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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O COLAR DA RAINHA 2° Volume / Alexandre Dumas
O COLAR DA RAINHA 2° Volume / Alexandre Dumas

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O COLAR DA RAINHA

2° Volume

 

         Duas ambições que querem passar por dois amores

   SEM SER RAINHA, Joana também era mulher.

Disso resultou que, mal entrada no carro, comparou o belo palácio de Versalhes, os móveis esplêndidos e ricos, com o seu quarto andar da Rua de Saint-Gilles, os magníficos lacaios à sua velha criada.

   Mas quase imediatamente a humilde mansarda e a velha criada se esvaíram na sombra do passado, como uma dessas visões que, já não existindo, nunca existiram, e viu a casinha do bairro de Santo António, tão distinta, tão graciosa, tão confortável, como hoje se diria, com lacaios menos bordados que os de Versalhes, mas igualmente respeitosos e obedientes.

   A casa e os lacaios representavam o seu Versalhes dela, em que não era menos rainha do que Maria Antonieta, e em que os seus desejos, enquanto soubesse conformá-los, não com o necessário, mas com o razoável, eram tão bem e tão rapidamente executados como se ela empunhasse o cetro.

   Foi, portanto, com o rosto desanuviado e o sorriso nos lábios, que Joana entrou em casa. Ainda era cedo; tomou de papel, pena e tinta, escreveu algumas linhas, introduziu-as num envelope fino e perfumado, redigiu o endereço e tocou a campainha.

   Mal soara a última vibração da campainha, a porta se abria e um lacaio assomava ao limiar da sala.

   —     Eu tinha razão, — murmurou Joana, — a rainha não é mais bem servida.

Em seguida, estendendo a mão:

—        Esta carta para Monsenhor, o Cardeal de Rohan, — explicou.

Adiantou-se o lacaio, pegou o bilhete e saiu sem dizer uma palavra, com a muda obediência dos criados das casas fidalgas. A condessa deixou-se cair em profundo devaneio, devaneio que não era novo, mas que continuava o da estrada.

   Cinco minutos não se haviam passado quando alguém bateu à porta.

—        Entrai, — disse a Sra. de La Motte.

Reapareceu o lacaio.

— E então? — perguntou ela com um leve movimento de impaciência ao ver que a sua ordem não fora executada.

— No momento em que eu estava saindo para executar as ordens da Sra. Condessa, — respondeu o lacaio, — Monsenhor bateu à porta. Eu disse-lhe que ia ao seu palácio. Êle pegou na carta da Sra. Condessa, leu-a, apeou do carro e entrou, dizendo:

— "Está bem; anunciai-me."

— E depois?

— Monsenhor está aí;   esperando que vos digneis mandá-lo entrar.

   Breve sorriso perpassou pelos lábios da condessa. Dois segundos depois:

   —     Fazei-o entrar, — disse ela, afinal, em tom de acentuada satisfação.

   Esses dois segundos teriam tido a finalidade de fazer esperar em sua antecâmara um príncipe da Igreja, ou seriam necessários a Sra. de La Motte para completar o seu plano?

O príncipe surgiu à porta.

   Ao voltar para casa, ao mandar buscar o cardeal, ao sentir uma alegria tão grande com a presença dele, teria Joana algum plano?

   Sim, pois a fantasia da rainha, como um desses fogos-fátuos que iluminam um vale inteiro cheio de sombrios acidentes, essa fantasia de rainha e sobretudo de mulher, acabava de descobrir aos olhos da intrigante condessa todos os secretos refolhos de uma alma tão soberba que se não dava ao trabalho de tomar grandes precauções para escondê-los.

   É longa a estrada de Versalhes a Paris e quando a percorremos em companhia do demônio da cupidez, este tem tempo suficiente para soprar-nos aos ouvidos os projetos mais temerários.

   Joana sentia embriagá-la a cifra de um milhão e meio de libras, materializada em brilhantes sobre o cetim branco do escrínio dos Srs. Boehmer e Bossange.

   Um milhão e quinhentas mil libras! Não era, com efeito, uma fortuna principesca, mormente para a pobre mendiga que, um mês antes, estendia a mão para a esmola dos grandes?

   Sem dúvida, havia uma distância maior entre a Joana de Valois da Rua de Saint-Gilles à Joana de Valois do bairro de Santo António do que entre a Joana de Valois do bairro de Santo António e a Joana de Valois dona do colar.

   Já percorrera, portanto, mais da metade do caminho que conduz à fortuna.

   E essa fortuna cobiçada não era uma ilusão como os termos de um contrato, como uma propriedade imóvel, coisas sem dúvida fundamentais, mas às quais impende acrescentar a inteligência do espírito ou dos olhos.

   —     Não, o colar era coisa bem diversa de um contrato ou de um imóvel: era a fortuna visível; por isso mesmo, lá estava sempre, ardente e fascinante; e visto que a rainha o desejava, Joana de Valois podia sonhar com êle; visto que a rainha sabia privar-se dele, a Sra. de La Motte bem podia cifrar nele a sua ambição.

   Mil idéias vagas, estranhos fantasmas de contornos imprecisos, que o poeta Aristófanes comparava aos homens em seus momentos de paixão, mil invejas, mil desejos de possuir assumiram para Joana, durante o percurso de Versalhes a Paris, a forma de lobos, raposas e serpentes aladas.

   O cardeal, que devia realizar-lhe os sonhos, interrompeu-os, respondendo pela sua presença inesperada ao desejo que tinha de vê-lo a Sra. de La Motte.

   Êle também acalentava sonhos, também acariciava uma ambição, que escondia sob uma máscara de zelo, sob aparências de amor.

— Ah! minha querida Joana, — exclamou, — sois vós!   Tornastes-vos para mim tão necessária que passei um dia amargurado com a idéia de que estáveis longe de mim. Voltastes, pelo menos, de Versalhes bem de saúde?

— Como estais vendo, Monsenhor.

— Contente?

— Encantada.

— A rainha vos recebeu?

— Assim que cheguei, fui levada à sua presença.

— Tendes muita sorte.   Garanto, pelo vosso ar triunfante, que ela vos dirigiu a palavra!

— Passei quase três horas no gabinete de Sua Majestade.

   O cardeal estremeceu e pouco faltou que repetisse, em tom declamatório:

—Três horas! Conteve-se, porém.

— Sois, realmente, — disse êle, — uma feiticeira, e ninguém saberia resistir-vos.

— Oh!   Oh! estais exagerando, meu príncipe.

—        Não estou.   Ficastes três horas com a rainha?

Joana fez um sinal afirmativo com a cabeça.

— Três horas! — repetiu o cardeal, sorrindo; — quantas coisas uma mulher inteligente como vós pode dizer em três horas!

— Asseguro-vos, Monsenhor, que não perdi o meu tempo.

— Aposto que, durante essas três horas, — arriscou o prelado,— não pensastes em mim um minuto sequer!

— Ingrato!

— Deveras? — bradou o cardeal.

— Fiz mais do que pensar em vós.

— Que fizestes?

— Falai em vós.

— Falastes em mim? A quem? — indagou o Sr. de Rohan,cujo coração principiava a bater, com voz cuja emoção nem o seu grande domínio sobre si mesmo logrou dissimular.

— A quem, senão à rainha?

   E pronunciando essas palavras tão preciosas para o cardeal, Joana teve a arte de não encarar com êle, como se pouco lhe importasse o efeito que haviam de produzir.

O Sr. de Rohan palpitava.

   —     Ah! querida condessa, contai-me isso! Interesso-me a tal ponto por quanto vos acontece, que não quero que me oculteis o mais mínimo detalhe.

   Sorriu-se Joana; sabia o que interessava ao cardeal tão bem quanto êle mesmo.

   Mas como o minucioso relato já estava preparado em seu espírito; como ela o teria feito ainda que o cardeal não lho tivesse pedido, começou pausadamente, valorizando as sílabas; referindo toda a entrevista, toda a conversação; exibindo, a cada palavra, a prova de que, por um desses felizes acasos que fazem a fortuna dos cortesãos, vira-se em Versalhes em circunstâncias singulares, capazes de transformar, num dia, uma estranha em amiga quase indispensável. Num dia, com efeito, Joana de La Motte se iniciara em todos os infortúnios da rainha, em todas as impotências da realeza.

   O Sr. de Rohan não parecia guardar da narrativa senão o que a rainha dissera em relação à Joana.

   Esta, em seu reconto, acentuava apenas o que a rainha dissera em relação ao Sr. de Rohan.

   Mal terminara a exposição, quando entrou o mesmo lacaio, anunciando que a ceia estava na mesa.

   Joana convidou o cardeal com um olhar. O cardeal aceitou com um sinal.

   Ofereceu o braço à dona da casa, que tão depressa se habituara a fazer-lhe as honras, e passou à sala de jantar.

   Concluída a ceia, depois que o prelado sorveu, em largos haustos, a esperança e o amor nas histórias vinte vezes repetidas, vinte vezes interrompidas da feiticeira, forçoso lhe foi, afinal, depor as armas diante daquela criatura, que tinha nas mãos o coração dos poderosos.

   Pois observava, com surpresa vizinha do assombro, que, em vez de se fazer de rogada, como toda mulher que se procura e de que se tem precisão, ela ia ao encontro dos desejos do interlocutor com uma graça bem diferente da leonina altivez da última ceia, saboreada no mesmo lugar e na mesma casa.

   Joana, desta feita, fazia as honras da casa não só como senhora de si mesma, senão também como senhora dos outros. Nenhum embaraço no olhar, nenhuma reserva na voz. Não havia ela, para tomar essas altas lições de aristocracia, freqüentado o dia inteiro a flor da nobreza francesa? Uma rainha sem rival não lhe chamara minha querida condessa?

   Daí que o cardeal, compreendendo-lhe a superioridade, como homem superior também, não tentasse resistir-lhe.

— Condessa, — disse êle, pegando-lhe na mão, — há duas mulheres em vós.

— Como assim?

— A de ontem e a de hoje.

— E qual das duas prefere Vossa Eminência?

— Não sei. Só sei que a desta noite é uma Armida, uma Circe, qualquer coisa de irresistível.

— E à qual espero que Vossa Eminência não tente resistir, por príncipe que seja.

   Deixou-se o prelado escorregar da cadeira e foi cair aos pés da Sra. de La Motte.

— Estais pedindo esmola? — indagou ela.

— E espero que não ma recuseis.

— O dia é de generosidade, — respondeu Joana; — a Condessa de Valois alcançou posição, figura entre as damas da corte; dentro em pouco figurará entre as mulheres mais altivas de Versalhes.Pode, portanto, abrir a mão e estendê-la a quem lhe aprouver.

— Até a um príncipe? — acudiu o Sr. de Rohan.

— Até a um cardeal, — redargüiu Joana.

   Depôs o prelado um longo beijo ardente na linda mãozinha rebelde; depois, tendo consultado com os olhos o olhar e o sorriso da condessa, levantou-se. E, passando à antecâmara, disse duas palavras ao criado.

Dois minutos depois, ouvia-se o ruído do carro, que se afastava.

A condessa ergueu a cabeça.

— À minha fé! condessa, — disse o cardeal, — queimei os meus

navios.

— E não tendes nisso grande mérito, — respondeu a condessa, —

visto que estais no porto.

 

         Em que se começa a ver os rostos debaixo das máscaras

AS LONGAS palestras são o feliz privilégio das pessoas que já não têm o que dizer. Depois da felicidade de calar ou de exprimir um grande desejo por meio de interjeições, a maior, sem dúvida, é falar muito sem dizer nada.

   Duas horas após haver mandado embora o carro, o cardeal e a condessa estavam na situação que descrevemos. Cedera a condessa, o cardeal vencera, e, entretanto, o cardeal era o escravo e era a condessa o triunfador.

   Dois homens se enganam apertando as mãos. Um homem e uma mulher enganam-se num beijo.

   Mas aqui um só enganava o outro porque o outro queria ser enganado.

   Cada qual tinha um objetivo. Para esse objetivo, a intimidade era necessária.   Cada qual, portanto, atingira o seu objetivo.

   Daí que o cardeal não se desse ao trabalho de dissimular a impaciência. Contentou-se de fazer um pequeno rodeio e, dirigindo novamente a conversação para Versalhes e para as honras que lá esperavam a nova favorita da rainha:

— Ela é generosa, — disse êle, — e nada lhe custa quando se trata de pessoas que quer bem.   Possui o raro talento de dar um pouco a muita gente, e de dar muito a poucos amigos.

— Julgai-la rica? — inquiriu a Sra. de La Motte.

— Ela sabe conseguir recursos com uma palavra, um gesto,um sorriso.   Nenhum ministro, salvo Turgot talvez, teve até hoje coragem de recusar um pedido da rainha.

— Pois eu, — sobreveio a Sra. de La Motte, — eu vejo-a menos

rica do que a supondes, pobre rainha, ou melhor, pobre mulher!

— Como assim?

— Será rico quem se vê na contingência de impor-se privações?

— Privações?   Contai-me isso, minha querida Joana.

— Oh! meu Deus!   Dir-vos-ei o que vi, nem mais, nem menos.

— Dizei, que estou escutando.

— Figurai   dois   suplícios   medonhos,   que   a   infeliz   rainha suportou.

— Dois suplícios? Quais?

— Sabeis o que é um desejo de mulher, meu caro príncipe?

— Não, mas gostaria que mo ensinásseis, condessa.

— Pois a rainha tem um desejo que não pode satisfazer.

— Desejo de quem?

— De quem, não; de quê.

— Seja.   De quê?

— De um colar de brilhantes.

— Esperai, que já sei.   Não são os brilhantes de Boehmer e Bossange?

— Precisamente.

— A história é velha, condessa.

— Velha ou nova, não é um verdadeiro desespero para uma rainha não poder possuir o que quase possuiu uma simples favorita?   Bastaria que o Rei Luís XV tivesse vivido mais quinze dias,para que Joana Vaubernier tivesse o que Maria Antonieta não pode ter.

— Pois é nisso, minha querida condessa, que reside o vosso engano: a rainha já pôde ter cinco ou seis vezes os brilhantes, e sempre os recusou.

— Oh!

— Estou-vos dizendo que o rei lhos ofereceu, e que ela não quis aceitá-los!

E referiu a história do navio.

Joana escutou com avidez.   E quando o cardeal terminou:

— Muito bem, — disse ela, — e daí?

— E daí, como?

— Sim, que é que prova isso?

—        Que ela não os quis.

Joana deu de ombros.

— Conheceis as mulheres, conheceis a corte, conheceis os reis,e ainda vos deixais iludir por semelhante resposta?

— Apenas constato uma recusa.

— Meu caro príncipe, isso apenas significa que a rainha precisou dar uma resposta brilhante, popular, e deu-a.

— Assim acreditais nas virtudes reais?   Ah!   cética!   São Tomé era um crente ao pé de vós!

— Cética ou crente, asseguro-vos uma coisa.

— Qual?

— Que a rainha, tanto que recusou o colar, foi tomada de uma vontade louca de possuí-lo.

— Fantasias vossas, minha cara!     Em primeiro lugar acreditai no seguinte: a despeito de todos os seus defeitos, a uma qualidade imensa.

— Qual?       

— É desinteressada!   Não gosta do ouro, nem da prata, nem de pedras.   Pesa os minerais pelo seu valor; para ela, uma flor no peito vale um brilhante na orelha.

— Não digo que não.   Mas, há esta hora, garanto que ela tem vontade de pôr vários brilhantes no pescoço.

— Provai-o, condessa.

— Nada mais fácil; ainda há pouco vi o colar.

— Vós?

— Eu; não só o vi, como também o toquei.

— Onde?

—Em Versalhes.

— Em Versalhes?

— Sim, aonde o levaram os joalheiros, procurando tentar a rainha pela última vez.

— E é bonito?

— Maravilhoso!

— Nesse caso, vós, que sois realmente mulher, compreendeis que se pense no colar.

— Compreendo que, por causa dele, se percam o apetite e o sono.

— Ai de mim! por que não terei um navio para dar ao rei?

— Um navio?

— Sim, pois êle me daria o colar; e depois que eu o tivesse,poderíeis comer e dormir sossegada.

— Estais caçoando?

— Juro que não.

— Pois vou dizer-vos uma coisa que vos assombrará.

— Dizei-a.

— Eu não quisera ter o colar!

— Tanto melhor, condessa, pois eu não poderia dar-vo-lo.

— Nem vós nem ninguém; sabe-o a rainha e por isso o deseja.

— Mas repito que o rei lho ofereceria.

Joana fez um movimento rápido, quase importuno.

   —     E eu, — disse ela, — eu vos asseguro que as mulheres gostam principalmente desses presentes quando não são feitos por pessoas que as obriguem a aceitá-los.

O cardeal considerou-a com mais atenção.

— Não compreendo muito bem, — confessou.

— Tanto melhor; fiquemos nisso.   Em primeiro lugar, que vos faz o colar, se não podemos tê-lo?

— Oh! se eu fosse o rei e vós, a rainha, eu saberia obrigar-vos a aceitá-lo.

— Pois bem! sem ser o rei, obrigai a rainha a ficar com êle, e vereis se a vossa violência a   deixará tão zangada quanto o imaginais.

O cardeal olhou mais uma vez para Joana.

— Tendes certeza de não estar enganada?   A rainha tem mesmo esse desejo? — perguntou.

— Ardentíssimo.   Escutai, meu caro príncipe: não me dissestes uma vez, ou já não vos ouvi que gostaríeis de ser ministro?

— É muito possível que eu tenha dito isso, condessa.

— Pois bem! façamos uma aposta...

— Qual?

— Que a rainha fará ministro o homem que se houver de modo que lhe apareça o colar no toucador dentro de oito dias.

— Oh! condessa.

— Digo o que penso...   Preferis que eu pense em voz baixa?

— Nunca!

— De resto, o que estou dizendo não é convosco.   Está visto que não gastareis um milhão e meio para satisfazer um capricho real; seria, a meu ver, pagar muito caro por uma pasta que tereis de graça e que vos é devida.   Tomai, portanto, as minhas palavras por tagarelice.   Sou como os papagaios:   fiquei deslumbrada pelo sol e agora vivo repetindo que está fazendo calor.   Ah! Monsenhor,rude prova é um dia de valimento real para uma pobre provincianazinha!   É preciso ser águia como vós para poder encarar nesses

raios.

O cardeal ficou pensativo.

— Pronto! — acudiu Joana, — agora me julgais tão mal, achais-me tão vulgar e mesquinha, que nem sequer vos dignais de falar-me.

— Homessa!

— A rainha julgada por mim, sou eu.

— Condessa!

— Que quereis?   Acreditei que ela desejasse os brilhantes por que suspirou ao vê-los;  acreditei-o porque, em seu lugar, eu os teria desejado; perdoai-me a fraqueza.

— Sois uma mulher adorável, condessa; tendes, por uma aliança incrível, a fraqueza do coração, como dizeis, e a força do espírito: sois tão pouco mulher em certos momentos, que chego a assustar-me.   Soi-lo tão adoravelmente em outros, que por isso bendigo o céu e vos bendigo.

   E o galante cardeal acentuou a galanteria com um beijo, dizendo:

— Não falemos mais nessas coisas.

— Seja, — murmurou Joana baixinho, — mas creio que o anzol já mordeu a carne.

   E ao mesmo passo que dizia:   "Não falemos mais nisso", o cardeal perguntava:

— E parece-vos que foi Boehmer quem voltou à carga?

— Sim, com Bossange, — retorquiu, inocentemente, a Sra. de

La Motte.

— Bossange...   Um momento, — volveu o prelado como que procurando lembrar-se; — Bossange não é o sócio dele?

— É.

— Um alto e magro?

— Exatamente.

— Que mora?...

— Deve morar lá pelos lados do Cais da Ferraria, ou da Escola, não sei; em todo o caso, perto do Pont-Neuf.

— Do Pont-Neuf, tendes razão; li esses nomes acima de uma porta, ao passar de carro.

— Bem, bem, — murmurou Joana, — o peixe está mordendo cada vez mais.

Joana tinha razão: o anzol penetrara fundamente na presa.

   Por isso mesmo, no dia seguinte, ao sair da casinha do bairro de Santo António, fêz-se o cardeal conduzir à casa de Boehmer.

   Esperava manter-se incógnito, mas Boehmer e Bossange eram os joalheiros da corte e, às primeiras palavras que êle pronunciou, chamaram-lhe Monsenhor.

— Monsenhor, pois sim, — assentiu o cardeal; — mas visto que me reconheceis, procurai fazer, ao menos, que outros não me reconheçam.

— Monsenhor   pode   ficar   tranqüilo.     Aguardamos   as   suas ordens.

— Venho   comprar o colar de brilhantes que mostrastes à rainha.

— Lamentamos profundamente, mas Vossa Eminência chegou muito tarde.

— Como assim?

— O colar já foi vendido.

— Impossível!   Ainda ontem tornastes a oferecê-lo à rainha!

— Que tornou a recusá-lo, Monsenhor; subsiste, portanto, o contrato anterior.

— E com quem foi celebrado o contrato? — perguntou o cardeal.

— Isso é segredo, Monsenhor.

— Já são segredos demais, Sr. Boehmer.

E o prelado levantou-se.

— Mas, Monsenhor...

— Eu cria, senhor, — prosseguiu o cardeal, — que um joalheiro da coroa de França devia comprazer-se de vender em França essas belas pedras; preferis Portugal. Como quiserdes, Sr. Boehmer.

— Vossa Eminência sabe tudo! — bradou o joalheiro.

— E que vedes nisso de espantoso?

— É que, se Vossa Eminência sabe tudo, só pode sabê-lo por intermédio da rainha.

— E ainda que assim fosse? — tornou o Sr. de Rohan, sem repelir a suposição, que lhe lisonjeava o amor-próprio.

— Nesse caso, mudaria tudo de figura, Monsenhor.

— Explicai-vos, que não estou compreendendo.

— Vossa Eminência me permite falar-lhe com toda a liberdade?

— Falai.

— Pois bem! a rainha deseja o nosso colar.

— Acreditai-lo?

— Temos certeza.

— Então por que não o compra?

— Porque, depois de recusá-lo a el-rei, voltar atrás da decisão que lhe valeu tantos elogios de Sua Majestade, seria mostrar-se caprichosa.

— A rainha está acima do que se diz.

— Sim, quando é o povo, ou quando são os cortesãos que dizem; mas quando é o rei que fala...

— Sabeis que o rei quis dar o colar à rainha?

— Sem dúvida; mas êle não demorou em agradecer-lhe quando ela o recusou.

— Vamos a ver, qual é a vossa conclusão, Sr. Boehmer?

— Que a rainha gostaria muito de ter o colar, mas sem parecer comprá-lo.

— Pois estais enganado, — afirmou o cardeal; — não se trata disso.

— É pena, Monsenhor, pois seria essa a única razão que nos levaria a faltar à palavra já empenhada com o Sr. Embaixador de Portugal.

Refletiu Sua Eminência.

   Por mais forte que seja a diplomacia dos diplomatas, a dos comerciantes lhes é sempre superior... Em primeiro lugar, o diplomata negocia quase sempre valores que não possui; o comerciante segura e aperta entre as garra á o objeto que excita a curiosidade: compra-lo, ainda que pagando bem, é quase despojá-lo dele.

   Vendo que estava nas mãos daquele homem, disse o Sr. de Rohan:

—        Imaginai, se quiserdes, que a rainha deseja o colar.

— Isso modifica tudo, Monsenhor.     Posso romper todos os contratos quando se trata de dar preferência a Sua Majestade.

— Por quanto o vendeis?

— Por um milhão e quinhentas mil libras.

— E como quereis receber o dinheiro?

— Portugal dava-me uma entrada e eu levaria pessoalmente o colar a Lisboa, onde receberia o restante à vista.

— Esse sistema de pagamento não é praticável entre nós, Sr. Boehmer; recebereis a entrada, se for razoável.

— Cem mil libras.

— Podem arranjar-se.   E o resto?

— Vossa Eminência quer prazo? — volveu Boehmer. — Com a sua garantia, tudo é possível. Entretanto, a demora implica numa perda; pois bem é que note, Monsenhor: em negócio de tamanha importância, os algarismos crescem sozinhos e destemperadamente. Os juros de um milhão e meio de libras, a cinco por cento, são se tenta e cinco mil libras, e esses juros arruinariam qualquer comerciante.   Dez por cento representam a menor taxa aceitável.

— Seriam, portanto, segundo os vossos cálculos, cento e cinqüenta mil libras?

— Exatamente, Monsenhor.

— Admitamos que vendeis o colar por um milhão e seiscentas mil libras, Sr. Boehmer, e dividis o pagamento do milhão e quinhentas mil restantes em três vezes, ao prazo de um ano.   Feito?

— Monsenhor, perdemos cinqüenta mil libras no negócio.

— Não creio.   Se recebêsseis amanhã um milhão e quinhentas mil libras, ficaríeis atrapalhado: um joalheiro não compra terras desse preço.

— Somos dois, Monsenhor, meu sócio e eu.

— Pois mesmo assim será melhor receberdes quinhentas mil libras de quatro em quatro meses, isto é, duzentas e cinqüenta mil cada um.

— Vossa Eminência esquece que os brilhantes não nos pertencem.   Se nos pertencessem, teríamos dinheiro suficiente para não nos preocuparmos com a forma de pagamento nem em colocar o que recebêssemos.

— A quem pertencem, então?

— A uns dez credores, talvez: compramos as pedras separadamente.   Devemo-las, uma a Hamburgo, outra a Nápoles; uma a Buenos Aires, duas a Moscou.   Os credores estão esperando a venda do colar para se reembolsarem.   A nossa única parte será o lucro que der o negócio; mas, infelizmente, Monsenhor, desde que esse desgraçado colar está à venda, isto é, há dois anos, já perdemos duzentas mil libras de juros.   Calculai, assim, o nosso lucro.

O Sr. de Rohan interrompeu-o:

— Mas com tudo isso ainda não vi o colar.

— É verdade, Monsenhor: ei-lo aqui.

   E Boehmer, com todas as cautelas de praxe, exibiu a preciosa jóia.

   —     Soberbo! — exclamou o cardeal, tocando com amor nos fechos, que deviam ter-se impresso no colo da rainha.

   Quando terminou e depois que os dedos lhe buscaram nas pedras, a seu talante, os eflúvios simpáticos que pudessem ter aderido a elas:

— Negócio fechado? — perguntou.

— Fechado, Monsenhor; e vou agora mesmo à Embaixada dês dizer-me.

— Eu não sabia que houvesse um embaixador de Portugal em Paris neste momento.

— Pois é realmente o Sr. de Sousa quem aqui está; veio incógnito.

— Para tratar do caso? — emendou o cardeal, a rir.

— Sim, Monsenhor.

—        Pobre Souza!   Conheço-o bem.   Pobre Souza!

E redobrou de hilaridade.

O Sr. Boehmer julgou dever associar-se à alegria do cliente.

Riram muito tempo sobre o escrínio, às expensas de Portugal.

O Sr. de Rohan fez menção de partir. Boehmer deteve-o:

— Vossa Eminência não quer dizer-me como se há de concluir o negócio?

— Muito naturalmente.

— O intendente de Vossa Eminência?

— Não; eu só e mais ninguém; tratareis apenas comigo.

— Quando?

— Amanhã.

— As cem mil libras?

— Trá-las-ei aqui.

— Bem, Monsenhor. E os títulos?

— Amanhã mesmo os assinarei.

— Perfeitamente, Monsenhor.

— E visto que sois um homem discreto, Sr. Boehmer, não vos esqueça que tendes em mãos um segredo importantíssimo.

— Não me esquecerei, Monsenhor, e hei de merecer a sua confiança bem como a de Sua Majestade a Rainha, — ajuntou o ourives,com finura.

   O Sr. de Rohan corou e saiu perturbado, mas feliz como todo homem que se arruína num paroxismo de paixão.

   No dia seguinte, dirigiu-se Boehmer, com ar composto, à Embaixada de Portugal.

No momento em que ia bater à porta, o Sr. Beausire, primeiro secretário, tomava contas ao Sr. Ducorneau, primeiro chanceler, e D. Manuel de Sousa, o embaixador, explicava um novo plano de campanha ao seu associado, o criado de quarto.

   Depois da última visita do Sr. Boehmer à Rua de Ia Jussienne, o palácio sofrera diversas transformações.

   Todo o pessoal desembarcado, como vimos, dos dois carros de posta, alojara-se consoante as necessidades da ocasião e assumira as várias atribuições que lhe cabiam em casa do novo embaixador.

   Cumpre dizer que os sócios, repartindo assim os papéis que tão bem desempenhavam, e nos quais se revezavam, tinham ensejo de vigiar-se reciprocamente, o que dá sempre um pouco de coragem para as mais rudes tarefas.

   Encantado com a inteligência dos lacaios, o Sr. Ducorneau se admirava, ao mesmo tempo, de que o embaixador, dando de barato o preconceito nacionalista, tivesse uma casa inteiramente francesa, desde o primeiro secretário até ao terceiro criado de quarto.

   Foi, portanto, a esse propósito que, fazendo contas com o Sr. de Beausire, encetava com este último um diálogo encomiástico sobre o chefe da embaixada.

— Os Souzas, — dizia Beausire, — não são desses portugueses atrasados que ainda vivem a vida do século XIV, como muitos existem nas nossas províncias.   São fidalgos viajados, riquíssimos, que seriam reis onde quer que lhes aprouvesse.

— Mas não lhes apraz, — observou, espirituosamente, o Sr. Ducorneau.

— Para que, Sr. Chanceler?   Porventura com certo número de milhões e um nome principesco uma pessoa não vale um rei?

— Mas isso são doutrinas filosóficas, Sr. Secretário! — atalhou, surpreso, o Sr. Ducorneau; — eu não esperava ouvir tais máximas igualitárias da boca de um diplomata.

— Somos uma exceção, — respondeu Beausire, um tanto contrariado pelo próprio anacronismo; — sem ser voltariano nem armênio à moda de Rousseau, conhecemos o nosso mundo filosófico,conhecemos as teorias naturais da desigualdade das condições e das forças.

— Sabeis, — bradou, impetuoso, o chanceler, — que é uma felicidade ser Portugal um Estado pequeno?

— Por quê?

— Porque, tendo homens assim no seu governo, cresceria muito depressa.

— Oh! estais-nos lisonjeando, meu caro chanceler. Fazemos realmente uma política filosófica, especiosa, mas pouco aplicável.   Entretanto, mudemos de assunto.   Dizeis que há cento e oito mil libras em caixa?

— Sim, Sr. Secretário, cento e oito mil libras.

— E nenhuma dívida?

— Nem um centil.

— Exemplar.   Dai-me, por favor, o livro de contas.

— Ei-lo.   E quando será o dia da apresentação, Sr. Secretário? No bairro é um assunto de curiosidade, de comentários inesgotáveis, direi até de inquietações.

—        Ah! ah!

— Sim, o tempo todo não cessa de rodar em torno do palácio gente que quisera que as portas fossem de vidro.

— Gente!... — exclamou Beausire, — gente do bairro?

— Do bairro e de fora.   Oh! sendo secreta a missão do Sr. Embaixador, está visto que a polícia não tardará em ocupar-se de penetrar-lhe os motivos.

— Foi também o que pensei, — conveio Beausire, preocupado.

— Vede, Sr. Secretário, — disse Ducorneau, conduzindo Beausire a uma janela, que se abria numa das paredes laterais do palácio.

— Olhai, não distinguis na rua aquele homem de sobretudo pardo sujo?

— Distingo.

— Como olha, hein?

— De fato.   Quem imaginais que seja?

— Sei lá...   Um espia do Sr. de Crosne, talvez.

— É provável.

— Aqui entre nós, Sr. Secretário, o Sr. de Crosne não é um magistrado da força do Sr. de Sartines.   Conhecestes o Sr. de Sartines?

— Não, senhor.

— Esse já vos teria adivinhado dez vezes.   É verdade que tomais precauções. .

Soou a campainha.

   —     O Sr. Embaixador está chamando, — anunciou precipitada mente Beausire, já incomodado pela conversação.

   E, abrindo a porta com força, empurrou com ela dois sócios que, um com a pena na orelha e outro de vassoura na mão, o primeiro fantasiado de amanuense e o segundo de criado, estavam achando a palestra muito comprida e dela queriam participar, nem que fosse pelo sentido da audição.

   Beausire compreendeu que suspeitavam dele, e prometeu a si mesmo redobrar de vigilância.

   Subiu, portanto, ao quarto do embaixador, não sem haver, no escuro, apertado a mão dos dois amigos e co-interessados.  

 

         Em que o Sr.   Ducorneau não compreende absolutamente nada do que se está passando

  1. MANUEL DE SOUZA estava menos amarelo que de costume, isto é, estava mais vermelho. Acabava de ter com o Sr. Comendador Criado de Quarto uma penosa explicação.

   A explicação ainda não terminara.

   Quando Beausire chegou, os dois galos arrancavam, um do outro, as últimas penas.

— Vamos a ver, Sr. Beausire, — pediu o comendador, — ponde-nos de acordo.

— Em quê? — acudiu o secretário, assumindo ares de árbitro,depois de haver trocado um olhar com o embaixador, seu aliado natural.

— Sabeis, — disse o criado de quarto, — quê o Sr. Boehmer deve vir hoje para fechar o negócio do colar.

— Sei.

— E que se devem entregar a êle as cem mil libras.

— Também sei.

— Essas cem mil libras são propriedade da associação, não são?

— É claro que sim.

— Ah! o Sr. Beausire me dá razão! — bradou o comendador,voltando-se para D. Manuel.

— Um momento! um momento! — atalhou o português, fazendo um sinal de paciência com a mão.

— Só vos dou razão nesse ponto, — esclareceu Beausire, — a saber, que as cem mil libras pertencem aos associados.

— Pois é tudo o que estou pedindo.   E, nesse caso, a caixa que as contém não deve ficar na única burra da embaixada contígua ao quarto do Sr. Embaixador.

— Por quê? — perguntou Beausire.

— E o Sr. Embaixador, — prosseguiu o comendador, — deve,pelo menos, dar a cada um de nós uma chave da caixa.

— Não, — obtemperou o português.

— Por que não?

— É verdade: por que não? — repetiu Beausire.

— Se desconfiam de mim, — protestou o português, passando a mão pela barba, — por que não desconfiarei dos outros?   Parece-me que, se posso ser acusado de estar roubando a associação, também posso suspeitar a associação de querer roubar-me.Ninguém aqui é melhor do que os outros.

— De acordo, — anuiu o criado de quarto; — mas, justamente por isso, temos direitos iguais.

— Nesse caso, meu caro senhor, se pretendeis estabelecer aqui a igualdade, devíeis ter decidido que nos revezaríamos no papel de embaixador.   Teria sido talvez menos verossímil aos olhos do público, mas os associados ficariam mais tranqüilos.   É só, não é?

— De mais a mais, — interrompeu Beausire, — não estais procedendo como bom confrade, Sr. Comendador; acaso o Sr. D. Manuel não tem um privilégio incontestável, que é o da invenção?

— E o Sr. Beausire partilha-o comigo, — ajuntou o embaixador.

— Oh! — retrucou o comendador, — depois que começa o negócio, esquecem-se os privilégios.

— De acordo, mas não se esquecem os modos que se empregam, — observou Beausire.

— Não sou só eu quem faz esta reclamação, — murmurou o comendador, meio envergonhado, — todos os nossos camaradas pensam assim.

— E pensam mal, — retorquiu o português.

—        Pensam mal, — repetiu Beausire.

O comendador ergueu a cabeça.

— Eu mesmo pensei mal, — disse êle, despeitado, — ao pedir a opinião do Sr. de Beausire.   O secretário não podia menos de entender-se com o embaixador.

— Sr. Comendador, — replicou Beausire com espantosa fleuma,— sois um salafrário cujas orelhas eu cortaria, se ainda as tivésseis; mas já foram muito puxadas.

— Como? — acudiu o comendador, empertigando-se.

— Estamos aqui sossegados no gabinete do Sr. Embaixador e podemos tratar do caso familiarmente.   Ora, acabais de insultar-me dizendo que eu me entendo com D. Manuel.

— E me insultastes também, — sobreveio friamente o português, acorrendo em auxílio de Beausire.

— Tereis de dar-nos satisfações, Sr. Comendador.

— Não sou nenhum espadachim!   — exclamou o criado de quarto.

— Bem se vê, — retrucou Beausire; — por conseguinte, levareis uma surra.

— Socorro! — bramiu o comendador, já agarrado pelo amante da Srta. Oliva, e quase estrangulado pelo português.

   Mas no momento em que os dois chefes iam fazer justiça à sua moda, a campainha de baixo anunciou o chegada de uma visita.

— Larguemo-lo, — propôs D. Manuel.

— E êle continua a fazer o seu ofício, — disse Beausire.

— Os camaradas saberão disto, — ameaçou o comendador, recompondo-se.

— Dizei-lhes o que vos aprouver; sabemos o que responder.

— O Sr. Boehmer! — gritou, de baixo, o suíço.

— Isto liquida o assunto, meu caro comendador, — observou Beausire, pespegando um bofetão na nuca do adversário.

— Já não brigaremos por causa das cem mil libras, visto que as cem mil libras vão desaparecer com o Sr. Boehmer.   Não vos façais de engraçadinho, Sr. Criado de Quarto.

   O comendador saiu resmungando, e reassumiu os modos humildes para introduzir convenientemente o joalheiro da coroa.

   Durante o intervalo entre a sua partida e a entrada de Boehmer, Beausire e o português trocaram um segundo olhar tão significativo quanto o primeiro.

   Boehmer entrou, seguido de Bossange. Traziam ambos uma expressão humilde e encalistrada, que não enganou os finos observadores da embaixada.

   Ao passo que se assentavam nas cadeiras oferecidas por Beausire, este prosseguiu na investigação e espiava D. Manuel com o rabo dos olhos para manter a correspondência.

Manuel conservava um ar digno e oficial.

Boehmer, que era o homem das iniciativas, tomou a palavra naquela difícil circunstância.

   Explicou que razões políticas de alta importância o impediam de dar prosseguimento às negociações encetadas.

Manuel protestou.

Beausire fez hum!

O Sr. Boehmer atrapalhava-se cada vez mais.

  1. Manuel observou-lhe que o negócio estava fechado, que o dinheiro do sinal estava pronto.

Boehmer persistiu.

   Sempre por intermédio de Beausire, respondeu o embaixador que o seu governo já tinha ou devia ter conhecimento da conclusão do negócio; que o malogro dele equivalia a expor Sua Majestade Portuguesa a uma quase afronta.

   Objetou o Sr. Boehmer que pesara todas as conseqüências dessas reflexões, mas que se lhe tornara impossível cumprir a palavra empenhada.

   Beausire não se conformava em aceitar os novos fatos; declarou francamente a Boehmer que o desdizer-se era de mau negociante, de homem sem palavra.

   Bossange assumiu, então, a defesa do comércio incriminado na sua pessoa e na do sócio.

Mas não foi eloqüente.

   Beausire fechou-lhe a boca com esta pergunta: — Achastes um lance maior pelo colar?

   Os joalheiros, que não eram muito fortes em política, e tinham da diplomacia em geral e dos diplomatas portugueses em particular uma idéia excessivamente alta, coraram, julgando-se adivinhados.

   Beausire conheceu que acertara no ponto exato; e como lhe importasse muito concluir o negócio, no qual pressentia a existência de uma fortuna, fingiu consultar em português o embaixador.

   —     Senhores, — disse, então, aos lapidários, — ofereceram-vos um lucro; nada mais natural; isso demonstra apenas que os brilhantes têm grande valor.   Pois bem!   Sua Majestade fidelíssima não haveria de querer fazer um negócio prejudicial a negociantes honestos.Talvez devêssemos oferecer-vos cinqüenta mil libras?

Boehmer fez um sinal negativo.

   —     Cem mil, cento e cinqüenta mil, — continuou Beausire, decidido, sem se comprometer, a oferecer um milhão a mais para abiscoitar a sua parte do milhão e meio de libras.

   Deslumbrados, os joalheiros ficaram momentaneamente confusos; logo, tendo-se consultado:

   —     Não, Sr. Secretário, — responderam, — não vos deis ao trabalho de tentar-nos; o negócio está liquidado, uma vontade mais poderosa do que a nossa impede-nos de vender o colar fora do país.   Compreendeis, sem dúvida; não somos nós que recusamos; portanto, não vos zangueis conosco; é de alguém maior do que nós,maior do que vós, que nasce a oposição.

   Beausire e Manuel não acharam o que responder. Pelo contrário, fizeram uma espécie de cumprimento aos ourives e buscaram aparentar indiferença.

   Mas nisso se aplicaram tão ativamente, que não viram na antecâmara o Sr. Comendador, criado de quarto, entretido em escutar a porta, para saber como caminhava o negócio de que pretendiam excluí-lo.

   O digno associado, entretanto, foi desastrado, pois, ao inclinar--se sobre a porta escorregou e caiu com grande estrondo.

   Precipitou-se Beausire para a antecâmara e foi encontrá-lo assustadíssimo.

— Que fazes aqui, miserável? — exclamou.

— Senhor, — respondeu o comendador, — eu vinha trazendo o correio desta manhã.

— Bem! — disse Beausire; — vai.

E, pegando a correspondência, despediu-o.

   Era a correspondência da ,chancelaria: cartas de Portugal ou da Espanha, na maioria insignificantes, que constituíam o trabalho cotidiano do Sr. Ducorneau, mas que, passando sempre pelas mãos de Beausire ou de D. Manuel antes de chegarem à chancelaria, já tinham fornecido aos dois chefes úteis informações sobre os negócios da embaixada.

   À palavra correio, que os joalheiros ouviram, sentiram-se aliviados, como se acabassem de ser dispensados após uma audiência embaraçosa.

   Deixaram-nos sair, e o criado de quarto recebeu ordem para acompanhá-los até ao pátio.

   Tanto que êle desceu a escada, D. Manuel e Beausire, trocando um desses olhares que logo redundam em ação, se reaproximaram.

— O negócio gorou, — disse D. Manuel.

— Inteiramente, — conveio Beausire.

— De cem mil libras, furto medíocre, temos, cada um, 8.400.

— Não vale a pena, — observou Beausire.

— Não é mesmo?   Ao passo que lá, no cofre...

   E      mostrava o cofre tão ardentemente cobiçado pelo comendador.

— Lá, no cofre, há cento e oito mil libras.

— Cinqüenta e quatro mil para cada um.

— Está feito! — decidiu D. Manuel. — Repartamos.

— Seja; mas agora, sabendo que o negócio falhou, o comendaro não nos largará.

— Acharei um meio, — prometeu D. Manuel com ar singular.

— Pois eu já achei um, — acudiu Beausire.

— Qual?

— O seguinte: êle vai voltar?

— Vai.

— Para pedir a sua parte e a dos associados?

— Certo.

— Pois então chamemo-lo como se fôssemos contar-lhe um segredo, e deixemos o resto por minha conta.

— Parece-me que estou adivinhando, — disse D. Manuel; — ide procurá-lo.

— Pois eu ia sugerir que fôsseis vós.

   Nenhum deles queria deixar o amigo sozinho com a caixa. A confiança é uma jóia realmente muito rara.

   Respondeu D. Manuel que a sua qualidade de embaixador não lhe permitia dar esse passo.

— Para êle não sois embaixador, — observou Beausire; — mas não faz mal.

— Ireis vós?

— Não; chamá-lo-ei da janela.

Com efeito, Beausire chamou da janela o Sr. Comendador, que já se preparava para confabular com o suíço. O comendador subiu.

Encontrou os dois chefes no quarto pegado ao da caixa. Dirigindo-se a êle com ar risonho:

— Aposto, — disse Beausire, — que sei o que estáveis dizendo ao suíço.

— Eu?

— Sim: contando que o negócio co.m Boehmer foi por água abaixo.

— Palavra que não.

— Estais mentindo.

— Juro que não!

— Ainda bem; pois se houvésseis falado, teríeis cometido uma grossíssima asneira e perdido uma boa bolada.

— Como assim? — bradou, surpreso, o comendador; — que bolada?

— Só nós três sabemos o segredo.

— É verdade.

— E só nós três, por conseguinte, temos as cento e oito mil libras, visto que os outros estão na crença de que Boehmer e Bossange levaram o dinheiro.

— Com a breca! — exclamou o comendador, alegríssimo, — é verdade!

— Trinta e três mil, trezentos e trinta e três francos e seis soldos para cada um, — calculou Manuel.

— Mais! mais! — bradou o comendador, — há ainda uma fração de oito mil libras.

— É verdade, — confirmou Beausire; — aceitais?

— Se aceito! — rebradou o criado de quarto, esfregando as mãos, — que dúvida!   Ainda bem, isso é o que se chama falar!

— Isso é o que se chama falar como um patife! — volveu Beausire, com voz tonitruante; — eu sempre disse que éreis um velhaco refinado.   Vamos, D. Manuel, sois robusto, agarrai-me este biltre e entreguemo-lo aos nossos sócios para mostrar-lhes quem é.

— Perdão! perdão! — gritou o desgraçado, — eu estava brincando.

— Vamos! vamos! — continuou Beausire, — ficará no quarto escuro até que se faça a mais ampla justiça.

— Perdão! — gemeu o comendador.

— Cuidado, — disse Beausire a D. Manuel, que comprimia o pérfido comendador; — cuidado para que o Sr. Ducorneau não ouça!

— Se não me largardes, — urrou o comendador, — denunciar-vos-ei a todos!

—Eu te esganarei! — ameaçou D. Manuel com voz colérica, empurrando-o para um toucador vizinho.

—        Afastai o Sr. Ducorneau, — murmurou ao ouvido de Beausire.

   Este não esperou segunda ordem. Passou rapidamente ao quarto contíguo, ao mesmo passo que o português encerrava o comendador na surda espessura daquele cárcere.

Passou-se um minuto. Beausire não voltou.

  1. Manuel teve uma idéia; sentia-se só, a caixa estava a dez passos; para abri-la, para tirar dela as cento e oito mil libras em notas, para saltar por uma janela e escafeder-se pelo jardim sobraçando a presa, qualquer ladrão bem organizado levaria, quando muito, dois minutos.
  2. Manuel calculou que Beausire, para despachar Ducorneau e voltar ao quarto gastaria, no mínimo, cinco minutos.

   Precipitou-se para a porta do quarto em que estava a caixa. A porta estava aferrolhada. Robusto e habilidoso, D. Manuel teria aberto a porta de uma cidade com uma chave de relógio.

   —     Beausire desconfiou de mim, — pensou, — porque só eu tenho a chave; por isso, aferrolhou a porta; é justo.

Com a espada, fez saltar o ferrolho.

   Aproximando-se da caixa, despediu um grito terrível: a caixa abria uma boca enorme e vazia. Não havia nada em suas hiantes profundezas!

   Beausire, que tinha outra chave, entrara pela outra porta e esvaziara-a.

  1. Manuel correu como um insensato até ao quarto do suíço, que encontrou cantando.

Beausire levava cinco minutos de vantagem.

   Quando o português, com os seus gritos e lamentos, pôs todo o palácio a par da aventura; quando, para estribar-se num testemunho, devolveu a liberdade ao comendador, só encontrou gente incrédula e furiosa.

   Acusaram-no de haver urdido a trama com Beausire, que fugira primeiro, com a metade do furto.

   Arrancadas às máscaras, desfeitos os mistérios, o honrado Sr. Ducorneau já não compreendia com que casta de gente se ligara.

   Quase desmaiou ao ver a chusma de diplomatas preparando-se para enforcar, debaixo de um alpendre, o próprio D. Manuel!...

   —     Enforcar o Sr. de Souza! — berrava o chanceler. — Mas isso é um crime de lesa-majestade!   Cuidado!

   Como êle gritasse demais, os outros decidiram encafuá-lo numa adega.

   Nesse momento, três pancadas solenes à porta fizeram estremecer os associados.

Restabeleceu-se o silêncio.

Repetiram-se as três pancadas.

Em seguida, uma voz aguda gritou em português:

— Abri!   Em nome do Sr. Embaixador de Portugal!

— O embaixador! — exclamaram todos os bigorrilhas, disparando pelas dependências do palácio; e durante alguns minutos foi pelos jardins, pelos muros da vizinhança, pelos telhados, uma correria desabalada, um desordenado salve-se-quem-puder!

   O verdadeiro embaixador, que efetivamente acabava de chegar, só pôde entrar em sua casa com o auxílio dos arqueiros da polícia, que arrombaram a porta em presença de imensa multidão, atraída pelo curioso espetáculo.

   Depois de uma busca rigorosa, prenderam o Sr. Ducorneau, que foi conduzido à prisão do Châtelet, onde dormiu.

Assim terminou a aventura da falsa embaixada de Portugal.

 

         Ilusões e realidades

   SE O SUÍÇO da embaixada tivesse podido correr atrás de Beausire, como lhe ordenava D. Manuel, convenhamos em que teria tido muito que correr.

   Mal saído do antro, Beausire alcançara, a galope, a rua Coquillière e, mais depressa ainda, a Rua de Santo Honorato.

   Desconfiando sempre de que estava sendo perseguido, buscara confundir os traços de sua passagem, bordejando pelas ruas sem alinhamento e sem ordem que circundam os nossos mercado de cereais; volvidos alguns minutos, tinha quase certeza de que ninguém pudera tê-lo seguido; mas tinha certeza também de outra coisa, a saber, que as forças se lhe haviam esgotado, e que um bom cavalo de corrida não poderia ter feito mais do que êle fizera.

   Sentou-se num saco de trigo na Rua de Viarmes, que contorna o mercado, e lá fingiu examinar com a maior atenção a coluna de Médicis, comprada por Bachaumont para arrancá-la à picareta dos demolidores e dá-la de presente ao Paço Municipal.

   Mas o caso é que o Sr. de Beausire não estava olhando nem para a coluna do Sr. Filiberto Delorme, nem para o relógio de sol com que a decorara Pingré. Arrancava penosamente do fundo dos pulmões uma respiração estridente e rouca como a de um velho fole de ferreiro.

   Durante vários instantes não conseguiu completar a massa de ar que lhe cumpria despejar da laringe para restabelecer o equilíbrio entre a sufocação e a pletora.

   Afinal o conseguiu, num suspiro que teriam ouvido os moradores da Rua de Viarmes se não estivessem entretidos em vender ou pesar as suas sementes.

   —     Ah! — pensou Beausire, — eis realizado o meu sonho: tenho uma fortuna.

E tornou a respirar.

   —     Vou poder, enfim, converter-me num perfeito homem de bem; parece-me até que já estou engordando.

E, de feito, se não estava engordando, estava inchando.

   —     Vou, — continuou em seu mudo monólogo, — fazer de Oliva uma mulher tão honesta quanto eu serei honesto como homem.       Ela é bela, é ingênua nos seus gostos.

Coitado!

   —     Não desgostará de uma existência retirada na província, numa bela propriedade a que chamaremos nossas terras, perto de alguma cidadezinha em que seremos facilmente tomados por fidalgos.

"Nicole é boa; só tem dois defeitos: a preguiça e o orgulho." Só!   Pobre Beausire!   Dois pecados mortais!

   —     E com esses defeitos que satisfarei, eu, o equívoco Beausire,farei dela para mim uma mulher perfeita.

Não continuou; voltara-lhe a respiração.

   Enxugou a testa, certificou-se de que as cem mil libras ainda estavam em seu bolso e, mais livre de corpo e de espírito, quis refletir.

   Não seria procurado na Rua de Viarmes, mas seria procurado. Os senhores da embaixada não perderiam de boa mente o seu quinhão dos despojos.

   Dividir-se-iam, portanto, em diversos bandos, e começariam por explorar o domicílio do ladrão.

   Nisso residia toda a dificuldade. Nesse domicílio morava Oliva, que seria acusada, talvez maltratada. Talvez levassem a crueldade a ponto de convertê-la em refém.

   Por que não saberiam os patifes que a Srta. Oliva era a paixão de Beausire, e por que, sabendo-o, não especulariam com essa paixão?

   Beausire quase enlouqueceu ao pensar naqueles dois perigos mortais.

O amor venceu.

   Não quis que ninguém tocasse no objeto do seu amor. Correu como um dardo à casa da Rua Dauphine.

   Tinha, de resto, ilimitada confiança na rapidez de sua marcha; por ágeis que fossem, os inimigos não poderiam tê-lo precedido.

   Aliás, precipitou-se num fiacre, a cujo cocheiro mostrou um escudo de seis libras, dizendo-lhe:   Ao Pont-Neuf.

Os cavalos não correram: voaram.

   Entardecia. Fêz-se conduzir ao terrapleno da ponte, atrás da estátua de Henrique IV. Naquele tempo, ali se chegava de carro; era um local de encontro muito trivial, mas freqüentado.

   Arriscando a cabeça por uma portinhola, enfiou os olhos pela Rua Dauphine.

   Conhecia os hábitos da gente da polícia: levara dez anos tentando reconhecê-la a fim de poder evitá-la quando fosse preciso.

   Lobrigou, na descida da ponte, do lado da Rua Dauphine, dois homens separados que estendiam o pescoço na direção dessa rua, procurando o que quer que fosse.

   Eram espias. Encontrar espias no Pont-Neuf, não seria coisa rara, porque, dizia um provérbio da época, para ver a qualquer momento um prelado, uma rameira e um cavalo branco, bastava passar pelo Pont-Neuf.

   Ora, os cavalos brancos, os hábitos dos padres e as prostitutas sempre foram pontos de mira para os homens da polícia.

   Beausire não se sentiu contrariado, senão embaraçado; fêz-se pequenino cocheando para disfarçar o passo e, atravessando a multidão, chegou à Rua Dauphine.

   Nenhum sinal do que receava. Já avistava a casa, a cujas janelas se mostrara tantas vezes a formosa Oliva, sua estrela.

   As janelas estavam fechadas; ela, sem dúvida, estaria descansando no sofá ou lendo um livro qualquer ou mastigando alguma gulodice.

Súbito, julgou ver uma farda de policial no beco fronteiro.

Mais, viu assomar um soldado à janela da sala.

   Voltaram-lhe os suores; suores frios, malsãos. Não havia recuar: cumpria-lhe passar diante da casa.

Reunindo as forças, passou e examinou-a.

Que espetáculo!

   Um pátio atulhado de soldados da guarda de Paris, no meio dos quais se via um comissário do Châtelet, todo vestido de preto.

   Aquela gente... Beausire percebeu, num relance, que estava perturbada, atarantada, desapontada. Uma pessoa tem ou não tem o hábito de ler nos rostos dos policiais; quando o tem, como Beausire, não precisa olhar duas vezes para saber se foram bem ou mal sucedidos.

   O Sr. de Crosne, disse entre si Beausire, avisado, não importa como nem por quem, pretendera mandar prendê-lo e só encontrara Oliva.   Inde irae.

   Daí a decepção. Certamente, se Beausire se achasse em circunstâncias normais, se não tivesse cem mil libras no bolso, ter-se-ia lançado ao meio dos aguazis, gritando como Niso: Aqui estou! aqui estou! fui eu quem fez tudo!

   Mas a idéia de que essa gente lhe apalparia as cem mil libras, e com elas passaria vida regalada, a idéia de que o golpe tão audaz e tão sutil tentado por êle aproveitaria apenas aos agentes do Chefe de Polícia, essa idéia lhe triunfou de todos os escrúpulos, digamo-lo assim, e abafou os seus cuidados de amor.

   — É lógico... — disse consigo mesmo: — Deixo-me prender... Perco as cem mil libras. Não ajudo Oliva... Arruíno-me... Provo-lhe que a amo como um insensato... Mas mereço que ela me diga: És um cretino; devias amar-me um pouco menos e salvar-me. Decididamente, raspemo-nos e coloquemos em lugar seguro o dinheiro, que é a fonte de tudo: liberdade, felicidade, filosofia.

   Dito isso, aconchegou de si as notas do banco e recomeçou a correr na direção do Luxemburgo; fazia uma hora que o guiava tão somente o instinto, e como já tivesse ido cem vezes procurar Oliva no jardim do Luxemburgo, deixava que para lá o conduzissem as pernas.

Para um homem tão cheio de lógica, era um pífio raciocínio.

   Com efeito, os arqueiros, que conhecem os hábitos dos ladrões, como Beausire conhecia os hábitos dos arqueiros, teriam ido naturalmente procurá-lo no Luxemburgo.

   Mas o céu ou o diabo haviam decidido que o Sr. de Crosne não o encontraria daquela vez.

   Assim que o amante de Nicole virou a Rua Saint-Germain-des-Prés, quase foi derrubado por uma bonita carruagem, cujos cavalos corriam sobranceiramente para a Rua Dauphine.

   Graças à ligeireza parisiense, desconhecida do resto dos europeus, Beausire só teve tempo de evitar a lança do carro. É verdade que não evitou o xingamento nem a chicotada do cocheiro; mas a um proprietário de cem mil libras não fazem mossa as misérias de semelhante ponto de honra, mormente quando tem no calcanhar as companhias da Estrela e os guardas de Paris.

   Beausire, portanto, atirou-se para um lado; mas, ao voltar-se, viu no carro Oliva e um homem muito bem apessoado, conversando animadamente.

Soltou um grito, que só serviu de estimular ainda mais os cavalos. Teria seguido o veículo, se êle não se endereçasse à Rua Dauphine, a única rua de Paris em que não queria passar naquele momento.

   De mais a mais, que certeza tinha êle de que era Oliva quem estava no carro? Poderia ter visto um fantasma, uma visão, uma absurdeza.   Talvez estivesse vendo mal e dobrado.

   Além disso, outro raciocínio se impunha: Oliva não podia estar no carro porque os arqueiros a tinham prendido em casa, na rua Dauphine.

   Moral e fisicamente metido em camisa de onze varas, enveredou o pobre Beausire pela Rua des Fossés-Monsieur-le-Prince, chegou ao Luxemburgo, atravessou o bairro já deserto, e conseguiu, fora das portas da cidade, acoitar-se num gabinetezinho cuja dona tinha para êle toda a sorte de atenções.

   Instalou-se na espelunca, escondeu as notas sob um ladrilho do quarto, apoiou sobre o ladrilho o pé da cama, e deitou-se, suando e praguejando, mas entremeando as blasfêmias de agradecimentos a Mercúrio e às náuseas febris de uma infusão de vinho açucarado com canela, beberagem apropriada para normalizar a transpiração da pele e devolver a confiança ao coração.

   Estava certo de que a polícia não o acharia mais. Estava certo de que ninguém o despojaria do seu dinheiro.

   Estava certo de que Nicole, ainda que fosse presa, não era culpada de crime algum, e já tinham passado de moda as eternas reclusões sem motivo.

   Estava certo, enfim, de que as cem mil libras lhe serviriam para arrancar da prisão, se a detivessem, Oliva, sua companheira inseparável.

   Restavam os colegas da embaixada; com eles já seria mais difícil acertar contas.

   Previra, porém, as chicanas. Deixava-os a todos em França e partia para a Suíça, país livre e moral, assim que a Srta. Oliva estivesse em liberdade.

   Mas nada do que meditava, bebendo o vinho quente, sucedeu conforme as suas previsões: estava escrito.

   Engana-se quase sempre o homem ao pensar que vê as coisas quando não as vê; e mais ainda ao pensar que não as viu quando realmente as viu.

Comentaremos o assunto para o leitor.

 

         Em que Srta. Oliva começa a perguntar a si mesma o que querem fazer dela

   SE O SR. BEAUSIRE tivesse querido louvar-se nos próprios olhos, que eram excelentes, em vez de dar tratos ao espírito que, naquele momento, tudo cegava, teria evitado muitos dissabores e decepções.

   Com efeito, fora realmente a Srta. Oliva que êle vira na carruagem, ao lado de um homem que não reconhecera olhando uma vez, mas que teria reconhecido se tivesse olhado duas; Oliva, que, de manhã, fora dar o seu passeio habitual no jardim do Luxemburgo, e que, em lugar de voltar às duas horas para jantar, fora encontrada, procurada e interrogada pelo estranho amigo que conhecera no dia do baile da Ópera.

   De fato, no momento em que pagava a cadeira para voltar, e sorria para o botequineiro do jardim cuja assídua freguesa era, Cagliostro, saindo de uma alameda, aproximara-se e tomara-lhe do braço.

Ela soltou um gritinho.

— Aonde ides? — perguntou êle.

— Para casa, na Rua Dauphine.

— Pois é precisamente o que desejam as pessoas que lá estão à vossa espera, — tornou o desconhecido.

— Pessoas... que estão à minha espera... como?   Ninguém está à minha espera.

— Como não!   Uma dúzia de visitas, pelo menos.

— Uma dúzia de visitas! — exclamou Oliva, desfechando uma gargalhada; — e por que não um regimento logo de uma vez?

— Se fosse possível mandar um regimento à Rua Dauphine, êle lá estaria.

— Estais-me assustando!

— Eu vos assustaria muito mais se vos deixasse ir à Rua Dauphine.

— Por quê?

— Porque lá seríeis presa, minha querida.

— Eu, presa?

   —     Sem dúvida; os doze senhores que estão à vossa espera são arqueiros mandados pelo Sr. de Crosne.

   Oliva estremeceu: certas pessoas têm sempre medo de certas coisas.

   Não obstante, inteiriçando-se depois de um exame um pouco mais profundo de consciência:

— Não fiz nada, — disse ela. — Por que haveriam de prender-me?

— Por que se prende uma mulher?   Por intrigas, por tolices.

— Não tenho intrigas.

— Mas já as tivestes.

— Não digo que não.

— Em suma, fazem mal em prender-vos; mas o fato é que estão querendo fazê-lo.   Sempre vamos à Rua Dauphine?

Deteve-se Oliva, perturbada e pálida.

   —     Brincais comigo, — disse ela, — como um gato com um pobre ratinho.   Vamos a ver; se sabeis alguma coisa, dizei-mo.   Não é Beausire que estão querendo prender?

E fitou em Cagliostro um olhar suplicante.

— Pode ser.   Desconfio que êle tem a consciência menos limpa do que vós.

— Pobre rapaz!...

— Lastimai-o, se fôr preso, mas não o imiteis, deixando-vos prender também.

— Mas que interesse tendes vós em proteger-me?   Que interesse tendes em ocupar-vos de mim?   Não é natural, — disse ela,com petulância, — que um homem como vós...

— Não termineis, que diríeis uma tolice; e os momentos são preciosos, porque os agentes do Sr. de Crosne não vos vendo voltar,seriam capazes de vir procurar-vos aqui.

— Aqui!   Quem sabe que estou aqui?

— Como se fosse muito difícil sabê-lo!   Pois eu não sei?   Mas continuemos.   Como me interesso pela vossa pessoa e vos quero bem, o resto não tem importância.   Depressa, vamos até à Rua do Inferno.   O meu carro lá está à vossa espera.   Ainda hesitais?

— Sim.

— Pois bem! vamos cometer uma grande imprudência, mas que, espero-o, vos convencerá de uma vez por todas.   Passaremos de carro diante de vossa casa e depois que tiverdes visto os senhores da polícia de uma distância suficientemente grande para não serdes presa e suficientemente pequena para aquilatardes as suas disposições, dareis às minhas boas intenções o valor que elas têm.

   Pronunciando essas palavras, conduzira Oliva até ao portão da Rua do Inferno. O carro havia-se aproximado, recebido e conduzido o casal à Rua Dauphine, onde Beausire os avistara.

   Está visto que, se êle tivesse gritado naquele momento, se tivesse seguido à carruagem, Oliva teria feito tudo para juntar-se a êle, a fim de salvá-lo, perseguido, ou, livre, salvar-se com êle.

   Cagliostro, porém, viu o desgraçado e desviou a atenção da moça mostrando-lhe a multidão que já principiava a aglomerar-se, curiosa, em torno dos soldados.

   Assim que avistou os beleguins e a sua casa invadida, atirou-se Oliva nos braços do protetor com um desespero que teria comovido quem quer que não fosse aquele homem de ferro.

   Cagliostro contentou-se de apertar-lhe a mão e de escondê-la, abaixando a cortina da portinhola.

— Salvai-me! salvai-me! — repetia, nesse em meio, a pobre rapariga.

— Está prometido, — disse êle.

— Mas se essa gente da polícia sabe tudo, acabará por encontrar-me.

— Não, não; no lugar onde ficareis, ninguém vos descobrirá;pois se podem ir prender-vos em vossa casa, não irão prender-vos na minha.

— Oh! — exclamou ela assustada, — em vossa casa. .. vamos à vossa casa?

— Estais louca, — volveu êle; — até parece que já não vos lembrais do que combinamos.   Não sou vosso amante, minha bela,nem o quero ser.

— Então, é a prisão que me ofereceis?

— Se preferis o hospital, estais livre.

— Está bem, — replicou Nicole apavorada, — entrego-me em vossas mãos; fazei de mim o que quiserdes.

   Êle a conduziu à Rua Nova de São Gil, à mesma casa em que o vimos receber Filipe de Taverney.

   E depois que a instalou longe do criado e de toda e qualquer vigilância, num apartamentozinho do segundo andar, disse:

— Cumpre que sejais mais feliz do que o sereis aqui.

— Feliz!   Como? — acudiu ela, a pique de chorar. — Feliz, sem liberdade, sem poder passear!   É triste aqui!   Não tem nem jardim!   Vou morrer de tristeza.

E relanceou um olhar vago e desesperado à sua volta.

— Tendes razão, — disse êle, — quero que nada vos falte; aqui ficaríeis mal e, de resto, o meu pessoal vos acabaria vendo e incomodando.

— Ou me vendendo, — ajuntou ela.

— Quanto a isso, nada receeis, pois a minha gente só vende o que lhe compro, minha querida filha; mas para que tenhais todo o sossego desejável, buscarei encontrar-vos outra morada.

   Mostrou-se Oliva o seu tanto consolada com a promessa. Aliás, não se desagradava do novo apartamento, onde encontrava bem--estar e livros divertidos.

O protetor deixou-a, dizendo-lhe:

   —     Não quero render-vos pela fome, minha filha. Se quiserdes ver-me, tocai a campainha, que virei imediatamente, se estiver em casa, ou logo que voltar, se tiver saído.

Beijou-lhe a mão e deixou-a.

   —     Ah! — bradou ela, — mandai-me principalmente notícias de Beausire.

   —     Antes de qualquer outra coisa, — respondeu-lhe o conde.

       E fechou-a no quarto.

Em seguida, descendo a escada, pensativo:

   —     Será, — disse êle, — uma profanação alojá-la na casa da Rua de São Cláudio.   Mas urge que ninguém a veja e, nessa casa, ninguém a verá.   Se, ao contrário, fôr preciso que certa pessoa a veja,só poderá vê-la na casa da Rua de São Cláudio.   Vamos, mais esse sacrifício.   Apaguemos a última faúlha do facho que ardeu outrora.

   O conde tomou um amplo sobretudo, procurou umas chaves na secretária, escolheu diversas dentre elas, considerando-as com expressão enternecida, e saiu só, a pé, do seu palácio, ressubindo a Rua de São Luís do Marais.

 

         A casa deserta

O SR. DE CAGLIOSTRO chegou só à antiga casa da Rua de São Cláudio, que os nossos leitores não devem ter esquecido de todo. Anoitecia quando êle sobresteve diante do portão.   Só se viam uns raros transeuntes na calçada do bulevar.

   Os passos de um cavalo ressoando na Rua de São Luís, uma janela que se fechava com um rumor de ferragens velhas, o ranger das barras do maciço portão após o regresso do dono da casa vizinha, eram os únicos movimentos daquele bairro à hora de que estamos falando.

   Um cão ladrava, ou melhor, uivava no pàtiozinho do convento, e uma rajada de vento morno trazia até à Rua de São Cláudio as badaladas melancólicas do relógio de São Paulo dando três quartos de hora.

Faltava um quarto para as nove.

   O conde chegou, como dissemos, defronte do portão, tirou do sobretudo uma chave enorme e triturou, para fazê-la entrar na fechadura, uma série de detritos que lá se haviam aninhado, trazidos pelo vento, anos a fio.

   A palha seca, cuja moinha se introduzira no buraco ogival da fechadura; a sementinha, que corria para o sul a fim de transformar-se em goivo ou malva, e que um dia se achou aprisionada naquele sombrio reservatório; a lasca de pedra que escapara do edifício vizinho; as moscas aquarteladas havia dez anos naquele hospital de ferro, e cujos cadáveres tinham acabado por encher--lhe as profundezas; tudo isso gemeu e pulverizou-se sob a pressão da chave.

   Depois que a chave executou as suas evoluções na fechadura, restava apenas abrir a porta.

   Mas o tempo fizera a sua obra. A madeira inchara nas juntas, a ferrugem corroerá os gonzos. O mato crescera em todos os interstícios da calçada, esverdeando a extremidade inferior da porta com as suas úmidas emanações; em toda à parte, uma espécie de massa de ninho de andorinha calafetava cada frincha, e as vigorosas vegetações das madréporas terrestres, sobrepondo as suas arcadas, escondiam a madeira debaixo da carne vivaz de seus cotilédones.

   Cagliostro sentiu a resistência; apoiou o punho, depois o cotovelo, depois o ombro, e arrombou todas aquelas barricadas, que cederam, uma após outra, com um estalar mal-humorado.

   Quando a porta se abriu, todo o pátio surgiu desolado, musgoso como um cemitério, aos olhos do conde.

   Tornou a fechar a porta atrás de si, e os seus passos se imprimiram sobre a grama espessa e resistente que invadira a própria área do pavimento.

   Ninguém o vira entrar, ninguém poderia vê-lo no interior daqueles muros enormes. Pôde deter-se um momento e voltar, a pouco e pouco, à vida passada, como acabava de voltar àquela casa.

Uma estava desolada e vazia; a outra, em ruínas e deserta.

   A escadaria, de doze degraus, não tinha mais do que três inteiros.

   Os restantes, minados pelas águas fluviais, invadidos pelas parietárias e papoulas, tinham, a princípio, oscilado e depois caído longe dos seus abraços. Ao caírem, as pedras haviam quebrado, a relva trepara nas ruínas e plantara, altivamente, sobre elas, os seus penachos como estandartes de devastação.

   Cagliostro subiu a escada que lhe tremia debaixo dos pés e, com o auxílio de outra chave, penetrou na imensa antecâmara.

   Somente aí acendeu a lanterna de que tivera o cuidado de munir-se; mas por maior cautela que empregasse no acendê-la, o hálito sinistro da casa apagou-a ao primeiro sopro.

   O sopro da morte reagia violentamente contra a vida; a escuridão matava a luz.

Cagliostro reacendeu a lanterna e continuou o seu caminho.

   Na sala de jantar, os aparadores embolorados nos cantos tinham quase perdido a forma primeira, e o chão viscoso já não lhes sustentava os pés. Todas as portas internas estavam abertas, deixando o pensamento penetrar livremente com a vista naquelas fúnebres profundezas em que já tinham deixado passar a morte.

   O conde sentiu um como calafrio eriçar-lhe a pele pois, na extremidade do salão, no sítio em que outrora começava a escada, um rumor fizera-se ouvir.

   Antigamente, esse rumor anunciava uma presença querida, despertava em todos os sentidos do dono da casa a vida, a esperança, a felicidade. Esse rumor, que nada representava no presente, recordava tudo no passado.

   Com sobrecenho, respirando devagar, mãos frias, endereçou-se à estátua de Harpócrates, ao pé da qual funcionava a mola da antiga porta de comunicação, elo misterioso, intangível, que unia a casa conhecida à casa secreta.

   A mola funcionou sem dificuldade, embora a madeira carunchosa tremesse ao redor. Mas tanto que o conde pôs o pé na escada secreta, o estranho rumor fêz-se ouvir de novo. Cagliostro estendeu a mão que empunhava a lanterna para descobrir-lhe à causa: viu apenas uma cobra muito grande que descia lentamente a escada e fustigava com a cauda cada degrau sonoro.

   O réptil fitou os olhos tranqüilos e pretos em Cagliostro; depois, deslizou pelo primeiro buraco da madeira e sumiu.

Era, sem dúvida, o gênio da solidão.

O conde continuou subindo.

   Por toda aquela ascensão o acompanhava uma lembrança, ou melhor, uma sombra; e quando, nas paredes, a luz desenhava uma silhueta móvel, o conde estremecia, pensando que a sua sombra era uma sombra estranha, ressuscitada para visitar também a misteriosa estância.

   Assim caminhando, assim meditando, chegou até à placa do fogão que servia de passagem entre a sala de armas de Bálsamo e o perfumado retiro de Lourença Feliciani.

   As paredes estavam nuas, os quartos vazios. No fogão ainda aberto jazia um montão de cinzas, entre as quais cintilavam alguns lingotezinhos de ouro e de prata.

   A cinza fina, branca e perfumada, eram os móveis de Lourença, que Bálsamo queimara até a última lasca; eram os armários de tartaruga, o cravo e o açafate de pau-rosa, a bela cama tauxiada de porcelana de Sèvres, cuja poeira micácea, como pó de mármore, ainda se distinguia do resto; eram as molduras e ornatos de metal fundidos pelo grande fogo hermético; eram as cortinas e tapeçarias de brocado de seda; eram as caixas de aloés e de sândalo, cujo perfume penetrante, exalando-se pelas chaminés, na ocasião do incêndio, aromatizara toda a zona de Paris por onde passara a fumaça; de sorte que, durante dois dias, os transeuntes haviam erguido a cabeça para respirar aqueles estranhos aromas misturados ao nosso ar parisiense; de sorte que o lojista do bairro do mercado e a costureira do bairro de Santo Honorato tinham vivido embriagados por aqueles átomos violentos e inflamados, que a brisa arranca às vertentes do Líbano e às planícies da Síria.

   Esses perfumes, dizíamos, guardava-os ainda o quarto deserto e frio. Cagliostro abaixou-se, pegou num punhado de cinzas e respirou-o por muito tempo com selvagem paixão.

   — Assim pudesse eu, — murmurou, — absorver um resto da alma que se comunicava outrora a esta poeira.

Em seguida, considerou as barras de ferro, a tristeza do pátio vizinho e, pela escada, os profundos estragos que o incêndio provocara na casa interior, cujo andar superior devorara.

   Sinistro e belo espetáculo! O quarto de Althotas desaparecera e das suas paredes só restavam sete ou oito ameias sobre as quais o fogo estendera as suas línguas, que devoram e enegrecem.

   A quem quer que ignorasse a história dolorosa de Bálsamo e de Lourença, era impossível não deplorar aquela ruína. Tudo na casa respirava a grandeza abatida, o esplendor extinto, a felicidade perdida.

   Cagliostro, portanto, deixou-se impregnar desses sonhos. O homem desceu das alturas de sua filosofia para envolver-se de novo no pouco de humanidade terna que são os sentimentos do coração e não pertencem ao raciocínio.

   Depois de haver evocado os suaves fantasmas da solidão e dado ao céu à parte que lhe cabia, julgou ter pago o seu tributo à fraqueza humana quando lhe pararam os olhos num objeto brilhante ainda no meio de todo aquele desastre e de todas aquelas misérias.

   Abaixou-se e viu, numa fenda do soalho, semi-enterrada no pó, uma flechinha de prata que parecia recém-caída dos cabelos de uma mulher.

   Era um desses alfinetes italianos que as damas do tempo gostavam de usar para segurar os anéis da cabeleira, que se tornava pesada demais depois de empoada.

   O filósofo, o sábio, o profeta, o contemplador da humanidade, o que queria que o próprio céu contasse com êle, o homem que abafara tantas dores em si mesmo e arrancara tantas gotas de sangue do coração dos outros, Cagliostro, o ateu, o charlatão, o cético zombeteiro, apanhou o alfinete, aproximou-o dos lábios e, certo de que ninguém poderia vê-lo, deixou que uma lágrima lhe assomasse aos olhos, enquanto murmurava:

—        Lourença!

E foi tudo.   Havia algo do demônio naquele homem.

   Buscava a luta e, para sua própria felicidade, mantinha-a dentro em si.

   Depois de haver beijado ardentemente a sagrada relíquia, abriu a janela, passou o braço através das barras e lançou o frágil pedaço de metal ao pátio do convento vizinho, aos ramos, ao ar, ao pó, sabe Deus aonde.

Castigava-se por haver deixado falar o coração.

   —     Adeus! — disse ao insensível objeto que se perdia talvez

para sempre. — Adeus, lembrança enviada para enternecer-me, para

apequenar-me sem dúvida.   Doravante não pensarei senão na terra.

   "Sim, esta casa vai ser profanada. Que digo? Já o foi. Reabri as portas, alumiei as paredes, vi o interior do túmulo, remexi as cinzas da morte.

   "Está, portanto, profanada a casa! Pois seja-o agora de todo e para um benefício qualquer!

   "Uma mulher atravessará este pátio, uma mulher porá os pés nesta escada, uma mulher cantará talvez debaixo desta abóbada, onde vibra ainda o último suspiro de Lourença!

   "Seja. Mas todas essas profanações ocorrerão com uma finalidade, com a finalidade de servir a minha causa. Se Deus perde com isso, Satanás há de ganhar."

Pousou a lanterna na escada.

   —     Toda esta escada, — continuou, — cairá.   Cairá também a casa interior.   Dissipar-se-á o mistério, o palácio será esconderijo e deixará de ser santuário.

Escreveu à pressa na carteira estas linhas:

"Ao Sr. Lenoir, meu arquiteto:

"Limpar o pátio e os vestíbulos; restaurar as cozinhas e cocheiras; demolir o pavilhão interno; reduzir a casa a dois andares: oito dias."

   —     Agora, — disse êle, — vamos a ver se se avista daqui a janela da condessinha.

   Abeirou-se de uma janela no segundo pavimento, de onde se via toda a fachada oposta da Rua de São Cláudio por cima do portão.

   Defronte, a uns sessenta metros no máximo, erguia-se a casa ocupada por Joana de La Motte.

—        É infalível, as duas se verão, — observou Cagliostro. — Bem.

Retomou a lanterna e desceu a escada.

   Uma hora depois estava em casa e mandava as suas instruções ao arquiteto.

   Cumpre dizer que, desde o dia seguinte, cinqüenta operários invadiram o palácio; o martelo, a serra e as picaretas ressoaram em toda parte; o mato, amontoado começou a fumegar num canto do pátio; e à noite, ao voltar para casa, o transeunte, fiel à sua cotidiana inspeção, viu uma ratazana pendurada por uma pata sob um arco de pipa no pátio, no centro de um círculo de pedreiros, que lhe escarneciam dos bigodes agrisalhados e da venerável obesidade.

   O silencioso habitante do palácio vira-se emparedado no seu buraco pela queda de uma pedra. Semimorto quando o guindaste ergueu a pedra, foi agarrado pelo rabo e sacrificado ao divertimento dos pedreiros da Auvergne; fosse de vergonha, fosse por asfixia, o caso é que morreu.

O transeunte fez esta oração fúnebre:

—        Aí está um cara que gozou dez anos!

Sic transit gloria mundi.

   Em oito dias se restaurou a casa, como Cagliostro ordenara ao arquiteto.

 

         Joana protetora

   DOIS DIAS após sua visita a Boehmer, o Sr. Cardeal de Rohan recebeu um bilhete deste teor:

   "Sua Eminência o Sr. Cardeal de Rohan sabe sem dúvida onde ceará hoje à noite".

—        Da condessinha, — disse êle, cheirando o papel. — Irei.

Expliquemos porque a Sra. de La Motte pedia a entrevista ao cardeal.

   Dos cinco lacaios postos a seu serviço por Sua Eminência, havia ela distinguido um, de cabelos negros, olhos castanhos, com as cores floridas do sanguíneo misturadas à sólida carnação do bilioso. Eram, para a observadora, sintomas todos de uma organização ativa, inteligente e pertinaz.

   Mandou chamar o homem e, quinze minutos depois, obteve da sua docilidade e da sua perspicácia quanto quis arrancar-lhe.

   O homem seguiu o cardeal e informou-a de que vira Sua Eminência ir duas vezes em dois dias à casa dos Srs. Boehmer e Bossange.

   Joana já sabia o suficiente. Um homem como o Sr. de Rohan não regateia. Hábeis negociantes como Boehmer não deixam fugir um comprador.   O colar fora vendido.

Vendido por Boehmer.

   Comprado pelo Sr. de Rohan! E este último não dissera, a respeito, nem uma palavra à sua confidente, à sua amante!

   Era grave o sintoma. Joana franziu a testa, mordeu os lábios finos e dirigiu ao cardeal o bilhete que lemos.

   O Sr. de Rohan apareceu à noite. Fizera-se preceder de uma cesta com garrafas de vinho de Tokai e outras coisas raras, exata-mente como se fosse cear em casa da Guimard ou da Srta. Dangeville.

   A circunstância, como tantas outras, não escapou a Joana; nada serviu do que mandara o cardeal; mas, encetando a conversação com certa ternura, quando ficaram a sós:

   —     Sinceramente, Monsenhor, — disse ela, — uma coisa me aflige muitíssimo.

— Qual, condessa? — acudiu o Sr. de Rohan com essa afetação de contrariedade que nem sempre é sinal de que se está realmente contrariado.

— A causa da minha mortificação, Monsenhor, é ver, não que já deixastes de amar-me, porque nunca me amastes...

— Oh! condessa, que estais dizendo!

— Não vos desculpeis, Monsenhor, que seria tempo perdido.

— Para mim, — disse, galante, o cardeal.

— Não, para mim, — respondeu francamente a Sra. de La Motte. — Aliás...

— Oh! condessa, — tornou o cardeal.

— Não vos desoleis, Monsenhor, que isso me é perfeitamente indiferente.

— Que eu vos ame ou não?

— Sim.

— E por quê?

— Porque eu não vos amo.

— Sabeis, condessa, que não é lisonjeiro o que me fazeis a honra de dizer?

— Realmente, não estamos começando com delicadezas; mas é um fato, constatemo-lo.

— Que fato?

— Que nunca vos amei, Monsenhor, e que também nunca me amastes.

— Oh! quanto a mim, não se deve dizer isso, — exclamou o príncipe, em tom quase sincero. — Já vos dediquei muita afeição,condessa. Não me coloqueis, portanto, em pé de igualdade convosco.

— Ora, Monsenhor, estimemo-nos o suficiente para dizer a verdade.

— E a verdade, qual é?

— Há entre nós um elo bem mais forte que o amor.

— Qual?

— O interesse.

— O interesse?   Não digais isso, condessa!

— Dir-vos-ei, Monsenhor, como da forca dizia ao filho o camponês normando:   Se te repugna, não faças que repugne aos outros. Não vos interessa o interesse, Monsenhor?   Ora. ..

— Pois vamos a ver, condessa: vamos supor que estamos interessados; em que posso servir eu os vossos interesses, e vós os meus?

— Em primeiro lugar, Monsenhor, e antes de qualquer outra coisa, estou com vontade de tomar-vos satisfações.

— Tomai-as, condessa.

— Tivestes, para comigo, uma falta de confiança e, portanto,de estima.

— Eu!   Quando foi isso, por favor?

— Quando?   Porventura negareis que, depois de me haverdes arrancado pormenores que eu estava morrendo por contar-vos...

— Sobre o que, condessa?

— Sobre o gosto de certa grande dama por certa coisa, vós vos dispusestes a satisfazê-lo sem me consultar?

— Arrancar pormenores, adivinhar o gosto de certa dama por certa coisa, satisfazer esse gosto!   Na verdade, condessa, sois um enigma, uma esfinge.   Ah! eu já tinha visto a cabeça e o colo da mulher, mas ainda não vira as garras do leão.   Parece que pretendeis mostrar-mas.   Seja.

— Não vos mostrarei coisa alguma, Monsenhor, visto que já não tendes desejo de ver.   Dar-vos-ei pura e simplesmente a chave do enigma: os pormenores é o que se passou em Versalhes; o gosto de certa dama é a rainha; e a satisfação dada ao gosto da rainha foi à compra que fizestes ontem aos Srs. Boehmer e Bossange do famoso colar.

—        Condessa! — murmurou o cardeal, pálido e vacilante.

Joana fitou nele o seu mais claro olhar.

   —     Por que, — perguntou, — me olhais assim com ar tão espantado?   Não fechastes negócio ontem com os ourives do cais da Escola?

   Um Rohan não mente, nem sequer a uma mulher. Calou-se o cardeal.

   E quando já ia corar, desprazer que um homem nunca perdoa à mulher que o provoca, Joana apressou-se em tomar-lhe a mão.

— Perdão, meu príncipe, — continuou, — quero dizer-vos logo em que vos enganáveis a meu respeito. — Julgaste-me tola e má, não foi?

— Oh! oh! condessa.

— Enfim...

— Nem mais uma palavra; deixai-me falar agora. Eu talvez consiga persuadir-vos, pois vejo claramente com quem estou tratando.   Eu supunha encontrar em vós uma mulher bonita, uma mulher inteligente, uma encantadora amante; sois mais do que isso. Escutai.

   Chegou-se Joana ao cardeal, deixando a mão entre as mãos dele.

— Quisestes ser minha amante, minha amiga, sem me amar. Vós mesma o dissestes, — prosseguiu o Sr. de Rohan.

— Disse e repito, — confirmou a Sra. de La Motte.

— Tínheis, então, um objetivo?

— Evidentemente.

— Que objetivo, condessa?

— Será necessário que eu vo-lo explique?

— Não; já o adivinhei.   Quereis fazer a minha fortuna.  E não está claro que, feita a minha fortuna, o meu primeiro cuidado será o de garantir a vossa?   E isso ou estou enganado?

— Não estais enganado, Monsenhor, é isso mesmo.   Entretanto, sinceramente, não persegui esse objetivo entre antipatias e repugnâncias: o caminho tem sido agradável.

— Sois amável, condessa, e é um prazer falar de negócios convosco. Eu dizia, portanto, que adivinhastes.   Sabeis que dedico uma respeitosa afeição a certa pessoa?

— Percebi-o no baile da Ópera, meu príncipe.

— Essa afeição nunca será retribuída.   Deus me livre de crê-lo!

— Ora! — acudiu a condessa, — uma mulher não é sempre rainha, e vós, que eu saiba, não ficais nada a dever ao Sr. Cardeal Mazarino.

— Era também um belíssimo homem, — disse, rindo, o Sr. De Rohan.

— E excelente primeiro ministro, — emendou Joana com a maior calma do mundo.

— Diante de vós, condessa, não adianta pensar, e é uma redundância falar.   Pensais e falais pelos amigos.   Sim, pretendo ser primeiro ministro.   Tudo me leva a isso: o nascimento, o hábito dos negócios, certa benevolência que me demonstram as cortes                 estrangeiras, a muita simpatia que me dedica o povo francês.

— Tudo enfim, — observou Joana, — exceto uma coisa.

— Exceto uma repugnância, é o que quereis dizer?

— Sim, de parte da rainha; e essa repugnância é o verdadeiro obstáculo.   O que a rainha quer, força é que o rei acabe querendo também; e o que ela odeia, o rei detesta antes dela.

— E ela me odeia?

— Oh!

— Sejamos francos.   Não creio que possamos parar em tão belo caminho, condessa.

— Pois bem, Monsenhor, a rainha não vos quer bem.

— Então, estou perdido!   Não há colar que me valha.

— Pois é nisso que podeis enganar-vos, príncipe.

— O colar foi comprado!

— Pelo menos verá a rainha que, se ela não vos ama, vós a amais.

— Condessa!

— Combinamos chamar as coisas pelo nome, Monsenhor!

— Seja.   Dizeis, então, que não desesperais de ver-me, um dia,primeiro ministro?

— Tenho certeza disso.

— Eu não me perdoaria se deixasse de perguntar-vos quais são as vossas ambições.

— Eu vo-las direi, príncipe, quando estiverdes em condições de satisfazê-las.

— Isso é que é falar!   Estarei à vossa espera nesse dia.

— Obrigada; agora, vamos cear.

   O cardeal pegou na mão de Joana e apertou-a como Joana tanto desejara que a sua mão fosse apertada alguns dias antes. Mas esse tempo já passara.

Retirou a mão.

— E então, condessa?

— Vamos cear, Monsenhor.

— Já não tenho fome.

— Nesse caso, conversemos.

— Já não tenho o que dizer.

— Separemo-nos.

— É a isso que chamais a nossa aliança?   Estais-me despedindo?

— Para sermos realmente sinceros um com o outro, Monsenhor, — replicou ela, — cumpre que primeiro sejamos sinceros conosco.

— Tendes razão, condessa; perdão se ainda uma vez me enganei a vosso respeito.   Mas juro que será a última.

   Retomou-lhe a mão e beijou-a tão respeitosamente, que não viu o sorriso sarcástico, diabólico, da condessa, no momento em que se ouviram estas palavras:

"Será a última vez que me enganarei a vosso respeito".

   Joana levantou-se, reconduziu o príncipe à antecâmara. Lá, perguntou, baixinho:

— E o resto, condessa?

— É muito simples.

— Que hei de fazer?

— Nada.   Esperai por mim.

— E ireis?

— A Versalhes.

— Quando?

— Amanhã.

— Terei a resposta?

— Imediatamente.

— Muito bem, minha protetora, entrego-me em vossas mãos.

— Deixai tudo a meu cargo.

   Dito isso, ela recolheu-se, deitou-se e, considerando vagamente o belo Endimião de mármore que esperava Diana:

—        Decididamente vale mais a liberdade, — murmurou.

 

         Joana protegida

   Senhora de um segredo tão importante, rica de tão brilhante futuro, apoiada em dois esteios tão consideráveis, Joana se sentiu com forças para levantar o mundo.

   Deu a si mesma quinze dias de prazo para começar a morder com vontade o saboroso cacho que a fortuna lhe suspendia sobre a cabeça.

   Aparecer na corte, não mais como solicitante, não mais como a pobre mendiga recolhida pela Sra. de Boulainvilliers, senão como descendente dos Valois, com cem mil libras de renda, um marido duque e par, ser chamada favorita da rainha e, naquela quadra de intrigas e borrascas, governar o Estado governando o rei através de Maria Antonieta, tal era o panorama que se desenvolveu diante da imaginação inexaurível da Condessa de La Motte.

   Mal surgiu o dia, abalou-se para Versalhes. Não tinha audiência marcada; mas a fé que principiava depositar em sua fortuna era tal, que já não duvidava de que a própria etiqueta se sujeitaria ao seu desejo.

E tinha razão.

   Todos os cortesãos, tão solícitos no adivinhar os gostos do amo, já tinham observado o prazer que sentia Maria Antonieta na sociedade da linda condessa.

   Foi o bastante para que, à sua chegada, um porteiro inteligente, desejoso de fazer-se notar, se colocasse à passagem da rainha, que vinha da capela, e lá como que por acaso, pronunciasse diante do fidalgo de serviço estas palavras:

   —     Senhor, que hei de fazer com a Sra. Condessa de La Motte Valois, que não tem audiência marcada?

   A rainha estava conversando em voz baixa com a Sra. de Lamballe. O nome de Joana, habilmente proferido pelo homem, interrompeu-lhe a conversação.

Voltou-se.

— Estão dizendo, — perguntou, — que a Sra. de La Motte Valois está aí?

— Creio que sim, Majestade, — replicou o gentil-homem.

— Quem foi?

—        Este porteiro.

Inclinou-se modestamente o porteiro.

   —     Receberei a Sra. de La Motte Valois, — declarou a rainha,continuando o seu caminho.

E, antes de retirar-se:

—        Conduzi-a a sala dos banhos, — acrescentou.

E passou.

   Joana, a quem o homem referiu simplesmente o que acabara de fazer, levou imediatamente a mão à bolsa, mas o porteiro a deteve com um sorriso.

   —     Sra. Condessa, — disse ele, — tende a bondade de acumular essa dívida; logo ma pagareis com maiores juros.

Joana repôs o dinheiro no bolso.

—        Tendes razão, meu amigo, obrigada.

   E por que, disse consigo só, não haveria eu de proteger um porteiro que me protegeu?   Fiz o mesmo por um cardeal!

Pouco tempo depois, estava em presença da soberana.

   Encontrou Maria Antonieta séria, aparentemente pouco disposta, talvez porque houvesse favorecido em demasia a condessa com uma recepção inesperada.

   No íntimo, pensou a amiga do Sr. de Rohan, a rainha imagina que vim mendigar outra vez... Antes que eu tenha pronunciado vinte palavras, o seu semblante se terá desanuviado ou me terão jogado na rua.

— Senhora, — disse a rainha, — ainda não achei ocasião de falar ao rei.

— Vossa Majestade já foi boa demais para mim, e não espero mais nada.   Voltei aqui...

— Por quê? — interrompeu a rainha, hábil em perceber as transições. — Não havíeis pedido audiência.   Há urgência talvez... para vós?

— Urgência... Sim, senhora; mas não para mim...

— Para mim, então...   Falai, condessa.

   E conduziu Joana à sala dos banhos, onde a esperavam as criadas.

— Senhora, — começou Joana, — Vossa Majestade vê-me bem embaraçada.

— Eu não disse?...

— Vossa Majestade sabe, pois creio haver-lho dito, que o Sr.Cardeal de Rohan tem-se empenhado, com muita delicadeza, em obsequiar-me.

A rainha franziu o cenho.

— Não sei, — repontou.

— Eu supunha...

— Não importa... Falai.

— Pois bem, senhora, Sua Eminência me fez a honra de visitar-me anteontem.

— Ah!

— Por causa de uma   obra de beneficência que   estou   organizando.

— Muito bem, condessa, muito bem.   Também contribuirei... para a vossa obra de beneficência.

— Engana-se Vossa Majestade.   Tive a honra de dizer-lhe que não vim pedir nada.   O Sr. Cardeal, como é do seu costume, falou-me da bondade da rainha, da sua graça inexaurível.

— E pediu que eu lhe protegesse os protegidos?

— Sim, Majestade.

— Pois hei de fazê-lo, não pelo Sr. Cardeal, mas pelos desgraçados que acolho sempre bem, venham de onde vierem.   Entretanto, dizei a Sua Eminência que não estou muito bem de finanças.

— Ah! senhora, foi exatamente o que eu lhe disse, e vem daí o embaraço que referi a Vossa Majestade.

— Ah! ah!

— Eu descrevia ao Sr. Cardeal a caridade tão ardente que enche o coração de Vossa Majestade, à notícia de um infortúnio qualquer,a generosidade que lhe esvazia constantemente a bolsa, sempre mui to apertada.

— Bem! bem!...

— "Vede, Monsenhor, por exemplo," disse-lhe eu.   "Sua Majestade se torna escrava das próprias bondades.   Sacrifica-se pelos pobres. O bem que faz resulta-lhe mal"...   E a esse respeito acusei-me a mim mesma.

— Como assim, Condessa? — atalhou a rainha, que escutava, já porque Joana- tivesse sabido interessar-lhe o fraco, já que o seu espírito elevado percebesse, sob o longo preâmbulo, um vivo interesse, resultante para ela da preparação.

— Eu disse, senhora, que Vossa Majestade me havia dado uma soma respeitável alguns dias antes; que, de dois anos a esta parte,isso devera ter acontecido pelo menos mil vezes à rainha, e que se a rainha fosse menos sensível, menos generosa, teria dois milhões em caixa, graças aos quais nenhuma consideração a impediria de ficar com aquele formoso colar de brilhantes, tão nobremente, tão corajosamente, mas, permita-me dizê-lo, senhora, tão injustamente rejeitado.

   A rainha corou e pôs-se de novo a olhar para Joana. A conclusão encerrava-se evidentemente na última frase. Haveria ali algum laço? Ou seria uma simples adulação? Assim colocada à questão, havia decerto perigo para uma rainha. Mas Sua Majestade encontrou no rosto de Joana tanta doçura, tão cândida benevolência e uma verdade tão pura, que nada podia acusar-lhe a fisionomia de ser pérfida ou aduladora.

   E como apropria rainha tivesse uma alma verdadeiramente generosa, e na generosidade há sempre força, e na força há sempre uma sólida verdade, disse Maria Antonieta despedindo um suspiro:

— Sim, o colar é bonito; isto é, era bonito, e folgo muito que uma mulher de bom gosto me louve o havê-lo rejeitado.

— Se soubesse, senhora, — exclamou Joana, cortando oportunamente a frase, — como a gente acaba conhecendo os sentimentos das pessoas quando se interessa por aqueles que essas pessoas querem bem!

— Que quereis dizer?

— Quero dizer, senhora, que vi empalidecer o Sr. de Rohan ao saber do seu heróico sacrifício do colar.

— Empalidecer!

— Os seus olhos se encheram imediatamente de lágrimas.   Não sei, senhora, se o Sr. de Rohan é realmente o belo homem e o per feito cavalheiro que muita gente apregoa; só sei que, nesse mo mento, o seu rosto, iluminado pelo fogo de sua alma, e todo riscado das lágrimas provocadas pelo generoso desinteresse, que digo? pela sublime renúncia de Vossa Majestade, nunca mais me sairá da lembrança.

   Demorou-se a rainha um momento para fazer cair à água do bico de cisne dourado que lhe mergulhava na banheira de mármore.

— Pois bem, condessa, — disse ela, — visto que o Sr. de Rohan vos pareceu tão belo e tão perfeito, como acabais de dizer, não vos aconselho a demonstrá-lo em presença dele.     É um prelado mundano, um pastor que toma a ovelha tanto para si quanto para o Senhor.

— Oh! senhora.       

— Que foi?   Acaso o estou caluniando?   Não é essa a sua reputação?   Êle mesmo não faz disso gala?   Não o vedes, nos dias de cerimônia, agitar no ar as belas mãos, que são realmente belas, para torná-las mais brancas ainda, e nessas mãos, em que refulge o anel pastoral, cravam as devotas olhos mais brilhantes do que o brilhante do cardeal?

Joana inclinou-se.

— Os troféus do cardeal, — prosseguiu a rainha, arrebatada,— são numerosos. Alguns fizeram escândalo.   O prelado é um amo roso como os da Fronda.   Louve-o quem quiser por isso, mas eu nunca o farei.

— Não sei, senhora, — volveu Joana, sentindo-se à vontade ante aquela familiaridade, como também ante a situação puramente física da interlocutora, — não sei se o Sr. Cardeal estava pensando nas devotas quando me falou com tanto ardor das virtudes de Vossa Majestade; mas sei que as suas belas mãos não estavam no ar, estavam postas sobre o seu coração.

A rainha sacudiu a cabeça com riso forçado.

   —     Oh! — pensou Joana, — dar-se-á que as coisas vão melhor do que o supúnhamos?   Será porventura o despeito nosso auxiliar? As facilidades, nesse caso, aumentarão.

A rainha não tardou em reassumir o ar nobre e indiferente.

— Continuai, — ordenou.

— Vossa Majestade deixa-me gelada; essa modéstia que a faz repelir o próprio louvor.. .

— Do Cardeal?     Sim.

— Mas por que, senhora?

— Porque êle me é suspeito, condessa.

— Já não me cabe, — voltou Joana com o mais profundo respeito, — defender quem teve a suprema desdita de incorrer no de sagrado de Vossa Majestade; há de ser bem culpado, sem dúvida,visto que desagradou à rainha.

— O Sr. de Rohan não me desagradou; ofendeu-me.   Entre tanto, sou rainha e cristã; duplamente levada, por conseguinte, a esquecer as ofensas.

   E Maria Antonieta pronunciou essas palavras com a majestosa bondade que lhe era peculiar. Calou-se Joana.

— Não dizeis mais nada?

— Eu me tornaria suspeita a Vossa Majestade, incorreria no seu desagrado, mereceria a sua censura, se exprimisse uma opinião contrária à sua.

— Pensais o contrário do que penso em relação ao cardeal?

— Exatamente o oposto, senhora.

— Não falareis assim no dia em que souberdes o que fez contra mim o Príncipe Luís.

— Sei apenas o que o vi fazer pelo serviço de Vossa Majestade.

— Galanterias?

Joana inclinou-se.

— Finezas, votos, cumprimentos? — continuou a rainha.

Joana calou-se.

   —     Voltais ao Sr. de Rohan grande amizade, condessa; não tornarei a atacá-lo diante de vós.

E a rainha desatou a rir.

— Senhora, — respondeu Joana, — prefiro a cólera à zombaria de Vossa Majestade.   O sentimento que o Sr. Cardeal dedica a Vossa Majestade é tão respeitoso que, se a visse escarnecê-lo, morreria, tenho certeza.

— Oh! oh!   Nesse caso, êle deve ter mudado muito.

— Mas Vossa Majestade fez a honra de dizer que, já há dez anos, o Sr. de Rohan estava apaixonadamente...

— Foi uma brincadeira, — atalhou severa, a soberana.

   Obrigada a calar-se, Joana pareceu à rainha resignada a depor as armas; enganava-se, entretanto, Maria Antonieta. Para essas mulheres, natureza de tigre e de serpente, o momento em que se encolhem é sempre o prelúdio do ataque: o repouso concentrado precede o ímpeto.

— Falastes nos brilhantes — sobreveio, imprudente, a rainha.— Confessai que andastes pensando neles.

— Dia e noite, senhora, — tornou Joana, com a alegria de um general que, no campo de batalha, vê o inimigo cometer um erro decisivo. — São tão belos, ficarão tão bem em Vossa Majestade!

— Como assim?

— Em Vossa Majestade, sim.

— Mas estão vendidos!

— Estão.

— Ao embaixador de Portugal?

Joana sacudiu mansamente a cabeça.

— Não? — perguntou a rainha, jubilosa.

— Não, senhora.

— A quem, então?

— Comprou-os o Sr. de Rohan.

A rainha estremeceu; mas, logo, com frieza:

—        Ah! — exclamou.

   —     Veja, senhora, — continuou Joana com eloqüência fogosa e arrebatada, — o que o Sr. de Rohan está fazendo é soberbo, é um gesto de generosidade, de bom coração; um belo gesto!   Uma alma como a de Vossa Majestade não pode menos de simpatizar com tudo o que é bom e sensível.   Assim que o Sr. de Rohan soube,por mim, confesso-o, das momentâneas dificuldades de Vossa Majestade, exclamou:

   "Como! A rainha de França recusa o que não se atreveria a recusar a mulher de um burguês endinheirado? A rainha expõe--se a ver um dia a Sra. Necker galhardeando esses brilhantes?"

   "O Sr. de Rohan ainda não sabia que o embaixador de Portugal havia começado a negociá-los. Contei-lho eu. A sua indignação redobrou:” Já não é “, disse êle,” uma questão de proporcionar um prazer à rainha, é uma questão de dignidade real. Conheço o espírito das cortes estrangeiras, a sua vaidade e ostentação; zombarão da rainha de França, que já não tem dinheiro para satisfazer um desejo legítimo! Hei de acaso permitir que zombem da rainha de França? Nunca!" E deixou-me precipitadamente. Uma hora depois, eu soube que êle havia comprado os brilhantes".

— Um milhão e quinhentas mil libras?

— Um milhão e seiscentas mil.

— E qual foi a sua intenção ao comprá-los?

— Visto que não podiam pertencer a Vossa Majestade, Sua Eminência não quer que pertençam a mais ninguém.

— E tendes certeza de que não foi para presentear com ele alguma amante que o Sr. de Rohan comprou o colar?

— Tenho certeza de que foi antes para dar cabo dele do que o ver brilhar em outro pescoço que não o de Vossa Majestade.

   Maria Antonieta refletiu, e em sua nobre fisionomia transpareceu, sem nuvens, tudo o que se lhe passava na alma.

   —     O que fez o Sr. de Rohan foi bem feito, — disse ela; — um gesto nobre e delicado.

Joana absorvia-lhe ardentemente as palavras.

— Agradecereis, portanto, ao Sr. de Rohan, — continuou a rainha.

— Oh! sim, senhora.

— Acrescentareis que a amizade do Sr. de Rohan me ficou provada, e que eu, como um homem de bem, como diz Catarina,tudo aceito da amizade, reservando-me o direito da retribuição. Por conseguinte, aceito, não o presente do Sr. de Rohan...

— O que, então?

— O seu adiantamento... O Sr. de Rohan teve a bondade de adiantar-me dinheiro, ou crédito, para ser-me agradável.   Hei de reembolsá-lo.   Boehmer, se não me engano, pedira uma parte à vista?

— Sim, senhora.

— Quanto?   Duzentas mil libras?

— Duzentas e cinqüenta mil.

   —     É o trimestre da pensão que me dá o rei.   Mandaram-na hoje cedo; adiantada, eu sei, mas o fato é que já está comigo.

   A rainha chamou rapidamente as criadas, que a vestiram, depois de tê-la envolvido em finas cambraias aquecidas.

   Ficando a sós com Joana, e reinstalada em seu quarto, disse ela à condessa:

— Fazei-me o favor de abrir aquela gaveta.

— A primeira?

— Não, a segunda.   Estais vendo uma carteira?

— Ei-la, senhora.

—        Contém duzentas e cinqüenta mil libras.   Contai-as.

Joana obedeceu.

   —     Levai-as ao cardeal.   Tornai a agradecer-lhe.   Dizei-lhe que todo mês darei um jeito de pagar assim.   Depois acertaremos os juros.   Dessa maneira, terei o colar que tanto me agradava e, ainda que me sacrifique para pagá-lo, pelo menos não sacrificarei o rei.

Recolheu-se por um minuto.

   —     E terei ganho com isso, — continuou, — a certeza de que tenho um amigo delicado que me serviu...

fez nova pausa.

   —     E uma amiga que me adivinhou, — concluiu, oferecendo a mão a Joana, que sobre ela se precipitou.

Logo, como fosse sair, depois de haver hesitado ainda uma vez:

   —     Condessa, — disse baixinho, como se tivesse medo do que estava dizendo, — direis ao Sr. de Rohan que será bem-vindo em Versalhes e que desejo apresentar-lhe os meus agradecimentos.

   Atirou-se Joana para fora do aposento, não bêbeda, mas insensata de alegria e de orgulho satisfeito.

   Apertava as notas de banco como um abutre aperta a presa roubada.

 

         A carteira da rainha

   Ninguém sentiu mais a importância da fortuna, no sentido próprio e figurado, que levava Joana de Valois, do que os cavalos que a reconduziram de Versalhes a Paris. Se já houve cavalos empenhados em ganhar um prêmio, e voassem em vez de correr, foram sem dúvida àqueles dois pobres animais de praça.

   Estimulado pela condessa, o cocheiro deu-lhes a entender que eram os alígeros quadrúpedes do país de Elis, c que se tratava de ganhar dois talentos de ouro para o amo, e uma triplicada ração de cevada para eles.

   O cardeal ainda não havia saído, quando a Sra. de La Motte chegou à sua casa, no meio dos seus criados e familiares.

   Fêz-se anunciar ainda mais cerimoniosamente do que em Versalhes.

— Estais chegando do paço?

— Estou, Monsenhor.

Êle a examinava; ela permanecia impenetrável. Ela o viu estremecer, entristecer-se, sentir-se mal, mas não se condoeu.

— E então? — perguntou o prelado.

— E então?   Vamos, Monsenhor, que desejais?   Dizei qualquer coisa, a fim de que eu não precise censurar-me tanto.

— Ah! condessa, estais-me dizendo isso com uns modos!...

— Que entristecem, não é?

— Que matam.

— Queríeis que eu me avistasse com a rainha?

— Queria.     

— Pois avistei-me.   Queríeis que ela me deixasse falar em vós,ela que várias vezes demonstrara repulsa e descontentamento   ou vindo pronunciar o vosso nome?

— Se já tive esse desejo, vejo agora que me cumpre desistir de vê-lo satisfeito.

— Não, a rainha me falou de vós.

— Ou melhor, tivestes a bondade de falar-lhe de mim?

— É verdade.

— E Sua Majestade ouviu?

— Isso precisa de uma explicação.

— Nem mais uma palavra, condessa: vejo quanta repugnância

teve Sua Majestade...

— Nem tanta...   Atrevi-me a falar do colar.

— A dizer que pensei...

— Sim, comprá-lo para ela.

— Oh! condessa, é sublime!   E ela ouviu?

— Ouviu.

— Dissestes-lhe que eu lhe oferecia os brilhantes?

— Ela recusou.

— Estou perdido.

— Recusou aceitar o presente; mas o empréstimo...

— O empréstimo?...   Teríeis dado uma cor tão delicada ao meu oferecimento?

— Tão delicada, que ela aceitou.

— Eu emprestar à rainha!...' Será possível, condessa?

— Emprestar vale mais do que dar, não é verdade?

— Mil vezes.

   —     Era o que eu pensava.   No entanto, Sua Majestade aceita.Levantou-se o cardeal e tornou a sentar-se.   Abeirou-se de Joana e, travando-lhe das mãos:

— Não me enganeis, — disse êle. — Observai que, com uma palavra, podeis fazer de mim o último dos homens.

— Não se brinca com as paixões, Monsenhor; isso só é permitido com o ridículo; e os homens da vossa posição e com os vossos méritos nunca podem ser ridículos.

— É verdade.   Então, o que me estais dizendo...

— É a puríssima verdade.

— Há um segredo entre mim e a rainha?

— Um segredo... mortal.

O cardeal correu para Joana e apertou-lhe ternamente a mão.

— Gosto desse aperto de mão, — disse a condessa; — é um aperto de homem para homem.

— De um homem feliz para um anjo protetor.

— Monsenhor, não exagereis.

— Oh! sim, minha alegria, meu reconhecimento... nunca...

— Mas estais exagerando.   Não queríeis emprestar um milhão e meio à rainha?

Suspirou o cardeal.

   —     Buckinghan teria pedido outra coisa a Ana d'Áustria, Monsenhor, depois de ver as suas pérolas espalhadas pelo soalho do quarto real.

   —     O que Buckinghan obteve, condessa, não quero sequer de desejar, nem mesmo em sonhos.

   —     Explicar-vos-eis sobre isso com a rainha, Monsenhor, pois ela vos manda avisar que vos verá com prazer em Versalhes.

   Não acabara a imprudente de pronunciar essas palavras, e o cardeal empalideceu como um adolescente ao primeiro beijo de amor.

   Agarrou-se, tateando como um bêbedo, à primeira poltrona que encontrou.

   —     Ah! ah! — pensou Joana, — isto é mais sério ainda do que eu pensava; eu havia sonhado com o ducado, o pariato, cem mil libras de rendas!   Pois irei até o principado, até ao meio milhão de rendas; o Sr. de Rohan não trabalha por ambição nem por avareza, trabalha por amor!

   O Sr. de Rohan logo tornou em si. A alegria não é doença que dure muito tempo, e como êle tivesse um espírito sólido, achou conveniente falar de negócios com Joana, a fim de fazê-la esquecer que acabava de falar de amor.

A condessa não se opôs.

— Minha amiga, — disse êle, apertando-a nos braços, — que pretende fazer a rainha do empréstimo que lhe supusestes?

— Perguntais-me isso porque se propala que a rainha não tem dinheiro?

— Exatamente.

— Ela pretende pagar-vos como pagaria a Boehmer, com uma diferença: se tivesse comprado de Boehmer, Paris inteira o saberia;ora, isso tornou-se impossível depois da famosa frase do navio, pois se ela deixasse o rei constrangido, deixaria toda a França carrancuda.A rainha quer, portanto, os brilhantes pouco a pouco, e quer pagá-los pouco a pouco.   Vós lhe fornecereis a ocasião; sois um tesoureiro discreto, um tesoureiro solvável, para o caso em que ela se veja em dificuldades, mais nada; ela está contente e pagará.   Não peçais mais nada.

— Pagará! Como?

— A rainha, mulher que compreende tudo, sabe perfeitamente que estais endividado, Monsenhor; além disso, é altiva, não é uma amiga que receba presentes... Quando eu lhe disse que havíeis adiantado duzentas e cinqüenta mil libras...

— Pois lho dissestes?

— Por que não?

— Era impossibilitar-lhe de plano o negócio.

— Era fornecer-lhe o meio, a razão para aceitá-lo.   Nada por nada, tal é a sua divisa.

— Meu Deus!

   Joana enfiou tranqüilamente a mão no bolso e dele tirou a carteira de Sua Majestade.

—        Que é isso? — perguntou o Sr. de Rohan.

— Uma carteira com duzentas e cinqüenta mil libras em notas.

— Deveras?

— Que a rainha vos envia com os seus agradecimentos.

— Oh!

— A quantia está certa.   Eu contei.

— Não se trata disso.

— Mas que estais olhando?

— Estou olhando a carteira, que não vos conhecia.

— Agrada-vos?   Não é bonita nem rica.

— Agrada-me, não sei por quê.

— Tendes bom gosto.

— Estais caçoando?   Por que dizeis que tenho bom gosto?

— Porque tendes o mesmo gosto da rainha.

— Essa carteira...

— Era dela, Monsenhor...

— E querei-la muito?

— Muitíssimo.

O Sr. de Rohan suspirou.

— Concebe-se, — disse êle.

— Entretanto, se vos agrada, — tornou a condessa com esse sorriso que perde os santos.

— Sabeis que sim, condessa; mas não quero privar-vos dela.

— Guardai-a.

— Condessa! — bradou o cardeal no auge do contentamento,— sois a amiga mais preciosa, mais inteligente, mais...

— Sim, sim.

— E seremos amigos?...

— Para todo o sempre! como sempre se diz.   Não, só tive um mérito.

— Qual?

— O de haver cuidado dos vossos interesses com muita sorte e muito zelo.

— Se tivésseis apenas essa sorte, minha amiga, eu diria que valho quase tanto quanto vós, pois enquanto íeis a Versalhes também trabalhei por vós.

Joana considerou, surpresa, o cardeal.

   —     Sim, uma nonada.     Veio um homem, o meu banqueiro,propor-me ações de não sei que firma organizada para drenar ou explorar umas lagoas.

— Ah!

— Era lucro certo; aceitei.

— Fizestes bem.

— Vereis que estais sempre em primeiro lugar no meu espírito.

— Em segundo, e ainda assim não o mereço.   Mas vamos a ver.

— O meu banqueiro deu-me duzentas ações; tomei a quarta parte para vós, as últimas.

— Oh!   Monsenhor.

— Deixai-me falar.   Duas horas depois voltou.   O simples fato de terem sido as ações colocadas naquele dia determinara uma alta de cem por cento.   Êle entregou-me   cem mil libras.

— Bela especulação.

— Aqui está a vossa parte, querida condessa, quero dizer, que rida amiga.

   E do pacote das duzentas e cinqüenta mil libras dadas pela rainha, separou vinte e cinco mil, que pôs nas mãos de Joana.

— Está bem, Monsenhor, dá-se a quem dá.   O que mais me

lisonjeia é o fato de haverdes pensado em mim.

— E será sempre assim, — replicou o cardeal, beijando-lhe a mão.

— Esperai pela retribuição, — voltou Joana... — Até à vista, Monsenhor, em Versalhes.

   E partiu, depois de haver dado ao cardeal a lista dos vencimentos escolhidos pela rainha, o primeiro dos quais, um mês depois, era de quinhentas mil libras.

 

         Em que se torna a encontrar o Dr. Luís

É POSSÍVEL que os nossos leitores, lembrados da situação difícil em que deixamos o Sr. de Charny, não se desagradem de voltar à antecâmara dos aposentos de Versalhes, onde o bravo marinheiro, que nem os homens nem os elementos haviam jamais intimidado, fugira com receio de sentir-se mal diante de três mulheres: a rainha, Andréia e a Sra. de La Motte.

   Alcançando a metade da antecâmara, compreendera efetivamente que lhe era impossível ir mais longe. Cambaleante, estendera os braços. Percebendo que as forças lhe faleciam, os circunstantes haviam acudido.

   Nesse momento o jovem oficial desmaiara e, ao cabo de alguns instantes, tornara em si, sem suspeitar que fora visto pela rainha, que talvez o tivesse socorrido, num primeiro ímpeto de inquietude, se a não tivesse detido Andréia, muito mais por ciúme do que por um frio senso das conveniências.

   De resto, bem fizera a rainha voltando ao quarto ante o aviso de Andréia, fosse qual fosse o sentimento que o ditara, pois tanto que a porta se fechou atrás dela, ouviu, através da sua espessura, o grito do proteiro:

—        O rei!

   Era, com efeito, o rei, que dos seus aposentos se dirigia ao terraço, desejoso, antes de assistir ao conselho, de visitar os trens de caça, que lhe pareciam um tanto descurados ultimamente.

   Entretanto na antecâmara, seguido de alguns oficiais de sua casa, sobresteve o monarca: viu um homem deitado sobre o peitoril da janela, em posição que assustava os dois guardas que o sustinham, desabituados de ver desmaiarem à-toa os oficiais.

Por isso mesmo, enquanto seguravam o Sr. de Charny, gritavam:

—        Senhor! senhor!   Que tendes?

Mas o doente, sem voz, não podia responder. Compreendendo, pelo silêncio, a gravidade do mal, o rei apertou o passo.

—        Sim, — observou, — sim, foi alguém que perdeu os sentidos.

   À voz do rei, voltaram-se os guardas e, maquinalmente, largaram o Sr. de Charny, que, ainda sustentado por uns restos de força, caiu, ou melhor, deixou-se cair sobre as lájeas com um gemido.

—        Oh! senhores, — exclamou o rei, — que estais fazendo?

Precipitaram-se todos.   Ergueram suavemente o Sr. de Charny que desfalecera, e colocaram-no sobre uma poltrona.

— Mas é o Sr. de Charny! — exclamou o soberano, de repente,reconhecendo o jovem oficial.

— O Sr. de Charny? — repetiram os assistentes.

— Sim, o sobrinho do Sr. de Suffren.

   Essas palavras produziram um efeito mágico. Charny, de um momento para outro, viu-se literalmente inundado de águas de cheiro, como se se achasse entre dez mulheres. Chamou-se um médico e este examinou prestesmente o enfermo.

   Curioso de toda ciência e compadecido de todos os males, o rei não queria afastar-se; assistia à consulta.

   O primeiro cuidado do médico foi abrir o colete e a camisa do rapaz, a fim de que o ar lhe tocasse o peito; mas, ao fazê-lo, encontrou o que não estava procurando.

— Um ferimento! — bradou Sua Majestade com redobrado interesse e acercando-se de modo que visse com os próprios olhos.

— Sim, sim, — murmurou o Sr. de Charny, tentando soerguer-se, e relanceando à sua volta os olhos amortecidos, — foi uma ferida antiga que se reabriu.   Não é nada... nada...

E apertava com a mão, imperceptivelmente, os dedos do médico.

   Um médico compreende e deve compreender tudo. Aquele não era um médico da corte, mas um cirurgião qualquer de Versalhes.   Quis dar-se ares.

   —     Oh! antiga...   Isso dizeis vós, senhor; os lábios ainda estão frescos, o sangue é vermelho demais: essa ferida não tem vinte e quatro horas.

   Charny, a quem a contradita devolvera as forças, ergueu-se em pé e disse:

   —     Parece-me que não sereis vós quem me dirá quando recebi o ferimento, senhor!   Digo e repito: é um ferimento antigo.

   Nesse momento, avistou e reconheceu o rei. Abotoou a vestia, como que corrido ante tão ilustre espectador da sua fraqueza.

— O rei! murmurou.

— Sim, Sr. de Charny, sou eu mesmo; e dou graças ao céu por estar aqui para trazer-vos algum alívio.

— Um arranhão, Sire, — balbuciou Charny; — uma velha ferida, Sire, nada mais.

— Velha ou nova, — volveu Luís XVI, — a ferida mostrou-me o vosso sangue, sangue precioso de um bravo gentil-homem.

— Ao qual duas horas na cama lhe devolverão a saúde, — ajuntou Charny, querendo levantar-se outra vez.   Mas não calculara as forças.   Com a cabeça andando a roda, as pernas vacilantes, só se ergueu para recair na poltrona.

— Êle está bem mal, — observou o rei.

— Está, sim, — acudiu o médico com ar fino e diplomático, que recendia a um pedido de promoção; — mas pode salvar-se.

   Homem de bem, o rei adivinhara que Charny estava escondendo qualquer coisa. Esse segredo era-lhe sagrado. Qualquer outra pessoa teria procurado colhê-lo dos lábios do médico, que tão obsequiosamente lho oferecia; mas Luís XVI preferiu deixá-lo ao proprietário.

   —     Não quero, — disse êle, — que o Sr. de Charny se exponha a risco nenhum voltando para casa. Será tratado em Versalhes; chamem-lhe depressa o tio, o Sr. de Suffren, e depois que se tiver agradecido a este senhor os cuidados que teve, — e designava o obsequioso médico, — chamem o cirurgião de minha casa, o Dr.Luís.   Se não me engano, é êle quem está de serviço.

   Correu um oficial a executar as ordens reais. Dois outros se encarregaram de Charny e o transportaram para o extremo da galeria, acomodando-o no quarto do oficial dos guardas.

   Passou-se esta cena mais rapidamente que a da rainha e do Sr. de Crosne.

Mandaram-se chamar o Sr. de Suffren e o Dr. Luís.

   Conhecemos este homem honrado, modesto e sábio, de uma inteligência menos brilhante do que útil, corajoso lavrador do campo imenso da ciência, onde mais se honra quem faz a colheita, mas onde não tem menos merecimento quem arroteia a terra.

   Atrás do cirurgião, inclinado sobre o paciente, afligia-se já o bailão de Suffren, que um estafeta acabara de avisar.

   O ilustre marujo não compreendia aquela síncope, aquele súbito mal-estar.

   Quando pegou na mão de Charny e lhe considerou os olhos baços:

— É esquisito! — disse êle, — esquisito!   Sabeis, doutor, que meu sobrinho nunca esteve doente?

— Isso não prova coisa alguma, Sr. Bailio, — replicou o médico.

— Nesse caso, o ar de Versalhes deve ser bem pesado, pois re pito que vi Oliveiros dez anos em alto mar, sempre vigoroso, direito como um mastro.

— É a ferida, — alvitrou um dos oficiais presentes.

— Ferida, como! — bradou o almirante. — Oliveiros nunca foi ferido!

— Oh! perdão, — replicou o oficial, mostrando a cambraia manchada; — mas eu cria. ..

O Sr. de Suffren viu sangue.

   —     Está bem, está bem, — atalhou com familiar rudeza o doutor,que acabava de tomar o pulso ao doente, — mas não vamos discutir a origem do mal.   Temos o mal, contentemo-nos com êle e curemo-lo, se possível.

   O bailio gostava das frases sem resposta; não habituara os cirurgiões dos seus navios a suavizar as palavras.

— É muito perigoso, doutor? — perguntou, mais comovido do que desejava mostrar-se.

— Mais ou menos como um corte de navalha no queixo.

— Bem. Agradecei ao rei, senhores.   Oliveiras, voltarei para ver-te.

   Oliveiros moveu os olhos e os dedos, como que para agradecer ao mesmo tempo ao tio que se afastava e ao médico, que o fizera largar a presa.

   Em seguida, feliz por se achar numa cama, feliz por se ver entregue a um homem inteligente e compassivo, fingiu adormecer.

O facultativo mandou embora toda a gente.

   O fato é que Oliveiros adormeceu, não sem haver agradecido ao céu quanto lhe sucedera, ou melhor, o não lhe haver sucedido nenhum mal em circunstâncias tão graves.

   Apoderara-se dele a febre, essa febre maravilhosa e regeneradora da humanidade, seiva eterna que floresce no sangue do homem e, servindo aos desígnios de Deus, isto é, do gênero humano, faz germinar a saúde no doente ou carrega o vivente no meio da saúde.

   Depois que Oliveiros ruminou, com o ardor dos febris, a cena com Filipe, a cena com a rainha, a cena com o rei, caiu no círculo terrível que o sangue furioso atira, como uma rede, sobre a inteligência. ..   Delirou.

   Três horas depois, era possível ouvi-lo da galeria em que passeavam alguns guardas; e, tendo-o observado, o cirurgião chamou o seu lacaio e ordenou-lhe que carregasse Oliveiros nos braços. Oliveiros gemeu.

— Cobre-lhe a cabeça com as cobertas.

— E que farei com êle? — perguntou o lacaio. — É muito pesado e se debate demais.   Vou pedir auxílio a um dos senhores guardas.

— És um fracalhão se tens medo de um doente, — observou c velho médico.

— Senhor...

— E se te parece pesado demais, não és tão forte quanto eu cuidava.   Terei de recambiar-te para a Auvergne.

   Surtiu efeito a ameaça. Gritando, urrando, delirando e gesticulando, Charny foi carregado como uma pluma pelo criado do Dr. Luís, à vista dos guardas.

Estes cercaram o médico e crivaram-no de perguntas.

   —     Senhores, — disse o doutor, berrando mais do que Charny para encobrir-lhe os gritos, — haveis de compreender que não posso andar uma légua de hora em hora para visitar este doente que me confiou o rei.   A vossa galeria fica no fim do mundo.

— Para onde o levareis, doutor?

— Para o meu apartamento, como bom preguiçoso que sou. Como o sabeis, tenho dois quartos; colocá-lo-ei num deles e, depois de amanhã, se ninguém se intrometer, darei notícias suas.

— Mas, doutor, — acudiu o oficial, — garanto-vos que o doente aqui ficará muito bem; todos gostamos do Sr. de Suffren, e...

— Sei, sei, conheço esses cuidados entre camaradas.   O ferido está com sede, são todos muito bonzinhos, dão-lhe de beber, e ele morre.   Deus me livre dos cuidados dos senhores guardas!   Já me mataram assim dez doentes.

   O cirurgião ainda estava falando quando Oliveiros já não podia ser ouvido.

   —     Sim! — prosseguiu, com os seus botões, o digno esculápio —tudo isso está muito bem, é muito lógico.   Mas tem um inconveniente, é que o rei há de querer ver o doente...   E se êle o vir...ouvirá também...   Diabo!   Não se pode hesitar.   Vou prevenir a rainha, que me dará conselho.

   Tendo tomado essa resolução com a presteza do homem cujos segundos são contados pela natureza, o bom doutor inundou de água fresca o rosto do ferido e colocou-o numa cama de modo que êle se não viesse a matar se se mexesse ou caísse. Pôs cadeado nos postigos, fechou a porta com duas voltas de chave e, guardando a chave no bolso, foi procurar a rainha, depois de certificar-se, ouvindo de fora, de que nenhum dos gritos de Oliveiros poderia ser percebido ou compreendido.

   Será desnecessário dizer que, para maior precaução, o criado foi encerrado em companhia do doente.

   Encontrou à porta a Sra. de Misery, que a rainha mandara para saber notícias do ferido.

Ela insistia em entrar.

— Vinde, vinde, senhora, que estou de saída!

— Mas, doutor, a rainha está esperando!

— Vou procurá-la.

— A rainha deseja...

— Garanto que a rainha saberá tudo o que deseja saber.Vamos!

   E afastou-se tão depressa que obrigou a dama de Maria Antonieta a correr para chegar ao mesmo tempo que êle.

 

         Aegri Somnia

   A RAINHA esperava a resposta da Sra. de Misery, não esperava o médico.

   Este entrou com a costumeira familiaridade.

   —     Senhora, — anunciou em voz alta, — o doente pelo qual

Vossa Majestade e o rei se interessam, vai tão bem quanto pode ir uma pessoa que está com febre.

   A rainha conhecia o cirurgião; conhecia-lhe o horror às pessoas que, no seu dizer, dão gritos inteiros quando sentem apenas meias dores.

   Imaginou que o Sr. de Charny exagerara um pouco a sua situação. As mulheres fortes estão sempre dispostas a achar fracos os homens fortes.

— O ferido, — disse ela, — é um ferido de mentira.

— Não sei... — tornou o doutor.

— Um arranhão...

— Não, não, senhora; mas, arranhão ou ferida, está com febre.

— Pobre rapaz!   Uma febre muito forte?

— Terrível.

— Sim? — atalhou a rainha assustada; — eu não supunha que assim... de repente... a febre...

O cirurgião considerou-a por um momento.

— Há febres e febres, — replicou êle.

— Meu caro Luís, estais-me assustando.   Sois, de hábito, tão tranqüilizador!   Francamente, não sei o que tendes esta noite.

— Nada de extraordinário.

— Homessa!   Não parais quieto, olhais para a direita e para a esquerda, com o ar de um homem que desejaria confiar-me um grande segredo.

— E quem diz que não?

— Eu não disse?   Um segredo sobre febre!

— Exatamente.

— Sobre a febre do Sr. de Charny!

— Exatamente.

— E procurais-me por causa dele?

— Exatamente.

— Vamos depressa aos fatos. Sabeis que sou curiosa. Mas comecemos pelo começo.

— Como o Joãozinho, não é?

— Sim, meu caro doutor.

— Pois bem! senhora...

— Estou esperando, doutor.

— Não, quem está esperando sou eu.

— O quê?

— Que Vossa Majestade me interrogue.   Não sei contar direito,mas quando me perguntam, respondo como um livro.

— Perguntei-vos como vai a febre do Sr. de Charny.

— Mal começado.   Pergunte-me primeiro Vossa Majestade por que cargas d'água o Sr. de Charny está no meu apartamento, num quartinho, em vez de estar na galeria ou nos aposentos do oficial dos guardas.

— Seja, pergunto.   De fato, é surpreendente.

— Pois bem! senhora, eu não quis deixar o Sr. de Charny nessa galeria, nem no quarto do oficial, porque a febre do Sr. de Charny não é uma febre comum.

A rainha esboçou um gesto de surpresa.

— Que quereis dizer?

— Quando está com febre, o Sr. de Charny delira imediata mente.

— Oh! — exclamou a rainha, juntando as mãos.

— E, — prosseguiu Luís, aproximando-se, — quando delira, o pobre rapaz diz uma série de coisas extremamente delicadas para os ouvidos dos senhores guardas do rei ou de qualquer outra pessoa.

— Doutor!

— Vossa Majestade não devia interrogar-me, se não quisesse ouvir as respostas.

— Dizei sempre, meu caro doutor.

E a rainha pegou na mão do bom sábio.

— O rapaz talvez seja ateu e, no seu delírio, blasfema.

— Não, não.   £ pelo contrário, profundamente religioso.

— Talvez haja, nesse caso, exaltação em suas idéias?

— Exaltação, é isso mesmo.

   A rainha compôs o semblante e, revestindo-se do admirável sangue frio que sempre acompanha os atos dos príncipes habituados ao respeito dos outros e à estima de si mesmos, faculdade indispensável aos grandes da terra para dominarem e não se traírem:

   —     O Sr. de Charny, — disse ela, — foi-me recomendado. É sobrinho do Sr. de Suffren, nosso herói.   Já me prestou serviços; quero ser, para êle, o que seria uma parenta, uma amiga.   Dizei--me, pois, a verdade; devo e quero ouvi-la.

— Pois não posso dizer-lha, — replicou Luís. — E já que Vossa Majestade faz tanto empenho em sabê-la, só conheço   um meio: ouça-o pessoalmente.   Dessarte, se o rapaz disser alguma inconveniência, Vossa Majestade não se zangará com o indiscreto que houver deixado reslumbrar o segredo nem com o imprudente que o houver abafado.

— Aprecio a vossa amizade, — bradou a rainha, — e creio desde já que o Sr. de Charny diz coisas estranhas em seu delírio...

— Coisas que Vossa Majestade precisa ouvir urgentemente para poder apreciá-las, — tornou o bom doutor.

E pegou delicadamente na mão comovida da rainha.

— Mas, primeiro que tudo, cuidado! — advertiu Maria Antonieta. — Nunca dou um passo aqui sem que me acompanhe algum caridoso espião.

— Esta noite, o único espião serei eu.   É só atravessar o meu corredor, que tem uma porta em cada extremidade.   Fecharei a porta pela qual entrarmos, e ninguém poderá seguir-nos.

— Entrego-me a vós, meu caro doutor, — disse a rainha.

   E, travando do braço de Luís, saiu do quarto, palpipante de curiosidade.

   O esculápio cumpriu a promessa. Rei nenhum, marchando para o combate ou fazendo um reconhecimento numa praça de guerra; nenhuma rainha, escoltada para uma aventura, foram mais vulgarmente alumiados por um capitão dos guardas ou por um grande oficial do paço.

   O cirurgião fechou a primeira porta e, aproximando-se da segunda, aplicou nela o ouvido.

— É aí que está o vosso doente?

— Não, senhora, — está no quarto pegado.   Se estivesse aqui, Vossa Majestade já o teria ouvido desde o fundo do corredor. Escute só desta porta.

Ouvia-se, com efeito, o murmúrio não articulado de algumas queixas.

— Êle está gemendo, está sofrendo, doutor.

— Não, não, não está gemendo coisa alguma.   Está é falando mesmo. Preste atenção, vou abrir a porta.

— Mas não quero entrar no quarto dele! protestou a rainha, recuando.

— Nem é isso o que lhe proponho, — conveio o doutor. —Sugiro apenas que Vossa Majestade entre no primeiro quarto e, de lá, sem receio de ser vista ou de ver, ouvirá quanto se disser no quarto do ferido.

— Todos esses mistérios, todos esses preparativos, estão-me deixando com medo, — murmurou Maria Antonieta.

— Como será então quando Vossa Majestade tiver ouvido! —replicou o médico.

E entrou sozinho no quarto de Charny.

   Vestindo as calças do uniforme, cujas fivelas o bom doutor havia desatado, com as pernas nervosas e finas presas em meias de seda de espirais opalinas e nacaradas, os braços estendidos como os de um cadáver, rijos entre as mangas de cambraia amarrotada, Charny tentava erguer sobre o travesseiro a cabeça, que lhe pesava mais do que se fosse de chumbo.

   Ardente suor lhe escorria, em pérolas, da fronte, colando-lhe às têmporas os anéis soltos do cabelo.

   Abatido, inerte, esmagado, não era mais que um pensamento, um sentimento, um reflexo; o corpo só lhe vivia em função dessa chama, sempre animada, e que por si mesma se lhe irritava no cérebro, como o pavio na lamparina de alabastro.

   Não foi apenas uma vã comparação que escolhemos, pois essa chama, única existência de Charny, alumiava fantasticamente, suavizando-as, certas minúcias que a memória apenas seria incapaz de traduzir em longos poemas.

   Charny estava recontando a si mesmo a entrevista no fiacre com a dama alemã encontrada no trajeto entre Paris e Versalhes.

— Alemã! alemã! — repetia sem cessar.

— Sim.  Alemã, já sabemos, — acudiu o cirurgião. — No caminho de Versalhes.

— Rainha de França! — bradou de repente.

— Hein? — disse Luís, olhando para o quarto em que se achava a rainha. — Que diz a isso Vossa Majestade?

— O que é horrível, — murmurou Charny, — é amar um anjo,uma mulher, amá-la loucamente, dar por ela a vida, e não ver diante de si, quando a gente se aproxima, senão uma rainha de veludo e ouro, metal ou tecido, mas nenhum coração!

— Oh! — exclamou o doutor, despedindo uma gargalhada forçada.

Não se advertiu o rapaz da interrupção.

   —     Eu amaria — disse êle, — uma mulher casada.   Amá-la-ia com esse amor selvagem que faz que a gente se esqueça de tudo. Pois bem!... eu diria a essa mulher: restam-nos alguns dias bonitos sobre a terra; os que nos esperam fora do nosso amor valerão,acaso, esses dias?   Vem, minha adorada, enquanto me amares e eu te amar, viveremos a vida dos eleitos. Depois, não faz mal! depois, será a morte, isto é, a vida que vivemos neste momento. Fruamos, portanto, os benefícios do amor.

— Não está mal o raciocínio para um homem com febre, —murmurou o facultativo, — embora essa moral não seja das mais austeras.

— Mas os filhos!... — bradou Charny a súbitas, colérico, —ela não deixará os dois filhos.

— Eis aí o obstáculo, hic nodus, — observou Luís, enxugando o suor da testa de Charny, com uma sublime mistura de zombaria e caridade.

— Oh! — voltou o rapaz, insensível a tudo, — os filhos cabem perfeitamente num capote de viagem!...

— Ora, Charny, já que carregas a mãe, leve como pena de toutinegra; já que a susténs sem sentir mais que um frêmito de amor em lugar de um fardo, não levarias também os filhos de Maria...   Ah!...

Êle desferiu um grito terrível.

   —     Os filhos de um rei são tão pesados que a sua falta seria sentida por metade do mundo!

Luís deixou o enfermo e voltou para beira da rainha. Encontrou-a em pé, fria e trêmula.   Tomou-lhe a mão.   Ela também estava arrepiada.

— Tínheis razão, — assentiu Maria Antonieta. — É mais que um delírio, é um perigo real que correria esse moço se o ouvissem.

— Escute! escute! — prosseguiu o doutor.

— Não, nem mais uma palavra.

— Êle está-se acalmando.   Veja, ei-lo que reza.

   Com efeito, Charny acabava de soerguer-se e juntava as mãos, olhos arregalados e espantados fitos no vago e quimérico infinito.

— Maria, — clamou com voz doce e vibrante, — Maria, bem vi que me amáveis.   Oh! não o revelarei a ninguém.   O vosso pé, Maria, acercou-se do meu no fiacre e senti-me desfalecer.   Vossa mão desceu sobre a minha... não... não direi nada, é o segredo de minha vida.   Por mais que me corra o sangue da ferida, Maria,o segredo não sairá com êle.   Meu inimigo embebeu a espada no meu sangue; mas se êle conhece um pouco do meu segredo, não conhece o vosso.   Não temais, Maria; não me digais sequer que me amais: é inútil; visto que corais, já não tendes o que me revelar.

— Oh! oh! — atalhou o doutor. — Agora já não se trata apenas de febre; veja como êle está calmo... é...

— É?. .. — repetiu a rainha, conturbada.

   —     É um êxtase, senhora: o êxtase parece à memória.   É, com efeito, a memória de uma alma que se lembra do céu.

   —     Já ouvi bastante, — murmurou a rainha, tão perturbada que tentou fugir.

Reteve-a o doutor violentamente pela mão.

— Senhora, senhora, — disse êle, — que quer Vossa Majestade?

— Nada, doutor; nada.

— E se o rei quiser ver o seu protegido?

— Seria uma desgraça!

— Que hei de dizer?

— Não tenho idéia, doutor; não tenho sequer uma palavra; este espetáculo horrível cortou-me o coração.

— E o extático pegou-lhe a febre, — observou, em voz baixa,o facultativo: — o seu pulso bate pelo menos com cem pulsações.

A rainha não respondeu.   Desvencilhou a mão e desapareceu.

 

         Em que se demonstra que a autópsia do coração é mais difícil do que a do corpo

   O DOUTOR ficou pensativo, vendo afastar-se a soberana. Logo, falando consigo só e meneando a cabeça:

   — Há neste castelo, — murmurou, — mistérios que fogem ao domínio da ciência. Contra uns, armo-me do bisturi e rasgo--lhes a veia para curá-los; contra os outros, armo-me da censura e rasgo-lhes o coração: conseguirei alguma coisa?

   Em seguida, como houvesse passado o acesso, fechou os olhos de Charny, que tinham ficado abertos e esgazeados, refrescou-lhe as têmporas com água e vinagre, e dispensou-lhe os cuidados que transformam a atmosfera abrasadora do doente num paraíso de delícias.

   Vendo, então, regressar a calma aos traços do paciente, observando que os seus soluços se mudavam lentamente em suspiros e que umas sílabas vagas se lhe escapavam da boca em lugar das palavras furiosas:

   —     Sim, sim, não havia apenas simpatia, havia influência também, — disse êle; — ocorreu o delírio como que para ir ao encontro da visita que o doente recebeu; os átomos humanos se deslocam como, no reino vegetal, as poeiras fecundantes; o pensamento tem comunicações invisíveis, os corações têm relações secretas.

Súbito, estremeceu e voltou-se a meio, olhos e ouvidos fitos.

—        Quem estará ainda aí? — perguntou, num sussurro.

   De feito, acabava de ouvir uma espécie de murmúrio e um roçar de vestido no fundo do corredor.

   —     É impossível que seja a rainha, — continuou, no mesmo tom; — ela não voltaria atrás de uma resolução provavelmente invariável.   Vamos a ver.

   E foi mansamente abrir outra porta, que dava também para o corredor. Espichando a cabeça sem fazer barulho, viu, a dez passos de si, uma mulher envolta em longos vestidos de pregas imóveis, semelhante à estátua fria e inerte do desespero.

   Era noite fechada, e a fraca luz colocada no corredor não podia iluminá-lo de um extremo a outro; mas por uma janela aberta passava um raio de lua que incidia sobre a mulher, tornando-a visível até que uma nuvem passasse entre ela e o raio.

   O médico tornou a entrar devagarinho, transpôs o espaço que separava uma porta da outra e, silenciosa mas rapidamente, abriu a porta atrás da qual se escondera a mulher.

   Ela soltou um grito, estendeu as mãos e encontrou as do Dr. Luís.

   —     Quem está aí? — perguntou êle com uma voz em que havia mais piedade que ameaça; pois adivinhava, pela própria imobilidade daquela sombra, que ela estava escutando muito mais com o coração do que com os ouvidos.

—        Eu, doutor, eu, — respondeu uma voz doce e triste.

Embora o timbre não fosse desconhecido para o médico, não despertou nele mais que uma vaga e distante lembrança.

—        Eu, Andréia de Taverney, doutor.

— Ah! meu Deus! que aconteceu? — bradou o cirurgião. — Ela sentiu-se mal?

— Ela! — bradou Andréia, — ela!   Ela, quem?

Percebeu o médico que acabava de cometer uma imprudência.

— Perdão, mas vi há pouco afastar-se uma mulher.   Éreis vós,talvez?

— Ah! sim, — disse Andréia, — esteve aqui uma mulher antes de mim, não esteve?

   E proferiu essas palavras com ardente curiosidade, que não deixou dúvida nenhuma no espírito do médico sobre o sentimento que as ditara.

— Minha querida filha, — tornou o doutor, — parece-me que estamos jogando o jogo dos disparates. De quem me estais falando? Que me quereis?   Explicai-vos.

— Doutor, — redargüiu Andréia com voz tão triste, que traspassou o coração do interlocutor, — meu bom doutor, não tenteis enganar-me, vós que tendes o hábito de dizer-me a verdade; confessai que uma mulher esteve aqui há pouco, confessai-mo, que também a vi.

— E quem vos disse que não veio ninguém?

— Sim; mas uma mulher, uma mulher, doutor.

— Uma mulher, é claro; a menos que desejeis sustentar a tese de que uma mulher só é mulher até aos quarenta anos.

— A que veio tinha quarenta anos? — bradou Andréia, respirando pela primeira vez. — Ah!

— Quando digo quarenta, ainda lhe perdoo uns cinco, ou seis,bem contados.   Mas precisamos ser galantes com as amigas, e a Sra. de Misery é minha amiga, e até uma boa amiga.

— A Sra. de Misery?

— Sem dúvida.

— Foi ela quem veio?

— E por que diabo não vos diria eu se fosse outra?

— Oh! é que...

— Em verdade, as mulheres são todas iguais, inexplicáveis; no entanto, eu cria conhecer-vos.   Pois agora vejo que não vos conheço melhor do que as outras.   É uma coisa tremenda.

— Meu bom e querido doutor!

— Basta.Vamo aos fatos.

Considerou-o Andréia com inquietude.

— Ela sentiu-se mal? — insistiu Luís.

— Quem?

— Ora, essa!   A rainha.

— A rainha!

   —     Sim, a rainha, para a qual a Sra. de Misery veio buscar-me há pouco; a rainha, que está com sufocações, palpitações.   Triste doença, minha querida senhorita, incurável.   Dai-me, portanto, notícias dela se vindes da sua parte, e voltemos para junto de Sua Majestade.

   E o Galeno fêz um movimento indicativo de que desejava afastar-se do lugar em que estava.

   Deteve-o, porém, Andréia docemente e respirando mais à vontade.

— Não, meu caro doutor, — disse ela, — não venho da parte da rainha.   Eu até ignorava que ela não estava bem.   Pobre rainha! Se eu tivesse sabido...   Perdoai-me, doutor, já nem sei o que digo.

— É o que estou vendo.

— Não só não sei o que digo, como também não sei o que faço.

—        Oh! o que estais fazendo sei-o eu: estais-vos sentido mal.

Andréia, com efeito, largara o braço do médico; a mão, fria, recaíra-lhe ao longo do corpo e ela se inclinava, lívida, gelada.

O facultativo a reergueu, reanimou, realentou.

   Andréia fêz sobre si mesma violento esforço. Aquela alma vigorosa, que nunca se deixara abater, nem pela dor física, nem pela dor moral, entesou as molas de aço.

— Doutor, — voltou ela, — sabeis que sou nervosa e que a escuridão me causa terrores horríveis?   Perdi-me na escuridão, daí o estado estranho em que me encontro.

— E por que diabo, nesse caso, vos espondes à escuridão? Quem vos obriga a isso?   Ninguém vos mandou aqui, nada aqui vos chamava.

— Eu não disse nada, doutor; disse ninguém.

— Ah! ah! sutilezas, minha querida paciente.   Mas estamos aqui mal acomodados.   Vamos para outro lugar, sobretudo se a parlenga promete prolongar-se.

— Dez minutos, doutor, não vos peço mais do que isso.

— Dez minutos, seja.     Mas não em pé; as minhas pernas recusam-se terminantemente a esse gênero de diálogos; vamos sentar-nos.

— Onde?

— No banco do corredor, se quiserdes.

— E acreditais que lá ninguém poderá ouvir-nos, doutor? —perguntou Andréia, receosa.

— Ninguém.

— Nem sequer o ferido que aí está? — continuou ela, no mesmo tom, indicando ao médico o quarto iluminado por um suave reflexo azul, em que mergulhava o seu olhar.

— Não, — afirmou o doutor, — nem sequer esse pobre rapaz; e posso até acrescentar que, se alguém nos ouvir, decerto não será êle.

Andréia juntou as mãos.

— Oh! meu Deus!   Quer dizer, então, que está muito mal?

— Não está bem.     Mas falemos do que vos traz; depressa,minha filha, depressa; sabeis que a rainha está à minha espera!

— Pois é o que estamos fazendo, doutor, — replicou Andréia com um suspiro.

— Como!   O Sr. de Charny?

— É dele que se trata.   Vim saber notícias suas.

   O silêncio com que o Dr. Luís acolheu as palavras, que êle, no entanto, devia estar esperando, foi glacial. De fato, o cirurgião censurava naquele momento a atitude de Andréia e a atitude da rainha; via as duas mulheres movidas pelo mesmo sentimento e, diante dos sintomas, supunha reconhecer nesse sentimento um violento amor.

   Andréia, que ignorava a visita da rainha, e não podia ler no espírito do médico tudo o que nele havia de triste benevolência e misericordiosa piedade, tomou o silêncio do facultativo por um reproche, talvez um tanto duramente formulado, e reergueu-se como soía debaixo dessa pressão, embora continuasse muda.

— Parece-me, doutor, que podeis desculpar-me à atitude, —tornou ela, — pois o Sr. de Charny foi ferido num duelo, e o ferimento quem lho produziu foi meu irmão.

— Vosso irmão! — exclamou o Dr. Luís. — Foi o Sr. Filipe de Taverney quem feriu o Sr. de Charny?

— Sim, senhor.

— Eu ignorava essa circunstância.

— Mas agora que a sabeis, não vos parece que eu deva indagar do estado em que êle se encontra?

— De fato, minha filha, — volveu o bom doutor, encantado por encontrar um pretexto para a indulgência. — Eu não podia adivinhar a causa verdadeira.

   E acentuou as últimas palavras de modo que provasse a Andréia que lhe adotava com reservas as conclusões.

— Vamos, doutor, — instou Andréia, apoiando as mãos no braço do interlocutor e encarando com êle, — dizei o que estais pensando.

— Eu já disse.   Por que haveria de fazer restrições mentais?

— Um duelo entre fidalgos é coisa corriqueira, é um acontecimento de todos os dias.

— Só poderia ter importância esse duelo se se houvessem os nossos dois rapazes batido por uma mulher.

— Por uma mulher, doutor?

— Sim.   Por vós, por exemplo.

— Por mim! — e Andréia despediu um suspiro profundo. —Não, não foi por mim que o Sr. de Charny se bateu, doutor.

   O médico pareceu contentar-se da resposta.   Mas, de um modo ou de outro, quis ter a explicação do suspiro.

   —     Então, — arriscou, — já compreendi: foi vosso irmão quem vos pediu um boletim exato da saúde do ferido.

—        Sim! foi meu irmão!   Sim, doutor, — exclamou Andréia.

O cirurgião encarou nela por sua vez.

   —     O que tens no coração, alma inflexível, hei de sabê-lo, —murmurou.

Logo, em voz alta:

— Nesse caso, — prosseguiu, — vou dizer-vos toda a verdade,como deve ser dita às pessoas interessadas em conhecê-la.   Transmiti-a a vosso irmão, para que êle tome as providências cabíveis...Compreendeis.

— Não, doutor!   Estou procurando saber o que quereis dizer com estas palavras:   Para que êle tome as providências cabíveis.

— É simples...     Um duelo, mesmo agora, não é coisa que agrade ao rei.   Sua Majestade não tem feito observar os éditos,é verdade; mas quando um duelo provoca escândalo, o rei exila ou prende.

— É verdade.

— E quando, por desgraça, sobrevêm a morte de um dos contendores, o rei é implacável.   Por conseguinte, aconselhai a vosso irmão que se ponha em lugar seguro por algum tempo.

— Doutor, — bradou Andréia, — doutor, está muito mal, então, o Sr. de Charny?

— Escutai, minha querida senhorita, prometi-vos a verdade, e a verdade é esta: estais vendo o pobre rapaz dormindo, ou melhor, estertorando naquele quarto?

— Sim, doutor, — replicou Andréia com voz entrecortada; — e então?...

— Então, se êle não estiver salvo amanhã há estas horas, se a febre que acaba de declarar-se e que o devora não tiver cedido, amanhã há estas horas o Sr. de Charny será um homem morto.

   Sentiu Andréia que ia desferir um grito, comprimiu a garganta, enfiou as unhas na carne, para extinguir na dor física um pouco da angústia que lhe lacerava o coração.

   Luís não lhe pôde ver nos traços os medonhos estragos produzidos por essa luta.

Dominava-se Andréia espartânicamente.

— Meu irmão, — disse ela, — não fugirá; bateu-se com o Sr. de Charny como um homem de bem; se teve à desdita de feri-lo,fê-lo em legítima defesa; se o matou, Deus o julgará.

— Ela não veio por conta própria, — cuidou o médico entre si; — veio, portanto, de parte da rainha.   Vejamos se Sua Majestade levou a leviandade até a esse ponto.

— Que foi o que a rainha achou desse duelo? — perguntou.

— A rainha?   Não sei, — retrucou Andréia. — Que importa a rainha?

— Suponho que ela goste do Sr. de Taverney?

— O Sr. de Taverney está são e salvo; esperemos que Sua Majestade defenda pessoalmente meu irmão, se o acusarem.

Vencido nos dois lados da sua dupla hipótese, Luís desistiu.

— Não sou fisiologista, — refletiu, — sou apenas cirurgião. Por que diabo, quando conheço tão bem o jogo dos músculos e dos nervos, hei de meter-me no jogo das paixões e dos caprichos femininos?

— Senhorita, soubestes o que desejáveis saber.   Fazei ou não fugir o Sr. de Taverney, isso é convosco.   Quanto a mim, tenho por obrigação tentar salvar o ferido...   esta noite, pois do contrário a morte, que continua tranqüilamente a sua obra, mo levaria nas próximas vinte e quatro horas.   Adeus.

E fechou, delicada mas definitivamente, a porta atrás dela.

   Andréia passou a mão convulsa pela testa, viu-se sozinha, sozinha com a aterradora realidade. Teve a impressão de que a morte, da qual acabava de falar tão friamente o médico, descia sobre aquele quarto e passava, amortalhada, pelo corredor escuro.

   O vento da fúnebre aparição gelou-lhe os membros. Voltou correndo para os seus aposentos, fechou a porta do quarto com três voltas de chave e, caindo de joelhos sobre o tapete da cama:

   —     Meu Deus! — bradou com selvagem energia, entre torrentes de lágrimas, — meu Deus! não sois injusto, não sois insensato; não sois cruel, meu Deus!   Podeis tudo, não deixareis morrer esse rapaz, que não fêz mal algum e é querido neste mundo.   Meu Deus! nós, pobres humanos, só acreditamos realmente no poder da vossa beneficência, embora em todas as ocasiões tremamos ante o poder de vossa cólera.   Mas eu!... eu... que vos suplico, já fui bastante atribulada, já sofri muito sem haver cometido crime algum.   No entanto, nunca me queixei, nem sequer a vós; nunca duvidei de vós. Se hoje que vos rogo; se hoje que vos conjuro; se hoje que vos peço, que quero a vida de um rapaz... se hoje ma recusásseis, ó meu Deus! direi que empregastes contra mim todas as vossas forças, e que sois um Deus de sombrias cóleras, de vinganças desconhecidas; direi... Oh! estou blasfemando, perdão! estou blasfemando! ... e não me feris! Perdão, perdão! agora conheço que sois realmente o Deus da clemência e da misericórdia.

   Sentiu Andréia que a vista se lhe extinguia, que se lhe dobravam os músculos; deixou-se cair, inanimada, cabelos soltos, e quedou como um cadáver sobre o pavimento.

   Quando despertou desse sono frio, e tudo lhe voltou ao espírito, fantasmas e dores:

   — Meu Deus! — murmurou, com sinistro acento, — fostes misericordioso; castigastes-me, eu o amo!... Sim, amo-ol É o bastante, não é?   Matar-mo-eis agora?

 

         Delírio

   DEUS ouvira, sem dúvida, a prece de Andréia. O Sr. de Charny não sucumbiu ao acesso de febre. No dia seguinte, ao passo que ela absorvia com avidez todas as notícias que lhe chegavam do ferido, este, graças aos cuidados do bom Dr. Luís, passava da morte à vida. A inflamação cedera ante a energia e o remédio.   Principiava a cura.

   Tendo salvo Charny, o Dr. Luís entrou a ocupar-se dele muito menos; o paciente deixava de interessar-lhe. Para o médico é bem pouca coisa o vivo, mormente quando está convalescendo ou passando bem.

   Não obstante, ao cabo de oito dias, durante os quais Andréia se tranqüilizou completamente, Luís, lembrado ainda de todas as manifestações do doente durante a crise, julgou de bom alvitre fazê-lo transportar para um sítio afastado. Queria expatriar o delírio.

   Entretanto, logo às primeiras tentativas, Charny se revoltou; cravou no médico os olhos fuzilantes de cólera, disse que estava em casa do rei e que ninguém tinha o direito de escorraçar um homem a quem Sua Majestade dava asilo.

   O doutor, que não tinha paciência com os convalescentes rebeldes, fêz entrar pura e simplesmente quatro criados no quarto, ordenando-lhes que transportassem o ferido.

   Mas Charny se agarrou à grade da cama e golpeou violentamente um dos homens, ameaçando os outros como Carlos XII ameaçava Bender.

   O Dr. Luís tentou persuadi-lo com argumentos. O rapaz a princípio, mostrou-se assaz lógico, mas como os criados insistissem, fêz tamanho esforço que a ferida se reabriu e, com o sangue, fugiu--lhe a razão. Teve um acesso de delírio mais violento que o primeiro.

   Começou a gritar que queriam afastá-lo para o privar das visões que tivera durante o sono, mas que isso era debalde, que as visões continuariam a sorrir-lhe, que o amavam e que viriam vê-lo a despeito do médico: a mulher que o amava ocupava uma posição que a colocava acima de qualquer recusa.

   A essas palavras, o trêmulo facultativo se apressou de dispensar os criados, recomeçou a tratar da ferida desde o princípio e, decidido a cuidar da razão depois de haver cuidado do corpo, repôs a matéria em estado satisfatório, mas não atalhou o delírio. Isso o assustou, visto que do desvario podia o doente passar à loucura.

   Tudo piorou, um dia, de tal sorte que o Dr. Luís pensou nos remédios heróicos. O doente não só se perdia, mas perdia também a rainha; à força de falar gritava, à força de lembrar-se inventava; e o pior é que, nos momentos de lucidez, que eram muitos, mostrava-se mais louco do que nos momentos de loucura.

   Tremendamente atrapalhado, não podendo firmar-se na autoridade do rei, porque nela se firmava também o doente, decidiu contar tudo à rainha e aproveitou, para fazê-lo, um momento em que Charny estava dormindo, cansado de contar os seus sonhos e evocar a sua visão.

   Encontrou Maria Antonieta pensativa e radiante há um tempo, na suposição de que o médico ia levar-lhe boas novas do paciente.

   Surpreendeu-se, porém; desde a primeira pergunta, Luís respondeu sem rebuços que o doente estava muito doente.

— Como! — exclamou a rainha, — ontem êle estava muito bem!

— Não, senhora, estava muito mal.

— Mandei Misery e vós lhe entregastes um bom boletim.

— Eu me iludia e queria iludir Vossa Majestade.

— Que significa isso? — voltou a rainha, muito pálida, — se êle está mal, por que mo ocultar?   Que hei de temer, doutor, senão uma desgraça, infelizmente, muito comum?

— Senhora...

— E se está bem, por que me deixar numa inquietude muito natural, visto que se trata de um bom servidor do rei?...   Vamos, respondei francamente: sim ou não!   Que há sóbria doença?   Que há sobre o doente?   Algum perigo?

— Para êle menos que para outros, senhora.

— Já começam os enigmas, doutor, — acudiu a rainha, impaciente. — Explicai-vos.

— É difícil, senhora, — retrucou o cirurgião. — Basta-lhe saber

que o mal do Conde de Charny é inteiramente moral.   A ferida não passa de um simples acessório dos sofrimentos, um pretexto para o delírio.

— Um mal moral!   O Sr. de Charny!

— Sim, senhora; e chamo moral ao que não se analisa com o escalpelo.   Poupe-me Vossa Majestade ao enleio de dizer-lhe o resto.

— Quereis dizer que o conde... — insistiu a rainha.

— Vossa Majestade insiste? — inquiriu o doutor.

— É claro que sim.

   —     Pois quero dizer que o conde está apaixonado.   Vossa Majestade pede uma explicação: explico-me.

   A rainha fêz um leve movimento de ombros, como quem diz: grande coisa!

— E crê Vossa Majestade que alguém sare assim de um ferimento? — volveu o facultativo; — não, o mal se agrava e, do delírio passageiro, o Sr. de Charny cairá numa monomania mortal.  E nesse caso...

— Nesse caso, doutor?

— Vossa Majestade terá perdido o rapaz.

— Francamente, doutor, são surpreendentes os vossos modos. Eu terei perdido o rapaz!   Serei, porventura, a causa da loucura dele, se é que êle está louco?

— Sem dúvida.

— Isso é revoltante!

— Se Vossa Majestade não é a causa neste momento, — prosseguiu o inflexível doutor, dando de ombros, — sê-lo-á mais tarde.

— Dai-me conselhos, então, já que é esse o vosso ofício, — pedia a rainha, o seu tanto mais abrandada.

— Devo receitar?

— Se o quiserdes.

— Pronto: seja o rapaz curado pelo bálsamo ou pelo ferro; e a mulher cujo nome invoca a todo instante o mate ou cure.

— Ou oito ou oitenta, — interrompeu Maria Antonieta, voltando a agastar-se. — Matar... curar... grandes palavras!   Acaso se mata um homem com rigor? Acaso se cura um pobre louco com um sorriso?

— Se Vossa Majestade também é incrédula, — acudiu o cirurgião, — não posso fazer outra coisa senão apresentar-lhe os meus humílimos respeitos.

— Mas, vamos a ver: em primeiro lugar, trata-se de mim?

— Não sei, e não quero saber; repito-lhe tão-sòmente que o Sr. de Charny é um louco razoável, que a razão pode, ao mesmo tempo, conduzir à loucura e à morte, e que a loucura pode conduzir à razão e à cura. Assim, quando Vossa Majestade quiser livrar este palácio de gritos, sonhos e escândalos, tomará uma decisão.

— Qual?

— Aí é que são elas!     Só dou receitas, não dou conselhos. Terei, porventura, a certeza de haver ouvido o que ouvi, de haver visto o que viram meus olhos?

— Muito bem, suponde que eu vos compreenda.   Que resultará disso?

— Duas felicidades: uma, a melhor para Vossa Majestade e para todos nós, é que o doente, ferido em pleno coração pelo infalível estilete que se chama razão, verá terminar a sua agonia que está começando; a outra... bem! a outra... perdoe-me Vossa Majestade se caí na asneira de ver duas saídas para o labirinto. Há uma só para Maria Antonieta, para a rainha de França.

— Compreendo; falastes com franqueza, doutor.   Cumpre que a mulher pela qual o Sr. de Charny perdeu a razão lha devolva, por bem ou por mal.

— É isso mesmo!

— Cumpre que ela tenha a coragem de ir arrancar-lhe os sonhos, isto é, a serpente roedora que vive escondida nas profundezas de sua alma.

— Sim, Majestade.

— Mandai avisar alguém; a Srta. de Taverney, por exemplo.

— A Srta. de Taverney! — repetiu o doutor.

— Sim, disporeis tudo de modo que o ferido nos receba convenientemente.

—       Muito bem, senhora.

— Sem nenhuma contemplação.

— Assim é preciso.

— Mas, — murmurou a rainha, — é mais triste do que imaginais arriscar assim a vida ou a morte de um homem.

— É o que faço todos os dias quando me acerco de uma moléstia desconhecida.   Devo atacá-la pelo remédio que mata o mal, ou pelo remédio que mata o doente?

— Estais certo de matar o doente, não é verdade? — observou Maria Antonieta, estremecendo.

— Ora! — tornou o doutor com ar sombrio, — ainda que morresse um homem pela honra de uma rainha, quantos não morrem todos os dias pelo capricho de um rei?   Vamos, senhora, vamos!

   Suspirou a rainha e seguiu o velho médico, sem ter podido encontrar Andréia.

   Eram onze horas da manhã; completamente vestido, Charny estava dormindo numa poltrona após a agitação de uma noite terrível. Os postigos do quarto, cuidadosamente fechados, deixavam passar apenas um pálido reflexo do dia. Tudo se dispusera para c doente de modo que não lhe ferisse a sensibilidade nervosa, causa primeira de seus padecimentos.

   Nenhum ruído, nenhum contacto, vista nenhuma. O Dr. Luís prevenia habilmente todos os pretextos de uma recrudescência e, no entanto, decidido a desfechar um grande golpe, não recuava diante de uma crise que poderia matar-lhe o doente. £ verdade que também poderia salvá-lo.

   Vestindo trajos matutinos, penteada com displicente elegância, entrou bruscamente a rainha no corredor que levava ao quarto de Charny. Recomendara-lhe o médico que não hesitasse, que não experimentasse, mas que se apresentasse de chofre, resoluta, para produzir um efeito violento.

   Ela virou, portanto, tão depressa o trinco cinzelado da primeira porta da antecâmara, que uma pessoa apoiada à porta do quarto de Charny, uma mulher envolta em sua capa, mal teve tempo para endireitar-se e assumir uma atitude, cuja tranqüilidade lhe desmentiam a fisionomia transtornada e as mãos trêmulas.

— Andréia! — exclamou, espantada, a rainha. — Tu aqui?

— Eu! — replicou Andréia conturbada e pálida, — eu! sim,

Majestade.   Mas Vossa Majestade também não está aqui?

— Oh! oh! temos complicações, — murmurou o doutor.

— Procurei-te por toda à parte; onde estavas?

   Havia nas palavras da rainha um tom que não era o de sua costumeira bondade. Dir-se-ia o prelúdio de um interrogatório, o germe de uma suspeita.

   Andréia teve medo; receava principalmente que o inconsiderado de sua atitude lhe traísse os sentimentos, tão assustadores para ela mesma. Daí que, a despeito da sua soberba, decidisse mentir pela segunda vez.

— Aqui, como Vossa Majestade está vendo.

— Sem dúvida; mas como?

— Senhora, — replicou ela, — disseram-me que Vossa Majestade me havia mandado chamar; por isso, vim.

   A rainha, cuja desconfiança ainda não se dissipara de todo, insistiu.

— Que fizeste para adivinhar aonde eu ia?

— Foi fácil, senhora;   Vossa Majestade estava com o Sr. Dr. Luís, e foi vista atravessando os aposentos particulares; não podia ter, evidentemente, outro destino que não este pavilhão.

— Bem adivinhado, — voltou a rainha, indecisa ainda mas já sem dureza, — bem adivinhado.

Andréia fêz um derradeiro esforço.

— Senhora, — disse, sorrindo, — se Vossa Majestade trazia a intenção de esconder-se, não devia ter-se mostrado nas galerias, como há pouco se mostrou, para vir aqui.   Quando a rainha atravessa o terraço, a Srta. de Taverney a vê do seu apartamento, e não é difícil seguir ou preceder alguém visto de longe.

— Ela tem razão, — observou a rainha, — cem vezes razão.

Tenho o desgraçado hábito de nunca adivinhar; e como reflito pouco, não creio nas reflexões dos outros.

   Sentia talvez a rainha que teria necessidade de indulgência, visto que tinha precisão de uma confidente.

   De resto, não sendo a sua alma um composto de coqueteria e desconfiança, como a alma das mulheres vulgares, tinha fé nas suas amizades, sabendo que podia amar. As mulheres que desconfiam de si mesmas, desconfiam muito mais ainda das outras. A grande infelicidade que pune as sécias é que nunca se crêem amadas de seus amantes.

   Maria Antonieta esqueceu, portanto, a impressão que lhe causara a Srta. de Taverney diante da porta de Charny. Pegou na mão de Andréia, fê-la virar a chave da porta e, passando na frente com extrema rapidez, entrou no quarto do doente ao passo que o médico ficava do lado de fora em companhia de Andréia.

   Assim que esta última viu desaparecer a rainha, ergueu para o céu um olhar cheio de cólera e de dor, cuja expressão semelhava uma imprecação furiosa.

   Travou-lhe do braço o bom doutor e pôs-se a percorrer com ela o corredor, dizendo-lhe:

— Acreditais que seja bem sucedida?

— Bem sucedida em que, Santo Deus? — acudiu Andréia.

— Em fazer transportar para outro lugar esse pobre louco, que morrerá aqui se a febre durar um pouco mais.

— E poderá sarar longe daqui? — bradou Andréia.

Surpreso, inquieto, o cirurgião encarou com ela.

— Creio que sim, — disse.

   —     Oh! tomara, então, que seja bem sucedida! — exclamou a pobre moça.

 

         Convalescença

   ENTREMENTES, a rainha se endereçara diretamente à poltrona de Charny.

   Este ergueu a cabeça ao ruído que faziam os chapins sobre o assoalho.

— A rainha! — murmurou, tentando erguer-se.

— A rainha, sim, senhor, — deu-se pressa em dizer Maria Antonieta, — a rainha que sabe o quanto forcejais por perder a razão e a vida, a rainha que ofendeis em vossos sonhos, a rainha que ofendeis desperto, a rainha que zela pela sua honra e pela vossa segurança!   Eis por que vos procura, senhor, e não é assim que devíeis recebê-la.

   Levantara-se Charny tremulo, desvairado; às últimas palavras, porém, deixara-se escorregar sobre os joelhos, tão esmagado pela dor física e pela dor moral que, inclinado como um criminoso, não queria nem podia levantar-se.

   —     Será possível, — continuou a rainha, comovida por aquele respeito e aquele silêncio, — será possível que um fidalgo, renomado outrora entre os mais leais, persiga como inimigo a reputação de uma mulher?   Pois notai uma coisa, Sr. de Charny, desde o nosso primeiro encontro, não foi a rainha que vistes e que vos mostrei, foi uma mulher, e nunca deveríeis tê-lo esquecido.

   Arrastado por essas palavras saídas do coração, Charny quis tentar articular qualquer coisa em sua defesa; Maria Antonieta, no entanto, não lhe deu tempo.

— Que farão os meus inimigos, — prosseguiu, — se parte de vós o exemplo da traição?

— Traição... — balbuciou o moço.

— Escolhei, senhor: ou sois um insensato, e vou privar-vos dos meios de fazer o mal; ou sois um traidor, e vou punir-vos.

— Não diga, senhora, que sou um traidor.   Na boca dos reis essa acusação precede a sentença de morte; na boca de uma mulher, desonra.   Rainha, mate-me; mulher, poupe-me.

— Estais na posse de vossas faculdades, Sr. de Charny? — sobre veio à rainha com voz alterada.

— Estou, senhora.

— Tendes consciência de vossas culpas para comigo, de vosso crime para com... o rei?

— Meu Deus! — murmurou o infortunado.

— Pois, esquecei-lo com demasiada facilidade, senhores fidalgos! O rei é o marido da mulher que todos insultais erguendo os olhos para ela; é o pai de vosso futuro amo, o meu delfim. É um homem maior e melhor do que todos vós, um homem que venero e amo.

— Oh! — murmurou Charny, arrancando do peito um surdo gemido e sendo obrigado, para não cair, a apoiar uma das mãos no chão.

   O seu grito traspassou o coração da rainha. Ela leu no apagado olhar do rapaz que êle acabava de ser mortalmente ferido e só se salvaria se ela mesma arrancasse da ferida o dardo que nela fincara.

   Foi porque, misericordiosa e doce, teve medo da palidez e da fraqueza do culpado e por um triz não chamou por socorro.

   Refletiu, porém, que o médico e Andréia interpretariam mal o desmaio do doente.   Ergueu-o com as próprias mãos.

— Falemos, — disse, — eu como rainha e vós como homem.   O Dr. Luís tentou curar-vos; esse ferimento, que não era nada, está-se agravando com as extravagâncias de vosso cérebro.   Quando se curará a ferida?   Quando deixareis de dar ao bom doutor o espetáculo escandaloso de uma loucura que o inquieta?   Quando partireis do castelo?

— Senhora, — balbuciou Charny, — Vossa Majestade está-me mandando embora.   Eu vou, eu vou.

   E fêz um movimento tão violento para partir que, perdendo o equilíbrio, foi cair, cambaleante, nos braços da rainha que lhe barrava a passagem.

   Mal sentiu êle o contacto daquele peito ardente que o retinha, mal vergou sob a involuntária pressão do braço que o segurava, a razão desamparou-o de todo, a boca se lhe abriu para deixar passar um sopro devorador que não era uma palavra e não ousava ser um beijo.

   A própria rainha, queimada por esse contacto, vencida por aquela fraqueza, não teve tempo de acomodar o corpo inanimado na poltrona, e quis fugir; mas a cabeça de Charny caíra para trás, batendo na madeira do espaldar. Um leve tom róseo lhe coloria a escuma dos lábios, uma gota rósea e quente lhe caíra da fronte sobre a mão de Maria Antonieta.

   —     Oh! tanto melhor, — murmurou êle, — tanto melhor!   Morro às mãos de Vossa Majestade.

   A rainha esqueceu tudo. Voltou, ergueu Charny nos braços, aconchegou do seio a sua cabeça morta e apoiou a mão gelada sobre o coração do rapaz.

   O amor provocou um milagre: Charny ressuscitou. Abriu os olhos, a visão sumiu. Apavorava-se a mulher de haver deixado uma lembrança onde supunha deixar apenas um derradeiro adeus.

   Deu três passos na direção da porta com tamanha precipitação, que Charny mal teve tempo de agarrar-lhe a fímbria do vestido, bradando:

— Senhora, em nome do respeito que consagro a Deus, menor que o respeito que dedico a Vossa Majestade...

— Adeus! adeus! — disse a rainha.

— Senhora! perdoe-me!

— Eu vos perdoo, Sr. de Charny.

— Um último olhar, senhora!

— Sr. de Charny, — volveu a rainha, tremendo de comoção e de cólera, — se não fordes o último dos homens, esta noite, amanhã, estareis morto ou longe do castelo.

   Uma rainha pede quanto ordena nesses termos. Juntando as mãos, inebriado, Charny arrastou-se, de joelhos, até aos pés de Maria Antonieta.

Esta já abrira a porta para fugir mais depressa ao perigo.

   Andréia, cujos olhos devoravam a porta desde o princípio da entrevista, viu o rapaz prostrado, a rainha emocionadíssima; viu os olhos dele resplendentes de esperança e de orgulho, os olhos dela amortecidos, cravados no chão.

   Ferida em pleno coração, alucinada, cheia de ódio e desdém, não curvou a cabeça. Quando viu voltar a rainha, pareceu-lhe que Deus dera demais àquela mulher, dando-lhe como supérfluo um trono e a beleza, pois acabava de dar-lhe meia hora com o Sr. de Charny.

   O doutor, por sua vez, via tantas coisas que não podia observar nenhuma.

   Preocupado com o êxito de negociação entabulada pela rainha, contentou-se em dizer:

—        E então, senhora?

   A rainha levou um minuto para se recompor e reencontrar a voz, abafada pelas batidas do coração.

— Que fará êle? — perguntou o médico.

— Partirá, — murmurou a soberana.

   E sem atentar para Andréia, que franzia o cenho, e para Luís, que esfregava as mãos, atravessou com passo rápido o corredor da galeria, cobriu-se maquinalmente com a capa com fofos de renda e voltou aos seus aposentos.

   Andréia apertou a mão do doutor, que corria para junto do doente; em seguida, com passo solene como o de uma sombra, recolheu ao seu quarto, cabeça baixa, olhar parado e espírito ausente.

   Não pensara sequer em pedir as ordens da rainha. Para uma natureza como a sua, a rainha não era nada: a rival era tudo.

   Entregue de novo aos cuidados de Luís, Charny já não parecia o homem da véspera.

   Forte até ao exagero, temerário até à fanfarronice, crivou o bom do cirurgião com perguntas tão insistentes e enérgicas sobre a sua próxima convalescença, o regime que deveria seguir, os meios de transporte, que Luís acreditou numa recaída mais perigosa ainda, motivada por uma mania de outra ordem.

   Mas Charny não tardou em desenganá-lo; lembrava esses ferros avermelhados ao contacto do fogo, cuja coloração empalidece à proporção que diminui a intensidade do calor. O ferro, negro, já não fala à vista, mas ainda é bastante ardente para devorar o que quer que se lhe apresente.

   Luís viu o rapaz retomar a calma e a lógica dos bons dias. Mostrou-se realmente Charny tão razoável que se julgou na obrigação de explicar ao médico a repentina mudança de resolução.

— A rainha, — disse êle, — curou-me melhor envergonhando-me, do que a vossa ciência, meu caro doutor, o teria feito com os mais excelentes remédios; levar-me pelo amor-próprio é dòmar-me como se doma um cavalo com o freio.

— Tanto melhor, tanto melhor, — murmurava o doutor.

— Sim, lembro-me de um espanhol, e os espanhóis são muito fanfarrões, que me dizia um dia, para provar-me a sua força de vontade, que lhe bastara, num duelo em que fora ferido, querer reter o sangue para que o sangue não corresse e não alegrasse os olhos do adversário.   Ri-me do espanhol, mas o caso é que sou meio parecido com êle; se a febre e o delírio que me reprochais devessem reaparecer, aposto que eu os repeliria, dizendo:   "Delírio e febre, não tornareis a aparecer".

— Temos exemplos desse fenômeno, — disse gravemente o médico. — Entretanto, permiti que eu vos felicite.   Estais moralmente curado?

— Estou!

— Pois bem, não demorareis em ver as relações que existem entre o moral e o físico do homem.   É uma teoria tão bonita que eu seria capaz de escrever um livro sobre ela, se tivesse tempo.   São de espírito, estareis são de corpo dentro em oito dias.

— Obrigado, meu querido doutor!

— E, para começar, partireis?

— Quando quiserdes.   Imediatamente.

— Esperemos a noite.   Moderemo-nos.   Os extremos são sempre perigosos.

— Esperemos a noite, doutor.

— Ireis para longe?

— Para o fim do mundo, se fôr preciso.

— É muito longe para a primeira saída, — observou o cirurgião com a mesma fleuma. — Contentemo-nos, por ora, com Versalhes.

— Pois seja Versalhes, já que assim o quereis.

— Parece-me, — volveu o médico, — que o fato de haverdes curado um ferimento não é razão para que vos expatrieis.

Esse estudado sangue frio acabou de pôr Charny de prevenção.

— É verdade; tenho uma casa em Versalhes.

— Muito bem! isso resolve o nosso caso: para lá ireis esta noite.

— Não me compreendestes bem, doutor; eu desejava dar uma volta pelas minhas terras!

— Ah! e por que não o dissestes logo?   Mas as vossas terras, que diacho! não ficam no fim do mundo.

— Ficam na fronteira da Picardia, a quinze ou dezoito léguas daqui.

— Estais vendo?

   Charny apertou a mão do facultativo, como para agradecer-lhe todas as delicadezas.

   Â noite, os quatro lacaios que êle tanto maltratara por ocasião da primeira tentativa, transportaram-no à carruagem que o esperava diante do portãozinho de serviço.

   Tendo caçado o dia inteiro, o rei acabara de cear e já estava dormindo. Um tanto preocupado de sair sem se despedir, Charny foi plenamente tranqüilizado pelo médico, que lhe prometeu justificar a partida atribuindo-a a uma necessidade de mudança de ares.

   Antes de entrar no carro, deu-se Charny a dolorosa satisfação de olhar, até o derradeiro momento, para as janelas do apartamento da rainha. Ninguém podia vê-lo. Um dos lacaios, com um archote na mão, alumiava o caminho sem alumiar a sua fisionomia.

   Charny só encontrou à saída alguns oficiais, seus amigos, avisados a tempo, para que a partida não tivesse o aspecto de uma fuga.

   Escoltado até ao carro pelos alegres companheiros, pôde deixar que os olhos lhe errassem pelas janelas: as da rainha resplandeciam de luzes. Um pouco indisposta, Sua Majestade recebera as damas no quarto de dormir.

   As de Andréia, tristes e escuras, escondiam atrás das pregas das cortinas de damasco uma mulher ansiosa, palpitante, que seguia, sem ser pressentida, os menores movimentos do enfermo e de sua escolta.

   Arrancou-se dali, finalmente, o veículo, mas tão devagar que se ouvia percutir nas pedras do chão cada ferradura dos cavalos.

— Se êle não é meu, — murmurou Andréia, — pelo menos também não é de mais ninguém.

— Se lhe voltarem desejos de morrer, — disse entre si o doutor ao recolher-se, — pelo menos não morrerá em minha casa nem minhas mãos. O diabo carregue as doenças da alma! Não sou o médico de Antíoco e de Estratonice para curar essas doenças.

   Charny chego são e salvo à sua casa. O médico foi visitá-lo à noite, e encontrou-o tão bem, que se deu pressa em anunciar-lhe que seria aquela a sua última visita.

   O doente comeu, à ceia, um peito de frango e uma colher de geléia de Orléans.

   No dia seguinte, recebeu a visita do tio, o Sr. de Suffren, a visita do Sr. de Lafayette, e a de um enviado do rei. Praticamente o mesmo aconteceu no dia imediato, e depois ninguém mais se preocupou com êle.

Charny se levantava e passeava no jardim.

   Ao termo de oito dias, já podia montar um cavalo de passo macio; tinham-lhe voltado às forças. Pediu ao médico do tio e mandou pedir ao Dr. Luís autorização para viajar para as suas terras.

   Luís respondeu, sem hesitação, que a locomoção era a última fase do tratamento das feridas; que o Sr. de Charny tinha um bom carro, e que a estrada da Picardia era lisa como um espelho; nessas condições, ficar em Versalhes quando se podia viajar tão bem e tão felizmente, seria loucura.

   Charny mandou carregar de bagagens uma carroça; apresentou suas despedidas ao rei, que o cumulou de gentilezas, rogou ao Sr. de Suffren que transmitisse os seus respeitos à rainha, que nessa noite se achava enferma e não recebia ninguém. Logo, tomando o carro diante do próprio portão do castelo real, guiou para a cidadezinha de Villers-Cotterets, de onde devia seguir para o castelo de Bourssonnes, a uma légua do lugarejo que já ilustravam as primeiras poesias de Dumoustier.

 

         Dois corações que sangram

   NO DIA seguinte àquele em que a rainha fora surpreendida por Andréia fugindo de Charny, ajoelhado diante dela, a Srta. de Taverney entrou, como de costume, no quarto real à hora em que Sua Majestade se vestia para ir à missa.

   A rainha ainda não recebera visitas. Acabava apenas de ler um bilhete da Sra. de La Motte, e estava de bom humor.

   Ainda mais pálida que na véspera, apresentava Andréia em toda a sua pessoa o ar sério e a fria reserva que chamam a atenção e obrigam os mais fortes a contar com os mais fracos.

   Simples, austera por assim dizer no trajar, Andréia parecia uma mensageira de desgraça, fosse essa desgraça para si ou para outros.

   A rainha estava num de seus dias de distração; por isso mesmo não deu tento do andar lento e grave da moça, dos seus olhos avermelhados, da pálida alvura de suas têmporas e de suas mãos.

   Virou a cabeça apenas o suficiente para fazer ouvir a sua amistosa saudação.

—        Bom dia, menina.

   Esperou Andréia que a rainha lhe desse ocasião de falar. Esperou, certa de que o seu silêncio, a sua imobilidade, acabariam chamando a atenção de Maria Antonieta.

   Foi o que aconteceu. Não recebendo como resposta senão uma profunda reverência, a rainha voltou-se e, de soslaio, observou o rosto doloroso e rígido.

— Santo Deus!   Que aconteceu, Andréia? — perguntou, voltando-se completamente. — Sucedeu-te alguma desgraça?

— Uma grande desgraça, sim, senhora, — replicou a moça.

— Qual?

— Vou deixá-la, Majestade.

— Deixar-me!   Vais partir?

— Sim, senhora.

— Aonde vais?   Qual será a causa dessa partida precipitada?

— Senhora, não sou feliz em minhas afeições...

A rainha ergueu a cabeça.

— De família, — ajuntou Andréia, purpureando-se.

A rainha corou também, e o relâmpago dos olhares de ambas se cruzou brilhando como um choque de espadas. Foi a rainha a primeira que se recobrou.

— Não te compreendo bem, — disse ela; — parece-me que ontem estavas feliz.

— Não, senhora, — retrucou Andréia com firmeza; — ontem foi um dos dias mais infelizes de minha vida.

— Ah! — exclamou a rainha, tornando-se pensativa.

E acrescentou:

— Explica-te.

   —     Fora preciso que eu me resignasse a fatigar Vossa Majestade com pormenores indignos de si.   Não encontro satisfação alguma em minha família; não tenho nada que esperar dos bens terrenos, e venho pedir permissão a Vossa Majestade para me ocupar da minha salvação.

   Ergueu-se a rainha, e posto que o gesto parecesse custar-lhe ao orgulho, pegou na mão de Andréia.

   —     Que significa essa decisão de cabeçuda? — perguntou. — Não tinhas ontem um irmão, um pai, como hoje?   Seriam, acaso, menos incômodos ontem e menos perniciosos do que hoje?   Acreditas-me capaz de deixar-te em situação difícil, e já não sou a mãe de família que dá uma família aos que a não têm?

   Andréia pôs-se a tremer como uma culpada e, inclinando-se diante da rainha, disse:

— Senhora, a bondade de Vossa Majestade me penetra mas não me dissuadirá.   Resolvi deixar a corte, tenho necessidade de voltar à solidão, não me exponha Vossa Majestade a trair os meus deveres para consigo pela falta de vocação que sinto em mim.

— Desde ontem, então?

— Haja Vossa Majestade por bem não me ordenar que fale sobre esse assunto.

— Sê livre, — voltou à rainha com azedume, — mas eu tinha contigo suficiente confiança para que a tivesses comigo também. Mas a quem não quer falar louco é o que pede uma palavra. Guarda os teus segredos, senhorita; sê mais feliz longe daqui do que aqui o foste.   Lembra-te apenas de uma coisa, é que a minha amizade não desampara as pessoas a despeito dos seus caprichos, e que não deixarás de ser para mim uma amiga.   Agora, Andréia, vai, que estás livre.

   Andréia fêz uma reverência formal e saiu.   À porta, a rainha voltou a chamá-la.

— Aonde vais, Andréia?

— À abadia de São Dinis, senhora.

— Para o convento!   Muito bem, senhorita, talvez não tenhais nada que vos censurar; mas ainda que fôsseis apenas ingrata e deslembrada, seríeis assaz culpada para comigo; ide, Srta. de Taverney, ide.

   Disso resultou que, sem dar quaisquer outras explicações com que contava o bom coração da rainha, sem se humilhar, Andréia tomou ao pé da letra a autorização e desapareceu.

   Maria Antonieta pôde perceber, e percebeu, que a Srta. de Taverney deixava imediatamente o castelo.

   Com efeito, dirigia-se para a casa do pai, onde, como esperava, encontrou Filipe no jardim.   O irmão devaneava; a irmã agia.

   À vista de Andréia, cujo serviço deveria retê-la no castelo àquela hora, Filipe adiantou-se surpreso, quase assustado.

   Assustado sobretudo pelo semblante sombrio, pois a irmã nunca o procurava senão com um sorriso de terna amizade, começou como o fizera Sua Majestade: interrogou. Anunciou-lhe Andréia que acabava de deixar o serviço da rainha; que o pedido de dispensa fora aceito e que ela ia entrar para o convento. Filipe bateu as mãos com força, como quem recebe um golpe inesperado.

— Como! — bradou, — tu também, mana?

— Eu também, como?   Que queres dizer?

— Será, porventura, um contacto maldito para a nossa família o dos Bourbons? — exclamou; — julgas-te obrigada a professar, tu! religiosa por gosto, por alma; tu, a menos mundana das mulheres e a menos capaz de eterna obediência às leis do ascetismo!   Vamos a ver, que reprochas à rainha?

— Não se lhe pode reprochar coisa alguma, Filipe, — respondeu friamente a moça; — tu, que tanto contaste com o favor das cortes; tu, que mais do que ninguém, devias contar com eles, por que não pudeste ficar?   Por que lá não ficaste nem três dias?   Eu fiquei três anos!

— A rainha, às vezes, é caprichosa, Andréia.

— Se assim é, poderias sofrê-lo, Filipe, tu que és homem; eu, mulher, não quero nem devo sofrê-lo; se ela tem caprichos, as cria das lá estão para servi-la.

— Mas nada disso, mana, — atalhou o rapaz constrangido, me esclarece o que houve entre ti e a rainha.

— Não houve nada; houve, acaso, alguma coisa entre ti e ela quando a deixaste?   Essa mulher é ingrata.

— Deves perdoá-la, Andréia.   A lisonja estragou-a um pouco,mas, no íntimo, é boa.

— Prova disso é o que fêz por ti, Filipe.

— Que foi o que fêz?

— Já te esqueceu?   Pois tenho melhor memória.   Por isso mesmo, num dia só, e com uma só resolução, pago a tua dívida e a minha, Filipe.

— Mas caro demais, a meu ver, Andréia; não é na tua idade,com a tua beleza, que a gente renuncia ao mundo. Cuidado, minha querida amiga, se o deixas moça, terás saudades dele quando fores velha, e, quando já não fôr ocasião, a êle voltarás, desagradando os teus amigos, dos quais uma loucura te haverá separado.

— Não raciocinavas assim, tu, bravo oficial honrado e sensível, mas pouco zeloso do renome ou da fortuna, pois, onde cem outros grangearam títulos e ouro não soubeste senão fazer dívidas e apequenar-te; não raciocinavas assim quando me dizias: ela é caprichosa, Andréia, ela é casquilha, ela é pérfida; prefiro não a servir. Como prática dessa teoria, renunciaste ao mundo, embora não tenhas professado, e de nós dois o que está mais perto dos votos irrevogáveis, não sou eu que os vou fazer, mas tu que já os fizeste.

— Tens razão, mana, e não fora nosso pai...

— Nosso pai! ah! Filipe, não fales assim, — voltou Andréia com amargura, — um pai não deve ser o sustentáculo dos filhos ou conseguir-lhes um apoio?   Só nessas condições é pai.   Que faz o nosso, pergunto eu?   Já tiveste alguma vez a idéia de confiar um segredo ao Sr. de Taverney?   E julga-lo capaz de chamar-te para te confiar um segredo seu?   Não, — continuou Andréia com expressão de tristeza, — não, o Sr. de Taverney foi feito para viver só neste mundo.

   —     De acordo, Andréia, mas não foi feito para morrer só.

     Ditas com doce severidade, essas palavras lembravam à moça que ela deixava às suas cóleras, aos seu azedumes, aos seus rancores contra o mundo, um lugar demasiado grande no coração.

   —     Eu não quisera, — respondeu, — que me tomasses por uma criatura sem entranhas; sabes que sou terna irmã; mas cada qual, neste mundo, procurou sempre matar em mim o instinto simpático que lhe correspondia.   Deus me havia dado ao nascer, como a todas as criaturas, uma alma e um corpo; dessa alma e desse corpo toda a criatura humana pode dispor, para sua felicidade, neste mundo e no outro.   Um homem que eu não conhecia tomou-me a alma:

Bálsamo. Um homem que mal conhecia, e que não era um homem para mim, tomou-me o corpo:   Gilberto.   Repito-o, Filipe, para ser uma rapariga boa e piedosa, só me falta um pai.   Passemos ao teu caso, examinemos o que te rendeu o serviço dos grandes da terra, a ti que os amavas.

Filipe abaixou a cabeça.

— Poupa-me, — disse êle; — os grandes da terra não eram para mim senão criaturas minhas semelhantes: eu os amava: Deus ordenou que nos amássemos uns aos outros.

— Oh! Filipe, — contraditou a moça, — nunca sucede nesta terra que o coração amante corresponda diretamente a quem o ama; os que nós escolhemos escolhem outros.

   Ergueu Filipe a cabeça pálida e considerou longamente a irmã, com uma expressão de espanto gravada no rosto.

— Por que me dizes isso?   Aonde queres chegar? — perguntou.

— A nada, a nada, — replicou generosamente Andréia, que recuou diante da idéia de descer a relatórios ou a confidências. —Estou ferida, mano.   Creio que a minha razão está sofrendo; não dês às minhas palavras atenção alguma.

— Entretanto...

Andréia abeirou-se de Filipe e tomou-lhe a mão.

   —     Mudemos de assunto, mano querido.   Vim pedir-te que me conduzas a um convento: escolhi o de São Dinis; não quero professar, tranqúiliza-te.   Isso virá mais tarde, se fôr preciso.   Ao invés de buscar num asilo o que nele deseja encontrar a maioria das mulheres, o esquecimento, pedir-lhe-ei a memória.   Parece-me que esqueci por demais o Senhor. Êle é o único rei, o único amo, a única consolação, como também o único verdadeiro aflitor.Reaproximando-me dele, hoje que o compreendo, farei mais pela minha felicidade do que se tudo o que há de rico, de forte, de poderoso e de amável neste mundo conspirasse para proporcionar-me uma vida feliz.   À solidão, mano, à solidão, vestíbulo da eterna beatitude!...   Na solidão, Deus fala ao coração do homem; na solidão, o homem fala ao coração de Deus.

Filipe deteve Andréia com o gesto.

— Lembra-te, — disse êle, — que me oponho moralmente a esse projeto desesperado: não me fizeste juiz das causas do teu desespero.

— Desespero! — sobreveio ela com soberano desdém. — Desespero!   Graças a Deus não parto desesperada!   Sentir falta com desespero!   Não! não! mil vezes não!

   E com um movimento de selvagem altivez, atirou sobre os ombros a capa de seda que repousava junto dela sobre uma poltrona.

— Esse mesmo excesso de desdém revela em ti um estado que não pode durar, — volveu Filipe; — se não queres a palavra desespero, Andréia, aceita a palavra despeito.

— Despeito! — retrucou a moça, convertendo o sorriso sardônico num sorriso cheio de soberba. — Não acreditas, meu irmão, que a Srta. de Taverney seja tão fraca que ceda o seu lugar neste mundo por um movimento de despeito.   O despeito é a fraqueza das sécias ou das néscias.   O olhar iluminado pelo despeito logo se inunda de lágrimas, e o incêndio se apaga.   Não tenho despeito, Filipe.   Eu quisera que me acreditasses, e para isso bastaria que tu

mesmo te interrogasses, quando alguma coisa te aflige.   Responde: se amanhã te recolhesses à Trapa, se te fizesses cartuxo, como chamarias à causa que te houvesse levado a essa resolução?

— Eu lhe chamaria tristeza incurável, mana, — respondeu Filipe com a suave majestade do infortúnio.

— Ainda bem, Filipe, eis aí uma expressão que me convém e que adoto.   Seja; é, portanto, uma tristeza incurável que me arrasta para a solidão.

— Bem! — respondeu Filipe, — e assim o irmão e a irmã não terão tido dessemelhanças em suas vidas.   Felizes de uma forma igual, terão sido sempre infelizes no mesmo grau.   É isso que faz a boa família, Andréia.

   Cuidou Andréia que Filipe, presa da emoção, lhe estivesse fazendo outra pergunta, e talvez o seu coração inflexível houvesse cedido à pressão da amizade fraternal.

   Mas Filipe sabia por experiência que as grandes almas se bastam a si mesmas: Não perturbou a de Andréia na trincheira que ela escolhera para si.

— A que horas e em que dia esperas partir? — perguntou.

— Amanhã; hoje mesmo, se houvesse tempo.

— Não darás comigo uma última volta pelo parque?

— Não.

   O rapaz compreendeu pelo aperto de mão que acompanhou a recusa, que ela procurava apenas evitar uma ocasião de se deixar enternecer.

   —     Estarei pronto quando me mandares avisar.

   E beijou-lhe a mão sem acrescentar qualquer outra palavra, que teria feito transbordar a amargura de seus corações.

   Depois de haver concluído os primeiros preparativos, Andréia recebeu o seguinte bilhete de Filipe:

   "Poderás ver nosso pai às cinco horas da tarde. O adeus é indispensável. O Sr. de Taverney se queixaria, depois, de abandono e ingratidão."

   Ela respondeu:

"Às cinco horas estarei em casa do Sr. de Taverney em trajos de viagem. As sete poderemos estar em São Dinis. Não queres dedicar--me à noite de hoje?"

   Por única resposta, Filipe gritou da janela, tão próxima do apartamento de Andréia que a irmã pôde ouvi-lo:

   —     Às cinco horas, o carro estará pronto.

 

         Um ministro das finanças

   VIMOS que, antes de receber Andréia, a rainha lera um bilhete da Sra. de La Motte e sorrira.

   O bilhete continha apenas estas palavras, acompanhadas de todas as fórmulas possíveis de respeito:

"...E Vossa Majestade pode ficar certa de que se lhe dará crédito, e de que a mercadoria será entregue em confiança."

A rainha sorrira e queimara o recadinho de Joana.

   Depois que se entristeceu um pouco na companhia da Srta. de Taverney, a Sra. de Misery foi anunciar-lhe que o Sr. de Calonne estava esperando a honra de ser recebido por ela.

   Não será despropositado explicar ao leitor quem é o novo personagem. A história já o tornou assaz conhecido, mas o romance, que debuxa com menos exatidão as perspectivas e traços principais, proporciona talvez pormenores mais satisfatórios à imaginação.

   O Sr. de Calonne era um homem inteligente, inteligentíssimo até, que, saindo da geração da última metade do século, pouco habituada às lágrimas, embora arrazoadora, se conformara com a desgraça suspensa sobre a França, misturava o seu interesse ao interesse comum, dizia como Luís XV: "Depois de nós o fim do mundo" e, em toda à parte, buscava as flores para enfeitar o seu último dia.

   Estava a par de tudo, era um cortesão. Cultivara todas as mulheres ilustres pelo espírito, pela riqueza e pela beleza, com homenagens semelhantes às que a abelha presta às plantas carregadas de aromas e de sucos.

   Todos os conhecimentos da época se resumiam na conversação de sete ou oito homens e dez ou doze mulheres. O Sr. de Calonne pudera calcular com d'Alembert, arrazoar com Diderot, rir com Voltaire, sonhar com Rousseau; mostrara-se, enfim, suficientemente forte para caçoar da popularidade do Sr. Necker.

   O Sr. Necker, o sábio, o profundo, cujo relatório parecera iluminar a França inteira! Tendo-o examinado muito bem por todos os prismas, Calonne acabara ridiculizando-o até aos olhos daqueles que mais o temiam, e a rainha e o rei, que esse nome fazia estremecer, ainda não se tinham acostumado a ouvir, sem tremer, escarnecê-lo um estadista elegante, bem-humorado, que, para responder a tantos lindos algarismos, se contentava em dizer: "De que adianta provar que não se pode provar coisa alguma?"

   De feito, Necker só conseguira provar que lhe era impossível continuar gerindo as finanças, ao mesmo passo que o Sr. de Calonne as aceitara como um fardo leve demais para os seus ombros. No entanto, desde os primeiros momentos, pode dizer-se que vergara sob o seu peso.

   Que queria o Sr. Necker? Reformas. Essas reformas parciais apavoravam todos os espíritos. Pouca gente ganhava com elas, e os que ganhavam, ganhavam muito pouco; muita gente, pelo contrário, perdia e perdia muito. Quando Necker pretendia proceder a uma justa repartição de impostos, quando entendia de taxar as terras da nobreza e as rendas do clero, indicava brutalmente uma revolução impossível. Fracionava a nação e prematuramente a enfraquecia quando teria sido necessário concentrar-lhe todas as forças para conduzi-la a um resultado geral de renovação.

   Necker mostrava esse desiderato e tornava-o impossível de atingir-se pelo simples fato de havê-lo mostrado. Falar em reforma de abusos àqueles que não querem que os abusos sejam reformados, não é expor-se à oposição dos interessados? Deve-se, acaso, avisar o inimigo da hora em que será desfechado o ataque à sua fortaleza?

   Compreendera-o Calonne, mais verdadeiramente amigo da nação, nesse ponto, do que o genebrês Necker, mais amigo, dizemos nós, no tocante aos fatos consumados, pois, em lugar de prevenir um mal inevitável, acelerava o advento do flagelo.

   O seu plano era arrojado, gigantesco, seguro; tratava-se de arrastar para a bancarrota o rei e a nobreza, que a teriam retardado por mais dez anos; depois, diante da bancarrota, dizer: "Agora, ricos, pagai pelos pobres, porque eles têm fome e devorarão os que os não alimentarem".

   Como foi que o rei não viu, desde logo, as conseqüências desse plano ou o próprio plano? Como foi que êle, que fremira de cólera ao ler o relatório, não estremeceu adivinhando o seu ministro? Como foi que não optou por um dos dois sistemas, e preferiu deixar--se ir ao sabor da aventura? São estas, realmente, as únicas contas que Luís XVI, como político, tem de acertar com a posteridade. Era o famoso princípio ao qual sempre se opõe quem quer que não tenha forças suficientes para cortar o mal quando o mal é inveterado.

 

   Mas para que a venda se tenha espessado de tal arte nos olhos do rei; para que a rainha, tão clarividente e exata em seus exames, se tenha mostrado tão cega quanto o marido em relação ao procedimento do ministro, a historia, ou melhor o romance, e é aqui que êle se torna bem-vindo, vai dar-nos alguns pormenores indispensáveis.

O Sr. de Calonne entrou nos aposentos da rainha.

   Era um belo homem, alto, de modos fidalgos; sabia fazer rir as rainhas e chorar as amantes. Certo de que Maria Antonieta o mandara chamar por alguma necessidade urgente, chegava com o sorriso nos lábios. Muitos outros teriam vindo com sobrecenho, para duplicar mais tarde o mérito do seu consentimento.

   A rainha também se mostrou graciosa; fêz sentar-se o ministro e começou falando sobre mil e uma coisas sem importância.

— Temos dinheiro, — perguntou em seguida, — meu caro Sr.

de Calonne?

— Dinheiro? — bradou o Sr. de Calonne. — Está visto que o

temos, senhora; temo-lo e sempre o teremos.

— Que maravilha! — volveu a rainha, — sois a primeira pessoa que conheço a responder assim a pedidos de dinheiro; como financista sois incomparável.

— De quanto precisa Vossa Majestade? — acudiu Calonne.

— Explicai-me primeiro, por favor, o que fizestes para achar dinheiro onde o Sr. Necker jurava não o haver?

— O Sr. Necker tinha razão; não havia dinheiro nos cofres, e isso é tão verdadeiro que, no dia em que assumi a direção do ministério, a 5 de novembro de 1783, essas coisas não se esquecem,vasculhando o tesouro público, apenas encontrei em caixa dois sacos de mil e duzentas libras.   Nem um ceitil a menos.

A rainha abriu a rir.

— E então? — exclamou.

— Então, senhora, se o Sr. Necker, em vez de dizer:   "Já não há dinheiro", se pusesse a pedir emprestado, como eu fiz, cem milhões no primeiro ano e cento e vinte no segundo; se tivesse certeza,como tenho, de um novo empréstimo de oitenta milhões para o terceiro, o Sr. de Necker teria sido um verdadeiro financista: qual quer um pode dizer:   "Já não há dinheiro em caixa"; mas nem todos sabem responder:   "Há".

— Era o que eu vos dizia; e por isso vos felicitava, senhor. Mas como se pagará?   Aí é que está a dificuldade.

— Oh! senhora, — respondeu Calonne com um sorriso cuja profundeza e cuja aterradora significação nenhum olhar humano poderia medir, — garanto-lhe que se há de pagar.

— Fio-me de vós, — disse a rainha; — mas continuemos a conversar sobre finanças; convosco, é uma ciência interessantíssima; sarça exposta pelos outros, exposta por vós é uma árvore frutífera.

Calonne inclinou-se.

   —     Tendes algumas idéias novas? — perguntou a rainha; — contai-mas com primazia, por favor.

— Tenho uma idéia, senhora, que porá vinte milhões no bolso dos franceses, e sete ou oito no seu; perdão, na caixa de Sua Majestade.

— Esses milhões serão bem-vindos aqui e ali.   Por onde chegarão?

— Vossa Majestade não ignora que a moeda de ouro não tem o mesmo valor em todos os Estados da Europa.

— Eu sei.   Na Espanha, o ouro é mais caro do que em França.

— Vossa Majestade tem toda a razão, e é um prazer conversar consigo sobre finanças.   O ouro vale na Espanha, de uns cinco a seis anos a esta parte, dezoito onças a mais por marco do que em França.   Daí resulta que os exportadores ganham sobre um marco de ouro que exportam da França para a Espanha catorze onças de prata, mais ou menos.

— É considerável! — observou a rainha.

— De tal sorte que, daqui a um ano, — continuou o ministro, — se os capitalistas soubessem o que sei, não restaria entre nós um luís de ouro sequerl

— E impedireis que isso aconteça?

— Imediatamente: aumentarei o valor do ouro de quinze marcos por quatro onças, dando um lucro de quinze por cento.   Compreenderá Vossa Majestade que não ficará um luís nos cofres quando se souber que a Casa da Moeda paga esse lucro aos portadores de

ouro.   Far-se-á, portanto, a refundição da moeda e, no marco de ouro, que contém hoje trinta luíses, acharemos trinta e dois.

— Lucro presente, lucro futuro! — exclamou a rainha. — É uma idéia encantadora, que fará furor.

— Assim o creio, senhora, e folgo muito em que ela tenha obtido tão completa aprovação de Vossa Majestade.

— Tende-as sempre assim e acabaremos pagando as nossas dívidas.

— Permita-me, senhora, — tornou o ministro, — voltar ao que Vossa Majestade deseja de mim.

Seria possível, senhor, obter neste momento...

—        Quanto?

— Oh! uma soma talvez exagerada...

Calonne sorriu de modo que animou a rainha.

— Quinhentas mil libras, — disse ela.

   —     Ah! senhora, — bradou o ministro, — Vossa Majestade me pregou um susto!   Imaginei que se tratasse de uma soma de verdade.

— Podei-lo?

— Seguramente.

— Sem que o rei. ..

— Isso é que é difícil; todas as minhas contas são mensalmente apresentadas a Sua Majestade; até agora, porém, não se soube de uma vez sequer em que o rei as tivesse lido, o que muito me honra.

— Quando poderia eu contar com a importância?

— Em que dia terá Vossa Majestade precisão dela?

— No dia cinco do mês que vem.

— As contas serão apresentadas no dia dois; Vossa Majestade terá o dinheiro no dia três.

— Obrigada, Sr. de Calonne.

— A minha maior felicidade consiste em agradar a Vossa Majestade.   Suplico-lhe que nunca se constranja com a minha caixa.Isto será um verdadeiro bálsamo para o amor-próprio do seu ministro das finanças.

   Êle se havia levantado e cortejado graciosamente; a rainha deu--lhe a mão para beijar.

— Mais uma palavrinha, — disse ela.

— Sou todo ouvidos, senhora.

— Esse dinheiro custa-me um remorso.

— Um remorso... — repetiu o ministro.

— Sim.   É para satisfazer um capricho.

— Tanto melhor, tanto melhor...     Nesse caso, pelo menos metade da soma reverterá em lucros para a nossa indústria, para o nosso comércio ou para os nossos prazeres.

— De fato, é verdade, — murmurou a rainha, — e tendes um modo encantador de consolar-me.

— Louvado seja Deus!   Se os nossos remorsos forem todos como os de Vossa Majestade, iremos direitinho para o céu.

— É que, Sr. de Calonne, seria demasiado cruel para mim fazer que o pobre povo pagasse os meus caprichos.

— Pois bem! — disse o ministro, acentuando com o seu sorriso sinistro cada palavra, — ponhamos de parte todo e qualquer escrúpulo, senhora, pois juro-lhe que o pobre povo nunca pagará.

— Por quê? — inquiriu, surpresa, a rainha.

— Porque o pobre povo já não tem nada, — respondeu imperturbavelmente o ministro, — e onde não há nada perde o rei seus direitos.

Cumprimentou e saiu.

 

         Ilusões reencontradas — segredo perdido

  1. DE CALONNE ainda estava atravessando a galeria de volta à sua casa, quando a unha de uma mão apressada arranhou a porta do toucador da rainha. Apareceu Joana.

— Senhora, — disse ela, — êle está aqui.

— O cardeal? — perguntou a rainha, espantada com a palavra êle, que tantas coisas significa quando pronunciada por uma mulher.

   Não terminou. Joana já havia introduzido o Sr. de Rohan e despediu-se, apertando, às escondidas, a mão do protetor protegido.

   Viu-se o príncipe a três passos apenas da soberana, a quem dirigiu respeitosamente os cumprimentos de praxe.

   Diante dessa reserva cheia de tacto, sentiu-se a rainha tocada; estendeu a mão ao cardeal, que ainda não levantara os olhos para ela.

— Senhor, — disse ela, — contaram-me de vós um gesto que redime muitas culpas.

— Seja-me permitido, — respondeu o príncipe, tremendo de não afetada comoção, — seja-me permitido, senhora, afirmar-lhe que as culpas a que Vossa Majestade se refere seriam bem atenuadas se fosse possível uma palavra de explicação entre nós.

— Não vos defendo que vos justifiqueis, — replicou a rainha com dignidade, — mas o que me diríeis projetaria uma sombra sobre o amor e o respeito que dedico ao meu país e à minha família.     Não podeis desculpar-vos senão ferindo-me, Sr. Cardeal. Mas façamos uma coisa: não toquemos nesse fogo mal extinto, que talvez ainda queimasse os vossos dedos ou os meus; ver-vos à nova luz que a mim vos revelou, obsequioso, respeitoso, devotado...

— Devotado até à morte, — atalhou o cardeal.

— Ainda bem.   Mas, — prosseguiu Maria Antonieta, sorrindo, — por enquanto só se trata da ruína.   Ser-me-íeis devotado até à ruína, Sr. Cardeal?   É bonito, muito bonito.   Felizmente, estou pondo nisso um pouco de ordem. Vivereis e não ficareis arruinado,

a menos que, como se diz, vos arruineis sozinho.

— Mas esse é problema vosso.   Entretanto, como amiga, visto que agora somos bons amigos, dar-vos-ei um conselho:   Sede econômico, é uma virtude pastoral; o rei vos apreciará mais econômico do que pródigo.

— Far-me-ei avaro para agradar a Vossa Majestade.

— O rei, — voltou à rainha com sutil intenção, — também não gosta de avaros.

— Far-me-ei o que quiser Vossa Majestade, — interrompeu o cardeal com mal disfarçada paixão.

— Dizia-vos eu, portanto, — atalhou bruscamente a rainha, — que não ficaríeis arruinado por minha causa.   Respondestes por mini, sou-vos imensamente grata, mas tenho com que honrar os meus compromissos; por conseguinte, não volteis a preocupar-vos com estes negócios, que, a partir do primeiro pagamento, só a mim dirão respeito.

— Para que se conclua o negócio, senhora, — disse o cardeal, inclinando-se, — resta-me oferecer o colar a Vossa Majestade.

   E tirou, ao mesmo tempo, o escrínio do bolso e apresentou-o à rainha.

   Maria Antonieta nem sequer o passou pelos olhos, o que nela denotava um desejo imenso de vê-lo, e, tremula de alegria, depô-lo sobre um aparador.

   O cardeal, em seguida, arriscou-se a dizer algumas delicadezas, que foram muito bem recebidas, e logo voltou às palavras da soberana sobre a reconciliação entre ambos.

   Mas, como ela prometera a si mesma não olhar para os brilhantes em presença dele, e morresse por vê-los, ouviu-o distraída.

   Distraída também, abandonou-lhe a mão, que êle beijou com transportes; depois, julgando importuná-la, despediu-se, o que a cumulou de alegria. Um simples amigo não incomoda nunca, e um indiferente ainda menos.

   Assim se passou essa entrevista, que fechou todas as feridas do coração do cardeal. Êle saiu dos aposentos da rainha, entusiasmado, bêbedo de esperança, e pronto a demonstrar a Sra. de La Motte um reconhecimento sem limites pela negociação tão felizmente levada a cabo.

   Joana esperava-o no carro, a cem passos adiante da barreira; recebeu os ardentes protestos de sua amizade.

— E então? — perguntou, após a primeira explosão de gratidão, — sereis Richelieu ou Mazarino?   O lábio austríaco vos animou à ambição ou à ternura?   Estais metido na política ou na intriga?

— Não caçoeis, querida condessa, — disse o príncipe; — estou louco de alegria.

— Ajudai-me que, dentro de três semanas, poderei ter um ministério.

— Diabo!   Três semanas!   É muito tempo; o vencimento dos primeiros compromissos está marcado para daqui a quinze dias.

— Todas as felicidades vêm junto: a rainha tem dinheiro, pagará; terei tido apenas o mérito da intenção.   É pouco, condessa,palavra de honra! é muito pouco.   Deus é testemunha de que eu teria pago de bom grado por essa reconciliação quinhentas mil

libras.

— Tranquilizai-vos, — atalhou, sorrindo, a condessa. — Tereis também esse mérito, além dos outros.   Fazeis muito empenho nisso?

— Confesso que sim; a rainha tornando-se minha obrigada...

— Monsenhor, alguma coisa me palpita que tereis essa satisfação.   Estais preparado para ela?

— Vendi os meus últimos bens e empenhei as minhas rendas e benefícios do próximo ano.

— Tendes, então, as quinhentas mil libras?

— Tenho-as; só que, feito o pagamento, já não saberei o que fazer.

— Esse pagamento, — exclamou Joana, — nos dá um trimestre de sossego.   È em três meses, quanta coisa vai acontecer, meu Deus!

— É verdade.   Mas o rei mandou-me dizer que não faça mais dívidas.

— Com dois meses no ministério poreis em dia todas as vossas contas.

— Oh! condessa...

— Não vos revolteis.   Se o não fizésseis, fá-lo-iam os vossos primos.

— Tendes sempre razão.   Aonde ides?

— Procurar de novo a rainha, saber o efeito que produziu a vossa presença.

— Muito bem.   Mas eu volto a Paris.

— Por quê?   Voltaríeis esta noite para o jogo.   É uma boa tática: não abandonar o terreno.

— Infelizmente é preciso que eu vá a um encontro marcado hoje cedo.

— Um encontro?

— Muito sério, a julgar pelo conteúdo do bilhete que me mandaram.   Vede...

—        Letra de homem! — exclamou a condessa.

E leu:

"Monsenhor, alguém quer falar convosco sobre a recuperação de uma soma importante. Essa pessoa apresentar-se-á esta noite em vossa casa, cm Paris, para obter a honra de uma audiência."

—        Anônimo...   Um mendigo.

— Não condessa,   ninguém se expõe voluntariamente a ser espancado pelos meus criados por haver zombado de mim.

— Acreditai-lo?

— Não sei por que, mas tenho a impressão de que conheço a letra.

— Nesse caso, ide, Monsenhor; aliás, nunca se arrisca grande coisa com as pessoas que prometem dinheiro.   Pior seria se não pagassem.   Adeus, Monsenhor.

— Até à vista, condessa.

— A propósito, Monsenhor, duas coisas:

— Quais?

— Se, por acaso, recebêsseis inopinadamente uma boa soma?

— Que é que tem?

— Qualquer coisa perdida: um achado! um tesouro!

— Já vos percebo, ladina!   Divisão pela metade, é o que quereis dizer, não é?

— Palavra! Monsenhor...

— Dais-me sorte, condessa; por que não haveríamos de dividir? Será dividido.   E qual é a outra coisa?

— Esta: não comprometais as quinhentas mil libras.

— Não tenhais receio.

   E separaram-se. Depois, o cardeal voltou a Paris numa atmosfera de celestes felicidades.

   Com efeito, fazia duas horas que a vida mudava de aspecto para êle. Se estivesse apenas apaixonado, a rainha acabava de dar--lhe muito mais do que êle teria ousado esperar; se fosse ambicioso, ela o fazia esperar mais ainda.

   Habilmente conduzido pela esposa, tornava-se o rei instrumento de uma fortuna que, doravante, nada poderia deter. Sentia-se o Príncipe Luís cheio de idéias; tinha mais gênio político do que os rivais, conhecia a questão dos melhoramentos, uniria o clero ao povo e formaria uma dessas sólidas maiorias que governam muito tempo pela força e pelo direito.

   Colocar à testa do movimento de reforma a rainha, que êle adorava, e cuja impopularidade sempre crescente converteria em popularidade sem igual: tal era o sonho do prelado, e bastava uma palavra terna de Maria Antonieta para mudá-lo em realidade.

   O estouvado renunciava aos seus fáceis triunfos, o mundano fazia-se filósofo, o ocioso transformava-se em trabalhador infatigável. É fácil para os grandes caracteres a tarefa de trocar a palidez dos depravados pela fadiga do estudo. O Sr. de Rohan teria ido longe, arrastado pela ardente parelha do amor e da ambição.

   Entendeu que devia pôr mãos à obra assim que voltasse a Paris. Queimou de uma vez só uma caixa de bilhetinhos de amor, chamou o intendente para ordenar algumas reformas, mandou que um secretário lhe aparasse as penas para escrever as suas memórias sobre a política da Inglaterra, que compreendia às mil maravilhas e, depois de um hora de trabalho, recomeçava a entrar na posse de si mesmo, quando um toque de campainha o avisou, no gabinete, de que lhe chegara uma visita importante.

— Surgiu um porteiro.

— Quem está aí? — perguntou o prelado.

— A pessoa que escreveu hoje cedo a Vossa Alteza.

— Sem assinar?

— Sim, Monsenhor.

— Mas essa pessoa há de ter um nome.   Pergunta-lho.

O porteiro voltou logo em seguida.

— É o Sr. Conde de Cagliostro, — disse.

Estremeceu o príncipe.

— Faze-o entrar.

Entrou o conde e as portas se fecharam sobre êle.

—        Santo Deus! — bradou o cardeal, — que estou vendo?

— Não é verdade, Monsenhor, — acudiu Cagliostro com um sorriso, — que pouco mudei?

— Será possível!... — murmurou o Sr. de Rohan. — José Bálsamo vivo, quando todos o diziam morto naquele incêndio!   José Bálsamo...

— Conde de Fênix, vivo, sim, Monsenhor, e mais vivo do que nunca.

— Mas, senhor, sob que nome vos apresentais agora... e por que não conservastes o antigo?

— Precisamente, Monsenhor, porque é antigo e porque lembra, primeiro a mim, depois aos outros, muita coisa triste ou incômoda. No vosso caso, por exemplo,Monsenhor: não teríeis recusado a entrada a José Bálsamo?

— Eu! nunca, senhor, nunca.

   Estupefato ainda, o cardeal não oferecera sequer uma cadeira a Cagliostro.

— Nesse caso, — voltou este último, — é que Vossa Eminência tem mais memória e probidade do que todos os outros homens reunidos.

— Senhor, prestaste-me outrora tamanho serviço...

— Não é verdade, Monsenhor, — atalhou Bálsamo, — que conservo a mesma idade e sou uma bela amostra da eficácia das minhas gotas de vida?

— É verdade, senhor; mas estais acima do gênero humano, pois a todos dispensais liberalmente ouro e saúde.

— A saúde, não digo que não, Monsenhor; mas o ouro...não! não. ..

— Já não o fabricais?

— Não, Monsenhor.

— Por quê?

— Porque perdi a última parcela de um ingrediente indispensável que meu amo, o sábio Althotas, me havia dado ao sair do Egito.   Foi a única receita que nunca possuí.

— Êle a guardou?

— Não... isto é, sim: guardou ou levou para o túmulo, como quiserdes.

— Morreu?

— Eu o perdi.

— Como não prolongastes a vida desse homem, indispensável receptador da indispensável receita, vós que vos conservastes vivo e jovem através dos séculos, pelo que dizeis?

— Porque tudo posso contra a doença, contra a ferida, mas nada contra o acidente que mata sem que me chamem.

— E foi um acidente que pôs termo aos dias de Althotas?

— Vossa Eminência deve tê-lo sabido, pois sabia da minha morte.

— O incêndio da Rua de São Cláudio em que desaparecestes...

— Matou apenas Althotas; ou melhor, o sábio, cansado da vida,quis morrer.

— É estranho!

— É natural.   Também já pensei mais de cem vezes em dar cabo da minha.

— Sim, mas, não obstante, persististes.

— Porque escolhi um estado de juventude no qual a saúde, as paixões, os prazeres do corpo me proporcionam ainda alguma distração; Althotas, ao contrário, escolhera o estado de velhice.

-- Althotas devia ter feito como vós.

   —     Era um homem profundo e superior; de todas as coisas deste mundo, só queria a ciência.   E a mocidade de sangue imperioso, as paixões, os prazeres, o teriam desviado da eterna contemplação; cumpre, Monsenhor, que estejamos sempre isentos de febre;para pensar bem, devemos poder absorver-nos numa sonolência imperturbável.

   "O velho medita melhor do que o rapaz e, por isso, quando a tristeza o domina, já não há remédio. Althotas morreu vítima de sua dedicação à ciência. Eu vivo como um mundano, perco o meu tempo e não faço absolutamente nada. Sou uma planta... não ouso dizer uma flor; não vivo, respiro."

   —     Oh! — murmurou o cardeal, — com o homem ressuscitado, renascem todos os meus espantos.   Devolveis-me, senhor, a quadra em que a magia de vossas palavras, o fascínio de vossas ações, duplicavam todas as minhas faculdades e a meus olhos realçavam o valor de uma criatura.   Recordais-me os dois sonhos de minha juventude. Sabeis que faz dez anos que me aparecestes?

   —Sei.   Ambos envelhecemos bastante.   Hoje, Monsenhor, já não sou um sábio, sou um erudito.   Já não sois um belo rapaz,mas um formoso príncipe.   Lembrais-vos, Monsenhor, do dia em que, no meu gabinete, hoje remoçado com tapeçarias, eu vos- prometia o amor de uma mulher cujos loiros cabelos consultara a minha vidente?

   Empalideceu o cardeal e depois, súbito, corou. O terror e a alegria acabavam de suspender-lhe sucessivamente as batidas do coração.

— Lembro-me, — disse êle, — mas confusamente...

— Vamos a ver, — acudiu Cagliostro sorrindo, — vamos a ver se ainda poderei passar por feiticeiro.   Esperai que me concentre nessa idéia.

   Refletiu.

   —A loira criança dos vossos sonhos de amor, — disse, após um momento de silêncio, — onde está?   Ah! estou-a vendo; sim...e vós mesmo a vistes hoje.   Digo mais, estais saindo de ao pé dela.

   O cardeal apoiou a mão gelada sobre o palpitante coração.

— Senhor, — disse êle tão baixo que Cagliostro mal o ouviu,— por favor...

— Quereis que falemos de outra coisa? — sobreveio o adivinho,cortês. — Estou inteiramente às vossas ordens, Monsenhor.   Fazei-me o obséquio de dispor de mim.

   E estendeu-se, com inteira liberdade, sobre um sofá que o cardeal se esquecera de indicar-lhe desde o começo da interessante conversação.

 

         O devedor e o credor

   O CARDEAL considerou o hóspede, embasbacado.

   — Muito bem! — exclamou este último, — agora que nos tornamos a conhecer, Monsenhor, conversemos, por favor.

—        Sim, — volveu o prelado, que aos poucos se recompunha, — conversemos sobre essa restituição que... que...

— Que lhe indiquei na minha carta, não é?   Vossa Eminência tem pressa de saber...

— Era um pretexto, não era?   Pelo menos, é o que presumo.

— Não, Monsenhor, era uma realidade e das mais sérias.   Essa restituição vale a pena, visto que se trata de quinhentas mil libras, e quinhentas mil libras são uma soma respeitável.

— Que me emprestastes, aliás, muito graciosamente, — exclamou o cardeal, empalidecendo.

— Sim, Monsenhor, que vos emprestei, — confirmou Bálsamo;— gosto de encontrar num grande príncipe como vós tão boa memória.

   Recebendo o golpe, sentia o cardeal um suor frio descer-lhe da testa às faces.

— Julguei por um momento, — disse, tentando sorrir, — que José Bálsamo, o homem sobrenatural, levara o seu crédito para o túmulo, assim como atirara ao fogo o meu recibo.

— Monsenhor, — respondeu gravemente o conde, — a vida de José Bálsamo é indestrutível como o é esta folha de papel que julgáveis aniquilada.   A morte nada pode contra o elixir da vida e o fogo não pode nada contra o amianto.

— Não compreendo, — tornou o cardeal sentindo-se repentinamente ofuscado.

— Tenho certeza de que Vossa Eminência vai compreender, — acudiu Cagliostro.

— Como assim?

— Reconhecendo a sua assinatura.

   E apresentou um papel dobrado ao príncipe, que, antes até de abri-lo bradou:

—        O meu recibo!

— Sim, Monsenhor, o seu recibo, — replicou Cagliostro com leve sorriso, mitigado ainda por uma fria reverência.

— Entretanto, senhor, haviei-lo queimado, pois vi as chamas.

— É verdade que atirei o papel ao fogo, — assentiu o conde, — mas, como já vos disse, Monsenhor, quis o acaso que tivésseis escrito num pedaço de amianto, em vez de escrever num papel comum, de sorte que tornei a encontrá-lo intacto entre as cinzas.

— Senhor, — volveu o cardeal com certa altivez, pois cria ver na apresentação do recibo um sinal de desconfiança, — acreditai que eu não teria negado a minha dívida sem esse papel, como não a nego com êle; dessarte, fizestes mal pretendendo enganar-me.

— Juro, Monsenhor, que não me passou sequer pela cabeça a idéia de enganar-vos.

O cardeal fêz um sinal com a cabeça.

— Fizestes-me acreditar, — murmurou — que a dívida havia sido cancelada.

— Para deixar-vos o gozo calmo e feliz das quinhentas mil libras, — respondeu Bálsamo, por sua vez, com leve movimento de ombros.

— Mas afinal, senhor, — continuou o cardeal, — como é que, durante dez anos, deixastes de cobrar soma tão vultosa?

— Eu sabia, Monsenhor, que ela estava em boas mãos.   Os acontecimentos, o jogo, os ladrões, despojaram-me sucessivamente de todos os meus bens. Mas, sabendo que tinha esse dinheiro seguro,pacientei e esperei até o último momento.

— E o último momento chegou?

— Infelizmente, Monsenhor!

— De sorte que já não podeis pacientar nem esperar.

— De fato, já não posso, — retrucou Cagliostro.

— Viestes, então, cobrar o dinheiro?

— Vim, Monsenhor.

— Hoje?

— Seria um favor.

   Manteve o cardeal um silêncio palpitante de desespero.   Logo, com voz alterada:

— Sr. Conde, — exclamou, — os desgraçados príncipes da terra não improvisam fortunas tão rapidamente quanto vós, os feiticeiros,que comandais os espíritos das trevas e das luzes.

— Oh! Monsenhor, — atalhou Cagliostro, — eu não vos teria pedido essa soma se não soubesse de antemão que a tínheis convosco.

— Eu tenho quinhentas mil libras? — bradou o cardeal.

—        30.000 libras em ouro, 10.000 em prata, e o resto em notas.

Empalideceu o prelado.

— Que estão lá, naquele armário de Boule, — continuou Cagliostro.

— Também o sabeis, senhor?

— Sei, Monsenhor, e sei também quantos sacrifícios precisastes fazer para conseguir o dinheiro.   Ouvi dizer até que pagastes por êle duas vezes o seu valor.

— É verdade.

— Mas...

— Mas?... — repetiu o amofinado príncipe.

— Mas eu, Monsenhor, — prosseguiu Cagliostro, — no espaço de dez anos, quase morri à míngua ao lado desse papel, que para mini representava meio milhão; e, todavia, não querendo incomodar-vos, esperei. Creio, portanto, que estamos mais ou menos quites.

— Quites, senhor! — exclamou o príncipe; — não digais que estamos quites, pois ainda levais a vantagem de me haverdes generosamente emprestado tamanha soma!   Quites! não! não!   Sou e serei eternamente vosso obrigado.   Entretanto, Sr. Conde, eu gostaria de saber por que, tendo podido cobrá-la nos últimos dez anos,ficastes em silêncio? Durante esse tempo eu teria tido vinte ocasiões de devolver-vos o dinheiro sem me atrapalhar.

— Ao passo que hoje?... — arriscou Cagliostro.

— Hoje confesso que a restituição que exigis de mim, porque a estais exigindo, não é verdade?...

— Infelizmente, Monsenhor.

— ...me atrapalha horrivelmente.

   Cagliostro fêz com a cabeça e com os ombros um movimentozinho que significava: — Que quereis, Monsenhor! o negócio é assim e não pode ser de outro jeito!

— Mas vós, que tudo adivinhais, — bradou o príncipe: — vós,que sabeis   ler no fundo dos corações e até no fundo dos armários,o que às vezes é bem pior, haveis de conhecer por que preciso tanto do dinheiro e qual o misterioso e sagrado emprego que lhe destino.

— Estais enganado, Monsenhor, — volveu Cagliostro em tom glacial, — não sei; os meus próprios segredos me têm proporcionado tantas tristezas, decepções e misérias, que não me preocupam os segredos alheios, a menos que me interessem.   Interessava-me saber

se tínheis o dinheiro, ou se o não tínheis, visto que mo devíeis.Mas, ciente de que êle se achava em vossas mãos, pouco me importava conhecer o destino que lhe pensáveis dar.   De resto, Monsenhor, se soubesse neste momento a causa do vosso enleio, ela me pareceria talvez tão grave e respeitável que eu teria a fraqueza de contemporizar ainda; e repito que, nas atuais circunstâncias, isso me ocasionaria o maior dos prejuízos. Portanto, prefiro ignorar.

— Oh! — exclamou o cardeal, cujo orgulho e cuja suscetibilidade acabavam de ser aguilhoados pelas últimas palavras, — não cuideis, pelo menos, que eu queira inspirar-vos compaixão com as minhas dificuldades pessoais; tendes os vossos interesses representados e garantidos por esse bilhete; o bilhete está assinado por mim; é o suficiente.   Recebereis as quinhentas mil libras.

   Inclinou-se Cagliostro.

— Eu sei, — continuou o cardeal, devorado pela mágoa de perder num minuto tanto dinheiro penosamente juntado, — eu sei que esse papel não passa de uma confissão de dívida e não fixa o dia do vencimento.

— Queira perdoar-me Vossa Eminência, — refutou o Conde; — reporto-me, porém, ao texto do recibo e nele vejo escrito:

"Reconheço haver recebido do Sr. José Bálsamo a importância de 500.000 libras, que lhe pagarei assim que êle mas pedir.

"Assinado, LUÍS DE ROHAN."

   Um frêmito sacudiu todos os membros do prelado; não somente lhe esquecera a dívida mas também os termos do seu reconhecimento.

   —     Vede, Monsenhor, — continuou Bálsamo, — que não estou pedindo o impossível.   Não podeis pagar, seja.   Lamento apenas que Vossa Eminência pareça esquecer-se de que a soma lhe foi dada por José Bálsamo espontaneamente, numa hora suprema; e a quem?

ao Sr. de Rohan, que êle não conhecia.   Eis aí, segundo me parece,um desses gestos fidalgos que o Sr. de Rohan, fidalgo como quem o mais o seja, teria podido imitar na restituição.   Entendestes, porém, que não devíeis fazê-lo; não se fala mais nisso.   Fico com o recibo.   Adeus, Monsenhor.

   E dobrou friamente o papel, fazendo menção de enfiá-lo novamente no bolso.

O cardeal deteve-o.

   —     Sr. Conde, — disse êle, — um Rohan não admite que ninguém no mundo lhe dê lições de generosidade.   Isto, aliás, seria,quando muito, uma lição de probidade.     Entregai-me o recibo,por favor, para que eu possa pagá-lo.

Foi então Cagliostro, por seu turno, quem pareceu hesitar.

   Dir-se-ia, com efeito, que o rosto pálido, os olhos inchados e a mão trêmula do cardeal despertassem nele vivíssima compaixão.

   Por altivo que fosse, percebeu o cardeal o generoso impulso de Cagliostro. Por um instante esperou que se lhe seguisse um bom resultado.

   Súbito, porém, o olhar do conde se endureceu, uma nuvem lhe passou por entre as sobrancelhas franzidas, e êle estendeu a mão e o recibo ao prelado.

   Embora atingido em pleno coração, o Sr. de Rohan não perdeu um instante; dirigiu-se para o armário assinalado por Cagliostro e dele tirou um maço de notas; em seguida, indicou com o dedo vários saquinhos de prata e abriu uma gaveta cheia de ouro.

— Sr. Conde, — disse, — aqui estão as vossas quinhentas mil libras; entretanto, ainda vos fico devendo duzentas e cinqüenta mil de juros, na hipótese de recusardes os juros compostos, que dariam uma soma muito mais considerável.   Mandarei o meu intendente

fazer as contas e vos darei as garantias necessárias, rogando-vos apenas que me concedais um prazo.

— Monsenhor, — retorquiu Cagliostro, — emprestei quinhentas mil libras ao Sr. de Rohan.   O Sr. de Rohan me deve apenas quinhentas mil libras.   Se eu tivesse querido receber os juros, tê-los-ia incluído no recibo.   Procurador ou herdeiro de José Bálsamo, como quiserdes, porque a verdade é que José Bálsamo está morto, só devo aceitar as somas estipuladas no recibo; vós pagais, eu recebo e agradeço, rogando-vos aceiteis as minhas respeitosas homenagens. Levo, pois, as notas, Monsenhor, e, como tenho urgente necessidade da soma toda para o dia de hoje, mandarei buscar o ouro e a prata, que vos peço tenhais preparados.

   Ditas essas palavras, a que o cardeal não achou o que responder, Cagliostro pôs o maço de notas no bolso, cortejou respeitosamente o príncipe, em cujas mãos deixou o recibo, e saiu.

   —     O infortúnio é só meu, — suspirou o Sr. de Rohan, após a partida de Cagliostro, — visto que a rainha está em condições de pagar, e dela, pelo menos, um José Bálsamo inesperado não virá reclamar uma dívida atrasada de quinhentas mil libras.

 

         Contas domésticas

   ERA A ANTEVÉSPERA do primeiro pagamento marcado pela rainha.   O Sr. de Calonne ainda não cumprira o prometido.   As suas contas não tinham sido assinadas pelo rei.

   O ministro tivera muito o que fazer e esquecera-se um pouco da rainha.   Ela, de seu lado, achava que a sua dignidade não lhe permitia refrescar a memória do diretor das finanças.   Tendo recebido uma promessa, aguardava-lhe o cumprimento.

   Entretanto, principiava a inquietar-se e a informar-se, buscando os meios de falar com o Sr. de Calonne sem se comprometer, quando lhe chegou às mãos um bilhete do ministro.

"Esta noite", rezava o bilhete, "o negócio de que Vossa Majestade me fêz a honra de encarregar-me, será assinado na reunião do conselho, e amanhã cedo os fundos estarão em seu poder."

   A alegria voltou aos lábios de Maria Antonieta, que não pensou em mais nada, nem sequer no amanhã, tão pesado.

   Viram-na até procurar, nos passeios, os atalhos mais secretos, como que para isolar os seus pensamentos de todo e qualquer contacto material e mundano.

   Ainda estava passeando com a Sra. de Lamballe e com o Conde do Artois, que fora ter com ela, quando o rei entrou na sala do conselho, após o jantar.

   O monarca estava de mau humor. As notícias da Rússia eram más. Perdera-se um navio no Golfo de Lião. Algumas províncias recusavam-se a pagar o imposto. Um belo mapa-múndi, polido e envernizado pelo próprio rei, estourara por efeito do calor, cortando a Europa em duas partes, no ponto de junção entre o 30° grau de latitude e o 55° de longitude. Sua Majestade amarrara a cara para todo o mundo — até para o Sr. Calonne.

   Debalde lhe apresentou o ministro a bela pasta perfumada e um semblante risonho. Mudo e taciturno, pôs-se o rei a rabiscar num pedaço de papel uns traços, que significavam tempestade, assim como os seus bonecos e cavalos traduziam bom tempo.

   Pois a mania de Sua Majestade era desenhar durante as reuniões do conselho. Luís XVI não gostava de encarar com os outros; tímido, sentia-se mais seguro com uma pena na mão. Enquanto assim se entretinha, o orador podia desenvolver os seus argumentos; erguendo um olhar furtivo, tomava-lhe o rei um pouco do fogo dos seus olhos, o suficiente para que não lhe esquecesse o homem enquanto pesava a idéia.

   Quando êle mesmo falava, o que aliás fazia muito bem, o desenho lhe tirava todo e qualquer ar de pretensão ao discurso, pois não lhe permitia fazer outros gestos; podia interromper-se ou exaltar-se à vontade: o traço no papel substituía, quando necessário, os ornatos da palavra.

   O soberano, portanto, tomou da pena, como de costume, e os ministros encetaram a leitura dos projetos ou das notas diplomáticas.

   O rei não disse uma palavra; deixou passar a correspondência estrangeira como se não entendesse patavina daquilo tudo.

   Chegou, porém, o momento de pormenorizar as contas do mês; Luís XVI ergueu a cabeça.

   O Sr. de Calonne acabava de abrir um memorial' relativo ao empréstimo projetado para o ano seguinte.

Sua Majestade começou a fazer uns traços furiosos.

— Sempre pedindo emprestado, — disse, êle, — sem saber como se pagará!   Mas isso é um problema, Sr. de Calonne!

— Um empréstimo, Sire, é a sangria feita numa fonte: a água desaparece aqui para surgir acolá.   Mais, é duplicada pelas aspirações subterrâneas.   De resto, em lugar de perguntar como pagaremos, devíamos perguntar como e a quem pediremos emprestado? Pois o problema a que se refere Vossa Majestade não é:   Com que se pagará? senão:   Encontrar-se-ão credores?

   Os rabiscos do rei estavam ficando cada vez mais grossos; mas êle não disse uma palavra: os traços falavam por si.

   Tendo o Sr. de Calonne exposto o seu plano com a aprovação dos colegas, o monarca pegou no projeto e assinou-o, embora suspirasse.

   —     Agora que temos dinheiro, — tornou, rindo, o Sr. de Calonne, — gastemo-lo.

   O rei olhou para o ministro com uma careta, e o risco no papel converteu-se num enorme borrão de tinta.

   O Sr. de Calonne passou-lhe às mãos um rol de pensões, gratificações, ajudas de custo, doações e soldos.          

   O trabalho era curto, bem discriminado. O rei virou as páginas e examinou o total.

—        Um milhão e cem mil libras por tão pouco!   Como assim?

E descansou a pena.

   —Leia, Sire, leia, e digne-se observar que, do milhão e cem mil libras, só um item é de quinhentas mil.

— Qual deles, Sr. Ministro?

— O adiantamento feito a Sua Majestade, a rainha, Sire.

— Â rainha! — bradou Luís XVI... — Quinhentas mil libras para a rainha!   Não é possível!

— Perdão, Sire; mas os algarismos são exatos.

— Quinhentas mil libras para a rainha! — repetiu o rei. — Há de haver algum erro.   Na semana passada... não, há quinze dias, mandei pagar o trimestre de Sua Majestade.

— Sire, se a rainha teve precisão de dinheiro, e toda a gente sabe como o emprega, não é extraordinário...

— Não, não! — exclamou o rei, sentindo a necessidade de falar da própria economia e de conciliar alguns aplausos a Maria Antonieta quando ela fosse à ópera; — a rainha não há de querer ta manha soma, Sr. de Calonne.   Ela já me disse que um navio vale mais do que jóias.   E entende que, se a França pede dinheiro emprestado para alimentar os seus pobres, nós, os ricos, devemos emprestar dinheiro à França.   Por conseguinte, se necessita dessa importância, o seu mérito será tanto maior quanto mais tempo esperar; e eu vos garanto que esperará.

   Os ministros aplaudiram muito o ímpeto patriótico do rei, que o divino Horácio não teria chamado Uxorius naquele momento.

   Só o Sr. de Calonne, que conhecia as dificuldades da rainha, afoitou-se a insistir.

— Francamente, — atalhou o rei, — estais mais interessado por nós do que nós mesmos; calma, Sr. de Calonne!

— A rainha, Sire, me acusará de haver zelado pouco pelos seus interesses.

— Defenderei a vossa causa junto dela.

— A rainha, Sire, só pede quando obrigada pela necessidade.

— Se a rainha tem necessidades, estas hão de ser menos imperiosas, creio eu, do que as dos pobres, e ela será a primeira a convir com isso.

— Sire...

—        Assunto resolvido, — decidiu o rei.

E empunhou a pena   dos rabiscos.

— Vossa Majestade cancela o crédito? — perguntou o Sr. De Calonne, consternado.

— Cancelo, — respondeu majestosamente Luís XVI. — E parece-me ouvir a voz generosa da rainha agradecendo-me por lhe haver tão bem compreendido o coração.

   O Sr. de Calonne mordeu os lábios; satisfeito com esse heróico sacrifício pessoal, Luís assinou o resto com cega boa-fé.

E desenhou uma linda zebra, cercada de zeros, repetindo:

— Ganhei esta noite quinhentas mil libras: um belo dia para um rei, Calonne!   Vós mesmo dareis a boa notícia à rainha; e vereis, vereis.

— Ah! meu Deus!   Sire, — murmurou o ministro, — eu ficaria desesperado se lhe furtasse a alegria dessa confissão.   A cada um segundo os seus méritos.

— Seja, — replicou o rei. — Levantemos a sessão.   Quando é bom, o trabalho não precisa ser longo.   Ah! eis a rainha que volta; vamos ter com ela, Calonne?

—        Peço perdão a Vossa Majestade, mas ainda tenho o que fazer.

E esquivou-se, ligeiro, pelo corredor.

   Corajosa e alegremente, encaminhou-se o rei ao encontro da esposa, que estava cantando no vestíbulo, de braço dado com o Conde do Artois.

—        Senhora, — disse êle, — destes um bom passeio, não é verdade?

— Excelente, Sire.   E Vossa Majestade fêz um bom trabalho, não fêz?

— Julgai-o pelos resultados: ganhei para vós quinhentas mil libras.

— Calonne cumpriu a palavra, — pensou a rainha.

— Imaginai, — acrescentou Luís XVI, — que Calonne vos abrira um crédito de meio milhão.

— Oh! — fêz Maria Antonieta, sorrindo.

— E eu... cancelei-o.   São quinhentas mil libras ganhas com uma penada.

— Cancelou-o? — volveu a rainha, empalidecendo.

— Totalmente; isso vai fazer-vos um bem enorme.   Boa noite, senhora, boa noite.

— Sire!   Sire!

— Estou com muita fome.   Vou entrar.   Não mereço uma boa ceia?

— Sire! ouça!

   Luís XVI saltitou e fugiu, contentíssimo com a brincadeira, deixando a rainha muda e consternada.

   —     Meu irmão, mandai-me buscar o Sr. de Calonne, — disse ela, por fim, ao Conde do Artois, — há nisso alguma brincadeira de mau gosto.

   Precisamente naquele instante lhe traziam o seguinte bilhete do ministro:

"Vossa Majestade já deve ter sabido que o rei recusou o crédito. É incompreensível, senhora!   Deixei o conselho doente e compungido."

— Lede, — disse ela, passando o bilhete ao Conde do Artois.

— E ainda há quem nos acuse de dilapidar as finanças, minha irmã! — bradou o príncipe. — Isso é procedimento...

— De marido, — completou a rainha. — Adeus, meu irmão.

— Meus pêsames, querida irmã; eis-me avisado, eu que pretendia pedir amanhã.

— Mandai-me buscar a Sra. de La Motte, — disse a rainha a Sra. de Misery, após longa meditação; — onde quer que ela esteja e imediatamente.

 

         Maria Antonieta, rainha, Joana de La Motte, mulher

   O CORREIO enviado a Paris, à procura da Sra. de La Motte, encontrou a condessa, ou melhor, não a encontrou, em casa do Cardeal de Rohan.

   Joana fora visitar Sua Eminência; lá jantara e lá estava ceando, deplorando a malfadada restituição, quando o correio apareceu, perguntando se a condessa estava.

   O suíço, habilmente, respondeu que Sua Eminência saíra e que a Sra. de La Motte não se encontrava no palácio, mas que nada seria mais fácil do que dar-lhe o recado da rainha, visto que ela ainda viria provavelmente àquela noite.

   —     É para ela ir a Versalhes assim que puder, — declarou o mensageiro, que partiu, não sem deixar o mesmo aviso em todas as presumíveis residências da nômade condessa.

   Mas tanto que partiu o correio, o suíço, desempenhando a sua incumbência sem ir muito longe, mandou a esposa levar a mensagem a Sra. de La Motte em casa do Sr. de Rohan, onde os dois associados filosofavam, a gosto, sobre a instabilidade das grandes fortunas.

   Pelos termos da ordem, compreendeu a condessa que havia urgência em partir. Pediu dois bons cavalos ao cardeal, que a instalou pessoalmente numa berlinda sem brasões e, ao passo que êle remoia a possível significação da embaixada, a condessa corria tanto que, uma hora depois, chegava ao castelo.

   Alguém, que a estava esperando, introduziu-a sem demora à presença de Maria Antonieta.

   A rainha recolhera aos seus aposentos. O serviço da noite fora feito: já não havia mulher alguma no apartamento, exceto a Sra. de Misery, entretida em ler no toucadorzinho.

   Maria Antonieta estava bordando ou fingindo bordar, com o ouvido inquieto atento aos rumores de fora, quando Joana se precipitou ao encontro dela.

— Ah! — bradou a soberana. — Estais aqui, tanto melhor! Uma notícia... condessa.

— Boa, senhora?

— Julgai-a vós mesma.   Sua Majestade recusou as quinhentas mil libras.

— Ao Sr. de Calonne? '

— A toda a gente.   O rei já não quer dar-me dinheiro.   Essas coisas só me acontecem a mim.

— Meu Deus! — murmurou a condessa.

— É inacreditável, não é?   Recusar, cancelar um crédito já aberto!   Enfim, não adianta falar do que não tem remédio.   Voltareis imediatamente a Paris.

— Sim, senhora.

— E direis ao cardeal, que tão zeloso se mostrou de agradar-me, que aceito as suas quinhentas mil libras até ao próximo trimestre.   Estou sendo egoísta, condessa! mas é preciso...   Sei que é um abuso. ..

— Estamos perdidas, senhora, — murmurou Joana; — o Sr. Cardeal não tem mais dinheiro.

A rainha deu um pulo, como se a tivessem ferido ou insultado.

— Não tem mais... dinheiro... — balbuciou.

— Uma dívida de que o Sr. de Rohan já se esquecera, foi-lhe cobrada.   Era uma dívida de honra, êle teve de pagar.

— Quinhentas mil libras?

— Sim, senhora.

— Mas...

—        Seu último dinheiro...   Acabaram-se os recursos.

Deteve-se a rainha como que aturdida por aquele desar.

— Estou acordada, não estou? — perguntou. — É a mim mesma que sucedem esses reveses?   Como sabeis, condessa, que o Sr. De Rohan já não tem dinheiro?

— Faz uma hora e meia que êle me estava contando o desastre, tanto menos reparável quanto as quinhentas mil libras constituíam o que se costuma chamar um fundo de gaveta.

Maria Antonieta apoiou o rosto nas mãos.

— É preciso tomar uma decisão, — disse ela.

— Que vai fazer a rainha? — pensou Joana.

— Vede, condessa, é uma lição terrível, que me servirá de castigo por haver praticado, às escondidas do rei, uma ação de medíocre importância, de medíocre ambição ou de mesquinha casquilhice. Confessai que eu não tinha precisão alguma do colar.

— É verdade, senhora, mas se uma rainha consultasse apenas as suas necessidades e os seus gostos...

— Quero consultar primeiro que tudo a minha tranqüilidade, a felicidade de minha casa. Só me faltava essa primeira lástima para mostrar-me a quantos aborrecimentos eu ia expor-me, o quanto era fecundo em desgraças o caminho escolhido.   Renuncio.   Procedamos francamente, procedamos livremente, procedamos simplesmente.

— Senhora!

— E, para começar, sacrifiquemos a nossa vaidade no altar do dever, como diria o Sr. Dorat. — Logo, com um suspiro: — Mas era bem bonito o colar!

— Ainda o é, senhora, e representa dinheiro em caixa.

— A partir deste momento, não passa, para mim, de um monte de pedras.   E faz-se com as pedras, depois de brincar com elas, o que fazem crianças após uma partida de malha: jogam-se fora, esquecem-se.

— Que quer dizer a rainha?

— A rainha quer dizer, minha querida condessa, que pegareis de novo no escrínio trazido... pelo Sr. de Rohan... e o devolvereis aos joalheiros Boehmer e Bossange.

— Devolver?

— Precisamente.

— Mas Vossa Majestade deu duzentas e cinqüenta mil libras de sinal!

— São duzentas e cinqüenta mil libras que ainda ganho, condessa; eis-me agora conforme com as contas do rei.

— Senhora! senhora! — bradou a condessa, — perder assim um quarto de milhão!   Pois pode acontecer perfeitamente que os joalheiros se recusem a restituir o sinal, de que talvez já tenham disposto.

— Já pensei nisso e deixo-lhes o sinal, com a condição de anularmos o negócio.   Desde que entrevejo essa solução, condessa, já me sinto mais leve.   Com o colar, vieram instalar-se aqui preocupações, pesares, receios, suspeitas.   Esses brilhantes nunca teriam calor suficiente para secar todas as lágrimas que sinto pesar em nuvens sobre mim. Condessa, levai-me daqui imediatamente o colar.   Os joalheiros farão um bom negócio.   Duzentas e cinqüenta mil libras de sobrepaga são um lucro respeitável; é o lucro que eles pretendiam, e ainda por cima ficam com o colar.   Imagino que não se queixarão e que ninguém ficará sabendo de nada.   O cardeal fez o que fêz apenas para me dar prazer.   Dir-lhe-eis que o meu prazer agora é não ter o colar e, se êle fôr homem de espírito,saberá

compreender-me; se fôr bom padre, saberá aprovar-me e fortalecer-me no sacrifício.

   Dizendo essas palavras, a rainha estendia a Joana o escrínio fechado.   Esta repeliu-o brandamente.

— Senhora, — sugeriu, — por que não tenta obter um adiamento?

— Pedir... não!

— Eu disse obter, Majestade.

— Pedir é humilhar-se, condessa; obter é ser humilhada. Eu compreenderia talvez que alguém se humilhasse por uma pessoa amada, para salvar uma criatura viva, ainda que fosse um cachorro; mas para obter o direito de conservar estas pedras, que queimam como carvão aceso e não são mais luminosas nem tão duráveis, condessa, eis o que nenhum conselho acabará comigo que aceite. Nunca! Levai-me o escrínio, minha cara!

— Mas pense, senhora, no barulho que farão os ourives, ao me nos por polidez e para lastimá-la.   A sua recusa será tão comprometedora quanto o teria sido a sua aquiescência.   Toda a gente saberá que Vossa Majestade teve os brilhantes em seu poder.

— Ninguém saberá coisa alguma.   Já não devo mais nada a esses joalheiros; não tornarei a recebê-los; o mínimo que podem fazer em troca das minhas duzentas e cinqüenta mil libras é calar a boca; e os meus inimigos, em lugar de dizer que ando comprando brilhantes de um milhão e meio, dirão apenas que tenho perdido dinheiro no comércio. É menos desagradável. Levai, condessa, levai, e agradecei ao Sr. de Rohan a gentileza e a boa vontade.

   E, com gesto imperioso, colocou o escrínio nas mãos de Joana, que não lhe sentiu o peso sem alguma comoção.

— Não podeis perder tempo, — prosseguiu Maria Antonieta; — quanto menos inquietação sentirem os ourives, tanto mais seguras do sigilo estaremos nós; voltai depressa, e ninguém veja o escrínio. Passai primeiro pela vossa casa, a fim de evitar que uma visita a Boehmer, há esta hora, desperte as suspeitas da polícia, que outra coisa não faz senão ocupar-se do que se faz em minha casa; depois, quando o vosso regresso houver despistado os espias, ide à casa dos lapidários e trazei-me o recibo deles.

— Sim, senhora: assim se fará, visto que assim o quer Vossa Majestade.

   Joana colocou o escrínio debaixo do mantelete, de modo que nenhum volume traísse a presença da caixa, e tomou o carro com o zelo reclamado pela augusta cúmplice.

   Em primeiro lugar, para obedecer, fêz-se conduzir à sua casa, e mandou de volta o carro para o palácio do Sr. de Rohan, a fim de não despertar as desconfianças do cocheiro que a conduzira. Em seguida, despiu-se, para envergar um trajo menos elegante, mais adequado à noturna incumbência.

   A camareira vestiu-a rapidamente e surpreendeu-se ao vê-la distraída e pensativa durante a operação, honrada de ordinário por toda a atenção das damas da corte.

   Joana, com efeito, não estava pensando na toucagem e deixava-se vestir com o espírito fixo numa estranha idéia que lhe inspirara a ocasião.

   Perguntava a si mesma se o cardeal não cometeria um grande erro deixando a rainha devolver a jóia, e se o erro cometido não ocasionaria algum prejuízo à fortuna com que sonhava e talvez pudesse obter o Sr. de Rohan, como participante dos segredinhos de Sua Majestade.

   Cumprir as ordens de Maria Antonieta sem consultar o Sr. de Rohan não seria faltar às primeiras obrigações da associação? Ainda que estivesse à míngua de todos os recursos, não preferiria o cardeal vender-se a deixar privada a rainha de um objeto que ela cobiçara?

— Não posso fazer outra coisa, — disse com os seus botões, — senão consultá-lo.

— Um milhão e quatrocentas mil libras! — ajuntou; — ele nunca terá um milhão e quatrocentas mil libras!

Logo, a súbitas, voltando-se para a camareira:

—        Vai-te, Rosa, — ordenou.

   Obedeceu a camareira e a Sra. de La Motte continuou o seu monólogo interior.

   —     Que soma!   Que fortuna!   Que vida radiosa!   E como toda a felicidade e todo o brilho que tanto dinheiro proporciona estão bem representados pela serpentezinha de pedras que flameja neste escrínio!

   Abriu o porta-jóias e queimou os olhos ao contacto daquelas chamas catadupejantes. Tirou o colar do cetim, enrolou-o nos dedos, fechou-o na palma das mãos e murmurou:

   —     Um milhão e quatrocentas mil libras encerradas aqui dentro!   O colar vale realmente esse dinheiro e os ourives ainda hoje o comprariam pela mesma quantia.

   "Estranho destino, que permite à pequena Joana de Valois, mendiga e obscura, tocar com a mão a mão da primeira rainha do mundo e ter entre as palmas, é verdade que por uma hora apenas, um milhão e quatrocentas mil libras, soma que nunca anda sozinha neste mundo e sempre se faz escoltar de guardas armados ou garantias que não podem ser menores em França que as de um cardeal e de uma rainha!

   "Tudo isto entre os meus dedos!... Como pesa e como é leve!

   "Para carregar em ouro, metal precioso, o equivalente deste escrínio, eu precisaria de dois cavalos; para carregá-lo em notas de banco... e acaso são sempre resgatadas as notas de banco? não é preciso assinar, verificar? De mais a mais, nota é papel: podem destruí-la o fogo, o ar, a água. Acrescente-se que a nota de banco não tem curso em todo o país; trai a própria origem, revela o nome do autor, o nome do portador. Volvido algum tempo, perde parte do valor ou o valor todo. Os brilhantes ao contrário, são matéria dura, que a tudo resiste, e que todo homem conhece, aprecia, admira e compra, em Londres, Berlim, Madri, e até no Brasil. Todos compreendem um brilhante, sobretudo um brilhante do tamanho e com a água que têm estes aqui!   Como são lindos!   Como são admiráveis! Que belo conjunto e que extraordinárias minúcias! Cada um, separadamente, valerá talvez mais, guardadas as devidas proporções, do que valem todos juntos.

   "Mas em que estou pensando? — exclamou, de repente; — decidamo-nos logo a procurar o cardeal ou a devolver o colar a Boehmer, como determinou a rainha".

   Levantou-se, conservando na mão os brilhantes, que se aqueciam e resplandeciam.

   —     Eles voltarão, portanto, para a casa do ourives, que os pesará e polirá com a sua escova, quando poderiam brilhar no colo de Maria Antonieta...   Boehmer, a princípio, reclamará, mas ficará quieto ao compreender que terá um lucro e conservará a mercadoria.   Ah! esquecia-me! de que forma farei redigir o recibo do joalheiro?   Isso é grave; sim, há na redação necessidade de muita diplomacia.   Cumpre que o recibo não nos comprometa, nem a Boehmer, nem à rainha, nem ao cardeal, nem a mim.

   "Nunca redigirei sozinha um documento desses. Preciso de um conselho.

   "O cardeal... Não! Se êle me amasse um pouco mais ou, sendo mais rico, me desse brilhantes..."

   Sentou-se no sofá, com os brilhantes enrolados na mão, a cabeça ardente, cheia de pensamentos confusos, que, por vezes, a espavoriam e que ela repelia com febril energia.

   Súbito, o olhar tornou-se-lhe mais calmo, mais fixo, mais concentrado num pensamento uniforme; não se advertiu de que os minutos se escoavam, que tudo assumia nela um aprumo dali por diante inquebrantável, e que, à semelhança dos nadadores que enterram o pé na vaza dos rios, cada movimento que fazia para libertar-se a enterrava um pouco mais. Uma hora se passou nessa muda e profunda contemplação de um alvo misterioso.

   Depois, ergueu-se devagar, pálida como a sacerdotiza inspirada, e tocou a campainha chamando a camareira.

Eram duas horas da manhã.

   —     Vai-me buscar um fiacre, — ordenou, — ou uma cadeirinha, se não houver mais carros.

   A criada encontrou um fiacre, que estava dormindo na velha Rua do Templo.

   A Sra. de La Motte embarcou só e mandou de volta a camareira.

   Dez minutos depois, detinha-se à porta do panfletário Retal de Valete.

 

         O recibo de Boehmer e o reconhecimento da rainha

   O RESULTADO dessa visita noturna feita ao panfletário Reteau de Villette só apareceu no dia seguinte e da seguinte maneira:

   Às sete horas da manhã, a Sra. de La Motte fêz chegar às mãos da rainha uma carta que continha o recibo dos joalheiros. Essa peça importante dizia deste teor:

"Nós, abaixo-assinados, reconhecemos haver voltado à posse do colar de brilhantes primitivamente vendido à rainha pela soma de um milhão e seiscentas mil libras, por não terem eles agradado a Sua Majestade, que nos indenizou do trabalho e das despesas com a soma de duzentos e cinqüenta mil libras, entregue em nossas mãos.

"Assinado: BOEHMER e BOSSANGE."

   Tranqüilizada respeito ao negócio que durante tanto tempo a atormentara, a rainha enfiou o recibo na cômoda e não pensou mais nele.

   Mas, por estranha contradição com esse bilhete, os joalheiros Boehmer e Bossange receberam, dois dias depois, a visita do Cardeal de Rohan, ainda preocupado com o pagamento da primeira prestação convencionada entre os vendedores e Sua Majestade.

   O Sr. de Rohan encontrou Boehmer na casa do cais da Escola. Desde cedo, por tratar-se do dia em que se vencia o primeiro título, se tivesse havido demora ou recusa, a casa dos lapidários deveria estar em polvorosa.

   Muito ao contrário, porém, em casa de Boehmer se respirava a calma, e o Sr. de Rohan folgou de encontrar de boa sombra os criados e de rabinho agitado o cão dos joalheiros. Boehmer recebeu o ilustre cliente com rasgada expressão de contentamento.

— E então? — começou o prelado, — hoje se vence o primeiro título.   A rainha pagou?

— Não, Monsenhor, — respondeu Boehmer. — Sua Majestade não pôde dar o dinheiro.   Vossa Eminência sabe que o crédito proposto pelo Sr. de Calonne foi recusado pelo rei.   Não se fala em outra coisa.

— Realmente, Boehmer, não se fala em outra coisa, e foi precisamente por isso que vim aqui.

— Mas, — continuou o joalheiro, — Sua Majestade é excelente e tem muito boa vontade.   Não tendo podido pagar, garantiu a dívida e isso para nós é mais do que suficiente.

— Ah! tanto melhor! — bradou o cardeal. — Garantiu a dívida? Muito bem...   Mas como?

— Da maneira mais simples e mais delicada, — tornou o joalheiro, .— da maneira mais real possível.

— Por intermédio daquela espirituosa condessa, talvez?

— Não, Monsenhor.   A Sra. de Motte nem sequer apareceu e foi isso o que mais nos lisonjeou, ao Sr. Bossange e a mim.

— Não apareceu!   A condessa não apareceu?...     Entretanto, ela representa um papel importantíssimo em tudo isto, Sr. Boehmer! Toda boa inspiração deve emanar da condessa.   Compreendei, aliás, que não quero com isso diminuir a iniciativa de Sua Majestade.

— Avalie Vossa Eminência a delicadeza e a bondade de Sua Majestade para conosco.   Espalharam-se rumores sobre a recusa do rei de ordenar o adiantamento das quinhentas mil libras; escrevemos uma carta a Sra. de La Motte.

— Quando?

— Ontem, Monsenhor.

— Que respondeu ela?

— Vossa Eminência não sabe? — volveu Boehmer com uma nuança imperceptível de respeitosa familiaridade.

— Não, faz três dias que não tenho a honra de ver a Sra.Condessa, — replicou o príncipe, principescamente.

— Pois bem, Monsenhor, a Sra. de La Motte respondeu apenas esta palavra:   Esperai!

— Por escrito?

— Não, de viva voz.   Na carta pedíamos a Sra. de La Motte que vos solicitasse uma audiência e avisasse a rainha de que o dia do vencimento estava próximo.

— A palavra esperai era perfeitamente natural, — observou o cardeal.

— Esperamos, portanto, Monsenhor, e, ontem à noite, por um correio muito misterioso, recebemos um escrito da rainha.

— Um escrito?   Para vós, Boehmer?

— Ou melhor, um reconhecimento de dívida com todos os ff e rr, Monsenhor.

— Vejamo-lo! — pediu o cardeal.

— Eu o mostraria de bom grado a Vossa Eminência se não tivéssemos jurado, meu sócio e eu, de o não mostrar a ninguém.

— Por quê?

— Porque a reserva nos foi imposta pela própria rainha, Monsenhor.   Sua Majestade pede-nos segredo.

— Ah! isso é outra coisa!   Tendes a felicidade, senhores joalheiros, de receber cartas da rainha.

— Por um milhão, trezentos e cinqüenta mil libras, Monsenhor, — observou, escarninho, o joalheiro, — podem-se receber...

— Nem dez milhões, nem cem milhões pagam certas coisas, senhor, — revidou, severo, o prelado. — Enfim, estais bem garantidos?

— O quanto possível, Monsenhor.

— A rainha reconhece a dívida?

— Legal e devidamente.

— E compromete-se a pagar...

— Dentro em três meses quinhentas mil libras;   o resto, no semestre seguinte.

— E... os juros?

— Oh! Monsenhor, uma palavra de Sua Majestade os garante. "Façamos", acrescenta, bondosa, "façamos o negócio entre nós"; entre nós, Vossa Excelência há de compreender a recomendação; "não tereis ocasião de arrepender-vos".   E assina!   Como vê, Monsenhor, isso se tornou para meu sócio e para mim um caso de honra.

— Estamos quites, então, Sr. Boehmer, — acudiu o cardeal, encantado; — logo faremos outro negócio.

— Quando Vossa Eminência houver por bem honrar-nos com a sua confiança.

— Mas observai ainda nisto a mão da amável condessa...

— Ficamos imensamente reconhecidos a Sra. de La Motte, Monsenhor, e já decidimos, o Sr. Bossange e eu, premiar-lhe o interesse quando o colar, integralmente pago, nos deixar algum dinheiro em caixa.

— Pssiu! pssiu! — fêz o cardeal, — não compreendestes.

E voltou ao carro, escoltado pelo respeito de toda a casa.

   Podemos agora erguer a máscara. O véu não ficou sobre a estátua para ninguém. O que Joana de La Motte fêz contra a benfeitora, já o compreenderam todos ao vê-la pedir emprestada a pena do panfletário Reteau de Villette. Os joalheiros não tinham mais inquietações, a rainha não tinha mais escrúpulos, o cardeal não tinha mais dúvidas. Calcularam-se três meses para a perpetração do roubo e do crime; nesses três meses, os frutos sinistros terão madurado suficientemente para que os colha a mão celerada.

   Joana voltou à casa do Sr. de Rohan, que lhe perguntou como se houvera a rainha para abrandar as exigências dos lapidários.

   Respondeu a Sra. de La Motte que a rainha lhes fizera uma confidência; recomendara-lhes segredo; uma rainha que paga já tem muita precisão de esconder-se, mas essa precisão é bem maior quando se vê na contingência de solicitar crédito.

   Conveio o cardeal em que ela tinha razão e, ao mesmo tempo, lhe perguntou se ainda não haviam sido esquecidas as suas boas intenções dele.

   Joana bosquejou um quadro tão vivo do reconhecimento da soberana, que o Sr. de Rohan ficou muito mais eufórico como apaixonado do que como súdito; e muito mais lisonjeado em seu orgulho do que em seu devotamento.

   Levando por esse caminho a conversação, decidira Joana voltar tranqüilamente para casa, entender-se com o negociante de jóias, vender cem mil escudos de brilhantes e partir para a Inglaterra ou para a Rússia, países livres, onde viveria faustosamente com o dinheiro durante uns cinco ou seis anos, ao cabo dos quais, sem ser incomodada, começaria a vender, com lucro, aos poucos, o resto das pedras.

   Mas nem tudo correu de acordo com os seus desejos. Diante dos primeiros brilhantes que mostrou a dois peritos, a surpresa destes últimos e dos auxiliares foi tamanha que assustou a vendedora. Um oferecia somas ridículas, extasiava-se o outro diante das pedras, jurando que nunca as vira iguais senão no colar de Boehmer.

   Deteve-se Joana. Se desse mais um passo, acabar-se-ia traindo. Compreendeu que uma imprudência era a ruína, e que a ruína era o pelourinho e a prisão perpétua. Guardando os brilhantes no mais secreto de seus esconderijos, decidiu munir-se de armas defensivas tão sólidas e ofensivas tão afiladas que, em caso de guerra, fosse vencido de antemão quem quer que se apresentasse ao combate.

   Bordejar entre os desejos do cardeal, que buscaria sempre saber, e as indiscrições da rainha, que sempre se gabaria de haver recusado, era um perigo terrível. Bastaria uma palavra trocada entre a soberana e o prelado para que tudo se descobrisse. Reconfortou-se ao pensar que o cardeal, enamorado da rainha, como todos os apaixonados tinha uma venda nos olhos e, por conseguinte, cairia em quaisquer ciladas que lhe armasse a astúcia com aparências de amor.

   Cumpria, porém, que a cilada fosse urdida por mão hábil, a fim de que nela caíssem os dois interessados. Era mister que a rainha, descobrindo o roubo, não ousasse queixar-se, e o cardeal, descobrindo o logro, se sentisse perdido. Era preciso tramar um golpe de mestre para lançá-lo contra dois adversários que, de antemão, tinham por si toda a plateia.

   Joana não recuou. Possuía uma dessas naturezas intrépidas, que levam o mal até ao heroísmo, e o bem até ao mal. A partir desse momento, um único pensamento a preocupou: impedir uma entrevista entre Luís e Maria Antonieta.

   Enquanto ela, Joana, ficasse entre ambos, nada estaria perdido; mas se, à sua revelia, eles viessem a trocar uma palavra, bastaria essa palavra para arruinar-lhe à futura fortuna, edificada sobre a inocuidade do passado.

— Não se verão mais, — decidiu. — Nunca.

   "No entanto, objetava, o cardeal há de querer rever a rainha e tentará fazê-lo.

   "Não esperemos que o tente; inspiremos-lhe a idéia. Que êle queira vê-la; que o peça; que se comprometa ao pedi-lo.

"Sim, mas e se êle fôr o único a comprometer-se?"

Essa idéia produziu-lhe uma dolorosa perplexidade.

   "Se apenas êle se comprometesse, a rainha continuaria de posse de todos os seus recursos; e ela fala tão alto! arranca tão bem a máscara aos velhacos!

   "Que fazer? Para que Maria Antonieta não pudesse acusar, era preciso fechar-lhe a boca; e para fechar-lhe a boca nobre e corajosa, urgia embargá-la com a iniciativa de uma acusação.

   "Diante de um tribunal, não se atreve a acusar o criado de furto quem pode ser acusado pelo criado de um crime tão infamante quanto o roubo. Se o Sr. de Rohan ficar comprometido em relação à rainha, é quase inevitável que a rainha fique comprometida em relação ao Sr. de Rohan.

   "Todavia, era indispensável que o acaso não aproximasse as duas criaturas interessadas em desvelar o segredo."

   A princípio, Joana recuou ante a enormidade do rochedo que estava suspendendo sobre a cabeça. Viver assim, ofegante, apavorada, sob a ameaça de uma queda daquelas!

   Sim, mas como fugir à angústia? Fugindo, exilando-se, transferindo para um país estranho os brilhantes do colar da rainha!

   Fugir não seria difícil. Um bom carro o faria em dez horas, ou seja, o espaço de um daqueles bons sonos de Maria Antonieta, o intervalo que põe o cardeal entre uma ceia de amigos e o despertar do dia seguinte. Surja diante de Joana a estrada real; ofereça ela o seu leito interminável às patas árdegas dos cavalos; é o suficiente.   Joana estará livre, sã e salva em dez horas.

   Mas que escândalo! Que vergonha! Desaparecida, embora livre; segura, ainda que proscrita; já não é uma dama de qualidade, senão uma ladra, uma criminosa revel, que a justiça não alcança, mas aponta, que o ferro do carrasco não queima, pois está muito longe, mas que a opinião pública devora e tritura.

   Não. Não fugirá. O cúmulo da audácia e o cúmulo da habilidade são como os dois cimos do Atlas, que semelham os gêmeos da terra. Um leva ao outro; um vale o outro. Quem vê um vê o outro.

   Joana decidiu-se pela audácia e ficou. Decidiu-o principalmente depois de entrever a possibilidade de criar, entre o cardeal e a rainha, uma solidariedade de terror no dia em que descobrissem que se cometera um roubo na sua intimidade.

   Calculara a condessa quanto lhe renderiam, era dois anos, o favor da rainha e o amor do cardeal; avaliara o rendimento dessas duas venturas numas quinhentas ou seiscentas mil libras, depois das quais o tédio, o desfavor, o desamparo a fariam expiar o favor, a voga, a predileção.

   —     Ganho, com o meu plano, seiscentas ou setecentas mil libras, — estimou ela.

   Ver-se-á de que maneira essa alma profunda abriu a estrada tortuosa que deveria levá-la à vergonha, arrastando os outros ao desespero.

   —     Fico em Paris, — resumiu, — e faço pé firme, assistindo ao jogo dos dois atores; deixo-lhes apenas o papel que convém aos

meus interesses; escolho, entre os bons momentos, um momento favorável para a fuga: uma comissão dada pela rainha ou o próprio desvalimento, que aproveitarei tanto que se esboce.

   "Impeço o cardeal de comunicar-se, de qualquer modo, com Sua Majestade."

   Nisso residia a maior dificuldade, visto que o Sr. de Rohan estava apaixonado, era príncipe, tinha o direito de entrar à presença de Maria Antonieta várias vezes por ano, e visto que ela, casquilha, ávida de homenagens e, além do mais, grata ao cardeal, não fugiria de falar-lhe se fosse procurada.

   Mas o meio de separar os dois augustos personagens seria propiciado pelos próprios acontecimentos. E Joana se incumbiria de ajudá-los.

   Nada seria tão bom, nem tão hábil, do que excitar na rainha o orgulho que coroa a castidade. Não havia dúvida alguma de que um passo mais atrevido do prelado feriria a mulher delicada e susceptível. As naturezas assim apreciam as homenagens, mas temem e repelem os ataques.

   Sim, é o meio infalível. Aconselhando o Sr. de Rohan a declarar-se livremente, provocarei no espírito da soberana uma reação de repugnância, de antipatia, que afastará para todo o sempre, não o príncipe da princesa, senão o homem da mulher, o macho da fêmea. Por esse motivo, as armas se voltarão contra o cardeal, cujos movimentos ficarão dessarte, paralisados no dia das hostilidades.

   Seja. Mas ainda assim, tornando o cardeal antipático à rainha, somente êle será prejudicado: resplandecerá a virtude dela, isto é, ficará ela completamente livre e com a faculdade de linguagem que facilita quaisquer acusações e lhes dá o peso da autoridade.

   Era de mister uma prova contra o Sr. de Rohan e contra a rainha; uma espada de dois gumes, que ferisse à direita e à esquerda, que ferisse ao sair da bainha, que ferisse cortando a própria bainha.

   Era de mister uma acusação que fizesse empalidecer a rainha, que fizesse corar o cardeal, e, acreditada, isentasse de qualquer suspeita estranha à condessa, confidente dos dois principais culpados. Era de mister uma combinação que escudasse Joana e lhe permitisse dizer: "Não me acuseis que vos acuso, não me percais que vos perco.   Deixai-me a fortuna, que vos deixarei a honra".

   — Isso vale a pena de ser procurado, — pensou a pérfida condessa, — e hei de procurá-lo. O meu tempo vale ouro a partir de hoje.

   Com efeito, a Sra. de La Motte acomodou-se entre boas almofadas, aproximou-se da janela, acariciada pelo meigo sol, e, em presença de Deus, empunhando o facho de Deus, começou a procurar.

 

         A prisioneira

   DURANTE essas agitações da condessa, durante o seu devanear, uma cena de outra ordem se passava na Rua de São Cláudio, defronte da casa habitada por Joana.

   Como os leitores devem estar lembrados, o Sr. de Cagliostro alojara no antigo palácio de Bálsamo a fugitiva Oliva, perseguida pela polícia do Sr. de Crosne.

   Muito inquieta, a Srta. Oliva aceitara com alegria a ocasião de fugir, ao mesmo tempo, da polícia e de Beausire; vivia, portanto, retirada, escondida, a tremer, na casa misteriosa, que abrigara tantos dramas terríveis, muito mais terríveis do que a tragicômica aventura da Srta. Nicole Legay.

   Cumulara-a Cagliostro de cuidados e atenções: e ela se comprazia de ser protegida pelo grande fidalgo, que nada pedia, mas parecia esperar muita coisa.

   Entretanto, que esperava êle? Eis o que debalde perguntava a si mesma a reclusa.

   Para a Srta. Oliva, o Sr. de Cagliostro, o homem que domara Beausire e triunfara dos agentes de polícia, era um deus salvador. Era também um amante muito apaixonado, porque muito respeitoso.

   Pois o seu amor-próprio não lhe permitia acreditar que Cagliostro não pretendesse torná-la, um dia, sua amante.

   É uma virtude, nas mulheres que a não têm, acreditar que possam ser amadas respeitosamente. Há de estar bem murcho, bem árido, bem morto, o coração que já não espera o amor, nem o respeito que ao amor se segue.

   Oliva, portanto, pôs-se a construir castelos em Espanha, no fundo da sua mansão da Rua de São Cláudio, quiméricos castelos em que o pobre Beausire, força é confessá-lo, raro encontrava lugar.

   Quando, de manhã, cercada de todas as comodidades com que Cagliostro lhe trastejara os toucadores, fazia às vezes de grande dama e recapitulava as nuanças do papel de Celimena, só vivia para o momento em que o fidalgo aparecia, dois dias por semana, a perguntar-lhe se estava suportando facilmente a vida.

   E, no formoso salão, cercada de um luxo real e inteligente, a criaturinha inebriada confessava a si mesma que tudo em sua vida pregressa fora decepção, engano, e, ao contrário do que assevera o moralista: — A virtude faz a felicidade, — é a felicidade que faz, infalivelmente, a virtude.

   Desgraçadamente, porém, faltava à composição daquela felicidade um elemento indispensável à sua duração.

Oliva era feliz, mas entendiava-se.

   Livros, quadros, instrumentos de música, não conseguiam distraí-la de todo. Os livros não eram bastante licenciosos, e os que o eram já tinham sido lidos de um fôlego. Os quadros são sempre iguais depois de vistos pela primeira vez, — o juízo é de Oliva, não é nosso, — e os instrumentos de música desferem apenas um grito, nunca uma voz, para a mão ignorante que os solicita.

   Cumpre dizer que Oliva não tardou em aborrecer-se cruelmente da sua felicidade, e mais de uma vez pensou, com uma saudade molhada de lágrimas, nas boas manhãs passadas à janela da Rua Dauphine, quando, magnetizando a rua com os olhos, obrigava os transeuntes a levantarem a cabeça.

   E os belos passeios no bairro de São Germano, quando o casquilho chapim, erguendo sobre os saltos de duas polegadas um pé voluptuosamente torneado, convertia num triunfo cada um de seus passos e arrancava aos admiradores um gritinho, de medo, quando ela escorregava, ou de desejo, quando, após o pé, surgia a perna!

   Nisso pensava Nicole aferrolhada. É verdade que os agentes do Sr. Chefe de Polícia eram gente temível, é verdade que o hospital, em que se extinguiam as mulheres num sórdido cativeiro, não se podia comparar com a efêmera e esplêndida clausura da Rua de São Cláudio. Mas de que serviria ser mulher e ter o direito do capricho, se não lhe fosse dado insurgir-se, às vezes, contra o bem, para trocá-lo em mal, ao menos em sonho?

   Demais disso, tudo parece negro a quem se aborrece. Nicole sentiu saudades de Beausire depois de as haver sentido da liberdade. Confessemos que nada mudou no mundo feminino, desde o tempo em que as filhas de Judá, na véspera de um casamento de amor, iam chorar a sua virgindade sobre"*a montanha.

   Chegamos a um dia de luto e exasperação em que Oliva, privada, havia duas semanas, de toda e qualquer sociedade, de toda e qualquer paisagem, entrava no mais triste período do mal do enfaro.

   Havendo esgotado tudo, não se atrevendo a mostrar-se à janela nem a sair, começou a perder o apetite do estômago, embora não perdesse o da imaginação, que aumentava, pelo contrário, à proporção que diminuía o outro.

   Foi nesse momento de agitação moral, que recebeu uma visita inesperada de Cagliostro.

   Êle entrou, como de costume, pela porta dos fundos, e foi, pelo jardinzinho recém-traçado nos pátios, bater aos postigos do apartamento dela.

   Quatro pancadas, desferidas nos intervalos por ambos convencionados, eram o sinal previamente combinado para que a jovem abrisse a ferrolho que entendera dever exigir como medida de segurança contra um visitante munido de chaves.

   Não julgava Oliva inúteis as precauções para conservar uma virtude que, em certas ocasiões, lhe pesava.

   Ao sinal dado por Cagliostro, abriu o ferrolho com uma rapidez indicativa da sua necessidade de conversar com alguém.

   Viva como uma costureirinha parisiense, precipitou-se ao encontro do nobre carcereiro e, com voz irritada, rouca, embargada:

—        Senhor, — bradou, — ficai sabendo que me enfastio.

Considerou-a Cagliostro com leve movimento de cabeça.

— Sim? — disse êle, tornando a fechar a porta, — que pena! É um triste mal, minha filha.

— Não gosto daqui.   Sinto-me morrer.

— Deveras!

— Tenho maus pensamentos.

— Ora, essa! — tornou o conde, acalmando-a, como teria acalmado um cão, — se não estais bem em minha casa, não vos zangueis comigo.   Guardai a vossa cólera para o Sr. Chefe de Polícia, que é vosso inimigo.

— O vosso sangue frio me exaspera, — volveu Oliva. — Prefiro uma boa cólera a essas doçuras; sempre encontrais um jeito de acalmar-me e isso me deixa louca da vida.

— Confessai que sois injusta, — respondeu Cagliostro, sentando-se longe dela, com a afetação de respeito ou indiferença, que lhe dava tão bons resultados em suas relações com Oliva.

— Para vós é fácil falar, — disse ela; — chegais, partis, respirais; a vossa vida se compõe de uma série de prazeres que vós mesmo escolheis; mas eu vegeto no espaço que me limitastes; não respiro, tremo.   Previno-vos, senhor, de que a vossa proteção me é inútil senão me impede de morrer.

— Morrer! vós! — tornou o conde, a sorrir, — ora!

— Declaro que estais procedendo muito mal comigo, pois esqueceis que amo profunda e apaixonadamente alguém.

— O Sr. Beausire?

— Beausire, sim. Repito que o amo. Creio que nunca o escondi de vós.   Não haveríeis de esperar, com certeza, que eu esquecesse o meu querido Beausire?

— Tão pouco o esperei, senhorita, que movi céus e terras para ter notícias dele, e aqui as trago.

— Ah! - fêz Oliva.

— O Sr. Beausire, — continuou Caglióstro, — é um rapaz encantador.

— Pudera! — voltou Oliva, sem atinar com as intenções do interlocutor.

— Moço e bem apessoado.

— Não é mesmo?

— Cheio de imaginação.

— De fogo...   Um pouco bruto comigo.   Mas... quem ama, castiga.

— Dizeis muito bem.   Tendes tanto coração quanto espírito e tanto espírito quanta beleza: e eu, que o sei, porque me interesso por todos os amores deste mundo (é uma mania!), pensei em reaproximar-vos do Sr. de Beausire.

— Não era essa a vossa idéia há coisa de um mês, — sobreveio

Oliva, sorrindo com ar constrangido.

— Escutai, minha querida filha, todo homem galante que vê uma moça bonita procura agradar-lhe, quando é livre como eu. Entretanto, acordareis comigo que, se vos cortejei um pouquinho, a minha corte não durou muito.

— É verdade, — conveio Oliva no mesmo tom; — um quarto de hora, se tanto.

— Era muito natural que eu desistisse, vendo o quanto amais o Sr. de Beausire.

— Oh! não caçoeis de mim.

— Não estou caçoando!   Resististes muito bem à minha corte.

— Resisti, não resisti? — exclamou Oliva, encantada por ter sido surpreendida em flagrante delito de resistência. — Sim, confessai que resisti.

— Era uma conseqüência do vosso amor, — tornou, fleumático, Caglióstro.

— Mas o vosso, — revidou Oliva, — nesse caso, não foi muito tenaz.

— Não sou tão velho, nem tão feio, nem tão tolo, nem tão pobre, que me arrisque a sofrer uma recusa ou as possibilidades de uma derrota; percebi que a mim teríeis preferido sempre o Sr. de Beausire e por isso me decidi.

— Oh! não, — acudiu a sécia; — não!   A famosa associação que me propusestes, não estais lembrado? o direito de dar-me o braço, de visitar-me, de cortejar-me sempre com boas intenções, não era acaso um germe de esperança?

   E, dizendo essas palavras, a pérfida queimava com os olhos por muito tempo vadios o visitante, que viera cair-lhe no laço.

   —     Confesso que sois de uma penetração a que nada resiste, — respondeu Caglióstro.

   E fingiu abaixar os olhos para não ser devorado pelo duplo jorro de chamas que despediam as pupilas de Oliva.

   —     Voltemos a Beausire, — disse ela, despeitada pela imobilidade do conde; — onde está êle, que está fazendo o querido amigo?

E Cagliostro, contemplando-a com uns restos de timidez:

— Eu dizia que gostaria de reunir-vos, — continuou.

— Não, não dizíeis isso, — murmurou a moça com desdém; — mas já que o dizeis, tomo-o por dito.   Continuai.   Por que não o trouxestes?   Fora uma obra de caridade.   Êle está livre...

— Porque, — retrucou Cagliostro, sem se admirar da ironia, — o Sr. de Beausire, que é como vós, que tem muito espírito, também anda as voltas com a polícia.

— Também! — rebradou Oliva, empalidecendo, pois dessa vez sentia o som da verdade.

— Também! — repetiu, polido, Cagliostro.

— Que é que êle fêz?... — balbuciou a jovem.

— Uma encantadora falcatrua, um passe de mágica infinitamente engenhoso, uma brincadeira, na minha opinião; mas essa gente taciturna, como o Sr. de Crosne, por exemplo, e sabeis o quanto é pesado o Sr. de Crosne, chama-lhe roubo.

— Um roubo! — exclamou Oliva, espavorida; — santo Deus!

— Aliás, um lindo roubo; o que prova o muito amor do pobre Beausire às boas coisas.

— Senhor... senhor... êle foi preso?

— Não, mas foi denunciado.

— Jurais-me que não foi preso, que não está correndo perigo?

— Posso jurar-vos que não foi preso; mas, no que concerne ao segundo ponto, não tereis a minha palavra.   Sabeis perfeitamente, minha querida filha, que uma pessoa denunciada é seguida, ou pelo menos procurada; ora, com a sua cara, o seu jeito, com todas as suas bem conhecidas qualidades, o Sr. de Beausire, se se mostrar, será imediatamente preado pelos sabujos.   Pensai um pouco na repercussão desse golpe do Sr. de Crosne: prender-vos por intermédio do Sr. de Beausire e prender o Sr. de Beausire por vosso intermédio.

— Oh! sim, sim, êle precisa esconder-se!   Pobre rapaz!   Vou esconder-me também.   Fazei-me sair de França, senhor!   Procurai ajudar-me; porque aqui, vede, encerrada, abafada, eu não resistiria ao desejo de cometer, mais dia menos dia, uma imprudência.

— A que chamais imprudência, minha querida menina?

— Ué... mostrar-me, tomar um pouco de ar.

— Não exagereis, minha boa amiga; já estais muito pálida e acabaríeis perdendo a vossa bela saúde.   O Sr. de Beausire deixaria de amar-vos.   Não; tomai todo o ar que quiserdes, regalai-vos vendo passar alguns rostos humanos.

— Muito bem! — bradou Oliva, — agora ficastes despeitado e quereis desamparar-me.   Estou-vos incomodando, talvez?

— Eu?   Estais louca?   Por que me incomodaríeis? — tornou êle

com glacial seriedade.

— Porque... um homem que gosta de uma mulher, um homem importante como vós, um belo fidalgo como vós, tem o direito de irritar-se, tem até o direito de enfastiar-se, quando repelido por uma louca como eu! Oh! não me deixeis, não me percais, não fiqueis com raiva de mim, senhor!

   E tão aterrada quanto se mostrara garrida, a jovem passou o braço em torno do pescoço de Cagliostro.

— Pobrezinha! — disse o conde, depondo-lhe um casto beijo na testa; — como ela está com medo!   Não façais de mim tão má opinião, minha filha.   Estáveis correndo perigo, eu vos ajudei; eu tinha umas idéias a vosso respeito: perdi-as, acabou-se.   Não vos tenho ódio nem me deveis gratidão.   Procedi de acordo com os meus interesses, procedestes de acordo com os vossos, estamos quites.

— Oh! senhor, quanta bondade!   Como sois generoso!

   E Oliva atirou os dois braços, em vez de um, ao pescoço do fidalgo.

Mas este, olhando para ela com a habitual tranqüilidade:

— Estais vendo, Oliva? — disse êle; — agora me oferecereis o vosso amor, e eu...

— Sim! — tornou ela, muito vermelha.

— Agora me ofereceríeis a vossa adorável pessoa e eu a recusaria, pois só gosto de inspirar sentimentos verdadeiros, puros e despidos de cálculo. Julgastes-me interesseiro, caístes na minha dependência. Neste momento vos cuidais comprometida; eu vos creria mais grata que sensível, mais assustada que amorosa: fique mos como estamos.   Cumpro, assim, o vosso desejo e antecipo-me a todas as vossas delicadezas.

   Oliva deixou pender os formosos braços e afastou-se corrida, humilhada, iludida pela generosidade de Cagliostro, com a qual não contara.

— Dessa maneira, — voltou o conde, — está combinado: considerar-me-eis como amigo, tereis a máxima confiança em mim; usareis minha casa, minha bolsa, meu crédito, e...

— E direi a mim mesma, — atalhou Oliva, — que há neste mundo homens bem superiores a quantos já conheci.

   Pronunciou essas palavras com uma graça e uma dignidade que impressionaram a alma de bronze, cujo corpo outrora se chamara Bálsamo.

   —     Toda mulher é boa, — pensou êle, — quando a gente consegue tocar-lhe a corda que corresponde ao coração.

Logo, abeirando-se de Nicole:

   —     A partir desta noite, habitareis o último andar do palácio. É um apartamento composto de três cómodos colocados a modo de observatório sobre o bulevar e a Rua de São Cláudio. As janelas dão para Ménilmontant e Belleville. Algumas pessoas poderão ver--vos. São vizinhos pacíficos, não os temais. Boa gente sem relações, que nem sequer desconfia da vossa possível identidade. Deixai-vos ver por eles, sem todavia vos expordes e sobretudo sem nunca vos mostrardes aos transeuntes, pois a Rua de São Cláudio é às vezes explorada pelos agentes do Sr. de Crosne; lá, pelo menos, tereis um pouco de sol.

Oliva bateu alegremente as mãos.

— Quereis que eu vos conduza? — propôs Cagliostro.

— Esta noite?

— Claro! esta noite.   Isso vos contraria?

   Oliva encarou profundamente nele. Uma vaga esperança tornou a penetrar-lhe o coração, ou melhor, a vã e pervertida cabecinha.

—        Vamos, — disse ela.

   O conde pegou uma lanterna na antecâmara, abriu diversas portas e, subindo uma escada, chegou, seguido da rapariga, ao terceiro andar, onde entrou no apartamento descrito.

Ela encontrou as dependências mobiliadas, floridas, habitáveis.

— Até parece que eu estava sendo esperada, — observou.

— Vós, não, — tornou o conde; — eu, que gosto da vista desse pavilhão e muitas vezes aqui me deito.

   O olhar de Oliva assumiu as tintas fulvas e fulgurantes que eriçam por vezes as pupilas dos gatos.

   Uma palavra já lhe nascia nos lábios; deteve-a Cagliostro dizendo:

   —     Nada vos faltará; a camareira virá dentro de um quarto de hora.   Boa noite, senhorita.

   E desapareceu, depois de haver feito uma grande reverência, mitigada por um gracioso sorriso.

   A pobre prisioneira deixou-se cair sentada, consternada, aniquilada sobre a cama, já pronta numa elegante alcova contígua.

   —     Não compreendo absolutamente nada do que me está acontecendo, — murmurou, seguindo com os olhos aquele homem real

mente incompreensível para ela.

 

         O observatório

   LIVA deitou-se depois que saiu a camareira mandada por Cagliostro.

   Dormiu pouco, pois os desvairados pensamentos nascidos da sua entrevista com o conde só lhe proporcionaram um sonhar acordada, um sonolento inquietar-se; não dura muito a nossa felicidade quando nos vemos muito ricos ou muito sossegados depois de nos termos visto muito pobres ou muito agitados.

   Oliva lastimou Beausire, admirou o conde, que não compreendia, pois não o julgava tímido nem o supunha insensível. Teve medo de que algum silfo lhe perturbasse o sono e os mínimos ruídos do assoalho lhe provocaram a agitação conhecida de toda heroína de romance, que se deita na Torre do Norte.

   Com a aurora fugiram os terrores, que não deixavam de ter o seu encanto... Nós, que não nos tememos de inspirar suspeitas ao Sr. Beausire, podemos afirmar que Nicole não entreviu a hora da perfeita segurança sem um restinho de vaidoso despeito. Intraduzível matiz para qualquer pincel que não assinasse: Watteau, — e para qualquer pena que não assinasse: Marivaux ou Crébillon Filho.

   Durante o dia, dormiu, saboreando a volúpia de absorver no quarto florido os raios purpurinos do sol nascente, de ver correrem os passarinhos sobre a jardineira da janela, onde as suas asas roçavam com rumores deliciosos as folhas das roseiras e as flores dos jasmineiros de Espanha.

   E foi tarde, bem tarde, que se levantou, depois que duas ou três horas de um sono suave lhe descansaram as pálpebras, depois que, embalada pelos ruídos da rua e pelos aveludados torpores do repouso, se sentiu suficientemente forte para buscar o movimento, forte demais para continuar deitada e ociosa.

   Percorreu, então, todos os cantos do novo apartamento, em que o silfo incompreensível e ignorante não pudera descobrir sequer um alçapão, para vir rodear-lhe a cama batendo as asas; e, no entanto, os silfos daquele tempo, graças ao Conde de Gabalis, nada haviam perdido de sua inocente reputação.

   Surpreendeu as riquezas da nova morada na simplicidade do imprevisto.   Aquele retiro feminino fora, a princípio, um aposento de homem. Lá se encontrava tudo o que nos pode fazer amar a vida, lá se encontravam sobretudo tanta luz e tanto ar que bastariam a converter masmorras em jardins se, alguma vez, pudessem o ar e a luz penetrar num aljube.

   Descrever a alegria infantil, isto é, perfeita, com que ela se atirou ao terraço, deitou-se nas lájeas, entre flores e musgos, à semelhança de uma serpente que deixa o ninho, sem dúvida o faríamos se não precisássemos pintar-lhe os espantos sempre que um movimento lhe descobria um espetáculo inédito.

   A princípio deitada, como dissemos, a fim de não ser vista pelos que passassem, contemplou, entre as grades do balcão, o cimo das árvores dos bulevares, as casas do bairro de Popincourt e as chaminés, brumoso oceano cujas vagas desiguais se encapelavam, à sua direita.

   Inundada de sol, o ouvido atento ao estrépito dos carros que rodavam, um pouco raros é verdade, mas que sempre rodavam pelo bulevar, assim permaneceu, felicíssima, duas horas. Chegou à tomar o chocolate que lhe serviu a camareira ao almoço e leu uma gazeta sem pensar uma vez sequer em olhar para a rua.

Era um prazer perigoso.

   Os sabujos do Sr. de Crosne, cães humanos que viviam com o nariz no ar, podiam vê-la. Que medonho despertar depois de um dormir tão suave!

   Mas a posição horizontal não podia eternizar-se, por melhor que fosse.   Soergueu-se Nicole sobre um cotovelo.

   Viu então as nogueiras de Ménilmontant, as grandes árvores do cemitério, as miríades de casas de todas as cores que subiam a encosta do morro desde Charonne até os outeiros de Chaumont, entre toucas de verdura ou sobre as manchas argilosas das penedias, revestidas de sarças e cardos.

   Aqui e ali, nos caminhos, tênues fitas que ondulavam ao pé dos morrinhos, entre carreiras de vinhedos, nas estradas brancas, desenhavam-se pequeninos seres vivos, camponeses choutando, crianças inclinadas sobre o campo ceifado, vinhateiras descobrindo as uvas ao sol. Essa rusticidade encantou Nicole, que sempre sentira saudades dos formosos campos de Taverney, depois que os deixara em troca daquela Paris tão desejada.

   Acabou-se fartando do campo e, como houvesse tomado uma posição cômoda e segura entre as flores, como pudesse ver sem se arriscar a ser vista, abateu os olhos da montanha para o vale, do longínquo horizonte para as casas fronteiras.

   Em toda à parte, isto é, no espaço que podem compreender três casas, só encontrou janelas fechadas ou pouco convidativas. Aqui, três andares habitados por velhos proprietários, que penduravam as gaiolas na parede ou davam de comer aos gatos dentro de casa; ali, quatro andares nos quais só se via o filho da Auvergne, superior habitante, pois os outros locatários pareciam estar ausentes, tendo viajado para algum lugar. Enfim, um pouco mais à esquerda, na terceira casa, cortinas de seda amarela, flores, e, como para acentuar o bem-estar, uma poltrona macia, à beira da janela, parecia estar à espera do seu sonhador ou da sua sonhadora.

   Oliva cuidou distinguir na sala, cuja obscuridade realçava o sol, uma espécie de sombra ambulante de movimentos regulares.

   Conteve a impaciência, escondeu-se melhor e, chamando a camareira, entabulou conversação com ela, trocando os prazeres da solidão pelos da sociedade de uma criatura pensante e sobretudo falante.

   A camareira, porém, contra todas as tradições, mostrou-se reservada. Disposta a explicar a paisagem à ama, Belleville, Charonne e o Père-Lachaise, disse o nome das igrejas de Santo Ambrósio e São Lourenço, e indicou a curva do bulevar e a sua inclinação no sentido da margem direita do Sena; mas quando o assunto descambou para os vizinhos, fechou-se em copas: ela só conhecia a patroa.

   Por conseguinte, o apartamento claro-escuro, com cortinas de seda amarela, não foi explicado à Oliva. Nem a sombra ambulante, nem a poltrona.

   Mas se Oliva não teve a satisfação de conseguir informes sobre a vizinha, pôde pelo menos prometer a si mesma tratar relações com ela por iniciativa própria. Mandou embora a discretíssima criada para entregar-se, sem testemunhas, à sua exploração.

   Ensejou-se-lhe pouco depois a ocasião. Os vizinhos começaram a abrir as portas, para a sesta após o jantar e para o passeio a Place-Royale e ao Caminho Verde.

   Oliva contou-os. Eram seis, bem diversos uns dos outros, como convém a habitantes da Rua de São Cláudio.

   Passou parte do dia estudando os seus gestos e os seus hábitos. Passou revista a todos, exceto à sombra agitada que, sem mostrar o rosto, fora enterrar-se na poltrona ao pé da janela, absorta num imóvel cismar.

   Era uma mulher. Entregara a cabeça à cabeleireira, que, durante hora e meia, lhe construíra sobre o crânio e as têmporas um desses edifícios babilônicos nos quais entravam minerais, vegetais, e onde teriam entrado animais, se nisso se houvesse metido Leonardo e se uma mulher daquela época consentisse em fazer da cabeça uma arca de Noé.

   Penteada, empoada, vestida e enfeitada, a mulher voltara a instalar-se na poltrona, com o pescoço apoiado em duríssimos travesseiros, a fim de que aquela parte bastasse a sustentar o equilíbrio do corpo inteiro e permitisse ao monumento da cabeleira continuar intacto, sem se preocupar com os terremotos que pudessem agitar--lhe a base.

   A mulher imóvel lembrava os deuses indianos pregados nos seus andores, e cujos olhos fixos, graças à concentração do pensamento, são os únicos órgãos capazes de movimento. Conforme as necessidades do corpo ou o capricho do espírito, sentinelas e bons servidores ativos, faziam sozinhos todo o serviço do ídolo.

   Oliva observou como era formosa a dama assim penteada, como era delicado e espiritual o seu pèzinho, pousado sobre o bordo da janela e equilibrado por uma chinelinha de cetim cor-de-rosa. Admirou-lhe os contornos do braço e do colo, que repelia o corpinho e o roupão.

   O que mais a impressionou, porém, foi a profundeza do pensamento, sempre dirigido para um alvo invisível e vago, e tão imperioso que condenava o corpo à imobilidade, aniquilando-o por obra da vontade.

   Essa mulher, que nós reconhecemos, mas que Oliva não podia reconhecer, não desconfiava de que pudesse ser vista. Diante das suas janelas, nunca se abrira janela alguma. O palácio do Sr. de Cagliostro, a despeito das flores que Nicole encontrara, das aves que vira voar, nunca revelara seus segredos a ninguém, e, salvante os pintores que o tinham restaurado, nenhum ser vivo se mostrara à janela.

   Para explicar o fenômeno, contrariado pela presença esporádica de Cagliostro no pavilhão, bastará uma palavra. Durante à tarde, o conde mandara preparar o apartamento para Oliva, como teria mandado prepará-lo para si. Êle, por assim dizer, mentira a si mesmo, tão bem haviam sido executadas as suas ordens.

   A dama da bela cabeleira permanecia, portanto, mergulhada nos seus pensamentos e Oliva imaginou que a venosa criatura, sonhando assim, sonhava com amores contrariados.

   Simpatia na beleza, simpatia na solidão, na idade, no tédio, quantos laços para ligar duas almas que porventura se buscavam, graças às combinações misteriosas, irresistíveis e intraduzíveis do Destino!

   Desde que viu a solitária pensativa, Oliva não pôde despregar os olhos dela.

   Havia uma espécie de pureza moral naquela atração da mulher para a mulher. Essas delicadezas são mais comuns do que geralmente se crê entre as infelizes criaturas cujo corpo é o agente principal das funções da vida.

   Pobres exiladas do paraíso espiritual, lamentam os jardins perdidos e os anjos risonhos escondidos debaixo das místicas folhagens.

   Oliva imaginou encontrar uma irmã de sua alma na bela reclusa. Construiu um romance semelhante ao seu romance, na suposição ingênua de que uma mulher não podia ser bonita, elegante, e viver perdida na Rua de São Cláudio sem que alguma grave inquietude lhe roesse o coração.

   Depois de forjar com bronze e brilhantes a sua fábula romanesca, como todas as naturezas excepcionais, deixou-se Oliva arrebatar pela própria criação; tomou asas para correr, espaço a fora, à frente da companheira, à qual, na sua impaciência, teria desejado emprestar asas iguais às suas.

   Mas a dama do monumento não se mexia: parecia toscanejar na poltrona. Duas horas se passaram sem que se lhe tivesse podido notar a menor oscilação.

   Desesperava-se Oliva. Não teria feito para Adónis nem para Beausire a quarta parte do que fêz para chamar a atenção da desconhecida.

   Cansando-se e passando da ternura ao ódio, abriu e fechou dez vezes a janela; dez vezes espantou os passarinhos entre as folhagens, fazendo gestos telegráficos de tal modo comprometedores, que o mais obtuso dos instrumentos do Sr. de Crosne, passando naquele instante pelo bulevar ou pela esquina da Rua de São Cláudio, não teria deixado de observá-los e de preocupar-se com eles.

   Por fim, chegou a persuadir-se de que a dama das belas tranças vira perfeitamente todos os seus gestos, compreendera todos os seus sinais, mas desdenhara-os; devia de ser, portanto, uma vaidosa ou uma idiota. Idiota! com olhos tão finos, tão espirituais, com o pé tão móvel, a mão tão inquieta!   Impossível.

Vaidosa, sim; vaidosa como podia ser naquela época uma mulher da alta nobreza em relação a uma burguesa.

   Descobrindo na fisionomia da mulher todos os caracteres da aristocracia, concluiu que era orgulhosa e impossível de comover-se.

Desistiu.

   Virando as costas com um amuo encantador, voltou a entregar-se ao sol, que principiava a declinar, volvendo à sociedade das flores, agradáveis companheiras que, nobres também, elegantes também, também empoadas e castilhas como as grandes damas, não obstante se deixam tocar, respirar, e retribuem, com perfume, frescor e frementes contactos, o beijo da amizade ou o beijo do amor.

   Não sabia que a pretensa orgulhosa era Joana de Valois, Condessa de La Motte, que, desde a véspera, procurava uma idéia;

   Que essa idéia tinha por escopo impedir que se vissem Maria Antonieta e o Cardeal de Rohan;

   Que um interesse ainda maior exigia que o cardeal, embora deixasse de ver a rainha em particular, acreditasse firmemente que a via sempre e, por conseguinte, satisfeito com essa visão, cessasse de reclamar a vista real.

   Idéias graves, desculpas muito legítimas para aquela preocupação de uma mulher em não mexer a cabeça durante duas horas mortais.

   Se Nicole soubesse de tudo isso, não se teria, colérica, refugiado entre as flores.

   Não teria, ao fazê-lo, derrubado do balcão um pote de fraxi-nelas, que foi cair na rua deserta com medonho estardalhaço.

   Assustada, procurou verificar a extensão dos estragos que causara.

   A dama preocupada despertou com o barulho, viu o pote na calçada e, passando do efeito à causa, ergueu os olhos da calçada para o terraço da casa fronteira.

E viu Oliva.

   Ao vê-la, soltou um grito selvagem, de terror, um grito que terminou num movimento rápido de todo o corpo tão teso e tão frio pouco antes.

   Os olhos de ambas afinal se encontraram, interrogaram, interpenetraram.

Joana gritou primeiro:

—        A rainha!

   Logo, de repente, juntando as mãos e franzindo o cenho sem ousar mexer-se, receosa de que lhe fugisse a estranha visão:

   —     Oh! — murmurou, — eu estava buscando um meio; encontrei-o!

   Nesse momento, Oliva percebeu um rumor atrás de si e voltou-se, rápida.

O conde, no quarto, observara a troca de reconhecimentos.

—        Viram-se! — murmurou êle.

A rapariga afastou-se bruscamente do balcão.

 

         Vizinhas

   A PARTIR do momento em que as duas mulheres se avistaram, Oliva, já fascinada pela graça da outra, não mais fingiu desdenhá-la; e, voltando-se com precaução no meio das flores, respondeu com sorrisos aos sorrisos que recebia.

   Ao visitá-la, Cagliostro não deixara de recomendar-lhe a maior das circunspecções.

—        Sobretudo, — dissera, — não vos entendais com os vizinhos.

   Caíra a recomendação como sinistro granizo na cabeça da rapariga, para a qual já representavam doce ocupação os gestos e saudações da condessa.

   Não se entender com os vizinhos era voltar as costas à encantadora mulher, de olhos tão brilhantes e tão doces, de tão sedutores movimentos, era descontinuar um comércio telegráfico sobre a chuva e o bom tempo, era brigar com uma amiga. Pois, na sua imaginação, Joana já se constituíra num objeto curioso e querido.

   A astuta respondeu ao protetor que não lhe desobedeceria, que não manteria comércio nenhum com a vizinhança. Mas tanto que o viu pelas costas, acomodou-se no balcão de modo que absorvesse toda a atenção da vizinha.

   Esta, como se há de imaginar, não queria outra coisa, pois já aos primeiros sinais desmanchou-se em saudações e beijos atirados com a ponta dos dedos.

   Oliva correspondeu da melhor maneira possível a essas amabilidades; observou que a desconhecida não saía mais da janela; e que, sempre atenciosa no mandar um adeus ao sair, ou um bom dia ao chegar, parecia haver concentrado todas as suas faculdades amativas no balcão fronteiro.

   A esse estado de coisas deveria seguir-se prestesmente uma tentativa de aproximação.

Eis o que aconteceu:

   Vindo ver Oliva dois dias depois, queixou-se Cagliostro de uma visita que teria sido feita ao palácio por uma desconhecida.

— Como assim? — perguntou a moça, corando um pouco.

— Sim, — esclareceu o conde, — uma dama muito bonita, jovem, elegante, apresentou-se e falou com um lacaio, atraído pela sua insistência em tocar a campainha, perguntando-lhe por uma jovem que mora no pavilhão do terceiro andar: o vosso apartamento, minha cara! Essa mulher, seguramente, estava-se referindo a vós. Queria ver-vos. Portanto, vos conhece; portanto, deseja de vós alguma coisa; portanto, fostes descoberta. Cuidado! que a polícia tem espias femininos como tem agentes masculinos, e desde já declaro que não poderei recusar-me a entregar-vos se assim me pedir o Sr. de Crosne.

   Em vez de assustar-se, Oliva reconheceu a vizinha pela descrição, ficou-lhe imensamente grata, e, decidida a manifestar o seu agradecimento por todos os meios possíveis, dissimulou.

— Não estais com medo? — insistiu Cagliostro.

— Ninguém me viu, — replicou Nicole.

— Nesse caso, não éreis vós a pessoa procurada?

— Acho que não.

— Mas, para adivinhar que há uma mulher nesse pavilhão...

Cuidado! cuidado!...

— Ora, Sr. Conde, — argumentou Oliva, — como poderei ter medo?   Se me viram, o que não creio, não tornarão a ver-me; e ainda que me tornassem a ver, seria de longe: a casa é impenetrável, não é?

— Impenetrável, — assentiu o conde, — pois a menos de escalar o muro, o que não é fácil, ou de abrir o portãozinho com uma chave igual à minha, o que é difícil, visto que a não largo nunca...

   E mostrava a chave que lhe servia para entrar pela porta dos fundos.

   —     Ora, — continuou, — como não tenho interesse em perder-vos, não a emprestarei a ninguém; e como para vós não haveria vantagem alguma em cair nas mãos do Sr. de Crosne, não permitireis que escalem o vosso muro.   Dessarte, minha querida filha, estais avisada, arranjai-vos como quiserdes.

   Desfez-se Oliva em protestos de todo o género, e deu-se pressa a despachar o conde, que não teimou em ficar.

   No dia seguinte, desde as seis da manhã, estava no balcão, aspirando o ar puro dos pomares vizinhos e espichando um olhar curioso para as janelas fechadas da sua cortês amiga.

   Esta, que nunca se levantava antes das onze, mostrou-se incontinenti. Dir-se-ia que estivesse espreitando, atrás das cortinas, a ocasião para mostrar-se.

   Cortejaram-se e Joana esticou a cabeça para fora da janela e olhou em torno, verificando se alguém poderia ouvi-la.

   Ninguém apareceu. Não somente a rua, mas até as janelas das casas estavam desertas.

   Levou as mãos à boca a modo de alto-falante e, com a entonação vibrante e firme que, sem ser um grito, repercute mais que o estrondo da voz, disse:

— Eu quis visitar-vos, senhora.

— Pssiu! — fêz Oliva, recuando assustada.

E pôs um dedo nos lábios.

   Joana mergulhou também atrás das cortinas acreditando na presença de algum indiscreto; mas reapareceu pouco depois, tranquilizada pelo sorriso de Nicole.

— Não posso ver-vos? — voltou.

— Infelizmente não! — respondeu a outra, com um gesto.

— Posso escrever-vos?

— Oh! — bradou Oliva, espavorida.

Joana refletiu por alguns momentos.

   Para agradecer-lhe a terna solicitude, Oliva mandou-lhe um beijo encantador. Joana devolveu-o em dobro; depois, fechando as janelas, saiu.

   Oliva cuidou consigo só que a amiga encontrara algum novo recurso, pois julgara ver-lhe a imaginação transluzir no seu último gesto.

   A condessa voltou, de fato, duas horas depois; o sol estava a pino; a calçada da rua ardia como a areia de Espanha durante o fuego.

   Oliva viu assomar à janela a vizinha com uma balestra. Joana, rindo-se, fêz-lhe sinal que se afastasse.

   Oliva obedeceu, rindo também, e refugiou-se atrás do postigo. Visando com cuidado, Joana atirou uma balinha de chumbo, que, infelizmente, em vez de transpor o balcão, foi bater-lhe numa das barras de ferro e caiu na rua.

   Oliva soltou um grito de desapontamento. A condessa deu de ombros com raiva, relanceou a vista pela rua, à procura do projétil e desapareceu durante alguns minutos.

   Oliva, debruçada, olhava para baixo do balcão; uma espécie de trapeiro passou, esgarafunhando à direita e à esquerda: viu ou não viu a balinha na enxurrada? Oliva não ficou sabendo; escondeu-se para não ser vista também.

A segunda tentativa de Joana foi mais feliz.

   A balestra atirou fielmente, adiante do balcão, no interior do quarto de Nicole, uma segunda bala, à volta da qual estava enrolado um bilhete redigido nestes termos:

"Interessais-me, bela dama. Acho-vos encantadora e gosto de vós só de ver-vos. Estais, acaso, prisioneira? Sabeis que debalde tentei visitar-vos? O feiticeiro que vos mantém guardada à vista deixar--me-á alguma vez, aproximar-me de vós para dizer-vos quanta simpatia me inspira uma pobre vítima da tirania dos homens?

"Como vedes, tenho imaginação suficiente para pôr a serviço de minhas amizades. Quereis ser minha amiga? Parece que não podeis sair; mas podeis escrever, sem dúvida, e, como saio quando quero, esperai a minha passagem debaixo do vosso balcão e atirai-me a resposta.

"Se acontecer que o processo da balestra se revele perigoso e seja descoberto, adotaremos um meio mais fácil de correspondência. Deixai pender do alto do balcão, à boca da noite, um novelo de linha; amarrai nele o vosso bilhete. Substitui-lo-ei pelo meu e podereis erguê-lo sem que ninguém vos veja.

"Lembrai-vos de que, se os vossos olhos não mentem, conto com um pouco da amizade que me inspirastes; juntas, venceremos o universo.

"Vossa amiga.

"P. S.   Vistes alguém apanhar o meu primeiro bilhete?".

   Joana não assinara; chegara até a disfarçar a letra.

   Oliva estremeceu de alegria ao receber aquela cartinha. Respondeu-lhe com esta:

"Gosto de vós como gostais de mim. Sou, com efeito, vitima da maldade dos homens. Mas aquele que aqui me retém é um protetor, não é um tirano. Vem visitar-me em secreto uma vez por dia. Explicar-vos-ei tudo isso mais tarde. Â balestra prefiro o bilhete na ponta da linha.

"Infelizmente não posso sair: estou fechada à chave; mas é para o meu bem. Oh! quanta coisa eu teria para dizer-vos se tivesse um dia a felicidade de conversar convoscol Há tantos pormenores que não se podem escreverl

"O vosso primeiro bilhete não foi apanhado por ninguém, senão por um miserável trapeiro que estava passando; mas essa gente não sabe ler e, para ela, chumbo é chumbo.

"Vossa amiga,

"OLIVA LEGAY"

Oliva assinou com todas as forças.

   Fêz à condessa o gesto de desenrolar um novelo; depois, esperando que chegasse a noite, deixou cair a linha até ao meio da rua.

   Debaixo do balcão, a condessa agarrou a linha e arrancou-lhe o bilhete, com movimentos que a correspondente percebeu através do fio condutor; depois, voltou para casa a fim de lê-lo.

   Volvida meia hora, amarrava ao bem-aventurado fio outro escrito, em que se continham estas palavras:

"A gente faz o que quer. Não sois guardada à vista, porque vos vejo sempre só. Portanto, deveis ter a máxima liberdade para receber as pessoas e até para sair. Como se fecha a vossa casa? A chave? Quem fica com ela? O homem que vai visitar-vos? E êle guarda essa chave com tanto zelo que não podeis furtar-lha nem tomar-lhe a impressão? Não estareis procedendo mal; estareis apenas procurando obter algumas horas de liberdade, de bons passeios pelo braço de uma amiga que vos consolará de todos os infortúnios e vos dará muito mais do que perdestes. Estareis até, se quiserdes, conquistando a vossa completa liberdade. Trataremos desse assunto minuciosamente na primeira entrevista que tivermos."

   Oliva devorou o bilhete. Sentia subir-lhe às faces a febre da independência, ao coração a volúpia do fruto proibido.

   Observara que o conde, cada vez que entrava no apartamento, trazendo-lhe um livro ou uma jóia, colocava a lanterna surda sobre a cómoda, e a chave sobre a lanterna.

   Preparou de antemão um pedaço de cera, na qual tomou a impressão da chave na primeira visita de Cagliostro.

   Este não voltou a cabeça uma vez sequer; enquanto ela realizava a operação, contemplava, no balcão, as flores recém-desabro-chadas. Oliva, por conseguinte, pôde levar a cabo o seu projeto sem maiores dificuldades.

   Depois que o conde partiu, fêz descer numa caixa a impressão da chave, que Joana recebeu com um bilhetinho.

   E já no dia seguinte, cerca do meio-dia, a balestra, meio extraordinário e expedito, que representava para a correspondência pelo fio o que representa o telégrafo para o correio a cavalo, atirou-lhe um bilhete que dizia deste teor:

"Minha querida, esta noite às onze horas, depois que o vosso ciumento tiver partido, descereis, abrireis os ferrolhos e estareis nos braços daquela que se diz vossa terna amiga."

A rapariga estremeceu muito mais de alegria do que já lhe sucedera ao receber os mais ternos bilhetes de Gilberto, na primavera dos primeiros amores e dos primeiros encontros.

   Desceu às onze horas sem haver observado suspeita alguma da parte do conde. Em baixo encontrou Joana, que a conchegou terna-mente de si e fê-la subir num carro que estava esperando no bulevar e, aturdida, palpitante, inebriada, deu com a amiga um passeio de duas horas, durante as quais segredos, beijos e projetos de futuro se trocaram, sem interrupção, entre as duas companheiras.

   Foi Joana quem a persuadiu a entrar, para não despertar suspeita alguma no espírito do protetor. Acabava de saber que esse protetor era Cagliostro. Temia o génio daquele homem e só via segurança para os seus planos no mais profundo mistério.

   Oliva entregara-se sem reservas; Beausire, a polícia, tudo confessara.

   Joana fizera-se passar por uma moça de qualidade, que vivia com um amante à revelia da família.

   Uma sabia tudo, a outra tudo ignorava; tal era a amizade jurada entre as duas mulheres.

   A partir desse dia não tiveram elas precisão da balestra nem do novelo de linha, pois Joana ficara com a chave e fazia descer a rapariga a seu talante.

   Uma boa ceia, um passeio furtivo, eram os engodos com que sempre lograva apanhá-la.

— O Sr. de Cagliostro ainda não descobriu nada? — perguntava, às vezes, inquieta.

— Ainda que eu lho contasse êle não acreditaria, — respondia Oliva.

   Oito dias de escapadas noturnas acabaram formando um hábito, uma necessidade e, mais do que isso, um prazer. Ao fim desse tempo, o nome de Joana se achava nos lábios de Oliva com muito maior frequência do que já se tinham achado os de Gilberto e Beausire.

 

         O encontro

   ASSIM que o Sr. de Charny chegou às suas terras e se trancou em casa, após as primeiras visitas, o médico lhe ordenou que não recebesse mais ninguém e não saísse dos seus aposentos. A ordem foi executada com tamanho rigor, que nenhum habitante do cantão pôs os olhos no herói do combate naval que tanto barulho fizera em França, e que todas as moças, sabendo-o bravo e belo ansiavam por ver.

   Charny, entretanto, não estava tão doente quanto se propalava. Só lhe doíam o coração e a cabeça. Mas como doíam, santo Deus! Uma dor aguda, ininterrupta, implacável, a dor de uma lembrança adurente, a dor de uma saudade lacerante.

   O amor não passa de uma nostalgia: o ausente chora um paraíso ideal, em vez de chorar uma pátria material; de resto, não se pode admitir, por mais que se goste de poesia, que a mulher amada não seja um paraíso um pouco menos ideal que o dos anjos.

   O Sr. de Charny não aguentou três dias. Furioso ao ver os seus sonhos derrotados pela impossibilidade, apagados pelo espaço, mandou divulgar em todo o cantão a ordem já citada do médico; em seguida, confiando a guarda de suas portas a um criado experimentado, partiu à noite de casa, num cavalo macio e rápido, e chegou, oito horas depois, a Versalhes, onde alugou uma casinha atrás do parque por intermédio do seu camareiro.

   Abandonada após a morte trágica de um dos fidalgos montei-ros que nela se degolara, a casa convinha admiravelmente ao rapaz, desejoso de esconder-se melhor do que em suas terras.

   Bem mobiliada, tinha duas portas, uma que dava para uma rua deserta, e a outra para o caminho que circundava o parque; e das janelas do sul, poderia saltar Charny para as alamedas das Carpas, pois, abrindo os postigos cercados de vides e de heras, eram as janelas realmente portas à altura de um rés-do-chão pouco elevado para quem quisesse, num pulo chegar ao parque real.

   Essa vizinhança, já então bem rara, era o privilégio de um inspetor de caça, que assim podia, sem sair dos seus cómodos, vigiar os cervos e faisões de Sua Majestade.

   Quem visse as janelas alegremente enquadradas pela basta folhagem, imaginaria ver o melancólico monteiro, numa tarde de outono, debruçado na do meio, enquanto as corças, fazendo estalar as pernas finas sobre as folhas secas, brincavam no fundo das moitas, sob um raio fulvo de sol poente.

   A solidão agradou-lhe acima de todas as outras coisas. Seria, acaso, amor à paisagem?   É o que logo veremos.

   Depois que se instalou, que tudo ficou bem fechado, que o criado despistou as curiosidades respeitosas da vizinhança, Charny, esquecido e esquecendo, passou a levar uma vida cuja simples ideia fará estremecer quem quer que, em sua passagem pela terra, tenha amado ou ouvido falar de amor.

   Em menos de quinze dias conheceu todos os hábitos do castelo e dos 'guardas, as horas em que o pássaro vem beber nos charcos, em que passa o veado espichando a cabeça assustada. Conheceu os bons momentos de silêncio, as ocasiões dos passeios da rainha ou de suas damas, o horário das rondas; numa palavra, viveu de longe com os que viviam em Trianon, templo de suas insensatas adorações.

   Como a quadra fosse bela, como as noites suaves e perfumadas dessem maior liberdade aos seus olhos e lhe inculcassem v^gos devaneios à alma, passava boa parte do tempo sob os jasmins da janela, espiando os longínquos rumores que vinham do palácio, e seguindo pelas abertas da folhagem o jogo das luzes postas em movimento até à hora do recolher.

   Mas em pouco tempo se fartou da janela. Sentia-se afastado demais do rumor e das luzes. Saltou de sua casa para o gramado, certo de não encontrar, àquela hora, cachorros nem guardas, e buscou a deliciosa, a perigosa volúpia de ir até à beira da mata, no limite que separa a sombra espessa do esplêndido luar, para interrogar de lá as silhuetas que se agitavam, pálidas e negras, atrás das cortinas brancas da rainha.

Desse modo via-a todos os dias sem que ela o suspeitasse.

   Sabia reconhecê-la a uma distância de um quarto de légua, quando, acompanhada de suas damas ou de algum fidalgo, Maria Antonieta brincava com a sombrinha chinesa que lhe abrigava o largo chapéu enfeitado de flores.

   Nenhum passo, nenhum gesto podia confundir-se com os dela. Conhecia-lhe de cor todos os vestidos e adivinhava, no meio das folhas, a grande capa verde de faixas negras que lhe ondulava ao ritmo castamente sedutor do corpo.

   E quando a visão desaparecia, quando o crepúsculo, espantando os passeadores, lhe permitia espiar, ao pé das estátuas do peristilo, as últimas oscilações da sombra amada, Charny voltava à janela e ficava olhando de longe, por uma fresta que êle mesmo abrira no bosque, a luz cintilante nas vidraças da rainha, depois o apagar-se dessa luz, e passava a viver da recordação e da esperança, como acabava de viver da vigilância e da admiração.

   Uma noite em'que já se havia recolhido, duas horas após o último adeus à sombra ausente, no instante em que o orvalho caído das estrelas começava a destilar as suas pérolas brancas sobre as folhas de hera, Charny já se dispunha a deitar-se, quando o ruído de uma fechadura lhe chegou timidamente aos ouvidos; voltou ao posto de observação e continuou escutando.

   A hora ia adiantada, meia-noite acabava de soar nas paróquias mais afastadas de Versalhes. Espantou-se de ouvir um ruído ao qual não estava acostumado.

   A fechadura rebelde era a de um portãozinho do parque, situado a uns vinte e cinco passos da casa de Oliveiros, que nunca se abria, a não ser nos dias de caçadas importantes para a passagem das cestas em que vinha a caça.

   Observou que os recém-chegados não falavam; tornaram a fechar o portão e entraram na alameda que passava debaixo das janelas de sua casa.

   Os caniçados e pâmpanos pendentes dissimulavam suficientemente os postigos e as paredes para que o não vissem.

   Os' noctâmbulos, aliás, caminhavam depressa e cabisbaixos. Distinguiu-os Charny confusamente no escuro. Entretanto, ao rumor das saias, reconheceu duas mulheres cujos manteletes de seda estremeciam ao contacto das folhas.

   Dobrando a grande alameda diante da janela, as mulheres foram envolvidas por um raio mais livre da lua e Oliveiros quase soltou um grito de alegre surpresa reconhecendo o porte e o penteado de Maria Antonieta, como também a parte inferior de seu rosto, apesar da sombra que nele projetava a aba do chapéu. Ela trazia uma bela rosa na mão.

   Com o coração palpitante, deixou-se escorregar do alto da janela até ao chão. Correu sobre a relva para não fazer barulho, escondendo-se atrás das árvores mais grossas, e seguindo com a vista as duas damas, cujo passo afrouxara cada vez mais.

   Que devia fazer? A rainha tinha uma companheira; não estava correndo perigo algum. Se estivesse sozinha, êle arrostaria todas as torturas do mundo para aproximar-se e dizer-lhe, de joelhos: "Eu vos amo!" Por que não a ameaçaria algum perigo imenso, para que êle pudesse, com a vida, salvar aquela vida preciosa?

   Enquanto pensava em tudo isso, sonhando mil desvairadas ter-nuras, as duas mulheres estacaram de chofre; uma, a menor, disse qualquer coisa à companheira e deixou-a.

   A rainha ficou só; a outra dama estugou o passo na direção de um ponto que Charny ainda não adivinhava. Batendo na areia com o pèzinho, a rainha encostara-se a uma árvore e envolvera-se na capa, cobrindo a cabeça com o capuz que, momentos antes, lhe ondulava em largas pregas sedosas sobre os ombros.

   Quando Charny assim a viu, pensativa e só, deu um salto como se quisesse ir cair-lhe aos pés.

   Mas refletiu que trinta passos pelo menos o separavam dela; que antes de os haver transposto, ela o veria, e, não o reconhecendo, ficaria com medo; gritaria ou fugiria; os seus gritos atrairiam primeiro a companheira, depois os guardas; o parque seria revistado; descobrir-se-ia ao menos o indiscreto, talvez o seu refúgio e, nesse caso, seria o fim do segredo, da felicidade e do amor.

   Soube conter-se e fêz bem, pois assim que logrou reprimir aquele ímpeto irresistível, voltou a companheira da rainha e não voltou só.

   Viu Charny atrás dela, a dois passos, um homem alto, enterrado debaixo de imenso chapéu e perdido entre as dobras de uma capa muito larga.

   O homem, cujo aspecto o fêz estremecer de ódio e de ciúme, não se adiantava como um triunfador. Cambaleante, arrastando o pé com hesitação, parecia tatear no escuro, como se não tivesse por guia senão a companheira da rainha, e por alvo a própria rainha, branca e direita debaixo da árvore.

   Assim que avistou Maria Antonieta, o seu tremor aumentou, Descobriu-se e, por assim dizer, varreu a terra com o chapéu. Continuava a aproximar-se. Charny viu-o penetrar na espessura da sombra, cortejando profundamente e várias vezes.

   Entretanto, a surpresa do rapaz se mudara em estupor. E do estupor não tardaria em passar a outra emoção bem mais dolorosa. Que vinha fazer a rainha no parque a uma hora tão adiantada da noite? Que vinha lá fazer aquele homem? Por que ficara esperando, escondido? Por que o mandara buscar a rainha em vez de ir pessoalmente ao seu encontro?

   Charny quase perdeu a cabeça. Lembrou-se, contudo, de que Maria Antonieta se ocupava de política misteriosa, que a miúdo entabulava intrigas com as cortes alemãs, relações que provocavam os ciúmes do rei, que as proibia terminantemente.

   Talvez o misterioso cavaleiro fosse um emissário de Schoen-brunn ou de Berlim, algum fidalgo portador de secreta mensagem, uma dessas figuras alemãs como as que Luís XVI já não queria encontrar em Versalhes, desde que o Imperador José II tomara a liberdade de enviar à França um curso de filosofia e de política crítica para uso do cunhado, o rei cristianíssimo.

   Essa ideia, semelhante à faixa de gelo aplicada pelo médico a uma testa que arde em febre, refrescou o pobre Oliveiros, devolveu-lhe a inteligência e acalmou-lhe o delírio da primeira cólera. A rainha, de resto, mantinha-se em atitude decente e até digna.

   É verdade que a companheira, colocada a três passos, inquieta, atenta e vigilante como as amigas ou as aias das brincadeiras de Watteau, perturbava com a sua complacente ansiedade as castas interpretações do Sr. de Charny. Mas é também tão perigoso ser surpreendida numa entrevista política quanto é vergonhoso ser surpreendida num encontro de amor. E nada se parece mais com um apaixonado do que um conspirador. Ambos trazem a mesma capa, a mesma suscetibilidade auditiva, a mesma incerteza nas pernas.

Charny não teve muito tempo para aprofundar-se nessas reflexões; volvidos alguns instantes, a criada interrompeu o diálogo. O cavaleiro fêz menção de prosternar-se; fora, sem dúvida, dispensado após a audiência.

   Ocultou-se o rapaz atrás de uma árvore. Seguramente, ao separar-se, o grupo passaria já disperso diante dele. Reter a respiração, pedir aos gnomos e aos silfos que apagassem todos os ecos, quer da terra, quer do céu, era a única coisa que lhe restava fazer.

   Nesse momento julgou ver um objeto claro deslizar ao longo da capa real; o fidalgo inclinou-se rapidamente para o chão, tornou a erguer-se com um movimento respeitoso e fugiu, pois seria impossível qualificar-lhe de outra maneira a rapidez da partida. Deteve-o, porém, na corrida a companheira da rainha, que o chamou com um gritinho; e, quando êle estacou, disse-lhe à meia voz:

—        Esperai.

   Era um cavaleiro muito obediente, pois sobresteve incontinenti e ficou esperando.

   Charny viu então passarem as duas mulheres, de braço dado, a dois passos do seu esconderijo; o ar deslocado pelo vestido da rainha fêz ondular as hastes da relva quase debaixo das suas mãos.

   Sentiu os perfumes que se avezara a adorar: a verbena misturada com resedá; dupla embriaguez para os sentidos e para a memória.

Passaram as mulheres e desapareceram.

   Alguns minutos depois, passou o desconhecido, do qual se esquecera o rapaz enquanto acompanhara a rainha, com os olhos, até ao portão; beijava com frenesi, com loucura, uma rosa fresca, perfumada, que certamente era aquela cuja beleza o impressionara ao ver Maria Antonieta entrando no parque, e que, ainda há pouco, vira cair das mãos da soberana.

   Uma rosa, um beijo naquela rosa! Seriam isso embaixadas e segredos de Estado?

   Charny por pouco não enlouqueceu. Ia precipitar-se sobre o homem, arrancar-lhe a flor, quando voltou a companheira da rainha, gritando:

—        Vinde, Monsenhor!

   Charny acreditou na presença de algum príncipe de sangue e encostou-se à árvore, para não cair semimorto no chão.

   O desconhecido dirigiu-se para o lado da voz e desapareceu com a dama.

 

         A mão da rainha

   QUANDO Charny entrou em casa, arrasado por aquele golpe tremendo, não encontrou forças para lutar contra a nova desgraça que o afligia.

   A Providência reconduzira-o a Versalhes, dera-lhe o precioso esconderijo, unicamente para enciumá-lo e pô-lo na pista de um crime perpetrado pela rainha com desprezo de toda e qualquer probidade conjugal, de toda e qualquer dignidade real, de toda e qualquer fidelidade de amor.

   Não havia dúvida possível de que o homem assim recebido no parque era um novo amante. Na febre da noite, no delírio do desespero, Charny tentou em vão persuadir-se de que o homem que recebera a rosa era um embaixador e de que a rosa não passava de um secreto penhor convencionado, destinado a substituir uma carta demasiado comprometedora.

   Mas nada prevaleceu contra a suspeita. Só restava ao inditoso Oliveiros examinar o próprio procedimento e perguntar a si mesmo por que, em presença de tamanha desgraça, se mantivera tão passivo.

   Depois de alguma reflexão, não havia nada mais fácil do que compreender a causa daquela passividade.

   Nas crises mais violentas da vida, a ação jorra momentaneamente do fundo da natureza humana, e o instinto propulsor outra coisa não é, nos homens bem organizados, que uma combinação do hábito e da reflexão elevada ao seu mais alto grau de rapidez e oportunidade. Charny não fizera um gesto porque não tinha nada com os negócios da soberana; mostrando a sua curiosidade, mostraria o seu amor; comprometendo a rainha, êle mesmo se trairia, e ao pé dos traidores que queremos desmascarar a traição recíproca não é o melhor dos argumentos.

   Não se mexera porque, interpelando um homem honrado com a confiança real, arriscava-se a provocar uma rixa odiosa, de mau gosto, uma espécie de cilada que a rainha jamais lhe perdoaria.

   Enfim, a palavra Monsenhor, pronunciada pela complacente companheira, representava a salutar advertência, posto que tardia, que o teria salvo abrindo-lhe os olhos no auge do furor.   Que teria sido dele, se, com a espada na mão, diante daquele homem, ouvisse alguém chamar-lhe Monsenhor? E que tremendo peso não tomaria o seu erro caindo de tão grande altura?

   Tais foram os pensamentos que o absorveram durante toda a noite e a primeira metade do dia seguinte. Depois que ouviu soar o meio-dia, a véspera deixou de existir. Restou-lhe apenas a espera febril, devoradora, da noite em que talvez surgissem novas revelações.

   Com quanta ansiedade o pobre Charny se postou à janela, transformada na única morada, no quadrado intransponível de sua vida! Quem o visse debaixo dos pâmpanos, atrás dos buracos abertos no postigo, pois não queria que suspeitassem a casa de estar sendo habitada; quem o visse, dizíamos, no quadrilátero de madeira e verdura, lembrar-se-ia forçosamente de um daqueles velhos retratos escondidos debaixo das cortinas, em que a piedosa solicitude das famílias conserva os antepassados nos velhos solares.

   Caiu a noite, trazendo ao nosso espia ardente sombrios desejos e doidos pensamentos.

   Os rumores ordinários lhe pareceram cheios de novas significações. Avistou ao longe a rainha atravessando o jardim com alguns archotes à sua frente. Pareceu-lhe pensativa, incerta, agitada pela agitação da noite.

   A pouco e pouco se apagaram as luzes do palácio; o parque, silencioso, encheu-se de silêncio e de frescor. Dir-se-ia que as árvores e as flores, que se cansam durante o dia desabrochando para agradar aos olhos e acariciar os que passam, forcejam por recuperar à noite, quando ninguém as vê nem toca, o perfume e o viço. É que, de fato, as plantas e os bosques dormem como nós.

Charny guardara bem a hora da entrevista.   Meia-noite soou.

   O coração do rapaz quase lhe estalou dentro do peito. Apoiou a carne na balaustrada da janela para sufocar as pulsações, altas e ruidosas. Dentro em pouco, dizia consigo mesmo, o portão se abrirá e gemerão os ferrolhos.

Nada perturbou a paz do bosque.

   Espantou-se, então, ao refletir, pela primeira vez, que os mesmos acontecimentos não ocorrem dois dias seguidos. Que nada era obrigatório naquele amor, senão o próprio amor, e que seriam muito imprudentes aqueles que, adquirindo hábitos tão fortes, não pudessem passar dois dias sem se avistar.

   — Segredo aventurado, — pensou, — quando nele se mete a loucura.

   Sim, era uma verdade inconteste: a rainha não repetiria no dia imediato a imprudência da véspera.

Súbito, gritaram os ferrolhos e o portãozinho se abriu.

   Mortal palidez invadiu-lhe as faces ao lobrigar as duas mulheres nos mesmos trajes da noite precedente.

— Como ela deve estar apaixonada! — murmurou.

   Repetiram as damas a manobra da véspera e passaram debaixo da janela apertando o passo.

   Como na véspera, êle saltou para o chão assim que elas chegaram a uma distância em que não podiam ouvi-lo; e, enquanto procurava caminhar oculto pelas árvores mais grossas, jurava ser prudente, forte, impassível, lembrando-se de que êle era o súdito e ela, a rainha; de que êle era um homem, isto é, obrigado ao respeito; e ela, uma mulher, isto é, com o direito de exigir consideração.

   E como não se fiasse do seu temperamento fogoso e explosivo, jogou a espada atrás de um tufo de malvas que cercava um castanheiro.

   Entretanto, as damas haviam chegado ao mesmo sítio da noite anterior. Como na véspera também, Charny reconheceu a rainha, que envolveu a fronte com o mantelete, ao passo que a oficiosa amiga ia buscar no esconderijo o desconhecido a quem chamavam Monsenhor.

   Que esconderijo seria aquele? perguntou aos seus botões. Erguia-se, realmente, na direção tomada pela complacente, a sala dos banhos de Apoio, defendida pelas altas carpas e pela sombra de seus pilares de mármore; mas como poderia esconder-se ali o estranho?   Por onde entraria?

   Recordou-se Charny de que naquele lado do parque existia um portãozinho semelhante ao que as damas abriam para ir à entrevista. O desconhecido teria, com certeza, uma chave desse portão. E, entrado por êle, chegava até aos banhos de Apoio, onde esperava que o fossem buscar.

   Tudo se fixara dessa maneira; depois, pelo mesmo portãozinho, Monsenhor se retiraria, concluído o colóquio com a soberana.

   Ao termo de alguns minutos, Charny divisou a capa e o chapéu que distinguira na véspera.

   Desta feita, o desconhecido já não se adiantava com a mesma reserva respeitosa: caminhava a passos largos, não ousando correr; mas, se andasse um pouco mais depressa, teria corrido.

   Apoiada à árvore, sentou-se a rainha sobre a capa que o novo Raleigh lhe estendeu, e, ao passo que a amiga vigilante vigiava, como na véspera, o amoroso fidalgo, ajoelhado sobre o musgo, começou a falar com apaixonada eloquência.

   A rainha abaixava a cabeça, presa de terna melancolia. Charny não entendia o que dizia o cavaleiro, mas as suas palavras pareciam rescender a poesia e a amor. Cada uma das entonações podia traduzir-se por um ardente protesto.

   A rainha não replicava. Entretanto, o desconhecido redobrava a carícia dos discursos, e às vezes parecia a Charny, ao desgraçado Charny, que a palavra, envolta naquele frémito harmonioso, espou-Caria inteligível, e êle morreria de raiva e de ciúme. Mas nada, nada. No momento em que a voz se aclarava, um gesto significativo da companheira, que continuava à escuta, obrigava o apaixonado orador a abaixar o diapasão de suas elegias.

Obstinava-se a rainha num mutismo absoluto.

   Acumulando rogos sobre rogos, o que se adivinhava pela vibrante melodia das inflexões, obtinha apenas o fidalgo o doce consentimento do silêncio, favor insuficiente para os lábios ardentes que já começaram a beber o amor.

   De improviso, porém, Maria Antonieta deixou escapar algumas palavras. Pelo menos é o que se deve acreditar. Palavras sufocadas, apagadas, porque só o desconhecido pôde ouvi-las; mas, assim que as ouviu, num transbordamento de paixão, bradou de modo que também pudessem escutá-lo:

   — Obrigado, obrigado! minha doce Majestade! Portanto, até amanhã.

A rainha escondeu inteiramente o rosto, já tão bem escondido.

   Charny sentiu um suor gelado, — o suor da morte! — descer--lhe vagarosamente das têmporas em pesadas gotas.

   O desconhecido acabava de ver as mãos da soberana estenderem-se para êle. Tomou-as nas suas e nelas depôs um beijo tão longo e tão terno, que Charny conheceu, enquanto êle durou, o sofrimento de todos os suplícios que a feroz humanidade furtou às barbáries infernais.

   Dado o beijo, ergueu-se, rápida, a rainha e pegou no braço da companheira.

Fugiram as duas passando, como na véspera, à beira de Charny.

   E tendo o desconhecido fugido de seu lado, Charny, que se não pudera arrancar do chão a que o prendia a prostração de uma dor indizível, percebeu vagamente o ruído simultâneo de dois portões que se fechavam.

   Não tentaremos descrever a situação em que se encontrou o rapaz depois do horrível descobrimento.

   'Passou a noite em furiosas corridas pelo parque, pelas alamedas, cuja criminosa cumplicidade reprochava com desespero.

   Completamente louco durante algumas horas, só tornou a encontrar a razão ao dar, na sua corrida cega, com a espada que lançara de si a fim de não ser tentado a utilizar-se dela.

   A lâmina, que lhe embaraçou os pés, provocando-lhe a queda, chamou-o de repente ao sentimento de sua força e de sua dignidade. Um homem que sente uma espada na mão, se ainda estiver louco, só pode matar-se com ela ou matar o ofensor; mas já não tem o direito de ser fraco nem pusilânime.

   Voltou a ser Charny o que sempre fora, um espírito sólido, um corpo vigoroso. Interrompeu as carreiras insensatas, durante as quais encontrara as árvores, e pôs-se a caminhar direito e mudo pela avenida em que ainda se distinguiam vestígios dos passos das duas mulheres e do desconhecido.

   Foi visitar o lugar onde a rainha se assentara. Os musgos, amarrotados ainda, revelavam-lhe a própria desdita e a ventura de outro! Em lugar de gemer, em lugar de permitir que as ondas de cólera tornassem a subir-lhe à fronte, entrou a refletir sobre a natureza daquele amor oculto e sobre a qualidade da pessoa que o inspirava.

   Foi explorar os passos do fidalgo com a fria atenção que teria empregado no exame dos rastros de um animal selvagem. Reconheceu o portão atrás dos banhos de Apoio. Escalou o espigão de um muro e viu sinais de patas de cavalo e parte da grama arrancada.

   —     É por aqui que êle vem!   E não vem de Versalhes, vem de Paris, — refletiu. — Vem só e voltará amanhã, visto que lhe disseram:   "Até amanhã".

   "Até amanhã devoremos em silêncio, já não as lágrimas que me correm dos olhos, senão o sangue que me transborda do coração.

   "Amanhã será o último dia de minha vida, se eu não fôr um covarde e nunca tiver amado.

   "Vamos, vamos, — continuou, batendo docemente no coração, como bate o cavaleiro no pescoço do cavalo que se precipita — calma, força, que a provação ainda não terminou."

   Dito isso, lançou à sua volta um derradeiro olhar, despregou a vista do castelo, onde temia ver iluminada a janela da pérfida rainha; pois essa luz teria sido mais uma mentira, uma nódoa a mais.

   Com efeito, janela acesa não significa quarto habitado? E por que há de mentir assim quem tem o direito da impudicícia e da desonra, quando é tão pequena a distância entre a vergonha oculta e o público escândalo?

A janela da rainha estava iluminada.

   —     Fazer acreditar que está em seus aposentos, quando anda pelo parque em companhia de um amante!   Francamente, isso é o que se chama castidade inútil, — murmurou Charny, acentuando as palavras com amarga ironia.

   "É muita bondade dela dissimular assim conosco. É verdade que talvez receie contrariar o marido..."

   E, enterrando as unhas na carne, retomou, a passos medidos, o caminho de casa.

   —     Eles disseram: "Até amanhã", — acrescentou, depois de haver transposto o balcão. — Sim, até amanhã!...   Para todos, que amanhã seremos quatro nesse encontro, minha senhora!

 

         Mulher e rainha

   O DIÀ seguinte trouxe as mesmas peripécias. Abriu-se a porta ao derradeiro soar da meia-noite. Surgiram as duas mulheres.

   Era, como no conto árabe, a assiduidade dos génios que obedecem pontualmente aos talismãs.

   Charny estava decidido; naquela noite reconheceria o feliz personagem favorecido pela rainha.

   Fiel aos seus hábitos, embora não inveterados, caminhou escondendo-se atrás das moitas; mas, chegado ao lugar onde, havia dois dias, se realizava o encontro dos amantes, não achou ninguém.

A companheira da rainha arrastava-a para os banhos de Apoio.

   Uma ansiedade horrível, um novo sofrimento prostrou-o. Em sua inocente probidade, não imaginara que o crime pudesse chegar até esse ponto.

   Sorrindo e cochichando, encarreirava-se a rainha para o sítio em cujo limiar a esperava, de braços abertos, o fidalgo desconhecido.

   Entrou, estendendo também os braços. O portão de ferro fechou-se.

   A cúmplice ficou do lado de fora, encostada num cipo desmantelado, rodeado de folhas.

   Charny não calculara bem as próprias forças, que não poderiam resistir a tamanho choque. No momento em que, louco de raiva, ia atirar-se à confidente da rainha para desmascará-la, reconhecê-la, injuriá-la, esganá-la talvez, o sangue lhe afluiu torrencialmente às têmporas, ao pescoço, e afogou-o.

   Caiu sobre o muro, despedindo um ténue suspiro, que foi perturbar, por um segundo, a tranquilidade da sentinela postada à porta dos banhos de Apoio.

   Uma hemorragia interna, causada pelo ferimento que se reabrira, sufocava-o.

   Recobrou os sentidos despertado pelo frio do orvalho, pela umidade da terra, pela viva impressão da própria dor.

   Ergueu-se cambaleante, reconheceu o local em que estava, deu tento da própria situação, recordou-se e procurou.

   Desaparecera a sentinela, não se ouvia rumor algum. Um relógio, dando duas horas em Versalhes, fê-lo compreender que o seu desmaio fora longo.

   A medonha visão, sem dúvida alguma, desaparecera. A rainha, o amante e a companheira tinham tido tempo de fugir. Convenceu-se disso observando, por cima do muro, os recentes vestígios da partida de um cavaleiro.

   Esses vestígios e alguns galhos quebrados nas vizinhanças do portão dos banhos de Apoio compunham toda a convicção do pobre Charny.

   A noite foi um longo delírio. De manhã, ainda não se acalmara.

   Pálido como um morto, dez anos mais velho, chamou o camareiro e ordenou-lhe que o vestisse de veludo negro, como um burguês rico*

   Sombrio, mudo, recalcando todos os sofrimentos, guiou para o castelo de Trianon no momento em que se acabava de render a guarda, isto é, cerca das dez horas.

A rainha estava saindo da capela, onde ouvira missa.

À sua passagem, curvavam-se, respeitosas, cabeças e espadas.

   Charny viu algumas mulheres coradas de despeito ante a beleza de Sua Majestade.

   Bela, realmente, com os formosos cabelos erguidos sobre as têmporas, o rosto de traços finos, a boca risonha, os olhos fatigados, mas nos quais brilhava uma suave claridade.

   A súbitas, deu com Charny na extremidade da sebe. Purpu-reou-se e soltou um grito de surpresa.

O conde não abaixou a cabeça. Continuou olhando para a rainha, que lhe adivinhou no olhar uma nova desgraça. Ela aproximou-se.

— Eu vos cria em vossas terras, Sr. de Charny, — disse, severa.

— Voltei, senhora, — respondeu êle em tom breve e quase impolido.

   Maria Antonieta se deteve, estupefata, pois nunca lhe escapavam tais nuanças.

   Depois dessa troca de olhares e palavras quase hostis, voltou-se para o lado das mulheres.

   — Bom dia, condessa, — disse amistosamente à Sra. de La Motte.

   E piscou os olhos com familiaridade.

   Charny estremeceu.   Observou com mais atenção.

   Preocupada com aquela afetação, Joana virou a cabeça.

   Seguiu-a Charny como se estivesse louco, até que ela voltou a mostrar-lhe o rosto.

   Em seguida, pôs-se a rodeá-la, estudando-lhe o modo de andar.

   Embora cumprimentasse à direita e à esquerda, a rainha acompanhava as manobras dos dois observadores.

—        Terá êle perdido a cabeça? — pensou. — Pobre rapaz.

E tornou a aproximar-se.

— Como estais passando, Sr. de Charny? — perguntou com voz suave.

— Muito bem, senhora, mas, graças a Deus, menos bem do que Vossa Majestade.

   E cumprimentou de modo que a estarreceu muito mais do que já a surpreendera.

— Há qualquer coisa, — pensou Joana, sempre atenta.

— Onde estais morando agora? — volveu a rainha.

— Em Versalhes, senhora, — retrucou Oliveiros.

— Há quanto tempo?

— Há três noites, — acudiu êle, acentuando as palavras com o olhar, o gesto e a voz.

A rainha não manifestou emoção alguma; Joana estremeceu.

   —     Não tendes nada para dizer-me? — perguntou a soberana a Charny com angélica doçura.

— Oh! senhora, — replicou o interpelado, — eu teria muitas coisas que dizer a Vossa Majestade.

— Vinde! — exclamou ela bruscamente.

— Vigiemos, — pensou Joana.

   Com passos largos, encaminhou-se a rainha para os seus aposentos. Seguiram-na todos, não menos agitados. O que pareceu providencial à Sra. de La Motte foi que Maria Antonieta, para não dar a impressão de estar buscando uma entrevista a sós, ordenou a algumas pessoas que a seguissem.

No meio delas meteu-se a condessa.

   Chegada ao seu apartamento, a rainha dispensou a Sra. de Misery e as damas de serviço.

   Estava o tempo suave e velado, o sol não atravessava as nuvens, mas o calor e a luz filtravam-se-lhe através das espessuras brancas e azuis.

   A rainha abriu a janela que dava para um terracinho; colocou--se diante da cómoda cheia de cartas e esperou.

   A pouco e pouco, as pessoas que a tinham seguido compreenderam o seu desejo de ficar só e afastaram-se.

   Impaciente, devorado pela cólera, Charny amarfanhava o cha-. péu entre as mãos.

— Falai! falai! — ordenou a rainha; — pareceis muito perturbado, senhor.

— Como hei de começar? — principiou Charny, pensando em voz alta; — como ousarei acusar a honra, acusar a fé, acusar a Majestade?

— Como? — bradou Maria Antonieta, voltando-se, rápida e flamejante.

—        E, no entanto, não direi o que vi! — continuou êle.

Ergueu-se a rainha.

   —     Senhor, — tornou, friamente, — é muito cedo para que eu vos julgue bêbedo; e, no entanto, assumistes uma atitude que fica mal a fidalgos em jejum.

   Ela esperava esmagá-lo com a apóstrofe desdenhosa; mas êle, imóvel:

— Na verdade, — disse, — que é uma rainha?   Mulher.   E eu, que sou eu?   Tanto homem quanto súdito.

— Senhor.

— Senhora, não compliquemos o que tenho para dizer-lhe com uma cólera que acabaria em loucura.   Creio haver-lhe provado que eu respeitava a majestade real; receio haver provado também que dedicava um amor insensato à pessoa da rainha.   Assim sendo, escolha: a qual das duas, à rainha ou à mulher, prefere Vossa Majestade que este adorador atire uma acusação de opróbrio e deslealdade?

— Sr. de Charny, — bradou a rainha, empalidecendo e caminhando para o rapaz, — se não sairdes daqui, mandarei expulsar-mos pelos meus guardas.

— Direi, então, antes de ser expulso, por que Vossa Majestade é uma rainha indigna e uma mulher sem honra! — gritou Charny, bêbedo de furor. — Há três noites que a sigo em seu parque!

   Mas em lugar de vê-la saltar, como esperava, sob o golpe terrível, viu-a erguer a cabeça e acercar-se.

— Sr. de Charny, — disse ela, tomando-lhe a mão, — estais num estado que me dá pena; cuidado! os vossos olhos relampejam, tremem as vossas mãos, tendes o rosto mortalmente pálido, todo o sangue vos aflui ao coração.   Estais passando mal, quereis que eu chame alguém?

— Eu a vi! eu a vi! — repetiu êle, friamente, — vi-a com aquele homem, quando a senhora lhe deu a rosa; vi quando êle lhe beijou as mãos; vi quando a senhora, em companhia dele, entrou nos banhos de Apoio.

   Maria Antonieta passou a mão pela testa como se quisesse certificar-se de que não estava dormindo.

   —     Vamos a ver, — começou, — sentai-vos, pois acabareis caindo

se eu não vos amparar; sentai-vos, estou dizendo.

   Charny, com efeito, deixou-se cair numa poltrona; sentou-se a rainha ao pé dele, num tamborete; em seguida, segurando-lhe as mãos e considerando-o até ao fundo da alma:

— Acalmai-vos, — continuou, — serenai o coração e a cabeça, e repeti-me o que acabastes de dizer.

— Vossa Majestade quer matar-me! — murmurou o desgraçado.

— Deixai-me interrogar-vos.   Desde quando voltastes de vossas terras?

— Há quinze dias.

— Onde estais morando?

— Na casa do monteiro, que aluguei acinte.

— A casa do suicida, nas raias do parque?

Charny assentiu com o gesto.

— Estais falando de alguém que teríeis visto comigo?

— Estou falando primeiro de Vossa Majestade, que eu vi.

— Onde?

— No parque.

— A que horas?   Quando?

— À meia-noite, têrça-feira, pela primeira vez.

— Vistes-me?

— Como a estou vendo; e vi também a mulher que a acompanhava.

— Alguém me acompanhava?   Seríeis capaz de reconhecer a pessoa?

— Ainda há pouco pareceu-me vê-la aqui; mas não me atreveria a afirmá-lo.   É só o modo de andar que é parecido; quanto ao rosto, sempre o escondem os que vão cometer algum crime.

— Bem! — volveu a rainha, calma; — não reconhecestes a minha companheira, mas eu...

— Oh! Vossa Majestade eu vi...   Olhe... acaso não a estou vendo?

Ela bateu o pé, impaciente.

— E... esse companheiro, — prosseguiu, — a quem dei uma rosa... pois me vistes dar-lhe uma rosa...

— Sim: nunca pude alcançá-lo.

— Conhecei-lo, ao menos?

— Chamam-lhe Monsenhor; é tudo o que sei.

A rainha golpeou a testa com um furor concentrado.

— Continuai, — ordenou; — têrça-feira, dei-lhe uma rosa... e quarta?

— Quarta, Vossa Majestade deu-lhe as mãos a beijar.

— Oh! — murmurou ela, mordendo as mãos... — E, afinal, quinta-feira, ontem?...

— Ontem, Vossa Majestade passou hora e meia na gruta de Apoio com êle, onde a sua companheira os deixou a sós.

Ergueu-se a rainha impetuosamente.

—        E... vós... me vistes? — perguntou, escandindo as sílabas.

Charny ergueu a mão para jurar.

   —     Oh!... — bradou a rainha, arrebatada por seu turno pela fúria... — e êle é capaz de jurá-lo!

Charny repetiu, solene, o gesto acusador.

— Eu? eu? — tornou a rainha, — vistes-me?

— Têrça-feira, Vossa Majestade levava o seu vestido verde com listas ondeadas de ouro; quarta-feira, o vestido de grandes ramagens azuis e pardas. Ontem, o de seda côr de folha seca, que trajava no dia em que lhe beijei a mão pela primeira vez! Era Vossa Majestade, era Vossa Majestade! Morro de dor e de vergonha ao dizê-lo: mas juro pela minha vida, juro pela minha honra, juro por meu Deus!   Era Vossa Majestade!

   Maria Antonieta pôs-se a caminhar com passos largos pelo terraço, não se incomodando de revelar a sua estranha agitação aos espectadores que, em baixo, a devoravam com os olhos.

   —     Se eu fizesse um juramento, — disse ela... — se eu jurasse também por meu filho, por meu Deus!...   Tenho um Deus como vós!...   Não!   Êle não acredita em mim!...   Êle não me acreditaria!

Charny abaixou a cabeça.

— Insensato! — acrescentou a soberana, sacudindo-lhe a mão com energia e arrastando-o do terraço para o quarto. — Há de ser uma volúpia bem rara acusar uma mulher inocente, irreprochável; há de ser uma honra insigne desonrar a rainha...   Acreditar-me-ás, se eu te disser que não me viste?   Acreditar-me-ás, se eu jurar pelo Cristo que, há três dias, não tenho saído depois das quatro horas da tarde?   Queres que te faça provar pelas minhas criadas, pelo rei, que me viu aqui, que eu não podia estar em outro lugar?   Não...não... êle não acredita! êle não acredita!

— Eu vi! — replicou friamente Charny.

— Oh! — bradou, a súbitas, a rainha, — eu sei, eu sei!   Essa calúnia atroz já não me foi atirada em rosto?   Acaso não me viram no baile da Ópera, escandalizando a corte?   Acaso não me viram em casa de Mesmer, em êxtase, escandalizando os curiosos e as pros

titutas?...   Bem o sabeis, vós que vos batestes por mim.

— Naquele tempo, senhora, eu me bati porque não acreditava. Hoje, me bateria porque acredito.

   A rainha ergueu para o céu os braços retesados pelo desespero, e duas lágrimas ardentes lhe caíram das faces no seio.

   —     Meu Deus! — rogou, — enviai-me um pensamento que me salve.   Não quero que este homem me despreze, Senhor!

   Sentiu-se o rapaz profundamente comovido por aquela prece simples e vigorosa.   Escondeu os olhos entre as mãos.

   A rainha permaneceu em silêncio por um instante; logo, depois de haver refletido:

   —     Senhor, — disse ela, — deveis-me uma reparação.   Eis o que exijo de vós:   Vistes-me três noites seguidas no parque, em companhia de um homem.   No entanto, sabíeis que já abusaram da semelhança de alguém comigo; que uma mulher, não sei quem,tem no rosto e no andar qualquer coisa de comum com esta desgraçada rainha; mas visto que preferis acreditar que era eu quem assim andava durante a noite; visto que direis que sou eu, voltai ao parque à mesma hora; voltai comigo. Se me vistes ontem, hoje forçosamente não me vereis, porque estarei ao vosso lado. Se vistes outra, por que não a veremos juntos? E se a virmos. .. Ah! senhor, lamentareis tudo o que me fizestes sofrer?

Charny, apertando o coração com as mãos:

— Vossa Majestade faz demais por mim, — murmurou; — mereço a morte: não me esmague com a sua bondade.

— Esmagar-vos-ei com provas, — retrucou a rainha. — Nem uma palavra a quem quer que seja.   Esta noite, às dez, esperai sozinho à porta da casa do monteiro o que eu tiver decidido fazer para convencer-vos. Ide, senhor, e não deixai que nada transpareça.

Ajoelhou-se Charny sem dizer uma palavra e saiu.

   Na extremidade do segundo salão, passou involuntariamente sob o olhar de Joana, que o devorava com a vista, e que, ao primeiro chamado da rainha, entrou nos aposentos de Sua Majestade com as demais pessoas presentes.

 

         Mulher e demónio

   JOANA notara a perturbação de Charny, a solicitude da rainha, a pressa de ambos de encetar conversação.

   Para uma mulher como ela, isso era mais do que suficiente para fazê-la adivinhar muitas coisas; não temos necessidade de acrescentar o que toda a gente já compreendeu.

   Após o encontro preparado por Cagliostro entre a Sra. de La Motte e Oliva, a comédia das três últimas noites pode passar-se sem comentários.

   Voltando para junto da soberana, Joana escutou e observou, querendo descobrir no rosto de Maria Antonieta a confirmação de suas suspeitas.

   Mas a rainha estava habituada, fazia já algum tempo, a desconfiar de todos. Não deixou reslumbrar coisa alguma. A condessa ficou reduzida às suas conjeturas.

   Já ordenara a um lacaio que seguisse o Sr. de Charny. O lacaio voltou, anunciando que o Sr. Conde desaparecera numa casa na extremidade do parque, ao pé das carpas.

Não há dúvida, pensou: o homem está apaixonado e viu tudo.

Ouviu Maria Antonieta dizer à Sra. de Misery:

   —     Sinto-me bem fraca, minha querida Misery, e esta noite me deitarei às oito.

E como a dama de honor insistisse:

— Não receberei ninguém, — acrescentou.

— É muito claro, — disse Joana entre si: — louca seria quem não o compreendesse.

   Presa das comoções que lhe produzira a cena com Charny, não tardou a rainha em dispensar o seu séquito. Joana aplaudiu-lhe a decisão pela primeira vez desde o seu ingresso na corte.

   —     As cartas estão embrulhadas, — refletiu; — vamos a Paris; já é tempo de desfazer o que fiz.

E partiu.

   Chegando a casa, lá encontrou uma soberba baixela de prata, que o cardeal lhe mandara de presente naquela manhã.

   Depois de examinar o presente com indiferença, a despeito do seu valor, olhou, por trás da cortina, para a casa de Oliva, cujas janelas permaneciam fechadas. Oliva estaria dormindo, cansada sem dúvida; o dia estava muito quente.

   Fêz-se conduzir à casa do cardeal, que encontrou radiante, inchado, insolente de alegria e de orgulho; sentado à sua rica escrivaninha, obra prima de Boule, rasgava e reescrevia, sem se cansar, uma carta que começava sempre do mesmo jeito e nunca tinha fim.

Ao anúncio que fêz o camareiro, Monsenhor bradou:

—        Querida condessa!

E precipitou-se-lhe ao encontro.

   Joana recebeu os beijos de que o prelado lhe cobriu os braços e as mãos. Instalou-se comodamente para melhor sustentar a conversação.

   Monsenhor principiou com protestos de reconhecimento, aos quais não faltava certa eloquente sinceridade.

Interrompeu-o Joana.

— Sabeis, — exclamou, — que sois um amante delicado e que vos agradeço?

— Por quê?

— Não por causa do encantador presente que me mandastes hoje cedo; mas pela precaução que tivestes de não mandá-lo à casa onde costumamos encontrar-nos.   É realmente delicado.   O vosso coração não se prostitui, entrega-se.

— A quem se poderá falar de delicadeza, senão a vós? — replicou o cardeal.

— Não sois um homem feliz, — continuou Joana; — sois um deus triunfante.

— Confesso que sim, e a felicidade me assusta; atrapalha-me; torna-me insuportável a vista dos outros homens.   Lembro-me daquela fábula pagã de Júpiter cansado dos próprios raios.

Sorriu-se a condessa.

— Vindes de Versalhes? — perguntou êle, avidamente.

— Venho.

— Viste-la...?

— Acabo de deixá-la.

— Ela... não... não disse nada?

— E que quereis que tenha dito?

— Perdão; isso já não é curiosidade, é desvario.

— Não me façais perguntas.

— Oh! condessa.

— Não, repito-o.

— Como dizeis uma coisa dessas!   Afirmaria, quem vos visse, que sois portadora de más notícias.

— Monsenhor, não me obrigueis a falar.

—        Condessa! condessa!...

E o cardeal empalideceu.

— Uma felicidade muito grande, — disse êle, — é como o ponto culminante de uma roda da Fortuna; ao lado do apogeu, está o começo da queda.   Não me poupeis, se aconteceu alguma desgraça; mas não aconteceu. .. não é verdade?

— Eu lhe chamaria, pelo contrário, Monsenhor, uma grande ventura.

— Ao quê?...   ao quê?... que quereis dizer?...   que é uma grande ventura?

— O fato de não terdes sido descoberto, — replicou Joana, secamente.

— Oh!. .. — E êle abriu a sorrir. — Com precauções, com a inteligência de dois corações e de um espírito...

— Um espírito e dois corações, Monsenhor, não impedem que outros olhos vejam por entre as folhagens.

— Alguém viu? — bradou o Sr. de Rohan, aterrado.

— Tudo indica que sim.

— Então... se viu, reconheceu?

— Quanto a isso, Monsenhor, não creio; se nos tivessem reconhecido, se o nosso segredo se achasse em poder de alguém, Joana de Valois já estaria no fim do mundo, e vós estaríeis morto.

— É verdade.   Todas essas reticências, condessa, me queimam a fogo lento. Alguém viu, seja.   Mas esse alguém deve ter visto pessoas passeando num parque.   Isso não é permitido?

— Perguntai ao rei.

— O rei sabe!

— Se soubesse, estaríeis na Bastilha e eu no hospital. Mas como uma desgraça evitada vale por duas felicidades prometidas, venho rogar-vos que não tenteis a Deus outra vez.

— Como? — exclamou o cardeal; — que significam as vossas palavras, querida condessa?

— Não as compreendeis?

— Tenho medo de compreendê-las.

— Medo terei eu se não me tranquilizardes.

— E que terei de fazer para isso?

— Não voltar a Versalhes.

O cardeal deu um pulo.

— De dia? — perguntou, sorrindo.

— Nem de dia, nem de noite!

O Sr. de Rohan fremiu e largou a mão da condessa.

—        Impossível, — exclamou.

— Chegou a minha vez de encarar convosco, — respondeu ela; — dissestes-me, se não me engano, que é imposível.   Impossível porquê?

— Porque tenho no coração um amor que só findará com a vida.

— É o que estou vendo, — acudiu Joana, irónica, — e é para chegar mais depressa a esse resultado que persistis em voltar ao parque.   Sim, se lá voltardes, o vosso amor findará com a vossa vida, e ambos ao mesmo tempo.

— Quantos terrores, condessa!   Estáveis ontem tão corajosa!

— Tenho a coragem dos animais.   Não receio nada, enquanto não há perigo.

— Pois eu tenho a bravura da minha raça.   Só me sinto feliz em presença do próprio perigo.

— Muito bem; permiti, todavia, que eu vos diga...

— Nada, condessa, nada, — bradou o apaixonado prelado; — o sacrifício está feito, os dados foram lançados; a morte, se o quiserem, mas o amor também!   Voltarei a Versalhes.

— Sozinho?

— Seríeis capaz de abandonar-me? — perguntou o Sr. de Rohan em tom de reproche.

— Primeiro a minha segurança.

— Mas ela virá ao meu encontro.

— Estais enganado, não irá.

— Viestes anunciá-lo da sua parte? — tornou, trémulo, o cardeal.

— Era o golpe que eu estava buscando atenuar desde o princípio.

— Ela não quer mais ver-me?

— Nunca mais; e fui eu quem lhe deu esse conselho.

— Senhora, — volveu o prelado, em tom sentido, — não devíeis enterrar a faca num coração que sabeis tão terno.

— Seria muito pior ainda, Monsenhor, se eu deixasse perder-rem-se duas loucas criaturas por falta de um bom conselho.   O conselho é este; aproveite-o quem quiser.

— Prefiro morrer, condessa!

— Isso é convosco, e não é difícil.

— Morrer por morrer, — tornou o cardeal, com voz sombria, — antes o fim do réprobo.   Bendito seja o inferno, onde tornarei a encontrar a minha cúmplice.

— Santo prelado, estais blasfemando! — sobreveio Joana; — súdito, destronais a vossa rainha! homem, perdeis uma mulher!

O cardeal empolgou-lhe a mão e, desvairado:

— Confessai que ela não vos disse isso! — rebradou, — e não me renegará assim!

— Estou falando em seu nome.

— É apenas um adiamento que ela me pede.

— Interpretai-o como quiserdes; mas acatai-lhe a ordem.

— O parque não é o único sítio em que podemos ver-nos.   Há mil lugares mais seguros.   A rainha já esteve em vossa casa!

— Monsenhor, nem mais uma palavra; carrego comigo um peso mortal, o do vosso segredo.   Não me sinto com forças para carregá-lo por muito tempo.   O que as vossas indiscrições, o que o acaso, o que a malevolência de um inimigo não farão, hão de fazê-lo os remorsos dela.   Sei-a capaz de tudo confessar ao rei num momento de desespero.

— Santo Deus! será possível! — exclamou o Sr. de Rohan, — ela faria uma coisa dessas?

— Se a vísseis, lastimá-la-íeis.

Ergueu-se o cardeal precipitadamente.

— Que fazer? — perguntou.

— Dai-lhe a consolação do silêncio.

— Ela acreditará que a esqueci.

Joana encolheu os ombros.

— Tachar-me-á de covarde.

— Covarde por salvá-la?   Nunca!

— Perdoará uma mulher a alguém que se prive da sua presença?

— Não podeis julgá-la como me julgaríeis a mim.

— Julgo-a grande e forte.   Amo-a pela valentia e pela nobreza do coração.   Ela pode, portanto, contar comigo como eu conto com ela.   Hei de vê-la uma última vez, dizer-lhe tudo o que penso, e o que ela tiver decidido depois de me ouvir, cumprirei como cumpriria um voto sagrado.

Joana levantou-se.

— Como quiserdes, — disse ela. — Ide!     Mas ireis sozinho. Atirei a chave do parque no Sena, ao voltar de lá hoje cedo.   Ide, pois, à vontade, a Versalhes, e eu partirei para a Suíça ou para a Holanda.   Quanto mais longe estiver da bomba, menos lhe temerei a explosão.

— Condessa!     Seríeis capaz de deixar-me, de desamparar-me? Ó meu Deus!   Com quem falarei sobre ela?

   Nessa altura, Joana lembrou-se das cenas de Molière; nunca um Valério mais insensato dera à mais astuta Dorina respostas mais cómodas.

— Tendes o parque e os ecos, — respondeu; — ensinar-lhes-eis o nome de Amarílide.

— Condessa, piedade!   Estou desesperado, — volveu o prelado, em tom que lhe vinha diretamente do coração.

— Pois bem! — replicou Joana com a energia brutal do cirurgião que se determina de amputar um membro; — se estais desesperado, Sr. de Rohan, não façais criancices mais perigosas do que a pólvora, a peste, a morte!   Se tanto quereis a essa mulher, conservai-a, em lugar de perdê-la, e se não vos faltam de todo o coração e a memória, não vos aventureis a arrastar em vossa ruína os que por amizade vos serviram. Eu não brinco com o fogo. Jurai--me que não dareis um passo para ver a rainha. Nem mesmo para vê-la, estais entendendo? já não digo falar-lhe, nos próximos quinze dias. Jurai-lo? Fico e poderei servir-vos ainda. Mas se estiverdes decidido a tudo desafiar para infringir a nossa proibição, hei de sabê-lo e dez minutos depois terei partido! Nesse caso, arranjar--vos-eis como puderdes.

— E medonho! — murmurou o cardeal; — a queda é esmagadora; cair do alto de tanta felicidade!   Isso me matará!

— Ora, essa! — sussurrou-lhe Joana ao ouvido; — na realidade amais apenas o vosso amor-próprio.

— Hoje amo deveras, — replicou o cardeal.

— Pois então sofrei hoje, — voltou Joana; — é uma condição do estado.   Vamos a ver, Monsenhor, decidi-vos: ficarei aqui ou tomarei o caminho de Lausanne?

— Ficai, condessa, mas achai-me um calmante.   Esta ferida dói muito.

— Jurais obedecer-me?

— À fé de Rohan!

— Bom, o vosso calmante já foi encontrado.   Proíbo as entre vistas, mas não proíbo as cartas.

— Sim? — exclamou o insensato, reanimado por essa esperança. — Poderei escrever?

— Tentai-o.

— E. .. ela me responderia?

— Tentarei persuadi-la.

   O cardeal cobriu de beijos a mão de Joana. E chamou-lhe seu anjo tutelar.

   Há de ter rido muito o demónio que habitava no coração da condessa.

 

         A noite

   NESSE mesmo dia, às quatro horas da tarde, um homem a cavalo estacou na orla do parque, atrás dos banhos de

   Apoio.

   A passo, pois estava passeando, pensativo como Hipólito, belo como êle, o cavaleiro deixava cair as rédeas sobre o pescoço do animal.

Deteve-se, como dissemos, no sítio em que o Sr. de Rohan, nos últimos três dias, fizera parar a sua montaria.   Naquele lugar, estava o solo escarvado pelas ferraduras, e comidos todos os arbustos à volta do carvalho em cujo tronco ficara preso o ginete. Apeou o cavaleiro.

—        Eis aqui um lugar bem devastado, — observou.

E abeirou-se do muro.

   —     E aqui há vestígios de escalada; esta porta foi aberta recentemente.   Era o que eu havia pensado.

   Não se guerreiam os índios das savanas sem aprender a interpretar as marcas deixadas pelos homens ou pelos cavalos. Ora, fazia quinze dias que voltara o Sr. de Charny; fazia quinze dias que ninguém lhe punha os olhos em cima. Lá estava a porta que o Sr. de Charny escolhera para entrar em Versalhes.

   Fazendo essas considerações, suspirou ruidosamente, como se arrancasse com o suspiro a própria alma.

   —     Deixemos ao próximo a sua felicidade, — murmurou, examinando, um por um, os traços eloquentes da relva e dos muros. — O que Deus dá a uns, recusa a outros.   Não é à-toa que êle faz homens felizes e homens infelizes; bendita seja a sua vontade!

   Entretanto, era-lhe necessária uma prova. Por que preço, por que meios a conseguiria?

   Nada mais simples. Entre as moitas, de noite, um homem não seria descoberto e, do seu esconderijo, veria tudo o que se passasse. Esta noite, decidiu, ficarei entre as moitas.

   Apanhou as rédeas do cavalo, tornou a montar lentamente e, sem apertar o passo do animal, desapareceu na extremidade do muro.

   Quanto a Charny, obediente às ordens da rainha, trancara-se em casa, esperando um recado de sua parte.

   Veio a noite, nada lhe apareceu. Em vez de ficar espiando à janela do pavilhão que dava para o parque, pôs-se à espreita, no mesmo quarto, à janela que dava para a ruazinha. Dissera a rainha: à porta da casa do monteiro; mas a janela e a porta naquele pavilhão se equivaliam, ao rés-do-chão. O principal era poder ver quem chegasse.

   Interrogava a noite profunda, esperando ouvir, a cada minuto, o galope de um cavalo ou o passo precipite de um correio.

   Dez horas e meia soaram. Nada. A rainha enganara-o. No primeiro movimento de surpresa, fizera uma concessão. Envergonhada, prometera o que não poderia cumprir; e, o que era horrível de pensar-se, prometera sabendo que o não cumpriria.

   Com a rápida facilidade de suspeita que caracteriza as pessoas violentamente apaixonadas, Charny já censurava a própria credulidade.

   —     Como pude, — bradava, — eu, que vi, acreditar em mentiras e sacrificar a minha convicção, a minha certeza, a uma estúpida esperança?

   Remoía com raiva essa ideia funesta, quando o rumor de um punhado de areia atirado à vidraça da outra janela lhe chamou a atenção e fê-lo correr para o lado do parque.

   Viu então, envolto em ampla capa preta, sob a folhagem do parque, um vulto de mulher, erguendo para êle o rosto pálido e inquieto.

   Não pôde conter um grito de alegria e de arrependimento. A mulher que o esperava, que o chamava, era a rainha!

   Num salto, atirou-se pela janela e foi cair aos pés de Maria Antonieta.

— Ah! estais aqui, senhor?   Ainda bem! — disse ela, comovida, em voz baixa; — que estáveis fazendo?

— Majestade!   Majestade!... será possível? — replicou Charny, prosternando-se.

— Era assim que me esperáveis?

— Eu estava esperando do lado da rua, senhora.

— E eu vira, acaso, pela rua, quando é muito mais simples vir pelo parque?

— Eu não me atrevia a acalentar essa esperança! — volveu Charny com um acento de apaixonada gratidão.

Ela interrompeu-o:

— Não fiquemos aqui, está muito claro; trouxestes a espada?

— Trouxe.

— Bem!...   Por onde dizeis que entraram as pessoas que vistes?

— Por aquela porta.

— A que horas?

— À meia-noite.

— Não há motivo para que não venham hoje também.   Não falastes com ninguém?

— Ninguém.

— Entremos naquele mato e esperemos.

— Oh! Majestade...

   A rainha passou-lhe à frente e, com passo rápido, caminhou um pouco em sentido contrário.

   —     Deveis ter compreendido, — disse, de repente, como se quisesse antecipar-se ao pensamento dele, — que não fui contar este caso ao Chefe de Polícia.   Depois que me queixei da primeira vez, o Sr. de Crosne já me deveria ter feito justiça.

   "Se a criatura que me usurpa o nome, depois de me haver usurpado a semelhança, ainda não foi presa, se todo este mistério ainda não se esclareceu, só pode haver dois motivos: a incapacidade do Sr. de Crosne, o que é nada, ou a sua conivência com os meus inimigos. Ora, afigura-se-me difícil que em minha casa, no meu parque, se permita a representação da ignóbil comédia que me referistes, sem que os seus atores estejam certos de um apoio direto ou de uma tácita cumplicidade. Eis por que me parecem tão perigosos os culpados que só me fio de mim mesma para desmascará-los. Não pensais assim também?"

— Peço licença a Vossa Majestade para não abrir mais a boca. Estou desesperado; ainda tenho receios, mas já não tenho suspeitas.

— Pelo menos, sois um homem de honra, — disse vivamente a rainha; — sabeis dizer as coisas rosto a rosto; é um mérito que pode às vezes magoar os inocentes quando nos enganamos a respeito deles: mas uma ferida cura-se.

— Oh! senhora, já são onze horas; estou tremendo.

— Certificai-vos primeiro de que aqui não há ninguém, — disse a rainha para afastar o companheiro.

Charny obedeceu.   Examinou a mata até os muros.

— Ninguém, — anunciou, ao voltar.       ,

— Onde se passou a cena que me contastes?

— Neste instante, senhora, ao voltar da minha exploração, recebi um golpe terrível no coração.   Vi-a no mesmo sítio em que, nas últimas noites, vi... a falsa rainha de França.

— Aqui! — bradou a soberana, afastando-se com repugnância do lugar em que se achava.

— Debaixo deste castanheiro.

— Então, senhor, — tornou Maria Antonieta, — afastemo-nos, pois se aqui estiveram aqui voltarão.

   Charny seguiu-a por outra alameda. Batia-lhe cora tanta força o coração que teve medo de não ouvir o ruído do portão quando se abrisse.

   Silenciosa e altiva, esperava ela que se produzisse a prova viva da sua inocência.

Meia-noite soou.   A porta não se abriu.

   Passou-se meia hora, durante a qual Maria Antonieta perguntou mais de dez vezes se os impostores tinham sido pontuais nas entrevistas.

   Os sinos de São Luís de Versalhes deram meia noite e três quartos.

A rainha bateu o pé com impaciência.

   —     Hoje não virão, — disse ela; — essas desgraças só a mim me acontecem.

   E considerava Charny pronta para brigar se lhe surpreendesse nos olhos o menor brilho de triunfo ou de ironia.

   Mas êle, empalidecendo à proporção que lhe voltavam as suspeitas, conservava uma postura tão grave e melancólica, que o seu rosto devia de refletir naquele momento a serena paciência dos mártires e dos anjos.

   A rainha tomou-lhe do braço e reconduziu-o ao castanheiro onde haviam parado pela primeira vez.

— Dizeis, — murmurou, — que aqui os vistes.

— Precisamente, senhora.

— Aqui, a mulher deu uma rosa ao homem.

— Sim, Majestade.

   Ela sentia-se tão fraca, tão cansada por haver estado tanto tempo naquele parque úmido, que se encostou ao tronco da árvore e inclinou a cabeça sobre o seio.

   Insensivelmente, vergaram-lhe as pernas; e como Charny não lhe desse o braço, deixou-se antes cair que sentar sobre a relva e os musgos.

Êle permanecia imóvel e sombrio.

   Ela levou as mãos ao rosto, e o rapaz não viu uma lágrima deslisar-lhe por entre os brancos dedos afilados.

Súbito, erguendo a cabeça:

— Senhor, — disse Maria Antonieta, — tendes razão; estou condenada.   Eu prometera provar hoje que me havíeis caluniado: Deus não o quer, submeto-me.

— Senhora... — murmurou Charny.

— Fiz, — continuou ela, — o que não teria feito mulher alguma em meu lugar.   Já não falo das rainhas.   Oh! senhor, que é uma rainha, quando não pode sequer reinar sobre um coração? Que é uma rainha quando não obtém sequer a estima de um homem de bem?   Vamos, ajudai-me pelo menos a levantar-me, para que eu parta; não me desprezeis a ponto de recusar-me a vossa mão.

Como um insensato, Charny precipitou-se-lhe aos pés.

— Senhora, — exclamou, batendo com o rosto no chão, — se eu não fosse um desgraçado que a ama, Vossa Majestade me perdoaria, não é verdade?

— Vós! — bradou a rainha com um riso amargo; — vós amais-me e, no entanto, me julgais infame!...

— Oh!... senhora.

— Vós!... vós, que devíeis ter memória, acusais-me de haver dado aqui uma flor, lá um beijo, acolá o meu amor a outro homem...   Não mintais, senhor: vós não me amais!

— Senhora, o fantasma estava lá, o fantasma da rainha enamorada.   Lá estava também o fantasma do amante.   Arranque-me o coração, visto que essas duas imagens infernais vivem nele e o devoram.

   Ela tomou-lhe a mão e atraiu-o para si com um gesto arrebatado.

   —     Vistes!... ouvistes!...   Era eu mesma, não era? — volveu com voz abafada... — Era eu, sim, não busqueis outra explicação.

Pois bem! se neste mesmo lugar, debaixo deste mesmo castanheiro,sentada como eu estava, estando vós a meus pés como o outro, se vos aperto as mãos, se vos aconchego de mim, abraço e digo:   Fiz tudo isso com o outro, disse ao outro a mesma coisa, e agora vos confesso: Sr. de Charny, nunca amei, não amo e nunca amarei senão uma pessoa no mundo... e essa pessoa sois vós!...   Meu Deus! meu Deus! bastaria isso para convencer-vos de que não é infame quem tem no coração, com o sangue das imperatrizes, o divino fogo de um amor como este?

   Charny desferiu um gemido semelhante ao do homem que expira. Ao falar, a rainha inebriara-o com o seu hálito; sentira-lhe as palavras, a mão dela queimara-lhe o ombro, o seu colo calcinara--lhe o coração, o seu hálito lhe crestara os lábios.

   —     Deixe-me agradecer a Deus, — murmurou. — Se eu não pensasse em Deus, pensaria demasiado em si.

   Ergueu-se ela devagar e parou nele dois olhos cujo brilho mal transluzia através das lágrimas.

—        Quer a minha vida? — perguntou o conde, transfigurado.

Ela calou por um momento sem interromper a contemplação.

   —     Dai-me o vosso braço, — disse, afinal, — levai-me a todos os lugares onde estiveram os outros.   Primeiro aqui... aqui, onde foi dada a rosa...

   Arrancou do vestido uma rosa ainda quente do fogo que lhe abrasara o seio.

—        Tomai! — ofereceu, num sussurro.

   Êle aspirou o perfume da flor e apertou-a de encontro ao peito.

—        Aqui, — volveu ela, — a outra deu a mão a beijar?

— As mãos! — emendou Charny, cambaleante e bêbedo, no momento em que o seu rosto se viu preso entre as palmas enfogadas da rainha.

— Eis um lugar purificado, — tornou Maria Antonieta com um sorriso adorável. — Depois, foram, aos banhos de Apoio?

   Como se o céu lhe houvesse caído sobre a cabeça, Charny se deteve, semimorto, estupefato.

   —     É um sítio, — continuou alegremente a princesa, — onde só entro de dia. Vamos ver juntos a porta por onde fugia o tal amante da rainha.

   Jubilosa, leve, suspensa ao braço do homem mais feliz que Deus já abençoou, transpôs quase a correr os gramados que separavam as matas do muro. Chegaram assim à porta atrás da qual se viam marcas de ferraduras.

— É aqui, — anunciou Charny.

— Eu trouxe as chaves, — respondeu a rainha. — Abri, Sr. De Charny; instruamo-nos.

   Saíram e inclinaram-se para ver: a lua desgarrou-se de uma nuvem como que para ajudá-los a investigar.

   O raio branco, terno, acarinhou o formoso rosto da rainha, que se apoiava ao braço de Charny, ouvindo e examinando as moitas vizinhas.

   Quando se julgou suficientemente convencida, fêz entrar novamente o fidalgo, atraindo-o para si com suave pressão.

Fechou-se a porta atrás deles.

Duas horas soaram.

—        Adeus, — disse ela. — Voltai para casa.   Até amanhã.

Apertou-lhe a mão e, sem mais uma palavra, alongou-se, rápida, por entre as carpas, na direção do castelo.

Adiante da porta que acabavam de fechar, ergueu-se um homem do seio das moitas e desapareceu nas matas que bordejavam a estrada.

Esse homem levava, ao partir, o segredo da rainha.

 

         A despedida

   A RAINHA saiu no dia seguinte sorridente e bela para ir à missa.

   Os guardas receberam ordem de deixar que dela se aproximasse toda a gente. Era domingo e Sua Majestade dissera, ao despertar:

— O dia está lindo!   Como é bom viver num dia assim!

   Parecia respirar com maior prazer o perfume das flores prediletas; mostrou-se mais esplêndida nos favores que concedeu; e deu--se mais pressa em ir depor a alma aos pés do Criador.

   Ouviu a missa com unção. Jamais curvara tanto a cabeça majestosa.

   Ao passo que ela orava com fervor, apinhava-se a multidão, como todos os domingos, na passagem que liga os apartamentos à capela, e até os degraus das escadas regurgitavam de fidalgos e damas.

   Entre estas últimas brilhava, modesta mas elegantemente vestida, a Sra. de La Motte.

   E na dupla ala, formada pelos gentis-homens, via-se à direita o Sr. de Charny, muito cumprimentado pelo seu restabelecimento, pelo seu regresso e, sobretudo, pela sua radiante fisionomia.

   O favor é um perfume sutil; subdivide-se com tamanha facilidade no ar que, muito antes de abrir-se o frasco, o aroma é definido, reconhecido e apreciado pelos entendidos. Fazia apenas seis horas que Oliveiros era amigo da rainha, mas toda a gente já se tida, a Sra. de La Motte.

   Ao mesmo passo que recebia as felicitações com o semblante de um homem verdadeiramente feliz, e que, para prestar-lhe maiores homenagens e demonstrar-lhe maior amizade, toda a esquerda da ala passava para a direita, Oliveiros, obrigado a deixar que os seus olhares se alongassem pelo grupo espalhado à sua volta, viu só, diante de si, um rosto cuja sombria palidez e cuja imobilidade o impressionaram.

   Reconheceu Filipe de Taverney apertado no seu uniforme e com a mão no punho da espada.

   Após as visitas de cortesia feitas por este último à antecâmara do adversário depois do duelo, após o sequestro de Charny realizado pelo Dr. Luís, nenhum outro contacto se estabelecera entre os dois rivais.

   Vendo Filipe considerá-lo tranquilamente, sem benevolência mas sem ameaça, Charny dirigiu-lhe um cumprimento, que o outro retribuiu, de longe.

Logo, abrindo com a mão o grupo que o cercava:

   —     Perdão, senhores, — rogou Oliveiros; — deixai-me cumprir um dever de polidez.

   E, atravessando o espaço compreendido entre a sebe da direita e a da esquerda, guiou diretamente para Filipe, que não se mexia.

   —     Sr. de Taverney, — disse, cortejando-o com mais civilidade que da primeira vez, — eu já vos devia ter agradecido o interesse que demonstrastes pela minha saúde, mas acontece que só ontem cheguei.

Filipe corou, olhou para êle e abaixou os olhos.

— Terei a honra, senhor, — continuou Charny, — de ir visitar mos amanhã, e espero que não me tenhais guardado rancor.

— Nenhum, senhor, — replicou Filipe.

Charny ia estender-lhe a mão, quando o tambor anunciou a chegada da rainha.

   —     Eis a rainha, senhor, — anunciou, pausado, o Sr. de Taverney, sem responder ao gesto amistoso do conde.

   E acentuou a frase com uma reverência menos fria que melancólica.

Um tanto surpreso, Charny apressou-se em voltar para junto dos amigos da ala da direita.

Filipe continuou onde estava, como se fosse uma sentinela.

   Aproximava-se a rainha, sorrindo para diversas pessoas, e recebendo ou mandando receber as petições, pois de longe avistara Charny e, não despitando dele os olhos, com a temerária bravura que punha em suas amizades, e que os inimigos taxavam de im-pudor, pronunciou em voz alta estas palavras:

   —     Pedi, senhores, pedi, que hoje eu não saberia recusar o que quer que fosse.

   Charny sentiu-se penetrado até ao fundo do coração pelo tom e pelo sentido daquelas mágicas palavras. Fremiu de prazer, e foi esse o seu agradecimento à rainha.

   Inesperadamente, o rumor de um passo e o metal de uma voz estranha arrancaram Maria Antonieta a sua doce mas perigosa contemplação.

   O passo gritava-lhe à esquerda, sobre as lájeas, e a voz comovida, mas grave, dizia:

—        Senhora!...

   Era Filipe; ela não pôde reprimir um primeiro movimento de surpresa ao ver-se colocada entre os dois homens, que se arguia de amar, um com demasias, o outro demasiado pouco.

— Vós! Sr. de Taverney, — bradou, recobrando-se; — quereis pedir-me alguma coisa?   Falai.

— Dez minutos de audiência ao talante de Vossa Majestade, — disse Filipe, inclinando-se, mas sem desarmar a severa palidez da fronte.

— Neste instante, senhor, — acedeu a rainha, dirigindo um olhar furtivo a Charny, que involuntariamente temia ver tão próximo do antigo adversário; — segui-me.

   E pôs-se a caminhar mais depressa ouvindo o passo de Filipe atrás do seu; Charny continuou onde estava.

   Sem embargo, prosseguiu ela na colheita de cartas, petições e requerimentos, deu algumas ordens e voltou aos seus aposentos.

   Um quarto de hora depois, Filipe era introduzido na biblioteca em que Sua Majestade recebia aos domingos.

   —     Ah! Sr. de Taverney, — disse ela, assumindo o seu ar satisfeito, — entrai e mostrai-me desde logo boa cara.   Pois confesso que me sinto inquieta todas as vezes que um Taverney pede para falar comigo.   Os de vossa família sois agoureiros.   Tranquilizai-me depressa,

Sr. de Taverney, dizendo-me que não vindes anunciar-me uma desgraça.

   Mais pálido ainda depois desse preâmbulo do que durante a cena com Charny, contentou-se Filipe de replicar, ao ver quão pouca afeição emprestava a rainha à sua linguagem:

— Senhora, tenho a honra de anunciar a Vossa Majestade que, desta feita, lhe trago uma boa notícia.

— É uma notícia!

— Infelizmente, Majestade.

— Ah! meu Deus! — replicou ela, reassumindo a expressão alegre que o deixava tão infeliz, — acabastes de dizer infelizmente!   Pobre de mim! diria um espanhol.   O Sr. de Taverney disse infelizmente!

— Senhora, — tornou, grave, Filipe, — duas palavras bastarão a tranquilizar tão completamente Vossa Majestade, que não só a sua nobre fronte não se velará hoje à aproximação de um Taverney, mas nunca mais se velará por culpa de um Taverney-Maison-Rouge.

A partir de hoje, senhora, o último da família a que Vossa Majestade se dignou de conceder algum favor, desaparecerá para sempre da corte de França.

   A rainha, largando de repente a expressão alegre que assumira como recurso contra as presumíveis comoções da entrevista:

— Partis! — exclamou.

— Sim, Majestade.

—        Vós... também!

Inclinou-se Filipe.

   —     Minha irmã, senhora, já teve o desgosto de deixá-la; e eu, como lhe sou muito mais inútil, vou-me embora também.

   Sentou-se a rainha, perturbadíssima ao lembrar-se de que Andreia pedira a mesma licença eterna logo após uma entrevista em casa de Luís, onde o Sr. de Charny recebera as primeiras mostras da simpatia que ela lhe dedicava.

—        É estranho! — murmurou, pensativa.   E não disse mais nada.

Filipe continuava em pé, como uma estátua de mármore à espera do gesto que dispensa.

A rainha, saindo de golpe da sua letargia:

— Aonde ides? — perguntou.

— Pretendo reunir-me ao Sr. de Lapeyrouse.

— O Sr. de Lapeyrouse está, neste momento, em Terra Nova.

— Já tenho tudo pronto para ir ao seu encontro.

— Sabeis que lhe predisseram uma morte horrível?

— Horrível, não sei, — replicou Filipe; — mas rápida, sim.

— E partis?

   Abriu-se num sorriso o rosto formoso do rapaz, tão nobre e tão doce.

—        É por isso mesmo que quero juntar-me a Lapeyrouse.

Recaiu a rainha no seu inquieto silêncio.

Filipe, ainda uma vez, ficou esperando, respeitosamente.

   A natureza tão nobre e tão corajosa de Maria Antonieta despertou, mais temerária do que nunca.

   Ergueu-se, aproximou-se do rapaz e disse-lhe, cruzando sobre o peito os braços alvos:

—        Por que partis?

— Porque tenho muita vontade de viajar, — respondeu êle doce mente.

— Mas já destes a volta ao mundo, — volveu a rainha, momentaneamente iludida por aquela calma heróica.

— Ao Novo Mundo, sim, senhora, — continuou Filipe, — mas ao antigo e ao novo ao mesmo tempo, não.

   A rainha fêz um gesto de despeito e repetiu o que dissera a Andreia.

   —     Raça de ferro, corações de aço são esses Taverneys.   Vossa irmã e vós, gente terrível, são amigos que a gente acaba odiando. Partis, não para viajar, que estais farto de viagens, mas para deixar-me.   Vossa irmã dizia-se chamada pela religião, mas esconde um coração de fogo debaixo das cinzas. Enfim, quis partir, partiu. Deus a faça feliz!   E vós, que poderíeis ser feliz, quereis partir também. Eu não disse há pouco que os Taverneys me são infaustos?

— Poupe-nos, senhora; se Vossa Majestade se dignasse de examinar melhor os nossos corações, neles encontraria apenas um devota-mento sem limites.

— Ouvi! — bradou, colérica, a rainha, — vós, o quacre, e ela, a filósofa, sois duas criaturas impossíveis.   Para ela, o mundo é um paraíso em que a gente só entra com a condição de ser santo; para vós, o mundo é um inferno, onde só vivem os diabos; e ambos fugistes o mundo: um, por encontrar nele o que êle não procura; o outro, pelo não encontrar.   Tenho ou não tenho razão?   Ora, meu caro Sr. de Taverney, deixai que os humanos sejam imperfeitos, e não peçais às famílias reais senão que sejam as menos imperfeitas das famílias humanas; sede tolerante, ou melhor, não sejais egoísta.

   Ela acentuou essas palavras com apaixonada veemência. Filipe percebeu a superioridade da sua posição.

   —     Senhora, — disse êle, — o egoísmo é uma virtude quando dele nos servimos para realçar as nossas adorações.

Ela corou.   E disse:

— Só sei de uma coisa: eu gostava de Andreia e ela me deixou. Eu vos queria bem e vós me deixais.   É humilhante para mim ver duas pessoas tão perfeitas, digo-o sinceramente, abandonarem minha casa.

— Nada pode humilhar uma pessoa augusta como Vossa Majestade, — replicou priamente Taverney; — a vergonha não atinge as frontes elevadas.

— Estou procurando com atenção, — prosseguiu a rainha, — o que vos possa ter magoado.

— Nada me magoou, senhora, — tornou vivamente Filipe.

— A vossa patente foi confirmada; a vossa fortuna está em bom andamento; eu vos distinguia...

— Repito a Vossa Majestade que nada me agrada na corte.

— E se eu vos dissesse que ficásseis?...   Se vo-lo ordenasse?...

— Eu teria a mágoa de recnsar-me a obedecer-lhe.

   A rainha, pela terceira vez, mergulhou na silenciosa reserva que representava para a sua lógica o que representa para o esgrimista cansado a ação de romper.

E como saía sempre desse repouso com um repente:

— Talvez haja aqui alguém que vos desagrade?   Sois muito desconfiado, — alvitrou, fitando nele o claro olhar.

— Ninguém me desagrada.

— Eu vos supunha de mal... com um fidalgo... o Sr. de Charny... que feristes em duelo... — volveu ela, animando-se gradativamente. — E como é natural que a gente evite as pessoas de que não gosta, assim que vistes voltar o Sr. de Charny, quisestes deixar a corte.

Filipe não respondeu.

   Enganando-se com aquele homem tão leal e tão bravo, julgou a rainha que era apenas um ciumento comum. Perseguiu-o sem misericórdia.

   —     Só hoje soubestes, — continuou, — que o Sr. de Charny está de volta.   Hoje!   E hoje me apresentais as vossas despedidas?

   Tornou-se Filipe mais lívido que pálido. Assim atacado, assim espezinhado, reergueu-se cruelmente.

   —     Senhora, — disse êle, — apenas hoje eu soube do regresso do Sr. de Charny, é verdade; entretanto, faz um pouco mais de tempo do que supõe Vossa Majestade, pois encontrei-o cerca das duas horas da madrugada à porta do parque que corresponde aos banhos de Apoio.

   A rainha empalideceu por sua vez; e, depois de haver considerado com admiração e terror a perfeita cortesia que em sua cólera conservava o fidalgo:

   —     Bem! — murmurou, com voz apagada; — ide, senhor, não vos retenho mais.

Filipe cortejou pela última vez e partiu a passos lentos. A rainha caiu fulminada na poltrona, murmurando:

—        França! país de nobres corações!

 

         O ciúme do Cardeal

   ENTRETANTO, vira o cardeal sucederem-se três noites bem diferentes daquelas que a sua imaginação revivia sem cessar. Nenhuma notícia, nenhuma esperança! O silêncio mortal após o frenesi da paixão era a treva de um calabouço depois da claridade álacre do sol.

   Acalentara primeiro a esperança de que a amante, mulher antes de ser rainha, quisesse conhecer a natureza do amor que despertara, e saber se continuava a agradar, depois da prova, como antes. Sentimento totalmente masculino, cuja materialidade, convertida em arma de dois gumes, feriu dolorosamente o próprio apaixonado quando se voltou contra êle.

   Com efeito, não vendo vir ninguém e ouvindo apenas o silêncio, como diz o Sr. Delille, receou o infeliz que a prova lhe houvesse sido desfavorável. Daí, uma angústia, um terror, uma inquietação de que não pode fazer ideia quem não sofreu essas nevralgias gerais que transformam cada fibra ligada ao cérebro numa serpente de fogo, que se contrai ou estende a seu sabor.

   O mal-estar tornou-se-lhe insuportável; mandou dez correios à casa da Sra. de La Motte e outros dez a Versalhes no espaço de uma manhã.

   O último trouxe-lhe finalmente Joana, que, entretida em vigiar Charny e a rainha, se aplaudia intimamente da impaciência do cardeal, à qual não tardaria em dever o bom êxito do seu cometimento.

Vendo-a, o prelado estourou.

— Como é possível que vivais nessa tranquilidade! — bradou êle. — Sabeis-me supliciado e vós, que vos dizeis minha amiga, deixais que o meu suplício se prolongue até à morte!

— Ora, Monsenhor, — replicou Joana, — paciência, por favor! O que eu estava fazendo em Versalhes, longe de vós, é muito mais útil do que o que estáveis fazendo aqui, à minha espera.

— Não sejais cruel a esse ponto, — tornou Sua Eminência, radiante com a esperança de obter notícias. — Vamos a ver, que é o que estão dizendo, que é o que estão fazendo lá?

— A ausência é sempre um mal doloroso, quer sofrido em Paris, quer sofrido em Versalhes.

— Isso me encanta e eu vo-lo agradeço. Mas...

— Mas?

— Provas!

— Ah! meu Deus! — exclamou Joana, — que estais dizendo, Monsenhor!   Provas! Que significa essa palavra? Provas!...   Estais no vosso juízo perfeito?   Acaso se pedem a uma mulher provas de seus erros?

— Não estou pedindo peças para incluir num processo, condessa; estou pedindo uma prova de amor.

— Parece-me, — disse ela depois de haver considerado de certo modo Sua Eminência, — que vos estais tornando muito exigente, para não dizer muito esquecido.

— Sei o que me direis, sei que eu devia considerar-me satisfeito e honrado; mas julgai-me o coração pelo vosso.   Aceitaríeis que vos pusessem de parte depois de vos haverem feito saborear as aparências do favor?

— Dissestes aparências, se não me engano? — replicou Joana, no mesmo tom escarninho.

— Podeis bater-me impunemente, condessa; é verdade que nada me autoriza a queixar-me; mas eu me queixo...

— Nesse caso, Monsenhor, se o vosso descontentamento só tem causas frívolas, ou não tem nenhuma, não posso responsabilizar-me por êle.

— Condessa, estais-me tratando mal.

— Repito as vossas palavras, Monsenhor.   Acompanho a vossa argumentação.

— Inspirai-vos em vós, ao invés de censurar as minhas loucuras; ajudai-me em vez de atormentar-me.

— Não posso ajudar-vos onde não vejo nada que fazer.

— Não vedes nada que fazer? — repetiu o cardeal, acentuando cada palavra.

— Nada.

— Pois bem! senhora, — acudiu, veemente, o Sr. de Rohan, — nem toda a gente diz talvez a mesma coisa.

— Infelizmente, Monsenhor, estamos chegando à cólera, e já não nos compreendemos.   Perdoai-me observar-vo-lo.

— À cólera!   Sim...   A vossa má vontade a ela me empurra, condessa.

— E não vedes que estais sendo injusto?

— Não! se não continuais a servir-me é porque não podeis fazer outra coisa, bem o vejo.

— Nesse caso, por que me acusais?

— Porque deveríeis dizer-me toda a verdade.

— A verdade!   Eu vos disse a que sabia.

— Mas não me dizeis que a rainha é uma pérfida, uma sécia, que leva a gente a adorá-la e depois desespera os adoradores.

Joana considerou-o com ar surpreso.

—        Explicai-vos, — disse, a tremer, não de medo, senão de alegria.

Efetivamente, acabava de entrever no ciúme do cardeal uma iaída que as circunstâncias talvez não lhe tivessem inspirado para safar-se de tão difícil situação.

— Confessai-me, — continuou o cardeal, que só enxergava a sua paixão, — confessai-me, por misericórdia, que a rainha se recusa a ver-me.

— Não digo isso, Monsenhor.

— Confessai que se ela não me repele de sua livre e espontânea vontade, o que ainda espero, evita-me não alarmar outro amante que as minhas assiduidades terão espertado.

— Ah! Monsenhor, — exclamou Joana num tom maravilhosa mente meloso, que deixava suspeitar muito mais do que simulava disfarçar.

— Escutai-me, — voltou o Sr. de Rohan, — na última vez que vi Sua Majestade, creio ter ouvido alguém andando no meio do mato.

— Loucura.

— E direi quanto suspeito.

— Nem mais uma palavra, Monsenhor, que estais ofendendo a rainha!   De resto, se é verdade que ela tem a desventura de recear a vigilância de um amante, o que não acredito, levaríeis a injustiça a ponto de converter em crime o passado que ela vos sacrifica?

— O passado! o passado!   Palavra sonora, mas que não tem significação, condessa, quando esse passado é ainda o presente e deve ser o futuro.

— Ora, Monsenhor!   Estais-me falando como a um corretor acusado de haver sugerido um mau negócio.   As vossas suspeitas são tão ofensivas para a rainha, que o acabam sendo para mim também.

— Então, condessa, provai-me...

— Se repetirdes essa palavra, tomarei a injúria para mim.

— Mas, afinal... ter-me-á ela um pouco de amor?

— Há um meio facílimo, Monsenhor, — replicou Joana, indicando ao cardeal a mesa e tudo o que era preciso para escrever.— Sentai-vos aí e perguntai-lho.

Sua Eminência arrebatou, exaltado, a mão da condessa.

— Entregar-lhe-eis o bilhete? — perguntou.

— Se eu não lho entregasse, quem o faria?

— E... prometeis-me uma resposta?

— Se não tivésseis resposta como saberíeis o que ela sente por vós?

— Ainda bem, assim é que vos quero, condessa.

— Não é mesmo? — observou ela com o seu fino sorriso.

   Êle sentou-se, tomou da pena e começou a escrever. O Sr. de Rohan tinha a pena eloquente e a letra fácil; no entanto, rasgou dez folhas antes de se confessar satisfeito.

— Se continuardes desse jeito, — observou Joana, — nunca chegareis ao fim.

— É que não me fio da minha ternura, condessa; ela transborda a meu pesar e talvez fatigue a rainha.

— Ah! — exclamou Joana, irónica, — se lhe escreverdes como político, ela vos responderá como diplomata.   Isso é convosco.

— Tendes razão, e sois uma mulher de verdade, tanto pelo coração quanto pelo espírito.   Afinal, condessa, por que teria eu um segredo para vós, que conheceis os meus?

Ela sorriu.

— O fato é que tendes pouca coisa para esconder-me, — observou.

— Lede por cima do meu ombro, lede tão depressa quanto eu escrever, se fôr possível; pois o meu coração está ardendo e a pena vai devorar o papel.

   Luís, de fato, escreveu; escreveu uma carta tão ardente, tão doida, tão cheia de reproches amorosos e protestos comprometedores, que, terminada a leitura, Joana, que lhe seguia o pensamento até ao fim, disse entre si:

— Êle acaba de escrever o que eu não teria ousado ditar-lhe.

O cardeal releu e perguntou:

— Está bem?

— Se ela vos ama, — replicou a traidora, — vê-la-eis amanhã; agora, descansai.

— Até amanhã, sim.

— Não peço mais do que isso, Monsenhor.

   Pegou no bilhete lacrado, deixou que Sua Eminência lhe beijasse os olhos e voltou, à tarde, para casa.

E, tendo-se despido e refrescado, entrou a cismar.

A situação era exatamente a que, desde o princípio, desejara.

Bastar-lhe-ia dar mais dois passos para alcançar a meta.

Qual dos dois escolheria por escudo: a rainha ou o cardeal?

   A carta do cardeal colocava-o na impossibilidade de acusá-la no dia em que ela o obrigasse a reembolsar as somas devidas pelo colar.

   E ainda que se vissem e entendessem o cardeal e a rainha, como ousariam perder a Sra. de La Motte, depositária de tão escandaloso segredo?

   A rainha não faria escândalo e acreditaria no ódio do cardeal; o cardeal acreditaria na garridice da rainha; mas os debates, se os houvesse, se travariam a portas fechadas, e a Sra. de La Motte, da qual se teriam, quando muito, suspeitas, aproveitaria o pretexto para expatriar-se, levando consigo a bela soma de um milhão e meio.

   Saberia o cardeal que Joana ficara com os brilhantes, e a rainha o adivinharia; mas de que lhe serviria fazer barulho em torno de um fato tão estreitamente ligado à história do parque e dos banhos de Apoio?

   Entretanto, não bastaria uma carta para edificar todo aquele sistema de defesa. O cardeal tinha boas penas, ainda escreveria umas sete ou oito vezes.

   Quanto à rainha, quem sabe se naquele mesmo instante não estaria forjando, com o Sr. de Charny, armas para Joana de La Motte?

   Todas essas trapalhadas e complicações redundariam, na pior das hipóteses, numa fuga, e Joana já lhe prefigurava as diversas fases.

   Primeiro o vencimento do prazo, a denúncia dos joalheiros. A rainha dirigir-se-ia ao Sr. de Rohan.

Como?

   Por intermédio de Joana, inevitavelmente. Joana avisaria o cardeal e o convidaria a pagar. Se êle se recusasse, ameaçá-lo-ia de publicar as cartas; êle pagaria.

   Feito o pagamento, já não haveria perigo. Quanto ao escândalo público, esse ficaria dependendo da questão da intriga. Nesse ponto, satisfação absoluta. A honra de uma rainha e de um Príncipe da Igreja por um milhão e meio era até barato; Joana já se via na posse de três milhões quando bem o entendesse.

E por que se sentia tão segura no tocante à intriga?

Porque o cardeal estava convencido de ter visto, em três noites seguidas, a rainha nos bosques de Versalhes, e nenhum poder no mundo lograria despersuadi-lo disso. Porque só existia uma prova da fraude, prova viva, irrecusável, que Joana faria desaparecer.

   Chegada a esse ponto da meditação, abeirou-se da janela e viu Oliva, inquieta e curiosa, no balcão.

   — Agora nós, — pensou, cumprimentando ternamente a ctim-plice.

E fêz-lhe o sinal convencionado para que descesse à noite.

   Muito satisfeita por haver recebido essa comunicação oficial, Oliva tornou ao seu quarto e Joana às suas meditações.

   Quebrar o instrumento quando já não pode servir é o hábito de todos os intrigantes; entretanto, a maioria é mal sucedida, ou porque, ao quebrá-lo o faz de modo que êle solte um gemid-o e revele o segredo, ou porque, não conseguindo inutilizá-lo de todo, permite-lhe que venha a servir a outros.

   Joana refletiu que a pequena Oliva, toda entregue ao gosto» de viver, não se deixaria quebrar como convinha sem soltar um gemido.

   Era necessário imaginar para ela uma fábula que a decid_isse a fugir; e outra que a fizesse fugir de muito bom grado.

   As dificuldades surgiam a cada passo; mas certos espíritos encontram no resolvê-las tanto prazer quanto a outros proporciona o andar sobre rosas.

   Por mais encantada que estivesse com a sociedade da nova amiga, Oliva estava apenas relativamente encantada, isto é, entrevendo essa ligação através das vidraças da sua cadeia, achava-a deliciosa. Mas a sincera Nicole não dissimulava que teria preferido o ar aberto, os passeios ao sol, todas as realidades enfim da vida, àqueles passeios noturnos e àquela fictícia realeza.

   As fantasias da vida eram Joana, seus carinhos e sua intimidade; a realidade da vida eram o dinheiro e Beausire.

   Joana, que havia estudado a fundo essa teoria, prometeu a si mesma aplicá-la na primeira ocasião.

   Numa palavra, decidiu que o tema de sua entrevista com Nicole seria a necessidade de fazer desaparecer completamente a prova das criminosas fraudes cometidas no parque de Versalhes.

Veio a noite, Oliva desceu.   Joana estava à sua espera.

   Subindo a Rua de São Cláudio até o bulevar deserto, chegaram as duas ao carro, que, para melhor deixá-las conversar, entrou a deslizar a passo pelo caminho circular de Vincennes.

   Nicole, bem disfarçada com um vestido simples e uma ampla caleça, e Joana, arrumada como uma costureirinha, não podiam ser reconhecidas. Para isso, aliás, seria preciso enfiar o nariz na carruagem, e só a polícia tinha esse direito. Mas nada ainda lhe chamara a atenção.

   De mais a mais, a carruagem, em vez de ser um veículo simples, ostentava nas almofadas das portinholas as armas dos Valois, respeitáveis sentinelas que nenhum agente ousaria violentar.

   Oliva começou cobrindo Joana de beijos; esta retribuiu-os com usura.

— Oh!   Como me aborreci, — exclamou a primeira; — eu vos procurava, invocava...!

— Era impossível, minha amiga, ver-vos naquela ocasião.   Eu teria corrido e vos faria correr um grandíssimo perigo.

— Como assim? — indagou Nicole, espantada.

— Um perigo terrível, minha querida, cuja simples ideia me arrepia.

— Contai-me isso depressa!

— Aqui vos aborreceis a valer.

— Infelizmente é verdade!

— Para distrair-vos, desejastes sair.

— No que, aliás, muito me ajudastes.

— Falei-vos daquele oficial de artilharia, meio louco, mas muito amável, que está apaixonado pela rainha, com a qual vos pareceis um pouco.

— Eu sei.

— Tive a fraqueza de propor-vos uma brincadeira inocente, que consistia em divertir-nos com o pobre rapaz e mistificá-lo, fazendo-o acreditar num capricho de Sua Majestade por êle.

— É verdade! — suspirou Oliva.

— Não recordarei os dois primeiros passeios que demos à noite, no jardim de Versalhes, em companhia do pobre rapaz.

Oliva tornou a suspirar.

— As duas noites em que representastes tão bem o vosso papelzinho, que o nosso apaixonado levou a coisa a sério.

— Acho que fizemos mal, — comentou Oliva, baixinho; — pois, de fato, o enganamos e êle não o merece; é um cavaleiro encantador.

— Não é mesmo?

— É, sim.

— Mas esperai, que o mal ainda não reside nisso. Ter-lhe dado uma rosa, ter-vos deixado chamar Majestade, ter-lhe permitido beijar-vos as mãos tudo isso são traquinadas. . . Mas. . . minha pequena Oliva, parece que isso não é tudo.

   Oliva corou de tal maneira que, não fosse a escuridão da noite, Joana o teria percebido. É verdade que ela, inteligentemente, estava olhando para o caminho e não para a companheira.

— Como... ? — balbuciou Nicole. — Não é tudo... como?

— Houve uma terceira entrevista.

— Houve, — conveio Oliva, hesitando; — e sabei-lo muito bem porque também lá estáveis.

— Perdão, minha querida amiga, eu estava, como sempre, à distância, vigiando ou fingindo vigiar, para dar maior autenticidade ao vosso papel.   Por conseguinte, não vi nem ouvi o que se passou na gruta.   Sei apenas o que me contastes. , Ora, contastes-me, ao voltar, que havíeis passeado, que havíeis conversado, que continuara a troca de rosas e de beijos.   Eu acredito em tudo o que me dizem, minha querida!

— Pois sim!... mas... — tornou Oliva, a tremer.

— Pois sim! minha linda, mas parece que o nosso doido anda dizendo que obteve mais do que lhe concedeu a pretença rainha.

— O quê?

— Parece que, aturdido, desvairado, gabou-se de haver alcançado da rainha uma prova irrecusável de amor.   O pobre diabo está decididamente louco.

— Meu Deus! meu Deus! — murmurou Oliva.

— Está louco porque está mentindo, não é verdade? — insistiu Joana.

— De certo... — balbuciou Oliva.

   —     Não vos teríeis, minha querida pequena, exposto a tamanho perigo sem me avisar.

Oliva estremeceu da cabeça aos pés.

— Não é provável, — continuou a terrível amiga, — que vós, que amais o Sr. Beausire e me tendes por companheira; que sois cortejada pelo Sr. Conde de Cagliostro e lhe repelis as atenções, tenhais dado, por capricho, a esse louco, o direito... de... dizer?...   Não, êle perdeu a cabeça, não posso acreditar numa coisa dessas.

— Mas afinal, — bradou Nicole, — onde está o perigo? Vamos a ver!

— Ei-lo.   Estamos tratando com um louco, isto é, um homem que não teme nada e nada poupa.   Enquanto tudo se resumia na dádiva de uma rosa, num beijo na mão, não havia o que dizer; uma rainha tem rosas em seu parque, tem mãos à disposição de seus súditos; mas se é verdade que na terceira entrevista...   Ah! Minha querida filha, perdi a vontade de rir depois que essa ideia me ocorreu...

Sentiu Oliva que se lhe apertavam os dentes de medo.

— Que acontecerá, então, minha boa amiga? — perguntou.

— Acontecerá primeiro que não sois a rainha, pelo menos que eu saiba.

— Não.

— E que, tendo usurpado a qualidade de Sua Majestade para cometer uma... leviandade desse género...

— Sim...?

— Isso se chama lesa-majestade...   Levam-se as pessoas muito longe com essa palavra.

Oliva escondeu o rosto entre as mãos.

— Afinal de contas, — continuou Joana, — como não fizestes o de que êle se gaba, ficareis quite provando-o.   As duas leviandades precedentes serão punidas com dois ou quatro anos de prisão e com o exílio.

— Prisão! exílio! — gritou Oliva, espavorida.

— O caso não é irreparável; mas, de qualquer maneira, vou tomar as minhas precauções e pôr-me a salvo.

— Sereis inquietada também?

— Pudera!   Acaso não me denunciará imediatamente o insensato?   Ah! minha pobre Oliva! caro nos custará a mistificação!

A rapariga desatou a chorar.

   —     E eu, eu, — disse ela, — que não consigo ficar sossegada por um momento!   Oh! espírito do diabo! oh! demónio!   Estou possessa. Tenho a certeza de que, depois desta desgraça, acabarei provocando outra.

— Não vos desespereis, buscai apenas evitar o escândalo.

— Vou trancar-me em casa do meu protetor.   E se eu lhe contasse tudo?

— Bonita ideia!   Um homem que vos trata a vela de libra, dissimulando o seu amor; um homem que só espera de vós uma palavra para adorar-vos!   E ainda quereis confessar-lhe que cometestes essa imprudência com outro!   Observai que digo apenas imprudência; sem contar o que êle poderá suspeitar.

— Meu Deus! tendes razão.

— Há mais: o escândalo vai espalhar-se, a busca dos magistrados despertará os escrúpulos do vosso protetor.   Quem sabe se êle para ficar bem na corte, não quererá entregar-vos?

— Oh!

— Admitamos que vos enxote pura e simplesmente: que será de vós?

— Estou perdida...

— E o Sr. de Beausire, quando souber disso! — articulou Joana lentamente, estudando o efeito do último golpe.

   Oliva deu um pulo.   Num gesto violento destruiu todo o edifício do seu penteado.

—        Êle me matará. Não, — murmurou, — eu mesma me matarei.

Logo, voltando-se para Joana:

— Não podeis salvar-me, — disse, com desespero, — porque estais perdida também.

— Tenho, — replicou Joana, — no fundo da Picardia, um pedacinho de terra, um sítio.   Se pudéssemos, sem que nos vissem, chegar a esse refúgio antes do escândalo, talvez nos restasse uma oportunidade...

— Mas esse louco vos conhece e saberá encontrar-vos.

— Depois que houverdes partido, quando estiverdes escondida e não fordes encontrável, já não terei medo do louco.   Dir-Ihe-ei bem alto:   Sois um insensato afirmando essas coisas; provai-as.   E como não lhe será possível prová-las, acrescentarei baixinho:   Sois um covarde!

— Partirei quando e como vos aprouver, — prometeu Oliva.

— Creio que é prudente, — replicou Joana.

— Devo partir já?

— Não, esperai que eu prepare todas as coisas para a viagem. Escondei-vos, não vos mostreis, nem mesmo a mim.   Disfarçai-vos até ao mirar-vos no espelho.

— Sim, sim, contai comigo, querida amiga.

— E, para começar, voltemos; já não temos o que dizer-nos.

— Voltemos.   De quanto tempo precisais para os preparativos?

— Não sei; mas prestai atenção: de hoje até ao dia da partida,nem eu sairei à janela.   Se alguma vez me virdes assomar a ela, entendei que a fuga será para esse dia, e aprontai-vos.

— Sim, obrigada, minha boa amiga.

   Voltaram ambas devagarinho para a Rua de São Cláudio. Oliva já não se atrevia a falar, e Joana refletia tão profundamente que não se lembrava de fazê-lo.

   Ao chegarem, beijaram-se; Oliva pediu humildemente perdão à amiga por todas as desgraças que lhe acarretara a sua irreflexão.

   —     Sou mulher, — retrucou a Sra. de La Motte, parodiando o poeta latino, — e todas as fraquezas femininas me são familiares.

 

         A fuga

   O QUE Oliva prometeu, cumpriu.

   O que Joana prometeu, fêz.

   A partir do dia seguinte, Nicole dissimulou de tal maneira a sua existência a todo o mundo, que ninguém poderia desconfiar de que ela morasse na casa e na Rua de São Cláudio.

   Escondida sempre atrás de uma cortina ou de um paravento, estava sempre calafetando a janela, a despeito dos raios de sol que vinham, alegres, mordê-la.

   Joana, de seu lado, aprestava tudo; sabendo que no dia imediato se venceria a primeira prestação de quinhentas mil libras, arranjava-se de modo que não deixasse atrás de si nenhum ponto vulnerável para o momento em que estourasse a bomba.

Esse momento terrível era a meta última de suas observações.

   Calculara, prudente, a alternativa de uma fuga; mas, embora fácil, essa fuga seria a mais positiva das acusações.

   Ficar, ficar imóvel como o duelista sob o golpe do adversário; ficar com a possibilidade de cair, mas também com a possibilidade de matar o inimigo, tal foi a determinação que tomou.

Eis porque, já no dia seguinte à entrevista com Oliva, se mostrou, cerca das duas horas, à janela, indicando à falsa rainha que chegara o momento de aprontar-se para abalar à noite.

   Fora impossível descrever a alegria e o terror da rapariga. A necessidade de fugir significava perigo; mas a possibilidade de fugir significava salvação.

   Mandou um beijo eloquente a Joana e, logo depois, iniciou os preparativos, enfiando na maletinha alguns dos preciosos objetos do protetor.

   Dado o sinal, Joana saiu de casa à procura do carro a que seria entregue o importante destino da Srta. Nicole.

   Depois, mais nada: o mais curioso observador não teria podido observar outra coisa entre os índices ordinariamente significativos da inteligência das duas amigas.

   Cortinas cerradas, janela fechada, luz tardiamente errante. Depois, um ruge-ruge, uns rumores misteriosos, uma agitação; depois, a sombra e o silêncio.

   Onze horas da noite soavam na Igreja de São Paulo, e o vento do rio lhe trazia os sons lugubremente espaçados até à Rua de São Cláudio, quando Joana chegou à Rua de São Luís com um carro de posta puxado por três vigorosos cavalos.

   Na boleia, um homem encapotado indicava o endereço ao postilão.

   Joana puxou-lhe da ponta da capa e fê-lo parar na esquina da Rua do Rei Dourado.

O homem desceu para falar-lhe.

— O carro ficará aqui, meu caro Sr. Reteau, — disse Joana, — cerca de meia hora.   Voltarei com alguém que fareis conduzir, pagando mudas dobradas, até à minha casinha de Amiens.

— Sim, Sra. Condessa.

— Lá, entregareis a pessoa ao meu rendeiro Fontaines, que sabe o que tem de fazer.

— Sim, senhora.

— Ah! ia-me esquecendo... estais armado, meu caro Reteau?

— Estou, sim, senhora.

— Essa dama tem sido ameaçada por um louco... pode ser que queiram detê-la no meio do caminho...

— Nesse caso, que farei?

— Atirareis a quem quer que se atreva a interromper-vos a marcha.

— Sim, senhora.

— Pedistes-me vinte luíses de gratificação pelo que sabeis; darei cem e pagarei a vossa viagem a Londres, onde estarei em menos de três meses.

— Sim, senhora.

— Aqui estão os cem luíses.   Provavelmente não vos tonarei a ver, pois seria prudente que fôsseis a Saint-Valery e vos embarcásseis imediatamente para a Inglaterra.

— Contai comigo.

— É do vosso interesse.

— Do nosso, — emendou o Sr. Reteau, beijando-lhe a mão. Ficarei à espera.

— E eu vou mandar-vos a dama.

   Reteau ocupou no carro o lugar de Joana, que, ligeira, chegou à Rua de São Cláudio e entrou em casa.

   Tudo estava dormindo no bairro inocente. A condessa acendeu a vela que, erguida acima do balcão, era o sinal para Oliva descer.

—        A moça é precavida, — observou, vendo a janela escura.

Ergueu e abaixou três vezes a vela.

   Nada. Mas pareceu-lhe ouvir como que um gemido ou um sim, atirado imperceptivelmente ao ar, debaixo da folhagem.

—        Ela descerá no escuro, — pensou; — e fará bem.

E desceu também à rua.

   A porta não se abria. Oliva devia estar atrapalhada com alguns pacotes pesados ou incómodos.

   —     Tola! — praguejou a condessa; — quanto tempo perdido por causa de uns trapos!

Não vinha ninguém.   Joana atravessou a rua.

   Nada. Pôs-se à escuta, encostando o ouvido aos pregos de ferro da porta fronteira.

Quinze minutos se passaram; deu meia hora depois das onze.

   Joana afastou-se até ao bulevar para ver de longe se havia luz nas janelas.

   Teve a impressão de que uma suave claridade passeava pelo vazio das folhas sob as cortinas duplas.

   —     Que é que ela   está fazendo?     Misericórdia!     Que estará fazendo a desgraçadinha?   Pode ser que não tenha visto o sinal. Vamos!   Coragem, tornemos a subir.

   E, de feito, voltou para casa, onde fêz funcionar de novo o telégrafo das velas.

Nenhum sinal respondeu aos seus.

   —     Com certeza, — pensou, amarfanhando com raiva os punhos de rendas, — a idiota está doente e não pode levantar-se.   Mas não importa!   Viva ou morta, partirá esta noite.

   Tornou a descer a escada com a precipitação de uma leoa perseguida. Tinha na mão a chave que tantas vezes propiciara a Oliva a liberdade noturna.

No momento de enfiá-la na fechadura, deteve-se.

   —     E se estiver alguém com ela lá em cima? — refletiu. — Impossível!   Eu ouviria vozes, e sempre teria tempo de descer.   E se encontrasse alguém na escada. ..   Oh!

A perigosa suposição quase a fêz recuar.

   Mas o estrépito das ferraduras dos seus cavalos sobre as pedras sonoras da rua decidiu-a.

   —     Sem perigo, — murmurou, — não há nada de grande!   Com audácia, nunca há perigo!

Fêz girar a chave na fechadura e a porta se abriu.

   Conhecia a casa; a sua inteligência lhe teria revelado todas as particularidades dela se não houvesse reparado nelas quando ia, à noite, esperar Oliva. E como a escada ficava à esquerda, entrou a galgá-la.

Nenhum ruído, nenhuma luz, ninguém.

Chegou assim ao patamar do apartamento de Nicole.

   Debaixo da porta, lobrigou uma réstea de luz; atrás da porta, ouviu o rumor de um passo agitado.

   Ofegante, mas abafando a respiração, escutou. Não distinguiu vozes. Oliva, portanto, devia estar sozinha, andando, arrumando as suas coisas.   Não estava doente; apenas se atrasara.

Joana arranhou devagarinho a madeira da porta.

   —     Oliva! Oliva! — sussurrou; — minha amiga, minha amiguinha!...

Ôs passos aproximaram-se.

—        Abri! abri! — ordenou precipitadamente.

   A porta se abriu e um dilúvio de luz inundou a condessa, que se viu diante de um homem com um archote de três braços. Ela soltou um grito terrível escondendo o rosto.

—        Oliva! — disse o homem, — sois vós?

E ergueu delicadamente a capa da condessa.

— Sra. Condessa de La Motte, — bradou, por seu turno, num tom de surpresa admiravelmente natural.

— Sr. Cagliostro! — murmurou Joana, cambaleando, e prestes a desfalecer.

   Entre todos os perigos que pudera imaginar, aquele jamais lhe ocorrera. Não se apresentava muito aterrador à primeira vista, mas depois de refletir um pouco, observando o ar sombrio e a profunda dissimulação daquele homem estranho, pareceu-lhe formidável.

   Sentiu que ia perder a cabeça, recuou, teve ímpetos de se atirar pela escada abaixo.

   Cagliostro estendeu-lhe polidamente a mão, convidando-a a sentar-se.

— A que devo a honra da vossa visita, senhora? — perguntou com voz firme.

— Senhor... — balbuciou a intrigante, que não conseguia des

fitar os olhos dos olhos do conde, — eu vinha... eu estava procurando ...

— Permiti que eu toque a campainha para mandar castigar os meus criados que tiveram o desazo, a grosseria de deixar que se apresentasse sozinha uma mulher da vossa qualidade.

Joana estremeceu.   Deteve a mão do conde.

— Deve ter sido, — continuou êle, imperturbável, — aquele patife do alemão que é meu suíço, e que costuma embriagar-se.   Não vos terá reconhecido.   Com certeza abriu a porta sem dizer nada, sem fazer nada; e ferrou no sono depois de abri-la.

— Não o castigueis, por favor, — articulou mais livremente Joana, sem suspeitar da armadilha.

— Foi êle mesmo quem abriu, não foi?

— Creio que sim...   Mas prometestes não lhe fazer nada.

— E cumprirei minha palavra, — volveu o conde, sorrindo. — Entretanto, minha senhora, tende a bondade de explicar-vos.

Vendo que não suspeitavam de que houvesse aberto a porta sozinha, entendeu Joana que podia mentir sobre o motivo da sua visita.   Não deixou de fazê-lo.

— Eu vinha, — disse depressa, — consultar-vos, Sr. Conde, sobre certos rumores que estão correndo.

— Que rumores, minha senhora?

— Não aperteis comigo, por favor, — continuou ela, com afetação; — a minha visita é delicada...

— Procura! procura! — pensava Cagliostro; — procura tu que eu

já encontrei.

— Sois amigo de Sua Eminência, Monsenhor Cardeal de Rohan,—         disse Joana.

— Ah! ah! não está mal, — pensou Cagliostro. — Vai até ao fim do fio que estou segurando; mas não vás mais adiante.

— Mantenho, realmente, muito boas relações com Sua Eminência, — conveio êle.

— E eu vinha, — prosseguiu Joana, — pedir-vos uma informação sobre...

— Sobre... — repetiu Cagliostro, com uma nuança de ironia.

— Já vos declarei que a minha posição é delicada, não abuseis dela.   Não deveis ignorar que o Sr. de Rohan me demonstra certa afeição, e eu quisera saber até que ponto posso contar...   Enfim, senhor, dizem que ledes nas mais espessas trevas dos espíritos e dos corações.

— Um pouco mais de luz, minha senhora, — atalhou o conde,—   para que eu possa ler melhor nas trevas do vosso coração e do vosso espírito.

   — Dizem que Sua Eminência gosta de outra; dizem que Sua Eminência coloca muito alto o coração...   Dizem até...

   A essa altura Cagliostro fitou em Joana, que quase caiu para trás, um olhar carregado de raios.

   — Senhora, — disse êle, — leio com efeito nas trevas; mas, para ler bem, preciso de que me ajudem. Tende a bondade de responder a estas perguntas: Como viestes procurar-me aqui? Não é aqui que eu moro.

   Joana estremeceu.

   — Como entrastes aqui? Não há suíço bêbedo, nem criados nesta parte do palácio.  E se não era eu o objeto da vossa visita, quem procuráveis?   Não respondeis? — prosseguiu, encarando com a tremula condessa; — pois vou ajudar-vos a inteligência.   Entrastes com uma chave que estou percebendo aí,, na vossa algibeira. Viestes procurar uma moça que, por mera bondade, eu estava escondendo em minha casa.

   Joana cambaleou como uma árvore arrancada do chão.

— E... ainda que tudo isso fosse verdade? — respondeu com voz muito baixa, — que crime terei cometido?   Não é permitido a uma mulher visitar outra mulher?   Chamai-a, que ela vos dirá se a nossa amizade tem alguma coisa de inconfessável...

— Senhora, — interrompeu Cagliostro, — dizeis-me tudo isso por que sabeis perfeitamente que ela já não está aqui.

   — Já não está aqui!... — bradou Joana, espavorida. — Oliva não está mais aqui?

— Oh! — volveu Cagliostro, — ignorais talvez que ela partiu, vós, que lhe facilitastes o rapto?

— O rapto! eu! eu! — bradou Joana, sentindo renascer-lhe a esperança. — Raptaram-na e vós me acusais?

— Faço mais: convenço-vos.

— Provai-o! — exclamou, impudente, a condessa.

   Cagliostro pegou num papel que estava sobre uma mesa e mostrou-o:

"Meu senhor e generoso protetor, — dizia o bilhete dirigido a êle, — perdoai-me se vos deixo; mas amo acima de tudo o Sr. de Beausire; êle virá buscar-me e eu o seguirei. Aceitai a expressão do meu reconhecimento."

— Beausire!... — murmurou Joana, petrificada, — Beausire...Êle não sabia o endereço de Oliva!

— Sabia, sim, senhora, — retorquiu Cagliostro, mostrando-lhe outro papel, que tirou do bolso; — vede, encontrei este papel na escada ao chegar para a minha visita cotidiana.   Deve ter caído do bolso do Sr. Beausire.

Leu a condessa, estremecendo:

"O Sr. de Beausire encontrará a Srta. Oliva na Rua de São Cláudio, na esquina do bulevar; encontrá-la-á e a levará incontinenti. É o conselho de uma amiga bem sincera.   O tempo urge."

— Oh! — fêz a condessa, amarrotando o papel.

— E êle levou-a, — observou friamente Cagliostro.

— Quem escreveu este bilhete?

— Aparentemente, vós, a amiga sincera de Oliva.

— Mas como foi que êle entrou aqui? — rebradou Joana, considerando, irada, o impassível interlocutor.

— Acaso não se entra com a vossa chave?

— Se ela está comigo, não podia estar com o Sr. Beausire.

— Quem tem uma chave pode ter duas, — replicou Cagliostro, encarando nela.

— Tendes aí peças bem convincentes, — respondeu lentamente a condessa, — ao passo que eu só tenho suspeitas.

— Também as tenho, — revidou Cagliostro, — e as minhas não valem menos do que as vossas, minha senhora.

   E, dizendo essas palavras, despediu-a com um gesto imperceptível.

   Joana começou a descer; mas ao longo da escada deserta e sombria que subira, encontrou vinte candelabros e vinte lacaios, diante dos quais o dono da casa a chamou em voz alta e por dez vezes: Sra. Condessa de La Motte.

   Saiu, soprando furor e vingança, como o basilisco sopra fogo e veneno.

 

         A carta e o recibo

   DIA seguinte correspondia ao último prazo fixado pela própria rainha aos ourives Boehmer e Bossange.

   A missiva de Sua Majestade recomendava-lhes circunspecção; esperaram, portanto, que as quinhentas mil libras lhes chegassem às mãos.

   E, como sucede a todos os comerciantes, por mais ricos que sejam, que o recebimento de quinhentas mil libras é sempre um assunto grave, prepararam um recibo com a mais imponente das letras.

   Mas o recibo quedou inútil; ninguém veio trocá-lo pelas quinhentas mil libras.

   Passou-se a noite muito cruelmente para os lapidários, à espera de um mensageiro quase inverossímil. Entretanto, refletiram, a rainha tinha ideias extraordinárias; precisava esconder-se; o seu correio talvez só chegasse depois da meia-noite.

   A aurora do dia seguinte deu em terra com as suas quimeras. Tomando finalmente uma resolução, Bossange largou para Versalhes num carro em cujo interior já o esperava o sócio.

   Pediu para ser levado à presença da rainha. Responderam-lhe que, se não tivesse carta de audiência, não entraria.

   Surpreso, inquieto, insistiu. Conhecendo a sociedade, tivera o talento de espalhar, pelas antecâmaras, umas pedrinhas de refugo, que nessa ocasião lhe valeram, colocando-o no caminho de Sua Majestade quando ela regressasse do passeio a Trianon.

   De feito, fremente ainda da entrevista com Charny, voltava Maria Antoníeta, coração alegre e espírito radiante, quando deu com o rosto um tanto contrito e profundamente respeitoso de Boehmer.

   Dirigiu-lhe um sorriso, que êle interpretou da maneira mais favorável, arriscando-se a pedir uma audiência; prometeu-lha a rainha para as duas horas, isto é, para depois do seu jantar. E Boehmer foi levar a excelente notícia a Bossange, que ficara esperando no carro, e, muito resfriado, não quisera mostrar à soberana um semblante desgracioso.

   —     Não há dúvida, — concluíram ambos, depois de analisar os menores gestos, as mínimas palavras de Maria Antonieta, — não há dúvida de que Sua Majestade tem na gaveta a soma que ontem talvez não tivesse; e marcou a entrevista para as duas porque, a essa hora, estará sozinha.

   Chegaram a perguntar a si mesmos, como os companheiros da fábula, se levariam a soma em notas, em ouro ou em prata.

   Quando soaram duas horas, o joalheiro estava em seu posto; levaram-no ao toucador de Sua Majestade.

   —     Mais alguma novidade, Boehmer? — perguntou a rainha, assim que o avistou, ao longe; — quereis falar-me de jóias outra vez?   Estais sem sorte.

   Cuidou Boehmer que alguém estivesse escondido, que a rainha receasse ser ouvida. Assumiu, pois, um ar de inteligência para responder enquanto relanceava os olhos em torno:

— Sim, senhora.

— Procurais alguma coisa? — perguntou ela, espantada. — Tendes algum segredo?

Êle não respondeu, meio abafado por aquela dissimulação.

— O mesmo segredo de antes: uma jóia para vender, — continuou a rainha, — alguma peça incomparável?   Não vos assusteis assim: não há aqui ninguém que possa ouvir-nos.

— Nesse caso... — murmurou Boehmer.

— Nesse caso, o quê?...

— Posso dizer a Vossa Majestade...

—        Mas dizei-o depressa, meu caro Boehmer.

Aproximou-se o joalheiro com um sorriso gracioso.

— Posso dizer-lhe que Vossa Majestade ontem nos esqueceu, — concluiu, mostrando os dentes um tanto amarelados, mas sempre benevolentes.

— Eu vos esqueci!   Como? — atalhou, surpresa, Maria Antonieta.

— É que ontem... era o vencimento...

— O vencimento!...   Que vencimento?

— Perdão, Majestade, se me atrevo...   Sei perfeitamente que estou sendo indiscreto.   Vossa Majestade talvez não esteja preparada.   Seria uma grande desgraça: mas, enfim...

— Ora, essa! Boehmer, — exclamou a rainha, — não estou entendendo patavina do que me dizeis.   Explicai-vos melhor, meu caro.

— Vossa Majestade deve ter perdido a memória.   É muito natural, no meio de tantas preocupações.

— A memória do quê?   Há de ser outro golpe.

— Ontem se venceu a primeira prestação do colar, — arriscou Boehmer, timidamente.

— Vendestes o colar?

— Mas...   — balbuciou êle, considerando-a estupefato, — parece-me que sim.

— Es os compradores não vos pagaram, meu pobre Boehmer? Tanto pior.   Essa gente deveria ter feito o que fiz; não podendo comprar o colar, devia devolvê-lo, deixando-vos o dinheiro do sinal.

— Como?. .. — balbuciou o ourives, cambaleando como o viajor imprudente que se expõe à insolação em terras de Espanha.

   — Que foi o que Vossa Majestade me fêz a honra de dizer?

— Digo, meu pobre Boehmer, que, se dez compradores vos de volvessem o colar, como eu, deixando-vos cada qual duzentas e cinquenta mil libras de sinal, ganharíeis dois milhões e ainda ficaríeis com a jóia.

— Vossa Majestade... — exclamou o joalheiro, empapado de suor, — diz que me devolveu o colar?

— Está claro que o digo, — replicou tranquilamente a rainha.— Que tendes?

— Como! — continuou o lapidário, — Vossa Majestade nega

que me comprou o colar?

— Homessa!   Que comédia estamos representando? — tornou, severa, a rainha. — Porventura estará sempre destinado esse maldito colar a fazer girar a cabeça de alguém?

— Mas, — voltou Boehmer, cujos membros todos tremiam, — pareceu-me ter ouvido da própria boca de Vossa Majestade... que Vossa Majestade me havia devolvido, devolvido o colar de brilhantes.

   A rainha considerou-o cruzando os braços.

   —     Felizmente, — disse ela, — tenho aqui o com que vos refrescar a memória, pois sois   um homem bem desmemoriado, Sr. Boehmer, para não dizer coisa mais desagradável.

   Encaminhou-se diretamente para a cómoda, de onde tirou um papel, que abriu, percorreu com a vista e estendeu lentamente ao desgraçado ourives.

   — Parece-me que o estilo é suficientemente claro, — disse ela. E sentou-se para melhor observá-lo durante a leitura.

   O rosto do joalheiro exprimiu a mais completa incredulidade, depois, gradativamente, o mais terrível pavor.

— E então? — acudiu a rainha. — Reconheceis ou não este recibo, que atesta de tão boa forma a devolução do colar?   E, a menos que vos tenhais esquecido também de que o vosso nome é Boehmer.

— Senhora, — exclamou Boehmer, sufocado de ira e de terror ao mesmo tempo, — não fui eu quem assinou este recibo.

   A rainha deu um passo para trás, fulminando o hpmem com os olhos coruscantes.

   — Negai-lo!

— Absolutamente...   Ainda que eu devesse deixar aqui a liberdade, a vida, repito que não recebi o colar; repito que não assinei o recibo.   Estivesse aqui o cepo, estivesse lá o carrasco, eu tornaria a dizer: não, Majestade, esse recibo não é meu.

— Nesse caso, senhor, — articulou a rainha,   empalidecendo levemente, — roubei-vos; estou com o colar?

   Boehmer vasculhou a sua pasta e dela tirou uma carta que estendeu, por seu turno, a Maria Antonieta...

— Não creio, senhora, — respondeu com voz respeitosa, mas alterada pela emoção, — não creio que, se Vossa Majestade tivesse querido devolver o colar, escrevesse esta confissão.

— Mas que papel é este? — bradou a rainha, — nunca escrevi o que está aí!   Acaso é essa a minha letra?

— Está assinado, — tornou Boehmer, pulverizado.

— Maria Antonieta de França...   Estais louco!   Porventura sou de França?   Acaso não sou arquiduquesa d'Áustria?   Então não é absurdo que eu tenha escrito uma coisa dessas!   Ora, Sr. Boehmer, a cilada é grosseira demais; ide dizê-lo aos vossos falsários.

— Aos meus falsários... — balbuciou o joalheiro, que quase desmaiou ouvindo essas palavras. — Vossa Majestade desconfia de mim, Boehmer?

— E vós não desconfiais de mim, Maria Antonieta? — volveu a rainha com altivez.

— Mas esta carta, — objetou êle ainda, mostrando o papel que estava nas mãos dela.

— E este recibo, — replicou ela, mostrando o papel que êle continuava segurando.

   Boehmer foi obrigado a apoiar-se numa poltrona; a seus pés, o soalho girava. Aspirava o ar em grandes haustos, e a côr purpurina da apoplexia lhe substituía no rosto a lívida palidez do desmaio.

   —     Devolvei-me o recibo, — disse a rainha, — que o tenho por bom, e ficai com a vossa carta assinada por Antonieta de França; o primeiro procurador vos dirá o que vale a assinatura.

   E, tendo-lhe atirado o bilhete, depois de lhe haver arrancado o recibo das mãos, voltou-lhe as costas e passou a uma peça vizinha, deixando entregue a si mesmo o desgraçado, que já não tinha ideia alguma, e, contra todas as regras da etiqueta, se deixou cair numa poltrona.

   Entretanto, volvidos alguns minutos, que lhe serviram para recompor-se, precipitou-se, aturdido, para fora do apartamento e foi ter com Bossange, ao qual referiu a aventura de modo que se fizesse fortemente suspeitado pelo sócio.

   Mas repetiu tão bem e tantas vezes a história, que Bossange começou a arrancar a peruca, ao passo que Boehmer arrancava os cabelos, o que constituiu, para as pessoas que passavam e cujos olhos se enfiavam pelo interior do carro, o mais doloroso e mais cómico dos espetáculos ao mesmo tempo.

   Todavia, como ninguém pode passar um dia inteiro dentro de um carro; como, depois de haver arrancado a peruca ou os cabelos a gente encontra o crânio, e, debaixo desse crânio se encontram ou devem encontrar-se ideias, os dois ourives encontraram a de se reunirem para forçar, se possível, a porta da rainha e obter o que quer que semelhasse uma explicação.

   Endereçaram-se, pois, ao castelo, num lamentável estado, quando foram encontrados por um dos oficiais de Sua Majestade, encarregado de procurá-los. Figure-se a alegria e o zelo com que se apressaram a obedecer ao chamado.

Foram introduzidos sem demora.

 

         Roi Ne Puis, Prince Ne Daigne, Rohan Je Suis.'

   A RAINHA parecia esperar com impaciência; por isso mesmo tanto que avistou os joalheiros:

   — Ah!   Aqui está o Sr. Bossange, — disse, vivamente; — fostes buscar reforço, Boehmer, tanto melhor!

   Boehmer não tinha o que dizer; estava pensando muito.   O melhor que se pode fazer em casos semelhantes, é gesticular; o ourives atirou-se aos pés de Maria Antonieta.

   O gesto era expressivo.

   Bossange imitou-o.

— Senhores, — disse a rainha, — agora estou calma e não tornarei a irritar-me.   Ocorreu-me, aliás, uma ideia que modifica os meus sentimentos em relação a vós.   Não há dúvida nenhuma de que em todo este negócio estamos sendo, vós e eu, vítimas de um misteriozinho... que já não é mistério para mim.

— Ah!   Senhora! — exclamou Boehmer, entusiasmado por essas palavras, — isso quer dizer que Vossa Majestade já não desconfia de que eu... fiz...     Oh!   Como é horrível de pronunciar-se a palavra falsário!

— Se para vós é duro pronunciá-la, para mim não o é menos ouvi-la, — disse a rainha. — Não, já não desconfio de vós.

— Nesse caso, Vossa Majestade desconfia de alguém?

— Respondei às minhas perguntas.   Afirmais que já não tendes os brilhantes?

— Já não os temos, — responderam ao mesmo tempo os dois joalheiros.

— Pouco vos importa saber a quem eu os havia confiado para que vo-los entregasse.   Isso é comigo.   Acaso não vistes... a Sra. Condessa de La Motte?

— Perdão, senhora, vimo-la...

— E ela não vos deu nada... de minha parte?

— Não, senhora.   A Sra. Condessa nos disse apenas:   Esperai.

 

  1. Divisa dos Rohans: "Não posso ser rei, não quero ser príncipe, basta-me o ser Rohan". Eis aí uma tentativa de versão de uma frase difícil de traduzir-se.   (N. do T.).

 

— Mas quem vos entregou a carta?

— Esta carta? — repetiu Boehmer; — a que Vossa Majestade teve em mãos, esta aqui, um mensageiro desconhecido levou-a à nossa casa durante a noite.

   E mostrava a carta falsa.

   —Ah!   Ah! — fêz a rainha; — como vedes, ela não partiu diretamente de mim.

   Tocou a sineta e um lacaio apareceu.

— Mandai chamar a Sra. Condessa de La Motte, — ordenou, tranquilamente.

— E, — continuou, com a mesma calma, — não vistes ninguém, não vistes o Sr. de Rohan?

— O Sr. de Rohan veio visitar-nos e informar-se...

— Muito bem! — replicou a rainha; — não vamos mais longe; desde que o Sr.Cardeal de Rohan está metido no negócio, não deveis desesperar-vos. Já adivinhei:   Ao dizer-vos a palavra Esperai, a Sra. de La Motte terá querido...   Não, não adivinho nada, nem quero adivinhar...   Ide apenas procurar o Sr. Cardeal, e contai-lhe o que acabais de dizer-me; não percais tempo e acrescentai que estou a par de tudo.

   Reanimados por essa chamazinha de esperança, entreolharam--se os joalheiros com semblante menos aterrado.

   Mas Bossange, que também queria dizer alguma coisa, arriscou, baixinho:

   —No entanto, Vossa Majestade tem em mãos o recibo falso, e toda falsificação é crime.

   Maria Antonieta franziu o cenho.

— É verdade, — conveio, — que, se não recebestes o colar, este recibo constitui uma falsificação.   Mas para verificá-la, é indispensável que eu vos acareie com a pessoa que encarreguei de entregar-vos os brilhantes.

— Quando quiser Vossa Majestade, — bradou Bossange; — os comerciantes honestos não têm medo da luz.

   —Pois ide buscar luz junto do Sr. Cardeal, o único que pode esclarecer-nos em tudo isto.

   —E Vossa Majestade nos permitirá trazer-lhe a resposta? — perguntou Boehmer.

   —Ficá-la-ei conhecendo antes de vós; sou eu quem resolverá as vossas dificuldades.   Ide.

   Dispensou-os e, depois que partiram, entregando-se à sua inquietação, mandou um correio atrás do outro à procura da Sra. de La Motte.

   Não a seguiremos nas buscas e suspeitas; deixá-la-emos, pelo contrário, para melhor correr com os joalheiros ao encontro da tão desejada verdade.

   O cardeal estava em casa, lendo, com raiva indescritível, uma cartinha que a Sra. de La Motte acabava de mandar-lhe de Versalhes, segundo ela mesma dizia. A carta era dura, tirava ao cardeal toda e qualquer esperança, aconselhando-o a não pensar mais no assunto, proibindo-o de reaparecer familiarmente em Versalhes e apelando para a sua lealdade no sentido de que não tentasse reatar relações que se haviam tornado impossíveis.

   Relendo estas palavras, o príncipe fremia; examinava letra por letra; parecia pedir contas ao papel das durezas que lhe escrevia a mão cruel.

   —     Sécia, caprichosa, pérfida, — bradava, no seu desespero; — oh! hei de vingar-me.

   E acumulava todas as trivialidades que aliviam os corações fracos em seus padecimentos de amor, mas que os não curam do próprio amor.

   —     Eis aqui, — dizia, — quatro cartas que ela me escreve, cada qual mais injusta e mais tirânica do que a outra.   Quis-me por capricho!   É uma humilhação que eu dificilmente lhe perdoaria, se ela não me sacrificasse a um capricho novo.

   E o desditoso iludido relia com o furor da esperança todas as cartas, cujo rigor obedecia a uma arte implacável de proporção.

   A última era uma obra-prima de barbárie, que havia literalmente traspassado o coração do pobre cardeal; e êle, contudo, amava a tal ponto, que, por espírito de contradição, se comprazia em ler, reler e tresler as frias durezas mandadas de Versalhes, no dizer da Sra. de La Motte.

   Foi nesse momento que se apresentaram os joalheiros em sua casa.

   Surpreendeu-o a insistência deles em querer ser recebidos. Escorraçou três vezes o lacaio, que voltou à carga pela quarta vez, para repetir a declaração de Boehmer e Bossange de que só se retirariam obrigados pela força.

—        Que significa isso? — pensou o prelado. — Faze-os entrar.

   Entraram. Os seus rostos transtornados eram indício do rude combate que tinham precisado manter moral e fisicamente. Se haviam conseguido sair vencedores de um desses combates, tinham sido derrotados em outro. Nunca dois cérebros mais desarranjados se viram na contingência de funcionar diante de um príncipe da Igreja.

   —     Em primeiro lugar, — bradou ao vê-los o cardeal, — que brutalidade é essa, senhores joalheiros?   Acaso vos devem aqui alguma coisa?

O tom do intróito gelou de terror os dois associados.

   —     Dar-se-á que as cenas de lá vão repetir-se aqui? — perguntou Boehmer com o canto dos olhos ao sócio.

   —     Não! não! — respondeu este último, arrumando a peruca com um movimento belicoso, — em quanto a mim, estou decidido a resistir a todos os assaltos.

   E deu um passo quase ameaçador, enquanto Boehmer, mais prudente, ficava para trás.

   O cardeal achou que os dois estavam loucos e disse-lhos claramente.

— Monsenhor, — bradou o desesperado Boehmer, intercalando cada sílaba com um suspiro, — justiça! misericórdia! poupai-nos a raiva e não nos obrigueis a faltar com o respeito ao maior, ao mais ilustre dos príncipes.

— Senhores, ou não estais loucos, e sereis atirados pela janela, — atalhou o cardeal, — ou estais loucos, e sereis postos simplesmente no olho da rua.   Escolhei.

— Monsenhor, não estamos loucos: estamos roubados.

— E que tenho eu com isso? — volveu o Sr. de Rohan; — não sou Chefe de Polícia.

— Mas tivestes o colar entre as mãos, Monsenhor, — soluçou Boehmer; — ireis depor em juízo, Monsenhor, ireis...

— Tive o colar? — repetiu o príncipe... — Foi então o ..colar que roubaram?

— Sim, Monsenhor.

— Pois bem! e que disse a rainha? — bradou o cardeal, fazendo um gesto interessado.

— Mandou que vos procurássemos, Monsenhor.

— Sua Majestade é muito amável.   Mas que posso fazer?

— Tudo, Monsenhor: podeis dizer o que foi feito do colar.

— Eu?

— Sem dúvida.

— Meu caro Sr. Boehmer, poderíeis falar-me nesses termos se eu pertencesse ao bando de ladrões que roubaram o colar da rainha.

— Não foi dela que o roubaram.

— De quem foi, então, meu Deus?