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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O CÓDIGO DA VINCE / Dan Brown
O CÓDIGO DA VINCE / Dan Brown

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O CÓDIGO DA VINCE

 

Museu do Louvre, Paris

22:46

Jacques Saunière, o conceituado conservador, atravessou a cambalear o arco abobadado da Grande Galeria. Estendeu as mãos para o quadro mais próximo, um Caravaggio. Agarrando a moldura de madeira dourada, puxou-a para si até arrancá-la da parede, e então caiu de Costas, enrodilhado debaixo da grande tela.

 Como sabia que aconteceria, uma pesada grade de ferro desceu com estrépido ali perto, selando a entrada da galeria. O soalho de madeira estremeceu. Muito ao longe, um alarme começou a tocar.

 Saunière, um homem de setenta anos, deixou-se ficar estendido por um instante, a tentar recuperar o fôlego, a avaliar a situação. Ainda estou vivo, pensou. Saiu a rastejar de baixo da tela e olhou em redor, procurando no cavernoso espaço um lugar onde esconder-se.

 - Não se mexa - disse uma voz, arrepiantemente próxima.

De gatas no chão, o conservador imobilizou-se, voltando lentamente a cabeça.

 A pouco mais de quatro metros e meio de distância, do outro lado da grade descida, a agigantada silhueta do seu atacante vigiava-o através das barras de ferro. Era alto e largo, com uma pele espectralmente pálida e ralos cabelos brancos. As íris dos olhos eram rosadas, com pupilas de um vermelho-escuro. O albino tirou uma pistola do casaco e apontou-a directamente ao conservador.

 - Não devia ter fugido. - O sotaque não era fácil de identificar. - Agora diga-me onde é que está.

- Já lhe disse - tartamudeou Saunière, indefeso de joelhos no chão da galeria. - Não faço ideia do que está a falar!

 - Mente. - O homem estava a olhar para ele, e a única coisa que se distinguia na grande sombra densa e imóvel era o brilho dos olhos fantasmagóricos. - Você e os seus irmãos possuem algo que não vos pertence.

 O conservador sentiu uma vaga de adrenalina percorrer-lhe as veias. Como é possível que ele o saiba

 - Esta noite, a custódia legítima será restaurada. Diga-me onde está escondido, e viverá. - O homem apontou a arma à cabeça do conservador. - É um segredo pelo qual esteja disposto a morrer?

 Saunière quase não conseguia respirar.

 O homem inclinou um pouco a cabeça, fazendo pontaria ao longo do cano da arma.

 Saunière ergueu as mãos, num gesto de defesa.

- Espere - disse, lentamente. - vou dizer-lhe o que quer saber. - Pronunciou as palavras seguintes com muito cuidado. Tinha ensaiado aquela mentira vezes sem conta... sempre a pedir a Deus nunca se ver na necessidade de usá-la.

 Quando o conservador acabou de falar, o homem sorriu, satisfeito.

 - Sim, é exactamente o que os outros me disseram. Saunière encolheu-se. Os outros?

 -  Encontrei-os também - informou o homem, num tom sarcástico. - Aos três. Confirmaram o que acaba de dizer.

 Não pode ser! A verdadeira identidade do conservador, bem como as dos três senescais, era quase tão sagrada como o antigo segredo que protegiam. Saunière compreendeu que os colegas tinham, de acordo com a regra estritamente ordenada, contado a mesma mentira antes de morrerem. Fazia parte do protocolo.

 O homem voltou a apontar a arma.

 - Depois de o matar, serei eu o único a conhecer a verdade. A verdade. Numa fracção de segundo, Saunière apercebeu-se do verdadeiro horror da situação. Se eu morrer, a verdade perder-se-á para sempre. Instintivamente, tentou encontrar um refúgio.

 A arma explodiu, e o conservador sentiu como se um ferro em brasa lhe trespassasse o ventre quando o projéctil se lhe alojou no estômago. Caiu para a frente... lutando contra a dor. Lentamente, rolou sobre si mesmo e olhou através das grades para o seu assassino.

O homem estava a apontar-lhe à cabeça.

 Saunière fechou os olhos, com os pensamentos a rodopiarem num turbilhão de medo e tristeza.

 O clique do percutor a bater numa câmara vazia ecoou no corredor.

 O conservador abriu rapidamente os olhos.

 O homem olhou para a arma, parecendo quase divertido. Procurou no bolso um segundo carregador, mas então como que reconsiderou, sorrindo calmamente à figura ensanguentada de Saunière.

 - O meu trabalho aqui está feito.

 O conservador baixou os olhos e viu o orifício da bala na branca camisa de linho. Era um ponto negro orlado por um pequeno círculo de sangue, poucos centímetros abaixo do esterno, estômago. Quase que por um capricho de crueldade, a bala falhara o coração. Como veterano da guerra da Argélia, o conservador fora já testemunha daquele tipo de morte horrivelmente lenta. Sobreviveria cerca de quinze minutos, enquanto os ácidos do estômago se derramavam na cavidade torácica, envenenando-o por dentro.

 - Abençoada seja a dor - disse o homem.

 E desapareceu.

 Agora sozinho, Jacques Saunière voltou o olhar para a grade de ferro. Estava encurralado, e as portas só voltariam a abrir-se dentro de no mínimo vinte minutos. Quando chegassem junto dele, estaria morto. Mesmo assim, o medo que o dominava agora era um medo muito maior que o da sua própria morte.

 Tenho de transmitir o segredo.

 Pôs-se de pé, cambaleante, e imaginou os três companheiros assassinados. Pensou nas gerações que os tinham precedido... na missão que a todos eles fora confiada.

 Uma cadeia ininterrupta de conhecimento.

 Agora, subitamente, a despeito de todas as precauções... a despeito de todas as medidas de segurança... Jacques Saunière era o único elo que restava, o único guardião dos mais formidáveis segredos alguma vez guardados.

 A tremer, olhou em volta.

 Tenho de encontrar uma maneira...

 Estava trancado dentro da Grande Galeria, e havia apenas uma pessoa a quem podia passar a tocha. Saunière estudou as paredes da sua opulenta prisão. Uma colecção dos quadros mais famosos do mundo parecia sorrir-lhe, como um grupo de velhos amigos.

 Com o rosto contraído pela dor, Saunière fez apelo a todas as suas faculdades e forças. A tarefa desesperada que tinha pela frente, bem o sabia, ia exigir cada segundo de vida que lhe restava.

 

 Robert Langdon acordou lentamente.

 Algures na escuridão, tocava a campainha de um telefone - um som fraco, inusitado. Procurou às apalpadelas o candeeiro da mesa-de-cabeceira e acendeu-o. Examinando de olhos piscos o ambiente que o rodeava, viu um luxuoso quarto estilo renascença, com mobiliário Luís XVI, frescos pintados à mão nas paredes e uma colossal cama de mogno de quatro colunas.

 Onde diabo estou eu?

 O roupão de banho pendurado numa das colunas da cama tinha bordadas no bolso do peito as palavras: HOTEL RITZ PARIS.

 Pouco a pouco, o nevoeiro começou a dissipar-se.

 Langdon pegou no auscultador.

 - Sim?

 - Monsieur Langdon? - perguntou uma voz de homem. - Espero não o ter acordado?

 Confuso, Langdon olhou para o relógio da mesa-de-cabeceira: marcava meia-noite e trinta e dois. Tinha dormido apenas uma hora, mas sentia-se mais morto do que vivo.

 - Fala o concierge, monsieur. Peço desculpa pela intrusão, mas tem uma visita. Diz que o assunto é urgente.

 Langdon não estava ainda bem acordado. Uma visita? Focou os olhos no pequeno panfleto que deixara amarrotado em cima da mesa-de-cabeceira.

 

A UNIVERSIDADE AMERICANA DE PARIS

orgulha-se de apresentar

UM SERÃO COM ROBERT LANGDON PROFESSOR DE SIMBOLOGIA RELIGIOSA, UNIVERSIDADE DE HARVARD

Langdon gemeu. A conferência daquela noite - uma palestra, com projecção de diapositivos, sobre o simbolismo pagão escondido nas pedras da Catedral de Chartres - tinha muito provavelmente eriçado o pêlo a alguns dos membros mais conservadores do público. Quase de certeza, um qualquer erudito religioso seguira-o até ao hotel disposto a dar-lhe luta.

 - Lamento - disse -, mas estou muito cansado, e...

 - Mas, monsieur - insistiu o recepcionista, baixando a voz até um murmúrio carregado de urgência. - Trata-se de um homem importante.

 Langdon não duvidava. Os seus livros sobre pintura religiosa e simbologia cultural tinham-no tornado uma relutante celebridade no mundo das artes, conferindo-lhe uma visibilidade que o envolvimento decisivo que acabara por ter num badaladíssimo caso ocorrido no Vaticano, no ano anterior, viera, infelizmente, centuplicar. Desde então, o rio de historiadores "importantes" e maníacos da arte que lhe iam bater à porta parecia não ter fim.

 - Por favor, faça a gentileza - disse Langdon, esforçando-se ao máximo por manter os bons modos -, de tomar nota do nome e do número do telefone do senhor e diga-lhe que tentarei entrar em contacto com ele antes de deixar Paris, na terça-feira. Muito obrigado.

 E desligou antes que o recepcionista pudesse protestar.

 Agora sentado na cama, Langdon deitou um olhar carrancudo ao Manual de Relacionamento com os Hóspedes pousado na mesa-de-cabeceira e cuja capa proclamava: DURMA COMO UM BEBÉ NA CIDADE DAS LUZES. REPOUSE NO RITZ DE PARIS. Voltou a cabeça e olhou, cansado, para o espelho de corpo inteiro aparafusado na parede fronteira. O sujeito que lhe devolveu o olhar era um desconhecido - desgrenhado, exausto.

 Estás a precisar de férias, Robert.

 Sabia que o último ano lhe cobrara um pesado tributo, mas não achava graça a vê-lo provado no espelho. Os olhos azuis, normalmente penetrantes, pareciam naquela noite enevoados e gastos. Uma incipiência de barba escurecia-lhe o maxilar forte e o queixo amenizado por uma inesperada "covinha". À volta das têmporas, as madeixas prateadas progrediam, infiltrando-se na densa mata de cabelos escuros. Por muito que as colegas na universidade afirmassem que aquelas pinceladas de cinzento só contribuíam para lhe realçar o encanto livresco, Langdon não tinha ilusões.

 Se a Boston Magazine me visse agora.

 No mês anterior, para seu grande embaraço, a Boston Magazine incluíra-o na lista das dez pessoas mais intrigantes da cidade - uma honra algo dúbia que o tornara alvo de intermináveis piadinhas por parte dos seus pares em Harvard. Naquela noite, a cinco mil quilómetros de casa, o elogio ressurgira para ensombrar-lhe a conferência que tinha dado.

 - Senhoras e senhores - anunciara a anfitriã diante de uma casa cheia no Pavillon Dauphine da Universidade Americana de Paris -, o nosso convidado desta noite dispensa apresentações. É autor de numerosos livros: A Simbologia das Seitas Secretas, A Arte dos Illuminati, A Linguagem Perdida dos Ideogramas, e quando digo que é mestre em iconologia religiosa, digo-o num sentido muito literal. Muitos dos aqui presentes usam textos seus nas aulas.

 Os estudantes incluídos na assistência assentiram entusiasticamente.

 - Tinha planeado apresentá-lo esta noite dando-vos nota do seu impressionante curriculum vitae. No entanto... - olhou risonhamente para Langdon, que ocupava uma das cadeiras colocadas no palco - um dos membros do público acaba de facultar-me uma apresentação muito mais, digamos... intrigante.

 E mostrou um exemplar da Boston Magazine.

 Langdon encolheu-se na cadeira. Onde diabo foi ela arranjar aquilo?

 A anfitriã começou a ler excertos escolhidos do estúpido artigo, e Langdon deu por si a enfiar-se cada vez mais pela cadeira abaixo. Trinta segundos mais tarde, a assistência estava a sorrir e a mulher não dava sinais de ir parar tão cedo.

 - "E a recusa do senhor Langdon em falar publicamente sobre o seu invulgar papel no conclave do Vaticano do ano passado contribui sem dúvida para aumentar-lhe a pontuação no nosso "intrigómetro." Querem ouvir mais? - perguntou aos assistentes.

 A multidão aplaudiu.

 Façam-na parar, por favor, suplicou Langdon silenciosamente, enquanto ela voltava a mergulhar no artigo:

 - "Embora o Professor Langdon possa talvez não ser considerado do género "bonitão", como alguns dos nossos nomeados mais jovens, a verdade é que não lhe falta, longe disso, o chamado encanto académico. Com quarenta e poucos anos, tem uma presença cativante, realçada por uma voz de barítono invulgarmente baixa que as alunas descrevem como "chocolate para os ouvidos"."

 O anfiteatro inteiro explodiu numa gargalhada.

 Langdon forçou um sorriso contrafeito. Sabia o que vinha a seguir - uma ridicularia qualquer a respeito de "Harrison Ford num fato de tweed" - e como nessa noite julgara que seria finalmente seguro voltar a usar o seu Harris de tweed e a sua Burberry de gola alta, decidiu passar à acção.

 - Obrigado, Monique - disse, pondo-se prematuramente de pé e avançando até ao pódio. - A Boston Magazine tem claramente um dom especial para a ficção. - Voltou-se para a assistência com um sorriso embaraçado. - E se descubro qual de vocês desencantou este artigo, vou pedir ao consulado que o mande deportar.

 A assistência riu-se.

 - Bem, minha gente, como todos sabem, estou aqui esta noite para falar do poder dos símbolos...

 

 O retinir da campainha do telefone voltou a quebrar o silêncio do quarto.

 Com um gemido de incredulidade, Langdon pegou no auscultador.

 - Sim?

 Como já esperava, era o recepcionista.

 - Senhor Langdon, mais uma vez as minhas desculpas. Telefono-lhe para o informar de que o seu visitante vai neste momento a caminho do seu quarto. Achei que seria melhor avisá-lo.

 Langdon ficou de repente muito acordado.

 - Mandou alguém ao meu quarto?

 - Peço desculpa, monsieur, mas um homem como... Não tenho autoridade para impedi-lo.

 - Quem é ele exactamente?

 O recepcionista, porém, já tinha desligado.

 Quase no mesmo instante, um punho pesado bateu à porta do quarto.

 Sem saber muito bem o que fazer, Langdon deslizou para fora da cama, sentiu os dedos dos pés afundarem-se na espessa alcatifa. Enfiou o roupão do hotel e aproximou-se da porta.

- Quem é?

 - Senhor Langdon? Preciso de lhe falar. - O homem falava inglês com um sotaque cerrado, numa voz seca, autoritária. - Sou o tenente Jérôme Collet. Direction Centrale Police Judiciaire.

 Langdon fez uma pausa. A Polícia Judiciária? A DCPJ era mais ou menos o equivalente francês do FBI americano.

 Sem tirar a corrente de segurança, entreabriu a porta alguns centímetros. O rosto que o encarou do outro lado era estreito como um cutelo e tinha um ar desgastado. O homem, invulgarmente magro, vestia um uniforme azul, de ar muito oficial.

 - Posso entrar? - perguntou.

 Langdon hesitou, sentindo-se inseguro enquanto os olhos mortiços do desconhecido o estudavam.

 - Que se passa?

 - O meu capitaine pede a sua colaboração numa questão privada.

 - A estas horas? - conseguiu Langdon dizer. - Passa da meia-noite.

 - Tinha encontro marcado com o conservador do Louvre esta noite, não é verdade?

 Langdon sentiu uma repentina vaga de inquietação. Ele e o respeitado conservador Jacques Saunière tinham combinado encontrarem-se para uma bebida depois da conferência daquela noite, mas Saunière não chegara a aparecer.

 - Sim, é verdade. Como sabe?

 - Encontrámos o seu nome na agenda dele.

 - Espero que esteja tudo bem.

 O polícia deixou escapar um suspiro de cansaço e enfiou uma foto Polaroid pela estreita abertura da porta.

 Quando Langdon viu a foto, o corpo pôs-se-lhe rígido.

 - Essa fotografia foi feita há menos de uma hora. No interior do Louvre.

 Enquanto continuava a olhar para a estranha imagem, Langdon sentiu a repulsa e o choque iniciais darem lugar a uma súbita explosão de ira.

 - Quem faria uma coisa destas?

 - Esperávamos que pudesse ajudar-nos a responder precisamente a essa pergunta, considerando os seus conhecimentos de simbologia e os seus planos para se encontrar com monsieur Saunière.

Langdon olhava para a foto, com um horror a que começava a misturar-se o medo. A imagem era horripilante e profundamente estranha, provocando uma perturbadora sensação de déjà vu. Pouco mais de um ano antes, recebera a fotografia de um cadáver e, como agora, um pedido de ajuda. Vinte e quatro horas mais tarde, quase tinha perdido a vida na Cidade do Vaticano. Aquela foto era completamente diferente, e no entanto, algo no cenário tinha um toque desconcertantemente familiar.

 O polícia consultou o relógio.

 - O meu capitaine está à espera, monsieur.

 Langdon mal o ouviu. Tinha os olhos presos à fotografia.

 - Este símbolo aqui, e o modo como o corpo está tão estranhamente...

 - Posicionado? - sugeriu o polícia.

 Langdon assentiu, sentindo um arrepio gelado ao erguer os olhos.

- Não consigo imaginar alguém capaz de fazer isto a uma pessoa.

O rosto do polícia pareceu tornar-se ainda mais sombrio.

 - Não está a compreender, senhor Langdon. Aquilo que vê nessa fotografia... - Fez uma pausa. - Foi monsieur Saunière que o fez a si mesmo.

 

 A quilómetro e meio dali, Silas, o corpulento albino, atravessou a coxear o portão de uma luxuosa mansão de arenito castanho-avermelhado situada na Rua La Bruyère. O cilício que usava em torno da coxa esquerda cortava-lhe a carne, mas apesar disso a alma dele cantava de satisfação por servir o Senhor.

 Abençoada seja a dor.

 Os olhos avermelhados inspeccionaram o vestíbulo quando entrou na residência. Deserta. Subiu silenciosamente as escadas, para não acordar nenhum dos outros numerários. A porta do quarto estava aberta: as fechaduras eram proibidas naquela casa. Entrou, fechando-a atrás de si.

 O quarto era espartano: soalho de madeira, uma cómoda de pinho, num canto uma lona estendida que lhe servia de cama. Estava ali de visita, naquela semana, mas havia já muitos anos que, pela graça de Deus, dispunha de um santuário semelhante em Nova Iorque.

 O Senhor proporcionou-me abrigo e um objectivo na vida.

 Naquela noite, Silas sentia que começara, por fim, a pagar a sua dívida. Dirigindo-se rapidamente à cómoda, pegou no telemóvel que deixara escondido na última gaveta e fez uma chamada.

 - Sim? - disse uma voz de homem.

 - Voltei, Professor.

 - Fala - ordenou a voz, com uma nota de satisfação.

 - Estão todos mortos. Os três senescais.... e o próprio Grão-Mestre.

 Houve uma pausa momentânea, como que para uma curta prece.

- Assumo, portanto, que tens a informação?

 - Todos disseram o mesmo. Independentemente.

 - E acreditaste neles?

- A concordância foi demasiada para ser coincidência.

Uma expiração excitada.

 - Óptimo. Tinha receado que a reputação de secretismo da irmandade prevalecesse.

- A perspectiva da morte é uma motivação poderosa.

- Diz-me então, meu discípulo, o que devo saber.

 Silas sabia que a informação que extorquira às suas vítimas ia constituir uma surpresa.

 - Professor, todos eles confirmaram a existência da Clef de Voûte... a lendária Chave de Abóbada.

 Ouviu o som de uma inspiração rápida e superficial, e sentiu a excitação do Professor.

 - A Chave de Abóbada. Tal como suspeitávamos.

 De acordo com a lenda, a irmandade concebera um mapa de pedra - uma Clef de Voûte... ou Chave de Abóbada -, que revelava o esconderijo do maior dos seus segredos... uma informação tão poderosa que protegê-la passara a ser a razão da sua própria existência.

 - Quando tivermos a Chave de Abóbada em nosso poder disse o Professor -, estaremos apenas a um passo de distância.

 - Estamos mais perto do que julga. A Chave de Abóbada encontra-se aqui, em Paris.

 - Em Paris? Incrível. É quase demasiado fácil.

 Silas relatou os acontecimentos da noite: como todas as suas quatro vítimas, momentos antes de morrerem, tinham desesperadamente tentado comprar as suas vidas ímpias revelando o segredo que lhes fora confiado. Todos eles lhe tinham dito exactamente a mesma coisa - que a Chave de Abóbada estava artificiosamente escondida num determinado local no interior de uma das velhas igrejas de Paris: Saint-Sulpice.

 - Dentro da casa do Senhor - exclamou o Professor. - Como escarnecem de nós!

 - Como fizeram durante séculos.

 O Professor calou-se, como que a deixar assentar na alma o triunfo daquele momento. Finalmente, disse:

-  Prestaste um grande serviço a Deus. Há centenas de anos que esperávamos por isto. Tens de recuperar a pedra. Imediatamente. Esta noite. Sabes o que está em jogo.

 Silas sabia que o que estava em jogo era de uma importância incalculável, mas aquilo que o Professor agora lhe ordenava parecia impossível.

 - Mas a igreja é uma fortaleza. Sobretudo de noite. Como faço para lá entrar?

 No tom confiante do homem que possui uma enorme influência, o Professor explicou o que tinha de ser feito.

 

Quando desligou o telefone, Silas sentiu na pele um formigueiro de antecipação.

 Uma hora, disse para si mesmo, grato por o Professor lhe ter dado tempo para cumprir a necessária penitência antes de entrar na casa de Deus. Tenho de purgar a minha alma dos pecados de hoje. Os pecados que cometera naquele dia tinham sido santos no seu objectivo. Havia séculos que o direito sagrado sancionava a guerra contra os inimigos de Deus. O perdão estava garantido.

 Mesmo assim, Silas bem o sabia, a absolvição exigia sacrifício.

 Depois de fechar as portadas da janela, despiu-se completamente e ajoelhou no centro do quarto. Baixando os olhos, examinou o cruel cilício apertado à volta da coxa. Todos os verdadeiros seguidores do Caminho usavam aquele artefacto - uma correia de couro eriçada de farpas metálicas que lhe trespassavam a pele, numa constante recordação dos sofrimentos de Cristo. Além disso, a dor que causava ajudava também a dominar os desejos da carne.

 Apesar de ter já usado o seu cilício mais do que as duas horas exigidas, Silas sabia que aquele não era um dia como os outros. Pegou na ponta da correia e apertou a fivela mais um furo, estremeceu quando as farpas se lhe cravaram ainda mais profundamente na carne. Deixando escapar lentamente o ar contido nos pulmões, saboreou o ritual purificador do seu próprio sofrimento.

 Abençoada seja a dor, murmurou, repetindo a manta sagrada do padre Josemaría Escrivá - o Professor dos Professores. Embora Escrivá tivesse morrido em 1975, a sua sabedoria perdurava, as suas palavras continuavam a ser murmuradas por milhares de fiéis em todo o mundo enquanto ajoelhavam no chão e cumpriam a sagrada pratica conhecida como "mortificação corporal".

Silas voltou a sua atenção para a corda cheia de nós cuidadosamente enrolada no chão a seu lado. A Disciplina. Os nós estavam cobertos de sangue seco. Ansiando os efeitos depuradores da sua própria agonia, murmurou uma rápida oração. Então, pegando numa ponta da corda, fechou os olhos e fê-la rodopiar com força por cima do ombro, sentindo os nós baterem-lhe nas costas. Continuou a flagelar-se, golpeando a pele, uma e outra vez.

 Castigo corpus meum.

 Finalmente, sentiu o sangue começar a correr.

 

 O ar agreste de Abril entrava pela janela aberta do Citroen ZX que seguia para sul, passando diante da Ópera e atravessando a Place Vendôme. Sentado ao lado do condutor, Robert Langdon sentia a cidade passar por ele enquanto tentava aclarar as ideias. Um duche rápido e uma escanhoadela com a máquina de barbear tinham-no deixado mais ou menos apresentável, mas contribuído muito pouco para lhe minorar a ansiedade. A imagem assustadora do corpo do conservador Saunière não lhe saía da cabeça.

 Jacques Saunière está morto.

 Aquela morte causava-lhe uma irreprimível e profunda sensação de perda. Apesar da sua reputação de pessoa reservada, a dedicação às artes de que sempre dera provas fazia do conservador do Louvre um homem geralmente querido e respeitado. Os livros que escrevera sobre os códigos secretos escondidos nos quadros de Poussin e Teniers contavam-se entre os manuais de estudo que Langdon mais usava nas suas próprias aulas. Aguardara com intensa expectativa o encontro daquela noite, e sentira-se desapontado quando Saunière não aparecera.

 Mais uma vez, a visão do cadáver atravessou-lhe o espírito. Jacques Saunière tinha feito aquilo a si mesmo? Langdon voltou-se e olhou pela janela, expulsando a imagem do pensamento.

 Lá fora, a cidade mantinha a mesma azáfama das horas diurnas: vendedores ambulantes empurravam carrinhos carregados de amandes caramelizadas, empregados de restaurantes carregavam sacos de lixo para o passeio, um casal de namorados procurava no calor das carícias uma defesa contra a brisa perfumada pelo aroma dos jasmins.

O Citroen atravessava autoritariamente todo este caos, com a sua dissonante sereia de dois tons a cortar o trânsito como uma faca.

 - O capitaine ficou contente por saber que ainda estava em Paris - disse o polícia, falando pela primeira vez desde que tinham saído do hotel. - Uma coincidência feliz.

 Langdon sentia-se tudo menos feliz, e coincidência era um conceito em que não acreditava por aí além. Como alguém que passara a vida a explorar as interligações escondidas de emblemas e ideologias díspares, tinha tendência para ver o mundo como uma trama de histórias e acontecimentos profundamente entretecidos. As ligações podem não ser visíveis, costumava dizer aos seus alunos de Simbologia em Harvard, mas estão sempre lá, escondidas logo abaixo da superfície.

 - Deduzo - disse - que a Universidade Americana de Paris lhes disse onde eu estava hospedado?

 O tenente abanou a cabeça.

 - A Interpol.

 A Interpol, pensou Langdon. Claro. Esquecera que o aparentemente inócuo costume que os hotéis europeus tinham de exigir a apresentação de um passaporte no acto de registo não era uma curiosa formalidade, era a Lei. Em qualquer dada noite, por toda a Europa, os agentes da Interpol podiam saber exactamente quem estava a dormir onde. Encontrá-lo no Ritz não demorara provavelmente mais do que cinco segundos.

 Enquanto o Citroen acelerava para sul através da cidade, a silhueta iluminada da torre Eiffel surgiu ao longe, do lado direito, apontando para o céu. Ao vê-la, Langdon pensou em Vittoria, recordando a promessa que, um ano antes e meio a brincar, tinham feito de, todos os seis meses, voltarem a encontrar-se num local romântico diferente. A torre Eiffel teria com toda a certeza feito parte da lista. Infelizmente, beijara Vittoria pela última vez num barulhento aeroporto de Roma, havia mais de um ano.

 - Já foi lá acima? - perguntou o polícia, olhando para ele.

 - Perdão? - sobressaltou-se Langdon, apanhado de surpresa.

 - É maravilhosa, não é? - O tenente apontou para a torre através do pára-brisas. - Já a subiu?

 - Não, ainda não - respondeu Langdon.

 - É o símbolo da França. Para mim, é perfeita.

Langdon assentiu distraidamente. Os simbologistas faziam com frequência notar que a França - um país afamado pelo seu machismo, costumes dissolutos e líderes diminutos e inseguros como Napoleão e Pepino, o Breve - não poderia ter escolhido como emblema nacional nada mais apropriado do que um falo com trezentos metros de altura.

 No cruzamento com a Rue de Rivoli, o semáforo estava vermelho, mas o Citroen nem sequer abrandou. O tenente passou como uma tromba e continuou a acelerar, descendo um troço ladeado de árvores da Rue Castiglione, que servia de entrada norte aos famosos Jardins das Tulherias, a versão parisiense de Central Park. A maior parte dos turistas traduzia erradamente a designação de Jardins dês Tuileries como tendo qualquer coisa a ver com os milhares de tulipas que lá floresciam, mas Tuileries era na realidade uma referência literal a algo muito menos romântico. Aquele parque fora em tempos uma enorme e feia cova de onde os parisienses extraíam o barro com que manufacturavam as famosas telhas - ou tuiles - vermelhas dos seus telhados.

 Quando entraram no parque deserto, o tenente meteu a mão debaixo do tablier e desligou a incómoda sereia. Langdon deixou escapar um suspiro, saboreando o súbito silêncio. À frente do carro, os feixes pálidos dos faróis de halogéneo varriam o saibro compactado do caminho, no qual os pneus zuniam entoando um ritmo hipnótico. Langdon sempre considerara as Tulherias solo sagrado. Fora naqueles jardins que Claude Monet experimentara formas e cores e literalmente inspirara o nascimento do movimento impressionista. Naquela noite, porém, pesava sobre o local uma estranha atmosfera de sombria premonição.

 O Citroen virou à esquerda, seguindo para oeste ao longo da alameda principal do parque. Contornando um lago circular, o tenente atravessou uma silenciosa avenida e entrou no vasto espaço quadrangular que ficava a seguir. Langdon avistou o fim do Jardim, assinalado por um gigantesco arco de pedra.

 O Arc du Carrousel.

 Não obstante os rituais orgiásticos que em tempos tinham decorrido junto ao Arc du Carrousel, os aficcionados da arte reverenciavam aquele lugar por uma razão completamente diferente. Da esplanada onde terminavam as Tulherias avistava-se quatro dos mais fabulosos museus de arte do mundo, um em cada ponto cardeal.

À sua direita, na direcção sul e do outro lado do Sena e do Quai Voltaire, Langdon viu a fachada espectacularmente iluminada da velha estação ferroviária, agora o célebre Musée d'Orsay. Olhando para a esquerda, distinguia a parte superior do ultramoderno Centro Pompidou, que albergava o Museu de Arte Moderna. Atrás dele, para oeste, o antigo obelisco de Ramsés espreitava por cima das copas das árvores, assinalando a localização do Musée du Jeu de Paume.

 Bem à sua frente, a leste, do outro lado do arco, erguia-se o monolítico palácio renascentista que se tornara o mais famoso museu de arte do mundo.

 O Louvre.

 Langdon sentiu o já familiar arrepio de espanto maravilhado enquanto os seus olhos tentavam inutilmente abarcar toda a massa do edifício. Ao fundo da enorme praça-fronteira, o Louvre era como uma cidadela recortada contra o céu de Paris. Com a forma de uma grande ferradura, era o edifício mais comprido da Europa, maior do que três torres Eiffel deitadas umas a seguir às outras. Nem sequer os cem mil metros quadrados da praça que se estendia entre as duas alas do museu conseguia ofuscar a magnificência da fachada. Certa vez, Langdon percorrera a pé todo o perímetro do Louvre, uma espantosa caminhada de quatro quilómetros e meio.

 Calculava-se que seriam precisas cinco semanas para que um visitante contemplasse devidamente as 65 300 obras de arte conservadas no museu, embora a maior parte dos turistas preferisse uma experiência abreviada a que Langdon costumava chamar "Louvre Light" - uma espécie de sprint para ver os três objectos mais famosos: a Mona Lisa, a Vénus de Milo e a Vitória Alada. Art Buchwald gabara-se certa vez de ter visto as três obras-primas em cinco minutos e cinquenta e seis segundos.

 O tenente pegou num pequeno rádio e falou rapidamente em francês:

 - Monsieur Langdon est arrivé. Deux minutes.

 Do outro lado veio uma qualquer indecifrável confirmação. O tenente devolveu o aparelho ao bolso do casaco e voltou-se para Langdon.

 - O capitaine espera-o na entrada principal - disse.

E, ignorando os sinais que proibiam o tráfego automóvel na praça acelerou e galgou o passeio. A entrada principal do museu era agora visível, erguendo-se ousadamente à distância, rodeada por sete tanques triangulares de onde jorravam fontes iluminadas.

 La Pyramide.

 A nova entrada do Louvre de Paris tornara-se quase tão famosa como o próprio museu. A controversa e neomoderna pirâmide de vidro concebida pelo arquitecto americano de origem chinesa I. M. Pei continuava a atrair o escárnio dos tradicionalistas, na opinião dos quais destruía a dignidade da praça renascentista. Goethe descrevera a arquitectura como música petrificada, e os detractores de Pei descreviam a sua pirâmide como unhas a raspar numa ardósia. Os admiradores progressistas, em contrapartida, exaltavam a construção de vidro transparente com vinte e um metros e sessenta e cinco centímetros de altura como uma espectacular sinergia de estrutura antiga e método moderno - um elo simbólico entre o antigo e o novo - que abria ao              Louvre a porta do próximo milénio.

 - Gosta da nossa pirâmide? - perguntou o tenente. Langdon franziu o sobrolho. Os franceses adoravam, segundo parecia, fazer esta pergunta aos americanos. Era, claro, uma pergunta armadilhada. Admitir que gostava da pirâmide transformava a vítima num tosco americano sem ponta de gosto, manifestar desagrado era tomado como um insulto.

 - Mitterrand era um homem ousado - respondeu, dividindo a diferença. Dizia-se que o falecido presidente francês, que encomendara a pirâmide a Pei, sofria de um "complexo faraónico". Responsável por ter enchido Paris de obeliscos, obras de arte e artefactos egípcios, François Mitterrand tivera uma tal afinidade com a cultura nilótica que os Franceses continuavam a chamar-lhe a Esfinge. - Como se chama o seu capitão? - perguntou, mudando de assunto.

 - Bezu Fache - respondeu o tenente, aproximando-se da entrada principal da pirâmide. - Chamamos-lhe lê Taureau.

 Langdon olhou para ele, perguntando a si mesmo se todos os franceses teriam uma misteriosa alcunha animal.

 - Chamam o Touro ao vosso capitão? O homem arqueou as sobrancelhas.

 - O seu francês é melhor do que quer admitir, monsieur Langdon.

O meu francês é uma porcaria, pensou Langdon, mas a minha iconografia zodiacal é bastante boa, muito obrigado. Taurus era sempre o touro. A astrologia era uma constante simbólica em todo o mundo.

 O tenente parou o carro e apontou, por entre duas fontes, para uma grande porta na face da pirâmide.

 - Ali tem a entrada. Boa sorte, monsieur.

 - Não vem?

 - As minhas ordens eram para trazê-lo até aqui. Tenho outros assuntos a tratar.

 Langdon deixou escapar um suspiro e apeou-se. O circo é vosso, pensou.

 O tenente engatou a primeira, acelerou e afastou-se a grande velocidade.

 Ali de pé a ver os farolins traseiros do carro desaparecerem na noite, Langdon apercebeu-se de que podia muito facilmente reconsiderar, atravessar a praça, apanhar um táxi e voltar para a cama. Alguma coisa lhe disse que era provavelmente uma péssima ideia.

 Enquanto avançava por entre a bruma de água das fontes, teve a perturbadora sensação de estar a transpor um limiar invisível para um outro mundo. A sensação onírica daquela noite estava uma vez mais a envolvê-lo. Vinte minutos antes, dormia no seu quarto de hotel. Agora, encontrava-se de pé diante da pirâmide de vidro mandada construir pela Esfinge, à espera de ser recebido por um polícia a que chamavam o Touro.

 Estou preso num quadro do Dali, pensou.

 Dirigiu-se à entrada principal - uma enorme porta giratória. O átrio que ficava para lá dela, escassamente iluminado, estava deserto.

 Bato à porta?

 Perguntou a si mesmo se alguma vez algum respeitado egiptologista de Harvard teria batido à porta de uma pirâmide esperando que lhe respondessem. Ergueu a mão para bater no vidro, mas das sombras lá em baixo surgiu uma figura, a subir a escadaria encurvada. O homem, atarracado e escuro, quase Neanderthal, vestia um casaco assertoado que a largura dos ombros repuxava, como se lhe estivesse apertado. Caminhava com um ar de inconfundível autoridade sobre pernas curtas e fortes. Vinha a falar pelo telemóvel, mas terminou a chamada antes de chegar. Fez sinal a Langdon para que entrasse.

 - Chamo-me Bezu Fache - anunciou, enquanto Langdon passava pela porta giratória. - Capitão da Direcção Central da Polícia Judiciária. - O tom era a condizer: um ribombar gutural, como um prenúncio de tempestade.

 Langdon estendeu a mão.

 - Robert Langdon.

 A manápula enorme de Fache fechou-se à volta da mão de Langdon com uma força esmagadora.

 - Vi a fotografia - disse Langdon. - O seu agente disse que foi o próprio Jacques Saunière que fez...

 - Senhor Langdon - interrompeu-o Fache, cravando nele uns olhos cor de ébano. - O que viu na fotografia foi apenas o início daquilo que o Saunière fez.

 

 O capitão Bezu Fache movia-se como um touro furioso, com os largos ombros puxados para trás e o queixo enterrado no peito. Tinha cabelos pretos e reluzentes de gel, esticados para a nuca, destacando o bico-de-viúvo pontiagudo como uma seta que lhe dividia ao meio a testa proeminente e o precedia como a proa de um cruzador. À medida que avançava, parecia queimar com os olhos a terra à sua frente, irradiando um brilho incandescente que apregoava a sua reputação de inflexível severidade em todas as coisas.

 Langdon desceu atrás dele a famosa escadaria de mármore que conduzia ao átrio situado por baixo da pirâmide de vidro. Na descida, passaram por dois agentes armados com pistolas-metralhadoras. A mensagem era clara: esta noite, ninguém entra e ninguém sai sem a bênção do capitão Fache.

 Enquanto descia abaixo do nível da praça, Langdon esforçou-se por combater uma crescente sensação de temor. O ar do capitão Fache era tudo menos acolhedor, e o próprio Louvre tinha, àquela hora da noite, uma aura quase sepulcral. A escadaria, como a coxia de um cinema às escuras, era iluminada por pequenas lâmpadas embebidas nos degraus. Langdon ouvia os seus próprios passos ecoarem na cúpula de vidro, lá em cima. Quando olhou, viu, através do telhado transparente, a brisa dispersar a poalha de água dos repuxos, fantasmagoricamente iluminados pelas luzes dos tanques.

 - Gosta? - perguntou Fache, apontando para cima com o grande queixo.

Langdon suspirou, demasiado cansado para jogos.

 - Sim, a vossa pirâmide é magnífica.

- Uma verruga no rosto de Paris - resmungou Fache.

 Um a zero. Langdon sentiu que o seu anfitrião era um homem difícil de contentar. Perguntou a si mesmo se Fache faria a mínima ideia de que aquela pirâmide fora, por exigência expressa do presidente Mitterrand, construída com exactamente 666 painéis de vidro - estranha exigência que sempre fora um tema quente entre os adeptos da teoria da conspiração, os quais afirmavam que 666 era o número de Satanás.

 Decidiu não abordar o assunto.

 À medida que desciam em direcção ao átrio subterrâneo, o vasto espaço foi emergindo das sombras. Dezassete metros abaixo do nível da praça, os seis mil e quinhentos metros quadrados do novo átrio do Louvre estendiam-se como uma gruta interminável. com paredes e chão de mármore em quentes tons de ocre, a condizer com a pedra cor de mel da fachada do museu, o átrio subterrâneo estava normalmente cheio de sol e de turistas. Naquela noite, porém, mostrava-se árido e escuro, impregnado de uma fria atmosfera de cripta.

 - E o pessoal normal da segurança do museu? - perguntou Langdon.

 - En quarantaine - respondeu Fache, como se Langdon tivesse posto em causa a integridade da sua própria equipa. - Obviamente, esta noite entrou aqui alguém que não devia ter conseguido entrar. Todos os guardas de serviço estão na Ala Sully, a ser interrogados. A segurança do museu está a cargo dos meus homens.

 Langdon assentiu, caminhando rapidamente para se manter a par do capitão.

 - Conhecia bem o conservador Jacques Saunière? - perguntou este.

 - Não o conhecia de todo. Nunca falámos pessoalmente. Fache pareceu surpreendido.

 - Iam encontrar-se pela primeira vez esta noite?

 - Exacto. Tínhamos combinado encontrar-nos na recepção oferecida pela Universidade Americana depois da minha conferência, mas ele não apareceu.

 Fache rabiscou algumas notas num pequeno caderno. Enquanto caminhavam, Langdon viu de relance a outra pirâmide, muito menos conhecida, do Louvre - a Pyramid Inversée - uma enorme clarabóia invertida que pendia do tecto como uma estalactite, numa secção contígua do átrio. Fache subiu à frente dele o pequeno lanço de escadas que conduzia à entrada em arco de um túnel por cima da qual uma tabuleta indicava: DENON. A Ala Denon era a mais famosa das três secções principais do Louvre.

 - Qual dos dois pediu o encontro desta noite - perguntou Fache subitamente. - Ele ou o senhor?

 A pergunta pareceu estranha.

 - Foi o senhor Saunière - respondeu Langdon, enquanto entravam no túnel. - A secretária dele contactou-me há poucas semanas, via e-mail. Dizia que o conservador Saunière soubera que eu ia dar uma conferência em Paris, este mês, e gostaria de aproveitar a minha presença para discutir uns assuntos.

 - Que assuntos?

 - Não sei. Relacionados com a arte, suponho. Partilhávamos os mesmos interesses.

 Fache lançou-lhe um olhar carregado de cepticismo.

 - Não faz a mínima ideia do tema do encontro?

 Langdon não fazia. Ficara curioso, na altura, mas não se sentira à-vontade para pedir pormenores. O reverenciado Jacques Saunière tinha uma bem conhecida tendência para o secretismo e era raríssimo encontrar-se com quem quer que fosse. Langdon ficara grato pela simples oportunidade de conhecê-lo.

 - Senhor Langdon, consegue ao menos dar-me um palpite sobre o assunto que a nossa vítima queria discutir consigo na noite em que foi assassinada? Poderia ser muito útil.

 A dureza da pergunta fez Langdon sentir-se pouco à-vontade.

 - Não faço a mínima ideia. Não perguntei. Fiquei muito honrado por ter sido contactado. Sou um admirador da obra do senhor Saunière. Uso com frequência textos dele nas minhas aulas.

 Fache tomou nota do facto no seu caderninho.

 Os dois homens iam agora a meio caminho do túnel de acesso à Ala Denon e Langdon viu, ao fundo, as duas escadas rolantes ascendentes, ambas paradas.

 - Partilhavam então os mesmos interesses? - perguntou Fache.

 - Sim. A verdade é que passei a maior parte deste último ano a escrever o rascunho de um livro que aborda a principal área de especialização do senhor Saunière. Estava na esperança de conseguir tirar alguns nabos-da-púcara.

Fache ergueu vivamente a cabeça

 - Como?

 Aparentemente, o idiomatismo não tinha equivalente.

 - Estava desejoso de conhecer as opiniões dele sobre o tema.

 - Estou a ver. E qual é esse tema?

 Langdon hesitou, sem saber muito bem como pôr aquilo.

 - Essencialmente, o trabalho é a respeito do culto da deusa... o

conceito do sagrado feminino e a arte e os símbolos que lhe estão associados.

 Fache passou a mão enorme pelos cabelos.

 - E o Saunière era perito nessa matéria?

 - O maior de todos.

 - Estou a ver.

 Langdon teve a sensação de que Fache não estava a ver coisa nenhuma. Jacques Saunière era considerado o maior iconografista da deusa do mundo. Não só tinha uma paixão pessoal por tudo o que se relacionasse com fertilidade, cultos da deusa, Wicca e o sagrado feminino, como, durante os seus vinte anos no cargo de conservador, ajudara o Louvre a reunir a maior colecção do planeta de arte ligada à deusa: machados de dois gumes oriundos do mais antigo santuário das sacerdotisas gregas de Delfos, caduceus de ouro, centenas de ankhs Tjet semelhantes a pequenos anjos de pé, sistros usados no antigo Egipto para afastar os maus espíritos e uma espantosa quantidade de estatuetas de Hórus a ser alimentado por Isis.

 - Talvez o conservador Saunière soubesse do seu manuscrito - sugeriu Fache - e tenha sugerido o encontro para oferecer-lhe ajuda?

 Langdon abanou a cabeça.

 - A verdade é que ainda ninguém sabe do meu livro. Está na fase de rascunho e não o mostrei a ninguém, excepto ao meu editor.

 Fache ficou calado.

 Landgon não acrescentou a razão porque não mostrara o manuscrito a mais ninguém. O rascunho de trezentas páginas - provisoriamente intitulado Símbolos do Sagrado Feminino Perdido - propunha várias interpretações muito pouco convencionais da iconografia religiosa estabelecida que iam sem a mínima dúvida provocar controvérsia.

Quando estava quase a chegar às escadas rolantes imobilizadas, deteve-se, apercebendo-se de que Fache já não o acompanhava. Voltando a cabeça, viu-o alguns metros mais atrás, parado à porta de um elevador de serviço.

 - Vamos de elevador - disse o capitão, quando as portas se abriram. - Como certamente sabe, ainda é uma boa caminhada até à galeria.

 Embora soubesse que o elevador abreviaria a longa subida de dois pisos até à Ala Denon, Langdon não saiu de onde estava.

 - Algum problema? - perguntou Fache, mantendo as portas abertas com um ar de impaciência.

 Langdon suspirou, lançando um olhar de pena à escada rolante. Nenhum problema, mentiu a si mesmo, enquanto retrocedia até ao elevador. Quando rapaz, caíra num poço abandonado e quase morrera, lutando por manter-se à tona durante horas até que finalmente o tinham encontrado. Da experiência ficara-lhe uma quase invencível fobia de espaços fechados - elevadores, metropolitanos, courts de squash. O elevador é uma máquina perfeitamente segura, repetia constantemente, sem nunca se conseguir convencer. É uma pequena caixa metálica suspensa no interior de um poço fechado! Retendo a respiração, entrou no elevador, sentindo a tão sua conhecida descarga de adrenalina quando as portas se fecharam.

 Dois pisos. Dez segundos.

 - Portanto - disse Fache, quando o ascensor começou a subir - O senhor e Monsieur Saunière nunca chegaram a falar? Nunca se corresponderam? Nunca trocaram mensagens por E-mail?

 Outra pergunta estranha. Langdon abanou a cabeça.

 - Não. Nunca.

 Fache inclinou um pouco a cabeça, como se estivesse a anotar mentalmente o facto. Ficou a olhar em frente, para as portas cromadas, sem acrescentar uma palavra.

 Enquanto subiam, Langdon tentou pensar em tudo menos nas quatro paredes que o rodeavam. Viu, reflectido na porta brilhante do elevador, o alfinete de gravata do capitão Fache: um crucifixo de prata, com treze placas de ónix preto incrustadas. Achou aquilo vagamente surpreendente. O símbolo era conhecido como crux gemmata - uma cruz com treze gemas - um ideograma cristão de Cristo e dos seus doze apóstolos. Sem saber muito bem porquê, não esperara que um capitão da Polícia francesa proclamasse tão abertamente a sua  religião. Mas a verdade era que estava em França; ali, o cristianismo era mais um direito hereditário do que uma religião.

 - É uma cruz gemmata - disse Fache, subitamente.

 Sobressaltado, Langdon ergueu os olhos e viu, reflectidos no metal, os do polícia cravados nele.

 O elevador parou com um ligeiríssimo solavanco e as portas abriram-se.

 Langdon saiu para o corredor, ansioso do vasto espaço aberto proporcionado pelos famosos altos tectos das galerias do Louvre. O mundo onde se encontrou não era, porém, nada do que esperara.

 Surpreendido, deteve-se abruptamente.

 Fache lançou-lhe um olhar.

 - Deduzo, senhor Langdon, que nunca viu o Louvre fora de horas?

 Acho que não, pensou Langdon, tentando orientar-se.

 Por regra impecavelmente iluminadas, as galerias do museu estavam mergulhadas numa surpreendente escuridão. Em vez da habitual luz branca vinda de cima, um clarão vermelho, baço, parecia emanar dos rodapés - manchas intermitentes de luz vermelha que se derramavam pelas lajes do chão

 Ao olhar para o sombrio corredor, Langdon apercebeu-se de que devia ter contado com aquilo. Praticamente todas as grandes galerias usavam luzes vermelhas durante a noite - luzes de baixa intensidade, não-agressivas, estrategicamente distribuídas de modo a permitir ao pessoal percorrer os corredores e ao mesmo tempo manter os quadros numa relativa obscuridade que atenuava os efeitos deletérios de uma sobreexposição à luz. O que, naquela noite, criava um ambiente quase opressivo. Havia longas sombras por todo o lado, e os altos tectos abobadados pareciam um vazio negro e baixo.

 - Por aqui - disse Fache, voltando à direita e começando a atravessar uma série de galerias interligadas.

 Langdon seguiu-o, com os olhos a adaptarem-se pouco a pouco a escuridão. À sua volta, grandes quadros a óleo começaram a materializar-se como fotografias a serem reveladas numa enorme câmara-escura... com olhos que o seguiam quando passava. Sentiu na boca o sabor tão especial do ar dos museus - um sabor estéril, desionizado com um leve toque de carbono -, um produto dos desumidificadores industriais de filtros de carvão que trabalhavam ininterruptamente  para combater o corrosivo dióxido de carbono exalado pelos visitantes.

 Montadas bem alto nas paredes, as conspícuas câmaras de segurança transmitiam uma mensagem claríssima: Estamos a vê-los. Não toquem em nada.

 - Alguma delas é verdadeira? - perguntou Langdon - apontando para as câmaras.

 Fache abanou a cabeça.

 - Claro que não.

 Langdon não ficou surpreendido. A vigilância electrónica num museu daquele tamanho teria um custo proibitivo, além de não servir para nada. Com quilómetros de galerias para vigiar, seriam necessárias centenas de técnicos só para monitorizar os visores. A maior parte dos museus tinha optado pela "segurança de retenção". Não vale a pena tentar impedir os ladrões de entrar, o que importa é não os deixar sair. O sistema de retenção era activado logo após o fecho das portas, e se algum intruso tentasse remover uma das obras de arte, as barreiras fechavam-se selando a galeria, e o ladrão via-se atrás de grades ainda antes de a Polícia chegar.

 O corredor de mármore que se estendia à frente deles encheu-se do eco de vozes. O ruído parecia vir de uma divisão recuada, mais à frente e à direita, de onde uma mancha de luz intensa se derramava para a passagem.

 - Gabinete do conservador - anunciou o capitão.

 Quando se aproximaram, Langdon viu, ao fundo de um curto corredor, o luxuoso gabinete de Jacques Saunière - madeiras quentes, obras dos Velhos Mestres nas paredes e uma enorme secretária antiga sobre cujo tampo se erguia o modelo de um guerreiro de armadura com sessenta centímetros de altura. Um punhado de agentes da Polícia movia-se azafamadamente de um lado para o outro, falando ao telefone e tomando notas. Um deles estava sentado à secretária, a escrever num computador portátil. Aparentemente, o gabinete do conservador fora transformado, pelo espaço de uma noite, no improvisado posto de comando da DCPJ.

 - Messieurs - disse Fache, e os homens voltaram-se para ele -, ne nous dérangez pas sous aucun prétexte. Entendu?

 Todos os presentes assentiram com a cabeça.

Langdon já tinha pendurado suficientes cartões NE PÁS DERANGER em portas de hotel para apanhar o essencial das ordens do capitão. Fache e ele próprio não deveriam ser perturbados fosse a que pretexto fosse.

 Deixando o pequeno grupo de agentes no gabinete, Fache continuou a conduzir Langdon pelo escuro corredor. Trinta metros mais à frente, abria-se a entrada da mais popular das secções do Louvre - La Grande Galerie - um corredor aparentemente interminável que albergava as mais famosas obras-primas italianas da colecção do museu. Langdon sabia que era ali que ia encontrar o corpo de Jacques Saunière; o célebre soalho de parquet da Grande Galeria era claramente visível na Polaroid.

 Quando se aproximaram, viu que a entrada da galeria estava fechada por uma grade de aço que parecia uma daquelas coisas que os antigos castelos usavam para impedir a entrada aos exércitos inimigos.

 - Segurança de retenção - explicou Fache, detendo-se junto da grade.

 Mesmo no escuro, a barricada parecia capaz de deter um tanque. Chegando do exterior, Langdon espreitou para os obscuros recessos da Grande Galeria.

 - Tenha a bondade, monsieur Langdon - disse Fache. Langdon voltou-se para ele, sem compreender.

 Fache apontou para o chão, junto à base da grade.

 Langdon seguiu a direcção do gesto. Na escuridão, não se apercebera. A barricada fora erguida cerca de sessenta centímetros, oferecendo uma passagem incómoda mas praticável.

 - Esta área continua interdita à segurança do museu - continuou Fache. - A minha equipa de Police Techique e Scientifique acaba de completar a sua investigação. - Voltou a apontar para a Parte inferior da grade. - Faça favor.

 Langdon olhou para a estreita abertura a seus pés e depois para a maciça grade de ferro. Deve estar a brincar, com certeza. A grade parecia uma guilhotina preparada para esmagar qualquer intruso.

 Fache resmungou qualquer coisa em francês e consultou o relógio. Pôs-se então de joelhos e fez deslizar o volumoso corpo por baixo da grade. Do outro lado, ergueu-se e olhou para Langdon através das barras.

Langdon suspirou, apoiou as palmas das mãos no parquet encerado, estendeu-se de bruços e empurrou-se para a frente. Ao deslizar, prendeu a gola do fato no rebordo inferior da grade e bateu com a nuca no ferro.

 Muito suave, Robert, pensou, rastejando desajeitadamente até finalmente conseguir passar. Quando se pôs de pé, começou a suspeitar de que ia ser uma noite muito, muito longa.

 

 Murray Hill Place - a nova sede nacional e centro de conferências da Opus Dei - situa-se no nº 243 da Lexington Avenue, em Nova Iorque. Tendo custado um pouco mais de quarenta e sete milhões de dólares, a torre, com doze mil trezentos e cinquenta metros quadrados de área coberta total, é toda ela forrada a tijolo vermelho e calcário do Indiana. Desenhado por May ( Pinska, o edifício comporta mais de cem quartos, seis salões de jantar, bibliotecas, salas de estar e gabinetes. Nos segundo, oito e décimo sexto pisos há capelas decoradas com trabalhos de marcenaria e mármore. O décimo sétimo piso é totalmente residencial. Os homens entram no edifício pela porta principal, na Lexington Avenue. As mulheres entram por uma porta lateral e estão, em todas as ocasiões, "acústica e visualmente separadas" dos homens.

 No começo dessa mesma noite, no santuário do seu apartamento de cobertura, o bispo Manuel Aringarosa preparou um pequeno saco de viagem e envergou uma tradicional sotaina preta. Normalmente, ataria uma faixa púrpura à volta da cintura, mas, uma vez que se preparava para viajar entre o público, não quis atrair a atenção para o seu alto cargo. Só os mais atentos reparariam no anel episcopal de ouro de catorze quilates com a ametista púrpura, os grandes diamantes e a aplicação de ouro com a forma de uma mitra um báculo trabalhada à mão. Pôs o saco de viagem ao ombro, rezou uma oração silenciosa e saiu do apartamento, descendo no elevador até ao vestíbulo onde o motorista esperava para levá-lo ao aeroporto.

Pouco depois, instalado a bordo de um voo comercial com destino a Roma, contemplava, através da janela, o escuro Atlântico. O Sol já se tinha posto, mas Aringarosa sabia que a sua própria estrela estava em ascensão. Esta noite, a batalha será ganha, pensou, espantado pelo facto de, apenas meses antes, se ter sentido impotente contra as mãos que ameaçavam destruir o seu império.

 Como presidente-geral da Opus Dei, o bispo Aringarosa passara a última década da sua vida a divulgar a mensagem da Obra de Deus - literalmente, Opus Dei. A congregação, fundada, em 1928, pelo padre espanhol Josemaría Escrivá, promovia o regresso aos valores católicos tradicionais e encorajava os seus membros a fazer grandes sacrifícios pessoais para poderem levar a cabo a Obra de Deus.

 A filosofia tradicionalista da Opus Dei começara por lançar raízes na Espanha anterior ao regime de Franco, mas, com a publicação, em 1934, do livro espiritual de Escrivá, Caminho - 999 pontos de meditação para fazer na vida a Obra de Deus -, a mensagem alastrara a todo o mundo. Agora, com mais de quatro milhões de exemplares de O Caminho publicados em quarenta e duas línguas, a Opus Dei era uma força global. Tinha residências, centros de ensino e até universidades em todas as principais metrópoles da Terra. A Opus Dei era, a nível mundial, a organização católica que apresentava a mais elevada taxa de crescimento e a situação financeira mais firme. Infelizmente, como Aringarosa depressa descobrira, numa era de cinismo religioso, cultos e tele-evangelistas, o poder e a riqueza de que dispunha eram também um íman que atraía suspeitas.

 - Muitos consideram-vos um culto alienante. Outros chamam-vos uma sociedade secreta cristã ultraconservadora. Qual destas coisas é a Opus Dei? -, perguntavam com frequência os jornalistas, em tom de provocação.

 - Nem uma, nem outra -, respondia pacientemente o bispo. - Somos uma Igreja Católica. Somos uma congregação de católicos que escolheram como sua prioridade seguir a doutrina católica nas nossas vidas quotidianas o mais rigorosamente que pudermos.

 - A Obra de Deus incluirá necessariamente votos de castidade, o pagamento do dízimo e a penitência pelos pecados através da autoflagelação e do uso de cilícios?

 - Está a descrever apenas uma pequena parte da população da Opus Dei -, dizia o bispo. - Há muitos níveis de envolvimento.

Milhares de membros da Opus Dei são casados, têm família e fazem Obra de Deus no seio das suas próprias comunidades. Outros preferem viver em ascetismo na clausura das nossas residências. Estas escolhas são pessoais, mas todos na Opus Dei partilhamos o objectivo de tornar o mundo melhor fazendo a Obra de Deus. É certamente um propósito admirável.

 Ah, mas a razão raramente resultava. Os media gravitavam para o escândalo, e a Opus Dei, como a maior parte das grandes organizações, contava entre os seus membros algumas almas perdidas que lançavam uma sombra sobre todo o conjunto.

 Dois meses antes, um grupo da congregação numa universidade do Midwest fora apanhado a drogar novos recrutas com mescalina na tentativa de induzir um estado eufórico que os neófitos tomassem por uma experiência religiosa. Um outro estudante universitário usara o seu cilício durante mais tempo do que as recomendadas duas horas diárias e contraíra uma infecção que quase o matara. Em Boston, bastante recentemente, um jovem e desiludido banqueiro doara as poupanças de uma vida inteira à Opus Dei antes de tentar suicidar-se.

 Ovelhas tresmalhadas, pensava Aringarosa, e o seu coração voava para eles.

 O grande embaraço fora, claro, o muito publicitado julgamento do espião do FBI Robert Hanssen, que, além de ser um proeminente membro da Opus Dei, acabara por se revelar culpado de práticas sexuais desviantes. No julgamento, ficara provado que equipara o seu quarto com câmaras de vídeo escondidas para que os amigos pudessem vê-lo a ter relações com a mulher. "O que dificilmente se poderá considerar um passatempo adequado a um católico devoto", observara o juiz.

 Infelizmente, todos estes acontecimentos tinham ajudado ao aparecimento de um novo grupo de vigilância conhecido como Opus Dei Awareness Network (ODAN). O concorridíssimo website deste grupo - www.odan.org - publicava histórias assustadoras narradas por ex-membros que alertavam para o perigo de aderir à organização. Os meios de comunicação referiam-se agora à Opus Dei como "a Máfia de Deus" e "o Culto de Cristo".

 Receamos aquilo que não compreendemos, pensou Aringarosa, Perguntando a si mesmo se aqueles críticos fariam alguma ideia quantas vidas a Opus Dei tinha enriquecido. O grupo gozava do pleno aval e da bênção do Vaticano. A Opus Dei é uma prelatura pessoal do próprio Papa.

 Recentemente, no entanto, vira-se ameaçada por uma força infinitamente mais poderosa do que os media.... um inimigo inesperado do qual Aringarosa não tinha meio de se esconder. Cinco meses antes, o caleidoscópio do poder fora sacudido, e Aringarosa estava ainda a refazer-se do golpe.

 - Nem imaginam a guerra em que se meteram -, murmurou o bispo para si mesmo, olhando através da janela do avião para o negro oceano lá em baixo. Por um instante, refocou os olhos, demorando-os no reflexo do seu próprio rosto - escuro e oblongo, dominado por um nariz achatado e adunco, partido por um murro quando era um jovem missionário, em Espanha. Uma deficiência física que ele quase já não notava. O mundo de Aringarosa era o mundo da alma, não o da carne.

 Quando o avião sobrevoava a costa de Portugal, o telemóvel começou a vibrar no bolso da sotaina de Aringarosa, com o sinal sonoro desligado. Mal-grado as regras da companhia que proibiam o uso de telefones celulares durante o voo, Aringarosa sabia que aquela era uma chamada que não podia perder. Apenas um homem conhecia aquele número, o mesmo que lhe enviara o telefone pelo correio.

 Excitado, o bispo respondeu em voz baixa:

 - Sim?

 - O Silas localizou a Chave de Abóbada - disse a voz. - Está em Paris. Na igreja de Saint-Sulpice.

 O bispo Aringarosa sorriu.

 - Então estamos perto.

 - Podemos consegui-la imediatamente. Mas precisamos da sua influência.

 - com certeza. Diga-me o que devo fazer.

 Quando desligou o telemóvel, Aringarosa tinha o coração a bater com força. Olhou mais uma vez para o vazio da noite, sentindo-se um anão face aos acontecimentos que acabava de desencadear.

 

 A oitocentos quilómetros dali, o albino chamado Silas, inclinado para uma pequena bacia cheia de água, lavava o sangue que lhe escorria das costas, observando os esfiapados padrões de vermelho que se desenhavam no líquido. Purga-me com o hissope e ficarei limpo, rezou, citando os Salmos. Lava-me, e ficarei mais branco do que a neve.

 Silas sentiu uma excitação expectante que não experimentava desde os tempos da sua antiga vida, uma excitação que o surpreendeu e ao mesmo tempo o electrizou. Havia já uma década que seguia O Caminho, lavando-se do pecado... reconstruindo a sua vida... apagando a violência do seu passado. Naquela noite, porém, tudo voltara, numa vaga avassaladora. O ódio que tanto se esforçara por enterrar fora chamado à superfície. Ficara espantado pela rapidez com que o passado ressurgira. E com ele, claro, tinham regressado as suas capacidades, enferrujadas mas utilizáveis.

 A mensagem de Jesus é uma mensagem de paz... de não-violência... de amor. Era esta a mensagem que lhe tinham ensinado desde o início, a mensagem que gravara no coração. E no entanto, era esta a mensagem que os inimigos de Cristo ameaçavam agora destruir. Aqueles que ameaçam Deus com a força, encontrarão a força. Inamovível e firme.

 Durante dois milénios, os soldados de Cristo tinham defendido a sua fé contra aqueles que tentavam destruí-la. Naquela noite, Silas fora chamado à batalha.

 Depois de secar as feridas, vestiu o hábito que lhe chegava aos tornozelos. Era grosseiro, feito de lã escura, que lhe acentuava a brancura da pele e dos cabelos. Amarrou a corda à volta da cintura, cobriu a cabeça com o capuz e permitiu-se um instante para observar o seu reflexo no espelho. As rodas começaram a girar.

 

 Depois de ter passado por baixo da grade de segurança, Robert Langdon deteve-se à entrada da Grande Galeria, a olhar para a boca de um longo e fundo desfiladeiro. De ambos os lados, as paredes erguiam-se a nove metros de altura, fundindo-se na escuridão, lá em cima. O clarão avermelhado das luzes de serviço parecia elevar-se do chão, banhando numa luminosidade irreal a deslumbrante colecção de da Vincis, Ticianos e Caravaggios suspensos do tecto por meio de cabos. Naturezas-mortas, cenas religiosas e paisagens faziam companhia a retratos de nobres e políticos.

 Apesar de a Grande Galeria albergar as mais famosas peças da arte italiana, muitos dos visitantes achavam que o que nela havia de mais impressionante era na realidade o seu famoso soalho de parquet. Disposto num estonteante desenho geométrico de placas de carvalho em diagonal, o soalho produzia uma efémera ilusão de óptica - uma rede multidimensional que dava ao visitante a impressão de flutuar através da galeria sobre uma superfície que se transformava a cada passo.

 Os olhos de Langdon, que seguiam o traçado dos embutidos de madeira, detiveram-se abruptamente num inesperado objecto caído no chão poucos metros à sua esquerda, isolado por fita da Polícia.

 Voltou-se para Fache.

 - Aquilo ali no chão... é um Caravaggio?

 O capitão assentiu, sem sequer olhar.

 O quadro, calculou Langdon, valia mais de dois milhões de dólares, e no entanto ali estava, caído no chão, como um cartaz que alguém tivesse deitado fora.

- Que raio está a fazer no meio do chão?

 Fache lançou-lhe um olhar severo, claramente nada impressionado.

 - Isto é aquilo a que se chama um local do crime, senhor Langdon. Não tocámos em nada. Aquela tela foi arrancada da parede pelo conservador Saunière. Foi assim que ele activou o sistema de segurança.

 Langdon olhou para a grade, tentando reconstituir mentalmente o que acontecera.

 - Monsieur Saunière foi atacado no seu gabinete, conseguiu fugir para a Grande Galeria e activou a grade de segurança arrancando o quadro da parede. A grade desceu imediatamente, selando a galeria. Esta é a única porta de entrada e de saída.

 Langdon estava confuso.

 - Quer dizer com isso que o senhor Saunière encurralou o atacante dentro da galeria?

 Fache abanou a cabeça.

 - A grade de segurança separou o conservador Saunière do seu atacante. O assassino ficou no corredor e atingiu monsieur Saunière a tiro através da grade. - Apontou para uma etiqueta cor de laranja presa a uma das barras da grade por baixo da qual acabavam de passar. - A equipa PTC encontrou resíduos de pólvora de uma arma. Disparou através da grade. Monsieur Saunière morreu sozinho, aqui dentro.

 Langdon recordou a fotografia do corpo de Saunière. Dizem que fez aquilo a si mesmo. Olhou para o interminável corredor que se estendia diante deles.

 - Onde está então o corpo?

 Fache endireitou o seu cruciforme alfinete de gravata e começou a caminhar.

 - Como provavelmente sabe, a Grande Galeria é muito comprida.

 O comprimento exacto, se Langdon bem recordava, era de cerca de  quatrocentos e cinquenta metros, o equivalente a três Washington Monuments postos a seguir uns aos outros. E a largura do corredor era igualmente impressionante, podendo com toda a facilidade acomodar dois comboios de passageiros lado-a-lado. Ao longo do centro, a espaços irregulares, distribuíam-se estátuas ou grandes urnas de porcelana, que faziam o papel de separador e obrigavam o fluxo de visitantes a fazer-se num sentido e no outro junto a paredes opostas.

 Fache mantinha-se silencioso, avançando a passo rápido pelo lado direito da galeria, o olhar fixo em frente. Langdon sentia que era quase uma falta de respeito passar diante de tantas obras-primas sem fazer uma pausa, quanto mais não fosse para um olhar.

 Não que conseguisse ver qualquer coisa com esta luz, pensou.

 O mortiço clarão avermelhado trouxe-lhe infelizmente à memória recordações da sua última experiência com iluminação não-invasiva nos Arquivos Secretos do Vaticano. Era já o segundo e perturbador paralelo com a sua quase mortal aventura em Roma. Voltou a pensar em Vittoria. Estivera ausente dos seus sonhos durante meses. Mal conseguia acreditar que Roma tivesse sido apenas um ano antes; pareciam-lhe décadas. Uma outra vida. A última vez que soubera dela, fora em Dezembro: um postal a dizer que ia a caminho do mar de Java para prosseguir as suas pesquisas... qualquer coisa relacionada com o uso de satélites para monitorizar as migrações das mantas. Langdon não alimentara ilusões a respeito de uma mulher como Vittoria Vetra pudesse ser feliz a viver num campus universitário, mas o encontro de Roma despertara nele desejos que nunca imaginara poder sentir. A afinidade de uma vida inteira com o celibato e as liberdades simples que permitia fora de alguma maneira abalada... substituída por um inesperado vazio que parecia ter crescido durante o último ano.

 Continuaram a avançar, sem que Langdon visse qualquer corpo.

 - O Jacques Saunière veio até tão longe?

 - Monsieur Saunière sofreu um ferimento de bala no estômago. Morreu muito lentamente. Talvez mais de quinze ou vinte minutos. Era obviamente um homem de grande força pessoal.

 Langdon voltou-se para ele, estupefacto.

 - A segurança demorou vinte minutos a chegar aqui?

 - Claro que não. Os seguranças do museu responderam imediatamente ao alarme e encontraram a Grande Galeria selada. Através da grade, ouviram alguém a mexer-se na extremidade mais distante do corredor, mas não conseguiam ver quem era. Gritaram, mas não obtiveram resposta. Assumindo que só podia tratar-se de um criminoso, seguiram o protocolo e chamaram a Polícia Judiciária.

Ocupámos as nossas posições quinze minutos mais tarde. Quando chegámos, erguemos a grade apenas o suficiente para podermos cassar por baixo dela, e mandei uma dúzia de agentes armados para o interior. Percorreram toda a galeria, com o objectivo de encurralar o intruso.

 - E?

 - Não encontraram ninguém cá dentro. Excepto... - apontou mais para o fundo do corredor - ele.

 Langdon ergueu os olhos e seguiu a direcção do dedo estendido de Fache. De início, pensou que o capitão estava a apontar para uma grande estátua de mármore colocada no meio da galeria. Mas, continuando a avançar, começou a ver para lá da estátua. Trinta metros mais à frente, um projector isolado montado num suporte apontava para o chão, criando uma crua mancha de luz branca na avermelhada escuridão circundante. No centro da poça de luz, como um insecto sob as lentes de um microscópio, o corpo do conservador Saunière jazia nu no chão de parquet.

 - Viu a fotografia - disse Fache -, de modo que isto não constituirá surpresa.

 Langdon sentiu um grande frio entranhar-se-lhe nos ossos à medida que se aproximavam do corpo. À sua frente, estava uma das mais estranhas imagens que alguma vez vira.

 

 O pálido cadáver de Jacques Saunière jazia no soalho de parquet exactamente como aparecia na foto. Debruçado para ele, de olhos semicerrados por causa da luz, Langdon recordou a surpresa que sentira ao saber que Saunière passara os últimos dez minutos de vida a dispor o seu próprio corpo daquela estranha maneira.

 O conservador parecia notavelmente vigoroso para um homem da sua idade... e toda a sua musculatura estava bem à vista. Despojara-se de todas as peças de roupa, que deixara cuidadosamente dobradas no chão, e deitara-se de costas no centro da larga galeria, perfeitamente alinhado com o eixo do corredor. Tinha os braços e as pernas bem abertos e esticados para fora, como uma criança a preparar-se para dar um chapão numa piscina... ou, talvez mais exactamente, como um homem a ser esquartelado por uma qualquer força invisível.

Logo abaixo do esterno, uma mancha de sangue assinalava o ponto onde a bala trespassara a carne. A ferida sangrara surpreendentemente pouco, deixando apenas uma pequena poça de sangue escuro.

 Também o indicador da mão esquerda estava ensanguentado. Aparentemente, Saunière mergulhara-o na ferida para criar o mais perturbador aspecto da tétrica cena; usando o seu próprio sangue como tinta e a pele nua do ventre como tela, desenhara um símbolo simples: cinco segmentos de recta que se intersectavam para formar uma estrela de cinco pontas.

 O pentáculo.

 A estrela sangrenta, centrada no umbigo, dava ao cadáver uma irrecusável aura demoníaca. A foto que vira era já suficientemente arrepiante, mas agora, ao testemunhar aquilo em pessoa, Langdon sentiu um mal-estar crescente.

 Jacques Saunière fez isto a si mesmo.

 - Senhor Langdon? - Os olhos escuros de Fache estavam cravados nele.

 - É um pentáculo - disse Langdon, com uma voz que soou cava naquele espaço enorme. - Um dos símbolos mais antigos do mundo. Já era usado quatro mil anos antes de Cristo.

 - E que significa?

 Langdon hesitava sempre que lhe faziam aquela pergunta. Explicar a alguém o que um símbolo "significava" era como dizer-lhe como uma determinada canção devia fazê-lo sentir-se - era diferente de pessoa para pessoa. Nos Estados Unidos, um capuz branco do Ku Klux Klan evocava imagens de ódio e racismo, ao passo que, em Espanha, a mesma indumentária tinha um significado de fé religiosa.

 - Os símbolos têm significados diferentes em contextos diferentes - disse. - Essencialmente, o pentáculo é um símbolo religioso pagão.

 Fache assentiu.

 - Culto do diabo.

 - Não - corrigiu Langdon, apercebendo-se imediatamente de que a sua escolha de palavras devia ter sido mais clara.

 Actualmente, o termo pagão tornara-se quase sinónimo de culto do diabo - uma interpretação grosseiramente errada. Na realidade, as raízes da palavra remontavam ao latim paganus, que significa habitantes do campo. Os "pagãos" eram literalmente pessoas do campo não doutrinadas que continuavam agarradas às antigas religiões rurais do culto da Natureza. Tão forte era, de facto, o medo que a Igreja tinha dos habitantes das aglomerações rurais que o outrora inócuo termo "vilão" - o que vive numa aldeia ou vila - acabara por designar uma pessoa má.

 - O pentáculo - esclareceu Langdon - é um símbolo pré-cristão relacionado com o culto da Natureza. Os antigos imaginavam o mundo em que viviam dividido em duas metades: masculino e feminino. Os seus deuses e deusas esforçavam-se por manter o equilíbrio de poder. Yin e Yang. Quando o masculino e o feminino estavam equilibrados, havia harmonia no mundo. Quando se desequilibravam, havia caos. - Apontou para o estômago de Saunière.

 - Este pentáculo representa o lado feminino de todas as coisas... um conceito a que os historiadores da religião chamam "sagrado feminino" ou "deusa divina". Jacques Saunière sabê-lo-ia melhor do que ninguém.

 - Monsieur Saunière desenhou o símbolo de uma deusa no estômago?

 Langdon teve de admitir que parecia estranho.

 - Na sua interpretação mais específica, o pentáculo simboliza Vénus... a deusa do amor sexual e da beleza femininos.

 Fache olhou para o homem nu e resmungou qualquer coisa.

 - A religião antiga baseava-se na ordem divina da Natureza. A deusa Vénus e o planeta Vénus eram uma e a mesma coisa. A deusa tinha o seu lugar no céu nocturno e era conhecida por muitos nomes: Vénus, Estrela do Oriente, Ishtar, Astarte..., todos eles poderosos conceitos femininos com ligações à Natureza e à Mãe Terra.

 Fache parecia ainda mais perturbado, como se de algum modo preferisse a ideia do culto do diabo.

 Langdon decidiu não lhe revelar a mais surpreendente propriedade do pentáculo: a origem gráfica da sua ligação a Vénus. Ainda jovem estudante de Astronomia, ficara estupefacto ao saber que o planeta Vénus traçava, de oito em oito anos, um pentáculo perfeito céu eclíptico. Tão espantados tinham os Antigos ficado ao observar o fenómeno, que Vénus e o seu pentáculo se tornaram símboLo de perfeição, beleza e das qualidades cíclicas do amor sexual. Num tributo à magia de Vénus, os Gregos usavam o seu ciclo de oito anos para organizar os Jogos Olímpicos. Actualmente, poucas pessoas sabem que o calendário quadrienal das Olimpíadas modernas continua a seguir os meios-ciclos de Vénus. E menos ainda sabem que a estrela de cinco pontas esteve muito perto de se tornar o emblema olímpico oficial, tendo sido substituída à última hora pelos cinco anéis entrelaçados, que reflectem melhor o espírito de inclusão e harmonia dos Jogos.

 - Senhor Langdon - disse Fache, abruptamente -, é evidente que o pentáculo tem também de estar relacionado com o diabo. Os vossos filmes de terror deixam esse ponto bem claro.

 Langdon franziu o sobrolho. Obrigado, Hollywood. A estrela de cinco pontas tornara-se um chavão praticamente obrigatório nos filmes a respeito de assassinos psicopatas satânicos, geralmente desenhada nas paredes do apartamento de um qualquer satanista juntamente com outra pretensa simbologia demoníaca. Langdon ficava sempre frustrado quando via o símbolo neste contexto; as verdadeiras origens do pentáculo eram na realidade até muito divinas.

 - Garanto-lhe - disse - que, a despeito do que possa ver nos filmes, a interpretação demoníaca do pentáculo é historicamente inexacta. O significado original feminino é correcto, mas o simbolismo do pentáculo tem sido distorcido ao longo dos milénios. Neste caso, através do derramamento de sangue.

 - Receio não estar a compreender.

 Langdon olhou para o crucifixo de Fache, sem saber muito bem como expor o que queria dizer.

 - A Igreja, meu caro senhor. Os símbolos são muito resistentes, mas o pentáculo foi alterado pela Igreja Católica primitiva. No âmbito das campanhas do Vaticano para erradicar as religiões pagãs e converter as massas ao cristianismo, a Igreja lançou uma campanha de difamação contra os deuses e deusas pagãos, apresentando os respectivos símbolos como ligados ao mal.

 - Continue.

 - É um expediente muito comum em épocas de agitação. O novo poder emergente apodera-se dos símbolos existentes e degrada-os ao longo do tempo numa tentativa de apagar-lhes o significado. Na batalha entre os símbolos pagãos e os símbolos cristãos, os pagãos foram derrotados; o tridente de Posídon tornou-se a forquilha do diabo, o chapéu pontiagudo da mulher sábia passou a ser o emblema da bruxa, e o pentáculo de Vénus converteu-se no sinal do diabo. - Langdon fez uma pausa. - Infelizmente, também a instituição militar americana perverteu o pentáculo, que é hoje um dos principais símbolos da guerra. Pintamo-lo nos nossos caças a jacto e usamo-lo nos ombros dos nossos generais. - Triste sorte para a deusa do amor e da beleza.

 - Interessante. - Fache fez um sinal na direcção do cadáver

de pernas e braços abertos. - E a posição do corpo? Como a interpreta?

 Langdon encolheu os ombros.

 - A posição apenas reforça a referência ao pentáculo e ao sagrado feminino.

 A expressão de Fache ensombreceu.

 - Desculpe?

 - Repetição. Repetir um símbolo é a maneira mais simples de reforçar-lhe o significado. Jacques Saunière colocou-se na forma de uma estrela de cinco pontas. - Se um pentáculo é bom, dois pentáculos é melhor.

 Fache seguiu com os olhos os cinco pontos definidos pela cabeça, mãos e pés do cadáver e voltou a passar a mão pelos cabelos cheios de gel.

 - Uma análise interessante. - Fez uma pausa. - E a nudez? - Quase que grunhiu a palavra, parecendo achar repelente a visão do corpo de um velho. - Porque foi que ele se despiu?

 Boa pergunta, pensou Langdon. Andava a remoê-la desde que vira a fotografia. O seu melhor palpite era que um corpo humano nu constituía mais uma referência a Vénus, a deusa da sexualidade humana. Apesar de a cultura moderna ter eliminado a maior parte da associação de Vénus à união física homem/mulher, um olho etimológico atento conseguia ainda distinguir vestígios do significado original de Vénus na palavra "venérea". Langdon decidiu não ir por aí.

 - Senhor Fache, não posso obviamente dizer-lhe porque foi que o senhor Saunière desenhou esse símbolo no seu próprio ventre nem porque se colocou dessa maneira, mas posso dizer-lhe que um homem como Jacques Saunière consideraria o pentáculo como sinal da divindade feminina. A correlação entre este símbolo e o sagrado feminino é bem conhecida dos historiadores de arte e dos simbologistas.

- Muito bem. E o uso do seu próprio sangue como tinta?

 - Obviamente, não tinha mais nada com que escrever. Fache manteve-se silencioso por instantes.

 - Na realidade, estou convencido de que usou sangue para que a Polícia pudesse seguir certos procedimentos forenses.

 - Perdão?

 - Olhe para a mão esquerda dele.

 Langdon examinou o pálido braço do conservador desde o cotovelo até à mão, mas nada viu. Inseguro, contornou o corpo e ajoelhou-se, notando então, surpreendido, que Saunière segurava entre os dedos um grande marcador de ponta de feltro.

 - Tinha-o na mão quando o encontrámos - disse Fache, afastando-se alguns metros até uma pequena mesa portátil coberta de ferramentas de investigação, cabos e vários aparelhos electrónicos.

 - Como lhe disse - continuou, procurando entre os objectos que cobriam a mesa -, não tocámos em nada. Conhece esse tipo de caneta?

 Langdon inclinou-se um pouco mais para ver a marca.

 STYLO DE LUMIERE NOIRE.

 Ergueu os olhos, surpreendido.

 A caneta de luz negra, ou de marca de água, era um marcador de ponta de feltro especial originariamente concebido para ser usado pelos museus, restauradores e Polícia para pôr marcas invisíveis nos mais variados objectos. Utilizava uma tinta à base de álcool, fluorescente e não corrosiva, visível apenas à luz negra. Actualmente, o pessoal de manutenção dos museus usava-as nas suas rondas diárias para marcar as molduras dos quadros que necessitassem de ser restaurados.

 Enquanto Langdon se punha de pé, Fache aproximou-se do projector e desligou-o. A galeria mergulhou numa súbita escuridão.

 Momentaneamente cego, Langdon sentiu-se invadir por uma crescente incerteza. A silhueta de Fache reapareceu, iluminada por uma intensa luz púrpura. Aproximou-se, transportando uma fonte de luz portátil que o envolvia numa névoa violeta.

 - Como talvez saiba - disse, com os olhos a brilhar no clarão violeta -, a Polícia usa a luz negra para investigar locais de crimes em busca de sangue e outras provas científicas. Pode, pois, imaginar a nossa surpresa... - Repentinamente, apontou a luz para o cadáver.

Langdon olhou para baixo e deu um salto para trás.

 O coração batia-lhe descompassadamente enquanto contemplava a estranha visão que brilhava à sua frente no soalho de parquet. Traçadas em letras luminescentes, as derradeiras palavras de Jacques Saunière refulgiam em tons púrpura ao lado do cadáver. Ao ver o que ali estava escrito, Langdon sentiu o nevoeiro que envolvera toda aquela noite tornar-se ainda mais denso.

 Voltou a ler a mensagem e ergueu os olhos para Fache.

 - Que raio é que isto significa?

 Os olhos de Fache cintilaram com um brilho branco.

 - Essa é, monsieur, precisamente a pergunta a que pretendo que responda.

 

 Não muito longe dali, no gabinete de Saunière, o tenente Collet, que regressara ao Louvre, estava inclinado para a consola de um rádio pousado em cima da enorme secretária do conservador. Com excepção da estranha figura do pequeno guerreiro medieval que parecia observá-lo de um canto da secretária, sentia-se perfeitamente à-vontade. Ajustou os auscultadores e verificou os níveis de entrada no sistema de gravação do disco rígido. Tudo no verde. Os microfones funcionavam perfeitamente e a recepção era impecável.

 Le moment de véríté, murmurou.

 Sorrindo, fechou os olhos e acomodou-se para saborear o resto da conversa que estava a ser gravada no interior da Grande Galeria.

 

 O modesto apartamento dentro da igreja de Saint-Sulpice situava-se no segundo piso, à esquerda da varanda do coro. Duas divisões com chão de pedra e um mínimo de mobiliário que serviam de casa à irmã Sandrine Biel havia mais de uma década. O convento, ali próximo, fora a sua anterior residência, mas ela preferia o silêncio e a calma da igreja e instalara-se muito confortavelmente com uma cama, um telefone e um aquecedor.

 Como conservatrice d'affaires da igreja, a irmã Sandrine era responsável por todos os aspectos não religiosos do funcionamento do templo - manutenção geral, contratar pessoal de apoio e guias, encomendar abastecimentos como vinho para a eucaristia e hóstias.

 Naquela noite, adormecida na sua estreita cama, foi acordada pelo retinir estridente da campainha do telefone. Ensonada, levantou o auscultador.

 - Soeur Sandrine. Église Saint-Sulpice.

 - Olá, irmã - disse o homem, em francês.

 A irmã Sandrine sentou-se na cama. Que horas são? Reconheceu a voz do chefe, apesar de, em quinze anos, nunca ter sido acordada por ele. O abade era um homem profundamente piedoso, que ia para casa e para a cama logo a seguir à missa.

 - Peço desculpa por tê-la acordado, irmã - continuou o abade, parecendo ele próprio um pouco confuso e nervoso. - Tenho de lhe pedir um favor. Acabo de receber uma chamada de um influente bispo americano. Talvez o conheça? Manuel Aringarosa?

 - O chefe da Opus Dei? - Claro que o conheço. Quem, na Igreja, o não conhece? A prelatura conservadora de Aringarosa crescera em poder nos últimos anos. A sua ascensão ao estado de graça fora em 1982, quando João Paulo II a elevara inesperadamente "prelatura pessoal do Papa", sancionando oficialmente todas as práticas. Por uma coincidência que não podia ser inocente, a elevação da Opus Dei ocorrera no mesmo ano em que a riquíssima seita alegadamente transferira quase mil milhões de dólares para o Instituto do Vaticano para as Obras Religiosas - vulgarmente conhecido como Banco do Vaticano - salvando-o de uma embaraçosa bancarrota. Numa segunda manobra que fizera arquear mais de uma sobrancelha, o Papa pusera o fundador da Opus Dei na "via-rápida" para a santidade, reduzindo um período de espera pela canonização que com frequência se arrastava por um século a uns meros vinte anos. A irmã Sandrine não conseguia impedir-se de pensar que o estudo de graça de que a Opus Dei gozava em Roma era suspeito, mas com a Santa Sé não se discutia.

 - Sua Eminência o bispo Aringarosa telefonou-me a pedir um favor - explicou o abade, nervosamente. - Um dos seus numerários está esta noite em Paris...

 Enquanto ouvia o estranho pedido, a irmã Sandrine sentia-se cada vez mais confusa.

 - Desculpe, está a dizer que esse numerário não pode esperar até amanhã?

 - Receio que não. O avião parte muito cedo. E ele sempre sonhou ver Saint-Sulpice.

 - Mas a igreja é muito mais interessante durante o dia. Os raios de sol a entrarem pelo óculo, as sombras graduadas do gnómon, é isso que torna Saint-Sulpice única.

 - Concordo, irmã. No entanto, consideraria um favor especial se o deixasse entrar hoje à noite. Ele pode aí estar... digamos, à uma? entro de vinte minutos.

A irmã Sandrine franziu o sobrolho.

- Com certeza, terei muito gosto.

O abade agradeceu-lhe e desligou.

 Intrigada, a irmã Sandrine deixou-se ficar mais uns instantes no quente da cama, a tentar sacudir as teias de aranha do sono. O seu

corpo de sessenta anos já não acordava tão prontamente como noutros tempos, embora o telefonema daquela noite lhe tivesse sem dúvida excitado os sentidos. A Opus Dei sempre a fizera sentir-se pouco à vontade. Além da adesão da prelatura aos rituais arcanos da mortificação corporal, o modo como encarava as mulheres era, no mínimo, medieval. Ficara chocada ao saber que as numerárias eram obrigadas a limpar, enquanto eles estavam na missa, as residências dos homens, e ainda por cima sem qualquer espécie de renumeração; as mulheres dormiam em tarimbas de madeira, ao passo que os homens dispunham de enxergas de palha; e as mulheres tinham de sujeitar-se a exigências ainda mais estritas de mortificação corporal... tudo como penitência acrescida pelo pecado original. Aparentemente, a dentada que Eva dera na maçã do conhecimento era uma dívida que as mulheres estavam condenadas a pagar por toda a eternidade. Infelizmente, enquanto a maior parte das Igrejas Católicas estava a avançar na direcção certa no respeitante aos direitos das mulheres, a Opus Dei ameaçava inverter o processo. Fosse como fosse, a irmã Sandrine recebera as suas ordens.

 Fazendo rodar as pernas para fora da cama, pôs-se lentamente de pé, gelada pelo frio das pedras nos pés descalços. E à medida que o frio lhe subia pelo corpo, sentiu uma inesperada apreensão.

 Intuição feminina?

 Seguidora de Deus, a irmã Sandrine aprendera a encontrar paz nas vozes calmantes da sua própria alma. Naquela noite, porém, essas vozes mantinham-se silenciosas na igreja deserta que a rodeava.

 

 Langdon não conseguia desviar os olhos das palavras que brilhavam com uma luminescência violeta rabiscadas no soalho de parquet. A última comunicação de Jacques Saunière parecia-lhe o mais improvável como mensagem de despedida que conseguia imaginar.

 Dizia o seguinte:

 

13-3-2-21-1-1-8-5

O, Draconian devil!

Oh, lame saint!

 

 Embora não fizesse a mínima ideia do que aquilo significava, Langdon compreendia a intuição de Fache de que o pentáculo tinha qualquer coisa a ver com o culto do diabo.

 O, draconiano demónio!

 Saunière deixara uma referência explícita ao diabo. Não menos bizarra era a série de algarismos.

 - Uma parte parece um código numérico.

 - Sim - concordou Fache. - Os nossos criptografias já estão a trabalhar nisso. Acreditamos que esses números podem ser a chave

que nos conduzirá ao assassino. Talvez um número de telefone, ou

qualquer tipo de identificação social. Têm algum significado simbólico para si?

 Langdon voltou a olhar para os números, sentindo que ia demorar horas a tirar dali qualquer espécie de significado simbólico. Se é que era essa a intenção do Saunière. À primeira vista, os números pareciam perfeitamente aleatórios. Estava habituado a progressões simbólicas que fizessem alguma espécie de sentido, mas tudo ali -. o pentáculo, as palavras, os algarismos - parecia díspar ao nível mais fundamental.

 - Afirmou há pouco - disse Fache - que todas as acções do conservador Saunière aqui na Galeria fizeram parte de um esforço para deixar uma mensagem... culto da deusa, ou qualquer coisa nessa linha? Como é que essa mensagem encaixa no que aqui temos?

 Langdon sabia que a pergunta era retórica. Aquele estranho comunicado não encaixava de maneira nenhuma no seu cenário de culto da deusa.

 O, draconiano demónio? Oh, santo imperfeito?

 - O texto parece ser uma espécie de acusação - prosseguiu Fache. - Não concorda?

 Langdon tentou imaginar os minutos finais de Jacques Saunière, fechado na Grande Galeria, sabendo que estava prestes a morrer. Parecia lógico.

 - Uma acusação contra o seu assassino faz sentido, suponho.

 - O meu trabalho, claro, consiste em pôr um nome nessa pessoa. Deixe-me perguntar-lhe o seguinte, senhor Langdon. A seu ver, tirando os números, o que é que esta mensagem tem de mais estranho?

 Mais estranho? Um moribundo barricara-se na galeria, desenhara um pentáculo no próprio ventre e rabiscara uma misteriosa acusação no soalho. Tudo ali era estranho!

 - A palavra "draconiano"? - arriscou, dizendo a primeira coisa que lhe veio à cabeça. Langdon estava razoavelmente convencido de que uma referência a Draco, o implacável político do século VII a. C., era bastante improvável como último pensamento. - "Draconiano demónio" parece-me uma estranha escolha de palavras.

 - Draconiano? - A voz de Fache soou com uma nota de impaciência. - A escolha de palavras de monsieur Saunière está longe de parecer-me aqui a questão mais importante.

 Langdon não sabia muito bem que questão tinha Fache em mente, mas começou a suspeitar de que Draco e o capitão se teriam dado bastante bem.

 - Jacques Saunière era francês - continuou Fache, secamente.

 - Vivia em Paris. E no entanto, optou por escrever esta mensagem...

- Em inglês - terminou Langdon, compreendendo agora aonde o capitão queria chegar.

 Fache assentiu.

 - Précisément. Alguma ideia do motivo?

 Langdon sabia que Saunière falava impecavelmente inglês, mas não fazia a mínima ideia de que razão o levara a escolher essa língua a escrever as suas últimas palavras. Encolheu os ombros.

 Fache voltou a apontar para o pentáculo traçado no ventre do cadáver.

 - Nada a ver com o culto do diabo? Continua a ter a certeza?

Langdon já não tinha a certeza de coisa nenhuma.

 - A simbologia e o texto parecem não coincidir. Lamento não poder ajudá-lo mais.

 - Talvez isto torne as coisas um pouco mais claras. - Fache afastou-se do corpo e ergueu um pouco mais o projector de luz negra, fazendo o feixe incidir numa área maior. - E agora?

 Para espanto de Langdon, um círculo rudimentar brilhou à volta do cadáver do conservador. Aparentemente, Saunière deitara-se de costas e fizera rodar a caneta de feltro à sua volta numa série de longos arcos, como que inscrevendo-se num círculo.

 Num súbito relâmpago, o significado tornou-se claro.

 - O Homem de Vitrúvio - ofegou Langdon. Saunière criara uma réplica em tamanho natural do mais célebre desenho de Leonardo da Vinci.

Considerado o desenho anatomicamente mais correcto da sua época, O Homem de Vitrúvio de da Vinci tornara-se, nos tempos modernos, um ícone da cultura, aparecendo representado em cartazes, bases para copos e T-shirts por todo o mundo. O famoso desenho consistia num círculo perfeito no qual estava inscrita a figura de um homem nu... de braços e pernas estendidos e abertos.

 Da Vinci. Langdon sentiu um arrepio de espanto. A clareza das intenções de Saunière era inegável. Nos momentos finais da sua vida, o conservador do museu do Louvre despojara-se das roupas e dispusera o seu próprio corpo numa evidente reprodução de O Homem de Vitrúvio.

 O círculo fora o elemento crítico que faltara. Sendo um símbolo de Protecção feminino, o círculo à volta do corpo do homem nu completava a mensagem de da Vinci: harmonia entre o masculino e o feminino. A questão era agora, no entanto, descobrir por que razão Saunière imitara o famoso desenho.

 - Senhor Langdon - disse Fache -, sabe certamente que Leonardo da Vinci tinha uma tendência para as artes mais obscuras.

 Langdon ficou surpreendido pela extensão do conhecimento do polícia sobre da Vinci, um conhecimento que sem dúvida contribuía muito para explicar as suas suspeitas a respeito de um culto diabólico. Da Vinci sempre fora um tema embaraçoso para os historiadores, especialmente na tradição cristã. Apesar do seu génio visionário, era um homossexual assumido e um adorador da divina ordem da Natureza, dois "crimes" que o colocavam em perpétuo estado de pecado contra Deus. Além disso, as bizarras excentricidades do artista projectavam uma aura admissivelmente demoníaca: da Vinci exumava cadáveres para estudar a anatomia humana, mantinha misteriosos diários numa ilegível escrita invertida, acreditava possuir o poder alquímico de transformar o chumbo em ouro, julgava-se até capaz de enganar Deus criando um elixir que adiava a morte, e as suas invenções incluíam horríveis e nunca antes imaginados instrumentos de guerra e de tortura.

 A incompreensão gera desconfiança, pensou Langdon.

 Até a vastíssima produção de deslumbrante arte cristã de da Vinci só servira para reforçar a sua reputação de hipocrisia espiritual. Aceitando centenas de lucrativas encomendas do Vaticano, Leonardo pintava temas religiosos não como uma expressão das suas próprias crenças mas como uma operação comercial - uma maneira de financiar o estilo de vida opulento que apreciava. Infelizmente, da Vinci era um brincalhão que muitas vezes se divertia a morder pela calada a mão que o alimentava. Incorporava em muitos dos seus quadros religiosos simbolismos escondidos que eram tudo menos cristãos: tributos às suas próprias convicções e um subtil manguito feito à Igreja. Langdon dera inclusivamente, na National Gallery de Londres, uma conferência subordinada ao tema: "A Vida Secreta de Leonardo: O Simbolismo Pagão na Arte Cristã".

 - Compreendo a sua preocupação - disse -, mas da Vinci nunca chegou verdadeiramente a praticar qualquer espécie de artes negras. Era um homem excepcionalmente espiritual, ainda que em constante conflito com a Igreja. - E enquanto dizia estas palavras, um estranho pensamento acudiu-lhe ao espírito. Olhou novamente para a mensagem escrita no chão. Ó, draconiano demónio! Oh, santo imperfeito!

 - Sim - incitou Fache.

 Langdon pesou cuidadosamente as suas palavras.

 - Estava só a pensar que o conservador Saunière partilhava muitas ideologias espirituais com da Vinci, incluindo a preocupação a tentativa da Igreja de eliminar o sagrado feminino da religião moderna. É possível que, ao imitar o famoso desenho de da Vinci, estivesse apenas a expressar a frustração que ambos partilhavam relativamente à demonização da deusa que a Igreja moderna leva a cabo.

 Os olhos de Fache endureceram.

 - Acha que monsieur Saunière está a chamar à Igreja santo imperfeito e demónio draconiano?

 Langdon tinha de admitir que era um pouco forçado, embora o pentáculo parecesse, a um certo nível, dar força à ideia.

 - Estou apenas a dizer que o senhor Saunière dedicou a vida a estudar a história da deusa, e que nada nem ninguém contribuiu mais para apagar essa história do que a Igreja Católica. Parece-me razoável que tivesse tentado exprimir o desapontamento que sentia no seu último adeus.

 - Desapontamento? - perguntou Fache, agora abertamente hostil. - Esta mensagem parece mais enraivecida do que desapontada, diria eu.

 Langdon estava a chegar ao fim da paciência.

 - Capitão, pediu-me um palpite sobre o que o senhor Saunière poderia querer dizer, e é isso que lhe estou a dar.

 - Que isto é uma acusação à Igreja? - Fache contraiu a mandíbula, falando por entre os dentes cerrados. - Senhor Langdon, tenho visto muita morte neste meu trabalho, e deixe-me dizer-lhe uma coisa. Quando um homem é morto por outro homem, não acredito que o seu último pensamento seja escrever uma obscura afirmação espiritual que ninguém compreenderá. Acredito que pensa numa única coisa. - A voz sibilada do capitão cortou o ar. - La vengeance. Acredito que o conservador Saunière escreveu isto para nos dizer quem o matou.

 Langdon ficou a olhar para ele.

 - Mas não faz qualquer espécie de sentido.

- Não?

 - Não - ripostou, cansado e frustrado. - Disse-me que o Senhor Saunière foi atacado no seu gabinete por alguém que aparentemente tinha convidado para lá entrar.

 - Sim.

 - Parece, portanto, razoável assumir que o conservador Saunière conhecia o seu atacante.

 Fache assentiu.

 - Continue.

 - Se o senhor Saunière conhecia a pessoa que o matou, que espécie de acusação é esta? - Apontou para o chão. - Códigos numéricos? Santos imperfeitos? Demónios draconianos? Pentáculos desenhados na barriga? Tudo isto é demasiado críptico.

 Fache franziu a testa, como se a ideia nunca lhe tivesse ocorrido.

 - É verdade.

 - Considerando as circunstâncias - continuou Langdon -, julgo que se Saunière quisesse dizer-nos quem o matou, teria escrito o nome dessa pessoa.

 Quando Langdon acabou de dizer estas palavras, um sorriso de satisfação distendeu os lábios de Fache pela primeira vez em toda a noite.

 - Précisément - disse. - Précisément.

 

Estou a testemunhar o trabalho de um mestre, pensou o tenente Collet enquanto ajustava os auscultadores e escutava as palavras de Fache. O agent supérieur sabia que tinham sido momentos como aquele que tinham elevado Fache aos pináculos da Polícia francesa.

 O capitão Fache faz o que mais ninguém ousa fazer.

 A delicada arte de cajoler era uma habilidade que a moderna investigação policial deixara morrer, uma arte que exigia uma excepcional compostura sob pressão. Poucos homens possuíam o sang-froid necessário para este tipo de operação, mas, em Fache, era como uma capacidade inata. A sua contenção e paciência roçavam o robótico.

 A única emoção de Fache naquela noite parecia ser uma intensa determinação, como se capturar aquele criminoso fosse de algum modo uma questão pessoal. As instruções que dera aos seus agentes, uma hora antes, tinham sido inusitadamente sucintas e seguras. Sei quem assassinou o conservador Jacques Saunière, dissera. Sei o que tenho de fazer. Nada de erros, esta noite.

 E até ao momento, nenhum erro fora cometido.

 Collet ainda não conhecia as provas em que Fache baseava a sua certeza da culpabilidade do suspeito, mas sabia que mais valia não questionar os instintos do Touro. A intuição de Fache parecia por quase sobrenatural. Deus murmura-lhe ao ouvido, insistira certa vez um agente na sequência de uma demonstração particularmente impressionante do sexto sentido do capitão. Collet via-se forçado a admiti-lo: se havia um Deus, Fache fazia parte da sua lista especial de amigos. O capitão ouvia missa e confessava-se com zelosa regularidade - muito mais do que a frequência nos dias santos observada por outros altos funcionários em nome das boas relações públicas. Quando o Papa visitara Paris, alguns anos antes, Fache usara toda a sua influência para conseguir a honra de uma audiência, e agora tinha, pendurada na parede do gabinete, uma fotografia em que aparecia ao lado do pontífice. O Touro Papal, chamavam-lhe em segredo os seus subordinados.

 Collet achava irónico o facto de as raras tomadas de posição públicas de Fache nos últimos anos terem sido para manifestar a sua virulenta reacção ao escândalo da pedofilia praticada por sacerdotes. Esses padres deviam ser enforcados duas vezes!, declarara. Uma pelos seus crimes contra as crianças, outra por enlamearem o bom-nome da Igreja Católica. Collet tinha a estranha sensação de que era este último crime que mais enfurecia o capitão Fache.

 Voltando-se para o computador portátil, Collet passou a ocupar-se da outra metade das suas responsabilidades naquela noite: o sistema de localização GPS. A imagem no visor mostrava um plano pormenorizado da Ala Denon, fornecido pelo Gabinete de Segurança do Louvre. Seguindo com os olhos o labirinto de galerias e corredores, depressa encontrou o que procurava. Bem no coração da Grande Galeria, um minúsculo ponto vermelho piscava.

 La marque.

 Fache mantinha a sua presa com rédea curta. E por boas razões. Robert Langdon já provara ser um sujeito muito esperto.

 

 Para ter a certeza de que a sua conversa com o senhor Langdon não seria interrompida, Bezu Fache desligara o telemóvel. Infelizmente, tratava-se de um modelo dos mais caros, equipado com um rádio bi-direccional que, contrariando as suas ordens, um dos agentes estava naquele preciso instante a usar para contactá-lo.

 - Capitaine - crepitou o telefone, como um walkie-talkie.

 Fache cerrou os dentes, furioso. Não conseguia imaginar qualquer razão suficientemente importante para que Collet interrompesse aquela surveillance cachée, sobretudo num ponto tão decisivo.

 Dirigiu a Langdon um calmo olhar de desculpa.

 - Um momento, por favor. - Tirou o telefone do cinto e premiu o botão do rádio. - Oui?

 - Capitaine, un agent du Département de Cryptologie est arrivé. A fúria de Fache evaporou-se instantaneamente. Um criptólogo? Embora a escolha do momento tivesse sido péssima, tratava-se provavelmente de boas notícias. Depois de ter descoberto o críptico texto de Saunière no chão da Galeria, Fache enviara por computador fotos do local do crime para o Departamento de Criptologia, na esperança de que alguém conseguisse explicar-lhe o que estava o conservador a tentar dizer. A chegada do criptólogo devia significar que alguém conseguira decifrar a mensagem.

 - Neste momento estou ocupado - disse Fache, e o seu tom deixava bem claro que alguém tinha pisado uma linha. - Diga ao criptólogo que espere no posto de comando. Falarei com ele quando terminar.

 - Com ela - corrigiu a voz. - É a agente Neveu.

Fache estava a achar cada vez menos graça àquela chamada. Sophie Neveu era um dos maiores erros da DCPJ. Uma jovem déchiffreuse parisiense que estudara criptografia em Inglaterra, no Royal Holloway, Sophie Neveu fora impingida a Fache dois anos, no âmbito da tentativa do ministério de incorporar mais mulheres na força policial. Esta incursão do ministro no politicamente correcto estava, na opinião de Fache, a enfraquecer o Departamento. As mulheres não só não tinham as qualidades físicas exigidas pelo trabalho na Polícia, como a sua simples presença constituía uma perigosa distracção para os agentes em campo. Como Fache sempre temera, Sophie Neveu estava a revelar-se mais distraída do que a maior parte das suas colegas.

 Com trinta e dois anos, tinha uma determinação que raiava o obstinado. A sua entusiástica adesão à nova metodologia criptológica britânica exasperava os veteranos criptólogos franceses mais graduados. E, o que era de longe o aspecto mais perturbador para Fache, havia a inescapável verdade universal de que, num escritório cheio de homens de meia-idade, a presença de uma jovem atraente desviava inevitavelmente as atenções do trabalho em curso.

 - A agente Neveu insiste em falar consigo imediatamente, capitão - disse o homem que falava pelo rádio. - Tentei impedi-la, mas já vai a caminho da Galeria.

 Fache recuou um passo, incrédulo.

 - Isso é inaceitável! Dei ordens expressas...

 

 Por um instante, Robert Langdon pensou que Bezu Fache estava a sofrer uma apoplexia. O capitão ia a meio da frase quando parou de mover o queixo e esbugalhou os olhos, coruscantemente fixos num ponto acima do ombro dele. Antes que pudesse voltar-se, ouviu uma voz feminina dizer nas suas costas:

 - Excusez-moi, messieurs.

 Langdon completou a volta e viu uma jovem aproximar-se. Caminhava pelo corredor em direcção a eles com passadas longas e fluidas... e um ar de absoluta segurança. Vestia informalmente - um comprido camisolão de lã creme que lhe chegava aos joelhos e calças pretas -, era atraente e poderia andar por volta dos trinta anos - Os espessos cabelos castanhos caíam-lhe soltos sobre os ombros, emoldurando um rosto agradável. Ao contrário das falsas louras deslavadas que adornavam as paredes das cataratas de Harvard, aquela mulher era saudável, com uma beleza sem retoques e uma autenticidade que irradiavam uma autoconfiança impressionante.

 Para seu enorme espanto, a mulher avançou directamente para ele e estendeu-lhe a mão.

 - Monsieur Langdon, sou a agente Neveu, do Departamento de Criptologia da DCPJ. - As palavras pareciam enrolar-se agradavelmente à volta do ligeiro sotaque franco-inglês. - É um prazer conhecê-lo.

 Langdon apertou-lhe a mão macia e sentiu-se por um instante preso ao olhar dela. Tinha uns olhos verde-azeitona, incisivos e límpidos.

 Fache inspirou fundo, claramente a preparar-se para disparar uma reprimenda.

 - Capitão - disse ela, voltando-se rapidamente e adiantando-se-lhe -, peço desculpa pela interrupção, mas...

 - Ce n'est pas le moment! - rosnou Fache.

 - Tentei telefonar-lhe - continuou Sophie, falando em inglês, como que num gesto de cortesia para com Langdon -, mas o seu telemóvel estava desligado.

 - Desliguei-o por uma boa razão - sibilou Fache. - Estou a falar com o senhor Langdon.

- Decifrei o código numérico - anunciou ela, calmamente.

Langdon sentiu o pulso bater mais depressa. Decifrou o código?

Fache deu a impressão de não saber muito bem como reagir.

 - Antes de explicar - continuou Sophie -, tenho uma mensagem urgente para o senhor Langdon.

 O rosto de Fache adquiriu uma expressão de profunda contrariedade.

 - Para o senhor Langdon?

 Sophie assentiu, voltando-se de novo para Langdon.

 - A sua embaixada pede-lhe que entre em contacto, senhor Langdon. Têm uma mensagem para si, dos Estados Unidos.

 Langdon reagiu com surpresa. A excitação que sentira por causa do código deu lugar a uma vaga preocupação. Uma mensagem dos Estados Unidos? Tentou imaginar quem poderia estar a tentar entrar em contacto com ele. Só alguns colegas de Harvard sabiam que se encontrava em Paris.

 Fache contraiu a larga mandíbula ao ouvir a notícia.

 - A embaixada dos Estados Unidos? - perguntou, com um ar desconfiado. -  Como souberam eles que poderiam encontrar o senhor Langdon aqui?

 Sophie encolheu os ombros.

 - Aparentemente, telefonaram para o hotel e o concierge disse-lhes que o senhor Langdon tinha saído com um agente da DCPJ.

 Fache parecia confuso.

 - E a embaixada contactou o Departamento de Criptologia da DCPJ?

 - Não, senhor - respondeu Sophie, em tom firme. - Quando liguei para a central da DCPJ a tentar contactá-lo a si, tinham uma mensagem para o senhor Langdon e pediram-me que lha transmitisse, se conseguisse apanhá-lo.

 A testa de Fache cavou-se numa ruga de aparente confusão. Abriu a boca para falar, mas já Sophie tornara a voltar-se para Langdon.

 - Senhor Langdon - disse, tirando do bolso um pequeno pedaço de papel -, tenho aqui o número do serviço de mensagens da embaixada. Pedem-lhe que telefone logo que possa. - Entregou-lhe o papel, olhando-o fixamente. - É melhor fazer a chamada enquanto eu explico o código ao capitão Fache.

 Langdon estudou o pedaço de papel. Tinha um número de telefone de Paris e o de uma extensão.

 - Obrigado - disse, agora francamente preocupado. - Onde é que encontro um telefone?

 Sophie começou a extrair um telemóvel do bolso do camisolão, mas  Fache afastou-a com um gesto da mão. Parecia o Vesúvio pronto a entrar em erupção. Sem desviar os olhos de Sophie, pegou no seu próprio telemóvel e ofereceu-o.

 - Esta linha é segura, senhor Langdon, Pode usá-la.

 Langdon não conseguia perceber porque diabo estava Fache tão zangado com a jovem. Sentindo-se pouco à-vontade, aceitou o telemóvel. Fache arrastou imediatamente Sophie para alguns metros mais longe e pôs-se a descompô-la em voz baixa. Simpatizando cada vez menos com o capitão, Langdon voltou as costas à estranha confrontação e ligou o telemóvel. Depois de verificar o pedaço de papel que Sophie lhe tinha dado, marcou o número.

 Ouviu o sinal de chamada.

 Um toque... dois toques... três toques...

 Finalmente, a ligação foi estabelecida.

 Langdon esperava ouvir a telefonista da embaixada, mas, em vez disso, deu por si a escutar um atendedor automático. Estranhamente, reconheceu a voz gravada na fita. Era a de Sophie Neveu.

 - Bonjour, vous êtes bien chez Sophie Neveu - disse a voz de mulher. -Je suis absente pour le moment, mais...

Confuso, Langdon voltou-se para Sophie.

 - Desculpe, senhora Neveu? Julgo que deve ter-me dado...

 - Não, não, é o número correcto - interrompeu-o rapidamente Sophie, como se já estivesse à espera da confusão dele. A embaixada tem um sistema de mensagens automático. Tem de marcar um código de acesso para receber as suas mensagens.

 - Mas... - começou Langdon.

- É o número de três dígitos que está no papel que lhe dei.

 Langdon abriu a boca para explicar o estranho engano, mas Sophie lançou-lhe um olhar imperioso que durou apenas um instante. Os olhos verdes enviaram uma mensagem clara como a água:

 Não faça perguntas. Ligue.

 Cada vez mais confuso, Langdon marcou o número da extensão escrito no pedaço de papel: 454.

 A mensagem gravada de Sophie foi imediatamente interrompida e Langdon ouviu uma voz electrónica anunciar em francês: "Tem uma mensagem nova." Aparentemente, 454 era o código de acesso remoto de Sophie para ouvir as suas mensagens quando estava fora de casa.

 Vou ouvir as mensagens desta mulher?

 Langdon ouviu a fita rebobinar. Finalmente, parou, e a máquina voltou a arrancar. Langdon escutou. Mais uma vez, a voz era de Sophie.

 - "Senhor Langdon" - dizia, num tom temeroso -, "não reaja a esta mensagem. Limite-se a ouvir calmamente. Encontra-se em perigo neste preciso instante. Siga à risca as minhas instruções."

 

 Silas estava sentado ao volante do Audi preto que o Professor lhe arranjara, a olhar para a grande igreja de Saint-Sulpice. Iluminadas de baixo pela bateria de projectores, as duas torres sineiras erguiam-se como firmes sentinelas acima do comprido corpo do edifício. De ambos os flancos, mergulhadas na sombra, sobressaía uma fila de elegantes arcobotantes, como as costelas de um belo animal.

 Os infiéis usaram uma casa de Deus para esconder a Chave de Abóbada. Mais uma vez, a irmandade confirmara a sua lendária reputação de impostura e engano. Silas desejava ardentemente encontrar a Chave de Abóbada e entregá-la ao Professor, para que pudessem finalmente recuperar aquilo que a irmandade tinha havia tanto tempo roubado aos fiéis.

 Que poderosa vai tornar-se a Opus Dei.

 Estacionando o Audi na grande Place de Saint-Sulpice, deserta aquela hora, expeliu com força o ar dos pulmões, a fim de preparar o espírito para a tarefa que tinha pela frente. As amplas costas ainda lhe doíam da mortificação corporal a que se sujeitara havia pouco mais de uma hora, e no entanto essa dor era insignificante em comparação com a angústia da sua vida antes de a Opus Dei o ter salvado.

 Mesmo assim, as recordações assombravam-lhe a alma.

 Liberta o teu ódio, ordenou a si mesmo. Perdoa àqueles que te ofenderam.

 Ao olhar para as torres de pedra de Saint-Sulpice, Silas sentiu o seu tão conhecido refluxo... aquela força que tantas vezes lhe arrastava o espírito para trás no tempo, voltando a fechá-lo na prisão que fora o seu mundo quando jovem. As recordações do purgatório chegaram, como sempre faziam, como uma tempestade para os sentidos... o cheiro a couves podres, o fedor a morte, a urina e fezes humanas. Os gritos de desesperança a perderem-se no vento uivante dos Pirenéus e os soluços abafados de homens abandonados.

 Andorra, pensou, sentindo os músculos contraírem-se.

 Incrivelmente, fora naquele estéril e esquecido principado, entre a França e Espanha, a tiritar na sua cela de pedra, desejando apenas morrer, que tinha sido salvo.

 Embora na altura o não soubesse.

 O relâmpago veio muito depois do trovão.

 Nesse tempo não se chamava Silas, embora já não se lembrasse do nome que o pai e a mãe lhe tinham dado. Saíra de casa quando tinha sete anos. O pai alcoólico, um corpulento trabalhador das docas, furioso com a chegada de um filho albino, espancava regularmente a mulher, culpando-a a ela da embaraçadora condição do rapaz. E quando o filho tentava defender a mãe, era igualmente sovado.

 Uma noite, houve uma luta terrível, e a mãe não voltou a levantar-se. O rapaz ficou a contemplar o corpo sem vida, sentindo uma intolerável vaga de culpa por ter permitido que aquilo acontecesse.

 Sou eu o culpado!

 Como se uma espécie de demónio lhe controlasse o corpo, foi à cozinha e pegou numa grande faca de talhante. Hipnotizado, dirigiu-se ao quarto onde o pai jazia estendido na cama, mergulhado num estupor alcoólico. Sem dizer uma palavra, o rapaz cravou-lhe a faca nas costas. O pai gritou de dor e tentou voltar-se, mas o filho voltou a esfaqueá-lo, uma e outra vez, até que a casa ficou silenciosa.

 O rapaz fugiu de casa, mas encontrou as ruas de Marselha igualmente inóspitas. O seu aspecto estranho fazia dele um marginal entre os outros jovens foragidos, e foi obrigado a viver sozinho na cave de uma fábrica abandonada, comendo fruta roubada e peixe apanhado nas docas. As suas únicas companhias eram as esfarrapadas revistas que encontrava no lixo, e com elas aprendeu sozinho a ler. Com o tempo, tornou-se forte. Quando tinha doze anos, uma outra alma perdida, uma rapariga duas vezes mais velha, troçou dele na rua e tentou roubar-lhe a comida. O rapaz bateu-lhe quase até a matar. Quando o arrancaram de cima dela, as autoridades fizeram-lhe um ultimato: sair de Marselha ou ir para um reformatório.

O rapaz desceu a costa até Toulon. A medida que os anos passavam os olhares de piedade na rua transformaram-se em olhares de medo. O rapaz crescera, era agora um jovem poderosamente constituído. Quando as pessoas se cruzavam com ele, ouvia-as murmurar entre si. Um fantasma, diziam, de olhos muito abertos de medo ao verem-lhe a pele branca. Um fantasma com olhos de demónio!

 E ele sentia-se como um fantasma... transparente... flutuando de porto em porto.

 As pessoas pareciam olhar através dele.

 Aos dezoito anos, numa cidade portuária, quando tentava roubar uma caixa de presunto curado de um cargueiro, foi apanhado por dois tripulantes. Os dois marinheiros que começaram a bater-lhe cheiravam a cerveja, como o pai. As recordações de medo e de ódio subiram à superfície como um monstro vindo das profundezas. Partiu o pescoço do primeiro marinheiro com as mãos nuas, e só a chegada da polícia salvou o segundo da mesma sorte.

 Dois meses mais tarde, de grilhetas nos pulsos e nos tornozelos, chegou a uma prisão em Andorra.

 És branco como um fantasma, troçaram os outros presos quando os guardas o escoltaram até à cela, nu e gelado. Mira el espectro. Talvez o fantasma passe através das paredes!

 No decurso dos anos, a pele e a alma do jovem mirraram até que ele soube que era transparente.

 Sou um fantasma.

 Não tenho peso.

 Yo soy un espectro... pálido como un fantasma... caminando este mundo a solas.

 Uma noite, o Fantasma foi acordado pelos gritos dos companheiros de prisão. Não sabia que força invisível sacudia o chão onde estava deitado, nem que mão poderosa fazia tremer a argamassa da sua cela de pedra, mas quando se levantou de um salto, um pedregulho enorme caiu no lugar exacto onde estivera a dormir. Erguendo os olhos para ver de onde viera a pedra, descobriu um buraco na parede que tremia e, para lá dele, algo que não via havia mais de dez anos. A Lua.

 Enquanto a terra ainda tremia, o Fantasma deu por si a rastejar pelo estreito túnel, saiu a cambalear para o ar livre, desceu a encosta da montanha em direcção aos bosques. Correu toda a noite, sempre a descer, delirante de fome e de cansaço.

À beira da inconsciência, viu-se, ao nascer do dia, num espaço aberto onde uma linha-férrea rasgava uma cicatriz na floresta. Continuou a caminhar como num sonho, seguindo os carris. Vendo uma carruagem vazia, enfiou-se nela, em busca de abrigo e descanso. Quando acordou, o comboio estava em andamento. Há quanto tempo? Onde estou? Uma dor a crescer-lhe nas entranhas. Estarei a morrer? Voltou a dormir. Desta vez, acordou com alguém a gritar com ele, a bater-lhe, a atirá-lo para fora do vagão de carga. Coberto de sangue, deambulou pelos arredores de uma pequena aldeia, procurando em vão qualquer coisa que comer. Finalmente, demasiado fraco para dar mais um passo, deixou-se cair na berma da estrada e mergulhou na inconsciência.

 A luz veio lentamente, e o Fantasma perguntou a si mesmo quanto tempo estivera morto. Um dia? Três dias? Não importava. A cama era macia como uma nuvem, e o ar à volta dele tinha o cheiro doce de velas. Jesus estava lá, a olhar para ele. Estou aqui, disse Jesus. A pedra foi rolada para o lado, e tu voltaste a nascer.

 Dormiu e acordou. O nevoeiro envolveu-lhe os sonhos. Nunca acreditara no paraíso, e no entanto Jesus estava a velar por ele. Apareceu comida junto à cama, e o Fantasma comeu-a, quase capaz de sentir a carne a materializar-se-lhe nos ossos. Voltou a adormecer. Quando acordou, Jesus continuava a sorrir-lhe, e disse: Estás salvo, meu filho. Abençoados aqueles que seguem o meu caminho.

 Adormeceu mais uma vez.

 Foi um grito de angústia que arrancou o Fantasma ao sono. O seu corpo saltou da cama e avançou tropegamente pelo corredor em direcção ao som dos gritos. Entrou numa cozinha e viu um homem grande a bater noutro mais pequeno. Sem saber porquê, o Fantasma agarrou o homem grande e atirou-o contra a parede. O homem fugiu, deixando o Fantasma a olhar para o corpo estendido de um jovem que vestia uma sotaina de padre. Tinha o nariz partido. Erguendo-o nos braços, o Fantasma levou-o para um sofá.

 - Obrigado, meu amigo - disse o padre, num francês desajeitado. - O dinheiro das esmolas é uma tentação para os ladrões. Falaste francês no teu sono. Também falas espanhol?

 O Fantasma abanou a cabeça.

 - Como te chamas?

O Fantasma não se lembrava do nome que os pais lhe tinham dado. Tudo o que ouvia eram as insultuosas alcunhas dos guardas na prisão.

 O padre sorriu.

 - No hay problema. Chamo-me Manuel Aringarosa, sou missionário e vim de Madrid. Mandaram-me para aqui construir uma igreja para a Obra de Dios.

 - Onde estou? - A voz dele soou cava.

 - Em Oviedo. No Norte de Espanha.

 - Como foi que aqui cheguei?

 - Alguém te deixou à minha porta. Estavas doente. Dei-te de comer. Estás aqui há muitos dias.

 O Fantasma estudou o seu jovem salvador. Havia já muitos anos que ninguém tinha para com ele um gesto de bondade.

 - Obrigado, padre.

 O padre levou um dedo aos lábios ensanguentados.

 - Eu é que tenho de estar-te agradecido, meu amigo.

 Quando o Fantasma acordou na manhã seguinte, o mundo pareceu-lhe mais claro. Olhou para o crucifixo pregado na parede por cima da cama. Apesar de já não lhe falar, sentiu uma aura reconfortante na sua presença. Sentando-se na cama, ficou surpreendido ao ver um recorte de jornal em cima da mesa-de-cabeceira. O artigo estava redigido em francês e tinha data da semana anterior. Quando leu a história, encheu-se de medo. Falava de um tremor de terra, na montanha que destruíra uma prisão e libertara vários criminosos perigosos.

 O coração começou a martelar-lhe o peito. O padre sabe quem eu sou! Sentiu então algo que havia muitos anos não sentia. Vergonha. Culpa. À mistura com o medo de ser apanhado. Saltou da cama. Para onde posso fugir?

 - O Livro dos Actos - disse uma voz, da porta. O Fantasma voltou-se, assustado.

 O jovem padre sorria ao entrar no quarto. Tinha um penso desajeitadamente feito no nariz e estendia-lhe uma velha Bíblia.

 - Encontrei uma em francês, para ti. O capítulo está marcado.

 Inseguro, o Fantasma pegou na Bíblia e olhou para o capítulo que o padre marcara.

 Actos 16.

Os versículos falavam de um preso chamado Silas que jazia nu e espancado na sua cela, a cantar hinos a Deus. Quando chegou ao versículo 26, o Fantasma abriu a boca de espanto.

 "... Subitamente, houve um grande terramoto, de modo que os alicerces da prisão foram abalados, e todas as portas caíram."

 Ergueu vivamente os olhos para o padre.

 O padre sorriu-lhe carinhosamente.

 - Doravante, meu amigo, se não tens outro nome, passarei a chamar-te Silas.

 O Fantasma assentiu. Silas. Fora-lhe dada carne. O meu nome é Silas.

 - São horas do pequeno-almoço - disse o padre. - Vais ter de recuperar as forças, para me ajudares a construir esta igreja.

 

 Seis mil e quinhentos metros acima do Atlântico, o voo 1618 da Alitalia era sacudido pela turbulência, e os passageiros agitavam-se, nervosos. O bispo Aringarosa quase não se deu conta. Os seus pensamentos concentravam-se no futuro da Opus Dei. Ansioso por saber como estavam a correr as coisas em Paris, desejava poder telefonar a Silas. Mas não podia. O Professor ocupara-se disso.

 - É para sua própria segurança - explicara o Professor, falando em inglês com sotaque francês. - Conheço o suficiente sobre comunicações electrónicas para saber que podem ser interceptadas. As consequências poderiam ser desastrosas para si.

 Aringarosa sabia que ele tinha razão. O Professor parecia ser um homem excepcionalmente cuidadoso. Não lhe revelara a sua identidade, e no entanto provara ser alguém que merecia ser obedecido. Ao fim e ao cabo, conseguira uma informação secretíssima. Os nomes dos quatro principais membros da irmandade! Fora esta uma das razões que convenceram o bispo Aringarosa de que o Professor era verdadeiramente capaz de obter o espantoso prémio que afirmava ter ao seu alcance.

 - Bispo - dissera-lhe o Professor -, tratei de tudo. Para que o meu plano tenha êxito, tem de permitir que o Silas responda unicamente a mim durante alguns dias. Não falarão um com o outro. Comunicarei com ele através de canais seguros.

 - Tratá-lo-á com respeito?

 - Um homem de fé merece-o ao mais alto grau.

- Muito bem. Compreendo. Eu e o Silas não voltaremos a falar até isto estar resolvido.

 - Faço isto para proteger a sua identidade, a identidade de Silas e o meu investimento.

 - O seu investimento?

 - Bispo, se a sua ânsia de manter-se a par dos progressos o atirar para uma prisão, não poderá pagar os meus honorários.

 O bispo sorrira.

 - Tem razão. Os nossos desejos são coincidentes. Fique com Deus.

 Vinte milhões de euros, pensou o bispo, olhando pela janela do avião. Aproximadamente o mesmo em dólares americanos. Uma ninharia por uma coisa tão formidável.

 Sentiu uma renovada confiança em que o Professor e Silas não falhariam. O dinheiro e a fé eram motivações muito poderosas.

 

 - Une plaisanterie numérique? - Bezu Fache estava lívido, a olhar, incrédulo e furioso, para Sophie Neveu. Uma brincadeira numérica? - A sua opinião profissional sobre o código do conservador Saunière é que se trata de uma brincadeira matemática?

 Fache não conseguia compreender a ousadia daquela mulher. Não só acabava de aparecer ali sem autorização, como estava agora a tentar convencê-lo de que Saunière, nos momentos finais da sua vida, se lembrara de deixar-lhes uma charada numérica.

 - Este código - explicou rapidamente Sophie, em francês é simplista ao ponto da absurdidade. Monsieur Saunière deve ter sabido que o decifraríamos imediatamente. - Tirou um pedaço de papel do bolso do camisolão e estendeu-o a Fache. - Aqui tem a solução.

 Fache olhou para o papel.

 

1-1-2-3-5-8-13-21

 

 - Só isto? - ladrou. - Tudo o que fez foi pôr os números por ordem crescente.

 Sophie teve o descaramento de esboçar um sorriso satisfeito.

 - Exactamente

 O tom de Fache desceu para um rosnido gutural.

 - Agente Neveu, não faço ideia de para onde diabo vai com isto, mas sugiro que chegue lá depressa. - Lançou um olhar ansioso a Langdon, que estava ali perto com o telemóvel encostado ao ouvido, aparentemente ainda a escutar a mensagem da embaixada americana.

Pela lividez que lhe cobria o rosto, deduziu que eram más notícias.

 - Capitão - disse Sophie, num tom perigosamente desafiador -, a sequência de números que tem na mão é uma das mais famosas progressões matemáticas da História.

 Fache não imaginava que existisse sequer uma progressão matemática que merecesse o epíteto de famosa, e com toda a certeza não gostou do tom deslocado de Sophie.

 É a sequência Fibonacci - continuou ela, apontando para o pedaço de papel que Fache continuava a segurar. - Uma progressão em que cada termo é igual à soma dos dois que o antecedem.

 Fache estudou os números. Cada termo era de facto igual à soma dos dois anteriores, mas continuava a não ver que relevância poderia tudo aquilo ter no caso da morte de Jacques Saunière.

 - O matemático Leonardo Fibonacci criou essa sucessão de números no século XIII. Obviamente, não pode ser coincidência o facto de todos os números que o conservador Saunière escreveu no chão pertencerem à famosa sequência Fibonacci.

 Fache ficou a olhar para ela durante vários instantes.

 - Muito bem, se não é coincidência, fará o favor de me explicar por que razão decidiu Jacques Saunière fazer esta coisa? Que está ele a dizer? O que é que isto significa?

 Sophie encolheu os ombros.

 - Absolutamente nada. É essa a questão. Trata-se de uma brincadeira criptográfica extremamente simplista. Como pegar nas palavras de um poema famoso e dispô-las de uma forma aleatória para ver se alguém consegue perceber o que todas elas têm em comum.

 Fache deu um ameaçador passo em frente, colocando o rosto a poucos centímetros do de Sophie.

 - Espero com toda a franqueza que tenha uma explicação muito mais satisfatória do que essa.

 As feições de Sophie tornaram-se surpreendentemente duras quando replicou:

 - Capitão, considerando o que tem aqui em jogo esta noite, julguei que gostaria de saber que há a possibilidade de o conservador Saunière estar a brincar consigo. Parece não ser o caso. vou informar o director da Criptologia de que já não precisa dos nossos serviços.

E com esta ameaça, fez meia volta e afastou-se pelo caminho por onde tinha vindo.

 

Aturdido, Fache viu-a desaparecer na escuridão. Terá enlouquecido? Sophie Neveu acabava de redefinir o conceito de suicide professionnel.

 Voltou-se para Langdon, que continuava ao telefone com um ar ainda mais preocupado do que antes, ouvindo atentamente a sua mensagem, da embaixada americana. Bezu Fache desprezava muitas coisas... mas poucas lhe mereciam tanta raiva como a embaixada americana.

 Fache e o embaixador entravam em conflito numa base regular por causa de assuntos de Estado comuns - sendo o campo de batalha mais frequente a aplicação da lei aos cidadãos americanos de visita a França. Quase todos os dias, a DCPJ prendia estudantes americanos dos programas de intercâmbio por posse de drogas, homens de negócios americanos por solicitarem os serviços de prostitutas menores de idade, turistas americanos por furtos em lojas e destruição de propriedade. Legalmente, a embaixada podia intervir e extraditar os cidadãos culpados de volta para os Estados Unidos, onde se safavam com uma simples reprimenda.

 E era o que a embaixada invariavelmente fazia.

 L'émasculation de la Police Judiciaire, chamava-lhe Fache. A Paris Match publicara recentemente um cartoon em que Fache aparecia como um cão-polícia a tentar morder um criminoso americano, mas a ser impedido de o fazer por estar acorrentado à embaixada dos Estados Unidos.

 Mas não esta noite, pensou Fache. Há demasiado em jogo.

 Quando desligou o telefone, Robert Langdon parecia doente.

 - Tudo bem? - perguntou Fache. Langdon abanou debilmente a cabeça.

 Más notícias de casa, calculou Fache, notando que Langdon transpirava ligeiramente ao devolver-lhe o telemóvel.

 - Um acidente - murmurou Langdon, olhando para o capitão com uma expressão estranha. - Um amigo... - Fez uma pausa. - Tenho de regressar a casa logo de manhã.

Fache não tinha a mínima dúvida de que o choque reflectido na expressão de Langdon era genuíno, mas sentiu que havia ali uma outra emoção, como se um medo distante estivesse de repente a tremeluzir nos olhos do americano.

 - Lamento muito - disse, observando Langdon com atenção. - Quer sentar-se? - perguntou, apontando para um dos bancos da galeria.

 Langdon assentiu com um ar ausente e deu alguns passos na direcção do banco. Então deteve-se, parecendo cada vez mais confuso.

 - Na realidade, acho que preciso de utilizar os lavabos.

 Fache franziu mentalmente o sobrolho, irritado pelo atraso.

 - Os lavabos. Com certeza. Façamos uma pausa de alguns minutos. - Apontou na direcção de onde tinham vindo. - Os lavados ficam perto do gabinete do conservador.

 Langdon hesitou, apontando por sua vez na direcção oposta, para o outro extremo da galeria.

 - Se bem me lembro, há uns lavabos bem mais perto, ali ao fundo.

 Fache apercebeu-se de que Langdon tinha razão. Estavam a cerca de dois terços do comprimento da Galeria, que terminava daquele lado num par de lavabos.

 - Quer que vá consigo?

 Langdon abanou a cabeça, já a afastar-se.

 - Não é necessário. Acho que gostaria de ficar sozinho por alguns minutos.

 Fache não ficou muito entusiasmado com a ideia de ter Langdon a deambular sozinho por ali, mas consolou-se ao pensar que a Grande Galeria era um beco cuja única saída se situava precisamente no extremo oposto: a grade por baixo da qual tinham entrado. Embora os regulamentos do Departamento de Incêndios exigissem várias saídas de emergência num espaço tão vasto como aquele, essas saídas tinham sido automaticamente seladas quando Saunière accionara o sistema de segurança. Claro que o sistema fora entretanto restabelecido, mas não importava: as portas exteriores, se abertas, fariam disparar o alarme, e, além disso, estavam vigiadas Por agentes da DCPJ. Langdon não tinha meio de sair dali sem que ele o visse.

- Tenho de regressar por um instante ao gabinete do conservador Saunière - disse. - Por favor, vá directamente lá ter comigo, senhor Langdon. Há outras coisas que precisamos de discutir.

 Langdon fez-lhe um lento aceno com a mão antes de desaparecer nas sombras.

 Fazendo meia volta, Fache caminhou irritadamente na direcção oposta. Chegado à grade, passou por baixo dela, seguiu o corredor e entrou de rompante no posto de comando instalado no gabinete de Saunière.

 - Quem autorizou Sophie Neveu a entrar neste edifício? berrou.

 Collet foi o primeiro a responder:

 - Ela disse aos guardas no exterior que tinha decifrado o código.

 Fache olhou em redor.

 - Foi-se embora?

 - Não está consigo?

 - Foi-se embora. - Fache lançou um olhar ao corredor mergulhado em escuridão. Aparentemente, Sophie não se sentira com disposição para conversas com os colegas a caminho da saída.

 Por um instante, considerou a possibilidade de contactar os guardas colocados no átrio subterrâneo e ordenar-lhes que detivessem Sophie e a arrastassem de volta ao gabinete antes que pudesse abandonar o local. Mas então pensou melhor. Apercebeu-se de que aquilo era apenas o seu orgulho a falar... querer ter a última palavra. Já tivera distracções mais do que suficientes naquela noite.

 Trata da agente Neveu mais tarde, disse a si mesmo, já a antecipar o prazer de pô-la na rua.

 Expulsando Sophie dos seus pensamentos, ficou por instantes a olhar para o cavaleiro miniatura de pé em cima da secretária de Saunière. Voltou-se então para Collet.

 - Tem-no no visor?

 Collet assentiu com a cabeça e fez rodar o computador. O ponto vermelho era claramente visível no plano do piso, a piscar metodicamente numa divisão marcada com as palavras TOILETTES PUBLIQUES.

 - Óptimo - disse Fache, acendendo um cigarro e saindo para o corredor. - Tenho de fazer um telefonema. Certifique-se de que os lavabos são o único lugar aonde o Langdon vai.

 

 Robert Langdon sentiu-se ligeiramente tonto enquanto se encaminhava para o fundo da Grande Galeria, repassando mentalmente a mensagem telefónica de Sophie. No fim do corredor, sinais iluminados com as silhuetas masculina e feminina que em todo o mundo eram reconhecidas como símbolo das instalações sanitárias guiaram-no através de uma espécie de labirinto de divisórias decoradas com gravuras italianas e destinadas a ocultar os lavabos da vista dos visitantes.

 Encontrou o dos homens, abriu a porta e acendeu a luz.

 Estava vazio.

 Dirigiu-se aos lavatórios, molhou a cara com água fria, tentando acordar. Duas luzes fluorescentes reflectiam-se nos azulejos brancos e o local cheirava a amónia. Quando estava a secar o rosto com a toalha, ouviu a porta abrir-se atrás dele. Voltou-se vivamente.

 Sophie Neveu entrou, com uma expressão de medo nos olhos verde-acinzentados.

 - Ainda bem que veio. Não temos muito tempo.

 Langdon ficou onde estava, a olhar, confuso, para a agente Sophie Neveu, do Departamento de Criptologia da DCPJ. Minutos antes, ouvira a mensagem dela, pensando que a recém-aparecida criptóloga devia ser louca. E no entanto, quanto mais ouvia, mais se convencia de que Sophie Neveu estava a falar a sério. (Não reaja a essa Mensagem. Limite-se a ouvir calmamente. Encontra-se em perigo neste preciso instante. Siga à risca as minhas instruções.) Cheio de incertezas, decidira fazer exactamente o que Sophie sugeria. Dissera a Fache que a mensagem telefónica era a respeito de um amigo que sofrera um acidente, nos Estados Unidos. Depois pedira para utilizar os lavabos do fundo da Grande Galeria.

 Sophie estava agora ali à sua frente, ainda a ofegar depois de ter voltado para trás a correr. À luz fluorescente, Langdon ficou surpreendido ao verificar que o seu ar de inflexível determinação irradiava de umas feições inesperadamente suaves. Só o olhar era penetrante, e a justaposição evocava imagens de um retrato de Renoir com várias camadas... velado mas claro, com uma ousadia que de um certo modo conservava o seu véu de mistério.

 - Queria avisá-lo, senhor Langdon... - começou Sophie, ainda a tentar normalizar a respiração -, de que se encontra sous surveillance cachée. Sob observação dissimulada. - Enquanto falava, o seu inglês com sotaque ecoava nas paredes de azulejos, dando-lhe à voz um timbre cavo.

 - Mas... porquê? - perguntou Langdon. Sophie já lhe dera uma explicação pelo telefone, mas queria ouvi-la da boca dela.

 - Porque - respondeu Sophie, dando um passo em frente -, para o capitão Fache, o principal suspeito deste assassínio é o senhor.

 Langdon estava preparado para as palavras, mas mesmo assim continuaram a parecer-lhe perfeitamente ridículas. Segundo Sophie, tinham-no levado ao Louvre, naquela noite, não como simbologista e sim como suspeito, e estava, naquele preciso instante, a ser o alvo involuntário de um dos métodos de interrogatório preferidos da DCPJ - a surveillance cachée -, um hábil engano em que a Polícia convidava calmamente o suspeito para o local do crime e o interrogava na esperança de que o nervosismo o levasse a um deslize auto-incriminatório.

 - Veja no bolso esquerdo do seu casaco - disse Sophie. Encontrará uma prova de que estão a vigiá-lo.

 Langdon sentia-se cada vez mais apreensivo. Ver no bolso? Tudo aquilo soava a truque de magia de feira.

 - Veja - insistiu Sophie.

 Confuso, Langdon meteu a mão no bolso esquerdo do casaco de tweed - um casaco que nunca usava. Procurou no interior, e não encontrou nada. De que raio estavas tu à espera? Começou a perguntar a si mesmo se Sophie não seria de facto louca, ao fim e ao cabo.

Foi então que os seus dedos tocaram algo inesperado. Pequeno e duro.

Pegando no minúsculo objecto com as pontas dos dedos, tirou-o do bolso e ficou a olhar para ele, estupefacto. Era um disco metálico, mais ou menos do tamanho de uma pilha de relógio. Nunca vira uma coisa daquelas.

 - Que...?

 - É um marcador de GPS - explicou Sophie. - Transmite continuamente a sua localização para um satélite do Sistema Global de Posicionamento que a DCPJ pode monitorizar. Usamo-los para acompanhar as movimentações de certas pessoas. São exactos com uma margem de erro pouco superior a meio metro em qualquer parte do mundo. Puseram-lhe uma trela electrónica. O agente que foi buscá-lo ao hotel enfiou-lho no bolso antes de saírem do quarto.

 Langdon recordou o que se passara no hotel... o duche apressado, vestir-se, o agente da DCPJ a estender-lhe delicadamente o casaco de tweed quando se preparavam para sair. Está frio lá fora, senhor Langdon, dissera o tenente. A Primavera em Paris não é exactamente como as vossas canções a descrevem. E ele agradecera e vestira o casaco.

 Os olhos verde-azeitona de Sophie brilhavam intensamente.

 - Não lhe falei do dispositivo de localização mais cedo porque não queria que se pusesse a procurar nos bolsos diante do Fache. Ele não pode saber que o encontrou.

 Langdon não fazia ideia de como responder.

 - Puseram-lhe o GPS porque pensaram que poderia tentar fugir. - Fez uma pausa. - Na realidade, estão na esperança de que tente fugir; seria uma boa prova adicional.

 - Porque havia eu de fugir? - perguntou Langdon. - Estou inocente!

 O Fache acha que não.

 Furioso, Langdon dirigiu-se a um dos caixotes de lixo para deitar fora o pequeno disco metálico.

 - Não! - Sophie agarrou-lhe o braço, detendo-o. - Deixe-o No bolso. Se o deitar fora, o sinal deixará de deslocar-se, e eles saberão que encontrou o marcador. O Fache só o deixou sozinho porque pode sempre saber onde o senhor se encontra. Se suspeita de que deScobriu o que está a fazer... - Sophie não terminou a frase. Em vez

disso, tirou o pequeno disco de metal da mão de Langdon e voltou a enfiar-lho no bolso do casaco. - O marcador fica onde estava pelo menos por enquanto.

 Langdon sentia-se completamente perdido.

 - Como diabo pode o capitão Fache acreditar que eu matei o Jacques Saunière?

 - Tem alguns motivos bastante razoáveis para suspeitar de si

 - A expressão de Sophie era sombria. - Há um indício que ainda não viu. O Fache teve o cuidado de lho esconder.

 Langdon limitou-se a olhar para ela.

 - Lembra-se das três linhas de texto que o conservador Saunière escreveu no chão?

 Langdon assentiu. As palavras e os números tinham-se-lhe gravado no espírito.

 A voz de Sophie reduziu-se a um murmúrio:

 - Infelizmente, o que viu não era a mensagem completa. Havia uma quarta linha que o Fache fotografou e depois apagou antes de o senhor chegar.

 Embora soubesse que a tinta solúvel de uma caneta de marca de água era facilmente lavável, Langdon não conseguia imaginar porque motivo teria Fache eliminado uma prova.

 - A última linha da mensagem - continuou Sophie - era algo que o capitão Fache não queria que visse, senhor Langdon. Fez uma pausa. - Pelo menos, antes de lhe ter arrancado tudo o que pudesse. - Tirou do bolso do camisolão um print de computador de uma fotografia e começou a desdobrá-lo. - O capitão Fache enviou por e-mail fotografias do local do crime para o Departamento de Criptologia, na esperança de que algum de nós conseguisse perceber o que o conservador Saunière estava a querer dizer. Esta é uma foto da mensagem completa.

 E estendeu o papel a Langdon.

 Confuso, Langdon olhou para a imagem. A fotografia em grande plano mostrava a mensagem escrita no soalho de parquet. A última linha atingiu-o como um pontapé no estômago.

 

 13-3-2-21-1-1-8-5

 O, Draconian devil!

 Oh, lame saint!

 P.S. Find Robert Langdon

 

 Durante vários segundos, Langdon ficou a olhar, estupefacto, para a fotografia do pós-escrito de Saunière. P. S. Encontrar Robert Langdon. Sentiu como se o chão estivesse a fugir-lhe de baixo dos pés. Jacques Saunière deixou um pós-escrito com o meu nome? Por mais que se esforçasse, não conseguia imaginar porquê.

 - Compreende agora - perguntou Sophie, com ansiedade no olhar - por que razão o capitão Fache o trouxe aqui esta noite e por que razão é o principal suspeito?

 A única coisa que Langdon compreendia naquele momento era a razão por que Fache fizera aquele sorriso de satisfação quando ele sugerira que Saunière teria escrito o nome do seu assassino.

 Encontrar Robert Langdon.

 - Porque havia o Saunière de escrever uma coisa destas? - exaltou-se Langdon, com a confusão a dar lugar à raiva. - Porque havia eu de querer matá-lo?

 - O Fache ainda não descobriu o motivo, mas tem estado a gravar toda a conversa consigo na esperança de que lhe revele um.

Langdon abriu a boca, mas nem uma palavra lhe saiu.

 - Tem um microfone escondido - explicou Sophie. - Está ligado a um emissor que traz no bolso e que transmite o sinal para o posto de comando.

- Isto é impossível! - gaguejou Langdon. - Eu tenho um álibi. Fui directamente para o hotel depois da conferência. Podem perguntar na recepção.

 - O Fache já perguntou. O relatório dele diz que levantou a chave do seu quarto na recepção às dez e meia. Infelizmente, o crime foi cometido mais perto das onze. Podia muito facilmente ter saído do hotel sem ser visto.

- Mas isto é de loucos! O Fache não tem qualquer prova!

Sophie abriu muito os olhos, como que a dizer: Não tem provas?

 - Senhor Langdon, o seu nome aparece escrito no chão ao lado do corpo, e a agenda do conservador Saunière diz que estava com ele à hora aproximada a que foi morto. - Fez uma pausa. - O capitão Fache tem provas mais do que suficientes para detê-lo para ser interrogado.

 Langdon teve repentinamente a sensação de que precisava de um advogado.

 - Mas não fui eu!

 Sophie suspirou.

 - Não estamos na televisão americana, senhor Langdon. Em França, a Lei protege a Polícia, não os criminosos. Infelizmente, neste caso, há ainda a considerar os media. Jacques Saunière era uma figura muito querida e muito considerada em Paris, e o seu assassínio vai ser a notícia da manhã. O capitão Fache vai ver-se imediatamente pressionado a fazer uma declaração, e parecerá muito melhor se já tiver um suspeito sob custódia. Seja ou não culpado, o mais certo é ficar retido pela DCPJ até eles conseguirem descobrir o que realmente aconteceu.

 Langdon sentiu-se como um animal encurralado.

 - Porque é que está a dizer-me tudo isto?

 - Porque, senhor Langdon, acredito que está inocente. - Sophie desviou o olhar por um instante. - E também porque é em parte por minha culpa que está metido neste sarilho.

 - Como? Foi por sua culpa que o Saunière quis incriminar-me?

 - O conservador Saunière não quis incriminá-lo. Foi um erro. A mensagem no chão era dirigida a mim.

 Langdon precisou de um minuto para processar esta informação.

 - Desculpe?

 - A mensagem não se destinava à Polícia. Ele escreveu-a para mim. Penso que foi obrigado a fazer tudo tão à pressa que não se apercebeu do aspecto que ia ter para a Polícia. - Fez uma pausa. - O código numérico não tem qualquer significado. Saunière escreveu-o para ter a certeza de que a investigação envolveria criptólogos, garantindo assim que se saberia o mais cedo possível o que lhe tinha acontecido.

 Langdon estava cada vez mais perdido. Sophie Neveu podia ser ou não ser louca, mas ao menos agora compreendia por que razão estava a tentar ajudá-lo. P.S. Encontra Robert Langdon. Aparentemente, acreditava que Jacques Saunière lhe deixara um críptico pós-escrito a dizer-lhe que o encontrasse a ele, Langdon.

 - Mas porque é que acha que a mensagem era para si?

 - O Homem de Vitrúvio - respondeu ela, calmamente. - Esse desenho sempre foi a minha obra preferida de da Vinci. Saunière usou-a para me chamar a atenção.

 - Espere aí. Está a dizer-me que o conservador do Louvre sabia qual era a sua obra de arte preferida?

 Sophie assentiu.

 - Peço desculpa, isto está tudo baralhado. O Jacques Saunière e eu...

 A voz de Sophie quebrou-se, e Langdon detectou nela uma súbita nota de melancolia, um passado doloroso, a fervilhar logo abaixo da superfície. Sophie e Jacques Saunière tinham aparentemente tido um qualquer tipo de relação especial. Olhou para a bela jovem que tinha à sua frente, sabendo que, em França, era comum os homens já de certa idade terem amantes mais novas. Mesmo assim, Sophie Neveu encaixava mal no papel de "mulher por conta".

 - Zangámo-nos há dez anos - disse Sophie, e a voz dela não passava agora de um murmúrio. - Desde então, quase não voltámos a falar. Esta noite, quando recebemos na Cripto a notícia de que tinha sido assassinado e vi as imagens do corpo e do texto no chão, compreendi que estava a tentar enviar-me uma mensagem.

 - Por causa do Homem de Vitrúvio? Sim. E das letras P. S.

- Post scriptu?

Ela abanou a cabeça.

 - P. S. são as minhas iniciais.

 - Mas o seu nome é Sophie Neveu.

 Sophie desviou o olhar.

 - Costumava chamar-me P. S., quando eu vivia com ele. - São as iniciais de Princesse Sophie.

Langdon ficou sem resposta.

 - É tolice, eu sei - disse ela. - Mas isso foi há anos. Quando eu era uma garotinha.

 - Conheceu-o quando era uma garotinha?.

 - E muito bem - disse ela, e os olhos encheram-se-lhe de emoção. - Jacques Saunière era meu avô.

 

 - Onde está o Langdon? - perguntou Fache, expelindo a última baforada de fumo do cigarro antes de voltar ao posto de comando.

 - Ainda na casa de banho. - O tenente Collet já estava à espera da pergunta.

 - Sem se apressar, pelo que vejo - resmungou Fache.

 O capitão espreitou por cima do ombro de Collet para o ponto vermelho do GPS, e o tenente quase conseguiu ouvir as engrenagens do cérebro dele a funcionar. Fache estava a combater o impulso de ir ver o que se passava com Langdon. Idealmente, era dada ao alvo de uma vigilância a maior liberdade de movimentos possível, para lhe incutir uma falsa sensação de segurança. Era essencial que Langdon voltasse por sua própria iniciativa. Em todo o caso, já tinham passado mais de dez minutos.

 Demasiado tempo.

 - Alguma possibilidade de ele nos ter descoberto?

 Collet abanou a cabeça.

 - Continuamos a detectar pequenos movimentos dentro da casa de banho, portanto continua obviamente a ter o marcador GPS com ele. Talvez esteja a sentir-se mal? Se tivesse encontrado o marcador, tinha-o atirado fora e tentado fugir.

 Fache consultou o relógio.

 - Óptimo- resmungou.

 Mesmo assim, parecia preocupado. Durante toda a noite, Collet notara no capitão uma intensidade que não lhe era habitual. Normalmente descontraído e frio sob pressão, Fache parecia naquela noite emocionalmente envolvido, como se aquilo fosse, de algum modo, uma questão pessoal para ele.

 Não admira, pensou Collet. O Fache precisa desta detenção como de pão para a boca. Recentemente, o Conselho de Ministros e os media tinham começado a criticar mais abertamente o capitão Fache e os seus métodos agressivos, os seus conflitos constantes com poderosas embaixadas estrangeiras e as suas despesas exorbitantes em novas tecnologias. A detenção de um americano, num caso importante graças ao recurso à alta tecnologia, contribuiria muito para silenciar essas críticas, ajudando-o a garantir o lugar por mais alguns anos até poder reformar-se com uma simpática pensão. E sabe Deus a falta que lhe faz a pensão, pensou. O engodo da tecnologia prejudicara-o tanto profissional como pessoalmente. Dizia-se que tinha investido todas as suas poupanças na loucura das novas tecnologias, alguns anos antes, e que com isso perdera até a camisa. E Fache é um homem que só usa camisas das mais finas.

 Naquela noite, havia ainda tempo de sobra. A inopinada interrupção de Sophie Neveu, apesar de infeliz, não passara de um pequeno inconveniente. Já se fora embora, e Fache estava longe de ter jogado todas as suas cartas. Ainda não dissera a Langdon que o nome dele aparecera escrito no chão pela vítima. P. S. Encontrar Robert Langdon. A reacção do americano àquela prova ia com certeza ser extremamente reveladora.

 - Capitão? - chamou um dos agentes do outro lado do gabinete. - Acho que é melhor atender esta chamada. - Estava a segurar o auscultador do telefone, com um ar preocupado.

 - Quem é? - perguntou Fache. O agente franziu a testa.

 - O director do Departamento de Criptologia.

 - E?

 - É a respeito da Sophie Neveu. Há qualquer coisa que não bate certo.

 

 Chegara o momento.

 Silas sentia-se forte ao apear-se do Audi preto, com a brisa nocturna a agitar-lhe o hábito. Andam no ar ventos de mudança. Sabia que a tarefa que tinha pela frente exigia mais finura do que força, e por isso deixou a pistola no carro. A Heckler ( Koch USP 40, de treze tiros, que o Professor lhe arranjara.

 Uma arma de morte não tem lugar na casa de Deus.

 A praça diante da grande igreja estava deserta àquela hora. As únicas almas visíveis eram, no extremo mais distante, duas prostitutas adolescentes que exibiam os seus dotes aos olhos de meia dúzia de turistas retardatários. A visão daqueles corpos núbeis acendeu em Silas a familiar labareda de desejo. O músculo da coxa contraiu-se instintivamente, fazendo com que as pontas aceradas do cilício martirizassem a carne.

 A luxúria evaporou-se instantaneamente. Havia dez anos que Silas negava fielmente a si mesmo todos os prazeres sexuais, mesmo os solitários. Era O Caminho. Sabia que sacrificara muito para seguir a Opus dei mas recebera muito mais em troca. Um voto de castidade e a entrega de todos os seus bens materiais quase não lhe pareciam Um sacrifício. Considerando a pobreza de onde viera e os horrores Sexuais a que fora sujeito na prisão, a castidade era até uma mudança bem-vinda.

 Agora, ao voltar a França pela primeira vez depois de ter sido

preso e enviado para uma prisão em Andorra, sentia a terra natal a testá-lo, a ir buscar recordações violentas ao fundo da sua alma redimida. Voltaste a nascer, recordou a si mesmo. Naquele dia, o serviço de Deus exigira o pecado do assassínio, e isso era um sacrifício que sabia que teria de guardar em silêncio no seu coração por toda a eternidade.

 A medida da tua fé é a medida da dor que fores capaz de suportar dissera-lhe o Professor. Silas conhecia bem a dor e estava ansioso por provar o seu valor aos olhos do Professor, aquele que lhe tinha garantido que as suas acções eram ordenadas por um poder superior.

 - Hago la obra de Dios - murmurou Silas, encaminhando-se para a porta da igreja.

 Deteve-se na sombra do maciço pórtico e inspirou fundo. Só naquele instante se apercebeu verdadeiramente do que se preparava para fazer, e do que o esperava lá dentro.

 A Chave de Abóbada. Conduzir-nos-á ao nosso objectivo final.

 Ergueu o punho branco de fantasma e bateu três vezes.

 Instantes depois, os ferrolhos da enorme porta de madeira começaram a mover-se.

 

 Sophie perguntou a si mesma quanto tempo demoraria Fache a perceber que ela não chegara a sair do edifício. Vendo que Langdon estava claramente esmagado, interrogou-se sobre se teria sido boa ideia encurralá-lo na casa de banho dos homens.

 Que outra coisa podia eu fazer?

 Reviu mentalmente o corpo do avô, morto e estendido no chão de braços e pernas abertas. Houvera um tempo em que aquele homem fora tudo para ela, e no entanto, naquela noite, surpreendia-se ao descobrir que quase não sentia pena. Jacques Saunière tornara-se um desconhecido. A relação que existira entre ambos esfumara-se num único instante, numa noite de Março, quando tinha vinte e dois anos. Há dez anos. Regressara uns dias mais cedo de um curso de pós-graduação numa universidade inglesa e vira involuntariamente o avô a fazer algo que não era obviamente suposto ela ver. Uma imagem em que, passados dez anos, ainda mal conseguia acreditar.

 Se não tivesse visto com os meus próprios olhos...

 Demasiado envergonhada e aturdida para suportar as desastradas tentativas de explicação do avô, Sophie saíra imediatamente de casa dele, pegando no dinheiro que conseguira poupar e alugando um pequeno apartamento que partilhava com algumas colegas. Jurara nunca falar fosse a quem fosse do que tinha visto. O avô tentara desesperadamente entrar em contacto com ela, enviando-lhe postais e cartas, suplicando-lhe que o deixasse explicar. Explicar como? Sophie nunca respondeu, excepto uma vez: para proibi-lo de telefonar-lhe ou tentar encontrar-se com ela em público. Tinha medo de que as explicações fossem ainda mais aterradoras do que o incidente em si.

 Incrivelmente, Jacques Saunière nunca desistira, e Sophie tinha agora uma década de cartas por abrir guardadas numa gaveta da cómoda. A crédito do avô, tinha de reconhecer que nunca desobedecera à intimação dela tentando telefonar-lhe.

 Até esta tarde.

 - "Sophie?" A voz dele soara surpreendentemente velha no atendedor automático. - "Tenho acatado os teus desejos até agora... e custa-me muito telefonar-te, mas preciso de falar contigo. Aconteceu uma coisa terrível."

 

 De pé na cozinha do seu apartamento em Paris, Sophie sentiu um arrepio gelado ao voltar a ouvi-lo passados todos aqueles anos. A voz meiga do avô trouxe à superfície uma vaga de recordações de infância.

 - "Sophie, por favor, ouve-me." - Estava a falar em inglês, como costumava fazer quando ela era uma garotinha. Pratica o francês na escola. Pratica inglês em casa. - "Não podes ficar zangada para sempre. Não leste as cartas que te mandei ao longo de todos estes anos?" - Fez uma pausa. - "Temos de falar urgentemente. Por favor, concede ao teu avô este desejo. Liga-me para o Louvre. Imediatamente. Penso que corremos ambos um grave perigo."

 Sophie ficou a olhar para o atendedor automático. Perigo? De que estava ele a falar?

 - "Princesa..." - A voz do avô quebrou-se com uma emoção que ela não conseguiu identificar. - "Sei que te escondi coisas, e sei que isso me custou o teu amor. Mas foi para tua própria segurança. Agora tens de saber a verdade. Por favor, tenho de dizer-te a verdade a respeito da tua família."

 De repente, Sophie conseguia ouvir o bater do seu próprio coração. A minha família? Os pais tinham morrido quando ela era ainda uma criança de quatro anos. O carro em que viajavam galgara o parapeito de uma ponte e caíra num rio de águas tumultuosas. A avó e o irmão mais novo estavam também no carro, de modo que toda a sua família desaparecera de um momento para o outro. Tinha uma caixa de recortes de jornais que o confirmavam.

As palavras do avô desencadearam uma inesperada onda de saudade que lhe chegou ao âmago. Naquele fugaz instante, viu imagens, o sonho que tantas vezes a acordara quando era pequena: Estão vivos e voltaram para casa! Mas, tal como no seu sonho, as imagens dissolveram-se.

 Estão todos mortos, Sophie. Não vão voltar para casa.

 - "Sophie..." - continuou a voz do avô no atendedor. - "Há anos que espero para te dizer. Tenho estado à espera do momento certo, mas agora o tempo esgotou-se. Liga-me para o Louvre. Logo que ouvires isto. Vou esperar aqui a noite toda. Receio que estejamos ambos em perigo. Há tanto que tu precisas de saber."

 A mensagem terminava aqui.

 No silêncio que se seguiu, Sophie ficou de pé, imóvel e a tremer, pelo que lhe pareceu vários minutos. Considerando bem a mensagem do avô, só uma possibilidade fazia sentido, e a verdadeira intenção dele tornou-se-lhe clara.

 Era um engodo.

 Obviamente, o avô queria muito vê-la. Estava disposto a tentar todos os truques. A aversão que sentia pelo homem tornou-se ainda mais profunda. Disse a si mesma que talvez ele estivesse doente, em fase terminal, e tivesse decidido tentar todos os estratagemas de que conseguisse lembrar-se para levá-la a visitá-lo uma última vez. Se era esse o caso, escolhera bem.

 A minha família.

 

Agora, no lavabo dos homens do Louvre, ouvia ecos da mensagem daquela tarde. Sophie, podemos estar em perigo. Telefona-me.

 Não tinha telefonado. Nem planeara fazê-lo. Agora, porém, o seu cepticismo estava a ser duramente questionado. O avô jazia assassinado no interior do seu próprio museu. E tinha escrito uma mensagem cifrada no chão.

 Uma mensagem de que era ela a destinatária. Disso tinha a certeza.

 Apesar de não compreender o significado daquela mensagem, Sophie tinha a certeza de que a sua natureza críptica era prova adicional de que se lhe destinava. A sua paixão e habilidade para a criptografia eram uma das consequências de ter crescido ao lado de Jacques Saunière - ele próprio um maníaco de charadas, jogos de palavras e palavras cruzadas. Quantos domingos passámos a resolver os criptogramas e as palavras cruzadas dos jornais?

 Naquela noite, a criptóloga que havia nela via-se forçada a respeitar a eficiência com que o avô usara um simples código para juntar dois desconhecidos: Sophie Neveu e Robert Langdon.

 A questão era: porquê?

 Infelizmente, pela expressão de confusão nos olhos de Langdon, Sophie sentiu que o americano não sabia mais do que ela a respeito dos motivos que tinham levado o avô a juntá-los.

 Voltou à carga.

 - O senhor e o meu avô tinham combinado encontrar-se esta noite. Para falar de quê?

 Langdon parecia verdadeiramente perplexo.

 - A secretária dele marcou o encontro, não deu qualquer razão específica e eu não perguntei. Assumi que tinha sabido que eu ia dar uma conferência sobre a iconografia pagã das catedrais francesas, se interessava pelo tema e pensado que seria divertido encontrarmo-nos para uma bebida depois da palestra.

 Sophie não acreditou. A ligação era demasiado frágil. O avô sabia mais a respeito de iconografia pagã do que qualquer outra pessoa em todo o mundo. Além disso, era um homem extraordinariamente reservado, nada dado a conversas com professores americanos de passagem a menos que tivesse uma razão muito forte.

 Inspirou fundo e resolveu ir um pouco mais longe.

 - O meu avô telefonou-me esta tarde e disse-me que ele e eu corríamos um grave perigo. Significa alguma coisa para si?

 Os olhos azuis de Langdon estavam velados de preocupação.

 - Não, mas considerando o que acabou por acontecer...

 Sophie assentiu. Considerando os acontecimentos daquela noite, teria de ser louca para não estar assustada. Sentindo-se esgotada, aproximou-se da pequena janela na parede mais distante da casa de banho e ficou a olhar em silêncio através da trama de fitas de alarme embebidas na vidraça. Estavam muito acima do nível da praça. Doze metros, pelo menos.

 Com um suspiro, ergueu os olhos e contemplou a deslumbrante paisagem nocturna de Paris. À esquerda, do outro lado do Sena, a Torre Eiffel, refulgente de luzes. Mesmo em frente, o Arco do Triunfo. E à direita, no alto de Montmartre, a graciosa cúpula coberta de arabescos do Sacré-Coeur, cujas pedras polidas brilhavam como um resplandecente santuário.

 Ali, na extremidade mais ocidental da Ala Denon, a faixa de rodagem do sentido norte-sul da Place du Carrousel corria quase colada ao edifício, apenas com um estreito passeio a separá-la da parede exterior do Louvre. Lá em baixo, a habitual caravana de camiões de entregas esperava, com os motores a ronronar, que o semáforo mudasse para verde, e os faróis eram olhos que piscavam ironicamente para ela

 - Não sei que lhe diga - confessou Langdon, aproximando-se dela. - O seu avô estava obviamente a tentar dizer-nos qualquer coisa. Lamento ser de tão pouca ajuda.

 Sophie voltou-se, detectando uma genuína pena na voz grave de Langdon. Era evidente que, apesar de todos os problemas que o atormentavam, continuava a querer ajudá-la. É o professor que há nele, pensou Sophie, recordando o resumo da DCPJ sobre o suspeito. Era um académico que, segundo toda a evidência, detestava não compreender.

 Temos isso em comum, pensou.

 Como decifradora de códigos, Sophie passara a sua vida a tentar extrair um significado de dados aparentemente sem sentido. Naquela noite, o seu palpite era que Robert Langdon, quer o soubesse ou não, possuía informação de que ela precisava desesperadamente. Princesa Sophie, Encontra Robert Langdon. A mensagem não podia ser mais clara. Sophie precisava de mais tempo com aquele homem, tempo para pensar. Tempo para, juntos, deslindarem aquele mistério. Infelizmente, o tempo estava a esgotar-se-lhes.

 Erguendo os olhos para Langdon, Sophie fez a única jogada de que conseguiu lembrar-se.

 - O Bezu Fache vai detê-lo de um momento para o outro. Posso fazê-lo sair deste museu. Mas temos de agir já.

 Langdon abriu muito os olhos.

 - Quer que eu fuja?

 - É a única coisa inteligente que pode fazer. Se deixa o Fache detê-lo, vai passar semanas numa cadeia francesa enquanto a DCPJ e a embaixada dos Estados Unidos discutem que tribunal tem competência para julgar o seu caso. Mas se conseguirmos levá-lo daqui para fora e chegar à embaixada, o governo americano protegerá o seus direitos enquanto nós os dois provamos que não teve nada a ver com este assassínio.

 Langdon parecia não estar nem sequer remotamente convencido

 - Esqueça! O Fache tem guardas armados em todas as saídas! Mesmo que escapássemos sem sermos abatidos a tiro, fugir só serviria para fazer-me parecer ainda mais culpado. O que tem de fazer é dizer ao Fache que a mensagem escrita no chão se destinava a si e que o meu nome não está ali como uma acusação.

 - É o que vou fazer - prometeu Sophie, falando apressadamente -, mas só depois de o deixar a salvo na embaixada americana. Fica a quilómetro e meio daqui, e o meu carro está parado mesmo à porta do museu. Lidar com o Fache aqui dentro é demasiado arriscado. Será que não compreende? O capitão está decidido a provar a sua culpa. Só adiou a detenção porque queria levar a cabo esta vigilância na esperança de que fizesse qualquer coisa que reforçasse a posição dele.

 - Exactamente. Como fugir!

 O telemóvel de Sophie começou subitamente a tocar. Fache, provavelmente. Meteu a mão no bolso e desligou o aparelho.

 - Senhor Langdon - disse, apressada -, tenho de fazer-lhe uma última pergunta. - E todo o seu futuro pode depender dela. As palavras escritas no chão não são obviamente prova suficiente da sua culpa, e no entanto o Fache disse à nossa equipa que tem a certeza de que o senhor é o culpado. É capaz de pensar em qualquer outra razão que possa tê-lo convencido disso?

 Langdon ficou calado durante vários segundos.

 - Nenhuma.

 Sophie suspirou. O que significa que Fache está a mentir. Não imaginava sequer porquê, mas, de momento estava longe de ser essa a questão. Permanecia o facto de Bezu Fache estar decidido a pôr Robert Langdon atrás de grades, custasse o que custasse. Sophie precisava de Langdon, e isto era um dilema que lhe deixava apenas uma conclusão lógica.

 Preciso de levá-lo até à embaixada dos Estados Unidos.

Voltando-se para a janela, olhou mais uma vez através da trama de fios de alarme embebidos no vidro para o passeio, uns vertiginosos doze metros mais abaixo. Um salto daquela altura deixaria Langdon com um par de pernas partidas. No mínimo.

 Mesmo assim, Sophie tomou a sua decisão.

 Quisesse ou não, Robert Langdon ia fugir do Louvre.

 

 - Como não responde? - Fache tinha no rosto uma expressão de incredulidade. - Estamos a ligar-lhe para o telemóvel, certo? Sei que o traz com ela.

 Havia vários minutos que o tenente Collet estava a tentar contactar Sophie Neveu.

 - Talvez tenha ficado sem bateria. Ou tenha o toque de chamada desligado.

 Fache parecia perturbado desde que falara ao telefone com o director do Departamento de Criptologia. Depois de desligar, dirigira-se a Collet e ordenara-lhe que ligasse para a agente Neveu. Collet não conseguia fazer a ligação, e Fache andava de um lado para o outro, como um leão enjaulado.

 - Que queriam os da Cripto? - arriscou-se Collet a perguntar.

 - Dizer-nos que não encontram qualquer referência a demónios draconianos nem a santos imperfeitos.

 - Só isso?

 - Não. Também disseram que tinham identificado os números como a sequência Fibonacci, mas que suspeitavam de que a série não tem qualquer significado.

 Collet ficou baralhado.

 - Mas já tinham enviado a agente Neveu para nos dizer isso mesmo.

 Fache abanou a cabeça.

 - Não enviaram a Neveu.

 - Como?

- Segundo o director, ao receber as minhas ordens convocou a equipa inteira para examinar as imagens que lhe tínhamos enviado. Quando a agente Neveu chegou, lançou um olhar às fotos do Saunière e do código e abandonou o edifício sem dizer uma palavra. Mas o director que não estranhou o comportamento dela por ser natural que as fotografias a tivessem perturbado.

 - Perturbado? Nunca tinha visto a foto de um cadáver?

 Fache ficou silencioso por um instante.

 - Eu não sabia, e parece que o director da Cripto também não até que um colega dela o informou, mas, aparentemente, Sophie Neveu é neta de Jacques Saunière.

 Collet ficou sem palavras.

 - O director explicou que ela nunca tinha referido o nome de Saunière e assumiu que provavelmente não o fizera por não querer um tratamento preferencial por ter um avô famoso.

 Não admira que as fotos a tenham perturbado. Collet mal conseguia imaginar a infeliz coincidência que pusera uma jovem na situação de ter de decifrar um código escrito por um familiar morto. Em todo o caso, as acções dela não faziam sentido.

 - Mas ela reconheceu obviamente os números como sendo a sequência Fibonacci, uma vez que veio até aqui e no-lo disse. Não percebo porque raio saiu do Departamento sem dizer a ninguém o que tinha descoberto.

 Collet só conseguia conceber um cenário capaz de explicar a estranha série de acontecimentos: Jacques Saunière tinha escrito um código numérico no chão na esperança de que Fache envolvesse criptólogos na investigação, e consequentemente Sophie. Quanto ao resto da mensagem, estaria o conservador a comunicar de algum modo com a neta? Se sim, qual era a mensagem? E qual era o papel de Langdon no meio de tudo aquilo?

 Antes que Collet pudesse continuar a ponderar o assunto, o silêncio em que o museu deserto estava mergulhado foi rasgado pela estridência de um alarme. O som parecia vir do interior da Grande Galeria.

 - Alarme! - gritou um dos agentes, a olhar para o monitor do Centro de segurança do Louvre. - Grande Galerie. Toilettes Mêssieurs!

 Fache voltou-se para Collet.

- Onde está o Langdon?

 - Continua na casa de banho dos homens! - Collet apontou para o ponto vermelho que piscava no visor do computador. - Deve ter partido a janela! - Sabia que Langdon não conseguiria chegar muito longe. Embora os regulamentos municipais de Paris exigissem que todas as janelas dos edifícios públicos situadas acima de quatro metros e meio de altura estivessem equipadas com vidros quebráveis, como precaução em caso de incêndio, sair por uma janela do segundo piso do Louvre sem a ajuda de uma corda ou de uma escada seria suicídio. Além disso, não havia no extremo oeste da Ala Denon árvores ou arbustos que pudessem amortecer uma queda. Imediatamente por baixo da janela da casa de banho, as duas faixas de rodagem do sentido norte-sul da Place du Carrousel passavam a meia dúzia de passos da parede exterior. - Meu Deus! - exclamou, sem desviar os olhos do visor. - O Langdon está a subir para o peitoril da janela!

 Fache, porém, já estava em movimento. Sacando o seu revólver Manurnhin MR-93 do coldre axilar, o capitão saíra a correr do gabinete.

 Collet, estupefacto, viu no monitor o ponto que piscava chegar ao peitoril da janela e então fazer uma coisa perfeitamente inesperada: passar para o exterior do perímetro do edifício.

 Que se estará a passar?, perguntou a si mesmo. O tipo encontrou uma cornija, ou...

 - Jesus! - Collet ergueu-se de um salto quando o ponto se afastou ainda mais da parede. O sinal pareceu estremecer por um instante, e então deteve-se abruptamente cerca de dez metros para lá do perímetro do edifício.

 Teclando furiosamente instruções, Collet chamou ao visor um mapa de Paris e recalibrou o GPS. Ampliando a imagem, viu a localização exacta do sinal.

 Já não estava em movimento.

 Permanecia imóvel no meio da faixa norte-sul da Place du Carrousel.

 Langdon tinha saltado.

 

 O capitão Fache corria a toda a velocidade pela Grande Galeria quando o rádio de Collet gritou acima do som distante do alarme.

 - Ele saltou! Estou a ver o sinal na Place do Carrousel! Fora da janela da casa de banho! E não se mexe! Jesus, acho que o Langdon acaba de suicidar-se!

 Fache ouvia as palavras, mas não faziam sentido. Continuou a correr. A galeria parecia nunca mais acabar. Quando passou pelo cadáver de Jacques Saunière, pôs a mira nas divisórias que assinalavam o final da Ala Denon. O alarme soava cada vez mais alto.

 - Espere! - gritou a voz de Collet através do rádio. - Está a mover-se! Meu Deus, está vivo. O Langdon está a mover-se!

 Fache continuou a correr, amaldiçoando a cada passo o comprimento da galeria.

 - Está a deslocar-se mais depressa! - gritava Collet no rádio. Vai a descer a Carrousel. Espere... está a ganhar velocidade. Está a deslocar-se demasiado depressa!

 Chegado às divisórias, Fache coleou pelo meio delas, viu a porta da casa de banho e correu para lá.

 O rádio mal se ouvia, devido ao estridor do alarme.

 - Deve estar num carro! Acho que está num carro! Não consigo...

 As palavras de Collet foram abafadas pelo alarme quando Fache rompeu finalmente na casa de banho, de arma na mão. Fazendo uma careta por causa da ensurdecedora campainha, olhou em redor.

 Os vários compartimentos estavam vazios, a casa de banho deserta. Os olhos de Fache voaram imediatamente para a janela partida no extremo oposto da divisão. Correu para lá e olhou por cima do peitoril. Langdon não estava à vista. O capitão não conseguia imaginar alguém a arriscar uma coisa daquelas. Se Langdon tivesse saltado daquela altura, estaria seguramente muito ferido.

 O alarme foi finalmente desligado e a voz de Collet tornou-se de novo audível no rádio:

 - ... a deslocar-se para sul... mais depressa... a atravessar o Sena na Pont du Carrousel!

 Fache olhou para a esquerda. O único veículo na Pont du Carrousel era um enorme camião de entregas que se afastava do Louvre na direcção sul. Um oleado, preso nos lados, cobria a carga transportada na caixa aberta, fazendo lembrar uma grande tenda. O capitão sentiu um arrepio de apreensão. Momentos antes, aquele camião estivera provavelmente parado por baixo da janela da casa de banho da Ala Denon do Louvre, à espera da mudança de sinal.

 Um risco louco, disse Fache para si mesmo. Langdon não tinha meio de saber o que o camião transportava debaixo da lona. E se fosse aço? Ou cimento? Ou até lixo? Um salto de doze metros? Era loucura.

 - O marcador está a virar! - informou Collet. - Está a virar à direita, na Pont dês Saints-Pères!

 Como Fache sabia que seria, o camião tinha acabado de atravessar a ponte e virava à direita para a Pont des Saints-Pères. Seja, pensou. Espantado, viu o camião fazer a curva e desaparecer. Collet já estava a contactar os agentes no exterior, ordenando-lhes que abandonassem os seus postos no perímetro do Louvre e corressem para os respectivos carros para iniciar a perseguição, ao mesmo tempo que transmitia a localização do camião como que num bizarro jogo de televisão.

 Acabou-se, pensou Fache. Os seus homens teriam aquele camião cercado numa questão de minutos. Langdon não ia a parte nenhuma.

 Devolvendo a arma ao coldre, saiu da casa de banho e chamou Collet pelo rádio.

 - Mande trazer o meu carro. Quero estar presente quando fizermos a detenção.

 Enquanto retrocedia em passo de corrida ao longo da Galeria, perguntava a si mesmo se Langdon teria sequer sobrevivido à queda.

Não que isso importasse.

 O suspeito fugiu. Culpado!

 

A menos de quinze metros de distância, Langdon e Sophie acoitavam-se nas sombras da Galeria, com as costas apertadas contra uma das grandes divisórias que ocultavam as casas de banho. Mal tinham conseguido acabar de esconder-se quando Fache passara por eles, de arma empunhada, e desaparecera na casa de banho.

 Os últimos sessenta segundos tinham sido uma mancha difusa.

 Langdon estava na casa de banho dos homens, a recusar fugir de um crime que não cometera, quando Sophie se pusera a examinar o vidro da janela e a trama do sistema de alarme. Depois, espreitara para a rua, como que avaliar a altura.

- Com um pouco de pontaria, pode sair daqui - disse.

Pontaria? Pouco à-vontade, Langdon espreitou para fora.

 Na rua, um enorme camião de dezoito rodas aproximava-se do semáforo, mesmo por baixo da janela. Estendido sobre a caixa, uma espécie de oleado azul cobria parcialmente a carga. Langdon esperou que Sophie não estivesse a pensar aquilo que lhe parecia que estava a pensar.

 - Sophie, não pense que vou saltar...

 - Pegue no marcador GPS.

 Confuso, Langdon procurou no bolso até encontrar o minúsculo disco metálico. Sophie tirou-lho da mão e dirigiu-se imediatamente ao lavatório, pegou num sabonete, colocou o disco em cima dele e carregou com o polegar. Quando o disco se enterrou na superfície macia, fechou o orifício com rápidos movimentos dos dedos, deixando o dispositivo de localização firmemente embebido no sabonete.

 Entregou o sabonete a Langdon, tirou um pesado caixote de lixo metálico de baixo do lavatório e, antes que Langdon pudesse protestar, correu para a janela, segurando o caixote de lixo à sua frente como a ponta de um aríete. Bateu com o fundo do caixote contra o vidro, estilhaçando a janela.

 O alarme começou a soar, atingindo um nível de decibéis dolorosamente ensurdecedor.

 - Dê-me o sabonete! - gritou Sophie, mal conseguindo fazer-se ouvir acima do alarme.

Langdon entregou-lho.

 Sophie pegou nele e espreitou através da janela partida para o camião parado no semáforo. O alvo era bastante grande - uma vasta extensão de oleado azul - e estava a menos de dez metros da parede do edifício. Instantes antes de o semáforo mudar, Sophie inspirou fundo e atirou o sabonete pela janela.

 O sabonete desceu para o camião, caiu em cima da lona e deslizou para dentro da caixa quando a luz passou a verde e o camião arrancou.

 - Parabéns - disse Sophie, arrastando-o para a porta. - Acaba de fugir do Louvre.

 Saindo da casa de banho dos homens, esconderam-se entre as sombras mesmo a tempo de verem Fache passar a correr.

 

 Agora, com o alarme silenciado, Langdon ouvia o uivo das sereias dos carros da DCPJ a afastarem-se do Louvre. Um êxodo policial. Também Fache se afastou a correr, deixando a Grande Galeria deserta.

 - Há uma escada de incêndio a cerca de cinquenta metros deste lugar - disse Sophie. - Agora que os guardas abandonaram o perímetro, podemos sair por lá.

 Langdon decidiu não voltar a abrir a boca naquela noite. Sophie Neveu era claramente muitíssimo mais esperta do que ele.

 

 A igreja de Saint-Sulpice é, diz-se, de todos os edifícios de Paris, o que tem a história mais excêntrica. Construída sobre as ruínas de um antigo templo dedicado à deusa egípcia Isis, a sua traça arquitectónica é ponto por ponto igual à de Notre Dame. Serviu de palco aos baptizados do marquês de Sade e de Baudelaire, bem como ao casamento de Victor Hugo. O seminário que lhe está ligado tem uma bem documentada história de inortodoxia e foi em tempos o local de encontro de numerosas sociedades secretas.

 Naquela noite, a cavernosa nave de Saint-Sulpice estava silenciosa como um túmulo; a única sugestão de vida era o leve cheiro a incenso que ficara da última missa da tarde. Silas detectou o pouco à-vontade da irmã Sandrine, que o conduziu até ao santuário. Não ficou surpreendido. Estava habituado a que as pessoas se sentissem pouco à-vontade na sua presença.

 - É americano - disse ela.

 - Francês de nascimento - respondeu Silas. - Fui chamado Por Deus em Espanha, e actualmente estudo nos Estados Unidos.

 A irmã Sandrine assentiu. Era uma mulher baixinha, de olhos calmos.

 - E nunca tinha visto Saint-Sulpice?

 - Compreendo que é em si mesmo quase um pecado.

 - É mais bonita durante o dia.

 - Estou certo de que sim. Em todo o caso, fico-lhe grato por me proporcionar esta oportunidade esta noite.

 - A pedido do abade. É evidente que tem amigos poderosos.

 Nem imaginas, pensou Silas.

Enquanto caminhava atrás da irmã Sandrine pela coxia central, Silas foi surpreendido pela austeridade do santuário. Ao contrário de Notre Dame, com os seus frescos coloridos, os seus altares dourados e as suas quentes madeiras, Saint-Sulpice era nua e fria, transmitindo uma sensação de quase aridez reminiscente das catedrais espanholas. A falta de decoração fazia o interior parecer ainda mais vasto, E quando olhou para a alta abóbada nervurada do tecto, Silas imaginou-se de pé debaixo do casco de um enorme navio voltado.

 Uma imagem apropriada, pensou. O navio da irmandade estava prestes a afundar-se para sempre. Ansioso por começar a trabalhar, desejou que a irmã Sandrine o deixasse sozinho. Era uma mulher diminuta, que não teria a mínima dificuldade em incapacitar, mas fizera o voto de não usar a força a menos que fosse absolutamente necessário. É uma religiosa, e não tem culpa de que a irmandade tenha escolhido a igreja dela para esconder a Chave de Abóbada. Não deve ser punida pelos pecados dos outros.

 - Envergonha-me, irmã, saber que foi acordada por minha causa.

 - Não tem importância. Vai estar muito pouco tempo em Paris. Não podia perder Saint-Sulpice. O seu interesse na igreja é mais arquitectónico ou mais histórico?

- Na realidade, irmã, o meu interesse é espiritual.

Ela lançou uma agradável gargalhada.

 - Isso nem é preciso dizer. Só queria saber por onde começar a sua visita.

 Silas focou os olhos no altar.

 - Não vou necessitar de guia. Foi mais do que gentil. Posso agora orientar-me sozinho.

- Não me custa nada. Ao fim e ao cabo, estou acordada.

 Silas deteve-se. Tinham chegado à altura da primeira fila de bancos; o altar encontrava-se a menos de quinze metros de distância. Voltou o corpo maciço para a mulher e sentiu-a como que encolher-se ao olhar-lhe para os olhos vermelhos.

 - Sem querer parecer mal-educado, irmã, não estou habituado a entrar numa casa de Deus e limitar-me a fazer uma visita guiada. Importa-se que passe algum tempo a rezar sozinho antes de dar uma vista de olhos?

 A irmã Sandrine hesitou.

- Oh, claro. vou esperar por si lá no fundo da igreja.

 Silas pousou uma mão suave mas pesada no ombro dela e olhou para baixo.

 - Irmã, já me sinto suficientemente culpado por tê-la acordado Pedir-lhe que continue acordada parece-me excessivo. Por favor, devia voltar para a sua cama. Posso apreciar o seu santuário e sair sem voltar a incomodá-la.

 Ela pareceu atrapalhada.

 - Tem a certeza de que não vai sentir-se abandonado?

 - Absoluta. A oração é uma alegria solitária.

 - Como queira.

 Silas retirou a mão do ombro dela.

 - Durma bem, irmã. Que a paz do Senhor esteja consigo.

 - E também consigo. - A irmã Sandrine dirigiu-se às escadas.

 - Por favor, tenha o cuidado de fechar bem a porta quando sair.

 - Terei - disse Silas, e ficou a vê-la desaparecer nas escadas. Então, voltou-se e ajoelhou na primeira fila de bancos, sentindo o cilício cravar-se-lhe na coxa.

 Querido Deus, ofereço-te este trabalho que faço hoje...

 

 Acocorada nas sombras da varanda do coro, a irmã Sandrine espreitou por entre os balaústres para a figura encapuçada do monge ajoelhado diante do altar. O súbito medo que lhe enchera a alma tornava-lhe difícil manter-se imóvel. Por um fugaz instante, perguntou a si mesma se o misterioso visitante seria o inimigo contra o qual fora posta de sobreaviso e se teria, naquela noite, de executar as ordens que guardava havia tantos anos. Decidiu ficar ali, no escuro, a vigiar-lhe os movimentos.

 

 Sophie e Langdon emergiram das sombras e avançaram furtivamente pela galeria deserta em direcção à escada de incêndio.

 Enquanto caminhava, Langdon sentiu-se como se estivesse a tentar montar um quebra-cabeças às escuras. O aspecto mais recente daquele mistério era profundamente perturbador: o capitão da Polícia Judiciária está a tentar atirar para cima de mim uma falsa acusação de assassínio.

 - Acha - sussurrou -, que pode ter sido o Fache a escrever a mensagem no chão?

 Sophie nem sequer se voltou.

 - Impossível.

 Langdon não estava assim tão seguro.

 - Parece muito decidido a fazer-me passar por culpado. Talvez tenha pensado que escrever o meu nome no chão ajudasse.

 - A sequência Fibonacci? O P.S.? Todo aquele simbolísmo de da Vinci e do sagrado feminino? Foi com toda a certeza o meu avô.

 Langdon sabia que ela tinha razão. O simbolismo das pistas ajustava-se demasiado perfeitamente: o pentáculo, O Homem de Vitrúvio, da Vinci, a Deusa, e até a sequência Fibonacci. Um conjunto simbólico coerente, como lhe chamariam os iconólogos. Tudo inextrincavelmente ligado.

 - E o telefonema para mim, esta tarde - continuou Sophie. - Disse que tinha uma coisa para me contar. Tenho a certeza de que a mensagem no chão foi o seu último esforço para me dizer qualquer coisa importante, qualquer coisa que achava que você, senhor Langdon, poderia ajudar-me a compreender.

Langdon franziu a testa. Ó, draconiano demónio! Oh, santo imperfeito! Bem gostaria de compreender a mensagem, tanto por Sophie como por si mesmo. As coisas tinham sem dúvida piorado desde que vira pela primeira vez as crípticas palavras. O falso salto da janela da casa de banho não ia contribuir nem um bocadinho para aumentar-lhe a popularidade junto de Fache. Duvidava que o capitão da Polícia francesa visse a piada de perseguir e prender um sabonete.

 - Estamos quase a chegar à porta - anunciou Sophie.

 - Acha que há alguma possibilidade de os números da mensagem do seu avô conterem a chave para a compreensão das outras linhas?

 Langdon trabalhara em tempos numa série de manuscritos de Bacon que continham cifras epigráficas nas quais certas linhas codificadas eram pistas que permitiam a decifração de outras.

 - Tenho estado toda a noite a pensar nos números. Somas, quocientes, produtos. Não vejo nada. Matematicamente, estão dispostos de uma forma aleatória. Algaraviada criptográfica.

 - E no entanto, fazem todos parte da sequência Fibonacci. Não pode ser coincidência.

 - E não é. Usar os números Fibonacci foi mais uma maneira que o meu avô arranjou de me acenar com uma bandeira... como escrever a mensagem em inglês, ou dispor-se a si mesmo como a minha obra de arte preferida, ou desenhar um pentáculo na barriga. Tudo isso se destinava a chamar a minha atenção.

 - O pentáculo significa alguma coisa para si?

 - Sim. Não tive ocasião de dizer-lhe, mas o pentáculo foi um símbolo especial entre mim e o meu avô quando eu estava a crescer. Costumávamos jogar cartas tarô, por brincadeira, e a minha carta indicadora era sempre do naipe de pentáculos. Tenho a certeza de que ele fazia batota, mas os pentáculos acabaram por tornar-se uma espécie de brincadeira entre nós.

 Langdon sentiu um arrepio. Jogavam tarô? O jogo de cartas italiano da Idade Média estava tão carregado de simbolismo herético escondido que Langdon lhe dedicara um capítulo inteiro do seu novo manuscrito. As vinte e duas cartas do baralho tinham nomes como A Papisa, A Imperatriz e A Estrela. Originariamente, o tarô fora concebido como um meio secreto de transmitir ideologias proibidas pela Igreja. Nos tempos modernos, as qualidades místicas das cartas eram interpretadas pelos videntes.

No tarô, o naipe indicador da divindade feminina são os pentáculos, pensou Langdon, compreendendo que se Jacques Saunière fazia, por brincadeira, batota com o baralho da neta, então o pentáculo se tivesse tornado uma espécie de piada privada.

 Chegara à saída de emergência e Sophie abriu cuidadosamente a porta.  Nenhum alarme tocou. Só as portas exteriores estavam ligadas ao sistema de vigilância. Começaram a descer, cada vez mais depressa, uma estreita escada metálica.

 - Quando o seu avô - disse Langdon, quase a correr atrás dela - lhe falou do pentáculo, fez alguma referência ao culto da deusa ou a qualquer ressentimento contra a Igreja Católica?

 Sophie abanou a cabeça.

 - Não, estava mais interessado nos aspectos matemáticos... a Proporção Divina, PHI, as sequências Fibonacci, esse género de coisas.

 Langdon ficou surpreendido.

 - O seu avô falou-lhe a respeito do número PHI?

 - Claro. A Proporção Divina. - Fez um ar ligeiramente embaraçado. - Até costumava dizer, na brincadeira, que eu era meio divina... por causa das letras do meu nome, está a ver?

 Langdon pensou por um instante, e resmungou para si mesmo.

 s-o-PHI-e.

 Ainda a descer a escada, concentrou-se no número PHI. Começava a compreender que as pistas de Saunière eram ainda mais consistentes do que de início julgara.

 Da Vinci... os números Fibonacci... o pentáculo.

 Incrivelmente, todas aquelas coisas estavam ligadas por um único conceito tão fundamental para a História da Arte que Langdon dedicava com frequência várias aulas ao tema.

 PHI.

 Subitamente, viu-se de novo em Harvard, diante da turma de "Simbolismo na Arte", a escrever no quadro o seu número preferido.

 

 1.618

 Voltou-se para o mar de rostos interessados.

 - Quem sabe dizer-me que número é este?

 Um aluno do curso de Matemática, sentado numa das últimas filas, levantou o braço.

- É o número PHI. - Pronunciava-o como fi.

 - Muito bem, Stettner - disse Langdon. - Senhoras e senhores, apresento-lhes o PHI.

 - Não confundir com PI - acrescentou Stettner, sorrindo. - Como nós, matemáticos, costumamos dizer...

 Calou-se quando os outros alunos se voltaram para ele com expressões irritadas.

 - Este número PHI - continuou Langdon -, um-ponto-seis-um-oito, é um número muito importante na arte. Quem sabe dizer-me porquê?

 - Por ser tão bonito? - arriscou Stettner, tentando redimir-se. Toda a gente riu.

 - A verdade - disse Langdon -, é que o Stettner voltou a acertar. PHI é de um modo geral considerado o número mais bonito do universo.

 Os risos cessaram abruptamente e Stettner sorriu de orelha a orelha.

 Enquanto carregava o projector de diapositivos, Langdon explicou que o número PHI derivava da sequência Fibonacci, uma sequência famosa não só por a soma de dois termos adjacentes ser igual ao termo seguinte, mas também por os quocientes de dois termos adjacentes terem a surpreendente propriedade de se aproximarem de 1.618: PHI!

 A despeito da aparente origem místico-matemática, explicou Langdon, a faceta verdadeiramente extraordinária do número PHI era o seu papel como elemento constitutivo fundamental da natureza. Plantas, animais e até seres humanos, todos possuíam propriedades dimensionais que obedeciam com uma espantosa exactidão à razão de PHI para 1.

 - A ubiquidade do número PHI na natureza - continuou Langdon, apagando as luzes - excede claramente a coincidência, e por isso os Antigos assumiram que tinha sido preordenado pelo Criador do Universo. Os primeiros cientistas chamavam a um-ponto-seis-um-oito a Proporção Divina.

 - Um momento - pediu uma jovem sentada na primeira fila. A minha nuclear é Biologia e nunca vi essa Proporção Divina na natureza.

- Não? - Langdon sorriu. - Já alguma vez estudou a relação entre machos e fêmeas numa comunidade de abelhas?

 - Claro. As fêmeas são sempre em maior número do que os machos.

 - Correcto. E sabia que se dividir o número de fêmeas pelo número de machos em qualquer colmeia do mundo, chega sempre ao mesmo número?

 - Palavra?

 - Nem mais. PHI.

 A jovem abriu muito a boca, incrédula.

 - IMPOSSÍVEL!

 - Muito possível! - ripostou Langdon, sorrindo enquanto projectava a imagem de uma concha em espiral. - Reconhece isto?

 - É um náutilo - respondeu a aluna de Biologia. - Um molusco cefalópode que bombeia gás para dentro da concha compartimentada a fim de regular a flutuabilidade.

 - Exacto. E é capaz de calcular a razão entre o diâmetro de cada espiral e o da seguinte?

 A jovem pareceu insegura, examinando os arcos concêntricos da concha do náutilo.

 Langdon assentiu.

 - PHI. A Proporção Divina. Um-ponto-seis-um-oito. Passou para o diapositivo seguinte: um grande plano da cabeça de uma semente de girassol.

 - As sementes de girassol crescem em espirais opostas. É capaz de calcular a razão entre o diâmetro de cada rotação e o seguinte?

 - PHI? - disse a turma, em coro.

 - Bingo. - Langdon começou a passar rapidamente diversos diapositivos... pétalas espiraladas, segmentos de insectos, disposição das folhas no caule de uma planta... em que se revelava, sem excepção, uma surpreendente obediência à Proporção Divina.

 - Isto é espantoso! - exclamou alguém.

 - Pois é - admitiu uma outra voz -, mas o que é que tem a ver com arte?

 - Ah! - disse Langdon. - Ainda bem que alguém pergunta. Projectou um novo diapositivo, um pergaminho amarelado no qual estava representado o famoso nu de Leonardo da Vinci, O Homem de Vitrúvio, assim chamado em honra de Marcus Vitruvius, o brilhante arquitecto romano que exaltou a Proporção Divina no seu texto De Achitectura. - Ninguém compreendeu melhor do que da Vinci a estrutura divina do corpo humano. Da Vinci chegava ao ponto de exumar cadáveres para poder estudar as proporções da estrutura óssea do ser humano. Foi o primeiro a mostrar que o nosso corpo é literalmente formado por blocos constitutivos cuja razão proporcional é sempre igual a PHI.

A turma inteira dirigiu-lhe um olhar carregado de dúvida.

 - Não acreditam? - desafiou-os Langdon. - Da próxima vez que forem para o duche, levem uma fita métrica.

 Um par de jogadores de futebol fez um risinho trocista.

 - Não me refiro apenas aos infelizes atletas, tão cheios de inseguranças - continuou Langdon. - Todos vocês. Rapazes e raparigas. Experimentem. Meçam a distância do topo da vossa cabeça até ao chão. Então dividam esse valor pelo da distância do vosso umbigo até ao chão. Adivinhem lá que número vão obter.

 - Não me diga que é PHI! - exclamou, incrédulo, um dos futebolistas.

 - Digo, sim senhor - respondeu Langdon. - PHI. Um-ponto-seis-um-oito. Querem outro exemplo? Meçam a distância do ombro às pontas dos dedos, e então dividam-na pela distância do cotovelo às pontas dos dedos. Outra vez PHI. Mais uma? Anca ao chão a dividir por joelho ao chão. PHI. Articulações dos dedos das mãos. Dos pés. Divisões espinais. PHI, PHI, PHI. Meus amigos, cada um de vocês é um tributo ambulante à Proporção Divina.

 Mesmo no escuro, Langdon via as expressões espantadas dos estudantes. Sentiu uma satisfação familiar aquecê-lo por dentro. Era Por aquilo que ensinava.

 - Como vêem, o caos do mundo tem uma ordem subjacente. Quando os Antigos descobriram o número PHI, tiveram a certeza de que tinham encontrado o tijolo que Deus usara para construir o mundo, e veneraram a natureza por causa disso. E é fácil compreender porquê. A mão de Deus é evidente na Natureza, e ainda hoje subsistem religiões pagãs que adoram a Mãe-Terra. Muitos de nós celebramos a Natureza do mesmo modo que os pagãos faziam, sem sequer darmos por isso. O Primeiro de Maio é um exemplo perfeito, a celebração da Primavera... da terra a regressar à vida para produzir a abundância. A misteriosa magia inerente à Proporção Divina foi escrita no início dos tempos. O homem limita-se a jogar segundo as regras da Natureza, e porque a arte é a sua tentativa de imitar a beleza da mão do Criador, podem imaginar que vamos ver muitos exemplos da Proporção Divina ao longo deste semestre.

 Durante a meia hora seguinte, mostrou-lhes diapositivos de obras de Miguel Angelo, Albercht Durer, da Vinci e muitos outros, demonstrando a obediência intencional e rigorosa de todos estes artistas à Proporção Divina na disposição das respectivas composições. Mostrou a presença do número PHI no Pártenon de Atenas, nas pirâmides do Egipto e até no edifício das Nações Unidas em Nova Iorque. O número PHI aparecia na estrutura organizacional das sonatas de Mozart, na 5ª Sinfonia de Beethoven, nas obras de Bartók, Debussy e Schubert. O número PHI, disse Langdon aos seus alunos, fora inclusivamente usado por Stradivarius para calcular a localização exacta dos espelhos nos seus famosos violinos.

 - Para terminar - disse, dirigindo-se ao quadro -, voltamos aos símbolos. - Traçou cinco linhas que se interceptavam para formar uma estrela de cinco pontas. - Este símbolo é uma das imagens mais poderosas que vão ver este semestre. Formalmente conhecido como pentagrama... ou pentáculo, como lhe chamavam os Antigos... é considerado por muitas culturas simultaneamente divino e mágico. Alguém sabe dizer-me porquê?

 Stettner, o matemático, levantou a mão.

 - Porque, se traçar um pentagrama, as linhas dividem-se automaticamente em segmentos de acordo com a Proporção Divina.

 Langdon dirigiu-lhe um orgulhoso aceno de cabeça.

 - Muito bem. É verdade, as razões dos segmentos lineares num pentáculo são todas iguais a PHI, o que faz deste símbolo a expressão perfeita da Proporção Divina. Por esta razão, a estrela de cinco pontas sempre foi o símbolo da beleza e da perfeição associadas à deusa e ao sagrado feminino.

Foi a vez de as raparigas da turma sorrirem de orelha a orelha.

 - Uma nota, minha gente. Hoje limitámo-nos a tocar ao de leve em da Vinci, mas vamos falar muito mais a respeito dele ao longo do semestre. Leonardo era um devoto muito bem informado sobre os antigos usos da deusa. Amanhã, mostrar-lhes-ei o seu fresco. A Última Ceia, que é um dos mais espantosos tributos ao sagrado feminino que alguma vez terão ocasião de ver.

 - Está a brincar, não está? - perguntou alguém. - Pensava que A Última Ceia tinha a ver com Jesus!

 Langdon piscou-lhe um olho.

 - Há símbolos escondidos em lugares que nem imaginam.

 

 - Vamos - sussurrou Sophie. - O que é que se passa? Estamos quase lá. Depressa!

 Langdon olhou para cima, sentindo-se como que regressado de pensamentos muito distantes. Apercebeu-se de que tinha parado a meio da escada, paralisado por uma súbita revelação.

 O draconiano demónio! Oh, santo imperfeito!

 Sophie estava a olhar para ele.

 Não pode ser assim tão simples, pensou Langdon.

 Mas, claro, sabia que era.

 Ali, nas entranhas do Louvre, com imagens de da Vinci e do PHI a revolutearem-lhe na cabeça, Robert Langdon súbita e inexplicavelmente decifrou o código de Saunière.

 - O draconian devil! Oh, lame saint! - disse. - É um código simplicíssimo!

 

 Sophie estava parada na escada alguns degraus mais abaixo, a olhar para ele cheia de confusão. Um código? Estivera a pensar toda a noite naquelas palavras e não vira qualquer código. Sobretudo simplicíssimo.

 - Você mesma o disse. - A voz de Langdon vibrava de excitação. - Os números Fibonacci só têm significado na ordem correcta. De outro modo, são algaraviada matemática.

Sophie não fazia a mínima ideia do que estaria ele a falar. Os números Fibonacci? Tinha a certeza de que o avô só os escrevera para garantir que o Departamento de Criptologia seria chamado a intervir. Têm outro propósito? Enfiou a mão no bolso e tirou de lá o print de computador, voltando a examinar a mensagem do avô:

 

 13-3-2-21-1-1-8-5

 O, Draconian devil!

 Oh, lame saint!

 

 O que é que têm os números?

 - A sequência Fibonacci desordenada é uma pista - disse Langdon, pegando no papel. - Os números indicam como decifrar o resto da mensagem. Escreveu a sequência fora de ordem para nos dizer que aplicássemos o mesmo conceito ao texto. Ó, draconian devil? Oh, lame saint? Estas linhas não têm qualquer significado. São apenas letras escritas fora de ordem.

 Bastou um instante a Sophie para compreender o que Langdon queria dizer, e era ridiculamente simples.

 - Acha que esta mensagem é... une anagramme? - Olhou para ele. - Como as charadas nos jornais?

 Langdon viu espelhado no rosto de Sophie um cepticismo que não teve dificuldade em compreender. Poucas pessoas sabiam que os anagramas, apesar de serem um vulgar passatempo moderno, tinham uma rica história de simbolismo sagrado.

 Os ensinamentos místicos da cabala recorriam constantemente aos anagramas - rearranjando as letras do alfabeto hebraico para conseguir novos significados. Os reis franceses da Renascença estavam tão convencidos do poder mágico dos anagramas que nomeavam anagramistas reais para os ajudarem a tomar as melhores decisões analisando as palavras dos documentos. Os Romanos iam ao ponto de referir-se ao estudo dos anagramas como ars magna - «a grande arte».

 Langdon prendeu com os seus os olhos de Sophie.

 - O que o seu avô queria dizer esteve sempre diante dos nossos olhos, e ele deixou-nos pistas mais do que suficientes para que pudéssemos vê-lo.

Sem mais uma palavra, tirou uma caneta do bolso e redispôs as letras de cada linha.

 

 O, Draconian devil!

 Oh, lame saint!

 era o anagrama perfeito de...

 

 Leonardo da Vinci!

 The Mona Lisa!

 

 

 NT- Por razões que se tornarão patentes mais adiante, é essencial que esta e outras mensagens de Jacques Saunière apareçam aqui tal como ele as escreveu: em inglês. As traduções serão dadas no próprio texto ou, quando necessário, em nota de rodapé.

 Note-se, por ser importante, que a forma «find» é igual para vários tempos verbais. Assim, na ausência do sujeito da frase, nem mesmo um inglês pode saber se significa «encontrar», «encontra», «encontre» ou «encontrem».

 

 A Mona Lisa.

 Por um instante, ali parada na escada de incêndio, Sophie esqueceu tudo a respeito de tentar sair do Louvre.

 O choque que o anagrama lhe causara só se podia equiparar à vergonha de não ter sido ela a decifrar a mensagem. A sua perícia nas técnicas da mais complexa criptoanálise impedira-a de ver um simples jogo de palavras, e no entanto sabia que devia tê-lo visto. Ao fim e ao cabo, não era uma principiante em matéria de anagramas... sobretudo em inglês.

 Quando era menina, o avô usava com frequência charadas e anagramas para lhe aperfeiçoar o inglês. Certa vez, escrevera a palavra planets e dissera-lhe que era possível formar, usando as mesmas letras, nada menos que noventa e duas outras palavras inglesas de vários tamanhos. Sophie passara três dias agarrada a um dicionário inglês até descobri-las todas.

 - Não consigo imaginar - disse Langdon - como foi o seu avô capaz de criar um anagrama tão complicado nos poucos minutos de vida que lhe restavam.

 Sophie sabia a explicação, o que só serviu para fazê-la sentir-se ainda pior. Devia ter visto isto! Lembrou-se de que o avô - um praticante entusiasta dos jogos de palavras e um apaixonado pela arte - gostava de entreter-se, quando jovem, a criar anagramas de obras de famosos. Na realidade, um dos seus anagramas metera-o em sarilhos quando Sophie era ainda menina. Ao ser entrevistado por uma revista de arte americana, Saunière manifestara a sua aversão ao moderno movimento cubista fazendo notar que o título da obra-prima de Picasso Les Demoiselles d’Avignon era um anagrama perfeito de vile meaningless doodles. Os adoradores de Picasso não tinham achado graça nenhuma.

 - Provavelmente, criou este anagrama há já muito tempo - disse, olhando para Langdon. E esta noite teve de usá-lo como código improvisado. A voz do avô falara do além com arrepiante precisão.

 Leonardo da Vinci!

 A Mona Lisa!

 Por que razão as suas derradeiras palavras faziam referência ao célebre quadro era algo que Sophie não conseguia sequer imaginar, mas só lhe ocorria uma possibilidade. Uma  possibilidade perturbadora.

 Aquelas não eram as suas derradeiras palavras...

 Seria suposta ir ver a Mona Lisa! Ter-lhe-ia o avô deixado lá uma mensagem? A ideia parecia perfeitamente plausível. Ao fim e ao cabo, a célebre pintura estava exposta na Salle des États, uma câmara privada acessível apenas a partir da Grande Galeria. Na realidade, Sophie apercebia-se agora disso, as portas dessa câmara ficavam a escassos vinte metros do local onde o avô fora encontrado morto.

 Podia facilmente ter ido até lá antes de morrer.

 Sophie olhou para o alto da escada de incêndio e ficou paralisada pela indecisão. Sabia que tinha de levar Langdon para fora do museu, e no entanto o instinto dizia-lhe que fizesse precisamente o contrário. Recordando a sua primeira visita à Ala Denon, quando era uma criança, compreendeu que se o avô tinha um segredo para lhe contar, poucos lugares na Terra poderiam ser mais adequados como ponto de encontro do que a sala da Mona Lisa.

 

- É só mais um bocadinho - sussurra-lhe o avô, apertando-lhe a mãozinha minúscula enquanto a guiava pelo museu deserto, já depois da hora de encerramento.

 Sophie tinha seis anos. Sentia-se pequena e insignificante ao olhar para os vastos e altíssimos tectos e para os soalhos refulgentes. O museu vazio de gente assustava-a, embora não estivesse disposta a deixar que o avô o percebesse. Cerrou os dentes com força e largou-lhe a mão.

- Lá à frente fica a Salle des États - disse-lhe, enquanto se aproximavam da mais célebre sala do Louvre. A despeito da evidente excitação do avô, Sophie queria era ir para casa. Já vira reproduções da Mona Lisa em livros e não gostara nem um bocadinho. Não conseguia perceber porque é que toda a gente ficava tão excitada por causa daquele quadro.

 - C’est ennuyeux - resmungou.

 - Aborrecido - corrigiu-a o avô. - Francês na escola e inglês em casa.

- Le Louvre c’est pas chez-moi! - desafiou ela.

O avô lançou uma gargalhada cansada.

- Tens toda a razão. Então falemos inglês só pela graça.

 Sophie amuou e continuou a andar. Quando entraram na Salle des États, percorreu com os olhos a estreita sala e deteve-os no evidente lugar de honra: o centro da parede do lado direito, onde estava suspenso um único quadro por detrás de uma parede protectora de Plexiglas. O avô deteve-se à entrada e apontou para o quadro.

 - Vai, Sophie. Muito poucas pessoas têm o privilégio de vê-la sozinhas.

 Engolindo a apreensão que a invadia, Sophie atravessou lentamente a sala. Depois de tudo o que ouvira a respeito da Mona Lisa, sentia-se como se estivesse a aproximar-se de uma rainha. Chegada diante da placa de Plexiglas, reteve a respiração e ergueu os olhos, captando tudo de uma só vez.

 Não sabia muito bem o que esperara sentir, mas não era com certeza aquilo. Nenhuma sacudidela de espanto. Nenhum instante de deslumbramento. O famoso rosto tinha exactamente o mesmo aspecto que nos livros. Ficou em silêncio pelo que lhe pareceu uma eternidade, à espera de que qualquer coisa acontecesse.

 - Então, que achas? - sussurrou o avô, aproximando-se dela pelas costas. - Bonita, não é?

- E muito pequenina. 

Jacques Saunière sorriu.

 - Tu és pequenina e és bonita.

 Não sou nada bonita, pensou ela. Sophie detestava os seus cabelos ruivos e as sardas, e era mais alta do que qualquer dos rapazes da sala dela na escola. Voltou a olhar para a Mona Lisa e abanou a cabeça.

- É ainda pior do que nos livros. A cara dela é... brumeux.

 - Enevoada - ajudou o avô.

 - Enevoada - repetiu Sophie, sabendo que a conversa não andaria para a frente até que ela aprendesse a nova palavra.

 - É o estilo de pintura chamado sfumato - explicou o avô - é muito difícil de conseguir. Leonardo da Vinci fazia-o melhor do que ninguém.

 Sophie continuava a não gostar do quadro.

 - Tem cara de quem sabe qualquer coisa... como quando os meninos na escola têm um segredo.

 O avô riu.

 - Essa é uma das razões que a tornam tão famosa. As pessoas gostam de tentar adivinhar porque está ela a sorrir.

 - Sabes porque é que ela está a sorrir?

 - Talvez. - O avô piscou-lhe um olho. - Um dia hei-de contar-te tudo a respeito dela.

 Sophie bateu com o pé.

 - Já te disse que não gosto de segredos!

 - Princesa! - O avô continuava a sorrir. - A vida é cheia de segredos. Não podes descobri-los todos ao mesmo tempo.

 

 - Vou voltar lá acima - anunciou Sophie, e a voz dela soou cava no poço da escada.

- Ver a Mona Lisa? - Langdon recuou um passo. - Agora?

Sophie considerou o risco.

 - Não sou suspeita de assassínio. Vou arriscar. Tenho de saber o que é que o meu avô estava a tentar dizer-me.

 - E a embaixada?

 Sophie sentia-se culpada por fazer de Langdon um fugitivo só para logo a seguir o abandonar, mas não via outra saída. Apontou para uma porta metálica ao fundo das escadas.

 - Passe por aquela porta e siga os sinais iluminados que indicam a saída. O meu avô costumava trazer-me até aqui. Os sinais levá-lo-ão até uma borboleta de segurança. É monodireccional e abre Para fora. - Entregou-lhe as chaves do carro. - É o SmartCar encarnado que está no parque de estacionamento do pessoal. Mesmo em frente desta fachada. Sabe chegar à embaixada?

Langdon assentiu, olhando para as chaves que tinha na mão.

 - Ouça - continuou Sophie, num tom mais suave. - Penso que o meu avô me deixou uma mensagem na Mona Lisa... qualquer espécie de pista sobre quem o matou. Ou sobre porque é que eu corro perigo. - Ou sobre o que aconteceu à minha família. - Tenho de ir ver.

 - Mas se ele quisesse dizer-lhe por que razão corre perigo, não o teria escrito simplesmente no chão, no sítio onde morreu? Para quê este complicado jogo de palavras?

 - Fosse o que fosse que o meu avô estava a tentar dizer-me, não me parece que quisesse que mais alguém o ouvisse. Nem sequer a Polícia. - Muito claramente, o avô fizera todos os possíveis por enviar-lhe uma mensagem directamente a ela. Escrevera-a em código, incluindo as iniciais secretas, e dissera-lhe que procurasse Robert Langdon... um conselho muito sensato, considerando que o simbologista americano decifrara o código. - Por estranho que possa parecer - acrescentou -, acho que ele queria que eu chegasse à Mona Lisa antes de qualquer outra pessoa.

 - Também vou.

 - Não! Não sabemos durante quanto tempo a Grande Galeria vai continuar deserta. Tem de ir.

 Langdon parecia hesitante, como se a curiosidade académica estivesse à beira de sobrepor-se ao bom senso e arrastá-lo de volta para as mãos de Fache.

 - Vá. Agora. - Sophie dirigiu-lhe um sorriso agradecido. -  Encontramo-nos na embaixada, senhor Langdon.

 Langdon pareceu desagradado.

 - Encontro-me lá consigo com uma condição - disse, firmemente.

 Ela fez uma pausa, sobressaltada.

 - Qual?

 - Que deixe de chamar-me senhor Langdon.

 Sophie detectou a débil sombra de um sorriso torcido espalhar-se pelo rosto de Langdon, e deu por si a sorrir também.

 - Boa sorte, Robert.

 

 Quando chegou ao patamar ao fundo das escadas, Langdon sentiu o cheiro inconfundível a óleo de linhaça e pó de gesso assaltar-lhe as narinas. Lá à frente, um sinal iluminado com a indicação SORTIE/EXIT e uma seta apontava para um comprido corredor.

 Entrou no corredor.

 A direita, abria-se um sombrio estúdio de restauração de onde espreitava um exército de estátuas em vários estádios de reparação. Do lado esquerdo, viu uma série de estúdios que faziam lembrar as aulas de arte em Harvard - filas de cavaletes, quadros, paletas, ferramentas de emoldurar - uma linha de montagem de arte.

 Enquanto descia o corredor, perguntou a si mesmo se não iria, de um momento para o outro, acordar sobressaltado na sua cama em Cambridge. Toda aquela noite lhe parecera um estranho sonho. Estou a preparar-me para fugir do Louvre... um fugitivo procurado pela Polícia.

 A astuta mensagem anagramática de Jacques Saunière não lhe saía da cabeça, e pôs-se a pensar no que iria Sophie encontrar na Mona Lisa... se alguma coisa encontrasse. Parecera segura de que o avô queria que fosse ver o famoso quadro mais uma vez. Por muito plausível que esta interpretação parecesse, Langdon sentia-se assombrado por um perturbador paradoxo.

 P. S. Encontra Robert Langdon.

 Jacques Saunière escrevera o nome dele no chão, ordenando a Sophie que o procurasse. Mas porquê? Apenas para que ele pudesse ajudá-la a decifrar um anagrama?

 Parecia muito improvável.

 Ao fim e ao cabo, Saunière não tinha qualquer razão para pensar que ele fosse especialmente hábil a resolver anagramas. Nem sequer nos conhecíamos. Mais importante, Sophie afirmara sem ambiguidades que ela devia ter decifrado o anagrama sozinha. Fora Sophie que detectara a sequência Fibonacci e sem a mínima dúvida, com um pouco mais de tempo, teria decifrado a mensagem sem ajuda de ninguém.

 A Sophie era suposta resolver aquele anagrama sozinha. Langdon estava a sentir-se cada vez mais seguro disto, e, no entanto, a conclusão abria um buraco evidente na lógica das acções de Saunière.

 Porquê eu? perguntou-se Langdon enquanto percorria o corredor. Por que razão o último desejo de Jacques Saunière antes de morrer foi que a neta, que estava zangada com ele, me procurasse? O que era que ele pensava que eu sabia?

Com um súbito estremecimento, deteve-se a meio de uma passada. Com os olhos muito abertos, procurou no bolso do casaco e tirou de lá o print de computador. Olhou longamente para a última linha da mensagem de Saunière.

 P.S. Find Robert Langdon.

 Concentrou-se em duas letras.

 P. S.

 Naquele instante, Langdon sentiu que a desconcertante mistura de simbolismos de Saunière se tornava perfeitamente clara. Como um raio, uma carreira inteira de simbologia e história desabou-lhe em cima da cabeça. Todas as acções de Jacques Saunière naquela noite faziam de repente todo o sentido.

 Os pensamentos voavam-lhe pelo cérebro enquanto tentava avaliar as implicações do que tudo aquilo significava. Fazendo meia volta, olhou na direcção de onde viera.

 Ainda haveria tempo?

 Sabia que pouco importava.

 Sem hesitar, começou a correr a toda a velocidade em direcção à escada.

 

 Ajoelhado na primeira fila de bancos, Silas fingia rezar enquanto estudava a disposição do santuário. Saint-Sulpice, como a maior parte das igrejas, tinha a forma de uma gigantesca cruz romana. A longa secção central - a nave - conduzia ao altar-mor, onde era transversalmente atravessada por uma secção mais curta, conhecida como transepto. A intercepção da nave com o transepto ocorria exactamente por baixo da cúpula principal e era considerada o coração do templo... o seu ponto mais místico e sagrado.

 Não esta noite, pensou Silas. Saint-Sulpice esconde os seus segredos noutro lugar.

 Olhou para o braço sul do transepto, do lado direito, onde, no espaço livre para lá da última fila de bancos, se encontrava o objecto que as suas vítimas tinham descrito.

 Lá está.

 Embebida no granito cinzento do chão, brilhava uma fina e polida tira de latão... uma linha dourada que atravessava em diagonal o piso da igreja. A linha apresentava marcas graduadas, como uma régua. Era um gnómon, tinham-lhe dito, um instrumento astronómico pagão, como um relógio de sol. Turistas, cientistas e pagãos de todo o mundo iam a Saint-Sulpice olhar para aquela famosa linha.

 A Linha da Rosa.

 Lentamente, Silas seguiu com os olhos o traçado da tira de latão

que passava diante dele da direita para a esquerda, num estranho ângulo que nada tinha que ver com a simetria da igreja. Cortando o próprio altar-mor, pareceu-lhe uma cicatriz que desfigurasse um belo rosto. Dividia em duas a balaustrada da comunhão e seguia em frente, percorrendo toda a largura da igreja para chegar finalmente ao canto do braço norte do transepto e tocar a base de uma estrutura absolutamente inesperada.

 Um colossal obelisco egípcio.

 Ali, a refulgente Linha da Rosa fazia um ângulo de noventa graus para cima e trepava pela face do obelisco, subindo dez metros até à ponta do ápice piramidal, onde finalmente terminava.

 A Linha da Rosa, pensou Silas. A irmandade escondeu a Chave de Abóbada na Linha da Rosa.

 Horas antes, quando Silas lhe dissera que a Chave de Abóbada do Priorado estava escondida em Saint-Sulpice, o Professor parecera pouco convencido. Mas quando Silas acrescentara que todos os irmãos lhe tinham dado a mesma localização exacta, relativamente à linha de latão que atravessava Saint-Sulpice, tivera como que uma revelação.

 - Estás a falar da Linha da Rosa.

 O Professor falara-lhe rapidamente da famosa bizarria arquitectural de Saint-Sulpice: uma tira de metal que atravessava o santuário segundo um eixo exacto norte-sul. Era uma espécie de relógio de sol, um vestígio do templo pagão que se erguera naquele preciso local. A luz do Sol, atravessando o óculo da parede sul, ia avançando ao longo da linha dia-a-dia, indicando a passagem do tempo, de solstício a solstício.

 A tira de latão fora em tempos conhecida como Linha da Rosa. Durante séculos, o símbolo da rosa estivera associado aos mapas e à função de guiar as almas na direcção correcta. A rosa-dos-ventos, ou rosa-náutica, desenhada em praticamente todos os mapas, apontava as trinta e duas direcções de onde sopravam os ventos, correspondentes aos pontos cardeais e intermédios. Quando inscritos num círculo, estes trinta e dois pontos faziam lembrar a tradicional rosa com trinta e duas pétalas. Ainda agora, o instrumento fundamental da navegação continuava a ser conhecido como rosa-dos-ventos, e o Norte apontado por uma ponta de seta... ou, mais comummente, por uma flor-de-lis.

 Num globo, a Linha da Rosa, também chamada meridiano ou longitude, era qualquer linha imaginária traçada do Pólo Norte ao Pólo Sul. Havia, evidentemente, um número infinito de linhas-da-rosa, uma vez que qualquer ponto do globo podia ser atravessado por uma longitude ligando os pólos norte e sul. A questão para os primeiros navegadores era saber qual destas linhas devia ser considerada a Linha da Rosa, ou longitude zero, aquela a partir da qual todas as outras longitudes da Terra seriam medidas.

 Actualmente, essa linha passava por Greenwich, em Inglaterra.

 Mas nem sempre assim fora.

 Muito antes do estabelecimento de Greenwich como principal meridiano, a longitude zero atravessara Paris, e mais exactamente a igreja de Saint-Sulpice. A tira de latão de Saint-Sulpice era um memorial ao primeiro meridiano principal do mundo, e apesar de Greenwich ter, em 1888, roubado essa honra a Paris, a Linha da Rosa original continuava visível.

 - Portanto, a lenda é verdadeira - dissera o Professor. - Dizia-se que a Chave de Abóbada do Priorado «estava sob o Signo da Rosa».

 Agora, ainda ajoelhado no banco, Silas olhou em redor e pôs-se à escuta, para certificar-se de que não havia ali mais ninguém. Por um instante, pareceu-lhe ouvir um restolhar na varanda do coro. Voltou-se e perscrutou o local durante vários segundos. Nada.

 Estou sozinho.

 Pôs-se de pé, voltou-se para o altar e fez três genuflexões. Então, rodou à esquerda e seguiu a tira de latão em direcção ao obelisco.

 

Nesse mesmo momento, no Aeroporto Internacional Leonardo da Vinci, em Roma, a sacudidela dos pneus do avião ao tocarem na pista despertou o bispo Aringarosa da sua sonolência.

 Dormitei, pensou, espantado por estar suficientemente descontraído para adormecer.

- Benvenuto a Roma - disse uma voz nos altifalantes.

Endireitando-se no banco, Aringarosa alisou a sotaina preta e permitiu-se um raro sorriso. Aquela fora uma viagem que tivera Prazer em fazer. Estou na defensiva há demasiado tempo. Naquela noite, porém, as regras tinham mudado. Havia apenas cinco meses, Aringarosa temera pelo futuro da Fé. Agora, como que por vontade de Deus, a solução surgira por si mesma.

 Intervenção divina.

 Se em Paris, tudo corresse como planeado, Aringarosa estaria em breve na posse de algo que faria dele o homem mais poderoso da cristandade.

 

 Sophie chegou ofegante diante das portas de madeira da Salle des États, a sala onde estava exposta a Mona Lisa. Antes de entrar, olhou relutantemente mais para o fundo da Grande Galeria, onde, a uma distância de cerca de vinte metros, o corpo do avô continuava caído no chão, iluminado pela luz do projector.

 O remorso que lhe apertou o coração foi súbito e poderoso, uma profunda tristeza a que se misturava um pouco de culpa. O avô estendera-lhe tantas vezes a mão ao longo daqueles últimos dez anos, e ela permanecera inflexível, deixando as cartas e as encomendas que ele lhe enviava por abrir na última gaveta da cómoda e frustrando todas as tentativas de contacto. Mentiu-me! Guardou segredos terríveis! Que havia eu de fazer? E por isso pusera-o fora da sua vida. Completamente.

 Agora, o avô estava morto, e mesmo do além continuava a tentar falar com ela.

 A Mona Lisa.

 Estendeu as mãos para as grandes portas de madeira e empurrou. As portas abriram-se. Sophie deteve-se por um instante no umbral, perscrutando a vasta sala rectangular. Também ela estava banhada numa suave luz avermelhada. A Salle des États era um dos raros culs-de-sac do museu: um beco sem saída e a única sala que abria para a Grande Galeria. Aquelas portas, única entrada e saída da câmara, ficavam em frente de um imponente Botticelli com quatro metros e meio, exposto na parede oposta. Entre os dois, no meio da galeria, um grande sofá octogonal oferecia um ponto de pausa onde os milhares de visitantes podiam repousar as pernas enquanto admiravam a mais valiosa das jóias do museu.

Antes mesmo de entrar, porém, Sophie soube que lhe faltava qualquer coisa. Uma fonte de luz negra. Olhou uma vez mais para o corpo estendido do avô, rodeado de aparelhagem electrónica. Se escrevera ali alguma coisa, usara quase de certeza uma caneta de marca de água.

 Inspirando fundo, dirigiu-se apressadamente ao bem iluminado local do crime. Incapaz de olhar para o corpo, concentrou-se no material deixado pela equipa pericial. Encontrou uma pequena lanterna de luz negra, enfiou-a no bolso do camisolão e regressou o mais depressa que pôde às portas abertas da Salle des États.

 Dobrou a esquina e passou o umbral. A sua entrada foi, no entanto, acolhida pelo som inesperado de passos abafados vindos do interior da câmara. Está aqui alguém! Uma figura fantasmagórica emergiu repentinamente da sombra avermelhada. Sophie saltou para trás.

 - Ah, finalmente! - o sussurro rouco de Langdon quebrou o silêncio enquanto a silhueta dela se detinha a poucos passos. O alívio de Sophie foi apenas momentâneo.

 - Robert, tinha-lhe dito para sair daqui. Se o Fache...

 - Onde esteve?

 - Precisava de uma fonte de luz negra - murmurou ela, mostrando-lhe a lanterna. - Se o meu avô deixou uma mensagem...

 - Sophie, ouça - interrompeu-a Langdon, cravando nos dela os olhos azuis. - As letras P.S... significam qualquer outra coisa para si? Seja o que for?

 Receosa de que as vozes deles ecoassem na galeria deserta, Sophie puxou-o para dentro da Salle des États e fechou silenciosamente as portas.

 - Já lhe disse, as iniciais significam Princesa Sophie.

 - Eu sei, mas alguma vez as viu noutro lado qualquer? O seu avô usava as letras P.S. de qualquer outra maneira? Como monograma ou talvez em papel de carta ou num artigo pessoal?

 A pergunta sobressaltou-a. Como é que ele sabe? Era verdade, tinha visto as iniciais numa outra ocasião, numa espécie de monograma. Fora na véspera do dia em que fazia nove anos, quando estava a passar secretamente revista à casa, à procura de prendas de aniversário.

 

 Já nesse tempo, detestava segredos. O que foi que o avô me comprou este ano? Revirou armários e gavetas. Será a boneca que eu queria? Onde a terá escondido?

 Nada encontrando no resto da casa, Sophie reuniu coragem suficiente para entrar no quarto do avô. Estava expressamente proibida de fazê-lo, mas o avô dormia lá em baixo, sentado no sofá.

 Vou só dar uma espreitadela!

 Avançou em bicos de pés sobre as tábuas tangentes do soalho até ao guarda-fato e espreitou para as prateleiras atrás das roupas penduradas. Nada. Depois, procurou debaixo da cama. Nada. Passou à secretária e, abrindo as gavetas uma a uma, revistou-as cautelosamente. Tem de haver aqui qualquer coisa para mim! Quando chegou à última, não encontrara ainda vestígios de qualquer boneca. Desanimada, abriu-a e empurrou para o lado umas roupas pretas que nunca vira o avô usar. Preparava-se para desistir quando vislumbrou o brilho do ouro ao fundo da gaveta. O coração começou a bater-lhe mais depressa quando percebeu o que devia ser.

 Um colar!

 Com todo o cuidado, tirou a corrente da gaveta. Para sua surpresa, tinha suspensa da ponta uma refulgente chave de ouro. Pesada e brilhante. Hipnotizada, ergueu-a nas mãos. Era diferente de qualquer outra chave que já tivesse visto. A maior parte das chaves era achatada, com dentes recortados, mas aquela tinha uma haste triangular coberta de pequenas marcas. A pega tinha a forma de uma cruz, mas não de uma cruz normal. Era uma cruz de braços iguais, como um sinal de mais. Gravado no meio da cruz, viu um estranho símbolo: duas letras entrelaçadas com uma espécie de motivo floral.

 - P.S. - murmurou, franzindo a testa enquanto lia as letras. Que quererá isto dizer?

 - Sophie? - chamou o avô, da porta.

 Assustada, voltou-se bruscamente, deixando cair a chave, que bateu no chão com um ruído surdo.

 - Estava... à procura da minha prenda de anos - disse, baixando a cabeça, sabendo que tinha traído a confiança dele.

Pelo que lhe pareceu uma eternidade, o avô permaneceu silencioso e imóvel, à porta do quarto. Finalmente, deixou escapar um longo suspiro.

 - Apanha a chave, Sophie.

 Sophie apanhou a chave.

 O avô entrou no quarto.

 - Sophie, tens de respeitar a privacidade das outras pessoas. - Gentilmente, ajoelhou junto dela e tirou-lhe a chave das mãos. Esta chave é muito especial. Se a perdesses...

 A voz calma do avô fê-la sentir-se ainda pior.

 - Peço desculpa, grand-père, palavra... Pensei que fosse um colar para os meus anos.

 O avô ficou a olhar para ela pelo espaço de vários segundos.

 - Vou dizer-te isto mais uma vez, Sophie, porque é importante. Tens de aprender a respeitar a privacidade das outras pessoas.

 - Sim, grand-père.

 - Voltamos a falar disto noutra ocasião. De momento, o jardim tem ervas daninhas que é preciso arrancar.

 Sophie apressou-se a sair, para ir tratar dos seus deveres.

 Na manhã seguinte, não recebeu qualquer prenda de aniversário do avô. Nem estava à espera de receber, depois do que tinha feito. Mas ele nem sequer lhe deu os parabéns durante todo o dia. Nessa noite, foi triste para a cama. Quando se preparava para se deitar, no entanto, viu um cartão em cima da almofada. No cartão, estava escrito um enigma. Ainda antes de o resolver, já estava a sorrir. Já sei o que é! O avô tinha feito o mesmo no último Natal.

 Uma caça ao tesouro!

 Alvoroçada, estudou o enigma até descobrir a solução. Que a encaminhou para outra parte da casa, onde encontrou outro cartão e outro enigma. Resolveu também este e correu para o seguinte, com o coração em festa, correu de um lado para o outro, de pista em pista, até que, finalmente, encontrou uma que a fez voltar ao quarto. Subiu os degraus da escada aos dois de cada vez, entrou de rompante no quarto e deteve-se, paralisada. À sua frente, brilhante maravilhosa, estava uma bicicleta vermelha, com uma fita atada ao guiador. Sophie gritou de pura delícia.

 - Eu sei que tinhas pedido uma boneca - disse o avô, a sorrir-lhe do canto. - Mas achei que ias gostar ainda mais disto.

No dia seguinte, o avô ensinou-a a andar de bicicleta, correndo ao lado dela no caminho empedrado do jardim. Quando Sophie se desviou para a relva e perdeu o equilíbrio, caíram os dois, rebolando e rindo.

 - Grand-père - disse Sophie, abraçando-o -, peço desculpa por aquilo da chave.

 - Tudo bem, querida. Estás perdoada. Não consigo estar zangado contigo. Os avôs e as netas perdoam sempre uns aos outros.

 Sophie sabia que não devia perguntar, mas não conseguiu evitá-lo.

 - O que é que ela abre? Nunca vi uma chave assim. É muito bonita.

 O avô ficou calado por um longo instante, e Sophie percebeu que não sabia muito bem como responder-lhe. O grand-père nunca mente.

 - Abre um cofre - disse, finalmente. - Onde guardo muitos segredos.

 Sophie amuou.

 - Odeio segredos!

 - Eu sei, mas estes são segredos importantes. E, um dia, hás-de aprender a dar-lhes tanto valor como eu lhes dou.

 - Vi letras na chave, e uma flor.

 - Sim, é a minha flor preferida. Chama-se flor-de-lis. Temo-las no jardim. São as brancas. Também se lhes chama lírios.

 - Já sei! Também são as minhas preferidas!

 - Então, vou fazer um acordo contigo. - O avô arqueou as sobrancelhas, como costumava fazer sempre que lhe propunha um desafio. - Se conseguires guardar segredo a respeito da minha chave, e nunca mais voltares a falar dela, a mim ou seja a quem for, um dia hei-de dar-ta.

 Sophie nem queria acreditar no que ouvia.

 - Palavra?

 - Prometo. Quando chegar a altura, a chave será tua. Até tem o teu nome escrito.

 Sophie franziu a testa.

-  Não, não tem. Diz P.S. Eu não me chamo P.S.!

 O avô baixou a voz e olhou em redor, como que a certificar-se de que ninguém os ouvia.

- Muito bem, Sophie, se queres saber, P.S. é um código. São as tuas iniciais secretas.

 Ela abriu muito os olhos.

 - Tenho umas iniciais secretas?

 - Claro. Todas as netas têm iniciais secretas que só os avôs conhecem.

 - P.S.?

 Ele fez-lhe cócegas.

 - Princesse Sophie.

 - Não sou nenhuma princesa! - disse ela, rindo. O avô piscou-lhe um olho.

 - És, pois. Para mim.

 A partir desse dia, nunca mais voltaram a falar da chave. E ela passara a ser a Princesa Sophie.

 

Fechada na Salle des États, Sophie permanecia em silêncio, a suportar a dor da perda.

 - As iniciais - insistiu Langdon, olhando para ela de um modo estranho. - Já as tinha visto?

 Sophie sentiu a voz do avô a sussurrar nos corredores do museu. Nunca fales desta chave, Sophie. a mim ou seja a quem for. Sabia que já lhe falhara não lhe perdoando, e perguntou a si mesma se seria capaz de voltar a trair a confiança dele. P.S. Encontra Robert Langdon. O avô queria que Langdon a ajudasse. Assentiu com a cabeça.

 - Sim, vi estas iniciais uma vez. Quando era muito nova.

 - Onde?

 Sophie hesitou.

- Numa coisa muito importante para ele.

Langdon prendeu o olhar ao dela.

 - Sophie, isto é crucial. Pode dizer-me se as iniciais apareciam juntamente com um símbolo? Uma flor-de-lis?

 Sophie sentiu-se recuar um cambaleante passo, espantada.

 - Mas... mas como é que sabe?

 Langdon deixou escapar o ar que retinha nos pulmões e baixou a voz:

 - Tenho quase a certeza de que o seu avô era membro de uma Sociedade secreta. Uma irmandade secreta muito antiga.

Sophie sentiu um nó no estômago. Também ela estava certa disso. Durante dez anos, tentara esquecer o incidente que lhe confirmara a terrível verdade. Testemunhara algo impensável. Imperdoável.

 - A flor-de-lis - continuou Langdon - e as iniciais P.S. são o emblema oficial da irmandade. O brasão. O logotipo, por assim dizer.

 - Como é que sabe tudo isso? - Sophie estava a pedir a Deus que Langdon não lhe dissesse que também ele era membro.

 - Escrevi a respeito desse grupo - respondeu Langdon, com a voz trémula de excitação. - Pesquisar os símbolos das sociedades secretas é uma das minhas especialidades. Chamam a si mesmos le Prieuré de Sion... o Priorado de Sião. Têm a sua base aqui em França e atraem membros importantes de toda a Europa. Na realidade, são uma das sociedades secretas mais antigas ainda existentes.

 Sophie nunca ouvira falar deles.

 Langdon falava agora apressadamente, como se temesse não ter tempo para dizer tudo:

 - O Priorado tem contado entre os seus membros alguns dos indivíduos mais cultos da História: homens como Botticelli, Sir Isaac Newton, Victor Hugo. - Fez uma pausa, com a voz a ressumar zelo académico. - E Leonardo da Vinci.

 Sophie sobressaltou-se.

 - Da Vinci fazia parte de uma sociedade secreta?

 - Chefiou o Priorado entre 1510 e 1519, como Grão-Mestre da irmandade, o que talvez ajude a explicar a paixão do seu avô pelas obras dele. Havia entre os dois um laço de fraternidade histórica. E tudo isto encaixa perfeitamente com o fascínio de ambos pela iconologia da deusa, o paganismo, as divindades femininas, e também com o desprezo pela Igreja. O Priorado tem uma história bem documentada de reverência pelo sagrado feminino.

 - Está a dizer-me que esse grupo é um culto pagão da deusa?

 - Diria antes que é o culto pagão da deusa. Mas, mais importante do que isso, são conhecidos como os guardiães de um segredo muito antigo. Um segredo que os torna incomensuravelmente poderosos.

A despeito da convicção absoluta que brilhava nos olhos de Langdon, a reacção visceral de Sophie era de total incredulidade. Um culto pagão secreto? Em tempos encabeçado por Leonardo da Vinci? Tudo aquilo parecia completamente absurdo. E no entanto, ao mesmo tempo que recusava acreditar, sentia a mente recuar dez anos... até à noite em que surpreendera involuntariamente o avô e testemunhara aquilo que continuava a não poder aceitar. Poderá isto explicar...?

 - A identidade dos membros vivos do Priorado é um segredo ciosamente guardado - continuou Langdon -, mas o P.S. e a flor-de-lis que viu quando era criança são prova. Só pode estar relacionado com o Priorado.

 Sophie compreendeu então que Langdon sabia muito mais do que ela de início julgara a respeito do avô. Aquele americano tinha sem a mínima dúvida volumes de informação para partilhar, mas não ali.

 - Não posso dar-me ao luxo de deixar que o apanhem, Robert. Temos muita coisa a discutir. Tem de ir!

 

 Langdon ouviu apenas o débil murmúrio da voz dela. Não ia a parte nenhuma. Estava perdido num outro lugar. Um lugar onde segredos antigos subiam à superfície. Um lugar onde histórias esquecidas emergiam das sombras.

 Lentamente, como se estivesse a mover-se debaixo de água, voltou a cabeça e olhou através da penumbra avermelhada para a Mona Lisa.

 A flor-de-lis... a flor de Lisa... a Mona Lisa.

 Estava tudo interligado, uma sinfonia silenciosa em que ecoavam os segredos mais profundos do Priorado de Sião e de Leonardo da Vinci.

 

 A poucos quilómetros dali, na margem do rio juntos a Les Invalides, o estupefacto condutor do grande camião TIR, de mãos no ar sob a ameaça de várias armas, via o capitão da Polícia Judiciária lançar um gutural rugido de raiva e atirar uma barra de sabonete às escuras às águas do Sena.

 

 Silas ergueu os olhos para o topo do obelisco de Saint-Sulpice, medindo o tamanho da maciça coluna de pedra. Sentia os tendões tensos de expectativa. Olhou uma vez mais em redor, para certificar-se de que continuava sozinho. Ajoelhou-se então junto à base do obelisco, não em reverência, mas por necessidade.

 A Chave de Abóbada está escondida debaixo da Linha, da Rosa.

 Na base do obelisco de Sulpice.

 Todos os irmãos tinham dito o mesmo.

 De joelhos, Silas passou as mãos pelo chão de pedra. Não viu quaisquer rachas ou marcas que indicassem uma laje amovível, de modo que começou a bater ao de leve com os nós dos dedos no chão. Seguindo a linha de latão junto ao obelisco, foi batendo com os dedos nas lajes de ambos os lados. Finalmente, uma delas ressoou estranhamente.

 Há uma cavidade debaixo do chão!

 Silas sorriu. As suas vítimas tinham dito a verdade.

 Pôs-se de pé e procurou em redor qualquer coisa que pudesse usar para partir a laje.

 

 Bem lá em cima, na varanda do coro, a irmã Sandrine abafou uma exclamação. Os seus mais negros receios acabavam de ser confirmados. O visitante não era o que parecia. O misterioso monge da Opus Dei fora a Saint-Sulpice com um outro objectivo.

 Um objectivo secreto.

 Não és só tu que tens segredos, pensou.

A irmã Sandrine Bieil era mais do que a zeladora daquela igreja. Era uma sentinela. E, naquela noite, as antigas engrenagens tinham sido postas em movimento. A chegada daquele estranho junto à base do obelisco era um sinal da irmandade.

 Era um grito de alarme.

 

 A embaixada dos Estados Unidos em Paris é um complexo compacto situado na Avenue Gabriel, a norte dos Champs-Elysées. O recinto, com doze mil metros quadrados, é considerado solo americano, o que significa que todos os que lá se encontrem estão sujeitos às mesmas leis e gozam das mesmas salvaguardas que teriam nos Estados Unidos.

 A telefonista do turno da noite da embaixada estava a ler a edição internacional da Time quando a campainha do telefone a interrompeu.

 - Embaixada dos Estados Unidos - respondeu.

 - Boa noite. - O homem que ligara falava inglês com sotaque francês. - Preciso de ajuda. - Não obstante a delicadeza das palavras, o tom era seco e oficial. - Disseram-me que há uma chamada telefónica para mim no sistema automático. O nome é Langdon. Infelizmente, esqueci o meu código de acesso de três dígitos. Ficar-lhe-ia muito grato se pudesse ajudar-me.

 A telefonista hesitou, confusa.

 - Lamento muito, senhor. A sua mensagem deve ser muito antiga. Esse sistema foi desactivado há dois anos, por razões de segurança. Além disso, todos os códigos de acesso tinham cinco dígitos. Quem lhe disse que tinha uma mensagem?

 - Não têm um serviço de mensagens automático?

 - Não, senhor.

 - Qualquer mensagem que lhe fosse destinada teria sido transcrita manualmente pelos nossos serviços. Importa-se de repetir o seu nome?

 Mas o homem tinha desligado.

Bezu Fache estava como que aparvalhado enquanto andava de um lado para o outro junto à margem do Sena. Tinha a certeza de ter visto Langdon marcar um número local, introduzir um código de três dígitos e em seguida ouvir uma mensagem gravada. Mas se o Langdon não telefonou para a embaixada, para quem diabo telefonou?

 Foi nesse momento, ao olhar para o telemóvel, que Fache compreendeu que tinha a resposta na palma da mão. Usou o meu telefone para fazer a chamada.

 Premindo a tecla do menu, chamou ao visor a lista dos últimos números marcados e descobriu o telefonema que Langdon tinha feito.

 Um número de Paris, seguido pelo código 454.

 Premiu então a tecla de remarcar e esperou.

 Finalmente, uma voz de mulher disse:

 - «Bonjour, vous êtes bien chez Sophie Neveu. Je suis absente pour le moment, mais...»

 Fache sentia o sangue a ferver de raiva enquanto marcava 4...5..4

 

 A despeito da sua fenomenal reputação, a Mona Lisa tem uns meros 75,5 cm por 25,5 cm - menos do que os cartazes com a reprodução vendidos na loja de souvenirs do Louvre. Está suspensa da parede noroeste da Salle des États, atrás de uma placa de Plexiglas com cinco centímetros de espessura. A atmosfera etérea, enevoada, do quadro, pintado num painel de madeira de choupo, é atribuída ao incomparável domínio que da Vinci tinha da técnica do sfumato, em que as formas parecem dissolver-se umas nas outras.

 Desde que assentou residência no Louvre, a Mona Lisa - ou La Joconde, como lhe chamam em França - foi roubada por duas vezes, a última das quais em 1911, quando desapareceu da «salle impénétrable» do Louvre - Le Salon Carré. Os parisienses choraram nas ruas e escreveram artigos nos jornais suplicando aos ladrões que devolvessem o quadro. Dois anos mais tarde, encontraram-na no fundo falso de uma mala, num quarto de hotel em Florença.

 Langdon, tendo deixado bem claro a Sophie que não tencionava ir-se embora, atravessou com ela a Salle des États. Estavam ainda a vinte metros de distância do quadro quando Sophie ligou a lanterna de luz negra e o fino feixe azulado começou a correr pelo chão à frente deles. Sophie fazia-o balançar de um lado para o outro, como um detector de minas, em busca do mais pequeno vestígio de tinta luminescente.

 Enquanto avançava ao lado dela, Langdon sentia já o formigueiro de antecipação que acompanhava sempre os seus encontros face-a-face com as grandes obras de arte. Esforçou-se por ver para lá do casulo de luz violeta emitido pela lanterna que Sophie levava na mão.

À esquerda, o sofá octogonal da sala emergiu das sombras, parecendo uma ilha negra no meio de um mar vazio de parquet.

 Langdon começava a ver o painel de vidro escuro na parede. Do outro lado, nos recessos da sua cela privada, encontrava-se suspenso o quadro mais célebre do mundo.

 O status da Mona Lisa como a obra de arte mais famosa do mundo nada tinha a ver, Langdon bem o sabia, com o seu enigmático sorriso. Nem se devia às misteriosas interpretações que lhe eram atribuídas por numerosos historiadores de arte e maníacos da teoria de conspiração. Muito simplesmente, a Mona Lisa era famosa porque Leonardo da Vinci a considerava a mais perfeita das suas realizações. Levava o quadro consigo para onde quer que viajasse e, se lhe perguntavam porquê, respondia que tinha dificuldade em separar-se da mais sublime expressão da beleza feminina.

 Mesmo assim, muitos historiadores de arte suspeitavam de que a reverência de da Vinci pela Mona Lisa nada tinha a ver com a sua maestria artística. Na realidade, o quadro era um retrato sfumato surpreendentemente vulgar. A veneração do artista pela sua obra, diziam, devia-se a algo muito mais profundo: uma mensagem escondida nas camadas de tinta. A Mona Lisa era, de facto, uma das piadas privadas mais estudadas do mundo. A bem documentada colagem de duplos sentidos e alusões jocosas do quadro tem sido descrita na maior parte dos livros de História da Arte, o que, incrivelmente, não impedia que o público em geral continuasse a considerar o seu sorriso um grande mistério.

 Não há qualquer mistério, pensou Langdon enquanto avançava e via os difusos contornos do quadro começarem a ganhar forma. Nenhum mistério.

 Muito recentemente, tinha partilhado o segredo da Mona Lisa com um grupo bastante inesperado de ouvintes: uma dúzia de detidos na Essex County Penitentiary. O seminário fizera parte de um Programa de Harvard que visava levar a educação ao sistema prisional. Cultura para Condenados, como os colegas de Langdon gostavam de lhe chamar.

 

De pé junto de um retroprojector na biblioteca da penitenciária> de luzes apagadas, Langdon explicou o segredo da Mona Lisa aos presos que assistiam à aula, homens que achara surpreendentemente interessados - rudes, mas atentos.

 - Notarão - disse-lhes, aproximando-se da imagem projectada na parede - que o fundo por detrás do rosto dela não é uniforme. - Apontou para a clamorosa discrepância. - Da Vinci pintou a linha de horizonte do lado esquerdo muito mais abaixo do que do lado direito.

- Fez borrada? - perguntou um dos homens.

Langdon riu-se.

 - Não. Da Vinci raramente fazia borrada. Na realidade, trata-se de um pequeno truque. Ao baixar a paisagem à esquerda, fez com que a Mona Lisa parecesse muito maior desse lado do que do direito. Uma piadinha privada, poder-se-ia dizer. Historicamente, os conceitos de masculino e feminino têm lados atribuídos: o esquerdo é feminino, o direito é masculino. Da Vinci, sendo um grande fã dos princípios femininos, fez a Mona Lisa parecer mais majestosa do lado esquerdo.

 - Ouvi dizer que ele era maricas - disse um homem que usava uma barbicha.

 Langdon franziu os lábios.

 - De um modo geral, os historiadores não põem a coisa exactamente nesses termos, mas sim, da Vinci era homossexual.

 - Era por isso que estava tão nessa do feminino?

 - Na realidade, da Vinci estava em sintonia com o equilíbrio entre o masculino e o feminino. Acreditava que a alma humana só podia ser iluminada se possuísse em simultâneo elementos masculinos e femininos.

- Quer dizer, miúdas com pilas? - perguntou alguém.

 A saída provocou uma explosão de gargalhadas. Langdon considerou a hipótese de lhes dar uma explicação etimológica atenuada a respeito da palavra hermafrodita e das ligações a Hermes e a Afrodite, mas algo lhe disse que seria um esforço baldado.

 - Eh, senhor Langdon - interpelou-o um homem cheio de músculos. - É verdade que a Mona Lisa é um retrato do da Vinci vestido de mulher? Ouvi dizer que sim.

 - É muito possível - respondeu Langdon. - Da Vinci era um brincalhão, e a análise computadorizada da Mona Lisa e de alguns dos seus auto-retratos confirma a existência de vários e surpreendentes pontos de congruência em ambos os rostos. Mas, fosse qual fosse a intenção de da Vinci, a Mona Lisa não é macho nem fêmea. Transmite uma subtil mensagem de androginia. É uma fusão de ambas as coisas.

 - Tem a certeza de que isso não é só conversa de chacha erudita para dizer que a Mona Lisa é feia como o caraças?

 Langdon riu-se.

 - Talvez tenha razão. Mas a verdade é que da Vinci deixou uma indicação muito clara de que o quadro deve ser considerado andrógino. Já alguém ouviu falar de um deus egípcio chamado Amon.

 - Raios, sim - respondeu o homem dos músculos. - O deus da fertilidade masculina!

 Langdon estava espantado.

 - É o que vem escrito em todas as caixas de preservativos Amon. - O Hércules sorriu amplamente. - Têm na parte da frente um tipo com cabeça de carneiro e diz que é o deus egípcio da fertilidade. Langdon não conhecia a marca, mas ficou contente por saber que os fabricantes de profilácticos tinham interpretado correctamente os hieróglifos.

 - Muito bem. Amon é de facto representado por um homem com cabeça de carneiro. E sabem como se chamava o seu equivalente feminino? Quem era a deusa egípcia que encarnava a mulher-modelo?

 Seguiram-se vários segundos de sepulcral silêncio.

 - Era Isis - disse Langdon, pegando num marcador. - Temos, pois, o deus masculino, Amon - e escreveu a palavra num acetato -, e a deusa feminina, Isis, cujo antigo pictograma se chamava outrora L’ISA.

 Langdon parou de escrever e afastou-se do projector.

 

 AMON L‘ISA

 

 - Lembra-lhes alguma coisa? - perguntou.

 - Mona Lisa... olha que porra! - exclamou alguém. 

 Langdon assentiu.

 - É verdade, meus senhores, não só o rosto da Mona Lisa parece andrógino, como o seu próprio nome é um anagrama da união divina entre o masculino e o feminino. É este, meus amigos, o segredo de da Vinci, e a razão daquele sorrisinho de quem sabe qualquer coisa.

 

- O meu avô esteve aqui - disse Sophie, ajoelhando a menos de dez metros do quadro.

Apontou o feixe de luz negra para um ponto do soalho de parquet.

 De início, Langdon nada viu então, ao ajoelhar junto dela, reparou numa minúscula gota luminescente de líquido seco. Tinta? De súbito, recordou para o que era geralmente usada a luz negra. Sangue. Sentiu-se vibrar. Sophie tinha razão. Jacques Saunière fizera uma última visita à Mona Lisa antes de morrer.

 - Não teria vindo aqui sem um motivo - sussurrou Sophie, pondo-se de pé. - Tenho a certeza de que me deixou uma mensagem. - Percorrendo rapidamente os poucos passos que faltavam, iluminou o chão em frente do quadro. Fez deslizar a luz negra de um lado para o outro sobre o soalho nu.

 - Há aqui qualquer coisa!

 Nesse instante, Langdon viu um débil brilho púrpura no grosso vidro que protegia o quadro.   Agarrou o pulso de Sophie e ergueu lentamente o feixe de luz.

 Ficaram ambos como que petrificados.

 No vidro, rabiscadas directamente sobre o rosto da Mona Lisa, seis palavras refulgiam a púrpura.

 

 Sentado à secretária de Saunière, o tenente Collet apertou o telefone contra o ouvido, incrédulo. Terei ouvido bem?

 - Um sabonete? Mas como conseguiu o Langdon descobrir o marcador GPS?

 - A Sophie Neveu - respondeu Fache. - Foi ela que lhe disse.

 - O quê! Porquê?

 - A pergunta é boa, mas acabo de ouvir uma gravação que confirma que ela o avisou.

 Collet estava sem palavras. Que raio terá passado pela cabeça da Neveu? Fache tinha provas de que Sophie interferira com uma investigação da DCPJ? Sophie Neveu não ia só ser despedida, ia também para a prisão.

 - Mas, capitão... onde está o Langdon agora?

 - Disparou aí algum alarme?

 - Não.

 - E ninguém passou por baixo da grade da Grande Galeria?

 - Não. Temos lá um dos seguranças do museu, como mandou.

 - Muito bem, então o Langdon ainda deve estar dentro da Grande Galeria.

 - Dentro? Mas que está ele lá a fazer? O segurança do museu está armado?

 - Sim. É um graduado.

 - Mande-o entrar - ordenou Fache. - Ainda vou demorara aqui uns minutos, e não quero que o Langdon descubra uma saída - Fache fez uma pausa. - E o melhor é dizer ao segurança que agente Neveu provavelmente está com ele.

- Pensei que a agente Neveu se tinha ido embora.

 - Viu-a sair?

 - Não, mas...

 - Também nenhum dos homens que vigiavam o perímetro a viu sair. Só a viram entrar.

 Collet estava estupefacto com a ousadia de Sophie. Ainda está no edifício?

 - Trate disso - continuou Fache. - Quero o Langdon e a Neveu detidos quando aí chegar.

 

 Enquanto o camião TIR se afastava, o capitão Fache reuniu os seus homens. Robert Langdon provara ser uma presa escorregadia, e com a agente Neveu a ajudá-lo, podia tornar-se mais difícil de encurralar do que tinham esperado.

 Decidiu não correr riscos.

 Por uma questão de segurança, mandou metade dos agentes regressar ao Louvre, enquanto os restantes iam vigiar o único outro lugar de Paris onde Robert Langdon poderia encontrar refúgio.

 

 Na Salle des États, Langdon olhava espantado para as seis palavras que brilhavam na placa de Plexiglas. O texto parecia pairar no espaço, lançando uma sombra recortada sobre o enigmático sorriso da Mona Lisa.

 - O Priorado! - murmurou. - Isto prova que o seu avô era membro!

 Sophie olhou para ele, confusa.

 - Compreende o que está ali escrito?

 - Claro - assentiu Langdon, com o cérebro a funcionar a todo o vapor. - É a proclamação de uma das filosofias mais fundamentais do Priorado.

 Sophie voltou a olhar para a mensagem escrita sobre o rosto da Mona Lisa.

 Em inglês, como a que Jacques Saunière escrevera no chão junto ao lugar onde tinha morrido.

 

SO DARK THE CON OF MAN

 

 - «Tão negra a mentira do homem»? - murmurou Sophie, tentando uma tradução que fizesse sentido.

 - A tradição do Priorado de perpetuar o culto da deusa baseia-se - explicou Langdon - na convicção de que homens poderosos pertencentes à primitiva Igreja cristã enganaram o mundo propagando mentiras que desvalorizavam o feminino e faziam pender a balança para o lado do masculino.

 Sophie permaneceu silenciosa, a olhar para as palavras.

- O Priorado acredita que Constantino e os seus sucessores masculinos conseguiram converter o mundo do paganismo matriarcal ao cristianismo patriarcal montando uma campanha de propaganda que demonizou o sagrado feminino, obliterando para sempre a deusa da nova religião.

 A expressão de Sophie continuava a revelar incerteza.

 - O meu avô mandou-me a este lugar para encontrar isto. Devia estar a tentar dizer-me mais qualquer coisa.

 Langdon percebeu o que ela queria dizer. Pensa que isto é outro código. Se havia ou não ali um significado escondido, era coisa que não podia dizer naquele instante. O seu espírito estava ainda a lidar com a ousada clareza da mensagem de Saunière.

 Tão negra a mentira do homem, pensou. Negra, sem dúvida.

 Ninguém podia negar o bem enorme que a Igreja moderna fazia no conturbado mundo actual, e, no entanto, essa mesma Igreja tinha uma história de falsidade e violência. A brutal cruzada para «reeducar» as religiões pagãs e os cultos femininos prolongara-se por três séculos, com o recurso a métodos tão inspirados como horríveis.

 A Inquisição católica publicara o livro que podia sem exagero ser considerado o texto mais ensopado em sangue de toda a história humana. Malleus Maleficarum - ou O Martelo das Bruxas - alertava o mundo para os perigos das «mulheres livres-pensadoras» e ensinava o clero a descobri-las, torturá-las e destruí-las. Pertenciam ao grupo das que a Igreja considerava «bruxas» todas as eruditas, sacerdotisas, as ciganas, as místicas, as amantes da natureza, as recolectoras de ervas e qualquer mulher «suspeitosamente sintonizada com o mundo natural». Também as parteiras eram mortas por usarem os seus conhecimentos de medicina para aliviar as dores do parto -- um sofrimento, afirmava a Igreja, que Deus muito justamente impusera às mulheres como castigo por Eva ter partilhado o Fruto do Conhecimento, dando assim origem à ideia do Pecado Original. Durante trezentos anos de caça às bruxas, a Igreja queimara na fogueira uns estarrecedores cinco milhões de mulheres.

 A propaganda e a orgia de sangue tinham resultado.

 O mundo actual era uma prova viva disso mesmo.

 As mulheres, outrora celebradas como a metade essencial da iluminação espiritual, tinham sido banidas dos templos de todo o mundo. Não havia mulheres que fossem rabis ortodoxos, nem padres católicos, nem clérigos islâmicos. O outrora sagrado acto de Hieros Gamos - a natural união sexual entre homem e mulher através da qual ambos se tornavam espiritualmente completos - passara a ser apresentado como uma coisa vergonhosa. Homens santos que noutros tempos precisavam da união sexual com os respectivos equivalentes femininos para comungar com Deus temiam agora os seus impulsos sexuais normais, considerando-os obra do diabo de conluio com o seu cúmplice preferido: a mulher.

 Nem sequer a associação feminina ao lado esquerdo tinha escapado à difamação da Igreja. Em França e em Itália, as palavras para «esquerda» - gaúche e sinistra - acabaram por adquirir conotações profundamente negativas, enquanto o lado direito era sinónimo de rectidão, habilidade, correcção. Ainda na actualidade, o pensamento radical era considerado ala esquerda, o mau humor era acordar para a esquerda, e tudo o que fosse mau era sinistro.

 Os dias da deusa tinham chegado ao fim. O pêndulo balouçara. A Mãe-Terra tornara-se um mundo do homem, e os deuses da destruição e da guerra cobravam o seu tributo. Durante dois mil anos, o ego masculino correra à solta sem o freio do seu par feminino. O Priorado de Sião acreditava que fora esta obliteração do sagrado feminino que causara aquilo a que os índios Hopi da América chamavam koyanisquatsi - «vida sem equilíbrio» -, uma situação instável marcada por guerras inspiradas pela testosterona, uma plétora de sociedades misóginas e um crescente desrespeito pela Terra-Mãe.

 - Robert! - O sussurro de Sophie trouxe-o de volta à realidade. - Vem aí alguém!

 Também ele ouviu os passos que se aproximavam, lá fora na galeria.

 - Aqui! - Sophie apagou a lanterna de luz negra e pareceu evaporar-se de repente.

 Por instantes, Langdon ficou completamente cego. Aqui! Quando conseguiu adaptar a visão, viu a silhueta de Sophie correr para o centro da sala e desaparecer atrás do grande sofá octogonal. Preparava-se para correr atrás dela quando uma voz ribombante o deteve, petrificado.

 - Arrêtez! - ordenou um homem, do umbral. O segurança do museu entrou na sala, empunhando com as duas mãos e os braços esticados uma pistola apontada ao centro do peito de Langdon.

Que ergueu instintivamente as mãos para o tecto.

- Couchez-vous! - ordenou o guarda. - Deite-se!

 Langdon obedeceu, estendendo-se no chão de barriga para baixo.

 O guarda avançou rapidamente para ele e, com um pé, afastou-lhe as pernas.

 - Mauvaise idée, Monsieur Langdon - disse, fazendo pressão com o cano da pistola nas costas de Langdon. - Mauvaise idée,

 Deitado de bruços no chão de parquet, de braços e pernas abertos, Langdon achou pouca graça à ironia da sua posição. O Homem de Vitrúvio, pensou. De barriga para baixo.

 

 Silas pegou no pesado candelabro de ferro que estava em cima do altar e voltou com ele para junto do obelisco. Serviria perfeitamente como aríete. Olhando para a laje de mármore cinzento que cobria a aparente cavidade no chão, apercebeu-se de que não conseguiria parti-la sem fazer barulho. Bastante barulho.

 Ferro contra mármore. O estrondo havia de ecoar pelos tectos abobadados.

 A freira ouvi-lo-ia? Já devia estar a dormir. Mesmo assim, era um risco que Silas não queria correr. Procurando em redor um pano com que envolver a extremidade da haste de ferro, a única coisa que viu foi a toalha de linho do altar, que não se atrevia a profanar. O meu hábito, pensou. Sabendo-se sozinho na igreja, desapertou a corda que lhe apertava o hábito na cintura e despiu-o, sentindo o ardor das fibras de lã quando se prenderam às feridas recentes que tinha nas costas.

 Nu, com excepção da faixa que lhe envolvia os rins e as virilhas, enrolou o hábito à volta da ponta da barra de ferro. Então, fazendo pontaria bem ao meio da laje, bateu com toda a sua força. Uma pancada abafada. A laje não se partiu. Bateu outra vez. De novo uma pancada abafada, mas agora acompanhada por um estalar. Ao terceiro embate, a laje estilhaçou-se finalmente, e lascas de pedra caíram no espaço vazio por baixo do chão.

 Um compartimento!

 Silas removeu com gestos rápidos os pedaços de mármore que tinham ficado agarrados aos bordos da abertura e espreitou lá para dentro. Sentiu o sangue latejar-lhe na cabeça ao ajoelhar junto do buraco. Esticando o braço muito branco, procurou no interior.

Ao princípio, nada encontrou. O fundo do compartimento era de pedra lisa e nua. Então, esticando mais o braço por baixo da Linha da Rosa, tocou em qualquer coisa! Uma grossa placa de pedra. Introduziu os dedos por baixo do rebordo, agarrou-a com força e puxou-a cuidadosamente para fora. Quando se pôs de pé e examinou o seu achado, verificou que tinha nas mãos uma tábua de pedra em bruto onde estavam gravadas algumas palavras. Por um instante, sentiu-se um Moisés dos tempos modernos.

 Ficou surpreendido ao ler as palavras gravadas na pedra. Tinha esperado que a Chave de Abóbada fosse um mapa, ou uma complexa série de instruções, talvez até codificadas. Em vez disso, porém, a placa continha a mais simples das inscrições:

 Job 38:11.

 Um versículo da Bíblia? A diabólica simplicidade de tudo aquilo aturdiu-o. A revelação da localização secreta do tesouro que procuravam estava contida num versículo da Bíblia? A irmandade não conhecia limites no seu desejo de zombar dos justos!

 Job. Capítulo trinta e oito. Versículo onze.

 Embora não soubesse de cor o conteúdo exacto do versículo onze, Silas sabia que o Livro de Job contava a história de um homem cuja fé em Deus sobrevivia a repetidas provas. Apropriado, pensou, quase incapaz de conter a excitação.

 Olhando por cima do ombro, contemplou a brilhante Linha da Rosa e não conseguiu impedir-se de sorrir. Em cima do altar-mor, apoiada num atril de madeira dourada, estava uma grande Bíblia encadernada a couro.

 

 Acocorada no seu posto de vigilância, na varanda do coro, a irmã Sandrine tremia. Momentos antes, estivera à beira de correr dali para fora e executar as ordens que lhe tinham dado, quando o homem despira inesperadamente o hábito. Ao ver aquela carne cor de alabastro, fora invadida por um espanto horrorizado. As amplas costas estavam sulcadas por vergões ensanguentados. Mesmo àquela distância, percebia-se que as feridas eram recentes.

 Aquele homem foi impiedosamente chicoteado!

 Viu também, enrolado à volta da coxa, o cilício debaixo do qual escorria sangue. Que espécie de Deus quereria um corpo castigado desta maneira? Os rituais da Opus Dei, a irmã Sandrine bem o sabia, eram algo que nunca conseguiria compreender. Mas isso pouco a preocupava naquele instante. A Opus Dei anda a procura da Chave de Abóbada. Não imaginava sequer como tinham sabido da sua existência, mas sabia que não tinha tempo para pensar nisso.

 O ensanguentado monge estava agora a vestir calmamente o hábito, após o que, com a pedra bem segura debaixo do braço, avançou para o altar, para a Bíblia.

 Quase sem se atrever a respirar, com receio de que o ruído a denunciasse, a irmã Sandrine abandonou a varanda do coro e correu pelo corredor até ao seu quarto. De gatas no chão, procurou debaixo do estrado de madeira da cama o sobrescrito selado que lá escondera anos antes.

 Ao abri-lo, encontrou um papel com quatro números de telefone de Paris.

 A tremer, começou a marcar o primeiro.

 

 Lá em baixo, Silas pousou a placa de pedra em cima do altar e voltou a sua atenção ansiosa para a Bíblia com capas de couro. Os dedos grandes e brancos suavam enquanto voltava as páginas. Folheando o Antigo Testamento, encontrou o Livro de Job. Localizou o capítulo trinta e oito. Passando o dedo pela coluna de texto, antecipou as palavras que estava prestes a ler.

 Elas apontarão o caminho!

 Ao chegar ao versículo onze, leu o texto. Eram apenas oito palavras. Confuso, voltou a lê-las, sentindo que algo correra terrivelmente mal. O versículo dizia simplesmente:

 

 Chegarás até aqui; não mais além.

 

 O guarda graduado Claude Grouard fervia de raiva enquanto olhava para o seu prisioneiro prostrado diante da Mona Lisa. Este filho da mãe matou o conservador Saunière! Jacques Saunière fora uma espécie de pai adorado para Grouard e para a sua equipa de segurança.

 O que Grouard mais desejava era poder apertar o gatilho e abrir um buraco nas costas de Robert Langdon. Como graduado, era um dos poucos seguranças autorizados a usar uma arma carregada. Recordou a si mesmo, no entanto, que matar Langdon seria um gesto de generosidade em comparação com o que Bezu Fache e o sistema prisional francês lhe reservavam.

 Tirou o rádio do cinto e tentou pedir apoio. Tudo o que ouviu foi estática. Os sistemas de segurança electrónicos especiais daquela sala semeavam sempre o caos nas comunicações entre os guardas. Tenho de aproximar-me da porta. Sem deixar de apontar a arma para Langdon, Grouard começou a recuar lentamente em direcção à porta. Ao terceiro passo, viu qualquer coisa que o fez deter-se abruptamente.

 Que diabo é aquilo?

 Uma miragem inexplicável estava a materializar-se no centro da sala. Uma silhueta. Estava mais alguém ali dentro? Uma mulher movia-se através das sombras, caminhando rapidamente em direcção à parede do lado esquerdo. À frente dela, um peixe de luz púrpura dançava de um lado para o outro no soalho, como se estivesse a procurar qualquer coisa com uma lanterna colorida.

- Qui est lá?- perguntou Grouard, sentindo uma descarga de adrenalina invadir-lhe o sangue pela segunda vez no espaço de trinta segundos. Subitamente, ficou sem saber para onde apontar a arma ou em que direcção mover-se.

 - PTS - respondeu calmamente a mulher, continuando a examinar o chão com a sua luz.

 Police Technique et Scientifique. Grouard estava a suar. Pensava que todos os agentes tinham ido embora! Reconheceu a luz púrpura como ultravioleta, equipamento normal das equipas de PTC, mas continuava a não compreender por que razão andaria a DCPJ a procurar indícios naquela sala.

 - Votre nom!- gritou Grouard, com o instinto a dizer-lhe que havia ali algo de errado. - Répondez!

 - C’est mói - respondeu a voz num francês calmo. - Sophie Neveu.

 Algures nos longínquos recessos da mente de Grouard, o nome encontrou um eco. Sophie Neveu? Era o nome da neta do conservador Saunière, não era? Costumava ir ao museu quando era menina, mas isso fora há muitos anos. Não pode ser ela! E mesmo que fosse Sophie Neveu, dificilmente se poderia considerar uma razão para confiar nela. Grouard ouvira rumores a respeito da dolorosa zanga entre o conservador e a neta.

 - Sabe quem eu sou - continuou a voz feminina. - E Robert Langdon não matou o meu avô. Acredite em mim

 O guarda graduado Grouard não estava, porém, preparado para acreditar. Preciso de apoio! Voltou a tentar o rádio, e voltou a ouvir apenas estática. A porta estava ainda a uns bons vinte metros de distância, e Grouard começou a recuar lentamente, optando por manter a arma apontada ao homem estendido no chão.

 Enquanto recuava, viu a mulher do outro lado da sala levantar a lanterna de luz UV e examinar um grande quadro suspenso da parede directamente em frente da Mona Lisa.

 Abriu a boca de espanto, ao aperceber-se de que quadro se tratava.

 Que diabo está ela afazer?

 

Do outro lado da sala, Sophie Neveu sentiu um suor frio humedecer-lhe a testa. Langdon continuava estendido no chão, de braços e pernas abertos. Aguente, Robert. Estou quase lá. Sabendo que o guarda nunca dispararia contra qualquer deles, Sophie dedicou toda a sua atenção ao assunto que tinha entre mãos, examinando a área à volta de uma obra-prima em particular: outro da Vinci. Mas a luz UV nada revelou de invulgar. Nem no chão, nem nas paredes, nem na própria tela.

 Tem de haver aqui qualquer coisa

 Tinha a certeza de ter decifrado correctamente as intenções do avô.

 Que outra coisa poderia ele querer dizer?

 A obra-prima que estava a examinar era uma tela com metro e meio de altura. A cena que da Vinci pintara incluía uma Virgem, sentada numa pose estranha, com o Menino, João Baptista e o anjo Uriel, todos dentro do que parecia ser uma gruta. Quando era menina, nenhuma visita à Mona Lisa ficava completa sem que o avô a arrastasse até ao outro lado da sala para ver o segundo quadro.

 Estou aqui, grand-père, Mas não vejo nada!

 Ouvia, nas suas costas, o guarda continuar a tentar pedir ajuda através do rádio.

 Pensa!

 Reviu mentalmente a mensagem escrita no vidro protector da Mona Lisa. So dark the con of man. O quadro para que estava a olhar não tinha qualquer vidro de protecção no qual fosse possível escrever uma mensagem, e Sophie sabia que o avô nunca seria capaz de profanar uma obra de arte escrevendo na própria pintura. Fez uma pausa. Pelo menos, na frente. Ergueu os olhos, seguindo os compridos cabos de suspensão que desciam do tecto.

 Será possível? Pegando no canto esquerdo da moldura de madeira entalhada, puxou-o para si. O quadro era grande e a armação flectiu quando a afastou da parede. Sophie introduziu a cabeça e os ombros no espaço entre a moldura e a parede e levantou a lanterna de luz negra para inspeccionar a parte de trás da tela.

 Demorou apenas alguns segundos a aperceber-se de que o seu instinto fora errado. A parte de trás do quadro era pálida e vazia. Não havia ali qualquer texto escrito a púrpura, apenas o verso acastanhado e manchado de uma velha tela e...

 Espera.

Os olhos de Sophie detiveram-se no brilho incongruente de um pedaço de metal perto do rebordo inferior da armação da moldura. O objecto era pequeno, parcialmente entalado na ranhura onde a tela se juntava à madeira. Da extremidade visível, pendia uma refulgente corrente de ouro.

 Para enorme espanto de Sophie, a corrente estava presa a uma chave de ouro que ela conhecia. A pega, larga e esculpida, era em forma de cruz e tinha gravado um emblema que não voltara a ver desde os seus nove anos. Uma flor-de-lis, com as iniciais P.S. Naquele instante, Sophie sentiu o fantasma do avô murmurar-lhe ao ouvido: Quando chegar a altura, a chave será tua. Sentiu um aperto na garganta ao compreender que o avô, mesmo depois de morto, cumprira a sua promessa. Esta chave abre um cofre, dizia a voz dele, onde guardo muitos segredos.

 Apercebeu-se então de que o objectivo de todo o jogo de palavras daquela noite fora aquela chave. O avô tinha-a consigo quando o assassino disparara contra ele. Não querendo que caísse nas mãos da Polícia, escondera-a atrás daquele quadro. E em seguida imaginara uma engenhosa caça ao tesouro para se certificar de que só Sophie a encontraria.

 - Au secours! - gritava a voz do guarda.

 Sophie arrancou a chave do seu esconderijo e enfiou-a no fundo do bolso do camisolão, juntamente com a lanterna de luz UV. Espreitando de trás da tela, viu que o guarda continuava a tentar desesperadamente contactar alguém através do rádio. Estava a recuar para a porta, mantendo a arma firmemente apontada para Langdon.

 -Au secours!- voltou a gritar para o rádio.

 Estática.

 Não consegue transmitir, percebeu Sophie, recordando como os turistas ficavam frustrados quando tentavam ligar para casa pelo telemóvel para se gabarem de estar a ver a Mona Lisa. A quantidade de fios eléctricos dos sistemas de segurança embutidos nas paredes tornava impossível transmitir fosse o que fosse, a menos que se saísse para a galeria. O guarda recuava agora rapidamente para a porta, e Sophie soube que tinha de agir sem demora.

 Olhando para o grande quadro atrás do qual estava em parte escondida, compreendeu que, pela segunda vez naquela noite, Leonardo da Vinci estava ali para ajudar.

Mais uns poucos metros, disse Grouard para si mesmo, mantendo a arma apontada.

 - Arrêtez! Ou je Ia détruis!- A voz da mulher ecoou na sala. Grouard olhou para ela e deteve-se, petrificado.

 - Mon dieu, non!

 Através da penumbra avermelhada, viu que a mulher tinha tirado o quadro dos cabos de suporte e o pousara de pé no chão à sua frente. com metro e meio de altura, a tela tapava-lhe quase completamente o corpo. O primeiro pensamento de Grouard foi de surpresa pelo facto de a remoção do quadro da parede não ter feito disparar os alarmes, mas então lembrou-se de que a rede de sensores ainda não voltara a ser restabelecida. Que está ela a fazer?

 Quando viu o que era, o sangue gelou-lhe nas veias.

 A tela começou a inchar no meio, distorcendo os frágeis contornos da Virgem Maria, do Menino Jesus e de João Baptista.

-  Non! - gritou Grouard, petrificado pelo horror ao ver o precioso da Vinci a esticar. A mulher estava a espetar o joelho no centro da tela, por detrás. - NON!

 Voltou-se e apontou a arma para ela, mas compreendeu no mesmo instante que era uma ameaça vã. O quadro era apenas tela, mas era como se fosse impenetrável - um escudo de seis milhões de dólares.

 Não posso disparar contra um da Vinci!

 - Pouse no chão a arma e o rádio - ordenou a mulher, num calmo francês -, ou eu furo o quadro com o joelho. Julgo que sabe o que o meu avô pensaria disso.

 Grouard estava como que aturdido.

 - Por favor... não. Isso é a Madonna dos Rochedos!- Deixou cair a arma e o rádio, erguendo as mãos acima da cabeça.

 - Obrigada - disse a mulher. - Agora, faça exactamente o que eu lhe disser, e correrá tudo pelo melhor.

 

 Momentos depois, o coração de Langdon continuava a martelar-lhe o peito enquanto descia a correr, ao lado de Sophie, a escada que conduzia ao nível térreo. Nenhum dos dois dissera uma palavra desde que tinham deixado o trémulo guarda estendido no chão da Salle des États. Langdon apertava com força a pistola que levava na mão, ansioso por ver-se livre dela. Era pesada e parecia-lhe perigosamente alienígena.

 Enquanto descia os degraus dois a dois, perguntava a si mesmo se Sophie faria alguma ideia do valor do quadro que estivera perto de destruir. As escolhas da jovem em matéria de arte pareciam estranhamente adequadas à aventura daquela noite. O da Vinci em que pegara, muito como a Mona Lisa, era famoso entre os historiadores de arte pela enorme quantidade de simbolismo pagão que escondia.

 - Escolheu um refém valioso - comentou por fim, sem deixar de correr.

-  A Madonna dos Rochedos - respondeu ela. - Mas não fui eu que o escolhi, foi o meu avô.  Deixou-me uma coisinha escondida atrás do quadro.

 Langdon lançou-lhe um olhar sobressaltado.

 - O quê? Mas como soube em que quadro? Porquê a Madonna dos Rochedos?

 - So dark the con of man. - Sophie dirigiu-lhe um sorriso triunfante. - Deixei escapar os dois primeiros anagramas, Robert. Não ia deixar passar o terceiro.

 

 - Estão mortos! - tartamudeou a irmã Sandrine ao telefone, no seu quarto em Saint-Sulpice. Estava a falar para um atendedor automático. - Atendam, por favor. Estão todos mortos!

 Os três primeiros números da lista tinham produzido resultados aterradores - uma viúva histérica, um detective a trabalhar a desoras no local de um crime e um sombrio padre a consolar uma família devastada. Todos os três contactos tinham morrido. E agora, ao ligar para o quarto e último número - o número para o qual não era suposta ligar a menos que os outros três estivessem incomunicáveis -, respondera-lhe um atendedor automático. A voz gravada não mencionava qualquer nome, limitava-se a pedir a quem chamava que deixasse mensagem.

 - A laje do chão foi partida! - disse a irmã Sandrine. - Os outros três estão mortos!

 A irmã Sandrine desconhecia a identidade dos quatro homens que protegia, mas os quatro números de telefone escondidos debaixo da cama eram para ser usados numa única circunstância.

 Se alguma vez aquela laje for partida, dissera-lhe o mensageiro sem rosto, isso significará que o escalão superior foi descoberto. Um de nós foi mortalmente ameaçado e obrigado a dizer uma mentira desesperada. Ligue para estes números. Avise os outros. Não nos falhe nisto.

 Era um alarme silencioso. Perfeito na sua simplicidade. O plano espantara-a quando o ouvira pela primeira vez. Se um irmão visse a sua identidade comprometida, diria uma mentira que poria em marcha um mecanismo destinado a alertar os outros. Naquela noite, porém, parecia que mais do que um fora comprometido.

- Responda, por favor - sussurrou ela, em pânico. – Onde está?

 - Desligue o telefone - ordenou uma voz profunda, da porta do quarto.

 A irmã Sandrine voltou-se, aterrorizada, e viu o gigantesco monge. Tinha na mão o pesado candelabro de ferro. A tremer, pousou o auscultador no descanso.

 - Estão mortos - continuou o monge. - Todos eles. E enganaram-me. Diga-me onde está a Chave de Abóbada.

 - Não sei - respondeu a freira. - Esse segredo é guardado por outros. - Outros que estão mortos!

 O homem avançou, apertando com os dedos brancos a haste de ferro.

 - É uma irmã da Igreja, e serve-os a eles?

 - Jesus tinha apenas uma mensagem verdadeira - respondeu desafiadoramente a irmã Sandrine. - Não vejo essa mensagem na Opus Dei.

 Uma raiva súbita explodiu atrás dos olhos do monge. Avançou, esgrimindo o candelabro como se fosse um cacete. Enquanto caía, o último pensamento da irmã Sandrine foi de profunda tristeza.

 Mortos, os quatro.

 A preciosa verdade perdeu-se para sempre.

 

 O estridor das campainhas de alarme da Ala Denon espantou os pombos do Jardim das Tulherias, ali próximo, no momento em que Sophie e Langdon saíram a correr do museu. Enquanto atravessavam a praça em direcção ao carro de Sophie, Langdon ouviu ao longe o uivo das sereias da Polícia.

 - É aquele! - gritou Sophie, apontando para um atarracado dois-lugares vermelho estacionado na praça.

 Tem de estar a brincar, com certeza! O veículo era seguramente o carro mais pequeno que Langdon alguma vez vira.

 - O Smart - disse ela. - Um litro aos cem.

 Langdon mal tinha conseguido instalar-se no lugar do passageiro quando Sophie arrancou a toda a velocidade, galgou um lancil e saltou para uma divisória de saibro. Agarrou-se ao tablier enquanto o carro subia e atravessava outro passeio antes de dar novo salto para a pequena rotunda do Carrousel du Louvre.

 Por um instante, Sophie deu a impressão de estar a considerar a possibilidade de cortar caminho e seguir em frente, passando a sebe do perímetro e atravessando o amplo círculo relvado central.

 - Não! - gritou Langdon, sabendo que a sebe à volta do Carrousel du Louvre estava ali para esconder o perigoso abismo que se abria no centro - La Pyramide Inversée - a clarabóia em forma de pirâmide invertida que horas antes vira do interior do museu. Era suficientemente grande para engolir o minúsculo Smart de uma só vez. Felizmente, Sophie optou pelo caminho mais convencional, torcendo o volante para a direita e contornando ajuizadamente a rotunda até à saída. Virou então à esquerda, meteu pela faixa de sentido norte e acelerou em direcção à Rue de Rivoli.

As sereias da Polícia uivavam agora mais perto, e Langdon viu as luzes rotativas no retrovisor lateral. O motor do Smart gemeu em protesto quando Sophie o acelerou ao máximo, afastando-se o mais rapidamente possível do Louvre. Cinquenta metros mais a frente, o semáforo da Rue de Rivoli passou para vermelho. Sophie praguejou entredentes e continuou a acelerar. Langdon sentiu os músculos porem-se-lhe tensos.

 - Sophie?

 Chegaram ao cruzamento. Quase sem abrandar, Sophie fez sinal de luzes lançou um rápido olhar à esquerda e à direita voltou a colar o acelerador ao chão do carro e virou bruscamente a esquerda no cruzamento deserto, metendo pela Rivoli. Percorreu a toda a velocidade cerca de quatrocentos metros antes de virar à direita para contornar uma vasta rotunda. Pouco depois, estavam do outro lado, a descer a ampla avenida dos Champs-Elysées.

 Quando o carro conseguiu finalmente endireitar-se, Langdon voltou-se no banco, torcendo o pescoço para olhar para trás na direcção do Louvre. Aparentemente, não estavam a ser perseguidos. O mar de luzes azuis concentrava-se diante do museu.

 Com o coração a bater um pouco menos depressa, voltou-se de novo para a frente.

 - Foi interessante - comentou.

 Sophie pareceu não o ter ouvido. Mantinha os olhos fixos em frente, na longa fita dos Campos Elíseos, os mais de três quilómetros de lojas de luxo a que muitos chamavam a Quinta Avenida de Paris. A embaixada ficava a quilómetro e meio de distância e Langdon instalou-se mais confortavelmente no banco. So dark the con of man.

 A rapidez de raciocínio de Sophie fora deveras impressionante.

 Madonna of the Rocks. A  Madonna dos Rochedos. Sophie dissera que o avô lhe deixara qualquer coisa escondida atrás do quadro. Uma última mensagem? Langdon não podia deixar de reconhecer o brilhantismo da escolha do esconderijo; a Madonna dos Rochedos era mais um elo adequado da cadeia de simbolismos interligados daquela noite. Jacques Saunière parecia querer revelar a cada passo a sua predilecção pelo lado escuro e malicioso de Leonardo da Vinci. A encomenda da Madonna aos Rochedos partira originariamente de uma organização conhecida como Confraria da Imaculada Conceição,  que precisava de uma pintura para peça central de um tríptjco de altar destinado à sua igreja de San Francesco, em Milão. As monjas deram a Leonardo instruções precisas quanto às dimensões e ao tema desejado para o quadro - a Virgem Maria, São João Baptista quando bebé, Uriel e o Menino Jesus abrigados numa gruta.

 Apesar de ter feito como lhe pediam, quando entregou a obra, as religiosas reagiram com horror. Da Vinci enchera o quadro de pormenores explosivos e perturbadores.

 O quadro mostrava a Virgem Maria sentada, vestida de azul, com um braço passado pelos ombros de uma criança, presumivelmente o Menino Jesus. Em frente de Maria sentava-se Uriel, também com uma criança, presumivelmente João Baptista. Mas, em vez da cena habitual de Jesus-a-abençoar-João, era João quem abençoava Jesus... e Jesus submetia-se à sua autoridade! Ainda mais perturbador: Maria mantinha uma mão aberta por cima de João, num gesto decididamente ameaçador - os dedos enclavinhados como as garras de uma águia pareciam agarrar uma cabeça invisível. Por fim, a imagem sem dúvida mais assustadora: por baixo dos dedos encurvados de Maria, Uriel fazia com a mão um gesto de corte - como que a cortar o pescoço à cabeça invisível que Maria segurava com a mão em garra.

 Os alunos de Langdon achavam sempre muita graça a saber que da Vinci acabara por sossegar a confraria pintando uma segunda versão «aguada» da Madonna dos Rochedos em que todas as personagens apareciam dispostas de uma maneira mais ortodoxa. Esta segunda versão encontrava-se actualmente exposta, sob o nome de Virgem dos Rochedos, na National Gallery de Londres, embora Langdon continuasse a preferir o mais intrigante original do Louvre.

 - O que é que estava atrás do quadro? - perguntou, enquanto Sophie conduzia a toda a velocidade pelos Champs-Elysées. - Mostro-lhe quando estivermos a salvo na embaixada - disse ela, sem tirar os olhos da estrada.

 - Mostra-me? - espantou-se Langdon. - O seu avô deixou-lhe um objecto físico?

 Sophie assentiu.

 - Enfeitado com uma flor-de-lis e as iniciais P.S.

 Langdon nem queria acreditar no que acabava de ouvir.

 

 Vamos conseguir, pensou Sophie enquanto rodava o volante do Smart para a direita, passava em frente do luxuoso Hôtel de Crillon entrava no tranquilo bairro das embaixadas de Paris, com as suas ruas ladeadas de árvores. Estavam agora muito perto. Sentiu que podia voltar a respirar normalmente.

 Mesmo a conduzir, o seu pensamento continuava preso à chave que tinha no bolso, às suas recordações de a ter visto muitos anos antes, com a pega de ouro em forma de cruz de braços iguais, a haste triangular, as marcas, o brasão gravado, as letras P.S.

 Embora a recordação daquela chave quase não lhe tivesse acudido ao espírito durante todos aqueles anos, o seu trabalho no mundo das informações ensinara-lhe muito a respeito de segurança, e agora o modo peculiar como fora fabricada já não lhe parecia tão estranho. Uma matriz variável trabalhada a laser. Impossível de duplicar. Em vez de dentes que empurravam linguetas, as complexas séries de marcas feitas a laser da chave eram examinadas por um olho electrónico. Se o olho electrónico decidia que as marcas hexagonais estavam correctamente espaçadas, dispostas e posicionadas, a fechadura abria-se.

 Sophie não fazia a mínima ideia do que uma chave daquelas poderia abrir, mas tinha o pressentimento de que Robert saberia dizer-lho. Ao fim e ao cabo, descrevera o brasão gravado na pega sem nunca o ter visto. A pega cruciforme indicava que a chave pertencia a uma organização cristã, mas Sophie não sabia de qualquer igreja que usasse chaves de matriz variável trabalhadas a laser.

 Além disso, o meu avô não era cristão...

 Sophie tivera uma prova testemunhal disto mesmo dez anos antes. Ironicamente, fora uma outra chave - esta muito mais vulgar - que lhe revelara a verdadeira natureza do avô.

 

 

 A tarde estava quente quando aterrara no aeroporto Charles de Gaulle e se metera num táxi para casa. O grand-père vai ficar tão espantado quando me vir, pensara. Tendo regressado alguns dias mais cedo, para as férias da Páscoa, da universidade inglesa onde fazia o curso de pós-graduação, Sophie mal podia esperar para ver o avô e falar-lhe dos métodos de criptologia que andava a estudar.

Quando chegou a casa, não o encontrou. Desapontada, pensou que ele não a esperava e provavelmente estava a trabalhar no Louvre. Mas é sábado à tarde, lembrou-se. O avô raramente trabalhava aos fins-de-semana. Aos fins-de-semana costumava...

 Com um sorriso nos lábios, correu para a garagem. Como já esperava, o carro não estava lá. Era fim-de-semana. Jacques Saunière detestava conduzir na cidade e tinha carro por uma única e exclusiva razão: o seu château de férias na Normandia, a norte de Paris. Depois de meses na superpovoada Londres, Sophie estava ansiosa pelos cheiros da natureza e por começar as férias o mais depressa possível. Era ainda cedo, de modo que decidiu partir imediatamente. Pedindo o carro emprestado a uma amiga, rumou a norte, seguindo a sinuosa estrada que atravessava as colinas desertas e banhadas em luar perto de Creully. Chegou pouco depois das dez, metendo pelo longo caminho particular que conduzia ao retiro do avô. A estrada de acesso tinha quase dois quilómetros de comprimento, e só a meio do percurso Sophie começou a avistar a casa por entre as árvores um velho e grande casarão de pedra aninhado nos bosques, no flanco de uma colina.

 Estava mais ou menos à espera de encontrar o avô a dormir àquela hora da noite, de modo que ficou excitada ao ver a casa refulgente de luzes. Uma alegria que se transformou em surpresa quando, ao chegar, descobriu o pátio cheio de carros estacionados Mercedes, BMW, Audis e um Rolls-Royce.

 Ficou a olhar espantada, por um momento, e então rompeu a rir. O meu avô, o famoso recluso! Jacques Saunière era, tudo o indicava, muito menos reservado do que gostava de aparentar. Muito claramente, estava a dar uma festa enquanto a neta se encontrava fora a estudar, e, a julgar pelos automóveis, os convidados eram algumas das pessoas mais influentes de Paris.

 Desejosa de surpreendê-lo, correu para a porta da frente. Quando lá chegou, porém, encontrou-a fechada à chave. Bateu. Não obteve resposta. Intrigada, deu a volta e tentou a porta das traseiras. Também fechada. Ninguém respondeu aos seus chamamentos.

Confusa, deteve-se por instantes, à escuta. O único som que ouvia era o do fresco vento da Normandia a gemer baixo enquanto cirandava pelo vale.

 Nem música.

Nem vozes.

 Nada.

 No silêncio do bosque, Sophie dirigiu-se apressadamente ao lado da casa e trepou a um monte de lenha, comprimindo o nariz contra a janela da sala de estar. O que viu lá dentro não fazia qualquer espécie de sentido.

 - Não está cá ninguém!

 Todo o piso térreo estava deserto.

 Onde se meteram todos?

 Com o coração a saltar-lhe no peito, correu ao barracão das ferramentas e pegou na chave sobressalente que o avô guardava debaixo de uma caixa de aparas. Voltou à porta principal e abriu-a. Quando entrou no vestíbulo deserto, começou a piscar uma luz vermelha no painel do sistema de segurança - um aviso a quem entrava de que tinha dez segundos para introduzir o código secreto antes que o alarme disparasse.

 Tem o alarme ligado durante uma festa?

 Marcou rapidamente o código e desactivou o sistema.

 A casa inteira estava desabitada. Incluindo o andar de cima. Regressando ao vestíbulo vazio, deteve-se por um instante no meio do silêncio, a perguntar a si mesma o que poderia ter acontecido.

 Foi então que ouviu

 Vozes abafadas. E pareciam vir de algures por baixo dela. De onde, não fazia ideia. Pondo-se de gatas, encostou um ouvido às tábuas do soalho e escutou. Sim, o som vinha definitivamente lá de baixo. As vozes pareciam estar a cantar... ou a entoar um cântico? Assustou-se. Quase mais estranho do que o próprio som era o facto de saber que aquela casa nem sequer tinha uma cave.

 Pelo menos, que eu tenha visto.

 Rodou sobre si mesma, examinando a sala de estar. Os olhos detiveram-se-lhe no único objecto em toda a casa que parecia fora do lugar - a antiguidade preferida do avô, uma grande tapeçaria Aubusson. Estava geralmente suspensa da parede leste, junto à lareira, mas naquela noite fora puxada para o lado no seu varão de latão, expondo a parede que lhe ficava atrás.

 Ao avançar para a parede nua, Sophie ouviu o cântico soar mais alto - Hesitante, encostou o ouvido à madeira. As vozes tornaram-se mais claras. Havia sem a mínima dúvida pessoas a cantar... a entoar palavras que não conseguia distinguir.

O espaço por detrás desta parede é oco!

 Tacteando os bordos dos painéis com as pontas dos dedos, encontrou uma pequena depressão redonda, quase invisível. Uma porta de correr. com o coração a bater, colocou o dedo na depressão e puxou. com silenciosa precisão, a pesada parede deslizou para o lado.  As vozes ecoaram mais fortes, vindas da escuridão do outro lado.

 Sophie passou pela abertura e viu-se no início de uma escada de pedra bruta que descia em espiral. Ia àquela casa desde que era criança e nunca fizera a mínima ideia da existência de uma cave!

 À medida que descia, o ar tornava-se mais frio. E as vozes mais nítidas. Ouviu homens e mulheres a cantar. A sua linha de visão era limitada pela espiral da escada, mas estava naquele momento a chegar ao último degrau. Para lá dele, viu um pedaço do chão da cave

- pedra, iluminada pelo clarão alaranjado do fogo.

 Retendo a respiração, Sophie avançou mais alguns passos e acocorou-se para espreitar. Demorou vários segundos a processar o que estava a ver.

 Era uma gruta, uma tosca câmara que parecia ter sido escavada no granito do flanco da colina. A única luz era a fornecida pelos archotes nas paredes. Iluminadas pelas chamas, cerca de trinta pessoas reunidas em círculo ocupavam o centro do espaço

 Estou a sonhar, disse Sophie para si mesma. Um sonho. Que outra coisa pode isto ser?

 Todos os presentes usavam máscaras. As mulheres vestiam túnicas de tule branco e sapatos dourados. As suas máscaras eram brancas, e seguravam nas mãos globos de ouro. As máscaras e as túnicas dos homens eram pretas. Pareciam peças num gigantesco tabuleiro de xadrez. Todos se balançavam para a frente e para trás, entoando um cântico em reverência a qualquer coisa que estava no chão no meio deles... qualquer coisa que Sophie não conseguia ver.

 O cântico tornou-se mais forte. Mais rápido. Atroador. Os participantes deram um passo para o interior do círculo e ajoelharam. Nesse instante, Sophie viu aquilo que todos eles testemunhavam. Enquanto recuava, horrorizada, sentiu a imagem gravar-se-lhe indelevelmente na memória. Nauseada, fez meia volta e subiu as escadas, apoiando-se às paredes de pedra. Fechou a passagem secreta, fugiu da casa deserta e regressou a Paris, conduzindo no meio de um estupor toldado pelas lágrimas.

Nessa noite, com a vida destruída pela desilusão e pela traição, juntou as suas coisas e saiu de casa. Em cima da mesa da sala de jantar, deixou uma nota:

 

 ESTIVE LÁ. NÃO TENTES ENTRAR EM CONTACTO COMIGO.

 

 Junto à nota, deixou as chaves sobressalentes que tirara da arrecadação das ferramentas.

 

 - Sophie! - A voz de Langdon foi como um intruso nos seus pensamentos. - Pare! Pare!

 Arrancada às recordações, Sophie pisou bruscamente o travão, e o carro derrapou até imobilizar-se.

 - O quê? O que foi?

 Langdon apontou para o fundo da rua que se estendia à frente deles.

 Quando viu aquilo, Sophie sentiu o sangue gelar-lhe nas veias. Cem metros mais à frente, o cruzamento estava bloqueado por dois carros da DCPJ, estacionados de esguelha, com um propósito evidente. Fecharam a Avenue Gabriel!

 Langdon deixou escapar um lúgubre suspiro.

 - Suponho que por esta noite a embaixada está off-limits!

 Ao fundo da rua, os dois agentes da DCPJ que estavam de pé junto dos carros olhavam agora na direcção deles, aparentemente curiosos a respeito daqueles faróis que se tinham detido de forma tão abrupta a cem metros de distância.

 Okay, Sophie, dá a volta. Muito devagar.

 Sophie engrenou a marcha-atrás e fez uma cuidadosa inversão de marcha em três tempos.   Quando se afastavam, ouviu o guinchar de pneus atrás deles. As sereias começaram a uivar.

 Com uma praga, Sophie acelerou a fundo.

 

 O Smart de Sophie corria pelo bairro diplomático, esgueirando-se por entre embaixadas e consulados, até que finalmente escapou por uma transversal e virou à direita, voltando aos Champs-Elysées.

 Langdon, agarrado ao banco com tanta força que tinha os nós dos dedos brancos, olhou para trás, em busca de quaisquer sinais de perseguição. Subitamente, desejou não ter decidido fugir. Não decidiste, recordou a si mesmo. Fora Sophie que tomara essa decisão ao atirar o marcador GPS pela janela da casa de banho dos homens do Louvre. Agora, enquanto se afastavam a toda a velocidade da embaixada, serpenteando por entre o escasso tráfego dos Champs-Elysées, Langdon sentia que as suas opções se deterioravam. Apesar de Sophie ter aparentemente conseguido despistar a Polícia, pelo menos de momento, Langdon duvidava que a sorte deles durasse muito mais.

 Conduzindo com uma só mão, Sophie procurava qualquer coisa no bolso do camisolão. Tirou de lá um pequeno objecto de metal e entregou-lho.

 - É melhor dar uma vista de olhos a isto, Robert. Foi o que o meu avô me deixou atrás da Madonna dos Rochedos.

 Com um estremecimento de excitação, Langdon pegou no objecto e examinou-o. Era pesado e cruciforme. O primeiro instinto foi que tinha na mão um pieu funerário - uma réplica em miniatura de uma estaca destinada a ser cravada no chão para assinalar uma sepultura. Mas então reparou que a haste encimada pela cruz era prismática e triangular. E era, também, pontuada por centenas de marcas hexagonais que pareciam ter sido finamente executadas e distribuídas de uma forma aleatória.

- É uma chave trabalhada a laser - explicou Sophie. – Esses hexágonos são lidos por um olho electrónico.

 - Uma chave? Langdon nunca vira nada igual.

 - Veja do outro lado - disse ela, mudando de faixa e passando um cruzamento.

 Quando Langdon voltou a chave, o queixo caiu-lhe de espanto. Ali, intricadamente gravadas no centro da cruz, havia uma flor-de-lis estilizada e as iniciais P.S.!

 - Sophie! - exclamou. - É o brasão de que lhe falei! O emblema oficial do Priorado de Sião.

 Ela assentiu.

 - Como lhe disse, vi essa chave há muitos anos. O meu avô pediu-me que nunca falasse dela a quem quer que fosse.

 Os olhos de Langdon continuavam presos à chave gravada. A alta tecnologia envolvida no seu fabrico e o símbolo imemorial que ostentava exsudavam uma estranha fusão dos mundos antigo e moderno.

 - Disse-me que abria um cofre onde conservava muitos segredos. - Langdon sentiu um arrepio ao imaginar o tipo de segredos que um homem como Jacques Saunière poderia guardar. De que serviria a uma antiga irmandade uma chave futurista era algo de que não fazia a mais pequena ideia. O Priorado existia única e exclusivamente com o propósito de proteger um segredo. Um segredo incrivelmente poderoso. Terá esta chave alguma coisa a ver com ele? O pensamento era esmagador.

 - Sabe o que é que ela abre? Sophie pareceu desapontada.

 - Estava na esperança de que o Robert soubesse.

 Langdon permaneceu silencioso enquanto fazia girar a chave entre os dedos, examinando-a.

 - Parece cristã - sugeriu Sophie.

 Langdon não estava muito certo disso. A pega da chave não era a tradicional cruz cristã de fuste comprido e sim uma cruz quadrada - com quatro braços de igual comprimento -, mil e quinhentos anos anterior ao cristianismo. Aquele tipo de cruz não tinha qualquer das conotações de crucifixão associadas à cruz latina, concebida pelos Romanos como um instrumento de tortura. Langdon ficava sempre espantado ao verificar quão poucos eram os cristãos que, ao olharem para o «crucifixo», se apercebiam de que a violenta história do seu símbolo se reflectia no próprio nome: «cruz» e «crucifixo» derivavam do verbo latino crudare: torturar.

 - Tudo o que posso dizer-lhe - respondeu Langdon - é que as cruzes de braços iguais, como esta, são consideradas cruzes pacíficas. A sua configuração quadrada torna-as pouco práticas para a crucifixão e o equilíbrio dos elementos vertical e horizontal transmite uma noção da união natural entre o masculino e o feminino, tornando-as consistentes com a filosofia do Priorado.

 Sophie lançou-lhe um olhar desanimado.

 - Não faz a mínima ideia, pois não?

 Langdon franziu a testa.

 - Nenhuma.

 - Okay, temos de sair da rua. - Olhou pelo retrovisor. - Precisamos de um sítio seguro para tentarmos descobrir o que é que essa chave abre.

 Langdon pensou com saudade no seu confortável quarto no Ritz. Obviamente, não era uma opção.

 - Que lhe parece os meus anfitriões na Universidade Americana de Paris?

 - Demasiado óbvio. O Fache vai lá direito.

 - Deve conhecer pessoas. Vive aqui.

 - O Fache vai verificar os meus registos de telefone e e-mail, interrogar os meus colegas. Os meus contactos estão todos comprometidos. E não vale a pena tentar um hotel, porque todos eles exigem identificação.

 Langdon voltou a perguntar a si mesmo se não teria sido melhor arriscar e deixar que Fache o prendesse no Louvre.

 - Vamos telefonar para a embaixada. Posso explicar o que se passou e eles mandam alguém encontrar-se algures connosco.

 - Encontrar-se connosco? - Sophie voltou-se e olhou para ele, como se o achasse louco. - Robert, está a sonhar. A sua embaixada não tem jurisdição fora do espaço que ocupa. Mandar alguém buscar-nos equivaleria a ajudar um fugitivo ao governo francês. Não vai acontecer. Se entrar na sua embaixada e pedir asilo temporário, é uma coisa, mas pedir-lhes que ajam contra a Polícia francesa no terreno? - Abanou a cabeça. - Telefone para a sua embaixada, e eles aconselham-no a evitar mais estragos e entregar-se ao Fache. Depois prometem usar todos os canais diplomáticos para lhe conseguir um julgamento justo. - Lançou um olhar às elegantes fachadas das lojas ao longo dos Champs-Elysées. - Quanto dinheiro tem consigo?

 Langdon verificou a carteira.

 - Cem dólares e alguns euros. Porquê?

 - Cartões de crédito?

 - Claro.

 Sophie acelerou, e Langdon teve a sensação de que ela estava a arquitectar um plano. A frente deles, no fim dos Champs-Elysées, erguia-se o Arco do Triunfo - o tributo de Napoleão ao seu próprio poder militar - rodeado pela maior rotunda de França, uma enormidade com nove faixas de rodagem.

 Os olhos de Sophie estavam mais uma vez no retrovisor enquanto se aproximavam da rotunda.

 - Despistámo-los, para já - disse -, mas não duramos mais cinco minutos se continuarmos neste carro.

 Nesse caso, rouba um diferente, pensou Langdon. Já que somos criminosos.

 - O que é que vai fazer?

 Sophie entrou na rotunda com os pneus a chiar.

- Confie em mim.

 Langdon não respondeu. A confiança não o levara muito longe naquela noite. Puxando para cima a manga do casaco, consultou o relógio - um exemplar de colecção de um relógio de pulso Rato Mickey que os pais lhe tinham dado quando fizera dez anos. Apesar de o ar infantil do mostrador atrair de vez em quando alguns olhares espantados, nunca tivera outro; os desenhos animados de Walt Disney tinham sido o seu primeiro contacto com a magia da forma e da cor, e o Rato Mickey servia agora para lhe lembrar todos os dias que devia manter-se jovem de coração. Na altura, porém, os braços de Mickey estavam inclinados num estranho ângulo, indicando uma hora igualmente estranha:

2:51.

 - Relógio interessante - comentou Sophie, olhando-lhe para o Pulso enquanto contornava a rotunda.

 - É uma longa história - disse ele, voltando a baixar a manga do casaco.

- Calculo que deva ser. - Dirigiu-lhe um rápido sorriso e saiu da rotunda, seguindo para norte, afastando-se do centro da cidade. Passou à justa dois sinais verdes, chegou ao terceiro cruzamento e virou à esquerda no Boulevard Malesherbes. Deixaram para trás as ruas sossegadas e orladas de árvores do bairro diplomático e internaram-se numa sombria zona industrial. Sophie virou bruscamente à esquerda e, instantes depois. Langdon soube onde estavam.

 Gare Saint-Lazare.

 À frente deles, o terminal ferroviário, com o seu tecto de vidro, parecia o bizarro resultado de um cruzamento entre um hangar de aviação e uma estufa. As estações de comboios europeias nunca dormem. Mesmo àquela hora, havia uma dúzia de táxis parados diante da porta principal. Havia carrinhas onde se vendia sanduíches e água mineral e grupos de adolescentes de ar desgrenhado que saíam da estação a esfregar os olhos e a olhar em redor como se tentassem descobrir a que cidade acabavam de chegar. Um pouco mais à frente, dois agentes da Polícia, de pé no passeio, davam indicações a meia dúzia de desorientados turistas.

 Sophie parou o Smart atrás da fila de táxis, numa zona de estacionamento proibido, apesar de haver fartura de lugares disponíveis no parque do outro lado da rua. Antes que Langdon pudesse perguntar-lhe aonde ia, já tinha saído do carro. Correu até à janela do táxi parado à frente deles e começou a falar com o motorista.

 Quando se apeou do Smart, Langdon viu-a entregar ao taxista um grosso maço de notas. O homem assentiu e então, para espanto de Langdon, arrancou sem eles.

 - Que aconteceu? - perguntou Langdon, indo juntar-se a Sophie no passeio enquanto o táxi desaparecia.

 Sophie já ia a caminho da entrada da estação.

 - Venha. Vamos comprar dois bilhetes para o primeiro comboio que saia de Paris.

 Langdon correu para alcançá-la. O que começara como uma corrida de quilómetro e meio até à embaixada dos Estados Unidos tinha-se transformado numa evacuação da cidade. Estava a gostar cada vez menos da ideia.

 

 O motorista que foi buscar o bispo Aringarosa ao Aeroporto Internacional Leonardo da Vinci conduzia um pequeno e vulgar Fiat preto. Aringarosa recordou os tempos em que todos os carros do Vaticano eram grandes automóveis de luxo, com medalhões nas portas e flâmulas ostentando o brasão da Santa Sé. Esses dias desapareceram para sempre. Os carros do Vaticano eram agora menos ostentosos e só muito raramente usavam qualquer emblema que os distinguisse. O Vaticano afirmava que se tratava de cortar nas despesas para melhor servir as dioceses, mas Aringarosa suspeitava de que era mais por questões de segurança. O mundo enlouquecera e, em muitos lugares da Europa, anunciar o amor por Jesus Cristo equivalia a pintar um alvo no tejadilho do carro.

 Ajeitando a sotaina negra à volta das pernas, Aringarosa instalou-se no banco traseiro do Fiat e preparou-se para a longa viagem até Castel Gandolfo. A mesma que fizera cinco meses antes.

 A viagem do ano passado a Roma, pensou, com um suspiro. A noite mais longa da minha vida.

 

 

 Cinco meses antes, o Vaticano telefonara a pedir a sua presença imediata em Roma. Não fora dada qualquer explicação. Os bilhetes estão no aeroporto. A Santa Sé esforçava-se ao máximo por manter um véu de mistério, mesmo face aos escalões mais elevados da hierarquia.

A misteriosa convocação, suspeitara Aringarosa, não passava provavelmente de uma tentativa do Papa e de outros altos funcionários do Vaticano de aproveitarem a boleia do mais recente êxito público da Opus Dei: a inauguração da nova Sede Nacional em Nova Iorque. A Architectural Digest chamara ao edifício da organização «um brilhante farol de catolicismo sublimemente integrado na paisagem moderna», e, ultimamente, o Vaticano parecia atraído por tudo o que incluísse a palavra moderno.

 Aringarosa não tinha outro remédio senão aceitar o convite, ainda que com relutância. Não exactamente um fã da actual administração pontifícia, o bispo Aringarosa, como a maior parte do clero conservador, vira com grande preocupação o novo Papa instalar-se no seu primeiro ano no cargo. Um liberal sem precedentes, Sua Santidade chegara ao papado na sequência de um dos mais controversos e invulgares conclaves da história do Vaticano. Agora, em vez de mostrar humildade face à sua inesperada ascensão, o Santo Padre não hesitava em utilizar todo o poder do mais alto cargo da cristandade. Aproveitando uma perturbadora vaga de apoio liberal no seio do Colégio Cardinalício, o Papa declarava ser sua missão «rejuvenescer o Vaticano e actualizar o catolicismo, adequando-o ao terceiro milénio». O que, trocado por miúdos, temia Aringarosa, significava que o homem era na realidade suficientemente arrogante para pensar que podia reescrever as leis de Deus e reconquistar os corações daqueles que achavam que as exigências do verdadeiro catolicismo se tinham tornado demasiado inconvenientes no mundo actual.

 Aringarosa usara todo o seu peso político - muito substancial, considerando o tamanho da congregação da Opus Dei e a imponência da sua conta bancária - para tentar persuadir o Papa e os respectivos conselheiros de que suavizar as leis da Igreja era não só uma infidelidade e uma cobardia, mas também um suicídio político. Recordara-lhes que a mais recente «revisão» nas leis da Igreja - o fiasco do Vaticano II - deixara um legado devastador: a frequência das igrejas era agora mais baixa do que nunca, a fonte dos donativos estava a secar e não havia sequer padres suficientes para todos os templos.

 As pessoas precisam de estrutura e orientação por parte da Igreja, insistia Aringarosa, não de palmadinhas nas costas e indulgência!

 Nessa noite, alguns meses depois, quando o Fiat saíra do aeroporto, Aringarosa ficara surpreendido ao verificar que, em vez de estar a dirigir-se ao

- Onde vamos? - perguntara ao condutor.

 - Para os Montes Albanos - respondera o homem. - A reunião de Vossa Eminência é em Castel Gandolfo.

 A residência de Verão do Papa? Aringarosa nunca a vira, nem tinha o mínimo desejo de vê-la. Além de ser a casa de férias do Papa, a cidadela do século XVI albergava também a Specula Vaticana - o Observatório do Vaticano - um dos mais avançados observatórios astronómicos da Europa. Aringarosa nunca se sentira à-vontade com a necessidade histórica que o Vaticano parecia ter de se imiscuir na ciência. Qual era a vantagem de fundir ciência e fé? Era manifestamente impossível a alguém que tivesse fé em Deus praticar uma ciência livre de parcialidades. E a fé não tinha necessidade de qualquer confirmação física das suas crenças.

 Seja como for, ali está, pensou, quando Castel Gandolfo surgiu à vista, recortando-se contra um estrelado céu de Novembro. Da estrada de acesso, a cidadela parecia um grande monstro de pedra a considerar a hipótese de um salto suicida. Empoleirado na beira de um precipício, o castelo debruçava-se sobre o berço da civilização italiana - o vale onde os Curiazi e os Orazi se tinham batido muito antes da fundação de Roma.

 Mesmo em silhueta, Gandolfo era digno de ser visto: um imponente exemplo de arquitectura defensiva, ecoando o poder da sua dramática situação no alto do penhasco. Infelizmente, como Aringarosa teve então ocasião de ver, o Vaticano estragara tudo construindo sobre os telhados duas enormes cúpulas de alumínio destinadas aos telescópios, fazendo o outrora grave edifício parecer um orgulhoso guerreiro toucado com um par de chapéus de festa.

 Quando se apeou do carro, um jovem padre jesuíta saiu apressadamente do edifício para o receber.

 - Bem-vindo, Eminência. Sou o padre Mangano. Um dos astrónomos do Observatório.

 Que bom para ti. Aringarosa resmungou um cumprimento e seguiu o seu anfitrião até ao átrio do castelo - um vasto espaço aberto, decorado com uma desengraçada mistura de arte renascentista e imagens astronómicas.

 Continuando a seguir o jovem padre, que subia a ampla escada de mármore travertino, Aringarosa viu sinais que indicavam caminho para centros de conferências, anfiteatros e serviços de informações.

Espantou-o pensar que o Vaticano, incapaz de proporcionar directivas firmes e coerentes que permitissem o crescimento espiritual, arranjava mesmo assim tempo para fazer palestras sobre astrofísica a grupos de turistas.

 - Diga-me - perguntou, dirigindo-se ao jovem padre - quando foi que a cauda começou a agitar o cão?

 O padre lançou-lhe um olhar de estranheza.

 - Eminência?

 Aringarosa agitou uma mão, decidindo não se lançar nessa ofensiva particular naquela noite. O Vaticano enlouqueceu. Como um pai preguiçoso que acha mais fácil aceder a todos os caprichos de um filho mimado do que manter-se firme e ensinar valores, a Igreja estava a tornar-se cada vez mais mole, tentando reinventar-se para se adaptar a uma cultura que perdera o norte.

 O corredor do último piso era largo, ricamente decorado e apontava numa única direcção - umas enormes portas de carvalho com uma placa metálica:

 

 BIBLIOTECA ASTRONÓMICA

 

 Aringarosa já ouvira falar daquele lugar - A Biblioteca Astronómica do Vaticano -, que se dizia conter mais de vinte e cinco mil volumes, incluindo obras raras de Copérnico, Galileu, Kepler, Newton e Secchi. Alegadamente, era ali que os mais altos funcionários do papado tinham as suas reuniões privadas... as reuniões que preferiam não ter dentro dos muros da Cidade do Vaticano.

 Nunca, enquanto se aproximava das portas, o bispo Aringarosa imaginaria a chocante notícia que ia receber lá dentro, ou a mortal cadeia de acontecimentos que essa notícia ia pôr em movimento. Só uma hora mais tarde, quando saiu aturdido da reunião, compreendeu bem as devastadoras implicações do que acabava de ouvir. Daqui a seis meses!, pensara. Deus nos ajude!

 

 

 Agora, uma vez mais sentado num Fiat, o bispo Aringarosa apercebeu-se de que tinha os punhos cerrados só de pensar naquela primeira reunião. Abriu as mãos e obrigou-se a inspirar fundo, relaxando os músculos.

Vai correr tudo bem, disse para si mesmo enquanto o carro serpenteava montanha acima. Mesmo assim, desejava intensamente que o telemóvel tocasse. Porque não me terá o Professor telefonado? O Silos já deve ter a Chave de Abóbada em seu poder.

 Num esforço para acalmar os nervos, pensou na ametista púrpura do seu anel episcopal. Tacteando a textura da aplicação em forma de mitra e de báculo e as arestas dos diamantes, recordou a si mesmo que aquele anel era o símbolo de um poder muito inferior àquele que em breve possuiria.

 

 O interior da Gare Saint-Lazare era semelhante ao de qualquer outra estação ferroviária da Europa, um vasto e cavernoso espaço semiaberto povoado pelos suspeitos do costume: sem-abrigo empunhando pedaços de cartão em que anunciavam os seus males e necessidades, grupos de jovens universitários de olhos remelosos a dormir em cima das mochilas ou evadidos num outro mundo agarrados às suas consolas portáteis Mp3, bagageiros de macacões azuis a fumar e a conversar encostados às paredes.

 Sophie ergueu os olhos para o enorme painel das partidas suspenso do tecto. As finas e compridas placas brancas e pretas rodopiavam velozmente, numa espécie de onda que vinha de cima para baixo à medida que a informação era actualizada. Terminada a operação, Langdon examinou a lista de ofertas. A primeira linha dizia:

 LILLE   RAPIDE   3:06

 - Seria melhor se partisse mais cedo - murmurou Sophie. Mas Lille vai ter de servir.

 Mais cedo? Langdon consultou o relógio. 2:59. O comboio partia dentro de sete minutos e ainda nem sequer tinham bilhetes. Sophie guiou-o até à bilheteira e disse:

 - Compre dois bilhetes com o seu cartão de crédito.

 - Julgava que as utilizações do cartão de crédito podiam ser...

 - Exactamente.

Langdon desistiu de tentar acompanhar Sophie Neveu. Usando o cartão Visa, comprou dois bilhetes para a carruagem-cama e entregou-os a Sophie.

Sophie conduziu-o para as plataformas de embarque. Vindo de cima, o familiar ding-dong electrónico seguido por uma voz ecoante anunciou a última chamada para Lille. A frente deles, dezasseis linhas separadas por plataformas de cimento estendiam-se como fitas até desaparecerem na noite. Muito para a direita, na linha número três, o comboio com destino a Lille preparava-se para partir, mas Sophie, passando o braço pelo de Langdon, arrastou-o na direcção exactamente oposta. Atravessaram apressados um vestíbulo lateral, passando diante de uma cafetaria, e finalmente saíram para uma rua silenciosa no lado oeste da estação.

 Junto ao passeio, um taxi solitário parecia esperar, com o motor a trabalhar.

 O motorista viu Sophie e fez um sinal de luzes.

 Sophie saltou para o banco traseiro. Langdon seguiu-a.

 Quando o táxi arrancou, Sophie pegou nos bilhetes de comboio acabados de comprar e rasgou-os em pedacinhos pequenos.

 Langdon suspirou. Setenta dólares bem gastos.

 Só depois de o táxi ter entrado numa monótona velocidade de cruzeiro, seguindo para norte pela Rue de Clichy, é que Langdon se convenceu de que tinha efectivamente escapado. Pela janela, do lado direito, via Montmartre e a bela cúpula do Sacré-Coeur. A imagem foi interrompida pelo relampejar das luzes dos carros da Polícia que passaram por eles na direcção oposta.

 Langdon e Sophie baixaram a cabeça enquanto o uivo das sereias se afastava e morria.

 Sophie limitara-se a dizer ao motorista que saísse da cidade, e, pela contracção determinada do queixo dela, Langdon adivinhou que estava a tentar decidir a próxima jogada.

 Resolveu voltar a examinar a chave cruciforme, erguendo-a à altura da janela do táxi, aproximando-a dos olhos num esforço para descobrir quaisquer marcas que indicassem onde fora fabricada. À luz intermitente dos candeeiros da rua, nada viu excepto o selo do Priorado.

 - Não faz sentido - disse, finalmente.

 - Que parte?

 - O seu avô dar-se a tanto trabalho para fazer-lhe chegar às mãos uma chave que a Sophie não sabe para que serve.

 - Concordo.

 - Tem a certeza de que ele não escreveu mais nada nas costas do quadro.

- Procurei em toda a área. Isso era a única coisa que lá estava Essa chave, entalada entre a armação e a tela. Vi o selo do Priorado enfiei a chave no bolso e saímos dali para fora.

 Langdon franziu a testa, examinando agora a ponta romba da haste triangular. Nada. Semicerrando os olhos, aproximou a chave da cara e examinou a aresta da pega. Nada.

 - Acho que esta chave foi limpa recentemente.

 - Porquê?

 - Cheira a álcool.

 - Desculpe?

 - Cheira como se alguém a tivesse esfregado com um produto de limpeza. - Langdon levou a chave ao nariz e cheirou-a. É mais forte do outro lado. - Voltou-a. - Sim, qualquer coisa à base de álcool, como se tivesse sido polida com um limpa-metais ou... - interrompeu-se a meio da frase.

 - O quê?

 Langdon inclinou a chave para a luz e examinou cuidadosamente a face lisa da pega. Parecia ter pontos brilhantes... como se estivesse húmida.

 - Olhou bem para a parte de trás da chave antes de a meter no bolso?

 - O quê? Não, não olhei. Estava cheia de pressa.

 Langdon voltou-se para ela.

 - Ainda tem a lanterna de luz negra?

 Sophie enfiou a mão no bolso e tirou de lá a fina lanterna. Langdon pegou-lhe, acendeu-a e apontou-a para o verso da pega da chave, Que se pôs instantaneamente a brilhar. Havia ali qualquer coisa escrita. Numa letra apressada mas legível.

 - Bem - disse Langdon, sorrindo -, parece que já sabemos o que era aquele cheiro a álcool.

 

 Sophie estava a olhar estupefacta para as palavras escritas a púrpura no verso da chave.

 

 Rue Haxo 24

 

 Uma morada! O meu avô escreveu uma morada!

- Onde fica isto? - perguntou Langdon.

 Sophie não fazia ideia. Voltando-se para a frente, inclinou-se por cima das costas do banco e perguntou excitadamente ao motorista:

 - Connaissez-vous la Rue Haxo?

 O homem pensou por um instante, e então assentiu. Disse a Sophie que ficava perto do estádio de ténis nos arredores ocidentais de Paris. Ela pediu-lhe que os levasse lá imediatamente.

  - O caminho mais rápido é pelo Bosque de Bolonha - disse-lhe o motorista em francês. - Pode ser?

 Sophie franziu a testa. Normalmente, escolheria um caminho menos escandaloso, mas naquela noite não podia dar-se ao luxo de ser esquisita.

 - Oui. - Vamos chocar o nosso visitante americano.

 Olhou novamente para a chave e perguntou a si mesma o que iriam encontrar no número 24 da Rue Haxo. Uma igreja? Um quartel-general do Priorado?

 O espírito encheu-se-lhe de imagens do ritual secreto a que assistira na gruta escavada por baixo da casa do avô, dez anos antes, e deixou escapar um longo suspiro.

 - Robert, há montes de coisas que tenho de lhe dizer. - Fez uma pausa, olhando-o bem a direito nos olhos enquanto o táxi corria para oeste. - Mas primeiro quero que me conte tudo o que sabe a respeito desse Priorado de Sião.

 

 À entrada da Salle des États, Bezu Fache espumava de raiva enquanto o guarda graduado Grouard lhe explicava como Sophie e Langdon tinham conseguido desarmá-lo. Porque é que não disparaste através do raio do quadro!

 - Capitão! - O tenente Collet corria na direcção deles vindo do posto de comando. - Capitão, a notícia chegou agora mesmo. Encontraram o carro da agente Neveu.

 - Conseguiu chegar à embaixada?

 - Não. Estação ferroviária. Compraram dois bilhetes. O comboio acaba de partir.

 Fache despediu Grouard com um gesto e levou Collet para um recanto da galeria, dirigindo-se-lhe em voz baixa.

 - Qual era o destino?

 - Lille.

 - Provavelmente, um truque para nos despistar. - Fache soprou com força, formulando um plano. - Muito bem, alerte a próxima estação, mande parar e revistar o comboio, pelo sim pelo não. Deixe o carro dela onde está e ponha agentes à paisana a vigiá-lo, para o caso de tentarem recuperá-lo. Mande fazer uma busca nas ruas à volta da estação, para o caso de terem fugido a pé. Há autocarros a partir da estação?

 - A esta hora, não. Só táxis.

 - Óptimo. Interrogue os motoristas. Descubra se viram alguma coisa. Depois contacte a companhia de táxis e mande descrições dos dois fugitivos para a central. vou falar com a Interpol.

 Collet pareceu surpreendido.

- Vai pôr isto no ar?

 Fache lamentava o potencial embaraço, mas não via outra opção.

 Fechar a rede, e fechá-la com força.

 A primeira hora era crítica. Os fugitivos eram sempre previsíveis durante a primeira hora após a fuga. Precisavam sempre da mesma coisa. Distância. Alojamento. Dinheiro. A Santíssima Trindade. A Interpol tinha o poder de fazer todas estas três coisas desaparecerem num abrir e fechar de olhos. Enviando por fax fotografias de Langdon e de Sophie para as instituições de viagens, hotéis e bancos de Paris, não lhes deixaria a mais pequena hipótese - não poderiam sair da cidade, não teriam onde esconder-se, não teriam maneira de levantar dinheiro sem serem reconhecidos. Regra geral, os fugitivos entravam em pânico e faziam qualquer coisa estúpida. Roubar um carro. Assaltar uma loja. Ou, em desespero de causa, usar um cartão bancário. Fosse qual fosse o erro que cometessem, não tardavam a revelar o seu paradeiro às autoridades locais.

 - Só o Langdon, certo? - disse Collet. - Não vai denunciar a Sophie Neveu. Ela é um dos nossos.

 - Claro que vou denunciá-la! - replicou Fache. - De que serviria denunciar o Langdon deixando-a a ela livre para fazer o trabalho sujo? Tenciono passar a pente fino o dossier da Neveu... amigos, família, contactos pessoais... toda a gente a quem ela possa pedir ajuda. Não sei o que é que ela pensa que anda a fazer, mas vai custar-lhe muito mais do que o emprego!

 - Quere-me aos telefones ou no terreno?

 - No terreno. Vá à estação ferroviária e coordene a equipa. Tem o comando, mas não faça nada sem falar comigo.

 - Sim, senhor. - E Collet afastou-se a correr.

 Fache sentia todo o corpo rígido. Do outro lado da janela, a pirâmide de vidro brilhava, o seu reflexo a ondular na água dos tanques que o vento encrespava. Escaparam-se-me por entre os dedos. disse a si mesmo para relaxar.

 Até um agente com treino de campo teria de ter muita sorte para aguentar a pressão que a Interpol ia exercer.

 Uma criptóloga e um mestre-escola?

 Não duravam até de manhã.

 

 O parque densamente arborizado conhecido como Bois de Boulogne tinha muitos nomes, mas os cognoscenti parisienses chamavam-lhe «o Jardim das Delícias Terrenas». A alcunha, parecendo embora lisonjeira, não o era, muito pelo contrário. Quem conhecesse o sombrio quadro de Bosch com o mesmo nome compreendia a ironia; o quadro, como o bosque, era escuro e tortuoso, um purgatório para tarados e fetichistas. À noite, os coleantes caminhos florestais enchiam-se de centenas de corpos de aluguer, delícias terrenas para satisfazer os desejos mais escondidos e inomináveis de todos e de cada um - homens, mulheres e tudo o que houvesse pelo meio.

 Enquanto Langdon organizava os pensamentos para falar a Sophie do Priorado de Sião, o táxi atravessou entrada do parque e meteu pelos arruamentos empedrados em direcção a oeste. Estava a ter dificuldade em concentrar-se, porque uma amostra dos residentes nocturnos do bosque começava já a emergir das sombras e a ostentar a respectiva mercadoria à luz dos faróis. Um pouco à frente, duas adolescentes de seios nus lançaram olhares escaldantes ao táxi que passava. Atrás delas, um musculoso negro de corpo oleado, vestindo apenas uma espécie de fio-dental, voltou-lhes as costas e flectiu as nádegas. Ao lado, uma belíssima mulher loura levantou a minissaia e mostrou que não era, na realidade, uma mulher.

 Deus me ajude! Langdon voltou o olhar para dentro do táxi e inspirou fundo.

 - Fale-me do Priorado - pediu Sophie.

 Langdon assentiu, incapaz de imaginar um pano de fundo menos adequado à lenda que ia contar. Perguntou a si mesmo por onde começar. A história de irmandade estendia-se por mais de um milénio... uma espantosa crónica de segredos, chantagens, traições e até brutal tortura às mãos de um papa furioso.

  - O Priorado de Sião - começou -, foi fundado em Jerusalém, em 1099, por um rei francês chamado Godofredo de Bulhão, imediatamente depois de este ter conquistado a cidade.

 Sophie assentiu, com os olhos cravados nele.

 - Godofredo era alegadamente o detentor de um poderoso segredo... um segredo que a sua família guardava desde os tempos de Cristo. Receando que este segredo se perdesse com a sua morte, fundou uma irmandade secreta... o Priorado de Sião... que encarregou de o manter e defender, transmitindo-o sigilosamente de geração em geração. Durante os anos da sua presença em Jerusalém, o Priorado soube da existência de uma grande quantidade de documentos enterrados sob as ruínas do templo de Herodes, que fora construído sobre os escombros ainda mais antigos do Templo de Salomão. Acreditavam que esses documentos corroboravam o poderoso segredo de Godofredo e eram tão explosivos que a Igreja não olharia a meios para se apoderar deles.

 Sophie parecia pouco convencida.

 - Os membros do Priorado juraram que, levasse o tempo que levasse, aqueles documentos tinham de ser resgatados das ruínas do templo e salvaguardados para sempre, para que a verdade nunca morresse. com o objectivo de recuperar os documentos, o Priorado criou um braço militar, um grupo de nove cavaleiros chamados a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão. Langdon fez uma pausa. - Mais vulgarmente conhecidos como Cavaleiros do Templo, ou Templários.

 Sophie ergueu os olhos, com uma surpreendida expressão de reconhecimento.

 Langdon tinha dado conferências suficientes sobre os Cavaleiros do Templo para saber que não havia praticamente ninguém no mundo que não tivesse já ouvido falar deles, pelo menos no abstracto. Para os académicos, a história dos Templários era um mundo precário em que os factos, a lenda e a desinformação estavam de tal modo entretecidos que se tornava quase impossível extrair dali uma verdade clara. Passara até a evitar referir os Cavaleiros do Templo nas suas conferências, porque isso levava invariavelmente a uma barragem de retorcidas perguntas a respeito das mais variadas teorias de conspiração.

 Até Sophie já parecia perturbada.

 - Está a dizer-me que os Templários foram criados pelo Priorado de Sião com o objectivo de recuperar uma colecção de documentos secretos? Pensei que os Templários tinham sido criados para defender a Terra Santa.

 - Um erro comum. A ideia de proteger os peregrinos era o disfarce que os Templários usavam para levar a cabo a sua missão. O seu verdadeiro objectivo na Terra Santa era recuperar os documentos sepultados sob as ruínas do templo.

- E encontraram-nos?

 Langdon sorriu.

 - Ninguém sabe de certeza, mas há um ponto em que todos os académicos estão de acordo: os cavaleiros descobriram qualquer coisa sob as ruínas... qualquer coisa que os tornou ricos e poderosos para lá de tudo o que alguém pudesse imaginar.

 Expôs rapidamente a Sophie o esboço académico padrão da história aceite dos Templários, explicando como os Cavaleiros estavam na Terra Santa quando da segunda cruzada e explicaram ao rei Balduíno II que se encontravam ali para proteger os peregrinos cristãos que percorriam as estradas. Apesar de não receberem qualquer paga e de terem feito voto de pobreza, disseram ao rei que precisavam de um abrigo mínimo, e pediram autorização para se instalarem nos estábulos sob as ruínas do templo. O rei concedeu-lhes o que pediam, e os Cavaleiros estabeleceram uma humilde residência no interior do devastado santuário.

 A estranha escolha de alojamento, explicou Langdon, fora tudo menos casual. Os Cavaleiros acreditavam que os documentos que o Priorado procurava estavam enterrados bem fundo por baixo das ruínas - sob o Santo dos Santos, uma câmara sagrada onde se acreditava que o próprio Deus residira. Literalmente, o cerne mesmo da fé judaica. Durante quase dez anos, os nove cavaleiros viveram nas ruínas, escavando no mais absoluto segredo a rocha sólida.

 Sophie lançou-lhe um olhar.

 - E diz que descobriram qualquer coisa?

 - Sem a mínima dúvida - respondeu Langdon, e explicou que tinham demorado nove anos, mas que finalmente tinham encontrado aquilo que procuravam. Retiraram o tesouro do templo e voltaram à Europa, onde a sua influência pareceu solidificar-se da noite para o dia.

 Ninguém sabia de certeza se os Cavaleiros tinham feito chantagem com o Vaticano ou se a Igreja tentara simplesmente comprar-lhes o silêncio, mas a verdade é que o Papa Inocêncio II emitiu de imediato uma bula sem precedentes que conferia aos Cavaleiros poderes ilimitados e os considerava «uma lei em si mesmos» - um exército autónomo, independente de quaisquer interferências de reis ou prelados, fosse ela religiosa ou política.

 Com a carta-branca que lhes fora dada pelo Vaticano, os Cavaleiros do Templo cresceram a uma velocidade espantosa, tanto em números como em poder político, adquirindo vastas propriedades numa dúzia de países. Começaram a emprestar dinheiro a reis arruinados, cobrando juros, criando assim o moderno sistema bancário e aumentando ainda mais a sua riqueza e influência.

 Por volta de 1300, a sanção do Vaticano ajudara os Templários a amassar tanto poder que o Papa Clemente V decidiu que era preciso fazer qualquer coisa. Em conluio com Filipe IV de França, maquinou um engenhoso plano para esmagar os Templários e apoderar-se dos tesouros da ordem, assumindo deste modo o controlo dos segredos com que ameaçavam o Vaticano. Numa operação militar digna da CIA, o Papa Clemente emitiu ordens seladas que deviam ser simultaneamente abertas pelos seus soldados em toda a Europa na sexta-feira 13 de Outubro de 1307.

 Na madrugada dessa sexta-feira, os selos foram quebrados e o espantoso conteúdo das ordens revelado. Na sua carta, Clemente afirmava que Deus o visitara numa visão e o avisara de que os Cavaleiros do Templo eram heréticos, culpados de prestar culto ao diabo, de homossexualidade, de profanar a cruz, de sodomia e de outros comportamentos blasfemos. E Deus pedira-lhe então que lavasse a face da Terra arrebanhando todos os Templários e torturando-os até que confessassem os seus pecados contra Ele. A maquiavélica operação de Clemente funcionou com a precisão de um relógio, nesse mesmo dia, inúmeros Cavaleiros foram presos, impiedosamente torturados e finalmente queimados na fogueira como heréticos. Os ecos da tragédia ressoavam ainda na cultura moderna: a sexta-feira 13 passou a ser para sempre considerado um dia de azar.

Sophie parecia confusa.

 - Os Cavaleiros do Templo foram eliminados? Pensava que ainda hoje existiam confrarias de Templários?

 - E existem, sob uma grande variedade de nomes. A despeito das falsas acusações de Clemente e de todos os esforços para erradicá-los, os Templários tinham amigos poderosos, e alguns conseguiram escapar às purgas do Vaticano. O poderoso tesouro documental da ordem, que fora a fonte aparente do seu poder e era o verdadeiro objectivo de Clemente, escapou-se-lhe por entre os dedos. Os documentos tinham sido há muito entregues aos misteriosos arquitectos dos Templários, os membros do Priorado de Sião, que um véu de secretismo mantivera a salvo longe do alcance do Vaticano. Ao sentir que o Papa apertava o cerco, o Priorado tinha retirado os documentos do preceptorado onde se encontravam, em Paris, e, de noite, levara-os para barcos dos Templários fundeados em La Rochelle.

- Para onde foram os documentos?

Langdon encolheu os ombros.

 - A resposta a essa pergunta só o Priorado de Sião a conhece. Porque os documentos continuam a ser, ainda hoje, objecto de constante investigação e especulação, julga-se que têm sido mudados de lugar para lugar e escondidos várias vezes. A especulação actual situa-os algures no Reino Unido.

 Sophie parecia pouco à-vontade.

 - Durante mil anos - prosseguiu Langdon -, as lendas sobre este segredo têm sido transmitidas de geração em geração. O conjunto dos documentos, o seu poder e o segredo que revelam acabaram por ser conhecidos por um único nome: Sangreal. Foram escritas centenas de livros sobre o tema, e poucos mistérios têm despertado tanto interesse entre os historiadores como o Sangreal.

 - O Sangreal? A palavra tem alguma coisa a ver com o francês sang ou o espanhol sangre, que significam «sangue»?

 Langdon assentiu. O sangue era a espinha dorsal do Sangreal, mas não do modo que Sophie imaginava.

 - A lenda é complicada, mas o que importa recordar é que o Priorado guarda a prova, e está supostamente à espera do momento histórico certo para revelar a verdade.

 - Que verdade? Que segredo poderia ser assim tão poderoso?

Langdon deixou escapar um fundo suspiro e olhou através da janela do táxi para o ventre mole de Paris exposto no meio das sombras.

 - A palavra Sangreal é muito antiga. Tem evoluído ao longo dos tempos, transformando-se num outro termo... um nome mais moderno. - Fez uma pausa. - Quando eu lhe disser esse nome, aperceber-se-á de que já sabe muito a respeito dele. Na realidade, praticamente toda a gente no mundo inteiro já ouviu a história do Sangreal.

 Sophie fez um ar céptico.

 - Nunca ouvi falar.

 - Claro que ouviu. - Langdon sorriu. - Só que está habituada a dar-lhe outro nome: Santo Graal.

 

 Sophie perscrutou o rosto de Langdon no banco traseiro do táxi. Estará a brincar?

 -  Santo Graal?

Langdon assentiu, muito sério.

 - Santo Graal é o significado literal de Sangreal. A palavra deriva do francês Sangraal, que evoluiu para Sangreal e acabou por dividir-se em duas, San Greal.

 Santo Graal. Sophie ficou surpreendida por não ter visto imediatamente a ligação linguística.  Mesmo assim, a afirmação de Langdon continuava a não fazer sentido para ela.

 - Pensava que o Santo Graal era uma taça. Acaba de dizer-me que o Sangreal é uma colecção de documentos que revelam um temível segredo.

 - Sim, mas os documentos do Sangreal são apenas metade do tesouro do Santo Graal. Estão enterrados com o próprio Graal... e revelam o seu verdadeiro significado. Por isso, por revelarem a verdadeira natureza do Graal, davam tanto poder aos Templários.

 A verdadeira natureza do Graal? Sophie sentia-se cada vez mais perdida. O Santo Graal, sempre pensara, era a taça por onde Jesus bebera durante a Ultima Ceia e onde José de Arimateia posteriormente recolhera o Seu sangue durante a crucifixão.

 - O Santo Graal é a Taça de Cristo - disse. - O que é que pode ser mais simples do que isto?

 - Sophie - sussurrou Langdon, inclinando-se para ela -, segundo o Priorado de Sião, o Santo Graal não é uma taça. Afirmam que a lenda do Graal... de um cálice... é na realidade uma alegoria engenhosamente elaborada. Ou seja, a história do Graal usa o cálice como metáfora para outra coisa, uma coisa muito mais poderosa. - Fez uma pausa. - Algo que encaixa perfeitamente com tudo o que o seu avô tentou dizer-nos esta noite, incluindo todas as suas referências simbológicas ao sagrado feminino.

 Ainda insegura, Sophie sentiu no sorriso paciente de Langdon que ele compreendia a sua confusão, embora mantivesse uma expressão grave.

 - Mas se o Santo Graal não é uma taça - perguntou -, então o que é?

 Langdon já contava com a pergunta, mas nem mesmo assim sabia muito bem como dizer aquilo. Se não apresentasse a resposta no devido contexto histórico, Sophie ficaria com um ar vazio de espanto e confusão... exactamente a mesma expressão que vira no rosto do seu editor quando, meses antes, lhe mostrara o manuscrito em que estava a trabalhar.

 

 - Este manuscrito afirma o quê? - engasgou-se o editor, pousando o copo de vinho e olhando para Langdon por cima do almoço meio comido. - Não pode estar a falar a sério!

 - Suficientemente a sério para ter passado um ano a investigá-lo.

 John Faukman, um conhecido editor de Nova Iorque, puxou nervosamente pela barbicha. Ouvira sem a mínima dúvida algumas ideias loucas ao longo da sua eminente carreira, mas aquela parecia tê-lo deixado estupefacto.

 - Robert - disse, finalmente -, não me interprete mal. Gosto muito do seu trabalho e percorremos juntos um longo caminho. Mas se aceito publicar uma ideia como esta, vou ter pessoas a fazer manifestações à porta do meu escritório durante meses. Além disso, dará cabo da minha reputação. O Robert é um Historiador de Harvard, pelo amor de Deus, não um trapaceiro de esquina à procura de dinheiro fácil. Onde é que vai encontrar provas credíveis em quantidade suficiente para apoiar uma teoria destas?

 Com um sorriso tranquilo, Langdon tirou uma folha de papel do bolso do casaco de tweed e entregou-o a Faukman. Continha uma bibliografia com mais de cinquenta títulos - obras de historiadores conhecidos, uns contemporâneos, outros com centenas de anos -, muitos deles bestsellers académicos. Todos os títulos daqueles livros sugeriam a mesma premissa que Langdon acabava de propor. À medida que lia a lista, Faukman ia adquirindo o ar de alguém que acabasse de descobrir que a Terra era efectivamente plana.

- Conheço alguns destes autores. São... historiadores de verdade!

Langdon sorriu.

-  Como vê, Jonas, não é só a minha teoria. Anda por aí há muito tempo. Estou apenas a elaborar com base nela. Nenhum livro, até hoje, explorou a lenda do Santo Graal de um ponto de vista simbológico. As provas iconográficas que tenho descoberto para apoiar a teoria são... bem, espantosamente convincentes.

 Faukman continuava a olhar para a lista.

 - Meu Deus, um destes livros foi escrito por Sir Leigh Teabing... um historiador da British Royal Academy.

 - Teabing passou a maior parte da vida a estudar o Santo Graal. Falei com ele. Na realidade, foi em grande parte o meu inspirador. É um crente, Jonas, como todos os outros que fazem parte dessa lista.

 - Está a dizer-me que todos estes historiadores acreditam verdadeiramente... - Faukman engoliu em seco, aparentemente incapaz de pronunciar as palavras.

 Langdon voltou a sorrir.

 - O Santo Graal é talvez o tesouro mais procurado de toda a história da humanidade. Engendrou lendas, guerras, buscas que duraram vidas inteiras. Fará sentido que se trate de uma simples taça? Se sim, então com toda a certeza outras relíquias deveriam despertar um interesse igual ou ainda maior... a Coroa de Espinhos, a Verdadeira Cruz da Crucifixão, o Titulus..., mas isso não aconteceu. Ao longo da História, o Santo Graal foi sempre especial. - Langdon sorriu. - Agora já sabe porquê.

 Faukman ainda estava a abanar a cabeça.

 - Mas com todos estes livros escritos a respeito dela, porque é que a teoria não é mais geralmente conhecida?

 - Estes livros não podem competir com séculos de História estabelecida, especialmente quando essa História tem o aval do maior bestseller de todos os tempos.

Faukman abriu muito os olhos.

 - Não me diga que o Harry Potter é a respeito do Santo Graal!

 - Estava a referir-me à Bíblia.

 - Eu sei - disse Faukman, fazendo uma careta.

 

- Lassaste! - O grito de Sophie rasgou o ar dentro do táxi. Largue-o!

 Langdon deu um salto quando Sophie se debruçou sobre o banco da frente, a gritar com o motorista, que tinha o microfone do rádio na mão e estava a falar para ele.

 Sophie voltou-se e meteu a mão no bolso do casaco de Langdon. Antes que ele se apercebesse do que estava a acontecer, já ela tinha tirado de lá a pistola do guarda do museu e apertava a ponta do cano contra a nuca do taxista. O homem largou imediatamente o rádio e ergueu a mão livre acima da cabeça.

 - Sophie! - exclamou Langdon, chocado. - Que diabo...

 - Arrêtez! - ordenou Sophie.

 A tremer, o taxista obedeceu, parando o carro e colocando-o em ponto morto.

 Foi então que Langdon ouviu a voz metálica da despachante da central da companhia a sair do altifalante:

 - ... qui s’apelle agent Sophie Neveu, et un américain, Robert Langdon...

 Os músculos de Langdon puseram-se rígidos. Já nos descobriram?

 - Descendez - exigiu Sophie.

 O trémulo taxista manteve os braços erguidos acima da cabeça enquanto se apeava do táxi e recuava vários passos.

 Sophie tinha baixado o vidro da janela e continuava a apontar a arma ao assustado motorista.

 - Robert - disse, calmamente. - Passe para o volante. Guia você.

 Langdon não ia pôr-se a discutir com uma mulher que empunhava uma arma. Desceu do carro e sentou-se ao volante. O taxista gritava pragas, com as mãos erguidas acima da cabeça.

 - Robert - disse Sophie, do banco traseiro, - suponho que já viu o suficiente da nossa floresta mágica?

Mais ao que o suficiente, pensou ele, assentindo.

 - Óptimo. Leve-nos daqui para fora.

 Langdon olhou para os comandos do carro e hesitou. Merda. Procurou a alavanca de mudanças e a embraiagem.

 - Sophie, talvez fosse melhor...

 - Vamos! - gritou ela.

 Lá fora, várias prostitutas aproximavam-se para ver o que se passava. Uma delas começou a marcar um número no telemóvel. Langdon carregou na embraiagem e empurrou a alavanca das mudanças, na esperança de ter engrenado a primeira. Pisou tentativamente o acelerador.

Soltou a embraiagem. Os pneus guincharam quando o táxi saltou para a frente, com a traseira a derrapar de uma maneira que obrigou a multidão a procurar refúgio. A mulher do telemóvel saltou para o meio das árvores, escapando por centímetros a ser atropelada.

 - Doucement! - disse Sophie, enquanto o carro guinava aos solavancos pela estrada empedrada. - O que é que está a fazer?

 - Tentei avisá-la! - gritou ele, para fazer-se ouvir acima dos protestos da caixa de velocidades.   - Estou habituado a uma caixa automática!

 

 Por muito sofrimento que o espartano quarto na casa de arenito castanho da Rue La Bruyère tivesse testemunhado, Silas duvidava que qualquer outro se comparasse à angústia que naquele momento lhe torturava o corpo pálido. Fui enganado. Está tudo perdido.

 Fora ludibriado. Os irmãos tinham mentido, preferindo a morte a revelar o seu verdadeiro segredo. Silas não se sentia com coragem para telefonar ao Professor. Não só matara as únicas quatro pessoas que sabiam onde estava escondida a Chave de Abóbada, como também matara uma monja dentro de Saint-Sulpice. Ela trabalhava contra Deus. Zombava do trabalho da Opus Dei!

 Um crime de impulso, a morte daquela mulher complicava extraordinariamente toda a questão. O bispo Aringarosa fizera o telefonema que permitira a Silas entrar na igreja; que pensaria o abade quando descobrisse que a freira estava morta? Apesar de Silas ter voltado a deitá-la na cama, a ferida na cabeça era óbvia. Tentara recolocar a laje partida do chão, mas o estrago aí causado era igualmente óbvio. Saberiam que estivera alguém na igreja.

 Silas planeara refugiar-se na Opus Dei quando o seu trabalho ali estivesse terminado. O bispo Aringarosa proteger-me-á. Não conseguia imaginar maior felicidade do que uma vida de meditação e oração entre as paredes do quartel-general da Opus Dei em Nova Iorque. Nunca mais voltaria a pôr os pés na rua. Tudo aquilo de que precisava estava dentro daquele santuário. Ninguém dará pela minha falta. Infelizmente, bem sabia, um homem proeminente como o bispo Aringarosa não podia desaparecer com a mesma facilidade.

Pus o bispo em perigo. Silas olhou sem ver para o soalho de madeira, pensando em pôr fim à própria vida. Ao fim e ao cabo, fora Aringarosa quem lha dera... no pequeno reitorado em Espanha, instruindo-o, dando-lhe um propósito.

 - Meu amigo - dissera-lhe Aringarosa -, nasceste albino. Não permitas que os outros te façam ter vergonha disso. Não vês como te torna especial? Não sabias que o próprio Noé era albino?

 - O Noé da Arca? - Silas nunca ouvira falar disso..

 Aringarosa sorrira.

 - Sim, o Noé da Arca. Como tu, tinha uma pele branca como um anjo. Pensa nisto. Noé salvou toda a vida da Terra. Estás destinado a grandes coisas, Silas. O Senhor libertou-te por uma razão. Foste chamado. O Senhor precisa de ti para fazer o Seu trabalho.

 Com o tempo, Silas aprendera a ver-se a si mesmo a uma nova luz. Sou puro. Branco. Belo. Como um anjo.

 De momento, no entanto, naquele quarto da residência, foi a voz do pai que lhe sussurrou, desapontada, do passado.

 Tu est un désastre. Un spectre.

 De joelhos no chão de madeira, Silas rezou a pedir perdão. Então, despindo o hábito, voltou a pegar na Disciplina.

 

 Numa luta feroz com a alavanca de mudanças, Langdon conseguiu levar o táxi «desviado» até ao outro lado do Bois de Boulogne deixando o motor ir abaixo apenas duas vezes. Infelizmente, o indesmentível humor da situação era ensombrado pela voz da despachante da central, que não parava de tentar contactar o táxi pelo rádio.

 - Voiture cinq-six-trois. Ou êtes-vous? Répondez!

 Quando chegou à saída do parque, Langdon engoliu o machismo e pisou o travão.

 - É melhor ser a Sophie a conduzir.

 Sophie pareceu aliviada quando se instalou atrás do volante. Instantes depois, tinham o carro a correr suavemente para oeste ao longo da Avenue Longchamp, deixando para trás o Jardim das Delícias Terrenas.

 - Qual é o caminho para a Rue Haxo? - perguntou Langdon, vendo Sophie levar o ponteiro do velocímetro para lá dos cem quilómetros/hora.

 - O motorista disse que era perto do estádio de ténis Roland Garros - respondeu ela, sem desviar os olhos da estrada. - Conheço a área.

 Langdon voltou a tirar a chave do bolso, sentindo-lhe o peso na palma da mão. Adivinhava que era um objecto de enorme importância. Muito possivelmente, a chave para a sua própria liberdade.

 Momentos antes, enquanto falava a Sophie dos Cavaleiros do Templo, apercebera-se de que aquela chave, além de ter gravado o selo do Priorado, tinha uma ligação mais subtil à organização secreta.

A cruz de braços iguais era um símbolo de equilíbrio e harmonia, mas também dos Templários. Já toda a gente vira imagens de Cavaleiros do Templo envergando túnicas brancas com uma cruz de braços iguais. Era verdade que os braços da cruz dos Templários abriam ligeiramente nas extremidades, mas continuavam a ter o mesmo comprimento.

 Uma cruz quadrada. Como a desta chave.

 Langdon sentiu a imaginação pôr-se-lhe a correr à solta enquanto pensava no que poderiam ir encontrar. O Santo Graal. Quase riu alto face ao absurdo da ideia. Pensava-se que o Graal se encontrava algures em Inglaterra, enterrado numa câmara secreta por baixo de uma das muitas igrejas dos Templários, onde permanecia escondido desde pelo menos 1500.

 A era do Grão-Mestre da Vinci.

 A fim de garantir a segurança dos poderosos documentos, o Priorado fora obrigado a mudá-los muitas vezes de lugar ao longo dos séculos anteriores. Os historiadores suspeitavam agora de que passara por seis esconderijos diferentes desde que chegara à Europa, vindo de Jerusalém. O último «avistamento» do Graal ocorrera em 1447, quando numerosas testemunhas falaram de um incêndio que quase destruíra os documentos antes que pudessem ser postos em segurança dentro de quatro arcas tão grandes que cada uma delas tivera de ser transportada por seis homens. Depois disso, ninguém voltara a afirmar tê-lo visto. Tudo o que restava era rumores dispersos de que estava escondido na Grã-Bretanha, a terra do rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda.

 Estivesse onde estivesse, dois factos importantes permaneciam:

 Leonardo conhecem a localização do Graal no seu tempo.

 Esse esconderijo não fora provavelmente alterado até ao presente.

 Por isso, os entusiastas do Graal continuavam a examinar à lupa a arte e os diários de da Vinci na esperança de encontrar uma pista escondida que desvendasse a sua actual localização. Havia quem afirmasse que o montanhoso fundo de A Madonna dos Rochedos correspondia à topografia de determinadas colinas crivadas de grutas existentes na Escócia. Outros insistiam em que a suspeita disposição dos discípulos em A Ultima Ceia era uma espécie de código. Outros ainda pretendiam que raios-X feito à Mona Lisa revelavam que fora inicialmente pintada com um pendente de Isis, de lápis-lazúli, ao pescoço, pormenor que Leonardo teria mais tarde decidido cobrir. Langdon nunca vira qualquer sinal do tal pendente, nem conseguia imaginar de que modo poderia ele revelar o esconderijo do Santo Graal, o que não impedia os apaixonados de o discutirem ad nauseam em sites e chat-rooms da Internet.

 Toda a gente adora uma conspiração.

 E as conspirações não paravam de aparecer. A mais recente fora, claro, a tremenda descoberta de que a famosa Adoração dos Magos de da Vinci escondia um negro segredo por baixo das suas camadas de tinta. O perito de arte italiano Maurizio Seracini revelara a perturbadora verdade, que o New York Times publicara com destaque sob o título: «O Escândalo Leonardo.»

 Seracini provara, para lá de qualquer dúvida, que embora o esboço cinzento-esverdeado subjacente da Adoração fosse indiscutivelmente da autoria de da Vinci, a pintura propriamente dita não era. A verdade era que um qualquer pintor anónimo preenchera o esquisso de da Vinci, como um desses quadros de pintar-por-números, anos após a morte do mestre. Muito mais perturbador ainda, no entanto, era o que estava por baixo da pintura do impostor. Fotografias tiradas com reflectografia de infravermelhos e raios-X sugeriam que o desconhecido pintor, ao cobrir o estudo esboçado, introduzira algumas alterações suspeitas ao desenho original... como que para subverter as verdadeiras intenções do autor. Fosse ela qual fosse, a natureza do desenho original nunca chegara a ser tornada pública. Em todo o caso, os embaraçados directores da galeria dos Uffizi, em Florença, tinham imediatamente banido o quadro para um armazém situado do outro lado da rua. Os visitantes que demandavam a Sala Leonardo da galeria passaram a encontrar estes enganadores e secos dizeres no lugar onde a Adoração estivera exposta:

 

 ESTA OBRA ESTÁ A SER SUBMETIDA A TESTES DE DIAGNÓSTICO PREPARATÓRIOS A FIM DE SER RESTAURADA

 

 No bizarro submundo dos modernos demandadores do Graal, Leonardo da Vinci continuava a representar o grande enigma. As suas obras pareciam desejosas de revelar um segredo que no entanto, fosse ele qual fosse, continuava escondido, talvez debaixo de uma camada de tinta, talvez codificado e à vista de todos, ou talvez até inexistente. Talvez a tantalizante plétora de pistas deixada por da Vinci mais não fosse do que uma promessa vazia destinada a frustrar os curiosos e a pôr um sorriso nos lábios da Mona Lisa.

 - Será possível - perguntou Sophie, trazendo Langdon de volta ao presente - que essa chave abra o esconderijo do Santo Graal?

 A gargalhada de Langdon soou a falso, até a ele.

 - Não me parece muito provável. Além disso, o Graal é suposto encontrar-se algures no Reino Unido, não em França.

 E contou-lhe abreviadamente a história.

 - Mas o Graal parece ser a única conclusão racional - insistiu ela. - Temos uma chave extremamente segura, marcada com o selo do Priorado de Sião e que nos foi entregue por um membro do Priorado de Sião... uma irmandade que, conforme acaba de dizer-me, é a guardiã do Santo Graal.

 Langdon sabia que o argumento era lógico, e, no entanto, recusava instintivamente aceitá-lo. Havia rumores de que o Priorado teria jurado levar um dia o Graal de novo para França, onde repousaria para todo o sempre, mas nenhuma prova histórica indicava que já o tivesse feito. E mesmo que o Priorado tivesse conseguido trazer o Graal para França, o número 24 da Rue Haxo, perto de um estádio de ténis, dificilmente pareceria um nobre e condigno lugar de repouso final.

 - Sophie, sinceramente, não vejo como possa esta chave ter alguma coisa a ver com o Graal.

 - Porque o Graal é suposto estar em Inglaterra?

 - Não só por isso. A localização dos Santo Graal é um dos segredos mais bem guardados da História. Os membros do Priorado passam décadas a provar ser dignos de confiança antes de serem elevados aos escalões mais altos da irmandade e ficarem a saber onde está o Graal. O segredo é protegido por um intricado sistema de conhecimento compartimentado, e embora a irmandade tenha muitos membros, apenas quatro deles, a qualquer dada altura, o conhecem: o Grão-Mestre e os seus três senescais. A probabilidade de o seu avô ser uma dessas quatro pessoas é muito baixa.

 O meu avô era um deles, pensou Sophie, carregando no acelerador. Tinha gravada na memória uma imagem que confirmava para lá de qualquer dúvida a posição do avô dentro da irmandade.

 - E mesmo que o seu avô pertencesse ao escalão superior, nunca lhe seria permitido revelar fosse o que fosse a alguém fora da irmandade. A ideia de ele a ter chamado para o círculo mais íntimo é inconcebível.

 Já lá estive, pensou Sophie, recordando o ritual na cave. Perguntou a si mesma se teria chegado o momento de falar a Langdon do que tinha visto na casa da Normandia. Durante dez anos, a pura vergonha impedira-a de contá-lo fosse a quem fosse. Toda ela tremia só de pensar nisso. Ouviu ao longe o uivo de sereias, e sentiu um manto de cansaço descer-lhe sobre os ombros.

 - Ali está! - exclamou Langdon, excitado, ao ver o complexo do estádio Roland Garros surgir diante deles.

 Sophie dirigiu-se para lá. Ao fim de várias passagens, encontraram o cruzamento com a Rue Haxo e meteram por ela, seguindo na direcção dos números mais baixos. A rua tornou-se mais industrial, ladeada de empresas.

 Precisamos do número vinte e quatro, disse Langdon para si mesmo, apercebendo-se de que estava a sondar o horizonte em busca dos campanários de uma igreja. Não sejas ridículo. Uma igreja dos Templários esquecida neste bairro?

 - É ali - disse Sophie, apontando.

 Os olhos de Langdon seguiram a direcção do dedo dela.

 Que diabo!

 Era um edifício moderno. Uma cidadela atarracada, com uma gigantesca cruz quadrada, de néon, a encimar a fachada. Por baixo da cruz, as palavras:

 

 BANCO DEPOSITÁRIO DE ZURIQUE

 

 Langdon ficou contente por não ter partilhado com Sophie as suas esperanças a respeito de uma igreja dos Templários. Um dos riscos do ofício, para os simbologistas, era a tendência para procurar significados ocultos em situações onde eles não existiam. Naquele

caso, esquecera completamente que a pacífica cruz de braços iguais fora adoptada com o símbolo ideal para a bandeira da neutral Suíça.

 Esse mistério, pelo menos, estava resolvido.

 Sophie e Langdon tinham em seu poder a chave de um cofre de depósito de um banco suíço.

 

 No exterior de Castel Gandolfo, uma corrente de ar frio da montanha subiu pela face da falésia e varreu o topo da escarpa, provocando um arrepio ao bispo Aringarosa no momento em que se apeava do Fiat. Devia ter vestido mais qualquer coisa além da sotaina, disse ele para si mesmo enquanto dominava o reflexo de tiritar. A última coisa de que precisava naquela noite era parecer fraco ou receoso.

 O castelo estava mergulhado na escuridão, excepto as janelas do último piso, que brilhavam ominosamente. A biblioteca, pensou Aringarosa. Estão acordados e à espera. Baixou a cabeça para enfrentar o vento e avançou, sem olhar sequer para as cúpulas do observatório.

 O padre que o esperava à porta parecia ensonado. Era o mesmo que o acolhera cinco meses antes, embora naquela noite o fizesse com muito menos hospitalidade.

 - Estávamos preocupados consigo, Eminência - disse o padre, consultando o relógio e parecendo mais perturbado do que preocupado.

 - As minhas desculpas. As linhas aéreas são muito pouco fiáveis, nos dias que correm.

 O padre murmurou qualquer coisa inaudível, e então disse:

 - Esperam-no lá em cima. vou acompanhá-lo.

 A biblioteca era uma vasta sala quadrada, forrada a madeira escura do chão ao tecto. Em todas as paredes, altas estantes atulhadas de livros. O chão era de mármore com uma orla de basalto negro, uma bela recordação de que aquele edifício fora em tempos um palácio.

- Bem-vindo, Eminência - disse uma voz de homem do outro lado da sala.

 Aringarosa tentou ver quem tinha falado, mas as luzes estavam ridiculamente baixas, muito mais do que quando da sua primeira visita, altura em que toda a sala refulgia. A noite do duro despertar. Naquela noite, os homens que o esperavam sentavam-se na sombra, como se de algum modo se envergonhassem do que ia acontecer.

 Aringarosa entrou com passos lentos, quase majestosos. Via as silhuetas dos três homens sentados à comprida mesa, no extremo oposto da sala. A do meio era imediatamente reconhecível: o obeso secretarius vaticana, supervisor de todos os assuntos legais no interior da Cidade do Vaticano. Os outros dois eram importantes cardeais italianos.

 Aringarosa atravessou a biblioteca em direcção a eles.

 - As minhas humildes desculpas pela hora. Somos de zonas horárias diferentes. Devem estar cansados.

 - De modo nenhum - respondeu o secretarius, com as mãos cruzadas sobre a enorme barriga.  - Estamos gratos por ter vindo de tão longe. O mínimo que podíamos fazer era estar acordados à sua espera. Podemos oferecer-lhe um café, ou qualquer outro refresco?

 - Prefiro que não finjamos que isto é uma visita social. Tenho outro avião para apanhar. Vamos ao assunto?

 - Claro - concordou o secretarius. - Agiu mais rapidamente do que esperávamos.

 - Sim?

 - Ainda tem um mês.

 - Deram-me nota das vossas preocupações há cinco meses. Porque havia de esperar?

 - Sem dúvida. Estamos muito agradados com a sua diligência. Os olhos de Aringarosa percorreram todo o comprimento da mesa até uma grande maleta preta.

 - É aquilo que pedi?

 - É. - O secretarius parecia pouco à-vontade. - Embora tenha de admitir que o seu pedido nos preocupou um pouco. Parece bastante...

 - Perigoso - concluiu um dos cardeais. - Tem a certeza de que não podemos transferi-lo para um lugar qualquer? A soma é exorbitante.

A liberdade é cara.

 - Não tenho preocupações quanto à minha própria segurança. Deus está comigo.

 Os três homens fizeram um ar de descarada dúvida.

 - Os fundos estão exactamente como os pedi?

 O secretarius assentiu.

 - Títulos ao portador de alto valor sacáveis sobre o Banco do Vaticano. Negociáveis como dinheiro em qualquer parte do mundo.

 Aringarosa caminhou até ao extremo da mesa e abriu a maleta. Continha dois grossos maços de títulos, todos eles marcados com o selo do Vaticano e a palavra PORTADORE, o que os tornava convertíveis por quem quer que os detivesse.

 O secretarius parecia tenso.

 - Devo dizer, Eminência, que todos nós nos sentiríamos menos apreensivos se esses fundos fossem em dinheiro.

 Nunca conseguiria transportar tanto dinheiro, pensou Aringarosa, fechando a mala.

 - Os títulos são negociáveis como dinheiro. O senhor mesmo o disse.

 Os cardeais trocaram um olhar embaraçado e, finalmente, um deles disse:

 - Sim, mas esses títulos podem ser directamente associados ao Banco do Vaticano.

 Aringarosa sorriu para dentro. Fora precisamente por isso que o Professor lhe sugerira que obtivesse o dinheiro em títulos do Banco do Vaticano. Era como uma apólice de seguro. Agora estamos todos metidos nisto.

 - Trata-se de uma transacção perfeitamente legal - argumentou. - A Opus Dei é uma prelatura pessoal da Cidade do Vaticano, e Sua Santidade pode distribuir dinheiros como melhor lhe parecer. Não foi aqui violada qualquer lei.

 - É verdade, e no entanto... - O secretarius inclinou-se para a frente, e a cadeira rangeu sob o peso. - Não temos qualquer conhecimento do que tenciona fazer com esses fundos, e se for de algum modo ilegal...

 - Considerando o que me pedem - replicou Aringarosa -, o que eu fizer com este dinheiro não é da vossa conta.

 Seguiu-se um longo silêncio.

Eles sabem que eu tenho razão, pensou Aringarosa.

 - Muito bem, suponho que têm qualquer coisa para eu assinar? Sobressaltaram-se os três, empurrando uma folha de papel na direcção dele, como se estivessem desejosos de vê-lo partir.

 Aringarosa olhou para o papel que tinha à sua frente. Ostentava o selo do Papa.

 - É igual à cópia que me enviaram?

 - Exactamente.

 Aringarosa ficou surpreendido por sentir tão pouca emoção ao assinar o documento. Os três homens presentes, pelo contrário, como que suspiraram de alívio.

 - Obrigado, Eminência - disse o secretarius. - Os seus serviços à Igreja nunca serão esquecidos.

 Aringarosa pegou na maleta, sentindo promessa de autoridade no seu peso. Os quatro homens olharam uns para os outros por um momento, como se houvesse mais alguma coisa a dizer, mas aparentemente não havia.

 - Eminência? - chamou um dos cardeais quando Aringarosa chegou à porta.

Aringarosa deteve-se, fazendo meia volta.

 - Sim?

 - Para onde vai agora?

 Aringarosa sentiu que a pergunta era mais espiritual do que geográfica, mas não tinha a mínima intenção de discutir moral àquela hora.

 - Para Paris - disse, e saiu.

 

 O Banco Depositário de Zurique era um Geldshrankbank que funcionava vinte e quatro horas por dia, oferecendo aos seus clientes toda a gama de serviços bancários anónimos na mais pura tradição das contas numeradas suíças. com escritórios em Zurique, Kuala Lumpur, Nova Iorque e Paris, o banco expandira recentemente os seus serviços à área da guarda e transferência de valores por meios informáticos e ao apoio computorizado.

 A nata da operação era, de longe, a mais antiga e simples das suas várias ofertas - os anonyme Lager -, ou seja, os cofres anónimos. Os clientes que desejassem guardar fosse o que fosse, desde certificados de acções a quadros valiosos, podiam depositar os seus bens anonimamente, através de uma série de véus de privacidade de alta-tecnologia, e levantá-los a qualquer momento, também no mais absoluto anonimato.

 Quando Sophie parou o táxi, Langdon estudou a discreta arquitectura do edifício e sentiu que o Banco Depositário de Zurique era uma firma com muito pouco sentido de humor. O que via à sua frente era um paralelepípedo sem janelas que parecia ter sido inteiramente moldado em aço, um enorme tijolo de metal um pouco recuado em relação à rua e com uma cruz de braços iguais com quatro metros e meio de altura a coroar a fachada.

 A reputação de secretismo em termos bancários de que a Suíça gozava acabara por tornar-se uma das exportações mais lucrativas do país. Instalações como aquela eram motivo de controvérsia entre a comunidade artística porque proporcionavam um esconderijo perfeito onde os ladrões de arte podiam esconder o produto dos seus roubos, durante anos se necessário, até as coisas acalmarem. uma vez que os depósitos estavam protegidos da investigação policial pelas leis do sigilo bancário e ligados a contas numeradas e não a nomes, os ladrões podiam dormir descansados sabendo que os bens roubados estavam em segurança e que nada os relacionava com eles.

 Sophie parou o táxi diante do imponente portão que fechava o caminho de acesso ao banco: uma rampa de cimento que desaparecia no subsolo do edifício. Uma câmara de vídeo, situada bem alto na parede, apontava directamente para eles, e Langdon teve a sensação de que, ao contrário das do Louvre, aquela era autêntica.

 Sophie baixou a janela e observou a caixa electrónica do lado do condutor. Um visor LCD dava indicações em sete línguas, a primeira das quais era o inglês.

 

 INSIRA A CHAVE

 

 Sophie tirou do bolso a chave cinzelada a laser e voltou a dar atenção à caixa. Por baixo do visor havia um buraco triangular.

 - Alguma coisa me diz que vai servir - observou Langdon.

 Sophie alinhou a haste triangular da chave e introduziu-a, fazendo-a deslizar até ao fundo. Aparentemente, aquela chave não precisava de ser rodada. No mesmo instante, o portão começou a abrir-se. Sophie tirou o pé do travão e deixou o carro descair até um segundo portão e uma segunda caixa. Atrás deles, o primeiro portão fechou-se, encurralando-os como um barco numa comporta.

 Langdon detestou a sensação de estar preso. Esperemos que este segundo portão também funcione.

 O visor da segunda caixa apresentou uma instrução já familiar:

 

 INSIRA A CHAVE

 

 Logo que Sophie inseriu a chave, o segundo portão abriu-se. Momentos depois, desciam a rampa em espiral a caminho das entranhas do edifício.

 A garagem privada era pequena e escura, com espaço para cerca de uma dúzia de carros. Langdon viu, no extremo oposto, a entrada principal do banco. Uma passadeira vermelha, estendida sobre o cimento, conduzia os visitantes a uma grande porta que parecia feita de sólido metal.

Por falar em mensagens dúbias, pensou Langdon. Bem-vindo e não penses em entrar.

 Sophie estacionou o táxi no espaço mais próximo da porta e desligou o motor.

 - É melhor deixar a arma aqui - disse.

 Com todo o prazer, pensou Langdon, enfiando a pistola debaixo do banco.

 Avançaram os dois pela passadeira vermelha em direcção à placa de metal. A porta não tinha puxador, mas na parede, mesmo ao lado, havia outro buraco triangular. Desta vez, não apareceram quaisquer instruções.

 - Deve ser para desencorajar os que têm dificuldade em aprender - comentou Langdon.

 Sophie riu, parecendo nervosa.

 - Bom, cá vamos nós - disse, e inseriu a chave no orifício. A porta abriu para dentro, com um leve zumbido. Trocando um olhar, Sophie e Langdon entraram. A porta fechou-se atrás dele, com um baque surdo.

 O Banco Depositário de Zurique ostentava uma das mais imponentes decorações que Langdon alguma vez vira. Enquanto a maior parte dos bancos se contentava com o habitual mármore polido e o granito, aquele optara por metal e rebites de parede a parede.

 Quem será o decorador deles?, perguntou Langdon a si mesmo. A Allied Steel?

 Sophie parecia igualmente intimidada enquanto percorria o vestíbulo com o olhar.

 O metal cinzento estava por todo o lado: no chão, nas paredes, nos balcões, nas portas: até as cadeiras pareciam ter sido feitas de aço moldado. Em todo o caso, o efeito era impressionante. E a mensagem clara: está a entrar num cofre.

 Um homem alto e corpulento, atrás do balcão, olhou para eles quando entraram. Desligou o pequeno televisor que estivera a ver e acolheu-os com um agradável sorriso. Apesar dos músculos enormes e da arma que usava ostensivamente à cinta, a sua voz soou com toda a delicada cortesia de um mandarete suíço.

 - Bonsoir - disse. - Em que posso ajudá-los.

 O acolhimento bilingue era o mais recente truque de hospitalidade do anfitrião europeu. Não fazia qualquer assunção e deixava ao convidado plena liberdade de responder na língua em que se sentisse mais à-vontade.

 Sophie não respondeu em nenhuma das duas. Limitou-se a pôr a chave em cima do balcão, à frente do homem.

 O sujeito olhou para a chave e pôs-se imediatamente mais direito

 - Com certeza. O vosso elevador é ao fundo do corredor. vou avisar alguém de que vão a caminho.

 Sophie assentiu e recuperou a chave.

 - Que piso?

- A chave dá essa informação ao elevador.

Ela sorriu.

 - Ah, sim.

 

 O guarda ficou a ver os dois recém-chegados avançarem até ao elevador, inserirem a chave, entrarem na cabina e desaparecerem. Mal a porta se fechou, pegou no telefone. Não ia avisar ninguém da chegada deles. Um dos funcionários dos cofres fora já automaticamente alertado quando Sophie introduzira a chave na caixa electrónica junto ao primeiro portão.

Estava a ligar para o gerente nocturno. Enquanto ouvia o sinal de chamada, voltou a ligar o televisor e olhou para ele. A notícia que tinha estado a seguir chegava ao fim. Não tinha importância. Lançou um novo olhar aos dois rostos que apareciam no ecrã.

 - Oui - disse o gerente.

 - Surgiu um pequeno problema.

 - Que se passa?

 - A Polícia francesa procura dois fugitivos.

 - E então?

 - Acabam ambos de entrar no banco. O gerente praguejou entredentes.

 - Okay. vou contactar monsieur Vernet imediatamente.

 O guarda desligou e fez uma segunda chamada. Esta para a Interpol.

 

 Langdon ficou surpreendido ao sentir que o elevador ia para baixo em vez de para cima. Não fazia a mínima ideia de quantos pisos tinham descido no subsolo do Banco Depositário de Zurique quando a porta finalmente se abriu. Nem lhe interessava. Estava feliz por se encontrar fora do elevador.

 Numa impressionante demonstração de eficiência, estava alguém à espera para recebê-los. Era um senhor já de idade e aspecto agradável, vestindo um impecável fato de flanela que o fazia parecer estranhamente deslocado - um bancário dos velhos tempos no mundo da alta-tecnologia.

 - Bonsoir - disse o homem. - Boa noite. Tenham a bondade de seguir-me, s’il vous plait. - E, sem esperar por uma resposta, rodou sobre os calcanhares a afastou-se a passo rápido por um estreito corredor.

 Langdon e Sophie percorreram atrás dele uma série de corredores, passando diante de grandes salas cheias de computadores.

 - Voici - disse o homem, detendo-se diante de uma porta de aço e abrindo-a. - Cá estamos.

 Langdon e Sophie entraram num outro mundo. A pequena divisão parecia a luxuosa sala de estar de um bom hotel. Os painéis de metal e os rebites eram ali substituídos por tapetes orientais, móveis de carvalho escuro e cadeiras almofadadas. Sobre a grande secretária que ocupava o meio da sala havia dois copos e uma garrafa aberta de Perrier, cujas bolhinhas ainda borbulhavam. Ao lado, fumegava uma cafeteira de café.

 Precisão, pensou Langdon, é com os Suíços.

 O homem dirigiu-lhes um sorriso cheio de compreensão.

- Deduzo que esta é a vossa primeira visita?

Sophie hesitou um instante, e acabou por assentir.

 - Compreendo. As chaves são com frequência deixadas em herança e quem as usa pela primeira vez não tem invariavelmente muito a certeza do protocolo. - Fez um gesto na direcção da secretária e das bebidas. - Esta sala é vossa enquanto desejarem usá-la.

 - Diz que as chaves são por vezes herdadas? - perguntou Sophie.

 - Sem dúvida. A vossa chave é como as contas numeradas dos bancos suíços, que chegam a ser transmitidas de geração em geração. No caso das nossas contas douradas, o prazo mínimo de aluguer de um cofre é de cinquenta anos. Pago adiantadamente. Por isso é natural que assistamos a muita rotação familiar.

Langdon estava a olhar embasbacado para ele. :

 - Disse cinquenta anos?

 - No mínimo. É, evidentemente, possível estabelecer prazos muito mais dilatados, mas, não havendo instruções em contrário, se a conta não registar qualquer movimento durante cinquenta anos o conteúdo do respectivo cofre é automaticamente destruído. Desejam que explique o processo de acesso ao vosso cofre?

 - Sim, por favor - anuiu Sophie.

 O homem abarcou o salão com um amplo gesto do braço.

 - Esta é a vossa sala privada. Depois de eu sair, poderão demorar todo o tempo de que necessitarem para rever ou alterar o conteúdo do vosso cofre, que chega... por aqui. - Levou-os até à extremidade mais distante, onde um largo tapete rolante entrava na sala descrevendo uma graciosa curva, vagamente semelhante ao carrossel da bagagem num aeroporto. - Inserem a vossa chave aqui nesta ranhura... - Indicou uma grande caixa electrónica situada em frente do tapete e que apresentava o já familiar orifício triangular. - Depois de o computador ter confirmado as marcas da chave, introduzem o vosso número de conta, o vosso cofre é retirado por um robô do cofre central, por baixo de nós, e trazido até aqui. Quando terminarem, voltam a colocar o cofre no tapete rolante, inserem a chave e o processo é invertido. Uma vez que é tudo automatizado, a vossa privacidade está garantida, mesmo relativamente ao pessoal do banco. Se precisarem de alguma coisa, basta premir o botão de chamada ali na secretária.

 Sophie preparava-se para perguntar qualquer coisa quando um telefone tocou. O homem pareceu confuso e embaraçado.

 - Desculpem-me, por favor. - Dirigiu-se ao telefone, pousado em cima da secretária ao lado do café e da Perrier.

 - Oui? - respondeu.

 Franziu o sobrolho enquanto ouvia o que lhe diziam do outro lado.

 - Oui... oui... d’accord. - Desligou e dirigiu-lhes um sorriso contrafeito. - Lamento, tenho de deixá-los agora. Fiquem à-vontade. - Avançou rapidamente para a porta.

 - Desculpe - chamou Sophie. - Poderia esclarecer uma coisa antes de ir? Falou em introduzir um número de conta.

 O homem deteve-se junto da porta, parecendo pálido.       

- Mas com certeza. Como acontece na maior parte dos bancos suíços, os nossos cofres de depósito estão associados a um número, não a um nome. O cliente tem uma chave e um número pessoal de conta que só ele conhece. A chave é apenas metade da vossa identificação. O número de conta é a outra metade. Caso contrário, se perdessem a vossa chave, qualquer pessoa poderia usá-la.

 Sophie hesitou.

 - E se o meu benfeitor não me tivesse dado qualquer número de conta?

 O homem sentiu o coração bater com mais força. Nesse caso, obviamente nada teriam que fazer aqui! Dirigiu-lhes um calmo sorriso.

 - Vou pedir a alguém que vos ajude. Estará aqui dentro de momentos.

 Ao sair, rodou uma pesada fechadura, trancando-os lá dentro.

 

No outro extremo da cidade, Collet estava na Gare Saint-Lazare quando o telemóvel tocou. Era Fache.

 - A Interpol recebeu uma informação - disse. - Esqueça o comboio. O Langdon e a Neveu acabam de entrar na filial parisiense do Banco Depositário de Zurique. Siga imediatamente para lá com os seus homens.

 - Alguma pista a respeito do que o conservador Saunière estava a tentar dizer à agente Neveu e ao Robert Langdon?

 O tom de Fache foi gelado.

- Se os prender, tenente Collet, perguntar-lhes-ei pessoalmente.

Collet percebeu a deixa.

- Rue Haxo, número vinte e quatro. É para já, capitão.

Desligou o telemóvel e chamou os seus homens pelo rádio.

 

 André Vernet, presidente da filial francesa do Banco Depositário de Zurique, vivia num luxuoso apartamento por cima do próprio banco. Mal-grado o conforto dos aposentos, sempre sonhara ser dono de um apartamento à beira-rio na Île Saint-Louis, onde poderia ombrear com os verdadeiros cognoscenti, e não ali, onde apenas encontrava os podres de ricos.

 Quando me reformar, dizia Vernet para si mesmo, vou encher a minha adega de bordéus raros, decorar a minha sala com um Fragonard e talvez um Boucher, e passar os meus dias a procurar mobílias antigas e livros raros no Quartier Latin.

 Naquela noite, Vernet fora acordado havia apenas seis minutos e meio. Mesmo assim, enquanto percorria apressadamente os corredores subterrâneos do banco, era como se o seu alfaiate e o seu cabeleireiro particulares tivessem passado horas a poli-lo para lhe dar aquele brilho. Impecavelmente vestido com um fato de seda, vaporizou a boca com um spray refrescante e ajeitou a gravata enquanto andava. Habituado a ser acordado a qualquer hora para atender clientes internacionais vindos das mais diversas zonas horárias, modelara os seus hábitos de sono pelos dos guerreiros massais, a tribo africana famosa pela sua capacidade de passar, numa questão de segundos, do sono mais profundo para um estado de total prontidão para o combate.

 Prontidão para o combate, pensou, receando que a comparação pudesse vir a revelar-se naquela noite incaracteristicamente adequada. A chegada de um cliente de chave de ouro exigia sempre uma atenção especial, mas a chegada de um cliente de chave de ouro que procurado pela Polícia Judiciária significava uma situação extremamente delicada. O banco já tinha conflitos suficientes com as forças da ordem por causa do direito dos seus clientes ao sigilo mesmo sem provas de que alguns deles eram criminosos.

 Cinco minutos, disse Vernet a si mesmo. Quero essa gente fora do meu banco antes que a Polícia chegue.

 Se agisse rapidamente, o desastre iminente poderia ainda ser evitado. Vernet poderia dizer à Polícia que os fugitivos em causa tinham de facto entrado no banco, mas por não serem clientes e não terem um número de conta, os tinha mandado embora. Bem desejava que o maldito guarda não tivesse ligado para a Interpol. A discrição não fazia aparentemente parte do vocabulário de um segurança pago a 15 Euros à hora.

 Detendo-se diante da porta, inspirou fundo e descontraiu os músculos. Então, forçando um sorriso radioso, abriu a porta e entrou na sala como uma brisa primaveril.

 - Boa noite - disse, ao avistar os seus clientes. - Chamo-me André Vernet. Em que posso ser-lhes ú... - O resto da frase ficou entalada algures por baixo da maçã-de-adão. A mulher que tinha à sua frente era a visitante mais inesperada que alguma vez recebera.

 

- Desculpe, não nos conhecemos? - perguntou Sophie. Não reconhecia o banqueiro, mas, por um instante, fora como se tivesse visto um fantasma.

 - Não... - tartamudeou o presidente do banco. - Não... creio. Os nossos serviços são anónimos. - Deixou escapar o ar dos pulmões e forçou um calmo sorriso. - O meu assistente diz-me que têm uma chave de ouro mas não um número de conta? Posso perguntar como entraram na posse dessa chave.

 - Deu-ma o meu avô - respondeu Sophie, observando atentamente o homem, cuja atrapalhação era cada vez mais evidente.

 - Palavra? O seu avô deu-lhe a chave mas esqueceu-se de dar-lhe o número da conta?

 - Julgo que não teve tempo - disse Sophie. - Foi assassinado esta noite.

 Estas palavras fizeram o banqueiro recuar um passo, cambaleante.

- Jacques Saunière está morto? - perguntou, com os olhos a encherem-se de horror. - Mas... como?

 Foi a vez de Sophie estremecer, aturdida pelo choque.

 - Conhecia o meu avô?

 André Vernet parecia tão aturdido como ela. Endireitou-se, apoiando-se à beira da grande secretária.

 - Eu e o Jacques éramos velhos amigos. Quando foi que isso aconteceu?

 - Por volta das onze da noite, dentro do Louvre.

 Vernet dirigiu-se a um fundo sofá de couro e deixou-se cair nele.

 - Tenho de fazer aos dois uma pergunta extremamente importante. - Olhou para Langdon e depois de novo para Sophie. - Algum dos dois teve alguma coisa a ver com essa morte?

 - Não! - respondeu Sophie. - Absolutamente não!

 O rosto de Vernet ficou sombrio. Fez uma pausa, para pensar.

 - A Interpol difundiu as vossas fotografias. Foi assim que os reconheci. São procurados por assassínio.

 Sophie deixou descair os ombros. O Fache já contactou a Interpol? O capitão estava, aparentemente, mais motivado do que ela esperara. Explicou rapidamente a Vernet quem era Langdon e o que acontecera dentro do Louvre naquela noite.

 Vernet parecia espantado.

 - E o seu avô, antes de morrer, deixou-lhe uma mensagem a dizer que procurasse o senhor Langdon?

 - Sim. E esta chave. - Sophie pousou a chave de ouro na mesa de café diante de Vernet, com o selo do Priorado voltado para baixo.

 Vernet olhou para a chave, mas não fez menção de lhe tocar.

 - Deixou-lhe apenas esta chave? Nada mais? Nenhum pedaço de papel?

 Sophie sabia que estivera cheia de pressa dentro do Louvre, mas estava certa de que não havia mais nada escondido atrás da Madonna dos Rochedos.

 - Não. Só a chave.

 Vernet deixou escapar um suspiro de impotência.

 - Todas as chaves estão electronicamente associadas a um número de conta com dez dígitos que funciona como password. Sem o número, essa chave é inútil.

Dez dígitos. Sophie calculou relutantemente as probabilidades criptográficas. Dez mil milhões de escolhas possíveis. Mesmo que pudesse usar os mais potentes computadores de processamento em rede da DCPJ, precisaria de semanas para decifrar o código.

 - Certamente, monsieur, considerando as circunstâncias, poderá ajudar-nos.

 - Lamento. Não há verdadeiramente nada que eu possa fazer.

Os clientes escolhem o número de conta através de um terminal seguro, o que significa que esse número só é conhecido pelo titular e por um computador. É uma maneira de garantir o anonimato. E a segurança dos nossos empregados.

 Sophie compreendeu. As lojas de conveniência faziam a mesma coisa, os EMPREGADOS NÃO TÊM A CHAVE DO COFRE. O banco não queria obviamente correr o risco de alguém roubar uma chave e então tomar um empregado como refém para obter o número da conta correspondente.

 Sentou-se ao lado de Langdon, baixou os olhos para a chave e voltou a erguê-los para Vernet.

 - Faz alguma ideia do que o meu avô tinha guardado no seu banco?

 - Nenhuma. É essa a definição de um banco Geldschrank.

 - Monsieur Vernet - insistiu ela -, o nosso tempo esta noite é escasso. vou ser muito directa, se me permite. - Estendeu a mão para a chave de ouro e voltou-a, perscrutando os olhos do homem no momento em que revelava o selo do Priorado de Siao. - O símbolo que está nesta chave significa alguma coisa para si?

 Vernet olhou para a flor-de-lis e não teve qualquer reacção.

 - Não, mas muitos dos nossos clientes mandam gravar logotipos de empresas ou iniciais nas suas chaves.

 Sophie suspirou, continuando a vigiá-lo atentamente.

 - Este selo é o símbolo de uma sociedade secreta conhecida como Priorado de Sião.

 Mais uma vez, Vernet não mostrou qualquer reacção.

 - Não sei nada disso. Eu e o seu avô éramos amigos, mas falávamos sobretudo de negócios. -  O homem ajustou a gravata, parecendo agora um pouco nervoso.

 - Monsieur Vernet - voltou Sophie à carga, num tom firme. - O meu avô telefonou-me esta noite e disse-me que eu corria um grave perigo. Disse que tinha uma coisa para me dar. Deu-me uma chave do seu banco. Agora está morto. Tudo o que possa dizer-nos será uma grande ajuda.

 Vernet começou a suar.

 - Têm de sair do edifício. Receio que a Polícia não tarde a chegar. O nosso guarda sentiu que devia avisar a Interpol.

 Sophie receara isso mesmo. Fez uma última tentativa.

 - O meu avô disse-me que tinha de contar-me a verdade a respeito da minha família. Isto significa alguma coisa para si?

 - Mademoiselle, a sua família morreu num acidente de viação quando era ainda muito jovem. Lamento. Sei que o seu avô a amava muito. Disse-me diversas vezes como o entristecia o facto de os dois terem deixado de se falar.

 Sophie ficou sem saber como responder.

 - O conteúdo desta conta tem alguma coisa a ver com o Sangreal? - perguntou Langdon, inesperadamente.

 Vernet lançou-lhe um olhar estranho.

 - Não faço ideia do que isso possa ser. - E, nesse instante, o telemóvel tocou. Vernet arrancou-o do cinto. - Oui. - Escutou por um instante, com uma expressão de surpresa e crescente preocupação. - La police? Si rapidement! - Praguejou, deu algumas instruções em francês e disse que estaria no vestíbulo dentro de um minuto.

 Desligando o telefone, voltou-se para Sophie.

 - A Polícia respondeu muito mais rapidamente do que é habitual. Estão a chegar.

 Sophie não tinha a mínima intenção de sair dali de mãos a abanar.

 - Diga-lhes que já nos fomos embora. Se quiserem revistar o banco, exija um mandato de busca. Isso vai demorá-los.

 - Ouça - disse Vernet -, o Jacques Saunière era meu amigo, e o meu banco não precisa deste tipo de publicidade. Por essas duas razões, não tenciono permitir que sejam detidos aqui dentro. Dêem-me um minuto, e verei o que posso fazer para ajudá-los a sair sem serem vistos. Não posso envolver-me mais do que isso. - Pôs-se de pé e dirigiu-se apressadamente à porta.  - Fiquem aqui. vou tratar disto e volto já.

 - Mas, e o cofre de depósito? - protestou Sophie. -- Não podemos ir embora.

- Não posso fazer nada. - Vernet abriu a porta. - Lamento muito - acrescentou, antes de sair.

 Sophie ficou a olhar para a porta por um instante, perguntando a si mesma se o número da conta não estaria enterrado no monte de cartas e embrulhos que o avô lhe mandara ao longo dos anos e que ela nunca chegara a abrir.

 Subitamente, Langdon pôs-se de pé, e Sophie viu-lhe nos olhos um inesperado brilho de contentamento.

 - Robert? Está a sorrir.

 - O seu avô era um génio.

 - Desculpe?

 - Dez dígitos?

 Sophie não fazia ideia de que estava ele a falar.

 - O número da conta - explicou Langdon, com o familiar sorriso torcido estampado no rosto. - Tenho a certeza de que no-lo deixou, ao fim e ao cabo.

 - Onde?

 Langdon tirou do bolso o print de computador da fotografia do local do crime e abriu-o em cima da mesa de café. Bastou a Sophie ler a primeira linha para saber que ele tinha razão.

 

 13-3-2-21-1-1-8-5

 O, Draconian devil!

 Oh, lame saint!

 P.S. Find Robert Langdon

 

 

 - Dez dígitos - disse Sophie, com todos os seus sentidos de criptóloga a vibrar enquanto olhava para o papel.

 

 13-3-2-21-1-1-8-5

 

 O grand-père escreveu o número da conta no chão do Louvre!

 Quando vira pela primeira vez a sequência Fibonacci alterada escrita no soalho, Sophie assumira que o seu único objectivo era encorajar a DCPJ a chamar os criptólogos e envolvê-la a ela no assunto. Mais tarde, descobrira que os números eram também uma pista para a decifração das outras linhas: uma sequência fora de ordem... um anagrama numérico. Agora, absolutamente estupefacta, via que os números tinham um significado ainda mais importante. Eram, quase com certeza, a chave final para abrir o misterioso cofre do avô.

 - O meu avô era um mestre dos duplos-sentidos - disse, voltando-se para Langdon. - Adorava tudo o que tivesse múltiplas camadas de significado. Códigos dentro de códigos.

 Langdon já ia a caminho da caixa electrónica junto do tapete rolante. Sophie pegou no print de computador e seguiu-o.

 A caixa tinha um teclado numérico semelhante ao dos terminais ATM. O visor mostrava o logotipo cruciforme do banco. Ao lado do teclado, havia um orifício triangular. Sem perder mais tempo, Sophie inseriu a chave no orifício.

 O visor mudou instantaneamente.

 

 CONTA NÚMERO

 

 O cursor piscava, à espera.

 Dez dígitos.

 Sophie leu os números, e Langdon teclou-os.

 

 CONTA NÚMERO

 1332211185

 

 Quando acabou de teclar o último algarismo, o teclado voltou a mudar. Apareceu uma mensagem em várias línguas. Mais uma vez, o inglês era a primeira.

 

 ATENÇÃO

 Antes de premir Enter, verifique, por favor, se o número de conta está correcto.

Para sua própria segurança, se o computador não reconhecer o número de conta, o sistema desligar-se-á automaticamente.

 

 - Fonction terminer - disse Sophie, de testa franzida. - Parece que só temos direito a uma tentativa. - As caixas automáticas permitem aos utilizadores três tentativas de introdução do PIN antes de «engolirem» o cartão. Aquela não era, muito claramente, uma vulgar caixa automática.

 - O número está certo - disse Langdon, comparando cuidadosamente o que tinha teclado com o que estava no papel. Apontou para a tecla ENTER. - Dispare.

 Sophie estendeu o dedo para o teclado, mas hesitou. Acabava de ter um estranho palpite.

 - Depressa - incitou-a Langdon. - O Vernet não tarda aí.

 - Não - disse ela, retirando a mão. - Não é este o número certo.

 - Claro que é! Dez dígitos. Que outra coisa podia ser?

 - É demasiado aleatório.

 - Demasiado aleatório? - Langdon não podia estar mais em desacordo. Todos os bancos aconselhavam os respectivos clientes a escolher PIN aleatórios, para que ninguém pudesse adivinhá-los.

Com certeza que, ali, os clientes seriam aconselhados a escolher números de conta aleatórios.

 Sophie apagou tudo o que tinham teclado e olhou para Langdon, com uma expressão de certeza no rosto.

 - O facto de este número de conta supostamente aleatório poder ser rearranjado de modo a formar a sequência de Fibonacci é excessiva coincidência.

 Langdon apercebeu-se de que ela tinha razão. Horas antes, Sophie redispusera aquele número de conta para formar a sequência Fibonacci. Quais eram as probabilidades de uma coisa dessas acontecer?

 Sophie aproximou-se do teclado, introduzindo um número diferente, como se o soubesse de cor.

 - Além disso, considerando a paixão do meu avô por simbolismos e códigos, seria de esperar que escolhesse um número de conta que significasse qualquer coisa para ele, qualquer coisa que pudesse recordar com facilidade. - Acabou de teclar o número e sorriu maliciosamente. - Qualquer coisa que parecesse aleatório... mas não fosse.

 Langdon olhou para o visor.

 

 CONTA NÚMERO

 1123581321

 

 Tardou um instante, mas quando percebeu, soube que ela tinha razão.

 A sequência Fibonacci.

 1-1-2-3-5-8-13-21

 Quando fundida num único número de dez algarismos, a sequência Fibonacci tornava-se praticamente irreconhecível. Fácil de recordar, e no entanto aparentemente aleatório. Um brilhante código de dez dígitos que Saunière nunca esqueceria. Além disso, explicava perfeitamente por que razão os números rabiscados no chão do Louvre podiam ser rearranjados de modo a formar a famosa progressão.

 Sophie estendeu o dedo e premiu a tecla ENTER.

 Nada aconteceu.

 Pelo menos, nada que eles pudessem detectar.

 

 Nesse instante, no cavernoso cofre-forte subterrâneo do banco, uma garra mecânica pareceu despertar para a vida. Deslizando sobre um sistema de transporte de duplo carril preso ao tecto, começou a procurar as coordenadas adequadas. Lá em baixo, no chão de cimento, centenas de caixas de plástico idênticas estavam alinhadas numa enorme grelha... como filas de pequenos caixões numa cripta.

 Parando com um zumbido sobre o ponto exacto do chão, a garra desceu e um olho electrónico verificou o código de barras impresso na caixa. Então, com precisão mecânica, a garra prendeu a pesada pega e ergueu a caixa na vertical. Novas engrenagens entraram em funcionamento, e a garra carregou a caixa para o outro extremo do cofre-forte, detendo-se sobre um tapete rolante imóvel.

 Muito suavemente, o braço mecânico pousou a caixa e subiu.

 Mal o braço se afastou, o tapete ganhou vida...

 

 Sophie e Langdon suspiraram de alívio ao verem o tapete rolante começar a mover-se. Ali de pé, sentiam-se como dois viajantes cansados à espera de uma misteriosa mala cujo conteúdo desconheciam.

 O tapete rolante entrava na sala pelo lado direito, através de uma estreita fresta por baixo de uma porta retráctil. A porta de metal deslizou para cima e uma grande caixa de plástico emergiu das sombras. Era preta, moldada em plástico extremamente duro, e muito maior do que Sophie imaginara. Fazia lembrar uma dessas caixas que as companhias aéreas usam para transportar animais de estimação, mas sem orifícios de ventilação.

 Deteve-se exactamente em frente deles.

 Langdon e Sophie ficaram a olhar, em silêncio, para o misterioso contentor.

 Como tudo o mais naquele banco, a caixa era um produto da indústria - fechos de metal, um código de barras colado na tampa, uma pega moldada. Sophie achou que parecia uma gigantesca caixa de ferramentas.

 Sem perder tempo, soltou as duas linguetas que tinha à sua frente. Olhou para Langdon. Juntos, levantaram a pesada tampa e deixaram-na cair para trás.

 Avançando um passo, espreitaram para o interior da caixa.

 Ao primeiro olhar, Sophie pensou que estava vazia. Então, viu qualquer coisa. No fundo da caixa. Um objecto solitário.

A caixa de madeira polida tinha o tamanho aproximado de uma caixa de sapatos e dobradiças  muito ornamentadas. A madeira, de um púrpura rico e profundo, era lustrosa e de grão grosso. Roseira, apercebeu-se Sophie. A preferida do avô. Na tampa via-se, finamente embutida, a imagem de uma rosa. Sophie e Langdon trocaram olhares intrigados. Sophie inclinou-se para a frente e pegou na caixa, levantando-a.

 Meu Deus, é pesada!

 Com muito cuidado, foi pousá-la em cima de uma mesa. Langdon estava a seu lado, ambos com os olhos presos à pequena arca do tesouro que o avô dela aparentemente os mandara resgatar.

 Langdon estava a olhar, fascinado, para a rosa embutida à mão na tampa da caixa: uma rosa com cinco pétalas. Tinha visto aquele tipo de rosa muitas vezes.

 - A rosa de cinco pétalas - murmurou. - O símbolo do Priorado para o Santo Graal.

 Sophie voltou-se e olhou para ele. Langdon adivinhou-lhe os pensamentos, porque eram também os seus. As dimensões da caixa, o peso aparente do seu conteúdo e o símbolo do Priorado para o Graal gravado na tampa, tudo parecia apontar para uma conclusão incrível. A taça de Cristo está dentro desta caixa.

 Langdon voltou a dizer a si mesmo que era impossível.

 - Tem o tamanho perfeito - murmurou Sophie - para conter... um cálice.

 Não pode ser um cálice.

 Sophie puxou a caixa por cima do tampo da mesa, preparando-se para abri-la. Quando a moveu, algo de inesperado aconteceu. A caixa emitiu um estranho som gorgolejante.

 Langdon examinou-a com mais atenção. Há um líquido ali dentro?

 Sophie parecia igualmente confusa.

 - Ouviu...?

 Langdon assentiu, completamente perdido.

 - Líquido.

 Estendendo as mãos, Sophie soltou a lingueta da fechadura e abriu a tampa.

 O objecto que estava lá dentro não se parecia com qualquer outro que Langdon tivesse alguma vez visto. Uma coisa, no entanto, se tornou de imediato evidente para ambos. Aquilo não era, definitivamente, a Taça de Cristo.

 

 - A polícia bloqueou a rua - anunciou André Vernet, entrando na sala. - Vai ser difícil fazê-los sair. - Enquanto fechava a porta, viu a pesada caixa de plástico em cima do tapete rolante e deteve-se bruscamente. Meu Deus! Acederam à conta do Saunière?

 Sophie e Langdon estavam junto da mesa, debruçados sobre o que parecia ser uma caixa de jóias de madeira. Sophie baixou imediatamente a tampa e ergueu os olhos.

 - Afinal, sempre tínhamos o número da conta - disse.

 Vernet estava sem palavras. Aquilo mudava tudo. Desviou respeitosamente os olhos da caixa e tentou delinear a próxima jogada. Tenho de tirá-los do banco. Mas com a Polícia já a bloquear as saídas, só via uma maneira de fazê-lo.

 - Mademoiselle Neveu, se eu conseguir fazê-la sair do banco em segurança, vai levar esse objecto consigo ou devolvê-lo ao cofre-forte antes de partir?

 Sophie olhou para Langdon, e depois de novo para Vernet.

- Precisamos de levá-lo connosco.

Vernet assentiu.

 - Muito bem. Então, seja esse objecto o que for, sugiro que o embrulhe no seu casaco enquanto percorremos os corredores. Prefiro que ninguém mais o veja.

 Enquanto Langdon despia o casaco, Vernet dirigiu-se ao tapete rolante. Fechou a caixa agora vazia e teclou uma série de instruções simples. O tapete começou a mover-se, levando o contentor de plástico de regresso às entranhas do cofre-forte. Em seguida, retirou a chave de ouro do orifício da caixa electrónica e devolveu-a a Sophie.

- Por aqui, por favor. Depressa.

 Quando chegaram à plataforma de carga das traseiras, Vernet viu o reflexo das luzes rotativas da Polícia nas paredes da garagem subterrânea. Franziu o sobrolho. Muito provavelmente, estavam a bloquear a rampa. Vou mesmo tentar fazer esta coisa? Tinha começado a suar.

 Indicou-lhes um dos pequenos carros blindados do banco. Transport sûr era mais um dos serviços que o Banco Depositário de Zurique oferecia.

 - Entrem para a cabina de carga - disse, abrindo as maciças portas traseiras e apontando-lhes o brilhante compartimento metálico.

 Enquanto Sophie e Langdon subiam para a carrinha, Vernet dirigiu-se ao gabinete do encarregado da plataforma, entrou, tirou umas chaves do chaveiro e encontrou um uniforme e um boné de motorista. Tirando o casaco e a gravata, começou a vestir o casaco do uniforme. Pensando melhor, colocou um coldre axilar por baixo do casaco. No caminho de saída, tirou uma pistola de motorista do armeiro, introduziu-lhe um carregador e enfiou-a no coldre, abotoando o uniforme por cima. Regressando à carrinha, puxou o boné de motorista para os olhos e foi espreitar Sophie e Langdon, que estavam de pé dentro da caixa de aço vazia.

 - Vão querer isto aceso. - Estendeu o braço e accionou o interruptor situado na parede metálica e que acendia a pequena lâmpada do tecto. - E é melhor sentarem-se. Nem o mais pequeno som quando passarmos o portão.

 Sophie e Langdon instalaram-se no chão. Langdon acomodou no colo o tesouro embrulhado no casaco de tweed. Fechando as pesadas portas, Vernet trancou-os lá dentro. Segundos depois, sentou-se ao volante e ligou o motor.

 Enquanto a carrinha blindada avançava lentamente em direcção ao topo de rampa, já Vernet sentia o suor acumular-se debaixo do boné de motorista. Viu que havia à sua frente muito mais luzes da Polícia do que imaginara. À aproximação da carrinha, o portão interior abriu-se, rodando para dentro. Vernet passou para o outro lado e esperou que o portão atrás dele voltasse a fechar-se antes de avançar novamente e accionar o sensor seguinte. O segundo portão abriu-se, convidando-o a sair.

O único problema é o carro da Polícia que está a bloquear a rampa.

 Vernet limpou a testa com a mão e avançou.

 Um agente da Polícia, um sujeito alto e magro, saiu da berma para o meio da rampa e mandou-o parar a poucos metros da barreira. Havia quatro carros-patrulha estacionados à sua frente.

 Vernet parou. Puxando o boné de condutor ainda mais para os olhos, adoptou o ar mais tosco que o seu nível cultural lhe permitia. Sem sair de trás do volante, abriu a porta e olhou de cima para o agente, cujo rosto parecia tenso e cansado.

 -  Qu’ est-ce qui se passe? - perguntou Vernet, num tom belicoso.

 - Je suis Jérôme Collet - respondeu o agente. - Lieutenant Police Judiciaire. - Apontou para a caixa de carga da carrinha. Qu’est-ce qu’il y a là dedans?

 - Raios me partam se sei - respondeu Vernet, num rude francês. - Sou só o condutor.

 Collet não pareceu impressionado.

- Andamos à procura de dois criminosos.

Vernet soltou uma gargalhada.

 - Então vieram ao sítio certo. Alguns dos filhos da mãe para quem trabalho têm tanta massa que devem ser criminosos.

 Collet mostrou-lhe uma fotografia de passaporte de Robert Langdon.

 - Este homem esteve no banco esta noite?

 Vernet encolheu os ombros.

 - Sei lá. Trabalho cá em baixo. Não nos deixam chegar nem perto dos clientes. O melhor é perguntar na portaria.

 - O banco exige um mandato de busca para nos deixar entrar.

 - Administradores - rosnou Vernet. - Não me façam falar.

 - Abra a carrinha, por favor - pediu Collet, apontando para a caixa de carga.

 Vernet olhou para o agente e forçou uma gargalhada de troça.

 - Abrir a carrinha? Acha que tenho as chaves? Acha que eles confiam em nós? Devia ver a merda de ordenado que me pagam!

 O agente inclinou a cabeça para um lado, obviamente céptico.

 - Está a dizer-me que não tem as chaves da sua própria carrinha.

Vernet abanou a cabeça.

 - Da caixa de carga, não. Só da ignição. Estas carrinhas são seladas por controladores na plataforma de embarque. Então ficamos à espera enquanto alguém leva a chave da caixa de carga até ao local de destino. Quando recebemos um telefonema a dizer que as chaves chegaram ao destinatário, dão-me autorização para arrancar. Nem um segundo antes. Nunca sei que raio de carga transporto.

 - Quando é que esta carrinha foi selada?

 - Deve ter sido há horas. Esta noite tenho de ir até St. Thurial. As chaves da caixa já lá estão.

 O agente não disse palavra, olhando fixamente para Vernet, como que a tentar ler-lhe os pensamentos.

 Uma gota de suor preparava-se para deslizar pelo nariz de Vernet.

 - Importa-se? - disse ele, limpando o nariz com a manga do casaco e apontando para o carro da Polícia que bloqueava a passagem. Tenho um horário a cumprir.

 - Todos os condutores usam Rolexes? - perguntou Collet, apontando para o pulso de Vernet.

 Vernet olhou para baixo e viu a pulseira do seu ridiculamente caro relógio a espreitar por baixo da manga do casaco. Merde.

 - O quê, esta merda? Comprei-o por vinte euros a um vendedor ambulante chinês em St. Germain dês Prés. Vendo-lho por quarenta.

 O agente hesitou um instante e finalmente afastou-se para o lado.

 - Não, obrigado. Faça boa viagem.

 Vernet só voltou a respirar quando a carrinha já se tinha afastado uns bons cinquenta metros. E agora tinha outro problema. A sua carga. Para onde é que os levo?

 

 Silas estava deitado de bruços na esteira de lona do seu quarto, deixando que o ar secasse o sangue das feridas que tinha nas costas. A segunda sessão daquela noite com a Disciplina deixara-o tonto e fraco. Ainda não tirara o cilício, e sentia o sangue escorrer pela parte interior da coxa. Mas a verdade era que não encontrava justificação para desapertar a correia.

 Deixei ficar mal a Igreja.

 Muito pior ainda, deixei ficar mal o bispo.

 Aquela noite era suposta ser a da salvação de Aringarosa. Cinco meses antes, o bispo regressara de uma reunião no Observatório do Vaticano, onde soubera qualquer coisa que o deixara profundamente mudado. Deprimido durante semanas, Aringarosa partilhara finalmente as novidades com Silas.

 - Mas isso é impossível! - exclamara Silas. - Não posso aceitá-lo!

 - É verdade - afirmara Aringarosa. - Impensável, mas verdadeiro. Dentro de apenas seis meses.

 As palavras do bispo tinham deixado Silas aterrorizado. Rezara a pedir a redenção, e mesmo naqueles dias negros, a sua fé em Deus e no Caminho nunca vacilara. Fora só um mês mais tarde que as nuVens se tinham miraculosamente rasgado e a luz da possibilidade bulhara através delas.

 Intervenção divina, dissera Aringarosa.

 Pela primeira vez, o bispo parecera cheio de esperança.

 - Silas - murmurara -, Deus concedeu-nos uma oportunidade de proteger O Caminho. A nossa batalha, como todas as batalhas vai exigir sacrifícios. Estás disposto a ser um soldado de Deus?

Silas caíra de joelhos diante do bispo Aringarosa, o homem que lhe tinha dado uma nova vida, e dissera:

 - Sou um cordeiro de Deus. Guie-me para onde o seu coração mandar.

 Quando Aringarosa descreveu a oportunidade que se deparara, Silas soube que só podia ser a mão de Deus. Destino miraculoso! Aringarosa pôs Silas em contacto com o homem que propusera o plano - um homem que a si mesmo chamava o Professor. Embora Silas e o Professor nunca se tivessem encontrado cara-a-cara, sempre que falava com ele ao telefone Silas ficava assombrado pela profundidade da fé daquele homem e pela amplitude do seu poder. O Professor parecia saber tudo, ter olhos e ouvidos em todo o lado. Como conseguia as suas informações era algo que Silas ignorava, mas Aringarosa depositava uma enorme confiança nele e pedira a Silas que fizesse o mesmo. «Faz o que o Professor te ordenar», dissera a Silas, «e venceremos.»

 Venceremos. Enquanto agora olhava para as tábuas do chão, Silas temeu que a vitória lhes tivesse escapado. O Professor fora enganado. A Chave de Abóbada era um ardiloso beco sem saída. E com o engano, toda a esperança se desvanecera.

 Silas desejou poder ligar para o bispo Aringarosa e avisá-lo, mas o Professor eliminara todas as linhas de contacto directo entre eles naquela noite. Para nossa segurança.

 Finalmente, vencendo o medo, Silas pôs-se laboriosamente de pé e apanhou o hábito, que estava caído no chão. Procurou no bolso o telemóvel. com a cabeça baixa de vergonha, marcou o número.

- Professor - murmurou -, está tudo perdido. - E então contou como fora enganado.

- Perdes a fé demasiado rapidamente - respondeu o Professor.

- Acabo de receber notícias. Inesperadas e magníficas. O segredo vive. Jacques Saunière transmitiu informações antes de morrer. Contactar-te-ei em breve. O nosso trabalho desta noite ainda não terminou.

 

 Viajar dentro da mal iluminada caixa de carga da carrinha blindada era como ser transportado no interior de uma cela de solitária. Langdon esforçou-se por controlar a tão conhecida ansiedade que o avassalava em espaços fechados. Vernet disse que nos levaria para uma distância segura da cidade. Para onde? A que distância?

 Tinha as pernas rígidas de estar sentado tanto tempo no chão metálico da carrinha, e mudou de posição, fazendo uma careta quando o sangue recomeçou a circular-lhe na parte inferior do corpo. Continuava a aconchegar nos braços o bizarro tesouro que tinham tirado do banco.

 - Acho que estamos na auto-estrada - sussurrou Sophie.

 Langdon tinha a mesma sensação. A carrinha, depois de uma enervante paragem no topo da rampa, seguira em frente, serpenteando à direita e à esquerda durante um ou dois minutos, e agora corria ao que lhes parecia ser a sua velocidade máxima. Por baixo deles, os pneus à prova de bala zuniam sobre um pavimento liso. Concentrando-se na caixa de roseira que transportava nos braços, Langdon pousou a sua preciosa carga no chão, desembrulhou o casaco e tirou de lá a caixa, que puxou para si. Sophie mudou de posição de modo a ficarem sentados lado-a-lado. Langdon teve subitamente a sensação de que eram dois miúdos a abrir uma prenda de Natal.

 Em contraste com os tons quentes da caixa de roseira, a rosa embutida era de uma madeira clara, provavelmente freixo, que parecia brilhar à fraca luz da lâmpada. A Rosa. Exércitos inteiros de religiões tinham sido construídos à volta daquele símbolo. E de sociedade secretas também. Os Rosa-Cruz. Os Cavaleiros da Cruz Rosada.

 - Vá - incitou-o Sophie. - Abra-a.

 Langdon inspirou fundo. Enquanto estendia a mão para a tampa, lançou mais um olhar de admiração ao fino trabalho de marchetaria e então, levantando a lingueta do fecho, abriu a tampa, expondo o objecto que estava lá dentro.

 Langdon compusera diversas fantasias a respeito do que poderiam ir encontrar naquela caixa, mas era agora evidente que se enganara em toda a linha. Aninhado no interior almofadado e forrado a seda escarlate da caixa estava um objecto que não conseguia sequer começar a compreender.

 Um cilindro feito de mármore branco e polido, com as dimensões aproximadas de uma lata de bolas de ténis. Mais complicado do que uma simples coluna de pedra, no entanto, aquele cilindro parecia ter sido montado com muitas peças. Cinco discos de mármore do tamanho de donuts tinham sido postos uns em cima dos outros e ligados entre si por uma delicada armação metálica. Fazia lembrar uma espécie de caleidoscópio tubular com vários anéis. As duas extremidades eram fechadas por remates de mármore, o que tornava impossível ver para o interior. Tendo ouvido o chocalhar de um líquido, Langdon assumia que o cilindro era oco.

 Por muito intrigante que fosse a construção do cilindro, foram, porém, as gravações à volta da circunferência do tubo que atraíram mais fortemente a atenção de Langdon. Em cada um dos discos estava gravada a mesma e improvável série de letras: o alfabeto inteiro. Fez lembrar a Langdon um brinquedo da sua meninice, uma vara em que encaixavam vários aros com letras que se rodavam para formar diferentes palavras.

- Espantoso, não é - murmurou Sophie.

Langdon ergueu os olhos.

 - Não sei. O que é?

 Havia agora um brilho nos olhos de Sophie.

 - O meu avô costumava construí-los como passatempo. Foram inventados por Leonardo da Vinci.

 Mesmo à escassa luz, Sophie apercebeu-se da surpresa de Langdon.

 - Por da Vinci? - murmurou, voltando a olhar para o cilindro.

- Sim. Chama-se um criptex. Segundo o meu avô, os planos para a sua construção faziam parte de um dos diários secretos de da Vinci.

 - Para que serve?

 Considerando os acontecimentos da noite, Sophie sabia que a resposta podia ter algumas implicações interessantes.

- É um cofre - disse. - Para guardar informações secretas.    

Langdon abriu ainda mais os olhos.

 Sophie explicou que criar modelos das invenções de da Vinci fora um dos passatempos preferidos do avô. Um talentoso artífice que passava horas na sua oficina de carpintaria e serralharia, Jacques Saunière gostava de imitar os mestres: Fabergé, vários especialistas do cloisonné, e o menos artístico mas muitíssimo mais prático Leonardo da Vinci.

 Até um olhar de passagem pelos célebres diários permitia perceber por que razão da Vinci era tão famoso pela sua falta de persistência como pelo seu génio. Desenhara planos para centenas de invenções que nunca construíra. Um dos passatempos preferidos de Jacques Saunière fora trazer à vida algumas das mais obscuras criações do mestre: relógios, bombas de água, criptex, e até o modelo totalmente articulado de um cavaleiro medieval francês que ocupava agora um lugar de honra em cima da sua secretária. Concebido por da Vinci em 1495, como uma espécie de consequência dos seus estudos anteriores de anatomia e cinesiologia, o mecanismo interior do cavaleiro robô possuía articulações e tendões perfeitos que lhe permitiam sentar-se, agitar os braços e mover a cabeça, graças a um pescoço flexível, ao mesmo tempo que abria e fechava uma mandíbula anatomicamente correcta. Aquele cavaleiro de armadura, Sophie sempre o pensara, era o objecto mais belo que o avô alguma vez construíra... isto é, até ter visto o criptex na sua caixa de roseira.

 - Fez um para mim quando eu era pequena - disse Sophie. - Mas nunca tinha visto nenhum tão grande e ornamentado.

 Langdon não desviava os olhos da caixa.

 - Nunca ouvi falar de criptex.

 Sophie não estava surpreendida. A maior parte das invenções não realizadas de Leonardo nunca tinham sido estudadas ou sequer baptizadas. A palavra «criptex» fora, muito provavelmente, uma Criação do avô, um nome adequado àquele instrumento que usava a ciência da criptologia para proteger a informação escrita no rolo, ou códex, que continha.

 Sophie sabia que da Vinci fora um dos pioneiros da criptologia, embora esse mérito raramente lhe fosse reconhecido. Na universidade, os professores, quando falavam dos métodos de cifragem de dados, referiam regra geral criptologistas modernos como Zimmerman e Schneier, mas esqueciam-se de mencionar que fora Leonardo quem inventara as primeiras formas rudimentares de cifragem, séculos antes. Fora, claro, o avô que lhe falara disso.

 Enquanto a carrinha blindada corria pela estrada, Sophie explicou a Langdon que o criptex fora a solução de Leonardo para o dilema de enviar mensagens seguras a longas distâncias. Numa era sem telefones nem e-mail, quem quisesse enviar informações privadas a alguém que vivesse longe não tinha alternativa senão escrevê-las e confiar a carta a um mensageiro que a levasse. Infelizmente, se o mensageiro suspeitasse de que a missiva continha informações valiosas, podia ganhar muito mais dinheiro vendendo-a aos inimigos do remetente do que entregando-a ao destinatário.

 Ao longo dos séculos, foram muitas as grandes figuras que inventaram soluções criptológicas para o problema da protecção de dados: Júlio César imaginou um esquema de escrita em código conhecido como Caixa de César; Maria, rainha da Escócia, criou uma cifra de substituição graças à qual enviava mensagens secretas da prisão, e o brilhante cientista árabe Abu Yusuf Ismail al-Kindi protegia os seus segredos com uma engenhosa cifra de substituição polialfabética.

 Da Vinci, pelo contrário, preferiu uma solução mecânica à matemática e à criptologia. O criptex. Um contentor portátil capaz de proteger cartas, mapas, diagramas, fosse o que fosse. Uma vez a informação guardada dentro do criptex, só a pessoa que conhecesse a chave adequada podia aceder-lhe.

 - É preciso uma password - explicou Sophie, apontando para os aros marcados com letras. - O criptex funciona mais ou menos como o cadeado de segredo de uma bicicleta. Quando alinhamos os anéis na posição correcta, o cadeado abre-se. O criptex tem cinco anéis. Quando os rodamos na sequência certa, as tranquetas no interior alinham-se e o cilindro desmancha-se.

 - E lá dentro?

- Quando o cilindro se desmancha, a pessoa tem acesso a um compartimento central suficientemente grande para conter um rolo de papel onde está escrita a informação que se pretende manter secreta.

 Langdon fez um ar incrédulo.

 - E está a dizer-me que o seu avô fazia estas coisas para si quando era pequena.

 - Fez-me vários mais pequenos. Pelo menos em duas ocasiões, nos meus anos, deu-me um criptex e uma adivinha. A resposta à adivinha era a senha para o criptex, e quando eu a descobria, podia abri-lo e encontrar o meu cartão de parabéns.

 - Muito trabalho por um cartão.

 - Não, os cartões continham sempre outra adivinha, ou uma pista. O meu avô adorava inventar complicadíssimas caças ao tesouro por toda a casa, com uma sequência de pistas que acabavam por conduzir-me à minha verdadeira prenda. Cada caça ao tesouro era um teste de carácter e de mérito, obrigando-me a merecer as minhas recompensas. E nunca eram fáceis.

Langdon voltou a olhar para o cilindro de mármore, ainda com uma expressão céptica.

 - Mas porque não simplesmente forçá-lo? Ou parti-lo? Os fechos de metal parecem fraquinhos, e o mármore é uma rocha pouco resistente.

 Sophie sorriu.

 - Porque da Vinci era muito mais esperto do que isso. Concebeu o criptex de tal maneira que se alguém tentar forçá-lo, seja de que maneira for, a informação autodestrói-se. Veja. - Meteu as mãos na caixa e retirou cuidadosamente o cilindro. - Toda a informação era primeiro escrita num rolo de papiro.

 - Papiro ou velino?

 Sophie abanou a cabeça.

 - Papiro. Eu sei que o velino era mais duradouro e mais comum naquele tempo, mas tinha de ser papiro, e quanto mais fino melhor.

 - Okay.

 - Antes de ser inserido no compartimento do criptex, o papiro era embrulhado à volta de uma fina ampola de vidro. - Virou o criptex, e o líquido lá dentro gorgolejou. - Uma ampola cheia de líquido.

- Que líquido?

 Sophie sorriu.

 - Vinagre.

 Langdon hesitou um instante e então pôs-se a assentir com a cabeça.

 - Brilhante.

 Vinagre e papiro, pensou Sophie. Se alguém tentasse forçar o criptex, a ampola partia-se e o vinagre dissolvia rapidamente o papiro. Quando o violador chegasse à mensagem secreta, esta ter-se-ia transformado numa pasta sem qualquer significado.

 - Como vê - continuou Sophie -, a única maneira de obter a informação é conhecer a senha, com cinco letras. E com cinco anéis, cada um deles com vinte e seis letras, temos vinte e seis elevado à quinta potência. - Fez rapidamente as contas. - Cerca de doze milhões de possibilidades.

 - Se assim diz - respondeu Langdon, com ar de quem tinha cerca de doze milhões de perguntas a correr-lhe pela cabeça. - Que informação acha que está aí dentro?

 - Seja o que for, parece evidente que o meu avô queria a todo o custo mantê-la secreta. - Fez uma pausa, fechando a tampa da caixa e ficando a olhar para a rosa de cinco pétalas que tinha embutida. Havia qualquer coisa a incomodá-la no fundo da cabeça. - Disse há pouco que a rosa é um símbolo do Graal?

 - Exactamente. No simbolismo do Priorado, a rosa e o Graal são sinónimos.

 Sophie franziu a testa.

 - Isso é estranho, porque o meu avô sempre me disse que a rosa significava segredo. Costumava pendurar uma rosa na porta do escritório, lá em casa, quando estava a fazer algum telefonema confidencial e não queria que eu o interrompesse. E encorajava-me a fazer o mesmo.

 Querida, dizia-lhe o avô, em vez de nos fecharmos à chave, podemos pendurar uma rosa, La fleur dês secrets, na nossa porta quando precisarmos de privacidade. Desse modo, aprenderemos a respeitar-nos mutuamente e a confiar um no outro. Pendurar uma rosa é um antigo costume romano.

 - Sub-rosa - disse Langdon. - Os Romanos penduravam uma rosa sobre o local onde se reuniam para indicar que essa reunião era confidencial. Os presentes sabiam que o que quer que fosse dito sob a rosa tinha de permanecer secreto.

 Explicou rapidamente que não fora apenas pelas suas conotações sigilosas que o Priorado escolhera a rosa como símbolo do Graal. A Rosa rugosa, uma das espécies mais antigas da flor, tinha cinco pétalas e uma simetria pentagonal, tal como a estrela guia de Vénus, o que lhe dava uma forte ligação iconográfica com afeminidade. Além disso, a rosa tinha também uma estreita relação com o conceito de «verdadeira direcção» e a navegação. A Rosa-dos-Ventos ajudava os mareantes a navegar, tal como as Linhas da Rosa, as linhas de longitude marcadas nos mapas. Por este motivo, a rosa era um símbolo que falava do Graal a vários níveis - secretismo, feminidade e orientação - o cálice feminino e a estrela guia que conduzia à verdade secreta.

 Quando Langdon acabou de falar, a sua expressão pareceu tornar-se repentinamente tensa.

 - Robert? Sente-se bem?

 Os olhos dele estavam cravados na caixa de roseira.

 - Sub... rosa - engasgou-se, com um espanto assustado a espalhar-se-lhe pelo rosto. - Não pode ser.

 - O quê?

 Langdon ergueu lentamente o olhar.

 - Sob o signo da Rosa - murmurou. - Este criptex... Julgo saber o que é.

 

 Langdon mal podia acreditar na sua própria suposição, e no entanto, considerando quem lhes dera a eles aquele cilindro de pedra, o modo como lhes fora dado e, agora, a rosa embutida na caixa, não era possível chegar a qualquer outra conclusão.

 Tenho nas mãos a Chave de Abóbada do Priorado.

 A lenda era específica.

 A Chave de Abóbada é uma pedra codificada que se encontra sob o signo da Rosa.

- Robert? - Sophie estava a observá-lo. - Que se passa?

Langdon precisava de um instante para ordenar os pensamentos.

 - O seu avô falou-lhe alguma vez de uma coisa chamada La Clef de Voûte?

 - A chave do cofre? - traduziu ela.

 - Não, isso é a tradução literal. Clef de Voûte é um termo arquitectónico comum. Voûte não se refere ao cofre de um banco mas ao arco de uma abóbada. Como um tecto abobadado.

 - Mas os tectos abobadados não têm chaves.

 - Por acaso, até têm. Todos os arcos de pedra precisam de uma pedra central, em forma de cunha, que, colocada no topo, trava as peças e suporta todo o peso. Esta pedra é, num sentido arquitectural, a chave da abóbada. Em inglês, chamamos-lhe keystone. - Langdon vigiou-lhe os olhos, à espera de qualquer centelha de reconhecimento.

 Sophie encolheu os ombros, ainda a olhar para o criptex.

 - Mas isto não é obviamente uma Chave de Abóbada.

Langdon não sabia por onde começar. A Chave de Abóbada como técnica para construir arcos de pedra fora um dos segredos mais bem guardados da primitiva irmandade Maçónica. O Grau do Arco Real. Arquitectura. Chaves de Abóbada. Estava tudo interligado. O conhecimento secreto de como usar uma pedra em cunha para construir um arco abobadado era parte do segredo que fizera dos Maçons artífices tão ricos, e era um segredo que eles guardavam ciosamente. As chaves de abóbada sempre tinham tido uma tradição de secretismo. E no entanto, o cilindro de mármore dentro da caixa de roseira era obviamente algo muito diferente. A Chave de Abóbada do Priorado, se de facto era isso que tinham nas mãos, não era nem de longe o que Langdon imaginara.

 - A Chave de Abóbada do Priorado não é a minha especialidade - admitiu Langdon. - O meu interesse no Santo Graal é essencialmente simbológico, de modo que tenho tendência para ignorar a infinidade de lendas a respeito de como o encontrar.

 Sophie arqueou as sobrancelhas.

 - Encontrar o Santo Graal?

 Langdon assentiu, pouco à-vontade, pronunciando muito cuidadosamente as palavras seguintes:

 - Sophie, segundo a tradição do Priorado, a Chave de Abóbada é um mapa gravado... um mapa que revela o lugar onde está escondido o Santo Graal.

 O rosto de Sophie ficou por instantes sem expressão.

 - E acha que é isso que aqui temos?

 Langdon não sabia o que dizer. Aquilo parecia incrível até aos seus próprios ouvidos, e, no entanto, a Chave de Abóbada era a única conclusão lógica a que conseguia chegar. Uma pedra codificada, escondida sob o signo da Rosa.

 A ideia de que o criptex fora concebido por Leonardo da Vinci - ex-Grão-Mestre do Priorado de Sião - brilhava como mais um incontornável indicador de que o cilindro era de facto a Chave de Abóbada. O projecto de um ex-Grão-Mestre... trazido à vida centenas de anos depois por outro membro da irmandade. A ligação era demasiado palpável para ser posta de parte.

 Ao longo da última década, os historiadores tinham procurado a Chave de Abóbada em igrejas francesas. Os demandadores do Graal, conhecedores da história de crípticos duplos-sentidos do Priorado, tinham concluído que a Clef de Voûte era literalmente uma Chave de Abóbada - uma cunha arquitectónica -, uma pedra gravada em código inserida na abóbada de uma igreja. Sob o signo da Rosa. Em arquitectura, o que não faltava era rosas. Janelas de rosácea. Relevos de roseta. E, claro, uma abundância de potentilhas - as flores decorativas de cinco pétalas com frequência encontradas no topo dos arcos, directamente por cima da chave. O esconderijo parecia diabolicamente simples. O mapa para chegar ao Santo Graal estava incorporado no cimo de um arco ou de uma abóbada numa qualquer igreja esquecida, a zombar dos fiéis que passavam por baixo dela sem nada ver.

 - O criptex não pode ser a Chave de Abóbada - argumentou Sophie. - Não é suficientemente antigo. Tenho a certeza de que foi o meu avô que o fez. Não pode fazer parte de uma qualquer antiga lenda do Graal.

 - A verdade - respondeu Langdon, sentindo um formigueiro de excitação percorrer-lhe o corpo -, é que se supõe que a Chave de Abóbada terá sido criada pelo Priorado nas últimas duas décadas.

 Os olhos de Sophie reflectiam incredulidade.

 - Mas se o criptex revela o esconderijo do Santo Graal, porque mo teria o meu avô dado a mim? Não faço a mínima ideia de como abri-lo nem do que fazer com ele. Nem sequer sei o que é o Santo Graal!

 Langdon compreendeu, para sua surpresa, que ela tinha razão. Ainda não tivera ocasião de explicar a Sophie a verdadeira natureza do Santo Graal. De momento, estavam concentrados na Chave de Abóbada.

 Se é o que isto realmente é...

 Tendo como fundo sonoro o zunido dos pneus à prova de bala, Langdon expôs rapidamente a Sophie tudo o que ouvira a respeito da Chave de Abóbada. Aquele que alegadamente fora, durante séculos, o maior segredo do Priorado - a localização do Santo Graal – não tinha sido escrito. Por questões de segurança, era oralmente transmitido a cada novo senescal no decurso de uma cerimónia secreta. No entanto, a dada altura durante o último século, tinham começado a transpirar rumores de que o Priorado alterara a sua política. Talvez por causa das novas possibilidades de escuta electrónica, o Priorado jurara nunca mais voltar a dizer a localização do esconderijo sagrado.

- Mas então, como transmitiam o segredo? - perguntou Sophie.

 - É aí que entra a Chave de Abóbada - explicou Langdon. - Quando um dos quatro membros do escalão superior morre, os três restantes escolhem nos escalões inferiores um novo candidato para ascender a senescal. Em vez de dizerem ao novo senescal onde está escondido o Santo Graal, submetem-no a um teste através do qual ele pode provar se digno do cargo.

 Sophie pareceu perturbada, e Langdon recordou subitamente o que ela lhe contara a respeito de o avô organizar caças ao tesouro - preuves de mérite. O criptex era, na realidade, um conceito semelhante. Por outro lado, provas como aquela eram extremamente comuns nas sociedades secretas. As mais conhecidas eram as da Maçonaria, em que os membros subiam na hierarquia provando ser capazes de guardar um segredo e submetendo-se a rituais e provas de mérito ao longo de muitos anos. As tarefas tornavam-se progressivamente mais difíceis até culminarem na admissão do candidato como maçon do trigésimo segundo grau.

 - A Chave de Abóbada é então uma preuve de mérite - disse Sophie. - Se o novo senescal consegue abri-la, prova ser digno da informação que ela contém.

 Langdon assentiu.

 - Estava a esquecer que já tem experiência com esse tipo de coisa.

 - E não só com o meu avô. Em criptologia, é aquilo a que se chama uma «linguagem auto-autorizadora». Ou seja, se a pessoa é suficientemente esperta para lê-la, pode saber o que está a ser dito.

 Langdon teve um instante de hesitação.

 - Sophie, compreende que se esta é de facto a Chave de Abóbada, o facto de o seu avô lhe ter acesso implica que era excepcionalmente poderoso dentro do Priorado. Teria de ser um dos quatro membros do escalão superior.

 Sophie suspirou.

 - Era poderoso numa sociedade secreta. Disso tenho eu a certeza. Só posso assumir que era o Priorado.

 Langdon olhou para ela com mais atenção.

 - Sabia que ele pertencia a uma sociedade secreta?

- Há dez anos, vi coisas que não era suposta ver. Não voltámos a falar-nos desde essa altura.  - Fez uma pausa. - O meu avô não era apenas um dos membros superiores do grupo... Era o membro superior.

 Langdon não podia acreditar no que ela acabava de dizer.

 - Grão-Mestre? Mas... como é que pode saber uma coisa dessas:

 - Prefiro não falar disso. - Sophie desviou o olhar, com uma expressão tão determinada como dorida.

 Langdon manteve um silêncio aturdido. Jacques Saunière? Grão-Mestre? Apesar das espantosas repercussões, se fosse verdade, tinha a estranha sensação de que fazia perfeitamente sentido. Ao fim e ao cabo, os anteriores Grão-Mestres do Priorado tinham também sido distintas figuras públicas com alma de artista. Tinham sido descobertas provas do facto alguns anos antes, na Bibliothèque National de Paris, em documentos que ficaram conhecidos como Les Dossiers Secrets.

 Não havia estudioso do Priorado nem maníaco do Graal que não tivesse lido os Dossiers. Catalogados sob o Número 4º Iml 249, os Dossiers Secrets tinham sido autenticados por muitos especialistas e confirmado de forma incontroversa aquilo de que os historiadores suspeitavam havia muito tempo: os Grão-Mestres do Priorado incluíam Leonardo da Vinci, Botticelli, Sir Isaac Newton, Victor Hugo e, mais recentemente, Jean Cocteau, o famoso artista parisiense.

 Porque não Jacques Saunière?

 A incredulidade de Langdon aumentou ao recordar que tivera um encontro marcado com Saunière para aquela noite. O Grão-Mestre do Priorado pediu uma reunião comigo. Porquê? Para conversar a respeito de arte? Pareceu-lhe, de súbito, muito improvável. Ao fim e ao cabo, se o instinto de Langdon estivesse certo, o Grão-Mestre do Priorado de Sião acabava de transferir a lendária Chave de Abóbada da irmandade para a neta ao mesmo tempo que lhe ordenava que procurasse Robert Langdon.

 Inconcebível!

 Não conseguia, por muito que forçasse a imaginação, conceber um conjunto de circunstâncias que explicasse o comportamento de Saunière. Mesmo que se julgasse ameaçado de morte, havia três outros senescais que também conheciam o segredo e consequentemente garantiam a segurança do Priorado. Porque havia Saunière de correr um risco tão grande ao confiar a Chave de Abóbada à neta, especialmente considerando que os dois não se davam? E porquê envolvê-lo a ele, Langdon, um completo desconhecido?

 Falta uma peça do puzzle, pensou.

 As respostas iam aparentemente ter de esperar. O som do motor a abrandar fê-los a ambos erguer os olhos. Saibro debaixo dos pneus. Porque é que já está a parar?, perguntou Langdon a si mesmo. Vernet dissera-lhes que os levaria para bem longe da cidade, onde estariam a salvo. A carrinha abrandou ainda mais e acabou por deter-se num terreno inesperadamente acidentado. Sophie lançou a Langdon um olhar preocupado, baixando apressadamente a tampa da caixa do criptex e trancando o fecho. Langdon voltou a vestir o casaco.

 O motor continuava a funcionar quando as portas traseiras do veículo se abriram. Langdon ficou surpreendido ao verificar que se encontravam numa zona arborizada, bem afastados da estrada. Vernet surgiu à vista, com uma expressão tensa no rosto. Tinha uma pistola na mão direita.

 - Lamento muito - disse. - Não tenho verdadeiramente por onde escolher.

 

 Vernet parecia pouco à-vontade com uma pistola na mão, mas havia nos olhos dele uma determinação que Langdon sentiu não ser sensato pôr à prova.

 - Receio ter de insistir - disse Vernet, apontando-lhes a arma da traseira da carrinha. - Pouse a caixa no chão.

 Sophie apertou-a contra o peito.

 - Disse que o senhor e o meu avô eram amigos.

 - Tenho o dever de proteger os bens do seu avô - respondeu Vernet. - E é exactamente o que estou a fazer. Agora, pouse a caixa no chão.

 - O meu avô confiou-ma a mim! - protestou Sophie.

 - Faça o que lhe digo - ordenou Vernet, erguendo a arma. Sophie pousou a caixa no chão.

 Langdon viu o cano da pistola rodar na direcção dele.

 - Senhor Langdon - continuou Vernet -, fará o favor de ma trazer. E tenha presente que lho peço a si porque, no seu caso, não hesitarei em disparar.

 Langdon ficou a olhar para o banqueiro, incrédulo.

 - Porque é que está a fazer isto?

 - Porque será? - replicou Vernet, num inglês que a tensão tornava mais duro. - Para proteger os bens do meu cliente.

 - Nós é que somos agora o seu cliente - disse Sophie.

 O rosto de Vernet tornou-se frio como gelo, numa estranha transformação.

 - Mademoiselle Neveu, ignoro como conseguiu esta noite essa chave e o número da conta, mas parece-me óbvio que não foi pelos meios mais lícitos. E se soubesse na altura a extensão dos vossos crimes, nunca os teria ajudado a sair do banco.

 - Já lhe disse que não tivemos nada a ver com a morte do meu avô!

 Vernet olhou para Langdon.

 - E no entanto, a Polícia afirma que é procurado não só pelo assassínio de Jacques Saunière, mas também pelos de três outros homens.

 - O quê? - Langdon estava siderado. Três outros assassínios? A coincidência do número foi um choque maior do que saber-se o principal suspeito. Não, não podia ser simples fruto do acaso. Os três senescais? Baixou os olhos para a caixa de nogueira. Se os senescais foram assassinados, o Saunière não podia fazer outra coisa. Tinha de passar a Chave de Abóbada a alguém.

 - A Polícia que resolva o assunto quando eu os entregar continuou Vernet. - Já comprometi demasiado o meu banco.

 Sophie fuzilou-o com o olhar.

 - É evidente que não tenciona entregar-nos. Se assim fosse, ter-nos-ia levado de volta ao banco. Em vez disso, traz-nos até aqui e aponta-nos uma arma.

 - O seu avô contratou-me por uma razão: manter os bens que me confiou a salvo de cobiças e de indiscrições. Seja o que for que está dentro dessa caixa, não tenho a mínima intenção de permitir que vá fazer parte de uma lista de provas em qualquer investigação policial. Senhor Langdon, traga-me a caixa.

 Sophie abanou a cabeça.

 - Não.

 A arma disparou e uma bala cravou-se na parede metálica por cima deles. A detonação ecoou na caixa da carrinha, seguida pelo tilintar do invólucro vazio a cair no chão.

 Merda! Langdon ficou petrificado.

 - Senhor Langdon, pegue na caixa - ordenou Vernet, num tom mais confiante.

Langdon obedeceu.

 - Agora traga-a até aqui. - Vernet apontava-lhes a arma de fora da carrinha, de pé junto ao pára-choques traseiro, com o braço estendido para dentro da caixa de carga.

 Langdon avançou para as portas abertas.

Tenho de fazer qualquer coisa, pensou. Estou a preparar-me para entregar a Chave de Abóbada do Priorado! Ao caminhar para as portas, a sua posição a um nível mais elevado tornou-se mais pronunciada, e Langdon perguntou a si mesmo se haveria algum modo de tirar partido do facto. A arma de Vernet, mesmo levantada, ficava à altura dos joelhos dele. Um pontapé bem colocado, talvez? Infelizmente, à medida que Langdon se aproximava, Vernet pareceu adivinhar a perigosa dinâmica que estava a desenvolver-se e recuou vários passos, colocando-se a dois metros de distância. Bem fora do alcance de qualquer ataque.

 - Pouse a caixa no chão, junto à porta - ordenou Vernet.

 Sem outra alternativa, Langdon ajoelhou e pousou a caixa de roseira na beira da caixa de carga, directamente em frente das portas abertas.

 - Agora ponha-se de pé.

 Langdon começava a endireitar-se quando viu o pequeno invólucro ejectado pela arma de Vernet caído no chão junto ao batente inferior das portas da carrinha.

 - Ponha-se de pé e afaste-se da caixa.

 Langdon demorou um pouco mais, examinando a soleira de metal. Endireitou-se. E, ao fazê-lo, empurrou discretamente o pequeno invólucro por cima do batente e para o estreito rebordo onde as portas encaixavam hermeticamente. Já de pé, recuou um passo.

 - Vá lá para trás e volte-se de costas. Langdon obedeceu.

 

 Vernet ouvia o martelar do seu próprio coração. Apontando a arma com a mão direita, estendeu a esquerda para a caixa de madeira. Descobriu que era demasiado pesada. Preciso das duas mãos. Olhou para os seus dois cativos e calculou o risco. Estavam ambos a uns bons quatro metros e meio de distância, no outro extremo da caixa de carga, de costas para ele. Tomou uma decisão. Rapidamente, pousou a arma no pára-choques, levantou a caixa com as duas mãos, pousou-a no chão, voltou a pegar na arma e apontou-a para o fundo da carrinha. Nenhum dos seus dois prisioneiros se tinha mexido.

Perfeito. Agora, tudo o que lhe restava fazer era fechar e trancar as portas. Deixando a caixa no chão, agarrou as portas de metal e empurrou-as. Quando passaram por ele, levantou a mão direita para o único ferrolho de metal que tinha de correr para as trancar. As portas fecharam-se com um baque surdo. Vernet deitou rapidamente a mão à pega do ferrolho e puxou-a para a esquerda. O ferrolho deslizou alguns centímetros e parou, desalinhado com o encaixe. Que se passa? Vernet tornou a puxar, mas o ferrolho não se moveu. O mecanismo não estava adequadamente alinhado. As portas não estão bem fechadas! Sentindo-se invadir por uma onda de pânico, empurrou-as para dentro com toda a sua força, mas sem resultado. Está qualquer coisa a bloqueá-las! Pôs-se de lado, preparando-se para forçá-las com o ombro, quando elas pareceram explodir para fora, atingindo-o na cara e fazendo-o estatelar-se de costas no chão, com um uivo de dor. A arma voou para longe e Vernet levou as mãos à cara, sentindo o sangue quente escorrer-lhe do nariz partido.

 Robert Langdon saltou para o chão algures perto dele e Vernet tentou levantar-se, mas não conseguia ver. Voltou a cair de costas. Sophie Neveu gritava. Momentos mais tarde, Vernet sentiu uma nuvem de pó e de fumos de escape envolvê-lo. Ouviu o ranger dos pneus no saibro e sentou-se mesmo a tempo de ver a larga e pesada carrinha falhar uma curva. Houve um estalo quando o pára-choques dianteiro embateu numa árvore. O motor rugiu, e a árvore vergou. Finalmente, foi o pára-choques que cedeu, partindo-se ao meio. A carrinha blindada saltou em frente, com metade do pára-choques a arrastar pelo chão. Quando chegou à estrada pavimentada, uma chuva de faíscas iluminou a noite, seguindo a carrinha que se afastava a toda a velocidade.

 Vernet olhou para o lugar onde estivera estacionada. Mesmo a pálida luz da Lua, viu que não havia ali nada.

 A caixa de madeira tinha desaparecido.

 

 O Fiat preto afastou-se de Castel Gandolfo, começando a descer a sinuosa estrada em direcção ao vale lá em baixo. No banco traseiro, o bispo Aringarosa sorriu, sentindo o peso dos títulos ao portador na mala que segurava sobre os joelhos e perguntando a si mesmo quanto tempo faltaria para ele e o Professor poderem fazer a troca.

 Vinte milhões de euros.

 Aquele dinheiro ia permitir-lhe comprar um poder muito mais valioso do que isso.

 Enquanto o carro corria de regresso a Roma, Aringarosa deu por si mais uma vez a estranhar o facto de o Professor ainda não o ter contactado. Tirou o telemóvel do bolso da sotaina e verificou o sinal de rede. Muito fraco.

 - Aqui em cima a rede é muito intermitente - disse o condutor, observando-o pelo retrovisor. - Dentro de cinco minutos saímos da montanha e o serviço melhora.

 - Obrigado. - Aringarosa sentiu uma repentina vaga de inquietação. Não há rede nas montanhas? Talvez o Professor tivesse estado a tentar ligar para ele durante todo aquele tempo. Talvez qualquer coisa tivesse corrido horrivelmente mal.

 - Com gestos apressados, verificou o voice mail do telefone. Nada. Mas, claro, apercebeu-se então, nunca o Professor deixaria uma mensagem gravada; era um homem que tinha um cuidado enorme com as suas comunicações. Ninguém compreendia melhor do que o Professor os perigos de falar abertamente neste mundo moderno. A escuta electrónica desempenhara um papel crucial no modo como reunira a espantosa soma de conhecimentos secretos de que era detentor.

 É por isso mesmo que toma precauções extra.

 Infelizmente, os protocolos de segurança do Professor incluíam a recusa de dar a Aringarosa qualquer número de contacto. Só eu terei a iniciativa dos contactos, dissera-lhe o Professor. Portanto, conserve o telefone ligado e à mão. Agora, sabendo que o seu telefone talvez não tivesse estado a funcionar devidamente, Aringarosa temia o que o Professor poderia pensar se tivesse tentado ligar-lhe várias vezes sem obter resposta.

 Vai pensar que alguma coisa correu mal.

 Ou que eu não consegui os títulos.

 Uma fina camada de suor humedeceu-lhe a testa.

 Ou pior... que peguei no dinheiro e fugi!

 

 Mesmo a uns modestos sessenta quilómetros horários, a metade do pára-choques que pendia da dianteira da carrinha blindada raspava pela deserta estrada suburbana com um barulho insuportável, lançando uma chuva de faíscas.

 Temos de sair da estrada, pensou Langdon.

 Quase não conseguia ver para onde iam. O único farol ainda a funcionar estava completamente de esguelha e iluminava agora, com um feixe enviesado, as árvores que ladeavam a estrada rural. Aparentemente, o blindado daquela «carrinha blindada» referia-se apenas à caixa de carga, e não ao habitáculo.

 Sophie ocupava o banco do passageiro, a olhar com um ar inexpressivo para a caixa de roseira que levava pousada nos joelhos.

 - Sente-se bem? - perguntou-lhe Langdon. Sophie parecia abalada.

 - Acreditou nele?

 - A respeito dos outros três assassínios? Absolutamente. Responde a uma porção de perguntas... o desespero do seu avô em passar a Chave de Abóbada a alguém, e também o empenho com que o Fache me persegue.

 - Não, referia-me a o Vernet querer proteger o banco. Langdon lançou-lhe um olhar.

 - Por oposição a?

 - Ficar com a Chave de Abóbada para ele. Langdon não tinha sequer considerado a hipótese.

 - Como poderia ele saber sequer o que a caixa contém?

 - Estava no banco dele. Conhecia o meu avô. Talvez soubesse coisas. Pode ter decidido que queria ficar com o Graal para ele.

Langdon abanou a cabeça. Vernet não lhe parecia o género.

 - A experiência diz-me que há apenas duas razões para as pessoas procurarem o Graal. Ou são ingénuas e acreditam que andam à procura da há muito perdida Taça de Cristo...

 - Ou?

 - Ou sabem a verdade e sentem-se ameaçadas por ela. Muitos grupos, ao longo da História, tentaram destruir o Graal.

 O silêncio entre eles aumentou o estrépito do pára-choques a arrastar pela estrada. Tinham já percorrido alguns quilómetros, e, ao olhar para a chuva de faíscas que vinha da frente da carrinha, Langdon perguntou a si mesmo se aquilo não seria perigoso. De todos os modos, se se cruzassem com outro carro, não deixariam de dar nas vistas. Tomou uma decisão.

- Vou ver se consigo endireitar aquele pára-choques.

Encostou à berma e parou a carrinha.

 Silêncio, por fim.

 Enquanto se dirigia à dianteira do veículo, sentia-se surpreendentemente alerta. Ver-se sob a mira de uma arma pela segunda vez naquela noite dera-lhe um novo fôlego. Inspirou um fundo hausto de fresco ar nocturno e tentou arrumar as ideias. Além da gravidade de ser um homem perseguido, começava a sentir o esmagador peso da responsabilidade, da perspectiva de ele e Sophie terem de facto nas mãos um conjunto de indicações cifradas que permitia desvendar um dos mais duradouros mistérios de todos os tempos.

 E como se este fardo não fosse já suficientemente pesado, apercebia-se agora de que qualquer possibilidade de devolver a Chave de Abóbada ao Priorado acabava de se evaporar. A notícia das três outras mortes tinha implicações terríveis. O Priorado foi infiltrado. Estão todos comprometidos. A irmandade encontrava-se obviamente sob vigilância, ou então havia uma toupeira nas suas fileiras. O que talvez explicasse por que razão Jacques Saunière resolvera passar a Chave de Abóbada à neta e a Langdon... pessoas fora da confraria, pessoas que sabia de certeza não estarem comprometidas. Não podemos devolver a Chave de Abóbada à irmandade. Mesmo que fizesse alguma ideia de como encontrar um membro do Priorado, havia uma muito boa hipótese de que quem se apresentasse para recebê-la fosse o próprio inimigo. De momento, pelo menos, parecia que a Chave de Abóbada ia ter de continuar nas mãos dele e de Sophie, quer quisessem quer não.

A dianteira da carrinha estava em pior estado do que imaginara. O farol do lado esquerdo desaparecera e o do lado direito parecia um olho pendente da órbita. Endireitou-o, mas voltou a cair. A única boa notícia era que o pára-choques fora quase completamente arrancado. Langdon deu-lhe um pontapé teve a sensação de que talvez fosse capaz de acabar de parti-lo.

 Enquanto dava pontapés na retorcida peça de metal, recordou a sua primeira conversa com Sophie. O meu avô deixou-me uma mensagem telefónica, dissera-lhe ela. Disse que precisava de contar-me a verdade a respeito da minha família. Na altura, aquilo nada significara para ele, mas agora, sabendo que o Priorado de Sião estava envolvido, sentia que havia ali novas e assustadoras possibilidades a emergir.

 O pára-choques partiu-se subitamente, com um estalo. Langdon fez uma pausa, para recuperar o fôlego. Pelo menos, a carrinha ia deixar de parecer uma peça de fogo-de-artifício. Agarrou o pára-choques e começou a arrastá-lo para o meio das árvores, perguntando a si mesmo o que fazer a seguir. Não tinham ideia de como abrir o criptex, ou por que razão Saunière o confiara à guarda deles. Infelizmente, a sobrevivência de ambos naquela noite dependia de encontrarem respostas para aquelas perguntas.

 Precisamos de ajuda, decidiu Langdon. De um profissional.

 No mundo do Santo Graal e do Priorado de Sião, isto significava apenas um homem. O problema, claro, seria vender a ideia a Sophie.

 

 Dentro da carrinha, enquanto esperava que Langdon regressasse, Sophie sentia o peso da caixa de roseira nas pernas, e isso irritava-a. Porque foi que o meu avô me deu esta coisa? Não tinha a mínima ideia do que fazer com ela.

 Pensa, Sophie! Usa a cabeça. O grand-père está a tentar dizer-te qualquer coisa!

 Abriu a caixa e estudou os anéis do criptex. Uma prova de mérito. Sentia ali a mão do avô. A Chave de Abóbada é um mapa que só os dignos podem seguir. Aquilo era avô de uma ponta à outra.

 Tirou o criptex da caixa e passou os dedos pelos anéis. Cinco letras. Experimentou rodá-los, um a um. O mecanismo moveu-se suavemente.

Acertou os discos de modo que as letras escolhidas ficassem alinhadas entre as duas setas metálicas situadas nas extremidades opostas do criptex. Os anéis formavam agora uma palavra de cinco letras que Sophie sabia ser absurdamente óbvia.

 G-R-A-A-L.

 Com muito cuidado, pegou nos extremos do cilindro e puxou. O criptex não se moveu. Ouviu o vinagre gorgolejar no interior e parou de puxar. Resolveu tentar outra vez.

 V-I-N-C-I.

 Nenhum movimento.

 V-O-U-T-E.

 Nada. O criptex permaneceu solidamente fechado. De testa franzida, Sophie voltou a guardá-lo na caixa de roseira e fechou a tampa. Olhou lá para fora, para Langdon, e sentiu-se grata por ele estar ali naquela noite. P.S. Encontra Langdon. A razão que o avô tivera para o incluir era agora clara. Sophie não estava equipada para compreender as intenções do avô, que, sabendo-o, nomeara Robert Langdon como seu guia. Um tutor para lhe supervisar a educação. Infelizmente para Langdon, acabara por ser muito mais do que um tutor, naquela noite. Tornara-se o alvo de Bezu Fache... e de uma qualquer força invisível decidida a apoderar-se do Santo Graal.

 Seja o lá o Graal o que for.

 Sophie perguntou a si mesma se valeria a pena arriscar a vida para descobri-lo.

 

 Quando a carrinha blindada voltou a arrancar, Langdon verificou, satisfeito, que era agora muito mais fácil de conduzir... e muito mais silenciosa.

 - Sabe o caminho para Versalhes?

 - Porquê, está com vontade de fazer turismo?

 - Não, tenho um plano. Há um historiador de religião que conheço e que vive perto de Versalhes. Não recordo exactamente onde, mas podemos procurar. Fui várias vezes a casa dele. Chama-se Leigh Teabing. É um ex-historiador da British Royal Academy.

 - E vive em Paris?

- A paixão da vida dele é o Graal. Quando começaram a aparecer rumores a respeito da Chave de Abóbada do Priorado, há cerca de quinze anos, mudou-se para França para poder visitar igrejas na esperança de descobri-la. Escreveu vários livros sobre a Chave de Abóbada e o Graal. Talvez possa ajudar-nos a descobrir como se abre isso e o que fazer com o que está lá dentro.

 - Confia nele? - perguntou Sophie, receosa.

 - Confio em que sentido? Em que não nos roubará a informação?

 - E que não nos denunciará à Polícia.

 - Não tenciono dizer-lhe que somos procurados pela Polícia. Estou na esperança de que nos acolha em casa até termos conseguido resolver esta baralhada.

 - Robert, já lhe ocorreu que todas as estações de televisão de França estão provavelmente a preparar-se para divulgar as nossas fotografias? O Bezu Fache sempre soube usar os meios de informação em seu proveito. Vai fazer com que nos seja impossível ir aonde quer que seja sem sermos reconhecidos.

 Formidável, pensou Langdon. A minha estreia na TV francesa vai ser em «Os Mais Procurados de Paris». Pelo menos, Jonas Faukman ia ficar satisfeito; sempre que Langdon aparecia nos noticiários, as vendas dos seus livros davam um pulo.

 - Esse homem é suficientemente seu amigo? - insistiu Sophie.

 Langdon duvidava que Teabing fosse do género de ver televisão, especialmente àquela hora da noite, mas mesmo assim a pergunta merecia ser considerada. O instinto dizia-lhe que podia confiar plenamente em Teabing. Um porto de abrigo ideal. Considerando as circunstâncias, o inglês ia provavelmente fazer o possível e o impossível para ajudá-los. Não só lhe devia um favor, como era um investigador do Graal, e Sophie afirmava que o avô fora o actual Grão-Mestre do Priorado de Sião. Quando Teabing soubesse disso, ia crescer-lhe água na boca à ideia de ajudá-los a desvendar o mistério.

 - O Teabing pode ser um aliado poderoso - respondeu. Dependendo de quanto estivermos dispostos a contar-lhe.

 - O Fache vai provavelmente oferecer uma recompensa monetária.

 Langdon riu-se.

- Acredite, dinheiro é a última coisa de que este sujeito precisa. Leigh Teabing era rico da maneira que os pequenos países são ricos. Descendente do primeiro duque de Lancaster, ganhara o seu dinheiro à maneira antiga: herdando-o. A propriedade que tinha nos arredores de Paris era um palácio do século XVII, com dois lagos privados.

 Langdon conhecera-o vários anos antes, através da BBC. Teabing abordara a cadeia televisiva com a proposta de um comentário histórico em que contaria a explosiva história do Santo Graal a um público de milhões de espectadores. Os produtores tinham adorado a escaldante premissa de Teabing, a pesquisa que levara a cabo e as suas credenciais, mas tinham também receado que um conceito tão chocante e difícil de digerir manchasse a reputação de jornalismo de qualidade de que a estação gozava em todo o mundo. Por sugestão de Teabing, a BBC resolvera os seus problemas de credibilidade pedindo e registando a opinião de três respeitados historiadores de diversas partes do mundo. Todos eles tinham corroborado com as suas próprias pesquisas a espantosa natureza do segredo do Santo Graal.

 Langdon fora um dos escolhidos.

 A BBC levara-o de avião até à propriedade de Teabing em Paris, para as filmagens. Sentara-se diante das câmaras, na opulenta sala de estar, e dissera o que tinha a dizer, admitindo o seu cepticismo inicial ao ouvir pela primeira vez a história alternativa do Santo Graal e descrevendo em seguida como anos de pesquisas o tinham convencido de que ela era de facto verdadeira. Finalmente, contribuíra com uma parte dos resultados das suas próprias pesquisas: uma série de ligações simbológicas que apoiavam de forma inquestionável as aparentemente controversas afirmações.

 Quando o programa fora para o ar na Grã-Bretanha, a despeito das personalidades envolvidas e das provas bem documentadas, a premissa ia de tal modo contra o grão do cristianismo popular que suscitara imediatamente um vendaval de hostilidade. Nunca chegara a ser transmitido nos Estados Unidos, mas as repercussões tinham ecoado através do Atlântico. Pouco depois, Langdon recebera um postal de um velho amigo, o bispo católico de Filadélfia. O postal dizia apenas: tu, Robert?

- Robert, tem a certeza de que podemos confiar nesse homem?

 - Absoluta. Somos colegas, ele não precisa de dinheiro e por acaso até sei que despreza as autoridades francesas. O governo francês cobra-lhe impostos exorbitantes por ele ter comprado um edifício histórico. Não vai ter vontade nenhuma de ajudar o Fache.

 Sophie ficou a olhar em frente, para a negra fita da estrada.

 - Se formos procurá-lo, quanto é que tenciona dizer-lhe?

 Langdon fez um ar despreocupado.

 - Acredite, o Leigh Teabing sabe mais a respeito do Priorado de Sião e do Santo Graal do que qualquer outra pessoa neste mundo.

 Sophie voltou-se para ele.

 - Mais do que o meu avô?

 - Queria dizer mais do que qualquer pessoa fora da irmandade.

 - Como é que sabe que o Teabing não é membro da irmandade?

 - O Teabing tem passado a vida a tentar divulgar a verdade a respeito do Santo Graal. O juramento do Priorado é manter essa verdade secreta.

 - Parece-me que há aí um conflito de interesses.

 Langdon compreendeu a preocupação dela. Jacques Saunière dera o criptex directamente à neta, e embora ela não soubesse o que continha nem o que era suposta fazer com ele, hesitava em envolver um completo desconhecido. Considerando a informação que podia estar ali em causa, tinha provavelmente razão.

 - Não precisamos de falar da Chave de Abóbada ao Teabing logo de entrada. Talvez até nunca. A casa dele proporcionar-nos-á um lugar onde poderemos descansar e pensar, e pode ser que quando lhe falarmos a respeito do Graal, comece a fazer uma ideia da razão por que o seu avô lhe deu o criptex.

 - Nos deu o criptex - emendou ela.

 Langdon sentiu um humilde orgulho e perguntou a si mesmo porque o teria Saunière incluído.

 - Sabe mais ou menos onde vive esse senhor Teabing? - perguntou Sophie.

 - A propriedade chama-se Château Villette.

 Sophie voltou-se para ele, com uma expressão incrédula.

 - O Château Villette?

 - Esse mesmo.

- Tem bons amigos.

 - Conhece a propriedade?

 - Passei por lá. Fica na área dos castelos. A vinte minutos daqui.

 Langdon franziu a testa.

 - Tão longe?

 - Sim, o que lhe dá tempo suficiente para me explicar o que é realmente o Santo Graal.

 Langdon hesitou.

 - Digo-lho em casa do Teabing. Eu e ele especializámo-nos em diferentes áreas da lenda, de modo que, entre os dois, ficará com a imagem completa. - Sorriu. - Além disso, o Graal tem sido a vida dele, e ouvir a teoria do Santo Graal da boca de Leigh Teabing será como ouvir a história da relatividade da boca de Einstein.

 - Esperemos que o Leigh não se importe de receber visitas tardias.

 - Para que conste, é Sir Leigh. - Langdon cometera aquele erro apenas uma vez. - O Teabing é uma personagem e tanto. Foi armado cavaleiro pela rainha, aqui há uns anos, depois de ter escrito uma extensiva história sobre a Casa de York.

 Sophie olhou para ele.

 - Está a brincar, não está? Vamos visitar um cavaleiro? Langdon esboçou um sorriso contrafeito.

 - Andamos na demanda do Graal, Sophie. Quem melhor do que um cavaleiro para nos ajudar?

 

 Château Villette espraiava os seus 75 hectares vinte e cinco minutos a noroeste de Paris, perto de Versalhes. Desenhado por François Mansart, em 1668, para o conde de Aufflay, era um dos mais significativos castelos históricos de Paris. com dois lagos rectangulares e jardins concebidos por Le Nôtre, Château Villette era mais um modesto castelo do que um solar. A propriedade tornara-se carinhosamente conhecida como La Petite Versailles.

 Langdon deteve subitamente a carrinha blindada junto ao início do caminho de acesso, que se estendia por quilómetro e meio. Do outro lado do imponente portão, a residência de Sir Leigh Teabing erguia-se ao longe, no meio de um prado. Na porta, uma tabuleta avisava, em inglês: PROPRIEDADE PRIVADA. PROIBIDA A ENTRADA.

 Como que para proclamar que a sua casa era mais uma ilha britânica, Teabing não se limitara a mandar afixar a tabuleta em inglês. Também instalara o intercomunicador do portão do lado direito da entrada, o lado do passageiro em toda a parte na Europa, excepto em Inglaterra.

 Sophie lançou um olhar de estranheza ao mal situado intercomunicador.

 - E se chega alguém sem passageiro?

 - Não me pergunte. - Langdon já discutira a questão com Teabing. - O nosso homem prefere as coisas como são lá na terra dele.

 - É melhor ser o Robert a falar - disse Sophie, baixando a janela.

 Langdon mudou de posição, inclinou-se pela frente de Sophie para chegar ao botão do intercomunicador. Quando o fez, o perfume dela encheu-lhe as narinas, e apercebeu-se de como estavam próximos. Esperou, naquela incómoda posição, enquanto começava a ouvir-se no pequeno altifalante o sinal de chamada de um telefone.

 Finalmente, o intercomunicador crepitou e uma voz irritada perguntou, em francês:

 - Château Villette. Quem é?

 - Robert Langdon - gritou Langdon, quase deitado no colo de Sophie. - Sou um amigo de Sir Leigh Teabing. Preciso da ajuda dele.

 - Sir Leigh está a dormir. Como eu estava. Qual é a natureza do seu assunto?

 - Privada. De grande interesse para ele.

 - Nesse caso, estou certo de que terá muito prazer em recebê-lo de manhã.

 Langdon mudou o peso do corpo.

 - É muito importante.

 - Também o sono de Sir Leigh. Se é um amigo, sabe com certeza que a saúde dele é frágil.

 Sir Leigh Teabing tivera polio quando criança e usava aparelhos nas pernas e muletas para andar, mas, quando da sua última visita, Langdon achara-o tão vivo e pitoresco que aquilo quase não parecia uma enfermidade.

 - Diga-lhe, por favor, que descobri novas informações a respeito do Graal. Informações que não podem esperar até de manhã.

 Seguiu-se uma longa pausa.

 Langdon e Sophie esperaram, com o motor da carrinha a trabalhar ruidosamente. Passou um  minuto. Finalmente, alguém falou.

 - Meu bom homem, acho que continua a regular-se pela hora de Harvard. - A voz era clara e jovial.

 Langdon sorriu, reconhecendo o cerrado sotaque britânico.

 - Leigh, as minhas desculpas por acordá-lo a esta hora obscena.

 - O meu mordomo diz-me que não só está em Paris, como falou do Graal.

- Achei que isso o arrancaria da cama.

 - E arrancou.

 - Alguma possibilidade de abrir o portão a um velho amigo?

 - Aqueles que procuram a verdade são mais do que amigos, são irmãos.

 Langdon voltou a cara para Sophie e rolou os olhos para cima. Já estava habituado à predilecção de Teabing pelas tiradas dramáticas.

 - Claro que vou abrir o portão - proclamou Teabing -, mas primeiro tenho de confirmar que o seu coração é leal. Um teste à sua honra. Responderá a três perguntas.

 Langdon gemeu, sussurrando a Sophie:

 - Tenha paciência. Como lhe disse, é um tudo nada extravagante.

 - Primeira pergunta - anunciou Teabing, num tom hercúleo.

 - Sirvo-lhe chá ou café?

 Langdon conhecia a opinião de Teabing a respeito da relação dos Americanos com o café, que considerava um estranho fenómeno.

 - Chá. Earl Grey.

 - Excelente. Segunda pergunta. Leite ou açúcar? Langdon hesitou.

 - Leite - murmurou-lhe Sophie ao ouvido. - Acho que os britânicos bebem chá com leite.

 - Leite - disse Langdon. Silêncio.

 - Açúcar?

 Teabing não respondeu.

 Espera! Langdon recordou a beberagem amarga que lhe fora servida quando da sua última visita e compreendeu que a pergunta era um truque.

 - Limão! - gritou. - Earl Grey com limão.

 - Sem dúvida. - Teabing parecia agora muitíssimo divertido.

 - E, finalmente, tenho de fazer a mais grave das perguntas. - Fez uma pausa e prosseguiu, num tom solene -: Em que ano um remador de Harvard bateu pela última vez um homem de Oxford em Henley?

Langdon não fazia ideia, mas só conseguia imaginar uma razão para que a pergunta fosse feita.

 - Certamente uma tal enormidade nunca aconteceu. O portão abriu-se com um estalido.

 - O seu coração é leal, meu amigo. Pode entrar.

 

 - Monsieur Vernet! - O gerente do turno da noite do Banco Depositário de Zurique ficou tremendamente aliviado ao ouvir através do telefone a voz do seu presidente. - Aonde foi, senhor? A Polícia está aqui. Estão todos à sua espera.

 - Tenho um pequeno problema - disse Vernet, num tom de aflição. - Preciso da sua ajuda.

 Tens mais do que um pequeno problema, pensou o gerente. A Polícia cercara completamente o edifício e ameaçava mandar o capitão da DCPJ em pessoa entregar o mandato de busca que o banco exigira. - Em que posso ajudá-lo?

 - A carrinha blindada número três. Preciso de encontrá-la. Intrigado, o gerente consultou o calendário de entregas.

 - Está aqui. Lá em baixo, no cais de carga.

 - Não, não está. A carrinha foi roubada pelos dois indivíduos que a Polícia procura.

 - O quê? Como foi que eles conseguiram sair?

 - Não posso entrar em pormenores pelo telefone, mas temos aqui uma situação que pode ser muito prejudicial para o banco.

 - O que é que quer que faça, senhor?

 - Quero que active o transmissor de emergência da carrinha. Os olhos do gerente voaram para a caixa de comando LoJack, do outro lado da sala. Como muitas viaturas de transporte de valores, todas as carrinhas do banco estavam equipadas com um dispositivo de localização que podia ser activado por controlo remoto, via rádio, a partir da central. O gerente só usara o sistema de emergência uma vez, durante um assalto, e funcionara impecavelmente, localizando a carrinha e transmitindo as coordenadas para as autoridades. Naquela noite, no entanto, o gerente teve a impressão de que o presidente gostaria de um pouco mais de prudência.

 - Está consciente, monsieur, de que se eu activar o sistema LoJack, o transmissor informará simultaneamente as autoridades de que temos um problema.

 Vernet não disse nada durante vários segundos.

 - Sim, eu sei. Faça-o, de todos os modos. Carrinha número três. Eu espero. Quero saber a localização exacta logo que a tiver.

 - Imediatamente, monsieur.

 Trinta segundos mais tarde, a quarenta quilómetros de distância, a luz vermelha de um pequeno emissor-receptor escondido por baixo do chassis da carrinha blindada começou a piscar.

 

 Enquanto a carrinha percorria, por entre duas alas de freixos, o sinuoso caminho até à casa, Sophie sentia os músculos descontraírem-se-lhe. Era um alívio sair da estrada, e não conseguia imaginar muitos lugares mais seguros para repousar um pouco do que aquela grande mansão isolada, propriedade de um bem humorado estrangeiro.

 Entraram na vasta praceta redonda, e Château Villette surgiu-lhes à vista do lado direito. com três pisos e pelo menos sessenta metros de comprimento, o edifício tinha uma fachada de pedra iluminada por holofotes exteriores e erguia-se numa perfeita justaposição aos jardins impecavelmente cuidados e à superfície vítrea dos lagos.

 As luzes interiores estavam a acender-se.

 Em vez de parar diante da porta principal, Langdon estacionou a carrinha no meio de uma área rodeada de árvores.

 - Não vale a pena correr o risco de alguém a ver da estrada explicou a Sophie. - Ou deixar o Teabing a perguntar a si mesmo porque diabo chegamos a casa dele numa carrinha blindada meio destruída.

 Sophie assentiu.

 - O que é que fazemos com o criptex? Provavelmente não devíamos deixá-lo aqui, mas se o Leigh o vê, vai com certeza querer saber o que é.

 - Não se preocupe - disse Langdon, despindo o casaco enquanto se apeava da carrinha. Enrolou-o à volta da caixa de madeira e segurou o embrulho nos braços, como se fosse um bebé.

Sophie fez um ar de dúvida.

 - Muito subtil - comentou.

 - O Teabing nunca recebe ninguém à porta; prefere fazer uma entrada teatral. Hei-de descobrir um sítio onde esconder isto antes de ele se nos juntar. - Fez uma pausa. - Suponho que talvez seja melhor avisá-la antes de o conhecer. Sir Leigh tem um sentido de humor que as pessoas acham com frequência um pouco... estranho.

 Sophie duvidou que qualquer outra coisa que acontecesse naquela noite pudesse ainda parecer-lhe estranha.

 O caminho de acesso à entrada principal era pavimentado a pedra, descrevendo uma curva até à grande porta de carvalho e cerejeira lavrados, dotada de uma aldraba de bronze do tamanho de uma toranja. Antes que Sophie pudesse levantar a aldraba, a porta foi aberta do interior.

 Diante deles estava um afectado e elegante mordomo, a fazer os ajustes finais à gravata branca e ao smoking que aparentemente acabava de vestir. Devia ter cerca de cinquenta anos, com feições refinadas e uma expressão austera que deixava bem claro que não achava minimamente divertida a presença deles naquela casa.

 - Sir Leigh desce dentro de momentos - anunciou, num inglês cuidadosamente carregado de sotaque francês. - Está a vestir-se. Prefere não receber as visitas de camisa de noite. Quer dar-me o seu casaco? - acrescentou, franzindo a testa ao embrulho que Langdon transportava nos braços.

 - Não, obrigado. Estou bem assim.

 - Com certeza. Por aqui, por favor.

 Conduziu-os, atravessando o luxuoso vestíbulo de mármore, até uma sala de estar elegantemente decorada, banhada na luz suave de candeeiros vitorianos com abat-jours franjados. O ar ali dentro tinha um cheiro antediluviano, quase a realeza, com sugestões de tabaco de cachimbo, folhas de chá, xerez e alvenaria. Na parede mais distante, flanqueada por duas refulgentes armaduras de cota de malha, abria-se uma lareira de pedra suficientemente grande para assar um boi. Dirigindo-se à lareira, o mordomo ajoelhou e chegou um fósforo ao  monte já preparado de toros de carvalho e acendalhas. Instantes depois, o lume crepitava.

 O homem pôs-se de pé, endireitando o casaco.

 - Sua Senhoria deseja que se instalem à vossa vontade. - E com esta saiu, deixando Sophie e Langdon sozinhos.

Sophie hesitou, sem saber em qual das antiguidades colocadas em frente da lareira devia sentar-se: o sofá renascença de veludo, a cadeira de balouço rústica ou o par de bancos de pedra que pareciam ter sido tirados de um qualquer templo bizantino.

 Langdon tirou a caixa do criptex de dentro do casaco, aproximou-se do divã de veludo e enfiou-a debaixo dele, o mais fundo que pôde, bem fora das vistas. Em seguida, sacudiu o casaco, voltou a vesti-lo, alisou as lapelas e sorriu a Sophie enquanto se sentava directamente por cima do tesouro escondido.

 O divã, decidiu Sophie, e sentou-se ao lado dele. Enquanto olhava para o lume que ia crescendo, a saborear-lhe o calor, Sophie teve a sensação de que o avô teria adorado aquela sala. As paredes forradas a madeira escura estavam cobertas de quadros dos Velhos Mestres, um dos quais reconheceu como sendo um Poussin, o segundo pintor preferido do avô. Na consola por cima da lareira, um busto de ísis, de alabastro, vigiava a sala.

 Por baixo da deusa egípcia, dentro da lareira, duas gárgulas de pedra serviam de suportes à grade, as goelas escancaradas para revelar as fauces ameaçadoras. Sophie sempre tivera um medo pavoroso de gárgulas, quando era criança. Até que o avô a curara do medo levando-a ao telhado da catedral de Notre Dame num dia de tempestade. «Princesa, olha para estas tolas criaturas», dissera-lhe, apontando para as gárgulas-algerozes de cujas bocas jorrava água. «Ouves aquele barulhinho engraçado que fazem com a garganta?» Sophie assentira, obrigada a sorrir ao som da água a gorgolejar nas gargantas de pedra. «Estão a gargarejar», explicara o avô. «Gargariser. É por isso que lhes chamam gárgulas.» E Sophie nunca mais voltara a ter medo.

 A doce recordação provocou-lhe uma pontada de tristeza e a brutal realidade do assassínio apoderou-se uma vez mais dela. O grand-père morreu. Imaginou o criptex debaixo do divã e perguntou a si mesma se Leigh Teabing faria alguma ideia de como abri-lo. Ou se devemos sequer perguntar-lhe. As últimas palavras do avô tinham sido para dizer-lhe que encontrasse Robert Langdon. Não dissera nada a respeito de envolver mais quem quer que fosse. Precisávamos de um sítio onde nos escondermos, pensou, decidindo confiar no julgamento de Langdon.

 - Sir Robert! - trovejou uma voz algures atrás deles. - Vejo que viaja com uma jovem.

Langdon pôs-se de pé. Sophie levantou-se de um salto. A voz viera do topo da escada que subia em curva e desaparecia nas trevas do piso superior. Lá em cima, uma sombra moveu-se, mais densa do que as outras, apenas uma silhueta.

 - Boa noite, Sir Leigh - respondeu Langdon. - Permita que lhe apresente Sophie Neveu.

 - Uma honra. - Teabing avançou para a luz.

 - Obrigada por nos ter recebido - disse Sophie, reparando que o homem usava braçadeiras metálicas nas pernas e muletas. Descia a escada degrau a degrau. - Bem sei que é muito tarde.

 - Tão tarde, minha querida, que é cedo. - Sir Leigh riu-se. - Vous n’êtes pas américaine?

Sophie abanou a cabeça.

 - Parisienne.

 - O seu inglês é excelente.

 - Obrigada. Estudei no Royal Holloway.

 - Ah, está então explicado. - Teabing continuava a descer a escada. - Talvez o Robert lhe tenha dito que eu fiz os meus estudos um pouco mais abaixo, em Oxford. - Cravou em Langdon um olhar malicioso. - Claro que também me candidatei a Harvard, como segunda escolha.

 Tinha finalmente chegado ao fundo da escada, e Sophie achou que parecia tanto um cavaleiro como Sir Elton John. Gorducho e rubicundo, Sir Leigh Teabing tinha cabelos ruivos e uns joviais olhos cor de avelã que pareciam cintilar quando ele falava. Vestia umas calças pregueadas e uma ampla camisa de seda por baixo de um casaco de malha. Apesar das braçadeiras metálicas nas pernas, toda a sua postura revelava uma inquebrantável dignidade que parecia ser mais o subproduto de uma nobre ancestralidade do que o resultado de um esforço consciente.

 Aproximou-se dos dois e estendeu a mão a Langdon.

 - Robert, perdeu peso.

 - E o meu amigo, em contrapartida, encontrou algum. Teabing riu com gosto, dando uma palmada no rotundo ventre.

 - Touché. Os meus únicos prazeres carnais, hoje em dia, parecem ser culinários. - Voltando-se então para Sophie, pegou-lhe gentilmente na mão e inclinou ao de leve a cabeça, respirando-lhe para os dedos e baixando os olhos. - M’lady.

Sophie olhou para Langdon, sem saber muito bem se tinha recuado no tempo ou entrado numa casa de loucos.

 O mordomo que abrira a porta voltou a aparecer, transportando um serviço de chá que dispôs na mesa diante da lareira.

 - Este é o Rémy Legaludec - disse Teabing. - O meu mordomo.

 O esguio mordomo baixou rigidamente a cabeça e retirou-se.

 - O Rémy é de Lyon - murmurou Teabing, como se isso fosse uma infeliz doença. - Mas faz uns molhos muito decentes.

 Langdon parecia divertido.

 - Sempre julguei que importaria pessoal inglês.

 - Santo Deus, não! Não desejaria um chef inglês a ninguém, excepto aos cobradores de impostos franceses. - Lançou um olhar a Sophie. - Pardonnez-moi, mademoiselle Neveu. Asseguro-lhe que a minha aversão às coisas francesas se estende exclusivamente aos políticos e à selecção de futebol. O seu governo rouba-me o meu dinheiro e a vossa selecção nacional ainda recentemente humilhou a nossa.

 Sophie respondeu com um sorriso amável.

 Teabing observou-a por instante e então voltou-se para Langdon.

- Aconteceu qualquer coisa. Estão ambos com um ar abalado.

Langdon assentiu.

 - Tem sido uma noite interessante, Leigh.

 - Não duvido. Batem-me à porta sem se fazerem anunciar a meio da noite e falam do Graal. Diga-me, trata-se realmente do Graal, ou só o disse por saber que esse é o único assunto capaz de fazer-me sair da cama em plena madrugada?

 Um pouco de ambas as coisas, pensou Sophie, lembrando-se do criptex escondido debaixo do divã.

 - Leigh - começou Langdon -, gostávamos de falar consigo a respeito do Priorado de Sião.

 As hirsutas sobrancelhas de Teabing arquearam-se numa expressão intrigada.

 - Os guardadores. Então sempre tem a ver com o Graal. Diz que descobriu informações? Alguma coisa de novo, Robert?

 - Talvez. Não temos a certeza. Poderíamos ficar com uma ideia mais clara se primeiro nos desse alguma informação.

Teabing agitou o indicador estendido.

 - Sempre o mesmo americano espertalhão. Um jogo de toma-lá-dá-cá. Muito bem. Estou à vossa disposição. O que é que posso dizer-lhes?

 Langdon suspirou.

 - Estava na esperança de que pudesse explicar à menina Neveu a verdadeira natureza do Santo Graal.

 Teabing pareceu espantado.

 - Ela não sabe?

 Langdon abanou a cabeça.

 O sorriso que se espalhou pela cara de Leigh Teabing foi quase obsceno.

 - Robert, trouxe-me uma virgem?

 Langdon fez uma careta, olhando para Sophie.

 - Virgem é o termo que os entusiastas do Graal usam para descrever alguém que nunca tenha ouvido a história verdadeira.

 Teabing voltou-se gulosamente para Sophie.

 - Diga-me o que já sabe, minha querida.

 Rapidamente, Sophie esboçou o que Langdon lhe contara pouco antes: o Priorado de Sião, os Cavaleiros do Templo, os documentos Sangreal e o Santo Graal, que muitos afirmavam não ser uma taça... e sim qualquer coisa muito mais poderosa.

 - Só isso? - Teabing lançou a Langdon um olhar escandalizado. - Robert, pensei que fosse um cavalheiro. Privou-a do clímax!

 - Eu sei. Pensei que talvez os dois pudéssemos... - Langdon calou-se, tendo aparentemente decidido que a indecorosa metáfora já fora longe de mais.

 Teabing já tinha Sophie presa no seu refulgente olhar.

 - É uma virgem do Graal, minha querida. E, pode crer, nunca mais vai esquecer a sua primeira vez.

 

 Sentada no divã ao lado de Langdon, Sophie bebia o seu chá e comia um scone, sentindo os efeitos benéficos da cafeína e do alimento. Sir Leigh Teabing sorria enquanto passeava desajeitadamente de um lado para o outro diante da lareira, fazendo tilintar as braçadeiras metálicas sempre que passava por cima do rebordo protector de pedra.

 - O Santo Graal - disse Teabing, num tom que se tornara professoral. - A maior parte das pessoas só me pergunta onde é que ele está. Receio bem que se trate de uma pergunta a que talvez nunca saiba responder. - Voltou-se e olhou directamente para Sophie.

 - No entanto... a pergunta muitíssimo mais relevante é a seguinte: o que é o Santo Graal?

Sophie sentiu um ar de excitação académica a crescer nos dois homens.

 - Para compreender plenamente o Graal - continuou Teabing -, temos primeiro de compreender a Bíblia. Conhece bem o Novo Testamento?

 Sophie encolheu os ombros.

 - Não conheço de todo. Fui criada por um homem que venerava Leonardo da Vinci.

 Teabing pareceu simultaneamente estupefacto e contente.

 - Uma alma iluminada. Soberbo! Nesse caso, deve saber que Leonardo era um dos guardiães do segredo do Santo Graal. E que escondeu pistas na sua arte.

 - O Robert falou-me disso, sim.

 - E as opiniões de da Vinci sobre o Novo Testamento?

- Não faço ideia.

 Teabing tinha um sorriso de alegria nos olhos quando apontou a estante do outro lado da sala.

 - Robert, importa-se? Na prateleira de baixo. La Storia di Leonardo.

 Langdon atravessou a sala, tirou da estante um grande livro de arte, voltou para trás e pousou-o em cima da pequena mesa entre os dois. Fazendo rodar o livro de modo a colocá-lo de frente para Sophie, Teabing levantou a capa e apontou para uma série de citações escritas na guarda.

 - Do livro de notas de da Vinci sobre especulações e polémicas - disse, indicando uma citação em especial. - Julgo que vai achar esta relevante para a nossa discussão.

 Sophie leu as palavras.

 

 “Muitos fizeram das ilusões e dos falsos milagres o seu ofício, enganando a estúpida multidão”. - LEONARDO DA VINCI

 

 - Aqui tem outra - continuou Teabing, indicando uma citação diferente.

 

“A cega ignorância é que nos engana. Ó míseros mortais, abri os olhos!” - LEONARDO DA VINCI

 

 Sophie sentiu um pequeno arrepio.

 - Da Vinci está a falar da Bíblia?

 Teabing assentiu.

 - Os sentimentos de Leonardo quanto à Bíblia estão directamente relacionados com o Santo Graal. Na realidade, Leonardo pintou o verdadeiro Graal, que lhe vou mostrar dentro de momentos, mas primeiro temos de falar sobre a Bíblia. - Sorriu. - E tudo o que precisa de saber a respeito da Bíblia pode resumir-se ao que disse o grande doutor canónico Martyn Percy: «A Bíblia não foi enviada do céu por fax.»

- Desculpe?

- A Bíblia é um produto do homem, minha querida, não de Deus. Não caiu magicamente das nuvens. O homem criou-a como um registo histórico de tempos tumultuosos, e tem evoluído ao longo de inúmeras traduções, adições e revisões. A História nunca conheceu uma versão definitiva do livro.

 - Okay.

 - Jesus Cristo foi uma figura histórica tremendamente influente, talvez o líder mais enigmático e inspirador que o mundo alguma vez viu. Como o profetizado Messias, Jesus derrubou reis, inspirou milhões de pessoas e fundou novas filosofias. Como descendente das linhagens de Salomão e de David, tinha o direito legítimo de reclamar o título de rei dos Judeus. Compreensivelmente, a Sua vida foi registada por milhares de seguidores em todo o mundo. - Teabing fez uma pausa para beber um gole de chá e em seguida pousou a chávena na consola da lareira. - Foram considerados mais de oitenta evangelhos para o Novo Testamento, e no entanto, apenas uns poucos acabaram por ser escolhidos... entre eles os de Mateus, Marcos, Lucas e João.

 - Quem escolheu que evangelhos incluir? - perguntou Sophie.

 - Aaah! - exclamou Teabing, com incontível entusiasmo. - A ironia fundamental do cristianismo! A Bíblia, tal como hoje a conhecemos, foi coligida por um pagão, o imperador romano Constantino, o Grande.

 - Julgava que Constantino era cristão - disse Sophie.

 - Nem pouco mais ou menos - troçou Teabing. - Foi pagão toda a vida, baptizado no leito de morte quando já estava demasiado fraco para protestar. No tempo de Constantino, a religião oficial de Roma era o culto do Sol... o culto do Sol Invictus, de que Constantino era o sumo sacerdote. Infelizmente para ele, um crescente turbilhão religioso estava a apoderar-se de Roma. Três séculos depois da crucifixão de Jesus Cristo, os seus seguidores tinham-se multiplicado exponencialmente. Cristãos e pagãos começaram a guerrear-se, e o conflito atingiu proporções tais que ameaçava dividir Roma em duas. Constantino decidiu que era preciso fazer qualquer coisa. Em 325 d. C. resolveu unificar o império sob uma única religião: o cristianismo.

 Sophie parecia espantada.

 - Porque haveria um imperador pagão de escolher o Cristianismo como religião de Estado?

Teabing soltou um risinho.

 - Constantino era um excelente homem de negócios. Percebeu que o Cristianismo estava em ascensão, e limitou-se a apostar no cavalo vencedor. Ainda hoje os historiadores ficam maravilhados com a forma brilhante como converteu os adoradores do Sol pagãos ao cristianismo. Fundindo símbolos, datas e rituais pagãos com a crescente tradição cristã, criou uma espécie de religião híbrida que era aceitável para ambas as partes.

 - Uma adulteração grotesca - interveio Langdon. - Os vestígios da religião pagã na simbologia cristã são inegáveis. Os discos solares egípcios tornaram-se os halos dos santos católicos. Pictogramas de Ísis a cuidar do seu miraculosamente concebido filho Hórus tornaram-se o modelo das nossas modernas imagens da Virgem com o Menino. E praticamente todos os elementos do ritual católico... a mitra, o altar, a doxologia e a comunhão, o acto de «comer Deus»... foram directamente tirados de religiões pagãs anteriores.

 Teabing gemeu.

 - Nunca deixe um simbologista começar a falar de ícones cristãos. No cristianismo, nada é original. O deus pré-cristão Mitra... chamado Filho do Sol e Luz do Mundo... nasceu a vinte e cinco de Dezembro, morreu, foi sepultado num túmulo de rocha e ressuscitou três dias mais tarde. A propósito, 25 de Dezembro é também o dia de aniversário de Osíris, de Adónis e de Dionísio. O recém-nascido Krishna foi presenteado com ouro, incenso e mirra. Até o dia santo semanal do cristianismo foi roubado aos pagãos.

 - Como?

 - Originariamente - interveio novamente Langdon -, o cristianismo honrava o Sabat judeu, ao sábado, mas Constantino mudou-o de modo a coincidir com o dia da veneração do Sol dos pagãos. - Fez uma pausa, sorrindo. - Ainda hoje, a maior parte das pessoas que vão à missa ao domingo de manhã não sabe que está ali por causa do tributo semanal dos pagãos ao deus-Sol.

 Sophie sentia a cabeça a andar à roda.

 - E tudo isso tem a ver com o Graal?

 - Com certeza - declarou Teabing. - Continuemos. Durante esta fusão de religiões, Constantino, que precisava da força da nova tradição cristã, convocou a famosa reunião ecuménica conhecida como Concílio de Niceia.

Sophie ouvira falar de Niceia apenas como tendo sido o lugar onde nascera o Credo Niceno.

 - Nessa reunião - prosseguiu Teabing -, foram discutidos e votados muitos aspectos do cristianismo: a data da Páscoa, o papel dos bispos, a administração dos sacramentos e, claro, a divindade de Jesus.

 - Não estou a perceber. A divindade de Jesus?

 - Minha querida - disse Teabing -, até àquele momento da História, Jesus tinha sido visto pelos seus seguidores como um profeta mortal... um grande homem, e poderoso, mas apesar de tudo um homem. Um mortal.

 - Não como o Filho de Deus?

 - Exactamente. O estabelecimento de Jesus como «Filho de Deus» foi oficialmente proposto e votado no Concílio de Niceia.

 - Espere um momento. Está a dizer-me que a divindade de Jesus resultou de uma votação?

 - E bastante renhida, por sinal - respondeu Teabing. - Em todo o caso, estabelecer a divindade de Jesus era crucial para a unificação do Império Romano e para a base de poder do novo Vaticano. Ao avalizar oficialmente Jesus como Filho de Deus, Constantino estava a transformá-lo numa divindade que existia para lá do âmbito do mundo humano, uma entidade cujo poder era indiscutível. O que não só prevenia futuros desafios pagãos ao cristianismo, como estabelecia que os seguidores de Cristo passavam a só poder redimir-se através do canal sagrado acabado de criar: a Igreja Católica Romana.

 Sophie olhou para Langdon, que lhe fez um ligeiríssimo aceno de concordância.

 - Era tudo uma questão de poder - continuou Teabing. Cristo como Messias era essencial ao funcionamento da Igreja e do Estado. Muitos estudiosos afirmam que a Igreja primitiva o roubou literalmente aos seus seguidores originais, apoderando-se da sua mensagem humana, envolvendo-a num impenetrável manto de divindade e usando-a para expandir o seu próprio poder. Escrevi vários livros sobre o tema.

 - E suponho que todos os dias os cristãos devotos lhe enviam cartas a insultá-lo?

- Porque haveriam de o fazer? - surpreendeu-se Teabing. A maior parte dos cristãos instruídos conhece a história da sua fé. Jesus foi sem dúvida um grande homem. As manobras de baixa política de Constantino em nada diminuem a majestade da vida de Cristo. Ninguém está a dizer que Jesus foi um trapaceiro, ou a negar que viveu neste mundo e inspirou milhões de pessoas a terem uma vida melhor. Tudo o que dizemos é que Constantino se aproveitou das suas substanciais influência e importância. E, ao fazê-lo, modelou a face do cristianismo tal como hoje o conhecemos.

 Sophie olhou para o livro de arte que tinha à sua frente, ansiosa por ir adiante e ver o quadro de da Vinci do Santo Graal.

 - O busílis da questão é o seguinte - disse Teabing, falando agora mais depressa. - Uma vez que Constantino «promoveu» Cristo a divindade quase quatro séculos depois de ele ter morrido, havia já milhares de documentos que relatavam a sua vida como um homem mortal. Constantino sabia que, para reescrever os livros de História, precisava de um golpe de ousadia. Foi daqui que nasceu o momento mais profundo da história do Cristianismo. - Fez uma pausa, estudando o rosto de Sophie. - Constantino encomendou e financiou uma nova Bíblia, que omitia os evangelhos que falavam das características humanas de Cristo e dava destaque aos que faziam dele um deus. Os evangelhos mais antigos foram banidos, arrebanhados e queimados.

 - Uma nota interessante - acrescentou Langdon. - Quem continuasse a preferir os evangelhos proibidos à versão de Constantino era declarado herético. A palavra herético nasceu nessa altura. O termo latino hariticus significa «escolha». Os que «escolheram» a história original de Cristo foram os primeiros heréticos do mundo.

 - Felizmente para os historiadores - encadeou Teabing -, alguns dos evangelhos que Constantino tentou erradicar conseguiram sobreviver. Os Manuscritos do Mar Morto foram encontrados, nos anos 50, numa gruta escondida perto de Qumran, no deserto da Judeia. E, claro, os Manuscritos Coptas, em 1945, em Nag Hammadi. Além de contarem a verdadeira história do Graal, estes documentos falam do ministério de Cristo em termos muito humanos, claro que o Vaticano, fiel à sua tradição de desinformação, fez tudo o que pôde para evitar a divulgação desses textos. E porque não o faria? Os manuscritos denunciam gritantes discrepâncias e mentiras históricas, demonstrando claramente que a Bíblia moderna foi compilada por indivíduos que tinham um objectivo político: promover a divindade do homem Jesus Cristo e usar a influência dele para reforçar a sua própria base de poder.

 - Em todo o caso - interpôs Langdon -, é importante ter presente que o desejo da Igreja moderna de suprimir estes documentos decorre de uma crença sincera na visão que tem de Cristo. O Vaticano é constituído por homens muito piedosos que acreditam verdadeiramente que estes documentos contrários só podem ser falsos testemunhos.

 Teabing riu-se e instalou-se numa cadeira em frente de Sophie.

 - Como vê, o nosso professor é muito mais compreensivo do que eu no que respeita a Roma. Seja como for, tem razão quando afirma que o clero moderno está convencido da falsidade destes documentos. O que é compreensível. A Bíblia de Constantino foi a verdade deles durante séculos. Ninguém está mais doutrinado do que o doutrinador.

 - O que ele quer dizer - esclareceu Langdon - é que veneramos os deuses dos nossos pais.

 - O que eu quero dizer - contrapôs Teabing - é que quase tudo o que os nossos pais nos ensinaram a respeito de Cristo é falso. Como falsas são as histórias a respeito do Santo Graal.

Sophie voltou a olhar para a citação de Leonardo da Vinci que tinha à sua frente. A cega ignorância é que nos engana. Ó míseros mortais, abri os olhos!

 Teabing pegou no livro e folheou-o mais para a frente.

 - E finalmente, antes de lhe mostrar as pinturas do Santo Graal de da Vinci, gostaria que desse uma vista de olhos a isto. Abriu o livro numa colorida ilustração que ocupava duas páginas contíguas. - Assumo que reconhece este fresco?

 Deve estar a brincar! Sophie estava a olhar para o mais famoso fresco de todos os tempos, A Última Ceia, a lendária pintura que da Vinci executara na parede de Santa Maria delle Grazie, perto de Milão. O fresco, muito degradado, representa Jesus e os discípulos no momento em que o primeiro anuncia que um deles o vai trair.

  - Conheço o fresco, sim.

  - Nesse caso, talvez me permita um pequeno jogo. Importa-se de fechar os olhos?

  Insegura, Sophie fechou os olhos.

- Onde está Jesus sentado? - perguntou Teabing.

 - No meio.

 - Muito bem. E que alimento estão ele e os discípulos a partir e comer?

 - Pão. - Obviamente.

 - Óptimo. E o que é que estão a beber?

 - Vinho. Estão a beber vinho.

 - Excelente. Uma última pergunta. Quantos copos de vinho há em cima da mesa?

 Sophie hesitou, apercebendo-se de que era uma pergunta armadilhada. E depois da ceia, Jesus pegou na taça de vinho, partilhando-a com os Seus discípulos.

 - Uma taça - disse. - O cálice. - A Taça de Cristo. O Santo Graal. - Jesus passou à volta da mesa um único cálice de vinho, como os cristãos modernos fazem na comunhão.

 Teabing suspirou.

 - Abra os olhos.

 Ela assim fez. Teabing estava a sorrir, com um ar satisfeito. Sophie olhou para a ilustração e viu, para seu grande espanto, que todos os convivas sentados à mesa tinham um copo de vinho, incluindo Cristo. Treze copos. Além disso, os copos eram de vidro, pequenos e sem pé. Não havia qualquer cálice no quadro. Nenhum Santo Graal.

 Os olhos de Teabing cintilaram.

 - Um pouco estranho, não lhe parece, considerando que tanto a Bíblia como a lenda padrão do Graal celebram este momento como o do aparecimento definitivo do Santo Graal. Estranhamente, da Vinci parece ter-se esquecido de pintar a Taça de Cristo.

 - Com toda a certeza os estudiosos de arte devem tê-lo notado.

 - Ficaria chocada se soubesse que anomalias da Vinci incluiu nesta pintura e que a maior parte dos estudiosos não vê ou prefere simplesmente ignorar. Este fresco é, na realidade, a chave para o mistério do Santo Graal. Da Vinci põe tudo a descoberto em A Ultima Ceia.

 Sophie examinou ansiosamente a ilustração.

 - Este fresco diz-nos o que o Graal realmente é?

 - Não o que é - sussurrou Teabing -, mas antes quem é. O Santo Graal não é uma coisa. É, na realidade... uma pessoa.

 

 Sophie ficou a olhar para Teabing por um longo instante, e então voltou-se para Langdon.

 - O Santo Graal é uma pessoa?

 Langdon assentiu.

 - Uma mulher, para ser mais exacto.

 Pela expressão vazia do rosto de Sophie, Langdon percebeu que a tinham perdido. Lembrou-se de ter tido uma reacção semelhante da primeira vez que ouvira a afirmação. Fora só depois de compreender a simbologia por detrás do Graal que a ligação feminina se tornara clara.

 Teabing estava, aparentemente, a pensar algo na mesma linha.

 - Robert - disse - talvez seja a altura de o simbologista esclarecer? - Dirigiu-se a uma pequena mesa e regressou com uma folha de papel que pousou à frente de Langdon.

 Langdon tirou uma caneta do bolso do casaco.

 - Conhece, claro, os símbolos modernos para masculino e feminino? – começou.

 - Claro - disse Sophie.

 - Estes - continuou ele, calmamente - não são os símbolos originais de masculino e feminino. Muitas pessoas assumem erradamente que o símbolo masculino deriva de um escudo e uma lança, enquanto o feminino representa um espelho a reflectir a beleza. Na realidade, derivam dos antigos símbolos astronómicos do deus-planeta Marte e da deusa-planeta Vénus. Os símbolos originais são muito mais simples. - Langdon traçou outro desenho no papel.

- Este é o ícone original de masculino - explicou. - Um falo rudimentar.

 - Muito apropriado - comentou Sophie.

 - Sem dúvida - acrescentou Teabing.

 - Este ícone é formalmente conhecido como a lâmina, e representa agressão e virilidade. Na realidade, este mesmíssimo símbolo fálico continua hoje a ser usado nos uniformes militares como indicação do posto.

 - É verdade. - Teabing sorriu - Quantos mais pénis um fulano tem, mais alto é o seu posto. Coisas de rapazes.

 Langdon fez uma careta.

 - Continuando, o símbolo feminino, como imagina, é o exacto oposto. - Fez outro desenho no papel. - A este chama-se o cálice.

 Sophie ergueu os olhos, parecendo surpreendida. Langdon viu que ela tinha feito a ligação.

 - O cálice - disse - assemelha-se a uma taça, ou vaso, e, mais importante ainda, evoca a forma do útero da mulher. Este símbolo transmite feminidade e fertilidade. - Olhou directamente para ela. - Sophie, a lenda diz-nos que o Santo Graal é um cálice... uma taça. Mas descrevê-lo como um cálice é na realidade uma alegoria destinada a proteger a sua verdadeira natureza. Ou seja, a lenda usa o cálice como uma metáfora para algo muito mais importante.

 - Uma mulher - disse Sophie.

 - Exactamente. - Langdon sorriu. - O Graal é literalmente o antigo símbolo da feminidade e o Santo Graal representa o sagrado feminino e a deusa, hoje perdidos, praticamente eliminados pela Igreja. O poder da fêmea e a sua capacidade de produzir vida eram outrora muito sagrados, mas representavam uma ameaça à ascensão de uma Igreja predominantemente masculina, e por isso o sagrado feminino foi demonizado e declarado impuro. Foi o homem, e não Deus, que criou o conceito do «pecado original», em que Eva prova a maçã e provoca a queda da raça humana. A mulher, em tempos a criadora de vida, passava a ser a inimiga.

 - Devo acrescentar - acrescentou Teabing - que este conceito da mulher como criadora de vida era o alicerce da antiga religião. O parto era místico e poderoso. Infelizmente, a filosofia cristã decidiu defraudar o poder criativo da fêmea ignorando a verdade biológica e fazendo do homem o Criador. O Génesis diz-nos que Eva foi feita a partir de uma costela de Adão. A mulher tornou-se um rebento do homem. E um rebento pecaminoso, ainda por cima. O Génesis foi o começo do fim para a deusa.

 - O Graal - engrenou Langdon - é simbólico da deusa perdida. Quando o Cristianismo apareceu, as antigas religiões pagãs não morreram facilmente. As lendas sobre demandas cavalheirescas do Graal perdido eram de facto histórias de demandas proibidas do sagrado feminino perdido. Os cavaleiros que afirmavam «procurar o cálice» falavam em código como uma forma de se protegerem contra uma Igreja que subjugara as mulheres, banira a Deusa, queimara os incréus e proibira a reverência pagã pelo sagrado feminino.

 Sophie abanou a cabeça.

 - Peço desculpa. Quando disseram que o Santo Graal é uma pessoa, pensei que fosse uma pessoa de carne e osso.

 - E é - disse Langdon.

 - E não uma pessoa qualquer - interpôs Teabing, pondo-se excitadamente de pé. - Uma mulher que transportava consigo um segredo tão poderoso que, se revelado, ameaçava arrasar os próprios alicerces do Cristianismo!

 Sophie parecia esmagada.

 - Uma mulher historicamente bem conhecida? - perguntou.

 - Muito. - Teabing pegou nas muletas e apontou na direcção do corredor. - E se quiserem acompanhar-me ao estúdio, meus amigos, terei a honra de mostrar-lhes o retrato que da Vinci fez dela.

 

A duas salas de distância, na cozinha, Rémy Legaludec, o mordomo, mantinha-se de pé e em silêncio diante de um televisor. O noticiário mostrava as fotografias de um homem e de uma mulher... os mesmíssimos dois indivíduos a quem acabava de servir chá.

 

 Junto à barricada que vedava a saída do Banco Depositário de Zurique, o tenente Collet perguntava a si mesmo porque diabo estaria o capitão Fache a demorar tanto tempo a conseguir um mandato de busca. Era evidente que os banqueiros escondiam qualquer coisa. Afirmavam que Langdon e Neveu tinham de facto estado no banco mas que lhes fora recusada a entrada por não possuírem a necessária identificação de conta.

 Então por que é que não nos deixam entrar e dar uma vista de olhos?

 Finalmente, o telefone do tenente tocou. Era o posto de comando, ainda situado no Louvre.

 - Já temos o mandato de busca? - perguntou Collet.

 - Esqueça o banco, tenente - disse-lhe o agente. - Acabamos de receber uma informação. Sabemos o lugar exacto onde o Langdon e a Neveu estão escondidos.

 Collet sentou-se com força no capô do carro.

 - Está a brincar.

 - Tenho uma morada nos subúrbios. Algures perto de Versalhes.

 - O capitão Fache já sabe?

 - Ainda não. Está ocupado com uma chamada importante.

 - Vou a caminho. Ele que me ligue logo que estiver despachado. - Collet tomou nota da morada e saltou para dentro do carro. Enquanto se afastava do banco com os pneus a guinchar, apercebeu-se de que se esquecera de perguntar quem informara a DCPJ sobre a localização de Langdon. Não que fizesse qualquer diferença. Tinha agora uma oportunidade de redimir-se do seu cepticismo e anteriores erros. Estava à beira de fazer a detenção mais espectacular da sua carreira.

 Contactou pelo rádio os cinco carros que o seguiam.

 - Nada de sereias. Não quero que o Langdon saiba que estamos a chegar.

 

 A quarenta quilómetros dali, um Audi preto saiu da estrada rural e parou no meio da escuridão à beira de um campo. Silas apeou-se e espreitou por entre as barras de ferro forjado do gradeamento que cercava a vasta propriedade. Viu, ao longe, a mansão que se erguia no topo da suave vertente banhada pelo luar.

 Todas as luzes do piso térreo estavam acesas. Estranho para esta hora, pensou Silas, sorrindo. A informação que o Professor lhe dera estava evidentemente correcta. Não sairei desta casa sem a Chave de Abóbada, jurou a si mesmo. Não deixarei ficar mal o bispo e o Professor.

 Depois de verificar o carregador de treze tiros da sua Heckler and Koch, fez passar a arma por entre as grades e deixou-a cair no solo coberto de musgo do outro lado. Então, agarrando-se com as duas mãos ao topo dos varões de ferro, içou-se a pulso, passou por cima do gradeamento e saltou para o chão. Ignorando a dor excruciante do cilício, recuperou a arma e iniciou a longa caminhada em direcção à casa.

 

 O «estúdio» de Teabing era diferente de qualquer outro que Sophie tivesse visto. Seis ou sete vezes mais amplo do que o mais luxuoso dos escritórios, o cabinet de travail de Sir Leigh parecia um desgracioso híbrido de laboratório científico, biblioteca, arquivo e feira da ladra interior. Iluminado por três lustres suspensos, o vasto chão de tijoleira mostrava-se salpicado de ilhas dispersas de mesas de trabalho vergadas ao peso de livros, obras de arte, artefactos e uma surpreendente quantidade de aparelhagem electrónica: computadores, projectores, microscópios, fotocopiadoras e scanners planos.

 - Transformei o salão de baile - explicou Teabing, com um ar embaraçado, quando entraram na sala. - Não tenho assim muitas oportunidades de dançar.

 Sophie sentiu como se toda aquela noite fosse uma espécie de quinta dimensão onde nada era o que ela esperava.

 - Tudo isto é para o seu trabalho?

 - Descobrir a verdade tornou-se a paixão da minha vida respondeu Teabing. - E o Sangreal é a minha amante preferida.

 O Santo Graal é uma mulher, pensou Sophie, e o seu espírito era uma colagem de ideias interligadas que pareciam não fazer qualquer sentido.

 - Disse que tinha um retrato da mulher que afirma ser o Santo Graal.

 - Sim, mas não sou eu que afirmo que ela é o Santo Graal. O próprio Cristo fez essa afirmação.

 - Qual é o quadro? - perguntou Sophie, percorrendo as paredes com o olhar.

- Hmmm... - Teabing fez todo um espectáculo de fingir ter-se esquecido. - O Santo Graal. O Sangreal. O Cálice. - Voltou-se subitamente e apontou para a parede mais distante, da qual estava suspensa uma cópia com dois metros e quarenta de comprimento de A Ultima Ceia, exactamente a mesma imagem que Sophie acabava de ver no livro. - Lá está ela!

 Sophie teve a certeza de que lhe escapara qualquer coisa.

 - É o mesmo quadro que acaba de mostrar-me.

 Teabing piscou-lhe um olho.

 - Eu sei, mas a ampliação é muito mais excitante. Não acha?

 Sophie voltou-se para Langdon, em busca de ajuda.

 - Perdi-me. Langdon sorriu.

 - A verdade é que o Santo Graal marca de facto presença na Última Ceia. Leonardo deu-lhe um lugar de destaque.

 - Espere aí - pediu Sophie. - Disse-me que o Santo Graal é uma mulher. A Ultima Ceia é um retrato de treze homens.

- Será? - perguntou Teabing. - Olhe com mais atenção.

Insegura, Sophie aproximou-se da reprodução, examinando as treze figuras: Jesus no centro, seis discípulos do lado esquerdo, outros seis do lado direito.

 - São todos homens - confirmou.

 - Oh? - exclamou Teabing. - E o que está sentado no lugar de honra, à direita do Senhor?

 Sophie examinou a figura à direita de Jesus, concentrando a atenção. À medida que estudava o corpo e o rosto da personagem, sentiu uma onda de estupefacção crescer-lhe no peito. O indivíduo tinha longos cabelos vermelhos, mãos delicadamente entrelaçadas, a sugestão de um seio. Era, sem a mínima dúvida... uma mulher.

- É uma mulher! - exclamou Sophie.

Teabing estava a rir.

 - Surpresa, surpresa. Não é engano, pode crer. Leonardo era muito hábil a pintar as diferenças entre os sexos.

 Sophie não conseguia desviar os olhos da mulher sentada ao lado de Cristo. A Ultima Ceia é suposta apresentar treze homens. Quem é a mulher? Embora tivesse visto aquela imagem clássica vezes sem conta, nunca reparara na gritante discrepância.

- Ninguém repara - disse Teabing. - As nossas noções preconcebidas desta cena são tão poderosas que a mente bloqueia a incongruência e sobrepõe-se aos olhos.

 - É um fenómeno conhecido como escotoma - acrescentou Langdon. - O cérebro fá-lo por vezes, com símbolos muito poderosos.

 - Outra razão possível para não ter reparado na mulher continuou Teabing - é o facto de a maior parte das fotografias que aparecem nos livros de arte terem sido tiradas antes de 1954, quando os pormenores estavam ainda escondidos sob camadas de sujidade e várias restaurações feitas por incompetentes durante o século XVIII. Agora, finalmente, o fresco foi limpo até à camada original de tinta de da Vinci. - Apontou para a fotografia. - Et voilá!

 Sophie aproximou-se ainda mais da imagem. A mulher sentada à direita de Jesus era jovem e tinha um ar piedoso, com um rosto tímido, belos cabelos avermelhados e mãos tranquilamente entrelaçadas. É esta a mulher que podia, sozinha, fazer desmoronar a Igreja?

 - Quem é ela? - perguntou.

 - Essa senhora, minha querida - respondeu Teabing -, é Maria Madalena.

 Sophie voltou-se.

 - A prostituta?

 Teabing teve uma curta inspiração entredentes, como se a palavra o tivesse ofendido pessoalmente.

 - Maria Madalena não era nada disso. Esse falso juízo é um legado da campanha de calúnias lançada pela Igreja primitiva. A Igreja precisava de difamar Maria Madalena para encobrir o seu perigoso segredo: o papel dela como Santo Graal.

 - O papel dela?

 - Como já disse - esclareceu Teabing -, a Igreja primitiva precisava de convencer o mundo de que o profeta mortal Jesus era um ser divino. Por essa razão, os evangelhos que descreviam os aspectos terrenos da vida de Jesus tinham de ser omitidos da Bíblia. Infelizmente para os primeiros editores, havia um tema terreno particularmente perturbador que aparecia mencionado em todos os evangelhos. - Fez uma pausa. - O casamento de Jesus Cristo.

 - Desculpe? - Os olhos de Sophie saltaram para Langdon, e depois de novo para Teabing.

- Está historicamente registado, e da Vinci tinha com toda a certeza conhecimento do facto. A Ultima Ceia praticamente grita ao espectador que Jesus e Madalena eram um casal.

 Sophie voltou a olhar para a reprodução do fresco.

 - Repare que Jesus e Madalena estão vestidos como imagens reflexas um do outro - disse Teabing, apontando para as duas personagens centrais.

 Sophie estava fascinada. E, sem a mínima dúvida, as roupas dos dois eram de cores inversas. Jesus usava uma túnica vermelha e um manto azul; Maria Madalena usava uma túnica azul e um manto vermelho. Yin e Yang.

 - Aventurando-nos no ainda mais bizarro - continuou Teabing -, repare que Jesus e a sua noiva parecem estar unidos pela anca e inclinam-se para longe um do outro, como que para criar entre ambos este espaço negativo claramente delineado.

 Ainda antes que Teabing traçasse o contorno com o dedo, Sophie viu-o: a indiscutível forma de V no ponto focal da pintura. Era o mesmo símbolo que Langdon desenhara momentos antes e que dissera representar o Graal, o cálice e o útero feminino.

 - Finalmente - disse Teabing -, se vir Jesus e Madalena como elementos da composição e não como personagens, verá uma outra forma óbvia saltar-lhe aos olhos. - Fez uma pausa. - Uma letra do alfabeto.

 Sophie viu-a imediatamente. Dizer que a letra lhe saltou aos olhos seria um eufemismo. Subitamente, não via mais nada senão a letra. Bem no centro da pintura destacava-se o inquestionável desenho de um enorme e impecavelmente traçado M.

 - Um pouco perfeito de mais para ser coincidência, não acha? - perguntou Teabing.

 Sophie estava estupefacta.

- E está ali porquê?

Teabing encolheu os ombros.

 - Os teóricos da conspiração dir-lhe-ão que significa Matrimónio ou Maria Madalena. Para ser honesto, ninguém sabe. A única certeza é que o M escondido não é resultado de um acaso. Inúmeras obras relacionadas com o Graal contêm um M escondido... seja em marcas-de-água, camadas inferiores de pintura ou alusões composicionais. O mais evidente de todos os M é, claro, o que aparece no altar de Nossa Senhora de Paris, em Londres, concebido por um ex-Grão-Mestre do Priorado de Sião, Jean Cocteau.

Sophie pesou a informação.

 - Admito que os M escondidos são intrigantes, embora assuma que ninguém afirma que constituem prova do casamento de Jesus com Madalena.

 - Não, não - respondeu Teabing, que se dirigia a uma mesa próxima carregada de livros. - Como disse há pouco, o casamento de Jesus com Maria Madalena é um facto historicamente registado. - Pôs-se a remexer nas rimas de livros. - Além disso, Jesus como homem casado faz infinitamente mais sentido do que a tradicional visão bíblica de Jesus como homem solteiro.

 - Porquê? - perguntou Sophie.

 - Porque Jesus era judeu - disse Langdon, pegando no testemunho enquanto Teabing procurava o seu livro -, e o decoro social da época praticamente proibia que um judeu adulto não fosse casado. O costume judaico condenava o celibato, e a obrigação de qualquer pai era procurar uma esposa adequada para o filho. Se Jesus não fosse casado, pelo menos um dos evangelhos mencionaria o facto e proporia uma explicação qualquer para esta anormalidade.

 Teabing localizou um enorme livro e puxou-o para si por cima do tampo da mesa. Encadernado a couro, tinha o tamanho de um cartaz, como um grande atlas. O título gravado na capa dizia: Evangelhos Gnósticos. Teabing abriu-o e Langdon e Sophie juntaram-se-lhe. Sophie viu que continha fotografias daquilo que parecia ser passagens ampliadas de documentos antigos: papiro esfarrapado com textos manuscritos. Não reconheceu a língua antiga, mas as páginas contíguas continham traduções impressas em letra de forma.

 - São fotocópias do Nag Hammadi e dos Manuscritos do Mar Morto que referi há pouco - disse Teabing. - Os mais antigos registos cristãos. Não condizem com os evangelhos que aparecem na Bíblia, o que é extremamente perturbador. - Folheando as páginas mais para a frente, apontou para uma passagem. - O Evangelho de Filipe é sempre um bom sítio para se começar.

Sophie leu a passagem:

 

 “E a companheira do Salvador é Maria Madalena. Cristo amava-a mais do que a todos os discípulos e costumava beijá-la muitas vezes na boca. Os outros discípulos sentiam-se ofendidos por isto e expressavam a sua desaprovação. Perguntavam-lhe: «Porque é que a amas mais do que a todos nós?»”

As palavras surpreenderam Sophie, mas não lhe pareceram de modo algum conclusivas.

 - Não diz aqui nada a respeito de casamento.

 - Au contraire. - Teabing sorriu, apontando para a primeira linha. - Como qualquer estudioso do aramaico lhe dirá, a palavra companheira, naquele tempo, significava literalmente esposa.

 Langdon corroborou com um aceno de cabeça.

 Sophie voltou a ler a primeira linha. E a companheira do Salvador é Maria Madalena.

 Teabing voltou a folhear o livro, apontando várias outras passagens que, para espanto de Sophie, sugeriam claramente que Madalena e Jesus partilhavam uma relação romântica. Ao ler aqueles textos, recordou o irado padre que batera à porta do avô quando ela era uma colegial.

 

 - É aqui que mora Jacques Saunière? - perguntou o padre, fulminando com o olhar a jovem Sophie quando ela abriu a porta.

 - Quero falar com ele a respeito deste editorial que escreveu! E o padre agitou um jornal.

Sophie foi chamar o avô e os dois homens desapareceram no escritório e fecharam a porta. O meu avô escreveu qualquer coisa num jornal? Sophie correu imediatamente para a cozinha e folheou o jornal da manhã. Encontrou o nome do avô num artigo publicado na segunda página. Leu-o. Não compreendeu tudo o que era ali dito, mas parecia que o governo francês, cedendo às pressões dos padres, proibira um filme americano chamado A Última Tentação de Cristo, que era a respeito de Jesus ter relações sexuais com uma senhora chamada Maria Madalena.  O avô dizia que a Igreja era arrogante e fizera mal ao proibir o filme.

 Não admira que o padre esteja zangado, pensou Sophie.

 - É pornografia! Sacrilégio! - gritou o padre, emergindo do escritório e avançando furiosamente para a porta da rua. - Como é que pode avalizar uma coisa destas? Este americano, este Martin Scorsese, é um blasfemo, e a Igreja não lhe permitirá um púlpito em França! - E o padre bateu com a porta ao sair.

 Quando o avô entrou na cozinha e viu Sophie com o jornal, franziu o sobrolho.

- És rápida - observou.

 - Achas que Jesus Cristo tinha uma namorada? – perguntou ela.

 - Não, querida, só disse que a Igreja não devia ser autorizada a dizer-nos o que podemos ou não podemos pensar.

 - Jesus tinha uma namorada?

 O avô ficou silencioso por um longo momento.

 - Seria assim tão mau se tivesse?

 Sophie considerou o caso e encolheu os ombros.

 - Por mim, não me importava.

 

 Sir Leigh Teabing continuava a falar:

 - Não vou aborrecê-la com todas as referências à união entre Jesus e Madalena. O tema tem sido explorado ad nauseam pelos historiadores modernos. Gostaria, no entanto, de fazer notar o seguinte. - Apontou para outra passagem. - É do Evangelho de Maria Madalena.

Sophie nem sequer sabia que havia um evangelho de Maria Madalena. Leu o texto:

 

 “E Pedro perguntou: «É verdade que o Salvador falou com uma mulher sem nos dar conhecimento? Teremos agora de voltar-nos para ela e escutar o que diz? Preferiu-a a nós?»

E Levi respondeu: «Pedro, sempre foste um exaltado. Agora vejo-te a combater esta mulher como se ela fosse um adversário. Se o Salvador a achou digna, quem és tu para rejeitá-la? Certamente o Salvador conhece-a muito bem. Por isso a amou mais do que a nós.»”

 

 - A mulher de que estão a falar é Maria Madalena - explicou Teabing. - Pedro tem ciúmes dela.

 - Porque Jesus preferia Maria.

 - Não só isso. O que estava em jogo era muito mais importante do que simples afectos. Neste ponto dos Evangelhos, Jesus suspeita de que em breve será preso e crucificado. Por isso dá a Madalena instruções sobre como conduzir a sua Igreja depois de Ele ter desaparecido. Pedro expressa o seu descontentamento por ter de obedecer a uma mulher. Diria que este Pedro era bastante sexista.

Sophie estava a tentar não se perder.

 - Estamos a falar de São Pedro. A rocha sobre a qual Jesus construiu a sua Igreja?

 - Ele mesmo, com uma pequena diferença. Segundo estes evangelhos não adulterados, não foi a Pedro que Jesus deu instruções sobre como estabelecer a Igreja Cristã. Foi a Maria Madalena.

 Sophie olhou para ele.

 - Está a dizer-me que a Igreja Cristã devia ter sido continuada por uma mulher!

 - Era esse o plano. Jesus foi o primeiro dos feministas. Queria que o futuro da sua Igreja ficasse nas mãos de Maria Madalena.

 - E Pedro não aprovava - interveio Langdon, apontando para A Ultima Ceia. - E aquele, ali. Vê-se que da Vinci sabia muito bem o que Pedro pensava de Maria Madalena.

 Mais uma vez, Sophie ficou sem palavras. Na pintura, Pedro inclinava-se ameaçadoramente para Maria Madalena e passava a mão esticada pelo pescoço dela, como uma faca. O mesmo gesto que na Madonna dos Rochedos!

 - E aqui também - continuou Langdon, indicando o grupo de discípulos mais perto de Pedro. - Não pressagia nada de bom, pois não?

 Sophie concentrou a atenção e viu uma mão a emergir do grupo de discípulos.

 - Aquela mão empunha uma adaga?.

 - Exactamente. E, o que é ainda mais estranho, se contar os braços, verificará que essa mão pertence... a ninguém. É uma mão sem corpo. Anónima.

 Sophie começava a sentir-se esmagada.

 - Peço desculpa, mas continuo a não ver como é que tudo isto faz de Maria Madalena o Santo Graal.

 - Ah! - exclamou Teabing uma vez mais. - Aí é que está a questão! - Voltou-se de novo para a mesa e tirou do monte um grande mapa, que desdobrou diante dela. Era uma espécie de elaborada genealogia - Poucas pessoas sabem que Maria Madalena, além de ser o braço direito de Cristo, era já uma mulher poderosa.

 Sophie leu o título da árvore genealógica.

 

 A TRIBO  DE BENJAMIM

 

- Maria Madalena está aqui - disse Teabing, apontando um lugar perto do topo da genealogia.

Sophie ficou surpreendida.

 - Madalena pertencia à Casa de Benjamim?

 - É verdade - respondeu Teabing. - Maria Madalena era de descendência real.

 - Mas sempre pensei que fosse pobre.

 Teabing abanou a cabeça.

 - Madalena foi apresentada como prostituta com o objectivo de esconder as provas das suas poderosas ligações familiares.

 Sophie deu por si a olhar para Langdon, que mais uma vez corroborou. Voltou-se de novo para Teabing.

 - Mas que diferença fazia à Igreja primitiva que Maria Madalena tivesse sangue real?

 Teabing sorriu.

 - Minha querida, não era o sangue real de Maria Madalena que tanto preocupava a Igreja, e sim o seu casamento com Cristo, que também tinha sangue real. Como sabe, Mateus diz-nos que Jesus pertencia à Casa de David. Um descendente de Salomão... rei dos Judeus. Ao casar com uma mulher da poderosa Casa de Benjamim, Jesus fundia duas linhagens reais, criando uma união política com potencial para apresentar uma legítima pretensão ao trono e restaurar a linha de reis tal como vinha de Salomão.

 Sophie sentiu que ele estava quase a chegar ao fulcro da questão. Teabing parecia agora extremamente excitado.

 - A lenda do Santo Graal é uma lenda a respeito de sangue real. Quando a lenda do Graal fala do «cálice que conteve o sangue de Cristo...», está, na realidade, a falar de Maria Madalena... o útero feminino que conteve a linhagem real de Jesus.

 As palavras pareceram ecoar nas paredes do salão de baile antes que o cérebro de Sophie as registasse. Maria Madalena conteve a linhagem real de Jesus Cristo?

 - Mas como podia Cristo ter uma linhagem real a menos...? Fez uma pausa e olhou para Langdon.

 Langdon sorriu-lhe docemente.

- A menos que tivessem um filho.

 Sophie ficou petrificada.

- Vede! - proclamou Teabing - a maior operação de encobrimento de toda a História! Jesus não só era casado, como também era pai. Minha querida, Maria Madalena era o Vaso Sagrado. Era o cálice que conteve o sangue real de Jesus. Foi o útero que gerou a linhagem, e a vinha de onde nasceu o fruto sagrado!

 Sophie sentiu os pêlos dos braços eriçarem-se-lhe.

 - Mas como poderia um segredo dessa importância permanecer escondido durante todos estes anos?

 - Céus! - exclamou Teabing. - Esteve tudo menos escondido! A linhagem real de Jesus Cristo está na origem da mais duradoura lenda de todos os tempos: o Santo Graal. A história de Madalena tem vindo a ser gritada do alto dos telhados desde há séculos através de todo o género de metáforas e em todas as línguas. Está em todo o lado, para quem tenha os olhos abertos.

 - E os documentos Sangreal? - perguntou Sophie. - Contêm alegadamente provas de que Jesus teve uma linhagem real?

 - Sim.

 - Então, toda a lenda do Santo Graal tem a ver com sangue real?

 - Muito literalmente - respondeu Teabing. - A palavra Sangreal deriva de San Greal... Santo Graal. Mas na sua forma mais antiga, a palavra Sangreal dividia-se de maneira diferente. - Teabing rabiscou num pedaço de papel, que lhe estendeu.

Sophie leu o que ele tinha escrito:

 

Sang Real

 

Reconheceu imediatamente a tradução.

Sang Real significava literalmente Sangue Real.

 

 O recepcionista instalado no átrio de entrada do quartel-general da Opus Dei em Nova Iorque ficou surpreendido ao ouvir pelo telefone a voz do bispo Aringarosa.

 - Boa noite, Eminência.

 - Alguma mensagem para mim? - perguntou o bispo, parecendo invulgarmente ansioso.

 - Sim, Eminência. Ainda bem que telefonou. Não consegui apanhá-lo no seu apartamento. Teve uma mensagem telefónica urgente há cerca de uma hora.

 - Sim? - Aringarosa pareceu aliviado pela notícia. - A pessoa que telefonou deixou algum nome?

 - Não, Eminência, apenas um número. - E o recepcionista repetiu o número.

 - Prefixo trinta e três? É França, não é?

 - Exacto, Eminência. Paris. O senhor que telefonou disse que era de importância crucial que o contactasse imediatamente.

 - Obrigado. Tenho estado à espera desse telefonema - disse, Aringarosa, e desligou imediatamente.

 Enquanto pousava o auscultador, o recepcionista perguntou a si mesmo por que razão a ligação parecera tão má. O horário do bispo Aringarosa mostrava-o em Nova Iorque nesse fim-de-semana, mas parecera estar a meio mundo de distância. O homem encolheu os ombros. O bispo Aringarosa andava a comportar-se de uma maneira estranha havia já vários meses.

 

 

 O meu telemóvel deve ter estado sem recepção, pensou Aringarosa enquanto o Fiat se aproximava da saída do aeroporto Ciampino, reservado a voos charter, em Roma. O Professor esteve a tentar contactar-me. Apesar de preocupado por ter perdido a chamada, o facto de o Professor se sentir suficientemente confiante para ligar directamente para o quartel-general da Opus Dei em Nova Iorque encorajava-o

 As coisas devem ter corrido bem em Paris esta noite.

 Marcou o número que lhe tinha sido dado, sentindo a excitação de saber que muito em breve estaria em Paris. Chegarei lá antes da madrugada. Um pequeno jacto alugado esperava-o para o curto voo até França. As companhias comerciais não eram uma opção àquela hora, sobretudo considerando o conteúdo da maleta.

 Ouviu o toque de chamada.

 - Direction Centrale Police Judiciaire - disse uma voz de mulher.

 Aringarosa hesitou. Aquilo era inesperado.

 - Ah, sim... Pediram-me para ligar para este número?

 - Qui êtes-vous? - perguntou a mulher. - O seu nome, por favor?

 Aringarosa não sabia muito bem se devia ou não fornecer esta informação. A Polícia Judiciária francesa?

 - O seu nome, monsieurt - insistiu a mulher.

 - Bispo Manuel Aringarosa.

 - Un moment. - Houve um clique na linha.

 Ao cabo de um longo momento, uma voz de homem, áspera e preocupada.

 - Eminência, ainda bem que finalmente consigo contactá-lo. Eu e o senhor temos muito que discutir.

 

 Sangreal... Sang Real... San Greal... Sangue Real... Santo Gral.

 Estava tudo interligado.

 O Santo Graal é Maria Madalena... a mãe da linhagem real de Jesus Cristo. Sophie sentiu uma nova onda de desorientação submergi-la, ali de pé no antigo salão de baile, a olhar para Robert Langdon. Quantas mais peças Langdon e Teabing punham em cima da mesa, mais imprevisível o puzzle se tornava.

 - Como vê, minha querida - disse Teabing, coxeando até uma das estantes -, Leonardo não é o único que tem tentado dizer ao mundo a verdade a respeito do Santo Graal. A linhagem real de Cristo tem sido estudada ao pormenor por dezenas de historiadores.

 - Passou o dedo por uma fila de várias dúzias de livros.

 Sophie inclinou a cabeça e leu alguns dos títulos:

 

 A REVELAÇÃO DOS TEMPLÁRIOS:

 Guardiães Secretos da Verdadeira Identidade de Cristo

 

 A MULHER com A JARRA DE ALABASTRO.

 Maria Madalena e o Santo Graal

 

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