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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O CLUBE DO FOGO DO INFERNO / Peter Straub
O CLUBE DO FOGO DO INFERNO / Peter Straub

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O CLUBE DO FOGO DO INFERNO

Parte I

 

       Lutando para manter seu casamento, bem-estar e independência, Nora Chancel é involuntariamente envolvida em um duplo e traiçoeiro mistério: uma das meadas desse mistério diz respeito a uma série de mórbidos assassinatos; a outra ocupa-se de um romance do além-túmulo, possuidor de tamanho poder de influência, que seus mais ardentes admiradores literalmente abdicam das próprias vidas por ele.

       Nora e seu marido Davey, o negligenciado herdeiro da editora que deu ao mundo o fantástico romance Jornada na Noite, escrito por Hugo Driver, moram em Westerholm, opulenta cidadezinha do Connecticut, que atraiu a atenção nacional como o local de quatro recentes assassinatos, cujas vítimas eram todas mulheres endinheiradas, divorciadas ou viúvas. Quando os Chancels visitam o posto policial local para identificar uma conhecida que se pensava ser a quinta vítima do assassino, Nora é implicada no crime. Entretanto, em súbita inversão, ela é raptada a mão armada pelo verdadeiro assassino, o ameaçador e jovial Dick Dart.

       Durante os dias que se seguem, uma série de carros roubados mais parece oferecer-se a Dart, como que ajudando-o a esquivar-se da polícia estadual na perseguição ao assassino e sua refém — e Nora só consegue salvar a vida alimentando o ego de Dart. Sem dar tal impressão, ela precisa iludir este monstro extraordinariamente intuitivo e habilidoso, simulando ajudá-lo em seu plano mais recente — a proteção da reputação literária de Hugo Driver, por meio de vários assassinatos mais. Durante a sua provação, Nora vai crescendo em coragem e, nas proximidades do desfecho, após confrontar os obscuros segredos de Jornada na Noite e sua própria vida, ela já capturou o coração do leitor.

       O Clube do Fogo do Inferno tem uma hoste de vividos personagens secundários, um ritmo admirável e dois mistérios que se vão aprofundando, quanto mais são investigados.

      

SHORELANDS, JULHO, 1938

Às nove e meia da manhã, uma hesitante Agnes Brotherhood levou seu esfregão, o balde e o aspirador de pó até a porta do chalé Pão de Mel. Aquelas horas, a poetisa Katherine Mannheim estaria no andar térreo, dando conta de um breakfast de torrada seca e chá forte na cozinha. Agnes escolheu uma chave no molho que tinha preso à cintura, enfiou-a na fechadura, e a porta destrancada girou, aberta por si mesma. Agora mais hesitante do que nunca, ela mordeu a língua e encorajou-se a entrar.

       Colocando as mãos na cintura, gritou o nome da poetisa. Nenhuma resposta lhe chegou, de qualquer parte do chalé. Agnes foi até a cozinha e espantou-se ao encontrar no chão uma enorme mancha de café que secara durante a noite, agora assemelhando-se a uma áspera pele castanha. Ela atacou a mancha com o esfregão e o balde. Quando aos poucos foi chegando ao andar de cima, Agnes arejou os quartos desocupados e trocou as roupas de cama do leito amarrotado, mas não ocupado da poetisa.

       Pouco mais tarde, ao dirigir-se para o chalé Rapunzel com dois terríveis ocupantes, um deles um detetive sem vintém, o outro um desprezível e abusado rapaz de mãos tateantes, Agnes ignorou uma norma de Shorelands, ao deixar sem trancar a porta do Pão de Mel.

       Uma hora depois do almoço, o romancista sr. Austryn Fain levou àquela mesma porta uma garrafa gelada do melhor Puligny Montrachet de Shorelands, bateu, experimentou a maçaneta, esgueirou-se para o interior e espiou cada aposento, antes de levar a garrafa de volta ao chalé Pote de Pimenta. Uma vez lá, consumiu metade do vinho e escondeu o remanescente em seu armário, a fim de protegê-lo do sr. Merrick Favor, um colega romancista mais bem-sucedido do que ele, e um outro morador do chalé Pote de Pimenta.

       Após o jantar da noite seguinte, Georgina Weatherall, anfitriã de Shorelands, saiu da Casa Principal conduzindo um grupo de ansiosos convidados, cruzou o gramado e subiu o caminho que levava ao chalé Pão de Mel. Depois de focalizar o facho de sua lanterna na fechadura, ela declarou que a porta estava destrancada. Bem às suas costas, o sr. Fain perguntou-se como Georgina poderia afirmar tal coisa com apenas uma inspeção meramente visual. A seguir, ela empurrou a porta, escancarou-a, entrou no Pão de Mel e acendeu todas as luzes.

       O grupo de busca encontrou algumas das roupas da srta. Mannheim em seu closet, a escova de dentes e outras coisas íntimas no banheiro do patamar, além de uma foto de duas garotinhas, canetas com suas respectivas penas, um vidro de tinta sobre a mesa do quarto de dormir, bem como alguns livros empilhados ao lado da cama que Agnes arrumara na manhã anterior. Sobre a coberta da cama via-se um robe de seda cinza-ardósia, com as mangas rasgadas. Georgina ergueu o robe com dois dedos, franziu a boca e o deixou cair novamente em cima do colchão.

       — Lamento dizer — anunciou ela, de maneira alguma lamentando o que dizia — que a srta. Mannheim parece ter pulado o muro.

       Jamais foi encontrado qualquer manuscrito, completo ou incompleto, e tampouco quaisquer notas. Agnes Brotherhood nunca falou de seus receios, senão em princípios dos anos 90, quando um assassino e uma mulher raptada foram levados ao seu quarto de inválida, no segundo andar da Casa Principal.

 

ANTES DO ALVORECER

 

EM UMA ÉPOCA POUCO ANTES DESTA, UM GAROTO PERDIDO CHAMADO PEQUENO PIPPIN DESPERTOU PARA AS PROFUNDEZAS DA NOITE.

 

ÀS TRÊS DA MADRUGADA, uma mulher chamada Nora Chancel, prestes a ver-se perdida, despertou dos pesadelos costumeiros com os tremores de sempre e, pela milésima vez, começou a examinar o seu perímetro. Escuridão; um quarto desconhecido, no qual mal conseguia distinguir dois objetos que podiam ser cadeiras, uma longa mesa encimada por um espelho, quadros invisíveis em molduras, uma esguia e inexplicável esteira ergométrica Rube Goldberg e um sofá baixo, estofado em tecido listrado. Não somente nada daquilo lhe era familiar, como tudo ali estava errado. Onde quer que ela se encontrasse, não estava segura.

       Nora apoiou-se sobre um cotovelo e tateou em busca de uma pistola que lhe fora emprestada por um neurocirurgião chamado Dan Harwich, o qual havia girado de volta a um mundo que nenhum deles realmente conseguiria recordar. Ela sentia falta de Dan, porém não podia pensar nisso agora. (O bom e velho Dan Harwich que uma vez dissera que uma bala no cérebro é melhor do que uma bala no ventre.) Os dedos de Nora deslizaram pelo lençol e introduziram-se pelos travesseiros, até se chocarem contra a borda do colchão, na outra extremidade da cama. Ela rolou sobre o corpo e sentou-se, tendo acabado de ouvir o som de música distante.

       Música?

       Seu próprio vulto escuro a encarou do espelho, e o presente retornou, em uma série de identificações quase instantâneas. Em casa, com suas cadeiras, quadros, sofá listrado e a esteira ergométrica que seu marido não usava, Nora Chancel tinha novamente assassinado os demônios do passado, ao lutar para livrar-se do sonho em seu quarto de dormir, na Crooked Mile Road, em Westerholm, Connecticut, uma pequena e distinta comunidade — segundo a própria, uma comunidade absolutamente de primeira, obrigado — exceto por um particular e atual demônio que tinha assassinado algumas mulheres. Um dia, e Nora esperava que fosse logo, isto terminaria. Seu marido levara horas garantindo-lhe que terminaria. Assim que o FBI e a polícia de Westerholm fizessem o seu trabalho, a vida voltaria à normalidade, qualquer que fosse esta. O demônio acabaria revelando-se como um homem de aparência comum, que vendia mata-insetos na loja de ferragens, que podava sebes e limpava piscinas na Mount Avenue, que aparecia nas casas na manhã do Natal e ganhava uma gorjeta, após consertar queimadores de gás. Ele morava com a mãe e trabalhava com o próprio carro em suas horas de folga. Nas festas do quarteirão, postava-se todo janota atrás da grelha da churrasqueira. No que dizia respeito a Nora, meia dúzia de robustos policiais poderiam revezar-se saltando sobre as costelas do sujeito, até ele afogar-se no próprio sangue. Sendo uma mulher de vasto e necessariamente secreto conhecimento de demônios, ela não tinha ilusões sobre a maneira como eles deviam ser tratados.

       No andar de baixo, a música parecia provir de um quarteto de cordas.

        Davey já se levantara e tentava consertar coisas, tomando notas intermináveis em um bloco de folhas amarelas. Ele não executava — ou não podia executar — o único ato capaz de consertar coisas que podiam ser consertadas; recusava-se a um confronto com o pai. Ou talvez estivesse deitado no sofá da sala da família, ouvindo Beethoven e bebendo kümmel, a bebida favorita de seu escritor favorito. Kümmel tinha um odor de alcaravia, e Hugo Driver devia tresandar a alcaravia, um fato não mencionado em suas biografias.

       Davey costumava exalar um cheiro de alcaravia, nas noites em que demorava a ir para a cama. Na noite anterior, eram duas da madrugada, quando ele subira para o quarto; duas noites antes, eram três e meia. Nora sabia as horas, porque naquelas duas noites os pesadelos familiares a tinham feito galopar para fora do sono, em busca da pistola que deixara cair dentro de uma latrina, em um dia escaldante de junho, vinte e três anos atrás.

       A pistola jazeria enferrujando no fundo do que, a esta altura, provavelmente seria uma plantação vietnamita. Dan Harwich divorciara-se e tornara a casar-se, eventos pelos quais Nora considerava-se parcialmente responsável, sem jamais ter-se movido de Springfield, Massachusetts. O próprio Dan poderia perfeitamente estar também enferrujando sob uma plantação qualquer.

       Ninguém se apaixona duas vezes daquele jeito; ninguém pode fazer coisa alguma da mesma forma duas vezes, exceto em sonhos. Os sonhos jamais desistem. Como tigres, simplesmente ficam esperando, emboscados, até que surja carne fresca outra vez.

      

DAVEY TAMBÉM CONHECERA Natalie Weil. Metade de Westerholm conhecera Natalie Weil. Dois anos antes, quando lhes vendera o rancho sobrelevado de três dormitórios, com uma “sala da família” no andar de baixo, situado na Crooked Mile Road, Natalie Weil era uma loura miúda, de aparência atlética, talvez dez anos mais jovem do que Nora. Tinha um largo e alvo sorriso, interessantes ruguinhas nos cantos dos olhos e um primeiro marido chamado Norm. Fumava bastante e, quando falava, desenhava espirais no ar com as mãos. Na época em que Nora e Davey moravam na ala de hóspedes da propriedade “Os Alamos”, na Mount Avenue, com Alden e Daisy (os Chancels mais velhos), Natalie Weil intuíra a atmosfera emocional no interior daquela casa imensa, e convidara seus agradecidos tutelados para jantar em sua própria casa-rancho também de construção sobrelevada, na Redcoat Road. Lá, Nora e Davey tinham comido chili e abacate, bebido cerveja mexicana e assistido pela metade a um programa de luta-livre na TV a cabo, enquanto Natalie anatomizava, para a delícia de seus dois convidados, a cidade onde o novo marido de Nora havia crescido.

       — Compreenda, Davey, você é da Mount Avenue, e vê esta cidade da maneira como ela era há cinqüenta anos, quando todos se vestiam para jantar, todos permaneciam casados para sempre e ninguém conhecia judeus. Esqueça isso! Atualmente, todos estão divorciados ou divorciando-se, mudam-se para cá ou para fora da cidade ao receberem ordem da firma em que trabalham, não pensam em mais nada além de dinheiro — oh, meu Deus, aquele é Ric Flair, um dia ainda me humilho e escrevo para ele uma carta de fã realmente chocante... E temos três sinagogas, todas elas florescentes. Ric, benzinho, você seria sincero comigo?

       Após vender a eles a casa na Crooked Mile Road — uma casa paga por Alden e Daisy Chancel — Natalie os levou para almoçar no restaurante General Sherman, aconselhou-os a encherem de bebês a sala da família o quanto antes, e desapareceu de suas vidas. De vez em quando, Nora a via espiralando a mão no ar, enquanto conduzia dois possíveis clientes pela Post Road acima, em seu Lincoln vermelho semelhante a um barco. Seis meses atrás, ela encontrara Natalie despejando pizzas congeladas em um carrinho de supermercado, já abarrotado com embalagens de meia dúzia de cervejas mexicanas e Coca Diet. As duas conversaram durante dez minutos. Natalie havia dito que sim, estava vendo alguém, mas isso resultaria em nada, porque o sujeito era um chato. Ela ligaria para Nora, sem falta, seria ótimo livrar-se do Chato.

       Duas noites antes, Natalie Weil desaparecera de um quarto encharcado de sangue. Seu corpo não havia sido encontrado no local, ao contrário do das outras quatro mulheres, porém Natalie devia estar tão morta quanto elas. Como Natalie, eram mulheres de negócios, de um tipo ou de outro, divorciadas e morando sozinhas. Sophie Brewer era uma corretora independente, Anabelle Austin, uma agente literária, Taylor Humphrey, dona de uma firma prestadora de assistência a motoristas, e Sally Michaelman, proprietária e operadora de uma firma de artigos de iluminação. Todas elas tinham quarenta e tantos anos ou aproximavam-se dos cinqüenta. Os Chancels mais novos haviam mandado instalar um sistema de segurança assim que se mudaram para a nova casa e, após as duas primeiras mortes, nas noites em que Davey voltava tarde, Nora costumava digitar o código que ligava o sistema, antes de ir para a cama. Dentro de casa, ela se habituara a manter trancadas todas as portas. Depois do assassinato de Taylor Humphrey, passou a pressionar os botões assim que escurecia.

       Nora ficara a par da morte de Sally Michaelman através de uma imaculada jovem de pouco mais de vinte anos, dois lugares à sua frente no balcão da caixa do Waldbaum’s, o supermercado onde tivera aquele último encontro com Natalie Weil. Reparou na criatura, porque ela estava fortemente maquiada e vestindo um solto traje de linho, mas de caimento perfeito, para visitar um supermercado às dez da manhã. Ela ficaria melhor deslizando por entre colunas esguias, na propaganda de um perfume de nome algo semelhante a Arsênico. Com seus shorts largos e uma velha camisa azul que vestira após sua corrida matinal, Nora inclinou-se sobre seu carrinho, a fim de ver o que a vinte-e-poucos-anos colocara na esteira-rolante da caixa: trinta latas de ração “gourmet” para gatos e duas garrafas de água mineral importada, agora aumentadas por uma terceira.

       — A diarista dela ligou para a minha — dizia a jovem para a mulher atrás dela, também uma sólida criatura de vinte e poucos anos. — Dá para acreditar em tal disparate? É aquela mulher da Michaelman’s, e estive em sua loja ainda na semana passada, procurando uma, você sabe...

       — Aquela coisa que está na sua entrada, aquela coisa logo do outro lado da porta.

       — Uma coisa como a que você tem. A faxineira dela não conseguiu entrar e, com todo o... você sabe...

       Ela viu Nora, olhou-a fixamente e debruçou-se em seu carrinho, tirando dele um saco de ameixas que deixou cair na esteira-rolante da caixa.

       — Podíamos muito bem estar vivendo na zona sul do Bronx...

       Nora recordou a mulher do Michaelman’s; não sabia seu nome, porém ela a convencera a comprar a lâmpada halógena que queria para a sala da família. Mostrara-se agradável, simpática e amistosa, o tipo de pessoa que Nora classificava instintivamente como companheira de viagem. Seu primeiro impulso foi o de defender uma mulher tão espetacular, ante aquelas duas idiotas egoístas à sua frente — mas o que tinham feito elas, além de a mencionarem como “aquela mulher do Michaelman’s”? Seu segundo impulso, quase simultâneo ao primeiro, foi o de pânico por não se lembrar se teria ou não trancado a porta dos fundos, antes de encaminhar-se para o carro.

       Então, Nora tinha visto o cadáver ensangüentado da simpática mulher da loja de artigos de iluminação. A figura transformou-se instantaneamente na de um jovem soldado caído no chão, o ventre explodido e aberto, sua vida esvaindo-se através de seus olhos espantados. Os joelhos dela ficaram bambos e baixou a cabeça, respirando fundo, até as duas jovens vinte-e-qualquer-coisa afastarem-se da caixa registradora.

       O rapaz agonizante e outros como ele povoavam seus melhores pesadelos. Os piores deles eram muito piores.

      

NORA REJEITOU O pesadelo, decididamente da variedade pior, e saiu da cama. Desejando parecer mais controlada do que Davey provavelmente estaria, esfregou as mãos na testa e secou-as na camisola de dormir. Ao chegar ao corredor, a música deixara de soar como um quarteto de cordas. Seu toque agora era mais selvagem, mais caótico; Davey colocara para tocar uma das sinfonias de Mahler, que ele lhe ensinara a apreciar.

       Quem não gostasse de música clássica não permaneceria casada com Davey Chancel, que se refugiava na música quando perturbado. Nora, o orgulho dos Curlews, decidira casar-se com Davey quando ele a pedira em casamento pela segunda vez, seis meses após terem se conhecido, um ano depois de Springfield e de sua jamais projetada reunião com Dan Harwich.

       Caminhando em silêncio, ela passou por uma prateleira cheia de livros da Casa Chancel e seguiu para a escada que levava à porta da frente. Ao lado da porta, a luz vermelha brilhava tranqüilizadoramente acima dos botões do sistema de segurança. Nora desceu os degraus sem fazer ruído, e verificou que a porta continuava trancada. Quando começou a descer o segundo lance de degraus para a sala da família, a música entrou em foco. Soavam vozes indistintas. Ela estivera ouvindo, na verdade, uma trilha sonora. Davey, que nunca via nada além do noticiário, ligara a televisão. Ela desceu os últimos degraus, sua solidariedade endurecendo-se para raiva. Novamente. Alden humilhara novamente seu filho em público.

       Abriu a porta da sala de família e entrou. Sobressaltado, mas em nenhum estado óbvio de infortúnio, Davey a fitou com olhos muito abertos. Usava um leve robe de seda Thai por sobre o pijama e segurava um lápis ereto sobre um bloco de notas aberto. A surpresa estampada no seu rosto foi idêntica à dela.

       — Oh, querida — disse ele. — Acordei você?

       — Você está bem?

       Nora caminhou silenciosamente em seus chinelos acolchoados e olhou para a tela. Um velho esfarrapado agitava um bordão diante de uma caverna. Pippin! Lembre-se de ser corajoso! Você precisa ser corajoso!

       Davey apontou o controle remoto para o aparelho, e a trilha sonora desapareceu.

       — Desculpe, não pensei que você ouvisse. — Tão à vontade como um gato à luz uniforme da lâmpada halógena, ele deixou o controle remoto em cima do bloco de notas e olhou para Nora com o que parecia um sincero remorso. — Hoje tivemos um problema, um contratempo que papai me pediu para resolver, então pensei que devia olhar esta coisa.

       — Não foi a TV Eu acordei.

       Ele meneou a cabeça.

       — Como na noite passada? — perguntou, em tom que não parecia totalmente solidário.

       — Essa história sobre Natalie... sabe como é... — Nora interrompeu o que dizia, com um gesto de mão. — Atualmente, todas as velhotas em Westerholm têm problemas para dormir.

       Nora virou-se para a televisão. Um menino sujo, de oito ou nove anos, seguia por um pântano gotejante com um saco no ombro. Arvores torcidas e monstruosas surgiam em meio a uma neblina bruxuleante.

       — E a maioria delas não tem mais com que se preocupar do que você.

       Na noite anterior, Davey enumerara os motivos pelos quais Nora não devia preocupar-se: ela não morava sozinha e nem dirigia uma firma; tampouco abria a porta para estranhos. Se aparecesse alguém suspeito, bastava apertar o botão que havia no quadro do sistema de alarme. E, embora isto permanecesse diplomaticamente não declarado, ela não estaria exagerando em suas reações, ao permitir que velhos problemas voltassem a perturbá-la?

       — Eu me perguntava onde você estaria — disse ela.

       — Bem, agora já sabe. — Ele bateu o lápis contra o bloco de notas e forçou um sorriso. Tendo que fazer uma escolha, preferiu a gentileza. — Você podia ver isso comigo.

       Ela se sentou ao lado dele no sofá. Davey deu-lhe um tapinha no joelho e focalizou o filme.

       — O que é isso?

       — Jornada na Noite. Você fazia tanto barulho que saí da cama, e, quando olhei no jornal, vi que o filme passaria hoje. Como terei de vê-lo de qualquer maneira, então que seja logo.

       — Você precisa fazer anotações sobre Jornada na Noite?

       — Estamos tendo alguns problemas com a propriedade de Driver. — Ele apontou o controle remoto para a tela e aumentou o volume. Lobos uivavam distantes, no pântano brumoso. Mais irritada do que desejaria, Nora viu o menino seguir em frente, sob as árvores monstruosas. — Mas vai ficar tudo bem — disse Davey.

       Ele lhe tomou a mão por um instante. Nora a apertou, enfiou as pernas debaixo do corpo e recostou a cabeça no ombro dele. Davey contorceu-se, dando-lhe a entender que sentia-se incomodado com seu peso. Nora afastou-se, deixou a cabeça apoiar-se no encosto do sofá.

       — Que tipo de problemas?

       — Psst — fez ele.

       Inclinando-se para frente, Davey pegou o lápis. Bem, ela não poderia falar. Por algum motivo, seu marido saíra da cama no meio da noite para tomar notas sobre a versão filmada de Jornada na Noite, o primeiro e espetacularmente bem-sucedido romance de Hugo Driver, além de pedra angular da Casa Chancel, fundada por Lincoln Chancel, avô de Davey e amigo do escritor. Imensamente orgulhoso pela associação dos dois homens, Davey lera Jornada na Noite pelo menos uma vez por ano, desde que tinha quinze de idade. Qualquer pessoa menos caritativa do que Nora poderia dizer que ele era obcecado pelo livro.

      

MUITAS PESSOAS eram obcecadas pelo primeiro romance de Hugo Driver. Uma das ocupações de Davey, na Casa Chancel, era responder aos pedidos de fotos, dar assistência a teses e documentos colegiais e cuidar de outras correspondências envolvendo o escritor, que fluíam para os escritórios. Tais missivas provinham de alunos de ginásio, corretores de ações, motoristas de caminhão, assistentes sociais, secretárias, cabeleireiros, cozinheiros de refeições rápidas, motoristas de ambulância, pessoas que assinavam suas cartas com os nomes dos personagens do romance e também famosos maníacos e sociopatas. Leonard Gimmell, que havia assassinado as quatorze crianças de sua classe do segundo grau durante uma excursão às montanhas Smoky, escrevia uma vez por semana, de uma prisão estadual do Tennessee, e Teddy Brunhoven, que surgira na frente de um estúdio de gravação na Rua Cinqüenta e Cinco Oeste, e assassinara a cantora principal de uma banda de rock and roll, comunicava-se quase diariamente de uma cela no norte do estado de Nova York. Esses dois homens continuavam a justificar seus crimes através de complexas e laboriosas referências ao romance. Davey preferia ocupar-se muito mais em responder à correspondência dos fãs de Hugo Driver do que cuidar de seus outros afazeres, os quais incluíam assuntos como problemas de palavras-cruzadas e ilustrações, empurrados para ele pelo pai.

       Por duas vezes Nora começara a ler Jornada na Noite, porém nunca fora além do capítulo em que o garoto-herói sucumbia a uma doença e despertava em uma paisagem cujo sentido era o de representar a morte. Entediada por romances de ficção, ela podia farejar a aproximação de seres sobrenaturais e árvores falantes.

       Davey também reverenciava Jornada no Crepúsculo e Jornada para a Luz, as seqüências de menor êxito, porém fora contrário à decisão sobre a venda dos direitos de filmagem de Jornada na Noite. Quando do lançamento do filme, um ano atrás, recusara-se a vê-lo. Qualquer filme baseado no romance seria um fracasso, uma traição. Podem ser feitos bons filmes de livros de segunda categoria; os baseados em grandes livros costumam deixar um embaraçoso mau cheiro. Se tal regra era ou não geralmente verdadeira, tinha-se aplicado a Jornada na Noite. A despeito dos quarenta milhões de dólares gastos em efeitos especiais e um elenco de astros famosos, o filme havia sido acolhido com críticas hostis e casas de espetáculos vazias. Desaparecera duas semanas mais tarde, deixando para trás o mau cheiro predito por Davey.

      

PROIBIDA DE FALAR, Nora recostou-se no sofá e ficou espiando o desenrolar do desastre. Todo aquele dinheiro havia comprado árvores não convincentes, esfarrapara roupas e produzira uma boa quantidade de neblina. O menino chegava à última das árvores e se via em uma desolada planície. Aqui e ali, montículos de gesso pareciam flutuar, emergindo da névoa prateada. Lobos uivavam na distância.

       Inclinado sobre seu bloco de notas, Davey franzia a testa como um aluno ansioso fazendo anotações durante uma aula que detestava. A seriedade e a concentração aumentavam a semelhança acidental entre eles. Aos quarenta, Davey ainda tinha os olhos grandes e límpidos, assim como uma pele quase translúcida, que a atraíra e repelira ao mesmo tempo, quando se tinham conhecido. Seu primeiro pensamento coerente sobre ele, após ter-se ajustado à inesperada semelhança entre ambos, havia sido de que a sua versão do rosto dela era bonita demais. Qualquer homem com uma aparência daquelas só poderia ser insuportavelmente vaidoso. Toda uma existência de pessoa mimada, adulada e admirada deveria tê-lo tornado egoísta e superficial. A idade dele somava-se a estes intransponíveis defeitos. Homens com cerca de dez anos a menos do que ela ainda eram bebês cegos e ambiciosos, tendo tudo por aprender. O pior de tudo era o envelope despreocupado e descontraído circundando Davey Chancel. O pai de Nora, operário de fundição e membro de sindicato a vida inteira, sabia que tais pessoas eram o inimigo, e nada do que ela já vira ou experimentara pudera ensinar-lhe o contrário.

       Eventualmente, Nora aprendera que apenas a última de suas primeiras impressões tinha sido correta. De fato, Davey nascera no seio de uma família de posses, porém era inseguro demais para ser vaidoso. Havia sido criticado impiedosamente a vida toda, ao invés de mimado. Singularmente vulnerável, mostrava consideração pelos outros; suas ambições concentravam-se em satisfazer as pessoas e publicar bons livros. Possuía uma qualidade que poderia ter sido considerada uma falha, porém Nora decidira que isto era, antes, uma peculiaridade do que um problema sério. Davey era imaginativo, e a imaginação, concordavam todos, era uma extraordinária Boa Coisa. Além disso, ele precisava dela. Era sedutor, sentir-se necessária.

       — É como se eles pretendessem arruinar o livro. Cada única coisa está errada. — Ele lhe lançou um olhar exasperado. — Sempre que chegam a um grande momento reduzem-no à insignificância. Preste atenção e entenderá o que quero dizer.

       Nora ficou observando o menino caminhar com dificuldade por entre a névoa.

       — O ritmo está todo errado, como também o tom. Isto devia parecer quase exaltado. Tudo devia estar impregnado por uma espécie de radiância. Em vez de sentir profundas emoções, o garoto dá a impressão de estar indo buscar um sanduíche. Aposto como faltam cinco minutos para vermos o Senhor Noite.

       Nora não tinha a menor idéia de quem seria o Senhor Noite e, de fato, chegou a pensar que Davey havia dito Senhor Cavaleiro*.

      

* Confusão provocada pela pronúncia inglesa de Noite (Night) e Cavaleiro (Knight). (N. da T.)

      

       — Ele vai caminhar com dificuldade eternamente e, nesse meio tempo, as Pedras de Toon parecem totalmente falsas. — Davey fez outra anotação. — Você viu o Amigo Gentil, não viu? Quando entrou na sala?

       Nora supôs que o velho esfarrapado fosse o Amigo Gentil.

       — Acho que vi — respondeu.

       — Isso confirma o que digo. O Amigo Gentil de Driver é um heróico aristocrata que renunciou ao mundo, ao passo que este do filme é um eremita imundo. Quando ele diz a Pippin para ser corajoso, a gente não consegue deduzir se ele entende mais de coragem do que qualquer pessoa. No livro, contudo... Bem, você sabe como é.

       — Claro.

       Sem jamais dizer uma mentira real, Nora deixara Davey imaginar que, em sua segunda tentativa, tinha lido o romance até o fim e decidido que era uma obra-prima.

       — O Amigo Gentil está transmitindo a mensagem central de sua vida; essa coragem que precisa ser recriada diariamente. Como ele sabe disso, Pippin precisa saber também. Em sua paródia, a cena é absolutamente ilusória. Certo, aí vem o Senhor Noite, errado do começo ao fim, é claro.

       Um enorme animal mosqueado, que tanto podia ser um cão como um lobo, saltou para cima de enorme pedra à frente do menino. Cães ou lobos foram aparecendo aos pares sobre as outras pedras. O menino ergueu os olhos para os animais, com uma ausência de expressão que poderia ser destinada a representar determinação.

       — Poxa, agora eu me pergunto, quem você poderia ser? Compreenda, não temos a menor idéia de que isto é o motivo por que Pippin precisa realmente entender de coragem. Ele tem de provar-se ao Senhor Noite, e está morto de medo. Você teria medo desse vira-lata?

       — Provavelmente — disse Nora.

       — O Senhor Noite é amedrontador, seus dentes são afiados como navalhas, e ele é mágico. Este animal é a razão para toda a emoção que deveria transparecer no início desta cena, mas que aqui não existe. Sabemos que devemos encontrar este perigoso animal, mas quem aparece em vez dele? Rin Tin Tin!

       Para Nora, o animal trepado na rocha, olhando fixamente para baixo, tinha toda a aparência de um lobo. Ele havia sido alimentado antes da cena, mas, apenas para um caso de emergência, seu treinador ficara parado imediatamente após a câmera, com uma arma provida de tranqüilizante. O lobo era a melhor coisa no filme. Sendo real, impressionava muito mais do que se presumia estar representando. O menino mostrava no rosto toda aquela falta de expressão, por sentir medo demais para desempenhar o seu papel. Era um garoto sensato.

       Nora então viu que Davey estava certo: o lobo do filme era apenas um cão. Ela o transformara no Lobo de Westerholm, o homem desconhecido que tinha levado o cadáver da divertida, temerária e atraente Natalie Weil, e assassinado outras quatro mulheres. E o garoto fazendo o papel do Pequeno Pippin não estava amedrontado e nem era sensato, mas apenas um péssimo ator. Olhando para ele, Nora vira seu próprio medo.

       — É claro que eles liquidaram com o diálogo — disse Davey. — Senhor Noite não pergunta,”Como é seu nome, criança?” Ele sabe o nome do garoto. O que ele pergunta é: “Pequeno Pippin, viaja conosco esta noite?”

       Uma certa rebeldia por parte de Nora subestimara a selvageria do homem desconhecido para concentrar-se na realidade dele. Tal indivíduo perambulava de um lado para outro nas belas ruas arborizadas de Westerholm, entregando lembretes. Ele era como a guerra.

       No filme, o animal abriu a boca comprida e perguntou:

       — Virá conosco esta noite, Pequeno Pippin?

       Davey deu um tapa na testa.

       — Sem dúvida, eles consideram isso um progresso — disse.

       Nora supunha que, quando se surpreendia encontrando lições de valor moral em um assassinato, era tempo de escapar. Ano após ano, Westerholm havia provado que Natalie Weil tinha sido caridosa quanto às pretensões da cidade. Leo Morris, advogado deles por ser também o advogado de Alden e Daisy, reservara o QE2*, todo ele, para a festa dos deliciosos dezesseis anos da filha. Um de seus vizinhos instalara uma banheira de ouro no banheiro anexo ao dormitório principal e costumava levar seus convidados até lá, para constatarem o fato.

      

* Alusão ao navio Queen Elizabeth II (N. da T.).

      

       Durante pelo menos um ano, uma idéia vinha ganhando corpo dentro de Nora e recuando em face de todas as objeções contrárias, mas também em vista da segura rejeição por parte de Davey. Agora, no entanto, a idéia retornava como uma convicção. Não havia necessidade deles morarem ali. Deviam vender a casa e ir embora de Westerholm. Alden e Daisy que esbravejassem e discutissem, mas Davey acumulara dinheiro bastante para comprar um apartamento em Nova York.

       Sim, disse Nora para si mesma, é hora de acordar. A coisa era simples, era verdadeira, era surpreendente. A mudança seria difícil, um risco, um teste, mas se ela pudesse reter este senso de necessidade, no fim suas vidas melhorariam.

       Ela olhou para Davey, quase receando que ele tivesse ouvido seus pensamentos. Davey fitava-a com ar de chocada incredulidade.

       — Isto não é incrível?

       — O que é incrível?

       Ele a encarou fixamente.

       — Você precisa ler o livro outra vez. Eles suprimiram toda a história de Paddy e foram diretamente para o Campo de Vapor, o que significa que todo o grupo de perguntas e respostas foi retirado, e, portanto, também os ratos. Que loucura!

       — Imagine a história sem os ratos...

       — É o mesmo que O Mago de Oz sem os macacos voadores; como O Senhor dos Anéis sem Sauron.

       — Ou como Huckleberry Finn sem Pap.

       — Exatamente — disse Davey. — Não podemos mudar estas coisas, não podemos!

       Quanto a isso, ainda veremos, disse Nora para si mesma.

      

ALGUM TEMPO mais tarde, ela despertou estonteada, com a cabeça no colo de Davey. Um homem de ombros largos, com olhos enrugados e uma barba heróica carregava o menino através de uma enorme porta de madeira. A trilha sonora, toda ela em ruidosos violinos e estrondosos trombones, aplaudia. Esta fase de eventos chegava ao fim. Nora recordou um senso de resolução, porém não conseguia lembrar-se do que resolvera fazer. Com a lembrança de sua própria determinação veio o retorno de renovado vigor. Tinha decidido agir. É hora de acordar. Ela e Davey dariam as costas para Westerholm e cobririam os cerca de cento e trinta cruciais quilômetros que os separavam da cidade de Nova York. Chegara o momento de voltar a ser enfermeira.

       Ou se não isso, pensou ela imediatamente, pelo menos qualquer outra coisa. As últimas experiências de Nora na enfermagem eram uma substância radiativa demasiado quente ao toque. Até o último mês, a radiatividade expressara-se privadamente, sob a forma de pesadelos, problemas estomacais, acessos súbitos de raiva, depressões. Os jubilosos demônios haviam se manifestado ocasionalmente. Somente no seu último mês de trabalho é que ela e Davey relacionaram tal corrente de perturbações às atividades que desempenhava no Hospital de Norwalk, quando a própria Nora se tornara radiativa. Durante algum tempo, uma ação impropriamente considerada, mas ainda assim necessária, a tinha conduzido à órbita da polícia. É claro que ela não cometera crime algum. Seu comportamento havia sido moral, não imoral, porém irresponsável. Após ter concordado, para tristeza de todos, em “tirar uma licença”, assinara meia dúzia de papéis e deixara o hospital, sentindo-se tão infeliz, que nem apanhara seu cheque final de pagamento.

       Seu ato irresponsável, mas com moral, a princípio assemelhara-se a um rapto. O filho de um ano de idade de um homem importante fora levado ao hospital com uma perna quebrada e contusões ao redor do peito. Uma queda para o andar de baixo, explicara a mãe. Ela não o tinha visto cair, mas seu marido vira. Claro que ele tinha visto, disse o marido, um indivíduo untuoso vestido num terno da Wall Street. A pele tinha um brilho oleoso e seu sorriso era espantosamente alvo. Afastei os olhos do garoto por um segundo, e, quando tornei a olhar, bam!, quase tive um ataque do coração. Meia hora após a hospitalização do menino, seus pais foram embora. Três horas mais tarde, com um coelho de pelúcia debaixo do braço do paletó risca-de-giz, Papai voltava, sorridente. Entrou no quarto particular e saiu quinze minutos depois, ainda mais oleoso, sorrindo firme. Nora examinou a criança, encontrando-a quase inconsciente.

       Quando comunicou o que tinha visto, disseram-lhe que o pai não podia ser responsabilizado por quaisquer machucados no filho. Aquele homem era um gênio, um mago das finanças, nobre demais para espancar o próprio filho. No dia seguinte, Papai e Mamãe chegaram às oito horas.

       Papai se foi meia hora mais tarde e Mamãe voltou para casa ao meio-dia.

       Às seis da tarde, justamente quando Nora encerrava seu expediente, Papai retornou, agora sozinho. Ao checar a criança no dia seguinte, Nora soube que ela sofrera um misterioso “colapso” na noite anterior, mas que já se recuperara. Tornando a transmitir suas suspeitas aos superiores, mais uma vez foi repreendida. A essa altura, outras duas ou três enfermeiras concordavam silenciosamente com ela. Os pais tinham estado lá outra vez às oito, e as enfermeiras repararam que o mago parecia estar apenas representando o papel de um pai preocupado.

       Quando o pai tornou a voltar nessa noite, Nora, após uma hora queixando-se em vão aos administradores, postou-se no quarto da criança, até Papai pedir para ser deixado a sós com seu bebê. Ela saiu, demorando-se apenas o suficiente para dar três telefonemas — um para uma conhecida que dirigia a Escola Maternal Jack e Jill, na Post Road Sul, em Westerholm, outro para o chefe da pediatria e o terceiro para Leo Morris, seu advogado. Ela disse: Estou salvando a vida desta criança. Em seguida, voltou para o quarto. O irritado mago financeiro disse que ia preencher um formulário de queixa e desapareceu. Nora embrulhou cuidadosamente a criança nas cobertas e deixou o hospital. Dirigiu seu carro até a Escola Maternal Jack e Jill, deixou o bebê aos cuidados de sua amiga, e voltou para enfrentar o tumulto que criara. Quatro meses depois que o torvelinho amainou, a esposa do mago fez uma declaração à imprensa, dizendo que queria divorciar-se porque o marido a espancava regularmente, além de também espancar o filho de ambos.

       — Pelo menos eles fizeram uma coisa direito — disse Davey. — O Cavaleiro Verde realmente parece um Pippin adulto. Entretanto, não se pode dizer que Pippin perceba isso.

       Na tela, a manipulação eletrônica estava transformando o rosto barbado do homem, eliminando anos ao alisar-lhe rugas, encurtar-lhe os cabelos e modelar os planos de seu rosto, deixando a barba somente como uma sombra, em torno de uma face quase idêntica à do menino.

       — Há necessidade das palavras. A salvação jaz dentro dele próprio. Pippin alcançou a grande verdade por trás de sua jornada através da vasta escuridão. A vida e a morte despertaram sob suas próprias mãos, e essas mãos as governaram.

       Davey recitou as palavras sem emoção, mas também sem vacilar.

       — Oh, mas é claro — concordou Nora. — Isso mesmo.

       Em menos de um segundo a fisionomia do menino foi vislumbrada no interior da sombra da face do homem, e então os cabelos desgrenhados, a barba crescida e os planos angulosos da testa e rosto voltaram ao lugar de antes. O homem desceu uma encosta relvosa, carregando o menino. A claridade do sol lhe dourava os cabelos e a parte superior dos braços. Na colina atrás do homem e do menino, via-se uma porta imensa em moldura escura, como uma miragem. À frente deles e no leito de um vale, no sopé da montanha, carvalhos do tamanho de fósforos escondiam pela metade uma casa branca de fazenda.

       Nora virou a cabeça para Davey e o viu olhando, não para a televisão, mas para ela, com uma sugestão de preocupação nos olhos.

       — Achei bonito — disse ela.

       — Pois está completamente errado. — Os olhos dele ensombreceram-se. — Aquela não é a montanha Glade. Parece haver um segredo nesse lugar? A montanha Glade não é bonita, mas contém o grande segredo.

       — Oh, mas claro!

       — Aí reside toda a questão — disse Davey, e seus olhos tinham se movido para trás, para o interior da cabeça.

       — Acho melhor eu voltar para a cama. — Nora ficou em pé, sem nenhuma ajuda de Davey. — De qualquer modo, o filme não está quase chegando ao fim?

       — Se chegar — respondeu ele.

       Na tela, o homem barbado foi desaparecendo, ficando transparente. Quando Nora ficou em pé e deu um passo indeciso além do sofá, o rosto havia desaparecido por completo. O menino disparou a toda velocidade, em direção à casa da fazenda, e então a lista do elenco atrapalhou sua imagem.

       Nora deu mais um passo para a porta, e Davey enviou-lhe um rápido e enigmático olhar.

       — Logo estarei com você — disse ele.

       Nora subiu a escada, novamente pensativa, verificando se a porta da frente estava trancada e o sistema de segurança, montado. Ao deslizar sobre a cama, sentiu o suor noturno umedecendo a camisola, e percebeu que precisaria convencer Davey de que seu desejo de ir embora de Westerholm nada tinha a ver com Natalie Weil ou com o lobo humano.

       Meia hora mais tarde, ele entrou no quarto e tateou o caminho ao longo da parede, até encontrar o banheiro. Sem realmente estar cônscia de que pegara no sono, Nora abriu os olhos de um sonho no qual Dan Harwich estivera fitando-a com uma colossal e visível ternura. Virando o corpo, ela enterrou a cabeça no travesseiro. Davey ficou escovando os dentes durante muito tempo, enquanto a água corria. Lavou o rosto e depois puxou uma toalha do toalheiro. Pronunciou algumas palavras censuráveis, que ela não conseguiu entender. Tal qual a mãe, quando a sós ou não observado ele costumava manter conversas unilaterais com alguma pessoa não presente, um hábito que Nora decidiu não poder ser tecnicamente descrito como falando consigo mesmo. A luz do banheiro foi apagada e a porta, aberta. Davey arrastou os pés para a cama, encontrou a borda do colchão no escuro e tateou até o seu lugar de dormir, a fim de puxar o edredom. Cobriu-se e espichou-se na cama o mais distante possível de Nora, sem o risco de cair. Ela perguntou-lhe se estava bem.

       — Não se esqueça do almoço amanhã — respondeu ele.

       Certa vez, durante seu período de radiatividade, Nora tinha esquecido que eram esperados em “Os Álamos” para uma refeição. Em geral, os lembretes de Davey sobre este erro distante a atingiam como uma provocação desnecessária. Esta noite, no entanto, o comentário dele sugeria uma forma de dar andamento à decisão que ela tomara.

       — Não vou esquecer — respondeu.

       Uma aproximação maior com Daisy Chancel poderia ser proveitosa para eles dois; isso suavizaria o golpe, antes dele cair.

      

ALGUNS MINUTOS depois deles terem passado para o terraço de “Os Álamos”, no início da tarde seguinte, Nora deixou Davey e Alden tomando Bloody Marys enquanto contemplavam as águas do Estreito, ofuscando ao sol. A comunicação de que ela ia subir para ver Daisy encontrou apenas uma simbólica resistência, embora Davey não gostasse de ser deixado sozinho com o pai, pouco depois de terem chegado. O pai dele pareceu satisfeito e mesmo agradecido pelas palavras de Nora. Alden Chancel chegara a uma agradável e serena velhice ao possuir tudo que desejara e, embora certamente desejasse que o filho se casasse, nunca poderia imaginar que Davey fosse escolher alguém como Nora Curlew.

       Nora cruzou rapidamente a sala de estar do andar de baixo, chegou à entrada de mármore e fez a volta para subir a ampla escada interna. No patamar, parou diante do enorme espelho. Em vez de vestir seu jeans e o top costumeiro depois da corrida matinal, ela escolhera calças brancas e uma blusa larga de seda azul-escura. No espelho, tais roupas pareciam quase tão apropriadas para um almoço no terraço de “Os Alamos” como pareceriam em sua própria casa.

       Ela empurrou os cabelos para trás, sem intenção de ajeitá-los e subiu os degraus restantes para o andar de cima. Uma porta se fechou, e Maria, a pequenina italiana de cabelos grisalhos, que décadas antes substituíra a famosa Helen Day, chamada de Copeira, em outras vezes mencionada mais misteriosamente como O’Dotto, saiu do estúdio de Daisy carregando uma bandeja vazia. A Copeira, amada por Davey, fizera sobremesas legendárias, bolos de sete camadas e ilhas flutuantes de claras de ovo; Maria era serviçal, nada legendária e, segundo a experiência de Nora, sabia preparar excelentes refeições francesas e italianas.

       Maria sorriu para ela, e deu com a bandeja um curto e enfático tapa no ar, como que dizendo: Muito bem! Lá vamos nós!

       — Olá, Maria, como está hoje a sra. Chancel?

       — Muitíssimo bem, dona Nora.

       — E você, como vai?

       — No mesmo de sempre.

       — Será que ela aceita uma companhia?

       Maria assentiu com a cabeça, ainda sorrindo. Nora bateu duas vezes, depois empurrou a porta.

       Sentada no canto de um comprido sofá creme, de frente para uma mesinha baixa de vidro e uma lareira de tijolos, Daisy ergueu a cabeça da brochura que tinha nas mãos e deu a Nora um brilhante olhar de boas-vindas. A secretária de carvalho branco, ao lado do sofá como o travessão de um T maiúsculo, tinha em sua superfície apenas uma máquina de escrever elétrica e um pote de lápis amarelos; a mesinha de vidro suportava um vaso alto cheio de lírios Casablanca brancos, com aparência carnosa, um maço de cigarros com baixo teor de alcatrão, um isqueiro de ouro, um cinzeiro de pedra transbordando de tocos de cigarros, livros empilhados e um copo de vidro contendo gelo e um pálido líquido vermelho. Parecendo verde-hortelã em sua própria sombra, as persianas de alumínio branco estavam fechadas contra o sol.

       — Nora, que surpresa agradável! Entre e junte-se a mim. Onde está o seu drinque?

       — Devo tê-lo deixado no terraço — disse Nora, penetrando na atmosfera de Daisy, que cheirava a flores e fumaça de cigarro.

       — Oh, não, não deve fazer isso. A pequena Maria irá buscá-lo — falou Daisy, enfiando um cartão-postal no livro.

       — Não, não, eu não...

       Daisy já se inclinara para diante e pegava uma sineta em cima da mesa. O som da sineta era absurdamente suave e tilintante.

       — Maria — disse Daisy, como que conversando.

       Como que destacada do próprio ar, Maria abriu a porta e deu um passo no interior do aposento.

       — Pois não, sra. Chancel?

       — Poderia ser boazinha e trazer para cá o drinque de Nora? Está no terraço.

       Maria assentiu e saiu, fechando a porta atrás de si.

       Daisy deu alguns tapinhas no sofá creme e deixou sobre a mesinha de vidro a brochura Jornada para a Luz, o segundo livro póstumo de Hugo Driver.

       — Não estou incomodando?

       Em meados da década de cinqüenta, recém-casada e com vinte quilos a menos, Daisy Chancel havia publicado dois romances (não com a Casa Chancel), e desde então, supostamente vinha escrevendo outro.

       Nora já quase deixara de acreditar neste livro, pois nunca vira qualquer evidência dele em suas pouco freqüentes visitas ao estúdio. Davey há muito recusara-se a falar a respeito, e Alden referia-se a ele apenas eufemisticamente. As maneiras rígidas e vagas de Daisy nas refeições noturnas sugeriam que, em vez de trabalhar, ela estivera bebendo martínis fornecidos pela empregada italiana. Entretanto, devia ter havido um livro em certa ocasião, e ainda era importante para Daisy o simulacro de trabalho.

       — De maneira nenhuma — disse Daisy. — Eu havia pensado em reler Driver. Compreenda, como um escritor inspirado. De qualquer modo, ele sempre me inspira. Não sei por que as pessoas nunca se afeiçoam a Jornada para a Luz. — Ela deu a Nora um sorriso místico e inclinou-se para bater aprovadoramente no livro com os dedos roliços. A mão desviou-se para um lado, segurou o copo e o levou à boca. Tomou um bom gole, depois outro. — Você é dos que consideram Jornada para a Luz um terrível fracasso? — perguntou Daisy, enquanto pousava o copo na mesa, para pegar os cigarros e o isqueiro.

       — Jamais pensei nele dessa maneira.

       Daisy acendeu um cigarro, aspirou e expeliu a fumaça, que jogou para longe com um abano de mão.

       — Não, claro que não. — Ela jogou o maço de cigarros em cima da mesa. — Você não poderia, não com Davey por perto. Ainda me recordo quando ele o leu pela primeira vez.

       Alguém bateu à porta.

       — Aí está sua poção. Entre, Maria.

       A empregada trouxe o Bloody Mary e, quando o entregou a Nora, seus olhos brilhavam. Estava satisfeita por ver Daisy se distraindo.

       — Quando as coisas ficarão prontas?

       — Dentro de meia hora. Vou fazer maionese fresca para a salada de lagosta.

       — Faça bastante. Davey gosta muito de sua maionese.

       — O sr. Chancel também.

       — O sr. Chancel gosta de tudo — disse Daisy — a menos que interfira com seu sono ou seus negócios. — Ela hesitou por um momento. — Você poderia trazer-nos outros drinques daqui a uns quinze minutos? O de Nora parece tão aguado... E faça Jeffrey abrir o vinho pouco antes de nós descermos.

       Nora esperou que Maria deixasse o quarto, depois se virou e viu Daisy com um meio sorriso, parecendo perscrutá-la através da densidade de uma nuvem de fumaça.

       — Por falar em Hugo Driver, existe alguma espécie de problema com a propriedade dele?

       Daisy ergueu as sobrancelhas.

       — Davey levantou-se no meio da noite para ver o filme Jornada na Noite. Segundo me disse, Alden queria que ele se incumbisse de algum tipo de problema.

       — Um problema?

       — Talvez ele tenha dito que era um contratempo.

       A estas palavras, Daisy baixou as sobrancelhas, ajeitou o cigarro na boca e pegou seu copo. Assentiu de leve várias vezes, antes de remover o cigarro, soprar a fumaça e tomar outro gole de bebida. Depois lambeu os lábios.

       — Sempre aprecio suas visitas à minha pequena cela.

       — Você chegou a conhecer Hugo Driver?

       — Oh, não. Ele já havia morrido quando eu e Alden nos casamos. Creio que Alden esteve duas ou três vezes com ele, quando veio aqui como visitante. Aliás, Hugo Driver dormiu neste quarto.

       — É por isso que você o usa? — perguntou Nora, relanceando os olhos pelo quarto comprido e estreito, tentando imaginá-lo como havia sido nos anos trinta.

       — É possível — respondeu Daisy, dando de ombros.

       — E seu trabalho é como o de Driver; é a espécie de coisa em que você tem estado trabalhando?

       — Eu nem saberia mais definir — respondeu Daisy.

       — Creio que estou um pouco curiosa.

       — Acho que eu também!

       — Alguém já leu o que você anda escrevendo?

       Daisy empertigou-se no assento e olhou de relance para as prateleiras de livros perto da lareira, permitindo a Nora uma visão de cabelos brancos, lisos e macios, assim como do contorno de uma face que se avolumava. Depois virou-se para fitá-la com um ar indecifrável, mas não inteiramente vago.

       — Há muito tempo atrás, meu agente leu uns dois capítulos. Entretanto, no correr dos anos, nós... vagueamos... para longe um do outro. E o livro mudou muito desde então. Várias vezes. Poderia se dizer que mudou por completo, várias vezes.

       — Seu agente não ajudou muito,

       As bochechas de Daisy alargaram-se em um sorriso breve e sem alegria.

       — Eu o perdoei quando ele morreu. Era o mínimo que cada um de nós podia fazer.

       Ela terminou seu drinque, sugou o cigarro e soprou uma fina baforada de fumaça, que ricocheteou no copo como uma nuvem em movimento.

       — E desde então...?

       Daisy ladeou a cabeça.

       — Está pedindo para ler meu manuscrito, Nora? Oh, perdoe-me. Eu devia dizer: está se oferecendo para lê-lo?

       — Eu apenas pensei... — Nora esforçou-se ao máximo para assumir uma expressão tranqüilizadora. Sua sogra continuava a examiná-la com olhos que pareciam ter adquirido metade do tamanho normal. — Eu apenas me perguntava se... se um leitor seria útil a você. Eu dificilmente teria senso crítico.

       — E eu dificilmente desejaria um crítico. — Daisy inclinou-se para diante, sobre o estômago, e esmagou a ponta do cigarro no cinzeiro. — Talvez fosse interessante. Um novo par de olhos, isso aí. Vou pensar a respeito.

       Soou uma batida à porta, e Maria entrou com dois drinques em copos altos em uma bandeja. Removeu o copo vazio de Daisy e colocou o segundo de Nora ao lado do primeiro, que permanecia quase intocado.

       — Eu lhe darei um pote extra de maionese, a fim de levar para casa, dona Nora.

       Nora agradeceu-lhe.

       — Os rapazes estão se portando bem lá embaixo, Maria?

       — Às mil maravilhas.

       — Sem gritos? Sem ameaças? — Nora raramente vira este lado de Daisy.

       Maria sorriu e abanou a cabeça.

       — Estão falando sobre algo interessante?

       O sorriso de Maria ficou rígido.

       — Oh, entendo. Bem, se eles perguntarem — e não vão perguntar — pode dizer a eles que tudo que estamos comentando aqui é interessante.

       Subitamente, Nora percebeu que o relacionamento mais íntimo de Daisy era com Maria. Sua sogra tornou a surpreendê-la, dando-lhe uma piscadela.

       — Não é isso mesmo, querida?

       Esta animada e alegre Daisy havia surgido imediatamente após Nora sugerir a leitura de seu manuscrito. Nora respondeu que sim, que a conversa de ambas era interessante, e Maria sorriu radiosamente para ela, antes de sair do quarto.

       — O que acha que eles estão falando lá embaixo?

       — Quer que o coração de um editor faça trip-trap, trip-trap, como o do carneirinho caminhando pela ponte? É só mostrar-lhe um interessante e suculento crime, o que ele chamaria de “crime real”. — Daisy esboçou outro de seus sorrisos melancólicos e tomou um gole do novo drinque. — Não gosta desse termo? Acho que cometerei um crime real. Logo depois de cometer um romance não ficcional, Trip-trap, trip-trap, trip-trap... — Ela abriu a boca, revirou os olhos e deu tapinhas no coração, em zombeteiro êxtase. — Muito bem, cometerei um crime real, escrevendo um romance não-ficcional sobre Hugo Driver! — Daisy deu uma risadinha contida. — Talvez seja isto o que fiquei fazendo todos estes anos! Talvez Alden me dê um milhão de dólares e irei embora para o Taiti!

       — Talvez eu vá com você — disse Nora, achando que seria divertido ir para o Taiti com esta Daisy Chancel.

       Daisy agitou um rechonchudo indicador.

       — Não, você não irá. Não, você não irá. Não pode ir embora e deixar Davey inteiramente só.

       — Imagino que não — disse Nora.

       — Não, não e não — insistiu Daisy. — Negativo!

       — Tem toda razão — replicou Nora. — Você está mesmo escrevendo um romance não-ficcional?

       A mulher mais velha quase tripudiava, como se conhecesse segredos tão bizarros, que poderia dar uma pista eternamente, mas sem jamais divulgá-los. Nora viu-lhe os olhos brilhantes, ligeiramente nevoentos, e compreendeu que Daisy ia deixá-la ler seu manuscrito.

      

— SEM DÚVIDA, cada mulher em Westerholm está com medo — disse Alden. — Isto é, supomos que estejam.

       — O que quer dizer com “supomos que estejam”? — perguntou Nora.

       — Você acha que defendo o assassinato.

       — Não; apenas quero saber o que quis dizer.

       Ele estudou a mesa.

       — Quando Nora olha para mim, vê o demônio.

       — Um demônio não-ficcional — disse Daisy.

       — Creio que também não entendi, papai.

       — Alden quer que os outros considerem esse indivíduo a não-ficção... o crime real... o demônio... — disse Daisy, tendo atingido o estágio de falar com cuidado exagerado.

       — O demônio também quer — disse Nora, irritada.

       — Exatamente — replicou Alden. — Onde quer que esse sujeito vá, ele é material quente. Conseguiu seu exemplar semanal do Westerholm News, e está na primeira página.

       Serviu-se de outra porção de salada de lagosta e fez sinal a Jeffrey — geralmente mencionado como “o sobrinho da Copeira italiana” — para que despejasse mais vinho. Jeffrey tirou a garrafa do balde de gelo, envolveu-a em uma toalha branca e foi até a extremidade da mesa renovar o vinho de Daisy. Continuou se movendo ao longo da mesa, e Nora pousou a mão sobre seu copo. Ele lhe fez uma careta cômica e prosseguiu até a cabeceira.

       Nora nunca sabia o que pensar sobre Jeffrey. Alto, com a idade oscilando entre quarenta e cinco e cinqüenta e cinco anos, uma pronúncia sem sotaque e os cabelos claros rareando no alto da cabeça, ele dava a impressão de um improvável parente de Maria. Nora terminou sabendo que ela o apresentara uns dez anos atrás, quando Alden começara a falar em contratar alguém para atender telefones, abrir portas e fazer mandados. Jeffrey tinha olhos inteligentes e maneiras corteses, resguardadas, que não excluíam a jocosidade. Certos dias ele parecia um rufião. Nora viu-o oferecer vinho a Davey, virar-se para revolver a garrafa dentro do gelo e voltar a seu posto, na borda do terraço. Em um ajustado terno escuro e camisa preta, Jeffrey estava tendo um dos seus dias de rufião. Daisy a fez recordar sua teoria particular sobre Jeffrey, quando disse, batendo o garfo na mesa em ritmo com suas palavras:

       — Geralmente, você é mais... original... do que isso.

       Jeffrey havia sido contratado para proteger Daisy.

       — Ainda não terminei, minha querida.

       — Então, por favor, esclareça-nos.

       Alden sorriu para a mesa em geral. Seus dentes perfeitos rutilaram, seus cabelos brancos brilharam, um rubor escureceu o rosto amplo e ligeiramente bronzeado. Em seu blazer e camisa de um branco imaculado, o último botão aberto sobre um cachecol de cores vivas, de olhos translúcidos e inexpressivos, com fundos recortes em torno da boca, semelhantes a terreno revolvido, Alden parecia ser a pessoa exata que contrataria alguém como Jeffrey. Nora percebeu o quanto antipatizava com ele.

       — Pensem nos muitos exemplares que o Westerholm News estará vendendo. Pessoas que nunca olharam para ele em suas vidas, agora o estão comprando. E isto não diz respeito apenas ao nosso jornaleco. Os tablóides de Nova York deram um salto e festejam cada vez que outra dama é chacinada em sua cama. Acham que o negócio de sistemas de segurança no Condado de Fairfield está vivendo a costumeira calmaria de agosto? O que me dizem do comércio de armas? Para não se falar em muros, iluminação nos pátios e fechaduras de segurança. E quanto aos repórteres de televisão e os fotógrafos de People?

       — Não esqueça os editores — disse Nora.

       — Em absoluto. Adivinha quantos livros estão sendo escritos sobre Westerholm neste minuto? Quatro? Cinco? Pense no papel consumido por esses livros. A tinta, o plástico para as capas... Pense nos disquetes de computador, nos laptops, notebooks e aparelhos de fax. No papel gasto em aparelhos de fax. Nos lápis...

       — É uma indústria — disse Davey. — Tudo bem.

       — Se querem saber minha opinião, uma horrenda e maldita indústria — disse Daisy.

       Nora aplaudiu em silêncio as palavras da sogra.

       — O mesmo aconteceu com a Segunda Guerra Mundial — disse Alden. — E repetido no Vietnã, Nora, se me desculpa.

       Nora não achava que o desculparia.

       — Ah, se aparências matassem... E não é verdade que comandantes de unidades tinham uma certa provisão de granadas que deveriam usar em uma base diária — não oficialmente, quero dizer, mas, ainda assim, de maneira bastante específica? Não utilizamos por lá uma tremenda quantidade de uniformes e veículos, não construímos bases, vendemos cerveja e compramos toneladas de alimentos? Alguém não estava fabricando sacos para transportar cadáveres? Sei que estou flertando com o perigo, Nora, mas gosto quando seus olhos chamejam.

       Ele estava flertando com ela, não com o perigo. Nora olhou para seu marido, no outro lado da mesa, e viu-o fitando o guardanapo que tinha no colo.

       — Poxa, eu também gosto quando seus olhos chamejam, Alden — disse ela. — Deixam você parecendo tão jovem...

       — Em realidade, Nora, você é a pessoa mais velha nesta mesa.

       Pensando em seu marido e em Daisy, Nora forçou-se a relaxar.

       — Você foi temperada em meios que nós outros não fomos, daí por que é tão bonita! Admirei mulheres bonitas a vida inteira, e as mulheres bonitas são as salvadoras da humanidade. Apenas o fato de poderem ver seu rosto deve ter salvo um bocado de sujeitos por lá.

       Ela abriu a boca, tornou a fechá-la e olhou para Alden.

       — Você não está sendo gentil.

       — Você deve ter provocado um grande efeito nos rapazes que passaram por suas mãos.

       — Acho que seu ponto de vista menospreza tudo — replicou Nora. — Sinto muito. Isso é repulsivo.

       — Se com um estalar de dedos eu a fizesse nunca ter ido ao Vietnã, você me deixaria estalá-los?

       — Isso me tornaria tão jovem quanto você, Alden.

       — As bênçãos vêm em todos os tamanhos e formas. — Ele distribuiu um sorriso ao redor da mesa. — Há mais alguma coisa que eu possa esclarecer para vocês?

       Durante um momento, ninguém falou. Então, Daisy disse:

       — É hora de voltar para a minha cela. Começo a sentir-me um pouco cansada. Foi ótimo ver você, Davey. Nora, manterei contato.

       Alden olhou de leve para Nora, antes de empurrar a cadeira para trás e levantar-se. Davey demorou um segundo mais. Daisy segurou o encosto de sua cadeira e virou-se para a porta.

       — Jeffrey, por favor, agradeça a Maria. A salada de lagosta estava maravilhosa.

       O sorriso cortês de Jeffrey o fez parecer, mais do que nunca, um esmerado personagem de história secundária, disfarçado em valete. Deslizando por um lado, ele abriu a porta para Daisy.

      

ALDEN E DAVEY tornaram a ocupar suas cadeiras.

       — Depois de uma soneca, sua mãe estará nova em folha — disse Alden. — O que quer que aconteça em seu estúdio é da conta dela, mas tenho a impressão de que, ultimamente, vem trabalhando mais do que de costume.

       Davey assentiu lentamente, como se tentando decidir concordar com o pai. Alden pousou os olhos em Nora e bebeu um gole de vinho.

       — Está planejando alguma coisa com Daisy?

       — Por que pergunta?

       Davey jogou uma mecha de cabelo para fora dos olhos e espiou de Nora para seu pai, depois voltando a ela.

       — Digamos que seja uma impressão.

       — Eu gostaria de passar mais tempo com ela. Ir fazer compras, almoçar qualquer dia, coisas assim.

       O olhar de Alden a fez sentir-se como se estivesse mentindo para alguém superior.

       — Formidável — disse ele, e Davey relaxou em sua cadeira. — Se quer saber, gostei de ouvir. Uma bela coisa, minhas duas garotas divertindo-se juntas.

       — Mamãe tem trabalhado muito?

       — Bem, já que pergunta, há qualquer coisa acontecendo lá em cima. — Ele olhou para Nora, de maneira quase conspiratória. — Foi essa a sua impressão, Nora?

       — Eu não a vi trabalhando, se é o que quer saber.

       — Ah, Daisy é como Jane Austen, esconde todas as evidências. Quando estava escrevendo seus dois primeiros livros, nunca a vi diante da máquina de escrever. Para ser franco, às vezes uma voz sussurrava em minha cabeça, E se ela apenas estiver simulando tudo? Então, certo dia chegou uma caixa de um dos meus competidores, ela a levou rapidamente para seu estúdio e, quando voltou de lá, estendeu-me um livro! Ano após ano, foi acontecendo a mesma coisa. Assim, deixei que ela agisse como achasse melhor. Diabos, Davey, você sabe disso, pois foi criado neste sistema maluco!

       Davey assentiu e olhou através da mesa, como se também desejasse saber se Nora possuía alguma informação secreta.

       — Lidei a vida inteira com escritores e eles são excelentes — alguns deles, pelo menos — porém jamais entendi o que fazem ou como o fazem. Raios, penso até que nem eles próprios sabem como conseguem. Escritores são iguais a bebês. Gritam, choram, deixam-nos loucos da vida, e então produzem um grande, um enorme disparate. E nós lhes dizemos o quanto a coisa é espetacular.

       Ele riu, deliciado consigo mesmo.

       — Isso vale também para Hugo Driver? Ele foi um dos bebês chorões?

       — Nora... — disse Davey.

       — Claro que foi. A diferença com Driver, no entanto, era que todos achavam a merda dele mais cheirosa do que a de outros pirralhos — disse Alden, não mais parecendo deliciado com sua metáfora.

       — Daisy disse que você esteve com Driver umas duas vezes. Como era ele?

       — O que posso dizer? Eu ainda era uma criança.

       — Bem, mas deve ter tido alguma impressão. Ele foi o autor mais importante de seu pai. Inclusive, ficou hospedado nesta casa.

       — Bem, pelo menos agora sei o que você e Daisy estiveram conversando lá em cima.

       Nora ignorou o comentário.

       — Em realidade, Driver foi o responsável por...

       — Driver escreveu um livro. Milhares de pessoas escrevem livros todos os anos. Acontece que o dele fez sucesso. Se não fosse Driver, teria sido qualquer outra pessoa. — Ele deu de ombros, com um ar de neutra autoridade. — Você tem muito que aprender sobre editoras. E digo isso com todo o respeito, Nora.

       — Sem dúvida.

       Davey entrelaçava os cabelos com os dedos, afastando-os da testa. Depois disse:

       — O que você falou é verdade, mas...

       Seu pai congelou-o com um olhar.

       — Mas aquela foi uma colaboração clássica — prosseguiu Davey. — A sinergia foi incrível.

       — Estou velho demais para sinergias — replicou Alden.

       — Você nunca me disse o que pensava dele pessoalmente.

       — Pessoalmente, eu o julgava um conhecido de meu pai.

       — Isso é tudo?

       Alden meneou a cabeça.

       — Ele era um indivíduo pequenino e inexpressivo, em um espalhafatoso paletó de tweed. Achava-se parecido com o Príncipe de Gales, porém na verdade tinha mais semelhança com um punguista. Driver foi um escritor de enorme talento. O que eu pensava dele quando criança não tem a menor importância. Tampouco importa que tipo de sujeito era ele.

       — Hugo Driver foi um grande escritor — disse Davey, proferindo a frase para o seu prato.

       — Quanto a isso, não há discussão.

       — Ele foi.

       Alden sorriu por sorrir, enfiou mais um pedaço de lagosta na boca e o seguiu com um gole de vinho. Davey vibrava com um ressentimento contido. Seu pai disse:

       — Você conhece a minha norma: um grande editor nunca lê seus próprios livros. Acata a opinião alheia. E já que estamos neste assunto, temos alguma coisa para o nosso amigo Leland Dart?

       Leland Dart era o mais exaltado dos advogados da editora, o sócio de Leo Morris na firma Dart, Morris.

       Davey disse que estava cuidando disso.

       — Para ser franco, eu gostaria de saber se nosso amigo Leland não estaria jogando os dois extremos contra o meio.

       — Isto tem algo a ver com a propriedade de Driver? — perguntou Nora.

       — Por favor, Nora — pediu Davey — Agora, não.

       — Não, o quê? Será que acabei de ficar invisível?

       — Sabe o que é interessante sobre Leland Dart? — perguntou Alden, certamente sentindo a obrigação de salvar a conversa. — Além de sua absoluta magnificência e tudo o mais? É o seu relacionamento com o filho. Não entendo. E vocês? Estou falando de Dick; posso entender o que aconteceu com o mais velho, Petey, mas Dick, sinceramente, ele me confunde. Esse sujeito faz realmente alguma coisa?

       Davey agora estava rindo.

       — Não, eu não creio que faça. Nós o encontramos há um ou dois meses atrás, lembra-se, Nora? No Gilhoolie’s, logo depois de sua inauguração.

       Nora se lembrava, e a recordação da repugnante pessoa chamada Dick Dart agora também podia fazê-la rir. Dart estivera dois anos atrás de Davey, na Academia. Ela lhe fora apresentada no bar de um restaurante que substituíra uma pizzaria medíocre, no shopping center Waldbaum’s. Homens e mulheres de vinte e trinta anos espremiam-se no comprido bar que separava a porta do refeitório, e os cardápios em encartes de plástico sobre as mesas de toalhas de xadrez vermelho anunciavam bebidas como “Tobogãs de Lama” e “Chás Gelados Long Island”. Depois que ela e Davey abriram caminho através da multidão, um homem alto, bastante alegre, deixara a mão cair no braço dele e lhe falara com uma singular mescla de arrogância e desconfiança. Usava um belo terno ligeiramente amarrotado, tinha a gravata afrouxada, e os cabelos claros lhe caíam na testa. Parecia ter consumido mais do que um número suficiente de “Tobogãs de Lama”. Ele havia dito algo como Talvez você pretenda fingir que não se lembra mais de nossas antigas escapadas noturnas.

       Enquanto Davey negava, o homem empertigara a cabeça para trás e olhava de um Chancel para o outro, como sugerindo que eles compunham um divertido espetáculo. Nora suportara irônicos cumprimentos ao seu rosto “corajoso” e aos “maravilhosos” cabelos. Após dizer a Davey que ele devia aparecer sozinho qualquer noite para recordarem as farras loucas que haviam feito juntos, Dart os liberara, mas não sem antes acrescentar que adorara o perfume de Nora. Ela não estava usando perfume nenhum. Quando finalmente alcançaram sua mesa, Nora disse a Davey que o faria dormir na garagem se ele já tivera qualquer coisa a ver com aquele sujeitinho imbecil. Por favor, havia dito Davey, Dick está querendo “cantar” você! Tudo que ele faz é imitar velhos filmes de Peter O’Toole. A atitude dele era mais semelhante à dos velhos filmes de George Sanders, respondeu Nora, perguntando-se quem já conseguira levar alguém para a cama, fingindo desdenhar justamente da pessoa que pretendia seduzir.

       A meio caminho através da insípida refeição, Nora tinha erguido os olhos e vira Dart piscar para ela. Havia perguntado a Davey o que seu velho amigo fazia para viver, e recebera a surpreendente informação de que Dick era advogado na firma de seu pai.

       Agora, Davey contava ao pai que, no Gilhoolie’s, dissera a Nora que Dick Dart vivia das migalhas caídas das mesas dos clientes mais ricos da firma Dart, Morris; ele acompanhava viúvas idosas a almoços em restaurantes franceses de serviços lentos, e assegurava a elas que Leland Dart estava protegendo suas propriedades dos atos de um governo federal socialista.

       — Por que ele continua lá?

       — Dick provavelmente aprecia os almoços — replicou Davey. — Além disso, suponho que esteja esperando herdar a firma.

       — Não aposte nisso — disse Alden. Nora sentiu um vento gélido, tão claramente, que até poderia ter sido soprado do Estreito. — O velho Leland é esperto demais para isso. Ele tem sido o cara do quarto dos fundos na política republicana deste estado, desde os tempos de Ernest Forrest Ernest, e nem por sombras deixará esse rapaz aproximar-se do leme da Dart, Morris. Fique atento. Quando Leland diminuir o ritmo, dirá a Dick que precisa ganhar mais experiência, e colocará na firma um distinto velho embusteiro exatamente igual a ele.

       — Por que você quer que Davey saiba disso? — perguntou Nora.

       — Assim, ele ficará entendendo bem a nossa apreciada firma jurídica — respondeu Alden.

       — Talvez a esposa de Leland tenha idéias próprias sobre o que irá acontecer a Dick — disse Nora.

       — Talvez, pela primeira vez — replicou Alden. — Não imagino que Dick dê aos pais muitos motivos para que se sintam gratos.

       — Jamais saberemos — disse Davey, sorrindo estranhamente na direção do Estreito.

       Alden vistoriou os lugares vazios, como que procurando restos de lagosta.

       — Será que todos nós já terminamos?

       Davey assentiu, e Alden ergueu os olhos para Jeffrey, que ficou a um lado e abriu a porta. Nora agradeceu-lhe quando passou por ele, que fingiu não ouvir. Minutos mais tarde, ela se sentava no pequeno Audi vermelho de Davey, segurando um pote de conservas com maionese caseira, quando ele dirigiu da Mount Avenue para o interior mais novo e menos elegante de Westerholm.

      

— VOCÊ ESTÁ CONTRARIADO? — perguntou ela.

       Davey já tinha rodado em silêncio os cerca de dois quilômetros da Alameda Churchill. Era uma pergunta que Nora fazia freqüentemente durante o casamento de ambos, e as respostas recebidas, embora não evasivas, nunca eram diretas. Como acontece com tantos homens, os sentimentos de Davey muitas vezes surgiam sem rótulos.

       — Não sei — disse ele, o que era melhor do que uma negativa.

       — Ficou surpreso com o que seu pai disse?

       Ele olhou desconfiadamente para a esposa durante um quarto de segundo.

       — Se alguém me deixou surpreso, foi você.

       — Por quê?

       — Meu pai se diverte exagerando seus pontos de vista. Isto não significa que ele deva ser atacado.

       — Você acha que eu o ataquei?

       — Não disse que ele era repulsivo? Que menosprezava tudo?

       — Eu não o critiquei, mas sim suas idéias. Por outro lado, ele até gostou. Alden sempre adora bravatas verbais.

       — O homem tem setenta e cinco anos. Acho que merece mais respeito de alguém que não entende uma vírgula do negócio editorial. Sem mencionar o fato dele ser meu pai.

       A luz na Post Road ficou verde, e Davey afastou-se dos carvalhos ao lado da ponte de pedra, no final da Alameda Churchill. Fosse porque não havia qualquer trânsito vindo na direção deles ou por haver esquecido, ele não fez sinal de que tomaria a curva Post Road abaixo, a caminho de casa. Então, Nora percebeu que o marido não fizera o sinal porque não pretendia seguir pela Post Road.

       — Para onde você vai?

       — Quero ver uma coisa — disse ele, evidentemente não pretendendo contar-lhe o que seria.

       — Isto poderá ser uma surpresa para você, mas pensei que seu pai é que estava me atacando.

       — Nada do que ele disse foi pessoal. Você, sim, foi pessoal.

       Nora catalogou silenciosamente as maneiras em que se sentira atacada por Alden Chancel e selecionou a mais segura.

       — Ele adora falar na minha idade. Alden sempre achou que eu era velha demais para você.

       — Ele nada disse sobre sua idade.

       — Disse que eu era a pessoa mais velha na mesa.

       — Pelo amor de Deus, Nora, meu pai estava sendo brincalhão. E logo em seguida ele lhe fez um elogio, caso não tenha notado. Aliás, ele lhe fez elogios umas cem vezes.

       — Ele flertava comigo, e eu odeio isso. Seu pai age assim para humilhar as pessoas.

       — Isso é loucura. As pessoas da geração dele costumam fazer esses elogios ousados. Pensam que é como oferecer um buquê de flores a uma mulher.

       — Eu sei — respondeu Nora — mas isso, sim, é loucura.

       Davey abanou a cabeça. Nora recostou-se no assento e ficou espiando a passagem das esplêndidas casas ao lado do carro. Alden estivera certo sobre uma coisa: diante de cada propriedade havia uma placa metálica ostentando o nome de uma firma de segurança. Muitas prometiam REAÇÃO ARMADA.

       Davey dirigiu a ela um breve e fulminante olhar.

       — Mais uma coisa. Eu não devia dizer-lhe isto, mas, aparentemente, preciso dizer.

       Ela esperou.

       — O que minha mãe faz em seu estúdio é problema dela. Não tem nada a ver com você, Nora. — Outro olhar irritado. — Apenas para o caso de você não ter captado o que papai lhe dizia: acho que ele também foi exageradamente diplomático.

       Mais consternada do que desejava parecer, Nora inspirou e liberou vagarosamente a respiração, enquanto procurava uma resposta.

       — Em primeiro lugar, Davey, eu não me impus a ela. Sua mãe ficou contente em ver-me e eu gostei de estar com ela. — No rápido olhar de Davey, Nora viu que ele queria acreditar nisso. — Na verdade, foi como estar com uma pessoa totalmente diferente da que ela foi durante o almoço. Daisy divertiu-se enquanto estivemos juntas. Ela esteve muito engraçada.

       — Tudo bem, isso é ótimo. Entretanto, eu realmente não quero que você a deixe pior do que ela já se sente.

       Por um momento, Nora contemplou o marido sem falar.

       — Você acha que ela não está trabalhando lá em cima, não é mesmo? Seu pai pensa a mesma coisa. Ambos imaginam que sua mãe esteja fingindo isso durante anos, e ficam calados porque querem protegê-la ou coisa assim.

       — Ou coisa assim. — Um pouco da amargura anterior deixou impressões na voz dele. — Nunca ouviu a expressão “Não balance o barco”? — Ele a fitou rapidamente com uma infeliz zombaria no olhar. — Você acredita que ela vá lá para cima a fim de trabalhar? E o que está querendo dizer?

       — Sim, eu acredito que ela esteja escrevendo alguma coisa.

       Davey deixou escapar um resmungo.

       — Tenho certeza de que foi um encontro agradável para ambas.

       — Não gostaria que eu e sua mãe fôssemos um pouco mais amigas do que somos agora?

       — Ela realmente nunca teve amigas. — Davey pensou por um segundo. — Suponho que, com a Copeira, tenha tido uma amizade tão íntima quanto lhe seria possível. Então ela se foi, algo lamentável. Fiquei aniquilado. Eu pensava que ela nunca nos deixaria. Provavelmente achasse que Helen Day era a minha verdadeira mãe. Porque a outra, certamente não passava muito tempo comigo.

       — Eu gostaria que você presenciasse o comportamento dela em relação a mim. Mostrava uma espécie de... jovialidade.

       — Uma espécie de embriaguez — respondeu Davey. — Surpresa, surpresa! — Ele suspirou tão tristemente, que Nora sentiu vontade de abraçá-lo. — Para o que, é claro, ela tinha um excelente motivo.

       Alden, pensou Nora, mas Davey jamais responsabilizaria o grande editor pela condição de sua mãe. Ela virou a cabeça e o interrogou com os olhos.

       — O outro. O outro antes de mim, o que morreu. Isto é óbvio.

       — Oh, sim — assentiu Nora.

       De repente, ela via Davey como o tinha visto inúmeras vezes, sentado na sala de estar sob uma lâmpada adquirida na loja Michaelman’s, com Jornada na Noite nas mãos, fitando páginas que lera e relera porque, não menos do que os assassinos Leonard Gimmel e Teddy Brunhoven, nelas ele descobrira o código para sua própria vida.

       — Você pensa nisso um bocado, não é?

       — Não sei. Talvez. — Ele a espiou, para checar se o estava criticando. — É como... pensar nisso, sem pensar nisso, entendeu?

       Ela assentiu, mas nada disse. Por um momento, Davey pareceu prestes a falar mais alguma coisa. Então ele fechou a boca, os olhos modificaram-se, e o momento passou.

       O Audi fez alto em um sinal de parada, diante de um maciço de árvores excessivamente desenvolvidas, com vinhas que obscureciam o nome da rua. Então, um sedã Mercedes cinza rodou para o cruzamento e, quando Davey sinalizou para dobrar a curva, antes de apertar o acelerador e girar o volante para a esquerda, o nome da rua tilintou em sua cabeça. Ele os tinha levado à Redcoat Road, e o que queria ver era a casa na qual o lobo tirara a vida de Natalie Weil e dera sumiço ao seu corpo.

      

AO LADO DA VIA para carros de Natalie havia um poste metálico suportando uma placa azul-vivo com o nome de uma firma de segurança local, mais cara do que a escolhida pelos Chancels. Natalie levara em conta as semelhanças entre si mesma e as primeiras vítimas, isto fazendo-a gastar um bocado de dinheiro pela mais avançada proteção disponível.

       Davey deixou o carro e caminhou ao longo das jardineiras gramadas da Redcoat Road, em direção à via para carros. Nora saiu e o seguiu. Ela lamentou o Bloody Mary e o único copo de vinho que tinha bebido ao almoço. A luminosidade de agosto fez seus olhos arderem. Davey ficou olhando para a casa de Natalie, parado no fim da via para carros, as calças quase roçando na placa do sistema de segurança.

       Construída bem afastada da rua, a casa se erguia para um pátio fronteiro escurecido pelas sombras de carvalhos e olmos, espalhados entre montículos gramados e pedras arredondadas de granito. Fitas amarelas demarcando o local do crime entrelaçavam-se nas árvores e selavam a porta da frente. Uma viatura preta e branca da polícia de Westerholm e um sedã azul de aparência anônima estavam estacionados perto das portas da garagem.

       — Há algum motivo para que você quisesse vir aqui? — perguntou Nora.

       — Há.

       Davey baixou os olhos para ela e depois tornou a espiar a casa. Vinte anos antes, ela havia sido pintada no peculiar tom vermelho-acastanhado forte das cabinas de informação dos parques nacionais. A própria casa deles também era da mesma tonalidade castanha, embora sua pintura ainda não houvesse começado a descascar. No estilo, a casa de Natalie também reeditava a deles, com sua fachada rude e uma fileira de janelas marchando abaixo do teto.

       Um rosto branco, acima de um uniforme escuro, inclinou-se na direção de uma janela, no dormitório acima da garagem.

       — Aquele tira está no quarto onde ela foi morta — disse Davey.

       Ele começou a subir a via para carros. O rosto retirou-se da janela. Davey chegou ao ponto em que a fita amarela contornava um olmo ao lado da alameda e prosseguia em linha reta para a casa e a garagem.

       Estirando a mão, ele recostou-se no olmo.

       — Por que está fazendo isso?

       — Estou tentando ajudar você.

       O policial chegou à janela da sala de estar e ficou espiando para eles. Fincou as mãos na cintura, e então deu meia-volta, afastando-se da janela.

       — Talvez isso seja uma loucura, mas você acha que quis vir até aqui por causa do que esteve falando no carro?

       Davey olhou para ela com expressão incerta.

       — A respeito do outro. Do outro Davey.

       — Por favor, não! — disse ele.

       Novamente, a tendência Chancel de proteger segredos Chancel. O policial abriu a porta da frente e começou a caminhar para eles, por entre as sombras do gramado de Natalie Weil.

      

NORA TINHA CERTEZA de que o fascínio de Davey por Jornada na Noite, um romance sobre uma criança salva da morte por uma figura chamada o Cavaleiro Verde, tinha raízes em sua infância. Certa vez houvera outro David Chancel, o primeiro filho de Alden e Daisy. De repente, o bebê Davey tinha morrido em seu berço. Não estava doente, fraco e nem correndo qualquer espécie de risco. Simples e terrivelmente, ele morrera. Lincoln Chancel os tinha salvo ao sugerir, talvez até mesmo exigindo, uma adoção. Sua insistência por um neto fora um elemento crucial na lenda que Davey havia passado para Nora. Em New Hampshire havia sido encontrado um bebê para adoção. Alden e Daisy viajaram até lá, conseguiram a criança, deram a ela o nome do primeiro bebê e a criaram no lugar do menino morto.

       Davey usara as roupas de bebê do Davey falecido, dormira em seu berço, babara em seus babadores, mordera seu chocalho e mamara em sua mamadeira. Quando teve idade suficiente, brincou com os brinquedos reservados para o bebê-fantasma. Como se Lincoln Chancel houvesse previsto que não viveria para ver a criança completar quatro anos, ele tinha comprado cubos, bolas, coelhos e gatos de pelúcia, cavalos de balanço, trens elétricos, luvas de beisebol, bicicletas de tamanhos graduados, dúzias de tabuleiros com jogos e muita coisa mais; nos aniversários apropriados, tais brinquedos eram removidos de caixas rotuladas DAVEY e apresentados cerimoniosamente. Com o tempo, Davey compreendera que aqueles eram presentes de um avô morto para um neto morto.

       Já desde a noite em que Davey, embriagado, correra em redor da sala de estar enquanto declamava esta história, Nora começara a vê-lo de uma forma somente a princípio surpreendente ou transtornada. Ele sempre se considerara sob o escrutínio impiedoso de um eu-sombra — imaginava que o legítimo David Chancel queria recognição ou liberação.

      

O DETETIVE CONTORNOU uma pedra cor de golfinho e avançou, examinando Nora com uma mescla de reserva oficial e particular preocupação. Ela não conseguia imaginar como pudera confundir o terno azul dele e a enfeitada gravata vermelha com um uniforme de policial. O homem tinha uma cabeça grande e quadrada, feições desencantadas e um farto bigode castanho que se encurvava após as comissuras dos lábios. Quando ele chegou perto o bastante para Nora perceber o cinzento no bigode tártaro, ela notou também que os olhos castanho-escuros eram, ao mesmo tempo, sérios, irritados, solícitos e, bem lá no fundo, absolutamente desligados, de uma forma que a fez presumir ser reservada aos policiais. Uma certa porção deste homem recordou-lhe Dan Harwich e, em decorrência, levou-a a esperar um pouco de solidária compreensão. Fisicamente, ele não era muito parecido com Harwich, sendo atarracado e de ombros e cintura largos, um Clydesdale em vez de um galgo.

       — A senhora está bem? — perguntou ele, correspondendo assim às inconscientes expectativas de Nora. Quando ela assentiu, o detetive virou-se para Davey, dizendo: — Se está apenas sendo curioso, senhor, eu apreciaria se fosse embora daqui, em companhia desta senhora.

       Esta última parte era imprevisível, e Davey respondeu:

       — Eu queria tornar a ver a casa de Natalie. Meu nome é Davey Chancel e esta é minha esposa Nora.

       Nora esperou que o detetive dissesse, Pensei que fossem irmãos, como faziam algumas pessoas. Em vez disso, ele perguntou:

       — Tem algum parentesco com a família da Mount Avenue? Como é mesmo o nome da propriedade? “Os Álamos”, não?

       — Sou filho deles — respondeu Davey.

       O homem chegou mais perto e estendeu uma mão enorme, que Davey apertou.

       — Holly Fenn. Chefe de detetives. Conhecia a sra. Weil?

       — Ela nos vendeu a casa.

       — E já esteve aqui antes?

       — Natalie convidou-nos umas duas vezes — disse Nora, procurando incluir-se na conversa com Holly Fenn.

       Ele era como um pedreiro, alguém acostumado a caminhar em terreno turfoso com passo forte, tão irlandês quanto Matt Curlew. Bastava um olhar para o sujeito e logo se via que era real. Ele nivelou seu complicado olhar ao dela. Nora pigarreou.

       — Cinco vezes — disse Davey. — Talvez seis. Já encontraram o corpo dela?

       A característica de Davey, algo que fizera Nora pensar duas ou três vezes no homem com quem pretendia casar-se, era o costume dele exagerar a verdade. Davey não mentia, no sentido comum da palavra, não procurava tirar vantagem disso, mas como eventualmente ela percebia, seu marido agia assim com uma finalidade estética, procurando melhorar a realidade.

       Davey continuava assentindo, como se examinasse detalhadamente as visitas mencionadas e depois as somasse. Quando Nora fez a soma para si mesma, o resultado foi três vezes. Uma vez para drinques, uma semana depois de terem começado a examinar casas; a segunda para jantar, e a terceira quando haviam passado em casa dela, a fim de apanharem as chaves da casa na Crooked Mile Road.

       — Afinal, quantas vezes foram? — perguntou Fenn. — Duas vezes ou seis?

       — Seis — afirmou Davey. — Não se lembra, Nora?

       Nora perguntou-se se Davey chegara a visitar Natalie Weil sozinho, mas depois expulsou o pensamento.

       — Oh, claro — respondeu.

       — Quando foi a última vez que esteve aqui, sr. Chancel?

       — Há cerca de duas semanas. Comemos comida mexicana e vimos luta-livre na televisão — certo, Nora?

       — Hum-hum.

       A fim de não olhar para o detetive, ela virou a cabeça na direção da casa e percebeu que, afinal de contas, não se tinha enganado. O policial uniformizado que vira antes estava na janela do quarto, espiando para fora.

       — Eram amigos da sra. Weil?

       — Poderia se dizer que sim.

       — Ela parecia não ter muitos amigos.

       — Penso que gostava de ficar sozinha.

       — Sem querer ofender, mas ela não ficou sozinha o suficiente. — Fenn enfiou as mãos nos bolsos e recuou um pouco, como se precisasse de distância para vê-los melhor. — A sra. Weil mantinha bons registros de como andava seu trabalho, anotava todos os seus compromissos, mas não temos tido muita sorte no tocante à sua vida pessoal. Talvez os dois pudessem ajudar-nos.

       — Claro, para qualquer coisa — disse Davey.

       — De que maneira? — perguntou Nora.

       — O que há no pote?

       Nora baixou os olhos para o pote que já esquecera estar carregando.

       — Oh! — ela riu. — Maionese. Foi um presente.

       Davey fitou-a com irritação.

       — Posso cheirar?

       Surpresa, Nora desatarraxou a tampa e estendeu o pote. Fenn inclinou-se para frente, tirou as mãos dos bolsos, colocou-as em volta do pote e cheirou.

       — Sim, a legítima. Uma coisa de preparo difícil, a maionese. Está sempre querendo desandar. Para quem é?

       — Para nós — respondeu ela.

       As mãos dele soltaram o pote.

       — Eu gostaria de saber se chegaram a encontrar quaisquer outros amigos da sra. Weil aqui.

       Ele ainda olhava para Nora, e ela abanou a cabeça. Após um segundo em que se sentiu tentada a também cheirar a maionese, ela tornou a atarraxar a tampa no pote.

       — Não, nunca — disse Davey.

       — Conheciam algum namorado? Alguém com quem ela saísse?

       — Nada sabemos sobre isso — respondeu Davey.

       — E a senhora? Às vezes as mulheres contam para uma amiga coisas que não diriam ao marido.

       — Ela costumava falar no ex-marido. Norm. Entretanto, ele não parecia o tipo de homem que...

       — O sr. Weil estava com a nova esposa na sua casa de praia em Malibu quando sua amiga foi morta. Atualmente ele é produtor de filmes. Não acreditamos que tivesse algo a ver com essa coisa.

       Um produtor de filmes em uma casa de praia em Malibu parecia nada ter em comum com o homem que Natalie descrevia. Aliás, as maneiras de Holly Fenn tampouco se assemelhavam ao que Nora imaginava ser o procedimento comum de um policial.

       — Suponho que não faça idéia do que pode ter acontecido à sua amiga — disse ele, ainda olhando para Nora.

       — Nora não acredita que ela esteja morta — disse Davey, arrancando do ar mais uma preciosidade.

       Nora olhou para o marido, que não retribuiu o olhar.

       — Bem, eu não tenho nenhuma certeza, é lógico. Entretanto, alguém entrou na casa, correto? — disse ela.

       — Quanto a isso, não há dúvidas. Ela provavelmente conhecia o indivíduo. — Fenn virou-se para a casa. — Este sistema de segurança é bastante novo. Repararam nele da última vez que estiveram aqui?

       — Não — respondeu Davey.

       Nora baixou os olhos para o pote em suas mãos. O que ele continha assemelhava-se a algum nauseabundo fluido corporal.

       — Seria difícil não ter visto essa placa.

       — Também acho — disse Davey.

       — O sistema foi instalado há pouco mais de dois meses.

       Nora ergueu os olhos do pote, e viu que o detetive a observava. Então, espiou para a casa e ouviu-se dizendo:

       — Foi mesmo há duas semanas que estivemos aqui, Davey?

       — Talvez um pouco mais do que isso.

       Fenn desviou os olhos, e Nora esperou que ele os liberasse. O detetive devia saber que não lhe haviam dito a verdade.

       — Acha que poderia entrar na casa? Em geral não costumamos fazer isso, mas desta vez aceito toda a ajuda que puder.

       — Não há problema — disse Davey.

       Fenn recuou e estendeu um braço na direção da porta da frente.

       — Basta mergulhar por baixo da fita.

       Davey inclinou-se para diante. Fenn sorriu para Nora, e os olhos dele se franziram. Parecia um cortês xerife da fronteira, vestindo um terno moderno — como Wyatt Earp. Até mesmo soava como Wyatt Earp.

       — De onde é o senhor, chefe Fenn? — perguntou ela.

       — Fui garoto em Bridgeport — respondeu ele. — Chame-me de Holly, como todo mundo. Se não quiser entrar na casa, pode ficar aqui. Lá dentro há sangue demais.

       Nora tentou parecer o mais decidida possível, enquanto segurava um pote cheio de maionese.

       — Fui enfermeira no Vietnã. Provavelmente já vi mais sangue do que o senhor.

       — E salvou crianças em perigo — disse ele.

       — Foi mais ou menos o que estive fazendo no Vietnã — respondeu ela, enrubescendo.

       Ele tornou a sorrir e ergueu a fita, enquanto Davey olhava para os dois de cenho franzido, ao lado de um maciço de viçosas hidrângeas.

      

SENDO UM DAQUELES homens que se expandiam, quando observados bem de perto, Holly Fenn quase preencheu todo o espaço do poço da escada. Seus ombros, os braços e inclusive a cabeça pareciam ter o dobro do tamanho normal. Havia energia distendendo o paletó de seu terno e enrolando os cabelos castanho-escuros atrás da cabeça. O ar dentro da casa de Natalie cheirava a poeira, flores mortas, pratos por lavar, a respiração e corpos de muitos homens, contra o fedor de cigarros jogados em cestas de papéis usados. Davey deixou escapar um resmungo aborrecido.

       — Este lugar fede — disse Fenn.

       Um pôster de uma aldeia de casas brancas em um porto pendia da parede, combinando com o que eles tinham ao lado das estantes com livros da Casa Chancel. Na sala de estar, três homens viraram-se para eles. O policial uniformizado que Nora confundira com Holly Fenn entrou no vestíbulo. Os outros dois usavam idênticos ternos cinza, camisas brancas abotoadas de alto a baixo e gravatas escuras. Tinham fisionomias estreitas, arrogantes, e estavam de pé lado a lado, como peões de xadrez. Nora captou o odor fraco e corrupto de sangue velho.

       Davey subiu o último degrau. Anormalmente vividos à luz mortiça, seus olhos escuros, assim como as sobrancelhas definidas e também escuras, faziam seu rosto parecer branco e amorfo.

       Fenn apresentou-os ao agente Michael LeDonne, depois ao sr. Hashim e ao sr. Shull, todos do FBI. Na realidade, Hashim e Shull pareciam-se bem pouco um com o outro. O sr. Hashim era mais novo, mais corpulento, assemelhando-se mais a um dos lutadores de Natalie do que o sr. Shull, que era mais alto e mais claro do que seu parceiro. A postura e expressões dos dois é que criavam um efeito de semelhança, juntamente com seu partilhado ar de autoridade de outro mundo.

       — O sr. e a sra. Chancel eram amigos da falecida, e perguntei se quereriam dar uma espiada por aqui, a fim de que talvez percebam algo que possa nos ajudar.

       — Uma espiada por aqui — disse o sr. Shull.

       — Uma espiada por aqui — repetiu o sr. Hashim, inclinando-se para examinar as biqueiras altamente polidas de seus sapatos. — Certo.

       — Fico satisfeito por estarmos de acordo. Mike, talvez você pudesse segurar esse pote para a sra. Chancel.

       O agente LeDonne pegou o pote e o manteve perto do rosto.

       — Estas pessoas estiveram aqui recentemente? — perguntou o sr. Shull, também olhando para o pote.

       — Sim, faz bem pouco tempo — respondeu Fenn. — Dêem uma boa espiada em torno, amigos, mas procurem não tocar em nada.

       — Ajam como se estivessem em um museu — disse o sr. Shull.

       — Exatamente — concordou o sr. Hashim.

       Nora passou junto deles e entrou na sala de estar. As observações do sr. Shull e do sr. Hashim davam-lhe a sensação de estar tocando tudo que se achava à vista. Cinzas de cigarro riscavam o carpete castanho-amarelado, e o estofamento cor de trigo do sofá exibia um buraco de queimado. Revistas e uma pilha de jornais cobriam a mesinha de centro. Duas brochuras de Dean Koontz tinham sido alinhadas sobre a platibanda de tijolos acima da lareira. Das paredes pendiam cata-ventos de ferro e pedaços de madeira que o mar lançava à praia, os quais Natalie não só colecionava como recolhia. Os homens do FBI seguiram Nora com olhos inexpressivos. Ela encarou o sr. Shull. Ele pestanejou. Sem alterar a expressão, Nora deu meia-volta e entrou no quarto. Imediatamente o aposento pareceu carregado com a presença de Natalie Weil e absolutamente vazio dela. O sr. Shull e o sr. Hashim tinham razão: eles estavam em um museu.

       — Natalie deu algum telefonema naquela noite? — perguntou Davey.

       — Nenhum — respondeu Fenn.

       Enquanto passava para a cozinha, ocorreu a Nora que, decididamente, não sentia o menor desejo de ver aquela casa. No entanto, ali estava ela, na cozinha de Natalie. Davey vagueou distraidamente ao longo dos armários, sacudiu a cabeça diante da pia e fez uma pausa à frente das fotografias espetadas em um painel de cortiça, perto da geladeira. Por causa de Natalie, Nora forçou-se a olhar para o que a rodeava e reconheceu, quase imediatamente, que pouco importando qual fosse ou não o seu desejo, acontecera uma mudança. Na sala de estar, uma venda desconfortável fora ancorada sobre seus olhos.

       Agora, arrancada a venda, os traços das decisões e preferências de Natalie surgiam por onde quer que olhasse. Balcões de madeira tinham sido feridos onde ela havia cortado fatias do pão de massa levedada que gostava de torrar para o breakfast; espremidos no depósito de lixo, juntamente com maços amassados de cigarros, viam-se envoltórios plásticos do Waldbaum’s. Potes meio vazios de geléia coroavam a torradeira. Copos embaçados e com leve cheiro de cerveja enfileiravam-se ao lado da pia, cheia de pratos com geléia seca aderida, migalhas de torradas e fragmentos de carne moída. Uma sacola de uvas apodrecendo jazia em cima do balcão, ao lado de três garrafas de vinho postas em pé. O que quer que Norman Weil e sua nova esposa estivessem bebendo no deck de sua casa de praia em Malibu, provavelmente não seria Firehouse Golden Mountain Jug Red, de quase 10 dólares o litro.

       Depósitos azuis para artigos recicláveis continham vasilhames vazios de vinho e Corona, além de uma garrafa também vazia de Stolichnaya Cristall. Maços de jornais de Nova York e Westerholm jaziam atados com barbante em outro depósito azul, juntamente com montes de Time, Newsweek, Fangoria e Wrestlemania.

       — Eu gostaria que meus homens observassem cenas de crimes da maneira como a senhora faz.

       Sobressaltada, Nora endireitou o corpo e viu que Holly Fenn recostava-se à porta aberta que dava para o corredor.

       — Reparou em alguma coisa?

       — Ela fez um breakfast de torradas e geléia. Natalie era um pouco desleixada. Não gastava muito em alimentação e gostava de comer coisas baratas. Vendo-a, ninguém diria isso.

       — Mais alguma coisa?

       Nora rememorou mentalmente o que tinha visto.

       — Ela apreciava filmes de terror, o que me deixa surpresa, porém eu não saberia dizer por que motivo.

       Fenn endereçou-lhe um sorriso torcido.

       — Espere até a senhora ver o quarto. — Nora calou-se, achando que ele ia dizer algo sobre vítimas de assassinato e filmes de terror, porém Fenn não disse nada. — O que mais?

       — Ela bebia vinho barato, porém de vez em quando fazia uma extravagância com vodca de alto preço. Tudo que nós a vimos beber foi cerveja.

       Fenn assentiu.

       — Continue observando.

       Nora caminhou até a geladeira e viu meia dúzia de ímãs presos à porta, os quais recordava de dois anos atrás. Um astuto Drácula e um monstro Frankenstein de braços abertos exibiam-se na porta do freezer; uma banana semidescascada, um hippie com óculos da vovó e calças boca-de-sino arrastando-se sobre um cigarro de maconha pela metade, uma alongada colher cheia de pó branco e uma miniatura de Hulk Hogan decoravam a porta maior do refrigerador.

       Holly Fenn a observava com olhos vivos, da porta do corredor.

       — Tudo isso está aqui há anos — disse ela.

       — Muito diferente — disse Fenn. — Segundo seu marido, a senhora não acha que a sra. Weil esteja morta.

       — Espero que ela não esteja.

       Nora moveu-se impacientemente para o painel de cortiça cheio de fotografias. Ainda sentia o sangue queimando-lhe o rosto e desejou que o detetive a deixasse em paz.

       — Chegou a pensar que Natalie estaria envolvida com drogas?

       — Oh, mas é claro! — exclamou Nora, virando-se para ele. — Eu e Davey costumávamos vir aqui e cheirar coca o tempo todo. Depois disso fumávamos um pouco de erva, enquanto nos divertíamos assistindo aos programas de nossos lutadores favoritos. Sabíamos que podíamos agir assim, porque a polícia de Westerholm nem mesmo consegue pegar os garotos que depredam nossas caixas de correspondência.

       Fenn estava recuando, antes de Nora perceber que havia dado dois passos na direção dele. O detetive ergueu as mãos, com as palmas para cima. Pareciam luvas de beisebol.

       — Está tendo problemas com sua caixa de correspondência?

       Ela girou sobre os calcanhares, afastou-se e ficou diante das fotografias. O rosto de Natalie Weil, às vezes sozinho, em outras não, sorria para ela. Natalie havia feito experiências com os cabelos, deixando-os crescer até os ombros, cortando-os, fazendo faixas e pintando-os de louro brilhante. Uma Natalie de cabelos mais compridos sorria de uma cadeira de convés, debruçada na amurada de um navio de recreio, no centro de um grupo de sorridentes ex-professoras e vendedoras de cabelos brancos, de shorts e camisetas.

       Viciada em drogas, pensou Nora. Moveu-se para uma série de fotos enfileiradas de Natalie em um traje de banho cor de pêssego, algumas das fotos separadas por grandes espaços vazios, na parte inferior do painel de cortiça. Haviam sido tiradas no quarto principal, e Natalie estava encarapitada na cama, com as mãos atrás das costas. Desconfortavelmente cônscia de que Holly Fenn observava da porta do corredor, ela viu o que Natalie estava usando. O traje de banho era uma daquelas peças íntimas que as mulheres jamais compram para si mesmas e só podem ser usadas no quarto de dormir. Nora nem mesmo sabia como se chamavam.

       Aquela peça comprimia os seios de Natalie, apertava-lhe a cintura e deixava seus quadris em evidência. Uma profusão de correias e botões a faziam parecer o presente de Natal de um devasso. Nora olhou mais de perto para o brilho de um bracelete atrás das costas de Natalie, e viu a curva acerada e indiscutível de algemas.

       Contendo o espanto, ela aproximou-se de Fenn.

       — Provavelmente isto parece terrivelmente degenerado para a senhora — disse ele.

       — E o que parece para o senhor?

       — Brincadeiras e jogos inofensivos.

       Fenn moveu-se para um lado, e Nora entrou no corredor.

       — Inofensivos?

       Nora virou-se para ir ao quarto, refletindo que afinal de contas os Chancels talvez tivessem sua razão, ao acharem que segredos deveriam permanecer secretos. O assassinato deixava a vítima despida, exposta a impiedoso julgamento. O que ela imaginava partilhar com uma outra pessoa era... Nora parou subitamente de andar.

       — Pensou em alguma coisa?

       Ela deu meia-volta.

       — Foi um homem que bateu aquelas fotos.

       — Seria uma pena, se fosse a irmã que as tivesse batido.

       — Entretanto, não há nenhuma foto dele.

       — Exato.

       — O senhor acha que havia alguma?

       — Está querendo saber se acho que a certa altura ele estava na cama e ela segurando a câmera? Creio que deve ter acontecido algo assim. Eu tiro a sua foto, agora você tira a minha. O que terá sido feito dos retratos do homem?

       — Oh! — exclamou ela, recordando os grandes espaços vazios naquele setor do painel.

       — Ah... Gosto desses pequenos momentos de esclarecimento.

       Aquele pequeno momento de esclarecimento a deixou nauseada.

       — Estou um tanto curioso em ouvir o que a senhora sabia sobre os namorados dela.

       — Eu desejaria ter sabido alguma coisa.

       — Imagino que não tenha reparado nas fotos, quando esteve aqui pela última vez.

       — Eu não entrei na cozinha.

       — E nas vezes anteriores?

       — Não me lembro se cheguei a ir à cozinha. Se fui, certamente não vi aquelas fotos.

       — Bem, está na hora de fazer-lhe uma pergunta — disse Fenn. — A senhora e seu marido nunca se juntaram aos divertimentos de sua amiga? Se me disser que sim, não contarei para Slim e Slam, lá na sala. Nessas brincadeiras, tiraram em casa algumas fotos nas quais aparecesse a sra. Weil?

       — Não. E claro que não!

       — Seu marido é um homem de boa aparência. Um pouco mais novo do que a senhora, não é mesmo?

       — Se quer saber — disse ela — nós dois nascemos no mesmo dia. Apenas em décadas diferentes.

       O detetive sorriu.

       — A senhora provavelmente sabe onde fica o quarto.

      

PELA PORTA ABERTA, Nora avistou um arco de pontos marrons, elevando-se e espalhando-se por uma parede marfim. Abaixo desse arco, o canto visível da cama dava a impressão de que uma tinta cor de ferrugem havia sido despejada nos lençóis. Fenn falou, atrás dela:

       — A senhora não precisa entrar, se achar que não pode. Entretanto, talvez queira reconsiderar a idéia de que ela não está morta.

       — O sangue pode não ser dela — respondeu, irritada com Davey por fazê-la dizer semelhante coisa.

       — Mesmo?

       Ela quase que se obrigou a entrar no quarto. Sangue seco cruzava a cama, enquanto mais listras e manchas também de sangue sujavam o tapete ao lado. Os lençóis e fronhas haviam sido retalhados. Pedaços rígidos de algodão dobravam-se contra chumaços de espuma de borracha endurecida, como entranhas de pequenos animais. Tudo aquilo parecia sórdido e triste. A tristeza não constituía surpresa, porém o senso de desolação oprimia-lhe o coração.

       Encolhido no canto oposto, ao lado do agente LeDonne, Davey ergueu os olhos para ela e meneou a cabeça. Nora virou-se para Fenn, que ergueu as sobrancelhas.

       — O senhor encontrou uma máquina fotográfica? Natalie tinha uma câmera?

       — Não encontramos nenhuma, porém Slim e Slam dizem que todas aquelas fotos foram tiradas com a mesma câmera. Uma daquelas pequeninas e automáticas.

       — Como assim?

       — Tipo “aperte aqui, cara”. Uma máquina de focalização automática. Como uma pequena Olympus ou Canon. Com dispositivo de zoom.

       Em outras palavras, a câmera de Natalie era exatamente como a deles, para não se falar na maioria das outras câmeras em Westerholm. O quarto estava abafado, quente, desesperador. Um lunático que gostava de vestir mulheres para brincadeiras sexuais, finalmente levara as próprias fantasias a uma conclusão lógica e usara a cama de Natalie Weil como mesa de cirurgia. Nora perguntou-se se ele estivera vendo todas as cinco mulheres ao mesmo tempo.

       Ficou feliz por não ser uma policial. Havia pontos demais para raciocinar e metade do que se precisa raciocinar não faz qualquer sentido. Entretanto, a pior parte de estar ali, era estar ali.

       Precisava dizer alguma coisa, mas o que lhe saiu da boca foi:

       — Nas outras casas havia fotos daquele tipo? Como as que estão na cozinha?

       Nora mal ouviu a resposta negativa do detetive, como também mal ouvira sua própria pergunta. Sem saber como, caminhou por cima de vários metros de carpete castanho e sem manchas, para postar-se diante de quatro compridas estantes de livros. A meio metro dali, Davey dirigiu-lhe um olhar de animal enjaulado. Nora procurou a segurança dos títulos dos livros, porém não encontrou segurança alguma. Na sala de estar, Fenn havia dito algo sobre a predileção de Natalie por romances de terror, e ali estava a prova, em ordem alfabética, pelo nome do autor. Os livros tinham títulos como Os Ratos, Encruzilhada dos Vampiros e A Caveira de Prata. Ali estavam Os; Sedentos, A Casa Infernal, Os Livros de Sangue e Os Cérebros dos Ratos. Natalie possuíra romances de Dean Koontz que Nora jamais soubera existirem. Além disso, tinha vários livros de Stephen King, de Carrie a Dolores Claiborne, todos os de Anne Rice, de Clive Barker e de Whitley Strieber.

       Nora moveu-se ao longo das estantes, como que em transe. Aqui estava uma Natalie Weil que se entretinha com histórias de vampiros, mutilações, monstros com tentáculos e mau hálito, canibalismo, assassinos psicóticos, morte degradante a torto e a direito. Ela desejava medo, porém um medo rastejante e seguro. Ela havia sido como um viciado em montanhas-russas, para quem domar montanhas-russas nas feiras do condado era tão bom como domar os aparelhos que giram, deixando as pessoas de cabeça para baixo e fazendo-as cair tão depressa, que seus olhos ficam vermelhos. Tudo não passava de um eletrizante divertimento.

       No fim da estante inferior, seus olhos encontraram os nomes de Marletta Teatime e Clyde Morning, acima de um corvo de ar soturno, o familiar logotipo dos Blackbird Books, a pequena série de terror da Casa Chancel, a ser brevemente interrompida. Alden esperara firmes e automáticos lucros destes escritores, porém eles lhe tinham falhado. Com suas berrantes capas de mau gosto mostrando cabeças decepadas e bonecas mutiladas, os livros tinham sido devolvidos pelos distribuidores, poucos dias após serem apresentados ao público. Davey se mostrara a favor de manterem a série, o que significava ganharem uma pequena soma de dinheiro a cada estação, em parte porque Teatime e Morning nunca chegavam a mais de dois mil dólares por livro. (Às vezes, Davey sugeria frivolamente que, na realidade, eles eram a mesma pessoa.) Alden rechaçara o argumento de Davey quanto a ter condenado os livros por haver se recusado a promovê-los ou dar-lhes publicidade; a beleza do terror era que o próprio terror se vendia por si mesmo. Davey achava que seu pai tratara os livros como filhos órfãos, tendo Alden replicado, claro, porque, como filhos órfãos, eles tinham que empurrar o próprio peso.

       — Sra. Chancel? — chamou Holly Fenn.

       Outro título gritou para ela, da estante de baixo. Jornada na Noite sobressaía em um apressado e torto ângulo entre duas enciclopédias de Stephen King, como se Natalie tivesse enfiado o livro ali de qualquer maneira, antes de correr para a porta.

       — Sr. Chancel?

       Ela procurou mais letras D, porém Natalie não possuíra outros romances da autoria de Driver.

       — Lamento não poder ser de mais ajuda — dizia Davey, sua voz soando como se viesse do fundo de um poço.

       — Valeu a pena tentar.

       Fenn afastou-se da porta. Davey lançou a Nora outro olhar angustiado e caminhou para a porta. Ela o seguiu, e LeDonne veio logo atrás. Os quatro moveram-se em fila única para a sala de estar, onde Slim e Slam, os rostos virados para frente, perdiam automaticamente quaisquer sinais de individualidade.

       — Com sua licença, mas tenho de voltar lá — disse Davey.

       Fenn achatou sua corpulência contra a parede, a fim de deixá-lo passar. Nora e os dois policiais viram-no descer o corredor e entrar no quarto de dormir. LeDonne interrogou Fenn com um olhar, e este balançou a cabeça. Após uns dois segundos, Davey surgiu, mais angustiado do que nunca.

       — Esqueceu alguma coisa? — perguntou Fenn.

       — Pensei ter visto algo, e nem mesmo sei dizer o que seria. No entanto... — Davey abriu as mãos, sacudindo a cabeça.

       — Isso acontece — disse Fenn. — Se tornar a lembrar-se, não se acanhe em ligar para mim.

       Quando eles deram meia-volta, prontos para descer a escada, os dois homens do FBI afastaram-se um do outro e desviaram o olhar.

      

— O QUE VOCÊ pensava ter visto?

       — Nada.

       — Você voltou ao quarto. Claro que tinha alguma coisa em mente. O que era?

       — Nada. — Ele a fitou de lado, tão abalado, que estava pálido. — Foi uma idéia tola. Eu devia simplesmente ter ido para casa.

       — Por que não foi?

       — Eu queria ver aquela casa. — Davey fez uma pausa. — Queria também que você a visse.

       — Por quê?

       Ele esperou um segundo antes de responder.

       — Pensei que, se olhasse para ela, talvez parasse de ter pesadelos.

       — Uma idéia bastante estranha — replicou Nora.

       — Certo, era uma idéia idiota. — A voz dele alterou-se. — Foi a pior idéia em toda a história do mundo. Na realidade, cada idéia isolada que já tive na vida foi francamente terrível. Estamos de acordo agora? Ótimo. Então podemos esquecer o assunto.

       — Davey.

       — O que é?

       — Lembra-se de quando perguntei a você se estava contrariado?

       — Não. — Ele hesitou, tornou a suspirar, e seu olhar sugeriu a chegada de uma confissão. — Por que deveria estar contrariado?

       Nora contraiu-se.

       — Você deve ter ficado surpreso com o que seu pai falou sobre Hugo Driver.

       Davey olhou para ela, como se tentasse recordar as palavras de Alden.

       — Papai disse que ele era um grande escritor.

       — Você disse que ele era um grande escritor. — Após um segundo de silêncio, ela acrescentou: — Estou querendo referir-me à atitude dele.

       — Sim — disse Davey. — Você tem razão. Aquilo foi uma surpresa. Foi como se ele me tivesse dado um choque.

       Para Nora, os poucos segundos seguintes encheram-se de esperançosa tensão.

       — Eu tinha algo em mente, creio que estava nervoso... Não quero brigar, Nora.

       — Então, não está mais zangado comigo.

       — Eu não estava zangado com você. Apenas sinto-me confuso.

       Duas horas na companhia dos pais o tinham transformado novamente no Pequeno Pippin. Se ele precisava de um Cavaleiro Verde, ela estava ali como voluntária para o ato. Tinha pedido um emprego, e ali estava um, sentado ao seu lado. Poderia ajudar Davey a tornar-se o próprio eu-adulto vitorioso. Ela o ajudaria a conquistar a posição merecida na Casa Chancel. Seus outros planos — firmar a amizade com Daisy e mudar-se para Nova York — eram apenas elementos desta maior e mais real ocupação. Comece, ordenou a si mesma. Agora.

       — Davey — perguntou — o que você gostaria de estar fazendo na Casa Chancel?

       De novo, ele pareceu forçar-se a pensar.

       — Trabalho editorial.

       — Então, é o que devia estar fazendo.

       — Bem, sim, mas sabe como é, papai...

       Davey fitou-a com expressão resignada.

       — Você não é como aquele sujeito repugnante que leva senhoras de idade para almoçar; você não é Dick Dart. Que trabalho o atrai mais?

       Ele mordeu o interior da bochecha antes de decidir-se a declarar o que ela já suspeitava.

       — O que mais me atrai seria editar os Blackbird Books. Acredito que poderia tornar a série Blackbird em algo bom, mas papai está cancelando a coleção.

       — Não, se você fizer com que ele a mantenha.

       — Como eu poderia fazer isso?

       — Não sei ao certo, mas não há dúvida de que teria de aproximar-se dele com um plano. — Ela refletiu por um instante. — Consiga todos os números sobre os Blackbird Books. Mostre projeções a ele, forneça-lhe gráficos. Faça uma relação de escritores que desejaria contratar. Mande imprimir uma apresentação. Diga-lhe que fará isso, além de sua outra atividade na firma.

       Davey virou a cabeça para ela, boquiaberto.

       — Eu ajudarei. Juntos, idealizaremos algo que ele não será capaz de rejeitar.

       Ele tornou a fitá-la, depois encheu os pulmões de ar.

       — Muito bem, tudo certo. Vamos experimentar.

       — Blackbird Books, aqui vamos nós! — exclamou ela.

       Então recordou como vira a fileira de títulos de Clyde Morning e Marletta Teatime, no quarto de Natalie. Ao contrário dos outros livros dela, estes não haviam sido colocados em ordem alfabética, mas separados, no fim da estante de baixo.

       — Se quer saber, isto poderia funcionar — disse Davey.

       Nora perguntou-se se a colocação dos livros juntos significaria serem muito melhores ou bem piores do que outros romances de horror. Talvez o crucial a respeito delas fosse o fato de haverem sido editadas pela Casa Chancel-Blackbird.

       — Certa vez, estive pensando que poderíamos publicar uma série de clássicos, livros de domínio público.

       — Boa idéia — concordou Nora.

       Retornando aos seus pensamentos, ela decidiu que os Blackbird Books na estante de Natalie pareciam uniformemente novos e sem marcas, como se tivessem sido comprados na mesma hora e jamais lidos.

       — Se pudermos elaborar uma apresentação séria, ele terá de prestar atenção.

       — Davey... — Nora sentiu-se inundar por um senso de esperança e expectativa, e a pergunta escapou-lhe, antes que pudesse contê-la: — Nunca pensou em mudar-se de Westerholm?

       Ele ergueu o queixo.

       — Para ser franco, todos os dias penso em ir embora deste buraco. Entretanto, compreenda, sei o quanto morar aqui significa para você.

       A gargalhada dela o deixou atônito.

 

A CAUDA DE PADDY

 

A PRIMEIRA COISA QUE PIPPIN VIU FOI A PONTA DE UMA PEQUENA CAUDA, NÃO MAIS GROSSA DO QUE QUATRO FIOS DE CRINA DE CAVALO AMARRADOS JUNTOS, MAS QUANDO PROCUROU O RESTO DO ANIMAL, SEGUIU A CAUDA EM TRONO DAS ROCHAS, ATRAVÉS DE UM EMARANHADO DE PLANTAS ALTAS, EM GRANDES CÍRCULOS, SUBINDO E DESCENDO ENORMES CURVAS SOBRE A RELVA E, AO ALCANÇAR FINALMENTE A PONTA DA COMPRIDA, LONGUÍSSIMA CAUDA, ENCONTROU-A PRESA A UM MINÚSCULO CAMUNDONGO. O CAMUNDONGO PARECIA MORTO.

 

EMBORA DAVEY PARECESSE soturno e distraído, os cinco dias seguintes foram quase tão felizes quanto Nora era capaz de recordar. Um outro período — várias semanas no Vietnã, lembradas como as mais felizes de sua vida — tinha acontecido numa época em que estava ocupada demais para pensar em outra coisa a não ser o trabalho. Recordando essa época distante, ela havia dito para si mesma que, realmente, felicidade era aquilo.

       Seu primeiro mês no Hospital de Evacuação chocara-a de tal maneira que, quando chegara ao fim, ela não sabia mais ao certo do que precisaria para mantê-la atuante. Maconha, tudo bem. Álcool, sem dúvida. Embrutecimento emocional, melhor ainda. Com uma proporção de vinte a trinta casos cirúrgicos diários, ela aprendera sobre desbridamento e irrigação — remover pele morta e limpar o ferimento contra infecção — vermes na cavidade torácica, amputações, fragilidade do ser humano e pseudomonas. Nora odiava particularmente o pseudomonas, infecção bacteriana que cobria de limo verde os pacientes queimados. Durante aquele mês, ela deixara de lado a maioria do que lhe tinham ensinado na escola de enfermagem e aprendera a auxiliar em operações de alta velocidade, a pinçar vasos sangüíneos e a cortar onde o neurocirurgião lhe dizia para cortar. À noite, suas botas deixavam rastros de sangue através do piso. Ela estava em uma usina de carne, não em um hospital. A velha e idealista Nora Curlew vinha sendo descascada sem a menor cerimônia, como que despindo uma camada de roupas grandes demais para seu corpo, e o que ela via da nova mulher era um autômato sem alma.

       Então, ocorreu um milagre temporário. Enquanto muitos pacientes morriam durante ou após as operações, os feridos continuavam a gritar de seus catres; Nora estava sempre exausta, mas não demasiado exausta, e os pacientes eram separados em indivíduos. Para estas pessoas ela fazia coisas rápidas, precisas e necessárias, que muitas vezes lhes permitiam viver. Havia momentos em que embalava a cabeça de um jovem moribundo, e sentia que partículas de seu próprio ser transmitiam-se para ele, infundindo serenidade e calma. Nora adquirira uma concentração focalizada, além do caos à sua volta, e cada operação transformava-se em um drama no qual ela e o cirurgião desempenhavam atos necessários e inventivos, que baniam ou pelo menos controlavam a desordem. Alguns desses atos eram elegantes; por vezes, todo o drama assumia uma rigorosa e dilacerante elegância. Ela aprendera as diferenças entre os cirurgiões, alguns deles zagueiros, outros concertistas de piano, e apreciava os cumprimentos que lhe faziam. À noite, alerta demais pela exaustão para conseguir dormir, fumava erva Montagnard com os outros e os acompanhava no que estivessem fazendo nesse dia — jogando cartas, voleibol ou trocando insultos.

       No final da quinta semana dela no Vietnã, um neurocirurgião chamado Chris Cross foi transferido e um novo cirurgião, Daniel Harwich, assumiu o lugar dele. Cross, um jovial e louro mesomórfico, conhecedor de milhares de piadas terríveis e com um insondável apetite por cerveja, havia sido um cirurgião zagueiro, porém um grande zagueiro. Trabalhava atleticamente, com lances de admirável graça, levando Nora a decidir que, em todos os sentidos, provavelmente jamais veria um melhor cirurgião. Toda a unidade lamentou a partida dele e, quando seu substituto revelou-se um fenômeno circense, de cabelos semelhantes a fios de ataduras e óculos tipo fundo de garrafa, sem quaisquer traços visíveis de humor, todos formaram fileiras em torno da lembrança do capitão Cross e congelaram polidamente o intruso. Uma teimosa enfermeirinha chamada Rita Glow disse que trabalharia com o palhaço — que diabo, afinal de contas tudo ali não passava de retalhar e cortar. Enquanto isso, Nora prosseguiu com seu aprendizado miraculoso sob os dois outros cirurgiões da unidade, um deles zagueiro-carniceiro, o outro um pianista que aprendera algumas tendências carniceiras com Chris Cross, ao mesmo tempo percebendo que o circense Dan Harwich não somente cumpria seus dias de doze horas de trabalho como os demais do grupo, como atendia a um número maior de pacientes, com menos queixas e pouco drama.

       Certo dia, Rita Glow disse que Nora tinha de ver o tal sujeito trabalhando, que ele era correto, que era um maldito sapateador no que fazia. Assim, na manhã seguinte, ela trocou as indicações de tarefa, a fim de deixar Nora no outro lado da mesa, diante de Harwich. Entre eles havia um jovem soldado paralisado, cujas costas pareciam carne crua. Harwick disse a ela que teria de ajudá-lo, enquanto ele retirava fragmentos de metralha das vértebras do rapaz. Harwich era zagueiro e pianista ao mesmo tempo, com mãos espantosamente rápidas e seguras. Após três horas de trabalho, ele fechou as costas do rapaz com as suturas mais rápidas e perfeitas que Nora já vira, olhou para ela e disse:

       — Agora que esquentei, vamos fazer algo difícil, certo?

       Dentro de três semanas ela estava dormindo com Harwich, e dentro de quatro passara a amá-lo. Então, os céus desabaram. Corpos destroçados e torturados enchiam a sala de cirurgia, e trabalharam setenta e oito horas sem parar. Ela e Harwich rastejavam para a cama cobertos pelo sangue de outros feridos, faziam amor, dormiam por um segundo, levantavam-se e cumpriam as mesmas tarefas novamente. Estavam encurralados no meio de cirurgias e no meio da noite, por vezes as duas coisas sendo uma só, e quando a claridade do período anterior infiltrava-se, detalhes individuais de soldados carbonizavam-se em sua mente. Não mais inteiramente lúcida, ela afugentava o terror e o pânico para dentro de um hermético armário interior.

       Após três meses, foi estuprada por dois soldados broncos, que a agarraram quando fora lá fora, durante uma folga. Um deles atingiu-a em um lado da cabeça, jogou-a ao chão e atirou-se sobre ela. O outro ficou ajoelhado sobre seus braços. A princípio, Nora pensou que a tinham julgado uma vietcongue, mas quase imediatamente percebeu que haviam concluído ser ela realmente o que era: uma mulher viva. O estupro foi uma lufa-lufa de safanões, pancadas e fedorentas manoplas sobre sua boca; sua respiração saía a custo dos pulmões, enquanto os animais grunhiam e cavucavam em suas partes íntimas. E pelo tempo que durou aquilo, Nora foi empurrada através do fim do mundo. Isto era inteiramente literal. A coluna do mundo a trespassou de baixo para cima, e agora tinha sido esmagada até o fim da coluna, juntamente com o resto da merda. Demônios tagarelavam nas trevas.

       O segundo bronco rolou para um lado, o primeiro libertou-lhe os braços, e ambos fugiram. Ela ouviu as suas pisadas e compreendeu que agora estava do outro lado, com os demônios tagarelas; então, juntou aqueles demônios em suas mãos psíquicas e os jogou para dentro de um recipiente, grande o suficiente apenas para contê-los.

       Somente horas mais tarde ela contou a Harwich o que acontecera; quando baixou os olhos para o sangue que lhe encharcava as roupas, pensou que fosse seu, e desmaiou. Um taciturno Harwich aceitou sua recusa em dar parte do incidente, mas durante uma folga seguiu-a até fora da sala de operações, quando então passou para as mãos dela a pistola de um oficial morto. Esta arma Nora a manteve consigo até sua última manhã no Vietnã, ocasião em que a deixou dentro da latrina das enfermeiras. Mesmo depois que Dan Harwich foi embora do Vietnã, prometendo escrever (ele escreveu) e afirmando que teriam um futuro juntos (eles não o tiveram), ela usou sua conscientização da arma sob seu travesseiro para afugentar pesadelos do incidente, até quase pensar que o tinha esquecido. E durante anos após sair do Vietnã, foi como se de fato houvesse esquecido tudo a respeito — até alcançar uma espécie de felicidade provisória e estática em Westerholm, Connecticut. Em Westerholm, os pesadelos costumeiros e terríveis com soldados mortos e agonizantes começaram a ser suplantados por outros piores — aqueles que lhe davam a sensação de ser empurrada através do buraco no fim do mundo.

       Bem mais tarde, Nora às vezes via aquele exaltado período antes da guerra abater-se sobre ela, e pensava: A felicidade vem quando a gente está olhando para outra direção; ela é um subproduto, sem qualquer importância em si mesma.

      

DURANTE TODAS AS NOITES daquela semana Nora e Davey ficaram ocupados com os Blackbird Books, às voltas com números e tentando elaborar uma apresentação que convencesse Alden. Davey permaneceu carrancudo e remoto, mas parecia grato pela ajuda da esposa. Para ver como eram os Blackbird Books, ela leu A Sepultura à Espera, de Marletta Teatime, e Elo de Sangue, da autoria de Clyde Morning. Davey sondou agentes; ele e Nora fizeram listas de escritores que poderiam assinar contratos com uma revitalizada série de Blackbird Books. Descobriram que o maior atrativo da Blackbird era a sua conexão com a Casa Chancel, mas que esta fizera por aqueles livros ainda menos do que Davey imaginava.

       Em 1977, seu primeiro ano, a coleção Blackbird publicara doze brochuras, originais de escritores até então desconhecidos. Por volta de 1979, metade dos dez escritores iniciais partira em busca de mais publicidade, adiantamentos maiores e melhor editoração. Naquela época, quem manejava a série era um editor-assistente chamado Merle Marvell. A secretária de Marvell, também dando assistência a dois outros editores-assistentes, copidescava o texto dos romances Blackbird a quinze dólares por livro. (Alden não desperdiçava dinheiro com um copidesque profissional.) A coleção Blackbird recusava-se teimosamente a pôr ovos de ouro e, pelas alturas de 1981, todos os seus escritores originais já tinham ido embora, deixando para trás somente Teatime e Morning, os mesmos que haviam escrito seus primeiros livros. Não mais funcionando como editor-assistente, Merle Marvell comprou um primeiro romance que ganhou um prêmio importante, e outro que figurou na lista dos mais vendidos, depois do que ele ficou sem tempo para a Blackbird. A partir de então, os dois esteios da Blackbird enviavam seus manuscritos e recebiam seu dinheiro. Nenhum deles possuía agente. Em vez de endereços, tinham caixas postais — Teatime em Norwalk, Connecticut, e Morning no centro de Manhattan. Seus números de telefone jamais haviam sido divulgados. Os dois nunca exigiam adiantamentos mais polpudos, almoços ou publicidade. Clyde Morning tinha ganho o Prêmio Britânico de Ficção em 1938 e, em 1985, Marletta Teatime fora indicada para um Prêmio Mundial de Ficção. Eles continuaram produzindo um livro por ano até 1989, quando cada um parou de escrever.

       — A Casa Chancel esteve publicando estas pessoas durante mais de dez anos, e vocês nem ao menos sabem seus números de telefone?

       — A parte esquisita não é essa — disse Davey. Os dois devoravam uma pizza de salsichas e cogumelos, entregue por um gnomo de capacete espacial que, a uma inspeção mais próxima, transformara-se em uma garota de dezesseis anos, usando um capacete de motociclista. Formando pilhas de papéis, impressos e folhas arrancadas de blocos de anotações, eles haviam feito espaço na mesa para uma garrafa de Cabernet Sauvignon, Reserva Particular de Robert Mondavi, e dois copos. — A parte esquisita é o que encontrei hoje em uma estante na sala de conferências.

       Como o velho Davey, ele ergueu as sobrancelhas e sorriu, provocando-a. Nora o achou com uma aparência maravilhosa. Gostava da maneira como ele comia pizza, de garfo e faca. Pegando uma fatia, ela a mordeu, puxando compridas tiras de mozzarella, mas Davey cuidava de uma pizza como se fosse filé mignon.

       — Muito bem — disse ela —, o que foi que achou na tal estante?

       — Lembra-se de eu lhe ter dito que cada novo manuscrito era registrado em uma espécie de livro-razão? Agora, tudo é posto em computador. O que quer que seja entregue para apreciação é arquivado lá, ao lado do título — rejeitado e devolvido, ou aceito, com a data. Eu me perguntava se poderíamos ter rejeitado livros de Morning ou Teatime, de maneira que recuei até 89, o primeiro ano em que usamos computadores, e lá estava Clyde Morning. Ele enviara um livro para exame em junho de 89, intitulado Espectro, e o manuscrito nunca deixou a casa. Não foi rejeitado, mas tampouco aceito. Ele nem ao menos tinha um editor, de maneira que, em realidade, ninguém era responsável pelo manuscrito.

       — O que foi feito dele?

       — Boa pergunta. Desci até o departamento de produção. Claro que ninguém se lembraria mais. Em sua maioria, os textos em que eles trabalham são guardados por um ou dois anos após a publicação — não sei por que motivo, e então devolvidos ao editor, que os envia para o autor. Olhei para todos eles, porém não encontrei Espectro. Um assistente de produção por fim recordou que às vezes costumavam guardar coisas nas estantes da sala de conferências. É algo como o arquivo de cartas não reclamadas.

       Davey estava sorrindo enquanto falava.

       — Então, você foi à sala de conferências — ele assentia com a cabeça e sorria, ainda mais diabolicamente — e... e encontrou o livro?

       — Direitinho lá! E não somente isso...

       Nora fitou-o com surpresa.

       — Você o leu?

       — De qualquer modo, foi um exame apenas superficial. É algo um tanto piegas, mas creio que seja publicável. Preciso saber se continua disponível, mas suponho que terei de descobrir se Morning ainda está vivo — mas poderia significar um ponto de partida em nossa nova linha.

       Nora gostou do nossa.

       — Neste caso, estamos quase prontos.

       — Quero ir lá na segunda-feira. — Davey não precisou ser mais específico. — Nas tardes de segunda-feira, ele ainda está em excelente estado de ânimo. — Agora era o anoitecer de sexta-feira. — Recebi um telefonema de um agente esta manhã, sondando-me sobre dois escritores que, tenho certeza, podemos conseguir sem quebrar a banca.

       — Seu demônio! — exclamou Nora. — Esteve guardando isso desde que chegou em casa!

       — Fiquei apenas aguardando o momento oportuno. — Ele terminou seu último pedaço de pizza. — Você quer burilar a apresentação um pouco mais ou existe outra coisa que possamos fazer?

       — Algum tipo de comemoração?

       — Se você estiver com vontade — disse Davey.

       — Decididamente, a vontade está chegando — respondeu ela.

       — Muito bem então — disse ele, fitando-a com certa vacilação.

       — Vamos, garotão! — insistiu Nora. — Cuidaremos dos pratos mais tarde!

      

Vinte minutos mais tarde, Davey jazia com as mãos entrelaçadas sobre o estômago, fitando o teto.

       — Meu bem — disse ela. — Eu não falei que doía, apenas que era desconfortável. Sinto-me seca, mas tenho certeza de ser algo apenas temporário. Marquei uma consulta com meu médico na semana que vem, a fim de falarmos sobre reposição hormonal. Encare o fato por este prisma — provavelmente não teremos mais de preocupar-nos quanto a eu ficar grávida.

       — Eu tenho camisinhas. Você tem a sua... coisa. É claro que não precisamos preocupar-nos com isso.

       — Estou com quarenta e nove anos, Davey. Meu corpo está mudando. Tem que haver este período de ajustamento.

       — Período de ajustamento.

       — Exatamente. Apenas isso. Meu médico disse que tudo estará ótimo, desde que eu me alimente corretamente e faça exercícios. Talvez tenha que começar a tomar estrogênio. Acontece o mesmo com toda mulher, e agora chegou a minha vez.

       Davey virou-se para ela.

       — Você esteve seca na última vez?

       — Não. — Ela tentou evitar um suspiro. — Não estive.

       — Então, por que não ficou lubrificada desta vez?

       — Porque este foi o momento em que aconteceu.

       — Oh, mas você não é uma mulher velha. — Ele rolou o corpo e quase enterrou o rosto no travesseiro. — Já sei o que estava errado. Fiquei excitado demais ou coisa assim, e você perdeu o desejo.

       — Estou começando a passar pela menopausa, Davey. É claro que não perdi o desejo. Eu o amo. Sempre tivemos uma vida sexual maravilhosa.

       — Não se pode ter uma vida sexual maravilhosa com alguém que acorda gemendo pela manhã e resmunga quase toda noite.

       — Isso não tem...

       Não seria um comentário proveitoso. Como tampouco seria proveitoso comentar que não podia ter sexo com um homem que não se aproximava da cama dela ou que de lá saía para preocupar-se com o trabalho, com Hugo Driver ou com qualquer outra coisa com que Davey se preocupasse a horas tardias da noite.

       — Bem, de qualquer modo, muitas noites — disse ele, aceitando o não expresso comentário dela. — Talvez você esteja precisando de tratamento ou coisa assim. É nova demais para a menopausa. Quando chegou a vez de minha mãe, ela já estava com bastantes cabelos brancos, tinha passado dos cinqüenta e seu temperamento se tornara insuportável. Ela ficou impossível, como que irascível, durante um ano inteiro.

       — As pessoas reagem de maneiras diferentes. Não há motivo para receios.

       — Mulheres na menopausa param de menstruar. E você teve seu período não faz muito tempo.

       — Tive uma menstruação que durou mais de duas semanas. Depois levei cerca de seis sem ter nada.

       — Não preciso ouvir todos os detalhes sangrentos.

       — Certo, os detalhes sangrentos são meu departamento. Entretanto, tudo vai dar certo. Isto é temporário.

       — Oh, Deus, espero que sim!

       O que Davey esperava que fosse temporário? A menopausa? O envelhecimento? Nora moveu-se sobre o lençol e pôs um braço sobre o ombro dele. Davey virou o rosto para o outro lado. Ela o beijou na nuca e escorregou o braço por baixo dele. Como Davey não tentasse rejeitá-la ou empurrá-la, puxou-o para perto de seu corpo. Ele resistiu apenas por um ou dois segundos, antes de virar-se para ela e passar-lhe os braços em torno do corpo. O rosto dele estava molhado contra o dela.

       — Oh, querido...

       Ela recuou com a cabeça, a fim de ver as lágrimas brotando dos olhos dele. Davey enxugou o rosto, depois a abraçou com força, segurando-a bem perto do corpo.

       — Isso não é bom.

       — Logo se sentirá melhor — disse ela.

       — Eu não sei o que fazer.

       — Experimente falar a respeito — disse Nora, engolindo as palavras para variar, que quase chegara a pronunciar.

       — Acho que preciso mesmo falar.

       — Ótimo.

       Ele agora tinha uma aparência ressentida, quase furtiva.

       — Você sabe como tenho andado preocupado ultimamente, não? É por causa daquilo que aconteceu, uns dez anos antes de conhecê-la. — Ele olhou para o teto e Nora, com familiar desespero, preparou-se para uma história que tinha tanto a ver com Hugo Driver, como com o passado real de Davey. — Eu estava vivendo momentos difíceis, porque Amy Randolph finalmente havia rompido comigo.

       Nora já ouvira tudo sobre Amy Randolph, uma linda e destrutiva poetisa-fotógrafa-roteirista-pintora que Davey conhecera na universidade. Ele perdera a virgindade com ela, que perdera a sua com o pai. (A menos que isso fosse outra colorida mentira.) Depois de diplomados, os dois tinham viajado pela África do Norte. Amy flertava com cada homem atraente que encontrasse e tinha acessos tirânicos quando eles correspondiam. Por fim, os dois foram deportados da Argélia e partilharam um apartamento no Village. Amy entrava e saía de hospitais, duas vezes por tentativa de suicídio. Ela fotografava cadáveres e viciados em drogas. Não se interessava por sexo. Davey comentara com Nora certa vez que, sendo Amy tão inteligente, ele não tivera coragem de deixá-la, temendo sentir falta de sua conversa. Por fim, ela o privara dessa conversa, ao ir morar com uma mulher mais velha, uma emigrada romena que editava uma publicação intelectual. Davey nunca explicara para Nora como se sentira ao perder Amy e tampouco lhe contara o que tinha feito, no período entre o rompimento e a época em que se tinham conhecido.

       — Bem — disse Nora — seja lá o que for, não poderia ter sido muito mais estranho do que a vida com Amy.

       — Isso é o que você pensa — replicou Davey.

      

— ACONTECEU CERCA de um mês depois da partida de Amy. Compreenda, acho que eu vivia uma espécie de felicidade com ela. Certas pessoas agiam como se pensassem que deveria incomodar-me com o que ela fazia, sei lá por quê. Afinal, Amy nunca ligara para sexo, de modo que era mais como querer saber com quem ela não tinha sexo do que com quem tinha — e isso é ridículo. Seja como for, mais ou menos um mês depois eu repintei meu apartamento e pendurei novos pôsteres nas paredes. Em seguida, adquiri uma excelente aparelhagem de som estereofônico e um bom punhado de discos novos. Onde quer que encontrasse algo que me fizesse recordá-la, eu jogava fora. Por duas vezes, quando Amy telefonou, desliguei no ato. Porque estava tudo terminado, certo?

       — Você ficou bastante aborrecido — comentou Nora.

       Davey meneou a cabeça.

       — Não me lembro de ter ficado aborrecido. Apenas não achava que houvesse algum motivo para falar com ela.

       — Está bem.

       Nora chegou até a beirada da cama e recolheu o sutiã e a blusa caídos no chão. Jogou o sutiã dentro da arca de roupas e vestiu a blusa.

       — Eu não estava zangado com Amy — disse ele. — Todos viviam me dizendo que eu devia estar, mas acontece que não estava. Não se pode ficar zangado com pessoas malucas.

       Nora cedeu e assentiu.

       — De qualquer modo, eu me sentia em um estado de espírito curioso. Depois de refeito todo o meu apartamento, tornei a ler Hugo Driver — todos os três livros — ao chegar em casa do trabalho. Foi quando reli Jornada na Noite. Eu me senti como Pippin.

       Em outras palavras, pensou Nora, ele se sentira como se Amy o tivesse matado.

       — Eu não suportava ficar sozinho no apartamento, mas o caso é que mal tinha amigos, porque Amy, entenda, tornava isso difícil. Tampouco queria ficar com meus pais porque eles a odiavam, e adoravam repetir para mim o quanto eu tivera sorte. Consegui atravessar esse estranho período. Por vezes ficava a noite inteira vendo televisão. E ouvia a mesma música, vezes sem conta, durante todo o fim de semana.

       — Acho que você se passou para as drogas — disse Nora.

       — Bem, foi isso mesmo. Amy sempre odiara drogas, mas agora que eu estava livre... sabe como é, não? Um sujeito chamado Bang Bang, vendia a coisa na sala de correspondência, sem que papai soubesse. Assim, certo dia vi o tal sujeito saindo da sala de correspondência, durante uma folga, olhei para ele, ele olhou para mim, e eu o segui até fora da sala. Consegui um pouco de coca e um pouco de maconha. Fui levando a vida assim, durante mais ou menos um ano. No trabalho eu me mantinha com toda correção, mas quando voltava a meu apartamento, poxa, preparava um copo com gim de Bombaim on the rocks, duas grandes e gordas cheiradas, enrolava um baseado e tinha uma festinha particular até a hora de ir para a cama. Ou de não ir. Eu estava com trinta, trinta e um anos, não precisava de muito sono. Bastava uma ducha, barbear-me, pingar um colírio nos olhos, dar duas cheiradas, mudar roupas limpas e sair para o trabalho.

       — E um dia conheceu a escoteira — disse Nora.

       — Tem certeza de que quer ouvir sobre isso?

       — Por que não diz apenas, “Nora, certa vez, quando eu andava às voltas com drogas, arranjei essa namorada porcalhona e ficamos doidões juntos”?

       — Porque a coisa não é tão simples assim. Você precisa compreender onde eu me encontrava mentalmente, a fim de entender o que aconteceu. Caso contrário, não faria sentido algum.

       Ocorreu a Nora que qualquer coisa dita por ele, estritamente factual ou não, seria instrutiva. Talvez Davey tivesse sido um marginal de fim de semana!

       — Isto não é apenas sobre uma garota, certo?

       — Em realidade, é sobre Natalie Weil. — Ele empurrou o corpo até ficar sentado e puxou os lençóis sobre o umbigo. — Ouça, Nora, eu não lhe contei a verdade no outro dia. Este é o verdadeiro motivo de eu ter querido ir à casa de Natalie.

       Ela encostou os joelhos dobrados sob o queixo, inclinou-se para frente e esperou.

      

— CERTA MANHÃ eu estava em um cubículo no banheiro dos homens e me sentia um lixo, porque ficara acordado a noite inteira. Cheirei um pouco de coca e meu nariz começou a sangrar. Tive que ficar sentado na privada, a cabeça virada para cima, segurando papel sanitário contra o nariz. Por fim o sangramento cessou, e decidi tentar viver aquele dia.

       “Saí do cubículo. Um sujeitinho encaminhava-se para as pias. Agarrei algumas toalhas, enxuguei as mãos e vi o cara ajeitar o cabelo. Olhei para o rosto dele no espelho, e quase tive um ataque do coração.”

       — O sujeitinho era uma garota.

       — Como é que você sabe?

       — Porque você quase teve um ataque do coração.

       — Ela estava no departamento de arte. Tinha cabelos curtos e usava roupas masculinas. Era tudo o que eu sabia. Ignorava até seu sobrenome. O primeiro nome era Paddi.

       Davey olhou para Nora, como se este detalhe fosse de enorme significado.

       — Patty?

       — Paddi. Com dois “ds” e um “i”. Tudo bem, meu nariz começou a sangrar novamente. Peguei outra toalha de papel e a mantive comprimida contra as narinas. Paddi estava colocando dois montes de coca em cima da pia, diante dela. “Experimente isto”, falou. Estávamos bem ali, no meio do banheiro dos homens! Inclinei o corpo, cheirei a coisa diretamente da pia e — bingo! — logo me senti cem por cento melhor. “Viu só?” ela disse. “Sempre use um produto bom.”

       “— De que planeta é você?” — perguntei.

       “— Ela sorriu para mim e disse: ‘Nasci em um vilarejo, ao pé de uma grande montanha. Meu pai é ferreiro.’

       “Eu quase desmaiei. Ela estava citando Jornada na Noite. Então respondi: ‘Eu vagueio por longe e às vezes me perco. Meu objetivo é maior do que eu próprio — salvar crianças das trevas.’

       “E ela cantarolou: ‘Eu dominei meu próprio medo.’

       “Sorrimos um para o outro por um segundo e indiquei-lhe que saísse do banheiro masculino, antes que alguém entrasse. Ela me esperava no corredor. ‘Eu sou Paddi Mann’, disse. ‘E você é Davey Chancel, dos Chancels da famosa Casa Chancel. Quer me pagar um drinque esta noite?

       “Em geral, mulheres autoritárias me intimidam e não se espera que saiamos com mulheres do escritório, mas ela havia citado Hugo Driver! Disse-lhe que me encontrasse às seis e meia no Hannigan’s, um bar a dois quarteirões de distância. Paddi respondeu que não, que devíamos ir ao Clube Fogo do Inferno, mais abaixo na Segunda Avenida. Era um excelente lugar e podíamos encontrar-nos às sete e meia, a fim de que ela pudesse cuidar de certas coisas que devia fazer. Ótimo, respondi, e ela chegou bem à minha frente, empinou a cabeça e sussurrou: ‘A salvação dele jaz dentro de si mesmo.’

       Nora já ouvira tais palavras antes, mas não conseguia recordar onde e nem quando.

       — Se quer saber, pensei que poderia aprender coisas com ela. Era como se Paddi possuísse segredos, os quais eu precisava saber.

       — Sem dúvida — disse Nora. — Você precisava saber o segredo de como arranjar coca melhor do que a de Bang Bang.

       Naquele dia Davey tinha ido para casa, vestido um jeans, uma suéter preta e um paletó de couro também preto, antes de palmilhar a Segunda Avenida. O Clube Fogo do Inferno ficava entre a Oitava e a Nona, no East Side. Ele chegou à esquina da Nona e Segunda somente um ou dois minutos depois das sete e meia. Desceu pelo lado leste da avenida, passou por um restaurante de refeições rápidas, um restaurante mexicano, e avistou um bar mais abaixo, naquele quarteirão. Caminhou mais depressa e passou por uma vitrine que deixava ver alguns homens acotovelados sobre um comprido e escuro balcão de bar, pousou a mão na porta e, logo abaixo da mão, viu o nome MORLEY’S.

       Ele conseguira enganar-se quanto ao clube. Tornou a subir a avenida pelo lado leste, checando os nomes dos prédios, mas nada encontrou.

       A poucos metros dali havia um grupo de três telefones. O primeiro tinha um fio cortado, em vez de um fone, o segundo não dava sinal de discar, e o terceiro não permitiu a entrada da moeda de Davey era sua fenda.

       Aborrecido, ele afastou-se dos telefones e caminhou até a esquina, a fim de esperar a mudança de luz do sinal. Relanceando os olhos pelo quarteirão, desta vez percebeu uma estreita escada de pedra com corrimão de ferro forjado, entre o bar Morley’s e uma loja de artigos de iluminação. Os degraus levavam a uma porta de madeira escura, parecendo elegante demais para aqueles arredores. Bem no centro do painel superior da porta havia uma placa de latão, pouco maior do que uma ficha de arquivo.

       A luz do sinal mudou, mas, ao invés de cruzar a rua, Davey caminhou até o pé da escada e ergueu os olhos para um prédio de arenito com cinco pavimentos, encravado entre dois edifícios de apartamentos. A cada lado da porta havia duas janelas encortinadas. Os dizeres da placa não eram totalmente legíveis do fim da escada. Ele subiu dois degraus e viu que a placa dizia CLUBE FOGO DO INFERNO, tendo mais abaixo o aviso, SOMENTE MEMBROS. Davey subiu a escada e abriu a porta. Do outro lado de um diminuto vestíbulo havia outra porta, negra e lustrosa. Três ordens haviam sido pintadas sobre uma placa de madeira branca, fixada logo abaixo do nível dos olhos:

       NÃO QUESTIONE.

       NÃO JULGUE.

       NÃO HESITE.

       Davey empurrou a porta negra. Diante dele havia um corredor com um tapete floral, que continuava por um lance de escada. A sua esquerda, uma mulher idosa permanecia atrás do balcão de um vestiário, ao lado da abertura para um salão de bar fracamente iluminado. Além do bar, uma ampla poltrona de couro situava-se junto ao vaso de uma ambiciosa samambaia. Um porteiro de cabelos brancos, sentado a uma polida mesa negra, virou-se para ele com um diplomático meio sorriso. A fim de eliminar os preliminares, Davey espiou para a sala do bar e viu apenas homens de aparência próspera, de ternos e sentados ao redor de mesas ou em pé, formando grupos de três ou quatro. Notou a presença de mulheres na sala, porém nenhuma delas era Paddi. Pouco antes do homem sentado à mesa dirigir-se a ele, Davey viu — ou julgou ver — um homem nu coberto de elaboradas tatuagens dos pulsos ao pescoço, ao lado de uma mulher também nua. Ela estava de costas, havia raspado a cabeça e empoado ou colorido inteiramente o corpo com algo muito branco e de maneira uniforme.

       — Em que posso ajudá-lo, senhor?

       Sobressaltado, Davey olhou para o porteiro. Pigarreou.

       — Obrigado. Vim aqui para encontrar uma mulher chamada Paddi Mann.

       Davey tornou a olhar para o bar e teve a impressão de que as outras pessoas na sala tinham modificado suas posições, a fim de esconderem o surrealista casal.

       — Senhor.

       Davey olhou novamente para o porteiro.

       — Aquela era a srta. Mann?

       Quando Davey respondeu que era, o porteiro lhe disse para sentar-se, por favor, e o viu encaminhar-se para a poltrona de couro, que fornecia uma vista sem nada mais provocante do que as amplas portas de mogno e uma fileira de gravuras de caça, na parede à frente. O porteiro abriu uma gaveta, retirou dela um microfone de fita com pelo menos cinqüenta anos de idade, e disse:

       — Visita para a srta. Mann!

       As palavras reverberaram do salão do bar, dos aposentos do andar de cima e de trás das portas de mogno. Uma destas portas se abriu, e uma Paddi Mann, parecendo menos vulgar e mais sofisticada do que a funcionária do escritório, caminhou sorridente para o corredor. O terno escuro que tinha vestido parecia mais caro do que a maioria dos ternos do próprio Davey. Seus cabelos brilhantes caíam suavemente sobre a testa e as orelhas.

       Ela perguntou por que ele estava trajado daquele modo.

       Davey respondeu que imaginara ir encontrá-la em algum bar.

       Bares eram aborrecidos. Por que ele pensava que ela o tinha convidado para o seu clube?

       Davey disse que não tinha compreendido. Se ela quisesse, poderia voltar em casa e vestir um terno.

       Paddi lhe disse que não se preocupasse, e sugeriu que trocassem de paletós.

       Davey tirou seu paletó de couro e o estendeu. Paddi despiu o paletó de seu terno e introduziu-se no dele com tamanha facilidade, que ele mal teve tempo de reparar que ela usava suspensórios.

       — Sua vez — disse Paddi.

       Ele receava romper a costura dos ombros, mas o paletó acomodou-se em suas costas e ombros com apenas uma sugestão de estreiteza.

       — Você tem sorte por eu gostar de paletós grandes.

       Paddi abriu a porta de mogno que dava para um saguão, no qual grupos de poltronas e sofás estavam arrumados diante de uma janela. Davey viu as costas de várias cabeças masculinas, um braço branco gesticulando, jornais e revistas dispostos sobre uma comprida estante de madeira. Um garçom de gravata-borboleta preta, terno da mesma cor e com a cabeça raspada, segurava uma bandeja vazia e um bloco para pedidos.

       Paddi conduziu-o para duas poltronas de biblioteca, diante de uma parede forrada de livros, à direita do aposento. Entre as poltronas via-se uma mesa redonda, sobre a qual encontrava-se um envelope do tamanho de uma pasta, com o logotipo da Casa Chancel. O garçom materializou-se ao lado de Paddi. Ela pediu o de sempre, e Davey um martíni duplo com gelo.

       Ele perguntou qual era o de sempre, e Paddi respondeu:

       — Um Alto-e-Baixo: metade vinho do Porto e metade gim.

       Em seguida, acrescentou que era um drinque de leigos. Enquanto ponderava esta categoria, Davey percebeu que o dono do braço nu, visto por ele de relance quando se achava no corredor, era um homem de meia-idade, sentado em uma poltrona de couro, perto do centro do aposento. Os braços da poltrona escondiam de vista a parte mediana do corpo dele, porém não havia roupas na flácida parte superior e nada cobrindo as grossas pernas brancas, cruzadas no tornozelo, diante do assento. Uma correia de couro circundava-lhe o pescoço. Da frente da correia, pendia uma corrente, uma corrente de verdade, disse Davey para Nora, como a que a gente usaria em um cão, se este pesasse cem quilos e gostasse de morder criancinhas. Essa corrente ficava pendida entre ele e o indivíduo barbado de terno completo, o qual segurava a outra extremidade. O homem usando a corrente girou a cabeça para endereçar a Davey um desafiante olhar de “você se incomoda?” Davey desviou os olhos e viu que, embora a maioria das pessoas presentes estivesse trajada de maneira convencional, um homem lendo um jornal usava calças pretas de couro, botas de motociclista e uma túnica aberta de couro preto, que revelava um intrincado padrão de cicatrizes sobre seu tórax.

       Ele se perguntou por que Paddi objetara quanto à sua vestimenta, quando pelo menos uma pessoa no clube não usava qualquer espécie de roupa.

       — Aqui — disse ela — as pessoas usam o que for correto para elas. Para você, o correto é um terno.

       — Algumas delas devem enfrentar um bocado de problemas, quando saem do clube — comentou Davey.

       — Algumas delas jamais saem do clube — replicou ela.

       — Esta coisa é real? — perguntou Nora. — Ou você está inventando tudo?

       — É tão real como o que aconteceu a Natalie — disse Davey.

      

Paddi trabalhava na Casa Chancel, porque esta havia publicado Jornada na Noite. Seu emprego permitia-lhe uma conexão única com o livro que amava acima de qualquer outro. E já que mencionava o assunto, ela tirou do grande envelope da Casa Chancel uma folha rija e lustrosa, que Davey identificou como o lado interno de uma sobre-capa de livro.

       — Uma idéia minha — disse Paddi.

       Ela virou a folha, mostrando um desenho que Davey demorou um pouco para entender; quando entendeu, perguntou-se como é que a idéia nunca lhe tinha ocorrido. Paddi havia desenhado a sobrecapa para uma erudita edição comentada de Jornada na Noite. (O desenho dela baseava-se na famosa edição do romance “especial para os pracinhas”, durante a guerra.) Cada um dos cem mil fanáticos por Driver na América faria questão de adquirir a obra. Os eruditos poderiam, através dela, acompanhar a progressão do livro no decorrer de sucessivas variações e discutir o significado das modificações no texto. Era uma grande idéia.

       — Entretanto, havia um problema — disse Davey a Nora. — A fim de fazer-se aquilo direito, havia necessidade do manuscrito.

       — E qual era o problema com isso? — perguntou ela.

O problema, disse Paddi, era que o manuscrito parecia ter desaparecido. Hugo Driver falecera em 1950, sua esposa em 1952, e o filho único do casal, um aposentado professor de inglês em escola secundária, havia dito em uma entrevista por ocasião do vigésimo aniversário de publicação do livro que jamais vira quaisquer manuscritos das obras de seu pai. E que, se soubesse, elas nunca teriam voltado da Casa Chancel.

       Davey disse que tentaria descobrir o que acontecera ao manuscrito. Lincoln Chancel provavelmente o depositara na caixa-forte de um banco, em algum lugar. Claro que não podia estar perdido. Nada de tamanha importância poderia ter sumido sem deixar vestígios — afinal de contas, tratava-se do manuscrito do primeiro livro da Casa Chancel!

       — Isso seria desastroso, em vista dos rumores — disse Paddi.

       — Que rumores?

       — De que, na realidade, não foi Hugo Driver quem escreveu o livro — respondeu ela.

       De onde surgira tal boato? Ela sabia que o autor era Driver, não sabia? Coisas assim aconteciam sempre que alguém importante surgia no cenário — e logo um bando de velhacos tentava desmerecer tal pessoa. Davey insistiu neste ponto até perder o fôlego, quando então inspirou profundamente e declarou que, afinal, tudo aquilo fazia sentido; Jornada na Noite era um livro tão brilhante, que os velhacos não conseguiam suportá-lo. Coisas assim aconteciam o tempo todo. Em algum lugar, alguém estava dizendo que Zelda Fitzgerald era a verdadeira autora de Suave É a Noite.

       — Zelda foi a verdadeira autora de Suave É a Noite — disse Paddi. — Desculpe. Foi apenas uma brincadeira.

       Davey perguntou se ela acreditava naquele disparate.

       — Não, de maneira nenhuma — respondeu Paddi. — Concordo com você. Hugo Driver devia estar em selos. Acho mesmo que seu retrato devia estar em notas de dinheiro. Um de meus motivos para gostar deste clube é porque parece um lugar tão Hugo Driveriano, não acha?

       Davey achava que parecia.

       Ele gostaria de ver algo mais do clube?

       — Eu já me perguntava quando chegaríamos a esta parte — disse Nora.

 

NO PATAMAR acima da escada em curva, Paddi não o guiou pelo escuro corredor, e sim fazendo-o subir outro lance de degraus. Uma versão ainda mais estreita da escada continuava para o alto, mas agora ela o levou por um corredor idêntico àquele de baixo. Davey sentia-se como se a estivesse seguindo através de uma floresta, no meio da noite.

       De repente Paddi desapareceu, e Davey percebeu que ela havia deslizado através de uma porta aberta. A persiana tinha sido descida, de maneira que o aposento estava mais escuro do que o corredor. Após se despirem, Paddi o conduziu para um colchonete. Davey estirou-se em cima dela, seu corpo tão quente como um tijolo aquecido no forno, e o dela tão frio como uma pedra retirada de um rio. Abraçou-a com força, e as mãos frias dela correram por suas costas, para cima e para baixo. Quando o orgasmo dele sobreveio, Davey gritou de prazer. Os dois ficaram quietos por algum tempo; depois de conversarem e deixarem estabelecido que nenhum deles estava vendo outra pessoa, Davey pegou no sono.

       Acordou uma hora mais tarde, faminto, estonteado, incerto sobre o lugar em que se encontrava. Recordou que estava deitado sobre um piso, no East Village. De repente, ficou vergonhosamente convicto de que Paddi roubara seu dinheiro. Sentou-se, e sua mão tocou um ombro de mulher nova. Baixando os olhos, compôs a forma da cabeça dela no travesseiro. Travesseiro? Não se lembrava de nenhum travesseiro. Um lençol cobria os dois.

       — Precisamos comer alguma coisa — disse ele.

       — Eu cuidarei disso. Não há algo mais que gostasse de fazer primeiro?

       Davey espichou-se ao seu lado e tornou a sentir-se tão quente como uma estufa bojuda, ao passo que ela continuava tão fria como uma substância acabada de ser extraída de um rio. Ele entregou-se à sensação.

       Inconcebivelmente mais tarde, eles permaneceram lado a lado, fitando o alto. Davey havia esquecido onde estava. Um zumbido leve e agudo soou em seus ouvidos. A mulher junto dele parecia absolutamente bela. Paddi rolou sobre o corpo, pegou um instrumento semelhante a um telefone antiquado e fez um pedido de ostras e caviar, além de outras coisas que ele não captou, mas que davam a impressão de ser bastante vinho.

       Pouco mais tarde duas jovens entravam no aposento levando bandejas redondas, das quais distribuíram vários pratos cobertos em torno do colchonete. Duas garrafas abertas e quatro copos surgiram ao lado do ombro esquerdo de Davey. As mulheres sorriram para Paddi, que estava esparramada sobre o lençol, porém não olharam para Davey. Depois que colocaram no lugar o último prato, as duas levantaram-se e viraram-se para a porta, de onde uma delas perguntou:

       — Devo?

       — Sim — respondeu Paddi.

       Então, uma luz mortiça e rósea espalhou-se pelo aposento, e as duas mulheres recuaram para a porta, sorridentes.

       Ovos de tarambola, bolinhos de massa, fumegantes cogumelos fritos, enguias, minúsculos arenques fritos, suculentos segmentos de pato da espessura de um dedo, pedaços iguais de porco assado, coisinhas fumegantes, como pizzas cobertas de manjericão fresco e brilhantes tiras de tomates, em picantes objetos transparentes e crocantes de tom castanho-escuro que podiam ser bolinhos de carne, com gosto de puro malte escocês, uvas e laranjinhas híbridas, um excelente borgonha branco e um bordeaux tinto ainda melhor. Pouco tirando para si mesma, Paddi foi colocando prato após prato diante dele. Davey provou de tudo e, juntos, eles esvaziaram metade de cada garrafa. Ela o distraiu com histórias do departamento de arte e mexericos sobre pessoas que trabalhavam na Casa Chancel. Citou Hugo Driver, e pareceu intrigada com a amizade entre o escritor e Lincoln Chancel. Davey sabia onde aquela improvável dupla se tinha conhecido?

       — Claro que sei; foi em Shorelands — disse Davey. — A propriedade em Massachusetts. Os dois foram designados para o mesmo chalé.

       Ele refletiu se a dona da propriedade, Georgina Weatherall, sabendo que seu avô estava prestes a iniciar uma firma editora, não colocara os dois juntos naquele chalé, esperando que Lincoln Chancel ajudasse Driver de algum modo. E tinha sido exatamente isso o que acontecera. Driver devia ter mostrado o manuscrito de Jornada na Noite a Chancel, e este o usara para fazer a fortuna do escritor e aumentar a sua própria.

      

— Foi assim mesmo que eles se conheceram? — perguntou Nora a Davey. — Em uma espécie de colônia literária?

       — Shorelands era uma propriedade particular, cuja anfitriã gostava de pensar que estimulava obras de gênios, mas, sim, aquilo lá era mais ou menos uma colônia literária. E se Georgina Weatherall tinha ou não algo em mente, colocou Driver no mesmo chalé que meu avô, e as coisas encaixaram-se no lugar. Nenhum deles havia estado antes em Shorelands, de maneira que devem ter passado muito tempo juntos, como fazem os novos alunos de uma escola.

       Um homem de negócios milionário e um escritor sem vintém? Nora não acreditava que Lincoln Chancel, um ávido comprador de firmas e companhias, pudesse sentir-se como um novo aluno de uma escola.

       — Quem mais estava em Shorelands na mesma época? Aposto como, a partir de então, todos quereriam ser designados para o mesmo chalé de seu avô. Ele chegou a voltar lá?

       — Céus, não! — exclamou Davey. — Você nunca viu aquela foto?

      

Davey começou a rir.

       — Qual é a graça?

       — Acabei de recordar uma coisa. Há uma foto de quando meu avô esteve em Shorelands; uma foto de todos aqueles sujeitos, sentados na grama. Georgina Weatherall também está no retrato, assim como Hugo Driver e todas as pessoas que estiveram lá naquele verão. Pode-se ver meu avô espremido em uma raquítica poltrona de jardim, dando a impressão de estar prestes a estrangular alguém.

       Davey ficou com Paddi pelo resto daquela noite, bebericando uma variedade de drinques trazidos por mulheres que às vezes ele via, em outras nem percebia, ouvindo ocasionalmente música que vinha dos pavimentos inferiores e, de vez em quando, captando um soluço ou gargalhadas de aposentos espalhados pelo prédio.

       E então — pareceu-lhe que imediatamente — viu-se trancando a porta de seu apartamento, após ter tomado uma ducha, feito a barba e mudado de roupa, sem qualquer lembrança de haver voltado para casa ou executado essas tarefas. Sentia-se repousado, sóbrio, de mente arejada. Entretanto, como chegara em casa?

       

ELE CRUZOU as portas principais do Edifício Chancel com dois compromissos em mente, um ainda a ser cumprido, o outro já decidido. Em algum momento deste dia, antes de ir embora do escritório, precisava ver seu pai, falar-lhe sobre os manuscritos de Hugo Driver e o preparo de uma edição definitiva do romance. O outro compromisso era que, nesta noite, ia voltar ao Clube Fogo do Inferno. Davey estava preparado para os dois encontros. Seu pai acolheria com satisfação uma idéia que fatalmente daria mais prestígio à firma e, ao reunir-se a Paddi, levaria para ela as boas novas fornecidas por seu pai. Se Alden Chancel cuidara do manuscrito de Jornada na Noite, Davey pretendia cuidar do renascimento do livro.

       Suas tarefas rotineiras tomaram-lhe a manhã até as onze horas, quando ele teve que comparecer a uma reunião. Encerrada, ele subiu dois andares até o gabinete do pai, onde a secretária lhe disse que Alden saíra para almoçar e não voltaria antes das três e meia da tarde.

       Às três e vinte e cinco, Davey tornou a procurar seu pai.

       A princípio impaciente, aos poucos Alden foi ficando interessado no projeto que Davey descrevia. Sim, seria possível publicar uma edição em brochura, destinada ao emprego em salas de aula. Sim, pensaremos em usar a capa da edição especial para os pracinhas, podemos ter um bom lucro com isso. E quanto ao manuscrito, não havia sido devolvido a Driver?

       Davey respondeu que uma assistente que trabalhava no departamento de arte, a pessoa que o procurara com a idéia, já lhe havia dito que, segundo o filho de Driver, o manuscrito continuava em poder da Casa Chancel. Quando ele disse o nome da assistente, seu pai falou:

       — Paddi Mann, que interessante... A reunião de onde acabo de vir tratou de uma idéia dela, isto é, de usar-se duas sobrecapas diferentes sobre a nova brochura de Jornada na Noite. Uma inteligente garota, essa Paddi Mann. No tocante ao manuscrito, se o único Driver remanescente ignorava seu paradeiro, talvez esteja perdido.

       Durante as duas horas seguintes, Davey procurou entre os manuscritos embrulhados que enchiam as estantes da sala de conferências, vasculhou os armários de vassouras e os cubículos sem janelas onde mourejavam os editores de textos. Interrompeu-se apenas quando reparou que faltavam vinte minutos para seu encontro com Paddi.

      

Um zumbido surdo de conversas vinha do bar, e Davey relanceou os olhos pela abertura arqueada, de maneira tão automática quanto ao ter lido as advertências sobre a porta interna. Por um momento julgou avistar Dick Dart, porém o homem desapareceu atrás dos muitos ali reunidos. Dick Dart? Estaria ele no Clube Fogo do Inferno? Seria Leland?

       A voz do porteiro o forçou a desviar os olhos do bar.

       — Posso ajudar em alguma coisa, senhor?

       Davey acomodou-se na poltrona ao lado da samambaia, o porteiro abriu a gaveta, retirou dela o pesado microfone, posicionou-o com lenta exatidão e proferiu sua frase. Paddi surgiu através da porta de mogno. Ela mostrava sua “aparência Clube do Fogo do Inferno”, embora parecesse estar com a mesma roupa que usara para trabalhar. Eles pediram os mesmos drinques, ao mesmo garçom. Davey descreveu suas buscas, e Paddi replicou que era importante, essencial, encontrar o manuscrito. Não haveria um registro, em algum lugar, de tudo que entrava e saía da firma?

       — Sim — disse Davey —, mas esse registro só começou a ser feito uns dois meses após inaugurada a casa. Antes disso, as coisas eram menos formais.

       — Pensaremos em algo — respondeu Paddi. — Procure lembrar-se: onde esqueceu de procurar?

       — No porão há uma área reservada para depósito — disse Davey. — Não creio que alguém saiba o que existe lá embaixo. Meu avô nunca jogava nada fora.

       — Tudo bem. O que gostaria de fazer esta noite?

       — Há alguns filmes novos em cartaz; que tal um cinema?

       — Podemos também ir lá para cima. Você gostaria?

       — Sim — respondeu ele. — Claro que gostaria.

      

DEPOIS QUE SE VESTIRAM e deixaram o quarto, de braços passados pela cintura um do outro, Davey sentiu que sua vida sofrera uma mudança fundamental. Seus dias e noites haviam sido invertidos; seu eu da luz do dia, aquele que executava tarefas enfadonhas na Casa Chancel, não passava do sonho do mais aventuroso eu-noturno, que desabrochava sob as ministrações de Paddi Mann.

       Os dois soltaram-se quando chegaram à escada, estreita demais para permitir que descessem emparelhados. Paddi seguiu diante dele, que lhe colocou as mãos nos ombros. A manga de Davey subiu acima do pulso, deixando a descoberto o relógio quadrado de ouro. Passavam alguns minutos das seis. Ele se perguntou o que fariam quando chegassem à rua — era difícil acreditar que lá fora existisse um outro mundo.

       Davey a seguiu até o final da escada, passou pela secretária vazia do porteiro e saiu para um mundo demasiado brilhante. Ruídos se chocavam e misturavam-se no ar. Táxis de tons ardentes disparavam ao longo da Segunda Avenida. Um adolescente embriagado, de jeans e uma camisa de uns três números maior do que ele, encostava-se indolentemente em um parquímetro. Venenosas emanações de suor, cerveja e fumaça de cigarro escaldavam-se através de sua pele e flutuaram nas narinas de Davey.

       — Davey...

       — Sim?

       — Continue procurando aquele manuscrito. Talvez esteja na casa de Westerholm.

       Um ônibus enorme freou estrepitosamente junto ao meio-fio, deslocando milhares de metros cúbicos de ar e pulverizando uma camada de detritos. Davey tapou os ouvidos com as mãos, Paddi acenou para ele e deslizou para o interior do ônibus.

      

Alden achava que dera uma espiada no gabinete desocupado e o vira folheando um maço de manuscritos esquecidos — alguns tão velhos que estavam enegrecidos — porque quando Davey olhou por sobre o ombro, viu o pai em pé atrás dele. Onde, diabos, ele estivera nas duas últimas noites? Sua mãe estava tentando trazê-lo a Connecticut durante o fim de semana, porém o filho nunca atendia o telefone. O que acontecera? Teria ele encontrado uma nova namorada ou estava se tornando um assíduo freqüentador de bar?

       Davey respondeu que andara se sentindo anti-social. Nunca lhe ocorrera que os telefonemas podiam ser de seus pais. Afinal de contas, via o pai diariamente.

       Ele estava sendo esperado em “Os Álamos” para o fim de semana, a partir da noite de sexta-feira. Alden deu meia-volta e saiu do pequeno gabinete, que tinha a aridez de todos os espaços vazios a serem ocupados por pessoas diligentes e produtivas.

       O troféu de Paddi não apareceu entre o papelório do gabinete vago. Davey tomou o elevador para o porão.

       Às duas e vinte e cinco emergiu do recinto reservado ao depósito com mãos negras e manchas de poeira no terno e no rosto. Encontrara caixas de cartas de escritores falecidos para editores falecidos, fotos de grupos de homens desconhecidos em antiquados paletós-jaquetão e bigodes à Adolphe Menjou, um cachimbo de espuma-do-mar, uma coqueteleira de prata com partes enegrecidas, juntamente com um misturador também de prata, porém nada de troféu.

       Duas horas antes de ir ao encontro de Paddi, no endereço que ela escrevera em uma tira de papel, agora no bolso de seu paletó, ele voltou ao porão e novamente atacou as caixas. Desencavou uma caixa de papelão cheia de referências a Artie Shaw, no ano de setenta e oito, e um chapéu de caçador que um dia provavelmente fizera par com o cachimbo de espuma-do-mar. Em uma confusão de antigos catálogos, ele se deparou com exemplares dos dois primeiros romances de sua mãe, os quais deixou a um lado. Um envelope de tecido, amarrado com uma fita, guardava uma cópia da fotografia que tinha descrito para Paddi, e também esta ele colocou de lado. O precioso manuscrito de Jornada na Noite não quis revelar-se. As palavras finais de Paddi soaram em sua cabeça, e Davey prometeu a si mesmo dar uma boa busca nos armários e sótão de “Os Álamos”, antes de voltar para a cidade no domingo.

      

EMBORA MUDO, havia um elemento de desastre que permeava todos os fins de semana passados por Davey na casa dos pais. Daisy aparecia para jantar tão embriagada que não conseguia sentar-se ereta, ou um grau menor de bebedeira podia provocar um acesso de choro, antes que a sopa terminasse. Acusações, algumas tão veladas que Davey não entendia bem quem estava sendo acusado de quê, podiam voar através da mesa. Até mesmo os fins de semana normais, sem ocorrências singulares, eram tisnados pelo ar de opressão, de coisas misteriosas, mas essenciais, que não eram verbalizadas. Este fim de semana, entretanto, foi uma calamidade absoluta.

       Jeffrey, o sobrinho da empregada italiana, passara recentemente a fazer parte dos serviçais de “Os Álamos”. A essa altura, a presença dele parecia uma afetação desnecessária por parte de Alden. Antes de chegar a Westerholm, no anoitecer da sexta-feira, Davey esperava encontrar uma versão masculina e mais jovem de Maria, alguém jovial e sorridente, com o físico corpulento de um tenor, que se apressaria em tirar-lhe das mãos sua mochila do fim de semana. Entretanto, assim que Davey e Alden cruzaram a entrada, Jeffrey revelou-se como um homem alto e de meia-idade, enfiado em um terno cinzento de perfeito caimento, que não demonstrava a menor pressa em incumbir-se de mochilas ou fazer algo mais além do que acenar para eles e continuar a cruzar os fundos do saguão, presumivelmente a caminho da cozinha. Sua fisionomia parecia sugerir uma variedade de pensamentos e julgamentos reprimidos, e seus olhos permaneciam velados. Davey imaginou que ele talvez fosse algum editor estrangeiro, atraído por seu pai para a própria teia. Então, Alden apresentou-os, e os dois trocaram um olhar que Davey julgou ser de mútua suspeita.

       O jantar da sexta-feira não tinha sido incomum. Alden dominara a conversa, Daisy concordara com tudo que o marido dizia, e Davey mantivera-se em silêncio. Quando mencionou a nova edição do livro de Driver, seu pai mudou de assunto. Terminado o jantar, Alden disse que ele devia descansar um pouco porque, para ser franco, não mostrava uma aparência muito boa. Às dez da noite, apesar do café, Davey estava adormecido em sua antiga cama.

       Para sua surpresa, só acordou às onze horas da manhã de sábado. Quando deixou seu quarto já eram onze e meia. As batidas irregulares das teclas de uma máquina de escrever e o cheiro de fumaça de cigarro, juntamente com o leve sussurro de um rádio ligado, infiltravam-se pela porta do estúdio de sua mãe. Por um momento, ele pensou em voltar para pegar os livros encontrados no porão da Casa Chancel e que trouxera consigo, mas resolveu surpreender sua mãe com eles no brunch do domingo, conforme planejara originalmente.

       Maria serviu café quente em uma caneca e torradas douradas em uma bandeja de prata. Depois perguntou se ele gostaria de uma pequena omelete. Davey respondeu que torradas e geléia estariam ótimas. Então indagou se ela sabia onde estava o sr. Chancel. O sr. Chancel saíra para compras. Percebendo que Maria se dispunha a ir embora, ele a interrogou sobre Jeffrey.

       Jeffrey era filho de sua cunhada. Sim, ele gostava muito de trabalhar para os Chancels. E antes disso? Bem, antes de empregar-se ali, ele fazia muitas coisas. Aluno de universidade. Soldado. Sim, oficial no Vietnã.

       Que universidade?

       Maria esforçou-se para recordar. Harterford? Haverford? Davey lembrou, estupefato, querendo ajudá-la. Era em Massachusetts, disse Maria, pronunciando mal o nome. Uma terrível possibilidade ocorreu a Davey. Harvard? Talvez, era possível, concedeu Maria. Ela desatou o avental e o deixou sozinho, ainda em dúvida.

       Com pelo menos uma hora vaga pela frente antes que qualquer de seus pais surgisse em cena, Davey vasculhou o porão, sem qualquer sorte. Quando tornou a subir para o térreo, encontrou seu pai ocupado em esvaziar mantimentos de várias espécies — inclusive uísque e vodca — de sacolas ostentando os nomes dos estabelecimentos Waldbaum’s e Good Grape Harvest.

       — Jeffrey não faz esse tipo de coisa? — perguntou.

       — Jeffrey está de folga no fim de semana — anunciou seu pai. — Como você. O que fazia lá embaixo, que ficou tão sujo?

       — Tentava encontrar alguns livros antigos — respondeu Davey.

       Durante o almoço, Alden abandonou o monólogo costumeiro, para interrogar o filho sobre Frank Neary e Frank Tidball, que há muito tempo criavam problemas de palavras cruzadas para ele. Durante décadas, Neary e Tidball haviam sido colaboradores da companhia através do antecessor de Davey, um amistoso e velho alcoólatra chamado Charlie Westerberg. Logo depois de Charlie ter cambaleado alegremente para a aposentadoria, Neary e Tidball contrataram um agente, daí resultando que agora recebiam um pagamento ligeiramente melhor por seus quebra-cabeças. A maioria desse aumento desaparecia na comissão do agente, mas Alden jamais cessara de acusar Davey pela insurreição. Durante meia hora, ele foi forçado a defender os dois velhos criadores de enigmas contra as implicações de seu pai, que os achava já fora de forma e, portanto, devendo ser substituídos. As reais, porém não admitidas objeções de Alden jaziam na descoberta, feita logo após a partida de Westerberg, de que os dois homens partilhavam um endereço em Rhinebeck. Substituir Neary e Tidball seria mais difícil do que entendia seu pai. Havia apenas alguns poucos jovens criadores de problemas de palavras cruzadas, cuja maioria adotara inovações indesejáveis para os clientes da Casa Chancel, pois estes não sentiam saudades de pistas sobre letras dos Moody Blues ou sobre os filmes de Cheech e Chong.

       Durante essa discussão, Daisy brincou com sua comida, sorrindo em intervalos ao acaso, a fim de demonstrar que estava prestando atenção. Logo que Maria retirou os pratos, ela escusou-se com uma voz de garotinha, tornando a subir para o andar de cima. Alden fez a Davey algumas perguntas sobre Leonard Gimmel e Teddy Brunhoven — ele sempre estava interessado nos assassinos —, depois levantou-se da mesa para ver um jogo de beisebol na televisão. Quinze minutos mais tarde estaria cochilando em sua confortável poltrona. Davey agradeceu a Maria pelo almoço e subiu a escada para o sótão.

      

O sótão de “Os Álamos” era dividido em três áreas desiguais. A menor destas compreendia os aposentos da empregada antiga, uma série de três cômodos em torno de um banheiro comum e uma estreita escada na extremidade norte da casa. Tais deploráveis cômodos haviam permanecido vazios desde muito tempo, no início do reinado de Helen Day. (Os pais de Davey tinham providenciado a construção de dois grandes apartamentos acima da garagem, um para a Copeira, o outro para quaisquer hóspedes em excesso, e estes apartamentos eram agora ocupados por Maria e seu sobrinho.) A segunda porção central do sótão teria aproximadamente as dimensões de um salão de baile de hotel, havia sido assoalhada e ganhara acabamentos, mas, fora isso, nada mais. Era ali que os presentes de Lincoln Chancel para o primeiro David Chancel tinham sido preservados para o segundo e, por tal motivo, essa porção central do sótão sempre infundira em Davey uma opressiva e misteriosa sensação de fraudulência. A terceira seção, alcançada por uma porta do sótão central, também ganhara assoalho, mas nenhum acabamento.

       Contendo metaforicamente o fôlego contra a psíquica atmosfera da porção central do sótão, Davey caminhou por entre o amontoado de cadeiras velhas, abajures quebrados, caixas empilhadas e sofás em frangalhos, para certificar-se de que os aposentos da antiga empregada continuavam tão vazios como antes.

       Os três pequenos aposentos nada mais continham além de teias de aranha, paredes brancas onde desabrochavam focos de mofo e pisos cobertos de poeira acinzentada. Então, ele fez outra rápida passagem pelo centro do sótão, a fim de inspecionar a seção inacabada. Finalmente não podia mais adiar sua entrada na área principal, entulhada de mobiliário vitoriano.

       A antiga opressão o invadiu sob várias formas, enquanto levantava almofadas acolchoadas e inclinava o corpo para ver até o fundo de guarda-roupas. Davey estava ressentido. Por que devia gastar seu tempo assim? Quem era Paddi, afinal, para fazê-lo vasculhar a casa de seus pais, como um ladrão?

       Seus pensamentos tinham chegado a este ponto infeliz, quando ouviu pisadas na escada que levava aos aposentos da empregada. Ficou gelado. Sua mente esvaziou-se, como se ele fosse um assaltante prestes a ser descoberto. Na ponta dos pés, correu cautelosamente para o interruptor da luz, desligou-o e agachou-se atrás de um biombo chinês, em pesada armação de madeira.

       As pisadas nos degraus chegaram aos aposentos da empregada alguns segundos depois de Davey esconder-se. Em seguida soaram no piso de madeira. Espiando pelo lado do biombo, Davey avistou uma linha luminosa surgir por baixo da porta separando os aposentos da empregada do restante do sótão. Recuou. As passadas avançaram para a porta. Ele dobrou a parte superior do corpo sobre os joelhos e cobriu a cabeça com as mãos. A porta foi aberta e um facho de luz correu para ele. Em seguida, todo o aposento ficou inundado de luz.

       Uma voz que ele não conhecia perguntou:

       — Quem está aí?

       Os passos vieram em sua direção. Davey viu-se de pé, os punhos erguidos contra a sombra que girava para encontrá-lo. A sombra grunhiu de choque e surpresa, em seguida o atacou. O golpe empurrou a mão direita de Davey sobre a quina de seu nariz. Sangue esguichou sobre suas roupas, e uma vivida e clara onda de dor fez o mundo escurecer. O lado de sua cabeça se chocou contra a moldura do biombo.

       Uma mão agarrou seus cabelos, puxando-lhe a cabeça brusca e dolorosamente para cima.

       — Diabo, o que estava fazendo que precisou esconder-se?

       O rosto de Jeffrey, crispado de estupefação, abaixou-se para encará-lo.

       — Pensei que você fosse outra pessoa — disse Davey.

       — Você me atacou — replicou Jeffrey. — Saltou como uma...

       — Fera — disse Davey. — Sinto muito.

       — Eu também.

       Davey firmou-se no poste de um abajur de pé e dobrou a cabeça para trás. Um sangue lerdo escorreu-lhe garganta abaixo.

       — Acho que fiquei assustado — disse. — Como soube que havia alguém aqui em cima? Pensei que tivesse folga nos fins de semana.

       — Vi quando as luzes foram acesas, através de minhas janelas.

       Davey remexeu no bolso em busca do lenço e limpou o rosto com ele, antes de comprimi-lo contra o nariz.

       — Diga-me uma coisa, Jeffrey.

       — Pois não.

       — Você esteve em Harvard?

       — Sim, estive, e espero que ninguém descubra — respondeu Jeffrey.

       Davey engoliu em seco. Todo o seu rosto doía.

       Passou a meia hora seguinte limpando manchas de sangue do piso do sótão, depois foi para seu banheiro, lavou o rosto, as mãos e pegou no sono espichado sobre as cobertas, com um pano molhado sobre as partes esfoladas do rosto. Acordou a tempo de tomar uma ducha e vestir roupas limpas para o jantar. Seu nariz estava inchado e em sua têmpora direita crescera um galo purpúreo. Quando explicou, durante o jantar, que machucara o rosto na porta do quarto, seu pai disse:

       — Curioso, quando a gente tem filhos pequenos, ninguém nos diz quantas mentiras teremos de ouvir durante os trinta ou quarenta anos seguintes.

       — Oh, Alden... — murmurou Daisy.

       — Se ele feriu o rosto na porta de seu quarto, então andou treinando gingado.

       — Alguém o golpeou na cabeça, meu bem? — perguntou sua mãe.

       — Já que pergunta, sim. Eu e Jeffrey tivemos um pequeno desentendimento.

       Alden deu uma risada, depois disse:

       — Se Jeffrey chegar a golpear sua cabeça, você ficará uma semana no hospital.

      

Ao meio-dia e meia do dia seguinte, Davey levou para a sala de refeições os exemplares resgatados dos dois romances de sua mãe e os colocou sob a cadeira em que se sentaria. Seu pai ergueu uma sobrancelha, mas Daisy pareceu nada haver percebido. Sem que lhe pedissem, Maria levou Bloody Marys para eles três.

       Após os Bloody Marys, foi a vez de uma garrafa de Barolo e uma sopa em que fiapos de ovos, fragmentos de salsa, molho de tomate e massa circulavam em meio a caldo de galinha. A sopa seguiu-se um ravióli feito em casa, com cogumelos e queijo Gorgonzola. Depois tiveram tenras e pequeninas porções de filé, com croquetes de batata. Maria anunciou que, em homenagem ao sr. Davey, havia preparado um zabaglione, o qual seria servido em poucos minutos. Teriam eles aquelas estupendas refeições todos os fins de semana? Comeriam desta maneira todas as noites? Não era de admirar que Daisy parecesse mais rechonchuda do que nunca, embora Alden continuasse absolutamente imutável. Davey disse não se lembrar mais de que a italiana era tão boa cozinheira.

       — Vin ordinaire, meu rapaz — disse Alden.

       — Nem tanto...

       Não desejando contar ao pai que estivera vasculhando o porão da Casa Chancel, Davey alegou ter encontrado dois livros no Strand, em um dia da semana anterior, e esperava que Daisy ficasse satisfeita ao tornar a vê-los. Levantando-se, ele pegou a humilde sacola que deixara debaixo de sua cadeira.

       Daisy agarrou a sacola, retirou dela os livros, sorriu para as contracapas, e os abriu. Seus olhos recuaram para o interior de uma faixa vermelha que lhe surgiu nas faces como uma máscara. Ela depositou os livros na beirada da mesa e desviou o rosto. Ainda imaginando que a mãe tivesse gostado de seu presente, Davey disse:

       — Estão em muito bom estado...

       Daisy respirou fundo e deixou escapar um som que logo se revelou como um gemido. Empurrando a cadeira para trás, ela fugiu da sala, no momento em que a empregada italiana entrava com taças de zabaglione em uma bandeja de prata. Confuso, Davey examinou o interior do primeiro dos dois livros e viu, escrito em uma caligrafia mais confiante e decisiva do que a de sua mãe: Para Alden, o querido de meu coração, de sua fascinada Daisy.

      

ÀS OITO DA NOITE da quinta-feira anterior, com um achatado embrulho preso sob o braço esquerdo, Davey tinha permanecido hesitante à frente de um restaurante chamado “Semente do Dragão”, na Rua Elizabeth, enquanto olhava várias vezes da porta do estabelecimento para uma tira de papel que tinha na mão. Uma fileira de coriáceos patos cor de melaço pendia da janela do restaurante. Os algarismos negros ao lado do cardápio pregado à porta coincidiam com o número 67, que Paddi anotara no pedaço de papel.

       Um odor delicioso de pato assado e macarrão frito penetrou em suas narinas quando ele abriu a porta. Davey entrou, ficou parado um momento na extremidade do balcão para examinar o recinto, depois foi até a única mesa que estava vazia, e lá sentou-se.

       Todos os homens que estavam ali o ignoraram. Davey passou os olhos em torno, à procura de uma porta levando a uma escada, e viu duas nas extremidades da parede dos fundos. Uma delas estava marcada SALAS DE REPOUSO, a outra dizia PARTICULAR. Ele ficou em pé.

       Dois garçons em trajes negros e camisas brancas viram-no cruzar a sala. Um terceiro depositou um prato de macarrão à frente de quatro homens apáticos envergando ternos, e começou a cortar caminho em direção a ele, por entre as mesas.

       Davey tentou despachá-lo com um gesto, dizendo:

       — Sei que ali diz Particular, mas está tudo bem.

       — Não tudo bem — disse o garçom.

       Davey pousou a mão na maçaneta, e a mão do garçom caiu sobre a sua, antes que pudesse abrir a porta.

       — Você sentar.

       O garçom empurrou-o novamente para sua mesa e o fez sentar-se. Davey colocou seu embrulho no colo, considerando uma corrida até a porta. Olhou em torno e viu que ninguém no restaurante olhava para ele.

       O garçom voltou por entre as mesas, trazendo uma bandeja com um bule de chá e uma xícara do tamanho de um dedal. Colocou tudo diante de Davey e fez meia-volta, com isto deixando à vista um homenzinho às suas costas, que usava um casaco fechado por zíper. O homenzinho girou uma cadeira e sentou-se nela como que em uma sela, depois exibindo um sorriso horrível para Davey.

       — Você ser curioso — disse.

       — Eu fui convidado.

       Davey tirou do bolso o papel em que Paddi escrevera seu endereço e o mostrou ao homem. Este examinou o papel com olhos apertados. Em seguida, encarou Davey, para depois olhar novamente o papel. Sem nenhuma transição, começou a rir.

       — Vem — disse, levantando-se.

       Levou-o até a entrada, saiu para a rua e fez sinal para que Davey o seguisse. Davey saiu também. O homem deu um passo à esquerda e apontou para a porta do “Semente do Dragão”. Tornou a apontar e, desta vez, Davey pôde vê-la.

       Recuada para o interior do prédio entre a porta do “Semente do Dragão” e uma loja apinhada de souvenirs de Chinatown, em um ângulo que a escondia de quem não soubesse de sua existência ali, havia uma porta de madeira compensada, com o número 67 pintado em spray negro.

       Sorrindo, o homem espetou o indicador no peito de Davey.

       — Eles entrar lá, mas eles não sair.

       Davey ajeitou o embrulho debaixo do cotovelo e bateu na porta pintada de spray. Uma voz distante disse-lhe para entrar.

      

Davey encontrou-se ao pé da escada de uma casa de quartos de aluguel.

       — Tranque a porta quando entrar — disse a voz, do alto.

       Ele subiu a escada e, por outra porta, passou para um vasto e obscurecido recinto, criado pela derrubada da maioria das paredes dos quartos. Algumas luzes mortiças iluminavam toscos murais, e ele levou um momento para descobrir que eram ilustrações de passagens do livro Jornada na Noite. Cortinas grossas e escuras cobriam as janelas. Na distância, um sofá de encosto alto e duas poltronas estavam dispostos em frente a uma lareira com ornada estrutura de madeira e uma platibanda afixada a uma parede, mas sem qualquer espaço para acender um fogo. Compridas estantes de livros ocupavam toda a parede da frente do prédio. Divisórias grosseiras destacavam dois aposentos, um dos quais se abriu quando Davey aprofundou-se mais na penumbra. Inteiramente à vontade, Paddi Mann emergiu através da porta, nua.

       — Que lugar é este?

       — Eu moro aqui — disse ela.

       Na verdade, não estava nua, mas usando uma justa malha cor de carne. Sorrindo para ele, Paddi caminhou até o sofá, pegou uma camisa social masculina em cima de uma almofada, enfiou-se nela e abotoou todos os botões, de maneira que a peça a cobria como um curto vestidinho branco.

       — O que você tem debaixo do braço?

       — Foi um tanto problemático encontrar você.

       As pernas de Davey finalmente ganharam vida, permitindo que ele caminhasse para Paddi em meio à escuridão.

       — Parece que também foi problemático você encontrar o manuscrito. A menos que isso aí seja ele.

       — Não é.

       Paddi modificou a posição, puxando as pernas para cima do sofá e depois enfiando-as debaixo do corpo. Deu três leves tapinhas no assento.

       Davey percebeu que estava parado exatamente em frente dela, e sentou-se como lhe foi ordenado. Os pés de Paddi insinuaram-se contra sua coxa, como que à procura de calor.

       — Tome — disse ela, virando-se de lado para pegar em uma bandeja e colocar na mão dele um copo cheio de nevoento líquido vermelho.

       — O que é isso?

       — Um Alto-e-Baixo. É bom para você.

       Davey deixou os olhos vagarem pelos espaços escuros e entulhados da moradia de Paddi. Arcos e aberturas davam para câmaras invisíveis, das quais chegavam vozes ininteligíveis.

       — Vai me mostrar o que há nesse embrulho?

       — Oh! — exclamou Davey, já esquecido do que trouxera.

       Entregou o embrulho a Paddi e, em segundos, ela desatou os cordéis que o fechavam. Em outro segundo, o papel do envoltório jazia em seu colo como uma moldura em torno de outra, e ela contemplava a comprida fotografia, com a boca ligeiramente aberta.

       — Shorelands, julho de 1938.

       — E aqui está o seu avô...

       Com verrugas e espinhas brotando do nariz e faces, papadas transbordando sobre o colarinho, sobrancelhas quase unidas em uma feroz crispação acima de olhos chamejantes, mãos enclavinhadas nos braços de sua poltrona, raiva distendendo botões, costuras e casas de seu terno feito à mão, Lincoln Chancel parecia ter feito breakfasts em ferrovias e minas de carvão.

       Davey olhou para o fenômeno com a mescla de surpresa, respeito e terror que o avô invariavelmente despertava nele. Durante os cinqüenta anos de sua vida adulta, ele abrira fragorosamente seu caminho para o sul, de Bridgeport, Connecticut, até Nova York e Washington D.C., depois para o norte, até Boston e Providence, engolindo vidas humanas. Antes que um fulminante ataque cardíaco o derrubasse em um refeitório particular no Ritz-Carlton Hotel, acusações e processos haviam zumbido em torno da cabeça do grande homem. Após sua morte, desmoronara quase toda a estrutura intrincadamente piramidal que Lincoln tinha construído. Permaneceram apenas um efêmero hotel em Rhode Island, uma manufatura de lã enfrentando dificuldades em Lowell, Massachusetts — ambas logo tendo ido à falência — e sua última bagatela, a Casa Chancel.

       — Ele parece tão infeliz...

       — É o único olhando para a câmera — disse Davey, pela primeira vez tendo percebido o detalhe. — Vê? Todos os demais estão olhando para outra pessoa no grupo.

       — Exceto ela.

       Paddi tamborilou delicadamente no vidro a altura do rosto de uma jovem miúda e de intensa beleza, em uma folgada camisa branca, com gravata de nó a meio caminho do pescoço e calças compridas. Sentada no chão, ao lado de Lincoln Chancel, ela contemplava a grama, imersa em pensamentos.

       — Sim — disse Davey. — Eu gostaria de saber o seu nome.

       — E quais são os nomes que você sabe dos outros?

       — Além de Driver e de meu avô, somente o dela. — Ele indicou uma mulher alta, com queixo de buldogue e um nariz carnudo, que se sentava empertigada em uma poltrona de vime e olhava para Lincoln Chancel. — Georgina Weatherall. Ela e Hugo Driver, os dois, estão olhando para meu avô.

       — Provavelmente perguntando-se o que poderão conseguir dele — disse Paddy.

       — Quê?

       — Houve dois livros sobre Shorelands — explicou Paddi. — Georgina queria ser o centro das atenções. Todos riam dela pelas costas.

       — Georgina talvez não estivesse muito satisfeita sobre essa moça.

       Agora, Davey indicava um cavalheiro comprido e barbado, em tweeds frouxos, de olhos baixos e fixos na jovem, os lábios estirados tão apertadamente, que pareciam um único traço.

       — Não é um sorriso muito amistoso — comentou Davey. — Quem seria esse indivíduo?

       — Austryn Fain — disse Paddi. — Em 1938 ele acabara de publicar um romance intitulado A Sebe Contorcida. Presumia-se que fosse maravilhoso e tudo o mais; porém, pelo que sei, as pessoas logo o esqueceram. Ele suicidou-se em 1939. Janeiro. Cortou os pulsos na banheira.

       — Georgina não poderia ajudá-lo?

       — Ela o largou de mão subitamente. Ei, Davey, olhe para este homem. Chamava-se Merrick Favor. Foi assassinado uns seis meses depois de batida esta fotografia.

       Paddi apontava para o rosto largo e atraente de um homem em um blazer azul desabotoado e calças brancas, situado imediatamente atrás de Georgina. Como Austryn Fain, ele sorria para a jovem sentada na relva.

       — Assassinado?

       — Merrick Favor era considerado um astro em ascensão. Seu primeiro romance, Arbustos Ardentes, mereceu críticas excelentes, ao ser publicado por Scribner’s em 1937, e parecia que ele trabalhava em algo ainda melhor. Certo dia, sua namorada procurou-o, após levar dois dias tentando telefonar-lhe. Após tocar a campainha várias vezes, estranhou sua demora em abrir a porta. Então subiu em uma janela, deu uma espiada em torno e quase desmaiou.

       — Ela encontrou o corpo dele?

       — A casa estava inteiramente revirada e havia manchas de sangue por toda parte. Favor tinha sido esfaqueado até morrer. O corpo estava na banheira. Nunca descobriram quem o matou. O livro em que ele trabalhava fora rasgado em pedacinhos.

       — Shorelands não deu muita sorte a essas pessoas — disse Davey. — O que aconteceu a este sujeito aqui?

       Ele apontava para um rapaz de cabelos compridos, óculos de aros de chifre, com uma frouxa gravata-borboleta, paletó de veludo, olhos suaves, nariz pequeno e uma boca espirituosa. Parecia concentrar todos os seus pensamentos no atraente Merrick Favor.

       — Oh, Creeley Monk. Mais uma triste história. Seu segundo livro chamava-se O Campo Desconhecido, e o único motivo para alguém lembrar-se dele é que muitos alunos do terceiro grau o usaram para decorar o poema-título.

       — Oh! — exclamou Davey. — Tivemos de recitar isso na Academia. O campo desconhecido, o campo desconhecido que julguei conhecer / Na minha infância, meus caminhos agora me levam a você.

       — Creeley Monk também suicidou-se. Meteu uma bala na cabeça. Mais ou menos na época em que Merrick Favor foi morto.

       Davey encarou-a fixamente.

       — Este sujeito estourou os miolos alguns meses depois de deixar Shorelands?

       Paddi assentiu. Davey continuava a encará-la.

       — Dois hóspedes de Shorelands naquele verão... suicidaram-se?

       — Foi ainda melhor do que isso. Três deles acabaram com a vida. Este homem aqui, o que parece um pedreiro, fez a mesma coisa. O dedo de Paddi tamborilou sobre o peito de um homem atarracado e amplo, em uma encaroçada suéter azul de gola alta, que tentava sorrir para a câmera e Lincoln Chancel ao mesmo tempo.

       — Seu nome era Bill Tidy, e publicou um livro chamado Nossas Frigideiras. Eram memórias de sua infância no South End de Boston. Ele deve ter sido o único hóspede realmente da classe trabalhadora que Georgina chegou a ter em Shorelands. Nossas Frigideiras é um belo livro, mas logo deixou de ser publicado, só tornando a ser impresso em fins dos anos sessenta. Não tenho muita certeza, mas parece que Tidy teve muitos problemas para trabalhar em um novo livro, após sua volta para Boston. Seja como for, terminou saltando de sua janela no quinto andar. Em janeiro de 1939.

       — Quando...

       — Bem entre o assassinato de Merrick Favor e o suicídio de Monk, que aconteceram com alguns dias de intervalo, e dois dias antes de Fain matar-se. Ê como uma maldição ou coisa parecida, não?

       — Céus, é como se tivessem pago pelo sucesso de Hugo Driver.

       — Você devia escrever um livro sobre tudo isso — disse Paddi.

       — Pensei que você já tivesse lido um livro sobre tudo isso.

       — Li um punhado de livros sobre Shorelands, porque estou interessada em Hugo Driver. Enfim, esta informação está disseminada pela casa toda. Em realidade, dificilmente alguém se preocupa com o que acontecia em Shorelands depois do início dos anos trinta. Tudo já havia terminado quando a guerra começou. Georgina passara a beber descontroladamente, tomava láudano, e suas histórias começaram a feder como peixe. Ela dizia aos outros que Marcel Proust costumava empestear a Honey House com seus pós para asma, o que é uma boa história, só que Proust nunca deixou a França. Georgina finalmente bateu em retirada para seu quarto de dormir e morreu por volta de 1950. A casa foi-se deteriorando, até ser comprada por um grupo de conservadores.

       — O que aconteceu à garota sentada no chão, perto de meu avô?

       — Presume-se que tenha desaparecido durante sua permanência, mas nem isso está realmente claro.

       As pessoas na fotografia que ele tinha no colo — seu avô e o grande escritor, Austryn Fain, Merrick Favor, Creeley Monk, Georgina Weatherall, Bill Tidy e a introspectiva jovem — pareciam tão familiares, tão conhecidas quanto seus antigos colegas da Academia. Davey era capaz de entendê-las com tal nitidez, que não compreendia por que, até agora, deixara de ver a coisa mais clara na foto. Tudo quanto tinha de fato visto antes era a cômica fúria de seu avô. O mais claro naquele retrato, contudo, era o motivo do desconforto geral.

       Como se a foto fosse provida de trilha sonora e flashback, ela só faltava gritar que Lincoln Chancel mantivera um ousado flerte com a atraente moça a seus pés, a qual, rápida e ofensivamente, o tinha rejeitado. Enquanto ela parecia absorta e Chancel entrava em erupção, todos os demais na fotografia tomavam partido.

       — Sabe de uma coisa? — exclamou Davey. — Eu ignoro tudo a seu respeito. Não sei onde você nasceu, quem são seus pais, em que faculdade estudou, se tem irmãos, coisas assim. É como se você houvesse brotado de uma nuvem. Onde é que morava, antes de entrar para nossa firma?

       — Em muitos lugares.

       — Onde foi que nasceu?

       — Você quer mesmo saber, não? Tudo bem. Nasci em Amherst, Massachusetts. Meus pais chamam-se Charles Roland e Sabina. Minha mãe leciona alemão em um ginásio de Amherst, e meu pai foi professor de inglês na Faculdade de Amherst. Eu estudei na Escola de Arte de Rhode Island. Ao sair de lá, fui à Europa e viajei de um lado para outro, mas morei principalmente em Londres, pintando e fazendo cursos de arte. Dois anos mais tarde, voltei e morei em Los Angeles. Fiz alguns trabalhos de arte para duas pequenas publicações e li tudo que pude sobre Hugo Driver. Foi onde fiquei sabendo sobre Shorelands. Após algum tempo, vim para Nova York, a fim de obter um emprego na Chancel. Eu apenas entrei lá, mostrei meu trabalho a Rod Clampett e ele me contratou.

       — Eu devia ter imaginado a parte da Escola de Arte de Rhode Island — disse Davey, sabendo que Rod Clampett, o diretor de arte da Chancel, estudara nessa escola e gostava de contratar seus diplomados.

       — Você não acha que todo este negócio de Shorelands é como uma trama gigantesca, que não se consegue deslindar inteiramente?

       Davey começou a rir.

       — Bem, se você está atrás de alguma trama sinistra, seu homem é Lincoln Chancel. Ele foi um tremendo vigarista, não tenho dúvidas. Isto é como o grande segredo na minha família, aquela coisa sobre a qual não se fala. Em sua caminhada para o alto, o pai de meu pai obviamente apunhalou pelas costas cada homem que conheceu, deve ter roubado com as duas mãos sempre que havia oportunidade, saqueou para subir na vida, acumulando uma imensa fortuna...

       Davey parou de falar por um momento, com um sorriso inexpressivo preso às faces, como se a aglomerada escuridão no meio do aposento parecesse ficar espessa. Baixando o rosto, seu olho viu a fotografia de Shorelands apoiada no sofá. De repente, Lincoln Chancel estava diante dele, instilando em seu espírito uma fúria, raiva e frustração inalteradas.

       Paddi afagou-lhe o rosto com um dedo frio, depois levantou-se, estendeu a mão e recuou, a fim de guiá-lo através do aposento.

       — Ela insultou meu avô, não foi? Aquela moça que desapareceu.

       — Talvez o seu avô a tenha insultado.

       Movendo-se para trás, ela o levou até um mural em que o Senhor Noite permanecia de guarda diante da negra abertura de uma caverna. Paddi chegou até a parede e, ao invés de chocar-se contra ela, deslizou para o interior da caverna. Davey a seguiu através da abertura.

E isso, disse Davey, era o fim de sua história.

 

— COMO ISSO PODE ser o fim? — exclamou Nora, tentando não gritar. — O que aconteceu?

       — Esta é a parte difícil de ser abordada.

       Davey não havia terminado de falar sobre Paddi Mann. Ele apenas terminara de falar nessa maneira.

       — Lembra-se do que vimos hoje? Onde nós fornos?

       Nora assentiu, quase receando o que ele diria a seguir. Davey não se mostrou explicativo.

       — Aí está o problema — disse.

       — Você chegou a encontrar o manuscrito? O que aconteceu com ela? Oh, não, você não vai me dizer que ela foi morta, vai?

       — Eu nunca encontrei o manuscrito. Seja como for, meu pai comunicou-me ser contra fazer uma edição erudita de Jornada na Noite.

       — Isso deve ter aborrecido Paddi.

       Davey voltou a alisar a coberta da cama, e Nora tentou mais uma vez:

       — Ela estava tão interessada nesse projeto...

       Davey assentiu, de olhos baixos e empurrando os lábios para diante, como fazia quando forçado a uma situação desconfortável.

       — Apenas conte-me o que aconteceu.

       — Nós tivemos aquela noite de quinta-feira, quando dei a fotografia a ela. Na segunda-feira nem cheguei a vê-la e, ao voltar para meu apartamento, a coca tomou conta de mim, e dormi dois dias seguidos. Meu motor, simplesmente, entrou em pane. Acordei quase sem tempo para tomar uma ducha e vestir roupas limpas, antes de ir para o escritório.

       — Onde Alden lhe disse que não aprovava o seu projeto favorito. E você teve que dar a notícia a Paddi.

       — Quando subi até o quinto andar, ela perambulava a esmo pelo corredor, como se alguém lhe tivesse contado o que estava para acontecer. Nem tivemos tempo de conversar antes de minha entrada na sala de meu pai, e Paddi falou “Sete e meia?” ou algo assim. Eu assenti, depois entrei e falei com ele. Ao sair, ela continuava lá, e então lhe dei as más notícias. Paddi não disse uma palavra. Limitou-se a dar meia-volta e ir embora. Assim, às sete e meia, fui até onde ela morava. Não a encontrei em casa, de maneira que vaguei de um lado para outro durante alguns momentos. Imaginei que ela poderia estar dormindo no banheiro ou qualquer coisa. Dei uma olhada em seus livros. Sabe o que eles eram? Nada mais do que edições dos romances de Driver. Livros de capa dura, brochuras, em idiomas estrangeiros, edições ilustradas...

       — Não chega a surpreender muito — comentou Nora.

       — Espere. Em seguida, é claro, eu tinha que cruzar a abertura no mural e dar uma olhada no único outro lugar de todo o apartamento que chegara a ver. Assim, caminhei para o interior da caverna. E meus olhos esbugalham-se, meu coração quase pára, fico paralisado. Após transcorrido um século, a paralisia cessa e percebo que, afinal, não vou perder os sentidos.

       Ele olhou para Nora, que não fazia outra coisa senão olhá-lo também. Isto, igualmente, tinha o tom de uma das invenções de Davey.

       — Aquilo parecia um matadouro. Havia sangue por toda parte. Fiquei apavorado. Tinha certeza de que ninguém poderia perder tanto sangue e continuar vivo; estava rangendo os dentes, enquanto não descobria o corpo dela. Fui até o outro lado da cama, onde uma enorme mancha de sangue cruzava todo o piso e subia até metade da parede. Tal visão quase me fez vomitar, porque estava certo de que a encontraria ali. Cheguei a espiar debaixo da cama.

       — Por que não chamou a polícia?

       E por que quero acreditar nisto? Ele está descrevendo o quarto de Natalie!

       — Eu não sabia onde ficava o telefone! Aliás, nem mesmo sabia se havia um!

       Davey olhou freneticamente em torno do quarto, abrindo e fechando a boca várias vezes, como se tentasse engolir seu comentário.

       — Não teve medo de que o autor daquilo ainda estivesse lá?

       — Nora, se eu chegasse a pensar nisso, teria tido um ataque do coração na hora.

       — Onde encontrou o corpo dela?

       — Não o encontrei.

       — Bem, e onde estava ele? Tinha que estar em algum lugar!

       — É o que estou dizendo, Nora. Ninguém o encontrou. O corpo não estava lá!

       — Alguém o removeu?

       — Eu não sei! — gritou Davey, apertando o rosto com as mãos, depois as deixando cair.

       — Oh... Você quer dizer que foi como Natalie. O corpo desapareceu, como o de Natalie?

       — Isso mesmo — assentiu ele. — Como o de Natalie.

       Nora esforçou-se para recuperar o senso de controle, de um mundo onde as coisas faziam sentido.

       — Bem, mas na verdade não pode haver qualquer conexão, pode?

       — Você acha que eu sei?

       Nora tentou novamente.

       — Não presumo que Natalie Weil citasse Hugo Driver para você e o fizesse perambular por aí, atrás de manuscritos perdidos...

       Enquanto falava, ela recordou os livros existentes no quarto de Natalie, e sua frase ficou suspensa no ar.

       — Claro que não — disse Davey, ainda de olhos baixos.

       O momento de silêncio que se seguiu, pareceu a Nora extraordinariamente povoado.

       — O que você fez, ao perceber que ela não estava lá?

       Davey respirou fundo e olhou-a por cima do ombro.

       — Eu estava assustado demais para voltar para casa. Assim, fiz a pé todo o trajeto até o centro da cidade e instalei-me em um quarto de hotel, sob um nome falso. Por volta de meio-dia do dia seguinte, liguei para Rod Clampett e perguntei se Paddi já havia chegado. Ele disse que ainda não a tinha visto, mas que lhe diria para telefonar-me, assim que chegasse. É claro que ela nunca telefonou.

       — Acho que você não podia sair à procura dela — disse Nora. — Entretanto, Davey, desculpe-me, mas qual o problema em tudo isto?

       — Preciso levantar-me e movimentar-me um pouco. Você poderia fazer um café ou coisa assim?

       — Posso preparar um café descafeinado — disse ela, olhando para o relógio digital do rádio de cabeceira.

       Eram duas da madrugada. Nora pegou um robe amarelo-pálido, enfiou-se nele e amarrou a faixa. Davey estava sentado na cama, olhando o vazio. Por um segundo ele lhe pareceu alguém que nunca vira antes, um homem ineficiente, que sempre ficaria intrigado com a vida. Então, ele a fitou, e era novamente o seu marido, Davey Chancel, procurando parecer menos angustiado do que estava.

       — Nora — disse ele —, sabe onde está aquele roupão de banho de seda azul, aquele da Tailândia?

       — No cabide do banheiro — respondeu ela, e afastou-se em seus chinelos macios, para preparar o café.

      

DAVID BEBEU SEU café descafeinado e pestanejou ante a quentura do líquido.

       — Um pouco de kümmel iria muito bem com esse café, não acha?

       Nora abanou a cabeça, depois mudou de idéia.

       — Está bem, vá em frente!

       Davey foi até o armário e apanhou uma garrafa de kümmel Hiram Walker, tudo o que Nora conseguira encontrar em sua última visita à loja de bebidas. Ele franziu o cenho para o rótulo, a fim de lhe recordar que deveria ter ido a outra loja de bebidas, se não à Alemanha, para encontrar o kümmel decente, e encheu sua xícara até a borda. Depois se moveu atrás de Nora e despejou talvez um centímetro do líquido na xícara dela. Um cheiro de alcaravia e flores ébrias encheu a cozinha.

       — E então?— perguntou ela.

       — Certo.

       — Certo, o quê?

       Nora bebericou o que tinha um sabor de antídoto para veneno, com acidental similaridade a café.

       — Certo, há mais coisas. Certo, estou um pouco desconfiado para contar a você.

       Ela se viu tomando outro gole da mistura, agora parecendo menos horrível do que antes.

       — Esqueci de falar em uma coisa que aconteceu, na última vez que estive na casa de Paddi.

       — Oh, não!

       — Não foi nada que eu tivesse feito, Nora. Não sou culpado de coisa nenhuma.

       Então, por que parece tão culpado?, perguntou-se ela.

       — Está bem, eu fiz uma coisa. — Ele bebeu novamente, dobrando a cabeça para trás como se, à maneira de uma ave, precisasse fazer isso para engolir. Depois baixou a cabeça e entrelaçou os dedos em volta da xícara. — Eu lhe disse que espiei embaixo da cama dela.

       De repente, Nora concluiu que o que quer que Davey dissesse em seguida modificaria sua maneira de sentir a respeito dele. Depois achou que a história de seu marido sobre Paddi Mann já mudara antes sua maneira de pensar sobre ele.

       — Eu vi uma coisa debaixo da cama.

       — Você viu uma coisa...

       — Um livro.

       Isso é tudo?, pensou Nora. Não foi nenhuma cabeça decepada, nenhuma sacola de papel com um milhão de dólares?

       — Depois que o puxei para fora, pensei que ela poderia ter deixado lá para mim. O que imagina que fosse?

       — O Livro Egípcio dos Mortos? Aquela, hum... aquela coisa de Lovecraft, o Necronomicon?

       — Jornada na Noite. Em brochura.

       — Perdão — disse ela —, mas isso não parece assim tão extraordinário.

       Davey prendeu os olhos dela nos seus e tomou mais um gole de seu café misturado.

       — Hum-hum. Eu o abri. Compreenda, podia haver uma nota ou qualquer coisa nele para mim. Entretanto, nada encontrei nele, fora o que se presumia conter... e o nome dela.

       — O nome dela — repetiu Nora, como um eco.

       — Escrito na folha em branco do início do livro. No alto. Paddi Mann.

       — Ela escreveu o nome no livro.

       — Exatamente. Enfiei o livro no bolso e o levei comigo. Dias mais tarde tentei encontrá-lo, porém a maldita coisa se perdera.

       — Certamente caiu do seu bolso.

       — Aqui vamos nós — disse ele, largando a xícara. — Espere um momento. Não me demoro.

       Levantando-se, Davey saiu da cozinha, esticando nervosamente seu roupão azul. Nora o ouviu voltar ao quarto. Uma porta de armário se abriu e fechou. Logo em seguida ele reaparecia, trazendo uma familiar brochura de capa negra. Como se relutasse em largá-la, Davey tornou a sentar-se e a segurou diante do corpo com as duas mãos, antes de oferecê-la a Nora.

       — Bem, não presumo que este seja.

       Nora percebeu que estava tão relutante em pegar o livro, como ele em largá-lo. Parou de falar e aceitou-o. Na primeira folha em branco, em letras ligeiramente desbotadas, mas pequenas e claras, escritas com uma esferográfica, ela leu PADDI MANN. Abaixo do nome dela, Davey assinara o seu próprio.

       — Quer dizer que o livro apareceu — disse.

       — Sim, mas onde acha que foi?

       — Como é que vou saber?

       Ela afastou as mãos do livro, pensando que estava pouco ligando para onde ele aparecera e, por algum motivo, desejando não ter de descobrir. Preferiu aceitar tudo como outra das invenções de Davey.

       — No quarto de Natalie Weil.

       — Ora, mas... — Nora abriu a boca, mas tornou a fechá-la. Não podendo mais suportar a expressão nos olhos de Davey, ficou olhando para os dedos que pousara na beirada da mesa, como se estivesse prestes a tocar piano. — Este livro, o mesmo livro...

       — Este mesmo livro. Eu o vi quando entramos, e depois que aquele tira corpulento nos levou para fora, eu voltei lá, lembra-se? Abri o livro e quase desmaiei. Depois enfiei-o no bolso.

       — O que o fez voltar ao quarto? Desconfiava que o livro1 poderia ser...

       — Claro que não. Eu só queria examiná-lo mais de perto — explicou Davey, dando de ombros.

       — E não sabe como ele foi parar lá?

       — Eu não o coloquei lá, se é o que está querendo dizer.

       — E nunca deu para Natalie um exemplar de Jornada na Noite?

       Ele a fitou com verdadeira exasperação.

       — Será preciso soletrar tudo para você?

       Nora achava que sim.

       — Alguém o tomou de mim. Matou Paddi e deixou o livro lá, para que eu o encontrasse. Mais tarde, naquela semana, roubou-o de mim. E a mesma pessoa matou Natalie, deixando o livro em seu quarto.

       — O lobo matou Paddi Mann? — perguntou Nora, confusa demais para expressar-se claramente.

       — O Senhor Noite? O que ele tem a ver com isso?

       — Oh, perdão, estou falando do nosso lobo, do Lobo de Westerholm. — Ela agitou as mãos diante do corpo, como que apagando um quadro-negro. — É como eu chamo o... o sujeito. O homem que assassinou Natalie e as outras.

       — O nosso lobo. — Davey pareceu perturbado, e Nora receou que sua perturbação fosse causada por ela ter-se apropriado de um animal sagrado para Hugo Driver. — Sim. Foi o mesmo sujeito. Isso. Tem de ser. Contudo, ele não é bem como o Senhor Noite.

       — Davey — disse ela —, nem tudo tem relação com Hugo Driver.

       — Jornada na Noite tem. E Paddi Mann estava obviamente interessada em Driver.

       Ela o deixara na defensiva.

       — Davey, estou apenas querendo dizer que ele não poderia ter deixado o exemplar de Jornada na Noite, o que pertencera a Paddi Mann, no quarto de Sally Michaelman ou de Annabelle Austin, ou de qualquer das outras. E talvez não tivesse roubado o seu. Provavelmente o achou.

       Davey estava sacudindo vigorosamente a cabeça.

       — Aposto que há certa conexão entre as mulheres que ele matou e certas partes do livro. Aliás, isso é óbvio.

       — Por que é óbvio?

       — Por causa de Paddi — respondeu ele. — Paddi era obviamente Paddi, você não acha?

       — Paddi era Paddi — disse ela. — Não entendi.

       — No livro. O camundongo. O camundongo chamado Paddy, que fala ao Pequeno Pippin sobre o Campo de Vapor. Céus, você não se lembra de nada? Paddi é... Às vezes eu me pergunto se você chegou a ler Jornada na Noite.

       — Eu li partes do livro.

       — Você mentiu. — Ele a contemplava com uma expressão do mais absoluto espanto. — Disse que o tinha lido até o fim, e estava mentindo para mim!

       — Eu pulei folhas — explicou ela. — Peço desculpas. Compreendo que é importante para você...

       Importante.

       — ... mas talvez não esteja um pouco perturbado com a idéia de que o assassino de cinco mulheres seja...

       — Seja o quê?

       — ... de algum modo relacionado a você? Não sei como dizer isso, porque não consigo entender muito claramente.

       Um relâmpago de dor explodiu no meio da têmpora direita de Nora, enviando uma quente ramificação até sua pupila. Ela recostou-se em sua cadeira e colocou a mão sobre o olho.

       — Não vou conseguir dormir. Acho que vou descer até a sala da família e ouvir um pouco de música.

       Nora esperou ser convidada a acompanhá-lo, a fim de que pudesse recusar. Ouviu-o empurrar a cadeira para trás e ficar em pé.

       Davey lhe disse que tentasse dormir. Receitou uma aspirina.

       Nora afastou a mão do rosto. Davey inclinou a garrafa quadrada e castanha sobre sua xícara e despejou vários centímetros do líquido ambarino que recendia a semente de alcaravia.

       — Você disse que estava com aquele manuscrito encontrado na sala de conferências, o livro de Clyde Morning, correto? Importa-se se eu der uma espiada nele?

       — Você quer ler Clyde Morning?

       — Quero ver o primeiro novo Blackbird Book — respondeu ela, mas Davey aceitou este toque conciliatório apenas franzindo a testa e dando de ombros. — Poderia pegá-lo para mim?

       Davey inclinou a cabeça para o lado e revirou os olhos.

       — Se é isso que você quer... — Ele foi até seu “estúdio”, e Nora pôde ouvi-lo falando sozinho, enquanto manipulava os fechos de sua pasta. Logo Davey voltava à cozinha, segurando meio sem jeito um maço surpreendentemente fino de folhas datilografadas, presas por elásticos. — Aqui está. — Ele deixou o maço de folhas sobre a mesa. — Diga-me se achar que vale alguma coisa.

       — Você duvida do grande Clyde Morning? — perguntou ela.

       Já na porta da cozinha, Davey se virou para dar-lhe um olhar de simpatia por tê-la deixado sozinha, e escapuliu.

       Nora removeu os elásticos e bateu várias vezes na mesa com a borda inferior das folhas, a fim de ajeitá-las. Então, virou a última página e olhou para a numeração, no canto superior direito. Quaisquer que fossem os milagres da arte narrativa, produzidos em Espectro pelo escritor que era a esperança da série Blackbird Books, ele os condensara em 183 páginas.

       Do andar de baixo flutuou o som fantasmal de Peter Pears cantando palavras de uma ópera de Britten que Nora ouvira muitas vezes, mas que não conseguia localizar. A voz parecia provir de um reino inumano, situado entre o céu e a terra. Morte em Veneza, era o que Davey estava ouvindo. Ela pegou o fino manuscrito, levou-o para a sala de estar, acendeu um abajur que Sally Michaelman lhe tinha vendido, e estirou-se em um sofá para lê-lo.

 

NAS PROFUNDEZAS DA NOITE

      

POR FIM, O MENINO PERDEU TODA A ESPERANÇA E ADMITIU PARA SI MESMO QUE ESTA TERRA ESCURA ERA A MORTE, DA QUAL NÃO PODIA SER OBTIDA QUALQUER LIBERAÇÃO. DURANTE ALGUM TEMPO, DESAPARECERAM TODA A SUA FORÇA E SEU RACIOCÍNIO, E ELE CHOROU DE PÂNICO E DESESPERO.

 

BEM CEDO na manhã seguinte, Nora deu as costas ao Estreito de Long Island, correu pela arqueada ponte de madeira na Trap Line Road e chegou aos doze acres de pântano arborizado, conhecido como Área de Preservação Ambiental Pierce A. Gordon. O ar era fresco e revigorante, e atrás dela gaivotas saltitavam ao longo da comprida praia juncada de algas marinhas. Ela chegou à metade de sua corrida, tendo à frente os prazeres do “Abrigo de Aves”, nome dado à área de preservação pelos nativos de Westerholm, e ali ficou por quase quinze minutos, saboreando a ilusão de cruzar uma paisagem como aquela das florestas do Michigan, à qual era levada por Matt Curlew em pescarias de fim de semana, durante sua infância. Estes quinze minutos eram o âmago secreto de sua corrida matinal e, na manhã seguinte à sua primeira noite literalmente insone em anos, Nora não desejava outra coisa senão parar de pensar, de preocupar-se ou do que quer que estivera fazendo pelas quatro horas passadas, e desfrutar do momento. Árvores familiares, cheias de cardeais e barulhentos gaios, estavam à sua volta. Nora olhou para seu relógio e viu que já estava quase cinco minutos atrasada em seu tempo costumeiro.

       Aquela louca história de Davey a afetara mais do que gostaria de admitir. No passado, as invenções dele, quando não claramente em proveito próprio, tinham estado a serviço do fantasioso e do estado de ânimo. Embora nada daquilo fosse altamente fantasioso, a história de Paddi Mann parecera esconder mais do que ele revelara. Mesmo que Davey estivesse procurando enfatizar a extensão em que havia sido seduzido, tinha exagerado nos efeitos.

       Outras coisas também a perturbavam. Lera as primeiras quase trinta páginas de Espectro em tal torvelinho de dúvida e raiva, que as frases desapareciam instantaneamente de sua memória.

       Que direito tinha Davey de exigir que ela mostrasse interesse por um escritor de segunda categoria? Em benefício dele, Nora absorvera montes de informações sobre música clássica. Sabia a diferença entre Maria Callas e Renata Tebaldi, podia identificar cinqüenta óperas, desde os primeiros compassos da abertura, podia dizer quando era Horowitz ou Ashkenazy que tocava um noturno de Chopin. Por que tinha de fazer mesuras para Hugo Driver?

       A essa altura, sua consciência a forçou a reconhecer que, afinal de contas, mentira para Davey sobre ter lido o livro de Driver. Ela havia fechado o manuscrito, descera ao andar de baixo e parara junto à porta da sala da família. Morte em Veneza fluía dos alto-falantes.

       Então empurrou a porta lentamente, esperando ver Davey sentado e tomando notas, contemplando a parede ou fazendo qualquer coisa que, enfim, provasse estar pelo menos tão desperto quanto ela. Coberto até a garganta por uma manta xadrez de lã escocesa, olhos fechados e boca tremulando, Davey estava deitado no sofá. Exatamente como ela previra, o sr. Sensibilidade colocara dois CDs de Britten no CD player, espichara-se embrulhado na manta, como um bebê, e esperara que ela fosse a primeira a pegar no sono.

       Então era assim, era assim que a coisa funcionava. Nora voltou à sala de estar e ligou o rádio. Moveu o ponteiro até encontrar uma estação martelando James Cotton, irradiando blues a todo vapor, blues com atrevimento, aumentou o volume e sentou-se, para recomeçar a ler Espectro desde o início.

       Espectro era o segundo tópico que ela desejava afastar da mente, durante a parte favorita de sua corrida. Após cerca de uma hora de leitura, ocorrera-lhe certa possibilidade a respeito de Clyde Morning. Se verdadeira, tal possibilidade poderia significar algo para si mesma e para Davey. Se falsa, então havia algum problema com o próprio livro. Conforme esperava, Espectro era de uma leitura leve. Dava a impressão de ser o esqueleto ficcional mal descarnado por um escritor muito cansado ou preguiçoso demais para manter corretos os nomes de seus personagens. George Carmichael, o personagem principal, tornara-se George Carstairs na altura da página 15 e, pela página 35, havia voltado a ser Carmichael. Pelo restante do livro, ele usava um ou outro dos nomes, dependendo, imaginou Nora, de qual emergisse primeiro na mente de Clyde Morning, quando ele o registrava em sua máquina de escrever.

       Ainda pior era a exaustão que pesava na escrita. Três personagens diferentes diziam “É a pura verdade”. Frases demais começavam com a expressão “De fato” seguida por uma vírgula. Os olhos de George Carmichael/Carstairs eram, invariavelmente, “de um profundo e vibrante tom castanho”, enquanto que seus sapatos estavam sempre “riscados por marcas de desgaste”. Nenhum sentido ou gramática estavam a salvo. “Quando George correu escada abaixo, o sol bateu em seus olhos de um profundo e vibrante tom castanho.” Ao “fitar anelante” a amada Lily Clark, seus olhos aderiam ao vestido dela. Ou então voavam através do aposento, para encontrar-lhe os “lábios de tigresa”. Por meia dúzia de vezes, George e outras pessoas “gastavam as solas dos sapatos” quando “caminhavam pesadamente pela calçada” ou “subiam degraus de dois em dois”. Depois que começou a notar tais repetições, Nora levantou-se, pegou um lápis e fez marcas leves na margem onde um deles surgia.

       Quando terminou de ler, uma claridade pálida infiltrava-se diagonalmente pelas janelas da frente da casa. Voltou à cozinha em busca de mais café, e descobriu que moera grãos da embalagem de French Roast, que não era descafeinada. Sua estação de rádio martelara blues durante a noite inteira e passara para o jazz, enquanto ela lia as últimas páginas do manuscrito. Um saxofone tenor tocava uma balada com tanto sentimento, que as notas individuais pareceram flutuar-lhe através da pele. “Scott Hamilton”, disse o locutor, “executando ‘A Ponte de Chelsea’”.

       Scott Hamilton... não era o nome de um patinador no gelo?

       Nora tinha erguido os olhos do manuscrito, estonteada e confusa. Era como se, juntamente com o som do saxofone, algum pensamento secreto, algum que não seria admitido durante horas normais, houvesse mergulhado em sua mente, tomado forma e flutuado. Carmichael/Carstairs e Paddi Mann tinham sido parte deste pensamento, porém ele se fora. A experiência a tinha deixado com uma estranha sensação, como se fosse uma visitante em sua própria vida. Levantando-se, ela pôs as mãos na cintura e girou as costas bruscamente, duas vezes para a direita e duas para a esquerda.

       Davey não saíra da sala da família durante a noite, porém sua irritação com ele já passara. Após quase uma semana guardando os próprios temores para si mesmo, ele finalmente soltara sua confissão. Mesmo que somente um décimo dela fosse verdadeira, ainda assim era uma confissão.

       Nora desceu ao andar de baixo e espreitou o marido. Acima da manta, o rosto dele estava tenso por um sonho ansioso. Ela apagou a luz e desligou o CD player. No andar de cima, colocou Espectro preso novamente em seus elásticos. Sentia-se de repente absolutamente exausta e totalmente desperta. Por que não aproveitar a dádiva destas horas extras e dar sua corrida agora, depois preparar o breakfast de ambos, antes de Davey partir para Nova York? Inspirada, ela vestiu o short, calçou os tênis de correr, enfiou uma camiseta sem mangas e uma suéter de algodão, pôs na cabeça um comprido e bicudo chapéu, e então saiu de casa. Após alguns minutos de alongamento na relva úmida de orvalho de um gramado fronteiro que parecia exótico, naquela desacostumada claridade cinza-azulada do amanhecer, Nora logo foi deixando para trás as casas adormecidas na Alameda Contos de Fadas.

       Fiapos de dúvida e preocupação continuavam sondando sua concentração, enquanto corria através da paisagem quase alucinatória do Santuário dos Pássaros. Paddi Mann não era um problema e, na realidade, tampouco o era seja lá o que fosse que Davey estivera omitindo. Os segredos de seu marido invariavelmente acabavam sempre sendo muito menos significativos do que ele imaginava. O problema era se devia ou não contar-lhe o que ela, inadvertidamente, descobrira sobre Clyde Morning.

      

NORA RECOLHEU o The New York Times que estava na soleira, destrancou sua porta da frente e, em um gesto automático, checou o sinal no painel de segurança. A luz verde estava acesa; ninguém tocara no sistema desde que ela deixara a casa. Levou o jornal para cima e abriu a porta que dava para a sala da família. Lá, mergulhado em sono imperturbado, estava Davey, a manta escocesa Contorcida ao redor de seus quadris, de olhos fechados e a boca aberta apenas o suficiente para que pudesse lamber os lábios.

       Ajoelhando-se em frente dele, Nora encostou a mão no rosto adormecido. Os olhos de Davey tremularam e abriram-se.

       — Que horas são?

       Ela olhou para o relógio digital, perto do CD player.

       — Sete e dezessete. Você precisa levantar.

       — Por quê? Poxa, esqueceu que é sábado?

       — Hoje é sábado? Oh, Deus! — exclamou ela. — Sinto muito, estou tão atrapalhada que pensei ser hoje segunda-feira.

       Davey reparou no que ela usava.

       — Já deu sua corrida? É tão cedo! — Sentando-se, ele perscrutou o rosto dela mais de perto. — Você dormiu? — Davey pousou os pés no chão. Um leve cheiro de álcool azedo desprendia-se de sua pele. Recostando-se no encosto do sofá, ele a olhou fixamente. — Você está mesmo com aquela aparência de completamente dopada. Não creio que Espectro tenha sido tão excitante, para deixá-la assim. Aliás, em meu ponto de vista, chegava a ser chato.

       Este não parecia o momento para arriscar-se a contar-lhe sua teoria sobre Clyde Morning.

       — Bem, eu tive uma ou duas idéias, mas ainda preciso dar mais uma espiada no manuscrito, para depois falar sobre elas.

       — É mesmo? — Davey moveu a cabeça, para o lado, parecendo desconfiado.

       — Pretendo apenas certificar-me de algumas coisas. Quer voltar a dormir?

       Ele esfregou a face.

       — Acho melhor levantar-me. Talvez possa jogar um pouco de golfe antes do almoço. Você não se importa?

       — Acho uma boa idéia.

       Nora beijou-lhe a face com cheiro de uísque levemente choco e ficou em pé. Na sala de estar, reparou que ainda carregava o jornal, e o jogou em cima de uma cadeira.

       Após uma ducha apressada, ela desligou a água e saiu do boxe no momento em que, nu, Davey entrava no banheiro. Quando estendeu a mão para uma toalha, ele agarrou-lhe uma nádega. Nora amontoou a toalha diante do peito dele e o empurrou para o chuveiro.

       Depois de enxugar-se, ela enrolou a toalha ao redor do corpo e foi para o quarto, a fim de vestir-se. Nu, rosado e esfregando os cabelos com uma toalha, Davey saiu do banheiro e disse:

       — O único problema em ir tão cedo ao clube é ter de jogar com aqueles velhotes tipo “suporte atlético” e ouvir todos me tratarem como o neto retardado de alguém. Eles nunca prestam atenção ao que quer que eu diga.

       O telefone perto da cama tocou. Os dois fitaram o aparelho.

       — Deve ser ligação errada — disse Davey. — Livre-se do intruso.

       Nora ergueu o fone.

       — Alô?

       Uma voz masculina, já ouvida antes, mas que ela não reconheceu, pronunciou seu nome.

       — Sim, eu mesma.

       — Aqui é Holly Fenn, sra. Chancel. Lamento incomodá-los tão cedo, mas em meio a todo o excitamento por aqui, surgiu algo que talvez ficasse melhor esclarecido com uma ajuda de ambos.

       Davey apareceu diante dela em uma camisa pólo verde, cueca folgada, tipo short, e meias azuis até os joelhos.

       — E então, quem é o idiota?

       Ela tapou o fone com a mão.

       — Holly Fenn.

       — Não conheço ninguém chamado Holly Fenn.

       — Aquele tira. O detetive.

       — Oh, aquele cara. Que ótimo.

       Fenn disse:

       — Alô?

       — Sim, estou ouvindo.

       — Se não se importassem em prestar um pequeno serviço público à sua polícia local, eu gostaria de saber se a senhora e seu marido poderiam dar uma chegada até aqui, no posto. Como amigos da sra. Weil.

       Davey removeu um par de calças cáqui do saco plástico de lavagem a seco e jogou o saco, agora emaranhado no cabide, na direção da cesta de roupa usada, errando por pouco.

       — Não estou entendendo bem — disse ela. — O senhor quer falar conosco sobre Natalie?

       Davey resmungou qualquer coisa e enfiou uma das pernas nas calças.

       — Talvez eu tenha boas notícias para vocês — disse Fenn. — Pode ser que sua amiga, afinal de contas, não esteja morta. LeDonne encontrou-a, ou alguém que alega ser a sra. Weil, mais abaixo na South Post Road, faz apenas alguns momentos. Poderiam vir logo? Eu apreciaria imensamente a sua ajuda.

       — Bem, claro — respondeu Nora. — É uma grande notícia. Entretanto, para que precisa de nós? Para identificá-la?

       — Eu explicarei quando chegarem, mas é mais ou menos isso. Talvez prefiram entrar pelos fundos do posto. Tudo está uma loucura por aqui.

       — Estaremos aí dentro de uns dez minutos — disse ela.

       — Do meio deste pandemônio, fico muito grato — respondeu Fenn. — Obrigado. — E desligou.

       Ainda segurando o fone, Nora olhou para Davey, que agora inspecionava sua prateleira de calçados.

       — Ainda não entendi direito — disse ela para o marido, que se virou em sua direção, fez um ruído interrogatório com a garganta, e agachou-se para selecionar um dos mocassins. — Ele quer que a gente vá ao posto, porque aquele policial que estava na casa de Natalie — LeDonne, será? —, porque ele disse que LeDonne encontrou uma mulher alegando ser Natalie, na South Post Road.

       Davey ergueu o corpo lentamente e franziu o cenho para ela.

       — Então, para que ele precisa de nós?

       — Não estou bem certa.

       — É idiotice. Tudo que eles têm a fazer é examinar a licença de motorista dela. Para que arrastar-nos até lá?

       — Não sei. Ele disse que explicaria quando chegarmos.

       — Não pode ser Natalie. Você viu o quarto dela. As pessoas não se levantam e se afastam de um banho de sangue daqueles.

       — Segundo o que me contou, Paddi Mann fez isso — disse ela.

       O rosto de Davey ficou corado, inteiramente vermelho, e ele afastou-se para calçar os mocassins.

       — Eu não disse isso. Falei que ela desapareceu. Natalie foi assassinada.

       — Por que está tão vermelho?

       — Eu não estou vermelho — replicou ele. — Estou chateado. A gente imagina que tiras sejam do tipo obtuso e incompetente, mas isto já passa dos limites! Eles recolhem uma maluca que diz ser Natalie, e temos de perder toda a manhã fazendo o trabalho para eles! — Davey andou pelo quarto, enfiou as mãos nos bolsos e enviou-lhe um olhar cauteloso. — Espero que você seja sensata o bastante para não soltar alguma coisa que eu lhe tenha contado ontem à noite.

       Nora percebeu que ainda tinha o fone na mão e o recolocou no lugar.

       — Por que eu faria uma coisa dessas?

       — Seria bom termos tempo de comer alguma coisa — disse Davey. — Vamos acabar logo com isso, está bem?

      

Minutos mais tarde, o Audi disparava por baixo das árvores que marginavam a Old Pottery Road, enquanto Davey ponderava, em voz alta, se devia contar à polícia que encontrara o exemplar de Jornada na Noite que pertencera a Paddi Mann no quarto de dormir de Natalie Weil.

       — O problema é que o levei comigo. Aposto que isso pode me criar problemas.

       Para Nora, a questão representava outro exemplo da espantosa capacidade de Hugo Driver em continuar a originar problemas muito tempo depois de sua morte.

       — Não há motivos para tocar no assunto.

       Davey fitou-a com expressão injuriada.

       — Isso é coisa séria, Nora. Talvez eu não devesse entrar com você. A tal mulher não pode ser Natalie, mas, e se for?

       — Se ela não pode ser, então não é. E se de algum modo for Natalie, ela terá muito mais do que falar, ao invés de discutir um exemplar de Jornada na Noite.

       — Sim, creio que sim. — Davey suspirou. — Você disse que tinha algumas idéias sobre Espectro.

       — Oh! — exclamou ela. — Quando eu corria no Santuário dos Pássaros, ocorreu-me algo sobre o que tinha lido, mas posso estar enganada.

       Davey acelerou ladeira abaixo para a luz verde na Post Road, sinalizou para fazer a curva e girou para o norte, ocupando a pista de velocidade.

       — Lembra-se de como você costumava brincar sobre Clyde Morning e Marletta Teatime serem a mesma pessoa? Acho que realmente poderiam ser.

       Ele a olhou de relance, com incredulidade.

       — No mês passado li um romance de Marletta Teatime, lembra-se? A Sepultura à Espera?

       — A Sepultura à Espera — repetiu Davey.

       — Exatamente. Achei curiosos certos detalhes no estilo. Marletta fazia as pessoas dizerem “é a pura verdade” duas vezes, quando elas concordavam com alguma coisa. Quem costuma falar “é a pura verdade”? Os ingleses, talvez,ou os australianos, porém os americanos não falam assim. Em Espectro, as pessoas dizem “é a pura verdade” insistentemente.

       — Parece óbvio que Clyde lê os livros dela.

       — Só que ainda tem mais. Marletta iniciou meia dúzia de frases com a expressão “de fato”. O mesmo acontece em Espectro. Há também qualquer coisa sobre sapatos. No livro de Marletta, o personagem que é o jardineiro, aquele que mata o garotinho, tem sapatos riscados por marcas de desgaste. É como mais tarde se descobre que ele fazia o papel de ministro, na outra cidade. Bem, em Espectro, Morning insiste em dizer que os sapatos de George Sei-lá-de-quê são riscados por marcas de desgaste. Nem mesmo chega a ser uma boa descrição.

       — Ora, ora! Você agora é uma editora de texto!

       Nora ficou calada.

       — Sabe o que quero dizer. Não creio que seja uma descrição ruim, é isso.

       — Tudo bem; olhe então para a piada que são os sobrenomes dos dois — disse Nora. — Morning e Teatime. Manhã e Hora do Chá. É como serem chamados de seis horas e quatro horas.

       — Ah! — exclamou Davey. — Bem, é possível que Morning tivesse inventado “Teatime” como um pseudônimo. Aliás, não seria impossível.

       — Obrigada.

       — Se ele tinha dois nomes, poderia escrever também dois livros. Só Deus sabe se não estaria precisando do dinheiro. Tudo o que tinha a fazer era providenciar uma caixa postal para Marletta e uma conta de banco separada. De qualquer maneira, ninguém jamais viu algum deles.

       — Então, se os dois forem a mesma pessoa, isso não geraria problemas?

       — Não, se não contarmos a ninguém — disse Davey. — Quando Espectro for editado, excluiremos simplesmente todos os “de fato”, os “é a pura verdade” e os “riscados nos sapatos”.

       — Você poderia extrair disso uma pequena publicidade — lembrou Nora.

       — E fazer com que nos julgassem tolos? Não, obrigado. O melhor é ficarmos calados e deixar que o problema se dissolva por si mesmo. Precisamente o que eu desejaria poder fazer com esse negócio idiota de Driver.

       — Que negócio de Driver?

       — É algo tão ridículo, que nem quero falar a respeito.

       — Trata-se do problema que seu pai mencionou a você.

       — O motivo pelo qual tive que ver aquela paródia. Bem, aí vamos nós!

       Davey saiu da Post Road e dirigiu para o prédio de pedra que abrigava o posto policial de Westerholm. O pátio de estacionamento adjacente pareceu a Nora singularmente cheio.

       — Como pode tal filme ser um problema para a Casa Chancel?

       — Não pode — disse Davey, parecendo deprimido —, não em si mesmo. O que aconteceu foi que aquelas duas malucas de Massachusetts assistiram a esse filme idiota, logo depois de terem vasculhado alguns documentos de família em seu porão.

       Davey saiu do estacionamento principal e manobrou para o do departamento de polícia, que estava tão apinhado como aquele que tinham acabado de deixar. Carros e vans achavam-se estacionados diante do posto.

       — Olhe para aquelas vans — disse Nora, apontando para duas compridas vans com os logotipos e siglas de redes televisivas de Nova York.

       — Não faltava mais nada!

       — As tais mulheres encontraram antigos documentos de família?

       — Elas julgaram ter encontrado um meio de arrancar um bocado de dinheiro do meu velho. O untuoso advogado delas fez tudo, exceto admitir isso.

       Davey tinha agora dirigido até o extremo do estacionamento da polícia, sem encontrar nenhuma vaga. Então, circulou em torno, dirigindo-se para as vagas reservadas às viaturas policiais.

       — Não entendi — disse Nora.

       — Elas encontraram notas que presumivelmente tinham sido feitas por uma irmã de ambas. Algo que tomou três páginas. Em uma maleta.

       Davey parou seu carro em uma vaga entre duas viaturas da polícia.

       — Elas estão alegando que a irmã escreveu Jornada na Noite?

       O que quer que as mulheres de Massachusetts tivessem alegado, aparentemente não era para ser discutido, uma vez que Davey saiu do carro logo em seguida. Nora também desceu do carro e viu o agente LeDonne aproximando-se. Ele parecia um homem sob uma forte carga de pressão.

       — Não vou tirar este carro daqui — disse Davey. — Você é que nos fez vir até aqui.

       — Poderiam acompanhar-me até o posto, por favor? Sr. Chancel? Sra. Chancel? Terei de pedir-lhes que caminhem bem depressa e não falem com ninguém, até estarmos com o chefe Fenn. — O detetive caminhava para eles enquanto falava, parando a pouco menos de meio metro de distância de Davey. — Fique o mais próximo de mim que puder.

       Ele olhou para os dois, deu meia-volta e recomeçou a caminhar para a frente do prédio. Quando contornaram a esquina do posto, Nora percebeu algo a que não prestara atenção antes. Ao contrário dos carros no estacionamento principal, alguns ali estavam ocupados. Os homens e mulheres que esperavam em seus veículos espiavam LeDonne conduzir os Chancels para os degraus do posto policial.

       — Poxa, metade da cidade está aqui! — exclamou ela.

       — Eles estão aqui desde que amanheceu — disse LeDonne.

       Subiram com rapidez os três longos degraus. Nora sentiu centenas de olhos ávidos cravados em suas costas, por trás dos pára-brisas dos carros, mas logo teve a atenção desviada para a comoção no outro lado da porta. LeDonne suspirou.

       — Tinha que ser eu? Devíamos ter posto todos eles em uma cela de custódia, e depois irmos soltando um a um!

       Ele chegou até a porta, fez Davey e Nora ficarem mais perto e mergulhou para o interior. Davey moveu-se atrás de Nora, colocou as mãos em seus quadris e a empurrou.

       Como Nora já sabia desde seu contratempo com o filho do milionário, a mesa alta ocupada por um sargento dominava um lado do espaço além da entrada. No outro havia duas compridas filas de bancos de madeira. Alguns passos à frente dela, LeDonne abria caminho através de uma multidão que irrompeu dos bancos. Dois homens uniformizados atrás da mesa gritaram por ordem. As mãos de Davey a fizeram acelerar o passo junto a um microfone erguido no alto, em meio a uma saraivada de perguntas e uma súbita onda de corpos. Vozes bombardeavam-lhe a cabeça. Davey pareceu erguê-la do chão e acelerá-la para o estreito espaço às costas de LeDonne. De trás de seu ouvido direito, Nora ouviu um repórter perguntar algo sobre a família Chancel, porém a pergunta evaporou-se quando eles dobraram para um amplo corredor, onde, abruptamente, viram-se sozinhos.

       — O gabinete do chefe Fenn é ali adiante — disse LeDonne.

       Com isso, ele parecia prometer que tudo seria explicado lá, e recomeçou sua caminhada, guiando-os ao longo de uma série de portas com vidraças de vidro esmerilhado. No lado mais distante de uma larga escada metálica, ele abriu uma porta com as palavras CHEFE DE DETETIVES escrita no vidro opaco.

       No gabinete havia uma escrivaninha de tampo corrediço, uma comprida secretária de metal verde dando frente para duas cadeiras de madeira e uma mesa de metal cinza, empurrada contra uma parede de concreto em pálido tom verde-acinzentado. Tanto a secretária de metal quanto a mesa estavam cobertas de papéis, e mais papéis projetavam-se da escrivaninha com o tampo corrediço aberto. Uma janela estreita atrás da secretária verde dava para o pátio de estacionamento da polícia, onde o Audi sobressaía como um intruso, nas fileiras de viaturas preto-e-brancas.

       — Holly Fenn é um relaxado — disse Davey, examinando o aposento, com os braços cruzados na altura do peito. — Estamos surpresos? Não, não estamos.

       Nora sentou-se em uma cambaleante cadeira de madeira, e Holly Fenn surgiu à porta, carregando um grosso e surrado caderno de notas à frente do corpo, como se fosse uma arma.

       — Imagino que a imprensa tenha pulado em cima de vocês, lá fora.

       — Exatamente — disse Nora, e riu. — O que, afinal, esses repórteres estão fazendo aqui?

       Fenn estacou.

       — Nosso chefe achou que poderíamos controlá-los um pouco melhor dentro do posto. — Ele estendeu a mão para Davey, que a apertou. — Obrigado por ter vindo, sr. Chancel.

       — Eu queria saber uma coisa: o que eles estão fazendo aqui? — perguntou Nora. — Não entendo como souberam tão depressa sobre essa mulher que diz ser Natalie.

       Fenn fez alto a meio caminho de sua mesa e virou-se, a fim de olhar para ela.

       — Está querendo dizer que não sabe mesmo?

       — Bem, acho que não.

       — A senhora não leu os jornais esta manhã?

       Ela se viu atirando o jornal em cima de uma cadeira.

       — Oh, meu Deus! — exclamou Davey, colocando as mãos no alto da cabeça. — Vocês conseguiram? Pegaram o sujeito?

       — Parece que sim — disse Fenn, por um momento quase parecendo satisfeito consigo mesmo.

       — Conseguiram o quê? — perguntou Nora.

       — Agarrar o nosso assassino — disse Fenn. — Está mantido em custódia desde as dez da noite passada. Acho que foi Popsie Jennings quem ligou para o Times. Conhecem Popsie, não?

       Os dois Chancels conheciam a notória Popsie Jennings, proprietária de uma loja de roupas femininas na Main Street, chamada “A Mulher Liberada”, que residia na casa de hóspedes da propriedade de seu terceiro marido, no lado direito da Mount Avenue, a cerca de meio quilômetro de “Os Alamos”. De baixa estatura, sólida e loura, em seus cinqüenta e poucos anos, com uma voz de cigana e gosto por palavrões, Popsie dava a impressão de ter nascido em um barco a vela e ser criada em um campo de golfe. Entretanto, vivera anticonvencionalmente, inclusive de maneira ostensiva, e presumia-se que dera tal nome à sua loja de vestidos, segundo o conceito que fazia de si mesma. Comentava-se que ela mantinha em seu quarto duas telas de cavalos da autoria de George Stubbs, presenteadas por seu primeiro marido, gostando de declarar que todos três eram bem-dotados — as telas, os cavalos e o primeiro marido.

       — Ele invadiu a casa de Popsie? — perguntou Davey. — Teve um bocado de sorte, se não fosse amarrado nu em uma cama e forçado a alimentar-se de vodca.

       — Quase aconteceu isso — respondeu Fenn. — Ele apareceu na casa dela por volta de nove da noite passada. Popsie ficou desconfiada, atacou-o com o atiçador, prendeu-lhe pés e mãos com fita gomada enquanto estava inconsciente e então, empunhando um facão de açougueiro, disse que o castraria se ele não confessasse.

       — Uau! — exclamou Nora. — Popsie estava muito segura de si!

       — E também bastante louca.

       — Afinal, quem era o sujeito? — perguntou Davey.

       — Presumo que também o conheça. Richard Dart.

       — Dick Dart? — exclamou Davey, arriando desajeitadamente na cadeira ao lado da de Nora e dirigindo a ela um olhar vazio, mas tomado de espanto. — Fui para a escola com ele. Seu irmão, Petey, estudava na minha classe, e Dick estava no segundo ano da universidade, quando me graduei. Nunca fomos amigos ou algo parecido, mas eu o vejo pela cidade de vez em quando. Apresentei-o a Nora faz uns dois meses. Lembra-se, Nora?

       Ela meneou a cabeça, perguntando-se por que não falavam sobre Natalie Weil, e ainda não inteiramente capaz de responder que de fato conhecera o homem a quem havia denominado o Lobo de Westerholm.

       — Onde? — perguntou.

       — No Gilhoolie’s. Logo depois de inaugurado.

       Nora então recordou o homem lânguido que arrastava as palavras naquele bar horrível, aquele que elogiara seu perfume, embora ela não estivesse usando nenhum. Portanto, havia falado com ele, fitara seus olhos e fora ligeiramente tocada pelo homem a quem chamava de Lobo, o qual se revelara um asqueroso e envelhecido universitário com um problema de bebida. O motivo dele agir como se odiasse as mulheres era porque realmente as odiava. Entretanto, Dick Dart não se ajustava às vagas imagens mentais que ela formara sobre o assassino de Westerholm. Ele era demasiado comum nos sentidos errados, sem nada ter de comum em outros sentidos errados. Enfim, talvez ela devesse ter imaginado que o Lobo possuiria um mal disfarçado senso da própria superioridade.

       — Ainda não consigo acreditar — dizia Davey agora. — Lembra-se dele, não é, Nora?

       — Ele foi horrendo, mas eu não imaginava que fosse tanto.

       — O pai também está tendo um pequeno contratempo com ele. — Fenn deu a volta à secretária, largou o caderno de notas em sua superfície e sentou-se, ficando de frente para eles. — Leland enviou Leo Morris, tão logo soube do ocorrido, e Leo esteve nos enchendo a paciência desde as duas da madrugada. Continua lá, na cela de custódia, com seu amigo.

       Embora Leo Morris, advogado da família Chancel e o mesmo que reservara o navio Queen Elizabeth II para festejar o décimo-sexto aniversário de sua filha, fosse um dos mais fortes juristas de Connecticut, não costumava ser considerado criminalista, e Davey expressou sua surpresa ante tal escolha.

       — Leo não discutirá o caso no tribunal, pois eles têm um esperto rapaz para isso, mas cuidará da encenação da defesa. Estamos com uma disputa nas mãos.

       — Então, tem certeza de que ele é o sujeito — disse Davey.

       — Ele é o sujeito — disse Fenn. — Quando o derivemos, tinha uma cigarreira de prata de Sally Michaelman no bolso do paletó. Ela parou de fumar há uns dez ou doze anos, mas o marido deu-lhe a cigarreira faz uns dois anos, antes de se divorciarem. E quando revistamos o apartamento de Dart, encontramos um monte de coisas. Jóias, relógios, coisinhas que pertenceram às vítimas. Algumas peças tinham nomes gravados e vamos checar o resto, mas aposto o que quiserem como descobriremos que a maioria dos objetos provém das casas das mulheres. Diabo, ele chegou a levar um livro sobre Ted Bundy, da casa de Annabelle Austin, e ela havia escrito seu nome nele. Acho que pretendia obter algumas indicações. Além disso, Dart tinha um caderno com recortes de artigos sobre os assassinatos. Eram recortes de todos os jornais numa área de oitenta quilômetros. E, somado a isso, enquanto Popsie ameaçava sua virilidade, ele cuspiu um detalhe que nunca dissemos à imprensa.

       Davey, que tinha parecido um pouco alarmado à menção do livro, perguntou:

       — Que detalhe?

       — Ah, isso é uma coisa que não lhe direi — respondeu Fenn.

       — Antes de mais nada, o que deixou Popsie desconfiada? — perguntou Nora.

       — Dart não tinha nenhum motivo real para ir à casa dela. Ligou dizendo que precisava discutir algo, mas, ao chegar lá, apressou-se em soltar um palavrório afetado sobre o inventário na loja de vestidos — algo com que nada tinha a ver. Depois disse que seria útil dar uma espiada nas telas que ela tem no quarto; talvez Popsie quisesse legá-las para um museu, visando a uma dedução no imposto de renda. Insistiu em ver as pinturas, antes de seguirem em frente. Popsie respondeu que ele estava passando dos limites, nada de excursões pelo quarto esta noite, rapazinho, vá para casa, mas o que ela de fato pensava era Este cara está solitário, ele só quer falar com alguém. Ela já conheceu homens suficientes para compreender que o sujeito não estava em seu comprimento de onda normal, que afinal de contas o caso nada tinha a ver com sexo; então decidiu dar-lhe mais um drinque e depois mandá-lo embora. Assim, levantou-se, deu a volta em torno do sujeito, e sentiu que ele não estava apenas deixando-a nervosa, mas deixando-a realmente nervosa. Popsie havia parado junto da lareira. Foi quando percebeu algo que a fez pegar o atiçador e golpeá-lo na cabeça.

       — O que foi que ela percebeu? — perguntou Nora.

       — Todas as mulheres assassinadas eram clientes da Dart, Morris. Popsie encaminhara Brewer, Austin e Humphrey a Dart, ao passo que ela havia sido encaminhada por Sally Michaelman. Nenhuma figurava na lista de almoços de Dick, mas todas o conheciam. Ela ficou violenta e temporariamente transtornada; assim, em se tratando de Popsie, ao invés de ter um colapso, perdeu o juízo e rachou a cabeça dele.

       — Natalie era cliente da firma de Dart? — perguntou Nora.

       Fenn empinou a cabeça para trás e contemplou o teto por uns dois segundos. Quando tornou a encará-los, pareceu quase constrangido.

       — Obrigado, obrigado, obrigado, sra. Chancel. Devo estar ficando velho demais para este trabalho exasperante. Estive tão concentrado na movimentação que enfrentamos aqui, que cheguei a esquecer o motivo de sua vinda. — Ele puxou o grosso caderno de notas mais para perto e o abriu, a fim de ler a última página. Do outro lado da secretária, Nora viu que, em vez das garatujas que poderia ter esperado, as notas de Fenn eram escritas em letras pequenas, quase caligráficas. O policial ergueu os olhos para ela, depois tornou a fitar a página. — Falarei agora sobre esta mulher. A meu pedido, o agente LeDonne estava vindo mais cedo para o posto. Ele subia a South Post Road, quando viu uma mulher que se portava estranhamente na calçada, diante do prédio vazio que tinha sido a “Creche Jack e Jill”. É o número 1300 do quarteirão, fica bem ao sul da antiga fábrica de móveis. Sabe onde é? — perguntou ele, e levantou os olhos para ela.

       — Sei — respondeu Nora, sentindo um leve tilintar de alarme.

       — O agente LeDonne freou e aproximou-se da mulher. Ela dava a impressão de consideravelmente angustiada.

       — E parecia-se com Natalie? — perguntou Nora.

       Fenn ignorou a pergunta.

       — A mulher mais ou menos pediu para ser trazida ao posto policial. Insistia em afastar-se da antiga creche. Quando LeDonne a ajudou a entrar no carro-patrulha, notou uma semelhança com as fotografias que vira da sra. Weil, e perguntou-lhe se era Natalie Weil. A mulher respondeu que era. Ele a trouxe para cá e ela foi levada para o gabinete do chefe do posto, onde quase instantaneamente pegou no sono. Chamamos o seu médico, mas conseguimos apenas comunicação com seu serviço de recados, o qual nos disse que ele tornaria a ligar. Pretendemos levá-la esta manhã para o hospital, mas, até lá, ela continua dormindo no sofá do chefe do posto.

       — Ela não explicou nada sobre o que lhe tinha acontecido? Apenas ferrou no sono?

       — A mulher dormia em pé desde o segundo em que chegou ao posto. Devo mencionar este detalhe. LeDonne não conhecia a sra. Weil. Eu nunca a vi. Tampouco o chefe do posto a conhecia. Nenhum de nós sabe qual a sua aparência pessoal. Assim, se não se importam, parece que poderão ajudar-nos na identificação.

       — Espero que seja Natalie — disse Nora. — Podemos vê-la?

       Holly Fenn levantou-se e chegou ao lado de sua mesa de trabalho, com um meio sorriso visível abaixo do bigode.

       — Vamos dar uma pequena caminhada.

       — Ouça, quando Dick Dart estava dando o serviço para Popsie e os policiais na casa dela, o que ele disse sobre Natalie? — perguntou Davey, seguindo Nora e o detetive em direção à porta.

       — Disse que nunca chegou perto dela.

       — Ele nunca chegou perto dela? — repetiu Nora.

       Ela ainda não separara inteiramente o sangrento desaparecimento de Natalie do destino das outras mulheres.

       — E acreditou nele? — quis saber Davey, parando de caminhar e deixando Fenn ultrapassá-lo, a fim de alcançar a porta.

       — Claro. — Fenn abriu a porta, depois se virou para eles. — Dart admitiu tudo para Popsie. Por que mentiria sobre uma vítima a mais? Entretanto, o verdadeiro motivo que me fez acreditar nele é que Natalie Weil não usava os serviços da firma Dart, Morris.

       — Ele matava apenas clientes de seu pai — disse Davey, com um recente reconhecimento deste fato.

       — Isto faz a gente pensar, não? — disse Fenn.

       O policial seguiu em frente e, uma vez no corredor, guiou-os ao longo de monótonas paredes verdes, quadros de aviso e portas dando para salas apinhadas de mesas. Aproximavam-se de uma porta metálica que permanecia aberta atrás de um policial uniformizado. Além desta porta, era visível uma fileira de celas gradeadas. Nora surpreendeu-se, ao ver que as celas eram exatamente como as mostradas nos filmes, mas que se tornavam amedrontadoras quando vistas de perto.

       — Seu amigo Dart está em uma delas — disse Fenn. — E aí permanecerá até ser transferido para a prisão do condado. Leo Morris o acompanha, de maneira que isso pode demorar um pouco. Ainda temos que tirar-lhe o retrato e as impressões digitais.

       Nora imaginou o lânguido e pretensioso indivíduo do bar do Gilhoolie’s encerrado em um destes horrores. A imagem encheu-a de pavor. Depois deu mais um passo e toda a fileira de celas ficou à vista. Na última delas, um homem sentava-se cabisbaixo na beira de uma cama de campanha, enquanto um outro permanecia de pé, o rosto obscurecido por uma fileira de grades. Estavam ambos calados. Nora não conseguia desviar os olhos.

       Davey e Holly Fenn cruzaram a porta aberta. Nora olhou para o homem encurvado na beirada da cama, depois viu seus anelados cabelos grisalhos e percebeu que era Leo Morris. Seus olhos procuraram involuntariamente o homem em pé ao lado do advogado e, nesse segundo, ele se moveu para um lado, tornando-se Dick Dart. O rosto dele ficou radioso ao reconhecê-la. Nora sentiu um choque elétrico na boca do estômago. Dick Dart lembrava-se dela.

       Dick Dart parecia relaxado e absolutamente despreocupado. Seus olhos fixaram-se nos dela. Era evidente que sentia algum prazer inimaginável ao vê-la. Piscou, e Nora obrigou-se a seguir caminho, dizendo a si mesma que era ridículo ficar atemorizada por um piscar de olhos.

       Mais além, no corredor, uma porta tinha a inscrição CHEFE DO POSTO. Nora forçou-se a parar de ver o quadro mental de Dick Dart piscando para ela, e fez uma longa e profunda inspiração.

       — Vejamos o que está acontecendo. — Fenn abriu uma fresta da porta e espiou para o interior. Uma corpulenta jovem fardada de policial esgueirou-se prontamente para fora. Fenn disse: — Amigos, esta é Barbara Widdoes. É a nossa chefe do posto, e também uma boa policial. Barbara, estes são os Chancels, amigos da sra. Weil.

       — Como foi Holly que me colocou neste trabalho — disse Barbara Widdoes, estendendo a mão e dando a cada um deles um firme aperto — tem de dizer que sou boa no que faço. Como vão? — Ela era atraente, em termos de cordialidade e aprumo, com amistosos olhos castanhos e curtos cabelos escuros, finos como os de um bebê. Nora julgara sua idade com uma diferença de pelo menos cinco anos. Entretanto, a mulher à sua frente estaria na faixa dos quarenta anos de idade, a aparência de mais jovem sendo induzida pelo rosto quase inteiramente liso. — Na verdade, tudo o que faço é manter todos fora do caminho deste velho urso. E alugar meu sofá para desgarrados exaustos.

       — Podemos dar uma olhada nela? — perguntou Fenn.

       Barbara Widdoes olhou para dentro. Assentiu e permitiu que os três entrassem em sua sala.

       Coberta até o pescoço com uma manta, uma mulher miúda e idosa jazia em um curto e funcional sofá contra a parede lateral do obscuro gabinete. Os olhos estavam fundos nas órbitas, assim como as faces sobre os ossos. Nora virou-se para Holly Fenn e meneou a cabeça.

       — Sinto muito, mas é outra pessoa.

       — Chegue um pouco mais perto — sussurrou Fenn.

       Quando Davey e Nora deram mais dois passos para perto da mulher deitada no sofá, o rosto dela ficou mais à vista. Agora, Nora podia ver por que LeDonne a tomara por Natalie. Havia uma leve semelhança no formato da testa e do nariz, inclusive no desenho da boca. Nora tornou a abanar a cabeça.

       — É uma pena.

       Davey disse:

       — É Natalie!

       Nora meneou a cabeça. Ele estava cego.

       — Veja — disse Davey.

       A mulher prontamente abriu os olhos e sentou-se, como se houvesse treinado a si mesma para interromper o sono. Usava um imundo conjunto azul e os pés nus estavam negros de sujeira. Nora viu que, afinal de contas, esta velha era mesmo Natalie Weil, fitando-a diretamente, os olhos cheios de terror.

       — Não! — guinchou Natalie. — Levem ela daqui!

       Atônita, Nora recuou.

       Natalie tornou a gritar agudamente, e Nora se virou para Holly Fenn, boquiaberta. Davey já se encaminhava para a porta. Natalie dobrou as pernas, com os joelhos sob o queixo, abraçou-se a elas e baixou a cabeça, como se quisesse enrolar-se feito uma bola.

       — Barbara? — chamou Fenn.

       — Eu cuido dela — disse a policial, e cruzou a sala para passar os braços em torno de Natalie.

       Fenn encaminhou-se para a porta, e Nora o acompanhou.

       — Lamento que tenham de passar por isso — disse Fenn. — Concordam ambos que realmente ela é Natalie Weil?

       — Sim, é Natalie, mas o que aconteceu a ela? — perguntou Nora. — Está tão...

       — Por que Natalie reagiria a você daquele modo? — exclamou Davey.

       — Como posso saber?

       — Vamos levar a sra. Weil para o hospital — disse Fenn. — Eu entrarei em contato com os senhores assim que descubra algum sentido em tudo isto. Poderia imaginar algum motivo para a sra. Weil sentir medo da senhora?

       — Não, em absoluto. Éramos amigas.

       Parecendo tão perplexo quanto Nora, Fenn os conduziu corredor abaixo, não de volta à entrada, mas na mesma direção em que tinham vindo.

       — Eu poderia pedir-lhes que ficassem em casa pelo período da tarde? Talvez queira bater um papo dentro de algumas horas.

       — Claro — assentiu Davey.

       Fenn abriu a porta dos fundos do posto, e os Chancels saíram para o estacionamento, banhado de quente e forte luminosidade.

      

Davey nada disse enquanto caminhavam para o carro e também não falou enquanto entrava e ligava o motor.

       — Davey? — chamou Nora.

       Ele acelerou pelos fundos do posto e ganhou a pequena estrada encurvada, afastando-se do campo vazio e do rio. Demorariam mais a chegar em casa seguindo aquela direção, mas Nora supôs que ele quisesse evitar a multidão e os repórteres na frente do posto.

       — Ora, Davey, vamos!

       — O que é?

       Algo inesperado brotara na mente de Nora, e ela se ouviu perguntando:

       — Você não se interessa pelo que aconteceu a todas aquelas pessoas de Shorelands? Merrick Favor e os outros, aqueles sobre os quais a tal garota lhe falou?

       Ele sacudiu a cabeça, quase irritado demais para falar, porém demasiado desdenhoso para permanecer em silêncio.

       — Você acha que me preocupo com o que aconteceu em 1938? Penso que não deveria começar a espicaçar-me ou a qualquer outra pessoa sobre a imbecil Shorelands em um imbecil 1938. Aliás, penso que você não devia ter feito nada do que fez. O que quer que tenha feito.

       — O que quer dizer com isso?

       Na realidade, ela mesma não entendia a insinuação. Davey, no entanto, recusou-se a dizer mais uma só palavra no trajeto para casa e, quando retornaram à Crooked Mile Road, ele pulou para fora do carro, entrou rapidamente em casa e desapareceu na sala da família, cuja porta bateu com estrondo.

      

EM MOMENTOS COMO aquele, Nora desejava que seu pai ainda fosse vivo, para aconselhá-la sobre a mente masculina. Homens eram capazes de um comportamento explicável apenas para outros homens. Na experiência dela, pelo menos, o conhecimento mais convencional do tema era não apenas errado, mas também desatualizado. Matt Curlew lhe diria para enfrentar o marido ou a aconselharia a dar-lhe a privacidade temporária que ele desejava? Algumas enfurecidas partes de si mesma sugeriam que Matt Curlew lhe diria que, na época presente, sabia-se que até mesmo os católicos livravam-se de maus casamentos. Certamente, Matt Curlew não encararia Davey Chancel como um genro aceitável. De qualquer modo, ela podia ouvi-lo advogando os dois caminhos, com igual clareza: Entre lá e faça-o abrir a boca e Afaste-se e dê um tempinho ao temperamental filho da mãe.

       Nora afastou-se da porta, recordando que seu pai às vezes retirava-se para a oficina que tinha no porão, de uma forma a indicar que só devia ser interrompido em caso de emergência, como incêndio ou morte. Davey estava fazendo mais ou menos a mesma coisa.

       Ela foi para o andar de cima, a fim de ler sobre Richard Dart no Times. Na metade inferior da primeira página, a manchete FIGURA DA SOCIEDADE O PRETENSO ASSASSINO EM SÉRIE DO CONDADO DE FAIRFIELD encimava uma fotografia frontal do rosto de um mal identificável rapazote sorridente, com olhos sombreados. Nora achou que aquela devia ser a foto que ele tirara para a formatura como advogado. Segundo o artigo, Dart tinha trinta e sete anos, estudara na Academia de Mount Avenue em Westerholm, Connecticut, na Universidade de Yale, e na Faculdade de Direito da Universidade de Connecticut. Após diplomado, trabalhara para a firma de Dart, Morris, fundada por seu pai, Leland Dart, uma significativa figura da política Republicana no estado de Connecticut, e candidato derrotado para governador do estado, em 1962. A especialidade de Richard Dart na firma era o planejamento imobiliário. Ele fora detido para interrogatório, após a sra. Ophelia Jennings, de 62 anos, viúva do iatista e proprietário de cavalos de corrida, Sterling “Animado” Jennings, ter deixado o suspeito inconsciente, depois de convencida de sua culpa durante uma consulta legal já tarde da noite. O chefe de polícia de Westerholm expressava confiança na identificação de Richard Dart como o assassino de quatro mulheres locais, declarando “terem o nosso homem e estarem inteiramente preparados para oferecer evidência conclusiva, no momento apropriado”. Policiais falariam mesmo assim ou os repórteres apenas pretendiam que falassem?

       Leland Dart recusou-se a falar à imprensa, mas, através de um representante, disse que as acusações feitas contra seu filho eram totalmente infundadas.

       Duas longas colunas na página 21 davam a limitada informação que os repórteres do Times tinham conseguido desencavar durante a noite. Peter, o irmão do sr. Dart, advogado com uma firma na Madison Avenue, declarava-se convicto da inocência de seu irmão, a mesma certeza sendo expressada por vários vizinhos dos pais do acusado. Roger Struggles, um construtor de barcos, no momento desempregado e amigo íntimo do acusado, disse a um repórter que “Dick Dart é um tipo de sujeito descuidado e espirituoso, com um grande senso de humor. Ele não faria uma coisa destas nem em um milhão de anos.” Um bartender chamado Thomas Lowe descrevia-o como “um tipo sofisticado, despreocupado, extremamente sedutor”. O sr. Saxe Coburg, seu antigo professor de inglês e agora aposentado, lembrava-se de um rapazinho “que parecia inteiramente à vontade com a idéia de completar cada tarefa fazendo o menor esforço possível”. No anuário do ginásio, em sua entrada Dart expressara o surpreendente desejo de tornar-se médico, tendo escolhido como seu lema: No que concerne a viver, nossos servos fazem isso para nós.

       Em Yale, onde tanto seu avô como seu pai haviam estudado antes dele, durante o segundo semestre de seu ano de calouro Dart foi suspenso por motivos não revelados, porém conseguiu graduar-se com uma média C. Entre os duzentos e vinte e quatro diplomados da sua classe na faculdade de Direito, ele foi classificado em centésimo sexagésimo primeiro lugar. Havia sido aprovado nos exames para exercer a advocacia, em sua segunda tentativa, e imediatamente se juntou a Dart, Morris. O porta-voz da firma descreveu-o como “um membro único e inestimável de nossa equipe, cujos dotes especiais contribuíram para os nossos esforços na prestação de notáveis serviços jurídicos a todos os nossos clientes”.

       O advogado singularmente talentoso morava em um apartamento de três aposentos no Harbor Arms, único prédio de apartamentos em Westerholm, localizado ao lado do Iate Clube de Westerholm, na Baía Sequonset, na área da Blue Hill. Seus vizinhos de prédio o descreviam como um solitário ouvinte de música alta, nas freqüentes noites em que voltava para casa às duas ou três da madrugada.

       Esse ocioso e auto-importante boa-vida conseguira deslizar através da existência — não se falando em três boas escolas — baseado nas conexões de seu pai. Ele escolhera morar nos três aposentos no Harbor Arms. Blue Hill era uma das melhores zonas de Westerholm, e o Iate Clube só admitia pessoas da categoria de Alden Chancel e Leland Dart. O Harbor Arms, no entanto, construído nos anos vinte como cassino, era uma horrível visão de tijolos, sendo apenas tolerado porque fornecia alojamento conveniente para os bartenders, garçonetes e outros empregados de nível inferior que trabalhavam no Iate Clube. O que fazia Dick Dart naquela espelunca? Talvez morasse lá a fim de irritar o pai. O relacionamento de Dick Dart com o pai, decidiu Nora, era ainda pior do que o de Davey com o dele.

       Ela teve um vivido e instantâneo lampejo de Dick Dart virando-se de lado em sua cela, para congelá-la com um malicioso piscar de olhos. Dobrando o jornal, Nora lamentou ter conhecido e visto Dart ainda que uma única vez, mas estava feliz por nunca mais ter de vê-lo. Quando as histórias ficassem piores, quando o julgamento produzisse a torrente de tinta e papel que Alden alegremente predissera, ela prometeu a si mesma dar a mínima atenção possível.

       Em seguida, perguntou-se como seria ter realmente conhecido Dick Dart. Como reconciliar suas lembranças com o conhecimento do que ele havia feito? Estremecendo, ela identificou o motivo da angústia de Davey. Ele recebera um choque moral. Alguém a quem vira todos os dias, durante dois anos, havia sido exposto como maníaco. Agora, o sensato Matt Curlew diria a ela: Deixe-o pensar a respeito, sozinho e pelo tempo que quiser, depois prepare-lhe um gostoso breakfast e faça-o falar.

       Nora deixou o jornal na mesa da cozinha e seguiu em frente para tostar rosquinhas, apanhar o queijo vegetal cremoso e partir quatro ovos em uma tigela de vidro, a fim de batê-los. Este não era um dia para preocupar-se com colesterol. Moeu grãos de café French Roast e começou a ferver água em uma chaleira. Depois disso, pôs a mesa e colocou o jornal ao lado do prato de Davey. Estava colocando as rosquinhas tostadas e o queijo cremoso no lugar, quando a música subiu do andar de baixo. A porta da sala da família se abriu e fechou. Nora voltou ao fogão, deu mais uma mexida nos ovos e despejou a mistura em uma frigideira, enquanto o ouvia subir a escada e encaminhar-se para a cozinha. Com uma boa idéia do que ia ver, forçou-se a sorrir, quando deu meia-volta. Davey olhou para ela e para a mesa, inexpressivamente, e meneou a cabeça:

       — Já me perguntava se teríamos um breakfast.

       — Também estou fazendo ovos mexidos.

       Davey entrou na cozinha de uma forma que parecia quase relutante.

       — É esse o jornal?

       — Primeira página — disse Nora. — Há outro longo artigo na parte de dentro.

       Ele grunhiu e começou a ler, enquanto passava queijo cremoso em uma rosquinha. Nora moeu um pouco de pimenta sobre os ovos e os virou dentro da frigideira. Quando colocou os pratos na mesa, Davey ergueu os olhos e exclamou:

       — O verdadeiro nome de Popsie é Ophelia?

       — Vivendo e aprendendo.

       — Era justamente o que eu pensava — respondeu Davey, concentrando-se em seu prato. — Hum... Não é que sempre os tenhamos, mas você sempre fazia excelentes ovos mexidos. Na consistência exata.

       — Eu fazia?

       — Ou faz. A única outra pessoa que os preparava exatamente como gosto era O’Dotto.

       Nora sentou-se.

       — Se o sobrenome dela era Day, por que a chamavam de O’Dotto?

       — Sei lá. Sempre a chamamos assim.

       — E por que a chamavam de Copeira?

       Davey a fitou, com a mesma irritada relutância com que se juntara a ela na cozinha.

       — Posso ler isto?

       — Sinto muito — disse ela. — Sei que deve ser inquietante para você.

       — Há muitas coisas sendo inquietantes para mim.

       — Vá em frente — disse Nora. — Leia.

       Davey colocou o jornal em seu lado mais distante, de maneira a poder olhar para o prato e para o jornal, sem se arriscar ao que quer que imaginasse arriscar, olhando para Nora. A chaleira começou a cantar, e ela levantou-se, a fim de decantar o café moído no recipiente de boca larga, que em seguida seria enchido de água fervente. Depois apertou a tampa e levou o aparelho de volta à mesa. Davey inclinara-se sobre o jornal, segurando uma rosquinha. Nora pôs na boca uma garfada de ovos mexidos, e percebeu que não tinha muita fome. Ficou contemplando o líquido escuro no recipiente, enquanto minúsculos fragmentos de café moído desciam para o fundo. Após um momento voltou a experimentar os ovos e ficou satisfeita em constatar que ainda estavam quentes.

       Davey grunhiu para algo que lera no jornal.

       — Poxa, eles conseguiram uma declaração daquele velho cínico e nojento do Saxe Coburg. Atualmente deve andar pelos cem anos de idade. Certa vez perguntei a ele se chegara a pensar em colocar Jornada na Noite no roteiro do curso, e ele respondeu: “Eu espero que meus alunos leiam Driver em suas horas de folga.” Dá para acreditar nisso? Coburg usava o mesmo paletó de tweed todos os dias, e também gravatas-borboleta, como Merle Marvell. Ele até parece um pouquinho com Merle Marvell.

       Marvell, que começara editando os Blackbird Books, fora o mais respeitado editor da Casa Chancel durante uma década, e Nora sabia que a admiração de Davey por ele era turvada pela inveja. A deduzir por comentários que ele deixara escapar, evidentemente também temia que suas aptidões fossem levadas em pouca conta por Marvell. ; Nas poucas vezes em que se tinham encontrado, fosse em festas editoriais ou jantares em “Os Álamos”, Nora invariavelmente o achara encantador, embora não falasse de sua opinião a Davey.

       Ela tocou a mão do marido, e ele tolerou o contato por um segundo, antes de retirar a mão.

       — Isto deve ser muito estranho para você. Um garoto que conheceu na escola ter cometido todos estes assassinatos...

       Davey empurrou o prato e apertou as mãos contra o rosto. Ao baixá-las, passeou os olhos pelo aposento e suspirou.

       — Aposto que você quer falar sobre o que me está inquietando. É o que está procurando fazer?

       — Pensei que nós estivéssemos procurando — respondeu ela.

       — Eu me preocuparia menos com Dick Dart. — Ele fechou os olhos e coçou o rosto. Depois pousou as mãos na beira da mesa, entrelaçou os dedos e tornou a passar os olhos pelo aposento, antes de fitá-la novamente. O alarme no centro do peito dela intensificou-se. — Nora, se quer mesmo saber o que acho inquietante, eu respondo: é você. Não sei se este casamento está funcionando. Nem mesmo sei se ele pode funcionar. Há algo realmente esquisito acontecendo com você. Receio que esteja saindo dos trilhos.

       — Saindo dos trilhos?

       O tilintar de alarme dentro dela havia abruptamente despencado em estupor.

       — Como antes — disse ele. — Posso ver tudo acontecendo novamente e creio que não conseguirei suportar. Sabia que você tinha problemas quando me casei, mas não pensei que estivesse ficando louca.

       — Eu não estava ficando louca. Salvei a vida de um garotinho.

       — Certo, mas foi loucura a maneira como agiu. Você roubou o garoto do hospital e fez todos nós vivermos um pesadelo. Teve que deixar seu emprego. Lembra-se? Durante cerca de um mês, aliás, por praticamente dois meses antes de piorar tudo raptando o menino, você, ao invés de resolver o caso pelos canais competentes, criou problemas com os médicos, quase nunca dormia, chorava sem nenhum motivo e, quando não chorava, mostrava-se irascível. Lembra-se de ter quebrado a televisão? Lembra-se de estar vendo fantasmas? E quanto a demônios?

       Davey continuou a evocar certos excessos que ela cometera durante seu período de radiatividade. Nora recordou-lhe que tinha se submetido a terapia, tendo ambos concordado que funcionara.

       — Você viu o dr. Julian duas vezes por semana, durante dois meses. Foram dezesseis vezes ao todo. Talvez devesse ter prolongado a terapia. Sei apenas que agora você se encontra ainda pior, e isto está ficando demais para mim.

       Nora buscou sinais de que ele exagerava, pilheriava ou fazia qualquer coisa, exceto expressar o que imaginava ser a verdade. Nenhum desses sinais surgiu à vista. Davey estava inclinado para frente, com as mãos em cima da mesa, a mandíbula tensa, os olhos determinados e sem medo. Ele finalmente chegara ao ponto de exprimir, em voz alta, tudo quanto estivera dizendo a si mesmo enquanto ouvia Chopin na sala da família.

       — Eu gostaria que você nunca tivesse estado no Vietnã — disse ele. — Ou que pudesse deixar todas aquelas lembranças para trás.

       — Formidável! Agora, estou falando com Alden Chancel. Pensei que você tivesse entendido mais do que isso. É tola demais essa idéia de apenas deixar nossas lembranças para trás.

       — Também não é muito inteligente ficar biruta — disse ele. — Está pronta para ouvir a verdade?

       — Acho que mal consigo esperar — respondeu ela.

      

— COMECEMOS PELOS detalhes menores — disse Davey. — Você tem consciência da maneira como se porta no meio da noite?

       — Como você saberia de que jeito me porto no meio da noite? Está sempre no andar de baixo, bebendo kümmel!

       — Por acaso já experimentou dormir perto de alguém remexendo-se tanto, sacudindo a cama inteira? Às vezes você sua a tal ponto, que encharca os lençóis.

       — Está falando de duas noites na semana passada.

       — É onde quero chegar — disse ele. — Você não tem idéia do que realmente faz.

       Ela assentiu.

       — Quer dizer que estou tendo mais noites ruins do que pensei, e que isso o está incomodando. Tudo bem, concordo, mas tenho dormido melhor, agora que Dick Dart está atrás das grades.

       Ele mordeu o lábio inferior e recostou-se na cadeira.

       — Quando está tendo uma dessas noites ruins, você às vezes procura uma arma debaixo do travesseiro?

       Por um momento, Nora ficou demasiado perplexa para falar.

       — Bem, sim. Às vezes, depois de um pesadelo muito ruim, acho que faço isso.

       — Você costumava dormir com uma arma debaixo do travesseiro?

       — No Hospital de Evacuação. Como foi que descobriu o que eu procurava?

       — A idéia me veio certa noite, enquanto você suava como uma condenada e remexia debaixo de cada travesseiro da cama. Sua aparência estava longe da de um ursinho de pelúcia. Fico me perguntando o que você faria com uma arma, caso encontrasse alguma.

       — Como posso saber? — Ele esperava o resto disso. Prossiga, disse ela para si mesma, dê a ele o resto da história. — Certa noite fui estuprada por dois sujeitos, e então um cirurgião me deu uma arma, a fim de que me sentisse mais protegida.

       — Você foi estuprada, e nunca me disse?

       — Isso aconteceu há muito tempo. Você nunca quis ouvir além de um décimo do que costumava ocorrer. Nem você e nem ninguém.

       Percebendo que explicara muito pouco ou demasiado, Nora analisou a reação de Davey e notou quantidades iguais de injúria e choque.

       — Não acha que isso era algo que eu devesse saber?

       — Pelo amor de Deus! Eu não estava, deliberadamente, guardando de você um enorme e tenebroso segredo. Aliás, você tampouco parecia muito ansioso em contar-me sobre Paddi Mann e o Clube do Fogo do Inferno, certo?

       — É diferente — replicou ele. — Não me olhe desse jeito, Nora, apenas é diferente. — Os olhos dele estreitaram-se. — Presumo que alguns dos seus pesadelos sejam sobre o estupro, não?

       — Os ruins.

       Ele meneou a cabeça, estupefato.

       — Mal dá para acreditar que você nunca me contou!

       — Com sinceridade, Davey, além de não querer pensar demais em tudo isso, acho que não queria afligi-lo.

       Ele tornou a erguer os olhos para o teto, respirou fundo e expeliu o ar dos pulmões.

       — Passemos ao ponto seguinte. Esta história dos Blackbird Books é apenas um engano. Você me deixou animado durante algum tempo, tem isso a seu favor, porém o negócio todo é ridículo.

       Foi como se ele a esbofeteasse.

       — Como pode dizer tal coisa? Você finalmente...

       — Pare aí mesmo. Não existe a menor possibilidade neste mundo de que meu pai concordasse com a história. Se eu o procurasse, da maneira como planejamos, ele me rebaixaria para a sala de correspondência. A coisa toda não passou de um devaneio histérico. O que foi que deu em mim? — Por algum tempo, ele esfregou a testa, com os olhos apertadamente fechados. — Agora, o ponto seguinte. Você não vai, e repito que não vai, em quaisquer circunstâncias, amofinar minha mãe para que ela lhe dê o seu chamado manuscrito. Isto está fora de questão.

       — Já lhe falei que não fiz nada disso — replicou ela. — Por que não passa ao ponto seguinte, caso exista algum?

       — Oh, existem vários! E, lembre-se, ainda estamos abordando os detalhes menores.

       Ela recostou-se na cadeira e olhou para ele, estremecendo interiormente ante a ironia daquela situação. Quando seu marido finalmente exibia a segurança que ela estivera procurando instilar-lhe, ele a usava para queixar-se dela.

       — Quero que você demonstre a meu pai o respeito que ele merece. Já estou farto, cansado desta grosseria permanente.

       — Quer que eu fique quieta, enquanto ele me insulta?

       — Se é como entende o que acabei de dizer, sim. E agora, sobre mudar-nos de Westerholm. É pura loucura. Tudo que você pretende é fugir de seus problemas, para cúmulo, querendo destruir meu relacionamento com meus pais. E isto eu não vou permitir que aconteça!

       — Davey, Westerholm não nos convém, em absoluto. Nova York é muito mais interessante, mais diversificada, mais excitante, mais...

       — Mais perigosa, mais dispendiosa. E nós dificilmente precisaríamos de excitamento extra em nossas vidas. Vou a Nova York todos os dias, lembra-se? Você quer conviver com pessoas sem teto jazendo pelas ruas e assaltantes espreitando em cada esquina? Então ficou mais louca do que já é.

       — Você realmente me acha louca?

       Ele balançou a cabeça e ergueu as mãos.

       — Esqueça isso. Passemos agora às questões mais sérias. Consideremos a maneira como Natalie Weil reagiu a você, no posto policial. Ela perdeu totalmente as estribeiras. E não foi por minha causa. Não foi por causa daquele tira. Foi porque viu você.

       — Aconteceu alguma coisa com ela. Por isso agiu daquele modo.

       — Aconteceu alguma coisa com ela, sem dúvida. E onde aconteceu: na mesma escola maternal para onde você levou aquele menino, quando decidiu brincar de Deus. Quer fazer-me acreditar que foi mera coincidência?

       — Está pensando que eu a levei para lá?

       A simples irracionalidade de tal idéia a fez esquecer momentaneamente de respirar.

       — Não há outra maneira de explicar a situação. Você a trancou naquele prédio vazio e a manteve lá, até ela conseguir escapar. E agora eu me pergunto se você se lembra ou não de ter feito tudo isto. Porque pareceu realmente assustada quando Natalie começou a gritar, e não a considero uma atriz tão boa, Nora. Acho que você deve ter tido alguma espécie de colapso psicótico.

       — Eu a mantive presa em um prédio vazio. Creio que também devo ter espalhado todo aquele sangue pelo quarto dela. O que mais eu fiz? Torturei-a? Deixei-a passar fome?

       — Só você pode dizer — respondeu Davey. — Entretanto, a julgar pela maneira como ela agiu, a maneira como ela parecia, eu diria que sim às duas coisas.

       — Você me espanta.

       — O sentimento é mútuo.

       Nora ficou olhando para ele durante o silêncio que se seguiu a esta troca de palavras, pensando que, de algum modo, seu marido conseguira tornar-se uma pessoa que ela não conhecia, em absoluto.

       — Poderia me explicar por que fiz tudo isto a Natalie Weil, uma pessoa de quem gosto? E a quem não vi durante quase dois anos, a despeito do que você falou para Holly Fenn?

       Pela primeira vez durante este confronto, Davey começou a parecer desconcertado. Analisou algum pensamento em sua mente, e a dúvida transformou-se visivelmente em raiva.

       — Céus, o que, neste mundo, poderia ser? Poxa, eu gostaria de saber!

       — Eu também gostaria — disse Nora. — Aparentemente, está gritando na minha cara, porém não consigo ver o que seja.

       — Isto é mesmo necessário? Quero dizer, a esta altura?

       — Seu filho da mãe! — exclamou ela. — Quer que eu adivinhe?

       — Não precisa adivinhar, Nora. Você apenas quer que eu conte.

       — Pois então, conte!

       Ele empinou a cabeça para trás, e a fitou como se ela acabasse de pedir-lhe que comesse um punhado de terra.

       — Você sabe sobre mim e Natalie. Satisfeita agora?

       — Você e Natalie Weil?

       Ele assentiu, com ar enfastiado.

       — Você estava tendo um caso com Natalie Weil?

       — Nossa vida sexual dificilmente poderia ser considerada maravilhosa, concorda? Quando fazíamos sexo, você se desligava, Nora. O motivo para isso é que começou a viajar para a zona Além da Imaginação. Confesso que não sei para onde ia, mas onde quer que fosse, lá não havia muito espaço para mim.

       — Não — disse ela, lutando para conter as ondas de raiva, náusea e descrença que a invadiam. — Você é que me excluiu. Andava ansioso por causa do trabalho, pelo menos era o que eu pensava, e toda essa ansiedade começou a afetá-lo quando íamos para a cama. Então, foi ficando ainda mais ansioso por causa disso, o que o afetou ainda mais.

       — Foi tudo culpa minha.

       — Não foi culpa de ninguém! — gritou Nora. — Você me acusa, porque estava dormindo com Natalie! Maldita seja ela! E sabe o que é isso? Infantilidade! Eu não lhe disse para enfiar seu pinto dentro dela. Você decidiu isso sozinho!

       — Tem razão — disse Davey. — Você não é responsável. Nem sabe mais o que é realidade.

       — Estou começando a descobrir. Quando foi que isso começou? Você foi de carro à casa dela certo dia e disse: “Poxa, Natalie, eu e a velha Nora não estamos mais nos dando muito bem, que tal uma trepada?”

       — Se quer saber como começou, um dia eu a encontrei na delicatessen da Main Street, começamos a conversar e convidei-a para almoçar. A coisa toda começou daí.

       — Há quanto tempo foi esse almoço espetacular?

       — Há cerca de dois meses. Eu apenas gostaria de saber como você ficou sabendo, e quando começou a acalentar seu plano maluco.

       — Eu fiquei sabendo há dois segundos! — gritou ela.

       — Vai ser interessante ouvir o que dirá Natalie, quando puder falar. Porque, pelo que vi, você a deixou apavorada.

       — E deveria deixar mesmo — replicou Nora — mas por causa do que ela fez comigo, não por qualquer outra coisa.

       Diante de um impasse, os dois encararam-se por um momento. Em seguida, Nora compreendeu.

       — Então foi por isso que você quis ir à casa dela naquele dia! Queria ver se deixara alguma coisa para trás! Todo aquele negócio que me contou a noite passada não passou de mais um conto de fadas de Davey Chancel!

       — Certo, eu receava ter deixado alguma coisa na casa dela. Se visse algo, poderia dizer que o esquecera lá, na última vez que a visitamos.

       — E depois me contaria uma mentira, para justificar como a tal coisa foi parar lá.

       Davey deu de ombros.

       — Como foi que o livro de Paddi Mann apareceu na casa de Natalie?

       Ele sorriu.

       — Dick Dart não o deu a ela, com toda certeza.

       Nora sentiu vontade de jogar na parede todos os pratos da cozinha. De súbito, em estremecedor lampejo de compreensão, lembrou-se de Alden falando a Davey sobre Dick Dart, no terraço. Ele dizia algo como: Eu gostaria de saber o que pensa a esposa de Leland sobre seu filho cortejando as mesmas mulheres que seu marido seduziu há quarenta anos. E Alden acrescentaria: Teria que ser um rapaz muito estranho para fazer tal coisa, você não acha? Alden tinha sido o homem que Natalie chamara de “o Chato”. E, provavelmente, ele tirara as fotos na cozinha dela. Não mais sorrindo, Davey dirigiu a ela um olhar culpado e incerto, e Nora soube que acertara.

       — Natalie teve um caso com seu pai, não foi?

       Davey pestanejou, parecendo mais culpado do que nunca.

       — Ah! Bem, teve, sim. — Ele mordeu o lábio inferior e considerou-a. — É curioso você ter conhecimento disso.

       — Eu não fazia a menor idéia. Foi uma espécie de intuição.

       — Suponho que ela poderia ter-lhe contado quando isso aconteceu. Você não a encontrou no supermercado, algum tempo atrás?

       — Alden deu a ela aqueles Blackbird Books — disse Nora, em outro lampejo intuitivo. — Eu gostaria de saber por que estavam separados daquele jeito, na estante. Eram presente de um amante, e ela os mantinha juntos.

       — Natalie nunca leu nenhum deles — disse Davey.

       — Não chega a surpreender, em vista da vida agitada que ela levava. Terá rompido com seu pai, quando você apareceu? Seria um negócio tipo mercadoria que entra como parte do pagamento de outra, um modelo mais atualizado, como esse?

       — O caso deles já estava encerrado. Antes de mais nada, não foi nenhum grande negócio.

       — Ao contrário de sua grande paixão... Roubar a prostituta de seu pai deve ter derrubado de vez o ego do velho. Uma espécie primitiva de vitória.

       — Só mais tarde é que fiquei sabendo sobre ela e meu pai.

       A perna esquerda de Davey começou a tremer, e ele tornou a morder o lábio um pouco mais.

       — Você chegou a fazer comparações? Quanto tempo durava? Qual a resistência? Esse tipo de coisas com que vocês, rapazes, tanto se preocupam.

       — Cale-se — disse ele. — É claro que não. Já disse que não foi nenhuma grande coisa.

       — Para você nada é uma grande coisa, hein? Não tem a menor idéia de quais sejam seus sentimentos. Limita-se a pô-los de lado, esperando que desapareçam.

       — Nora, eu tive um ímpeto. As pessoas fazem a mesma coisa, no mundo inteiro. Entretanto, se sou tão emocionalmente imbecil como você acha, por que estamos tendo esta conversa? O principal é que estou preocupado com você. A única maneira que conheço para explicar tais coisas, é como acabei de falar. E se vai sair dos trilhos, então não sei o que fazer a seu respeito.

       — Pois continuo nos trilhos! Você teve um casinho asqueroso, você me traiu, e depois toma a sua culpa e a lança sobre mim! Se estou louca, então seu adultério é justificado.

       — Tudo bem — disse ele. — Talvez haja outra explicação. Espero que haja porque, na realidade, não gostei muito desta.

       — Pois eu a adorei! — exclamou Nora. — Mostrou tanta confiança, tanta compaixão...

       — Assim, acho que devemos esperar para ver como fica.

       — Quanto a mim, não posso mais suportar isto — declarou Nora, eletrificada pela fúria. — Não posso mais suportar você! Estou furiosa por saber que dormiu com Natalie, mas se me mostrar que é capaz de começar a compreender quem sou, talvez eu consiga superar isso rapidamente. Entretanto, este lixo é muito pior do que eu...

       Ela não encontrou palavras.

       — Se eu estiver errado, nadarei sobre vidros quebrados para desculpar-me.

       — Poxa, como fico feliz em ouvir isso! — exclamou ela.

       Levantando-se, Davey apressou-se em ir embora da cozinha, sem olhar para ela.

      

DEPOIS QUE A PORTA da sala da família foi aberta e fechada, Nora liberou os dedos entrelaçados e tentou forçar o corpo a relaxar. O início de Manon Lescaut esgueirou-se escada acima. Ele ia esconder-se, presumivelmente, até que um esquadrão de policiais surgisse em cena a fim de levá-la algemada para o hospício.

       Ele a tinha reduzido, tinha-a diminuído. Na versão de Davey para o casamento de ambos, uma esposa criminalmente irracional atormentava um marido assediado que se preocupava com ela. Nora não estava enfurecida ao ponto de deixar de admitir que a vida sexual de ambos tinha sido imperfeita e, por outro lado, sabia que muitos casamentos, talvez até a maioria deles, conseguia reentrar nos eixos após uma infidelidade. Reconhecia que seus terrores noturnos, aparentemente muito piores do que ela imaginara, podiam ter desempenhado um papel no que Davey havia feito. Estava disposta a aceitar sua parte de culpa. Só não podia perdoar o fato de Davey a ter eliminado.

       Assim que a diferença de idades entre eles se tornara uma diferença — Davey começara a ficar em pânico. Uma mulher de quarenta e nove anos está a vários cruciais passos além dos de um homem de quarenta. A menopausa, e não os pesadelos e comportamento irracional, é que estava assombrando Davey Chancel.

       Isto era realmente triste, e Nora levantou-se da mesa. Empilhou os pratos e juntou os talheres, resistindo ao impulso de atirar tudo ao chão. Colocou os pratos, xícaras e talheres na máquina de lavar, e as panelas na pia. Se Davey a abandonasse, para onde iria? Poderia ele mudar-se para “Os Álamos”, enquanto ela continuaria na casa? A idéia de morar sozinha na Crooked Mile Road a deixou quase tonta de ansiedade.

       Podia recordar o que tinha feito todos os dias, desde o desaparecimento de Natalie. Fizera compras, limpara e arrumara toda a casa, lera, exercitara-se. Telefonara para agentes, tratando de assuntos ligados aos Blackbird Books. Na tarde do dia seguinte ao desaparecimento de Natalie, quando Davey a julgara atormentando a mulher desaparecida na South Post Road, Nora casualmente encontrara Beth, a mulher de Arturo Landrigan, em um café da Main Street chamado “Aventura de Alice”. A despeito de ser casada com um homem tão imbecil que se achava com direito a tomar banho em uma banheira de ouro (“Faz a gente se sentir como um vinho excelente em uma taça de ouro”, confidenciara Arturo), Beth Landrigan era uma mulher despretensiosa, elegante e compreensiva em seus cinqüenta e poucos anos, uma das poucas em Westerholm que parecia oferecer a Nora uma promessa de amizade. O principal obstáculo a esta amizade, era a leve e mútua antipatia existente entre os maridos de ambas. Davey achava Arturo Landrigan vulgar e ignorante, e Nora podia imaginar o que Landrigan pensava de Davey. As duas mulheres tinham aproveitado seu encontro casual para ficarem uma hora (não planejada) no “Aventura de Alice”, e pelo menos metade desse tempo fora gasta falando sobre Natalie Weil.

      

Talvez eu esteja mesmo louca, disse ela para si mesma vinte minutos mais tarde, enquanto dirigia seu carro a esmo pelas ruas marginadas de árvores em Westerholm. Nora fez outra volta, ganhou uma rampa em curva e viu-se circundada por muito mais carros do que reparara antes. Então, percebeu que estava rodando pela Merritt Parkway abaixo, na direção de Nova York. Uma parte sua decidira fugir, e esta parte levava consigo o restante dela. Já tinha percorrido quase cinco quilômetros; Nova York ficava a somente mais oito. Em meia hora, ela poderia estar deixando o carro em uma garagem perto da FDR Drive. Tinha na bolsa uns quatrocentos dólares e podia conseguir mais em um caixa automático de banco. Podia registrar-se em um hotel sob um nome falso, ficar lá uns dois dias e ver o que acontecia. Se você vai mudar sua vida, Nora, disse para si mesma, tudo o que tem a fazer é continuar dirigindo.

       Assim, dentro em pouco havia duas Noras sentadas ao volante de seu Volvo. Uma delas ia continuar pela Merritt Parkway, a outra pretendia deixar a estrada principal na primeira saída e retornar a Westerholm. Estas duas atitudes pareciam igualmente possíveis. A primeira tinha uma definida vantagem de apelo, ao passo que a segunda correspondia muito mais a sua idéia sobre o próprio caráter. Entretanto, por que deveria ser condenada a sempre seguir sua idéia do que era certo? E por que tinha de presumir, automaticamente, que voltar seria o único e correto curso de ação? Se o que desejava era fugir para Nova York, então Nova York se tornava a escolha acertada.

       Nora decidiu não decidir; veria o que ia fazer e adicionaria o custo mais tarde. Durante alguns minutos, continuou velozmente pela parkway, em um estado de agradavelmente suspensa liberdade moral. Um aviso de saída surgiu e passou, seguido pela sua própria imagem. As duas separadas Noras saboreavam sua pacífica moradia em um só corpo. Dez minutos mais tarde, outra indicação de saída flutuou em sua direção, e ela permaneceu na pista da esquerda, enquanto pensava, Bem, agora saberemos. Vários segundos mais tarde, quando a própria saída lhe surgiu à frente, ela ligou o sinalizador e manobrou rapidamente, com o tempo justo para sair da parkway.

      

NORA FREOU O Volvo dentro da garagem vazia. O fato de não ter de explicar-se a Davey surgiu como um alívio, mesclado à curiosidade de saber o que ele estava fazendo. Imaginou a princípio que poderia ter ido visitar os pais, mas ao encaminhar-se para a porta dos fundos, percebeu que Holly Fenn talvez houvesse ligado, com notícias de Natalie. Uma visão do marido murmurando palavras ternas para Natalie Weil a deixou com vontade de tornar a entrar no Volvo e disparar para algum lugar bem distante, como o Canadá ou o Novo México. Ou para casa, seu lar perdido, a Península Superior. Possuía amigos, lá em Traverse City, pessoas que a acolheriam e protegeriam. A noção de proteção evocou automaticamente a imagem de Dan Harwich, porém ela rejeitou esse falso conforto. Dan Harwich estava casado com sua segunda esposa — nem marido e nem mulher certamente estariam dispostos a receber Nora Chancel em sua atraente casa de pedra na Alameda Longfellow, em Springfield, Massachusetts.

       Ela deu uma espiada na sala da família e continuou para o andar de cima. Perguntou-se se Davey teria saído à sua procura. A explicação mais provável para a ausência dele era que havia sido chamado ao posto policial, caso em que deixaria uma nota para ela. Encaminhou-se para o lugar costumeiro em que deixavam bilhetes um para o outro, o pedaço da bancada da cozinha perto do telefone, onde havia um grosso bloco de notas ao lado de um pote cheio de esferográficas. Escritas na primeira folha do bloco estavam as palavras “cogumelos” e “K-Y” o começo de uma lista de compras. Nora foi ao segundo lugar mais provável, a mesa da sala de estar, onde nada encontrou além de uma pilha de revistas. Retornando à cozinha, inspecionou a mesa e o restante da bancada. Nada havia por lá. Finalmente, foi ao quarto, o menos provável local para mensagens, onde se deparou somente com os amarrotados lençóis e cobertas daquela manhã.

       Sentindo-se como a Nora irresponsável que desaparecera em Nova York, ela caminhava para a sala de estar, quando o telefone tocou. Ergueu o fone, a despeito de si mesma esperando ouvir a voz de Davey.

       — Já decidi — falou uma voz de mulher — eu quero que você o tenha.

       — A senhora ligou para o número errado.

       — Não diga tolices — falou a mulher, e Nora logo reconheceu sua sogra. — Quero ir em frente com isso.

       — Davey está aí?

       — Aqui não há ninguém. Posso ir diretamente aí e deixá-lo com você. Fiquei tempo demais sozinha com a coisa, e acho crucial que você a leia. Não terei sossego enquanto não ouvir sua opinião.

       — Você quer trazer seu livro aqui? — perguntou Nora.

       — Quero sair e espairecer — disse Daisy, não entendendo a ênfase de Nora. — Nem sei mais quanto tempo faz que não saio desta casa! Quero ver as ruas, quero ver tudo! Desde que me decidi sobre isto, tenho andado absolutamente exaltada.

       — Você está certa — disse Nora.

       — Sou grata a você por oferecer-se, sou-lhe duas vezes grata. Poderá trazê-lo de volta para mim na terça ou quarta-feira, quando os homens estiverem no trabalho.

       — Você vai dirigir?

       Durante várias décadas, Daisy não se aventurara a pilotar um carro além do final da entrada de veículos em sua casa. Ela riu.

       — É claro que não! Jeffrey dirigirá. Não se preocupe, Jeffrey é de absoluta confiança. Ele é como o Kremlin.

       Nora entregou os pontos.

       — Então, é melhor que se apresse. Não sei quando Davey voltará para casa.

       — Isto é tão excitante! — exclamou Daisy, desligando em seguida.

       Nora deixou escapar um gemido e ficou encurvada contra a parede. Davey jamais saberia que ela vira o livro de sua mãe. Toda a transação teria de ser conduzida como sob um manto, no mais profundo da noite. Daisy deixaria o manuscrito com ela, que o devolveria alguns dias depois. Não precisaria lê-lo. Bastaria dar à sogra o encorajamento de que ela precisava.

       Endireitando o corpo, ela foi até a janela da sala de estar, de maneira alguma satisfeita com a idéia de tratar Daisy tão mesquinhamente.

       Quando achou que o carro dela logo estaria entrando na Crooked Mile Road, saiu de casa e desceu até o final da entrada de veículos. Um Mercedes veio rodando em sua direção. Daisy começou a abrir a porta antes mesmo que o carro parasse, e Nora recuou. A sogra desceu do Mercedes e abraçou-a.

       — Meu querido gênio! Minha salvação!

       Daisy inclinou-se para trás e sorriu para Nora, exultante e impetuosamente. Tinha os olhos molhados e vidrados, os cabelos projetando-se em flocos brancos.

       — Isto não é formidável, não é uma travessura? — Deu a Nora outro sorriso impetuoso, e então virou-se, a fim de pegar no assento da frente uma gorda pasta de couro, fechada com correias.

       — Aqui está. Eu a coloco em suas mãos maravilhosas.

       Estendeu a pasta como um troféu, e Nora a pegou pela alça. Quando Daisy soltou as mãos dos lados, a pasta, que devia pesar uns dez ou quinze quilos, caiu quase meio metro.

       — Pesada, não? — disse Daisy.

       — O livro está terminado?

       — Acertou! — exclamou Daisy. — Está terminado, terminado, terminado, daí por que esta foi uma idéia tão brilhante. Mal posso esperar para ouvir o que você dirá a respeito. Meu Deus! — Ela arregalou os olhos. — Sabe de uma coisa?

       Nora pensou que Daisy houvesse lido sobre Dick Dart, no jornal da manhã.

       — Eles tiveram a coragem de construir aquela hedionda fortaleza na Post Road, bem onde ficava aquele adorável restaurantezinho!

       — Oh! — exclamou Nora.

       Daisy se referia a uma loja de departamentos formada por lajes de concreto, que durante cerca de uma década ocupara dois quarteirões da Post Road.

       — Acho que vou escrever uma carta-queixa. Nesse meio tempo, Jeffrey vai expandir meus horizontes, rodando comigo por aí, por acolá, como você também irá fazer mais tarde, minha querida, falando-me sobre meu livro. Enquanto fico vendo a paisagem, você estará espiando dentro do meu caldeirão.

       — Divirta-se, Daisy — desejou Nora.

       — Procure divertir-se também — respondeu Daisy. — Agora, acho melhor eu e Jeffrey irmos andando. Ligarei para você esta noite, a fim de saber suas primeiras impressões. Precisamos de uma palavra-código, para anunciar que a barra está limpa. — Ela fechou os olhos, depois os abriu e sorriu radiosamente. — Já sei, usaremos o que me disse, quando lhe telefonei. Se Davey estiver presente, você dirá “ligou para o número errado”. Acho que é perfeito. Tenho um dom para esse tipo de coisa. Talvez devesse ter sido uma espiã. — Daisy tornou a entrar no carro e sussurrou, através da janela aberta: — Mal posso esperar!

       Nora agachou-se, a fim de ver qual o comportamento de Jeffrey em tudo aquilo. O rosto dele estava rigidamente imóvel, e os olhos eram duas fendas escuras e reluzentes. Inclinando-se para frente, ele disse lentamente:

       — Não quero parecer presunçoso, sra. Chancel, mas se puder fazer alguma coisa pela senhora, ligue para mim. Meu sobrenome é Deodato, e tenho minha própria linha telefônica.

       Nora recuou, e o carro começou a mover-se. Daisy tinha se virado no assento, e Nora tentou retribuir o sorriso, até o rosto de sua sogra tornar-se apenas um pálido e exultante balão, flutuando rua abaixo, enquanto o Mercedes ia embora.

      

NORA DEPOSITOU a pasta em cima do sofá e desafivelou as correias. Amarfanhada e gasta, escurecida por manchas aqui e ali, parecia ter uns quarenta ou cinqüenta anos de idade. Quando Nora finalmente puxou-lhe o zíper, o topo da pasta bocejou vários centímetros para o alto, e a massa de páginas abaixo dele expandiu-se, como que tomando uma profunda respiração.

       Milhares de páginas de tamanhos, cores e estilos diferentes surgiram à vista. Em sua maioria, eram folhas padronizadas de papel branco para datilografia, algumas amarelecidas pelo tempo; uma parte delas era também de folhas padronizadas, mas em tons de marfim, cinza, ocre, azul e rosa-bebê. As restantes, aproximadamente um terço, consistiam de folhas arrancadas de cadernos de anotações, papel de correspondência de hotéis, formulários da Casa Chancel para remessas e pedidos, utilizados nos lados em branco, e da espécie de papel para recados, decorados com desenhos de cavalos e cães.

       Onde poderia esconder tal monstruosidade? Provavelmente caberia debaixo da cama. Nora ajoelhou-se, a fim de passar os braços por baixo do fundo da pasta. Depois a ergueu do sofá e cambaleou para trás, mal conseguindo enxergar acima do topo. Um fraco odor de poeira e naftalina pairava em torno do volume dos papéis e da pasta de couro em seus braços.

       A primeira folha flutuou no ar à frente dela, revelando-se como uma página-título que nunca chegara a concluir-se. No correr dos anos, Daisy considerara sempre um crescente número de títulos e adicionara as novas inspirações, sem rejeitar as antigas.

       Uma vez no quarto, Nora caminhou cautelosamente na direção do sofá, depois inclinou-se para depositar a pasta sobre a perna pendurada de uma calça jeans e uma camisa que estivera pensando em passar a ferro. Contendo a respiração, ela pousou uma das mãos no topo da pasta, usando a outra para jogar o jeans para um lado, a blusa para outro. Depois sentou-se junto da pasta. Encarou-a por um momento, lamentando ter-se oferecido para ler o calhamaço daquele épico, em seguida agarrou-a pela frente e por trás, e baixou-a para o chão. Sim, ela poderia ser do tamanho exato para caber debaixo da cama, provavelmente haveria ali o espaço justo para escondê-la.

       Nora olhou para a translúcida janela dupla na parede à sua esquerda. Levantou-se, a fim de erguer as persianas inferiores o máximo que elas permitissem, e retornou ao sofá. Baixou os olhos para o desarrumado monte de páginas aos seus pés, suspirou, pegou umas sessenta ou setenta, virou a página-título ou sem título, e leu a dedicatória. Datilografada em uma amarelada folha com o timbre do Sahara Hotel, Las Vegas, arrematado pela elevação fronteira do prédio, dizia: A única pessoa que chegou a proporcionar-me o encorajamento necessário a qualquer escritor, àquela que tem sido minha solitária companheira, e sem cujo apoio há muito eu teria abandonado esta diligência — eu mesma.

       Na página seguinte, também liberada do Sahara Hotel, Las Vegas, havia uma epígrafe atribuída a Wolf J. Flywheel: O mundo é povoado por ingratos, debilóides, imbecis e aqueles abaixo deles.

       Nora começou a divertir-se.

       PRIMEIRA PARTE: Como os bastardos assumiram o comando.

       Ela começou a ler o primeiro capítulo. Através de um labirinto de linhas entrecruzadas, flechas para frases nas margens e palavras substitutas, foi acompanhando as tenebrosas atividades de Clementine e Adelbert Poison, que viviam em uma decrépita mansão gótica chamada “A Hera”, na cidade de Westfall. Pintora, cuja antiga beleza ainda era visível através do excesso de peso adquirido ao longo de um casamento infeliz, Clementine bebia um pouco, chorava um pouco, ponderava o suicídio e tinha um relacionamento peculiarmente irônico e distante com o filho Egbert. Adelbert fazia e perdia milhões, jogando com os milhões mais substanciais que herdara de seu pai tirânico, Archibald Poison, e seduzia garçonetes, secretárias, faxineiras e a vendedora de produtos de beleza a domicílio. Quando em casa, Adelbert gostava de sentar-se em seu terraço infecto, vasculhando o Estreito de Long Island através de um telescópio, em busca de barcos a vela soçobrando e banhistas se afogando. Egbert era como uma massa invertebrada, que passava a maior parte de seu tempo na cama. Algum vago, mas asqueroso segredo, possivelmente outros segredos asquerosos, e também vagos, empestavam o ar.

       Quando chegou ao final do primeiro capítulo, Nora ergueu os olhos e percebeu que estivera lendo durante meia hora. Davey ainda não voltara. Ela tornou a olhar para a página, cuja última linha era “Você sabe muito bem que nunca desejei reclamar Egbert — disse Adelbert.” Reclamá-lo? Egbert assemelhava-se a alguma coisa reclamada, como um cão perdido.

       O telefone tocou. Esperando ouvir a voz do marido, Nora pegou o fone:

       — Alô?

       — Ótimo, ótimo, você não disse “ligou para o número errado”, sinal de que pode falar — disse a voz de Daisy, ligeiramente empastada. — O que tem para me dizer?

       — Acho que é interessante — respondeu Nora.

       — Hum... Você tem que dizer mais do que isso.

       — Estou gostando, sinceramente. Gosto de Adelbert e de seu telescópio.

       — Alden costumava ficar horas à procura de garotas fazendo topless nos conveses de barcos a vela. Até onde chegou?

       — Ao fim do primeiro capítulo.

       — Hum... — Daisy parecia desapontada. — Do que gostou mais?

       — Bem, creio que do tom. Dessa espécie de humor negro. É algo mais ou menos como Charles Addams.

       — Isso é porque você leu apenas o primeiro capítulo — disse Daisy. — Daí em diante, há todo tipo de mudanças. Você verá, vai apreciar bastante o que ler. Pelo menos espero que aprecie. Continue, volte à leitura. Seja sincera, gostou mesmo do que leu?

       — Bastante — disse Nora.

       — Iuuupiii! — exclamou Daisy. — Então, pare de perder tempo falando comigo, e dispare em frente!

       Daisy desligou. Nora retornou ao sofá e começou a ler o segundo capítulo. Adelbert estava ao lado de uma mulher loura, alta e magérrima. Assinava um livro de registro de hotel sob um nome falso. Em seu quarto, ele ordenou à mulher que se despisse. Não podíamos ter um drinque primeiro, benzinho? E ele respondia, Faça o que eu disse. A mulher se despiu e abraçou-o. Adelbert empurrou-a. Ela disse ter pensado que eram amigos. Adelbert tirou um revólver do bolso do paletó e disparou uma bala na testa da criatura.

       Nora tornou a ler a linha. Adelbert ergueu o revólver, premiu o gatilho e acertou uma bala na testa idiota da mulher. Era uma nova faceta de Adelbert. Nora sorriu à idéia de Daisy transformando Alden em assassino. Ela estava eliminando todas as conquistas do marido.

       O telefone tocou novamente. Resmungando, Nora levantou-se e foi atender, dizendo:

       — Por favor, Daisy, tem que me dar mais tempo.

       Uma voz de homem perguntou:

       — Quem é Daisy?

       — Sinto muito — disse ela. — Pensei que você fosse outra pessoa.

       — Evidentemente. Espero que, seja ela quem for, lhe dê todo o tempo de que precisa.

       — Holly! — exclamou Nora. — Quero dizer, Chefe Fenn! Que embaraçoso... Na realidade, estou contente por ter ligado. Deve ter alguma novidade para contar.

       — Sou apenas Holly, e o motivo de haver ligado é porque ainda não temos nenhuma novidade. Finalmente arrancamos o médico da sra. Weil do campo de golfe, ele injetou-lhe uma porção de sedativos e a colocou no Norwalk Hospital. Em sua opinião, talvez somente na manhã de segunda-feira é que conseguiremos extrair dela um relato coerente. Pensei em dizer-lhe isto a fim de que, em todo caso, possa relaxar por uma noite.

       Nora agradeceu-lhe e disse:

       — Se vou chamá-lo de Holly, você devia começar a chamar-me de Nora.

       — Já comecei — respondeu ele. — Entrarei em contato na manhã de segunda-feira, por volta de nove, dez horas no máximo.

       Uma onda de alívio afrouxou os músculos nas costas de Nora. Holly Fenn considerava-a inocente do que quer que houvesse acontecido a Natalie, aquela porca nojenta. Holly Fenn queria esclarecer as coisas.

       Ela voltou à leitura do épico de Daisy. Adelbert estacionava à frente de sua mansão em ruínas e entrava em casa para puxar Egbert da cama. Egbert caiu no chão, engatinhou de volta à cama e puxou as cobertas sobre a cabeça. Adelbert desceu ao andar de baixo, para ordenar a uma chorosa criada que levasse à biblioteca um martíni seis-por-um. Quando a empregada surgiu com seu drinque, ele estava mergulhado na leitura de um volume intitulado História da Família Poison na América.

       Iniciou-se um novo capítulo, aparentemente de uma versão muito mais antiga do romance. Escritas em páginas amareladas, as letras subiam e desciam do nível das linhas, cada e inclinado para a esquerda, cada o um orifício de bala. Após uma batalha com o estilo, bem mais congestionado que o dos primeiros dois capítulos, Nora viu que Adelbert estava lendo a história de seu pai, durante o período imediatamente após o nascimento de Egbert. Simpatizante secreto do nazismo, Archibald acumulara milhões investindo em negócios armamentistas alemães, porém algum tempo depois um exasperador problema pessoal desviou-o de suas sigilosas tentativas para fundir um grupo de milionários de direita em um movimento fascista. Após reler três vezes várias páginas, Nora deduziu que Adelbert e Clementine talvez houvessem produzido o neto que Archibald ardentemente desejava. A criança havia morrido ou eles a tinham entregue para adoção. As invectivas de Archibald, extensamente representadas, não os tinham convencido a reparar a perda. Quando suas ordens e ultimatos deram em nada, Archibald disse ao filho que ia cortá-lo do testamento se não lhe providenciasse um herdeiro.

       Todo o texto jazia oculto por uma furiosa explosão de pontos de exclamação, emaranhada gramática e frases de trás para diante. As fantasias de Archibald sobre o fascismo americano nublavam páginas inteiras com descrições de uniformes nazistas e outras insígnias do movimento. Hitler aparecia, confusamente. Nora não tinha certeza se o novo filho havia sido reclamado, adotado ou inclusive ressuscitado.

       Começando a ler a página seguinte, datilografada em uma folha de papel para correspondência do Ritz-Carlton, ela seguiu por três parágrafos, antes que as duas primeiras frases bimbalhassem em sua cabeça. Voltou atrás e os releu, depois tornando a ler as frases. Os sapatos de Adelbert estavam riscados por marcas de desgaste. De fato, os sapatos de Adelbert não eram os de um homem exigente e meticuloso, e tais manchas e fedores secretos permeavam todo o seu caráter.

       — Oh, meu Deus! — exclamou Nora. — Era Daisy!

      

NORA ERGUEU os olhos, tomada de perplexidade. Não somente Clyde Morning e Marletta Teatime eram a mesma pessoa, como ambos eram Daisy Chancel. Depois que os escritores iniciais da série Blackbird desertaram da Casa Chancel, Alden os substituíra por sua esposa, a qual produzira grande quantidade — em detrimento da qualidade — de romances de horror por empreitada, enquanto mourejava em sua soturna monstruosidade. Jamais alguém vira os dois esteios da Blackbird ou tivera notícias deles, porque ambos eram fantasmas. O romance Espectro estivera escondido em uma estante na sala de conferências, porque Daisy perdera o interesse e o tinha escrito quando cansada, bêbada, ou as duas coisas. Alden jamais reviveria a série Blackbird. Davey estivera certo quanto a isso, embora sem saber por quê.

       Nora perguntou-se como ele reagiria, caso lhe revelasse o que havia descoberto. Depois compreendeu que não podia fazer isso, pois sabia perfeitamente qual a reação de seu marido. Ele ficaria esfregando a boca por vinte minutos, antes de desaparecer no andar de baixo para esconder-se atrás de Puccini. Uma pergunta mais urgente era se devia ou não contar a Daisy o que descobrira. De novo, durante algum tempo, duas Noras separadas viveram no mesmo corpo, que se moveu até a cozinha, a fim de preparar um sanduíche de presunto. A instabilidade de Daisy tornava possível um acesso de fúria ou de felicidade, ao ter seu pseudônimo conhecido. Nora levou o sanduíche de volta ao quarto e percebeu que Davey estivera ausente por horas. Pelo menos não estava no Norwalk Hospital, paparicando Natalie Weil. Ela decidiu fazer exatamente o que tinha feito na estrada — adiar qualquer decisão, até que esta surgisse por si mesma. As maneiras de Daisy ditariam sua escolha.

       Nora mordeu o sanduíche e começou a ler saltando páginas, querendo saber para onde ia aquela história.

       Após mais uma hora decidiu que, se a história iria para algum lugar, seria em alguma direção “daisystica”, desconhecida do mundo normal. Havia cenas concluídas, e então, como se um rascunho anterior não tivesse sido removido, repetiam-se com ligeiras variações. O tom oscilava de seco para histérico, e vice-versa. Por vezes, Daisy interrompia uma cena contínua, a fim de interpolar passagens manuscritas de palavras e frases desconexas. Certas cenas ficavam descritas a meio ou por terminar, como se Daisy pretendesse voltar a elas mais tarde e as tivesse esquecido. Nem de longe havia algo semelhante a uma trama convencional. Um capítulo, em seu desenrolar, deixava transparecer: A escritora quer tomar outro drinque e ir para a cama. Vocês, seus idiotas, deviam fazer o mesmo.

       Após seguir tais confusões por entre um labirinto de flechas e linhas entrecruzadas, Nora começou a sentir-se nauseada. Decidiu ver o que acontecia no final, e retirou da pilha as últimas trinta páginas. Perfeitamente datilografadas em papel branco e novo, estavam isentas de alterações, inserções ou marcas de qualquer espécie. Nora reclinou-se para trás, reiniciou a leitura, e logo se viu novamente emaranhada em arame farpado.

       O final do livro de Daisy descrevia uma discussão entre Clementine e Adelbert, abrangendo todo o casamento de ambos. Em vários momentos eles apareciam em seus vinte, quarenta, cinqüenta e sessenta anos de idade. O local da discussão ia de diferentes aposentos da residência do casal a compartimentos de trem, refeitórios de hotel e casas em cidades européias. Eles jaziam na relva de um parque londrino e debruçados no bar de uma casa de bebidas na Terceira Avenida, às duas da madrugada. O final era uma compilação das ocasiões de disputas da dupla. O que Nora não entendia era a natureza da disputa em si.

       Clementine lançava acusações, e Adelbert respondia com irrelevâncias, em sua maioria sobre música. Eu mantive seus negócios em andamento, seu filho da mãe, mas em vez de ser grato, você me deu um chute nos dentes. (Adelbert: Jamais apreciei muito Hank Williams.) Sua vida inteira é baseada em uma mentira, como também a de nosso filho. (Adelbert: Música barata soa bem em rádios de carros.) Você não é apenas uma fraude, mas uma fraude encharcada em sangue. (Adelbert: Em sua maioria, as pessoas preferem ir a um jogo de bola do que a uma sinfonia, e têm toda razão.) O mau gênio transcendia dos parágrafos, havia uma amargura evocada por um tema tão familiar a Clementine e Adelbert quanto era opaco para Nora.

       O último parágrafo afastava-se dos protagonistas para descrever o terraço de um restaurante nos Alpes italianos. Copos cintilavam ao lado de pratos brancos, e reluzentes talheres destacavam-se sobre toalhas cor-de-rosa. A neve brilhava no alto dos picos além do terraço. Um pássaro cantava na distância, e um comensal respondeu com uma imitação tão exata quanto um eco. Uma branca nuvem de fumaça de charuto elevou-se de uma mesa distante e dissolveu-se no ar.

       — Fraude — disse Clementine, e o sol idiota, não tendo escolha, brilhou sobre o mundo envenenado, o mundo dos Poisons.

       Nora colocou a última página em cima das outras, e ouviu o som que mais estivera temendo: o tilintar do telefone.

      

— GRAÇAS A DEUS não ouvi a mais odiosa expressão na face da terra, “Ligou para o número errado”. Não me portei direitinho? Não fui a coisinha mais contida na face da terra? Estou orgulhosa de mim mesma, orgulhosíssima. Fiquei circulando este telefone, erguendo o fone e tornando a baixá-lo, várias vezes disquei os primeiros algarismos de seu número, somente para tornar a desligar a maldita coisa, pois tinha prometido a você horas de sossego e tranqüilidade, sem que euzinha a importunasse. Pelas minhas contas, foram três horas e mais vinte e dois minutos. E então, o que você achou? Diga-me, fale, discurse, querida Nora, por favor, diga alguma coisa!

       — Olá, Daisy — disse Nora.

       — Sei que estou nervosa demais para ficar calada e deixar você falar, não consigo fechar a boca! Em que altura do livro está? O que você acha? Gostou dele, não gostou?

       — É realmente uma coisa — disse Nora.

       — É mesmo? Prossiga!

       — Nunca li nada semelhante.

       — Conseguiu ler tudo? Não é possível, você deve ter pulado páginas.

       — Não, eu não pulei — respondeu Nora. — Aliás, este não é um livro que a gente leia pulando páginas.

       — O que quer dizer com isso?

       — Antes de mais nada, é muito intenso. — Daisy deixou escapar um grunhido satisfeito, e Nora prosseguiu: — Temos que prestar atenção, enquanto estamos lendo.

       — Era o que eu devia esperar. Continue, Nora, diga para mim.

       — Foi uma verdadeira experiência.

       — Que tipo de experiência? Seja mais específica.

       Confusa? Irritante?

       — Foi uma intensa experiência.

       — Ah! Bem, parece que você já disse isso. Que espécie de intensa experiência?

       Nora tateou.

       — Bem, intelectual.

       — Intelectual?

       — É um livro que nos faz pensar, enquanto o lemos.

       — Tudo bem, mas você fica dizendo e repetindo as mesmas coisas. Há pouco, quando falava que não era a espécie de livro que se leria pulando as folhas, você disse “antes de mais nada”, de modo que devia ter também outra razão em mente. Qual era?

       Nora lutou para lembrar.

       — Penso que eu quis referir-me à condição do manuscrito.

       Um silêncio agourento acolheu estas palavras.

       — Sabe o que quero dizer, todas aquelas modificações e supressões.

       — Pelo amor de Deus, o livro inteiro precisa ser redatilografado, mas você pediu para vê-lo, lembre-se, e então eu o entreguei como está, isto é bastante óbvio. Todavia, qualquer um pode ler um livro após ser publicado, dificilmente seria este o problema, eu quero ouvir o que você tem para dizer, mas no entanto fica falando sobre algo absolutamente irrelevante!

       — Sinto muito. Tudo quanto eu quis dizer é que, assim, o livro tem de ser lido mais lentamente.

       — Sim, você foi fartamente clara sobre o assunto, foi um pensamento trivial o meu, e agora que já esclarecemos isto, eu gostaria de sentar-me e beber suas observações.

       Nora podia ouvir a impaciência de Daisy, controlando-se várias vezes.

       — Algumas partes dele são muito divertidas — disse ela.

       — Bem, bem. Eu quis que partes dele fossem extasiantemente divertidas. Não o livro inteiro, lógico.

       — Claro que não. Há muita raiva nele.

       — Pode apostar. Raiva sobre raiva. Grrr!

       — E você correu um bocado de riscos.

       — Garota maravilhosa, você percebeu isso? Abençoada seja! Diga-me mais!

       — Desta maneira, ele me pareceu muito experimental.

       — Experimental? O que, possivelmente, pareceria experimental a você?

       — A maneira como você repete certas cenas. Ou como encerra algumas seções antes de estarem terminadas.

       — Está falando das vezes em que as mesmas coisas acontecem repetidamente, mas de modo diverso da primeira vez, de maneira a fazer emergir o real significado. E a outra coisa de que fala é sobre quando alguém com meio cérebro pode ver o que vai acontecer; portanto, não adianta registrar tudo no papel. Santo Deus, isso é um romance, não jornalismo!

       — Você tem toda razão. É um romance maravilhoso, Daisy.

       — Então, diga-me por que é maravilhoso.

       Nora procurou encontrar o comentário mais seguro que poderia fazer sobre o livro.

       — É um livro corajoso. Audacioso.

       — E por que acha isso? — gritou Daisy.

       — Bem, muitos livros começam em um lugar, contam-nos uma história, e ponto final. Se entendi bem, creio que você não está querendo ser linear.

       — É tão linear quanto um varal de roupas. Se você não viu isso, então não viu absolutamente nada.

       — Daisy, por favor, não seja tão defensiva! Estou relatando a você o que apreciei em seu livro.

       — Ora, mas você é que está me fazendo ficar defensiva! Fica dizendo essas coisas idiotas! Passei a maior parte da vida labutando neste livro, e você, afetadamente, vem me dizer que ele nem mesmo tem uma história!

       — Ouça, Daisy — disse Nora — estou tentando dizer a você que ele é muito melhor do que livros que somente nos contam uma história.

       Ligeiramente mais calma, Daisy perguntou:

       — E qual foi a sua parte favorita até agora?

       Nora tentou recordar algo de que gostara.

       — Oh, achei muitas partes favoritas. Adelbert matando as mulheres. A maneira como você apresenta Egbert. Suas descrições sobre as roupas de Adelbert.

       Daisy deu uma risadinha contida.

       — Em que ponto você chegou? O que está acontecendo agora?

       Nora tentou recordar o que acontecia, na parte em que saltara folhas.

       — Estou no ponto em que Archibald fica histérico sobre uniformes nazistas e falar com Hitler, enquanto faz Clementine e seu filho lhe darem um neto.

       — A fantasia? Só leu até a fantasia? Então é impossível discernir o padrão, você não tem autoridade, em absoluto, para falar do livro. Confiei em você com toda a minha alma, e você pisoteia tudo com seus grandes pés sujos de terra; dei-lhe uma obra-prima, e você cospe nela!

       Nora, que estivera proferindo o nome de Daisy em intervalos durante esta tirada, fez um desesperado esforço para aplacá-la.

       — Não pode torcer tudo desta maneira, Daisy, não estou mentindo para você! Entendi o que colocou em seu livro, e sei o quanto ele é especial, porque sei também que você escreveu aqueles romances de Clyde Morning e Marletta Teatime. Entretanto, este é muito mais audacioso e complexo.

       Durante o longo silêncio que se seguiu, ela pensou que revertera o tom desta conversa, porém Daisy estivera preparando-se para gritar:

       — Traidora! Judas!

       A linha ficou muda.

       Nora deixou o receptor cair no gancho, e deu a volta cegamente à cama, apertando os braços em torno do corpo. Quando tornou a alcançar o telefone, sentou-se na cama e discou o número de “Os Álamos”. Ouviu o telefone tocar três, quatro, cinco vezes. Ao décimo toque ela desligou, caiu de costas sobre a cama e gemeu. Depois, sentando-se, tornou a discar o número de “Os Álamos”.

       Após o segundo toque, Maria atendeu e disse, cautelosa:

       — Alô?

       — Maria, aqui é Nora — disse ela. — Sei que a sra. Chancel não quer falar comigo, mas, por favor, pode dizer a ela que tenho coisas importantes a comunicar?

       — A sra. Chancel não quer — respondeu Maria.

       — Diga a ela o que for preciso, mas faça-a falar comigo.

       Nora ouviu a pancada do fone, quando Maria o largou, depois captou algumas palavras quase inaudíveis da empregada, seguidas por uma série de uivos.

       — Sra. Chancel dizer você não família, o filho dela família, você, não. Não adianta. Não fala — disse Maria, e desligou.

       Nora tornou a arriar de costas na cama e ficou contemplando o teto. Após um tempo indeterminado, um pequeno consolo ofereceu-se. Desta certeza brotava um consolo maior. Uma vez que Daisy não perturbaria Alden, este tampouco perturbaria Davey. Com o tempo, o caso do romance de Daisy desapareceria dentro do padrão estabelecido. Dentro de uma ou duas semanas, Nora e ela promoveriam uma reconciliação.

       Levantando-se da cama, ela juntou o manuscrito e o enfiou de volta na pasta.

      

AINDA ANSIOSA, Nora vagou para a cozinha e enxugou a bancada. O problema era que, se algo pudesse dar errado, em geral dava mesmo Para Daisy, o manuscrito estava em território inimigo, enquanto permanecesse com Nora. Ela pensou em puxar a pasta de baixo da cama e levá-la de carro até a Mount Avenue, porém tal perspectiva imediatamente induziu exaustão e desespero.

       Sem pensar no que fazia, Nora foi até a pia, abriu a torneira de água quente, esguichou sabão líquido na palma e começou a lavar as mãos. Depois lavou o rosto. Em seguida tornou a lavá-lo e também as mãos. Da quarta vez em que esfregava sabão nas faces e lados do nariz, ficou cônscia daqueles atos repetidos. A água quente fazia sua pele arder. Abrindo a torneira de água fria, ela enxaguou-se e estendeu a mão para um pano de prato seco. Seu rosto ardia como se o tivesse lixado. Depois de enxugar-se, Nora percebeu que ainda se sentia terrivelmente suja — não, não ainda, mas como se algum dia, muito breve, estaria terrivelmente suja. Lutando contra a ânsia de tornar a abrir a torneira e esfregar-se novamente, ela foi para a sala de estar, esticou-se no sofá e fechou os olhos, até ser despertada pelo som do carro de Davey fazendo a curva para ganhar a entrada de veículos da casa. Perguntou-se onde ele teria estado nas nove ou dez horas anteriores, decidindo que não se importava. O Audi entrou na garagem.

       Agora, apresentava-se um interessante problema: Davey deslizaria para a sala da família e fingiria que ela não estava lá, ou subiria ao andar de cima, a fim de confrontá-la? Ele abriu e fechou a porta dos fundos. Seus passos o trouxeram na direção da escada. Embora muito lentamente, ele vinha em sua direção.

       Davey chegou ao topo da escada e relanceou os olhos pela cozinha, antes de virar-se para a sala de estar. Procurava por ela; decididamente, um bom sinal. Seria isto o que chamavam de agarrar-se a uma palha? Prossiga, pensou ela, agarre logo! Ele entrou na sala de estar. Seus olhos encontraram os dela e desviaram-se. Davey arriou o corpo na poltrona mais distante de Nora, recostou-se no espaldar, deixou os braços caírem e fechou os olhos.

       — Seja bem-vindo — disse Nora.

       — A polícia ligou?

       — Natalie está sob sedação.

       Ele continuava arriado na poltrona, como que jogado nela, e os olhos ainda fechados.

       — Seria bom se você dissesse alguma coisa.

       Davey abriu os olhos, inclinou-se para frente, tornou a fitá-la nos olhos, e logo baixou o rosto rapidamente.

       — Quando ouvi você sair, fiquei quicando pela casa como uma bola de pingue-pongue. Finalmente saí para uma volta de carro, peguei a via expressa e rodei para o norte. Não tinha idéia de para onde ia. Eu precisava pensar. Foi o que estive fazendo o tempo todo, dirigindo e pensando. Quando cheguei a New Haven, saí da auto-estrada, fui até o campus e fiquei andando por lá, durante cerca de uma hora.

       — Eli, Eli — disse Nora, e perguntou-se se Davey chegara a ser companheiro de Dick Dart em New Haven.

       — Não seja sarcástica, está bem? Eu estava pensando em você, Nora. Esta manhã tudo pareceu muito claro. Uns dez minutos depois que saiu, comecei a interrogar-me. Você faria uma coisa daquelas? Claro que é capaz de tomar atitudes drásticas, mas achei que você traçara limites bem distantes do rapto e tortura.

       — O que você sabe? — disse Nora.

       — Refleti no que me tinha dito — que eu lançava a minha culpa sobre você. Entretanto, todas as peças ajustavam-se tão perfeitamente, o padrão inteiro era tão convincente, que não podia deixar de ser verdadeiro. Era como um daqueles problemas de palavras cruzadas feitos por Frank Neary e Frank Tidball! A única parte que não se ajustava era você.

       — Então, você debateu consigo mesmo.

       Ele assentiu.

       — Quanto mais eu pensava, mais e mais ridícula se tornava a idéia de você ter raptado Natalie. Voltei para o carro e rodei por New Haven. New Haven é uma cidade ordinária, uma vez que nos afastamos de Yale. — Ele olhou para Nora, como se a irrelevância da frase o houvesse liberado. — Fiquei completamente perdido, acredite. Passei quatro anos em New Haven, e aquilo lá não é tão grande assim. Sabe o que aconteceu? Tive medo. Pensei que nunca encontraria uma via de saída. Continuei dirigindo, passando diante do mesmo restaurantezinho, do mesmo barzinho, era como se estivesse sob uma maldição. Quase tive um colapso. — Davey enxugou a testa. — Depois de mais ou menos uma hora, finalmente passei por aquela casa de pizza que costumava freqüentar, e então soube onde estava. Sem brincadeira, quase chorei de alívio. Voltei para a rota I-95. Minhas mãos ainda tremiam. Tinha a sensação de que minha vida inteira havia subido no ar.

       — Você refletiu bastante — comentou Nora.

       Ele assentiu.

       — Estava tão cansado e com tanta fome! Quando cheguei ao Cousin Lenny’s, parei o carro. Fui para uma cabine e pedi um pedaço de carne com purê. Depois que me serviram, cobri a carne com catchup, como se fosse um garotinho, e quando estava comendo, uma idéia me surgiu na cabeça, desenrolando-se como um gigantesco pergaminho. Se eu chegara a ficar perdido a tal ponto em New Haven, você podia estar dizendo a verdade. Afinal de contas, quem garante que todas as peças têm de ajustar-se? De uma coisa eu tinha certeza: mesmo que houvesse descoberto sobre Natalie e mim, você jamais a raptaria. Não faz o seu gênero.

       — Obrigada.

       — Você realmente não a raptou, não é?

       — Já falei isso três ou quatro vezes esta manhã.

       — Eu estava, simplesmente, tão convicto! Eu... — Ele sacudiu a cabeça e olhou para baixo, depois ergueu novamente os olhos. Sentimentos complicados, todos dolorosos, enchiam-lhe as pupilas. — Adiantaria alguma coisa se eu pedisse desculpas?

       — Experimente para ver.

       — Peço desculpas por tudo que falei. Gostaria, sinceramente, que você me perdoasse. Lamento ter-me envolvido nessa coisa com Natalie Weil.

       — Essa coisa geralmente tem o nome de cama — disse Nora.

       — Você está furiosa comigo, deve desprezar-me e detestar Natalie.

       — Tem toda razão.

       — Esta manhã você não disse que, eventualmente, poderíamos acertar a situação? Pois eu quero fazer isso, Nora. Espero que você me perdoe. Será que me aceita de volta?

       — Você foi embora?

       — Deus a abençoe — disse Davey, fazendo com que Nora, constrangedoramente, recordasse a mãe dele. Saindo da poltrona, ele aproximou-se. Nora perguntou-se se pretenderia ficar de joelhos diante dela. Em vez disso, ele lhe beijou a mão. — Amanhã começaremos tudo novamente. — Colocando a mão que segurava no colo dela, Davey começou a acariciar-lhe a perna. — O que você fez o dia inteiro?

       — Quase dirigi até Nova York. — Nora moveu a coxa, afastando-a da mão dele. — Estava pensando em não voltar mais. Então, de repente fiz meia-volta e vim para casa.

       — Eu enlouqueceria, se ao voltar não a encontrasse aqui.

       — Pois aqui estou.

       Ele a beijou no alto da cabeça.

       — Preciso deitar-me e dormir um pouco. Mal me agüento em pé. Você se incomoda?

       — Claro que não.

       Davey encaminhou-se para o corredor, virou-se a fim de dar a ela um olhar agradecido e um aceno superficial, e então desapareceu.

       Nora reclinou-se no sofá. Naquele momento seus sentimentos eram como os pequeninos, negros e retorcidos gravetos remanescentes de uma fogueira. Ela supôs que, algum dia, eles voltassem a ser sentimentos.

      

EVENTUALMENTE, A FOME a forçou a deixar o sofá. Seu relógio marcava dez minutos para as oito. Davey ainda dormia. Nora imaginou que ele provavelmente despertaria por volta de meia-noite, conseguiria livrar-se das roupas de algum modo e voltaria direto para a cama, a fim de terminar a digestão de seu naco de carne e purê — outro exemplo do hábito de Davey: quando estressado, regredia à idade da bicicleta com rodinhas. Uma busca nas prateleira da cozinha resultou em uma lata de sopa de cogumelos, precisando apenas ser aquecida. Nora despejou o congelado cilindro cinza-acastanhado dentro de uma panela, acendeu o fogo e esperou que a sopa se derretesse, enquanto ela torrava duas fatias de pão integral.

       Assim que começou a pôr colheradas de sopa na boca, um reostato interior marcou uma graduação mais alta, e um senso de bem-estar ganhou vida dentro dela. Devolveria o livro de Daisy, e ponto final. Podia voltar às boas com Natalie Weil, embora nunca mais tornasse a confiar nela. Aliás, não tinha que confiar nela, como tampouco tinha que tornar a ver aquela barata platinada ou falar com ela de novo. Caso se encontrassem no balcão de laticínios no Waldbaum’s, em uma fração de segundo os velozes saltinhos de barata de Natalie logo a fariam refugiar-se atrás de uma montanha de papel sanitário, até Nora chegar ao pátio de estacionamento. Satisfeita com esta imagem, ela tomou a última colherada de sopa, mastigou o último pedaço da torrada e levantou-se, a fim de lavar os pratos.

       O telefone tocou. Nora abandonou os pratos e apressou-se a atender, antes que acordasse Davey.

       — Alô?

       O que se seguiu gelou seu estômago, antes de atingir-lhe a mente. Um homem enlouquecido de fúria disse algo sobre uma inimaginável quebra de confiança, algo sobre uma inominável intrusão, e algo mais sobre devastação. Por fim, ela terminou reconhecendo a voz bombástica de Alden Chancel.

       — E o que jamais entenderei — dizia ele agora — além da sua inacreditável pretensão de imaginar-se capaz de aconselhar sobre escrever, é a sua persistência em seguir um rumo que sabia ser perigoso. Nunca lhe ocorreu que sua imprudência podia ter conseqüências?

       — Alden, pare de gritar comigo — disse Nora.

       — Você se recusa a ouvir pessoas com mais conhecimento, então empunha um machado e começa a usá-lo. Você se invade como um cupim e devora as vidas dos outros. Você é um ultraje!

       — Alden, sei que está aborrecido, mas...

       — Eu não estou aborrecido! Estou furioso! Quem vai ficar aborrecida é você!

       — Ouça, Alden, Daisy queria que eu lesse seu manuscrito. Ela insistiu em trazê-lo aqui, não me permitiu uma recusa.

       — Ela tem estado trabalhando nessa coisa durante décadas, mas até você começar a intrometer-se, Daisy nunca pensou em mostrá-la a quem quer que seja! Ela não solicita comentários sobre um trabalho inacabado. Você insinuou-se astutamente junto dela, da mesma forma como fez com esta família, e agora lançou um vírus dentro da pobre mulher. Poderia muito bem tê-la liquidado completamente.

       — Eu estava tentando ajudá-la, Alden.

       — Ajudá-la? Você pegou uma faca e a enfiou em seu coração!

       — Alden! — gritou Nora. — Nada disso é verdade. Quando Daisy ligou para mim, querendo saber o que eu estava achando de seu livro, eu falei que era um trabalho maravilhoso. Ela é que ficou transformando em insulto tudo quanto eu dizia.

       — E isto a surpreendeu? Você deve ser fraca do juízo. Daisy sabe que seu livro é uma caótica embrulhada. Ele não pode ser outra coisa mais.

       — Não sei se é uma caótica embrulhada ou não, e tampouco você sabe, Alden.

       — Você é uma imbecil destrutiva, e devia ser chicoteada!

       — Alden! — ela tornou a gritar. — A menos que você se acalme e procure entender o que de fato aconteceu, acabará...

       Com os cabelos achatados em um lado da cabeça, as roupas marcadas por vincos, Davey entrou na cozinha e ficou olhando para ela, boquiaberto.

       — É papai? Você está falando com meu pai?

       Nora afastou o telefone do ouvido.

       — Tenho que explicar isto a você — disse para Davey. — Sua mãe interpretou uma coisa erradamente, e agora seu pai está ficando louco.

       — Interpretou erradamente o quê?

       A voz de Alden urrava no fone.

       — Você tem de ficar do meu lado nisso — disse Nora. — Eles dois perderam o controle.

       Com um timbre metálico, Alden berrou o nome de Nora. Ela tornou a encostar o receptor no ouvido.

       — Alden, vou dizer uma coisa e depois desligar.

       — Deixe-me falar com ele — disse Davey.

       — Não! — respondeu Nora. — Alden, quero que você se acalme e pense no que eu lhe disse. Eu jamais magoaria Daisy deliberadamente. Espere que as coisas se aquietem, por favor. Não falarei com você, enquanto não quiser ouvir o meu lado da história.

       — Eu quero falar com ele, Nora!

       — Ouvi a voz de meu filho — disse Alden. — Ponha-o na linha.

       Davey pousou a mão no fone e, relutantemente, Nora o passou para ele.

       — Seu pai me chamou de cupim. Disse que sou uma imbecil.

       Davey fez um gesto pedindo silêncio.

       — O quê? — Davey aferrou os cabelos e caiu contra a bancada. Seus dedos penetraram mais nos fios e ele deu a Nora um agonizante olhar de descrença. — Eu sei disso, como não iria saber disso? — Davey fechou os olhos. Embora ele houvesse colado o fone no ouvido, Nora ainda podia ouvir o clamor da voz de Alden. — Bem, ela diz que queria ajudar mamãe... Eu sei, eu sei... Bem, claro, mas... Certo. Está bem, quinze minutos. — Ele desligou. — Oh, Deus!

       Seus olhos passearam pela cozinha, como querendo assegurar-se de que os armários, geladeira e pia continuavam no lugar.

       — Nós vamos até lá. Preciso lavar o rosto e escovar os dentes. Não posso ir do jeito como estou.

       — Ligue para ele e diga que iremos amanhã à noite. Não podemos ir lá agora.

       — Se não aparecermos dentro de quinze minutos, ele virá aqui.

       — Assim seria melhor — disse Nora.

       — Se você pretende irritá-lo ainda mais... — Davey cruzou a cozinha e a fitou com expressão ameaçadora. — Onde está o maldito manuscrito, afinal?

       — Debaixo da cama.

       — Oh, céus! — exclamou ele, disparando-se na direção do corredor.

      

QUANDO ELES CHEGARAM à Post Road, Nora já descrevera sua conversa com Daisy, antes e durante a leitura que fizera do livro. Ao alcançarem as grades de ferro à frente de “Os Álamos”, ela terminara de contar-lhe sobre o telefonema que originara a dificuldade atual. O que não descreveu foi o livro em si. Também omitiu um outro detalhe. Emitindo vapores mefíticos, a pasta com o manuscrito de Daisy estava na mala do carro.

       — Ela a forçou a ficar com o livro — disse Davey.

       — Se eu não concordasse, ela começaria a gritar comigo.

       — Não parece que ela lhe deu alguma chance para recusar-se.

       — Não. Não me deu.

       Davey manobrou o carro para a entrada de veículos de seus pais. Olhando para a cinzenta fachada de pedra da casa, Nora sentiu ainda mais tensão do que a geralmente despertada pela visão de “Os Álamos”.

       — Precisamos fazer papai entender isso — disse Davey.

       — Você é que irá falar mais do que eu.

       Quando desceram do carro, Davey ergueu os olhos para a casa e esfregou as mãos nas calças. Durante uns dois segundos, nenhum deles se moveu do lugar.

       — Afinal, o livro continha algo de bom?

       — Não faço idéia — respondeu Nora. — Em sua maioria, é um ataque furioso contra Alden. No livro, o nome dele é Adelbert Poison.

       Davey fechou os olhos.

       — E ela, que nome tem no livro?

       — Clementine.

       — Clementine Poison? Eu também estou lá?

       — Lamento, mas está.

       — E qual é o meu nome?

       — Egbert. Você quase nunca sai da cama.

       — Quero resolver logo isso e ir para casa. — Ele foi à traseira do carro e, grunhindo, pegou a pasta. — Deve ser um elefante de manuscrito!

       — Você nem imagina — disse Nora. — Davey, eu fui séria no que falei antes. Você é que ficará com a palavra, porque se eu abrir a boca para dizer alguma coisa, Alden irá gritar comigo.

       — Ele gritará comigo também. — Davey fechou a mala do carro e arrastou a pasta na direção da escada. — Pouco importando o que deseje, Nora, você não vai poder ficar fora disso.

       Ela e Davey subiram os degraus lentamente. Ele apertou o botão montado em bronze, ao lado da maciça porta de carvalho.

       Maria abriu a porta antes que a mão de Davey soltasse o botão. Evidentemente, havia sido postada junto à entrada.

       — Sr. Davey, sra. Nora, sr. Chancel disse os dois irem para biblioteca — disse ela, lançando um olhar inquieto para a pasta.

       — Minha mãe também está lá?

       — Oh, não, oh, não, sua pobre mãe sem poder deixar seu quarto — informou Maria, recuando e mantendo a porta aberta.

       — Quando eu era garotinho, ele sempre me liquidava na biblioteca.

       Na sala de estar, uma mancha de água com o dobro do tamanho da pasta escurecia o carpete ao pé de um pedestal vazio, destinado a um vaso veneziano. Uma segunda mancha, também grande, gotejara parede abaixo, ao lado da lareira. No extremo oposto da sala de estar, a porta que dava para a biblioteca fora fechada.

       — Aqui vai o nada — disse Davey, e abriu a porta.

       Usando um terno azul risca-de-giz, vestido para a ocasião, Alden levantou-se de uma poltrona de couro, no lado oposto de um tapete oriental que explodia em tons de violentos azuis e vermelhos.

       — Penso que o primeiro quesito a ser cumprido é a entrega do manuscrito.

       Davey caminhou para o pai como um homem armado de um canivete do exército suíço indo ao encontro de um tigre faminto. Alden aceitou a pasta e a colocou no chão. Apontou para o estofado de um sofá de couro atrás de uma mesinha baixa, com superfície também forrada de couro.

       — Sentem-se.

       — Pa...

       — Sentem-se.

       Eles deram volta à mesa e sentaram-se. Alden acomodou-se na poltrona e moveu o pé para pressionar um botão saliente no chão, entre as franjas do tapete.

       — Papai, nada disso é...

       — Agora, não.

       A porta se abriu, e Jeffrey entrou.

       — O objeto foi devolvido agora — disse Alden. — Leve-o para cima, para a sra. Chancel, e o deixe nas mãos dela.

       Jeffrey abaixou-se, pegou a pasta e deu meia-volta para levá-la dali, como se fosse dar fim a um animal morto. Quando já prestes a sair, dirigiu a Nora um olhar sombrio e ilegível. A porta se fechou atrás dele.

       — Você nada tem a dizer neste assunto — disse Alden ao filho. — A menos, claro está, que tenha encorajado sua mulher ou sua mãe a agirem como agiram.

       — É claro que não fiz nada disso! — protestou Davey. — Eu disse a Nora que ficasse longe do trabalho de mamãe. Sabia que algo terrível acabaria acontecendo.

       — Como de fato aconteceu. Agora, devemos lidar com o ocorrido. Sua mãe encontra-se em profundo transe emocional. Quando cheguei em casa esta noite, encontrei-a chorando e rouca de tanto gritar. A sala de estar estava juncada de vidros quebrados. Maria estava amedrontada demais para enfrentar a situação, e Jeffrey, certamente compreendendo que seu papel neste infeliz assunto se voltaria contra ele, refugiou-se em seu apartamento.

       — Jeffrey? — exclamou Davey. — Que papel teve Jeffrey?

       Alden ignorou-o.

       — É claro que Jeffrey estava atendendo a um pedido da parte de sua patroa. Falei com ele, e todos podemos ficar certos de que nunca mais tornará a envolver-se em qualquer transação desta espécie. E nada semelhante a isto voltará a repetir-se.

       — O que foi que ele fez? — perguntou Davey.

       — Ele a levou de carro — respondeu Nora.

       — Sim. Ele levou Daisy de carro à casa que você partilha com esta víbora.

       — Por favor, papai, não a chame desses nomes. Quero que compreenda o que realmente aconteceu. Mamãe ligou para Nora e insistiu que ela lesse o livro. Não lhe deixou outra alternativa.

       — Realmente! — Irradiando fúria, Alden virou-se para Nora. — Você não tem vontade própria? Não tem a escusa de constar em nossa folha de pagamentos, exceto indiretamente, e não se pode dizer que seja uma amiga de Daisy. Ela não tem amigos. Estaria você querendo ser uma norazinha obediente?

       — De certo modo, foi isso mesmo — replicou Nora. — Pensei que poderia ajudá-la de alguma forma.

       — Então sugeriu que gostaria de ler o que ela havia escrito, a fim de oferecer-lhe orientação editorial.

       — Não. Apenas quis dar a ela alguém com quem falar sobre seu livro. Dar-lhe apoio.

       — E estamos vendo como isso funcionou maravilhosamente. Entretanto, pode negar que esta maligna sugestão partiu de você?

       — Eu queria apenas ajudar.

       — Vou repetir. A sugestão foi sua?

       — Sim, mas eu e Davey falamos a respeito, e concordei em não insistir nisso. Hoje, Daisy ligou para mim, dizendo ser crucial que eu lesse seu livro, que estava indo imediatamente.

       — E nesse ponto, você poderia ter-lhe dito que estava ocupada demais ou arranjasse qualquer uma dentre uma centena de outras desculpas!

       — Ela não aceitaria desculpas. Se eu tentasse dissuadi-la, ficaria terrivelmente ofendida.

       — Você encorajou a obsessão dela, em vez de amenizá-la. Entretanto, tal perversidade nada é se comparada à indizível obscenidade de alegar que minha esposa é a autora dos romances de Clyde Morning e de Marletta Teatime.

       — O quê? — exclamou Davey, encarando Nora fixamente.

       — Sim, ela é — disse-lhe Nora. — No livro, encontrei aquela expressão “riscados por marcas de desgaste” e frases começando por “De fato”.

       — Por que não me disse isso antes?

       — Esqueci, acredite-me — respondeu ela. — Havia tanta coisa mais, que isso simplesmente me fugiu da mente.

       Alden exclamou:

       — Está começando a ver o tipo de mulher com quem se casou? Será que já pode discernir um início de claridade?

       — Ele não quer que você saiba — disse Nora. — Aliás, não quer que ninguém saiba.

       — Cale essa boca desprezível! — gritou Alden, apontando para Nora. — Não somente esta mentira insulta minha esposa, que se considera uma artista e jamais chegou a ler um de nossos romances de horror, como atira lama em minha firma e em mim próprio. Você está pondo em risco a nossa reputação e a minha. É escandaloso, e não vou admitir tal coisa!

       — Oh, céus — disse Davey.

       — Pare de gemer, Davey, e preste atenção ao que digo. — Alden inspirou. — Seu casamento foi um erro. Esta criatura trouxe a discórdia para a nossa família, desde o momento em que apareceu. Injuriou-o em maneiras que você nem mesmo começa a compreender. — Alden se pusera a gritar novamente, mas procurou controlar-se. — Talvez nós dois tenhamos queda por mulheres excêntricas.

       — Eu vou embora — disse Nora, e levantou-se.

       — Você geralmente foge quando ouve a verdade, não é?

       — Não aceito ordens suas, Alden. Vamos, Davey.

       Dando a impressão de estar apenas meio acordado, Davey começou a levantar-se.

       — Sente-se! — ordenou Alden.

       Davey sentou-se.

       — Vou tornar isto bem simples para você, Davey. Estou oferecendo-lhe uma escolha. Caso se divorcie desta mulher e ponha sua vida em ordem, poderá continuar na Casa Chancel e constará de meu testamento. Recusando-se a enxergar a realidade e preferindo continuar com seu casamento, considere-se excluído, tanto de seu emprego como de minha herança. Terá de encontrar um meio de sustentar-se, e isto se conseguir, algo que, lamento dizer, duvido muito.

       — Isso não é uma escolha, é um ultimato — disse Nora.

       — No que me diz respeito, você nem mesmo continua neste aposento. Quero que reflita em sua decisão, Davey. Reflita bastante. Quer ficar com a louca com quem se casou ou quer a vida que você merece? Ficaremos mais do que satisfeitos em tê-lo de volta nesta casa.

       — Está mesmo falando sério? — perguntou Davey.

       — Você tem uma semana para refletir. Quero que faça a coisa certa e, segundo penso, acabará percebendo que estou agindo em nome de seus melhores interesses.

       — Você está usando seu dinheiro como um porrete — disse Nora. — Apegue-se a este plano sádico e terminará perdendo seu filho. É isso o que deseja?

       Alden levantou-se.

       — Pode ir agora, Davey. Tenho que subir para lidar com sua mãe.

       Davey se pôs obedientemente de pé. Alden caminhou até a porta e a manteve aberta.

       — Papai... — disse Davey.

       — Conversaremos no próximo domingo.

       Davey se moveu na direção da porta.

       — Vai se arrepender, rapaz — disse Nora.

       Fingindo não poder vê-la nem ouvi-la, Alden deu tapinhas nas costas de Davey, quando ele cruzou a porta. Nora conteve o impulso de afastar aquela mão com um tapa.

       Encostando um pano branco em um canto distante da sala de estar, Maria estremeceu e começou a caminhar para a entrada.

       — Meu filho sabe como sair da casa — disse Alden.

       Maria parou de chofre, não conseguindo dar um passo.

       — Adeus, Maria — disse Nora, porém Maria estava aterrorizada demais para responder.

      

OS DOIS SAÍRAM da casa para a noite abrupta. Davey desceu um degrau, virou-se e olhou para a porta.

       — Talvez devêssemos voltar.

       — Para quê? Seu pai já disse o que queria.

       — Acho que você tem razão. Ele está zangado demais.

       — Bolas! Ele está muito mais feliz do que já esteve em anos. Pensa que pode colocar você direitinho onde quer vê-lo.

       Davey meneou a cabeça e desceu o resto dos degraus, remexendo no bolso.

       — Você dirigiria? Sinto-me um pouco abalado.

       Nora pegou as chaves. Quando se sentou ao volante e moveu o assento para diante, Davey reclinara-se no banco, de olhos fechados, o corpo tão flácido que parecia sem vida.

       — Vamos — disse ela. — Ele nunca faria o que ameaçou. Tudo o que você tem a fazer é tirar-lhe a máscara.

       — Ele não estava blefando.

       Nora ligou o motor e fez o carro rodar para o portão distante, envolto em um casulo de escuridão. Após um momento, ela ligou os faróis dianteiros.

       — Você acha que seu pai está mesmo querendo excluí-lo para sempre de sua vida?

       — Eu não sei — gemeu Davey.

       — É claro que ele não está — disse Nora. — Está apenas querendo amedrontá-lo. Desta vez, não o deixe levar a melhor.

       Ela manobrou, acelerou, e o carro disparou para a Mount Avenue como um bólido.

       — Do que você está falando?

       Considerada uma excelente motorista, até mesmo ousada, Nora fez um pequeno ajuste no volante, e o Audi contorceu-se obliquamente sobre a linha interrompida amarela. O carro guinou para a pista adequada e ela relaxou as mãos deliberadamente.

       — A última coisa que ele quer no mundo é perder você. Com isto eu disse tudo...

       Davey tornou a gemer, e não soube dizer se por seu dilema ou pela maneira de Nora guiar seu carro.

       — Ele vai fazer tudo quanto disse.

       — E daí? Após umas duas semanas, virá fuçar para ver como você está se saindo. Se ainda não tiver conseguido um emprego, ele lhe dará o seu antigo de volta. E se você aceitar, Alden oferecerá um salário mais alto ou um cargo melhor.

       — Suponha que nada disso aconteça. Suponha que isso não seja uma estratégia.

       Um curioso senso de familiaridade, tão forte como déjà vu, tomou conta de Nora. Não estivera lendo um livro em que um personagem apresentava um ultimato bem à maneira de Alden? Que cena, e de que livro? Então, recordou: Alden fizera com que se lembrasse de Archibald Poison forçando Adelbert e Clementine a lhe darem um neto.

       — Você não tem uma resposta, tem?

       — Como assim?

       — O que acontecerá, se ele estiver mesmo falando sério?

       — Você seria acolhido por todas as casas editoras de Nova York. Algumas delas o contratariam, somente para espezinhar Alden. De fato... — Ela sorriu de lado para Davey, que achatara as duas mãos no alto da cabeça. — Mande a semana para o inferno. Ligue para as pessoas que conhece nas outras editoras. Aceite a melhor oferta que conseguir, depois vá ao gabinete de seu pai e peça demissão. Ele ficará fulo.

       — Não, não ficará — disse Davey. — Por que alguém me daria um emprego? Eu edito livros de palavras cruzadas. Remeto cartas circulares relacionadas à Sociedade Hugo Driver. Por outro lado, você não imagina o que está acontecendo nas editoras. Ninguém mais larga o emprego. Não é como nos anos oitenta, quando as pessoas saltitavam por toda a firma.

       — Você não precisa desse empreguinho ordinário, Davey. Dê alguns telefonemas e veja o que acontece.

       Eles rodaram em silêncio todo o resto do trajeto até em casa. No escuro, Nora tateou o caminho até o interruptor da luz e percebeu que Davey ainda estava no Audi. Chamou-o. Ele saiu do carro lentamente. Quando ela abriu a porta dos fundos, Davey começou a mover-se como um zumbi, em direção à frente da garagem.

       — Vai dar tudo certo — disse ela, lutando para manter-lhe o otimismo. Fechou a porta depois que entraram, e o viu relancear os olhos para a sala da família. — Vamos para cima.

       Davey arrastou-se até os degraus. Nora o seguiu ao interior da cozinha, acendendo luzes, enquanto ele caminhava à sua frente,

       — Vou preparar alguma coisa para você — disse.

       — Quem consegue comer?

       Nora o viu pegar a garrafa de kümmel na prateleira, selecionar um copo baixo e bojudo, e enchê-lo quase até a borda. Sentado de frente para ela, Davey começou a girar o copo na mesa. Por fim, ergueu os olhos para a mulher.

       — Você está deixando que isto o abale além da conta.

       — Há uma grande diferença entre nós, Nora. Ele não é seu pai.

       — Graças a Deus! — exclamou ela, talvez imprudentemente. — Meu pai jamais trataria você daquela maneira.

       — Oh, eu tinha esquecido, o grande Matt Curlew era perfeito. Segundo você, meu pai é a escória da terra.

       — Eu nunca disse isso! — protestou Nora. — Odeio o modo como ele trata você, e este ultimato foi o exemplo perfeito. Seu pai está usando os chiliques de Daisy para separar-nos.

       — Poxa, obrigado! Caso eu não compreenda o que meu pai está fazendo, você terá de explicar tudo três ou quatro vezes.

       Davey tomou um gole de sua bebida e um delicado matiz rosa-forte ganhou suas faces.

       — Oh, Davey, talvez eu tivesse falado demais, porém ele me deixou incrivelmente zangada. E você ficou tão calado!

       — Você continua esquecendo que ele é meu pai. O indivíduo que, em suas palavras, maltratou-me a vida inteira, enviou-me aos melhores colégios na América, algo que o sagrado Matt Curlew nunca fez por você; deu-me um emprego e me paga muito mais dinheiro do que mereço, além de dirigir uma firma importante; outra coisa que Matt Curlew nunca fez. E caso você tenha esquecido, vê esta mesa? Foi ele quem a comprou. Como comprou tudo nesta casa, inclusive as lâmpadas e o papel sanitário. Acho que ele merece alguma gratidão, para não falar em respeito.

       — Em outras palavras, ele é o seu dono.

       — Ele não é o meu dono; ele me ama. Ainda que eu não concorde com algumas de suas atitudes, você não pode ordenar-me que o odeie.

       — Não quero que você o odeie — mentiu Nora. — Entretanto, eu também o amo, e gostaria de vê-lo livre do poder de seu pai. — Davey ergueu o copo e bebeu. — De certo modo, Alden estava certo. Você precisa decidir qual dos dois quer mais: ele ou eu. Entretanto, escolhendo-o irá perder-me para sempre, ao passo que, escolhendo-me, dentro de um segundo terá voltado para seu pai.

       — Eu me casei com você, não com meu pai — replicou ele.

       — Graças a Deus! Já começava a ficar preocupada.

       — Acontece, no entanto, que não quero perder nenhum dos dois. Acho que você perdeu o juízo, se pensa que ele mudará de idéia.

       — Ele não mudará de idéia, apenas aguardará outra chance.

       — Como pode ter tanta certeza? Se ele me despedir e eu não encontrar outro emprego, ficaremos sem dinheiro em cerca de três meses. E depois? Auxílio-desemprego? Morar em uma caixa de papelão?

       — Ele nunca deixará que isso aconteça. Você sabe que ele...

       — Se eu conseguir emprego em outra editora, sabe qual seria o meu salário? Mais ou menos um terço do que ganho hoje. Teremos de mudar-nos daqui, claro, mas só conseguiremos pagar algum fedorento buraco de rato como apartamento.

       — Quem disse que você tem de trabalhar em uma editora? O mundo está cheio de empregos.

       — Por acaso não lê os jornais? Tudo bem, talvez eu consiga um trabalho de balconista, aí então só poderemos custear metade do buraco de rato.

       — Posso arranjar um emprego — disse Nora. — Assim pagaríamos pelo buraco de rato inteiro.

       — Céus! E como estar casado com Poliana.

       — De qualquer modo, você vai dar os telefonemas, não vai?

       Davey crispou aos lábios e dirigiu à geladeira um olhar reflexivo. Depois disse:

       — Na realidade, pode existir outra saída.

       — Que outra saída?

       — Eu poderia dizer a ele que me mudarei para casa, se permitir que você continue aqui, pelo tempo que quiser. Acho que meu pai aceitaria isso.

       — Enfrentaremos um enxame de advogados, antes mesmo que você termine de falar. Os bons e velhos Dart, Morris levantariam um muro entre nós com dois metros de espessura. Como isso nos ajudaria?

       — Uma vez estando lá, eu poderia conversar com ele e, conversando, certamente o abrandaria. Cedo ou tarde ele cederia à razão.

       — Davey, o cavalo de Tróia...

       — Exatamente.

       Nora recostou-se em sua cadeira e olhou fixamente para ele, pelo que pareceu um longo momento.

       — Eu já imaginava que você não gostaria — disse ele. — Entretanto, meu pai terá de amolecer, cedo ou tarde.

       — Davey, seu pai está se esforçando ao máximo para transformá-lo em criança novamente, e você ainda procura ajudá-lo nesse sentido. Assim que ele o tiver trancado em casa, vai continuar martelando o assunto. Quando terminar, você estará usando fraldas, comendo purê de cenoura e nós dois estaremos divorciados.

       — Que alto conceito você tem de mim! — exclamou ele, o rosto adquirindo um tom rosado mais vivo.

       — Sei bem o que acontece quando você está perto de seu pai. Emudece e faz tudo o que ele manda.

       — Não desta vez. — Davey franziu a testa para o copo, depois tornou a fitar Nora, de um modo que parecia quase desafiante. — Onde foi que você descobriu aquela sujeira, aquilo de minha mãe escrever os livros de Morning e Teatime, na coluna de astrologia?

       — É a pura verdade — replicou Nora. Davey fez uma careta. — Eu lia o livro, e lá estavam as pistas, os “riscados por marcas de desgaste” e uma frase começando com “De fato”. Fiquei pasma.

       — Não tão pasma quanto minha mãe. Ela jamais chegou a ler romances desse tipo. Você ouviu o que disse meu pai. Antes de mais nada, por que mamãe faria isso?

       — Porque Alden a convenceu. Ele pensou que poderia ganhar uma boa soma de dinheiro rápido, editando romances de horror.

       Davey assumiu uma expressão de revolta e fixou os olhos em seu drinque.

       — Ouça, Nora, mesmo que uma idéia tão louca lhe viesse à cabeça, por que decidiu mencioná-la a mamãe? Não percebeu o que iria acontecer? Francamente, não sei como... — Ele deixou a frase por terminar e levantou as mãos.

       — Ela já estava me acusando de cuspir em sua obra-prima, e eu tentei explicar-me, dizendo-lhe que este seu livro era muito melhor do que aqueles outros. Imaginei que fosse ficar lisonjeada.

       — Que inteligente... — disse ele. — Você lança uma bomba na sala de estar, e espera que ela a aceite como um cumprimento?

       Nora afastou-se da mesa.

       — Tenho que ir para a cama. Você vem também?

       — Não. Acho que levarei várias horas sem conseguir dormir.

       — Vai dar aqueles telefonemas?

       — Não preciso de mais ninguém dando ordens em minha vida.

       — Sinto muito, nada mais direi a respeito, prometo. — Nora recuou para a porta. — Então, até mais tarde.

       — Suponho que sim.

       Ela se forçou a sorrir, enquanto saía da cozinha.

      

NA MANHÃ DE segunda-feira, uma meia hora depois de Davey ter ido trabalhar, Nora chorava ruidosamente e isto a despertou. O suor lhe cobria o corpo e umedecia as cobertas. Uma pequenina e trêmula poça jazia entre seus seios. Ela grunhiu e secou o rosto com as mãos, depois agarrou uma parte seca do lençol e enxugou o peito.

       — Grande bosta! — exclamou, uma expressão herdada de Matt Curlew. Assim que secou a umidade, mais suor brotou dos poros. Seu corpo irradiava calor. — Oh, droga! Uma onda de calor!

       Nora ignorava que os calores pudessem surgir durante o sono. Um inseto de alguma espécie começou a subir rastejante por sua coxa direita, e ela ergueu a cabeça para vê-lo. Nada havia na coxa, mas a sensação persistia. Nora friccionou o lugar, tentando fazê-la sumir. O besouro invisível subiu mais uns cinco centímetros por sua perna, depois cessando de existir. Ela ficou deitada de costas sobre as cobertas molhadas, perguntando-se se insetos-fantasmas seriam ocorrências comuns durante as ondas de calor, ou se haveria qualquer outra explicação para o incidente. Segundos mais tarde, a umidade em seu corpo ficou fria, e o mal-estar terminava.

       Após ter tomado uma ducha e, por força do hábito, ter vestido uma camiseta azul-escura, short branco e calçado seus tênis, Nora percebeu que se vestira para correr. Entrou na cozinha a fim de tomar um suco de laranja, quando se lembrou que conhecia pelo menos uma pessoa suficientemente simples para não se melindrar com uma pergunta que outras considerariam abusada. Puxou a lista telefônica em sua direção e procurou o número de Beth Landrigan. Somente ao ouvir o telefone chamar é que se perguntou se não estaria ligando cedo demais.

       A sincera acolhida de Beth dissipou a preocupação.

       — Nora, que ótimo, eu estava justamente pensando em você! Nosso almoço da semana passada foi tão divertido, que deveríamos repetir a dose. Apenas nós duas, nada de maridos barulhentos. Vamos dar uma escapulida e ir ao Château.

       — Formidável — respondeu Nora. — Eu adoro o Château, e Davey nunca quer ir lá.

       — Arturo praticamente vive no Château, mas nunca vai lá para almoçar, de modo que estaremos a salvo. Quarta-feira?

       — Conte comigo. Meio-dia e meia?

       — Poderia adiar para uma hora? Tenho uma aula de japonês às onze e meia nas quartas-feiras, e ela dura uma hora.

       — Claro — replicou Nora. — Puxa, aulas de japonês! Estou impressionada.

       — Eu também. Pretendo falar o idioma como uma nativa... da Alemanha, infelizmente. Bom, você não me ligou para falar sobre minhas dificuldades idiomáticas. O que tem em mente?

       — Eu queria fazer-lhe uma pergunta, e espero que não fique ofendida.

       — Dispare.

       — Tem a ver com menopausa.

       — Eu, ofendida? Está brincando? Todas as mulheres que conheço estão em plena menopausa, inclusive eu. É uma devastação. Qual é a pergunta?

       — Tive minha primeira onda de calor esta manhã.

       — Bem-vinda a bordo!

       — Mas, aconteceu uma coisa estranha. No auge do calor, senti um besouro rastejando por minha perna acima, só que não havia besouro nenhum. Cheguei a senti-lo! Isso já aconteceu com você?

       Beth estava dando risadas.

       — Oh, céus, a primeira vez que aconteceu quase enlouqueci! Os médicos nos falam sobre as ondas de calor, sobre suores noturnos e montes de outras coisas desagradáveis, mas nunca dizem nada sobre o tal besouro!

       — Fico feliz em saber que não aconteceu apenas comigo.

       — Há, inclusive, um nome para isso. Não me lembro da palavra, mas é algo parecido com masturbação. Talvez pergunte a meu professor como é o nome em japonês. Pensando bem, é melhor não perguntar. Ele seria capaz de ir embora daqui às carreiras. É um jovem intelectual, e certamente não sabe uma vírgula sobre menopausa.

       — Sem dúvida deve saber muito mais sobre masturbação.

       As duas mulheres riram com vontade e conversaram mais alguns minutos, antes de se despedirem. Animada pela conversa e encantada pela promessa de amizade com a engraçada, inteligente e criteriosa Beth Landrigan, Nora colocou seu chapéu azul de copa pontuda sobre o que esperava fosse sua própria e criteriosa cabeça, e em seguida saiu de casa.

      

      

Ao abrir a porta da frente, quarenta e cinco minutos mais tarde, Nora ouviu o telefone tocar e disparou escada acima, a fim de atender. O suor escurecia a camiseta azul e brilhava em suas pernas. Ela ergueu o fone do gancho e disse:

       — Alô?

       — Nora, aqui é Holly. Eu gostaria que você viesse ao posto policial imediatamente. Poderia fazer isso?

       — Natalie falou alguma coisa?

       — Temos muito sobre o que discutir, e este é um dos tópicos. Se está sem carro, mandarei um homem buscá-la.

       — Estou voltando de minha corrida neste exato segundo, pingando de suor. Deixe-me tomar uma ducha rápida, trocar de roupa, e logo estarei aí.

       Ele hesitou.

       — Está bem, mas certas pessoas aqui vão ficar nervosas se você não chegar logo; portanto, venha o mais depressa que puder.

       — Holly, você parece tão... fala de um modo tão abrupto. Devo ficar preocupada com alguma coisa? Minha vida tem andado tão embaraçada ultimamente, que eu nem me surpreenderia.

       — Não é tão simples assim — retrucou ele. — Faça o que tem de fazer e venha o mais rápido possível.

       — Estarei aí em vinte, vinte e cinco minutos.

       — Dê a volta pelos fundos. Este lugar parece um zoológico.

       — Certo, até já — disse Nora.

       Fenn desligou, sem dizer mais nada.

      

NORA ESTACIONOU na mesma vaga que Davey usara, atrás do gabinete de Fenn. Pela janela dele, avistou-o de costas, apenas dos ombros para cima, enquanto falava com Barbara Widdoes, a qual andava de um lado para outro, diante da sua mesa de trabalho. Havia sombras de várias outras pessoas no fundo da sala, que também pareciam estar presentes. Através do ar úmido, Nora passou celeremente pela fila de carros policiais. Tinha vestido uma camisa de cambraia azul, jeans, e calçava mocassins marrons. O cabelo molhado colava-se às suas orelhas. Seu coração estrondava.

       Não é tão simples assim. O que significava isso?

       A porta dos fundos foi aberta, enquanto ela caminhava rápida pelo piso de concreto. Um zagueiro ruivo, com o rosto marcado pela acne e vestindo uma apertada camisa de uniforme, surgiu na abertura. Olhou de um lado para outro, antes de virar o rosto empolado para ela.

       — Sra. Chancel, não? Vou conduzi-la pelo corredor até o gabinete do Chefe Fenn, e teremos de ir bem depressa. As coisas hoje estão realmente complicadas por aqui.

       — Elas estão realmente complicadas aqui também — disse ela.

       O policial a fitou com expressão neutra. Nora cruzou a porta, penetrando em um ambiente de relativo frescor. Um caos de vozes chegava da frente do prédio.

       — Por aqui — disse o policial.

       Ele a ultrapassou, para caminhar rapidamente pelo corredor de piso cimentado. Ocorreu a Nora que passara um bocado de tempo seguindo homens. Os dois passaram diante da porta marcada CHEFIA DO POSTO e aproximaram-se da porta de metal que dava para a dupla fileira de celas. Uma vivida lembrança de Dick Dart piscando para ela fez Nora olhar diretamente para a frente, assim não captando mais do que aqueles homens nos uniformes tribais de policiais e advogados, amontoados no corredor entre as celas. Uma intensa e quieta conversação acontecia entre os advogados, mas ela não pôde e nem quis entender o que diziam. O zumbido de vozes que chegava da frente do posto tornou-se mais intenso, enquanto caminhava em passos rápidos atrás do policial. Por fim chegaram ao gabinete de Fenn.

       O policial bateu à porta e anunciou:

       — A sra. Chancel.

       Várias pessoas moveram-se para posições diferentes. Uma cadeira rangeu. Fenn disse:

       — Faça-a entrar.

       Fenn estava em pé atrás de sua mesa, com os braços caídos ao longo do corpo, olhando para ela sem a menor sombra de sorriso, no que era imitado por Barbara Widdoes, em pé junto ao canto mais afastado da mesa dele. Nora sentiu o soco gélido do pânico em seu estômago. Dois homens em ternos escuros e camisas brancas, um deles usando óculos de sol com armação negra, deram um passo em frente, destacando-se da parede adjacente: Slim e Slam, os homens do FBI que haviam estado na casa de Natalie Weil.

       — Olá, sra. Chancel — disse Fenn. Então, ela deixara de ser Nora. — Creio que já conhece todos os que estão nesta sala. Barbara Widdoes, a chefe do nosso posto, e os agentes federais designados para este caso, sr. Shull e sr. Hashim.

       O sr. Shull, o mais alto dos dois, usava os óculos escuros. Estes lhe emprestavam um ar vagamente hippie que, de repente, Nora classificou como hilariante.

       — É um prazer tornar a vê-los — disse ela, e um segundo de silêncio acolheu seu comentário.

       — Acho que podemos entrar logo no assunto — disse Fenn, e novamente voltou a ser Holly. — Tentemos analisar o que temos aqui.

       — Já não era sem tempo — disse o sr. Shull.

       Ele falou para si mesmo ou para o sr. Hashim, que cruzara os braços e espiava Nora ocupar uma das cadeiras. Holly sentou-se, e Barbara Widdoes encarapitou-se na beira da cadeira perto da de Nora, apertando juntos os gordos joelhos e panturrilhas. Os dois agentes federais permaneceram de pé.

       O sr. Shull dobrou os óculos escuros e guardou-os no bolso interno do paletó.

       — Muito bem, Nora — disse Holly, e sorriu para ela. — As pessoas nesta sala divergem de opinião em vários assuntos, um deles sendo o que fazer com você. Entretanto, com a sua ajuda, poderemos chegar a um consenso. Será muito importante para você que se mostre absolutamente franca e sincera comigo. Poderia fazer isso?

       — O que Natalie disse? — perguntou Nora.

       Atrás dela, um dos homens do FBI fez um leve som desdenhoso com os lábios.

       — A sra. Weil disse muitas coisas, às quais chegaremos em um minuto. Quero que você recorde o momento em que nos encontramos, no gramado fronteiro da casa dela. Tivemos lá uma pequena troca de palavras, o que me levou a pensar que você e seu marido talvez pudessem ajudar-nos. Lembra-se disso?

       — Lembro-me — respondeu Nora. — Dissemos que havíamos estado lá umas duas vezes.

       — Seis, se me recordo. A última delas sendo duas semanas antes do desaparecimento da sra. Weil.

       Nora assentiu, condenando Davey silenciosamente pela mentira em benefício próprio.

       — Quer manter essa declaração ou tem algo mais a dizer sobre a mesma?

       — Bem, a verdade é que, nos últimos dois anos, nem mesmo entrei naquela casa.

       Barbara Widdoes entrelaçou as mãos sobre os joelhos. O sr. Hashim e o sr. Shull moveram-se lentamente para o outro lado da mesa de Holly.

       — Isso concorda com o que a sra. Weil nos contou. Se houve algum ponto capaz de induzir-me em erro quanto à natureza do seu relacionamento com a sra. Weil, eu certamente gostaria de ouvi-lo.

       Nora suspirou.

       — Em realidade, foi Davey, meu marido, quem disse que havíamos estado lá todas aquelas vezes, além de havermos jantado na casa dela duas semanas antes. Lembra-se? Ele disse que comemos comida mexicana e vimos luta-livre na TV Isso, entretanto, foi o que fizemos cerca de um mês antes de comprarmos nossa casa, na vez em que fomos lá.

       — Tem alguma idéia do motivo dele haver dito tudo isso?

       Ela tornou a suspirar.

       — Não entendo bem, mas Davey tem o hábito de espichar a verdade. Em geral, não passa de exagero; é como se quisesse enfeitar os fatos.

       — Que me lembre, você o acompanhou nesse particular enfeite dos fatos.

       — Havíamos tido uma briga pouco antes e eu não quis irritá-lo, especialmente contradizendo-o na sua frente. Aliás, já que estou falando nisto, naquele momento imaginei que você sabia que ele mentia, mal ele abriu a boca.

       — Não sou nenhum Sherlock Holmes — disse Holly. — Segundo nosso ponto de vista, isto tornou vocês dois interessantes. Assim, decidi deixar que entrassem na casa e ver se poderiam acontecer quaisquer outras coisas interessantes.

       — Podemos chegar ao ponto agora? — perguntou o sr. Shull. — Seria possível omitirmos essa história de suposições?

       — De que ponto está falando? — perguntou Nora olhando para o sr. Shull, que lhe sorriu em resposta.

       — Há uma coisa que todos nós consideramos enigmática — disse Holly. — Tem a ver com a evidência física na cena do crime, e também com uns dois comentários feitos por você e seu marido. Lembra-se dele me dizendo que você não acreditava na morte da sra. Weil?

       — Não sei de onde ele tirou tal idéia. Eu tinha certeza de que ela estava morta.

       — O comentário de seu marido revelou considerável presciência, não concorda?

       — Com sinceridade, acredito que ele apenas tentava fazer-me parecer tola.

       — Por causa da briga?

       — Suponho que sim.

       — E qual foi o motivo da briga?

       — Ele pensa que não demonstro respeito suficiente por seu pai, mas acontece que acho o pai dele um tirano. Ficamos um tempão discutindo a respeito.

       — A discussão não é importante — disse o sr. Shull. — Se não pretende chegar lá imediatamente, eu assumo a direção.

       — Estamos chegando lá — disse Holly. Ele sorriu para Nora, mas não com o ar vingativo do sr. Shull. — Voltemos ao momento em que estávamos parados diante da porta do quarto da sra. Weil. Lembra-se das condições do quarto dela?

       Nora assentiu.

       — Lembra-se do que eu lhe disse?

       — Você disse que eu não precisaria entrar lá se não tivesse vontade.

       — Lembra-se do que falei logo em seguida?

       — Não, não me lembro. Sinto muito.

       — Eu sugeri que você talvez quisesse reconsiderar a idéia de que a sra. Weil não estava morta.

       — Não me lembro disso — respondeu Nora.

       — Não se lembra de sua resposta? Dizia respeito ao sangue no quarto.

       — É mesmo?

       — Você disse: “Talvez o sangue não seja dela”. Lembra-se agora?

       — Oh, tem razão, lembro-me de ter dito isso. Entretanto, foi algo que me surgiu na mente por causa de Davey, do que ele lhe tinha dito fora da casa. — Ela ergueu os olhos para o sr. Shull que, sorrindo, retribuiu o olhar. — Claro que o sangue era dela, não poderia ser de nenhuma outra coisa. — Ela se virou para Holly Fenn. — Não era sangue dela? Era alguma espécie de sangue?

       — Sim, era alguma espécie de sangue.

       — Que espécie?

       — Sangue animal — disse Holly. — De porco, seria o mais provável. Agora compreende por que estamos interessados em seu comentário.

       — Acho que compreendo — replicou Nora. — Enfim, foi só um comentário tolo de minha parte...

       — Estamos em uma espécie de dilema, Nora.

       — Você está em um dilema — disse o sr. Shull.

       — Quer dizer que falava sem nenhum real conhecimento de causa, ao me dizer que as manchas naquele quarto poderiam não ser do sangue da sra. Weil?

       — Exatamente — respondeu Nora. — Entretanto, tudo relacionado ao desaparecimento de Natalie é muito estranho.

       — Bem, a essa altura, voltemos à sra. Weil. Ela falou um monte de coisas contraditórias, mas nos deu uma pequena e nova informação.

       Barbara Widdoes falou pela primeira vez:

       — Sabia que seu marido e a sra. Weil estavam tendo um caso, não sabia?

       — Só descobri isso na tarde de sábado.

       — E como foi que isso aconteceu?

       — Davey me contou. Estava muito agoniado pelo que acontecera a ela, e acabou deixando escapar seu segredo.

       — A senhora nega qualquer envolvimento no rapto da sra. Weil e nos maus-tratos infligidos a ela?

       — Ainda não ficou claro que houve um rapto — disse Holly.

       — Holly, você esteve em meu gabinete na manhã de sábado — disse Barbara Widdoes. — Viu a mulher ficar histérica ao ver a sra. Chancel, e permanecer nesse estado até ser-lhe ministrado um sedativo. O que ocorreu está perfeitamente claro para mim, e deveria estar para você também. A sra. Chancel tomou conhecimento do caso de seu marido, removeu a vítima de seu quarto e a manteve prisioneira nos velhos lugares que costumava freqüentar, isto é, a antiga escola maternal. Tenho certeza de que você recorda o incidente. Ela a manteve lá, até que a vítima conseguiu escapar. Não gosto de todas estas coincidências. Aqui podemos discernir um padrão, e penso que a sra. Chancel não deveria ter permissão para deixar este posto, enquanto não lhe forem lidos seus direitos e ela não for indiciada em uma série de acusações.

       — Finalmente alguém chegou ao ponto! — exclamou o sr. Shull.

       — Vocês estão querendo prender-me? — perguntou Nora. — Eu não fiz nada contra Natalie! Não trataria meu pior inimigo daquela maneira!

       Por cima da mesa, ela olhou para Holly Fenn.

       — Você não falou que Natalie se contradisse a meu respeito?

       — Exatamente, não foi, Barbara? — disse Holly. — Pense nisto também, sr. Shull. Temos uma vítima a um passo de declarar que foi raptada por homenzinhos verdes do espaço sideral. Ela diz que a sra. Chancel a forçou a sair de casa e a trancou na velha escola maternal, mas em tudo isso existe alguma coisa sobre o sangue animal no quarto dela?

       Ele concentrou novamente o olhar em Nora.

       — Esta é a situação com a sra. Weil. A primeira coisa que falou ao irmos lá esta manhã foi que você chegou à casa dela, ameaçou-a com uma faca, levou-a de carro até aquele prédio e acorrentou-a. Dois minutos mais tarde, quisemos que ela repetisse sua história para uma tomada de depoimento, e a sra. Weil declarou que não fazia a menor idéia do que lhe tinha acontecido. Segundo suas palavras, a semana que passou é um absoluto nevoeiro. Ela acredita ter encontrado o caminho para a South Post Road, porém não soube dizer como, nem por quê. Então, registramos tudo novamente, lemos para ela o que foi escrito e perguntamos se foi isso que aconteceu, e ela respondeu que não se lembrava. Em seguida, descansou durante alguns momentos, e depois tornou a responder às perguntas. Nós a interrogamos sobre você. Ela chorou e disse que você a levou ao prédio, repetindo mais uma vez a história inteira. — Ele olhou para Barbara Widdoes. — Fiz um relato preciso? Exagerei em alguma coisa?

       — Holly, nossa vítima está consideravelmente perturbada. Entretanto, ela fica retornando à acusação, e isso é suficiente para mim. Dê-lhe mais um ou dois dias, e ela conseguirá ligar os pontos.

       — Certo, Barbara, a sra. Weil continua voltando à história do rapto, porém também continua retornando ao detalhe de que esteve perambulando por conta própria. A menos que a sra. Chancel nos faça uma confissão e se declare culpada, teremos que colocar nossa vítima contra a parede. Acredita mesmo que temos um caso aqui?

       Barbara Widdoes olhou de relance para o sr. Shull.

       — Dispomos da raiz de todos os motivos; ela apenas aguardou a oportunidade e, em cerca de dez segundos, forneceremos a evidência física: a antiga escola maternal, para onde a sra. Chancel levou uma criança, em sua primeira experiência como raptora.

       Nora e Holly Fenn começaram a protestar ao mesmo tempo, porém Barbara Widdoes levantou-se e disse:

       — Quero passar à fase seguinte. Assim que indiciarmos a sra. Chancel, ela poderá entrar em contato com seu advogado. — A mulher baixou os olhos para Nora. — Aliás, é bem provável que seu advogado esteja aqui. A senhora não é cliente de Dart, Morris? Leo Morris está aguardando que sejam registradas as acusações contra o sr. Dart, e será isso que faremos, tão logo encerremos com a senhora. Se quiser, posso avisá-lo sobre sua situação e dizer-lhe que a senhora pediu para vê-lo.

       Nora girou em sua cadeira, a fim de olhar para Holly.

       — Isto está realmente acontecendo? Vou ser presa por algo que não fiz?

       — Barbara é a chefe do nosso posto. Isto é da competência dela. Fale com seu advogado a respeito.

       A totalidade das acusações explodiu sobre ela, e a pura, improvável desesperação de tudo aquilo a fez abater-se contra o encosto da cadeira e rir histericamente. Todos na sala olharam em sua direção, exibindo emoções que iam da preocupação ao desprezo.

       — Sente-se bem, sra. Chancel?

       — Eu gostaria que soubesse o que mais está acontecendo em minha vida!

       Holly consultou o relógio de pulso, quando contornou a lateral de sua mesa.

       — Eu a deixaria usar o telefone para falar com seu marido, porém dispomos de pouco tempo. Quero vê-la passar por nossas normas, antes que o circo de Dick Dart escape ao controle. Assim que terminarmos, eu a levarei para uma das salas de entrevista. Lá poderá usar o telefone, enquanto estiver esperando Leo Morris.

       Nora levantou-se.

       — Nós também precisamos de algum tempo com a sra. Chancel — disse o sr. Shull.

       — Como eu poderia esquecer? — Holly colocou a mão nas costas de Nora e pediu-lhe que caminhasse. — Se não acabarmos logo com isto a coisa levará horas. Dentro de dez minutos, tudo por aqui vai enlouquecer.

       — Tudo já enlouqueceu — disse Nora.

       Holly abriu a porta com uma das mãos, enquanto mantinha a outra nas costas dela. Fez com que Nora entrasse no corredor e a seguiu imediatamente. Vozes e ruído de passos vinham da frente do posto, e antes que Barbara Widdoes e os homens do FBI estivessem fora do gabinete, uma multidão de homens irrompeu da esquina do corredor, caminhando a toda pressa para eles. Encabeçando toda aquela gente, o agente LeDonne seguia alguns passos à frente de Leo Morris, que dirigiu a Nora um olhar de intensa e inamistosa curiosidade. Perto do advogado vinha Dick Dart, de terno cinza e camisa branca, mas sem gravata. Ao avistar Nora, ele sorriu.

       — O que significa isso? — exclamou Holly. — Droga, eles o estão levando pelos fundos, para mantê-lo longe dos repórteres! Vou mandá-los novamente para as celas, a fim de cuidarmos primeiro de você.

       O agente LeDonne diminuiu o passo ao ver Holly Fenn, e os outros dois homens chocaram-se contra ele.

       — LeDonne, leve este homem de volta à cela de custódia. Quero a minha outra incumbência fora do caminho, antes de lidarmos com ele. Está bem assim, senhor advogado?

       Leo Morris inspecionou Nora sombriamente, com seus olhos atrás dos óculos de aros escuros.

       Nora tentou recuar para a porta, a fim de que Dick Dart parasse de sorrir para ela, porém Barbara Widdoes pressionou-se contra seu corpo e agarrou-lhe os braços.

       — A encantadora esposa de Davey Chancel — disse Dart.

       Nora fechou os olhos. Holly virou-se para LeDonne.

       — Leve-os de volta e mantenha os repórteres à distância.

       Antes que LeDonne pudesse responder, um segundo grupo surgiu na esquina e encheu o corredor, gritando perguntas. Dois ou três homens com câmeras de vídeo nos ombros abriram caminho até a frente da multidão.

       — Parados, todos vocês! — trovejou Holly. — Que ninguém se mova! LeDonne, espere um segundo antes de levar o prisioneiro pelos fundos. Quero que a chefe do posto leve estes homens para seu gabinete. Eu e a sra. Chancel aguardaremos aqui fora.

       Barbara Widdoes afrouxou a pressão em Nora e espremeu-se para fora de sua sala, seguida pelos homens do FBI. Os dois escaparam corredor abaixo. Holly ergueu a voz:

       — Vocês, o pessoal da mídia, voltem para a frente do posto. O que estão fazendo não é permitido. Entenderam?

       — Nora-bombom — disse Dick Dart, e ela ergueu o rosto para os olhos que brilhavam na sorridente face dele.

       Leo Morris e Holly Fenn, cada um à sua maneira, sugeriram que Dart ficasse calado, mas ele manteve os olhos de Nora presos nos seus.

       — Que dia interessante! — exclamou.

       De repente, passou o braço esquerdo em torno do pescoço do agente LeDonne, arrancando tão rapidamente o revólver do coldre do policial, que este se retorcia contra o braço comprimindo sua garganta, e o revólver sendo encostado em sua têmpora, antes mesmo de Nora perceber que Dart fizera algum movimento.

       LeDonne deixou de resistir, e Holly adiantou-se. Os repórteres silenciaram. Dart pressionou o dedo no gatilho.

       — Vamos, vamos — disse ele. — Seja um bom garoto...

       Holly levantou as mãos.

       — Sr. Dart, o senhor está em um posto de polícia. Solte o policial e entregue sua arma!

       — Faça o que ele diz — aconselhou Leo Morris, sua voz saindo da garganta em um guincho agudo.

       — Leo, não é óbvio que, aqui, eu sou o dono da situação?

       — Não por muito tempo — disse Holly.

       — Mova-se contra a parede!

       Holly começou a ir lentamente para o outro lado do corredor, e Nora o seguiu.

       — Não, Nora, você volte para a porta!

       Dart espetou o cano da arma na cabeça de LeDonne e fez o policial caminhar na direção dela, como um boneco. O rosto de LeDonne estava manchado de escarlate, a raiva e o pânico enchiam seus olhos. Nora olhou rapidamente para Holly Fenn, que franziu a testa e assentiu. Ela então recuou para a porta.

       — O que pensa que está fazendo? — perguntou Holly.

       — Uma simples troca de prisioneiros — respondeu Dart. — Seguida por uma temerária escapada e uma fuga bem-sucedida, esse tipo de coisa.

       Holly abriu a boca, mas antes que pudesse dizer alguma coisa, Dart empurrou LeDonne em sua direção e imediatamente materializou-se ao lado de Nora. LeDonne colidiu com Holly, e Dart circundou o pescoço de Nora com o braço, ao mesmo tempo em que pressionava o cano do revólver de LeDonne em sua têmpora. O contato do metal era frio e brutal, e o braço de Dart cortava-lhe a respiração.

       — Tudo pronto? — perguntou ele. — Malas feitas? Passaporte em ordem?

       Empurrando-a para o gabinete de Holly, ele usou o pé para fechar a porta estrondosamente.

 

AMIGO GENTIL

      

O VELHO VIROU-SE PARA O MENINO TRÊMULO, E DISSE: “VOCÊ ENTROU EM MINHA CAVERNA PARA UMA FINALIDADE. NESTA ESCURIDÃO, IRÁ PRENDER SOBRE O MEDO.”

 

DICK DART FEZ Nora inclinar-se contra seu joelho, a fim de girar a chave na porta do gabinete.

       — Eu e você vamos sair por aquela janela. Se me criar algum problema, mato-a na hora, entendeu bem? — Ela assentiu, e ele a empurrou através da sala. — Onde está seu carro? — Nora apontou pela janela na direção do Volvo. Holly Fenn gritava do outro lado da porta, e a maçaneta chocalhou. — Levo uma vida fascinante — disse Dart. — Abra a janela. Agora. Salte para fora e sente-se ao volante. Estarei bem atrás de você.

       As mãos de Nora se moveram para a parte inferior da janela, eficientes e pequenas mãos, depois a empurraram para cima. Enfiou a perna esquerda por sobre o peitoril e a viu delineada contra a grama abaixo, sua perna esguia envolta em jeans azuis, seu tornozelo, o pé estreito e sem meia, em um mocassim marrom, de couro entretecido como uma cesta. A perna pareceu-lhe inteiramente surrealista, suspensa acima da grama. O que esta perna interessante faria a seguir?

       A perna interessante estirou-se para a faixa verde entre o edifício e o piso de concreto. Quando Nora empurrou os quadris sobre o peitoril, a perna pousou de súbito em cima da grama. Desajeitadamente, ela passou a perna direita através da janela. Assim que saltou para trás, o rosto de Dick Dart foi a primeira coisa a cruzar o espaço vazio, o revólver apertado contra o peito. Ele encolheu os pés sob o corpo em pleno ar, aterrando tão perto dela, que Nora sentiu o choque na terra. Em seguida, ele a fez girar e espetou a arma em suas costas.

       — As chaves — disse Dart. Ela enfiou a mão no bolso e as tirou, enquanto trotava para o carro. — Entre e dirija. Vamos!

       Dart já deslizava para o banco do passageiro. Suando, Nora fez o carro sair de ré da vaga no estacionamento.

       — Quer que eu siga por essa ruazinha?

       — Que boa merda você dirige! Vamos ter que trocar de carro. Mais rápido, mais rápido! Quando chegar ao fim desta rua, dobre à esquerda e pegue a I-95.

       Nora desacelerou para o sinal de parar vermelho no fim da rua, e Dart praguejou, encostando o revólver em sua cabeça. Ela pressionou o acelerador, disparou através do sinal e dobrou à esquerda. Com o cano da arma encostado na cabeça dela, Dart espiou pelo vidro traseiro e exclamou, eufórico:

       — Eles não estão atrás de nós! Aqueles patetas continuam falando para a porta! — Baixando a arma, ele deu um tapa no joelho. — Ha! Eles não conseguirão furar o cerco dos repórteres! Isto prova que droga é a imprensa neste país. — Depois sorriu para ela. Uma onda de suor, óleo, mau hálito e sujeira secreta irradiou-se dele. — Anime-se, você está rodando com Dick Dart. Isto é uma aventura!

       Dirigindo a noventa e seis quilômetros horários por uma rua marginada de árvores completamente desconhecida, mas que ela sabia já ter visto dúzias de vezes, Nora mal prestou atenção às palavras dele. Tinha as mãos crispadas sobre o volante, os dentes cerrados e os olhos como que descarnados. Passou por mais dois sinais vermelhos. Onde ficava a I-95?

       — Eu sabia que estávamos relacionados, desde a primeira vez que a vi. Estou protegido, estou sendo guiado, nada de ruim poderá acontecer comigo. Que merda você está fazendo? — Ele fincou o cano do revólver no ouvido dela. — Pare, cretina!

       Nora pisou o freio com força. Suas mãos tremiam e sua garganta estava comprimida.

       — Para onde está indo? Não há tempo para uma excursão panorâmica, sua idiota! — gritou ele, espetando a arma um pouco mais.

       — Não me lembro de como chegar lá — disse ela.

       — Calma debaixo de fogo, está bem? — Ele espiou pela vidraça traseira, depois recolheu a arma. — Recue até depois do sinal de parar, dobre à direita e entre na Station Road. Então, dobre à esquerda. Queremos ir para o norte, na direção de New Haven.

       Ela deu à ré e fez a volta para Station Road. Sirenes uivaram na distância.

       — Pise no acelerador, cretina, você nos fez perder trinta segundos. Mova este carro!

       Nora apertou o acelerador, e o Volvo saltou para diante. No próximo sinal vermelho, ela ultrapassou uma van Dodge que acabava de entrar no cruzamento. O motorista apertou a buzina e a manteve tocando.

       — Merda! — disse Dart. — Vamos, escape desses caras, passe adiante deles!

       Dois carros desciam a rua, à frente deles. As sirenes pareciam uivar mais perto. Um homem usando short de ciclista e capacete pedalava uma bicicleta na direção do Volvo, pelo centro da faixa oposta.

       — E agora, o que...

       — Passe pelo maldito imbecil!

       Nora acelerou para a faixa do ciclista. O homem dirigindo o carro à frente deles virou a cabeça para espiar, a surpresa no seu rosto em nada comparável ao espanto no do ciclista. Nora buzinou. O homem, dispondo de algo como cinco segundos para decidir o que queria fazer, perdeu dois deles sacudindo o indicador e gritando. Nora firmou os cotovelos, abriu a boca de lábios apertados e deixou escapar um agudo gemido de puro pânico.

       — Tchauziiinho! — cantarolou Dart.

       O ciclista encolheu-se para um lado e desapareceu do pára-brisa por um momento, antes de ser apanhado pelo Volvo. Nora girou a cabeça. Teve um rápido vislumbre de homem e bicicleta engalfinhados no fundo de uma valeta rasa e relvada, depois passou pelo segundo carro a cento e doze por hora.

       — Espero que ele tenha quebrado o maldito pescoço — disse Dart. — Bom trabalho, garota. Entretanto, se você parar no sinal para a Station Road, dou um tiro em seu mamilo direito, entendeu bem?

       Nora subiu uma pequena elevação e, chegando ao topo, sentiu o carro desligar-se da estrada por um segundo, antes de cair nela outra vez, com um baque surdo. Dick Dart soltou gritos entusiásticos e sacudiu o revólver. A dois quarteirões dali, no final da estrada vazia, a luz de trânsito ficou vermelha. Brotaram carros das duas direções, passando pelo cruzamento.

       — Não posso fazer isso!

       — Oh, pobrezinha, vai ficar sem aquele mamilo! E também vai ficar inteligente. Só que, sabe de uma coisa? — Ele lhe deu tapinhas no alto da cabeça. — Aposto como o sinal vai ficar verde antes de chegarmos lá. Se eu ganhar, você terá de me contar tudo o que fez a Natalie Weil. Se você perder, seremos transformados em sopa de tomate.

       Nora passou como um raio por um cruzamento, e agora somente um quarteirão os separava do sinal de trânsito.

       — C’est la vie!

       Emitindo um som rouco na garganta, Nora esticou os braços e enrijeceu os cotovelos.

       — Desacelere um pouco para a curva — avisou Dart, parecendo absolutamente calmo.

       Nora pisou fundo no freio, e seu peito se chocou contra o volante. Dick Dart, que estivera recostado em seu assento, deslizou para diante e caiu, até os joelhos baterem no painel de instrumentos. O carro guinou em semicírculo, e disparou através do cruzamento, no exato momento em que a luz ficou verde. Dart reergueu-se de volta ao assento e agarrou a maçaneta da porta. Nora aferrou o volante e reconduziu o carro à posição certa.

       — Viva! Nora vai conservar seu mamilo! — bradou Dart. — Pessoalmente, fico muito feliz com isso.

       Ele, feliz com isso?, pensou Nora.

       — Preciso diminuir a marcha — disse ela em seguida. — Veja todos estes carros...

       Uma fila de automóveis corria em blocos de dois e três, ao longo do trecho reto da pista de quatro faixas da Station Road.

       — Ultrapasse eles, vá em frente, eu não estou brincando. Temos que chegar à via expressa, temos que sair daqui! Depois, você me contará sobre Natalie Weil.

       Os quatro minutos seguintes foram uma balbúrdia de buzinas soando, rostos espantados, punhos agitando-se e acidentes evitados somente pelo último segundo de percepção dos outros motoristas de que, sim, a mulher dirigindo a camionete Volvo que se aproximava pela pista realmente pretendia manter-se em movimento. Por várias vezes, a insistência de Nora em avançar provocou alguns pequenos danos nos pára-lamas dos veículos ao seu redor. Por fim, ela cruzou lateralmente para as faixas certas em mais uma imprudente manobra, depois girando para a rampa que levava às pistas da via expressa, na direção norte. Logo à frente surgiu o que deu a impressão de quatro sólidas faixas de carros e caminhões, rodando na direção de Hartford e New Haven. Fechando os olhos, Nora manteve o pé firme no acelerador. Quando os abriu, três longos segundos depois, viu-se a ponto de entrar sob a traseira de um enorme veículo de dezesseis rodas, com graúdas inscrições de MANTENHA DISTÂNCIA, PALERMA! nos pára-lamas. Ela manteve a distância.

       Uma viatura policial do estado, com luzes piscando no teto, ululou a sirene para eles ao passar no outro lado da divisória, e prosseguiu a toda velocidade.

       — Se pretende continuar sua carreira criminal, sempre poderá encontrar emprego como motorista de fuga. Agora, precisamos mover-nos um pouco mais discretamente, antes de manobrarmos para o Cousin Lenny’s.

       Este era o restaurante onde Davey convencera-se da inocência dela, enquanto comia carne mergulhada em catchup.

       — Por que lá?

       — Cada tira no estado, merda, cada tira no noroeste, está à procura deste pedaço de bosta sueco. Nora, queridinha, se vai ser uma artista das fugas, precisa aprender a pensar como uma.

       Não sou sua queridinha, pensou ela.

       — Muito bem, conte-me o que você fez a Natalie Weil.

       Ele estava reclinado contra a porta do carona, e sorria afetadamente.

       — Como é que sabe sobre ela? Você ficou dois dias em uma cela.

       — Quando não estava discutindo os meus hobbies com o seboso do Leo Morris, aquele cretino desonesto de olhos grandes, fiquei um bocado de tempo conversando com os jovens e corteses oficiais da polícia de Westerholm. Eles me falaram sobre o outro interessante assunto que estava acontecendo no posto. Fiquei sabendo que, para a chefe do posto, você raptou a sra. Weil, ao passo que o chefe de detetives a julgava inocente.

       — Eles lhe disseram isso? — perguntou Nora, estupefata.

       — Se fui considerado o assassino de várias das mais notáveis rameiras de Westerholm, um detalhe que neguei energicamente, embora não a você, é claro; se eu fosse a celebridade em questão, evidentemente estaria interessado em saber que inspirei uma imitadora. Não apenas uma imitadora velha, não, não, mas a encantadora Nora Chancel, esposa do belo, mas ineficiente Davey Chancel. Desnecessário dizer que fiquei honrado. Leo Morris, por outro lado, não aceitou as novas tão alegremente quanto eu.

       — Leo Morris sabia?

       — Eu contei a ele. Não ficou nem um pouco satisfeito com a perspectiva de montar sua defesa. Na verdade, ele não gosta de você, de seu marido e de todo o clã Chancel.

       — Leo Morris?

       — Não vamos desviar-nos do assunto. Foi você, não foi? Você quase matou aquela cretininha de medo. Você a trancafiou e fez coisas horríveis com ela.

       Nora não respondeu logo, e depois disse:

       — Sim. Eu quase a matei de medo, depois a arrastei para um quarto imundo e fiz coisas horríveis com ela.

       — O que ela fez a você?

       — Ela dormiu com meu marido.

       — Você ia matá-la? — perguntou Dart, menos brusco.

       — Eu dificilmente poderia soltá-la, não acha?

       — Que acontecimento! Meu número oposto, meu eu feminino! Isto não significa que deixarei de matar você, porém estou excitado.

       — Por que me tirou da cadeia, se pretende matar-me?

       — Se você for uma boa menina, posso deixá-la por aí.

       — Claro, você viajaria muito mais depressa estando sozinho.

       — O que você faria, se eu a deixasse ir?

       — Conseguiria algum dinheiro em um caixa automático, suponho, e iria para Nova York. Uma vez lá, imaginaria um meio de entrar em contato com Davey.

       — Você não duraria um dia. Estaria em uma cabine telefônica, a um quarteirão do caixa automático, tentando uma conversinha açucarada com o retraído Davey Chancel, para que ele lhe envie seu vestido Ann Taylor predileto, quando de repente cem tiras apontam as armas para você. Ouça, você precisa aprender a pensar de um modo inteiramente novo. Nesse meio tempo, posso mantê-la a salvo de contratempos.

       — É esta a sua idéia de manter-se a salvo de contratempos?

       — Esta é a minha idéia de manter-me fora da prisão — respondeu ele. — Existe um outro motivo para eu querer conservá-la por perto durante algum tempo.

       A pele do pescoço dela contraiu-se. Olhou para ele de lado, viu-o reclinado contra a porta, as mãos dobradas sobre um joelho e a boca mostrando um sorriso torcido.

       — E qual seria esse motivo?

       — Ao contrário de você, eu tenho um plano. Você possui uma qualidade que não sei o nome, uma espécie de franqueza provinciana, que posso ver abrindo portas necessárias.

       — Que portas?

       Ele pousou o indicador sobre os lábios sorridentes.

       — Que plano é este?

       — Creio que posso dar-lhe os contornos gerais. Estamos indo para Massachusetts, a fim de matar uma dupla de velhos asquerosos. Ah, aí vem aquele nauseabundo restaurante. Manobre para o pátio.

       Nora ligou a seta para indicar a curva e trocou de pista. O enorme letreiro COUSIN LENNY’S — COMIDA — GASOLINA flutuou para eles.

       — Posso fazer-lhe outra pergunta?

       — Pergunte.

       — Como sabia que uso vestidos Ann Taylor?

       — Nora, meu amor, levei a vida inteira sem fazer outra coisa a não ser falar com mulheres. Eu sei tudo.

       — Posso fazer outra?

       — Desde que não seja tediosa.

       Nora ganhou a estrada de acesso para o pátio de estacionamento do Cousin Lenny’s.

       — Holly Fenn disse que um detalhe sobre aqueles assassinatos nunca foi liberado para a imprensa. Qual era o detalhe?

       — Ah, a minha assinaturazinha... Eu abri aquelas coroas e removi a maioria de seus órgãos internos. Deixe-me dizer-lhe uma coisa: a gente aprende muito mais fazendo do que lendo livros de anatomia. Muito bem, siga para o lado mais distante, e esperaremos até que apareça o doador certo.

       Nora avançou ao longo de uma fila de carros estacionados, até a extremidade oposta do pátio. Barreiras de concreto erguiam-se diante de uma fileira de caminhões-basculantes verdes. Atrás dos caminhões, um campo coberto de mato rasteiro estendia-se em direção a um distante punhado de árvores macilentas, que funcionavam como quebra-vento.

       — Entre de ré — disse Dart. — Precisamos ver nossos benfeitores em perspectiva. Pesar suas vantagens e desvantagens.

       — Você sabe como fazer aquela coisa com os fios?

       — Se eu soubesse como fazer uma ligação direta já estaríamos dentro de um carro, rodando para Fairfield. Só que não estamos, estamos, Nora querida? Não, não, não, não! Queremos as chaves de nosso novo veículo e, portanto, devemos tomá-las das mãos do dono temporário. Preferimos uma pessoa idosa, que fique trêmula à possibilidade de violência. — Inclinando-se para frente, ele colocou as duas mãos sobre o painel de instrumentos e olhou para um e outro lado. Sua mão direita segurava o revólver, o indicador junto ao gatilho. — Os agentes da lei logo devem aparecer. Precisamos do nosso benfeitor, e precisamos dele agora!

       — Não mate ninguém — disse Nora. — Por favor!

       — Senhorita Executora Fracassada... Com sua licença. — Ele tornou a vistoriar o pátio. — Ora, ora, o que temos aqui? Uma possibilidade definida. — Um comprido Lincoln negro, dirigido por um homem idoso, de cabeça redonda e calva, movia-se na direção deles, através da luz do sol. Ao lado do motorista sentava-se uma mulher jovem, com cabelos escuros na altura dos ombros. — Papai Warbucks e a bambina seu troféu — disse Dart. — Compre um e leve dois...

       — Todos no restaurante ouviriam os tiros.

       — E fingiriam não ter ouvido.

       O Lincoln deu à ré cuidadosamente para a segunda das três vagas vazias.

       — O homem ama seu veículo — comentou Dart. Ele apertou a mão em torno do pulso de Nora. — Do meu lado — falou.

       Puxando-a contra seu corpo, ele deslizou a mão armada para dentro do bolso do paletó.

       — Está me machucando!

       — Oh, coitadinha, está dodói! — Ele manteve a mão segurando o pulso dela, enquanto Nora espremia-se para fora do carro, depois a puxou atrás de si, na direção do Lincoln. — Eu começo a correr, você corre também, entendido?

       Ela assentiu. Dart arrastou-a por mais dois metros, depois parou de mover-se.

       — Ora, mas que diabo...?

       O homem calvo estava olhando para a jovem com uma expressão de absoluta inocência. Ela gesticulou; ele sorriu. Puxando Nora pela mão, Dart caminhou lentamente para o Lincoln. A jovem deu um tapa na testa, abriu a porta, saiu e ficou à vista uma adolescente de quatorze anos, de blusinha apertada de malha, jeans com as pernas cortadas fora e sapatilhas de lona com solado plataforma. Não se preocupando em fechar a porta, ela seguiu em passos elásticos para a entrada do restaurante. Em um terno listrado de linho rugoso, uma engomada camisa branca e gravata azul-marinho, o velho ficara sentado beatificamente ao volante de seu carro.

       — Alá é bom, louvado seja Alá! — proferiu Dart. Aos safanões, levou Nora através do asfalto até a porta aberta. Inclinando para o homem, exclamou: — Bons olhos o vejam!

       O homem piscou várias vezes os cintilantes olhos azuis, quando viu Dick Dart.

       — Desejo-lhe o mesmo. O senhor poderia ajudar-me?

       — É justamente o que pretendo fazer — disse Dart, sua mão pendendo suspensa no interior do bolso, com o revólver estufando o tecido do paletó.

       — Não me lembro de quem sou. Aliás, não faço idéia de onde estou e nem de como cheguei aqui. O senhor sabe se este é o meu carro?

       — Não, meu chapa, este aqui é meu — disse Dart. A mão saiu do bolso do paletó, cuja metade pendeu para diante. — Entretanto, eu o vi chegar e posso dizer-lhe onde está o seu.

       — Oh, céus, peço-lhe desculpas. Não consigo imaginar como vim para... Espero que não esteja pensando que eu pretendia roubar seu carro. — O velho saiu do Lincoln e ficou parado, piscando benignamente sob o sol. — Tenho uma neta, isso eu sei, e pareço ter a impressão de que ela estava comigo ainda há pouco.

       — Ela foi ao restaurante — disse Nora.

       — Céus! Acho melhor ir até lá procurá-la. Onde o senhor disse que meu carro estava?

       — Na outra extremidade do pátio. — Dart olhou fixamente para Nora. — Não pode perdê-lo. É um Cadillac vermelho-vivo.

       — Oh, vejam só! Um Cadillac. Quem diria?

       Dart pegou a mão de Nora e a empurrou para a porta aberta.

       — Temos muitos quilômetros pela frente, antes de podermos dormir. É melhor o senhor primeiro encontrar seu carro e depois procurar sua neta.

       — Tem razão. — O velho deu alguns passos no estacionamento, depois virou-se, sorrindo. — Muitos quilômetros pela frente, antes de eu poder dormir. Isso é Robert Frost.

       Dart entrou no Lincoln. Por um momento, o velho pareceu desapontado, porém o sorriso retornou, e ele acenou para os dois, para depois reiniciar a caminhada para um inexistente Cadillac vermelho. Dart seguiu com o carro para a via expressa.

       — Santo Deus, está até cheio de gasolina! — Depois rosnou para Nora: — Por que falou ao velho zumbi sobre a neta dele?

       — Eu...

       — Não se dê ao trabalho, eu já sei. Ficou com pena dele. Somos as duas pessoas mais procuradas na terra, e você perde tempo fazendo assistência social!

       Ele moveu o carro maciamente para o grosso do trânsito. Ar fresco brotava das fendas no painel de instrumentos.

       — Aquilo foi tão bonito, que não pude ficar irado. “O senhor poderia ajudar-me?” Quase desmaiei. Depois me perguntou se este carro era o dele! — Dart jogou ligeiramente a cabeça para trás e soltou uma série de risadas rápidas. — Ele o deu para mim! — Mais risadas. — Reparou naquela cara grande e pateta? O velho seboso parecia uma fita em branco.

       — Você está certo — disse Nora.

       — Cheque o porta-luvas e descubra o nome dele na papeleta de “nada consta”.

       Nora abriu o porta-luvas e vasculhou o que havia lá dentro. Uma gorda e reluzente carteira de couro negro estava ao lado de um alto maço de notas, presas por uma tira de borracha.

       — Você vai sentir-se bem mais feliz.

       — Por quê? — Nora pegou a carteira e o dinheiro do porta-luvas. — Oh! Nossa! Santo Deus! Olhe só para isto! Quanto deve ser?

       Outro maço de notas distorcia o compartimento de dinheiro na carteira. Nora folheou-as, notas de cem, de cinqüenta e de vinte. Depois puxou o elástico firmando o primeiro maço.

       — Uma soma espantosa!

       Dart gritou para ela que contasse o dinheiro. Nora começou a somar notas do mesmo valor — vinte mil em notas de cem, mil em notas de cinqüenta e quinhentos em notas de vinte.

       — Vinte e um mil e quinhentos dólares? Quem, diacho, era aquele sujeito?

       Nora ergueu uma aba de couro da carteira e olhou para a licença de motorista.

       — O nome dele é Ernest Forrest Ernest. Mora em Hamden.

       Dick Dart começou a rir, assim que ouviu o nome.

       — Então, aquele era o grande Ernest Forrest Ernest, hein? — Ele deu um grito de jubilosa descrença. — Este dia pode ser comparado aos maiores e supremos dias de toda a minha vida. Não sabe quem é ele? — Contendo o riso que palpitava e rugia em sua garganta, ele moveu a cabeça a fim de olhá-la. — Não, você está muito por fora para saber a respeito dele. Alden, no entanto, saberia. Em presença daquele grande homem, Alden Chancel borraria suas calças de pólo.

       — Quem é ele?

       — Há vinte anos atrás ele foi o vice-governador do Connecticut, e agora é o velho e importante homem do partido republicano neste estado. Aquela distinta pilha de bosta que me orgulho em chamar de pai, adora o velhote. O que posso dizer? O homem é um deus.

       A princípio fracamente, depois ganhando volume, chegou até eles o som de uma sirene policial. Dark espiou pelo retrovisor, deu a Nora um olhar de aviso, tirou o revólver do bolso e o manteve na mão direita.

       — Não é possível que já estejam sabendo deste carro!

       Nora crispou os punhos e forçou-se a não gritar. Angústia, ódio e medo perpassaram seu corpo. Olhando para trás, ela viu que o pisca-pisca da luz do teto da viatura ainda estava uns quatrocentos metros à retaguarda deles, e virou-se para observar Dick Dart, pela primeira vez querendo realmente examiná-lo com a intensidade de seu ódio. Dois anos mais novo do que Davey, ele parecia pelo menos cinco anos mais velho. A pele mostrava uma lividez acinzentada. Muitas rugas superficiais sulcavam-lhe a testa. Duas pequenas linhas verticais, agora mal divisadas pelo começo escuro de barba, desciam por suas faces. Acima da barba que despontava, finas veias vermelhas espalhavam-se pelos malares, enquanto outras maiores, azuis e vermelhas, tinham emergido na base de seu comprido e carnudo nariz. O fígado de Dick estava trabalhando muito além de suas possibilidades. A desgraciosidade da cara comprida e ovalada passaria despercebida, não fosse o sarcástico egoísmo que permeava cada centímetro do seu rosto. As sobrancelhas ficavam permanentemente arqueadas acima dos olhos espertos e vivos, os cílios assemelhando-se a uma fileira de pinos. Uma falsidade, um velhaco desdém por normas e ordens irradiavam-se de seu semblante como um odor. Se os cabelos tivessem sido lavados recentemente, mostrariam o perfeito corte do aluno de curso preparatório, um pouquinho compridos demais, caindo em curvas suaves e naturais nas laterais da cabeça e tombando juvenilmente sobre a testa. As mãos grandes e rudes tinham sido manicuradas alguns dias antes. O terno cinza, de aparência usada, evidentemente custara um bom dinheiro, e ele usava um relógio de pulso Rolex. Suas damas idosas também usavam um, e todas elas achavam aquele rapaz encantador.

       — O que está fazendo? Um maldito inventário?

       — Não — respondeu Nora rapidamente. — Eu pensava em algo.

       — Dê-me essa carteira e o resto do dinheiro.

       A carteira jazia esquecida no colo dela, que continuava segurando as notas. Nora enfiou todas as que pôde no compartimento de dinheiro e entregou a ele. Dart distribuiu as notas por vários bolsos do paletó.

       — Pensava em quê, exatamente?

       — Estava pensando em como você foi suspenso durante o seu ano de calouro em Yale.

       — Como é que você sou... oh, o jornal. Bem, o que fiz foi surrar uma colega, uma porca que residia na cidade. Para minha sorte, ela era mesmo uma porca, e tudo que resultou do caso foi uma suspensão. — Ele deu uma espiada no retrovisor. — Aí vem ele. Deve estar procurando pelo calhambeque da sua camionete Volvo.

       Nora ficou preparada.

       O uivo da sirene ficava cada vez mais alto. Se Dart começasse a disparar, ela se agacharia junto ao piso do automóvel. Poderia tirar a arma dele? Nora recordou como Dart saltara pela janela e rejeitou a idéia de surripiar a arma. Para uma pessoa em má forma, Dick Dart estava incrivelmente forte. Ela, mesmo em excelente forma, jamais conseguiria dar aquele salto felino, e sabia disso.

       O carro-patrulha deslizou pela faixa seguinte e partiu a toda velocidade. Nenhum dos policiais na viatura espiou para eles. Em segundos, as luzes piscantes e o ruído ficaram a cinco carros de distância, e Dart aplaudiu-se com gritos e vivas.

       — Devo comemorar esta ocasião? — Ele ergueu o cano da arma até sua boca. — Desejo agradecer aos membros da Academia, à minha mãe e ao meu pai, á todos os meus colegas do escritório, os quais sabem a quem me refiro: Leo, Bert, Henry, Manny. Eu jamais conseguiria fazer isso sem o apoio de vocês, mas não posso deixar de mencionar aquelas encantadoras senhoras, minhas clientes especiais, Martha, Joan, Leslie, Agatha, adoro esses seus olhos, Agatha!, a querida JoAnne, que nunca deixa de encomendar o melhor Margaux na lista de vinhos do Château, Marjorie, Phyllis, a pequenina e espevitada Edna dos tornozelos gorduchos e, finalmente, mas não menos importante, a feiticeira Olivia, capaz de fazer com que manchas senis pareçam sinais de beleza. Quero agradecer ao Criador pelas dádivas que Ele derramou abundantemente sobre este ser indigno, e à polícia de Westerholm por toda a sua assistência. Entretanto, acima de tudo, desejo agradecer ao meu amuleto da sorte, meu pé de coelho, meu trevo de quatro folhas, minha estrela-guia, minha refém e parceira no crime, a deleitosa sra. Nora Chancel. Eu não teria feito isto sem você, garota, você produziu a mágica, você é o vento debaixo de minhas asas.

       Ao terminar de falar, Dart soprou um beijo para ela, com o revólver.

       — Você é ainda mais louco do que imaginei — disse Nora.

       — Em sua maioria, as pessoas nunca são seus eus reais, elas jamais se permitiriam fazer o que você fez a Natalie Weil. A diferença entre nós dois é que, quando você chama alguém de louco, acha que é um insulto, ao passo que eu encaro isso como um elogio.

       — Não creio que eu ainda tenha um eu real — disse Nora.

       — Eu lhe mostrarei seu verdadeiro eu — disse-lhe Dart. — Lembre-se, você produziu a mágica.

       Nora grunhiu com seu eu real, mas apenas interiormente, e Dick Dart exibiu sua imitação de sorriso humano, enquanto desviava para a rampa de saída para Fairfield.

      

DART RODOU POR uma série de ruas estreitas, marginadas por casas de dois andares em pequenos terrenos, exibindo mobiliários de jardim, piscinas de plástico e brinquedos de crianças de colorido berrante. Um brilho dançante surgira nos olhos dele.

       — Querida Nora, coube-me a séria responsabilidade de libertá-la de suas ilusões.

       Ele rodou até um sinal de parada e dobrou à direita, entrando na quase vazia Rua Principal, em direção ao setor de pequenos comércios de Fairfield.

       — Você verá o que eu vejo, verá através dos meus olhos. Eu sinto... eu sinto... — Ele manobrou para um pátio de estacionamento em ângulo, à frente da loja de ferragens. Depois inclinou-se para Nora, a mão direita a uns dez centímetros do rosto dela, o polegar e o indicador quase se tocando. — Você está perto assim...

       O cheiro dele envolveu-a como uma névoa. Dart baixou a mão e inclinou-se para trás, os olhos cintilando, a boca comprimida. Nora tentou não demonstrar a náusea que sentia.

       — Vou até a loja de ferragens — disse ele.

       Um fio incandescente de esperança brilhou para a vida dentro dela.

       — Você virá comigo, Nora — prosseguiu ele. — Qualquer pedido de ajuda, qualquer tentativa para afastar-se de mim, serão resolvidos seriamente. — Ele ainda tinha um ar satisfeito, como se pronunciar aquelas palavras o divertisse imensamente. — Preciso fazer algumas compras e, por isso, não posso deixá-la sozinha no carro. Isto é um teste, e se você fracassar, certamente nunca mais terá ocasião de passar por outro.

       — Poderia deixar-me no carro — replicou ela. — Não irei para lugar nenhum. Como poderia? Sou uma das duas pessoas mais procuradas na terra.

       — Menina levada. — Dart bateu levemente no joelho dela. — Chegará o momento em que lhe serão permitidas várias liberdades, porém precisamos saber que você não abusará delas.

       Ele saiu e contornou o carro pela frente, a fim de abrir a porta do lado dela.

       — Não tem medo de ser reconhecido? — perguntou Nora.

       — Estive nessa loja penso que uma vez somente. Por outro lado, ninguém tem uma boa foto minha. — Inclinando-se para frente, ele sorriu e sussurrou: — Entretanto, se por acaso algum infeliz reconhecer-me, tenho comigo o poderoso trinta e oito do agente LeDonne.

       Dart segurou-lhe o cotovelo com uma das mãos e a empurrou em direção à loja de ferragens.

       A penumbra e o frescor no interior do estabelecimento imediatamente fizeram Nora recordar as lojas de ferragens de sua infância. No extremo oposto, um homem em mangas de camisa estava de pé entre um balcão de madeira e uma parede coberta de pilhas em embalagens, mangueiras enroladas, montes de tesouras, rolos de fita isolante e uma centena de outras coisas. Sobre o macio piso de madeira entre o balcão e a porta de entrada erguiam-se fileiras de prateleiras e caixas, cada qual mostrando o mesmo caos da parede anterior. Matt Curlew teria vagueado em transe através de tais lojas. Ao contrário dele, Dick Dart moveu-se rapidamente através dos corredores, apanhando cordas, duas chaves de parafuso de tamanhos diferentes, um rolo de fita isolante para canos, um alicate e um martelo. Tinha soltado o cotovelo de Nora assim que entraram na loja, e ela o seguiu, vendo aquelas aquisições com crescente alarme.

       — Por favor, deixe tudo em cima do balcão, e permita-me fazer a conta — disse o homem atrás do balcão.

       Ele espiou em seguida para Nora, e o que quer que tivesse captado nos olhos dela não fez com que recuasse um passo.

       — Grande idéia — disse Dart, e moveu-se para o balcão. — Preciso também de alguns artigos da sua vitrine de facas. Pode abri-la para mim?

       — Perfeitamente. — O proprietário tornou a fitar Nora, mas, aparentemente, nada notou que o alarmasse. Tirando do bolso um gordo chaveiro, conduziu Dart para a vitrine em questão. Abriu a fechadura de metal na frente da vitrine, deslizou um dos painéis para trás e perguntou: — Alguma coisa em particular?

       — Apenas uma ou duas boas facas.

       — Não somos uma loja especializada em facas, porém tenho algumas com bons cabos alemães em chifre de veado, o senhor vai gostar.

       — Eu quero uma faca decente — disse Dart.

       O homem recuou, Dart empurrou o painel um pouco mais e pegou uma faca de aparência brutal, de uns trinta e cinco centímetros de comprimento, lâmina encurvada e uma grossa empunhadura negra.

       — Escolheu uma faca de respeito — disse o proprietário.

       Dart olhou ao longo da vitrine e selecionou uma faca de vinte centímetros, que se dobrava para um punho esculpido em chifre.

       — Essa é uma das que lhe falei, é uma peça para coleção.

       — Preciso de mais uma. — Dart ergueu o corpo, a fim de examinar as facas menores, no topo da vitrine. Cantarolando para si mesmo, fez os dedos dançarem sobre o vidro, sem realmente o tocarem. Após alguns compassos, Nora identificou a melodia que ele cantarolava. Era “Alguém para cuidar de mim”. — Oh, aqui está! — Inclinando-se, ele apanhou uma faca pequena, de lâmina com fio duplo e um utilitário cabo preto. — Tem uma bainha para isto?

       — Uma bainha para prender no cinto? Sim, tenho.

       O proprietário colocou as facas e um estojo de couro preto ao lado das outras compras, consultou a taxa em um mapa e adicionou-a à coluna de números.

       — Bem, senhor, fica tudo em duzentos e vinte e oito dólares e oitenta e nove. Em dinheiro ou cartão?

       — Oh, sou um americano antiquado, comigo é em dinheiro vivo.

       Dart tirou do bolso do paletó a volumosa carteira e colocou duzentos e quarenta dólares em cima do balcão. O proprietário grunhiu e começou a colocar as compras em uma sacola.

       — Sacos separados para as facas — avisou Dart.

      

— Não se saiu de todo mal, Nora, minha garota. — Dart dirigia por uma rua lateral seguindo para a estação ferroviária de Fairfield, com a faca menor escondida sob o paletó, na bainha de couro que prendera ao cinto. As outras duas facas estavam no banco traseiro, o restante das compras na mala do carro. — Entretanto, dirigiu àquele velhote um olhar infernal. Precisa cuidar disso, tem de controlar-se mais.

       — Eu me controlei — respondeu Nora. — O que está fazendo? Não creio que vamos tomar o trem.

       — Papai está procurando uma coisa e, maravilha das maravilhas, acho que ele acabou de encontrar. Você é um pé de coelho e tanto. — Ele passou por um carro-esporte azul-escuro, de vidraças enfumaçadas, e parou junto ao meio-fio, perto de um terreno baldio. — Saia do carro e fique perto de mim.

       Nora juntou-se a ele na traseira do Lincoln. Enquanto Dart agachava-se para o interior do porta-malas e removia uma chave de fenda da sacola, Nora vistoriou a extensão da rua, rezando pela chegada de um veículo policial. Diante deles, no outro lado de um comprido e estreito pátio de estacionamento, ficava a estação ferroviária; mais atrás, na direção da Rua Principal e além do terreno baldio, viam-se a florida passagem e o toldo listrado de verde de um restaurante chamado Euphemia’s Diner.

       Dart fechou o porta-malas, sem trancá-lo.

       — Fique entre a rua e mim. Não deixe ninguém ver o que estou fazendo.

       Sorriu para ela e, com a mão direita, alcançou a parte de trás das calças.

       — O que você vai fazer?

       — Ganhar algum tempo. — Ele a guiou para a traseira do pequeno carro-esporte azul. — Você não vai tomar uma pílula de idiotice, vai?

       — Não — respondeu ela.

       Uma pequena e reluzente lâmina projetou-se na palma dele. Dart ajoelhou-se ao lado do pára-lama traseiro e enfiou a lâmina no pneu. A lâmina deslizou para fora, o pneu sibilou e amoleceu. — Se por acaso aparecer alguém, estamos examinando nosso pneu arriado. Não olhe para mim, vigie a rua e me diga se vier alguém!

       Dart tornou a enfiar a pequena faca na bainha. Nora moveu-se, a fim de ocultá-lo de quem passasse na calçada.

       — Não entendo o que está fazendo.

       — Estou trocando chapas. Não é tão fácil como costumava ser. Todos estes idiotas tratam suas chapas como telas a óleo. Esta foi a primeira que não tinha uma moldura em torno.

       A chave de parafuso retiniu contra o metal. Dart resmungou, depois começou novamente a cantarolar “Alguém para cuidar de mim”. O calor caía sobre eles. A viatura policial pela qual Nora continuava a rezar insistia em não aparecer.

       — Agora, na frente. — Ela o seguiu e ficou em pé na rua, enquanto metal friccionava metal. — Quer ouvir um fato pouco conhecido sobre o nosso velho chapa Ernest Forrest Ernest? Este grande homem namorou os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, embora isso fosse um tenebroso segredo muito bem guardado, é claro. Mais tarde, ele fez parte de um esplêndido grupinho de homens montados na grana, que tentaram promover o fascismo bem aqui, em nosso bom e velho berço de liberdade... Pronto!

       Ele deu dois passos até a traseira do Lincoln e começou a remover os parafusos de sua chapa de matrícula.

       — Evidentemente, eles não usaram a aborrecida palavra “fascismo”, deram à coisa o nome de Movimento Americanista, que durou cerca de cinco minutos, até Joe McCarthy entrar em campo e colocá-los em seu bolso, com eles tendo de fingir que gostavam disso. A questão, no entanto — ele ajeitou a chapa do outro carro em posição, e encaixou os parafusos nos lugares — é que o avô do pequeno Davey estava por trás do espetáculo inteiro.

       Nora recordou a passagem sobre o fascismo no capítulo do livro de Daisy por ela intitulado “A fantasia”.

       — Lincoln Chancel foi o velhaco dos velhacos.

       — É o que imagino.

       Dick Dart ergueu os olhos para ela, em divertida surpresa.

       — Acho que Davey não sabe um quarto das trapalhadas que o velho andou fazendo.

       — Ele sabe que seu avô não foi nenhum santo.

       Dart ergueu-se, foi até a frente do Lincoln e ajoelhou-se, enquanto Nora se postava de maneira a acobertá-lo da rua vazia. Ela estivera em Fairfield talvez umas trinta vezes, durante os dois anos de casada, adquirira seus jeans e vestidos Ann Taylor na Rua Principal, comprara costeletas de vitela e boas carnes para assar no excelente açougueiro, saboreara almoços e jantares em três diferentes restaurantes, e durante todo esse tempo — vinha-lhe à lembrança agora — nunca tinha visto um só policial.

       — Nós contemplamos uma infeliz geração da linhagem Chancel — disse Dart. — Lincoln Chancel não usaria Davey nem como palito de dentes. Lincoln era um perigoso filho da mãe, e Davey não tem a coragem de um ursinho de pelúcia. Alden se situa em uma espécie de meio-caminho entre eles, é um bandido e um rufião, mas não um bandido de verdade ou um rufião de verdade.

       — Ele tem seus momentos — comentou Nora.

       — Você não conheceu a coisa real. Alden considera-se um mandachuva, fica se pavoneando e falando grosso, mas acho que seu velho lhe cortou os bagos.

       Levantando-se, Dart fez um gesto para que Nora o seguisse à traseira do carro-esporte. Estavam caminhando lado a lado, rua abaixo, como qualquer casal comum. O homem a seu lado dava a impressão de um corretor ou advogado após uma noite mal dormida, e ela provavelmente parecia sua esposa.

       A chapa de matrícula velha saiu, a nova tomou o seu lugar.

       — Se Alden Chancel não tivesse herdado a Casa Chancel, o que estaria fazendo agora? Ele conta com um grande editor, Merle Marvell, e um punhado de imbecis. Um escritor morto, Hugo Driver, é que mantém a firma solvente. Seus royalties compõem cerca de quarenta por cento da receita total da firma, e quase tudo isso é gerado por um só livro: Jornada na Noite. Alden é um desastre. Neste exato momento, está em negociações para vender a firma a um editor alemão, pois só assim conseguirá um bom dinheiro em troca da Casa Chancel, antes que a leve à ruína. O único motivo do editor alemão é seu interesse em Jornada na Noite.

       — Alden está tentando vender a firma? Como é que sabe disso?

       — Somos os advogados, baby, lembra-se? Enquanto formos “acabando” com a querida e velha firma Dart, Morris, eu a irei instruindo em certos pontos. Tenho de fazer algo, antes de começar, mas, depois disso, estará aberta a sessão de aprendizado no mundo real. Muito bem, vamos embrulhar esta porcaria tediosa.

       Levantando-se e sacudindo os braços, Dart então puxou do bolso traseiro da calça um lenço amarrotado e visivelmente imundo, com o qual enxugou a testa suada.

       — Ele está vendendo a firma?

       — Tentando vender. — Dart impeliu-a rua acima e ajoelhou-se à frente do Lincoln. — Vou contar-lhe uma coisa que o pequeno Davey nunca ouviu sobre seu avô. O sujeito não nasceu rico, entenda, ele se fez por si mesmo. Teve muitas, muitíssimas atividades condenáveis. Certa vez até assassinou alguém.

       — Não acredito nisso! — exclamou ela, embora o que conhecia de Lincoln Chancel quase tornava a hipótese possível.

       — O velho Lincoln era um animal, baby. Meu santo paizinho, que privou com a história real dos Chancels durante os últimos quarenta anos, contou-me, em um momento de escassa sobriedade, que Lincoln Chancel certa vez deixou um homem em pedaços, transformou-o em hambúrguer, com as mãos nuas. Lincoln foi descoberto jogando com um pau de inúmeros bicos, havia a ameaça de escândalo, e o único meio de safar-se seria liquidando um homem. Ele marcou um encontro confidencial com o sujeito, cancelou-o na manhã do dia em que, supostamente, os dois iriam encontrar-se, e apareceu sem avisar, mais ou menos na hora do compromisso que havia cancelado. Ninguém sabia que ele se encontraria lá, e o sujeito estava inteiramente só. Lincoln Chancel escapou sem a menor suspeita. Finalmente pronto para outra — acrescentou Dart. — Bem, vamos até a Rua Principal, escolher umas duas garrafas.

      

AS VIATURAS POLICIAIS PASSAVAM velozmente por eles, a maioria em silêncio, mas algumas com os faróis piscando e as sirenes uivando. Dart divertia-se apontando o revólver para motoristas e passageiros de outros carros, fingindo disparar contra eles. Hartford surgiu à vista, agigantando-se ao lado da via expressa, e Nora acelerou para o alto, a fim de voar através das torres da igreja, que chegavam a grande altura. Dart refestelou-se, metade do corpo em seu assento, a outra metade contra a porta, e exibiu para ela seu sorriso escarninho.

       — Por que arriou o vidro de sua janela? O que houve com o ar condicionado? Algo como salvemos-o-planeta ou coisa assim?

       — Não quero desmaiar por causa do seu fedor.

       — Meu fedor? — Ele abriu o paletó e cheirou as axilas. — Sem dúvida, você está tendo algum problema feminino.

       — Você odeia mulheres, não?

       — Em absoluto. Odeio meu pai e, quanto às mulheres, em realidade eu as adoro. São fisicamente mais fracas do que os homens, desta maneira tendo que inventar um milhão de modos para manipulá-los. Alguns de seus estratagemas são fantasticamente floreados. Quando um cara não compreende que as mulheres são incapazes de demonstrar honestidade psicológica, então não tem a menor chance com elas. Uma bela manhã, acorda ao lado de uma caixa-registradora com um enorme e gordo anel de diamante num dedo e uma aliança de ouro no outro; e é ela quem controla a cona. Se ele quiser um pouco, tem de oferecer os cartões de crédito. Caso se queixe, ela o faz sentir-se tão mesquinho e egoísta, que ele lhe prepara o breakfast durante uma semana. Entretanto, pode esse sujeito dizer não? Negativo, baby. E, reflita em uma coisa. Ela pode espancá-lo, isso é ótimo. Grosseirões como ele merecem ser espancados. Entretanto, pode um homem bater em uma mulher? Se ele fizer tal coisa, ela lhe chicoteia o traseiro no tribunal do divórcio e arranca-lhe todo o dinheiro, sem ao menos ter de dar-lhe sexo. Ele está completamente sob o controle de um ser caprichoso e amoral, com uma tremenda aptidão para criar problemas. Lembra-se do Jardim do Éden? Era um excelente lugar, até surgir aquela mulher, sussurrando, Vamos, dê uma dentada, o Grande Sujeito não está prestando nenhuma atenção. Desde então tem sido a mesma coisa. Se a mulher for realmente boa, este pobre otário com uma corda no pescoço, um tesão permanente e a mão de mais alguém em seu bolso está convencido de que ela é quem dirige o espetáculo. Está tão amarrado, que considera sua esposa uma coisinha doce, não muito boa em assuntos práticos, mas certamente formidável, raios o partam, uma pérola e tanto por aturá-lo. Uma vez por ano ela lhe dá uma chupada, e ele fica tão grato, que corre a comprar um casaco de peles para sua mulherzinha. Esses casacos de peles em um restaurante, onde as mulheres não querem deixá-los no vestiário? Cada um daqueles casacos? Uma chupada, e cada mulher ali dentro sabe disso. E aqui vai um detalhe: quanto mais velha a mulher, melhor é o casaco.

       — E você ainda diz que adora mulheres! — exclamou Nora.

       — Não inventei nada disso. Passei os últimos quinze anos de vida levando minhas Marthas, Ednas e Agathas ao Château e ouvindo-as falar. Ouvi as coisas que elas me diziam e também ouvi o que realmente diziam. Por vezes, Nora, mais freqüentemente do que possa imaginar, elas são a mesma coisa. Uma mulher de oitenta e cinco anos, que já fez três plásticas faciais, teve dois maridos, com pelo menos um deles seriamente rico e ambos atualmente mortos, provavelmente baixará a guarda após dois copos de vinho na companhia de um jovem advogado folgazão e atraente, sendo então capaz de contar a ele como levou uma longa e paparicada existência sem trabalhar um só dia. Tão logo vejam que já sei como isso funciona, elas podem começar a divertir-se. Essas damas geralmente estão chateadas, costumavam ser fascinantes, todo o mundo masculino formava fila para uma voltinha em suas conas, e isso tudo acabou quando elas se tornaram velhas senhoras. Os maridos morreram. Ninguém no mundo está interessado em ouvi-las. Exceto eu. Posso ouvi-las o dia inteiro. Aprecio essas vozes suaves, elegantes e roucas, cheias de ocultas lâminas de barbear, mas aprecio ainda mais suas histórias. Elas são tão corruptas! Elas nem mesmo começaram a saber o quanto são corruptas, não conseguem saber, porque não possuem o mecanismo moral para isso. A única coisa que lamentam é que a parte boa não tivesse durado outros dez anos, porque então poderiam lançar seus anzóis em um otário mais rico, que goza quando ouve falarem sobre seu grande, enorme cacete. Adoro a aparência delas — cabelos retesados, compactos, mas penteados para darem uma idéia de fofura e maciez, maquiagem tão bem-feita que a gente mal vê suas rugas, as mãos cobertas de anéis, a fim de que as manchas marrons, as veias e os dedos nodosos não sejam percebidos. Ninguém pode dizer que não gosto de mulheres.

       — Você dormiu com suas damas idosas?

       — Há pelo menos nove ou dez anos não tenho tido sexo com uma mulher abaixo dos sessenta e cinco. Não, sessenta e dois; tinha esquecido Gladys.

       — Bem, mas você matou mulheres — disse Nora.

       — Não foi nada pessoal.

       — Para elas, foi.

       — Eu estava matando clientes, entende? A cada vez que eu assassinava alguém, caía mais um naco do negócio do velho. Na época em que acabei com Annabelle Austin, aquela agente literária, ele levou dois dias dizendo Essas mulheres assassinadas não poderiam ter sido clientes de mais alguém que não eu? Se eu pudesse ter liquidado mais dez, ele estaria arrancando os cabelos.

       — Entretanto, você sempre escolheu clientes mulheres, e sempre uma certa espécie de mulher.

       Os olhos de Dart ficaram opacos e bidimensionais.

       — Oh! Você não gostou da maneira como elas viveram.

       — Poderia ser uma explicação aceitável — disse Dart. — Essas criaturas andavam por aí agindo como homens.

       O tom em que ele falou a fez entender algo.

       — Elas se portavam bem com você?

       — Quando iam ao meu gabinete e eu me adiantava até elas, dizendo algo lisonjeiro, mal se permitiam falar comigo.

       — Ao contrário de suas velhas damas.

       — Eu jamais assassinaria as minhas velhas queridas... a menos que fossem os únicos clientes que restassem.

       — E quanto a mim?

       Ele sorriu, lentamente.

       — Está querendo saber se vou matá-la?

       Nora ficou calada.

       — Querida Nora-docinho. Ficaremos sabendo mais, depois de nossa aula de realidade.

       — Aula de realidade?

       Ele lhe deu um tapinha no joelho.

       — Há muitos motéis em Massachusetts. Queremos um com um bom e grande pátio de estacionamento.

      

NO LADO OPOSTO de Springfield, Dart apontou para um edifício de três pavimentos cor de areia, com balcões fora das janelas.

       — Lá está! — O prédio ficava na extremidade mais distante de um pátio de estacionamento do tamanho de um campo de futebol, ocupado agora pela metade. Um enorme letreiro azul e amarelo estendia-se ao longo do teto, dizendo CHICOPEE INN. Uma edificação em estilo de pavilhão suíço para esquiadores, com um letreiro de “Comida Caseira”, ficava de frente para o pátio, no lado esquerdo. — Vamos indo, não queremos perder a saída!

       Nora cruzou duas pistas e deixou a auto-estrada.

       — Esqueci que estava falando com Emerson Fittipaldi — disse Dart.

       Ela dirigiu uma curta distância, rua abaixo, depois dobrou para o estacionamento.

       — Meu bem, aqui temos o Chicopee. E comida caseira também! Você não adora comida caseira? A famosa Sopa de Lâminas de Barbear da Mamãe, esse tipo de coisas?

       — Devo estacionar em algum lugar particular? — Nora estava morta de medo.

       — Bem no maldito meio do pátio. Tem algum apelido favorito, meu bem?

       — Algum o quê? — perguntou Nora, levando o Lincoln para um espaço vazio, mais ou menos no centro do pátio.

       — Vamos precisar de novos nomes. Tem alguma sugestão ou devo eu mesmo escolher?

       — Sr. e sra. Hugo Driver. — Ela fechou os olhos e recostou-se pesadamente no banco. — Os Drivers.

       — Gostei do conceito, tremendamente apropriado, mas usar nomes de pessoas muito conhecidas em geral é um erro. — Ele se virou de lado e tentou alcançar as sacolas no banco traseiro. — Diabo!

       Dart ficou de joelhos em seu assento e inclinou-se ainda mais, quase tocando o forro do carro com as nádegas. Nora abriu os olhos e viu o bolso que continha a arma, pendendo a trinta centímetros de seu rosto. Considerou a energia e velocidade necessárias para arrancá-la do bolso dele. Perguntou-se se saberia acionar um revólver. Dan Harwich a instruíra na operação de travar a pistola que ele lhe dera, mas revólveres teriam travas? E, se tivessem, onde ficavam? No momento em que tal frustrante pergunta lhe ocorreu, Dart já endireitava o corpo e trazia duas sacolas de papel manilha por cima do encosto do banco. Ele empurrou a sacola das garrafas para o colo dela.

       — Você leva esta e a que está no porta-malas. Mais uma coisa: por favor, evite exibir para os outros essas aterrorizantes expressões de angústia, certo? O mundo gosta de um rosto feliz. E por falar nisso, acho que nunca a vi sorrir, ao passo que sorrio para você o tempo todo.

       — Você está se divertindo mais do que eu.

       — Sorria, Nora. Alegre o meu dia!

       — Não creio que eu consiga.

       — É como um ensaio para o maravilhoso sorriso que vai oferecer ao imbecil atrás do balcão de recepção.

       Nora encarou Dart, repuxou os lábios e exibiu os dentes. Ele a fitou com um longo e pensativo olhar.

       — Evoque um pouco do fogo antigo, Nora-docinho. Mostre a fogosa figura que fez o diabo com Natalie Weil!

       — Essa figura está amedrontada demais para exibir-se.

       Ele deixou escapar um suspiro de exasperação.

       — Isto é um projeto — disse, e fez o sinal-da-cruz sobre o coração.

       — Um projeto?

       — Vamos para dentro.

       Ele pegou as chaves e saiu do carro. Nora esperou ser empurrada ao longo do assento, mas, em vez disso, Dart deu a volta pela frente do carro e olhou para trás, para ela, com as sobrancelhas erguidas. Ao sair do carro, Nora olhou em torno, percebendo uma névoa vibrante e densa. Enxugou os olhos na manga, e caminhou ao encontro de Dart.

       Um rapaz com cabelos louros na altura dos ombros baixou uma garrafa de meio litro de Evian até uma prateleira invisível diante dele, sorriu por cima do balcão quando os recém-chegados entraram na friagem do vestíbulo, e ficou em pé. O leve blazer azul que vestia era vários números maior que o dele, e os punhos das mangas estavam enrolados para cima. Um crachá prateado na lapela anunciava que seu nome era Clark.

       — Sejam bem-vindos ao Chicopee Inn. Em que posso ajudá-los?

       — Preciso de um quarto para esta noite — disse Dart. — Espero que tenha um para nós. Há dois dias que venho dirigindo sem parar.

       — Não há problema. — Os olhos do rapaz foram para as sacolas que eles carregavam, depois de Dart para Nora e fizeram o caminho inverso. Seu sorriso desapareceu. Tornando a sentar-se na cadeira, puxou um teclado para perto e pressionou algumas teclas, aparentemente ao acaso. — Uma noite? Eu lhes darei os detalhes e, em seguida, tomaremos algumas informações. — Ele jogou o cabelo para trás com uma das mãos, expondo um brinco circular de ouro na orelha. As teclas clicaram. — Quarto trezentos e vinte e seis, terceiro andar, cama de casal. Está bem assim?

       Dart concordou. Nora recostou-se ao balcão e contemplou o verde berrante e irreal do carpete.

       — Nome e endereço, por favor — pediu o rapaz.

       — Sr. e sra. John Donne. Flamingo Drive, quinhentos e oitenta e seis, Orlando, Flórida.

       A pedido do rapaz, Dart soletrou Donne. Depois soletrou Orlando para ele. Forneceu um código de endereço postal e um número de telefone.

       — Orlando é onde eles têm o Disney World, não?

       — Exatamente. Você não precisa sair da América, se quiser ver lugares exóticos.

       — Hum... certo. Forma de pagamento?

       — Em dinheiro.

       Clark pausou com as mãos sobre o teclado e ergueu os olhos. Tornou a jogar o cabelo para trás.

       — Senhor, nossa política, neste caso, é solicitar o pagamento adiantado. Seu quarto fica em sessenta e sete dólares e quarenta e cinco centavos, taxas incluídas. Está bem assim?

       — Política é política — disse Dart.

       Clark voltou a teclar. A ponta de sua língua surgiu por entre os lábios. Uma jovem usando um blazer idêntico ao seu surgiu em uma porta atrás dele, à direita, e deu a Dart um duplo olhar de exame, enquanto passava junto ao balcão e desaparecia em outra porta, na parede à esquerda de onde estava Clark.

       — Vou entregar suas chaves e receber o pagamento. — Ele abriu uma gaveta e dela tirou duas chaves de metal, com cabeçote redondo. Colocou-as dentro de uma pequena pasta marrom e escreveu 326, no espaço em branco no topo da pasta. Depois levantou-se, e fez a pasta deslizar através do balcão. Dart colocou uma nota de cem dólares ao lado dela. — O senhor pode trazer seu carro até aqui em frente, a fim de pegar suas malas — acrescentou o rapaz, com os olhos fixos na nota.

       — Tudo de que precisamos no mundo está bem aqui.

       O rapaz recolheu a nota e disse:

       — Um momento, senhor.

       Desapareceu em seguida na porta de onde a jovem emergira. Dart começou a cantarolar “Achei um milhão de dólares, baby”. Segundos mais tarde, o rapaz surgiu à vista sorrindo nervosamente para Dart, destrancou uma gaveta de dinheiro e contou o troco.

       — Bons negócios exigem vigilância — disse Dart, enfiando as notas e moedas em um dos bolsos da calça.

       — Certo. Devo explicar que não temos restaurante nem serviço de quarto, mas servimos um breakfast continental, como cortesia, de sete às dez na sala do Chicopee, logo à sua direita. No Comida Caseira, lá fora, dando para o nosso pátio, eles fornecem uma boa comida. A diária termina ao meio-dia.

       — Aponte-me os elevadores — disse Dart. — Você acolheu dois esgotados viajantes.

       — Depois da sala, à sua esquerda. Tenham uma boa estada.

       Nora endireitou o corpo subitamente e Dart afastou-se um passo do balcão, iniciando a caminhada para os elevadores. Ela o seguiu, tentando não ouvir as vozes persuasivas em sua cabeça. As garrafas pareciam ganhar peso, a cada passo dado. Mal reparou na sala pequena e aberta, mobiliada com sofás, cadeiras e mesas, para cujo interior Dart esgueirou-se, a fim de tirar um jornal dobrado de uma prateleira. Pousando uma das mãos acima dos quadris de Nora, ele apressou-a para o elevador, onde apertou um botão.

       — Cada passarinho precisa encontrar o seu galho.

       No enevoado corredor do terceiro andar, Dart enfiou uma das chaves na fechadura do quarto 326.

       — Veja isto, Nora. — Ela demorou um momento a perceber os três orifícios redondos na porta marrom, calafetados e desajeitadamente retocados com tinta. — Buracos de bala — disse Dart.

       Nora entrou no quarto. Cada passarinho precisa encontra o seu galho. Você não precisa sair da América para ver lugares exóticos. Quando ela passou diante do banheiro e do painel deslizante de um armário embutido, ouviu Dart fechar a porta do quarto e colocar a corrente de segurança. Uma janela se abria para uma estreita sacada branca, acima do pátio de estacionamento. Ela colocou sobre a mesa as sacolas que carregava. Dart passou junto dela, quase a roçando, fechou a janela com o ferrolho e moveu uma haste metálica para puxar uma cortina de tecido fino. Livrando-se do paletó, deixou-o nas costas de uma cadeira, e depois tirou suas facas da sacola onde as colocara.

       — Veja isto, veja isto! — Ele apontava para manchas descoloridas na cúpula do abajur. — Manchas de sangue. O nosso tipo de lugar.

       Nora olhou para a enorme cama de casal, destacando-se no interior do quarto.

       Dart desembrulhou as compras feitas na loja de ferragem e as dispôs em linha reta sobre a mesa. Moveu os rolos de corda do primeiro lugar para o segundo, após o rolo de fita isolante, certificando-se de que tudo estava na posição desejada, com as partes inferiores lado a lado.

       — Esqueci a tesoura — disse. — Bem, sobreviveremos. — Deixou as duas facas maiores no final da fila, depois ajeitou o alinhamento. — Podemos começar?

       Ela nada disse.

       Dart pegou uma garrafa de vodca, desenroscou a tampa e sacudiu a bebida na boca, antes de engoli-la. Em seguida, tampando novamente a garrafa, depositou-a suavemente na mesa.

       — Tire suas roupas, Nora-docinho.

       — Não estou com vontade de fazer isso.

       — Se você mesma não quiser tirá-las, vou ter de cortá-las.

       — Por favor — pediu ela. — Não faça isso!

       — Não quer que eu faça o quê, Nora-docinho?

       — Não me estupre...

       Ao falar, ela começou a chorar silenciosamente.

       — Eu falei alguma coisa sobre estupro? O que eu disse foi para tirar suas roupas.

       Ela vacilou e, por entre as lágrimas, viu-o apanhar a maior das duas facas, aquela que Matt Curlew chamaria de facão do Arkansas para matar porcos. Dart caminhou para ela, e Nora começou a desabotoar a blusa. Uma parte pequenina e destacada de sua mente maravilhou-se ante a quantidade de lágrimas fluindo de seus olhos. Ela jogou a blusa azul sobre a cadeira e olhou para a figura indistinta de Dick Dart. A figura indistinta assentiu. Nora desafivelou o cinto, desabotoou os jeans, puxou o zíper para baixo e descalçou os mocassins marrons. Ódio e repulsa penetraram na nuvem que envolvia suas emoções. Ela emitiu um leve e agudo ruído de dignidade ofendida, puxou os jeans para baixo e livrou-se deles, primeiro uma perna, depois a outra. Jogou os jeans sobre o braço da cadeira e esperou.

       — Você não está realmente usando roupas íntimas, está? Meu Deus, olhe só para esse sutiã! O modelo básico, o mais simples, sem rendas ou enfeites, certo? Da marca Maidenform Sweet Nothings? Um número 34-B? Você devia experimentar um desses novos sutiãs que levantam os seios, não apenas com armação de arame por baixo, mas do novo modelo, eles fazem maravilhas em uma mulher, proporcionam um atraente contorno no topo. Bem, agora, que tal libertarmos as lindas maminhas de Nora?

       Fechando os olhos, ela ergueu as mãos para os fechos do sutiã que, como dissera Dart, era precisamente um Maidenform Sweet Nothings, tamanho 34-B, uma peça quase austera em sua singeleza, sem o menor indício de vaidade feminina. Nora deixou as alças deslizarem para trás, por sobre os ombros, expondo os seios. Depois puxou o sutiã do corpo e o deixou cair sobre a cadeira.

       — Em casa, você não costuma pendurar suas roupas, não é mesmo? Você tem, hummm, você tem uma cadeira bem estofada, com camadas de camisetas e blusas penduradas no encosto, e jeans dobrados no assento. Não, retiro o que disse. Para você, vejo um belo e comprido sofá, quase invisível debaixo de todas aquelas roupas. O que você faz é vesti-las, usá-las algumas vezes, depois jogá-las na cesta de roupa suja e começar tudo novamente.

       De fato, era exatamente assim que Nora fazia, exceto que com bem menos consistência do que Dart sugerira.

       — Oh, céus, olhe para isso! Calcinha Hanes Her Way, e, pior ainda, púrpura, não combinando com seu tedioso sutiã branco e sem formas! Nora, você não deve comprar suas roupas de baixo no drugstore. No mínimo, sutiã e calcinhas devem combinar. Com o seu corpo, você ficaria muito melhor usando a marca Gitano. Eles fazem lindos jogos de calcinha e sutiã, e são baratos. Se quiser gastar mais dinheiro, experimente as marcas Bamboo ou Betty Wear. Pessoalmente, sou louco por Betty Wear, o material é uma beleza. Ouça, faça um favor a si mesma e pare de jogar fora aqueles catálogos da Victoria’s Secret. Sei que os acha inferiores, mas se apenas olhar para eles tão detidamente como Davey sem dúvida olha, verá que são bastante úteis. Acima de tudo, deve a si mesma uma espiada na Vogue, de vez em quando. É uma grande revista, jamais perco um número. Aposto que você nem mesmo já comprou alguma.

       — Comprei uma, certa vez.

       — Quando? Em 1975?

       — Por aí — respondeu ela, com os braços dobrados sobre o peito e as mãos nos ombros.

       — Dá para perceber, especialmente quando usa esses horrorosos “calções” Hanes Her Way! Você devia cuidar mais de si mesma. Tire fora essa coisa horrenda!

       Ela empurrou para baixo a cintura elástica da calcinha, puxou-a até os joelhos e a despiu.

       — Nora, que enorme matagal você tem! Céus, criatura, como pode suportar tamanha moita? Use logo um aparador de grama!

       Aos poucos, ela se fora convencendo de que homem nenhum falando daquela maneira a uma mulher seria capaz de violentá-la — um estuprador jamais aconselharia a compra de Betty Wear, muito menos seria capaz de identificar um sutiã Maidenform Sweet Nothings e calcinhas Hanes Her Way — mas as palavras seguintes dele minaram sua trêmula esperança de que Dart desejava apenas inspecionar seu corpo, nada mais.

       — Sente-se na cama — disse ele.

       Ela caminhou até a extremidade da cama como que pisando em cacos de vidro, e sentou-se lá, com as mãos nos ombros e as pernas firmemente fechadas. Um súbito vislumbre mental dos joelhos rechonchudos e das gordas panturrilhas de Barbara Widdoes acima dos sapatos pesados chegou-lhe com o surpreendente pensamento de que aquela mulher provavelmente fosse lésbica.

       — Preciso contê-la por um momento — disse Dart. Pegando um dos rolos de corda, ele o cortou em duas partes, cada uma com cerca de um metro e vinte de comprimento. Caminhou para Nora levando os pedaços de corda, juntamente com a faca e o rolo de fita isolante. — Talvez seja um pouco desconfortável, mas não chegará a machucar. — Ajoelhando-se diante dela, fitou-a dentro dos olhos, deu uma piscadela e enrolou um dos pedaços da corda ao redor de seus tornozelos. — Você tem um belo corpo — disse. — Talvez apenas um pouquinho musculoso, e sua pele poderia usar um hidratante.

       — Ai! — exclamou ela, quando a corda mordeu sua pele.

       — Não vai doer, não está apertada o suficiente — disse Dart, amarrando as pontas da corda em um nó elaborado. Colocando as mãos nos joelhos dela, fitou-lhe os seios diretamente. — Pequeninos e um tantinho caídos, mas ainda bonitos, se quer a minha opinião. — Ele estendeu a mão para a fita, desenrolou uma tira de um metro de comprimento, removeu-a do rolo e passou-a sobre a corda em volta dos tornozelos de Nora. Depois levantou-se, tocou-lhe o queixo com as pontas dos dedos e a fez virar o rosto para o seu. — Você é o tipo de pessoa que se julga acima da maquiagem, com exceção de um toque de batom de quando em quando, mas está errada. Devia experimentar a maquilagem Cover Girl Clean ou talvez Maybeline Shine Free. É tudo de que precisa: um pouco de blush. E também de uma daquelas excelentes novas máscaras, como Cover Girl Long ‘N Lush. Também precisa de um bom perfume. Você tem um frasquinho diminuto de Chanel N° 5 em seu toucador, claro, e usa uma ou duas gotas quando Davey a leva em algum lugar requintado. Correto?

       Ela confirmou.

       — Você não é realmente o tipo Chanel N° 5, mas ninguém jamais soube o suficiente para abrir-lhe os olhos. Deveria usar Chanel Coco, se prefere Chanel, ou L’Air du Temps, caso se sinta um pouco mais feminina. Aliás, deveria usar um bom perfume todos os dias, o dia inteiro, pouco importando o que esteja fazendo.

       Ele afastou os dedos do queixo de Nora e moveu-se para trás dela. A cama afundou sob o seu peso.

       — As mãos — disse. Nora colocou as mãos nas costas, ele agarrou-lhe os pulsos e os amarrou juntos. — Isto aqui é uma desgraça! Você precisa de uma manicure, mais do que qualquer pessoa que eu conheça. E de pedicure também. Aliás, tem de começar a usar um esmalte de unhas de excelente qualidade, não me interessando de que marca seja. Vamos ter de comprar alguns artigos essenciais. Depois de comprarmos pasta de dentes e coisas assim, providenciarei algum equipamento feminino para você. Isso ajudará em nosso projeto.

       Ela o ouviu rasgar uma tira de fita e o sentiu enrolá-la à volta de seus punhos unidos.

       — Por que está fazendo isso? Pretende ir a algum lugar?

       — Não quero que você fuja enquanto tiro de meu corpo a sujeira de Westerholm. Gostaria de vir comigo?

       — Não, obrigada.

       Ele deu uma risadinha maliciosa.

       — Poderá tomar um banho depois.

       — Depois do quê?

       Ele lhe deu um tapinha no ombro e desceu da cama, a fim de levar a fita e a faca para a mesa. Lá, ele as colocou nas posições anteriores, certificando-se de que estavam bem alinhadas.

       — Nós dois vamos dormir nesta cama?

       Ele olhou por sobre o ombro, em zombeteira surpresa. Lentamente, como que refletindo na pergunta, virou-se para fitá-la.

       — Uma vez que aqui só há uma cama, creio ter presumido... Afinal, camas gêmeas são tão antiquadas... Enfim, se você tiver fortes objeções, acho que posso dormir no chão. — O sorriso escarninho dele ridicularizava-lhe as próprias palavras. — Tudo certo?

       Ela assentiu.

       — Tudo certo, então. — Dick Dart despiu a camisa, deixou-a cair no chão, e desabotoou o cós da calça. Descalçou os mocassins pretos com borlas, depois abaixou-se e puxou a calça pelas pernas. Seus braços e ombros eram flácidos, e um punhado de pêlos negros cobria-lhe o peito. A chapa informe de seu estômago empurrava a cintura elástica da cueca, decorada com um padrão de iscas artificiais para pesca. — Entretanto, espero não ter esse problema. — Ele baixou a cueca, expondo um ninho de pêlos castanhos encaracolados e um pênis comprido e grosso como um pepino, cortado por veias salientes. Jogou a cueca na cadeira, e caminhou despreocupadamente até a mesa, a fim de apanhar o rolo de fita isolante. Suas nádegas eram achatadas, quase ausentes; as coxas e pernas pesadas terminavam em pés de aparência curiosamente primitiva, como os de dinossauros. Tufos de pêlos negros brotavam ao longo da espinha, no início dos quadris.

       Ele destacou uma tira de uns dez centímetros do rolo e aproximou-se de Nora, o pênis oscilando à sua frente como um pêndulo.

       — Daremos um jeito no problema — disse Dart.

       Em seguida ficou parado diante dela, o cinzento pepino enrugado ao nível de seus olhos, exalando fedor como um pântano. Nora começou a tremer. As lágrimas brotaram-lhe dos olhos. Ele lhe puxou o queixo para cima, sorriu para baixo, acima do volume do próprio ventre, e plantou a fita adesiva sobre os lábios dela.

       — Respire pelo nariz. Não entre em pânico.

       Empurrando-a pelos ombros, fez com que ela caísse de costas em cima da cama. Depois desapareceu. Ela tentou arquejar, e a fita áspera grudou-se sobre sua boca. Seu corpo exigia oxigênio imediatamente. A dor ardia-lhe nos ombros e a corda mastigava pulsos e tornozelos. Nora rolou de um lado para outro, asfixiando-se sob a fita isolante, e por fim lembrou-se de respirar pelo nariz. Ouviu uma risadinha indistinta e depois o ruído da porta do banheiro ao fechar-se. O chuveiro sibilou e chocalhou contra a banheira. A voz desafinada de Dart começou a cantar “Seus olhos acolá”. Nora girou mãos e pulsos no ínfimo espaço permitido pelas algemas de corda. Ficou deitada e abatida sobre as cobertas da cama, aterrorizada demais para chorar.

       Teve uma súbita visão de si mesma como vista de cima: nua, encolhida sobre a cama, uma ave presa em espetos, pronta para ir ao forno. Parecia um cadáver em fotografia de cena de crime. A mulher na foto nada era; havia um vazio, tornara-se menos do que patética. Certas mortes podiam ser preferíveis à loucura que esperava dentro dela, porém não esta.

       Dart saiu do banheiro, o cabelo colado à cabeça, a água transformando os pêlos de suas pernas em linhas verticais.

       — Que quadro você exibe! — exclamou.

       Desenrolando uma toalha, ele começou a friccionar sistematicamente os braços, peito, barriga, genitais, pernas.

       — Volto num segundo — disse.

       Desapareceu no banheiro e reapareceu com uma toalha seca. Em vez de voltar para junto da cama, fechou a porta do banheiro e caminhou até o armário embutido. Nora via o reflexo dele no espelho da porta do banheiro. Dart esfregou os cabelos até ficarem soltos em torno de sua cabeça, depois passou levemente a toalha pelo pescoço, peito e pênis. Usando a toalha, friccionou-se rudemente várias vezes e manipulou os testículos. Após alcançar um estágio satisfatório de auto-excitação, pôs-se de lado, encolheu o ventre, deu em si mesmo um tapinha encorajador, mais uma carícia do que um tapa, e com um estremeção espichou-se mais um centímetro e meio para o alto. Dart esquecera Nora inteiramente. Seu bem-amado, o pepino, projetava-se diante dele. Agarrando-o no punho fechado, ele o massageou para cima e para baixo, fazendo com que toda a estrutura escurecesse para um tom purpúreo, aumentasse mais centímetro e meio, e se erguesse em uma curva para o alto. Feito isto, Dart virou-se, a fim de contemplar-se em ereção. Excitada pela visão de si mesma, a coisa na frente dele endureceu-se em curvada rigidez, terminando em uma maçaneta vermelho-azulada, do tamanho de uma pequena maçã. Dart tinha os olhos vidrados, a boca estava aberta. Nora julgou-o prestes a ejacular. Sopesando os testículos, ele grunhiu. Vá em frente, disse ela para si mesma, esguiche tudo no espelho!

       Através do espelho, os olhos dele encontraram os dela.

      

DART VOLTOU para o quarto.

       — Espero que você tenha apreciado a minha consideração em tomar uma ducha. Fiz isso mais por mim do que por você, porém não queria que qualquer odor corporal inconveniente a distraísse do que a maioria das mulheres considera uma experiência imensamente prazerosa. — Dart escarranchou-se sobre as pernas de Nora, inclinou-se, empurrou a ponta do pênis sobre o estômago dela e ali o esfregou, para cima e para baixo. — Gosta disso? — Ele alisou-lhe um seio com a mão livre. Nora fechou os olhos, e Dart beliscou-lhe o mamilo. Ela emitiu um brusco som de protesto contra a fita que lhe fechava a boca. — Preste a-ten-ção — cantarolou ele, torcendo dolorosamente o mamilo entre o polegar e o indicador. — Vamos executar uma penetração, e não é polido você ficar de olhos fechados. — Sorrindo, içou-se para cima da cama e fincou os joelhos em cada lado do tórax dela. — Maminhas de Nora, apresento-lhes o Grande Cara. — Inclinando-se para diante, fez o Grande Cara deslizar, primeiro sobre um mamilo, depois sobre o outro. Abaixando-se entre os seios dela, apertou-os em torno de si mesmo, bombeando para diante e para trás. Então, soltando os seios, avançou com o corpo, a fim de empurrar seu bem-amado à frente dos olhos dela. — Não é em vão que me chamo Dick, certo? Dick, o pau, o grande cacete. Nunca viu um igual a este antes, viu?

       O objeto a dez centímetros dos olhos de Nora parecia algo espreitando de uma lama calcificada em uma vala arqueológica, algo oferecido por metade do preço em um bazar árabe, algo esculpido de uma enorme raiz. Vovô o tinha trazido de suas viagens para casa e o mostrara a vovó. Depois que ela cessara de gritar para ele, vovô o levara para o sótão e o sepultara em um malão de navio. Variado em tessitura, da corrugação a uma perigosa e lustrosa maciez, encaroçado de veias, um bócio recheado de pedras — era isto o que a maioria dos homens queria ter? Davey desejaria trocar seu atraente e bem-feito membro por isto? Nora sabia a resposta. Claro que desejaria, sem a menor dúvida.

       Ela meneou a cabeça — Não!

       — Você irá a lugares onde o maridinho nunca a levaria, Nora-docinho.

       Ele saiu da cama, foi até a mesa e pegou a faca maior. Depois, ajoelhando-se diante de Nora, soltou a fita que lhe prendia as pernas. Em vez de cortar a corda, procurou desatar o nó, laboriosamente. As pernas dela afrouxaram-se e bambearam. Nora prontamente as fechou e Dart, com uma risadinha sarcástica, ficou em pé.

       — Mova-se mais para cima na cama — disse ele.

       Nora hesitou, e Dart encostou a ponta da faca em sua coxa esquerda. Ela pousou os pés sobre o colchão e, erguendo o corpo, empurrou-se para os travesseiros. Seus braços e ombros doíam, os pulsos queimavam. Dart moveu-se ao longo do corpo de Nora, de joelhos. Chegando à altura das virilhas, soltou a faca sobre o travesseiro, enfiou as mãos entre as pernas dela e tateou de um lado para outro, até conseguir inserir uma avantajada ponta de dedo. O corpo de Nora estremeceu e ficou gélido.

       Cantarolando para si mesmo, Dart retirou o dedo e deslizou sobre ela. Escancarou-lhe as pernas, plantou os joelhos entre ambas e moveu-se para baixo, a fim de acertar o alvo. Nora deixou escapar um som agudíssimo, amortecido pela fita em sua boca. Seu rosto estava coberto de lágrimas.

       Dart manobrou uma porção de si mesmo dentro dela e grunhiu. Empurrou para diante. Nora teve a impressão de estar sendo dilacerada. Gritou, mas ouviu apenas um gemido fino, impreciso. Dick Dart apoiou-se nos cotovelos e manteve a faca contra a garganta dela.

       — O que estamos tendo aqui é uma aula de realidade. Todo sexo é estupro, pura e simplesmente. Vou enfiar meu pau dentro da sua cona. Este ato ficou conhecido como sendo capaz de deixar as mulheres fora de si, mesmo sendo então um estupro...

       Ele empurrou-se mais quase um centímetro para diante.

       — ...e você sabe por quê? Porque quando tudo terminava, eu era o dono delas. Aí está o segredo.

       Ele ergueu o corpo, recolheu uma pequenina porção de si mesmo, e em seguida enterrou-se brutalmente dentro dela. Nora tornou a gritar e rolou para um lado.

       Dart empurrou-a rudemente para a posição anterior.

       — É melhor você relaxar, pois do contrário teremos um balde de sangue. Preciso alargá-la, e você conseguirá alargar-se, desde que afrouxe os músculos. — Ele moveu o pênis ligeiramente para fora e mergulhou de novo, invadindo-a. — Quer saber o segredo? — Nora se tinha escondido dentro de si mesma, com os olhos fechados, o corpo crispado de repulsa, e quando Dart esbofeteou-lhe o rosto, percebeu que estava falando com ela. — Não creio que você saiba. — Ele deu nova estocada. — As mulheres que se acham capazes de sobrepujar os homens o tempo todo, que se julgam mais espertas do que qualquer homem já nascido, têm uma fraqueza. Elas adoram ser fodidas, mais do que tudo neste mundo.

       A voz dele parecia vir de uma distante fonte professoral, completamente desligada do que estava fazendo.

       — Dinheiro, carros, casacos de peles, jóias, casas; elas são espertas o bastante para saber que tais coisas são apenas brinquedos. Trocam tudo isso por um sujeito com um cacete grande o suficiente para virá-las pelo avesso. O problema é que a maioria das mulheres jamais encontra o tal sujeito. Entretanto, se o encontram, elas são dele. Todo cara está querendo fazer isso, porque, bem no fundo, todo cara sabe como deve ser feita a coisa, e cada mulher está secretamente esperando que ele a vire pelo avesso porque, lá no fundo, ela sabe que é assim que deve ser feita a coisa. Portanto, é sempre um estupro. Nora abriu os olhos para uma curiosa visão. A parte superior de Dick Dart pendia acima dela. O rosto sarapintado endurecera-se com a concentração dele, e um outro rosto, um rosto secreto, parecia emergir por sob o antigo, o que todos conheciam. Os lábios estavam repuxados, deixando à vista os dentes amarelos. O nariz aguçara-se, e uma sugestão de começo de barba escurecia-lhe as faces. Ela fechou os olhos, e ouviu um fogo distante de artilharia.

       Eternidades mais tarde, um acelerar em sua tortura a trouxe novamente para o mundo. O suor de Dick Dart pingava sobre ela, em grandes lágrimas. Ele grunhiu; as mãos crisparam-se sobre os ombros dela. O corpo dele ficou hirto, as pernas transformaram-se em barras de ferro. A mente de Nora pareceu explodir em chamas. Ele arqueou as costas e moveu-se dentro dela, súbita e impetuosamente, duas, três vezes, quatro, cinco, tão brutalmente, que a fez chocar a cabeça contra a cabeceira da cama.

       Dart arriou em cima dela. Nora sentia-se extraordinariamente profanada, tão imunda, que nunca mais voltaria a ser limpa. Quando ele rolou para fora de seu corpo, sua impressão foi de que Dart lhe quebrara sistematicamente cada osso que possuía. Ela jamais tornaria a abrir os olhos, nunca mais. Uma mão rastejou sobre sua coxa.

       — Foi bom para você, querida?

       Ele saiu da cama e foi para o banheiro. Tudo doía, em toda parte. Ela receava abrir os olhos.

       Vozinhas sibilavam e tagarelavam. Seus demônios a tinham reencontrado. Eles estavam gostando do quarto 326, e em seguida passaram a gostar também dela porque, mais uma vez, fora empurrada através do fundo do mundo, até a devastação em que eles floresciam. Nora odiava e temia os demônios, porém tinha muito mais medo do que iria ver, caso abrisse os olhos; assim, era forçoso suportá-los. O último vexame a que fora submetida a fez recordar que, embora os demônios não desejassem ser vistos, era possível vislumbrar ocasionalmente aqueles que se esgueiravam para propiciar um pouco de conhecimento demoníaco. Alguns deles eram minúsculos diabos vermelhos com forcados do tamanho de palitos, ao passo que outros davam a impressão de animais criados por cientistas loucos: texugos de dentes compridos com caudas de rato, bolas peludas de olhos dardejantes e fortes garras. Alguns demônios pareciam borrões móveis.

       Uma coisa indistinta e alada voou perto de sua cabeça, sussurrando, “Ele não é um lobo.”

       Nora perguntou-se se teria a companhia dos demônios, caso houvesse sido criada em alguma religião sensata, como o budismo.

       A coisa circulou em torno e voou perto dela de novo. “Ele é uma hiena.”

       “Você pertence a uma hiena”, riu sarcasticamente algo invisível, mas próximo. Uma encrespada gargalhadinha de demônio acolheu este comentário.

       “Não foi divertido?, não foi divertido?”, cantarolou outro. “E agora, você está conosco outra vez!”

       A maioria das informações fornecidas pelos demônios era verdadeira, porque se contassem mentiras, eles seriam perturbações lunáticas, jamais demônios.

       Nora os ouviu chocalhando nas proximidades, cochichando uns com os outros, em suas vozes rápidas como disparos de metralhadora, e encolheu-se o mais apertadamente que pôde, embora sabendo que os exultantes demônios nunca a tocariam. Se a tocassem, sua mente explodiria, ficando então louca demais para continuar interessante.

       Um demônio parecido com um rato, de asinhas azuis e óculos da vovó, cochichou: Você não pode fugir desta, ficou claro? Você fez o cruzamento e agora está do outro lado, ficou claro?

       Quando ela assentiu, o demônio parecido com rato disse, Bem-vinda ao Clube do Fogo do Inferno.

       — Não é tão ruim como parece — disse Dick Dart.

       Nora abriu os olhos, e os demônios procuraram esconderijo debaixo da cama, atrás de cadeiras, dentro de gavetas. Sua dor voltou a latejar dentro do corpo, estirando-se como um enorme gato. Nu, sorrindo, de cabelos penteados, Dart estava em pé ao lado da cama, puxando o pênis preguiçosamente. Sua mão livre segurava uma toalha branca úmida. O rosto secreto moveu-se para a superfície do rosto público. Nora viu que era verdade; ele de fato era uma hiena.

       — Dê uma espiada. Você terá mesmo de sentar-se, para que eu possa tirar-lhe a corda dos pulsos.

       Ela sacudiu a cabeça.

       Dart lhe disse, de maneira tranqüila e bem-humorada, que querendo ou não ela ia sentar-se. Então, agarrando-a pelo braço, puxou-a para diante. O quarto girou à frente e abaixo dela. Careteando, Nora olhou para baixo e quase desmaiou.

       — Muito bem, vamos tirar isso. — Esticando a mão, ele pegou a faca no travesseiro e deu um talho com perícia na fita em torno dos pulsos dela. Depois, arrancando a fita, trabalhou no nó até desatá-lo. — Agora, a mordaça. Vou arrancar rápido. Faça qualquer ruído mais alto do que um pio, e enterro a faca em você, entendido?

       Ela fechou os olhos. Os demônios amontoaram-se em torno, tagarelando. Seus lábios e uma boa porção de pele pareceram ser arrancados juntamente com a fita, mas ela conseguiu não gemer.

      

      

Dart jogou-lhe a toalha úmida sobre as pernas.

       — Vamos, enxugue-se! Temos que tirar os lençóis da cama. Não quero dormir nessa sujeira.

       Nora passou obedientemente a toalha pela parte de cima das coxas e percebeu que, se ele ia arrancar os lençóis, ela teria que sair da cama. Moveu a perna esquerda uns dois centímetros para o lado e suas várias dores atacaram de súbito. Trincando os dentes, passou as duas pernas por sobre a borda do colchão e forçou-se a ficar em pé. Sua cabeça girava e uma agulhada de dor disparou para cima, brotando da virilha.

       — Boa garota — disse Dart, recuperando a faca. — Para provar que não sou totalmente mau, eu lhe fiz um favor. Adivinhe o que é.

       — Não posso — murmurou ela.

       Ele lhe sorriu, depois segurou as roupas de cama.