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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O Circulo Matarese / Robert Ludlum
O Circulo Matarese / Robert Ludlum

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O Circulo Matarese

 

Somos os três reis magos

Trazendo presentes de muito longe...

Na esquina, um bando de meninos cantava em coro, batendo os pés e sacudindo os braços, as vozes jovens cortando o gélido ar noturno por entre os sons de buzinas estridentes, apitos de policiais e os acordes metálicos de músicas natalinas que jorravam de alto-falantes na fachada das lojas. A neve caía em abundância, atrapalhando o tráfego e fazendo com que os compradores de última hora protegessem os olhos com as mãos; ainda assim, eles conseguiam evitar os outros transeuntes, os carros engarrafados e os montes de neve enlameada. Nas ruas molhadas, os pneus derrapavam, os ônibus avançavam lentamente com contínuas e irritantes freadas, enquanto as sinetas dos papais-noéis uniformizados repetiam incessantemente seu fútil chamamento.

Cruzamos rios e charcos

Campos, montanhas e fontes...

 

                      

Um Cadillac escuro dobrou a esquina e acercou-se do coro. O chefe do bando, uma caricatura de um personagem de Dickens, aproximou-se do vidro do banco traseiro estendendo a mão enluvada numa súplica, a boca escancarada num agudo.

Seguindo uma estrela...

O motorista premiu a buzina num gesto irritado, mas no banco de trás o passageiro de meia-idade enfiou a mão no bolso do sobretudo e, tirando várias notas, apertou um botão. O vidro desceu e o homem grisalho colocou o dinheiro na mão estendida.

— Que Deus o abençoe, senhor — gritou o rapazinho. — Os meninos da Rua 50 agradecem. Feliz Natal, senhor!

Os votos teriam sido mais apreciados se não fossem acompanhados por um forte bafo de álcool.

— Feliz Natal — retribuiu o passageiro, apertando o botão que fechava o vidro para cortar o diálogo.

Houve um momentâneo desafogo no tráfego. O Cadillac arrancou para deter-se dez metros adiante numa freada brusca. As mãos do motorista crisparam-se em torno do volante num gesto que equivalia a uma praga.

— Calma, major — disse num tom amigo, mas incisivo, o passageiro grisalho. — Não adianta nada se irritar. Isso não nos fará chegar mais depressa ao nosso destino.

— O senhor tem razão, general — respondeu o outro com um respeito que estava longe de sentir.

Normalmente esse respeito existia, mas não naquela noite, não naquela viagem. Mesmo admitindo-se a auto-indulgência do general, era descaramento excessivo da parte dele exigir que seu assistente ficasse a seu dispor numa véspera de Natal. E ainda por cima para dirigir um carro alugado até Nova York a fim de que o general pudesse fazer uma farra. O major podia imaginar uma dúzia de circunstâncias que justificariam um plantão em tal noite, mas uma farra não era uma delas.

Um bordel. Deixando de lado os eufemismos, era isso o que aquela casa era. O chefe do Estado-Maior das Forças Armadas estava indo a um bordel na véspera de Natal! E terminada a farra seu assistente de confiança tinha de estar lá para recolher, recompor e velar os destroços durante a manhã seguinte em algum motel obscuro, assegurando-se, sem possibilidade de falha, de que ninguém descobrisse a identidade daquele lixo humano, ou o que andara fazendo. E lá pelo meio-dia do dia seguinte o chefe do Estado-Maior reassumiria sua postura marcial, daria suas ordens, e a noite anterior e a bacanal seriam esquecidas.

O major fizera aquela viagem muitas vezes nos últimos três anos — desde o dia em que o general assumira seu importantíssimo posto —, mas essas viagens sempre tinham ocorrido após períodos e intensa atividade do Pentágono ou momentos de crise nacional em que o general mostrava sua competência. Nunca, porém, numa noite como aquela. Nunca, merda, numa véspera de Natal! Se o general não se chamasse Anthony Blackburn, o major teria protestado, argumentando que até mesmo a família de um subordinado tinha certos direitos.

Mas nunca, em circunstância alguma, o major faria a mínima objeção tratando-se de Anthony “Maluco” Blackburn. O general tinha fugido de um campo de prisioneiros de guerra no Vietnã do Norte carregando nos ombros um jovem e combalido tenente, livrando-o das torturas e da morte por inanição, levando-o através da floresta até as linhas americanas. Alguns anos se haviam passado, o tenente era agora major, assistente-chefe do chefe do Estado-Maior das Forças Armadas.

É lugar-comum um militar declarar que seguiria certo chefe até o inferno. Mas o major estivera mesmo no inferno com Anthony “Maluco” Blackburn e voltaria para lá ao primeiro estalar de dedos do general.

O carro chegou à Park Avenue e dobrou para o Norte. Ali o tráfego estava menos congestionado que no Centro, como convinha a um bairro rico. Tinham ainda umas quinze quadras a percorrer para chegar à casa de arenito pardo da Rua 71, entre a Park e a Madison Avenue.

O assistente do chefe do Estado-Maior estacionaria o Cadillac numa vaga reservada na frente da casa e o general saltaria e subiria os degraus que levavam à porta. O major não diria uma só palavra, mas uma sensação de tristeza o envolveria.

Ele esperaria até que uma mulher esbelta vestida de seda escura com um fio de brilhantes no pescoço abrisse a porta dali a umas três ou quatro horas, apagando e acendendo a luz da entrada: um sinal para que o major entrasse para apanhar seu passageiro.

 

— Olá, Tony! — a mulher atravessou o vestíbulo mal-iluminado e beijou o rosto do general. — Como vai, querido? — perguntou ela acariciando o colar de brilhantes.

— Estou muito tenso — retrucou Blackburn, tirando o sobretudo civil com a ajuda de uma criada uniformizada. Ele examinou a moça; era nova ali, e linda.

A mulher notou o olhar.

—_Ela ainda não está pronta para você, querido — disse ela, pegando-lhe o braço. — Talvez daqui a um mês ou dois... Venha, vamos ver se podemos dar um jeito nessa sua tensão. Temos tudo que é preciso: o melhor haxixe de Ancara, absinto da melhor destilaria de Marselha e a especialidade da casa, justamente o que o doutor lhe recomendaria. E, por falar nisso, como está sua esposa?

— Muito tensa, também — respondeu calmamente o general. — Pediu-me que lhe transmitisse os seus cumprimentos.

— Transmita-lhe meu carinho, querido.

Passando sob uma arcada, os dois entraram numa grande sala onde luzes suaves e coloridas provenientes de focos ocultos faziam girar lentamente pelo teto e pelas paredes círculos azuis, amarelos e cor de púrpura. A mulher tornou a falar.

— Temos uma nova garota que quero que experimente, junto com a sua parceira habitual. Ela parece feita sob medida para você, e seus antecedentes são perfeitos. Mal pude acreditar quando a entrevistei! Acabou de chegar de Atenas. Você vai adorá-la!

 

Anthony Blackburn estava deitado nu na grande cama de casal iluminada por minúsculos focos de luz embutidos no teto espelhado. Nuvens aromáticas de fumaça de haxixe pairavam na penumbra do quarto; sobre a mesa de cabeceira, viam-se três copos de absinto translúcido. O corpo do general estava coberto de riscos e círculos desenhados com tinta d’água. Setas fálicas apontavam para sua virilha, os testículos e o pênis ereto tinham sido pintados de vermelho, os peitorais pretos como os cabelos crespos que cobriam o tronco, os mamilos de azul e ligados por um traço branco. Imerso em gozo, ele gemia e virava a cabeça de um lado para o outro enquanto suas companheiras desincumbiam-se do seu mister.

As duas mulheres nuas massageavam o corpo que se contorcia espalhando gordos glóbulos de tinta com movimentos ritmados. Uma delas começou a esfregar os seios no rosto que gemia enquanto a outra acariciava os genitais do homem deixando escapar gritinhos abafados de fingido orgasmo à medida que o general se aproximava do clímax — calculadamente protelado por uma profissional que conhecia seu trabalho.

Debruçada sobre a cabeça do general, a garota de cabelos arruivados murmurava, ofegante, em grego, palavras incompreensíveis. Erguendo o busto um instante, ela apanhou um copo na mesa de cabeceira e, segurando a cabeça de Blackburn, despejou em seus lábios o líquido espesso. Sorriu para a companheira que piscou maliciosamente sem largar o pênis vermelho de Blackburn.

Foi então que a jovem grega se ergueu de mansinho e indicou com um gesto a porta do banheiro. Sua colega inclinou a cabeça em assentimento e, esticando o braço, enfiou dois dedos na boca do general para compensar a breve ausência da companheira. A jovem de cabelos arruivados atravessou o tapete negro e entrou no banheiro. Os gemidos de gozo do general ressoavam pelo quarto. Trinta segundos depois a grega retornou, mas não estava mais nua. Vestia agora um casaco de tweed escuro com um capuz que lhe cobria a cabeça. Ela hesitou um instante nas sombras e então dirigiu-se à janela mais próxima e afastou silenciosamente as pesadas cortinas.

O barulho de vidro quebrado encheu o quarto e uma lufada de vento fez dançar as cortinas. A silhueta de um homem atarracado de ombros largos delineou-se na janela. Ele quebrara a vidraça com um pontapé e agora pulava o peitoril, o rosto oculto por uma máscara de esquiar, na mão um revólver.

Na cama, a moça virou se, soltando um berro de pavor quando o assassino fez pontaria e apertou o gatilho. A explosão foi abafada por um silenciador e a jovem caiu sobre o corpo obscenamente pintado de Anthony Blackburn. O homem aproximou-se da cama e o general ergueu a cabeça, tentando ver por entre as névoas dos narcóticos, o olhar vago, a garganta emitindo sons guturais. O assassino atirou outra vez, e mais outra e outra mais. As balas penetraram no pescoço, no peito e na virilha de Blackburn, e o sangue jorrou, misturando-se às cores brilhantes.

O homem fez um gesto para a moça de Atenas. Ela correu para a porta, abriu-a e disse em grego:

— Ela deve estar lá embaixo na sala com as luzes móveis. Está usando um longo vermelho e tem um fio de brilhantes no pescoço. O homem assentiu e os dois saíram para o corredor.

 

Os pensamentos do major foram interrompidos por sons ines­perados que pareciam vir de algum lugar no interior da casa de arenito. Ele aguçou os ouvidos, a respiração suspensa.

Pareciam gritos... berros! Havia gente gritando!

Ele ergueu os olhos para a casa. A pesada porta escancarou-se e duas pessoas desceram correndo os degraus, um homem e uma mulher. Um espasmo de dor contraiu as entranhas do major: o homem enfiava um revólver no cinto.

Oh, meu Deus!

Metendo a mão debaixo do banco, o major pegou sua pistola automática do Exército e saltou do carro. Subiu correndo as escadas e entrou no vestíbulo. Lá dentro, a gritaria aumentara e pessoas corriam, umas subindo e outras descendo a escadaria.

Ele correu para a sala das alucinantes luzes coloridas. No chão, viu o corpo de uma mulher esbelta com um colar de brilhantes. Sua testa era uma massa sangrenta. Alguém a baleara.

Oh, Cristo!

— Onde está ele? — berrou o major.

— Lá em cima — gritou uma pequena encolhida a um canto.

Em pânico, o major virou-se e, correndo para a faustosa escadaria, subiu ao primeiro andar, galgando três degraus de cada vez. Em cima, passou por uma mesinha com um telefone, arquivando a imagem na mente, e seguiu pelo estreito corredor na direção do quarto. Conhecia-o bem; era sempre o mesmo. Ao chegar à porta, entrou.

Oh, Jesus!

A cena ultrapassava qualquer coisa que pudesse imaginar, qualquer horror que já tivesse presenciado. O general nu coberto de sangue e pinturas obscenas, a mulher morta caída sobre ele, o rosto enterrado em seus genitais. Era uma visão do inferno, se é que o inferno era tão horrível.

O major nunca soube como conseguiu recuperar seu autocontrole, mas a verdade é que conseguiu. Fechando a porta do quarto com um repelão, virou-se com a automática erguida. Uma mulher ia passando correndo na direção da escada. Ele agarrou-a e berrou:

— Faça o que eu mandar, ou eu a mato! Há um telefone logo ali. Você vai discar o número que vou lhe dar e vai repetir o que eu disser, sem mudar uma só palavra!

Empurrou-a violentamente na direção do telefone.

 

Taciturno, o presidente dos Estados Unidos atravessou o portal do Gabinete Oval e dirigiu-se à mesa. Em pé, à sua espera, um ao lado do outro, estavam o secretário de Estado e o diretor da CIA.

— Eu já conheço os fatos — disse o presidente em tom incisivo com seu modo de falar arrastado — e eles me dão náuseas. O que quero saber agora é o que vão fazer sobre o caso.

O diretor da CIA deu um passo à frente.

— O Departamento de Homicídios de Nova York está cooperando. Felizmente o assistente do general ficou na porta do quarto com um revólver e não deixou ninguém entrar até nosso pessoal chegar. Eles limparam a zorra da melhor forma possível.

— Diabos, não estou interessado no trabalho dos esteticistas — cortou o presidente. — O que estão achando do caso? lera sido um desses crimes de tarados tão comuns em Nova York ou algo bem diferente?

— Na minha opinião — falou o diretor —, algo bem diferente. Foi o que eu disse aqui ao Paul ontem à noite. Foi um crime planejado, e planejado com perfeição. Até no detalhe do assassinato da dona do estabelecimento, a única que poderia fornecer qualquer pista.

— E quem é o responsável?

— Na minha opinião, a KGB. As balas saíram de uma automática russa, a Graz-Burya, uma de suas armas favoritas.

— Devo protestar, Sr. Presidente — interveio o secretário de Estado. — Não posso concordar com a conclusão de Jim. A arma talvez não seja comum, mas pode ser adquirida na Europa. Passei uma hora com o embaixador soviético esta manhã. Estava tão abalado quanto eu. Não só negou a possibilidade de qualquer participação dos russos no crime, como argumentou com justiça que o seu Governo preferia o general Blackburn a qualquer outro que o pudesse substituir no momento.

— A KGB — replicou o diretor da CIA — com freqüência discorda do corpo diplomático do Kremlin.

— Como a CIA discorda do nosso? — sugeriu o secretário.

— Não mais do que seu próprio Departamento de Operações Consulares — retrucou o diretor.

— Chega — cortou o presidente. — Esta não é hora para um bate-boca. Eu quero os fatos. Fale você primeiro, Jim, desde que parece tão seguro de si mesmo. O que foi que descobriu?

— Muita coisa.

O diretor abriu uma pasta de papéis que trazia consigo e, retirando uma folha, colocou-a na frente do presidente.

— Fornecemos aos computadores todos os dados do crime de ontem à noite para que os cotejassem com os assassinatos cometidos pela KGB nos últimos quinze anos, comparando métodos de execução, padrões, locação, cronogramas e trabalho de equipe. Obtivemos três perfis — três dos mais esquivos e eficientes assassinos do Serviço Secreto Soviético. Todos os três, naturalmente, operam sob os disfarces de praxe, mas são assassinos. Estão relacionados por ordem decrescente de perícia.

O presidente examinou a lista tríplice.

 

Taleniekov, Vasili. Último posto conhecido: Setores do Sudoeste Soviético.

Krylovich, Nikolai. Último posto conhecido: Moscou, VKR.

Jukovski, Georgi. Último posto conhecido: Berlim Oci­dental. Adido à Embaixada.

 

Agitado, o secretário de Estado não conseguiu ficar em silêncio.

— Sr. Presidente, esse tipo de especulação baseada, na melhor das hipóteses, em suposições pode nos levar a uma confrontação perigosa. A hora não é apropriada.

— Espere aí, Paul — protestou o presidente. — Pedi os fatos e não ligo a mínima se a hora é boa ou não para uma confrontação. O chefe do Estado-Maior das Forças Armadas foi morto. Ele pode ter sido um bom filho da puta, um cara muito doente em sua vida particular, mas como militar era estupendo. Se foi assassinado pelos soviéticos, eu quero saber. — O chefe do Executivo largou a folha sobre a mesa e, olhando para o secretário, acrescentou: — Além disso, até que saibamos mais, não haverá nenhuma confrontação. Estou certo de que Jim manteve o assunto no mais absoluto sigilo.

— Naturalmente — disse o diretor da CIA.

Após uma rápida batida na porta do Gabinete Oval, o assistente-chefe de Comunicações entrou sem esperar uma ordem.

— Excelência, o premier russo está no telefone vermelho. Já confirmamos a procedência da chamada.

— Obrigado — disse o presidente, virando-se para um telefone às suas costas. — Sr. Premier? Aqui é o presidente.

As palavras russas vieram rápidas e incisivas e, na primeira pausa, um intérprete traduziu-as. Quando o intérprete russo se calou, uma outra voz, a de um tradutor americano, acrescentou simplesmente:

— Está correto, Sr. Presidente.

O diálogo a quatro vozes começou.

— Sr. Presidente — dissera o premier —, lamento muito a morte... o assassinato do general Anthony Blackburn. Ele era um excelente soldado e detestava a guerra — como eu e o senhor a detestamos. Ele era respeitado aqui, sua força e sua percepção dos problemas mundiais exerciam uma influência benéfica em nossos próprios líderes militares. Sentiremos dolorosamente sua falta.

— Obrigado, Sr. Premier. Nós também lamentamos sua morte. Seu assassinato. Ainda não encontramos uma explicação para o fato.

— É esse o motivo deste telefonema, Sr. Presidente. Certamente deve saber que os líderes responsáveis das Repúblicas Socialistas Soviéticas jamais desejariam a morte — o assassinato — do general Blackburn. Posso dizer que tal idéia mereceria o anátema. Espero estar me expressando claramente, Sr. Presidente.

— Está, Sr. Premier, e agradeço novamente. Mas, se me permite a pergunta, estaria o senhor aludindo à possibilidade da existência de uma cúpula irresponsável?

— Não há membros do seu Senado que defendem o bombardeio da Ucrânia? Não levamos em consideração tais idiotas, naturalmente.

— Então receio não ter compreendido integralmente as sutilezas de suas declarações.

— Vou ser mais claro. Seu Serviço Secreto apresentou-lhe três nomes acreditando que possam estar envolvidos na morte do general Blackburn. Esses homens são indivíduos responsáveis, sob o controle absoluto de seus superiores. Na verdade, um deles, Jukovski, foi hospitalizado na noite passada. Outro, Krylovich, está servindo na fronteira da Manchúria há onze meses. E o respeitado Taleniekov está aposentado, para todos os efeitos. Atualmente, encontra-se em Moscou.

O presidente olhou para o diretor da CIA.

— Obrigado por seus esclarecimentos, Sr. Premier, e pela precisão de suas informações. Compreendo que não lhe deve ter sido fácil fazer essa chamada. O Serviço Secreto Soviético está de parabéns.

— Assim como o seu. Hoje em dia há menos segredos. Alguns acham que isso é bom. Eu pesei as conseqüências e resolvi falar com o senhor. Não estamos envolvidos nisso, Sr. Presidente.

— Acredito em sua palavra. Gostaria de saber quem foi.

— Estou preocupado, Sr. Presidente. Acho que ambos deveríamos saber a resposta.

 

— Dimitri Yuri Yurievich! — chamou com bom humor a viçosa mulher aproximando-se da cama com a bandeja do desjejum. — Esta é sua primeira manhã de férias. O sol está derretendo a neve, e antes que passe o efeito da vodca que você bebeu as florestas estarão verdes outra vez!

O homem afundou o rosto no travesseiro e em seguida virou-se de barriga para cima e abriu os olhos, piscando ante a brancura imaculada do quarto. Através das grandes janelas da dacha, viu os galhos das árvores que pendiam sob o peso da neve.

Yurievich sorriu para a esposa, cofiando os pêlos do cavanhaque, agora já mais grisalho que castanho.

— Acho que me queimei na noite passada — disse ele.

— Quase! — replicou rindo a mulher. — Felizmente, nosso filho herdou meus instintos camponeses. Ao ver fogo, não perde tempo analisando as causas, apaga o incêndio!

— Lembro-me de que ele pulou em cima de mim.

— Pulou mesmo — a esposa de Yurievich colocou a bandeja sobre a cama e, afastando as pernas do marido para poder se sentar, colocou a mão em sua testa. — Você está meio quente, mas vai sobreviver, meu cossaco.

— Dê-me um cigarro.

— Só depois do suco de fruta. Você é um homem muito importante. Os armários estão cheios de latas de suco de fruta. Nosso tenente disse que provavelmente elas se destinam a apagar os cigarros que queimarem sua barba.

— A mentalidade dos soldados não progride nunca. Nós, cientistas, sabemos que as latas de suco são para serem misturadas à vodca. — Dimitri Yurievich sorriu outra vez sem qualquer constrangimento. — Quer me dar um cigarro, amor? Vou até deixar que você o acenda.

— Ora, você é impossível! — ela apanhou o maço na mesa de cabeceira, tirou um cigarro e colocou-o entre os lábios do marido. — Tome cuidado para prender a respiração quando eu acender o fósforo, senão iremos ambos pelos ares e eu serei enterrada em desonra por ter assassinado o maior físico nuclear da União Soviética.

— Meu trabalho viverá depois de mim. Que me enterrem fumando — disse Yurievich, tragando enquanto a esposa segurava o fósforo. — Como está nosso filho esta manhã?

— Está ótimo. Acordou cedo para lubrificar os rifles. Seus hóspedes estarão aqui dentro de uma ou duas horas. A caçada começará por volta do meio-dia.

— Meus Deus, tinha me esquecido disso — retrucou Yurievich, sentando-se na cama. — Tenho mesmo de ir?

— Vocês dois vão caçar juntos. Lembre-se de que disse a todos no jantar que a dupla pai e filho iria abater a maior presa.

Dimitri fez uma careta.

— Foi minha consciência que falou por todos aqueles anos no laboratório enquanto ele crescia sem minha assistência...

A esposa sorriu.

— Vai lhe fazer bem respirar ar fresco. Agora termine o cigarro, coma o desjejum e vista-se.

— Sabe de uma coisa? — disse Yurievich, pegando a mão da mulher. — Estou começando a achar que estou realmente em férias. Não me lembro mais de quando gozei as últimas.

— Pois eu não estou nem certa de que elas existiram. Acho que você é o homem mais dedicado ao trabalho que eu conheço.

Yurievich deu de ombros.

— O Exército foi muito amável oferecendo uma licença ao nosso filho.

— Foi ele quem pediu. Queria estar com você.

— Foi muito amável da parte dele também. Amo-o, mas mal o conheço.

— Todos dizem que é um ótimo oficial. Pode orgulhar-se dele.

— E eu me orgulho. Apenas não sei o que conversar com ele. Temos tão pouco em comum. A vodca facilitou as coisas ontem à noite.

— Vocês não se viam há quase dois anos.

— Eu tenho um trabalho a fazer, todos sabem disso.

— Você é um cientista — disse a esposa de Dimitri, apertando-lhe a mão. — Mas não hoje e nem nas próximas três semanas. Nada de laboratórios, nada de quadro-negros, nem de reuniões até a madrugada com estudantes e jovens professores ambiciosos que querem contar a todos que trabalharam com o grande Yurie­vich. — Ela tirou o cigarro dos lábios dele e apagou-o. — Agora coma e vista-se. Uma caçada de inverno vai lhe fazer muito bem.

— Minha querida mulher — protestou Dimitri, rindo-se. — É mais provável que isso seja a minha morte. Há vinte anos que não disparo um rifle!

 

O tenente Nikolai Yurievich abria caminho através da neve profunda na direção da velha construção que fora antigamente o estábulo da dacha. Virando-se, contemplou o imenso casarão de três andares. A construção brilhava ao sol da manhã, um pequeno palácio de alabastro edificado num vale estreito numa clareira aberta na floresta coberta pela neve.

Moscou tinha seu pai em alta conta. Todos queriam conhecer o grande Yurievich, o homem brilhante e irascível cujo nome bastava para aterrorizar os líderes do mundo ocidental. Dizia-se que Dimitri Yuri Yurievich sabia de cor as fórmulas de uma dúzia de armas estratégicas nucleares; que, deixado só num depósito de munições com um laboratório anexo, ele poderia fabricar uma bomba que destruiria a Grande Londres, toda Washington e grande parte de Pequim.

Esse era o famoso Yurievich, homem acima das críticas ou da disciplina, apesar de suas falas e atos por vezes descomedidos. Mas sua devoção ao país nunca fora questionada. Dimitri Yurievich era o quinto filho de camponeses pobres de Kourov. Não fosse o Estado, estaria atrás de uma mula nos campos de algum aristocrata. Não, ele era comunista até a ponta dos dedos, mas, como todo homem brilhante, não tinha paciência com burocratas. Ele protestara contra interferências e nunca fora censurado por isso.

Tal era o motivo por que tantos queriam conhecê-lo. Talvez na esperança, suspeitava Nikolai, de que só o fato de conhecerem o grande Yurievich transferisse para eles, de alguma forma, parte de sua imunidade.

O tenente sabia que aquela era a motivação de seus convidados do dia, e a idéia lhe era desagradável. Os homens que deviam estar agora a caminho da casa de campo de seu pai se tinham praticamente autoconvidado. Um deles era o comandante do batalhão de Nikolai em Vilnius, e o outro um homem que Nikolai nem ao menos conhecia. Um amigo moscovita de seu comandante, alguém que, segundo esse, poderia ser muito útil a um jovem tenente quando chegasse a hora das promoções. Nikolai não se deixara seduzir por tal promessa; ele era ele mesmo, em primeiro lugar, e, em segundo, o filho de seu pai. Abriria os próprios caminhos, isso era muito importante para ele. Mas não podia negar o pedido do comandante, pois se havia alguém no Exército soviético que merecia um “toque” de imunidade, esse alguém era o coronel Janek Drigorin.

Drigorin tinha se manifestado contra a corrupção que grassava no Corpo Especial de Oficiais. Os clubes de férias do mar Negro eram mantidos através de desvios de recursos, as cantinas viviam cheias de contrabando, as mulheres eram trazidas em aviões militares contra todos os regulamentos.

Moscou colocara-o no ostracismo, enviando-o para Vilnius, a fim de apodrecer na mediocridade. Enquanto Nikolai Yurievich era um jovem tenente de vinte e um anos ocupando um cargo de responsabilidade numa guarnição secundária, Drigorin era um militar de reconhecido talento relegado ao esquecimento num pequeno comando. Se tal homem queria passar um dia com seu pai, Nikolai não podia protestar. E depois o coronel era uma pessoa divertidíssima. Mas ele gostaria de saber quem era o outro homem.

Nikolai chegou aos estábulos e abriu a larga porta que dava para as baias. As dobradiças haviam sido lubrificadas, a porta girou sem ruído. Ele correu os cubículos imaculadamente limpos que no passado tinham abrigado os mais finos ginetes e tentou imaginar como fora aquela Rússia. Quase podia ouvir os relinchos dos garanhões de olhos de fogo, o arranhar impaciente dos cascos, o bufido dos caçadores ansiosos para partir em direção aos campos.

Aquela Rússia devia ter sido digna de se ver. Se você não estivesse atrás de uma mula.

Ele chegou ao fim do longo corredor de baias onde havia outra porta larga. Abriu-a e saiu para a neve. Ao longe, algo atraiu-lhe a atenção, um detalhe incongruente.

Rastros partiam do canto do silo e dirigiam-se para a floresta Talvez pegadas humanas. Entretanto, os dois criados enviados por Moscou para a dacha ainda não tinham saído do edifício principal E os caseiros permaneciam em suas cabanas, junto à estrada.

Por outro lado, raciocinou Nikolai, o calor do sol matinal podia ter derretido o rebordo de quaisquer impressões na neve, e a luz ofuscante pregava peças à vista. As marcas eram sem dúvida os rastros de algum animal à procura de comida. O tenente sorriu ao imaginar um animal da floresta procurando cereais ali, naquela cuidada relíquia que fora o silo da grande dacha. Os animais não tinham mudado, mas a Rússia sim.

Nikolai olhou o relógio. Era hora de voltar para casa. Dentro em breve, os hóspedes deveriam chegar.

 

Tudo estava correndo muito bem. Nikolai mal podia acreditar. Não houvera nenhum constrangimento, graças, em grande parte, ao seu pai e ao homem de Moscou. A principio, o coronel Drigorin parecera pouco à vontade — o comandante que impusera sua presença ao subordinado bem-relacionado —, mas Vuri Yurievich acabou logo com aquilo recebendo o chefe do filho como qualquer pai ansioso — ainda que célebre — e apenas interessado em favorecer a carreira do filho. Nikolai não pôde deixar de achar graça; a atitude do pai era óbvia demais. A vodca foi servida com suco de frutas e café, e Nikolai ficou atento à possibilidade de um cigarro incendiário.

A grande e deliciosa surpresa foi o amigo moscovita do coronel, um homem chamado Brunov, alto funcionário do Partido trabalhando no Planejamento Militar-Industrial. Não só Brunov e o pai de Nikolai tinham amigos comuns, como logo se tornou evidente que compartilhavam da mesma atitude irreverente em relação à maior parte da burocracia governamental — que abrangia, naturalmente, muitos desses amigos mútuos. O riso não tardou a explodir, cada rebelde tentando ultrapassar o outro com comentários mordazes sobre aquele comissário de cabeça de asno ou esse economista de bolsos furados.

— Nós somos muito maldosos, Brunov! — rugiu o pai de Nikolai, os olhos risonhos.

— É verdade, Yurievich — concordou o homem de Moscou. — Mas é uma pena que tenhamos tanta razão.

— Olhe, tome cuidado, estamos na companhia de militares. Eles vão nos delatar!

— Ora, eu reterei os salários deles, e você desenhará uma bomba que explode antes do tempo.

Dimitri Yurievich parou de rir por um breve instante.

— Gostaria que não houvesse necessidade de bombas eficientes.

— E eu que não houvesse necessidade de folhas de pagamento tão grandes.

— Mudando de assunto — disse Yurievich —, os caseiros dizem que a caça aqui é excepcional. Meu filho prometeu tomar conta de mim, e eu prometi trazer de volta o maior troféu. Vamos, o que quer que lhes falte encontrarão aqui. Botas, peles... vodca.

— Não com um rifle na mão, papai.

— Por Deus, você lhe ensinou mesmo alguma coisa — exclamou Yurievich, sorrindo para o coronel. — A propósito, cavalheiros, não me falem em partir hoje. Vão passar a noite aqui, naturalmente. Moscou foi generosa. Temos assados e legumes frescos vindos só Deus sabe de onde.

— E muitas garrafas de vodca, espero.

— Garrafas, não, Brunov. Tonéis! Ah, estou vendo em seus olhos que vão ficar.

— Eu ficarei — disse o homem de Moscou.

 

Os disparos ecoaram pela floresta fazendo vibrar os tímpanos dos dois homens. Com pios assustados, as aves hibernais levantaram vôo. Vozes excitadas chegaram aos ouvidos de Nikolai, mas a distância as tornara incompreensíveis. Ele virou-se para o pai.

— Eles devem tocar o apito dentro de sessenta segundos se tiverem atingido alguma coisa — disse ele, o rifle apontando para a neve.

— Isso é um desaforo! — exclamou Yurievich, fingindo raiva. — Os caseiros me juraram — às escondidas, certamente — que toda a caça estava concentrada nesta parte do bosque, perto do lago. Do lado de lá não havia nada! Foi por isso que insisti em que fossem para lá...

— Você é um velho patife — replicou o filho com os olhos fitos na arma do pai. — Seu pino de segurança está destravado. Por quê?

— Pensei ter ouvido um ruído há pouco. Queria estar preparado.

— Com todo o respeito, meu pai, por favor, trave o pino outra vez. Espere até que seus olhos confirmem seus ouvidos antes de soltá-lo novamente.

— Com todo o respeito, meu caro oficial, então eu teria de fazer muita coisa ao mesmo tempo — disse Yurievich, mas viu a expressão preocupada do filho. — Pensando bem, provavelmente você tem razão. Eu posso cair e o rifle disparar. Eu sei disso.

— Obrigado — disse o tenente, virando-se de repente.

Seu pai estava certo. Ouvira um ruído atrás de si. O farfalhar de um ramo, ou o estalar de um galho. Ele destravou o pino de segurança do rifle.

— O que foi? — perguntou Dimitri Yurievich, um brilho de excitação no olhar.

— Psss — sussurrou Nikolai, examinando as trilhas tortuosas cobertas de neve que os cercavam. Nada vendo, tornou a travar o pino de segurança.

— Então você também ouviu? — perguntou Dimitri. — Então não foram apenas meus ouvidos cinqüentões.

— O peso excessivo da neve deve estar estalando os ramos. Foi isso que ouvimos — sugeriu o filho.

— Bem, pelo menos um apito é que não foi — retrucou Yurievich. — Eles não acertaram merda nenhuma.

Mais três disparos explodiram à distância.

— Eles viram alguma coisa — disse o tenente. — Talvez agora ouçamos o apito...

De repente eles ouviram. Um som estridente. Mas não era o apito. Em vez dele, um grito de pânico prolongado, fraco, mas claro. Um grito terrível. Logo seguido de outro, mais histérico.

— Meu Deus, o que aconteceu? — Yurievich agarrou o braço do filho.

— Eu não...

A resposta foi cortada por um terceiro grito, lancinante e terrível.

— Fique aqui! — gritou o tenente para o pai. — Eu vou até lá!

— Eu vou atrás — retrucou Yurievich. — Vá depressa, mas tome cuidado!

Nikolai correu pela neve na direção dos gritos. Agora eles enchiam o bosque, menos estridentes, porém mais dolorosos pela perda de força. O oficial usou o rifle para abrir caminho por entre a densa ramagem, erguendo nuvens de neve. Suas pernas doíam, o ar gelado estourava-lhe os pulmões, lágrimas de fadiga obscureciam-lhe a vista.

Primeiro, ouviu os roncos, depois viu o que mais temia, o que nenhum caçador jamais queria ver.

Um enorme e enraivecido urso preto, cuja cabeça aterrorizante era uma massa sangrenta, voltava sua fúria vingativa contra os que haviam causado seus ferimentos, dilacerando, rasgando, estraçalhando o inimigo.

Nikolai ergueu o rifle e atirou até acabarem as balas.

O gigantesco urso caiu. O oficial correu para os dois homens. Ao vê-los, perdeu o resto de fôlego que lhe sobrara.

O homem de Moscou estava morto, a garganta rasgada, a ensangüentada cabeça quase decepada. A vida de Drigorin estava por um fio, e se ele não morresse dentro de segundos Nikolai sabia que teria de recarregar a arma e terminar a obra da fera. O coronel não tinha mais rosto. Em seu lugar, uma visão de horror que ficou impressa a fogo na mente do oficial.

Mas como? Como aquilo podia ter acontecido?

Foi então que a vista do tenente bateu no braço direito de Drigorin e o choque foi além de qualquer coisa que pudesse imaginar.

O braço do coronel fora quase decepado na altura do cotovelo e o método cirúrgico era evidente: balas de alto calibre.

Alguém lhe cortara qualquer possibilidade de defesa!

Nikolai correu para o cadáver de Brunov, abaixou-se e virou o corpo. O braço direito de Brunov estava intacto, mas a mão esquerda fora despedaçada a bala, restando apenas o contorno retorcido e ensangüentado da palma, os dedos reduzidos a meros fios de ossos. A mão esquerda. Nikolai Yurievich lembrou-se do café da manhã, do suco de fruta com vodca, dos cigarros.

O homem de Moscou era canhoto.

Brunov e Drigorin haviam sido inutilizados por alguém com um rifle, alguém que sabia o que iriam encontrar em seu caminho.

Nikolai ergueu-se com cautela, o soldado que havia nele alerta, à procura de um inimigo oculto. E aquele inimigo ele queria encontrar e matar, com todas as forças do seu coração. Sua lembrança voltou às pegadas que vira atrás dos estábulos. Não eram rastros de um animal faminto — embora não deixassem de ser de um animal —, eram as pegadas de um assassino cruel.

Quem seria? E, acima de tudo, por quê!

O tenente viu um reflexo luminoso. O sol batendo numa arma.

Ele deu um passo para a direita e então, abruptamente, girou para a esquerda e atirou-se no chão, rolando para trás do tronco de um carvalho. Retirando a cartucheira vazia do seu rifle, substituiu-a por uma carregada e, semicerrando as pálpebras, procurou a origem da luz. Encontrou-a no alto de um pinheiro.

A uns quinze metros do chão, um vulto enganchado em dois ramos segurava um rifle de mira telescópica. O assassino vestia um macacão branco de inverno com um capuz de peles brancas, o rosto oculto por trás de enormes óculos negros.

Nikolai pensou que ia vomitar de raiva è revolta. O homem sorria e o tenente sabia que o sorriso era para ele.

Encolerizado, ele ergueu o rifle. Uma explosão de neve cegou-o acompanhada pelo estampido de um rifle de alta potência. Um segundo disparo seguiu o primeiro. A bala passou por cima de sua cabeça e perdeu-se na mata. Ele recuou para a proteção do tronco.

Outro disparo, bem próximo, e não do rifle do assassino no pinheiro.

— Nikolai!

Uma explosão de ódio toldou-lhe a mente. O grito viera do seu pai.

— Nikolai!

Outro tiro. O oficial ergueu-se num pulo e, disparando o rifle contra o pinheiro, correu pela neve.

Um dardo gelado cravou-se em seu peito. Ele não viu nem ouviu mais nada até sentir a neve chocar-se contra o seu rosto.

 

O premier da União Soviética pousou as mãos sobre a longa mesa sob a janela que dava para os telhados do Kremlin. Inclinando a cabeça, examinou as fotografias, o largo rosto camponês espelhando exaustão, os olhos mostrando raiva e choque.

— É horrível — sussurrou. — Homens não deviam morrer dessa forma terrível. Pelo menos Yurievich foi poupado — não da morte, mas de um fim desses.

Do outro lado da sala, sentados a uma outra mesa, dois homens e uma mulher, as fisionomias severas, olhavam para o premier. Diante de cada um se via uma pasta marrom e era evidente que os três estavam ansiosos por prosseguir a reunião. Mas ninguém ousava apressar o premier ou interromper-lhe as reflexões — seu , gênio explosivo poderia vir à tona com tais demonstrações de impaciência. O cérebro do premier era mais rápido que o de qualquer um dos presentes, mas suas deliberações eram lentas, os problemas examinados em toda a sua complexidade. Ele era um sobrevivente num mundo em que só os mais astutos — e sutis — sobreviviam.

O medo era uma arma que ele manejava com extraordinária perícia.

Levantando-se, empurrou as fotografias com uma expressão de repulsa e voltou à mesa de reunião.

— Todas as estações nucleares estão em alerta, nossos submarinos dirigem-se aos pontos de ataque — declarou ele. — Quero que essa informação seja transmitida a todas as embaixadas. Utilizem códigos já decifrados por Washington.

Um dos homens da mesa inclinou-se para a frente. Era um diplomata, mais velho que o premier e obviamente um companheiro de longa data, um aliado que se podia expressar mais livremente que os outros dois.

— O senhor está assumindo riscos que considero excessivos. Não podemos ter certeza de como irão reagir. O embaixador americano está profundamente chocado. Eu o conheço bem, ele não estava fingindo.

— Então não tinha sido informado — afirmou sumariamente o segundo homem. — Nós da VKR não temos dúvida alguma. As balas e os cartuchos foram identificados: sete milímetros, preparados para implodir, com ranhuras causadas por uma Browning Magnum tipo IV. O que mais é preciso?

— Bem mais que isso. Esse tipo de arma não é assim tão difícil de se obter e duvido que um assassino americano deixasse seu cartão de visitas.

— Não se essa fosse a arma com que estivesse habituado a trabalhar. Temos todo o quadro. — O homem da VKR virou-se para a mulher de meia-idade cujo rosto parecia talhado em granito. — Exponha os detalhes por favor, camarada diretora.

A mulher abriu sua pasta e passou os olhos pela primeira página antes de falar. Virando a folha, dirigiu-se ao premier, evitando olhar para o diplomata.

— Como sabe, o serviço foi executado por dois assassinos, provavelmente dois homens. Um deles é sem dúvida um atirador de extrema perícia e perfeita coordenação, e o outro alguém que, além de certamente também possuir essas qualificações, é um especialista em espionagem eletrônica. Encontramos vestígios de sua atuação nos estábulos: marcas de sucção, pegadas em pontos estratégicos ideais para observação — o que nos leva a crer que toda a conversação na dacha foi interceptada.

— Parece trabalho de peritos da CIA, camarada — interrompeu o premier.

— Ou das Operações Consulares, Excelência — retrucou a mulher. — É importante não esquecermos isso.

— É verdade — concordou o premier. — O pequeno bando de “negociadores” do Departamento de Estado.

— E por que não dos Tao-pans chineses? — sugeriu com convicção o diplomata. — Eles estão entre os assassinos mais eficientes do mundo. E Yurievich constituía uma ameaça bem maior para os chineses que para os demais.

— Suas características fisionômicas os eliminam. Pequim sabe que, se apanhássemos um deles, mesmo que se suicidasse com cianeto, seria o seu fim — replicou o homem da VKR.

— Vamos voltar ao que descobriram — atalhou o premier.

A mulher continuou.

— Fornecemos todos os dados aos computadores da KGB concentrando-nos nos agentes secretos americanos que sabemos estarem infiltrados aqui, e que, além de serem reconhecidos assassinos, falam fluentemente o russo. Chegamos a quatro nomes. Aqui estão eles, Sr. Premier. Três são da CIA e um das Operações Consulares do Departamento de Estado.

Ela passou a folha ao homem da VKR, que por sua vez se levantou e levou-a ao premier.

Ele estudou os três nomes.

 

Scofield, Brandon Alan. Departamento de Estado, Operações Consulares. Responsável por assassinatos em Praga, Atenas, Paris, Munique. Suspeita-se de que já tenha operado na própria Moscou. Envolvido em mais de vinte fugas para o Ocidente.

Randolph, David. CIA, Cobertura: Diretor de Importação da Dynamax Corporation, filial de Berlim Ociden­tal. Perito em sabotagem. Responsável por explosões de hidrelétricas em Kazan e Tagil.

Saltzman, George Robert. CIA. Mensageiro e assassino em Vientiane (Indochina). Cobertura: Funcionário da AID durante seis anos. Especialista em assuntos orientais. Visto há cinco semanas em Tashkent. Cobertura: imigrante australiano, diretor de vendas da Perth Radar-Corporation.

Bergstrom, Edward. CIA ...

 

— Sr. Premier — interrompeu o homem da VKR —, minha colega pretendia explicar que os nomes estão em ordem decrescente de importância. Em nossa opinião, as características da emboscada e da execução de Dimitri Yurievich apontam inequivocamente para o primeiro homem da lista.

— Esse tal de Scofield?

— Sim, Sr. Premier. Ele desapareceu um mês atrás em Marselha. Já causou mais prejuízos e atrapalhou mais operações do que qualquer outro agente que os Estados Unidos tenham utilizado desde a guerra.

— É mesmo?

— Sim, senhor. — O homem da VKR hesitou, mas depois continuou como que a contragosto: — A mulher dele foi morta há dez anos em Berlim Oriental. Desde então ele vem agindo como um verdadeiro louco furioso.

— Em Berlim Oriental!

— Numa emboscada. Pela KGB.

Um telefone tocou na mesa do premier. Ele atravessou a sala com rapidez e pegou o fone.

Era o presidente dos Estados Unidos. Os intérpretes estavam a postos e começaram seu trabalho.

— Nós lamentamos profundamente a morte... o pavoroso assassinato de um grande cientista, Sr. Premier. Assim como o fim horrível de seus amigos.

— Apreciamos suas palavras, Sr. Presidente, mas, como deve saber, essas mortes trágicas foram premeditadas. Agradeço seu interesse, mas não posso deixar de pensar que talvez seja um alívio para seu país saber que a União Soviética perdeu seu mais importante físico nuclear.

— Isso não é verdade, senhor. O brilho da inteligência desse homem transcendia fronteiras e interesses nacionais. Ele era um homem universal.

— Mas que preferiu ser parte de um só povo, não é mesmo? Devo dizer-lhe com franqueza que minhas responsabilidades me forçam a olhar para os flancos.

— Então, com seu perdão, Sr. Premier, devo dizer que está procurando fantasmas.

— Talvez já os tenhamos encontrado, Sr. Presidente. Descobrimos provas extremamente perturbadoras. A tal ponto que eu...

— Perdoe-me novamente — interrompeu o presidente dos Estados Unidos. — Foram esses indícios que me induziram a telefonar, apesar de minha natural relutância em fazê-lo. A KGB cometeu um grande erro. Quatro erros, para ser mais preciso.

— Quatro?

— Sim, Sr. Premier. Especificamente, os nomes de Scofield, Randolph, Saltzman e Bergstrom. Nenhum deles esteve envolvido nisso, Sr. Premier.

— O senhor me assombra, Sr. Presidente.

— Não mais do que o senhor me assombrou na semana passada. Há menos segredos hoje em dia, lembra-se?

— Palavras são gratuitas, e os indícios muito fortes.

— Era essa mesmo a intenção. Deixe-me esclarecer: dois dos três homens da CIA estão fora de ação. Randolph e Bergstrom encontram-se no momento em suas mesas em Washington. O Sr. Saltzman foi hospitalizado em Tashkent. O diagnóstico é câncer.

O presidente fez uma pausa.

— Isso nos deixa apenas um nome, não é? — disse o premier. — O agente das suas torpes Operações Consulares, tão inócuas nos círculos diplomáticos, mas tão ignóbeis em ação.

— Estou chegando ao trecho mais difícil dos esclarecimentos. Creia, é inconcebível que o Sr. Scofield esteja envolvido. Para ser franco, suas chances de envolvimento são ainda menores que as dos outros. Posso dizer-lhe isso porque agora já não tem mais importância.

— Palavras são gratuitas...

— Então devo ser mais explícito. Durante os últimos anos, vínhamos mantendo um dossiê meticuloso sobre o Dr. Yurievich, acrescido de novas informações quase todos os meses. Segundo certos círculos, chegara a hora de oferecermos a Dimitri Yurievich opções viáveis.

— O quê?

— Isso mesmo, Sr. Premier. Defecção. Os dois convidados que estavam na dacha iam entrar em contato com o Dr. Yurievich defendendo nossos interesses. Scofield era o agente de controle dos dois. Ele era o responsável pela operação.

Os olhos do premier da União Soviética fixaram-se na pilha de fotografias que estava sobre a mesa. Lentamente, ele disse:

— Obrigado pela franqueza.

— Procure outros inimigos.

— Eu o farei.

— Ambos devemos fazê-lo.

 

O sol da tarde parecia uma bola de fogo. Seus raios ofuscantes ricocheteavam nas águas oscilantes do canal. A multidão apressada que se dirigia para o Oeste ao longo da Kalverstraat, em Amsterdam, semicerrava as pálpebras, grata pelo sol de fevereiro e pela brisa que acompanhava as miríades de cursos d’água que se originavam no rio Amstel. Com freqüência, fevereiro significava névoa, chuva e umidade, o que não acontecia naquele dia, e os habitantes da cidade portuária mais importante do mar do Norte estavam eufóricos ante o ar luminoso e estimulante aquecido pelo sol.

Um homem, entretanto, não sentia qualquer espécie de euforia. Nem era nativo do lugar, nem estava nas ruas. Seu nome era Brandon Alan Scofield, adido especial das Operações Consulares do Departamento de Estado norte-americano. Encontrava-se numa janela de quarto andar, acima do canal e da Kalverstraat, observando a multidão através de binóculos focalizados numa área da calçada onde uma cabina telefônica de vidro refletia os fortes raios do sol. A luminosidade fazia-o semicerrar os olhos, mas não havia energia em seu rosto pálido. Seus traços marcantes estavam tensos e contraídos sob a cabeleira castanha descuidadamente penteada, entremeada de fios grisalhos.

Maldizendo o sol e a movimentação da rua, Scofield reajustava as lentes. Seus olhos cansados ostentavam fundas olheiras, resultado de um déficit de sono cujas múltiplas causas preferia esquecer. Tinha um trabalho a fazer e era um profissional; sua concentração não podia oscilar.

Havia mais dois homens na sala. Junto à mesa estava sentado um técnico meio calvo, ao lado de um telefone ligado por fios a um gravador, o fone fora do gancho. Em algum lugar sob a rua, algumas pequenas modificações tinham sido feitas numa central telefônica — a única cooperação oferecida pela polícia de Amsterdam, que assim saldava uma antiga dívida para com o adido especial do Departamento de Estado. O terceiro homem era mais jovem que os outros dois, com pouco mais de trinta anos, e em seu rosto não havia nenhuma deficiência de energia, nem seus olhos traíam exaustão. Se acaso sua fisionomia estava tensa, era a tensão da fascinação — ele era um jovem ansioso para abater a caça. Sua arma era uma câmara cinematográfica montada num tripé com uma lente telescópica e um filme de alta sensibilidade. Teria preferido outro tipo de arma.

As lentes dos binóculos de Scofield colheram uma figura lá embaixo na rua. O homem hesitou junto à cabina telefônica e naquele breve instante foi empurrado pela multidão para a beira da calçada, em frente ao vidro batido pelo sol, obstruindo a luminosidade com seu corpo, um alvo perfeito cercado por um halo de luz. Seria muito mais cômodo para todos os interessados se aquele alvo pudesse ser abatido onde se encontrava agora. Um rifle de alta potência calibrado para sessenta metros faria o serviço, o homem da janela apertando o gatilho como em tantas outras vezes. Mas não se cogitava de comodidade. Uma lição precisava ser dada, outra aprendida, e esse adestramento dependia da confluência de fatores vitais. Os que iam ensinar e os que deviam aprender tinham de compreender os respectivos papéis. De outro modo, a execução não teria sentido.

A figura na rua era um homem idoso, com mais de sessenta anos. Trajava roupas amarrotadas, um grosso sobretudo para cortar a friagem, um chapéu muito usado caído sobre a testa. A barba despontava no rosto assustado. Tratava-se de um fugitivo, e para o americano que o observava através dos binóculos nada havia de mais terrível ou deprimente que um velho apavorado. Exceto, talvez, uma velha. Ele já vira ambas as coisas. E com uma freqüência que preferia esquecer.

Scofield olhou o relógio.

— Vá em frente — disse para o técnico na mesa e, virando-se para o homem mais jovem, perguntou: — Você está pronto?

— Estou — foi a curta resposta. — Estou focalizando aquele filho da puta. Washington estava certo. Você acaba de provar.

— Ainda não estou muito certo disso. Gostaria de estar. Quando ele entrar na cabina, focalize os lábios dele.

— Certo.

O técnico discou os números combinados e apertou os botões do gravador. Erguendo-se rapidamente de sua cadeira, entregou a Scofield um jogo de fones de ouvido com um bocal.

— Está tocando — disse ele.

— Eu sei. Ele está olhando para o vidro. Não me parece com muita vontade de ouvir o toque da campainha. E isso me incomoda.

— Mexa-se, seu filho da puta! — exclamou o homem da câmara.

— Ele já vai se mexer — disse Scofield, segurando com firmeza os binóculos e o jogo de fones. — Está apavorado. Cada segundo para ele é uma eternidade e eu não sei por quê... Lá vai, ele está abrindo a porta. Fiquem quietos. — Sempre olhando pelos binóculos, Scofield aguçou os ouvidos e depois falou em voz baixa no bocal: — Dobfi dyen, priyatel...

O diálogo travado inteiramente em russo durou dezoito segundos.

— Dosvidaniya — disse Scofield, e acrescentou: — zavtra nochyn. Na mostye.

Ele continuou com o fone no ouvido observando o homem assustado lá embaixo. Quando o alvo desapareceu na multidão, o outro desligou a câmara e o adido especial largou os binóculos sobre a mesa, entregando os fones ao técnico.

— Você conseguiu gravar tudo? — perguntou ele.

— E bem claro — disse o operador calvo com um gesto de assentimento verificando os mostradores. — Dá para se tirar uma impressão vocal.

— E você?—Scofield virou-se para o homem da câmara.

— Se eu entendesse melhor a língua, poderia até ler os lábios dele.

— Ótimo. Outros o farão e entenderão. — Scofield enfiou a mão no bolso, tirou uma caderneta de couro e começou a escrever. _Quero que você leve a gravação e o filme para a Embaixada. Mande revelar imediatamente o filme e providencie uma cópia dos dois. Com redução. Aqui estão as especificações.

— Sinto muito, Bray — respondeu o técnico olhando para Scofield enquanto enrolava o fio do telefone. — Mas sabe que tenho ordens de me manter longe da sede.

— Estava falando com Harry — retrucou Scofield virando a cabeça para o homem mais jovem e tirando a página do caderninho de notas. — Quando as reduções estiverem prontas, faça com que as coloquem juntas num estojo e mande impermeabilizá-lo para que resista a uma semana dentro d’água.

— Bray — falou o homem mais jovem pegando a folha de papel —, consegui entender uma em cada três palavras do que você disse no telefone.

— Você está progredindo — retrucou Scofield voltando à janela e aos binóculos. — Quando estiver entendendo uma em cada duas, vou recomendá-lo para uma promoção.

— Aquele homem queria um encontro esta noite, e você recusou — continuou Harry.

— É verdade — admitiu Scofield levando os binóculos aos olhos e focalizando a rua.

— Nossas instruções eram para pegá-lo o mais cedo possível. A mensagem cifrada era clara. Não há tempo a perder.

— Tempo é coisa muito relativa, não é? Quando aquele velho ouviu o telefone tocar, cada segundo lhe pareceu uma eternidade de agonia. Para nós, uma hora pode parecer um dia. Para Washington, merda, um dia equivale a um ano.

— Isso não é resposta — protestou Harry olhando o bilhete. — Nós podemos reduzir e embalar isso aqui nuns quarenta e cinco minutos. Podíamos fazer contato esta noite. Por que não?

— O tempo está péssimo — replicou Scofield por trás dos binóculos.

— O tempo está perfeito. Não há uma única nuvem no céu.

— É justamente por isso que está péssimo. Nas noites claras os canais ficam cheios de gente passeando. Quando o tempo está ruim, ficam vazios. Há previsão de chuva para amanhã.

— Isso não faz sentido. Em dez segundos podemos bloquear uma ponte e atirar o cadáver dele n’água.

— Mande esse palhaço calar a boca, Bray! — berrou o técnico na mesa.

— Você ouviu — disse Scofield focalizando as agulhas dos telhados vizinhos. — Acabou de perder aquela promoção. Sua ultrajante declaração de que pretende infligir danos corporais ao alvo melindrou nosso amigo aí da CIA.

O homem mais jovem fez uma careta. A censura fora merecida.

— Desculpe. Mas ainda acho que não faz sentido. A mensagem em código era um alerta urgentíssimo. Devíamos pegá-lo esta noite.

Scofield baixou os binóculos e olhou para Harry.

— Eu vou lhe dizer o que é que faz sentido — disse. — É algo mais do que aquelas frases idiotas que alguém descobriu numa caixa de cereais. Aquele homem lá embaixo estava aterrorizado. Há dias que ele não dorme. Está a ponto de ter um colapso e eu gostaria de saber por quê.

— Pode haver uma dúzia de razões — replicou o outro. — Ele é velho e inexperiente. Talvez ache que estamos em sua pista, que está prestes a ser preso. Mas que diferença isso faz?

— A vida de um homem. Apenas isso.

— Ora, Bray, nem me parece coisa sua. Ele é um réptil soviético, um agente duplo.

— Quero ter certeza.

— E eu quero sair daqui — atalhou o técnico entregando a Scofield um rolo de fita e pegando sua aparelhagem. — Diga a esse palhaço aí que ele nunca me viu.

— Obrigado, Sr. Sem-Nome. Fico lhe devendo um favor.

O homem da CIA saiu inclinando a cabeça na direção de Scofield e evitando qualquer contato com seu colega.

— Aqui não esteve mais nenhum gaiato além de nós dois, Harry — falou Scofield depois que a porta se fechou. — Não se esqueça disso.

— Ah, ele não passa de um filho da puta nojento!

— Que é capaz de instalar dispositivos de escuta até nos banheiros da Casa Branca, se é que já não o fez — replicou Bray jogando o rolo de fita para Harry. — Leve essas provas para a Embaixada. Leve apenas o filme e deixe a câmara aí.

Mas ele não ia se livrar de Harry assim tão facilmente. O outro apanhou o rolo de fita, mas não deu nenhum passo em direção à câmara.

— Eu também estou nisso. A mensagem cifrada era dirigida tanto a mim quanto a você. Quero ter as respostas para o caso de me fazerem perguntas, se acontecer qualquer coisa entre hoje e amanhã.

— Se Washington estiver certo, nada acontecerá. Eu já lhe disse que quero ter certeza.

— De que mais você precisa? O alvo pensa que acabou de fazer contato com a KGB de Amsterdam! Você mesmo armou a armadilha. Você acabou de provar!

Scofield fitou o colega por um momento e então deu-lhe as costas e voltou à janela.

— Quer saber de uma coisa, Harry? Todo o treinamento por que você passou, tudo o que possa vir a ouvir, todas as experiências que viver, nada disso pode tomar o lugar da regra número um. — Bray pegou os binóculos e focalizou um ponto distante acima da linha do horizonte. — Aprenda a pensar como o inimigo pensa. Não como você gostaria que ele pensasse, mas como ele lealmente pensa. Não é nada fácil. Você pode se enganar. Isso, sim, é fácil.

Exasperado, o homem mais jovem explodiu:

— Pelo amor de Deus, o que tem isso a ver com o resto? Nós obtivemos a prova!

— Será? Segundo você, nosso desertor fez contato com sua gente. Nosso pombinho acaba de descobrir o caminho de volta para a Mamãe Rússia. Agora está seguro, vai retornar ao ninho.

— Sim, é isso mesmo que ele pensa!

— Então por que é que ele não está feliz? — perguntou Bray Scofield virando os binóculos para o canal.

 

A névoa e a chuva cumpriam as promessas invernais. O céu noturno de Amsterdam era uma manta impenetrável, as fímbrias pontilhadas pelas luzes trêmulas da cidade. Não havia transeuntes na ponte, nem barcos no canal. Bolsões de névoa revoluteavam sobre as ruas, sinal de que os ventos do mar do Norte corriam livremente para o Sul. Eram três horas da madrugada.

Scofield encostou-se ao gradil de ferro no acesso Oeste da antiga ponte de pedra. A mão esquerda segurava um pequeno rádio transistorizado, não um transmissor, apenas um receptor de sinais. Os dedos da mão direita enfiada no bolso da capa de chuva tocavam o cano de uma automática calibre 22, pouco maior que uma pistola comum e com um estampido bem mais abafado. Para pequenas distâncias, era uma arma bastante eficiente. Atirava com rapidez e precisão apreciáveis e mal era ouvida entre os ruídos noturnos.

A duzentos metros dali,. o jovem colega de Bray escondia-se num portal da Sarphatistraat. O alvo teria de passar por ele ao dirigir-se à ponte — não havia outro caminho. Quando visse o velho russo, Harry apertaria um botão em seu transmissor: era o sinal. A execução entraria em andamento. A vítima estaria andando seus últimos cem metros em direção ao meio da ponte, ao encontro de seu carrasco, que lhe daria as boas-vindas, colocaria em seu bolso um pequeno volume impermeabilizado e executaria sua tarefa.

Dali a um ou dois dias, o volume chegaria à sede da KGB em Amsterdam. A gravação seria ouvida, o filme examinado com atenção, e outra lição teria sido dada.

E naturalmente ignorada, como todas as outras tinham sido, como sempre eram ignoradas. E daí a futilidade de tudo aquilo, pensou Scofield. A interminável futilidade que entorpecia os sentidos a cada repetição.

“Que diferença faz?” Uma pergunta perspicaz, ainda que feita por um colega impaciente e não muito perspicaz.

“Nenhuma, Harry. Absolutamente nenhuma. Agora mais nenhuma.”

Mas naquela noite os aguilhões da dúvida não paravam de espicaçar a consciência de Bray. Não sua moral: há muito tempo o prático tomara o lugar do moral em seu julgamento. Se era eficiente, era moral; caso contrário, não era prático, e portanto imoral. O que o estava incomodando naquela noite tinha suas bases nessa filosofia utilitária. Seria prática aquela execução? A lição a ser dada seria a melhor lição, a lição mais eficaz? Compensaria os riscos e a repercussão da morte de um velho que dedicara toda sua vida adulta à engenharia espacial?

Superficialmente, a resposta parecia ser sim. Seis anos antes o engenheiro soviético tinha desertado em Paris durante uma exposição espacial internacional. Procurara e conseguira asilo; fora acolhido pela irmandade espacial em Houston, que lhe dera trabalho, casa e proteção. Entretanto, não fora considerado uma grande aquisição. Os russos haviam até escarnecido de seu desvio ideológico, insinuando que seus talentos seriam mais apreciados pelos laboratórios capitalistas, menos exigentes que os deles. Rapidamente se tornara um homem esquecido.

Até oito meses antes, quando fora descoberto que as estações rastreadoras soviéticas estavam localizando os satélites americanos com uma freqüência alarmante e reduzindo o valor dos reconhecimentos fotográficos através de uma sofisticada camuflagem do terreno. Era como se os russos conhecessem com antecedência a imensa maioria das trajetórias orbitais.

E conheciam. Uma investigação apontou para o homem esquecido em Houston. O próximo passo foi relativamente simples: armou-se em Amsterdam uma conferência versando exclusivamente sobre o reduzido campo de especialidade do homem esquecido, um avião do Governo levou-o até lá e o resto ficou nas mãos de um perito em tais assuntos. Brandon Scofield, adido especial das Operações Consulares.

Há muito tempo Scofield conhecia os códigos e métodos de contato da KGB-Amsterdam. Utilizou-os e ficou ligeiramente surpreso com a reação do alvo, e essa era agora a base de sua profunda preocupação. O velho não mostrara alívio diante da convocação. Após seis anos na corda bamba, ele tinha todo direito de esperar uma aposentadoria honrosa, a gratidão de seu Governo e um final de vida confortável. Esperar só, não. Bray prometera-lhe tudo isso em suas mensagens cifradas.

Mas o velho russo não estava feliz. E aparentemente não formara nenhum vínculo pessoal envolvente em Houston. Scofield requisitara o dossiê Quatro-Zero sobre o alvo, um relatório tão completo que incluía as horas das evacuações. Não havia ninguém em Houston. O homem era um solitário. E isso preocupava Bray. Na espionagem, um tipo desses não se comportava da mesma forma que seu equivalente mais sociável.

Um silvo agudo e breve partiu do transmissor em suas mãos. Três segundos depois, repetiu-se. Scofield acusou o recebimento apertando um botão e, colocando o rádio no bolso, esperou.

Passou-se menos de um minuto e ele viu o vulto do velho sair do nevoeiro sob a chuva, a luz de um poste desenhando sua silhueta fantasmagórica. O andar do alvo era hesitante, mas possuía certa determinação, como se ele se dirigisse a um encontro ao mesmo tempo temido e desejado. Aquilo não fazia sentido.

Bray deu uma olhada à direita. Como esperava, não viu ninguém na rua. Não havia vivalma naquela zona da cidade naquela hora deserta. Ele virou para a esquerda e começou a subir a rampa para o meio da ponte enquanto o velho russo vinha pelo outro lado do canal. Scofield manteve-se à sombra, o que lhe foi fácil, pois as três primeiras lâmpadas sobre o gradil da esquerda tinham sido apagadas por um curto-circuito.

A chuva castigava as pedras antigas do piso. Do outro lado da ponte, o velho parará e olhava a água corrente, as mãos sobre o gradil. Scofield aproximou-se dele por trás, o ruído do aguaceiro abafando-lhe os passos. Dentro do bolso esquerdo de sua capa de chuva, ele segurava uma caixa circular e chata com uns cinco centímetros de diâmetro e uns dois de espessura. Ela fora impermeabilizada e tratada com um preparado químico que depois de imerso em água durante trinta segundos se transformava num poderoso adesivo. A caixa permaneceria em seu lugar até ser retirada com o corte do tecido. Continha as provas: um rolo de filme e um rolo de fita magnética que seriam examinados pela KGB-Ams­terdam.

— Plakhaya noch, stary priyatel — disse Bray atrás do russo, tirando a automática do bolso.

O velho virou-se espantado.

— Por que entraram em contato comigo? — perguntou em russo. — Aconteceu alguma coisa?... — Vendo a arma, calou-se, mas logo continuou, uma estranha calma substituindo de repente o alarme: — Vejo que sim, não sou mais útil. Vá em frente, camarada. Você me fará um imenso favor.

Scofield olhou para o velho, para os olhos penetrantes onde o medo desaparecera. Ele já vira antes aquela expressão. Respondeu em inglês:

— Sua atividade nos últimos seis anos foi bem intensa, mas infelizmente nenhum benefício nos trouxe. Você não foi tão grato como esperávamos.

O russo fez um gesto afirmativo e disse:

— Americano... Bem que eu tinha dúvidas. Uma conferência inesperada em Amsterdam sobre problemas que poderiam facilmente ser examinados em Houston. Permissão para que eu deixasse o país, ainda que sob disfarce e escoltado... E depois, aqui, a vigilância negligenciada. Mas você conhecia os códigos e usou as palavras certas. E seu russo é impecável, priyatel.

— É meu trabalho. E qual era o seu?

— Você já sabe. É por isso que está aqui.

— Eu quero saber o motivo.

O velho deu um sorriso amargo.

— Ah, não. De mim você não vai saber mais nada além do que já sabe. Compreenda, eu estava falando sério. Você vai me fazer um favor. Você é minha listok.

— Sua solução para o quê?

— Desculpe, nada feito.

Bray ergueu a automática e o pequeno cano da arma brilhou sob a chuva. O russo olhou-a e respirou fundo. O medo reaparecera em seus olhos, mas o velho não vacilou nem disse nada. De repente, deliberadamente, Scofield encostou a arma sob o olho esquerdo do seu alvo, pele e aço tocando-se. O russo estremeceu, mas continuou em silêncio.

Bray sentiu-se mal.

“Que diferença faz?”

“Nenhuma, Harry. Absolutamente nenhuma. Agora mais nenhuma.”

“Uma lição precisava ser dada.”

Scofield baixou a arma.

— Vá embora — disse.

— O quê?...

— Você me ouviu. Vá embora. A sede da KGB fica na Tolstraat. Procure uma firma de comerciantes de diamantes, a Diamant Bruusteen. Ande logo.

— Eu não compreendo — disse o russo numa voz quase inaudível. — Isso é outro truque?

— Porra! Saia daqui, desgraçado! — berrou Bray já tremendo.

Por um instante, o velho cambaleou e segurou o gradil para recuperar o equilíbrio. Depois recuou desajeitadamente e por fim começou a correr sob a chuva.

— Scofield! — o grito viera de Harry. Ele estava na extremidade Oeste da ponte, bem no caminho do russo. — Scofield! Pelo amor de Deus!

— Deixe-o ir! — berrou Bray.

Ele nunca soube se falara tarde demais ou se suas palavras se perderam no aguaceiro. Ouviu três estampidos abafados e viu, enojado, o velho levar as mãos à cabeça e cair contra o gradil.

Harry era um profissional. Segurando o corpo de sua vítima, ele disparou uma última bala bem no pescoço, e com um único impulso levantou o cadáver e jogou-o nas águas do canal.

“Que diferença faz?”

“Nenhuma. Agora mais nenhuma.”

Scofield virou-se e começou a andar na direção da entrada Leste da ponte. Guardou a automática no bolso, pareceu-lhe muito pesada. Atrás, na chuva, passos apressados o seguiam. Estava terrivelmente cansado e não os queria ouvir. Como também não queria ouvir a voz irritante de Harry.

— Bray, que diabo aconteceu! Ele quase escapou!

— Ficou no quase — replicou Scofield apressando o passo. — Você tratou disso.

— Tratei mesmo, porra! Pelo amor de Deus, o que há com você? — Os olhos do homem mais novo bateram na mão de Bray e reconheceram a caixa impermeabilizada. — Pombas! Você nem botou isso aí no bolso dele!

— O quê? — Só então Bray percebeu a que Harry se referia. Olhou por um instante para a pequena caixa redonda e atirou-a nas águas do canal.

— Por que fez isso?

— Vá para o inferno — retrucou Scofield em voz baixa.

Harry parou e Bray continuou a andar. Dali a alguns segundos Harry alcançou-o e pegou-o pela gola da capa de chuva.

— Por Deus Todo-Poderoso! Você deixou-o ir!

— Tire as mãos de cima de mim.

— Não tiro merda nenhuma. Você não pode... — Harry não foi mais longe. A mão direita de Bray fechou-se em torno do polegar exposto do seu colega mais novo e torceu-o com força.

Harry gritou. Seu polegar estava quebrado.

— Vá para o inferno — repetiu Scofield continuando seu caminho.

 

O local para encontros secretos ficava perto da Rosengracht e a entrevista deveria realizar-se no segundo andar. A sala de estar era aquecida por uma lareira também utilizada para destruir o que fosse necessário. Um alto funcionário do Departamento de Estado chegara de avião dos Estados Unidos para interrogar Scofield in loco, caso existissem circunstâncias atenuantes só ali compreensíveis. Era muito importante entender o que acontecera, especialmente tratando-se de alguém como Brandon Scofield. Ele era o melhor, o mais eficiente agente que possuíam, um trunfo extraordinário do serviço secreto americano, um veterano de vinte e dois anos das “nego­ciações” mais complexas que se pudesse imaginar. Precisava ser tratado com todo cuidado... no local do problema. E não mandado retornar devido a uma queixa de um subordinado. Ele era um especialista, e alguma coisa tinha acontecido.

Bray estava ciente disso e as providências do Departamento divertiam-no. Harry fora afastado de Amsterdam no dia seguinte e Scofield não tivera mais oportunidade de vê-lo. Os poucos funcionários da Embaixada que tinham tomado conhecimento do incidente tratavam Bray como se nada tivesse acontecido. Aconselharam-no a tirar uns dias de folga; alguém viria de Washington para examinar um problema qualquer em Praga, segundo uma mensagem cifrada. Não era em Praga que ele gostava de caçar?

Camuflagem, naturalmente. E não das melhores. Scofield sabia que agora todos os seus passos em Amsterdam estavam sendo observados, provavelmente por equipes de agentes do Departamento. E se ele se aproximasse dos comerciantes de diamantes na Tolstraat, certamente receberia uma bala.

Uma mulher discreta de idade indeterminada, uma criada que acreditava que a velha casa pertencia ao casal aposentado que contratara seus serviços, foi quem abriu a porta para Scofield. Ele disse que tinha hora marcada com o proprietário e seu advogado. A criada assentiu e conduziu-o à sala de estar do segundo andar.

O senhor idoso estava lá, mas não o homem do Departamento. Quando a empregada fechou a porta, o dono da casa falou:

— Vou esperar um pouco e depois subirei para meu apartamento. Se precisar de alguma coisa, aperte aquele botão no telefone. A campainha toca lá em cima.

— Obrigado — replicou Scofield olhando o holandês e lembrando-se de outro velho numa ponte. — Meu colega deve chegar logo. Não precisaremos de nada.

O homem assentiu e saiu. Bray deu uma volta pela sala olhando distraidamente os livros quando lhe ocorreu que nem tentava ler os títulos, na verdade nem os via. Percebeu então que não sentia nada, nem frio, nem calor, nem raiva, nem resignação. Não sentia nada. Era como se estivesse envolto numa nuvem de vapor, entorpecido, todos os sentidos dormentes. Perguntou-se o que iria dizer ao homem que voara quase seis mil quilômetros para vê-lo.

Não tinha importância.

Ouviu passos na escada. A empregada fora obviamente dispensada por alguém que já conhecia a casa. A porta se abriu e o homem que viera dos Estados Unidos entrou.

Scofield já o conhecia. O homem era do Planejamento e Desenvolvimento, um estrategista de operações secretas. Tinha mais ou menos a idade de Bray, mas era mais magro, um pouco mais baixo e dado a demonstrações exuberantes de falsa amizade, demonstrações que certamente esperava encobrissem sua ambição. Não encobriam.

— Bray, como vai você, meu velho companheiro? — exclamou ele em altos brados estendendo a mão num gesto exuberante para um cumprimento ainda mais exuberante. — Meus Deus, já devem fazer uns dois anos que eu não o vejo. Tenho umas histórias quentes para lhe contar!

— É mesmo?

— Se tenho — mais uma declaração exuberante. — Fui a Cambridge para o vigésimo aniversário de minha formatura e naturalmente encontrei amigos seus por toda parte. Bem, meu velho, tomei um pileque e não me lembro quais as mentiras que inventei a seu respeito. Falei que você era importador na Malásia, perito em línguas na Nova Guiné, subsecretário em Camberra, e não sei mais o quê. Uma loucura. Fiquei tão bêbado que não me lembro mais.

— Por que é que alguém iria perguntar por mim a você, Charlie?

— Bem, eles sabem que somos ambos do Departamento de Estado, e todos sabem que éramos amigos.

— Deixe disso. Nunca fomos amigos. Acho que você me desaprova tanto quanto eu o desaprovo. E nunca o vi bêbado em toda a minha vida.

O recém-chegado imobilizou-se e o sorriso morreu lentamente em seus lábios.

— Você está querendo engrossar?

— Não, estou apenas dizendo a verdade.

— O que aconteceu?

— Onde? Quando? Em Harvard?

— Você sabe do que estou falando. Na noite de anteontem. O que aconteceu anteontem à noite?

— Você é quem vai dizer. Foi você quem começou tudo, quem iniciou a operação.

— Nós descobrimos que informações altamente secretas estavam transpirando. Há anos que atos de espionagem vinham reduzindo a eficácia da vigilância espacial a ponto de torná-la uma brincadeira. Queríamos uma confirmação. Você a obteve. Sabia o que precisava ser feito e tirou o corpo fora.

— Sim, tirei — concordou Scofield.

— E quando seu colega o chamou à ordem você causou-lhe danos corporais... ao seu próprio subordinado!

— É verdade. E se eu fosse você me livraria dele. Transferia-o para o Chile. Ele não poderia fazer muita bosta por lá.

— O quê?

— Mas sei que você não fará isso. Ele é parecido demais com você, Charlie. Ele nunca aprenderá. Mas cuidado, hem, algum dia ele vai tomar seu lugar.

— Você está bêbado.

— Infelizmente, não. Cheguei a pensar nisso, mas sofro um pouco de acidez de estômago. Naturalmente, se soubesse que iam mandar você, teria feito uma forcinha para me embriagar. Só para relembrar os velhos tempos, naturalmente.

— Se você não está bêbado, então não está em seu juízo perfeito.

— Eu saí dos trilhos, a rota que você tinha traçado não me agradava.

— Basta de cretinice! Suas ações, ou melhor, sua falta de ação comprometeu uma operação vital de contra-espionagem!

— Agora, deixe você de çretinices — berrou Bray dando um passo ameaçador na direção do recém-chegado. — Você já falou demais. Eu não comprometi nada. Você é que comprometeu! Você e o resto daqueles cretinos de Washington. Você encontrou um furo em sua maldita rede e tinha de tampá-lo com um cadáver! Então poderia comparecer ao Comitê dos Quarenta e contar àqueles cretinos como é eficiente!

— De que é que você está falando?

— O velho realmente passou para o nosso lado. Ele foi pressionado, mas sua defecção foi sincera.

— Pressionado como?

— Não tenho certeza. Gostaria muito de saber. Em algum ponto daquele dossiê Quatro-Zero está faltando alguma coisa. Talvez uma esposa que não morreu, e está escondida em algum lugar, ou netos que ninguém se deu ao trabalho de investigar... Eu não sei quem são, mas eles existem. Refiro-me a reféns, Charlie. Foi por isso que ele fez o que fez. E eu fui sua listok.

— O que quer dizer isso?

— Pelo amor de Deus, aprenda a língua deles! Supõe-se que você seja um perito.

— Não me venha com baboseiras, eu sou um perito. Não há provas que corroborem essa sua teoria de chantagem, nenhum indício da existência de familiares. Seu alvo era mesmo um devotado agente do Serviço de Informações Soviético.

— Provas? Ora, Charlie, sei que nem você mesmo acredita nisso. Se ele foi bastante esperto para conseguir se passar para nós, também conseguiu esconder o que precisava ser escondido. Meu palpite é que seu segredo, ou seus segredos, foi descoberto. E ele foi pressionado — vê-se isso claramente no seu dossiê. Ele vivia de uma forma anormal, mesmo para uma existência anormal.

— Nós rejeitamos essa hipótese — declarou enfaticamente Char­lie. — Ele era apenas um excêntrico.

Scofield deteve-se e fixou os olhos no outro.

— Rejeitaram?... Um excêntrico?... Porra, você... você sabia Você podia tê-lo usado, fazendo-o passar informações falsas... Mas não, você queria uma solução rápida para que os lá de cima vissem como é eficiente! Você podia tê-lo usado, e não matado! Mas não soube como e preferiu ficar de boca fechada e chamar os carrascos!

— Isso é um absurdo. Ninguém pode provar que ele tenha sido pressionado.

— Provar? Eu não tenho de provar nada. Eu simplesmente sei.

— Como?

— Eu li nos olhos dele, seu filho da puta.

O homem de Washington hesitou e depois disse baixinho:

— Você está é cansado, Bray. Precisa de um repouso.

— Com uma pensão — perguntou Scofield — ou num caixão?

 

Taleniekov deixou o restaurante e foi colhido por uma lufada fria de vento que levantou a neve, fazendo-a rodopiar com tal força que momentaneamente a transformou em névoa, tornando difusa a luz do poste. Ia ser outra daquelas noites enregelantes. Segundo a previsão do tempo da rádio de Moscou, a temperatura iria cair a menos oito graus.

Contudo, a neve parará de cair de manhã cedo; as pistas do Aeroporto Sheremetyevo tinham sido desobstruídas e no momento era só o que importava a Vasili Taleniekov. O vôo 85 da Air France decolara para Paris, havia dez minutos. A bordo do avião estava um judeu que tinha passagem reservada para Atenas na Aeroflot dentro de duas horas.

O homem não teria partido para Atenas se aparecesse na estação da Aeroflot. Em vez disso, teriam lhe pedido que entrasse numa sala onde o esperavam agentes da Vodennaya Kontra Rozvedka, e a insensatez teria início.

Teria sido uma estupidez, pensou Taleniekov ao virar-se para a direita erguendo a gola do sobretudo para proteger o pescoço e baixando a aba do seu addyel. Uma estupidez porque a VKR não teria conseguido nada, a não ser criar um tremendo mal-estar. Não teria enganado a ninguém, muito menos àqueles que estava tentando impressionar.

Um dissidente retratando-se! Que espécie de literatura cômica aqueles jovens fanáticos da VKR andavam lendo? Onde estavam as cabeças mais velhas e experimentadas quando os jovens tolos inventavam tais loucuras?

Vasili rira ao saber do plano, chegara até mesmo a rir. O objetivo era armar uma curta mas forte campanha contra as acusações sionistas, mostrando ao mundo ocidental que nem todos os judeus da URSS pensavam da mesma forma.

O escritor judeu havia se tornado uma pequena celebridade na imprensa americana — na imprensa nova-iorquina, para ser mais exato. Ele fora um dos que trocaram idéias com um senador visitante à cata de votos a mais de treze mil quilômetros de distância do seu eleitorado. Mas, apesar da raça, o judeu não era bom escritor, sendo na verdade quase um motivo de constrangimento para seus correligionários.

Não só o escritor era um objeto inadequado para tal exercício, como, por motivos pertinentes a uma outra operação, era imperativo que lhe fosse permitido deixar a Rússia. O homem era um fio com o qual pretendiam envolver o tal senador de Nova York. Esse estava persuadido de que tinham sido suas relações com um adido do consulado que haviam levado o serviço de imigração soviético a conceder ao tal escritor um visto de saída; o senador ia tentar explorar o incidente, e uma pequena mas poderosa laçada surgiria do nada. Outras laçadas e relações embaraçosas iriam surgir de repente e desenvolver-se entre o senador e “conhecidos” no Governo soviético — o que poderia vir a ser muito útil. O judeu tinha de deixar Moscou naquela noite. Dali a três dias o senador tinha marcado uma entrevista coletiva à imprensa em sua chegada ao Aeroporto Kennedy.

Mas os jovens e agressivos cérebros da VKR eram obstinados. O escritor tinha de ser detido, levado para Lubyanka e submetido a um certo tratamento. Ninguém fora da VKR deveria saber da operação; seu sucesso dependeria do súbito desaparecimento e do segredo total. Preparados químicos seriam administrados à vítima até que essa estivesse pronta para uma espécie bem diferente de entrevista coletiva. Nessa, ele revelaria que terroristas israelenses o tinham ameaçado com represálias contra parentes em Tel Aviv se não obedecesse às instruções e não suplicasse publicamente uma permissão para deixar a Rússia.

O plano era absurdo e Vasili disse-o abertamente a seu contato na VKR, mas foi confidencialmente informado de que nem mesmo o extraordinário Taleniekov poderia interferir com o Grupo Nove da Vodennaya Kontra Rozvedka. Mas o que, em nome de todos os desacreditados czares, era esse tal Grupo Nove?

O novo Grupo Nove, seus amigos explicaram, era o sucessor da infamante Seção Nove da KGB. Smert Shpiononam. A divisão do Serviço Secreto Soviético dedicada exclusivamente a dobrar o espírito e a vontade dos homens por meio de chantagem, tortura e o mais terrível dos métodos: matar entes queridos na frente dos que os amavam.

Matar não era estranho a Vasili Taleniekov, mas essa espécie de assassinato revoltava-lhe o estômago. A ameaça de tais atos podia freqüentemente ser muito útil, mas não o ato em si. O Estado não ordenava essa prática, e apenas sádicos a exigiam. Se existia realmente uma sucessora da Smert Shpiononam, então ele a faria saber quem teria de enfrentar no âmbito mais amplo da KGB — isto é, um certo e extraordinário Taleniekov. Eles aprenderiam a não contrariar um homem que passara vinte e cinco anos percorrendo a Europa a serviço do Governo.

Vinte e cinco anos. Um quarto de século se passara desde que um estudante de vinte e um anos da Universidade de Leningrado com talento para línguas fora enviado a Moscou para três anos de treinamento intensivo. Treinamento de tal tipo que assombrara o filho de introspectivos professores socialistas. Ele fora arrancado de um lar tranqüilo onde os livros e a música eram gêneros de primeira necessidade e transplantado para um mundo de violência e conspirações, onde cifras, códigos e brutalidade eram os principais elementos. Onde todas as formas de vigilância e sabotagem, espionagem e extinção de vidas — nunca assassinatos, tal termo não se aplicava ao caso — eram as matérias a serem estudadas.

Poderia ter fracassado, não fosse por um incidente que alterou sua vida e lhe serviu de estímulo. O incidente fora obra de animais, de animais americanos.

Fora enviado a Berlim Ocidental num exercício de treinamento, como observador de táticas secretas no auge da guerra fria. Criara uma ligação com uma jovem, uma moça alemã que acreditava fervorosamente na causa marxista e que fora recrutada pela KGB. Seu posto era tão insignificante que seu nome nem constava da folha de pagamento; ela era uma simples organizadora  de demonstrações de rua, paga com uns magros trocados da gaveta de despesas. Não passava de uma estudante universitária pouco prudente e apaixonada por suas crenças, uma radical entusiasta que se considerara uma espécie de Joana D’Arc. Mas Vasili a amara.

Os dois tinham vivido juntos várias semanas, semanas gloriosas, cheias da paixão e do entusiasmo do amor juvenil. E então, um dia, ela fora enviada numa missão insignificante, uma manifestação de protesto na Kurfurstendam, do outro lado da fronteira. Uma criança liderando outras crianças, dizendo coisas que mal entendiam, abraçando causas em que estavam despreparadas para se engajar. Uma manifestação sem importância. Insignificante.

Mas não para os animais dó Exército Americano de Ocupação, seção G2, que lançaram outros animais em seu encalço.

O corpo da moça foi devolvido num carro funerário, o rosto deformado e irreconhecível, o resto do cadáver dilacerado, coberto de nódoas de sangue seco. E os médicos tinham confirmado o pior. Ela fora repetidamente estuprada e brutalizada.

Junto com o corpo — preso ao braço dela com um prego — viera um bilhete.

“Vá tomar no cu, comuna sujo, assim como ela tomou!”

Animais!

Animais americanos que tinham aberto o caminho até a vitória graças ao seu dinheiro, sem que uma única bomba houvesse maculado seu solo pátrio, cuja potência era medida por sua indústria sem peias que auferira tremendos lucros com a carnificina das terras estrangeiras, cujos soldados traficavam com latas de comida utilizando crianças famintas para gratificar outros apetites. Todos os exércitos abrigavam animais, mas os americanos eram mais repugnantes por alardearem tanta honradez. Os santarrões eram sempre os mais repugnantes.

Taleniekov voltara a Moscou com a lembrança da morte obscena da jovem gravada a ferro e fogo em sua memória. Se antes ele fora uma pessoa, agora era outra. No conceito de muitos, tornou-se o melhor homem do serviço, e em sua própria opinião ninguém poderia desejar ser melhor que ele. Havia visto o inimigo, um animal asqueroso, mas que possuía recursos inimagináveis, inacreditáveis riquezas. Portanto, era necessário ser melhor que o inimigo em coisas que não podiam ser compradas. Era preciso aprender a pensar como ele e então sobrepujá-lo em astúcia e rapidez. Vasili compreendera isso e tornara-se mestre em estratégia e contra-estratégia, um criador de armadilhas inesperadas, um aplicador de choques imprevisíveis — como a morte à luz do sol matinal numa esquina movimentada.

Morte na Unter den Linden às cinco da tarde, na hora de maior tráfego.

Ele chegara lá também. Vingara a morte de sua mulher-criança anos depois, quando diretor de operações da KGB. Atraíra a esposa de um assassino americano até o posto de controle da fronteira. Ela fora abatida de forma limpa, profissional, com um mínimo de dor, uma morte muito mais piedosa que a provocada pelos animais de quatro anos antes.

Ele fizera um gesto de assentimento ao saber de sua morte, mas não sentira alegria. Sabia o que o outro homem estava passando e, embora fosse merecido, não sentira euforia, pois sabia que o homem não descansaria até encontrar uma forma de vingança.

E o homem encontrou. Três anos depois em Praga. ;

Um irmão.

Onde estaria agora o detestado Scofield? — perguntou-se Vasili. Ele também estava no serviço secreto há quase um quarto de século. Ambos tinham servido bem a seus governos, isso era inegável. Mas Scofield era mais afortunado: as coisas em Washington eram menos complexas, os inimigos internos mais conhecidos. O detestado Scofield não tinha de aturar maníacos amadores como os do Grupo Nove da VKR. O Departamento de Estado americano também tinha sua quota de malucos, mas o controle era mais rígido, era preciso admitir. Dentro de alguns anos, se Scofield sobrevivesse, poderia aposentar-se e ir morar em algum local longínquo e criar galinhas ou cultivar laranjas, ou ainda embebedar-se regularmente para esquecer o passado. Em Washington, não precisaria preocupar-se em se manter vivo, apenas na Europa.

Taleniekov tinha de se preocupar com a sobrevivência em Moscou.

As coisas tinham mudado muito nesse quarto de século. E ele mudara também; aquela noite era um exemplo, e não o primeiro. Sub-repticiamente, ele frustrara os objetivos de correligionários. Não teria feito aquilo cinco anos antes — talvez nem mesmo dois anos antes. Teria procurado os estrategistas da unidade e exposto suas reservas com argumentos estritamente profissionais. Era um especialista e, em sua opinião abalizada, a operação fora não só mal-engendrada como era muito menos importante que a outra com a qual interferia. Agora mudara seu modo de agir. Nos últimos dois anos, como diretor dos Setores do Sudoeste, tomara suas próprias decisões, pouco se importando com a reação dos idiotas que sabiam muito menos que ele. Entretanto, essas reações vinham cada vez mais causando pequenas tempestades em Moscou; mesmo assim, continuava fazendo o que acreditava ser certo. Ultimamente, essas pequenas tempestades geravam graves descontentamentos, e ele fora chamado ao Kremlin por alguém muito afastado da luta e absorto em abstrações tais como o obscuro envolvimento de um político americano.

Taleniekov sabia que ia cair. Era apenas questão de tempo. Quanto ainda lhe restaria? Será que lhe dariam um sitiozinho ao Norte de Grasnov e o mandariam cultivar suas próprias hortaliças e manter a boca fechada? Ou os maníacos lhe cortariam também essa saída, argumentando que “o extraordinário Taleniekov” era perigoso demais?

No caminho, o cansaço envolveu Vasili. Até o ódio que sentia pelo matador americano que assassinara seu irmão estava entorpecido. Quase não lhe restavam mais sentimentos.

 

A súbita tempestade intensificou-se e os ventos transformaram-se num vendaval turbilhonando a neve que cobria a Praça Vermelha. De manhã, o túmulo de Lênin estaria invisível. Taleniekov deixou as gélidas partículas golpearem-lhe o rosto enquanto lutava contra o vento a caminho do seu apartamento. A KGB fora amável: seus aposentos distavam apenas dez minutos do seu escritório na Praça Dzerzhinsky, a três quadras do Kremlin. Ou, em vez de amabilidade, tratava-se de algo bem mais prático, embora menos benevolente — numa crise, seu apartamento ficava a dez minutos da sede, ou apenas três minutos num,automóvel veloz.

Entrou no edifício, batendo os pés ao fechar a pesada porta, abafando o assobio cortante da ventania. Como sempre, verificou a caixa de correspondência no vestíbulo, que se encontrava, como de hábito, vazia. O ritual infrutífero acabara por se tornar um hábito sem sentido mantido pelos anos afora, em tantas caixas de correspondência, em tantos edifícios diferentes.

Só quando estava a serviço em países estrangeiros, sob nomes falsos, é que recebia correspondência pessoal, e então sempre em código, com um significado muito distante das palavras escritas. Contudo, às vezes, essas palavras eram amigas e carinhosas, e por alguns instantes ele fazia de conta que eram sinceras. Mas só por alguns instantes. Não era bom fazer de conta. Só quando se estava analisando um inimigo.

Começou a subir a escada estreita, aborrecido com a luz insuficiente das lâmpadas fracas. Certamente os projetistas da Iliktri-chiskaya moscovita não moravam em prédios como aquele.

Foi então que ouviu o estalido. Não era o resultado de um esforço estrutural, nada tinha a ver com a temperatura hibernai ou com a ventania lá fora. Era o ruído de um ser humano pisando numa tábua de assoalho. Seus ouvidos eram os de um perito treinado, capaz de avaliar distâncias com rapidez. O ruído não vinha do andar de cima, mas de um ponto mais alto da escada. Seu apartamento ficava no andar seguinte e alguém estava a sua espera. Alguém que talvez o quisesse ver entrar numa armadilha, a saída cortada.

Vasili continuou a subir sem alterar o ritmo de seus passos. Os anos o haviam ensinado a guardar peças como chaves e moedas nos bolsos da esquerda, deixando a mão direita livre para sacar rapidamente uma arma, ou mesmo para usar essa direita como arma. Ao chegar ao patamar, virou-se; sua porta ficava a poucos passos.

Nisso ouviu outro estalido, tênue, quase imperceptível, mesclado ao som da ventania longínqua. Quem quer que estivesse na escada recuara e isso significava duas coisas: o intruso esperaria até que ele tivesse entrado no apartamento e, quem quer que fosse, era descuidado ou inexperiente, ou ambas as coisas. Não se devia fazer nenhum movimento quando se estivesse próximo à presa — o ar era bom condutor de ruídos.

A mão esquerda segurava a chave; a direita desabotoara o sobretudo e agora empunhava a coronha da automática que trazia num coldre aberto e afivelado ao peito. Inserindo a chave, abriu a porta e tornou a fechá-la num repelão, ocultando-se rápida e silenciosamente nas sombras da escada, encostando-se à parede e empunhando a arma por sobre o balaústre.

Sons de passos apressados precederam o aparecimento de um vulto que correu para a porta. Sua mão esquerda segurava um objeto que Vasili não conseguiu ver, oculto que estava pelo tronco bem-agasalhado do outro. Não havia tempo a perder. Se o objeto fosse um explosivo, devia estar ligado a um mecanismo de tempo. O vulto ergueu a mão direita para bater na porta.

— Encoste-se na porta! E com a mão esquerda na frente, entre sua barriga e a madeira! Depressa!

— Por favor! — o homem tentou virar-se, mas Taleniekov jogou-se contra ele, empurrando-o contra a porta.

Era um rapaz, quase um menino, na verdade, um adolescente, pensou Vasili. Era alto para a idade, mas essa estampava-se u rosto imaturo, de olhos arregalados, límpidos, assustados.

— Recue devagar — ordenou rispidamente Taleniekov. — Erga a mão esquerda. Devagar.

O rapaz recuou, mão esquerda à mostra, o punho fechado.

— Eu não fiz nada de errado, senhor, eu juro! — disse o rapaz num sussurro amedrontado.

— Quem é você?

— Andreev Danilovich, senhor. Moro em Cheremushki.

— Você está bem longe de casa — retrucou Vasili. O conjunto residencial a que o rapaz se referia ficava a uns quarenta e cinco minutos ao Sul da Praça Vermelha. — Neste tempo horrível, um rapaz de sua idade pode ser preso pela militsianyer.

— Eu precisava vir até aqui, senhor — respondeu Andreev. — Um homem foi baleado e está muito mal. Acho que ele vai morrer. Eu tinha de entregar isto ao senhor — abriu a mão esquerda e mostrou um emblema de bronze, uma insígnia do Exército usada por generais. Aquele desenho não era mais utilizado há trinta anos. — O velho mandou que eu falasse em nome de Krupskaya, Aleksie Krupskaya. Fez-me repetir várias vezes para não esquecer. Não é esse o nome que ele usa em Cheremushki, mas é o nome que eu devia lhe dizer. Ele quer que eu leve o senhor até lá. Ele está morrendo, senhor!

Ao som daquele nome, a mente de Taleniekov voltou atrás no passado. Aleksie Krupskaya! Era um nome que não ouvia há anos, um nome que muito pouca gente em Moscou gostaria de ouvir. Krupskaya fora antigamente o maior professor da KGB, um homem com um talento infinito para matar e sobreviver — e precisava ser. Ele fora o último dos famosos Istrebiteli, um grupo altamente especializado de exterminadores, um produto de elite da velha NKVD cujas origens encontravam-se no quase esquecido OGPU.

Mas Aleksie Krupskaya tinha desaparecido, como tantos outros, há pelo menos uma dúzia de anos. Alguns rumores tinham ligado seu nome às mortes de Beria e Jurkov, alguns incluindo até o próprio Stalin. Certa vez, num acesso de fúria — ou de medo —, Kruschev levantara-se no Presidium e acusara Krupskaya e seus colegas de serem um bando de assassinos maníacos. Isso não era verdade. Não havia nenhuma loucura na obra dos Istrebiteli, sua ação era demasiado metódica. Mesmo assim, de repente, Aleksie, Krupskaya deixou de ser visto em Lubyanka.

Entretanto, os boatos persistiam. Alguns referiam-se a documentos preparados por Krupskaya e ocultos em locais secretos, como garantia para atingir uma idade avançada. Dizia-se que esses documentos incriminavam vários líderes do Kremlin em uma centena de assassinatos — conhecidos, desconhecidos, camuflados. Assim, presumia-se que Aleksie Krupskaya estivesse continuando a viver em algum lugar ao Norte de Grasnov, talvez numa fverma, cultivando legumes e conservando a boca fechada.

Ele fora o melhor professor que Vasili já tivera; sem as pacientes instruções do velho mestre, Taleniekov já estaria morto há muitos anos.

— Onde está ele? — perguntou Vasili.

— Nós o levamos para nosso apartamento. Ele ficou batendo no assoalho, no teto de nossa casa. Nós subimos e o encontramos.

— Nós?

— Minha irmã e eu. Ele é um bom velho. Foi muito bondoso comigo e com minha irmã. E acho que vai morrer logo. Por favor, vamos logo, senhor!

 

O velho deitado na cama não era o Aleksie Krupskaya que Taleniekov conhecera. O cabelo cortado rente e o rosto bem-barbeado que tanta força revelara no passado não mais existiam. A pele pálida e fina estava toda enrugada sob a barba branca, e os cabelos brancos emaranhados pareciam um ninho de pássaros, os fios finos e ralos revelando trechos de pele cinzenta no crânio esquálido. Krupskaya estava morrendo e mal podia falar. Baixando a coberta, ele ergueu um pano encharcado de sangue, revelando um orifício sangrento de ferimento de bala.

Praticamente nenhum segundo foi gasto em cumprimentos; o respeito e a afeição nos olhos dos dois homens eram suficientes.

— Eu dilatei as pupilas e fiz olhar de morto — disse Krupskaya com um sorriso fraco. — Ele acreditou. Tinha feito seu serviço e saiu correndo.

— Quem foi?

— Um assassino enviado pelos corsos.

— Corsos? Que corsos?

Após uma inspiração profunda e dolorosa, o ancião fez um gesto para que Vasili se aproximasse.

— Resta-me menos de uma hora de vida e há coisas que preciso lhe contar. Ninguém mais lhe contará, e você é o melhor homem que temos e precisa saber. Mais do que todos os outros, você tem a perícia necessária para enfrentar a perícia deles. Você e um outro, do outro lado. Vocês dois talvez sejam os únicos que restam.

— Do que está falando?

— Do Matarese.

— O quê?

— Do Matarese. Eles sabem que eu sei... o que estão fazendo, o que estão prestes a fazer. Eu sou o único que ainda resta que os reconheceria, que ousaria falar a respeito deles. Eu cortei os contatos com eles uma vez, mas não tive a coragem nem a ambição suficiente para os desmascarar.

— Não estou entendendo.

— Tentarei explicar — Krupskaya fez uma pausa, reunindo as forças. — Há pouco tempo, um general chamado Blackburn foi morto na América.

— Sim, eu sei. O chefe do Estado-Maior. Nós não tivemos nada a ver com isso, Aleksie.

— Sabe que os americanos pensaram que o assassino provavelmente era você?

— Não, ninguém me disse isso. A idéia é ridícula.

— Ninguém lhe conta mais as coisas, não é?

— Não estou me enganando, velho amigo. Já dei o que tinha de dar. Não sei o que tenho pela frente. Espero que não esteja longe o dia em que eu possa ir para Grasnov.

— Se eles deixarem — interrompeu Krupskaya.

— Creio que deixarão.

— Isso agora não vem ao caso... No mês passado, Yurievich, o cientista, foi assassinado quando passava férias em sua dacha em Provasoto juntamente com o coronel Drigorin e um tal de Brunov, do Planejamento Industrial.

— Ouvi falar no caso — disse Taleniekov. — Parece ter sido horrível.

— Você leu os relatórios?

— Que relatórios?

— Os que a VKR apresentou.

— Eles são todos uns idiotas, uns loucos! — exclamou Taleniekov.

— Nem sempre — ressaltou Krupskaya. — Neste caso, apresentaram os fatos com a maior clareza e precisão possível.

— E que fatos precisos são esses?

Respirando com dificuldade, Krupskaya engoliu e continuou:

— Cartuchos americanos de sete milímetros com ranhuras produzidas por uma Browning Magnum tipo IV.

— Uma arma brutal — replicou Taleniekov com um gesto de assentimento. — E muito precisa. Mas é a última arma que um homem de Washington usaria.

O velho pareceu não ouvir.

— A arma utilizada para matar o general Blackburn foi uma Graz-Burya.

Vasili ergueu as sobrancelhas.

— Uma bela arma e de difícil obtenção. — Após uma pausa, acrescentou em voz baixa: — É a minha preferida.

— Exatamente. Assim como a Magnum tipo IV é a arma favorita de um outro.

Taleniekov empertigou-se.

— Como?

— Sim, Vasili. A VKR apresentou vários nomes como sendo os prováveis matadores de Yurievich. A hipótese número um era alguém que você detesta: Beowulf Agate.

Taleniekov acrescentou em tom inexpressivo:

— Brandon Scofield, Operações Consulares. Codinome: Beowulf Agate.

— Isso mesmo.

— E foi ele mesmo?

— Não. — O velho lutou para erguer a cabeça do travesseiro: — Assim como você não esteve envolvido na morte de Blackburn. Não está vendo? Eles sabem de tudo. Sabem até que certos agentes de inegável perícia estão sofrendo de fadiga mental, e que talvez necessitem de uma presa importante. Eles estão testando os mais altos escalões do poder antes de agir.

— Mas quem... ? Quem são eles?

— O Matarese. A febre corsa...

— A que está se referindo?

— Ela está se espalhando... Transformou-se e é muito mais mortal em sua nova forma.

O velho Istrebiteli deixou-se cair sobre o travesseiro.

— Você precisa ser mais explícito, Aleksie. Não estou entendendo nada. O que é essa febre corsa, esse... Matarese?

Os olhos esbugalhados de Krupskaya fitavam o teto.

— Ninguém abre a boca — sussurrou. — Ninguém ousa falar. Nosso próprio Presidium, o Ministério do Exterior da Inglaterra, a Société Diable D’Etat francesa, e os americanos também. Ah, não se esqueça dos americanos... Ninguém abre a boca. E todos nós os utilizamos! Fomos maculados pelo Matarese.

— Maculados? Como assim? O que você está tentando dizer? O que, em nome de Deus, é esse Matarese?

O velho virou lentamente a cabeça, seus lábios tremiam.

— Alguns dizem que existe desde Sarajevo. Outros juram que em sua lista figuram Dolfuss, Bernadotte... e até Trotsky. Quanto a Stalin, não há dúvida alguma: nós mesmos os contratamos para matá-lo.

— Stalin? Então é verdade o que dizem?

— Ah, sim. E Beria também. Nós pagamos — os olhos do Istre­biteli agora vagavam, fora de foco. — Em 45... o mundo pensou que Roosevelt morrera de um derrame fulminante — Krupskaya sacudiu lentamente a cabeça, a saliva escorrendo dos cantos da boca. — Haviam forças que acreditavam que sua política em relação aos soviéticos era economicamente desastrosa. Não podiam mais permitir que ele tomasse as decisões. Eles pagaram, e uma injeção foi administrada.

Assombrado, Taleniekov perguntou:

— Você está querendo dizer que Roosevelt foi morto? E por esse Matarese?

— Assassinado, Vasili Vasilivich Taleniekov. O termo é assassinado. E essa é uma das verdades que ninguém admitirá. Tantos... em tantos anos... Ninguém ousará falar nos contratos, nós preços. Tal admissão seria catastrófica... para os governos em todo o mundo.

— Mas por que recorreram a esse Matarese?

— Porque estava disponível. E livrava o cliente de qualquer envolvimento.

— É um absurdo. Assassinos são apanhados. Esse nome nunca veio à tona!

— Você não devia usar esses argumentos, Vasili Vasilivich. Você mesmo já usou táticas iguais às do Matarese.

— O que quer dizer?

— Ambos matam... e dirigem matadores — disse o velho, e Taleniekov fez um gesto de assentimento. — O Matarese permaneceu inativo durante vários anos. Depois reapareceu, mas de uma forma diferente. Os assassinatos passaram a ocorrer sem clientes, sem pagamento. Matanças sem sentido. Homens de valor começaram a ser seqüestrados e mortos, aviões roubados explodindo no ar, governos paralisados pela chantagem: ou pagavam ou presenciavam massacres. Os métodos tornaram-se mais refinados, mais profissionais.

— Você está descrevendo as táticas dos terroristas, Aleksie. O terrorismo não obedece a uma direção central.

Novamente o velho Istrebiteli lutou para erguer a cabeça.

— Agora obedece. E o vem fazendo há vários anos. Os Baader-Meinhoff, a Brigada Vermelha, os palestinos, os maníacos africanos — todos eles gravitam em torno do Matarese. E matam com impunidade. E agora estão provocando o caos nos dois superpoderes para dar seu passo mais ousado: assumir o controle de um deles e, finalmente, dos dois.

— Como pode ter tanta certeza?

— Capturaram um homem com uma marca no peito, um membro do Matarese. Administraram-lhe drogas e deixaram-no a sós com meu informante. Eu já o advertira.

— Você?

— Escute, o cronograma já está em execução, mas é impossível revelar sua existência sem admitir o passado, e ninguém ousa fazer tal coisa! Tomarão Moscou por meio de assassinatos, Washington por manobras políticas ou violência, se necessário. Ê questão de dois meses, três no máximo, o plano já está sendo executado. Ação e reação foram testados nos altos escalões, homens desconhecidos estão a postos nos focos de poder. Logo agirão, e quando agirem estaremos perdidos. Seremos destruídos, dominados pelo Matarese.

— Onde está esse prisioneiro?

— Está morto. Quando passou o efeito das drogas, ele rasgou a própria pele num local onde fora costurada uma cápsula de cianeto e envenenou-se.

— Que assassinatos, que manobras políticas são essas? Você precisa ser mais explícito.

A respiração de Krupskaya ficou mais difícil e ele tornou a cair sobre os travesseiros. A voz, entretanto, continuou firme:

— Não há tempo... eu não tenho tempo. Minha fonte de informação é a melhor de Moscou, de toda a União Soviética.

— Perdoe-me, caro Aleksie. Você foi o melhor homem que tivemos, mas está fora de ação. Todos sabem disso.

— Você precisa encontrar Beowulf Agate — continuou o velho Istrebiteli como se Vasili nada tivesse dito. — Você e ele têm de encontrá-los. E detê-los. Antes que um de nossos países seja dominado e garantida a destruição do outro. Você e aquele homem, Scofield. Agora vocês são os melhores, e precisamos dos melhores.

Taleniekov olhou impassível para o moribundo.

— Isso é uma coisa que ninguém deve me pedir. Se eu encontrasse Beowulf Agate, eu o mataria. Assim como ele me mataria, se pudesse.

— Vocês não significam nada! — o velho respirava devagar numa tentativa desesperada de fazer o ar entrar nos pulmões. — Vocês não têm mais tempo para pensar em si mesmos, não consegue entender isso? Eles infiltraram-se clandestinamente nas esferas mais poderosas de nossos governos. Eles já usaram vocês dois, e tornarão a usá-los. Eles só utilizam os melhores, e só matam os melhores! Homens como vocês não passam de um divertimento para eles!

— Onde estão as provas?

— Nos padrões, nos métodos — sussurrou Krupskaya. — Estudei-os. Conheço-os bem.

— Que métodos?

— Cartuchos de uma Graz-Burya em Nova York. Cartuchos de uma Browning Magnum em Provasoto. Em poucas horas, Washington e Moscou estavam em pé de guerra. Esse é o método Matarese. Nunca mata sem deixar indícios, freqüentemente os próprios assassinos, mas esses indícios nunca são verdadeiros, assim como são falsos os assassinos.

— Já foram apanhados homens ainda com o dedo no gatilho, Aleksie.

— Mataram por motivos errados, por motivos engendrados pelo Matarese... Agora estamos à beira do caos.

— Mas por quê?

Krupskaya virou o rosto para ele, o olhar firme, implorante.

— Eu não sei. Reconheço os métodos, mas não sei as razões. É isso que me assusta. É preciso voltar ao passado para entender. As raízes do Matarese estão na Córsega. Tudo começou com o louco da Córsega... a febre corsa... Guillaume de Matarese. Ele era o sumo-sacerdote

— Quando? — perguntou Taleniekov. — Quando foi isso?

— Nos primeiros anos do século. Guillaume de Matarese e seu círculo. O sumo-sacerdote e seus ministros. Eles estão de volta. Precisam ser detidos. Por você e Scofield.

— Quem são eles? — perguntou Vasili. — E onde estão?

— Ninguém sabe — agora a voz do velho fraquejava. — A febre corsa está se espalhando...

— Aleksie, escute — insistiu Taleniekov, preocupado. Havia uma possibilidade que não podia ser ignorada. As fantasias de um moribundo não deviam ser levadas a sério. — Quem é esse seu informante de toda a confiança? Quem é o homem mais bem-informado de Moscou, de toda a Rússia? Como ele conseguiu as informações que acaba de me dar? Como soube da morte de Blackburn, do relatório da VKR sobre Yurievich? Quem é esse desconhecido que está a par do cronograma?

Em meio a uma vertigem que anunciava a morte próxima, Krupskaya compreendeu. Um leve sorriso apareceu-lhe nos lábios finos e pálidos.

— Várias vezes por mês — disse ele, lutando para ser ouvido —, um motorista vem me ver, às vezes para levar-me para uma volta no campo, às vezes para um encontro com certa pessoa. É uma amabilidade do Governo para com um velho soldado aposentado que usa um nome suposto. Eles mantêm-me informado.

— Não compreendo, Aleksie.

— Meu informante é o premier da União Soviética.

— O premier! Mas por que ele falaria com você?

— Ele é meu filho.

Um estremecimento percorreu Taleniekov. A revelação explicava tudo, Krupskaya tinha de ser levado a sério. O velho Istrebiteli possuíra as informações, a munição necessária para eliminar todos que se interpusessem no caminho da ascensão de seu filho ao primeiro posto da União Soviética.

— Ele me receberia?

— Nunca. À primeira menção do nome Matarese, ele mandaria executá-lo. Tente entender, ele não teria opção. Mas ele sabe que tenho razão. Concorda comigo, mas nunca o admitirá. Não o pode fazer. Limita-se a conjeturar se o primeiro alvo será ele ou o presidente americano.

— Compreendo.

— Agora, deixe-me a sós — disse o moribundo. — Faça o que deve fazer, Taleniekov. Não tenho mais forças. Procure Beowulf Agate, encontre os Matareses. Precisam ser detidos. A febre corsa não deve mais se espalhar.

— A febre corsa... na Córsega?

— Talvez a resposta esteja lá. É a única pista que tem para começar. Descubra os nomes... da primeira junta... muitos anos atrás!

 

Uma insuficiência coronária impusera a Robert Winthrop o uso de uma cadeira de rodas, mas de forma alguma afetara a vivacidade do seu espírito. Nem ele alimentava a enfermidade: passara toda a vida a serviço do Governo, e nunca lhe faltavam problemas que considerasse mais importantes que a própria pessoa.

Em sua casa em Georgetown, os convidados logo esqueciam a cadeira de rodas. A figura esbelta de gestos graciosos e o rosto sempre interessado lembravam-nos do homem que era: um enérgico aristocrata que recorrera à fortuna pessoal para se livrar das preocupações financeiras e dedicar a vida à causa pública. Em vez de um estadista idoso e enfermo, fazia lembrar Yalta e Potsdam, onde um membro empreendedor do Departamento de Estado estivera sempre debruçado sobre a cadeira de Roosevelt ou o ombro de Truman para esclarecer algum aspecto ou sugerir uma objeção.

Havia muita gente em Washington — e em Londres, e também em Moscou — que acreditava que o mundo seria melhor se Robert Winthrop tivesse sido nomeado Secretário de Estado por Eisenhower, mas os ventos políticos tinham mudado de direção e na época ele não fora considerado uma escolha adequada. E mais tarde seu nome não poderia mais ser cogitado — envolvera-se em outra área do Governo que exigia sua total concentração. Fora entretanto discretamente nomeado consultor-chefe das Relações Diplomáticas pelo Departamento de Estado.

Vinte e seis anos antes, Robert Winthrop organizara uma divisão especial no Departamento, batizada de Operações Consulares. Após dezesseis anos de dedicação, demitira-se — segundo alguns, porque estava consternado com o rumo que tomara sua criação, segundo outros, porque, embora ciente da necessidade de tais rumos, não conseguia forçar-se a tomar certas decisões. Apesar disso, durante os dez anos que haviam decorrido desde sua saída, fora constantemente procurado como consultor e conselheiro. Como naquela noite.

As Operações Consulares tinham novo diretor: Daniel Congdon, funcionário de carreira do Serviço Secreto que fora transferido de um alto posto na Agência de Segurança Nacional para o cargo clandestino do Departamento de Estado. Ele substituíra o sucessor de Winthrop e parecia perfeitamente afinado com as duras decisões exigidas pelo Departamento. Mas era novo no posto e tinha dúvidas. Tinha também um problema com um homem chamado Sco­field e não estava certo de como resolvê-lo. Sabia apenas que queria encerrar a carreira de Brandon Alan Scofield, afastá-lo definitivamente do Departamento de Estado. Seu comportamento em Amsterdam não podia ser tolerado e revelava um homem perigoso e instável. Mas quão mais perigoso seria ele longe do controle das Operações Consulares? Era uma pergunta difícil. O homem de codinome Beowulf Agate sabia mais a respeito das redes clandestinas do Departamento de Estado do que qualquer outro homem vivo. E, como Scofield chegara a Washington muitos anos antes por intermédio do Embaixador Robert Winthrop, Congdon foi direto à fonte.

Winthrop concordara prontamente em receber Congdon, mas não numa sala impessoal de escritório. Através dos anos, o embaixador aprendera que os homens envolvidos em operações secretas instintivamente adaptavam-se ao meio ambiente. Frases curtas e obscuras tomavam o lugar de diálogos mais livres e descontraídos onde um número bem maior de informações podia ser transmitido ou captado. Assim sendo, ele convidou o novo diretor para jantar em sua casa.

A refeição chegou ao fim sem que nenhum assunto importante fosse abordado. Congdon percebeu que o embaixador estava sondando a superfície antes de se aprofundar. Mas agora chegara o momento.

— Vamos à biblioteca? — convidou Winthrop, afastando a cadeira de rodas da mesa.

Uma vez no aposento repleto de livros, ele não perdeu mais tempo:

— Então deseja me falar sobre Brandon...

— E muito — retrucou o novo diretor das Operações Consulares.

— Como poderemos agradecer a homens como ele pelo que fizeram? — disse Winthrop. — E por tudo que perderam? Eles pagam um preço terrível pelo trabalho que executam.

— Não estariam lá se não o desejassem — replicou Congdon —, se por algum motivo não necessitassem dele. Mas ainda nos resta um problema: o que fazer com eles. Eles são explosivos ambulantes!

— O que está tentando dizer?

— Não estou bem certo, Sr. Winthrop. Quero saber mais sobre Brandon. Quem é? Como é? De onde veio?

— Na tese de que a criança é o pai do homem?

— Mais ou menos isso. Li a ficha dele — várias vezes, na verdade —, mas nunca falei com ninguém que lealmente o conhecesse.

— Nem sei se essa pessoa existe. Brandon... — O velho estadista fez uma pausa e sorriu. — Por falar nisso, o apelido dele é Bray.

— Isso eu já sabia — replicou o diretor, devolvendo o sorriso e sentando-se numa poltrona de couro. — Quando criança, a irmã mais nova não sabia dizer Brandon e chamava-o de Bray. O nome pegou.

— Devem ter acrescentado essa informação à ficha dele depois que deixei o Departamento. Na verdade, imagino que essa ficha tenha crescido bastante. Mas, quanto a amigos, não creio que ele os tenha, é simplesmente um tipo reservado e fechou-se ainda mais depois da morte da mulher.

Congdon perguntou em voz baixa:

— Ela foi assassinada, não é?

Ê.

— No mês que vem faz dez anos que a mataram em Berlim, não é?

— Isso mesmo.

— E no mês que vem vai fazer dez anos que o senhor se demitiu da chefia das Operações Consulares, a unidade altamente especializada que o senhor criou.

Winthrop virou-se e encarou o novo diretor.

— Minha concepção era bem diferente do produto final. As Operações Consulares foram criadas como um instrumento humanitário para facilitar a fuga de milhares de indivíduos para o Ocidente, sua libertação de um sistema político que lhes era intolerável. Com o passar do tempo, as circunstâncias vieram restringir esse objetivo. Os milhares transformaram-se a princípio em centenas, e depois, devido à interferência de outros órgãos, em dezenas. Não estávamos mais interessados nas súplicas da multidão de homens e mulheres que continuamente nos procuravam, mas apenas nos poucos cujo talento e conhecimento eram considerados bem mais importantes. A unidade concentrou sua atenção num punhado de cientistas, militares e agentes secretos... como continua fazendo atualmente. Não era esse nosso objetivo inicial.

— Mas, como o senhor mesmo ressalvou — disse Congdon —, as circunstâncias justificaram essas mudanças.

Winthrop fez um gesto de assentimento.

— Não me interprete mal. Não sou ingênuo. Lidei com os russos em Potsdam, em Casablanca, em Yalta. Testemunhei sua brutalidade na Hungria em 56 e vi os horrores que cometeram na Tcheco-Eslováquia e na Grécia. Acho que sei do que os soviéticos são capazes, tão bem quanto qualquer estrategista de nossos serviços secretos. E durante anos permiti que vozes mais agressivas fossem ouvidas, compreendendo a necessidade. Pensa que não?

— Não, naturalmente, senhor. Eu apenas... — Congdon hesitou.

— O senhor apenas fez uma ligação entre o assassinato da esposa de Scofield e minha demissão — completou bondosamente o estadista.

— Sim, senhor. Sinto muito. Não queria ser indiscreto. Só que as circunstâncias...

— Justificavam uma mudança — terminou Winthrop. — E foi o que aconteceu, como sabe. Eu recrutei Scofield. Estou certo de que isso consta da ficha dele. Imagino que é por isso que está aqui esta noite.

— Então há uma ligação... ? — Congdon não completou a frase.

— Sim, há. Senti-me responsável.

— Mas sem dúvida aconteceram outros incidentes, com outros homens... e com outras mulheres.

— Não iguais a esse, Sr. Congdon. Sabe o motivo por que escolheram a mulher de Scofield como alvo naquela tarde em Berlim Oriental?

— Imagino que a emboscada fosse para Scofield. Apenas foi ela e não ele quem apareceu. Isso acontece.

— Uma emboscada para Scofield? Em Berlim Oriental?

— Ele tinha contatos no setor soviético. Fazia incursões freqüentes ali, organizava suas próprias células. Imagino que pretendiam pegá-lo com a lista de seus contatos. O cadáver dela foi revistado e roubaram sua bolsa. Não é raro.

— Acredita então que ele utilizava a esposa em suas operações? — perguntou Winthrop.

Congdon assentiu.

— Isso também não é raro.

— Não é raro? Pois receio que no caso de Scofield seja impossível. Ela era parte de sua camuflagem, mas não tinha qualquer conexão com as atividades secretas do marido. Não, Sr. Congdon, o senhor está errado. Os russos sabiam que nunca apanhariam Scofield numa emboscada em Berlim Oriental. Ele era bom demais, eficiente demais... quase imaterial, invisível. E assim eles atraíram a esposa dele ao outro lado do muro e mataram-na por outra razão.

— Que razão?

— Um homem enfurecido é um homem descuidado. Esse era o objetivo dos soviéticos. Mas eles, da mesma forma que o senhor, enganaram-se a respeito de Scofield. A raiva intensificou sua determinação de ferir o inimigo de todas as formas possíveis. Se antes ele já era de uma brutalidade inteiramente profissional, depois da morte da esposa tornou-se positivamente cruel.

— Ainda não estou entendendo muito bem.

— Tente, Sr. Congdon — disse Winthrop. — Há vinte e dois anos conheci um bacharelando de Administração Pública na Universidade Harvard, um jovem com real talento para línguas e uma capacidade de liderança que lhe pressagiavam um futuro brilhante. Convenci-o a entrar para o Departamento. Enviaram-no para a Escola Maxwell em Syracuse e depois transferiram-no para Washington onde ingressou nas Operações Consulares. Parecia um belo início para uma carreira brilhante no Departamento de Estado — Winthrop fez uma pausa e seu olhar tornou-se distante como se estivesse imerso em lembranças do passado. — Nunca esperei que ele ficasse nas Operações Consulares. Por estranho que isso lhe possa parecer agora, pensei que aquilo seria apenas uma espécie de trampolim para ele pular para o Corpo Diplomático. Imaginei-o até embaixador. Com seus dons, seu lugar era nas mesas de conferências internacionais. Mas algo aconteceu — continuou o estadista, voltando o olhar distraído para o novo diretor. — Assim como as Operações Consulares sofreram modificações, Brandon também modificou-se. Quanto mais vital era a importância dos especialistas cuja fuga pretendíamos, mais rapidamente se recorria à violência. Nos dois lados. Logo Scofield recebeu treinamento de comando, passando cinco meses na América Central, onde se exercitou nas técnicas mais severas de sobrevivência — tanto ofensivas como defensivas. Aprendeu dezenas de códigos e cifras e tornou-se tão competente no assunto quanto qualquer criptógrafo da Agência de Segurança Nacional. Então voltou à Europa e virou o perito.

— Ele compreendeu os requisitos do trabalho — ajuntou Cong­don, favoravelmente impressionado. — Muito louvável, eu diria.

— Ah, sim, muito — concordou Winthrop —, mas não havia como voltar atrás do ponto em que ele chegara. Nunca mais seria aceito numa mesa de conferências. Sua reputação estava firmada. Protestariam contra sua presença nos termos mais incisivos. O jovem e brilhante bacharel que eu recrutara para o Departamento de Estado era agora um matador. Não importa quais fossem as justificativas, ele era um matador profissional.

Congdon remexeu-se inquieto em sua poltrona.

— Muitos diriam que ele era um soldado em ação numa batalha perigosa e sem descanso. Ele precisava sobreviver, Sr. Winthrop.

— Precisava, sim, e sobreviveu — admitiu o velho cavalheiro. — Scofield foi capaz de mudar, adaptar-se às novas regras. Mas eu não fui. Quando mataram a mulher dele, compreendi que precisava me afastar. Vi o que havia feito: recrutara um estudante talentoso para determinado objetivo e vira aquele objetivo ser deturpado. Assim como a finalidade humanitária das Operações Consulares fora deturpada — por circunstâncias que exigiram as alterações já mencionadas. Assim, tive de assumir minhas próprias limitações. Não podia mais continuar lá.

— Contudo, o senhor pediu que o mantivessem informado sobre as atividades de Scofield durante vários anos. Isso consta da ficha dele. Posso perguntar o motivo?

Winthrop franziu o cenho como se estivesse procurando a resposta.

— Não tenho certeza. Creio que por um compreensível interesse pelo homem, talvez até fascinação. Ou talvez por autopunição, não excluo essa hipótese. Às vezes deixava os relatórios vários dias em meu cofre antes de lê-los. E, naturalmente, depois de Praga, não os quis mais receber. Estou certo de que isso também consta da ficha.

— Consta, sim. Acho que se refere ao incidente do mensageiro, não é?

— É — admitiu Winthrop baixinho. — “Incidente” é um termo muito impessoal, não é? Ajusta-se bem ao Scofield daquele relatório: o matador profissional motivado pela necessidade de sobreviver — como um soldado sobrevive, transformado num assassino de sangue-frio, impulsionado apenas pela vingança. A mudança foi total.

O novo diretor das Operações Consulares mudou novamente de posição e cruzou as pernas, constrangido.

— Ficou provado que o mensageiro de Praga era irmão do agente da KGB que ordenou a morte da esposa de Scofield.

— Era só o irmão, não o homem que dera a ordem. Era apenas um rapazola, um mensageiro sem importância.

— Que poderia ter se transformado em outra coisa.

— Até onde isso levaria?

— Não sei responder. Mas posso compreender por que Scofield fez o que fez. Talvez tivesse feito o mesmo.

— Não lhe feriria o senso de justiça? — retrucou o idoso estadista. — Não creio que eu o fizesse. Também não creio que o jovem que conheci em Cambridge há vinte e dois anos o tivesse feito. Será que estou sendo claro?

— Dolorosamente claro, senhor. Mas em minha defesa — e em defesa do Scofield atual — preciso lembrar que não fomos nós que criamos o mundo em que operamos. É uma ressalva justa.

— Dolorosamente justa, Sr. Congdon. Mas os senhores o perpetuam. — Winthrop levou a cadeira até a escrivaninha, pegou uma caixa de charutos e ofereceu-a ao diretor, que sacudiu a cabeça numa negativa. — Também não gosto de charutos, mas desde Jack Kennedy tornou-se moda tê-los à mão.

— Se bem me lembro, o fornecedor canadense de havanas era a fonte de informação mais precisa que o presidente Kennedy tinha sobre Cuba.

— O senhor já estava conosco naquela época?

— Entrei para a Agência de Segurança Nacional quando ele era senador... O senhor sabia que Scofield deu para beber de uns tem­pos para cá?

— Nada sei sobre o Scofield atual, como o chama.

— Na ficha dele consta que ingeria bebidas alcoólicas, mas sem excessos.

— Era de se esperar. O álcool interferiria em seu trabalho.

— Pode estar interferindo agora.

— Pode estar? Está ou não está? Não me parece difícil de descobrir. Se ele está bebendo muito, terá de interferir. Lamento saber disso, mas não posso dizer que esteja surpreendido.

— Realmente? — Congdon inclinou-se para a frente. Era evidente que julgava estar prestes a receber a informação que procurava. — No tempo em que o conhecia bem, notou algum sinal de possível instabilidade?

— Absolutamente.

— Mas o senhor disse que não se surpreendia.

— E não me surpreendo. Não me surpreenderia se qualquer homem lúcido começasse a beber após longos anos de uma vida tão anormal. Posso me surpreender apenas que tenha sido necessário tanto tempo para que isso o afetasse. O que terá mantido sua sanidade durante as longas noites?

— Os homens condicionam-se. Como o senhor mesmo disse, ele adaptou-se, e com extremo sucesso.

— Mas mesmo assim de forma anormal — reafirmou Winthrop. — Que pretendem fazer com ele?

— Ele foi chamado à sede. Quero afastá-lo do campo de ação.

— Ótimo. Dê-lhe uma mesa e uma secretária atraente e mande-o analisar problemas teóricos. Não é assim que costumam fazer?

Congdon hesitou antes de responder.

— Sr. Winthrop, acho que quero vê-lo bem longe do Departamento de Estado.

O criador das Operações Consulares ergueu as sobrancelhas:

— É mesmo? Vinte e dois anos de serviço não bastam para uma pensão decente.

— Isso não é problema. Hoje em dia, é comum fazermos acordos generosos.

— O que ele fará então de sua vida? Que idade tem? Uns quarenta e cinco... ou seis?

— Quarenta e seis.

— Ainda não está pronto para uma dessas, não é? — disse o estadista alisando as rodas de sua cadeira de enfermo. — Posso perguntar por que tomou essa decisão?

— Não o quero perto do pessoal envolvido em nossas atividades secretas. Segundo as últimas informações, ele mostrou-se hostil à nossa política básica. Poderia tornar-se uma influência negativa.

Winthrop sorriu.

— Então alguém deve ter feito alguma besteira. Bray nunca teve muita paciência com tolos.

— Falei em política básica. Personalidades não estão em questão.

— Infelizmente, Sr. Congdon, as duas coisas não se separam. São as personalidades que formam a política básica. Mas isso provavelmente é irrelevante a esta altura. Mas por que me procurou? É óbvio que já tomou uma decisão. Que mais deseja?

— Sua opinião. Como ele reagiria? Podemos confiar nele? Scofield sabe mais sobre nossas operações, contatos e táticas do que qualquer outro homem na Europa.

O olhar de Winthrop tornou-se subitamente frio.

— E que alternativa sugere, Sr. Congdon? — perguntou em tom gélido.

O novo diretor corou, compreendendo as ilações de seu interlocutor.

— Vigilância, controle, interceptação de correspondência e telefones. Estou sendo honesto com o senhor.

— Está mesmo? — Winthrop agora fuzilava com o olhar o homem a sua frente. — Ou está esperando ouvir de mim uma palavra, ou uma pergunta, que justifique outra solução?

— Não sei o que quer dizer.

— Acho que sabe. Acidentalmente, soube o que se faz nesses casos, e fiquei horrorizado. Praga, Berlim ou Marselha são informados de que certo homem não merece mais a sanção do Departamento. Chegou ao fim, está acabado, inquieto, bebe demais. Pode revelar o nome de contatos, pôr em perigo toda uma rede. Em suma, o alarme espalha-se: suas vidas estão ameaçadas. Assim, combina-se que outro homem ou, talvez, uns dois ou três peguem um avião em Praga, Berlim ou Marselha e venham a Washington com um único objetivo: silenciar o homem que está liquidado. Então, todos relaxam e o serviço secreto americano — que se manteve fora desse incidente — respira aliviado. Sim, Sr. Congdon, isso me horroriza.

O diretor das Operações Consulares permaneceu imóvel. Sua resposta veio em tom tranqüilo:

— Que eu saiba, Sr. Winthrop, esses incidentes... têm sido tremendamente exagerados, sem qualquer proporção com a realidade. Novamente vou ser completamente sincero consigo. Em quinze anos, que eu saiba, isso só aconteceu duas vezes, e nos dois casos os agentes afastados não tinham mais salvação. Haviam se vendido aos soviéticos e estavam passando informações.

— E Scofield também “não tem mais salvação”? Foi essa a sua expressão, não é?

— Se quer saber se eu penso que ele se vendeu, a resposta é não. É a última coisa que ele faria. Na verdade, confesso que vim aqui para saber mais sobre ele. Como reagirá ao saber que sua carreira terminou?

Winthrop fez uma pausa, obviamente aliviado, e então tornou a franzir o cenho.

— Não sei, pois não conheço o Scofield atual. Trata-se de uma medida drástica. O que ele fará? Não existem meias medidas?

— Se eu encontrasse uma que ambos considerássemos aceitável, eu a adotaria sem hesitar.

— Se eu fosse o senhor, tentaria encontrá-la.

— Ele terá de ficar longe de nosso pessoal, disso estou convencido.

— Então, posso fazer uma sugestão?

— Será um favor.

— Mande-o para o mais longe que puder. Para algum lugar onde ele encontre paz e esquecimento. Faça o senhor mesmo a sugestão, ele entenderá.

— Será?

— Sim, Bray não é homem que tente enganar-se, pelo menos nunca foi. Era uma de suas melhores qualidades. Entenderá porque eu acho que entendo. Acho que o senhor me descreveu um moribundo.

— Não existem indícios clínicos de tal coisa.

— Ora, pelo amor de Deus! — retrucou Robert Winthrop.

 

Scofield desligou o aparelho de televisão. Há vários anos não via um programa americano de notícias, desde a última vez que voltara para um período de instrução entre operações, e a dose bastara para alguns anos. Não que achasse que todas as notícias devessem ser transmitidas em tons graves e fúnebres, mas as risadinhas e os ares maliciosos que agora acompanhavam as descrições de incêndios e estupros lhe pareciam intoleráveis.

Olhou o relógio. Deviam ser 7h20min, embora o mostrador ainda acusasse meia-noite e 20, hora de Amsterdam. Tinha hora marcada no Departamento de Estado às 8h.

Da noite. Isso era comum, tratando-se de especialistas de seu- gabarito; o que não era comum era o local da entrevista. Adidos especiais das Operações Consulares invariavelmente recebiam instruções estratégicas em locais seguros, geralmente afastados, em Maryland, ou talvez num quarto de hotel no centro da cidade.

Nunca no Departamento de Estado. Não no caso de especialistas que deviam voltar à ação. E Bray sabia que não havia nada programado para ele no futuro. Fora chamado à sede com um único fito: desligamento.

Vinte e dois anos e ele estava acabado. Uma partícula ínfima de tempo em que se condensava tudo que ele sabia — tudo que aprendera, absorvera, deduzira. Continuava esperando sentir alguma reação, mas não sentia nada. Era como se fosse um espectador olhando as imagens de uma outra pessoa numa parede branca, o fim inevitável cada vez mais próximo, sem que fosse afetado pelos acontecimentos. Apenas estava levemente curioso. Como iriam agir?

 

As paredes do escritório do subsecretário de Estado Daniel Congdon eram brancas. Havia certo conforto naquilo, pensou Scofield, ouvindo distraído a arenga monótona de Congdon. Ele podia olhar as imagens. Rosto após rosto, dezenas deles, entravam em foco e rapidamente esmaeciam. Rostos lembrados e esquecidos, fitando-o, pensando, chorando, rindo, morrendo... mortos.

Sua esposa. Cinco horas da tarde. Unter den Linden.

Homens e mulheres correndo, detendo-se. A luz do sol, nas sombras.

Mas onde estava ele? Ele não estava ali. Era um espectador.

Então, subitamente, deixou de sê-lo. Não tinha a certeza de ter ouvido as palavras corretamente. Teria aquele frio e eficiente subsecretário dito “Berna, Suíça?”

— Pode repetir, por favor?

— Os fundos serão depositados em seu nome, dotações adequadas a serem corrigidas anualmente.

— Isso além da pensão a que tenho direito?

— Sim, Sr. Scofield. E, por falar nisso, sua folha de serviço foi pré-datada. O senhor receberá a pensão máxima.

— Está sendo muito generoso.

Estava mesmo. Num cálculo rápido, Bray estimou sua renda em cinqüenta mil dólares anuais.

— Apenas prático. Esses fundos deverão substituir quaisquer proventos que o senhor pudesse ter com a venda de livros ou artigos baseados em suas atividades nas Operações Consulares.

— Compreendo — disse Bray devagar. — Tem havido muito disso ultimamente, não é? Marchetti, Agee, Snepp.

— Exatamente.

Aqueles cretinos não aprendiam nunca. Scofield não se conteve:

— Acaso o senhor está insinuando que, se tivessem oferecido dinheiro, eles não teriam escrito o que escreveram?

— Os motivos variam, mas essa é uma possibilidade que não desprezamos.

— Pois podem desprezar — retrucou Bray, rispidamente. — Conheço bem dois desses homens.

— O senhor está rejeitando nossa oferta?

— Não, porra! Eu aceito. Mas quando decidir escrever um livro o senhor será o primeiro a saber.

— Não o aconselharia a fazer isso, Sr. Scofield. Tais quebras de sigilo são proibidas. O senhor será processado e poderá passar anos na cadeia.

— E se acaso os senhores perderem nos tribunais poderei sofrer certas penalidades extralegais, como, por exemplo, um tiro na cabeça quando estiver dirigindo, bem no meio do tráfego.

— As leis são bem claras — replicou o subsecretário. — Essa hipótese sua é uma fantasia.

— Não é, não. Leia minha ficha Quatro-Zero. Treinei com um homem em Honduras. Mais tarde matei-o em Madri. Ele era de Indianápolis e chamava-se...

— Não estou interessado em suas atividades passadas —interrompeu rudemente Congdon. — Quero apenas que cheguemos a um entendimento.

— Chegaremos, pode ficar tranqüilo. Não vou infringir as regras de segurança. Não tenho estômago para isso. E minha bravura também não chega a tanto.

— Escute, Scofield — disse o subsecretário, recostando-se na cadeira com uma expressão de amabilidade: — Sei que vai parecer um lugar-comum, mas para todos nós chega o momento de nos afastarmos das áreas mais ativas de nosso trabalho. Quero ser honesto com o senhor.

Bray sorriu, um sorriso amargo.

— Sempre fico nervoso quando alguém me diz isso.

— Isso o quê?

— Que quer ser honesto. É como se a honestidade não fosse algo que normalmente devêssemos esperar.

— Eu estou sendo honesto.

— E eu também. E se acaso está pensando que vou me rebelar está enganado. Vou deixá-los de modo rápido e discreto.

— Mas não queremos que faça isso — retrucou Congdon, inclinando-se para a frente, os cotovelos sobre a mesa.

— É?

— Naturalmente que não. Um homem com sua folha é extremamente valioso para nós. As crises vão continuar a aparecer, e gostaríamos de poder contar com sua perícia.

Scofield estudou seu interlocutor.

— Mas não no campo de ação. Era uma afirmação.

— Não, não oficialmente. E naturalmente vamos querer estar a par do seu paradeiro, de suas viagens.

— Aposto que vão — disse Bray baixinho. — Mas oficialmente minha carreira está encerrada.

— Sim. Contudo, isso é confidencial, um assentamento Quatro-Zero.

Scofield não se moveu. Tinha a sensação de que estava em ação, preparando-se para uma troca arriscada.

— Espere um instante, deixe-me entender bem. O senhor quer me afastar do serviço, mas sem que ninguém saiba disso. E, embora eu esteja oficialmente desligado, quer que mantenha contato em base permanente.

— Seus conhecimentos nos são valiosos, e o senhor sabe disso, E acho que estaremos pagando muito bem por eles.

— Então, por que o assentamento Quatro-Zero?

— Julguei que isso lhe agradaria. O senhor conservará certo status sem responsabilidades oficiais. Continuará parte da unidade.

— Gostaria de saber o porquê dessa solução.

— Mas que diabos... — Congdon calou-se com um sorriso ligeiramente embaraçado. — É que realmente não desejamos perdê-lo.

— Então por que me afastam?

O sorriso desapareceu do rosto do subsecretário.

— Porque me pareceu melhor. Pode perguntar a um velho amigo seu, Robert Winthrop. Disse-lhe a mesma coisa.

— Winthrop? Que disse a ele?

— Que não o quero mais por aqui. E estou disposto a pagar e modificar seus registros para que se afaste. Ouvi suas declarações em Amsterdam. Charles Englehart gravou suas palavras.

Bray assobiou baixinho.

— O velho Charlie... Devia ter adivinhado.

— Pensei que tivesse. Pensei que estivesse nos enviando um recado particular. De qualquer forma, nós o recebemos. Temos muito o que fazer e sua obstinação e seu cinismo são desnecessários aqui.

— Finalmente estamos chegando a algum lugar.

— Mas tudo o mais é verdade. Precisamos de seus conhecimentos. Precisamos poder entrar em contato com o senhor a qualquer tempo. O senhor precisa manter contato conosco.

Bray fez um gesto de assentimento.

— E o assentamento Quatro-Zero significa que meu afastamento é ultraconfidencial. O resto do pessoal não saberá que fui desligado.

— Isso mesmo.

— Está certo — disse Scofield pegando um cigarro no bolso. — Acho que está se dando muito trabalho desnecessário para me manter na reserva, mas, como o senhor mesmo disse, está pagando para isso. Uma simples ordem de ação — afastado até rescisão, categoria especial — obteria o mesmo resultado.

— Não. Provocaria perguntas demais. Assim é mais fácil.

— É mesmo? — Bray acendeu o cigarro, os olhos sorridentes. — Está bem.

— Ótimo. — Congdon remexeu-se na cadeira. — Estou satisfeito por nos termos entendido. O senhor mereceu tudo que ganhou até hoje e estou certo de que continuará merecendo... Estava lendo sua ficha esta manhã: o senhor gosta do mar. Há centenas de assentamentos de contatos feitos em barcos à noite. Por que não experimenta navegar ao sol? Por que não vai para algum lugar como o Caribe gozar um pouco a vida? Eu o invejo.

Bray levantou-se. A entrevista chegara ao fim.

— Obrigado, talvez eu vá. Gosto de climas quentes — estendeu a mão e Congdon apertou-a. Nisso Scofield acrescentou: — Sabe, essa história de assentamento Quatro-Zero me deixaria nervoso se não me tivessem chamado aqui.

— Que está querendo dizer? — as mãos continuaram apertadas, mas imobilizadas.

— Bem, nossos homens não saberão que fui afastado, mas os soviéticos sim, e não me incomodarão mais. Quando alguém como eu é afastado de ação, tudo muda: contatos, códigos, cifras, locais de encontro, nada permanece igual. Eles conhecem as regras e vão deixar-me em paz. Muito obrigado.

— Não estou entendendo muito bem — disse o subsecretário.

— Ora, vamos, já disse que estou grato. Ambos sabemos que agentes da KGB em Washington mantêm as câmaras focalizadas neste local vinte e quatro horas por dia. Nenhum especialista que deverá continuar em ação é chamado aqui. Já faz uma hora que eles sabem que fui afastado. Outra vez obrigado, Sr. Congdon. Foi muita consideração de sua parte.

Sob o olhar do diretor das Operações Consulares, subsecretário de Estado, Scofield atravessou a sala e fechou a porta atrás de si.

Estava acabado. Tudo. Nunca mais teria de voltar correndo para algum anti-séptico quarto de hotel para ver se chegara alguma mensagem cifrada. Não seria mais necessário planejar três mudanças de veículos para ir do ponto A ao ponto B. Apesar de ter mentido a Congdon, era bem provável que os soviéticos já soubessem, a essa altura, que ele fora afastado. Se ainda não sabiam, logo iriam saber. Após alguns meses de inatividade, a KGB compreenderia que ele deixara de ser útil. As normas eram imutáveis: as táticas e os códigos seriam alterados. Os soviéticos deixá-lo-iam em paz. Não o matariam.

Mas tivera de mentir a Congdon, nem que só para ver a expressão de seu rosto. “Gostaríamos de manter esse assunto confidencial, um assentamento Quatro-Zero.” O homem era tão transparente... Acreditava mesmo ter criado o clima propício para a execução de seu próprio agente, um homem que considerava perigoso. Um agente supostamente ativo seria assassinado pelos soviéticos, e o Departamento de Estado negaria qualquer responsabilidade, afirmando sem dúvida que o morto rejeitara as medidas de segurança.

Os cretinos não mudavam nunca, mas sabiam muito pouco. Execuções desse tipo eram inúteis, as repercussões, com freqüência, perigosas demais. Matava-se sempre com algum motivo: descobrir alguma coisa, remover um elo vital numa cadeia, para evitar algum acontecimento. Ou para dar determinada lição. Mas sempre com algum motivo.

Exceto em circunstâncias como as de Praga, e mesmo aquilo poderia ser considerado uma lição. Um irmão por uma esposa.

Mas tudo estava acabado. Não precisava mais planejar estratégias, nem tomar decisões que resultassem na defecção ou na volta de alguém, vivo ou morto. Estava acabado.

Talvez agora até mesmo os quartos de hotéis, as camas fedorentas de pensões decadentes em bairros de má fama numa centena de cidades tivessem fim: estava tão cansado delas. Detestara todas elas. Com a exceção de um curto e único período — curto demais, terrivelmente curto —, há vinte e dois anos não residia num local que pudesse considerar um lar.

Mas aquele período dolorosamente curto, vinte e sete meses dentro de uma vida inteira, fora o bastante para sustentá-lo através da agonia de milhares de pesadelos. As lembranças nunca o deixavam; elas o manteriam de pé; o sustentariam até o dia de sua morte.

O pequenino apartamento em Berlim Ocidental fora o ninho de sonhos, amor e riso que nunca julgara poder conhecer. Sua linda Karine, sua adorável Karine, de olhos grandes e curiosos, do riso que brotava de dentro, dos momentos silenciosos em que o tocava. Ela era dele, e ele era dela, e então...

Morte na Unter den Linden.

Oh, Deus! Um telefonema e uma senha. O marido precisava dela. Desesperadamente. Procure certo guarda, atravesse a fronteira. Depressa!

E um porco da KGB certamente rira. Até Praga. Depois de Praga ele deixara de rir.

Scofield sentiu os olhos arderem. Umas poucas e súbitas lágrimas tinham feito contato com o vento noturno. Ele enxugou-as com a luva e atravessou a rua.

Do outro lado, na fachada iluminada de uma agência de viagens, cartazes mostravam corpos idealizados e irreais bronzeando-se ao sol. Aquele amador de Washington, Congdon, estava certo num ponto: o Caribe era uma boa idéia. Nenhum serviço secreto de respeito mandava agentes para as ilhas do Caribe com receio de perdê-los. Uma vez nas ilhas, os soviéticos saberiam que ele estava fora de ação. Há muito tempo desejava passar umas férias nas ilhas Granadinas. Por que não agora? No dia seguinte de manhã ele...

O vulto refletia-se no vidro — minúsculo, obscuro, lá do outro lado da larga avenida, quase imperceptível. Bray não o teria notado se o homem não se tivesse desviado do caminho para evitar a claridade de um poste. Quem quer que fosse, queria a proteção das sombras. Quem quer que fosse, o estava seguindo. E era bom profissional. Nada de movimentos abruptos, saltos repentinos para fugir da luz. O andar era casual, desembaraçado. Scofield perguntou-se se seria alguém treinado por ele.

Apreciava o profissionalismo, e teria elogiado o homem, com votos de que lhe confiassem um alvo mais fácil da próxima vez. O Departamento de Estado não queria perder tempo. Congdon devia estar aflito à espera dos relatórios. Bray sorriu. Forneceria a primeira notícia ao subsecretário. Não a que ele desejava, mas a que merecia.

O divertimento começou, uma curta pavana entre profissionais. Scofield afastou-se da vitrina da loja aumentando o passo até chegar à esquina onde os círculos de luz dos quatro postes de iluminação sobrepunham-se uns aos outros. Ali dobrou abruptamente para a esquerda como se pretendesse voltar à outra calçada, mas deteve-se no meio da rua. Parou no asfalto e olhou para cima, para a placa da rua — um homem confuso, incerto quanto a seu paradeiro. Então, virou-se e voltou para a calçada, aumentando a velocidade até que estava praticamente correndo ao atingir o meio-fio. Seguiu pela calçada até a primeira loja apagada e então mergulhou na escuridão da entrada e esperou.

Através dos vidros da vitrina, tinha uma visão clara da esquina. O homem que o seguia teria de entrar agora nos círculos de luz. Não os poderia evitar, sua presa estava escapando. Não havia tempo para procurar sombras.

Foi o que aconteceu. O vulto de sobretudo atravessou esbaforido a avenida e seu rosto foi atingido pela luminosidade.

Seu rosto foi atingido pela luminosidade.

Scofield imobilizou-se. Os olhos doíam, o sangue subiu-lhe à cabeça. Todo o corpo tremia, e sua parte racional tentou desesperadamente controlar a ira e a angústia que se tinham apoderado dele. O homem na esquina não era do Departamento de Estado. O rosto iluminado não pertencia a ninguém que tivesse a mais remota ligação com o serviço secreto americano.

Pertencia a um agente da KGB. KGB — seção de Berlim Oriental.

Era um dos rostos da meia dúzia de fotografias que ele estudara em Berlim dez anos antes — estudara até saber de cor cada traço, cada fio de cabelo.

Morte na Unter den Linden. Sua bela Karine, sua adorável Ka-rine. Apanhada à traição no outro lado da fronteira numa emboscada armada pelo assassino mais sujo de toda a URSS: V. Taleniekov, um animal.

Esse era um daqueles homens. Daquela unidade. Um dos carrascos de Taleniekov.

Aqui! Em Washington! Alguns minutos após seu desligamento!

Então a KGB já sabia. E alguém em Moscou decidira dar um fim espetacular ao desligamento de Beowulf Agate. Só um homem era capaz de pensar com tal precisão. V. Taleniekov. Um animal.

Sem afastar os olhos do homem através dos vidros, Bray decidiu o que ia fazer, o que tinha de fazer. Mandaria uma última mensagem a Moscou. Seria um marco apropriado, um gesto final para assinalar o término de uma vida e o início de outra — qualquer que fosse.

Ele atrairia o assassino da KGB a uma. emboscada. E o mataria.

Scofield deixou o portal e, correndo em ziguezague, atravessou a rua deserta. Podia ouvir atrás de si os passos de alguém que o seguia.

 

O avião da Aeroflot que fazia o vôo noturno Moscou — Sebastopol aproximava-se do mar de Azov, a Nordeste da Criméia. Deveria chegar ao destino à uma da madrugada, dali a pouco mais de uma hora. A aeronave estava cheia; os passageiros, em sua maioria, jubilosos, em férias de fim de ano, longe das fábricas e escritórios. Uns poucos militares — soldados e marinheiros — estavam menos exuberantes: para eles, o mar Negro não significava férias, mas a volta ao trabalho nas bases aéreas e navais. Esses já tinham gozado suas licenças em Moscou.

Num dos últimos bancos via-se um homem segurando firmemente entre os joelhos uma caixa de violino de couro escuro. Suas roupas baratas e amarrotadas estavam em desacordo com o rosto forte e os olhos claros e penetrantes que pareciam pertencer a outro nível. Seus documentos identificavam-no como Pietre Rydukov, músico. Seu passe de vôo declarava apenas que pretendia juntar-se à Orquestra Sinfônica de Sebastopol como terceiro violinista.

Ambas as informações eram falsas. O homem era Vasili Taleniekov, perito estrategista do Serviço Secreto Soviético.

Ex-perito estrategista. Ex-diretor de operações da KGB — em Berlim Ocidental, Varsóvia, Praga, Riga e Setores do Sudoeste que abrangiam Sebastopol, o Bósforo, o mar de Marmara e os Dardanelos. Fora nesse último posto que obtivera os papéis que lhe haviam permitido tomar o avião para Sebastopol. Aquele era o início de sua fuga da Rússia.

Em sua atividade profissional, descobrira e destruíra dúzias de rotas de fuga utilizadas pelos que queriam deixar a União Soviética. Agia implacavelmente, na maioria das vezes matando os agentes do Ocidente que as tinham aberto e induzido descontentes a trair a Rússia com mentiras e promessas de dinheiro. Sempre dinheiro. Ele nunca vacilara em sua guerra a esses mentirosos incitadores de cobiça; nenhuma rota de escape era demasiado insignificante para escapar à destruição.

Exceto uma. Uma pequena rede de fuga através do Bósforo e o mar de Marmara. Ele a descobrira vários meses antes, durante suas últimas semanas como diretor dos Setores do Sudoeste da KGB Soviética. Durante os dias em que tivera de enfrentar atritos diários com idiotas impulsivos das bases militares e driblar ordens imbecis da própria Moscou.

Na época, não soubera ao certo por que não liquidara a rede. Durante algum tempo, convencera-se de que, deixando que ela funcionasse sob estrita vigilância, poderia chegar a peixes maiores. Entretanto, lá no fundo, soubera que a verdade” era outra.

Sua hora estava se aproximando. Estava fazendo um número excessivo de inimigos num número excessivo de lugares. Poderia haver pessoas que achassem que uma aposentadoria tranqüila ao Norte de Grasnov não era a solução adequada para alguém que conhecia todos os segredos da KGB. E agora ele conhecia outro segredo, mais assustador que qualquer outro que o Serviço Secreto Soviético pudesse imaginar. O Matarese. E aquele segredo o estava levando para fora da Rússia.

Tudo acontecera muito depressa, pensou Taleniekov, saboreando o chá quente trazido pelo comissário de bordo. Muito depressa. O diálogo junto ao leito de morte do velho Aleksie Krupskaya, os fatos assombrosos revelados pelo moribundo. Assassinos enviados para executar a elite de uma nação — de duas nações. Jogando os soviéticos contra os americanos. Até controlar um país ou o outro. Um premier e um presidente, um deles ou ambos na alça de mira. Quem seriam eles? O que era aquela febre que começara nas primeiras décadas do século na Córsega? A febre corsa. O Matarese.

Mas ele existia — e estava funcionando — bem vivo e mortal. Agora sabia disso. Falara seu nome e por ter falado colocara em movimento um plano que visava sua prisão; cedo viria a sentença de execução.

Krupskaya dissera-lhe que procurar o premier estava fora de questão; sendo assim, ele se dirigira a quatro antigos líderes do Kremlin, outrora poderosos e agora generosamente aposentados, o que significava que ninguém os ousaria tocar. A cada um falara sobre o estranho fenômeno denominado Matarese, repetindo as palavras sussurradas pelo Istrebiteli moribundo.

Um deles obviamente nada sabia e ficara tão assombrado quanto o próprio Taleniekov. Dois outros nada admitiram, mas foram traídos pelos olhares e vozes assustados com que protestaram ignorância. Nenhum deles quis participar da divulgação de tal loucura e ambos expulsaram Vasili de suas casas. O último homem, um nativo da Geórgia, era o mais velho dos quatro — mais velho que o falecido Krupskaya — e, apesar da postura empertigada, teria pouco tempo para aproveitar a espinha ainda rígida. Tinha noventa e seis anos e uma mente lúcida que, entretanto, foi rapidamente dominada pelo medo. À menção do nome Matarese, as mãos magras cheias de veias tremeram e minúsculos espasmos sacudiram-lhe o rosto encarquilhado. A garganta ficou subitamente seca, a voz faltou-lhe e mal conseguiu fazer-se ouvir.

Aquele nome estava enterrado no passado remoto, sussurrara o velho georgiano, e ninguém deveria ouvi-lo. Ele sobrevivera aos primeiros expurgos, sobrevivera ao louco Stalin, ao insidioso Beria, mas ninguém conseguiria sobreviver ao Matarese. Em nome de tudo que era sagrado para a Rússia, suplicara o aterrorizado ancião, afaste-se do Matarese!

— Nós fomos uns idiotas, mas não os únicos. Homens poderosos em todo o mundo foram seduzidos pela fantástica conveniência de verem inimigos e obstáculos eliminados. A garantia era absoluta, nenhum indício ligava as execuções aos mandantes. As negociações referindo-se a compras fictícias eram sempre feitas através de quatro ou cinco intermediários que desconheciam a natureza das transações. Krupskaya percebera o perigo. Em 48, advertiu-nos para que nunca mais fizéssemos contato com eles.

— Mas por que ele teria dito isso? — perguntara Vasili. — Eles não eram eficientes?

— Porque os Matareses acrescentaram uma condição: o Conselho Matarese exigia a prerrogativa de aprovação. Foi o que me disseram.

— Essa é uma exigência habitual dos assassinos de aluguel — retrucara Taleniekov. — Alguns alvos são simplesmente inatingíveis.

— A aprovação prévia nunca fora exigida antes. Krupskaya achava que essa aprovação nada tinha a ver com a exeqüibilidade da tarefa.

— De que dependia, então?

— Seu fito era a extorsão.

— Como faziam contato com esse Conselho?

— Eu nunca soube, nem Aleksie.

— Mas alguém tinha de saber.

— Se essas pessoas ainda estão vivas, nunca falarão. Krupskaya tinha razão.

— Ele apelidou a organização de “Febre Corsa” e sugeriu que eu talvez encontre as respostas na Córsega.

— é possível. Foi lá que tudo começou com o maníaco corso Guillaume de Matarese.

— O senhor ainda exerce influência sobre os líderes do Partido. Quer me ajudar? Krupskaya disse-me que esse Matarese deve ser...

— Não! — berrara o ancião. — Deixe-me em paz! Já disse mais do que devia, admiti mais do que tinha o direito de admitir. Mas apenas como uma advertência, para detê-lo! O Matarese não pode fazer nenhum bem à Rússia! Afaste-se dele.

— O senhor não me entendeu. Sou eu quem quer detê-los... a esse tal Conselho Matarese. Dei minha palavra a Aleksie que...

— Você não me disse nada! — gritara o encarquilhado e outrora poderoso líder, a voz infantilizada pelo pânico. — Negarei que tenha estado aqui, negarei tudo que disser! Você é um estranho, e não o conheço!

Perturbado, perplexo, Vasili saíra. Voltara ao apartamento com a idéia de passar a noite analisando aquele enigma que era o Matarese, tentando decidir o próximo passo. Como de hábito, dera uma olhada na caixa de correspondência e chegara mesmo a dar-lhe as costas antes de perceber que havia alguma coisa lá dentro.

Era um bilhete do seu contato na VKR, escrito num dos códigos previamente combinados entre eles. As palavras eram inócuas: uma resposta positiva a um convite para uma ceia às llh30min assinada com um prenome feminino. A banalidade do bilhete ocultava uma emergência: surgira uma novidade importante. Ele não deveria perder tempo fazendo contato, seu amigo estaria à espera no lugar combinado.

Ele já estivera lá antes. Um piva kafe perto da Universidade Estadual de Lomonosov, um bar barulhento em sintonia com a nova permissividade estudantil. Os dois homens dirigiram-se aos fundos do estabelecimento. Ali o contato não perdeu nenhum segundo para abordar o problema.

— Você precisa ir embora, Vasili. Está na lista negra deles. Não entendo, mas é o que consta.

— Será por causa do judeu?

— É, sim, e isso não faz o menor sentido! Quando deram aquela entrevista idiota à imprensa em Nova York, todos nós da divisão demos boas risadas. Mais uma surpresa de Taleniekov, dissemos. Até um chefe de seção do Grupo Nove disse que admirara o que você tinha feito, que você dera uma boa lição àquelas cabeças, de asno impulsivos. Então, ontem, tudo mudou. O que você fez deixou de ser piada para transformar-se em grave interferência com nossa política básica.

— Ontem? — perguntara Vasili ao amigo.

— No final da tarde. Depois das quatro horas. Aquela diretora filha da puta percorreu as salas como uma gorila no cio que tivesse farejado uma curra e estivesse adorando a idéia. Ordenou a todos os homens da divisão que fossem ao escritório às cinco horas. Ficamos pasmos ao ouvirmos o que ela tinha a dizer. Era como se fosse você pessoalmente responsável por todos os fracassos que tivemos nos dois últimos anos. Todos aqueles loucos do Grupo Nove estavam lá, menos o chefe da seção.

— Quanto tempo me resta?

— Calculo no máximo uns três ou quatro dias... Eles estão reunindo provas incriminadoras contra você. Mas na moita, o assunto não deve nem ser comentado.

— Ontem, é... ?

— Que aconteceu, Vasili? Não me parece coisa da VKR, trata-se de algo diferente.

Esse algo diferente, como Vasili instantaneamente percebeu, é que fora justamente na véspera que ele procurara os dois antigos funcionários do Kremlin que o tinham expulso de suas casas. Esse algo diferente era o Matarese.

— Um dia lhe conto, meu amigo — respondera Vasili. — Con­fie em mim.

 

— Naturalmente. Você é nosso melhor homem. O melhor que já tivemos.

— Agora, preciso de umas trinta e seis, talvez quarenta e oito horas. Será que as terei?

— Acho que sim. Eles querem sua cabeça, mas serão cautelosos. Vão documentar-se o máximo possível.

— Acredito. Precisarão de um necrológio para ler no enterro. Obrigado. Você terá notícias minhas.

Vasili não voltou ao apartamento. Foi para o escritório onde ficou horas sentado no escuro até chegar àquela extraordinária decisão. Horas antes, tal hipótese nem entraria em cogitação, mas agora era diferente. Se o Matarese era capaz de corromper os mais altos escalões da KGB, poderia fazer o mesmo em Washington. Se a mera menção de tal nome provocara uma sentença de morte para um estrategista do seu nível — e não havia engano possível, o objetivo era sua eliminação —, então eles possuíam um poder inimaginável. Se na verdade o Matarese fora responsável pelos assassinatos de Blackburn e Yurievich, então Krupskaya tinha razão. Havia um cronograma que já estava em execução, e a alça da mira já se dirigia para o presidente ou o premier. Ele precisava entrar em contato com um homem que detestava. Tinha de encontrar Brandon Scofield, o assassino americano.

De manhã, Taleniekov tomou as primeiras providências. Com sua habitual — ainda que agora cerceada — liberdade de ação, espalhou discretamente a notícia de que iria incógnito ao mar Báltico para uma conferência. Em seguida, vasculhou os arquivos da Sociedade de Proteção aos Músicos até encontrar um nome que lhe serviria: o de um violinista que se aposentara cinco anos antes e fora para os montes Urais. Por último, acionara os computadores à procura de uma pista do paradeiro de Brandon Scofield. O americano evaporara-se em Marselha, mas acontecera em Amsterdam um incidente com o selo inconfundível da perícia de Scofield. Vasili enviou uma mensagem cifrada para um agente em Bruxelas, um homem em quem podia confiar, alguém a quem salvara a vida mais de uma vez.

“Procure Scofield, condições brancas. Amsterdam. Absolutamente necessário fazer contato. Não o perca. Investigue situação códigos setor Sudoeste.”

Tudo acontecera muito depressa e Taleniekov sentia-se grato pelos anos que lhe haviam possibilitado tomar decisões rápidas. Sebastopol ficava a menos de uma hora de distância. Em Sebastopol — e mais além — aqueles anos de experiências árduas iam ser testados.

 

Reservou um quarto num pequeno hotel do Bulevar Chervonesus e em seguida telefonou para um número na sede da KGB em que as conversações não eram gravadas. Ele próprio instalara o aparelho.

A VKR em Moscou ainda não dera o alarme à sua procura. Isso ele verificou pela acolhida calorosa, condizente com a volta de um velho amigo.

— Para ser franco — disse ele ao funcionário de plantão, antigo colega —, estamos tendo novos problemas com a VKR. Eles tornaram a interferir com nossas operações. Talvez vocês recebam um teletipo me convocando. Nesse caso, vocês não tiveram notícias minhas, está certo?

— Não haverá problema se não aparecer por aqui. Você ligou para o número certo. Vai manter a identidade falsa?

— Sim. Não há necessidade de incomodá-lo com meu paradeiro. Estamos ocupados investigando um comboio de caminhões que se dirige para Odessa e depois segue para o Sul através das montanhas. Parece que é uma rede da CIA.

— Isso é bem mais fácil que pescar barcos no Bósforo. Por falar nisso, esse seu projeto tem alguma ligação com Amsterdam?

Taleniekov surpreendeu-se. Não esperara uma resposta tão rápida do seu agente naquele local.

— É possível. O que sabe a respeito?

— Chegou uma mensagem há duas horas. Só agora acabou de ser decifrada. Nosso criptógrafo, o homem que você trouxe de Riga, reconheceu um velho código de seu uso particular. íamos mandá-la para Moscou com os despachos matutinos.

— Não é necessário — disse Vasili. — Leia para mim.

— Espere um pouco. — Houve um ruído de papéis. — Aqui está. “Beowulf retirado de órbita. Nuvens sobre Washington. Sendo imperativo, prosseguirei busca e farei contato branco. Telegrafe instruções estação capitólio.” É só.

— E é o bastante — retrucou Taleniekov.

— Parece importante, Vasili. Um contato branco? Pelo jeito, você conseguiu uma defecção de alto nível. Que ótimo! Isso tem relação com a sua investigação?

— Creio que sim — mentiu Taleniekov. — Mas não espalhe. Mantenha a VKR longe disso.

— Com prazer. Quer que telegrafemos a resposta para você?

— Não — replicou Vasili. — Eu mesmo posso fazê-lo. É coisa de rotina. Telefonarei de novo esta noite, lá pelas nove e meia. Deve dar tempo. Dê lembranças ao meu velho amigo de Riga. Mas a ninguém mais. E obrigado.

— Quando terminar sua sindicância, vamos jantar juntos. é um prazer tê-lo de volta a Sebastopol.

— É um prazer estar de volta. Conversaremos depois.

Taleniekov desligou e concentrou-se na mensagem de Amsterdam. Scofield fora chamado a Washington em circunstâncias anormais. Beowulf Agate provocara uma tempestade no Departamento de Estado. Só esse fato bastava para levar um agente em Bruxelas a lançar-se numa perseguição transatlântica, apesar das despesas.

Um contato em condições brancas significava uma trégua momentânea, e uma trégua em geral significava que alguém estava prestes a tomar uma decisão drástica. E, se existia a mais remota possibilidade de que o lendário Scofield estivesse pensando em passar-se para os russos, o risco valia a pena. O homem que conseguisse a deserção de Beowulf Agate teria todo o Serviço Soviético de Informações a seus pés.

Mas uma defecção era impossível para Scofield... tanto quanto para ele. O Inimigo era o Inimigo, e nada mudaria isso.

Vasili pegou o fone outra vez. Existia no distrito de Lazarev, na zona portuária, um telefone de plantão utilizado por homens de negócios gregos e iranianos para enviar telegramas a seus escritórios no exterior. Se usasse as palavras certas, conceder-lhe-iam prioridade sobre o tráfego usual, e dentro de algumas horas seu telegrama chegaria à “estação do capitólio”: um hotel na Nebraska Avenue em Washington, D.C.

Ele encontraria Scofield em território neutro, em algum lugar onde nenhum dos dois pudesse tirar vantagem do local. Talvez no salão de embarque de uma linha aérea em que as medidas de segurança eram severíssimas. Em Berlim ou em Tel Aviv, não impor-tava, a distância era irrelevante. Mas os dois tinham de se encontrar e Scofield precisava ser convencido da necessidade desse encontro. A mensagem cifrada para Washington instruía o agente de Bruxelas para transmitir a Beowulf Agate o seguinte recado:

 

Nós permutamos sangue que nos era muito caro. Na verdade, perdi mais do que você, embora você não pudesse saber disso. Agora existe quem nos queira culpar por matanças internacionais em tal escala que não nos ê possível sancionar. Precisamos trocar idéias — por mais odioso que isso nos possa ser. Escolha um terreno neutro numa área de segurança de um aeroporto — sugiro a El Al em Tel A viv, ou a linha doméstica alemã em Berlim Ocidental. O mensageiro saberá como me alcançar.

Você sabe meu nome.

 

Eram quase quatro horas da madrugada quando ele fechou os olhos. Não dormia há quase três dias e o sono veio longo e pesado. Adormeceu antes que surgisse qualquer indício de sol no Leste e só acordou uma hora depois que esse se pusera a Oeste. Isso era ótimo. Sua mente e seu corpo necessitavam daquele descanso, e a pessoa que viera procurar em Sebastopol só era acessível à noite.

Ainda faltavam três horas para que o funcionário de plantão chegasse à KGB, e era melhor não envolver mais ninguém na sede. Quanto menos gente soubesse que ele estava na cidade, melhor. O criptógrafo naturalmente sabia, deduzira o fato da mensagem de Amsterdam, mas não diria nada. Taleniekov o havia treinado e transferido o jovem inteligente da vida austera de Riga para a vida mais livre de Sebastopol.

O intervalo de tempo seria bem empregado, pensou Vasili. Comeria e depois tomaria providências para seguir a bordo de um cargueiro grego que atravessaria o mar Negro e, seguindo ao longo da costa sul, atravessaria o estreito de Bósforo, para chegar aos Dardanelos. Se algum membro das unidades gregas ou iranianas a soldo da CIA ou da SAVAK o reconhecessem — o que era bem possível — sua atitude seria inteiramente profissional. Como diretor anterior daquele setor da KGB, não denunciara a rota de fuga por motivos pessoais. Entretanto, se um músico chamado Pietre Rydukov não desse um telefonema para Sebastopol dentro de dois dias após sua partida, uma denúncia seria feita, e as represálias da KGB seguir-se-iam. Seria uma pena: outros homens talentosos, portadores de dons e informações valiosos, poderiam querer utilizar a rota mais tarde.

Taleniekov colocou o sobretudo comum, mal-cortado, e o chapéu surrado. Deixou cair os ombros, curvou a espinha e acrescentou uns óculos de aro de metal. Depois consultou o espelho: sua aparência era satisfatória. A caixa de couro do violino completou o disfarce, pois músico algum deixaria seu instrumento no quarto de um hotel estranho. Saindo para o corredor, desceu as escadas — nunca usava o elevador — e seguiu pelas ruas de Sebastopol. Iria a pé até a zona portuária; sabia aonde ir e o que dizer.

 

O nevoeiro vindo do mar enovelava-se através dos fachos luminosos dos holofotes do cais. Era grande ali a atividade — o cargueiro estava sendo carregado. Guindastes gigantescos levavam enormes vagões de mercadorias para o bojo do navio. Os estivadores eram russos supervisionados por gregos. Soldados circulavam entre eles, as armas casualmente penduradas nos ombros, patrulheiros ineficientes mais interessados em acompanhar o trabalho das máquinas do que em procurar irregularidades.

Se eles quisessem mesmo saber, refletiu Vasili ao se aproximar do oficial junto ao portão de entrada, ele poderia contar-lhes. As irregularidades estavam nos imensos fardos que os guindastes levavam para o interior do navio: homens e mulheres acondicionados em papelão picado, tubos ligando suas bocas a furos de ventilação onde necessários, tendo recebido instruções para esvaziar a bexiga e o intestino horas antes, pois só poderiam aliviá-los bem depois da meia-noite, quando estivessem em mar alto.

O oficial da entrada era um jovem tenente entediado com o seu trabalho, o rosto revelando irritação. Franziu a testa ao ver o velho curvado, de óculos, dirigir-se a ele.

— O que está querendo? Só é permitida a entrada aos que tiverem um passe — e apontando para a caixa do violino: — O que é isso?

— Meu ganha-pão, tenente. Faço parte da Sinfônica de Sebastopol.

— Que eu saiba, não há nenhum concerto programado no cais.

— Seu nome, por favor? — disse Vasili em tom casual.

— O quê?

Taleniekov endireitou os ombros e gradualmente assumiu postura habitual.

— Eu perguntei seu nome, tenente.

— Para quê?

O oficial mostrava-se agora um pouco menos hostil. Vasili tirou os óculos e fitou com severidade seu rosto atônito.

— Para uma recomendação ou uma repreensão, depende.

— Do que está falando? Quem é o senhor?

— KGB. Sebastopol. Isso é parte de uma inspeção da zona portuária.

O jovem tenente hesitou polidamente; não era tolo.

— Infelizmente, não fui informado, senhor. Terei de pedir-lhe a identificação.

— Se não pedisse, levaria a primeira repreensão — replicou Taleniekov, pegando no bolso o cartão da KGB. — A segunda virá se falar sobre minha presença aqui essa noite. Seu nome, por favor.

O tenente obedeceu e depois ajuntou:

— Seu pessoal suspeita de algum problema por aqui? — ele examinou o cartão e devolveu-o.

— Problema? — Taleniekov sorriu bem-humorado com um olhar de conspirador. — O único problema, tenente, é que estou perdendo uma ceia agradável na companhia de uma bela senhora. Acho que os novos diretores sentem-se obrigados a merecer seus rublos. Sua gente está fazendo um bom trabalho; eles sabem disso, mas não o querem admitir.

Aliviado, o jovem oficial devolveu o sorriso.

— Obrigado, senhor. O serviço é monótono, mas é feito da melhor forma possível.

— Mas não mencione minha presença aqui, eles fazem questão disso. Dois oficiais da guarda foram repreendidos na semana passada. — Vasili tornou a sorrir: — No segredo repousa a segurança de nossos diretores. E seus postos.

O tenente riu.

— Compreendo. O senhor traz uma arma nessa caixa?

— Não. Na verdade, trata-se de um violino muito bom. Gostaria de saber tocá-lo.

Com uma inclinação de cabeça, Taleniekov abriu caminho entre a balbúrdia dos estivadores, supervisores e maquinaria. Estava procurando um certo encarregado, um grego de Kavalla chamado Zaimis. Isto é, estava procurando um homem de sangue grego, filho de uma mulher de sobrenome Zaimis, mas de cidadania americana.

Karras Zaimis era um agente da CIA, ex-chefe de estação em Salônica e agora encarregado da expedição da rota de fuga. Vasili conhecia o rosto do agente através de várias fotografias que removera dos arquivos da KGB. Correu os olhos pelos trabalhadores, por entre o nevoeiro e a luz dos holofotes. Não conseguiu localizar seu homem.

Taleniekov forçou passagem por entre turmas de estivadores resmungões e a maquinaria em movimento e dirigiu-se ao imenso armazém de carga. Dentro do enorme galpão, a luz era fraca, as luminárias protegidas por redes de aço altas demais para serem eficientes. Fachos de luz de lanterna cruzavam os fardos: eram homens verificando os números. Por um instante, Vasili ficou imaginando quanto talento estava embalado naqueles caixotes, quanta informação estava sendo levada para fora da Rússia. Na verdade, bem pouca, pensou. Aquela era uma rota de fuga de pequena importância; acomodações mais confortáveis aguardavam os portadores de grande talento ou informações valiosas.

A postura curvada reduzindo a velocidade de sua marcha, os óculos novamente no lugar, pediu licença e passou por um encarregado grego que discutia com um trabalhador russo. Seguiu para o fundo do armazém, desviando-se de pilhas de volumes e carros de carga, examinando os rostos dos que seguravam as lanternas. Estava começando a irritar-se, não tinha tempo a perder. Onde estava Zaimis? Não houvera nenhuma alteração na situação: o cargueiro era o transporte, o agente ainda o chefe. Lera todos os relatórios vindos de Sebastopol — a rota de fuga nunca fora mencionada. Onde estava o homem?

De repente, Taleniekov sentiu um espasmo de dor quando o cano de uma arma se enterrou cruelmente em seu rim esquerdo. Dedos fortes agarraram o tecido do seu sobretudo, maltratando a carne que recobria suas costelas inferiores e empurrando-o para um corredor deserto. Num sussurro áspero, ele ouviu em inglês:

— Não vou me dar ao trabalho de falar grego ou tentar me fazer entender em russo. Disseram-me que seu inglês é tão bom quanto o de qualquer um em Washington.

— Consideravelmente melhor que o da maioria — retrucou Vasili entre os dentes. — Você é Zaimis?

— Nunca ouvi falar nele. Pensávamos que você não estava mais em Sebastopol.

— E não estou. Onde está Zaimis? Preciso falar com ele.

O americano ignorou a pergunta.

— É preciso reconhecer que você tem culhões. Não há ninguém da KGB nos próximos dez quarteirões.

— Tem certeza disso?

— Total. Temos um bando de corujas espalhadas por aí. Elas vêem no escuro. Viram você. Que idéia idiota, uma caixa de violino!

— Elas patrulham o mar, também?

— Temos gaivotas fazendo isso.

— Vocês são uns pássaros muito bem organizados.

— E você é menos inteligente do que dizem. O que acha que estava fazendo? Uma pequena inspeção particular?

Vasili sentiu a pressão em seu rim diminuir e ouviu o som abafado de um objeto saindo de uma borracha. Um frasco de medicamento. Uma agulha hipodérmica.

— Não faça isso! — disse ele em tom de comando. — Por que acha que vim aqui sozinho? Eu quero sair do país.

— E é justamente o que vai fazer. Meu palpite é que vai passar uns três anos num hospital na Virgínia sendo interrogado.

— Não! Você não entende! Preciso fazer contato com alguém, mas não dessa maneira.

— Conte isso aos médicos. Eles são muito bonzinhos. Vão ouvi-lo com muita paciência.

— Não há tempo! — Não havia tempo. Taleniekov sentiu o peso do homem deslocar-se. Num segundo, uma agulha lhe perfuraria as roupas e lhe penetraria na carne. Aquilo não podia acontecer! Ele não poderia falar com Scofield oficialmente.

“Ninguém ousará falar. A admissão seria catastrófica... para os governos em toda á parte.” O círculo Matarese.

Se Moscou queria destruí-lo, os americanos não hesitariam um minuto em silenciá-lo.

Vasili ergueu o ombro direito — um gesto de dor provocado pelo cano da arma em seu rim. Numa reação instantânea, o americano aumentou a pressão da pistola nas costas do outro, desviando, nessa fração de segundo, a pressão que exercia no gatilho para a coronha da arma. Taleniekov estava preparado para isso.

Girou para a esquerda, o braço descreveu uma curva e abateu-se sobre o cotovelo do americano, torcendo-o contra o quadril e que-brando-lhe o antebraço. Com os dedos da mão direita, Taleniekov golpeou o pescoço do outro, atingindo em cheio a traquéia. A pistola caiu no chão, o ruído abafado pelo burburinho do armazém. Vasili apanhou-a e empurrou o agente da CIA contra um caixão de mercadoria. Em sua dor, o americano ainda segurava frouxamente a seringa na mão esquerda, mas essa também caiu ao chão. Seus olhos estavam vidrados, mas não perdera a consciência.

— Agora você vai me escutar — disse Taleniekov, o rosto em frente ao rosto de Zaimis. — Há quase sete meses sei da sua “Operação Dardanelos”. Sei que você é Zaimis. Mas seu tráfico é medíocre, você não é importante. Contudo não foi essa a razão por que não o destruí. Achei que um dia você me poderia ser útil. Esse dia chegou. Você pode ou não aceitar.

— Taleniekov desertando? — replicou Zaimis, a mão no pescoço. — É impossível. Você pode querer fazer jogo duplo, mas desertar não.

— Tem razão. Não sou desertor. E se essa idéia inconcebível passasse um dia pela minha cabeça preferiria procurar os ingleses ou os franceses do que vocês. Disse que queria sair da Rússia, não traí-la.

— Você está mentindo — retrucou o americano, a mão descendo para a lapela da espessa jaqueta. — Você pode ir aonde quiser.

— Não neste momento. Receio que tenham surgido complicações.

— O que você fez? Virou capitalista? Embolsou fundos?

— Ora, vamos, Zaimis? Qual de nós não tem suas economiazinhas? E muitas vezes legítimas, os recursos podem tardar. Onde estão as suas? Eu não confiaria em Atenas, e Roma é instável demais. Meu palpite é Berlim ou Londres. As minhas, é fácil adivinhar: Chase Manhattan Bank, Nova York.

O homem da CIA, o polegar oculto atrás da lapela, não mudou de expressão.

— Então você foi apanhado — disse ele distraído.

— Estamos perdendo tempo! — rosnou Vasili. — Leve-me aos Dardanelos. De lá eu sigo sozinho. Se não quiser, se um certo telefonema não for recebido aqui em Sebastopol num determinado momento, sua operação será desmascarada. Você será...

Zaimis levou a mão rapidamente à boca. Taleniekov agarrou os dedos do agente e torceu-os para fora com violência. Grudada ao polegar do americano estava uma pequena cápsula.

— Seu idiota! O que pensa que estava fazendo?

Zaimis fez uma careta, a dor era excruciante.

— Prefiro acabar aqui do que em Lubyanka.

— Seu cretino! Se alguém tiver de ir para Lubyanka, esse alguém sou eu! Isso porque existem alucinados como você nos gabinetes lá em Moscou. E idiotas — também iguaizinhos a você — que preferem envenenar-se a ouvir a verdade! Se você quer morrer, eu lhe faço a vontade. Mas antes leve-me aos Dardanelos!

O agente, respirando com dificuldade, olhou surpreso para Taleniekov. Vasili soltou-lhe a mão depois de retirar a cápsula presa ao polegar.

— Você está falando sério, não está? — perguntou Zaimis.

— Estou. Vai me ajudar?

— Não tenho mais nada a perder — disse o agente. — Você irá no navio.

— Não se esqueça de que terei de telefonar para cá, lá dos Dardanelos. Senão você estará acabado.

Zaimis fez um gesto de assentimento.

— Certo. Negócio fechado.

— Negócio fechado — concordou Taleniekov.

 

O cubículo de blocos de concreto no armazém tinha dois telefones — instalados pelos russos e sem dúvida controlados eletronicamente pela CIA e pela SAVAK para evitar interceptações, pensou Vasili. Deviam ser seguros, ele poderia falar. O agente americano pegou um dos fones quando Taleniekov terminou de discar. No instante em que atenderam, Vasili falou.

— é você, meu velho camarada?

Era e não era. Não era o encarregado do posto com quem falara antes, mas o criptógrafo que Taleniekov treinara trinta anos antes em Riga e levara para Sebastopol. O homem respondeu em voz baixa e ansiosa.

— Nosso amigo mútuo foi chamado à sala de códigos. Ficou combinado que eu esperaria seu telefonema. Preciso vê-lo imediatamente. Onde você está?

Zaimis estendeu o braço e seus dedos machucados taparam o bocal do fone de Taleniekov. Este sacudiu a cabeça numa negativa; apesar de confiar no criptógrafo, não tinha intenção de responder à pergunta.

— Isso não importa. O telegrama é do “capitólio”?

— Não é só isso, meu velho.

— Mas é de lá? — insistiu Vasili.

— Sim, mas não está escrito em nenhum código conhecido. Nada que eu ou você já tenhamos usado, nem em nossos anos de Riga, nem aqui.

— Leia-o para mim.

— Há outra coisa ainda — continuou o criptógrafo, com mais veemência. — Eles estão abertamente à sua procura. Devolvi o teletipo a Moscou pedindo confirmação e queimei o original. Mas daqui a menos de duas horas ele deverá estar de volta. Não posso acreditar nisso. Recuso-me a acreditar!

— Calma. O que o teletipo dizia?

— Do Báltico até a fronteira da Manchúria há um alerta a sua procura.

— A VKR está atrás de mim? — perguntou Vasili alarmado, mas controlado; ele esperava que o Grupo Nove agisse rapidamente, mas não tanto.

— Não só a VKR, a KGB também, e todos os postos do Serviço de Informações, assim como as unidades militares. Todo mundo! Não é de você que eles estão falando, não pode ser! Recuso-me a acreditar!

— O que é que eles dizem?

— Que você traiu a nação. Que deve ser capturado, mas não deve ser interrogado, nem detido. Você deve ser... executado... sumariamente.

— Compreendo — disse Taleniekov. E compreendia. Esperara por isso. Não era a VKR. Eram os homens poderosos que tinham sabido que ele mencionara um nome que ninguém devia ouvir. Matarese. — Eu não traí ninguém. Pode acreditar.

— Acredito. Conheço você.

— Leia-me o telegrama do “capitólio”.

— Está bem. Tem um lápis aí? Ele não faz sentido.

Vasili procurou a caneta no bolso. Havia papel sobre a mesa.

— Pode ditar.

O homem falou devagar, bem claro:

— Aí vai: “Convite Kasimir, Schrankenwarten cinco gols...” — o criptógrafo calou-se. Taleniekov ouviu vozes a distância. — Não posso continuar. Vem gente aí — disse o homem.

— Preciso do resto do telegrama!

— Daqui a meia hora no Magazin Amar. Estarei lá — a ligação foi cortada.

Vasili deu um soco na mesa e desligou o telefone.

— Preciso do resto! — repetiu em inglês.

— Que Magazin Amar é esse? Uma peixaria? — perguntou o homem da CIA.

— Um restaurante especializado em peixes na Rua Kerenski, a umas sete quadras da nossa sede. Ninguém que conheça bem Sebastopol entra lá, a comida é horrível. Mas ajusta-se ao que ele estava tentando me dizer.

— Como assim?

— Sempre que o criptógrafo queria que eu examinasse algum material recém-chegado antes que outros o vissem, ele sugeria que nos encontrássemos no Amar.

— Por que ele não ia simplesmente mostrá-lo em seu escritório?

Taleniekov olhou de esguelha para o americano.

— Não seja ingênuo.

O agente encarou Vasili de frente.

— Eles querem mesmo vê-lo morto, não é?

— Um erro colossal da parte deles.

— Para variar — retrucou Zaimis e acrescentou, franzindo o cenho: — Você confia nesse cara?

— Ouviu o que ele disse. A que horas sai o navio?

— Às onze e meia. Daqui a duas horas. Mais ou menos na hora em que a confirmação deverá chegar de Moscou.

— Estarei aqui.

— Sei disso — retrucou o agente —, pois vou com você.

— Você o quê?

— Vou dar-lhe proteção na cidade. Naturalmente, vou querer minha pistola de volta. E a sua também. Veremos o quanto você realmente quer atravessar o Bósforo.

— Por que vai fazer isso?

— Tenho uma esperança de que você reconsidere aquela hipótese inconcebível. Quero levá-lo comigo.

Vasili sacudiu lentamente a cabeça.

— Nada mudou. É impossível. Ainda posso denunciá-lo e você não o pode evitar. E denunciando-o destruo toda a rede do mar Negro. Levaria anos para reconstruí-la. E o fator tempo é essencial, não é?

— Vamos ver. Quer mesmo ir aos Dardanelos?

— Naturalmente.

— Então dê-me a pistola — disse o americano.

 

O restaurante estava cheio, os aventais dos garçons tão sujos como a serragem do chão. Taleniekov sentou-se sozinho nos fundos junto à parede da direita, Zaimis a duas mesas de distância na companhia de um grego da marinha mercante a soldo da CIA. Esse franzira o rosto numa careta de nojo provocada pelo ambiente. Vasili bebericava vodca gelada para disfarçar um pouco o gosto do caviar de quinta classe.

O criptógrafo entrou, localizou Taleniekov e abriu caminho desajeitadamente entre fregueses e garçons até chegar à mesa. Por trás das grossas lentes, seus olhos exprimiam ao mesmo tempo alegria, medo e uma centena de perguntas mudas.

— Tudo é tão inacreditável — disse ele, sentando-se. — Que foi que eles te fizeram!

— A questão é o que eles vão fazer a si mesmos — replicou Vasili. — Eles não querem ouvir, não querem ouvir o que tem de ser dito, deter o que tem de ser detido. É só o que lhe posso dizer.

— Mas ordenar sua execução! É inconcebível!

— Não se preocupe, meu velho amigo. — Eu voltarei, e reabilitado com honras, como eles dizem. — Taleniekov sorriu e tocou o braço do homem. — Nunca se esqueça, existem homens bons e decentes em Moscou, mais dedicados a seu país do que preocupados com os próprios medos e ambições. Eles sempre existirão, e são esses que irei procurar. Eles vão me agradecer pelo que fiz, pode acreditar... Agora, todos os minutos contam. Onde está o cabograma?

O criptógrafo abriu a mão, mostrando uma folha cuidadosamente dobrada, agora amassada.

— Queria poder jogá-lo fora, se fosse necessário. Sei as palavras de cor — disse ele, entregando-o a Vasili.

O pesar envolveu Taleniekov quando leu a mensagem de Washington.

 

Convite Kasimir. Schrankenwarten cinco gols, Unter den Linden. Przselvac Zero. Praga. Repito texto. Zero. Repito novamente à vontade. Zero.

Beowulf Agate

 

Ao terminar a leitura, o ex-estrategista-mestre da KGB sussurrou:

— Nada mudou.

— O que diz aí? — perguntou o criptógrafo. — Não entendi. Nunca usamos esse código.

— Você não tinha meios de entender — respondeu Vasili com raiva e tristeza na voz. — É uma combinação de dois códigos, um nosso e um deles. O nosso é da minha época em Berlim Oriental, o deles de Praga. Esse cabograma não foi enviado por nosso homem de Bruxelas. Foi enviado por um assassino que não quer parar de matar.

Aconteceu tão depressa que só houve alguns segundos para uma reação, e foi o marinheiro grego quem se mexeu primeiro. Seu rosto castigado pelo tempo estivera voltado para os fregueses que entravam. Ele quase cuspiu as palavras:

— Cuidado! Os bodes imundos!

Taleniekov ergueu os olhos, o criptógrafo virou-se na cadeira. A seis metros de distância, na passagem onde circulavam os garçons, estavam dois homens que não tinham entrado ali para comer. Com expressões rígidas, varriam a sala com o olhar. Examinavam as mesas, mas não à procura de amigos.

— Oh, meu Deus — sussurrou o criptógrafo, voltando-se para Vasili. — Eles interceptaram nosso telefonema, estava com medo disso!

 

— Eles o seguiram — retrucou Taleniekov, vendo que Zaimis, aquele idiota, estava se levantando da cadeira. — Sabem que somos amigos e você deve estar sob vigilância, mas não sabem nada sobre aquele telefone. Se tivessem certeza de que me encontrariam aqui, invadiriam este lugar com uma dúzia de soldados. São membros locais da VKR, eu os conheço. Tenha calma, tire o chapéu e levante-se devagar. Dirija-se para os fundos, como se fosse ao banheiro. Há uma saída lá atrás, lembra-se?

— Sim, sim, eu me lembro — balbuciou o homem.

Levantando-se, com os ombros curvados, ele seguiu na direção do corredor estreito, a várias mesas de distância.

Mas ele era um teórico, não um homem de ação, e Vasili amaldiçoou-se por lhe ter dado aquelas instruções. Um dos homens da VKR reconheceu-o e adiantou-se, empurrando os garçons que estavam no caminho.

Nisso ele viu Taleniekov e sua mão subiu para pegar uma arma escondida sob o paletó. Nesse instante, o marinheiro grego ergueu-se num repelão, cambaleando como alguém que exagerara na vodca, e chocou-se contra o homem da VKR, que tentou descartar-se dele. O grego fingiu indignação e empurrou-o com tanta força que o russo caiu sobre uma das mesas, atirando pratos e comida no chão.

Num pulo, Vasili correu atrás do velho amigo de Riga, puxando-o na direção do estreito corredor. Foi então que viu o americano. Zaimis estava de pé, com a pistola na mão. Idiota!

— Guarde isso! — berrou Taleniekov. — Não se exponha!

Era tarde demais. Um tiro explodiu, transformando instantaneamente o caos num pandemônio. O homem da CIA levou as duas mãos ao peito e caiu, a camisa sob a jaqueta subitamente empapada de sangue.

Vasili agarrou o criptógrafo pelo ombro e puxou-o para o portal estreito. Ouviu-se um segundo estampido, e o criptógrafo arqueou-se num espasmo, as pernas juntas, uma erupção de carne no pescoço. Recebera um tiro na base do crânio.

Taleniekov atirou-se ao chão. Aturdido, ouviu um terceiro tiro, e um grito estridente varando a cacofonia de outros gritos. E então o marinheiro grego precipitou-se através do portal, uma automática na mão.

— Tem saída pelos fundos? — berrou ele em mau inglês. — Temos que correr. O outro bode fugiu. Foi buscar mais gente!

Taleniekov levantou-se num pulo e fez um gesto para que o grego o seguisse. Juntos atravessaram a cozinha repleta de cozinheiros e garçons aterrorizados e foram dar numa viela. Dobrando à esquerda, dispararam por um labirinto de ruelas escuras entre velhas construções, até alcançar uma rua conhecida.

Continuaram a correr por quase dois quilômetros. Vasili conhecia cada centímetro da cidade, mas era o grego que dirigia a fuga. Ao dobrarem uma rua secundária mal-iluminada, o marinheiro agarrou o braço de Taleniekov. O homem estava sem fôlego.

— Podemos descansar aqui um minuto — disse ele ofegante. — Eles não nos encontrarão.

— É, não é um lugar em que se pensaria numa busca logo de saída — concordou Vasili, examinando os prédios de apartamentos bem-construídos.

— Sempre se esconda num bairro de classe — disse o marinheiro. — Os moradores não querem saber de encrenca, denunciam logo qualquer anormalidade. Todo mundo sabe disso, e assim não procuram em tais lugares.

— Você falou em descansar um minuto — disse Taleniekov. — Ainda não sei para onde iremos depois disso. Preciso de tempo para pensar.

— Então o navio está fora de questão, não é? — perguntou o grego. — Também acho.

— É, Zaimis estava com os documentos. E, pior ainda, com uma das minhas armas. Daqui a uma hora o cais vai estar formigando de homens da VKR.

O grego fitou Vasili à luz fraca.

— Então o grande Taleniekov está fugindo da Rússia. Se ficar, vira cadáver.

— Não estou fugindo da Rússia, apenas de homens apavorados. Mas terei de sair... por algum tempo. Preciso descobrir como.

— Há um jeito — disse simplesmente o marinheiro. — Vamos seguir ao longo da costa no sentido Nordeste e depois desceremos para o Sul através das montanhas. Dentro de três dias você estará na Grécia.

— Como?

— Há um comboio de caminhões que vai primeiro a Odessa.

 

Sentado num banco duro na traseira de um caminhão, Taleniekov via a luz da madrugada infiltrar-se através das fendas da coberta de lona inflada pelo vento. Dentro em pouco, ele e os demais teriam de esgueirar-se para baixo das tábuas do piso e permanecer imóveis e silenciosos numa plataforma oculta entre os eixos até passarem a barreira seguinte. Mas durante uma hora, mais ou menos, poderiam estirar as pernas e respirar um ar não-impregnado de óleo e graxa.

Enfiando a mão no bolso, pegou a mensagem cifrada vinda de Washington, o cabograma que já custara três vidas.

 

Convite Kasimir. Schrankenwarten cinco gols, XJnter den Linden. Przselvac Zero. Praga. Repito texto. Zero. Re­pito novamente à vontade. Zero.

Beowulf Agate

 

Dois códigos. Apenas um significado.

Com a caneta, Vasili escreveu esse significado sob a mensagem cifrada.

Venha me pegar, como fez com outra pessoa num posto de fronteira às cinco horas na Unter den Linden. Eu matei seu mensageiro, assim como outro mensageiro que morreu em Praga. Repito. Venha me pegar. Eu o matarei.

Scofield

Além da brutal decisão do assassino americano, o aspecto mais eletrificante do cabograma de Scofield era o fato de que ele não estava mais a serviço de seu país. Fora afastado do Serviço Secreto. E, considerando-se o que fizera e as forças patológicas que o tinham compelido a isso, esse afastamento fora sem dúvida bárbaro. Pois nenhum profissional do Governo assassinaria um mensageiro nas circunstâncias daquele extraordinário contato soviético. E uma coisa que Scofield era, era profissional.

As nuvens tempestuosas sobre Washington tinham sido catastróficas para Beowulf Agate. Elas o tinham destruído.

Assim como a tempestade sobre Moscou destruíra um mestre-estrategista chamado Taleniekov.

Era estranho, quase macabro. Dois inimigos que se detestavam haviam sido escolhidos pelo Matarese como as primeiras de suas iscas mortais — como esporte e divertimento, como dissera o velho Krupskaya. Mas apenas um deles sabia disso; o outro tudo ignorava. Estava preocupado apenas em reabrir cicatrizes e deixar correr o sangue novamente entre eles.

Vasili guardou o papel no bolso e respirou fundo. Os dias seguintes seriam plenos de ação e reação, dois peritos numa caçada até a inevitável confrontação.

“Meu nome é Taleniekov. Ou matamos um ao outro, ou conversaremos.”

 

O subsecretário de Estado Daniel Congdon levantou-se de um pulo, o telefone na mão. Desde seus primeiros dias na Segurança Nacional, ele aprendera que uma forma de controlar uma explosão era movimentar-se fisicamente num momento de crise. E o controle, pelo menos um controle aparente, era a chave para tudo em sua profissão. Ficou ouvindo enquanto um encolerizado secretário de Estado expunha a crise atual.

Merda, ele estava controlado!

— Acabei de ter uma conversa particular com o embaixador soviético, e ambos somos de opinião que o incidente não deve vir a público. O importante agora é deter Scofield.

— O senhor tem certeza de que foi Scofield? Simplesmente não posso acreditar nisso!

— Digamos que, até que ele negue e prove de forma irrefutável que estava a mil quilômetros daqui nas últimas quarenta e oito horas, acreditamos que foi mesmo Scofield. Nenhuma outra pessoa envolvida em operações clandestinas teria cometido tal ato. É inconcebível.

Inconcebível? Inacreditável. O cadáver de um russo entregue nos portões da Embaixada Soviética no banco de trás de um táxi às 8h30min da manhã na hora de tráfego matinal mais intenso em Washington. E o motorista não sabia absolutamente nada, a não ser que apanhara dois bêbados, e não um só — embora um deles estivesse em pior estado que o outro. Que diabo acontecera com o outro cara? O que tinha sotaque russo e usava chapéu e óculos escuros e dissera que a luz do sol estava clara demais depois de uma noite inteira de vodca. Onde ele se metera? E o que ficara no banco de trás estava bem? Tinha péssimo aspecto!

— Quem era o homem, Sr. Secretário?

— Era um oficial do Serviço de Informações Soviético que servia em Bruxelas. O embaixador foi franco: a KGB não tinha ciência de que ele estava em Washington.

— Seria um desertor?

— Não há indícios que corroborem essa hipótese.

— Então, qual é a ligação entre ele e Scofield? Além do método de extermínio e entrega.

O secretario de Estado fez uma pausa e depois respondeu com cautela:

— O senhor deve entender, Sr. Congdon, que o embaixador e eu temos um relacionamento muito especial que já dura varias décadas. Freqüentemente usamos de maior franqueza um com o outro do que outros diplomatas... embora esteja subentendido que não falamos oficialmente.

— Entendo, senhor — retrucou Congdon, compreendendo que o que iria ouvir seria estritamente confidencial.

— O morto fez parte de uma unidade da KGB de Berlim Oriental há uns dez anos. Presumo, por suas últimas decisões, que o senhor está familiarizado com a ficha de Scofield.

— Refere-se à esposa dele? — Congdon sentou-se. — O homem foi um dos que mataram a esposa de Scofield?

— O embaixador não fez nenhuma referência à esposa de Scofield. Meramente mencionou o fato de que o morto fizera parte de uma unidade relativamente autônoma da KGB em Berlim Oriental há dez anos.

— Aquela seção era dirigida por um estrategista chamado Taleniekov. Foi ele quem deu a ordem.

— Eu sei — disse o secretário de Estado. — Falamos longamente sobre o Sr. Taleniekov e outro incidente ocorrido em Praga vários anos depois. Consideramos a possibilidade de uma ligação, a mesma que acabou de lhe ocorrer. Talvez ela exista.

— Como assim, senhor?

— Vasili Taleniekov desapareceu há dois dias.

— Desapareceu?

— Sim, Sr. Congdon. Imagine só, Taleniekov soube que ia ser oficialmente aposentado, arranjou um disfarce simples mas eficaz e desapareceu.

— Scofield foi afastado... — Congdon falou baixinho, mais para si mesmo do que para o interlocutor.

— Exatamente — concordou o secretário de Estado. — Esse paralelo é que nos preocupa. Dois especialistas aposentados estão agora determinados a fazer o que não podiam fazer oficialmente. Matar um ao outro. Eles possuem contatos por toda a parte, homens que lhes são leais por múltiplas razões. Sua vendetta pessoal poderia criar inúmeros problemas para nossos governos durante esses preciosos meses de conciliação. Isso não pode acontecer.

O diretor das Operações Consulares franziu a testa; havia algo errado nas conclusões do secretário.

— Eu mesmo falei com Scofield há três noites. Não me pareceu que ele se estivesse consumindo de raiva, desejo de vingança ou coisa parecida. Tinha o aspecto cansado de um agente que estivera em ação, vivendo uma vida... anormal... tempo demais. Por longos anos. Ele me disse que apenas queria desaparecer, e acreditei nele. Por falar nisso, conversei sobre Scofield com Robert Winthrop, e ele era da mesma opinião. Ele disse...

— Winthrop não sabe de nada! — interrompeu o secretário de Estado com inesperada dureza. — Robert Winthrop é um homem brilhante, mas nunca compreendeu o significado de uma confrontação, a não ser de forma teórica. Pode ter certeza, Sr. Congdon, Scofield matou aquele agente secreto de Bruxelas.

— Talvez por circunstâncias que desconhecemos.

— Será? — outra vez o secretário de Estado fez uma pausa, e quando falou foi para expressar seu pensamento de forma bem clara: — Se essas circunstâncias existem, então estamos diante de uma situação potencialmente muito mais perigosa do que a criada por uma rixa pessoal. Scofield e Taleniekov sabem mais a respeito das operações dos respectivos serviços secretos do que quaisquer outros dois homens vivos. Não podemos permitir que façam contato. Nem como inimigos determinados a matar-se mutuamente, nem por circunstâncias desconhecidas. Estou sendo bem claro, Sr. Congdon? Como diretor das Operações Consulares, a responsabilidade é sua. Como vai desincumbir-se dessa responsabilidade não me interessa. O senhor pode ter nas mãos um homem sem salvação. Isso é o senhor quem deve decidir.

Daniel Congdon continuou parado depois de ouvir o estalido do telefone sendo desligado. Em todos os anos de serviço, nunca recebera uma ordem indireta tão mal-disfarçada. Mas, se os termos eram discutíveis, a ordem não era. Recolocou o fone no gancho e apanhou outro à esquerda. Apertando um botão, discou três algarismos.

— Segurança Interna — disse uma voz masculina.

— Aqui é o subsecretário Congdon. Localize Brandon Scofield. Traga-o até aqui imediatamente.

— Um instante, senhor — retrucou o homem polidamente. — Scofield está sob vigilância de segundo grau. O último assentamento data de dois dias atrás. Deixe-me consultar o computador. Ele tem todas as informações.

— Dois dias atrás?

— Sim, senhor. A informação já está na tela. Scofield deixou o hotel aproximadamente às seis horas do dia 16.

— Dezesseis? Hoje é 19.

— Sim, senhor. Mas não houve atraso no assentamento. A gerência informou-nos pouco depois.

— Onde ele está agora?

— Deixou dois endereços para correspondência, mas não precisou datas. A casa da irmã em Minneapolis e um hotel em Charlotte Amalie, St. Thomas, ilhas Virgens americanas.

— Os endereços foram investigados?

— Quanto à exatidão, sim. Ele tem uma irmã que mora mesmo em Minneapolis, e o hotel de St. Thomas tem um quarto reservado e pago para Scofield desde o dia 17. O pagamento foi enviado de Washington.

— Então ele está nesse hotel.

— Até o meio-dia de hoje ele não tinha chegado, senhor. Fizemos uma chamada de rotina.

— E quanto à irmã? — perguntou Congdon.

— Ela confirmou que Scofield lhe telefonara e prometera passar lá, mas não precisara o dia. Acrescentou que isso não era anormal, suas visitas eram sempre inesperadas. Ela esperava-o qualquer dia desta semana.

O diretor das Operações Consulares teve vontade de ficar de pé novamente, mas conteve-se.

— O senhor está me dizendo que realmente não sabe onde ele está?

— Bem, Sr. Congdon, a vigilância de segundo grau opera na base de informações, não há contato visual contínuo. Mas mudaremos imediatamente para vigilância de primeiro grau. Minneapolis não será problema, as ilhas Virgens talvez.

— Por quê?

— Não temos fontes fidedignas lá, senhor. Ninguém tem.

Daniel Congdon levantou-se da cadeira.

— Deixe-me entender isso bem. O senhor disse que Scofield está sob vigilância de segundo grau, e no entanto minhas instruções foram claras: deveríamos estar sempre a par de seu paradeiro. Por que não o submeteram a uma vigilância de primeiro grau? Por que não mantiveram contato visual contínuo?

O homem da Segurança Interna respondeu meio hesitante:

— A decisão não foi minha, senhor, mas acho que é compreensível. Se aplicassem o primeiro grau em Scofield, ele descobriria logo e... bem, só de maldade, nos despistaria.

— E que diabos o senhor pensa que ele acabou de fazer? Encontre-o! Informe-me de seus progressos de hora em hora! — Cong­don sentou-se encolerizado, batendo o fone com tanta força que a campainha tocou. Com os olhos fuzilando, tornou a pegar o fone e discar.

— Comunicações Ultramarinas, Srta. Andros — disse uma voz feminina.

— Srta. Andros, aqui é o subsecretário Congdon. Por favor, mande um perito em códigos a minha sala imediatamente. Classificação Código A, segurança e prioridade máximas.

— É uma emergência, senhor?

— Sim, Srta. Andros, é uma emergência. O cabograma será enviado dentro de meia hora. Libere as linhas para Amsterdam, Marselha... e Praga.

 

Scofield ouviu os passos no corredor e levantou-se da cadeira. Andou até a porta e olhou pelo olho mágico. O vulto de um homem passou sem parar na porta em frente, a entrada da suíte utilizada pelo mensageiro de Taleniekov. Bray voltou à sua cadeira e sentou-se. Encostou a cabeça no espaldar e ficou olhando para o teto.

Três dias tinham se passado desde a caçada nas ruas, três noites desde que pegara o mensageiro de Taleniekov — mensageiro três noites antes, assassino na Unter den Linden dez anos atrás. Fora uma noite estranha, uma caçada bizarra, com um final que poderia ter sido diferente.

O homem poderia ter vivido. A decisão de matá-lo gradualmente perdera para Scofield a urgência, como tantas outras coisas tinham perdido a urgência. O próprio mensageiro provocara seu fim. O soviético tinha entrado em pânico e, sacando uma navalha afiada dos fundos da poltrona do hotel, o atacara. Sua morte foi conseqüência da reação de Scofield, não um assassinato premeditado.

As coisas pouco mudavam. O mensageiro da KGB fora usado por Taleniekov. O homem convencera-se de que Beowulf Agate estava pensando em desertar; o russo que o levasse para Moscou receberia a medalha mais reluzente do país.

— Você foi enganado — dissera Bray ao mensageiro.

— É impossível! — gritara o soviético. — Foi Taleniekov!

— Sem dúvida. E ele escolheu um homem da Unter den Linden para fazer contato, alguém cujo rosto ele sabe que nunca esquecerei. As possibilidades eram todas de que eu perderia o controle e o mataria. Em Washington. Aqui estou a descoberto, vulnerável... mas você está preso.

— Você está cometendo um erro! Este é um contato branco!

— Em Berlim Oriental também era, seu filho da puta.

— O que você vai fazer?

— Justificar um pouco minha aposentadoria. Vou entregá-lo.

— Não!

— Sim.

O homem jogara-se contra Scofield.

Três dias se tinham passado desde aquele momento de violência, três manhãs desde que Scofield entregara a encomenda na Embaixada e mandara a mensagem cifrada para Sebastopol. Ninguém ainda viera à suíte do outro lado do corredor, e aquilo não era normal. A suíte fora alugada por uma firma de corretagem de Berna, Suíça, para ficar à disposição de seus “executivos”. Providência habitual de firma internacional, no caso uma fachada transparente para uma força soviética.

Bray forçara a questão. A mensagem e o cadáver do mensageiro forçosamente levariam alguém a investigar a suíte. Entretanto, ninguém aparecera. Aquilo não fazia sentido.

A não ser que parte do cabograma de Taleniekov fosse verdadeira: ele estava mesmo agindo sozinho. Se o caso era esse, então só havia uma explicação: o assassino soviético fora desligado do serviço e, antes de se recolher ao isolamento em algum lugar próximo a Grasnov, decidira saldar uma dívida em aberto.

Ele jurara fazê-lo depois de Praga. A mensagem fora clara: “Você é meu, Beowulf Agate. Algum dia, em algum lugar, farei com que respire pela última vez.”

Um irmão por uma esposa. O marido pelo irmão. Uma vingança enraizada no ódio, num ódio interminável. Não haveria paz para nenhum deles até que um encontrasse o seu fim. Era melhor saber isso agora, pensou Bray, do que descobri-lo numa rua apinhada ou numa faixa deserta de praia com uma faca no peito ou um tiro na cabeça.

A morte do mensageiro fora um acidente. A de Taleniekov não seria. Não haveria paz até que eles se encontrassem, e então sobre-viria a morte, de um jeito ou de outro. Agora, o problema era atrair o russo ao campo aberto. Ele dera o primeiro passo, determinando os papéis: ele era o caçador.

A estratégia era clássica: rastros bem visíveis para chamar o caçador, e, então, no momento adequado — e inesperado — os rastros desaparecem, o caçador atônito se expõe — e a armadilha se fecha.

Como Bray, Taleniekov podia viajar para onde entendesse, com ou sem sanção oficial. Anos afora, ambos tinham aprendido uma variedade de métodos. Uma pletora de documentos falsos estavam sempre à venda, existiam centenas de homens por toda parte dispostos a arranjar transporte ou abrigo, armas ou disfarces — qualquer uma ou todas essas coisas. Só duas coisas eram necessárias, basicamente: papéis e dinheiro.

Nenhuma das duas faltava a Taleniekov, nem a ele. Ambas conseqüência da profissão, muito natural no caso dos papéis, nem tanto quanto ao dinheiro. Este, com freqüência, o resultado de dificuldades anteriores devido a demoras burocráticas no envio de fundos. Assim, todo especialista experimentado tinha suas fontes particulares de recursos. Despesas exageradas, dinheiro desviado e depositado em território estável. O objetivo não era roubo, nem riqueza, apenas sobrevivência. Um agente ativo só precisava levar um ou dois sustos para tomar consciência da necessidade de apoio econômico.

Bray tinha contas sob vários nomes em Paris, Munique, Londres, Genebra e Lisboa. Era aconselhável evitar Roma e o bloco comunista: o Tesouro italiano era uma loucura e o sistema bancário nos satélites orientais excessivamente corrupto.

Scofield raramente pensava no dinheiro que tinha à disposição com a intenção tácita de devolvê-lo um dia. Se o predatório Congdon não tivesse deixado entrever suas próprias tentações e complicado tanto seu desligamento oficial, Bray poderia ter retornado na manhã seguinte para entregar-lhe os extratos bancários.

Agora não. Os atos do subsecretário o impediam disso. Não se entregam várias centenas de milhares de dólares a quem tenta arranjar nossa própria eliminação mantendo-se nos bastidores. Fora um plano primorosamente concebido. Lembrava até as concepções maquiavélicas dos assassinos do Matarese no passado, pensou Scofield. Mas esses eram assassinos de aluguel; há séculos, desde os tempos de Hasan Ibn-al-Sabbah, não se tinha notícia de nada parecido. Nunca mais se veria algo semelhante, e Daniel Congdon era pálida sombra do que eles tinham sido.

Congdon. Scofield riu e apanhou o maço de cigarros no bolso. O novo diretor das Operações Consulares não era tolo, e só um tolo o subestimaria. Tinha, entretanto, a mentalidade das classes dirigentes, tão comum nos chefes dos serviços clandestinos. Na verdade, ele não entendia o que acontecia a um homem em ação; podia saber as regras, mas não percebia o elo simples existente entre ação e reação. Poucos percebiam, ou queriam perceber, pois isso significava admitir o comportamento anormal de subordinados de cujo serviço o Departamento não poderia prescindir. Mas esse comportamento patológico era simplesmente o modo de vida normal do agente em campo, e não merecia qualquer atenção especial. O agente aceitava o fato de que era criminoso antes mesmo que qualquer crime tivesse sido cometido. Portanto, ao primeiro sinal de atividade, tomava medidas de proteção antes que lhe acontecesse alguma coisa — isso tornava-se instintivo.

Fora justamente o que Bray fizera. Com o mensageiro de Taleniekov sentado do outro lado do quarto no hotel da Avenida Nebraska, Scofield dera vários telefonemas. O primeiro para sua irmã em Minneapolis: pretendia tomar um avião para o Meio-Oeste dali a umas duas horas e a veria dentro de um ou dois dias. O segundo para um amigo em Maryland, adepto da pesca submarina com uma sala cheia de troféus e vítimas empalhadas: acaso sabia de algum hotelzinho simpático no Caribe que aceitaria um hóspede sem necessidade de reserva? O amigo tinha outro amigo em Charlotte Amalie que era dono de um hotel e sempre reservava um ou dois quartos para tais emergências. O pescador prontificou-se a procurá-lo em nome de Bray.

Assim, para todos os fins, na noite do dia 16 ele estava a caminho do Meio-Oeste... ou do Caribe. Ambos a mais de dois mil quilômetros de Washington — onde ele permaneceu escondido, sem sair uma só vez do quarto de hotel em frente ao reduto soviético.

Quantas vezes martelara aquela lição na cabeça de agentes jovens e menos experientes? Um número incontável de vezes. Um homem que permanece imóvel em meio a uma multidão dificilmente é percebido.

Mas a cada hora sua perplexidade aumentava. Todas as explicações possíveis tinham de ser examinadas. A mais óbvia era que o russo ativara um velho reduto fora de ação enviando uma mensagem discreta para Berna, e a suíte fora alugada por cabograma. Levaria semanas antes que a informação chegasse a Moscou — uma entre milhares procedentes do mundo inteiro.

Se era assim — e talvez fosse a única explicação —, Taleniekov não estava apenas agindo sozinho, mas contra os interesses da K.G.B. Sua vendetta sobrepusera-se à fidelidade ao Governo, se é que isso ainda significava muito para ele; para Scofield, significava muito pouco. Era a única explicação. De outra forma, a suíte do outro lado do corredor estaria agora apinhada de soviéticos. Eles poderiam esperar vinte e quatro ou trinta e seis horas para escapar à vigilância do FBI, mas não mais que isso. Havia muitas maneiras de lograr os observadores daquele órgão.

Um instinto dizia a Bray que ele estava certo, um instinto desenvolvido através dos anos e em que confiava completamente. Agora tinha de se colocar no lugar de Taleniekov, pensar como Vasili Taleniekov pensaria. Era sua proteção contra uma punhalada mortal ou um disparo de um rifle de alta potência. Era a maneira de precipitar um desfecho e não ter de passar os dias vendo o perigo em cada sombra. Ou na multidão.

O homem da K.GB não tinha escolha: era sua vez de agir e teria de vir a Washington. Tinha de começar pelo único elo material: a suite vazia do outro lado do corredor. Dentro de alguns dias — talvez agora mesmo —, Taleniekov desceria no Aeroporto Dulles, e a caçada iria começar.

Mas o russo não era nenhum idiota, não iria cair numa armadilha. Em vez dele, viria outro, alguém que não soubesse de nada, uma isca paga e desprevenida. Um passageiro confiante cuja amizade fora cuidadosamente cultivada num vôo transatlântico, ou uma das dezenas de inocentes contatos que Taleniekov já utilizara em Washington. Homens e mulheres que nem desconfiavam que o europeu a quem prestavam favores bem-remunerados era um estrategista da JS.UÜ. Entre eles seria escolhida a isca, ou as iscas, e os pássaros. As iscas não sabiam de nada, eram apenas iscas. Os pássaros observavam, dando o alarme quando a isca fosse mordida. Pássaros e iscas — essas seriam as armas de Taleniekov.

Alguém viria ao hotel da Avenida Nebraska. Quem quer que fosse, suas instruções seriam apenas para instalar-se no quarto: nenhum número de telefone, nenhum nome significativo. E por perto os pássaros estariam esperando que a presa tosse atrás da isca.

Quando a presa fosse localizada, os pássaros avisariam, ao caçador, o que significava que esse também estava por perto.

Essa seria a estratégia de Taleniekov, pois nenhuma outra era possível; era também a estratégia que Scofield usaria. Umas três ou quatro — no máximo cinco — pessoas seriam utilizadas nessa brincadeira. Uma brincadeira montada com facilidade: alguns telefonemas do aeroporto, um encontro num restaurante do Centro. Uma manobra barata considerando-se o valor da presa.

Ruídos do outro lado da porta. Vozes. Bray levantou-se e correu para o olho mágico. Do outro lado do corredor, uma mulher bem-vestida estava falando com o chefe da portaria, que carregava sua maleta. Uma pequena maleta, não uma mala própria para um vôo transatlântico. A isca chegara, os pássaros não deviam estar longe. Taleniekov viera, a caçada começara.

A mulher e o chefe da portaria desapareceram no interior da suíte.

Scofield dirigiu-se ao telefone. Chegara o momento de começar a contra-ofensiva. Precisava de tempo, talvez mesmo dois ou três dias.

Telefonou para o pescador submarino na costa de Maryland utilizando a discagem direta. Cobrindo o bocal com a mão direita, falou através dos dedos. Uma saudação rápida e apressada, e um recado:

— Estou em Keys e não consigo falar para aquele maldito hotel em Charlotte Amalie. Quer telefonar por mim, por favor? Diga-lhes que estou ao largo de Tavernier seguindo num barco fretado e estarei lá daqui a uns dois dias.

— Pois não, Bray. Isso é que são férias, não?

— Nem te conto. Obrigado, hem?

O telefonema seguinte não precisou de tal artifício. Foi para uma francesa com quem ele vivera durante curto período em Paris, há alguns anos. Ela fora uma das mais eficientes agentes secretas da Interpol até que sua identidade se tornara conhecida; agora trabalhava para uma unidade da CIA em Washington. Não havia mais atração sexual entre eles, mas eram amigos. Ela não fez perguntas.

Scofield deu-lhe o nome do hotel da Avenida Nebraska.

— Telefone daqui a quinze minutos para a suíte 211. Vai atender uma mulher. Pergunte por mim.

— Ela não vai ficar furiosa, querido?

— Ela não sabe quem eu sou. Mas outra pessoa sabe.

 

Taleniekov recostou-se na parede de tijolos num beco escuro em frente ao hotel. Por alguns momentos, relaxou o corpo e moveu a cabeça para a frente e para trás, tentando reduzir a tensão, aliviar o cansaço. Tinha viajado durante quase três dias, voado por mais de dezoito horas, atravessado cidades e aldeias atrás de pessoas capazes de lhe arranjar documentos falsos que lhe permitissem passar por três postos de imigração diferentes. De Salônica para Atenas, de Atenas para Londres, de Londres para Nova York. Por fim chegara a Washington no começo da noite pela ponte aérea, depois de visitar três bancos em Manhattan.

Ele conseguira. Seu pessoal estava a postos. Uma prostituta de luxo que trouxera de Nova York e dois homens e uma mulher mais velha, os três de Washington. Com exceção da última, os outros eram nichivo bem-falantes, furões espertos. Todos tinham prestado serviços no passado ao generoso “homem de negócios” de Haia que tinha a mania de investigar seus sócios e que costumava pagar muito bem por informações.

Eles tinham recebido instruções para aquele serviço noturno. A prostituta estava agora na suíte que era o posto Berna-Washington. Dentro de alguns minutos, isso chegaria ao conhecimento de Scofield. Mas Beowulf Agate não era nenhum amador: receberia a notícia — por intermédio de um dos empregados ou da telefonista — e mandaria alguém para interrogar a pequena.

Quem quer que fosse, seria visto por algum dos pássaros de Taleniekov. Os dois homens e a mulher mais velha. Ele dera a cada um deles um receptor-transmissor miniatura que cabia na palma da mão; comprara quatro no representante da Mitsubi na Quinta Avenida. Eles podiam entrar em contato com ele instantânea e discretamente. Com exceção da prostituta. Não correria o risco de que encontrassem tal aparelho em seu poder. Ela era substituível.

Um dos dois homens estava sentado numa das mesas do bar mal-iluminado por castiçais. Diante de uma maleta aberta, ele estudava papéis à luz das velas, um caixeiro viajante avaliando os resultados de uma viagem de negócios. O outro homem estava no salão de refeições, numa mesa posta para dois reservada por um alto funcionário da Casa Branca. O anfitrião fora retido e o maître já recebera vários telefonemas de desculpas. O hóspede merecedor de tanta cortesia seria tratado condignamente.

Mas era na mulher mais velha que Taleniekov depositava maior confiança. Ela fora muito mais bem paga do que os outros e por bons motivos. Ela não era uma nichivo. Era uma assassina.

Sua arma inesperada. Uma mulher fina, inteligente, que não se inibia ante a necessidade de atirar em alguém do outro lado da sala ou enfiar um punhal no estômago de um companheiro de mesa. Que sabia em poucos instantes transformar-se numa dama ou numa velha rameira — ou em qualquer coisa entre esses dois extremos. Na última meia dúzia de anos, Vasili já lhe pagara grandes somas, por várias vezes a tendo chamado à Europa para serviços adequados a seus extraordinários talentos. Ela nunca o desapontara, e não o desapontaria naquela noite. Procurara por ela pouco depois de descer no Aeroporto Kennedy; ela tivera um dia inteiro para preparar-se para a noite. Era mais que suficiente.

Taleniekov desencostou-se da parede de tijolos, sacudindo as mãos, respirando fundo, afastando da mente a tentação de dormir. Protegera seus flancos; agora só lhe restava esperar. Se é que Scofield ainda desejava aquele encontro — encontro que, na opinião do americano, seria fatal para um dos dois. E por que ele desistiria? Era melhor acabar logo com aquilo do que ficar obcecado ante as sombras da noite ou ruas apinhadas à luz do sol, temendo o que pudessem esconder... sem nunca afastar a mão do coldre ou do punhal. Não, era muito melhor acabar de uma vez a caçada, pensaria Beowulf Agate. Ah, mas ele estava tão enganado! Se houvesse alguma forma de alcançá-lo, de lhe contar! Contar sobre o Matarese! Havia pessoas a quem podiam procurar, apelar, convencer! Juntos poderiam fazê-lo; existiam homens decentes em Moscou e em Washington, homens que não teriam medo.

Mas não havia nenhuma forma de alcançar Brandon Scofield em terreno neutro, pois nenhum terreno seria neutro para Beowulf Agate. À primeira visão de seu inimigo, o americano recorreria imediatamente a todas as armas a seu alcance para destruí-lo. Vasili compreendia, pois, se fosse Scofield, faria o mesmo. Assim, era preciso esperar, rodear, sabendo que cada um deles achava que o outro era a presa que iria expor-se primeiro; cada um manobrando para que o adversário cometesse esse erro.

A terrível ironia era que o único erro significativo seria a vitória de Scofield. Taleniekov não podia deixar isso acontecer. Onde quer que Scofield estivesse, tinha de ser apanhado, imobilizado e forçado a escutar.

Por isso, aquela espera era tão importante. E o perito estrategista de Berlim Ocidental, Riga e Sebastopol era um mestre em paciência.

 

— Valeu a pena esperar, Sr. Congdon — disse a voz excitada no telefone. — Scofield está num barco fretado ao largo de Ta-vernier, em Keys, Flórida. Calculamos que chegará às ilhas Virgens depois de amanhã.

— Qual foi sua fonte de informação? — perguntou apreensivo o diretor das Operações Consulares, pigarreando para clarear a voz sonolenta, forçando a vista para ver as horas no relógio de cabeceira. Eram três da manhã.

— O hotel em Charlotte Amalie.

— E qual foi a fonte de informações deles?

— Receberam um telefonema interurbano pedindo para que mantivessem a reserva, que ele chegaria dentro de dois dias.

— Quem deu o telefonema? E de que lugar?

Houve uma pausa do outro lado da linha, nas dependências do Departamento de Estado.

— Deduzimos que foi Scofield. Lá de Keys.

— Não deduza nada. Descubra.

— Estamos confirmando tudo, naturalmente. Nosso homem em Key West seguiu para Tavernier. Vai verificar nas linhas de barcos de aluguel.

— Verifique o telefonema. Dê notícias.

Congdon desligou e recostou-se na cabeceira. Olhou para a mulher na cama ao lado. Ela cobrira a cabeça com o lençol, tendo através dos anos aprendido a ignorar as chamadas noturnas. Ele começou a pensar sobre o que acabara de ouvir. Era demasiado simples, verossímil demais. Scofield estava encobrindo seus rastros sob o disfarce de uma viagem fortuita, impulsiva: um homem exausto afastando-se de tudo. Mas havia uma contradição: mesmo exausto, Scofield nunca agira de modo fortuito. Ele estava deliberadamente encobrindo seus movimentos... o que significava que realmente matara o agente secreto vindo de Bruxelas.

KGB. Bruxelas. Taleniekov.

Berlim Oriental.

Taleniekov e o homem de Bruxelas tinham trabalhado juntos em Berlim Oriental. Numa “seção da KGB relativamente autônoma” — o que significava Berlim Oriental... e qualquer lugar.

Washington? A unidade “relativamente autônoma” teria enviado homens a Washington? Era possível. O termo “autônoma” significava, em primeiro lugar, liberdade de movimentos e, em segundo, visava absolver os superiores de certos atos de seus subordinados. Um agente da CIA em Lisboa podia seguir um homem até Atenas. E por que não? Ele conhecia toda a operação. Da mesma forma, um agente da KGB em Londres podia perseguir um suspeito de espionagem até Nova York. Tendo trânsito livre, era parte de suas atribuições. Taleniekov já operara em Washington; supunha-se que já tivesse estado mais de uma dúzia de vezes nos Estados Unidos na última década.

Taleniekov e o homem de Bruxelas — era esse o elo que precisavam investigar. Congdon estendeu a mão para o telefone, mas parou a meio caminho. O fator tempo era essencial agora. Os cabogramas tinham alcançado Amsterdam, Marselha e Praga há quase doze horas. Segundo informantes fidedignos, tinham aturdido os destinatários. Contatos em todas as três cidades haviam reagido com pânico à notícia do comportamento “intolerável” de Scofield. Nomes poderiam vir a ser revelados, homens e mulheres torturados, assassinados, redes inteiras denunciadas — não havia tempo a perder: Beowulf Agate tinha de ser eliminado. No início da noite, recebera informações dizendo que dois homens já tinham sido escolhidos para assassinos. Em Fraga e Marselha. Já estavam voando a caminho de Washington e não deveriam ter problemas com passaportes ou a imigração. Um terceiro deveria deixar Amsterdam antes do amanhecer. Já amanhecia agora em Amsterdam.

Ao meio-dia, a equipe de execução, totalmente desassociada do Governo dos Estados Unidos, estaria em Washington. A cada homem fora dado o mesmo número de telefone, um aparelho de localização secreta num gueto de Baltimore. Qualquer informação sobre Scofield seria retransmitida à equipe através daquele número. E apenas um homem podia transmitir essa informação a Baltimore. O responsável, o diretor das Operações Consulares. Nenhum outro membro do Governo americano conhecia aquele número.

Aquela ligação final poderia ser estabelecida? — perguntou-se Congdon. Restava muito pouco tempo e seria necessária uma extraordinária cooperação. Essa cooperação poderia ser pedida, mesmo cogitada? Nada de semelhante acontecera antes. Mas podia acontecer, uma localização seria descoberta, uma execução dupla garantida.

Pensara em telefonar para o secretário de Estado e sugerir uma entrevista matinal, muito invulgar, com o embaixador soviético. Mas despender-se-ia demasiado tempo com complicações diplomáticas, nenhum dos lados querendo admitir o objetivo de violência. Havia um meio melhor; perigoso, mas infinitamente mais direto.

Congdon levantou-se da cama em silêncio, desceu ao andar térreo e entrou no pequeno estúdio que era seu escritório em casa. Dirigiu-se à mesa, que era aparafusada ao chão, as gavetas inferiores da direita ocultando um cofre com uma fechadura de combinação. Acendendo a luz, abriu a tampa e ajustou a combinação. A fechadura deu um estalido, a porta de aço se abriu. Procurou por um instante e retirou uma ficha de arquivo onde se via um único número de telefone.

Ele julgara que nunca discaria aquele número. O código de área era 902 — Nova Escócia — e sempre alguém atenderia; era o número de um centro de computação, a estação central de coordenação de todas as operações secretas soviéticas na América do Norte. Chamando aquele número, revelaria um conhecimento que deveria ser ignorado. O Serviço Secreto americano supostamente desconhecia a central da Nova Escócia, mas o fator tempo e as circunstâncias extraordinárias sobrepunham-se à segurança. Havia um homem na Nova Escócia que compreenderia, sem preocupar-se com as aparências. Já dera muitas sentenças de morte. Era o dirigente mais graduado da KGB fora da Rússia.

Congdon apanhou o telefone.

— Cabot Strait Exportadores — disse uma voz masculina na Nova Escócia. Despachante da noite.

— Aqui é Daniel Congdon, subsecretário de Estado, Operações Consulares, do Governo dos Estados Unidos. Peço que investigue esta chamada e verifique que estou telefonando de uma residência particular em Herndon Fails, Virgínia. Enquanto estiver fazendo isso, ative os detectores eletrônicos de dispositivos de escuta. Não vai encontrar nada. Esperarei o quanto quiser, mas preciso falar com Voltagem Um, Vol’t Adin, como vocês o chamam.

Suas palavras foram recebidas em silêncio pela Nova Escócia. Não era necessária muita imaginação para visualizar um operador aturdido apertando botões de emergência. Por fim, a voz retrucou:

— Parece estar havendo interferência. Por favor, repita a mensagem.

Congdon repetiu.

Outra vez, silêncio. Então:

— Se esperar um pouco, o supervisor falará com o senhor. Entretanto, acho que discou o número errado aqui no cabo Breton.

— Você não está no cabo Breton. Está na baía de São Pedro, na ilha Príncipe Eduardo.

— Espere um momento, por favor.

A espera demorou quase três minutos. Congdon sentou-se. Estava funcionando.

Voltagem Um entrou na linha.

— Por favor, espere um pouco — disse o russo. Seguiu-se o som oco de uma ligação ainda intacta, mas em suspenso: dispositivos eletrônicos estavam em operação. O soviético tornou a falar: — Essa chamada origina-se realmente de um telefone residencial na cidade de Herndon Falls, Virgínia. Os detectores não revelam interferências, mas isso naturalmente pode não significar nada.

— Não sei que outras provas lhe posso oferecer...

— O senhor não me entendeu, Sr. Subsecretário. O fato de possuir esse telefone não é assim tão espantoso, mas o fato de ter tido a audácia de utilizá-lo e chamar-me por meu nome de código talvez seja. Já estou suficientemente convencido. O que deseja tratar comigo?

Congdon explicou da forma mais sucinta possível:

— Os senhores querem Taleniekov. Nós queremos Scofield. Estou convencido de que pretendem fazer contato em Washington. Seu homem de Bruxelas é a chave do local.

— Se não me engano, o cadáver dele foi entregue na nossa Embaixada há alguns dias.

— Isso mesmo.

— O senhor ligou o fato a Scofield?

— Foi seu próprio embaixador quem o fez. Ele lembrou que esse agente fez parte de uma seção da KGB em 1968 em Berlim Oriental, a unidade de Taleniekov, responsável por um incidente que envolveu a mulher de Scofield.

— Compreendo — retrucou o russo. — Então Beowulf Agate continua matando por vingança.

— Seria levar as coisas muito longe, não? Se me permite uma opinião parece-me que é Taleniekov quem está atrás de Scofield.

— Seja mais preciso, Sr. Subsecretário. Em princípio, estamos de acordo, mas o que deseja de nós?

— Uma informação que deve estar registrada em seus computadores ou em algum arquivo. É coisa de alguns anos atrás, mas os senhores devem tê-la; nós a teríamos. Achamos que numa época qualquer o homem de Bruxelas e Taleniekov operaram juntos em Washington. Precisamos do endereço de sua base. Ê a única ligação que temos entre Scofield e Taleniekov. Achamos que é onde irão encontrar-se.

Compreendo — repetiu o soviético. — E, supondo que esse endereço, ou endereços, realmente exista, qual seria a posição de seu Governo?

Congdon estava preparado para a pergunta:

Absolutamente nenhuma — replicou ele, sem alterar a voz. — A informação será passada a terceiros, homens a quem o comportamento de Scofield causa graves preocupações. Fora minha pessoa, nenhum membro do Governo se envolverá na questão.

Um cabograma em código, no mesmo teor, foi enviado a três células contra-revolucionárias européias, em Praga, Marselha e Amsterdam. Cabogramas desse tipo geralmente acarretam assassinatos.

Seu serviço de interceptação está de parabéns — retrucou o diretor das Operações Consulares.

Os senhores fazem o mesmo conosco todos os dias. Não há o que elogiar.

Não tentaram interferir?

De forma alguma, Sr. Subsecretário. O senhor interferiria?

Não.

Agora são onze horas em Moscou. Dentro de uma hora receberá uma resposta.

Congdon desligou e recostou-se na poltrona. Sentiu uma vontade louca de beber alguma coisa, mas decidiu não ceder à tentação. Era a primeira vez em sua longa carreira que estava tratando diretamente com o inimigo de Moscou. Não poderia mostrar o menor traço de irresponsabilidade. Estava só e aquele contato solitário era sua proteção. Fechou os olhos e imaginou paredes nuas de concreto branco.

Vinte minutos mais tarde o telefone tocou. Ele atendeu num pulo.

Na Avenida Nebraska, existe um hotel pequeno e seleto...

 

Scofield abriu a torneira de água fria, encostou-se na pia e olhou no espelho. Seus olhos estavam vermelhos por falta de sono, a barba crescida. Há quase três dias não se barbeava; seus momentos de descanso nesse período não somariam três horas. Eram pouco mais de quatro da madrugada e não tinha tempo para pensar em dormir ou fazer a barba.

Do outro lado do corredor, a atraente isca de Taleniekov não estava conseguindo descansar mais do que ele. Agora estava recebendo telefonemas a cada quinze minutos.

 

— Quero falar com o Sr. Brandon Scofield, por favor.

— Não conheço nenhum Scofield! Pare com esses telefonemas! Quem é você?

— Uma amiga do Sr. Scofield. Preciso falar urgentemente com ele.

— Ele não está aqui! Não o conheço. Pare com isso! Você está me deixando maluca! Vou mandar a telefonista não ligar mais para cá!

— Eu não faria isso, se fosse você. Seu amigo não aprovaria Você não receberá seu pagamento.

Pare com isso!

 

A antiga amante parisiense de Bray estava desincumbindo-se muito bem do seu papel. Fizera apenas uma pergunta quando ele lhe pedira para continuar telefonando.

— Você está em dificuldades, querido?

— Estou.

— Então farei o que me pede. Conte-me o que for possível para que eu saiba o que dizer.

— Não ultrapasse vinte segundos. Não sei quem está controlando a mesa telefônica.

— Você está mesmo em dificuldades.

Dali a uma hora, ou menos, a mulher da suíte em frente entraria em pânico e fugiria do hotel. O que quer que lhe tivessem prometido não compensava os telefonemas macabros, a sensação de perigo iminente. A isca se evaporaria, entravando a caçada.

Taleniekov seria então forçado a substituí-la pelos pássaros, e a manobra iria recomeçar. Apenas os telefonemas seriam menos freqüentes, talvez de hora em hora, quando estivessem começando a pegar no sono. Por fim, os pássaros voariam, pois o tempo em que podiam permanecer no ar também tinha limites. Os recursos do caçador eram extensos, mas não tanto. Ele estava operando em território estrangeiro; de quantas iscas e pássaros poderia dispor? Não podia continuar indefinidamente convocando contatos, arranjando entrevistas improvisadas para distribuir dinheiro e instruções.

Não, não poderia fazer isso. A frustração e a exaustão sobreviriam, e o caçador ficaria sozinho, esgotados os expedientes. Por fim, ele se mostraria. Não tinha outra escolha, não podia abandonar a suíte. Era a única armadilha de que dispunha, a única ligação com sua presa.

Mais cedo ou mais tarde, Taleniekov surgiria no corredor do hotel e deter-se-ia na porta do 211. Nunca mais daria outro passo.

O assassino soviético era um perito, mas ia perder a vida nas mãos do homem a quem chamava Beowulf Agate, pensou Scofield. Fechando a torneira, mergulhou o rosto na água fria.

Levantou a cabeça. Ouvira sons de passos no corredor. Dirigiu-se ao olho mágico. Em frente, uma empregada do hotel de aspecto matronal estava abrindo a porta. No braço esquerdo trazia várias toalhas e lençóis. Uma arrumadeira às quatro da manhã? Em silêncio, Bray saudou a imaginação de Taleniekov; esse contratara uma criada noturna para servir-lhe de olhos lá dentro. Uma manobra inteligente, mas falha. Tal vigia podia ser facilmente afastada, convocada pela portaria. Um acidente com um hóspede, um cigarro deixado aceso, uma jarra d’água derramada. E tinha um defeito ainda maior.

De manhã, deixaria o serviço. E nesse momento poderia ser chamada pelo hóspede do quarto em frente.

Scofield ia voltar à pia quando ouviu o vozerio e retornou ao olho mágico. A mulher bem-vestida acabara de sair do quarto com a pequena maleta na mão. A arrumadeira estava em pé na porta. Scofield podia ouvir as palavras da isca.

— Diga-lhe que vá para o inferno! — berrava ela. — Aquele cretino não passa de um maluco, meu bem. Esta joça está cheia de doidos!

A arrumadeira ficou em silêncio olhando a outra afastar-se. Depois entrou e fechou a porta.

A criada de aspecto matronal fora bem paga; de manhã, receberia uma paga ainda melhor do hóspede em frente. As negociações começariam no instante em que ela deixasse a suíte.

O laço estava ficando mais apertado. Agora, a paciência era tudo. Paciência e ficar acordado.

 

Taleniekov apressou o passo, sabendo que seus joelhos estavam prestes a ceder, esforçando-se para permanecer alerta, evitando esbarrar nos transeuntes que seguiam pela calçada. Fazia jogos mentais para manter a concentração, contando os passos e as rachaduras do piso entre as cabinas telefônicas. Os rádios não podiam mais ser utilizados, as faixas de onda repletas de ruídos. Amaldiçoou o fato de não ter tido tempo de comprar um equipamento mais sofisticado. Mas nunca julgara que aquilo pudesse demorar tanto! Uma loucura!

Eram onze e vinte da manhã. Na.cidade de Washington cheia de vida, as pessoas passavam apressadas, os automóveis e ônibus entupiam as ruas... e a suíte do hotel da Avenida Nebraska continuava recebendo aqueles telefonemas insanos.

— Quero falar com Brandon Scofield, por favor. É urgente...

Era de alucinar!

O que Scofield estaria fazendo? Onde estava? Onde estavam seus intermediários?

Apenas a mulher idosa permanecia no hotel. A prostituta revoltara-se, os dois homens há muito estavam exaustos, presenças meramente embaraçosas, inúteis. A mulher permanecia na suíte tirando alguns momentos de descanso entre os telefonemas enlouquecedores, anotando cada palavra da interlocutora. Uma mulher com forte sotaque estrangeiro, provavelmente francês, que nunca ficava na linha mais de quinze segundos, insensível a provocações, e rude. Tratava-se de uma profissional ou de alguém instruído por um profissional; fora impossível determinar a origem das chamadas.

Vasili entrou na cabina telefônica que ficava do outro lado da rua, a cinqüenta metros ao Norte do hotel. Era a quarta vez que telefonava daquela cabina, e memorizara as inscrições e os vários números gravados no metal cinza. Fechando a porta, inseriu uma moeda, esperou o ruído de discar e levou o dedo ao mostrador.

Praga!

Seus olhos lhe estavam pregando peças! Do outro lado da Avenida Nebraska, um homem saltou de um táxi e ficou parado na calçada olhando na direção do hotel. Ele conhecia aquele homem!

Pelo menos, conhecia seu rosto. E ele significava Praga!

Aquele homem tinha uma história violenta, tanto política como apolítica. Sua ficha criminal estava repleta de agressões, roubos e suspeitas de homicídio, tendo passado quase dez anos na prisão. Trabalhara contra o Estado mais por lucro do que por ideologia; fora bem pago pelos americanos. Sua perícia com armas de fogo era apreciável. Com armas brancas, melhor ainda.

O fato dele se encontrar em Washington e a menos de cinqüenta metros daquele hotel só podia significar que ele tinha alguma ligação com Scofield. Contudo, aquilo não fazia sentido! Beowulf Agate podia contar com o auxílio de dezenas de homens em dezenas de cidades, mas não recorreria a um europeu agora, e certamente não àquele homem — sua veia sádica era incontrolável. Então, por que ele estava ali? Quem o chamara?

Quem o enviara! Haveria outros?

Mas era o “porquê” que martelava o cérebro de Taleniekov. A descoberta era profundamente desconcertante. Além do fato de o local da sede Berna-Washington ter sido revelado — sem dúvida involuntariamente pelo próprio Scofield —, alguém que o conhecia fora procurar em Praga um pistoleiro de aluguel que já prestara muitos serviços aos americanos.

Por quê? Quem era o alvo?

Beowulf Agate?

Oh, Deus! Aquilo tinha método, um método que já fora utilizado antes por Washington... e que, por estranho que parecesse, era vagamente semelhante aos métodos do Matarese. Nuvens de tempestade sobre Washington... Scofield provocara uma tempestade tão forte que não fora apenas desligado; provavelmente, fora ordenada sua execução. Vasili precisava certificar-se. O homem de Praga poderia ser um engodo, um brilhante engodo para atrair um russo, e não para matar um americano.

Sua mão continuava em suspenso diante do mostrador. Baixou a alavanca de devolução de moedas e refletiu por um instante, perguntando-se se deveria correr o risco. Nisso, viu o homem do outro lado da rua consultar o relógio e dirigir-se para um café; ia encontrar-se com alguém. Então havia outros. Vasili percebeu que não poderia dar-se ao luxo de não correr o risco. Precisava saber, o tempo podia ser curto. Talvez lhe restassem apenas alguns minutos.

Havia um pradavyet na Embaixada, um assistente diplomático que perdera o pé esquerdo numa explosão durante uma revolta em Riga, alguns anos antes. Era um veterano da KGB e fora amigo de Taleniekov no passado. Talvez aquele não fosse o momento propício para testar a antiga amizade, mas Vasili não tinha escolha. Sabia o número da Embaixada; era o mesmo há anos. Tornou a inserir a moeda e discou.

— O tempo correu depois daquela noite terrível em Riga, meu velho amigo — disse Taleniekov quando atenderam no escritório do pradavyet.

— Quer esperar um momento, por favor — foi a resposta. — Estou falando em outro aparelho.

Vasili abriu os olhos. Se tivesse de esperar por mais de trinta segundos, já teria sua resposta: a antiga amizade não tinha mais valor. Até para os soviéticos existiam meios de determinar a origem de um telefonema na capital dos Estados Unidos. Virando o pulso, fixou os olhos no inquieto ponteiro de segundos de seu relógio. Vinte e oito, vinte e nove, trinta, trinta e um... trinta e dois. Ia desligar quando ouviu a voz.

— Taleniekov? é você mesmo?

Vasili reconheceu o zumbido de um dispositivo de interferência ligado ao bocal do telefone, o qual obstruiria com estática qualquer tentativa de interceptação.

— Sim, meu velho. Já ia desligar.

Ainda não esqueci Riga. Que foi que aconteceu? Soubemos de umas histórias malucas!

Não sou um traidor.

Ninguém aqui acredita nisso. Deduzimos que você pisou nos pés de algum moscovita muito importante. Mas por que não volta?

Algum dia voltarei.

Não pude acreditar nas acusações. Mas você está aqui!

Porque é preciso. Para o bem da Rússia. Para o bem de todos. Confie em mim. Preciso com urgência de uma informação. Se existe alguém aí na Embaixada que pode me ajudar, esse alguém é você.

De que se trata?

Acabei de ver um homem vindo de Praga, alguém que os americanos costumam utilizar por seus talentos mortíferos. Tínhamos uma longa ficha a seu respeito; ela ainda deve existir. Você sabe alguma coisa...

Trata-se de Beowulf Agate, não é? — interrompeu-o gentilmente o diplomata. — Você ainda não esqueceu Scofield.

Conte-me tudo que sabe!

Esqueça-o, Taleniekov. Deixe-o em paz. Sua própria gente cuidará dele. Ele está liquidado.

Meus Deus, eu estava certo! — exclamou Vasili com os olhos no café do outro lado da Avenida.

Não sei do que você esta falando, mas sei que foram interceptados três cabogramas. Para Praga, Marselha e Amsterdam.

Eles mandaram uma equipe — ajuntou Taleniekov.

Mantenha-se longe disso. Você terá sua vingança, a mais doce vingança que poderia imaginar. Depois de tantos anos de serviço, ele será morto por sua própria gente.

Isso não pode acontecer! Há fatos que você ignora.

Pode acontecer, sim, não importa o que eu desconheça. Não podemos impedir.

De repente, a atenção de Vasili foi atraída por um pedestre que se preparava para atravessar na esquina, a uns dez metros da cabina telefônica. O homem tinha qualquer coisa diferente, talvez a expressão determinada do rosto, os olhos que corriam de um lado para o outro por trás das lentes claras — indecisos, mas não desorientados, examinando os arredores. E as roupas dele, largas, de um tweed barato, mas espesso e durável... eram francesas. Os óculos eram franceses, o rosto de um gaulês. O homem olhou na direção da marquise do hotel e apressou o passo.

Marselha chegara.

— Venha para cá — estava dizendo o diplomata. — Considerando-se seus extraordinários serviços, não creio que o que quer que tenha acontecido seja irreparável — continuou, em tom persuasivo, o antigo camarada de Riga. — O fato de se entregar voluntariamente contará a seu favor. E Deus é testemunha de que contará com nosso apoio. Atribuiremos sua fuga a uma perturbação passageira, um estado emocional anormal. Afinal, Scofield matou seu irmão.

— Eu matei a mulher dele.

— Uma esposa não é do mesmo sangue. Isso é compreensível. Tome a decisão certa. Entregue-se, Taleniekov.

A tentativa de persuasão, de excessiva, passara a ilógica. Um homem não se entrega voluntariamente sem ter indícios concretos de uma absolvição. Não com uma sentença de execução sumária pendendo sobre sua cabeça. Talvez, afinal, a antiga amizade não tivesse resistido à pressão.

— Você me protegerá? — perguntou ele ao pradavyet.

— Naturalmente.

Mentira. Ele não poderia garantir tal coisa. Algo estava errado.

Do outro lado da rua, o homem de terno francês aproximou-se do café. Diminuindo o passo, parou diante da vitrina como que para examinar o menu afixado ao vidro, e acendeu um cigarro. Dentro, quase invisível à luz do sol, a chama de um fósforo tremeluziu. O francês entrou. Praga e Marselha tinham feito contato.

— Agradeço seus conselhos — disse Vasili ao telefone. — Vou pensar, ligarei mais tarde.

— Quanto mais cedo, melhor para você — retrucou o diplomata, a persuasão cedendo lugar à pressão. — Envolvendo-se com Scofield, não melhorará em nada sua situação. Você não deve ser visto por aí.

Visto por aí? Taleniekov reagiu a essas palavras como a um disparo de pistola. O velho amigo traíra-se com aquela admissão. Visto onde? Seu colega de Riga sabia: no hotel da Avenida Nebraska. Não fora Scofield quem, voluntária ou involuntariamente, revelara a base soviética. Fora a própria KGB! O Serviço Secreto soviético colaborara para a execução de Beowulf Agate. Por quê? O Matarese? Não havia tempo para refletir, só para agir... O hotel! Scofield não estava sentado sozinho diante de um telefone em algum lugar afastado, esperando notícias de seus intermediários. Ele estava no hotel. Ninguém teria de deixar o local para levar informações a Beowulf Agate, nenhum pássaro iria levá-lo até o alvo. O alvo executara uma manobra brilhante: encontrava-se na linha de fogo, oculto, observando sem ser observado.

— Você precisa me escutar, Vasili.

O pradavyet tornara-se mais eloqüente agora, sem dúvida percebendo a indecisão do interlocutor. Se o antigo colega de Riga tinha de ser executado, isso poderia ser feito de inúmeras maneiras no interior da Embaixada. Seria infinitamente preferível ao encontro do cadáver num hotel americano, uma morte logo associada ao assassinato de um agente secreto americano por agentes estrangeiros. Aquilo significava que a KGB revelara a localização da base aos americanos, desconhecendo, contudo, a hora da execução.

Mas agora já sabiam. Alguém do Departamento de Estado os informara com instruções claras: seus compatriotas deveriam manter-se longe do hotel — assim como os americanos. Ninguém deveria envolver-se. Vasili precisava de tempo, talvez só lhe restassem alguns minutos.

— Estou escutando — retrucou Vasili num tom sincero, um homem exausto recobrando a razão. — Você está certo. Não tenho mais nada a ganhar, só a perder. Entrego-me em suas mãos. Se conseguir arranjar um táxi nesse tráfego louco, estarei na Embaixada dentro de meia hora. Espere por mim. Preciso de você.

Vasili cortou a ligação e, ingerindo outra moeda, discou o número do hotel. Não podia perder um segundo.

— Ele está aqui? — perguntou incrédula a mulher idosa ao ouvir a declaração de Taleniekov.

— Meu palpite é que está bem perto. Isso explica a presteza de suas reações, os telefonemas, o fato de ele saber quando alguém entra na suíte. Deve estar no mesmo andar, escutando do outro lado da parede, ou espiando por uma fresta ao ouvir barulho no corredor. Você ainda está de uniforme?

— Sim, estava cansada demais para tirá-lo.

— Investigue os quartos aí em volta.

— Deus do céu, sabe o que está me pedindo? E se ele.. ,

— Sei o que estou lhe pagando; pagarei mais se fizer o que peço. Vá! Não há um momento a perder. Telefonarei daqui a cinco minutos.

— Como vou saber se é ele?

— Ele não a deixará entrar.

 

Bray sentara-se sem camisa entre a janela aberta e a porta, e o ar frio o fazia estremecer. Reduzira a temperatura do quarto dez graus; a friagem o manteria acordado. Um homem exausto com frio conservava-se mais alerta do que um que estivesse confortavelmente aquecido.

Ouviu um som leve e distante de metal atritando contra metal e o girar de uma maçaneta. No corredor, uma porta se abrira. Scofield fechou a janela e correu para o minúsculo ponto de observação a fim de ver o estreito mundo que logo iria tornar-se o local de uma armadilha invertida. Teria de ser logo. Não sabia quanto tempo mais poderia agüentar.

Do outro lado, a arrumadeira idosa de aspecto agradável deixara a suíte com uma pilha de lençóis e toalhas sobre o antebraço. Tinha uma expressão perplexa, mas resignada. Sem dúvida, estava pensando que o estrangeiro lhe oferecera uma quantia inusitada apenas para ficar acordada e receber uma série de telefonemas estranhos. Outra pessoa também tinha ficado acordada para dar aqueles telefonemas. Alguém a quem Bray muito devia; algum dia a recompensaria. Mas no momento tinha de se concentrar no pássaro de Taleniekov. Ela estava indo embora; não era capaz de permanecer no ar mais tempo.

Ela abandonara a base. Agora, era só questão de tempo, muito pouco tempo. O caçador seria forçado a examinar a armadilha. E cairia nela.

Scofield dirigiu-se para a mala aberta sobre a cômoda e pegou uma camisa limpa e bem-engomada. O tecido rígido e encorpado funcionava como um irritante, da mesma forma que o frio, mantendo-o alerta.

Vestiu-a e andou até a mesa de cabeceira onde colocara a arma, uma Browning Magnum tipo IV, munida de um silenciador especial.

A um som inesperado, Bray girou nos calcanhares. A batida tímida repetiu-se. Por quê? Ele pagara pelo total isolamento. A portaria alertara os poucos empregados que poderiam ter motivos para entrar no quarto 213 no sentido de respeitar o letreiro pendurado na maçaneta.

Não Perturbe.

Entretanto, alguém estava desobedecendo a ordem, ignorando o pedido de um hóspede, pedido reforçado com uma gorjeta de várias centenas de dólares. Ou esse alguém era surdo e analfabeto ou...

Era a arrumadeira, o pássaro de Taleniekov, ainda em ação. Scofield espiou pela minúscula lente circular que ampliava os traços cansados do rosto a poucos centímetros de distância. Os olhos empapuçados pela falta de sono olharam para um lado e para o outro e depois baixaram. A velha tinha de estar vendo o letreiro, mas evidentemente não o acatava. Além do comportamento contraditório, seu rosto tinha algo de estranho... mas Bray não tinha tempo para um exame mais profundo. Nas novas circunstâncias, as negociações tinham de começar depressa. Ele enfiou a arma dentro da camisa, o tecido engomado disfarçando a saliência.

— O que é? — perguntou.

— A arrumadeira, senhor — foi a resposta num vago sotaque irlandês. — Estou trocando as toalhas a mando da gerência, senhor.

O pretexto era muito fraco, o pássaro tonto demais para imaginar um melhor.

— Entre — disse Scofield abrindo a porta.

 

— Ninguém atende na suíte 211 — disse a telefonista, irritada com a insistência do interlocutor.

— Tente outra vez — retrucou Taleniekov, olhos fixos na entrada do café do outro lado da rua. — Eles podem ter saído por um instante, mas voltarão logo. Eu sei disso. Continue chamando. Eu espero na linha.

— Como quiser, senhor — replicou a telefonista.

Que inferno! Nove minutos se haviam passado desde que a velha começara sua busca, nove minutos para bater em quatro portas no corredor. Mesmo supondo-se que os quatro quartos estivessem ocupados e que a arrumadeira precisasse desculpar-se com os ocupantes, nove minutos era demasiado. O último diálogo seria breve e áspero. “Vá embora. Não quero ser perturbado.” A menos que...

Um fósforo tremeluziu à luz do sol, o reflexo nítido no vidro escuro do café. Vasili piscou e fixou a vista; em alguma mesa invisível lá dentro, um sinal correspondente extinguiu-se com rapidez.

Amsterdam chegara. A equipe de execução estava completa. Taleniekov examinou o vulto que entrava no pequeno restaurante Era um homem alto com um sobretudo negro e um cachecol de seda cinzento. O chapéu também era cinzento, e lhe encobria o perfil.

Do outro lado da linha, a campainha tocava com insistência. Toques longos e insistentes produzidos por uma telefonista furiosa Ninguém atendia e Vasili começou a pensar no inconcebível: Beowulf Agate interceptara sua isca. Nesse caso, o americano corria perigo muito maior do que poderia imaginar. Três homens haviam chegado da Europa para serem seus verdugos e — não menos mortífera do que eles — a velhinha de aparência frágil, com quem poderia tentar negociar, iria matá-lo no instante em que se sentisse encurralada. Ele nem saberia de onde viera o tiro, nem que ela estava armada.

— Sinto muito, senhor! — exclamou, raivosa, a telefonista. — Continuam não atendendo na suíte 211. Sugiro que telefone mais tarde.

Sem esperar uma resposta, ela cortou a ligação.

A telefonista do hotel?

Era uma manobra desesperada, que ele nunca aprovaria a não ser como último recurso — o risco de expor-se grande demais. Mas aquele era seu último recurso e, se existiam alternativas, estava demasiado exausto para descobri-las. Agora sabia apenas que precisava agir, cada decisão um reflexo instintivo em que depositava confiança. Enfiou a mão no bolso e tirou cinco notas de cem dólares. Depois, da carteira de documentos, extraiu uma carta que escrevera numa máquina inglesa cinco dias antes em Moscou. O papel timbrado de uma firma de corretagem em Berna identificava o portador como um dos sócios da casa. Nunca se sabia...

Deixando a cabina telefônica, acompanhou o fluxo dos pedestres até achar-se bem em frente à porta do hotel. Esperou que o tráfego diminuísse e atravessou rapidamente a Avenida Nebraska.

Dois minutos depois, um solícito gerente apresentou Monsieur Blanchard à telefonista do hotel. Esse mesmo gerente — tão bem-impressionado com as credenciais do monsieur como com os duzentos dólares com os quais o financista suíço o recompensara pelo incômodo — providenciara rapidamente uma telefonista substituta enquanto a moça falava a sós com o generoso Monsieur Blanchard.

— Peço-lhe que perdoe minha rudeza ao telefone — disse Taleniekov, depositando três notas de cem dólares na mão nervosa da pequena. — Foi a rudeza de um homem muito preocupado. O mundo das finanças tem aspectos aterradores hoje cm dia. E uma verdadeira guerra. É necessária uma luta constante para impedir que homens inescrupulosos se aproveitem de corretores honestos e instituições legítimas. Minha companhia está com um sério problema. Há alguém neste hotel...

Um minuto depois, Vasili estava examinando uma lista de chamadas telefônicas registradas por um computador. Concentrou-se nas chamadas do segundo andar. Havia ali dois corredores: a ala Oeste, com as suítes 211 e 212 em frente a três quartos de casal, e do outro lado quatro quartos de solteiro. Examinou todas as chamadas da ala Oeste. Os nomes nada significavam; as chamadas locais não eram identificadas pelo número, apenas as interurbanas poderiam fornecer informações. Beowulf Agate precisava camuflar seus passos, fabricar uma pista para um ponto longe de Washington. Ele matara um homem em Washington.

Como Taleniekov já sabia, aquele era um hotel caro. A lista confirmava o fato, pois seus hóspedes telefonavam para Londres com a mesma facilidade com que discariam para o restaurante ao lado. Concentrou-se no destino das chamadas:

 

212... Londres, Ing. $26.50

214... Des Moines, Ia. $4.75

214... Cedar Rapids, Ia. $6.20

213... Minneapolis, Minn. $7.10

215... Denver, Col. $6.75

213... Easton, Md. $8.05

215... Atlanta, Ga. $3.15

212... Munique, Al. Oc. $41.10

213... Easton, Md. $4.30

212... Estocolmo, Suécia $38.25

 

Onde achar um padrão? A suíte 212 fizera chamadas freqüentes para a Europa. Era óbvio demais, perigoso demais. Scofield não se exporia dessa maneira. O quarto 214 concentrava-se no Meio-Oeste, o 215 no Sul. Mas havia ali qualquer coisa que ele não sabia identificar. Algo que despertara uma lembrança.

Percebeu, então, e a lembrança se tornou clara. O quarto 213. O único que não obedecia a um padrão. Duas chamadas para Easton, Maryland, e uma para Minneapolis, Minnesota. Vasili viu as palavras do dossiê como se o estivesse lendo agora. Brandon Scofield tinha uma irmã em Minneapolis, Minnesota.

Taleniekov decorou os dois números, caso houvesse necessidade de utilizá-los, caso houvesse tempo de confirmar suas suspeitas. Depois virou-se para a telefonista:

— Não sei o que dizer. A senhorita foi muito atenciosa, mas não creio que isso aqui possa ajudar em alguma coisa.

Entrando na pequena conspiração, satisfeita com a atenção com que aquele homem importante a distinguia, a moça aventurou:

— Repare, Monsieur Blanchard, a suíte 212 fez várias chamadas para a Europa.

— Sim, notei. Infelizmente, não há ninguém nesses locais que esteja envolvido na presente crise. Entretanto, é estranho... O quarto 213 telefonou para Easton e Minneapolis. Pode ser coincidência, mas tenho amigos nos dois lugares...

Vasili deixou a frase interminada, um convite a um comentário.

— Aqui entre nós, Monsieur Blanchard, acho que o cavalheiro do quarto 213 não é muito bom da cabeça, sabe?

— É?

A moça explicou. O hóspede dera ordem para que sua privacidade não fosse perturbada. Até o restaurante recebera instruções para deixar as refeições no corredor, e a arrumação só deveria ser feita a pedido. Pelo que ela sabia, tal pedido não era feito há três dias. Quem podia viver assim?

— Naturalmente, volta e meia aparece gente desse tipo. Homens que alugam um quarto para embriagar-se o dia inteiro, ou ficar longe de suas esposas, ou para encontrar-se com outras mulheres. Mas acho que três dias sem arrumar o quarto é coisa de gente doente.

— Pelo menos, ele não é nada exigente.

— Isso está ficando cada vez mais comum — confidenciou a moça. — Especialmente gente do Governo. Todo mundo anda tenso. Mas quando se pensa que somos nós que pagamos a conta com nossos impostos...

— Ele é do Governo? — interrompeu Taleniekov.

— Parece. O gerente da noite não tinha autorização para dizer coisa alguma, mas como trabalho aqui há muito tempo...

— É de toda confiança, naturalmente. O que aconteceu?

— Bem, esteve aqui um homem na noite passada — às cinco da manhã, para ser mais exata — e mostrou uma fotografia ao gerente.

— Uma foto do homem do quarto 213?

A telefonista olhou para trás; a porta do escritório estava aberta, mas não havia ninguém à vista.

— É. Parece que ele está mesmo doente. Ou é alcoólatra ou tem algum distúrbio mental. Ninguém deve dizer nada para não o alarmar. Um médico deve vir buscá-lo hoje, a qualquer hora dessas.

— A qualquer hora, é? Sem dúvida, o homem que esteve aqui identificou-se como funcionário do Governo. Foi assim que souberam que o tal hóspede é do Governo também, não foi?

— Quem vive aqui há muito tempo, Monsieur Blanchard, não precisa nem de documentos para identificá-los. Está na cara de todos eles.

— Creio que sim. Muitíssimo obrigado. A senhorita foi de grande ajuda.

Vasili saiu rapidamente e dirigiu-se ao saguão. Obtivera sua confirmação. Encontrara Beowulf Agate.

Outros, porém, também o tinham encontrado. Os verdugos de Scofield estavam a poucas dezenas de metros, preparando-se para a execução.

Invadir o quarto do americano para adverti-lo seria um convite, a um tiroteio. Um deles morreria, ou ambos. Falar-lhe pelo telefone seria inútil: que crédito merecia o alarme dado por um inimigo odioso a respeito de um novo inimigo cuja existência ele ignorava?

Tinha de haver uma forma, e precisava descobri-la depressa. Se ao menos houvesse tempo para mandar outra pessoa com algo que convencesse Scofield da verdade... Algo em que Beowulf Agate acreditasse...

Não havia mais tempo. Vasili viu o homem de sobretudo negro entrar no saguão do hotel.

 

No instante em que a arrumadeira entrou no quarto, Scofield descobriu o que o intrigara em seu rosto idoso. Era o olhar. Revelava uma inteligência que não se coadunava com uma simples doméstica que passava as noites limpando o que hóspedes descuidados haviam sujado. Ela estava amedrontada — ou talvez apenas curiosa — mas de qualquer forma não possuía uma mente obtusa.

Uma atriz, talvez?

— Desculpe o incômodo, senhor — disse a mulher, notando a barba por fazer e a temperatura baixa, e seguindo em direção ao banheiro. — Num minuto eu termino.

Uma atriz. O sotaque era falso, sem raízes na Irlanda. O andar também era lépido; as pernas não tinham os músculos de uma pessoa habituada ao trabalho tedioso de carregar lençóis e fazer camas. E as mãos eram brancas e macias, não irritadas pelo uso constante de saponáceos.

Bray apiedou-se dela, desaprovando novamente a escolha de Taleniekov. Uma arrumadeira de verdade seria um pássaro muito melhor.

— Troquei todas as toalhas, senhor — disse a velha, saindo do banheiro e dirigindo-se para a porta. — Já vou, agora. Desculpe tê-lo incomodado.

Scofield deteve-a com um gesto.

— Senhor? — perguntou a mulher, os olhos alertas.

— Diga-me, de que parte da Irlanda a senhora é? Não consigo identificar o sotaque. Por acaso é do Condado de Wicklow?

— Sou, sim, senhor.

— Da região Sul?

— Sim, o senhor acertou —- retrucou ela rapidamente, a mão esquerda na maçaneta.

— Pode me dar uma toalha extra? Pode deixá-la sobre a cama.

— Ah? — a velha virou-se, a expressão outra vez perplexa. — Pois não, senhor — acrescentou, dirigindo-se para a cama.

Bray aproximou-se da porta e fechou o ferrolho, sempre falando em tom tranqüilo. Nada tinha a ganhar alarmando o assustado pássaro de Taleniekov. — Gostaria de conversar com você. Sabe, eu a vi na noite passada, às quatro da madrugada, para ser mais preciso...

Um deslocamento de ar, um farfalhar de tecido. Sons que lhe eram familiares. No quarto, atrás dele.

Girou nos calcanhares, mas não a tempo. Ouviu o disparo abafado e sentiu a bala raspar-lhe o pescoço. O sangue brotou, banhando-lhe o ombro esquerdo. Ele jogou-se para a direita. Um segundo tiro foi encravar-se na parede acima de sua cabeça. Scofield girou o braço com violência, lançando um abajur que estava sobre a mesa na direção daquela visão inacreditável a dois metros de distância.

A velha deixara cair as toalhas e empunhava uma arma. A doce expressão de surpresa desaparecera, substituída pelo rosto calmo e determinado de uma assassina experiente. Ele devia ter adivinhado!

Ele abaixou-se e seus dedos agarraram o pé da mesa. Deslocou-se como um relâmpago para a direita e depois para a esquerda e, segurando a mesinha como um aríete, arremeteu contra a velha. Dois disparos soaram, penetrando na madeira a alguns centímetros de sua cabeça.

Ele atingiu a mulher, jogando-a contra a parede com tal força que expulsou o ar de seus pulmões e a saliva lhe escorreu dos lábios retorcidos.

Soltando um grito abafado, ela deixou cair a pistola. Scofield largou a mesa em cima dos pés da velha e abaixou-se para apanhar a arma.

De posse da pistola, ergueu-se e agarrou pelos cabelos a mulher encurvada, afastando-a da parede. A peruca ruiva que ela usava se soltou, fazendo-o perder o equilíbrio. De algum ponto sob o uniforme, a assassina de cabelos grisalhos sacou um punhal — um fino estilete. Bray já vira anteriormente armas semelhantes, com lâminas banhadas em ácido succínico e colina, tão mortíferas como uma pistola. A paralisia sobrevinha em segundos, a morte logo depois. Um arranhão ou uma perfuração superficial era o bastante. Ela o atacou, o punhal em riste, um golpe quase indefensável empregado pelos mais experientes. Ele pulou para trás, atingindo o antebraço dela com a pistola. Com a dor, ela recuou instintivamente, mas sem desistir de seu intento.

— Pare! — ordenou ele, apontando a arma diretamente para o rosto dela. — Você disparou quatro vezes. Ainda restam duas balas. Eu a matarei!

A velha baixou o punhal e ficou imóvel, muda, a respiração ofegante, fitando-o com ar de espanto. Ocorreu a Scofield que ela nunca estivera antes naquela posição. Sempre fora a vencedora.

O pássaro de Taleniekov era um gavião cruel sob o disfarce de uma rolinha cinzenta. Aquela coloração protetora era sua segurança. Nunca lhe havia falhado.

— Quem é você? É da KGB? — perguntou Bray, apanhando a toalha na cama e apertando-a contra o ferimento do pescoço.

— O quê? — sussurrou ela, o olhar ainda distante.

— Você trabalha para Taleniekov. Onde está ele?

— O homem que me contratou usa vários nomes — replicou ela, a mão inerte ainda segurando a faca. Sua fúria evolara-se, substituída por medo e exaustão. — Não sei quem ele é. Não sei onde está.

— Ele sabia onde encontrá-la. Você foi treinada. Onde? Quando?

— Quando? — repetiu ela, num sussurro exangue. — Quando você ainda era criança. Onde? Fomos retiradas de Belsen e Da-chau... e enviadas para outros campos, outras frentes. Todas nós.

— Deus... — murmurou Scofield baixinho.

Todas nós. Uma legião delas. Jovens dos campos de concentração enviadas para as frentes de batalha, para os acampamentos, para os campos de pouso. Sobrevivendo como prostitutas, desonradas, indesejáveis, banidas por sua própria gente. Haviam se tornado a escória da Europa. Taleniekov sabia onde encontrar seu rebanho.

— Por que trabalha para ele? Ele não é melhor do que aqueles que a enviaram para os campos.

— Não tenho escolha. Ele me mataria. Agora é você quem vai me matar.

— Eu a teria morto meio minuto atrás. Você não me dava outra opção. Mas, se me der, eu a protegerei. Como entra em contato com esse homem?

— Ele telefona. Para a suíte aí em frente.

— Com que freqüência?

— A cada dez ou quinze minutos. Deve estar para telefonar.

— Vamos — disse Bray com cautela. — Ande para a direita e largue o punhal na cama.

— E então você atira — sussurrou a velha.

— Por que eu iria esperar? — retrucou Scofield. Precisava dela, precisava ganhar-lhe a confiança. — Se eu quisesse já teria atirado, não acha? Vamos lá para o seu telefone. Dobro a proposta que ele lhe fez.

— Acho que não conseguirei andar. Creio que você quebrou meu pé.

— Eu ajudo. — Bray baixou a toalha e, dando um passo na direção dela, estendeu-lhe a mão. — Segure no meu braço.

A velha adiantou o pé esquerdo com um ríctus de dor. Então, de repente, como uma leoa enfurecida, ela atacou, o rosto novamente contorcido, o olhar insano.

A lâmina voou na direção do estômago de Scofield.

 

Taleniekov entrou no elevador atrás do homem de Amsterdam. Havia somente dois outros passageiros. Um casal jovem de americanos ricos e mimados, amantes ou recém-casados elegantemente vestidos, cônscios apenas um do outro e de seus apetites. Tinham bebido.

O holandês de sobretudo negro tirou o chapéu cinzento e Vasili, a seu lado, encostado na parede do pequeno cubículo, virou o rosto para o lado. As portas fecharam-se. A jovem riu baixinho e seu companheiro apertou o botão do quinto andar. O homem de Amsterdam adiantou-se e apertou o número dois.

Ao recuar, olhou para a esquerda e viu Taleniekov. O choque foi total, o reconhecimento instantâneo — o homem ficou paralisado. E em seu choque, em sua reação, Vasili percebeu outra verdade: a execução também o incluía. A equipe tinha uma prioridade que era Beowulf Agate, mas se um agente da KGB chamado Taleniekov aparecesse em cena deveria ser eliminado tão impiedosamente quanto Scofield.

O homem de Amsterdam levou o chapéu ao peito e meteu a mão direita no bolso. Vasili arremeteu, imprensando-o contra a parede, e com a mão esquerda agarrou o punho dentro do bolso, forçando-o a abandonar a arma. Procurando o polegar, torceu-o para fora até que o osso estalou e o homem soltou um berro, caindo de joelhos.

A jovem gritou. Em voz forte, Taleniekov dirigiu-se ao casal.

— Não lhes farei mal. Repito, não lhes farei mal se fizerem o que eu mandar. Não façam barulho e levem-nos até seu quarto.

O holandês cambaleou para a direita. Vasili golpeou-lhe o rosto com o joelho, imprensando-Ihe a cabeça contra a parede. Tirou a arma do bolso e apontou-a para o teto.

— Não pretendo usar isto. Não pretendo usar, a menos que me desobedeçam. Vocês nada têm a ver com nossa rixa, e não lhes quero fazer mal. Mas terão de fazer o que eu disser.

— Deus, Deus do céu... — os lábios do rapaz tremiam.

— Pegue a chave — ordenou Taleniekov, quase amável. — Quando as portas se abrirem, saiam naturalmente à nossa frente e sigam até o quarto. Não correrão perigo se fizerem o que eu mandar. Caso contrário, se gritarem ou derem o alarma, terei de atirar. Mas não para matar. Atirarei na espinha. Ficarão paralisados o resto da vida.

— Oh, Deus, por favor!...

Agora, toda a cabeça, o pescoço e os ombros dó rapaz tremiam.

— Por favor, cavalheiro! Faremos tudo que quiser! — a moça ao menos conservara a lucidez e tirou a chave do colete do companheiro.

— Levante-se! — ordenou Vasili ao homem de Amsterdam. Enfiando a mão no bolso do sobretudo do assassino, apanhou a arma do holandês.

As portas do elevador se abriram. O casal saiu em passos tensos, cruzando com um homem idoso que lia um jornal e dobrou à direita no corredor. Taleniekov, a Graz-Burya escondida ao lado, agarrou Amsterdam pelo sobretudo, empurrando-o para a frente.

— Se der um pio, holandês — sussurrou —, será o último. Estouro-lhe os miolos. Não terá tempo nem de gritar.

No quarto do casal, Vasili empurrou o holandês para uma cadeira, mantendo-o sob a mira do revólver, e deu novas ordens aos amedrontados jovens.

— Entrem no armário de roupas. Depressa!

As lágrimas agora escorriam pelo rosto mimado do rapaz; a moça empurrou-o para o interior escuro de sua cela temporária. Taleniekov colocou uma cadeira sob o trinco da porta e chutou-a até vê-la firmemente presa entre o metal e o tapete. Virou-se então para o holandês.

— Você tem exatamente cinco segundos para me explicar todo o plano — disse ele, apontando a arma para o rosto do verdugo.

— Seja mais explícito — foi a resposta do profissional.

— Como queira. — Vasili desceu o cano da Graz-Burya, cortando a face do assassino. O sangue correu; o homem ergueu as mãos. Vasili curvou-se e golpeou os dois pulsos em rápida sucessão. — Baixe as mãos! Nós mal começamos. Beba o seu sangue! Daqui a pouco, você não vai ter mais lábios. Depois vai perder os dentes, o queixo, as maçãs do rosto! Por fim, vou tirar-lhe os olhos! Você já viu um homem assim? Os ferimentos no rosto são terrivelmente dolorosos, furar os olhos, então, é insuportável... — Vasili atingiu-o novamente, dessa vez num movimento ascendente, lacerando as narinas do homem.

— Não... não! Apenas obedeço ordens!

— Onde foi que já ouvi essa história antes? — Taleniekov ergueu a arma; as mãos levantaram-se outra vez e outra vez foram repelidas com golpes. — Quais são suas ordens, holandês? Vocês são três, e os cinco segundos já se passaram! A brincadeira terminou. — Ele bateu com força com o cano da Graz-Burya no supercílio direito e depois no esquerdo do homem. — O tempo acabou! — recuou a arma e depois enfiou-a como um punhal na garganta do outro.

— Pare! — berrou o homem sem ar, a voz truncada. — Eu falo... Ele nos traiu, está revelando nossos nomes por dinheiro... Vendeu-se ao inimigo!

— Sua opinião não interessa. Quero as ordens!

— Ele nunca me viu. Posso tirá-lo de lá.

— Como?

— Você. Você está a caminho. Eu vim avisá-lo.

— Ele o repeliria, o mataria! A desculpa é muito fraca. Como descobriu o quarto dele?

— Temos uma fotografia.

— Dele? Ou minha?

— De vocês dois, naturalmente. Mas só mostrei a dele. O gerente da noite reconheceu-o.

— Quem lhe deu essa fotografia?

— Amigos de Praga que operam agora em Washington e que tem elos com os soviéticos. Ex-amigos de Beowulf Agate que sabem o que ele fez.

Taleniekov fitou o homem de Amsterdam. Ele estava dizendo a verdade, pois a explicação estava baseada em meias-verdades. Scofield procuraria discrepâncias, mas não poderia ignorar as palavras de Amsterdam; não se podia dar a esse luxo. Reteria o holandês como refém e ficaria a postos. Esperando, observando, oculto. Vasili pressionou o olho direito do holandês com o cano da Graz-Burya.

— Onde estão Marselha e Praga? Onde vão colocar-se?

— Fora os elevadores sociais, os andares só têm duas saídas: as escadas e o elevador de serviço. Eles ficarão nesses dois pontos.

— Quem ficará onde?

— Praga nas escadas, Marselha no elevador de serviço.

— Qual é o cronograma? Minuto por minuto.

— Já está se escoando. Devo bater na porta dele às 12hl0min. Taleniekov olhou de relance o relógio antigo sobre a escriva­ninha. Eram 12hllmin.

— Eles já estão a postos.

— Não sei. Não posso ver o relógio. Meus olhos estão cheios de sangue.

— Quando é a hora-zero? Descobrirei se você mentir. E você morrerá de uma forma que não pode nem imaginar. Fale!

— A hora-zero é às 12h35min. Se Beowulf não tiver aparecido em nenhum dos dois lugares, invadirão seu quarto. Mas, francamente, não confio em Praga. Acho que ele nos jogaria na frente, a mim e Marselha, para receber o fogo inicial. Ele é louco!

Vasili levantou-se.

— Seu discernimento é bem maior do que a sua perícia.

— Já lhe contei tudo! Não me bata mais. Pelo amor de Deus, deixe-me limpar os olhos. Não posso ver!

— Limpe. Quero você enxergando muito bem. Levante-se!

O holandês ergueu-se, as mãos cobrindo o rosto, afastando os fios de sangue, a Graz-Burya enfiada em seu pescoço.

Por alguns segundos, Taleniekov ficou imóvel, os olhos no telefone do outro lado do quarto. Estava prestes a falar com um inimigo a quem odiara durante uma década, prestes a ouvir-lhe a voz.

Ia tentar salvar a vida do inimigo.

 

Scofield rodopiou quando a lâmina letal lhe cortou a camisa, resvalando no metal da arma que escondera sob o tecido engomado poucos minutos antes. A mulher era uma louca suicida! Teria de matá-la e não queria fazer isso!

A pistola!

Ele dissera que ainda restavam duas balas. Ela sabia que a verdade era outra!

Ela estava atacando outra vez, brandindo o punhal em ziguezague — o que quer que estivesse em seu caminho seria cortado, arranhado ao menos, ferimento insignificante em circunstâncias normais, mas fatal com aquela lâmina. Ele mirou a arma para o rosto dela e apertou o gatilho; nada aconteceu, a não ser o estalido do percursor.

Ele deu um chute violento com o pé direito, atingindo-a entre o seio e a axila, desequilibrando-a por um instante, mas apenas por um instante. Parecia uma louca, segurando o punhal como se fosse um passaporte para a vida; apenas um toque e ela estaria livre. Encurvada, brandia o braço esquerdo como um escudo protegendo a lâmina que voava furiosamente em sua direita. Ele pulou para trás, procurando alguma coisa, qualquer coisa com que pudesse defender-se das investidas dela.

Por que ela protelara o ataque? Por que parará de repente e falara com ele, revelando fatos que o tinham feito pensar? Então percebeu. O gavião não era apenas cruel, mas sábio — vira que precisava restaurar as energias gastas, e que só o conseguiria aplacando o inimigo, distraindo-o, à espera de um descuido... um único toque da lâmina envenenada.

Ela investiu outra vez, o punhal descrevendo um arco ascendente do chão para as pernas dele. Ele chutou; ela recuou a lâmina e então, numa cutilada lateral, passou a milímetros da rótula de Scofield. Com o golpe, seu braço girou para a esquerda e ele a atingiu no ombro com o pé direito, lançando-a de costas no chão.

Ela caiu; ele agarrou o objeto mais próximo — um abajur de pé com uma pesada base de metal — e jogou-o sobre ela, ao mesmo tempo em que tornava a chutar a mão que segurava o estilete.

O pulso da mulher dobrou-se para dentro e a ponta da lâmina perfurou o tecido do seu uniforme de arrumadeira, penetrando na carne acima do seio esquerdo.

A cena que ele presenciou, então, bem que gostaria de esquecer. Os olhos da mulher arregalaram-se e saltaram, seus lábios distenderam-se num sorriso macabro e tenebroso. Ela começou a contorcer-se no chão em convulsões horríveis. Por fim, contraiu-se em posição fetal, as pernas magras contra a barriga, a agonia completa. Gritos roucos e prolongados lhe saíram da garganta quando ela rolou, cravando as unhas no tapete, a boca contorcida expelindo muco, a língua intumescida.

De repente, um engasgo horrível e uma última expulsão de ar. O corpo da mulher arqueou-se num espasmo e ficou rígido. Os olhos arregalados nada viam, a boca abriu-se na morte. Todo o processo não levara sessenta segundos.

Bray abaixou-se e, pegando a mão da morta, abriu os dedos ossudos. Removeu o punhal, levantou-se e dirigiu-se à cômoda, onde se via uma caixa de fósforos. Acendeu um e colocou-o sob a lâmina. Essa inflamou-se numa violenta erupção de chamas, chamuscando-lhe os cabelos, o calor intenso lhe queimando o rosto. Deixou cair o estilete e apagou o fogo com os pés.

O telefone tocou.

 

— Aqui fala Taleniekov — disse o russo ao aparelho silencioso. Quem atendera não emitira nenhum som. — Creio que sua posição não fica enfraquecida pelo fato de admitir nosso contato.

— Está admitido — foi a resposta sucinta.

— Você repeliu minha proposta, minha bandeira branca, e no seu lugar teria feito o mesmo. Mas você errou, como eu estaria errado. Jurei matá-lo, Beowulf Agate, e algum dia talvez ainda o faça, mas não agora, não dessa forma.

— Você leu minha mensagem — foi a resposta sem qualquer expressão. — Você matou minha esposa. Venha me pegar. Estou esperando.

— Pare com isso! Ambos matamos. Você me levou um irmão... e antes disso uma jovem inocente que em nada ameaçava os animais que a estupraram e assassinaram.

— O quê?

— Não há tempo para explicar! Há homens que o desejam matar, mas não sou um deles! Capturei um, entretanto, e ele está aqui comigo agora...

— Você enviou outra pessoa — interrompeu Scofield. — Pois ela está morta. Feriu-se com o punhal, em vez de me ferir. Um corte superficial.

— Você deve tê-la provocado, não planejamos nada disso! Mas os segundos estão passando e não lhe restam muitos. Vou trazer o homem ao telefone. Ele é de Amsterdam. Ouça o que ele vai dizer. O rosto dele está contundido e ele não pode ver muito bem, mas pode falar. — Vasili apertou o fone contra os lábios ensangüentados do holandês e enfiou a Graz-Burya em seu pescoço. — Conte a ele, holandês!

— Cabogramas foram enviados... — sussurrou o homem ferido, engasgando-se com o sangue e o pavor — a Amsterdam, Marselha e Praga. Beowulf Agate não tinha mais salvação. Podíamos ser mortos se ele continuasse a viver. Os cabogramas continham as fórmulas usuais, uma advertência para que nos precavêssemos, mas sabíamos seu significado real. Não tomem precauções, eliminem o problema, liquidem Beowulf Agate... Nada disso é novidade para o senhor, Herr Scofield. O senhor mesmo já deu ordens como essas, sabe que elas têm de ser executadas.

Taleniekov arrancou o fone da boca do homem sem afastar o cano da arma de seu pescoço.

— Você ouviu. A armadilha que você armou para mim está sendo usada para caçá-lo. E por sua própria gente.

Silêncio. Beowulf Agate não disse nada. A paciência de Vasili estava se esgotando.

— Não compreende? Eles permutaram informações, é a única maneira de terem descoberto essa sede. Moscou forneceu o endereço, não percebe? Cada um de nós está sendo usado como motivo para executar o outro. Eles querem nos liquidar, aos dois. Mas meu povo é mais direto que o seu. Enviaram ordens para minha execução a todos os postos soviéticos, civis e militares. Seu Departamento de Estado age de forma um pouco diferente; seus dirigentes não assumem a responsabilidade de decisões tão inconstitucionais. Simplesmente enviam alertas para pessoas que não ligam para abstrações, mas que desejam, e muito, manter-se vivas.

Silêncio. Taleniekov explodiu.

— Que mais você quer? O papel de Amsterdam era tirá-lo daí, você não teria opção. Teria de escolher entre duas posições: a área de serviço ou as escadas. Neste instante, Marselha está ao lado do elevador de serviço e Praga nas escadas. O homem de Praga é um velho conhecido seu, Beowulf. Você já utilizou o punhal e o revólver dele em várias ocasiões. Ele está a sua espera. Se daqui a menos de quinze minutos você não tiver aparecido em nenhum desses dois lugares, eles invadirão seu quarto para matá-lo. Que mais você quer?

Por fim, Scofield respondeu.

— Quero saber por que você está me contando tudo isso.

— Releia a mensagem cifrada que lhe mandei! Essa não é a primeira vez que nós dois somos usados. Está acontecendo algo inacreditável, muito maior que eu ou você. Poucos homens têm conhecimento disso. Alguns em Washington, alguns em Moscou. Mas não dizem nada, ninguém pode dizer nada. A admissão seria catastrófica.

— Admissão de quê?

— De que eles utilizaram assassinos de aluguel. Os dois lados. O caso é antigo, de várias décadas.

— Que tem isso a ver comigo? Não tenho nada com sua vida.

— Dimitri Yurievich.

— Que tem ele?

— Estão dizendo que você o matou.

— Está mentindo, Taleniekov. Pensei que iria inventar uma história melhor. Yurievich estava balançando, era um provável desertor. O civil que foi assassinado era meu contato, sob minha supervisão. A morte deles foi uma operação da KGB. Melhor um físico morto que um físico desertor. Vou repetir, venha me buscar.

— Você está errado!... Mais tarde! Não tenho mais tempo para discutir. Quer uma prova? Então escute. Espero que seus ouvidos sejam mais atilados que a sua mente! — o russo meteu rapidamente a arma no cinto e virou o fone para cima. Com a mão esquerda, agarrou o pescoço do homem de Amsterdam, o polegar sobre os anéis da traquéia. Então, fez pressão, a mão um torno, os dedos como garras esmagando fibra e osso. O holandês debateu-se violentamente agitando os braços, tentando livrar-se do aperto num esforço inútil, seu prolongado grito de dor terminando num gemido de agonia. O homem de Amsterdam caiu no chão, inconsciente. Taleniekov levou o fone à boca e falou: — Acredita que alguma isca humana se submetesse a isso?

— E ele tinha alternativa?

— Você é um idiota, Scofield! Deixe que o matem! — Vasili sacudiu a cabeça desesperado, numa reação à sua perda de controle. — Não! Não deve fazer isso. Você não está entendendo e preciso tentar fazê-lo entender. Detesto o que você é, detesto tudo o que representa. Mas agora temos um trabalho a fazer que muitos poucos podem realizar. Temos de forçá-los a escutar, a falar. E, se não for por outros motivos, que seja porque nos temem, porque temem o que sabemos. Ambos os lados têm medo...

— Não sei do que está falando — interrompeu Scofield. — Sua estratégia não é desprezível, provavelmente a KGB dar-lhe-á uma bela dacha em Grasnov, mas não me convence. Vou repetir, venha me buscar.

— Chega! — berrou Taleniekov, olhando para o relógio da escrivaninha. — Você só tem onze minutos. E sabe onde encontrar a prova final: no elevador de serviço ou nas escadas. A menos que prefira convencer-se morrendo no quarto. Talvez você reconheça Praga, mas não Marselha. Não pode chamar a polícia, nem se arriscar a que a gerência a chame, ambos sabemos disso. Vá procurar a prova de que necessita, Scofield! Veja se este seu inimigo está mentindo. Você não passará do final do corredor! Se sobreviver — o que é improvável —, estou no quinto andar, quarto 505. Já fiz o que podia! — Encolerizado, Vasili bateu o fone num gesto teatral. Qualquer coisa para sacudir o americano, para fazê-lo pensar.

Agora, todos os segundos eram preciosos. Taleniekov dissera a Beowulf Agate que fizera todo o possível, mas não era verdade. Ajoelhando-se, arrancou o sobretudo, negro do corpo inconsciente de Amsterdam.

 

Bray recolocou o fone no lugar, a mente em torvelinho. Se ao menos tivesse dormido, ou não tivesse sofrido o inesperado e violento ataque da mulher, ou se Taleniekov não lhe tivesse dito tantas verdades, as coisas estariam mais claras. Mas tudo aquilo acontecera e, como tantas vezes no passado, precisava ajustar-se a uma aceitação cega dos fatos e pensar em termos de ação imediata.

Não era a primeira vez que ele era o alvo de facções distintas. Acostumara-se a isso lidando com grupos adversários de um mesmo partido, embora raramente visassem sua morte. O incomum era o fator tempo, a simultaneidade de ataques distintos. Entretanto, era compreensível, óbvio!

O subsecretário de Estado Daniel Congdon mostrara as patinhas! O aparentemente inócuo burocrata encontrara a coragem para agir segundo suas convicções. Ou, mais precisamente, encontrara Taleniekov e seus passos em direção a Beowulf Agate. Que melhor motivo descobriria para infringir as regras e eliminar um especialista aposentado que considerava perigoso? Que melhor motivo para procurar os soviéticos, que só podiam aprovar a execução dos dois agentes?

Tão óbvio. Uma estratégia tão bem planejada que poderia ter sido concebida por ele ou por Taleniekov. Negativas e ares de espanto seguir-se-iam, estadistas em Washington e Moscou condenando a violência de seus ex-agentes secretos, de uma era ultrapassada. Uma era quando animosidades pessoais freqüentemente se superpunham aos interesses nacionais. Podia até ouvir as declarações de angelical inocência de homens que, como Congdon, ocultavam decisões nojentas sob títulos respeitáveis.

O que o enfurecia era que a realidade iria corroborar os chavões, a sede de vingança de Taleniekov legitimaria as excusas. “Jurei que o mataria, Beowulf Agate, e algum dia talvez ainda o faça.”

O dia chegara, o “talvez” sem significado para o russo. Taleniekov queria Beowulf Agate para si; não toleraria interferências de assassinos recrutados por burocratas de Moscou e Washington. “Farei com que respire pela última vez...” Tais tinham sido as palavras de Taleniekov seis anos antes; ele falara a sério, e não mudara de idéia.

Sem dúvida, ele salvaria seu inimigo das armas de Marselha e Praga. Seu inimigo merecia uma arma melhor, a sua. E nenhum pretexto era por demais ilógico, nenhuma tática impossível para atrair seu inimigo ao alcance de um tiro.

Ele estava cansado de tudo aquilo, pensou Scofield, largando o fone. Cansado das tensões daquela caçada. E, no cômputo final, quem se importaria? Quem daria um tostão por dois especialistas decadentes, adversários determinados a matar um ao outro?

Bray fechou os olhos, apertando as pálpebras, ciente de que estavam úmidos. Lágrimas de fadiga, de um corpo e uma mente esgotados — mas não era hora de admitir exaustão. Pois ele se importava. Se tinha de morrer — e havia sempre uma possibilidade —, não iria ser pela arma de Marselha, Praga ou Moscou. Era melhor do que eles, sempre fora.

Segundo Taleniekov, restavam-lhe onze minutos; dois já tinham decorrido desde o telefonema do russo. A armadilha era seu quarto, e se o homem de Praga era mesmo quem Taleniekov dissera o ataque seria rápido e com um mínimo de risco. Projéteis com gás precederiam o uso de automáticas, os vapores imobilizando quaisquer ocupantes do quarto. Era a tática preferida do assassino de Praga, que não gostava de se arriscar.

Seu objetivo imediato, portanto, era cair fora da armadilha. Sair pelo corredor não era possível, talvez nem abrir a porta o fosse. Sendo a atribuição de Amsterdam atraí-lo para fora, e não tendo ele saído, Praga e Marselha atacariam. Como não havia ninguém no corredor — o que a ausência de ruído parecia indicar —, eles nada tinham a perder. O cronograma não sofreria atraso, mas poderia ser acelerado.

Ninguém no corredor... e se houvesse alguém? Gente correndo, excitada, distraindo a atenção. Na maioria das vezes, uma multidão era uma vantagem para o assassino, não para o alvo, especialmente se esse era facilmente identificável e o assassino, ou os assassinos, não. Por outro lado, um alvo que sabia precisamente quando e onde o ataque seria desfechado podia usar a multidão para cobrir sua fuga do ponto-zero. Uma fuga baseada na confusão e numa mudança de aparência. A mudança não precisava ser grande, apenas o bastante para causar indecisão; um tiroteio indiscriminado durante uma execução era algo a ser evitado.

Oito minutos. Ou menos. A preparação era essencial. Teria de levar seus pertences indispensáveis, pois quando começasse a correr teria de continuar correndo; por quanto tempo e até que ponto, não tinha condições de saber, nem podia pensar nisso agora. Precisava cair fora da armadilha e escapar de quatro homens que o queriam ver morto, um deles mais perigoso que os outros três, pois não fora enviado por Moscou, nem por Washington. Viera por conta própria.

Com passos rápidos, Bray pegou a mulher morta no chão, arrastou-a para o banheiro e fechou a porta. Em seguida, apanhou o abajur de pé de base metálica e golpeou violentamente a maçaneta. O trinco emperrou. Só arrombando a porta poderiam entrar no banheiro.

Poderia deixar as roupas ali. Não tinham marcas de lavanderia ou indícios óbvios que as relacionassem imediatamente a Brandon Scofield; as impressões digitais iriam encarregar-se disso, mas levaria tempo para que fossem colhidas e identificadas. A essa altura, estaria longe — se conseguisse sair vivo do hotel. Sua maleta era diferente, continha as ferramentas de sua profissão. Fechou-a girando o fecho de combinação e jogou-a em cima da cama. Enfiou o paletó e, voltando ao telefone, discou para a telefonista.

— Aqui é do quarto 213 — disse ele num sussurro fraco. — Não a quero alarmar, mas acho que tive um derrame. Conheço os sintomas. Preciso de um médico...

Soltou o fone. O aparelho bateu na mesa e caiu no chão.

 

Taleniekov vestiu o sobretudo negro e abaixou-se para pegar o cachecol cinzento, ainda enrolado no pescoço de Amsterdam. Arrancou-o, colocou-o em volta do pescoço e apanhou o chapéu cinzento que caíra ao lado da cadeira. Era largo demais para ele; afundou a copa para que ficasse menos desajeitado e dirigiu-se para a porta. Ao passar pelo armário, deteve-se e disse ao casal que estava lá dentro:

— Fiquem aí e não façam barulho! Estarei do lado de fora da porta. Se ouvir algum ruído, voltarei e vocês sofrerão as conseqüências!

O russo saiu correndo pelo corredor, passou pelos elevadores sociais e dirigiu-se ao elevador de serviço no fundo do vestíbulo. Encostada à parede via-se uma mesinha de rodas utilizada pelos camareiros. Tirou a Graz-Burya do cinto, enfiou-a no bolso do sobretudo e apertou o botão com a mão esquerda. A luz vermelha acima da porta acendeu-se: o elevador estava no segundo andar. Marselha estava em seu posto, à espera de Beowulf Agate.

A luz apagou-se e segundos mais tarde o número três delineou-se em vermelho, e em seguida o quatro. Vasili virou-se, dando as costas ao elevador.

A porta se abriu, mas não houve palavras de reconhecimento ou surpresa diante do sobretudo negro e do chapéu cinzento. Taleniekov girou nos calcanhares, o dedo no gatilho da arma.

Não havia ninguém no elevador. Entrou e apertou o botão do segundo andar.

 

— Senhor? Senhor? Meu Deus, é o doido do 213! — a voz excitada da telefonista subiu estridente do fone caído no tapete. — Mande dois rapazes lá em cima para ver o que aconteceu! Vou chamar uma ambulância. Ele teve um derrame ou coisa parecida...

A ligação foi cortada. O caos começara.

Scofield destrancou a porta e esperou. Tinham se passado menos de quarenta segundos quando ouviu passos apressados e gritos no corredor. A porta escancarou-se. O chefe dos mensageiros entrou, seguido por um subordinado mais jovem e forte.

— Graças a Deus não estava trancada! Onde... ?

Bray fechou a porta com um chute, mostrando-se aos recém-chegados, a pistola automática na mão.

— Ninguém vai se machucar — disse ele calmamente — se fizerem exatamente o que eu mandar. Você aí — disse ao mais jovem — tire a jaqueta e o boné. E você — continuou, dirigindo-se ao chefe dos camareiros — pegue o telefone e diga à telefonista para mandar o gerente aqui em cima. Você está com medo. Não quer mexer em nada, mas acha que estou morto.

O homem gaguejou, os olhos fixos na arma, e correu para o telefone. Seu desempenho foi convincente, estava realmente apavorado.

Bray pegou a jaqueta vermelha enfeitada de dourado que o outro lhe estendia. Tirou o paletó e vestiu-a, meteu seu paletó debaixo do braço e ordenou:

— O boné.

O rapaz obedeceu. Os olhos arregalados para Bray, o chefe dos mensageiros encerrou seu apelo quase gritando:

— Pelo amor de Deus, depressa! Mande alguém aqui em cima!

Indicando a porta com a arma, Scofield disse ao homem desnorteado:

— Fique ao lado da porta, junto de mim. — E acrescentou, dirigindo-se ao mais jovem: — Entre naquele armário junto da cama. Já!

O mensageiro mais forte hesitou, olhou para a cara de Bray e entrou depressa no armário. Scofield, a arma apontada para o chefe dos mensageiros, deu alguns passos e fechou a porta do armário com um chute. Apanhando o abajur de pé pela haste, ordenou:

— Vá para o lado direito! Entendeu? Responda!

— Entendi — foi a resposta abafada.

— Bata na porta!

A batida veio da extrema esquerda, à direita do rapaz. Bray golpeou a maçaneta com a base do abajur; a maçaneta caiu. Então ergueu a automática munida de silenciador e disparou uma bala no lado direito da porta. — Isso foi um tiro! — disse ele. — Ouça o que ouvir, fique de boca fechada ou levará outro. Estou bem aqui em frente!

— Oh, meu Deus...

O homem ficaria em silêncio nem que houvesse um terremoto. Scofield voltou para junto do chefe dos mensageiros pegando de passagem sua maleta.

— Onde fica a escada?

— No corredor à direita, no caminho dos elevadores. Fica lá no fim.

— E o elevador de serviço?

— Em frente, à esquerda, também no fim do corredor...

— Escute, e lembre-se do que eu vou dizer — cortou Bray. — Daqui a alguns segundos, o gerente e talvez outros vão vir aí pelo corredor. Quando eu abrir a porta, saia gritando, gritando, até estourar os pulmões... e corra ao meu lado.

— Meu Deus! E o que é que eu grito?

— Que você quer sair daqui — respondeu Bray. — Use a imaginação. Não deve ser difícil.

— Aonde é que nós vamos! Tenho mulher e quatro filhos!

— Ótimo. Por que não vai para casa?

— O quê?

— Como é que se chega mais depressa à portaria?

— Porra, eu não sei!

— Elevadores podem demorar.

— Pela escada, então. Pela escada! — exclamou triunfante o homem em pânico.

— Pois vá pela escada — disse Scofield, o ouvido encostado na porta.

As palavras chegavam até ele, abafadas, mas enfáticas. Ouviu “polícia”, “ambulância” e depois “emergência”. Deviam vir de umas três ou quatro pessoas;

Bray escancarou a porta e empurrou o chefe dos mensageiros para o corredor.

— Agora — ordenou.

Taleniekov virou-se para o lado quando o elevador de serviço se abriu no segundo andar. O sobretudo negro e o distinto chapéu cinzento tornaram a não provocar sons de reconhecimento, e ele girou outra vez, empunhando a Graz-Burya dentro do bolso. Defrontou-se com várias mesinhas de rodas com refeições inacabadas e o aroma de café, mas não viu Marselha.

Um par de portas de vaivém de metal com uma vidraça circular em cada folha dava para o corredor central do segundo andar. Vasili adiantou-se e espiou pela abertura da direita.

Lá estava ele. O homem de terno, grosso de tweed seguia cautelosamente junto da parede em direção ao corredor secundário que levava ao quarto 213. Taleniekov olhou o relógio: eram 12h31min. Faltavam quatro minutos para o ataque, uma eternidade se Scofield usasse a cabeça. Era preciso chamar a atenção. O meio mais seguro era o fogo. Um telefonema, uma fronha cheia de panos e papéis incendiada e jogada no corredor. Perguntou a si mesmo se Scofield teria pensado nisso.

Scofield tinha pensado em alguma coisa. No saguão, a luz sobre um dos elevadores sociais se acendeu; a porta se abriu e três homens saíram apressados, falando com excitação. Um deles era o gerente, agora quase em pânico; outro carregava uma malinha negra: um médico. O terceiro era atarracado, a expressão fechada, o cabelo à escovinha... o detetive particular do hotel.

Passaram correndo pelo espantado Marselha — que lhes deu as costas abruptamente — e seguiram pelo longo corredor que levava ao quarto de Scofield. O francês sacou a arma.

Do outro lado do corredor, sob um letreiro em vermelho que dizia “Saída”, uma pesada porta de segurança se escancarou. O vulto de Praga adiantou-se e fez um sinal para Marselha. Na mão direita, trazia uma automática de alto calibre, de cano longo, e na esquerda o que parecia ser... e era... uma granada. O polegar curvado apertava a alavanca. O percussor já fora retirado!

E ele certamente trouxera outras. Praga era um arsenal ambulante. Mataria quem quer que estivesse na área, contanto que matasse Beowulf Agate. Uma granada atirada num corredor sem saída, uma incursão rápida na carnificina antes que a fumaça se dissipasse para meter uma bala na cabeça dos sobreviventes, a primeira sem dúvida para Scofield. Não importa em que Scofield tivesse pensado, estava encurralado. Não poderia passar pelo cerco.

A menos que Praga pudesse ser detido onde estava, a granada levando-o pelos ares. Vasili sacou a Graz-Burya do bolso e empurrou a porta de vaivém.

Ia atirar quando ouviu um grito... gritos de um homem em pânico.

— Saiam do caminho! Pelo amor de Deus, tenho de sair daqui!

Seguiu-se um pandemônio. Dois homens com uniformes do hotel vieram correndo pelo corredor e um deles dobrou à direita, chocando-se com Praga, que o jogou longe, golpeando-o com o cano da arma. Praga gritou para Marselha que seguisse em frente.

Marselha não era tolo, Amsterdam também não. Vira a granada na mão de Praga. Os dois homens começaram a gritar um com o outro.

A porta do elevador se fechou.

A porta se fechou. A luz se apagou. Alguém acabara de entrar!

Beowulf Agate conseguira escapar.

Taleniekov recuou para trás das portas de metal; na confusão, ninguém o vira. Mas Praga e Marselha tinham visto o elevador, e obviamente se lembrado do segundo homem de jaqueta vermelha correndo em frente, sem pânico algum, sabendo o que fazia... e carregando qualquer coisa debaixo do braço esquerdo. Como Vasili, os dois verdugos voltaram os olhos para os números sobre a porta do elevador, esperando, assim como Taleniekov, que a letra T se acendesse. Isso não aconteceu.

Ao chegar ao número 3, a luz parou.

O que é que Scofield estava fazendo? Poderia estar na rua em dois segundos, buscando segurança na multidão, a caminho de um santuário qualquer entre as dezenas que conhecia. Mas continuava no campo de batalha! Era loucura!

Então Vasili compreendeu. Beowulf Agate estava a sua procura.

Espiou pela vidraça circular. Praga disse qualquer coisa com um ar selvagem e Marselha assentiu, sempre com o dedo no botão do elevador da esquerda. Praga saiu correndo em direção à escada e desapareceu por trás da porta de segurança.

Taleniekov precisava saber o que tinham combinado. Podia economizar-lhe muitos segundos — se conseguisse descobrir em segundos. Meteu a Graz-Burya no bolso e arremeteu corredor adentro, o lenço de seda cinza ocultando o pescoço, o chapéu bem enterrado sobre a testa, o rosto encoberto. Gritou alto:

— Alors, vous avez découvert quelque chose par hazard?

A impostura funcionou. Em sua excitação, Marselha caiu no logro. O sobretudo negro, o cinza do lenço e do chapéu, o francês falado com o sotaque gutural de um holandês, tudo isso foi suficiente para confundir a imagem de um homem que ele só vira uma vez e rapidamente, no café. Aturdido, ele correu para Taleniekov falando alto em sua língua nativa, tão atropeladamente que o outro mal pôde distinguir as palavras.

— O que é que você está fazendo aqui? — Isto parece um hospício! Tem gente berrando lá no quarto de Beowulf, arrombando as portas! Ele escapou. Praga...

Marselha calou-se. Ao ver o rosto do homem à sua frente, seu espanto transformou-se em choque. Num relâmpago, a mão de Vasili agarrou a arma que o francês segurava e torceu-a com tal força que Marselha soltou um berro. A pistola foi arrancada dos dedos do francês. Taleniekov jogou-o contra a parede e golpeou-lhe a virilha com o joelho, a mão esquerda erguendo Marselha pela orelha direita.

— Onde está Praga? Você tem um segundo para falar! — atingiu os testículos do outro novamente com o joelho. — Vamos!

— Íamos subir até o telhado... — engasgado, Marselha cuspiu as palavras entre dentes, a mão erguida num espasmo de dor. — Revistar andar por andar... até o telhado.

— Por quê? — Meu Deus, pensou Vasili. Havia um aeroduto de metal ligando o hotel ao edifício vizinho. Eles saberiam disso? Uma nova joelhada e insistiu: — Por quê?

— Praga acha que Scofield acredita que você colocou homens nas portas do hotel. Ele vai esperar pela chegada da polícia... pela confusão. Fez alguma coisa lá no quarto dele! Pelo amor de Deus, pare!

Vasili golpeou o crânio do francês atrás da têmpora esquerda com a coronha da arma que lhe arrancara. O ferimento esguichou sangue e o assassino caiu inconsciente. Taleniekov arrastou o corpo ao longo da parede e largou-o no ponto em que o corredor se bifurcava. Quem quer que saísse do quarto 213 seria surpreendido por outra visão dantesca. O pânico cresceria, garantindo-lhe minutos preciosos.

O elevador da esquerda atendera ao chamado do francês. Vasili correu para dentro da cabina e apertou o botão do terceiro andar.

As portas se fecharam no instante em que dois homens excitados saíram correndo do quarto 213. Um deles era o gerente do hotel. Ao ver o francês caído no meio do tapete encharcado de sangue, ele soltou um berro.

 

Scofield tirou a jaqueta e o boné, socou-os num canto e vestiu o paletó. O elevador parou no terceiro andar. Ele enrijeceu ao dar com uma arrumadeira corpulenta que entrou com uma pilha de toalhas no braço. Ela inclinou a cabeça num cumprimento; ele nem piscou. As portas se fecharam e eles subiram até o quarto andar, onde a arrumadeira desceu. Num gesto rápido, Bray tornou a apertar o botão do sexto, o último andar do prédio.

Se fosse possível, uma parcela daquela loucura iria terminar! Não pretendia fugir apenas para começar a correr novamente, sem saber onde estaria a próxima armadilha. Taleniekov estava ali naquele hotel, e isso era tudo que lhe interessava.

Quarto cinco-zero-cinco. Taleniekov dera-lhe o número pelo telefone, dizendo que estaria à sua espera. Bray forçou a memória, tentou lembrar algum código que correspondesse a esses algarismos, mas nada lhe ocorreu. Ele duvidava de que o agente da KGB fosse revelar sua posição.

Cinco-Zero-Cinco.

Cinco-Morte-Cinco?

“Estou à sua espera no quinto andar. Um de nós morrerá.”

Seria tão simples assim? Taleniekov teria se limitado a um desafio? Seu ego estaria tão exacerbado ou sua exaustão tão completa que nada lhe restava a não ser marcar o local do duelo?

“Pelo amor de Deus, vamos acabar com isso! Estou indo, Taleniekov! Você pode ser bom, mas não é páreo para o homem que chama de Beowulf Agate!”

Ego. Tão necessário. Tão cansativo.

O elevador chegou ao sexto andar. Bray prendeu a respiração quando entraram dois homens bem-vestidos. Falavam de negócios, uma conversa aborrecida sobre os resultados do ano anterior. Ambos lhe endereçaram um olhar rápido e desaprovador. Ele compreendeu o motivo. A barba, os olhos injetados. Evitando-lhes o olhar, agarrou a maleta. A porta começou a fechar e Bray adiantou-se, a mão dentro do paletó.

— Desculpem — murmurou. — É meu andar.

Não havia ninguém no longo corredor que se estendia à frente, quatro andares acima do 211 e do 213. Lá embaixo à direita, viu uma porta dupla metálica com vidraças circulares. O elevador de serviço. Uma das folhas acabara de fechar, ainda tremia. Scofield tirou parcialmente a automática do cinto, mas recolocou-a no lugar ao ouvir barulho de pratos por trás das portas de vaivém. Alguém empurrava uma mesinha de rodas; um homem de tocaia com intuitos assassinos não faz ruídos.

À esquerda, perto da escada, uma arrumadeira acabara de limpar um quarto. Ela fechou a porta e, com ar cansado, começou a empurrar seu carrinho para o quarto seguinte.

Cinco-Zero-Cinco.

Cinco-Morte-Cinco.

Se existia um local de duelo, ele estava acima dele, em terreno alto. Mas era um terreno alto do qual nada via, e o tempo estava se escoando. Pensou por um instante em falar com a mulher, usá-la como patrulha de ponta, mas sua aparência o desencorajou. Sua aparência excluía muitas coisas; barbear-se fora um luxo impraticável, mesmo urinar significava perder minutos preciosos, longe dos sons da armadilha. As pequenas coisas tornavam-se perigosas, adquiriam importância exagerada durante a espera. E ele estava muito cansado.

Usar o elevador de serviço estava fora de cogitação; podia transformar-se numa cela facilmente paralisada, isolada. A escada não era muito melhor, mas ali ele tinha uma vantagem. A não ser o telhado — se é que havia uma saída no telhado —, ela não ia mais longe. O campo visual de quem estava por cima era melhor. Aves de rapina mergulhavam sobre a presa, raramente atacavam de baixo.

Os tubarões o faziam, entretanto.

Algo para atrair a atenção. Qualquer coisa. É sabido que os tubarões atacam objetos inanimados, destroços flutuantes.

Bray seguiu em passos rápidos para a pesada porta da escada, detendo-se por alguns segundos no carrinho de limpeza. Apanhou quatro cinzeiros de vidro, meteu-os nos bolsos e apertou a maleta contra o peito.

O mais silenciosamente possível, fez pressão sobre a barra da pesada porta contra incêndios, abrindo-a. Começou a descer as escadas, mantendo-se junto à parede, alerta a qualquer som do inimigo.

Ele estava lá. Vários andares abaixo, passos rápidos ressoavam nos degraus de concreto. Os passos cessaram e Scofield imobilizou-se. O que se seguiu o confundiu. Ouviu um rangido, uma série de sons abrasivos, metálicos. Que era aquilo?

Olhou para a porta de metal às suas costas e compreendeu. A escada era essencialmente uma saída de incêndio; as portas de segurança só eram abertas pelo interior do hotel, frustrando os possíveis ladrões. A pessoa que estava num dos andares de baixo introduzira uma folha de metal ou plástico na fenda da porta, numa tentativa de erguer o trinco. O método era de uso universal; a maior parte das portas de incêndio, se fossem funcionais, podia ser aberta daquela forma. Teriam de ser funcionais naquele hotel.

Os sons metálicos cessaram; a porta fora aberta.

Silêncio.

A porta bateu. Scofield deslocou-se para a beira da escada e olhou para baixo; viu apenas os corrimãos em ângulos retos descendo até confundir-se na escuridão. Silenciosamente, desceu os degraus um a um, até chegar ao patamar seguinte. Estava no quinto andar.

Cinco-Zero-Cinco. Um número sem significado, inútil complicação verbal.

Agora, a estratégia de Taleniekov era evidente. E lógica. O próprio Bray a teria utilizado. Iniciado o caos, o russo aguardara no saguão, observando os elevadores à espera de um sinal do inimigo, e quando esse não aparecesse deduziria que a fuga de Beowulf fora cortada, e ele vagava à procura de uma saída. Só depois de se ter certificado de que o inimigo não deixara o hotel, Taleniekov iria iniciar a caçada final pelas escadas, espreitando pelos corredores, a arma preparada para o alvo móvel.

Mas o russo não poderia começar a perseguição do alto, teria de começar pela escada do saguão. Seria forçado a abandonar o terreno alto, desvantagem tão mortífera numa escada quanto em terras montanhosas. Scofield colocou a maleta no chão e pegou dois dos cinzeiros que guardara nos bolsos. A espera estava chegando ao fim. A qualquer segundo começaria o duelo.

No andar de baixo, a porta escancarou-se. Bray atirou o primeiro cinzeiro lá embaixo por entre os corrimãos; os sons do vidro estilhaçado ecoaram pelas escadas de aço e concreto.

Passos recuando. O choque de um corpo pesado contra a parede. Scofield debruçou-se sobre o vão central e atirou o segundo cinzeiro. O objeto espatifou-se no andar de baixo; um vulto passou correndo junto ao corrimão. Bray atirou. O inimigo gritou, rodopiou no ar, e foi cair fora do seu campo visual.

Scofield desceu três degraus, colado à parede. Viu uma perna agitando-se e atirou outra vez, para ouvir o som cantante de uma bala ricocheteando no metal e indo encravar-se no cimento. Errara o tiro. Ferira o russo, mas não o inutilizara.

Súbito, outros sons lhe chegaram aos ouvidos. Sirenas. Distantes. Lá fora. Aproximando-se. E gritos, abafados pelas pesadas portas de incêndio; ordens berradas nos vestíbulos e corredores.

As opções estavam sendo eliminadas, as chances de fuga diminuindo a cada novo som. A caçada tinha de terminar agora. Só lhe restava o duelo final. Uma centena de lições do passado condensadas numa só: “Atraia o fogo inimigo, faça o atirador expor-se nem que isso signifique expor parte de seu próprio corpo. Um ferimento superficial não tem importância alguma se salvar sua vida.”

Os segundos escoavam-se. Não havia outra alternativa.

Bray tirou os dois cinzeiros restantes do bolso e atirou-os no andar de baixo. Ao primeiro som de vidro estilhaçado, girou o. braço esquerdo num semicírculo, cortando o ar, uma parte dele diretamente na linha de fogo do russo. Mas sua pistola não — estava preparada para o ataque.

Duas explosões ensurdecedoras ressoaram pelo túnel vertical...

A arma foi arrancada de sua mão! De sua mão direita! Impotente, viu a pistola pular de seus dedos, gotículas de sangue escorrerem pela sua palma ao zunido da bala que ainda ricocheteava de metal a metal.

Ele fora desarmado por um tiro perdido. Morto por um eco.

A automática Browning caiu ruidosamente escada abaixo. Atirou-se para pegá-la, mesmo sabendo que era tarde demais. O assassino do andar de baixo lhe surgiu à frente, erguendo-se com esforço, levantando o cano longo da arma na direção da cabeça de Scofield.

Não era Taleniekov, não era o rosto visto em milhares de fotografias, o rosto que há uma década detestava! Era o homem de Praga, o homem que utilizara tantas vezes na causa dos homens livres. Aquele homem agora ia matá-lo.

Dois pensamentos lhe acorreram rapidamente, um após o outro. As últimas conclusões, por assim dizer. Teria morte rápida, e estava grato por isso. Afinal, privara Taleniekov de seu triunfo.

— Todos nós temos que fazer nosso trabalho — disse o homem de Praga, três dedos apertando a coronha da arma. — Foi você quem me ensinou isso, Beowulf.

— Nunca conseguirá sair daqui.

— Esqueceu as próprias lições. “Abandonem suas armas, saiam junto com a multidão.” Eu sairei daqui. Mas você não. Se saísse, muitos morreriam.

— Padazdit! — uma voz trovejou de cima, sem ser precedida pela batida de uma porta.

Alguém entrara rápida e sorrateiramente. O verdugo de Praga abaixou-se instantaneamente, girou para a esquerda, virando sua poderosa arma para Vasili Taleniekov.

O russo disparou um tiro abrindo um orifício na testa de Praga. O tcheco caiu à frente de Scofield, que se lançara na direção de sua Browning. A mão de Bray fechou-se sobre a coronha do revólver e ele rolou escada abaixo, disparando selvagemente sobre o homem da KGB; não permitiria que Taleniekov o salvasse de Praga apenas para garantir um triunfo pessoal.

“Farei com que respire pela última vez...”

Não aqui! Não agora! Não enquanto eu puder me mover!

E então ele não pôde mais se mover. Sobreveio o impacto e Scofield apenas sentiu que a cabeça parecia ter estourado. Seus olhos encheram-se de faíscas luminosas ofuscantes, mescladas de alguma forma aos sons do pandemônio. Sirenas, gritos, correrias, vozes em pânico vindas das profundezas do túnel.

No mergulho para escapar à linha de fogo de Taleniekov, seu crânio fora chocar-se com a aguçada quina metálica do balaústre da escada. Um tiro perdido, um eco, uma peça inanimada de aço. Eis o que provocaria a sua morte.

Embora embaçada, a visão era inconfundível. O vulto do vigoroso russo desceu correndo as escadas. Bray tentou erguer a arma que ainda segurava; não conseguiu. Uma bota pesada a imobilizou. Depois sentiu que a desprendiam de seus dedos.

— Atire — sussurrou Scofield. — Pelo amor de Deus, atire logo! Você só ganhou por acidente. De outra forma não ganharia.

— Não ganhei nadai Essa vitória não me interessa. Venha! Mexa-se! A polícia chegou. A qualquer momento estarão aqui em cima!

Bray sentiu que mãos fortes o levantavam, colocando um de seus braços em torno de um pescoço grosso. Um ombro lhe foi oferecido como apoio.

— Que diabos você está fazendo? — ele não sabia ao certo se fora ele mesmo quem falara. A dor o impedia de pensar.

— Você está ferido. O corte do pescoço tornou a abrir. Não é grave, mas sua cabeça também está sangrando.

— O quê?

— Existe um meio de sairmos daqui. Este hotel serviu-me de base durante dois anos. Conheço todos os cantos do edifício. Vamos! Ajude-me! Ande! Vamos para o telhado.

— Minha maleta...

— Está aqui comigo.

 

Eles estavam num túnel de metal corrugado, escuro como breu, sacudido por rajadas constantes de ar frio. A baixa temperatura, pouco acima de zero grau, produzia audíveis vibrações. Na escuridão, eles rastejavam pelo piso nervurado.

— Este é o aeroduto principal — explicou Taleniekov numa voz baixa que o eco ampliou. — O hotel e o prédio comercial ao lado são servidos por um único sistema de refrigeração. Ambos são propriedade de uma mesma firma.

Scofield começara a recuperar a lucidez, enquanto avançava maquinalmente, o próprio movimento forçando-o a enviar impulsos às pernas e aos braços. O russo rasgara o lenço de seda, envolvendo a cabeça de Bray com uma das metades e amarrando-lhe o pescoço com a outra. A hemorragia não cessara de todo, mas fora contida. Ele recuperara parte da lucidez, mas ainda não compreendia claramente o que estava acontecendo.

— Quero saber por que você me salvou a vida.

— Fale baixo — sussurrou o homem da KGB. — E vá em frente.

— Quero uma resposta.

— Já expliquei.

— Não me convenceu.

— Você e eu estamos acostumados a uma vida de mentiras. Nós as enxergamos por toda parte.

— De você não espero outra coisa.

— Daqui a alguns minutos, você vai ter de tomar uma decisão.

— Que está querendo dizer?

— Vamos chegar ao fim deste aeroduto. Há um respiradouro a uns três metros e pouco do piso, num quarto de depósito no telhado. De lá, sei como chegar à rua, mas todos os segundos contam. Se houver gente perto do respiradouro, teremos de assustá-los. Atire para o ar.

— O quê?

— Isso mesmo. Vou devolver-lhe a arma.

— Você matou minha mulher.

— Você matou meu irmão. Antes disso, seu exército de ocupação devolveu-me o cadáver de uma jovem, quase uma criança, que eu amava muito.

— Não sabia disso.

— Agora sabe. Tome sua decisão.

O respiradouro de malha metálica tinha cerca de um metro e vinte de largura. Abria para um depósito amplo e mal-iluminado cheio de engradados c caixas de suprimentos. Não havia ninguém à vista. Taleniekov entregou a Scofield sua automática e começou a forçar a grade metálica, golpeando-a com o ombro. A grade soltou-se e caiu com estardalhaço no piso de cimento. O russo esperou alguns instantes por uma reação, mas nada aconteceu.

Virando-se de costas, começou a escorregar para fora do aeroduto. Primeiro as pernas, depois o tronco e a cabeça, até que ficou pendurado pelas pontas dos dedos, recuperando o equilíbrio e preparando-se para o salto final.

O estranho ruído começou muito fraco e depois acentuou-se. Um passo... algo se arrastando. Um passo... algo se arrastando. Taleniekov imobilizou-se, suspenso entre o respiradouro e o chão.

— Bom dia, camarada — disse uma voz suave em russo. — Não acha que o meu andar melhorou depois de Riga? Eles me deram um pé novo.

 

Bray recuou para a escuridão do aeroduto. Embaixo, junto a um engradado, estava um homem de bengala. Um aleijado cuja perna direita sob o tecido das calças não passava de um membro rígido de madeira. Tirando um revólver do bolso, o homem continuou.

— Conheço-o bem demais, meu velho. Você foi um grande professor. Tive uma hora para estudar sua base. Há várias saídas, mas deduzi que você escolheria esta. Sinto muito, mestre. Mas não podemos permitir que continue vivo.

O homem levantou a arma. Scofield atirou.

 

Eles correram para o beco que desembocava em frente ao hotel na Avenida Nebraska. Encostaram-se na parede de tijolos, a respiração ofegante, o olhar atento ao movimento fronteiro. Três carros de patrulha, com as luzes vermelhas girando na capota, bloqueavam a entrada do hotel, cercando uma ambulância. Duas padiolas cobertas com lona foram retiradas do edifício. Uma terceira apareceu, e Taleniekov divisou a cabeça ensangüentada de Praga. Policiais uniformizados continham os curiosos enquanto seus superiores entravam e saíam, gritando ordens em transmissores portáteis.

Uma rede se ia estendendo em torno do hotel, cobrindo todas as saídas, vigiando as janelas, armas prontas para o inesperado.

— Quando se sentir mais forte — disse Taleniekov entre duas tomadas de fôlego —, vamos misturar-nos à multidão e andar alguns quarteirões até um ponto em que seja seguro apanhar um táxi. Mas, para ser honesto, não sei aonde ir.

— Mas eu sei — disse Scofield, afastando-se da parede. — É melhor irmos andando enquanto a confusão é grande. Daqui a pouco, vão começar a revistar a área. Vão deter quem estiver ferido. O tiroteio foi grande.

— Um momento — o russo encarou Bray. — Há três dias, eu estava num caminhão nas montanhas perto de Sebastopol. Decidi então o que ia dizer-lhe se nos encontrássemos. Chegou a hora. Ou vamos nos matar um ao outro, Beowulf Agate, ou vamos conversar.

Scofield encarou Taleniekov.

— Talvez façamos ambas as coisas — disse. — Vamos embora.

 

A cabana ficava numa região remota de Maryland, à margem do rio Patuxent, cercada por terras incultas. O isolamento era total, não existiam outras casas num raio de dois quilômetros, e o local só era acessível por uma estradinha de terra muito primitiva pela qual nenhum táxi iria aventurar-se. A nenhum táxi se pediu tal coisa.

Em vez disso, Bray telefonou para certa pessoa da Embaixada do Irã, um agente não registrado da SAVAK, especializado em drogas e estudantes em intercâmbio cultural cuja detenção seria embaraçosa para o benevolente xá. Um carro alugado foi deixado à sua disposição num estacionamento da Rua K com as chaves sob o tapete do piso.

A cabana pertencia a um professor de Ciência Política de Georgetown, um homossexual enrustido que Scofield auxiliara alguns anos antes, rasgando uma página de um dossiê que nada tinha a ver com a habilidade do professor em avaliar informações confidenciais para o Departamento de Estado. Bray já utilizara várias vezes a cabana em suas idas a Washington quando queria ficar fora do alcance dos burocratas das Operações Consulares, quase sempre na companhia de uma mulher. Tudo que era necessário era um telefonema para o professor; esse não fazia perguntas, limitava-se a revelar a localização da chave. Naquela tarde, ela estava debaixo da segunda telha da frente, a partir da direita. Bray apanhou-a com o auxílio de uma escada que estava sob uma árvore próxima.

Dentro, a decoração era adequadamente rústica: pesadas vigas e um mobiliário espartano suavizado por uma profusão de almofadas colchoadas, paredes brancas e cortinas quadriculadas. A lareira de pedra era flanqueada por estantes repletas de livros cujas encadernações davam ao ambiente um toque de cor e calor.

— Ele é um homem culto — disse Taleniekov, correndo os olhos pelos títulos.

— Muito culto — retrucou Bray, acendendo o aquecedor a gás. — Há fósforos sobre a lareira, a lenha está arrumada, é só acender.

— Muito conveniente — replicou o homem da KGB e, apanhando um fósforo num vidro que estava sobre o consolo, ajoelhou-se e acendeu o fogo.

— Faz parte do trato. Quem usar a cabana tem de limpar a lareira e substituir a lenha usada.

— Parte do trato? E quais são as outras exigências?

— Só mais uma: manter a boca fechada. Sobre este lugar e seu proprietário.

— É realmente muito cômodo — Taleniekov retirou depressa a mão quando as chamas saltaram da madeira seca.

— Muito — repetiu Scofield, ajustando o aquecedor depois de verificar que estava funcionando. Levantando-se, encarou o russo. — Só falaremos depois que eu tiver dormido um pouco. Você pode discordar, mas é assim que vai ser.

— Não tenho objeções. Não estou certo de estar muito lúcido agora. E vou precisar de toda a lucidez quando falar. Se isso é possível, acho que tenho dormido menos que você.

— Há duas horas, podíamos ter-nos morto um ao outro — disse Bray sem se mover. — Mas não o fizemos.

— Muito pelo contrário — anuiu o homem da KGB. — Evitamos que outros o fizessem.

— O que cancela qualquer dívida entre nós dois.

— Tais dívidas não podem existir, naturalmente. Entretanto, creio que talvez vá descobrir uma ainda maior quando falarmos.

— É possível, mas duvido. Talvez você não possa modificar as decisões de Moscou, mas eu posso fazer alguma coisa sobre o que aconteceu hoje em Washington. Talvez essa seja a diferença entre nós dois.

— Para o nosso bem, para o bem de todos, espero fervorosamente que esteja certo.

— Estou. Agora vou dormir um pouco. — Scofield apontou para um sofá: — Aquilo ali se transforma numa cama. Há cobertores naquele armário. Eu fico com o quarto. — A meio caminho da porta, Scofield parou e virou-se para o russo: — Caso lhe interesse, vou trancar a porta e tenho sono muito leve.

— Desse mal eu também sofro, pode estar certo — disse Taleniekov. — Mas da minha parte você nada tem a temer.

— Nunca tive — replicou Bray.

 

Scofield ouviu ao longe estalidos secos e sentou-se num relâmpago, apanhando a Browning que estava ao lado dos joelhos sob o lençol. Empunhando a arma, jogou os pés para fora da cama, preparado para abaixar-se e atirar.

Não havia ninguém no quarto. O luar penetrava pela janela do Norte, raios de pálida luz branca separados pelas espessas vidraças em faixas fantasmagóricas. Por um instante, não soube onde estava, tão intensa era sua exaustão, tão profundo seu sono. Mas, no instante cm que seus pés tocaram o solo, lembrou-se: o inimigo estava na sala ao lado. Um inimigo muito estranho, que lhe salvara a vida, e cuja vida ele salvara poucos minutos depois.

Bray olhou o mostrador luminoso de seu relógio. Eram quatro e quinze da madrugada. Dormira quase treze horas; seus braços e pernas pesados e a secura de sua garganta atestavam que mal se movera durante todo esse tempo. Ficou sentado por algum tempo na beira da cama. Largando a arma, sacudiu as mãos e fixou os olhos na porta trancada do quarto.

Taleniekov levantara-se e acendera a lareira. Percebia agora que os estalidos secos eram os sons inconfundíveis de madeira queimando. Scofield decidiu protelar a entrevista de ambos por mais alguns minutos. Seu rosto cocava; a barba incipiente era tão desconfortável que provocara uma leve erupção na pele. Sempre havia um equipamento completo para barba no banheiro; podia dar-se ao luxo de barbear-se e trocar as ataduras que colocara no crânio e no pescoço quatorze horas antes. Isso protelaria mais um pouco sua conversa com o ex-homem da KGB — desertor? Qualquer que fosse o assunto, Bray não queria envolver-se de forma alguma. Entretanto, os acontecimentos e decisões das últimas vinte e quatro horas diziam-lhe que já estava envolvido.

Eram 4h37min quando ele destrancou a porta e abriu-a. Taleniekov estava de pé em frente à lareira com uma xícara nas mãos.

— Desculpe-me se o fogo o acordou — disse o russo — ou a batida da porta da frente, se é que a ouviu.

— O aquecedor apagou-se — disse Scofield, examinando o aparelho.

— Acho que o bujão de gás está vazio.

— Foi por isso que você saiu?

— Não. Fui urinar lá fora. Não havia banheiro aqui.

— Eu me esqueci.

— Ouviu quando eu saí? Ou quando voltei?

— Isso aí é café?

— É — respondeu Taleniekov. — Um mau hábito que adquiri dos ocidentais. O chá de vocês é insosso. O bule está no fogo. — O homem da KGB apontou para uma divisória atrás da qual se alinhavam um fogão, uma pia e uma geladeira. — Surpreende-me que não tenha sentido o cheiro.

— Senti, sim — mentiu Scofield, dirigindo-se ao fogão. — Mas, pelo cheiro, deve estar fraco.

— Este nosso diálogo está um tanto ou quanto infantil, não acha?

— Completamente — anuiu Bray, enchendo uma xícara. — Parece que você tinha algo importante para me dizer. Pois comece.

— Primeiro quero lhe fazer uma pergunta: já ouviu falar numa organização chamada Matarese?

Scofield deteve-se, relembrando.

— Assassinos políticos de aluguel dirigidos por um conselho na Córsega. Surgiram há mais de meio século e desapareceram no meio dos anos quarenta, depois da guerra. Que têm eles?

— A organização não morreu. Entrou num período de hibernação, por assim dizer, mas reapareceu de forma ainda mais perigosa. Está operando desde o início da década de cinqüenta. Está em operação neste momento. Infiltrou-se nas áreas mais delicadas e poderosas de nossos dois Governos. Seu objetivo é controlar nossos países. O Matarese foi responsável pelos assassinatos do general Blackburn, aqui, e de Dimitri Yurievich, em meu país.

Bray tomou um gole de café, observando a expressão do russo por sobre a orla da xícara.

— Como soube disso? Por que acredita nisso?

— Um velho que teve experiências mais vastas que eu e você juntos identificou-os. Ele não se enganou. Foi um dos poucos que admitiram, que foram capazes de admitir, ter negociado com o Matarese.

— Você está falando no passado.

— Ele morreu. Mandou me chamar quando já estava moribundo. Queria que eu soubesse. Ele tinha informações a que nem eu nem você jamais teríamos acesso.

— Quem era ele?

— Aleksie Krupskaya. O nome não deve significar nada para você. Eu explico.

— Está enganado — interrompeu Scofield, dirigindo-se a uma poltrona na frente da lareira. — Krupskaya, o tigre branco de Krivoi Rog. Istrebiteli. O último dos verdugos da Seção Nove da KGB. A Seção Nove original, naturalmente.

— Você aprendeu bem suas lições. Não nega ter saído de Harvard.

— Esse tipo de aprendizado pode ser muito útil. Krupskaya foi banido uns vinte anos atrás. Se ainda continua vivo, deve estar vegetando em Grasnov. Não venha me dizer que se transformou num consultor que recebe informações do pessoal do Kremlin. Não acredito nisso.

— Pois acredite — retrucou Taleniekov, sentando-se em frente a Bray. — E não é do “pessoal” do Kremlin, é de um único homem: o filho dele. Um homem que durante os últimos trinta anos tem sido um dos mais influentes sobreviventes do Politburo. E há seis anos é o premier da União Soviética.

Scofield pousou a xícara no chão e tornou a estudar o rosto do homem da KGB. Era o rosto de um mentiroso experiente, de um mentiroso profissional, mas não de alguém intrinsecamente mentiroso. Não estava mentindo agora.

— O premier é filho de Krupskaya? Isso é realmente... um choque.

— Também tive essa reação, mas, se refletir sobre o assunto, verá que não é assim tão surpreendente. Com a orientação constante do pai, protegido por sua ampla coleção de... digamos, lembranças... Poderia ter acontecido aqui também. Suponhamos que o falecido John Edgar Hoover tivesse um filho com ambições políticas. Quem lhe poderia ter entravado o caminho? Os arquivos secretos de Hoover teriam aplainado quaisquer obstáculos, até mesmo os da entrada da Casa Branca. O cenário pode ser diferente, mas as árvores são da mesma espécie. Elas têm variado muito pouco desde que os senadores entregaram Roma a Calígula.

— O que foi que Krupskaya lhe contou?

— Primeiro, o passado. Em muitas coisas não acreditei, até que as mencionei a vários líderes aposentados do Politburo. Um ancião assustado confirmou-as, os outros fizeram com que minha execução fosse ordenada.

— Sua...?

— Isso mesmo. A execução de Vasili Vasilivich Taleniekov, mestre-estrategista da KGB. Um homem irascível que já viu dias melhores, mas cujos conhecimentos ainda podiam ser úteis por várias décadas talvez, mesmo em Grasnov. Somos um povo prático; essa seria a solução mais prática. Apesar das pequenas dúvidas que ocorrem a todos nós, eu acreditava nisso, julgava que esse seria meu futuro. Mas não depois de ter mencionado o Matarese. De repente, tudo mudou. Eu, que servi bem ao meu país, tornei-me subitamente um inimigo.

— Quais foram precisamente as revelações de Krupskaya? E quais, em seu julgamento, foram confirmadas?

Taleniekov repetiu as palavras do Istrebiteli moribundo, as declarações que ligavam dezenas de assassinatos ao Matarese, inclusive as mortes de Stalin, Beria e Roosevelt. Como a organização corsa fora utilizada por todos os governos dos países mais influentes, tanto dentro de suas fronteiras como fora. Nenhum estava livre da máquina. União Soviética, Inglaterra, França, Alemanha, Itália... Estados Unidos. Seus líderes, nessa ou naquela ocasião, haviam contactado o Matarese.

— Essas especulações não são novas — disse Bray. — Foram feitas investigações discretas, mas nada de concreto resultou delas. Isso posso garantir.

— Porque nenhum elemento importante ousou testemunhar. Segundo Krupskaya, tais admissões seriam catastróficas para os governos. Agora estão sendo empregadas novas táticas com o fito de criar instabilidade nos centros de poder.

— Que táticas?

— Atos de terrorismo. Bombas, raptos, seqüestros de aeronaves, bandos de fanáticos ameaçando matanças se suas exigências não forem satisfeitas. A cada mês, seu número aumenta, e a grande maioria é financiada pelo Matarese.

— Como?

— Só posso deduzir. O Conselho Matarese deve estudar os objetivos das partes envolvidas, fornecer peritos e financiamento. Certamente os fanáticos pouco se importam com a origem desse dinheiro, contanto que lhes chegue às mãos. Tanto eu como você já utilizamos essas pessoas mais vezes do que gostaríamos de admitir.

— Para objetivos muito diferentes — retrucou Bray, apanhando sua xícara. — E quanto a Blackburn e Yurievich? Que lucrou o Matarese com a morte deles?

— Krupskaya achava que os mataram para testar os líderes, para ver se seus homens conseguiriam controlar as reações dos respectivos governos. Não tenho tanta certeza disso. Talvez a finalidade tenha sido outra. E, para ser franco, foi o que você me disse que me fez duvidar.

— Que foi que eu lhe disse?

— Sobre Yurievich. Sobre sua operação. Estava falando a verdade?

Bray franziu a testa.

— Estava, mas as coisas não são assim tão simples. Yurievich era homem experiente, não se tratava de uma defecção pura e simples. Era um cientista que acreditava que os dois lados se tinham excedido. Não confiava em maníacos. Estávamos testando o terreno. Não sabíamos qual seria o resultado.

— Acaso você sabia que o general Blackburn, que quase foi morto na Guerra do Vietnã, fez o que nenhum chefe de Estado-Maior ousou fazer antes em toda a história de seu país? Encontrou-se secretamente com inimigos em potencial. Na Suécia, na cidade de Skelleftea, no golfo de Bothnia, viajando incógnito como um turista comum. Concluímos que ele recorreria a medidas extremas para evitar a repetição de matanças inúteis. Ele abominava as táticas convencionais de guerra e não acreditava que as armas nucleares viessem a ser usadas. — O russo calou-se e inclinou-se para a frente: — Dois homens que detestavam fervorosamente, apaixonadamente, os sacrifícios humanos, que procuravam uma conciliação... ambos mortos pelo Matarese. Talvez testar fosse apenas parte do objetivo. É bem possível que visassem principalmente eliminar dois homens poderosos que visavam a estabilidade.

A princípio, Scofield não replicou; a informação sobre Blackburn o aturdira.

— Testando, aproveitaram para me incriminar na morte de Yurievich...

— E a mim na de Blackburn — completou Taleniekov. — Usaram uma Browning Magnum tipo IV para matar Yurievich e uma Graz-Burya para Blackburn.

— Preparando uma bela execução para nós dois.

— Exatamente — disse o soviético. — De todos os agentes de nossos respectivos serviços secretos, nós somos os que eles mais temem, os que não podem continuar vivos. Isso porque nunca mudaremos. Krupskaya tinha razão: eles nos utilizaram para afastar as suspeitas e agora querem nos matar. Somos demasiadamente perigosos.

— Por que chegaram a essa conclusão?

— Eles nos estudaram. Sabem que não aceitaríamos o Matarese, assim como não aceitamos os maníacos existentes em nossos próprios departamentos. Somos dois homens mortos, Scofield.

— Você deve falar apenas por si! — De repente, a cólera invadiu Bray. — Estou fora de tudo isso, afastado, liquidado] Não me interessa a mínima o que possa acontecer! Não tire conclusões a meu respeito!

— Outros já tiraram.

— Isso é você quem diz. — Scofield levantou-se e largou a xícara, a mão a pouca distância da Browning em seu cinto.

— Porque acreditei no homem que me contou tudo isso. E essa é a razão por que estou aqui, por que lhe salvei a vida, por que não o matei eu mesmo.

— Isso dá para pensar, não acha?

— Como assim?

— Tudo sincronizado... você sabia até mesmo em que local da escada estava Praga...

— Eu matei um homem que o tinha sob sua mira!

— Praga? Um pequeno sacrifício. Sou um ex-agente. Não tenho provas de que meu Governo tenha entrado em contato com Moscou, só posso tecer hipóteses baseado no que me contou. Talvez não esteja vendo o óbvio, talvez o grande Taleniekov esteja rastejando temporariamente para conseguir a defecção de Beowulf Agate.

— Vá para o inferno, Scofield — trovejou o homem da KGB, erguendo-se num pulo. — Devia tê-lo deixado morrer! Escute-me com atenção: o que você sugeriu é inconcebível e a KGB sabe disso. Meus sentimentos são demasiado profundos. Nunca o induziria a desertar. Preferiria matá-lo.

Bray encarou o russo. Era óbvia a sinceridade de Taleniekov.

— Acredito em você — disse Scofield, sua cólera transformando-se em cansaço. — Mas isso não muda nada. Não me importo. Realmente não ligo... Não estou nem certo de que ainda deseje matá-lo. Só quero que me deixem em paz. — Bray acrescentou, dando-lhe as costas: — Leve as chaves do carro e vá embora. Considere-se... vivo.

— Obrigado pela generosidade, Beowulf, mas receio que seja tarde demais.

— O quê? — Scofield virou-se para o soviético.

— Ainda não terminei. Um homem foi preso, falou sob a ação de drogas. Existe um cronograma. Dois meses. Três no máximo. As ordens são: “Moscou por assassinatos, Washington por manobras políticas, ou morte, se necessário.” Quando isso acontecer, nem eu nem você sobreviveremos. Eles nos seguirão até os confins da terra.

— Espere aí — interrompeu Bray, furioso. — Você disse que sua gente prendeu um deles?

— Prendeu, mas o homem está morto. Tinha cianeto sob a pele.

— Mas ele jaloul — replicou Bray. — Suas palavras devem ter sido gravadas!

— Nada foi gravado. E apenas um homem ouviu suas declarações, um homem cujo pai aconselhara a não permitir a presença de outros no interrogatório.

— O premier?

— Sim.

— Então ele sabe!

— Sim, sabe. E só o que pode fazer é tentar proteger-se — o que não é nenhuma novidade em seu posto —, mas não pode revelar o que ouviu. Com isso, estaria admitindo o passado, como bem disse Krupskaya. Esta é uma era de conspirações, Scofield. Quem se atreve a desencavar antigos contratos? No meu país, há muitas mortes inexplicadas. Não vejo muita diferença aqui: os Kennedy, Martin Luther King, talvez a mais surpreendente, Frank-lin Roosevelt. Se o passado viesse à tona, nossos governos se lançariam ao pescoço um do outro ou, mais precisamente, aos botões da guerra nuclear. Que você faria se fosse o premier?

— Iria proteger-me... — disse Bray baixinho. — Oh, meu Deus...

— Está vendo agora?

— Não quero ver. Não quero ver nada. Eu estou fora disso!

— Acho que não está. Nem eu. Tivemos a prova ontem na Avenida Nebraska. Somos homens marcados. Eles nos querem. Eles convenceram outros a nos executar — por motivos falsos — mas eram eles que estavam por trás da manobra. Ainda duvida disso?

— Gostaria de poder duvidar. Os manipuladores são os mais fáceis de serem manipulados, os homens do serviço secreto são os maiores trouxas de todos. Merda! — Scofield dirigiu-se ao fogão para servir-se de café. De repente, ocorreu-lhe um ponto obscuro. — Não estou entendendo. Do pouco que sabemos sobre o Matarese, a organização nasceu como uma espécie de culto e transformou-se num negócio. Ela aceitava contratos, ou pelo menos dizia aceitar contratos, baseada em preço e exeqüibilidade. Matava por dinheiro, nunca se interessou pelo poder em si. Por que está se interessando agora?

— Não sei — disse o homem da KGB. — Krupskaya também não sabia. Ele estava morrendo e não muito lúcido, mas disse que a resposta talvez estivesse na Córsega.

— Na Córsega? Por quê?

— Foi lá que tudo começou.

— Mas não onde a organização tem sede. Se é que tem sede. As informações diziam que o Matarese deixou a Córsega no meio da década de trinta. Os contratos eram negociados tanto em Londres como em Nova York... até em Berlim. Em centros de tráfego internacional.

— Então, talvez fosse mais apropriado falar em pistas. Pistas para a solução do enigma. O Conselho Matarese formou-se na Córsega. Só um de seus componentes é conhecido: Guillaume de Matarese. Quem eram os outros? Para onde foram? Onde estão agora?

— Há uma forma mais rápida de descobrir do que ir até a Córsega. Se houve a mais tênue menção da palavra Matarese em Washington, existe um homem que pode descobrir a fonte. Ia procurá-lo de qualquer forma. Queria esclarecer tudo.

— Quem é ele?

— Robert Winthrop — disse Bray.

— O criador das Operações Consulares — assentiu o russo._ — Um homem decente que não teve estômago para engolir o que ele mesmo criou.

— As Operações Consulares a que você se refere não são a mesma organização que ele criou. Ele ainda é o único homem que conheço que pode telefonar para a Casa Branca e conseguir ser recebido pelo presidente dali a vinte minutos. Muito pouca coisa acontece que ele não saiba, ou que não possa descobrir. — Scofield fitou as chamas, relembrando. — É estranho. De certa forma, ele é responsável por tudo que sou, e não me aprova. Mas acho que me dará ouvidos.

 

A cabina telefônica mais próxima ficava a uns cinco quilômetros do ponto em que a estrada de terra que levava à cabana interceptava a rodovia. Eram oito e dez quando Bray entrou nela, protegendo os olhos da luz brilhante do sol matinal, e fechou a porta de vidro. Encontrara o telefone particular de Winthrop em sua maleta; há muitos anos não o utilizava. Discou, esperando que continuasse o mesmo.

Continuava. A voz culta do outro lado da linha trouxe à tona muitas lembranças. Possibilidades perdidas, outras aproveitadas.

— Scofield! Onde está você?

— Receio não poder dizer-lhe. Por favor, tente entender.

— Compreendo que está numa grande enrascada e nada ganhará fugindo. Congdon telefonou. O homem que morreu no hotel foi baleado com uma pistola russa...

— Eu sei. O homem que o matou salvou-me a vida. Aquele homem foi enviado por Congdon; os outros dois também. Formavam uma equipe encarregada da minha execução. Vieram de Praga, Marselha e Amsterdam.

— Oh, meu Deus... — o estadista idoso ficou calado por alguns instantes e Bray não lhe interrompeu o silêncio. — Sabe o que está dizendo? — perguntou Winthrop.

— Sei, sim, senhor. O senhor conhece-me suficientemente bem para saber que eu não falaria sem ter a certeza. Não estou enganado. Falei com o homem de Praga antes que ele morresse.

— Ele confirmou isso?

— De forma indireta, sim. Mas o senhor sabe que esse tipo de ordem é sempre indireta.

Houve novo momento de silêncio antes que o velho estadista respondesse.

— Não posso acreditar nisso. Bray. E por uma razão que você desconhece. Congdon procurou-me uma semana atrás. Estava preocupado em saber como você iria reagir ante um afastamento. Uma preocupação razoável: um agente extremamente bem-informado, aposentado contra a vontade, ocioso, talvez bebendo demais... Ele é um homem frio, esse Congdon, e receio ter me encolerizado. Depois de tudo por que você passou, merecer tão pouca confiança... Ironicamente, insinuei que ele estava pensando nessa solução que você acabou de descrever. Não que acreditasse que ele fosse capaz nem de cogitar tal coisa, mas porque sua atitude me consternou. É por isso que não posso acreditar. Você entende? Ele sabe que eu descobriria, e não pode se arriscar a tal coisa.

— Então alguém lhe deu a ordem, senhor. B sobre isso que precisamos conversar. Aqueles três homens sabiam onde me encontrar, e só havia um jeito de terem descoberto. O hotel era uma base soviética, e eles eram agentes das Operações Consulares. Moscou deu o endereço a Congdon. Ele passou-o adiante.

— Congdon contactou os soviéticos? Isso não é plausível. Mesmo que tivesse tentado, por que eles cooperariam? Por que iriam revelar a localização de uma base?

— As negociações envolviam um homem deles. Os russos queriam que ele fosse morto. Estava tentando entrar em contato comigo. Já tínhamos trocado cabogramas.

— Taleniekov?

Foi a hora de Scofield silenciar. Depois respondeu baixinho:

— Sim, senhor.

— Um contato branco!

— Sim. Enganei-me, a princípio, mas era essa a intenção dele. Estou convencido disso agora.

— Você... e Taleniekov? Extraordinário...

— As circunstâncias são extraordinárias. Lembra-se de uma organização dos anos quarenta conhecida como o Matarese?...

 

Eles concordaram em se encontrar às nove horas daquela noite no lado Leste da Avenida Missouri, uns dois quilômetros ao Norte da saída do Rock Creek Park. Havia ali um trecho mais largo de acostamento onde carros podiam estacionar junto a picadas que levavam a uma garganta de onde se descortinava uma bela paisagem. Winthrop pretendia cancelar os compromissos daquele dia e concentrar-se em descobrir o que fosse possível a respeito das espantosas, ainda que deficientes, informações de Bray.

— Ele convocará o Comitê dos Quarenta, se for preciso — disse Scofield a Taleniekov na volta para a cabana.

— Ele pode fazer isso? — perguntou o russo.

— O presidente pode — respondeu Bray.

Os dois homens pouco conversaram durante o dia, a tensão da proximidade desconfortável para ambos. Taleniekov passou o tempo lendo os livros da variada biblioteca, volta e meia lançando um olhar a Scofield, olhares em que se mesclavam resquícios de ira e curiosidade.

Bray percebia os olhares, mas recusava-se a dar-lhes atenção. Ligara o rádio para ouvir os noticiários sobre a carnificina do hotel da Avenida Nebraska e a morte de um adido russo no prédio vizinho. Os fatos foram apresentados com discrição, quase abafados, sem qualquer menção do assassinato do funcionário da Embaixada. Foi aventada a hipótese de que as mortes do hotel seriam de autoria de estrangeiros, criminosos sem dúvida, envolvidos provavelmente no tráfico de drogas. Pressões tinham sido aplicadas, a censura do Departamento de Estado agira com rapidez e segurança.

E a cada noticiário mais restrito e abafado do que o anterior Scofield sentia que a armadilha fechava progressivamente sobre ele. Estava sendo envolvido por algo de que desejava fugir. A perspectiva de uma nova vida estava cada vez mais distante. Começou a perguntar a si mesmo se algum dia ela seria realidade. Estava sendo inexoravelmente impelido para um vórtice chamado Matarese.

Às quatro horas, saiu para dar uma volta pelos campos e pelas margens do rio Patuxent. Ao sair da cabana, fez questão de que o russo o visse guardar a automática Browning no coldre. O russo viu e colocou sua Graz-Burya na mesa ao lado da poltrona. Às cinco horas, Taleniekov fez um comentário:

Acho que deveríamos assumir nossas posições pelo menos uma hora antes da entrevista.

Confio em Winthrop — retrucou Bray.

Com razão, estou certo. Mas poderá confiar nas pessoas que ele procurou?

Ele não dirá a ninguém que vai encontrar-se conosco. Quer conversar longamente com você. Certamente fará perguntas. Nomes, postos, patentes.

Tentarei responder o que se relacionar com o Matarese. Não me comprometo a quaisquer revelações em outras áreas.

Valentão, hem...

Continuo a achar...

Sairemos daqui a quinze minutos — interrompeu Scofield. — Há um pequeno restaurante no caminho. Comeremos em mesas separadas.

Às 7h35min Bray parou o carro alugado na extremidade Sul da área de estacionamento localizada na orla do Rock Creek Park. O homem da KGB e o americano fizeram quatro incursões no bosque, afastando-se das picadas, procurando vestígios de intrusos entre as árvores, revistando as rochas e a ravina. O frio da noite era cortante. Não cruzaram com nenhum andarilho, não encontraram vivalma em parte alguma. Reuniram-se num local pré-combinado na beira de uma pequena garganta. Taleniekov foi o primeiro a falar.

Não vi nada. A área está livre.

Bray consultou o relógio na escuridão.

São quase oito e meia. Vou esperar perto do carro. Você fica aqui. Falarei primeiro com ele e depois farei um sinal.

Como? A distância é de mais de duzentos metros.

Acenderei um fósforo.

Muito apropriado.

O quê?

Nada. Não importa.

Faltavam dois minutos para as nove quando a limusine de Winthrop saiu do parque, tomou a direção da área de estacionamento e freou a uns seis metros do carro de aluguel. Ao reconhecer o motorista, Bray teve um instante de preocupação. O homenzarrão servia Robert Winthrop há mais de vinte anos. Boatos sobre uma carreira na Marinha cortada por uma corte marcial cercavam o motorista, mas Winthrop impedia quaisquer comentários chamando-o com firmeza de “meu amigo Stanley”. Ninguém ousara interferir.

Bray deixou as sombras e dirigiu-se para a limusine. Stanley abriu a porta e saltou do carro num único movimento, a mão direita no bolso, uma lanterna na esquerda. Acendeu-a. Scofield fechou os olhos. A luz extinguiu-se.

— Olá, Stanley — disse Bray.

— Faz muito tempo que não nos vemos, Sr. Scofield — replicou o motorista. — É um prazer revê-lo.

— Obrigado. Eu digo o mesmo.

— O embaixador está esperando — continuou o motorista, abaixando-se e destravando o trinco. — A porta já está aberta.

— Ótimo. Escute, daqui a uns dois minutos vou sair do carro e acender um fósforo. É um sinal para alguém se aproximar. Ele está esperando lá na outra ponta. Vai sair por uma daquelas picadas.

— Estou sabendo. O embaixador disse que ia encontrar dois homens.

— O que estava tentando dizer é que, se você ainda fuma aqueles charutos fininhos, espere até que eu saia para acender um deles. Gostaria de ficar alguns instantes a sós com o Sr. Winthrop.

— O senhor tem uma memória dos diabos — replicou Stanley, batendo no bolso da túnica com a lanterna. — Já ia acender um.

Bray entrou no banco de trás e encarou o homem que era responsável por sua vida. Winthrop envelhecera, mas à luz fraca seu olhar ainda era elétrico, cheio de solicitude. Apertaram-se as mãos, o estadista idoso prolongando o contato.

— Tenho pensado freqüentemente em você — disse ele suavemente, os olhos procurando os de Scofield; ao perceber as ataduras, franziu a testa. — Meus sentimentos são contraditórios, mas não creio que precise dizer isso.

— Não, senhor. Não precisa.

— Tantas coisas mudaram, não foi, Bray? Os ideais, a oportunidade de fazer tanto por tantos. Éramos realmente cruzados. A princípio. — O velho soltou a mão de Scofield e sorriu. — Lembra-se? Você concebeu um plano em que as dívidas dos territórios ocupados poderiam ser saldadas através de imigrantes. Uma concepção brilhante de diplomacia econômica, na minha opinião. Vidas humanas em troco de empréstimos que nunca seriam remidos, de qualquer forma.

— O plano teria sido rejeitado.

— Provavelmente. Mas, na arena da opinião mundial, teria imprensado os soviéticos contra a parede. Ainda me lembro de suas palavras: “Se nós somos um Governo capitalista, admitamos o fato. Utilizemo-lo às claras. Os cidadãos americanos financiaram metade do Exército russo. Enfatizem a dívida psicológica. Obtenham algo em troca, obtenham gente.” Foi o que você disse.

— Palavras de um bacharel incursionando em ingênuas teorias geopolíticas.

— Com freqüência, há muita coisa verdadeira nessas teorias ingênuas. Sabe, ainda me lembro claramente do estudante recém-formado. O que teria...

— Não há tempo agora, senhor — cortou Scofield. — Taleniekov está esperando. Ah, antes que me esqueça, revistamos a área. Está limpa.

O velho piscou.

— Você tinha alguma dúvida?

— Tive receio de que nossa conversação tivesse sido interceptada.

— Não precisava ter — disse Winthrop. — Esses dispositivos têm de ser registrados em alguma parte, relacionados em algum lugar. Não queria estar na pele de quem ousasse tal coisa. Muitas conversas confidenciais são ditas no meu aparelho. É minha melhor proteção.

— Soube alguma coisa?

— Sobre o Matarese? Sim... e não. Não, no sentido de que nem mesmo os registros ultra-secretos fazem qualquer referência à organização nos últimos quarenta e três anos. Isso foi o que o presidente me assegurou, e eu confio nele. Ele ficou pasmo. Admitiu a possibilidade e alertou seus homens. Ficou furioso e assustado, creio.

— E quanto ao “sim”?

Winthrop escolheu cuidadosamente as palavras:

—_É algo impreciso, mas inegável. Antes que decidisse procurar o presidente, falei com cinco homens que nos últimos anos, nas últimas décadas mesmo, têm estado envolvidos nas áreas mais delicadas da diplomacia e do serviço secreto. Desses cinco, três lembravam-se do Matarese e mostraram-se chocados. Ofereceram-se para fazer o possível no sentido de ajudar. O espectro da volta do Matarese os aterrorizou... Mas os outros dois, homens de conhecimentos ainda mais vastos que os demais, se possível, afirmaram nunca ter ouvido falar nessa organização. Uma reação sem sentido, eles tinham de conhecê-la. Assim como eu. Minhas informações podiam ser mínimas, mas do tipo que ninguém esquece. Quando disse isso, quando os pressionei, os dois reagiram de forma estranha e até insultuosa, considerando nosso conhecimento de longa data. Ambos trataram-me como se eu fosse um velho senil, dado a fantasias senis. Fiquei realmente aturdido.

— Quem são eles?

— É outra coisa esquisita...

Uma centelha luminosa à distância atraiu o olhar de Scofield. Outra... e mais outra. Fósforos acesos em rápida sucessão.

Taleniekov.

O homem da KGB empalmara os fósforos e os acendia furiosamente, um após o outro. Era uma advertência. Taleniekov estava avisando-o de que algo acontecera, estava acontecendo. De repente, a chama manteve-se constante, mas sua luz era interceptada a períodos pela outra mão colocada em frente à chama. Mais luz, menos luz, em rápida seqüência. Código Morse. Traços e pontos.

Três pontos, um traço. Uma interrupção. Três pontos, um traço. V. Uma interrupção. Um ponto, dois traços, um ponto. Novamente. P.

V.P.

— O que há? — perguntou Winthrop.

— Espere um instante — retrucou Scofield.

Três pontos, um traço. Pausa. Um ponto, dois traços, um ponto.

V. P. Vigiados. Perigo.

A chama deslocou-se para a esquerda, na direção da estrada que margeava os bosques da área de estacionamento, e extinguiu-se. O agente soviético estava mudando de posição. Bray voltou-se para o antigo chefe.

— Tem certeza de que seu telefone não está sob vigilância?

— Absoluta. Nunca foi controlado. Tenho meios de saber.

— Eles podem não ser totalmente eficazes. — Scofield apertou o botão da janela e o vidro desceu. Chamou o motorista que estava em pé na frente da limusine. — Stan, venha cá! — Ele obedeceu. — Quando atravessou o parque, verificou se não estava sendo seguido?

— Ora, como não! E não vi nada. Eu sempre fico de olho no retrovisor, especialmente quando vamos encontrar alguém à noite... O senhor viu aquela luz lá em cima? Era seu companheiro?

— Era. Estava me avisando de que há alguém por aí.

— Impossível — afirmou Winthrop enfaticamente. — Se há, nada tem a ver conosco. Isto aqui é um lugar público.

— Não o quero alarmar, senhor, mas Taleniekov é um homem experiente. Não se vê nenhum farol, nenhum carro na estrada. Quem quer que esteja nas redondezas não deseja ser visto, e essa não é uma noite adequada para um passeio inocente. — Bray abriu a porta. — Stan, vou pegar minha pasta no meu carro. Quando voltar, vamos sair daqui. Quero que dê uma parada no fim do estacionamento junto às árvores.

— E o russo? — perguntou Winthrop.

— A parada é por causa dele. Vamos apanhá-lo. É melhor que esteja à nossa espera.

— Espere um instante — objetou Stanley, sem qualquer deferência na voz. — Se vai haver barulho, não vou parar para pegar ninguém. Minha obrigação é uma só: tirar o Sr. Winthrop daqui. Ele e mais ninguém.

— Não temos tempo para discutir. Ligue o motor. — Bray correu para o carro de aluguel com as chaves na mão. Abriu a porta, pegou sua maleta no banco da frente e começou a correr de volta para a limusine.

Nunca chegou até lá. Um poderoso facho de luz cortou a escuridão e iluminou o enorme automóvel de Robert Winthrop. Stanley estava na direção, acionando o motor, pronto para arrancar-se dali. Mas quem segurava a lanterna não ia permitir tal coisa. Ele queria aquele carro... e seus ocupantes.

As rodas da limusine giraram guinchando no asfalto e o enorme carro arrancou. Uma saraivada de balas explodiu, estilhaçando as vidraças, cravando-se no metal. A limusine começou a descrever semicírculos de um lado para o outro da estrada, aparentemente descontrolada.

Dois fortes disparos vieram do bosque; a lanterna explodiu, acompanhada de um grito de dor. O carro de Winthrop retomou a direção Norte por alguns metros e então dobrou abruptamente à esquerda. Dois homens de armas na mão foram apanhados pelas luzes dos faróis. Um terceiro estava caído no chão.

Brandindo sua arma, Bray jogou-se no asfalto e atirou. Um dos dois homens caiu. A limusine completou a volta e, com um ronco possante, disparou para o Sul, deixando para trás a área de estacionamento.

Scofield rolou para a direita; dois tiros espocaram atingindo o asfalto onde ele estivera um segundo atrás. Bray ergueu-se e correu na escuridão para a grade na orla da ravina.

Ao jogar-se por cima da grade, sua maleta chocou-se contra um poste de madeira, o ruído nítido. Um disparo já esperado explodiu quando ele caiu entre as rochas.

Luzes. Faróis! Dois fachos luminosos varando a noite sobre ele, acompanhados pelo ronco de um motor. Som de vidros estilhaçados seguido pelo guincho de pneus numa freada brusca. Um grito — impreciso, histérico... cortado por uma explosão — precedeu o silêncio.

O motor morrera, os faróis ainda acesos revelavam espirais de fumaça, dois corpos imóveis no chão, e um terceiro homem de joelhos, olhando em volta, em pânico. O homem ouvira qualquer coisa; girou e ergueu a arma.

Um tiro espocou nos bosques. O disparo final; o quase assassino caiu.

— Scofield! — gritou Taleniekov.

— Estou aqui! — Bray pulou a grade e correu na direção da voz do russo.

Taleniekov surgiu do meio das árvores. Estava a uns três metros do carro afogado. Os dois homens aproximaram-se cautelosamente do automóvel; a vidraça do motorista estava estilhaçada, destruída por um único tiro da automática do homem da KGB. A cabeça atrás dos estilhaços estava toda ensangüentada, mas ainda reconhecível. A mão direita do motorista protegida por uma atadura — ainda não refeita da fratura do polegar numa ponte de Amsterdam, às três horas da manhã, causada por um homem exausto e encolerizado.

Era Harry, o jovem e agressivo agente que matara uma pessoa tão desnecessariamente sob a chuva daquela noite.

— Não acredito — disse Scofield.

— Você o conhece? — perguntou Taleniekov num tom curioso.

— Chamava-se Harry. Trabalhou para mim em Amsterdam.

O russo ficou em silêncio por um instante e depois falou:

— Ele estava com você em Amsterdam, mas não trabalhava para você. Nem se chama Harry. Esse rapaz é um agente do serviço secreto soviético treinado desde os nove anos no campo de prisioneiros americanos em Novgorod. Era da VKR.

Bray fitou o rosto de Taleniekov e então voltou o olhar para a cabeça ensangüentada de Harry.

— Parabéns. As coisas estão ficando mais claras agora.

— Pois para mim, não — retrucou o homem da KGB. — Acredite, é de todo improvável que Moscou desse uma ordem que incluísse um ataque direto a Robert Winthrop. Não somos tão tolos. Ele está acima de quaisquer represálias, sua voz e perícia devem ser preservadas, não destruídas. E certamente não por causa de homens como eu e você.

— Que está querendo dizer?

— Essa era uma equipe de execução, tão certo quanto a daqueles homens do hotel. Você e eu não devíamos ser separados, mortos isoladamente. A execução era múltipla. Winthrop também seria uma das vítimas e, pelo que sabemos, talvez tenha sido abatido. Estou certo de que essa ordem não veio de Moscou.

— Do Departamento de Estado é que não veio. Disso, tenho certeza.

— Concordo. Nem de Washington, nem de Moscou, mas de uma fonte capaz de dar ordens em nome de qualquer um dos dois Governos, ou de ambos.

— O Matarese? — perguntou Scofield.

O russo assentiu.

— O Matarese.

Bray reteve a respiração, tentando pensar, absorver tudo aquilo.

— Se Winthrop ainda estiver vivo, será amordaçado, detido, mantido sob um microscópio. Não conseguirei chegar perto dele. Serei morto sem discussão.

— Sou da mesma opinião. Existem outros homens de confiança que você possa procurar?

— É uma loucura — disse Scofield, estremecendo de frio ou talvez com a idéia que lhe ocorrera. — Deve haver, mas não sei quais são. Quem quer que eu procure terá de me entregar, as leis são bem claras. Sem falar em ordens de prisão, seria uma questão de segurança nacional. Um processo contra mim será instaurado rápido e legalmente. Suspeito de traição, espionagem interna, entrega de informações ao inimigo. Ninguém me receberá.

— Certamente, devem haver pessoas que o escutarão.

— Escutar o quê? Que tenho para lhes dizer? Que posso oferecer-lhes como prova? Você? Você seria levado a um hospital numa área de segurança máxima antes mesmo de poder abrir a boca. As palavras de um Istrebiteli moribundo? Um assassino comunista? Onde está a corroboração, onde está a lógica? Diabos, estamos ilhados. Tudo que temos são sombras!

Taleniekov deu um passo à frente, a voz cheia de convicção:

— Talvez o velho Krupskaya estivesse certo, talvez a resposta esteja na Córsega, afinal.

— Ai, Deus...

— Escute: você disse que só temos sombras. Se é assim, precisamos de muito mais. Se tivéssemos mais, se tivéssemos descoberto mesmo uns poucos nomes, se pudéssemos apresentar algo mais do que probabilidades... Então você poderia procurar alguém e forçá-lo a escutar?

— Somente à distância — respondeu Bray devagar. — Fora do alcance deles.

— Naturalmente.

— Teríamos de ter mais do que probabilidades, teríamos de ter provas irrefutáveis.

— Poderia convencer os homens de Moscou se tivesse tais provas. Minha esperança era que aqui uma investigação pudesse ser ordenada com menos indícios. Vocês são famosos pelos intermináveis inquéritos do seu Senado. Simplesmente concluí que aqui isso seria possível, que você poderia conseguir tal coisa.

— Agora não é mais possível. Eu não posso.

— A Córsega, então?

— Não sei. Preciso pensar. Ainda resta Winthrop.

— Você mesmo disse que não conseguiria chegar perto dele. Se tentasse, seria morto.

— Outros já conseguiram. Tomarei todas as precauções. Preciso descobrir o que aconteceu. Ele viu com os próprios olhos; se ainda estiver vivo e eu conseguir falar com ele, ele saberá o que fazer.

— E se não estiver vivo, ou se você não conseguir falar com ele?

Scofield olhou para os mortos caídos no asfalto.

— Então talvez só reste a Córsega.

O homem da KGB sacudiu a cabeça.

— Eu examino as probabilidades com mais cuidado que você, Beowulf. Não vou esperar. Não vou me arriscar a terminar naquele “hospital” que você mencionou. Vou para a Córsega agora.

— Se for, comece pela costa Sudeste, ao Norte de Porto Vecchio.

— Por quê?

— Foi lá que tudo começou. É a terra do Matarese.

Taleniekov assentiu.

— Aprendeu bem suas lições. Obrigado. Talvez nos encontremos na Córsega.

— Vai conseguir sair do país? — perguntou Bray.

— Entrar ou sair... isso é fácil. Não é obstáculo. E quanto a você? Se resolver juntar-se a mim.

— Tenho como chegar a Londres, ou Paris. Tenho contas em bancos nessas cidades. Se eu for, estarei lá em três, quatro dias no máximo. Há pequenas hospedarias nas montanhas. Saberei encontrá-lo...

Scofield calou-se. Os dois homens voltaram-se rapidamente ao som de um carro que se aproximava. O sedã deixara a rodovia e preparava-se para estacionar. No banco da frente estava um casal, o braço do homem envolvendo os ombros da mulher. Os faróis dianteiros iluminaram os corpos imóveis caídos no asfalto, e a claridade revelou a janela estilhaçada do carro afogado e lá dentro a cabeça ensangüentada.

O motorista empurrou a mulher para baixo, agarrou a direção com as duas mãos, e com uma curva violenta retomou a direção da estrada, o ronco do motor ecoando através do bosque e do espaço aberto.

— Eles vão procurar a polícia — disse Bray. — Vamos sair daqui.

— Acho que será melhor não usar o carro — retrucou o homem da KGB.

— Por que não?

— O motorista de Winthrop. Talvez você confie nele. Eu não teria tanta certeza.

— Você está louco! Quase o mataram!

Taleniekov apontou para os mortos no asfalto.

— Eles eram peritos atiradores. Russos ou americanos, isso não importa. Eram especialistas. O Matarese não os utilizaria se não fosse assim. O pára-brisa da limusine tinha pelo menos um metro e meio de largura, o motorista era alvo fácil até para um principiante. Por que não o atingiram? Por que não detiveram o carro? Fomos conduzidos a uma armadilha e não percebemos, Beowulf. E talvez pelo próprio Winthrop.

Bray sentiu-se mal. Não tinha resposta para aquilo.

— Vamos nos separar. Será melhor para nós dois.

— A Córsega, talvez?

— Talvez. Você saberá se eu for.

— Taleniekov?

— Sim?

— Obrigado por acender os fósforos.

— Nessas circunstâncias, acredito que você teria feito o mesmo por mim.

— Nessas circunstâncias... sim, teria.

— Você já percebeu? Nós não nos matamos um ao outro, Beo­wulf Agate. Nós conversamos.

— Nós conversamos.

O vento frio da noite trouxe o som de uma sirena solitária. Logo, outras seriam ouvidas, carros-patrulha convergiriam para a cena da matança. Os dois homens deram-se as costas e correram. Scofield desceu a picada escura que levava ao bosque por trás do carro alugado. Taleniekov pulou a grade que acompanhava a ravina do Rock Creek Park.

 

 

O barco de pesca cortava as vagas revoltas como um animal pesado e desajeitado, vagamente consciente de que as águas lhe eram hostis. As ondas chocavam-se contra a proa e os lados do barco, formando cascatas de espuma sobre a amurada, e os ventos matinais fustigavam o rosto dos homens que manobravam as redes, deixando rastros de sal.

Um homem, entretanto, não se ocupava com as tarefas árduas da pesca. Não puxava nenhum cabo, não manipulava nenhum croque, nem se imiscuía nas piadas, palavrões e risadas características dos que ganham a vida no mar. Sentava-se a sós no tombadilho, uma garrafa térmica em uma das mãos, um cigarro empalmado na outra. Se um barco-patrulha francês ou italiano se aproximasse, ele se transformaria imediatamente em pescador, mas, se isso não acontecesse, estava combinado que todos o deixariam em paz. Ninguém fizera objeções a esse estranho sem nome, pois todos os membros da tripulação haviam ganho 100.000 liras com sua presença. O barco o pegara no cais em San Vincenzo. De acordo com a escala, deveriam sair da costa italiana de madrugada, mas o desconhecido sugerira que procurassem alcançar a costa da Córsega nas primeiras horas da manhã, e o capitão e a tripulação seriam altamente recompensados pelo trabalho. Postos mais altos têm seus privilégios. O capitão recebeu 150.000 liras. Zarparam de San Vincenzo antes da meia-noite.

Scofield tampou a garrafa térmica e jogou o cigarro no mar. Pôs-se em pé e se espreguiçou, procurando vislumbrar a costa através da neblina. Tinham andado bem. Pelo que o capitão dissera, deveriam avistar Solenzara dentro de alguns minutos e dentro de uma hora deixariam seu ilustre passageiro entre Sainte-Lucie e Porto Vecchio. Não esperavam encontrar nenhum problema; havia dúzias de reentrâncias desertas na costa rochosa onde um barco de pescaria poderia abrigar-se temporariamente.

Bray puxou a corda amarrada na alça da pasta de documentos e prendeu-a no pulso, bem segura, molhada como estava. A abrasão causada pela corda irritava muito devido à água salgada, mas ia melhorar rapidamente — na verdade, a água salgada ajudaria. Talvez fosse uma precaução desnecessária, mas o que importava eram as aparências. Talvez cochilasse, e os corsos costumavam despojar os viajantes de tudo que possuí-m de valor, especialmente viajantes sem papéis e com dinheiro.

— Signore! — O capitão se aproximou, com um largo sorriso que mostrava a falta dos dentes principais. — Ecco Solenzara! Ci arriveremo súbito — trenta minuti. E nord di Porto Vecchio!

— Benissimo, grazie.

— Prego!

Em meia hora estaria em terra, na Córsega, nas colinas onde nasceu o Matarese. Era indiscutível que a organização existia e altamente provável que havia fornecido assassinos de aluguel até a década de trinta. Mas sua história era realmente um mistério, e ninguém poderia dizer quanto dela era mito, quanto era realidade. A lenda crescia e, ao mesmo tempo, as pessoas riam-se dela. Era um enigma, pois ninguém conhecia sua origem. Sabia-se que um louco, chamado Guillaume de Matarese, tinha organizado um conselho, vindo não se sabe de onde, e dado à luz a um bando de assassinos, baseado, diziam alguns, na sociedade de matadores de Hasan Ibn-al-Sabbah, no século XI.

Mas isso parecia mais um culto, e assim aumentava o mito e diminuía a realidade. Nunca houve um depoimento em juízo, nunca foi preso um assassino que se pudesse provar fosse ligado a uma organização chamada Matarese. Se é que houve confissões, essas nunca se tornaram públicas. E os boatos persistiram. Circulavam histórias em altos escalões, apareciam artigos em jornais sérios, e eram logo desmentidos nas edições seguintes. Foram iniciadas várias pesquisas independentes, mas se alguma chegou ao fim nunca se soube. E em tudo isso os diversos governos nunca se manifestaram. Nunca. Ficaram silenciosos.

Anos atrás, um jovem agente secreto estudara a história de assassinatos, e foi esse silêncio que o fez acreditar na existência do Matarese.

Da mesma forma, outro silêncio, imposto subitamente três dias atrás, convenceu-o de que o encontro na Córsega não era uma idéia louca, surgida em meio à violência, e sim a única saída. O Matarese podia ser um enigma, mas não era mito. Era realidade. Um homem poderoso tinha contactado outros homens poderosos e pronunciado o nome, alarmado.

Robert Winthrop tinha desaparecido.

Três noites atrás, Bray tinha fugido correndo do Rock Creek Park e se refugiado num motel perto de Fredericksburg. Correra a estrada, acima e abaixo, chamando Winthrop de uma série de cabinas telefônicas, nunca repetindo a mesma, pedindo caronas sob o pretexto de que seu carro enguiçara. Tinha falado com a esposa de Winthrop, alarmando-a, com toda certeza, mas não revelando nada, dizendo apenas que precisava falar com o embaixador. E chegou a madrugada e o telefone não mais respondia, os tinidos da campainha se tornaram mais lentos, mais afastados, ou assim lhe pareceu, e ninguém atendeu.

Não tinha aonde ir, não podia apelar para ninguém. A rede estava armada para ele. Se o encontrassem, seria o fim, sabia disso. Se o deixassem vivo, seria entre as quatro paredes de uma cela ou, pior ainda, como um vegetal. Mas não acreditava que o deixassem viver. Taleniekov tinha razão: estavam ambos condenados.

A resposta, se houvesse, estava a mais de seis mil quilômetros, no Mediterrâneo. Trazia em sua pasta uma dúzia de passaportes falsos, cinco contas bancárias em nomes diferentes e uma lista de homens e mulheres que lhe arranjariam condução para qualquer lugar. Deixara Fredericksburg dois dias atrás, de madrugada, passara em bancos em Londres e Paris e na noite anterior, bem tarde, chegara a um cais de pescadores em San Vincenzo.

E agora faltavam apenas alguns minutos para colocar os pés no chão da Córsega. Tinha tido muito tempo para pensar, pelo menos para organizar os pensamentos, nos períodos de imobilidade forçada, no ar e no mar. Era preciso partir do previamente estabelecido. Dois fatos eram incontestáveis:

Guillaume de Matarese existira, assim como um grupo de homens denominado o Conselho Matarese, dedicado às teorias insanas de seu fundador. O mundo é impulsionado por mudanças constantes e violentas de poder. Choques e mortes súbitas são inerentes à evolução da história. Alguém tem de fornecer os meios para que se alcance o fim. Todos os governos pagam assassinos políticos. Assassinatos executados por métodos totalmente controlados, cuja autoria não pudesse ser descoberta, poderiam ser uma fonte mundial infinita de riquezas e influência. Assim pensara Guillaume de Matarese.

Uma minoria dos membros da comunidade de segurança internacional acreditava que o Matarese tinha sido responsável por dúzias de assassinatos políticos da segunda década do século até os anos trinta, de Sarajevo à cidade do México, de Tóquio a Berlim. Era sua opinião que o colapso do Matarese era devido à explosão da II Guerra Mundial e o conseqüente aumento do número de serviços secretos, que tornavam esses assassinatos legais; ou à Máfia siciliana, centralizada nos Estados Unidos, mas espalhada por toda parte, que absorvera o Conselho.

Mas esse era o ponto de vista de uma minoria. A maioria dos profissionais concordava com a Interpol, o MI-6 britânico e a CIA, que declaravam que o poder do Matarese estava sendo muito exagerado. Certamente tinham matado algumas figuras políticas de menor importância no labirinto profundamente ineficiente dos políticos franceses e italianos, porém não havia provas de mais nada além disso. Tratava-se basicamente de uma coleção de paranóicos liderados por um ricaço excêntrico, que nada sabia de filosofia, nem dos governos que aceitavam seus contratos exorbitantes. Se não fosse assim, perguntavam esses profissionais, por que eles nunca haviam sido chamados?

“Porque”, Bray acreditara há anos e continuava a acreditar, “vocês eram — nós éramos — as últimas pessoas no mundo com quem o Matarese queria negociar. Desde^o início formamos a concorrência, de uma forma ou de outra”.

— Ancora quindici minuti — berrou o capitão da casa de comando —, Ia costa è molto vicina.

— Grazie tante, capitano.

— Prego.

O Matarese. Seria possível? Um grupo de homens escolhendo e controlando assassinatos mundiais, fornecendo uma estrutura ao terrorismo, criando o caos por toda parte?

Para Bray, a resposta era sim. As palavras de um Istrebiteli moribundo, a sentença de morte imposta pelos soviéticos em Vasili Taleniekov, sua própria equipe de execução recrutada de Marselha, Amsterdam e Praga... tudo era um prelúdio ao desaparecimento de Robert Winthrop. Tudo estava ligado ao atual Conselho Matarese. Era ele que agia atrás da cena.

Quem seriam eles, esses homens que dispunham de recursos para alcançar os mais altos escalões do Governo e com a mesma facilidade financiar terroristas alucinados e escolher homens célebres para serem assassinados? E a pergunta maior era por quê. Por quê? Qual era seu objetivo, afinal?

Primeiro, era preciso desvendar o mistério de quem eram... e, fossem quem fossem, deveria haver uma conexão entre eles e os fanáticos originariamente reunidos por Guillaume de Matarese, pois de onde teriam vindo, como poderiam ter sabido? Os homens de então se reuniram nas colinas de Porto Vecchio. Todos tinham nomes. Era seu único ponto de partida.

Lembrou-se de que houvera outro, mas tinha se extinguido na chama de um fósforo no bosque do Rock Creek Park. Robert Winthrop estivera prestes a declarar o nome de dois homens poderosos em Washington que tinham negado enfaticamente qualquer conhecimento do Matarese, e essa negativa revelou sua cumplicidade. Era impossível que não tivessem ouvido falar do Matarese, fosse como fosse. Mas Winthrop não pronunciara os nomes. A violência interferira. Agora, talvez não mais pudesse dizê-los.

Os nomes do passado poderiam levar aos nomes do presente, e nesse caso tinham de levar. Os homens deixam sua marca na era em que vivem, o fruto de seu trabalho... seu dinheiro. Tudo pode ser pesquisado e levar a algum ponto. Se é que havia chaves para abrir os cofres que encerravam os mistérios do Matarese, elas seriam encontradas nas colinas de Porto Vecchio. Era imperativo encontrá-las, da mesma forma que Vasili Taleniekov, seu inimigo, tinha de encontrá-las. Nenhum dos dois sobreviveria se não as encontrasse. Não haveria, para o russo, uma quinta em Grasnov, nem uma vida nova para Beowulf Agate, até que encontrassem as respostas.

— La costa si avvicina! — gritou o capitão, virando o leme. Olhou o passageiro, sorrindo por entre a espuma soprada pelo vento. — Ancora cinque minuti, signore, e poi la Corsica.

— Grazie, capitano.

— Prego.

Córsega.

 

Taleniekov correu colina acima à luz da lua, agachando-se nas moitas de mato alto para disfarçar os movimentos, mas sem obscurecer a trilha que abria. Não queria que seus perseguidores desistissem da caça, apenas queria retardá-los, separá-los, se possível. Seria muito mais fácil agarrar um deles, isso seria o ideal.

O velho Krupskaya tinha razão quanto à Córsega, e Scofield estava certo quanto às colinas ao Norte de Porto Vecchio. Tinha levado menos de dois dias para descobrir que havia segredos ali. E agora estava sendo caçado nas colinas, na escuridão, por homens que queriam evitar que descobrisse mais alguma coisa.

Quatro noites atrás, a Córsega lhe parecera uma escolha altamente especulativa, uma alternativa a ser testada, e Porto Vecchio simplesmente uma cidade na costa Sudeste da ilha, rodeada de colinas inexploradas.

As colinas permaneciam inexploradas. Eram habitadas por um povo distante, estranho, pouco comunicativo, que falava um dialeto ultramontano bastante difícil de entender, mas não havia mais especulações. Bastava mencionar o nome Matarese para que olhos inicialmente hostis se velassem de todo. Se insistisse em obter qualquer informação, por mais inocente que fosse, estava encerrada a conversa que apenas começara. Era como se o próprio nome fizesse parte de um ritual tribal que não podia ser mencionado a não ser nos recônditos das colinas, e nunca na presença de estranhos. Isso Vasili compreendeu poucas horas depois de penetrar os campos semeados de rochas, e foi dramaticamente confirmado logo na primeira noite.

Quatro dias atrás, ele não teria acreditado; agora sabia que era verdade. O Matarese era mais que uma lenda, mais que um símbolo místico para o povo primitivo das colinas: era uma espécie de religião. Tinha de ser. Havia homens prontos a morrer para preservar-lhe o segredo.

Quatro dias, e tudo mudara para ele. Não estava mais lidando com homens preparados e aparelhamento sofisticado. Não podia apertar um botão, ver as fitas dos computadores revolvendo atrás dos painéis de vidro e as letras verdes se sucederam rapidamente nas telas negras, fornecendo imediatamente a informação necessária à decisão a ser tomada. Pesquisava o passado no meio de figuras do passado.

Era essa a razão por que desejava desesperadamente pegar um dos homens que o seguiam colina acima na escuridão. Calculava que eram três. O cume da colina era extenso e largo, com uma profusão de árvores disformes e rochas pontiagudas. Eles teriam de se separar para cercar todas as descidas que levavam a outras colinas e à baixada, na entrada da floresta. Se conseguisse pegar um homem e manipular-lhe a mente e o corpo, aprenderia muita coisa. Não tinha o menor escrúpulo. Na escuridão da noite anterior, uma cama de madeira havia sido estraçalhada e a silhueta de um corso surgira no portal com uma espingarda Lupo na mão. Supunha-se que Taleniekov estivesse naquela cama... Bastava um homem, aquele homem, Vasili pensou, contendo a raiva e correndo para esconder-se numa moita de abetos selvagens quase no cume da colina. Poderia descansar ali por alguns minutos.

Vislumbrou lá embaixo os raios fracos de lanternas elétricas. Um, dois... três. Três homens, e estavam se separando. O da extrema esquerda se encaminhava para seu esconderijo. Levaria dez minutos escalando a colina até chegar aos abetos. Taleniekov rezou para que fosse o homem com a Lupo. Encostou-se numa árvore, respirando fundo, e afrouxou todo o corpo.

Precipitara-se na incursão a esse mundo primitivo. Entretanto, havia uma espécie de simetria. Começara correndo à noite nos bosques à margem da ravina no Rock Creek Park em Washington, e aqui estava ele num santuário isolado, coberto de árvores, no alto das colinas da Córsega. À noite. Fora uma viagem muito rápida e ele soubera exatamente o que devia fazer, e quando.

Ontem às cinco horas da tarde, no Aeroporto Leonardo da Vinci, em Roma, providenciara um avião particular para voar até Bonifácio, a Oeste, no extremo Sul da Córsega. Chegara a Bonifácio às sete e um táxi o levou para o Norte, ao longo da costa, até Porto Vecchio, e daí para um hotel nas colinas. Comera uma refeição corsa pesada, conversando com muita naturalidade com o proprietário curioso.

— Sou uma espécie de historiador — dissera. — Procuro informações sobre um padrone de muito tempo atrás. Um certo Guillaume de Matarese.

— Não entendo — replicara o proprietário. — O senhor disse que é uma espécie de historiador. Acho que uma pessoa é um historiador ou não é. O senhor está ligado a alguma grande universidade?

— Uma fundação particular, mas as universidades têm acesso aos nossos trabalhos.

— Un’ fondazione?

— Un’ organizzazione accademica. Minha seção está incumbida da história da Sardenha e da Córsega no fim do século XIX e princípio do século XX, que é muito pouco conhecida. Aparentemente, existiu um padrone, esse tal de Guillaume de Matarese, que controlava a maior parte das terras nas colinas ao Norte de Porto Vecchio.

— Elas lhe pertenciam, signore. Era muito bom para todos os que viviam em suas terras.

— Naturalmente. E gostaríamos de dar-lhe um lugar de destaque na história da Córsega. Não sei por onde começar.

— Talvez... — O proprietário recostou-se na cadeira, os olhos em frente, a voz inexpressiva. — As ruínas da Vila Matarese. A noite está bem clara, signore. São muito belas à luz do luar. Posso arranjar alguém que o leve até lá. A não ser que esteja muito cansado da viagem...

— De forma alguma. Foi um vôo rápido.

Levaram-no mais longe ainda nas colinas, para os restos mortais de uma imensa propriedade, onde as ruínas de um casarão ocupavam quase quatro mil metros quadrados. As únicas estruturas ainda em pé eram algumas paredes desmoronadas e chaminés derruídas. Entreviam-se no mato rasteiro os tijolos que beiravam uma imensa estrada de acesso circular. De ambos os lados da mansão, caminhos de pedra cortavam o mato alto, salpicados de treliças quebradas, testemunhas de jardins luxuriantes bem-tratados, há muito destruídos.

O conjunto de ruínas erguia-se em silhueta fantasmagórica contra a colina, aumentado pela esteira de luar. Guillaume de Matarese erguera um monumento a si mesmo, e o impacto do edifício não diminuíra, apesar da destruição do tempo e dos elementos. Pelo contrário, o esqueleto tinha enorme força própria.

Vasili ouvira vozes e o menino que o trouxera havia sumido. Eram dois homens e as primeiras palavras de uma saudação meio duvidosa com que o acolheram foram o início de um interrogatório ,que durara mais de uma hora. Teria sido muito fácil subjugar os dois corsos, mas Taleniekov sabia que poderia aprender mais se usasse resistência passiva. Inquisidores não-treinados sempre revelam mais do que conseguem arrancar de vítimas bem-treinadas. Manteve-se firme na história da organizzazione accademica e no final recebeu os conselhos que já esperava.

— Volte para o lugar de onde veio, signore. Não pode descobrir nada aqui que lhe seja útil, nós não sabemos de nada. Houve uma epidemia nestas montanhas anos atrás. Não sobrou ninguém que lhe possa ajudar.

— Deve haver pessoas idosas nas montanhas. Talvez possa andar por aí e fazer umas perguntas.

— Nós somos idosos, signore, e não podemos responder às suas perguntas. Volte. Somos todos ignorantes por aqui, somos pastores. Não nos sentimos bem quando estranhos se intrometem em nossa vida simples. Volte.

— Vou pensar em seus conselhos...

— Não se incomode em fazer isso, signore. Vá embora. Por favor. Deixe-nos em paz.

Na manhã seguinte, Vasili voltou às montanhas, à Vila Matarese e mais além, parando em várias fazendas com casas de sapé, fazendo perguntas, notando os olhares fulminantes nos olhos corsos que acompanhavam as não-respostas, consciente de que estava sendo seguido.

Nada lhe disseram, naturalmente, mas na progressão de atitudes empedernidas em reação à sua presença descobrira algo importante. Não só havia homens seguindo-o, havia também outros que o precediam, alertando as famílias das montanhas de que um estranho se aproximava. Deveriam mandá-lo embora sem lhe dizer nada.

Aquela noite, a noite passada, pensou Taleniekov, enquanto observava o facho de luz à esquerda subir lentamente a colina, o proprietário se aproximara de sua mesa.

— Sinto muito, signore, mas não posso permitir que continue aqui. Aluguei seu quarto.

Vasili levantou os olhos e falou sem hesitar:

— Que pena. Preciso somente de uma poltrona ou uma cama de armar, se é que dispõe de alguma. Partirei de manhã cedo. Consegui o que vim buscar aqui.

— E o que foi isso, signore?

— Logo saberá. Outros virão depois, com o aparelhamento adequado e os registros de imóveis. Haverá uma investigação completa, científica. É fascinante o que aconteceu aqui. Falando academicamente, é claro.

— Claro... Talvez mais uma noite.

Seis horas depois, um homem irrompera em seu quarto e disparara dois tiros de uma espingarda mortífera chamada de Lupo — o “lobo”. Taleniekov estava à espera. Vira tudo pela porta do armário entreaberta: a cama de madeira explodindo, o estofo abaixo das cobertas arremessado contra a parede escura. I

O estrondo foi ensurdecedor, uma explosão que ecoou pelo pe­queno hotel, e no entanto ninguém veio ver o que tinha acontecido. Em vez disso, o homem com a Lupo ficara em pé no portal e falara baixo em ultramontano, como se pronunciasse um juramento.

— Per nostro circolo — dissera. E então fugira.

Não significara nada, mas Vasili sabia que isso dizia tudo. Pala­vras pronunciadas como uma fórmula cabalística após tomar uma vida... “Pelo nosso círculo.”

Taleniekov ajuntara os pertences e abandonara o hotel às pres­sas. Caminhara até a estrada de barro, a única que o ligava a Porto Vecchio, e se escondera na vegetação a uns seis metros da orla. A centenas de metros abaixo, vislumbrou a brasa de um cigarro. A estrada estava sendo vigiada. Ficara à espera. Não tinha escolha.

Se Scofield viesse, usaria aquela estrada. Era a madrugada do quarto dia. O americano dissera que, se a Córsega era tudo o que restava, estaria lá em três ou quatro dias.

Às três da tarde, ainda não havia sinal dele, e uma hora depois Vasili viu que não podia esperar mais. Vários homens haviam descido a estrada correndo em direção ao porto. Sua missão era óbvia: o intruso se esquivara das patrulhas da estrada. Era preciso achá-lo e matá-lo.

Começaram as buscas nos bosques. Dois corsos de machete em punho abriram caminho pelo mato a menos de dez metros de dis­tância. Muito em breve, as patrulhas se tornariam mais concentradas, vasculhando a área. Não podia esperar por Scofield. Não havia garantia alguma de que Beowulf Agate tinha conseguido escapar da rede que se espalhara para ele em seu próprio país, muito menos a caminho da Córsega.

Até o sol se pôr, Vasili passou horas iludindo os homens que o caçavam. Criava pistas falsas, como uma velha raposa, que se­guiam numa direção e logo após seu vulto era vislumbrado em outra. Ramos quebrados, mato rasteiro amassado sob o peso dos pés provavam indiscutivelmente que passara por ali, que estava encurralado numa faixa pantanosa cercada por uma muralha de xisto inacessível, mas quando os homens se aproximavam viam seu vulto disparando num campo a mais de um quilômetro de distância. Era como um marimbondo levado pelo vento, ferroando visualmente em dezenas de lugares ao mesmo tempo.

Ao escurecer, Taleniekov iniciou a estratégia que o levou ao lugar em que agora estava, escondido nos abetos, quase no topo de uma colina mais alta, esperando que se aproximasse o homem com a lanterna. O plano era muito simples e constava de três etapas, cada uma evoluindo logicamente da etapa anterior. Primeiro, dis­trair a atenção, afastando o maior número possível de atacantes; depois, revelar-se aos poucos que restassem, afastando,-os ainda mais do grupo maior, e finalmente o isolamento total desses poucos, culminando pela captura de um. Chegara quase ao fim da terceira etapa, com os fogos alastrando-se ao Leste, a mais de dois quilô­metros de onde se encontrava.

Atravessara os bosques, descendo em direção a Porto Vecchio, andando do lado direito da estrada de barro. Juntara galhos secos e folhas, amontoando-os, abrira alguns cartuchos Graz-Burya e es­palhara o pó dentro de cada monte. Acendera sua fogueira na floresta, esperara até que irrompesse em chamas e ele ouvisse os gritos dos corsos que acorriam. Correra, então, para o Norte, do outro lado da estrada, numa área mais cerrada, mais seca, do bosque que cercava a colina, e repetira a façanha, incendiando um monte maior, perto de um castanheiro morto. O fogo espalhara-se como uma bomba incendiaria, as chamas subindo pela árvore e amea­çando alastrar-se pela floresta. Correra mais uma vez para o Norte e acendera seu último fogo, que também foi o maior, escolhendo uma árvore há muito destruída por insetos. Em meia hora as colinas ardiam em chamas em três pontos separados, e os caçadores corriam de um lado a outro, procurando conter o fogo e continuar a busca ao mesmo tempo. Fogo. Sempre fogo.

Cruzara em diagonal novamente para Sudoeste, subindo pelos bosques até a estrada que ia dar no hotel. Saíra da floresta à vista da janela por onde havia fugido na noite anterior. Dirigira-se para a estrada, onde vários homens armados de rifles estavam parados, discutindo agitadamente. Eram os homens da retaguarda, confusa diante do caos que reinava abaixo, em dúvida quanto a perma­necerem onde estavam, conforme ordens superiores, ou irem em auxílio de seus irmãos ilhéus.

Quando Vasili acendeu o fósforo, reparou na ironia da coinci­dência. Fora um fósforo que começara tudo, há tantos dias, na Avenida Nebraska, em Washington. Era o sinal de uma armadilha. E marcava mais uma nas montanhas da Córsega.

— Ecco!

— Il fiammifero.

— E lui!

Começara a caçada; e agora ia terminar. O homem com a lan­terna estava pertinho dele. Subiria até seu esconderijo de abetos nos próximos trinta segundos. Lá embaixo, no declive da colina, a lanterna do centro estava a várias centenas de metros em direção ao Sul e seus raios cruzavam o chão à frente do corso que a mane­java. Bem longe, à direita, a terceira lanterna, que há poucos segundos se agitava freneticamente em semicírculos, agora estava estranhamente imóvel, fixando um ponto no chão. Taleniekov ficou preocupado com a posição da luz e essa imobilização abrupta, mas não teve tempo de avaliar o significado desses fatos. O corso estava se aproximando e já alcançara a primeira árvore do refúgio de Vasili.

O homem dirigiu o feixe de luz para o aglomerado de troncos e ramos. Taleniekov quebrara vários galhos, descascando alguns, para que qualquer luz fosse refletida na madeira branca. O corso avançou, seguindo a pista. Vasili deu um passo à esquerda, escon­dendo-se atrás de uma árvore. O caçador passou a quarenta centí­metros dele, o rifle em posição. Taleniekov ficou observando os pés do corso no reflexo da luz. Ao levantar o pé esquerdo, o atirador destro perderia o equilíbrio por uma fração de segundo, e essa perda seria irreparável.

O pé se levantou e Vasili atirou-se, enrascando o braço no pes­coço do corso, buscando com a outra mão o gatilho da arma e arrancando-a da mão do homem. O feixe de luz mirou o topo das árvores. Taleniekov golpeou os rins da vítima com o joelho direito, puxando-a para trás e jogando-a no chão. Fez uma tesoura com as pernas na cintura do homem, arqueando-lhe dolorosamente o pescoço e colocando a orelha do corso junto de seus lábios.

— Você e eu vamos passar uma hora juntos — murmurou em italiano. — Nessa hora você vai me contar tudo que quero saber, ou nunca mais vai poder falar. Vou usar sua faca. Seu rosto vai ficar tão desfigurado que ninguém vai reconhecê-lo. Agora levante-se devagar. Se erguer a voz, é um homem morto.

Vasili foi diminuindo aos poucos a pressão na cintura e no pes­coço do homem. Ambos levantaram-se lentamente e Taleniekov conservou os dedos agarrados na garganta do corso.

De repente, houve um estalido acima deles, que ecoou por entre o arvoredo. Alguém pisara num galho caído. Vasili virou-se depres­sa, procurando penetrar com os olhos a folhagem densa. O que vislumbrou cortou-lhe a respiração.

Um homem em silhueta entre duas árvores, uma silhueta que não lhe era desconhecida e que vira pela última vez no portal de um hotel campestre. E agora, como daquela vez, os grossos canos da Lupo miravam diretamente em frente. O alvo era ele.

Num turbilhão de pensamentos, Taleniekov compreendeu que nem todos os profissionais são treinados em Moscou e Washington. Compreendeu o porquê da luz agitada freneticamente na base da colina e de repente tão parada, imóvel. Uma lanterna amarrada a um arbusto ou um galho elástico, que se prendesse e largasse para dar a ilusão de movimento, enquanto seu dono corria colina acima, num caminho familiar, na escuridão.

— Foi muito esperto ontem à noite, signore — disse o homem com a Lupo. — Mas aqui não há lugar para se esconder.

— O Matarese! — gritou Vasili com toda a força dos pulmões. — Per nostro circolo! — urrou. Atirou-se para a esquerda. A explo­são dos dois canos da Lupo retumbou nas montanhas.

 

Scofield pulou do barco e atravessou as ondas em direção à costa, onde não havia praia, somente rochedos contíguos, formando uma muralha tridimensional de pedras pontiagudas. Alcançou um promontório de pedra chata e escorregadia e escorou-se contra o impacto das águas, equilibrando a pasta de documentos na mão esquerda e a sacola de lona na direita.

Rolou pelo chão arenoso, coberto de plantas rasteiras, até encon­trar uma superfície bastante plana para ficar de pé, correndo logo para se esconder no mato emaranhado que o protegeria de qualquer patrulha que rondasse acima, nos picos das colinas. O capitão o avisara de que a polícia não formava um bloco sólido, alguns eram subornáveis, outros não.

Ajoelhou-se, tirou do bolso um canivete, cortou a corda do pulso, soltando a pasta. Abriu então a sacola de lona e tirou calças secas, um par de botas, um suéter escuro, um boné e uma jaqueta de lã grossa, tudo comprado em Paris, sem nenhuma etiqueta. Era tudo bem rude e podia passar como vestimenta local.

Mudou de roupa, enrolou as coisas molhadas, enfiou-as na sacola junto com a pasta e começou a longa e tortuosa ascensão rumo à estrada acima. Já estivera na Córsega duas vezes e em Porto Vecchio uma. O motivo principal dessas viagens fora um antipático e suarento dono de barcos de pesca em Bastia, pago pelo Estado como “observador” das operações soviéticas no mar Leguriano. A breve excursão ao Sul até Porto Vecchio também estivera ligada a um estudo da exeqüibilidade do financiamento secreto de um projeto turístico na região do mar Tirreno. Nunca soubera o que acontecera com esse projeto. Durante a estada em Porto Vecchio, alugara um carro e subira até as montanhas. Vira as ruínas da Vila Matarese sob o sol ardente da tarde e parará para tomar um copo de cerveja numa taverna à beira da estrada, mas não se recordava bem desse passeio. Nunca pensara em voltar. Naquele tempo, a lenda do Matarese estava tão morta quanto as ruínas da vila. Na­quele tempo.

Chegou à estrada e puxou o boné bem para baixo, a fim de esconder a equimose na testa, machucada quando bateu num poste de ferro de uma escada.

Taleniekov. Será que ele alcançara a Córsega? Estaria nas colinas de Porto Vecchio? Não ia levar muito tempo para descobrir. Um estranho fazendo perguntas sobre uma lenda era muito fácil de achar. Por outro lado, o russo seria cauteloso. Como lhes tinha ocorrido procurar a origem da lenda, poderia ocorrer a outros.

Bray olhou o relógio: eram quase onze e meia. Consultou um mapa e estimou sua posição a três quilômetros e meio ao Sul de Sainte-Lucie. Concluiu que a linha mais direta para as montanhas, isto é, as colinas Matarese, seria em direção ao Oeste. Mas era preciso descobrir algo antes de penetrar nessas colinas: uma base de operações. Um lugar onde pudesse esconder seus pertences na expectativa razoável de encontrá-los quando voltasse. Qualquer parada normal de um viajante estava fora de questão. Não poderia dominar o dialeto ultramontano em poucas horas. Seria marcado como um estranho, e estranhos serviam de alvo. Teria de acampar no bosque, preferivelmente perto de água e a curta distância de uma venda, loja ou hotel onde pudesse encontrar o que comer.

Era forçado a calcular que passaria alguns dias em Porto Vec­chio, não era possível pensar em outra coisa. Quando encontrasse Taleniekov, se o encontrasse, tudo podia acontecer, mas no mo­mento urgia pensar em todas as necessidades, todos os pequenos detalhes, antes de elaborar grandes planos.

Havia uma trilha, muito estreita para qualquer carro, talvez um caminho de pastores, que se desviava da estrada e subia suave­mente uma série de campos, em direção Oeste. Passou a sacola para a mão esquerda e tomou a trilha, afastando os galhos pen­dentes até chegar ao capim alto.

Às 12h45min, caminhara somente uns oito ou nove quilômetros, mas prosseguira propositadamente em ziguezague, o que lhe dava uma visão ampla da área. Encontrou o que procurava, uma parte da floresta que se elevava abruptamente acima de um regato, obscurecendo-lhe as margens com ramos espessos de pinheiros corsos que se arrastavam no chão. Um homem e seus pertences estariam bem seguros atrás dessas muralhas verdejantes. A um quilômetro ou dois a Sudoeste, havia uma estrada que subia pelas montanhas. Pelo que se lembrava, e tinha quase certeza, era a estrada que seguira quando fora às ruínas da Vila Matarese. Só havia uma estrada. E, se sua memória não o enganava, passara por várias casas isoladas em fazendas espalhadas a caminho das ruínas e da taverna onde parará para tomar a cerveja local naquela tarde tão quente. Só que a taverna foi primeiro, perto daquela estrada nas monta­nhas, na encruzilhada de uma estrada mais estreita. À direita, subindo a montanha, à esquerda, voltando a forto Vecchio. Bray consultou o mapa novamente; checou a estrada da montanha e a outra cruzando à direita. Agora sabia onde estava.

Atravessou o riacho e subiu a margem oposta até chegar à cortina de pinheiros. Engatinhou por baixo dos ramos pendentes, abriu a sacola e tirou uma pequena pá, sorrindo quando caíram no chão dois rolos de papel higiênico. Os pequenos detalhes, disse consigo mesmo, e começou a cavar a terra fofa.

Quase quatro horas. Acampara atrás da cortina de ramos verdes, enterrara a sacola, mudara o curativo do pescoço e lavara o rosto e as mãos no riacho. Descansara, também, deitado de costas, con­templando a luz do sol filtrada na renda de folhas de pinheiro. Deixou a mente divagar, um luxo que não se permitia, mas que não conseguiu controlar. Não vinha o sono, mas os pensamentos se atropelavam.

Ali estava, sob uma árvore às margens de um regato na Córsega, uma viagem que começara uma noite numa ponte em Amsterdam. E, se ele e Taleniekov não encontrassem o que buscavam nas colinas de Porto Vecchio, não haveria retorno.

Não seria tão difícil assim desaparecer. Já organizara muitos desaparecimentos no passado, com muito menos dinheiro e expe­riência. Havia tantos sumidouros: a Melanésia, as ilhas Fiji, a Nova Zelândia, cruzando para a Tasmânia, as vastas paragens da Austrália, Malásia, ou qualquer uma das ilhas de Sunda. Mandara muitos homens a esses lugares e mantivera comunicação com alguns deles no decorrer dos anos. Tinham reconstruído suas vidas, colocado o passado fora do alcance dos novos conhecidos, formado novas amizades, adquirido novas ocupações, até mesmo novas famílias.

Poderia fazer o mesmo, pensou. E talvez o fizesse. Tinha os documentos e o dinheiro necessários. Poderia comprar passagem para a Polinésia ou as ilhas Cook, comprar um barco de aluguel e provavelmente ganhar o suficiente para uma vida confortável. Poderia ser uma boa vida, uma existência anônima, um final.

Então lhe surgiu diante dos olhos a imagem de Robert Winthrop, os olhos penetrantes buscando os seus, e ouviu a angústia na voz do velho, que falava do Matarese.

Mas ouviu também outros sons. Mais próximos, urgentes, acima de sua cabeça. Inúmeros pássaros voavam assustados e seus gritos roucos ecoavam raivosamente pelos campos e bosques. Seu domínio fora perturbado por intrusos. Ouviu homens correrem, ouviu seus gritos.

Será que tinha sido descoberto! Pôs-se rapidamente de joelhos, sacando a Browning do bolso da jaqueta, e espreitou por entre a rede de iolhas de pinheiro.

Lá embaixo, uns cem metros à esquerda, dois homens tinham aberto caminho com machetes até a margem verdejante do riacho. Pararam ali por um momento com as pistolas metidas no cinto, olhando ao redor como se não soubessem o que fazer. Bray soltou a respiração, aliviado. Não estavam à sua procura, não tinha sido descoberto. Estavam apenas caçando — um animal que atacou seus rebanhos, talvez, ou um cão selvagem. Não era ele que bus­cavam. Não buscavam o estranho oculto nas colinas.

Foi aí que ouviu as palavras e viu que não estava totalmente certo. O berro não foi dado pelos dois corsos de machete em mão, veio do campo além da margem do riacho.

— Ecco, Ia... nel campo!

Não perseguiam um animal, mas um homem. Um homem fugia de outros homens e, a julgar pela fúria dos perseguidores, esse homem estava em perigo de vida.

Taleniekov! Seria Taleniekov? E, se fosse, por quê? Será que o russo tinha descoberto alguma coisa tão depressa? Alguma coisa tão valiosa que os corsos de Porto Vecchio estavam prontos a matá-lo?

Scofield observou os dois homens abaixo sacarem as armas do cinto e correrem colina acima, fora do alcance de sua vista. Voltou de quatro para se esconder atrás do tronco de árvore e procurou pôr os pensamentos em ordem. Sabia instintivamente que Il uomo era Taleniekov. Sendo assim, tinha várias opções. Poderia enca­minhar-se para a estrada e subir as colinas, um tripulante italiano cujo barco de pesca estava sendo reparado e não tinha o que fazer; poderia ficar onde estava até escurecer e, protegido pela noite, chegar perto dos homens e ouvir o que diziam; ou poderia sair do esconderijo agora e seguir os cavauores.

Essa última era a menos convidativa, mas provavelmente a mais produtiva. E foi a que escolheu.

Eram 5h35min quando Bray o avistou, correndo na crista de uma colina, um alvo fácil no resplendor do sol poente, perseguido por tiros. Taleniekov, como era de esperar, estava fazendo o ines­perado. Não procurava escapar; pelo contrário, estava se utilizando da perseguição para criar confusão e, com essa confusão, aprender qualquer coisa. Era uma tática excelente; a melhor maneira de descobrir algo de importância vital era forçar o inimigo a proteger essa informação.

Mas o que teria ele descoberto que justificasse esse risco? Como, por quanto tempo, teria forças ou poder de concentração para escapar ao inimigo?... A resposta era clara, tão clara quanto a pergunta: isolar o inimigo, agarrá-lo e destruir-lhe a resistência. Tudo isso dentro do seu território.

Deitado de bruços no campo, Scofield estudou o terreno o melhor que pôde. A brisa do cair da tarde facilitou-lhe a tarefa, curvando o capim a cada sopro, ampliando-lhe a visão. Tentou analisar as opções de Taleniekov e onde seria melhor interceptá-lo. O homem da KGB corria para o Norte e daí a uns dois quilômetros chegaria à base das montanhas, onde teria de parar, pois não adiantaria escalá-las. Voltaria atrás, em direção Sudoeste, evitando o cerco das estradas. E em algum momento criaria uma distração, grande bastante para transformar a confusão em caos e preparar o caminho para a armadilha que se seguiria.

Talvez tivesse que esperar até esse momento para interceptar Taleniekov, pensou Bray, mas preferia que não fosse assim. Seria atividade demais concentrada num período de tempo muito curto. Muitos erros aconteciam por isso. Era preferível alcançar o russo antes disso, e assim poderiam planejar juntos a estratégia. Scofield agachou-se e seguiu para Sudoeste por entre o capim alto.

O sol escondeu-se atrás das montanhas distantes, as sombras alongaram-se em manchas de tinta derramada sobre as montanhas, cobrindo campos inteiros que há momentos estavam banhados de luz alaranjada. Escureceu e não havia sinal de Taleniekov; nem um som sequer. Os olhos de Bray adaptaram-se à escuridão, os ouvidos aguçados captavam qualquer ruído estranho aos campos e à floresta ao percorrer rapidamente o perímetro da área onde era lógico que o russo se movimentasse, e nem assim percebeu sua presença.

Será que o homem da KGB tinha corrido o risco de usar uma estrada de terra para ganhar tempo? Se assim fosse, era loucura, a não ser que ele tivesse inventado uma tática melhor para usar nas colinas mais baixas. Os grupos de busca formigavam nos cam­pos, variando de dois a seis homens, munidos de facas, armas de fogo e machetes penduradas nas roupas, carregando lanternas cujos feixes de luz se entrecruzavam como raios laser. Scofield correu no sentido Oeste, em busca de um ponto mais alto, protegido contra os furiosos corsos pelos milhares de raios de luz, sabendo quando correr e quando parar.

Correu, passando no meio de dois grupos que convergiam, paran­do abruptamente ao ver um animal que gania, com o pêlo em pé e os olhos esbugalhados. Ia usar a faca quando percebeu que era um cão de pastor e suas narinas não estavam interessadas em cheiro humano. Mesmo assim, ficou com a respiração suspensa. Aca­riciou o cão, acalmando-o, e abaixou-se rapidamente para evitar um feixe de luz saído do bosque. Logo continuou a subir pelo campo inclinado.

Alcançou uma rocha meio enterrada no solo e atirou-se atrás dela. Levantou-se devagar, segurando a pedra, pronto a lançar-se em campo novamente. Por cima da pedra, espiou a cena abaixo, os feixes de luz cortando a escuridão e definindo a posição dos grupos de busca. Conseguiu distinguir a rude estrutura de madeira da taverna onde parará anos atrás. A primitiva estrada de terra que atravessara horas atrás para subir mais acima passava à sua frente. A uns cem metros, à direita, estava a estrada mais larga que ser-peava, colinas abaixo, em direção a Porto Vecchio.

Os corsos se tinham espalhado pelos campos. Bray ouviu o latido de cães aqui e ali, em meio a gritos humanos e golpes de machete. Era uma visão fantasmagórica, os feixes de luz apontando em todas as direções e fantoches invisíveis dançando na escuridão, puxados por fios luminosos.

Subitamente, surgiu outra luz, amarela em vez de branca. Fogo. Uma explosão abrupta de chamas ao longe, à direita da estrada que levava a Porto Vecchio.

A distração de Taleniekov. Surtiu efeito.

Homens correram, gritando, convergindo os feixes de luz na estrada, precipitando-se em direção ao fogo que se alastrava. Scofield ficou parado, pensando como um clínico, um profissional: como o homem da KGB iria utilizar sua distração? Que faria em seguida? Que método usaria para armar a cilada coto que apanharia um deles?

Três minutos depois, a resposta delineou-se. Uma segunda erup­ção de chamas bem maior lançou-se aos céus meio quilômetro à esquerda da estrada para Porto Vecchio. Uma distração tinha se tornado duas, dividindo os corsos, confundindo a busca. O fogo nas colinas era fatal.

Agora podia ver os fantoches com seus fios de luz fundindo-se ao brilho das chamas que se alastravam. Mais um fogo irrompeu, bem mais volumoso, atingindo uma árvore que rebentou numa bola ofuscante, a trezentos ou quatrocentos metros mais para a esquerda. A terceira distração era bem maior que as duas primeiras. O caos alastrou-se tão rápido quanto o fogo, ambos correndo o risco de se tornarem incontroláveis. Taleniekov protegia-se de todas as maneiras; se não conseguisse armar uma cilada, escaparia na confusão.

Mas se a mente do russo trabalhasse como a sua, pensou Bray, a armadilha estaria pronta em segundos. Abandonou a proteção da rocha e começou a descida, de quatro, ombros perto do chão, como um animal, pés e mãos movimentando-se automaticamente.

Lá embaixo na estrada, uma luz brilhou. Durou apenas um segundo o minúsculo clarão. Alguém riscara um fósforo. Não fazia sentido, até Bray ver os raios de uma lanterna surgirem à direita e logo após duas mais. Os três feixes de luz convergiram na direção do fósforo e pouco depois separaram-se na base da colina à margem da estrada.

Agora Scofield sabia qual era a tática. Há quatro noites, no Rock Creek Park, um fósforo fora aceso para expor uma armadilha; agora seria para armar uma. O homem era o mesmo. Taleniekov tinha conseguido transformar em caos e paralisar a busca dos corsos e agora atraía os poucos que restavam. Começara a caçada final e o russo pegaria um dos homens.

Bray tirou a automática do coldre da jaqueta e procurou o silenciador no bolso. Colocou-o na arma, destravou o pino de segu­rança e correu em diagonal para a esquerda, abaixo do cume da colina. Em algum lugar, nesses hectares de capinzal e floresta, seria armada uma cilada. O problema era descobrir exatamente onde, imobilizar, se possível, um dos perseguidores e assim favo­recer as possibilidades de sucesso da armadilha. Ou, melhor ainda, pegar um dos corsos, pois duas fontes de informação eram melhor que uma.

Correu aos arrancos, sempre juntinho do chão, os olhos grudados nas três lanternas abaixo, cada uma cobrindo uma parte da colina. No reflexo de sua luz, viu as armas com clareza. Ao primeiro vestígio da caça, atirariam...

Scofield parou. Sentiu que havia algo errado. Era o feixe de luz à direita, o que talvez estivesse uns duzentos metros diretamente abaixo. Balançava rápido demais, sem focalizar ponto algum. E não havia reflexo, nem mesmo um reflexo apagado, de luz batendo em metal. Não havia armas.

Mão alguma segurava aquela lanterna! Tinha sido amarrada a um galho grosso ou a um ramo. Um estratagema, uma colocação falsa para simular movimento a fim de encobrir outros movimentos. Bray deitou-se no chão, escondido pelo capim alto e pela escuridão, escutando, procurando distinguir o som de um homem correndo.

Aconteceu de modo tão súbito, tão inesperado, que Scofield quase atirou em defesa instintiva. O vulto volumoso de um corso assomou ao seu lado, acima dele, e um pé passou célere a quarenta centí­metros de sua cabeça. Rolou para a esquerda, fora do caminho do homem que corria.

Respirou fundo, tentando dissolver o choque e o medo, e levan­tou-se cautelosamente para seguir como pudesse a trilha do corso. O homem seguia diretamente para o Norte ao longo da colina, abaixo da crista, como Bray planejara fazer para achar Taleniekov, usando os raios de luz e som, ou o súbito desaparecimento de ambos, como guias. O corso conhecia bem o terreno. Scofield apressou o passo, deixando atrás o feixe de luz do meio, ainda lá embaixo, certificando-se assim de que Taleniekov havia escolhido o terceiro homem. A lanterna, quase invisível, no extremo Norte da colina.

Bray apressou-se. Queria, instintivamente, manter o corso à vista. Mas não conseguia distingui-lo. Tudo era silêncio, silencioso demais. Scofield atirou-se ao chão e tornou-se parte do silêncio, esprei­tando a escuridão, com o dedo no gatilho da automática. Ia acon­tecer a qualquer minuto. Mas como? Onde?

A uns cento e cinqüenta metros em frente, em diagonal à direita, o terceiro feixe de luz apareceu, luziu e apagou-se numa série de lampejos curtos e irregulares. Não, era engano... Não estava sendo ligada e desligada rapidamente; a luz estava sendo bloqueada. Árvores. Era isso. Quem quer que segurasse a lanterna estava andando entre as árvores na encosta da colina.

De repente, o feixe de luz se elevou, dançando ligeiro no alto dos troncos, e caiu novamente, ficando estacionário, o brilho amor­tecido pela folhagem que atapetava o chão. Era isso! A cilada estava armada, mas Taleniekov ignorava que um corso aguardava um sinal dessa armadilha.

Bray pôs-se em pé e correu o mais rápido possível, batendo com as botas nas pedras que recobriam a encosta. Só dispunha de alguns segundos, tinha uma área extensa a percorrer e a escuridão o atra­palhava. Não podia ver onde começavam as árvores. Se ao menos visse uma silhueta em que pudesse atirar, ou ouvisse o som de uma voz... Voz. Estava prestes a gritar para avisar o russo, quando ouviu uma voz. Eram palavras naquele italiano esquisito dos corsos do Sul. O som flutuou nas brisas noturnas.

Dez metros abaixo! Viu o homem em pé entre duas árvores, o corpo em silhueta à luz do facho mudo e imóvel que brilhava no chão: o corso segurava uma espingarda. Scofield deu uma revira­volta à direita e atirou-se sobre o homem de automática em punho.

— O Matarese! — Taleniekov gritou. — Per nostro circolo!

Bray atirou nas costas do corso, os três tiros abafados pela explosão da espingarda. O homem caiu de bruços. Scofield meteu o pé no corpo, agachou-se, esperando um ataque. Mas viu o que acontecera: o corso que Taleniekov conseguira pegar tinha sido despedaçado por seus tiros.

— Taleniekov?

— Você! É você mesmo, Scofield?

— Apague essa luz! — bradou Bray. O russo lançou-se sobre a lanterna, apagando-a. — Há um homem na colina. Não se mexe. Está esperando ser chamado.

— Se vier, teremos de matá-lo. Se não, irá buscar auxílio. Virão mais outros com ele.

— Acho que seus amigos não terão tempo a perder com ele — retrucou Scotield, observando o raio de luz na escuridão. — Você os deixou muito ocupados... Lá vai ele! Está descendo a colina.

— Venha! — disse o russo, levantando e aproximando-se de Bray. — Conheço vários esconderijos. Tenho muito a lhe contar.

— Deve ter.

— Tenho. Está aqui!

— O quê?

— Não tenho certeza... a resposta, talvez. Pelo menos, parte dela. Você mesmo viu. Estão me caçando e me matarão se me avistarem. Intrometi-me...

— Fermate! — A ordem súbita foi um grito vindo da colina atrás de Scofield. Bray girou o corpo; o russo ergueu a arma. — Basta! — A segunda ordem foi acompanhada de um rosnar animal, um cão retesando a correia. — Tenho uma espingarda de dois canos nas mãos, signori — continuou a voz... a voz inconfundível de uma mulher, falando agora em inglês. — É uma Lupo, como a que foi disparada há pouco, e sei usá-la melhor que o homem que jaz a seus pés. Mas não quero usá-la. Deixem cair os braços ao longo do corpo, mas não soltem as armas, poderão precisar delas.

— Quem é você? — perguntou Scofield, apertando os olhos para ver a mulher acima dele na colina.

Pelo que podia entrever à luz da noite, usava calças e jaqueta. O cão rosnou de novo.

— Procuro o historiador.

— O quê!

— Sou eu — disse Taleniekov. — Da organizzazione accademica. E este aqui é meu associado.

— Que diabo você está...

— Basta — interrompeu o russo calmamente. — Por que está me procurando, e não me matou?

— A notícia se espalhou por toda parte. Faz perguntas sobre o padrone dos padrones.

— Faço. Guillaume de Matarese. Ninguém quer me responder.

— Alguém quer — replicou a moça. — Uma velha nas monta­nhas. Ela quer falar com o historiador. Tem muito a lhe dizer.

— Mas sabe o que aconteceu aqui — disse Taleniekov, pressionando-a. — Estão à minha caça, querem matar-me. Está disposta a arriscar a vida para me levar, nos levar, até ela?

— Sim. É uma viagem longa e árdua. Cinco ou seis horas su­bindo as montanhas.-

— Por favor, responda-me: por que está correndo esse risco?

— Ela é minha avó. Todos nas colinas a desprezam. Ela pode viver aqui. Mas eu a amo.

— Quem é ela?

— É chamada a prostituta da Vila Matarese.

 

Atravessaram ligeiros as colinas até o sopé das montanhas e escalaram as trilhas sinuosas que cortavam *as florestas. O cão fare­jara os dois homens quando a mulher se aproximara deles. Fora posto em liberdade e precedia-os nos caminhos cobertos de mato, seguro de conhecer o terreno.

Scofield achava que era o mesmo cão que encontrara de modo tão súbito e assustador. Conferiu com a mulher.

— Provavelmente, signore. Ficamos lá muitas horas. Estava à sua procura e deixei-o vagar, mas ele ficava sempre perto, caso precisasse dele.

— Teria me atacado?

— Só se levantasse a mão contra ele. Ou contra mim. Passava da meia-noite quando chegaram a um capinzal plano em

frente do que parecia ser uma série de montes imponentes cobertos de bosques. As nuvens baixas esvoaçantes esgarçaram-se e o luar lavou o campo, acentuando os picos à distância, enfatizando a gran­deza dessa parte da cordilheira. Bray notou que a camisa de Tale­niekov, embaixo da jaqueta aberta, estava encharcada de suor, assim como a sua. E a noite estava bem fresca.

— Agora podemos descansar um pouco — disse a mulher, apon­tando para uma área escura a alguns metros de distância, para onde o cão disparara. — Há uma caverna de pedra na colina. Não é muito funda, mas serve de abrigo.

— Seu cão a conhece — acrescentou o homem da KGB.

— Ele espera que eu faça uma fogueira. — A moça riu. — Quando está chovendo, apanha gravetos com a boca e os traz para mim lá dentro. Ele gosta de fogo.

A caverna era escavada em rocha escura, com uns três metros de profundidade e pelo menos um metro e oitenta de altura. Entraram.

— Quer que acenda um fogo? — perguntou Taleniekov.

— Se quiser. Uccello lhe ficará grato. Estou muito cansada.

— Uccello? — perguntou Scofield. — “Passarinho”?

— Porque voa sobre o chão, signore.

— Você fala inglês muito bem — observou Bray, enquanto o russo empilhava gravetos em um círculo de pedras evidentemente usado para esse fim. — Onde foi que aprendeu?

— Na escola do convento em Vescovato. Aqueles que queriam participar dos programas do Governo estudaram francês e inglês.

Taleniekov riscou um fósforo e chegou-o aos gravetos, que pega­ram fogo imediatamente, as chamas crepitando, aquecendo e ilu­minando a caverna.

— Você é muito bom nisso — disse Scofield ao homem da KGB.

— Obrigado. Um de meus talentos menos importantes.

— Não foi tão pouco importante umas horas atrás.

Bray virou-se para a mulher, que tirara o boné e sacudia a longa cabeleira escura. Parou de respirar por um segundo, olhando-a fixa­mente. Seria o cabelo? Ou os grandes olhos castanhos límpidos que eram da cor dos olhos de uma corça, ou as maçãs salientes ou o nariz cinzelado sobre os lábios generosos que pareciam prestes a sorrir? Seria qualquer uma dessas coisas, ou seria simplesmente porque estava cansado e grato por conhecer uma mulher atraente e competente? Não sabia a resposta. Sabia apenas que essa moça corsa das montanhas o fazia recordar-se de Karine, sua esposa, cuja ordem de morte fora dada pelo homem que estava a menos de um metro de distância nessa caverna corsa. Cortou esses pensa­mentos e respirou de novo. — E você — perguntou — participou desses programas do Governo?

— Até onde me permitiram.

— Onde foi isso?

— A scuola media em Bonifácio. O resto consegui com o auxílio de outros. Com dinheiro dos fondos.

— Não entendi.

— Sou formada pela Universidade de Bolonha, signore. Sou comunista. Digo isso com orgulho.

— Bravo — aplaudiu Taleniekov mansamente.

— Um dia consertaremos tudo na Itália inteira — continuou a moça, com os olhos brilhando. — Acabaremos com o caos, com a estupidez cristã.

— Estou certo disso — concordou o russo.

— Mas nunca como fantoches de Moscou, isso não seremos nunca. Somos independentes. Não damos ouvidos aos ursos per­versos que nos devorariam e criariam um mundo fascista. Isso nunca!

— Bravo — disse Bray.

A conversa morreu, a moça mostrou-se relutante em responder outras perguntas sobre si mesma. Disse-lhes que seu nome era Antonia, mas, além disso, quase nada. Quando Taleniekov lhe per­guntou por que ela, ativista política de Bolonha, voltara a essa região isolada da Córsega, respondeu somente que queria ficar com a avó por uns tempos.

— Fale-nos sobre ela — disse Scofield.

— Ela lhes dirá o que quiser que saibam — respondeu a moça, levantando-se. — Disse-lhes o que ela me mandou dizer.

— A prostituta da Vila Matarese — repetiu Bray.

— Sim. Eu não escolheria essas palavras. Nem as usaria, nunca. Vamos, temos de caminhar mais duas horas.

Alcançaram a coroa plana de uma montanha e olharam a encosta descendo suavemente até o vale abaixo. Da crista da montanha ao chão do vale, não eram mais que uns cento e cinqüenta metros, talvez um quilômetro e meio de área na bacia. Aos poucos a lua ficara bem brilhante. Podiam distinguir a casa da fazenda no centro do pasto e os estábulos no fim de uma estrada curta. Ouviram o som de água corrente: um riacho saía da montanha perto de onde estavam, cascateando encosta abaixo entre fileiras de pedras e pas­sando a quinze metros da pequena casa.

— Muito bonito — disse Taleniekov.

— Isso para ela é todo o mundo, há mais de meio século — replicou Antonia.

— Você foi criada aqui? — perguntou Scofield. — Essa era sua casa?

— Não — respondeu a moça, sem mais explicações. — Venham, vamos falar com ela. Está à nossa espera.

— A esta hora da noite? — Taleniekov ficou espantado.

— Para minha avó, não há dia nem noite. Disse-me que os levasse a ela assim que chegássemos. E chegamos.

Para a mulher idosa numa cadeira em frente ao fogão de lenha, não havia dia ou noite no sentido de luz ou escuridão. Era cega. Dois globos vazios de cor azul-clara contemplavam os sons e ima­gens das recordações. As feições eram agudas e angulares sob a camada de pele encarquilhada, mas era um rosto que havia sido, há tempos, de extraordinária beleza.

A voz era macia, um sussurro oco que obrigava o ouvinte a acompanhar os movimentos dos lábios finos e brancos. Era uma figura meio apagada, mas não demonstrava hesitação ou indecisão. Falou rapidamente, uma mente simples, segura do que sabia. Tinha muito a dizer e a morte rondava sua casa, uma realidade que a fazia apressar as idéias e percepções. Falou em italiano, mas era um idioma de outra era.

Começou pedindo a Taleniekov e Scofield que dissessem, em suas próprias palavras, porque estavam tão interessados em Guillaume de Matarese. Vasili respondeu primeiro, repetindo a história acerca de uma fundação acadêmica em Milão e de seu departa­mento estar encarregado da História da Córsega. Falou pouco, dei­xando a Scofield a possibilidade de elaborar como quisesse. Era esse o processo normal quando dois ou mais agentes secretos eram detidos e interrogados simultaneamente. Nenhum dos dois tinha que se preparar para essa situação. A mentira fácil já lhes era natural.

Bray escutou o russo e confirmou a informação básica, acres­centando detalhes sobre datas e finanças que julgou apropriados a Guillaume de Matarese. Quando terminou, estava satisfeito com sua resposta e achou-se superior ao homem da KGB. Tinha estu­dado o assunto melhor que Taleniekov. Contudo, a velha acenou a cabeça em silêncio, afastando um cacho de cabelo branco que caíra ao lado do rosto esquálido. Finalmente resolveu falar.

— Ambos estão mentindo. O segundo cavalheiro é menos con­vincente. Procura impressionar-me com fatos que qualquer criança das colinas de Porto Vecchio poderia saber.

— Talvez em Porto Vecchio — protestou Scofield mansamen­te —, mas não necessariamente em Milão.

— Sim. Entendo o que quer dizer. Mas nenhum dos dois é de Milão.

— Bem verdade — interrompeu Vasili. — Apenas trabalhamos em Milão. Nasci na Polônia... no Norte da Polônia. Estou certo de que percebeu as imperfeições do meu italiano.

— Não percebi nada. Só as mentiras. Mas não se preocupem, não faz a menor diferença.

Taleniekov e Scofield entreolharam-se e desviaram os olhos para Antonia, que, exausta, se enrascara numa almofada em frente à janela.

— O que não faz diferença? — perguntou Bray. — Estamos preocupados. Queremos que fale com franqueza.

— Falarei — disse a cega. — Suas mentiras não são de homens interesseiros. Perigosos, talvez, mas não movidos, por dinheiro. Não procuram o padrone em benefício próprio.

Scofield não se conteve, inclinou-se para a frente.

— Como sabe isso?

Os velhos olhos azuis-claros, vazios, mas poderosos, fixaram-se nos dele. Era difícil acreditar que era cega.

— Suas vozes — respondeu. — Estão com medo.

— E temos razão de ter medo? — perguntou Taleniekov.

— Isso dependeria do que acreditam, não é?

— Acreditamos que alguma coisa terrível tenha acontecido — disse Bray. — Mas sabemos muito pouco. É o mais sincero que posso ser.

— O que sabem de lato, signorp.

Scofield e Taleniekov entreolharam-se novamente e o russo ace­nou com a cabeça. Bray reparou que Antonia os observava atenta­mente. Dirigiu-se tanto a ela quanto à velha.

— Antes de respondermos, acho que seria melhor se sua neta nos deixasse a sós.

— Não! — A moça falou com tanta violência que Uccello le­vantou bruscamente a cabeça.

— Ouça-me — continuou Scofield. — Uma coisa é trazèr-nos aqui, dois estranhos que sua avó queria conhecer. Mas é muito diferente envolver-se conosco. Meu... associado... e eu temos experiência disso. É para seu próprio bem.

— Deixe-nos, Antonia. — A cega virou-se na cadeira. — Não tenho nada a temer desses homens e você deve estar cansada. Leve Uccello consigo e vá descansar no celeiro.

— Está bem — respondeu a moça, pondo-se de pé —, mas Uccello fica aqui. — Rápida, tirou a Lupo de debaixo da almofada e apontou-a. — Ambos têm armas. Atirem-nas no chão. Acho que não sairão daqui sem elas.

— Isso é absurdo! — bradou Bray e o cão levantou-se, rosnando.

— Faça o que ela mandou — disse Taleniekov bruscamente, jogando a Graz-Burya no chão.

Scofield tirou a Browning, verificou o pino de segurança e atirou-a no tapete em frente de Antonia, que se abaixou e apanhou as duas automáticas segurando firme a Lupo.

— Quando terminarem, abram a porta e me chamem. Por mi­nha vez, chamarei Uccello, e se ele não vier não verão mais suas armas.

Esgueirou-se pela porta. O cão rosnou e deitou no chão.

— Minha neta é voluntariosa — disse a velha, acomodando-se na cadeira. — O sangue de Guillaume, embora muito longe.

— Ela é neta dele! — perguntou Taleniekov.

— Bisneta, nascida de minha filha quando já bem madura. E essa minha primeira filha foi o resultado de o padrone ter se deitado com sua jovem prostituta.

— A prostituta da Vila Matarese — disse Bray. — A senhora disse à moça para nos dizer que se chamava assim.

A velha sorriu, ajeitando o cacho de cabelo branco. Por um segundo, habitava aquele outro mundo, e a vaidade ainda não a abandonara.

— Há muitos anos. Voltaremos àqueles tempos, mas, antes disso, respondam, por favor: que sabem, na verdade? Que os traz aqui?

— Meu associado falará primeiro — disse Taleniekov. — Co­nhece o assunto melhor que eu, embora eu lhe tenha trazido infor­mações novas que considero surpreendentes.

— Seu nome, por favor — interrompeu a velha. — Seu nome verdadeiro e de onde vem.

O russo olhou para o americano e, no olhar que trocaram, con­cordaram em que não havia motivo para continuar a mentir. Pelo contrário, não iriam alcançar seu objetivo com mentiras. Essa mu­lher idosa, simples, mas estranhamente eloqüente, ouvira as vozes de mentirosos por quase um século, na escuridão. Não podia ser enganada.

— Meu nome é Vasili Vasilivich Taleniekov. Ex-estrategista em assuntos exteriores, KGB, Serviço Secreto Soviético.

— E o senhor? — A mulher virou os olhos cegos para Scofield.

— Brandon Scofield. Agente secreto americano, setor Euro-Mediterrâneo, Operações Consulares, Departamento de Estado dos Estados Unidos.

— Entendo. — A velha cortesã encostou no rosto as mãos ma­gras de dedos delicados, um gesto de calma contemplação. — Não tenho muitos conhecimentos e vivo uma vida isolada, mas tenho notícias do mundo lá fora. Ouço o rádio horas a fio. Recebo os programas de Roma com muita clareja, de Gênova também, e muitas vezes Nice. Não pretendo saber muito, pois não sei, mas o fato de virem juntos, à Córsega me parece estranho.

— E é, madame — disse Taleniekov.

— Muito — concordou Scofield.

— Prova a gravidade da situação.

— Então, deixe seu associado começar, signore.

Bray inclinou-se na cadeira, colocou os braços nos joelhos e fixou os olhos nos olhos cegos à sua frente.

— Numa data imprecisa, entre os anos de 1909 e 1913, Guillau­me de Matarese convocou um grupo de homens para uma reunião em sua propriedade em Porto Vecchio. Nunca se soube quem eram ou de onde vinham. Mas chamavam-se...

— A data foi 4 de abril de 1911 — interrompeu a velha. — Não tinham nome, foi o padrone que o deu. Declarou que se chamariam o Conselho Matarese... Continue, por favor.

— A senhora estava W.

— Por favor, continue.

Foi um momento difícil. Falavam de um acontecimento que tinha sido objeto de especulações por dezenas de anos, sem informações sobre datas ou identidades, sem testemunhas. Agora, em poucos segundos, ficaram sabendo o ano certo, o mês exato, o dia preciso.

— Signorel...

— Perdão. Nos trinta anos seguintes, esse Matarese e seu con­selho foram objeto de grande controvérsia... — Scofield contou a história rapidamente, no italiano mais simples possível, para que não houvesse mal-entendidos. Afirmou que a maioria dos peritos que estudaram a lenda sobre o Matarese havia chegado à conclusão de que era mais mito que realidade.

— Em que acredita, signore! Foi o que lhe perguntei desde o início.

— Não tenho certeza, mas sei que um grande homem desapa­receu há quatro dias. Acho que o mataram porque falou a outros homens poderosos sobre o Matarese.

— Entendo. — A velha abanou a cabeça. — Quatro dias atrás. Mas acho que ouvi o senhor dizer trinta anos... aquela reunião em 1911. Que aconteceu então, signore! Há muitos anos inexplicados.

— De acordo com o que sabemos, ou pensamos que sabemos, depois da morte de Matarese o Conselho continuou a operar na Córsega por vários anos e afastou-se, então, negociando contratos em Berlim, Londres, Paris, Nova York e Deus sabe onde. No início da II Guerra Mundial, suas atividades se tornaram escassas, e final­mente sumiu, após a guerra. Nunca mais se ouviu falar nele.

O vestígio de um sorriso pairou nos lábios da velha.

— Então voltou do nada, é isso que está dizendo?

— Sim. Meu associado pode explicar-lhe por que pensamos assim. — Bray olhou para Taleniekov.

— Nas últimas semanas — disse o russo —, dois homens de paz de nossos dois países foram brutalmente assassinados, e o Governo de um foi levado a acreditar que o outro era responsável. Um contato imediato de nossos dirigentes evitou uma confrontação, mas foram momentos perigosos. Um grande amigo mandou cha­mar-me. Estava à morte e havia coisas que queria que eu soubesse. Restava-lhe muito pouco tempo e sua mente divagava, mas o que me disse forçou-me a procurar outros que pudessem auxiliar-me, orientar-me.

— Que lhe disse?

— Que o Conselho Matarese estava bem vivo. Que, na realidade, nunca se extinguira, apenas se escondera e continuara a crescer silenciosamente, espalhando sua influência. Que era responsável por centenas de atos de terrorismo e dezenas de assassinatos nos últimos anos, pelos quais outros foram acusados e condenados. Os dois homens de que falei estão entre esses. Mas o Matarese não estava mais matando por dinheiro, tinha outro objetivo.

— Qual? — perguntou a velha, naquela voz estranha e oca.

— Ele não sabia. Só sabia que o Matarese era como uma epi­demia que tem de ser sustada, mas não podia dizer-me como, nem a quem poderia dirigir-me. Todos que já tiveram negócios com o Conselho silenciam a seu respeito.

— Não lhe ofereceu nada, entno?

— A última coisa que me disse antes de deixá-lo foi que a resposta poderia estar na Córsega. Na ocasião, não me convenceu, até que acontecimentos posteriores não me deixaram outra alter­nativa. Nem para mim, nem para meu associado, o agente Scofield.

— Compreendo a razão de seu associado: há quatro dias, um grande homem desapareceu porque falou do Matarese. E qual é a sua, signorel

— Também falei do Matarese àqueles a quem pedi orientação, e eu era altamente credenciado em meu país. Foi dada a ordem para minha execução.

A velha silenciou novamente e, mais uma vez, aquele ligeiro sorriso lhe pairou nos lábios enrugados.

— O padrone retorna — murmurou.

— Acho que nos deve uma explicação — disse Taleniekov. — Fomos francos com a senhora.

— Seu amigo morreu? — perguntou ela.

— No dia seguinte. Foi enterrado com honras militares e tinha direito a isso. Viveu uma vida de violência sem temor. No entanto, no final o Matarese o aterrorizou.

— O padrone o amedrontou — disse a velha.

— Meu amigo não conhecia Guillaume de Matarese.

— Conhecia seus discípulos e isso bastava. Eles eram ele. Ele era seu Cristo, e, como Cristo, morreu por eles.

— O padrone era o deus deles? — perguntou Bray.

— E seu profeta, signore. Acreditavam nele.

— Em que sentido?

— Acreditavam que algum dia seriam donos do mundo. Foi a vingança do padrone.

 

A velha fixou os olhos vazios na parede e falou em seu murmúrio habitual:

Ele descobriu-me no convento em Bonifácio e negociou-me com a Madre Superiora por um preço favorável. Dai a César o que é de César, disse, e ela obedeceu, pois concordou em que eu não era dada a Deus. Era frivola, não gostava das lições e ficava me olhando nas janelas escuras, que mostravam o reflexo de meu rosto e corpo. Deveria ser dada a um homem, e o “padrone” era o máximo dos homens.

Tinha dezessete anos de idade quando um mundo que nunca poderia imaginar me foi revelado. Era levada em carruagens com rodas de prata e cavalos dourados de crinas esvoaçantes acima dos penhascos íngremes, nas aldeias e nas grandes lojas onde podia comprar o que quisesse. Podia ter o que quisesse, e queria tudo, pois viera de uma família pobre de pastores, um pai temente a Deus e uma mãe que agradeceu a Cristo quando fui levada para o convento e ela nunca mais me viu.

E a meu lado estava sempre o “padrone”. Era o leão, e eu sua cria amada. Levava-me com ele pelo campo, em todas as grandes mansões, apresentando-me como sua “protetta”, rindo quando dizia a palavra. Todos entendiam e riam também. Sua esposa falecera, sabem, e ele passava dos setenta. Queria que todos soubessem, seus dois filhos especialmente, que ainda tinha a constituição e o vigor da mocidade, que podia deitar-se com uma jovem e satisfazê-la como poucos homens.

Contratou tutores para ensinar-me as prendas de sua corte: mú­ica, fala correta, até história e matemática, assim como francês, que era a língua das senhoras de alta linhagem. Era uma vida maravilhosa. Cruzávamos freqüentemente o mar, íamos a Roma e de lá tomávamos o trem para a Suíça e atravessávamos a França até Paris. O “padrone” fazia essas viagens cada cinco ou seis meses. Seus negócios eram lá, compreendem? Seus dois filhos eram os diretores e comunicavam-lhe tudo que faziam.

Durante três anos, fui a moça mais feliz do mundo, pois o “padrone” dava-me o mundo. E então esse mundo se despedaçou. Em uma semana, o mundo desmoronou e Guillaume de Matarese ficou louco.

Viajaram homens de Zurique e Paris, e até da grande bolsa de Londres, para falar com ele. Era uma época de grandes investimentos bancários e especulações. Disseram-lhe que nos quatro meses anteriores seus filhos tinham feito coisas terríveis, tomado decisões tolas e, mais horrível ainda, tinham feito acordos desonestos, empenhando vastas somas com homens sem honra que operavam fora das leis bancárias e das cortes. Os Governos da França e da Inglaterra haviam apreendido as companhias e sustado todo comércio, todo acesso aos fundos. Com exceção das contas que tinha em Gênova e Roma, Guillaume de Matarese perdera tudo.

Telegrafou aos dois filhos, ordenando que voltassem à casa em Porto Vecchio para prestar contas do que haviam feito. A notícia que recebeu de volta foi como um raio que o atingisse em um grande temporal. Nunca mais foi o mesmo.

As autoridades em Paris e em Londres informaram que ambos estavam mortos, um pela própria mão, outro, assim diziam, assassinado por um homem que ele havia arruinado. Nada restava para o “padrone”; seu mundo desabara ao seu redor. Trancava-se na biblioteca dias a fio, sem sair, comendo em bandeja atrás da porta fechada, não falando com ninguém. Não dormia comigo, pois não se interessava por coisas carnais. Estava se destruindo, morrendo pela própria mão, como se tivesse enfiado uma faca na barriga.

Um dia chegou um homem vindo de Paris e insistiu em invadir a privacidade do “padrone”. Era um jornalista que estudara a queda das companhias Matarese e contou uma história incrível. Antes de ouvi-la, o “padrone” já se encaminhava para a loucura; depois, não havia mais salvação.

A destruição de seu mundo fora causada deliberadamente por banqueiros trabalhando em conjunto com seus governos. Seus filhos haviam sido ludibriados, assinando documentos ilegais, e sujeitos a chantagem, encarando a ruína, por assuntos carnais. Foram, finalmente, assassinados e a versão falsa de sua morte foi aceita, pois as provas “oficiais” de seus terríveis crimes eram esmagadoras.

Era insano. Por que haviam feito isso ao grande “padrone”? Roubaram suas companhias e as destruíram. Mataram seus filhos. Quem teria feito isso?

O homem de Paris explicou em parte. Ouvira a frase: “Basta um corso louco na Europa por quinhentos anos.” O “padrone” entendeu. Na Inglaterra, Eduardo morrera, mas efetuara os tratados de finanças franco-ingleses e abrira o caminho para as grandes companhias unirem-se e fazerem fortuna na Índia, África e em Suez. Mas o “padrone” era corso. Não gostava dos franceses, muito menos dos ingleses, embora lhes desse grandes lucros. Não só recusou juntar-se às companhias e aos bancos, mas opôs-se a eles a cada passo e instruiu os filhos no sentido de que superassem os concorrentes em estratégia. A fortuna dos Matarese impediu homens poderosos de levar a cabo seus intentos.

Para o “padrone”, era tudo uma grande brincadeira. Para as companhias francesas e inglesas, era um grande crime a ser retribuído com crimes maiores. As companhias e os bancos controlavam os governos. Os tribunais e a polícia, políticos e homens de Estado, mesmo os reis e presidentes, eram todos lacaios e serventes dos homens que possuíam imensas quantias em dinheiro. Isso nunca mudaria. E esse foi o princípio de sua loucura final. Descobriria um meio de destruir os corruptores e os corruptos. Lançaria todos os governos ao caos, pois eram os líderes políticos que traíam a confiança. Não fossem os funcionários de governo, seus filhos estariam vivos, seu mundo intacto. Se os governos entrassem em caos, as companhias e os bancos perderiam seus protetores.

— Procuram um corso louco — gritou ele. — Não o encontrarão, mas ele estará lá.

Viajamos para Roma pela última vez. Não como antes, com roupas luxuosas e carruagens de rodas de prata. Fomos como um homem e uma mulher humildes, ficando em acomodações baratas na Via Due Maccelli. O “padrone” passou dias rondando a bolsa de valores, lendo as histórias das grandes famílias que haviam sido arruinadas.

Voltamos para a Córsega. Ele escreveu cinco cartas a cinco homens que sabia estarem vivos em cinco países, convidando-os a viajar secretamente a Porto Vecchio para tratarem de um assunto da maior urgência, relacionado à sua história pessoal.

Ele tinha sido o grande Guillaume de Matarese. Ninguém recusou.

Os preparativos foram magníficos, a Vila Matarese ficou mais linda que nunca. Os jardins foram esculpidos e explodiam em cores, os gramados eram mais verdes que os olhos de um gato pardo, a mansão e os estábulos foram caiados, os cavalos tratados até o pêlo brilhar. Era um país de fadas como antigamente. O “padrone” estava em toda parte ao mesmo tempo, verificando tudo, exigindo perfeição. Tinha recobrado sua grande vitalidade, mas não era a vitalidade que conhecíamos. Agora havia nele um tanto de crueldade. — Faça-os lembrar, minha filha — gritou para mim no quarto. — Faça-os lembrar do que já foi deles!

Tinha voltado para a minha cama, mas não era mais o mesmo. Só havia força bruta na demonstração de sua virilidade, não mais alegria.

Se todos nós, na casa, nos estábulos e nos campos, soubéssemos então o que logo saberíamos, tê-lo-íamos matado na floresta. Eu mesma, a quem ele tinha dado tudo, que o adorava como pai e amante, seria a primeira a enfiar-lhe a faca.

Chegou o grande dia. Os veleiros, vindos de Lido di Ostia, assomaram de madrugada, e as carruagens foram buscar os ilustres convidados em Porto Vecchio para trazê-los à Vila Matarese. Foi um dia glorioso, com música nos jardins, mesas imensas empilhadas de iguarias e muito vinho. Os vinhos mais finos de toda a Europa, armazenados há dezenas de anos nas adegas do “padrone”.

Os convidados de honra foram alojados em apartamentos, com um balcão e uma vista magnífica e, mais ainda, uma jovem prostituta para proporcionar-lhes uma tarde de prazer. Eram o que havia de melhor, não da Europa, como os vinhos, mas do Sul da Córsega. As cinco virgens mais belas das montanhas.

Caiu a noite e foi servido no salão nobre o banquete mais grandioso jamais visto na Vila Matarese. Quando terminou, os criados colocaram garrafas de conhaque em frente aos convidados e retiraram-se para a cozinha. Os músicos receberam ordem de levar os instrumentos e continuar tocando nos jardins. Nós, as moças, fomos mandadas para o andar de cima, onde aguardaríamos nossos senhores.

Sentíamos o calor do vinho, elas e eu, mas havia uma diferença entre nós. Eu era a “protetta” de Guillaume de Matarese e sabia que esse era um grande acontecimento. Ele era meu “padrone”, meu amante, e eu queria participar de tudo. Além disso, eu passara três anos com tutores e, embora não fosse sábia, não podia satisfazer-me com a conversa tola das moças ignorantes das montanhas.

Afastei-me delas e escondi-me atrás da grade do balcão acima do salão nobre. Passei horas, ao que me pareceu, observando e escutando. Pouco entendi do que dizia meu “padrone”, mas percebi que estava sendo muito persuasivo, às vezes falando tão baixo que mal ouvia, outras gritando como um possesso.

Falou de gerações passadas, quando homens dominavam impérios que lhes eram dados por Deus e pelo próprio empenho. Como governavam com punho de aço protegendo-se daqueles que queriam roubar-lhes o reino e os frutos de seus esforços. Mas os tempos mudaram e as grandes famílias, os grandes criadores de impérios, como os que se encontravam nessa sala, estavam agora sendo reduzidos à miséria por ladrões e governos corruptos que protegiam esses ladrões. Eles, os que estavam na sala, tinham de procurar outros métodos para reaver o que, por direito, lhes pertencia.

Tinham de matar... com cautela, com critério, com perícia e audácia... e apartar os ladrões de seus protetores corruptos. Não matariam pessoalmente, pois a eles cabia tomar as decisões. Escolheriam as vítimas, sempre que possível vítimas já escolhidas por outros entre os corruptos. Os que se encontravam nessa sala seriam chamados o Conselho Matarese, e deveria espalhar-se nos círculos do poder a notícia de que havia um grupo de homens silenciosos, desconhecidos, que compreendia a necessidade de mudanças rápidas e de violência, e não temia fornecer os meios de causá-las e, mais ainda, garantiria sem sombra de dúvida que jamais seria descoberta qualquer ligação entre aqueles que executassem os atos e os que para isso os contratassem.

Passou a falar de coisas que não compreendi: de assassinos treinados por grandes faraós e príncipes árabes há séculos passados. Como se podia treinar homens para fazer coisas terríveis contra sua vontade e mesmo sem seu conhecimento. Como havia outros que precisavam apenas de ser encorajados, pois possuíam o fascínio pelo martírio que tem o assassino. Seriam esses os métodos do Matarese, mas de início haveria descrença nos círculos do poder, e era preciso convencê-los com exemplos.

Nos próximos anos, deveriam assassinar alguns homens cuidadosamente escolhidos. Morreriam de maneira a gerar desconfianças, jogando um partido político contra outro, um governo corrupto contra outro. Haveria caos e sangue derramado, e a mensagem seria clara: o Matarese existia.

O “padrone” distribuiu algumas páginas, onde descrevera suas idéias, para cada convidado. Essas palavras seriam fonte de força e serviriam de orientação ao Conselho, mas nunca deveriam ser vistas por outros olhos. Essas páginas eram o testamento de Guillaume de Matarese... e os que se encontravam naquela sala eram seus herdeiros.

“Herdeiros?” — perguntaram os convidados. Tiveram compaixão, mas foram diretos. Sabiam que ele estava arruinado, como eles, apesar da beleza da Vila, dos criados, dos músicos e do banquete. A qual deles restara mais que suas adegas e suas terras e a renda dos arrendatários, que lhes permitia viver uma pálida sombra da vida anterior? Um grande banquete uma vez por outra, e nada mais.

A princípio o “padrone” não lhes respondeu. Em vez disso, perguntou a cada um se aceitava o que tinha dito, se estava preparado para ser um “consigliere” Matarese.

Responderam que sim, cada um mais veemente que o outro, empenhando-se em seguir os objetivos do “padrone”, pois grande mal lhes havia sido feito e queriam vingança. Era evidente que, naquele momento, Guillaume de Matarese era um santo para eles.

Todos, menos um, um espanhol profundamente religioso que falou em Deus e Seus sagrados mandamentos. Acusou o “padrone” de loucura, chamou-o uma abominação aos olhos de Deus.

— E aos seus olhos sou também uma abominação, senhor? — perguntou o “padrone”.

— Ê sim, senhor — o homem replicou.

Foi aí que aconteceu a primeira das coisas terríveis. O “padrone” tirou a pistola do cinto, apontou-a para o homem e atirou. Os convidados saltaram das cadeiras e contemplaram em silêncio o espanhol morto.

— Não poderia permitir que saísse daqui vivo — disse o “padrone”.

Os convidados voltaram às cadeiras como se nada tivesse acontecido, os olhos fixos nesse homem tão poderoso, que matava deliberadamente, talvez receosos por suas próprias vidas. O “padrone” continuou.

— Todos os que estão nesta sala são meus herdeiros, pois são o Conselho Matarese e farão, ou os seus farão, o que não posso mais fazer. Estou muito velho e a morte se aproxima, está mais perto do que pensam. Cumprirão minhas ordens, separarão os corruptores dos corruptos, espalharão o caos e, pela força de seu sucesso, herdarão muito mais do que aquilo que lhes lego. Herdarão a terra. Reaverão o que é seu.

— Que nos lega? — perguntou um convidado.

— Uma fortuna em Gênova e uma fortuna em Roma. As contas foram transferidas, conforme o documento cuja cópia foi colocada em seus quartos. Aí estão também estipuladas as condições para receberem esse dinheiro. Ninguém sabe que essas contas existiam; são milhões para começarem seu trabalho.

Os convidados ficaram atônitos, até que um fez uma pergunta.

— “Seu” trabalho? Não deveria dizer “nosso” trabalho?

— Sempre será nosso, mas não estarei aqui. Deixo-lhes algo mais precioso que todo o ouro do Transvaal: o segredo completo de sua identidade. Digo isso a cada um, especificamente. Sua presença aqui hoje nunca será revelada a nenhum ser humano. Nenhum nome, nenhuma descrição da aparência física ou da maneira de falar jamais será divulgada. Nem forçada das divagações senis da mente de um velho.

Vários convidados protestaram, fracamente, é verdade, mas com razão. Havia muita gente na Vila Matarese aquele dia. Os criados, cavalariços, músicos, as moças...

O “padrone” ergueu a mão. Estava tão firme quanto seus olhos brilhantes. — Vou mostrar-lhes como. Nunca devem esquivar-se da violência. Devem aceitá-la tão naturalmente quanto o ar que respiram, pois é necessária à vida. Necessária às suas vidas, à missão que terão de cumprir.

Deixou cair a mão e o elegante e pacífico mundo da Vila Matarese explodiu em tiros e gritos mortais. Primeiro foi a cozinha. Estouros ensurdecedores de espingardas, vidro estilhaçando-se, metal sendo esmagado e os criados abatidos ao tentarem escapar pelas portas do salão nobre, com o rosto e o peito cobertos de sangue. Depois foi o jardim. A música parou abruptamente e ouviram-se súplicas a Deus, respondidas pelo estrondo das armas. Em seguida, mais horrível ainda, os gritos agudos de terror vindos do andar de cima, onde massacravam as moças ignorantes das montanhas. Crianças, que até poucas horas eram virgens, profanadas por homens que nunca antes haviam visto, por ordem de Guillaume de Matarese, agora trucidadas por novas ordens.

Encolhi-me contra a parede na penumbra do balcão sem saber o que fazer, trêmula e apavorada. Aí o fogo cessou e o silêncio que se seguiu foi mais horrendo que os gritos, por vir carregado de morte.

De repente, ouvi passos de gente correndo, três ou quatro homens, não sabia ao certo, mas sabia que eram assassinos. Desciam as escadarias e percorriam as salas e pensei: “Deus que estais no céu, estão à minha procura.” Mas não. Corriam para se encontrarem em algum lugar, a varanda do Norte, pareceu-me, não podia ter certeza, tudo acontecia ao mesmo tempo. No salão nobre abaixo, os quatro convidados estavam em estado de choque, imóveis nas cadeiras, detidos pelo olhar flamejante do “padrone”.

Soaram o que pensei fossem os últimos tiros, até minha própria morte, três tiros, três somente, entremeados de gritos horríveis. Compreendi então. Os assassinos haviam sido mortos, por sua vez.

Voltou o silêncio. A morte reinava em toda parte, nas sombras e dançando nas paredes a luz bruxuleante das velas no salão nobre. O “padrone” falou aos convidados:

— Está tudo acabado — disse — ou quase. Estão todos mortos, exceto nós aqui e um homem que jamais verão novamente. Ele os levará numa carruagem velada a Bonifácio, onde deverão misturar-se aos foliões noturnos e de manhã tomar o vapor para Nápoles. Têm quinze minutos para arrumar as coisas e encontrar-se nos degraus da frente. Sinto muito, mas não há ninguém para carregar a bagagem.

Um convidado achou a voz e falou: — E o senhor, “padrone”?

— No fim, dou-lhes minha vida como a lição final. Lembrem-se de mim! Eu sou o caminho. Vão e tornem-se meus discípulos! Extirpem os corruptores e os corruptos! — Estava completamente louco, seus gritos ecoavam pela mansão da morte. — “Entrare!” — berrou.

Uma criança, um pequeno pastor das colinas, atravessou os portais da varanda do Norte. Segurava uma pistola com as duas mãos. Era pesada, e ele era franzino. Aproximou-se do senhor.

O “padrone” levantou os olhos ao céu, a voz a Deus. — Faça o que lhe mandei! — gritou. — Pois uma criança inocente iluminará seu caminho!

O pastor ergueu a pesada pistola e atirou na cabeça de Guillaume de Matarese.

A velha terminou, com os olhos sempre abertos cheios d’água.

— Preciso descansar — disse.

Taleniekov, ereto na cadeira, falou de mansinho.

— Temos perguntas a fazer, madame. Certamente sabe disso.

— Mais tarde — disse Scofield.

 

A luz irrompeu sobre as montanhas, c pufes de neblina acamados nos campos subiram ao ar ao redor da casa de fazenda. Taleniekov encontrou o chá e, com permissão da velha, ferveu água no fogão de lenha.

Scofield sorveu seu chá, olhando o regato pela janela. Estava na hora de falar novamente. Havia muitas discrepâncias entre a história da cega e os fatos como os presumiam. E havia uma pergunta básica: por que razão ela lhes contara isso? A resposta a essa pergunta esclareceria se podiam acreditar em qualquer parte de sua narrativa.

Bray deu as costas à janela e olhou para a velha na cadeira em frente ao fogão. Taleniekov dera-lhe chá e ela o bebia delicadamente, como se lembrasse das lições de boas maneiras dadas a uma menina de dezessete anos, há tanto tempo. O russo estava ajoelhado junto ao cão, acariciando-lhe o pêlo, lembrando-lhe que eram amigos. Ergueu os olhos quando Scofield se aproximou da velha.

— Demos nossos nomes, signora — disse Bray em italiano. — Qual é o seu?

— Sophia Pastorine. Se alguém procurasse, tenho certeza de que encontraria nos registros do convento em Bonifácio. É por isso que pergunta, não é? Para poder verificar?

— Sim — respondeu Scofield. — Se acharmos necessário e tivermos a oportunidade.

— Encontrarão meu nome. Talvez até o padrone esteja registrado como meu benfeitor e tenham me colocado sob sua custódia, como futura esposa de um de seus filhos, talvez. Nunca soube.

— Então temos de acreditar na senhora — disse Taleniekov, ficando de pé. — Não seria tão tola a ponto de mandar-nos lá se não fosse verdade. É muito fácil hoje em dia determinar se houve falsificação de registros.

A velha sorriu, um sorriso que tinha raízes na tristeza.

— Não entendo desses assuntos, mas compreendo suas dúvidas. — Colocou a xícara de chá na beira do fogão. — Não há dúvida alguma em minhas recordações. Disse a verdade.

— Então, minha primeira pergunta é a mais importante de todas — disse Bray, sentando-se. — Por que nos contou essa história?

— Porque tinha de ser contada e ninguém mais poderia fazê-lo. Só eu sobrevivi.

— Havia um homem — interrompeu Scofield. — E um pequeno pastor.

— Eles não estavam no salão nobre para ouvir o que ouvi.

— Já contou essa história antes? — perguntou Taleniekov.

— Nunca — respondeu a cega.

— Por que não?

— A quem contaria? Recebo poucas visitas, e as que aqui vêm são das colinas e trazem-me os poucos mantimentos de que necessito. Contar-lhes seria levá-los à morte, pois certamente contariam a outros.

— Então a história é conhecida — insistiu o homem da KGB.

— Não o que lhes contei.

— Mas há um segredo lá nas colinas! Tentaram mandar-me, embora e, quando recusei, procuraram matar-me.

— Minha neta não me contou isso. Parecia realmente surpresa.

— Acho que não teve tempo — disse Bray.

A velha pareceu não escutar; continuou prestando atenção na russo.

— Que foi que disse ao povo das colinas?

— Fiz perguntas.

— Deve ter feito mais que isso.

Taleniekov franziu a testa, procurando lembrar-se.

— Procurei provocar o hoteleiro. Disse-lhe que traria outros, com registros e documentos para estudar mais profundamente a questão de Guillaume de Matarese.

A mulher acenou com a cabeça.

— Quando partirem, não tomem o mesmo caminho. Nem levem minha neta com vocês. Prometam-me isso. Se os encontrarem, não os deixarão com vida.

— Sabemos disso — disse Bray. — Queremos saber por quê.

— Todas as terras de Guillaume de Matarese foram legadas ao povo das colinas. Os arrendatários tornaram-se herdeiros de milhares de campos e pastos, regatos e florestas. Assim foi registrado nas cortes de Bonifácio e houve grandes comemorações em toda parte. Mas havia um preço, e outras cortes que anulariam essa posse se soubessem do preço.

A cega Sophia parou, como se avaliasse outro preço, talvez o da traição.

— Por favor, Signora Pastorine — implorou Taleniekov, sentando na beira da cadeira.

— Sim — respondeu calmamente. — Devo contar-lhes...

 

Tudo tinha de ser muito rápido por medo de intrusos que poderiam aparecer na grande mansão da Vila Matarese onde a morte reinava. Os convidados juntaram os papéis e voaram para seus quartos. Permaneci nas sombras do balcão, cheia de dor, rodeada pelo vômito silencioso do medo. Não sei quanto tempo fiquei assim, mas logo ouvi os passos apressados dos convidados descendo a escadaria para irem ao ponto de encontro. Depois, ouvi o som de rodas de carruagem e o relincho de cavalos. Segundos após, a carruagem afastou-se com o ruído de cascos batendo em pedras e o estalo de um chicote, sumindo na distância.

Arrastei-me para a porta do balcão, sem poder pensar, relâmpagos diante dos olhos, a cabeça tremendo tanto que mal podia andar. Coloquei as mãos na parede, desejando que nela houvesse ganchos em que pudesse segurar, quando ouvi um grito e me atirei novamente ao chão. Era um brado terrível, pois vinha de uma criança, mas era frio e imperioso.

— “Viene súbito!”

O pequeno pastor estava gritando para alguém da varanda do Norte. Tudo era insensato, mas os gritos da criança intensificavam a loucura daqueles momentos, pois era apenas um menino... e um assassino.

Não sei como, pus-me de pé e corri para a porta que ia dar no topo da escadaria. Ia começar a descer, só queria sair dali, ir para o ar livre e os campos sob a proteção da noite, quando ouvi outros gritos e vi pela janela vultos de homens correndo. Traziam tochas, e em poucos segundos arremessaram-se contra as portas.

Eu não podia correr pela escadaria, pois seria vista, então subi correndo as escadas que levavam ao andar superior, em tal pânico que não sabia mais o que estava fazendo. Só correndo... correndo. Como se fosse guiada por uma mão invisível, irrompi no quarto de costura e vi as mortas. Ali estavam, esparramadas em sangue, as bocas escancaradas em tal terror que ainda podia ouvir seus gritos.

Esses gritos não eram reais, mas os dos homens na escadaria eram. Era o fim. Nada me restava, iam me pegar. Seria morta...

E então, como se a mão invisível que me levara àquele quarto estivesse me forçando a isso, fiz uma coisa incrível: juntei-me às mortas.

Banhei as mãos no sangue das minhas irmãs e esfreguei-as no rosto e nas roupas, atirei-me em cima dos corpos e esperei.

Os homens entraram no quarto de costura, alguns fazendo o sinal da cruz, outros murmurando preces, mas nenhum hesitou no que tinha a fazer. As próximas horas foram um pesadelo que só podia ter sido concebido pelo demônio.

Os corpos das minhas irmãs (e o meu) foram carregados pela escadaria e atirados para fora, além dos degraus de mármore, na estrada. Tinham trazido carroças dos estábulos e muitas já estavam cheias de corpos. Fomos novamente arremessadas numa carroça, junto com outros mortos, como se fôssemos lixo.

O cheiro dos mortos e de sangue era tão forte que afundei os dentes na própria carne para não gritar. Através dos corpos empilhados sobre mim e nas grades da carroça, ouvi os homens gritando ordens. Nada podia ser roubado da Vila Matarese; qualquer um apanhado em flagrante iria juntar-se aos corpos dentro da mansão. Muitos corpos foram deixados lá dentro; carne e ossos carbonizados foram encontrados muito mais tarde.

As carroças começaram a andar, devagar a princípio, mas chegamos aos campos e os cavalos foram fustigados sem dó. As carroças correram pelo capim e sobre as pedras em alta velocidade, como se cada segundo fosse um momento que os guardas queriam deixar atrás deles, no inferno. A morte estava abaixo de mim, acima de mim, e eu rezava a Deus Todo-Poderoso para me levar também. Mas não podia chamar em voz alta, pois, embora desejasse a morte, tinha medo da dor ao morrer. A mão invisível agarrava-me pela garganta. Misericordiosamente, perdi os sentidos, não sei por quanto tempo, mas acho que foi muito longo.

Acordei. As carroças haviam parado e espreitei por entre os corpos e as travessas do lado. Era noite enluarada e estávamos bem longe nas colinas, mas não nas montanhas. Não reconheci nada. Estávamos longe, muito longe da Vila Matarese, mas não sabia onde, e não sei.

Começou o final do pesadelo. Nossos corpos foram arrancados das carroças e atirados numa sepultura comum, dois homens segurando cada corpo e arremessando-o na parte mais profunda. Doeu-me a queda e mordi os dedos para impedir que minha mente se entregasse à loucura. Abri os olhos e vomitei novamente. Estava cercada de rostos mortos, braços frouxos e bocas abertas. Carcaças sangrentas que há poucas horas eram seres humanos.

A sepultura era imensa, larga e profunda, e, estranhamente, pareceu-me, na minha histeria silenciosa, que tinha a forma de círculo.

Além da orla, podia ouvir as vozes de nossos coveiros. Alguns choravam, enquanto outros pediam misericórdia a Cristo. Vários exigiam que se ministrassem os sagrados sacramentos aos mortos, que se trouxesse um padre a esse local de morte e ele intercedesse a Deus pela salvação de suas almas. Mas outros disseram que não, não eram eles os assassinos, apenas os escolhidos para dar descanso aos mortos. Deus entenderia.

“Basta!”, disseram. Não podia ser. Era o preço que pagavam para o bem de gerações ainda por nascer. As colinas eram suas; os campos, regatos e florestas lhes pertenciam! Não podiam mais voltar atrás. Haviam feito um pacto com o “padrone”, e esse deixara bem claro com os mais velhos que somente se o Governo soubesse que houvera uma “cospirazione” poderiam vir a perder as terras. O “padrone” era o mais sábio dos homens, conhecia as cortes e as leis, e seus ignorantes arrendatários não. Tinham de fazer exatamente o que dissera aos mais velhos, ou as cortes lhes tirariam as terras.

Não poderia haver padres de Porto Vecchio ou Sainte-Lucie ou qualquer outra parte. Não podiam correr o risco de que a notícia saísse daquelas colinas. Quem não pensasse assim, que se juntasse aos mortos. Seu segredo jamais sairia das colinas. As terras eram suas!

Era o bastante. Os homens calaram-se, pegaram as pás e começaram a jogar terra sobre os corpos. Pensei então que certamente morreria, com a boca e as narinas sufocadas sob o solo. Mas parece que, quando a morte nos cerca, achamos meios de afastá-la. Foi o que aconteceu comigo.

Quando cada camada de terra cobria a sepultura circular e era compactada com os pés, eu movia as mãos no escuro, abrindo um buraco na terra para poder respirar. Quando terminaram, só tinha uma pequena passagem de ar, mas era suficiente. Havia espaço ao redor de minha cabeça, o bastante para o ar de Deus entrar. A mão invisível havia guiado a minha, e eu estava viva.

Horas mais tarde, penso, comecei a escavar um caminho para a superfície, um animal... cego... buscando a vida. Quando minha mão não encontrou nada, só ar úmido, chorei descontroladamente e parte da minha mente entrou em pânico, com medo de que meu choro fosse ouvido.

Deus foi misericordioso, todos haviam partido. Arrastei-me para fora da terra, saí daquela floresta da morte para um campo e vi o sol subindo acima das montanhas. Estava viva, mas não havia vida para mim. Não podia regressar às colinas, pois certamente seria morta, mas não era possível para uma moça nesta ilha ir a qualquer parte, chegar a um lugar estranho e simplesmente “ser”. Não tinha a quem recorrer, fora por três anos cativa voluntária de meu “padrone”. Entretanto, não podia morrer naquele campo com o sol de Deus espalhando-se pelo céu. O sol mandava-me viver.

Procurei pensar no que poderia fazer, aonde poderia ir. Além das colinas, das costas, havia outras grandes mansões que pertenciam a outros “padrones”, amigos de Guillaume. Imaginei o que aconteceria se eu aparecesse em uma delas e implorasse abrigo e misericórdia. Então vi o erro que cometia. Esses homens não eram meu “padrone”, eram homens com esposas e famílias, e eu era a prostituta da Vila Matarese. Enquanto Guillaume era vivo, minha presença era tolerada, apreciada mesmo, porque o grande homem o exigia. Mas, com ele morto, também estava morta.

Foi então que me lembrei: havia um homem que tomava conta dos estábulos de uma propriedade em Zonza. Havia sido bondoso comigo quando íamos lá de visita e eu cavalgava as montarias de seu patrão. Sorrira freqüentemente e ensinara-me a montar, pois percebera minha ignorância. Na verdade, confessei-a e rimos juntos. E sempre reparara em seus olhares. Estava habituada a olhares de desejo, mas seus olhos exprimiam mais que isso. Havia neles carinho e compreensão, talvez mesmo respeito, não pelo que eu era, mas pelo que não fingia ser.

Olhei o sol matinal e vi que Zonza estava à minha esquerda, provavelmente além das montanhas. Pus-me a caminho na direção daqueles estábulos e daquele homem.

Veio a ser meu marido e, embora eu desse à luz à criança de Guillaume de Matarese, aceitou-a como se fosse sua, dando-nos amor e proteção pelo resto da vida. Esses.anos e nossa vida durante esses anos não lhes interessam, nada têm a ver com o “padrone”. Basta dizer que nada de mal nos aconteceu. Por muitos anos, vivemos no Norte, em Vescovato, longe do perigo do povo das colinas, nunca ousando mencionar seu segredo. Não era possível trazer os mortos de volta, e o assassino e seu filho assassino, o homem e o pequeno pastor, haviam deixado a Córsega.

Disse-lhes a verdade, toda a verdade. Se ainda têm dúvidas, nada posso fazer.

 

 

Terminou mais uma vez.

 

 

Taleniekov levantou-se e caminhou vagarosamente até o fogão e o bule de chá.

— Per nostro circolo — disse, olhando para Scofield. — Passaram-se setenta anos e ainda matam por sua sepultura.

— Perdona? — A velha não compreendia inglês e o homem da KGB repetiu o que dissera em italiano. Sophia concordou com a cabeça. — O segredo vai de pai para filho. Essas são as duas gerações que nasceram desde que ganharam as terras. Não é tanto tempo assim. Ainda têm medo.

— Não há lei alguma que possa tomá-las deles — disse Bray. — Duvido que jamais houvesse. Poderiam ter mandado homens para a prisão por terem suprimido informações sobre o massacre, mas, naquele tempo, quem iria processar? Enterraram os mortos, essa foi sua conspiração.

— Houve uma conspiração maior. Não permitiram os sacramentos.

— Isso é com outra corte. Nada sei sobre isso. — Scofield olhou o russo de relance e voltou a olhar os olhos cegos à sua frente. — Por que voltou?

— Porque pude. E já estava velha quando encontramos este vale.

— Isso não é resposta.

— O povo das colinas acredita numa mentira. Pensam que o padrone me poupou, mandou-me embora antes que os tiros começassem. Para outros, eu inspiro medo e ódio. Dizem que Deus me poupou para que eu fosse uma recordação de seu pecado, mas cega por Deus para que nunca possa revelar sua sepultura na floresta. Sou a prostituta cega da Vila Matarese, e permitem que eu viva porque têm medo de tirar a vida do lembrete de Deus.

Taleniekov falou do outro lado do fogão.

— Mas disse há pouco que não hesitariam em matá-la se contasse a história. Talvez mesmo se desconfiassem de que sabia. No entanto, agora nos conta a historia e dá a entender que quer que a levemos para fora da Córsega. Por quê?

— Um homem em seu país chamou-o e lhe disse coisas que queria que soubesse, não? — O russo começou a falar e Sophia Pastorine interrompeu. — Sim, signore. Sou como aquele homem; meu fim aproxima-se, sei disso cada vez que respiro. Parece que a morte convida aqueles de nós que sabem alguma coisa sobre o Matarese a falar dele. Não sei dizer-lhes por quê, mas, quanto a mim, tive um sinal. Minha neta desceu as colinas e voltou com a notícia de um historiador que procurava informações sobre o padrone. O senhor foi meu sinal. Mandei-a de volta para procurá-lo.

— Ela sabe? — perguntou Bray. — Contou-lhe alguma vez? Ela poderia ter levado a história para fora daqui.

— Nunca! É conhecida nas colinas, mas não pertence a elas! Seria caçada aonde quer que fosse. Seria morta. Pedi sua palavra, signori, e têm de dar-me. Não vão ter mais nada a ver com ela!

— A senhora a tem — concordou Taleniekov. — Ela não está nesta sala por nossa causa.

— O que esperava conseguir falando com meu associado? — perguntou Bray.

— Acho que o mesmo que o amigo dele esperava: fazer os homens olharem embaixo das ondas e ver as águas escuras no fundo. É aí que se encontra a força que move o oceano.

— O Conselho Matarese — disse o homem da KGB, encarando os olhos cegos.

— Sim... eu lhes disse. Ouço as transmissões de Roma, Milão e Nice. Está acontecendo em toda parte. As profecias de Guillaume de Matarese estão se realizando. Não é preciso ter grande preparo para ver isso. Durante anos, ouvi as transmissões e pensei: poderia ser? Seria possível que sobrevivessem? Então, uma noite, há vários dias, ouvi as palavras e foi como se o tempo não existisse. De repente, me encontrei de volta às sombras do balcão do salão nobre, com os tiros e os gritos ecoando em meus ouvidos. Lá estava eu, com os olhos que Deus me levou, vendo aquela cena horrível e lembrando o que o padrone dissera momentos antes: “Farão, ou os seus farão, o que não posso mais fazer.”

A velha parou, os olhos cheios d’água, e recomeçou, apressada pelo medo.

— Era verdade! Tinha sobrevivido, não o Conselho de antigamente, mas o Conselho de hoje. “Os seus” haviam sobrevivido! Liderados por um homem cuja voz é mais cruel que o vento.

Sophia Pastorine tornou a parar abruptamente e agarrou os braços da cadeira com as mãos frágeis e delicadas. Ficou de pé e estendeu a mão esquerda para a bengala à beira do fogão.

— A lista. Tenho de dar-lhes a lista, signoril Tirei-a de um vestido encharcado de sangue há setenta anos, após arrastar-me da sepultura nas montanhas. Ficou colada à minha pele durante o terror. Levei-a comigo para que não me esquecesse dos nomes e títulos, para que meu padrone se orgulhasse de mim.

A velha tateou com a bengala, atravessando a sala, até uma prateleira primitiva fixa na parede. Apalpou a borda com a mão direita, procurando com os dedos entre os vários potes, até encontrar o que queria. Retirou a tampa de barro, enfiou a mão dentro e tirou um pedaço de papel sujo, amarelado pelo tempo. Virou-se para eles!

— É sua. Nomes do passado. Esta é a lista dos convidados de honra que viajaram secretamente à Vila Matarese no dia 4 de abril do ano de 1911. Deus tenha piedade de mim se estou cometendo um ato terrível dando-lhes esta lista.

Scofield e Taleniekov puseram-se de pé.

— Não está — disse Bray. — Está agindo certo.

— Não podia fazer outra coisa — acrescentou Vasili. Tocou a mão dela. — Posso? — Ela soltou o papel esmaecido e o russo olhou-o atentamente. — É a chave — disse para Scofield. — E é muito mais do que podíamos esperar.

— Por quê? — perguntou Bray.

— O espanhol, o homem que Matarese matou, o nome dele foi riscado, mas há dois nomes que vão espantá-lo. São eminentes, e isso é o de menos. Olhe.

Taleniekov foi até Scofield, segurando o papel delicadamente entre dois dedos para que não se esfarelasse. Bray tomou-o na palma da mão.

— Não acredito — disse Scofield, lendo os nomes. — Gostaria de mandar analisar isso para verificar que não foi escrito há cinco dias.

— Não foi — disse o homem da KGB.

— Sei. E isso me apavora.

— Perdona?

Sophia Pastorine permanecia de pé ao lado da prateleira. Bray respondeu-lhe em italiano.

— Reconhecemos dois desses nomes. São homens muito conhecidos ...

— Mas não são esses homens! — bradou a velha, batendo com a bengala no chão. — Nenhum deles! São apenas os herdeiros! São controlados por outro. Esse é que é o homem!

— De que está falando? Quem?

O cão rosnou. Scofield e Taleniekov não prestaram atenção, pois uma voz alterada se havia erguido. O animal pôs-se de pé, rosnando alto, e os dois, com a atenção concentrada em Sophia, ignoraram-no, mas a velha não. Ergueu a mão pedindo silêncio e falou, alarmada, esquecendo a zanga:

— Abram a porta. Chamem minha neta. Depressa!

— Que foi? — perguntou o russo.

— Homens aproximando-se. Estão atravessando o bosque, Uccello os ouviu.

Bray andou rápido até a porta.

— A que distância?

— Do outro lado da serra. Quase aqui. Depressa!

Scofield abriu a porta e chamou:

— Ei! Você, Antonia. Venha aqui, depressa!

As rosnadelas do cão saíam pelos dentes arreganhados. A cabeça se erguera, as pernas estavam esticadas e tensas, preparava-se para defender ou atacar. Bray deixou a porta aberta, atravessou a sala e pegou uma folha de alface no balcão. Rasgou-a ao meio e colocou o pedaço amarelado de papel entre as duas metades.

— Vou botar isso no bolso — disse para o homem da KGB.

— Decorei os nomes e os países — replicou Taleniekov. — Tenho certeza de que fez o mesmo.

A moça entrou correndo, sem fôlego, com a jaqueta parcialmente abotoada, a Lupo na mão e as automáticas deformando os bolsos.

— Que aconteceu?

Scofield virou-se para ela.

— Sua avó disse que há homens aproximando-se. O cão os ouviu.

— Do outro lado da colina — interrompeu a velha. — Novecentos passos, talvez, não mais.

— Por que fariam isso? — perguntou a moça. — Por que viriam aqui?

— Viram você, minha filha? Viram Uccello?

— Devem ter visto. Mas não disse nada. Não interferi em nada. Não tinham motivos para pensar...

— Mas viram você um dia antes — disse Sophia Pastorine, interrompendo novamente.

— Sim. Comprei o que precisava.

— Então por que você teria voltado? — A velha falou retoricamente. — Foi isso que procuraram entender, e entenderam. São homens das colinas, olham o capim e a terra e vêem que havia três pessoas, não uma só. Têm de ir embora. Todos vocês!

— Não farei isso, vovó! — exclamou Antonia. — Não nos farão mal. Direi que devo ter sido seguida, mas que não sei de nada.

A velha olhou bem em frente.

— Têm o que vieram buscar, signori. Levem-no. Levem-na. Saiam!

Bray virou-se para a moça.

— Ela está certa.

Arrancou a espingarda das mãos dela. Ela procurou reagir, mas Taleniekov prendeu-lhe os braços contra o corpo e retirou-lhe a Browning e a Graz-Burya dos bolsos.

— Viu o que aconteceu lá embaixo — continuou. — Faça o que ela diz.

O cão correu para a porta aberta e latiu furiosamente. Vozes à distância eram trazidas pela brisa matinal; os homens gritavam ordens para outros que os seguiam.

— Vão! — disse Sophia Pastorine.

— Venham. — Bray empurrou Antonia à sua frente. — Voltaremos quando eles se forem. Não terminamos ainda.

— Um momento, Signori! — exclamou a cega. — Acho que terminamos. Os nomes que lhes dei podem ser úteis, mas são apenas os herdeiros. Procurem o homem cuja voz é mais cruel que o vento. Eu a ouvi! O pequeno pastor. é ele!

 

Correram ao longo da orla do pasto à beira dos bosques e subiram até o topo da cordilheira. A sombra da encosta do Leste impedia que fossem vistos. Houvera apenas alguns segundos durante os quais poderiam ter sido descobertos. Estavam preparados para isso, mas não aconteceu. A atenção dos homens na cordilheira oposta havia sido desviada por um cão que latia e ficaram em dúvida quanto a se deveriam usar os rifles ou não. Não chegaram a usá-los porque o cão foi chamado por um assovio antes que tomassem uma decisão. Uccello estava ao lado de Antonia no capim, tão sem fôlego quanto ela.

Eram quatro homens na cordilheira oposta, e restavam quatro nomes no pedaço de papel amarelado em seu bolso, pensou Scofield. Naquele momento, só desejava que encontrá-los, pegá-los, fosse tão fácil quanto pegar e matar os quatro que desciam para o vale. Mas os quatro homens da lista eram apenas um começo.

Tinha que achar um pastor. “Uma voz mais cruel que o vento”... uma voz de criança reconhecida dezenas de anos depois... emitida pela garganta do que seria agora um homem muito, muito velho.

“Ouvi as palavras e foi como se o tempo não existisse...”

Que palavras eram essas? Quem era esse homem? O verdadeiro descendente de Guillaume de Matarese... um velho que proferiu uma frase que removeu setenta anos da memória de uma cega nas montanhas da Córsega. Em que língua? Tinha de ser francês ou italiano, pois era só o que ela entendia.

Tinham de falar com ela novamente, tinham de compreender muito mais. Não haviam terminado a conversa com Sophia Pastorine.

Bray viu os quatro corsos aproximarem-se da casa, dois cobrindo os lados, dois dirigindo-se à porta, todos de arma em punho. Os homens em frente à porta pararam por um instante, e o da esquerda levantou o pé calçado de bota e meteu-o na madeira, arrebentando a porta para dentro.

Silêncio.

Ouviram-se dois gritos e perguntas ásperas. Os homens do lado de fora correram ao redor da casa e entraram. Mais gritos... e o som inconfundível de carne batendo em carne.

Antonia tentou erguer-se, a fúria estampada no rosto. Taleniekov puxou-a para baixo pelo ombro da jaqueta. Os músculos de sua garganta estavam contorcidos, estava prestes a gritar. Scofield não teve escolha, apertou-lhe a boca com a mão, forçando os dedos nas suas bochechas, e o grito ficou reduzido a um acesso de tosse.

— Fique quieta! — murmurou Bray. — Se a ouvirem, vão usar sua avó para atrair você!

— Seria muito pior para ela — disse Vasili — e para você também. Ouviria sua dor e eles pegariam você.

Antonia piscou os olhos e acenou com a cabeça. Scofield afrouxou a mão, mas não a retirou. Ela murmurou por entre os dedos dele:

— Bateram nela! Uma cega, e bateram nela!

— Estão amedrontados — disse Taleniekov. — Mais do que você pensa. Sem as terras, não têm nada.

Os dedos da moça agarraram o pulso de Bray.

— Que quer dizer?

— Agora não! — ordenou Scofield. — Há algo de errado. Estão demorando demais lá dentro.

— Talvez tenham encontrado alguma coisa — concordou o homem da KGB.

— Ou ela está lhes contando alguma coisa. Oh, Cristo, não pode!

— Em que está pensando? — perguntou Taleniekov.

— Ela disse que tínhamos terminado. Não terminamos. Mas ela vai nos garantir. Vão ver nossas pegadas no chão, andamos em terra molhada, não pode negar que estivemos lá. Com seus ouvidos aguçados, sabe que direção tomamos e vai mandá-los na direção oposta.

— Ótimo — disse o russo.

— Merda, vão matá-lal

Taleniekov jogou a cabeça para trás e olhou para a casa.

— Tem razão — disse. — Se acreditarem nela, e sei que acreditarão, não podem deixá-la viva. Ela é a fonte e lhes dirá isso, mesmo que seja só para convencê-los. A vida dela pelo pequeno pastor. Para que possamos achar o pastor!

— Mas não sabemos o bastante! Bem, vamos embora! Scofield pôs-se em pé, arrancando a automática do cinto. O cão rosnou, a moça levantou-se e Taleniekov empurrou-a no chão novamente.

Não deu tempo. Três tiros seguiram-se rapidamente.

Antonia gritou; Bray atirou-se para ela e a segurou, aninhando-a nos braços.

— Por favor, por favor! — murmurou. Viu o russo sacar uma faca de dentro do casaco. — Não! Está tudo bem!

Taleniekov empalmou a faca e ajoelhou-se com os olhos fixos na casa.

— Estão correndo para fora. Tem razão, estão indo para a encosta do Sul.

— Mate-os! — As palavras da moça estavam abafadas pela mão de Scofield.

— Com que finalidade agora? — disse o homem da KGB. — Ela fez o que queria fazer, o que achava que devia.

 

O cão não os seguiu. Os comandos de Antonia não fizeram o menor efeito. Correu para a casa e recusou-se a sair. Seus ganidos chegaram até a cordilheira.

— Adeus, Uccello! — disse a moça, soluçando. — Voltarei para te buscar, por Deus, voltarei!

Andaram para longe das montanhas, descrevendo um círculo a Noroeste além das colinas de Porto Vecchio, depois foram em direção ao Sul, para Sainte-Lucie, acompanhando o regato até chegarem aos pinheiros, onde Bray havia enterrado a pasta e a sacola de lona. Viajaram com cautela, usando os bosques o máximo possível, separando-se e andando um atrás do outro nos trechos desprotegidos, para que ninguém os visse juntos.

Scofield tirou a pá escondida debaixo de uma pilha de ramos, desenterrou os pertences e partiram de novo, acompanhando o regato na direção de Sainte-Lucie. A troca de palavras era reduzida ao mínimo, não perderam tempo em se distanciar das colinas.

Os longos silêncios e as breves separações tinham uma utilidade prática, pensou Bray, observando a moça avançando a custo, confusa, obedecendo as ordens deles sem pensar, lágrimas assomando-lhe aos olhos intermitentemente. O movimento constante distraía suas idéias e já estava aceitando, de alguma forma, a morte da avó. Nada que pessoas relativamente estranhas dissessem poderia ajudá-la; precisava da solidão dos próprios pensamentos. Scofield suspeitava de que Antonia não fosse violenta, apesar da maneira como manejava a Lupo. Não era criança; à luz do dia, podia ver que tinha mais de trinta anos, e além disso vinha de um mundo de acadêmicos radicais, não de revolução. Duvidava de que ela soubesse como agir nas trincheiras.

— Temos que parar de correr! — bradou ela de repente. — Podem fazer o que quiserem, mas vou voltar a Porto Vecchio. Quero vê-los na forca!

— Há muita coisa que você ignora — disse Taleniekov.

— Ela foi morta! É só isso que preciso saber!

— Não é tão simples assim — disse Bray. — A verdade é que ela se matou.

— Eles a mataram!

— Ela os forçou a isso. — Scofield pegou-lhe a mão, segurando-a com firmeza. — Procure entender. Não podemos deixar você voltar, sua avó sabia disso. E preciso deixar o que aconteceu nas últimas quarenta e oito horas ser esquecido o mais depressa possível. Vai haver certo pânico nas colinas, vão mandar homens procurar-nos, mas depois de algumas semanas, nada acontecendo, eles esfriarão. Viverão com medo, mas ficarão quietos. É tudo que podem fazer. Sua avó entendeu isso. Contou com isso.

— Mas por quê?

— Porque temos outras coisas a fazer — disse o russo. — Ela compreendeu isso também. Foi por essa razão que mandou você de volta para nos encontrar.

— Que coisas são essas? — perguntou Antonia, e ela mesma respondeu. — Ela disse que lhes tinha dado nomes. Falou de um menino pastor.

— Mas você não vai falar disso — ordenou Taleniekov. — Se é que quer que a morte dela signifique alguma coisa. Não podemos deixar que você interfira.

Scofield percebeu algo no tom de voz do homem da KGB e por um segundo sentiu sua mão encaminhar-se para a arma. Naquele segundo, a memória de Berlim dez anos atrás veio à superfície. Taleniekov já tinha tomado uma decisão, e se tivesse a menor dúvida mataria essa moça.

— Ela não vai interferir — disse Bray, sem saber por que garantia isso, mas falando com firmeza. — Vamos. Faremos uma parada, quero ver um homem em Murato. Depois, se conseguirmos chegar a Bastia, eu nos tiro daqui.

— Para onde, signore? Não pode mandar-me...

— Fique quieta — disse Bray. — Não abuse da sorte.

— É, não abuse — repetiu o homem da KGB, olhando para Scofield. — Precisamos conversar. Devemos viajar separados, dividir o trabalho, organizar cronogramas e pontos de contato. Temos muito que discutir.

— Pelos meus cálculos, estamos a cento e quarenta e cinco quilômetros de Bastia. Temos muito tempo para conversar.

Scofield abaixou-se para pegar a pasta e a moça arrancou a mão da dele, afastando-se, zangada. O russo inclinou-se para apanhar a sacola.

— Sugiro que conversemos a sós — disse a Bray. Ela não é um crédito, Beowulf.

— Estou desapontado com você. — Scofield tomou a sacola do homem da KGB. — Nunca lhe ensinaram a converter um débito em crédito?

 

Antonia morara em Vescovato, no rio Golo, a uns trinta quilômetros de Bastia. Sua contribuição imediata foi levá-los até lá sem serem vistos. Era importante que tomasse decisões, mesmo que fosse só para fazê-la esquecer que estava obedecendo ordens com as quais não concordava. E as tomou rapidamente, escolhendo estradas secundárias primitivas e trilhas-nas montanhas que conhecera quando criança, crescendo na província.

— As freiras nos trouxeram até aqui num piquenique — disse, olhando um riacho represado. — Fizemos fogueiras, comemos salsichas e nos revezamos entrando no bosque para fumar...

Foram avante.

— Esta colina tem uma brisa deliciosa de manhã — disse ela. — Meu pai fazia pipas maravilhosas e vínhamos soltá-las aqui aos domingos. Depois da missa, é claro.

— Vínhamos? — perguntou Bray. — Você tem irmãos e irmãs?

— Um de cada. São mais velhos que eu e ainda vivem em Vescovato. Têm famílias, e quase não os vejo. Não temos muito em comum.

— Eles não freqüentaram as escolas superiores? — perguntou Taleniekov.

— Pensavam que isso era uma tolice. São gente boa, mas preferem uma vida simples. Se precisarmos de auxílio, eles o darão.

— Seria melhor não pedir — disse o russo. — Nem procurá-los.

— São minha família, signore. Por que evitá-los?

— Porque talvez seja necessário.

— Isso não é resposta. Não me deixaram ir a Porto Vecchio exigir a justiça que deveria ser feita. Não podem mais dar-me ordens.

O homem da KGB olhou para Scofield, sua intenção explícita nos olhos. Bray esperava que o russo sacasse a arma e pensou de passagem em qual seria sua própria reação. Não sabia dizer. Mas o momento passou e Scofield compreendeu algo que não havia entendido bem antes: Vasili Taleniekov não queria matar, mas o profissional nele estava em forte conflito com o homem. O russo estava implorando... queria saber como converter um débito em crédito. Scofield mesmo gostaria de saber.

— Calma — disse Bray. — Ninguém quer dizer-lhe o que fazer, exceto no que se refere a sua própria segurança. Já dissemos isso antes, e é dez vezes mais válido agora.

— Acho que é outra coisa. Querem que fique calada. Calada sobre o assassínio de uma velha cega!

— Já lhe dissemos que sua segurança depende disso. Ela entendeu.

— Ela está morta.

— Mas você quer viver — insistiu Scofield calmamente. — Se o povo das colinas a encontrar, não viverá. E, se souberem que você falou com outros, também estarão em perigo. Não compreende isso?

— Então que devo fazer?

— O que estamos fazendo. Desaparecer. Sair da Córsega. — A moça ensaiou um protesto e Bray o cortou. — E confie em nós. Tem de confiar em nós. Sua avó confiou. Morreu para que vivêssemos e procurássemos algumas pessoas que estão envolvidas em coisas terríveis que vão além da Córsega.

— Não está falando com uma criança. Que quer dizer com coisas terríveis?

Bray lançou um olhar para Taleniekov, percebendo sua desaprovação, mas ignorando-a.

— Há homens, não sabemos quantos, dedicados a matar outros homens, que espalham a desconfiança e a suspeita escolhendo vítimas e financiando assassinatos. Não existe nenhum plano, só a violência, violência política, jogando um partido contra o outro, um governo contra o outro... um povo contra o outro. — Scofield parou, notando a expressão de intensa concentração no rosto de Antonia. — Você disse que era uma ativista política, uma comunista. Ótimo. Bom. Meu associado também é, foi treinado em Moscou, Eu sou americano, treinado em Washington. Somos inimigos, lutamos um contra o outro por muito tempo. Os detalhes não são importantes, mas o fato é que estamos trabalhando juntos agora, e isso é importante. Os homens que procuramos são muito mais perigosos que qualquer diferença entre nós, entre nossos governos. Porque esses homens podem transformar essas diferenças numa coisa que ninguém quer... podem fazer a Terra explodir.

— Obrigada por ter me contado — disse Antonia, pensativa. Depois franziu a testa. — Mas como é que ela sabia disso?

— Estava lá quando tudo começou — respondeu Bray. — Há quase setenta anos, na Vila Matarese.

Antonia murmurou as palavras lentamente: — A prostituta da Vila Matarese... O padrone, Guillaume?

— Era tão poderoso quanto qualquer um na Inglaterra ou na França, um obstáculo aos cartéis e coalizões. Atrapalhava-os e muitas vezes ganhava, por isso o destruíram. Usaram o Governo para causar seu colapso, mataram seus filhos. Ficou louco... mas em sua loucura, e com os recursos que lhe sobraram, pôs em execução um plano de vingança de longo alcance. Reuniu outros homens que tinham sido destruídos da mesma maneira e formou o Conselho Matarese. Por muitos anos, sua especialidade foi assassinatos. Muito mais tarde, presumiu-se que estivesse extinto. Voltaram agora, mais letais que nunca. — Scofield fez uma pausa; achava que dissera o suficiente. — Não posso ser mais claro e espero que compreenda. Você quer que os homens que mataram sua avó paguem pelo crime que cometeram. Gostaria de acreditar que isso acontecerá algum dia, mas tenho de lhe dizer que eles não são importantes.

Antonia ficou calada por alguns instantes, fixando os olhos castanhos inteligentes em Bray.

— Foi muito claro, Sr. Scofield. Se eles não importam, eu também não. É isso que quis dizer?

— Acho que sim.

— E meu camarada socialista — acrescentou ela, lançando um olhar a Taleniekov — preferiria remover minha insignificante presença.

— Olho o objetivo — respondeu Vasili — e faço o possível para analisar os problemas inerentes à tentativa de alcançá-lo.

— Sim, claro. Então devo virar as costas e entrar no bosque, aguardando o tiro que terminará minha vida?

— A decisão é sua — disse Taleniekov.

— Tenho escolha, então? Aceitaria minha palavra de que não direi nada?

— Não — replicou o homem da KGB. — Não aceito.

Bray estudou a fisionomia de Taleniekov, com a mão direita perto da automática Browning que trazia ao cinto. O russo queria chegar a algum ponto e estava testando a moça até chegar lá.

— Então qual é a escolha? — continuou Antonia. — Deixar que um de seus Governos me façam prisioneira até encontrarem os homens que procuram?

— Infelizmente, isso não é possível — respondeu Taleniekov. — Estamos agindo sem o apoio de nossos Governos, sem seu consentimento. Falando francamente, estão à nossa procura com o mesmo afinco com que buscamos os homens que mencionamos.

A moça reagiu a essa informação surpreendente como se tivesse recebido um golpe.

— São caçados pelos próprios conterrâneos? — perguntou.

Taleniekov concordou com a cabeça.

— Entendo. Agora compreendo tudo. Não podem aceitar minha palavra e não podem fazer-me prisioneira. Sou, portanto, uma ameaça, muito maior do que imaginava. Então não tenho escolha, não é?

— Talvez tenha — respondeu o homem da KGB. — Meu associado a mencionou.

— E qual é?

— Confie em nós. Ajude-nos a chegar a Bastia e confie em nós. Talvez haja uma solução. — Taleniekov virou-se para Scofield e disse uma palavra. — Conduto.

— Veremos — disse Bray, deixando cair a mão do cinto. Pensavam em linhas paralelas.

 

O contato do Departamento de Estado em Murato não estava nada feliz, não queria essa complicação. Era dono de barcos de pesca em Bastia e fazia relatórios para os americanos sobre as manobras navais soviéticas. Washington pagava-lhe bem e havia alertado todas as estações para o fato de que Brandon Alan Scofield, ex-especialista em Operações Consulares, era um desertor. O regulamento era claro quanto a essa classificação: apanhá-lo, se possível; se não, usar de todos os meios para eliminá-lo.

Silvio Montefiori hesitou por um momento contemplando essa possibilidade, mas era homem prático e rejeitou a idéia, apesar da tentação. Scofield tinha a faca em seu pescoço, mas havia mel na lâmina. Se Silvio recusasse o pedido do americano, suas atividades seriam reveladas aos soviéticos, mas se acedesse o desertor prometera-lhe dez mil dólares. E dez mil dólares, mesmo com a alta taxa de câmbio, eram provavelmente mais do que qualquer bônus que poderia receber pela morte de Scofield.

Além disso, estaria vivo para gastar o dinheiro.

Montefiori alcançou o armazém, abriu a porta e atravessou a caverna escura e deserta até chegar à parede dos fundos, conforme as instruções. Não podia ver o americano, havia muito pouca luz, mas sabia que Scofield estava lá. Era uma questão de aguardar que os pássaros circulassem e os sinais fossem transmitidos.

Tirou um charuto fino e torto do bolsinho do lenço, procurou um fósforo nos bolsos da calça, encontrou um e riscou-o. Ao chegar a chama à ponta do charuto, reparou, irritado, que a mão tremia.

— Você está suando, Montefiori. — A voz vinha das sombras à esquerda. O fósforo mostrou seu rosto coberto de suor. — Na última vez em que o vi, você estava suando. Eu era encarregado da mala diplomática e fiz-lhe certas perguntas.

— Brandon! — exclamou Silvio efusivamente. — Meu caro amigo! Que bom vê-lo de novo... se pudesse vê-lo.

O americano alto saiu das sombras para a luz fraca. Montefiori esperava ver uma arma em sua mão, mas, naturalmente, não havia arma. Scofield sempre fazia o inesperado.

— Como vai você, Silvio? — perguntou o “desertor”.

— Bem, meu caro amigo! — Montefiori sabia que não devia haver aperto de. mãos. — Está tudo em ordem. Estou correndo grande risco e pagando a tripulação dez vezes mais, mas isso é pouco para um amigo que tanto admiro. Basta que você e o provo-cateur estejam no cais número sete em Bastia à uma hora da manhã. Meu melhor barco de arrasto os deixará em Livorno ao amanhecer.

— Essa é sua rota costumeira?

— Claro que não. O porto de costume é Piombino. Estou pagando o combustível extra com prazer, sem pensar no prejuízo.

— Muito generoso de sua parte.

— E por que não? Você foi sempre muito justo comigo.

— E por que não? Você sempre cumpriu o prometido. — Scofield meteu a mão no bolso e tirou um bolo de notas. — Mas receio que haja algumas mudanças. Para começar, preciso de dois barcos: um irá de Bastia para o Sul e o outro para o Norte, e ambos ficarão a menos de mil metros da costa. Uma lancha irá ao encontro de cada um, e depois será posta a pique. Estarei em uma delas, o russo na outra. Darei os sinais. Uma vez a bordo, iremos para o mar aberto, onde planejaremos o curso a tomar, e só os capitães e nós saberemos o destino.

— Quanta complicação, meu amigo! Não é necessário tudo isso, dou-lhe minha palavra.

— E eu a guardarei como um tesouro, Silvio, mas enquanto isso faça o que digo.

— Naturalmente! — disse Montefiori, engolindo em seco. — Mas tem de compreender que isso vai aumentar muito meus custos.

— Então deveremos cobri-los, não?

— Estou contente por você compreender.

— Ora, claro que compreendo, Silvio. — O americano separou várias notas de alto valor. — Para começar, quero que saiba que suas atividades em prol de Washington nunca serão reveladas por mim, e isso já é um pagamento considerável, se é que dá valor à vida. E quero que fique com isso, são cinco mil dólares.

Scofield estendeu o dinheiro.

— Meu caro amigo, você disse dez mil! Fiz todos os preparativos baseado na sua palavra!

O suor brotava dos poros de Montefiori. Seu relacionamento com o Departamento de Estado corria grande risco e além disso esse porco traidor o estava assaltando!

— Não terminei ainda, Silvio. Você está ansioso demais. Sei que disse dez mil e você os terá. Tem cinco mil a receber, sem contar as despesas adicionais. Correto?

— Certo — disse o corso. — As despesas são exorbitantes.

— Tudo é, hoje em dia — concordou Bray. — Vejamos... quinze por cento sobre o preço original, está bem?

— Talvez discutisse com outros, mas com você não.

— Então estamos combinados, mil e quinhentos a mais, não é? Isso deixa um total de seis mil e quinhentos a receber.

— É uma frase problemática. Implica uma entrega no futuro e minhas despesas são feitas agora. Não posso protelá-las.

— Vamos, meu velho. Certamente, uma pessoa com sua reputação tem crédito por alguns dias.

— Alguns dias, Brandon? Muito vago, novamente. Alguns dias, e você pode estar em Singapura. Ou Moscou. Não pode ser mais específico?

— Claro. O dinheiro estará em um de seus barcos, não decidi qual ainda, escondido debaixo da divisória da proa, à direita do esteio do centro, dentro de um pedaço de madeira oco, envernizado, preso ao cavername. Você o encontrará facilmente.

— Mãe de Deus, qualquer um encontrará!

— Por quê? Ninguém vai saber, a não ser que você faça um anúncio.

— É arriscado demais! Não há um membro da tripulação que hesitasse em matar a própria mãe em frente do padre por uma quantia dessas! Realmente, meu amigo, você está louco!

— Não se preocupe, Silvio. Vá ao encontro de seus barcos no porto. Se não encontrar a madeira, procure um homem que perdeu a mão numa explosão, ele terá o dinheiro.

— Uma armadilha? — perguntou Montefiori, incrédulo, com o colarinho encharcado de suor.

— Um parafuso do lado, você já fez isso. Ê só retirá-lo e a carga será desativada.

— Contratarei meu irmão...

Silvio estava deprimido; o americano não era boa pessoa. Era como se Scofield lesse seus pensamentos. Já que o dinheiro estaria a bordo, seria contraproducente afundar qualquer dos barcos, talvez o Departamento de Estado não o recompensasse totalmente. E quando ambos estivessem de volta em Bastia o desprezível Scofield poderia estar navegando o Volga, ou o Nilo.

— Não pode reconsiderar, meu bom amigo?

— Infelizmente, não. E não direi a ninguém quanto Washington o considera, tampouco. Não se preocupe, Silvio, o dinheiro estará lá. Sabe, podemos estar em contato novamente. Muito breve.

— Não tenha pressa, Brandon, e por favor não diga mais nada. Não quero saber de nada. Que responsabilidade! Quais são os sinais para hoje à noite?

— Muito simples. Dois lampejos de luz, repetidos várias vezes, ou até os barcos pararem.

— Dois lampejos, repetidos... Lanchas em perigo pedindo auxílio. Não posso ser responsável por acidentes no mar. Tchau, meu velho.

Montefiori enxugou o pescoço com o lenço, virou as costas na penumbra do armazém e deu alguns passos no chão de concreto.

— Silvio?

Montefiori parou.

— Sim?

— Mude a camisa.

 

Vinham observando-a atentamente há quase dois dias, ambos reconhecendo silenciosamente que era preciso tomar uma decisão. Seria seu salvo-conduto ou teria de morrer. Não havia escolha, não podiam mandá-la para uma prisão de segurança ou um recinto isolado. Tinha de ser seu conduto ou seria vítima de um ato de pura e fria necessidade.

Precisavam de alguém que levasse recados de um para o outro, não podiam comunicar-se diretamente, isso era muito perigoso. Precisavam de um terceiro que ficasse em um lugar fixo, escondido, conhecesse os códigos básicos que inventassem e fosse, acima de tudo, uma pessoa reservada e precisa. Será que Antonia poderia ser essa pessoa? E, se pudesse, será que aceitaria os riscos que teria de correr? Por isso, estudavam-na como se estivessem procedendo à análise da iminente confrontação de inimigos em terreno neutro.

Tinha reações rápidas e coragem superficial, conforme haviam visto nas colinas. Era também alerta, consciente do perigo, mas continuava a ser um enigma em seu íntimo. Estava sempre na defensiva, era fechada, ficava muito tempo calada, com os olhos rodando em todas as direções, como se esperasse que um chicote viesse sulcar-lhe as costas, ou uma mão agarrá-la pela garganta, saídos das sombras ao seu redor. Mas não havia chicotes, não havia sombras à luz do sol.

Antonia era uma mulher estranha, e ocorreu aos dois profissionais que ela escondia alguma coisa. Fosse o que fosse, não estava prestes a revelá-lo. Os momentos de descanso de nada adiantavam. Mantinha-se afastada, trancada dentro de si mesma, e recusava abrir-se.

Fazia, porém, tudo que lhe pediam. Levou-os a Bastia sem incidentes, sabia até onde fazer parar o calhambeque que levava os trabalhadores das redondezas até o porto. Taleniekov sentou-se com Antonia na frente e Scofield ficou atrás, observando os outros passageiros.

Saltaram nas ruas apinhadas de gente, Bray sempre atrás, sempre observando, sempre alerta para qualquer reação na indiferença que os rodeava: um rosto que ficasse repentinamente rígido, um par de olhos que se fixasse no homem de meia-idade andando ereto ao lado da mulher de cabelos escuros. Mas só viu indiferença.

Dissera à moça que se encaminhasse para um bar à beira do cais, uma espelunca onde ninguém interferiria com um companheiro de bebida. Até a maioria dos corsos evitava o lugar; servia a escória das docas.

Uma vez lá dentro, separaram-se novamente. Taleniekov juntou-se a Bray numa mesa de canto e Antonia ficou a três metros em outra mesa, com uma cadeira inclinada sobre a borda, indicando reserva, que de nada adiantou para evitar as propostas dos fregueses bêbados. Isso era também parte dos testes; era importante ver como ela se comportaria.

— Que você acha? — perguntou Taleniekov.

— Não tenho certeza — disse Scofield. — É muito escorregadia. Não consigo pegá-la.

— Talvez esteja procurando com demasiada ansiedade. Ela teve um grande choque emocional, não podemos esperar que se comporte normalmente, nem na superfície. Acho que pode fazer o trabalho, e logo saberíamos se não desse conta. Podemos proteger-nos com códigos pré-arranjados. E, com toda franqueza, quem mais temos? Existe algum homem em qualquer dos postos em que possamos confiar? Mesmo os parasitas fora dos postos, quem não ficaria curioso? Quem resistiria às pressões de Washington ou de Moscou?

— É o choque emocional que me perturba — disse Bray. — Acho que aconteceu muito antes de nós a encontrarmos. Ela disse que estava em Porto Vecchio para se afastar um pouco. Afastar-se de quê?

— Pode haver dezenas de explicações. Há desemprego em toda a Itália. Pode estar desempregada. Ou quem sabe um amante infiel, um caso amoroso fracassado. Isso nada tem a ver com o que queremos que ela faça.

— Não foi isso que percebi. Além disso, por que confiar nela? Mesmo que arriscássemos, por que aceitaria?

— Estava presente quando mataram a velha — disse o russo. — Talvez seja suficiente.

Scofield concordou com a cabeça.

— É um ponto de partida, mas só se estiver convencida de que há uma ligação entre o que estamos fazendo e o que viu.

— Deixamos isso bem claro. Ouviu as palavras da velha, repetiu-as.

— Ainda estava confusa, em estado de choque. É preciso que se convença.

— Então convença-a.

— Eu?

— Confia mais em você do que em seu “camarada socialista”, isso é óbvio. Scofield ergueu o copo.

— Você ia matá-la?

— Não. Essa decisão teria de partir de você. E ainda tem. Não me senti bem vendo sua mão tão perto do cinto.

— Nem eu.

Bray baixou o copo e olhou para a moça. Berlim nunca estava muito longe — Taleniekov compreendia isso — mas a mente e os olhos não mais lhe confundiam as memórias. Não estava mais numa caverna na encosta de uma colina vendo uma mulher sacudir o cabelo à luz do fogo. Não havia semelhança alguma entre sua esposa e Antonia, podia até matá-la, se fosse preciso.

— Ela irá comigo, então — disse ao russo. — Terei certeza em quarenta e oito horas. Nossa primeira comunicação será direta, as próximas duas por seu intermédio em código previamente combinado, para que possamos verificar a precisão... Se a quisermos e se ela concordar.

— E se não quisermos ou ela não concordar?

— A decisão será minha, não é? — Bray afirmou, não perguntou.

Tirou a folha de alface do bolso e abriu-a. O pedaço amarelado de papel estava intacto, os nomes borrados, mas legíveis. Taleniekov repetiu-os sem olhar.

— Conde Alberto Scozzi, Roma; sir John Waverly, Londres; Príncipe Andrei Voroshin, São Petersburgo. Acrescentaram a palavra Rússia e a cidade hoje em dia é Leningrado, claro. Senhor Manuel Ortiz Ortega, Madri, esse está riscado; Josua, que presumo seja Joshua Appleton, Estado de Massachusetts, Estados Unidos. O espanhol foi morto pelo padrone na Vila Matarese, portanto nunca fez parte do Conselho. Os outros quatro já morreram há muito tempo, mas dois de seus descendentes são muito importantes e muito fáceis de encontrar: David Waverly e Joshua Appleton IV. O ministro do Exterior da Inglaterra e o senador de Massachusetts. Opino por uma confrontação imediata.

— Eu não — retorquiu Bray, estudando o papel e a caligrafia infantil. — Sabemos quem são eles, mas não sabemos nada sobre os outros. Quem são seus descendentes? Onde estão? Se vai haver outras surpresas, vamos achá-los primeiro. Os Matarese não se restringem a dois homens, e esses dois, especificamente, talvez não tenham nada a ver com isso.

— Por que diz isso?

— Tudo que sei a seu respeito indica que não têm ligação alguma com os Matarese. Waverly fez o que se considera na Inglaterra uma bela campanha de guerra; jovem membro de um comando altamente condecorado. Depois, uma folha de serviços tremenda no Ministério do Exterior. Foi sempre um conciliador tático, nunca um instigador... não combina. Appleton é um intelectual de Boston que rompeu as separações de classes e tornou-se um reformista liberal, três vezes senador, protetor do trabalhador e da comunidade intelectual também, é um cavaleiro errante num sólido cavalo político e a maioria dos americanos pensa que cavalgará a Casa Branca no ano que vem.

— Não há residência melhor para um consigliere do Matarese.

— É chocante demais e, ao mesmo tempo, encaixa-se bem demais. Acho que ele é genuíno.

— A arte da convicção, em ambos os casos, talvez. Mas tem razão, eles não vão fugir, então começaremos por Leningrado e Roma, descobriremos o que pudermos.

— “Farão, ou os seus farão, o que eu não posso mais fazer...” São as palavras que Matarese usou anos atrás. Será que é tão simples assim?

— Está querendo dizer que os “seus” poderiam ser escolhidos, não nascidos? — perguntou Taleniekov. — Não seriam descendentes diretos?

— Isso mesmo.

— É possível, mas todas essas famílias foram muito poderosas. Os Waverly e os Appleton ainda são. Há certas tradições nessas famílias, o sangue é altamente importante. Comece com as famílias que deveriam herdar a terra, foram essas as palavras dele. A velha disse que era sua vingança.

Scofield concordou com a cabeça..

— Sei. Também disse que eram apenas os sobreviventes, que eram controlados por outro homem... que devíamos procurar alguém mais.

— “Com uma voz mais cruel que o vento” — acrescentou o russo. — “É ele”, disse ela.

— O pequeno pastor — disse Bray, olhando o pedaço de papel amarelo. — Depois desse tempo todo, quem é ele? O que é ele?

— Comece com as famílias — repetiu Taleniekov. — Se pode ser encontrado, esse é o caminho.

— Você pode voltar à Rússia? A Leningrado?

— Com facilidade. Através de Helsínqui. Será muito estranho, passei três anos na universidade em Leningrado, foi lá que me acharam.

— Acho que ninguém lhe vai oferecer uma festa de boas-vindas. — Scofield dobrou o pedaço de papel amarelo dentro da folha de alface e botou-o dentro do bolso. Tirou uma pequena agenda. — Fique no Hotel Tavastian em Helsínqui até ter notícias minhas. Vou dizer-lhe quem deve procurar lá. Dê-me um nome.

— Rydukov, Pietre — respondeu o homem da KGB sem hesitar.

— Quem é ele?

— Um terceiro violinista da Sinfônica de Sebastopol. Vou alterar seus documentos ligeiramente.

— Espero que ninguém lhe peça para tocar.

— Um reumatismo severo iria impedir-me.

— Vamos combinar os códigos — disse Bray, olhando para Antonia, que fumava um cigarro e conversava com um jovem marinheiro de pé a seu lado.

Comportava-se bem; sorria com polidez, mas também com frieza, criando delicadamente uma distância entre ela e o jovem importuno. Na verdade, havia algo de elegante em sua atitude, que não combinava com esse bar de beira de cais, mas era agradável aos olhos. Meus olhos, pensou Scofield, sem ir mais longe.

— Que você acha que vai acontecer? — perguntou Taleniekov, olhando para Bray.

— Saberei em quarenta e oito horas — disse Scofield.

 

O barco de arrasto aproximava-se da costa italiana. Os mares de inverno estavam turbulentos, a correnteza violenta e o barco vagaroso. Levaram quase dezessete horas para fazer a viagem desde Bastia. Escureceria em breve, e arriariam um pequeno bote salva-vidas para levar Scofield e Antonia à terra.

A viagem longa e tediosa fora muito útil para Bray, além de levá-los à Itália, onde começaria a caça à família do conde Alberto Scozzi. Teve tempo e oportunidade para conhecer melhor Antonia Gravet. Seu sobrenome inesperado era porque o pai tinha sido um sargento da Artilharia francesa servindo na Córsega durante a II Guerra Mundial.

— Então — ela dissera, com o vestígio de um sorriso nos lábios —, minhas aulas de francês foram muito baratas. Bastava que papai ficasse zangado, e ele nunca se sentia bem com o italiano de minha mãe.

Não era mais a mesma, exceto nos momentos em que sua mente se voltava para Porto Vecchio. Começou a rir, seus olhos castanhos refletiam alegria, brilhantes, contagiosos, às vezes até quase maníacos, como se o mero ato de rir fosse uma libertação. Scofield achou impossível aceitar que essa moça sentada a seu lado, de calça cáqui e jaqueta rasgada, fosse a mesma que conhecera tão taciturna e pouco comunicativa; ou aquela que gritara ordens e manejara a Lupo com tanta eficiência. Ainda faltavam alguns minutos para entrarem no bote, e resolveu perguntar-lhe sobre a Lupo.

— Foi uma fase, acho que todos nós passamos por isso. Uma hora em que mudanças sociais radicais só parecem possíveis com o uso da violência. Os maníacos das Brigadas Vermelhas sabiam como manobrar conosco.

— As Brigadas? Você fazia parte das Brigadas Vermelhas? Deus meu!

Ela acenou com a cabeça.

— Passei várias semanas num acampamento brigatista em Medicina, aprendendo a atirar com armas de fogo, escalar muros e esconder contrabando. Por falar nisso, não era boa em nenhuma dessas coisas, até que um dia um jovem estudante, um meninote mesmo, foi morto e os líderes disseram que tinha sido um “acidente de treinamento”. Parecia até uma frase militar, mas não eram soldados treinados, eram brutos e tiranos à solta, armados de facas e armas de fogo. Morreu em meus braços com o sangue jorrando da ferida... e um olhar apavorado e confuso. Mal o conhecia, mas quando morreu não pude agüentar mais. Naquela noite mesmo saí de lá e voltei para Bolonha. Portanto, o que viu em Porto Vecchio não era eu mesma. Estava representando. Estava escuro e você não viu o medo em meus olhos.

Ele tivera razão, ela não servia para as trincheiras.

— Sabe — disse ele lentamente —, vamos ficar juntos por algum tempo.

Não havia medo nos olhos dela.

— Não resolvemos isso ainda, não é?

— Resolvemos o quê?

— Aonde eu vou. Você e o russo disseram que eu tinha de confiar em vocês, fazer o que estavam fazendo, sair da Córsega e não dizer nada. Bem, signore, deixamos a Córsega e confiei em vocês. Não fugi.

—E por que não?

Antonia fez uma breve pausa.

— Por medo, sabe disso. Vocês não são homens normais. Falam com cortesia, mas movem-se rápido demais para cavalheiros. As duas coisas não combinam. Acho que, no fundo, são o que os malucos das Brigadas Vermelhas gostariam de ser. Vocês me assustam.

— E isso a impediu de fugir?

— O russo queria matar-me. Vigiava-me cuidadosamente, teria atirado no momento em que pensasse que eu fugia.

— Na verdade, ele não queria matá-la e não a teria matado. Estava apenas mandando um aviso.

— Não compreendo.

— Não precisa compreender, você não corria perigo algum.

— E não corro agora? Aceita minha palavra de que não direi nada e deixa-me ir embora?

— Para onde?

— Bolonha. Lá, sempre posso arranjar emprego.

— Fazendo o quê?

— Nada de muito importante. A universidade contrata-me como pesquisadora. Pesquiso estatísticas maçantes para professores que escrevem livros e artigos maçantes.

— Pesquisadora? — Bray sorriu consigo mesmo. — Você deve ser muito precisa.

— O que é ser precisa? Fatos são fatos. Vai deixar-me voltar para Bolonha?

— Então seu trabalho não é permanente?

— É o tipo de trabalho de que eu gosto — respondeu Antonia. — Trabalho quando quero, o que me deixa tempo para outras coisas.

— Então você é autônoma, sem patrão e dona do próprio negócio — disse Scofield, divertindo-se. — Não é essa a essência do capitalismo?

— E você é muito irritante! Faz perguntas, mas não responde as minhas!

— Desculpe. Ê característico da minha profissão. Qual foi sua pergunta?

— Vai deixar-me ir embora? Aceita minha palavra, confia em mim? Ou terei de aguardar, um momento em que não esteja me vigiando e fugir?

— Não faria isso se fosse você — retrucou Bray com cortesia. — Olhe aqui, você é uma pessoa honesta. Não conheço muitas. Há instantes, disse que não fugia porque tinha medo, não porque não confiava em nós, isso é honesto. Você trouxe-nos a Bastia, seja honesta comigo agora. Sabendo do que sabe, vendo o que viu em Porto Vecchio, que valor tem sua palavra?

A meia-nau, quatro tripulantes içavam o bote salva-vidas sobre a amurada e Antonia os observava enquanto falava.

— Está sendo injusto. Sabe o que vi e sabe o que me disse. Quando penso nisso, tenho vontade de gritar e... — Não terminou. Virou-lhe as costas e falou numa voz cansada: — Que valor tem minha palavra? Não sei. Então, que me resta? Será você e não o russo que vai disparar o tiro?

— Talvez eu lhe ofereça um emprego.

— Não quero seu emprego.

— Veremos — disse Bray.

— Venite súbito, signori. La landa va partire.

O bote estava na água. Scofield pegou a sacola a seu lado e pôs-se de pé, estendendo a mão para Antonia.

— Vamos. Já lidei com gente muito mais fácil.

Era verdade. Poderia matá-la se fosse preciso, mas ia tentar que não fosse.

Agora, onde estava uma vida nova para Beowulf Agate?

Deus, como detestava esta.

 

Bray alugou um táxi em Fiumicino. A princípio, o motorista relutou em aceitar um passageiro para Roma, mas mudou de idéia imediatamente quando viu o dinheiro na mão de Scofield. Pararam para uma rápida refeição e chegaram ao centro da cidade antes das oito horas. As ruas estavam apinhadas e as lojas fazendo bom negócio essa noite.

— Encoste na calçada — disse Bray ao motorista. Estavam em frente de uma loja de roupas. — Espere aqui — acrescentou, incluindo Antonia. — Vou adivinhar seu manequim. — Abriu a porta.

— O que está fazendo? — perguntou a moça.

— Uma transição — Scofield respondeu em inglês. — Você não pode entrar numa loja decente vestida assim.

Cinco minutos depois, voltou carregando uma caixa com calças compridas, uma blusa branca e um suéter de lã.

— Vista isso — disse.

— Está louco!

— A modéstia é uma grande qualidade, mas estamos com pressa. As lojas vão fechar dentro de uma hora. Tenho o que vestir, você não. — Falou com o motorista, cujos olhos estavam grudados no espelho retrovisor. — Você entende inglês melhor do que pensei — disse em italiano. — Dê umas voltas. Depois direi aonde vamos.

Abriu a sacola e tirou uma jaqueta de tweed.

Antonia mudou de roupa no banco traseiro do táxi, olhando freqüentemente para Scofield. Quando tirou as calças caqui e colocou as outras, as luzes da rua iluminaram-lhe as longas pernas. Bray olhava pela janela, consciente de que estava afetado pelo que via com o rabo do olho. Há muito tempo que não possuía uma mulher, e não possuiria essa. Era muito possível que tivesse de matá-la.

Ela enfiou o suéter em cima da blusa e a lã frouxa não lhe escondeu a curva dos seios. Scofield fez questão de fixar os olhos nos olhos dela.

— Está bem melhor. Completamos a fase número um.

— Você é muito generoso, mas eu não teria escolhido isso.

— Pode jogar tudo fora dentro de uma hora. Se alguém lhe perguntar, chegou em Ladispoli num barco de aluguel. — Falou novamente com o motorista. — Vá para a Via Condotti, lá eu lhe pago; não vamos precisar mais de você.

 

A loja na Via Condotti era cara, servindo os ociosos e ricos, e era óbvio que Antonia Gravet nunca estivera num lugar assim. Óbvio para Bray, duvidava que o fosse para qualquer outra pessoa, pois ela tinha bom gosto inato, não-cultivado. Poderia estar explodindo ao ver aquela quantidade de vestimentas expostas, mas estava totalmente controlada. Era aquela elegância que Bray havia visto no bar imundo à beira do cais de Bastia.

— Gosta? perguntou ela, saindo de uma cabina com um vestido de seda escura, discreto, chapéu de abas largas, branco, e sapatos de salto alto, também brancos.

— Muito bonito — disse Scofield, com sinceridade, incluindo o vestido, ela e tudo mais que viu.

— Sinto-me como uma traidora a tudo em que acreditei por tanto tempo — acrescentou ela, num murmúrio. — Esses preços alimentariam dez famílias por um mês! Vamos a outra loja.

— Não temos tempo. Fique com isso e escolha um casaco e tudo mais de que precisar.

— Está louco!

— Estou com pressa.

De uma cabina telefônica na Via Sistina, ele chamou uma pensão, onde ficara várias vezes quando vinha a Roma, situada na Piazza Navona. O dono e a esposa nada sabiam sobre Scofield, não tinham a menor curiosidade sobre os hóspedes passageiros, só sabiam que Bray costumava dar gorjetas generosas. Teriam o maior prazer em acomodá-lo à noite.

A Piazza Navona estava apinhada; sempre estava, e por isso era ideal para um homem de sua profissão. As fontes Bernini atraíam tanto os nativos quanto os turistas, os numerosos bares de calçada eram pontos de encontro, planejados ou espontâneos; para Scofield, era sempre planejado. Uma mesa numa praça cheia era um lugar propício para alguém verificar se está sendo vigiado. Não era necessário preocupar-se com isso agora.

Agora só era necessário dormir, limpar a mente. Amanhã teria de tomar uma decisão: a vida ou a morte da mulher ao seu lado, a quem ele guiava através da praça, em direção a um velho edifício de pedras onde se localizava a pensão.

O teto do quarto era alto, as janelas enormes, dando para a praça três andares abaixo. Bray empurrou o sofá contra a porta e apontou para a cama do outro lado do quarto.

— Quase não dormimos naquele barco desgraçado. Descanse um pouco.

Antonia abriu uma das caixas da loja da Via Condotti e tirou o vestido de seda escura.

— Por que me comprou essas roupas tão caras?

— Amanhã, vamos a alguns lugares onde você vai precisar delas.

— Por que vamos a lugares assim? Devem ser muito caros.

— Não. Preciso encontrar certas pessoas e quero que você vá comigo.

— Queria agradecer-lhe. Nunca tive roupas tão lindas.

— Não tem o que agradecer. — Bray foi até a cama e tirou a coberta, voltando para o sofá. — Por que deixou Bolonha e voltou para a Córsega?

— Mais perguntas? — estava muito controlada.

— Estou curioso, é só isso.

— Já lhe disse. Queria me afastar por um pouco. Não é razão suficiente?

— Não explica nada.

— É a explicação que prefiro dar.

Contemplou o vestido que ainda segurava.

Scofield espalhou a coberta no sofá.

— Por que a Córsega?

— Viu aquele vale. É remoto, sereno. Um bom lugar para se pensar.

— Remoto é, e isso o faz um bom esconderijo. Estava se escondendo de alguém ou alguma coisa?

— Por que diz coisas assim?

— Tenho de saber. Estava se escondendo?

— Não de alguma coisa que você entendesse.

— Experimente.

— Pare! — Antonia estendeu-lhe o vestido. — Tome suas roupas. Tome o que quiser de mim, não posso impedi-lo! Mas deixe-me em paz

Bray aproximou-se dela. Pela primeira vez, viu medo em seus olhos.

— Acho melhor me contar. Aquela conversa toda sobre Bolonha... era mentira. Não voltaria lá mesmo que pudesse. Por quê?

Ela o encarou por um momento, os olhos brilhando. Quando começou a falar, virou de costas e foi até a janela que dava para a Piazza Navona.

— É melhor que saiba, não faz mais diferença... Está errado, posso voltar, eles me esperam... Se não voltar, algum dia virão à minha procura.

— Quem?

— Os líderes das Brigadas Vermelhas. Contei-lhe no barco que fugi do acampamento em Medicina. Isso foi há mais de um ano, e por mais de um ano tenho vivido uma mentira muito maior do que a que lhe contei. Eles me encontraram e fui levada a julgamento na Corte Vermelha, o que eles chamam de Corte Vermelha da Justiça Revolucionária. A sentença de morte não é apenas uma frase, é uma execução real, e o mundo agora sabe disso. Não tinha sido doutrinada, mas sabia a localização do acampamento e tinha testemunhado a morte do rapaz. Pior de tudo, eu fugira, não podiam confiar em mim. Claro que eu não tinha a menor importância, comparada com os objetivos da revolução. Disseram que eu tinha provado que era menos que insignificante, era uma traidora. Percebi o que ia acontecer e implorei que me salvassem a vida. Aleguei que tinha sido amante do estudante e que minha reação era compreensível, embora talvez não louvável. Enfatizei que não dissera nada a ninguém, muito menos à polícia. Estava dedicada à revolução como todos naquela corte, talvez mais do que muitos, pois vinha de uma família verdadeiramente pobre. Fui muito persuasiva, à minha maneira, mas tive outra vantagem. Para compreender isso, precisa saber como se organizam esses grupos. Há sempre um quadro de homens fortes e, dentro dele, um ou dois que disputam a chefia, como lobos numa alcatéia, rosnando, dominando, escolhendo as companheiras à vontade, pois isso é parte do domínio. Um homem desses me quis. Era provavelmente o mais cruel do grupo, os outros tinham medo dele, e eu também. Mas ele podia salvar-me a vida e fiz minha escolha. Vivi com ele por mais de um ano, detestando cada dia, desprezando as noites em que me possuía, odiando a mim mesma tanto quanto o odiava. Não podia fazer nada, vivia apavorada, um pavor tremendo de que o mais ligeiro movimento fosse mal-interpretado e um tiro me estourasse a cabeça... seu método favorito de execução.

Antonia deu as costas à janela.

— Perguntou-me por que não fugi de vocês. Talvez compreenda melhor agora; essas condições de sobrevivência não me eram desconhecidas. Fugir significa a morte, mesmo agora. Era cativa em Bolonha, tornei-me cativa em Porto Vecchio... e agora sou cativa em Roma. — Parou e depois prosseguiu. — Estou cansada de todos vocês. Não agüento mais. Chegará o momento e fugirei... e você atirará. — Estendeu o vestido novamente. — Tome suas roupas, Signore Scofield. Corro melhor de calças.

Bray não se moveu, nem fez objeção alguma, por gesto ou palavra. Quase sorriu, mas não podia fazer isso, tampouco.

— Gosto de saber que seu fatalismo não inclui suicídio intencional. Quer dizer, você vai oferecer alguma resistência.

— Pode contar com isso.

Deixou cair o vestido no chão.

— Não a matarei, Antonia.

Riu baixo, com escárnio.

— Ora, claro que sim. Você e o russo são os piores. Em Bolonha, eles matam com fogo nos olhos, gritando lemas. Vocês matam sem raiva... não precisam de um fogo interno.

“Há muito tempo, eu precisava. A gente acaba se acostumando. Não há mais compulsão, só necessidade. Por favor, não fale nessas coisas. A vida que viveu é o perdão da sua execução, não precisa saber mais nada.”

— Não vou discutir com você. Não disse que não podia, ou não o faria, apenas que não ia fazê-lo. Estou tentando dizer-lhe, não precisa fugir.

Ela franziu a testa.

— Por quê?

— Porque preciso de você. — Scofield ajoelhou-se, pegou o vestido e entregou-o à moça. — Só me resta convencê-la de que você precisa de mim.

— Para salvar-me a vida?

— Para devolvê-la a você. Em que forma, não sei, mas melhor que antes. Quando não tiver medo.

— Isso pode demorar muito. Por que devo acreditar?

— Acho que não tem escolha. Não posso dar-lhe outra resposta enquanto não souber mais, mas vamos começar com o fato de que as Brigadas não estão só em Bolonha. Disse que, se não voltasse, eles viriam à sua procura. As... alcatéias... vagam pela Itália inteira. Quanto tempo pode ficar escondida até que a encontrem, se quiserem mesmo encontrá-la?

— Poderia ter ficado escondida por muitos anos na Córsega. Em Porto Vecchio. Nunca me encontrariam.

— Não é mais possível, e, mesmo que fosse, é esse o tipo de vida que deseja? Passar a vida isolada naquelas colinas? Os homens que mataram a velha são iguais às Brigadas. Um quer guardar seu mundo e seu segredo nojento e mata por isso, o outro quer mudar o mundo, usando o terror, e mata todos os dias por isso. Acredite-me, eles estão ligados um ao outro. É essa conexão que Taleniekov e eu estamos procurando, e é bom encontrá-la antes que esses loucos nos mandem todos para os ares. Sua avó disse certo: está acontecendo em toda parte. Pare de se esconder. Ajude-nos. Ajude-me.

— Não tenho maneira de ajudá-lo.

— Não sabe o que vou lhe pedir.

— Sei, sim. Quer que eu volte!

— Mais tarde, talvez. Agora não.

— Não vou! São uns porcos. E ele é o maior porco do mundo!

— Então elimine-o. Elimine todos eles. Não os deixe crescer, não os deixe fazê-la prisioneira, seja na Córsega ou aqui ou em qualquer outra parte. Será que não compreende? Eles vão encontrá-la se acharem que você constitui uma ameaça para eles. Quer voltar assim? Para ser executada?

Antonia afastou-se, parou perto do sofá que Bray colocara em frente da porta.

— Como vão me encontrar? Você vai ajudá-los?

— Não — disse Scofield, permanecendo imóvel. — Não será preciso.

— Há centenas de lugares aonde poderei ir...

— E há milhares de maneiras de encontrá-la.

— É mentira! — Virou-se e encarou-o. — Não têm esses métodos.

— Acho que têm. Pelo mundo afora, grupos como as Brigadas estão recebendo informações, dinheiro, acesso a aparelhamento sofisticado, e na maioria dos casos não sabem como, nem por quê. São apenas uns soldadinhos, e isso é irônico, mas encontrarão você.

— Soldados de quem?

— Dos Matareses.

— Que loucura!.

— Gostaria que fosse, mas temo que não seja. Muita coisa aconteceu e não pode ser só coincidência. Homens que acreditavam na paz foram assassinados; um estadista respeitado pelos dois lados procurou outras pessoas e mencionou o assassinato... e desapareceu. Estão em Washington, em Moscou... na Itália e na Córsega, e Deus sabe onde mais. Estão lá, mas não podemos vê-los. Só sei que temos de encontrá-los, e aquela velha nas colinas deu-nos a primeira informação concreta em que nos podemos basear. Era cega, mas viu... porque estava lá quando tudo começou.

— Palavras!

— Fatos. Nomes.

De repente, um som. Não fazia parte do murmúrio da praça lá embaixo, era do outro lado da porta. Todos os sons são parte de um conjunto ou distintamente individuais; esse era individual. Um passo, a mudança de peso de um pé para o outro, couro arranhando pedra. Bray colocou o indicador nos lábios e fez um gesto mandando Antonia ir para a esquerda do sofá, enquanto ele se colocava à direita. Ela ficou confusa, pois não ouvira nada. Por gestos, pediu-lhe que o ajudasse a afastar o sofá da porta. Com jeito, silenciosamente.

Pronto.

Scofield mandou-a para um canto do quarto, tirou a Browning e recomeçou a falar em voz natural, enquanto ia, pé ante pé, em direção à porta, com o rosto voltado.

— Os restaurantes não estão muito cheios. Vamos ao Tre Scalini. Deus sabe que estou...

Abriu repentinamente a porta: não havia ninguém no corredor. No entanto, não se enganara, sabia o que tinha ouvido, os anos ensinaram-lhe a não cometer tais erros. E os anos também lhe ensinaram a ficar furioso consigo mesmo por ser descuidado. Desde Fiumicino, tinha sido muito descuidado, ignorando a probabilidade de vigilância. Roma era um posto de baixa prioridade; há quatro anos cessara o tráfego pesado e a CIA, as Operações Consulares e a KGB mantinham um mínimo de atividade. Há mais de onze meses que não vinha a Roma, e naquele tempo os registros já indicavam que não havia ali agentes de importância. O potencial de serviço secreto diminuíra muito em Roma no ano anterior... quem poderia ser?

Havia alguém e fora descoberto. Alguém, há poucos instantes, estivera perto da porta, escutando, procurando confirmar uma presença. A interrupção da conversa o tinha alertado, mas estivera lá, nas sombras do corredor ou na escada.

Diabo, pensou Bray, furioso, dando uma busca no patamar, como podia ter esquecido que todos os postos deveriam ter sido alertados? Era um fugitivo e tinha sido descuidado. Onde teriam pegado sua pista? Na Via Condotti? Atravessando a Piazza?

Ouviu ar escapando e, no mesmo instante, seus instintos disseram-lhe que era tarde demais para reagir. Enrijeceu o corpo e virou-se para a direita, atirando-se ao chão para diminuir o impacto do golpe.

Abria-se subitamente uma porta atrás dele e um vulto que era apenas uma sombra precipitou-se sobre ele com o braço levantado no ar, mas só por um instante. Desceu sobre ele e a onda de dor espalhou-se da base do crânio, pelo peito, até os joelhos, onde se fixou, trazendo os ventos de colapso e escuridão.

 

Piscou os olhos cheios de lágrimas de dor, desorientado, mas começando a sentir um mínimo de alívio. Há quantos minutos estaria deitado ali, no chão do corredor? Não podia dizer, mas sentia que não haviam sido muitos.

Levantou-se devagar e olhou o relógio. Estivera desacordado aproximadamente quinze minutos. Se não tivesse torcido o corpo um segundo antes do impacto, teria sido perto de uma hora.

Por que estaria ali?. Sozinho? Onde estaria seu captor? Não fazia sentido! Havia sido capturado e abandonado. Então, por que a captura?

Ouviu um grito abafado, suspenso ao meio, e virou-se em direção ao som, confuso. Mas logo se desfez a confusão: não era ele o alvo, nunca tinha sido, era ela: Antonia. Ela é que tinha sido descoberta, não ele.

Scofield pôs-se de pé, escorou-se na grade da escada e olhou o chão ao seu redor. A Browning tinha desaparecido, naturalmente, e não tinha outra arma. Mas tinha outra coisa: consciência. Seu assaltante não esperaria isso. O homem soubera precisamente onde golpear com o cano da arma e contaria que sua vítima ficasse inconsciente muito mais que esses poucos minutos. Atrair esse homem não seria grande problema.

Bray caminhou silenciosamente até a porta do quarto e encostou o ouvido ao painel. Os gemidos eram mais pronunciados agora. Gritos agudos de dor, abruptamente silenciados. Certamente uma mão forte, comprimida contra a boca com os dedos apertando a carne, estrangulando todos os sons, menos os grunhidos. E ouviu palavras ásperas em italiano.

— Prostituta! Porca! Era Marselha Novecentas mil liras! Duas ou três semanas, no máximo! Ele não estava lá. Nenhum mensageiro de drogas ouviu falar em você! Mentirosa! Prostituta! Onde estava? Que você fez? Traidora!