. De chave de fendas na mão e jardineira até ao rabo, a lutar sozinha contra os quilovates. O chão da cozinha, revestido de parafusos e resistências, de membros amputados, de torradeiras e esquentadores, era a concha Botticelli ‑ dela, particular. Que cegos são os homens, retroseiros, que só têm olhos para lingerie, cansando tanto a vista que nem sequer reparam no factor principal da sexualidade feminina: a existência ou, querendo ser mais simples, a actividade.

Como um cão eu vivi com cada uma das minhas raparigas. «Senta!», «Dá a pata!», «Morre!» Fui muito bem treinado. A obediência era a minha única maneira de exprimir o amor que, por falha humana, não sentia por elas. Mas não era por isso que deixaria de lhes dar a melhor reprodução que um coração podia comprar. Não que convencesse alguém. Mas chegou a haver quem se dispusesse a duvidar.

‑ A Margarida é a única que não é minha. Se fosse, escusava de gastar tanta energia a impedir‑me de pensar nela, obrigando‑me a pensar nas outras todas, apesar de me faltar qualquer vontade. Seria demasiado patético pedir‑lhe que viesse cá, só mais uma vez, para me dizer que nunca mais iria voltar? Em vez de simplesmente rezar para que isso acontecesse. Amanhã. Já. É o mal deste tipo de sequências em que as pessoas vão aparecendo com intervalos gradualmente maiores. Sabe‑se que a coisa está a correr cada vez pior, mas nunca se sabe se já atingiu o pior ponto ou se ainda há um ou dois que ainda faltam antes de acabar.

Não aceito que o último intervalo possa durar até ao fim da minha vida. Preferia acabar já. Mas só se, por acaso, já acabou. Porque não faço ideia se ainda vai continuar. De repente percebo aquilo que as raparigas estão sempre a dizer ‑ «Diz‑me a verdade!,> ‑ que interpretava como uma forma de avisar: «Eu não te perdoo se não fores totalmente convincente!» Nestas situações, de facto, a verdade é o que mais apetece ouvir. Só a verdade mata esta sede.

Por que desperdicei eu tanta massa cinzenta em mentiras de verosimilhança inatacável quando podia ter poupado o trabalho, respeitar‑me mais um bocadinho, dizendo apenas a verdade? Por uma estranha razão, as mulheres confiam na verdade. Por muito inacreditável e dolorosa que seja, aceitam‑na imediatamente, sem sequer fazer mais perguntas para a confirmar. Elas que são tão perguntadeiras e desconfiadas. Até custa a acreditar. Mas é bem capaz de ser verdade.

Pensava eu que gostava da Margarida porque vinha e ia‑se embora quando lhe apetecia. Não me perguntava nem me pedia nada e não se importava que eu procedesse da mesma maneira. Era a rapariga ideal.

Agora sei que gostava dela porque «quando lhe apetecia» era todos os dias. A partir do momento em que deixou de cá vir todos os dias, chamando a atenção para a irregularidade do apetite dela, comecei a odiá‑la, mal percebi que, durante aquele tempo todo, eu até a amava.

Que bem que o amor se esconde, raios o partam. Deve saber que aumenta a expectativa de vida quanto mais tempo passar na clandestinidade. Onde é mais eficaz. Alterou‑me ao ponto de me perguntar, mais do que uma vez, quase cem, se ela não teria deixado de vir por se ter dado conta que também ela se estava a apaixonar, julgando erradamente (como eu) que não estava a acontecer a mesma coisa comigo.

O amor, de facto, afasta as pessoas. É a única solução a que posso chegar. Ou o meu, ou o dela, ou o dos dois. Antes fosse só o dela. OU, embora menos desejável, o dos dois. Tudo menos ter sido só o meu. É preciso azar. A probabilidade de não ser era de 66,66%. Estava a meu favor. Na roleta, quando se aposta 10 contos em 2 das três filas, a probabilidade é a mesma. Quando se perde, perdem‑se 20 contos. Quando se ganham, ganha‑se 10. Há uma certa equanimidade. No amor não há nenhuma. A palavra não consta sequer no vocabulário.

E não é só isso. Quando ela vinha, a presença dela dava-me um certo trabalho. Condicionava os meus movimentos. Atraía a minha atenção. Tanto mais que, mal se tivesse ido embora, era um alívio. Podia voltar a fazer o que me apetecia.

Agora verifico, pesaroso (bem sei que é uma palavra ridícula, mas a exactidão força‑me a empregá‑la), que, pior ainda que a presença dela, em termos de ocupação e de restrições, é a ausência. Presente, levava‑me a fazer certas coisas. Ausente, obriga‑me. Com a agravante de haver uma diferença enorme, em termos de agradabilidade, entre o primeiro e o segundo conjunto de coisas.

Presente, eu podia distrair‑me. Esquecer‑me que ela estava ali. Ausente, não consigo deixar de concentrar‑me nela. Ou esquecer‑me que ela não está aqui. Ocupa-me a casa toda, a cabeça inteira, cada minuto disponível do meu tempo. Se ela viesse ca, só para eu poder descansar um bocadinho... Toda a gente precisa de divertir‑se de vez em quando. Toda a gente tem mais de uma coisa em que pensar. Toda a gente merece um pouco de privacidade. Será muito pedir que me incluam nesse grupo de toda a gente ao qual tenho o direito de pertencer?

Nem sequer tive a oportunidade de me dar mal com ela. escusado andar à procura dum mau bocado, dum momento fugaz de infelicidade, para me consolar. Ela privou‑me do direito fundamental de dizer «Também é preciso ver que ... » Ou, pelo menos, equilibrar um pouco a balança, dizendo que «Nem tudo foram rosas», porque não houve espinhos. Também não houve rosas, mas com isso posso eu bem ‑ o que seria de mim se tivesse havido?

Estou farto de tê‑la sempre cá em casa, pelo simples facto de ela nunca cá pôr os pés. Vou telefonar‑lhe. Se houvesse pratos SUJOS, poderia pôr tudo em pratos limpos. Assim vou ter que tentar arranjar um prato qualquer primeiro. Qual será? Sacavém («Ou sim ou sopas, ouviste»)? Alcobaça («Gostava de falar contigo, se não te importares»)? Ou Vista Alegre («Como é que tu estás, Margarida? Estou cheio de saudades de ti!»). Um produto branco, pensando melhor.

Marco o número. Poderia estar a jogar às charadas, a tentar que a minha equipa adivinhasse o título do romance «Varas Verdes». Deixo tocar durante cinco minutos. Ninguém responde. Desligo imediatamente.

Onde estará ela? É preciso telefonar para nos interessarmos em fazer esta pergunta e ficarmos frustrados quando não obtemos qualquer resposta. Quando não se telefona, a pergunta é mais simpática: O que estará ela a fazer neste momento? As pessoas não fazem ideia o quanto somos influenciados pelas nossas acções. Quando se arranja coragem para fazer um telefonema e ninguém responde, não ficamos mais consolados, a pensar «Mas que estúpido que eu fui! Mas que besta! Nunca mais!» e passamos a noite inteira a querer ligar para lá desesperadamente.

Coisa que não e tão ma como se pensa porque, sabe‑se lá porquê, provoca em nós a ideia muito bem‑vinda que temos uma certa razão. Quem tenta encontrar parece mais séria que quem não se encontra em parte nenhuma, nem faz nada para que seja encontrada. Seja em demanda do Graal ou da Gracinha, à pessoa que procura é concedido um mínimo de dignidade. O mesmo sucede com quem espera. No meu caso, junta‑se o inútil (esperar) ao desagradável (procurar) e tenho direito a uma compensação dupla.

Deus queira que não me vicie nesta tão patética superioridade. A qualquer momento começo a gritar «Enquanto tu estavas a divertir-te não sei onde, eu estava aqui a sofrer e a chorar». Como se se pudessem comparar as coisas. Como se houvesse alternativa. Como se a diversão e o sofrimento fossem resultados duma escolha.

Escolher ‑ é um sonho. Há quanto tempo não tenho uma

Se ao menos a minha tristeza tivesse sido escolhida‑oportunamente!

‑ nem era preciso que fosse por mim ‑ seria mais fácil suportá‑la. Se me tivesse sido imposta. Se só me restasse mentalizar‑me. E houvesse alguém que pudesse responsabilizar.

Não há nada que se pense de que ela não fosse capaz, a rapariga sem nome que há muito não corre ao lado de mim.

Só podem ser românticos aqueles a quem um romance ainda não aconteceu. As pessoas com as caras mais tristes, que se vêem por aí, são as que já foram as mais felizes. As mais desprendidas ‑ são ‑ as que já estiveram presas e só depois de soltas deram por isso. As mais indiferentes são as que já gastaram todas as preocupações, e as forças para se empenharem, que tinham para gastar. Felizmente é assim.

E só alguém que já teve uma grande certeza se pode enganar, se deixa enganar, procura enganar‑se, sem medo, nem grande risco, nem nada que não se possa perder.

São as pessoas que nem sempre foram assim. Nem que tivesse sido ao longo de pouco mais do que um instante. já é muito. já chega para que não possam ficar na mesma. Nunca mais as mesmas. Nunca por enquanto. Sempre para sempre.

E uma pessoa deixa-se sempre àquela que mais merecia. Não por ser a melhor a receber‑nos. Podemos até ser todos mal recebidos. Desperdiçados, deitados fora, destruidos. Mas sempre por quem mais merecia. A única a quem quisemos dar tudo o que tínhamos. Não é preciso mais para que mereça. Que nos resta para podermos pôr‑nos a imaginar que escolhemos, se já muito antes estava tudo decidido?

A rapariga sem nome era capaz de tudo. Até de ter ficado comigo.

É possível.

Vem a vizinha. Toda a gente bate à minha porta menos ela. Eu fujo das raparigas como da polícia, porque vêm para entrar e, quando entram, ficam ou, pior ainda, levam‑me para outro sítio. Mas a minha vizinha é querida, no sentido de desejada, porque é desconhecida e imagino o melhor.

Traz o mundo na cabeça ‑ é um mundo fresquinho, atrás de terra, olhos castanhos de quem obrigou o céu a estender‑se aos pés dela; um perigo devidamente sinalizado. Apetece juntar‑lhes água, puxá‑los para mim e deitar‑me a brincar na lama com eles. Uns ombros de melhor amiga, lábios colados à boca, que dizem tudo sem se abrirem, e pernas muito altas que, por muito que se espere, nunca mais chegam à barriga.

No código do que não diz, que não tenho e que estupidamente procuro aprender nas poucas palavras que ouço, sinto a distância de corações mais partidos que apartados, recolhidos na carne do peito como um sinal antigo, daqueles que se trazem desde bebé, entre as maminhas.

Peço‑lhe, é esse o verbo, que entre e me faça o equivalemte a festinhas ou amor ‑ companhia. Senta‑se à minha frente e, como me apetece assaltá‑la, rasgar‑lhe a camisola da pele, vou fazer‑lhe uma bebida, enorme, que ela segura como uma tocha na noite de um castelo da primeira dinastia, deitando fora o que resta da minha vergonha.

Conta‑me o mar e o mundo, em sílabas que são menos que os meus dedos. Brilha uma inteligência do tamanho da minha vontade de tê‑la sem piscar, com uma luz que lhe sossega a beleza e me põe maluco.

Ajoelho‑me diante dela, segurando‑lhe as ancas, com medo que se vá embora, entregue a uma violência descoberta que há‑de persegui‑la ou violá‑la durante o resto da minha vida.

Na força das minhas mãos, a minha vontade atira‑se. Para o medo dela, do qual, em rigor, não preciso mas não dispenso, feitas em algemas maiores do que ela, prendendo‑a na cela do meu corpo. Ela enfia os dedos no meu cabelo. Quem me dera que o arrancasse, para ficarmos quites. Mas não. Puxa-me para o colo, como se tivesse pena ‑ e essa pena fosse a resposta exacta ao meu tesão. Afundo‑me e, ao perder-me, ataco o que me prostrou, vingando a minha vergonha na ganga quente, onde imagino tanto quanto posso que ela começa e termina.

Deito‑me na minha jaula, ao pé de onde ela caiu, como um tigre a tapar um flamingo perdido, com todo o meu peso, sobre tanta velocidade e vida, para poder pará‑la e impedi‑la de voar, de existir sem ser comigo. Os meus braços apertam-na mais do que deveriam e magouo‑a. Na força com que lhe faço mal encontro a razão resolvida da minha alegria.

«Vem para a cama. Eu aqui não consigo abraçar‑te.»

Ela levanta‑se, bem intencionada e mal convencido. Quan- do a apanho de pé, alta até à minha boca, abraço‑a como se quisesse esconder, proteger das ameaças que só eu personifico, como se se tratasse de outra pessoa e eu fosse o único amigo que ela tem. Imagino. As minhas mãos sobem, de nódoa negra em nódoa negra, pelo corpo dela acima, até chegarem enfim ao rosto que tenho de imobilizar e só imobilizando consigo beijar, nos olhos mais do que na boca, arrastando os lábios como se pesassem toneladas e não os conseguisse mover, não fosse ela, sem dizer nada, a deixar‑se tomar, como se estivesse a pedir, imagino.

Aperto‑lhe a cintura. São mãos a menos. Abro os meus dedos como compassos que procuram traçar perfeitamente o rabo dela, debaixo das calças, com a ganga a parecer‑me pele nua, tal é o desasossego da minha felicidade.

Ela faz de conta que se rende, que consente. Mas quem faz o que ela quer não é ela ‑ sou eu.

Não é preciso despirmo‑nos. Pelo menos no princípio. Antes de fodermos, já fodemos. Quando puxamos as calças, abrimos apenas o caminho que é preciso e fodemos como doidos há que séculos conhecidos, na cama por desfazer, ela a virar‑se de costas, eu a molhá‑la com as mãos, num momento de fogo escuro, ligados como siameses, a assassinar uma saúde que parece ter começado a crescer no dia em que nascemos. Como se nos tivessem separado.

Só depois de fodermos conseguimos fazer amor.

Não gostámos nada.

Voltamos atrás. Fizemos tudo para não nos conhecermos. Ela vinha quase todos os dias. Quando não vinha, ia eu a casa dela.

Ficávamos sempre surpreendidos. Eu tinha muita sorte.

Falávamos na cama como se nos tivéssemos encontrado num comboio. Até que fomos mesmo, para a Escócia. Foi muito bom, mas esquecemo‑nos que tínhamos de voltar. Foi muito comprida a viagem. Ficámos amigos. E tristes. Nunca mais nos vimos. É sempre um erro querer mais do que muito. Mais do que muito é menos do que nada. Só perto do amor é que uma pessoa se distrai e se perde. Perdemo‑nos, a minha vizinha e eu. Pensávamos que seria por pouco tempo. Se é que chegámos a pensar. Se alguém continua nos meus braços e me impede de dormir ou de estar sozinho é ela. Eu não sou. Imagine‑se.

Acordo com alguém a bater‑me à porta. Do género que, de dez em dez segundos, cada vez bate mais, obrigando‑nos a chegar lá mais depressa do que nos apetecia, na ânsia do barulho parar. É a Joana. Estava preocupada comigo. Estava? E agora? já não está? É assim tão simples? Basta ver‑me vivo e, pronto, já pode descansar?

Não fala no estado em que a casa está. Não repara no meu aspecto. Certifica ‑se que há comida na cozinha, que o telefone tem linha, que a impressora tem papel. Antes de se ir embora, chega a perguntar «O que é que se passa contigo?» mas estraga tudo ao dizer: «Bem, eu não tenho nada a ver com isso, mas vê lá, tem cuidado contigo ‑ ouviste?» Espectacular.

No cemitério das raparigas, procedo à sua trasladação, para que não pense que basta aqui entrar. Dou baixa dela. Por mim, pode regressar à actividade. Mesmo que quisesse, depois de vê‑la assim à minha frente, já não consigo imaginar, quanto mais dar pela falta dela e dar‑me ao trabalho de a ressuscitar. Para mais cheia de vida como ela está.

Há um desmoronamento. Eu deixo‑me soterrar.

«Estraga‑te», disse‑me.

«Despacha‑te», disse-me. Bebe. Fuma. Droga‑te. Morre. Deixa‑me viver sem ti, ao menos uma vez na vida.

Está bem. Estamos apaixonados. É Verão. Somos novos. Estamos presos. Pela boca. Pela cintura. Por incapacidade. Por amor. Estamos fartos.

A minha irmã diz: «Estás a dar cabo de ti.» Mas eu sou um boi. Por muito que tente, não consigo magoar‑me. Bebo. Fumo. Drogo-me. Mas não consigo matar‑me. Sou lento.

«Dá‑me uma oportunidade, diz ela. E eu gostaria de dar. Mas a vida tem apego por mim. As estrelas devem velar, os anjos proteger, o corpo contrariar, de maneira que não tenho mão em mim. Por muito que eu tente, por muito que me entregue, não consigo lá chegar.

As pessoas andam atrás de mim e não me deixam. Eu queria ficar sozinho e morrer em paz. Mas não tenho lugar. Gosto tanto delas que não consigo afastar‑me. As noites prolongam‑se até serem elas que se vão embora. E uma rapariga diz «Fica comigo» e eu sei que faço asneira, mas fico, porque não sou capaz de não ficar.

O meu amor pela Margarida foi finalmente correspondido. Saí de casa. Voltei à minha vida normal. Não me venham dizer que, nesta vida, nada se repete. Como é desanimador o pessimismo reinante! E o optimismo. E o cepticismo. Porque se há‑de ter uma atitude pessoal perante a vida, ou, pior ainda, pensar que a vida não tem mais que fazer a não ser tomar atitudes acerca de nós?

Bastou ela entrar outra vez em minha casa, despir‑se e fazermos amor, com excelentes resultados, para perceber que não amava, nem Jamais amara, aquela nossa amiga, a qual terei doravante na mesma boa estima em que sempre a tive antes de ela desaparecer, nesse recinto generoso mas com limites bem definidos, sublinhados com arame farpado, por causa das ideias, para não dizer merdas, que fica mal.

Quando me apanhei sozinho, peguei na minha imaginação, como um ventríloquo num boneco, oferecendo o joelho mais confortável, e ralhei com ela ‑ oh com que boa disposi- ção! «Sua marota!» foi, mais ou menos, o tom. E eu, que apesar de tudo, tenho muitos atributos, a deixar‑me levar por ela. Oh que tonto! Oh ou acabá‑lo sem um ponto de exclamação, que tótó! Foi-me difícil não começar cada pensamento sem um Oh, tal era o meu estado de idiotia e alívio.

Era aquela a «Margarida», causa de todas as minhas preocupações? Foi naquela chávena de chá que encenei a minha tempestade Como aquelas companhias de teatro independente que, sem se deixarem desanimar pelos meios em mão, tomam uma garagem num oceano e fazem Shakespeare com dois tostões. Deixem‑me rir. Como dizem os ingleses, com não pouca desilusão, quando esperam ansiosamente uma visita crucial e aparece um gato muito mais adorado que passa lá a vida: «It's orily Twinkles ... »

Era só a Margarida. Irreconhecível à primeira vista, familiaríssima à segunda. A velha Margarida, Deus a guarde. A que todos conhecemos e que só eu, esmagado que estava, por uma pilha de factores reunidos, desconheci. Gostei de a ver. Mais por ter gostado do que por ter visto.

«Achava melhor que não nos víssemos durante uns tempos ... »I disse ela.

«Também acho», respondi. «O que lá vai, lá vai ... » «Não é por nada ... » «Claro que não. Mas já basta.» «Podemos ver-mo‑nos de vez em quando ... » «Até ao lavar dos cestos é vindima. Lá isso é.» «Ou achas má ideia?»

«Foi chão que já deu uvas, se calhar.»

«Pois é. Assim não vale a pena continuar.» «Tu é que sabes, Margarida.» «Não ficas chateado? Eu já não aguentava mais.» «Bem me pareceu», disse ela antes de sair.

Depois, no meio do meu contentamento em ter voltado à miséria do costume, senti falta do meu amor. Mas passou imediatamente. Era o que faltava. Para a frente é que é caminho. Para trás do caminho acabado de percorrer, de pés descalços e coração entrapado, suando gotas de sangue, enganado por sucessivos motoristas, qual deles o menos católico, que me indicavam Fátima apontando na direcção de Beja.

Desatei a trabalhar como se a minha vida dependesse disso. Sucumbi ao minúsculo fascínio pela mente minúscula do criminoso violento. O que os levava a fazer aquelas barbaridades? Não podia ser apenas a sociedade, o sadismo, a vingança, a necessidade de afirmação, a loucura, a infância infeliz, a sexualidade retorcida, a voz de Deus a ribombar‑lhes no ouvido, a televisão. Todos somos susceptíveis a essas coisas e não é por isso que nos damos ao trabalhão que requerem os crimes minimamente hediondos. Não; era preciso mais alguma coisa. E só havia uma maneira de saber...

Matei o gato. Bastou uma pancada seca com o aspirador de migalhas. Na mesa da sala, coberta por um oleado (um Barbour velho, para ser sincero), já estavam o facalhão de talho, a máquina Polarold, os sacos pretos de lixo e a fotografia da minha mãe, com os olhos furados com o bico do compasso.

Num lance, meti‑me no carro e só parei quando avistei o letreiro dum veterinário. Entrei de rompante na sala de consultas e depositei o gato na marquesa, afastando o caniche tremelicante que se recolhia num cestinho, como um ponta‑de‑lança num desafio Parkinsons vs. Alzheimers.

Olhei para o veterinário com plangência mal disfarçado. «Vamos lá a ter calma», disse o profissionalão, todo eu‑já‑Vi‑tudo e só-me‑faltava‑mais‑esta, «O que é que se passa com este nosso amigo?»

«Acho que está morto.»

Não há nada que me choque. pôs a mão na barriga do pobre bicho e anunciou, como se fosse óbvio:

«Bem, morto não está. Está é inconsciente. O que é que lhe aconteceu?»

«Não faço ideia. Quando cheguei a casa já estava assim.» «Pois, pois ... », disse ele a encher uma seringa.

«Foi a mulher‑a‑dias.»

«Vou dar‑lhe uma injecção e depois faço uma radiografia.» «Já não é a primeira vez que isto acontece ... » «Pronto, jà está pronto para outra», disse ele quando o gato começou a espernear.

«Amanhã vai para a rua.»

«O senhor sabe, não sabe, que existe uma Sociedade Protectora dos Animais e que é minha obrigação informá-la do estado do gato ...»

«Deixe estar, senhor doutor, que amanhã de manhã hei‑de lá estar quando abrirem as portas.»

«Para a próxima, tenha mais cuidado.»

A lata do bicho! Se não tivesse toda a razão, eu dizia‑lhe... Havia de não ser comigo.

Quando recomecei a trabalhar folheei o livro que estava à mão e, à medida que as fotografias dos assassinos iam passando, sofri uma inversão ideológica e dei comigo a pensar que a pena de morte era boa de mais para eles.

A resposta à velha pergunta acerca do que tê‑los‑ia levado a praticar tais coisas foi instantaneamente simplificada: porque eram maus. O problema é que a língua portuguesa, tal como a espanhola e a francesa, não contém a palavra adequada para descrevê‑los. Em inglês seria fácil: eram evil. O Mal incarnado. O Mal em pessoa. Constante. Irremediável. Natural.

«Mau» é uma questão de qualidade. Tanto é mau Hitler como um pneu. Diz‑se «Tu és mesmo mau» a um indivíduo e tem tanto de condenação como de elogio. E o diminutivo? Admite‑se que «Mau» tenha direito a esse carinho? Quem é que não gosta de ter fama de mauzinho?

Malvado é pouco. A malvadez chega a ser enfeitada com «requintes». Mausão dá ideia que é doença, que nasceu assim, que não tem culpa. Maldoso é temporário. Malfeitor é profissão. Malévolo fica‑se pela vontade. Desumano é desculpa, não fossem os seres humanos os «mais maus» do planeta. Terrível, sinistro, hediondo, tenebroso, monstruoso... palavras emprestadas, que se referem mais ao efeito do que à causa, que não se pode. Se é que se pode dizer assim.

Sendo esta a palavra que mais frequentemente precisarei de empregar no meu livro, não podia ser pior a minha situação. Será muito ridículo e pretensioso recorrer a evil? Será. Não é de um momento para o outro que se estabelece uma palavra estrangeira na nossa língua. Quando penso na quantidade que já há witty, manque, soutien ‑ e comparo a sua utilidade à palavra evil, vêm‑me as lágrimas aos olhos. Que irresponsabilidade. Seremos assim tão bons?

E se eu optasse por «vil»? Ou, cedendo a pressões pós‑modernas, «(e)vil»? Estou mesmo a ver: «Ted Bundy foi um dos homens mais (e)Vis deste século.» Parênteses? Andam a brincar ou quê? Sempre que se acrescentam letras entre parênteses a uma palavra, é como estar a interromper o leitor, alertando‑o para a nossa esperteza, para a forma lúdica como reconhecemos a fluidez e inconstância da língua, género «Não sei se estás a ver? Há? Está giro, não está?»

Ninguém mais do que eu está consciente do risco que corro, Tudo depende do que se entende constituir um acontecimento. Eu, por natureza, sou generoso nessa matéria. Pelo sim, pelo não, adopto uma atitude estritamente laxista, não se va passar alguma coisa que só mais tarde se veja ter sido, ao contrário do que parecia, pertinente, ou importante, ou vital até.

Mesmo assim, é impossível fazer-se ideia da quantidade de material que vou excluindo. Não me refiro a refeições e idas à casa‑de‑banho e horas a ver televisão. Se fosse só isso... Não. Houve conversas. Disseram‑se coisas. Passou-me pela cabeça uma série de ideias. Trocaram‑se fluidos. Deram‑se beijinhos e afins. Mas resisti. Não que complicassem fosse o que fosse. Dada a extrema simplicidade dos eventos, qualquer complicação seria obviamente bem‑vinda. Não foi por isso.

Tenho de arranjar, como é que se diz?, um critério de selecção, isto é, um método que eu posso explicar no exterior, a todos aqueles que nada têm a ver com isto.

Tempo não me falta.

Margarida cai em si e não consegue levantar‑se. Lembra-se do estado de tudo o que era dele. Da casa dele. Da cara dele. Do estado de espírito. Da roupa. Da atitude. Da felicidade. Do esforço para disfarçar, para ela não se sentir mal.

Nunca um homem tinha feito tanto por ela. Fechar-se daquela maneira. Sem dizer nada. Esperar tanto tempo. Sem se cansar. Tão mansinho. Sem pensar noutra coisa. Senão nela.

E ele, que parecia tão indiferente, tão filosófico, tão tanto‑me‑faz e por‑mim‑tudo‑bem... Afinal era tudo fachada. Que estúpida! Ele amava-a.

E ela, não o amaria um pouco também? Por que não? Não seria a primeira nem a última vez que se apaixonava ligeiramente por um homem, sem dar por isso. Mas que interesse é que tinham estas interrogações, comparadas com o facto de ter encontrado, finalmente, um homem que a amava, que a amava mesmo, como ela era, sem contrapartidas, sem tratamentos especiais?

Não havia no mundo pessoas menos amáveis do que ela. Nunca deu confiança a ninguém para isso. Era desamada que gostava de viver. Por outro lado, nunca tinha tido a experiência de ser amada. Não seria mais inteligente confirmar que era melhor viver desamada, deixando‑se amar por uns tempos, só para saber como era? Não que esperasse que fosse diferente do que ela imaginava: um inferno depois dos bombeiros terem apagado todos os fogos, encharcado e pastoso, mal cheiroso e monótono, sem mobília, sem livros, sem luz sequer.

Mas ficaria mais descansada se comprovasse esta certeza que tinha, no «terreno», como se dizia. Nem seria preciso ser excessivamente laboratorial. Podia até perder um pouco a cabeça, para o teste ser mais fiável. Os riscos eram irrisórios. Ele, pela parte que lhe tocava, não podia sofrer mais do que já sofria. E merecia um período de intensa felicidade, com ela nos braços, sempre perto dele. Por muito breve que fosse. Seria uma realidade, indesmentível, pronta para servir para toda a espécie de recordação. Poderia dizer, com razão, que tinha sido o único que a amou, o único por quem ela se tinha deixado amar.

E, para mais, ela não parava de pensar nele. Como nunca dantes tinha feito. Como mais ninguém. Era querido. Era mais interessante do que parecia. E amava‑a com um amor puro e tradicional.

Que estaria ele a fazer naquele momento?

Eu não sou para aqui chamado, nem daqui expelido, porque não está cá mais ninguém.

A rapariga que eu amei.

Eu.

Mais ninguém. Quer dizer, só fico eu. A interromper‑me. Por não poder continuar como sou sem me lembrar que nem sempre fui assim.

Já fui como os outros, quando eram o que já não são, ou que ainda não são o que acabarão por ser.

Sou mais que uma testemunha inocente da minha vida, apanhada a fugir do local desse crime e obrigada a depor e sujeitar‑me ao julgamento dos outros.

Também eu já fui autor. Actor. Fiz a minha vida. E entrei nela. Durante uns tempos.

Já tive vontade. já tive importância. Já vivi fora do mundo. Já aqui estive sem ser à espera. já fui eu quem aparecia, quem obrigava as coisas a acontecer, quem me opunha, quem me convencia, quem lutava pelas coisas em que acreditava, quem não descansava enquanto não tivesse o que queria.

Se já não é assim que sou, o que fui já ninguém me tira.

Antes de ser uma pessoa, fui homem. E era ser homem o que na altura me apetecia.

E tenho uma testemunha. Que nem sequer sabia.

O meu amor existiu. Só o meu amor, por quem o tinha, pode dizer que jà o tive. Se já cá não está para o dizer, lá terei

de ser eu. Existia. Eu que o diga. Foi meu. Mesmo que ela nunca tenha sido minha. Não foi preciso. Ela existia. Era tudo quanto eu precisava e queria.

Isto agora, com a Margarida despachada, vai ser um ver‑se‑te‑avias. Era o único obstáculo entre mim e as outras raparigas. Elas eram compreensivas. Compreenderiam.

«Há uma coisa que tenho de ir fazer antes de ir para a cama contigo ... »

É um clássico. Nunca se pergunta. «O quê?» E, mesmo se perguntassem, eu responderia.

«É ir primeiro para a cama com a Margarida.» «Não te demores.»

«É um instantinho

E, passadas umas semanas ‑ e o que são umas semanas na vida de um homem? Ou até duma mulher? ‑ lá aparecia eu, lavadinho de fresco, esfregando as mãos, para espalhar o creme, com o ar satisfeito de quem conseguiu finalmente desentupir o lavatório:

«Prontinho!»

«Vem cá, meu grande malandro!» «Sou todo teu.»

«Já não era sem tempo.»

«já passou... Teve muitas saudades minhas, a menina? Desculpinha ... »

«Cala‑te e passa para cá a gaita, antes que me chateie.»

Tudo num ambiente de genuína, mal contida boa disposição, como só entre dois adultos sexualmente activos se pode gerar. Seguido duma bela conversa. Confissões com garantia de impunidade. Troca de traições com o perdão mútuo em funcionamento constante. Oportunidades únicas de utilizar termos pirosos como béguin e «caso». E frases do tipo Ela apanhou-me numa fase muito fragilizada e vulnerável da minha vida. As minhas primas tinham acabado de morrer naquele desastre horrivel em Alcântara... Não havia um único editor que quisesse publicar o meu livro... Estava a fazer obras em casa...

Melhor que isto a vida não pode ser. Não me venham falar do amor de mãe, ou de praias desertas, ou da amizade (digo isto porque nunca vieram, com o maior à vontade). Dêem‑me ‑ e, se possível, devagarinho ‑ uma rapariga bonita já deitada na cama, com aquela carinha que só elas têm, a espreitar por baixo do lençol, e podem ficar com os Ferraris, a Amazônia, o poder político, o Cinema, os filhos e tudo o mais que quiserem.

A primeira a marchar foi a Joana. É verdade. Quem diria? Foi tudo muito inesperado e bem‑vindo.

«Sabes que não me lembro de ter ido contigo para a cama?», disse ela, no meio duma discussão acerca de grafismos. «Faz um esforço.»

«Juro‑te. Nem sequer me lembro se foi bom.» «Se fosse mau, lembravas‑te.» «Isso é verdade ... »

«Podemos continuar, perguntei.

«Claro. Acho muito má ideia juntar as fotografias todas no meio do livro.»

«Eu lembro‑me ... » «De quê? De que é que estás a falar?» «De como nós éramos na cama.» «Outra vez?»

«Tu é que puxaste a conversa. Agora já não consigo concentrar‑me.»

«Diz lá, então. Era bom?»

«Tu sabes que era bom ... »

«Pronto. Agora fiquei com vontade de ir para a cama contigo! Que chatice! já sabes como é que eu sou ... »

«Como é que és, como?»

«Como se nunca te tivesse aproveitado ... » «Não me lembro. juro!»

«Bem, isto assim não dá. Tenho de te fazer esta pergunta... És capaz de vir comigo para a cama, se fazes favor? Se não fores, diz. Não te preocupes.»

«Deves estar a brincar comigo... adorava!» «Então embora lá.» «Assim sem mais nem menos?» «Querias violinos, não?» «Eu não. Tu é que podias querer ... »

Agarrou-me. Beijou‑me como se eu fosse um objecto, mesmo como eu gosto.

Depois de fazermos amor, perguntei‑lhe: «Então? Já te lembras?» «Achas que me tinha esquecido? «Mas disseste ... » «Menti. Porque é que julgas que vim para a cama contigo?

De repente, lembrei‑me, não sei porquê ... »

«Cá em casa, estás à vontade ‑ podes lembrar‑te sempre que quiseres.»

«Se quiseres que te diga, tinha ideia que era bastante

melhor ... »

«Melhor que isto? ó querida, não há!»

«Pois... Como diria Perry Mason, eu resto o meu caso ... »

Fiz o ar magoado que estas situações exigem. É provável que nunca tenha estado tão contente em toda a minha vida.

Tem graça. Quanto mais se vai para a cama com raparigas, mais elas querem ir para a cama connosco. Quanto mais dinheiro se tem, mais dinheiro nos querem emprestar. É um mundo muito injusto, este em que vivemos. E feio. Só aqui é que se vê falar‑se de raparigas e dinheiro no mesmo parágrafo.

Quando se precisa de sexo, as raparigas fogem, repugnadas. É natural. Não há expressão mais repelente que aquela que denota insuficiência sexual. A ânsia. O esbugalhamento. A concentração. A rendição abjecta. A vontade indómita de agradar.

A necessidade é o maior desincentivo da generosidade. Quanto mais fácil é satisfazê‑la, mais custa dar um jeitinho para a aliviar. Daí a distribuição do prazer ser tão gritantemente desigual. As pessoas com o ar sôfrego de recém‑saído da prisão, as que menos pedem e mais dão, que mais merecem e mais agradecem, são o lumpen da hierarquia sexual. Serem giras ainda agrava mais o handicap, porque lhes fica pior a subserviência miserável que é característica da classe.

As raparigas com ar de precisarem mais duma amputação da anteperna do que duma fodinha são as mais atraentes. Sejam virgens ou assíduas. O ser humano gosta sempre de ganhar. De receber mais do que dá. De dar a quem não precisa. De conseguir aquilo a que não tem direito. No fundo, somos todos uns ladrões.

Os homens com uma vida sexual perfeita, com o ar de que não podiam pedir mais, até porque já lhes sobra o que têm, são irresistíveis às raparigas que vão nisso (já que não são poucas as que embirram precisamente pelas mesmas razões). São um «desaforo» ou lá o que é. «Este», pensam elas, «julga que não lhe falta nada... pobre coitado, nem sonha o que perde.»

Para os homens, é impossível fabricar o ar cool de quem não precisa de nada. Passa‑se o mesmo com os que, não precisando de nada, tentam disfarçar, para não destoarem da malta. São transparentes. É por isso que as mulheres vêem logo. Não é por terem poderes extra‑sensoriais. É por estar na cara.

Como os homens não são capazes de admitir que já têm raparigas que cheguem, não têm segurança psíquica para dizer «Não, obrigado, já tenho», vão acumulando quantidades incontroláveis de namoradas.

A partir de certa altura, a quantidade começa a afectar a qualidade.

É o meu caso. O meu cemitério de raparigas foi despovoado. Andam todas por aí, de braços estendidos e camisa de noite, a percorrer a praceta e as ruelas que rodeiam o meu prédio, como zombies sem defeito, rosadinhas e redondas, incapazes de morder mais que uma orelha.

Tornam‑se ingovernáveis. Houve uma altura em que ainda conseguia gerir equitativamente o ginásio, atribuindo as horas de ponta segundo a ordem de chegada, dando prioridade às principiantes e levando em conta o usufruto acumulado das mais veteranas.

Mas a minha generosidade nas inscrições, a política de não negar a ninguém o direito de participar plenamente, enfim, a minha monstruosa gula, acabou por virar‑se contra mim. Ao ponto de começar a desperdiçar horas de ponta. Tal era o número de ginastas, que era mais fácil rejeitá‑las todas democrática e cobardemente do que correr o risco de ser apanhado a privilegiar, pela calada, uma delas.

Não podia sair. Em qualquer sítio onde fosse, havia várias namoradas que eu não podia expor umas às outras. Quando, numa tentativa desesperada, procurei andar aos saltos entre elas, acabei por ser rejeitado por todas, em massa.

Comecei a seleccioná‑las, a reduzi‑las a um número gerível, mas quanto menos eram, mais hipóteses tinham de se descobrirem umas as outras. E mais fácil passar‑se despercebido numa multidão.

Foi assim que acabei por ficar em casa, sozinho, assiduamente visitado por elas todas, mas impedido de deixá‑las ficar, com medo de aparecerem outras. E quanto mais eu dizia que tinha de estar sozinho, mais elas apareciam. E mais eu ficava sozinho. Até que, um dia, dei por mim com um grave défice sexual. Nem foi preciso ir ver‑me ao espelho. Sabia que já tinha o look. O look do «Só um beijinho e depois vou‑me embora, juro». O 100k que diz «Eu necessito urgentemente de uma mulher.»

Afugentou‑as todas. Excepto a Margarida, claro. Essa não perdoava. Era a única que as outras me consentiam (era «a velha», o «romance antigo», o «caso complicado. E era a única que consentia a outras. Era, também, a única que não me apetecia. Estava convencido que eu a amava. E quem é que lhe tirava essa ideia da cabeça? E ultimamente convenceu‑se que me ama a mim. É patético. Já não é a rapariga que eu conhecia. A vespa virou melga. A ácida tornou‑se melosa. A dona do seu nariz ofereceu‑mo.

Não estou nada feliz. E recuso‑me a ficar triste. Em que é que ficamos? Pois é. Nisto.

Ter alguém em quem pensar é uma sorte já.

Seja com quem for que se está. Por muito que se goste de estar com ela. E, quando se está sozinho, ainda é melhor.

Ter alguém em quem pensar, durante a vida inteira, é o mais que se pode esperar.

Alguém que se amou, ou se ama ainda, que se deixa amar. Por muito longe ou perto que esteja.

Amor acabado há muito tempo ou à beira de acabar. Não é fácil alguém conseguir deixar que, durante a vida inteira, se possa pensar nela, sempre que se quiser.

‑‑abala

Não pode deixar que se tenha a certeza que não nos ame ainda, ou que tenha amado outros, tanto ou mais como nos amou, ou ama ainda. Não é fácil.

Alguém que foi, ou poderia ter sido, ou poderia ser ainda nossa. Se.

Não nos pode deixar esse Se só a nós. Não é fácil para ela contribuir, e continuar contribuindo, durante a vida inteira. Como se ela tivesse sido o princípio e já não interessasse o como e o quando do fim.

Ter alguém em quem pensar, morta ou viva, ja e um grande pau. Por muito feliz que se seja sem ela, conta‑se sempre com aquele bocadinho de infelicidade, nunca muito pequeno, sem o qual seria Impossível tê-la para nela se pensar, sempre, durante a vida inteira, desde o dia em que começámos a amá‑la de verdade.

Ter alguém em quem pensar, que nunca se vá embora, por muito que a tentemos esquecer, que seja invulnerável à nossa vontade. Esta é uma sorte. A maior que se pode esperar.

Eu esperei ter essa sorte. E nem foi preciso esperar muito. Foi há muito tempo, muito tempo. Desde o dia em que nos despedimos, e nos anos todos que se seguiram, constantemente, sem desgaste, sem transformação, eu tenho tido essa sorte. A de ter alguém em quem pensar. E logo ela. Podia ter sido outra. Não gostaria nada que fosse outra. Mas, mesmo se fosse outra, era à mesma uma sorte que eu já mais poderia negar, durante a minha vida inteira. Mas não foi outra. Foi ela. A rapariga dos olhos verdes. Que nem verdes eram, mas que digo serem, para não a denunciar. A rapariga sem nome. Com os olhos que nem sequer verdes eram, só para que se veja, a gratidão que lhe guardo, se nem sequer falo dela, nem do que fizemos, nem de como ela era, a não ser dos olhos, que nem sequer verdes eram, nem podiam alguma vez ser.

Era o que faltava.

Alguma vez se viu uma rapariga de olhos verdes?

Quem a viu e quem a vê. Como mais ninguém a poderia ver. Senão eu.

E os outros poderão amá‑la, e serem amados por ela, e terem estado mais tempo, ou estarem neste momento com ela. E outros poderão ter a mesma sorte do que eu e poderem pensar nela, com a mesma ajuda que ela me deu, mas mais ninguém no mundo, durante a vida inteira, pensará jamais nela como eu.

jamais nela como eu.

Mais, talvez. Com maior verdade, possivelmente.

Mas não como eu.

Não como eu quero.

Não como eu.

Certamente.

Na cama me ponho, de manhã me deito, depois de noites a escrever, sobre o que falta à vida, e a estupidez de quem a aceita como é, como eu, com o meu cemitério de raparigas que, fora uma ou outra, nunca conheci.

Deveríamos nascer e morrer todos ao mesmo tempo. Não haveria famílias, nem pessoas mais novas ‑ ao fim de oitenta anos, como numa festa de fim de ano, todos morreríamos. Ficariam os sábios, os escritores, os médicos muito bons ‑ para ajudar a geração seguinte a nascer e viver.

Não haveria pais, mães, filhos ‑ ninguém que morresse antes ou depois de quem ama ou os ama. O sofrimento, sem a morte, já chega. Saber que vão morrer os mais velhos, de quem precisamos e a quem tanto devemos, ou os mais novos, que precisam de nós e que precisamos de ajudar para viver, é a maior tristeza de todas.

Haveria livros. Platão e Beckett continuariam vivos e a escrever. A imortalidade seria o preço do gênio ‑ deveria haver maneiras neurocirúrgicas de protegê‑los da saudade e do cansaço.

Por muito amor que tenha à minha mãe e às minhas filhas, não chega para o sofrimento de saber que vou perdê‑las, ou elas a mim. Eu amá‑las‑ia sempre, logo que as encontrasse. E se a coisa (que poderia ser Deus) fosse bem organizada, nasceria ao pé delas, todos bebés na mesma sala limpa e branca e, quando tivéssemos idade de perceber porque é que gostávamos tanto uns dos outros, que alegria ter exactamente a mesma idade e saber que «Estas são as tuas filhas, estes são os teus pais, estes são os teus irmãos.» OU, melhor ainda: só irmãos e irmãs, do mesmo sangue, com a mesma cor de coração.

Ser pai, mãe ou filho ou filha, é um fingimento de dever ou de dívida, que interrompe e prejudica o maior amor. O meu sonho era ir, com os meus pais e filhos, todos igualmente pequeninos, ter com os sábios desconhecidos para saber o que deveríamos fazer.

Eu queria o meu pai e a minha mãe com sete anos, nascidos no mesmo dia que eu, com a mesma franja cortada à beira dos olhos, para poder conhecê‑los e brincar e lutar com eles durante a vida inteira. Não gosto de ser mais novo que os meus pais, nem mais velho que os meus filhos ‑ nem de mandar nem que mandem em mim. O poder contrariado estraga o amor.

Não percebo por que têm de morrer as formigas e os leões para nascerem formigas e leões iguais a eles.

Nascemos e damos a quem nos fez nascer a alegria que desde crianças pagamos com a certeza de uma tristeza presente e futura. Por isso fugimos. Por isso somos apanhados. Se Deus existe, é por deixar-nos pensar desta maneira, tão diferente da verdade que existe.

Eu queria ser amigo das minhas namoradas, antigas e futuras, e que o sexo fosse uma brincadeira boa, sem estabilidade ou sentido, sem ciúme ou importância, a que pudessem brincar, quando lhes apetecesse, os amigos. E que estes, por isso, pudessem ser sempre leais e dizer sempre a verdade, sem magoar ou surpreender ninguém.

Neste mundo tudo seria como a mais séria brincadeira. Cada um faria ora o que devia, ora o que lhe apetecia ‑ e quando coincidissem as duas coisas, como só acontece com os sábios e os artistas que não têm outra vida, essas pessoas viveriam para sempre, e estariam à nossa espera e, em horários muito limitados, ao nosso serviço. Queria ler o último livro, por muito mau que fosse, do Dante; saber da investigação mais recente de Pitágoras; ver as coisas em que Matisse se anda a meter; ler o diário de Kraus; ir às estreias de Racine.

Há tanta gente viva que nada nos dá ou ensina ‑ e tão poucas pessoas mortas de que precisamos, e que mereciam continuar vivas, muito mais do que as outras. A única imortalidade que vale a pena é a física. E o tempo, que é um artifício e nos afasta uns dos outros, acabaria.

A morte estaria reservada apenas à grande maioria que gasta a vida na própria vida, que é boa só por si, vivendo‑a simplesmente. E morreríamos todos ao mesmo tempo. Sabendo alegremente quando e como ‑ e que o merecíamos.

Que pena, meu Deus, passar os dias a pensar nisto.

Não fosse a entusiástica Joana, a querida, a magnânima, a esplêndida Joana, com todos os seus defeitos sem uma única qualidade que se visse, eu seria monógamo pela primeira vez na vida.

«Margarida, não podes vir tantas vezes... eu tenho de trabalhar.»

«Cala‑te. Não me custa nada. Não penses em mim. Sê egoísta ao menos uma vez na vida!»

«Esteve cá a Joana... sabes que eu gosto muito dela ... » «E como é que ela está? Porque é que não a convidas mais vezes? As poucas vezes que estivemos juntas deram para perceber que ela é especial ... »

«Ela tem ciúmes de ti. Diz que ... »

«Diz o quê! Deixa‑me falar com ela vais ver que não há razão para te preocupares com essas coisas. Nós mulheres ... »

Quando começam com essa de «Nós, Mulheres» eu desligo. É só contra‑informação. E entediante! Como aquelas ernissoras dos países totalitários que se apanham em onda curta. «Somos todas irmãs.» Não lhes chegava serem só primas?

«E o teu marido?»

«Nunca mais o vi.»

«É uma situação chata... ele gosta tanto de ti ... »

«Quero que ele se lixe. Eu só gosto de ti. Ainda não percebeste, meu tontinho?»

«Não ‑ é chato para mim ... »

«Não me digas que ele tem cá vindo! Eu proibi‑o! Ouviste?» «Não, não é isso ... »

«Então não sejas mariquinhas. O que é que tens a ver com o meu marido?»

Damo‑nos cada vez pior na cama. Ela não fica feliz. Eu fico furioso. Ela diz que é sinal de que 'à ultrapassámos «isso».

Uma vez, num acesso de coragem, disse‑lhe: «Isso, como tu lhe chamas, é só a coisa mais importante da minha vida!» «Eu sei, eu sei... mas a culpa não é minha ... »

Não. E minha. O tesão, segundo creio, é uma coisa que se dá. Antes de se ter, é preciso haver alguém ou algo que a dê. E se há coisa que a Margarida não me dá é isso. Eu bem lhe peço. Ela bem se esforça, coitadinha. Mas, pronto, que se há‑de fazer?, não dá. ó minha. ó chavalinha. ó pá, desculpa lá, mas não dá.

A atitude dela é aquela de quem diz, quando alguém lhe pede esmola: «Já dei ... » Como se o tesão fosse diferente da tuberculose. Cada vez é mais. E é preciso contribuir regularmente. O que já se deu já se gastou. Já não conta. já foi.

Apetecia‑me confrontá‑la. «Ouve lá, eu não te dou tesão?» «Claro que dás... não estejas com paranóias ... » «Dou‑te ou não te dou?»

«ó querido, qualquer homem me dá... mas eu só deixo que sejas tu a dar‑me ... »

«E tu ‑ dás tesão a qualquer homem?» «Sei lá ‑ acho que sim ... » «Então, explica‑me lá uma coisa ... » «Diz, querido ... »

«Porque é que não me dás também a mim?!»

Insisto na questão, dada a sua relativa novidade entre nós. Das raparigas que conheci, algumas deram‑me mais, outras menos, umas davam conforme podiam, outras mesmo quando não queriam, mas nunca houve uma que não me desse nenhum. Só a Margarida. E se fosse só não dar... As vezes, quando o consigo ter pelos meus próprios meios, tira‑mo.

Se isto é que é o amor, bem podem ficar com ele. É o ar apaixonado da Margarida que me desmotiva. E distrai. Tanta felicidade. Tão pouca fome. Se ela já entra para a cama satisfeita, que necessidade pode restar para satisfazer? Quando há amor, não é preciso fazê‑lo. já está feito. É como o jantar. Se calhar só se pode fazer amor quando não há. Quando há falta.

Ou quando não há mais nada humanamente válido para fazer.

A Margarida não faz ideia que, quanto menos ela me der nessa área, mais fica para as outras poderem dar. Ela e a Joana estão em perfeita inversão proporcional. Chega a ser de mais. A Joana já começou a queixar‑se. Por muito que tente tirar‑ma, ‑ só para aparar as pontas, dá‑me sempre excessiva e embaraçosamente. E o trabalho começa a ressentir-se, ainda por cima. Começa a ser impossível trabalhar com ela. Cada vez mais tenho consciência do desperdício criminoso que representa, em termos de talento, rendimento, tempo e energia. Mas Quanto menos amor faço, mais grosseiro fico

Quem é que quer armar‑se em fino numa altura destas? Muito se fala do que não se faz! Do que ja se fez, do que se quer fazer, do que se quer voltar a fazer outra vez...

Nunca gostei daquela de fazer «por fora». Os hotéis, as mesas de reuniões, os bancos dos automóveis e os barrancos à beira da estrada não são para mim. Se é furtivo, não gosto. Tem de ser às claras. E tem de ser cá dentro. São as minhas duas únicas condições. E, por muito que me tenham prejudicado ao longo da vida, nunca me recusei a pagar esse preço.

Mas alguma vez tinha de ser. Foi assim que dei comigo, certa noite, numa suite cheia de plantas de borracha e de panfletos ilustrados, a desfazer a cama com uma rapariga que tinha acabado de conhecer. Não posso dizer que não tenha sido óptimo. Mas, quando já tínhamos feito tudo o que tínhamos para fazer, desceu em mim uma tal depressão pós‑Natal, de ter desembrulhado todos os presentes e ficar apenas com a obrigação de enfrentar o sem‑fim dos meus parentes, que jurei para nunca mais. Até a rapariga se comoveu. Começou a chorar, tal era a solidariedade. E a perguntar, maníaca, repetidas vezes: «O que é que eu fiz?! O que é que eu fiz?!» E assim sucessivamente. Limitei‑me a responder que coisa boa, com certeza, não tinha sido.

Mas uma pessoa habitua‑se a tudo, excepto à mulher. Porque não foi a coisa em que se tornou a Margarida. E de mulher foi fazendo a rápida transição para esposa. E, sem ser tido nem achado, imobilizado pelo clorofórmio dos Kleenex e Chiclets conjugais, fui forçado a fazer parte dum casal. Devidamente amputado na véspera, para poder caber dentro dele. Isto é, reduzido a metade.

Começámos a sair juntos. É extraordinário como uma vida sexual empobrecida estimula o interesse pelas actividades culturais. Chega a levar à loucura, ou mesmo à ópera, nos casos mais graves. Passei assim a estar «ao par» do que se fazia no país, em matéria de artes plásticas, dramáticas, musicais, populares... o que houvesse. Isto tudo em Portugal, note-se, para ficar com uma ideia de quanto é triste.

Fiquei sem outra hipótese senão tentar ter, nesta fase adiantada da minha existência, sem quaisquer preparações ou precedentes aos quais recorrer, uma vida interior.

Foi fácil. Logo no primeiro dia, já estava habitável. A minha vida interior atraiu‑me desde o início. Era forçosamente mais interessante, mais rica, mais compensadora e mais controlável do que a de fora. Numa palavra: era barata, era alegre, era irresistível.

A Margarida, longe de a limitar, expandia‑a. A vida interior vive‑se mais facilmente quando se está mal acompanhado do que quando se está bem sozinho. Quem diria? Foi de ânimo leve, livre como um passarinho, que regressei ao meu velho cemitério de raparigas.

O tempo nada tinha cobrado à beleza daquele imenso jardim. As duas árvores tinham crescido. As campas estavam cheias. Brilhavam até durante o dia. Caras novas, caras reaparecidas... e as antigas, em peso, como se não me tivessem esquecido. Não dei pela falta de nenhuma. E registei, com agrado, uma cova aberta, de terra fresca, certamente destinada à minha quase falecida Margarida...

Pode não haver amor como o primeiro mas, felizmente, há muitos outros como o trigésimo quinto. E nenhum mais apetecível que o seguinte ou mais escusado que o anterior.

É esta a minha filosofia, chamada filosofia, correspondente perfeita da minha vida, chamada vida.

Mas nem sempre foi assim.

É bom que o diga. Faz‑me bem dizê‑lo. Não vá eu pensar que sempre o disse. Porque houve uma altura em que não dizia que nem sempre tinha sido assim, porque não me ocorria.

Foi a altura em que dizia «Deus queira que seja sempre assim, até ao fim da minha vida.» E, mesmo assim, só uma vez por outra, tal o meu envolvimento em tudo quanto vivia.

Com o meu amor e com ela.

Ou só com o meu amor.

Só eu, o meu amor, e mais nada.

Vivi assim uns tempos, depois de ela se ter ido embora.

E sofria. Mas, se soubesse o que eu sei hoje, nada me tinha custado o sofrimento, estando em causa uma tão verdadeira alegria, e teria continuado assim enquanto pudesse, em vez de desistir, de amar, de mim, para ver se havia alguma outra alternativa, que acabou por ser quase toda a minha vida.

A qual, sendo como vos digo, nem de longe valia.

Um silêncio tão perfeito que a minha própria voz se perdia. Um oceano a quem tinham desligado o som. Um vazio tão vazio que nem a esperança de encontrar fosse o que fosse admitia. E, à volta do silêncio e do vazio, um terreno imenso onde um mundo inteiro estava à espera de ser construido.

Um mundo só. Para mim. Ninguém com quem partilhar nada. Sem uma mão estendida, sem um direito a ser reclamado, sem um pedido. Um mundo à minha medida. Onde eu podia fazer o que quisesse. Feito à medida de quem não quisesse nada. Mas preparado para o caso de vir a querer.

Um mundo tão só como eu.

Mais meu do que eu.

Uma recompensa por ter nascido sem coração. Um coração artificial. Inautêntico. Uma obra de arte. Graciosamente removido do real. Desumano. Só para mim desumano.

o que eu pensar que seja. Deixa‑me ser eu a decidir. E continua mesmo que eu nada decida, como se assim tivesse decidido.

É o meu mundo. Mas eu não o quero. Mete‑me medo.

Mete‑me nojo. Mete‑se demasiado comigo.

E fujo, indiferente ao facto de ele me deixar fugir. Quero mais. O que não é meu. O mundo dos outros.

Nem sempre foi assim.

Houve um tempo em que me preocupei.

É como vos digo.

Nem sempre fui assim.

Só agora é que mudei.

«Estás a gostar?», pergunto à Margarida, a meio dum filme.

«Que susto!»

«O que é que foi?»

«Nada, querido... Mas ultimamente tens andado tão pensativo... Desculpa lá, esqueci‑me da pergunta que me fizeste ... »

Pensativo! Agora já nem pensar posso? Estava bem lixado se fosse um verdadeiro pensador. Que lata. Ela que passa o dia a pensar. Tanto que chega a ser ensurdecedor. E que pensamentos! em lgar pelos que vêm ao de cima... Sempre a pensar «nos dois», sempre doces, sempre perfeitamente possíveis de se tornarem realidades, irrefutáveis, repressivos... Daqueles com que só um ordinário discutiria, que nos obrigam a ser bem‑educados e a responder, mesmo entredentes, «Por que não?»

Isto não pode continuar assim. A mulher não se vai embora. Qualquer dia engravida. Eu bem tento controlar as coisas, graças a um dispositivo de uso simples, adquirido na farmácia, com um centro giratório, que me permite estar a par dos ciclos dela, e p'ôr‑me ao fresco quando entra num período de fertilidade. Mas nunca se sabe. Infelizmente, a Margarida é daquelas mulheres que obrigam um homem a casar‑se.

Neste momento, o casamento é a última alternativa que me resta. Sendo sabido que é uma das maneiras eficazes de amor humano. E estando constitucionalmente garantido

o direito ao divórcio. E só tomar a decisão. Tomo‑a sem dificuldade. Vou casar‑me. Um único problema me preocupa.

Com quem?

A Margarida está fora de questão. A joana recusar‑se‑ia sequer a pensar no assunto. É sempre melhor recorrer ao exterior.

Dedico‑me de alma e coração, se for preciso ir assim tão longe, ao meu novo papel de homem que procura noiva. Alguém que seja asseada, bonita e suficientemente corajosa para enfrentar e pôr fim à hospedagem da Margarida, à beira de poder reclamar os direitos de uso capião.

Não vai ser difícil. Com um bocado de sorte, em Setembro serei já um homem casado, finalmente livre. Sem falsas modéstias, não creio que seja irrealista a possibilidade de alcançar rapidamente o título de pior marido português do mundo. E a respectiva fama, que muito me há‑de servir depois do divórcio.

As candidatas mais óbvias são as mulheres dos meus amigos atendendo a que nem meus amigos são e ao favor que lhes faria. O objectivo é aliciante e facilmente alcançável mas, por outro lado, o processo de descasa‑casa é demasiado moroso.

De resto, as mulheres já casadas têm a desvantagem de estarem habituadas a sofrer vexames e serem, por conseguinte, mais compreensíveis e apáticas, menos entusiásticas quando chega a hora do divórcio. É melhor uma rapariga que não esteja preparada para sofrer uma boa desilusão. Que não goste muito de mim. Que dê mais importância ao casamento do que ao marido.

Ainda haverá raparigas assim? Nem que fosse preciso ir à província buscar uma. Desloco‑me a qualquer parte. Tenho viatura própria. E uma certa pressa, para ser sincero, não fosse a sinceridade a base.

Dizem que o casamento é só um papel. Também King Lear. Serei capaz de representá‑lo?

Pior que estar casado, é ficar noivo. As mulheres toleram os casados, mas fogem dos noivos. Ser noivo é sério, parece sincero, dá a ideia que se quer mesmo casar com alguém e que, enquanto isso não acontecer, não há nada para ninguém.

O noivado terá de ser breve, não só porque fica mal e espanta a caça, mas porque permite dizer depois que o casamento foi precipitado. Até quando se diz «Éramos novos, estávamos apaixonados... sabíamos lá o que estávamos a fazer ... » alcança alguma credibilidade ou misericórdia. A mulher com quem me casar tem de ser desconhecida, para depois poder dizer que descobri como ela era de verdade. Convinha que fosse muito pobre e tivesse pais insuportáveis, para justificar o casamento. Tinha de haver uma coisa da qual pudesse «andar atrás» ou «tentar fugir», para que não se pensasse que tinha sido por amor, o que poria toda a gente do lado dela.

Talvez pudesse ser, além de pobre, feia. Gênero «Não havia mais ninguem que casasse com ela e ela, coitada, aproveitou.» é mãe solteira. Abandonada pelo pai da criança. O ideal seria uma mãe solteira, pobre, tiranizada pelos pais, feia e interesseira, que acreditasse na instituição do casamento mas depois não fosse capaz de aguentar a experiência. Uma raridade, talvez. Mas, aos meus olhos, uma jóia.

Passado um mês, já tinha encontrado a minha futura esposa. É certo que era divorciada, rica, sem filhos, inteligente, gira, vivida e órfã desde os oito anos. Em contrapartida, era irresponsável e desapaixonada. O trabalho que me deu convencê‑la animou‑me. Torceu o nariz. Nem foi necessário enganá-la. Sabia que iria fazer uma asneira, mas não resisti a fazê-la.

 

Chama‑se Mônica. Vive numa casa grande onde tenho vivido estas últimas semanas, escondido da Margarida, sem trabalhar, vestindo só roupa nova, longe de tudo o que era meu nesta vida.

«Não tens casa?»

«Não tens trabalho?»

«Não tens amigos ou família?»

«Não tens ninguém para convidar?»

«Não tens vergonha de viver à minha custa?»

Eram deste gênero as perguntas que, ocasionalmente, me fazia. E eu respondia:

«Não tenho nada.» «Nem problemas com isso.» «Libertei‑me do meu passado.» «Disse adeus à escravidão.>, «Alcancei o objectivo da minha vida.» «Estou farto de pretensões e de mentiras.» «Amo‑te.»

«Casa comigo.»

«Ou então deixa‑me casar contigo.» «Agora ou nunca.» «Decide‑te.»

«Já não tenho idade para ser teu namorado.» «Quero ser o teu marido.» «Mesmo que não fores minha mulher.» «É contigo.»

A vida! Quem é que a adivinha? Ou não acontece nada e há tempo para registar, ou acontecem tantas coisas que é impossível acompanhá‑las. Nestes casos, evito estar presente nesses acontecimentos, rujo, dou desculpas, tudo para arranjar tempo para registar alguns dos outros. Nada me custa que as coisas deixem de me acontecer só pelo facto de estar ausente. Mas a própria aflição, de sentir tudo a acontecer à minha volta, ao onto de me impedir de registar mais que uns rabiscos ilegíveis, é um acontecimento que me marca muito.

É como vos digo. Quanto mais pormenores, menos me aconteceu e menos vale a pena registá‑lo. Daí demorar‑se mais a encher mais o espaço. Quando não entro em pormenores, é um desperdício, porque teria valido a pena, atendendo ao interesse e variedade dos eventos. O pouco tempo que me resta, emprego‑o a tentar resumir o que ainda não foi contado. Quantos mais acontecimentos omito e desperdiço, mais sou forçado a poupar papel.

Não se pode pedir à vida que se desenrole ao ritmo da nossa estenografia, mas é pena, porque, houvesse a mínima chance, a mais minúscula brecha, e eu já lá estaria de punhos erguidos, com as páginas a saírem‑me das mãos ensanguentadas, a implorar a Deus Nosso Senhor que fosse assim, nem que fosse só um bocadinho de nada, que ninguém dava por isso, ó Pai Sagrado, patati patatá.

Ele quer lá saber disso. Pus o nome Dele no principio da frase de propósito para que a maiúscula não sobressaísse, mas entretanto, sete palavras depois, fodi‑me ‑ e porquê? Para não ser espert& Ele nunca me deixou. Nem sequer na escola.

E no sábado quem acende as velas? Sozinho ouve-se Deus, mas não se pode responder. É pior que não ouvir. Não escrever é mais difícil quando não se pode falar. Pensar nas palavras sagradas sem mais ninguém para pensar comigo, é demasiado fácil. O bicho‑do‑mato é melhor que a pessoa que se sabe ser assim, que não é.

Doce dia Deus. As velas, mesmo tiradas do frigorífico, só duram três horas e depois, sem fazer batota, vem a escuridão, que não é senão a luz do céu.

Eu pagava as contas todas. Dos restaurantes, da luz, da tinturaria. Ela perguntava:

«Tens dinheiro?»

E eu respondia:

«Tenho. Mas não ligo.»

já era generoso da parte dela casar com um pobre. Mas seria impensável se eu não tivesse, também, para compensar, muito dinheiro. As mulheres ricas saem sempre caras. É o único defeito delas. A grande qualidade é serem financeiramente independentes e daí abandonáveis sem arrependimentos. Fora o charme de se poderem dar ao luxo de fingir que não são.

Na cama descobri o que a surpreendia. Sendo tão bonita e vivida, a minha única salvação era ser imprevisível mas decidido, egoísta mas insaciável. Fiz um esforço enorme para fazer apenas o que eu supunha que ela pensasse ser o que me apetecia.

Rejeitava‑a, agarrava-a, não mostrava qualquer preocupação com ela e, dum modo geral, usava‑a e abusava dela, conforme adivinhava o que ela queria. A Mônica era daquelas mulheres que gostam de homens que só pensam no próprio prazer, desde que coincidisse sempre com o dela. Mal sonhava os artifícios e artimanhas de que me socorria para lhe dar a impressão que eu tinha uma brutalidade genuína que, por força da natureza e da sorte, era bem sucedida.

A indiferença era, para ela, um afrodisíaco. Nada havia que me importasse. Não tinha ambições, problemas, opiniões, nada a ver com fosse o que fosse. Existia. Ela saía e eu ficava em casa. Ela ficava em casa e eu saía. Não tinha ciúmes nem satisfações para lhe dar.

«O que é que fazes durante o dia?»

«Amo‑te.»

«O que é que tencionas fazer da tua vida?»

«Amar‑te.»

«E não tens medo que eu te faça sofrer?» «Nunca hei‑de sofrer tanto quanto eu te amo.» «É tão esquisito ... » «E, não é? Não sei o que se passa comigo.» «E se um dia te fartares de mim?» «Vou‑me embora.» «Ai isso é assim.» «Não sou capaz de mentir.» «Parece que te estás nas tintas ... »

«É o amor que me faz assim.» «Não me digas que nunca te apaixonaste ... » «Nunca. É triste, mas é assim.» «E como é que era dantes?» «Era um histérico. Não parava quieto.» «Não acredito.» «Acredito.»

«Parece que foste sempre assim.» «Era bom, era ... » «Eras infeliz?»

«Sei lá. As pessoas achavam que sim.» «Mas não eras.»

«Se queres que te diga, não pensava nisso.» «Era por seres infeliz.»

«O que é que interessa? Sabes lá se só depois de te ter conhecido comecei a sentir‑me infeliz ... »

«Sentes‑te?»

«A única coisa que me interessa é estar contigo.» «O normal seria eu fazer‑te feliz.» «Isso é porque nunca amaste ninguém.» «Sabes lá. Nunca me perguntaste.» «Se me amasses, não seria preciso perguntar‑te.» «Achas que eu te dizia assim do pé para a mão?» «Acho.»

«Se calhar, amo‑te.»

«Deus queira.»

«Tanto te faz, não é?»

«Não se pode ter tudo. Eu amo‑te. já me chega. Não é preciso que tu me ames também.»

«Mas era melhor.»

«Era o paraíso.»

«Então porque é que não fazes qualquer coisa por isso?» «Não te quero influenciar. E, mesmo que eu queira, sabes muito bem que não consigo. O amor ou existe ou não existe.» «Tens a mania que sabes tudo.»

«Se não tivesse, estava bem lixado. Como é que tu julgas que eu consigo viver comigo?»

«Vaidoso.»

«Ditadora.»

«Egoísta.»

«Bisbilhoteira.»

«És esquisito!»

«E tu és a mulher mais bonita que eu já vi em toda a minha vida.»

«Ao menos isso.» «Só queria que te visses ... » «Para quê?»

«Para saberes como é bom olhar para ti.»

«Deve ser ... »

«O que é que queres? É verdade ... »

«A verdade é que é preciso um saca‑rolhas para dizeres

uma coisa bonita acerca de mim ... »

«Eu já te digo ... »

«Até que enfim. Estava a ver que nunca mais te decidias ... »

As figuras que eu fiz. E o prazer que me deu fazê‑las? Nunca supus que fosse tanto assim. Pensava que a hipocrisia era um meio para atingir um fim. Afinal é um fim em si.

Para mais, simpatiza‑se sempre um bocadinho com a pessoa com quem se vive. Bem tentei convencer-me que estava a fazer um sacrifício. E tinha conseguido, se não fosse ultrapassável o facto de estar tão claramente a divertir-me. Uma casa estranha. Uma mulher desconhecida. A sensação dum fugitivo. Que mais podia eu pedir?

O casamento com a Mônica esteve por um fio. Mas felizmente, quando isso aconteceu, já nós estávamos casados. Não podia estar melhor. Por um fio era como mais me convinha que estivesse. Ambos tínhamos observado religiosamente a lua‑de‑mel. Quando voltámos a casa, nada mais natural que fazer um intervalo, cairmos confortavelmente em nós e começarmos a pôr a hipótese duma separação.

Como castigo, dei‑me conta que ela estava muito mais aliviada do que eu. Bastou‑me sugerir que talvez não fosse má ideia jantarmos sozinhos, cada um no seu restaurante, para ela dar um salto de trampolim e dizer:

«Ainda bem que falas nisso ... »

«Ah. sim?»

«Sim. Acho que de facto há um limite para esta merda da coabitação.»

Depois de muitas noites se terem passado, depois de ele ter casado e de ter tido filhos, voltou a telefonar a rapariga antiga de quem eu me tinha esquecido.

Eu é que te amo ‑ disse ela ‑ eu é que sou a estúpida.

E provável que, em matéria de provas, o grande amor não assa disto.

Mas eu, pela parte que me toca, fico muito ofendido.

Ao ponto de aconselhá‑la a dedicar‑se à família.

Por ser tudo muito triste, não pude continuar.

Eu não sou nada sem o meu amor.

É o meu único orgulho. É a minha única desculpa.

Quem sou seu sem o meu amor? Pela única pessoa que amei nesta vida.

Mesmo que nunca me tenha amado. Mesmo que tenha sido a única, ou uma das muitas, que me amou.

Sem ela, que teria sido do meu amor?

Eu não o tinha.

O meu amor não era ela. Era eu. O meu amor nem sequer é dela. Eu bem lho dei. Mas não lhe podia dar o que era só meu.

O meu amor por ela, que só eu podia ter. Que foi feito para mim. Que me fez perfeito para ele. Que só no meu coração tinha casa.

Passo sem ela. Mas não passo sem ele.

Quanto mais agora.

Que só o tenho a ele.

Porque nem sempre foi assim. Como vos digo.

Não quero outro amor. Por maior que possa ser, não o quero por mais ninguém. De resto, qualquer outra pessoa me serve.

Prefiro viver sem quem amei, e amo ainda, a viver sem o meu amor.

Ela foi o meu único amor, o meu bem, a prova viva que tive, uma vez, um coração. A licença provisória para que possa continuar a bater.

Não vivo sem ele. O meu amor. Por ela, a quem tenho de chamar também o meu amor, por não poder chamá‑la minha amada, por não saber ao certo, se a amo ainda. Nem amada por ter sido amada. Nem amada por ser ainda.

Ela não é como o meu amor. Mas é o meu amor ainda. Durante toda a minha vida. Como não podia deixar de ser. Porque, mesmo que ela deixasse de ser, eu não deixaria. E aqui, no meu amor, quem manda sou eu, não havendo vontade dela de saber, quanto menos dirigir, seja o que for.

Nem podia ser doutra maneira. Se fosse ela a mandar, já não existiria. Assim como ela foi o principio, ninguém foi o meio e a mim coube‑me ter o fim.

Vem aos meus olhos a toda pessoa. Estás a descer as escadas. És tão nova. O dia desce à nossa volta. Os navios entram e saem. Eu não te vejo. Estou de costas a beber café. E tu abraças‑me com a tua camisola branca, com o teu coração sujo de tanto chorar e dizes «Estás atrasado.» Foi a primeira vez que me viste e ralhaste comigo por não ter aparecido em tua casa ja previamente apaixonado. já contei isto muitas vezes, com mais mentira, menos mentira, mas não há maneira de me fartar. No estado de amor puro talvez não haja saudade nem esperança, nem verdade ou ilusão ‑ só repetição, repetição, repetição, dos dias que o passado é incapaz de aguentar e se vivem eternamente como um presente sem futuro, nem interesse, nem fim.

Voltei para casa, não sem uma certa relutância, diga-se. Acordei no dia seguinte com a Margarida a bater‑me à porta.

«Tarde de mais, minha cara amiga», pensei enquanto me ia aproximando da porta.

«Que alívio!», disse ela. «Pensava que tinhas morrido!» Expliquei‑lhe que era mais grave do que isso. Que me tinha apaixonado. Por uma mulher formidável. Que me tinha mostrado que não era nada fora deste mundo ser feliz. Que tinha casado com ela. Que já não era o mesmo. Que já não queria outra coisa. Que estas coisas aconteciam. Que não estava certo deixá‑la entrar em minha casa depois do que tinha acontecido. Que tinha a certeza que ela compreenderia.

Ela perguntou‑me o que é que eu estava ali a fazer, sozinho, com aspecto de desgraçado, naquela casa abandonada, se tudo aquilo que lhe tinha dito era verdade. Pedi‑lhe para baixar a voz, porque «ela» estava a dormir, tínhamo‑nos deitado tarde, sem fazer nada para impedi‑la de imaginar que o sono era consequência natural da exaustão que se segue a uma qualquer imaginada, intensa orgia.

Ela entrou pela minha casa adentro e descobriu que não estava lá mulher nenhuma ‑ quanto mais a minha. Zanguei‑Me. Disse que decerto se escondera no armário. E porque é que ela faria uma coisa dessas? Por vergonha. Vergonha! Então se estava casada comigo... Por medo. Por cobardia. Por uma razão qualquer com a qual ela, Margarida, nada tinha a ver. Antes que ela abrisse o armário, arrastei‑a para a porta e, com grande dificuldade, expeli‑a. «A mim não me enganas, gritou.

Como se eu não soubesse

Obrigadinho.

Passei a tarde a encher sacos de plástico com livros e roupas escolhidos ao calhas. Apanhei um táxi para casa da Mônica. Ficou surpreendida.

«Ai isso é assim?»

«Mónica por amor de Deus... não faças uma cena cá

fora ... »

«E, ainda por cima, de malas aviadas!» «Não é melhor discutirmos isto tudo lá dentro?» «E eu a pensar que eras uma pessoa digna!» «Pronto. Agora já sabes. És capaz de me deixar entrar?» «Entra, entra... já agora, quero saber aonde isto vai levar ... » «Estou cansado. Posso me deitar?» «Não. Não podes.» «Queres que eu fique aqui especado, é?» «Está bem. Esqueci‑me que estávamos casados. Desculpa. Façamos um compromisso «Ah! façamos! Imploro‑te ... » «Podes te sentar.» «Obrigado ... »

«Mas mais nada.» «Porque é que estás armada em má?» «Eu sou má. Não preciso de me armar.» «Bem me parecia.» «Ah, sabias?»

«Não era por isso que deixava de te amar.» «Amar! Do que tu te foste lembrar ... » «Esquece.»

«Para onde é que vais?» «Vou‑me deitar.» «Não! Nem penses! Estou‑te a avisar!» «Larga‑me. Quero dormir.»

«Levanta‑te! Temos que falar!» «Está bem, depois falamos ... » «Quero falar agora!»

«E eu quero que tu te fodas, desculpa lá.»

É o que dá, casar depressa. Nem tive tempo para estar casado o tempo suficiente para me separar. Um casamento tão curto, longe de afastar a Margarida, é praticamente uma declaração de amor.

E que mal fiz eu para merecer este repúdio? Gostava da Mônica, cada vez mais. E ainda gosto; cada vez menos ‑ é verdade. Teria preferido chegar calmamente, com o meu próprio ritmo, ao ponto de não a poder ver mais à frente. Ela antecipou‑se. Claro. Também vinha com menos balanço. Não lhe posso atribuir grandes responsabilidades.

Ela nunca me disse que gostava de mim. Fui eu, todo gabarolas, que supus ser impossível ela não gostar, pelo menos um bocadinho, de mim. Diga‑se em abono da minha mulher ‑ a mim, nunca me enganou. Eu é que tentei enganá‑la. Eu é que me deixei enganar.

Vou lá dar-lhe um abraço.

É melhor não. Não seria bem recebido. Nem interpretado. Nem sincero. Nem merecido. Nem bem dado. Se eu não fosse tão sacana, dava‑lhe mas era um sopapo. Nunca bati numa mulher. Mas sempre me deram a entender que uma coisa era bater «numa» mulher e outra «na» mulher. Dava‑mejeito poder dizer que, sim, que uma vez perdi a cabeça e, que Deus me perdoe, Sim, houve um dia em que dei uma chapada, sim,

numa mulher. Seria mais convincente do que o que costumo dizer: a verdade, que nunca bati numa mulher. Ninguém acredita ou, quando acreditam, não querem saber.

Ainda posso tirar o bilhete de identidade. «Casado.» Estás a ver? Porque é que persistes nessa tua tão deletéria ilusão? «E que é dela? Adonde está?»

Este «adonde» é muito zombeiro.

«Queres ver a certidão de casamento? Está aqui. "Mónica Simpson de Almeida". Está ou não está?»

E escusado. Não dá. E dizer que ela me tinha deixado, mas que eu continuava a amá‑la e tinha a esperança de um dia resolvermos as nossas diferenças? Pior. Ficava com pena de mim. Nunca mais me largava. «Essa puta» seria o cimento que nunca mais nos deixaria separarmo‑nos. O inimigo comum: o mais forte incentivo de aliança que há.

«Casamento, apartamento. Pensava que era o mesmo que «Quem casa, quer casinha». Não fazia ideia que «apartamento» vinha de «apartar». Doravante, terei um pouco mais de respeito pelos ditados populares.

Chegou a altura de fugir sinceramente, sem meias‑tintas, sem facilidades. Viajar. Por muito que me custe. Ausentar‑me.

Começar uma vida nova. Outra vez? Quantas vezes há? Quem me diz que não as gastei todas? Ninguém. Então, coragem. Cabeça fria. Entro numa agência. Volto já.

Faço uma visita à Joana. Está com cara de chateada. Está casada. Ainda tento convencê‑la que isso não é razão, que eu também estou casado, mas ela fecha‑me a porta na cara, sem a menor compaixão ou curiosidade. Volto para casa. Consigo penetrar o cordão de segurança com um fugaz «Desculpa lá, Margarida, mas não dá ... » Transfiro os sacos de plástico um a um. Com êxito. Só a perda dalgumas asas a registar.

Ela telefona‑me.

«Era só para te dizer que desisti. Fiz tudo o que podia fazer. Por saber que me amavas. Até tentei convencer‑me que também gostava de ti. Estou farta. Nunca mais me peças nada. Não tenho culpa que tu não saibas o que queres. A minha consciência está tranquila. Agora, meu querido, vais ter de safar‑te sozinho ... »

jogo. Mas será? O que é que eu preferia? Que não fosse. E não é. Bonito serviço, porém. Se até a Margarida andou, este tempo todo, a enganar‑me. A mim, que tanto sofri por causa dela. Nunca pensei que ela fosse capaz de não sofrer também um bocadinho. Por sua vez. Isto é, dela. Mas essa é que é essa. Mais uma vez a sós. Eu e a triste verdade. Como sempre quis, aliás.

Pelo sim, pelo não, telefono à Margarida. Para confirmar. Ela chora. jura que jà não pode fazer mais nada por mim. Lamenta muito. A lata da bicha. De qualquer forma, pronto, assunto arrumado. Do que eu preciso é dum pouco mais de inteligência e de humildade. Para não falar num whisky, porque disso, graças a Deus, nem se fala. É só desenroscar a tampa, encher um copo e ir todo contente para a sala, ligar o televisor, para poder desligá‑lo e, antes de me sentar, ler um livro suficientemente bom para me estupidificar mais depressa.

Os acontecimentos das últimas semanas passam‑me pela cabeça, por ordem. A começar pelos mais entediantes. Também são tão poucos. Adormeço antes de chegar às partes boas.

Vem, pequena princesa. Não há mais ninguém que te conheça. Deixa‑me olhar para ti. Detestas ser pequena. Só me fodes para te convenceres que és apenas uma camponesa muito antiga.

Eu cá estou. como vês. Lá vou andando. Que outra coisa podia fazer? já me conheces. Pois, tu é que dizes que nunca me conheceste. Esqueci-me disso. Esquece. Vamos mas é ao que interessa. Só tu é que me interessas. Tudo o que dizes e fazes é interessante. Não conheço mais ninguém que seja assim.

Infelizmente, princesa, infelizmente...

O que é que fizeste ao cabelo? Nada? Não parece. É bom quando as coisas estão iguais mas não parecem. Melhor do que quando estão diferentes e não se repara, não é?

Tens de te ir jà embora? Pois, eu já sei, escusas de me estar a dizer.

Nunca vieste.

É melhor assim. Sem razão para me despedir de ti. Sem recordação de como foi quando cá estiveste.

Entra, entra...

Entra outra vez. Eu explico.

Até envergonha explicar que tínhamos de mais precioso e evidente era que mais ninguém nos interessava, no sentido mais concreto, de só nos interessarmos um pelo outro, como só nós, porque os outros podiam ser melhores, aturar‑nos mais, fazerem mais sentido, compreender‑nos e aceitarem‑nos, serem ou tornar‑nos mais contentes, mas eram todos, sem uma única excepção, sinceramente desinteressantes. Não era apenas uma questão de amor. Era verdade. Poderia dizer as coisas mais bonitas dela, mas muitas vêm da alma, e poderiam ser partilhadas por outras pessoas que se amam ‑ mas, não sei por que carga de aborrecimento e tristeza, tanto da parte dela como da minha, a maior verdade de todas, que parecerá irrisória às pessoas mais ligadas à vida, de quem não tenho inveja nem pena, é esta: ela é, não só para mim, mas para todos que ela deixa que a conheçam, tomem a palavra por inteiro, interessante.

Ocupa‑me, dá-me cabo da cabeça, põe‑me em bicos de Pés, absorve-me, faz‑me pensar, engana‑me, surpreende‑me, leva‑me a julgar a vida curta para sequer começar a conhecê‑la, apanha‑me a cabeça e o cérebro não me chega para apanhá‑la, tudo o que faz faz‑me rir, sentir‑me pequenino, sobrepor‑se a curiosidade do aqui‑c‑do‑ali aos mistérios corriqueiros dos sonhos, esquecer‑me de mim, e abençoar-me a alma com dúvidas bonitas e difíceis de mais para contemplar a vulgaridade de quaisquer soluções. Faz-me chorar sem perceber, e não perceber vale todas as lágrimas, por ser sempre a mesma, mas fora do meu alcance, como se nascesse diante de mim, nunca nova, mas sem poder explicar porquê. Nunca sei o que vai dizer e o que ela diz é diferente até do que eu não sabia. Ocupa‑me. E eu sou pequeno para ser ocupado por ela ‑ tanto me troca as voltas. Encanta‑me no que não sou capaz de ser encantado. uma mulher de repente. E é nobre ‑ porque não só é meramente imprevisível, como sinto escapar-me o que pressinto ser perfeitamente ‑ perfeitamente, sim ‑ capaz de prever.

Interessa‑me. É a única pessoa neste mundo que me interessa. Se parece pouco, tenho pena de quem não tenha a sorte de saber que nada há de mais sublime, ou de eterno, do que ficar interessado, e assim permanecer, com a cabeça e o coração à beira de rebentar, zangados com os seus limites, mas felizes por tê‑los levado tão longe, e conhecê‑los por ter conseguido lá chegar, e assim sossegar, numa inquietação bem fundada, de que tudo fizemos para esticar as nossas capacidades. A felicidade maior é a frustração mais doce ‑ de permanecermos para sempre incapazes, sem culpa nossa, para podermos passar a vida num esforço enorme, e termos por prémio a consciência de estarmos vivos, e de morrermos como começamos, morrendo sem sensação de fim, por ficarmos presos à maravilha, depois de uma vida inteira, de ficarmos interessados.

Conhecer quem se ama não é amor ‑ é conhecimento. O amor é uma atenção desprotegida e irresistível, que não nos deixa saber mais ‑ por muitos que tenham sido os anos e as intimidades. Amar alguém é uma desconsideração alegre por toda a gente. É uma exclusão terrível, mas parece tão certa e verdadeira: as pessoas são todas más ou boas, amigas ou inimigas, estranhas ou familiares, queridas ou detstadas. Mas, sejam quem forem, têm uma característica comum, que por muito que nos aliviem, desocupem, respeitem, descansem ou assegurem, é serem, variando os prazos e prolongando mais ou menos o pequeno mistério que acaba por se revelar (sempre depressa de mais), desinteressantes.

Nunca estamos completamente com quem estamos. Estamos um bocadinho. Estamos um por cento. Ligamos o piloto automático. Há quem se ame assim. E um caminho para o contentamento e para a paz. Mesmo que seja para a felicidade. Pobres daqueles que vivem no conforto de um interesse amoroso que, mais tarde ou mais cedo, passa a ser apenas amor familiar, no momento em que se satisfaz.

O amor, em si, nada tem de interessante. Quando duas pessoas se amam e se interessam, no sentido violento, insolúvel e deslumbrante que é o único e interminável, ocupam‑se tanto uma com a outra, mesmo estando afastadas, que o amor, de tanto existir e ser vivido, pode dar‑se ao luxo de ser esquecido e considerado, com toda a justiça, bastante desinteressante, comparado com as pessoas que se amam ‑ as partes, que jamais se hão‑de completar ou de se cansar uma da outra, verdadeiramente interessadas.

As coisas passam-se devagar mas não tenho paciência para as contar. Reflexo romântico da minha parte. Não é preguiça.

langor. Mentira. Mera diferença entre a verdade e o que gostaria de pensar. A minha vida é menos aborrecida do que dou a entender mas antes deixar passar a inexactidão e as lacunas do que o aborrecimento insuportável de as corrigir e completar.

Comparei as recompensas e os castigos. E decidi que mais valia ser penalizado por todos os dias em que foi notória a minha falta de comparência do que habituar‑me aos miseráveis dividendos que rendem os dias que me dei ao trabalho de viver.

Se a vida não se pode interromper, que mais restará? Só o sono. Logo a única coisa que se ganha em prolongar. Não é preciso chegar aos seis anos de idade para descobrir que mesmo os sonhos mais parados divertem mais que os pontos mais altos da realidade. Saem mais caros, reconheço. Mas a vida, em contrapartida, é demasiado barata para ser tão boa como nos querem fazer acreditar.

Nessa não vou eu. Daí a só estar disponível em situações de crise. Não faço nada para as coisas acontecerem. Não saio. Não arrisco. Tenho sempre o cuidado de manter o meu espírito bem fechado. Se, mesmo assim, as coisas acontecem, pois bem, aceito‑as de bom grado, mas livremente, isento de qualquer tipo de responsabilidade.

Se nem na minha vida meto o nariz, como posso negar que outros, mais esperançados e curiosos, metam‑no em vez de mim? Força. Boa sorte. É o que lhes desejo. Bom apetite e bom proveito.

Gosto de intervalos. justificam só por si tudo o que os antecede e lhes segue. Por muito pequenos que sejam. E quando, por infortúnio, não aparecem, não me importo de ser eu a fazê-los. E não me sinto inferior por causa disso. Nem reconheço mérito algum àqueles que se dedicam a outras actividades, como criar situações ou estar aberto a novas experiências, que só me fazem rir.

Quanto mais nos afeiçoamos à vida, mais nos custará depois morrer. Quando eu morrer, há‑de ser um dia como qualquer outro, um acontecimento com o mesmo valor que os anteriores, chato, sem nada de excepcional. Não será na melhor altura, como tudo nesta vida. E só com muito azar será na pior. Isso é que não. Mas qual é a probabilidade? Pouco mais que zero.

Bem. Basta de acção. É altura de fazer um intervalo. Certos assuntos, como a vida e a morte, são tão espessos que basta estendê‑los só um bocadinho para nos entreterem. São rápidos e são directos. Num instante deixam‑nos satisfeitos. Mais um bocadinho e ficamos fartos.

Tudo o que se disser da vida é provavelmente correcto. E insuficiente. Ainda há tanto por dizer, depois de tudo o que se disse, que até chateia. Deixemos às gerações futuras que têm a obrigação de fazer. Ou a tentação. Tanto faz. já fizemos o que tínhamos a fazer. Elas que façam como entenderem.

Pela minha parte, tento separar a minha vida o menos possivel da vida em geral. Tanto podia ser eu como outro qualquer. Não há momento em que não tenha isto presente. Se não for eu a defender‑me, mais ninguém será capaz de me atacar?

Mudo de casa. Para outra quase idêntica à anterior, um bocadinho mais perto do que queria, não podendo ser mais longe. Uma coisa é certa: a vizinhança é totalmente diferente. Nisso, não transijo. Tal é a importância que lhe atribuo. já se vê.

Fico à espera do primeiro incidente. Enquanto espero, trabalho, descanso, tomo banho, alimento‑me, bebo ‑ não me faltam coisas para fazer.

Tenho pensado muito ultimamente. Não sei o que se passa comigo. Bem me coíbo mas, pronto, de vez em quando, lá me foge o pé para o chinelo e, antes de me dar conta do que estou a fazer, já é tarde, já estraguei tudo, fico triste, já estão os pensamentos registados.

Isto aqui é como no notário. Está previsto e enunciado claramente no contrato. Nada de rasuras. Nada de voltar atrás. Aconteceu, aconteceu. Paciência. É mesmo assim.

 

Há uma filha que me chama a atenção. Encontramo‑nos no elevador. Falamos dos condóminos. Eu digo‑lhe que há uns quantos de que gosto. Ela diz que não gosta de nenhum. Uma noite, entrando no prédio ao mesmo tempo que eu, pede‑me que seja eu a chamar o elevador, porque está tão bêbada que não distingue os botões uns dos outros. Olha para mim com aquela oscilação alcoólica que é sempre atraente àquelas horas, naquelas raparigas que tudo faríamos para amar. Eu digo‑lhe que conheci um condómino que está a montar um filme impressionante na arrecadação, com o qual era impossível antipatizar. Ela diz que antipatiza com ele. E repete, com um grande sorriso, que não há um único condómino de que goste. Apetece‑me perguntar «E de mim?» Mas ela antecipa‑se: «Só gosto de ti!» Tão peremptoriamente que parece sóbria. E, logo a seguir:

«E acho indecente que você goste de todos os condóminos menos de mim!» Olha‑me fixamente, com aquele ar «Responde lá a esta, se fores capaz!» Está obliquamente encostada ao elevador, de pernas estacadas na minha direcção, que vão escorregando cada vez mais, até me tocarem nos pés. «Então?!», pergunta, desafiante. E, mal me preparo para responder, não faz a coisa por menos: desmaia de repente.

Não sei porquê, carreguei no «Stop». Por um triz não carregava no «Alarme». Levantei-lhe a cabeça da porta do elevador. Entrei num certo pânico. Mas não o suficiente para me impedir de me querer apaixonar. «Clara!», chamei.

«Estou muito mal disposta ... », disse ela, 'à destituída de qualquer sex appeal no sentido tradicional, dada a tonalidade verdejante do rosto e o movimento giratório dos olhos.

Tinha assistido tantas vezes a este filme que já o conhecia de cor: «Estou muito mal disposta... acho que vou vomitar... ai desculpe, que vergonha... não olhe para mim... não é preciso agarrar‑me a cabeça... ai, acho que vou vomi... (outra vez)» «Acho que vou vomitar ... »

«Força», disse eu, segurando‑lhe a cabeça.

Um pequeno jacto de aviso, seguido do presidencial. Vómito línpido, típico nas raparigas, sabe Deus porquê, sempre livre dos pedaços de cenoura que se multiplicam no nosso. «Manchei‑lhe as calças ... »

Só Deus sabe. Para se ser omnipotente, é preciso ser-se livre.

A Clara veio para minha casa, para poder vomitar à vontade.

«Não posso entrar assim em casa.»

«Desculpe. Só há uma casa, no mundo inteiro, onde talvez não possa entrar assim. A sua.»

Esteve cá. Dei‑lhe tempo. Ela queria deitar‑se, mas expliquei‑lhe que era mau investimento. Para ela. E, por pura coincídência, para mim. Deixei‑a sozinha na sala. Tomou banho. Tirou livros das prateleiras. Serviu‑se de medicamentos. Pôs discos a tocar. Familiarizou‑se com a minha casa. Com a rapidez que só é possível quando uma pessoa se sente mal. Saiu arrependida, pensando que eu estava a dormir, eu que estava num estado de alerta que se diria que estavam a bombardear Portugal. Sentado à beira da cama, a interpretar os ruídos que ela fazia, pronto para entrar em acção.

Estava apaixonado. Livre dos perigos do amor. Tinha encontrado, mais uma vez, uma rapariga que eu podia respeitar e desejar ao mesmo tempo. Só entrava na sala quando ela tinha adormecido, acordando‑a como se fosse por acaso, pedindo desculpa, indo buscar livros e charutos, sem me deter ao pé dela, para não me armar em protector, o que teria ficado mal.

Era muito mais nova que eu. A idade ideal. Dezanove anos. Por muito que envelheçamos, não é justo que arrastemos connosco as raparigas. Mesmo quando morrer, dezanove anos será sempre (para mim e para as mulheres) a idade ideal. O facto de não os ter não me impede de dar o justo valor a quem os tenha.

Nunca menti a esse respeito. As mulheres mais velhas que me diziam que estavam velhas sempre contaram com a minha sinceridade. Eu dizia: «Tu não estás velha» (a não ser que estivessem), «tu estás é longe de ter a idade ideal.» Sempre disse. Custasse o que custasse. Era raro reagirem mal. As mulheres sabem. escusado tentar enganá‑las, só para passarmos por parvos e elas se consolarem com a ideia que nos tornámos inconscientes.

Fica claro que estamos a transigir. Se elas tivessem dezanove anos, seria melhor. Mas, se não têm, a culpa não é delas ‑ e quem somos nós (a não ser com dezanove anos) para lhes dar confiança?

As raparigas com dezanove anos sabem que têm dezanove anos e gostam de ter. já começaram a envelhecer o suficiente para se darem conta que ainda são novas. E, se estão connosco, sejamos francos, é um favor que nos fazem. Ainda têm idade para o fazer.

Clara. Clara. São as duas únicas palavras que tenho para dizer.

Não me faço difícil. Não a acho difícil. Considerar mais do que isto e só ficaria a perder. O prémio aqui não sou eu. Mas ela também não pode ser.

Começo a passar mais tempo no elevador do que em casa. Adopto um gato perdido que mora à porta do prédio, estimado pelos porteiros mas ressentido pelos condóminos. Está gordo de mais para ser saudável. Mas não tenho alternativa. A obesidade dele é um preço pequeno a pagar pela minha assiduidade no rés‑do‑chão.

Da Clara, nem um sinal. Só um postal, dois dias depois do vomitanço-apaixonanço que nos reuniu, a dizer «Agora é a sua vez de fazer má figura, para sermos cúmplices.» Muito gostam as raparigas da cumplicidade. Ou por outra: se não gostam, estou lixado.

A minha estadia no elevador leva‑me a travar e acelerar novos conhecimentos. Uma empregada sem amor à profissão, sistematicamente atiradiça. Uma senhora demasiado nova para ter um cão tão pequeno, falsa‑velha, distraída, ora me fala ora não me fala, em ambos os casos infascinante. E uma namorada dum condómino, em fim‑de‑festa, sempre com cara de quem está à beira de desabafar, que volta sempre com a estima destroçado, acabada de se despedir dum homem injustamente contente.

Limito‑me a referir as mulheres que me atraem, esquecendo‑me da infrequêncía com que as vejo e das pessoas que tenho de aturar. Coloco‑me à socapa na lista de espera destas três.

Um dia a senhora prematura diz‑me que tem a impressão que conheço a filha dela, a quem prestei primeiros socorros numa noite não muito recente. Sinto‑me traído. Sinto‑me «aquele senhor do décimo‑terceiro direito». Para me vingar digo que sim, que conheço, mas vou mais longe, se me permite. Na minha família as coisas que eram para dizer diziam‑se. E eu não tinha maneira de fingir que não estava completamente apaixonado pela filha. A senhora reagiu bem. Deu‑me um estalo. Mas nunca mais se esqueceu de mim.

Assim como as amigas são um atalho, as mães são o longo caminho «por dentro», entrando e saindo da segunda circular, para chegar a uma rapariga. Mais tarde ou mais cedo, num raro lapso de intimidade, elas contam às filhas, numa vã esperança de as prevenir. Elas oscilam entre achar nojento e corajoso da nossa parte. Mas a oscilação, só por si, é eficiente.

«Ouça lá, você foi dizer à minha mãe que ... » «Não. Ouça você. Você foi dizer à sua mãe que ... » «Que mal é que tem? É verdade ... » «Então, se acha que dizer a verdade não tem mal, quem é você para me condenar por ter feito o mesmo?» «Eu disse à minha mãe!» «E eu também.»

«Não. Você não disse à sua mãe ‑ disse à minha!» «Por acaso disse às duas.» «Posso saber porquê?»

Baixei a cabeça e a voz.

«Acho que estou apaixonado por si.»

«Que disparate! Nem sequer me conhece ... » «Nem quero conhecer. Prefiro ficar assim.» «Assim como?»

«Como acabei de lhe dizer... apaixonado.» «Que idade é que você tem?» «Vinte e oito anos.» «Sabe que idade é que eu tenho?» «Não quero saber.» «Tenho dezoito.»

«Dezoito‑dezoito ou dezoito‑quase‑dezanove?»

«Dezoito acabados de fazer!» «Ah sim? Quando?» «Olhe, naquele dia.» «Então já a conheço desde os dezassete.» «Como se houvesse alguma diferença. «Desculpe, mas até há ... » «Ai é? Como por exemplo?» «Você sabe muito bem.» «E contou à sua mãe?» «Pois contei. Se for a ver bem, já contei a duas mães ‑ é você que está em dívida comigo.»

«Quer que eu conte à sua mãe? Acha que ela gostava?» «Claro que não. Acha que a sua mãe gostou?» «Então?»

«Então as verdades são para se dizer.» «Porque é que está tão agressivo, «Porque estamos quase a chegar ao meu andar.» «Nunca mais falo consigo.» «Pela maneira que falou comigo, até lhe agradeço.» «Acha que eu não tenho razão?»

«Acho.»

«O que é que você faria se estivesse no meu lugar?» «Abraçava‑me a mim.» «Ai é? E se eu me abraçasse mesmo? Sempre gostava de ver. «Agora já é tarde. Com licença.»

E saí do elevador, com o coração a bater, mas, vá lá, normalmente.

Ela veio atrás de mim.

«O que é que aconteceu?», perguntei.

«Acho que vou desmaiar outra vez. Agarre‑me.» «Já pensou bem no que se está a meter?»

«Porquê? Acha que eu preciso? Julga que eu não sei?» Agarrei‑a. Ela agarrou‑se a mim. E, quando me preparava para beijá‑la, não é que a rapariga desmaiou mesmo?

Deitei‑a no sofá.

Voltou a si, meia‑cá, meia‑lá. «Tenho a tensão baixa.» «Ponha a cabeça entre as pernas.» «Tem cá Effortil?» «Acho que não ... » «Tem ou não tem?« «Não.»

«Tenho que ir para casa.»

«Eu vou lá buscar ... » «Está bem.»

Pensei em fazer um raid‑relâmpago à farmácia. Mas não podia. A mãe descobriria. Fui bater à porta dela.

«Peço imensa desculpa de estar a incomodá‑la, mas por acaso não tem Effortil em casa?»

«É para a minha filha? Onde é que ela está?» «Está em minha casa... Desmaiou no elevador ... » «Espere só um segundo. Eu venho já.»

Descemos os dois no elevador. Como dois pais preocupados. Entrámos em minha casa. A Clara fechou os olhos, aproveitando os últimos vestígios do desmaio.

«Toma, filha ... »

«Ai ainda bem ... »

Deu dois golos directamente do frasco. Limpou a boca, como se tivesse bebido uma garrafa de bourbon e disse exageradamente: «Ah ... !»

Fiz tudo para não me rir. Mas a mãe, abençoada, riu‑se por todos nós.

« Clara, és mesmo maluca! Eu não te disse para andares sempre com Effortil na carteira?»

«ó mãe, eu não tenho carteira ... »

«Anda para casa, vá ... »

A Clara levantou‑se. A mãe sorriu‑me. Sabe‑se lá porquê.

Por ter estado presente, se calhar. Fui levá-las à porta. De repente, a Clara virou-se e deu‑me um beijo na boca. A mãe ficou espantada.

«ó Clara!»

«ó mãe, é melhor que saibas já ... » «Tu não me digas ... » «Estou apaixonada.» «Não digas disparates.» «Se não acreditas, pergunta ao senhor ... » «Era o que faltava!»

A Clara olhou para mim. Não tive outra alternativa senão fazer que sim com a cabeça e dizer:

«Está, está ... »

«E ele também está», disse a Clara.

«Imagino ... »I disse a mãe.

«E imagina bem. já lhe tinha dito que estava.»

A mãe fechou os olhos. A Clara, antes de sair, abraçada a ela, virou‑se para mim e, com um ar mais maternal que a própria mãe, disse:

«Foste tão querido em ter dito à minha mãe ... » Mulher rápida. Moderna. Do melhor que anda para aí.

«Amo‑te!», gritei desesperadamente.

«já sabemos!», respondeu a mãe, furibunda sem saber porquê.

«Quando é que te posso dizer a ti?»

«Porque é que não dizes já?»

A mãe arrastava-se para o elevador, já confiante.

Fechei a porta como se estivesse a sair do quarto dum velho violoncelista moribundo, único amigo que tinha neste mundo.

«Estou feito ao bife», pensei. Procurei uma garrafa de champagne no frigorífico. Encontrei duas. Não me lembrava qual era a mais antiga. Tirei a rolha da que estava mais cheia. Chocalhei. Nada. Experimentei a outra. Menos ainda. Voltei a pô‑las no frigorífico. Abri uma garrafa de whisky. Assim sim.

E convenci‑me que era tão chata como as de champagne. Que era melhor acabá‑la hoje já, não se fosse estragar.

Clara. Whisky. Whisky. Clara. E assim sucessivamente, sem nunca mais acabar.

A vida voltava a dar sinais de si. Eu estava quase morto. Não podia estar mais bem preparado.

Adormeci uma hora depois, meia‑hora depois de ter tomado os comprimidos. Sonhei que estava a dormir na minha cama e que tinha bebido três whiskies. Acordei a transpirar. Só quando vi que era verdade fiquei descansado. Apaguei a luz. Ao longe, ouvia um automóvel a estacionar. Esperei que terminasse. Nunca mais terminava. Levantei‑me e fui buscar outro whisky. Sentei‑me no chão. A fumegar.

Nem sempre foi assim.

Que eu não me lembre.

Tudo menos isso.

A ver fomos, ao ribeirinho, mais pequenino de Alcobaça, com o cesto sem pão, nem fruta, nem coisa nenhuma daquelas que é suposto ter, não porque não quiséssemos, mas porque não havia espaço, por causa das revistas e das cassetes, e da pressa, que não convém esquecer, tanta que era, lembras‑te?, lá fomos ao ribeirinho, mas nem parámos sequer, era só água, decidimos proceder, foi o melhor que fizemos, só hoje tenho discernimento para reconhecer...

Só parávamos para fazer as necessidades. Amor e chi‑chi, basicamente.

No meio dos campos, que nem de longe foram feitos para essas coisas, tal a impressão de espigas e plantas que deixaram nos nossos rabos, bastava fotografá‑los e tínhamos logotipo para uma loja de produtos naturais, e os campos todos iguais, ainda por cima, por muito que caminhássemos, sempre o mesmo desconforto, a mesma recepção inóspita, gênero estalagem miserável mas cheia, com as libelinhas a zunir «Mas que merda é que estão aqui a fazer?», e o vento frio, a fazer questão de se fazer sentir, onde o calor era mais preciso, vá lá alguém saber porquê, por alguma razão os pais ficam mais descansados quando estão em casa, a ocupar os aposentos, não fossem os filhos insensíveis ao pastoral, como costumam ser.

E a tua carucha mais querida ficava tão crua, parecias uma mulher que estivesse a assassinar alguém, eu nem te conhecia, se não me tivessem dito, e depois rosadinha, vai‑à‑fonte, se eu estivesse em paz. Era lá capaz de uma coisa dessas, mas tu eras, as vezes, todo‑o‑terreno redondinho graças a Deus, com mais buzinas que botões, que mau gosto, mas não posso

mentir, não consigo parar, nem dizer de outra maneira, deixa lá que vem aí outra já a seguir...

Então não me lembro.

Pois bem.

Tanto melhor.

Fica na tua que eu fico na minha, o que vem dar ao mesmo, porque só a tua poderia ser minha. Como se não soubesses.

Ceifeirinha trigueira, de preto dos pés à cabeça, camisola funerária,, botas da tropa, só destoavam as bochechas rosinha, e o ancinho, ou o sacho, ou lá o que for, se por acaso tivesses, não que existisse o menor perigo, não me interpretes mal, é só a minha lembrança a falar, não lhe ligues que vai embora, trigueirinha ceifeira, das pulseiras pesadas oferecidas

por algum amigo muito bom que tinhas na Setenave. Amo‑te tanto que mais valia acabar já aqui, tudo entre nós, a minha vida e a tua, se não te importasses, eu ficava já aqui, jà não posso mais, esquece tudo aquilo que disse sobre todos os dias e amar‑te mais, acabou‑se, cheguei ao limite, e não aguento não poder amar‑te mais, só por cima do meu cadáver, electrificado sobre ti, no meio das silvas, e as nuvens a chover, por cima...

A Clara marara. O Outono findara. O telefone tocava. Era a Mónica. A Mónica!

«Quem era?», perguntou a Clara, «não me digas que tens para aí uma ex‑mulher muito chata ... »    

Calei‑me.  

«Já foste casado?»

«Não, não tenho uma ex‑mulher e não, não fui casado. Sou casado. Mas ela não quer divorciar-se. E eu concordo.» «Tu és um homem casado?»

«Não. Casei‑me, mas pouco... não deu para ficar casado ... »

«Já não gosto mais de ti.»

«Clara ... »

«Vou‑me embora. Vou contar tudo à minha mãe. Vais ver!»

A Mônica não se divorciava por que lhe dava jeito estar casada. Afastava os pretendentes. E emocionava‑os. Anda para aí a dizer que foi abandonada, que nunca mais quer ver outro homem à frente. Os amantes sentem‑se uns felizardos. julgam que se estão a aproveitar dela. E daí serem pouco exigentes.

Volta a Clara.

«Quanto tempo é que estiveste com ela? «Cinco semanas.»

«E há quanto tempo não a vês?» «Há quase um ano.»

«Há quase um ano? Nós já andamos há mais de um ano!» «Então há mais de um ano que não a vejo.» «Antes de começares a andar comigo, há quanto tempo é que não a vias?»

«Sei lá. Há meses. Eu só a vi quando casei com ela. E depois, nunca mais.»

«Gostavas dela?»

«Porquê? Nunca gostaste de ninguém?»

«Então não!»

«Viste? Viste? Eu, ao menos, nunca gostei dela.» «Então porque é que te casaste?» «Porque era a única rapariga que não gostava de mim.» «E tu não gostavas dela?» «Não, claro. Era um luxo. Gostava pouco, mas ela detestava-me. «A ganância de quem quer amar!» «Que mal é que tem? Eu também quero!» «Quer dizer: mesmo que quisesses, não poderias casar comigo ... »

«Eu não quero casar contigo!» «Mas não podes.» «Por enquanto, não.» «Eu não casaria contigo, mesmo que pudesses.» «Estás a ver?»

«E muito menos, se nem sequer podes!» «Então pronto.»

«irrita‑me é não poder não querer casar contigo e tu não

poderes.»

«É a vida.»

«Estúpido! Não percebes nada!»

«Tem paciência. Tenta explicar‑me», respondi.

«Agora, só por causa das merdas, quero que tu cases comigo!» «Não queres nada casar comigo ... »

«Pois não. Casar contigo nunca! Quero é que sejas tu a casar comigo.»

«Se quiseres ... »

«Não ‑ tu é que tens de querer casar comigo. Para eu poder dizer que não.»

«ó Clara, tens tanto tempo ... »

«Estás a ficar velho. Ou estás à espera que eu case contigo quando já fores ainda mais velho?»

«Eu já sou demasiado velho ... »

«Com vinte e oito anos? Não me faças rir. És praticamente um homem novo!»

«Decide‑te.»

«Não é a tua idade que me assusta. o facto de estares casado. Não vês que não és velho de mais para casar? És é demasiado novo para já estares casado!»

«Mas estou na idade ideal para me divorciar. «Isso é verdade. Divorcia‑te antes que seja tarde.» «Ela não quer. Não percebes? Duas pessoas podem casar‑se sem querer. Mas para divorciarem‑se é preciso que queiram os dois.»

«Mentira. Há o divórcio litigioso. «Ainda leva mais tempo do que o outro.» «És um preguiçoso.» «Tens razão. Amanhã vou falar com um advogado.,> «Quanto tempo é que demora?» «Sei lá. É a primeira vez ... » «Pois acho bem que saibas,'porque enquanto não te divorciares não ando mais contigo!»

«Já viste, Clara? Não achas poleiro andares com um homem divorciado? E julgas que eu me sinto bem, como homem já divorciado, a andar com uma rapariga da tua idade?»

«Não tenhas medo, que eu continuo a gostar de ti. Mas tens razão. Divorciado ainda é pior que casado. Era o que tu merecias ... »

«Não quero ser um divorciado. «Não queres é divorciar‑te!» «Já que falas nisso, por acaso até queria!» «Tem calma. Eu vou salvar‑te. Eu deixo‑te casar comigo.

A ssim já podes voltar a ser aquilo que, no fundo, mais gostas ser um homem casado.»

«Preferes que eu seja um homem casado contigo? Não achas melhor estar casado com alguém de quem não gosto? Eu gosto tanto de ti! Custa‑me casar contigo. Acho que não era capaz de te fazer uma coisa dessas.»

«Deixa‑te de lérias. Divorcia‑te, despacha‑te e depois vem ter comigo.»

«Depois já não queres saber de mim ... »

«Eu caso‑me à mesma. Não foi assim que tu casaste? És mais do que eu, não?!»

«Não te vás embora ... » «Se quiseres, eu trato do advogado.» «Trata, trata ... »

«Tens sorte. A minha mãe é advogada.»

«Mas ela não pode saber que eu sou casado!»

«Deixa lá, que eu só lhe conto quando o julgamento tiver acabado ... »

E saiu. O casamento começa a fazer efeito. A minha mulher está a tornar a minha vida num inferno. A Clara tem razão. Tenho de defender os meus interesses, a minha dignidade. Mesmo que isso faça de mim um homem divorciado. Mesmo correndo o risco de casar‑me uma vez mais.

É um desperdício. A Clara. Casada. Vou perdê‑la para sempre. Vai‑se transformar. Vai-me odiar. Vai‑se vingar. Vai-se divorciar. E lá voltarei eu a ser um homem divorciado. Só que sem na‑morada com quem depois casar. Mais patético ainda.

Ser‑se casado ou não deveria ser do foro confidencial. Cada um tem o direito de fazer o que muito bem entender na sua vida. Se uma pessoa quer «assumir‑se», isso é lá com ela. É um assunto demasiado íntimo para andar a obrigar as pessoas a confessar publicamente. O estado civil é ou não é tão pessoal como o de saúde ou o de espírito? Para não falar da sexualidade.

E, falando em sexualidade, que vou eu fazer sem a Clara? E a Clara sem mim? Alguém há-de beneficiar à minha custa. Quem será? Que seja ao menos alguém que lhe dê o devido valor, e a quem ela não dê quase nenhum. Uma maçada. Estou deprimido. Tenho que me ir deitar.

Então não me lembro. Não me lembro. E daí?

A realidade constrange muito. Não nos deixa liberdade para nos lembrarmos à vontade. Como queremos, ou precisamos. Como deve ser.

E passa‑se um bocado sem saber se foi ou não verdade. incómodo. Não se sabe o que se quer: se lembrar como, de facto, foi, ou lembrarmo‑nos como queremos. E depois ser ou não ser verdade deixa de poder saber‑se. E, quando isso acontece, deixa de ter importância. E, eventualmente, esquece‑se.

E a lembrança começa.

Conforme o momento e o sítio onde se estiver. A vontade do freguês. De acordo com as necessidades básicas, naquelas circunstâncias particulares. E o mais que se vá, à falta de outra expressão, foder.

Saudades, só em último caso. E em havendo, avulsas, acomodativas, à medida de quem as tiver de ter.

Uma pessoa lembra‑se lá, na altura, de que lembranças vai precisar. Se não se inventam e não houver maneira de saber se foram ou não inventadas, não prestam. Não se percebe o propósito. Não se pode faltar ao respeito à necessidade. pena perder‑se a oportunidade de a satisfazer.

Isto parece muito frio. Mas quando saiu do forno, estava a ferver. E não é no forno que as coisas se guardam. Aquelas que se quer mesmo guardar.

Coração quente, mãos frias. É este o verdadeiro significado. Cada coisa de sua vez. As vezes que for preciso.

Durante a vida inteira. Se for preciso.

Vai Deus estudar a estrela‑mãe, numa voz maior, que não nos pertence.

O que as coisas dizem antes de se contarem, não se ouve. Mas ditas ficam; de uma maneira que não é a nossa e que, por infortúnio, percebemos sem querer.

Se, ao menos, fosse ao nosso lado que as coisas se passassem. Ter uma vida que se visse, da qual se pudesse dizer que passou ao nosso lado, mas que tivemos consciência disso ‑ seria muito bom. Ou, também ao menos, vermo-nos livres desta estupidez, perder a sensação que talvez se tenha perdido alguma coisa, que não se pode saber qual é ‑ isso seria um alívio bem‑vindo, que ninguém duvide. Nem que fossem outros a vivê‑la, essa vida, e a gente pudesse ver, se quisesse, bastando sair dos nossos buracos, e mais nada. Até poderia ser caro, ou difícil. Eu pagaria, faria esforço, daria graças a ‑ UM homem bondoso, um perigo, em que ninguém confia, no qual a única vontade, insatisfazível, por falta de quem o ouça, é de mentira, aproxima‑se de mim, pequenino. Mas nunca o suficiente para apanhá‑lo, ou dar mais de um segundo por ele, tal é a distância, se assim se pode dizer, em que vivo, sem saber de, ou entre, quê ‑ nesse asilo, num lugarejo, algures nos confins de outros que nunca vi, olhando sem me dizerem que olham, ou para quê, deixando-me como estava antes de olharem, por não poder dar por eles, mas capaz de pensar no pior ‑ que tudo isso 'à terá passado e é depois, aqui, depois, onde estou, embevecido por estar aterrorizado ‑ ao menos isso.

Quem vai estudar a estrela‑mãe?

Deus.

Como é que se pronuncia?

Numa voz maior.

Que podemos dizer acerca dela?

Que não nos pertence.

E depois?

Nada, não sei, é só isso.

E daí?

É grave, de facto, mas resume‑se a isto. As pessoas não se convencem. Fazem muitas coisas mas não se convencem. Não deixam, ou não querem, ou querem, não conseguem convencer‑se. Por seja quem for. Que é sempre ninguém. Se aparecesse fosse quem fosse, com uma missão, não digo «missão», um tempo para perder, no sentido de explicar o aqui e o além, mesmo sendo o além mais próximo que a nossa própria cabeça, aí seria uma sorte ‑ mesmo os mais renitentes começariam por render‑se, pôr‑se à disposição de quem lhes dirigisse o olhar, e a palavra, nem que fosse apenas uma, seria o bastante para desistir, como prova de existência, ou de interesse. Uma só seria mais do que suficiente. Muito, para quem nunca teve nada e não sabe o que perde ‑ uma oportunidade eternamente à espera de saber se é ou não, se interessa a qualquer outro, do mais pequeno aproveitamento que talvez um dia, numa vida, se fizesse.

 

A mãe da Clara é impecável. Conquistou o direito vitalício de me tratar com superioridade. Com aquele ar «Eu não devia estar a fazer isto ... », à mistura com «ó homem, não vês tu que não passas dum pobre‑diabo?».

Secretamente está do lado da Mónica. Não por simpatizar com ela. Só para me chatear. Mas eu faço tudo como ela quer. Dou‑me por culpado e depois, quando isso não funciona, apresento‑me ao tribunal como corno. Manso. Selvagem, jà não dá. Bons tempos.

Obriga‑me a recorrer à Margarida e à Joana. Testemunham que assistiram, mais de uma vez, à cena da Mônica, num jantar do meu aniversário, diante de todos os meus amigos (coisa que nunca tive, aliás) gabar‑se dos amantes com que me tinha atraiçoado, chamando a atenção para a desproporção entre a envergadura e o desempenho da minha gaita, e como se eu me preocupasse com o que já toda a gente sabia. Isto com a maior das calmas, e das mentiras, com paixão semelhante àquele com que se desvairava. Acabara por dizer, num tom de desprezo semelhante ao dos aristocratas das séries inglesas quando despedem uma criada surpreendida a roubar garrafas da adega, «o que tu és, meu querido, é um corno manso... um corno manso... não te bastava ser o mais corno... não... tinhas de ser também o mais manso ... »

Foram tão convincentes que a Móníca ficou impressionada. Gostou. Adoptou o papel. Confessou. E mais: disse que qualquer outra mulher teria feito o mesmo. O juiz até perguntou se o casamento tinha sido consumado. A Mônica respondeu:

«Isso depende do que o senhor doutor juiz entende por consumado...»

Levou o tribunal às gargalhadas. Em momento algum cedi à tentação de defender a minha virilidade. Gostei de ser o centro das compaixões. E, apesar das minhas reservas iniciais, foi com agrado que aceitei a condição de divorciado.

Fui almoçar com a mãe da Clara. Agradeci‑lhe humildemente, de Kafka na mão. Contei‑lhe o que seria feito de mim se não fosse a senhora doutora. Partilhámos um lavagante. Quando chegou o café, declarou:

«No que diz respeito à minha filha ... » «Faça o favor de dizer ... » «Só me resta apelar à sua consciência ... » «Apele à sua vontade ... » «Ela tem estado fora de si estes últimos meses ... » «Eu também sofri ... » «Pois ela não. Custa‑me dizer isto, por ser minha filha,

mas... ando muito preocupada... Sai todas as noites, é raro vir dormir a casa... ou ir... e, quando aparece, é com pessoas... indescritíveis... marginais, toxicodependentes, roubaram tudo o que havia em casa para roubar ... »

«A Clara?»

«É essa, infelizmente, a realidade que temos de enfrentar ... » «Eu falo com ela ... »

«Era precisamente isso que lhe vinha pedir. Ela gostava muito de si, sabe? A si, é capaz de o ouvir... Como vê, estou a pedir‑lhe ajuda, porque já não sei para onde me virar... já foram psiquiatras, neurólogos... centros de férias... fiz tudo o que podia fazer. Só espero que você consiga fazê‑la ver que, se continua assim, destrói a vida dela ... »

A minha já estava destruída. A minha Clara... Para sempre perdida, como eu tinha previsto. Mas muito mais cedo. Fiquei de rastos. Nunca me deveria ter divorciado. Deixá‑la assim sozinha. Apesar de ter sido ela a deixar‑me a mim. E agora? A Clara, pronto, já estava encaminhada... Que iria ser feito de mim?

Meti‑me na cama. Duas horas depois, bateram à porta. Deixei‑me estar. Só me levantei quando ouvi os gritos. «Sou eu! A Clara! Abre a porta!»

«Vai‑te embora ... »

«Eu sei que estás aí. Abre a porta!»

«Eu não estou a dizer que não estou aqui! Estou a dizer para te ires embora!»

«Despacha‑te!»

Lá abri a porta. A Clara estava irreconhecível. Olheiras, um brinco entre as narinas, cabelo às cores, magríssima, botas sado‑masochistas, uma T‑shirt rasgada de cima a baixo... Nunca a tinha visto tão gira.

Abraçou‑me com força.

«Tive tantas saudades tuas!», disse ela. «Mentira.»

«Pois é. Mas é que não podia ter, percebes?» «Perfeitamente.»

«Já sabia que ias perceber.

«Sabes o que é que a tua mãe me disse?»

«Não, mas deve ser verdade... não é nada o gênero de mentir.»

«O que é que se passa contigo, Clara?» «Estúpido! Estou feliz? Não vês que estou feliz?!» «Tomaste alguma coisa?» «Tudo. Tomei tudo.» «Estás fora de ti. Olha ‑ ao menos isso!» «Sim! Estou! É óptimo!» «Falamos depois. Quando estiveres deprimida. É melhor.» «Não. Agora. Tem de ser agora.» «O que é que tens andado a fazer? Não pareces a mesma pessoa ... »

«Fiz tudo. Tudo o que possas imaginar. Sempre a mil à hora, sempre a curtir... com toda a gente, estás a ver?»

«Tiveste muitos namorados?»

«Namorados? Ouve lá, devo ter sido a maior puta que anda para aí! O que é que tem?»

«Não tenho nada a ver com ISSO.»

«E droguei‑me e embebedei‑me e caguei em tudo, nas aulas, no que pensavam as pessoas, até na minha mãe, ouviste?» «Se é isso que tu queres ... »

«Ouve lá, porque é que tu estás com essa cara? Julgas que foi fácil? Tu, que me conheces, achas que foi fácil?»

«Queres que eu tenha pena de ti?»

«Não. Quero que te orgulhes de mim.» «Estou orgulhosíssimo. Não vês pela minha cara?» «É por seres parvo. Porque é que és sempre tão parvo? Não percebes que fiz tudo por ti?»

«Por mim?»

«Por nós dois, pronto. Preferes assim?»

«Tanto me faz.»

«Ai é assim? Quer dizer, eu aproveitei o tempo em que tu andavas a divorciar‑te... odia não ter aproveitado... ficava em casa... nas calmas... fazia o que me apetecia... Mas pensei... Porra! Não posso continuar assim! Então decidi que não havia de perder um único minuto... e saí por aí, a abrir... julgas que não me custou?... julgas que foi só divertir-me?... claro que me diverti... mas às vezes o que menos me apetecia era divertir‑me... depois, com o andamento, ia‑me apetecendo mais... mas, ouve lá, tenho dezoito anos... eu praticamente não vivi... Por isso é que fiz este esforço todo... Experimentei tudo o que havia para experimentar... e repeti... e continuei

até me fartar... não estás a perceber?... envelheci ... »

«Não envelheceste nada. Estás linda ... »

«Dentro de mim! Cada semana foi, para aí, um ano que vivi... Agora já sei tudo... Envelheci... Concentrei tudo o que podia no mínimo tempo possível... E, pronto... já não quero saber de nada disso... já vivi. já sou crescida! E foram só cinco meses... Não vês? Estou pronta para ti ... »

«Para mim... Não me faças rir!» «Estou a falar a sério, ouviste? Eu acreditei em ti ... » «E eu em ti ... »

«Então? Porque é que estás com essas trombas? Onde é que está esse grande amor que tu dizias ... ?»

«Aqui.»

«Agarra‑me. Assustaste‑me. Pensei que já não gostavas de mim... Estúpido! Besta! Cabrão!»

«Clara ... »

«É bom abraçar um homem divorciado! Bem, não e a primeira vez, mas, estás a ver, se fosse, não podia comparar... e dizer que é, de longe, o melhor que 'à senti ... »

«E agora, como é que é? Achas que é só assim?»

«Agora é. já viste? É óptimo!»

«Pois. E depois?»

«E depois logo se vê. Quando já estivermos casados ouve lá: perdido por cem, perdido por mil, seja o que Deus quiser!»

«Casados?»

«Porquê? Já não queres casar comigo? O que é que se passa

contigo? Estás esquisito ... »

«É natural, não achas?» «Devias estar agradecido ... » «Obrigadíssimo.»

«Já viste bem?»

«Escusavas de te ter concentrado tanto, como tu dizes ... » «Ouve lá, se não te tivesses divorciado hoje, ainda me concentrava mais... posso não ter ficado com nenhuma atravessada... mas, se não fosses tu, nem te passe pela cabeça que eu me ficava por aqui... »

«Desculpa se te interrompi ... »

«Que querido! Gosto tanto quando fazes essa carinha... Gosto tanto de ti ... »

«E eu? Se soubesses... Nem nunca hás‑de saber, porque eu não te digo ... »

«Apetece-me tanto casar contigo, ser tua mulher e tu seres meu marido e essas merdas todas que só dão merda!» «Calma ... »

«Ai é? Para a outra puta, toda a pressa foi pouca!»

«É diferente.

«Espero bem que sim. Anda! Vamos ter com a minha mãe. Coitada, ela tem andado de cabeça perdida... Vai lá tu, primeiro... Pergunta‑lhe qual é a maneira mais rápida... Tu sabes... com aquelas mariquices que ela gosta... pede‑lhe a minha mão, se não te fizer muita confusão... ela adora... explica‑lhe que estás arrependido de te ter casado e isso... vais ver que ela perdoa‑te tudo... eu conheço-a... acredita em mim... despacha‑te... eu espero aqui um bocadinho e já lá vou ter... dá‑me um beijinho!»

Assim fiz.

Que grande puta. Na grandeza, claro. Não há pior que uma puta mesquinha. E inteligente. E querida. Enfim, uma rapariga séria. Mais uma vez tinha‑me calhado uma rapariga séria. Deus existe.

Salivando com a perspectiva do meu triunfo eminente, subi para ir falar com a mãe da Clara, pelas escadas, para prolongar a minha vingança.

«Estive a falar com a sua filha ... »

Deixei‑a contorcer‑se um bocado, para dar oportunidade ao sistema nervoso central dela para entrar em «fast forward». «Acho que ainda vamos a tempo ... »

Tinha sido promovido a pai, com toda a dignidade que confere o cargo, mas sem nenhuma das chatices. Como um embaixador político. Sem carreira de fraldas, dores de garganta, despesas de vestuário, missão pedagógica e tudo o mais. «O que é que a Clara lhe disse?»

Fui dobrando o pára‑quedas, cuidadosamente, enquanto falava.

«Ela está muito confusa.»

Esta cai sempre bem. E caiu. Era altura de tentar fazer um pouco de contrabando, para testar a resistência da minha nova mala diplomática.

«Se achar mal, diga. Não lhe propunha isto se não me

parecesse indispensável. Fazia‑lhe bem passar uma semana em minha casa.»

«Eu? Com certeza, mas ... » «Não, a sua filha.» «A Clara?»

«Preciso duma semana sozinho com ela. Sem o seu apoio e consentimento, nem valerá a pena tentar.»

«Como é que me pode pedir uma coisa dessas? Sabe que idade é que ela tem?»

«Isso é consigo. A alternativa é deixá‑la continuar a fazer a vida que tem feito até aqui e esperar que ela acabe por cair em si ... » «Não. Eu é que sei o que tem sido. Não lhe conto porque é minha filha e o senhor nada tem a ver com isso. Está muito bem. Se acha que lhe faz bem passar uma semana em sua casa, tem o meu consentimento.

«E o apoio? Não se esqueça do apoio. Sem o seu apoio, não consigo fazer nada.»

«Desculpe, mas o apoio não lhe posso dar. Tenho as minhas reservas, como há‑de compreender.

«Pronto. Não se fala mais nisso. Peço‑lhe é que guarde essas reservas para si.»

«Assim farei. Mas se chega ao meu conhecimento que esta experiência prejudica a minha filha ... »

«Eu aqui estarei para a ouvir.»

«Ou no olho da rua, mais provavelmente.» «Ah... mais uma coisa.» «Diga.»

«Tive de lhe dizer que casava com ela. Foi a única maneira de a acalmar.

«Coitadinha da Clara ‑ está mesmo desorientada. «Pedi‑lhe para vir ter connosco daqui a pouco. É natural que lhe fale no casamento.

«Que disparates

«Só lhe peço que faça de conta que está feliz.» «Era o que faltava!»

«Está em causa o equilíbrio psicológico da sua filha. Lembre‑se também, que sou hoje um homem livre.» «Se não fosse eu, ainda era um homem casado.» «Reconheço que sim.»

«E então? E assim que me paga? Casando com a minha filha?»

«Devo dizer‑lhe que não é bem esse o caso. A sua filha é que quer casar comigo.»

«No estado em que ela está ... » «Seja compreensiva. «Está grávida?» «Acho que não.»

«É pena», disse ela. «Pelos vistos, não tenho alternativas

A mulher já estava a abusar. Ainda agora tinha acabado de a tranquilizar. Era esperta, a megera. Decidi abreviar. Não fosse aumentar a desconfiança dela e, paralelamente, a probabilidade de eu me espalhar.

«É só durante um bocadinho. Daqui a umas semanas, tudo isto estará resolvido. » «Deus o ouça.» «Posso contar consigo?», perguntei. «Isso é cá comigo.» «Quer queiramos, quer não, somos uma equipa.» «Fale por si.»

«Não tenho feito outra coisa.» «Quando é que a minha filha disse que vinha?,> «Lá para as cinco.» «Falta meia‑hora.» «Porque não aproveitamos para afinar estratégias?» «Tenho de me ir embora. Deixe‑se estar à sua vontade», disse a mãe.

«Nesse caso, vou a casa dizer à Clara para vir.» «Não. Deixe‑se estar aqui.» «Como quiser.» «Tem aí os jornais.»

«Já os li, obrigado.»

«Beba um whisky.»

«Obrigado.»

Não lhe ocorreu pensar no que eu podia fazer enquanto bebesse o whisky. Um espectáculo de fogo‑de‑artifício, por exemplo. Irreprímível. Lindo. Só visto. Só eu é que vi. Não estava lá mais ninguém dentro de mim.

Entrou a Clara.

«Já lhe disseste?»

«Já ... »

«Pediste‑lhe?» «Pedi ... »

«E ela?»

«Reagiu como era de esperar que reagisse.» «Coitadinho!»

«Eu compreendo ... »

«Deixa estar. só uma questão de tempo. Vais ver como ela se habitua.»

E eu? E a Clara? Como é que se habituou assim tão depressa?

Entrou a mãe. A Clara agarrou‑se a ela. «ó Mãe! Estou tão feliz!» «Olha para ti, filha ... » «Eu vou‑me vestir.»

«Vai, filha, vai ... »

Como quem diz «Faz isso por mim.»

A mãe olhou para mim, hesitando entre a desconfiança e a admiração.

«O que é que você lhe disse para ela ficar assim?» «Foi simples. Disse‑lhe que sim.» «Isso fazia qualquer um!»

«Por amor de Deus. Diga‑lhe que não concorda. Depois terá tempo para se definir.»

«Não me aconselhe, que não preciso.» «E só mais uma coisa ... », acrescentei. «O que é?»

«Pense também um bocadinho em mim.»

«Não abuse. Bem basta o que basta.»

«A senhora é que sabe.»

«A única pessoa que está aqui que se preocupa sinceramente com a Clara sou eu.»

«E mentira. Felizmente. A Clara precisa de nós os dois.» «O senhor preocupa‑se é consigo.» «Olhe que não. Nem preciso.» «Ah não? Deve ser o único.» «Já tenho quem se preocupe comigo.» «É a Clara, não? Não me faça rir ... »

Por acaso ia dizer a Clara. Mas enquanto fazia que não com a cabeça, ocorreu‑me uma substituição brilhante.

«Não, não é a Clara. É a minha mãe. »

Ela teve de encaixar. Nem sei se comovida.

«É que eu também sou filho ... », disse eu.

Que importava que a minha mãe tivesse há muito morrido? «Se fosse pai é que percebia.» «E hei‑de ser. Um dia.»

«Desde que não seja através da Clara ... » «Através!» Mas o que é que as mulheres querem?

A Clara voltou na altura certa. Estava muito bem vestida.

Muito menos gira.

«Olha a minha filha!», disse a mãe, com todo o seu sentido de humor a vir ao de cima.

«Pareço uma perua, mãe!»

E parecia.

«Mãe ‑ quanto tempo é que achas que vai levar o nosso casamentos

«Depois falamos disso.»

Como quem diz «Depois de o teu futuro marido se ter ido embora.»

«ó Mãe! Tu sabes! Diz‑me!»

«Pelo menos um ano. E um ano é muito tempo, como hás‑de ver ... »

«Um ano? ó Mãe, não é possível! Vivemos numa dernocracia!»

«Por isso mesmo. Se casasses com um rapaz solteiro, era mais rápido ... »

Como quem diz: com um rapaz da tua idade. O que seria impossível.

«Ele agora é um homem livre, Mãe ... »

«Não, não é. É um divorciado. Um recém‑divorciado.» «Novinho em folha», disse eu.

«Ah sim? Fique sabendo que a Lei está precavida contra as pessoas como ele. Que confiança merece à justiça um homem casado acabado de se divorciar?

«Alguma, com certeza», respondi.

«Pouca. Muito pouca. É por isso que é ilegal ‑ ilegal ouviu? o senhor casar‑se imediatamente outra vez. Com o cadastro que já tem ... ».

«Quanto tempo é que é preciso esperar?», perguntou a Clara.

«Infelizmente é pouco. Nesse aspecto, a Lei colabora acintosamente com a degradação moral que se instalou neste país ... » «Ai ainda bem ... », disse a Clara.

«Para mais, a degradação moral de que a senhora fala deve‑se mais às pessoas que vivem à margem da instituição matrimonial ... »I disse eu, numa tónica fascista que considero inaceitável e repugnante, vindo‑me à cabeça a imagem indesejada de uma multidão de mães solteiras, grandes amores clandestinos, e homens e mulheres de impugnável decência, como eu e as raparigas que conheci.

«Antes a honestidade que a hipocrisia, disse a mãe. «Nisso estamos todos de acordo.» «Fala por ti», disse a Clara.

«Pois», disse a mãe, «fale por si!»

Já chegava. Há um limite para o enxovalho, mesmo para mim.

«Clara ‑ a tua mãe acha bem que passes uma semana comigo ... »

«Só uma semana?» «Em minha casa ... » «Eu, sozinha contigo, em tua casa? Deves estar mas é maluco! Ainda não estou casada contigo, que eu saiba ... »

A mãe olhou para ela. Lembrou‑se da vida que a Clara vinha levando. E encheu‑se de coragem.

«Clara, é só uma semana... Não é como se ficasses comprometida... Faz lá isso por mim, para eu ficar mais descansada ... »

Agora estás do lado dele?! Grande mãe que me saíste!», gritou a Clara, subitamente filha.

Saiu da sala. A mãe adorou.

«Sai à mãe... », comentou.

«E à noite... », acrescentei.

«Duvido. Dantes tinha as minhas dúvidas, para ser sincera. Agora estou convencido que lhe fez muito bem a conversa que teve consigo. E, se não se Importa ... »

Fui despedir‑me da Clara. Piscou‑me o olho. «Como é que conseguiste convencê‑la?» «Achas que convenci?»

«Já viste? Uma semana inteira! Só nós os dois!»

Agarrou‑se a mim.

«Mas ... »

«A minha Mãe é que não pode saber de nada, ouviste?» «Corno é que vais fazer?»

<,Como tenho feito até aqui. Nos últimos tempos devo rer cá dormido umas quatro vezes, se calhar nem isso ... » «ó Clara ...

«Estou tão feliz!»

«O que é que a tua mãe vai ficar a pensar de mim?»

«Nada. Já te disse. Não vai saber que estou contigo.»

E assim passei à situação ingrata de viver clandestinamente com a Clara, desautorizando a autorização que a mãe me tinha dado. Todos os dias me telefonava a dizer que a Clara, mais uma vez, não tinha dormido em casa. E que a culpa era minha. E que achava muito estranho eu estar tão bem disposto ao telefone, estando alegadamente tão apaixonado pela filha.

No sexto dia, desesperada, veio cá a casa. A Clara escondeu‑se, divertidíssima.

«Tenho de lhe pedir desculpa», disse ela.

«Ora essa ... »

«Veja lá se encontra a minha filha. Ela agora nem sequer diz nada. Deve estar completamente perdida, coitadinha ... » «Pode ficar descansada, que eu encontro.» «E, em relação ao casamento, pronto, mudei de opinião. Acho bem que ela case consigo, a ver se ganha juízo.» «Ainda bem.»

«O senhor não se importa?»

«ó minha senhora, eu amo a Clara.»

«Bem sei, mas... atendendo à maneira como se tem Portado... eu até compreendia ... »

«Tentarei passar uma esponja sobre tudo isso ... » «Jure.»

«Juro.»

«Nunca pensei que fosse assim tão boa pessoa. Ou boa pessoa, simplesmente. Se eu o tratei mal no passado ... »

Estava a tratar‑me como no tribunal de família. Na cabeça dela, já estava a estrear «O Regresso do Corno Manso». Depois de uma única semana de ausência em cartaz. A mãe da Clara era daquelas pessoas que só gostava de quem tivesse pena. Por mim, suportava melhor com ela nos tempos em que me tinha raiva. Mas que importância tinha eu naquela história, para ter direito a levar em linha de conta os meus irrelevantes sentimentos profundos?

Voltei humildemente aos meus princípios.

A Clara faz‑me lembrar a rapariga que eu amei ‑ mas

só por ser rapariga. Não a posso trair. Tenho de descobrir todas as diferenças, até não restar semelhança nenhuma. A Clara que se lixe.

O que sinto pela Clara faz‑me lembrar o meu amor. O estado a que eu cheguei, Santo Deus. Cada coisa no seu lugar. Quanto mais simpatia ganhar pela Clara, maior é o risco de perder o meu amor.

Não há‑de ser o tempo que me fará esquecer. E o esquecimento começa quando alguém do presente faz lembrar quem se deveria lembrar sozinha.

Agora é a Clara. Agora.

A Clara agora.

A rapariga que eu amei. Antigamente.

Mais agora que sempre.

Agora é assim: a Clara.

Mas nem sempre foi assim.

Muito menos agora.

Olhos verde‑vem, verde‑vai. Nem sequer as esmeraldas têm sombra.

A Clara não lhe chega aos cotovelos.

Nem que seja preciso empurrá‑la.

Não há‑de aproximar‑se dela.

Eu não deixo.

Posso «apaixonar‑me» pela Clara.

Mais do que isso é que não.

Não consigo.

Mas não. Nem sempre foi assim.

Mesmo que eu queira.

Não consigo.

Nem querer consigo. Ainda bem.

Assim posso.

Lá me casei com a Clara. Até foi bonito. «Tão novinha ... », murmurava a assistência, como se tivesse contraído uma leucemia.

A Margarida estava radiante. Fartou‑se de abraçar a noiva. De mais, quanto a mim. E, a certa altura, estava eu ao pé de Clara, disse-me audivelmente ao ouvido:

«Estou tão feliz por ti! Ela parece uma querida. Vais ver como é num instante que te esqueces de mim!»

Pela primeira vez, os ciúmes da Clara deflagraram, em carne viva, diante de mim.

«Quem é essa puta? Está farta de se fazer sonsinha. Deve estar apaixonada por ti ... »

«ó Clara ... »

«Julgas que não ouvi? Mas que merda é essa dela dizer que te vais esquecer dela ... ?»

«Esquecer como amiga. Ela limitou‑se a dizer que eu lhe parecia tão feliz que ia deixar de ter tempo para os amigos ... » «Eu dou‑te os amigos. Que é deles? Não vejo nenhum. Só vejo mulheres, já viste a vergonha? Se calhar, já foram todas para a cama contigo.»

«Clara ... »

«Sei lá. Estão tão bem dispostas. Devem ter a barriga cheia. Só pode ser isso.»

«São minhas amigas, Clara ... »

«Acho tudo muito esquisito. Ainda se houvesse alguma que se aproveitasse ... »

Estive quase a cair na armadilha. Fora umas tantas, eram todas tão bonitas... Mas aguentei‑me.

«Se houvesse, até te compreendia. Mas ó Clara, tenta ser objectiva ‑ alguma vez viste tantos coiros juntos na tua vida?» «Apanhei‑te, meu cabrão. Achas que sou cega? São bem giras. Larga‑me!»

«Sei lá. As amigas, para mim, são como os homens: não dá para ver se são giras ou não.»

«Mas são. São é muita velhas ... »

«Agora. Mas quando as conheci ... »

Levei o meu primeiro estalo na cara, poucos minutos de ter sido oficialmente nomeado como marido.

Quando as fotografias chegaram, a Clara perguntou cuidadosamente quais eram os nomes completos de todas as minhas amigas, inscrevendo‑os no álbum com caligrafia tipo Bodoni Bold. Fez o mesmo com os amigos dela, mas sem a mesma precisão tipográfica. Achei muito estranho. Senti‑me vagamente invadido. O ar germânico e competente dela não ajudou nada. Parecia que estava a assinar o pacto de rendição da Polónia.

Em contrapartida, que personalidade! Que prazer! Espírito mais livre! Sentimentos duma bondade! Na cama, no escritório, ao ar livre! Desejei ardentemente que, lá na contabilidade lá de cima, eu já tivesse pago quase todas as prestações da sorte que me tinha cabido.

Foi como se não tivesse casado. Era assim que estava comigo. O preço era barato: era ser eu a fazer de marido, para deixá- -la livre para as coisas realmente importantes da nossa vida. Ela era borboleta, ela era Gatinha e tigre. Menina e mulheraça. Adversária e amiga. O nosso casamento era violento e excitante, mas confortável e seguro ‑ uma partida de squash, mas em vídeo.

Finalmente tinha‑me acontecido uma coisa que não poderia ser melhor do que se eu próprio a tivesse feito acontecer. A minha política de não-ingerência nos meus assuntos internos revelava‑se sábia e frutífera na cena internacional, depois de tantos anos de escárnio e de ostracismo.

A Clara encarregava‑se dos acontecimentos. Eu apenas

tinha que comparecer e, conforme as circunstâncias, participar ou assistir. Aconteceu‑me cada coisa! Qual delas a mais gira. Depois de três meses de casamento, a minha casa tinha‑se transformado, como se por magia, fazendo lembrar, até ao mais pequeno pormenor, a casa onde tinha vivido sozinho, abandalhada pelas semanas que lá tinha passado, insensível ao mundo, obcecado pela Margarida.

«Como é que conseguem viver assim?», perguntava regularmente a minha sogra.

«Não te digo», respondeu a Clara. «Vais ter de descobrir sozinha!»

Passámos a lua‑de‑mel mortos por foder tanto e para voltar para casa. O quarto de hotel cada vez se aproximava mais desse objectivo. Era a nossa «casinha». As empregadas desistiram de tentar arrumá-la ao fim de quatro dias. Saímos só uma vez, para comprar azeitonas, alcaparras, todos os condimentos e molhos do mercado, para dar outra graça aos pratos que a ementa do room servíce oferecia. Dos quais nos fartámos depressa, ao ponto de escolher ao calhas. Qual deles mais incapaz de nos enganar. Nem mesmo o caril de lagostins, autêntica bomba lacrimogénea, tão má e indigesta que conseguiu interromper a nossa ocupação.

Foi durante a lua‑de-mel que a Clara me contou que gostava de ir para a cama com outras raparigas. E eu, pela minha saúde, estava tão contente nos braços dela que pensei para mim: «Pois eu não!»

«Por mim, podes ir ... » «Não preciso da tua autorização.» «pois não.»

«Mas há uma condição ... », disse ela. «Qual é?»

«Tens de me prometer que nunca mais vais para a cama com outra rapariga.»

«Isso não é uma condição. Se eu não te prometer, podes ir à mesma.»

«Não. Tens de me prometer.»

«ó Clara, é‑me indiferente se tu vais ou não para a cama com outras raparigas. Ou que eu sou daqueles parolos a quem essas coisas dão tesão? E mesmo esses, digo‑te já, ligam muito menos do que as mulheres julgam ... »

«Promete.»

«Prometo.»

«Amo‑te. Queres que te conte a última vez que fui para a cama com uma rapariga?»

«Não. Não percas tempo.»

Contou‑me. Secretamente devia pensar que me excitava. Mas, dado o meu estado quase permanente de excitação, é impossível detectar qualquer acréscimo. Uma coisa é certa. Ela excita‑se. E é ela quem conta. E conta. E conta... Nunca mais se cala.

Esgotadas as memórias, passa directamente para as esperanças. E conta‑me o que gostava de fazer a esta, e àquela, e aqueloutra. Numa média de dois relatos por dia e outro a meio da noite, tipo antibiótico, mas sem despertador.

«Só não gosto de estar sem ti... tenho medo que penses que me estou a divertir mais do que me divirto... não é nenhuma coisa do outro mundo, ouviste?... nem de longe me divirto tanto como quando estou contigo ... », disse ela.

«Eu não penso em nada», disse.

«E... tenho medo que penses em nós as duas, sabes?, nuas e tudo isso, e fiques cheio de tesão... quer dizer, mais do que ficarias se visses o que, na realidade, se passa ali... não gosto da ideia de tu estares a imaginar uma amiga minha nua! De certeza que a imaginas muito melhor do que é... Era injusto... Favorecias ... »

«Eu não vou imaginar nada.»

«Podes estar a ser sincero, mas eu não acredito... uma coisa é nós estarmos a falar, outra é eu estar na cama com outra rapariga e tu, na sala, armado em cool, mas, mal te chega alguma coisa aos ouvidos, ficas de língua de fora, feito porco, a arfar!» Bate-me.

«Isto é um falso problema, Clara. Não achas que devias guardar esses pensamentos para ti? Ou queres que eu também fique a pensar nisso?»

A noite seguinte, no horário pré‑estabelecido, lá entra ela mais uma vez no ar.

«Estive a pensar ... »

«E?»

«Só há uma maneira de me fazeres feliz.» «Qual é?»

«Bem, tu sabes que, se eu não poder ir para a cama com raparigas ... »

«Outra vez, Clara?! Pensava que já tínhamos resolvido isso ... »

«Mas não chegámos a conclusão nenhuma.» «Julgava que sim.»

«Pois, a uma conclusão somos capazes de ter chegado... mas a uma solução, não.»

«E tu já arranjaste uma, foi?»

«Acho que sim. Não te importas de te calares um bocado e de ouvir? Bem... Se eu não for para a cama com outras raparigas, de vez em quando, não julgues que é muitas vezes... nem uma por mês, se calhar... bem, a verdade é que não fico completamente feliz, por muito feliz que fique, percebes? Não tem nada a ver. Então ... »

«Sim ... » aí

«Então pensei que talvez tu também pudesses vir comigo... »

«E por que não?»

Bate‑me com força.

«Estás a ver? Estás a ver porque é que eu tenho medo? Mentiroso! Podias vir comigo, mas só com certas condições ... » «Diz. Diz. Para ver se despachamos isto, que jà estou farto.» «Não podias tocar nela... na rapariga... Só em mim...

Tudo o que tivesses para fazer, fazias comigo... Não quero cá misturas... Morria, estás a ouvir?»

«Quer dizer, assistia. Não, muito obrigado, ainda não cheguei a esse ponto , que eu saiba.»

«Não... Podias fazer‑me coisas... dar ordens... gostas tanto de dar ordens... podias mandar‑me fazer coisas... adoro fazer as coisas que me mandas... E até podias mandar nela... Desde que ficasse claro que a desprezavas completamente... E a tratasses como puta... Mas não como me tratas a mim... »

«ó Clara, eu trato‑te tão mal como consigo... e tu sabes que não gosto muito.»

«Eu sei, querido. O que estou a dizer é que só a mim é que me tratavas como puta reles, daquelas que não têm vergonha nenhuma, em que aquilo é mais forte que elas... como eu gosto... mas a ela, não. A ela tinhas de tratar, assim, como puta profissional, daquelas que só fazem aquilo para lhes pagarem... que, no fundo, estão ali só para satisfazer o cliente e irem‑se embora logo a seguir... Percebes?

«Que grande filme. E tu já distribuíste os papéis todos ... » «Assim fazias‑me feliz. Eu tinha-te ali. E tinha‑a ela. E não havia cá confusões. Tu vias tudo com os teus próprios olhos... Não havia cá imaginações nem ciúmes... Nem tu de mim... Nem eu de ti... Eu sei que não podias ter mais tesão do que aquela que tens por mim... Disso, juro‑te, tenho a certeza... Não me passava pela cabeça que tivesses mais tesão por ela... quer dizer, até podias ter, por ela estar ali, mas é natural, isso também eu tinha, só que não havia maneira de provar... desde que não me dissesses... Tens de jurar que nunca me dizes... Tens de dizer sempre, à frente dela, que só tens tesão por mim... Ela que não fique com ideias, estás a ouvir? E muito menos eu... A tua obrigação é pensar em mim ... »

«Logo se vê.»

«Posso confiar em ti?»

«Claro que podes confiar em mim.», disse eu.

«Esta conversa não te deu tesão nenhum, pois não?» Desabotoei as calças e mostrei-lhe que não. Não sei se ela ficou aliviada ou desiludida.

Uma coisa é certa: não imaginou o quanto me tinha custado ficar assim. As imagens de podridão e de massacres a que tive de recorrer enquanto ela falava, a abstracção taoísta que atingi, a traição hormonal que tive de cometer, a dor aguda, do asfixiamento dos corpos cavernosos da estrutura peniana, entalada entre as minhas pernas, que suportei... Foi fácil. Um sacrifício feito a pensar no futuro, enfim.

Seguiram‑se árduos exercícios que eu, como recruta, tive de completar para ser finalmente aprovado. Truques em cima de truques. Manobras tortuosas. Sem qualquer misericórdia. Feitas com extrema inteligência e aplicação. A Clara sabia do ofício. E eu, sem saber como, sobrevivi.

Estávamos em plena fantasia e ela dizia que se tinha passado da cabeça, que queria que eu pusesse só a pontinha da gaita dentro da outra, uma manequim sem nome nem renome. E eu não acedia.

«Só desta vez! Peço‑te por tudo!»

Chateava‑me. Desembrulhava‑me dela e dizia que assim já não queria. As situações que ela criou, nas quais eu não ficava com outra alternativa senão papar a amiga dela, revelavam uma imaginação sem limites. E eu, por minha vez, tinha de pôr toda a minha máquina cerebral em ciclo de spin, para me desenvencilhar. Antes morrer que dar um mísero linguado na boca da outra mulher. Mantinha‑me sempre firme. Impoluto. Indistraível. Desumano. Querido.

A prova final contou com a participação de uma profissional brasileira. Um fiasco. Tínhamos escolhido a mais cara e mais bonita que havia. Mas gerou‑se logo, entre mim e a brasileira, uma cumplicidade róchea.

Percebeu tudo. Ficou aliviadíssima. O pacto entre nós era claro: nem ela me dava tesão a mim, nem eu a ela. A única ali que podia dar era a Clara. A Clara gostou bastante. A outra mulher, porventura animada pelo ratão favorável entre serviços prestados e honorários, mas mais ainda pela destreza e desinibição da tão bonitinha Clara, também é capaz de ter gostado um bocadinho. Quanto a mim, para ser franco, foi altamente decepcionante. Canja ao pé das efabulações hipotéticas da Clara. Até fiquei com medo que os encantos das outras mulheres deste mundo tão grande tivessem morrido, duma vez por todas, para mim. Mas pronto. Se fosse esse o preço da minha paixão pela Clara, eu era capaz de regatear um bocadinho ao princípio, mas acabava com certeza por pagá‑lo e sair satisfeito, cabisbaixo mas com a dignidade intacta.

Quando voltámos, o assunto amainou. Lá fazíamos uns planos, atirando uns nomes ao ar, mas sem convicção, como se estivéssemos a seleccionar candidatos para «Miss Póvoa do Varzím».

Éramos felizes e daí, talvez, tão falhos de imaginação. O nosso casamento tinha pouco tempo. Quando estávamos na cama era sempre a mesma monotonia: uma orgia apocalíptica, envolvendo os mais altos e as mais altas representantes da nação. Era preciso paciência. Tal era a ganância. Não havia lugar naquela casa para uma única alternativa. Estávamos totalmente ocupados, a Clara e eu. Nem uma nesga na agenda restava, para a mais pálida marcação a lápis, com um ponto de interrogação.

Fufurrinha.

Rosinha sorrateira, bicho bom, cadinho cheio de ouro. Enviada especial a estes lençóis, lembras-te da água, tão querida, que não pude aceitar. Desculpa tê‑la bebido toda, nem reparei. Desde que chegaste que me distraí. O que é que eu estava a fazer? Como é que deste com isto? Onde é que estamos? Estou perdido. Se não te desse muita maçada, importavas-te de ver? Não saias daqui.

Olha, dividi‑me. Dum lado nada e do outro eu. Esta parte deve ser para ti.

Frenesim de fios ligados directamente ao céu. Diz‑me uma coisa. Esse azul‑pessoa, onde é que o conseguiste? Nunca tinha visto. Tapa‑me contigo. Está escuro. Vem para tão perto de mim que eu já não te veja os olhos. Estás a ver? Tens tudo o que precisas. Até frio.

Chora depois de se vir e partilha as lágrimas comigo. Como se chorar fosse um exercício de aquecimento para poder depois sorrir, pondo a vida novamente em perigo. Chora por aquele que não está com ela, por aquele que imagina sozinho. Como se observasse um momento de silêncio, de cabeça baixa, pedindo perdão pelo que não tem culpa de ter feito, lavada pela água‑benta dos olhos que Deus lhe deu.

Só ela chorava sem me fazer impressão. Fazia‑me menino, o menino de sua alma, a chapinhar nas gotas a cair‑lhe dos olhos, sob sua vigia, preocupado e enternecido, mãe do meu amor, barriguinha de mil meninas. Fossem de quem fossem, seriam só dela. E sendo dela, não pertenciam a ninguém. Ou, se por amor pertencesse a alguem uma perninha, com certeza que seria de mim.

Qualquer outra rapariga que chore, é como se estivesse a assoar‑se. É feio dizer isto. Mas lá está.

Cabecinha, dona do mundo e de mim e de todos os diminutivos, onde tanto quis entrar, naquele tempo em que tanto fazia ‑ como me magoa agora o bem que me fizeste e que eu te fiz. Não te preocupes. Mal sinto a primeira picada, transmito‑a imediatamente para outra pessoa. Só Deus sabe o mal que, através de mim, fizeste àquelas raparigas todas. Se pudesse, se existissem ‑ que diferença é que faz?

A Clara fez finalmente dezanove anos, cumprindo a promessa que eu tanto tinha esperado e pondo fim à minha última preocupação. Acompanhei‑a nesse momento fácil da vida dela. E mostrei a minha total solidariedade fazendo, pela minha parte, vinte e nove anos poucos meses depois.

Comecei a aceitar a minha felicidade, livrando-me de pensar nela, numa daquelas acções de desistência que costuma incluir‑se no fenómeno do envelhecimento. A nossa diferença de idades era uma espécie de zona de segurança, protegendo ambas as partes das consequências duma coexistência forçada. Eu ficava com a garantia que nunca teria de sofrer com a morte dela. Ela com a consolação que haveria uma vida para além de mim.

Nem dei pela falta da tristeza. Estava louco. Desprotegido.

E convinha‑me viver assim. Até aí eu ainda ía. Só parava quando via o espectro dalguma esperança levantar‑se diante de mim.

Isso é que não. O futuro é para os jovens, para os que têm tempo para isso. Dispensava os prazeres dessas preocupações. Não me interessava pelo desfecho de coisa nenhuma. Nem tinha obviamente qualquer ambição. O meu casamento com a Clara poderia acabar amanhã que eu não acharia em mim uma única razão genuina para me deixar ou congratular.

A felicidade é estranha. É simples de mais para se perceber como funciona. Suspeitamos que há uma máquina escondida atrás dela, um organismo microscópico, um fio... mas, por muito que andemos às voltas com ela, não encontramos nada que não tivéssemos visto antes. Nem é, ao contrário do que se julga, grande coisa. Está‑se bem, mas não é nada de extraordinário ‑ nada que faça nascer em nós o terror de perdê‑la ou a ganância para a tentar prolongar. A Clara não concorda. Acha que eu sou um ingrato. Só o facto de ser ela a responsável pela minha felicidade não lhe dá o direito de exigir que eu passe os dias a dançar.

E daí? Sim ‑ e daí? Não sou o único homem feliz do mundo. Se há coisa que não falta para aí são pessoas felizes. Basta abrir a janela. Ou ver televisão. E que ganham elas com isso? A felicidade e nada mais.

Qualquer pessoa está melhor a divertir-se do que feliz.

Quando nos divertimos, tanto faz ser feliz ou não. Quando eu e a Clara nos divertimos, esquecemo‑nos completamente da nossa felicidade. Não estragamos a nossa compenetração. um corte. Quando, por descuido, se imiscui nos nossos afazeres, obriga‑nos a descer ao chão. E dá sermões. Gênero: «Não vos bastais serem felizes? Tendes ainda de vos divertirdes?»

A Clara acha que dá ponta pensar que me vai perder no dia seguinte. Que cada momento tem de ser saboreado como se fosse o último. Por minha saúde. É isto que ela diz. Muitas repercussões teve no mundo o «Besame Mucho» ‑ quando atingiremos finalmente o limite? Eu bem lhe pergunto:

«ó Clara, mas não te cansa viver o último dia, dia após dia, sempre o mesmo, sempre o último, nunca um avulso, do meio ou do princípio ou do fim?»

E ela bem me responde:

«Não, não me cansa. Cansa‑me tu. Anda lá. Não fazes mais do que o teu dever.»

Estupidamente, num daqueles acessos de Neruda de que ninguém está inteiramente livre, insistia ela neste assunto e eu disse‑lhe:

«ó Clara, podes não ser o primeiro amor da minha vida mas podes ter a certeza que és o últl'mo.»

O que eu fui detonar.

«Não sou a primeira? Mas que merda é essa?»

«És a primeira, és... Estava só a brincar ... »

«Não disfarces, filho. Finalmente fugiu‑te a boca para a verdade.»

«E a verdade, onde é que está? Deve estar aí escondida num sítio qualquer. Lá terá as suas razões. Os seus temores. Não a persigamos, neste momento de aflição.»

Eis o que me apetecia dizer. É pena que a mera circunstância de estarmos juntos nos impeça de comunicar por escrito. Só o luxo de ter tempo para pensar. E de não sermos interrompidos. E, sobretudo, de podermos voltar atrás, e alterar tudo, sem ninguém saber.

Até porque, se insistirmos em movimentarmo‑nos nesta área tão estéril e desertificada, na verdade, na verdade, a Clara é o meu primeiro amor, porque nunca tive nenhum. Nem sequer tenho a certeza de agora estar a ter. Mas, se tenho, é por ela. E, pelo andar da carruagem, se for ela o meu primeiro amor, depois de tanto tempo sem ter, é altamente improvável que venha a ter um segundo. Só contra a minha vontade. Faziam‑me falta os chamados termos de comparação.

«Clara ... »

«Diz‑me lá, então, qual foi o teu primeiro amor!»

Em caso de histeria, sê firme. Se o meu pai não me tivesse ensinado isto, desde miúdo, apesar de ter desistido muito cedo de me educar, bem lhe poderia ter dito. Que era ela, se calhar.

«Não julgues que tens o direito de me interrogar», murmurei.

«Não. Mas tenho o direito de sair porta fora e nunca mais cá voltar.»

«Isso é chantagem barata.» «Barata? Não te admito!» «Eu não tive um primeiro amor», repeti. «Mentira. Eu tive. Toda a gente teve.» «Então porquê tanto sobressalto, tanta animação, tanta rigidez na postura?»

«Porque me enganaste.»

«Alguma vez te disse que eras a única rapariga de que tinha gostado?»

«Uma vez não. Milhares. Aliás, não me dizias outra coisa. Começava‑me a chatear.

«Então, estás a ver. É por ser verdade.»

«Toda a gente tem um primeiro amor!»

«Que façam bom proveito. Eu não tive. O que é que queres? Fui roubado.»

«Mentiroso.»

«Pronto, está bem, "amor" em que sentido?»

«Cabrão! Eu pensava que eras diferente! Se eu soubesse

que não eras... eu sei lá!»

«Fazia‑te muita diferença eu não ser diferentes «Se queres que te diga, era a tua principal qualidade. Querida. Enternecedora. Como se não soubesses! Muito querida. E rara num homem da tua idade!»

«Poupa‑me, Clara ... » «Não prometo nada.» «Não percebo ... »

«Vá lá. Despacha-te. Desembucha. Se és homem. Quero saber tudo. Sou tua mulher. Tenho o direito de saber em que caçarola de hortaliça é que eu caí!»

Eu alguma vez te fiz perguntas acerca do teu passado? «O problema é teu. Vá.» «Está bem. Pronto. Eu invento‑te um amor qualquer ... » «Inventa, inventa ‑ faz lá isso por mim.» «Bem... a única mulher de que gostei, antes de ti, mas sem amar, porque o amor não era para ali chamado ... »

«Foi aquela puta do casamento: a Margarida Fernandes da Silva, Júnior!»

«Estás a ver como te enganaste? E que..»

«Chega. Já não precisas de dizer mais. já sei o que queria saber.»

«Foi uma Joana, Clara, uma Joana. Não uma Margarida. Não, Clara. Uma Joana ... »

«Cada vez te enterras mais ... »

«Já não digo mais nada. Se pensas que já sabes tudo, quem sou eu para te estragar a festa?»

«Estás a referir‑te àquela pirosa de saia grená?» «Não sei de quem estás a falar ... »

«Eu não acredito! A Maria Joana Carvalho Rodrigues! Que horror!»

O que mais me aterrorizava eram os nomes completos. A memória fotográfica. O alastramento pela cara da Clara dum colagénio extra‑firme da mais descarnada vingança. Que mal é que aquelas mulheres lhe tinham feito? Não bastava já o mal que me tinham feito a mim?

Saiu do quarto e foi para a sala chorar. Nem esperou que se estendesse primeiro no sofá. Começou logo a chorar. Fui ter com ela, ciente de como seria recebido.

«Larga‑me! Vai para o quarto! Fecha a porta! E não saias de lá!»

São muitas instruções para um só grito. Mas a Clara era assim. A ordem final acabava sempre por reconfortar‑me. Apeteceu‑me responder:

«E tu deixa‑te ficar aqui! Porque se eu te ouço dar um só passo, arranco‑te o maxilar!»

Mas calei‑me e voltei para o quarto. Senti‑me absurdamente culpado. Mas porquê? Antes de adormecer percebi. Não o que se faz que interessa. Nem a irracionalidade da outra pessoa. São as consequências que as coisas, mesmo não sendo nada, têm para quem gosta de se preocupar.

Como pode ser sincero quem se esqueceu da verdade, e se lembra de ter esquecido? Do momento exacto. Da cor da camisa que trazia? Só mentindo.

Sermos verdadeiros connosco próprios? Não me façam rir. Com que base? Com que juiz? Com que poderes? Com que arrogância?

Melhor termos consciência das nossas fraquezas e limitar- mo‑nos simplesmente a sermos benevolentes e compreensivos, mesmo quando a boa-vontade e a compreensão não ajudem, ou não existem.

Melhor convencermo‑nos que sim, que houve um tempo em que de facto era assim, em que nos lembrávamos, porque pouco tínhamos para lembrar, e éramos sinceros, porque não tínhamos nem percepção nem jeito nem paciência para as alternativas, e ficarmos por aí.

Por esta pequena mentira. já passada. já perdoada. Pronta para voltar a entrar em serviço.

Se não eram verdes os olhos dela, quem é que descobria? Quem é que queria saber? Quem é que ganhava com isso?

Vem, vem‑te embora, meu amor.

Deixa falar os crescidos.

já nos aturaram. já os aturámos.

Precisam de falar de coisas importantes.

E nós também.

A fingir.

Despacha‑te lá.

As raparigas podem prender‑se a quem querem, porque é‑lhes dado decidir, as vezes que for preciso, porque são livres.

o que elas dizem. Eu não acredito. Mas, pelo sim, pelo não, tenho medo e respeito, não vá ser eu o escolhido. Nascem e morrem tantas vezes, que até acompanhá‑las durante um bocadinho me cansa. Uma a uma me cansam ‑ ou, melhor, faço por isso.

A minha defesa é deixar‑me ir, sem me orgulhar nem arrenpender, como se a vontade, fora delas, não existisse. Tão depressa me fico como fujo, aceito como me horrorizo, conforme o contrário do que penso que pensam, isto para dar a explicação mais simples.

Eu estou aqui. E daí? Tanto pode querer dizer uma coisa como outra. Abro a porta e logo vejo.

As vezes vêm para despedir‑se. As mulheres são assim. Deslocam‑se para partir. Eu empurro-as, para que elas fiquem. E não ficam. Penso para mim que não podia fazer mais e lá sossego, um pouco triste.

Ninguém consegue estar sozinho sozinho. É preciso ajuda. Elas ajudam‑me. São boas nisso.

pior quando vêm como quem volta ‑ como se se tivessem ido embora, ou não me conhecessem e viessem pela primeira vez, como acontece tantas vezes, tal a teimosia e a esperança, de que sofrem e se convencem, sem me consultar sequer. Assusto‑me, envelheço e lembro-me de tudo, de repente. Elas não gostam. Perdem a paciência. Derrotam‑se a si próprias. Dão‑me descanso. Desiludo‑as quase sem mexer uma palha. E nem eu nem elas consegue sair disto. A pior coisa que a vida pode ser, pior que má, pior que vazia, é assim.

O nosso casamento entrou, a partir daquele momento, numa nova fase. O meu passado e presente foram revolvidos e transformados. Por um lado, à força de tanta persistência da parte dela e da ânsia desesperada de fazer as pazes da minha, a Clara ficou a saber mais do que eu sobre todas as individualidades de sexo feminino que eu alegadamente tinha conheci- do desde que nasci. Porque eu esquecia‑me. E ela ia sugerindo hipóteses para ir tapando os buracos. Eu contradizia‑me. E ela corrigia‑me, pacientemente, repondo a verdade, tal como ela a entendia.

À medida que avançava a investigação, foram sendo introduzidas na nossa vida comum uma série de novidades. Nomeadamente, raparigas. Primeiro as mais feias e, pouco a pouco, outras, de mais visível qualidade. Primeiro as mais amigas e fiáveis e depois, consoante a minha fidelidade aos princípios enunciados durante a lua‑de‑mel, as meramente conhecidas, mais imprevisíveis, na base clássica do «Nunca se sabe.»

De qualquer forma, desde as amigas mais feias e mais amigas até às conhecidas mais bonitas e mais desconhecidas, estabeleceu‑se uma belíssima curva ascendente, com um balanço próprio e um ritmo proporcional. Que não posso deixar passar sem alguns comentários, quando chegar a altura.

Para já, o mais importante era a reacção da Clara. Tanto

numa área como noutra. Dalguma forma, dentro da cabeça dela, obrigatoriamente relacionadas. A atitude geral dela, apesar dos vários contratempos e choques que não foi possível evitar, era a seguinte:

«Quanto mais sei de ti, mais me convenço que nunca hei‑de deixar de te amar.»

É curioso. Não fora verídico nem me dava ao trabalho de especular.

«Não deve haver muitas raparigas da minha idade que conheçam tão bem como eu o homem com que casaram», dizia.

«Que conheçam os homens com que casaram tão bem como eu conheço aquele com que me casei... não... que conheçam os mari 'dos delas tão bem como eu conheço o meu ... », respondia eu.

Não lhe podia dizer que não era eu que ela conhecia. Eu era, apenas, o homem que ela queria e julgava conhecer. Não. É mais complicado. Mas que se lixe.

Se a vida nos ensina qualquer coisa, ficaria muito admirado. Mas, no que nos diz respeito, sejamos nós ou os outros, a complicação é tanta em tudo o que seja conhecimento que mais vale achar que sim.

Quando as mulheres da minha vida chegaram ao fim,

ainda tentei inventar mais umas, para manter a Clara animada.

Mas desisti. Ela percebia logo que não era verdade. E lá desanimou, coitada, como acontece sempre a quem chega ao fim duma tarefa em que se empenhou inteiramente. Limitou‑se a proceder à classificação do material, culminando numa lista daquelas que ela considerava as cinco «mais importantes». As outras, depois daquele esforço todo, pôs displicentemente de parte, dizendo que <,não interessavam». E mais nada.

Traí‑a.

Ando perdido.

Vou perdê‑la.

Vou morrer.

Matei‑a.

Falei nela à Clara.

Nunca tinha falado dela a ninguém.

Nem a ela.

Saiu-me.

Sinto logo a falta do bocadinho dela que me mantinha VIVO.

Depois de tantos anos.

Não sabia que era preciso tanto cuidado.

Ela no casamento, sempre ao fundo, sempre ao longe, falando com uma amiga, disfarçando, como se estivesse a fazer um frete. Nem a Clara deu por ela. Só ficou numa única fotografia.

Ao fundo, ao longe. Perguntou‑me quem era, quando estava a preencher o álbum. Eu não podia dizer que não sabia. A Clara desconfiava. Disse apenas «Acho que se chama... Catarina.»

É esse o nome da rapariga que amei e traí.

Catarina.

Perdoa‑me. E, antes de chegar ao fim do pensamento, ela sorri. já me perdoou. Não tem importância.

Para ela. É fácil para ela. Assim também eu. Mas de que me adianta o perdão dela?

E eu? Ninguém se preocupa comigo? E os meus sentimentos? E tudo o que construí? Em cima da Catarina, em cima do meu amor, mas sem tapar, deixando tudo descoberto, escondido mas descoberto, fui fazendo o castelo de cartas que é a minha vida, a minha segunda e última vida.

Que vai ser de mim?

Disfarcei. Falei dela com afecto, como se fala de quem se namorou por engano.

«Gostaste muito dela?»

«Sabes que acho que sim?»

Foi o que eu respondi.

Mas não sei disfarçar. Sei mentir. Sei esconder. Mas não sei falar.

Catarina.

Fugiu do verde dos olhos.

Fui eu que deixei.

Partilhei‑te.

Emprestei‑te.

Não fazes ideia do que eu fiz.

O teu nome naquela boca imunda.

O teu corpo debaixo daquele olhar.

De quem não te amou.

De quem não pode saber.

De quem, ao princípio, me fez lembrar de ti.

Tenho tanta vergonha.

E medo.

Como te vou segurar agora, que os meus braços perderam a honra, que a minha alma ficou aberta ‑ como vou eu guardar‑te?

Agora quando eu mais preciso de ti.

É sempre assim.

tarde de mais.

E agora vai sempre assim.

A Clara acredita no que lhe digo. É estranho. Acredita mesmo que tive outras namoradas antes dela. Que amei e fui amado. Não gosto nada. Há raparigas no meu cemitério que nem sequer conheci. Tento falar e pensar, mas não consigo. Escrever é a única maneira de não mentir nem dizer a verdade. Aparecem as palavras e as palavras fazem sempre acontecer alguma coisa que doutro modo não aconteceria ‑ e mesmo assim não tem importância. Que mais se pode pedir?

Para não perder a embalagem, ajudava‑me no meu trabalho, não muito diferente do dela, não obstante a pequena diferença entre as actividades. Apesar dos meus argumentos, simpatizava com os criminosos mais dedicados, que determinavam um rumo, que seguiam do princípio até ao fim, inde- pendentemente do número de vítimas e das dificuldades. Prestava muita atenção a um aspecto que eu infalivelmente descorava, por tédio ou repugnância, que era toda a área da medicina legal. Não podia ser mais bem‑vinda a assistência sempre atenta que me dava. Pela primeira vez vi aproximar‑se o fim do maldito livro que há tantos anos me tinha ocupado. Graças a ela.

Esta proximidade prolongava‑se pela vida que levávamos.

Ou, se calhar, era a intimidade sexual que atingíramos, que se

prolongava pelo trabalho. Não interessa. A verdade é que nunca

nos sentimos tão assimilados como naquela altura.

Ela tinha deixado de estudar. E eu, graças ao envolvimento dela, deixei de trabalhar. Depois de me ter adaptado à sua maneira de ser, dei o passo lógico que se seguia. Adoptei‑a. A personalidade dela passou a ser a minha. Não sei se por hábito e influência, se por oportunismo anímico. A minha personalidade, se é que se pode ser tão concreto, foi sempre prescindível. A dela era infinitamente mais interessante. E mais útil, ainda por cima. Ela não se importou nada. Pelo menos, existia. Pelo contrário.

«O meu sonho», disse ela no meio duma sessão frenética de sexo com uma empregada de cafetaria cuja simpatia, dentro e fora da cama, não pode ser exagerada, «é um dia sermos iguais. Iguaizinhos!»

Arrepiou‑se com o que tinha acabado de dizer. A outra rapariga, para ser agradável, respondeu:

«E vais ver que um dia somos mesmo!»

«Ouve lá, ó minha bicha escaldada ... », disse‑lhe a Clara imediatamente. «Estava a falar com o meu marido. Não quero cá misturas, ouviste?»

Este reparo tirou, num segundo, toda a quantidade imensa de tesão que se tinha acumulado naquele quarto, ao ponto de já se estar entre a trovoada e os relâmpagos.

Levantámo‑nos todos. Só eu, com o meu atraso, assinalava a memória da ocasião, um mero pau-de‑bandeira desfraldada,

e carunchoso, a lembrar o que nos tinha reunido naquele

dia, para celebrar a nossa natureza humana. A Clara agarrou‑se a mim, estava eu prestes a ir despedir‑me da pobre rapariga, e disse:

«Tem calma... Deixa‑a ir embora que eu já te digo!» «ó Clara... devíamos fazer qualquer coisa ... » «Olha, para já, nunca mais pomos os pés naquela cafetaria!»

« Coitada ... »

«Pois sim. Mas é o que acontece quando se dá muita confiança. Esquece lá isso.»

«Que confiança é que lhe deste?»

«Nenhuma! Toda a confiança que tiver para dar é só para nós. E, mesmo assim, não chega ... »

Concordei. Adopta-se a personalidade doutra pessoa e é assim, tão simples quanto isso.

«Vamos fazer amor depressa. já estou farta de estar na cama. já me esqueci do número de vezes em que estive quase para me vir... Vamos despachar esta merda e a seguir vamos ver se é hoje que conseguimos acabar o terceiro capítulo do livro.»

Atirou‑se a mim. A tempestade foi instantânea. Ficámos arrasados. A Clara teve de me arrancar da cama e por pouco não desmaiava por causa disso.

«Tens medo?», perguntou.

«Eu não. Vais ver. Vamos ser iguais, ouviste? Iguaizinhos.

Não tenhas medo. Eu não te vou comer. Vamos é comermo-nos um ao outro até termos os dois a mesma fome, da mesma carne que é a nossa, com as mesmas feridas e dentadas e tudo.» «És doida.»

«Ah! E tu não és?» «Sou?»

«Claro que és. Cada vez és mais... » «Não me apetece trabalhar, Clara... » «A mim também não. Anda!»

A mãe dela fazia tudo para entrar em nossa casa. Arranjava desculpas cada vez mais desabridas. A Clara, honra lhe seja feita, só não a mandava embora quando não podia.

«Não tenho luz em casa ... »I dizia a mãe.

«ó mãe ‑ é geral!»

«Mas vocês têm luz ... »

Fui desligar o quadro.

«vamo‑nos deitar ... »

voltado na minha ... »

«ó filha! Tu és mesmo ... »

«já telefonámos para a companhia ... »

«Estás a ver, É um andar de cada vez ... »

«Não têm luz? Vão ficar assim às escuras?»

«Não querem vir lá acima comigo? Pode ser que já tenha

«Se não tiver, diz qualquer coisa ... »

E lá se ia embora a velha, furibunda.

Tendo esgotado todas as possibilidades, a mãe jogou a última carta que tinha. Teve uma trombose. Para mais, genuína.

Não se mexia. Não falava. Atendendo a estas duas circunstâncias, decidimos que o melhor era mudar‑se para nossa casa.

Era uma presença. Reconfortava a Clara. Como uma relíquia. Como uma estátua. Eu próprio afeiçoei‑me à figura. Emitia ondas de tranquilidade e de harmonia. Era uma boa alternativa ao velho movimento, toda ela voluntariosa e energética, a chatear‑nos todos os dias.

Falava frequentemente com ela. Metia‑me no quartinho e tagarelava. Nunca tinha tido oportunidade de falar com ela. Aproveitei. Abusei até. A certa altura a Clara começou a ficar com ciúmes. Da própria mãe! Em democracia! E apesar da inesquecível trombose! A Clara não perdoava.

«Sai daí. Não quero que fiques como ela.» «Já vou ... »

«Tu não tens mãe?» «Não.»

«E isso dá‑te o direito de usares a minha?» «Ela gosta da companhia ... » «O que é que lhe contaste?» «Nada ... »

«Eu já te avisei. Dum momento para o outro, pode dar‑lhe um clique e ficar como nova.

«Não pode nada, coitadinha. «Foi o médico que disse.» «Para te consolar.»

«Para me avisar, queres tu dizer. Espero bem que percebas que tudo o que lhe dissermos pode um dia ser usado contra ti... e contra mim, que não tive culpa nenhuma! Vá lá, sai daí.»

Saio.

A Clara diz‑me para ir tomar banho.

«Quem é?»

«Quem é que achas?» «Sei lá!»

«E a empregada da cafetaria ... » «Olha!»

«Não sou feita de ferro. O que é que julgas?»

«podias‑me ter consultado...»

«Não podes com ela, pois não? Bem me parecia. Dá‑me um beijinho. És um querido. Despacha‑te. E lembra‑te que não podemos fazer muito barulho. A minha mãe pode estar a ouvir.» Animado com a boa notícia, entro de pescoço esticado no chuveiro.

Mais tarde ou mais cedo, tudo vai ao lugar. Se o digo assim desta forma, é porque acredito.

Momento.

Momento esse em que certo sobressalto tomou conta de mim.

Estava na rua. Vinha da casa da Catarina. E só quando cheguei a minha casa reparei que chovia. Foi da roupa. A molhar a minha cama. Da música que estava a tocar, nem um murmúrio. Nem do dia cheio de carros e de gritos. Nada. A não ser o barulho da chuva. Não daquela que estava a chover. Mas daquela que nunca tinha caído assim.

Toda a noite.

E durante o que ainda restava da minha vida.

Todos os dias.

Chuva. Chuva. Chuva.

Só eu a ouvia.

A chuva.

Em vez da Catarina.

A minha chuva. O meu amor.

Deixado.

Por quem mo deu.

A mim.

Ir para a cama com duas mulheres ou dois teddy bears é semelhante. Já não me lembro do que é melhor. Para um homem pode ser muito duro. As mulheres prestam mais atenção uma à outra do que as duas juntas a nós. Nós é como quem diz. Neste caso, com as mulheres em causa, que são uma partícula do universo feminino, a mim, partícula duas vezes mais pequena.

Um homem só tem um órgão sexual, e realço este número, um, que as duas mulheres não têm. Entre si, que é como quem diz entre elas, dispõem de quatro maminhas, duas bocas, dois rabinhos, quatro mãos, quatro virilhas, vinte dedos, quarenta mil cabelos, etc. Ou seja, as áreas interessantes que um só homem tem são, pelo menos, triplicadas. Descontando pormenores como pêlos no peito, bigodes quando os houver e uma voz mais grossa quando é caso disso.

Para mais, um homem tem menos novidade. Sofre da sanção moral de que não pode escapar‑se. Só é fruto proibido para as rufas íntegras, não na linha dos morangos, mas das bolotas. Fruto de merda, porque reúne duas condições: faz mal e não apetece. Nem pela proibição se vai lá.

Sempre gostei de ir para a cama com duas raparigas, mas, depois de cada vez, cada vez menos. E nem a primeira se compara com a ideia de ir, antes de se ter ido. Pensa-se que se vai ter duas mulheres a lutar por nós. Na realidade, se não somos nós a lutar por alguma coisa que se possa fazer, mais ninguém o fará por nós.

Poucas vezes fui em plano de igualdade, isto é, sem que uma mulher fosse mais dona de mim que a outra, sem ser claro que foi uma que me tinha «trazido», como quem traz o vinho ou o cão. As vezes em que não se pertence nem a uma nem à outra são as melhores. É certo que se fica mais à nora, mas a desprotecção não é, de modo nenhum, preocupante.

Com a Clara, há mais duas limitações. Em primeiro lugar, só me deixa fazer certas coisas. Em segundo, dada a minha paixão monomaníaca por ela, nem sequer tenho o consolo de me apetecer fazer as outras. É patético mas, no fundo, faço o que quero.

O pouco que eu faço já me chega. E chega para a outra mulher fazer pouco de mim, sem cometer qualquer incorrecção. Rigorosamente. Prazer raro nesta vida, concorde‑se. Ou não.

Felizmente, a Clara é uma rapariga saudável. O facto de ter razões concretas para se sentir segura no que toca às minhas mais íntimas pulsões sexuais não lhe diminui o interesse. Não aumenta. Mas não diminui. Já não é mau. Dadas as circunstâncias adversas em que me encontro: em desvantagem numérica, qualitativa e de liberdade de acção.

Com a prática, tornei‑me no partenaire dela, aquele que, em fato de banho, vai abrindo as mãos e cruzando as pernas, enquanto ela, de chapéu alto, serra a outra rapariga ao meio. Mal toco na mercadoria. A minha função é embalá-la.

Mas atendendo à minha presença tão discreta nas festividades, quase todas as raparigas que a Clara traz para a cama prefeririam que eu estivesse ausente. Toleram‑me. Como se eu tirasse algum prazer da presença delas. O que, sendo certo, não justifica tantas peneiras. Quando há alguma que me aceita e aprecia como um bónus, a Clara não volta a convidá‑la, ale- gando, como se fosse um crime:

«Aquela queria era comer‑te a ti!»

Assim insufla, com uma bomba de mão esburacada, a câmara de ar do meu «ego». E permite-me guardar uma não pequena simpatia por essas moças despedidas, que Deus as acompanhe: é a mensagem que daqui lhes transmito sinceramente.

Outro papel que me compete é o de espectador expansivo, como aqueles nas bancadas dos estádios, cujos rudes reparos se ouvem atrás do discurso cerimonioso dos comentadores. «Putas!»

«Fufas!»

«Desavergonhadas!»

«Não têm vergonha?»

«Nunca pensei ... »

As frases são mais compridas, mas eis as palavras centrais. A entoação, entre o híbrico e o chocado, e o mais importante. Isto é, quando tenho condições para falar, o que, felizmente, não é sempre.

Quando a outra é mais renitente, abstenho‑me de usar a terceira pessoa e dirijo os meus comentários apenas à Clara. Pena é que a minha generosa redução a espectador não seja depois correspondida pela nossa convidada, quando chega a vez do meu jogo com a Clara, que seria mais disputado se contasse com algum calor da parte do público. Umas nem olham. Outras observam como se não houvesse mais nada para ver. Nenhumas têm ofaírplay que se esperaria de uma participante.

A verdade é que, a começar pela Clara, estamos ali os três por causa dela. O que vale é que ela merece. Honra lhe seja feita. Vez após vez.

Vai lançada pelas matas, a puxar o céu sobre si, que, à medida que desce, se vai entornando até ficar vazio, encolhendo‑se até ficar um lenço e pousar nos ombros dela, como se mal existisse. Mal acaba de pousar, é logo levado pelo vento, como um saco de plástico, que basta abrir para ver que não presta, a voar enquanto ainda pode, cada vez mais longe de casa e da rapariga.

Daquela é que é a Catarina.

Também lá estou, só que daqui não se vê. Nestas condições é impossível. É escusado esforçar os olhos, porque não vale a pena.

Rapariga atirada, posta em fuga, deitada, como se fosse fogo. E, se repararmos bem, vê‑se perfeitamente, aqui em baixo, que também aparece aqui, nesta manta, estendida, a dormir ao lado de mim. Está igual. Basta comparar. O cabelo, o vestido, as sandálias. É quase a mesma pessoa, nitidamente.

A Catarina.

Uma rosa transtornada, flor completamente fora de si, a arrancar-se ora da terra, ora do vaso, tão devagar que é impossível dar por isso. Ao centro, um espécie de ralo, para onde escorrem todas as cores, tão depressa que é impossível salvá‑las. O cheiro da chuva antes de cair. O barulho de todas as estrelas ao mesmo tempo. Não há dúvida que é ela. Só pode ser.

A Catarina.

Sempre a fugir.

Nunca a vi de outra maneira.

A fugir fechada nos meus braços, levando‑me com ela para o mais longe possível de mim.

Era igual. Vê‑se perfeitamente.

Basta comparar.

E a mesma pressa.

Na mesmíssima pessoa.

Sempre a conheci assim.

única sorte da minha vida, tê‑la conhecido.

E então assim.

Só com tudo a mover‑se à minha volta é que me sinto à vontade. Estar no centro dos acontecimentos. Mas no sentido dum furacão. No centro onde não se passa nada. Onde eu possa sentir que nada daquilo tem a ver comigo. Mas só enquanto acontece.

Depois de as coisas terem acontecido, tornam‑se minhas. Já ninguém as quer. Passo‑as para o meu nome.

Tal é a pressão a que estão sujeitas, não têm outra saída senão acontecerem, raramente, quando podem. Se é a mim que acontecem, não me podem responsabilizar. Limito‑me a deixá‑las acontecer. Se a vida fosse um baralho de cartas, eu nem sequer tirava o celofane. Sabia que estavam lá todas. Não via necessidade de retirá‑las dessa combinação perfeita, dessa colónia auto‑suficiente e completa, do mundo que é o delas. Atendendo também a que não há melhor.

Mas pronto. As pessoas gostam de se sentirem autoras dos acontecimentos. Tiram‑nas, distribuem‑nas, baralham‑nas, viram‑nas, espalham‑nas, jogam‑nas e depois recolhem‑nas, desejosas de mudar‑lhes mais uma vez a ordem e tornar a dá‑las. Fazem habilidades, batota, apostas e, depois de tudo isto, ainda têm a lata de dizerem que se entregam à sorte.

Não é preciso empurrar a vida. É coisa que ainda anda bem sozinha. Mas, já que me provocam, o mínimo que posso fazer é sujeitar‑me. A Clara é a maior provocadora que já conheci, requerendo da minha parte uma submissão quase tão custosa como a conquista.

Tudo isto vem a propósito da maneira como vivemos. Os crimes violentos, a mãe imobilizada, as actividades sexuais, a sombra do meu passado arrancada da escuridão ‑ todas estas coisas têm a mesma origem e vão dar ao mesmo lugar.

No dia em que é solto um dos nossos criminosos, a Clara propõe fazer‑lhe uma série de entrevistas, a troco de uma quantia em dinheiro. Não me apetece nada, mas lá vou. É um homem de cinquenta e poucos anos, aprumado e silencioso. Diz que não se lembra, ou que não quer lembrar‑se, das atrocidades que cometeu. Levanto‑me para ir embora, mas a Clara fica sentada ao lado dele, dizendo‑me que eu fosse andando que ela já lá ia ter.

«Tenho a certeza que consigo convencê‑lo!», diz ela quando regressa, quase duas horas depois.

«Como?»

«É uma questão de dinheiro.»

«Quanto?»

«É melhor sentares‑te primeiro. Eu vou buscar‑te um whisky.»

Linguagem de código para «Vai preparando o livro de cheques.»

«Quanto dinheiro é que temos no banco?», pergunta.

«Imenso ... »

«Mas quanto?»

Eu vou buscar o livro de cheques e digo‑lhe a quantia certa. «óptimo. Chega!», diz ela.

«És doida?»

Discutimos dinheiro pela primeira vez na vida. Ela ainda tem menos jeito que eu. Mas convence-me. Melhor investimento da nossa vida e não sei quê. Lembra‑te daquelas propriedades todas por vender e não sei que mais. O livro vai ficar na história e patati, patatá. Convenceu‑me. Ou melhor: fartei‑me.

«Pronto. Não se fala mais nisso», disse eu quando lhe entreguei os cheques, separados em prestações, não fosse o homem voltar atrás, etcetera.

Deixei de ir às entrevistas. Não era preciso. Mesmo assim, quando a Clara voltava da casa do assassino, trazia sempre pouca coisa.

«Ele não fala ... »

«Que grande novidade.»

«Mas está quase a falar!»

«Esperemos que sim», dizia eu, apesar de não ser verdade.

A verdade é que a Clara estava felicíssima. Sempre dum lado para o outro. Nunca vi. Tanto mais que entrou um dia em casa e anunciou que íamos ter um filho. «vamos». Foi essa a forma verbal que empregou. Como se a minha cumplicidade já estivesse pré-estabelecida. Como se não me bastasse o que euja era e ter de ser, ao mesmo tempo, pai. Mais tarde ou mais cedo explicou‑me, teria de passar a minha função predilecta, de marido, para um regime em part‑time. Não gostei nada. Não me imaginava ser fosse o que fosse. Marido. Muito menos pai. Por muito mau.

O nosso filho, como ela chamava ao livro, deixaria de ser único. E nós, por algum motivo nunca esclarecido, passaríamos a ser «especiais»...

Nem sempre foi assim. Não foi por acaso que fiquei com um cemitério de raparigas só para mim.

Alguém teve de me dar o terreno, abrir a primeira cova e deitar‑se dentro dela, para eu poder lá ir.

Foi a minha guarda‑costas. A que esconde e protege as minhas asas, não vá alguma sirigaita aproveitar‑se delas, só porque as esqueci.

Um grande amor, que faz bem em chamar-se assim, porque dá jeito pensar e agir como se houvesse pequenos, é uma protecção para toda a vida. Faz‑nos perceber que não é tudo ou nada. É tudo, depois nada, e passado um tempo, mais alguma coisa. Assim é que é. Menos simples do que parece.

Olhos verdes, cor da cor de que ficavam os meus só de vê‑los. Como puderam alguma vez olhar para mim? Agora não mereço, mas já mereci. Estive lá. Só a ver. Sem pensar em ser visto também.

Terá sido esta a rapariga que me mostrou que, a partir dela, as coisas só podiam piorar? E que era natural que assim fosse? Melhor não poderiam ser. Assunto despachado. Gosto de acreditar que não.

Tanto mais que assim aconteceu. Até hoje. E tudo isto só por não terem sido sempre assim.

Que hei‑de fazer? É sempre a mesma pergunta. No meio das coisas ou afastado delas. Aflito em ambos os casos. Mas o dilema mais difícil é escolher entre nada e mais nada.

Eu, ao menos, tenho alguém com quem sonhar. Somos sempre Os Dois, mais que Os Cinco. No centro da aventura. Num mundo desconhecido. Com mais flagelos que habitantes. Um rapaz de muletas no canto duma casa, esfaqueado pelo nosso maior amigo. Está vivo mas diz que vai morrer. Que não importa. Que compreende o que lhe fizeram. Que teria feito o mesmo se pudesse.

Os Dois. Do lado do Bem. Por muito piroso que seja. Não mando nos sonhos. Eu peço-lhe que vá buscar os livros de Direito. Para sabermos qual é o tipo de homicídio involuntário que mais nos convém. Ela está sempre nervosa. Eu não. Somos uma equipa. Ela corre de um,lado para o outro, resolvendo tudo. Eu fico ao pé dos mais pobres e dos feridos, de coração rasgado.

As vítimas não me querem ao pé delas. Desconfiam. Ofende‑as a minha hipocrisia. Acusam‑me de traição. Cada vez que os procuro salvar de sorte pior. Recusando-me a fugir, a deixar ficar tudo como está. Ela ajuda-me. Despreza aqueles que salvei, mas defende os interesses deles, porque sabe o quanto eu gostei de os salvar. Nem os ouve. Ouve‑me a mim.

Gostaria de ser eu a salvá‑la, uma vez ou outra, devido à minha educação, impossível de esquecer, de rapaz. Mas nunca é assim. Nos territórios longínquos, onde nada nos é familiar, nem da vida, nem dos livros, nem de um filme, só nos reconhecemos um ao outro. É muito velho este sonho. E nunca perde o poder, de consolo, e intervalo, e continuação. Os mortos tão vivos. Os desaparecidos tão perto. E ela tão ligada a mim, como nunca esteve, em vez alguma, durante os dias em que estivemos juntos.

O preço desta perfeição são as ruínas, os cadáveres, as desgraças que se abatem sobre os protagonistas, desde o princípio até ao fim. Talvez seja por isso que estamos Os Dois sempre ocupados, com os outros, para não estarmos sozinhos, mas sem tempo de estarmos só os dois, para a verdade não ter nesga por onde entrar, e não virem ao de cima as lembranças, nem as boas, nem as más, porque tanto umas como outras causam a mesma dor, lembradas deste tempo, nesta cama, por ambos. Acordado, já são difíceis de suportar. Imagine‑se a dormir. Um bocadinho do que se pensa lembrar rende muito ao longo do tempo.

De um momento sai um sonho inteiro. Há uma equipa de técnicos que se encarrega de o transformar. Cenários, figurantes, histórias. Basta a ponta de um guardanapo de papel, com dois rabiscos a lápis, a ponta duma almofada, com dois cabelos. Eles fazem o resto. Põem-nos sempre em sonhos bons. Escusadamente bons, cujo interesse ultrapassa o facto de lá estarmos Os Dois. Tanto mais que muitas vezes distraio‑me e tiro os olhos de ti, só para ver o que vai passar a seguir.

As raparigas que dormem ao meu lado dizem que estou sempre com uma expressão aflita. Perguntam se foi algum pesadelo. Não sabem que estes sonhos me preparam para elas, que me dão força para enfrentá‑las e folga para sentir carinho quando as vejo, de repente, ao pé de mim, como se o dia anterior, todos os dias anteriores estivessem esquecidos e os outros, ainda por vir, já prontos para esquecer, mal seja preciso.

É de manhã que se parecem mais contigo. O fígado, o fémur, os vasos sanguíneos. As vezes fazemos amor. Erradamente. Não é preciso muito para cair em mim. Os teus mamilos pálidos. Os outros em carne viva, como se fossem pintados, escolhidos por outra pessoa e entregues à minha por engano ou caridade. Gosto.

Poucos meses antes de ele nascer, começaram a suicidar‑se as minhas amigas. A Margarida, a Joana, a Patrícia, a Mônica e, inexplicavelmente, a Catarina. A Clara não me deixou ir aos funerais. Eu não conseguia esconder a minha tristeza. Não acreditava.

Uma pessoa deixa‑se envolver tanto nos acontecimentos que, quando chega a hora de tentar registá‑los em traços largos, é como se nunca tivessem acontecido. já nada nos afecta. Não nos cabe sequer ter uma brevíssima opinião.

como vos digo. Deve acontecer o mesmo aos actores quando finalmente vêem o filme em que entraram. A sensação de que «este filme não é meu». Não obstante o que sofreram durante a rodagem.

As coisas acontecem-me com vários graus de intensidade. Até aíjá percebi. Quando acontecem pouco, é mais fácil pensar neles e registá‑los, perdendo embora todo o sentido das proporções. Quando acontecem muito, acontecem já pensados, agigantando‑se diante da tentativa de tentar resumi‑los. Só quando acontecem assim‑assim é que as devidas proporções se respeitam. Nada de especial dum lado e a mesma coisa do outro. É justo. Mas é muito raro.

Todos os suicídios, por exemplo, me comoveram. Mas o primeiro menos que o segundo, e assim sucessivamente. A Catarina existe. E está aqui a olhar para mim.

Fui secretamente visitá-las aos respectivos cemitérios. Agora que estavam mortas, já não tinha a mesma graça. Em vez de vítima, sentia‑me culpado. Tive consciência da minha contribuição. A minha influência tinha‑se feito sentir. E custava‑me.

Foi quando a Clara me disse:

«Não te percebo. Agora tens o passado limpo e o futuro recheado de coisas boas e estás a reagir como se fosse ao contrário!»

Foi aí que comecei a desconfiar. Os interrogatórios, os ciúmes, a especialização em medicina legal, os encontros com o assassino, a gravidez... era impossível resistir à tentação de somá‑los.

«Clara, há uma coisa que tenho de perguntar‑te ... » «Estava a ver que nunca mais perguntavas!» «Estou a falar a sério.» «Também eu. Claro que fui eu. Estavas à espera que se suicidassem sozinhas?» «Não acredito.»

«Se preferires ficar na dúvida, tudo bem ... »

Não devia ter perguntado. Agora sei. É o risco que se corre quando se faz uma pergunta.

Estou chocado. Não tanto pelo que fez a Clara, mas pela maneira como reagi.

Aceitei. Não foi preciso pensar. Dispensei a apresentação de razões, a explicação dos motivos, o moroso processo de compreensão e perdão. Nem perdoá‑la pude. Teria sido necessário culpá‑la um bocadinho primeiro.

Desiludia‑a duplamente. Nem lágrimas nem palmas. Nem sequer uma demonstração aristocrática de indiferença.

Fui o único dos três, a Clara que resolveu matá‑las, o homem que seguiu as instruções dela e que as matou, e eu, que apenas as namorei e dei à Clara acesso aos meus livros, o único que emergiu desta onda de assassínios sem uma réstia de dignidade.

Se, ao menos, isso me envergonhasse...

Só me restava actualizar o ficheiro do homem, aproveitando o meu acesso privilegiado à informação relevante. Não o fiz, evidentemente. Mas o facto de ter pensado nisso já é prova que sou demasiado biltre para o meu gosto.

Como é que a Clara consegue viver com um homem como eu, que tão facilmente consegue viver com ela, depois de tudo o que fez?

E se ela descobriu que o efeito mais indesmentível destes acontecimentos foi ressuscitar em mim, com um carinho a toda à força avante, a Margarida, a Joana, a Patrícia e a Catarina? (A Mônica, felizmente, não se salvou).

Eu, que pensava ter ultrapassado para sempre essa minha fixação doentia pelas pessoas e coisas que deixaram de ser Minhas e que não têm solução...

Duplicando o número de parceiros sexuais, de três para seis. E muita gente para uma só cama. E é injusta a distribuição: dois para a Clara e cinco para mim. Era o fim da democracia, o triunfo da contra‑revolução.

Podia ter‑me passado pela cabeça matar a Clara. Seria uma forma de participação, um sinal de humanidade. Mas não. Impensável matar. Nem sequer o nosso futuro filho me ocorreu.

Devo confessar.

A minha vida passou a ser um fingimento perpétuo. Nunca mais me senti à vontade. Só em perigo. Agora era eu com um segredo terrível à espera de ser descoberto.

E não estava a gostar nada.

Mesmo nada.

E a Clara também não. As tão divulgadas teses sobre as alegrias e perturbações da gravidez revelaram‑se como o grande barrete que são.

«Estás diferente, dizia.

«Estupidez!»

«Se continuas assim, vai ser cada vez mais difícil sermos iguais.»

«Mais diferente ainda? Morria.»

«Não. Igual ao que era.»

«Ah, então confessas que há qualquer coisa diferente na nossa vida... Eu já sabia!»

E começou a chorar. Não sabia o que é que eu havia de fazer. Resignei-me. E deixei‑a.

Fui falar com a mãe dela. Aproveitando a ocasião. Nem um cão teria feito melhor.

Com que então morreste.

Não faz mal.

já me aconteceu o mesmo.

E sabes, Catarina?

Lembras‑te de quando te traí? De quando já não tinha esperança? Quando perdi toda a tua força em mim?

Voltei. E esperei. E voltaste.

Consegui.

Nunca foi tão grande a distância. Nem a diferença. Nunca as tinha sentido assim. Nem nos primeiros tempos. Deixei‑me apanhar. Mas foi fácil fugir. E fugi.

Está tudo como estava. Intacto. Tu. As duas árvores. O mundo inteiro preso a ti. Ninguém entrou. Ninguém mexeu em nada. Ficou tudo para mim.

A tua segunda vida, se foi como a minha, acabou finalmente. Mataste‑a. Trataste‑a como merecia. E desimpediste o caminho. Ficou só a tua vida verdadeira. Quem me dera ter a mesma força, mas já sabes como eu sou, não resisto. Na festa miserável da minha vida, hei‑de ser o último a ir‑me embora. Sou guloso, tenho medo, sou fraco, tenho vergonha. No que eu me tornei! E a rapidez e facilidade com que aceitei o personagem em que me tinha tornado...

Esquece.

Descansa.

Eu não te esqueço.

Eu amo‑te.

Mais ainda.

Agora que és um bocadinho minha, mais uma vez.

Nunca pensei que te pudesse amar mais do que amava.

Mas amo‑te.

No caso de me estares a ouvir.

A mãe da Catarina mandou‑me um embrulho cheio de cartas. A mais recente era do ano passado. Que amor. Tal e qual eu tinha pensado. Mas verdadeira. Estúpida. Se ela continuou a amar‑me porque é que nunca me disse? Quem sabe se com ela eu teria sido feliz? Pelos vistos (pensei em plena choradeira, escondido na casa de banho) não era só ela que melhorava quando estava longe...

Era quem mais falta fazia no cemitério de raparigas, que entretanto tinha voltado a frequentar, sem vontade, sem a mais passageira alegria, tal era a desolação que se criara naquele sítio, por força das saudades verdadeiras que eu sentia. Se ao menos ela existisse...

Pela primeira vez na vida ‑ se era ou não, tanto faz, o que interessa é que era como a primeira vez que o meu coração a tratava ‑ senti‑me sozinho. Sozinho com. Sozinho sem. Sozinho porque. Sozinho só. Todas as variedades possíveis de sozinho. Sem alternância. Em acumulação.

A Clara perdeu a graça e o sentido. Desistiu de mandar na minha vida. Pedia‑me que passasse a ser eu a mandar nela ‑ nela, como quem diz: na minha vida. Como se eu tivesse alguma experiência. Eu bem tentava, mas sempre em vão. Se calhar não eram sinceras as tentativas que fiz. A verdade é que, como de costume, não só não fazia a minima ideia do que queria, como não me entrava na cabeça que coisa era essa, de querer.

Eu voltei ao que era. A Clara não. Amava‑me, claro, mas agora já amava como se não tivesse mais nada para fazer. Se calhar, apaixonou‑se mesmo.

Naquela de destino. A portuguesa antiga. Por asfixia. O peso. O queixume. O xaile feito tapete. O sofrimento como modo de vida. O preço a pagar. Pago adiantado. Com prazer. Agradecidamente. Amor genuíno. A cheirar a peixe e tudo.

Aceitava tudo. A Margarida, a Joana, a Mónica, a Patrícia, a Catarina. Com sinceridade. Gênero: «Vai, vai... vai ter com elas, se é isso que queres ... » Subentendo‑se: «E, quanto a mim... cá estarei... já sabes onde me encontrarás A tal ponto que aproveitei para desabafar. Contei‑lhe o meu segredo. Só não lhe disse que nunca tinham sido minhas namoradas. Se nem a mim digo isso. Ela a fazer que sim com a cabeça, toda «Eu sei... eu sei ... » Além de toda a surpresa ou revolta. Senti‑me um homem novo. Mas, ao emergir daquele duche de lágrimas quentes, lavadinho e fumegante, confesso que me fez impressão. Só lhe faltava dizer «Estúpida fui eu... se não as tivesse mandado matar, era outra a nossa vida ... »

Mas nunca chegou a esse ponto. Ela podia sofrer muito. Mas a culpa, coitada, seria sempre minha.

Nem anestesia quis, quando nasceu o nosso filho. Mal chegámos com o bebé a casa, foi coerente, declarando que nem sequer o podia ver. Não que não quisesse. Mas não conseguia.

Nem sequer pai pude ser. Fui despromovido a mãe. Até simpatizava com o gorducho. Naquela casa sombria, com a Clara deitada e a avó catatónica, num claro contexto de ausência de ascendentes femininos, o redondinho era o único ele- mento da equipa que se mexia. Passei rapidamente do «A tua mãe 'à vem ... » para «A tua mãe 'à foi ... ». E daí para «O pai jà

contratou uma ama ... » E, enquanto ela não vinha, dediquei‑me àquela criança como se fosse minha.

Percebi por que é que as pessoas tinham filhos. Porque ocupavam qualquer nesga vazia que vislumbrassem na vida de quem se aproximava deles. A minha era um palácio de exposições deserto, com um único stand no pavilhão mais longínquo, que dizia «Em caso de emergência... » O pequenito ocupou‑o como se fosse a rainha de Sheba.

O meu instinto maternal não se coibia. Chegada a ama e estabelecido a disciplina, fui esbanjá‑lo com a Clara, com o equivalente de dez quilolitros de papa em carinho. Trazia‑lhe pequenos presentes. Até uma ou outra rapariga. E ela lá foi espevitando, ainda demasiado «obrigadinha» para o meu gosto, mas, pronto, restabelecido.

A minha Clara.

Não me constrangia o facto de ser agora efectivamente minha. Era coisa passageira. Não me custava nada esperar que passasse. Eu até compreendia.

Depois, sabe‑se lá porquê, meteu‑se‑me na cabeça que ela estava a morrer. Ela concordou logo. Esteve meses sem dizer nada. Mas não foi por causa disso. Foi só porque me convinha.

Finalmente voltou à vida. Despediu a ama. Ralhou comigo. Olhou, desgostosa, para o filho. Ainda não lhe tinha posto as mãos em cima, já tinha chegado à conclusão que o mal dele era mimo a mais.

«Deixa‑o chorar um bocadinho e vais ver como vai ao sítio», dizia ela.

Assim fizemos. Embrulhados na cama, perante a estupefacção condenatória da nossa visita, o choro do pequenucho tornou‑se em música de fundo, a banda sonora daquela casa inteira, canalizada electronicamente para o quarto da mãe inerte, para que não se sentisse excluída.

Por muito que a Clara me assegurasse que me habituaria, não me habituei e levantava‑me, sobretudo quando percebi que bastava esse meu pequeno gesto mecânico para que ela me substituísse prontamente. Ela batia‑lhe, é certo. Mas o miúdo defendia‑se bem. Não chorava nem se arrependia. Apaixonei-me por ele.

Estes contactos, a principio esporádicos, entre mãe e filho, surtiram o efeito desejado e pude recuperar finalmente o posto que me tinha sido negado. Descobri em que consistia o papel dum pai. Para meu alívio, percebi aquilo a que os homens tinham conseguido resistir através dos séculos e que, para todos os efeitos, ainda não tinha sido definido.

Quando a Clara descobriu que ser mãe é uma técnica e que tudo o mais era valor acrescido, passou a desempenhar tão friamente as suas funções que depressa atingiu um nivel elevado de excelência e uma taxa de ocupação baixíssima, deixando‑lhe tempo e vagar suficientes para outros passatempos ‑ inclusivamente afeiçoar‑se ao próprio filho.

O miúdo passou a fazer parte da mobília, tão ou mais integrado que a avó. E a Clara, quanto maior fosse o perigo duma

intervenção vinda do interior da casa, mais se divertia a fechar portas, a dizer baixinho as maiores barbaridades, culpando a mãe e o filho de serem afrodisíacos.

«Sabes que mais?», perguntou‑me. «Não, não sei.»

«Ao contrário do que cheguei a pensar, as coisas por que passámos acabaram por nos ajudar a ficarmos iguaizinhos!» «óptímo.»

«É que eu também tenho saudades de certas pessoas que eu cá sei.»

«Todas vivas, aposto.»

«O que é que queres? Não se pode ter tudo», disse ela.

Isto dito sem se rir.

Esta Clara... A sorte que tive. «Sorte» no sentido antigo sem se saber se é boa ou má. Se não fosse eu, era outro. Tem graça porque, a partir daí, sentia‑me sempre o outro. E ela não dava por isso.

Nem sequer houve fogo manso, que arde sozinho, sem nada queimar. Lume cego, que não vê que não dá luz que se possa ver.

Fui infeliz. Fazia‑me falta um incêndio que só eu soubesse como tinha sofrido.

Agua portuguesa usei.

E cheiro de cinzas.

E nem assim consegui (ou quis) impedir de acabar o que nunca tinha começado ‑ o amor. A falta de outra palavra.

Naquela altura, já nada nos podia separar. Nem sequer a falta de amor. Eu já não podia amá‑la. Ela já podia não me amar. O caminho estava novamente livre para gostarmos mais um do outro do que da própria vida ‑ o que não é muito, mas mais não se pode pedir. Com franqueza.

Nunca mais me ajudou com o livro. Pude recuperar, sem pretextos ou disfarces, o desinteresse por ele que eu soubera, desde o princípio, inamovível. Nem tão‑pouco ela começou a ir às aulas por causa disso. Éramos quem tínhamos sido. A indolência dela combinava bem com a minha. O crianço ganhava com isso. Sempre que não havia mais nada para fazer, ou seja, frequentemente, íamos ter com ele. Fosse qual fosse a hora ou circunstância, recebia-nos. Era só abrir a porta. Era um senhor. E um grande amigo.

De vez em quando lá vinha o assassino, preparado para fazer chantagem, mas nós não ligávamos. Passávamos‑lhe um cheque e despedíamos‑nos antes que ele pudesse dizer «É assim ... »

A Clara fez vinte anos e nem dei pela diferença. Só para ver como paravam as modas, comprámos um bolo.

Chegámos ao ponto de admitirmos um ao outro que, se fosse só por nós, dispensávamos de bom grado a colaboração das outras raparigas. Eram umas chatas. Mais chatas ainda por serem umas queridas. Foram essenciais naquela fase, dizia a Clara. Nem isso. Tinham dado o que tinham a dar. Ou não. Tinham ficado a ganhar. Eram umas putas, dizia a Clara. Eram umas compinchas. Fossem lá o que fossem. Sejamos sinceros. Eram empata‑fodas. Nisso estávamos todos de acordo. Sinistro, não é?, que «todos» fossem agora só nós os dois...

«já não temos idade para isso ... », dizia ela. «Não. O melhor é que temos.» «Tens razão. Temos de tirar partido disso.» «Sim», dizia eu. «Nunca mais lhes falamos.»

Acontece. E como vos digo. Os jornais têm sempre o mesmo

tamanho, dando a impressão que acontece o mesmo número de coisas todos os dias, umas importantes, outras menos. Os filmes chatos são frequentemente mais curtos que os empolgantes.

É talvez o grande fracasso humano: a desproporção entre o valor e a dimensão. Nada há que tenha o tamanho que mereça. Um fósforo com cem metros já não é um fósforo. A atenção que se dá a uma morte depende de tudo o mais que aconteceu nesse dia. Pode‑se ter sorte ou azar. Mas nunca o que se queria.

Acontece, registo, acontece, registo. Mas é tudo mentira. E se invertesse as proporções, mais ainda.

A verdade é que não é como vos digo. Não só não sei a verdade, como aquilo que vos digo. Só sei que não é assim. E nem disso posso dizer que tenho a certeza. É triste. Mas será verdade? Uma coisa é certa: alguma coisa deve ter acontecido. Nem que seja só o registo.

Maior tragédia do que esta não existe.

E se nenhuma destas coisas tivesse acontecido? Ou, pior ainda, se só tivessem acontecido algumas? Impossíveis de apurar. Improváveis. Quais teriam tido maior influência sobre mim? Se umas fossem inventadas. Quem sabe? Quem pode dizer? Eu não. Nem sei nem posso. Não me compete.

Eu faço intervalos. É esse o meu mister. Se me encostassem

à parede, eu seria forçado a agradecer. A participação de tanta gente. O facto de se terem lembrado de mim. Ou de terem-me deixado lembrar‑me delas.

Aparece a Clara. Não há maneira de continuar este caminho. A Margarida bate à porta. A Catarina está deitada à minha espera. Tenho a Joana ao telefone. Deixei o assassino sozinho na bichha. O paquete encarregado de vir buscar o manuscrito jà

vem a caminho. A Patrícia está, neste momento, a chegar à igreja. E eu ainda neste estado... Como se nada tivesse a ver com isso. A distrair‑me, a deixar‑me distrair. Tudo fiz para que fosse fácil apanharem‑me. Estou perdido. É um pormenor. Desde o dia em que nasci. É uma coisa que só a mim diz respeito. Tantas vezes fui encontrado, que era inevitável acabar assim. Ou começar. Se nem do princípio consigo. Quanto mais do fim.

A    Clara beija‑me e adormece ao meu lado.

A    luz fica acesa.

A    noite inteira.

Nem sempre foi assim. Não é como vos digo. Nem sempre foi como vos digo. Pelo menos é isto que não me canso de me repetir, quando sei que mais ninguém me pode ouvir.

Não consigo convencer‑me, o que não e razão para não acreditarem em mim. Se calhar, sei o que digo. De resto, não sei nada acerca de mais nada, se'a acerca de outros ou de mim.

Alguém organiza a vida? Alguém a mantém? Se as vidas fossem barcos... Mesmo assim, não me convenceriam. E, quanto ao mar, foi para os tolos que se fez. Que façam dele bom proveito.

Quando a Catarina era viva, se dalguma forma se pode falar assim, posso dizer que também eu vivia.

Era tanta a Catarina que dava para todas as outras raparigas que conheci. Nenhuma houve em que se não notasse a mão dela. Por alguma razão as amei. Como um arqueólogo se dá por satisfeito com uns fragmentos do que já foi uma cidade inteira. Uns fragmentos que são mais do que esperava encontrar. A partir dos quais imagina o resto. A maior parte. A mais importante. Aquela de que mais se duvida.

Haja dúvidas. Resquícios. Marcas. Tudo o que deixou a Catarina. Não só em mim. Em todas as pessoas que a conheceram, e a quem se deu, por nada ter a perder, por ter a certeza que ninguém era capaz de ficar com ela, na sua inteireza, por muito vasta e ladra que fosse, nem uma podia levar mais do que o mais pequeno bocadinho, pequeno de mais para ela dar por falta dele, mas o bastante para ninguém poder continuar o caminho sem contar com o pedaço dela, alojado como um segundo coração.

É dos dias dela que me fui fazendo. Sem recorrer a eles, não tinha força para viver, se é esse o nome que se dá à espera interminável. Sempre à espera duma parecença, que passasse por mim e que eu pudesse, nem que fosse por uns momentos, prender ao meu peito, no lugar mais próximo da Catarina que encontrasse.

Antes da morte, ainda havia alguma vida depois dela. Seria escusado condená‑la ao sofrimento e à saudade, o que só a faria sofrer mais ainda do que eu. Assim procedi, consentaneamente.

Há, entre a vida e a morte propriamente ditas, um imenso intervalo com tanto de uma como da outra.

Do amor verdadeiro mais resta do que se pensa. A capacidade, ainda intacta, de gostar. O exemplo, fixo na alma, suficiente para atingir uma imitação verosímil, mas grande de mais para reproduzir. A custa do que não se pode jamais pôr em causa ou discutir. Nunca mais poder amar. Nunca mais suportar ser amado. Em troca duma infinita licença para não fazer nada.

Levei anos a convencer‑me disto: o que eu era, foi ela que mo deu. Não podia levar o que não era meu. O que foi meu foi só para ela. O que me faltava ficou com ela. Guardo segredo disso. Foi a minha única grande invenção. Só eu sei a falta que essa pessoa que eu era me faz.

Havia vida depois do amor. Prazer. Simpatia. Ilusão. Passagem impetuosa do tempo. Bastava não estar sempre a lembrar‑me.

Nem que fosse só o divertimento. O estar presente. Quando acontecia tudo o que calhava acontecer. Havia uma sensação de vida. Para não desperdiçar. Para agradecer. Para ir andando. Qualquer coisa dalguma forma mais suportável do que morrer.

Atirei‑me ao que havia. Nem foi preciso mexer‑me. As coisas viriam ter comigo. Era só uma questão de estar lá para as receber.

Isto não acaba assim.

A ser como quase sempre, mas nem sempre sempre assim.

Cuidado comigo.

As coisas não duram para sempre. E as pessoas muito menos. E eu menos ainda. Tudo o que não puder impedir de acontecer, acontecerá.

Isto continua.

Consigo viver sem elas, mas só se estiverem vivas. Se estiverem todas vivas, quietinhas e felizes no cemitério das raparigas, até consigo viver com outra qualquer, bastando‑me apenas saber que ela para lá caminha. Se uma delas morre, nem sozinho consigo viver. Antes viver com o cadáver de uma rapariga que eu nunca tivesse conhecido. Capaz disso era eu, e de boa‑vontade, se mantivesse as outras, as minhas, sempre vivas.

Antes de a minha mulher matar boa parte delas, eu não tinha muitas hipóteses de sobreviver. Mas tinha poucas. Poucas já é bom. E, tendo em conta o que eu merecia, eram, francamente, mais.

Agora só tenho uma. Uma hipótese e uma rapariga. Duas coisas? Não sei. Não sei até que ponto constituem duas coisas. Desconfio que esse ponto fique um pouco aquém do único que as separasse claramente: Esta é a rapariga com quem vives, pronto. E agora, mudando de assunto, porque não tem nada a ver: Esta é a tua hipótese de sobreviver. Se te quiseres livrar da rapariga, a tua sobrevivência não será afectada. E vice‑versa. Nesse caso poderia armar‑me em cavalheiro e perguntar: «Tem a certeza que a minha mulher não será afectada se eu perder a minha única hipótese de sobrevivera As risotas com que esta dúvida seria acolhida! Santo Deus. Até eu me riria. Nem seria preciso que me respondessem. É isso que me anima e, por muito estranho que pareça, ao mesmo tempo me irrita.

A Unica maneira de determinar a idade das pessoas é atravês da tristeza. Não está certo que eu, tendo nascido tão velho e triste quanto podia, e vivendo sempre de modo a evitar todas as manifestações que fossem próprias das minhas várias idades, à medida que se sucediam, ou quaisquer atitudes ou comportamentos que pudessem conduzir à mais ténue felicidade, tenha gradualmente ficado, com cada dia que passava, ainda mais triste do que de antemão.

Parecia impossível. Só agora compreendo e amaldiçoo este meu desinteressante optimismo, e que consiste, afinal, num único pensamento camponês, que era «Bem... pior do que isto não pode haver.» E continuar a pensar desta maneira, anos e anos a fio, apesar de verificar, cada vez que acordava, que afinal havia. E não pouco, diga‑se.

Não há sítio de onde não se tire uma lição qualquer, por ser da natureza dos acontecimentos que se dão neles, excepto daqui. Tanto foi o medo de ser fodido que, algures no percurso da minha vida, as pessoas desistiram de me querer foder e eu, sem dar por isso, fui andando, cabisbaixo, seguro e sozinho, impreparado para o único desfecho possível: não havendo quem me pudesse foder, não havia mais ninguém que o pudesse fazer. Só eu. E pronto. Fodi‑me.

Nunca pensei que pudesse fazer tal coisa a mim próprio. Mas fiz. Bastou distrair‑me ‑ e truca. Estava feito. O meu estranho fascínio pelos caracóis deveria ter‑me avisado. Estudei‑os muito. Mas nada aprendi. E agora já é tarde ‑ ao menos isso, ser qualquer coisa, mesmo que seja apenas tarde.

A partir daqui eu próprio me desinteresso pelo que possa

não vir, repetidamente, a acontecer‑me.

Em minha defesa devo dizer que, não obstante os meus esforços no sentido de registar os nadas e os vazios da minha vida, numa série de variações egoístas da frase «Não se passa nada», sempre desconfiei que existissem coisas tão pouco coisas, a não ser na capacidade própria do que é invisível, de se esconderem de mim, que nem sequer se pudessem contar.

Mesmo assim foi um choque. Essas coisas, afinal, existem. Por muito que tivesse desconfiado, confesso que sempre pensei que era só eu.

Se por «minha vida» se entender, por crueldade ou amor aos chamados factos, o que me aconteceu, fora de mim, sem pensamento da minha parte, é óbvio que nunca vivi de verdade, nem tive amigos, nem tive namoradas, nem tive nada que não fosse só meu, e muito menos alguém que me quisesse.

A não ser a Clara. Talvez ela tenha gostado de mim. Não só existiu, como existiu ao lado de mim. Mas não é por isso que lhe dou mais valor.

Obrigou‑me a mentir, ou seja, dizer em voz alta as mentiras que eram as minhas, e, por nunca terem sido ditas, eram um bocadinho verdadeiras para mim. Pô‑las cá fora, em palavras que se pudessem ouvir e às quais era possível responder, era matá‑las. Na minha inocência, dei‑as ‑ mas dei‑as a quem não as queria. E assim perdi‑as para sempre.

Não conheci ninguém. Mas diverti-me. Aprendi que há coisas que se podem fazer sozinho. E mais: são bastantes para ocupar dignamente uma vida.

Amei ‑ mas só eu sei, soube pelo menos uma vez, como e quem. O amor é uma definição como qualquer outra ‑ deve haver mais amores do que corações. Para mim a vida é vulgar de mais para se misturar com o amor ‑ torna vulgar o amor, e a vida, à custa dele, engrandece estupidamente. Quantas pessoas amam outras só para se despacharem do que têm de mais bonito e doloroso e poderem voltar, descansadas e desiludidas, à vidinha delas, cheias de si próprias, e egoístas, dizendo «Porque é que eu fui naquela conversa?... Eu tenho é de pensar em mim!»

Nesses termos nunca amei, nunca fui amado mas ao menos a Clara, durante uns dias, pensou que sim. Agora sabe a dita verdade, pela qual tanto ansiou ‑ e é bem feito. Um dia deixar‑me‑à, sem razão nenhuma. Espero bem que sim. Daqui a uns oito ou nove anos, talvez. Ela já não acredita em nada do que digo por muito pouco que seja ‑ e mais nada há que eu possa contar. Em princípio, é prometedor.

Uma coisa é certa: mal me cheire que a partida dela esteja para breve, vou roubar o pequenucho e levá‑lo para muito longe, e deixá‑lo fazer tudo o que quiser e dizer‑lhe que eu sou só dele e, enquanto ele estiver a dormir, guardá‑lo e pensar para mim que também ele, noutra vida que não esta, é só meu.

A única certeza que tenho chega‑me para continuar: a certeza que uma única coisa jamais me há‑de acontecer. É a coisa que guardo, a coisa que me mantém. Por muito que seja, e cada vez mais, o tempo a que tenha acontecido.

Ao que se viveu uma só vez nunca se volta. Nem que seja por uma questão de respeito ou de sobrevivência própria.

Como é que uma coisa tão bonita pode ser tão útil? Não é pergunta que se faça. Basta olhar à nossa volta. Que coisa tem uma a ver com a outra? Se há céu, sempre que sinto escurecer dentro de mim, porque não hei‑de olhar para ele? Ou lavar‑me na água linda. Ou partir a perfeição dos ovos. Ou usar a poesia que outros escreveram como arte marcial.

Agora as coisas acontecem‑me mesmo e eu já não sou capaz de resistir. Nada mais tenho para contar. A ninguém. Nem a mim. Sinto falta, mas não multa. Talvez um dia, estando eu novamente sozinho, depois de o meu filho ter crescido e ido embora, a falta se torne tão grande que eu consiga voltar a pensar, à verdade da minha alma, e a ti, sejas lá quem tu fores. Nem é preciso esperares. Pode levar muito tempo e, de qualquer maneira, como sempre foi, não há ninguém, senão eu, e possa esperar por mim,

Foi só uma pessoa.

Foi só um inverno.

Não foi nada doutro mundo.

E deste, só um bocadinho.

Não há mais nada que eu queira desta vida.

Que mal tem eu ficar com a Catarina?

Só. Com a Catarina.

Catarina...

Tu não me lixes...

Nunca mais me apareças à frente.

Deixa‑te estar aí.

Aí que estás bem.

Que eu preciso de ti assim. que eu preciso de ti aqui.

Amor da minha vida. Assunto resolvido.

Entretanto, o que se segue já foi e já se sabe. Quem sabe se não é melhor do que nada? E, mesmo que não venha a ser, pelo menos há uma probabilidade de ser, pelo menos, diferente. É aquela palavra que vem sempre com uma esperança pequena ‑ nem que seja por não se saber onde acaba.

 

                                                                                Miguel Esteves Cardoso  

 

                      

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