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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O CÓDIGO DE ATLÂNTIDA / Charles Brokaw
O CÓDIGO DE ATLÂNTIDA / Charles Brokaw

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

   

               KOM AL-DIKKA, ALEXANDRIA, EGITO

                 16 DE AGOSTO DE 2009

Thomas Lourds abandonou o conforto da limusine com relutância e um senso incomum de mau agouro. Ele geralmente apreciava as opor­tunidades que surgiam para falar sobre seu trabalho, isso sem mencionar a possibilidade de solicitar finan­ciamento para programas arqueológicos em que acre­ditava e sobre os quais era consultado.

Mas não hoje.

Sob o calor escaldante do sol egípcio no pico do meio-dia, ele largou a seus pés a mochila de couro risca­da de cicatrizes e contemplou o enorme teatro romano que as legiões de Napoleão Bonaparte haviam descoberto ao fazer escavações para construir uma nova fortificação.

Embora o sítio arqueológico de Kom Al-Dikka ti­vesse sido explorado durante os últimos duzentos anos, primeiro por caçadores de tesouros, e, depois, por homens instruídos que procuravam o conhecimento dos tempos antigos, a missão polonês-egípcia que havia sido estabelecida aqui há mais de quarenta anos continuou a fazer novas e surpreendentes descobertas.

Escavado no chão, Kom Al-Dikka mantinha-se como um anfiteatro semicircular não muito longe da estação de trem em Alexandria. Os pas­sageiros que saíam da plataforma ferroviária só precisavam atravessar uma curta distância para observar com atenção o antigo palco. Os carros passam perto pelas ruas Nabi Daniel e Hurriya. Aqui, os mundos antigo e moderno estavam lado a lado.

Construído com treze camadas de mármore onde cabiam até oitocentos espectadores, com cada assento cuidadosamente numerado, a his­tória desse teatro se estendia profundamente pelo passado e por todo o mundo antigo. Suas pedras de mármore branco foram extraídas da Europa e trazidas para a África. A Ásia Menor havia fornecido o mármore esverdeado. O granito vermelho havia sido extraído de Aswan. Desenhos de mosaicos geométricos cobriam as alas. As casas e os banhos romanos se estendiam por trás dele. Todo o complexo era um símbolo do alcance global do grande império que o havia construído.

 

 

 

 

 

Lourds estudou a vasta estrutura de pedra. Quando Ptolomeu ainda era jovem e seus maiores trabalhos o aguardavam muitos anos adiante, Kom Al-Dikka já estava aqui, recebendo peças teatrais e musicais e — caso as inscrições nas colunas de mármore tivessem sido traduzidas corretamente, o que Lourds acreditava que sim — espetáculos de luta.

Ele sorriu ao pensar que Ptolomeu pudesse ter se sentado nos assentos de mármore e ali trabalhado em seus livros. Ou pensado sobre eles, pelo menos. Teria sido algo absurdo, como se um professor de lingüística de Harvard freqüentasse os eventos de UFC. Lourds era um professor desses, e não seguia o UFC. Mas ele gostava de pensar que Ptolomeu o fizesse, em seu tempo.

Embora Lourds já tivesse visto esse lugar várias vezes, sua visão nunca deixava de agitar dentro dele um desejo de saber mais sobre as pessoas que viveram aqui durante os anos em que o teatro era novo e atraía mul­tidões. As histórias que haviam sido contadas mal sobreviveram àqueles dias. Quanta coisa havia sido perdida quando a Biblioteca Real de Alexandria fora destruída.

Por um momento, Lourds imaginou como deve ter sido andar pelos corredores da grande biblioteca. Suas coleções supostamente incluíam pelo menos meio milhão de pergaminhos. E acreditava-se que esse acervo contivesse todo o conhecimento do mundo até então. Eram tra­tados sobre matemática, astronomia, mapas antigos, criação de animais e agricultura, todos os assuntos estavam representados aqui. Assim como as obras de grandes escritores, incluindo as peças perdidas de Esquilo, Sófocles, Eurípedes, Aristófanes e Menandro, artistas de tal poder e capacidade que suas obras sobreviventes continuavam a ser represen­tadas até os dias de hoje. E mais.

Homens experientes e sábios tinham vindo de todas as partes do mundo para dar suas contribuições à antiga biblioteca e aprender com ela.

No entanto, tudo isso foi destruído e queimado.

Dependendo da última rodada do ensino politicamente correto, a destruição da Grande Biblioteca foi ordenada ou pelo imperador romano Júlio César, ou por Teófilo de Alexandria, ou pelo Califa Umar. Ou talvez por todos eles, ao longo do tempo. Quem quer que tenha sido o responsável, o fato é que todos esses escritos maravilhosos tinham sido queimados, destroçados ou estavam desaparecidos. Juntamente com os segredos e a sabedoria que eles continham. Ou, pelo menos, por agora. Lourds ainda tinha esperanças de que algum dia, em algum lugar, um tesouro oriundo dessas obras — ou de cópias delas — ainda pudesse existir. Ele achava que era perfeitamente possível que alguém, durante esses anos perigosos, se preocupasse em proteger uma parte dos perga­minhos, escondendo-os ou fazendo cópias que teriam sido escondidas enquanto a biblioteca era destruída.

O enorme deserto em torno dessa cidade ainda continha segredos, e as areias secas e quentes eram ótimas para a preservação de rolos de papiro. Tesouros desse tipo de vez em quando apareciam, em diversas ocasiões nas mãos de bandidos, mas às vezes sob a supervisão de arque­ólogos. Os estudiosos podiam então ler os pergaminhos que novamente viam a luz do dia. Mas quem poderia dizer quantas relíquias mais ainda jaziam por lá, esperando para serem encontradas?

— Professor Lourds?

Ele apanhou sua mochila pousada a seus pés e virou-se para ver quem tinha chamado seu nome. Ele sabia o que seu interlocutor estava vendo. Era um homem alto, magro por causa dos anos de prática de futebol. Um cavanhaque negro aparado curto enquadrava o queixo forte e sua­vizava as feições rígidas do rosto. Seu cabelo ondulado negro era com­prido o suficiente para descer pelo rosto e cair sobre as orelhas. As visitas ao barbeiro costumavam tomar tempo demais de seu dia, então ele só iria vê-lo quando os cabelos realmente não pudessem continuar sem um corte. E esse tempo estava chegando, percebeu Lourds ao afastar as lon­gas mechas da frente dos olhos. Ele estava usando bermudas cáqui, uma camisa cinza, botas de caminhada, um chapéu australiano de camurça e óculos de sol. Tudo um pouco roto e desgastado nas beiradas. Ele se pa­recia, pensou, com um egiptólogo a trabalho, muito diferente dos turistas e vendedores ambulantes que perambulavam pelos anfiteatros.

Senhorita Crane? — Lourds cumprimentou a mulher que o chamara.

Leslie Crane caminhou na direção dele. O pescoço dos homens costumava virar para segui-la enquanto ela passava. E Lourds não podia culpá-los. Leslie Crane era bonita, de cabelos dourados e olhos verdes, vestindo bermuda e uma camiseta de linho branca sem mangas, que enfatizava sua figura esbelta e a pele morena de sol. Lourds calculou que ela deveria ter uns 24 anos, talvez, o que significava que a moça era quinze anos mais nova do que ele.

Ela pegou a mão do professor e o cumprimentou:

É tão bom enfim conhecê-lo pessoalmente.

Leslie tinha um nítido sotaque britânico, e em sua voz de contralto, luxuriante, o efeito era tranquilizador.

Também estava ansioso por isso, e-mails e telefonemas não substi­tuem você realmente conversar com a pessoa ao vivo — respondeu ele. Apesar de esses dois meios de comunicação serem rápidos em colocar as pessoas em contato, Lourds preferia conversar pessoalmente ou escrever em papel. Ele era uma espécie de anacronismo ambulante, porque ainda dedicava tempo a escrever longas cartas aos amigos, que respondiam da mesma forma. O professor acreditava que as cartas, especialmente quando a pessoa queria defender um ponto de vista e uma linha de pensamento sem interrupções, eram importantes.

Apertar as mãos é um ato que tem lá suas vantagens.

Oh — disse ela. Como se apenas agora percebesse que ainda segurava a mão dele, ela a soltou. — Desculpe.

Não tem problema.

Você achou o hotel adequado?

Claro. É maravilhoso. — A rede de TV o havia hospedado no Sheraton Montazah, um hotel cinco estrelas na cidade. Com o litoral do Mediterrâneo ao norte e o palácio de verão do rei Farouk ao sul, com seus esplendorosos jardins, a experiência estava sendo incrível. — Mas é perto o suficiente para que tivesse vindo andando até aqui. Embora a limusine tenha sido sensacional. Um professor universitário não é exatamente o mesmo que um astro do rock...

Bobagem — disse Leslie. — Aproveite. Queríamos que você soubesse o quanto estamos ansiosos para trabalhar com você neste pro­jeto. Você já esteve lá antes?

Não — Lourds balançou a cabeça, negando. — Eu sou apenas um humilde professor de lingüística.

Não despreze a sua formação ou a sua experiência. Isso foi uma coisa que nós não fizemos — Leslie lançou-lhe um deslumbrante sorriso. — Você não é apenas um professor de lingüística. É alguém que leciona em Harvard e estudou na Universidade de Oxford. E sua experiência não tem nada de modesta. Você é o maior especialista do mundo em línguas antigas.

Bem, pode acreditar numa coisa, Leslie — retrucou ele. — Não são poucos os estudiosos que contestam essa afirmação.

Isso não acontece com Ancient Worlds, Ancient People — retru­cou Leslie. — Quando completarmos essa série, o mundo vai enxergar você como exatamente é.

Ancient Worlds, Ancient People era o título da série de TV produzida pela Janus World View Productions, uma afiliada da BBC (British Broadcasting Corporation) no Reino Unido. A série trazia histórias inte­ressantes sobre pessoas, e lugares e os programas eram apresentados por comentaristas joviais como Leslie Crane, que já havia entrevistado estudiosos reconhecidos em vários campos do conhecimento humano.

Você riu — comentou Leslie com um sorriso largo que a fez parecer ainda mais jovem. — Está duvidando de mim, professor Lourds?

Não, de você não — respondeu ele. — Talvez eu duvide da gene­rosidade do público espectador. E, por favor, me chame de Thomas. Você se importa se nós caminharmos? — Ele esticou o queixo em direção a uma área de sombra. — Pelo menos para sair deste sol?

Claro — disse Leslie, caminhando ao lado dele.

Você disse que tinha um desafio para apresentar-me nesta manhã — lembrou Lourds.

Nervoso?

Não muito. Eu gosto de um desafio. Mas os enigmas me deixam um pouco... Curioso.

Não é a curiosidade a melhor ferramenta de um professor de lingüística? — perguntou ela.

Paciência, eu acho, é a melhor ferramenta. Embora ela seja aquilo que mais lutemos para conseguir... Os registros intelectuais de uma nação ou de um império, sejam eles história, matemática, artes ou ciências, levam tempo para ser transcritos pelos escribas. E, infelizmente, leva ainda mais tempo para os estudiosos de hoje conseguirem decifrar as obras antigas, especialmente quando não temos mais acesso às línguas em que foram escritas. Por mais de mil anos, por exemplo, não havia ninguém no planeta que fosse capaz de ler os hieróglifos egípcios. Foi preciso muita paciência para encontrar a chave certa, e, em seguida, mais paciência para decifrar o código do seu significado.

Quanto tempo você demorou para quebrar as Confissões da alcova?

Agora na sombra e fora do brilho direto do sol, Lourds sorriu triste­mente e esfregou a nuca. A tradução desses documentos lhe havia rendi­do muita atenção, tanto negativa como positiva. Ele ainda não sabia se o tempo gasto com elas foi um marco na carreira ou um passo em falso.

Na verdade — respondeu ele — esses documentos não se cha­mavam Confissões da alcova. Esse foi o apelido infeliz que o pessoal dos meios de comunicação de massa deram a eles ao cobrir a história...

Desculpe, não tive a intenção de ofender...

Sei disso...

Mas esses documentos — tornou Leslie — eram as histórias de conquistas sexuais do autor, correto?

Possivelmente. Talvez fossem apenas suas fantasias. Walter Mitty dando uma de Hugh Hefner. Seja como for, eram relatos bastante vividos.

E surpreendentemente explícitos...

Você já os leu? — perguntou Lourds, sem conseguir disfarçar a surpresa.

Já... — as bochechas bronzeadas de Leslie se inflamaram. — E eu devo dizer que são bastante... Hã... Convincentes...

Então você também deve saber que alguns críticos chamaram minha tradução de pornografia da mais pobre qualidade. Uma versão antiga da Penthouse Fórum.

Os olhos verdes de Leslie brilharam divertidos:

Agora você está se confessando um devasso.

Como assim? — Lourds ergueu as sobrancelhas inocentemente.

Um professor universitário com conhecimento da revista Penthouse?

Bem, antes de ser professor — respondeu Lourds — eu fui estu­dante universitário. Na minha experiência, os estudantes universitários do sexo masculino têm pelo menos uma breve passagem por ela.

Leslie continuou:

Mesmo que essa tradução o tenha levado a ser atacado pelo públi­co docente, conheço vários professores renomados que avaliam que foi um trabalho importante em um documento difícil.

Foi um desafio. — Lourds agora se mostrava mais entusiasmado para discutir o tema, quase nem percebendo a presença dos transeuntes. Vozes na rua ofereciam algumas pechinchas em árabe, inglês, francês e dialetos locais, mas ele não dava a mínima atenção. — O documento original foi escrito em copta, que era um idioma usado no Antigo Egito e cujo alfabeto tratava-se de uma versão modificada do alfabeto grego. O homem que criou esse documento acrescentou ainda uma série de letras, algumas das quais foram usadas apenas para palavras que estavam originalmente em grego. O documento, escrito por alguém que se cha­mava Antônio, sem dúvida em homenagem ao santo, embora fosse mais um sátiro do que um homem — ou pelo menos era assim que se via — num primeiro momento, parecia sem sentido.

O professor parou um momento e depois continuou:

Outros lingüistas tentaram traduzi-lo, mas nada disso fazia sentido. Você descobriu que ele foi escrito em código. Eu não sabia que existiam códigos já naquela época tão distante... Os primeiros códigos conhecidos são atribuídos aos romanos. Júlio César usou uma substituição simples de letras, ou mudança de posição na frase, para mascarar mensagens a seus comandantes militares. Sua mudança mais comum era a de três espaços.

O A vira D — comentou Leslie.

Exato.

Nós costumávamos fazer isso quando éramos crianças.

Naquela época — continuou o professor — aquele esquema era inteligente, mas logo os inimigos de César o descobriram. E é assim hoje. Os códigos de substituição não são mais usados por qualquer pessoa interessada em manter as coisas verdadeiramente secretas. Eles são muito fáceis de quebrar. No idioma inglês, a letra mais usada é E, e a segunda mais utilizada é T. Assim que você conseguir determinar esses valores em um bloco de texto, o restante das letras acaba caindo em seu lugar certo.

Mas as Confis... Quero dizer, o documento que você decifrou, ele era incomum.

Bem — respondeu Lourds —, se o compararmos ao que desco­brimos até agora daquela época, sim. E tendo em vista o conteúdo, o autor tinha todos os motivos para codificar suas palavras.

O que tornou a leitura de sua tradução ainda mais interessante para mim foi saber que os coptas eram uma seita extremamente religiosa. Mesmo pelos padrões de hoje, esse documento é um pouco chocante. Portanto, algo assim teria sido bastante... — Leslie vacilou nas palavras, evidentemente sem ter certeza de quanto poderia ser obscena.

Exótico... — ajudou-a o professor. — Ou inflamatório, depen­dendo de seu ponto de vista. Claro que os padrões de hoje estão muito mais restritos, por assim dizer, do que eram no mundo antigo, o que foi um legado deixado por Santo Agostinho, os vitorianos e os puritanos, entre outros. Mas mesmo pelos padrões antigos, eram documentos inflamatórios. Possivelmente até mesmo perigosos para a vida do es­critor. Concordo. Acho que por isso ele foi cuidadoso. Além da codifi­cação, o documento foi também escrito em saídico.

Mas qual é a diferença? — perguntou Leslie. — Esta não era uma língua copta?

Mais ou menos. O dialeto saídico foi um desdobramento da lin­guagem copta original.

A que começou do grego.

Lourds assentiu. Ele gostou da jovem. Ela era rápida e experiente, e parecia genuinamente interessada no que ele tinha a dizer. Algumas das dúvidas que sentia com relação a concordar com esta reunião começa­ram a desvanecer-se. A universidade estava sempre procurando maneiras de aumentar sua exposição ao público, mas isso nem sempre se revelava favorável aos professores colocados na linha de fogo. A maioria dos jornalistas e repórteres só ouvia durante o tempo suficiente para detectar uma palavra ou frase que pudesse ser explorada, mesmo que fora do contexto, a fim de confirmar fosse qual fosse o ponto de vista deles sobre qualquer assunto. Lourds já tinha visto bastante do que podia acontecer quando um professor era mastigado pela mídia. Isso não era uma cena bonita. Até agora, ele tinha ficado meio oculto, mas seu trabalho com as Atividades de alcova o colocara mais em evidência do que ele gostaria.

O dialeto saídico foi orginalmente chamado de tebaico e come­çou a ser usado em forma literária em torno de 300 d.C. Grande parte da Bíblia foi traduzida para esse dialeto, e o copta tornou-se o dialeto padrão para a Igreja Ortodoxa Copta. Mais tarde, no século XI, Hakem b'Amr Allah praticamente aboliu a fé cristã, persegui-a até que os remanescentes se escondessem.

Que tumulto... — comentou Leslie.

Isso aconteceu aqui e no resto do mundo. Os conquistadores muitas vezes procuram destruir a linguagem da civilização que eles dominaram. Veja o que aconteceu com o gaélico quando os ingleses dominaram os escoceses. Os clãs eram proibidos de se comunicar em gaélico, de usar suas roupas que vinham por herança, e até mesmo de tocar suas gaitas de foles. Ao matar seu idioma, o conquistador quebra a conexão do povo conquistado com sua história.

Tira o seu conhecimento, você quer dizer? — perguntou Leslie.

Mais do que isso — respondeu Lourds. — A língua é arraigada nas pessoas. Creio que lhes dá um senso de quem são e para onde estão indo... Eu acho que a língua... Ela molda a vida das pessoas.

Por essa definição, até cantores de rap criam uma linguagem.

Não — retrucou o professor. — Eles não estão exatamente criando algo. Estão na verdade elevando essa língua a partir de seu grupo, procurando transformá-la em uma forma de arte única. Assim como Shakespeare fez com o idioma inglês.

Comparando cantores de rap com Shakespeare? Isso seria consi­derado escandaloso em alguns círculos acadêmicos. Mesmo perigoso...

Lourds sorriu tristemente.

Talvez. Provavelmente eu seria acusado mais de uma violação flagrante da bolsa de estudos do que de uma questão de assassinato. Mas é verdade. Se um grupo de pessoas se separa da maioria, a tendência é que esse grupo desenvolva sua própria linguagem. Assim como profes­sores universitários e jornalistas — cada um com um campo de ação definido — desenvolvem palavras especializadas que fornecem uma es­pécie de estenografia dentro de seu grupo. Ou então quando uma cultura pode desenvolver uma linguagem totalmente nova para evitar ser com­preendida por uma população maior dentro da qual eles vivem. Um caso importante que exemplifica essa tese são os ciganos.

Eu sabia que eles tinham sua própria língua — comentou a jornalista.

E você sabe como eles surgiram?

Hum... Por meio de mamãe e papai ciganos? — brincou ela.

Lourds riu.

Em determinado momento, claro que sim... Mas, bem no começo, eles eram provavelmente hindus de baixa casta que foram recrutados por um exército de mercenários para lutar contra os conquistadores islâmicos. Ou eles podem ter sido escravos tomados pelos conquistadores muçulmanos. De qualquer maneira, independentemente do fato de uma dessas hipóteses estar correta, os ciganos se tornaram seu próprio povo e criaram seu próprio idioma.

Você está sugerindo que um povo subjugado é levado a criar sua própria linguagem? — perguntou Leslie.

Sim, ou leva à destruição de uma. A linguagem é uma das ferramentas e um dos conjuntos de habilidades mais evoluídos que a humanidade foi capaz de forjar. A língua pode unir ou separar as pessoas mais rápida e facil­mente do que a cor da pele, as propensões políticas, as crenças religiosas ou a riqueza. — Lourds olhou para ela, surpreso consigo mesmo por falar tanto. E pelo fato de os olhos da jovem ainda não estarem vidrados. — Desculpe-me, você me pegou num momento-palestra. Já ficou aborrecida?

Pelo contrário — respondeu Leslie. — Estou mais fascinada do que nunca. E eu não posso esperar para mostrar-lhe o nosso desafio mis­terioso. Você já tomou café da manhã?

Não.

Ótimo. Então eu estou convidando você para tomar o café comigo.

Estou honrado — disse ele. — E com fome.

E esperançoso de conseguir uma refeição interessante aqui, pensou, apesar de ele não dizer nada disso à sua anfitriã.

Lourds levantou a mochila que carregava e soltou-a sobre seu ombro. A mochila continha seu notebook e vários livros e papéis que sentia que não podia viajar sem eles. Boa parte da informação que eles continham estava duplicada no disco rígido do computador, mas o professor adorava a sensação e o cheiro dos livros quando podia escolher entre o texto virtual e o real. Alguns desses livros tinham viajado com ele por mais de vinte anos.

Ele caminhou ao lado de Leslie enquanto abriam caminho através do tráfego de pedestres e vendedores, ouvindo as vozes dos ambulantes gritando as vantagens dos seus produtos. Alexandria estava em pleno fun­cionamento, apressando-se para viver mais um dia entre turistas e ladrões.

Uma sensação desconfortável de estar sendo observado desenvolveu-se no meio das costas de Lourds. Graças aos anos de viagens a países estran­geiros, incluindo muitas nações localizadas nas partes mais distantes do globo, aprendera a dar atenção a essa advertência. Por uma ou duas vezes, esses avisos lhe salvaram a vida.

Ele fez uma pausa e olhou para trás, tentando perceber se alguém no meio da multidão estava mostrando algum interesse indevido nele. Mas tudo o que viu foi um mar de rostos, todos eles se movendo e se acotovelando enquanto se contorciam no meio do tráfego de pessoas.

O que foi? — perguntou Leslie.

Lourds balançou a cabeça. Ele estava imaginando coisas. Isso que dá ficar lendo um romance de espionagem no avião, repreendeu a si mesmo.

Nada — respondeu, alcançando o passo e se colocando ao lado da jornalista enquanto cruzavam a rua Hurriya. Ninguém parecia estar seguindo os dois. Mas aquela sensação não foi embora.

 

Ele viu você?

De pé no movimentado cruzamento da rua Hurriya, Patrizio Gallardo ficou observando enquanto o alto professor universitário caminhava para longe. Gallardo deixou escapar um suspiro tenso. Ele ainda não sabia tudo o que estava acontecendo. Seu contato, Stefano Murani — cardeal Murani, nos dias de hoje — ficava de boca fechada com os seus segredos. Foi assim que seus patrões o haviam ensinado a se comportar.

Ambos haviam sido recrutados pela Sociedade de Quirino por causa de suas respectivas forças. Murani tinha vindo de uma família aristocrática que vivia da fortuna acumulada pelas gerações passadas. Usando essa posição como degrau, ele entrou na Igreja Católica e subiu rapidamente na hierarquia até se tornar um cardeal. Em sua posição na Cidade do Vaticano, Murani teve acesso a documentos secretos e outros papéis que nunca tinham sido apresentados aos olhos do público.

Gallardo chamou a atenção da Sociedade de outra maneira. Seu pai, Saverio Gallardo, fazia parte de uma família do crime organizado na Itália que recolhia dinheiro dos incautos. Patrizio Gallardo tentara o caminho do crime organizado, mas não tinha sido muito feliz traba­lhando sob o comando do pai, apesar de seu talento para o negócio.

Ele gostou dessa função e, trabalhando para as pessoas certas, des­cobriu que poderia ganhar realmente bem. Qualquer um poderia enfiar uma arma na cara de alguém e exigir seu dinheiro. Mas nem todos tinham culhões para puxar o gatilho e depois limpar o sangue que espirrava em seu rosto. Patrizio Gallardo tinha. E foi isso que ele fez para a Sociedade. E era isso que estava preparado para fazer hoje. Tudo o que a Sociedade precisaria fazer era apontar.

E hoje, eles haviam apontado para o professor Thomas Lourds.

Ele viu você? — perguntou Cimino novamente.

Gallardo ficou olhando para sua presa. Desta vez, não olhou direta­mente para o homem, mas avaliou toda a cena da rua. Lourds continu­ava em seu caminho, conversando amigavelmente com a mulher.

Não — respondeu Gallardo.

Ele usava um fone de ouvido pequeno e que estava na maior parte escondido pelo colarinho da camisa. Tinha quase 1,85 metro de altura, um homenzarrão rude em seus quarenta anos. Bronzeado pelo sol do deserto, com cicatrizes de batalhas contra pessoas que tentaram tirar alguma coisa dele e das pessoas das quais ele tinha tirado outras coisas, tinha um rosto redondo com cabelos pretos e grossos, queixo com barba por fazer, e uma pesada sobrancelha disposta em uma carranca sobre um par de olhos muito juntos. Qualquer um que encontrasse esse homem pela frente geralmente atravessava a rua para sair de seu caminho.

A gente podia armar uma emboscada pra esse cara — disse Cimino. — Matar esse sujeito seria moleza, e então era só pegar o que viemos buscar.

Se a gente matar o Lourds agora — apontou Gallardo —, há uma boa chance de não encontrarmos o artefato que estamos procurando. O homem não está com ele. Vai ser preciso esperar que a mulher nos leve até onde está.

Ao sair da calçada, Gallardo acenou com a mão.

Três quarteirões abaixo na movimentada via pública, um caminhão de carga com dez anos de uso veio subindo, saindo de uma rua lateral, e percorreu a rua Hurriya. Estacionou no meio-fio e Gallardo subiu para a boléia, no banco do passageiro. O para-brisas sujo suavizava a inclemência dos raios de sol. O ar-condicionado chiava como se tivesse asma e trazia apenas um ligeiro alívio contra o calor implacável.

Gallardo enxugou o rosto com um lenço, amaldiçoando o calor. Ele olhou para o motorista:

E como está o nosso convidado?

DiBenedetto balançou a cabeça e jogou fora a bituca de seu cigarro turco. Ele era jovem e durão, mas mantinha uma dependência de morfina constante que um dia seria o seu fim. Ele era um assassino cruel por escolha, ainda pior do que Cimino porque a droga lhe roubara a maioria de seus sentimentos. Só permaneceu leal a Gallardo porque este lhe trazia uma quantidade suficiente da droga para manter seu vício satisfeito.

Ele ainda não falou? — perguntou Gallardo.

DiBenedetto virou-se e sorriu para Gallardo. Seu rosto era jovem, apesar da droga. Estava com 22 anos. Mas seus olhos azuis e gelados eram estranhos e pareciam de uma pessoa mais velha. Se a humanidade e a compaixão algum dia habitaram ali, havia muito tinham ido embora.

Ele grita — respondeu o jovem assassino. — E chora, e implora. Às vezes, ele até tenta adivinhar o que queremos saber. Mas ele não sabe — o jovem encolheu os ombros. — E patético. Ainda assim, Farok gostou da batalha para fazê-lo falar.

Gallardo abriu o painel que conectava a cabine do caminhão com a área de carga.

Seu convidado estava na parte de trás. Seu nome era James Kale. Ele era um dos produtores do programa de TV Ancient Worlds, Ancient People. Perto dos 40 anos, fora um homem bonito antes dos açougueiros de Gallardo o terem capturado. Agora, seu cabelo da cor de gengibre estava salpicado com seu sangue, o rosto dilacerado por um soco inglês e um dos olhos arrancados. Eles também haviam amputado os dedos de sua mão direita e o castrado.

A última coisa fora um toque pessoal de Farok. O árabe era um homem cruel, que tirava prazer na tortura que infligia.

Kale estava enrolado em uma bola fetal, com a mão mutilada aperta­da contra o peito. Suas calças estavam escuras de sangue. Mais sangue cobria o interior do espaço da cargo, espalhado pelo piso e espirrado pelas paredes até no teto. O produtor estava se equilibrando perigosa­mente na borda da vida, prestes a dar seu último mergulho no abismo.

Farok sentou-se com suas costas voltadas para o espaço e fumou um cigarro. Devia estar em seus 50 anos, um homem sombrio e duro vestido em um albornoz que agora estava salpicado de sangue. Havia fios grisa­lhos em sua barba, também manchada de sangue. Ele levantou os olhos para Gallardo e sorriu:

Ele ainda insiste — disse o árabe com um sotaque gutural — que não sabe nada sobre esse tal artefato que a mulher vai mostrar ao professor. — Ele deixou cair sua mão sobre a coxa de Kale.

Kale gemeu e puxou para longe a perna trêmula.

Farok moveu-se para diante e acariciou a perna do produtor:

Tenho que admitir que, depois de ter reivindicado suas bolas, comecei a acreditar nele.

Aquela visão sangrenta enojou Gallardo. Ele já tinha visto coisas assim antes. Na verdade, ele mesmo havia feito coisa parecida, e faria de novo se não tivesse alguém que ocupasse seu lugar. Mas não era isso que lhe importava agora. Ele olhou para Farok. E então traçou uma linha sob o queixo com o indicador.

Sorrindo, o árabe tirou uma navalha de dentro de seu albornoz. Deixando cair cinzas do seu cigarro, ele se inclinou para frente, alisou o cabelo de Kale, fazendo com que o homem recuasse e gritasse de medo. Segurando um punhado de cabelo, Farok puxou a cabeça da vítima para trás e cortou com a faca sua garganta exposta.

Gallardo virou-se e fechou o painel. Ele concentrou-se em observar o professor e a mulher da televisão.

 

- Oi, aqui é o James Kale. Se você está ouvindo esta mensagem, então é óbvio que não posso atender ao telefone. Ou estou ocupado, ou estou sem sinal. Deixe uma men­sagem e eu retornarei assim que puder. E mãe, se for você, eu te amo.

Ouvindo essa mensagem familiar, Leslie Crane franziu a testa. James era alguém confiável. Ele se orgu­lhava de estar sempre disponível para as pessoas com quem trabalhava. Por isso, deveria estar atendendo ao telefone. A menos que tivesse deixado a coisa ficar sem bateria, de novo. Não seria a primeira vez que James faria isso. Leslie iria amarrar o recarregador de celular no braço do sujeito um dia desses...

— Algum problema? — perguntou Lourds.

Ele estava sentado em frente a ela, a pequena mesa do café ao ar livre que ela escolhera entre os dois.


O tráfego passava lentamente e era acompanhado por homens montados em camelos e cavalos. Mulas puxavam carroças com pneus de bicicleta de borracha em direção aos suqs. Os mercados ao ar livre atraíam muitos dos habitantes locais, bem como os turistas. Os mora­dores compravam legumes e vegetais frescos enquanto os turistas com­pravam lembranças e presentes para seus parentes. Mesmo tendo estado naquela cidade já por muitos dias, Leslie ainda se sentia maravilhada pela forma como uma cidade tão moderna parecia de alguma forma presa a um modo de vida que existia há milhares de anos.

O garçom levou seus pratos após uma refeição variada que incluía molokhiyya (sopa de espinafre com coelho), torly (cozido de legumes com cordeiro), peito de pombo grelhado recheado com arroz temperado, fatias de melão e uvas, seguido de bolo de passas embebidas no leite e servido quente, e xícaras de café turco com toques de chocolate.

Estava tentando ligar para o meu produtor — explicou Leslie.

Ele está hospedado por perto? — perguntou Lourds. — De repente a gente podia dar uma passada por lá e ver como ele está.

Não será preciso, tenho certeza de que ele está bem — respondeu ela. — O James já é crescido e eu não sou a mãe dele. Ele deve estar na loca­ção ou no estúdio. Vejo com ele o que aconteceu quando chegarmos lá.

Então, me conte, o que a levou a entrar nesse negócio do entre­tenimento? — perguntou ele.

Hum... Detectei desaprovação?

Lourds sorriu:

Talvez cautela fosse uma palavra melhor.

Você não gosta de televisão?

Até gosto — respondeu o professor —, mas acho algo egoísta de­mais, egocêntrico demais.

Sentindo-se provocada, Leslie disse:

Pois eu amo estar na frente das câmeras. Adoro me ver na televisão. Mais do que isso, meu pai e minha mãe também gostam de me ver. Então tento aparecer o máximo que posso — ela sorriu. — Que tal, é egocên­trico o bastante para você?

Sim, é... E mais honesto do que eu esperava.

Bem, e quanto a você? — perguntou ela. — Por que está dispos­to a fazer parte desta série? Será que ela tocou em alguma parte oculta de sua vaidade?

Nem tanto assim, Leslie — respondeu ele. — Se não fosse pelo reitor e pelo conselho de administração insistindo para que eu viesse, teria gentilmente recusado o convite. Realmente só estou aqui por in­sistência da universidade. E por que isso me deu a chance de voltar à Alexandria. Eu adoro este lugar.

Intrigada, Leslie descansou o queixo sobre as mãos cruzadas, coto­velos apoiados sobre a mesa. Ela olhou fundo naqueles olhos cinzentos e quentes.

Mas se você não tivesse concordado, não teria sido capaz de desfrutar deste lugar encantador.

Nem a mulher bonita que me trouxe aqui — os olhos de Lourds encontraram os dela e se fixaram por alguns instantes.

Um calor espalhou-se por Leslie e não tinha nada a ver com o sol da tarde. Oh, você é bom, professor. Vou ter que tomar cuidado quando estiver perto de você.

 

DiBenedetto estacionou o caminhão em um beco a apenas alguns quarteirões do café ao ar livre onde Lourds agora fazia sua refeição com Leslie Crane. Antes de o caminhão parar por completo, uma Mercedes alemã com cinco anos de uso deslizou para o beco atrás deles. Gallardo avistou o carro no retrovisor.

Ele procurou por baixo de sua leve jaqueta e segurou a pistola de nove milímetros que estava no coldre de ombro.

Pietro — ele chamou ao fone de ouvido.

Sim — a voz rouca de Pietro respondeu. — Sou eu. Não atire.

Relaxando um pouco, Gallardo manteve a mão sobre a pistola en­quanto a Mercedes deslizava até parar atrás do caminhão. Ele olhou através do vidro esfumaçado e viu a massa impressionante de Pietro sentada atrás do volante do carro de luxo.

Gallardo saiu do caminhão, DiBenedetto desceu um passo atrás dele. Ambos abriram as portas do carro e sentaram-se em seus lugares.

Farok também desceu do caminhão vestindo um albornoz limpo. A vestimenta sangrenta havia sido deixada na traseira do veículo. Por um momento, ele ocupou-se de fechar a porta atrás de si com cuidado. Mesmo após a traseira do caminhão estar bem trancada, o cheiro de gasolina ainda se espalhava pelo beco. Satisfeito com seu trabalho, Farok acelerou voltando ao seu ritmo habitual e se juntou a eles no carro. Fedia à gasolina também.

Tudo certo? — perguntou Gallardo.

Farok acenou com a cabeça e passou a Gallardo a identificação, o passaporte e os objetos pessoais de James Kale. O cadáver tinha sido deixado completamente limpo.

Sim, está tudo pronto — disse Farok. — Encharquei o caminhão com gasolina e detergente e armei um sinalizador na porta. Quando alguém abrir a porta da carroceria, o interior do caminhão vai explodir em um inferno.

Gallardo assentiu. A mistura de gasolina e detergente era um substituto até razoável para o napalm. Iria queimar de forma rápida e concentrada, tornando muito difícil a identificação do corpo, já bastante complicada com a ausência de todos os seus documentos, que estavam agora em suas mãos. O caminhão havia sido roubado na noite passada, em preparação para seu uso, esta manhã. Não havia nada nele que pudesse conectá-lo ao seu pessoal.

Pietro dirigiu até o lado oposto de beco e saiu para a rua, buzinando furiosamente para os demais motoristas e assustando um camelo.

Cimino — chamou Gallardo pelo rádio.

Aqui — respondeu o outro. — Eles estão em movimento de novo.

Ainda estão a pé?

Sim.

Você, saia do circuito. Peça a alguém para entrar.

Tudo bem.

O estômago de Gallardo se contraiu. Eles seguiram por oito meses a trilha do artefato que Stefano Murani os contratara para encontrar. A trilha finalmente os levara do Cairo, onde o artefato tinha sido apenas um sussurro, até Alexandria, onde Gallardo achava que a coisa devia estar de qualquer modo.

O problema com esses artefatos ilegais era que eles não deixavam pistas, nem mesmo uma trilha por mais irregular que fosse. E se alguns deles não tivessem se mexido demais, como tinha acontecido com este — o comerciante que o vendera tinha contado que o negócio havia ficado numa prateleira de um quarto dos fundos durante dezessete anos —, então a trilha seria mascarada pela passagem do tempo.

Mesmo antes que tivessem matado o produtor, três homens mortos jaziam ao longo do rastro de sangue que os seguia desde o Cairo. Todos eles haviam sido comerciantes de antigüidades raras, e roubadas.

Eles estão voltando para o estúdio — alertou Cimino.

Uma explosão oca veio da esquerda, na direção do lugar onde eles haviam deixado o caminhão. Voltando a cabeça, Gallardo viu um cogu­melo de fumaça subindo aos céus bem acima do telhado dos edifícios. As sirenes começaram a soar logo depois.

Bem... — ponderou DiBenedetto do banco de trás — até que não demorou muito, não é? Esta cidade está cheia de canalhas ladrões.

Agora tem um pouco menos deles — brincou Farok.

Eles saudaram um ao outro batendo as mãos espalmadas.

Gallardo ignorou a sede de sangue de seus mercenários. Aquilo era normal para eles, e foi por isso que ele os empregou. Então, voltou seus pensamentos para as salas do estúdio. Ele e seus homens já tinham estado lá uma vez em preparação. Conheciam a disposição dos móveis e das salas. Entrar lá hoje seria fácil.

Coloquem ali — orientou Leslie. — E enquanto preparamos tudo, alguém tem notícias de James?

Não, mas ele aprovou o cenário e a disposição das câmeras ontem à noite — respondeu um dos membros da equipe. — Ele estaria fora hoje, checando algumas novas locações.

Ótimo — disse Leslie. — Avisem-me quando ele voltar.

Ela voltou então sua atenção para o arranjo dos objetos que ela desejava que Lourds olhasse.

Sentado a uma pequena mesa ao fundo do enorme salão, Lourds obser­vava os preparativos da jovem com interesse crescente. Ela obviamente estava se esforçando para fazer uma apresentação elaborada dos artefatos que lhe prometera mostrar. Os outros jovens estavam até filmando o evento.

Um dos homens, um rapaz alto de ascendência egípcia, atravessou o salão puxando atrás de si uma mala de alumínio com rodas, como as que são usadas pelos pilotos.

Com um ar teatral que lhe teria servido perfeitamente para a vida no palco no Kom Al-Dikka, o homem retirou uma chave de dentro de seu bolso das calças e enfiou-a nas travas que fechavam a mala. Abriu-as com um estalo e guardou a chave.

Lourds teve sua atenção desviada apenas parcialmente pelo som dos veículos de emergência atendendo a um problema nas proximidades. Um dos membros da equipe de Leslie tinha informado que havia um veículo pegando fogo a apenas algumas quadras dali. As viaturas oficiais estavam fervilhando como moscas, de acordo com um dos rapazes.

Movendo-se lentamente, o homem vasculhou dentro da mala e retirou seis objetos, colocando-os com reverência sobre a mesa na frente de Lourds. Quando o homem terminou, ele curvou-se a Leslie, que agradeceu, e o homem então se postou nas proximidades.

Lourds olhou ao redor, incapaz de evitar um sorriso. Seis jovens, homens e mulheres, estavam de pé ao lado de Leslie, esperando para ver o que o professor iria fazer. Ele se sentiu como se fosse um garoto brincando em seu jogo favorito.

O que você achou de tão engraçado? — perguntou Leslie.

Isto — respondeu ele, apontando para os seis objetos sobre a mesa. — Todo ano na universidade os alunos me trazem itens para ler. Normalmente réplicas, no entanto. Nunca os artigos de verdade.

Minhas fontes vão um pouco mais profundamente do que a mé­dia dos estudantes universitários — a voz de Leslie denotava uma nota de determinação. Era evidente que ela não estava preparada para ver seu investimento em tempo e em pesquisas descartado tão rapidamente.

Parece mesmo... — e Lourds fez com que isso soasse como um elogio.

Mas ainda assim, isto é como um mágico num jantar. Ele não foi lá para entreter, porém, logo que as outras pessoas descobrem o que ele faz, querem que ele realize alguns truques para que elas sintam algum deslumbramento.

Ou talvez queiram pegá-lo num fiasco qualquer, fazendo-o cair de bunda no chão — disse um dos jovens. Sua cabeça era raspada e ele ostentava tatuagens pelos dois braços.

É isso o que a Srta. Crane está esperando? — perguntou Lourds.

Que eu dê um furo?

O jovem encolheu os ombros:

Sei lá. Apostei umas libras com ela que você não ia ler eles todos. Mas acho que ela espera o contrário, que decifre tudo...

Não vou ficar triste de conseguir algumas libras a mais, Neil - respondeu Leslie. — Tenho certeza de que o professor Lourds é exa­tamente o que Harvard diz que ele é. Proficiente em todos os idiomas antigos conhecidos.

Em vários — corrigiu Lourds. — Proficiente em vários idiomas antigos...

Embora possa me virar muito bem em todos eles, emendou para si mesmo. Ele não era de se gabar. Ele podia mesmo.

Parece que ele já está preparando as suas desculpas — disse Neil, sorrindo.

O edifício era um dos mais antigos na cidade. Ar-condicionado aqui era apenas um pensamento longínquo... Como resultado, a sala era confortável, mas não hermeticamente selada como os ambientes do hotel que Lourds deixara mais cedo naquele dia. Eles estavam em um escritório de canto. Um conjunto de janelas fazia vista para o Mediterrâneo cinza-esverdeado e o outro tinha uma bela vista da cidade de Alexandria. Lourds estava disposto a apostar que ele poderia provavelmente ver Kom Al-Dikka da janela.

Leslie dissera-lhe que o escritório tinha sido despojado e configurado para lidar com as necessidades da produção do programa de televisão. Um pequeno cenário, iluminado e pronto, ocupava um dos lados da sala, que estava com as janelas bloqueadas para que pudessem controlar a luminosidade. Era um cenário decorado para se parecer com o escritório de uma pessoa, com estantes repletas de livros falsos por trás da mesa onde Lourds tinha sido orientado para se sentar. A mesa era melhor e maior do que aquela que ele possuía em seu próprio escritório em Harvard. Coberta com um conjunto de equipamentos de informática que parecia capaz de lançar naves espaciais, era algo que se ajustava ao status de estrela do rock que o programa aspirava lhe emprestar.

O outro lado da sala e a maior parte do espaço restante estavam cobertos de câmeras, microfones e equipamento de som colocados lado a lado. Fios encapados serpenteavam em todas as direções e pareciam estar frouxamente mantidos sob controle. Todo o salão era um pouco intimidante, achava Lourds.

O professor pegou o primeiro item, uma caixa de madeira de cerca de seis centímetros de comprimento por quatro de largura por dois de pro­fundidade. Hieróglifos coloridos acompanhavam o topo e as laterais. Ao abrir a tampa, Lourds encontrou uma pequena estatueta de uma múmia.

Sabe o que é isso?

Lourds virou a pequena caixa para frente a fim de poder exibir seu conteúdo para o pessoal da televisão.

Uma shabti — respondeu Leslie.

Muito bem. E você sabe o que é uma shabti?

Uma peça para dar boa sorte e que era deixada nas tumbas egípcias.

Não exatamente — disse Lourds, dando tapinhas na figura. — Su­põe-se que as estatuetas shabti representavam o mordomo do falecido, seu servo principal e que iria realizar as tarefas do seu amo na vida após a morte.

Tudo bem, uma coisa é saber o que é essa estatueta — sugeriu Neil —, mas outra é conseguir ler o que está escrito.

É do Capítulo Seis do Livro dos Mortos — Lourds estudava a inscrição, não querendo assumir a tradução caso alguém tivesse alterado a redação que deveria estar lá. Mas tudo parecia estar no lugar em que deveria. E leu os hieróglifos com facilidade. — Se N for chamado para fazer qualquer dos trabalhos que sejam realizados no submundo, então as marcas (na lista dos trabalhos) são impactadas sobre ele assim como o são no homem (a seu serviço) e devem ser contadas como sendo dele a qualquer momento que possam ser feitos, como cultivar a margem do rio, irrigar os campos ribeirinhos, transportar areia para leste ou oeste. "Estou fazendo isso, veja, estou aqui", você está dizendo.

Leslie olhou para seu notebook e, em seguida, entregou-o a Neil.

Então ele acertou uma... — disse Neil, devolvendo o notebook. — Mas tudo bem, ele poderia ter memorizado essa passagem.

Lourds foi para o item seguinte: uma réplica de um papiro escrito em copta e que lhe parecia familiar demais. Ele olhou para Leslie:

Isto aqui veio do documento codificado que eu traduzi.

É — concordou ela. — Como não existe uma versão desses documentos em audiolivro, achei que seria interessante termos uma apresentação oral...

Neil virou a cabeça para ela:

Essa é aquela coisa cheia de sacanagem da qual me falou?

Isso mesmo — e os brilhantes olhos verdes de Leslie não deixa­ram de encarar os de Lourds.

Um desafio, hein? Lourds sentiu-se intrigado e divertido ao mesmo tempo, tentando adivinhar até onde ela o deixaria prosseguir. Afinal, ele já fora obrigado a apresentar essa peça um bom número de vezes em diferentes comissões, incluindo a sala do reitor para uma celebração na aceitação da tradução. A leitura, proferida com a habilidade de um orador que se desenvolveu naturalmente a partir dos muitos anos de Lourds como professor, tinha sido um grande sucesso e feito inúmeras línguas acadê­micas balançar para fora da boca escandalosamente. Ela não conhecia o mundo em que ele vivia se pensava que meras palavras poderiam constrangê-lo ou assustá-lo aqui.

Ele leu o primeiro trecho do documento em voz alta e então traduziu. Leslie deteve Lourds antes que a primeira seção das preliminares se tornasse mais séria:

Tudo bem — disse ela, corando. — Você conhece o texto, va­mos para o próximo.

Tem certeza? — perguntou Lourds. — Estou bem familiarizado com este aqui...

Ele não esclareceu propositalmente se estava familiarizado com o texto... Ou com a técnica apresentada. Suas palavras foram tão desafia­doras quanto as dela.

Tenho certeza de que sim — retrucou Leslie — Só não quero que os figurões da rede fiquem se coçando de nervoso.

Uau, cara.. — disse Neil sorrindo de orelha a orelha. — Isso é do grande... Não sabia que pornô podia ser tão... Ter tanta... Putaria.

Lourds não se preocupou em corrigir a distorção sobre o significado da peça. Não foi a intenção do autor escrever pornografia, não exatamente. Aquilo era mais um diário sobre as experiências do escritor, lembranças do seu passado. Mas lendo em voz alta agora, seu uso tinha se alterado. Uma vez que o ouvinte captava as palavras, elas e seu significado se tor­navam subjetivos, aplicados à opinião que aquele indivíduo tinha sobre a vida e sobre seu momento. Para Neil, aquilo era provavelmente pornografia.

A terceira peça na mesa era etíope, escrita em Ge'ez, que era um abugida. Como um grafema transcrito em sinais, denotava consoantes com vogais inerentes arrastadas. Além da Etiópia, esse alfassilabário fora também usado por certos povos indígenas americanos e canadenses — os algonquinos, atapascas e inuítes —, bem como na família de idiomas bramânicos — no sul e sudeste da Ásia, do Tibete e da Mongólia. Havia penetrado no Oriente tão longe quanto a Coréia. A peça tinha o compri­mento da tromba de um elefante e fora usada por um comerciante para gravar sua jornada pelo lugar então chamado de Chifre da África. Pelo que Lourds foi capaz de recolher daqueles registros, havia sido concebido como um presente para o filho mais velho do homem, um marcador e um desafio para que o rapaz fosse mais longe e ousasse mais do que o pai tinha feito.

Evidentemente a tradução de Lourds se equiparou ao que Leslie tinha em suas notas, porque ela ficava balançando a cabeça enquanto ele lia.

A quarta peça prendeu completamente a atenção de Lourds. Era um sino de cerâmica, provavelmente usado certa vez por um sacerdote ou xamã para chamar a comunidade para a oração ou para fazer seus anúncios. Era um sino dividido em duas partes: havia um badalo que descia do topo e, na parte inferior, um reservatório para colocar as ervas. Um leve cheiro de gengibre estava agarrado à peça, indicando que havia sido usada recentemente. Um anel no topo convidava à especulação de que aquele sino pendia do cajado de um pastor ou de um bastão forjado num formato similar. A peça tinha o aspecto polido de um objeto que tinha sido tratado e cuidado continuamente ao longo de muitos séculos, talvez até mesmo ao longo de milênios. O reservatório poderia até ter sido usado para conter óleo em certa época, a fim de servir de lanterna para um de seus antigos portadores.

A inscrição do sino realmente o diferenciava das outras peças que Lourds tinha dispostas diante dele. Na verdade, o aspecto mais fasci­nante sobre o sino foi aquela inscrição que o circundava.

Ele não conseguia lê-la. E não apenas isso, ele jamais tinha visto algo parecido em toda a sua vida.

 

No beco atrás do prédio onde o pessoal da televisão tinha alugado seus quartos, Gallardo saiu do carro. Ele foi rapidamente para a traseira do veículo, seguido por Farok e DiBenedetto.

Pietro abriu a tampa do porta-mala apertando um botão no painel. Ela se ergueu lentamente, revelando as mochilas que estavam escondidas lá dentro. Abrindo o zíper da mochila que estava por cima, Gallardo pegou uma Heckler & Koch MP5. Ele acrescentou um silenciador especialmente adaptado para a arma ao mesmo tempo em que Cimino se juntou a eles.

Cimino era um homem compacto e atarracado, que passava todo o seu tempo livre em academias. Sua droga predileta eram os esteroides, e ele se mantinha dolorosamente perto do uso excessivo, ficando a um passo apenas do lado saudável e sadio. A cabeça quadrada era raspada. E óculos de aviador dividiam seu rosto ao meio.

Eles estão lá dentro? — perguntou Gallardo.

Estão — Cimino escolheu uma pistola automática também.

Seguranças?

Só os do prédio, e poucos. — Cimino enfiou um silenciador no lugar certo de sua arma com a facilidade adquirida pela prática.

Parece bom para mim — Farok carregou uma das pistolas auto­máticas e atirou-a dentro de um saco de lona que pendurou no ombro.

Tudo bem — disse Gallardo, sentindo uma emoção chiar através de seu estômago, em antecipação da ação e do sucesso que ele sabia que estava se aproximando e que seria seu. Ele fechou a mochila e então atravessou a entrada lateral do edifício.

 

Sentindo que alguém estava tentando fazer um truque maldoso, Lourds examinou a inscrição mais de perto, pensando que talvez tivesse sido gravada recentemente sobre um sino antigo, o que teria sido uma tolice levando-se em conta as circunstâncias, porque tal ato teria destruído o enorme valor intrínseco do próprio sino, e só para enganá-lo. Mas se aquilo fosse uma falsificação, ele seria obrigado a reconhecer que tinha sido uma obra-prima. A inscrição seria suave ao toque. Havia lugares em que parecia tão gasta que praticamente desaparecera.

É. Se fosse uma farsa, era danada de boa.

Operando por instinto, Lourds alcançou sua mochila, que estava pendurada em sua cadeira, e tirou um lápis de grafite macio e algumas folhas de papel vegetal para desenho. Colocando uma folha de papel sobre o sino, ele esfregou o lápis contra a superfície, criando uma imagem negativa da inscrição.

O que você está fazendo? — Neil perguntou.

Lourds ignorou a pergunta, consumido pelo quebra-cabeça que estava diante de si. Ele pegou uma pequena câmera digital de sua mochila e tirou fotos do sino de todos os lados. O flash da câmera, especialmente quando usado em cerâmica lisa, nem sempre permitia que a foto pegasse todos os detalhes das marcas rasas. Foi por isso que ele tinha feito os decalques.

O professor estava tão envolvido que nem percebeu quando Leslie se aproximou e parou do outro lado da mesa.

O que está acontecendo? — perguntou ela.

Onde conseguiu isso? — Lourds respondeu com outra pergunta, virando o sino na mão. O badalo resvalou suavemente contra a lateral do objeto.

Numa loja.

Que loja?

Um antiquário do pai dele — respondeu Leslie, apontando com o queixo o homem magro encostado em uma parede, parecendo um pouco preocupado.

Lourds quis imobilizar o homem com seu olhar, não desejando perder tempo com bobagens. Se isso fosse uma bobagem, é claro. Mas estava a meio caminho de se convencer de que não era uma brincadeira. Parecia elaborada demais. O sino parecia real.

De onde veio isso? — perguntou Lourds em árabe.

De meu pai — respondeu o homem educadamente. — A moça pediu que nós colocássemos algo realmente antigo com os outros itens. Para melhor testá-lo, disse ela. Meu pai e eu dissemos a ela que não conseguíamos ler o que estava escrito no sino, e por isso não sabíamos o que ele dizia — ele hesitou. — A moça disse que tudo bem.

E onde seu pai conseguiu esse sino?

O rapaz sacudiu a cabeça:

Não sei. Está na loja há muitos anos. Ele me diz que ninguém parece saber de onde veio nem o que é.

Lourds virou-se para Leslie e voltou ao inglês:

Quero falar com o pai dele. Ver a loja de onde veio esse sino.

Leslie pareceu surpresa:

Tudo bem, tenho certeza de que podemos organizar isso. Mas o que há de errado?

Não consigo ler isso.

Lourds olhou para o sino mais uma vez, ainda não acreditando que aquilo poderia ser autêntico.

Está tudo bem — disse Leslie a ele. — Eu não acho que alguém vá realmente acreditar que você pode ler todas as línguas. Você sabia um monte das outras. As pessoas que assistem a nosso programa ainda vão ficar impressionadas. Eu mesma estou impressionada.

Lourds disse a si mesmo para ser paciente. Leslie realmente não entendia o problema.

Ouça, eu sou uma autoridade nas línguas faladas aqui — disse a ela. — A civilização como nós a conhecemos começou não muito longe de onde estamos. As línguas utilizadas, vivas e mortas, são tão familiares para mim como minha própria mão. Tendo isso em conta, estas inscrições deveriam ter sido escritas em um dos idiomas altaicos. Turco, mongólico ou tungúsico.

Sinto muito, mas não sei do que você está falando...

Isso é uma família de línguas — explicou Lourds. — E ela englo­bava esta área. E toda a linguagem da região surgiu a partir daqui. Embora o tema seja muito contestado por lingüistas. Alguns deles acreditam que a linguagem altaica resultou de um idioma geneticamente herdado, com palavras e idéias, e talvez até alguns símbolos, que estão gravados em algum lugar de nosso código genético.

Como é? A genética predispõe a língua? — Leslie arqueou uma sobrancelha com surpresa. — Nunca ouvi nada parecido com isso...

Nem deveria, mesmo. Eu mesmo não acredito que seja verdade. Existe outra razão, e mais simples que essa, pela qual tantas línguas com­partilham traços comuns em dado momento — Lourds acalmou-se um pouco. — Todas essas pessoas, com todos os seus diferentes idiomas, viviam em estreita proximidade. Eles trocavam mercadorias, todos procurando praticamente as mesmas coisas. E eles então teriam que ter palavras em comum a fim de poder fazer isso.

Mais ou menos como a explosão dos computadores pessoais e da internet — comentou Leslie. — A maior parte dos termos da informá­tica é em inglês, porque foram os Estados Unidos que desenvolveram grande parte da tecnologia, e em outros países simplesmente usaram as palavras em inglês porque não tinham palavras em sua própria linguagem para descrever as peças de computador e sua terminologia.

Lourds sorriu.

Exatamente. Uma analogia muito boa, por sinal.

Obrigada...

Essa teoria é chamada de Sprachbund.

O que é o Sprachbund? — perguntou Leslie.

É a área de convergência de um grupo de pessoas que, em última análise, acabam partilhando parcialmente um determinado idioma. Du­rante as Cruzadas, nas batalhas entre cristãos e muçulmanos, ocorreram trocas de um lado e de outro de linguagem e de idéias, e essa troca foi tão intensa quanto as flechas e os golpes de espada. Tais guerras eram desen­cadeadas tanto para expandir o comércio quanto para proteger a Terra Santa.

Você está me dizendo que eles acabaram falando a língua uns dos outros?

Sim — respondeu Lourds. — Pelo menos as pessoas que guerreavam ou que faziam comércio. Partes dos idiomas. Nós ainda carregamos a história do conflito em algumas palavras do inglês moderno. Palavras como assassino, azimute, algodão, até mesmo as palavras cifras e decifrar. Essas duas vêm do arábico sifi, que é o número zero. O símbolo para zero era central para muitos códigos. Mas este artefato não tem nada a ver com as linguagens nativas desta área, ou com qualquer outra linguagem que eu já tenha visto ou ouvido. — Lourds levantou o sino — Naqueles primeiros anos, os artesãos, especialmente aqueles que escreviam e guar­davam seus registros, fariam parte desse Sprachbund. Isso é uma suposição lógica. Mas este sino? — Balançou a cabeça. — É uma anomalia. Eu não sei de onde veio. Se não for uma falsificação, e ele não parece ser uma, o que estamos vendo é um artefato de algum outro lugar que não o Oriente Médio.

Que outro lugar? — indagou Leslie.

Lourds suspirou.

Esse é o problema. Eu não sei. E eu deveria saber isso também...

Você acha que nós temos aqui um verdadeiro achado, não é? - a excitação fazia os olhos de Leslie brilhar.

Um achado — Lourds concordou provisoriamente — ou uma aberração.

Como assim, o que você quer dizer?

A inscrição no sino... Ela poderia ser uma... Mistificação, por falta de um termo melhor. Simplesmente alguma coisa sem sentido feita para enfeitar o sino...

Mas você não saberia, se fosse o caso? Não seria algo fácil de identificar à primeira vista? — perguntou Leslie.

Lourds franziu a testa. Leslie o encurralara. Mesmo uma língua arti­ficial exigiria uma base na lógica. Como tal, ele deveria ser capaz de detectar isso também.

Bem? — apertou ela.

Sim — assumiu ele. — Eu seria capaz de identificar... Isso parece autêntico para mim.

Leslie sorriu novamente e se inclinou para o sino, avaliando-o agora com mais intensidade.

Se isso está realmente escrito em uma língua até então desconhecida - disse ela —, então nós realmente fizemos uma descoberta surpreendente.

Antes que Lourds pudesse responder, a porta de repente foi arrancada das dobradiças. Homens armados irromperam na sala, apontando para as pessoas.

Todo mundo, parado! — um homem gritou em um inglês com sotaque.

Todos congelaram em seus lugares.

Lourds pensou ter reconhecido um sotaque italiano nas palavras do homem.

Os quatro homens armados apressaram-se para dentro da sala. Eles usaram seus punhos e as armas para conduzir toda a equipe da televisão para o chão. Todas as pessoas da equipe de Leslie se encolheram e ali ficaram, imóveis.

Um dos homens, aquele que tinha gritado, atravessou a sala em passos largos e pegou Leslie pelo braço.

Lourds instintivamente se levantou, incapaz de ficar sentado calma­mente e observar a jovem se machucar. Mas ele não fora treinado para esse tipo de coisa. Claro, ele tinha passado um tempo em partes bem vio­lentas do mundo. Mas teve sorte. A pior onda de violência que ele já tinha experimentado pessoalmente tinha sido uma altercação durante uma partida de futebol.

O homem colocou o cano da pistola na cabeça de Leslie.

Sente-se de volta, professor Lourds, ou essa jovem bonitinha morre agora.

Lourds sentou-se, mas o fato de que aquele homem sabia seu nome o deixou nervoso.

Muito bom — disse o homem. — Coloque as mãos sobre sua cabeça.

Lourds obedeceu e começou a sentir uma acidez no estômago. Por mais selvagens que as coisas tivessem ficado algumas vezes enquanto estivera estudando línguas em terras instáveis, nunca tivera uma arma apontada para ele.

Para baixo — ordenou o homem, arrastando Leslie para o chão.

Quando ela estava deitada, ele olhou para os itens que estavam sobre a mesa. Sem hesitar, pegou o sino.

Foi quando cometeu seu primeiro erro. Ele e seus homens tiraram os olhos de Leslie.

Antes que Lourds compreendesse completamente tudo o que estava acontecendo, ela se colocou de pé e se atirou contra um dos homens. Leslie o derrubou e pegou a arma dele, em seguida mergulhou por baixo da pesada mesa que ficava ao fundo do cenário em um único movimento fluido.

Esse movimento pegou os bandidos de surpresa. Era bastante claro que eles não estavam esperando que uma simples mulher fosse revidar dessa forma.

Os bandidos a haviam subestimado, mas eram todos profissionais e logo se recobraram.

Os sons dos tiros encheram a sala, e a mesa recebia uma punição para a qual não havia sido destinada. As balas encheram a sala de lascas de madeira.

Leslie atirou de volta. Os tiros que sua arma disparava faziam um som muito mais alto do que os de seus atacantes, e ela parecia saber muito bem o que estava fazendo. Buracos de bala rastreavam os bandidos na parede, fazendo saltar baforadas de pó de gesso que pareciam surreais a Lourds.

Enquanto isso, a equipe da televisão se arrastava em busca de proteção.

O mesmo fizeram os ladrões.

Não! Pensou Lourds. Nenhum artefato vale a morte de todas essas pessoas.

Então ele ouviu o ping familiar do telefone por via satélite de Leslie.

Talvez pudesse telefonar pedindo ajuda.

No meio do caos, Lourds rolou pelo chão e mergulhou atrás da mesa, ao lado de Leslie.

Enquanto eu falo, você atira. Ou nós dois vamos morrer.

Bem pensado — respondeu ela.

Ela lhe entregou o telefone, já marcado em um número de emergência. Mais disparos. E então, um grito. Lourds esperava que tivesse vindo de um dos assaltantes e não do pessoal da televisão.

Quando uma explosão de palavras assustadas em árabe saiu do tele­fone preso firmemente em sua mão, Lourds começou a falar.

Antes que tivesse terminado a segunda frase, o som de sirenes vindo da rua se intensificou.

A ajuda já estava a caminho.

Os bandidos também ouviram.

E foram embora, um deles deixando atrás de si um rastro de sangue.

Leslie correu atrás deles, não atirando mais até que tivesse uma chance clara de disparar.

Lourds seguiu-a bem a tempo de tirá-la do caminho quando uma rajada final disparada pelos ladrões dividiu ao meio a porta do escritório.

No chão, apavorado mas ainda inteiro, Lourds passou seus braços em torno de Leslie. Ele sentiu a doce pressão da carne feminina contra seu corpo e decidiu que, se tivesse que morrer naquele instante, haveria maneiras piores de isso acontecer.

Ele segurou a mulher, prendendo o corpo dela sob o seu.

O que achava que estava fazendo? — questionou à mulher. — Você queria morrer, é isso?

Eles estão fugindo! — Leslie tentava escapar daquela pressão.

Sim, e ainda bem. Que eles fujam para bem longe. Eles têm armas automáticas, além de terem mais armas do que nós, e a polícia está che­gando... E a julgar pela quantidade de sirenes, deve ser a maior parte da força policial da cidade. Você nos salvou e acho que já fez demais. Coloque essa arma de lado e deixe que os profissionais assumam.

Leslie relaxou o corpo nos braços dele. Por um momento, o professor achou que seria agora que a jornalista iria reclamar dele e chamá-lo de covarde. Lourds tinha descoberto, no calor do momento, que o bom-senso foi muitas vezes confundido com covardia por aqueles que veem de fora.

Dois dos rapazes da produção espiaram do lugar onde estavam se escondendo. Como não foram atingidos por nenhum disparo, o professor concluiu que já deveria ser seguro ficar de pé. Ele fez isso, ajudando Leslie a se colocar ao lado dele.

Caminhando pelo salão, Lourds observou os buracos de bala que mar­cavam o fim do corredor, bem como as paredes, o teto e o chão. Os ban­didos não eram bons atiradores, mas eles certamente espalharam balas suficientes pela vizinhança em geral para fazer uma declaração.

Vá chamar a polícia — disse Lourds a um dos jovens árabes. — Diga-lhes que os ladrões já foram embora, e que os únicos aqui somos nós. Queremos que eles estejam cientes disso quando chegarem aqui, ou as coisas poderão ficar emocionantes outra vez...

Um dos membros da equipe, já pálido, mergulhou para pegar seu telefone.

Leslie se afastou de Lourds e correu até uma janela. Ela olhou para a cidade.

Lourds foi se colocar ao lado da jovem, mas não viu nada.

Perdemos o sino — disse ela. — E antes mesmo de sabermos o que era.

Bem, isso não é totalmente verdade — respondeu Lourds. — Tirei cópias das inscrições quando fiz os decalques, e também tirei diversas fotos do sino com minha câmera digital. Sem dúvida nós perdemos o sino em si, mas não os segredos que ele pode conter. E, sejam quais forem esses segredos, ainda não estão completamente fora de nosso alcance.

Mas ele não conseguiu deixar de se perguntar se perseguir aquele quebra-cabeça não iria colocá-los de novo diante das armas de alguém. Esse alguém desejava aquele sino com tanto ardor que não hesitaria em matá-lo e a toda a equipe da televisão. E será que eles matariam para colocar as mãos na pesquisa sobre o sino também? Um professor de lingüística supostamente não se envolveria nesse tipo de coisa.

Nem estaria conversando com uma centena de excitados policiais egípcios.

Mas, a julgar pelo som de passos no corredor, parecia que ele estava prestes a aprender todos os tipos de coisas novas hoje.

 

           PRAÇA SÃO PEDRO, CIDADE-ESTADO DO VATICANO

         17 DE AGOSTO DE 2009

Menos de mil pessoas viviam dentro dos muros da Cidade do Vaticano, mas milhões de turistas e fiéis visitavam visitar o local a cada ano, vindos de todos os lugares do mundo. Consequen­temente, a menor nação da Europa também apresentava o maior índice de criminalidade per capita do planeta. Todo ano, juntamente com os turistas e fiéis, os pun- guistas e batedores de carteira compareciam em massa.

O Cardeal Stefano Murani era um dos residentes da Cidade Santa e, na maior parte do tempo, adorava viver lá. Era sempre muito bem tratado e respeitado, seja vestindo sua indumentária de trabalho ou um terno Armani, que era o que usava freqüentemente quando não estava paramentado. Hoje não estava usando sua vestimenta cardinalícia porque cuidava de negócios pessoais e não pretendia ser lembrado mais tarde como um agente da Igreja Católica Romana.


Com 1,80 metro de altura, era um homem de boa aparência. Ele sabia disso, e sempre procurava fazer com que se mostrasse da melhor maneira possível. Seu cabelo castanho escuro, aparado uma vez por semana pelo cabeleireiro pessoal que vinha até sua suíte privada para fazê-lo, era liso. Uma linha fina de barba acompanhava a mandíbula e se alargava brevemente no queixo para se juntar depois ao bigode raspado com navalha. Olhos negros dominavam o rosto e eram deles que a maioria das pessoas que conhecia Murani se lembrava depois. Alguns lhe disseram que os olhos eram frios e impiedosos. Outros, que não eram tão experimentados no pior que o mundo poderia oferecer, achavam que seus olhos eram meramente diretos e firmes, um claro sinal de sua fé em Deus.

Sua fé em Deus, assim como sua fé em si mesmo, era perfeita. Ele sabia disso.

Seu trabalho era obra de Deus, também.

No momento, o menino de dez anos de idade lutando contra o aperto firme de Murani estava convencido de que o próprio demônio se apode­rara dele. Ou era isso que o garoto tinha dito antes de Murani silenciá-lo. Agora o terror alargara os olhos do menino e arrancava choramingos plangentes de sua alma. Aquele era um projeto de menino, não mais do que ossos e trapos.

Murani achava que um moleque daqueles não deveria ter tido per­missão de entrar na Cidade do Vaticano. Ele deveria ter sido detido e afastado de uma vez por todas logo na entrada. Qualquer um poderia ter visto que era um ladrãozinho qualquer, um batedor de carteiras que estava começando a aprender seu ofício. Mas havia aqueles que acreditavam que era preciso apenas uma visita à Cidade do Vaticano para alterar para sempre a vida dos homens. Ou seja, até mesmo os vermes das ruas, como esse espécime, tinham permissão para entrar aqui. Quem sabe, diziam os crentes na misericórdia, eles encontrassem Deus.

Mas Murani não se colocava entre os tolos que pensavam dessa forma:

Você sabe quem sou eu? — exigiu saber do moleque.

Não — respondeu ele.

Você devia conhecer o nome do homem cujo bolso pretende roubar — continuou Murani. — Isso poderia ajudá-lo a escolher seus alvos. Uma vez que não conheço você, sua punição será rápida e leve. Vou quebrar apenas um de seus dedos.

Assustado, o garoto tentou chutar o cardeal.

Mas Murani esquivou-se para um lado, de forma que o tênis esfar­rapado passou a apenas alguns centímetros dele. E partiu o indicador do menino em dois, como se fosse uma vareta.

O garoto caiu no chão e começou a uivar.

Nunca me deixe vê-lo novamente — alertou Murani. Aquilo não era uma ameaça, era um fato, e ambos sabiam disso. — Se isso acontecer, vou quebrar mais do que um dedo na próxima vez. Entendeu?

Sim.

Agora, levante-se e saia daqui.

Sem dizer uma palavra, o menino lutou para ficar de pé e mergulhou no meio da multidão, segurando a mão ferida.

Murani se levantou e tirou a poeira de seus joelhos, fazendo isso com calma até ter certeza de que o tecido escuro estava outra vez limpo. Ele olhou em volta para a Cidade do Vaticano, ignorando os olhares dos turistas. Essas pessoas eram nada, não muito mais dignas do que o jovem ladrão que ele tinha acabado de libertar. Curiosos e dóceis como ovelhas, eles viviam em respeito e temor ao verdadeiro poder. E ele fazia parte desse poder.

Um dia, acreditava, ele seria todo esse poder.

Atravessou a Praça de São Pedro, sua presença física diminuída pela enorme massa da Capela Sistina à esquerda e do Palácio do Governo atrás dele. O Escritório das Escavações e a Sacristia e o Tesouro ficavam bem à frente, à direita, ladeados pelos Correios do Vaticano e o estande de informações na entrada. A Pietá de Michelangelo estava diante dele.

Gian Lorenzo Bernini criou o efeito geral da praça na década de 1660, projetando a área em um trapézio. A fonte desenhada por Cario Maderno tornou-se um foco primário enquanto as pessoas caminhavam pela área, mas as enormes colunas dóricas enterradas em profundidade chamavam a atenção de todos imediatamente. As colunatas produziram um ar im­perial, definindo espaços para tudo, especialmente os Jardins Barberini. No centro da área aberta, um obelisco egípcio de quase 45 metros de altura se impunha. O obelisco havia sido esculpido 1300 anos antes do nascimento do Santíssimo, tinha passado um tempo no Circus de Nero e então Domenico Fontana o mudara para a praça em 1586.

Ao longo dos séculos, a Praça de São Pedro tinha recebido acréscimos e alterações. A via de paralelepípedos tinha sido retirada. Linhas de már­more travertino alteraram o projeto visual. Pedras circulares adicionadas em 1817 foram espalhadas pelo pavimento ao redor do obelisco, criando um relógio de sol alto demais. Mesmo Benito Mussolini tinha ficado im­pressionado com a praça e havia demolido edifícios para proporcionar uma nova entrada para a área, a Via della Conciliazione.

Murani viera pela primeira vez à Cidade do Vaticano ainda menino, com o pai e a mãe. Ele havia sido preenchido com uma admiração que nunca o tinha deixado. Quando disse ao pai que ele ia viver no palácio algum dia, ele apenas riu.

Sendo filho de quem era, Murani poderia ter escolhido sua moradia entre as mansões e casas espalhadas pelo mundo. Seu pai era um homem rico, rico várias vezes. Quando era criança, tinha ficado impressionado com os milhões do pai. As pessoas tratavam seu pai muito bem e com respeito onde quer que fosse, e muitos deles ainda o temiam. Mas seu pai tinha seus próprios medos também. Esses temores incluíam outros homens tão cruéis quanto ele, e a polícia.

Apenas um homem caminhava pela Cidade do Vaticano sem medo, e Murani esperava um dia ser esse homem. Ele queria ser o papa. O papa tinha dinheiro. A Cidade do Vaticano rendia mais de um quarto de bilhão de dólares anualmente por meio de seus dízimos diversos, coleções e em­presas comerciais. O dinheiro não era o que queria Murani, no entanto. Ele queria o poder do papa. Mesmo quando a posição de papa tinha sido ocupada por homens dobrados pela idade, por doenças e por outras enfer­midades, o respeito pelo papado continuara. Eles eram poderosos.

As pessoas, ou seja, os crentes e o mundo em geral, pensavam que a palavra do papa era a lei. Isso vinha sem uma demonstração de força, sem qualquer tentativa de demonstrar o poder que o papa exercia.

O cardeal Stefano Murani era um dos poucos que realmente sabiam a quantidade de poder que o papa poderia reunir se ele assim o escolhesse. Infelizmente, o atual papa, Inocêncio XIV, não acreditava em flexionar o poder do cargo. Ele estava tentando pregar a paz, apesar dos constantes ataques terroristas e da devastação econômica que perturbavam o mundo.

O velho tolo.

Ainda na mais tenra idade, Murani havia sido atraído pela Igreja Católica. Ele serviu como coroinha na igreja na qual crescera, em Nápoles, e adorava a maneira organizada como os padres realizavam suas funções. Ele não deveria ter se tornado um sacerdote. O pai tinha outras idéias para o filho. Mas quando, na juventude, explorou os interesses de seu pai nos negócios e sentiu que isso não o preenchia, voltou-se para a vida do clero.

O pai naturalmente ficou com raiva quando recebeu o anúncio, e até mesmo tentou arrancar essa idéia da cabeça do filho. Pela primeira vez, em 25 anos, Murani descobriu que sua vontade era mais forte do que a de seu pai: ele poderia suportar toda a violência que o pai usasse e ainda assim não vacilar. Mas não achou que o treinamento recebido em casa, conforme os negócios da família, tivesse alguma utilidade em sua nova carreira. Quando foi ordenado, continuou seus estudos no campo dos computadores e se destacou. Ele foi rapidamente enviado para a Cidade do Vaticano e logo fez carreira, assumindo o cargo mais alto na divisão de computadores, onde agora estava servindo. Final­mente, foi feito cardeal, um dos homens que tinham o poder de eleger um papa. Ele quase ficou de fora da última convocação papal, mas tomou parte da reunião de cardeais que colocaram Inocêncio XIV no poder.

Durante os últimos três anos, poucos dias antes de seu aniversário de 41 anos, foi trazido para a Sociedade de Quirino, o mais poderoso grupo clandestino da Igreja, composto por homens que ocupavam os segredos mais bem guardados dentro dela.

A maioria desses segredos eram assuntos de menor importância — casos de erros papais e de crianças nascidas fora do casamento cujos pais eram cardeais, ou de altos sacerdotes da Igreja que se interessavam demais pelos coroinhas. Essas eram coisas que poderiam ser tratadas calmamente, embora mesmo isso estivesse ficando mais difícil nesses tempos de atenção instantânea da mídia. As histórias de má conduta sexual perseguiam a Igreja nos dias de hoje, levando-a para a sarjeta e fazendo-a parecer en­fraquecida. Em 2006, um padre até tinha sido condenado por cometer um homicídio particularmente abominável.

Essas cicatrizes imputadas à sua amada Igreja incomodavam Murani.

Nos últimos três anos, Murani havia se convencido de que os papas antes dele — e ele pensava em si mesmo como papa, pois sabia que iria estar entre eles um dia, sem dúvida — haviam desperdiçado seu poder, recuando constantemente e deixando de garantir o que era seu por direito. As pessoas precisavam de fé. Sem fé, não podiam compreender todas as coisas confusas que fazem parte de simplesmente estar vivo. As grandes massas tinham um pânico animalesco com relação a eles atualmente. Mas ser verdadeiramente fiel significava estar verdadeiramente contrito e temente.

E o medo perfeito era uma coisa maravilhosa.

Ele adorava infligir o medo.

Murani tinha a intenção de trazer de volta ao mundo esse medo do papado.

Quando era criança, ele ficava sentado nos joelhos da mãe, ouvindo as antigas histórias da Igreja. Naquele tempo, a bênção do papa poderia fazer reis mais poderosos, guerras durarem mais tempo ou acabar abrupta­mente, e estimular conquistas e destruir impérios. O mundo havia sido um lugar mais bem organizado e dirigido durante aqueles anos em que o papado era o comando supremo.

Murani ansiava por esse poder. O pai havia se afastado do filho, mas a mãe era rica da mesma forma, tendo herdado a fortuna do próprio pai. Então, aquilo que o pai não lhe daria, a mãe de Murani o faria.

Um dia, quando fosse o papa, e Murani tinha certeza de que esse dia não tardaria em chegar, iria quebrar seu pai e obrigá-lo a reconhecer o fato de que o curso que escolhera... Não, que seu o destino... Tinha lhe trazido mais poder do que todos os ganhos ilícitos do pai.

Concentrando-se em seu objetivo, Murani saiu da Cidade do Vaticano e viu o Hummer azul-escuro de Gallardo esperando estacionado ao meio-fio.

Gallardo esticou-se sobre o banco do passageiro e abriu a porta. Murani pisou no estribo e deslizou para o assento.

Você teve alguma dificuldade adicional em Alexandria? — perguntou Murani.

Gallardo olhou por cima do ombro, verificou que havia uma calma passageira no tráfego e saiu suavemente pela rua. Ele balançou a cabeça e franziu a testa:

Não. Escapamos limpos. Não deixamos nada para trás que pu­desse trazer a polícia até nós. O pessoal da TV vai atrás da próxima grande história. Eles sempre fazem isso. E o Lourds é um professor univer­sitário. Uma pulga na grande escala das coisas que realmente importam. Que tanto de problema ele poderia ser?

Ele é também um dos homens mais eruditos na face do planeta quando se trata de línguas.

Então, ele sabe como dizer: "Por favor, não atire em mim!" em várias línguas. — Gallardo sorriu. — Eu não posso dizer que estou impressionado com esse cara. A mulher que estava com ele vale dez professores. Só ela nos impediu de matar as testemunhas. Mas ela é apenas uma mulher. Na verdade, ela encontrou algo que você quer.

Onde está?

Há um compartimento secreto. — Gallardo apontou um dedo carnudo para o assoalho do lado do passageiro.

No carro? — Murani procurou com atenção no carpete detalhado.

Sim. Basta empurrar para baixo. Forte. E torcer para a direita.

Murani fez isso e uma parte do assoalho subiu de forma quase im­perceptível. Se ele não estivesse procurando por isso, e com instruções precisas para localizá-lo, provavelmente não teria encontrado.

As mãos do cardeal tremeram um pouco quando alcançou dentro do esconderijo, atrás da caixa. O tremor dos dedos o surpreendeu. Ele não era dado a debilidade física de qualquer espécie. Crescer com um patrão duro como seu pai obrigou-o a impedir que suas emoções se mostrassem, a menos que quisesse assim.

Gallardo deu-lhe o código para abrir a caixa.

Murani pressionou a seqüência de números e ouviu o zumbido do mecanismo da trava. Fazia apenas alguns dias, tinha descoberto o sino enquanto vasculhava sites na internet dedicados a discussões arqueoló­gicas. O cardeal vinha procurando esses instrumentos musicais desde que tinha ouvido falar deles nas conversas com outros membros da Sociedade de Quirino. Ninguém entre eles tinha pensado em fazer as buscas pela internet, acreditando que os instrumentos ou haviam sido destruídos ou tudo era apenas um mito.

Eles se contentaram apenas em proteger seu segredo. A maioria deles eram homens velhos, sem muitos anos pela frente. A ambição e o desejo haviam sido extraídos de seus ossos antigos em troca da segurança e de migalhas de reconhecimento que lhes eram atiradas pela Igreja.

Murani tinha ambição suficiente por todos eles.

Ele passou seus dedos cobiçosos sobre a superfície do sino. A inscrição que existia de ambos os lados estava gasta, parecendo suave sob seus dedos, em vez de afiada. Ele supunha que, depois de cinco mil anos ou mais, o simples fato de o sino ter sobrevivido já era um milagre.

Um ato de Deus?, pensou. Se assim fosse, então era o Deus do Antigo Testamento, e não aquele do Novo. O Deus que tinha permitido que esse sino viesse a existir era vingativo e ciumento o suficiente para ter afogado o mundo em inundações... Não uma, mas duas vezes.

Os segredos do sino eram muitos. Murani sabia um pouco de sua his­tória, mas ele não sabia tudo... E certamente não sabia o suficiente sobre o seu uso.

Você consegue ler? — perguntou Gallardo.

Murani negou com a cabeça.

Não consigo.

Ele havia estudado diversas línguas, tanto orais quanto escritas, além de seu trabalho em lingüística no campo da informática. De acordo com a lenda, apenas aqueles poucos especiais nascidos a cada geração podiam ler o que estava escrito em qualquer um dos instrumentos.

Então, por que você quer tanto isso?

Suavemente, Murani recolocou o sino em sua caixa, fechando-a cuidadosamente.

Porque este sino é uma das cinco chaves que abrirão o maior te­souro da história da humanidade. — Ele olhou para o sino. — Com isso, estaremos mais perto de saber a Vontade de Deus do que nunca.

O telefone celular do cardeal vibrou em seu bolso. Ele respondeu-o sem agitação, escondendo a emoção que percorria seu corpo.

Vossa Eminência — saudou o secretário de Murani, um homem jovem e resoluto.

O que é isso? — rugiu Murani. — Dei ordens expressas que eu não queria ser incomodado esta tarde.

Eu entendo, Eminência. No entanto, o papa pediu que todos de seu gabinete dessem uma declaração por escrito apoiando uma escavação em Cádiz. Ele quer essa declaração agora.

Por quê?

Porque a escavação arqueológica está atraindo o fogo de alguns meios de comunicação.

Certamente o papa pode emitir uma declaração em nome da Igreja. — ponderou o cardeal.

O papa considera que está há pouco tempo na função e sente que todas as declarações devam ser também assinadas pelos membros mais experientes de sua equipe. Seu nome foi um dos selecionados.

Murani concordou, disse que cuidaria disso em sua volta e desligou o celular.

Problemas? — perguntou Gallardo.

O papa está preocupado com os esforços do padre Emil Sebastian em Cádiz.

Há vários comentários na imprensa, especulando o motivo do Vaticano demonstrar tanto interesse nessas ruínas em Cádiz.

Em um semáforo perto da Piazza Del Popolo, Gallardo procurou no assento traseiro um exemplar do La Repubblica. Abriu o jornal de circula­ção nacional para Murani ver. A manchete proclamava:

 

                 O VATICANO ESTÁ PROCURANDO

                 OS TESOUROS PERDI­DOS DE ATLÂNTIDA?

 

Murani fez uma careta.

— O jornal está zombando do interesse da Igreja — disse Gallardo.

Desdobrando o jornal, Murani leu rapidamente a reportagem que informava como os anéis concêntricos nos pântanos perto de Cádiz riaviam sido localizados por meio de imagens de satélite. O local estava não muito longe dos Parques Naturais, perto da bacia do rio Guadalquivir, ao norte de Cádiz.

Cádiz era a cidade mais antiga da Espanha. Em 1.100 a.C., a cidade começou como um posto de troca. Os fenícios a chamaram de Gadir, e a maioria das mercadorias exportadas de lá eram prata e âmbar. Os carta­gineses vieram em seguida, fazendo a cidade crescer com a construção do rorto e aumentando o comércio ainda mais. Os mouros chegaram, mas Cádiz nessa altura já conseguia andar pelas próprias pernas e era aceita como o principal porto de comércio para realizar negócios com o Novo Mundo. Duas das viagens de Cristóvão Colombo foram lançadas a partir ias docas da cidade. Mais tarde, a cidade foi invadida por Sir Francis Drake. Napoleão Bonaparte foi quase levado para lá por seus inimigos.

E agora, talvez, a Atlântida tivesse sido encontrada naquela região. Durante milênios, desde que Platão tinha escrito pela primeira vez sobre aquela fabulosa cidade que havia sofrido algum tipo de perturbação am­biental e afundou no mar, toda a humanidade tinha falado das glórias que poderiam ser encontradas na civilização perdida. Eram alegações de que a Atlântida era uma cidade habitada por supercientistas, magos e até extraterrestres vindos de outro sistema solar, todas elas constante­mente circulando pelos sites conspiratórios na internet.

Ninguém sabia a verdade.

Ninguém, exceto a Sociedade de Quirino.

E o cardeal Stefano Murani.

E ele não planejava compartilhar seu conhecimento.

Sinceramente, eu mesmo me perguntava qual seria o interesse da Igreja por lá — disse Gallardo.

Murani não disse nada enquanto lia a história. Felizmente, não havia nada mais profundo, apenas especulações. Não havia nenhum fato concreto, apenas conjecturas da parte do repórter. O padre Emil Sebastian, diretor da escavação, foi citado dizendo que o Vaticano estava interessado em recuperar quaisquer artefatos que pudessem ter um dia pertencido à Igreja. Um box lateral, muito mais factual, documentava o envolvimento anterior do padre Sebastian com vários esforços arqueológicos. Ele foi listado como um arquivista na Cidade do Vaticano.

A Igreja trabalha em maneiras misteriosas — disse Murani, mas pensando que o repórter do jornal teria se interessado mais, talvez até se mostrasse mais obstinado em sua busca pela verdade, se soubesse qual era o real campo de estudo do padre Sebastian.

O título de arqueólogo mal arranhava a superfície do que ele fez. O homem havia escondido muito mais segredos do que jamais revelou.

O que você deve fazer para o padre Sebastian? — perguntou Gallardo.

Murani dobrou o jornal e colocou-o no banco de trás mais uma vez.

Escrever uma carta elogiando os esforços do padre Sebastian.

Seus esforços para fazer o quê?

Restaurar o passado da Igreja.

A Igreja tinha uma presença nessa área? — Gallardo balançou a cabeça em dúvida. — Pelo que tenho lido e visto na CNN, aquela re­gião de pântanos na Espanha ficou debaixo d'água ou próximo a isso por milhares de anos.

Provavelmente.

A Igreja estava lá?

Possivelmente — respondeu Murani. — A Igreja tem estado presente por toda a Europa desde os seus primórdios. Nós muitas vezes realizamos novas escavações notáveis.

Gallardo dirigiu em silêncio por um tempo.

Murani pensou sobre os últimos acontecimentos. Ele não contava com a escavação em Cádiz gerar tanta atenção. Isso poderia ser um problema. Os negócios da Sociedade deviam ser conduzidos em sigilo absoluto.

Eu poderia ir para Cádiz — sugeriu Gallardo. — Dar uma olhada nas coisas e depois lhe contar o que descobri.

Ainda não. Eu tenho outra coisa para você fazer.

O quê?

Localizei outro objeto e quero que você o consiga para mim.

Que objeto?

Murani pegou um DVD e uma folha de papel do bolso interno de seu paletó:

Um címbalo.

Símbolo do quê? — perguntou Gallardo.

Desdobrando o papel, Murani mostrou ao outro homem o címbalo de barro, um disco cinza esverdeado fotografado sobre um fundo preto.

Você terá mais informações no DVD sobre a localização do címbalo.

Gallardo pegou o DVD e enfiou no bolso de seu casaco, perguntando ao mesmo tempo:

Qualquer um pode encontrar isso?

Se souberem onde procurar.

Então, quanta concorrência devo esperar?

Não mais do que você teve em Alexandria — respondeu o cardeal.

Um de meus homens ainda está vomitando depois que aquela bala perfurou seu estômago.

E você se importa com isso?

Não... — Gallardo olhou para ele.

Então continue procurando —- Murani embalou a caixa conten­do o sino.

Isso vai sair caro — disse o outro homem.

Murani deu de ombros:

Me avise se for precisar de mais dinheiro.

Gallardo assentiu e perguntou:

E onde está esse címbalo?

Ryazan, na Rússia. Você já esteve lá?

Sim.

Murani não ficou surpreso. Gallardo era bem viajado.

Eu tenho um endereço aqui da Dra. Yuliya Hapaev. O címbalo está com ela.

Gallardo assentiu.

Ela é doutora de quê?

Arqueologia.

Você parece estar focando lingüistas e arqueólogos.

E onde esses itens apareceram — retrucou Murani. — Eu não tenho controle sobre essas coisas.

Essa Hapaev e o Lourds se conhecem?

Sim, como colegas e amigos — as pesquisas que Murani fizera tinham apontado essa conexão. — A Dra. Hapaev consulta o professor Lourds muitas vezes.

Isso é um problema, então — refletiu Gallardo. — Essa conexão pode começar a fazer as pessoas ficarem intrigadas. Primeiro o Lourds perde um artefato, e em seguida a Hapaev... Assumindo que eu tenha sucesso...

Tenho a maior fé em você — disse o cardeal.

Gallardo sorriu.

Estou lisonjeado. Mas ainda temos o problema da conexão. A Hapaev tem estado em contato com Lourds sobre o sino?

Não.

Ela não tem nenhuma razão para suspeitar que alguém poderá vir procurá-la?

Murani negou com a cabeça.

Então, quando eu viajo? — perguntou Gallardo.

O cardeal respondeu:

Quanto mais cedo, melhor.

 

             MONTAZAH SHERATON, ALEXANDRIA, EGITO

             10 DE AGOSTO DE 2009

A batida na porta do quarto do hotel trouxe Lourds de volta para o mundo real e para fora do lugar tranqüilo em que ele habitualmente entrava quando tentava desvendar um problema parti­cularmente complicado. Sua freqüência cardíaca ime­diatamente acelerou. Olhando através das janelas da sacada, viu que a noite já tinha descido sobre a cidade. Já era tarde. Especialmente para alguém que chegava sem mandar um aviso prévio.

Embora o ataque à equipe da TV tivesse ocorrido há três dias e Lourds confiasse na segurança do hotel, uma onda de pânico ainda percorreu seu corpo. Ele a empurrou de volta para o canto escuro de sua mente de onde tinha vindo. E então se levantou, sentindo a dor familiar em suas costas e ombros de ficar debruçado sobre a mesa por muito tempo.

Com a ajuda da equipe de Leslie Crane, o professor tinha conseguido ampliar as fotos do sino. Depois de colar as fotos na parede diante de sua mesa no quarto do hotel onde se hospedara, em seguida colocou-as de volta sobre a mesa para estudá-las e tentar, em vão, quebrar aquela linguagem misteriosa. Não tinha dúvidas de que, cedo ou tarde, conseguiria fazer isso, mas, ao que parecia, o sucesso levaria tempo.

Atravessando o quarto na ponta dos pés, vestido com uma camiseta e bermudas, Lourds parou antes que sua mão chegasse até a maçaneta da porta, pensando melhor o que fazer e considerando os últimos eventos. Ele entrou no armário ao lado da porta. Sua mão enrolou-se no ferro de passar que estava montado na parede. Não era uma arma muito poderosa, mas pelo menos, com isso na mão, já não se sentia tão vulnerável.

Ah, Lourds, no fundo, você é um homem de Neandertal, não é? Ele sabia que não era, entretanto. Caso contrário, não teria ficado tão incomodado com o fato de quase ter sido morto há três dias. O que ocorria é que ele não era civilizado o suficiente — ou tolo o suficiente — para acreditar que a polícia de Alexandria tivesse tudo sob controle, não importando muito o que eles dissessem. Eles ainda não tinham a menor pista sobre quem tinha invadido o estúdio da TV.

Ou quem tinha assassinado o pobre James Kale. A visão do corpo queimado do homem no necrotério do hospital, com os dedos de uma mão cortados, ainda assombravam os sonhos de Lourds. Ele tinha ido com Leslie e os membros da equipe naquele dia, para identificar os restos mortais.

A batida soou novamente.

Lourds percebeu que ele tinha se escondido, mas se esquecera de perguntar: "Quem é?". Ficou constrangido com a forma como sua voz falhou, como se estivesse atravessando a puberdade mais uma vez.

— Leslie.

Agora que ele sabia que a jovem estava do lado de fora de sua porta, Lourds deixou de se preocupar em levar uma bala na cabeça assim que espiasse pelo olho mágico. Ele olhou através da lente olho de peixe, viu somente Leslie ali fora de pé, e abriu a porta.

Ela estava vestida para o calor, usando sandálias, calças capri cor de bronze e uma mini-blusa verde-limão que deixava entrever um delicado diamante preso em seu umbigo. A gema piscou para Lourds de uma maneira fascinante. Durante os últimos três dias que passou com ela, ele não teria imaginado que Leslie poderia usar uma coisa assim.

Algo muito primitivo e muito interessado agitou-se dentro dele, deslocando para longe todos os pensamentos sobre o produtor morto.

Por acaso eu peguei você passando roupa? — perguntou Leslie.

Perplexo, Lourds olhou para a garota e se perguntou sobre o que ela estava falando. Foi só então que ele se lembrou de estar segurando sua poderosa arma, o ferro de passar.

Perdão, é que eu estava me sentindo meio inseguro — respon­deu ele. — Normalmente não recebo as visitas com um ferro nas mãos.

O professor virou-se e recolocou o ferro de volta a seu lugar, no armário.

Pessoalmente, prefiro um taco de golfe — retrucou Leslie.

Você joga golfe?

Leslie sorriu:

Não tão bem quanto gostaria, mas meu pai me deu um taco de ferro para me proteger em casa. Na verdade, eu pedi uma Glock. Ele me deu um taco de golfe...

Leslie encolheu os ombros, claramente abreviando um comentário do tipo "E o que eu poderia fazer?".

Mas onde você aprendeu a atirar? — perguntou Lourds.

Com o tempo, meu pai acabou aceitando minha admiração por irmãs de fogo. E finalmente me ensinou a fazer as duas coisas, jogar golfe e manejar armas. Ele passou um tempo nas Forças Especiais, e depois serviu como instrutor antes de se aposentar. Ele é um grande professor. Coisa boa, hein?

Depois do incidente no outro dia, eu tenho que concordar — disse Lourds. — Você não vai entrar?

Leslie entrou e olhou em volta. Lourds estava curioso. Nos três dias que Lourds estava lá, ela nunca tinha estado ali antes.

Estou impressionada — disse ela.

Com o quê? — perguntou o professor.

O quarto está limpo — respondeu Leslie. — Eu pensei que as coisas não estivessem tão arrumadas, você sendo um professor e solteiro.

Procurando um estereótipo? O professor distraído?

Esperando encontrar um, suponho — disse ela.

Bem, eu não faço o tipo, nem sou ranzinza — Lourds apontou para ela as cadeiras na varanda. O quarto era bem dividido entre uma área de trabalho e uma de lazer. — Se você não se importa, talvez a gente pudes­se se sentar lá fora. A vista é incrível, e sua empresa está pagando por isso.

A noite envolvia Alexandria, e a cidade brilhava como um porta-jóias na escuridão. A lua cheia estava pendurada bem no alto, um disco de prata em meio a nuvens escuras espalhadas pelo céu negro. Ao norte, a luz da lua beijava os rolos brancos que rodavam vindos do Mediterrâneo. Muito abaixo, o ruído discordante do tráfego noturno e os gritos de ale­gria dos turistas que haviam se excedido preenchiam as ruas.

Lourds puxou uma cadeira para a jovem e sentou-a perto da mesa circular:

As noites egípcias estão cheias de mistérios exóticos. Enquanto estamos aqui, você deveria sair e visitar o máximo da cidade e dos arredo­res que puder. É incrível. Você sabe quem é C. S. Forester?

Um romancista — respondeu Leslie. — Ele escreveu os livros de Horatio Hornblower.

Boquiaberto, Lourds deixou-se cair na cadeira de vime no lado oposto de Leslie. Nos últimos três dias ele havia ficado bastante encantado com sua inteligência, seu charme e sua personalidade. E conseguia com­preender facilmente por que os produtores da televisão haviam escolhido a ela para ser a moderadora do programa.

Você leu os livros?

Leslie sacudiu a cabeça e pareceu um tanto envergonhada:

Assisti aos filmes no A&E. Não sou uma leitora muito assídua. Não tenho tempo...

E é fã de filmes antigos? — Pelo menos isso seria alguma coisa, pensou Lourds. — Acho que o Gregory Peck estava muito bem naquele filme.

Eu não assisti à versão clássica — respondeu Leslie. — Apenas a versão com Ioan Gruffudd. Eu comprei os DVDs.

Não podem ser tão bons quanto os romances. — Lourds fez um sinal com a mão, como se afastasse a idéia de tão estapafúrdia. — Seja como for, C. S. Forester escreveu: "A melhor maneira de conhecer Alexandria é vagar sem rumo".

Leslie inclinou-se sobre a mesa e colocou o queixo sobre os dedos entrelaçados:

Certamente, se eu tivesse um guia daria para conhecer bem a cidade.

Seus olhos verdes brilhavam.

Lourds colocou os cotovelos sobre a mesa e se inclinou na direção dela.

Se você encontrar-se na necessidade de um guia — disse ele —, basta me falar.

Leslie sorriu, com um ar meio travesso, e respondeu:

Farei isso.

Bem, e então, o que a trouxe aqui?

Curiosidade.

E sobre...?

Todas as noites depois do jantar, você desaparece. E eu estava começando a pensar que de alguma forma o ofendi — ela hesitou. — Ou que talvez você estivesse passando seu tempo com sua amada ao telefone. Ou até mesmo enviando fotos pela internet.

Não — respondeu Lourds. — De forma nenhuma, você não me ofendeu. E eu não tenho ninguém, nem estou evitando você. É que me sinto consumido pelo quebra-cabeça do sino.

Quando entrei no quarto e vi todas as fotos em sua mesa, eu entendi. E o sino é um dos motivos pelos quais decidi passar por aqui hoje. Achei que talvez você precisasse de um desvio no pensamento.

Um desvio?

Quando encontro algum obstáculo em um projeto — explicou Leslie — normalmente tento sair daquele ambiente de trabalho e vou conversar com meus amigos. Às vezes isso faz emergir alguma coisa da minha mente subconsciente e que está esperando por uma chance de sair.

Você está sugerindo o que, um passeio? Eu e você?

Sim... — o olhar de Leslie encontrou o de Lourds diretamente. Lourds olhou para a parede coberta com as fotografias do sino. E não se preocupou muito por deixá-las onde estavam. O sino parecia ser apenas aquilo mesmo: uma curiosa antigüidade.

A questão era: ele estaria disposto a deixar de lado o quebra-cabeça do sino pelo tempo suficiente para ficar com uma mulher interessante e bonita em uma das cidades mais românticas do mundo? Parecia que estava...

Vou me vestir e me encontro com você lá embaixo — disse ele.

Bobagem, você está ótimo. Lourds sorriu para ela:

Então, pelo menos me deixe calçar os sapatos.

Ele ficou pronto em menos de um minuto.

 

             RYAZAN, RÚSSIA

             19 DE AGOSTO DE 2009

Frustração e emoção perturbavam a professora Yuliya Hapaev en­quanto ela se sentava à minúscula escrivaninha no escritório do porão que havia tomado emprestada junto à Universidade de Ryazan enquanto trabalhasse em seu projeto favorito. A sala no porão guardava um frio que ela não havia sido capaz de afastar, mesmo usando um suéter por baixo do jaleco do laboratório.

Sem qualquer esperança real de encontrar uma resposta, Yuliya verificou seu e-mail. Mais uma vez. E ficou olhando para as cinzentas paredes industriais enquanto aguardava que o servidor resgatasse as últimas mensagens.

Aproveitou para ver as horas, descobrindo que eram quase onze da noite. Ela gemeu. Havia prometido a si mesma que iria voltar mais cedo zsta noite para o dormitório que lhe tinha sido atribuído enquanto esti­vesse trabalhando. A sensação de que havia se esquecido de mais alguma coisa a incomodava, embora não conseguisse imaginar o que poderia ter sido. Sua família estava em Kazan. Ela não tinha que preparar refeições, nem cuidar da roupa, não havia nada fora do seu trabalho para distraí-la.

Ficar trabalhando quatorze ou quinze horas por dia em seu campo escolhido era para ela quase como tirar férias. O marido não gostava muito disso, mas ele entendeu porque se sentira do mesmo modo com relação a alguns projetos de construção dos quais havia participado.

A sorte sorrira para ela quando fora aprovada a subvenção para estudar e artefatos descobertos recentemente na escavação arqueológica na colina intre os rios Oka e Pronya. Embora a área houvesse sido isolada em - 2005 e novas escavações proibidas, uma série de coisas não tinham sido avidamente catalogadas por ocasião das escavações originais.

E alguns itens tinham sido descobertos apesar da proibição.

A área entre os rios Oka e Pronya tinha sido um local de encontro, ou o caldeirão, de uma miríade de culturas desde os tempos do Paleolítico superior até o início da Idade Média. Uma estrutura de madeira que guardava semelhanças com Stonehenge da Grã-Bretanha tinha sido descoberta em 2003 por Ilya Akhmedov, um arqueólogo contemporâneo de Yuliya. Os cientistas acreditavam que a estrutura tinha sido utilizada para o mapeamento das estrelas.

A coisa que mais havia interessado Yuliya, e a enfurecido além de qualquer medida, fora o címbalo de barro que atualmente jazia sobre uma das mesas do laboratório. Aquilo era definitivamente cerâmica celadon, lembrando os delicados instrumentos musicais japoneses e chineses. Mas a peça apresentava algumas inscrições que ela não conseguira decifrar. Nem nenhum dos lingüistas russos aos quais tinha acesso.

No fim, ela sacou algumas fotos do címbalo e enviou-as a Thomas Lourds, na esperança de que sua experiência em línguas antigas pudesse fazer uma resposta ao enigma que ela enfrentava.

Quando o objeto tinha sido descoberto no local, havia sido trancado numa caixa para a proteção de ossos. Os restos daqueles ossos se espalha­vam agora ao redor do címbalo. A caixa fora destruída ou, simplesmente, se decompusera com o passar dos anos. Yuliya não sabia ao certo qual dos dois acontecera. Estava esperando pelos resultados da análise de datação por carbono dos fragmentos de ossos que enviara. O artefato era antigo. Quem sabe até impossivelmente antigo.

A lista de novos e-mails deu sinal, avisando que novas mensagens haviam chegado. Desta vez, Yuliya havia recebido uma resposta da assis­tente de Lourds, Tina Metcalf.

Suas mãos tremiam quando ela clicou para abrir o arquivo.

 

                     CARA YULIYA,

DESCULPE, O PROFESSOR NÃO ESTÁ. E VOCÊ SABE COMO ELE É PARA VERIFICAR SEUS E-MAILS...

 

Yuliya sabia bem como era Lourds sobre e-mails. Ela nunca conheceu ninguém que detestasse mais as comunicações eletrônicas que ele. A professora freqüentemente trocava longas cartas com Lourds, por correio normal, claro, discutindo os diferentes achados dos quais ambos partici­param, bem como as ramificações desses estudos. Ao longo dos anos, ela tinha guardado todas essas cartas, tendo de fato usado algumas delas nas aulas de arqueologia do último período que lecionava na Universidade Estadual de Kazan.

Ela adorava as suas cartas, e amava a mente de Lourds. Isso era algo que o marido de Yuliya, que era construtor, invejava às vezes. Mas Yuliya também sabia que nenhuma mulher jamais poderia reivindicar comple­tamente o coração de Lourds. O verdadeiro amor do professor era o conhecimento, e ele passaria a vida inteira procurando o que foi perdido na Biblioteca Real de Alexandria. Nenhuma simples mulher poderia com­petir com uma paixão desse porte. Ainda assim, algumas jovens pareciam chamar sua atenção ocasionalmente, e outras chamavam mais que sua atenção por um tempo.

Se ele tivesse a inclinação, pensou ela, Lourds poderia ser um com­petidor à altura de Don Juan. Mas a mensagem de Tina continuava:

 

Entretanto, posso lhe passar o e-mail de contato dele em Alexandria.

 

Alexandria, hein? Riu-se Yuliya. Lourds parecia ter sido atraído de volta para os braços de sua verdadeira amante, a busca de vestígios da grande biblioteca. Ela se perguntou como é que essa amante o estaria tratando...

 

Ele está lá gravando um programa da BBC. Um documentário sobre idiomas ou algo parecido com isso. O reitor ficou empolgado com a coisa toda e tentou farçá-lo a participar do negócio, mas a BBC não recebeu o professor até que a empresa que estava produzindo o documentário concordasse em filmar em Alexandria. A cidade estava na lista deles de possibilidades de locações. Você sabe como ele é acerca de Alexandria! A biblioteca e tudo o mais. Depois de algum tempo, tudo o que você pode ouvir quando ele abre a boca é blá-blá-blá.

 

Yuliya suspeitou que a jovem senhorita Metcalf também houvesse sido fisgada pelo professor, e estava uma pouco irritada com o fato de que ele não tinha notado que sua assistente era do sexo feminino e estava disponível. Yuliya tinha visto mulheres quase desmaiarem quando Lourds entrava na sala. Não que ele percebesse...

 

Acho que ele vai ficar por lá por algumas semanas. Ainda não tenho um número de telefone de contato, e você sabe que ele se recusa a andar com um celular. Aquele homem!

Se precisar de mais alguma coisa (ou se descobrir uma maneira pela qual possa fazer contato com ele), por favor, me informe.

Cordialmente,

TINA METCALF

ASSISTENTE DE PÓS-GRADUAÇÃO DE THOMAS LOURDS, Ph.D

Professor de lingüística

Departamento de Lingüística

Boylston Hall

UNIVERSIDADE HARVARD

Cambridge, MA 02138

 

Bem, sem Thomas. Talvez por semanas.

Irritada, Yuliya abandonou o computador e caminhou de volta para seu laboratório emprestado. O objeto de barro ainda ocupava o centro de uma das mesas.

Era quase como se o címbalo a estivesse provocando com escárnio:

"Desvende-me!", ele dizia.

Ela só queria poder fazer isso...

O teto baixo do porão parecia opressivo, como se o peso do velho edifício estivesse afundando lentamente por cima dela.

Depois de um momento, Yuliya teve a nítida sensação de que alguém estava olhando para ela.

Estranho.

Ninguém deve estar na universidade nesta altura da noite. E ela não era do tipo de sofrer de fantasias ridículas.

Em seguida, outro pensamento a atingiu. A segurança, mesmo nos lugares onde havia em profusão, tendia a ser abissal pela maioria dos padrões.

O medo pisoteou através do corpo de Yuliya, preenchendo seu sistema nervoso com um enorme bombeamento de adrenalina. Estupro e assassi­nato ocorriam nos campi universitários com uma regularidade espantosa.

Agindo de forma natural, Yuliya estendeu a mão para a pequena faca que tinha usado para limpar a inscrição misteriosa e alucinante que havia encontrado. Sua mão enrolou-se em torno do cabo de madeira.

Se eu realmente quisesse machucar você, seria demais. Na verdade, você provavelmente já estaria morta.

A raiva explodiu dentro de Yuliya quando reconheceu a voz zombeteira. Ela girou o corpo para enfrentar a algoz.

Natashya Safarov estava encostada contra a parede na boca da escada.

Pelo menos ela não se aproximou de mim e tocou a minha nuca! Yuliya absolutamente odiava quando sua irmã mais nova fazia isso.

Você está me espionando? — exigiu saber Yuliya.

Natashya encolheu os ombros e mostrou a Yuliya uma expressão desinteressada:

Talvez.

Aos vinte e oito anos, dez a menos que a doutora, Natashya era uma amazona. Tinha 1,65 metro, dez centímetros mais alta que a irmã. Os cabelos vermelhos escuros caíam sobre os ombros e emolduravam o rosto de uma modelo. Olhos castanhos faiscantes revelavam seu divertimento. Vestia calças e uma blusa por baixo de um comprido guarda-pó negro. E parecia estar usando Dior.

Era irritante.

Mas amava sua irmã de qualquer maneira.

Natashya, o que você está fazendo aqui?

Yuliya colocou a faca em cima da mesa e foi até sua irmã. Elas se abraçaram, de modo intenso, porque sempre foram próximas uma da outra, por mais que raramente se vissem atualmente.

Liguei para o Ivan e descobri que você estava por aqui — respondeu Natashya. Ivan era o cunhado. — Já que estava nas vizinhanças, resolvi passar por aqui.

Tenho um pouco de café. E uns biscoitos quase frescos. Quer um pouco?

Natashya assentiu e seguiu sua irmã para o escritório. Ela pegou uma das cadeiras de encosto reto estacionada ao lado de uma das mesas. Para Yuliya, ela parecia a realeza sentada ali, apesar da decoração miserável da pequena cozinha.

Depois de aquecer o café e os biscoitos no micro-ondas, Yuliya colocou os pratos e as xícaras sobre a mesa e sentou-se.

Isso me lembra de quando éramos meninas — disse Natashya ao pegar um biscoito. — Você fazer café para nós antes de irmos para a esco­ala. Lembra-se disso?

Lembro.

A tristeza tocou o coração de Yuliya. Sua mãe tinha sido tirada delas muito jovem por causa de uma doença respiratória. Às vezes, tarde da noite, Yuliya pensava estar ouvindo o chiado agonizante da mãe. E ela se lembrou da noite em que o som de repente foi embora... Para sempre.

Yuliya tinha 14 anos e Natashya, 4. Embora tentasse, Natashya não conseguia se lembrar direito da mãe. Ela era uma mulher enorme que adorava cozinhar, e as recordações vinham basicamente das fotografias e das histórias que a irmã contava. O pai havia trabalhado em um armazém.

Pelo que me lembro — continuou Yuliya — você sempre me atrasava todos os dias.

Pois pelo que me lembro, você se atrasava porque ficava se enfeitando para algum menino...

Eu sempre me enfeitei para o Ivan — retrucou Yuliya. — E deu certo, a gente se casou e teve dois filhos maravilhosos.

Claro, são parecidos com a tia — sorriu a irmã.

Nada disso — declarou Yuliya, indo em frente com a velha piada. — Isso você não vai tirar de mim. Eu sou a mãe deles, e eles puxaram a mim!

As duas mordiscaram os biscoitos e tomaram um gole de café em silêncio por um momento.

Sinto falta de você fazer o café da manhã para mim — disse Natashya calmamente, depois de uma mordidela.

Pelas palavras da irmã, Yuliya sabia que Natashya havia estado em algum canto do mundo que havia brevemente se inflamado em um inferno particular para ela. Yuliya sabia melhor do que ninguém que não devia perguntar nem onde nem como, porque Natashya nunca iria falar sobre isso.

Bem, então — afirmou Yuliya com naturalidade —, da forma como eu vejo as coisas, você só tem duas escolhas.

Duas? — Natashya arqueou as sobrancelhas.

Yuliya assentiu, continuando a falar:

Você pode contratar uma empregada, a quem eu possa treinar para cuidar de você...

Treiná-la?

Claro. É o único jeito. Mas para fazê-lo corretamente, ela terá que passar alguns anos comigo.

Sei — comentou Natashyia — alguns anos...

Claro, se quiser que ela seja treinada do meu jeito.

Entendo.

Yuliya quase riu e estragou o momento. Natashya sempre foi assim, no controle de si mesma, e sempre capaz de manter uma cara séria:

Ou... — prosseguiu Yuliya.

Que bom que tem um "ou" — disse Natashya — porque não liguei para a outra sugestão.

Ou... — Yuliya continuou imperturbável — ... você pode mudar e vir morar comigo e com Ivan.

Natashya ficou quieta e imóvel.

Yuliya sabia que ela tinha ousado demais, mas não conseguiu se conter:

As crianças vão adorar. Elas amam você, porque é a tia favorita delas.

Elas têm bom gosto — replicou Natashya.

Além do mais, é a única tia — Yuliya não resistiu a esse cutucão adicional.

Elas eram irmãs e nunca se permitiram ter uma postura pretensiosa demais. Ivan tinha três irmãos e nenhuma irmã. Até agora, nenhum dos irmãos tinham se casado. Ela sentia uma saudade imensa de sua irmãzinha, e não apenas por causa da ausência de relações de sangue do sexo femi­nino atualmente em sua vida.

Natashya sorriu.

Obrigada. Mas eu só iria me intrometer — ela pegou outro biscoito e o quebrou ao meio. — Conte-me o que anda fazendo por aqui. Ivan me disse que você encontrou o prato sujo de alguém.

Tristemente, Yuliya deixou cair no esquecimento o assunto de sua irmã compartilhar sua casa, sabendo que Natashya nunca mais falaria disso, e recostou-se na cadeira:

Não é um prato sujo, é um címbalo. Com vários milhares de anos, a julgar por sua aparência. Quem sabe até mais do que isso. Estou esperando a confirmação.

Natashya balançou a cabeça em tristeza simulada:

Minha pobre irmãzinha mais velha, que foi para a universidade para aprender a fuçar no lixo de alguém.

As duas brigaram por alguns momentos, como sempre faziam, e então Yuliya contou a história daquele disco, pelo menos até onde a conhecia.

E, como sempre, Natashya estava mais interessada do que pensava que estaria.

E, neste caso, todo aquele interesse foi merecido.

 

                   ALEXANDRIA, EGITO

                    19 DE AGOSTO DE 2009

- Você acredita que há mais de um idioma no sino? — Leslie andava de braço dado com Lourds, descendo uma das ruas laterais não muito longe do hotel.

Sim, e pelo menos dois — concordou ele.

E você não conhece nenhum dos dois?

Não... Pelo menos, não até agora. — Lourds olhou para ela e sorriu. — Isso abala um pouco sua confiança em mim?

Leslie olhou em seus olhos cinza-claros. Eram lindos olhos, quentes e honestos e... Sensuais. Definitivamente sensuais. Bastava que olhas­sem para ela e Leslie começava a formigar.

Não — respondeu ela. — Isso não abala a minha confiança de maneira nenhuma.

Eu vou decifrar essas línguas — disse ele.

Bem, é esse o seu trabalho, então...

Sim, é — Lourds mastigou um pedaço da baklava que eles tinham comprado em um café que servia até tarde da noite. — Você já ouviu falar da Pedra da Roseta?

Claro.

O que você sabe sobre isso?

Foi uma coisa... — Leslie pensou na resposta. — Uma coisa importante.

Lourds riu.

Sim, foi.

E essa pedra está guardada no Museu Britânico em Londres.

Isso é verdade também. — Lourds deu outra mordida na baklava.

A coisa importante sobre a Pedra da Roseta é que suas inscrições foram feitas em duas línguas diferentes, egípcio e grego.

Pensei que tivessem sido três... — comentou Leslie.

Foram duas línguas, mas eles usaram três escritas. Hieróglifo, demótico egípcio e grego. Quando o exército de Napoleão encontrou a pedra, o artefato nos deu, finalmente, um caminho para a compreensão da língua do Antigo Egito. Sabíamos o que a inscrição em grego dizia. E, então, ao assumir que todas as passagens diziam as mesmas coisas, os estudiosos conseguiram decifrar o significado dos hieróglifos. Tudo o que os sábios precisaram fazer para quebrar o código hieroglífico foi combinar os hieróglifos com os significados que possuíam das outras duas partes. A descoberta dessa pedra nos permitiu a decifração e a tradução de todos os escritos do Antigo Egito que tínhamos observado há milênios enfeitando as tumbas e as paredes dos templos, sem termos a menor pista do que diziam. Claro que esse processou demorou, foram necessários mais de vinte anos e um grande grupo de mentes privilegiadas para chegar lá, e mesmo com a existência da pedra.

E você acha que esse sino pode ser algo parecido com a pedra? - as ramificações dessa hipótese propagaram-se rapidamente pela mente de Leslie. — Uma carta vinda da antigüidade e que foi escrita em dois idiomas, esperando para ser traduzida?

Não sei... — replicou Lourds. — Eu não sei, por exemplo, se as duas linguagens estão dizendo a mesma coisa. Essa foi uma das razões pelas quais a Pedra da Roseta foi tão importante. A mensagem se repetia nas duas línguas. E eu não consigo ler nem uma, nem a outra língua, mais uma razão pela qual a Pedra da Roseta significou tal avanço. A gente sabia traduzir do grego. Mas, de meu lado, não tenho nenhuma referência. A única coisa que sei é que duas linguagens estão escritas sobre o sino e eu não consigo entendê-las. E não gosto disso. Não estou acostumado a passar em branco com idiomas antigos.

Nossa, seria maravilhoso se o sino fosse uma espécie de Pedra da Roseta! — disse Leslie.

Na Pedra da Roseta tinha apenas uma linguagem que não en­tendíamos. E a mensagem era uma só, repetida por três vezes. Não acho que seja esse o caso aqui.

Quer dizer que você acha que podem ser duas mensagens diferentes?

Não sei ainda... — respondeu Lourds. — Mas a extensão das passagens e as diferenças de estrutura no texto indicam-me que pode ser o caso. Isso tudo significa que vai demorar mais tempo dedicado a isso do que eu gostaria. E peço desculpas antecipadamente pela minha distração, mas é que esse é um enigma que me chama.

Sem problemas, eu compreendo perfeitamente — disse Leslie, terminando a baklava. — Mas saiba que você não está sozinho nisso, entendeu? Quando postei as fotos do sino na internet em listas e fóruns acadêmicos e enviei por e-mail para todos os estudiosos que conheço, ninguém soube me dizer qual idioma era aquele. Ou idiomas, seja como for.

Lourds parou de andar e se virou para ela:

Quer dizer que você postou as fotos do sino na internet?

Sim.

E por acaso alguém respondeu à sua postagem? — perguntou Lourds.

Sim, algumas pessoas, elas...

Empolgado, Lourds pegou o cotovelo de Leslie e a girou. E seguida, olhou em volta, avaliando onde estavam — só então Leslie percebeu que estavam seguindo o conselho de E. M. Forster, e vagando sem rumo pela cidade — e voltou para o hotel.

Onde estamos indo? — perguntou ela.

De volta para o hotel — respondeu o professor. — Acho que acabo de descobrir como é que os ladrões nos localizaram.

 

           RYAZAN, RÚSSIA

           19 DE AGOSTO DE 2009

Gallardo esperou na van de carga de fabricação russa GAZ-2705 do lado de fora da Faculdade Estadual de Medicina de Ryazan, onde a professora Yuliya Hapaev estava trabalhando. Os dizeres nas laterais da van indicavam que era de uma companhia de limpeza local que tinha contratos com a universidade.

Mudando de posição no assento, Gallardo se forçou a permanecer distanciado do problema e não assumir aquela longa espera como uma coisa pessoal. Ele tinha esperado que a mulher saísse do prédio muito antes e retornasse ao dormitório onde ela estava hospedada.

Mas então onde estava ela? Mesmo uma workaholic não iria trabalhar até tão tarde.

Alguém vem vindo — anunciou Farok no rádio.

Gallardo pegou os binóculos de visão noturna que estavam dentro do porta-luvas.

É ela — disse Farok.

Focalizando os binóculos na figura solitária que saiu do edifício, Gallardo a estudou. A capacidade de visão noturna das lentes lavou todas as cores da mulher, transformando tudo em um verde suave. Ele não poderia dizer se a professora era morena ou não, mas o tamanho e a forma pareciam corretas.

Gallardo sabia que Farok e a equipe de DiBenedetto iriam se apro­ximar e pegar a mulher:

Ela está carregando alguma coisa?

Não — respondeu Farok.

Gallardo refletiu um segundo sobre isso:

O objeto deve estar ainda dentro do prédio.

Sim.

Gallardo abriu a porta da van e saiu. A luz não veio sobre ele porque havia removido a lâmpada do teto do carro, apenas por precaução. Teve um breve vislumbre da mulher caminhando diretamente para o estacio­namento, e então ela desapareceu.

— Pegue a mulher — ordenou Gallardo — e eu pegarei o prêmio.

Depois de Farok ter informado que eles levariam a mulher viva, se possível, Gallardo transferiu sua pistola do suporte de ombro para o bol­so direito do casaco. Então, ele trotou em direção ao prédio, permanecen­do nas sombras tanto quanto podia.

 

Natashya Safarov sabia que os homens a estavam seguindo. Ela havia sido seguida antes, então ela sabia o que procurar e o que escutar. Sua fre­qüência cardíaca aumentou levemente enquanto o corpo se preparava para lutar ou correr. A respiração foi mantida lenta e uniforme. Naquele frio noturno, qualquer um que a estivesse observando poderia dizer quando a respiração mudara porque o vapor que saía da boca a denunciaria.

Sua mente voou, avaliando as opções e mostrando suas chances. Todo lugar aonde ela fosse seria um campo de batalha em potencial. Natashya havia sido treinada para tirar proveito de tudo que estivesse por perto. Ela sempre via um terreno, e não uma paisagem. Isso talvez não lhe pudesse ajudar aqui, porém. No campus da universidade, a esta hora da noite, não havia muita coisa que lhe pudesse servir de cobertura.

Ficou se perguntando quem poderiam ser aqueles homens, e se eles de alguma forma poderiam fazer parte daquele desastre que acontecera em Beslan. Uma facção de militantes ossetas, criando tumultos nova­mente para receber de volta suas terras ancestrais, haviam tomado algumas pessoas como reféns. Natashya tinha entrado e resgatado esses reféns. Houve derramamento de sangue considerável. Ela não tinha dúvidas de que alguns deles iriam querer vingança. Nem que ela seria um alvo provável.

E se não forem esses ossetas, refletiu Natashya, poderiam ser muitos outros. Ela deixara uma longa lista de inimigos para trás. Seu trabalho assim exigia. E enquanto pensava, a raiva infiltrou-se nela porque aqueles homens tinham trazido a violência para perto demais de sua família.

Mas manteve o foco, prestando atenção ao ritmo dos perseguidores, selecionando o som de suas passadas entre todos os outros ruídos que rompiam a tranqüilidade daquela noite. Agora ela os tinha todos, cada um deles monitorado pelo seu sistema de defesa pessoal, cada homem marcado de forma indelével.

Deslizando as mãos para dentro bolsos do casaco, ela empunhou as duas pistolas Yarygin PYa/MP-443 Grach que levava sempre consigo. Ambas as armas carregavam dezessete cartuchos de munição, e Natashya trazia carregadores extras presos em um bolso interno. Sua esperança era que não precisasse usá-los.

Mas os homens eram pacientes, fechando o cerco gradualmente pelos três lados.

Sem aviso, ela se virou e subiu correndo os degraus de um prédio pró­ximo. As sombras preenchiam o corredor lateral aberto, e a garota sentiu-se bastante confiante de que se tornaria invisível a seus persegui­dores em um instante.

Porém, eles estavam determinados a não perder de vista. O som das passadas, hesitantes por apenas um momento, vinha logo atrás dela.

Natashya correu, rápida e silenciosa em seus sapatos de sola de crepe. Ao final do corredor lateral, ela saltou dos degraus para a esquerda e se abrigou por trás de uma linha de arbustos, encostada à parede do edifício. Empunhando as duas armas destravadas por seus polegares, ela esperou.

Dois homens chegaram correndo, pararam e observaram a área aberta em frente a eles. Era muito ruim não haver outro prédio nas proximidades. Natashya pensou que os dois iriam ficar confusos por um tempo maior.

Mas ambos sacaram suas pistolas, obviamente sentindo que estavam em perigo. E a presença das armas definiu o curso de ação da mulher. Havia mais deles. E aquele número lhes dava vantagem. Mas ela poderia fazer com que as probabilidades se transformassem mais a seu favor bem aqui, agora.

Natashya nivelou suas duas pistolas.

Um dos homens virou-se para ela. A arma estava levantada, o braço dobrado para mantê-lo perto do corpo enquanto ele o mantinha firme em um triângulo, pronto para atirar. O homem a viu quando estava em campo aberto.

A mulher apertou o gatilho da pistola de sua mão direita no mesmo momento em que o homem a viu. O projétil de 9 mm explodiu no espaço entre os olhos arregalados do homem. Ela disparou novamente, passando para a outra pistola, e colocou duas balas no pescoço do segundo homem. Do jeito que ele caiu, ela suspeitava que um dos tiros houvesse rompido a medula espinhal do sujeito.

Movendo-se rapidamente, Natashya caminhou até os dois homens mortos. O som seco e áspero dos disparos ecoou pelo corredor lateral do prédio atrás dela.

Ajoelhando-se e recolocando a arma da mão esquerda no bolso de seu casaco por um instante, Natashya revistou os dois homens. Ne­nhum portava identidade. Isso não era incomum. Em uma missão de as­sassinato, o contratador normalmente levava todas as identificações dos atiradores com ele, de forma que eles não pudessem ser rastreados até a pessoa que tivesse iniciado o ataque.

Um bracelete no pulso de um dos homens mortos chamou a atenção de Natashya ao mesmo tempo em que ouvia vozes saindo dos rádios. Eles haviam sido alertados. Sejam quem fossem seus atacantes, eles sabiam agora que a garota estava armada.

Natashya estudou o bracelete, reconhecendo-a como uma tática usada por forças especiais ao redor do mundo. Ela abriu a tampa de proteção, esperando ver seu próprio rosto.

Mas o rosto na foto não era o dela. Era o de Yuliya.

Levantando-se, Natashya arrancou sua pistola do bolso do casacão, virou-se e correu de volta para o edifício onde havia deixado sua irmã.

 

               ALEXANDRIA, EGITO

               19 DE AGOSTO DE 2009

Inclinando-se mais perto da tela do computador, Lourds estudou as imagens do sino misterioso. As fotos que Leslie Crane tinha postado em vários sites arqueológicos e sobre história tinham sido produ­zidas profissionalmente. Mas nenhuma delas mostrava a superfície completa do sino. Haviam sido tiradas de ambos os lados, deixando de fora, porém, um grande trecho da inscrição. Felizmente Lourds as tinha.

Leslie estava ao seu lado e Lourds se mostrava mais consciente do que gostaria do calor que emanava do corpo da jornalista. Ele não gostava de distrações enquanto estava trabalhando.

O texto que acompanhava as imagens do sino foi escrito de forma simples e direta, apenas perguntando se alguém tinha algum conhecimento da história da coisa. Algumas respostas tinham se acumulado ao longo das duas semanas que as imagens estiveram presentes nas páginas de internet, mas nenhuma delas parecia fora do comum.

Você por acaso recebeu algum e-mail relacionado ao sino? — perguntou Lourds.

Nada que revelasse a história do sino — respondeu Leslie. — Havia algumas poucas perguntas, e mais nada.

Que tipo de perguntas? — Lourds recostou-se.

Perguntando onde o tínhamos encontrado, o que faríamos com ele, coisas assim.

E você respondeu?

Não, eu estava procurando por informações, e não querendo passá-las — disse Leslie, ficando em silêncio por alguns instantes. — Você real­mente acha que os homens que nos atacaram vieram por causa dessas mensagens?

Acho que só pode ser por causa disso — respondeu Lourds. — De que outra forma esses sujeitos saberiam onde estava o sino?

Mas eu usei um servidor de entrega oculto. Era para ser seguro.

Lourds assentiu:

De acordo com a minha assistente, o problema com segurança na internet é que, assim que alguém escreve um programa supostamente "seguro" para proteger o tráfego, alguém está ocupado justamente em encontrar maneiras de contornar isso.

Eu sei. Eu fiz uma reportagem sobre criptografia antes de ser contratada por este programa — a voz de Leslie tremeu um pouco. — Eu simplesmente não posso acreditar que isso aconteceu. Mandei e-mail para estudiosos. Eu postei em sites de universidades. Por que um artefato obscuro como o sino chamaria a atenção de assassinos?

Observando a expressão preocupada da garota no fundo da tela do computador, Lourds se virou para ela:

O que aconteceu naquele dia não foi sua culpa, Leslie.

Ela cruzou os braços sobre o estômago.

Se eu não tivesse postado as imagens do sino na internet, nada disso teria acontecido. James não teria... — a respiração da jovem ficou irregular. — Ninguém teria se machucado.

O que você fez — insistiu Lourds — foi sem intenção, foi sem querer entrar em uma situação particularmente desagradável — e pegou uma das mãos dela nas suas, apertando levemente. — E o que você conseguiu descobrir...

Inadvertidamente — enfatizou Leslie.

Balançando em concordância, Lourds continuou:

Por mais inadvertidamente que possa ter sido, você ainda con­seguiu encontrar uma coisa incrível.

O problema é que nós perdemos isso.

Lourds voltou sua atenção para as imagens do sino:

As vezes você não precisa realmente ter a posse de alguma coisa para poder aprender com ela. Basta apenas simplesmente saber que essa coisa existe — e esticou a cabeça para a tela. — Eu acho que foi isso que colocou os ladrões do sino em nosso encalço. Eles sabiam de sua existência. E tudo que temos que fazer agora é descobrir como eles souberam disso.

Pensei que eles fossem apenas simples ladrões contratados por alguém que desejava o artefato.

Exatamente — concordou Lourds. — Isso é o que eles eram, simples ladrões. Mas a julgar pela forma violenta que os homens agiram, e pelo jeitão deles, eu diria que eram mercenários especializados. Afinal, não pareciam ladrõezinhos baratos para mim. Tinham mais cara de ban­didos de aluguel, e quem sabe uma das opções mais caras do cardápio...

Mas, se alguém queria ter esse sino e sabia sobre ele — ponderou Leslie —, essa pessoa não o teria comprado na loja anos atrás?

Bem, saber da existência do objeto e saber onde esse objeto está são duas coisas bem diferentes, Leslie.

Lourds abriu sua conta de e-mail.

E você está insinuando que isso pode ser uma boa coisa?

Sim — respondeu Lourds — porque isso quer dizer que pode existir uma trilha aí. Uma que levou aqueles homens ao sino, para nós e uma que podemos ter esperança de encontrar nós mesmos. A trilha vai em duas direções. Podemos ser capazes de encontrar quem estava procu­rando por aquele sino. E nós poderíamos ser capazes de encontrar o que eles sabem sobre isso.

Lourds esperou que o servidor de e-mail passasse por todas as men­sagens. Fazia dias que ele não checava sua caixa de entrada.

Muitos nomes conhecidos apareceram na tela.

O que você está fazendo? — perguntou Leslie.

Vou entrar em contato com algumas pessoas que eu conheço. Gerar algumas pesquisas por minha conta. Talvez a gente tenha a mesma sorte que aqueles homens que vieram atrás do sino.

As mensagens continuavam aparecendo.

Uau — exclamou Leslie. — Você nunca responde suas mensagens?

De vez em quando — respondeu o professor. — As pessoas que me conhecem sabem que muitas vezes é melhor telefonar para mim. Você pode perder tempo demais respondendo a cada mensagem que chega à sua caixa.

Um nome em especial chamou a atenção de Lourds. Yuliya Hapaev. Tinha aparecido mais de uma vez.

Lourds conhecia Yuliya pessoalmente. Sempre que viajava para a Rússia, ele tentava reservar alguns dias para visitar a amiga. Ele clicou no classificador de correio, trazendo à tona todos os e-mails de Yuliya. Havia uma meia dúzia de mensagens. Três delas tinham anexos.

Uma fã ardente? — perguntou Leslie.

Uma arqueóloga que eu conheço.

O nome parece russo.

E é... — Lourds clicou na primeira mensagem. Era de onze dias atrás.

Você a conhece bem?

Na superfície, a questão parecia inócua. Mas Lourds sabia o que Leslie deixara implícito:

Eu conheço Yuliya, seu marido e seus filhos muito bem.

Oh...

Lourds leu a primeira mensagem.

 

           Caro Thomas,

Espero que esta mensagem te encontre bem e à beira de uma descoberta empolgante. Eu encontrei algo INTERESSANTE, de meu lado. Se tivesse tempo, gostaria muito de lhe fazer uma consulta. Eu teria telefonado, Mas simplesmente não sei se vale a pena o incômodo AINDA.

       SINCERAMENTE, YULIYA

 

Três outras mensagens continham um texto semelhante e eram mais mensagens de apoio caso o servidor tivesse extraviado a primeira das men­sagens. O servidor da universidade era conhecido por fazer esse tipo de coisa.

Já a quarta mensagem era a primeira a conter uma imagem anexada. Lourds clicou para abrir a foto e esperou um momento até que fosse transferida do servidor.

A imagem imediatamente chamou sua atenção. O professor mexeu em algumas teclas, aumentando o tamanho da foto para que pudesse ver as inscrições na superfície do objeto.

Isso parece um frisbee pré-histórico — comentou Leslie. — Ou um prato...

Nem um, nem outro — respondeu Lourds. — É um címbalo.

Um símbolo? De quê?

Um címbalo, um instrumento musical!

Empolgado, Lourds usou o mouse e o teclado para abrir uma das imagens digitais que ele tirou do sino.

O que você está fazendo? — Leslie inclinou-se mais perto, olhando por cima do ombro do professor. Seu cabelo afagou levemente a bochecha dele.

Você notou a inscrição no címbalo?

Lourds sabia que sua voz estava apertada por causa da emoção. Ele podia senti-la e ouvi-la.

Leslie hesitou:

Você acha que ela é parecida com a inscrição do sino?

Sim, ela realmente se parece com a do sino.

Bem, vou acreditar em sua palavra — disse ela. — Afinal, o perito é você.

Isso mesmo... — concordou Lourds.

E ficou analisando a inscrição no címbalo. Assim como acontecera com os escritos sobre o sino, estas ele também não conseguia decifrar.

Lourds se levantou da cadeira e foi até sua mochila, que estava apoiada em uma cadeira ao lado da cama. Revirando o conteúdo, tirou de dentro seu telefone celular e um pequeno caderno de endereços. Pro­curou pelo telefone de Yuliya Hapaev. Ele tinha duas entradas ao lado do nome dela. Uma era de casa, e a outra — de um telefone por satélite — era do trabalho.

Lourds adivinhou que, com essa descoberta recente, Yuliya deveria estar no trabalho, embora já fosse muito tarde. E chamou esse número.

Olhando para trás, para a tela do computador, Lourds estudou as duas imagens. Não havia dúvida sobre a semelhança entre as duas ins­crições. Fosse qual fosse a linguagem em que tinham sido escritas, elas compartilhavam uma história.

O telefone tocou novamente e novamente.

 

               RYAZAN, RÚSSIA

               19 DE AGOSTO DE 2009

Yuliya alongou-se um pouco, ouvindo suas vértebras rangendo e estalando. Muitas pessoas pensavam que a pior parte do traba­lho de um arqueólogo fosse, na verdade, as escavações. Mas desenterrar artefatos de um sítio arqueológico era agradável em com­paração a ficar sentado em uma mesa debruçado sobre essas coisas por horas a fio.

Você precisa de uma pausa para que seja possível analisar as coisas com outros olhos. Yuliya sabia que isso era verdade. Ela tinha estado com essa pesquisa pelo máximo de tempo que pudera, mas agora se sentia comple­tamente emperrada. E não se lembrava de sentir tamanho bloqueio antes.

Decidiu então telefonar para casa e se recolher por esta noite. Pegando o címbalo da mesa do laboratório, ela começou a voltar pelo outro lado da sala para ir guardar o objeto no cofre.

Foi quando viu o homem parado junto à porta.

Yuliya se deteve e olhou para ele, assustada imediatamente por causa de seu tamanho e da brutalidade que via no rosto do homem.

— Você fala inglês? — O homem perguntou em russo.

— Quem é você? — exigiu saber Yuliya. — Como chegou até aqui?

O homem sorriu, mas a expressão do rosto não inspirava confiança. Ao contrário, ele tinha o sorriso frio de um predador:

Eu falo um pouco de russo, mas não o suficiente para explicar o que precisamos discutir aqui.

O homem chegou mais perto.

Yuliya deu um passo atrás.

Você é a professora Hapaev, certo? — perguntou o homem. — E estava fazendo pesquisas e perguntas na internet sobre isso, certo? — e apontou com a cabeça para o címbalo nas mãos da mulher.

Saia antes que eu chame a segurança. — Yuliya tentou fazer sua voz soar firme.

O homem a ignorou. E estendeu a mão para alcançar o objeto.

Yuliya recuou mais uma vez, mantendo-se fora de alcance. Ela não tinha muito espaço de manobra.

Como que por um passe de mágica, uma pistola apareceu na mão do homem.

Tiros, abafados pelas paredes, soaram do lado de fora. Yuliya sabia o que aqueles disparos secos representavam. Já estivera perto de armas antes. Sua irmã tentara uma vez ensiná-la a atirar, mas Yuliya tinha provado que suas habilidades para isso eram completamente nulas. E finalmente protestou, dizendo que, mesmo que aprendesse a tirar, não tinha intenção nenhuma de manter uma arma em casa com seus filhos por perto.

Mais tiros soaram.

O homem falou em italiano, mas a pistola na mão nunca vacilou.

Yuliya sabia o suficiente para identificar o idioma, mas não o suficiente para entendê-lo. No início, ela pensou que o homem estivesse conver­sando com ela, então viu que ele estava falando em um microfone tão fino quanto lápis, que aparecia ao longo de sua bochecha.

Quem era a mulher que saiu deste edifício? — quis saber o homem.

Natashya! Um medo frio correu pelas veias de Yuliya, e seu coração acelerou.

Quem é ela? — o homem deu um passo adiante e agarrou os braços da mulher.

O címbalo quase escorregou das mãos da professora. Ela o agarrou no último instante.

Tiros soaram mais uma vez.

Quem é ela? — o homem apontou a arma para o olho esquerdo de Yuliya.

Minha irmã — gemeu a professora. Ela se sentiu horrível reve­lando aquilo, mas queria desesperadamente ver seus filhos novamente. Ela não queria que eles crescessem sem a mãe. — Natashya Hapaev. Ela é inspetora da polícia. — Recuperando um pouco de sua coragem, anunciou: — E sem dúvida ela já notificou a polícia.

O homem amaldiçoou e, em seguida, arrancou o címbalo das mãos da mulher.

Yuliya achou que, apesar de tudo, ainda continuaria viva. Que suas palavras e as armas da irmã tivessem assustado aquele homem terrível. Mesmo quando a luz brilhante que saiu do cano da arma a cegou e sua cabeça disparou para trás, batendo contra a parede, a mulher ainda achava que iria sobreviver àquele encontro.

O vazio a sugou enquanto a escuridão nublava seus olhos.

 

Com o coração batendo como um martelo no peito, Natashya Safarov correu através da escuridão. Os homens estavam atrás de Yuliya. Esse pen­samento continuava crescendo dentro de sua cabeça.

As balas a perseguiam durante a noite, atingindo o chão e as árvores ao seu redor enquanto corria de volta para o prédio onde tinha deixado a irmã. Natashya recarregou suas armas enquanto corria, enfiou a pistola esquerda de novo no coldre para poder pegar seu telefone.

Teclou o número de emergência da polícia.

Departamento de Polícia — uma voz masculina anunciou lacônica.

Aqui quem fala é a inspetora Safarov, de Moscou — disse Natashya rapidamente. O som seco de tiros pontuavam suas palavras.

Ela acrescentou seu número de identificação. — Eu estou sob ataque na Universidade de Ryazan.

Por quem, inspetora?

Eu não sei. — A bala rasgou a casca da árvore a apenas alguns centímetros de sua cabeça. — Mande alguém aqui. Agora!

Sim, inspetora.

Natashya dobrou o telefone. Ela se sentiu aliviada pelo fato de o oficial de plantão não ter verificado sua identidade. Claro, Moscou ficava a apenas três horas de distância por via férrea e não havia muitas inspetoras do sexo feminino, mesmo na divisão de Moscou.

Sombras dançaram por todo o espaço entre os edifícios atrás dela. Natashya levantou as pistolas e disparou contra as sombras.

Um homem gritou de dor enquanto uma das sombras tropeçava e caía. O outro voltou para seu esconderijo.

Abandonando sua posição, Natashya correu, voltando para a parte de trás do prédio ao lado daquele onde tinha deixado Yuliya.

 

Dentro do laboratório, Gallardo olhou para baixo para a mulher morta. A bala havia arruinado seu rosto. Ele comparou o que restava da face com a foto que estava dentro da bolsa de plástico em sua manga. Não havia dúvida, aquela era a professora que deveria ser eliminada por ele, caso fosse necessário.

Ajoelhando-se, Gallardo chamou um dos homens que o tinham seguido para dentro da sala. Ele levantou o címbalo e o outro homem o pegou cuidadosamente, embalando-o na maleta protetora que tinham trazido para transportar o artefato.

Gallardo vasculhou rapidamente os bolsos da mulher morta. Tirou tudo que encontrou e colocou em um grande saco plástico. Depois de terminado, selou o saco. Ele duvidava que existisse alguma coisa de valor naquelas coisas todas, mas havia um zip drive que parecia promissor.

De novo de pé, Gallardo fez um largo sinal com as mãos indicando o laboratório:

Queimem tudo — ordenou.

Dois dos homens percorreram o laboratório e despejavam líquido inflamável no chão. O cheiro de álcool queimando preencheu o ar.

Um terceiro homem ficou perto da porta com um rifle de assalto.

Gallardo voltou para o escritório pequeno na parte de trás, atraído pelo brilho azul do monitor do computador. Dentro do escritório, ele olhou para a tela.

A pasta de e-mails mostrava uma lista de mensagens. Algumas estavam em cirílico, mas outras estavam em inglês.

Um nome chamou a atenção de Gallardo.

THOMAS LOURDS

Gallardo amaldiçoou-o, lembrando-se da sorte extraordinária do professor em Alexandria. E agora o nome do homem aparecia por aqui.

Gallardo não era um homem que acreditasse na sorte, boa ou ruim, mas ele odiava a insistência do destino. O fato de Lourds aparecer cons­tantemente naquela busca pelos artefatos por parte da Sociedade de Quirino não era algo que ele estivesse preparado para tolerar.

Ele ouviu os tiros, então falou ao microfone.

Que diabos está acontecendo aí fora, Farok?

É a mulher — respondeu Farok. — A arqueóloga.

Essa arqueóloga está aqui embaixo — corrigiu-o Gallardo. — E ela não vai a lugar nenhum.

Então, quem é essa?

A irmã dela. Uma inspetora da polícia.

Ela é mortal como ninguém com as armas — retrucou Farok. — Já matou dois de nossos homens e feriu outros três.

Gallardo não podia acreditar. Os mercenários que ele havia contrata­do para o ataque à universidade eram dos bons:

Ela está morta?

Não — respondeu o outro. — E, na verdade, ela está voltando para sua posição.

Amaldiçoando mais uma vez, Gallardo ordenou:

Recolha os corpos dos mortos e feridos e vamos embora daqui. Já tenho o que viemos buscar.

Farok hesitou.

Gallardo sabia que Farok detestava fugir de uma briga:

Ela é inspetora de polícia, então é bem capaz que tenha chamado reforços. É hora de limpar a casa e darmos o fora daqui.

Tudo bem — disse Farok, sua relutância clara em cada palavra.

Na porta do laboratório, Gallardo apanhou um sinalizador de emer­gência, armou-o e atirou-o no chão. O sinalizador acendeu apenas um minuto mais tarde, e então o álcool e os demais produtos químicos es­palhados pelo piso foram atingidos pelas faíscas. A vacilante névoa azul rapidamente se espalhou por todo o líquido esparramado.

 

Natashya viu que os homens estavam fugindo ao chegar na parte dos fundos do edifício da Faculdade de Medicina. Ela sentiu-se dividida por um instante com o pensamento de persegui-los. Mas não havia escolha. Mesmo que isso significasse que os deixaria escapar, ela precisava encontrar Yuliya.

A porta dos fundos estava trancada.

Recuando alguns passos, Natashya mirou deliberadamente na fechadura e atirou três vezes. As balas rasgaram o metal em uma explosão de faíscas. Ela estava ciente de que aquele brilho marcava claramente a sua posição, então se manteve rente ao chão.

Um alarme de incêndio rugiu para a vida.

Ela tentou a porta de novo, e desta vez se moveu. Abrindo-a total­mente, a policial correu para dentro no mesmo instante em que uma breve rajada de balas atingiu a porta e o hall de entrada.

Permanecendo abaixada, Natashya correu pelo corredor, procurando por uma escadaria que a levasse ao subsolo. Ela disse a si mesma para desacelerar, que os homens ainda poderiam estar dentro do edifício. Mas tudo o que conseguia pensar era em Yuliya.

Quando encontrou a escada, ela atirou-se para baixo, batendo contra a parede do fundo. O impacto machucou seu ombro, mas ela se forçou a se manter em movimento.

Na parte inferior da escada, ela entrou por uma porta com as duas pistolas empunhadas. A respiração pesada ecoava pelo vazio do corredor.

Ninguém se mexia.

Por um instante, Natashya ficou congelada, não muito certa de que caminho seguir. Então notou a palidez cinzenta de fumaça saindo de uma sala à sua esquerda.

Yuliya!

Natashya correu, incapaz de controlar o medo que pulsava através dela. Empurrando a arma na mão esquerda para dentro do bolso do casacão, ela agarrou a maçaneta da porta e a empurrou.

A fumaça se agitou para fora do laboratório, avançando em direção a Natashya e se prendendo a ela. O cheiro acre de produtos químicos se queimando beliscou as narinas. Mantendo a manga do casaco sobre a boca, ela respirava através do tecido e corria pela sala, em uma busca desesperada pela irmã.

As chamas dançavam pelo chão, lambendo o líquido derramado sobre o piso. O fogo cobriu a parede de trás. Vários recipientes de vidro ao longo das prateleiras da esquerda explodiram.

Uma rápida inspeção no escritório revelou que Yuliya não estava lá. Olhando para o inferno em chamas que continuava a ganhar força, Natashya pensou que poderia ser possível que os homens tivessem feito Yuliya prisioneira. Ela esperava que sim.

Então essa esperança morreu no instante em que procurava pela sala e viu a professora deitada no chão. O sangue que escorria da cabeça de Yuliya segurava uma linha de chamas.

Não!

Natashya correu para a irmã. Um olhar sobre a lesão na cabeça da professora contou à policial que não havia mais nenhuma esperança.

Lágrimas, que eram causadas tanto pelos produtos químicos quei­mando quanto pela dor emocionada, turvaram a visão de Natashya quando ela caiu ao lado do corpo da irmã. Chamas dançavam através da poça de sangue. O calor enegrecia as bordas.

Natashya colocou a pistola ao seu lado no chão e segurou a cabeça de Yuliya. Chorando, lembrou-se de todas aquelas manhãs quando só eram elas duas, depois que o pai saía para o trabalho. Se não fosse por Yuliya...

A porta raspou no chão atrás dela ao se abrir.

Rodopiando, Natashya apanhou a pistola do chão e apontou para as figuras escuras que entravam na sala. Os homens estavam vestidos com uniformes que os identificavam como segurança do campus.

Eu sou a inspetora Safarov da polícia de Moscou — disse Natashya em voz alta.

Inspetora — um dos homens disse. — Eu sou Pytor Patrushev. E trabalho de segurança aqui na faculdade.

Mantenha as mãos para cima.

O homem obedeceu.

Você precisa sair daqui. Eu chamei os bombeiros, mas estes pro­dutos químicos, eles...

Chegue mais perto. Deixe-me ver a sua identificação. Use apenas uma das mãos. — Um ataque de tosse rasgou as palavras de Natashya.

Patrushev se aproximou dela e mostrou o crachá preso à lapela do casaco.

Cega pelas lágrimas dos produtos químicos, negando a dor física ou emocional que a rasgava por dentro, Natashya mal conseguia enxergar o retângulo de plástico que o homem lhe oferecia. Ela sentiu que ele não era uma ameaça e decidiu confiar em seus instintos.

Temos que tirá-la daqui — disse Natashya.

Juntos, Natashya e o homem carregaram o corpo de Yuliya para fora da sala antes que o fogo ou a fumaça os dominasse.

 

Bombeiros carregaram o corpo de Yuliya para uma ambulância que esperava do lado de fora do prédio. Natashya se aprumou, afastando-se do abismo de desespero. A cena era igual a muitas outras que ela já vira em Moscou. Tiroteios com membros da máfia russa, confrontos com traficantes e caçadas por assassinos, tudo se misturava para criar um cenário surreal que inundava seu cérebro.

A polícia de Ryazan chegou juntamente com os bombeiros. Eles se mantiveram atrás da área que os bombeiros delimitaram com cordas, mas alguns dos policiais estavam começando a fazer perguntas aos espectadores.

Natashya sentou-se com Yuliya. Ela tinha certeza de que os homens que mataram sua irmã tinham ido embora.

O fogo iluminou o primeiro andar do prédio, mas as poderosas correntes de água gradualmente conseguiram derrotá-lo.

Um telefone celular tocou.

Automaticamente, Natashya estendeu a mão para o dela, mas quando o trouxe para atender, percebeu que não era esse que estava tocando. Ela se virou para Yuliya e acompanhou o tom estridente até o bolso do jaleco de laboratório da mulher.

Ela puxou o telefone por satélite para o rosto e falou em russo no bocal:

Alô?

Yuliya? — a voz era distinta, falando russo com um sotaque americano.

Quem está falando? — continuou Natashya em russo.

Thomas Lourds — respondeu o homem. — Olha, me desculpe chamar a uma hora tão tardia, mas é importante. Eu acabo de ver o címbalo com o qual você está trabalhando. Ela se liga com um artefato com o qual entrei em contato recentemente. — O homem hesitou.

Natashya se forçou a ficar calma. O homem não parecia ser um daqueles que caçaram e mataram Yuliya. E ainda havia alguma coisa familiar com aquele nome. Ela estava quase certa de que sua irmã o men­cionara algumas vezes.

Bem, e o que eu queria lhe dizer — continuou o americano — é que pode haver algum perigo relacionado a seu artefato.

Desculpe-me — disse Natashya. — Como é mesmo o seu nome? Lourds não respondeu imediatamente.

Você não é Yuliya — acusou ele.

Meu nome é Natashya Safarov. Eu sou a...

Irmã de Yuliya — Lourds respondeu. — Ela sempre fala de você. Por um momento, a pontada de dor que lancetou Natashya através

do coração fez silenciar sua língua. Ela se esforçou para falar.

Eu sou um colega de Yuliya — disse Lourds. — Posso falar com ela?

Ela não pode vir ao telefone — respondeu a policial.

É importante que eu fale com ela.

Posso lhe passar uma mensagem. Lourds não falou por um momento.

Bem... Diga a ela que eu acho que sua vida pode estar em perigo. Estou em Alexandria, Egito. Eu estive brevemente em posse de um artefato que pode combinar com o címbalo sobre o qual sua irmã entrou em contato comigo. Há poucos dias, os homens nos atacaram e roubaram nosso artefato. Eles mataram duas pessoas durante o roubo. Estes são homens perigosos.

Vou dizer a ela — Natashya forçou-se a não olhar para o corpo de Yuliya. — Você tem um número para o qual possamos ligar de volta?

Ela embolsou sua pistola e tirou uma caneta, anotando rapidamente o número em seu bloco de notas, enquanto equilibrava o telefone em seu ombro.

Peça-lhe que me retorne o mais breve possível — disse o professor. — E diga-lhe também que peço desculpas por ser negligente em não responder a seus e-mails.

Natashya anotou um lembrete para verificar o e-mail de Yuliya também. Ela prometeu que faria isso e, então, desligou.

Olhando através da multidão, Natashya avistou um jovem policial de uniforme. Ela o chamou e lhe mostrou sua identificação, perguntou o nome do oficial responsável e onde poderia encontrá-lo, e então ordenou ao rapaz que vigiasse o corpo de Yuliya.

 

Tem certeza de que feriu alguns deles, inspetora? — perguntou educadamente o capitão Yuri Golev. Ele era um homem franco e prepa­rado, prestes a se tornar sessentão. Os cabelos estavam prateados, mas o bigode e as sobrancelhas continuavam negros. Ele colocou um cigarro nos lábios e tragou profundamente. As luzes dos carros de bombeiros e de polícia esculpiam cavidades profundas sob os seus olhos tristes.

Eu matei no mínimo dois desses homens — disse Natashya. Golev fez um gesto com o cigarro, apontando para o terreno da faculdade onde policiais uniformizados vasculhavam a paisagem escura com lanternas.

— Então, onde estão seus corpos?

— Obviamente, levaram com eles — respondeu Natashya.

Obviamente — ecoou Golev, mas ele não pareceu sincero. — Por que os homens vieram aqui à procura de sua irmã?

— Eu não sei. Golev olhou para ela.

Ou talvez eles estivessem procurando por você.

Ninguém sabia que eu estaria aqui — retrucou Natashya. -— Yuliya já estava aqui há dias.

E alguém desejava mal à professora? — perguntou o policial.

Não que eu saiba.

Golev fumou em silêncio por um momento, enquanto olhava para o edifício médico. O corpo de bombeiros tinha conseguido controlar o fogo químico.

Sua irmã era uma arqueóloga, não era? — perguntou o capitão.

Sim.

Às vezes, essas pessoas encontram coisas interessantes.

A declaração foi feita deliberadamente para conduzir a um ponto. Natashya sabia o que Golev estava pensando, e ela sabia que ele estava ciente de que ela sabia.

Ela estava trabalhando em alguma atribuição passada pelo go­verno — disse Natashya. — Nada que fosse tão valioso.

Bem, algo tão altamente organizado assim — replicou o capitão —, especialmente considerando que eles levaram seus homens mortos, o que é uma ocorrência incomum na espécie de bandidos colocados no fim da cadeia alimentar com os quais entro em contato, não teria sido motivado por um simples capricho.

Natashya concordou, mas não disse nada.

Ela não deu nenhuma indicação de que temia por sua vida? - perguntou Golev.

Se ela tivesse feito isso — disse Natashya tão calmamente quanto podia —, eu jamais teria saído do lado dela.

Claro — Golev suspirou e sua respiração se evaporou no meio da noite. — Este é um negócio muito ruim, inspetora.

Natashya não respondeu.

Golev olhou para ela, então, e seu olhar ficou mais suave.

Tem certeza de que deseja ser você a contar para a família? - perguntou.

Sim.

Se precisar de alguma coisa, inspetora, por favor me avise.

Farei isso.

Natashya despediu-se e caminhou de volta para o estacionamento onde tinha deixado o carro. Thomas Lourds estava em primeiro lugar em sua mente. Mesmo se o homem não estivesse envolvido no assassinato de Yuliya, ele deveria saber de algo que pudesse levar aos homens que estavam. Natashya tinha a intenção de descobrir tudo o que ele sabia.

 

           ALEXANDRIA, EGITO

           20 DE AGOSTO DE 2009

- Acorde, está em todos os noticiários! Lourds despertou lentamente. Um nevoeiro envolvia sua mente. Ele sabia,

pela maneira desconfortável que estava dormindo, que aquela não podia ser sua casa. Ao entreabrir os olhos, percebeu um movimento borrado diante dos olhos.

E antes que pudesse entender as coisas, uma luz bri­lhante trespassou seus olhos. Lourds resmungou um palavrão e cobriu os olhos com o antebraço.

— Desculpe, mas achei que você deveria assistir ao noticiário. Eles estão falando sobre Yuliya Hapaev. Ela está morta.

Morta? Isso chamou a atenção de Lourds e afastou o nevoeiro em sua mente.

Do outro lado da sala, Leslie jogou-se de volta para sua cama e apontou o controle remoto para a televisão. O volume aumentou.

Piscando para afastar a dor enquanto suas pupilas se ajustavam, Lourds olhou para a tela da televisão. A manchete ARQUEÓLOGA MOSCOVITA ASSASSINADA gritava em letras grandes por trás do âncora:

—... E os policiais de Ryazan dizem que ainda não sabem o motivo pelo qual a Dra. Hapaev foi morta — dizia o âncora.

A imagem foi cortada para um incêndio que ardia em um edifício. A legenda marcava aquelas imagens como:

 

         UNIVERSIDADE DE RYAZAN

         FACULDADE DE MEDICINA

         RYAZAN, RÚSSIA

 

Ainda não há explicação para o incêndio que eclodiu em um dos laboratórios da Universidade de Ryazan, destruindo tudo dentro dele — narra o âncora. — O incêndio ceifou a vida da professora Yuliya Hapaev.

Uma pequena fotografia apareceu inserida na filmagem do incêndio. Lourds viu que era uma imagem recente de Yuliya trabalhando em uma escavação. Ela parecia feliz.

A professora Hapaev esteve envolvida em uma série de estudos notáveis — o âncora continuou. — Deixa marido e dois filhos.

A câmera cortou para uma das histórias em constante desenvolvi­mento no Oriente Médio.

Isso é tudo que existe? — perguntou Lourds.

Até agora, sim — Leslie olhou para ele. — Sinto muito sobre sua amiga.

Sim, eu também...

Lourds forçou-se a levantar do sofá onde passara a noite depois que Leslie tinha adormecido em sua cama. Ele recuou para o seu computador e rapidamente conectou-o à internet.

Havia alguma menção ao címbalo?

Não.

Lourds clicou nos sites de notícias e procurou por eles atrás de mais informação. Até passou os olhos nos serviços russos de notícias, mas não havia nada mais além do que a Fox News acabara de anunciar.

Você acha que o címbalo teve algo a ver com a morte dela? — Leslie deslizou da cama e andou até se juntar a ele. Ela ainda usava as roupas do dia anterior e estava descalça.

Claro que sim, e você não? — retrucou Lourds.

Seria um exagero...

Nem tanto. — Lourds clicava nas reportagens, salvando-as no computador para que pudesse ler com calma mais tarde. — Você postou as imagens do sino e não demorou muito para que tivéssemos homens armados derrubando as portas, prontos para nos matar e se apossar dele. Yuliya enviou fotos do címbalo e foi morta em um incêndio suspeito que destruiu seu laboratório. Tudo está ligado.

Mas ela enviou as fotos a você...

Sim, mas eu não era seu único recurso — disse Lourds. — Nenhum arqueólogo ou pesquisador existe no vácuo. Cada um de nós é tão bom quanto a rede que se consiga montar. A rede de contatos de Yuliya era extensa. Eu tenho certeza de que ela enviou fotos da peça para outros além de mim.

Mas se ela não postou esse artefato de forma pública... — refletiu Leslie.

Então a lógica diz que alguém próximo a ela, alguém que recebeu dela as fotos, seria o culpado pelo seu assassinato. E é por essa razão que vou rastrear tudo o que eu puder sobre esse címbalo. — Lourds concentrou-se em sua tarefa.

 

Dentro de alguns minutos, Lourds comprovou que Yuliya tinha pos­tado perguntas sobre o címbalo em pelo menos cinco diferentes sites e fóruns sobre arqueologia. E todas as fotos eram idênticas àquelas que a professora lhe tinha enviado. Todas mostravam a inscrição que era tão perturbadora quanto a do sino.

Parte dele, a que não fora consumida pelo mistério sobre o que significava tudo aquilo, sentiu a perda de sua amiga.

Yuliya tinha sido brilhante e espirituosa. Ele se encontrara com ela e sua família em uma dúzia de viagens diferentes a Moscou. Por duas vezes, Yuliya e seu marido Ivan haviam hospedado Lourds na própria casa enquanto ele fazia suas pesquisas.

Existe alguma maneira de saber quem foram todas as pessoas que viram essas imagens? — perguntou Leslie.

Nem todo mundo — disse Lourds. — Estas páginas são abertas ao público. — Seus piores temores tinham sido confirmados, ele se recostou na cadeira e cruzou os braços sobre o peito. — Temo que vamos ter de colocar o resto de sua série em espera por mais um pouco.

O que você quer dizer? — Leslie parecia perturbada.

Eu tenho que ir a Moscou — explicou Lourds.

Para visitar a família? Eu entendo isso, mas...

Não apenas para visitar a família — disse Lourds. — Para rastrear mais informações sobre o címbalo. Yuliya era uma arqueóloga brilhante. Mesmo que o laboratório tenha sido todo destruído pelo fogo, ela nunca guardaria toda a sua pesquisa em um único lugar.

Leslie era inteligente e leu nas entrelinhas imediatamente:

Você acha que ela pode ter deixado informações sobre o címbalo em algum outro ponto.

Lourds assentiu. Não havia motivos para mentir. Leslie não conhecia o que ele conhecia sobre Yuliya.

Ela teria mantido registros alternativos sobre o artefato — expli­cou o professor. — Era uma pessoa muito cuidadosa sobre coisas desse tipo. Algumas vezes pode ser uma coisa muito difícil você proteger suas pesquisas. Por isso, os estudiosos costumam tomar todas as precauções possíveis — Lourds franziu a testa. — Sinto muito sobre o programa, Leslie.

Sem problemas — garantiu ela. — Nós temos um prazo apertado, mas tenho certeza de que podemos agüentar uns dois dias de ansiedade na produção...

Acho que podem ser mais do que dois dias, Leslie.

Ela olhou para ele.

Tem alguma coisa ligando o címbalo ao sino — explicou Lourds. — Se eu conseguir encontrar a trilha, vou tentar descobrir quem matou Yuliya, assim como quem matou James Kale e o filho do lojista.

Isso pode ser perigoso.

Oh, não se preocupe, não pretendo fazer nenhuma besteira em relação a isso — garantiu ele. — Assim que eu tiver informação sufi­ciente, vou levar tudo à polícia. Sou apenas um professor de lingüística. E se Yuliya não tivesse sido uma amiga tão boa, se eu não tivesse tanta certeza de que serei capaz de fazer mais neste momento do que a polícia para rastrear os assassinos, eu nem iria tentar...

 

Mais tarde, depois de Leslie ter ido embora, Lourds voltou sua atenção para marcar imediatamente um vôo para Moscou. Infelizmente, não teve muito sucesso. A Rússia, mesmo naqueles dias, era um dos destinos mais disputados da Europa, do tipo que tinha vôos saindo a cada trinta minutos.

Depois de consultar três companhias aéreas e não conseguir nada que lhe satisfizesse, decidiu se concentrar em fazer as malas. De uma forma ou de outra, ele iria para lá. E também sabia que seria obrigado a comprar algumas roupas, porque o que ele trazia dificilmente serviria para a tem­peratura corrente em Moscou.

Enquanto arrumava suas coisas, pensou com tristeza sobre Yuliya e sua família. Não sabia o que Ivan e as crianças fariam, nem se sentia capaz de imaginar o tipo de sofrimento pelo qual eles estavam passando.

Pensar sobre a perda dessas pessoas desencadeou a determinação de Lourds. Ele não podia permitir que os assassinos ficassem à solta. Com a vontade renovada, ele voltou sua atenção para as agências de viagens.

 

No átrio do hotel, Leslie estava se sentindo desconfortável, achando que se destacava no meio dos hóspedes como a garota que saía da noitada domingo de manhã ainda usando as roupas de sábado. Sua vontade era ie tomar um banho e trocar de roupas, mas seus instintos de repórter estavam operando à toda.

Assim como sua paranóia.

Enquanto esperava que fosse feita a conexão com seu telefone por satélite, ela tentou organizar seus pensamentos. Quando a atendente do PABX respondeu, pediu para falar com seu supervisor, Philip Wynn-Jones.

Wynn-Jones — ele respondeu, com aquela voz calma e contro­lada que possuía.

Philip — Leslie cumprimentou. — É Leslie Crane.

O sorriso de Wynn-Jones transpareceu em sua voz:

Ah, Leslie. É tão bom ouvir notícias suas. Sinto muito sobre o que aconteceu com Kale. Obrigado pelo seu trabalho por aí em manter nossa equipe viva. Seus atos heroicos têm gerado muita publicidade para o próximo programa. Falando nisso, estive olhando as primeiras tomadas do programa, excelente trabalho. Acho que vai ser um sucesso absoluto. Esse seu professor Lourds tem um jeito absolutamente cine­matográfico, a câmera parece amar esse cara.

Obrigada — respondeu Leslie. — Também acho a mesma coisa.

Ela hesitou por alguns momentos, sem saber muito bem o que dizer ou como entrar no assunto.

O que tem em mente? — perguntou Wynn-Jones. — Eu sempre descubro quando você está tentando uma nova abordagem. Então a gente pode ganhar tempo se você apenas colocar tudo para fora.

Houve uma virada inesperada. As gravações terão que parar por alguns dias — respondeu Leslie.

Wynn-Jones ficou quieto. Ele não gostava de estouros no orçamento ou de prazos não cumpridos.

O que está acontecendo? — perguntou ele.

Leslie rapidamente descreveu os acontecimentos da última tragédia na Rússia.

Você tem certeza de que esses dois artefatos estão relacionados? — perguntou Wynn-Jones assim que Leslie terminou de falar.

Lourds pensa assim.

E ele vai a Moscou para acompanhar essa pista? — perguntou Wynn-Jones.

Sim.

— Hmmmm — ela ouviu papéis sendo mexidos do outro lado da linha. — Esse caso parece estar ficando ainda mais interessante. Suponho que tenhamos alguma margem de manobra em nossos prazos. Na verdade, estive olhando aqui, você está até um pouco adiantada. Tem idéia de quanto tempo essa viagem do professor vai demorar?

Eu quero ir com ele.

Essa informação pareceu ter chocado Wynn-Jones por um momento.

— Você?

Sim, eu.

Para quê?

Leslie respirou fundo.

Pense nisso, Philip. Eu encontrei um artefato misterioso, e vândalos armados apareceram para roubá-lo assim que eu o levei para o único homem que poderia decifrá-lo.

Você está apostando um bocado de fichas nesse seu professor...

Sim, e você sabe por quê. Você gostou de suas credenciais, mesmo antes de aparecer a chance de cobrir uma grande história.

Uma grande história? Não acha que está se adiantando um pouco, não?

Pense nisso — insistiu Leslie. — Dois artefatos antigos incomuns sobem à tona, separados por meio mundo, e talvez tenham algum tipo de relação. Dois assassinatos ocorrem em menos de uma semana, junta­mente com arrombamentos feitos por pessoas armadas e que furtam esses mesmos artefatos. Se for a mesma pessoa responsável, ou até mesmo dois grupos que foram enviados pela mesma pessoa, eles mataram profis­sionais ligados aos artefatos em dois continentes diferentes. — Leslie olhou para a recepção do hotel e mentalmente cruzou os dedos. — É uma grande história. Até o momento, apenas nós fizemos a conexão entre os dois fatos. Philip, temos informações de dentro sobre isso.

Wynn-Jones suspirou pesadamente:

Nós não somos uma agência de notícias.

Eu sei disso. — Leslie mal continha a emoção que se agarrou a ela. Ele ainda não disse não! — O que temos aqui é uma oportunidade para aproveitar os holofotes por um momento. Se o professor Lourds for capaz de revelar o segredo do sino e do prato, isso não seria um golpe de sorte fabuloso? Além do mais, se temos uma conspiração criminosa em torno desses artefatos, isso certamente iria trazer mais atenção ao pro­grama, você não acha?

Possivelmente. Mas eu não gosto do som dessa expressão... Conspiração criminal... Especialmente com você no meio dela.

Leslie não conseguiu se conter. Uma energia nervosa se derramava fentro dela. Ela começou a andar em pequenos círculos, ciente de que estava chamando a atenção dos hóspedes do hotel no átrio:

Por favor, não seja obtuso, Philip. Você sabe que isso poderia atrair um monte de atenção.

Será que esta manchete lhe agrada? — começou ele do outro da linha — "Estimado professor de lingüística americano e desesperada personalidade da televisão britânica encontram sua destruição."

Eu quero fazer isso, Philip. Eu tenho um bom pressentimento sobre isso.

Wynn-Jones permaneceu em silêncio.

Além disso, acho que o professor Lourds está escondendo algu­ma coisa — disse Leslie.

Se ele está guardando segredos, o que faz você pensar que vai lhe contar alguma coisa?

Eu posso ser muito convincente, Philip — respondeu Leslie.

Você está dormindo com ele?

Isso foi insolente. E para sua informação, não, não estou.

Eu vi o seu querido professor — retrucou Philip do outro lado. — E não a culpo. Infelizmente, ele não parece ser do tipo de pessoa que joga no meu time... — Philip era gay, embora poucas pessoas no estúdio soubessem disso.

Ele definitivamente não é.

Pena...

Só mais uma coisa — continuou ela. — Eu gostaria que o estú­dio bancasse as passagens aéreas e as demais despesas em Moscou.

Isso vai ficar caro.

Sim, mas o professor é rentável e essa história é grande. Se nós o estivermos financiando, ele não vai tentar me despistar nem esconder as coisas de mim, caso venha a descobrir algo. E quero levar um cinegrafista.

—Você quer acabar comigo, e sabe disso, não sabe? — reclamou Philip.

Obrigada, você é um querido, mesmo. — Leslie deu a volta e se encaminhou para os elevadores. Seu coração cantava dentro do peito. — E você poderia, por favor, pedir ao Jeremy que cuide das passagens e do hotel? Isso seria maravi...

 

Desculpe-me, Sr. Lourds — disse o atendente da companhia aérea. — Não temos nenhum lugar disponível saindo de Alexandria para o norte até amanhã.

Lourds estava de pé na varanda do quarto, e observava a cidade. Um calor abrasador subia das ruas. A frustração o irritava. Ele agradeceu ao jovem atendente educadamente e desligou o telefone.

Alguém bateu à porta enquanto ele procurava pelo número de tele­fone seguinte que havia localizado na internet. Uma onda de trepidação o inundou. O professor mais uma vez olhou em volta e mais uma vez encontrou o ferro de passar, desta vez pousado no gabinete do banheiro.

Quem é? — perguntou.

Leslie.

Ele deixou escapar um suspiro de alívio. Isso estava começando a se tornar um hábito. Leslie verificou pelo olho mágico e viu Leslie em pé no corredor. Ela parecia agitada. E quando ela estava prestes a bater novamente, ele abriu a porta.

Alguma coisa errada? — perguntou Lourds.

Ela sorriu antes de responder:

Na verdade, muitas coisas certas. Posso entrar?

Lourds recuou.

Leslie levantou uma sobrancelha para o seu ferro de passar.

Você realmente precisa aprimorar isso — comentou ela ao passar pela porta.

Um ferro de passar maior, talvez?

Eu estava pensando que talvez você precisasse de um taco de críquete, na verdade — respondeu Leslie. — Você já conseguiu fazer suas reservas para a Rússia?

Ainda não...

Bem, acabo de conversar com meu supervisor. Ele concordou em assumir sua viagem para Moscou.

Você vai perdoar meu atrevimento — respondeu Lourds —, mas eu estive muito tempo em ambientes universitários para achar ingenuamente que coisas "grátis" ou que "ajudas" venham sem uma etiqueta de preço.

Bem, o preço neste caso aqui é bem simples — disse Leslie. — Eu acho que você vai desfrutar da companhia.

Lourds gostou de ver que ela não se preocupou em negar a acusação:

Você quer me acompanhar para Moscou. Por quê?

Leslie cruzou os braços sobre os seios.

Eu suspeito que você não esteja me contando tudo sobre a sua amiga.

E não estou — admitiu ele.

Você mencionou que ela muitas vezes duplicava suas pesquisas.

Não "muitas vezes". Sempre. Yuliya foi meticulosa sobre isso.

Então — continuou a jornalista — você está indo atrás dessa pesquisa.

— Sim — respondeu o professor. — E espero que lá existam imagens de melhor qualidade do címbalo do que aquelas que ela postou nos sites. Quanto mais material eu tiver para trabalhar, melhores serão minhas chances de conseguir traduzir aquele idioma.

Se eu não atrapalhar, você se importa se eu for junto? — pergun­tou Leslie.

Não, eu não tenho nada a esconder.

Bem — replicou ela — você não estava exatamente disposto a abrir informações hoje cedo.

Lourds sorriu.

Eu contei o suficiente para deixar você tão interessada a ponto de ligar para o estúdio.

Fazendo beicinho, Leslie retrucou:

Acredito que eu fui... Como é que vocês, americanos, gostam tanto de falar... "manipulada"?

Acho que um pouco... — admitiu o professor.

O que você faria se eu não tivesse telefonado ao meu supervisor? Ou se não o tivesse convencido a fazer essa viagem acontecer?

Eu teria ido de qualquer maneira — respondeu Lourds. — Do jeito que fosse possível. Mas sou obrigado a admitir que a capacidade de seu estúdio para providenciar vistos para viagens imediatas, para não men­cionar os bilhetes de avião, é muito superior à minha. Eu estive batendo a cabeça contra uma parede conversando com agentes de viagem hoje.

Leslie franziu a testa:

Você se acha muito inteligente.

Lourds guardou o ferro de passar:

— Eu tento...

 

             BRITISH AIRWAYS,VÔO BA0880

             PARTINDO DE HEATHROW

             21 DE AGOSTO DE 2009

Horas mais tarde, e mais uma vez de volta à Europa, Lourds sentou-se na escuridão tranqüila que preenchia o enorme in­terior do jato. Ele tinha passado algumas horas no aeroporto de Heathrow antes de subir a bordo deste jato vindo do Egito. Lourds tinha usado seu tempo livre para ler a informação que havia baixado da internet.

Há algum tempo fora persuadido a instalar um pequeno link por satélite em seu computador, e que lhe fora útil em diversas outras ocasiões.

Você devia descansar um pouco — comentou Leslie, sentada no banco ao lado dele.

Eu pensei que você estivesse dormindo. — Lourds endireitou-se e afivelou o cinto novamente.

E estava. Teve sorte em suas pesquisas?

Não. — Lourds tomou um gole de água. — Procurei em diversos lugares, esperando encontrar alguma informação sobre o sino e o címbalo, mas parece que não existe nada.

E isso é assim tão raro de acontecer?

E que estamos falando de milhares de anos de existência — explicou Lourds. — Um grande número de coisas desapareceu durante esse tempo.

Certamente foram as coisas não importantes — retrucou Leslie.

E o que você me diz sobre a linguagem egípcia clássica? Ela estava desaparecida por mais de mil anos! Foi um acaso que nos possibilitou recriá-la. — Lourds sorriu para ela, adorando a ingenuidade da repórter. — E você consideraria importante uma arma nuclear?

Não estou entendendo...

Os Estados Unidos perderam pelo menos sete delas desde a Segun­da Guerra Mundial. Isso só contando aquelas que foram confirmadas. E sem falar de todas as armas nucleares que "desapareceram" depois que a União Soviética foi desmantelada.

Essas eram coisas secretas — retrucou Leslie. — Ninguém deveria saber sobre elas.

Talvez o sino e o címbalo fossem segredos também — respondeu Lourds.

Leslie olhou para ele com mais interesse.

É isso o que você acha?

Entrei em contato com vários amigos em museus e coleções par­ticulares, bem como companhias de seguros. Quando o sino sumiu, achei que os nossos infelizes adversários poderiam ter roubado outros artefatos relacionados. Mas não apareceu absolutamente nada, exceto o címbalo, o que me fez pensar que poucas peças como essas foram feitas.

E você acha que o sino e o címbalo eram únicos? — perguntou Leslie.

Eu ainda não estou pronto para confirmar essa hipótese, mas sim, acho — respondeu ele.

E que outras pessoas estão atrás deles...

De fato.

O sino e o címbalo estavam tão distantes um do outro... E eram relativamente desconhecidos. E nenhuma das duas peças estava sob os cuidados de um colecionador ou de uma instituição. Mas quando apare­ceram, parece que alguém muito cruel saiu à procura deles. Estou apos­tando minha reputação que você vai descobrir o motivo.

Aí tem coisa — disse Lourds. — Caso contrário, ninguém estaria matando por essas peças.

 

           AEROPORTO INTERNACIONAL DOMODEDOVO

           MOSCOU, RÚSSIA

            21 DE AGOSTO DE 2009

Depois de recolherem a bagagem de mão, que era tudo o que ti­nham trazido com eles de Alexandria, Lourds e Leslie atravessa­ram o túnel até os postos de segurança no interior do terminal.

Lourds olhou para o relógio e descobriu que a hora local marcava pouco depois das cinco da manhã. Ele se sentia cansado porque não tinha descansado direito durante o vôo. Normalmente, ele conseguia dormir como um bebê nos aviões, mas, desta vez, sua mente tinha permanecido ocupada demais. Leslie, por sua vez, dormira muito bem.

Os dois ficaram na fila juntamente com os demais passageiros. Lourds lançou seu olhar para um grupo de guardas de segurança uniformizados.

Um dos guardas, na casa dos cinqüenta anos, pousou seus olhos mortos cinzentos sobre o professor. Em seguida, olhou para a foto em suas mãos:

Senhor Lourds?

É, professor Lourds, na verdade — respondeu ele, sem tentar negar íua identidade. Se os guardas de segurança tinham sua foto, certamente já sabiam que ele estava entre os passageiros.

O senhor venha conosco, por favor — disse o homem.

Do que se trata?

Sem perguntas — ordenou o guarda. — Venha comigo.

Quando Lourds não caminhou rápido o suficiente para emparelhar com ele, o guarda fechou uma mão de ferro no braço do professor e o retirou da fila.

O que está acontecendo aqui? — perguntou Leslie. Ela tentou segui-lo.

Um jovem guarda de segurança a interceptou e a impediu de sair do lugar:

Não — disse o guarda.

Vocês não podem fazer isso! — protestou Leslie.

Já está feito — disse o jovem guarda. — Por favor, mantenha-se em fila. Caso contrário, você será detida ou deportada.

Leslie ficou olhando para Lourds.

Talvez você possa contatar a nossa embaixada — disse Lourds, tentando parecer calmo, como se esse tipo de coisa lhe acontecesse todos os dias. Mas não acontecia, porém, e ele estava surpreso ao se descobrir realmente muito assustado. Uma coisa era ser um visitante em um país estrangeiro e outra bem diferente era ser tratado como um inimigo do Estado.

 

               AEROPORTO INTERNACIONAL DOMODEDOVO

               SALA DE DETENÇÃO MOSCOU, RÚSSIA

               21 DE AGOSTO DE 2009

Lourds tentou manter a calma enquanto ficava sentado na sala de detenção, apesar de aquele ambiente sem janelas parecer que estava se fe­chando sobre ele. A pintura cinza era uma adição tristonha; parecia a Lourds que a cor sugava toda a vida e as cores da sala e de qualquer coisa que estivesse lá dentro, inclusive ele mesmo. Uma mesa de madeira cheia de cicatrizes e três cadeiras ocupavam o centro do espaço. A cadeira em que o professor estava sentado ficava de um lado da mesa, sozinha. As paredes pareciam trans­pirar memórias duras de interrogatórios realizados aqui. Talvez a nova Rússia não endossasse as táticas de inter­rogatório forçado com a mesma negligência da antiga União Soviética, ou da polícia especial do czar antes deles, mas Lourds sabia que seus captores queriam que ele se lembrasse daquele passado cruel.

Eles tinham tomado seu computador, sua bagagem e seu telefone celular.


O professor sabia que eles estavam observando. Uma vez que as paredes desnudas cinzas não tinham nenhum espelho nem aqueles vidros de apenas um lado, ele assumiu que estava sendo espionado por câmeras ocultas embutidas nas paredes ou no teto. Toda vez que ele se levantava para esticar as pernas, um guarda entrava no quarto a fim de dizer-lhe para sentar-se novamente.

 

A mulher que entrou na sala era bonita. Um lindo cabelo avermelhado ondulava-se até os ombros. Seus quentes olhos castanhos o observavam. Ela vestia um terno cinza que se complementava com sua pele clara e com os cabelos.

Sem pensar, Lourds ficou de pé. Seus pais tinham lhe ensinado bons modos tão bem que, mesmo agora, as aulas ainda funcionavam.

A mulher o deteve imediatamente, no entanto.

Sente-se — ordenou ela em inglês.

Sua mão escorregou para o quadril.

Lourds sentou-se. O movimento da mão dela, pensou, significava que ela usava uma arma.

Eu não quis ofender — disse Lourds. — Quando uma mulher bonita entra na sala, fui ensinado a ficar de pé. Por respeito. Acho que tenho que agradecer à minha mãe por quase levar um tiro.

A mulher permaneceu de pé. Seus olhos eram frios e duros.

Veja — disse ele —, seja o que for que pense que fiz, eu...

Cale-se — ordenou a mulher. — Você é o professor Thomas Lourds?

Sim.

O que está fazendo aqui?

Eu sou um cidadão americano com um visto para viajar para este país e...

Basta uma palavra minha — a mulher o interrompeu —, o seu visto será cancelado e você estará no próximo avião para fora daqui. Compreendeu?

Lourds sabia que ela não estava blefando.

Sim.

Você está aqui, neste momento, por conta de minha tolerância. Por que veio?

Para ver um amigo. Ivan Hapaev.

Como você conheceu Ivan Hapaev?

Através da esposa dele — respondeu Lourds.

Yuliya Hapaev.

Lourds assentiu.

Sim. Yuliya e eu muitas vezes nos consultamos mutuamente. Eu ensino...

Lingüística — disse a mulher. — Sim. Estou ciente disso, no entanto Yuliya Hapaev está morta.

Eu sei. Vim até aqui para oferecer minhas condolências.

Você e Ivan Hapaev são próximos?

Lourds decidiu contar a verdade:

Não.

Você veio de tão longe para ver um homem que só conhece socialmente num momento em que ele está de luto pelo assassinato de sua esposa?

Eu tinha outro assunto que foi o que me trouxe a Moscou. E decidi ficar aqui por tempo suficiente para ver Ivan.

Que outro assunto? — perguntou a mulher.

Pesquisa de projetos. É isso que estou fazendo agora.

Você é bastante amigo de Ivan?

Na verdade, eu conhecia melhor a esposa dele. Como já disse, a Dra. Hapaev e eu éramos...

Colegas.

Sim.

Se vocês fossem amigos próximos — disse a mulher —, eu o teria conhecido.

Mas como seria possível saber todas as pessoas que viam a Dra. Hapaev e...

Eu conheci muitos deles — a mulher procurou algo no bolso interno da jaqueta e trouxe a identificação funcional. — Meu nome é Natashya Safarov. A Dra. Hapaev era minha irmã.

Irmã! Lourds olhou atentamente para a mulher e então pôde ver a semelhança de família. Que esteve lá o tempo todo.

 

Estou investigando o assassinato de minha irmã, professor — Natashya fechou a carteira de identificação policial. Ela estudou o rosto de Lourds. Ele era um homem bonito, e pareceu sinceramente preocupado com Yuliya.

Mas por que eu fui detido? — perguntou Lourds.

Na noite da morte de minha irmã, você a chamou em seu tele­fone celular. Por quê?

Para avisá-la. Aquele címbalo que ela estava analisando tinha uma inscrição que parecia semelhante a uma que encontrei em um sino que foi recentemente roubado de mim e de minha equipe de televisão em uma gravação em Alexandria. Quase fomos mortos.

Fale-me sobre isso — solicitou Natashya.

 

O professor contou tudo a ela, sem deixar nada de fora. Depois de terminar o relato, acrescentou:

Sinto muito sobre sua irmã, inspetora Safarov. Ela era realmente uma mulher magnífica. E a amava muito. Ela sempre falava sobre você. Yuriya me contou que a mãe de vocês morreu muito nova e que vocês duas eram muito próximas — e concluiu: — Imagino que essa perda deva ser muito dura.

Natashya permaneceu em silêncio.

Eu não sei quem matou Yuliya — continuou Lourds. — Se eu soubesse, lhe diria.

Você sabe por que ela foi morta?

Meu único palpite envolveria o címbalo.

E você sabe o que era aquilo? Ou por que alguém iria desejar isso?

Lourds balançou a cabeça.

Infelizmente, não, e se soubesse lhe diria, claro. E estaria atrás deles por causa do sino que levaram.

 

Procurando em sua jaqueta, Natashya pegou o visto e o passaporte de Lourds que estavam em seu bolso. Ela deliberadamente não os devolveu.

Eu estava lá na noite em que mataram a minha irmã — disse a policial.

A tristeza ensombreceu as belas feições do professor Lourds. Na­tashya sentiu que era uma emoção honesta:

Sinto muito. Deve ter sido horrível.

Natashya não respondeu a isso:

Os homens que a mataram e roubaram o címbalo eram assassi­nos profissionais — ela pretendia que suas palavras amedrontassem o homem.

Mas Lourds não pareceu surpreso:

Os homens em Alexandria foram muito bons também.

Aproveite a sua estadia em Moscou, professor Lourds. Espero que você encontre o que está procurando. — Natashya entregou ao homem o seu passaporte e o visto, e um cartão com seu nome e um número de telefone pelo qual ela poderia ser alcançada a qualquer hora. — Se você descobrir alguma coisa que tenha a ver com o assassinato de minha irmã, eu quero ser informada.

Lourds colocou os papéis no bolso do paletó:

Claro, eu teria o maior prazer em lhe contar.

Uma coisa que Natashya decidiu naquele momento era que o pro­fessor norte-americano mentia sem maldade. Ela preferia assim do que de outro jeito.

Cansado e frustrado, tendo quase certeza de que a irmã de Yuliya não chegou a acreditar em tudo o que ele contara, Lourds entrou no pequeno escritório fora da sala de detenção. Leslie estava esperando por ele.

Quase duas horas tinham se passado. Ela estava sentada em uma das cadeiras duras que ficavam ao lado de suas malas de mão. A maleta que continha o computador de Lourds estava apoiada no topo da pilha.

Ficando de pé, Leslie inspecionou Lourds. A preocupação estava estampada nos olhos da repórter.

Você está bem? — perguntou.

Estou — respondeu Lourds. — Você ficou esperando aqui todo esse tempo?

Sim. Liguei para a embaixada americana, eles mandaram uma pessoa imediatamente. Mas a inspetora Safarov disse que não era ne­cessário, que ela iria liberar você depois de algumas perguntas. Então, o homem da embaixada foi embora.

Ela me liberou, de fato...

Mas por que ela deteve você?

É complicado. Talvez pudéssemos conversar em outro lugar — sugeriu Lourds.

Ele não quis falar sobre nada dentro do terminal. O Serviço Federal de Segurança — Federalnaya Sluzhba Bezopasnosti (FSB) — amava seus pequenos brinquedos de vigilância eletrônica. Lourds pegou sua bagagem de mão, colocando cuidadosamente a de Leslie por cima. Sua mala tinha rodinhas, o que fazia com que fosse mais fácil de puxar.

Estava pronto para ir para fora e sair de lá. Depois de horas dentro do avião, e mais tarde na sala de detenção, estava se sentindo meio claustrofóbico.

Leslie liderou o caminho até a porta e ele a seguiu.

 

Do lado de fora do escritório da segurança, Natashya assistiu ao pro­fessor e a jovem se movendo ao longo da torrente de corpos humanos que se dirigia para as locadoras de veículos. A confusão se agitava dentro dela.

Emoções se contorciam dentro dela. Ela odiava deixar Lourds ir antes que ela tivesse extraído toda a verdade dele.

Lourds tinha um plano. Ele o protegeu durante o interrogatório e foi evasivo ao responder as perguntas. Talvez alguém menos qualificado não tivesse notado, mas à Natashya o vazio tinha sido imediatamente detectado.

Você vai deixá-lo ir embora, inspetora? — a pergunta vinha de uma calma voz masculina.

Olhando por cima do ombro, Natashya viu que Anton Karaganov tinha se posicionado ao seu lado. O homem mais jovem era seu parceiro, e ela era seu oficial de treinamento de campo.

Karaganov era um bom russo, intenso e tranqüilo. Bebia, mas não demais da conta, e sempre foi muito respeitoso quanto à sua namorada. Natashya gostava dele por causa dessas duas coisas. Tais características nem sempre eram encontradas em policiais russos.

Sim, eu o liberei — respondeu a policial —, mas eu não quero que ele vá longe sem vigilância. Vamos ficar de olho nele.

 

A segurança do aeroporto libertou o professor.

Do lado de fora do terminal, Gallardo estava sentado em um sedã Lada de quatro portas, com dez anos de uso. O sol tinha clareado o exterior preto do veículo, deixando-o parecido com a maioria dos outros carros. Ele segurava o telefone perto do ouvido.

E onde está ele? — perguntou.

Ele e a mulher estão alugando um carro.

O homem do outro lado da linha esteve vigiando o centro de detenção do aeroporto. Tinha sido ele também a pessoa a informar que os guardas de segurança haviam detido Lourds e o retirado da fila.

Fique com ele — instruiu Gallardo. — Não quero perder esse homem.

Desligou o telefone e apoiou o aparelho em suas pernas.

Havia três outros homens sentados no Lada com Gallardo. DiBenedetto estava atrás do volante. Dois outros homens que eles tinham escolhido para as operações russas sentavam-se no banco de trás. Todos estavam armados. Fortemente armados, na verdade.

Gallardo queria estar fora de Moscou. Embora a notícia não parecesse indicar que o FSB de Moscou tivesse alguma pista sobre as pessoas que mataram Yuliya Hapaev, sentiu-se como um alvo fácil se ficasse no país. O Serviço Federal de Segurança tinha muitos policiais inteligentes hoje em dia. Nem todos eles podiam ser comprados.

 

Poucos minutos depois, Gallardo assistiu quando Lourds e a garota surgiram vindos do terminal e se dirigiram para o estacionamento dos carros de aluguel. Viu quando os dois embarcaram em um modelo mais novo de Lada e mergulharam no tráfego.

— Muito bem — disse Gallardo para DiBenedetto. — Vamos ver aonde eles vão.

Quase sem esforço, DiBenedetto deslizou para o tráfego, cortando um táxi russo. O motorista buzinou em sinal de protesto. Como era de esperar, DiBenedetto devolveu a saudação de buzina e continuou dirigindo.

Gallardo chamou os três outros carros que ele estava usando para cobrir a chegada do professor ao aeroporto para transmitir a sua posição e colocá-los em movimento. Manter uma vigilância estreita em um alvo em movimento sempre foi mais fácil com vários veículos. DiBenedetto estava familiarizado com as ruas de Moscou. Assim como os outros pilotos. Gallardo tinha certeza de que eles não perderiam Lourds.

Eles seguiram Lourds em estágios, trocando de carro freqüentemente para que o professor não suspeitasse de nada. Gallardo não achava que houvesse muita chance de isso acontecer. Apesar de todas as suas viagens pelo mundo, Lourds deveria ser um neófito em toda essa coisa clandestina, de mistério e intrigas. Principalmente porque ele nunca deu nenhuma indicação de que soubesse que estava sendo seguido.

E logo se tornou evidente que Lourds tinha em mente um destino definido. Gallardo fez outra chamada, desta vez para Murani.

 

           APOSENTOS DO CARDEAL STEFANO MURANI

           CIDADE-ESTADO DO VATICANO

           17 DE AGOSTO DE 2009

Murani estava sentado à mesa, com as cópias dos mapas e livros antigos que vinha estudando há anos espalhadas diante dele. As escavações do padre Emil Sebastian em Cádiz, na Espanha, tinham fornecido um novo quadro de referência para todas as velhas histórias e os poucos fatos que a Sociedade de Quirino possuía.

A frustração zombava de dentro dele enquanto avaliava as ferramentas familiares uma vez mais, tentando encontrar novos olhos para descobrir os segredos que, ele tinha certeza, estavam escondidos lá.

Não são segredos, disse a si mesmo. Apenas um segredo.

Ele olhou para as fotos do sino e ressentiu-se com o fato de os líderes da Sociedade o terem levado embora. Eles estavam com medo dele, medo do poder que ele representava. O sino foi a primeira prova física que eles tinham da verdade das lendas que haviam sido proferidas sobre a Atlântida e tudo o que tinha acontecido antes.

Apesar de todos os arcebispos envolvidos na Sociedade de Quirino terem ouvido as histórias daqueles que os antecederam, de que cada homem escolhia seu sucessor no seio da Igreja e com a aprovação dos demais arcebispos, nenhum deles jamais havia visto qualquer prova da existência do Segredo.

Quando ele foi inicialmente levado para a Sociedade de Quirino, Murani não era um crente com relação ao Segredo. Havia muitos outros segredos que a Igreja abrigava, e alguns deles eram apenas lendas.

Mas não este, pensou Murani. Este é verdade.

A existência do sino havia atirado a Sociedade em um dilema. Uma coisa era proteger um segredo pela força do hábito, mas outra bem diferente era aceitar que aquilo era real e que, potencialmente, tinha o poder de destruir o mundo.

Ou refazê-lo, Murani disse a si mesmo. Essa foi a idéia à qual ele se agarrou tão ferozmente.

Erguendo a vista aos livros e mapas espalhados em torno dele, Murani deixou os olhos caírem na televisão. A CNN estava reprisando as imagens do programa Destino: Atlântida que haviam transmitido na noite anterior.

Com o controle remoto, Murani aumentou o volume.

O repórter era um jovem americano chamado David Silver.

Murani futilmente se perguntou se aquele sobrenome tinha se redu­zido de Silverman e se o rapaz era judeu. Em sua própria maneira, pensou ele, os judeus eram quase tão ruins quanto os muçulmanos. Ambos prejudicaram a Igreja e a Verdade. Ao longo dos anos, eles parasitaram o poder da Igreja.

"... A escavação está bem encaminhada aqui em Cádiz, Espanha", dizia Silver. "Eles estão indo devagar, no entanto. Pelo que me disseram, várias cidades existiram nesta área nos últimos milhares de anos. Cada uma contribuiu para a estratificação do local de escavação. Normal­mente, uma cidade foi construída em cima da outra enquanto as primeiras caíam. O padre Sebastian parece muito animado com tudo o que estamos encontrando."

A âncora do programa de notícias perguntou:

E você pode nos contar algumas das coisas que foram descobertas?

"A maioria parece ser os artefatos habituais que os arqueólogos espe­ram encontrar em escavações como esta. Ferramentas. Louça. Moedas".

E você já teve a oportunidade de falar com o padre Sebastian?

"Sim, falei com ele."

E ele confirmou que está lá à procura da Atlântida?

Silver riu e balançou a cabeça.

"O padre Sebastian, como tive a oportunidade de descobrir, é um homem muito sério quando se trata de seu trabalho. Ele não se entrega a especulações sobre o que ele e sua equipe vão encontrar. Na verdade, durante os momentos nos quais pude ouvi-lo falar, ele se estende em apontar que as especulações ociosas que são feitas em torno deste sítio arqueológico não foram provocadas por qualquer coisa que ele tenha dito ou sugerido."

— Mas então — continuou a âncora — de onde surgiu esse ângulo de Atlântida?

"De um dos historiadores locais", disse Silver. "O historiador e filósofo grego Platão foi o primeiro a descrever a cidade perdida de Atlântida em seus diálogos, Timeu e Crítias. Essa descrição, de acordo com o professor Francisco Bolívar, se adapta às características da topografia circundante da área."

A tela da televisão apagou por um momento, depois prosseguiu com uma sobreposição mostrando anéis concêntricos.

"Segundo a descrição de Platão", Silver continuou, "a ilha que se tornou conhecida como Atlântida foi dada a Poseidon, o deus do mar. Uma boa parte da ilha supostamente estava debaixo d'água. Para sorte dele, e para a sorte ainda maior dos contadores de histórias, se eu for capaz de fazer um julgamento, Poseidon conheceu uma mulher que mo­rava no interior da ilha. Nada é dito sobre como ela chegou lá. Mas lá estava ela".

Murani não se importou com o tom arrogante do repórter.

"Poseidon conheceu a mulher e se apaixonou por ela", Silver con­tinuou. "Juntos, eles tiveram cinco pares de gêmeos. Todos eles meninos. Poseidon construiu um palácio em uma montanha mais baixa da ilha. A história continua ao descrever os três fossos que ele criou e que cer­cavam a cidade."

A imagem na televisão reflete a descrição feita por Silver da mon­tanha e dos três anéis que representam os fossos.

"Poseidon chamou o mais velho dos gêmeos de Atlas e o fez rei da ilha", continuou o repórter. "O oceano Atlântico recebeu esse nome em referência a ele. E as pessoas que viviam na ilha foram chamadas de Atlantes. Construíram pontes por cima dos fossos para chegar ao resto da ilha. Eles também, supostamente, pelo menos, fizeram passagens através das paredes dos fossos para os navios pudessem passar e mesmo navegar na cidade."

Um desenho artístico representando a cidade lendária apareceu na tela. Navios com as velas enfunadas navegavam elegantemente através dos canais e túneis perto da bonita cidade que ficava bem ao centro dos anéis concêntricos.

"Espessos paredões supostamente reforçavam cada um dos anéis da cidade", continuou Silver. "De acordo com Platão, os paredões eram cons­truídos com rochas vermelhas, pretas e brancas que eram desenterradas dos fossos. E então eram recobertas com oricalco, latão e estanho."

A imagem gerada por computador cintilava como o brilho da luz do sol em metal.

Era uma passagem bem pitoresca, essa — brincou a âncora.

A câmera voltou a Silver novamente por alguns instantes. Na tela, ele sorriu e assentiu:

"Provavelmente era, sim, naquele tempo. Mas então, um dia, a Atlântida desapareceu."

Como?

"Platão não sabe ao certo. Seu palpite era que os atlantes entraram em uma briga com os atenienses. Os atenienses conseguiram reunir um número suficiente de habitantes locais para montar uma resistência firme contra os atlantes, porque os atlantes supostamente eram escravizadores da pior espécie."

Eu não sabia sobre o problema da escravidão.

"A história é uma coisa fascinante", disse Silver, soando como se a história fosse uma invenção nova. "De qualquer forma, a ilha foi devastada por terremotos e inundações. E supõe-se que tenha submergido no oceano Atlântico em um único dia."

Mas se a Atlântida era uma ilha, porque o padre Sebastian está trabalhando aí? — perguntou a âncora. — Esse sítio de escavações não é uma ilha.

"Você tem que se lembrar de que o padre Sebastian nunca alegou estar à procura da Atlântida. Ele apenas diz estar pesquisando ruínas antigas. Esses rumores sobre a tal escavação em busca da Atlântida surgiram em torno da escavação."

Sugerir que a área pode ser a Atlântida parece ser uma grande aposta. Por que alguém acharia isso?

"Porque, quando vista do espaço, esta parte de Cádiz se parece muito com a descrição da Atlântida."

Uma nova imagem formou-se na tela da televisão. Uma sobreposição do diagrama simples dos fossos que supostamente rodeavam a Atlântida apareceu, em círculos concêntricos. E, enquanto Murani assistia, essa imagem se sobrepôs a uma fotografia da topografia da área onde o padre Sebastian trabalhava. Era um encaixe perfeito. No entanto, como Murani bem sabia de seu trabalho com a Sociedade, um monte de outras peças estavam próximas também.

"A ilha poderia ter se tornado parte do continente", disse Silver. "Platão deixou claro que a ilha estava ligada ao continente, embora apenas por debaixo d'água."

Durante todos esses anos, os caçadores de tesouro têm procurado a Atlântida — disse a âncora. — Eles estiveram procurando por uma cidade submersa.

"Por algum tempo, este pedaço de terra esteve submerso", disse Silver. "Assim como a maior parte da Europa. Os paleontólogos desenterraram uma baleia pré-histórica que estava sepultada em uma montanha italiana não muito tempo atrás. Mas o nível mais alto do mar, a deriva continental, os tsunamis, enfim, qualquer coisa poderia ter exposto essa área a partir do leito do mar, levantando-a até empurrá-la no continente de forma que se tornasse parte do litoral."

Murani ficou assistindo à maneira como o gráfico animado se ajustava ao longo das características topográficas de Cádiz. É claro que um artista é quem tinha juntado todas as imagens em um único conjunto, que o desenho original da Atlântida era baseado nas descrições de segunda mão de Platão e que tinham milênios de idade, e ele sabia também que as medidas e aproximações eram todas questões abertas à discussão. Mas, até mesmo para Murani, aquilo tudo parecia ser um ajuste incrivel­mente perfeito.

"Se você olhar com atenção", dizia Silver, "poderá enxergar onde a Atlântida ficava. Talvez as escavações do padre Sebastian possam ter descoberto o que pode ser um dos três fossos, e uma série de túneis que passam através dele. Olhando para isso, você pode ver por que os rumores começaram".

O telefone de Murani tocou. Ele desligou o som da TV e atendeu.

Ele foi pego pelo FSB — disse Gallardo. Não houve necessidade de usar nomes. Ambos sabiam de quem Gallardo estava falando.

Por quê?

A irmã da arqueóloga acabou por se revelar uma inspetora de polícia.

Murani se recostou na cadeira confortável para examinar as im­plicações.

Isso é lamentável.

Poderia ter sido útil se soubéssemos disso antes de eu ter ido atrás do címbalo — disse Gallardo. — Poderíamos ter cuidado do nosso problema atual na noite passada.

Murani concordou em silêncio. E disse:

Ele não deve ter lhe contado nada. Ele não deve saber de nada.

Ele sabe mais do que eu gostaria — disse Gallardo. — O sujeito já fez a conexão entre os dois artefatos de alguma forma. E você já sabia disso porque me enviou até aqui.

Após uma reflexão mais aprofundada — disse Murani —, talvez eu tenha sido um pouco negligente na minha decisão de cancelar seu ataque a ele.

Acho que ele sabe de alguma coisa que nós não sabemos. Estamos seguindo o sujeito bem de perto. Do jeito que está se movendo, ele sabe o que está fazendo.

Murani voltou para o seu computador e abriu o arquivo do professor Thomas Lourds. O homem era reconhecido por muitos como o mais competente lingüista do mundo.

A equipe de filmagem tirou fotos do artefato egípcio — Murani disse, juntando as peças em sua mente. — O arqueólogo tinha fotos do artefato em seu quarto de hotel. Com as imagens digitais na mão, as fotos do sino pode ser bem legíveis.

Você acha que ele traduziu a inscrição?

Murani não queria pensar que isso era verdade. Todos os estudiosos da Sociedade de Quirino tinham analisado o sino e as imagens do címbalo. O címbalo ainda não havia chegado à Cidade do Vaticano. Mas nenhum deles fora capaz de chegar a uma tradução.

Mas Lourds...

Um mal-estar se agitou através de Murani como se fosse uma teia de aranha ancorando-se a todas as dúvidas que atormentavam sua mente. Ele não gostava de se arriscar. Tudo o que fizera até agora, todos os subterfúgios que ele tinha idealizado pelas costas dos outros membros da Sociedade, tinha sido cuidadosamente ponderado pelo risco. En­quanto planejava esta trapaça, Murani havia descartado todas as possi­bilidades de enfrentar problemas.

Agora Lourds aparecia com um curinga na mão.

Descubra se Lourds conseguiu traduzir qualquer uma das inscri­ções — disse Murani. — Em caso positivo, eu quero falar com ele. Em algum lugar discreto. Mas caso não saiba, quero ter a certeza de que ele não irá mais se envolver nesta questão.

 

                     MOSCOU, RÚSSIA

                 21 DE AGOSTO DE 2009

- Você não contou para onde estamos indo. — Lourds olhou para a jovem e tentou compreender o que ela tinha dito.

O quê?

Eu disse: você não contou para onde estamos indo — repetiu Leslie. — Tentei ficar quieta, bancar a soldadinha obediente, mas isso não está funcionando comigo.

Nem comigo — disse Gary do banco de trás.

Ele era o operador de câmera de vídeo que Leslie ti­nha alistado para o passeio em Moscou. Gary Connolly estava nos seus vinte e poucos anos. Alto e ma­gro, cabelos crespos que caíam até os ombros estreitos. Ele usava óculos de aro redondo e uma camiseta preta da turnê Shake, Rattle, and Hum do U2, que denun­ciava a sua idade.


Como regra geral, Lourds não gostava de revelar tudo sobre seus planos ou sobre o que estava pensando até que estivesse pronto. Mas queria oferecer alguma coisa a Leslie, afinal de contas. Ele achava que devia isso à jornalista:

Nós vamos para a M.V. Lomonosov, Universidade Estatal de Moscou.

E o que tem lá?

Como lhe disse antes — respondeu Lourds —, Yuliya Hapaeve e eu assessoramos uma série de projetos de trabalho ao longo dos anos — a voz de Lourds se apertou. — Yuliya trabalhou em certos momen­tos com documentos que continham segredos de Estado. Alguns de seus achados revelaram coisas que pessoas poderosas na Rússia não queriam que fossem do conhecimento de outros países. Na Rússia, até mesmo na Rússia moderna, isso pode significar uma sentença de morte.

Tudo bem, estou acompanhando você — disse Leslie —, mas isso não explica por que estamos indo até a universidade.

Yuliya era uma artesã delicada em seu campo de trabalho — disse Lourds. — Ela odiava pensar que, seja qual fosse a grande história em que estivesse trabalhando, jamais veria a luz do dia. Ela sempre desejou que alguém fosse capaz de finalizar seus projetos no caso de algo acon­tecer com ela. Então, nós...

... Criaram uma espécie de "caixa postal" na Universidade de Moscou — completou Leslie.

Ela sorriu com entusiasmo tanto por antecipar o que ele ia dizer quanto pelo próprio talento em descobrir a razão da sua viagem.

Exatamente — confirmou Lourds.

O desafio vai ser conseguir sair do país com seja lá o que for que ela deixou para você.

Lourds não disse nada, mas ele tinha certeza de que escapar do país seria apenas um dos desafios envolvidos.

 

  1. V. LOMONOSOV

               UNIVERSIDADE ESTATAL DE MOSCOU

               MOSCOU, RÚSSIA

               21 DE AGOSTO DE 2009

 

- Eu não sabia que seria tão grande assim — admitiu Leslie. Lourds esticou o pescoço e olhou para a estrutura impo­nente. A torre central do edifício principal da Universidade

Estatal de Moscou se erguia a uma altura de trinta e seis andares. A uni­versidade fora fundada em 1755, mas Josef Stalin ordenou a construção do edifício principal. Aquele tinha sido um dos sete projetos que o Secre­tariado Geral do Partido Comunista soviético havia concebido durante seu mandato. As estruturas mais altas da Europa na década de 1950 esta­vam ali, no edifício principal da universidade e em seus prédios irmãos.

Relógios gigantes, barômetros e termômetros, estátuas e relevos decoravam a fachada exterior dos prédios. No interior, o prédio manti­nha sua própria delegacia de polícia e agência de correios, além dos escritórios administrativos, agências bancárias, uma biblioteca e piscina, e várias lojas.

Aquilo era extremamente impressionante, Lourds admitiu, para alguém que via pela primeira vez.

— Sim, eu sei — disse ele a Leslie. — Eu também me senti do mesmo jeito na primeira vez que me deparei com isto. E não acho que você venha a se acostumar com isso algum dia.

Eles deixaram o cano numa rua ali perto em vez de estacionar dentro da universidade. Leslie perguntou o motivo de estarem caminhando uma distância tão grande, e Lourds explicou que não queria chamar atenção.

Relutantemente, Leslie concordou com a longa caminhada. Gary, o cameraman, foi menos entusiasta.

 

O campus até que era bem cuidado, apesar das dificuldades eco­nômicas que o país atravessava, e limpo. Arbustos floridos, embora modestos, marcavam presença nos gramados.

Diversos alunos e professores desfilavam pelas calçadas e se reuniam em frente aos edifícios. Uma pontada atravessou Lourds quando viu os vários grupos. Ele pensou em suas aulas. Seus orientandos na pós-gra­duação eram pessoas capazes e apaixonados pelos estudos, mas Lourds gostava dos primeiros dias de aula porque podia conhecer os alunos antes que mergulhassem nos livros.

Alguns professores o cumprimentavam enquanto ele caminhava pelo pátio resolutamente. Ele retribuía as saudações sem hesitação, no idioma da pessoa e com o sotaque apropriado. Num dado momento, percebeu como Leslie se mostrava absorta em pensamentos melancólicos, e foi então que se deu conta de que ela não falava russo, e muito menos algum de seus dialetos.

Lourds mal conseguia se lembrar de como era se sentir assim porque fazia muito tempo que estivera em algum lugar em que não conseguisse se comunicar com os habitantes locais. Mas ele podia se lembrar de quão estranho e vulnerável se sentia sempre que estava fora do lugar — como daquela vez em que uma namorada o levou a um chá de bebê. Lourds imaginou que Leslie devia estar se sentindo mais ou menos assim — não conhecia as regras, nem o vocabulário, nem o sentido desse exercício.

Ele seguiu na frente até um lance de escadas e se aproveitou do fato de que eles estavam sozinhos por um momento.

Basta sorrir e acenar — disse a Leslie e Gary. — E podem deixar que eu cuido das conversas.

Eu sei — disse Leslie. -— Mas isto aqui é estranho. Não é como ir fazer compras no bairro chinês. Lá eu consigo me virar, mesmo não sabendo falar uma palavra em chinês. Eu sei que posso conversar com as pessoas porque a maioria deles sabe, pelo menos, o inglês rudimentar.

As pessoas aqui — advertiu Lourds — sabem inglês muito mais do que isso. A maioria dos americanos não fala um idioma estrangeiro. As crianças nas escolas inglesas estão expostas a mais idiomas do que as norte-americanas, então eu imagino que você seja bilíngüe, pelo menos. Aqui na Rússia, eles têm se esforçado para aprender a nossa língua. E, em muitos casos, muito bem.

Certo.

Então você provavelmente poderia conversar com qualquer pessoa que encontramos aqui até agora. Mas eu prefiro que eles não comen­tem, não por enquanto, que somos um grupo de estrangeiros andando pelos corredores.

Entendido — disse ela.

 

Lourds mostrou o crachá de identificação da biblioteca que Yuliya tinha arranjado para ele. Ele trocou amabilidades com o velho funcioná­rio que tomava conta das antigas coleções contidas na grande biblioteca. O homem se lembrou de Lourds das visitas anteriores, quando tinha vindo acompanhado por Yuliya.

Ah, professor Lourds — disse o homem. — De volta com a gente?

Por um curto período de tempo — disse Lourds, enquanto entre­gava o crachá de identificação para ser escaneado.

E existe alguma coisa que eu possa fazer para ajudar? — pergun­tou o homem enquanto devolvia o objeto.

Não, obrigado, eu conheço o caminho.

Lourds caminhou para o fundo do enorme espaço preenchido por prateleiras de livros. E fora da vista do bibliotecário, atravessou os corre­dores, tomando um caminho sinuoso até o seu objetivo. A biblioteca estava equipada com câmeras de vigilância. Ele não queria parecer agir de maneira premeditada.

Havia poucos alunos e professores consultando as estantes. E nenhum deles pareceu mais do que casualmente interessado nelas.

Lourds mergulhou mais profundamente pelos corredores e encon­trou a seção que continha os livros de lingüística. Notou com satisfação que os livros que levavam o seu nome tinham aumentado em quantidade naquela prateleira. Claro que muitos deles eram sua tradução de Ativi­dades da alcova. As lombadas gastas eram uma boa indicação de que era um dos campeões de empréstimos.

Eu vejo que os gostos de leitura de estudantes universitários não mudam muito de país para país — comentou Leslie secamente.

Tem razão — concordou Lourds. — Ainda assim, seja qual for a motivação que os traga em busca de conhecimento, está bom para mim. O sexo, ou ao menos a promessa de sexo, acumula mais atenção do que qualquer outra coisa no mundo, especialmente se você é um jovem saudável de 19 anos de idade. — Lourds olhou para Leslie. — E não são apenas esses rapazes que gostam do livro. Pelo que me lembro, foi esse livro que me trouxe à sua atenção. E, sem dúvida, foi esse livro que você usou para conquistar seus produtores.

O rosto de Leslie ficou um pouco corado:

O pessoal do marketing adorou a idéia, é claro — disse ela.

É claro. E espero que isso seja usado nos comerciais que irão promover a série de televisão...

Isso o incomoda?

Nem um pouco — respondeu Lourds, sorrindo. — Eu ganho di­reitos autorais pelas vendas do livro. Como você pode ver, tem sido algo como um best-seller internacional. E me proporcionou um estilo de vida bastante diferente do que a de um simples professor universitário...

Lourds se ajoelhou na frente dos livros. Afastou quatro deles do caminho. Esticando o braço, passou a mão na parte inferior da prateleira de cima. Não sentiu nada.

A decepção percorreu seu corpo. Ele realmente não esperava ter que voltar todo o caminho de mãos vazias. Recuou um passo.

O que há de errado? — perguntou Leslie.

Não tem nada lá.

Leslie se ajoelhou ao lado dele e agachou-se para olhar debaixo da prateleira.

Pode ser que ela não tivesse tempo de deixar nada...

Essa prateleira sempre foi sua? — perguntou a jornalista.

Sempre.

Olhando para cima, Leslie apontou para os livros da prateleira que ficava exatamente acima daquela que eles estavam investigando:

Veja — disse ela —, alguns de seus livros estão colocados lá.

Lourds olhou e confirmou o que a jovem dissera:

Aparentemente, a biblioteca sentiu necessidade de comprar mais exemplares do meu trabalho.

Ele passou a mão debaixo da prateleira superior e sentiu as bordas retas do minúsculo flash drive que havia sido colocado lá. Lourds puxou, mas o objeto não se soltou.

O que houve? — perguntou Leslie.

Está preso.

Lourds pegou uma caneta lanterna de seu bolso e analisou o pequeno estojo protetor de plástico. A luz brilhou nos bocados de líquido seco que havia nas bordas.

Parece fita adesiva — disse Leslie.

Eu não esperava por isso.

A prateleira tremeu sob o primeiro ataque. Na segunda tentativa, o estojo se rasgou soltando um som alto. Lourds puxou a mão, segurando o estojo entre seus dedos.

Cara — disse Gary. — Espero que não tenha quebrado esse flash drive minúsculo.

Lourds olhou com atenção através da pátina azul do estojo protetor, mas não conseguiu ver o conteúdo com clareza. Ele também esperava não ter estragado nada.

Naquele momento, uma figura apareceu no fim do corredor.

Professor Lourds?

Olhando para cima, o lingüista viu o bibliotecário ali de pé.

Aconteceu alguma coisa, professor? — perguntou o homenzinho. — Achei que ouvi um barulho...

Lourds não sabia direito o que responder. Não havia mais tempo de esconder o pequeno flash drive. O bibliotecário sem dúvida o tinha visto.

 

Gallardo estava se sentindo exposto enquanto caminhava através da biblioteca da universidade russa. Ele usava roupas casuais, calça cáqui, suéter e, por cima, um longo casaco de lã.

Mas esse guarda-roupa não podia fazer nada sobre o que transpa­recia de seu olhar.

Bastava uma espiada rápida e qualquer um saberia que ele não era um estudante.

DiBenedetto e Cimino cobriam o flanco. O mais jovem dos dois fa­lava bobagens para as mulheres que passavam. Ele sorria com freqüên­cia e parecia um estudante que estava fora das aulas para trabalhar em algum projeto.

Miroshnikov, um dos homens que Gallardo tinha retido para aju­dá-lo em Moscou, esperava à porta da biblioteca. Ele havia sido o único a seguir Lourds e a equipe de televisão para dentro do prédio.

Ele ainda está lá dentro? — perguntou Gallardo em inglês, por­que essa era o único idioma que ele e Miroshnikov tinham em comum.

Sim.

Gallardo acenou com a cabeça e deixou cair a mão no bolso do casaco para tocar a pistola que estava equipada com silenciador e que repousava lá dentro.

Onde? — perguntou ele.

Na parte dos fundos

Vamos.

Miroshnikov caminhou na frente. Gallardo o seguiu em seus calca­nhares. Um barulho de coisa rasgando soou à esquerda. O velho atrás do balcão da biblioteca ouviu o som imediatamente. Ele saiu de trás da ban­cada e foi na direção do barulho.

Gallardo seguiu o velho bibliotecário, mas fez um gesto para DiBenedetto e Cimino se separarem. Eles desapareceram por entre as prateleiras de livros quase ao mesmo tempo.

Miroshnikov ficou à frente de Gallardo e à esquerda. Gallardo tinha um amplo campo de tiro. Sua mão fechou-se firmemente em torno da pistola.

O bibliotecário parou tão de repente que Miroshnikov quase bateu em suas costas.

Professor Lourds... — exclamou o bibliotecário em voz baixa, e havia um tom acusatório em sua voz.

Gallardo parou logo atrás, fora de vista, e escutou. Miroshnikov atravessou o corredor e se colocou em posição no corredor seguinte.

Quando Lourds falou, Gallardo imediatamente reconheceu a voz do professor, mas não entendeu o que ele dizia. Lourds evidentemente falava um russo fluente.

Espiando do canto das prateleiras, Gallardo viu Lourds e a equipe de televisão de pé na frente do velho bibliotecário, como se fossem crianças culpadas de alguma travessura. O homem franzino entrou no meio deles. Ele estava obviamente preocupado com o que tinha acontecido.

A atenção de Gallardo foi atraída para um pequeno estojo de plástico nas mãos de Lourds. Ele sabia que o bibliotecário estava tão aborrecido que iria sem dúvida chamar a segurança. E ele sabia que não podia permitir que isso acontecesse.

Ele liberou a arma de seu bolso, puxou a máscara de esqui para cobrir todo o seu rosto e deu um passo para o corredor. Miroshnikov espelhou seus movimentos. Os silenciadores parafusados nos canos das armas as deixavam enormes e ameaçadoras. Gallardo esperava que sua aparência fosse o suficiente para impedir que alguém quisesse bancar o tolo.

Eu vou ficar com isso — rugiu em inglês.

Mostrando uma irritação óbvia, o bibliotecário se virou. Gallardo adivinhou que o velho iria fazer uma réplica mordaz, mas a iniciativa morreu nos lábios murchos do homem quando viu a arma.

De joelhos — ordenou Gallardo. — Cruze os tornozelos.

O bibliotecário obedeceu e quase não conseguiu realizar a façanha.

Lourds teve presença de espírito suficiente para começar a recuar. Ele pegou a jovem pela mão e puxou-a para trás dele.

Se eu tiver que atirar em você, professor, farei isso. — Gallardo ergueu um pouco a pistola. — Estou começando a achar que você será um problema muito menor para mim se estiver morto.

DiBenedetto saiu de seu esconderijo do outro lado do corredor.

Com sua rota de fuga fechada, Lourds congelou.

Gallardo sorriu. Ele sabia que a expressão poderia ser vista por baixo da máscara de esqui, ameaçadoramente, é claro. Ele avançou lentamente. Miroshnikov seguiu atrás.

A gente devia simplesmente matar todos eles aqui. — disse DiBenedetto. — Nós não precisamos deles vivos.

O som de uma pancada na carne veio de trás de Gallardo antes que ele pudesse dar uma resposta. Logo à sua frente, DiBenedetto deu um passo para o lado e ergueu sua arma com as duas mãos, tendo Gallardo como alvo deliberado.

Cuidado! — alertou DiBenedetto.

Gallardo tentou se virar. Ele ouviu o movimento atrás dele. Sua cabeça girou e viu Miroshnikov deitado inconsciente no chão da biblio­teca. No mesmo instante, o cano de uma pistola afundou no lado do pescoço de Gallardo.

Se você se mexer — uma voz feminina gelada e cortante advertiu —, atiro.

 

De pé atrás do grandalhão, Natashya Safarov manteve o cano da arma apertado contra o pescoço dele. Se ela apertasse o gatilho, o cartucho iria despedaçar a garganta.

A adrenalina subiu pelo corpo da mulher enquanto ela tentava des­cobrir por onde andava o outro homem. A policial havia chegado à universidade depois de Lourds e dos homens que o estavam seguira. Eles não a haviam notado quando estacionara mais acima deles e os seguira à biblioteca apenas a uma curta distância.

Mande seus amigos colocar as armas no chão — ordenou Natashya. — Caso contrário, mato você e me arrisco com eles. Pessoal­mente, gosto mais de correr riscos. E você, o que prefere?

Antes que o homem pudesse responder, Lourds decidiu entrar em ação. Natashya queria gritar de frustração. O professor iria se matar desse jeito.

Lourds pegou a mão do atirador mais jovem e empurrou-a no ar. A pistola fez um barulho como de uma leve tossida. A bala bateu no forro do teto. Apenas uma fina torrente de pó de gesso caindo denunciava o incidente. Antes que o jovem pudesse se recobrar do ataque, Lourds arrancou um pesado livro da estante e acertou o rosto do atirador com ele.

O sangue espirrou do nariz quebrado do homem e ele recuou alguns passos. Lourds levou um momento para chutar a pistola para longe da mão do homem atordoado. Virando-se rapidamente, Lourds agarrou o pulso da jornalista e puxou-a para saírem dali.

Incrivelmente, o grandalhão que Natashya estava prendendo come­çou a oscilar para frente. Ela estendeu a mão e agarrou o queixo dele, empurrando o duro cano da arma em sua carne.

Má idéia — disse ela.

O homem congelou.

Ambos assistiram impotentes enquanto Lourds e seus dois compa­nheiros desapareciam entre as estantes de livros. Natashya o amaldiçoou silenciosamente.

Ela olhou para cima e viu a câmera de segurança montada no teto. Então ordenou que o homem andasse para frente até o fim do corredor. O rapaz com o nariz quebrado tentou rastejar e pegar sua arma. Natashya chutou-o na têmpora e ele rolou inconsciente.

Então, ela rasgou a máscara de esqui que cobria as feições do homem mais velho. Jogou fora a máscara e virou-o para encarar a câmera.

Diga ao seu amigo para sair do esconderijo — ordenou Natashya. — Faça isso agora!

Cimino — chamou o homenzarrão. — Saia para onde ela possa ver você.

Um momento depois, o outro homem saiu para o espaço aberto. Ele carregava uma pistola com silenciador pendurada pelo gatilho no dedo indicador.

Jogue a pistola aqui — ordenou Natashya.

O homem obedeceu.

Deite-se — Natashya disse a ele. — Sobre a barriga. Mãos entre­laçadas atrás da cabeça. Tenho certeza de que você sabe o que fazer.

O homem hesitou, mas o grandalhão que Natashya mantinha sob a arma rosnou para ele. O homem desceu ao chão.

Natashya estava com pressa. Ela queria chamar apoio pelo rádio e levar aqueles homens presos, mas sabia que Lourds poderia muito bem fugir da Rússia se ela o perdesse de vista agora. Foi nesse momento que notou o fone sem fio no ouvido do homem.

Quantos homens você tem lá fora? — perguntou Natashya.

Ele não respondeu.

Natashya decidiu que não importava. Havia certamente o suficien­te para matar ou capturar Lourds.

Estique as mãos.

Uma vez que o grandalhão não obedeceu, ela bateu sua arma contra a mandíbula dele.

Ele mostrou as mãos.

Com a facilidade adquirida pela prática, Natashya fechou uma algema no pulso dele.

Deite-se no chão.

O homenzarrão deitou-se lentamente. Natashya sabia que ele estava apenas esperando uma brecha para reagir, de forma a conseguir inverter os papéis de captor e cativo. Estava armando uma surpresa. Quando já estava no chão, a policial o algemou ao homem inconsciente que estava deitado.

Natashya rodopiou e saiu correndo. Esperava poder ajudar Lourds a escapar de ser morto ou capturado pelos capangas do grandalhão que deviam estar à espreita. Além do mais, tinha perguntas para as quais desejava respostas.

O coração de Lourds estava batendo como uma britadeira. Durante a corrida, pressionou sua mão por cima do casaco para sentir as arestas da caixa de plástico dentro do bolso. Ainda está lá. Graças a Deus. Ele esperava que tivesse valido a pena arriscar sua vida pelo conteúdo dela.

Ele segurou na mão de Leslie enquanto corria. O professor não queria que a jovem ficasse paralisada por causa do medo, porque duvidava que aquele homem gigantesco tivesse vindo sozinho.

Do lado de fora, Lourds atravessou o campus em alta velocidade. Sua respiração queimava o fundo da garganta. Ele olhou por cima do ombro e viu Gary apenas um par de passos atrás dele. O jovem carregava a câmera facilmente e avançava em uma marcha surpreendentemente rápida.

Lourds procurou localizar-se na área e alterou seu curso, dirigindo-se ao carro de aluguel estacionado. Na pressa, não se preocupou em correr pelas calçadas. Os estudantes universitários e o pessoal das faculdades olhavam para eles com preocupação e perplexidade. Mas todos eles saíram de seu caminho.

Ei — alertou Gary. — Depressa, moçada. Temos companhia.

A ansiedade queimava o estômago de Lourds. Ele olhou em volta e viu os três homens correndo pela rua em um curso de interceptação com eles. Não eram estudantes, nem mesmo russos, a julgar pela aparência. Eram homens duros com olhos duros. Ele deveria ter imaginado que o homenzarrão teria outros compatriotas escondidos nas proximidades.

O uso excessivo de força parecia ser sua marca registrada.

Até agora, eles não tinham apresentado suas armas, mas estavam longe o bastante e movendo-se depressa demais em meio à aglomeração dos alunos, de modo que um tiro limpo e certeiro seria quase impossível. Mas essa situação não iria durar muito tempo.

Eles estavam ganhando terreno em relação ao professor e seus amigos.

Lourds xingou. Estava tão agitado que nem percebeu que língua tinha usado. Ele virou na rua onde tinha estacionado o carro alugado. As coisas definitivamente não pareciam correr bem, mas ele duvidava que tudo poderia ficar ainda...

Professor Lourds!

... Pior. Ele estava errado.

Esse grito em tom autoritário chamou sua atenção, e Lourds reco­nheceu a voz. Quando olhou por cima do ombro, viu Natashya Safarov rapidamente se aproximando dele.

A mulher era, evidentemente, uma corredora, entre os seus muitos outros talentos. Seus braços e suas pernas trabalhavam em conjunto en­quanto ela corria. A policial os alcançou como se aquele feito fosse brin­cadeira de criança. Sua pistola nua em punho causou consternação ime­diata em todos os que viram a arma.

Lourds contou-se entre os perturbados pela visão.

Você está preso — disse Natashya enquanto se aproximava e apontou a arma para ele.

Mas Lourds continuou correndo e disse:

Se pararmos agora — protestou, apontando para os atiradores que vinham correndo —, aqueles homens vão matar todos nós.

Natashya lançou um olhar para onde ele indicou. Atrás dela, os homens que ela havia deixado no interior da biblioteca foram emergindo através da entrada, os dois que estavam conscientes levando o incons­ciente algemado a um deles. E não parecem felizes. Mas era pouco pro­vável que aquele grupo de bandidos pudesse pegá-los.

Eu tenho um carro — disse a policial. — Sigam-me. Quase sem esforço, ela deu uma acelerada e ultrapassou Lourds, Leslie e Gary. — E se você parar de me seguir, eu atiro em vocês.

O quê? — a respiração de Leslie vinha em fluxos irregulares. Ela tropeçou e quase caiu. — Parar de seguir essa mulher? Com esses caras atrás de nós? Ela é louca!

Lourds segurou a mão de Leslie e ajudou-a a manter o equilíbrio.

Poupe seu fôlego — aconselhou ele. — Corra!

Ele sabia que, louca ou não, Natashya Safarov era sua única chance.

Seguindo sua líder armada, eles atravessaram correndo a rua até um sedã de médio porte parado no estacionamento.

Natashya usou seu controle eletrônico para destravar as portas.

Entrem!

Ela deslizou até parar no lado do motorista e abriu a porta do carro. Em vez de entrar, ela ergueu seus braços sobre o capô e mirou nos três homens que vinham se aproximando deles.

Os três homens se separaram, obviamente com a eficiência gerada pela prática. Todos com as armas em punho.

A convicção de que estava prestes a ser feito em pedacinhos preen­cheu todos os poros de Lourds. Ele congelou por um instante.

Entrem! — ordenou Natashya. — E mantenham-se abaixados, a massa do motor do carro deve absorver as balas.

Lourds atrapalhou-se com a porta traseira do lado do passageiro, mas conseguiu abri-la. O pânico martelava sobre ele. Forçou-se a se concentrar na tarefa que tinha em mãos e não olhou para trás, para seus perseguidores.

Tenha cuidado, se você atirar na direção dos bandidos, pode atin­gir um estudante!

Ele falou em russo, assim não haveria mal-entendido. Natashya fa­lava bem inglês, mas isso não significava que ela teria essa habilidade no calor do combate. O professor empurrou Leslie para dentro do carro assim que a porta se abriu e a protegeu depois com seu próprio corpo.

Eu sei disso — respondeu Natashya, também em russo. — Eu não faria isso, mas eles não sabem. Entre, antes que descubram!

Leslie se arrastou para dentro do veículo. Gary se atirou atrás dela antes que Lourds pudesse entrar. Os dois se esparramaram por todo o assento sem deixar espaço para o professor. Ele bateu a porta de trás e abriu a do passageiro dianteira. Pulou para dentro do carro e fechou a porta atrás de si, mantendo a cabeça abaixada, sob o painel.

Do outro lado da rua, os três homens estavam deitados no chão. Um deles apontou uma pistola e disparou. A bala destruiu a janela do lado do passageiro. Não houve nada daquela história do motor do carro deter as balas. Estilhaços de vidro se derramaram em volta de Lourds. Ele se contorceu e cobriu a cabeça com os braços.

Natashya abriu a porta do motorista violentamente e se jogou no assento. Ela girou a chave na ignição e o motor veio à vida, roncando suavemente.

Lourds olhou para ela.

Ela mudou a arma de mão. Quando estava de volta para a mão direita, ela apontou para Lourds:

Fique abaixado.

Ele estava convencido de que ela não oferecia conselhos sobre como se proteger do fogo inimigo. A policial atirou em seus perseguidores com a arma por cima de sua cabeça. Mais balas dos bandidos atingiram o car­ro. Os impactos soavam terrivelmente altos dentro do carro.

Droga! — uivou Gary do banco de trás. — Ande com esse carro, mulher! Você está esperando um sinal de Deus ou coisa assim?

Natashya pisou no acelerador. O motor rosnou como um animal encur­ralado, os pneus se queimavam no asfalto e atiraram o carro para frente.

Lourds manteve as mãos apoiadas no painel, mas não conseguiu resistir e esticou o pescoço para dar uma olhada. Natashya tinha entrado na contramão. Por um momento, ele achou que seriam atingidos por um caminhão de carga. Os olhos do motorista se arregalaram do outro lado do para-brisa. Ele pisou nos freios e o caminhão saiu de lado. O para-choque deixou de atingi-los por alguns centímetros.

Oh, merda!

Natashya segurou firme no volante e dirigiu até o acostamento. O carro rebolava em protesto. Um instante mais tarde, ela acelerou de novo para colocá-los na rua. O cheiro de borracha queimada dos pneus invadiu o veículo enquanto ele avançava adiante na pista.

Lourds teve a nítida impressão de que sua vida estava tão em risco agora como tinha estado na faculdade, com aqueles homens os perse­guindo por entre as estantes de livros. Ele apertou as mãos com força contra o painel e lamentou por não ter tido tempo para colocar um cinto de segurança.

Tudo bem, professor Lourds — disse Natashya calmamente. — Vamos conversar agora.

Conversar? Conversar sobre o quê? — ele perguntou, as palavras saindo ásperas da garganta enquanto ofegava por causa da corrida e da sobrecarga de adrenalina.

Sobre o que estava fazendo na biblioteca e sobre o que tirou de lá.

Natashya acelerou e voou ultrapassando um sedã que seguia mais lentamente. Ela mal voltou para sua pista e por pouco não raspou o para-lama de um carro que vinha em direção contrária.

E quero falar também — continuou a policial — sobre o que sabe sobre a morte de minha irmã.

Ela pisou fundo no acelerador e o cano disparou para frente no trânsito.

Pode ser que este não seja o melhor momento — engasgou Lourds, com os olhos fechados e o corpo se preparando para o choque de uma batida certa. Que não veio.

Natashya desviou para fora de perigo, como o piloto Jeff Gordon na última volta da Copa Nextel de stockcar.

Pode ser que não tenhamos hora melhor. Fale agora.

A russa arriscou tirar os olhos da pista pelo tempo suficiente de lançar um olhar duro sobre o professor.

Er... Pessoal — chamou Gary da parte de trás do cano. — Estamos sendo seguidos.

Lourds se torceu em seu assento e olhou para trás por cima do ombro. Dois canos se enfiavam no meio do tráfego atrás deles. Ele pegou o cinto de segurança e conseguiu encaixá-lo em torno de si ao mesmo tempo em que Natashya começou a tomar medidas evasivas novamente. A força da gravidade causada por essas manobras empurrou seu peito contra o cinto de segurança. Ele respirou fundo, em preparação para suas próximas palavras.

A policial tinha razão.

Tempo para falar estava começando a parecer um luxo.

 

               MOSCOU, RÚSSIA

               21 DE AGOSTO DE 2009

O que você foi procurar na biblioteca? — perguntou Natashya enquanto dirigia. Levantou os olhos para o retrovisor. Os carros que os perseguiam se destacavam entre os demais veículos. Apesar do comportamento tranqüilo com seus "convidados", uma energia de nervosismo lhe atormen­tava o corpo.

O quê? — perguntou Lourds enquanto a olhava como se a tivesse crescido outra cabeça.

Natashya não prestou atenção e virou à esquerda para se adiantar ao carro que vinha pela frente. Quando o deixou para trás, virou à direita e se enfiou na primeira ruela que encontrou. Deu para ouvir o cantar dos pneus e uns furiosos sons de buzina detrás deles.

Você foi à biblioteca para pegar algo. — Natashya voltou a olhar pelo retrovisor. Os dois carros tinham virado e seguiam atrás deles.


Algo que sua irmã havia deixado para mim.

E o que é que ela lhe deixou?

Um pen drive.

E o que há nele?

Não sei.

Natashya lançou um olhar duro.

É verdade — disse Lourds. — Você estava bem ali e não tive tempo de olhá-lo.

O que você acredita que há nele? — Natashya entrou em outra pequena rua.

A Universidade de Moscou estava nas Colinas dos Pardais. Naquela região, havia muitas ruas curtas e estreitas. A policial havia pensado em aproveitar essa vantagem.

Yuliya estava trabalhando em algo e queria me mostrar.

No címbalo? — interrompeu Natashya.

Ela lhe falou sobre ele?

A irritação provocou estilhaços à tristeza e ao pesar que Natashya sentia. As perguntas do norte-americano eram mais rápidas que as suas. Claro, ela estava ocupada e prestando atenção à direção do carro.

Um pouco.

E o que ela lhe disse?

Por aqui, quem faz as perguntas sou eu, senhor Lourds. — Natashya voltou a virar bruscamente.

Nesse instante, ela se meteu por uma estreita rua cheia de latões de lixo. Dois deles passaram por debaixo do carro e saíram disparados rua abaixo.

O que você sabe sobre o címbalo? — quis saber a policial.

A verdade é que eu não sei de quase nada — confessou ele.

Então, por que minha irmã se colocou em contato com você? Por que ela iria lhe deixar informações sobre ele?

Eu não sei o que ela fez. O conteúdo do pen drive poderia ser sobre outra coisa completamente diferente. — Lourds se apoiou no painel no momento em que Natashya saiu da ruela. Os pneus chiaram quando as rodas disparam à rua.

Natashya fez soar a buzina, pisou no freio e voltou a acelerar. Quando girou o volante para cruzar o tráfego em direção à rua seguinte, viu que Lourds tremia involuntariamente quando quase rasparam em um micro-ônibus. Por um momento, Natashya pensou que não conseguiria.

Santo Deus! — exclamou a jovem que ia no assento traseiro.

Depois o carro entrou na viela. Mais latas de lixos caíram e saíram rolando.

Eles assassinaram Yuliya pelo címbalo? — perguntou Natashya.

Talvez. Vocês o encontraram naquela noite? — retrucou Lourds.

Natashya checou pelo espelho retrovisor bem a tempo de ver que o primeiro carro que os seguia batia contra a quina de um edifício e dava várias voltas fora de controle. O segundo carro passou voando a seu lado e continuou a perseguição.

Não, os guardas não o encontram. Porém, o fogo destruiu muitas coisas naquela sala. — Olhou para Lourds. — Você acredita que esses homens mataram minha irmã?

Presta atenção à rua — pediu ele, agarrando-se outra vez ao painel.

O para-choque bateu contra outra lata de lixo, que saiu voando.

Outra dessas latas foi parar no para-brisa dianteiro e deixou umas rachaduras em forma de teia de aranha no que restava dele.

Se não foram esses homens — disse Lourds em resposta à per­gunta —, era alguém relacionado com eles ou com seu chefe.

Por que acha isso? — Natashya notou que o cano que os perseguia estava chegando mais perto.

Lourds hesitou. E olhou para ela:

Porque havia outra dessas relíquias com marcas semelhantes — disse ele. — Estava conosco em Alexandria há cinco dias. Esses homens, ou outros como eles, invadiram nosso estúdio, mataram pessoas por lá e levaram o artefato. Eles teriam matados todos nós se a Leslie aqui não tivesse resistido.

Ouviram disparos. No mínimo uma bala ricocheteou no cano. Outra atravessou o vidro traseiro e passou entre os últimos fragmentos do para-brisa dianteiro.

Sinto muito pelo que aconteceu com Yuliya — disse Lourds. — Eu gostava muito dela. Era inteligente e encantadora. Sentirei a sua falta.

Natashya sentiu que ele dizia a verdade, mas que sabia mais do que estava lhe contando.

Novos disparos ecoaram no beco.

Quando saíram, Natashya colocou a arma no colo, pegou o volante com as duas mãos e reduziu a marcha enquanto virava para a esquerda rapidamente. O carro vibrou ao dar um giro de 180 graus para ficar de frente ao veículo que ia em direção a eles.

O que você está fazendo? — perguntou Lourds nervoso.

Já era! — gritou Gary — Ela ficou doida e vai nos...

Sem prestar atenção na angústia que a consumia, Natashya pegou a arma, apontou através do para-brisa e mirou na certeza. A arma ressoou em sua mão quando disparou. O chumbo saiu girando pelo vidro destro­çado enquanto ela soltava balas tão rápido como podia.

As balas impactaram o para-brisa do carro que os perseguia, do lado do motorista. Natashya viu que o homem se sacudia por causa dos impactos e que perdia o controle. Roçou uma das laterais do carro de Natashya, amassou o para-choque e acabou batendo de frente contra uma loja de roupas.

Natashya deu marcha a ré e voltou pela rua de onde estava vindo. Acionou o câmbio com força, queimou os pneus e se misturou ao tráfego.

Temos que conversar — disse ela ao professor. — Depois verei o que eu faço com você. Pelo menos por hora, esses homens já não são mais problema.

Ouviram sirenes aproximando-se à absoluta ruína que haviam deixado para trás.

 

As pessoas que se aglomeravam ao redor do carro interromperam o trânsito. O veículo que Gallardo dirigia ficou completamente imobilizado na rua. Deu-se por vencido, abriu a porta e saiu. Passou pela multidão xingando. Alguns homens lhe responderam com palavrões semelhantes, mas ninguém tentou detê-lo.

No interior do carro destruído havia quatro homens. O motorista estava caído sobre o volante; com cuidado para não tocar em nada e deixar impressões digitais, Gallardo o pegou pelo cabelo e o levantou.

As balas haviam praticamente destroçado o seu rosto.

Gallardo voltou a soltar um palavrão e largou o homem morto. O corpo caiu sobre o sujeito que estava no assento do passageiro. Este o afastou bruscamente e soltou uma blasfêmia.

Depressa! Saia daí! — ordenou Gallardo.

O som das sirenes da polícia se ouvia cada vez mais próximo.

Sigam-me! — exclamou Gallardo enquanto voltava sobre seus passos entre a multidão.

Todos os curiosos se mantiveram distantes. Distanciaram-se ainda mais quando os três homens que ainda estavam vivos saíram do carro com suas armas na mão e correram atrás de Gallardo.

Gallardo voltou para o carro, entrou e fez um gesto para que os demais fizessem o mesmo.

Tire-nos daqui — disse, olhando para DiBenedetto.

Quando as portas se fecharam com força, DiBenedetto voltou rapi­damente em direção ao beco.

Furioso, Gallardo pegou seu celular. Ainda perplexo pela facilidade com que aquela mulher tinha vindo por trás dele e o surpreendido. Como se fosse uma criança. Era vergonhoso e inesquecível. Prometeu a si mesmo que voltaria a vê-la. E quando fizesse isso, ele a mataria. Lentamente.

Digitou o número de Murani.

 

             APOSENTOS DO CARDEAL STEFANO MURANI

             CIDADE-ESTADO DO VATICANO

             21 DE AGOSTO DE 2009

Uma batida na porta acordou o cardeal Murani. O cansaço o havia aniquilado. Sentia-se como se o tivessem drogado. Ele conti­nuava de pijama, na cama, com um dos pesados tomos que estava estudando no colo.

Cardeal Murani! — a voz de um homem jovem o chamou.

Sim, Vicent. Entre — respondeu com uma voz rouca.

Vicent era seu ajudante pessoal de câmara.

O jovem abriu a porta e entrou em seu dormitório. Media um pouco mais de um metro e cinqüenta e era magro como um palito. Salientavam-se os ossos dos cotovelos e dos antebraços, e a cabeça parecia grande demais para esse corpo. Vestia um traje negro que lhe caía muito mal e mantinha o cabelo cuidadosamente penteado com uma risca no meio.

Não veio para o café da manhã, cardeal — disse Vicent sem olhá-lo nos olhos. Vicent nunca olhava ninguém nos olhos.

Não me sinto muito bem esta manhã.

Sinto muito ouvir isso. Quer que lhe tragam o café da manhã?

Sim. Solicitem que façam isso para mim.

Vicent assentiu e saiu do quarto.

Murani sabia que o jovem não tinha acreditado nele, mas dava na mesma. Vicent era a última de suas preocupações. Aquele jovem era seu vassalo e estava sob seu controle. Vicent o havia visto alegar estar adoen­tado umas tantas vezes nas últimas semanas.

Levantou-se, pegou o telefone e ligou para seu secretário pessoal. Deu-lhe ordens para que cancelasse todos os seus compromissos e o almoço que havia organizado com um dos bajuladores do papa...

Abandonar todos os compromissos do dia para poder estudar os segredos do sino e do címbalo o fazia sentir-se bem. Ligou a televisão e sintonizou na CNN. Não diziam nada sobre a escavação de Cádiz, mas sabia que o fariam logo em seguida. Aquela escavação havia se imposto sobre o resto das notícias, tal como se passava com a súbita morte de algum pop star viciado em drogas.

Ergueu-se de onde estava com a intenção de banhar-se antes do café da manhã, mas o telefone celular tocou. Atendeu e imediatamente reconheceu a voz de Gallardo.

As coisas não saíram bem — disse Gallardo sem maiores preâmbulos. — Perdemos o pacote.

Murani facilmente conseguiu ler nas entrelinhas:

O que aconteceu?

Seguimos o pacote até a universidade.

E por que o pacote foi parar lá?

Havia outro pacote esperando e o pegou — respondeu Gallardo.

O coração de Murani se acelerou. Outro pacote?, pensou.

O que havia no outro pacote?

Não sabemos.

E como ele sabia que o outro pacote estava ali? — insistiu Murani.

Também não sabemos. Mas sabemos sim que nos seguiam e que ele tem agora o pacote. O que não sabemos é por quê.

Uma terrível cólera se apoderou dele. Na televisão, a emissora CNN voltava a contar a história do padre Sebastian e das escavações em Cádiz. Deu-se conta de que o tempo conia contra ele. Cada segundo era precioso.

Eu não pago você para que não saiba das coisas — acusou Gallardo friamente.

Sei disso — responde o homem do outro lado da linha —, mas tampouco você me paga para correr os riscos que estou correndo.

Aquela frase foi como um disparo de advertência, e o cardeal assim o entendeu.

Com a busca dos instrumentos estando tão avançada, ele não podia chamar ninguém em tão curto período de tempo e muito menos alguém do calibre de Gallardo e suas conexões. Obrigou-se a respirar e a manter a calma.

—- E você consegue recuperar os pacotes?

Gallardo reservou alguns minutos de silêncio.

Por um preço adequado sim, poderia tentar.

Então o faça.

 

                 MOSCOU, RÚSSIA

                 21 DE AGOSTO DE 2009

Lourds continuava agarrado ao assento do passageiro enquanto Natashya Safarov acelerava em meio ao trânsito. A mulher falou rapidamente pelo telefone celular. Apesar de conhecer bem a língua russa, ela o fez com tanta velocidade e de uma forma tão crítica que ele não soube muito bem do que se tratava aquela conversa.

Leslie e Gary estavam calados na parte de trás do carro. Haviam tido mais do que o suficiente. Leslie queria saber o que estava acontecendo e tinha pedido que a levassem ao consulado britânico. Natashya só havia se dirigido à jovem em uma única ocasião e foi para dizer-lhe que, se não mantivesse a boca fechada, a levaria até a primeira delegacia de polícia que encontrasse.

Leslie não voltara a dizer mais nada desde então.

Após dirigir por quase uma hora por entre o tráfego, passando por áreas históricas de Moscou que Lourds já conhecia, além das antigas zonas residenciais que poucos turistas haviam visto, Natashya parou em um estacionamento próximo a um prédio bem simples, quase sem importância.

Desligou o motor e guardou as chaves. Abriu a porta e saiu. Inclinou-se à janela e olhando para os olhos de Lourds, ordenou:

— Fora! Todos!

Lourds saiu bem preocupado. As pernas tremiam, sentia as câimbras provocadas pela forçada tensão da viagem e da excitação emocio­nal pela fuga e pelo tiroteio. Confiava que Natashya precisava deles vivos, porque estava convencido de que ela era capaz de acertá-los com apenas um tiro.

Observou o edifício que havia em frente a eles. Tinha seis andares e parecia que o haviam construído na década de 1950. Seu sórdido e inóspito aspecto conseguiu que lhe embolasse o estômago.

O que fazemos aqui? — perguntou Leslie.

A irritação crispou-se na cara de Natashya. Lourds percebeu e soube que ela não iria responder.

Mas Natashya recuperou o controle.

É um esconderijo — disse com o rosto inexpressivo. — Aqui esta­remos a salvo. Temos que conversar. Quero saber se podemos ajeitar isto antes que mais alguém tenha que morrer. Estou segura de que vocês querem o mesmo.

Quando a policial lhes fez um gesto em direção à escada de incêndio que havia em um dos lados do edifício, Lourds assentiu e tomou a dian­teira. Ao que pode notar, a porta principal não era uma opção a se levar em conta. Lourds colocou um pé no primeiro degrau e começou a subir. Sabia que Leslie e Gary lhe seguiam.

Natashya os fez parar no quarto andar. Havia utilizado uma chave para poder entrar no edifício e depois conduziu Lourds em direção à ter­ceira porta à esquerda. Outra chave lhes permitiu entrar em um pequeno apartamento.

Este consistia em uma sala de jantar que servia ao mesmo tempo como sala de estar, uma cozinha, dois dormitórios e um banheiro. Havia chuveiro, mas não banheira. Não era muito espaçoso nem parecia confor­tável para todos eles, mas pelo menos se sentiam a salvo.

Contudo, Lourds certamente sabia que aquilo era só uma ilusão.

Sentem-se — pediu Natashya.

Estamos presos? — desafiou-a Leslie sem sentar-se.

Lourds ocupou uma poltrona e desistiu de ficar em pé. Suspeitou que Leslie oferecesse certa resistência e não queria criar mais problemas, a menos que tivesse que o fazer.

Optar por qual dos dois lados teria que apoiar era uma escolha difícil. Sentia uma lealdade por Leslie, mas Natashya era a melhor oportunidade para decifrar os quebra-cabeças do címbalo e do sino. Além do mais, Natashya sabia manter a calma nos momentos de crise.

Notou a borda afiada da caixa que se encontrava escondida em seu bolso e se surpreendeu que Natashya não houvesse pedido que entre­gasse a ela.

Se quer que eu a prenda, posso dar um jeito nisso — respondeu Natashya. — Irão lhe dar um macacão usado e a enfiarão sem menor constrangimento em uma cela.

A cara de Leslie mostrou uma fúria semelhante à de um buldogue.

Sou uma cidadã britânica, não pode me prender com tanta frivolidade sem levar em conta os meus direitos.

E você não pode entrar em meu país, provocar uma carnificina e levar algo que pertencia a uma funcionária do governo, minha irmã — replicou a policial. — Estou certa de que seu governo não aprovaria semelhante comportamento. E também duvido seriamente de que o estúdio de televisão para o qual você trabalha irá gostar da má imagem que você está lhes proporcionando.

Leslie cruzou os braços sobre o peito e levantou o queixo sem dar nenhuma amostra de submissão.

Talvez nós todos devêssemos nos lembrar de que ninguém quer que nos prendam agora — respondeu Lourds com toda suavidade que pode, enquanto lançava um olhar à Natashya para sublinhar a que se referia com esse termo "ninguém".

Natashya encolheu os ombros. Foi um gesto inconsciente. Lourds havia se acostumado a estar atento à comunicação não verbal; fazia parte do fato de ser lingüista. Freqüentemente a parte mais importante da comunicação humana não é falada. Esses pequenos gestos — e os das metamensagens que transmitem — normalmente são os que primeiro atravessam as barreiras culturais, muito antes que as palavras.

Este lugar é um esconderijo — explicou Natashyia. — Utilizamos este apartamento e outros parecidos para manter a salvo prisioneiros im­portantes. O braço da máfia russa é bem comprido.

Leslie se ofendeu ao ouvir a palavra "prisioneiro". Por sorte não expressou em voz alta seu protesto.

Os homens que os perseguem não nos encontrarão aqui. Então teremos tempo para refletir sobre as coisas — continuou Natashya.

Isso depende — interveio Gary. — Se os seus colegas policiais co­nhecem este lugar e perceberem que desapareceu, podem vir e querer comprovar se está aqui. E se acreditarem que você foi seqüestrada, o que justificaria você não ter regressado, podem chegar aqui disparando tiros, ou não? Isso que eu digo tem sentido ou não, moça?

Lourds teve que admitir que, apesar da forma em que havia sido formulada, a observação era bem inteligente. Era possível notar que o rapaz tinha uma mente muito fértil na hora de imaginar situações. Certa­mente, por isso que Gary era um bom câmera.

Não viriam e tampouco sabem que este lugar aqui existe — asse­gurou Natashya.

Por que não? — inquiriu Leslie.

Porque não lhes falei sobre este lugar. Sou uma oficial do alto escalão. Trabalho nos casos mais perigosos. Tenho certa... liberdade em minhas investigações.

A polícia não virá em algum momento? Ou quando seja mais conveniente? — sugeriu Leslie.

Fazer desaparecer pessoas na rua não é nada conveniente. Matei um homem lá atrás. Não sei que impressão tem do meu país, mas matar não é uma coisa legal nem aqui, nem em seu país. De fato, se levarmos em conta o sistema judicial de vocês em comparação ao nosso, diria que nos Estados Unidos os juizes são mais benevolentes que na Rússia — disse a policial com a voz cada vez mais grave.

Não sou norte-americana — corrigiu Leslie. — Sou britânica. No meu país existe uma sociedade civilizada em comparação com a Rússia ou os Estados Unidos.

Bem, se já concluímos com as susceptibilidades, talvez pudés­semos começar a pensar no que iremos fazer — propôs Natashya.

Se me permite —- disse Lourds em voz baixa —, sugeriria que coope­rássemos entre nós. Por hora, acredito que todos nós estamos de acordo que temos muito a ganhar se pudermos saber mais sobre a confusão em que estamos envolvidos, e muito a perder se nos apanharem.

As duas mulheres se olharam. Leslie foi a primeira a aceitá-lo com um leve assentimento de cabeça que finalmente Natashya imitou.

Muito bem — da jaqueta, Lourds tirou o pen drive do estojo e abriu para estudar o que havia em seu interior. — Então, a primeira coisa a ser feita é ver o que Yuliya nos deixou.

 

Lourds se sentou a uma mesinha na cozinha, em que colocou seu laptop e conectou numa porta USB o pen drive que Yuliya havia lhe deixado.

Faça uma cópia no disco rígido — aconselhou Natashya, que estava atrás dele.

Lourds notou o calor de seu corpo nas costas.

Por quê? — perguntou Leslie, que havia se sentado à esquerda de Lourds para poder olhar.

Isso se acontecer algo com o pen drive.

Apesar de saber o que Natashya tinha planejado, Lourds fez o que ela havia sugerido. E quando acabou, Natashya pegou o pen drive e o enfiou no bolso.

Quanta confiança! — comentou amargamente Leslie.

A confiança tem limites — replicou Natashya sem nenhuma animosidade. — Tampouco é incompatível com o senso comum. Vocês foram roubados, certo? Foram perseguidos, certo? Ter cópias é mais inte­ligente. E tê-las separadas, ainda mais.

Lourds não quis fazer nenhum comentário. Estava de acordo com Natashya, mas pensou que comentar não iria melhorar em nada a relação entre ambas as mulheres. Pulsou o mouse e abriu o documento que havia sido criado com o conteúdo do pen drive.

Em um dos arquivos se lia: "abrir primeiro". Lourds o fez sabendo que aquilo evitaria mais discussões entre as mulheres, pois as duas tinham mais curiosidade em saber o que Yuliya havia deixado do que continuar perdendo tempo discutindo.

Gary tinha coisas mais importantes em que pensar do que no conteúdo do pen drive. Após perceber a presença efetiva de uma boa e sortida despensa, pequena, mas consistente, se auto-proclamou cozinheiro do grupo e pôs mãos à obra. Julgando pelo aroma que vinha da cozinha, o jovem realmente sabia o quanto poderia contribuir.

Uma janela de vídeo se abriu na tela do computador. A imagem de Yuliya Hapaev se viu borrada em um instante e no seguinte ocupou o centro da tela. Estava sentada atrás de sua mesa, com a câmera diante de si. Vestia o jaleco característico de uso em laboratório sobre um suéter esportivo de cor-de-rosa.

Natashya inspirou com força, mas não disse nada.

Lourds percebeu o que sentia aquela mulher, ele a compreendia, mas nesse momento a única coisa que podia fazer era conter suas próprias emoções. Yuliya havia sido uma mulher cheia de entusiasmo e uma boa mãe. Saber que ela tinha ido embora lhe doía profundamente. Seus olhos se nublaram e pestanejou para aclará-los.

Olá, Thomas — disse Yuliya sorrindo.

Olá, Yuliya, pensou Lourds.

Se você tem em seu poder esta gravação, só posso imaginar que algo tenha acontecido comigo — Yuliya ladeou a cabeça e soniu de novo. — Parece um pouco idiota dizer algo assim, mas tanto você como eu sabemos que não me refiro a nada tão disparatado como o que acontece nos romances de espionagem. Imagino que tenha acontecido algo em um acidente de carro. — Franziu o cenho. — Ou talvez tenham me assaltado, ou meus chefes resolveram se livrar de mim.

Lourds se obrigou a olhá-la enquanto a mulher tentava continuar, sabendo que se sentira ridícula escolhendo as palavras. Notou que se formava um nó na garganta.

É a terceira vez que faço uma dessas apresentações. Faz muitos anos, bebendo conhaque naquele refúgio para arqueólogos na França, que resolvemos que ficaria assim — sorriu. — A gente falava tão sério sobre o assunto estando bêbados!

Apesar do seu ânimo, apesar da perda, Lourds soniu. Haviam se visto tantas vezes naquela época antes da França, mas sua amizade se soli­dificou ali.

Certamente pensou que o acordo a que chegamos era uma brinca­deira. Uma piada produzida pelo excesso de álcool, pela boa companhia e pelo fato de que nós dois adoramos os péssimos romances de espionagem. - continuou ela no vídeo. — Mas espero que encontre isto.

O rosto de Yuliya ficou de repente bem sério. Pegou o címbalo e o manteve elevado para mostrá-lo diante da câmera.

Minhas pesquisas sobre este objeto se mostraram ser bem interes­santes. Creio que seria uma pena que ninguém soubesse a verdade.

Sobretudo, porque levaram à sua morte, pensou Lourds.

Yuliya colocou o címbalo de lado.

Estou a alguns dias tentando localizá-lo — a arqueóloga sorriu com tristeza. — Imagino que você deve estar em algum festim; a uni­versidade deve ter insistido para que fosse. Ou talvez esteja andando atrás de alguma descoberta. Espero que seja um livro da biblioteca de Ale­xandria. Sei o quanto está interessado nisso e também sei que nenhuma outra coisa lhe afastaria de seus estudantes. Em qualquer caso, eu orga­nizei os arquivos para lhe mostrar o que descobri sobre o címbalo. Onde o encontraram, como o encontraram e as minhas conclusões.

Apesar de não querer, Lourds olhou para a parte inferior do vídeo e viu que a apresentação chegava ao fim. Não estava preparado para ver como desaparecia Yuliya e teve que se conter para não congelar a imagem.

Espero que o material que vim compilando lhe sirva de ajuda e que encontre o significado do címbalo — soniu e encolheu os ombros.

Quem sabe? Talvez alguém em meu departamento encontre as respostas antes que isto caia em suas mãos. Mas, sobretudo, espero estar lidando com você sobre este assunto dentro de alguns dias. Com um conhaque, diante de uma lareira e com meu marido e meus filhos, pensando que somos as pessoas mais chatas do planeta.

O nó na garganta de Lourds se apertou de forma insuportável. Sen­tiu uma lágrima no canto do olho. Ele a limpou com os dedos sem sentir nenhuma vergonha.

A imagem desapareceu da tela.

Ninguém disse nada quando o vídeo acabou. O ambiente estava carregado demais pela dor e pelo arrependimento. Leslie deixou Lourds e Natashya sozinhos com os seus sentimentos, mas a policial não se levantou da mesa.

Lourds afugentou os fantasmas de sua amiga e companheira.

Tinha que encontrar seus assassinos e resolver um mistério. A tristeza não ajudava Yuliya em nada.

Tirou um livrinho de anotações de páginas amarelas, sua ferramenta preferida para associar pensamentos livremente e anotou a estrutura dos documentos de Yuliya. Anotou a data de criação e depois suas atuali­zações conforme Yuliya ia descobrindo mais informações.

Dessa forma poderia seguir sua linha de pensamento e a cadeia lógica.

Precisa de ajuda? — perguntou Natashya depois de um bom tempo.

Não — respondeu Lourds, que dava uma olhada nos textos sobre o címbalo que Yuliya havia deixado. — Só tenho que ler tudo isso.

Tudo bem — Natashya permaneceu em silêncio. Mas não saiu do lado do professor e prestou atenção em tudo o que ele ia fazendo.

Depois de uma hora, Gary deixou um autêntico banquete ao lado do computador e do livre to de Lourds.

O jovem não tinha encontrado nenhuma verdura fresca com a qual pudesse trabalhar, mas havia conseguido preparar um substancioso cozido com umas latas de batatas, cenouras, vagem e milho. Havia colo­cado alguns cubinhos de carne. Pão frito em azeite de oliva acompa­nhava os suplats com as tigelas com o cozido.

Atraído pelo aroma da comida depois de não ter ingerido nenhum alimento o dia inteiro, Lourds afastou o computador. Enquanto fazia isso, os colegas o assaltaram com perguntas.

Será que Yuliya sabia quem queria assassiná-la? — perguntou Natashya.

Não acredito — respondeu Lourds. — Não encontrei nenhuma menção à alguém que a estivesse ameaçando. Não parecia estar preocu­pada com ninguém em especial, só percebia algumas questões políticas sobre o objeto. Os medos comuns de qualquer pesquisador.

Não mencionou nenhum colecionador ou traficante de anti­güidades?

Não que eu tenha visto — respondeu o professor.

Mas aquele que roubou a peça tem que ser alguém relacionado com esse mundo — insistiu Natashya.

Por quê? — perguntou Leslie.

Pela forma como descobriram o címbalo — respondeu enquanto tomava notas em cirílico em sua agenda digital.

Lourds conseguiu ler o suficiente para se dar conta de que eram anotações para ela mesma, das quais ele não entendia nada.

Continuo sem entender essa dedução — disse Leslie.

Gary cortou um pedaço de pão e o untou com o cozido.

Os assassinos se inteiraram da existência do címbalo pela página na web, moça. Ou estavam procurando esse objeto, ou controlavam o e-mail de Lourds. Senão, o teriam levado quando foi encontrado durante as escavações.

Todo mundo ficou olhando para o rapaz.

Ei! —- disse Gary um tanto intranquilo. — E só um comentário. E o que eu teria feito se quisesse tanto alguma coisa a ponto de matar por ela. Agarrar isso antes que viesse a público. Não é preciso ser muito inteligente para saber como apareceram os assassinos no laboratório da Dra. Hapaev, Além disso, procuravam o sino que Leslie encontrou em Alexandria. Estava na web também. Os bandidos seguem um determi­nado padrão e devem ter algum chefe.

Então... Seriam colecionadores profissionais? — respondeu Leslie.

Ou ladrões profissionais — interveio Natashya.

De qualquer modo — continuou Gary —, estamos procurando alguém que conhece bem o que acontece no mundo das antigüidades.

Lançaram-se sobre os objetos muito antes de vocês, os profissionais, saberem o que tinham nas mãos.

O sino e o címbalo não são muito atraentes para os colecionadores — disse o professor. — São de barro e não de algum material precioso, têm umas inscrições que não foram traduzidas e pode ser que jamais sejam e parecem vir de uma cultura desconhecida. Os colecionadores gostam de objetos antigos, mas se sentem atraídos pelas coisas mais conhecidas e cobiçadas: bronzes chineses Shang e Tang, vasos Ming, objetos funerários egípcios, estátuas de mármore grego, ouro ou turquesas maias, bronzes ou mosaicos romanos. Coisas como essas. Para os colecionadores, o que lhes encanta são as coisas relacionadas com os governantes poderosos ou famosos. Conheço pessoas que matariam alegremente por uma carruagem de bronze tamanho natural da tumba do imperador Chin, por exemplo.

Estes objetos são diferentes — continuou. — São antigos e miste­riosos, e, assim sendo, atraem os pesquisadores e historiadores, mas não são do tipo de objetos que interessem os colecionadores ricos ou obcecados. Não se sabe de onde procedem. Não têm certificado de autenticidade. Nem sequer sabemos que cultura os originou. São antigos e interessantes, mas não são exatamente o Santo Graal.

Mas, se não estão atrás dos instrumentos, o que estão exatamente procurando? — perguntou Leslie.

Creio que sim, eles querem, sim, os tais instrumentos — disse Lourds. — Gary tem razão, acho que faz tempo que eles estavam procu­rando pelos objetos. Mas não acredito que fosse por eles mesmos, senão pelo que esses instrumentos representam.

Assim sendo, nós estamos buscando algo que desperta um interesse muito especial. E as pessoas que tenham esse interesse — comentou Natashya.

Sim, eu também acredito nisso — disse Lourds, que havia nota­do o lampejo frio nos olhos daquela mulher.

Estava seguro de que poderia ser uma assassina a sangue frio se assim o quisesse. Mas ele tampouco sentia nenhuma piedade pelos homens que haviam assassinado Yuliya. De fato, o que ele desejava era um tiro certeiro por parte dela.

A doutora Hapaev sabia de algo sobre a origem do címbalo? - perguntou Leslie.

Sim, ela acreditava que provinha da África Ocidental. Mais ain­da, estava segura de que havia sido fabricado pelo povo iorubá ou seus antepassados.

Por quê?

Os iorubás eram notáveis comerciantes, e ainda o são — respon­deu Lourds.

Também foram capturados e vendidos pelos traficantes de escravos - interveio Gary e todo mundo se voltou para ele. — Ei! Eu assisto ao Discovery Channel e o History Channel. Quando começamos a preparar este programa especial com o professor Lourds, estudei e juntei algum material que poderíamos utilizar. São histórias geniais. Pena que as coisas não saíram como eu esperava. Acreditava que teria mais escavações e menos assassinatos, cara.

Sinto muito por tê-lo decepcionado — se desculpou Lourds. — Se­gundo Yuliya, devido ao tráfico de escravos, a língua dos iorubás rompeu fronteiras. É uma língua que segue o padrão SVO.

Eu não tenho a mínima idéia do que significa isso — comentou Gary antes de levar outra colherada à boca.

É um termo de linguagem específico da minha área profissional. Significa "sujeito-verbo-objeto". É a seqüência, a ordem se preferir, na qual as palavras aparecem nas frases faladas ou escritas de uma cultura. Em inglês, da mesma forma que 75% dos idiomas mundiais, segue-se essa sequencia. Um exemplo que poderia ser usado agora: "Pedro foi à casa". Entendeu?

Todo mundo assentiu, inclusive Gary. Lourds continuou:

A língua iorubá também é tonal. A maioria dos idiomas o é. Em geral, quanto mais antiga é uma língua, mais possibilidades há de que seja tonal. O chinês, por exemplo, é um idioma tonal. Menos de um quarto das línguas mundiais compartilha dessa característica. A língua iorubá é única nesse sentido.

Por que Yuliya acreditava que o objeto provinha da África Oci­dental? — perguntou Leslie. — Não foi encontrado aqui?

Sim, mas ela acreditava que se tratava de um artigo de comércio e que não fora fabricado aqui. O tipo de cerâmica não tem relação com o local em absoluto. Além disso, algumas das inscrições do címbalo foram feitas numa data posterior. Para demonstrar quem era o dono. Yuliya o anotou em seus apontamentos. Dá para ver essas inscrições em algumas das fotografias.

Estão na língua iorubá? — inquiriu Natashya.

Lourds assentiu.

Tenho lido o suficiente desse idioma para reconhecê-lo. Mas a língua original do címbalo, o que Yuliya acreditava que era a língua original, não é iorubá. É outra coisa.

Deve ter sido uma loucura para ela. Suponho que por isso queria colocar-se em contato com você — interveio Leslie.

Imagino que sim — disse Lourds.

Você tem como decifrar a língua do sino e do címbalo? — perguntou Leslie.

São duas línguas diferentes. Com o tempo creio que poderei decifrar as inscrições. Seria muito bom ter mais um texto com que trabalhar. Quanto menor é a amostra com que trabalha um lingüista, mais difícil se torna o processo.

De quanto tempo você necessitaria? — perguntou Natashya.

Lourds a olhou e decidiu ser sincero com ela.

Poderia demorar dias, semanas, anos...

Natashya soltou um palavrão em russo e depois bufou com força.

Não temos tanto tempo.

Uma tarefa como esta pode ser imensa — Lourds finalmente confessou.

Os olhos de Natashya jorraram faíscas de indignação.

Esses homens assassinaram minha irmã para conseguir o címbalo. Creio que estavam compromissados com algum tipo de prazo. Por isso tomaram medidas tão desesperadas. Se eles têm um problema com datas, isso os deixa mais vulneráveis.

Se você tiver razão sobre o fato de que sabiam da existência do sino e do címbalo antes que eles aparecessem, então a pessoa que fez isso podia estar há muitos anos procurando por eles. Pode ser que sim­plesmente estejam desesperados por tê-los procurado durante tanto e tanto tempo — comentou Gary.

Não posso esconder vocês na cidade enquanto buscam infor­mações — disse Natashya. — Além do meu trabalho, está a questão dos homens que tentaram assassiná-los.

Não creio que aqui iremos conseguir mais informação — disse Lourds. — Se estivesse aqui, tenho certeza de que Yuliya já teria encon­trado — ele se aproximou do computador e abriu outra pasta. — Ela nos deixou uma pista a ser seguida.

Que pista? — perguntou Natashya, inclinando-se em direção a ele.

Ela menciona um homem em Halle, Alemanha, que é uma auto­ridade em língua iorubá. O professor Joachim Fleinhardt, do Instituto Max Planck de Antropologia Social.

Alemanha? — repetiu Natashya, franzindo a testa.

Segundo os apontamentos de Yuliya — continuou Lourds —, o professor Fleinhardt é uma eminência no que se trata de escravos da África Ocidental. Sua irmã iria entrar em contato com ele depois de escrever-me.

Natashya se levantou e foi em direção à janela. Abriu as cortinas e olhou para o mundo lá fora.

Lourds tomou mais uma colherada do cozido e comeu um pouco de pão. Observou a mulher que estava pensando. Não podia imaginar o que se passava em sua cabeça, mas estava certo de que o desejo de capturar os assassinos de sua irmã predominava em seus pensamentos.

Finalmente ela deu a volta e se colocou à frente deles.

Vou fazer uns telefonemas. Fiquem aqui até que eu volte.

Leslie se ofendeu.

Você não pode nos dar ordens, assim, sem mais nem menos.

E tampouco poderei protegê-los desses sujeitos se vocês saírem por aí se aventurando pela cidade — replicou Natashya num tom severo. — Eles querem a informação que minha irmã deixou para Lourds. Eles sabem que ele está com ela, então se vocês acreditam que estarão melhor sem mim, podem ir. Talvez eu venha me inteirar de quem são esses homens quando investigar sobre o assassinato de vocês.

A inspetora Safarov tem razão, Leslie — disse amavelmente Lourds. — Sair do país pode ser problemático. Pelo menos da forma convencional.

Leslie cruzou os braços sobre o peito com cara de poucos amigos.

Bem, eu já vou. Com um pouco de sorte, talvez encontre a forma para que possamos ir até Halle — disse Natashya.

Possamos? — repetiu Leslie.

Possamos — confirmou Natashya. — Nenhum de vocês está preparado para enfrentar esse tipo de gente.

Saiu do apartamento sem dizer mais nenhuma palavra, e a porta se fechou atrás dela.

 

                 MOSCOU, RÚSSIA

                 21 DE AGOSTO DE 2009

Lourds estava apoiado no parapeito da janela e observava a loja da esquina em que Natashya Safarov havia entrado. Quase não podia ver enquanto ela falava ao telefone apoiada à janela empoeirada.

Para quem você acha que ela está telefonando? — perguntou Leslie.

Não sei.

Pode ser que esteja avisando a polícia. E se estiver fazendo isso, certamente nos prenderá.

Se ela quisesse fazer tal coisa, já teria feito — assegurou Lourds.

Ela possui uma arma e tem demonstrado que está disposta a utilizá-la — comentou Gary.

Leslie franziu a testa olhando o câmera.

Só estou comentando, só isso — se defendeu. -— Assim, como se fosse uma notícia de última hora.


Acho que está tentando averiguar quem ela matou — disse Lourds. — A esta altura, a polícia já terá identificado o cara. Com um pouco de sorte, já devem ter prendido todos os envolvidos.

Isso ainda nos deixa presos aqui — disse Leslie.

Não necessariamente. Sempre há formas prudentes de entrar e sair de um país — disse Lourds. Pegou sua mochila, tirou o celular e digitou um número que estava na memória.

Natashya entrou numa loja para telefonar de um telefone público. A janela ao lado do aparelho dava para o edifício em que havia deixado Lourds e seus amigos. Olhou para o apartamento e acreditou ver a figura de alguém apoiado no parapeito da janela.

Amadores, ela pensou franzindo a testa.

Uma mulher muito magra com três crianças de olhos afundados passava diante da porta quando o superior de Natashya respondeu.

Chernovsky — disse ele bruscamente.

Aqui é Natashya Safarov, preciso falar com você.

Durante um momento se instaurou um desagradável silêncio. Natashya não gostava de aborrecer Chernovsky e decepcioná-lo ainda mais.

Ivan Chernovsky tinha muita experiência na polícia de Moscou. Era um dos poucos que tinham sobrevivido à queda do comunismo e mantido o seu posto. Isso dizia muito dele. Muitos policiais haviam se associado com os criminosos que tinham perseguido e contra os que haviam lutado nas ruas. Chernovsky havia se mantido fiel aos seus princípios.

Também havia respondido por Natashya — quando a situação o requererá — e ele tinha lhe dado cobertura. Natashya nem sempre seguia ao pé da letra o que a lei ordenava. O poder e os privilégios continuavam prevalecendo em Moscou, talvez mais do que nunca. Natashya não per­mitia que nada disso se interpusesse em seu caminho.

Sobre o que você está querendo falar? — perguntou ele friamente. — Sobre o homem que matou na rua há pouco mais de uma hora ou de outra coisa?

Natashya não respondeu a pergunta. Sempre que podia, se rebelava contra a autoridade. Os dois sabiam disso. Mas no fim das contas sempre havia feito o que o departamento pedira.

Tenho uma pista sobre os assassinos de minha irmã.

Que pista?

Por hora prefiro não dizer nada a respeito.

Natashya observou os transeuntes.

Você está com o professor Thomas Lourds, o norte-americano, certo? — disse ao tempo de virar uma página, enquanto se ouvia o farfalhar de papéis.

Natashya hesitou por um segundo.

Sim.

Ele está bem?

Sim.

Conte-me o que está acontecendo.

Não sei ao certo. Pelo menos não tudo. Lourds tem relação com a morte de minha irmã.

Evidentemente, ele não é o responsável — afirmou de forma racional Chernovsky depois de suspirar.

Ele está sendo perseguido pelas mesmas pessoas que assassinaram Yuliya.

Para matá-lo?

Não acredito nisso — respondeu a policial. — Pelo menos não parecem dispostos a fazê-lo por hora. E não acho que estejam tão preo­cupados com os britânicos que o acompanham.

Ah! — exclamou ao mesmo tempo em que se ouvia o manuseio de mais papéis. — A equipe de televisão britânica.

Sim.

Por que você me telefonou, Natashya?

Minha irmã deixou certa informação para Lourds sobre o projeto no qual estava trabalhando.

O címbalo?

Sim.

Por que deixou para ele? — perguntou o homem do outro lado da linha.

Porque acreditava que ele podia decifrar as inscrições que havia no objeto.

Ninguém mais pode fazer isso? Em Moscou há muitos especialistas.

Yuliya confiava nele — respondeu ela.

E você?

Natashya duvidou.

Não sei, mas Lourds e os britânicos também foram roubados.

O quê?

Um sino.

A mulher bem magra entrou na loja com as crianças. Um garotinho ficou no corredor do pão. Não devia ter nem seis anos e parecia um daqueles palitos para comer comida chinesa. Olhou para a variedade de pães e bolos que estavam dispostos nas gôndolas.

Que tipo de sino? — perguntou Chernovsky.

E tão misterioso quanto o címbalo com que Yuliya estava trabalhando.

Chernovsky ficou calado por um momento.

Deve haver alguém para quem esses instrumentos musicais não são tão misteriosos.

Lourds tem a mesma opinião. — respondeu a policial.

O que pensa fazer?

Acompanhar Lourds. Yuliya estava mantendo contato com um professor de antropologia de Leipzig. Lourds quer ir até lá.

Desaparecer do país com alguém que está sendo procurado para ser interrogado por sua relação com um assassinato será como fazer um truque de mágica — comentou Chernovsky. — Mesmo que você não fosse uma policial que também está sendo procurada.

Sei disso.

Não posso ajudá-la nisso, Natashya.

Não estou lhe pedindo isso. Se tivesse pensado que pudesse me apoiar, já teria pedido.

Então, por que me telefonou?

Por respeito. E porque preciso de informação que talvez possa me ser útil mais lá na frente — se não fosse pela ajuda que Chernovsky poderia lhe facilitar, a policial teria seguido adiante sem telefonar-lhe.

Os dois também sabiam disso.

Obrigado — disse Chernovsky. — Do que está precisando?

Vocês já identificaram o homem em quem eu atirei?

Ainda não, mas acredito que haverá alguma possibilidade. Os homens que o acompanhavam tentaram levar seu corpo quando desapa­receram da cena. Conseguiram fugir, mas acabaram deixando o cadáver. Agora está nas mãos do departamento forense.

Natashya suspirou. Tinha esperança na identificação das digitais. Isso teria sido o melhor. O trabalho dos forenses representava uma possi­bilidade mais débil. Nem sequer os norte-americanos tinham uma equipe científica tão deslumbrante como da série de TV CSI.

Está com o seu celular?

Não — graças à tecnologia GPS, Natashya sabia que poderia ser localizada. — Eu entrarei em contato com você quando puder.

De Leipzig?

Se puder...

Tenha cuidado, Natashya. Os homens que assassinaram Yuliya são profissionais.

Sei disso, mas estou acostumada a tratar com gente que nem eles. Hoje em dia os criminosos de Moscou são muito perigosos.

Mas esses tipos, você já os conhece. Sabe que estão dispostos a correr riscos. Neste caso, você não sabe o que está em jogo. Com esses homens... — Chernovsky inspirou profundamente. — Não deveriam continuar por aqui, deveriam ter saído da Rússia.

Mas não fizeram isso e esse será seu erro — disse Natashya.

Que não seja o seu — ele aconselhou.

Não será.

Entre em contato comigo assim que puder. Farei todo o possível para ajudá-la. Sua irmã era uma boa pessoa, como você. Cuide-se.

Natashya lhe agradeceu e se despediu. Em seguida, desligou o telefone.

A mãe havia perambulado pela loja para fazer uma escassa compra. Natashya procurou nos bolsos e encontrou algum dinheiro. Aproximou-se do menino de olhos famintos. Lembrou-se dos tempos em que Yuliya e ela tinham que sobreviver sem muitas coisas. Só se deu conta de todos os sacrifícios que sua irmã fez por ela depois quando estava mais velha.

Dê isto a sua mãe — Natashya colocou o dinheiro na mão do me­nino. — Você me entendeu?

O garoto assentiu.

A mãe viu que Natashya falava com seu filho e ficou nervosa. Às vezes as crianças desapareciam nas ruas de Moscou e não se voltava a ter mais nenhuma notícia deles. Corriam rumores e meias verdades sobre contrabandistas de órgãos para o mercado negro que levavam as crianças e adolescentes ao Ocidente e os partiam em pedaços para os compradores.

Logo em seguida, Natashya foi embora. Mostrar as credenciais de polícia só iria assustar ainda mais aquela mãe. A Rússia era um lugar difícil e triste de se viver naqueles tempos.

E iria ser pior ainda sem Yuliya.

 

Danilovics Fabulous Antiquities — respondeu uma voz masculina em inglês e depois repetiu o cumprimento de apresentação em russo e em francês. — Em que posso ajudar-lhe?

Josef — cumprimentou Lourds.

Thomas! — a voz de Josef Danilovic saiu do tom profissional e passou para algo próximo da euforia. — Meu velho amigo, como vai? Faz muito tempo que não o vejo.

Lourds havia se encontrado por casualidade com Danilovic enquanto decifrava as línguas de uns manuscritos iluminados que provinham da Rússia. Lourds descobriu alguns de autenticidade duvidosa. Nenhum deles estava totalmente fora dos padrões, tal e qual os lingüistas estipu­lavam, mas saber qual era real ou qual era falso, freqüentemente, era de grande ajuda.

Acabou que Danilovic tinha vendido três dos manuscritos que Lourds tinha estudado para universidades norte-americanas e britânicas.

Após longos jantares com muitas histórias para distrair e algumas mentiras para deleite, Danilovic e Lourds se tornaram amigos. Este lhe confessou que havia negociado os manuscritos falsos. Depois de tudo, ele lhe explicou que a tarefa de um traficante de antigüidades nesta vida é assegurar-se de que o comprador fique satisfeito com a sua aquisição. E essas aquisições não tinham que ser necessariamente autênticas.

Danilovic era um pilantra daqueles bem elegantes. Jamais roubava alguém de mão armada, ainda que tratasse com alguns indesejáveis que sim, eles sim o faziam. Mas Lourds sabia que o homem nunca deixava de ter lucro, fosse como fosse.

Estou bem — disse enquanto via pela janela que Natashya conti­nuava conversando.

Trocou cumprimentos com Danilovic e alguma outra história antes de ir ao ponto.

Estou em apuros, Josef.

Ah! — exclamou Danilovic. — Nunca imaginei que você pudesse se meter em problemas, Thomas.

Não é algo que eu cavei ou que eu tenha procurado, isso eu posso lhe garantir, mas é da mesma forma um problema.

Se puder fazer algo por você, é só pedir.

Estou em Moscou. Tenho que sair do país sem que ninguém saiba disso — disse Lourds.

Produziu-se uma pequena pausa.

A polícia está à sua procura?

Sim, mas são outras pessoas que me preocupam. Não sei se dei­xaram de nos perseguir.

Me dê uma hora. Mas até lá você ficará bem, certo? Está preci­sando de alguma coisa?

Lourds sentiu na alma a preocupação de seu amigo. Durante aqueles anos, todos eles haviam se encontrado e desencontrado, mas a manu­tenção de sua amizade tinha sido esporádica. Contudo, compartilhavam pela história um afeto que se igualaria a bem poucos.

Não, estamos bem.

Maravilha. Deixe-me seu número para que possa telefonar-lhe assim que estiver tudo pronto.

Lourds obedeceu e acrescentou:

Eu irei também lhe enviar umas fotografias por e-mail.

Fotos? De quê?

— De algumas coisas que eu gostaria que perguntasse por aí, mas com certa discrição — afinal, depois de tudo o que Danilovic estava fazendo por eles, acreditou que lhe devia essa informação. Logo em se­guida se deu conta de que se via forçado a confiar naquele homem e se surpreendeu ao notar o quanto estava disposto a fazê-lo.

Que coisas?

Viu que Natashya desligava o telefone e saía da loja. Notou que averi­guava bem a rua antes de dirigir-se ao edifício de apartamentos.

Eu lhe explicarei quanto estiver pessoalmente com você. Até então, se puder encontrar alguma informação sobre o que eu estou lhe enviando, desde já me sinto muito agradecido.

Cuide-se amigo. Quero vê-lo em breve — despediu-se o homem do outro lado da linha.

Lourds se despediu também e desligou.

Você tem como telefonar para alguém e nos tirar de Moscou sem problemas, colega? — perguntou Gary incrédulo.

Lourds o olhou, o jovem parecia pasmo. Leslie, surpresa, havia levan­tado as sobrancelhas, arqueando-as.

Assim espero, mas ainda temos que aguardar. Vamos ver...

Alguém batia à porta.

Lourds levantou os olhos acima do computador. Eram 22 horas e 23 minutos. Ele pensava que a ajuda de Danilovic não chegaria mais.

Gary cochilava em uma cadeira com uma revista no peito. Leslie estava ao seu lado, tal como havia feito praticamente o tempo todo. Permanecera trabalhando em seu computador enquanto Lourds procurava na internet os links que Yuliya mencionava em seus apontamentos.

Natashya se aproximou da janela fechada que dava para a rua. En­fiou a mão na jaqueta e tirou uma arma.

A boca de Lourds secou quando fechou o computador.

Natashya apoiou as costas na parede, ao lado da porta, com as mãos na arma.

Quem é? — perguntou em russo.

Sou Plehve. Venho em nome de Josef Danilovic.

A tensão torturou Lourds e sentiu que o coração acelerava. Leslie colocou uma de suas mãos em seu braço quando se levantou.

Você está só? — perguntou Natashya.

Estou só — respondeu Plehve.

Se não estiver, eu o matarei e espero fazer o mesmo com qualquer pessoa que esteja atrás de você — ameaçou.

Ela abriu a porta com um só movimento ao mesmo tempo em que levantava a arma diante dela.

Um homem, de mais idade e encurvado, esperava na soleira. Usava um abrigo desgastado até os joelhos e um velho chapéu na mão.

Eu preferiria que não disparasse em mim — disse em russo.

Natashya puxou com uma mão o homem para dentro. Este tropeçou e quase caiu. Natashya o conduziu com facilidade. Manteve a arma perto do seu corpo para que ninguém pudesse arrebatá-la com facilidade.

Quieto! — disse Natashya, mudando de idioma.

Lourds pensou que era uma postura para manter a ordem entre os que não falavam russo.

Claro — o ancião não se alterou. Dava a impressão de que o fato de o arrastarem para um quarto na metade da noite com uma arma apon­tada para ele era algo normal.

Natashya esperou ao lado de Plehve. Manteve seu corpo entre a pistola e a porta. Depois de algum tempo, quando ninguém jogou a porta abaixo, baixou a arma, mas não a guardou. Assentiu.

Posso fumar? — perguntou Plehve.

Naturalmente — respondeu Natashya.

O ancião tirou o maço de cigarros da jaqueta e acendeu um. Inalou e depois soltou a fumaça antes de afastá-la com uma mão.

Você demorou — acusou Natashya.

Plehve sorriu:

Sua gente é boa na hora de pescar os que quebram a lei nestes dias. O sistema penitenciário é severo. E talvez Josef tenha subestimado minhas capacidades.

Espero que não na hora de nos tirar da Rússia — disse Natashya.

Pode confiar — assegurou Plehve.

Minutos mais tarde, Lourds seguia aquele homem. Leslie e Gary iam atrás dele e Natashya ia atrás de todos eles, fechando a fila.

Após atravessar a rua, cruzaram uma viela. Plehve tinha um Zil de dez anos de uso, um carro de fabricação russa esperando nas sombras. Com um gesto elegante, abriu a porta para Leslie e para Lourds.

Natashya recusou o convite de sentar-se no banco traseiro, deu a volta no veículo e se acomodou no assento do passageiro. Então Lourds se deu conta de que a luz interior não tinha se acendido. Evidentemente, Plehve era um homem precavido.

Uma vez acomodados, Plehve se colocou ao volante e saíram dali. Foi o momento em que Lourds soltou uma tensa expiração que vinha con­tendo já algum tempo.

Ninguém disse uma palavra até que saíram dos limites da cidade. O ancião mantinha uma mão no volante e, com a outra, fumava um cigarro atrás do outro. Ao que parecia, Plehve não confiava tanto em poder concluir o traslado, que lhe tinham encarregado.

Em um dado momento, comentou que a viagem duraria quase vinte horas se a fizessem sem pausa, parando apenas para abastecer e ir ao banheiro. Lourds se surpreendeu ao comprovar o cansaço que se apode­rara dele, além do que, também podia ser uma reação natural pelo fato de não ter nada que fazer.

Dormiu um pouco.

Por que acredita que minha irmã se colocou em contato com o Instituto Planck? — perguntou Natashya.

Seus olhos ardiam, porque desde o assassinato de Yuliya não havia conseguido mais dormir bem. Olhou fixamente para Lourds, que fazia poucos minutos havia despertado.

Yuliya acreditava que os cátaros levaram o címbalo para a Rússia, até então chamada Rus.

E quem eram esses caras? — perguntou Natashya sem deixar de prestar atenção.

Os historiadores não se põem de acordo sobre a verdadeira ori­gem dos cátaros — explicou Lourds. — Há aqueles que os relacionam com as tribos perdidas que se dispersaram após a destruição de Israel. A idéia mais aceita hoje é que eram turcos. Sei alguma coisa sobre eles porque escrevi umas monografias sobre a língua uigur.

Natashya não disse nada. Sabia que Yuliya tinha Lourds em alta estima, mas também sabia que não havia estudado o suficiente essas coisas para discernir se ele estava dizendo a verdade ou inventando tudo. Assim, preferiu observar se algum de seus gestos confirmava que estava men­tindo. Nisso sim, nisso ela era boa.

Faziam parte da cultura huna — continuou Lourds. — Formavam clãs e percorriam o mundo para comercializar tudo o que pudessem. Inclusive seu nome tem suas raízes nessa atividade. A palavra "cátaro" tem relação com o verbo turco "gezer", que literalmente quer dizer "errar". Eram simplesmente nômades.

Minha irmã era arqueóloga — ao falar de Yuliya no passado, Natashya notou a oscilação da sua voz — e sabia história. Como é que você sabe tudo isso?

Lourds tomou um gole de água da garrafa.

A lingüística e a arqueologia coincidem até certo ponto. Essa coincidência depende de quanto o lingüista ou o arqueólogo se apro­funda em seus conhecimentos. Yuliya e eu o fazíamos com tenacidade, aprendíamos constantemente. Era como ir à escola todos os dias.

Natashya concordou com aquilo. Houve um tempo em que sua irmã sempre tinha à mão um grosso livro sobre algum assunto difícil.

Você tem certeza de que os cátaros não fabricaram o sino? — perguntou Natashya.

Tenho quase certeza. Yuliya tinha a mesma opinião. Acreditava que eles o conseguiram através dos iorubás.

E de onde vieram eles?

Da África Ocidental.

Mas é um continente muito grande.

Sim, por isso vamos ao Instituto Max Plank. Yuliya tinha pedido para ver ali alguns documentos.

Minha irmã queria ir para Leipzig? — a policial pareceu surpresa.

Isso é o que diziam os seus apontamentos. E se fosse possível ela queria que eu a acompanhasse para ajudá-la nas traduções.

Por que em Leipzig? Não seria mais fácil ir diretamente para a África Ocidental?

Os documentos que sua irmã queria consultar já não estavam mais lá. Estão sendo guardados em Leipzig. O Instituto Max Plank con­tinua investigando, pesquisando e estudando a história da escravidão e das culturas africanas perdidas.

E não existem museus na África Ocidental? — insistiu Natashya.

Ou algum outro lugar para guardar esses documentos empoeirados?

Lourds sorriu.

Claro que sim — disse ele, antes de tomar outro gole de água.

Mas não podem armazenar informação de toda a sua história. Muito dela foi perdido.

Pela forma como semicerrou os olhos e coçou o queixo, Natashya pensou que ele estava reorganizando seus pensamentos. Ao olhá-lo minu­ciosamente, ela se deu conta de que era um homem bem charmoso. Duvidava bastante que sua irmã gostava dele somente pela sua forma de pensar, por mais fascinante que fosse. Mas, é claro, a fidelidade para com o seu marido estava fora de qualquer dúvida.

Quando se destroem e subjugam as culturas da forma como foi feito na África, sua história se dispersa, se perde e às vezes se reescreve. — disse Lourds. — Os museus da África Ocidental em Benin, Nigéria e Senegal e nos outros doze países dessa região só possuem uma pequena parte do que existiu um dia.

E o restante foi destruído?

Destruído e perdido. Vendido e roubado, mas em sua maioria foi perdido. Muito da sua história se preservou oralmente. Gerações após gerações iam contando histórias e as transmitindo. Essas, infelizmente, se perderam para sempre. Mas alguns objetos os colecionadores com­praram. Muitas peças estão em mãos de colecionadores particulares e museus de todo o mundo. Nunca se sabe onde pode aparecer uma peça. Como o címbalo.

Você ainda não me disse por que Yuliya acreditava que os cátaros haviam levado o címbalo para o norte da Rússia — disse Natashya.

Lourds pegou o computador e o abriu. Teclou algo e rapidamente apareceu na tela uma fotografia de moedas que pareciam antigas.

O que é isso? — perguntou ela, cada vez mais interessada.

Eles as encontraram no mesmo lugar do címbalo. Pertencem à mesma escavação. Os estudos estratigráficos demonstram que foram deixadas ali no mesmo tempo.

Deixadas?

Isso era o que Yuliya pensava. Segundo as anotações da equipe de arqueólogos que descobriu os objetos, encontraram o címbalo e as moedas ao mesmo tempo.

E por que as deixariam ali?

Só posso arriscar uma suposição, mas estou de acordo com o que Yuliya deduziu. Quem quer que tenha deixado o címbalo e as yarmaq tentava escondê-los para que ninguém os levasse.

Natashya pensava e dava voltas no assunto. A possibilidade de que tivessem procurado o címbalo há centenas de anos, da mesma forma que o procuravam neste momento, a intrigava. Quem poderia saber da existência de algo que estava perdido há tanto tempo? Quem poderia se lembrar dele depois da grande quantidade de anos que haviam passado desde que o esconderam? E quem o queria na atualidade?

Essas moedas foram o que convenceu Yuliya de que os cátaros haviam levado o címbalo para o norte de Rus — continuou Lourds. — As moedas são yarmaq. Quem as cunhavam eram os tártaros. Eram tão uniformes e puras que foram utilizadas no comércio de toda a Rus, Europa e China.

Natashya observou as moedas que apareciam naquela imagem digital. Em uma das faces, via-se um homem estendido em uma liteira. Yuliya também havia tirado fotos do anverso, que mostrava uma estrutura que parecia um templo ou talvez uma sala de reuniões.

Assim, vamos a Leipzig para averiguar por que os cátaros levaram o címbalo para Rus? — perguntou Leslie que, sem dúvida, havia acordado em algum momento da conversa.

Não exatamente — respondeu Lourds. — Vamos até lá para procurar documentos sobre o címbalo. Levando em consideração que a língua que há nele, ou parte dela, é iorubá, espero que possamos encontrar alguma pista sobre sua procedência; descobrir como e por que a conse­guiram os cátaros seria como um presente adicional.

 

               GABINETE DO PAPA INOCÊNCIO XIV

              CIDADE-ESTADO DO VATICANO

               22 DE AGOSTO DE 2009

A tensão roía o estômago do cardeal Murani e esfolava seus nervos enquanto se sentava do lado de fora do gabinete do papa. A cadeira era confortável, apesar da ornamentação. Ele virava distraidamente as páginas de um livro sobre a história da Europa Oriental, mas não estava lendo, na verdade. Sua mente estava confusa demais para isso.

Olhou para o relógio de pulso e viu que eram 8h13 da manhã. O relógio marcava apenas três minutos mais tarde desde a última vez que conferira. Ele estendeu a mão para virar uma página e descobriu que ela estava tremendo um pouco. Esse tremor capturou sua atenção. E passou a estudá-lo com crescente interesse.

Medo? Perguntou-se. Ou antecipação? Ele não sabia o motivo pelo qual o papa havia marcado essa reunião.

Começou a flexionar o pulso, desejando que sua mão ficasse imóvel. E foi o que aconteceu. O cardeal sorriu, contente com o controle que exercia sobre si mesmo. No fim das contas, isso era tudo o que realmente importava.

A porta que dava para o gabinete do papa se abriu. Um jovem padre saiu de dentro e olhou para Murani.

Cardeal Murani? — perguntou o jovem sacerdote.

Sua primeira reação foi pensar que o padre estava sendo insolente por ter que perguntar seu nome. Afinal, ele era conhecido em todo o Vaticano.

Então Murani percebeu que ele não conhecia o homem. Claro, isso era aceitável. Murani não se incomodava em guardar os nomes dos sacer­dotes, a menos que eles o ajudassem ou o ofendessem.

Sim — respondeu Murani.

O jovem padre acenou com a cabeça e fez um movimento com as mãos, convidando-a a entrar no gabinete:

Sua Santidade irá vê-lo agora.

Murani colocou o livro de volta na bolsa de couro que carregava. Então ele se levantou.

Claro — disse ele.

Mas o cardeal esperava estar se sentindo mais confiante.

Bom-dia, cardeal Murani.

O papa Inocêncio XIV acenou com a mão, apontando uma das enormes cadeiras forradas que ficavam diante de sua mesa. A superfície polida refletia a opulência da sala:

Espero que não tenha feito esperar muito tempo — disse o papa.

Claro que não, Vossa Santidade — Murani sabia que nenhuma outra resposta era permitida. E se aproximou do papa.

Inocêncio XIV parecia bem para um homem em seus 70 anos. Sua estrutura enxuta não mostrava nenhum excesso de gordura, e seus olhos azuis reluziam com segurança. Seu rosto parecia o de um falcão, escondido por trás de um nariz enorme. Anos de estudo de textos arcanos tinham deixado sua cabeça um pouco afundada entre as omoplatas. Suas vestes brancas se assemelhavam à plumagem de uma pomba, mas Murani sabia que aquela imagem era enganosa. Não havia nada de suave e de delicado sobre esse papa.

Antes de ser eleito para o papado pelo Sacro Colégio dos Cardeais, Wilhelm Weierstrass tinha sido bibliotecário dentro desse corpo. Ele era um bispo de carreira medíocre. E Murani tinha certeza de que seus anos como papa iriam ser igualmente medíocres. Ele não mudaria nada nem dirigiria nada e, ao final, não conseguiria nada na hora de reafirmar o papel da Igreja no mundo. Murani não tinha votado no homem.

Fui informado de que você está se sentindo melhor — disse o papa.

Estou, Vossa Santidade — Murani ajoelhou-se ligeiramente e beijou o Anel do Pescador do papa antes de se sentar.

Olhando ao redor da sala, Murani notou a presença dos dois mem­bros da Guarda Suíça dentro do recinto. Estavam perfilados em posição de sentido, um de cada lado de Sua Santidade.

A Guarda Suíça Pontifícia havia sido criada em 1506 pelo papa Júlio II, mas o papa Sisto IV e Inocêncio VIII tinham fornecido as bases para o recrutamento de mercenários para sua proteção. Até agora, a Guarda Suíça Pontifícia era a única unidade que havia sobrevivido. Sua exis­tência tinha começado como uma ramificação do exército regular suíço de mercenários que tinha espalhado soldados em toda a Europa.

Embora a Guarda Suíça ainda usasse seu tradicional uniforme vermelho, azul, amarelo e laranja em ocasiões especiais, na maioria das vezes eles estavam vestidos como agora, em sólidos uniformes azuis com colarinho branco, com faixa marrom e boina preta. Os que estavam nos aposentos do papa portavam pistolas semiautomáticas SIG P7, e os sar­gentos levavam uma pistola-metralhadora Heckler & Koch. Esta última havia sido integrada ao armamento da guarda depois que o papa João Paulo II quase tinha sido assassinado.

Murani apoiou os cotovelos nos braços da cadeira e descansou seus dedos sob o queixo. Ele não se sentia confortável nos aposentos do papa, mas se esforçou para dar a impressão de que se sentia bem.

Você ficou doente alguns dias — disse o papa.

Murani assentiu.

Eu estava pensando -— continuou o pontífice — se você não devia considerar procurar atendimento de um médico.

Por um momento Murani sentiu-se intrigado. Então ele percebeu que Inocêncio XIV estava na verdade apontando que, apesar do fato de sua "doença" ser contínua, o cardeal ainda não tinha ido procurar um médico.

Aquilo fora um descuido. Murani prometeu a si mesmo que iria ser mais cuidadoso no futuro.

Acho que foi apenas um ataque de gripe, Vossa Santidade. — respondeu ele. — Nada que fosse preciso incomodar um médico.

Suas palavras soaram pouco convincentes.

O papa acenou com a cabeça.

Ainda assim, essa gripe... Ela o afastou vários dias de seu trabalho.

O silêncio pesado e opressivo espalhou-se por toda a sala. Murani sabia que o papa não acreditara nele.

Sim, Vossa Santidade. Felizmente tenho muitos anos ainda para oferecer meus serviços a Deus.

Também me chamou atenção seu interesse desmesurado pelo trabalho do padre Sebastian na Espanha.

O mundo inteiro parece estar tomado de um interesse desmesu­rado pelo trabalho do padre Sebastian — replicou Murani. — A esca­vação em Cádiz parece ter capturado a atenção de todo o mundo.

Isso realmente é uma infelicidade. Eu sinto que o mundo estaria mais bem servido se voltasse sua atenção para outros objetivos.

Murani supôs que o papa não estava muito preocupado com a atenção do mundo. Era a atenção de Murani a que o papa estava se referindo.

Tenho certeza de que não passarão mais de dois ou três dias — disse o cardeal — até que algum incidente no Oriente Médio, a economia mundial ou a morte de uma celebridade venha a desviar a atenção.

Eu não gostaria que acontecesse nenhuma dessas coisas — replicou o papa.

A raiva se agitava dentro de Murani e ele mal a conseguia conter. Não, pensou ferozmente, se dependesse de você nada aconteceria. Você simplesmente preencheria esse cargo de papa e continuaria reproduzindo o vazio que a Igreja tem suportado com os últimos papas.

O cardeal obrigou-se a respirar com calma, mas a raiva que sentia era como uma pedra em seu peito que ameaçava se desprender. Inocêncio XIV era apenas mais um câncer que prosperava dentro da Igreja e sugava sua força.

— Eu sei que você tem muitas coisas para fazer, cardeal Murani — o papa desviou o olhar para a agenda sobre a mesa diante dele. — Você e eu não temos tido a chance de conversar faz tempo. Creio que seria melhor voltarmos a nos ver.

Claro, Vossa Santidade.

Murani sabia que aquilo tinha sido um aviso. O papa o estava vigiando.

A mensagem e a ameaça implícita eram claras.

 

Você tem sido negligente em suas obrigações, Stefano.

Murani olhou para o homem mais velho sentado diante dele naquela pequena e elegante mesa. Murani partiu um pedaço de pão e se manteve em silêncio.

O cardeal Giuseppe Rezzonico estava em seus 60 anos. Seu cabelo branco fora cuidadosamente penteado e ele era atraente o suficiente para chamar a atenção de várias mulheres nas mesas próximas. Alto e forte, ele ainda irradiava poder. O cardeal havia entrado a serviço da igreja já adulto, mas escalou posições rapidamente na hierarquia até vir a ocupar um cargo dentro do Sacro Colégio dos Cardeais. Como Murani, ele usava um terno azul-escuro.

Olhando para o homem, Murani balançou a cabeça.

E que obrigações seriam essas?

— As obrigações de seu cargo, Stefano. Convocar e depois cancelar compromissos que lhe foram atribuídos em nome da Igreja. Essas coisas são como levantar bandeiras vermelhas para nosso atual papa.

Para o seu papa — replicou Murani amargamente.

Rezzonico franziu a testa.

Todo mundo está consciente de que você não votou por Sua Santidade.

Não, eu não votei -— Murani colocou sua fatia de pão de lado.

Tenho certeza de que o papa sabe disso também.

— Você acha que ele está sendo vingativo, então? — indagou o cardeal.

— Não — Rezzonico balançou a cabeça. — Sua Santidade não iria sucumbir a isso.

Quer dizer então que você já o colocou numa posição de santidade, não é? — para Murani aquilo lhe pareceu interessante. Rezzonico nor­malmente não era enganado tão facilmente. — Ele ainda é apenas um homem, você sabe. Apesar do cargo e das vestes...

A carranca de Rezzonico se aprofundou.

Isso é um sacrilégio!

É a verdade. — Murani não estava disposto a deixar passar a oportunidade. Ele tinha sido obrigado a suportar a humilhação a qual Inocêncio XIV lhe impusera naquela manhã e não iria permitir-se ser subornado com uma boa refeição e uma palavra amável. — Ele é míope e você sabe disso. Ele continua a manter conversações com os judeus e os muçulmanos.

Claro que ele faz isso — admitiu Rezzonico de maneira razoável. — As coisas que acontecem nesses lugares afetam o restante do mundo. As economias estão ligadas muito intimamente hoje em dia para que seja de outra forma.

Você se deu conta do que acaba de dizer? — perguntou Murani, balançando a cabeça. — As economias? E nisso que a Igreja se transfor­mou na atualidade? Nas economias?

O homem mais velho recostou-se e procurou se reequilibrar:

Você jurou fidelidade ao papa.

Jurei fidelidade a Deus — disse Murani asperamente. A raiva e a frustração estavam soltas nele agora. Ele foi incapaz de parar. — Isso supera qualquer juramento de fidelidade que eu pudesse fazer a alguém.

Você está pisando em terreno perigoso.

Uma jovem garçonete trouxe saladas e mais vinho. Eles deixaram de falar até que a jovem tivesse ido.

Estamos todos pisando em terreno perigoso nos dias de hoje — disse Murani, que estava começando a se acalmar.

Rezzonico ergueu as sobrancelhas:

Você está dizendo isso por causa das escavações do padre Sebastian? — ele balançou a cabeça. — Nem sabemos se sairá alguma coisa dali.

E se alguma coisa sair? E se o padre Sebastian encontrar algo? Mesmo que não seja o livro, o que aconteceria se houvesse algo que apontasse para os textos secretos?

Então, na hora, iremos lidar com isso — replicou o cardeal mais velho.

Murani zombou:

Lidar com uma coisa depois que já aconteceu é inútil.

Rezzonico disparou.

Stefano, por favor, me escute. Eu sou seu amigo. Tudo está sob controle.

Murani se recusou a acreditar nisso:

Não há nada controlado.

Murani queria contar a Rezzonico sobre o sino e o címbalo, e sobre o que ele acreditava que significavam, mas não podia. Rezzonico fazia parte da Sociedade de Quirino, e Murani não tinha certeza de que eles não quisessem levar tudo embora para longe dele. Isso era algo que ele não podia suportar.

Por um momento, Rezzonico apenas olhou para ele:

Nós controlamos a Guarda Suíça. Eles têm membros no local da escavação. Caso padre Sebastian venha a encontrar algo, qualquer coisa, esses homens têm ordens para intervir e tirá-la de lá.

Murani sabia disso. Ele ajudou a organizar essa negociação. Felizmente, depois de todos os seus anos de serviço, muitos dos líderes dentro da Guarda Suíça mantinham suas crenças básicas nas mesas da Sociedade de Quirino. O mais importante para essas duas entidades era a preservação da igreja. Vidas seriam tomadas e mentiras seriam ditas para que esse trabalho fosse feito.

O trabalho do padre Sebastian colocava em risco tanto a Igreja quanto a Guarda Suíça. Seu líder, o comandante Karl Pulver, reconhecia a ameaça representada pelos textos sagrados também, embora não tivesse conhe­cimento sobre o que eles continham.

Algo mais deve ser feito — disse Murani.

O receio tingiu os olhos de Rezzonico:

O que, exatamente?

O padre Sebastian foi um homem escolhido pelo papa, não é um de nós — respondeu Murani.

Mas isso é ainda melhor — retrucou o outro. -— Se Sebastian en­contrar alguma coisa, não reconhecerá do que se trata. Somente nós conhecemos o que são os textos secretos.

O papa pensa que sabe.

Rezzonico fez um gesto com a mão como que para rechaçar o comentário:

O papa sabe somente aquilo que lhe contamos, e, mesmo assim, falta-lhe a capacidade de compreensão que nós temos.

Murani se mexeu inquieto:

Isso não é suficiente. Precisamos controlar esse lugar das escavações, para que não existam intrusos. Para isso, precisamos estar no comando de tudo.

O papa escolheu o padre Sebastian. O homem foi claramente uma boa escolha. Seu campo é a arqueologia. De todos nós, ele é...

Ele é o menos confiável — Murani endureceu sua voz. — Ele esteve no mundo secular por um longo tempo antes de vir para a Igreja.

O rosto de Rezzonico se cobriu de trevas:

Poderíamos tomar medidas para corrigir a situação.

A voz de Murani suavizou-se.

Outros padres e cardeais poderiam ter tomado a seu cargo esse local de escavação — disse.

Rezzonico sorriu.

Como você, talvez?

Murani nem sequer tentou fingir modéstia:

Sim. Eu teria sido a escolha perfeita.

Por que você?

Porque, desde os meus primeiros dias, eu dei minha vida para a Igreja. E acredito no poder do papado. A Igreja precisa assumir seu lugar no mundo. A Igreja vem se debilitando a cada dia que passa. A perda da missa em latim, bem como as conversas com as outras religiões e países. O papado conduziu seu mandato desde o Vaticano II como se eles fossem chefes de Estado.

Que é o que os papas têm sido — apontou Rezzonico.

Tratando as outras nações e religiões como se fossem iguais — a voz de Murani endureceu. — Ninguém é igual à Igreja. Fomos colocados aqui pelo próprio Deus para pastorear as pessoas que Ele nos deu para cuidar. Nós devemos guiar e moldar suas vidas. Nós não podemos fazer isso se continuamente renunciamos ao poder e ao prestígio que fazem de nós os instrumentos escolhidos por Deus.

Rezzonico respirou com força e deixou o ar sair. E hesitou:

Todos os seus pontos de vista são válidos...

Eu sei que são — retrucou Murani.

Mas...

Murani interrompeu o homem:

Chega de dizer isso, mas... A Igreja é intocável e sacrossanta. Ela é, e deve ser, o poder final aqui na Terra. E qualquer objeto que controle esse tipo de poder deve pertencer à Igreja. As relíquias sagradas são nossas por direito e pela graça de Deus.

O mundo é um lugar diferente, Stefano — disse Rezzonico sua­vemente. —Temos que avançar com mais cuidado e prudência nestes tempos...

Estamos falando de livros e artefatos capazes de acabar com este mundo e criar um novo — disse Murani. — Eles ficaram enterrados durante anos incontáveis, e estão prestes a ressurgir.

Apenas se estivermos corretos quanto ao local da escavação — retrucou o outro.

Você duvida?

Isso ainda precisa ser comprovado.

Desgostoso, Murani se recostou na cadeira:

É preciso ter fé.

Pela primeira vez, o olhar de Rezzonico endureceu como gelo:

Não se esqueça, Stefano, de que você pisou sobre outros sacer­dotes e cardeais menores, mas eu estou aqui a pedido da Sociedade.

Aquele anúncio fez com que Murani se contivesse um pouco. No entanto, ele estava esperando por algo parecido. Apesar de seus intentos em direção à autocracia e independência, Rezzonico muitas vezes servia como um cãozinho de estimação dos membros mais antigos entre a Sociedade de Quirino.

Murani contou até dez e se armou da paciência que ainda lhe restava:

Nós não estaríamos nesta situação se a eleição do papa tivesse sido de outra maneira.

Isso são águas passadas, Stefano — disse Rezzonico.

O Sacro Colégio dos Cardeais tinha ficado dividido na hora de to­mar sua decisão. Cada facção tinha escolhido um de seus membros. Os dois homens que poderiam ter se convertido em papas, homens aos quais seria confiada a missão divina de proteger o mundo dos textos secretos, não conseguiram os votos suficientes para vencer. Uma terceira facção, que atuava em nome de seus próprios interesses, havia sugerido Wilhelm Weierstrass como uma alternativa. No final, por causa dessa divisão, o novo papa ao assumir o cargo não sabia nada dos textos sagrados.

Na verdade, Murani não tinha certeza se o papa Inocêncio XIV acreditava nos textos sagrados depois de ter sido informado sobre eles. O homem ouviu a todos, mas guardara silêncio. No final, ao escolher o padre Sebastian para assumir o comando da escavação, isso dizia muito, ao menos para Murani.

Tem razão — concordou ele.

Rezzonico o estudou por um momento. Então disse:

Tudo está em ordem, Stefano. Você vai ver. O que a Sociedade gostaria é que você evitasse chamar a atenção. A confiança do papa em nós é uma coisa muito frágil. Especialmente agora. Se ele tivesse chegado ao poder em outro momento, poderíamos ter mais certeza da nossa influência sobre ele.

Murani calmamente discordou, mas nada disse. Wilhelm Weierstrass havia sido deixado em meio a seus livros nas bibliotecas por um período muito longo. Aquele homem tinha opiniões sobre tudo. E não hesitava em usar o poder conferido por sua posição. E isso havia sido demonstrado ao escolher o padre Sebastian em vez dos outros candidatos que a Socie­dade de Quirino havia proposto.

E demonstrara isso de novo ao repreendê-lo nessa manhã. Na verdade, Murani percebeu só então que aquilo havia sido mais uma advertência a toda a Sociedade de Quirino do que apenas a ele. De repente, Murani percebeu também que os apuros eram maiores do que ele pensava:

Não se preocupe, Stefano — disse Rezzonico. — Você tem muitos amigos na Sociedade de Quirino. Espero que continue a contar-me como um deles. Tenho apenas os seus melhores interesses no meu coração. Estamos juntos nessa. Você deve ser mais paciente.

Eu sei — Murani tomou um gole de vinho. — Mas este é o mo­mento mais próximo que já chegamos dos textos secretos.

Rezzonico assentiu.

Todo mundo está ciente disso. Tudo está no lugar. Nada pode acontecer que não possamos controlar.

Isso poderia ser verdade, Murani pensava, mas nenhum deles estava preparado para usar esses textos. A Sociedade de Quirino controlava um grande número de segredos. Ao longo dos anos, eles haviam assassinado silenciosa e brutalmente a todos aqueles que estivessem contra eles ou que tentassem revelar os segredos que eles escondiam.

A Sociedade não tinha medo de ter as mãos manchadas de sangue. Nem Murani.

 

           MERCADO A SETE QUILÔMETROS FORA DE ODESSA

           UCRÂNIA

           23 DE AGOSTO DE 2009

- De onde saiu isso?

Lourds tinha que sorrir diante da ingenuidade da moça. Apesar de ser uma repórter de televisão e jornalista, e provavelmente com certa experiência de vida nas costas e talvez bastante viajada, o mundo continuava sendo para ela um lugar enorme e inima­ginável. E não havia visto tanto como imaginava.

O Mercado a Sete Quilômetros era um furioso circo do mercado negro e servilmente dedicado ao capitalismo. O mercado cobria quase um quilô­metro quadrado e estava repleto de contêineres de navios convertidos em edifícios. Suas ruas estreitas, repletas de pessoas, serpenteavam entre eles.

Os contêineres vinham de todo o mundo. Havia aqueles de seis me­tros de largura até os monstruosos, de dezesseis metros. Os comerciantes armazenavam neles suas mercadorias e muitas vezes os faziam também de moradia. Eram velhos e novos e estampavam todas as cores do arco-íris. A maioria estava grudada uns nos outros.

Pareciam pequenas construções metálicas com cartazes publicitários e calçadas, algumas delas alcançando a altura de três andares. Os carros e caminhões chegavam até a parte da frente das lojas para carregar e des­carregar. Ouviam-se vozes em todos os lugares e em uma infinidade de idiomas. Luzes montadas a pequenos intervalos garantiam que a escuridão não impedisse as vendas.

Lourds estava cansado e tinha câimbras por ter ficado tanto tempo apertado no carro. Mas ele não podia deixar passar a oportunidade de ser tanto um guia turístico quanto um educador. O velho que os tinha trazido até ali havia voltado para Moscou imediatamente.

— Bem-vindos ao Mercado a Sete Quilômetros — Lourds acenou para o complexo labirinto de contêineres. — O mercado original estava localizado dentro dos limites da cidade de Odessa, mas quando o capita­lismo invadiu a área após a queda do Muro de Berlim, em 1989, muitos mais comerciantes chegaram e se estabeleceram.

Isso é incrível — disse Leslie.

Gary estava gravando tudo com uma mini-câmera.

Tenha cuidado com a câmera — preveniu Natashya.

Por quê? — Gary colocou a câmera de volta no estojo protetor que levava preso a um ombro. — Eles não permitem que os turistas tirem fotos?

Sim — respondeu o professor —, mas vários dos comerciantes que trabalham aqui são ilegais.

Muitos deles são procurados pela polícia e pelos serviços de inte­ligência de diversos países — disse Natashya, que continuava muito alerta a tudo o que acontecia ao seu redor. Apesar de haver passado um dia inteiro viajando, ela parecia descansada e pronta para continuar. — Se um desses homens pensar que você foi mandado aqui para espioná-los, eles poderiam tentar cortar nossas gargantas.

Ah, tá... — Gary definitivamente não parecia convencido dessa possibilidade.

Quando o mercado começou a crescer demais dentro de Odessa, foi expulso da cidade — disse Lourds. — Ele simplesmente se tornou muito bem-sucedido e foi obrigado a se instalar aqui, a sete quilômetros de distância de Odessa.

Daí o nome — disse Leslie.

Exatamente — Lourds iniciou a marcha. Passaram diante de contêineres que ofereciam aparelhos eletrônicos asiáticos e objetos para turistas, além de falsos produtos ocidentais de luxo. — Existem aqui mais de seis mil lojas alugando seu espaço, pagando milhares de dólares por mês. Só o dinheiro que se paga pelo espaço é uma importante fonte de receita, mas as vendas superam a casa dos vinte milhões de dólares.

Vinte milhões de dólares por ano? — indagou Leslie.

Lourds sorriu para ela.

Vinte milhões de dólares por dia.

Leslie parou em um cruzamento e olhou em todas as direções. As pessoas se abarrotavam nas ruas e pechinchavam com os comerciantes.

Houve esforços para fechar o mercado depois que ele começou a crescer além da conta — disse Lourds. — Mas já era tarde demais, ele havia tomado vida própria. Na verdade, o mercado continua crescendo e o governo gostaria muito de fechá-lo, mas os comerciantes e clientes estão dispostos a pegar em armas para impedir isso.

E por que alguém iria querer fechar um lugar como este?

Porque eles não podem controlá-lo.

E a troco de que gostariam de controlá-lo?

Para efeitos de tributação.

Você quer dizer que toda essa mercadoria está livre de impostos? — Leslie parou em frente a uma loja que oferecia bolsas italianas. — Vinte milhões de dólares por dia e tudo sem impostos?

Sim — respondeu Lourds. — O que está vendo é o maior mer­cado negro da Europa. Curiosamente, é também um refúgio de contra­bandistas. Você vai encontrar aqui bens legítimos, bens falsificados e ilegais, munições e drogas. Este negócio funciona ao ar livre simples­mente porque ninguém pode detê-los.

Leslie examinou uma das bolsas que estava depositada sobre uma mesa. Lourds sabia que nenhuma mulher podia deixar passar uma pechincha. Embora duvidasse muito que alguma coisa que existisse sobre aquela mesa fosse uma pechincha:

Não temos tempo para comprar nada — interveio Natashya. Leslie devolveu a bolsa relutantemente. — E onde devemos encontrar seu amigo?

Não está longe daqui — assegurou Lourds.

 

Uma hora depois, Lourds estava tomando uma xícara de café turco diante de uma loja que anunciava ter jeans americanos para vender. Leslie os descartou imediatamente ao notar que eram imitações. Lourds não se havia dado conta disso. Gary se entretia fazendo algumas filmagens e ainda pediu a Leslie algumas introduções e fechamentos para uma proposta que pensavam fazer à BBC.

Você tem certeza de que seu amigo virá? — perguntou Na­tashya em russo.

Josef disse que estaria aqui — respondeu Lourds em inglês. Ele não queria que Leslie e Gary se sentissem excluídos da conversa.

Outro incômodo minuto se passou, que lentamente se esticou em mais cinco.

Natashya mudou de posição para ficar na frente de Lourds. Por um instante, ele pensou que ela ia ralhar com ele sobre sua situação, mas a atenção da policial estava concentrada em um homem jovem que se aproximava. Sua mão estava no bolso do casaco.

Não havia dúvida sobre o destino do jovem. Ele parou a alguns metros de distância. Ambas as mãos nos bolsos. Lourds sabia o que o jovem tinha em suas mãos. Os olhos do homem nunca deixaram de observar Natashya, e Lourds percebeu que era porque o rapaz tinha avaliado que ela era a mais perigosa de todos.

Professor Lourds? — o inglês do jovem era impecável.

Sim.

Josef Danilovic me enviou.

Você tem alguma prova? — exigiu Natashya.

O jovem sorriu e encolheu os ombros.

Este não é um lugar para se provar as coisas. Também não é um lugar para a polícia. Eu venho para lhe oferecer uma maneira de sair da cidade. É sua escolha se quiserem me seguir ou não.

O celular de Lourds tocou e ele atendeu. A bateria estava pratica­mente esgotada.

Alô.

Thomas! — Danilovic cumprimentou com uma voz jovial que escondeu um pouco da tensão.

Olá, Josef. Acho que acabamos de conhecer seu intermediário.

O nome dele é Viktor — disse Danilovic. — Pode confiar no rapaz.

Lourds sabia que o jovem estava esperando a chamada porque Viktor permaneceu totalmente relaxado. Natashya não baixava a guarda.

Talvez você possa descrevê-lo — sugeriu Lourds. — Ultimamente, estamos com uma tendência um pouco paranóica.

Certamente. Estes são tempos muito paranoicos.

Danilovic proporcionou uma boa descrição.

Obrigado, Josef. Espero ver você em breve — disse Lourds antes de desligar o telefone.

É ele? — perguntou Natashya.

Sim. Josef descreveu-o. Incluindo a roupa que ele estava vestindo.

Viktor sorriu:

Bem, sempre seria possível que eu tivesse um companheiro apontando uma arma para a cabeça de seu amigo. Quero dizer, se você quiser seguir suas tendências paranóicas. Mas se fizer isso, eu duvido que você jamais saia deste mercado.

Lourds recolheu sua mochila e atirou-a sobre um ombro:

Vamos.

 

Você se superou desta vez, velho amigo — Lourds cumprimentou ao contemplar a mesa cheia de comida na ampla sala de jantar da casa de Danilovic. Ele já estivera ali diversas vezes como convidado e estava acostumado com a generosidade que Danilovic oferecia em sua casa.

Uma sala de jantar e cadeiras ornamentadas que poderiam ter em­belezado uma casa real ocupavam o centro da sala. As paredes estavam cobertas com pinturas, enquanto vasos e outros objetos colecionáveis preenchiam as lacunas entre elas.

Danilovic descartou o elogio com um aceno de mãos à distância. Era um homem pequeno e manhoso, com um fino bigode sobre o lábio supe­rior. Vestia um terno caro com confiança e orgulho.

Pensei que, se tivesse que organizar uma fuga de Moscou para você, então teria que ser em grande estilo, certo? — seu sorriso largo deixou ver um espaço entre os dentes, e ele manteve o dedo indicador e o polegar ligeiramente separados. — E, talvez, com apenas um toque de perigo.

Se não se importa, poderíamos passar sem o perigo — disse Lourds com alguma tristeza. — Acho que já tivemos o suficiente nos últimos dias.

Na mesa havia até algumas etiquetas com nomes para designar a disposição dos assentos. Lourds e Danilovic ocuparam as extremidades. Sem surpresa, notou que Danilovic posicionou as duas mulheres ao seu lado na mesa.

Algumas criadas com blusa branca serviram vinho aos convidados e depois apareceu o chef, para anunciar o cardápio. Apesar da tensão refletida no rosto de todos que estavam sentados ao redor da mesa, Lourds percebeu que todos ouviam o chef extasiados:

Pensei que o mais indicado seria a cozinha francesa. Vamos começar com uma salada agradável, boeuf bourguignon, uma carne cozida em vinho tinto, escargots de Bourgogne, com manteiga de salsa, Fondue bourguignonne, gongere e pochouse, que é uma das minhas especialidades.

O chef bateu os calcanhares e voltou para a cozinha.

Não entendi nada do que ele disse — comentou Gary —, mas soava muito bem.

Auguste é um excelente chef — respondeu Danilovic. — Eu o pedi emprestado a um restaurante, apenas por esta noite.

Não precisava ter se incomodado — protestou Lourds.

Eu sei — disse Danilovic. — Para você, teria ficado satisfeito com um sanduíche e uma cerveja. Mas quanto às senhoras — ele olhou para Natashya e Leslie — eu estava ansioso para impressioná-las.

Eu estou devidamente impressionada — disse Leslie.

Obrigado, minha querida. — Danilovic pegou sua mão e a beijou.

Seu exibido, pensou Lourds. Mas ele não podia deixar de sorrir diante das palhaçadas de seu amigo. Danilovic era um dos homens mais sociáveis que Lourds jamais havia conhecido. Ele adorava montar um espetáculo e ser o centro das atenções.

 

O jantar foi servido logo em seguida. À enérgica e esfuziante salada, seguiu-se uma sopa de carne e escargots cozidos na casca. Gary recusou-se a comer aquilo e, para Lourds, a manteiga de salsa era a melhor que tinha comido em sua vida e pediu que se felicitassem o cozinheiro.

A fondue tinha pedaços de carne que completavam o sabor e a torna­vam ainda mais saborosa. O gougére eram bolas de queijo enroladas em massa choux. Mas o remate foi o pochouse, peixe cozido no vinho tinto.

A sobremesa foi composta por um creme de morango e torta de mas- carpone que derretia na boca.

 

Mais tarde, eles se reuniram na biblioteca de Danilovic, em frente a uma aconchegante lareira que os protegia do frio exterior. Lourds e Danilovic acenderam charutos cubanos e os dois se surpreenderam quando Natashya concordou em fumar um também. Eles bebiam conhaque em grandes taças.

Vocês não sabem quem são os homens que estão perseguindo vocês? — perguntou Danilovic.

Lourds negou com a cabeça.

Eu acho que reconheci alguns deles de Alexandria.

Então você acredita que continuam na mesma pista que você.

Essa é a única resposta — Lourds tinha se sentado em uma profunda cadeira estofada que achou confortável demais. — Não há nenhuma razão para eles estarem interessados em mim.

Danilovic inclinou-se e deu um tapinha no joelho de Lourds:

Eu sempre achei você interessante, meu querido professor.

Você está bêbado — acusou Lourds.

Talvez um pouco — Danilovic olhou para Leslie. — Mas talvez não fosse você, meu amigo. Talvez fosse a nossa estrela de televisão.

Eu não sou estrela — disse Leslie. — E não sei nada sobre história ou línguas ou artefatos antigos.

Você sabe que isso tudo anda junto — disse Danilovic. — A maioria das pessoas não sabe disso. — Ele bateu as cinzas num cinzeiro e olhou para ela de forma especulativa. — No entanto, você encontrou o sino em Alexandria.

Isso foi muito por acaso.

Danilovic encolheu os ombros:

Tenho tendência a ser um homem de fé, cara senhora, mas estou em uma profissão que alguns poderiam acreditar que deixa descoberta precisamente esse tipo de coisa. Esses homens, esses sujeitos que perse­guem vocês, já estavam procurando o tal sino — ou pelo menos algo semelhante, caso contrário não teriam ido atrás dele.

Podemos descobrir quem os está perseguindo — afirmou Na­tashya calmamente. — Ao identificá-los, ao saber mais dos motivos pe­los quais eles querem esses instrumentos, saberemos mais sobre os próprios instrumentos.

Danilovic sorriu beatificamente.

Sim. Você vê, meu amigo, sempre que vendo uma peça que caiu em minhas mãos, tenho que saber de quem a estou recebendo, a quem a estou vendendo e o suficiente sobre o item para saber o que o torna valioso para ambos. Por que está tão interessado nesses objetos?

Por causa da língua — Lourds respondeu imediatamente.

Bem, isso é valioso para você, mas poucas pessoas estariam inte­ressadas em uma língua morta que pode levar anos para ser decifrada.

Eu não acho que vai demorar muito tempo — disse Lourds. — Se eu conseguir descobrir a quem os instrumentos pertencem e qual a relação entre eles, poderia ser capaz de fazer uma conjectura fundamen­tada e respaldada com fatos.

Danilovic deu um tapinha no ombro de Lourds.

Tenho certeza de que você vai fazer isso. No entanto, os mate­riais com os quais esses objetos foram fabricados basicamente não têm valor. Não são nem ouro nem prata, nem sequer estão incrustados com pedras preciosas. São coisas muito simples e com segredos escritos nelas.

Mas as pessoas que roubaram essas peças já sabem o que está escrito neles — disse Gary. Ele se inclinou para frente, animado. — Pelo menos, sabem o que supostamente está escrito nelas. Como se fosse um mapa do tesouro ou algo assim.

Lourds meditou sobre aquilo.

As pessoas que roubaram os instrumentos sabiam o que estavam procurando. Mas acho que não sabem o que está escrito neles.

Então, de onde tiraram o que sabem? — perguntou Leslie.

Esta é uma das perguntas que vocês deveriam estar se fazendo — continuou Danilovic. — Ao perguntar isso, você já estreitou o campo de quem possa estar atrás de vocês.

E por que estão atrás de nós? — perguntou Gary.

Por duas razões — anunciou Natashya calmamente. — Uma delas é que eles estão com medo de que o professor Lourds possa decifrar a língua e expor os segredos que eles estão protegendo. E a outra é que o professor Lourds tem estado, por sorte ou por desígnio, em contato com dois dos instrumentos que eles estão procurando.

Teremos que ir a Leipzig o quanto antes, velho amigo — disse Lourds a Danilovic.

E abandonar a minha hospitalidade tão cedo? — Danilovic pareceu surpreso.

Não é por nenhuma outra razão...

Danilovic levantou a mão e sorriu:

Não se preocupe, eu entendo a sua pressa. O assunto já foi resol­vido. Amanhã cedo, Viktor vai levar vocês a um navio para o qual garanti suas passagens.

Obrigado — disse Lourds.

Por esta noite, devemos aproveitar o que resta deste bom conhaque e conversar sobre os velhos tempos.

 

               PORTO COMERCIAL ILLICHIVSK

               PROVÍNCIA DE ODESSA, UCRÂNIA

               24 DE AGOSTO DE 2009

— Onde está você, Natashya? Ivan Chernovsky parecia calmo, mas Natashya sabia, depois de ter trabalhado tanto tempo com ele, que o homem podia ser tudo, menos calmo.

— Em Illichivsk. — Natashya não mentiu. Ele segu­ramente descobriria essa mentira, do mesmo modo que ela descobria quando Ivan mentia.

A zona portuária estava em plena ebulição de trabalho e de negócios. Situado a vinte quilômetros de Odessa, e o segundo maior porto em águas cálidas da província, o oblast, Illichivsk se alçava como a sede da Companhia de Navegação do Mar Negro. Barcos e navios de todos os tamanhos ancoravam em suas docas ou sulcavam lentamente suas águas. Os estivadores subiam a bordo e carregavam para dentro e para fora dos navios as mer­cadorias dos cargueiros.


E o que está fazendo aí? — perguntou Chernovsky.

Eu estou procurando o assassino de minha irmã. Liguei esperando que você pudesse me ajudar.

Os peritos forenses encontraram uma bala antiga no corpo do ho­mem — disse Chernovsky. — Evidentemente ele fora baleado em algum momento e não teve acesso a um centro médico. O ferimento acabou se curando com o tempo, mas a bala ficou no corpo.

E eles conseguiram identificar a bala, da mesma forma que fizemos no assassinato de Karpov? — perguntou Natashya.

Sim. A bala pertencia à arma que tiramos de um membro da Máfia. E assim que a arma foi identificada, fui fazer uma visita ao sujeito.

Natashya continuava olhando de um lado a outro. Leslie havia retor­nado para perto de Lourds e Gary, mas outro homem estava postado a poucos metros de distância.

Era um homem desalinhado. Ele usava um boné puxado para baixo sobre os olhos e um casaco leve xadrez. Um observador casual poderia ter confundido esse homem com um estivador, mas Natashya observou com atenção as boas botas que o homem usava, e soube imediatamente que era alguém que não as usava nas docas, embora estivesse vestido para se parecer assim. Chernovsky a ensinou a ver com atenção os sapatos das pessoas. Normalmente trocavam de roupa antes ou depois de cometer um ato ilegal, mas raramente mudavam os sapatos.

Encostado em um contêiner que esperava sua vez para ser canegado, de vez em quando fazia um gesto com a cabeça para os outros trabalhadores e dava tragos em um copo de isopor. Também falava a um celular. Não eram muitos os estivadores que carregavam consigo um telefone desses.

O sujeito — continuou o homem do outra da linha conversando com a policial — identificou o cara morto como sendo alguém que fazia parte do grupo que tentou roubar um canegamento ilegal de antigüidades do Iraque durante a guena contra os Estados Unidos. Falei com alguns dos traficantes que se dedicam a esse tipo de mercadoria e também mostrei a foto do camarada. Seu nome era Yuri Kartsev.

Esse nome não significa nada para mim. — Natashya sabia que Chernovsky estava esperando por uma resposta.

Talvez tenha algum significado para o professor.

—Vou perguntar a ele. — Ela também sabia que essa era a maneira de Chernovsky confirmar se ainda estavam viajando juntos.

Esse Kartsev era conhecido por trabalhar com um homem cha­mado... — ouviram folhas farfalhando enquanto Chernovsky verifica­va suas notas. — Gallardo. Patrizio Gallardo.

Também nunca ouvi esse nome antes.

Bem, esse nome vem com uma história — Chernovsky respirou fundo.

O homem que estava vigiando Lourds e seu grupo colocou o telefo­ne no bolso e acendeu um cigarro. Natashya notou que a tensão em seu estômago se reduzia um pouco. Quem quer que ele estivesse esperando, ainda não chegara.

Ela continuou vigiando o homem enquanto falava rapidamente ao telefone com Chernovsky:

Eu sei que você quer me manter por perto por mais tempo que puder, Ivan. Eu faria a mesma coisa se estivesse em seu lugar. O problema é que estamos expostos. E eu acho que os homens que estão nos perse­guindo estão se aproximando mesmo enquanto falamos. Então talvez você pudesse me dizer o mais rápido possível o que descobriu.

Chernovsky hesitou. Natashya suspeitou que eles pudessem até mesmo estar ouvindo essa ligação.

Patrizio Gallardo é um homem muito mau, Natashya — disse Chernovsky. — Ele é um ladrão e um assassino. Não é um homem em quem se possa confiar.

Ele trabalha por conta própria ou para outra pessoa?

As duas coisas. Trabalha por empreitada. Ele é especialista em aquisições ilegais de antigüidades.

E para quem ele trabalha, conseguiu descobrir?

Ainda não descobri se ele deve lealdade a alguém, mas vou conti­nuar investigando.

Faça isso, por favor — disse Natashya. — Entrarei em contato novamente assim que puder.

E de onde devo esperar que me telefone da próxima vez?

Eu informarei, mas vamos viajar muito. Obrigada, Ivan.

Se cuida, garota. Espero ver você de volta em breve.

Natashya desligou o telefone e dirigiu-se ao outro lado da rua. Era hora de fazer algo sobre aquele observador.

 

Patrizio Gallardo caminhou pelo porto enquanto fechava o telefone celular e o colocava no bolso. Ele apressou o passo quando localizou o cargueiro, Carolina Moon, ancorado nas docas a cerca de trezentos metros dali.

Segundo o relatório do seu informante, Lourds e seu grupo estavam por perto.

Quatro de seus homens caminhavam ao lado dele. Todos portavam armas escondidas debaixo de seus casacos.

Um carro da polícia entrou na rua atrás de Gallardo. Dois policiais fardados se sentavam na frente. Um homem à paisana vinha sentado na parte de trás.

O radar pessoal de Gallardo para policiais tocou de imediato. Instin­tivamente, ele se virou em direção a uma rua lateral. Eles haviam dei­xado uma enorme confusão em Moscou e ele se perguntou se aquele caos estava voltando para assombrá-lo.

Freios guincharam na rua. Um motor mudou de marcha.

O carro da polícia está vindo atrás de nós — disse um dos homens.

Dispersem e me cubram se eles me apanharem — ordenou Gallardo enquanto continuava a caminhar, mas prestando atenção quando os pneus do carro que se aproximava triturava o cascalho solto na rua.

Uma voz o chamou em russo, mas ele ignorou. Muitos dos marinheiros que vinham até esse porto não falavam russo.

Senhor — um homem gritou em inglês desta vez.

Gallardo continuou sem se deter. Alguns marinheiros não falam inglês, tampouco.

As portas do carro se abriram e ele ouviu passos correndo atrás dele.

Calmamente, Gallardo esticou a mão pela abertura do bolso do casaco e apertou a pistola de nove milímetros que levava no coldre na cintura. Se a polícia estava procurando por ele, eles não iriam apenas lhe fazer algumas perguntas.

Notou a mão pousando em seu ombro.

Senhor — chamou o policial.

Gallardo parou de repente e se virou. O movimento pegou o policial de surpresa. Gallardo colocou o cano da pistola contra o estômago do policial antes que o homem percebesse o que estava acontecendo. Colo­cando a mão esquerda por trás da cabeça do homem para que ele pudesse usá-lo como um escudo, Gallardo disparou três vezes em rápida sucessão. Ele teria disparado mais uma vez, pelo menos, mas o mecanismo da arma se prendeu entre as dobras do casaco.

Os secos estalidos da nove milímetros foram ouvidos por todo o beco.

O policial cambaleou e caiu contra Gallardo. Seu rosto jovem ficou branco com o choque.

O inspetor à paisana e o outro policial tentaram sair da viatura com as suas armas em punho. Mas DiBenedetto caminhou por trás do inspetor de polícia quase casualmente, colocou uma pistola na parte de trás da cabeça do homem e estourou os miolos.

Percebendo o perigo em que estava, o motorista tentou dar a volta. DiBenedetto baleou o policial no rosto duas vezes e chutou-o para o chão.

Quando Gallardo empurrou o homem morto para longe dele, o corpo caiu como um saco vazio. Um retângulo de plástico na manga esquerda do homem chamou a atenção de Gallardo. Ele ajoelhou-se para olhar mais atentamente.

O retângulo continha uma fotografia dele. Foi o mesmo tipo de estra­tagema que tinha usado para localizar a tal professora russa.

Patrizio — chamou DiBenedetto. Ele ergueu o braço do inspetor à paisana. O sangue cobria boa parte dele, mas o retângulo de plástico era visível.

Eles sabiam quem ele era.

Dar-se conta daquele fato de forma tão fria revolveu o estômago de Gallardo. Não sabia como a polícia o havia identificado. Ele tinha sido cuidadoso na maior parte de sua vida, mas a polícia o havia encarcerado por uma ou duas vezes.

Ele largou o braço do morto e se levantou. Abriu seu casaco e libertou a pistola. Trabalhando rapidamente, retirou o carregador vazio e substituiu os cartuchos usados.

Temos que sair daqui — disse DiBenedetto. — Os disparos vão atrair mais policiais, e eles já estão procurando por você.

Gallardo assentiu e deixou escapar um suspiro:

Eu sei. Vamos ver se antes conseguimos encontrar o professor.

 

Onde está Natashya? — perguntou Leslie.

Voltando sua atenção dos grandes navios fora do porto, Lourds olhou para a pequena loja onde Natashya estava poucos momentos atrás. Não se encontrava mais lá.

A garota estava telefonando — disse Gary. Ele estava filmando o porto.

Bem, ela já foi para outro lugar. — Leslie olhou para o relógio. — Quando é que vamos nos encontrar com o capitão do navio?

Às dez e meia — respondeu. Ele parecia calmo e confiante.

A preocupação tomou conta dos pensamentos de Lourds. Se Natashya tivesse conseguido uma pista dos assassinos de sua irmã, ela iria contar a eles? Ou simplesmente entraria em ação e os deixaria de lado? Ele tinha certeza de que ela agiria de forma independente. Natashya, obviamente, não se preocupava com a história envolvida naqueles incidentes.

Lá está ela — disse Gary.

E apontou para um prédio do outro lado da rua.

Lourds olhou e viu Natashya conversando com um homem de meia-idade que parecia bastante pobre. Lourds adivinhou que o homem provavelmente era um estivador, mas não entendeu o motivo de ele estar vadiando quando havia tanto trabalho a ser feito.

O homem deu um cigarro a Natashya. Ela inclinou-se em direção à chama do isqueiro que estava nas mãos em concha do sujeito. Sem aviso, ela deu um golpe na garganta dele que o fez cair de joelhos. Um chute de lado atirou o sujeito ao chão, inconsciente.

Caraça! — exclamou Leslie. — Por que diabos ela fez isso?

Lourds correu para Natashya enquanto ela se agachava e começava a revistar os bolsos do homem.

O que você está fazendo? — perguntou ele.

Natashya tirou um celular do bolso do homem e jogou-o para Lourds.

Ele estava vigiando você.

As implicações daquela notícia fizeram Lourds cambalear. Havia tantas coisas sobre o estilo de vida de um fugitivo que ele não conhecia. E tinha muito pouco tempo para aprender.

Ele olhou em volta para a rua. Vários pedestres atravessaram a via para evitar a cena.

Você não poderia ter esperado para fazer sua emboscada numa área ainda mais pública? — perguntou Leslie.

Ele estava conversando com alguém ao telefone.

Natashya tirou uma carteira, empurrou-a em seu bolso do casaco, e depois encontrou um pacote de fotos no bolso da camisa. Quando ela abanou as fotos como se fosse um leque, as imagens de Lourds, Leslie e Natashya estavam lá.

Sem dúvida, esse cara estava procurando por vocês — disse Viktor, antes de fazer um gesto com as mãos. — Vamos, temos que sair daqui.

Natashya abandonou o homem inconsciente no chão:

Você o conhece? — perguntou ela.

Viktor balançou a cabeça, negando, e se enfiou em um beco.

Antes que Lourds desse um passo, disparos soaram a curta distância dali. Pouco tempo depois, as sirenes da polícia a todo volume encheram o ar. Mas, então, Lourds e os outros estavam se afastando dali rapida­mente através do estaleiro.

 

O Winding Star vinha da América do Sul. Assim como diversos outros navios piratas, sabia Lourds. Os piratas modernos levavam bandeiras apenas por conveniência, principalmente as de países sem saída para o litoral, havia sido muito divertido saber quantos países sem saída para o mar amparavam verdadeiras flotilhas ao redor do mundo.

A única coisa que o proprietário ou a empresa deveria fazer para que o navio fosse reconhecido oficialmente como sendo daquele país seria pagar uma taxa. E, graças a isso, passavam a gozar de proteção, privilégios e direitos internacionais. Eles não podiam ser abordados pela polícia de qualquer outra nacionalidade, sem justa causa, sem correr o risco de um incidente internacional.

Viktor os apresentou rapidamente ao primeiro oficial, um sujeito de cara chupada chamado Yakov Oistrakh. Ele estava na casa dos quarenta anos e tinha cicatrizes que demonstravam a quantidade de tempo que já passara no mar.

Bem-vindos a bordo — saudou Oistrakh enquanto fazia o enve­lope gordo que Viktor lhe deu desaparecer debaixo de seu casaco.

Acho que devemos sair do convés depressa, é possível que haja alguns problemas — advertiu Lourds.

Você se refere aos disparos? — perguntou Oistrakh levantando uma sobrancelha.

Alguns homens estão atrás de nós...

Mas é claro — disse o primeiro imediato. — E por isso que você está vindo conosco, nyet?

É — respondeu Natashya, dando um empurrão em Lourds para que ele continuasse andando.

Não há com que se preocupar, senhor Lourds — disse Oistrakh. — Nós temos todo o direito de defender o nosso navio e todos aqueles a bordo dele. Uma vez em nosso deque, você está efetivamente em outro país. Eles terão que ter a documentação necessária para levá-lo. O capitão e eu fomos informados de que os homens perseguindo você não têm esse papel.

Isso mesmo — disse Natashya.

Lourds agarrou as cordas que haviam dos dois lados da prancha de embarque e subiu a empinada plataforma olhando por sobre os ombros várias vezes.

Mais abaixo nas docas, vários carros da polícia convergiram para um beco entre armazéns. A ação atraiu um grande grupo de espectadores.

Alguns momentos depois, sem fôlego por causa da subida longa e íngreme, Lourds estava na popa e olhando para as docas. A rádio nas mãos de um tripulante estalou apenas a alguns metros de distância. Vozes russas conversaram rapidamente e Lourds pegou o suficiente da conversa para perceber que o marinheiro captava a freqüência da polícia.

Você sabe o que está acontecendo? — Lourds perguntou em russo ao homem.

O tripulante, atarracado e grisalho, encolheu os ombros:

Alguns policiais foram baleados.

Professor Lourds — disse Oistrakh —, se você não se importa que eu diga, acho que você e seus amigos estarão melhor na cozinha. Aqui vocês estão numa área muito aberta.

Ele está certo — disse Natashya. — Se Gallardo quiser, ele pode pôr fim à sua perseguição do tal sino com um franco-atirador em um telhado.

Quem é esse Gallardo? — perguntou Leslie.

O homem que vem nos perseguindo desde Moscou — respondeu Natashya.

Como...

Oistrakh empurrou-os como se fossem crianças:

Chega de conversa. Vocês podem continuar essa conversa lá em­baixo na cozinha.

Lourds seguiu em frente com relutância.

 

Gallardo se movia quase como em uma corrida, com DiBenedetto ao seu lado. Os outros homens os seguiam a apenas poucos passos atrás. Gallardo amaldiçoou as circunstâncias que o levaram a isso. Ele fora exposto. A polícia sabia quem ele era.

Felizmente, ao longo dos anos Gallardo havia feito negócios com os comerciantes do mercado negro que atuavam em Odessa. Havia lugares em que ele poderia se esconder. Estava se encaminhando para um deles agora.

O bar era um dos vários que atendiam às necessidades das tripulações dos navios. Sinais de néon podiam ser vistos pendurados nas janelas.

Gallardo subiu o pequeno lance de escadas e atravessou a porta, para o interior escuro e cheio de fumaça de cigarros. Apenas alguns poucos clientes estavam no balcão do bar e nas cabines reservadas. As televisões com canais esportivos pairavam sobre o balcão e nos cantos do salão.

Mikhail Richter estava em seu lugar habitual do bar. Ele era gordo e com a cabeça raspada, mas usava uma barba espessa. Mostrava um charuto malcheiroso preso entre os dentes. Um avental estava pendurado na cin­tura. Duas mulheres bonitas trabalhavam no bar sob seu olhar atento.

Ah, Patrizio — Mikhail cumprimentou o recém-chegado. — Como tem passado?

Ocupado — respondeu Gallardo. — Eu não tenho tempo para conversar. Preciso usar a porta dos fundos.

Mikhail fez um sinal com a cabeça para um dos homens sentados perto da porta. O homem se levantou e saiu.

Um momento — disse Mikhail a Gallardo. — Se não tiver nin­guém vindo, deixarei você sair.

Se não tiver ninguém me perseguindo, eu não preciso que você me faça sumir. Gallardo soltou um suspiro irritado. Mas aproximou-se do balcão e aceitou um copo de cerveja que uma das mulheres lhe ofereceu, seguindo as instruções de Mikhail.

O homem que o dono do bar enviara para fora apareceu de novo. Ele lançou um olhar a Mikhail e balançou a cabeça em negativa.

Você está com sorte, Patrizio. Venha por aqui — disse Mikhail fa­zendo um gesto para que eles o seguissem atrás do bar.

Gallardo e seus homens seguiram o grandalhão calvo até o armazém dos fundos e desceram as escadas até o porão. Mikhail acendeu a lâmpada nua que pendia do teto. A luz amarela pálida inundou o lugar.

Indo até o outro lado do aposento, Mikhail rolou uma pilha de barris de cerveja para fora do caminho. Depois, empurrou uma seção da parede, e uma laje a seus pés deslizou para o lado a fim de revelar degraus escul­pidos na rocha de uma escada que descia em espiral.

Grande parte das fundações em Odessa eram de pedra calcária e, por isso, muito fáceis de escavar. Tirando vantagem das rochas do lugar, muita gente tinha extraído pedras para utilização em edifícios e residências em toda a área. Mais tarde, quando surgiu a necessidade, e o contrabando se tornou a profissão mais bem remunerada da província, diversos túneis foram construídos para conectar essas galerias e para armazenar e ocultar a mercadoria.

Tome — disse Mikhail, tirando uma lamparina da despensa.

Gallardo acendeu a mecha com o isqueiro e tapou o pavio com o vidro para proteger do vento. Quando a chama estava devidamente ajustada e queimava bem, ele desceu para as entranhas da terra.

Lourds e seus companheiros haviam escapado dele por um momento, mas ele ainda tinha seus meios para localizá-los. No entanto, ia passar um longo tempo antes que pudesses voltar a fazer negócios na Rússia.

Felizmente, Lourds não permaneceria na área. Isso seria um problema.

 

                 PORTO DE VENEZA

                 VENEZA, ITÁLIA

                 28 DE AGOSTO DE 2009

Lourds sentou-se no barco que os transportava do Winding Star e observou a cidade. O cheiro da água semi-estagnada tirou um pouco do fascínio, mas não havia nada mais grandioso do que Veneza em sua mente. A luz das últimas horas da manhã se refletia a leste, em púrpura e ouro, ao mesmo tempo em que os turistas enchiam as ruas e os canais.

Você está sonindo — disse Leslie a ele, sentada a seu lado no banco. De vez em quando os golpes das ondas a rolar faziam com que seus corpos se tocassem de uma maneira muito agradável e tentadora.

Estou? — a resposta de Lourds foi uma pergunta.

Ele tocou seu rosto como que para comprovar a afirmação, mas ele estava sorrindo, é claro.

Deve ser a companhia... — disse Lourds, sorrindo.

Leslie sorriu de volta para ele:

Eu ficaria lisonjeada se fosse o caso, mas seria uma tola em pensar assim.

É esta cidade — respondeu Lourds com toda a honestidade. — Algu­mas das maiores mentes do mundo viveram aqui. Eles escreveram livros, peças de teatro e poemas que continuam sendo estudados até hoje. Famílias da realeza, casas comerciais e impérios nasceram e morreram aqui.

Lourds calou-se antes que começasse a discursar, como numa palestra.

Você já esteve em algum lugar que não lhe tenha deixado maravilhado?

O professor negou com a cabeça:

Nunca. Ao menos nos lugares que tenham história. Estive em al­guns lugares sobre os quais sabia muito pouco, mas ao conhecer a língua das pessoas que lá habitavam pude descobrir histórias e sonhos com os quais fiquei maravilhado. As sociedades e as culturas são únicas e extraor­dinárias, mas ficam ainda melhores quando se justapõem, quando se chocam ou quando competem.

Mas você se refere às guerras? — replicou Leslie. — Isso não me parece uma coisa muito agradável.

A guerra não é uma coisa boa — respondeu Lourds. — Mas faz parte do processo de civilização do mundo. E se não houvesse as guerras, as pessoas não teriam oportunidade de aprender nada com os outros povos. Não haveria intercâmbio de idéias, paixão e idiomas. Todo mundo conhece o impacto que as Cruzadas tiveram na civilização daqueles tempos, na questão dos alimentos, da matemática e da ciência. Mas poucos se dão conta de que os chineses, marinheiros e exploradores, com seus enormes juncos à vela, alguns deles com quase duzentos ou duzentos e cinqüenta metros de comprimento, interagiram com um grande número de culturas diferentes durante o seu apogeu.

Mas — perguntou Leslie — essa justaposição não acabaria des­truindo as línguas, adulterando-as de forma que perdessem a sua pureza?

Possivelmente, mas as raízes da língua original estariam lá, e as sobreposições das linguagens permitem um melhor estudo de ambas. Suas semelhanças, suas diferenças. A justaposição consegue aumentar a com­preensão que um lingüista pode ter delas.

Bem, vou acreditar no que você diz — Leslie parecia um tanto sombria. — Mudando um pouco de assunto, hoje de manhã conversei com meu produtor. Ele nos concedeu um pouco mais de tempo para que possamos prosseguir com esta história, mas já começou a me pressionar para que lhe mostre alguma coisa.

Lourds pensou por um momento. E perguntou:

Você contou a ele sobre o címbalo?

Você me pediu que não fizesse isso.

Mas talvez agora fosse o momento...

E que estamos a caminho do Instituto Max Planck — continuou Leslie — para saber mais sobre o tráfico de escravos?

Sim — respondeu o professor. — Mas ele tem de permanecer em silêncio sobre isso por ora.

Tudo bem — Leslie olhou para a cidade. — Quanto tempo vamos ficar aqui?

Sairemos para Leipzig em seguida. Halle fica a menos de uma hora de carro de Leipzig, mas reservar um quarto por lá é um pouco mais proble­mático. Josef também me disse que numa cidade tão pequena quanto Halle seria muito mais fácil de nos encontrar. Ele já preparou tudo para nós.

Devemos ter um carro alugado esperando por nós no continente.

 

Professor Lourds?

Lourds estudou a mulher de meia-idade sentada a uma mesa no café ao ar livre, com um sorvete em forma de flor e adornado com um biscoito bem à sua frente.

Eu reconheci você pela foto que Josef enviou.

A mulher abriu uma pasta pousada na mesa e lhe mostrou a fotografia que Danilovic havia tirado na noite passada.

Na foto, Lourds estava segurando uma taça de conhaque e um charuto. Ele não parecia um fugitivo, nem na foto nem pessoalmente, mas seu sangue congelou ao ouvir a mulher pronunciar seu nome.

Bem parecido com a foto — disse a mulher. — Você é um homem bonito.

Obrigado — agradeceu ele, ainda meio desequilibrado pelo tempo passado no mar.

Leslie deslizou suavemente ao seu lado e pegou o braço dele.

A mulher olhou para Lourds e, em seguida, para Leslie. Ela sorriu novamente, mas desta vez não era um sorriso tão amistoso:

Bem, Josef me pediu que lhe entregasse este pacote.

Lourds pegou o envelope pardo.

Dentro do envelope você vai encontrar as chaves do carro alu­gado e as instruções de como encontrá-lo — a mulher se levantou e levou o sorvete com ela. — Eu espero que você tenha uma viagem segura e produtiva.

Obrigado — disse Lourds.

E se alguma vez voltar a Veneza e não tiver que bancar a babá, me ligue — a mulher deu a Lourds um cartão de visitas.

Ela se virou e afastou-se de uma maneira tão graciosa que Lourds e Gary não conseguiram tirar os olhos de cima.

Lourds cheirou o cartão. Seu perfume era de lírios.

Leslie o arrancou das mãos.

Confie em mim, você não vai precisar disso.

Ela depositou o cartão na primeira lixeira que encontrou e guiou o professor pelo café até a rua.

Lourds não se importou. Ele tinha memória fotográfica para números de telefones. Até mesmo os internacionais.

 

               LEIPZIG, ALEMANHA

                 28 DE AGOSTO DE 2009

Embora nunca tivesse dirigido por uma das autoestradas alemãs antes, Natashya se mostrou bastante qualificada. Lourds não estava muito surpreso com essa habilidade porque ele tinha visto como ela guiava, lá em Moscou. Gary e Leslie iam no banco traseiro do carro alugado e xingavam e gritavam quando a policial serpenteava entre aquele tráfego rápido e frenético.

O Radisson SAS Hotel Leipzig estava localizado no centro da cidade, em Augustusplatz. Eles deixaram o veículo na garagem e entraram no vestíbulo.

Vou confirmar as nossas reservas, por que vocês não procuram alguma coisa para a gente comer? — sugeriu Leslie.

Eles tinham viajado pelas últimas horas e só parado para reabastecer o cano. Lourds estava com fome, mas como já era bastante tarde, passava das onze da noite, duvidou muito que eles encontrassem um restaurante aberto que pudesse atendê-los. Seus temores foram confirmados quando a funcionária da recepção começou a falar:

Infelizmente, nosso restaurante Orangerie já está fechado, senhor — disse a jovem sorrindo, como que para se desculpar. — Mas o bar do salão e o do vestíbulo estão abertos, apesar de eles terem um cardápio limitado.

Obrigado — disse Lourds. As coisas estavam melhorando. Pelo menos, eles não iriam morrer de fome.

A jovem recepcionista sorriu para ele de novo:

Por favor, pode me procurar se precisar de mais alguma coisa, senhor. Qualquer coisa.

Seus olhos brilhavam com as possibilidades.

Você sempre consegue tudo com as mulheres, companheiro? — perguntou Gary em voz baixa enquanto se afastavam da recepção. — Por que se for, eu não entendo você.

Não — respondeu Lourds, sem lhe dar mais explicações.

 

Mais tarde, depois de terem consumido aperitivos, entradas e sobre­mesas, Lourds sentou-se em um dos grandes sofás e deu uma espiada nas televisões. Apenas algumas pessoas estavam no salão.

A conversa era leve e, sobretudo, cansada, mas girava em torno da próxima reunião com o professor Joachim Fleinhardt no Instituto Max Planck. Lourds havia entrado em contato com ele no caminho e marcado uma reunião para a manhã do dia seguinte.

Bem... — anunciou Leslie — acho que já desfrutei de toda a diversão que sou capaz de suportar em um dia. Vou para a cama. Parece que amanhã será um dia muito especial para nós.

Possivelmente — disse Lourds. — Isso é uma pesquisa, e você nunca consegue prever o que vai descobrir em uma.

Leslie deu um tapinha no ombro dele:

Eu tenho fé em você. A professora Hapaev acreditava ter uma resposta quanto às origens do címbalo e confiou totalmente que você seria capaz de encontrá-la. Acho que estamos em boas mãos.

Lourds agradeceu pelo elogio, mas ele sabia por experiência própria que, caso fossem criadas expectativas, as universidades e a imprensa ten­diam a ficar desapontadas quando alguém não lhes mostrava algo incrível.

Também vou para a cama — anunciou Gary.

Você vai dormir? — perguntou Lourds, sem disfarçar a surpresa.

De todos eles Gary parecia dormir o mínimo possível.

Eles têm TV a cabo — Gary respondeu com um sorriso. — Isso significa que temos tanto Adult Swim no Cartoon Network quanto pornografia. Qualquer das opções estará bem para mim.

Lourds virou-se para Natashya:

E você?

— E eu o quê? — Natashya perguntou.

Ela estava sentada diante dele. Mesmo que parecesse relaxada, Lourds estava ciente de que ela estava constantemente alerta. Contro­lava tudo e a todos que se moviam no vestíbulo.

Cansada demais para uma bebida? Eu pago.

Tentando ser amável, professor Lourds?

Lourds deu de ombros:

Acho que o pensamento de você ir a seu quarto e ficar ali sentada olhando para as paredes me preocupa um pouco. Você não chegou a dormir no carro.

Dormir é uma coisa desnecessária quando você está sendo caçado — disse ela. — Eu me sinto mais segura quando estamos em movimento.

A idéia de estar sendo caçado foi desconcertante para Lourds, e ele deve ter mostrado em seu rosto.

Você tem os olhos tão firmemente concentrados sobre o prêmio que está se esquecendo de que os outros estão fazendo o mesmo — con­tinuou ela. — Acontece que o prêmio deles somos nós. Nós somos uma ameaça para o que eles estão fazendo.

E eles não podem fazer isso sem nós?

Natashya balançou a cabeça.

Aparentemente, não. Caso contrário, não teriam enviado Gallardo atrás de nós.

Mas como eles nos encontraram em Odessa?

Um sorriso melancólico se desenhou na boca de Natashya.

Essa é a grande pergunta, não é? Como você acha que Gallardo nos encontrou?

Se fosse um filme de espionagem — respondeu o professor —, um de nós estaria carregando um dispositivo de rastreamento. Mas não ti­vemos contato suficiente com Gallardo ou seus cúmplices para que uma coisa dessas tivesse acontecido.

Concordo.

A presença dele em Odessa não era coincidência.

Se tivesse pensado em algo assim — retrucou a policial — nem que fosse por um segundo, eu iria passar a considerar você perigosamente ignorante. Mas para um professor universitário, suas habilidades de sobre­vivência são impressionantes.

Mas não o suficiente para me impedir de ser morto.

Provavelmente não.

Lourds estremeceu, antes de comentar:

Isso foi brutalmente honesto.

Você viverá mais tempo se estiver ciente disso -— replicou ela.

Bem... Isso nos deixa apenas uma possibilidade, mas eu me recuso a aceitá-la.

Então você é mais tolo do que eu esperava. — A decepção mos­trou-se no belo rosto de Natashya.

Você está insinuando que alguém... Leslie, Gary, ou Josef, nos traiu.

Gallardo e seus homens quase nos pegaram — apontou Natashya. — Isso foi mais do que simplesmente alguém contar que estávamos em Illichivsk.

Lourds silenciosamente admitiu o argumento:

Tem que haver outra resposta.

E existe... Eu poderia ter nos entregado.

Isso surpreendeu Lourds.

Natashya olhou para ele e balançou a cabeça. Ela parecia triste e divertida:

Esse pensamento nunca passou pela sua cabeça?

Não — respondeu ele, com sinceridade.

Por quê?

Você é irmã de Yuliya. Você não faria isso.

Você é um homem do mundo, professor Lourds. Mas sabe do que minha irmã mais gostava em você?

Lourds encolheu os ombros, negando.

A sua ingenuidade. — continuou a jovem. — Ela sempre defendeu que você era um dos homens mais inocentes que ela já conhecera. — Natashya levantou-se. — Vamos ter que madrugar, por isso aconselho que vá descansar um pouco. Boa-noite.

Boa-noite.

Lourds ficou observando a maneira como ela se afastava. Tinha uma forma maravilhosa de andar e uma bela figura para ostentar. Ele se fixou em ambas as coisas de um modo que não lhe pareceu nada inocente.

 

         INSTITUTO MAX PIANCK DE ANTROPOLOGIA SOCIAL

         HALLER AN DER SAALE, ALEMANHA

         29 DE AGOSTO DE 2009

Você conhece o trabalho que está sendo feito pelo Instituto de Antropologia Social, professor Lourds? — perguntou Joachim.

Joachim Fleinhardt parecia ser uma pessoa muito interessante. Pela conversa telefônica, breve e conci­sa, Lourds esperava que fosse um sujeito destrambelhado e corpulento que talvez passasse horas e horas no seu laboratório.

Na verdade, era um homem que deveria medir um pouco mais de 1,80 m e um surpreendente exemplo de energia híbrida. Ele confessou aos visitantes que seu pai alemão havia se casado com uma pilota militar negra dos Estados Unidos. Os genes daquela mescla eram evi­dentemente superiores. O posto de Fleinhardt no insti­tuto e sua reputação indicavam que era uma pessoa bri­lhante. Sua pele mostrava uma bonita mistura de cores, escura e suave, e era esbelto e bem-apessoado. Movia-se como um atleta profissional. Só isso já era intimidante.


Também estava vestido de maneira impecável, o que fez com que Lourds se sentisse estranho com jeans e a camisa solta desabo toada sobre uma camiseta de futebol. Ia vestido de acordo com algo mais costumeiro, mas não para um ambiente com pessoas envolvidas em pesquisa científica.

Tenho que admitir que não conheço como gostaria — disse Lourds.

Fleinhardt avançava pelos impecavelmente limpos corredores do insti­tuto com autoridade, e as pessoas abriam espaço à sua passagem.

Meu grupo trabalha em integração e conflito — ele lhes explicou.

No estudo de guerras tribais? — perguntou Lourds.

E do trato escravo. Eu receio que não haja um sem o outro. Quando os europeus chegaram à África, sobretudo à África do Norte, e introdu­ziram novos mercados que os iorubá e o resto das tribos não conheciam, mudaram por completo as suas vidas — respondeu Joachim.

Normalmente é o que o comércio faz, seja por bem ou por mal, mas é isso que acontece — observou Lourds.

Investigamos e documentamos a integração e os conflitos porque acreditamos que esses elementos desenham e designam melhor a identi­dade e a diferença entre as culturas — disse Joachim.

Devido à visão deles de parentesco, amizade, língua e história — concluiu Lourds.

Exatamente — um sorriso de encanto se estampou no rosto de Fleinhard. — A necessidade das culturas de agregarem rituais e crenças nos dão muitas chaves para saber quem eram eles e com quem entraram em contato.

E não apenas isso, como também ajuda a estabelecer uma linha do tempo — acrescentou Lourds.

Você me deixa impressionado, está bem atualizado. Hoje em dia há muita gente que não está a favor da formação ou das atividades multidisciplinares — assegurou Fleinhardt, assentindo.

De fato, o projeto me interessou. Além disso, os lingüistas, arqueó­logos e antropólogos costumam beber das mesmas fontes. Na atualidade, torna-se muito difícil estar a par de tudo que está relacionado com a ciência, mas tento complementar as minhas informações tanto quanto eu possa.

Sim — com certo pesar, Fleinhardt franziu a testa. — Temo que nós estejamos perdendo o conhecimento básico. A linguagem básica que os cientistas utilizam para comunicar-se. Mas as línguas são sua es­pecialidade, correto?

Sim. O problema do conhecimento básico é um que toda civiliza­ção em expansão enfrenta, cedo ou tarde. Inclusive, mesmo há dois ou três mil anos a tecnologia avançava com muito mais rapidez e sem levar em conta que as pessoas pudessem ou não se acostumar a ela. O nasci­mento das bibliotecas, lugares nos quais se podia conservar e compartilhar o conhecimento ajudou de certa forma, mas, até aparecer Gutemberg e sua prensa primitiva, compartilhar e distribuir conhecimento continuava sendo um problema — disse Lourds.

E continua sendo um problema ainda hoje. Se não fosse por este trabalho e pela verba que foi designada para ele, não poderia me permitir a posse da maioria dos manuais técnicos e dos livros de referência que tenho em mãos — disse Joachim Fleinhardt.

Eu o compreendo. Nem sequer a internet, com todas as possibi­lidades de pirataria em muitos portais, pode com isso. Minha verba nunca cobre tudo o que eu quero ler. Todos os anos, eu acabo gastando do meu próprio bolso — disse Lourds.

Essa é a queixa de todos os pesquisadores que levam a sério o seu trabalho — comentou Fleinhardt rindo.

 

A sala em que se encontravam os objetos e a documentação sobre os iorubás era menor do que Lourds esperava. Sua expressão no rosto deve ter demonstrado certa decepção.

Não está tudo aqui — explicou Fleinhardt enquanto ligava um computador. — Apesar de o instituto ser bem grande, não temos espaço para tudo o que queremos. Muitos dos documentos que recuperamos ou copiamos foram passados para imagens digitais. Nossa base de dados é bastante completa.

Lourds deixou a mochila no chão e se sentou onde lhe indicou Fleinhardt.

Eu tomei a liberdade de proteger os arquivos pelos quais a pro­fessora Hapaev perguntou. É isso que vocês querem averiguar? — per­guntou Joachim ao mesmo tempo em que teclava alguns comandos.

Para começar sim. Não sei aonde me levará esta busca — disse Lourds.

— Bem, se a pesquisa que está fazendo serve de ajuda para o programa de televisão, espero que não caia mal mencionar nosso trabalho. O insti­tuto sempre vê com bons olhos os donativos de que tanto precisamos — disse Joachim.

Ele assegurou que não esqueceria, mas sua mente já estava à espreita da informação. Avançou mentalmente até os iorubás e conheceu seu país, sua história e seu povo e ficou completamente fascinado.

 

                 TRASTEVERE, ROMA, ITÁLIA

                 29 DE AGOSTO DE 2009

- Seja bem-vindo, padre. Entre, por favor. Murani desconsiderou o descuido do outro e deixou de lado a falta de cuidado, apesar de ser muito mais que um simples sacerdote. Sabia que sua interlocutora não havia tentado desmerecer sua posição. Ultimamente essa mulher já não recordava muitas coisas nem as tinha com clareza.

Obrigado, irmã — disse ele, deixando que a anciã se ocupasse do seu casaco. Aquele dia estava vestido de preto, com um rosário pendu­rado no pescoço.

Os demais estão na parte de trás, padre — afirmou a mulher, enquanto ajeitava o casaco em um mancebo.

Murani percorreu a espaçosa e elegante casa. Nem todos os membros da Sociedade de Quirino haviam permanecido na Igreja. A sociedade necessitava de autonomia e não existia somente sob o atento olhar do rapado. Além do mais, nem todos os seus membros eram sacerdotes. Às vezes, o dinheiro tinha que vir de algum outro lugar. Tinham feito negócios com os crentes.

Já caminhando pelos estreitos corredores cheios de pinturas e esculturas que descreviam grande parte da história de Roma e da Igreja, Murani encontrou Lorenzo Occhetto recebendo em audiência em um amplo escritório. A porta dupla estava aberta.

Occhetto era um homem de tez enrugada e tinha a cabeça calva cheia de manchas de velhice. Parecia um cadáver animado, mas de seus amarelentos olhos não escapava nada. Em seus melhores dias, tinha mostrado um dinamismo incrível dentro da Igreja e lutara contra todas as perdas de poder e prestígio que tinha sofrido a casa Santa. Havia expressado em voz alta sua opinião em todos esses assuntos e acusado os papas anteriores de não os ter evitado.

Além do anfitrião, havia outros três homens naquela sala. Todos escutavam Occhetto. Uma ampla tela embutida na parede mostrava imagens em tempo real das escavações de Cádiz. Não seria possível ao recém-chegado ter alguma dúvida sobre o assunto da conversa.

Ah, cardeal Murani, que prazer em vê-lo — sua voz era áspera, mas carregada de autoridade. — Estou feliz que tenha podido vir — disse Occhetto.

Um comentário supostamente cortês, mas ambos sabiam que não havia remédio. Quando Occhetto chamava alguém, esse alguém tinha que se apresentar.

Ele lhe estendeu a mão.

Não há porque conversar aqui. Gostaria de dar uma volta com você enquanto ainda posso fazer isso — propôs Occhetto, levantando-se lentamente.

 

Temos compartilhado muitos segredos ao longo dos anos — co­mentou Occhetto enquanto entrava no elevador privado que conduzia ao porão e que estava escondido atrás de uma parede e um relógio de pé, que se abria para dentro quando se soltavam uns trincos.

Murani entrou no elevador e fechou as portas. Occhetto apertou um botão, e a luz esmaeceu. Depois de alguns instantes, o elevador deu uma leve sacudida antes de iniciar a descida.

Mas não lhe mostramos todos os segredos — disse Occhetto.

Aquilo encolerizou Murani. Quando aceitaram seu ingresso na Sociedade de Quirino, ele acreditou que contariam tudo.

Por que me ocultaram informações? — Murani sabia que o tom de exigência de sua voz poderia lhe causar problemas, mas formulou a pergunta antes de poder se conter.

Occhetto não deu importância.

Nós lhe dissemos tudo, Stefano, mas não lhe mostramos tudo.

"E o que isso quer dizer?", pensou Murani.

O elevador se deteve. Murani abriu as portas e ambos entraram em uma espaçosa sala escavada em pedra e situada abaixo da cidade.

Os quartos do porão da casa de Occhetto haviam sido utilizados para o contrabando. Sua família era muito religiosa e aquilo normalmente já havia sido perdoado. Naturalmente, seus ganhos ilícitos eram adequadamente redirecionados a dízimos para que suas almas continuassem protegidas.

O que eu vou lhe mostrar é uma joia da minha coleção — disse Occhetto enquanto cruzava aquele cavernoso espaço e parava em frente a uma porta. Havia várias outras portas. — Só alguns poucos membros da Sociedade de Quirino sabem que eu possuo o que vou lhe mostrar agora. — O ancião tirou um chaveiro do bolso e enfiou a chave na fechadura. O mecanismo se abriu com um som débil e suave que indicava que era utilizado com freqüência.

Occhetto pegou uma vela de uma estante da parede e a acendeu com um fósforo. A chama oscilou por um momento e depois ardeu com força. Colocou-a dentro de uma lamparina.

A primeira coisa que chamou a atenção de Murani foi uma Virgem no interior de uma reentrância escavada na parede de frente. Tinha quase um metro de altura. Maria, Mãe de Deus, tinha os braços abertos, em uma postura de silenciosa súplica. Depois se fixou na longa mesa que havia no centro. A vela iluminava o suficiente apenas para se ter um vislumbre de estranhas formas de vidro.

Hipnotizado pela visão e tentando ter uma idéia da forma completa daquela presença que ainda não conseguia ver, avançou.

Espere — alertou Occhetto —, você irá precisar de mais uma vela.

Murani pegou uma vela e a acendeu na que havia na lamparina que Occhetto sustentava com suas mãos trêmulas.

Você está vendo o recipiente que está a seu lado? — perguntou Occhetto.

Murani olhou nessa direção.

No interior há um pavio. Acenda-o e dê uns passos para trás.

Na mesa, Murani inclinou a vela para acender o pavio que estava flutuando no óleo e que rodeava a estrutura de metal.

Enquanto olhava, a vela acendeu lentamente pela tubulação que percorria toda a estrutura. O vidro amplificava a luz conforme ia iluminando-se. Depois de alguns poucos minutos, uma cidade em miniatura surgiu das sombras.

A Atlântida!

 

Fascinado pela beleza que tinha diante de si, Murani avançou com cuidado. A cera derretida lhe caía na mão, mas ele quase não se dava conta.

Torres ameadas de cor verde pálido se erguiam entre o verde mais escuro e o âmbar das casas e dos edifícios de cristal que haviam na base da maquete. Umas lâmpadas amarelas iluminavam as estreitas ruas que sulcavam a cidade em círculos concêntricos. Aquela era a prova indiscutível de que era a Atlântida. Ali mais adiante, na continuação do cristal se formatava o mar circundante, mas este brilhava tenuamente de cor azul.

A cor provinha da tinta do vidro soprado. Todas as peças tinham sido fabricadas com extremo esmero.

Hesitante, Murani levantou a vela e a apagou. A suave luz da Atlân­tida continuava acesa.

Esta maquete foi feita segundo a ilustração da cidade — assegu­rou Murani. Aquela imagem havia povoado sua mente desde que a mos­traram a ele pela primeira vez.

Sim — afirmou Occhetto.

Quem a fez? — perguntou Murani.

Um sacerdote que não era muito fiel a seus votos. Chamava-se Sandro D'Alema. Era o terceiro filho, que foi oferecido por seu pai à Igreja. Teria se saído muito melhor se fosse artesão, pintor ou escultor, mas em seu diário explica que seu pai temia que passasse fome. Mas o jovem ausentava-se da igreja por semanas e até meses e estudava arte — disse Occhetto.

Como ele conseguiu fazer isto? Se não estava comprometido com a fé, é difícil que alguém lhe falasse dos textos secretos ou da Atlântida — disse Murani.

Um dos cardeais queria que o desenho fosse recriado, assim sendo chamou D'Alemã, mas ninguém lhe disse o que era.

Murani olhou a cidade.

O motivo pelo qual eu lhe mostrei isso é para recordá-lo da pode­rosa e linda cidade que era, e sem dúvida tão frágil no fim. O poder que foi utilizado ali... — disse Occhetto.

O fruto da árvore — murmurou Murani.

Sim, porém não a maçã que tantos pintores têm posto nas mãos de Eva quando tentou Adão. Era um livro. A verdadeira palavra de Deus. Tal e como foi escrita no Jardim do Éden — disse Occhetto.

A palavra era sagrada e incognoscível — repetiu Murani como uma ladainha, tal e como haviam lhe ensinado quando o aceitaram na Sociedade de Quirino —, mas eles tentaram usá-la de qualquer forma.

Era uma tentação. Tanto poder — disse Occhetto assinalando com uma mão fechada como uma garra. — Bem ali para que o pegassem.

Murani não disse nada, mas seus pensamentos se fixaram em tudo o que poderia fazer com semelhante poder ao seu alcance. Fez um esforço para afastar o olhar da cidade que ardia nas sombras.

Eu estou lhe contando isso para que se recorde de que as pessoas que viveram nessa cidade perderam o mundo, um mundo muito melhor do que jamais teremos. E que os poucos que sobreviveram tiveram que abrir seu próprio caminho através dos restos do que havia sido sua civilização para voltar a Deus. Nem todos eles fizeram isso. Nem todos nós o faremos — disse Occhetto.

Enquanto mantinha seu olhar fixo no idoso sacerdote, Murani pensou o quanto Occhetto sabia ou imaginava sobre o que o cardeal estava fazendo. O resto dos confrades não sabia nada sobre os instrumentos, só ele os havia descoberto. A verdade esteve diante deles, escrita nas páginas e desenhada nos quadros da Atlântida, mas ninguém havia visto.

Se não estivesse bem vigiante às escavações arqueológicas e procu­rando informação, ele tampouco a teria visto.

Occhetto se aproximou da cidade de vidro e se inclinou. Soprou sobre o pavio aceso e a chama diminuiu e se apagou.

Murani se fixou em quão astutamente o artista havia fabricado a cidade. Conforme iam se extinguindo as chamas, extraíam o ar da seguinte seção e criavam um vazio que as apagava. Depois de pouco tempo, o quarto voltou a ficar envolto em sombras.

Faça com que a lição também sirva para você. Não cobice o que não deve ser seu — aconselhou Occhetto.

Claro! — mentiu Murani.

O problema dos outros cardeais era que eles tinham medo de utili­zar o poder. Ele não. Era preciso utilizá-lo. Qualquer coisa que conse­guisse devolver a ordem ao mundo era justificável.

 

Menos de uma hora depois, Murani não conseguia afastar de sua mente a imagem da cidade iluminada por chamas. Desde que havia se inteirado da existência da Atlântida e de quão intimamente relacionada a cidade estava com a Igreja e com tudo em que acreditava, se sentia fasci­nado por ela. Saber da existência dos textos secretos e da palavra sagrada que continha naquele livro havia incrementado sua fascinação.

Sentou-se em um dos bancos da basílica de São Clemente, uma de suas igrejas favoritas, e rezou para Deus que lhe desse forças para ser paciente.

O banco se moveu levemente, como se alguém tivesse se sentado a seu lado.

Murani abriu os olhos, olhou para o lado direito e viu Gallardo. Era um homem pontual.

Não queria interromper — desculpou-se —, mas não queria ficar de pé esperando — disse Gallardo.

Não tem problema, está tudo bem — o cardeal lançou um último olhar para a igreja e se colocou em pé. — Vamos — disse Murani.

 

Lourds está na Alemanha — informou Gallardo enquanto cami­nhavam pela Via San Giovanni, cheia de compradores, vendedores, moradores e turistas.

Sabe para onde exatamente ele foi? — perguntou Murani, que caminhava com as mãos nas costas. Seu hábito de cardeal chamava a atenção, mas as pessoas desviavam o olhar quando seus olhos cruzavam com os dele.

Em Leipzig — respondeu Gallardo.

Não quero que ele se adiante muito em relação a você — disse Murani.

Isso não acontecerá. Enquanto ele estiver viajando com aquela mulher inglesa, não poderá ir muito longe. — Quando passaram ao lado de uma mãe que empurrava um carrinho de bebê, Gallardo se calou. — No entanto, não me parece uma má idéia dar alguma corda para ele.

Esse homem é perigoso — assegurou Murani, negando com a cabeça. — Se ele conseguir traduzir as gravações...

Você me disse que somente uma pessoa poderia traduzir aquilo... Você mesmo — disse Gallardo.

Isso não havia sido a verdade plena. Murani tinha conseguido decifrar parte das notas sobre o instrumento, mas não muito. Se não houvesse ilus­trações ele não teria entendido lá grandes coisas. Mas sabia que era a pessoa que mais se havia se aproximado de poder ler aquela antiga língua.

Lourds é competente e está bem preparado — disse Murani.

Continuaram em silêncio por algum tempo perambulando por uma praça a caminho do estacionamento onde estava o carro de Murani.

Lourds está procurando por algo específico — disse Gallardo.

Como você sabe? — perguntou Murani.

Porque eu sei o que procurar quando se trata de vigiar as pessoas — respondeu Gallardo. — Acredito que ele esteja procurando algo em especial. Por isso está em Leipzig. Senão ele teria voltado para sua casa depois que nos encontramos em Moscou.

O que há ali que possa interessá-lo? — perguntou Murani.

Ainda não sei. Se as coisas estiverem tranqüilas na Alemanha, irei para lá amanhã ou depois — respondeu Gallardo.

Mas pode ser que nesse período ele já tenha ido embora — retrucou Murani.

Caso ele faça isso, eu o encontrarei. Nesse meio tempo, quero contratar algumas pessoas para que entrem em sua casa em Boston — disse Gallardo.

Por quê? — perguntou Murani.

Para conhecê-lo um pouco melhor. Com certa freqüência, eu faço com que roubem algo na casa de alguns dos meus clientes para checar as coisas. Normalmente para saber se eles têm dinheiro suficiente para me pagar. Se não tiverem um bom sistema de alarme, normalmente não possuem tantos recursos assim. Mas não seria nada mal dar uma olhada na casa de Lourds para comprovar se o professor descarrega alguma infor­mação em casa quando está viajando — disse Gallardo.

Como assim, descarregar informação?

Claro! Um sujeito que está viajando com um computador pode muito bem baixar seus arquivos no disco rígido de casa. Ou em outro lugar que não seja ali. Se eu enviar alguém para invadir a casa dele e copiar tudo que existir no computador, vamos saber o que ele pode ter achado melhor man­dar para lá. Talvez possamos descobrir o que ele já sabe — disse Gallardo.

Murani não havia pensado nisso.

Parece uma boa idéia — falou Murani.

 

Murani voltou ao estacionamento onde tinha guardado o carro, acom­panhado por Gallardo. Devido à escuridão que reinava no local, ficou feliz por estar com ele.

E assim que souber algo que aconteceu ou esteja acontecendo em Leipzig ou no apartamento de Lourds, me informe — disse Murani.

Eu o manterei informado — disse Gallardo, já de frente para o carro.

No momento em que Murani ia entrar no carro, viu uma cara conhe­cida entre as sombras que ficavam longe do alcance das luzes de segurança do estacionamento. O terror lhe invadiu.

O papa havia ordenado que o espionassem.

Durante um tempo não conseguiu recordar quem era aquele homem. Achava que se chamava Antonio ou Luigi, um nome bem comum.

O que houve? — perguntou Gallardo.

Eu cometi um erro — respondeu em voz baixa. — Me seguiram ou me descobriram.

Tem alguém ali? — perguntou Gallardo.

Sim, do outro lado do prédio, contra a parede da parte de trás — respondeu Murani, temendo que Gallardo desse a volta e olhasse para trás, mas ele não o fez.

Alguém da Igreja sabe quem eu sou? — perguntou Gallardo.

Não sei. Mas se mais tarde ficarem sabendo o que aconteceu em Moscou, me farão um montão de perguntas difíceis — respondeu Murani.

Gallardo tomou a decisão instantaneamente e as feições do seu rosto se endureceram num piscar de olhos.

Verdade, mas isso não é nada conveniente para nós. Dê-me as chaves — disse Gallardo.

Murani sentiu seu coração dar um pulo. Mesmo que aquele noviço corresse para contar tudo ao papa e este não se preocupasse muito com a importância daquele encontro, a Sociedade de Quirino sim o faria. Eles protegiam seus segredos com grande zelo, e se achassem que os segredos corriam algum risco com o cardeal, lhe cortariam toda a informação. Murani não poderia permitir isso.

Deixou as chaves caírem na palma da mão de Gallardo.

Entre no carro no assento do passageiro — Gallardo lhe ordenou enquanto abria as portas eletronicamente.

Murani rodeou o carro e entrou.

Depois de ligar o automóvel, Gallardo enfiou a primeira marcha e procurou a arma que levava sob sua jaqueta. Quando a retirou, ele a colocou debaixo de sua perna.

O que vai fazer? — perguntou Murani.

Vou me encarregar de seu problema. — Assim que viu o jovem sacerdote fugindo, Gallardo apertou o acelerador.

O sacerdote corria, sem dúvida para salvar a vida. Seu hábito revoava à sua volta quando chegou à saída do estacionamento.

Gallardo passou como um furacão pela saída e fez chiar as rodas quando girou bruscamente à direita para perseguir a sua presa pela calçada.

O homem que eles seguiam estava aterrorizado e corria com todas as suas forças, com sua alma.

Gallardo acelerou e girou as rodas para a direita. Adiantou-se em relação ao sacerdote e lhe cortou a passagem. Os pedestres se distanciaram.

O sacerdote se deteve assustado contra o carro. Estava preso. Seu rosto, com as feições tensas pelo medo, estava a escassos centímetros da janela de Murani. Por um instante, Murani esteve cara a cara com seu subordi­nado. Depois o padre se afastou e correu pelo beco.

Gallardo deu marcha a ré, retrocedeu poucos metros e voltou a acelerar com vontade para frente. As rodas deram uma sacudida e chiaram ao colocarem-se em movimento, o carro saiu como uma bala e derrubou várias latas de lixo.

Antes que pudesse perguntar a Gallardo o que havia planejado, Murani entendeu quando o homem voltou a pisar no acelerador com força. O carro ganhou velocidade e se adiantou sobre sacerdote. Nesse momento, o para-choque bateu em suas pernas e o jogou ao chão.

O padre desapareceu sob o carro e deu a impressão de que passavam rapidamente por cima de várias valetas, ao mesmo tempo em que os airbags saltavam. O impacto deu em cheio no peito de Murani e o jogou com muita força para trás. Uma fumaça química e o cheiro de pólvora da carga explosiva que detonava as bolsas inundaram o veículo.

Obcecado pelo ruído de coisas sendo esmigalhadas produzido pelas rodas ao passar por cima do sacerdote e sabendo que não o esqueceria jamais, Murani deu a volta e percebeu que o corpo do homem estava em frangalhos, imóvel e em silêncio sobre o solo de granito daquele beco.

Gallardo parou o carro, deu marcha ré e voltou a passar por cima do sacerdote. O homem parou o cano, rasgou o airbag com uma lâmina e saiu com a arma na mão.

Murani teve que deslizar para o lado a fim de sair. Quando o seguiu, suas pernas tremiam.

Milagrosamente, o noviço continuava vivo. Tinha um dos lados do rosto destroçado pelo impacto contra o chão e lhe faltava um olho. Havia sangue por todos os lados. Tentou levantar a cabeça e respirar, mas não conseguiu. Em questão de segundos, a cabeça desabou pesada­mente sobre o chão.

Gallardo se ajoelhou para tomar o pulso e limpou o sangue dos dedos na batina.

Já era. Tem como você se encanegar disso? — perguntou Gallardo, se colocando em pé ao mesmo tempo em que olhava para Murani.

Por um momento, o cardeal não soube muito bem a que o homem se referia.

Pegue seu celular — ordenou-lhe com calma enquanto guardava a araia no coldre. — Chame a polícia. Diga a eles que acabam de roubar-lhe o cano, que estava dentro dele e que um homem com uma pistola o afastou do volante e que se apropriou do veículo; que brigou com ele e que na confusão o sujeito atropelou um pedestre.

Murani procurou o telefone com certa lerdeza.

Você entendeu? — perguntou Gallardo.

Sim, mas você acha que eles irão acreditar em mim? — perguntou Murani.

Gallardo bateu nele sem avisar. Seu enorme punho golpeou a mandí- bula e quase fez a cabeça do cardeal girar no pescoço. Quando ainda estava balançando e quase caindo para trás, Gallardo voltou a bater nele. Este segundo golpe o acertou em cheio no nariz. Começou a jonar sangue pela boca e as pernas se dobraram. Gallardo pensou por um momento que o havia deixado inconsciente. Murani caiu para frente e o homen­zarrão o agarrou.

— Agora tudo se torna mais crível, a polícia vai ver que você se en­volveu numa briga — assegurou Gallardo, que sorriu antes de colocá-lo apoiado contra o carro. — Agora, faça a chamada telefônica. Que seja curta. Vai soar bem mais crível também. Tenho que ir embora agora.

Enfiou as mãos nos bolsos, como se fosse dar um passeio dominical e se distanciou dali. Em questão de segundos, havia desaparecido na noite.

Murani fez a chamada telefônica e esperou no beco com o morto ao seu lado. Sabia que aquilo não era o fim. Havia muita coisa em jogo. Passados alguns minutos, quando se sentiu mais seguro e percebeu que poderia mover-se sem tropeçar e cair, Murani se aproximou do corpo do jovem sacerdote e começou a administrar-lhe a extrema-unção.

 

           INSTITUTO MAX PLANCK DE ANTROPOLOGIA SOCIAL

           HALLER AN DER SAALE, ALEMANHA

           29 DE AGOSTO DE 2009

Lourds encontrou um desenho do címbalo na quarta-feira pela tarde. Apesar de ter revisado " o abundante material que o instituto possuía so­bre o povo iorubá, o trabalho parecia interminável, e mesmo assim ele não havia perdido a esperança de que aparecesse algo que pudesse elucidar as coisas. Mesmo que ainda soubesse uma coisa aqui e outra ali sobre o povo iorubá e sobre o impacto de sua cultura na África Ocidental, e que inclusive foi mais além do continente, Lourds não conhecida seu verdadeiro alcance.

Normalmente, quando se dedicava a alguma pesqui­sa investigatória, estudava todos os documentos antes de dividi-los em categorias ou separar os campos de estudo. Não sabia que suas cidades-estados tivessem sido tão de­senvolvidas. Em sua opinião, rivalizavam com suas equi­valentes europeias. Apesar de serem governadas por monarquias, estas eram regidas segundo a vontade do povo e os senadores podiam ordenar aos reis que abdicassem ao trono.

"Não eram exatamente uns selvagens", pensou Lourds. Os iorubás tinham governado a região durante centenas de anos antes que os euro­peus começassem a atacar as nações africanas em busca de escravos.

Por desgraça, os iorubás — conhecidos naqueles tempos como Império Oyo — cederam ante a fácil riqueza que o comércio de escravos proporcio­nava. Empreenderam grandes guerras contra outros reinos e cidades-estados para capturar escravos e vender aos europeus.

Havia alguns documentos dos séculos XVIII e do XIX que o teriam fascinado se pudesse ler, mas Lourds não tinha tempo. Assim, com a permissão de Fleinhardt, copiou e salvou vários desses arquivos no ser­vidor que utilizava em Harvard.

Naturalmente, aquele servidor estava ficando abarrotado de forma alarmante, com todo o material que queria estudar mais tarde. Em alguns dias ele se sentia frustrado ao pensar na quantidade de coisas que não chegaria a conhecer por mais que se esforçasse. A vida não era suficien­temente longa para satisfazer sua curiosidade.

No meio dessa digressão, ele leu algo sobre o címbalo e soube, com maior certeza, que só haviam descoberto a ponta do iceberg.

 

                 HOTEL RADISSON SAS

                 LEIPZIG, ALEMANHA

                 3 DE SETEMBRO DE 2009

Às oito, Lourds se dispôs a jantar com seus companheiros. Leslie havia insistido que ao menos comesse como era devido e, no mínimo, uma vez por dia, e que ele os colocasse a par de suas pesquisas.

Jantaram no restaurante do hotel. Normalmente estava suficiente­mente vazio para que eles pudessem escolher uma mesa ao fundo para falar com relativa intimidade.

Encontrou o címbalo? — os olhos de Leslie brilharam entusiasmados.

Creio que sim. — Tirou o computador da mochila e o deixou sobre a mesa, distante da sua taça de vinho.

Haviam se acostumado a comer e falar sobre o trabalho ao mesmo tempo — inclusive com as imagens na tela do computador, se fosse necessário — e com isso seguiam atraindo olhares curiosos do restante dos clientes e dos garçons.

É um desenho do címbalo, não uma fotografia, mas acho que é bem parecido.

Acionou uma tecla e apareceu a imagem digital que havia descanegado dos arquivos do instituto.

No desenho, o címbalo parecia um disco plano com uma inscrição. O homem que o segurava vestia uma longa capa e estava com uma coroa.

Imagino que deveria ser o rei — comentou Gary com certa ironia.

A verdade é que ele era mais que um rei. Era uma representação de Oduduwa — respondeu Lourds.

Para você, isso é fácil de dizer, colega — comentou Gary.

Segundo o povo iorubá, ele foi o líder de um exército invasor que chegou à África Ocidental vindo do Egito ou da Núbia. Algumas fontes muçulmanas sustentam a tese de que Oduduwa procedia de Meca. Segundo o que parece, havia fugido do país por questões religiosas — disse Lourds.

Que questões? — perguntou Natashya.

Os documentos que estive olhando não diziam nada a respeito — assegurou, balançando a cabeça. — Também pode ser que tivesse escapado de um exército invasor. O caso é que fugiu com o címbalo. Supõe-se que seja um descendente dos deuses.

O sino apareceu em Alexandria — interveio Leslie. — Você acredita que é de onde procede o címbalo?

Você quer dizer se estava lá? Segundo as lendas que foram desco­bertas, em tempos remotos, sim, esteve. Mas, pelo menos até agora, não se sabe qual é a terra de origem desses instrumentos — disse Lourds.

Porque as línguas não correspondem a nenhum dos idiomas dessa região — aventurou-se Natashya.

Exatamente — disse Lourds, assentindo e sorrindo.

E se puseram os instrumentos ali de propósito? — perguntou Natashya.

Aquilo não havia passado pela sua cabeça e lhe pareceu bem interes­sante. Lourds meditou por alguns instantes.

Espere. O que lhe faz pensar que alguém resolveria deixar ali o sino e o címbalo? — perguntou Leslie.

Nenhum dos dois se encaixa — disse Lourds, seguindo a linha de raciocínio de Natashya. Seu comentário havia conseguido que tudo fizesse mais sentido. — Eles não provêm dessa cultura. O material utilizado, o tra­balho realizado, as línguas, tudo destoa do que sabemos dessa região.

E se queriam que o címbalo desaparecesse, por que atribui-lo a um deus? Ou a alguém próximo dos deuses? Ou o que quer que fosse esse Odudo — disse Leslie.

Pode ser até que não fizeram nada disso. Talvez tenham inven­tado essa história quando o tal Odudo saiu do Egito — comentou Gary.

É possível. Segundo a lenda, Oduduwa foi enviado por seu pai, Olodumare... — explicou Lourds.

Esse nome apareceu em um disco de Paul Simon — interrompeu Gary. — Foi lançado no início da década de noventa. Chamava-se The rhythm of the saints, Ritmo dos santos... Ou algo assim.

Não me diga! — exclamou Lourds.

Verdade, cara! — respondeu Gary. — Você tem conexão wi-fi, certo?

Assentiu.

Me dê um pouco aqui o seu computador, vou ver se encontro — disse Gary.

Depois de passar o laptop para Gary, Lourds se concentrou no jantar. Como era o que mais falava nas reuniões informativas, normalmente acabava comendo tudo frio.

Depois de alguns minutos, Gary esboçou um sorriso triunfal.

Fim de papo! — exclamou Gary ao mesmo tempo em que lhe dava de volta o computador para mostrar-lhe a letra da música.

A referência a Olodumare estava na oitava linha.

Olodumare sorri no céu — leu Gary.

Você está se mostrando, no fim das contas, um verdadeiro poço de sabedoria. Por que não foi para a universidade? — perguntou Lourds.

Eu tentei, mas era muito chato. Na maioria das vezes, sabia mais que os professores. A primeira coisa que se aprende ali é que eles não são muito mais inteligentes que você, e às vezes nem sequer sabem tanto quanto você — ao se dar conta do que havia dito, levantou a mão numa atitude defensiva. — Não me refiro a você, amigo. Você é impressionante.

Fico feliz com suas palavras. Deixe-me ver se posso ser ainda um pouco mais impressionante — disse tomando um gole de vinho. — Os iorubás se referem a si mesmos como eniyan ou eniti aayan, cuja tradução literal seria: "os eleitos que levam a bênção ao mundo" — disse Lourds.

Você acredita que o címbalo era uma bênção? — perguntou Leslie.

Pensei sobre isso. Bem, afinal de contas, depois de tudo ele chegou por meio das mãos de alguém bem próximo de Deus.

 

                   CAMBRIGEPORT

                   CAMBRIDGE, MASSACHUSETTS

                   3 DE SETEMBRO DE 2009

O melhor momento para roubar uma casa não é à noite, e sim durante o dia. A noite geralmente não tem ninguém na rua, e se há alguém, pode chamar a atenção. Mas, durante o dia, as pessoas entram, saem, é um vaivém a toda hora.

Bess Thomsen era uma ladra profissional. Desde os 11 anos de idade já costumava entrar nas casas alheias. Aos 33 anos, já tinha bastante experiência.

Media 1,77 metro, tinha cabelos castanhos, olhos marrons e um rosto fácil de esquecer. Em outras palavras, tinha um aspecto bastante comum, ainda que fosse uma figura bonita de se admirar, em parte pelos exercícios que fazia para poder desempenhar seu trabalho, fazendo com que seu be­líssimo corpo desviasse a atenção de seu rosto. No entanto, aquele dia ela havia escolhido escondê-lo com um largo macacão de cor laranja.

Seu companheiro de roubo era um jovem, de mais de 20 anos e menos do que 30, chamado Sparrow. Ele a acompanhava porque se tives­sem que carregar algo, o rapaz faria isso, já que media quase 1,90 metro e pesava mais de 90 kg. Bess estava convicta que de 99% daquele sujeito era pura fachada. Jamais conhecera alguém tão arrogante como ele.

Sparrow se refestelou no assento do passageiro e jogou a cinza do cigarro pela janela. A barba de três dias sem ser feita fazia com que seu rosto e seu queixo parecessem uma lixa. Tinha um cabelo loiro como de surfista, na altura dos ombros. Uns óculos azuis da última moda cobriam a parte superior de seu rosto e estava com fones no ouvido, ainda que Bess estivesse bem tentada a enfiá-los em outro orifício. Apesar de bloquea­rem parte do som, Sparrow ouvia música — um rock bem enlouquecido — o suficientemente alto para que Bess tivesse vontade de gritar e lhe dar uns bons tapas.

Comprovou o endereço na falsa ordem de serviço pela última vez e parou na entrada da casa. Inclinou-se, escondendo-se por trás do quebra-sol, e estudou a estrutura.

A casa era ampla e tinha dois andares. Não era excessivamente grande, porém era mais do que o necessário para um só morador que, segundo haviam lhe informado, vivia ali. Cambrigeport era uma zona residencial, com casas próprias de famílias, além de algumas de aluguel, já que a Universidade de Harvard e o rio Charles ficavam perto. Era um bom bairro para passear, para aqueles que gostavam disso. Essa era outra boa razão para fazer o trabalho de dia e não à noite.

Bess tinha pouca informação. Supunha-se que o dono era um professor universitário que estava fora do país. Tinha tomado notas, mas não con­fiava muito nelas. As pessoas regressam nos momentos mais inesperados.

Seria melhor que estivesse trabalhando. As horas que o professor teria que passar em classe lhe haveriam dado mais segurança do que depender de quando o sujeito decidisse terminar com suas férias.

Saiu do furgão, colocou o capacete e foi em direção à porta com uma prancheta na mão. E quando passou pela porta da rua ouviu um apito do alarme. Sparrow seguia bem atrás dela.

A fechadura era das boas, mas demorou menos do que 30 segundos para que a garota a abrisse. Segundo o informe que dispunha, tinha 45 segundos para chegar ao teclado que havia no hall de entrada e desligá-lo. Chegou com tempo de sobra e digitou o código que havia pirateado da empresa de alarmes.

Você fechou a porta? — perguntou Bess voltando-se para Sparrow.

O sujeito franziu a testa e cruzou os braços sobre o peito. O cinturão para as ferramentas, que nem havia ainda sido tocado ainda, se mantinha pendurado na cintura.

Vá à merda! Vou para o andar de cima. Nos vemos depois — disse ele, encaminhando-se em direção às escadas.

Bess soltou uns palavrões e também xingou a sua arrogância. Ambos eram suficientemente grandes, adultos para desperdiçar tempo. E os dois mereciam qualquer epíteto que lhe fossem atribuídos.

Ela trancou a porta da frente e percorreu a andar térreo para assegurar-se de que estavam sós. Uma vez comprovado, voltou ao escritório pessoal do tal professor e ligou o computador.

 

               HOTEL RADISSON SAS

               EEIPZlG, ALEMANHA

               3 DE SETEMBRO DE 2009

- Já ouviu falar das escavações que estão sendo feitas em Cádiz, Gary? — perguntou Lourds.

— É o mesmo lugar onde estão procurando a lendária Atlântida? — perguntou Gary.

Leslie tomou um gole de vinho e observou Lourds. Tinha sentido a sua falta enquanto esteve trabalhando no Instituto Max Planck.

"Esqueça" — respondeu para si mesma. "Não é momento nem lugar."

Não sei se encontrarão a Atlântida ali. Já se descobriu meia dúzia de lugares onde ela poderia ter estado. A Grécia sustenta que a cidade perdida está submersa perto de suas costas, da mesma forma que Bimini. Também há quem diga que está próxima da região costeira da América do Sul.

Não sabia deste último dado.

Essa afirmação, quem a fez, foi um homem chamado J. M. Allen, que assegura que a Atlântida estava no altiplano boliviano. Segundo suas investigações, essa região se inundava com freqüência. De fato, foram feitas algumas pesquisas e se descobriu que aquela área havia sido inun­dada no ano 9.000 a.C.

Por que está falando da Atlântida? Você encontrou algo em suas pesquisas que indique essa direção? — perguntou Natashya.

"Bruxa", pensou Leslie. As coisas haviam perdido a graça desde que essa detetive russa tinha se juntado a eles. Quando Lourds e ela se ha­viam posto a caminho em direção a Moscou — mesmo inclusive tendo que rebocar o pobre Gary —, tudo era potencialmente bem mais interessante. Mas agora as coisas tinham se tornado cada vez mais difíceis, e não dava mais para manter cinco minutos de conversa com aquele atraente pro­fessor sem que a aquela policial russa se intrometesse.

Leslie sentia muito pela perda da irmã de Natashya, claro, mas mesmo assim ainda não entendia por que a mulher fora convidada para a viagem.

Sim, por mais estranho que pareça, enquanto estava pesquisando sobre o tema, a Atlântida apareceu. Há algumas teorias que indicam que o povo iorubá poderia ter sido atlante — confessou Lourds, encostando-se à cadeira e se espreguiçando.

Sem essa, cara! — exclamou Gary.

É isso aí, sim! — disse Lourds.

Leslie sorriu. Sem dúvida, aquele gracejo de maconheiro teria sido condenado em Harvard, mas Lourds não se importava com isso. Era disso que ela mais gostava nele, o professor era autêntico.

Ile-Ifé, ou apenas Ifé, é uma cidade iorubá da Nigéria. Os docu­mentos que andei estudando sustentam que ela existe desde, pelo menos, o ano 10.000 a.C.

Isso se encaixa com a linha do tempo que se estabeleceu para a Atlântida — disse Gary.

Algumas investigações levaram vários historiadores a acreditar que os iorubás foram, em seu tempo, uma potência marítima. Existe uma documentação que sugere a existência de uma grande frota de barcos que ficaram destruídos após um cataclismo oceânico que levou tudo terra adentro — disse Lourds.

Como se fosse um afundamento de uma ilha? — perguntou Gary.

E, logo em seguida, um tsunami. Essa sociedade era famosa por seus comerciantes. Os habitantes de Aromire eram almirantes e os de Olokô eram mercadores que faziam viagens que duravam até um ano. Os especialistas acreditam que eles chegaram até a Ásia, Austrália, Norte da América e América do Sul — disse Lourds.

O que tudo isso tem a ver com o címbalo pelo qual alguém assassi­nou a minha irmã? — perguntou Natashya.

Aquilo fez com que os dois homens ficassem muito sérios; Leslie se irritou pela facilidade com que Natashya havia se apoderado da conversa. Sempre parecia calma, serena e controlando tudo.

Bem, enquanto pesquisava descobri algo bem interessante — respondeu Lourds. — Eu me afastei um pouco do assunto que pesquisava, mas olhe só: nos primeiros tempos de Ifé, bem pouca gente podia ler e escrever em sua língua. Os escribas iorubás mantinham esse tipo de conhe­cimento ao alcance de poucos — disse Lourds.

Você acredita que as inscrições do sino e do címbalo são iorubás?

É possível — disse Lourds bocejando. — Tenho que estudar essa hipótese mais a fundo, especialmente agora que encontrei este dado. Segundo a lenda iorubá, Oduduwa e seu irmão Obatalá, que também era filho de Olorun, deus do céu, criaram o mundo. Obatalá criou os homens com argila e Olorun lhes insuflou a vida -— disse Lourds.

Um mito da criação. Todas as culturas têm um — interveio Gary.

É algo definitivamente fascinante comprovar o quanto esses mitos têm em comum — disse Lourds.

Você irá procurar inscrições no instituto que coincidam com as do sino e do címbalo? — perguntou Natashya.

Bem, é isso que eu estou planejando — respondeu Lourds.

Quanto tempo isso irá demorar? — perguntou Natashya de novo.

Não sei — respondeu Lourds, encolhendo os ombros. — O pro­blema é que estou praticamente acabando de analisar todo o material que essas pessoas têm.

E então... O que acontecerá depois, se o material acabar? — per­guntou Natashya.

Então, teremos que pensar em estudar o material original — respondeu Lourds.

Aquilo despertou o interesse de Leslie.

Você está pensando em ir para a África Ocidental? — perguntou Leslie.

Se for necessário, sim — respondeu Lourds olhando-a, e assentiu com a cabeça.

 

               CAMBRIGEPORT

               CAMBRIDGE, MASSACHUSETTS

               3 DE SETEMBRO DE 2009

Bess seguia no escritório quando as coisas se enroscaram. Havia ligado o computador da vítima e estava baixando tudo o que tinha no disco rígido para o HD externo que trouxera consigo. Também havia dado uma olhada nos fichários em papel que estavam no armário de arquivos, descobrindo que a maioria deles tinha relação com as apre­sentações acadêmicas para as aulas.

Nesse momento, a porta da rua foi aberta e entrou alguém.

Bess se colocou em movimento instantaneamente. Foi em direção à porta do escritório e ficou encostada, praticamente grudada na parede. Os batimentos de seu coração raramente aceleravam. Não era a primeira vez que isso acontecia. Hoje ela poderia passar por uma funcionária da companhia de gás.

Sparrow não se preparou como devia. Desceu as escadas com os fones nos ouvidos e não viu o homem, e quando o encontrou, era tarde demais. Além disso, levava um saco nas costas como se fosse um malvado Papai Noel. Ao que parecia, havia pegado a capa de um almofadão e enfiado dentro tudo de que havia gostado.

Isso não fazia parte dos planos.

Era pouco profissional e, o que era pior, não havia desculpa, já que o dono da casa não tinha que ser informado antes da hora sobre essa invasão. Bess jurou que não voltaria a trabalhar com esse sujeito.

O homem que acabara de entrar tinha uns quarenta anos e estava acima do peso. Usava bermudas de cor cáqui, camisa de golfe e sandálias.

A julgar pela roupa, imaginou que fosse um vizinho. Ninguém seria tão estúpido para ir passear muito longe de onde morava com uma vesti­menta tão ridícula como essa. Certamente, ele estava somente vigiando a casa de seu amigo.

Quem são vocês? — perguntou o homem.

Bess saiu de seu esconderijo.

Somos da companhia de gás. Fomos informados de que havia um vazamento nesta região.

O homem olhou para a capa do almofadão que estava cheia de coisas roubadas às costas de Sparrow.

Não acredito em você — disse o homem, tirando o celular da cintura.

Praticamente todo mundo desfrutava daquele avanço tecnológico, o que fazia com que o trabalho de um ladrão profissional fosse ainda mais difícil. Naqueles dias, qualquer idiota podia denunciar um roubo imediatamente.

Sparrow procurou na parte de trás da calça e dali tirou um revólver.

Bess não sabia de que tipo era. Nunca havia trabalhado com armas e tampouco as havia roubado. Não havia forma de saber se estavam marcadas ou não, nem quem as havia utilizado. Não lhe apetecia em nada que a prendessem por invasão de domicílio e a acusassem de assassinato, espe­cialmente se fosse cometido por outra pessoa. Antes de poder deter Sparrow, ele disparou.

O disparo se ouviu por toda a casa e, naquele espaço reduzido, parecia um trovão.

O vizinho cambaleou, levou a mão ao peito, sendo que esta se afastou cheia de sangue e caiu no chão, completamente apagado.

Bess não perdeu tempo em comprovar se o homem estava vivo nem em xingar Sparrow. Ela simplesmente o olhou.

Saia daqui agora mesmo — lhe ordenou Bess.

Sparrow ficou imóvel por um instante.

Saia daqui! — gritou Bess.

Sparrow começou a mover-se, mas sem afastar os olhos do corpo que estava no chão.

Ele ia chamar a polícia. Eu tive que... — balbuciou Sparrow.

Bess não lhe deu atenção e voltou para o escritório. Desconectou o HD externo que havia levado para baixar os arquivos. O programa havia finalizado, finalmente. Fosse qual fosse o alvo de seu cliente no compu­tador da casa, estava agora espelhado em seu HD externo. Já havia copiado tudo.

Ela havia feito o seu trabalho.

Contornou o homem caído no chão, saiu da casa e fechou a porta. Sparrow estava no assento do passageiro.

Bess se pôs ao volante, ligou o motor e arrancou. Tirou um celular descartável do macacão. Antes de cada trabalho comprava um com a espe­rança de não ter que utilizá-lo. Discou o número de emergência, informou sobre o disparo e desligou.

Por que fez isso? — perguntou Sparrow.

Pode ser que ele ainda esteja vivo. Esse homem não deveria morrer por culpa de sua cobiça — Bess falava ao mesmo tempo em que dirigia de forma mecânica enquanto serpenteava entre as ruas.

Ei! O que aconteceu não é para tanto. Esse trabalho não paga tanto que...

Está bem pago. O homem que nos contratou não queria complicações. O que você fez, só para que você saiba, se tornou uma complicação, uma complicação bem grande.

Sparrow se recostou no assento e cruzou os braços sobre o peito como um menino petulante.

Me dê a sua arma — pediu Bess ao mesmo tempo em que esticava a mão que estava usando luva.

Por quê? — perguntou Sparrow.

A arma! — exigiu Bess.

Ela é minha! — respondeu Sparrow.

Me dê agora mesmo! — disse Bess.

Ele entregou a ela com má vontade.

Bess a limpou com uma só mão. Inclusive abriu o tambor e limpou lá dentro. Por sorte, era um revolver e só tinha mais uma bala.

Escolheu com cuidado o percurso que iria realizar e foi até a ponte Longfellow. Enquanto a cruzava, um trem da linha vermelha circulava pelas vias do meio. Na metade do caminho, antes de entrar em Boston, ordenou a Sparrow que abaixasse o vidro da janela e jogou a arma no rio Charles. Esperava que aquilo fosse o fim.

 

           HOTEL RADISSON SAS

           LEIPZIG, ALEMANHA

           3 DE SETEMBRO DE 2009

O telefone de Leslie tocou enquanto ela contemplava Leipzig. Era seu produtor que ligava às 11 horas e 18 minutos da noite, não podia ser nada de bom.

Entre o segundo e o terceiro toque, hesitou se atenderia ou não, mas acabou baixando o volume da televisão e atendeu.

— Alô — disse Leslie.

Diga-me que já tem algo — disse Philip Wynn-Jones, que não parecia nada feliz.

O que quer que eu lhe diga? — perguntou Leslie.

Não seja insolente — respondeu Philip Wynn-Jones.

Não estou sendo insolente. Estamos em Leipzig — disse Leslie.

Eu me inteirei disso quando começaram a chegar as faturas do cartão de crédito mostrando as despesas do hotel onde estão hospedados. Diga-me alguma coisa que eu ainda não saiba — disse Philip Wynn-Jones.

Leslie contemplou a linha do céu sobre a cidade e tentou pensar com calma.

Ainda estamos seguindo as pistas dos instrumentos que desapa­receram — respondeu Leslie.

Vocês descobriram alguma coisa? — perguntou Philip Wynn-Jones.

Lourds acredita que o melhor a ser feito é irmos para a África Ocidental — respondeu Leslie.

Durante alguns instantes, somente foi possível ouvir o silêncio do outro lado da linha telefônica.

Para a África? Que droga é essa? Os quatro? — perguntou Philip.

Leslie decidiu não morder a língua. Gary, claro, era garantido e — ainda que estivesse passando maus bocados ao lado de Natashya Safarov - aquela policial russa tinha recursos e acesso a informações que ela não podia conseguir. Ainda.

Sim, os quatro — respondeu Leslie.

Philip Wynn-Jones soltou uma longa expiração, seguida de uma ladainha de xingamentos tão longa quanto.

Você já está começando a encher o meu saco, Leslie! Já percebeu isso, certo? — esbravejou Philip.

Você precisa nos dar mais algum tempo — disse Leslie.

Nos negócios, tempo é dinheiro, "queridinha". Você sabe disso - respondeu ele.

Também sei que a publicidade é tempo, dinheiro e negócios — disse Leslie afastando-se da janela; por alguns instantes o trânsito a dis­traía. Deu uma olhada na televisão.

Havia sintonizado no Discovery Channel, como de costume. Os programas que eles costumavam transmitir podiam lhe dar algumas idéias e oferecer potenciais mercados para o que queria fazer, além de, claro, poder ver com clareza com quem tinha que competir.

Por acaso, depois da conversa que haviam tido durante o jantar, eles estavam repetindo um dos documentários sobre a Atlântida. Pare­cia que as pessoas não pensavam em outra coisa desde que haviam co­meçado as escavações em Cádiz.

Estimulada, como se tivesse recebido uma esporada nas costas pelo próprio desespero, porque naquele instante se deu conta de que segura­mente Lourds poderia continuar sem ela, aquele programa lhe deu uma idéia.

Esses bagaços de novela pré-histórica não valem nada — protes­tou Wynn-Jones.

Não era pré-histórico — respondeu ela automaticamente. Sabia que estava reproduzindo uma das conversas que teve com Lourds nos últimos dias. Qual era mesmo a palavra que havia sido utilizada?

O quê? — perguntou Philip.

Pré-história se refere à época em que ainda não havia nenhum testemunho por escrito. O sino e o címbalo pertencem, sem dúvida... — tentou encontrar o termo certo — ... ao período histórico — disse Leslie.

Que maravilha! Que dizer que agora você vai dar uma de culta? Não era exatamente o que eu imaginava que faria quando saiu voando com o tal professor — disse Philip.

Os olhos de Leslie se concentraram na tela. Mostrava imagens de arquivo de umas enormes torres de vidro de algum filme de ficção cien­tífica. Depois de algum tempo, umas grandes ondas varreram a cidade e a fizeram em cacos.

Que efeito pode surtir se eu lhe oferecer algo sobre a... Atlântida? — perguntou Leslie.

Wynn-Jones bufou.

Não sei se você já se inteirou disso, mas a encontraram na Espanha, em Cádiz — respondeu Philip.

E se eles tiverem se equivocado? — perguntou Leslie.

A Igreja Católica Romana financia essas escavações — apesar de Wynn-Jones manter uma atitude negativa, a repórter notou certo interesse em seu tom de voz. — Eles não costumam equivocar-se com esse tipo de coisa.

Mas eles sempre estão errados, o tempo todo. Basta pensar na ati­tude sexual de seus sacerdotes — antes que o produtor pudesse responder alguma coisa, Leslie continuou: — O sino e o címbalo tinham uma escrita gravada que Lourds não havia visto nunca. Ele seguiu a pista do címbalo até o povo iorubá, que vive na África Ocidental, por isso temos que ir até lá. Há indícios de que esses objetos são restos da civilização da Atlântida — disse Leslie.

Mas eles provinham da Espanha? — perguntou Philip.

Não, ao que parece, a Atlântida estava na costa da África Oci­dental ou fazia parte dela — Leslie acreditava que assim era como Lourds havia explicado.

O pessoal está bem seguro do que encontraram em Cádiz — disse Philip.

Leslie sabia que isso o havia feito pensar. Ambos costumavam atrair a atenção sobre eles mesmos sempre que podiam.

E se eles estiverem enganados? E se com o tempo conseguirmos mostrar a verdadeira localização da Atlântida? — perguntou Leslie.

Isso também já é demais...

Pense melhor, Philip. Os meios de comunicação do mundo todo têm flertado com essa história desde que se soube dela. A Atlântida final­mente descoberta! Você se lembra de todas as manchetes que líamos e das quais acabávamos rindo muito? — perguntou Leslie.

Sim, haviam feito isso sim, mas também haviam admitido a contra­gosto que eles teriam adorado ser os primeiros a dar esse tipo de notícia.

Eles despertaram o apetite, a curiosidade do público. Se Lourds nos levar a algo que tenha relação com essa história, será um sucesso. Mas se a roubarmos deles... — disse Leslie.

Não precisou acabar a frase. Conhecia Philip Wynn-Jones. Sua mente estaria neste momento dando voltas e mais voltas e pensando nas possibilidades.

— Está bem. Eu aceito irem à África Ocidental, mas desde que você saia dali com alguma maldita história — disse Philip.

Leslie sabia que, sim, ela sairia com uma ótima história dali. Não estava certa se seria sobre a Atlântida, mas estava certa de que teria material suficiente para aplacar a sede da empresa quando chegasse o momento. Se não fizesse isso, ficaria sem trabalho. Esse era o risco. Jogar sempre pelas regras e sem riscos não a levaria a nenhuma parte. E tinha planejado chegar bem longe, queria triunfar.

Após agradecer, desligou o telefone e começou a discar o número de Lourds para lhe comunicar que tinham passe livre para ir à África, mas estava um pouco eufórica por causa do vinho e, além disso, tinha que aliviar o calor que sentia.

Decidiu lhe dar a notícia pessoalmente. Abriu a bolsa e tirou uma cópia da chave do quarto de Lourds. Este parecia não ter estranhado o fato de que haviam lhe entregado uma chave somente.

Sorridente e esperançosa, Leslie saiu pela porta do quarto.

 

Natashya saiu do elevador ao mesmo tempo em que viu Leslie andar pelo corredor. Receosa e ainda preocupada com a facilidade com que Patrizio Gallardo e seus homens os tinham encontrado em Odessa, ela a seguiu.

Depois do jantar, a policial havia pegado um táxi para ir a um bar próximo e telefonar para Ivan Chernovsky. Não queria que soubesse em que hotel eles se hospedaram. O homem não estava em casa. Sua mu­lher lhe havia dito que estava investigando um assassinato.

A notícia fez com que se sentisse culpada. Chernovsky se encontrava na rua, certamente corria perigo, e ela não estava lá para lhe dar cobertura. Sua esposa, Anna, havia comentado que se preocupava com ela. Eviden­temente seu marido lhe contava tudo. Ela lhe assegurou que tudo ia bem e pediu que dissesse a ele que em breve telefonaria novamente.

Desacelerou o passo, mas se Leslie tivesse se voltado para ver se estava sendo seguida teria visto a policial. Por sorte, seu quarto ficava na mesma direção. Teria uma desculpa.

Não obstante, Leslie não se desviou de seu caminho, ia diretamente para o quarto de Lourds. Parou e levantou a mão para bater na porta. Depois procurou na bolsa e tirou dela um cartão magnético.

Ela o passou pelo dispositivo e viu que a luz verde se acendeu. Entrou.

Natashya nunca perdia a calma, mas aquilo a alterou. O que mais a irritou era que não sabia muito bem por que se sentia afetada. Desde o início estava bem claro que Leslie estava gostando do professor. Natashya perguntou a si mesma se Lourds seria suficientemente vaidoso para acre­ditar que era algo mais do que um simples "gostar".

Isso poderia ser um problema. Ela precisava dele animado e com a cabeça limpa, desanuviada se quisesse encontrar os assassinos de Yuliya.

Além do mais, também não estava gostando da idéia de que Lourds pudesse estar com outra mulher. "Outra", ela prestou bastante atenção em quanto aquela palavra lhe soara estranho e não gostou nada disso.

Também lhe passou pela cabeça ir para o quarto de Lourds e arruinar a festa, mas logo depois se deu conta de que era muita imaturidade. Em vez disso, ficou na sua, foi para seu quarto e pediu uma garrafa de vodca da Finlândia. Colocar na conta do seu quarto e saber que quem teria que pagar seria Leslie a fez sentir-se melhor.

 

Leslie sentiu a excitação queimar por dentro ao ouvir a água caindo e notar o vapor que saia do banheiro. Ele estava tomando uma ducha. Não era exatamente o que havia imaginado, mas seria divertido. Desenhou um belo sorriso no rosto.

O televisor estava ligado e transmitia um programa da CNN. O com­putador estava aberto em cima da mesa e ela pôde ver que Lourds deveria estar trabalhando.

Hesitou. "Vamos lá. Vai fazer ou não?", disse a si mesma. Inspirou fundo, jogou a bolsa de lado, tirou os sapatos e a roupa.

Entrou no banheiro completamente nua.

Lourds estava na banheira com a cabeça reclinada e os olhos fechados. A princípio ela pensou que ele estava dormindo, mas quando se aproxi­mou e lhe fez sombra no rosto, ele abriu os olhos.

Quando a viu, o professor não tentou se cobrir nem mostrou pudor. Permaneceu tal como estava e a olhou. Depois sorriu.

Imagino que não tenha entrado no quarto errado sem se dar conta — disse Lourds.

Leslie soltou uma risadinha. Isso ela não esperava dele, mas uma das coisas que havia aprendido a apreciar nos dezenove dias que estavam juntos era seu senso de humor.

Não — disse Leslie.

Tampouco a convidou para que se aproximasse.

Você se importa? — perguntou Leslie, fazendo uma indicação com a cabeça em direção à banheira.

Em absoluto, ainda que possa ser algo desconfortável — respon­deu Lourds.

Leslie entrou na água e se sentou sobre as coxas de Lourds. Por um instante não estava muito certa se ele estava interessado no que ela ti­nha em mente. "Bem, se ele não estivesse curioso, já me teria rejeitado", pensou. Então o interesse dele se manifestou, duro e insistente, quando deslizou pelas coxas dela e a pressionou contra o baixo ventre.

Bom... A que devo este prazer? — Lourds perguntou, sorrindo.

— Não é prazer. Por enquanto não. Mas acredito que será — ela se inclinou sobre ele e o beijou apaixonadamente. O calor do corpo de Lourds acendeu o seu. A mente deu voltas e voltas e seus pensamentos explo­diram em um caleidoscópio de sensações sobrecarregadas.

Ele cheirava a sabonete e almíscar. Seus lábios tinham o sabor de vinho. Leslie só conseguiu ouvir seu coração batendo na cabeça quando as mãos de Lourds começaram a percorrer seu corpo. Ele a pegou pelo quadril para apertá-la contra ele com mais força, mas não tentou penetrá-la. Sua pro­ximidade era enlouquecedora, porque estava justamente onde deveria estar.

Leslie moveu o quadril e tentou capturá-lo para que ele entrasse nela, mas Lourds flexionou os músculos e evitou um abraço mais íntimo.

Ainda não — Lourds sussurrou bem próximo do seu pescoço.

Pensei que você estivesse pronto — disse Leslie.

Eu sim, mas você não — respondeu Lourds.

Leslie começou a protestar e a dizer-lhe que sim, ela estava pronta sim. Se alguém sabia disso, era ela. Ela estava mais do que pronta.

Deslizou suas mãos quando se beijaram e o mordeu no lábio enquanto ele a acariciava. Ela duvidou que ele encontrasse o que procurava. Aquele maldito ponto — aquele ponto que sempre a fazia sentir-se tão bem — nunca estava no mesmo lugar. Pelo menos, era isso que parecia.

Mas ele o encontrou. As pontas de seus dedos o roçaram com sufi­ciente pressão para que a mulher ficasse sem fôlego. Arqueou suas costas e se afastou para que pudesse pressionar o clitóris contra os dedos de Lourds. Começou a balançar-se compassadamente e se assombrou que ele tivesse encontrado com tanta facilidade o que ela buscava com tanta frustração em outras ocasiões.

Lourds se inclinou em sua direção e a beijou no rosto e no pescoço, mas Leslie estava tão bloqueada pela vibrante necessidade que a percorria que não pode corresponder-lhe. Em um instante, uma cálida sensação inundou suas entranhas ao mesmo tempo em que seu quadril dava sacu­didas em direção a ele. Estremeceu-se e se balançou enquanto cavalgava sobre sua mão. O mundo se deteve silenciosa e docemente. Ela respirou de maneira entrecortada.

Uau! — sussurrou enquanto se inclinava para ele logo que havia retirado a mão. Seu peito lhe pareceu cálido e firme ao entrar em contato com o dela.

Já estou pronta? — perguntou Leslie.

Acredito que sim — ele se levantou e saiu da banheira demonstran­do uma surpreendente força. Leslie se aferrava a seu corpo com as pernas.

Lourds a colocou no chão e a secou energicamente. Aquilo conseguiu acender seus sentidos ainda mais. E inclusive ficou pior quando se inclinou para beijá-la.

Você está judiando de mim — disse Leslie.

Não acho — disse Lourds.

Leslie também o secou, porém foi mais direta em suas atenções. Ela se colocou de joelhos e utilizou a boca. Aquilo o pegou de surpresa e ele resistiu bravamente diante das suas tentativas de levá-lo ao limite. Era frus­trante, mas Leslie esperava com ânsia poder dobrar essa resistência.

Tudo bem — pediu Lourds com voz espessa — Basta.

Por hora — respondeu Leslie.

Lourds se inclinou, a pegou pelos braços e a embalou como uma criança. Desfrutou da sensação de se sentir pequena e indefesa em seu abraço, ainda que soubesse que não era nada disso. O fogo de seu ventre se avivou quando ele a levou para a cama.

Ele a deitou com suavidade e se pôs a seu lado. Leslie olhou nos seus olhos quando notou que sua mão voltava a afastar as coxas para acariciá-la de novo. Tinha certeza de que ele a faria sentir a mesma sensação de antes, mesmo que, por mais surpreendente que parecesse, ela quisesse mais.

Leslie deslizou até colocar-se em cima dele, passando as pernas por seu quadril. Ela o provocou por um momento roçando seu quadril macio contra seu membro ereto, mas logo percebeu que ele era capaz de suportar todas as suas provocações.

Riu.

Qual é a graça? —- perguntou Lourds.

Você. Não pensei que pudesse se controlar tanto — respondeu Leslie.

Não é controle. Considere isso como um elogio. Quero que desfrute — disse Lourds.

Já estou desfrutando.

Leslie aproximou seu quadril uma última vez e facilitou que ele intro­duzisse nela, reclamando a carne dele como se fosse sua.

Mas gosto mais quando eu estou no controle... — Ela se acomodou em cima dele, encontrou o ritmo adequado e começou a pulverizá-lo na cama.

 

         ACAMPAMENTO-BASE

         ESCAVAÇÕES DA ATLÂNTIDA, CÁDIZ, ESPANHA

         4 DE SETEMBRO DE 2009

O padre Emil Sebastian acordou ao ouvir que o chamavam. Quando levantou a vista da cama em que dormia, viu que o que aparecia na sua frente era uma figura encapuzada que se inclinava em sua direção. Momentaneamente o pânico o dominou, porque aquilo o fez lembrar-se dos pesadelos de que vinha sofrendo nas últimas semanas, desde que havia se "internado" sob a terra.

Depois a figura ajustou o foco da lanterna que leva­va consigo.

"Os demônios não precisam de lanternas", pensou. Seu medo se dissipou e ele se repreendeu por ter pensa­do algo assim.

Se não tivesse visto imagens perturbadoras em seus sonhos anteriormente, teria jogado a culpa no filme de terror a que os trabalhadores da escavação tinham assis­tido na noite anterior em um DVD. Ele não queria assistir ao tal filme, mas adorava uma história de medo como aquela. Desde criança, tinha apreciado esse gênero — aqueles temores faziam parte de uma infância da qual não podia se desprender, apesar dos seus 56 anos.

Está acordado, padre? — perguntou amavelmente o homem.

A luz da lanterna lhe permitiu ver suas feições. Eram angelicais, não demoníacas. Sua voz era quase suave demais para ser ouvida acima da constante vibração dos geradores que proporcionavam eletricidade para o acampamento-base.

Sim, estou acordado, Matteo — respondeu Sebastian ao mesmo tempo em que procurava seus óculos no chão da tenda, ao lado da cama. Olhou o relógio para ver as horas. Eram 3h42m.

Aconteceu alguma coisa? — perguntou Sebastian.

A escavação tinha sofrido quatro desabamentos até o momento, e graças a Deus, pensou ele, nenhum deles tinha causado vítimas fatais. Quatro homens tinham ido parar no hospital com ossos quebrados, porém.

Nada grave, padre. O que aconteceu é bom, venha ver — apressou-o Matteo.

Ajude-me a calçar os sapatos — à noite e com sua vista em más condições, tinha problemas para encontrar as coisas. E, o que era pior, não se lembrava onde as havia deixado.

Matteo moveu a lanterna ao seu redor e depois em direção aos pés de Sebastian.

Padre, o senhor está com eles já em seus pés — disse Matteo.

Ah! — disse Sebastian.

É preciso deixar esse hábito, pode causar o crescimento de fungos — disse Matteo.

Sebastian sabia disso pelas contínuas advertências que lhe haviam sido dadas antes da sua chegada ao circuito de cavernas que surgiram subitamente durante o terremoto submarino que tinha desenterrado vinte metros da nova linha da costa. Aquela rede de cavernas, por ter ficado tanto tempo submersa, continuava sendo um ambiente úmido no qual as bactérias e os fungos se proliferavam com facilidade.

Durante os primeiros meses da escavação, tiveram que levantar muros de contenção contra o mar e bombear água das cavernas. Haviam feito o mesmo em todas as novas cavernas que haviam encontrado. Quando o padre Sebastian fora dormir, ou apenas se recostar em sua cama, as bombas continuavam drenando a caverna que a equipe descobrira dois dias atrás.

Sebastian levantou-se e bateu com os pés no chão para comprovar a circulação do sangue. Às vezes, quando dormia com os sapatos calçados, os seus pés ficavam entumecidos.

Pelo menos, deveria trocar as meias — observou Matteo.

Muito pesarosamente, reconheceu que o jovem tinha razão. Sentou-se, pegou um par de meias limpas da maleta que estava ao lado da sua cama e o calçou depois de remover as sujas.

Por que veio até aqui, Matteo? — perguntou Sebastian se colo­cando em pé outra vez.

Eles já acabaram de drenar a caverna. E acham que encontraram mais uma.

Sabíamos que haveria outra caverna — disse Sebastian.

De fato, todos esperavam que houvesse várias outras. Fosse o que fosse o que havia fraturado a linha original da costa, tinha feito estragos nas catacumbas que minavam a antiga cidade.

Pelo fato de viverem cercados pelo mar há nove ou dez mil anos, os construtores haviam se preocupado em compartimentar as catacumbas. Se uma região alagasse, podiam fechar a seguinte.

Sim, mas não como esta — disse Matteo.

O padre deu-lhe uma palmadinha nas costas.

Então, vamos ver o que foi descoberto — disse Sebastian.

Passou por baixo da cortina da tenda, mas se deteve para pegar a lanterna que havia deixado no carregador. Não lhe agradava a idéia de perder-se no escuro e serpenteante labirinto de cavernas.

No exterior da caverna, havia três membros da Guarda Suíça, que tinham sido destinados para a escavação. Vestiam roupa informal, adequada para o frio das cavernas, e levavam armas.

Sebastian havia protestado pela presença dessas armas, mas não ti­nha sido capaz de convencer o capitão de que renunciasse a elas. Até esse momento não ocorrera nenhum incidente nos quais elas tivessem sido necessárias, mas para eles isso não significava que não pudessem ser úteis em algum momento. Estavam bem treinados e eram educados, mas nunca baixavam a guarda.

O acampamento-base cheirava a diesel, a água salgada e a peixes mortos. Quando o mar abandonou a costa, recuando e expondo os seus segredos, e depois de terem drenado as cavernas, muitas criaturas marinhas ficaram ilhadas. Haviam morrido centenas delas e fora mais do que necessário remover seus restos.

Segundo diziam, estes despojos eram um bom fertilizante. Seja como for, haviam desaparecido quase totalmente do acampamento.

Quando passaram pela tenda da despensa, Sebastian entrou para pegar duas garrafas de água e um bolo. O bolo era um capricho, mas da água, sim, ele precisava. Ninguém deveria ir a nenhum lugar sem ela, se por acaso se perdessem, ela deveria estar à mão. Isso já tinha ocorrido em uma ocasião, quando vários homens guiados pela curiosidade haviam saído da área de exploração por sua conta.

Eles continuavam buscando riquezas, Sebastian sabia disso. Todas essas histórias sobre a Atlântida haviam enchido a cabeça deles com fantasias sobre um fabuloso tesouro.

Ele não sabia em que pensar. Esperava algo, mesmo que até o momento só tivessem encontrado objetos de milhares de anos, segundo as provas da datação por carbono, o que os fazia interessantes por si só, mas não revelava nada sobre a civilização que havia se desenvolvido ali.

Grande parte da cidade desaparecera. Quando as ondas tragaram a Atlântida, o mar acabou com a cidade. Feita em pedaços pelo cataclismo — fossem como as fabulosas torres que havia visto nas ilustrações ou fossem simplesmente cabanas —, a cidade ficou em cacos, que se esparramaram pelo fundo do oceano.

O que restou dela esteve enterrado sob a lama durante milhares de anos. Se o mar não decidisse mostrá-la, pode ser que jamais a achassem.

Sebastian enfiou as garrafas d'água nos bolsos do largo casaco que havia vestido para se proteger do frio das cavernas. Seguiu Matteo en­quanto avançavam ao lado da corda amarela que marcava o caminho.

Havia cabos com lâmpadas pendurados nas paredes, mas cada vez que abandonava o acampamento-base, o padre sabia que estava entrando na escuridão que era de se esperar nas profundezas da terra.

 

           HOTEL RADISSON SAS

           LEIPZIG, ALEMANHA

           4 DE SETEMBRO DE 2009

O som estridente de um telefone celular acordou Lourds entre um emaranhado de suaves extremidades e sedutoras curvas. Graças ao tênue brilho do rádio relógio que havia na mesinha, viu os lampejos do cabelo loiro de Leslie.

"Bem, não foi exatamente um sonho."

Sorriu. Na noite anterior sentia-se tão cansado que não estava certo de ter sonhado aquele encontro.

Afastou um dos braços de Leslie com suavidade e pegou o telefone.

É o meu? — perguntou Leslie com a voz baixa.

Lourds olhou. Lá estavam dois celulares apoiados na mesa de cabeceira.

Não, é o meu — respondeu Lourds.

Ótimo — disse Leslie se afastando dele e ao mesmo tempo em que ia se enfiando debaixo das cobertas.

Quando apertou o botão para falar e o levou até a orelha, admirou a pele macia das costas da mulher e a suave curva de seu traseiro nu.

Lourds — disse.

Thomas? — a mulher que falava do outro lado parecia assustada. Prestou atenção imediatamente. Conhecia a voz, mas não se lembrava de quem era.

Sou Donna Bergstrom, esposa de Marcus Bergstrom.

Oh, olá Donna — disse Lourds.

O professor Bergstrom também dava aulas em Harvard, no departa­mento de paleontologia. Sua mulher ensinava economia. Como eram vizinhos, ele vigiava a sua casa quando Lourds estava fora. De vez em quando, faziam churrasco e o convidavam.

Aconteceu uma coisa horrível. Dispararam em Marcus — disse Donna.

Lourds tirou as pernas da cama e ficou em pé.

Como ele está? — perguntou Lourds.

Ele saiu da sala de cirurgia faz algumas horas. Os médicos dizem que ele poderá ficar bem. Ele é um cara forte e lutador — disse Donna.

Sim, ele é mesmo — disse Lourds, se lembrando de que seu vizi­nho também jogava futebol — O que aconteceu? Eles o assaltaram?

A polícia disse que foi uma invasão domiciliar — disse Donna.

Sinto muito — disse Lourds.

Lourds notou que Leslie se movia às suas costas. Olhou e a viu senta­da com as pernas cruzadas sobre a cama e um lençol cobrindo o quadril.

E eles causaram mais danos à sua casa? — perguntou Lourds.

Não foi na nossa casa, foi na sua casa. Marcus viu um furgão da companhia de gás parado em sua porta e foi ver o que estava acontecendo — a mulher começou a chorar. — Eles atiraram nele, Thomas. Disparam nele sem nenhum motivo.

Lourds tentou tranquilizá-la, mesmo sabendo que seu amigo não tinha sido ferido sem uma boa razão. Seu vizinho fora colocado em perigo sem querer, e o sentimento de culpa de Lourds era quase insuportável.

 

Sentado no assento do co-piloto do helicóptero, Patrizio Gallardo observou o hotel Radisson SAS.

Preparado? — perguntou o piloto pelos fones de ouvido.

Preparado — respondeu Gallardo.

Gallardo olhou por cima do ombro para os oito homens que estavam na área de passageiros. Todos usavam trajes pretos que ocultavam suas pis­tolas com silenciador. Várias maletas continham os carregadores de reserva.

DiBenedetto fumava, mesmo sendo advertido pelo piloto de que não fizesse isso. Seus olhos azuis pareciam brilhar pela droga que percorria seu corpo. Farok estava tranqüilo e decidido, com as mãos nos joelhos. Pietro e Cimino pareciam um pouco tensos, entrar e sair do hotel não iria ser fácil.

O helicóptero se manteve a poucos metros da cobertura do hotel. Gallardo abriu a porta do co-piloto ao mesmo tempo em que DiBenedetto e Farok abriam as dos passageiros. Os nove homens, Gallardo primeiro, saltaram e foram correndo para a porta que dava acesso à cobertura.

Cimino usou uma carga explosiva que não fez um ruído maior que uma bombinha de festa popular e detonou a fechadura que trancava a porta. Quando o helicóptero se distanciou, eles já estavam dentro do edifício e iam em direção ao sétimo andar.

Lourds jamais saberia quem o havia atacado.

 

 

                                                               CONTINUA

 

 

           ÁREA RESTRITA DA BIBLIOTECA

           CIDADE-ESTADO DO VATICANO

           4 DE SETEMBRO DE 2009

Murani observou o livro que tinha em mãos. Representava tanto uma promessa como uma condenação. Era o único livro, além da Bíblia, que realmente possuía essa dualidade.

De grande tamanho e forrado em couro, era um manuscrito ilustrado de origens obscuras. Estava em latim e o cardeal acreditava que o teriam escrito em Roma, no apogeu do império. Contudo, após a queda de Roma, as tribos germânicas haviam arrasado suas muralhas e percorrido as ruas, deixando as bibliotecas incendiadas conforme passavam. Muitos livros foram levados aos Países Baixos, onde alguns monges irlandeses os copiaram e os mantiveram a salvo.

O cardeal Murani queria acreditar que o exemplar que tinha em mãos era o original. Não gostava da idéia de que pudessem existir cópias espalhadas em algum lugar do mundo.

Uma vez que um segredo é divulgado, se torna difícil de conter.

Sentou-se a uma das antigas mesas ao fundo das estantes e sentiu o cheiro de pó, papel antigo e couro. Ainda lembrava-se do entusiasmo que havia sentido quando lhe permitiram a entrada pela primeira vez naquele salão, após ingressar na Sociedade de Quirino como um de seus membros.

 

 

               KOM AL-DIKKA, ALEXANDRIA, EGITO

                 16 DE AGOSTO DE 2009

Thomas Lourds abandonou o conforto da limusine com relutância e um senso incomum de mau agouro. Ele geralmente apreciava as opor­tunidades que surgiam para falar sobre seu trabalho, isso sem mencionar a possibilidade de solicitar finan­ciamento para programas arqueológicos em que acre­ditava e sobre os quais era consultado.

Mas não hoje.

Sob o calor escaldante do sol egípcio no pico do meio-dia, ele largou a seus pés a mochila de couro risca­da de cicatrizes e contemplou o enorme teatro romano que as legiões de Napoleão Bonaparte haviam descoberto ao fazer escavações para construir uma nova fortificação.

Embora o sítio arqueológico de Kom Al-Dikka ti­vesse sido explorado durante os últimos duzentos anos, primeiro por caçadores de tesouros, e, depois, por homens instruídos que procuravam o conhecimento dos tempos antigos, a missão polonês-egípcia que havia sido estabelecida aqui há mais de quarenta anos continuou a fazer novas e surpreendentes descobertas.

Escavado no chão, Kom Al-Dikka mantinha-se como um anfiteatro semicircular não muito longe da estação de trem em Alexandria. Os pas­sageiros que saíam da plataforma ferroviária só precisavam atravessar uma curta distância para observar com atenção o antigo palco. Os carros passam perto pelas ruas Nabi Daniel e Hurriya. Aqui, os mundos antigo e moderno estavam lado a lado.

Construído com treze camadas de mármore onde cabiam até oitocentos espectadores, com cada assento cuidadosamente numerado, a his­tória desse teatro se estendia profundamente pelo passado e por todo o mundo antigo. Suas pedras de mármore branco foram extraídas da Europa e trazidas para a África. A Ásia Menor havia fornecido o mármore esverdeado. O granito vermelho havia sido extraído de Aswan. Desenhos de mosaicos geométricos cobriam as alas. As casas e os banhos romanos se estendiam por trás dele. Todo o complexo era um símbolo do alcance global do grande império que o havia construído.

 

 

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Lourds estudou a vasta estrutura de pedra. Quando Ptolomeu ainda era jovem e seus maiores trabalhos o aguardavam muitos anos adiante, Kom Al-Dikka já estava aqui, recebendo peças teatrais e musicais e — caso as inscrições nas colunas de mármore tivessem sido traduzidas corretamente, o que Lourds acreditava que sim — espetáculos de luta.

Ele sorriu ao pensar que Ptolomeu pudesse ter se sentado nos assentos de mármore e ali trabalhado em seus livros. Ou pensado sobre eles, pelo menos. Teria sido algo absurdo, como se um professor de lingüística de Harvard freqüentasse os eventos de UFC. Lourds era um professor desses, e não seguia o UFC. Mas ele gostava de pensar que Ptolomeu o fizesse, em seu tempo.

Embora Lourds já tivesse visto esse lugar várias vezes, sua visão nunca deixava de agitar dentro dele um desejo de saber mais sobre as pessoas que viveram aqui durante os anos em que o teatro era novo e atraía mul­tidões. As histórias que haviam sido contadas mal sobreviveram àqueles dias. Quanta coisa havia sido perdida quando a Biblioteca Real de Alexandria fora destruída.

Por um momento, Lourds imaginou como deve ter sido andar pelos corredores da grande biblioteca. Suas coleções supostamente incluíam pelo menos meio milhão de pergaminhos. E acreditava-se que esse acervo contivesse todo o conhecimento do mundo até então. Eram tra­tados sobre matemática, astronomia, mapas antigos, criação de animais e agricultura, todos os assuntos estavam representados aqui. Assim como as obras de grandes escritores, incluindo as peças perdidas de Esquilo, Sófocles, Eurípedes, Aristófanes e Menandro, artistas de tal poder e capacidade que suas obras sobreviventes continuavam a ser represen­tadas até os dias de hoje. E mais.

Homens experientes e sábios tinham vindo de todas as partes do mundo para dar suas contribuições à antiga biblioteca e aprender com ela.

No entanto, tudo isso foi destruído e queimado.

Dependendo da última rodada do ensino politicamente correto, a destruição da Grande Biblioteca foi ordenada ou pelo imperador romano Júlio César, ou por Teófilo de Alexandria, ou pelo Califa Umar. Ou talvez por todos eles, ao longo do tempo. Quem quer que tenha sido o responsável, o fato é que todos esses escritos maravilhosos tinham sido queimados, destroçados ou estavam desaparecidos. Juntamente com os segredos e a sabedoria que eles continham. Ou, pelo menos, por agora. Lourds ainda tinha esperanças de que algum dia, em algum lugar, um tesouro oriundo dessas obras — ou de cópias delas — ainda pudesse existir. Ele achava que era perfeitamente possível que alguém, durante esses anos perigosos, se preocupasse em proteger uma parte dos perga­minhos, escondendo-os ou fazendo cópias que teriam sido escondidas enquanto a biblioteca era destruída.

O enorme deserto em torno dessa cidade ainda continha segredos, e as areias secas e quentes eram ótimas para a preservação de rolos de papiro. Tesouros desse tipo de vez em quando apareciam, em diversas ocasiões nas mãos de bandidos, mas às vezes sob a supervisão de arque­ólogos. Os estudiosos podiam então ler os pergaminhos que novamente viam a luz do dia. Mas quem poderia dizer quantas relíquias mais ainda jaziam por lá, esperando para serem encontradas?

— Professor Lourds?

Ele apanhou sua mochila pousada a seus pés e virou-se para ver quem tinha chamado seu nome. Ele sabia o que seu interlocutor estava vendo. Era um homem alto, magro por causa dos anos de prática de futebol. Um cavanhaque negro aparado curto enquadrava o queixo forte e sua­vizava as feições rígidas do rosto. Seu cabelo ondulado negro era com­prido o suficiente para descer pelo rosto e cair sobre as orelhas. As visitas ao barbeiro costumavam tomar tempo demais de seu dia, então ele só iria vê-lo quando os cabelos realmente não pudessem continuar sem um corte. E esse tempo estava chegando, percebeu Lourds ao afastar as lon­gas mechas da frente dos olhos. Ele estava usando bermudas cáqui, uma camisa cinza, botas de caminhada, um chapéu australiano de camurça e óculos de sol. Tudo um pouco roto e desgastado nas beiradas. Ele se pa­recia, pensou, com um egiptólogo a trabalho, muito diferente dos turistas e vendedores ambulantes que perambulavam pelos anfiteatros.

Senhorita Crane? — Lourds cumprimentou a mulher que o chamara.

Leslie Crane caminhou na direção dele. O pescoço dos homens costumava virar para segui-la enquanto ela passava. E Lourds não podia culpá-los. Leslie Crane era bonita, de cabelos dourados e olhos verdes, vestindo bermuda e uma camiseta de linho branca sem mangas, que enfatizava sua figura esbelta e a pele morena de sol. Lourds calculou que ela deveria ter uns 24 anos, talvez, o que significava que a moça era quinze anos mais nova do que ele.

Ela pegou a mão do professor e o cumprimentou:

É tão bom enfim conhecê-lo pessoalmente.

Leslie tinha um nítido sotaque britânico, e em sua voz de contralto, luxuriante, o efeito era tranquilizador.

Também estava ansioso por isso, e-mails e telefonemas não substi­tuem você realmente conversar com a pessoa ao vivo — respondeu ele. Apesar de esses dois meios de comunicação serem rápidos em colocar as pessoas em contato, Lourds preferia conversar pessoalmente ou escrever em papel. Ele era uma espécie de anacronismo ambulante, porque ainda dedicava tempo a escrever longas cartas aos amigos, que respondiam da mesma forma. O professor acreditava que as cartas, especialmente quando a pessoa queria defender um ponto de vista e uma linha de pensamento sem interrupções, eram importantes.

Apertar as mãos é um ato que tem lá suas vantagens.

Oh — disse ela. Como se apenas agora percebesse que ainda segurava a mão dele, ela a soltou. — Desculpe.

Não tem problema.

Você achou o hotel adequado?

Claro. É maravilhoso. — A rede de TV o havia hospedado no Sheraton Montazah, um hotel cinco estrelas na cidade. Com o litoral do Mediterrâneo ao norte e o palácio de verão do rei Farouk ao sul, com seus esplendorosos jardins, a experiência estava sendo incrível. — Mas é perto o suficiente para que tivesse vindo andando até aqui. Embora a limusine tenha sido sensacional. Um professor universitário não é exatamente o mesmo que um astro do rock...

Bobagem — disse Leslie. — Aproveite. Queríamos que você soubesse o quanto estamos ansiosos para trabalhar com você neste pro­jeto. Você já esteve lá antes?

Não — Lourds balançou a cabeça, negando. — Eu sou apenas um humilde professor de lingüística.

Não despreze a sua formação ou a sua experiência. Isso foi uma coisa que nós não fizemos — Leslie lançou-lhe um deslumbrante sorriso. — Você não é apenas um professor de lingüística. É alguém que leciona em Harvard e estudou na Universidade de Oxford. E sua experiência não tem nada de modesta. Você é o maior especialista do mundo em línguas antigas.

Bem, pode acreditar numa coisa, Leslie — retrucou ele. — Não são poucos os estudiosos que contestam essa afirmação.

Isso não acontece com Ancient Worlds, Ancient People — retru­cou Leslie. — Quando completarmos essa série, o mundo vai enxergar você como exatamente é.

Ancient Worlds, Ancient People era o título da série de TV produzida pela Janus World View Productions, uma afiliada da BBC (British Broadcasting Corporation) no Reino Unido. A série trazia histórias inte­ressantes sobre pessoas, e lugares e os programas eram apresentados por comentaristas joviais como Leslie Crane, que já havia entrevistado estudiosos reconhecidos em vários campos do conhecimento humano.

Você riu — comentou Leslie com um sorriso largo que a fez parecer ainda mais jovem. — Está duvidando de mim, professor Lourds?

Não, de você não — respondeu ele. — Talvez eu duvide da gene­rosidade do público espectador. E, por favor, me chame de Thomas. Você se importa se nós caminharmos? — Ele esticou o queixo em direção a uma área de sombra. — Pelo menos para sair deste sol?

Claro — disse Leslie, caminhando ao lado dele.

Você disse que tinha um desafio para apresentar-me nesta manhã — lembrou Lourds.

Nervoso?

Não muito. Eu gosto de um desafio. Mas os enigmas me deixam um pouco... Curioso.

Não é a curiosidade a melhor ferramenta de um professor de lingüística? — perguntou ela.

Paciência, eu acho, é a melhor ferramenta. Embora ela seja aquilo que mais lutemos para conseguir... Os registros intelectuais de uma nação ou de um império, sejam eles história, matemática, artes ou ciências, levam tempo para ser transcritos pelos escribas. E, infelizmente, leva ainda mais tempo para os estudiosos de hoje conseguirem decifrar as obras antigas, especialmente quando não temos mais acesso às línguas em que foram escritas. Por mais de mil anos, por exemplo, não havia ninguém no planeta que fosse capaz de ler os hieróglifos egípcios. Foi preciso muita paciência para encontrar a chave certa, e, em seguida, mais paciência para decifrar o código do seu significado.

Quanto tempo você demorou para quebrar as Confissões da alcova?

Agora na sombra e fora do brilho direto do sol, Lourds sorriu triste­mente e esfregou a nuca. A tradução desses documentos lhe havia rendi­do muita atenção, tanto negativa como positiva. Ele ainda não sabia se o tempo gasto com elas foi um marco na carreira ou um passo em falso.

Na verdade — respondeu ele — esses documentos não se cha­mavam Confissões da alcova. Esse foi o apelido infeliz que o pessoal dos meios de comunicação de massa deram a eles ao cobrir a história...

Desculpe, não tive a intenção de ofender...

Sei disso...

Mas esses documentos — tornou Leslie — eram as histórias de conquistas sexuais do autor, correto?

Possivelmente. Talvez fossem apenas suas fantasias. Walter Mitty dando uma de Hugh Hefner. Seja como for, eram relatos bastante vividos.

E surpreendentemente explícitos...

Você já os leu? — perguntou Lourds, sem conseguir disfarçar a surpresa.

Já... — as bochechas bronzeadas de Leslie se inflamaram. — E eu devo dizer que são bastante... Hã... Convincentes...

Então você também deve saber que alguns críticos chamaram minha tradução de pornografia da mais pobre qualidade. Uma versão antiga da Penthouse Fórum.

Os olhos verdes de Leslie brilharam divertidos:

Agora você está se confessando um devasso.

Como assim? — Lourds ergueu as sobrancelhas inocentemente.

Um professor universitário com conhecimento da revista Penthouse?

Bem, antes de ser professor — respondeu Lourds — eu fui estu­dante universitário. Na minha experiência, os estudantes universitários do sexo masculino têm pelo menos uma breve passagem por ela.

Leslie continuou:

Mesmo que essa tradução o tenha levado a ser atacado pelo públi­co docente, conheço vários professores renomados que avaliam que foi um trabalho importante em um documento difícil.

Foi um desafio. — Lourds agora se mostrava mais entusiasmado para discutir o tema, quase nem percebendo a presença dos transeuntes. Vozes na rua ofereciam algumas pechinchas em árabe, inglês, francês e dialetos locais, mas ele não dava a mínima atenção. — O documento original foi escrito em copta, que era um idioma usado no Antigo Egito e cujo alfabeto tratava-se de uma versão modificada do alfabeto grego. O homem que criou esse documento acrescentou ainda uma série de letras, algumas das quais foram usadas apenas para palavras que estavam originalmente em grego. O documento, escrito por alguém que se cha­mava Antônio, sem dúvida em homenagem ao santo, embora fosse mais um sátiro do que um homem — ou pelo menos era assim que se via — num primeiro momento, parecia sem sentido.

O professor parou um momento e depois continuou:

Outros lingüistas tentaram traduzi-lo, mas nada disso fazia sentido. Você descobriu que ele foi escrito em código. Eu não sabia que existiam códigos já naquela época tão distante... Os primeiros códigos conhecidos são atribuídos aos romanos. Júlio César usou uma substituição simples de letras, ou mudança de posição na frase, para mascarar mensagens a seus comandantes militares. Sua mudança mais comum era a de três espaços.

O A vira D — comentou Leslie.

Exato.

Nós costumávamos fazer isso quando éramos crianças.

Naquela época — continuou o professor — aquele esquema era inteligente, mas logo os inimigos de César o descobriram. E é assim hoje. Os códigos de substituição não são mais usados por qualquer pessoa interessada em manter as coisas verdadeiramente secretas. Eles são muito fáceis de quebrar. No idioma inglês, a letra mais usada é E, e a segunda mais utilizada é T. Assim que você conseguir determinar esses valores em um bloco de texto, o restante das letras acaba caindo em seu lugar certo.

Mas as Confis... Quero dizer, o documento que você decifrou, ele era incomum.

Bem — respondeu Lourds —, se o compararmos ao que desco­brimos até agora daquela época, sim. E tendo em vista o conteúdo, o autor tinha todos os motivos para codificar suas palavras.

O que tornou a leitura de sua tradução ainda mais interessante para mim foi saber que os coptas eram uma seita extremamente religiosa. Mesmo pelos padrões de hoje, esse documento é um pouco chocante. Portanto, algo assim teria sido bastante... — Leslie vacilou nas palavras, evidentemente sem ter certeza de quanto poderia ser obscena.

Exótico... — ajudou-a o professor. — Ou inflamatório, depen­dendo de seu ponto de vista. Claro que os padrões de hoje estão muito mais restritos, por assim dizer, do que eram no mundo antigo, o que foi um legado deixado por Santo Agostinho, os vitorianos e os puritanos, entre outros. Mas mesmo pelos padrões antigos, eram documentos inflamatórios. Possivelmente até mesmo perigosos para a vida do es­critor. Concordo. Acho que por isso ele foi cuidadoso. Além da codifi­cação, o documento foi também escrito em saídico.

Mas qual é a diferença? — perguntou Leslie. — Esta não era uma língua copta?

Mais ou menos. O dialeto saídico foi um desdobramento da lin­guagem copta original.

A que começou do grego.

Lourds assentiu. Ele gostou da jovem. Ela era rápida e experiente, e parecia genuinamente interessada no que ele tinha a dizer. Algumas das dúvidas que sentia com relação a concordar com esta reunião começa­ram a desvanecer-se. A universidade estava sempre procurando maneiras de aumentar sua exposição ao público, mas isso nem sempre se revelava favorável aos professores colocados na linha de fogo. A maioria dos jornalistas e repórteres só ouvia durante o tempo suficiente para detectar uma palavra ou frase que pudesse ser explorada, mesmo que fora do contexto, a fim de confirmar fosse qual fosse o ponto de vista deles sobre qualquer assunto. Lourds já tinha visto bastante do que podia acontecer quando um professor era mastigado pela mídia. Isso não era uma cena bonita. Até agora, ele tinha ficado meio oculto, mas seu trabalho com as Atividades de alcova o colocara mais em evidência do que ele gostaria.

O dialeto saídico foi orginalmente chamado de tebaico e come­çou a ser usado em forma literária em torno de 300 d.C. Grande parte da Bíblia foi traduzida para esse dialeto, e o copta tornou-se o dialeto padrão para a Igreja Ortodoxa Copta. Mais tarde, no século XI, Hakem b'Amr Allah praticamente aboliu a fé cristã, persegui-a até que os remanescentes se escondessem.

Que tumulto... — comentou Leslie.

Isso aconteceu aqui e no resto do mundo. Os conquistadores muitas vezes procuram destruir a linguagem da civilização que eles dominaram. Veja o que aconteceu com o gaélico quando os ingleses dominaram os escoceses. Os clãs eram proibidos de se comunicar em gaélico, de usar suas roupas que vinham por herança, e até mesmo de tocar suas gaitas de foles. Ao matar seu idioma, o conquistador quebra a conexão do povo conquistado com sua história.

Tira o seu conhecimento, você quer dizer? — perguntou Leslie.

Mais do que isso — respondeu Lourds. — A língua é arraigada nas pessoas. Creio que lhes dá um senso de quem são e para onde estão indo... Eu acho que a língua... Ela molda a vida das pessoas.

Por essa definição, até cantores de rap criam uma linguagem.

Não — retrucou o professor. — Eles não estão exatamente criando algo. Estão na verdade elevando essa língua a partir de seu grupo, procurando transformá-la em uma forma de arte única. Assim como Shakespeare fez com o idioma inglês.

Comparando cantores de rap com Shakespeare? Isso seria consi­derado escandaloso em alguns círculos acadêmicos. Mesmo perigoso...

Lourds sorriu tristemente.

Talvez. Provavelmente eu seria acusado mais de uma violação flagrante da bolsa de estudos do que de uma questão de assassinato. Mas é verdade. Se um grupo de pessoas se separa da maioria, a tendência é que esse grupo desenvolva sua própria linguagem. Assim como profes­sores universitários e jornalistas — cada um com um campo de ação definido — desenvolvem palavras especializadas que fornecem uma es­pécie de estenografia dentro de seu grupo. Ou então quando uma cultura pode desenvolver uma linguagem totalmente nova para evitar ser com­preendida por uma população maior dentro da qual eles vivem. Um caso importante que exemplifica essa tese são os ciganos.

Eu sabia que eles tinham sua própria língua — comentou a jornalista.

E você sabe como eles surgiram?

Hum... Por meio de mamãe e papai ciganos? — brincou ela.

Lourds riu.

Em determinado momento, claro que sim... Mas, bem no começo, eles eram provavelmente hindus de baixa casta que foram recrutados por um exército de mercenários para lutar contra os conquistadores islâmicos. Ou eles podem ter sido escravos tomados pelos conquistadores muçulmanos. De qualquer maneira, independentemente do fato de uma dessas hipóteses estar correta, os ciganos se tornaram seu próprio povo e criaram seu próprio idioma.

Você está sugerindo que um povo subjugado é levado a criar sua própria linguagem? — perguntou Leslie.

Sim, ou leva à destruição de uma. A linguagem é uma das ferramentas e um dos conjuntos de habilidades mais evoluídos que a humanidade foi capaz de forjar. A língua pode unir ou separar as pessoas mais rápida e facil­mente do que a cor da pele, as propensões políticas, as crenças religiosas ou a riqueza. — Lourds olhou para ela, surpreso consigo mesmo por falar tanto. E pelo fato de os olhos da jovem ainda não estarem vidrados. — Desculpe-me, você me pegou num momento-palestra. Já ficou aborrecida?

Pelo contrário — respondeu Leslie. — Estou mais fascinada do que nunca. E eu não posso esperar para mostrar-lhe o nosso desafio mis­terioso. Você já tomou café da manhã?

Não.

Ótimo. Então eu estou convidando você para tomar o café comigo.

Estou honrado — disse ele. — E com fome.

E esperançoso de conseguir uma refeição interessante aqui, pensou, apesar de ele não dizer nada disso à sua anfitriã.

Lourds levantou a mochila que carregava e soltou-a sobre seu ombro. A mochila continha seu notebook e vários livros e papéis que sentia que não podia viajar sem eles. Boa parte da informação que eles continham estava duplicada no disco rígido do computador, mas o professor adorava a sensação e o cheiro dos livros quando podia escolher entre o texto virtual e o real. Alguns desses livros tinham viajado com ele por mais de vinte anos.

Ele caminhou ao lado de Leslie enquanto abriam caminho através do tráfego de pedestres e vendedores, ouvindo as vozes dos ambulantes gritando as vantagens dos seus produtos. Alexandria estava em pleno fun­cionamento, apressando-se para viver mais um dia entre turistas e ladrões.

Uma sensação desconfortável de estar sendo observado desenvolveu-se no meio das costas de Lourds. Graças aos anos de viagens a países estran­geiros, incluindo muitas nações localizadas nas partes mais distantes do globo, aprendera a dar atenção a essa advertência. Por uma ou duas vezes, esses avisos lhe salvaram a vida.

Ele fez uma pausa e olhou para trás, tentando perceber se alguém no meio da multidão estava mostrando algum interesse indevido nele. Mas tudo o que viu foi um mar de rostos, todos eles se movendo e se acotovelando enquanto se contorciam no meio do tráfego de pessoas.

O que foi? — perguntou Leslie.

Lourds balançou a cabeça. Ele estava imaginando coisas. Isso que dá ficar lendo um romance de espionagem no avião, repreendeu a si mesmo.

Nada — respondeu, alcançando o passo e se colocando ao lado da jornalista enquanto cruzavam a rua Hurriya. Ninguém parecia estar seguindo os dois. Mas aquela sensação não foi embora.

 

Ele viu você?

De pé no movimentado cruzamento da rua Hurriya, Patrizio Gallardo ficou observando enquanto o alto professor universitário caminhava para longe. Gallardo deixou escapar um suspiro tenso. Ele ainda não sabia tudo o que estava acontecendo. Seu contato, Stefano Murani — cardeal Murani, nos dias de hoje — ficava de boca fechada com os seus segredos. Foi assim que seus patrões o haviam ensinado a se comportar.

Ambos haviam sido recrutados pela Sociedade de Quirino por causa de suas respectivas forças. Murani tinha vindo de uma família aristocrática que vivia da fortuna acumulada pelas gerações passadas. Usando essa posição como degrau, ele entrou na Igreja Católica e subiu rapidamente na hierarquia até se tornar um cardeal. Em sua posição na Cidade do Vaticano, Murani teve acesso a documentos secretos e outros papéis que nunca tinham sido apresentados aos olhos do público.

Gallardo chamou a atenção da Sociedade de outra maneira. Seu pai, Saverio Gallardo, fazia parte de uma família do crime organizado na Itália que recolhia dinheiro dos incautos. Patrizio Gallardo tentara o caminho do crime organizado, mas não tinha sido muito feliz traba­lhando sob o comando do pai, apesar de seu talento para o negócio.

Ele gostou dessa função e, trabalhando para as pessoas certas, des­cobriu que poderia ganhar realmente bem. Qualquer um poderia enfiar uma arma na cara de alguém e exigir seu dinheiro. Mas nem todos tinham culhões para puxar o gatilho e depois limpar o sangue que espirrava em seu rosto. Patrizio Gallardo tinha. E foi isso que ele fez para a Sociedade. E era isso que estava preparado para fazer hoje. Tudo o que a Sociedade precisaria fazer era apontar.

E hoje, eles haviam apontado para o professor Thomas Lourds.

Ele viu você? — perguntou Cimino novamente.

Gallardo ficou olhando para sua presa. Desta vez, não olhou direta­mente para o homem, mas avaliou toda a cena da rua. Lourds continu­ava em seu caminho, conversando amigavelmente com a mulher.

Não — respondeu Gallardo.

Ele usava um fone de ouvido pequeno e que estava na maior parte escondido pelo colarinho da camisa. Tinha quase 1,85 metro de altura, um homenzarrão rude em seus quarenta anos. Bronzeado pelo sol do deserto, com cicatrizes de batalhas contra pessoas que tentaram tirar alguma coisa dele e das pessoas das quais ele tinha tirado outras coisas, tinha um rosto redondo com cabelos pretos e grossos, queixo com barba por fazer, e uma pesada sobrancelha disposta em uma carranca sobre um par de olhos muito juntos. Qualquer um que encontrasse esse homem pela frente geralmente atravessava a rua para sair de seu caminho.

A gente podia armar uma emboscada pra esse cara — disse Cimino. — Matar esse sujeito seria moleza, e então era só pegar o que viemos buscar.

Se a gente matar o Lourds agora — apontou Gallardo —, há uma boa chance de não encontrarmos o artefato que estamos procurando. O homem não está com ele. Vai ser preciso esperar que a mulher nos leve até onde está.

Ao sair da calçada, Gallardo acenou com a mão.

Três quarteirões abaixo na movimentada via pública, um caminhão de carga com dez anos de uso veio subindo, saindo de uma rua lateral, e percorreu a rua Hurriya. Estacionou no meio-fio e Gallardo subiu para a boléia, no banco do passageiro. O para-brisas sujo suavizava a inclemência dos raios de sol. O ar-condicionado chiava como se tivesse asma e trazia apenas um ligeiro alívio contra o calor implacável.

Gallardo enxugou o rosto com um lenço, amaldiçoando o calor. Ele olhou para o motorista:

E como está o nosso convidado?

DiBenedetto balançou a cabeça e jogou fora a bituca de seu cigarro turco. Ele era jovem e durão, mas mantinha uma dependência de morfina constante que um dia seria o seu fim. Ele era um assassino cruel por escolha, ainda pior do que Cimino porque a droga lhe roubara a maioria de seus sentimentos. Só permaneceu leal a Gallardo porque este lhe trazia uma quantidade suficiente da droga para manter seu vício satisfeito.

Ele ainda não falou? — perguntou Gallardo.

DiBenedetto virou-se e sorriu para Gallardo. Seu rosto era jovem, apesar da droga. Estava com 22 anos. Mas seus olhos azuis e gelados eram estranhos e pareciam de uma pessoa mais velha. Se a humanidade e a compaixão algum dia habitaram ali, havia muito tinham ido embora.

Ele grita — respondeu o jovem assassino. — E chora, e implora. Às vezes, ele até tenta adivinhar o que queremos saber. Mas ele não sabe — o jovem encolheu os ombros. — E patético. Ainda assim, Farok gostou da batalha para fazê-lo falar.

Gallardo abriu o painel que conectava a cabine do caminhão com a área de carga.

Seu convidado estava na parte de trás. Seu nome era James Kale. Ele era um dos produtores do programa de TV Ancient Worlds, Ancient People. Perto dos 40 anos, fora um homem bonito antes dos açougueiros de Gallardo o terem capturado. Agora, seu cabelo da cor de gengibre estava salpicado com seu sangue, o rosto dilacerado por um soco inglês e um dos olhos arrancados. Eles também haviam amputado os dedos de sua mão direita e o castrado.

A última coisa fora um toque pessoal de Farok. O árabe era um homem cruel, que tirava prazer na tortura que infligia.

Kale estava enrolado em uma bola fetal, com a mão mutilada aperta­da contra o peito. Suas calças estavam escuras de sangue. Mais sangue cobria o interior do espaço da cargo, espalhado pelo piso e espirrado pelas paredes até no teto. O produtor estava se equilibrando perigosa­mente na borda da vida, prestes a dar seu último mergulho no abismo.

Farok sentou-se com suas costas voltadas para o espaço e fumou um cigarro. Devia estar em seus 50 anos, um homem sombrio e duro vestido em um albornoz que agora estava salpicado de sangue. Havia fios grisa­lhos em sua barba, também manchada de sangue. Ele levantou os olhos para Gallardo e sorriu:

Ele ainda insiste — disse o árabe com um sotaque gutural — que não sabe nada sobre esse tal artefato que a mulher vai mostrar ao professor. — Ele deixou cair sua mão sobre a coxa de Kale.

Kale gemeu e puxou para longe a perna trêmula.

Farok moveu-se para diante e acariciou a perna do produtor:

Tenho que admitir que, depois de ter reivindicado suas bolas, comecei a acreditar nele.

Aquela visão sangrenta enojou Gallardo. Ele já tinha visto coisas assim antes. Na verdade, ele mesmo havia feito coisa parecida, e faria de novo se não tivesse alguém que ocupasse seu lugar. Mas não era isso que lhe importava agora. Ele olhou para Farok. E então traçou uma linha sob o queixo com o indicador.

Sorrindo, o árabe tirou uma navalha de dentro de seu albornoz. Deixando cair cinzas do seu cigarro, ele se inclinou para frente, alisou o cabelo de Kale, fazendo com que o homem recuasse e gritasse de medo. Segurando um punhado de cabelo, Farok puxou a cabeça da vítima para trás e cortou com a faca sua garganta exposta.

Gallardo virou-se e fechou o painel. Ele concentrou-se em observar o professor e a mulher da televisão.

 

- Oi, aqui é o James Kale. Se você está ouvindo esta mensagem, então é óbvio que não posso atender ao telefone. Ou estou ocupado, ou estou sem sinal. Deixe uma men­sagem e eu retornarei assim que puder. E mãe, se for você, eu te amo.

Ouvindo essa mensagem familiar, Leslie Crane franziu a testa. James era alguém confiável. Ele se orgu­lhava de estar sempre disponível para as pessoas com quem trabalhava. Por isso, deveria estar atendendo ao telefone. A menos que tivesse deixado a coisa ficar sem bateria, de novo. Não seria a primeira vez que James faria isso. Leslie iria amarrar o recarregador de celular no braço do sujeito um dia desses...

— Algum problema? — perguntou Lourds.

Ele estava sentado em frente a ela, a pequena mesa do café ao ar livre que ela escolhera entre os dois.


O tráfego passava lentamente e era acompanhado por homens montados em camelos e cavalos. Mulas puxavam carroças com pneus de bicicleta de borracha em direção aos suqs. Os mercados ao ar livre atraíam muitos dos habitantes locais, bem como os turistas. Os mora­dores compravam legumes e vegetais frescos enquanto os turistas com­pravam lembranças e presentes para seus parentes. Mesmo tendo estado naquela cidade já por muitos dias, Leslie ainda se sentia maravilhada pela forma como uma cidade tão moderna parecia de alguma forma presa a um modo de vida que existia há milhares de anos.

O garçom levou seus pratos após uma refeição variada que incluía molokhiyya (sopa de espinafre com coelho), torly (cozido de legumes com cordeiro), peito de pombo grelhado recheado com arroz temperado, fatias de melão e uvas, seguido de bolo de passas embebidas no leite e servido quente, e xícaras de café turco com toques de chocolate.

Estava tentando ligar para o meu produtor — explicou Leslie.

Ele está hospedado por perto? — perguntou Lourds. — De repente a gente podia dar uma passada por lá e ver como ele está.

Não será preciso, tenho certeza de que ele está bem — respondeu ela. — O James já é crescido e eu não sou a mãe dele. Ele deve estar na loca­ção ou no estúdio. Vejo com ele o que aconteceu quando chegarmos lá.

Então, me conte, o que a levou a entrar nesse negócio do entre­tenimento? — perguntou ele.

Hum... Detectei desaprovação?

Lourds sorriu:

Talvez cautela fosse uma palavra melhor.

Você não gosta de televisão?

Até gosto — respondeu o professor —, mas acho algo egoísta de­mais, egocêntrico demais.

Sentindo-se provocada, Leslie disse:

Pois eu amo estar na frente das câmeras. Adoro me ver na televisão. Mais do que isso, meu pai e minha mãe também gostam de me ver. Então tento aparecer o máximo que posso — ela sorriu. — Que tal, é egocên­trico o bastante para você?

Sim, é... E mais honesto do que eu esperava.

Bem, e quanto a você? — perguntou ela. — Por que está dispos­to a fazer parte desta série? Será que ela tocou em alguma parte oculta de sua vaidade?

Nem tanto assim, Leslie — respondeu ele. — Se não fosse pelo reitor e pelo conselho de administração insistindo para que eu viesse, teria gentilmente recusado o convite. Realmente só estou aqui por in­sistência da universidade. E por que isso me deu a chance de voltar à Alexandria. Eu adoro este lugar.

Intrigada, Leslie descansou o queixo sobre as mãos cruzadas, coto­velos apoiados sobre a mesa. Ela olhou fundo naqueles olhos cinzentos e quentes.

Mas se você não tivesse concordado, não teria sido capaz de desfrutar deste lugar encantador.

Nem a mulher bonita que me trouxe aqui — os olhos de Lourds encontraram os dela e se fixaram por alguns instantes.

Um calor espalhou-se por Leslie e não tinha nada a ver com o sol da tarde. Oh, você é bom, professor. Vou ter que tomar cuidado quando estiver perto de você.

 

DiBenedetto estacionou o caminhão em um beco a apenas alguns quarteirões do café ao ar livre onde Lourds agora fazia sua refeição com Leslie Crane. Antes de o caminhão parar por completo, uma Mercedes alemã com cinco anos de uso deslizou para o beco atrás deles. Gallardo avistou o carro no retrovisor.

Ele procurou por baixo de sua leve jaqueta e segurou a pistola de nove milímetros que estava no coldre de ombro.

Pietro — ele chamou ao fone de ouvido.

Sim — a voz rouca de Pietro respondeu. — Sou eu. Não atire.

Relaxando um pouco, Gallardo manteve a mão sobre a pistola en­quanto a Mercedes deslizava até parar atrás do caminhão. Ele olhou através do vidro esfumaçado e viu a massa impressionante de Pietro sentada atrás do volante do carro de luxo.

Gallardo saiu do caminhão, DiBenedetto desceu um passo atrás dele. Ambos abriram as portas do carro e sentaram-se em seus lugares.

Farok também desceu do caminhão vestindo um albornoz limpo. A vestimenta sangrenta havia sido deixada na traseira do veículo. Por um momento, ele ocupou-se de fechar a porta atrás de si com cuidado. Mesmo após a traseira do caminhão estar bem trancada, o cheiro de gasolina ainda se espalhava pelo beco. Satisfeito com seu trabalho, Farok acelerou voltando ao seu ritmo habitual e se juntou a eles no carro. Fedia à gasolina também.

Tudo certo? — perguntou Gallardo.

Farok acenou com a cabeça e passou a Gallardo a identificação, o passaporte e os objetos pessoais de James Kale. O cadáver tinha sido deixado completamente limpo.

Sim, está tudo pronto — disse Farok. — Encharquei o caminhão com gasolina e detergente e armei um sinalizador na porta. Quando alguém abrir a porta da carroceria, o interior do caminhão vai explodir em um inferno.

Gallardo assentiu. A mistura de gasolina e detergente era um substituto até razoável para o napalm. Iria queimar de forma rápida e concentrada, tornando muito difícil a identificação do corpo, já bastante complicada com a ausência de todos os seus documentos, que estavam agora em suas mãos. O caminhão havia sido roubado na noite passada, em preparação para seu uso, esta manhã. Não havia nada nele que pudesse conectá-lo ao seu pessoal.

Pietro dirigiu até o lado oposto de beco e saiu para a rua, buzinando furiosamente para os demais motoristas e assustando um camelo.

Cimino — chamou Gallardo pelo rádio.

Aqui — respondeu o outro. — Eles estão em movimento de novo.

Ainda estão a pé?

Sim.

Você, saia do circuito. Peça a alguém para entrar.

Tudo bem.

O estômago de Gallardo se contraiu. Eles seguiram por oito meses a trilha do artefato que Stefano Murani os contratara para encontrar. A trilha finalmente os levara do Cairo, onde o artefato tinha sido apenas um sussurro, até Alexandria, onde Gallardo achava que a coisa devia estar de qualquer modo.

O problema com esses artefatos ilegais era que eles não deixavam pistas, nem mesmo uma trilha por mais irregular que fosse. E se alguns deles não tivessem se mexido demais, como tinha acontecido com este — o comerciante que o vendera tinha contado que o negócio havia ficado numa prateleira de um quarto dos fundos durante dezessete anos —, então a trilha seria mascarada pela passagem do tempo.

Mesmo antes que tivessem matado o produtor, três homens mortos jaziam ao longo do rastro de sangue que os seguia desde o Cairo. Todos eles haviam sido comerciantes de antigüidades raras, e roubadas.

Eles estão voltando para o estúdio — alertou Cimino.

Uma explosão oca veio da esquerda, na direção do lugar onde eles haviam deixado o caminhão. Voltando a cabeça, Gallardo viu um cogu­melo de fumaça subindo aos céus bem acima do telhado dos edifícios. As sirenes começaram a soar logo depois.

Bem... — ponderou DiBenedetto do banco de trás — até que não demorou muito, não é? Esta cidade está cheia de canalhas ladrões.

Agora tem um pouco menos deles — brincou Farok.

Eles saudaram um ao outro batendo as mãos espalmadas.

Gallardo ignorou a sede de sangue de seus mercenários. Aquilo era normal para eles, e foi por isso que ele os empregou. Então, voltou seus pensamentos para as salas do estúdio. Ele e seus homens já tinham estado lá uma vez em preparação. Conheciam a disposição dos móveis e das salas. Entrar lá hoje seria fácil.

Coloquem ali — orientou Leslie. — E enquanto preparamos tudo, alguém tem notícias de James?

Não, mas ele aprovou o cenário e a disposição das câmeras ontem à noite — respondeu um dos membros da equipe. — Ele estaria fora hoje, checando algumas novas locações.

Ótimo — disse Leslie. — Avisem-me quando ele voltar.

Ela voltou então sua atenção para o arranjo dos objetos que ela desejava que Lourds olhasse.

Sentado a uma pequena mesa ao fundo do enorme salão, Lourds obser­vava os preparativos da jovem com interesse crescente. Ela obviamente estava se esforçando para fazer uma apresentação elaborada dos artefatos que lhe prometera mostrar. Os outros jovens estavam até filmando o evento.

Um dos homens, um rapaz alto de ascendência egípcia, atravessou o salão puxando atrás de si uma mala de alumínio com rodas, como as que são usadas pelos pilotos.

Com um ar teatral que lhe teria servido perfeitamente para a vida no palco no Kom Al-Dikka, o homem retirou uma chave de dentro de seu bolso das calças e enfiou-a nas travas que fechavam a mala. Abriu-as com um estalo e guardou a chave.

Lourds teve sua atenção desviada apenas parcialmente pelo som dos veículos de emergência atendendo a um problema nas proximidades. Um dos membros da equipe de Leslie tinha informado que havia um veículo pegando fogo a apenas algumas quadras dali. As viaturas oficiais estavam fervilhando como moscas, de acordo com um dos rapazes.

Movendo-se lentamente, o homem vasculhou dentro da mala e retirou seis objetos, colocando-os com reverência sobre a mesa na frente de Lourds. Quando o homem terminou, ele curvou-se a Leslie, que agradeceu, e o homem então se postou nas proximidades.

Lourds olhou ao redor, incapaz de evitar um sorriso. Seis jovens, homens e mulheres, estavam de pé ao lado de Leslie, esperando para ver o que o professor iria fazer. Ele se sentiu como se fosse um garoto brincando em seu jogo favorito.

O que você achou de tão engraçado? — perguntou Leslie.

Isto — respondeu ele, apontando para os seis objetos sobre a mesa. — Todo ano na universidade os alunos me trazem itens para ler. Normalmente réplicas, no entanto. Nunca os artigos de verdade.

Minhas fontes vão um pouco mais profundamente do que a mé­dia dos estudantes universitários — a voz de Leslie denotava uma nota de determinação. Era evidente que ela não estava preparada para ver seu investimento em tempo e em pesquisas descartado tão rapidamente.

Parece mesmo... — e Lourds fez com que isso soasse como um elogio.

Mas ainda assim, isto é como um mágico num jantar. Ele não foi lá para entreter, porém, logo que as outras pessoas descobrem o que ele faz, querem que ele realize alguns truques para que elas sintam algum deslumbramento.

Ou talvez queiram pegá-lo num fiasco qualquer, fazendo-o cair de bunda no chão — disse um dos jovens. Sua cabeça era raspada e ele ostentava tatuagens pelos dois braços.

É isso o que a Srta. Crane está esperando? — perguntou Lourds.

Que eu dê um furo?

O jovem encolheu os ombros:

Sei lá. Apostei umas libras com ela que você não ia ler eles todos. Mas acho que ela espera o contrário, que decifre tudo...

Não vou ficar triste de conseguir algumas libras a mais, Neil - respondeu Leslie. — Tenho certeza de que o professor Lourds é exa­tamente o que Harvard diz que ele é. Proficiente em todos os idiomas antigos conhecidos.

Em vários — corrigiu Lourds. — Proficiente em vários idiomas antigos...

Embora possa me virar muito bem em todos eles, emendou para si mesmo. Ele não era de se gabar. Ele podia mesmo.

Parece que ele já está preparando as suas desculpas — disse Neil, sorrindo.

O edifício era um dos mais antigos na cidade. Ar-condicionado aqui era apenas um pensamento longínquo... Como resultado, a sala era confortável, mas não hermeticamente selada como os ambientes do hotel que Lourds deixara mais cedo naquele dia. Eles estavam em um escritório de canto. Um conjunto de janelas fazia vista para o Mediterrâneo cinza-esverdeado e o outro tinha uma bela vista da cidade de Alexandria. Lourds estava disposto a apostar que ele poderia provavelmente ver Kom Al-Dikka da janela.

Leslie dissera-lhe que o escritório tinha sido despojado e configurado para lidar com as necessidades da produção do programa de televisão. Um pequeno cenário, iluminado e pronto, ocupava um dos lados da sala, que estava com as janelas bloqueadas para que pudessem controlar a luminosidade. Era um cenário decorado para se parecer com o escritório de uma pessoa, com estantes repletas de livros falsos por trás da mesa onde Lourds tinha sido orientado para se sentar. A mesa era melhor e maior do que aquela que ele possuía em seu próprio escritório em Harvard. Coberta com um conjunto de equipamentos de informática que parecia capaz de lançar naves espaciais, era algo que se ajustava ao status de estrela do rock que o programa aspirava lhe emprestar.

O outro lado da sala e a maior parte do espaço restante estavam cobertos de câmeras, microfones e equipamento de som colocados lado a lado. Fios encapados serpenteavam em todas as direções e pareciam estar frouxamente mantidos sob controle. Todo o salão era um pouco intimidante, achava Lourds.

O professor pegou o primeiro item, uma caixa de madeira de cerca de seis centímetros de comprimento por quatro de largura por dois de pro­fundidade. Hieróglifos coloridos acompanhavam o topo e as laterais. Ao abrir a tampa, Lourds encontrou uma pequena estatueta de uma múmia.

Sabe o que é isso?

Lourds virou a pequena caixa para frente a fim de poder exibir seu conteúdo para o pessoal da televisão.

Uma shabti — respondeu Leslie.

Muito bem. E você sabe o que é uma shabti?

Uma peça para dar boa sorte e que era deixada nas tumbas egípcias.

Não exatamente — disse Lourds, dando tapinhas na figura. — Su­põe-se que as estatuetas shabti representavam o mordomo do falecido, seu servo principal e que iria realizar as tarefas do seu amo na vida após a morte.

Tudo bem, uma coisa é saber o que é essa estatueta — sugeriu Neil —, mas outra é conseguir ler o que está escrito.

É do Capítulo Seis do Livro dos Mortos — Lourds estudava a inscrição, não querendo assumir a tradução caso alguém tivesse alterado a redação que deveria estar lá. Mas tudo parecia estar no lugar em que deveria. E leu os hieróglifos com facilidade. — Se N for chamado para fazer qualquer dos trabalhos que sejam realizados no submundo, então as marcas (na lista dos trabalhos) são impactadas sobre ele assim como o são no homem (a seu serviço) e devem ser contadas como sendo dele a qualquer momento que possam ser feitos, como cultivar a margem do rio, irrigar os campos ribeirinhos, transportar areia para leste ou oeste. "Estou fazendo isso, veja, estou aqui", você está dizendo.

Leslie olhou para seu notebook e, em seguida, entregou-o a Neil.

Então ele acertou uma... — disse Neil, devolvendo o notebook. — Mas tudo bem, ele poderia ter memorizado essa passagem.

Lourds foi para o item seguinte: uma réplica de um papiro escrito em copta e que lhe parecia familiar demais. Ele olhou para Leslie:

Isto aqui veio do documento codificado que eu traduzi.

É — concordou ela. — Como não existe uma versão desses documentos em audiolivro, achei que seria interessante termos uma apresentação oral...

Neil virou a cabeça para ela:

Essa é aquela coisa cheia de sacanagem da qual me falou?

Isso mesmo — e os brilhantes olhos verdes de Leslie não deixa­ram de encarar os de Lourds.

Um desafio, hein? Lourds sentiu-se intrigado e divertido ao mesmo tempo, tentando adivinhar até onde ela o deixaria prosseguir. Afinal, ele já fora obrigado a apresentar essa peça um bom número de vezes em diferentes comissões, incluindo a sala do reitor para uma celebração na aceitação da tradução. A leitura, proferida com a habilidade de um orador que se desenvolveu naturalmente a partir dos muitos anos de Lourds como professor, tinha sido um grande sucesso e feito inúmeras línguas acadê­micas balançar para fora da boca escandalosamente. Ela não conhecia o mundo em que ele vivia se pensava que meras palavras poderiam constrangê-lo ou assustá-lo aqui.

Ele leu o primeiro trecho do documento em voz alta e então traduziu. Leslie deteve Lourds antes que a primeira seção das preliminares se tornasse mais séria:

Tudo bem — disse ela, corando. — Você conhece o texto, va­mos para o próximo.

Tem certeza? — perguntou Lourds. — Estou bem familiarizado com este aqui...

Ele não esclareceu propositalmente se estava familiarizado com o texto... Ou com a técnica apresentada. Suas palavras foram tão desafia­doras quanto as dela.

Tenho certeza de que sim — retrucou Leslie — Só não quero que os figurões da rede fiquem se coçando de nervoso.